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    Morte, acontecimento e redes sociais: das raízes da cultura à
                        Amy Winehouse

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Resumo: O artigo propõe reflexão sobre a morte como acontecimento jornalístico que agora
transita para um fluxo em rede por conta das redes sociais. Parte-se de postulados sobre a morte
na constituição da cultura formulados na perspectiva sistêmica de Edgar Morin e na semiótica
da cultura de Ivan Bystrina e na sua configuração como acontecimento fulcral. Sua migração
para o jornalismo e redes sociais é analisada através das postagens no twitter relativas à morte
da cantora inglesa Amy Winehause. Entende-se que a ferramenta atualiza a noção de jornalismo
como conversação contemporânea da sociedade proposta pela Escola de Munique no século
passado. As postagens passam a compor a narrativa jornalística do acontecimento alterando sua
própria dinâmica desconstruindo e reiterando sentidos sobre a morte.


Palavras-chave: acontecimento; redes sociais; internet; webjornalismo; morte



       1. Introdução
          A partir de várias perspectivas teóricas (MORIN: 1986, QUERÉ: 2005, DE-
LEUZE: 1998, FOCAULT: 1984) o acontecimento é compreendido como uma singula-
ridade. Seja porque ele inaugura todo um processo de sentido (encarnando o próprio
sentido, que sempre escapa, como quer Deleuze, 1998) ou mesmo porque com sua e-
mergência mundos constituem-se, o que une estas perspectivas é a ideia de que o irrom-
per do acontecimento produz a ruptura de uma continuidade. Ao mesmo tempo ele pos-
sui a força propulsora da semiose (HENN, 2010) que se engendra nos complexos pro-
cessos de representação e interpretação em que sua pujança de sentido vai se acomo-
dando. Desta forma, o acontecimento desdobra-se na tensão fulcral entre o singular e o

1
 Professor pesquisador do Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, RS.
Pesquisa produção de acontecimento no âmbito da rede a partir de temas como xenofobia e homofobia. É
autor de Pauta e Notícia (Canoas: Ulbra, 1996) e Os Fluxos da Notícia (São Leopoldo: Unisinos, 2002)
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geral, aquilo que não é e o devir, a qualidade em toda sua positividade e a legislação, a
mais radical atualidade e a história: o acontecimento participa da ativação da memória.
Entende-se que vida e morte estariam no ápice desta tensão acontecimental.
          Morin (1986) enfatiza que só há leis gerais no universo porque ele é singular, o
que implica que sua origem e sua originalidade constituem determinações. São leis que
dependem não só das características singulares do universo, mas também da natureza
destas interações e das condições em que se operam. Nessa concepção, toda a lei depen-
de, num determinado sentido, da eventualidade, do acontecimento: “o encontro é aleató-
rio, o efeito é necessário” (MORIN, 1986, p. 77). Como desdobramento do processo,
funda-se a ordem mais complexa conhecida, a ordem biológica. E há nisso um posicio-
namento epistemológico profundo que implica na própria processualidade do conheci-
mento:
                                                            Este universo nascente nasce como acontecimento, e gera-se em
                                                         cascatas de acontecimentos. O acontecimento, triplamente excomun-
                                                         gado pela ciência clássica (por ser simultaneamente singular, aleató-
                                                         rio e concreto), torna a entrar pela porta cósmica, visto que o mundo
                                                         nasce como acontecimento. Não é o nascimento que é acontecimento,
                                                         é o acontecimento que é nascimento, no sentido em que, concebido
                                                         no seu sentido mais forte, é acidente, ruptura, catástrofe... A partir
                                                         daqui, podemos conceber que o devir cósmico seja cascatas de acon-
                                                         tecimentos, acidentes, rupturas, morfogêneses. E este caráter repercu-
                                                         te-se em todas as coisas organizadas, astros, átomo, ser vivo, que tem
                                                         na sua origem e no seu fim, algo de eventual. Mais ainda, dos subso-
                                                         los da microfísica até às enormes abóbadas do cosmo, todo o elemen-
                                                         to pode aparcer-nos, doravante, também, como acontecimento. Donde
                                                         a necessidade do princípio de complexidade que, em vez de excluir o
                                                         acontecimento, o inclui e nos leva a olhar os acontecimentos da nossa
                                                         escala terrestre, viva e humana, aos quais uma ciência antieventual
                                                         nos torna cegos. (MORIN, 1986: 94)


          2. Raízes do acontecimento
          Se entendermos a origem do universo como uma singularidade máxima que con-
centra a mais intensa das caoticidades e suas potencialidades negoentrópicas, o tempo
desencadeia-se no e pelo acontecimento: o tempo de devir que é absolutamente comple-
xo e sincrético. Os múltiplos planos de organização do universo e sua complexa diver-
sidade age no ser vivo: “todo o ser humano traz consigo o tempo do acontecimen-
to/acidente/catástrofe (o nascimento e a morte), o tempo da desintegração (a senilidade
que, via morte, conduz à decomposição), o tempo da reiteração (a repetição cotidiana e
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sazonal dos ciclos e ritmos e atividades), o tempo da estabilização” (MORIN, 1986: 86).
A morte é o acontecimento que une o irreversível e o tempo complexo (MORIN, 1970),
complexidade que atinge contornos de grande sofisticação na medida em que o humano
semiotiza-se.
          As capacidades semióticas desenvolvidas pela espécie humana intensificaram a
complexidade do mundo biofísico. Provavelmente a partir da consciência da morte, da
morte como acontecimento, que toda a trama constitutiva das linguagens e da cultura
passa a se desenvolver. Morin (1975) lembra que os túmulos mais antigos que conhe-
cemos são os neanderthaleses que indiciam algo muito distinto do que a simples prote-
ção para a decomposição: o morto está numa posição fetal com os ossos pintados e uma
série de utensílios fazendo-lhe companhia. Essas descobertas apontam não só para a
irrupção da morte na vida humana mas também para modificações antropológicas que
permitiram e provocaram essa irrupção (MORIN, 1975: 94).
          A morte não é só reconhecida como fato, como a reconhecem os demais animais,
nem só ressentida como perda, mas também é concebida como a transformação de um
estado em outro: ela transforma-se em acontecimento em torno do qual a cultura consti-
tui-se. “Tudo no indica que a consciência da morte que emerge no sapiens é constituída
pela interação de uma mente objetiva que reconhece a mortalidade e de uma consciência
subjetiva que afirma se não a imortalidade pelo menos a transmortalidade” (MORIN,
1975: 95). Os ritos de morte tomada agora como acontecimento fazem frente ao terror
provocado pela ideia do nada: nasce a projeção do duplo e com ele a própria natureza do
signo, ou seja, algo que ocupa o lugar de uma outra coisa.
          Esta realidade da sociedade humana aponta para boa parte de coisas que estão para
algo distinto e requerem interpretação, quer dizer, de signos que possibilitam a interpre-
tação. “Onde faltam os signos, nós imaginamos o nada e, onde parece haver o nada, no
apressamos em colocar um signo de ordem” sentenciava sabiamente Harry Pross (1980:
14). “Isso serve tanto para a socialização da criança como para a da humanidade”. O
princípio de organização através do qual as linguagens articulam-se passa a impor uma
espécie de coação na medida em que as ordens e os consequentes focos de poder advêm
da resposta humana à ameaça do nada. Através dos signos reconhecemos como se com-
portam entre si distâncias, os intervalos e as classes sociais em que nos movemos.
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          Nobert Elias (1998) entende que a vida dos primeiros homens teria sido insuportá-
vel caso eles não desenvolvessem a capacidade de compensar seu desconhecimento com
fantasias cuja carga afetiva refletia a insegurança de sua situação, a incerteza do seu
acervo de conhecimento (BAITELLO JÚNIOR, 1997) . Eles estavam envolvidos de-
mais para encarar acontecimentos da natureza como observadores distanciados. Trata-
se daquilo que Ivan Bystrina (1995) chama de segunda realidade.
          A primeira realidade é a realidade bio-física, que coloca para o ser humano uma
séire de exigências em termos de sobrevivência. Gera um déficit, um stress terrível. As
prórpiras exigências de permanência da espécie humana exigiram formas novas de
socialização, de proteção e com o cérebro maior, consiguimos processar e criar novas
informações, novos códigos. O ser humano despreende-se da primeira realidade criando
a segunda realidade como desdobramento inevitável. Nesta realidde eminentemente
humana, noológica, simbólica, completamente sígnica, o homem tenta superar no mito,
na magia nos ritos, certas determinações terríveis da primeira ralidade. sobretudo à
morte (BYSTRINA, 1995).
          Na medida em que a segunda realidade possui um caráter sígnico, ela se ordena
como linguagem e obedece a certos princípios e regras. Desta forma, a cultura possui
seus códigos e funciona de acordo com eles. Códigos esses que vão reger nossas
práticas comunicativas e culturais até hoje.
          É nesse sentido que postulamos aqui a idéia de morte como acontecimento, tanto
pelo seu assombramento, quanto pela dinâmica inaugural de práticas semióticas que
desencadeiam os processos culturais. A cultura vai ser um sistema muito bem
organizado, de caráter simbólico, mas que necessita de condições bio-físicas para
existir. A cultura vai fazer um investimento simbólico nas línguas naturais, criando
significados múltiplos ao ponto de amalgamá-las. E a cultura passa a gerar diversas
coisas como mitologias, narrativas que dão conta dessas mitologias, regras de
comportamento ou conduta social, ideologias, religiões, práticas políticas e também
práticas de lazer.
          A cultura tem o poder de se diverssificar porque ela é um sistema aberto, mesmo
com todo o seu rigor de organização interna. Sociedades diferentes vão se constituindo,
tribos, nações, e com elas a cultura vai sofrendo variações, especificidades, mesmo
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mantendo certos matizes básicos. Porque ela é multirelacional e inesgotável. Se a
cultura fica presa a códigos muitos rígidos, ela se torna fóssil, pode morrer. Também
pode se constituir como intrumento de domínio.
          A cultura nasce percebendo polos assimétricos, mas nasce também inconformada
com eles. Vida e morte constituem a oposição mais inexorável (BYSTRINA, 1995).
Como a espécie humana não consegue resolver essas assimetrias na natureza, nas
estruturas da ralidade, ela desenvolve ações simbólicas. A morte vira vida eterna, o
trovão vira Deus, a tempestade purificação. O homem, diferentemente dos outros
animais, espera a morte, sabe a morte que vai acontecer com ele e os semelhantes.
Sabendo, ele espera e na medida em que espera, pauta-se para ela. Conhecendo sua
força limitada, vê-se impotente diante da natureza pelo fato de ser sempre derrotado
pela morte (BAITELLO JÚNIOR, 1997).


