A borboleta que dançou de mestra

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A Visita dos Oficiais e as Calcinhas nas Praças

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A borboleta que dançou de mestra

  1. 1. - Capítulo X – A VISITA DOS OFICIAIS E AS CALCINHAS NAS PRAÇAS No início da década de 1950, a prefeitura eragovernada por Sebastião Gomes de Andrade. Um de seusfilhos, José Mário de Andrade, acadêmico de direito,movimentava muito a vida social da cidade. Fundou, nacidade, num Centro Social que, além de atividadesesportivas e culturais, oferecia cursos de corte e costura,bordado e arte-culinária. José Mário, quando estava matriculado no Centrode Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR de Recife,convidou sua turma do quartel para uma visita a Amaraji. Foium domingo de muita movimentação na pequena cidade.Os jovens passearam pela cidade e interagiram com ajuventude local, de modo especial, com as moçoilassolteiras, que nunca tinham deparado com tantos mancebosbem apessoados de uma só vez. O público feminino foi aodelírio. Dona Maria Alice, a esposa do prefeito e mãe dojovem Zé Mário, reuniu um grupo de amigas para ajuda-la apreparar em sua residência, um lauto banquete pararecepcionar os jovens oficiais.À tarde, houve uma partida de futebol entre os visitantes e otime da cidade que tinha o reforço de dois jogadores vindosda usina Bonfim. O jogo foi muito animado e Amaraji venceuos oficiais por 2x1. O primeiro gol foi marcado com um chutedo meio de campo por “Gogó Inglês”, jogador da usina
  2. 2. Bonfim e o segundo, por outro jogador. Gol de bicicleta. Atorcida foi ao delírio. Os oficiais do CPOR namoraram muitas moçoilas dacidade. Só se via os casais passeando rua acima rua abaixo.Parecia até que cupido havia se abancado sobre o pavilhãoe atirado flechas em todas as direções. O ápice da festa aconteceu a partir das 20 horasna Rádio Educadora, local onde eram realizados os grandesbailes. A orquestra banda acadêmica da Usina Pedroza foicontratada para a tocada daquela noite. Em torno de sete e trinta da noite, começaram achegar as jovens da cidade num verdadeiro desfile demodelos copiados dos, de penteados tirados da revistamanequim e exalando diferentes fragrâncias pelo ar: sorrisosde granada, marajoara, royal briar, etc. Algumas atéostentavam alguma joia emprestada da mãe. Os jovens oficiais, aos poucos iam saindo do hotel eda casa do prefeito e se dirigindo ao local do baile.Aline e suas amigas, de domingueiras novas, já passeavampelo pavilhão e pela frente da rádio educadora, todasansiosas pelo início do baile. Nenhum delas ia poderparticipar da festa, pois o juiz da cidade proibia a entrada demenores de dezoito anos em bailes. O máximo quepoderiam fazer ficar no “sereno”, ou seja, dar uma olhadinhapelas janelas do clube, local que geralmente ficava cheiosde olheiros.Ás vinte horas, o maestro levantou a batuta e a Jazz BandAcadêmica tocou os acordes iniciais e enveredou pelosritmos caribenhos, muito em voga na época. A primeiramúsica foi o mambo nº 5. A animação foi se implantando nosalão e os visitantes da capital, todos muito à vontade,começaram a convidar as moças para a primeira dança.
  3. 3. Algumas delas, já veteranas dos bailes davam verdadeiroshow. Alguns cavaleiros, bastante avançados para a época,enlaçavam as damas pela cintura fina, rostos colados,rodopiavam eroticamente pelo salão. Algumas damas“davam corte” nos cavaleiros, alegando que não sabiamdançar ou que o pai não deixava e passaram a noitetomando chá de parede, uma vez que não havia cadeiraspara todos. Havia mais cavaleiros que damas e as quedançavam bem eram disputadas pelos dançarinos. Do lado de fora da rádio educadora, a turma dosereno, boquiaberta, olhos arregalados, mal tinha palavraspara conter o espanto. Nunca tinham visto uma dança tãoindecente daquelas. Dona Zefinha, a parteira, tinha saído dovelório de seu Gonçalo Bastos, resolveu subir os degraus doclube para dar uma olhada, quase desmaiou com o que viu. - Santo Cristo de Ipojuca, meu Padim Ciço doJuazêro, é o fim do mundo. Na rua do Fuá, as mulé da vidabrinca com mai decença. E a puliça num vê isso não, é?Também, festa de rico, né! E saiu rápida se persignando. Seu Tota, o dono da banca de bicho, estava deboca aberta de tanto espanto e, dirigindo-se a seu Amarodo Bar do Beco, falou indignado: - Os pais dessas moças não devem ter vergonhanem brio. Como é que deixam suas filhas virdesacompanhadas para uma zona dessas. Nunca que iadeixar as minhas aparecerem por aqui. Olha aquela devestido azul e “degote” grande. O macho chega imprensarela na parede. E o delegado tá ali conversando e nem liga.Mas é uma falta de vergonha mesmo. Dona Benedita da Conceição vinha descendo daigreja com os dois filhos pequenos. Subiu os degraus da rádioe quando avistou a dança, voltou-se e gritou para os filhos:
  4. 4. - Fiquem aí, meninos, vocês são inocentes, nãopodem ver uma derrota dessas! Minha Nossa Senhora! Edando meia volta, desceu os degraus apressada. Já era quase onze da noite, quando alguns parescomeçaram a sair discretamente do salão. A turma dosereno nem prestava atenção. Na rua já meio deserta, casaisabraçadinhos passeavam, buscando sempre os lugaresmenos iluminados. Aos poucos o salão de baile foi ficando mais vazio eo pessoal do sereno foi abandonando seus postos. Afinal odia seguinte era dia de trabalho. Quase duas da manhã, abanda tocou os últimos acordes e o baile terminou. Os queainda estavam no salão aplaudiram e pediram bis, mas eramesmo o final da festa. Os casais de namorados passearam e aproveitarambem a brisa da noite. Muitas jovens foram levadas de voltapara suas casas pela madrugada. No dia seguinte às oito da manhã, os jovensestavam reunidos no pavilhão para iniciar o retorno praRecife. Foram muitas as despedidas, as promessas de amor,de troca de correspondência ou de um retorno breve aAmaraji. As meninas choravam e logo eles foram seacomodando nos automóveis e a partida começou. Nem bem o último carro havia partido, um vigianoturno da cidade chegou correndo com uma vareta namão e uma peça de algodão pendurada. - Mas o que é isso, seu Olegário, perguntou ojardineiro que começava a regar as plantas da praça. - Não tá vendo não? É uma calça de mulher.
  5. 5. - Oxente, homem de Deus, mas o que é que osenhor tá fazendo com essa peça nesse pedaço demadeira? - Eu encontrei pendurada num pé de pau lá daPraça Sertaneja. Ainda tem umas duas lá. - E a multidão começou a olhar pela Praça doPavilhão, quando alguém gritou: - Tem mais duas ali naquela árvore do lado da lojade Alaíde. E foi um corre-corre. A notícia logo se espalhou. Asmoças que estavam no pavilhão desapareceram. No grupo escolar, as oito em ponto, a sineta tocoue os alunos, em polvorosa com a novidade, entraram emsuas salas. Ninguém se concentrava e o cochichado erageral. - Mas que saliência é essa de vocês? Perguntou aprofessora Rita. Mando já chamar Nely para ela dar um jeitonisso. Sabe o que é, Dona Rita, acharam umas caçola demulé penduradas nas plantas da praça. Não é mentira não,eu vi quando o vigia chegou com uma delas, explicou Tião. A essa altura, a professora Ria, bastante corada econstrangida, retirou-se da classe e foi chamar a diretora,dona Nely Gomes de Sá. Esta chegou munida de umasombrinha e uma palmatória e, aos gritos, foi especulando; - Quem é o moleque sem vergonha que estáconversando estas pornografias na sala? Apareça logo, casocontrário, a classe toda vai ficar de castigo até às quatro datarde.
  6. 6. Nesse momento, dona Maria do Carmo entrouesbaforida na classe e falou em voz baixa ao ouvido dadiretora, que saiu sem terminar de anunciar a punição. Acontece que em todas as turmas estava correndoa mesma notícia e os alunos estavam todos muito agitados. Lá no fundo da classe, Biuzinha comentava: - Ainda bem que eu não faço parte da sociedadechique, senão já estavam dizendo que a calça era minha.Deve ser de uma dessas aí que estavam no baile. Há! Há! Há!vejo gente santinha. Quando eu, brincando, falei que ia fugircom o palhaço do circo, todo mundo me criticou. Enquantofazia seus comentários olhava, desafiadoramente, para asoutras meninas da turma. Não é de nenhuma de vocês,não? E Aline, muito exaltada, gritou lá da frente: - Olha aqui, sua atrevida, nós não somos de “sualaia” não. Nós somos de família e a gente nem tem idadepara entrar em bailes. Se você não parar com essasinsinuações, vou falar com mamãe pra prestar queixa devocê ao tenente Sabino na delegacia. - Vote, precisa isso tudo, menina, eu só tôcomentando. Dona Rita voltou para a classe e, com dificuldade,conseguiu prosseguir a aula. A diretora, dona Nely, ainda entrou de classe emclasse para passar uma tarefa extra que deveria ser entregueno dia seguinte. Todos, sem exceção, deveriam escrevercem vezes a frase: “Nunca mais trarei notícias pornográficasou de boatos que correm pelas ruas da cidade para dentrode minha sala de aula”.
  7. 7. - Os justos pagarão pelos pecadores, comentou adiretora enquanto escrevia a frase do castigo no quadro. E aidaqueles que não trouxerem a tarefa. Na cidade, o restante do dia e durante a semana oassunto não foi outro. No bilhar, na padaria, nas vendas e aténa porta da igreja, o assunto era as calças encontradas. Dequem seriam as peças? Algumas das namoradas deixadas pelos oficiais nacidade, ainda escreveram cartas para os amados, mas acorrespondência voltou. O endereço estava incorreto.Outras ficaram, um longo tempo, esperando pela visita doamado ou por alguma notícia, mas nunca houve nenhumacomunicação. Com o passar do tempo, os namoros epromessas daquela noite foram esquecidos e as calcinhastambém.
  8. 8. - Capítulo 9 - VISITA DA INSPETORA ESCOLAR E A COMEMORAÇÃO DO DIA SETE DE SETEMBRO E a pequena Aline já não tão mini ia chegandoaos doze anos, participando ativamente das atividades eeventos da província: igreja, escola, pastoril, shows,sketches, pequenas peças teatrais, etc. A essa altura, Maria Andrade já haviaconfeccionado um minúsculo corpete para a pré-adolescente. E ela muito satisfeita, ficava puxando eajeitando, com frequência, as duas alças daquela peçaíntima feminina que mais tarde evoluiu para “soutien”. A mãe das duas manas era funcionária do GrupoEscolar Dom Luiz de Brito, única escola pública dacidade, e lá estudavam também as duas meninas. Oprédio, com dois pavimentos, fora adaptado de umaantiga cadeia pública e tomara o nome do primeiroarcebispo a visitar a cidade, Dom Luiz Raimundo da SilvaBrito. Os dois maiores acontecimentos anuais da vidaescolar eram a visita da inspetora da Secretaria deEducação, dona Hilda Brandão, e o desfile do dia daIndependência do Brasil. A recepção para dona Hilda Brandão erapreparada com bastante antecedência. Aprendiam-setrechos de poesias, pequenos discursos, cânticos, etc.Alunos e professores, vestidos impecavelmente, para
  9. 9. receber e recepcionar a ilustre visitante. As meninas deblusa branca com o GEDLB bordado no bolso da blusa,saias de pregas azuis encobrindo, decentemente, osjoelhos. Os meninos com camisas no mesmo estilo dasblusas e calças curtas cobrindo os joelhos. Sapatos pretose meias soquetes brancas para todos. No ar odores dasmais variadas fragrâncias: Suspiros de Granada,Marajoara, Promessa ou Royal Briar, e muitas cabeçasengorduradas de brilhantina Glostora. Algumas garotasmais crescida,s com as bochechas ligeiramenteembranquecidas de po-de-arroz e uma sombrinha derouge naná ou carmim. Havia até quem usasse umtrancelim de ouro da mamãe comprado, a prazo, adona Alice do Ouro. A festa era no salão grande do Grupo. Prédiolimpo, cadeiras bem enfileiradas e aquela mesa grandecom uma toalha verde de feltro e uma franja depompons amarelos. No centro da mesa um arranjo floralbem caprichado. Depois que dona Nely fazia a saudação inicial eapresentava a inspetora, começava a sessão solene.Aline, claro, era uma das convocadas para falar emnome dos alunos. E lá ia a baixinha para frente daplatéia. Farda impecável, as madeixas galegas presaspor uma ligeira, faces ruborizadas e cabeça bemerguida. Subia num banquinho apropriado para osoradores mais baixos e começava a oração: - Ilma. Sra. professora Hilda Brandão, mui dignaInspetora da Secretaria de Educação do Estado dePernambuco; Ilma. Sra. Nely Gomes de Sá, mui dignadiretora do Grupo Escolar Dom Luiz de Brito; Ilmas. Sras.Professoras do corpo docente do Grupo....... etc.
