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        C apital C ientífico
	   Volume 7	 			        Número 1	   	           2009




    Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO
              Guarapuava/Irati - Paraná- Brasil
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Revista Capital Científico - RCCi
                                  Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO
                                                  Reitor: Vitor Hugo Zanette
                                                Vice-reitor: Aldo Nelson Bona
                   Editora UNICENTRO                                                      Comissão Científica
                     Beatriz Anselmo Olinto                           Dra. Lucia Cortes da Costa – Universidade Estadual de Ponta
 Assessoria Técnica: Bruna Silva, Luiz Gilberto Bertotti, Luciano                            Grossa (UEPG)
              Farinha Watzlawick, Waldemar Feller                     Dr. Eduardo Fernando Appio – Centro Universitário Filadélfia
             Divisão de Editoração: Renata Daletese                                              (UNIFIL)
                                                                     Dra. Márcia Maria Dos Santos Bortolocci Espejo – Universidade
     Seção de Revisão de Inglês: Raquel Cristina Mendes de
                                                                                        Federal do Paraná (UFPR)
                            Carvalho.
                                                                      Dra. Patrícia Morilha Muritiba – Universidade Nove de Julho
  Estagiários: André Justus Czovny; Fernanda Gongra; Marcio
                                                                                               (UNINOVE)
                Fraga de Oliveira; Lucas Casarini
                                                                      Dra. Rúbia Nara Rinaldi – Universidade Estadual do Oeste do
             Revisão: Dalila Oliva Lima de Oliveira                                        Paraná (UNIOESTE)
                 Diagramação: Lucas Casarini                         Dr. Weimar Freire da Rocha Júnior – Universidade Estadual do
                 Capa: Lucas Gomes Thimoteo                                          Oeste do Paraná (UNIOESTE)
               Impressão: Gráfica UNICENTRO



                                            Setor de Ciências Sociais Aplicadas
                                                   Santa Cruz: Luiz Fernando de Lima
                                                       Irati: Edelcio José Stroparo
                                                        Comissão Editorial
Dr. Ivan de Souza Dutra (presidente-editor); Ms. Ana Léa Macohon Klosowski; Dr. Carlos Alberto Marçal Gonzaga; Ms. Carlos
Alberto Ferreira Gomes; Ms. Diogo Lüders Fernandes; Ms. Ivonaldo Brandani Gusmão; Ms. Juliane Sachser Angnes; Ms. Rosangela
                                                     Bujokas de Siqueira

                                  Publicação do Setor de Ciências Sociais Aplicadas
                                                     capitalcientifico@unicentro.br
                           Para submissões: http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico


                           Edição aprovada pelo Conselho Editorial da UNICENTRO

                                                      Catalogação na publicação
                                                      Biblioteca da UNICENTRO



                                        Capital Científico / Centro de Ciências Sociais Aplicadas da
                                     	    Universidade Estadual do Centro-Oeste. – v.1,
                                     n.1 (2003) – Guarapuava: UNICENTRO, 2009 -


                                          Anual.

                                          ISSN 1679-1991

                                            1. Ciências Sociais – Periódicos.




                    Versão online, ISSN 2177-4153 em http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico
                                           Copyright © 2009 Editora UNICENTRO
                   Nota: Os conteúdos dos artigos desta revista são de inteira responsabilidade de seus autores.
Editorial
        A Revista Capital Científico - RCCi encerrou o ano de 2009 com várias novidades de volume,
comunicação eletrônica e impressa, design gráfico, bem como na especialização e balanceamento
temático dos artigos, marcando uma fase de crescimento, decorrente de mudanças significativas que estão
sendo implementadas desde 2008.
        A Comissão Editorial ensejou a procura incessante em conteúdos com melhor qualidade científica
e contribuição para a sociedade, tendo sempre em vista a missão do periódico, um desafio que foi e
continua árduo, o que pode ser observado nas considerações que seguem.
        Diante da conjuntura recente, verificaram-se obstáculos comuns como em vários periódicos
acadêmicos de instituição pública que não têm receita por assinaturas ou fomento institucional externo,
a exemplo do trabalho com equipe reduzida. Além disso, existiu a dificuldade de recebimento de artigos
relevantes, que pudessem ser aprovados dentro das exigências e condições necessárias, atendendo à
qualidade e contribuição almejadas, dentro do prazo estabelecido para encerramento da edição. Isso
também é explicado pela fase atual do periódico, que ainda é relativamente pouco conhecido para o
público de estudiosos externos e não tem alto fator de impacto, ao verificar-se o baixo volume de artigos
recebidos para dar giro de publicação das edições. Por causa dessas circunstâncias, a comissão considerou
publicar artigos recebidos e aprovados após o ano de 2009 dentro dos critérios exigidos, sem perda da
qualidade exigida, como pode ser verificado nesta edição.
        Por outro lado, as contribuições dos autores desta publicação, e o recebimento mensal de novas
submissões especialmente a partir de 2010, por autores de diversas origens institucionais, serviram de
estímulo para superar as dificuldades de manutenção, e as crescentes exigências do sistema de avaliação
Qualis, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/MEC. É importante
ressaltar que várias manifestações de sugestões ou críticas dos pesquisadores, discentes e leitores recebidas
ao longo do ano, contribuíram em boa parte para as modificações de melhoria do formato e consolidação
do conteúdo.
        Sendo assim, apresentamos essa edição com novo design gráfico para abarcar as temáticas
contemporâneas do campo de Sociais Aplicadas. Na nova capa, buscou-se uma síntese dessa proposta,
pela representação do globo terrestre estilizado, dando a idéia da característica interdisciplinar desse
campo, em face de estudos que alcançam dimensão mundial, na perspectiva de que não é possível
distinguir as fronteiras entre novas e diferentes realidades sócio-econômicas, bem como nas várias ciências
do escopo das Ciências Sociais Aplicadas. A formatação interna de fonte e conteúdo acompanhou essa
filosofia, também adaptada às novas tendências.
        Para as ações de gestão e editoração periódica, foi implantado o Sistema Eletrônico de Editoração
de Revistas – SEER, uma ferramenta desenvolvida pelo Public Knowledge Project (Open Journal Systems) da
Universidade British Columbia e customizada no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e
Tecnologia – IBICT. Com isso, iniciou-se um novo ciclo de edições com publicações eletrônicas em portal
da revista via Internet, por meio do endereço http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico. Em
consequência, foi requerido e registrado um segundo número de ISSN, o 2177-4153, que é designado
para a versão on line da revista. Com esse sistema, que é visto com aprovação pelo Qualis/CAPES/MEC,
ganha-se em segurança, aumenta-se o controle, melhora a qualidade e cresce o nível de compartilhamento
e socialização do conhecimento publicado.
        Uma Comissão Científica foi criada para a constante melhoria das diretrizes, normas e conteúdos
do periódico, constituída por doutores de instituições externas, representados em cada uma das seis áreas
de Sociais Aplicadas aceitas no periódico. Nessa edição, a RCCi tem um privilégio de contar com essa
comissão composta por professores e pesquisadores que se destacam nas suas áreas de trabalho e na
academia nacional, cujos nomes dão reconhecimento à missão e aos propósitos científicos do periódico.
       Os artigos publicados nesta edição são de autores vinculados a instituições de ensino e organizações
de pesquisa de renome, com a participação em mais de 70% de autores externos, que não possuem
qualquer vínculo formal com a UNICENTRO, conferindo legitimidade e seriedade à revista aos seus
objetivos editoriais. Esses autores também contribuíram significativamente com seus estudos em qualidade
e relevância do conteúdo.
       Esta edição contempla estudos, discussões e aspectos sobre a mudança social, organizacional e a
sustentabilidade. Assim, apresentam-se artigos que trazem pesquisas e reflexões sobre as transformações
organizacionais diante da vida no mundo, em termos macroambientais e microambientais, de sistemas em
que vivem pessoas e organizações sócio-econômicas. O leitor encontrará estudos do processo produtivo
sobre o trabalho e o capitalismo, e outros, das desigualdades sociais, das alternativas de desenvolvimento
sustentável e a crise ambiental, dos sistemas de gestão ambiental e de responsabilidade social, bem
como do perfil daqueles que dirigem organizações com esses processos. Em perspectiva adjacente, são
apresentados artigos tais como: o da hierarquização de atrativos turísticos da cidade de Irati-PR; o da
análise dos objetivos do balanço social, da análise das metodologias de intervenção de consultores em
ONG no Recife-PE; da qualidade de serviços em uma IES, utilizando-se o modelo metodológico 5 GAP´s;
recursos de tecnologia e informação para o apoio ao ensino, pesquisa e extensão, além de trabalhos
das narrativas (storytellings) contadas pelos anúncios e vídeos institucionais da organizações, de casos de
ações em Customer Relationship Management (CRM) e sobre os processos de seleção de empregados por
competência. Um ensaio que discute e traz metáfora para a mudança organizacional encerra o periódico.
       Diante disso, a Revista Capital Científico traz conteúdos pela busca e auxílio do conhecimento
contemporâneo nas Ciências Sociais Aplicadas, em suas diversas áreas, com a contribuição dos autores,
sempre seremos agradecidos. Desejamos uma excelente leitura!

                                                                             Dr. Ivan de Souza Dutra
                                                                  Editor da revista Capital Científico
Sumário
Capitalismo e as Transformações no Processo de Trabalho.................... 11
Caroline Goerck

Crise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia como
uma das soluções de longo prazo........................................................... 21
Marcia Regina Gabardo da Camara
Rafael Borim de Souza

A Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil.......................... 35
Francieli do Rocio de Campos
Patrícia Estanislau

A Evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental: o caso do Laboratório de
Camarões Marinhos................................................................................. 47
Antonio Costa Gomes Filho
Fernando Antonio Forcellini
Marilene Bronoski
Rafael Feyh Jappur

Projetos Brasileiros de Aterro Sanitário no Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo: uma análise dos indicadores de sustentabilidade...................... 57
Miriam Tiemi Oliveira Takimura
Valdir Machado Valadão Júnior

Avaliação e Hierarquização dos Atrativos Turísticos de Irati-PR............ 73
Diogo Lüders Fernandes
Vanessa de Oliveira Menezes

Gestão da Responsabilidade Social e o Perfil dos Gestores: análise das
organizações de Blumenau - SC..............................................................85
Danielle Regina Ullrich
Marialva Tomio Dreher

Balanço Social: uma análise comparativa entre objetivos propostos na
literatura e a realidade empírica............................................................ 99
Diocesar Costa de Souza
Marcos Roberto Kuhl
Vicente Pacheco
Metodologias de Intervenção Utilizadas pelos Consultores no Trabalho
Realizado com ONGs: um estudo na região metropolitana de Recife-
PE..................................................................................................... 115
Marcos Gilson Gomes Feitosa
Naldeir dos Santos Vieira

Avaliação da Qualidade dos Serviços de uma Instituição de Ensino
Superior Utilizando a Aplicação do Modelo Adaptado de Mensuração dos
5 GAP’s................................................................................................... 129
Rodrigo Navarro Xavier

BRT-ADM/I – Banco de Recursos Tecnológicos: apoio ao ensino, pesquisa
e extensão..............................................................................................139
Carlos César Garcia Freitas

Dados de Clientes no Customer Relationship Management (CRM): estudo
de casos múltiplos no desenvolvimento de software............................151
Flávio Régio Brambilla

Storytellings Organizacionais: narrativas contadas pelos anúncios e
vídeos institucionais............................................................................... 163
Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros

Mudando para Seleção por Competência: um caso paranaense..........175
Keyla Cristina Pereira Prado
Sérgio Bulgacov

Ensaio: O Princípio da Bicicleta: revisitando a mudança organizacional....187
Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
Summary
Capitalism and the Changes in the Working Process.............................. 11
Caroline Goerck

Environmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnology
as one of the long run solutions.............................................................. 21
Marcia Regina Gabardo da Camara
Rafael Borim de Souza

The Polarization of Regional Inequalities in the Brazil........................... 35
Francieli do Rocio de Campos
Patrícia Estanislau

Environment Management System Evolution: the case of Marine Shrimps
Laboratory................................................................................................ 47
Antonio Costa Gomes Filho
Fernando Antonio Forcellini
Marilene Bronoski
Rafael Feyh Jappur

Brazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzing
the indicators of sustainability................................................................. 57
Miriam Tiemi Oliveira Takimura
Valdir Machado Valadão Júnior

Evaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PR...................... 73
Diogo Lüders Fernandes
Vanessa de Oliveira Menezes

Social Responsibility Management and the Managers Profile: an analysis
of Blumenau-SC organizations................................................................85
Danielle Regina Ullrich
Marialva Tomio Dreher

Social Balance: comparative analysis between goals proposed in the
literature and empirical reality............................................................... 99
Diocesar Costa de Souza
Marcos Roberto Kuhl
Vicente Pacheco
Methods of Intervention Used in Labor Performed by the Consultants
with NGOs: a study in the metropolitan area of Recife-PE.............. 115
Marcos Gilson Gomes Feitosa
Naldeir dos Santos Vieira

Evaluation of Higher Education Service Quality through the Adapted
Measure Model of 5 GAPs...................................................................... 129
Rodrigo Navarro Xavier

Clients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiple
cases study for software development...................................................139
Flávio Régio Brambilla

Organizationals Storytellings: the narratives told in the videos and ads
institutional............................................................................................ 151
Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros

Moving to Competency-Based Selection: a Parana case...............................163
Keyla Cristina Pereira Prado
Sérgio Bulgacov

The Bicycle Principle: revisiting an organizational change...........................175
Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
Capitalismo e as Transformações no Processo de
                               Trabalho
                                        Capitalism and the Changes in the Working Process


Caroline Goerck1

Resumo

No capitalismo, os proprietários dos meios de produção exercem a hegemonia absoluta sobre as forças
produtivas, apropriando-se com exclusividade dos excedentes gerados no processo de trabalho. Os capitalistas
almejam intensificar a acumulação de capital, por meio da mais-valia absoluta e relativa, reduzindo os custos
de produção e aumentando a sua produtividade. O processo de produção realizado pelo maquinário a
vapor, durante a I Revolução Industrial, pelo petróleo e pela eletricidade, na II Revolução Industrial, e pelo
desenvolvimento da automação, robótica e microeletrônica, elaborado por meio da III Revolução Industrial,
foram submetendo os trabalhadores à máquina. Entretanto, faz-se necessário enfatizar que o desemprego
é permanente no sistema capitalista, sendo que o investimento em mais-valia relativa, só o acentua. Este
estudo está relacionado com uma revisão bibliográfica sobre o assunto apresentado e propõe-se também a
desencadear alguns questionamentos junto a estudantes e/ou profissionais que trabalham com a questão social
e suas manifestações, para serem objeto de prospecções sobre a realidade social e econômica. Nesse sentido,
este artigo propõe-se a desencadear reflexões sobre as transformações que estão ocorrendo no processo de
trabalho, visando prospectar alternativas à conjuntura macro social e econômica vigente.
Palavras-chave: Capitalismo; Processos de Trabalho; Revoluções Industriais; Desigualdade Social


Abstract

The owners of means of production in the capitalist system exert an absolute hegemony over the productive
forces, suiting themselves exclusively from the surplus generated through the work processes. The capitalists
intend to intensify the cumulative capital by relative and absolute surplus value, reducing the production costs
and increasing their productivity. Production achieved by steam engines, during the First Industrial Revolution, by
petroleum and electricity, during the Second Industrial Revolution, and by the development of automation, robots
and micro-electronics, originated during the Third Industrial Revolution, were substituting machine operators.
However, it becomes necessary to emphasize that unemployment is permanent in the capitalist system, considering
that the investment in relative surplus accentuates this unemployment. In this sense, the present article proposes
to elicit some reflections with students and/or professionals who carry about social manifestation issues, aiming
to prospect alternatives to the social macro and economical conjuncture being viewed.
Key words: Capitalism; Work Processes; Industrial Revolutions; Social inequality