          2. Morte como acontecimento jornalístico em rede
          Incrustrada na própria constituição da cultura é quase natural que a morte
converta-se em acontecimento jornalístico altamente valorizado. Seja como resultado de
tragédias, de crimes aterradores ou envolvendo personalidade pública, a morte sempre
encontra espaço nas coberturas jornalísticas e ganha, via de regra, muito destaque. Há
diversas ênfases no noticiário de morte que vai do impacto, suas consequências e a uma
exumação pública e excessiva. Quando o protagonista da morte faz parte do mundos dos
espetáculos, essa ênfase agiganta-se produzindo uma espécie de mitologia às avessas em
que o personagem aos mesmo tempo é colocado em patamar que o distingue dos
humanos e no limbo das desconstruções mais sórdidas.
          A morte da cantora inglesa Amy Winehouse no dia 23 de julho de 2011 foi
processada pelo jornalismo com todas essas ênfases. Com vida atribulada por conta de
excessos, sua performance pública já fazia a festa dos tablóides britânicos. Encontrada
morta aos 27 anos, idade em que muitos ídolos da música pop partiram “fora do
combinado”, um mixto de consternação e dissecação emergiu deste acontecimento
fulcral. Só que a notícia de sua morte ingressou nesse novo processo de semiose
instalado pelas redes sociais: a participação coletiva na construção de sentidos
encontrou agora uma materialidade exuberante.
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           As redes sociais não só introduziram ao longo dos anos 2000 novas formas de so-
ciabilidade como também de produção e circulação de informação. Em convergência
com plataformas móveis, como celulares, smartphones e tablets, essas redes protagoni-
zaram nos últimos anos a formatação de acontecimentos como os protestos da oposição
nas eleições do Irã em 20092 e a recente renúncia do ditador Ben Ali da Tunísia em
2010 (RECUERO e ZAGO, 2011). As eleições do presidente dos Estados Unidos Ba-
rack Obama em 2008 teve também uma presença significativa da web. No Brasil, após a
confirmação da vitória da presidente Dilma Rousseff no pleito de 2010, manifestações
anti nordestinos proliferaram-se pelo twitter acompanhadas de reações de intensidade
maior. Uma estudante de direito em São Paulo, que postou mensagem xenófoba agres-
siva gerou forte repúdio e acabou demitida de estágio que cumpria em importante escri-
tório de advocacia3. Em maio de 2011, um protesto na forma de churrasco no bairro
Higienópolis de São Paulo, contra manifestações preconceituosas de moradores contrá-
rios a instalação da estação de metrô, foi todo organizado pela rede4.
          Com as redes sociais processo de produção e circulação de notícia hoje está dis-
seminado. A notícia não precisa necessariamente freqüentar o ambiente chancelado o
lugar institucional da notícia. E o jornalismo em base de dados possibilita a apuração de
informações sem a mediação do jornalismo convencional. E são nessas operações que
se percebem as mudanças mais profundas.
          O jornalismo tradicional se vê compelido a se apropriar destas plataformas e fer-
ramentas, seja num processo de convergência, seja no do estabelecimento de novos pa-
drões. Mas tem que lidar com essa forte dose de imprevisibilidade. O jornalismo, tradi-
cionalmente vinculado ao presente, mas ainda atrelado ao tempo do evento, do processo
produtivo e do receptor (FRANCISCATO, 2005) vive agora uma espécie de exaspera-
ção da instantaneidade e da proliferação simultânea do acontecimento em rede. As redes
comunicacionais digitais móveis de acesso translocal, como os telefones celulares, os

2
 Matéria do New York Times reproduzida na UOL em 16 de junho informava que “no Twitter, as repor-
tagens e links para fotos de uma marcha pacífica em massa por Teerã na segunda-feira (15), juntamente
com relatos de combates nas ruas e vítimas por todo o país, se tornaram o assunto mais popular no serviço
em todo o mundo, segundo as estatísticas publicadas pelo Twitter”
http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2009/06/16/ult34u223320.jhtm
3
    Conforme notícia publicada em O Globo em 01/11/2011 http://glo.bo/9uCfSa
4
    Conforme IG em 11/05/2011 http://bit.ly/mxC5Ob
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wireless computers e as conexões sem fio adensam a vivência do “tempo real” pelo jor-
nalismo (COSTA, 2003) a partir de espaços híbridos.
          Se por um lado, há todo um fluxo libertário, anárquico, colaborativo, numa nova
possibilidade de jornalismo, há, por outro problemas sérios como o da credibilidade da
informação, precisão, proliferação de boatos. Mas o fenômeno mais perceptível é o da
repercussão da informação, que se dá de forma estonteante. A construção da opinião
pública, grande trunfo de uma imprensa de ideais modernos e iluministas, saiu total-
mente do controle. Esta é a cena de uma crise que está gerando muitas questões que
estão sendo investigadas.
          Os casos recentes de acontecimentos que emergem da web revelam desdobramen-
tos de semiose5 que atendem à outra lógica de produção de informação jornalística a
partir da própria instituição do acontecimento. As rotinas de produção tradicionais exi-
biam nexo ordenado entre pauta, apuração, relação com fontes, redação, edição e dia-
gramação. Essas instâncias interpretantes seguiam trajetória de cunho linear na qual a
relação signo (notícia) e objeto (acontecimento) desdobrava-se ao longo da cadeia pro-
dutiva e culminava no deadline imposto. Havia, neste contexto, um predomínio da refe-
rencialidade que migrava, via operações produtivas, ora para as lógicas simbólicas de
convenção dos códigos jornalísticos, ora para as lógicas icônicas de sedução, sobretudo
pelas imagens.
          Com relação ao acontecimento em rede, em primeiro lugar, já se tem um aconte-
cimento de natureza essencialmente sígnica, logo já articulado nas tramas simbólicas do
que Peirce (2002) chama de terceridade. Isso porque é a partir de sua construção no am-
biente da rede que o acontecimento se institui. É na web que o acontecimento se produz
independente do fato de ele poder se referir a uma realidade exterior. Os episódios só se
transformam em acontecimento por conta desta mediação. Em segundo, as lógicas de
5
  Semiose está sendo empregada aqui no sentido oferecido pela Teoria Geral dos Signos de C. S. Peirce
(2002). Em primeiro lugar, o signo é pensado de forma triádica e só existe enquanto tal a partir de um
processo relacional das três dimensões envolvidas: signo, objeto e interpretante. Em segundo, se o inter-
pretante é um novo signo acionado neste processo, e sua geração configura-se como potencialmente infi-
nita, seu funcionamento já traz embutida a própria semiose que, em outros termos, significa a ação do
signo. Em terceiro, o signo só existe por conta de uma determinação, a do seu objeto, cuja natureza não
precisa ser necessariamente alguma "coisa" constituída no mundo, mas algo da ordem do imaginado ou
do conceito. E toda a seqüência de interpretantes vai, de alguma forma, dar conta destes objetos originá-
rios.
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produção se alteram na medida em que é a própria rede, em um primeiro momento, que
abastece os jornalistas de informação sobre que relatar. E o próprio relato amplia-se em
cadeia interpretante rizomática, hipertextual e miltimidiática trazendo complexidade
maior a relação signo/objeto.
          O twitter está entre as ferramentas mais populares de redes sociais. Sua principal
característica é a de funcionar como um microblog que comporta postagem de mensa-
gens que contenham no máximo 140 caracteres. Pessoas físicas e jurídicas, nos seus
mais diferentes matizes, constroem perfis que se vinculam entre si através de uma sis-
temática de seguidos e seguidores. A partir da pergunta “What is happening?” (o que
está acontecendo?), as mensagens tanto podem se referir a relatos prosaicos do cotidia-
no das pessoas como à difusão e comentário de acontecimentos jornalísticos. Com uso
do sustenido (#) é possível criar uma hashtag que aponta para uma página comum. No
caso em análise, a #amiwinehouse passou a ser usada pela maioria dos perfis que se
referiram ao acontecimento. Os termos ou hashtag são constantemente classificados
num ranking chamado treend topics em que aparecem os dez assuntos mais comentados
no momento. A ferramenta sofisticou-se e hoje é possível ter uma lista só com os tweets
brasileiros e já há classificações regionais para cidades como Rio de Janeiro e São Pau-
lo.
          Esta dinâmica estabelece uma conversação coletiva que é ao mesmo tempo dialó-
gica e narcísica, na medida em que há um capital social envolvido nas postagens, como
bem propõe Raquel Recuero e Gabriela Zagos (2011). As autoras lembram que o capital
social, como forma de capital, é produto de investimento dos indivíduos em suas redes e
da construção de valor nesses espaços e transforma-se no twitter em ingrediente funda-
mental da sua constituição já que ele é capaz de gerar valores na sua apropriação. Estar
vinculado a um determinado assunto de forma pública revela implicações simbólicas no
sentido da visibilidade proposital desse vínculo.
          A configuração do twitter atualiza postulado que a chamada Escola de Munique
nas teorias de jornalismo alemã havia compreendido na essência do jornalismo na déca-
da de 1960, conforme sistematizou Hanno Beth (1987). Os autores dessa escola (Hans
Braun, Otto B. Roegele e Heinz Starkula) incluem em seu campo de trabalho na pers-
pectiva do jornalismo como ciência “a forma mais ampla de contato humano a qual me-
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diante a fala, a audição e a compreensão se efetua o encontro e a influência recíproca, a
troca constante de agendas e o intercâmbio de conteúdos espirituais” (BETH, 1987).
Por conta disso, entendiam o jornalismo como a conversação contemporânea da socie-
dade e defendiam que o termo “periodismo’ (zeitung) não só designa um meio técnico
mas um fenômeno primogênito da comunicação social. As redes sociais contemporâ-
neas parecem levar esse postulado a consequências bem mais intensas.