  10. 10. - “Que criancinha interessante”, comentava ainspetora. - De quem ela é filha, Nely? - “De Dapaz, nossa funcionária”, respondia adiretora. - Quantos anos ela tem? - Já completou doze. - Mas ele é tão pequerrucha. - “Ora, Hilda, nos menores vidros estão os melhoresperfumes”, respondia com filosofismo a sábia dona Nelypor trás de suas lentes de telescópio. E a reunião prosseguia. O calor aumentava, osalunos começavam a ficar impacientes. Dona Maria doCarmo a dar psius e psius. Dona Nely ajeitava osbendegós dos cabelos e passava rabos de olho para osalunos. Dona Hilda se abanava com o envelope dasprovas. Lá nos fundos Amaro Cavalcante fazia umacareta e puxava de leve os longos cachos de Leleu.Dona Nely viu e o encarou. Num das filas laterais, AirtonBrito dava um cochilo. De repente, lá nos fundos da sala,um meio corre-core. Uma aluna que viera do sítio estavatendo uma oria. Dona Dapaz e Maria do Carmo levaram-na para a diretoria. Fizeram com ela cheirasse umacédula de um cruzeiro e um pouco de álcool, além deum capucho de algodão queimado e ela foi sereanimando. A menina que se chamava Ernestinamorava no engenho Sete Ranchos. Havia saído de casamuito cedo e não tomara café. Depois de um copo deleite morno ela voltou para a solenidade. Aline retornou ainda por duas vezes parabanquinho a fim de declamar uma poesia e apresentar
  11. 11. um sketch com Sônia Brito. Finalmente às 12:45 todosficaram de pé para o hino nacional e a reunião foiencerrada. Organizados em fila, os alunos saíam para lancharleite com toddy e biscoitos de maizena. Passada a emoção da visita de Dona HildaBrandão, a inspetora escolar, chegou a Semana daPátria. Os ensaios eram realizados no campo de futebol.Seu Luís Soldado dividia e organizava os pelotões e, como auxílio de um apito ensinava o “ordinário, marche”,“alto”, “descansar”, “meia volta, volver”, “fora de forma”,etc. Era uma bagunça organizada. Os menores dosúltimos pelotões a conversar e brincar, as professorascorriam de um lado para outro tentando acalmar agarotada e dona Nely, como sempre, passando olharesseveros para os mais brincalhões. À frente do grupo a “meia banda marcial”composta de um surdo e um caixa, além de umacorneta. Depois de dar várias voltas pelo campo, lá pelasonze e meia a gente escutava o “atenção, alto” e, porfim, o “fora de forma”. A gritaria era grande, os alunossaindo em debandada em direção ao grupo para pegaro material escolar e voltar pra casa. O cansaço e a fomeestavam matando a todos. Dona Nely, já rouca de tantogritar e tentando botar ordem, desistiu e exclamou: - Deixa estar, amanhã eu acerto as contas comvocês! Chega afinal o dia sete. Às seis e meia, já haviamuitos alunos postados na porta da escola. Foramchegando os professores, o restante dos estudantes,todos impecavelmente vestidos, e logo foram sendoorganizados os pelotões. A ordem era a seguinte: a meiabanda à frente, a bandeira do Brasil com duas alunas ao
  12. 12. lado e um pelotão de meninos maiores. Depois abandeira de Pernambuco, com dois meninos ao lado eum pelotão das meninas maiores. Depois ia alternandopelotões de meninos e meninas de acordo com otamanho. Sete horas em ponto e todos a postos. Seu LuizSoldado ainda correndo de um lado para outro, dava asúltimas explicações sobre os comandos. - Lá vem Dona Nely, comentou um aluno. E a diretora que morava próximo à escola parouem frente aos alunos já formados e comentou irritada: - Mas o que é isto ao lado do lábaro nacional?São dois espantalhos? Quem mandou vocês se colocaresaí? Biuzinha e Sebastiana, uma aluna que morava noengenho Guarani, haviam se colocado ao lado dabandeira do Brasil que era carregada por Rominho Ferraz. - Mas dona Nely, nós vai ser guarda-bandeira.Respondeu Biuzinha. A senhora todo ano só bota as rica. - Deixe de ser atrevida, moleca, onde estão osseus sapatos? De alpercatas, meias brancas e a blusatoda amassada desse jeito no desfile? Saiam daí as duase vão para o final do último pelotão das meninasgrandes. Devia deixar você presa na diretoria, suadesaforada! Tem muita graça, organizar um desfile bonitocomo esse e colocar na frente, ao lado da bandeiranacional, dois papa-figos! - Ô, Nieta, traga Aline e Neném de seu Belmiropara serem as guarda-bandeiras. Não foi isso que eucombinei? Após um prolongado apito de seu Luiz, a cornetadá o comando e o desfile, saindo da frente do grupo
  13. 13. escolar, começa a marchar. Quando chegaram emfrente à prefeitura já se encontravam perfiladas lá asescolas municipais e o Externato Cônego Aníbal Santosda professora Lourdes Barbosa. O prefeito e osvereadores, o juiz da comarca e o vigário da paróquia,além de outras autoridades, todos posicionados nointerior do paço municipal. Após a abertura dasolenidade pelo prefeito, dona Nely assumiu aapresentação da “hora de arte”. Discursos, cânticos,poesias em homenagem à pátria, etc. Aline, segurando aponta da bandeira, dando piscadelas constantes, olhavae gesticulava impaciente para a professora DasdoresTeixeira. Esta, aproximou-se lentamente e perguntoubaixinho: - O que é, Aline, está sentindo alguma coisa? - O que? Nada disso, vai terminar a cerimônia eeu não declamo minha poesia. Fui cortada da cerimônia,foi? - Ai meu Deus, vou olhar no programa. E Dasdoresaproximando-se de dona Nely, falou alguma coisa emseu ouvido. A diretora olhou o papel da programação ereclamou alto: - É verdade, esqueceram de colocar o nomedela, no próximo ano vejam se programam a solenidadecom mais competência. E tomando o microfone, falou: - Senhores e senhoras, por um imperdoável lapsode nossos professores não foi colocado no programa onome de uma de nossas estudantes que deveria seapresentar nesta solenidade. Quero pedir desculpar eaproveitar para chamar a aluna Aline que vai apresentaruma poesia de Olavo Bilac.
  14. 14. - E lá se foi Aline para a porta da prefeitura fazersua performance. - Vou recitar A Pátria, de Olavo Bilac, exclamou amenina em voz alta. E iniciou: Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste! Criança! não verás nenhum país como este! Olha que céu! que mar! que rios! que floresta! A Natureza, aqui, perpetuamente em festa, É um seio de mãe a transbordar carinhos. Vê que vida há no chão! vê que vida há nos . . . Terminada a apresentação, desceu das escadassob os aplausos dos presente e, rindo e piscando dealegria, retomou o seu lugar ao lado da bandeira. No final do pelotão das meninas, Biuzinhacomentava enraivecida: - Tem gente que nasce com uma estrela na testa,mas essa daí parece que nasceu com o céu todo. Nuncavi uma pessoa tão c . . . . . de sorte. Ela tem que tá emtudo nessa escola, na igreja. Vote! - Ora, Biuzinha, comentou Nevinha, você nuncavai ser parecida com ela. Não estuda, não aprendenada, só pensa em fugir com o palhaço do circo e, nodia que nem hoje, se apresenta num desmantelo desses.Que é que você pensa da vida’’? - Não me abuse, Nevinha, dou-lhe já umamãozada pra você deixar de ser intrometida. Finda a solenidade, o desfile continuou pelaspraças e ruas da cidade. O tempo estava meio nubladoe quando a escola passava pela frente do mercadodesabou aquele aguaceiro. Foi um corre-corre. Alunos seabrigando na igreja, ou se encostando nas paredes do
  15. 15. mercado público. Passada a chuva, seu Luiz iniciou o“apitaço” para reunir novamente os alunos. Ninguémsabia mais o lugar coreto. Dona Nely mandou quefizessem a volta pela praça e retornassem ao grupo dequalquer maneira. Os alunos não marchavam estavamquase trotando de ladeira abaixo. Por fim chegaram aoprédio da escola. Foi servida uma merenda especial paratodos. Bolos, bolachas e guaraná e gasosa enviadas peloprefeito. Dona Rita, uma das professoras, reclamava: - Olha o estado em que ficou minha saia de linho.Toda amarrotada e molhada. Quando tirou umespelhinho da bolsa e se olhou, ficou horrorizada. MeuDeus, o baton e o rouge borraram meu rosto todo. Etratou logo de limpar um lenço. - E meu vestido de seda, exclamou a professoraBernadete, todo sujo de lama e molhado. Vai dar o maiortrabalha pra dona Santa lavar e engomar. - Dona Nely de nada reclamava, mas estava todamolhada da chuva e os “bendengós” de seu penteadosarriados na testa. - Lá num canto do salão, a aluna Ceça dos Santosestava em prantos. Na correria, perdera o cordão deouro que a mãe havia lhe emprestado. Dona Dasdoresaproximou-se e falou: - Não se preocupe Ceça, a gente coloca umanúncio na Rádio Educadora. Quem achar entrega emsua casa. Mas a menina não se conformava. Afinal a mãeainda estava pagando as prestações do cordão de ouro.
  16. 16. - Dona Nely bastante estressada, chamou azeladora Maria do Carmo e disse: - Avise a Severina Biuzinha que no próximo dia deaula ela só entra no grupo, acompanhada da mãe. E assim terminou o desfile do dia sete. Os alunosforam deixando a escola e a diretora ainda ficou dandoas ordens sobre a limpeza do prédio, sem falar que aindareuniu os professores para reclamar de detalhes daorganização do desfile e da hora de arte.
  17. 17. - Capítulo 8 - O ANIVERSÁRIO DO FILHO DO COLETOR Naquele domingo as manas Aline e Ana Mariairiam a uma festa de aniversário de Carlos Alberto, filhode seu Lídio Leal do Barros, o coletor federal na cidade.Entre outras pessoas da cidade, dona Noêmia, a mãe dogaroto havia convidado seus colegas de classe do grupoescolar. As duas irmãs e outras amigas convidadas para afesta estavam bastante animadas, apesar de que oaniversariante que estudava no D. Luís de Brito não eramuito entrosado com nenhuma delas. Fazia poucotempo que o coletor fora transferido para Amaraji. Maria Andrade estava costurando uma blusanova para Aline e pediu pra que ela fosse ao comérciocomprar alguns aviamentos para a costura. - Ô Aline, vá à loja de Geva e peça a Ivete ouIvanise que mande um retroz branco, dois metros e meiode bico e meio metro de galão. Quero aprontar establusa com a manga de coco para você ir ao aniversáriodomingo. Se não encontrar lá, passe em Alcides ou JoãoBarbosa. E lá subiu Aline, caminhando lentamente pela rua.Ela levava consigo um pequeno porta-níquel e estavadisposta a fazer uma verdadeira farra com todas asguloseimas que tinha vontade de comer. Ia gastar umaparte do dinheirinho que ganhara de presente de suaMadrinha Lita. Dessa vez não ia ter ninguém por perto pradizer o que engorda ou não engorda e o que faz mal ou
  18. 18. não. Enquanto ia caminhando em direção o comércio,cantarolava, baixinho, a música do comercial do“fimatosan”. “Fimatosan, quando você crescer, Devolve o seu apetite, Afastando a bronquite, Fimatosan, sabor não tem, É o amigo que lhe convém. Fim... ma... to... san. E a menina passou em dona Toinha, mãe deMaria José e Santinha, e comprou um pirulito. Antes decomeçar a chupá-lo, retirou cuidadosamente o papel deseda, limpou bem o pirulito e, meio receosa, começou adar umas lambidinhas. Mania de limpeza era com elamesma. Parou na sorveteria de Deja e lá se foi um picoléde coco. Antes da esquina do bilhar, parou na vendinhade seu Eudóxio e comprou uma daquelas broaschamada de mata-fome. Ah, que delícia... Seguindo pelo comércio, a menina já muitocuriosa a respeito do que estava acontecendo pelomundo, parou na loja de Zé Mário de Lucy, deu boatarde ao casal, e começou a dar uma folheada narevista O Cruzeiro. - Vai levar a revista, Aline? Perguntava Zé Mário. - Não, só estou dando uma olhadinha nas noticiasda morte do presidente Getúlio Vargas. - Pode olhar à vontade! - Mas essa menina é muito viva, não é Lucy? - E então, Zé Mário, no mínimo vai ser uma doutoraquando crescer (perdão), quando ficar mais adulta.
