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Presentation given by Rosemeire Barboza da Silva, University of Coimbra, Portugal at a FEANTSA Research Conference on "Rethinking Homelessness Policies", Lisbon, Portugal, 2007

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The Political Organisation of the Homeless in Brazil - ENThe Political Organisation of the Homeless in Brazil - PT

  1. 1. Conference: “Rethinking homelessness policies” Feantsa eCentro de Estudos para a Intervenção Social 28 de Setembro de 2007 — LisboaO processo de organização coletiva e política da população em situação de rua no Brasil: notas para um debate aprofundado em políticas públicas 1Nosso texto buscará confrontar e analisar as dimensões envolvidas no processo de organizaçãocoletiva e política da população de rua a partir de uma perspectiva pluralista e interdisciplinar,questionando a evolução histórica por que vem passando, particularmente no Brasil. De populaçãovista, na década de 1990, como pessoas à mercê da caridade religiosa e pública, o trabalho empíricoatual cada vez mais vem nos trazendo notícias de organizações coletivas, protagonizadas por umapopulação em situação de rua. Essas organizações têm suas fileiras engrossadas por desempregadosde longa duração que vêm na organização coletiva formas de atuação e visibilização no espaçopúblico.Nesse sentido, essa nova emergência, da população de rua, como um coletivo “desde abaixo” acabapor impor novas perspectivas e novas formas de conceber a democracia, agora revista e ampliadaem suas formas mais participativas.A ciência por conseguinte também assume um papel diferente que tem como pressuposto envolveros cidadãos em seus debates e ampliar tanto a participação ativa quanto o compromisso dessescidadãos na construção de uma ciência pública e engajada que privilegia a diversidade deconhecimentos e a construção paulatina de uma sociedade mais justa e equitativa.Palavras chaves: população de rua, políticas públicas, ciência cidadã e movimentos sociais.Our paper will try to confront and to analyze such dimensions from a diverse and interdisciplinaryperspective, questioning the historical evolution of the homeless in Brazil. From a populationperceived in the 90s mainly from an individualist and charity point of view, we go as shown byempirical observation to a population able of collective organization, a population whose rows arefilled with an increasing number of long term unemployed who see in the collective organizationsome ways of performing and being visible in the public space, as shown in the case of socialmovements such as the MNPR.In this direction, this coming out of the homeless population, as a collective one "from the bottom"ends by imposing new perspectives and new forms to conceive democracy, now reviewed andextended in its participation forms.Science therefore also assumes a different role, being understood much more in a perspective ofcitizen science or of the situated knowledges, that entails involving citizens in its debates andextending the active participation as well as the commitment of these citizens in the construction ofa public and engaged science that favours the diversity of knowledge and the gradual constructionof a society more equitable and fair.Keywords: Homeless, Public Policies, citizen science and social movements.1 Rosemeire Barboza da Silva is a student in the PhD Program in Governance, Knowledge and Innovation ofthe Faculty of Economics of the University of Coimbra and a scholarship from the International FellowshipsProgram of the Ford Foundation. E-mail for contact: rose.bs@uol.com.br 1
  2. 2. O poder público nos dá assistencialismo e clientelismo. ‘Eu te dou uma vaga no albergue e você cala a boca’. Queremos de fato a dignidade e o respeito para a população de rua o que é de direito. Esta população contribui com os impostos da cidade quando compra uma simples bala ou um pão. Anderson Lopes do Movimento Nacional de Luta em Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua (MNPR – Brasil) Recentemente, a partir do ano 2000, percebemos movimentos que questionam, porsua natureza eminentemente política, o que foi produzido até então, cientificamente e nocampos das políticas públicas, sobre a impossibilidade de organização da população de ruano Brasil. Os catadores de materiais recicláveis (parte da população de rua e que nãofigurou nas definições apresentadas acima, por serem caracterizados essencialmente emrelação