1	    Possui doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS.Contato: goerck@yahoo.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 04/10/2009 - Aprovado em 04/06/2010
Introdução                                                   de alienação. Na manufatura, entretanto, o
                                                             trabalhador ainda possuía certa autonomia, em
        As questões referentes ao trabalho e                 relação às atividades que estava desempenhando,
seus processos produtivos, exercem influência                pois a ferramenta era utilizada para auxiliá-lo na
fundamental na forma de organização da sociedade,            produção, e não substituí-lo. “Na manufatura, o
com suas respectivas relações sociais e econômicas,          trabalho é desenvolvido pelo esforço humano, as
políticas e culturais. Para a existência de alternativas     operações são manuais e dependem da habilidade,
e proposições em relação ao capitalismo,                     rapidez, segurança e destreza individual dos
primeiramente se faz necessário, um conhecimento             trabalhadores” (PIRES, 1998, p. 31). Assim, no
mais elaborado desse sistema.                                trabalho desenvolvido pela manufatura, o capital
        Esse artigo tem como finalidade, introduzir e        ainda dependia da habilidade manual do operário.
elucidar conceitos do modo de produção capitalista                  Durante o século XVIII, na Inglaterra, emergiu
e sobre o processo de trabalho, por meio de uma
                                                             um intenso processo de transformação nos processos
retrospectiva histórica de forma que a questão
                                                             produtivos, intitulado de 1ª Revolução Industrial.
social seja evidenciada. Primeiramente, serão
                                                             “A Revolução Industrial assinala a mais radical
apresentadas as primeiras formas de sistematização
                                                             transformação da vida humana já registrada em
do trabalho coletivo e os procedimentos adotados
                                                             documentos escritos” (HOBSBAWM, 1983, p. 13).
pelo capital, para a obtenção da mais-valia. Num
                                                             Nesse momento histórico, acentuou-se a divisão
segundo momento, serão abordadas a II Revolução
                                                             entre a classe trabalhadora e os proprietários dos
Industrial e as transformações que estão ocorrendo
                                                             meios de produção.
no final do século XX e limiar do século XXI, com
                                                                    O período da 1ª Revolução Industrial
suas respectivas implicações sociais e econômicas.
                                                             corresponde ao momento de consolidação do
Por fim, serão tecidas as considerações finais.
                                                             capitalismo industrial, principalmente na Inglaterra.
                                                             O trabalho manufatureiro fora substituído pela
1. O Processo de Trabalho e o Sistema
                                                             criação da máquina a vapor, pelo tear mecânico,
Capitalista                                                  pelas estradas de ferro e pelo surgimento das fábricas.
       Antes de introduzir a I Revolução Industrial, faz-    “Ainda que a indústria seja a forma através da qual a
se necessário abordar um dos primeiros processos             sociedade apropria-se da natureza e transforma-a,
de trabalho existentes no sistema capitalista, como          a industrialização é um processo mais amplo, que
por exemplo, o trabalho manufaturado artesanal.              marca a chamada Idade Contemporânea, e que se
Os processos de trabalho manufaturados artesanais            caracteriza pelo predomínio da atividade industrial
foram caracterizados pela fragmentação das                   sobre as outras atividades econômicas” (SPOSITO,
atividades produtivas, pelo acirramento da divisão           2000, p. 43). A I Revolução Industrial foi mais do
do trabalho, pela redução dos custos de produção             que uma simples causa dessas invenções, do tear
e pela culminação do trabalho assalariado. Essa              mecânico, da estrada de ferro etc. Contrapondo-
dissociação entre o produtor e os meios de produção          se a isso, essas inovações são consequências das
é nomeada de acumulação primitiva (MARX, 1988).              mutações que estavam ocorrendo nos processos de
       No trabalho manufatureiro artesanal,                  produção industrial, desde o trabalho manufaturado,
cada trabalhador se tornou especialista de uma               visando a realização do capital.
determinada função, auxiliado pela ferramenta.                      “A máquina, por meio de uma força externa,
Pelo intermédio do parcelamento das atividades               faz com suas próprias ferramentas, o que o homem
laborais, realizadas na manufatura, ocorreu um               fazia com suas ferramentas manuais” (PIRES, 1998,
processo de estranhamento, entre os trabalhadores            p. 31). Assim, a industrialização e as inovações de
e as mercadorias por eles produzidas (MARX,                  maquinarias, reduziram os custos de produção,
1988). Esse processo de estranhamento é nomeado              aumentaram a produtividade e substituíram a mão-

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de-obra, ocasionando um crescente desemprego              como o conflito suscitado entre o capital (proprietários
e uma exacerbada exploração dos trabalhadores,            dos meios de produção) e o trabalho (trabalhadores
entre eles, o trabalho feminino e o infantil.             que vendem suas forças de trabalho em troca de
        Por intermédio da perspectiva social e            um salário), bem como, as desigualdades geradas
econômica liberal, os processos de produção               através dessa relação social, de compra e venda da
continuaram sendo modificados. A produção                 força de trabalho (BULLA, 1992).
realizada pelo maquinário a vapor – na 1ª Revolução               Os trabalhadores, ao disponibilizarem a
Industrial, e pelo petróleo e pela eletricidade -         sua mão-de-obra aos capitalistas, são explorados
durante a II Revolução Industrial, foram submetendo       gerando a mais-valia, que perpetua a acumulação
os trabalhadores à máquina. A II Revolução Industrial     capitalista. A força de trabalho pode ser caracterizada
teve como características, o desenvolvimento dos          como o conjunto das faculdades físicas e intelectuais
setores de transportes, comunicação, produção em          do trabalhador que as vende à burguesia (SALAMA,
série e, principalmente, a utilização do aço e de novas   1975). Os proprietários dos meios de produção
formas de energia (petróleo e eletricidade), gerando      compram a força de trabalho do proletariado,
a concentração de capital e favorecendo a transição       em troca de salários. “[...] o que distingue o pior
do capitalismo concorrencial ao monopolista.              arquiteto da melhor abelha é que ele figura na
Esses novos protótipos de produções industriais,          mente da sua construção antes de transformá-la
ocasionados pela I e II Revoluções Industriais,           em realidade” (MARX, 1968, p. 202). A mão-de-
desencadearam o acirramento da divisão social do          obra é vendida como mercadoria pelos próprios
trabalho. Nessa época, a classe trabalhadora era          trabalhadores. “Ao firmar o contrato salarial [...] os
destituída de direitos trabalhistas e as condições de     trabalhadores submetem-se ao empregador, que
trabalho eram precárias.                                  disporá da força de trabalho alienada” (CATTANI,
        No modo de produção capitalista, os               1996, p. 93). O valor desse salário é definido pela
detentores dos meios de produção exerciam                 quantidade de horas trabalhadas pelos operários
(exercem) a hegemonia absoluta sobre as forças            (jornada de trabalho).
produtivas (meios de produção e força de trabalho),               Para os capitalistas, o processo produtivo
apropriando-se com exclusividade dos excedentes           possui um valor, pois lhes são úteis, gerando a
gerados (mais-valia) na atividade econômica. Os           mais-valia. Esta realiza-se, quando os trabalhadores
proprietários dos meios de produção exploram os           consomem mercadorias adquiridas, por intermédio
trabalhadores pela obtenção da mais-valia, gerando        de seus valores de troca, com os seus salários.
a concentração de riquezas. Essa concentração de          Ou seja, o salário dos operários que foi gasto
capital e do trabalho socialmente produzido resultou      em mercadorias, retorna aos capitalistas, que por
em tensões e lutas sociais, especialmente a luta de       sua vez, acumulam mais capitais, perpetuando o
classes, processo analisado no livro “O Capital”          sistema (MARX, 1988). A mais-valia produzida pela
(MARX, 1988).                                             classe operária é apropriada pelos capitalistas que
        O trabalho produzido pela classe trabalhadora     sempre tentam aumentar os seus lucros, através da
era (é) apropriado pelos capitalistas e, na medida em     intensificação da produção que não é paga - através
que a força de trabalho é algo passível de compra, ela    dos salários, aos trabalhadores. Para o aumento
passa também a ser considerada uma mercadoria.            da mais-valia, da produtividade, os capitalistas
Nesse processo, o valor da força de trabalho é            usufruem de duas possibilidades. A primeira ocorre
determinado pelo tempo de duração destinado à             com a mais-valia absoluta, que se subdivide em
produção e à reprodução das mercadorias. Essa             outras duas alternativas: ampliação da duração
relação entre a compra e venda da mão-de-obra             da jornada de trabalho (horas trabalhadas); e a
é considerada uma relação social e desencadeia a          segunda pelo aumento da intensidade do trabalho,
questão social. A questão social pode ser apreendida,     visando à produção máxima dos trabalhadores


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junto às máquinas (quase robóticos) durante a            pura e simples do progresso técnico é, na realidade,
execução do trabalho (MARX, 1988). Entretanto,           um fenômeno inerente ao sistema capitalista e das
ambas sofrem limitações, a primeira se contrapõe à       suas próprias contradições (MARX, 1988). Nesse
resistência física dos trabalhadores, que não teriam     trabalho, ressalta-se o significado econômico da
condições de trabalhar muitas horas consecutivas;        mais-valia, pois essa acirra a desigualdade social.
na segunda, os operários não possuem condições                   Conforme Karl Marx (1818–1883) e Friedrich
de acompanhar o ritmo dos maquinários, quando            Engels (1820–1895), pensadores do Socialismo
muito acelerados.                                        Científico, somente existiriam sociedades mais justas e
        A outra possibilidade de ampliação do            igualitárias, quando o sistema capitalista se esgotasse
acúmulo de capital é obtido pela mais-valia relativa,    e fosse substituído por outro modo de produção, que
que é responsável por uma grande exacerbação             superasse a contradição capitalista. Esse outro sistema
da produtividade no trabalho. A mais-valia relativa      produtivo, segundo esses autores, seria o socialismo.
é realizada a partir do uso intensivo de capital         Neste, a propriedade privada e as classes sociais
constante (maior investimento em compra de               deveriam ser eliminadas, gerando a propriedade
maquinários, do que em contratação da força de           social dos meios de produção. Na sequência dessas
trabalho), ocasionando uma redução nos custos de         transformações, entre os modos de produção, em seu
produção e no tempo socialmente necessário para          último estágio, pregavam Marx e Engels, haveria a
a fabricação de uma mercadoria, sem alterar o            passagem do socialismo ao comunismo, eliminando
tempo de duração na jornada de trabalho (MARX,           assim, as classes sociais e o Estado Burguês.
1988). É nesse processo de intensificação da mais-               Para Marx, a práxis “está presente como
valia relativa, que se reduz o tempo socialmente         elemento fundamental de transformação da sociedade
necessário à produção de mercadorias, que                e da natureza pela ação dos homens” (GOHN, 2002,
geram acumulação de capital. Assim, as máquinas          P 176). A transformação do social por intermédio de
                                                          .
aumentam a produção reduzindo a quantidade de            atividades teóricas, conjuntamente com atividades
trabalhadores contratados.                               políticas e/ou produtivas, constituem a práxis, que tem
        A redução da contratação de mão-de-              como base fundante o mundo do trabalho. Entretanto,
obra suscita o desemprego. O desemprego pode             para que ocorra a transformação por meio da práxis,
ser para os proprietários dos meios de produção,         é necessário que exista a consciência de classe. Essa
uma vantagem, pois se cria um exército de reserva        consciência de classe, que Marx se refere, foi uma das
(muita oferta de força de trabalho) a disposição dos     condições necessárias à emergência dos movimentos
capitalistas, que podem escolher a mão-de-obra,          sociais existentes no século XIX. As Internacionais
de acordo com as suas necessidades de produção.          Socialistas, organizadas pelo próprio Marx e Engels,
Portanto, o progresso técnico reduziu a contratação      se constituíram em movimentos de organização da
da mão-de-obra. Mas se faz necessário o                  classe operária. A Primeira Internacional, realizada
esclarecimento de que o desemprego é permanente          em Londres (1824) e a Segunda Internacional em
no capitalismo, sendo que o investimento na              Paris (1889), fixou a data de 1º de maio como o
mais-valia relativa só o acentua. O objetivo dos         Dia Internacional do Trabalho, em homenagem à
proprietários dos meios de produção é intensificar       mobilização realizada pelos grevistas em Chicago,
a acumulação de capital, permitindo-lhe competir         no ano de 1886. Outros movimentos sociais
com os demais capitalistas, mantendo-se no sistema       emergiram no século XIX frente ao capitalismo, como
e evitando a sua eliminação ou incorporação a outro      forma de resistência dos trabalhadores diante do
capitalista e/ou grupo de maior porte. A lógica do       capital. No próximo subitem, serão problematizadas
capitalismo se sobrepõe ao processo técnico, esse        as transformações que ocorreram e estão ocorrendo
último só complementa-o. O desemprego, longe             no processo de produção e gestão que envolvem o
de ser um fenômeno natural ou uma decorrência            sistema.


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2. As Transformações no Processo de trabalho de concepção e de execução; utilização
Trabalho desenvolvidas nos Cenários do conhecimento, para controlar cada fase da
dos Séculos XX e XXI                produção e o seu modo de execução (HARVEY,
                                                         1999). Através da cisão entre o trabalho intelectual
        Os Séculos XX e XXI são cenários de acentuadas   e o operacional, a gerência científica racionalizava
transformações no mundo do trabalho, com suas            a produção, estabelecendo rigidamente os modos
respectivas implicações sociais e econômicas. Para       e tempos de produção, bem como os rendimentos
apresentar as novas transformações que estão             da força de trabalho, colocando os trabalhadores
ocorrendo nos processos de trabalho - que têm            sobre uma estrutura hierárquica de produção, em
como finalidade a intensificação da acumulação           que eles eram vigiados e controlados.
capitalista, é necessário que se introduza, o contexto          O Taylorismo caracterizou-se pelo controle
social e econômico existente no Século XX - cenário      do capital (com o objetivo de elevar a produtividade
originário e que permeou essas transformações.           do trabalho) sobre processos de produção, nos
O sistema capitalista, com a finalidade de               quais o capital dependia ainda da habilidade do
expandir a acumulação de capital, promoveu               trabalhador. Esse controle era efetivado através
a Segunda Revolução Industrial, manifestada,             dos tempos e movimentos do trabalhador. Após
principalmente, pelo binômio Taylorismo/Fordismo.        as inovações dos processos produtivos de Taylor,
Esses dois modelos predominaram no processo de           em 1913 Henry Ford, utilizando essas inovações,
industrialização, tendo sua ascensão na segunda          criou a linha de montagem (automobilismo) e o
década do século XX. Suas caracterizações estão          método de produção em massa (esteira), obtendo
relacionadas à hierarquização das relações de            produtos padronizados (FLEURY; VARGAS, 1983). O
trabalho, a homogeneização das mercadorias, a            Fordismo, que teve seu desenvolvimento hegemônico
produção em massa e em série (ANTUNES, 2003).            no período pós-guerra, pôde ser desenvolvido ao
        Na indústria automobilística Taylorista e        fundir-se com o Taylorismo.
Fordista, foram considerados elementos centrais
à produção, a racionalização das operações, o                O Fordismo caracteriza o que poderíamos chamar de
combate ao desperdício na produção (redução                  socialização da proposta de Taylor, pois, enquanto este
                                                             procurava administrar a forma de execução de cada tra-
de tempo), o aumento do ritmo do trabalho e da
                                                             balho individual, o Fordismo realiza isso de forma cole-
intensificação das formas de exploração pelos                tiva, ou seja, a administração pelo capital da forma de
capitalistas (ANTUNES, 2003). Taylor, fundador               execução das tarefas individuais se dá de uma forma
da gerência científica, começou sua carreira como            coletiva, pela via da esteira (NETO, 1991, p. 36).
operário numa fábrica. A partir de suas experiências,
enquanto sujeito trabalhador, dedicou-se em                      Ao contrário do Taylorismo, que se baseava
observar e em estudar os tempos e movimentos             no rendimento individual de cada trabalhador, no
realizados em cada tarefa e atividade da produção.       Fordismo, o controle dos tempos e dos movimentos
“O ‘Taylorismo’ ou ‘administração científica do          era determinado pelo ritmo do funcionamento das
trabalho’ surge como uma nova cultura do trabalho        maquinarias. Nesse modelo, eram as máquinas
na passagem do século XIX para o século XX, nos          (esteiras) que levavam o trabalho até os operários,
Estados Unidos, nação que começava a despontar           eliminando assim, os tempos mortos de produção.
como potência mundial” (DRUCK, 1999, p. 41).             Com esse protótipo, que desenvolveu a mecanização
        Para o enfrentamento do capital em relação       associada e parcialmente automatizada, o controle
à dependência da habilidade manual da força de           sobre o trabalho não precisava mais ser realizado
trabalho, Taylor estabeleceu os seguintes princípios:    diretamente pelo gerente, mas sim, pelos maquinários
dissociação dos processos de produção das                (PIRES, 1998). O Fordismo constituiu-se no processo
especialidades dos trabalhadores; separação do           contínuo da produção que agregou a produtividade


