BARROCO (1601-1768) JOÃO MARCOS LITERATURA
 
 
 
 
 
 
 
A Sagrada Família Michelângelo
Alegoria da Primavera  Sandro Boticcelli
 
 
 
Beata Ludovica  Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)
 
 
Gregório de Matos e Guerra (Salvador BA 1636 - Recife PE 1696).   Estudou com padres jesuítas, em Salvador, no final da década de 1640. Em Coimbra, Portugal, formou-se em Direito, em 1661. Voltando ao Brasil no início da década de 1680, foi desembargador e tesoureiro-mor, em Salvador, e acabou destituído de seus cargos eclesiásticos pela recusa de receber ordens sacras e usar batina. Autor de composições satíricas e improvisos repletos de críticas pessoais, sociais e políticas, Gregório de Matos acabou envolvido em intrigas e perseguições, pela irreverência de suas sátiras. Seus poemas circulavam em manuscritos ou eram transmitidos oralmente; o poeta não publicou livros em vida. Em 1694, desentendimentos políticos lhe custam o degredo para Luanda, Angola. Um ano depois, retornaria ao Brasil, como recompensa por ter defendido Portugal em conflitos coloniais. Um dos maiores nomes de nossa poesia barroca, Gregório de Matos ficou conhecido como ?boca-do-inferno? por seus poemas satíricos, obscenos, maledicentes. Mas também tematizou o amor idealizado, o temor divino e a reflexão moral, em versos influenciados pela poesia de Gôngora e Quevedo.   
 