  19. 19. E a menina continuava a viagem pela praçaprincipal da cidade, na época chamada de Barão deLucena. Na loja de dona Geva foi atendida por IveteVictor. Depois de escolher os bicos, especular os preços efazer muitas perguntas pediu pra ela embrulhar amercadoria. Na volta pra casa, lembrou-se de dar umapassadinha ainda na farmácia de Dr. Bandeira. - Boa tarde, dona Valda, a senhora vai bem? - Boa tarde, Aline, vou bem. E a mamãe e AnaMaria? - Todos com saúde, obrigada! A senhora temcachete pra dor de cabeça? - Tenho sim, vai levar instantina, veramon,coramina ou melhoral? - “Vou levar um envelope de instantina. Simtambém vou levar um vidro de colubiasol para maninhapincelar a garganta. Bote na conta, tá certo?” Até logo,dona Valda! Lembranças a Márcio e Márcia”. E a menina começou a descer a rua principal.Depois da esquina do bilhar, ela atravessou a rua e foidar uma olhada nos cartazes do cinema. Antes deatravessar a rua, avistou o vendedor de cavaco japonêse, é claro, só faltava aquela “iguaria” pra completar suafarra gastronômica daquela tarde. Comprou logo dois. Edirigiu-se ao cinema para olhar os cartazes. - Eita, exclamou baixinho, A Vida de Santa MariaGorete. Dr. Jorge estava reprisando o filme. Vou dizer aManinha, ela vai adorar assistir de novo.
  20. 20. Em frente à prefeitura encontrou dona Sabina deAndrade e as duas trocaram algumas palavras sobreassuntos sacros. Dona Sabina estava apressada, pois iaenfeitar o altar do Coração de Jesus. Era a presidente doApostolado. Mais adiante passou em frente à casa de CarlosAlberto, o aniversariante do próximo domingo, sentadono degrau do portão. Doida para puxar conversa com ogaroto especular sobre a festa, perguntou: - Você entendeu o assunto do ponto de geografiaque dona Bernadete explicou ontem? - Entendi, sim, respondeu o garoto. - E a coleção de borboletas de seu pai, temmuitos tipos novo? Sim, que horas vai começar a festa deseu aniversário? Vem muita gente de Recife? O garoto, porém, não estava a fim de muitaconversa e mal respondia as perguntas. Por último, na esquina da praça do velho coreto,estava seu Corocochô sentado em sua cadeira de rodasna calçada. - Como vai, seu Corocochô? Muitos hóspedes nohotel? Dona Rita viajou ou está no quarto? Perguntas respondidas, a baixinha decidiu retornarao solar. Eram quase seis horas, quando ela chegou emcasa com as encomendas. Maria Andrade já havia estado na sua casa trêsvezes em busca das encomendas e, por último, sentou-sena cadeira de balanço abanando a saia. - Pronto, chegou a menina! Oh, Aline, fossecomprar as encomendas na loja de Geva ou lá em
  21. 21. Caracituba? Já tava todo mundo preocupado com tuademora. Essa menina conversa demais Dapaz. Vou indosenão a blusa não vai ficar pronta na hora. Hora da ceia. Mamãe, Aline e Maninha sentadasà mesa e Mery servindo a refeição. - Ô, Mery, coloque o abafador sobre o bule,senão o café vai ficar frio, reclamou Aline. - Que é isso dentro da sopa? perguntou Ana. - Claro que é verdura picada, maninha,respondeu Aline. - Quero não, continuou Ana. - Que cavilação é essa, maninha? Você estámuito luxenta, implicou Aline. - Vocês duas parem de arengar, reclamou Dapaz. - Cuidado, Mery, o abano está pegando fogo,gritou Aline. - E as três correram para o terraço da cozinhapara apagar o pequeno incêndio. Agora foi a vez de Aline reclamar do leite. - Ô, Mery, quanta nata é essa dentro do leite?Não sabe que eu odeio nata?” Aí Dapaz irritou-se e falou: - Vocês duas ai, deixem de galizias! Acabem decear e vão para a sala escutar o Programa da Vovozinhade Alcides Teixeira. Hoje tem sorteio de máquina decostura.”
  22. 22. No sábado foram à missa e voltaram logo pracasa. Afinal tinham de preparar as roupas e sapatos paraa festa de aniversário. Era uma expectativa geral. Opresente Dapaz comprara na loja de seu Jorge daBorboleta. Uma caixa de sabonetes “Dorly”. Duas da tarde as pequenas já estavam saindo dobanho e vestindo as roupas novas. E os sapatos? Meryhavia levado para Seu João Engraxate e ela ainda nãotrouxera. O nervosismo já estava tomando conta detodos quando bateram à porta. Era um garoto trazendoos sapatos impecavelmente polidos. Alívio geral! Eu levo o presente, adiantou-se Aline. O nome dasduas está no cartão, comentou Dapaz. E lá se foram asduas encontras outras colegas que estavam no Pavilhão.Cada uma que elogiasse mais a roupa da outra. Umadelas estava com o relógio de pulso da mãeemprestado. A curiosidade era geral. Ninguém nuncahavia entrado na casa do coletor antes. Às quatro em ponto elas dirigiram-se a casa deCarlos Alberto que ficava logo na esquina da rua. Odono da casa estava no terraço e veio recebê-las commuita simpatia. - Entrem crianças, fiquem à vontade! Elas logoprocuraram o aniversariante para entregar os presentes.A mãe de Carlos Alberto levou um grupo delas para oquarto do menino pra mostrar os presentes e osbrinquedos dele. Nossa, era coisa demais. Ele haviarecebido uma bicicleta, carros de cordas, livros deestória, meias, perfumes e sabonetes. Foram chegando os outros convidados dacidade, além de alguns parentes que tinham vindo deRecife. Seu Lídio colecionava borboletas e foi mostrar aosconvidados os quadros cheios delas dispostos pelas
  23. 23. paredes de seu escritório. Os pequenos convidadosficaram abismados. Que coincidência, “a borboleta”admirando uma coleção de lepidópteros. E ela foi logopra frente do grupo conversar com o coletor. Esterespondia a todas as indagações com calma epaciência. De lá dos fundos da sala, Biuzinha, bemdesinteressada, comentava em voz baixa: - Que besteira, espetar um bocado de borboletanum quadro! Mas gente rica tem cada patim. Que graçatem isso? Vou encher as paredes da casa de mãe comum bocado de mariposa espetada num alfinete.Mariposa é o que mais tem lá quando nós acende osacoviteiro. Aline olhava pra trás procurando a origemdaquele sussurro. E é claro, avistou logo a colega declasse, Biuzinha, comandando o mau gosto. - Essa daí não tem jeito mesmo, quanto maisfreqüenta a escola, mais fica ignorante! Ela não querestudar de forma alguma. Já falou mais de uma vez quesó está aguardando o circo chegar à cidade, pra fugircom o palhaço. Deixa pra lá, vou fazer a cama dela coma professora Bernadete na próxima segunda. Mas a festa não parava. Uns brincavam de rodano terraço, outros de anel, e alguns procuravamconversar com os adultos, entre estes, a “borboleta”,claro. Hora do lanche. Cantaram o parabéns e donaNoêmia junto com alguns parentes da capitalcomeçaram a distribuir os pratinhos com os doces,salgados e o bolo do aniversário. Bandejas com copos deguaraná e gasosa passavam por entre os convidados.
  24. 24. Num recanto da sala, Severina que já havia derramadoum copo de guaraná no chão e molhado a barra de seuvestido, reclamava. - Oxente, é só esse tico de comer, é? Eu nemalmocei direito pensando nesse lanche e agora e sóganho isso. Se eu soubesse nem tinha vindo pra essapinóia. Gente rica sé tem farrambamba. Encera a casa,enche de jarro de flor, aprega borboleta nas parede e nahora de dá de comer é só um tico desse. Vote! Nemvaleu a pena o copo de galalite que eu trouxe depresente pra ele. Vou já pra casa pedir pra mãe fazer umpirão de ovo pra mim. Tô com tanta fome que chega táme dando uma gastura. E Severina, sem se despedir de ninguém, levantou-se da sala e foi embora. Os colegas ficaram abismadoscom a falta de estilo da menina. Quando ela ia passandopela porta de entrada esbarrou em Conceição e todosnotaram alguns docinhos caindo do bolso de seu vestido. - Mas o que é isso, Severina? PerguntouConceição. - Uns docinhos da festa que eu peguei. O que éque tem? Tem doce demais e eu tenho certeza que vaisobrar um tuia. Oxe! Os meninos lá de casa vão lamber osbeiços de alegria. Sai da frente que eu já tô indo. - As colegas que notaram a cena ficaramvermelhas de vergonha e muito constrangidas. Mas, fazero quê? - Quase seis da noite. Aos poucos, os convidadosiam se retirando. Aline, Ana e as amigas mais próximasdespediram-se dos anfitriões e do aniversariante edeixaram a festa. Caminharam para o pavilhão ondeficaram comentando a festa, a atitude de Severina, etc.
  25. 25. Quando estavam nos comentários finais, chegou Zé Tiãoum colega delas que morava no engenho Bondade eque também estava na festa com o pacote de presentena mão. - Te esquecesse de entregar o presente, Zé Tião?Perguntou alguém. - Não, eu nem levei presente. Tinha uns quatrosabonete igual a esse lá na cama. Eu peguei um pramim. O que é que tem? Pra que um corpo só com tantosabonete? Lá em casa nos usa sabão em barra pratomar banho. Agora vou ficar cheiroso com esse. E cala aboca, vocês! Tião saiu correndo de ladeira abaixo emdireção à estrada do engenho. - As meninas ficaram chocadas. E se a dona dacasa tivesse percebido? E se ela tivesse contado ospresentes? Que vergonha! Alguém tinha de fazer algumacoisa, mas o quê? - É no que dá, quando a gente se junta commundiça, comentou alguém do grupo. Outra dessas,nunca mais. Eu mesma não sou nenhuma soçaite, masda próxima vez, se eu descobrir Severina vai estarpresente, fico fora. E como não havia nada que pudessem fazernaquele momento, resolveram voltar pra suas casas.Naquela noite ainda tinham um compromisso. O filme daVida de Santa Maria Gorete ninguém podia perder.Quem já havia assistido, ia vê-lo novamente e quem nãoo tinha visto ainda, esta era a oportunidade. Em ambosos casos, a história era tão comovente que todas iriamderramar rios de lágrimas de emoção.
  26. 26. - Capítulo 7 - UM DOMINGO MUITO ANIMADO: A MISSA, A FEIRA E O CIRCO. Pela manhã, logo às oito horas, Aline e Maninha jáestavam paramentadas de branco, com as fitasamarelas da associação, o Adoremus e o Cecília nasmãos para comparecer à missa da Cruzada Eucarística.No bolso, a notinha de cinco mil reis, pois era dia dereunião da santa associação. - Vamos, Maninha, vê se anda mais depressa.Padre José vai terminar reclamando, irritou-se a menina. Chegando à igreja, ocuparam os assentos dafrente na fileira de bancas reservada para os membrosda cruzada e como a garota já era apóstolo, isto é, usouum assento ainda mais privilegiado. Além dessedestaque, Aline usava uma fita mais larga com desenhosde das armas do Vaticano encrustados nela e colocadaem diagonal. Os poucos que usavam aquele tipo de fitaeram mais graduados dentro da associação de criançase jovens. A igreja estava repleta de fiéis. Algumas senhorasde engenho e outras damas da elite ocupavam seusgeniflexórios particulares que ficavam entre os bancos eas colunas do templo. Os homens se aglomeravam naárea de entrada da sacristia e no lado oposto. Seu JoséFiel nunca dispensou a fita vermelha do SagradoCoração.
