conviver                24
                                      o espaço de todos nós




        Família do
      coração
          Quem resolve conviver com crianças que moram
          em abrigos ou vivem em risco social ganha uma família.
          E, juntos, descobrem o verdadeiro sentido do verbo amar
          texto P a t r í c i a P e r e i r a   ilustração G u i l h e r m e K a r s t e n




          ESPERAR TODOS OS DIAS o carteiro                    “Gosto da companhia dele”, diz Natalia.     mento Afetivo da ONG Aconchego, não
          para conferir se chegou uma cartinha                Quando se encontram, trocam muitos          é por acaso o carinho entre as duas pon-
          de longe. Passar a semana esperando                 “eu te amo!”, “que saudade!” e “quando      tas da relação. Constrói-se uma amizade
          um encontro. Ou ficar horas acordado à              será o próximo encontro?”.                  transformadora. “O afilhado vê no padri-
          noite imaginando como está aquela pes-                                                          nho alguém com quem pode contar, divi-
          soa especial. Sensações assim são rotina            Amizade transformadora                      dir alegrias, tristezas, conquistas, medos
          para quem descobriu que adotar não é a              Programas de apadrinhamento como o          e sonhos. E também é quem ensina limi-
          única maneira de trazer novas crianças              de Natalia existem em todo o Brasil. O      tes, faz cobranças e passa a perspectiva
          para seu convívio. Na vida de padrinhos             objetivo é proporcionar convivência fa-     do que é certo e errado”, explica Sabrina.
          e madrinhas de jovens que vivem em                  miliar e comunitária a jovens de abrigos.   Há cumplicidade com responsabilidade.
          abrigos ou em regiões carentes, a sauda-            Há os que requerem apenas uma doa-                Alessandra Fonseca, de 32 anos,
          de se mistura com o amor e a responsa-              ção mensal e troca de correspondência.      descobriu isso ao tornar-se madrinha de
          bilidade. “Por mais clichê que pareça, é            Outros permitem a padrinhos e madri-        Alberto, de 10 anos, que mora no Vale
          difícil saber quem doa ou quem recebe”,             nhas que passem fins de semana, feria-      do Jequitinhonha, um dos lugares mais
          conta Natalia Veil, de 29 anos, que par-            dos ou parte das férias com os afilhados.   pobres do país. Ela o conheceu em uma
          ticipa do programa de apadrinhamento                Alguns até possibilitam que eles fiquem     lista de perfis da ONG ChildFund Bra-
          afetivo da ONG Aconchego, de Brasília.              com a criança sob sua guarda por até        sil, que incentiva a doação de quantias
               Há quatro anos, ela passa um fim               dois anos. Quem quer ser padrinho pre-      mensais para ajudar crianças que vivem
          de semana por mês com seu afilha-                   cisa preencher pré-requisitos como ter      em regiões de risco social. Logo, os dois
          do. Nesses momentos, adoram se reu-                 tempo e disponibilidade para as crian-      começaram a trocar cartas e fotos. “Cos-
          nir para comer. “Na rua ou em casa, é               ças, participar de oficinas e formações.    tumo dizer que é a única coisa da qual ja-
          do que ele mais gosta”, diz a madrinha,             Com isso, dão uma chance a meninos e        mais abrirei mão. Não quero perder esse
          que viu pela primeira vez o garoto em               meninas de construírem relações afeti-      vínculo”, diz Alessandra, que vive em La-
          uma visita ao abrigo. Como queria le-               vas e ganharem referências da vida fora     goa Santa (MG). “Quando ele era menor,
          var um pouco de afeto a crianças afasta-            do abrigo, onde esperam a adoção ou o       a mãe escrevia e ele desenhava. Agora,
          das da família, ela tornou-se madrinha.             momento de voltar para a família.           ele escreve, desenha, dá noticias da fa-
               Com o tempo, o convívio entre os                    Para a psicóloga Sabrina de Melo,      mília. Acompanhei a evolução na escola
          dois tornou-se harmônico e divertido.               do Núcleo de Preparação de Apadrinha-       – a letra que melhora, o falar que muda.”