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ao consumo, ou seja, sempre dispondo de estoque          de vigência do Welfare State e com os modelos
mínimo às mercadorias (Just-In-Case). Também             de produção Fordistas e Tayloristas, ocorreu a
pode ser considerado, o modelo de produtividade          massificação da classe operária, conjuntamente
que separou rispidamente o trabalho de concepção         com a precarização das condições e relações de
e o de execução. Esse tipo de produção ocasionou         trabalho, fazendo com que eclodissem movimentos
a “expansão das unidades fabris concentradas e           reivindicatórios e questionadores desses métodos de
verticalizadas e pela constituição/consolidação do       produção. Essas manifestações foram concebidas
operário-massa, do trabalhador coletivo fabril”          por meio de greves, boicotes e resistência ao trabalho
(ANTUNES, 1995, p. 17).                                  despótico e verticalizado, oriundo do Taylorismo/
        O Fordismo criou as linhas de montagem,          Fordismo (ANTUNES, 2003).
desqualificando, parcelando e desenvolvendo                       Outros elementos, além das manifestações
atividades laborais repetitivas, prejudiciais à saúde    operárias, que constituíram a crise desses
dos trabalhadores. Tanto o Taylorismo como o             modelos produtivos foram: a queda dos ganhos
Fordismo, foram modelos produtivos degradantes           de produtividade pelo capital; a abertura à
das condições e relações de trabalho. A ruptura          concorrência internacional, caracterizada pelo
entre o trabalho de concepção e o de execução            processo de globalização; a flexibilização do capital;
foram elementos preponderantes para a alienação          a desterritorialização e a crise do Welfare State
dos operários diante do trabalho. Porém, não se          (COCCO, 2001). A crise do Welfare State, modelo
deve confundir o Taylorismo com o Fordismo. O            de Estado que regulava o capital e reproduzia
Taylorismo se caracterizou pela racionalização           a força de trabalho, efetivou-se pela retirada das
científica do trabalho, eliminando os tempos mortos      coberturas sociais públicas e pelo corte nos direitos
de produção e pôde ser viabilizado em pequenas           sociais, num processo de ajuste do Estado que visa à
e médias empresas; enquanto que o Fordismo               diminuição dos ônus do capital e do déficit público,
envolveu uma nova organização dos processos              na esquematização da reprodução da força de
de trabalho, através de máquinas-ferramentas             trabalho e das condições para a perpetuação da
especializadas, mecanização e intensa divisão de         acumulação capitalista (NETTO, 1996). O Estado
atividades laborativas, sendo que foi desenvolvido       mínimo proposto pelas políticas neoliberais propõe
em grandes empresas com produtos padronizados            a retirada do Estado, junto aos bens e serviços
(CATTANI, 2000). Esses modelos contribuíram para         sociais públicos e não em relação ao financiamento
a exploração da classe trabalhadora no século XX.        do capital.
        Paralelamente ao modelo de produção                       Nesses contextos sociais e econômicos, os
Taylorista/Fordista, também no período Pós-              governos dos Estados de capitalismo avançado,
Guerra, emergiu o modelo de Estado designado             liderados por Margaret Tatcher na Inglaterra, em
como Welfare State nos países liberais. “O Estado        1979, e Ronald Reagan nos Estados Unidos, em
é chamado para arbitrar o conflito entre o capital e     1980, implementaram uma política econômica e
o trabalho” (SCHONS, 1999, p. 119). Esse modelo          social embasados no aporte teórico neoliberal. Essa
de Estado contribuiu para o Boom Econômico até           política econômica e social tem como medidas: o
o final da década de 1960 e “é entendido como a          enxugamento e a redução das responsabilidades dos
mobilização em larga escala do aparelho do Estado        Estados diante das sociedades; o fortalecimento da
em uma sociedade capitalista, a fim de executar          liberdade de mercado; as privatizações de instituições e
medidas orientadas diretamente ao bem-estar              organismos estatais; a redução e a extinção do capital
de sua população” (MEDEIROS, 2001, p. 6). O              produtivo estatal; o desenvolvimento de uma legislação
Welfare State interviu no planejamento econômico,        “desregulamentadora” das relações de trabalho e
montando esquemas de transferências sociais e            “flexibilizadora” dos direitos sociais; o enfraquecimento
de distribuição de bens e serviços. Nesse período        dos movimentos sindicais etc (ANTUNES, 2003).


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Outro elemento preponderante que constituiu      Terceira Revolução Industrial, intensificam-se as
a crise do Taylorismo e Fordismo foi o processo          mais-valias relativas, que são responsáveis por um
de globalização do capitalismo. A globalização,          grande aumento da produtividade nos processos de
intensificada durante a década de 1990, é                trabalho. Com a revolução tecnológica, “o homem
constituída pela: mundialização dos mercados;            deve exercer na automação funções mais abstratas
dinamização do mercado mundial; acumulação               e intelectuais” (IANNI, 1999, p. 19), fazendo
flexível; liderança econômica dos grandes bancos         com que o mercado requisite constantemente um
e empresas oligopólicas; revolução tecnológica;          profissional mais qualificado e polivalente. Com
implementação do referencial teórico neoliberal          os novos processos tecnológicos - mecanização,
nas políticas econômicas e sociais; subordinação         automação e robótica -, o capital não gera mais
dos países periféricos aos de capitalismo avançado       uma significativa quantidade de emprego, a ponto
(ANTUNES, 2003). Na mundialização do capital, os         de absorver a força de trabalho disponível, pois as
países periféricos são subordinados às instituições      inovações tecnológicas intensificam a produção e
financeiras dos países de economia avançada, não         racionalizam os processos produtivos.
possuindo condições de competir em condições de                  O processo de reestruturação do capital,
igualdade nos mercados internacionais.                   juntamente com o neoliberalismo, vem apresentando
        Juntamente com a globalização, outro             no aspecto econômico, porém, limitações, que estão
fenômeno emergiu no término do século XX, o              sendo materializadas pelas crises que ocorreram
processo de desterritorialização. Este é caracterizado   nos Tigres Asiáticos (1997-1999), no México
pela mobilidade do capital e consequentemente dos        (1994-1995), na Argentina (2001-2002), e, mais
trabalhadores, em escala mundial (IANNI, 1999).          recentemente, nos Estados Unidos da América,
O trabalhador migra conforme os movimentos               desencadeando a crise mundial em 2008 e 2009.
do capital, e este, por meio das transnacionais e/       A recessão norte-americana que está ocasionando
ou multinacionais, direciona-se conforme os seus         a crise mundial possui sua origem vinculada à
interesses de aumento na reprodução e acumulação         crise das hipotecas dos EUA, desde agosto de
de capital.                                              2007, alastrou-se rapidamente por todo o setor
        A crise dos modelos de produção que              financeiro da economia norte-americana e do
vigoraram no Século XX e do Welfare State, o advento     mundo - mundialização do capital. Esse mecanismo
do neoliberalismo, a infiltração do capital nos países   permitiu a expansão do consumo nos EUA e no
tidos como socialistas, a expansão da globalização,      desenvolvimento da economia chinesa, entre outros
juntamente com o processo de desterritorialização,       aspectos.
são elementos que integraram o cenário do Século XX.             Ainda não se tem conhecimento de quais
Diante dessas circunstâncias, iniciou-se um processo     serão as consequências futuras dessa crise, porém,
de reorganização do próprio capital, com seu sistema     sabe-se que ela não é equivalente a de 1929, que
ideológico e político de dominação, resultando num       desencadeou a depressão econômica generalizada
acentuado processo de reestruturação da produção         (FACHIN, 2008). O que está ocorrendo constitui-se
e do trabalho (ANTUNES, 2003). O término do              numa recessão materializada pela redução na taxa
século XX e o limiar do século XXI são marcados por      de crescimento econômico, que gera desempregos,
uma profunda transformação do mundo do trabalho          entre outros elementos. O que se sabe, entretanto,
e seus processos produtivos.                             com a atual recessão mundial - advinda da crise norte-
        Essa transição do Taylorismo/Fordismo ao         americana -, é que o protótipo neoliberal respaldado
Toyotismo também é expressa pela passagem da             na autorregulação do mercado, na liberalização
máquina-ferramenta, ao sistema de máquinas               e expansão da economia em escala mundial e na
auto-reguladas, em que “a máquina se vigia e se          não intervenção estatal nas relações comerciais,
regula a si mesma” (IANNI, 1999, p. 18). Com a           vem demonstrando sinais sérios de esgotamento,


                                                     17
principalmente nos EUA, no Japão e na Europa               de 20,4% (outubro de 2008) (ATLAS..., 2009). Já
Ocidental - que possui como moeda o Euro.                  em relação à taxa de crescimento econômico no
        Na América Latina, diante desse cenário            Brasil, ocorreu uma redução maior do que 3%
mundial, o trabalho informal constitui-se num dos          entre os anos de 2007 e 2008. Em 2007, houve
elementos que contribui para a sobrevivência dos           um crescimento de 7,0%, e, em 2008, com a crise
sujeitos que estão exclusos do mercado formal              mundial, o crescimento no Brasil reduziu para 3,8%.
de trabalho (CATTANI, 2003). Já no Brasil 32,6%                    Outra característica fundamental que se atribui
dos municípios possuem mais da metade de sua               ao trabalho feminino é que, para a inserção da mulher
população vivendo na pobreza, e a Região Nordeste          no mercado formal de trabalho, faz-se necessário
possui a realidade mais alarmante, totalizando             um nível de qualificação, que comumente é superior
77,1% dos municípios nessas condições.                     ao masculino, devido à desigualdade de gênero
        Salienta-se ainda que, além das velhas             nas relações de (re) produção social e econômica.
formas estocadas de exclusão social nos países             Mesmo com o fato das mulheres brasileiras terem
periféricos - entre eles os países latino-americanos -,    em média um ano a mais de escolaridade que os
designada de “velha pobreza”, representada pelos           homens, as mesmas recebem salários inferiores a
pobres, miseráveis, mendigos, pedintes, indigentes         eles mesmos (CAMPUS, 2008). Uma trabalhadora
subnutridos e minorias sociais (idosos, deficientes,       que possui escolaridade entre 8 e 10 anos, recebe
mulheres, negros, índios), com a Reestruturação            valor semelhante ao de um trabalhador que estudou
do Capital ou III Revolução Industrial, surge tanto        no máximo 3. Além do aspecto cultural, outro motivo
nos países centrais, como também nos periféricos           que possivelmente desencadeie essa diferença salarial
- emergentes -, outra forma de exclusão social,            pode ser explicado pelo fato de os homens possuírem
nomeada de “nova pobreza” (REIS, 2002). Essas              uma maior taxa de abandono e defasagem escolar
novas exclusões sociais, que atingem tanto os              maior do que as mulheres, e por entrarem em média
países periféricos como os centrais, são originárias       com menos idade do que as mulheres no mercado
do desemprego estrutural e de suas manifestações,          de trabalho (CAMPUS, 2008).
compreendidas como exclusão de bens e serviços,                    Frente a essa realidade de desemprego tanto
do mercado formal de trabalho, da terra, da                feminino como também o masculino, constata-se
segurança, dos direitos humanos (REIS, 2002).              que estão sendo prospectadas novas formas ou
        Segundo os dados coletados pela PED-IBGE           possibilidades de geração de trabalho e renda,
(Pesquisa de emprego e desemprego) entre os anos           com vistas a incluir os sujeitos – especialmente os
de 2002 e 2008, houve uma redução na taxa de               menos qualificados - no sistema, possibilitando
desemprego total em todas as capitais pesquisadas,         uma melhoria nas suas condições de vida e
e em Belo Horizonte, chegou a diminuir 11%. Em             consequentemente de seus familiares. Para isso,
Porto Alegre, teve uma redução de 4,7%, pois a             estão sendo pensados novos             protótipos de
região metropolitana de Porto Alegre, em outubro           desenvolvimento (DE PAULA, 2001) que podem ser
de 2008, possuía 10,6% de sua população                    observados sob o aspecto de que o desenvolvimento
economicamente ativa desempregada (dados para              social significa desenvolvimento não-desigual e que
outubro de 2008). Na região metropolitana de São           visa à inclusão social de todos os sujeitos.
Paulo, os índices de desemprego correspondiam a
12,5% (outubro de 2008); na região metropolitana           Considerações Finais
de Belo Horizonte, a 9,0% (outubro de 2008); na
região metropolitana de Recife, a 18,9% (outubro                  Neste artigo pretendeu-se esclarecer o modo
de 2008); no Distrito Federal, a 16,0% (outubro            de produção capitalista e seus processos de trabalho,
de 2008) e, na região metropolitana de Salvador            durante as três Revoluções Industriais. No sistema
ainda há o maior índice de desemprego, em torno            capitalista, os proprietários dos meios de produção,


                                                          18
sempre visam intensificar a acumulação de capital,     trabalhadores sobrantes - desnecessários ao capital,
seja através da mais-valia absoluta, ou por meio da    que não conseguirão mais serem absorvidos pelo
mais-valia relativa, reduzindo os custos de produção   sistema? Será que emergirá alguma alternativa
e aumentando a sua produtividade. O processo de        viável ao crescente desemprego? Será que não está
acumulação e centralização de capital é inerente a     no momento da sociedade como um todo, bem
esse sistema, pois deles dependem, a permanência       como, profissionais, refletirem seriamente sobre as
de qualquer empreendimento no mercado, evitando        “novas armadilhas” do capital? Ou será que, ao
sua eliminação e/ou incorporação a outro capitalista   criar alternativas para atenuar as manifestações da
de maior porte.                                        questão social, não se está novamente deixando de
       Nesse sentido, este estudo propõe-se a          prospectar mudanças, que realmente transformem
desencadear algumas reflexões, a estudantes            a realidade, reduzindo a desigualdade social e
ou profissionais que trabalham com a questão           econômica, assim como a exploração capitalista?
social e suas manifestações, para serem objeto de      E por último, será que a criação de alternativas de
prospecções sobre a realidade social e econômica.      geração de trabalho e renda, além de serem fruto das
Diante das transformações que estão ocorrendo          próprias contradições do capital, não se constituem
no processo de trabalho, o que será proposto aos       também, como uma forma de alienação?


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                                                    20
Crise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a
  nanotecnologia como uma das soluções de longo prazo
 Environmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnology as one of the long run solutions


Marcia Regina Gabardo da Camara1
Rafael Borim de Souza2

Resumo

O artigo discute os determinantes da crise ambiental e possíveis soluções, a partir da emergência de uma nova
realidade internacional e organizacional, amparada por um paradigma de sustentabilidade ambiental e social.
O objetivo do artigo é o de analisar o comportamento organizacional que desencadeou a crise ambiental e a
reflexão sobre as soluções não imediatistas que permitiriam uma produção sustentável e suas consequências.
A pesquisa é de natureza qualitativa, exploratória, bibliográfica e documental. Foi realizado um levantamento
teórico-metodológico a partir do paradigma de sustentabilidade e convergências tecnológicas. Apresentou-
se, também, como exemplificação, o movimento nanotecnológico do continente europeu, possibilitado pela
análise do documento: European activities in the field of ethical, legal and social aspects (ELSA) and governance
of nanotechnology, cuja primeira versão foi disponibilizada em outubro de 2008, pela European Comission,
DG Research, Unit “Nano and Converging Sciences and Technologies”. A disseminação das nanotecnologias,
coordenadas por uma governança multilateral global responsável por institucionalizar e legitimar valores sociais
e ambientais necessários em tais convergências tecnológicas, é apresentada como uma das possíveis soluções
para a problemática ambiental.
Palavras-chave: Nanotecnologia; Sustentabilidade e Governança Multilateral.