  27. 27. A missa, celebrada em latim, transcorria em ritmode piedade cristã, sob um silêncio profundo e no rigortotal da liturgia. O cura de origem teutônica, aspectosisudo e voz grave, dominava a platéia de fiéis através desuas grossas lentes. Ai de quem se atrevesse a cochicharou tirar a atenção de algum fiel do andamento dacerimônia. O reverendo fitava o perturbador por algumasdezenas de segundos e o constrangimento era geral. E sea perturbação, por menor que fosse, continuasse, aí sim,vinham os gritos seguidos da expulsão do(a) indesejáveldo templo. Numa ocasião, em meados do outono, em plenamissa das nove horas do domingo, caiu uma fortechuvada e algumas dezenas de pessoas, homens em suamaioria, que conversavam no Pé-do-Santo, correrampara dentro da igreja e ficaram acotovelados na entradaprincipal, abrigando-se dos respingos. O reverendo,notando a movimentação vira-se para trás e grita paraos recém-chegados: - “Isto aqui não é um guarda-chuva, é uma igreja.Retirem-se imediatamente”. Aguardou que os biguzeirosse retirassem e continuou a cerimônia. A criançada participava da comunhão e depoisde uma hora de culto ouvia-se o “Ite, missa est”, quesignificava o final da cerimonia. O padre retornava para a sacristia e voltavadentro de poucos minutos para presidir a reunião. Alinelia a ata e anotava os assuntos do dia para seremcolocados no próximo relatório. Cantava-se, rezava-se e,aos poucos, o pessoal ia ficando com fome. Uma horadepois os cura abençoava os pequenos cruzados eretirava-se da reunião. Os participantes iam saindo das
  28. 28. bancas em fila ordenada, flexionavam o joelho direito eretiravam-se da igreja. Depois de cumprida a obrigação, voltavam paracasa para o café da manhã e logo corriam para a feira.Era uma alegria geral. Passear de banco em bancoapreciando as mercadorias e as novidades. Tomavamgelada de morango, caldo de cana com pão doce emseu Otávio; passavam por seu Pontual para verem aspessoas serem “curadas de cobra”; havia outro queaplicada choque de bateria elétrica com algumafinalidade terapêutica, etc. Experimentavam os óculos de grau, ou sedeleitavam cheirando as diversas fragrâncias utilizadasnas vaselinas para cabelos. Bom mesmo eram asnovidades da capital: pulseiras de alumínio dourado, degalalite, ligeiras largas para segurar os cabelos,diademas, brincos, etc. Os trocados que cada um levavaeram mesmo gastos com as saborosas cocadas, cavacosjaponês, pitombas, ingás, chupetas de açúcar e pirulitos.Aline não se conformava se não degustasse um daquelesinusitados pãezinhos doces que tinham um formato dejacaré. A feira se estendia até às 13:00 h do domingo. Uma ocasião, quando passavam nas imediaçõesdo banco de dona Maria Morais, Aline queixou-se dalente dos óculos. Segundo ela, estavam ficando fracas.Lourdes Alves que acompanhava o grupo logo achouuma solução. - Vem cá, Aline, experimenta um desses óculos dobanco de dona Maria. - Tá abiscoitada é, meu caso tem que ser emRecife e com Dr. Altino Ventura.
  29. 29. Na volta ainda ficavam um tempo sentadas no“pavilhão”, apreciando os cabriolets que chegavam ouvoltavam para os engenhos, carregando os senhores esenhoras de engenho que tinham vindo para a missadominical e a feira. Uma delas comentou empolgada: - Olha o rapaz que vai dirigindo o cabriolet comoé simpático, Aline! - Pronto, menina aquilo é somente o boleeiro, odono do engenho é o que vai no assento traseiro. Era um verdadeiro desfile de charretes ecabriolets. Seu Eugênio e Dona Julieta de Animoso, seuRaul e dona Lourdes de Riachão do Sul, dona Laura e osfilhos, proprietários do engenho Refrigério, seu AntônioCadete, de Amaraji d´Água, seu Horácio Esteves e donaConceição de Raiz de Dentro, seu Amaro Ferreira e donaNely de Guloso, entre outros. Era pouco mais de meio-dia quando todasdecidiram retornar as suas casas para o almoço. Afinal ocirco estava na cidade e à noite todo mundo iria assistir afunção. A tarde passou rápido. Jantaram cedinho e àssete horas as garotas acompanhadas de algum adultocomeçaram a se encontrar na praça do coreto. Ia seruma grande apresentação. Estariam se apresentando nocirco nada mais nada menos que a loura Suely Monteiro,famosa rumbeira e artista circense, a cantora romântica,Conchita Moreno e o famoso trapezista Wilson Wayne.Era um delírio. O circo era armado no pátio em frente aocemitério. Tinha somente meia coberta na parte em quese apresentariam os artistas. E do lado de fora em frente
  30. 30. à minúscula bilheteria lá se postava a turminha na filapara a compra dos ingressos: Aline, Maninha, Denisesegurando a pequena Leda pela mão, Lourdes e JoséAlves, e um grupo de amigos. Ingressos comprados todos se dirigiram para ageral do circo, chamada carinhosamente de “poleiro”.Os vendedores de confeitos, chicletes, amendoim ecavaco japonês disputavam os fregueses. De repente abandinha do circo começa a tocar e o apresentadoraparece em frente às cortinas anunciando o início dafunção. Mágicos, macacos amestrados, trapezista,equilibrista e, é claro, os engraçados palhaços.Finalmente o mais esperado da noite. Senhores e senhoras, o circo Arcoiris Dourado tema prazer de apresentar, vinda diretamente de Rio deJaneiro, a grande cantora Conchita Moreno. Aplausosestrondosos. Abria-se a cortina e aparecia a cantoratrajando um longo preto tomara-que-caia com corte naslaterais da saia e latejolas brilhantes sobre colo.Maquiagem carregada e cabelos penteados com umcoque no estilo ninho de passarinho brilhante de laquê. Opequeno conjunto dava um solo e sua voz maviosaelevava-se ao ar: “Ai mouraria, da velha rua da palma, onde eu um dia, deixei presa a minha alma, sabor que o vento, como um lamento trouxe comigo E que ainda agora, a toda a hora trago comigo E as vozes femininas faziam coro com a cantorana hora do refrão: “Ai, mouraria, dos roxinois dos beirais Dos vestidos cor de rosa
  31. 31. Dos serões tradicionais Finda a apresentação, aplausos, vaias e gritinhoshistéricos. Os vendedores de gulozeimas acotovelavam-se pelas tábuas dos poleiros alardeando seus produtos edisputando seus fregueses. - Olha o midubim, torrado e cozinhado. Olha oconfeito, chiclete e o nego bom. O grupo de amigas ocupava a parte mais altadas arquibancadas. Como o dinheiro de todo mundo erameio curto, se contentavam com um ou outro pacote deamendoim. De repente, Severina, aluna do grupo passa lá embaixo e grita: - Ô Aline, Wilson Wayne quer falar contigo. - Quem? - O trapezista, mulé. Ele tava perguntando teunome. Acho que ele tá querendo tirar umas linhascontigo. Que é que eu respondo? Ele prometeu unsingressos do circo pra tu e tuas amigas. Decide logo,visse! Tem um bocado de meninas a fim de namorar comele. - Aceita, Aline, tu namora com ele e a gente vemjunto contigo pro circo, pra gastar os ingressos que tu vaiganhar, comentou Marilene. - Mas é nada, respondeu a baixinha vermelha eirritada. Fique com ele pra você, sua idiota. Tá pensandoo quê, que eu já estou ficando no caritó, é? Leva ele pratua tia Julieta que já é vitalina há muito tempo. Sou muitonova ainda. Vocês acham mesmo que eu vou me formar
  32. 32. pra andar com o circo, é? Tem muita graça! Vou jáembora pra casa! - Calma, Aline, foi só uma brincadeira de Severina.Você não sabe que ela é meio doida e muitodesbocada! E o apresentador continuava: - Senhores e senhoras, agora o momento desuspense. O grande trapezista Wilson Wayne vai voarsobre a platéia. E ao som da bandinha, o artista subia atéo trapézio e começava sua apresentação. As pessoasolhavam para cima com um misto de temor eadmiração. Será que ele não ia despencar daquelebalanço? E lá de baixo, próximo ao picadeiro, Severina,rindo, acenava pra Aline e apontava para o trapezista. - Eita, menina chata da murrinha, comentou abaixinha. - Esquece, Aline, quanto mais você ficaabofelada, mais ela vai chatear, comentou uma dasmeninas do grupo. - Nada disso, amanhã vou ter uma conversa coma mãe dela. Ô racinha! Terminada a apresentação, o dono do circoaparece novamente e anuncia: Senhores e senhoras, agora o ponto alto da noite.Com vocês, diretamente de Cuba, a sensacional, amaravilhosa, a divina Suely Monteiro, a maior rumbeira detodos os tempos. Os homens acotovelavam-se em torno dopequeno palco e aplaudiam loucos de impaciência.
  33. 33. A dançarina apareceu trajando uma sainha curtade fitinhas coloridas e um sutien também decorado nomesmo estilo. O conjunto iniciou o ritmo caribenho e aSuely, remexendo freneticamente os quadris, fazendomovimentos sensuais com os braços e mãos e piscandopara um e outro dos mais próximos iniciou sua dança: Dona Maria a mulher do caroço Pegou uma foice pra cortar o meu pescoço (bis) Ó, gente, que bichinho é este? É a barata! Pega o chinelo e mata. (bis) Ai, ai, ai, sendo assim eu não vou lá Ai, ai, ai, vocês querem me matar. (bis) É show Mariana, é show, é show, Mariana, é show Remexedor, remexedor. Meninas, vamos embora, pra cima daquilo tudo Só vendo o meu chuchu, à turma dos cabeludos Refrão ... Meninas, vamos embora, pro pé de abacaxi Só vendo o meu chuchu, prá turma de Amaraji. Refrão ... Meninas, vamos embora, pro pé de abacateiro Só vendo o meu chuchu, a homem que tem dinheiro. Na saída do circo, quando já caminhavam pelarua do Cemitério, os comentários eram as piadaspicantes dos palhaços, o trapezista e as cantoras.Lourdes Alves adiantou-se um pouco e começou acantar e mexer as cadeiras imitando a Suely Monteiro.Algumas garotas riam, mas logo uma das mais moralistascriticou:
  34. 34. - Oh, Lourdes, está esquecida que pertence àcruzada? Já pensou se o padre sabe que você tárumbando pela rua e se comportando que nem uma ...? Foi água fria na fervura. Todo mundo se aquietou.Algumas cruzavam os braços por conta da frieza e dagaroa que caia. Aos poucos o grupo foi se dispersando, ecada um tomou o seu destino.