          4. Semioses do acontecimento Amy Winehouse
          “Minha mãe falou assim quando eu acordei: A morte da #amywinehouse já ta no
twitter? Eu tinha acabado de acordar e nem sabia”. O post, pertencente ao perfil
@fco_lrds_cotia do twitter, aponta para esse outro modo do acontecimento pelas redes
sociais. Ao mesmo tempo em que intensifica de forma instantânea e contínua uma con-
versação coletiva sobre o que aconteceu, também permite que se vislumbrem níveis de
afetação dos mais diversos. Assim que saíram as primeiras notas nos portais noticiosos
sobre o corpo morto de uma mulher aparentando 27 anos encontrado no endereço de
Amy Winehouse, no começo da tarde de sábado, horário de Brasília, uma profusão de
posts pipocaram e rapidamente a hashtag referente ao acontecimento passou a liderar os
treends topics.
          Selecionou-se um conjunto de postagens com essa hashtag, publicadas por perfis
brasileiros, para que se percebam alguns sentidos que o acontecimento “morte de uma
celebridade atormentada” foi constituindo ao longo da tarde do dia 23 de julho de 2011.
As mensagens desencadeiam três movimentos jornalísticos. O primeiro deles é a refe-
rência a ou o comentário da notícia que estabelecem vínculos dos sujeitos com o acon-
tecimento, vínculos esses de múltiplas ordens, tais como morais, comportamentais, de
afetos ou de mera observação dos ambientes da cultura em geral. Também faz parte
desse movimento o próprio ato de noticiar. Postar referência à notícia imediatamente ao
seu surgimento é quase como um furo: o perfil portador de uma novidade bombástica
que logo é replicada.
          O segundo movimento é o da referência a links que trouxeram algum material no-
ticioso ou audiovisual sobre o acontecimento. Em pouco menos de duas horas das pri-
meiras notícias, o portal G1 já publicava matéria reunindo o que chamava de especialis-
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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tas que analisavam “a morte precoce de Ami Winehouse”. Através de programas que
produzem encurtamentos da URLs, é possível fazer referências aos links de forma eco-
nômica, sem que se ultrapassem os caracteres máximos permitidos. Dessa forma, a ma-
téria do G1 apareceu difundida em vários posts através de links como
http://glo.bo/pPMdp2.                           Originalmente                    o        link         era               http://g1.globo.com/pop-
arte/noticia/2011/07/especialistas-comentam-morte-precoce-de-amy-winehouse.html.
          Já o terceiro movimento pertence às próprias organizações jornalísticas que se uti-
lizam da estratégia dos hashtags para divulgarem seus materiais. Nesse aspecto, os veí-
culos das organizações globos mostraram-se intensamente efetivos na utilização desse
recurso com remissão a várias inserções, do jornal O Globo ao programa Fantástico.
          Um dos perfis que se manifestou já no começo era um fake6 da própria cantora
com o perfil @MinhasAtitudes. Os posts criavam um efeito metafísico: uma análise
rapidamente póstuma do seu próprio comportamento , como no MinhasAtitudes Amy
Winehouse “Se uma pessoa tem tendência para o vício, passa de um veneno para o ou-
tro.” - #AmyWinehouse 23 Jul ou no MinhasAtitudes Amy Winehouse Existe uma luz
no céu acima de nós que apenas quem ama a consegue ver. #AmyWinehouse 23 Jul.
          Dada as circunstâncias da morte, uma provável overdose de drogas e álcool, proli-
ferou-se um discurso condenatório, de ordem moral. Alguns reforçavam o talento mas
criticavam o comportamento. Outros ignoravam suas qualidades artísticas. Destacam-se,
entre eles, o do escritor de telenovelas Walcyr Carrasco:
                                                                      WalcyrCarrasco Walcyr Carrasco
                                                                      Mesmo sendo contra o uso, porém, reconheço que a droga
                                                                   leva a superar fronteiras artisticas, como #Janis Joplin
                                                                   e #AmyWinehouse
                                                                      23 Jul
                                                                      marciomarques Marcio marques
                                                                      #amywinehouse- pra quem acha que maconha e alcool nao
                                                                   fazem mal, eles sao portas de entrada do vicio. o final pode ser
                                                                   igual ao da Amy
                                                                      23 Jul
                                                                      anagoelzer anagoelzer
                                                                      RT @talanotalaveira: Ao inves de ficar falando da mor-
                                                                   te #AmyWinehouse vamos falar de quem celebra a vida e nao
                                                                   provoca o seu fim


6
 Fakes são perfis sem identidade comprovada ou que simulam personalidades conhecidas. Bastante po-
pulares no twitter, esses perfis também interagem na construção dos acontecimentos trazendo problemati-
zações importantes nesse tipo de abordagem.
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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          Como o acontecimento veio na sequência de outro acontecimento, esse de caráter
brutal, o atentado de extrema direita que matou mais de 70 pessoas na Noruega, algu-
mas relações entre eles foram estabelecidas. Destacam-se duas, uma de caráter crítico e
outra condescendente.
                                                                     saulosales Saulo Sales
                                                                     E    ainda     tem   gente     achando    que      a    morte
                                                                   de #AmyWinehouse é maior que a tragédia da Noruega. #Fail
                                                                     gondimricardo Ricardo Gondim
                                                                     #amywinehouse destruiu a si um dia depois que um norue-
                                                                   guês matou 92. Ela, autodestrutiva, implodiu-se; ele, assassino,
                                                                   quis explodir o mundo
                                                                     23 Jul


          O humor, a ironia e sarcasmo logo compareceram no conjunto de postagens. São
posts que de certa forma desconstroem o peso da inevitabilidade num processo de car-
navalização, no sentido de Bakhtin (1993).
                                                                     CadeMeuUisque Cadê o meu uísque?
                                                                     O lado ruim de morrer não é a morte, mas ter que largar o u-
                                                                   ísque e os cigarros. #AmyWinehouse
                                                                     23 Jul
                                                                     erica_leobas Erica Leobas
                                                                     RT @rafa_couto: #AmyWinehouse "do pó viestes, pelo pó
                                                                   passastes, ao pó voltarás."
                                                                     23 Jul
                                                                     rafaelmalenotti rafaelmalenotti
                                                                     Vai ser uma tremedeira só! RT @FilhoDoOCriador: E na
                                                                   Cracolândia está sendo programado um minuto sem fumar em
                                                                   homenagem a #AmyWinehouse
                                                                     23 Jul
                                                                     HomerFail Homer Simpsons
                                                                     Deus, vamos fazer um trato ? vc leva todas as integrantes da
                                                                   "banda" Restart, o justin bieber e o LS , e só nos Devol-
                                                                   ve #AmyWinehouse e o MJ
                                                                     23 Jul.
                                                                     Fellipe_cap Verified Account ✔
                                                                     #amywinehouse chegou ao céu, foi barrada com 2kg de ma-
                                                                   conha


          Outra linha de manifestação diz respeito aos fãs declarados7 ou mesmo àqueles
que são críticos ao julgamento moral de muitos comentários. Nesses posts, há uma pro-


7
  A pesquisadora Adriana Amaral (2010) vem investigando a constituição e articulação das comunidades
de fãs nas redes sociais. Entre outras perspectivas instigantes, identificou que os perfis online em redes de
relacionamento têm se mostrado eficientes no sentido de constituição de um banco de dados de consumo,
de memória musical, de organização social em torno da música, de crítica e classificação de gêneros, de
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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jeção do ídolo como alguém inconformado que necessitava transgredir. A mensagem
que lembra letra de Cazuza, cantor/compositor brasileiro morto em 1990, em perfil atri-
buído a Leo da banda Inimigos da HP, faz uma síntese dessa perspectiva:
                                                                     leoinimigosdahp Leo - Inimigos da HP
                                                                     "Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no
                                                                   poder. Ideologia, eu quero uma pra viver!" (Cazuza) Vá com
                                                                   Deus#AmyWinehouse #fb
                                                                     23 Jul