à centralidade do trabalho) sugerem para as entidades que trabalham com apopulação adulta em situação de rua e organizam um encontro nacional, no mês de junhode 2001.2 Dois acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)iniciam uma experiência conhecida como “rururbano” e promovem o que é conhecido emSão Paulo como o programa “Da rua para a terra”, em que a população de rua é o focoprincipal. Também em São Paulo, a experiência dos Conselhos e dos Fóruns e a eleição dedelegados representantes da população de rua para o programa de Orçamento Participativona capital paulista, entre outras ações, dão notícias de uma organização que se consolidacada vez mais em iniciativas contra-hegemônicas e emancipatórias, numa luta contra aopressão, o preconceito e a discriminação. Duas dessas iniciativas parecem estar intimamente relacionadas com a possibilidadeemancipatória de quem está ou vive nas ruas. O primeiro é a criação, em setembro de 2003,de um Fórum de Estudantes Universitários sobre a População em Situação de Rua (que em2004 iria se tornar o Fórum de Debates sobre a População em Situação de Rua da cidadede São Paulo); o segundo, a retomada e a ampliação. em 2004, do Fórum da População deRua, que em 2005 irá originar o Movimento da População em Situação de Rua da cidade de2 Passados cinco anos desde seu primeiro encontro nacional em Brasília, os catadores organizados já tiveram vitóriassignificativas em seu percurso, como o reconhecimento da ocupação de catador e inclusão no Cadastro Brasileiro deOcupações (CBO), a organização e a realização de dois congressos latino-americanos, entre outros. e mais recentemente,no governo Lula, a criação de um comitê interministerial para atenção e qualificação dos catadores filiados ao MovimentoNacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). É emblemático observar que os catadores relacionamsuperação de preconceitos e desafios a organização quando se referem ao primeiro encontro nacional: “O encontromarcou a superação dos velhos preconceitos em torno do catador que, além do respeito por parte da sociedade, estáconquistando força política e social”. (Catadores de Vida, publicação do MNCR e Fórum Nacional de Estudos sobre aPopulação em Situação de Rua, edição de janeiro de 2002) 2
  3. 3. São Paulo, empreendido pela própria população e que atualmente é conhecido comoMovimento de Luta em Defesa dos Direitos da População de Rua (MNPR). Em 2004, meses antes do Dia de Luta da População de Rua, antigos e atuaisparticipantes do Fórum, que também freqüentam as reuniões do Fórum de Debates,articulam-se e reivindicam a organização autônoma dessa data. As entidades até entãoresponsáveis pela formatação das reivindicações mostram-se contrárias ao pedido, e,naquele ano, a quase não participação da população no Dia de Luta demonstra que ocorreuuma fissura na relação assistência/população e que a autonomia e o protagonismo porparte dessa população é questão emergencial. O tom das reivindicações também diverge: enquanto as entidades lutam porprogramas de moradias provisórias, a população luta por moradia própria; enquanto asentidades lutam por mais vagas em albergues, a população luta por acesso a educação. E odescompasso segue, agora não só nos discursos reivindicatórios: também cresce oquestionamento e a cobrança por melhores serviços prestados pelas entidades e portransparência na prestação de contas e dos mecanismos de governança de que lança mão opoder público, imbuído da lógica do controle social, para manter essa população à margem. Ainda em 2004, uma chacina perpetrada contra a população que dormia nas ruas,com grande repercussão internacional, mobiliza mais de 2 mil pessoas em passeata pelocentro da cidade de São Paulo. Os assassinatos não só chocaram a sociedade, comoparecem ter sido um dos pontos cruciais para a organização posterior da população. Odiscurso da heterogeneidade da rua, que sempre esteve entre a questão da igualdade e dadiferença — quem é a população de rua? Quem é o desempregado? —, aprofunda-se, e apopulação busca mudar a natureza de suas reivindicações: políticas públicas, sim; mas qualo teor dessas políticas? Como são organizadas? Exige-se reconhecimento social e penetra-se em espaços hegemônicos, como o poder público. São eleitos representantes dapopulação para um conselho, a que o governo dá o nome de Conselho de Monitoramentodos Serviços que atuam com a População em Situação de Rua. A nosso ver, essas vitórias e essas possibilidades de perfurar o sistema hegemônicoagem positivamente na organização da população, que, de forma criativa e autônoma,comemora em dezembro, em plena Praça da Sé (conhecida como palco de váriasmobilizações populares em São Paulo), um Natal com shows, música, teatro, venda deartesanato, etc. Nesse dia, a tradicional distribuição de alimentos e donativos foi substituídapelo microfone aberto, através do qual se delatou impiedosamente a realidade das ruas, aineficiência das políticas públicas e as contradições do sistema econômico. 3
