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5A morte é o supremo remédio para todos os infortúnios.                                   Ernest Hemingway
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8                                         SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO                                               92 E A MORTE, ...
91 INTRODUÇÃO       Ernest Hemingway (1899-1961), escritor modernista norte-americano, retratou deforma simples, porém mar...
10o sofrimento, paixões, desilusões, vitórias e derrotas vem a pergunta que norteia estetrabalho: de que maneiras a morte ...
11literatura e tem como finalidade deixar o pesquisador ciente daquilo que já foi abordadosobre o tema, evitando assim que...
12(JASPERS, 2005. p. 127). E por ser um evento destinado a todos, a morte coloca todos nomesmo patamar, sem escolher gêner...
13atualidade, carregadas de dor, pesar, “os primitivos não eram importunados pelo medo damorte. Uma perspicaz amostragem d...
14                        para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que                        o ...
15Santos (2007) a apresenta como: “a ciência que estuda a morte e o processo de morrer emtodos os seus aspectos: forense, ...
16           Porém, embora houvesse essa aceitação da morte, os cemitérios eram localizadosfora das cidades; vivos e morto...
17para lembrar a imagem do corpo, a sua aparência. O dia de mortos, comemorado em muitospaíses católicos, leva milhares a ...
18o suicídio contraria a lei natural, para Plotino, a alma não se separa totalmente do corpo, oque causa o sofrimento. Sch...
19sua vida”. Para os existencialistas como Sartre, o homem é livre para fazer suas escolhas e éresponsável pelo seu destin...
20estágio posterior, de haver outra existência, “daí decorre a idéia de que estar morto é não ser,de que morrer é o nada” ...
21mortes” as mudanças do que é conhecido para situações ou experiências desconhecidascomo mudanças de casa ou de emprego. ...
22palavras, sem excluir os significados primários e secundários” (PAZ, 1976, p.45). Aliteratura tem usado desse instrument...
23                        Com relação às idéias sobre o amor e a morte e seus múltiplos reflexos na                       ...
24positivo, como promessa de vida eterna e amor puro inspira e estimula a participaçãoengajada do leitor/ouvinte na comuni...
253. DAS OBRAS3.1 A farewell to arms       Realidade e ficção se misturam em A farewell to arms (Adeus às armas) lançado e...
26momentos de tensão, dor, morte, e fuga, realidades e detalhes da guerra como quem só quemexperimentou pode revelar. Na v...
27hotel onde estavam hospedados, caminhando na chuva.3.1.2 Para entender “A farewell to Arms”       Podemos observar que o...
28família. No entanto, esta renovação não acontece.           Outro elemento recorrente nesses momentos de turbulência é a...
29       possa fazer agora a noite?”)        (“Não. Não há nada a fazer. Posso levá-lo pro hotel?”)        ( “Não, obrigad...
30her die. Please, please, please dont let her die. God please make her not die. Ill do anythingyou say if you dont let he...
31um jogo, transforma-se numa união onde as almas se encontram e por isso, viver sem elasignifica um “nada”.3.2 A clean we...
32existência, o significado da vida, o significado de Deus, ou a falta deles: tudo é nada! Estepersonagem faz ainda uma pa...
33vê nessa lacuna o motivo para manter o café aberto até mais tarde. Ele diz: “Each night I amreluctant to close up becaus...
34nós nada vossas nadas e não nos deixei cair no nada, para nada; para nada. Salve nadacheia de nada, nada esteja contigo)...
35onde os solitários possam ter um pouco de dignidade.       A trama também enfatiza o tempo. Não apenas por causa do horá...
36aprofundadamente sobre aquela guerra.       Este romance é considerado um gênero épico, segundo Baker, pois possui:     ...
37se despede de Maria, jurando amor eterno e pede que ela leve o amor dele para onde ela for esó assim esse amor sobrevive...
38cuspir. Não deve ser um remédio muito poderoso). Outro momento é quando Pilar lê a mãode Jordan e vê sua morte. Tal sent...
39também, assim como seus companheiros, mesmo que esse não fosse o seu desejo. Mas amorte não aparece apenas como um fim. ...
40natural: “do you want me to shoot thee, inglés? [...] Quieres? It is nothing? (p.407) (vocêquer que eu atire, inglês? [....
41Jordan ainda está vivo: “He could feel his heart beating against the pine needle floor of theForest” (p.413) (Ele podia ...
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  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV CONCEIÇÃO DO COITÉ MARILENE DE SOUZA MAIAAS FACES DA MORTE EM OBRAS DE ERNEST HEMINGWAY Conceição do Coité 2012
  2. 2. 1 MARILENE DE SOUZA MAIAAS FACES DA MORTE EM OBRAS DE ERNEST HEMINGWAY Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito final para obtenção do Grau de Licenciatura em Letras - Inglês. Orientadora: Profa. Dra. Flávia Aninger Rocha Conceição do Coité 2012
  3. 3. 2 MARILENE DE SOUZA MAIA AS FACES DA MORTE EM OBRAS DE ERNEST HEMINGWAY Monografia apresentada à Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação, Campus XIV, como requisito final para obtenção do Grau de Licenciatura em Letras - Inglês.Aprovado em ________/ ________/ _______ Banca examinadora__________________________________________Flávia Aninger Rocha – OrientadoraUniversidade Estadual de Feira de Santana - UEFS_________________________________________Neila Maria Oliveira SantanaUniversidade do Estado da Bahia – Campus XIV___________________________________________Rita SacramentoUniversidade do Estado da Bahia – Campus XIV CONCEIÇÃO DO COITÉ 2012
  4. 4. 3 Em memória de Maria Cecília, aluna que nodespertar da sua adolescência, e apesar de toda sua vitalidade e alegria, aos 14 anos de idade perdeu a batalha contra um câncer.
  5. 5. 4 AGRADECIMENTOSA Deus pela oportunidade dada para viver mais uma etapa em minha vida e chegar até aquicom a mesma vontade de seguir que tinha quando comecei.Aos meus pais, Milton e Railda, e minhas irmãs Emília, Marise, Lícia, Patrícia e Milene peloapoio em todas as horas, da minha vida, tanto nas vitórias como nas derrotas.À Silvio Marcos Dias Santos, grande incentivador do meu crescimento pessoal e acadêmico.Às professoras Flávia Aninger Rocha e Rita Sacramento que me fizeram ver com outros olhoso que a literatura pode representar e despertaram em mim mais um prazer pela leitura.A todos os professores do curso, e aos funcionários deste departamento pelo seu desempenhoe dedicação.A todos os colegas de sala que partilharam comigo não apenas o conhecimento, mas tambémvalores, experiências e que deixarão lembranças de momentos que por certo vão meacompanhar por toda vida.E aos amigos que, de uma forma ou de outra, mesmo com todas as atribulações de suas vidas,foram sustento e direção quando eu me sentia em dificuldades, dentre eles Carlos HenriqueValença, Ira Smith, Margareth Ravel, Arquigênia Soares e Antonio Vieira.
  6. 6. 5A morte é o supremo remédio para todos os infortúnios. Ernest Hemingway
  7. 7. 6 RESUMOO presente trabalho tem como objetivo analisar a representação da morte em três obras doescritor norte-americano Ernest Hemingway, sendo trechos de dois romances, A Farewell toArms e For Whom the Bell Tolls, e um conto, A Clean, Well-lighted Place, baseada emfundamentação de origens diversas que consubstanciam a recorrência desse tema emdiferentes contextos. Este trabalho parte de uma revisão da literatura sobre conceitos e visõesda morte desde a Idade Média até a atualidade e em seguida a apresentação e análise destasobras. Em cada obra escolhida, procuramos demonstrar os fatores sociais, emocionais, físicose históricos que compõem estas cenas, bem como as formas como este tema tão complexo eao mesmo tempo tão natural são apresentadas, cheias de simbolismo.Palavras-chave: Morte. Representação. Simbolismo.
  8. 8. 7 ABSTRACTThe present paper aims to analyse the representation of death in three works by Americanwriter Ernerst Hemingway, precisely part of two novels, A Farewell to Arms and For Whomthe Bell Tolls, and a short story, A Clean, Well-lighted Place, based on various concepts andanalysis that support the recurrence of this theme in different contexts. It parts from aliterature review of concepts and representation of death from the Middle Age until presentdays and then it presents the analysis of these three mentioned works. In each work chosen,we aim to highlight the social, emotional, physical and historical facts that compose thesescenarios, as well as to highlight how this theme, considered so complex and so simple, ispresented, full of symbolism.Key words: Death. Representation. Symbolism
  9. 9. 8 SUMÁRIO1 INTRODUÇÃO 92 E A MORTE, O QUE É? 112.1 A morte ao longo do tempo 152.2 Filosofando a morte 182.3 Morte e outras mortes 202.4 A morte na literatura 213 DAS OBRAS 243.1 A farewell to arms 243.1.1 A farewell to arms em poucas palavras 253.1.2 Para entender A farewell to arms 263.2 A clean, well-lighted place 303.2.1 A clean, well-lighted place em poucas palavras 303.2.2 Para entender A clean, well-lighted place 313.3 For whom the bell tolls 343.3.1 For whom the bell tolls em poucas palavras 353.3.2 Para entender For whom the bell tolls 364 CONSIDERAÇÕES FINAIS 41REFERÊNCIAS 42
  10. 10. 91 INTRODUÇÃO Ernest Hemingway (1899-1961), escritor modernista norte-americano, retratou deforma simples, porém marcante e profunda, situações que não apenas fizeram parte de suavida pessoal como também dos momentos históricos e sociais de sua época. Com frasescurtas e objetivas, típicas do ofício de repórter que foi, com parágrafos também curtos,fazendo uso de repetições, de forma a interiorizar no leitor as suas palavras e a utilização dediálogos sobre temas como a guerra, a condição do ser humano e a morte, Hemingwaycravou na literatura um estilo que o fez merecer o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Nasceu em Oak Park, Chicago em 21 de julho de 1899. Seu pai Dr. Clarence, desdecedo o iniciou nas atividades de caça e pesca. Em 1917 foi trabalhar como repórter para ojornal The Kansas City Star. Com 18 anos foi recusado no serviço militar para servir na IGuerra Mundial por problemas de visão, voluntariou-se então como motorista de ambulânciaem Paris. Logo foi enviado ao front italiano. Com pouco tempo de atuação foi gravementeferido no joelho e levou meses de convalescência. No hospital em Milão onde ficouinternado se apaixonou pela enfermeira que cuidou dele. Foi sua primeira desilusão amorosa.Retornou à guerra, mas por não concordar até mesmo com as condecorações que recebeu,voltou para casa. Trabalhou então para o jornal Toronto Star e cobriu a guerra entre a Gréciae a Turquia. Retornou a Paris onde se aliou a grandes escritores daquela época comoGertrude Stein, Ezra Pound, James Joyce e T.S. Eliot. Esta geração de escritores pós-guerrarevolucionários ficaram conhecidos como a “geração perdida”. Hemingway tornou-se íconedessa nova fase da literatura, que usava termos mais simples e frases mais diretas. Foicorrespondente de guerra na Espanha em 1937, depois cobriu a guerra na China e finalmentea II Guerra Mundial. Dentre seus trabalhos estão The Sun Also Rises (O sol também se levanta), de 1926,A Farewell to Arms (Adeus às armas), de 1929, For Whom the Bell Tolls (Por quem ossinos dobram), de 1940 e The Old Man and the Sea ( O velho e o mar), em 1952. Em 1954ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Mas Hemingway sentia que sua produção já nãorepresentava a mesma arte de antes e sofria muito com isso. Lutava com a sombra dosuicídio do pai em 1928. Teve depressão, diabetes e problemas com álcool, ficandointernado algumas vezes para recuperação. Em 1961, após o retorno de uma dessas clínicas,Hemingway se matou usando a mesma arma que o pai também cometera suicídio. Pela vivência do autor e sua produção tão próxima à sua realidade, relatando sempre