Abstract

This article discusses the determinants of environmental crisis and its possible solutions which come from the
emergence of a new international and organizational reality structured in a sustainable paradigm. The objective
of this qualitative, exploratory, bibliographic and documental research was to analyze the organizational behavior
that resulted in the environmental crisis and its consequences. A survey on theories and methodologies that deals
with sustainable paradigm and technologic convergences was carried out. It was presented, for instance, the
European movement on nanotechnology, through the following document: European activities in the field of
ethical, legal, and social aspects (ELSA) and governance of nanotechnology, which first version was published
in October 2008, by the European Commission, DG Research, Unit ‘Nano and Converging Sciences and
Technologies’. One of the solutions for the environmental problem is the dissemination of the nanotechnologies,

1	   Professora Associada da Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Desenvolve estudos e tem experiência em Economia, com ênfase
em Organização Industrial e Estudos Industriais.Possui doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo - USP Brasil, mestrado em
                                                                                                                       ,
Economia pela mesma instituição, e graduação em em Economia pela Universidade de Brasília - UnB, Brasil. Contato: mgabardo@uel.com.br
2	 Discente do curso de Administração pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Estadual de Londrina e
Universidade Estadual de Maringá, consorciadas - PPA/UEM-UEL, Brasil.Possui especialização em Controladoria e Finanças pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil, e especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro -
FGV-RJ, Brasil, ambas nível latu sensu. Bacharelado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil. Contato:
rafaelborim@yahoo.com


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 27/06/2010 - Aprovado em 18/12/2010
coordinated by a global governance, which is responsible for institutionalize social and environmental values
needed in these technologic convergence.
Key words: Nanotechnology; Sustainability and Multilateral Governance


Introdução                                                        O artigo levanta o problema que alimenta
                                                           o debate sobre produção sustentável nos meios
        A solução da crise ambiental passa por um          acadêmicos e empresariais: a crise ambiental
amplo debate internacional. Pesquisadores das              derivada da ação humana e empresarial. A questão de
mais diversas áreas têm destacado a importância da         pesquisa que o estudo busca responder é: há soluções
criação de um órgão internacional multidisciplinar,        para a crise ambiental? O objetivo do trabalho é
através de um grupo consultivo constituído por             analisar os comportamentos organizacionais que
membros de diversos países, que possua a                   desencadearam a crise ambiental e refletir sobre
capacidade e a legitimidade para estabelecer em            as soluções não imediatistas que permitiriam uma
nível global, um sistema de governança multilateral        produção sustentável.
como resposta institucional à crise ambiental. É nesse            O trabalho está estruturado em cinco
contexto também que surgem propostas focando               capítulos: introdução, metodologia, a crise do
às convergências tecnológicas e à necessidade de           meio ambiente e o contexto de ascensão de um
avaliação dos impactos transformativos oriundos            paradigma pautado por valores de sustentabilidade
das novas tecnologias. O estabelecimento de um             social e ambiental, a convergência tecnológica
conceito avançado de desenvolvimento responsável           como fenômeno exigente de uma governança
deve abranger critérios como: avaliação de                 multilateral e global sobre os anseios do paradigma
saúde, segurança e ética, engajamento de atores            de sustentabilidade: a nanotecnologia na Europa, e
internacionais quanto a parcerias, e instigação            considerações finais.
de um comprometimento social, pautado por
planejamentos e investimentos interessados em              1. Metodologia
fatores de longo prazo.
        As convergências da nanotecnologia,                       A abordagem do problema aconteceu de
biologia, revolução digital e ciências cognitivas, por     maneira qualitativa, por ser uma forma adequada
exemplo, promovem o desenvolvimento de inovações           de entender a natureza de um fenômeno social.
construtivas e transformadoras à concepção de novos        O objetivo foi analisado pelo ponto de vista
produtos e serviços, oportunidades de melhores             exploratório, uma vez que se orienta por conhecer
condições de desenvolvimento ao potencial humano           as características de um fenômeno, para procurar,
e conquistas sociais necessárias, que, com o tempo,        em um momento posterior, explicações de suas
remodelarão os relacionamentos estruturais e               causas e consequências. Em relação às estratégias
institucionais até então vivenciados. Para tanto, a        de pesquisas abordadas, o estudo classifica-se como
participação de todos os sujeitos sociais influenciados    bibliográfico, uma vez que busca conhecer, analisar
por essas novas tecnologias, a transparência das           e explicar contribuições sobre o tema abordado, e
estratégias dessa governança, e a responsabilidade         documental, por utilizar documentos como fonte de
específica de cada stakeholder precisam efetivar-se        dados, informações e evidências (RICHARDSON,
plenamente. A nova realidade é promotora de uma            2008; MARTINS; THEÓPHILO, 2007).
emancipação social, caracterizada, principalmente,                Três possíveis soluções de longo prazo à
pela legitimação urgente do paradigma de                   problemática ambiental são apresentadas: os
sustentabilidade, o qual retira os ferramentais            programas de responsabilidade social adotados por
decisórios de uma unilateralidade e os insere em           organizações com poder de atuação local, regional,
um multilateralismo interdisciplinar.                      nacional e internacional (CLAPP 2005); a reforma
                                                                                           ,

                                                          22
mediante determinadas atitudes mercadológicas,
ecológica (BORINELLI, 2007); e o desenvolvimento
oriundo do movimento de convergências    tomadas no intuito único de incrementarem seus
                                         lucros, sem estarem preocupadas com as respectivas
tecnológicas exemplificado pelas nanotecnologias
                                         consequências sociais e ambientais de tais decisões.
(MARTINS, 2005). O artigo aborda as diferentes
                                         A legitimação dos lucros empresariais por uma
soluções e concentra-se na última proposição.
                                         aceitação social e comunitária, portanto, passa a
        O levantamento teórico-metodológico é
                                         ser imprescindível.
realizado a partir do paradigma de sustentabilidade e
                                                A ação de tais agentes sociais incorre em
convergências tecnológicas. Apresenta-se, também,
                                         consequências ambientais, estas nem sempre
como exemplificação, o movimento nanotecnológico
                                         agradáveis. A análise da problemática ambiental se
do continente europeu, possibilitado pela análise do
                                         dá por uma diversidade de abordagens, as quais se
documento: European activities in the field of ethical,
                                         mostram distintas em alguns pontos e convergentes
legal and social aspects (ELSA) and governance
                                         em outros. Nesse sentido, adota-se a via interpretativa
of nanotechnology, elaborado pela Dra. Angela
                                         das ciências sociais.
Huffman, cuja primeira versão foi disponibilizada
em outubro de 2008 pela European Comission, DG  Zioni (2005, p.39) destaca que “para discutir
                                         a relação entre as ciências sociais e o meio ambiente,
Research, Unit “Nano and Converging Sciences and
Technologies”.                           é fundamental uma reflexão sobre o cenário em
                                         que essas questões emergiram: a modernidade”.
        A análise do documento permite verificar
                                         O ambiente tem sofrido os impactos das ações
que o financiamento das atividades de pesquisas
                                         capitalistas; no caso específico das revoluções
acontece através de programas sistêmicos (framework
                                         industriais, caracterizaram-se pela exploração do
programme - FP) com períodos de duração pré-
                                         solo e da mão-de-obra, gerando inúmeros resíduos
determinados. No documento mencionado, são
                                         sólidos, líquidos e gasosos que se intensificaram no
apresentados 2 projetos referentes ao 5º FP (1998-
                                         século XX.
2002); 20 projetos referentes ao 6º FP (2002-
                                                A modernidade trouxe gradativamente uma
2006), e 5 projetos referentes ao 7º FP (2007-2008)
                                         exigência de sociabilidade do homem para com o
(HULLMANN, 2008).
                                         meio e vice-e-versa. Os mecanismos de produção
        A essência dos programas são as pesquisas
                                         desenvolvidos, ao serem analisados de maneira
tecnológicas e científicas, mas há a presença de
                                         isolada, pouco emancipam a sociedade atual
projetos interessados em evidenciar os aspectos
                                         das comunidades antigas, porém se aliados aos
éticos, legais e sociais dessas atividades européias,
                                         acontecimentos ambientais, permitirão constatar a
tais como os: Science and Society, The New Emerging
                                         emergência de uma nova representação simbólica
Science and Technology e Citizens and Governance,
                                         do mundo por inéditas relações de poder.
os quais pertencem ao 6º FP e serão apresentados
                                                As ocorrências históricas, os acontecimentos
com maiores detalhes no capítulo quatro, deste
                                         sociais e o desenvolvimento econômico permitem
trabalho.
                                         a construção na modernidade de uma nova
                                         representatividade da vida social. A sequência de
2. A crise do meio ambiente e o contexto movimentações econômicas é caracterizada como
de ascensão de um paradigma pautado o próprio desenvolvimento, que, segundo Coimbra
por valores de sustentabilidade social (2002, p.51), é:
e ambiental
                                                           um progresso contínuo e progressivo, gerado na co-
       Em um momento de questionamento sobre               munidade e por ela assumido, que leva as populações
as estruturas mundiais, as relações de poder estão         a um crescimento global e harmonizado de todos os
ameaçadas e as empresas líderes nos mercados               setores da sociedade, através do aproveitamento dos
globais podem ter seu posicionamento questionado,          seus diferentes valores e potencialidades, em modo a


                                                      23
produzir e distribuir os bens e serviços necessários a na engenharia econômica das organizações que
     satisfação das necessidades individuais e coletivas do buscam a minimização de seus custos privados.
     ser humano, por meio de um aprimoramento técnico e
                                                                  A insuficiência dos instrumentos estatais de
     cultural, e com menor impacto ambiental possível.
                                                              combate e a busca incessante de lucros pelo setor
                                                              privado oneram a sociedade e agravam as questões
         Ao longo da historicidade econômica, não             ambientais. É necessário, portanto, discutir novos
foram promovidas metodologias de desenvolvimento              modelos, normas e valores, que vislumbrem a melhoria
aplicáveis a todas as sociedades e ao meio ambiente,          na qualidade de vida das populações.
pois pequeno foi o interesse em preservar os recursos                 O modelo capitalista é o “representante legítimo
e energias não renováveis para as futuras gerações,
                                                              e universal da racionalidade, cuja proposta era libertar
através de seu uso racional. Surgiram inúmeras
                                                              o homem do reino das necessidades pelo uso científico
explicações para justificar a escassez de atitudes
                                                              dos recursos naturais e econômicos do planeta, pela
favoráveis ao ambiente nos meios governamentais
                                                              adaptação do conhecimento científico à produção,
e organizacionais; mas o debate contribuiu para o
                                                              processos que criariam riquezas incessantemente”
desenvolvimento científico, econômico e social.
                                                              (ZIONI, 2005, p.41).
         Segundo Montibeller (2007, p.57), as teorias
                                                                      O desenvolvimento capitalista contribui
do desenvolvimento são “o conjunto de formulações
                                                              para o incremento da inovação e do desempenho
que visam compreender e modificar a realidade
                                                              tecnológico, entretanto, os índices de desenvolvimento
pelo exame dos mecanismos, segundo os quais, os
                                                              humano e de qualidade de vida não acompanham
fenômenos sociais inter-relacionam-se, dos elementos
                                                              o fator econômico. Segundo Montibeller (2007),
principais que respondem pela evolução da economia
                                                              o crescimento capitalista instiga a degradação, a
e das tendências seculares”. Mas o desenvolvimento
                                                              poluição e o esgotamento de bens ambientais e,
econômico pode ocorrer em diferentes ambientes
                                                              quando da retração das atividades econômicas, as
institucionais, por meio de atividades produtivas,
negociações virtuais, redes de relacionamento, cadeias        questões ambientais são desprezadas por implicarem
de suprimento, entre outros.                                  custos adicionais.
         Nesse contexto, a instituição se apresenta                   De acordo com Brunacci e Philip Jr. (2005), a
como protetora da propriedade privada ao incentivar           era de conquistar o desenvolvimento econômico sem
investimentos que apreciem decisões democráticas              qualquer restrição e às custas de prejuízos ambientais
capazes de disponibilizar socialmente os benefícios           já não permanece, entretanto, persistem em algumas
oriundos de tais negociações. Para Montibeller                ideologias empresariais. Há de se compreender a
(2007), o desenvolvimento adequado e a qualificação           insuficiência de fatores naturais, dos quais, depende
institucional são condições necessárias, mas insuficientes    a sobrevivência social do planeta. É, ainda mais
para sanar os problemas sociais e ambientais em toda          importante, necessário reconhecer que, após a
sua contingência.                                             geração presente, outras virão e também habitarão
         Muitos são os fatores inerentes a uma                neste mesmo território.
concepção solucionadora de inúmeras patologias                        Segundo Diaz (2002) é iminente a precisão de
sociais e ambientais provenientes de mecanismos de            romper definitivamente com a filosofia do crescimento
desenvolvimento econômico. Através da concepção               ilimitado, uma vez que, o desenvolvimento insustentável
capitalista da economia, a sociedade e o meio                 apresentará seu limite de esgotamento em tempos
ambiente estão imersos em uma rede entrelaçada                breves caso as tendências sociais e econômicas
de custos privados e sociais; os custos ambientais em         não sejam transformadas em prol do bem estar da
particular, pelas situações de poluição, e incremento         população mundial.
da produção diferenciam os custos privados dos custos                 Logo, mediante os “impasses gerados por essa
sociais. Todavia a importância dos últimos, em grande         conjuntura social, faz-se extremamente urgente uma
maioria dos estudos, é relegada a um segundo plano            rediscussão sobre normas, valores, orientações culturais

                                                             24
e formas de conhecimento em todas as sociedades. A              diferentes tempos. A iminência de tais transformações
crise ambiental é, com certeza, a maior razão para que          faz notória a insustentabilidade do antigo paradigma
isso ocorra com amplitude e profundidade” (ZIONI,               desenvolvimentista. Por essa evolução da importância
2005, p.56).                                                    da questão ambiental através da economia,
        Uma nova interpretação sobre o funcionamento            vislumbram-se as decisões políticas e econômicas
econômico no mundo é necessária. Mesmo que                      sendo alinhadas a preceitos sustentáveis.
algumas ações voluntárias ocorram por empresas                           Os interesses econômicos coincidem com
e governantes, ainda sim são insatisfatórias, pois é            os ecológicos em um quadro de desenvolvimento
reconhecida a capacidade econômica das nações                   sustentável que foca o longo prazo, pois os recursos
de apresentarem, conforme Montibeller (2007), um                são limitados e esgotáveis. Entretanto, no paradigma
comportamento menos agressivo à natureza somente                anterior os cálculos eram fundamentados na
quando pressionadas por externalidades com poder                minimização dos custos privados e na ótica neoclássica
de regulação.                                                   da economia que até recentemente não inseriam os
        Meio ambiente e economia entrelaçam-                    custos e benefícios sociais nas contas capitalistas.
se no campo teórico e econômico. Há uma série                            Os institucionalistas integram as discussões
de denominações tais como economia ambiental,                   econômicas e ambientais, ao adicionarem custos
economia ecológica, economia humana, em que                     e benefícios sociais à análise econômica das
cada uma representa uma abordagem explicativa do                organizações (EHLERS, 2007; NORTH, 1990).
problema. Todavia, o que mais interessa é a dimensão            Porém, a essência da sustentabilidade tem de
econômica associada às questões ambientais, por ser             ser compreendida, no intuito de evitar falsas
situação fundamental na formulação de diretrizes de             interpretações a ações não condizentes com
atuação do governo, das empresas e dos cidadãos                 valores éticos, ambientais e representativos de uma
para a própria compreensão dos fatos e das relações             responsabilidade social corporativa.
sociais, culturais e políticas (CALDERONI, 2004).                        Segundo Brunacci e Philip Jr.(2005, p.268),
        O paradigma da sustentabilidade, então,                 há “a possibilidade de um entendimento pragmático
emerge entendido como aquele que                                e imediatista que conduz ao risco de se implantar um
                                                                programa de sustentabilidade do desenvolvimento
    expressa hoje o desejo de quase todas as sociedades,        como sutil desdobramento de uma política moldada
    em qualquer parte do mundo, por uma situação em que         por um sistema capitalista ainda conservador e
    o econômico, o social e o ambiental sejam tomados de
                                                                predatório”. Assim, iniciativas que envolvam políticas,
    maneira equânime. Então, não basta apenas haver cres-
    cimento econômico, avanço tecnológico e as instituições;    instituições, tratados ou acordos internacionais,
    e, sim, pensar na revolução tecnológica e no arcabouço      interessados na problemática ambiental e abordagem
    institucional objetivando o bem-estar social com a ampli-   sustentável, devem ser capazes de transpor as barreiras
    tude a este inerente (MONTIBELLER, 2007, p.59).             físicas no intuito de se obter uma maior eficácia na
                                                                resolução de calamidades.
        Observa-se a ocorrência de um crescimento                        Flora, fauna, microorganismos, atmosfera, solo,
econômico pautado por características de                        água e formas geológicas formam os ecossistemas. Os
sustentabilidade, logo, o vocábulo ‘sustentável’, em            componentes se ligam mediante cadeias alimentares,
palavras de Brunacci e Philip Jr. (2005, p.274), ao             ciclos minerais e hidrológicos e pela circulação de
qualificar o tipo de desenvolvimento que se deseja              energia. Há um equilíbrio dinâmico que pode ser
“deve ser aplicado à realidade ambiental do presente”.          alterado com o uso intensivo e desordenado dos
        Dentro desse aparato interpretativo, as                 elementos e a deposição de resíduos. A intervenção
mudanças institucionais tornam-se necessárias,                  humana e a produção capitalista, em particular,
uma vez que as instituições precisam ser eficientes             modificaram os sistemas produtivos, os conhecimentos
no atendimento pleno dos anseios originados em                  científicos e tecnológicos (BORINELLI, 2007).