  4. 4. Inaugurando o ano de 2005, mais uma vez a população se une em torno deproblemáticas comuns. A heterogeneidade, que em alguns momentos serviu para reforçaruma identidade negativa, um não querer identificar-se, é respeitada, mas é questionada: atéque ponto somos desiguais? Até que ponto somos diferentes? Se, de um lado, a afirmaçãoda igualdade, com pressupostos universalistas, pode reforçar e conduzir “àdescaracterização e negação das identidades, das culturas e das experiências históricasdiferenciadas, especialmente à recusa do reconhecimento coletivo” (SANTOS, 2003: 63), poroutro lado, o movimento da população reforça a idéia de se pensar por meio de um grupode pertença e também se coaduna com a idéia que é possível um movimento social surgirda própria população. Em maio de 2005, novo momento: a população, que já amadurecia a idéia por meiode alguns representantes, mobiliza mais de 200 pessoas para uma votação dos delegados(três titulares e três suplentes) ao Conselho de Monitoramento e divulga a formação de ummovimento social da população em situação de rua que, com penetração em instâncias dopoder público, ONGs, cooperativas e universidades, lutará pelos direitos da população. De lá até aqui, o MNPR tem participado de discussões e conferências, em diversoslugares do Brasil e até mesmo em comissões internacionais. Esse caráter multifacetado domovimento é ressaltado por Anderson Lopes, na mesma entrevista já mencionada: “Hoje apopulação de rua tá até participando da Conferência das Cidades, que isso não era para opovo da rua, isso era para outros movimentos. Como se diziam, os movimentos sociais.Mas está se vendo que quem faz a cidade é aquele que vive na cidade e aquele que usa acidade é também o povo da rua, ele vive na cidade, ele usa as ruas da cidade, ele usa asmarquises da cidade e mais ele para entender aquela cidade e ajudar a fazer as políticaspúblicas dentro daquela cidade. A população de rua sabe o quanto a dificuldade de quandoela tá dormindo e se passar uma carro jogando água em cima dela ou quando os bancoscolocam chuveirinho para jogar água em cima dela ou quanto a polícia é ostensiva, entãoela tem que participar das políticas públicas.” Essa emergência do sujeito como movimento social revela também o acesso e aconquista ao reconhecimento que a apropriação criativa da nomeação permitiu ao longodos anos, atuando e operando contrariamente ao obstáculo imposto: “Diferentes formas deopressão ou de dominação geram formas de resistência, de mobilização, de subjetividade ede identidade coletivas também distintas [...] Nessas resistências e em suas articulaçõeslocais/globais reside o impulso da globalização contra-hegemônica” (SANTOS, 2003: 61). 4
  5. 5. Nessa globalização contra uma ordem estabelecida e em busca de identidades quepossam alternar-se, é possível até mesmo, na fluidez das identidades flexíveis, chamar-se ex-morador de rua, ter domicílio, mas continuar lutando, como afirma numa entrevistaSebastião Nicomedes,3 também membro da Comissão Nacional de articulação do MNPR:“Muita gente estava na rua, conseguiu emprego, saiu e esqueceu tudo. Eu sou mais coletivo,não quero sair sozinho. Alguns que moram na rua não sabem mais quem são, não sabemmais que são gente, têm vergonha até de levantar os olhos.” Assim o MNPR empreende sua busca de identidade na fronteira das conexõesparciais que estabelece com os diversos atores da arena pública. A população em situaçãode rua, que agora assume a identidade de movimento social, representa-se “ao mesmotempo como um conflito social e um projeto cultural” (TOURAINE, 2002:254). O sujeitoque fala, a partir do lugar da rua, identifica-se com quem está na rua; mesmo repondo nooutro, diferente de si, os preconceitos do imaginário social, percebe-se ele mesmo fruto deum processo, de quem esteve nas ruas e não está mais: “O sujeito se constróisimultaneamente pela luta contra os aparelhos e pelo respeito do