  11. 11. 10o sofrimento, paixões, desilusões, vitórias e derrotas vem a pergunta que norteia estetrabalho: de que maneiras a morte foi representada por Hemingway em suas obras? Nossos objetivos são traçar um panorama geral sobre a representação da morte naliteratura, assim como analisar as formas assumidas pela morte encontradas em trechosselecionados de obras de Hemingway, delineando as circunstâncias que envolvem cada umadas três situações. O trabalho aqui apresentado parte de uma revisão de conceitos e representações damorte ao longo dos tempos, da Idade Média até o presente. Sua fundamentação tem comosuporte alguns historiadores, filósofos e outros profissionais que abordaram sobre este tema,contribuindo para o estudo e observação deste evento natural. Em seguida, apresentamosuma análise de trechos de três obras de Hemingway nos quais a morte está presente, masnem sempre de modo explícito. A primeira obra a ser analisada é A Farewell to Arms (1929), romance inspirado emsua participação como motorista de ambulância da Cruz Vermelha Italiana na PrimeiraGuerra Mundial, que reproduz o encontro amoroso de um tenente norte-americano em terrasitalianas durante a Primeira Guerra, ao apaixonar-se por uma enfermeira. Uma história deamor e guerra e a condição humana influenciada por essa violência. Na segunda obra a seranalisada, o conto A Clean,Well-lighted Place (1933), os personagens – dois garçons queobservam e criticam um velho que frequenta sempre sozinho um café - discutem aconcepção e o valor da vida e da morte. No romance For Whom the Bell Tolls (1940), aterceira obra a ser analisada neste trabalho, a condição humana se revela diante dos impactoscausados pela Guerra Civil Espanhola, na qual a morte acontece quase como um eventocomunitário e a crítica política são temas observados. É também um romance de amor eguerra. Personagens e inspirações são influenciados pela atuação de Hemingway nestaguerra, à qual esteve presente. Nas três produções de Hemingway aqui apresentadas, é possível observar como oautor se volta para o quadro da morte, delineando configurações sutis e diferenciadas paralidar com este elemento. A farewell to Arms e For whom the Bell tolls tiveram suas versões para o cinema e,no Brasil, os livros foram traduzidos pelo também renomado autor Monteiro Lobato. A metodologia do trabalho se deu por meio de uma pesquisa bibliográfica. Este tipode pesquisa, de acordo com Macedo (1994, p. 13) se baseia em material já produzido na
  12. 12. 11literatura e tem como finalidade deixar o pesquisador ciente daquilo que já foi abordadosobre o tema, evitando assim que ele discorra sobre algo já analisado. Ela também permiteoutros olhares sobre temas já abordados. Uma pesquisa bibliográfica é o primeiro passo de uma pesquisa, pois, permite aopesquisador traçar um plano para seu trabalho como levantamento de dados, o fichamento, osumário e material para o desenvolvimento da escrita do texto. Neste trabalho, utilizamos como fontes de pesquisa obras literárias, obras dedivulgação, artigos científicos, revistas e jornais, tanto impressos quanto eletrônicos.Também utilizamos materiais áudio-visuais, como filmes e fotos. Nestas três análises,contribuições de autores como Vargas Llosa, Octávio Paz, Williams, Baker, dentre outrosteóricos da literatura assim como filósofos e outros estudiosos do tema, nos guiarão noprocesso de compreensão da morte como representada por Ernest Hemingway. A escolha dessa metodologia se deu pela necessidade de leituras sobre as obras doautor e sobre o tema escolhido, assim como os estudos feitos sobre estas obras. Atravésdessa pesquisa, buscamos as possíveis respostas para entender as faces da morte porHemingway apresentadas.2 E A MORTE, O QUE É? Sabemos que a morte é um evento natural que vem para todos os seres vivos semdistinção, às vezes, sem avisos. Costuma não ser aceita naturalmente ou da mesma forma portodos, sendo causa de muito sofrimento para aqueles que precisam continuar a vida sem apresença do outro. E, embora seja um processo inevitável e parte do cotidiano, ainda é umtema considerado como tabu para muitos. Geralmente vista como algo negativo, doloroso,terrível, a morte, por outro lado, também inspira, seduz e fascina outras pessoas. Ela tem sidoencarada de diferentes maneiras com o passar dos tempos, e analisada por diferentes prismas.A morte é tema para diferentes profissionais e seu conceito pode ser traçado a partir dediferentes vertentes: médico, teológico, filosófico, social, antropológico, espiritual, e atémesmo poético. Nós, seres humanos, sem exceção, “estamos todos destinados à morte. Ignorando omomento em que ela virá, procedemos como se nunca devesse chegar. Em verdade, vivendo,não acreditamos realmente na morte, embora ela constitua a maior de todas as certezas”
  13. 13. 12(JASPERS, 2005. p. 127). E por ser um evento destinado a todos, a morte coloca todos nomesmo patamar, sem escolher gênero, condição social, ou outras distinções (RODRIGUES,1993 apud COSTA, 2010). Vista, primeiramente, como um fenômeno natural de ordem biológica para acoordenadora do Laboratório de Estudos Sobre a Morte da USP, Maria Júlia Kovács (1992,p. 11), “a morte clínica é definida como um estado no qual todos os sinais de vida(consciência, reflexo, respiração, atividade cardíaca) estão suspensos, embora uma parte dosprocessos metabólicos continue a funcionar.” Sendo categorizada como um processo natural:“como o sexo, a morte faz parte da vida” (JASPERS, 2005, p. 128). Segundo o ponto de vista teológico, “a morte é definida como o maior enigma dacondição humana (GS 18), mas que encontra uma formidável resposta no mistério dasalvação,” (STANCATI, 2003, p. 516). O grande exemplo disso é a morte do próprio JesusCristo. Para a criadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Tanatologia no Rio de JaneiroWilma da Costa Torres (1934-2004): a morte surge também como um acontecimento revestido de ambigüidade: considerada, por um lado, como o mais natural de todos os fenômenos, transclassista tanto quanto o nascimento, a sexualidade, a fome, a sede, o riso; por outro lado, social e cultural, como qualquer episódio da práxis humana, e, portanto, investida, trabalhada pela experiência da idade, classe, religião, etc., vivida em suma, sob uma aparência que deve servir para explicá-la e justificá-la. (1983, p. 9) Vivem-se as angústias, os medos e as incertezas de um processo não definitivamenteexplicável. O doutor em Teologia Lino Rampazzo (2004) salienta que o homem teme nãoapenas a dor e a destruição do corpo, mas também o fim completo de sua existência e porpossuir uma “semente de eternidade”, está sempre em busca de armas para lutar contra ela. Omedo diante da aproximação da própria morte, a perda de um ente querido, a dor de serprivado de sua presença física, o vazio que a morte causa e a incerteza do que há após amorte, dão ao homem um sentimento de angústia, por vezes, devastador. O filósofo alemãoArthur Schopenhauer (1788-1860) ressaltou que “o maior dos males, o que de pior em geralpode nos ameaçar, é a morte, a maior angústia é a angústia da morte.” (2000 p.62-63) O evento da morte traduz um medo, algo que atormenta o homem mais que qualqueroutra coisa, capaz de mover a atividade humana, sendo que o homem faz de tudo para tentarnegar que a morte seja o destino final da vida, na visão de Becker (2007). Ao contrário da maioria das visões negativas expressas ao longo dos tempos até a
  14. 14. 13atualidade, carregadas de dor, pesar, “os primitivos não eram importunados pelo medo damorte. Uma perspicaz amostragem de provas antropológicas iria mostrar que a morte era,com muita frequência, acompanhada de júbilos e festejos, parecendo ser uma ocasião maispara comemoração do que medo” (HOCART, apud BECKER. 2007 p.11). Isto porque, paraestes, a morte era a passagem para uma vida de forma mais elevada, gozando da eternidade. Embora a morte seja um evento individual, seus reflexos são sentidos na sociedade.Destarte, “o morrer não é então apenas um fato biológico, mas um processo construídosocialmente, que não se distingue das outras dimensões do universo das relações sociais”esclarece a doutora em Saúde Coletiva Rachel Aisengart Menezes (2004). E nesse aspecto,acrescenta o historiador francês Philippe Ariès (2003), todos os passos desde a preparação domoribundo para sua morte, como acontecia na Idade Média, até os ritos funerais, o luto, sãovividos em coletividade. A depender dos valores religiosos ou morais, a morte carrega diferentes sentidos, dosmais simples, aos mais assustadores. Para uns, apenas mais uma etapa da vida, quandoacontece naturalmente. Para outros, o caminho para a vida eterna ou o castigo pelos pecadoscontra a vontade divina, e o consequente afastamento de Deus, encontrada na Bíblia, carta deSão Tiago, capitulo 1, versículo 15 “a seguir, o desejo concebe e dá a luz ao pecado, e opecado uma vez consumado, gera a morte” ( BIBLIA SAGRADA, 1991), seguindo umavisão religiosa. Há aqueles que encontram na morte a libertação das amarras a que estãopresos, deixando para trás o que consideram uma vida sem sentidos ou de muito sofrimento.Instituída como forma de punição, como nas penas capitais, adotadas em alguns países, podeser também o resultado de uma traição em questões amorosas, ou ainda por fazer lembrar atodos as divergências de credo ou ideais políticos historicamente exemplificados por muitosenforcamentos e degolamentos de revoltosos, inconfidentes ou mulheres consideradas comobruxas. O grande filósofo grego Sócrates (470AC - 399AC) professava a espiritualidade e aimortalidade da alma e foi exemplo dessa forma de punição, pois foi condenado a bebercicuta, morrendo por envenenamento, por ser considerado transgressor de ideaisrevolucionários e por perturbar a ordem social do seu tempo. A doutora em SociologiaHoffmann-Horochovski (2008) transcreve um trecho do discurso de Sócrates às vésperas damorte, relatado por seu discípulo Platão: Morrer é uma destas duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, trata-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar desse mundo
  15. 15. 14 para outro lugar. Se não há nenhuma sensação, se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte! (...) Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes? (PLATÃO, apud HOFFMANN- HOROCHOVSKI, 2008, p. 51). As reflexões acerca da morte e do que acontece depois dela se tornaram tema paramuitos estudiosos. Esta incerteza de haver uma vida além da morte tem trazido, ao longo dostempos, muita ansiedade e indagações. Refletir sobre a morte, para muitos filósofos,significa ter uma forma de viver bem diferente, pois pode levar a uma mudança decomportamentos e atitudes durante a vida, comenta Incontri (2010). Por seu caráter misterioso, às vezes assustador, às vezes encantador, a morte ganhouvárias representações ao longo dos tempos. Dentre elas está uma figura esquelética, usandoroupa preta com capuz e carregando uma foice. Isso, de acordo com Incontri (2010) tinha afinalidade de conscientizar a curta duração da vida e que era preciso estar preparado paraesse momento para que nada fosse esquecido. Essa mesma imagem, salienta Williams (1996,p.134), é oriunda da idéia cristã da separação da imagem da morte com a imagem de Deus, jáque para os cristãos, o Deus é um Deus dos vivos. Por isso, a morte se liberta de concepçõescristãs e assume outras formas. Uma representação da simbologia da morte também pode ser encontrada em cartas deTarô. O Professor de Psicologia e Simbologia, Constantino K. Riemma explica que o Tarô,surgido na Europa no século XIV, com iconografia cristã, é um jogo composto por 78 cartas,22 chamadas de “arcanos maiores” e 56 chamadas de “arcanos menores”. Estas últimas sãoas cartas que conhecemos dos jogos de baralho comuns. Das 22 cartas dos arcanos maiores,a morte é apresentada na carta XIII, contendo um esqueleto segurando uma foice e restoshumanos na parte inferior. Riemma acrescenta que a carta XIII pode ser interpretada comoabandono de hábitos antigos, fim de uma esperança ou de um sentimento, mudanças,desapegos, desilusão, a morte física propriamente dita, más notícias, desânimo ou mesmorenascimento. A morte nos primeiros séculos, segundo ele, trazia a esperança de uma vidamelhor, a crença no Juízo Final e, por ser um estado transitório, enfrentada sem medo. Na mitologia grega, a morte é personificada em Thanatos, o deus da morte,representado como uma nuvem prateada ou então pela visão de um homem de olhos ecabelos prateados. A divindade emprestou seu nome a uma nova ciência, surgida no séculoXX, que trata da morte e os problemas médico-legais a ela relacionados: a Tanatologia.
