O pacto

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Pequeno conto que fiz com a minha amiga Eduarda Queiroz. Visitem a página do meu projeto Assembleia dos Lobos no facebook: https://www.facebook.com/assembleiadoslobos/

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O pacto

  1. 1. 2016 Eduarda Queiroz Lucas Camargo O pacto
  2. 2. 2 A boate Night’s Jaw era famosa em toda a cidade. Suas noites eram memoráveis e, ao mesmo tempo, alcoolicamente esquecidas por todos os que a frequentavam uma vez sequer. O letreiro em uma luz rosada que fazia sua fachada era uma das coisas que seus frequentadores, mesmo os que acorda- vam em um coma entorpecido dias depois, gravavam em suas mentes. Com Alice, nada foi diferente. A garota passou por suas portas e foi tomada pelo ritmo frenético da música que tocava e embalava o espetáculo artístico e des- conexo dos que se moviam sobre a pista de dança. O ar no interior da boate carre- gava uma mistura de álcool e de todos os perfumes que as pessoas bem arrumadas, que a circundavam, esbanjavam. A garota usava um vestido preto e um sapato de salto, fechado, com a mesma cor. Seu cabelo cacheado e caramela- do, que contrastava em perfeição com seus olhos esverdeados, escorria como uma cachoeira de ondas sobre os seus ombros. Alice seguiu esbarrando e pedindo licença, simpática e gentilmente, para to- das as pessoas que se encontravam em seu caminho. Ela fez sua rota por dentro da boate até alcançar o bar. O motivo por ela ter ido àquela boate estava sentado em um dos bancos altos que ficavam em frente ao balcão, de costas para ela, com um copo cheio de Whisky em sua frente. Borbanov. Ela se aproximou do homem sem que ele ao menos percebesse sua presença. Enquanto ela caminhava lentamente em sua direção, o homem pegou seu copo e o virou em sua boca, bebendo todo o seu conteúdo em um só gole. - Achei que não gostasse de boates. – Ela falou, sorrindo e tocando lentamen- te o ombro direito do homem com suas mãos alvas e delicadas. - Eu também pensava assim. – Sua voz era rouca e exalava sabedoria. O homem se virou para trás em seu banco e encarou Alice com um sorriso aberto. Seu rosto denunciava que ele era alguns anos mais velho do que a garota que estava em sua frente. Sua barba por fazer e seus cabelos negros penteados pa- ra trás apenas reforçavam ainda mais a diferença. Alice nunca deixava de ir a um encontro, a não ser que possuísse uma situa- ção de emergência. Com os olhos brilhando, a garota se sentou ao lado do homem em um movimento gracioso e suave. - Eu preciso de sua ajuda. – O homem disse, antes mesmo que a garota ter- minasse seu movimento sobre o banco ao seu lado. - Direto ao ponto. Eu gosto disso. – Ela disse em um meio-sorriso. – Estou falando sério, garota. – O homem passou a mão sobre o seu cabelo. – Eles estão atrás de mim. Você sabe que é a única em quem eu posso confiar. - Okay, okay. Eu estou séria nisso – Ela respondeu. – O que exatamente você fez agora? Aliás, quão perto eles estão de você?