Sorria27_conviver.indd 24                                                                                                                       23/07/12 18:40
É que acolher uma criança tem a
                                                                                                   ver com conviver e educar quem vem de
                                                                                                   uma realidade diferente. Kátia diz que,
                                                                                                   quando as meninas chegam, elas preci-
                                                                                                   sam se adaptar à rotina da casa, aos ho-
                                                                                                   rários e aos costumes. “E nós também
                                                                                                   precisamos nos adaptar ao ritmo delas
                                                                                                   e chegar a um acordo. Afinal, é um novo
                                                                                                   relacionamento”, conta. E nem sempre
             Em maio deste ano, os dois conhe-       e não um processo de adoção. O objeti-        isso é tranquilo. Um dos problemas que
        ceram-se pessoalmente. Alessandra foi        vo é tentar reestruturar a família de ori-    já teve foi com a filha biológica. As ga-
        até a cidade de Alberto e foi recebida por   gem para que a criança volte para casa.       rotas começaram a ter desentendimen-
        toda a família. “Foi muito emocionante.           Kátia Nascimento, 48 anos, faz parte     tos comuns entre irmãs. Com muita con-
        Eu não fazia ideia de como estava cresci-    de um projeto como esse há quatro anos.       versa e paciência, a família se entendeu.
        do, só nos conhecíamos por foto”, lem-       Ela participa do Sapeca (Serviço de Aco-           Para Adriana Pinheiro, assistente
        bra a madrinha. “É impossível ser um pa-     lhimento e Proteção Especial à Criança e      social do Sapeca, pais que acolhem es-
        drinho sem se envolver, sem querer sa-       ao Adolescente), da prefeitura de Campi-      ses jovens costumam ter de readaptar a
        ber como o afilhado está o tempo todo.”      nas. Desde janeiro, Júlia, de 9 anos, mora    rotina e o jeito de se relacionar. “Apren-
                                                     em sua casa. “É como um novo nasci-           de-se muito com uma criança que vem
        Perto do coração                             mento na família”, conta Kátia, que vive      de uma família desestruturada”, afirma.
        Esse envolvimento é ainda mais inten-        com o marido e a filha de 15 anos.            “A ter empatia, a oferecer colo, a escu-
        so quando os voluntários se dispõem a             Ela fala que tem preocupações e feli-    tar dúvidas e medos.” Isso acontece por-
        receber crianças em casa, por um perí-       cidades como se a garota fosse sua filha.     que, ao cuidar e ter um olhar atento ao
        odo de até dois anos. Nesse tipo de pro-     “Eu me emociono quando aprendem               outro, jovens e adultos passam a repen-
        grama, a família ganha a guarda provisó-     algo ou fazem apresentações na escola”,       sar suas necessidades e valores. Amor,
        ria de jovens afastados da família e deve    diz. Júlia é a segunda garota que Kátia re-   afinal, também é convívio, troca e cons-
        tratá-los como filhos – mas tendo em         cebe. “Hoje tenho três filhas, e a família    tante aprendizado. Algo que essas famí-
        mente que é uma situação temporária,         vai aumentar no futuro”, afirma a mãe.        lias do coração têm de sobra.




Sorria27_conviver.indd 25                                                                                                                 23/07/12 18:40