 
POESIA SACRA  Estou, Senhor, da vossa mão tocado,  E este toque em flagelo desmentido Era à vossa justiça tão devido,  Quão merecido foi do meu pecado. Menos sentido estou, do que admirado,  Mais admirado o digo, que sentido,  Pois vós contra um nonada enfurecido  Tendes tão forte braço levantado. Quando o Hebreu clemência vos pedia,  De metal vos mostrava uma serpente,  Demonstração de que outra o afligia: Eu pois, que vos quisera ver clemente,  Não vos mostro em metal minha agonia,  Mostro a minha pobreza realmente.
PONDERA O POETA A FRAGILIDADE HUMANA Na oração, que desaterra ................................ aterra Quer Deus, que, a quem está o cuidado.......... dado Pregue, que a vida é emprestado .................... estado Mistérios mil, que desenterra ........................... enterra. Quem não cuida de si, que é terra.................... erra Que o alto Rei por afamado ............................. amado, E quem lhe assiste ao desvelado...................... lado Da morte ao ar não desaferra........................... aferra. Quem do mundo a mortal loucura..................... cura, A vontade de Deus sagrada ............................. agrada, Firmar-lhe a vida em atadura............................ dura. Ó voz zelosa, que dobrada .............................. brada, Já sei, que a flor da formosura .........................usura Será no fim desta jornada ................................ nada.
Poesia Amorosa Ardor em coração firme nascido! Pranto por belos olhos derramado! Incêndio em mares de água disfarçado! Rio de neve em fogo convertido! Tu, que um peito abrasas escondido, Tu, que em um rosto corres desatado, Quando fogo em cristais aprisionado, Quando cristal em chamas derretido. Se és fogo como passas brandamente? Se és neve, como queimas com porfia? Mas ai! que andou Amor em ti prudente. Pois para temperar a tirania, Como quis, que aqui fosse a neve ardente, Permitiu, parecesse a chama fria.
Poesia Cultista O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga, que é parte, sendo todo. Em todo o Sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em partes todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo.
Poesia Filosófica Carregado de mim ando no mundo, E o grande peso embarga-me as passadas, Que como ando por vias desusadas, Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo. O remédio será seguir o imundo Caminho, onde dos mais vejo as pisadas, Que as bestas andam juntas mais ornadas, Do que anda só o engenho mais profundo. Não é fácil viver entre os insanos, Erra, quem presumir, que sabe tudo, Se o atalho não soube dos seus danos. O prudente varão há de ser mudo, Que é melhor neste mundo o mar de enganos Ser louco cos demais, que ser sisudo.
Provo a conjetura já prontamente como um brinco: Bahia tem letras cinco  que são B-A-H-I-A: logo ninguém me dirá  que dous ff chega a ter,  pois nenhum contém sequer,  salvo se em boa verdade  são os ff da cidade  um furtar, outro foder. De dous ffse compõe esta cidade a meu ver um furtar, outro foder. Recopilou-se o direito,  e quem o recopilou  com dous ff o explicou  por estar feito, e bem feito: por bem Digesto, e Colheito  só com dous ff o expõe,  e assim quem os olhos põe  no trato, que aqui se encerra,  há de dizer, que esta terra  De dous ff se compõe. Se de dous ff composta  está a nossa Bahia,  errada a ortografia  a grande dano está   posta: eu quero fazer aposta,  e quero um tostão perder,  que isso a há de preverter,  se o  furtar  e o  foder  bem  não são os ff que tem  Esta cidade a meu ver. Poesia Satírica
EPÍLOGOS Que falta nesta cidade?... Verdade Que mais por sua desonra?... Honra Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Numa cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio. Quem causa tal perdição? ... Ambição. E o maior desta loucura? ... Usura.  Notável desaventura De um povo néscio e sandeu, Que não sabe que o perdeu Negócio, ambição, usura.
Quem são seus doces objetos?... Pretos. Tem outros bem mais maciços?... Mestiços. Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos. Dou ao demo os insensatos, Dou ao demo a gente asnal, Que estima por cabedal Pretos, mestiços, mulatos.  E que justiça a resguarda?... Bastarda É grátis distribuída?... Vendida Que tem, que a todos assusta?... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça, Que anda a justiça na praça Bastarda, vendida, injusta.
E nos frades há manqueiras?... Freiras. Em que se ocupam os serões?... Sermões. Não se ocupam em disputas?... Putas. Com palavras dissolutas Me concluís na verdade, Que as lidas todas de um frade São freiras, sermões e putas. O açúcar já se acabou? ... Baixou. E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu. Logo já convalesceu? ... Morreu. À Bahia aconteceu O que a um doente acontece, Cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, subiu e morreu.
A Câmara  não acode? ... Não pode. Pois não tem todo o poder? ... Não quer. É que o governo a convence? ... Não vence. Quem haverá que tal pense, Que uma Câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, não vence.
Gregório de Matos e Guerra  Pica-Flor  A uma freira que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor". Se Pica-Flor me chamais, Pica-Flor aceito ser, Mas resta agora saber, Se no nome que me dais, Metei a flor que guardais No passarinho melhor! Se me dais este favor, Sendo só de mim o Pica, E o mais vosso, claro fica, Que fico então Pica-Flor.
—  O ilustre senador é um sem-vergonha! —  O quê?! Vossa Excelência é que é safado!  E os dois parlamentares, no Senado,  disputam palavrão que descomponha. Um grita que o colega usa maconha.  Responde este que aquele outro é viado.  Até que alguém aparte, em alto brado  anima-se a sessão que era enfadonha. Inútil tentativa, a da bancada,  de a tempo separar o par briguento: aos tapas, se engalfinham por um nada... Imagem sem pudor do Parlamento,  são ambos mais sinceros que quem brada: —  Da pecha de larápio me inocento! Glauco Mattoso
Mais se desmoraliza, mais provoca o verso do pornógrafo, que, alheio a toda restrição, diz nome feio de toda gente, em tudo quanto toca. Assunto proibido ou só fofoca, não há tema que não seja sujeito a ter seu ponto fraco ou seu defeito exposto em calão sádico ou masoca. Poeta fescenino que se preza jamais desprezaria ocasião de enxovalhar quem mata, rouba e lesa! Por isso é que o político ao ladrão se iguala: se assassino é quem mais reza, mais santo é quem verseja em palavrão! Glauco Mattoso
Legal é ver político morrendo de câncer, quer na próstata ou no reto, e, pra que meu prazer seja completo, tenha um tumor na língua como adendo. Se for ministro, então, não me arrependo de ser-lhe muito mais que um desafeto, rogar-lhe morte igual à que um inseto na mão da molecada vai sofrendo. Mas o melhor de tudo é o presidente ser desmoralizado na risada por quem faz poesia como a gente. Ele nos fode a cada canetada, mas eu, usando só o poder da mente, espeto-lhe o loló com minha espada. Glauco Mattoso
 