  35. 35. - Capítulo 6 - AS SANTAS MISSÕES Mês de janeiro. A comunidade católica serejubilava com a notícia. Na missa do domingo o vigárioanunciara para muito breve a realização das santasmissões na cidade. O evento teria a presença de nadamais nada menos que aquele santo missionário queencantava a todos os verdadeiramente fiéis das plagasquentes do nordeste. Aline chegou em casa toda jubilosa contando atodos, a notícia. Já estava se imaginando, às três e meiada madrugada, seguindo aceleradamente o santohomem pelas ruas do burgo, exibindo com orgulho suafita amarela de membro da cruzada eucarística, o livrodo hinário católico na mão, ladeada pelas santaszeladoras, pelas filhas de Maria e outros beatos, ao somtarquetraqueante da velha matraca. A menina cantava no coro, ajudava nosbatizados, enfeitava os altares da igreja e sempre faziaparte de todos os eventos da igreja. Certa estava ela.Com aquela participação constante e permanente,conseguiria ganhar muitas indulgências e, previdentecomo a formiga da fábula, estava fazendo seu pé-de-meia espiritual para, muito futuramente, assegurar umaboa “cobertura” em alguma nuvem ampla, com vistapara o mar no andar de cima. Afinal chegou o grande dia. A populaçãocatólica deslocou-se em procissão até a entrada da
  36. 36. cidade para esperar os missionários. Jovens e senhorasvestidas sobriamente, sem pintura nenhuma nos rostoscom ramos verdes nas mãos. Membros do apostolado daoração, da pia união das filhas de Maria e da cruzadaeucarística, enfileiradas solenemente. O sol causticantefazia com que o pó de arroz das faces angelicais dasjovens puras e das santas beatas se misturasse ao suorque se lhes escorria rosto abaixo. A espera era longa, masa fé superava tudo. De repente o jeep da prefeituraapareceu e um emissário anunciou que o carro dacomitiva já estava passando pelo engenho Jaguarana.Um murmúrio meio frenético e quase chegando à beirado histerismo percorreu a multidão. Havia velhinhas quebeijavam a mão direita e a elevavam para o céu. Outrasse benziam repetidamente. E algumas já puxavam umlencinho branco de dentro do porta-seios para enxugar ocopioso que estava por vir. - Silêncio, meus irmãos, gritava o padre. Silêncio!Vamos organizar a fila. Lá do fundo, dona Zefinha trajando seudomingueiro azul marinho, com a larga fita de tafetávermelho caindo cobre o colo começou a entoar o hinode santo Amaro. - Quem mandou a senhora começar os cânticos,irritou-se o cura. Não é o hino de santo Amaro, é o hinodas missões. Vinde, pais, e vinde, mães, vinde todos àsmissões,...” - Mãe, ô mãe, eu quero mijar. - Deixa disso, Raminho, é hora de rezar com opadre e não de ir à casinha, respondeu uma dasacompanhantes da procissão.
  37. 37. - Mas, mãe, eu tô já me mijando, continuou ogaroto. - Tá bom, vá ali atrás daquelas bananeiras,prosseguiu a mãe. Afinal o momento de glória. O carro dosmissionários apareceu e começou a ovação. - Viva os missionários! Viva! Viva as santas missões!Viva o Papa! Viva! E a multidão emocionada mais umavez: vivaaaa! E na esquina de uma barraca na entradado sítio de seu Eudóxio, um velhote que havia tomadouma meiota, confundido talvez o evento, gritou: - Viva Dr. Zé Lopes! E as velhinhas que corriam nofinal da fila, sem nem saber direito que santo era aquele,responderam empolgadas: Viva! O reverendo aindaencarou meio rancoroso o velhote, mas não havia tempopara ralhações. O carro passou em direção à igreja e o povoacompanhando em ritmo acelerado, esqueceu-se dasfilas, dos hinos, e só se pensava em ver o santo homemde perto, tocar nele ainda que por um segundo e beijar-lhe a mão. Entretanto não foi fácil. A prefeitura haviaorganizado um cordão de isolamento e os missionáriospuderam entrar para a casa paroquial sem seremimportunados. Na casa paroquial um rápido lanche e umdescaso. Meia hora depois os frades adentravam o altar-mor e davam início à cerimônia. Cânticos, orações, e oturíbio fumegante nas mãos do chefe dos coroinhasespirrando fagulhas pra todos os lados.
  38. 38. Na pauta das pregações, a presença do pecadomortal, do demônio, da concupiscência, dos mauspensamentos e todos aqueles itens que se não cumpridosfervorosamente levam o católico para as profundezas dafogueira eterna. Os conceitos do frade eram sintetizados de formataxativa, sem atenuantes e meios termos. Era ser ou nãoser, os mornos não entravam no reio dos céus. Vejamosalguns deles: Namoro – “Só na frente dos pais, com uma pessoasolteira. Deve ser breve, com casamento à vista”. Beijo – “Um beijo dado no rosto da namorada,como um beijo dado numa parenta, não tem nadademais. Entretanto, um beijo na boca, um beijo de língua,isso não, é pecado”. Divórcio – “O matrimônio só é quebrado por morteda esposa ou do esposo. Quem deixa o casamento paracasar com outro no civil, estará no inferno de cabeçapara baixo”. Dança – “A dança é um elemento de perdição.Quando um homem e uma mulher se juntam paradançar, não pode sair nada de bom disso tudo. Entãosobrevém os maus pensamentos, os desejospecaminosos, o pecado”. Saia curta – “Não usem saia curta. A saia curtanão presta. É uma rede de que se serve o demônio parapegar os homens. O demônio está enganchado na saiacurta das mulheres. Muitos homens perdem a cabeça porcausa dessas modas exageradas”. Concubinato – “Uma pessoa que vive com outrasem casar, estará no inferno de cabeça para baixo”.
  39. 39. Demônio – “O demônio existe, estão ouvindo? Eleexiste. Numa cidade do sertão, entrei numa casaabandonada e ele me jogou sete pedras”. Inferno – “No inferno só há sofrimento. Lá, o calor ébilhões de vezes pior que no Nordeste. As labaredassobem e queimam sem parar o corpo dos adúlteros, dasprostitutas, dos efeminados, dos criminosos. Lá, é o lugaronde vive o demônio”. Depois de uma pregação com esses conceitos asfilas do confessionário eram quilométricas. Todos queriamlavar suas almas e receber o perdão do santo homem. Ajovem Aline preferiu se confessar com um frade maisjovem que, segundo ela, escutava melhor. Na praça o comentário era a pregação dospadres. Crentes, duvidosos ou céticos, cada fielexternava sua opinião. Uma coisa era certa, o infernoamedrontava muita gente. Aline e Ana mal conseguiram dormir pensando naprocissão da madrugada. E às 3 horas em ponto as duas,acompanhadas por Neném e Mery, tomaram café esubiram para a matriz sob um frio de gelar a alma. Cadauma delas usando um daqueles chales triangulares queeram enfiados pela cabeça no estilo “poncho”. Às três emeia em ponto, o frade que já estava posicionado hábastante tempo começou a caminhar cantando o hinodas missões e tocando a matraca. E os fieis atrás dossantos missionários, respondendo os hinos: Vinde, pais; vinde, mães; vinde, filhos; vinde, todos à Missão. São dias de misericórdia, são dias de consolação.
  40. 40. Ó Jesus, que amais as almas, pelo vosso Coração, dai que todos com proveito freqüentemos a Missão. É favor de vossa graça, de nossa alma a salvação. Ó Jesus misericordioso, concedei-nos o perdão! Vinde, pais; vinde, mães; vinde, filhos; vinde, todos à Missão. Vinde, agora, pois é tempo de cuidar da salvação! As missões foram um sucesso. Foram realizadosmuitos batizados, confissões e casamentos. Dezenas decasais que viviam “amigados” ou “amancebados” comodiziam os missionários, reconciliaram-se coma igreja pelocasamento. Na época casais amigados não eram bem-vindos nos missas e outras celebrações da igreja, inclusivenão podiam ser padrinhos nos batizados. Afinal viviam empecado. Aline e algumas amigas colecionavam santinhose medalhinhas e ficavam, a todo instante, furando a filapara pedir a algum missionário que abençoasse asestampas e as medalhas. Haja fé! A população católica da pequena cidade,sempre muito fervorosa, participava ativamente dasatividades da igreja. Os padres e os missionários sempreeram esperados na estação do trem e, ao termino doevento religioso, levados de volta por uma multidão defiéis. Nos meados da década de quarenta, aprofessora Lourdes Barbosa adquiriu uma imagem de São
  41. 41. Tarcísio e organizou uma chegada festiva da imagem dosanto, transportado de Recife até Amaraji. A comitiva,responsável pela imagem chegou de trem e dezenas depessoas se deslocaram até a estação para receber omártir. Dá pra imaginar o empurra, empurra. Aplataforma da estação era pequena e o número de fiéisque queriam ver a imagem de perto e tocá-la eraimenso. Os pais de Aline e Ana, João Luís e Maria Dapaz,levaram as duas pequenas para assistir a solenidade.Cada uma das meninas acompanhadas de suasbazinhas. Mas nada foi como esperado. Naqueleaglomerado, Ana Maria levou um empurrão queprovocou uma queda e machucou-se. Os pais ficarambravos, as duas babás foram repreendidas pelo descuidoe a família retirou-se da festa retornando ao solar. Outra chegada festiva de santo ocorreu em 1950na inauguração da Capela de Santo Amaro construídapelo prefeito, Dr. Jorge Coelho. A imagem de SantoAmaro foi trazida da cidade de Sirinhaém onde ele haviatrabalhado como médico e fora nomeado prefeito em1947. Desta vez o santo veio de carro e a populaçãoesperou a comitiva na entrada da cidade. Ocorreu outro fato muito interessante no finalzinhodo século XIX na estação do trem. Minha avó TrifôniaCoelho (Iaiá) estava presente e me relatou este fato quefoi confirmado por várias pessoas da época dela. Havia chegado à cidade um missionário paracelebrar um evento de alguns dias na matriz de São José.Era um frade simples, humilde, e considerado santo pormuitos. Trajava um hábito bastante surrado e sandálias jádescoloridas pelo uso. Celebrou missas, batizou, oficiou
  42. 42. casamentos e, depois de uma semana, voltou para oconvento em Recife. Como de tradição muitos fieis pertencentes àsdiversas associações formaram um cortejo para levá-loaté a estação onde ele viajaria de trem. Durante todo o trajeto ele se manteve em silêncio.Enquanto aguardava o trem, ficou passeando pelaplataforma e lendo seu breviário. Os fiéis, achandoestranho aquela atitude do frade, começaram acochichar entre si. Foi quando uma senhora doapostolado aproximou-se e perguntou sutilmente o queestava acontecendo. Ele parou de andar de um ladopara outro, guardou o livro na bolsa que estava nobanco da plataforma e, de braços cruzados, batendodelicadamente no chão com a ponta do pé direito ecom um olhar vago para o horizonte, comentou: esta vilanão sabe valorizar um servo do Senhor, não está emsintonia com as coisas da Santa Igreja. “Este lugar não vaipra frente nunca”. Ninguém nunca soube o que realmente ocorreupra constranger o frade durante sua permanência emAmaraji, mas as palavras dele ficaram na mente demuitos por gerações. Não foi praga, pois homens santos que pregam apalavra de Deus não se utilizam disso para com seusdesafetos. Seria o frade um sensitivo, teria ele o dom dapremonição? O fato é que o município de Amaraji, naquelaépoca um dos mais promissores do estado, possuía:sessenta e um engenhos, vários deles banguês os quais,mesmo em fase de decadência, produziam açúcar,melaço e cachaça; as usinas União e Indústria, Cabeçade Negro, Bosque, Bamburral, Aripibu, e, na década de
  43. 43. 1920, Liberato Marques; a vila de Primavera a vila deCortês com a usina Pedroza. Além disso, políticos fortescomo Dr. Mário Domingues da Silva, deputado e senadordo congresso pernambucano; Dr. Davino dos SantosPontual, também deputado e senador e o comendadorJosé Pereira de Araújo que presidiu o senado do Estadonos anos de 1916-18. Isso sem contar o usineiro eadvogado Carlos de Lima Cavalcanti, natural de Amaraji,que foi interventor federal no Estado. Nas décadas de 1920-30, a cidade de Amarajifigurava como o 14º produtor de cana entre os 84municípios de Pernambuco e entrava nas estatísticasestaduais de produção de banana, mandioca, algodãoe coco. No município havia duas máquinasdescaroçadeiras de algodão e cerca de 250 casas defarinha distribuídas pelos engenhos. O que aconteceu, afinal? Parece até uma “lendaurbana”. Conforme já escrevi uma vez, foram-se asusinas, os engenhos e as casas de farinha, mas ficaram asmatas verdejantes, o rio a correr e “tutta la bona gente”de lá da província. A análise final dos fatos fica a critério de cada um.