  16. 16. 15Santos (2007) a apresenta como: “a ciência que estuda a morte e o processo de morrer emtodos os seus aspectos: forense, antropológico, social, psicológico, biológico, educacional,filosófico, religioso e estético”. Para que se tenha uma visão dos processos ocorridos neste evento e tudo o que eleacarreta, Agra e Albuquerque (2008, p. 4) afirmam: O estudo da tanatologia é de suma importância para desmistificar preconceitos e fornecer subsídios para um melhor preparo ao lidar com a questão da morte, proporcionando a valorização da humanização no cuidado de pessoas e pacientes com risco iminente de morte assim com também de seus familiares, através de ações de conforto e respeito. Embora as imagens retratadas sejam comumente vistas de forma negativa, nem todaiconografia apresenta a morte como uma imagem assustadora. Há também representaçõesencantadoras da morte, como as citadas em Kovács (1992), como sereias, botos, arlequins,figuras que refletem a sedução, a conquista e o amor. Portanto, as imagens e as ideias sobre amorte multiplicam-se na cultura e nas áreas do conhecimento.2.1 A morte ao longo tempo As mudanças de atitude em relação à morte, da Idade Média até acontemporaneidade, mostram um caminho de apegos e rituais em relação à vida e a morte.De acordo com Ariès, em seu livro História da morte no Ocidente (2003, p. 30), Por volta doséculo XII, a morte era “uma cerimônia pública e organizada” e encarada como algo simples.Pública, porque o quarto do moribundo podia ser visitado livremente, e mesmo as criançastomavam parte desse evento. Parentes e amigos presenciavam os últimos momentos domoribundo. Isso a tornava um evento comum, simples, sem dramas. Tal evento era organizado, pois o moribundo geralmente tinha tempo de presidir osprotocolos que antecediam sua morte, como o de lamento da vida, o perdão doscompanheiros e assistentes, as preces e por último, um ato eclesiástico: a absolviçãosacramental. Não havia demasias emocionais nos ritos fúnebres. Tudo era muito natural,embora fosse solene, para demonstrar mais uma etapa da vida. Assim, relata o autor, “afamiliaridade com a morte era uma forma de aceitação da ordem da natureza, aceitação aomesmo tempo ingênua na vida quotidiana e sábia nas especulações astrológicas” (2003,p.43).
  17. 17. 16 Porém, embora houvesse essa aceitação da morte, os cemitérios eram localizadosfora das cidades; vivos e mortos habitavam locais distantes. Ainda segundo Ariès, os antigosrespeitavam as sepulturas e realizavam cultos funerários a fim de impedir a volta dos mortos.Já na Idade Média, os corpos começaram a ser enterrados nas igrejas e casas foramconstruídas no mesmo espaço dos cemitérios, embora este não fosse um local apenas paraenterrar seus mortos. Eram como asilos ou refúgios que tinham privilégios fiscais edominiais. O cemitério transformou-se num ponto de encontro e de reunião, onde haviacomércio, dança e jogos. Por volta do século XV, a ideia de que havia uma vida além da morte, trouxe umacrença no Juízo Final. O homem não terminaria sua existência com a sua morte; haveria queesperar pelo fim dos tempos, quando então, ele seria julgado. Nesta época, escreve Ariès(2003, p. 50), “Acredita-se, a partir de então, que cada homem revê sua vida inteira nomomento em que morre, de uma só vez. Acredita-se também que sua atitude nesse momentodará à sua biografia seu sentido definitivo, sua conclusão” Logo, morrer não era o fim. Omedo da morte física daquela época era o medo da decomposição do corpo. Essa visão foiretratada na arte e na poesia dos séculos XV e XVI. Ariès continua: “A decomposição é osinal do fracasso do homem, e neste ponto reside, sem dúvida, o sentido do macabro, que fazdesse fracasso um fenômeno novo e original (2003, p.53). A morte era retratada em pinturas,gravuras em madeiras e em livros, às vezes como um cadáver decomposto, às vezes comocarniça. A expressão pública de pesar pela passagem de um ente querido era lembrada peloluto, uma forma de perpetuar a memória daquele que se foi. No século XVI, o luto erarepresentado pela roupa ou por uma cor. O preto tornou-se símbolo dessa fase e não haviamais os gritos e gestos como antes. No fim da Idade Média, o luto tanto servia parademonstrar a dor dos familiares, mesmo que não fosse autêntica, como para se dar certocaráter social à lembrança do morto, com as visitas às famílias, com gestos espontâneos:choros, desmaios, jejuns. Do século XVI ao XVIII, a morte é associada ao amor. Os ocidentais passam aexaltar a morte, a desejá-la e a dramatizá-la. A preocupação nesse período não é com aprópria morte, mas com a morte do outro. Esta preocupação é que inicia o culto aos túmulose cemitérios que aparece a partir do século XIX, como uma forma de perpetuar aslembranças e a existência do outro. O culto aos mortos na atualidade, relata Ariès, é um culto
  18. 18. 17para lembrar a imagem do corpo, a sua aparência. O dia de mortos, comemorado em muitospaíses católicos, leva milhares a pessoas a visitar os túmulos nos cemitérios. Também noséculo XIX, aparece o medo da morte e as suas imagens são cada vez menos vistas. Nesteséculo, o luto passa a ser exagerado, histérico, exemplificado no conto de Mark Twain, TheCalifornian’s Tale, de 1893, onde um viúvo inconformado espera dezenove anos o retornode sua falecida. A morte é recusada no século XX. Poupa-se o moribundo da notícia de seu estado.Roupas escuras não são mais usadas no luto e não há exageros aparentes nos rituais. O lugarde morrer também mudou. Os hospitais passam a ser lugar privilegiado para oacontecimento. As crianças são poupadas desses momentos finais e a morte deixou de ser“anunciada”, devido às mudanças do cotidiano, repleto de violências. A ciência busca, maise mais, meios de prolongar a vida mesmo que isso requeira prolongar a dor. Apesar dessarecusa, os cemitérios estão localizados próximos às casas, mesmo que muitos não se sintamtão à vontade com isso. Em oposição ao modo privado de morrer, traçado por Ariès e descrito aqui, de acordocom Kovács (1992), a morte agora é “escancarada”, noticiada e mostrada livremente nasmídias, apresentadas em novelas e filmes e programas de várias formas, acontecendo emtodos os lugares, nas casas, nas ruas, nas escolas. Por vezes, ela é apresentada na mídiadando a ideia de que a morte é reversível, como em desenhos animados, onde os personagenssempre reaparecem. Ou mesmo a ideia de que a violência é algo natural, pela frequência comque aparece nas telas, com o intuito de entreter e divertir os telespectadores. As causas de morte também mudaram conforme o tempo. No início do século XX,relata Rampazzo (2004), elas eram o resultado de doenças do coração, epidemias e acidentescausados pela natureza. Hoje são muitas as causas, principalmente com o aumento daviolência, das novas doenças como câncer e AIDS, a fome e o suicídio. Contrariando a ética e as doutrinas religiosas, o suicídio, evento não raro em nossasociedade atual, “poderia ser uma manifestação de revolta, a expressão suprema de umaautonomia destruidora que enfrenta o próprio Deus, autor da vida” escreve Rampazzo (2004,p. 197). Esta atitude reflete desespero, insatisfação ou angústias em muitos dos casos desuicídio. O suicídio foi condenado por muitos filósofos, segundo Incontri (2010), dentre elesPlatão, que via esse ato como uma fuga da vida dada por Deus; Para São Tomás de Aquino,
  19. 19. 18o suicídio contraria a lei natural, para Plotino, a alma não se separa totalmente do corpo, oque causa o sofrimento. Schopenhauer acreditava que o suicida na verdade não queriacontinuar a viver a vida que tinha. Sem contar argumentos como o de que era um ato decovardia, de falta de compromisso com a sociedade e também um ato de egoísmo. Falando da morte nos dias de hoje, como resultado do consumismo, o escritorMexicano Octavio Paz (1998) escreve: “Ao mesmo tempo, esta tem sido a época da morte demassas. Neste século de Auschwitz, Hiroshima e Bósnia, ninguém pensa sobre a sua própriamorte, como o poeta alemão Rainer Maria Rilke nos pedia que fizéssemos, já que ninguémvive uma vida que seja só sua.” Neste mesmo pensamento de consumismo, Ziegles, apudTorres (1983, p.11-12), reafirma o que o homem é como mercadoria para o mundo ocidental,agindo como produtor de mercadorias, e se ele deixa de existir, deixa também de produzir ede consumir, se tornando um nada no mundo capitalista.2.2 Filosofando sobre a morte Uma das áreas envolvidas no estudo dos problemas da existência humana é aFilosofia. Por isso, a vida e a morte foram temas relevantes nas discussões filosóficas dosséculos XIX e XX. Conforme Arthur Schopenhauer (1788 – 1860), a morte é a musainspiradora da filosofia. “Dificilmente se teria filosofado sem a morte” (SHOPENHAUER,2000, p. 59). O existencialismo, movimento filosófico e literário do século XIX, emboratenha expressões em Sócrates e Santo Agostinho, advoga a liberdade, a subjetividade e aresponsabilidade do homem por tudo que ele faz. José Renato Salatiel, professor da PUC-SP,define em seu artigo “Existencialismo – O homem está condenado a ser livre”, que“existencialismo é um conjunto de doutrinas filosóficas que tiveram como tema central aanálise do homem em sua relação com o mundo, em oposição a filosofias tradicionais queidealizaram a condição humana”(s/d). Essa corrente teve seguidores célebres como o dinamarquês Sören Kierkegaard, ofrancês Gabriel Marcel, o alemão Karl Jaspers, o filósofo alemão Martin Heidegger, ofilósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre e os escritores franceses Albert Camus e Simonede Beauvoir. Jean-Paul Sartre (1905-1980), escritor, filósofo e dramaturgo francês, acreditava que“a existência precede a essência”, ou conforme explica Salatiel, (s/d) “o homem primeiroexiste no mundo - e depois se realiza, se define por meio de suas ações e pelo que faz com