Prosa Conceptista do Padre Antônio Vieira Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de  três princípios:  ou da parte do  pregador , ou da parte do  ouvinte , ou da parte de  Deus . Para uma alma se converter por meio de um sermão, há de haver  três concursos:  há de concorrer o pregador com a  doutrina , persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o  entendimento , percebendo; há de concorrer Deus com a  graça , alumiando. Para um   homem se ver a si mesmo, são necessárias  três coisas:   olhos ,  espelho e luz . Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho.  O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem   concorre com os olhos, que é o conhecimento.  Ora suposto que   a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles havemos de entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. [...] Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito não é por parte dos ouvintes. Provo.  Os ouvintes, ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito.  [...] a palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras não frutificou, mas nasceu até nas pedras.  Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E por quê? — Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica.  [...]
Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra . [...] [...] E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que,  apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza, nasce nas pedras . Sermão da Sexagésima Um dos mais importantes de Vieira
 
O secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ganhou o prêmio Pés pelas Mãos, instituído pela Campanha do Inglês Direto (defende a fala e a escrita dotadas de clareza e condena todo e qualquer besteirol). Eis a pérola de Rumsfeld: "Relatórios confirmando que uma coisa não aconteceu sempre me interessam porque, como se sabe, existem coisas sabidas que se sabe, há coisas que sabemos que sabemos. Também se sabe que existem coisas desconhecidas de que sabemos, quer dizer que sabemos que existem algumas coisas que não sabemos. Mas também existem coisas desconhecidas que não conhecemos, aquelas que não sabemos que não sabemos."
Um brinde à volta do Pasquim. À volta das boas saca- das e da inteligência. Às novas piadas na era das clo- nagens. A todos esses caras que gostam mesmo é de criticar as besteiras do showbiz e a politicagem vaga- bunda. Um brinde, Ziraldo. Você sabe que está bro- tando uma nova geração, que não ficará de cabeça bai- xa. E quem diz isso não somos nós, mas uma bela mul- tidão de fãs, que pelo riso e pela gozação faz até passe- ata. Gente que te conhece. Boa sorte. Só não deixe cair a peteca. Esse bom humor, é coisa que ninguém ensina. Achou o anúncio meio careta, né? Então,experimente ler somente as linhas destacadas
 
 
ISTO É UM ESPANTO!