  44. 44. - Capítulo 5 - A BORBOLETA VAI À ESCOLA Nos meados do século passado, na pequenacidade de Amaraji, havia apenas duas escolas do ensinoprimário: o Grupo Escolar Dom Luiz de Brito, pertencenteà Secretaria de Educação do Estado e o Instituto CônegoAníbal Santos, escola particular, dirigido pela professoraLourdes Barbosa. Os jovens da elite e parentes daProfessora Lourdes iniciavam seus estudos naqueleInstituto e as demais crianças, na escola do Estado. Oensino supletivo também fora introduzido no final dosanos 40. Funcionava à noite e era destinadoprioritariamente a jovens e adultos que não tinham tidooportunidade de ter sido alfabetizado na infância. O D. Luiz de Brito marcou a vida de todos aquelesque passaram por suas salas. O prédio, de doispavimentos, fora adaptado da antiga cadeia pública domunicípio no final da década de 1940 e recebeu o nomedo primeiro arcebispo a visitar a cidade. Suas carteiras,fabricadas de sucupira, eram ortopedicamentedesconfortáveis; um estudante que fosse mais gordinho,nela se acomodava com bastante dificuldade. Mas jáera uma grande conquista para o setor educacional. Naparte de trás do prédio, onde se localiza o FórumMunicipal, havia uma campina verde que era usadacomo campo de futebol. Dona Maria Nely Gomes de Sá, a primeira diretorado grupo, etariamente idosa, de idéias pré-jurássicas,formação acadêmica paleoliticamente dinossáurica e
  45. 45. métodos pedagógicos bem pessoais, devendo ternascido em mil novecentos e bauzes bauzes, época emque o arco-íris era preto e branco. Segundo a tradição histórica das más línguas, elaera prima distante do Noé da arca e teria sido umaparenta sua muito remota que, após o dilúvio, teriasoltado a pombinha, lá do alto do monte Ararat. Conta-se também que uma de suas tias em grau muito afastadoe há alguns séculos atrás, fora auxiliar de copeira daSanta Ceia; a encarregada de lavar as taças. Baixinha, gorda, descenturada, voz estridente egasguita, trajando sempre saia justa de tecido escuro eblusa clara sobre corpetes pontiagudos, com dois eternosbendengós, na época, chamados de “cachorro-quente”ornando-lhe o penteado. Usava óculos de grau muitoforte numa armação estilo olho de gato. Sua armapedagógica mais presente e sempre às mãos, prontapara ser utilizada, não era a obra de Arnaldo Niskier e simuma sombrinha. Pela quantidade de sombrinhasdanificadas nas costas dos alunos “levados da breca”,acreditava-se que ela as comprava em grosso. Seu rigor administrativo extrapolava toda a noçãomoderna de recursos humanos. O tratamento dado àsoutras mestras era bem glacial e o relacionamento comas duas funcionárias que auxiliavam na administração,dona Maria do Carmo e Maria da Paz, mãe de Aline eAna, não ficava atrás. Só quem estava a salvo de suas sombrinhadas eraRosinha sua filha. Dona Nely e seu esposo eram, naépoca, os únicos que possuíam um veículo na cidade edesfilavam no automóvel de marca ford pelas ruas dacidade aos domingos.
  46. 46. A cada dois meses, geralmente num domingo àtarde, ela visitava seu Ernesto Coelho e dona Iaiá, meusavós, para tomar um cafezinho, fazer uma oração deagradecimento e acender uma velinha para a minúsculaimagem de santo Antônio que dona Iaiá havia herdadode seus avós e que, segundo muitos devotos, concediagraças àqueles que lhe invocassem. Sendo santo Antônioo padroeiro dos casamentos, imaginava-se que ela iaagradecer ao canonizado algo muito especial. Afinalmuitas dezenas de semestres separavam ela de seuesposo, o servidor municipal José de Assunção. As outras mestras da época: Rita de Souza,Bernadete Silva, Nieta Tabosa, Das Dores Teixeira, Isaura eCarmita, Mara Vasconcelos e Salete Coelho, formadaspor último, ensinavam no engenho Garra e na antigaescola rural da cidade. Todas eram um doce de pessoa.Também Abiacy e Neide Lins, formadas bem jovensiniciaram-se no magistério no final dos anos 50. O regimeera de ordem, disciplina e assiduidade. Os instrumentosde tortura: palmatória, caroço de milho e longas horas depé ou ajoelhado versus parede na diretoria e a famosa “sombrinha ” de Dona Nely, que mais se assemelhava aocoelhinho da Mônica. Os livros didáticos: “Vamos Estudar” e “Lili, Lalau eo Lobo.” Na quinta série, a bíblia: “Admissão ao Ginásio.”As aulas transcorriam dentro de uma programaçãocontínua e sempre se tinha algo que fazer. Decorava-sea tabuada, os pontos de geografia e história, e faziam-sedescrições, tendo como tema figuras e paisagens de umálbum ilustrado gigante que era colocado sobre umcavalete na frente dos alunos. Não se tinha outraalternativa: estudava-se e aprendia-se. Com mil perdõesdas “meninas da gre”, a coisa funcionava. Mesmopronunciando Vasingtón, quem decorou e aprendeu queWashington é uma capital, nunca esqueceu.
  47. 47. Outra atividade interessante eram as aulas de trabalhosmanuais. Desenhos, quadros de vidro pintados de preto ecom complementos de papel laminado de um tipo dechocolate em forma de peixinho em várias cores. Haviaainda uns quadros de madeira compensada nos quais sedesenhava algum tipo de paisagem e trabalhava oquadro com uma massa de alvaiade, óleo de linhaça epó secante, formando as figuras em alto relevo. Uma vezseco, pintava-se o trabalho de belas cores. Havia aindatrabalhos feitos em azulejo branco. Colocava-se o azulejosobre a chama de uma vela acesa e quando estavatodo tisnado, desenhava-se alguma figura, retirando oexcesso e tisna preta e deixando o verniz copal escorrersobre a silhueta desenhada. Os colegas de sala: Aline e Ana Costa Gomes,Alzerina Silva, Amara (Lala), Amara e Edite Araújo, AmaraPereira, Antonieta, Aspásio, Francisca e Margarida Carlos,Carlos Alberto, Carlos Eduardo e Cláudio LeonardoVasconcelos, Conceição Silva, Eleusis e DirceuVasconcelos, Enedina (Neném) de seu Delmiro, HelenoAmaro e Zuleide, Amara Hulda e Vicente Ramos, Ivonete,Joaquim (Quincas) Fabrício, Luís (Lula) Benigno, Márcio eMárcia Bandeira de Melo, Maria Celeste, Maria de seuSaul, Neide, Roberto Barbosa, Rômulo Ferraz, Santo eJoão Martins, Sônia e Airton Brito, Sônia e Giselda Santos,Terezinha, Vilma Brito, Wilton. As classes eram multisseriadas. O uniforme eraobrigatório para todos: dos mais carentes, passandopelos emergentes até os de famílias mais afortunadas.Para as meninas, saia azul de pregas, blusa branca coma logomarca da escola no bolso; para os meninos, calçano joelho, camisa branca com as mesmas letras. Sapatospretos e meias brancas para todos.
  48. 48. Não dá para esquecer o final de horário escolardo Grupo. Dona Maria do Carmo tocava a campainha ea professora anunciava que a aula estava terminada.Livros arrumados, alunos de pé, formando fila única emcada sala de aula. Na porta de entrada da escola Dona Nely demãos para trás, uma delas segurando seu inseparávelbibelô, a sombrinha, dizia: - Pode sair a terceira série! ” E os alunos deixavam a sala em fila indiana,marchando em formas de “cobrinha” pelo hall ecantando o hino Ardor do Infante de Castro Alves: Onde vais tu, esbelto infante Com teu fuzil lesto a marchar Cadência certa, o peito arfante Onde vais tu a pelejar? Pra longe eu vou, a Pátria ordena Sigo contente o meu tambor, Cheio de ardor! Cheio de ardor! Pois quando a Pátria nos acena Vive-se só da própria dor. É no combate que o infante é forte vence o perigo despreza a morte. Outras classes iam acompanhando a primeira quehavia iniciado a marcha e, quando o hall estava quasecheio ela batia duas palmas fortes e dizia: - Podem sair! Devagar! Quem correr, eu chamode volta. A essa altura, a diretora postada no portão desaída, já estava segurando a sombrinha em estado de
  49. 49. alerta. Não era permitido sequer pular de dois em doisdegraus da longa escada do grupo. De repente, ouve-seum grito estridente de Dona Nely: - Amaro Cavalcante, volte já aqui! Ele apenasacelerara o passo lá próximo do último degrau. E lá vemo menino cabisbaixo, cenho franzido, e ainda foialcançado de raspão pela sobrinha da diretora aocaminhar para a diretoria. - Ai, dona Nely, doeu! - Cale a boca, seu moleque insubordinado eatrevido, puxe para diretoria e fique de joelhos viradopara a parede. Deve ter saído da diretoria lá pelas duashoras da tarde. A gente esperava com ansiedade as datascomemorativas do ano escolar: carnaval, semana santa,São João, Semana da Pátria, dia da árvore, a visita dainspetora escolar, dona Hilda Brandão e, em dezembro, aentrega dos resultados das provas finais. O dia da pátria era comemorado com muitaalegria e participação da comunidade. Ensaiavam-sedurante muitos dias os passos da marcha, a divisão dospelotões, etc. Seu Luís Soldado era o instrutor. A bandaera composta de um surdo, um tarol e uma caixa e umacorneta que tocava os comandos. Os meninosdisputavam uma vaga na banda, mas quem escolhia erao instrutor. Os ensaios se realizavam no campo de futebol. Aline, muita sabida, mas bastante pequena aindaficava num pé e noutro pra saber onde ia ser o seu lugarno desfile. A bandeira ela não podia carregar. Imagineum pé de vento mais forte: bandeira e porta-bandeiraiam voar pelos céus da província. Aliás, carregar abandeira do Brasil era mesmo que disputar um concurso
  50. 50. de miss. Todos queriam usar luvas brancas pra carregar olábaro nacional. Geralmente o escolhido era algum“peixinho” da diretora ou de alguma professora. Tinha deser um aluno alto, garboso e saber marchar, claro. Fazero esquerda, direita, esquerda, direita, no ritmo certo.Havia também uma estudante mais baixa que, de luvas,marchava à direita do porta-bandeira segurandodelicadamente a ponta da bandeira. O desfile saia da frente do grupo e dirigia-se até oprédio da prefeitura para a solenidade especial dehasteamento da bandeira, discursos e uma demoradahora de arte. A borboleta que já havia passado o mêsmexendo com os pauzinhos, conseguiu abrir o desfile,marchando na frente da bandeira com luvas brancas euma faixa auriverde. Sem contar que foi uma dasoradoras na prefeitura e, de quebra, ainda declamouuma poesia. E, claro, com todos aqueles aplausos, a filhade J.L. e dona Dapaz, desceu as escadas do PaçoMunicipal e dirigiu-se ao seu lugar no desfile com aquele“oco patriótico”. E o desfile continuou pelas ruas e praçasda cidade até retornar ao ponto de saída. Depois dasolenidade, o lanche patrocinado pela escola e pelaprefeitura municipal. Naquele momento, todo mundoamava Dom Pedro II, o rio Ipiranga e o bradoretumbante. A comemoração do dia da árvore era outrasolenidade muito esperada. Naquela data, professores ealunos dirigiam-se ao campo de aviação, o campo depouso da cidade, para o plantio de árvores. O ambienteera verde e bucólico; de um lado a mata das Três Bacias,do outro, as matas da ladeira de Riachão, e, por trás, asmatas de Sete Ranchos e engenhos circunvizinhos.Cânticos, declamações, discursos e, na volta, aquelagostosa salada de frutas. Esta música de Arnaldo Barreto
  51. 51. era cantada, tradicionalmente, enquanto as árvoreseram plantadas: Cavemos a terra, plantemos nossa árvore, Que amiga e bondosa ela aqui nos será! Um dia, ao voltarmos pedindo-lhe abrigo, ou flores, ou frutos, ou sombras dará! O céu generoso nos regue esta planta; o Sol de dezembro lhe dê seu calor; a terra, que é boa, lhe firme as raízes e tenham as folhas frescuras e verdor! Plantemos nossa árvore, que a árvore amiga seus ramos frondosos aqui abrirá, Um dia, ao voltarmos, em busca de flores, com as flores, bons frutos e sombra dará O céu generoso nos regue esta planta; o Sol de dezembro lhe dê seu calor; a terra, que é boa, lhe firme as raízes e tenham as folhas frescuras e verdor! As alunas mais velhas apresentaram sketches,poesias e cânticos. Professoras também participavamativamente. No final da solenidade, a diretora franqueoua palavra, com a tradicional pergunta: alguém quer fazeruso da palavra ou apresentar alguma atividade? Não épreciso dizer que alguém lá de trás, com os cabelosdesalinhados pelo vento forte, o rosto avermelhado como calor do sol respondeu quase gritando: - Claro que eu quero, dona Nely. Preparei umapoesia que está na ponta da língua.