outro como sujeito; omovimento social é a ação coletiva de defesa do sujeito contra o poder da mercadoria, daempresa e do Estado. Sem essa passagem, o sujeito corre o risco de se dissolver naindividualidade” (TOURAINE, 2002:302). Acreditamos que, enquanto emergência, movimento social e lançando mão daflexibilidade de suas identidades, a população de rua está caminhando para a construção deum futuro que, se não deixa de surgir como agonístico e contraditório, nos embates queleva a cabo na arena pública, também se apresenta como pleno de possibilidades.Notas para o debate na construção de Políticas: O envolvimento engajado doinvestigador Vimos ao longo das primeiras páginas que nossa discussão, baseada numaexperiência vivencial, cognitiva, afetiva e política com a população em situação de rua deSão Paulo e que também se traduz nos anos de militância junto à esse coletivo, é umcaminho empreendido e mediado pela perspectiva dos “conhecimentos situados” (do lugarque falamos), das “conexões parciais” (porque todo conhecimento só tem sentido recriadoe reiventado, e as conexões com tais coletivos nunca são totais, nosso envolvimento,3 Disponível em www.pime.org.br/noticias2006/noticiasbrasil280.htm. 5
  6. 6. mesmo quando fazemos parte do campo, sempre é um envolvimento flexível)4 e de uma“objetividade encarnada”. Dessa forma, dividir com os leitores uma experiência significa colocá-la no espaçopúblico, mesmo parcial e incompleta, para ser reformulada e recriada, expandida ecriativamente incorporada às necessidades de cada um dos sujeitos ou coletivos que a elativerem acesso, partindo sempre de uma objetividade encarnada (cf. HARAWAY, 1991) —ou, em outras palavras, daquilo que se considera politicamente relevante. Partindo dessa perspectiva, a produção de conhecimento é compreendida comouma ação coletiva e política, porque o ponto de partida é o “nós”: aquele “nós” construídoe reinventado nas relações cotidianas. E daí que nosso olhar, por já ter em si umposicionamento político explícito e marcado, diferencia nossa proposta epistemológica, emconsonância com o que é proposto por Donna Haraway no texto “Conhecimentossituados” (1991): falar de um lugar é marcadamente uma proposta de envolvimentoafetivo,5 político e cognitivo que redimensiona a proposta de conhecimento: conhece-se apartir daquilo que se vivencia;6 e se constrói conhecimento a partir daquilo que setestemunha.7 Nessas circunstâncias, procuramos “produzir nem tanto efeitos de distanciamentocomo efeitos de conexão, de encarnação e de responsabilidade com algum outro lugarimaginado que já podemos ver e construir” (HARAWAY, 1991:122). Portanto, nosso objetivo, explícito desde o início, está embasado na idéia de “nãofalar pelos coletivos, mas articular-se com eles” (cf. HARAWAY, 1991), sendo esse o4 No artigo intitulado “Eu militante, você militando: faces de uma mesma moeda?”, busco problematizar a questão do quechamo de “envolvimento flexível” com o campo. Partindo da idéia do envolvimento militante, discuto como um campo,denso de sentidos, coloca-nos cotidianamente frente a um espaço rico de experiências e trocas ao mesmo tempo agonístico,complexo, plural e intercambiável. Tal conjunto exige de nós, por sua vez, tanto uma postura atuante afetiva e politicamente,quanto um distanciamento reflexivo, além de vigilância metodológica e epistemológica constante (cf. SILVA, 2006).5 “Afetivo”, aqui, na concepção espinosana de que os “afetos são afecções instantâneas de uma imagem de coisas em mimnas relações que estabeleço com outros corpos” (SAWAIA, 2000). Segundo alguns estudiosos, essa definição estaria muitopróxima do que Vigotsky desenvolveu em sua obra sob o nome de “emoções” (cf. GONZALEZ REY, 2000 e 2002; Sawaia,2000). Portanto, esse envolvimento afetivo/emocionado também nos possibilita ampliar a visão de episteme: asintelecções mais profundas podem ser consequência de um envolvimento afetivo com o campo, o que também acaba porse tornar um posicionamento político que se mantém situado em oposição à idéia dicotômica de que as emoções“atrapalham” e que o conhecimento científico é eminentemente racional.6 Quando falamos em “vivência”, compreendemos que esta se aproxima da significação atribuída por Vigotsky: “Vivênciarepresenta uma unidade indissolúvel de elementos internos e externos que por sua vez se apresentam indissoluvelmenteintegrados em aspectos cognitivos e afetivos” (GONZALEZ REY, 2000:5).7 A opção de conceber a produção no campo da