          Até mesmo o jogador do Milan Alexandre Pato entrou nesta linha, assim como o
escritor de telenovelas Agnaldo Silva e o jornalista Tiago Leifert, entre outros:
                                                                     AlexandrePaato Alexandre Pato #9
                                                                     Surpreso com a morte do ícone musical dessa década, de
                                                                   longe a melhor artista dos últimos 10 anos. #amywinehouse
                                                                     23 Jul
                                                                     Aguinaldinho Aguinaldo Silva
                                                                     #amywinehouse estar nos TTs não é nada, você esta na
                                                                   memoria de todos nós e na historia da musica mundial.
                                                                     Tiago_Leifert Tiago Leifert
                                                                     Perder a Amy Winehouse é como perder Mamonas Assassi-
                                                                   nas de novo ! #amywinehouse
                                                                     23 Jul
                                                                     23 Jul
                                                                     lellid léli duarte ☺
                                                                     Todo mundo sente peninha dos muito pobres ou filhinhos de
                                                                   papai que se drogam, agora, pq é a #AmyWinehouse, um íco-
                                                                   ne, todos julgam.
                                                                     23 Jul
                                                                     ebitelo Euclides Bitelo
                                                                     Estaremos nós condenados a um mundo de sertanejos, gos-
                                                                   pels e sertanejos gospels? Eles são comportados, mas chatos
                                                                   pra caralho! #amywinehouse
                                                                     23 Jul


          O comportamento da mídia, assim como das próprias manifestações nas redes so-
ciais são alvos de críticas. Percebe-se uma postura ambígua na medida em que quem
critica vale-se das mesmas estratégias dos demais, o que amplia o sentido de conversa-
ção, ao mesmo tempo dialogada e narcísica.
                                                                     leotody Leo Rapini
                                                                     Hienas        do      twitter     celebram   a    morte
                                                                   da #amywinehouse rindo e fzendo piada. Elas são conhecidas
                                                                   por caçar e se alimentar de suas presas vivas.
                                                                     23 Jul


constituição de reputação de conhecimento sobre o assunto, quando aliados aos sistemas de recomenda-
ções musicais.
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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                                                                      Nem esperam o corpo esfriar e já começam a querer lucrar
                                                                   com isso... Assustador... #AmyWinehouse
                                                                      23 Jul
                                                                      deputadokennedy Kennedy Nunes
                                                                      A Globo News não sabe mais o que falar
                                                                   da #amywinehouse. Até o Eca Camargo teve que vir p estúdio
                                                                   rsrs
                                                                      23 Jul


          A mídia institucionalizada comparece de várias formas: faz referência aos seus
materiais, reproduz trechos das canções das cantoras, convida a interação com a propos-
ta de enquetes como “qual a sua canção preferida” e outros procedimentos.
                                                                      OTEMPOonline O TEMPO online
                                                                      Causa da morte de Amy Winehouse ainda é desconheci-
                                                                   da.http://owl.li/5LNG6 #amywinehouse
                                                                      23 Jul
                                                                      BlogdoNoblat Blog do Noblat
                                                                      RT @JornalOGlobo: #amywinehouse: consternações de
                                                                   uma morte anunciada
                                                                      showdavida Fantástico
                                                                      O Canal F especial mostra como será a cobertura da morte
                                                                   da cantora #amywinehouse. E essa maldição dos 27 anos? As-
                                                                   sista:tinyurl.com/3awll3o
                                                                      23 Jul
                                                                      saulosales Saulo Sales
                                                                      Veja no @papelpop como as celebridades reagiram no Twit-
                                                                   ter ao saber da morte de #amywinehouse http://bit.ly/qps4zA.
                                                                      23 Jul
                                                                      JPCURITIBA JOVEM PAN CURITIBA
                                                                      #AmyWinehouse "Nós apenas dizemos adeus com palavras
                                                                   / Eu morro umas cem vezes" (Back to Black)
                                                                      criativaonline Revista Criativa
                                                                      Qual               sua            música            preferi-
                                                                   da? #tributo #amywinehouse:http://ow.ly/5LKtL
                                                                      23 Jul
                                                                      canalglobonews Globo News
                                                                      A última aparição pública de #amywinehouse foi em show
                                                                   de      afilhada     artística.  Confira    as  imagens       -
                                                                    glo.bo/nc6MbU #globonews
                                                                      ultimosegundo Último Segundo
                                                                      #AmyWinehouse era "superamável" e querida no bairro, di-
                                                                   zem vizinhos ao @iG http://ig.com/8qp
                                                                      23 Jul
                                                                      JHoje Jornal Hoje
                                                                      Vc pode ter outras informações sobre a morte da canto-
                                                                   ra #Amywinehouse no @JNTVGloboBrasil ou na Globo
                                                                   News:g1.globo.com/globo-news/
                                                                      23 Jul
                                                                      JornalOGlobo Jornal O Globo
                                                                      Polícia inglesa já investiga morte de #amywinehouse. Veja
                                                                   a fotogaleria: http://migre.me/5kFDC
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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                                                                     23 Ju
                                                                     quemacontece QUEM Acontece
                                                                     Veja vídeo de última aparição                                     pública         da     canto-
                                                                   ra #AmyWinehouse: t.co/hU5tfdM
                                                                     23 Jul


          No âmbito mais tradicionalmente midiático, o lado da cantora ligado à moda, na
medida que seu estilo de vestir, de maquiar e de formatar os cabelos transformaram-se
em referência, logo foi explorado de forma imediata à sua morte, como nos seguintes
posts:
                                                                     iG iG
                                                                     Os     famosos      que     adoravam     se   vestir    co-
                                                                   mo #AmyWinehousehttp://ig.com/8qd
                                                                     iG iG
                                                                     No @igmoda:           Para         Costanza        Pascola-
                                                                   to @constanzOFICIAL, #AmyWinehouse era um retrato da
                                                                   moda do século 21http://ig.com/8ql
                                                                     23 Jul
                                                                     criativaonline Revista Criativa
                                                                     Pin-up e lady like, #amywinehouse é ícone de estilo. Que
                                                                   make     e     cabelo     inconfundíveis,   não   é     mes-
                                                                   mo? http://ow.ly/5LLcH
                                                                     23 Jul


          Por fim, um senso de contexto emerge entre os twiteiros a partir do que se con-
vencionou chamar de “síndrome dos 27 anos”, já que grandes nomes da música pop não
conseguiram ultrapassar essa idade, a maioria por conta de problemas com drogas.
                                                                     cacildanc Cacilda N.C.
                                                                     4 de outubro de 1970: O Blues perde sua áspera voz branca:
                                                                   Morre           aos      27      anos        Janes        Jo-
                                                                   plin http://bit.ly/pZg1pU @HojenaHistoria #amywinehouse
                                                                     23 Jul
                                                                     hojenahistoria Hoje na História JB
                                                                     8 de abril de 1994 – Aos 27 anos, Kurt Cobain é encontrado
                                                                   morto: t.co/8B0gAQC via @HojenaHistoria #amywinehouse
                                                                     23 Jul


          5. Considerações finais
          A trama de sentidos que emerge do acontecimento em rede revela textura comple-
xa tanto na sua constituição quanto na proporção que sua proliferação alcança. Os valo-
res que circulam entre os tweets desdobram-se entre a consternação, condenação moral,
idolatria, carnavalização, divulgação, entretenimento e protagonismo enunciativo. São
valores que se expressam em qualquer conversação instituída nos espaços públicos con-
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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vencionais mas que, na medida em que são vinculados a um espaço virtual de grande
visibilidade e com poder de propagação tão intenso, transformam-se em elementos
constitutivos do próprio acontecimento na sua transição para acontecimento público e
jornalístico. Eles passam a compor a narrativa jornalística desse acontecimento alteran-
do sua própria dinâmica, narrativa essa de caráter transmidiático característico desses
tempos de convergência (JEKINS, 2009).
          A consciência da morte que deflagrou os primórdios das formulações culturais en-
contra nesse cenário uma profícua diversidade complexificando ainda mais a própria
cultura exatamente em um dos seus potentes textos contemporâneos, no sentido de
Lotman (1999): os acontecimentos jornalísticos. Um texto da cultura que na especifici-
dade da morte desencadeia semioses sempre perturbadoras por nos confrontar com ele-
mentos profundamente atávicos, conforme já desenhava Freud (2001) na sua teoria das
pulsões. Em rede, a morte de uma celebridade convertida em acontecimento desconstrói
esta consciência na mesma medida em que a fortalece.