  3. 3. 3 - Você sabe como eles são, só querem cumprir seus rituais nojentos. Eu sou só um cara que estava entre eles e seus objetivos. Eles ainda não fazem a menor ideia de com quem se meteram. - E como eu posso ajudá-lo, senhor obstáculo? – Ela disse em um tom de chacota. – Armas, informações, o que deseja? - Vem comigo. – O homem segurou a mão da garota e se levantou de seu banco, puxando-a na direção da pista de dança. A garota se levantou e seguiu os movimentos do homem que a segurava, in- do em direção ao lugar onde os flashes de luzes brancas, lasers oscilantes torna- vam suas vistas embaçadas e imprecisas. Quando ela estava entre todas aquelas pessoas que se mexiam ao som da música eletrônica, sentiu o corpo do homem se aproximando do seu, enquanto ele a abraçava por trás pela cintura, e seus lábios chegando cada vez mais perto de sua orelha. - Eu preciso de você. – Ele disse. Alice não entendeu o que estava acontecendo. Por que ele está agindo dessa maneira? O que ele tá tentando dizer? Seus pensamentos foram interrompidos, no entanto, quando o homem, com sua mão forte, colocou um pano molhado em frente ao seu nariz e sua boca. Aquilo exalava um forte cheiro incômodo que en- trava em seus pulmões e os faziam arder. Antes que ela pudesse pensar em reagir, as luzes fortes da pista de dança se apagaram em seu olhar e ela sentiu que suas pernas não conseguiam mais segurar seu corpo. Sua consciência se apagou antes que ela pudesse sentir seu corpo desabar sobre a pista de dança. Os odores de madeira podre, terra úmida e fumaça foram as primeiras coisas que a garota pôde sentir. Um segundo depois ela percebeu que estava deitada so- bre alguma superfície rígida e seus braços e pernas estavam mantidos abertos por grilhões gelados ao toque. Seus olhos se abriram e ela viu um teto feito por telhas avermelhadas, iluminadas por uma luz que vacilava e não parecia ser elétrica. Ao seu redor, ela viu que estava em um cômodo pequeno, com alguns móveis de ma- deira mofados e, sobre um deles, viu uma pequena lamparina que soltava uma luz fraca e uma fumaça enegrecida em resposta à sua queima. Antes que pudesse to- mar qualquer reação, a garota ouviu o som de passos vindo da direção da única porta que havia na sala. - Sério? – Ela riu, nervosa. – Parece que minha falta de conhecimento sobre você vai além de suas preferências noturnas. - Entenda Alice, - a porta se abriu lentamente enquanto a voz passava através dela – não é nada pessoal. – O homem, o mesmo da boate, abriu a porta e se reve- lou estar atrás dela, com a expressão oculta pela pouca luz que a lamparina produ-
  4. 4. 4 zia. – Você sabe que isso é uma guerra, não sabe? – Ele se aproximou devagar da garota e tocou sua perna direita com sua mão áspera e pesada. Alice fez uma careta, mas tentou ignorar o toque do homem. – Não conheço a sua definição de “pessoal”, mas tenho um dicionário se quiser dar uma olhada. – Ela ergueu sua cabeça e olhou nos olhos do homem. – Eu tenho certeza de que ela está errada. - Você me conhece há quanto tempo? – O homem retirou a sua mão da perna da garota. – Eu diria que o bastante pra saber que o que eu faço é necessário. Se você me prometesse que faria tudo o que eu mandasse, talvez não precisaria ser tão drástico quando – ele passou seus dedos pela corrente que segurava uma das pernas da garota – isso. Alice suspirou. – Então, qual é? Vai vender meus órgãos? – Ela debochou. – Tenho um coração partido, pulmões que funcionam pelas metades e rins que de- vem filtrar tão bem quanto os de um velhinho. - Seus órgãos? – O rosto sério do homem mostrava que ele não possuía o mesmo senso de humor de Alice. – Não, garota. O que eu quero é bem mais pro- fundo do que isso. O homem colocou a mão dentro do casaco que vestia e retirou dele um peda- ço de papel grosso, amarelado e com as bordas rachadas, do tamanho de uma fo- lha de caderno. Alice riu mais uma vez. – Vai me fazer uma declaração de amor? Eu até diria sim se você me soltasse daqui. – Ela tentou se mexer, mas não conseguiu. - Eu só preciso que você diga sim para o que eu vou te oferecer. – O rosto do homem abrigava agora um largo sorriso perverso. – Fama, riqueza, poder, in- fluência! – Ele ergueu seus braços e exaltou sua voz. – Posso dar o que você qui- ser. - Eu estou sendo forçada a fazer um pacto com algum príncipe do inferno? – A garota comentou. – Eu não preciso de nada disso. Você sabe o que eu sou, sabe o que eu faço, é idiotice me prender assim. O homem se aproximou de Alice o bastante para e respirou fundo o perfume doce que sua pele exalava por baixo do vestido preto. – E quanto ao seu irmão? - O que tem ele? – Ela engoliu em seco. - Você não quer salvá-lo? – O homem perguntou, sorrindo. Alice levantou sua cabeça e olhou nos olhos do homem mais uma vez. – Não se atreva a encostar um só dedo nele. – Ela falou, entre dentes. - Eu não me atreveria a fazer nada, se é o que você pensa. No entanto, eu fi- quei sabendo que a natureza já se encarregou de tudo. Pobre coitado, câncer no intestino não é mesmo nada legal. Salvar a vida de alguém assim é mais importan- te do que fama, riqueza, poder e influência, não é mesmo?