                                                            25
A resposta ao uso desordenado dos recursos            organizações com poder de atuação local, regional,
naturais e a crescente demanda por energia tem de             nacional e internacional (CLAPP 2005). E uma terceira
                                                                                            ,
ocorrer por uma ótica capaz de abranger as diferenças         vertente solucionadora pode advir das transformações
e especificidades entre as nações, de maneira                 geradas pelas nanociências, nanobiotecnologias e
que, uma intervenção em favor da humanidade e                 nanotecnologias, em geral (MARTINS, 2005).
do meio ambiente seja aceita como verdade, e,
conseqüentemente, como um apoio ao acontecimento              3. A convergência tecnológica como
do desenvolvimento sustentável. Os vieses ambientais          fenômeno exigente de uma governança
não são de responsabilidade exclusiva das nações,             multilateral e global sobre os anseios
das empresas e da humanidade, mas de todos os que
                                                              do paradigma de sustentabilidade: a
habitam e agem intensivamente sobre o planeta Terra.
                                                              nanotecnologia na Europa
        Como afirmou MacNeill e outros autores (1992,
p.16) “o mundo avançou agora da interdependência                       Convergência tecnológica caracteriza, segundo
econômica para a interdependência ecológica – e               Sáenz e Souza-Paula (2008), o moderno processo de
até, para além desta, para um entrelaçamento entre            avanço do conhecimento e inovação já estabelecido
ambas”.                                                       em um elevado nível de complexidade, o qual, não
        Tanto é verdade que, “o sistema climático             permite a separação entre o teor científico e técnico
global possui um alto grau de inércia e cria uma              pela prerrogativa intensa de inserir nas discussões
grande defasagem entre as alterações nas emissões             as relações dialéticas entre ciência, tecnologia e
e as consequências sobre os sistemas naturais, o que          sociedade.
significa que, quando se descobre que uma catástrofe                   A interação temática é imprescindível, pois a
vai acontecer, talvez seja tarde demais para evitá-la” (LA    partir das novas tecnologias surgem implicações sociais
TORRE; FAJNZYLBER; NASH, 2009, p.20). Questões                a serem analisadas por um processo criterioso, através
ambientais, tal como a mudança climática, incorporarão        de metas estabelecidas, ao vislumbrar os benefícios
custos significativos à humanidade e aos ecossistemas.        sociais, e as possíveis consequências inesperadas,
A amenização desses efeitos pode ocorrer através de           por meio de uma combinação dos possíveis riscos
possíveis ações globais solucionadoras, pois iniciativas      prospectados em diferentes cenários. Para Roco (2008)
individuais serão muito limitadas, implementadas com          tais adversidades apresentam-se como influentes em
grande atraso, e realizadas por países e organizações         diversas áreas, tais como economia, ambiente, saúde,
inadequadas. Nesse sentido, quais seriam as possíveis         educação, ética, moral e filosofia.
soluções à crise ambiental?                                            Por esse entrelaçamento de ideologias e
        Zioni (2005) aponta o novo paradigma de               ciências, constata-se a busca por um mecanismo
sustentabilidade para a solução dos problemas                 organizador, tal como uma governança global e
e desequilíbrios evidenciados, o qual deve partir             multilateral capaz de abranger, compreender e
da crítica do conhecimento existente, e evoluir do            institucionalizar convergências tecnológicas livres de
monoculturalismo ao multiculturalismo de tal forma            atuações prejudiciais a qualquer ordem ambiental
que o domínio global da ciência moderna não possa             e social. Para tanto, um sistema politicamente
silenciar os outros saberes, e assim, emancipe-se um          democrático, consenso social e conhecimento da
conhecimento que consiga discernir a objetividade da          engenharia econômica do sistema promovem um
neutralidade.                                                 quadro agradável à implantação de uma eficaz
        Por esse contexto, a reforma ecológica torna-se       governança.
uma solução viável e equacionadora do problema da                      Caberá a esse sistema de governança, de
degradação ambiental (GIDDENS apud BORINELLI,                 acordo com Roco (2008), a adaptação das instituições
2007, p.7). Uma segunda solução está nos                      e organizações já existentes; o estabelecimento de
programas de responsabilidade social adotados por             novos programas, regulamentações e organizações


                                                             26
interessadas em propagar inovações não promotoras        e comercialização dos produtos. Através da
de prejuízos ao meio; a promoção de mecanismos           figura, é possível verificar que cada ciclo gera
de legitimação de tais mudanças por vias políticas e     novas classes de produtos, os quais determinam
institucionais; e, a realização de parcerias e acordos   diferentes implicações sociais e exigem diversos
internacionais.                                          patamares de decisões. Pelo fato de transformações
         Conforme Sáenz e Souza-Paula (2008), os         fundamentais ocorrerem sobre os conhecimentos
processos que envolvem tal anseio são essencialmente     implícitos em cada ciclo, estabelece-se um sistema
dinâmicos e cumulativos e, para acompanhar a             aberto em termos tecnológicos e socioeconômicos
evolução de tais convergências tecnológicas é de         (ROCO, 2008).
extrema importância que as ações ocorram de forma               As questões éticas devem constar como
contínua, rápida e flexível. A governança multilateral   objetos de monitoramento e discussões, desde
e global deve preparar-se para antever os riscos         o início de um projeto até as avaliações ex-post.
complexos e de elevado impacto negativo dos tipos        As avaliações dessas tecnologias, por meio de
social e ambiental. A figura 1 mostra a representação    um mecanismo regulador de governança, devem
de um sistema de governança baseado nos critérios        ocorrer no entorno de tais inovações e considerar
inseridos na realidade das convergências tecnológicas    todos os respectivos ciclos, ao levar em conta
(ROCO, 2008).                                            sua disposição futura e confluentes efeitos ao
         Os processos de decisões sobre as questões      meio, oriundos de suas manufaturas e operações
de convergências tecnológicas seguem um ciclo de         (ROCO, 2008).
interferências aberto, constituído por etapas que               Em todo esse processo, é imprescindível
levam desde a pesquisa até a efetiva fabricação          a análise da presença dos fatores envolvidos
Figura 1 – Sistemas abertos em uma governança de convergências tecnológicas




Fonte: adaptado de ROCO, 2008.

                                                     27
em uma governança de risco, para amparar                         Dentre as novas tecnologias, destaca-se a
as decisões e as ações tomadas no intuito de              importância da nanotecnologia. Nano é um prefixo
amenização das patologias sociais e ambientais.           usado nas ciências para designar uma parte em um
Tal sistemática é de extrema importância nos casos        bilhão e, assim, um nanômetro (1nm) corresponde
constatados com altos riscos, cuja redução dos            a um bilionésimo de um metro. Dado o seu caráter
mesmos exige a coordenação e colaboração de               integrador, convergente e por caracterizar-se por
inúmeros stakeholders. As decisões unilaterais se         inovações concentradas no tempo, poderá gerar
apresentam como ineficazes e inaplicáveis, pois, a        um processo de destruição criadora atenuando os
disseminação de novas tecnologias promove uma             impactos do uso intensivo dos fatores produtivos,
interferência dos possíveis riscos nas esferas social,    gerando redução do consumo energético e,
ambiental, tecnológica, e, com maior evidência            possivelmente, uma revolução produtiva (SÁENZ;
na dinâmica evolutiva e interativa de todo o              SOUZA-PAULA, 2008).
sistema social. As convergências tecnológicas,                   Para Martins (2005), as nanotecnologias
por exemplo, focam suas prioridades sobre os              validam a necessidade de uma governança global
possíveis benefícios a serem gerados nos âmbitos          e multilateral, pois, somente por um mecanismo
individuais e sociais. Os parâmetros de sucesso           como esse, será possível gerenciar os benefícios
para essas redes de empresas e instituições são           econômicos, sociais e ambientais oriundos de tais
os indicadores de qualidade de vida, saúde,               inovações. Suas aplicabilidades implicam diminuir
segurança, e, principalmente, a análise de como           os problemas ambientais nos processos produtivos,
se dá a distribuição desses resultados sociais a          ou seja, responsabilizam-se por eliminar os conflitos
todos os seres humanos inseridos em um modelo             sociais fundamentados em questões de prejuízos à
democrático. Roco (2008) apresenta, através               natureza.
da figura 2, quais são os atores afetados pelas                  Entretanto Schnaiberg (2005) assume que
convergências tecnológicas.                               tudo o que for apresentado e produzido pelo setor
Figura 2 – Visão geral de uma governança de convergência tecnológica




Fonte: adaptado de ROCO, 2008.

                                                         28
privado é passível de suspeita pela possibilidade      responderiam e melhores seriam os resultados para
de interesses na alocação de capital. Ele              o meio ambiente”.
evidencia que a própria história confirma muitas               Sandler (2009) observa que a eficiência de
contradições em torno de novas tecnologias             um fenômeno tecnológico, como a nanotecnologia,
sempre demonstradas como algo beneficiário ao          está em sua contribuição à prosperidade humana,
público em geral.                                      através da oferta de um cenário estruturado
        Por apresentar uma nova aplicabilidade         por uma sociedade justa e preceitos ambientais
de fatores científicos, sociais e ambientais a         de sustentabilidade. O autor apresenta, ainda,
nanotecnologia não pode ser tratada unicamente         que as funções sociais a serem observadas
pela ótica das organizações. Lerma (2005) admite       em um desenvolvimento sustentável advindo
que a humanidade exige um novo paradigma               das nanotecnologias são: o esclarecimento
ecológico, portanto sustentável, por compreender       de constituição de uma sociedade justa e a
que sua existência está inserida em uma continuidade   prosperidade da raça humana; identificação de
de processos sociais mutantes, alteradores das         oportunidades socioambientais às nanotecnologias;
estruturas vigentes e promotores de inúmeros           desenvolvimento de padrões de avaliação sobre
conflitos transnacionais.                              os prospectos nanotecnológicos; provisão de
        Não se pode esperar, segundo Martins           ferramentais éticos que possibilitem a sociedade uma
(2005), que o ambiente seletivo supra a questão        efetiva adaptação às emergentes nanotecnologias;
ambiental em sua totalidade, pois, tal expectativa     e, a identificação dos limites ambientais para o
é incompatível para com o modo de produção             alcance das plenitudes nanotecnológicas.
capitalista. Logo, a admissão dessa nova tecnologia            Porém, em referência à nanotecnologia e a
deve ser pautada por discussões interessadas em        outras inúmeras problemáticas de ordem ambiental,
entender plenamente suas aplicabilidades e objetivos   não há qualquer instituição com estrutura capaz
para com a sociedade.                                  de impor e dirigir uma intervenção política global.
        Schnaiberg (2005) acredita que a               Todavia, a construção dessa instituição global,
nanotecnologia irá promover uma distribuição mais      representativa de uma governança multilateral é
negativa ao transferir a renda dos trabalhadores       importante fator que está por trás da emergência
para um lucro adicional dos investidores. Ao longo     do movimento transnacional antiglobalização
dos prejuízos, o autor cita o incremento do problema   corporativa (MARTINS, 2005).
ou crise ambiental, cuja maior causa é a extrema               Roco (2008) também aborda a questão
liquidez do sistema econômico mundial.                 supranacional deste tema, ao admitir que as
        Lerma (2005) analisa a crise ambiental         inovações tecnológicas provenientes desse movimento
como um conflito oriundo de relações de produção       de convergência, tal como as nanotecnologias,
e não como algo adicional aos conflitos sociais.       rompem com as barreiras geográficas existentes ao
Por essa percepção, ele entende a interferência da     transporem os limites das jurisdições nacionais. Logo,
nanotecnologia nas relações sociais e econômicas       a concepção de uma governança multilateral e global
ao promover a intervenção nos diversos sistemas de     como resposta institucional a crise do meio ambiente
produção e controles de exploração.                    e consequente do paradigma de sustentabilidade,
        Segundo Cramer e Zegveld (1991), as            alcançará sua plenitude através da separação clara
demandas de soluções estruturais para problemas        das opiniões fundamentadas em pilares científicos
ambientais requerem a participação ativa e             daquelas oriundas de julgamentos políticos,
representativa dos públicos a serem atingidos. Pois,   para que assim, sejam adotadas, em definitivo,
em palavras de Romero e Salles Filho (1995, p.17)      institucionalizações e regulamentações eficientes
“quanto maior a pressão [...], mais os agentes         para com a realidade do problema abordado.



                                                   29
Toda essa realidade é envolta por uma                    Para Sandler (2009), ainda não há um
série de fatores. Estes se unem e promovem uma            consenso entre os cientistas quanto aos possíveis
governança contínua e avaliativa. A nanotecnologia        riscos da nanotecnologia, pois, assim como pode
apresenta um modelo de governança proposto por            contribuir para uma revolução tecnológica e
Roco (2008), possivelmente capaz de ser aplicado          ambiental ao consumir menos energia e promover
em nível global. E, bem por isso, esse autor propõe a     o uso mais eficiente dos novos fatores produtivos,
nanotecnologia como uma das respostas essenciais          também é possível um cenário composto por
à crise do meio ambiente. A estruturação do modelo        inúmeras reações adversas nos seres humanos e no
é apresentada na figura 3.                                meio ambiente.
Figura 3 – Passos para a definição de uma governança multilateral na análise de riscos derivados das
nanotecnologias que podem ser aplicadas à mitigação da crise ambiental




Fonte: Renn; Roco apud ROCO, 2008, p.16.