  20. 20. 19sua vida”. Para os existencialistas como Sartre, o homem é livre para fazer suas escolhas e éresponsável pelo seu destino, não existindo Deus como forma de atribuir sucessos oufracassos. Seguindo esse ponto de vista, ele relaciona o existencialismo ao ateísmo. Porcausa dessa liberdade e toda responsabilidade pelos nossos atos, surgem as angústias queacompanham o nosso viver. Em sua obra O ser e o nada, de 1943, Sartre trata dessaliberdade do homem, da não existência de Deus e do nada. Sartre afirma que vida e mortesão fatos idênticos, com um aspecto ocasional. Tudo acontece em meio ao nada. Da ideia de haver um modo de ser “autêntico” ou “inautêntico”, o filósofo alemãoMartin Heidegger (1889 – 1976), define a existência inautêntica como cotidiana e anônima, ea autêntica “é a de quem reconhece e escolhe a possibilidade mais própria de seu ser”(ZILLES, 1988, p. 16). E a morte é esta possibilidade. O homem é um ser único, emboravivendo numa sociedade de massa, e é a morte que vai dar-lhe este sentido de singularidade.Heidegger enfatiza a angústia do homem face à morte, embora esta seja, para ele, umaliberdade. Em uma das obras desse filósofo, “Ser e Tempo”, Heidegger retrata temas comoo nada, a angústia e a morte. Filosofando com Heidegger, “a morte é, em última instância, apossibilidade da impossibilidade absoluta da presença” (1997, p.32). Com a morte de umente, se experimenta a não-presença e se observa que este deixa de ser um ser-no-mundo. Emesmo que se pudesse substituir essa presença, a tentativa fracassaria, já que ninguém poderetirar a morte do outro. Acrescenta Heidegger que a presença também traz em si um morrerque é fisiológico, que é próprio da vida, e que se pode findar sem significar morrer. Angústia e morte também são estudadas pelo filósofo e psicólogo alemão KarlJaspers (1883-1969): “Tememos a morte. Observe-se, porém, que a morte – o cessar de ser –e o ato de morrer – cujo termo é a morte – provocam angústias muito diversas. [...] Daídecorre a idéia de que estar morto é não ser, de que a morte é o nada”. (JASPERS, 2005,p.128) Jaspers se inclina sobre o temor da morte, o temor da dor física, a angústia que dálugar à agonia da possibilidade da morte, e faz com que um paciente possa dizer que morreuvárias vezes por viver essa experiência. Assim, todos os vivos podem experimentar osofrimento, já que “a morte escapa à experiência” (2005, p.128) explica o autor. Aindasegundo este autor, a Filosofia é a única que consegue livrar o homem da angústia daconcepção de morte como resultado do desaparecimento da vida. A angústia também égerada pela falta de base de uma experiência após a morte. Por não haver provas desse
  21. 21. 20estágio posterior, de haver outra existência, “daí decorre a idéia de que estar morto é não ser,de que morrer é o nada” (2005, p. 128), completa Jaspers. Ao contrário da idéia de salvaçãopela visão cristã, se o defunto não tinha uma crença religiosa, então o morrer não significariauma salvação, apenas se confirmaria o seu fim. Seria então a decomposição do corpo e oesquecimento da sua existência. Mas se havia essa crença, então a necessidade de ressuscitartambém era real, reforçando a ideia do Juízo final. Esse sentido de eternidade desenvolve osentimento de não destruição do homem, e é no sentido de orientar para essa eternidade queJaspers acredita ser a tarefa da Filosofia. Na obra Metafísica do amor, metafísica da morte (2000), O filósofo Schopenhauercomunga com Jaspers a respeito da existência de um sentimento de angústia causado pelamorte, por habitar no homem a vontade de viver. Sendo que a morte é, por natureza, umsinônimo de aniquilação e o homem possui um apego pela vida. Porém, Schopenhauertambém admite que, para aqueles que passam por grandes obstáculos, doenças incuráveis ouprofundos desgostos, a morte vem como um alívio, uma amiga, não mais interpretada comoum grande mal. Mostra-se aí a representação do deus da morte para os hindus, Yama,segundo Schopenhauer, que aparece com um lado da face terrível e outra, alegre e boa.2.3 Morte e outras mortes Apesar dos conceitos e significados já mencionados, a morte não representou sempreum vazio, um deixar de existir ou de ser apenas no fim da vida e com visões negativas, elailustra outros estados e estágios da vida humana, esclarece a doutora em Psicologia Escolar edo Desenvolvimento humano Maria Júlia Kovács (1992, p.2), “Desde o tempo das cavernashá inúmeros registros sobre a morte como perda, ruptura, desintegração, degeneração, mastambém, como fascínio, sedução, uma grande viagem, entrega, descanso ou alívio”. Desde os primeiros meses de vida, relata essa autora, a criança experimentadiferentes tipos de “morte”, como a ausência da mãe, as separações, o sentimento dedesamparo. A morte quando representa a perda, está ligada a sentimento experimentadoentre aqueles que ficaram e aquele que se foi. Há ainda, também de acordo com Kovács (1992, p. 168) as “pequenas mortes”,aquelas em que há uma mudança de estágios como da infância para a adolescência, daadolescência para a fase adulta, da adulta para a velhice. Ela também chama de “pequenas
  22. 22. 21mortes” as mudanças do que é conhecido para situações ou experiências desconhecidascomo mudanças de casa ou de emprego. Ela rotula “mortes simbólicas” o matrimônio, ou onascimento dos filhos, casos em que se vive o desconhecido. Todas essas experiências, porcarregar sentimentos de medo, angústias, solidão, tristezas remetem aos sentimentos demorte. Ainda na infância, a perda de parentes e amigos leva o indivíduo a adquirir conceitosde vida e morte. Esta última aparece de forma reversível, aparecendo para as crianças emdesenhos animados, por exemplo, onde não há realmente um fim, personagens e heróisnunca morrem. Na adolescência, acontece a descoberta do amor e das drogas, elementos que podemtambém levar à morte. O amor tem como seu ponto culminante o orgasmo, também tratadopor essa autora como “pequena morte”. O termo, em francês petit mort, é uma metáfora parao orgasmo, a fadiga experimentada depois do ato sexual, as mudanças ocorridas no corpodurante esse momento. Na literatura, o termo foi usado por Thomas Hardy significando umaexperiência muito marcante na vida da pessoa como uma morte interior, como na passagem:She felt the petite mort at this unexpectedly gruesome information, and left the solitary manbehind her" no livro Tess of the DUrbervilles, 1912. A autora acrescenta que “A droga traz arepresentação da morte ligada às grandes viagens, à percepção diferente do mundo, a umestado alterado de consciência.” (KOVÁCS, 1992, p. 6) Saindo da fase adulta para a velhice, o homem observa grande carga das perdas: afraqueza do corpo, a mudança dos ganhos financeiros, a diminuição ou perda daprodutividade. Isto aumenta o sentimento negativo dessa fase do homem, não existe umapróxima fase a ser vivida, apenas a morte. Além disso, a pessoa idosa deixa de exercer umafunção na sociedade mercantilista e “a sociedade marginaliza indivíduos que deixam de serfuncionais” (TORRES, 1983. p.13).2.4 A morte na literatura A morte também inspira poetas e escritores. Ao longo dos séculos, poemas, contos,romances são frutos deste assunto polêmico e instigante. Por motivos como o tabu, nemsempre a morte pode ser exposta de forma escancarada, podendo ser descrita de formasimbólica, ganhando novos significados, novas imagens. “Ora, a imagem é uma frase em quea pluralidade de significados não desaparece. A imagem recolhe e exalta todos os valores das
  23. 23. 22palavras, sem excluir os significados primários e secundários” (PAZ, 1976, p.45). Aliteratura tem usado desse instrumento para expressar essa pluralidade. A literatura explora, pela ficção, a realidade inegável da subjetividade humana e amorte, elemento que sempre atraiu a imaginação. Usando um jogo com as palavras, VargasLlosa (2007) relata a veracidade do que é escrito como ficção, as verdadeiras intençõescontrastando com as inscrições. O real e o irreal convivendo na mesma história. “De fato, osromances mentem – não podem fazer outra coisa –, porém essa é só uma parte da história. Aoutra é que, mentindo, expressam uma verdade, que somente pode se expressar escondida,disfarçada do que não é.” (VARGAS LLOSA, 2007, p. 12) Portanto, pode-se afirmar que aliteratura, através da ficção, é capaz de discutir uma realidade tão complexa e concretaquanto a morte. Por vezes, o que um autor deseja expressar nem sempre pode ser escrito comfacilidade ou aceitação. A morte, por exemplo, às vezes precisou de um símbolo, algo que arepresentasse sem que seu sentido fosse totalmente ocultado. Nas palavras de Carl Jung, “ohomem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja comunicar. Sualinguagem é cheia de símbolos, mas ele muitas vezes faz uso de sinais ou imagens nãoestreitamente descritivos” (2008, p. 18) Na Idade Média, por exemplo, os textos retratavam amorte, não apenas como um fim de uma vida, mas carregando outras conotações. Textos escritos desde a Idade Média mostram um jogo de palavras e significadosinspirados pela morte. Através dos textos, a sociedade era revelada, juntamente com suastradições: “A morte estabelece o vínculo entre o passado e o futuro e opera de formaestruturante texto e signo sobre a concepção que cada sociedade faz de sua própria tradição”(ZUMTHOR, apud WILLIAMS, 1996, p. 131) Naquela época, estes textos traziam a mortecomo um signo de cunho histórico, sociocultural, psicológico e semiológico. Amor e mortecaminhavam lado a lado, por vezes, indissolúveis. As reflexões sobre esses temas estavamintimamente ligados às manifestações religiosas e não-religiosas daquela época, sendo amorte representada por sua visão física e espiritual. Nas palavras de Williams (1996, p. 132) “A morte pode assim ser entendida comoum signo apoiado no qual o autor pretende influir sobre seu público incisivamente,manipulando ou simplesmente descrevendo”. Williams exemplifica obras ou personagenscomo: Confissões, de Santo Agostinho, Hélinand, Hartman, Maria de França, escritos dacorte em Roman de Thèbes e Roman d’Eneas:
  24. 24. 23 Com relação às idéias sobre o amor e a morte e seus múltiplos reflexos na poesia do século XII, desenvolvem-se textos e temas que determinam a representação e o uso dessas idéias até o final da Idade Média. Ao mesmo tempo, com o florescimento da cultura e da literatura medievais, nasce também o debate crítico com essa cultura, na sua ameaça e condenação severas, por meio de seus próprios conceitos de valor e de seu modo de compreender a si mesma. (WILLIAMS, 1996, p. 132) Williams (1996) assim define as formas de produção de textos e criação de signos naIdade Média: a) a morte como acontecimento histórico – as crônicas retratam a morte semnenhum medo existencial, na Alta Idade Média, os nomes e acontecimentos aparecem semmuitos comentários. Na Baixa Idade Média, o cronista busca os motivos das ocorrências.Morte e coroação significam providência divina. A história do mundo se une à história dasalvação; b) morte como signo sociocultural – a morte de um líder também significa amudança de um sistema cultural, por exemplo; c) a morte como evento psicológico- aparecena poesia, a morte se dá interiormente ou na dor pela falta da pessoa amada; d) a morte comosigno semiológico – a relação semântica e pragmática com outros signos: a relação texto/leitor contrapõe “signo-vida”, o leitor/ouvinte vê a morte apenas como tema e relaciona amorte com diferentes estruturas do mundo, quer sejam mudanças sociais ou outras estruturasdo cotidiano. A representação literária da morte se une a outras formas literárias, como aimagética e a depender do período em que a obra é lida ou do público que a lê, ganha signosdiferentes. “a produção incessante de signos de uma obra depende simplesmente de quantasfunções de signo o texto pode preencher na comunicação com uma série sucessiva degerações de leitores”, acrescenta Williams (1996, p.144). Visando revelar a morte com outras palavras, explica ainda Williams “O códigocultural ‘Morte’ precisa assim de muitos portadores de signos para que a ‘Morte’, em simesma imutável, possa ser representada na arte, na literatura ou também na música”. (1996,p.142) A possibilidade de haver vários signos para representar a morte e o amor dão margempara que ilimitados novos textos sejam produzidos a cada nova leitura, com o passar dasgerações. A morte está presente nas representações físicas e espirituais, nas decadências deestruturas de organização do homem e seu lado místico em estágio de êxtase, dissolvendo osvelhos vínculos sociais e cedendo espaço a outros novos. Os séculos XIV e XV ressaltaram amorte representada de forma apavorante na literatura, escultura e pintura, dominada peloperíodo barroco. Porém, amor e morte andavam lado a lado em obras literárias. E assim “amorte como ameaça, advertência, como separação entre vida e amor e, de um ponto de vista