pesquisa como testemunho foi muito bem elaborada e desenvolvida sobo termo “testemunha articulada” por Nunes (2001 1995) e reflete a idéia de que o pesquisador de uma ciênciacomprometida deve ser ele mesmo “testemunha de processos e acontecimentos posicionada no terreno, contraposta àconcepção convencional do pesquisador como observador ou etnógrafo, produtor de um conhecimento […] posicionadoou não de um terreno” (HEBDIGE, apud NUNES, 2001 1995:325). Assim, realiza um “duplo trabalho de enunciação e deligação que caracteriza o poder interrogativo da teoria crítica pós-moderna, o poder de problematizar e de sugerir ao olharo que os discursos dominantes ocultam ou silenciam, abrindo novos espaços para imaginar outros possíveis” (NUNES,2001 1995:325), não só no campo “material” de pesquisa, mas articulando-se com este, numa interposição e trocaconstante de saberes. 6
  7. 7. arcabouço que sustenta e fornece a estrutura para uma conexão parcial que nos permiteexaminar a proposta das identidades flexíveis, em direção a uma discussão que visa“contestar a ciência que representa o outro, o reflete, dá-lhe voz ou atua como suaventríloqua; ou seja não partir de uma política semiótica da representação e sim de umapolítica semiótica da articulação” (CEDEÑO, 2006:69). Quando falamos em articulação, temos a perspectiva de que “sempre é uma práticanão inocente, impugnável. Os companheiros não se estabelecem de uma vez e para sempre.Aqui não há ventríloquos. A articulação é um produto e pode falhar” (HARAWAY,1991:141). Contudo, pode recomeçar e se rearticular tantas vezes quantas sejam necessárias.Nesse sentido, está de acordo com o que Santos (1987) chama de uma ciência doparadigma emergente — “A ciência do paradigma emergente [...], sendo analógica, étambém assumidamente tradutora, ou seja, incentiva os conceitos e as teoriasdesenvolvidos localmente a emigrarem para outros lugares cognitivos, de modo a poderemser utilizados fora do seu contexto de origem” (SANTOS, 1987:77) — e busca colocar nesseespaço de debate uma co-construção realizada com a população em situação de rua: pormeio da vivência, entendemos que as deficiências e a baixa intensidade de compreensão dofenômeno da rua que os conceitos sobre essa população trazem consigo (cf. BARROS, 2004)não atuam como impeditivos da ação, mas, muitas vezes e em espaços diferentes, sãoutilizados alternadamente como uma estratégia de luta e resistência. Os sujeitos coletivos de que vimos a emergência aparecem juntamente com suasidentidades negociadas e flexíveis, na gênese de coletivos articulados e plenos depotencialidades. Nosso objetivo, como anotamos a respeito das conexões parciais e dareflexividade, é esforçar-se para vermos diferentemente, para ‘não nos encaixarmos’ no convencional, para apoiarmos o fortalecimento de pessoas ou agrupamentos que ‘não se encaixam’, gerando aquilo que Haraway denomina ‘outros inadequados/inadequáveis’ ao praticar e potencializar novas formas de subversão (CEDEÑO, 2006:67). A subversão proporcionada por uma teoria crítica que permite identificar no sujeitosuas “tendências de futuro” (cf. SANTOS, 2002), além de permitir difratar “significadosencarnados em ações cotidianas” (CEDEÑO, 2006:66), também proporciona um arcabouçoteórico-metodológico inventivo e criativo, no qual é possível não apenas utilizar nossocorpo, nossas sensações e vivências, a fim de compreendê-las como conhecimentossituados, mas também questionar os conceitos para vê-los re-significados. 7
  8. 8. E como trabalhar a participação da população de rua, tendo em vista suaemancipação? A contibuição da “tradução das práticas” Mas quais são as notícias de organização e articulação que esse movimentoapresenta, como se configuram? Para Melucci (2001:33), “um movimento social não é aresposta a uma crise, mas a expressão de um conflito”. Percebemos em suas expressões eembates formas possíveis de retirar da invisibilidade (mesmo quando esta pode ser umavantagem) a população que vive nas ruas. Essa invisibilidade faz parte das identidadesflexíveis e de fronteira de quem está/vive na rua: quem ali está, confundido muitas vezescom a paisagem urbana e muitas vezes encarado de soslaio, apressadamente, pode ver semser visto (cf. BHABHA, 2005)8 e, por isso, pode desenvolver formas e possibilidades derespostas que nós, como domiciliados, não podemos compreender sem uma traduçãoadequada das práticas desses coletivos. Para Santos (2002:262), “a tradução é o procedimento que