       Sáenz e Souza-Paula (2008), no entanto,                    A aplicabilidade da nanotecnologia fica
apresentam os seguintes riscos da nanotecnologia, os      questionada mediante tantas dúvidas discursivas.
quais se traduzem nos desafios a serem enfrentados por    Nesse sentido, para se validar a efetiva contribuição
uma governança multilateral: criação descontrolada        social deste fenômeno advindo de uma convergência
de formas de vida; redução da biodiversidade;             tecnológica, apresenta-se em sequência a realidade
desestabilização    da      engenharia      ambiental;    desse tema no continente europeu. Através da
concorrência trans-humana, biológica e cibernética;       análise minuciosa do relatório European activities in
maiores desigualdades sociais; desenvolvimento de         the field of ethical, legal and social aspects (ELSA)
armas de poder letal; entre outros.                       and governance of nanotechnology, elaborado pela


                                                         30
Quadro 1 – Projetos de pesquisa com aplicabilidades sociais
                                                    O programa Science and Society
       Objetivo:      Desenvolver conexões estruturais entre instituições e atividades sociais interessadas em um diálogo a ser estabelecido entre a
                             comunidade científica e o público em geral, de maneira que, as pesquisas fossem aproximadas da sociedade.
       Contexto:      As ações inseridas neste programa promoveram conversações contextuais em nível global; a emancipação de uma consciência
                      social; treinamentos; pesquisa sobre a relação dos valores éticos relacionados à ciência e tecnologia; a aplicação dos princípios
                      de risco; reconhecimento público em relação às comunicações científicas; prêmios para conquistas científicas referenciadas à
                                           colaborações e comunicações sociais; e a promoção das mulheres no meio científico.
       Recursos:                                              Foram investidos 3,814,402€ neste programa.
                                                 O programa Citizens and Governance
       Objetivo:      Prover um embasamento científico para o gerenciamento de transições voltado ao conhecimento social europeu, para tanto,
                      condicionou seus estudos em duas vertentes: as políticas locais, regionais e nacionais; e, o comportamento decisório dos
                                                            cidadãos, famílias e demais unidades sociais.
       Contexto:      Constam, neste projeto, ações tomadas no intuito de melhorar a geração, distribuição e utilização de conhecimentos em um
                                                     processo de desenvolvimento de novas formas de governança.
       Recursos:                                              Foram investidos 1,163,100€ neste programa.
                                        O programa New Emerging Science and Technology
       Objetivo:      Apoiar pesquisas visionárias e não convencionais, mas potencialmente capazes de abrir novos campos às ciências e tecnologias
                                                                               européias.
       Contexto:      Sustentou projetos interessados em problemas ainda não pesquisados, mas que se relacionassem diretamente aos aspectos
                                                               éticos, legais e sociais da nanotecnologia.
       Recursos:                                               Foram investidos 222,265€ neste programa.

Fonte: adaptado de HULLMANN, 2008.

Dra. Angela Hullman, em 2008, observa-se uma                             destaque, pois representam a possibilidade de
concepção construtiva sobre a nanotecnologia.                            apresentar esse fenômeno a um público maior,
Sendo assim, a seguir, é disponibilizada uma breve                       o qual estabelece uma discussão sobre as
análise da contribuição européia baseada em                              expectativas sociais geradas, que são informadas
fatos, números e programas extraídos do relatório                        aos poderes políticos nacionais e internacionais.
supramencionado.                                                                  O intuito destes projetos está em facilitar
        A União Européia junto a demais nações tem                       a cooperação entre stakeholders, localizados em
promovido debates sobre a questão principal de que                       diferentes partes da Europa, e promover uma massa
esses desenvolvimentos científicos e tecnológicos                        crítica sobre o desenvolvimento sustentável, pela
não ocorrem separados da movimentação social dos                         identificação de diferenças nacionais e culturais
seres humanos. Muitos atores sociais, com visões                         percebidas entre as diversas regiões do continente, e,
diferentes sobre o tema têm modelado os processos                        assim, providenciar mecanismos sociais que agreguem
envoltos à nanotecnologia, situação promotora de                         desenvolvimento social e econômico a essas áreas.
aplicabilidades fundamentadas em critérios éticos,                                Os financiamentos deles se dão pelo
legais, e sociais.                                                       EC Framework Programmes for Research and
        Os critérios éticos, legais e sociais da                         Technological Development (FP). Os FPs acontecem
nanotecnologia compreendem uma diversidade de                            há anos e incentivam áreas de pesquisa que
campos de pesquisas, produções e aplicabilidades                         amparam interesses europeus. A nanotecnologia
de nanoprodutos. Estes aspectos, então, abrangem                         tornou-se um tema em evidência a partir de 1998,
questões de privacidade, aceitação social, saúde                         mas apenas no 6º FP alcançou uma escala maior
humana, acesso comunitário, responsabilidade                             de reconhecimento e investimentos.
cívica, regulamentações normativas e controles                                    O 6º FP (2002 a 2006) dedicou prioridade
institucionais.                                                          máxima a nanotecnologia. De 17,5€ bilhões
        As atividades européias sobre os aspectos                        revertidos aos projetos integrantes desse Framework
éticos, legais e sociais de uma governança                               Program, 1,3€ bilhão foram destinados a pesquisas,
referenciada à nanotecnologia abrangem                                   cujo problema de investigação estava em analisar
numerosas iniciativas, das quais algumas merecem                         a interação entre nanotecnologia, conhecimento


                                                                     31
social, recursos naturais, e desenvolvimento               sustentáveis. Cada nação interessada em estabelecer
de novos procedimentos industriais. Por uma                uma iniciativa nanotecnológica, assim como as
abordagem articuladora, projetos de longo prazo            européias, permitir-se à uma oportunidade única de
têm sido financiados, pois intentam introduzir as          fomentar um campo crítico e construtivo sobre as
nanotecnologias nos setores industriais já existentes,     relações interativas entre tecnologia, governo, ambiente
e, também, originar novos caminhos operacionais            e sociedade. As emergentes nanotecnologias, portanto,
que confluam na concepção de materiais inovadores,         oferecem possibilidades efetivas de progressos sociais
novos aparelhos, produtos diferenciados, e indústrias      e tecnológicos, através de um desenvolvimento
sustentáveis.                                              compreensivo, inovador e sustentável.
        Embora o 6º FP estivesse focado em
pesquisas científicas e tecnológicas, houve a              Considerações Finais
inclusão de tópicos essenciais relacionados aos
aspectos éticos, legais e sociais da nanotecnologia.               O artigo analisou os determinantes da
Estes foram tratados pela instigação de uma                crise ambiental e as soluções propostas pela
comunicação entre os diversos atores e redes               academia, tendo em vista a emergência de uma
sociais. Dentro dessa abordagem aplicativa de uma          nova realidade internacional e organizacional
governança global da nanotecnologia, os aspectos           ,amparada pelo paradigma da sustentabilidade
supramencionados passaram a alicerçar projetos             ambiental e social. Discorreu-se sobre a ascensão
de pesquisa com aplicabilidade social, tais como           de uma nova compreensão social pautada
os: Science and Society, The New Emerging Science          por premissas sustentáveis, amparada pela
and Technology e Citizens and Governance. Vale             necessidade de novas tecnologias – nanociências,
ressaltar que todos esses programas orientaram-            nanobiotecnologia e nanotecnologias e seus riscos
se em interligar o movimento social aos aspectos           – e a imprescindibilidade de uma governança
éticos, sociais e legais da nanotecnologia. Para           multilateral global como resposta institucional à
melhor compreensão o detalhamento deles é                  crise do meio ambiente.
exposto na página seguinte:                                        Verificou-se que a teoria econômica
        Mediante a exposição da realidade européia         neoclássica tradicional – base do paradigma de
quanto aos aspectos sociais da nanotecnologia,             produção capitalista anterior – discutia custos
verifica-se que o desenvolvimento de seus preceitos        e benefícios privados. No século XX, a teoria
apenas ocorre com respectivas alocações de                 institucionalista incorpora à análise os custos e
capitais. Entretanto, a destinação de tais valores         benefícios sociais, dando origem à economia do
apenas incrementa a legitimação sustentável desse          meio ambiente, ao propor soluções possíveis para
fenômeno, responsável pela propagação de uma               a questão ambiental. A complexidade dos sistemas
governança multilateral e global, possível de ser          dinâmicos, a criação de novas ferramentas de
utilizada como mecanismos de resposta institucional        trabalho, a oferta de uma ampla plataforma
à crise do meio ambiente.                                  tecnológica, a ampliação das capacidades
        Sandler (2009) admoesta que, quando as             produtivas e a conversão da educação, engenharia
dúvidas são esclarecidas e as expectativas controladas,    e tecnologia nos principais fatores contributivos
concebe-se um ambiente articulador e integrador            às inovações industriais, conferem ao meio uma
entre os fatores éticos e sociais e as emergentes          riqueza jamais vista.
nanotecnologias. Os aspectos éticos, legais, e sociais             Já o meio ambiente, com seus recursos limitados,
da nanotecnologia são essenciais para a articulação        não consegue acompanhar o desenvolvimento
de respostas proativas a possíveis cenários negativos.     intelectual do homem quanto aos seus anseios
Bem por isso, as nanotecnologias precisam promover         tecnológicos. Através desta incompatibilidade de
a prosperidade dos seres humanos, por vias justas e        recursos, estabelece-se a crise do meio ambiente,


                                                          32
por meio da qual, inúmeras nações e organizações         ambiental vivenciada. É extremamente necessário
optam por operacionalizar suas metodologias              este mecanismo regulador internacional, porque a
mercadológicas em práticas alinhadas aos conceitos       economia, aqui representante dos governos, nações
de desenvolvimento insustentável.                        e organizações, somente se atenta ao quesito
        Daí emerge a concepção de um novo paradigma      ambiental e social se drasticamente pressionada
interessado em valores sustentáveis e preocupado em      por órgãos externos, cujos poderes de regulação
oferecer às gerações presentes e futuras condições de    sejam devidamente reconhecidos e comprovados.
habitação e sobrevivência neste planeta. Por essa nova          Um exemplo, a nanotecnologia, representante
compreensão da realidade, as ciências sociais se fazem   do movimento de convergência tecnológica observado
presentes com uma miscelânea dialética de ideologias     há tempos. Suas benfeitorias e lucros sociais são
e interpretações, as quais, em conjunto, reafirmam       inquestionáveis, entretanto os possíveis riscos
a necessidade de um novo agir das organizações e         incalculáveis. Além de prescindir um enorme valor em
nações para com as questões ambientais.                  alocação de capitais representa, na ótica de muitos
        Logo, a sociedade passa de um colóquio           estudiosos, uma ameaça a já desqualificada divisão de
passivo para um ator emancipado no intuito               renda mundial, além dos inúmeros questionamentos
de prover-se de munições e regulamentações               ambientais ainda não respondidos. Em casos como
imprescindíveis à continuidade de sua existência         esses, as decisões sobre a continuidade em pesquisas
na Terra. Por conseguinte, fatores de discussão          e aplicabilidades referenciadas a nanotecnologia,
anteriormente unilaterais passam a ser vislumbrados      por exemplo, não podem ser pautadas por uma
por uma ótica multilateral exigente de um sistema        unilateralidade. Torna-se imprescindível, portanto,
de governança que ampare, fiscalize, determine           uma multilateralidade de informações que abasteçam
e institucionalize meios de proteção, coerção e          um sistema de governança global oriundo de uma
legitimação no intuito único de sanar questões que       resposta institucional, em nível internacional, como
alarmem a já existente crise ambiental.                  uma consequência ao paradigma de sustentabilidade,
        Entretanto, todo esse esforço somente            este, emergente, no intuito de amenizar a constatada
será válido se aplicado em sua ordem global,             crise ambiental.
pois, se uma governança responsável por toda                    O intangível a ser alcançado em um longo
a organização e aplicabilidade dos vieses e              prazo passa a ser mais valorizado do que o tangível
soluções ambientais ocorrer através de uma               conquistável em curto prazo, pois, aquele representa
institucionalização    supranacional      legitimada,    a concepção moral e ética de uma sociedade imersa
serão verificadas respostas mercadológicas e             na compreensão do paradigma defensor de uma
econômicas condizentes para com a realidade              sustentabilidade social, ambiental e econômica.
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A Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil
                                      The Polarization of Regional Inequalities in the Brazil


Francieli do Rocio de Campos1
Patrícia Estanislau2

Resumo
       O artigo tem como objetivo evidenciar as desigualdades regionais das Unidades Federativas
Brasileiras no período de 1985 a 2006. O método utilizado é embasado em análise estatística descritiva,
e o coeficiente de Williamson capaz de captar os efeitos da desigualdade regional. Entre as diferenças
apresentadas pelos Estados brasileiros, os efeitos das desigualdades alcançam o ápice em 1995, seguindo
o processo de declínio até se estabilizarem entre período de 2000 e 2006. Por meio do Produto Interno
Bruto de cada Estado, os resultados do estudo apontam para concentração industrial e populacional no
Estado de São Paulo. Dessa forma, constatou-se no período estudado, que o processo de polarização e
despolarização no Brasil decorre das desigualdades econômicas regionais.
Palavras-chave: Economia Regional; Indústria e Aglomeração de Negócios; Pólos de Crescimento.


Abstract

The article aims to highlight the regional differences of Brazilian states from 1985 to 2006. The method is
grounded in statistical analysis, and coefficient of Williamson which is able to capture the effects of regional
inequality. Among the differences presented by the Brazilian states, the effects of inequality reached its top level in
1995, following the process of decline until stabilizing period between 2000 and 2006. By means of the Gross
Domestic Product of each state the study findings point to industrial and population concentration in São Paulo
State. Thus it was found out during the study period, the process of polarization and depolarization in Brazil
follows regional economic inequalities.
Key words: Regional Economics; Industry; Growth Poles, Agglomeration.


Introdução                                                                     adota-se o Coeficiente de Williason (1977), cujo
                                                                               procedimento utilizado por Souza (1993) capaz de
       O objetivo do artigo é evidenciar as                                    captar os efeitos da desigualdade regional.
desigualdades regionais nas Unidades Federativas                                      O processo de polarização decorre do efeito
Brasileiras partindo do processo de polarização                                causado pela instalação de uma indústria motriz,
ascendente no período de 1985 a 2006. Nessa                                    ou um conjunto de indústrias (complexo industrial),
ocasião, acredita-se que houve um movimento                                    cuja função é interagir de forma independente com
de polarização e despolarização desencadeando                                  os espaços produtivos das diversas empresas. Ao
a desigualdade no processo de crescimento do                                   atrair mais indústrias, o modelo passa a funcionar
país. Para verificar a existência desse movimento                              do seguinte modo: quando há oferta de empregos

1	    Discente do Programa em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus
Toledo, Brasil, nível mestrado. Bacharel em Economia Doméstica pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Brasil. Contato:
frandecampos@yahoo.com.br
2	    Discente do Programa em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus
Toledo, Brasil, nível mestrado. Contato: patiestanislau@yahoo.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 26/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
aumenta a população de uma região e eleva o                  concentrando a população em uma dada localidade
consumo de bens/serviços. Sob esse efeito se encadeia        e tornando-a principal em seu entroncamento
uma força atrativa (força motriz) de indústrias e/ou         regional (SCOTT, 2003). Assim procurar-se-á verificar
empresas para localidade, assumindo condições                a participação do PIB dos Estados brasileiros para
de crescimento ou desenvolvimento à economia da              elucidar as desigualdades regionais, a fim de relacionar
região (pólo de crescimento) (SOUZA, 1993).                  com a distribuição da população e a quantidade de
       A desigualdade regional concebida pela                empresas em cada unidade federativa.
deterioração do nível de vida advém da maior                        Visto a possível existência concentração
concentração industrial em algumas regiões, em               populacional e de empresas nos Estados, para
detrimento a outras sem tais atributos econômicos.           evidenciar as disparidades regionais no Brasil, utilizar-
De tal modo, Perroux (1977) relaciona essas                  se-á o Coeficiente de Williamson (1977) para o PIB
questões de desigualdades procedentes da                     per capita, na tentativa de mensurar as desigualdades
inovação intensificada pela vontade de acumular              regionais. Pressupondo-se que com o aumento do
capital, conquistar o poder e desestimular o
                                                             crescimento econômico, essas desigualdades atinjam
subdesenvolvimento.
                                                             um máximo e depois declinam gradativamente,
       O enredo do trabalho está segmentado em
                                                             formando um “U” invertido. Esse fenômeno varia
cinco seções, partindo desta breve introdução,
                                                             entre proximidades de 1 (maior polarização) e
na seção dois, aborda-se os procedimentos
                                                             proximidades de 0 (menor polarização). O cálculo é
metodológicos. Na seção três, apresenta-se os
                                                             dado como:
conceitos de polarização e despolarização, assim
como os fatores de desenvolvimento e as possíveis
causas das disparidades regionais. Na quarta
seção, têm-se os resultados da pesquisa, com
                                                             Em que:
a apresentação de dados sobre as disparidades                Fj = é a população da iésima região
regionais entre os Estados brasileiros e, na quinta          n = população nacional
                                                             yj = PIB per capita da iésima região
seção, as conclusões que sumarizam este trabalho.
                                                             yNac = PIB per capita Nacional
                                                             N = Número de regiões
1. Procedimentos metodológicos                                       De acordo com Williamson (1977), o
                                                             “coeficiente ponderado de avaliação que mede a
        A princípio buscar-se-á o método estatístico
descritivo que procura descrever e avaliar certo             dispersão dos níveis da renda regional per capita,
objeto, conforme menciona Peternelli (2005). Os              relativamente à média nacional, enquanto cada
dados utilizados são oriundos do Instituto Brasileiro        desvio regional é ponderado por sua participação na
de Geografia e Estatística (IBGE) compilados pelo            população nacional” (WILLIAMSON, 1977, p. 64).
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a                   Souza (1993) observa que o Coeficiente de
fim de averiguar a participação do Produto Interno           Williamson (1977) mostra a possível reversão do
Bruto (PIB) dos Estados e macrorregiões do Brasil.           processo de polarização de um país, constituindo-
O período a ser analisado corresponde ao ano                 se de um índice de desigualdade regional. Azzoni
1985 até o ano de 2006, partindo da premissa de              (1997) complementa o fato do coeficiente de
existência de polos estaduais e de que há regiões            Willianson ser tradicional visto pela vertente de ser
mais desenvolvidas do que outras.                            “unidimensional da desigualdade de renda, relativa
        Na teoria dos polos de crescimento e                 a uma distribuição regional igualitária da renda
desenvolvimento de Perroux (1977), os efeitos positivos      média nacional” (AZZONI, 1997 p.5). Outros
no PIB per capita de região propiciam rendimentos            autores também fizeram o uso desse coeficiente
maiores na cidade pluriativadas (que tendem a atrair         como Souza (1993), Azzoni (1997), Gomes (1997),
investimentos, diversas atividades e demais fatores a si)    Cavalcante (2003) e Chiarini (2006).