              Referências
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mo, in ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. 2010. http://bit.ly/rq4PTT,
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Editorial Anthropos, 1987
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tro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 1995. http://bit.ly/oHYppw, acessado
em 30/07/2011.
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2003. HTTP/observatório.ultimosegundo.ig.com.bt/artigos/sai260820031.html, acessado em
20/07/2011.
DELEUZE, Giles. A Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998.
ELIAS, Norbert, Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 1998
SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
                                    9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
                       (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011
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FOUCAULT, Michel. O que é o Iluminismo. In: ESCOBAR, Carlos Henrique (org.). Michel
Foucault (1926- 1984) - o Dossiê – últimas entrevistas. Rio de Janeiro: Livraria Taurus Edito-
ra, 1984
FRANCISCATO, Carlos Eduardo. A fabricação do presente: como o jornalismo reformulou
a experiência do tempo nas sociedades ocidentais.       São Cristóvão (SE): Editora
UFS/Fundação Oviedo Teixeira, 2005
FREUD, Sigmund. O mal estar da civilização, in Obras psicológicas completas de Sigmund
Freud. CD-Rom. São Paulo: Imago, 2000.
HENN, Ronaldo. O acontecimento na sua dimensão semiótica, in BENETTI, Márica e FON-
SECA, Virgínia (org.) Jornalismo e Acontecimento, mapeamentos críticos. Florianópolis:
Insular, 2010.
JENKINS, Henry. Cultura da convergencia. São Paulo: Aleph, 2009.
LOTMAN, Yuri, Cultura y explosión, Lo previsible en los processos de cambio social. Bar-
celona: Gedisa Editorial, 1999.
MORIN, Edgar, O Método, Vol. 1, a Natureza da Natureza. Lisboa: Publicações Euro-
pa/América, 1998.
MORIN, Edgar, O Paradigma Perdido, a Natureza Humana. Lisboa: Publicações Euro-
pa/América, 1975.
MORIN, Edgar, O homem e a morte. Lisboa: Publicações Europa/América, 1970.
QUÉRÉ, Louis. Entre facto e sentido: a dualidade do acontecimento. Trajectos, Revista de
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CD-ROM. EUA, InteLex Corporation, 2002.
PROSS, Harry, A violência dos símbolos sociais. Barcelona: Paidós, 1980.
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e Capital Social no Twitter, in XX Compós, Porto Alegre: UFRGS, 2011. Disponível em
http://www.compos.org.br/. Acesso em 12/05/2011