Slides Barroco

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    BARROCO (1601-1768) JOÃOMARCOS LITERATURA
  • 2.
  • 3.
  • 4.
  • 5.
  • 6.
  • 7.
  • 8.
  • 9.
    A Sagrada FamíliaMichelângelo
  • 10.
    Alegoria da Primavera Sandro Boticcelli
  • 11.
  • 12.
  • 13.
  • 14.
    Beata Ludovica Gian Lorenzo Bernini (1598-1680)
  • 15.
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    Gregório de Matose Guerra (Salvador BA 1636 - Recife PE 1696). Estudou com padres jesuítas, em Salvador, no final da década de 1640. Em Coimbra, Portugal, formou-se em Direito, em 1661. Voltando ao Brasil no início da década de 1680, foi desembargador e tesoureiro-mor, em Salvador, e acabou destituído de seus cargos eclesiásticos pela recusa de receber ordens sacras e usar batina. Autor de composições satíricas e improvisos repletos de críticas pessoais, sociais e políticas, Gregório de Matos acabou envolvido em intrigas e perseguições, pela irreverência de suas sátiras. Seus poemas circulavam em manuscritos ou eram transmitidos oralmente; o poeta não publicou livros em vida. Em 1694, desentendimentos políticos lhe custam o degredo para Luanda, Angola. Um ano depois, retornaria ao Brasil, como recompensa por ter defendido Portugal em conflitos coloniais. Um dos maiores nomes de nossa poesia barroca, Gregório de Matos ficou conhecido como ?boca-do-inferno? por seus poemas satíricos, obscenos, maledicentes. Mas também tematizou o amor idealizado, o temor divino e a reflexão moral, em versos influenciados pela poesia de Gôngora e Quevedo.  
  • 18.
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    POESIA SACRA Estou, Senhor, da vossa mão tocado, E este toque em flagelo desmentido Era à vossa justiça tão devido, Quão merecido foi do meu pecado. Menos sentido estou, do que admirado, Mais admirado o digo, que sentido, Pois vós contra um nonada enfurecido Tendes tão forte braço levantado. Quando o Hebreu clemência vos pedia, De metal vos mostrava uma serpente, Demonstração de que outra o afligia: Eu pois, que vos quisera ver clemente, Não vos mostro em metal minha agonia, Mostro a minha pobreza realmente.
  • 21.
    PONDERA O POETAA FRAGILIDADE HUMANA Na oração, que desaterra ................................ aterra Quer Deus, que, a quem está o cuidado.......... dado Pregue, que a vida é emprestado .................... estado Mistérios mil, que desenterra ........................... enterra. Quem não cuida de si, que é terra.................... erra Que o alto Rei por afamado ............................. amado, E quem lhe assiste ao desvelado...................... lado Da morte ao ar não desaferra........................... aferra. Quem do mundo a mortal loucura..................... cura, A vontade de Deus sagrada ............................. agrada, Firmar-lhe a vida em atadura............................ dura. Ó voz zelosa, que dobrada .............................. brada, Já sei, que a flor da formosura .........................usura Será no fim desta jornada ................................ nada.
  • 22.
    Poesia Amorosa Ardorem coração firme nascido! Pranto por belos olhos derramado! Incêndio em mares de água disfarçado! Rio de neve em fogo convertido! Tu, que um peito abrasas escondido, Tu, que em um rosto corres desatado, Quando fogo em cristais aprisionado, Quando cristal em chamas derretido. Se és fogo como passas brandamente? Se és neve, como queimas com porfia? Mas ai! que andou Amor em ti prudente. Pois para temperar a tirania, Como quis, que aqui fosse a neve ardente, Permitiu, parecesse a chama fria.
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    Poesia Cultista Otodo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga, que é parte, sendo todo. Em todo o Sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em partes todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo.
  • 24.
    Poesia Filosófica Carregadode mim ando no mundo, E o grande peso embarga-me as passadas, Que como ando por vias desusadas, Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo. O remédio será seguir o imundo Caminho, onde dos mais vejo as pisadas, Que as bestas andam juntas mais ornadas, Do que anda só o engenho mais profundo. Não é fácil viver entre os insanos, Erra, quem presumir, que sabe tudo, Se o atalho não soube dos seus danos. O prudente varão há de ser mudo, Que é melhor neste mundo o mar de enganos Ser louco cos demais, que ser sisudo.
  • 25.
    Provo a conjeturajá prontamente como um brinco: Bahia tem letras cinco que são B-A-H-I-A: logo ninguém me dirá que dous ff chega a ter, pois nenhum contém sequer, salvo se em boa verdade são os ff da cidade um furtar, outro foder. De dous ffse compõe esta cidade a meu ver um furtar, outro foder. Recopilou-se o direito, e quem o recopilou com dous ff o explicou por estar feito, e bem feito: por bem Digesto, e Colheito só com dous ff o expõe, e assim quem os olhos põe no trato, que aqui se encerra, há de dizer, que esta terra De dous ff se compõe. Se de dous ff composta está a nossa Bahia, errada a ortografia a grande dano está posta: eu quero fazer aposta, e quero um tostão perder, que isso a há de preverter, se o furtar e o foder bem não são os ff que tem Esta cidade a meu ver. Poesia Satírica
  • 26.
    EPÍLOGOS Que faltanesta cidade?... Verdade Que mais por sua desonra?... Honra Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Numa cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio. Quem causa tal perdição? ... Ambição. E o maior desta loucura? ... Usura. Notável desaventura De um povo néscio e sandeu, Que não sabe que o perdeu Negócio, ambição, usura.
  • 27.
    Quem são seusdoces objetos?... Pretos. Tem outros bem mais maciços?... Mestiços. Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos. Dou ao demo os insensatos, Dou ao demo a gente asnal, Que estima por cabedal Pretos, mestiços, mulatos. E que justiça a resguarda?... Bastarda É grátis distribuída?... Vendida Que tem, que a todos assusta?... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça, Que anda a justiça na praça Bastarda, vendida, injusta.