  25. 25. 24positivo, como promessa de vida eterna e amor puro inspira e estimula a participaçãoengajada do leitor/ouvinte na comunicação literária”. (WILLIAMS, 1996. p. 135). Nos séculos XV e XVI, a morte na poesia é tema descrito em forma de horror à mortefísica e a decomposição do corpo, relata Ariès (2003). Esta decomposição não se davaapenas após a morte, se dava através da doença, da velhice, da corrupção. A decomposiçãosignificava, pois, o fracasso do homem. A arte e a literatura associam a morte ao amor entre os séculos XVI e XVIII e umtom erótico e mórbido envolve textos, danças e dramas desta época. Os apaixonados seencontram em túmulos nas peças em teatros barrocos e a literatura ganha um ar macabro,onde a morte é desejada. Num trecho citado por Ariès, (2003, p.65) sobre uma jovem dafamília La Ferronays, da época romântica, este desejo de morte pode ser notado. Ela assimescrevia: “Morrer é uma recompensa, pois é o céu... A idéia favorita de toda minha vida (demenina) é a morte que sempre me fez sorrir... Jamais alguma coisa fez com que a palavramorte se tornasse lúgubre para mim”. A morte não é apenas uma representação do fim físico,podendo, da mesma forma, ser um fim espiritual. No século XX, a literatura volta a falar sobre a morte. A Sociologia e a Psicologiaredescobrem a morte em seus livros e artigos, como em A Pornografia da Morte de GeoffreyGorer de 1955; The American way of death (O estilo americano da morte) de Jessica Mitfordde 1963, uma coletânea de estudos interdisciplinares onde Antropologia, Arte, Literatura,Medicina, Filosofia, Religião estão presentes na obra The meaning of death (O significadoda morte) de 1959. Ao longo dos séculos, foram muitas as obras que retrataram a morte em suas váriasdimensões: como Odisséia (século VIII a.C.), de Homero; Fédon, de Platão; Antígona (440a.C.), de Sófocles; A Divina Comédia (entre 1310 e 1321), de Dante Alighieri; Ars Moriendi,dos séculos XV e XVI; Romeu e Julieta (1596), de William Shakespeare; Méditations(1820), de Lamartine, o conto The Californian’s Tale (1892) de Mark Twain; O homem e amorte (1948), de Manuel Bandeira; Pavilhão de Cancerosos (1970), de AleksandrSolzhenitsyn. Vencendo as barreiras do tempo e focando diferentes aspectos do viver e do morrer, amorte tem-se mostrado um tema que ainda desperta conturbados sentimentos, mesmo nacoletividade, que cada um exterioriza de maneira singular.
  26. 26. 253. DAS OBRAS3.1 A farewell to arms Realidade e ficção se misturam em A farewell to arms (Adeus às armas) lançado em1929, dez anos depois do fim da I Guerra Mundial. Esta mistura, já comentada por VargasLlosa (2007), permite que o autor mescle fatos vividos aos imaginados. Harold Bloom (2010, p. 22-23) não considera o romance como uma obracompletamente autobiográfica, mas que toma como inspiração muitos elementosautobiográficos. Na realidade, aos 19 anos, Hemingway alista-se na Cruz Vermelha Italianapara trabalhar como motorista de ambulância na I Guerra Mundial. Ferido em combate, ele élevado a um hospital em Milão, onde conhece a enfermeira Agnes von Kurowsky, por quemse apaixona. Na ficção, o americano Frederic Henry se alista na Cruz Vermelha Italianaatuando como motorista de ambulância. Ferido em combate, ele é levado para um hospitalem Milão onde conhece a enfermeira britânica Catherine Barkley, por quem se apaixona.No período em que Hemingway escrevia o livro, sua esposa Pauline teve um partocomplicado. Este é mais um evento que pode ser percebido em sua ficção. Embora esteseventos reais tivessem sido inseridos na ficção, nem sempre tiveram o mesmo final da vidado escritor. A Farewell to Arms é um romance que mostra momentos de guerra, de dorsofrimento, tragédia, mas também um romance de amor e morte, entre 1916 e 1918. Hemingway descreveu assim A farewell to Arms: “o fato de o livro ser trágico nãome tornava infeliz, visto eu pensar que a vida era uma tragédia e sabia que só poderia ter umfinal. ( HEMINGWAY apud BAKER, 1974, p.115). Baker ainda ressalta que “ a publicaçãode Adeus às Armas em livro, a 27 de setembro de 1929, assinalou a posição de Hemingwayno começo, como um dos poucos grandes escritores trágicos da literatura do século XX”(1974, p.115). Embora tivesse atuado na I Guerra Mundial apenas por um mês, quando foi atingidoe enviado para um hospital em Milão, a narrativa de Hemingway tão envolvente em relaçãoao cotidiano e sentimentos dos soldados em A Farewell to Arms recebeu muitos elogios desoldados que realmente participaram da guerra. Neste romance, o personagem central também é o narrador, permitindo ao leitor queele conheça seus pensamentos, emoções, contados por ele mesmo. Hemingway descreve
  27. 27. 26momentos de tensão, dor, morte, e fuga, realidades e detalhes da guerra como quem só quemexperimentou pode revelar. Na visão de Ross Walker (2009), Hemingway conta as verdadesdo resultado da guerra na vida das pessoas e expressa suas ideias e sentimentos através deseus personagens. Deste modo, pode-se supor que em A Farewell to arms ele também expõesua desilusão com a guerra. Analisando a narrativa de Adeus às armas, Baker considera que“projetado em termos realísticos e num tom despreocupado, contando a verdade sobre osefeitos da guerra na vida humana, Adeus às armas é um romance inteiro e até mesmoexclusivamente aceitável como uma narrativa naturalista daquilo que aconteceu.” (1974,p.115).3.1.1 “A farewell to Arms” em poucas palavras O texto, ambientado no período da I Guerra Mundial, apresenta o tenente americanoFrederic Henry, que se alista na Cruz Vermelha Italiana como motorista de ambulânciavoluntário. Ele é apresentado às enfermeiras Catherine Barkley e Helen Ferguson pelomédico tenente Rinaldi. O relacionamento de Frederic e Catherine cresce. Numa ocasião,Frederic e alguns companheiros são atingidos. Frederic é ferido no joelho e na cabeça e umde seus companheiros, Passini, tem as pernas esmagadas e morre. Frederic é levado a umhospital em Milão onde reencontra a enfermeira Catherine Barkley, por quem estáapaixonado. Após um tempo de recuperação, ele volta ao front italiano. Catherine engravida.Frederic quer casar-se, mas ela alega que casando será mandada para seu país. Jordan serecupera e volta ao front. Por desacato a uma ordem sua, Frederic mata um de seus homens.Outro companheiro se entrega a polícia. Frederic é preso, mas consegue escapar pulando norio Tagliamento. É o seu adeus às armas. Vai para Milão e descobre que Catherine não estámais lá, foi enviada a Stresa. Lá ele reencontra Catherine e os dois vivem por algum tempo.Ameaçado de ser preso ele foge com ela de barco para a Suíça durante uma noite chuvosa.Passam o inverno na Suíça, vivendo uma história de amor numa montanha perto deMontreux. Grávida, ela sonha com uma vida de paz ao lado do seu amado e da criança. Naprimavera, eles se mudam para Lausanne, para estarem próximos ao hospital na hora donascimento do bebê. No último capítulo do livro, que analisaremos neste trabalho, Catherinetem um parto complicado e graças a uma cesariana, dá a luz a um menino que vem ao mundojá sem vida e roxo, sufocado pelo cordão umbilical. Catherine morre de hemorragia nomesmo dia. Frederic, se sentindo vazio, nada mais pode fazer, apenas volta sozinho para o
  28. 28. 27hotel onde estavam hospedados, caminhando na chuva.3.1.2 Para entender “A farewell to Arms” Podemos observar que os textos de Hemingway, apesar de uma linguagem simples,carregam muitos símbolos, muitas imagens. Na análise de A farewell to Arms feita porAdam Sexton (2001), o simbolismo da chuva que cobre o céu ameaçadoramente representa apresença da morte. Segundo ele, ela está presente desde o começo da trama, no primeirocapítulo, relembrando a chuva que precedeu a cólera que matou sete mil pessoas naqueleoutono: “The vineyards were thin and barebranched too and all the country wet and brownand dead with the autumn” (p.2). A chuva permeia momentos importantes do livro e segueaté o fim da história de Frederic e Catherine. Um desses momentos é quando os dois estãonum hotel e Catherine revela seu medo de morrer na chuva e que também ele morra. Outromomento é quando os croatas atacam a noite e eles começam a perceber que correm riscosde vida e pareciam estar perdendo a guerra. Chove também quando Frederic parte emretirada com seus companheiros. Depois de escapar pelo rio e reencontrar Catherine, o casalfoge de barco para a suíça na chuva. Carlos Baker (1974) sugere que o autor utiliza oelemento chuva como uma referência à situações de desastres ou desespero. No último capítulo, Frederic observa a chuva que cai na hora da cesariana: “It wasdark but in the light from the window I could see it was raining” (p.169). Está tambémpresente quando a enfermeira lhe informa sobre a morte do bebê: “I could see nothing butthe dark and the rain falling across the light from the window” (p.171). Na última frase dolivro, o símbolo reaparece: “after a while I went out and left the hospital and walked back tothe hotel in the rain” (p.174). Nem todo simbolismo da chuva se refere à negatividade. A chuva também poderepresentar bons sinais. De acordo com Cirlot (1984), a chuva está relacionada com o sentidode fertilização e purificação. Chevalier (1993, p. 235-236) também cita este elemento comoagente de fertilidade não apenas para animais, mas também para as mulheres. Para este autor,a chuva, “aquilo que desce do céu para a terra é também a fertilidade do espírito, a luz, asinfluências espirituais”. Também no texto em estudo, a fertilidade existia. Catherine estavagrávida, uma nova vida surgiria. Outros significados são dados a este mesmo elemento,como a vida nova, renovação. Para o percurso dos personagens, o evento não marcariaapenas a chegada de uma criança, mas o começo de uma nova vida para esta pequena