Revista Sorria - Programa de apadrinhamento

  • 1.
    conviver 24 o espaço de todos nós Família do coração Quem resolve conviver com crianças que moram em abrigos ou vivem em risco social ganha uma família. E, juntos, descobrem o verdadeiro sentido do verbo amar texto P a t r í c i a P e r e i r a ilustração G u i l h e r m e K a r s t e n ESPERAR TODOS OS DIAS o carteiro “Gosto da companhia dele”, diz Natalia. mento Afetivo da ONG Aconchego, não para conferir se chegou uma cartinha Quando se encontram, trocam muitos é por acaso o carinho entre as duas pon- de longe. Passar a semana esperando “eu te amo!”, “que saudade!” e “quando tas da relação. Constrói-se uma amizade um encontro. Ou ficar horas acordado à será o próximo encontro?”. transformadora. “O afilhado vê no padri- noite imaginando como está aquela pes- nho alguém com quem pode contar, divi- soa especial. Sensações assim são rotina Amizade transformadora dir alegrias, tristezas, conquistas, medos para quem descobriu que adotar não é a Programas de apadrinhamento como o e sonhos. E também é quem ensina limi- única maneira de trazer novas crianças de Natalia existem em todo o Brasil. O tes, faz cobranças e passa a perspectiva para seu convívio. Na vida de padrinhos objetivo é proporcionar convivência fa- do que é certo e errado”, explica Sabrina. e madrinhas de jovens que vivem em miliar e comunitária a jovens de abrigos. Há cumplicidade com responsabilidade. abrigos ou em regiões carentes, a sauda- Há os que requerem apenas uma doa- Alessandra Fonseca, de 32 anos, de se mistura com o amor e a responsa- ção mensal e troca de correspondência. descobriu isso ao tornar-se madrinha de bilidade. “Por mais clichê que pareça, é Outros permitem a padrinhos e madri- Alberto, de 10 anos, que mora no Vale difícil saber quem doa ou quem recebe”, nhas que passem fins de semana, feria- do Jequitinhonha, um dos lugares mais conta Natalia Veil, de 29 anos, que par- dos ou parte das férias com os afilhados. pobres do país. Ela o conheceu em uma ticipa do programa de apadrinhamento Alguns até possibilitam que eles fiquem lista de perfis da ONG ChildFund Bra- afetivo da ONG Aconchego, de Brasília. com a criança sob sua guarda por até sil, que incentiva a doação de quantias Há quatro anos, ela passa um fim dois anos. Quem quer ser padrinho pre- mensais para ajudar crianças que vivem de semana por mês com seu afilha- cisa preencher pré-requisitos como ter em regiões de risco social. Logo, os dois do. Nesses momentos, adoram se reu- tempo e disponibilidade para as crian- começaram a trocar cartas e fotos. “Cos- nir para comer. “Na rua ou em casa, é ças, participar de oficinas e formações. tumo dizer que é a única coisa da qual ja- do que ele mais gosta”, diz a madrinha, Com isso, dão uma chance a meninos e mais abrirei mão. Não quero perder esse que viu pela primeira vez o garoto em meninas de construírem relações afeti- vínculo”, diz Alessandra, que vive em La- uma visita ao abrigo. Como queria le- vas e ganharem referências da vida fora goa Santa (MG). “Quando ele era menor, var um pouco de afeto a crianças afasta- do abrigo, onde esperam a adoção ou o a mãe escrevia e ele desenhava. Agora, das da família, ela tornou-se madrinha. momento de voltar para a família. ele escreve, desenha, dá noticias da fa- Com o tempo, o convívio entre os Para a psicóloga Sabrina de Melo, mília. Acompanhei a evolução na escola dois tornou-se harmônico e divertido. do Núcleo de Preparação de Apadrinha- – a letra que melhora, o falar que muda.” Sorria27_conviver.indd 24 23/07/12 18:40
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    É que acolheruma criança tem a ver com conviver e educar quem vem de uma realidade diferente. Kátia diz que, quando as meninas chegam, elas preci- sam se adaptar à rotina da casa, aos ho- rários e aos costumes. “E nós também precisamos nos adaptar ao ritmo delas e chegar a um acordo. Afinal, é um novo relacionamento”, conta. E nem sempre Em maio deste ano, os dois conhe- e não um processo de adoção. O objeti- isso é tranquilo. Um dos problemas que ceram-se pessoalmente. Alessandra foi vo é tentar reestruturar a família de ori- já teve foi com a filha biológica. As ga- até a cidade de Alberto e foi recebida por gem para que a criança volte para casa. rotas começaram a ter desentendimen- toda a família. “Foi muito emocionante. Kátia Nascimento, 48 anos, faz parte tos comuns entre irmãs. Com muita con- Eu não fazia ideia de como estava cresci- de um projeto como esse há quatro anos. versa e paciência, a família se entendeu. do, só nos conhecíamos por foto”, lem- Ela participa do Sapeca (Serviço de Aco- Para Adriana Pinheiro, assistente bra a madrinha. “É impossível ser um pa- lhimento e Proteção Especial à Criança e social do Sapeca, pais que acolhem es- drinho sem se envolver, sem querer sa- ao Adolescente), da prefeitura de Campi- ses jovens costumam ter de readaptar a ber como o afilhado está o tempo todo.” nas. Desde janeiro, Júlia, de 9 anos, mora rotina e o jeito de se relacionar. “Apren- em sua casa. “É como um novo nasci- de-se muito com uma criança que vem Perto do coração mento na família”, conta Kátia, que vive de uma família desestruturada”, afirma. Esse envolvimento é ainda mais inten- com o marido e a filha de 15 anos. “A ter empatia, a oferecer colo, a escu- so quando os voluntários se dispõem a Ela fala que tem preocupações e feli- tar dúvidas e medos.” Isso acontece por- receber crianças em casa, por um perí- cidades como se a garota fosse sua filha. que, ao cuidar e ter um olhar atento ao odo de até dois anos. Nesse tipo de pro- “Eu me emociono quando aprendem outro, jovens e adultos passam a repen- grama, a família ganha a guarda provisó- algo ou fazem apresentações na escola”, sar suas necessidades e valores. Amor, ria de jovens afastados da família e deve diz. Júlia é a segunda garota que Kátia re- afinal, também é convívio, troca e cons- tratá-los como filhos – mas tendo em cebe. “Hoje tenho três filhas, e a família tante aprendizado. Algo que essas famí- mente que é uma situação temporária, vai aumentar no futuro”, afirma a mãe. lias do coração têm de sobra. Sorria27_conviver.indd 25 23/07/12 18:40