  • 28.
    E nos fradeshá manqueiras?... Freiras. Em que se ocupam os serões?... Sermões. Não se ocupam em disputas?... Putas. Com palavras dissolutas Me concluís na verdade, Que as lidas todas de um frade São freiras, sermões e putas. O açúcar já se acabou? ... Baixou. E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu. Logo já convalesceu? ... Morreu. À Bahia aconteceu O que a um doente acontece, Cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, subiu e morreu.
  • 29.
    A Câmara não acode? ... Não pode. Pois não tem todo o poder? ... Não quer. É que o governo a convence? ... Não vence. Quem haverá que tal pense, Que uma Câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, não vence.
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    Gregório de Matose Guerra Pica-Flor A uma freira que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor". Se Pica-Flor me chamais, Pica-Flor aceito ser, Mas resta agora saber, Se no nome que me dais, Metei a flor que guardais No passarinho melhor! Se me dais este favor, Sendo só de mim o Pica, E o mais vosso, claro fica, Que fico então Pica-Flor.
  • 31.
    — Oilustre senador é um sem-vergonha! — O quê?! Vossa Excelência é que é safado! E os dois parlamentares, no Senado, disputam palavrão que descomponha. Um grita que o colega usa maconha. Responde este que aquele outro é viado. Até que alguém aparte, em alto brado anima-se a sessão que era enfadonha. Inútil tentativa, a da bancada, de a tempo separar o par briguento: aos tapas, se engalfinham por um nada... Imagem sem pudor do Parlamento, são ambos mais sinceros que quem brada: — Da pecha de larápio me inocento! Glauco Mattoso
  • 32.
    Mais se desmoraliza,mais provoca o verso do pornógrafo, que, alheio a toda restrição, diz nome feio de toda gente, em tudo quanto toca. Assunto proibido ou só fofoca, não há tema que não seja sujeito a ter seu ponto fraco ou seu defeito exposto em calão sádico ou masoca. Poeta fescenino que se preza jamais desprezaria ocasião de enxovalhar quem mata, rouba e lesa! Por isso é que o político ao ladrão se iguala: se assassino é quem mais reza, mais santo é quem verseja em palavrão! Glauco Mattoso
  • 33.
    Legal é verpolítico morrendo de câncer, quer na próstata ou no reto, e, pra que meu prazer seja completo, tenha um tumor na língua como adendo. Se for ministro, então, não me arrependo de ser-lhe muito mais que um desafeto, rogar-lhe morte igual à que um inseto na mão da molecada vai sofrendo. Mas o melhor de tudo é o presidente ser desmoralizado na risada por quem faz poesia como a gente. Ele nos fode a cada canetada, mas eu, usando só o poder da mente, espeto-lhe o loló com minha espada. Glauco Mattoso
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  • 35.
    Prosa Conceptista doPadre Antônio Vieira Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador , ou da parte do ouvinte , ou da parte de Deus . Para uma alma se converter por meio de um sermão, há de haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina , persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o entendimento , percebendo; há de concorrer Deus com a graça , alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos , espelho e luz . Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles havemos de entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
  • 36.
    Primeiramente, por partede Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. [...] Sendo, pois, certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito não é por parte dos ouvintes. Provo. Os ouvintes, ou são maus ou são bons; se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. [...] a palavra de Deus é tão fecunda, que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos. E por quê? — Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galantarias, a avaliar pensamentos, e às vezes também a picar a quem os não pica. [...]
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    Mas os devontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra . [...] [...] E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que, apesar da agudeza, nasce nos espinhos, e apesar da dureza, nasce nas pedras . Sermão da Sexagésima Um dos mais importantes de Vieira
  • 38.
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    O secretário deDefesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ganhou o prêmio Pés pelas Mãos, instituído pela Campanha do Inglês Direto (defende a fala e a escrita dotadas de clareza e condena todo e qualquer besteirol). Eis a pérola de Rumsfeld: "Relatórios confirmando que uma coisa não aconteceu sempre me interessam porque, como se sabe, existem coisas sabidas que se sabe, há coisas que sabemos que sabemos. Também se sabe que existem coisas desconhecidas de que sabemos, quer dizer que sabemos que existem algumas coisas que não sabemos. Mas também existem coisas desconhecidas que não conhecemos, aquelas que não sabemos que não sabemos."
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    Um brinde àvolta do Pasquim. À volta das boas saca- das e da inteligência. Às novas piadas na era das clo- nagens. A todos esses caras que gostam mesmo é de criticar as besteiras do showbiz e a politicagem vaga- bunda. Um brinde, Ziraldo. Você sabe que está bro- tando uma nova geração, que não ficará de cabeça bai- xa. E quem diz isso não somos nós, mas uma bela mul- tidão de fãs, que pelo riso e pela gozação faz até passe- ata. Gente que te conhece. Boa sorte. Só não deixe cair a peteca. Esse bom humor, é coisa que ninguém ensina. Achou o anúncio meio careta, né? Então,experimente ler somente as linhas destacadas
  • 41.
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    ISTO É UMESPANTO!