  29. 29. 28família. No entanto, esta renovação não acontece. Outro elemento recorrente nesses momentos de turbulência é a noite. Para RamaRao (2007, p. 31), a morte representa a noite da vida e Hemingway usa esse elemento combastante habilidade, incluindo a dor e o sofrimento ou físico ou psicológico. Para Cirlot (2001) A noite também simboliza a morte numa visão mais tradicional. Eneste capítulo, noite e chuva aparecem nos dois momentos de morte. Ainda está escuroquando Catherine começa a sentir as dores e eles estão à espera do taxi. “The night was clearand the stars were out” (A noite estava clara e as estrelas tinham saido) (p.232). Começaentão o que deveria ser o fim de um período no ventre para uma nova vida. De uma mortepara uma vida, como explicou Kovács (1992) uma mudança de um estágio de uma vida paraoutro. Já está escuro quando Catherine é levada para sala de cirurgia. “It was dark but in thelight from the window I could see it was raining.” (Estava escuro mas pela luz da janela pudever que estava chovendo) (p.242) A criança já estava sem vida. Frederic utiliza a palavra“dark” quando observa a criança na mão do médico, embora sem saber que ela já estavamorta: “ I saw the little dark face and dark hand, but I did not see him move or hear him cry.(Vi a pequena face e a mão escuras, mas não o vi mover-se ou chorar.(p.243)” E a utilizatambém quando ele o descreve para Catherine: “A boy. He’s long and wide and dark” ( Ummenino. Ele é comprido e grande e roxo) (p.244)” Ainda chove quando Catherine morre.Frederic apaga as luzes do quarto e depois de algum tempo, sai na chuva: “But after I had gotthem out and shut the door and turned off the light it wasn´t any good. It was like sayinggood-by to a statue. After a while I went out and left the hospital and walked back to thehotel in the rain” (Mas depois de colocá-las para fora e fechar a porta e apagar a luz nãomelhorou. Era como dizer adeus a uma estátua) (p.249). Uma sensação de vazio e finitude domina o espaço e o tempo quando a morte vem.Para Frederic o “nada” impede as ações, nada a se fazer, nada a se dizer, nada é tudo quesegue: ‘Outside the room, in the hall, I spoke to the doctor, ‘Is there anything I can do to-night?’ ‘No. There is nothing to do. Can I take you to your hotel?’ ‘No, thank you. I am going to stay here a while.’ ‘I know there is nothing to say. I cannot tell you ______’ ‘No,’ I said. ‘There is nothing to say’ ‘Good-night,’ he Said. ‘I cannot take you to your hotel?’ ‘No, thank you’ ( p.248 ) (“Do lado de fora da sala, no corridor, eu falei com o medico, (Há algo que eu
  30. 30. 29 possa fazer agora a noite?”) (“Não. Não há nada a fazer. Posso levá-lo pro hotel?”) ( “Não, obrigado. Vou ficar aqui um pouco.”) (“ Eu sei que não há nada a dizer. Não posso dizer que …”) (“Não,” eu disse. “Não há nada a dizer.” ( “Boa noite” disse ele. “ Não posso levá-lo ao hotel? (“Não, obrigado.”) Além da guerra, das perdas, das tragédias, outro tema perceptível neste último de “Afarewell to arms” é a angústia. Isto pode ser observado tanto em Catherine quanto emFrederic. As dores de Catherine começam ao amanhecer. A demora pelo nascimento passaser angustiante. As horas passam, as contrações vêm e vão, mas a criança não nasce.Catherine luta para ter o bebê, Frederic vê anunciada a morte de sua amada e sua angústiacomeça. Quando percebe a gravidade da situação ele se pergunta: “And what if she shoulddie? She wont die. People dont die in childbirth nowadays. That was what all husbandsthought. Yes, but what if she should die? She wont die” ( E se ela morrer? Ela não morrerá.(p.239). E depois ele presencia o desespero de Catherine na hora da dor: “I wont die. I wontlet myself die” (p.241). Para alguém acostumado a se deparar com situações de morte porcausa da guerra, esta é uma situação diferente para Frederic. Este é o medo da morte citadopor Jaspers: “Tememos a morte. Observe-se, porém, que a morte – o cessar de ser – e o atode morrer – cujo termo é a morte – provocam angústias muito diversas” (2005, p. 128). Istoporque implica aí a possibilidade de não ter mais a presença do outro, descrita por Heidegger(2001). Frederic teme perder Catherine, pois sua vida se transformaria num “nada”. Ela jánão tem mais forças, está muito fraca. Catherine também se angustia, e o medo da morte também é sentido por ela:“Darling, I won’t die, Will I?” (p.241) (Querido, eu não vou morrer, vou?), mas ela pressenteo desfecho: “Sometimes I know I’m going to die” (p.241) (Às vezes acho que vou morrer). A tarde chega e a criança nasce morta, sufocada. Frederic ainda não sabe da morte dacriança, mas vê o quanto Catherine sofre. A angústia de Frederic aumenta quando ele tomaconhecimento do acontecido com o bebê e que Catherine teve uma hemorragia e tambémcorre risco de morrer. O medo que aconteça com ela o mesmo que aconteceu com a criançatoma conta de Frederic. O retrato do desespero do personagem é demonstrado em forma deoração, embora ele não tivesse uma religião: I knew she was going to die and I prayed thatshe would not. Dont let her die. Oh, God, please dont let her die. Ill do anything for you ifyou wont let her die. Please, please, please, dear God, dont let her die. Dear God, dont let
  31. 31. 30her die. Please, please, please dont let her die. God please make her not die. Ill do anythingyou say if you dont let her die. You took the baby but dont let her die. That was all right butdont let her die. Please, please, dear God, dont let her die” (p.247). (Eu sabia que ela iamorrer e eu rezei para que ela nao morresse. Não a deixe morrer. Oh Deus, por favor não adeixe morrer. Farei qualquer coisa se o Senhor não a deixar morrer. Por favor, por favor, porfavor, Senhor Deus, não a deixe morrer. Senhor Deus, não a deixe morrer. Por favor, porfavor, por favor não a deixe morrer. Senhor, faça com que ela não morra. Farei qualquercoisa que me disser se o Senhor não a deixar morrer. O Senhor levou o bebê mas não a deixemorrer. Tudo bem mas não a deixe morrer. Por favor, por favor, por favor, Senhor Deus,não a deixe morrer). Hemingway introduz mais um símbolo, a cor cinza “gray” anunciando umatransformação de estado, a aproximação de algo ruim. Frederic percebe que a morte seaproxima. O rosto de Catherine revela todo sofrimento: “She looked gray” (p.247)(Catherine estava pálida) E ela sabe que vai morrer: “I’m going to die” (p.247) (Vou morrer). Como na Idade Média, em que era costume que o moribundo se preparasse para amorte, Catherine revela a Frederic seus planos não realizados: “I meant to write you a letterto have if anything happened, but I didn’t do it”(p.247) ( Quis deixar-lhe uma carta se algoacontecesse mas não escrevi). E, mesmo sabendo que ela tem uma religião, Fredericpergunta se ela quer a presença de um padre: “Do you want to me to get a priest or any oneto come and see you?” (p.247) (Quer que eu chame um padre ou alguém para vim vê-la?).Porém ela recusa, diz não estar com medo do final embora não o aceite: “I’m not afraid. Ijust hate it”(p. 247) ( Não estou com medo. Apenas odeio isso). Para Frederic, o cessar de duas vidas findam também o sonho de uma vida longe daguerra e uma vivência em família. Tudo se esvazia e a única atitude que ele tem é a decaminhar sozinho na chuva. Assim, em A Farewell to arms, a morte do herói não é umamorte física, mas toda uma carga de perdas resultantes da guerra, quando fica sem seuscompanheiros em combate, quando deserta para salvar a própria vida e quando perde mulhere filho no parto. Para quem nunca tinha amado e não tinha mesmo intenção de amar,Catherine se tornou a essência da vida de Frederic sua religião e agora nada mais importava.A noite, a morte e o nada foram tudo que restou. O amor em A farewell to arms é uma espécie de jogo, uma escapatória para aquelarealidade cruel e violenta. Mas o amor de Frederic por Catherine que também começou como
  32. 32. 31um jogo, transforma-se numa união onde as almas se encontram e por isso, viver sem elasignifica um “nada”.3.2 A clean well-lighted place Neste capítulo, analisaremos o conto A clean, well-lighted place, no qual Hemingwaytraz questões sobre a vida, o relacionamento humano, a velhice, a solidão, o suicídio e asolidariedade. O conto, escrito em 1933, apresenta como cenário um café. Os personagenssão dois garçons, um de meia idade e o outro, um jovem. Um dos clientes é um homemidoso, surdo, rico e solitário. Não há nomes para a identificação do café ou dos personagens,apenas que os garçons também falam espanhol. Quase não há ação no conto, assim comonem sempre há uma certeza de qual dos garçons está falando, o que causa, às vezes, umaincógnita na sequência das falas.3.2.1 A clean, well-lighted place em poucas palavras Os dois garçons observam o homem que frequenta o café sempre sozinho. Por jáestar na hora de fechar, o garçom mais novo se irrita com a presença do único cliente, porqueele deseja terminar seu dia de trabalho e voltar para sua esposa que o espera em casa. Umdos garçons comenta que o homem tinha tentado suicídio na semana anterior e havia sidosalvo pela sobrinha; não tinha mais esposa e se tornara um solitário. O garçom mais novo serecusa a servir mais uma bebida ao homem, alegando que, além de bêbado, é velho. Para ele,ser velho não é algo bom. Sem ouvir as palavras ofensivas do garçom, o homem paga aconta e se vai. O café é fechado e os dois garçons se prepararam para ir para suas casas. O mais velho comenta a atitude do mais novo em não ter servido mais uma bebida aocliente e também da hora em que fecham o bar, alegando que poderiam ter ficado mais umpouco, pois alguém poderia precisar do café, porque ele é limpo, bem iluminado e protegidopelas folhas das árvores. Então, eles discutem seus pontos de vista em relação à vida. O maisjovem se vangloria por ter tudo: juventude, trabalho e confiança e esses fatores o deixamcom a vontade de ir para casa. O mais velho, assume ter apenas o trabalho, por isso prefereficar até mais tarde no café, pois há a possibilidade de outro cliente aparecer. O garçom maisvelho despede-se do colega de trabalho e se encaminha para um bar, refletindo sobre sua
  33. 33. 32existência, o significado da vida, o significado de Deus, ou a falta deles: tudo é nada! Estepersonagem faz ainda uma paródia com a oração do Pai Nosso usando a palavra “nada”, queaparece em espanhol, em partes estratégicas da oração. Ele entra num bar e pede um copo de“nada”. O garçom pensa que ele é mais um louco. Ele não gosta de bares, bodegas oulugares mal iluminados. Então, vai para casa e espera que amanheça para conseguir dormir.Para ele, é apenas mais uma noite de insônia.3.2.2 Para entender “A clean, well-lighted place” Para o leitor, um conto pode trazer uma trama simples, aparentemente desconectadacom a realidade aparente, mas “a ‘irrealidade’ da literatura fantástica se transforma, para oleitor, em símbolo ou alegoria, quer dizer, na representação das realidades, de experiênciasque se pode identificar na vida.” (VARGAS LLOSA, 2004, p. 14). Estas experiências, notexto de Hemingway são a solidão, o suicídio, a morte. Situações tão corriqueiras e, aomesmo tempo, tão profundas. A solidão, o suicídio, o desespero, a rotina e a percepção deser mais um na multidão são características que apontam para uma visão crítica damodernidade, pois, apesar de todo o progresso alcançado, o homem se tornava apenas maisum na multidão, com poucas relações sociais significativas. O conto reflete a condição humana principalmente quando a velhice chega.Independente de ser rico e limpo, o único cliente do café é velho. A idade avançada é umaetapa crítica da existência humana, por trazer, como já citado por Torres (1983), um leque deexperiências negativas, como as fraquezas do corpo, a diminuição ou perda de produtividade,a certeza de que a próxima fase da vida é a morte. A sociedade aumenta a desvalorização dohomem idoso. No texto, um dos garçons associa a negatividade à idade: “An old man is anasty thing." (Um homem velho é algo nojento) (p. 288), o que evidencia sua impressãopreconceituosa. Do ponto de vista existencialista de Heidegger, o medo do nada, do vazio da vidavivenciados pelo idoso e pelo garçom mais velho é apavorante, desesperador e intimida aexistência. A velhice representa a aproximação da morte, o fim. Embora o garçom mais velho e o idoso rico sofram com a solidão, assim comomuitas pessoas, cada um lida com esta situação de maneira diferente e isolada. Nesseaspecto, os dois compartilham as mesmas angústias. O idoso frequenta o café todas as noitese se embriaga “he’s drunk every night” (Ele está bêbado todas as noites.) (p. 289). O garçom