permite criarinteligibilidade recíproca entre as experiências do mundo, tanto as disponíveis como aspossíveis […] trata-se de um procedimento que não atribui a nenhum conjunto deexperiências nem o estatuto de totalidade exclusiva nem o estatuto de parte homogênea”.Dessa forma, é possível vislumbrar no trabalho de tradução um caminho possível, tantopara a compreensão da possibilidade de identidades intercambiáveis e interpostas,propostas pelas identidades flexíveis, como para olhar as experiências do mundo, por meiodo corte e do recorte: “As experiências do mundo são vistas em momentos diferentes dotrabalho de tradução como totalidades ou partes e como realidades que se não esgotamnessas totalidades ou partes” (SANTOS, 2002:262). Nesse caso, o trabalho de traduçãoresidiria na tradução das práticas sociais do movimento emergente da rua: “Quando incidesobre as práticas […] o trabalho de tradução visa criar inteligibilidade recíproca entreformas de organização e entre objetivos de ação” (SANTOS, 2002:265). Sendo esse trabalho pragmático no sentido de não só conferir existência aomovimento da rua, mas também buscar nestas práticas tensões específicas, estamosconscientes de que, “quando se fala de um movimento social, refere-se, geralmente, a umfenômeno coletivo que se apresenta com uma certa unidade externa, mas que no seuinterior, contém significados, formas de ação, modos de organização muito diferenciados eque, frequentemente, investe uma parte importante das suas energias para manter unidas as8 “Um dia aprendi/ Uma arte secreta,/ Invisibili-Dade, era seu nome./ Acho que funcionou/ Pois ainda agora vocêsolham/ Mas nunca me vêem/ Só meus olhos ficarão/ para vigiar…” (Jin, apud Bhabha, 2005:78). 8
  9. 9. diferenças” (MELUCCI, 2001:29). Nessa perspectiva, “o trabalho de tradução visa esclarecero que une e o que separa os diferentes movimentos e as diferentes práticas de modo adeterminar as possibilidades e os limites da articulação ou agregação entre eles” (SANTOS,2002:266). A tradução das práticas dos coletivos da rua significa acreditar que “no devidotempo demandaremos o impossível a fim de arrancar dele o que é possível.” (Handsworth,apud BHABHA, 2005:220). O M.NP.R. por exemplo, começou recentemente a unir esforços com lutashistóricas por habitação no centro de São Paulo, com o movimento sem-teto e com Ong’sque se organizam contra os processos de gentrificação. Ou seja, mesmo que essas sejaminiciativas pontuais, o processo de tradução de práticas já se colocou em marcha. Mais recentemente o governo federal também incorporou às atividades do GrupoInterministerial que trata das questões e políticas sociais voltadas á população de rua,lideranças e representates do M.N.P.R. Tal conquista também pode acenar um novo modode articulação entre os diversos atores sociais, a abertura do diálogo e a possibilidade deuma forma real de emancipação rumo a uma cidadania verdadeiramente ativa.ReferênciasCEDEÑO, Alejandro Astrid Leon (2006). Emancipação no cotidiano: iniciativas igualitárias em sociedades de controle. In Departamento de Psicologia Social (São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).GONZALEZ REY, Fernando L. (2000). El lugar de las emociones en la constitución social de el psíquico: el aporte de Vigotsky. Revista Educação & Sociedade. Ano XXI, nº 70.HARAWAY, Donna J. (1991). Simians, cyborgs, and women: the reinvention of Nature. London: Free Association Books.IRWIN, Alan. Citizen Science: A Study of People, Expertise and Sustainable Development. London: Routledge, 1995.MELUCCI, Alberto (2001). A invenção do presente: movimentos sociais nas sociedades complexas. Petrópolis: Vozes. 9
  10. 10. NUNES, João Arriscado (2000). Teoria crítica, cultura e ciência: o(s) espaço(s) e o(s) conhecimento(s) na globalização. In Santos, B.S. (ed.). Globalização, fatalidade ou utopia? Porto: Afrontamento.SANTOS, Boaventura de Sousa (2002). Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista Critica de Ciências Sociais. Coimbra, Centro de Estudos Sociais (CES), n. 63, outubro.SAWAIA, Bader Burihan (2000). A emoção como lócus de produção do conhecimento — uma reflexão inspirada em Vigotsky e seu diálogo com Espinosa. In, Conferência de Pesquisa Socio-cultural.TOURAINE, Alain (2002). Crítica da Modernidade. Rio De Janeiro, Editora Vozes: 7ª Edição.TOURAINE, Alain (1984) O Retorno do Actor: Ensaio sobre Sociologia. Lisboa: Instituto Piaget. 10

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