  52. 52. - Pronto, lá vai aquela baixinha metida de novo,reclamou uma menina no meio da turma. - Deixa de ser invejosa, Severina, pior é você quenão sabe apresentar nada. Só pensa em encher abarriga com salada. - E apoi, mulé, tô me acabando de fome. Eu nemtomei café direito pensando na salada de fruta. As tripasestão quase brigando no meu bucho. - Mas você é muito ignorante mesmo, nossa,como é que pensa em se formar, casar ter filhos e educá-los? - E quem disse que estou pensando em nadadisso, eu vou é fugir com trapezista do circo. Já tá tudoacertado. E ai de você se contar a mãe, dou-lhe umapisa de lascar. E Isabel saiu de perto da colega horrorizada comtanta ignorância e irresponsabilidade. A essa altura, Aline já estava posicionada nopequeno palco improvisado. Dona Nely, já perdendo apaciência, mandava os alunos calar a boca, osprofessores se abanavam com os cadernos, o calor eraescaldante. - Pode começar a declamação, Aline, comandoua diretora que suava às bicas e enxugava o rosto e opescoço gorducho com um minúsculo lencinho de linho: - Senhores professores, prezados alunos, a poesiaque vou apresentar é da autoria de Raul Aroeira Serrano.E começou:
  53. 53. A Árvore "Criança, a árvore merece A nossa estima sincera Dá frutos doces no outono E flores na primavera. Nunca maltrates uma árvore A quem tudo nós devemos Desde a madeira da porta Ao lápis com que escrevemos. Na sombra da árvore amiga Pensa bem no teu destino Pois dela foi feito O teu berço pequenino." Terminada a apresentação, muitos aplausos,palmas e alguns apitos e assovios de alguns alunos. DonaNely, olhando inquisidoramente para os responsáveispelos apitos e assovios, quase que histérica, gritou: - Se não acabarem com a baderna e a falta deeducação, eu acabo com a salada e o lanche e aindadeixo vocês até às três horas na diretoria. Santo remédio. Um silêncio sepulcral reinoudurante todo o trajeto, desde o campo, até a escola.Formou-se a fila da merenda e foi distribuída uma saladade frutas, biscoitos e bastante ponche de laranja. Havia sempre algum estudante meio abusadoque tentava furar a fila ou, simplesmente, se servir mais deuma vez. Dona Nely, porém, estava de plantãopermanente distribuindo cascudos, puxões de orelhas e
  54. 54. “muxicões” nos mais alvoroçados. Nada lhe escapava.Lá pelas duas da tarde, os alunos começaram a deixar aescola. A diretora estava tão absorta em manter adisciplina no interior do prédio que nem notou a correriae bagunça de alguns alunos pela escada de saída dogrupo. Amaraji, na época, apesar de ser uma minúsculacidade da zona da mata sul possuía um campo de pousopara aviões de muito pequeno porte. Era o único daregião. Uma curiosidade a respeito do campo de pouso.Ele foi construído no início da década de 1950 na gestãodo prefeito Dr. Jorge Coelho da Silveira. No dia da festada inauguração, toda a população da cidade dirigiu-separa o local do evento para ver a descida de um aviãomonomotor, na época, chamado de “teco-teco”.Algumas autoridades da cidade foram convidadas pelopiloto para um pequeno voo. Dona Toinha Coelho,esposa do secretário da prefeitura, cheia de euforia,candidatou-se para um pequeno tour sobre a cidade.Quando tentou subir na aeronave, pra sua grandedecepção, não conseguiu passar pela porta e quaseque fica presa. Ela era meio “fortinha”. Frustrada, desistiue a multidão que presenciou a cena não pode conter oriso que não foi nem um pouco discreto. Aline e suas colegas, pra lá e pra cá, loucas porum convite pra subir aeronave, mas é claro que aquilonão era nenhuma canoa ou jaú de parque de diversões.Só pra os adultos que fossem autoridades. Paciência,Aline, um dia você cresce, perdão, fica com mais idadee vai poder fazer tudo isso, voar à vontade.
  55. 55. - Capítulo 4 - SÓ DANÇO SE EU FOR MESTRA, EXIGIU ABORBOLETA A primeira infância da pequenina Aline, bembaixinha, cintura roliça, bochechinhas acentuadas e jáusando seus óculos miudinhos no estilo olho de gato, foipassada no solar da Rua 15 de Novembro, sob os olharesatentos e cuidadosos da dileta mamãe, da secretariaMery, substituta de Ivanise, e dos bons vizinhos: seuCorocochô, do “hotel estrela única” da esquina; seuLuizinho, alfaiate, e dona Terezinha; dona Maria doCarmo; seu Eurico, Corina e Corinto; dona Elvira Fontes eMaria Andrade (Neném, a guardiã da família); seuAvelino da padaria; seu Mário Telegrafista, dona Áurea eAurinha; seu Zé Goiana e dona Laura; seu Manoel Firminochefe do clã dos Amaros e Amaras Silveira; os fervorososcrentes da Igreja Batista; dona Olindina, Permínia eClaudionor; dona Toinha e as tias Zezé e Santinha, eAlaíde Brito da vendinha da esquina. O dia a dia na província era mais ou menoscorriqueiro. Pela manhã, as aulas no Grupo Escolar DomLuiz de Brito, à tarde, os deveres escolares de casa, cujasdúvidas eram tiradas com as mestras Bernadete e Rita,hóspedes do hotel. À tardezinha, auxiliadas por Mery, elas seaprontavam, penteando os cabelos cortados à modacapelinha, que eram presos por diademas de galalite ouligeiras largas, vestidinhos de organdi bordados de crivoou ponto de cruz, com faixa de tafetá na cintura e
  56. 56. sapatinhos de pulseira, impecavelmente polidos por seuJoão Engraxate. Depois de prontas, as duas sentavam-se nacalçada, saboreando os deliciosos pãezinhos da padariade seu Alcides, recheados de manteiga e açúcar,gentilmente preparados pela bondosa Mery. Assim, asduas manas esperavam o retorno da mamãe, quepassava o dia trabalhando no Grupo Escolar. À noite, em frente ao solar, as manas Aline e Anae as amigas Denise, Lourdes Alves, Elêusis, Cleide daBorboleta, Maria Ângela e outras coleguinhas, brincavamde roda, de pega, de academia, de manja, barra-bandeira, boca de forno ou de esconder. De longe se escutavam os sons das cantorias: “Pai Francisco entrou na roda...” ou “Samba Lelê, tá doente, tá com a cabeçalascada.. .” ou “Apareceu a Margarida, olê, olê, olâ...”, ou ainda “Boca de forno! Forno! Tirando o bolo! Bolo!...” Quando não corriam na rua, simplesmentesentavam-se na calçada, brincando de anel, contandoestórias ou arrepiando-se de medo, ao falar sobre a“Comadre Florzinha”, o “Pantel” da mata ou o últimocapítulo do Mistério do Além. Às vezes, comentavam sobre algum estranho quehavia aparecido na rua de mochila nas costas e malencarado. Será que não era o “papa-figo” mandadopelos Amorim da capital para pegar criancinhas earrancar-lhes o fígado, paliativo para aquela doençahorrível que fazia suas orelhas crescerem?
  57. 57. Em dias de chuva, reuniam-se em torno de donaQuinquina, mãe de Maria Andrade, para ouvirem,atentas, as estórias de Trancoso, narradas pela bondosavelhinha. De vez em quando, em torno das oito horas,escutava-se a voz de dona Elvira que gritava: - Denise, está na hora da novela, venha prá casa! Ninguém perdia o horário de “O Direito deNascer” e todas suspiravam com Albertinho Limonta eIsabel Cristina, seus amores e desventuras. Em outras ocasiões, era Maria Andrade queaparecia perguntando: - Oh, Aline e Ana, vocês já fizeram o dever decasa? E a poesia da hora de arte, Aline? Já decoroutoda? Quando Aline chegava atrasadas à brincadeira,significava que estava escutando o Repórter Esso. Mesmosem entender tudo ainda, adorava uma notícia. Uma ocasião ela atrasou-se uma meia hora. Asoutras coleguinhas que já se sentavam na calçada einiciavam a brincadeira do anel, estranharam a ausênciada baixinha. De repente lá vem a menina respirandocom dificuldade, erguendo os ombros, com os olhosmarejando. As amigas ficaram preocupadas e Deniseaproximando-se perguntou curiosa: - Que é isso, Aline, você está com puxado? AveMaria, será que isso pega? Aline, enraivecida, respondeu irritada: - Deixe de ser lesa! Que puxado, que nada? Estoucom uma crise de asma alérgica.
  58. 58. As outras colegas havia se aproximado ecercavam, receosas, a pequena enferma. Denisecontinuou insistente: - É não, isso é puxado. Eu vi o menino de BauAmaro lá em Estivas, impando desse mesmo jeito, e erapuxado. E a menina foi se irritando mais ainda. - Vamos perguntar a mamãe? Nesse momento, Maria Andrade ia passando.Aline, cada vez mais brava, gritou: - Oh, Neném, isso que eu tenho não é uma asmaalérgica? E Maria Andrade, sem dar muita atenção,abanando a saia, respondeu: - Sei lá, Aline, é uma dessas coisas mesmo. Masvocê devia era estar dentro de casa agasalhada porcausa da frieza. Entre logo, vamos. - Oh, Dapaz ... Aline vestiu um agasalho e teimosa como ela só,ainda voltou para a prosa. O assunto da noite foi a brigado padre. O vigário da paróquia de origem holandesa foraavisado de que dona Serafina, uma viúva muito devota emembro do apostolado da oração, estava se ultimando.Decidiu, então, fazer uma visita à enferma para confessá-la e dar a santa extrema unção. Seus familiares eramevangélicos. Na porta da residência da enferma foibarrado pelos parentes da moribunda que não queriamsua presença. O reverendo muito bravo e muitorevoltado e com a rudez flamenga à flor da pele, não
  59. 59. teve a menor dúvida; saiu empurrando todo mundo queestava em sua frente, chegou até o quarto daagonizante e, mui calmamente, fez sua orações. Asmeninas comentavam com orgulho a atitude do padre. De repente, duas das meninas do grupocomeçaram a cochichar e rir o que chamou a atençãodo restante do grupo. - Que cochicho é esse? Grande falta deeducação, reclamou Aline. - Você não pode saber, Aline, é muito criançaainda. - Essa não, apartou Ana Maria tomando as dores.O que? Aline não tem nada de criança, ele é muitointeligente e sabida. - Depois de muita adulação ficaram sabendo queuma das garotas mais velhas do cochichado havia “sidomoça” recentemente. Foi uma festa, todo mundo queriasaber os mínimos detalhes do acontecimento. Mas nemtodas concordaram com aquele tipo de conversa. - Ave Maria, isso é conversa de moça direita,minha gente. Já pensou se a chefe da cruzada sabe quevocês estão falando disso? Não quero nem pensar... Muitas vezes a brincadeira se estendia até depoisdas nove, quando as pequenas infantes começavam aretornar a seus lares, pois às 22 horas em ponto, Corinto,encarregado do motor que fornecia energia elétricapara a cidade, dava o sinal, fazendo as lâmpadaspiscarem três vezes e, em seguida, as luzes eramdesligadas. Vinte e duas e trinta, luzes apagadas, grilos esapos se orquestrando, a província se entregava aos
  60. 60. braços de Morfeu. Durante a noite, o máximo que podiaacontecer, era alguma moçoila noiva ou comprometida,ser roubada pelo pretendente, evitando, com essa fuga,as despesas do casamento. E nessa tranqüilidade paradisíaca, o anotranscorria e chegava o mês de dezembro com seusfestejos natalinos e folclóricos. O pastoril religioso era umdeles. Era um acontecimento que movimentava toda acomunidade provinciana. Papais e mamães torciampara que suas filhas pequenas fossem escolhidas parafazer parte do evento organizado por algumas jovens esenhoras da comunidade católica. Afinal, tudo tinha desair perfeito para as pessoas que participavam e torciampelo “encarnado” ou “azul”, comprassem muitos lacinhosde fita de sua cor preferida para ajudar a vencer ocordão escolhido, no qual, normalmente dançava umade suas filhas. A renda era destinada as obras paroquiais. Usando vestidos confeccionados de papelcrepon, saias rodadas, muita areia prateada ornando asorlas dos babados franzidos e fitas da cor do partido queenfeitavam a indumentária. Os pandeiros, enfeitados defitas das duas cores, ajudavam a marcar o ritmo dadança. Era uma trabalheira a sua confecção. Assenhoras Belisa Rolin, Sônia Dantas, Salete Coelho eDasdores, entre outras, eram as encarregadas do eventofolclórico. Rômulo Barbosa, sempre no comando daanimação, fazia a platéia ir ao delírio aos gritos de: azul,azul, azul, ou encarnado, encarnado, ou o taxativo jáganhou. Era um verdadeiro leilão de venda de lacinhos,para a alegria geral das pastorinhas. A pequena Aline já chegando aos oito anos foiconvidada para fazer parte do tradicional festejo. Pela
  61. 61. sua estatura “mignon”, e para que se cumprisse aprevisão de seu João Severo no dia de seu nascimento,ela deveria ficar balançando as asinhas em volta daspastoras, no papel da borboleta. No dia da reunião para escolha das pastoras e dopersonagem de cada uma no evento, o papel daborboleta ficou para ela, claro. Pelo seu tipo, sua altura,ia ser a borboleta mais qualificada dos últimos tempos. Mas, de personalidade forte que tinha, já desdecriança, a menina embirrou, emperrou fez ver que só seapresentaria se lhe dessem o papel da “mestra”.Nenhuma das promotoras do pastoril conseguiaconvencê-la do contrário. A reunião parou e ninguémsabia o que fazer. Dasdores Teixeira, com muita calma e delicadeza,tentou convencer a pequena pastorinha: - Olhe, Aline, você vai ficar uma gracinha deborboleta. A saia franzidinha, as asinhas douradas e assapatilhas também. Já pensou, Dapaz vai lhe achar linda.Ainda vamos colocar uma coroa de pedrinhas em suacabeça. Vai ficar parecendo uma rainha, não émeninas? E as outras pastorinhas responderam em coro: - É, dona Dasdores. A essa altura ela já tinha se levantado, ido parafrente do grupo com passadas largas, firmes edeterminadas e com uma das mãos na cintura e o dedoda outra mão apontando para as senhoras, bateu o pé efalou em tom decidido e definitivo:
  62. 62. - De jeito nenhum, se eu não for a mestra, nãodanço, pronto! Podem arranjar outra borboleta que euestou indo embora. E a baixinha deu dois sopapinhos na cabeça,ajeitou o franzido da saia e encarou as organizadorasuma a uma. Em seguida, deu meia volta, apanhou seuchale minúsculo e caminhou em direção à saída dosalão paroquial. Dona Sônia Dantas tentou argumentar, masquando sentiu o olhar de desafio da quase borboleta,calou-se e comentou baixinho: - É melhor não insistir, Dasdores, deixa ela ser amestra e Denise fica sendo a borboleta. E agora, quemvai avisar a ela? E Dasdores saiu apressada alcançando a meninaque já estava passando ao lado do bilhar de seu Aristeu. - Oh, Aline, um momento, por favor, exclamouDasdores. Ela virou-se e já se sentiu vencedora. - Escute, Aline, o pessoal resolveu que você vai sera borboleta. Vamos voltar para o salão e agradeça adona Sônia, pois foi ela quem decidiu. O que? Eu mesma não. Ela queria que a mestrafosse a filha de dona Minervina. Só porque ela é maior doque eu e já tem busto, é? Grande coisa, eu sou pequena,mas canto muito melhor do que ela. E assim ela voltou para o salão e terminou deassistir a reunião. Na volta para casa, uma das colegas falou, tu épeia, não é, Aline? Consegue tudo que quer...