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  • 1. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Morte, acontecimento e redes sociais: das raízes da cultura à Amy Winehouse Ronaldo Henn 1 Resumo: O artigo propõe reflexão sobre a morte como acontecimento jornalístico que agora transita para um fluxo em rede por conta das redes sociais. Parte-se de postulados sobre a morte na constituição da cultura formulados na perspectiva sistêmica de Edgar Morin e na semiótica da cultura de Ivan Bystrina e na sua configuração como acontecimento fulcral. Sua migração para o jornalismo e redes sociais é analisada através das postagens no twitter relativas à morte da cantora inglesa Amy Winehause. Entende-se que a ferramenta atualiza a noção de jornalismo como conversação contemporânea da sociedade proposta pela Escola de Munique no século passado. As postagens passam a compor a narrativa jornalística do acontecimento alterando sua própria dinâmica desconstruindo e reiterando sentidos sobre a morte. Palavras-chave: acontecimento; redes sociais; internet; webjornalismo; morte 1. Introdução A partir de várias perspectivas teóricas (MORIN: 1986, QUERÉ: 2005, DE- LEUZE: 1998, FOCAULT: 1984) o acontecimento é compreendido como uma singula- ridade. Seja porque ele inaugura todo um processo de sentido (encarnando o próprio sentido, que sempre escapa, como quer Deleuze, 1998) ou mesmo porque com sua e- mergência mundos constituem-se, o que une estas perspectivas é a ideia de que o irrom- per do acontecimento produz a ruptura de uma continuidade. Ao mesmo tempo ele pos- sui a força propulsora da semiose (HENN, 2010) que se engendra nos complexos pro- cessos de representação e interpretação em que sua pujança de sentido vai se acomo- dando. Desta forma, o acontecimento desdobra-se na tensão fulcral entre o singular e o 1 Professor pesquisador do Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos, RS. Pesquisa produção de acontecimento no âmbito da rede a partir de temas como xenofobia e homofobia. É autor de Pauta e Notícia (Canoas: Ulbra, 1996) e Os Fluxos da Notícia (São Leopoldo: Unisinos, 2002)
  • 2. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: geral, aquilo que não é e o devir, a qualidade em toda sua positividade e a legislação, a mais radical atualidade e a história: o acontecimento participa da ativação da memória. Entende-se que vida e morte estariam no ápice desta tensão acontecimental. Morin (1986) enfatiza que só há leis gerais no universo porque ele é singular, o que implica que sua origem e sua originalidade constituem determinações. São leis que dependem não só das características singulares do universo, mas também da natureza destas interações e das condições em que se operam. Nessa concepção, toda a lei depen- de, num determinado sentido, da eventualidade, do acontecimento: “o encontro é aleató- rio, o efeito é necessário” (MORIN, 1986, p. 77). Como desdobramento do processo, funda-se a ordem mais complexa conhecida, a ordem biológica. E há nisso um posicio- namento epistemológico profundo que implica na própria processualidade do conheci- mento: Este universo nascente nasce como acontecimento, e gera-se em cascatas de acontecimentos. O acontecimento, triplamente excomun- gado pela ciência clássica (por ser simultaneamente singular, aleató- rio e concreto), torna a entrar pela porta cósmica, visto que o mundo nasce como acontecimento. Não é o nascimento que é acontecimento, é o acontecimento que é nascimento, no sentido em que, concebido no seu sentido mais forte, é acidente, ruptura, catástrofe... A partir daqui, podemos conceber que o devir cósmico seja cascatas de acon- tecimentos, acidentes, rupturas, morfogêneses. E este caráter repercu- te-se em todas as coisas organizadas, astros, átomo, ser vivo, que tem na sua origem e no seu fim, algo de eventual. Mais ainda, dos subso- los da microfísica até às enormes abóbadas do cosmo, todo o elemen- to pode aparcer-nos, doravante, também, como acontecimento. Donde a necessidade do princípio de complexidade que, em vez de excluir o acontecimento, o inclui e nos leva a olhar os acontecimentos da nossa escala terrestre, viva e humana, aos quais uma ciência antieventual nos torna cegos. (MORIN, 1986: 94) 2. Raízes do acontecimento Se entendermos a origem do universo como uma singularidade máxima que con- centra a mais intensa das caoticidades e suas potencialidades negoentrópicas, o tempo desencadeia-se no e pelo acontecimento: o tempo de devir que é absolutamente comple- xo e sincrético. Os múltiplos planos de organização do universo e sua complexa diver- sidade age no ser vivo: “todo o ser humano traz consigo o tempo do acontecimen- to/acidente/catástrofe (o nascimento e a morte), o tempo da desintegração (a senilidade que, via morte, conduz à decomposição), o tempo da reiteração (a repetição cotidiana e
  • 3. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: sazonal dos ciclos e ritmos e atividades), o tempo da estabilização” (MORIN, 1986: 86). A morte é o acontecimento que une o irreversível e o tempo complexo (MORIN, 1970), complexidade que atinge contornos de grande sofisticação na medida em que o humano semiotiza-se. As capacidades semióticas desenvolvidas pela espécie humana intensificaram a complexidade do mundo biofísico. Provavelmente a partir da consciência da morte, da morte como acontecimento, que toda a trama constitutiva das linguagens e da cultura passa a se desenvolver. Morin (1975) lembra que os túmulos mais antigos que conhe- cemos são os neanderthaleses que indiciam algo muito distinto do que a simples prote- ção para a decomposição: o morto está numa posição fetal com os ossos pintados e uma série de utensílios fazendo-lhe companhia. Essas descobertas apontam não só para a irrupção da morte na vida humana mas também para modificações antropológicas que permitiram e provocaram essa irrupção (MORIN, 1975: 94). A morte não é só reconhecida como fato, como a reconhecem os demais animais, nem só ressentida como perda, mas também é concebida como a transformação de um estado em outro: ela transforma-se em acontecimento em torno do qual a cultura consti- tui-se. “Tudo no indica que a consciência da morte que emerge no sapiens é constituída pela interação de uma mente objetiva que reconhece a mortalidade e de uma consciência subjetiva que afirma se não a imortalidade pelo menos a transmortalidade” (MORIN, 1975: 95). Os ritos de morte tomada agora como acontecimento fazem frente ao terror provocado pela ideia do nada: nasce a projeção do duplo e com ele a própria natureza do signo, ou seja, algo que ocupa o lugar de uma outra coisa. Esta realidade da sociedade humana aponta para boa parte de coisas que estão para algo distinto e requerem interpretação, quer dizer, de signos que possibilitam a interpre- tação. “Onde faltam os signos, nós imaginamos o nada e, onde parece haver o nada, no apressamos em colocar um signo de ordem” sentenciava sabiamente Harry Pross (1980: 14). “Isso serve tanto para a socialização da criança como para a da humanidade”. O princípio de organização através do qual as linguagens articulam-se passa a impor uma espécie de coação na medida em que as ordens e os consequentes focos de poder advêm da resposta humana à ameaça do nada. Através dos signos reconhecemos como se com- portam entre si distâncias, os intervalos e as classes sociais em que nos movemos.
  • 4. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Nobert Elias (1998) entende que a vida dos primeiros homens teria sido insuportá- vel caso eles não desenvolvessem a capacidade de compensar seu desconhecimento com fantasias cuja carga afetiva refletia a insegurança de sua situação, a incerteza do seu acervo de conhecimento (BAITELLO JÚNIOR, 1997) . Eles estavam envolvidos de- mais para encarar acontecimentos da natureza como observadores distanciados. Trata- se daquilo que Ivan Bystrina (1995) chama de segunda realidade. A primeira realidade é a realidade bio-física, que coloca para o ser humano uma séire de exigências em termos de sobrevivência. Gera um déficit, um stress terrível. As prórpiras exigências de permanência da espécie humana exigiram formas novas de socialização, de proteção e com o cérebro maior, consiguimos processar e criar novas informações, novos códigos. O ser humano despreende-se da primeira realidade criando a segunda realidade como desdobramento inevitável. Nesta realidde eminentemente humana, noológica, simbólica, completamente sígnica, o homem tenta superar no mito, na magia nos ritos, certas determinações terríveis da primeira ralidade. sobretudo à morte (BYSTRINA, 1995). Na medida em que a segunda realidade possui um caráter sígnico, ela se ordena como linguagem e obedece a certos princípios e regras. Desta forma, a cultura possui seus códigos e funciona de acordo com eles. Códigos esses que vão reger nossas práticas comunicativas e culturais até hoje. É nesse sentido que postulamos aqui a idéia de morte como acontecimento, tanto pelo seu assombramento, quanto pela dinâmica inaugural de práticas semióticas que desencadeiam os processos culturais. A cultura vai ser um sistema muito bem organizado, de caráter simbólico, mas que necessita de condições bio-físicas para existir. A cultura vai fazer um investimento simbólico nas línguas naturais, criando significados múltiplos ao ponto de amalgamá-las. E a cultura passa a gerar diversas coisas como mitologias, narrativas que dão conta dessas mitologias, regras de comportamento ou conduta social, ideologias, religiões, práticas políticas e também práticas de lazer. A cultura tem o poder de se diverssificar porque ela é um sistema aberto, mesmo com todo o seu rigor de organização interna. Sociedades diferentes vão se constituindo, tribos, nações, e com elas a cultura vai sofrendo variações, especificidades, mesmo
  • 5. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: mantendo certos matizes básicos. Porque ela é multirelacional e inesgotável. Se a cultura fica presa a códigos muitos rígidos, ela se torna fóssil, pode morrer. Também pode se constituir como intrumento de domínio. A cultura nasce percebendo polos assimétricos, mas nasce também inconformada com eles. Vida e morte constituem a oposição mais inexorável (BYSTRINA, 1995). Como a espécie humana não consegue resolver essas assimetrias na natureza, nas estruturas da ralidade, ela desenvolve ações simbólicas. A morte vira vida eterna, o trovão vira Deus, a tempestade purificação. O homem, diferentemente dos outros animais, espera a morte, sabe a morte que vai acontecer com ele e os semelhantes. Sabendo, ele espera e na medida em que espera, pauta-se para ela. Conhecendo sua força limitada, vê-se impotente diante da natureza pelo fato de ser sempre derrotado pela morte (BAITELLO JÚNIOR, 1997). 2. Morte como acontecimento jornalístico em rede Incrustrada na própria constituição da cultura é quase natural que a morte converta-se em acontecimento jornalístico altamente valorizado. Seja como resultado de tragédias, de crimes aterradores ou envolvendo personalidade pública, a morte sempre encontra espaço nas coberturas jornalísticas e ganha, via de regra, muito destaque. Há diversas ênfases no noticiário de morte que vai do impacto, suas consequências e a uma exumação pública e excessiva. Quando o protagonista da morte faz parte do mundos dos espetáculos, essa ênfase agiganta-se produzindo uma espécie de mitologia às avessas em que o personagem aos mesmo tempo é colocado em patamar que o distingue dos humanos e no limbo das desconstruções mais sórdidas. A morte da cantora inglesa Amy Winehouse no dia 23 de julho de 2011 foi processada pelo jornalismo com todas essas ênfases. Com vida atribulada por conta de excessos, sua performance pública já fazia a festa dos tablóides britânicos. Encontrada morta aos 27 anos, idade em que muitos ídolos da música pop partiram “fora do combinado”, um mixto de consternação e dissecação emergiu deste acontecimento fulcral. Só que a notícia de sua morte ingressou nesse novo processo de semiose instalado pelas redes sociais: a participação coletiva na construção de sentidos encontrou agora uma materialidade exuberante.
