Saúde na mídia                                                                  Brasília, 09 de outubro de 2011
                                                                                                    O Globo/BR
                                                                              Organismos Internacionais | OMS



                    Trânsito ainda mata muito no país
                                                   OPINIÃO
O Código de Trânsito Brasileiro dotou o país de uma       não for revertida, mesmo com a redução de danos ob-
legislação bem mais rigorosa para punir abusos dos        tida com o CTB e a Lei Seca, estima-se que o número
motoristas. Por sua vez, a Lei Seca, com as blitzes pa-   de mortes no trânsito continue aumentando a uma ta-
ra reprimir a mistura de álcool e direção, uma das        xa de 4% ao ano, com 150 mil óbitos e 500 mil feridos
maiores causas de tragédias nas vias brasileiras, me-     até 2014, um custo ao país de R$140 bilhões em res-
lhorou visivelmente as estatísticas de acidentes. Um      gate, tratamento de feridos e perda de produtividade
balanço do Ministérios da Saúde dava conta, ano pas-      das vítimas.
sado, de que o cerco a irresponsáveis que dirigem sob
efeito de bebidas alcoólicas resultou, desde a vi-        A constatação de que os índices de mortalidade no
gência da lei, em 2008, numa redução de 6,2% da taxa      trânsito têm sido significativamente engordados pe-
de óbitos em todo o território nacional (no Rio de Ja-    las vítimas de acidentes com motos, como mostrou O
neiro, o estado mais bem-sucedido nessa política, a       GLOBO semana passada, apenas aumenta a gra-
queda dos índices de morte chegou a 32%).                 vidade do problema. No geral, as tragédias no trân-
                                                          sito têm causas bem identificadas - fiscalização falha
São números positivos, mas não o suficiente para que      que enfraquece a legislação, por mais dura que seja a
se dê por vencida a luta por um trânsito em que a quan-   lei; ruas e estradas mal pavimentadas e com si-
tidade de tragédias seja menos vergonhosa. Pelo con-      nalização deficiente, e, indiretamente, o aumento da
trário. Acidentes com veículos ainda matam muita          frota de veículos (motos, inclusive) em circulação no
gente nas nossas vias. O Brasil é o quinto país com       país. Registre-se ainda um fator que, se não contribui
mais mortes no trânsito, diz a Organização Mun-           diretamente com a morbidez estatística, dá bem a me-
dial de Saúde, com um índice de óbitos três vezes         dida dainsuficiente importânciacom queo temaétra-
maior do que o considerado aceitável pela OMS. São        tado institucionalmente pelo poder público: o
18,3 mortes por cem mil habitantes a cada ano, contra     trânsito não está representado no primeiro escalão fe-
médias inferiores a seis em países dentro do padrão       deral. O Departamento Nacional de Trânsito
do organismo.                                             (Denatran), órgão máximo do setor, ocupa o quinto
                                                          escalão da hierarquia de Brasília.(Mas que não se in-
Mais: levantamento da seguradora que administra o         vente um Ministério do Trânsito!)
DPVAT, o seguro obrigatório para o licenciamento
de veículos, registra que 160 pessoas morrem todo         Há, portanto, muito o que mudar em termos de po-
dia no trânsito brasileiro. É um número que im-           lítica pública para o trânsito e de comportamento dos
pressiona - e que se torna apavorante se comparado        motoristas para reduzir as tragédias que a cada ano
ao total de civis mortos por dia no Iraque em 2006 (77    atingem milhares de famílias do país.
pessoas) e 2007 (68), o biênio de maior violência no
país após a invasão americana, em 2003. O drama vi-       ______
vido pelas famílias diretamente envolvidas nessa
carnificina é imensurável. Mas a fatura que fica es-      O índice de óbitos nas vias brasileiras é três vezes
petada na conta da sociedade é concreta: se essa curva    maior que o aceito pela OMS




Saúde na mídia                                                                                             pg.1

Trânsito ainda mata muito no país

  • 1.
    Saúde na mídia Brasília, 09 de outubro de 2011 O Globo/BR Organismos Internacionais | OMS Trânsito ainda mata muito no país OPINIÃO O Código de Trânsito Brasileiro dotou o país de uma não for revertida, mesmo com a redução de danos ob- legislação bem mais rigorosa para punir abusos dos tida com o CTB e a Lei Seca, estima-se que o número motoristas. Por sua vez, a Lei Seca, com as blitzes pa- de mortes no trânsito continue aumentando a uma ta- ra reprimir a mistura de álcool e direção, uma das xa de 4% ao ano, com 150 mil óbitos e 500 mil feridos maiores causas de tragédias nas vias brasileiras, me- até 2014, um custo ao país de R$140 bilhões em res- lhorou visivelmente as estatísticas de acidentes. Um gate, tratamento de feridos e perda de produtividade balanço do Ministérios da Saúde dava conta, ano pas- das vítimas. sado, de que o cerco a irresponsáveis que dirigem sob efeito de bebidas alcoólicas resultou, desde a vi- A constatação de que os índices de mortalidade no gência da lei, em 2008, numa redução de 6,2% da taxa trânsito têm sido significativamente engordados pe- de óbitos em todo o território nacional (no Rio de Ja- las vítimas de acidentes com motos, como mostrou O neiro, o estado mais bem-sucedido nessa política, a GLOBO semana passada, apenas aumenta a gra- queda dos índices de morte chegou a 32%). vidade do problema. No geral, as tragédias no trân- sito têm causas bem identificadas - fiscalização falha São números positivos, mas não o suficiente para que que enfraquece a legislação, por mais dura que seja a se dê por vencida a luta por um trânsito em que a quan- lei; ruas e estradas mal pavimentadas e com si- tidade de tragédias seja menos vergonhosa. Pelo con- nalização deficiente, e, indiretamente, o aumento da trário. Acidentes com veículos ainda matam muita frota de veículos (motos, inclusive) em circulação no gente nas nossas vias. O Brasil é o quinto país com país. Registre-se ainda um fator que, se não contribui mais mortes no trânsito, diz a Organização Mun- diretamente com a morbidez estatística, dá bem a me- dial de Saúde, com um índice de óbitos três vezes dida dainsuficiente importânciacom queo temaétra- maior do que o considerado aceitável pela OMS. São tado institucionalmente pelo poder público: o 18,3 mortes por cem mil habitantes a cada ano, contra trânsito não está representado no primeiro escalão fe- médias inferiores a seis em países dentro do padrão deral. O Departamento Nacional de Trânsito do organismo. (Denatran), órgão máximo do setor, ocupa o quinto escalão da hierarquia de Brasília.(Mas que não se in- Mais: levantamento da seguradora que administra o vente um Ministério do Trânsito!) DPVAT, o seguro obrigatório para o licenciamento de veículos, registra que 160 pessoas morrem todo Há, portanto, muito o que mudar em termos de po- dia no trânsito brasileiro. É um número que im- lítica pública para o trânsito e de comportamento dos pressiona - e que se torna apavorante se comparado motoristas para reduzir as tragédias que a cada ano ao total de civis mortos por dia no Iraque em 2006 (77 atingem milhares de famílias do país. pessoas) e 2007 (68), o biênio de maior violência no país após a invasão americana, em 2003. O drama vi- ______ vido pelas famílias diretamente envolvidas nessa carnificina é imensurável. Mas a fatura que fica es- O índice de óbitos nas vias brasileiras é três vezes petada na conta da sociedade é concreta: se essa curva maior que o aceito pela OMS Saúde na mídia pg.1