  34. 34. 33vê nessa lacuna o motivo para manter o café aberto até mais tarde. Ele diz: “Each night I amreluctant to close up because there may be some one who needs the café (p.290)". (A Cadanoite eu reluto em fechar porque pode haver alguém que precise do café). A falta de um sentido real para a vida leva o velho a um desespero, uma angústia,sentimento que só a morte pode resolver. Neste caso, a morte não é percebida como ummonstro, mas como uma salvação, um fim desejado, um alívio, encerrando de vez aspequenas mortes cotidianas, como a solidão, a separação da esposa, o vazio que transforma avida num nada. É este mesmo vazio a razão pela qual o homem vai todas as noites ao café. O suicídio que, segundo Incontri (2010), foi negado por alguns filósofos, mas vistopor Sartre como o ato de liberdade suprema do ser humano, foi discutido pelos garçons. Umdeles acredita que o velho não tinha motivos pra a tentativa de suicídio, já que era rico. Nemmesmo o fato de ser um solitário o faz crer que o velho estivesse num momento de angústia,desespero. O nada também é o motivo dado por um dos garçons para a tentativa de suicídio. "Last week he tried to commit suicide," one waiter said. "Why?" "He was in despair." "What about?" "Nothing." “How do you know it was nothing?” “He has plenty of money.” (p. 288 ) ( “Semana passada ele tentou suicídio,” um garçom falou) ( Por que? ) ( Ele estava desesperado) ( Por causa de que? ) ( Nada ) ( Por que você acha que não foi nada? ) ( Ele tem muito dinheiro.) Este vazio que permeia todo o conto e caracteriza a vida dos homens, a solidão, omotivo para cometer suicídio, se estabelece representado pelas palavras “nothing” queaparece seis vezes, e “nada” que no texto está em espanhol, repete-se 22 vezes. O garçommais velho faz uma paródia com a oração do “Pai Nosso”, revelando sua descrença em Deus:Our nada who art in nada, nada be thy name thy kingdom nada thy will be nada in nada asit is in nada. Give us this nada our daily nada and nada us our nada as we nada our nadasand nada us not into nada but deliver us from nada; pues nada. Hail nothing full of nothing,nothing is with thee” (p.291) (Nada nosso que está no nada, nada seja teu nome assim nonada como no nada. O nada nosso de cada dia nos dai hoje perdoai nosso nada assim como
  35. 35. 34nós nada vossas nadas e não nos deixei cair no nada, para nada; para nada. Salve nadacheia de nada, nada esteja contigo). Este trecho pode nos remeter ao existencialismo e ao ateísmo defendidos por Sartre emistura a fé católica dos espanhóis com a falta de fé de um solitário. O garçom mais velhoconsidera vazia a existência humana: “It was all a nothing and a man was a nothing too.”(p.291) ( Tudo era um nada e um homem era um nada também). Usando símbolos para camuflar ou transportar algumas de suas verdades,Hemingway utiliza dois elementos: a luz e a noite. Autores como Dominik Gerhard (2008) eRama Rao (2007, p. 31) demonstram que esses elementos podem ser vistos como algo quedá sentido à existência, a luz; e a noite, como a falta desse sentido. O café é um lugar bemiluminado, e há a sombra das folhas das árvores também, e isso é tudo que alguém precisapara espantar o vazio da solidão. O garçom mais velho sabe disso, ele argumenta com o maisnovo: “you do not understand. This is a clean and pleasant café. It is well-lighted. the light isvery good and also, now, there are shadows of the leaves” (p.290). (“Você não entende. Estecafé é limpo e agradável. É bem iluminado. A luz é muito boa e também, agora, há a sombradas folhas.”) E reafirma essa necessidade quando dialoga consigo mesmo na saída dotrabalho: “it was only that and light was all it needed and a certain cleanness and order” (p.291). (Era só isso e a luz era tudo que precisava e uma certa limpeza e ordem). Novamente, o personagem divaga no final do conto, quando sai do bar: “a clean well-lighted café was a different thing” (p.291). (Um café limpo e bem iluminado era algodiferente). Para este garçom, a noite dá lugar ao nada, à solidão, por isso ele tem insônia eespera a luz do dia chegar para afugentar o nada e ele possa dormir: “he would lie in the bedand finally, with daylight, he would go to sleep” (p. 291). (ele deitaria em sua cama efinalmente, com a luz do dia, iria dormir). Ele tem a consciência de que ele não é o único quesofre desse sentimento, pois diz a si mesmo: “it is probably only insomnia. Many must haveit” (p. 291) (provavelmente é só insônia. Muitos devem tê-la). Embora o suicídio por causa da solidão seja o foco desta obra, A clean well-lightedplace também ressalta um lado positivo deste “nada”, analisa Jeffrey Berman (1999, p.112),a solidariedade. É este o sentimento que move o garçom mais velho a permanecer por maistempo no trabalho, para se aliar a outros solitários que buscam a luz, mesmo que temporária,para fugir da morte ou dos indícios de sua proximidade. Ele teme por outros que vivem omesmo dilema e sabe quão importante é um lugar limpo, iluminado e organizado, um lugar
  36. 36. 35onde os solitários possam ter um pouco de dignidade. A trama também enfatiza o tempo. Não apenas por causa do horário já tardio danoite, quase três horas da manhã, mas também da idade dos dois personagens. Que se vêemenvolvidos por um “nada” que corrói as alegrias e esperanças do cotidiano. A velhice nãotem próxima etapa. A velhice que, mesmo sendo vida, transforma-se numa morte lenta eirreversível.3.3 For whom the bell tolls Aparentemente um enunciado isolado, o título desta obra faz referência a um trechode uma obra do poeta inglês John Donne (1572 – 1631). A escolha do título e a colocaçãodo trecho do poeta como epígrafe do livro apontam para o tema, que é a morte como eventoinevitável para todo ser humano. No man is an Iland, entire of it selfe; every man is a peece of the Continent, a part of the maine; if a Clod bee washed away by the Sea, Europe is the lesse, as well as if a Promotorie were, as well as if a Manor of thy friends or if thine owne were; any mans death diminishes me because I am involved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. (JOHN DONNE, apud HEMINGWAY, 1979, epígrafe)1 O contexto da escrita do livro nos explica mais sobre esse tema. Em 1937,Hemingway viajou para a Espanha como correspondente para o jornal North AmericanNewspaper Alliance para cobrir a Guerra Civil Espanhola, iniciada um ano antes. Por tervivenciado fatos marcantes do cotidiano de combatentes e da vida das pessoas naqueleperíodo, pôde coletar elementos daquela realidade para escrever seu próximo livro. Oromance foi publicado em 1940 e é mais uma trama que mostra os horrores da guerra.Hemingway mostra as atrocidades cometidas tanto pelos Fascistas quanto pelosRepublicanos. A condição humana e as ações por vezes indesejadas e cruéis que as pessoaspraticam a ponto de ter que matar para não morrer fazem parte dessa história. De acordo comLaPrade ( 2007, p. 32), em For whom the bell tolls, uma das intenções de Hemingway erapassar para os americanos a herança da cultura espanhola e também fazê-los entender mais1 “Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do CONTINENTE, uma parte da terra; seum TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA fica diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO , comose fôsse o SOLAR de teus AMIGOS ou TEU PRÓPRIO, a morte de qualquer homem me diminui, porque souparte do GÊNERO HUMANO, e por isso não perguntes por quem os sinos dobram; êles dobram por TI”Tradução de Monteiro Lobato, 1958
  37. 37. 36aprofundadamente sobre aquela guerra. Este romance é considerado um gênero épico, segundo Baker, pois possui: um ambiente primitivo, comida simples e vinho, o cuidado e o uso das armas, o sentido de perigo eminente, a ênfase na proeza masculina, a presença de vários graus de coragem e covardia, os cruéis barbarismos de ambos os lados, a operação de certas superstições religiosas e mágicas, os códigos éticos dos guerreiros – estes por certo, são elos comuns entre os dois grupos de protagonistas. (BAKER,1974, p.267) Toda história se passa em três dias do mês de março de 1937. Mas é tempo suficientepara Hemingway fazer um recorte de vários aspectos da vida humana. O romance é umahistória de amor, de costumes, de tradições, de encontro de culturas, de política e de história.3.3.1 For whom the Bell tolls em poucas palavras O romance pode ser assim resumido: Robert Jordan, um americano, professor deespanhol, se junta aos guerrilheiros republicanos na Guerra Civil Espanhola e recebe a tarefade explodir uma ponte controlada pelos Fascistas. Anselmo é quem leva Jordan para ocampo de guerrilha onde eles encontram Pablo, o líder do acampamento. Jordan éhostilmente recebido por Pablo. O americano passa a desconfiar da lealdade dele, temendoque ele traia ou mesmo sabote a missão. Nesse acampamento Jordan conhece também osoutros integrantes do bando: Pilar, mulher de Pablo, Rafael, Agustín, Fernando, Primitivo,Andrés e Eladio. Há também uma jovem que foi violentada pelos Fascistas, de nome Maria,por quem Jordan se apaixona. Eles se tornam próximos e vivem momentos de amor no meiodessa turbulência. Pablo discorda da idéia do bando explodir a ponte e se recusa a ajudá-lo.Os Fascistas descobrem os planos dos Republicanos de destruir a ponte e Jordan decidecancelar a ofensiva. Na manhã planejada para a explosão, Pilar conta a Jordan que Pablotinha fugido com alguns explosivos que seriam usados na missão. Jordan fica enfurecido eresolve levar o plano adiante. Pablo se arrepende e volta trazendo consigo cinco homens dobando. Jordan faz amor com Maria e se despede dela. Pilar e Pablo levam Maria. Jordan eAnselmo seguem para montar os explosivos. Mesmo sem concordar com a ideia de matar,Anselmo atira numa sentinela para que tenham chance de chegar até a ponte. Pilar se junta aJordan e anuncia que Eladio foi morto na guerrilha e Fernando ficou seriamente ferido. Naexplosão da ponte, Anselmo morre atingido pelos estilhaços. Na retirada, os Fascistasacertam o cavalo de Jordan que cai por cima dele, quebrando sua perna. Impossibilitado decaminhar, ele decide ficar e pede que os outros continuem seus caminhos. Ele mais uma vez