  • 6. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: As redes sociais não só introduziram ao longo dos anos 2000 novas formas de so- ciabilidade como também de produção e circulação de informação. Em convergência com plataformas móveis, como celulares, smartphones e tablets, essas redes protagoni- zaram nos últimos anos a formatação de acontecimentos como os protestos da oposição nas eleições do Irã em 20092 e a recente renúncia do ditador Ben Ali da Tunísia em 2010 (RECUERO e ZAGO, 2011). As eleições do presidente dos Estados Unidos Ba- rack Obama em 2008 teve também uma presença significativa da web. No Brasil, após a confirmação da vitória da presidente Dilma Rousseff no pleito de 2010, manifestações anti nordestinos proliferaram-se pelo twitter acompanhadas de reações de intensidade maior. Uma estudante de direito em São Paulo, que postou mensagem xenófoba agres- siva gerou forte repúdio e acabou demitida de estágio que cumpria em importante escri- tório de advocacia3. Em maio de 2011, um protesto na forma de churrasco no bairro Higienópolis de São Paulo, contra manifestações preconceituosas de moradores contrá- rios a instalação da estação de metrô, foi todo organizado pela rede4. Com as redes sociais processo de produção e circulação de notícia hoje está dis- seminado. A notícia não precisa necessariamente freqüentar o ambiente chancelado o lugar institucional da notícia. E o jornalismo em base de dados possibilita a apuração de informações sem a mediação do jornalismo convencional. E são nessas operações que se percebem as mudanças mais profundas. O jornalismo tradicional se vê compelido a se apropriar destas plataformas e fer- ramentas, seja num processo de convergência, seja no do estabelecimento de novos pa- drões. Mas tem que lidar com essa forte dose de imprevisibilidade. O jornalismo, tradi- cionalmente vinculado ao presente, mas ainda atrelado ao tempo do evento, do processo produtivo e do receptor (FRANCISCATO, 2005) vive agora uma espécie de exaspera- ção da instantaneidade e da proliferação simultânea do acontecimento em rede. As redes comunicacionais digitais móveis de acesso translocal, como os telefones celulares, os 2 Matéria do New York Times reproduzida na UOL em 16 de junho informava que “no Twitter, as repor- tagens e links para fotos de uma marcha pacífica em massa por Teerã na segunda-feira (15), juntamente com relatos de combates nas ruas e vítimas por todo o país, se tornaram o assunto mais popular no serviço em todo o mundo, segundo as estatísticas publicadas pelo Twitter” http://noticias.uol.com.br/ultnot/afp/2009/06/16/ult34u223320.jhtm 3 Conforme notícia publicada em O Globo em 01/11/2011 http://glo.bo/9uCfSa 4 Conforme IG em 11/05/2011 http://bit.ly/mxC5Ob
  • 7. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: wireless computers e as conexões sem fio adensam a vivência do “tempo real” pelo jor- nalismo (COSTA, 2003) a partir de espaços híbridos. Se por um lado, há todo um fluxo libertário, anárquico, colaborativo, numa nova possibilidade de jornalismo, há, por outro problemas sérios como o da credibilidade da informação, precisão, proliferação de boatos. Mas o fenômeno mais perceptível é o da repercussão da informação, que se dá de forma estonteante. A construção da opinião pública, grande trunfo de uma imprensa de ideais modernos e iluministas, saiu total- mente do controle. Esta é a cena de uma crise que está gerando muitas questões que estão sendo investigadas. Os casos recentes de acontecimentos que emergem da web revelam desdobramen- tos de semiose5 que atendem à outra lógica de produção de informação jornalística a partir da própria instituição do acontecimento. As rotinas de produção tradicionais exi- biam nexo ordenado entre pauta, apuração, relação com fontes, redação, edição e dia- gramação. Essas instâncias interpretantes seguiam trajetória de cunho linear na qual a relação signo (notícia) e objeto (acontecimento) desdobrava-se ao longo da cadeia pro- dutiva e culminava no deadline imposto. Havia, neste contexto, um predomínio da refe- rencialidade que migrava, via operações produtivas, ora para as lógicas simbólicas de convenção dos códigos jornalísticos, ora para as lógicas icônicas de sedução, sobretudo pelas imagens. Com relação ao acontecimento em rede, em primeiro lugar, já se tem um aconte- cimento de natureza essencialmente sígnica, logo já articulado nas tramas simbólicas do que Peirce (2002) chama de terceridade. Isso porque é a partir de sua construção no am- biente da rede que o acontecimento se institui. É na web que o acontecimento se produz independente do fato de ele poder se referir a uma realidade exterior. Os episódios só se transformam em acontecimento por conta desta mediação. Em segundo, as lógicas de 5 Semiose está sendo empregada aqui no sentido oferecido pela Teoria Geral dos Signos de C. S. Peirce (2002). Em primeiro lugar, o signo é pensado de forma triádica e só existe enquanto tal a partir de um processo relacional das três dimensões envolvidas: signo, objeto e interpretante. Em segundo, se o inter- pretante é um novo signo acionado neste processo, e sua geração configura-se como potencialmente infi- nita, seu funcionamento já traz embutida a própria semiose que, em outros termos, significa a ação do signo. Em terceiro, o signo só existe por conta de uma determinação, a do seu objeto, cuja natureza não precisa ser necessariamente alguma "coisa" constituída no mundo, mas algo da ordem do imaginado ou do conceito. E toda a seqüência de interpretantes vai, de alguma forma, dar conta destes objetos originá- rios.
  • 8. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: produção se alteram na medida em que é a própria rede, em um primeiro momento, que abastece os jornalistas de informação sobre que relatar. E o próprio relato amplia-se em cadeia interpretante rizomática, hipertextual e miltimidiática trazendo complexidade maior a relação signo/objeto. O twitter está entre as ferramentas mais populares de redes sociais. Sua principal característica é a de funcionar como um microblog que comporta postagem de mensa- gens que contenham no máximo 140 caracteres. Pessoas físicas e jurídicas, nos seus mais diferentes matizes, constroem perfis que se vinculam entre si através de uma sis- temática de seguidos e seguidores. A partir da pergunta “What is happening?” (o que está acontecendo?), as mensagens tanto podem se referir a relatos prosaicos do cotidia- no das pessoas como à difusão e comentário de acontecimentos jornalísticos. Com uso do sustenido (#) é possível criar uma hashtag que aponta para uma página comum. No caso em análise, a #amiwinehouse passou a ser usada pela maioria dos perfis que se referiram ao acontecimento. Os termos ou hashtag são constantemente classificados num ranking chamado treend topics em que aparecem os dez assuntos mais comentados no momento. A ferramenta sofisticou-se e hoje é possível ter uma lista só com os tweets brasileiros e já há classificações regionais para cidades como Rio de Janeiro e São Pau- lo. Esta dinâmica estabelece uma conversação coletiva que é ao mesmo tempo dialó- gica e narcísica, na medida em que há um capital social envolvido nas postagens, como bem propõe Raquel Recuero e Gabriela Zagos (2011). As autoras lembram que o capital social, como forma de capital, é produto de investimento dos indivíduos em suas redes e da construção de valor nesses espaços e transforma-se no twitter em ingrediente funda- mental da sua constituição já que ele é capaz de gerar valores na sua apropriação. Estar vinculado a um determinado assunto de forma pública revela implicações simbólicas no sentido da visibilidade proposital desse vínculo. A configuração do twitter atualiza postulado que a chamada Escola de Munique nas teorias de jornalismo alemã havia compreendido na essência do jornalismo na déca- da de 1960, conforme sistematizou Hanno Beth (1987). Os autores dessa escola (Hans Braun, Otto B. Roegele e Heinz Starkula) incluem em seu campo de trabalho na pers- pectiva do jornalismo como ciência “a forma mais ampla de contato humano a qual me-
  • 9. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: diante a fala, a audição e a compreensão se efetua o encontro e a influência recíproca, a troca constante de agendas e o intercâmbio de conteúdos espirituais” (BETH, 1987). Por conta disso, entendiam o jornalismo como a conversação contemporânea da socie- dade e defendiam que o termo “periodismo’ (zeitung) não só designa um meio técnico mas um fenômeno primogênito da comunicação social. As redes sociais contemporâ- neas parecem levar esse postulado a consequências bem mais intensas. 4. Semioses do acontecimento Amy Winehouse “Minha mãe falou assim quando eu acordei: A morte da #amywinehouse já ta no twitter? Eu tinha acabado de acordar e nem sabia”. O post, pertencente ao perfil @fco_lrds_cotia do twitter, aponta para esse outro modo do acontecimento pelas redes sociais. Ao mesmo tempo em que intensifica de forma instantânea e contínua uma con- versação coletiva sobre o que aconteceu, também permite que se vislumbrem níveis de afetação dos mais diversos. Assim que saíram as primeiras notas nos portais noticiosos sobre o corpo morto de uma mulher aparentando 27 anos encontrado no endereço de Amy Winehouse, no começo da tarde de sábado, horário de Brasília, uma profusão de posts pipocaram e rapidamente a hashtag referente ao acontecimento passou a liderar os treends topics. Selecionou-se um conjunto de postagens com essa hashtag, publicadas por perfis brasileiros, para que se percebam alguns sentidos que o acontecimento “morte de uma celebridade atormentada” foi constituindo ao longo da tarde do dia 23 de julho de 2011. As mensagens desencadeiam três movimentos jornalísticos. O primeiro deles é a refe- rência a ou o comentário da notícia que estabelecem vínculos dos sujeitos com o acon- tecimento, vínculos esses de múltiplas ordens, tais como morais, comportamentais, de afetos ou de mera observação dos ambientes da cultura em geral. Também faz parte desse movimento o próprio ato de noticiar. Postar referência à notícia imediatamente ao seu surgimento é quase como um furo: o perfil portador de uma novidade bombástica que logo é replicada. O segundo movimento é o da referência a links que trouxeram algum material no- ticioso ou audiovisual sobre o acontecimento. Em pouco menos de duas horas das pri- meiras notícias, o portal G1 já publicava matéria reunindo o que chamava de especialis-
  • 10. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: tas que analisavam “a morte precoce de Ami Winehouse”. Através de programas que produzem encurtamentos da URLs, é possível fazer referências aos links de forma eco- nômica, sem que se ultrapassem os caracteres máximos permitidos. Dessa forma, a ma- téria do G1 apareceu difundida em vários posts através de links como http://glo.bo/pPMdp2. Originalmente o link era http://g1.globo.com/pop- arte/noticia/2011/07/especialistas-comentam-morte-precoce-de-amy-winehouse.html. Já o terceiro movimento pertence às próprias organizações jornalísticas que se uti- lizam da estratégia dos hashtags para divulgarem seus materiais. Nesse aspecto, os veí- culos das organizações globos mostraram-se intensamente efetivos na utilização desse recurso com remissão a várias inserções, do jornal O Globo ao programa Fantástico. Um dos perfis que se manifestou já no começo era um fake6 da própria cantora com o perfil @MinhasAtitudes. Os posts criavam um efeito metafísico: uma análise rapidamente póstuma do seu próprio comportamento , como no MinhasAtitudes Amy Winehouse “Se uma pessoa tem tendência para o vício, passa de um veneno para o ou- tro.” - #AmyWinehouse 23 Jul ou no MinhasAtitudes Amy Winehouse Existe uma luz no céu acima de nós que apenas quem ama a consegue ver. #AmyWinehouse 23 Jul. Dada as circunstâncias da morte, uma provável overdose de drogas e álcool, proli- ferou-se um discurso condenatório, de ordem moral. Alguns reforçavam o talento mas criticavam o comportamento. Outros ignoravam suas qualidades artísticas. Destacam-se, entre eles, o do escritor de telenovelas Walcyr Carrasco: WalcyrCarrasco Walcyr Carrasco Mesmo sendo contra o uso, porém, reconheço que a droga leva a superar fronteiras artisticas, como #Janis Joplin e #AmyWinehouse 23 Jul marciomarques Marcio marques #amywinehouse- pra quem acha que maconha e alcool nao fazem mal, eles sao portas de entrada do vicio. o final pode ser igual ao da Amy 23 Jul anagoelzer anagoelzer RT @talanotalaveira: Ao inves de ficar falando da mor- te #AmyWinehouse vamos falar de quem celebra a vida e nao provoca o seu fim 6 Fakes são perfis sem identidade comprovada ou que simulam personalidades conhecidas. Bastante po- pulares no twitter, esses perfis também interagem na construção dos acontecimentos trazendo problemati- zações importantes nesse tipo de abordagem.