  63. 63. Pois é, e você acha que ia ficar balançandoasinhas pra lá e pra cá, eu mesma não. Está pensandoque eu sou zig-zag, é? Ora, pinóia! E nos primeiros dias de dezembro, depois demuitos ensaios, o pastoril começou a se apresentar nopalanque construído em frente ao salão paroquial. E lá se foi Aline triunfante, puxando o cordãoencarnado. O seu fã clube era imenso. Vinha atétorcedores da vizinha Caracituba. Seu padrinho João Itoe o jovem Luiz Jacinto. Maria Andrade, a mamãe Dapaze Mery eram do mesmo modo, torcedoras exaltadas, semcontar dona Bernadete Silva, sua professora. DeniseFontes foi por muito tempo, a detentora das asinhas daborboleta. E quando a apresentação começava echegava a vez da mestra, a voz da menina ecoava pelapraça: Boa noite meu senhores todos, Boa noite senhoras também, Somos pastoras, pastorinhas belas Que alegremente vamos a Belém. Somos pastoras, pastorinhas belas Que alegremente vamos a Belém. Sou a mestra do cordão encarnado, O meu cordão eu sei dominar, Eu peço palmas, peço bis e flores Aos partidários peço proteção. Eu peço palmas, peço bis e flores Aos partidários, peço proteção. - Mas a mestra canta demais, comentava MariaJoaquina. É verdade, a filha de dona Dapaz canta quenem um passarinho, comentou Durrei.
  64. 64. E a festa prosseguia noite afora até o final daapresentação, com muitos gritos e palmas dos partidáriosdo cordão azul e do cordão encarnado. Depois, a troca de roupa, os parabéns e a alegriados familiares e amigos e a “mestra” mal cabia em si decontente. Estava bestinha, não tirava o sorriso da boca e,de vez em quando, davas umas piscadinhas maisagitadas. O vigário apareceu e dona Belisa passou para elea renda da noite. Tinham conseguido vender muitoslacinhos. Dasdores havia preparado um lanche e lá seforam os participantes do show tomar guaraná FratelliVita com sanduíches de pão com carne enlatada ebolinhos de bacia. Era uma alegria só. Cada uma que de se exibissemais. E a mestra já se imaginava, no próximo ano, indo seapresentar na usina Nossa Senhora do Carmo e emBonfim.
  65. 65. - Capítulo 3 - A PRIMEIRA INFÂNCIA E SEU “DÉBUT” CATÓLICO Os primeiros anos da infância da mini “ninha”foram dentro da normalidade. Ela havia perdido o pai, J.L., quando tinha dois anos de idade. A mamãe Dapaz foiuma grande guerreira e batalhou muito para criar eeducar as duas manas. Trabalhou no comércio e depoisfoi contratada pela Secretaria de Educação para prestarserviços no Grupo Dom Luiz de Brito. As festinhas de aniversário ficavam restritas aosprimos e amiguinhos mais próximos da família, sem muitabadalação. Mesmo depois de um dia de trabalho na lojade tecidos e miudezas “A Borboleta”, Dapaz aindaencontrava tempo para ensinar as primeiras letras àsduas meninas. Aline, aos quatro anos de idade, já haviaaprendido a ler as primeiras palavras e, mais tarde,quando se matriculou no Grupo Escolar para estudar aprimeira série primária com a professora Maria Bernadeteda Silva, já estava alfabetizada. Ela idolatrava a mestra.Ainda hoje, ela lembra a fragrância do perfume usadopor ela. Olha a profecia de sinhá Fronina se realizando. Dona Bernadete era de Caruaru. Uma jovem depele clara, olhos esverdeados, cabelos encaracolados,extremamente paciente e dedicada aos alunos. Ela erahóspede de Hotel de Seu Corocochô, que ficavalocalizado no local onde, hoje, existe o supermercado daPraça Pereira de Araújo. Lembro da professora, pois euestudava na mesma turma.
  66. 66. Naquela época, o sonho de muitas famíliascatólicas era ter um padre ou uma freira na família.Aqueles que não conseguiam tal “benção”, ficavamconformados com a “dádiva dos céus”, se uma de suasfilhas pequenas pudessem participar da coroação deNossa Senhora no último dia do mês maio. Aos oito anos de idade, como filha de toda boafamília cristã, a ainda pequenina Aline, foi convidadapelo vigário para coroar Nossa Senhora, naqueleinesquecível dia 31 de maio. Ela era detentora dascaracterísticas exigidas pela tradição da igreja e possuíao perfil perfeito para colocar a coroa sobre a cabeça daVirgem. Cor branca, cabelos claros, e voz maviosa. Naépoca, ninguém deu muita atenção ao fato, mas nuncauma menina de cor “morena” ou afro-descendentelegítima, foi escolhida para coroar a santa. Preconceito?Não, apenas “tradição” da igreja. Os anjos do céutinham a pele branca desde a criação. E assim, a borboletinha foi escolhida paraparticipar daquele evento tão disputado pelas meninasde sua idade. Seria o seu “début” católico na sociedadeinfantil da Igreja. O ato litúrgico exigia toda uma preparação. Elafoi auxiliada por Santinha Silveira, responsável pelaCruzada Eucarística e com o assessoramento daprofessora Belisa Rolin, Sabina Andrade, do Apostoladoda Oração, da professora Dasdores Teixeira e de MariaJoaquina. Os noiteiros, famílias encarregadas da decoraçãoda igreja e da organização geral da festa doencerramento do mês de maio, eram: seu Raul e donaLourdes do engenho Riachão do Sul; seu Bequinho doengenho Sete Ranchos e a família de seu Luiz Dubeux da
  67. 67. Usina Bonfim. Já à tarde, a pequena coroante e demaiscolegas de solenidade, após participar do ensaio finalcom o coro, ajudavam na decoração do altar,fabricando buchas de papoula para a incrustação decravos e céssias em forma de meias guirlandas que eramcolocadas em todos os recantos da matriz. Os castiçaiseram polidos e longos brandões de espermacete nelescolocados. Feita a limpeza final da igreja, espalhavam-sefolhas de canela e eucalipto pelo chão para que oambiente ficasse naturalmente aromatizado. solenidade religiosa era preparada com bastanteantecedência, desde o ensaio dos cânticos até o dacoroação propriamente dita. No coro da igreja, os hinos,cantados em latim, estavam sob o comando daorganista Ivone Oliveira que era coadjuvada pelascantoras Teresinha, Dos Anjos, Agenilda e Quiterinha,entre outras. Na ocasião, encontrava-se na cidade ummissionário alemão, responsável pela celebração dasolenidade, enquanto o cura local, Padre José,acompanhava os cânticos com o violino. O altar de nossa senhora fartamente decorado debranco e azul, reunia um verdadeiro séquito de acólitos,solenemente paramentados de vermelho, com seusroquetes impecavelmente brancos, além de uma dúziade anjinhos espalhados por toda parte. Integrava a cortede celeste: Ana Maria, irmã da coroante, Denise Fontes,Cleide da Borboleta, Eleuses Vasconcelos, Neném de seuBelmiro, entre outras. E após a ladainha, o magnificat e acoroação propriamente dita. A pequena “anjinha” trajando uma túnica longade laquê branco, ornada de galões dourados; portandoum par de asas brancas nas costas e uma coroa de floresclaras na cabeça, um pouco de carmim nas bochechase uma leve sombra de batom nos lábios era elevada
  68. 68. delicadamente por um dos fiéis e colocada no suporteque ficava ao lado da santa. A mamãe, do lado debaixo do suporte, olhava ansiosa e repetidamente paracima, receosa de que a garotinha pudesse escorregar.Silêncio sepulcral no adro da matriz. O missionárioteutônico elevava a voz de barítono e dizia: - Caríssimos irmaos, agôra vamos iniciarr acoroaçon de Nôssa Senhôra. Do alto do coro, a organista dedilhava unsacordes da melodia na velha sarafina e o público,atento, dirigia os olhares para o altar da virgem. O coroiniciava a solenidade, cantando a primeira estrofe daconhecida música. Aí, então, a pequena cantora comvoz um pouco tímida, mas bastante firme cantava asegunda: “Virgem recebe esta coroa, Que te oferece o nosso amor, Seja do céu, ó mãe tão boa, Pra todo nós feliz penhor”. O coro apresentava a segunda estrofe e agarotinha prosseguia com a última parte, desta vez, jábastante desenvolta e dona da situação: “Aceitai esta coroa, Virgem santa mãe querida, Para que seja a rainha. O penhor de eterna vida.” Ao tempo em que entoava os versos do hino, suamão direita ia aos poucos erguendo a coroa de NossaSenhora até a mesma ser depositada sobre a cabeça dasanta. Naquele momento, o vigário bradava vivas àsanta, a São José, à igreja, ao papa, etc.
  69. 69. A essa altura, a coroante já havia concluÀ

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