                                                            36
Conforme Cavalcante (2003), a medida             da região independente de sua localização tende
de desconcentração fornecida pelo Coeficiente de        intensificar o poder na estrutura da economia no
Williamson depende de um componente arbitrário,         âmbito nacional (PERROUX, 1977).
associado à forma como o país em análise foi                    Cabe ressaltar que a formação de polos
subdividido em regiões. Se o país corresponder à        industriais, diz respeito a um fenômeno essencial,
apenas uma região ou estado, i i Y / P será igual       ao modo provisório do processo de crescimento
a Y / P e Vw tenderá a zero, involuntariamente das      econômico. Desse pressuposto, a polarização
desigualdades que se poderiam efetivamente observar.    tem princípios calcados na aglomeração de
                                                        indústrias em pleno advento tecnológico e,
2. Aspectos conceituais sobre                      a    oriundo da concentração espacial de um complexo
polarização e despolarização                            industrial acessível as atividades de produção
                                                        (WILTGEN, 1991). De acordo Tellier (2004),
        Segundo Perroux (1977), o processo de           o processo de polarização ocorre com a complexa
polarização favorece um crescimento destinado           interação entre forças de atração e de repulsão
a raras regiões, as quais são obra da associação        de ativos, as quais intervêm na decisão da
de conjuntos ativos (indústrias motrizes e atividades   localização industrial, além de reforçar o seu grau
aglomeradas em territórios) e conjuntos passivos        de dependência.
(indústrias movidas, regiões periféricas dependentes            Em um território com regiões marcadas por
das aglomerações industriais), que sofrem influência    um desenvolvimento industrial insignificante, ou
de fornecedores e compradores de insumos.               até mesmo inexistente, configura-se numa situação
Assim, Souza (2005) complementa que a essência          de poucas perspectivas de crescimento econômico
do processo de polarização está interligada às          significativo. Ao contrario, quando se observa
economias externas geradas pela infraestrutura          crescimento aglomerado no mercado econômico,
produtiva, possíveis de ser encontrada em regiões       tem-se a dimensão das funcionalidades das
com disponibilidade de consumidores, mão-de-obra        atividades produtivas em mesmo território. Por isso,
especializada e serviços destinados às indústrias dos   a ideologia do polo aglomerado é contrária em
diversos setores econômicos.                            promover um crescimento distribuído em uma única
        O objetivo central da polarização é fomentar    região (PERROUX, 1977). O contraste se encontra
incentivos às regiões com caráter secundário,           em regiões, que o progresso econômico alcançou
possibilitando a propulsão de empresas pusilânimes      elevados patamares se tornando um gerador de
se tornarem canais de difusão e, não apenas             impacto negativo constituído na moderna situação
contribuir com concentração de uma ou duas              de produção (SCOTT, 2003).
regiões principais (SOUZA, 2005). A idéia que
                                                        2.1 Fatores propulsores do crescimento e
procede na atração de polos decorre de uma
                                                        do desenvolvimento regional
política fundamentada na redução da concentração
de crescimento dos polos, e desconcentração                    Para ilustrar teoricamente as desigualdades e
deles em grandes centros. E tende a um equilíbrio       contrabalançar com desenvolvimento das regiões,
econômico proveniente da oportunidade dada as           remete-se ao crescimento econômico mediante
regiões subdesenvolvidas atrair novos investimentos     uso da distribuição de renda. Em que, Scott (2003)
produtivos (AZZONI, 1986).                              correlaciona o termo desenvolvimento com um
        Nessa conjuntura, um polo industrial            processo construtivo, no qual as emissões dos
apresenta características acessíveis de crescimento e   recursos econômicos se tornam necessárias para
representatividade aglomerativa, além de conceber       melhoria da produtividade. Ao sintetizar o termo
intensificação das atividades econômicas. Seu           crescimento faz menção das linhas de melhorias,
contingente remodela toda a estrutura geográfica        seguindo os aumentos do produto bruto das regiões.


                                                    37
O crescimento e o desenvolvimento                adentrando no chamado declínio econômico
estão associados à aglomeração territorial, e a          (SCOTT, 2003).
densidade dos investimentos nas trocas ou nas                   Dessa forma, o processo de crescimento de
informações aplicadas em pontos determinados             uma região se explica mediante um desenvolvimento
pelos indivíduos. Suas implicações por causa da          em ascensão, que ao atingir seu ponto máximo
medida formalizada pelo crescimento econômico            dá inicio ao processo de despolarização e a partir
da região se fundamentam pela espacionalidade            desse, descresse o crescimento estável da região. A
territorial da aglomeração geográfica, das               representação curvilínea inicia com aumentos dos
atividades econômicas, e por conta dos aumentos          indicadores e depois um declínio deles.
da produtividade nacional (SCOTT, 2003).
        As atividades produtivas industriais se          2.2 Detalhamento teórico sobre desigual-
concentram em poucos locais de um território fazendo
                                                         dades regionais
parte do processo, cuja conjuntura econômica se                 As desigualdades regionais são evidentes
abasta da acumulação dos recursos naturais, bem          em regiões com amplos avanços no contingente
como tem sido considerado nos últimos tempos, os         econômico, dando margem para mesma
antecedentes históricos econômicos, formalizando a       continuarem evoluindo, por receber maior número
atual estrutura econômica, moldando seus padrões         de investimentos industriais. Em casos de regiões
produtivos de acordo com industrialização (AZZONI,       que permanecerem pobres significa ausência em
1985).                                                   quantidade de intervenções estatais, falta de aspectos
        O auge do crescimento regional deriva do         de rentabilidade econômica, seguindo em condições
efeito da aglomeração alcançado pela indústria,          de pobreza e subdesenvolvimento (AZZONI, 1986).
ou conjunto de indústrias medido pelos índices                  Por isso, a solução encontrada para esse
econômicos e aguçado pela estrutura de produção.         problema está no investimento da industrialização,
A ponto de ser registrado como fenômeno                  que assume como precedente o desenvolvimento
desequilibrado, devido um progresso econômico com        regional. A indústria tende angariar grande número
ausência de crescimento homogêneo, equilibrado e         populacional e consumir mais mão-de-obra, pois
igualmente distribuído entre populações e territórios    ocorre expansão do setor terciário, alcança-se um
(SILVA et al, 2000).                                     mercado de amplas oportunidades de inserção de
        O crescimento econômico regional funciona        novas indústrias, sobretudo se concentra o setor
como mediador do estágio de desenvolvimento, ao          de subsistência incorporando- no mercado interno
perceber sua influência na maioria das empresas,         (SINGER, 1986).
fragmentado no controle de seus investimentos,                  Kuznets (1955) propõe o desenho da curva
além de emergir, conforme o andamento dos saldos         em U-invertido para representar a oscilação do
positivos dos negócios. Outro fator propulsor é a        contingente de desenvolvimento e enfatizar as
especialização de um setor econômico, visível a          disparidades regionais. O aumento do índice da
partir do desenvolvimento instantâneo do próprio         desigualdade regional pode ser representado pela
(LIMA, 2006).                                            forma como é conduzida a distribuição de mão-
        De tal forma, para contribuir com o              de-obra nos polos industriais. Muito comum de se
desenvolvimento e crescimento de uma região              encontrar fenômenos como êxodo rural, devido à
a ferramenta essencial é delimitar as suas               movimentação em busca de empregos e políticas
potencialidades de mercado. Para tentar superar          sociais, resultando num desenvolvimento regional
as etapas do seu desenvolvimento, uma região             desordenado. Sendo que, a diminuição da pobreza
subdesenvolvida ao tentar alcançar todas as etapas       e das desigualdades em regiões de desenvolvimento
para sua industrialização percorre um caminho            pode ser atingida a partir de um tempo e contando
bloqueado por crises ou forças insípidas do mercado      com a tendência natural.


                                                        38
No seguimento da mesma proposta, os contra-      que não foi necessário haver alguma interferência
sensos dos indicadores propiciam as desigualdades      para eliminar as disparidades regionais, já que elas
regionais a aumentarem e depois declinarem, dando      seriam eliminadas naturalmente no longo prazo.
margem a um processo chamado de despolarização.        Portanto, houve a necessidade de fazer uma análise
Em gráfico isso significa uma curva com um formato     entre diferentes regiões para verificar a proporção
de “U” invertido (∩) que representa as desigualdades   do desenvolvimento regional do país.
regionais (AZZONI, 1997).
                                                       3. Desigualdades regionais dos estados
2.3 A situação das disparidades intra-re-
gionais do Brasil                         brasileiros

        O Brasil assumiu formato de industrialização          A desigualdade regional representada no
instituído para todos os países colonizados no         Brasil perdura com o modelo implantado no cerco
período de 1500, um processo que perpetua com          das atividades produtivas, o qual tem beneficiado
características de uma rápida expansão do comércio     uma ou outra região específica. Essa dinâmica em sua
exterior, com forte apoio do governo e com alta        dimensão se apresenta em maior proporcionalidade
proteção tarifária. Desde então, ocorre a sucessão     nas Regiões Sudeste e Nordeste.
de atividades econômicas desenvolvidas numa série             A análise sobre o Produto Interno Bruto
de estágios, estabelecidas numa proposta de causas     fundamenta-se em dados extraídos do Ipeadata.
com natureza do crescimento industrial descontínuo,    Para melhor apresentar as participações do PIB
e impacto na estrutura de funcionamento da             dos Estados brasileiros, agrupa em regiões. Entre
economia no país (BAER, 2003).                         as regiões, a Região Sudeste é a que mais se
        Nos anos de 1970, pode ser visto uma           destaca na participação do PIB nacional. Em 1985,
oscilação na quantidade de indústrias instaladas       era responsável por 60,15% do PIB nacional, no
e várias formulações de polos de crescimento no        entremeio do período, teve algumas oscilações,
Brasil. A partir da década de 1980, houve crises       sua percentagem decaiu (56,78%) em 2006, mas
econômicas, decorrentes da problemática gerada         continua sendo a Região que mais contribui com
pelo declínio econômico de diversas regiões            o PIB nacional. Conforme Perroux (1987) salienta-
brasileiras, em que os polos industriais passaram      se que as regiões com maior concentração de
exercer frequência negativa, ao invés de apresentar    indústrias intensificam seu desenvolvimento das
continuidade positiva no crescimento do país. Com      demais regiões.
a extensiva falência de firmas em todo o território,          A Região Sul responde pela segunda colocação
ocorre transformação nas áreas polarizadas -           na composição do PIB no ano de 1985, a qual
conhecido por fenômeno de transferências de            colaborava com 17,10% no PIB nacional declinando
atividades produtivas. Essas mudanças foram de         para 16,32% em 2006. A Região Norte apresentou
alta escala para todos os envolvidos, tanto em         menor resultado junto ao PIB nacional, no entanto,
nível regional, como na condensação de serviços        visto pela grande extensão territorial composta por
oriundos e mais submissos das indústrias (LIMA,        matas e florestas, e dada à região amazônica situar-
2006).                                                 se nesse território, justifica-se o aumento de sua taxa
        Seguindo a linha de raciocínio das             de participação no período exposto.
disparidades regionais encontradas no Brasil,                 A Região Nordeste se sobressaiu pela
o constante crescimento de algumas atividades          influente receita advinda de bens não inclusos na
econômicas, a distribuição desigual do produto         economia nacional, bens característicos da cultura
nacional e a emergente concentração industrial         local do território (BAER, 2003). Essa Região obteve
refletiram numa situação de redistribuição espacial    14,10% na composição do PIB nacional, no ano de
em determinadas regiões. Kuznets (1955) mostra         1985, durante o período sua taxa de participação


                                                   39
sofreu leves oscilações e fechou em 2006 com          porcentagens oscilaram, mas manteve-se em queda
13,13% no PIB nacional. A região Centro-Oeste         na participação do PIB nacional, alcançando uma
iniciou o período com 5,66% de participação no        média de 11,72%. O terceiro Estado com maior
PIB nacional e chegou ao ano de 2006 com 8,71 %       índice no PIB nacional é o Estado de Minas Gerais
de participação no PIB nacional.                      com uma média de 9,23%.
        A tabela a seguir apresenta os valores de            Os Estados de Roraima e Acre são os que
participação do Produto Interno Bruto dos Estados     menos contribuíram para o PIB nacional, entretanto,
Brasileiros:                                          seus índices de crescimento se elevaram, visto pelas
        Na tabela 1, nota-se a participação dos       atividades econômicas como extrativista e auto-
Estados na composição do PIB Nacional, no             consumo desenvolvidas por tais Estados.
período analisado, destaca-se a redução da                   O elo entre o processo de industrialização
contribuição do Estado de São Paulo, sendo numa       e a elevada disparidade econômica das Regiões
média de 34,53%. O Estado do Rio de Janeiro           brasileiras está representado pelas mudanças
ocupa-se da segunda colocação, porém suas             de distribuição de renda nos setores industriais,

Tabela 1 - Participação do Produto Interno Bruto, com preços constantes dos Estados no Produto
Interno Bruto do Brasil entre 1985 e 2006 em (%)
      ESTADOS            1985     1990          1995              2000           2006          Média
      São Paulo          36,12    37,02         35,47             33,67          33,87          34,53
    Rio de Janeiro       12,70    10,86         11,52             12,52          11,62          11,72
    Minas Gerais          9,61     9,29             9,74           9,64          9,06           9,23
  Rio Grande do Sul       7,88     8,13             8,30           7,73          6,62           7,48
        Paraná            5,92     6,35             5,94           5,99          5,77           6,07
        Bahia             5,35     4,49             4,14           4,38          4,07           4,32
    Santa Catarina        3,30     3,73             3,65           3,85          3,93           3,80
    Distrito Federal      1,37     1,61             2,05           2,69          3,78           2,92
     Pernambuco           2,62     2,66             2,70           2,64          2,34           2,49
        Goiás             1,80     1,75             1,84           1,97          2,41           2,17
    Espírito Santo        1,72     1,66             1,99           1,96          2,23           1,93
        Ceará             1,72     1,62             1,93           1,89          1,95           1,86
         Pará             1,52     2,06             1,87           1,72          1,87           1,80
      Amazonas            1,52     1,82             1,70           1,71          1,65           1,62
     Mato Grosso          0,69     0,83             1,01           1,22          1,49           1,31
 Mato Grosso do Sul       0,95     0,96             1,08           1,08          1,03           1,05
      Maranhão            0,74     0,80             0,78           0,84          1,21           0,97
       Paraíba            0,72     0,85             0,82           0,84          0,84           0,82
 Rio Grande do Norte      0,78     0,72             0,73           0,84          0,87           0,80
       Alagoas            0,86     0,71             0,62           0,64          0,66           0,68
        Sergipe           0,92     0,57             0,55           0,54          0,64           0,64
      Rondônia            0,48     0,49             0,46           0,51          0,55           0,53
         Piauí            0,39     0,45             0,49           0,48          0,54           0,49
       Tocantins          0,00     0,16             0,19           0,22          0,41           0,29
        Amapá             0,12     0,16             0,19           0,18          0,22           0,19
         Acre             0,13     0,14             0,15           0,15          0,20           0,17
       Roraima            0,07     0,11             0,07           0,10          0,15           0,12
        Brasil           100,00   100,00       100,00            100,00         100,00         100,00
Fonte: Ipeadata, 2009.