  5. 5. 5 Alice apertou seus lábios. – Como eu posso ter certeza de que você está fa- lando sério? - Uma coisa eu posso te garantir, garota. – O homem tocou com seu dedo nas duas correntes que seguravam os braços da garota e elas se desintegraram instan- taneamente. – Nós nunca mentimos. – Ele empurrou o papel em sua direção. Alice se esforçou e se sentou sobre a mesa onde estava amarrada. Ela esticou seu braço esquerdo e pegou a folha da mão do homem. – Parece que sua declara- ção de amor é bem mais complexa do que eu imaginei. – Ela disse, lendo as pala- vras inteligíveis que estavam escritas em vermelho no papel. – Não vou assinar nada enquanto não tiver certeza, não estou tão desesperada. O homem aproximou sua mão da garota com lentidão e tocou sua barriga. Seus olhos se reviraram quando uma dor lancinante tomou conta do seu abdome, fazendo a soltar o papel sobre a mesa e se contorcer para a frente de dor. - Isso é o que ele vai sentir em todos os dias de sua vida se você for má o bastante pra permitir que isso aconteça. A dor da garota cessou em poucos segundos, que para ela foram incontáveis. Ela pôde finalmente respirar e recuperar o fôlego que segurou por todo o tempo em que a dor dilacerava sua barriga. - O que você pode fazer por ele? – Ela mordeu seu lábio inferior. - Tudo o que você quiser que eu faça. – Ele falou, entregando a ela uma ca- neta dourada. Ela segurou a caneta, que possuía uma ponta como uma caneta tinteiro anti- ga. Um pequeno incômodo tomou conta de seus dedos que seguravam a caneta, que gotejou um líquido vermelho e espesso no mesmo momento. A garota pegou o papel e assinou seu nome nele em uma letra rápida e sem capricho. – Eu não te- nho nada a perder mesmo, não é? - Foi um prazer fazer negócios com você. A garota sentiu todo o seu corpo perder as forças como da última vez que o pano molhado foi colocado no seu rosto. Até mesmo o mesmo cheiro forte voltou a preencher seu nariz enquanto suas vistas se apagavam da visão do pequeno cô- modo onde ela estava presa. Sua consciência se apagou mais uma vez e seu corpo caiu inerte sobre a mesa de madeira onde estava amarrada. - Ei, acorda. – Alice ouviu vozes abafadas e distantes falando ao seu redor, assim como uma música ritmada e incessante que perfurava seus ouvidos. O cheiro dos perfumes voltou ao seu nariz e seus olhos abriram, revelando o teto da boate, e algumas pessoas ao seu redor, que olhavam com curiosidade para ela. Alice tentou se levantar do chão, se sentindo tonta, mas conseguiu apenas se sentar, suas pernas ainda não possuíam força o bastante para levantá-la. - O que aconteceu? – Ela perguntou, esperando que alguém da multidão ao seu redor a respondesse.
  6. 6. 6 - Você tava dançando com um cara e caiu no chão. – Uma mulher, que esta- va ao seu lado, respondeu. - Cadê ele? – Alice respondeu, olhando por sobre os ombros. - Eu vi ele indo embora. – Um garoto que parecia jovem demais para estar naquele lugar foi quem respondeu sua pergunta. Droga. A garota finalmente conseguiu se levantar do chão, ainda sentindo o mundo girar sob seus pés. – Eu estou bem, não precisam se preocupar. Vou cha- mar um taxi e vou embora. – Ela falou a todos, fingindo estar apenas bêbada. Mas ela sabia que estava pior do que isso. Fundo em suas entranhas, ela se sentia vazia. Algo lhe faltava, mas não era em seu corpo. Era algo como a solidão, como se algo que esteve ao seu lado du- rante sua vida inteira não estivesse mais. Ela saiu da boate e encarou a noite estre- lada que havia sobre sua cabeça. Ela viu a lua crescente curvada e as estrelas que cintilavam distantes no vazio do espaço. Vazio.

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