  • 11. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Como o acontecimento veio na sequência de outro acontecimento, esse de caráter brutal, o atentado de extrema direita que matou mais de 70 pessoas na Noruega, algu- mas relações entre eles foram estabelecidas. Destacam-se duas, uma de caráter crítico e outra condescendente. saulosales Saulo Sales E ainda tem gente achando que a morte de #AmyWinehouse é maior que a tragédia da Noruega. #Fail gondimricardo Ricardo Gondim #amywinehouse destruiu a si um dia depois que um norue- guês matou 92. Ela, autodestrutiva, implodiu-se; ele, assassino, quis explodir o mundo 23 Jul O humor, a ironia e sarcasmo logo compareceram no conjunto de postagens. São posts que de certa forma desconstroem o peso da inevitabilidade num processo de car- navalização, no sentido de Bakhtin (1993). CadeMeuUisque Cadê o meu uísque? O lado ruim de morrer não é a morte, mas ter que largar o u- ísque e os cigarros. #AmyWinehouse 23 Jul erica_leobas Erica Leobas RT @rafa_couto: #AmyWinehouse "do pó viestes, pelo pó passastes, ao pó voltarás." 23 Jul rafaelmalenotti rafaelmalenotti Vai ser uma tremedeira só! RT @FilhoDoOCriador: E na Cracolândia está sendo programado um minuto sem fumar em homenagem a #AmyWinehouse 23 Jul HomerFail Homer Simpsons Deus, vamos fazer um trato ? vc leva todas as integrantes da "banda" Restart, o justin bieber e o LS , e só nos Devol- ve #AmyWinehouse e o MJ 23 Jul. Fellipe_cap Verified Account ✔ #amywinehouse chegou ao céu, foi barrada com 2kg de ma- conha Outra linha de manifestação diz respeito aos fãs declarados7 ou mesmo àqueles que são críticos ao julgamento moral de muitos comentários. Nesses posts, há uma pro- 7 A pesquisadora Adriana Amaral (2010) vem investigando a constituição e articulação das comunidades de fãs nas redes sociais. Entre outras perspectivas instigantes, identificou que os perfis online em redes de relacionamento têm se mostrado eficientes no sentido de constituição de um banco de dados de consumo, de memória musical, de organização social em torno da música, de crítica e classificação de gêneros, de
  • 12. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: jeção do ídolo como alguém inconformado que necessitava transgredir. A mensagem que lembra letra de Cazuza, cantor/compositor brasileiro morto em 1990, em perfil atri- buído a Leo da banda Inimigos da HP, faz uma síntese dessa perspectiva: leoinimigosdahp Leo - Inimigos da HP "Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder. Ideologia, eu quero uma pra viver!" (Cazuza) Vá com Deus#AmyWinehouse #fb 23 Jul Até mesmo o jogador do Milan Alexandre Pato entrou nesta linha, assim como o escritor de telenovelas Agnaldo Silva e o jornalista Tiago Leifert, entre outros: AlexandrePaato Alexandre Pato #9 Surpreso com a morte do ícone musical dessa década, de longe a melhor artista dos últimos 10 anos. #amywinehouse 23 Jul Aguinaldinho Aguinaldo Silva #amywinehouse estar nos TTs não é nada, você esta na memoria de todos nós e na historia da musica mundial. Tiago_Leifert Tiago Leifert Perder a Amy Winehouse é como perder Mamonas Assassi- nas de novo ! #amywinehouse 23 Jul 23 Jul lellid léli duarte ☺ Todo mundo sente peninha dos muito pobres ou filhinhos de papai que se drogam, agora, pq é a #AmyWinehouse, um íco- ne, todos julgam. 23 Jul ebitelo Euclides Bitelo Estaremos nós condenados a um mundo de sertanejos, gos- pels e sertanejos gospels? Eles são comportados, mas chatos pra caralho! #amywinehouse 23 Jul O comportamento da mídia, assim como das próprias manifestações nas redes so- ciais são alvos de críticas. Percebe-se uma postura ambígua na medida em que quem critica vale-se das mesmas estratégias dos demais, o que amplia o sentido de conversa- ção, ao mesmo tempo dialogada e narcísica. leotody Leo Rapini Hienas do twitter celebram a morte da #amywinehouse rindo e fzendo piada. Elas são conhecidas por caçar e se alimentar de suas presas vivas. 23 Jul constituição de reputação de conhecimento sobre o assunto, quando aliados aos sistemas de recomenda- ções musicais.
  • 13. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: galvao_matheus Matheus Galvão Nem esperam o corpo esfriar e já começam a querer lucrar com isso... Assustador... #AmyWinehouse 23 Jul deputadokennedy Kennedy Nunes A Globo News não sabe mais o que falar da #amywinehouse. Até o Eca Camargo teve que vir p estúdio rsrs 23 Jul A mídia institucionalizada comparece de várias formas: faz referência aos seus materiais, reproduz trechos das canções das cantoras, convida a interação com a propos- ta de enquetes como “qual a sua canção preferida” e outros procedimentos. OTEMPOonline O TEMPO online Causa da morte de Amy Winehouse ainda é desconheci- da.http://owl.li/5LNG6 #amywinehouse 23 Jul BlogdoNoblat Blog do Noblat RT @JornalOGlobo: #amywinehouse: consternações de uma morte anunciada showdavida Fantástico O Canal F especial mostra como será a cobertura da morte da cantora #amywinehouse. E essa maldição dos 27 anos? As- sista:tinyurl.com/3awll3o 23 Jul saulosales Saulo Sales Veja no @papelpop como as celebridades reagiram no Twit- ter ao saber da morte de #amywinehouse http://bit.ly/qps4zA. 23 Jul JPCURITIBA JOVEM PAN CURITIBA #AmyWinehouse "Nós apenas dizemos adeus com palavras / Eu morro umas cem vezes" (Back to Black) criativaonline Revista Criativa Qual sua música preferi- da? #tributo #amywinehouse:http://ow.ly/5LKtL 23 Jul canalglobonews Globo News A última aparição pública de #amywinehouse foi em show de afilhada artística. Confira as imagens - glo.bo/nc6MbU #globonews ultimosegundo Último Segundo #AmyWinehouse era "superamável" e querida no bairro, di- zem vizinhos ao @iG http://ig.com/8qp 23 Jul JHoje Jornal Hoje Vc pode ter outras informações sobre a morte da canto- ra #Amywinehouse no @JNTVGloboBrasil ou na Globo News:g1.globo.com/globo-news/ 23 Jul JornalOGlobo Jornal O Globo Polícia inglesa já investiga morte de #amywinehouse. Veja a fotogaleria: http://migre.me/5kFDC
  • 14. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: 23 Ju quemacontece QUEM Acontece Veja vídeo de última aparição pública da canto- ra #AmyWinehouse: t.co/hU5tfdM 23 Jul No âmbito mais tradicionalmente midiático, o lado da cantora ligado à moda, na medida que seu estilo de vestir, de maquiar e de formatar os cabelos transformaram-se em referência, logo foi explorado de forma imediata à sua morte, como nos seguintes posts: iG iG Os famosos que adoravam se vestir co- mo #AmyWinehousehttp://ig.com/8qd iG iG No @igmoda: Para Costanza Pascola- to @constanzOFICIAL, #AmyWinehouse era um retrato da moda do século 21http://ig.com/8ql 23 Jul criativaonline Revista Criativa Pin-up e lady like, #amywinehouse é ícone de estilo. Que make e cabelo inconfundíveis, não é mes- mo? http://ow.ly/5LLcH 23 Jul Por fim, um senso de contexto emerge entre os twiteiros a partir do que se con- vencionou chamar de “síndrome dos 27 anos”, já que grandes nomes da música pop não conseguiram ultrapassar essa idade, a maioria por conta de problemas com drogas. cacildanc Cacilda N.C. 4 de outubro de 1970: O Blues perde sua áspera voz branca: Morre aos 27 anos Janes Jo- plin http://bit.ly/pZg1pU @HojenaHistoria #amywinehouse 23 Jul hojenahistoria Hoje na História JB 8 de abril de 1994 – Aos 27 anos, Kurt Cobain é encontrado morto: t.co/8B0gAQC via @HojenaHistoria #amywinehouse 23 Jul 5. Considerações finais A trama de sentidos que emerge do acontecimento em rede revela textura comple- xa tanto na sua constituição quanto na proporção que sua proliferação alcança. Os valo- res que circulam entre os tweets desdobram-se entre a consternação, condenação moral, idolatria, carnavalização, divulgação, entretenimento e protagonismo enunciativo. São valores que se expressam em qualquer conversação instituída nos espaços públicos con-
  • 15. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: vencionais mas que, na medida em que são vinculados a um espaço virtual de grande visibilidade e com poder de propagação tão intenso, transformam-se em elementos constitutivos do próprio acontecimento na sua transição para acontecimento público e jornalístico. Eles passam a compor a narrativa jornalística desse acontecimento alteran- do sua própria dinâmica, narrativa essa de caráter transmidiático característico desses tempos de convergência (JEKINS, 2009). A consciência da morte que deflagrou os primórdios das formulações culturais en- contra nesse cenário uma profícua diversidade complexificando ainda mais a própria cultura exatamente em um dos seus potentes textos contemporâneos, no sentido de Lotman (1999): os acontecimentos jornalísticos. Um texto da cultura que na especifici- dade da morte desencadeia semioses sempre perturbadoras por nos confrontar com ele- mentos profundamente atávicos, conforme já desenhava Freud (2001) na sua teoria das pulsões. Em rede, a morte de uma celebridade convertida em acontecimento desconstrói esta consciência na mesma medida em que a fortalece. Referências AMARAL, Adriana. Redes sociais de música: segmentação, apropriações e práticas de consu- mo, in ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. 2010. http://bit.ly/rq4PTT, acessado em 30/01/2011 BAITELLO JUNIOR, Norval, O animal que parou os relógios. São Paulo: Annablume, 1997 BAKHTIN, Mikhail, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Pau- lo/Brasília, Hucitec, 1993. BETH, Hanno e PROSS, Harry. Introducción a la ciencia de la comunicación. Barcelona: Editorial Anthropos, 1987 BYTRINA, Ivan, Soluções simbólicas para a assimetria dos códigos culturais. São Paulo: Cen- tro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, 1995. http://bit.ly/oHYppw, acessado em 30/07/2011. COSTA, Luciano Martins. Vem aí a nuvem da imprensa móvel in Observatório da Imprensa, 2003. HTTP/observatório.ultimosegundo.ig.com.bt/artigos/sai260820031.html, acessado em 20/07/2011. DELEUZE, Giles. A Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 1998. ELIAS, Norbert, Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 1998
  • 16. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo 9º. Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Rio de Janeiro, ECO- Universidade Federal do Rio de Janeiro), novembro de 2011 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: FOUCAULT, Michel. O que é o Iluminismo. In: ESCOBAR, Carlos Henrique (org.). Michel Foucault (1926- 1984) - o Dossiê – últimas entrevistas. Rio de Janeiro: Livraria Taurus Edito- ra, 1984 FRANCISCATO, Carlos Eduardo. A fabricação do presente: como o jornalismo reformulou a experiência do tempo nas sociedades ocidentais. São Cristóvão (SE): Editora UFS/Fundação Oviedo Teixeira, 2005 FREUD, Sigmund. O mal estar da civilização, in Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. CD-Rom. São Paulo: Imago, 2000. HENN, Ronaldo. O acontecimento na sua dimensão semiótica, in BENETTI, Márica e FON- SECA, Virgínia (org.) Jornalismo e Acontecimento, mapeamentos críticos. Florianópolis: Insular, 2010. JENKINS, Henry. Cultura da convergencia. São Paulo: Aleph, 2009. LOTMAN, Yuri, Cultura y explosión, Lo previsible en los processos de cambio social. Bar- celona: Gedisa Editorial, 1999. MORIN, Edgar, O Método, Vol. 1, a Natureza da Natureza. Lisboa: Publicações Euro- pa/América, 1998. MORIN, Edgar, O Paradigma Perdido, a Natureza Humana. Lisboa: Publicações Euro- pa/América, 1975. MORIN, Edgar, O homem e a morte. Lisboa: Publicações Europa/América, 1970. QUÉRÉ, Louis. Entre facto e sentido: a dualidade do acontecimento. Trajectos, Revista de Comunicação, Cultura e Educação, n. 6, 2005. P. 59-76. PEIRCE, Charles Sanders. The Collected Papers of Charles Sanders Peirce. Past Masters, CD-ROM. EUA, InteLex Corporation, 2002. PROSS, Harry, A violência dos símbolos sociais. Barcelona: Paidós, 1980. RECUERO, Raquel e ZAGO, Gabriela. A economia do retweet: Redes, Difusão de Informações e Capital Social no Twitter, in XX Compós, Porto Alegre: UFRGS, 2011. Disponível em http://www.compos.org.br/. Acesso em 12/05/2011