  38. 38. 37se despede de Maria, jurando amor eterno e pede que ela leve o amor dele para onde ela for esó assim esse amor sobreviverá. A dor o faz delirar e questionar-se entre o suicídio ousobrevivência para derrubar os inimigos. Jordan fica a espera dos Fascistas.3.3.2 Para entender For whom the Bell tolls Pelo fato da trama acontecer num período de guerra, a iminência da morte é algoesperado e muito marcante em todo o enredo. Mesmo assim, a vida se realiza em suaplenitude, com intensidade e luta. Robert Jordan, o personagem central, sente essa plenitude:“I have fought for what I believed in for a year now” (Eu lutei por aquilo que acreditei poruno ano). Segundo Baker (1974, p. 274) “[...] a idéia de que uma consciência da morte darámais profundidade aos acontecimentos da vida é apenas um dos temas familiares deHemingway em Por quem os sinos dobram”. Outros temas como, o viver em comunidade,homens sem mulheres, pai e filho, já que em alguns momentos Jordan relembra o pai quecometeu suicídio, e a figura do lar, aqui representado simbolicamente pela Espanha, emcontraste com a guerra, também são abordados na trama. De acordo com Tyler (2001, p.121), em vários trechos há alusão às passagens e temasbíblicos, como o nome do herói Jordan, relembrando o Rio Jordão onde Cristo foi batizado;quando Jordan pede a Maria para enxugar seus pés com seus cabelos, como fez MariaMadalena com Cristo; a comparação da guerra com uma cruzada ou uma guerra santa; osentimento de participação de Jordan na guerra como a celebração da Primeira Comunhão; aprática das orações que os personagens faziam; a traição de Pablo como Judas também traiuJesus; o próprio sacrifício de Jordan pelos companheiros como Jesus fez pela humanidade.Rama Rao (2007) comunga com esta análise. Para ele, a figura de Maria, da obra, representaa Virgem Maria, que é violentada, assim como está sendo a Espanha. Este autor acrescenta acomparação das humilhações e atrocidades sofridas por Maria, em ser amarrada e violentada,com a crucificação de Jesus. E também a recuperação de Maria em três dias estariarelacionada com a ressurreição de Cristo no terceiro dia O misticismo também está presente, como quando Jordan observa as duas sentinelasque cospem no rio, e ele também pensa em fazer o mesmo, porém desiste: “I wonder if thatis superstition? Robert Jordan thought. I’ll have to take me a spit in that gorge too. If I canspit by then. It can’t be very powerful medicine” (p. 378). (Será que isso é uma superstição?Robert Jordan pensou. Terei que cuspir nessa torrente também. Se no momento eu conseguir
  39. 39. 38cuspir. Não deve ser um remédio muito poderoso). Outro momento é quando Pilar lê a mãode Jordan e vê sua morte. Tal sentimento, especialmente no personagem Jordan, aponta paraa expectativa sempre presente da morte, para um encontro com o mundo da eternidade, quepode acontecer a qualquer momento. A presença de imagens simbólicas realça a riqueza da construção do autor americano,quando as palavras ou as verdades não podem ou não querem ser ditas abertamente, comoressalta Vargas Llosa (2007). Desse modo, podem-se perceber muitos outros eventos epersonalidades da história representados nesta obra, constituindo uma grande redeintertextual com obras da tradição. A ponte, por exemplo, missão dirigida a Jordan para ser explodida, na análise deLaPrade (2007, p.46), relembra a Guerra Civil Romana na Espanha entre César e Pompeuem 46 – 45 A.C., pelo controle da ponte sobre o Rio Baetis. Hoje, este rio é chamado deGuadalquivir, em Córdoba. Outra menção é da batalha de 509 A.C., quando Horáciodefendeu Roma contra os ataques dos Etruscos sobre a ponte do Rio Tibre. A destruição da ponte, conforme Rama Rao (2007, p.56), sugere um novo começo,uma outra forma de união partindo da separação. Por causa dessa ponte, Jordan luta, e é nadestruição desta que ele se separa de Maria, que é forçada a aceitar uma vida sem ele. Esteepisódio dá início à figura de Jordan como mártir, sacrificando-se por seu ideal e por seuamor. Ainda retratando os significados que a ponte carrega, segundo Ishteyaque Shams(2002, p. 85) esta traz o sentido de liberdade, a esperança do futuro da raça humana. Elarelata que a palavra “bridge” (ponte) aparece 294 vezes neste livro, destas, 110 são usadas noúltimo capítulo, o que marca, para o leitor, a imagem da ponte como algo central no enredo. A trama toda se passa em três dias. Este número, para LaPrade (2007, p. 34) estárelacionado a três mil anos de história e de civilização que a guerra civil tenta destruir. Aoque indica Hemingway buscou também preservar a história e a cultura espanhola. Tambémtrês vezes Jordan e Maria fazem amor. Em cada um desses encontros, eles dizem ver a terrase mover. Porém Pilar afirma que essa experiência só se vive três vezes durante toda a vida,o que também apontaria para o fim da vida para um deles. Durante a leitura, é possível perceber que a morte aparece em vários momentos noromance. Não se pode esperar muito quando se está numa guerra. Republicanos e Fascistasperdem seus homens. Amigos e inimigos se vão, a vida dura pouco. Jordan viu e matou
  40. 40. 39também, assim como seus companheiros, mesmo que esse não fosse o seu desejo. Mas amorte não aparece apenas como um fim. Esta assume outras formas. Maria presencia a mortedos pais pelos Fascistas, e também é estuprada. Traumatizada, ela não fala e chora muito.Pablo trai Jordan e o romance de Jordan e Maria se sente vazia com a morte de Jordan.Violência, traição, separação também se configuram em morte pela carga emocionalnegativa que deixa. No último capítulo, após a explosão da ponte e com a perna quebrada, sentindomuitas dores e sabendo que os inimigos não tardariam, Jordan pede a Pablo e Pilar quelevem Maria com eles e o deixem ali. As palavras dele para Maria são uma bela revelação deamor, um amor que, para os personagens, nem uma guerra com toda atrocidade poderiavencer. Ele já não os considera duas pessoas, mas apenas uma, vivendo no corpo dela: “wewill not go to Madrid now but I go always with thee wherever thou goest” (p.405) (Nãoiremos a Madri agora mas eu sempre irei com você onde quer que você vá) e depois “as longas there is one of us there is both of us. Do you understand?”(p.405) (Enquanto um de nósexistir, nós dois existiremos). Maria diz ser difícil ter que abandoná-lo ali “what about me?It’s worse for me to go” (p.405) ( e eu? É mais difícil pra mim ter que ir), mas ele explica:“It’s harder for thee. But I am thee also now” (p.405) (É mais difícil pra você. Mas eu souvocê agora). Jordan reafirma essa cumplicidade: “you are me now” (p.406) (você agora éeu). E depois de muitos pedidos para que ela se vá, ele diz não querer despedidas: “there isno goodbye, guapa, because we are not apart”. (p.406) (Sem despedidas, guapa, porque nãoestamos nos separando). Embora ela estivesse relutante, ele queria que ela entendesse queesse amor só continuaria a existir se um deles existisse também e, por isso, ela precisavaseguir. Se ela ficasse, então os dois morreriam e o amor morreria junto. Aqui a morte sedisfarça de rompimento, de separação. Morre o que ama, mas não o amor. A pluralidade de significados de uma mesma palavra, já retratada por Paz (1976)acontece comumente na construção literária. Numa análise de LaPrade (2007, p.50) Jordan eMaria se referem ao ato sexual como uma pequena morte, significado contido na palavraorgasmo em francês, “petit morte”, já mencionado anteriormente. Em determinados momentos, a morte aparece não como algo arrebatador e infamecomo quando os pais de Maria são cruelmente mortos, mas como solução, um alívio numasituação de sofrimento ou de desespero, como quando Agustín, embora abalado e sem quererdeixar Jordan sozinho, se oferece para dar-lhe um tiro de misericórdia, considerando ser algo
  41. 41. 40natural: “do you want me to shoot thee, inglés? [...] Quieres? It is nothing? (p.407) (vocêquer que eu atire, inglês? [...] Quer? Não custa nada) Mas ele recusa, pensa ainda haver umachance de fazer algo: acabar como o Tenente Berrendo. Ficando ali, ele pode ocupar o tempodos inimigos facilitando a fuga de sua amada e seus companheiros. Depois que estes se vão, Jordan sente-se mais aliviado para morrer ali. Ele não sejulga forte o suficiente para aguentar as dores: “I think I’m not awfully good at pain” (p.411)(Acho que não sou muito bom de aguentar a dor). E começa um diálogo para justificar ocerto e o errado em sua decisão de se matar: “listen, if I do that now you wouldn’tmisunderstand, would you?”(p.411) (ouça, se eu fizer isso agora você não interpretar errado,vai?). E se pergunta com ele estaria conversando. Ele pensa no avô: “Grandfather, I guess.No, nobody” (p. 411) ( Vovô, eu acho. Não, ninguém). Jordan não aceita o suicídio de seupai, por achar esta atitude uma covardia. Esses questionamentos remetem à vida pessoal deHemingway, em não aceitar o suicídio do pai em 1928. Berman (1999, p. 109) revela estaconsideração. Segundo ele, Hemingway não conseguia lidar com este evento e não queriacometer a mesma atitude do pai, embora esse monstro o tivesse acompanhado na vida e naobra até concretizar sua morte em 1961. Os devaneios de Jordan continuam: “so why wouldn’t it be all right to just do it nowand then the whole thing would be over with?(p.411) ( então , por que não seria certo fazerisso logo e acabar com tudo de uma vez?) Mas o pensamento nos inimigos tão próximos e achance de ainda vencer um deles o faz recuar: “no, it isn’t. Because there is something youcan do yet” (p.411) (não, não é. Porque ainda há algo que você pode fazer). As doresaumentam e ele tenta pensar em algo que o faça suportar até a chegada dos Fascistas: “thinkabout Montana. I can’t. Think about Madrid. I can’t. Think about a cool drink of water. Allright”(p.411) (pense em Montana. Não posso. Pense num copo d’água gelada. Isso) Ecompara o desfecho com esse copo de água: “that’s what it will be like. Like a cool drink ofwater” (p.411-412) (É como vai ser. Como um copo d’água gelada). E reflete que tudo podenão ser assim, por isso a vontade de suicidar-se volta: “then do it. Do it. Do it now. It’s allright to do it now. Go on and do it now” (p.412) (então atire. Atire agora. Sem problemasatirar agora. Vamos, faça isso agora), mas decide por fim esperar “no, you have to wait”(p.412) (não, você tem que esperar). Ele ouve os homens chegando cada vez mais perto.Hemingway deixa para o leitor a tarefa de finalizar o romance. Se Jordan consegue atingir otenente ou se é morto por ele não fica claro. A certeza é que, na última sentença do romance,
  42. 42. 41Jordan ainda está vivo: “He could feel his heart beating against the pine needle floor of theForest” (p.413) (Ele podia sentir seu coração bater contra o chão de agulhas de pinheiros dafloresta). O romance For whom the Bell tolls começa e termina com uma mesma reflexão: ohomem como um ser coletivo. Assim como na epígrafe de John Donne, na qual ele comparao homem como um continente, e não como uma ilha, a morte de Jordan no último capítulonão retrata apenas o seu fim como um ser isolado, mas seu sacrifício pelos companheiros,pelos seus ideais, por uma comunidade. A morte aqui é, acima de tudo, uma questãohumanitária.

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