                                                    40
agrícolas e serviços (BAER, 2003). Ao relacionar a                 A tabela 2 mostra o Estado de São Paulo
participação do PIB estadual com o PIB nacional,            em 1985 com 48,53% de PIB atrelado à indústria,
aborda-se a composição do valor adicionado                  enquanto em 2006, esse valor diminuiu para
dos Estados Brasileiros, composto pelos setores             34,76%. No entanto, quando se analisa o setor de
agropecuário, industrial e de serviços.                     serviços, obteve um crescimento de 33,35% em 1985
        Os dados mostram que a Região Sudeste               para 34,14% em 2006. Já o setor agropecuário
possui valores mais elevados no segmento                    assentiu uma queda de 18% para 12,78%. As
industrial, e acredita-se que devido a isso, haja           diversas participações desses setores em diferentes
maior concentração urbana, dada a localização das           anos mostram mudanças no padrão de produção,
indústrias. A Região Centro-Oeste atribui valores           consumo e fatores de trabalho que implicam na
atrelados ao segmento agropecuário, justificando            diversa evolução econômica dos Estados.
sua participação ativa no agronegócio brasileiro. A                O Estado do Rio de Janeiro apresenta os
Região Sul possui valores correlativos à agricultura,       resultados do setor de serviços (16,48%) em 1985,
aos serviços presentes e à crescente ativação do            sendo que tal decaiu no ano de 2006 (11,66%)
segmento industrial. Os dados referentes às Regiões         admitindo que esse setor se tornou o maior
Norte e Nordeste mostram que seus aspectos                  contribuinte na formação de seu PIB estadual. O
econômicos têm incrementado gradativamente as               Estado de Minas Gerais tem na agricultura o fator
participações da indústria, serviços e agricultura.         de maior contribuição para o PIB estadual no
Conforme apresenta a tabela 2:                              decorrer dos anos de 1985 e 2006. Os Estados

Tabela 2 – PIB Estadual a preços básicos em R$ de 2000, no valor adicionado da Indústria, Agropecuária
e Serviços, nos anos selecionados de 1985 e 2006
                                     1985                                             2006
     Estados          Indústria   Agropecuária    Serviços            Indústria    Agropecuária     Serviços
    São Paulo          43,58         18,00         33,35               34,76          12,78          34,14
  Rio de Janeiro       13,21          1,41         16,48               13,09           1,04          11,66
   Minas Gerais         9,25         14,71          7,93               10,21          14,12           8,38
 Rio Grande do Sul      7,00         11,25          6,99                6,52          11,30           6,34
      Paraná            4,82         12,66          5,39                5,94           8,87           5,60
  Santa Catarina        3,32          5,23          2,50                4,80           5,07           3,57
       Bahia            4,90          8,46          4,40                4,32           5,84           3,79
    Amazonas            1,94          1,13          0,95                2,57           1,48           1,22
   Espírito Santo       1,41          3,03          1,50                2,48           3,64           1,80
      Goiás             1,08          3,11          2,13                2,28           4,65           2,38
       Pará             1,01          3,51          1,34                2,27           3,29           1,71
   Pernambuco           1,95          3,00          2,72                1,76           2,22           2,61
      Ceará             1,39          2,44          2,02                1,63           2,65           2,10
   Mato Grosso          0,30          1,21          0,89                0,96           7,04           1,31
  Distrito Federal      0,35          0,10          5,54                0,87           0,15           5,59
    Maranhão            0,31          1,80          0,90                0,86           3,85           1,23
Rio Grande do Norte     0,88          0,63          0,69                0,79           1,03           0,92
      Sergipe           1,37          0,65          0,47                0,72           0,59           0,64
      Paraíba           0,43          1,28          0,78                0,67           1,16           0,95
Mato Grosso do Sul      0,36          3,09          0,88                0,65           2,70           1,04
     Alagoas            0,48          1,49          0,70                0,63           1,03           0,70
     Tocantins           0             0                0               0,36           1,44           0,37
       Piauí            0,17          0,61          0,51                0,33           0,97           0,63
                                                                                                        (continua)

                                                    41
(continuação)
                                       1985                                         2006
     Estados            Indústria   Agropecuária   Serviços       Indústria     Agropecuária      Serviços
     Rondônia             0,33          0,74         0,50           0,28            2,02            0,57
       Acre               0,05          0,27         0,17           0,10            0,66            0,23
      Amapá               0,06          0,09         0,19           0,08            0,17            0,32
     Roraima              0,02          0,07         0,11           0,06            0,23            0,21
     BRASIL              100,00        100,00      100,00          100,00          100,00          100,00
Fonte: Ipeadata, 2009

com maior contribuição no PIB nacional (São Paulo,      da Região. A partir do exposto, destacam-se as
Rio de Janeiro e Minas Gerais) têm composições          disparidades entre regiões, pelos valores restringidos
diferenciadas de valor adicionado (para a produção      de habitantes e empresas em ambos os Estados.
da indústria, agricultura e serviços).                  Com base no registro populacional, o gráfico 2
       De acordo com Andrade e Serra (1998),            mostra a distinção populacional entre os Estados do
o período de 1985 a 2006 possui concentração            Brasil.
industrial em grandes centros brasileiros, como                 Segundo a representação do gráfico 2,
mostra o gráfico 1:                                     as unidades federativas brasileiras com maior
Gráfico 1 – Número de Empresas por Estados Brasileiros no ano de 2006




Fonte: IBGE, 2009.

      No gráfico 1 e no gráfico 2, observa-se que       número de empresas se assemelham aos Estados
o Estado de São Paulo concentra o maior número          que possuem maior adensamento populacional.
de empresas (30,45%) e, por conseguinte, é o            Portanto, existe atração populacional nessas regiões
Estado mais populoso (21,95%) do Brasil. O Estado       que tendem investir nas empresas já existentes,
de Roraima é o menos populoso com 0,21% da              possibilitando manutenção/formação de novos
população total do país e possui número reduzido        empregos e empreendimentos. Com isso, essas
de empresas, no ano de 2006.                            regiões mantêm um crescimento continuo em
      Em contrapartida, o Estado do Amapá ocupa o       termos de PIB que lhes permite a possibilidade do
menor índice de empresas devido as potencialidades      desenvolvimento econômico.


                                                     42
Gráfico 2 – População Total por Estados Brasileiros no ano de 2006




Fonte: Estimativa Populacional, 2009.

       Outras regiões com ausências de                Gráfico 3 – Medida de Desigualdade Regional do
desenvolvimento não viabiliza em níveis de            PIB per capita a preços constantes em R$ de 2000
                                                      do Brasil, para os Estados Brasileiros, no período
crescimento econômico contínuos, e por diversos       de 1985 á 2006.
fatores acabam não tendo a mesma possibilidade
gerir desenvolvimento. E ainda o crescimento
desigual entre as regiões brasileiras se atribui a
algumas diferenças regionais, considerando o
enfoque populacional e número de empresas em
cada Estado.
       O gráfico 3 apresenta a disparidade
regional do PIB per capita dos Estados Brasileiros,
mediante a representatividade dos dados extraídos     Fonte: Resultados da Pesquisa, 2009.

do IBGE para as anos de 1985 á 2006. De                       Como mostra o gráfico 3, ocorre aumento das
acordo com Williamson (1977), as disparidades         disparidades entre os Estados Brasileiros até 1995.
regionais crescem por um determinado período          Esse fato se explica por meio do declínio caracterizado
de tempo, após declinam mostrando o movimento         pela despolarização entre 1996 á 2002, o qual
de polarização ou movimento de despolarização.        permite destacar a redução das disparidades entre os
Entre a amostra das desigualdades averiguadas         Estados brasileiros. Esse período é caracterizado pela
nos Estados brasileiros, o valor máximo atingido      implantação do Plano Real na economia brasileira e
chegou a torno (0.0866) no ano de 1995,               sua desvalorização a partir de 1998/99, atingindo,
representando o maior diferencial de PIB per capita   no ano 2000, o menor índice de disparidade entre
entre os Estados Brasileiros, seguindo no decorrer    os Estados brasileiros. Após 2002 até 2006, as
dos anos um declínio gradativo formando a figura      disparidades estaduais se mantiveram a níveis estáveis,
de um “U” invertido. Como está representado no        porém não nulas, as quais indicam a existência das
gráfico a seguir:                                     disparidades estaduais a níveis menores.

                                                  43
Conclusões                                                       Verificou-se através das tabelas 1 e 2 e dos
                                                         gráficos 1 e 2, que o Estado de São Paulo é o
       O período de 1985 á 2006 proposto para            representante motriz brasileiro. Pois maior parte da
estudo foi um momento de transformações na               população e empresas situa-se nesse Estado, isso
economia Brasileira. Com taxas exorbitantes de           gera atração de investimentos e mão-de-obra em
inflação em um primeiro momento, assumindo               intensa escala. Em contraste os Estados de Roraima
um equilíbrio com o controle inflacionário sob           (menos populoso) e Amapá (menor número de
intensa mudança econômica em vários setores da           empresas) possuem maiores dificuldades em
economia, tendo que se adaptarem às mudanças             relação a atração de investimentos. Desse modo,
da abertura econômica, proposta em 1990. Visto           no período analisado, as desigualdades regionais
isso, como influencia nas disparidades regionais e       entre os Estados reduziram relativamente com
desenvolvimento econômico desigual no conjunto           a abertura econômica, principalmente após a
de Estados brasileiros.                                  desvalorização cambial de 1999, e estabilizaram a
       O movimento de crescimento das                    partir do ano 2002.
desigualdades no início nos anos 1990 e a                        Nas disparidades econômicas entre os
concomitante ascensão em 1995, remota a                  Estados Brasileiros, o papel do investimento público
característica da teoria da polarização na impactante    em infraestrutura é essencial, pois consideram
atração de empresas e pessoas em relação aos polos.      a caracterização e a adequabilidade como
As quais transmitem o movimento de regiões mais          instrumentos de desenvolvimento regional para
ricas à frente de regiões mais empobrecidas. Esse        as áreas menos favorecidas. Sendo assim, as
movimento, depois de 1995 até 2002, manteve-se           disparidades regionais devem ser analisadas com
em queda, comprovando a hipótese de “U” invertido,       mais atenção e cuidado pelas autoridades públicas,
mostrando que o crescimento elevado aumenta as           no sentido de melhor qualificar a mão de obra,
desigualdades regionais, depois declinarem dando         incentivando políticas internas de crescimento nos
margem a um processo chamado de despolarização,          Estados subdesenvolvidos, a fim de equiparar ao
que ocorre sem qualquer tipo de interferência.           crescimento dos demais Estados.

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                                                   45
A Evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental: o caso do
          Laboratório de Camarões Marinhos
                Environment Management System Evolution: the case of Marine Shrimps Laboratory


Rafael Feyh Jappur1
Antonio Costa Gomes Filho2
Marilene Bronoski3
Fernando Antonio Forcellini4

Resumo

O estado da arte em um Sistema de Gestão Ambiental se dá quando ele consegue a certificação NBR ISO 14001.
Isso significa que as práticas e procedimentos de gestão de aspectos e impactos ambientais estão adequados,
por proporcionarem à organização os elementos para o atendimento à legislação e para o cumprimento dos
requisitos de melhoria contínua e prevenção da poluição, além de proporcionarem a obtenção de vantagens
interna e externa. Este artigo tem por objetivo mostrar a necessidade de evolução dos sistemas de gestão
ambiental, de forma que a garantia da qualidade ambiental seja para toda a cadeia produtiva. A análise é
feita a partir de um estudo de caso. A evolução de um único subsistema da Cadeia de Produção de Camarões
Marinhos rumo à padronização de processos e obtenção de certificação ISO 14001 não foi o suficiente para
garantir a sustentabilidade do sistema. Conclui-se que qualquer empresa, organização ou cadeia de produção
precisa evoluir de forma integrada e na opção pela certificação ISO 14.001 há que se pensar em certificação
da cadeia produtiva como um todo.
Palavras-chave: Sistemas de Gestão Ambiental; Cadeia Produtiva; Sustentabilidade.


Abstract

The state of the art in an Environmental Management System is when it gets the certification ISO 14001. This
means that the practices and procedures for managing environmental aspects and impacts are appropriate
for the organization providing the information for compliance and to meet the requirements of continuous
improvement and pollution prevention, and provide benefits to obtain internal and external advantaged. This
article aims at showing the need for environmental management systems development, so that environmental
quality is guaranteed for the whole production chain. The analysis was carried out from a case study. The
evolution of a single subsystem of Marine Shrimps production chain toward standardization of processes and
obtaining ISO 14001 was not enough to ensure the sustainability of the system. It was concluded that any

1	   Professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de Santa Catarina - SENAC/SC, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em
Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina - EGC/UFSC, Brasil, nível doutorado. Contato:rjappur@gmail.com
2	   Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Discente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e
Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina - EGC/UFSC, Brasil, nível doutorado. Contato: acgfilho@unicentro.br
3	   Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui doutorado em Engenharia Florestal pela Universidade
Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: marilene.bronoski@gmail.com
4	   Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil. Possui doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal
de Santa Catarina - UFSC, Brasil, e Pós-doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade de São Paulo - USP Brasil. Pesquisador Nível 2
                                                                                                               ,
do CNPQ. Contato: forcellini@gmail.com


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 13/05/2010 - Aprovado em 26/11/2010
company, organization or production chain needs to evolve in an integrated way, and in choosing ISO 14001
certification it is to consider the certification of the production chain as a whole.
Key words: Environmental Management Systems; Supply Chain; Sustentability.


Introdução                                              sendo mais tarde substituído por Desenvolvimento
                                                        Sustentável (LEIS, 1999). As cinco dimensões da
       As organizações são sistemas sociais abertos     sustentabilidade - social, econômica, ecológica,
em constante interação com o ambiente no qual estão     espacial e cultural - foram fundamentadas
inseridas. As funções administrativas e operacionais    conceitualmente por Sachs (1993).
devem ser estruturadas e gerenciadas de forma a                 No macroambiente empresarial os estudos
manter o equilíbrio entre os ambientes geral externo    focam o Desenvolvimento Sustentável; no contexto
e o ambiente de tarefas internas de maneira a evitar    do microambiente empresarial, o conceito mais
o conflito entre a organização e a sociedade à qual     utilizado é o do triple bottom line – TBL e se refere
pertence (PRESTES; BULGACOV, 1999).                     à prosperidade econômica, qualidade ambiental
       Por influência da Teoria Geral de Sistemas       e progresso social e à construção de métricas que
proposta por Bertalanfy, na década de 1950,             permitem mensurar a atuação da empresa nas
(Bertalanfy, 1977), a Ciência das Organizações          esferas econômica, social e ambiental.
incorporou o conceito de sistema aberto; isso                   Este artigo discorre sobre a evolução dos
trouxe à tona a forma de se pensar a empresa a          Sistemas de Gestão Ambiental, enfocando a
partir de processos e uma visão de interação com        necessidade de visão sistêmica da cadeia produtiva.
as necessidades dos stakeholders internos e externos            A pesquisa foi caracterizada como descritiva,
ao sistema empresarial.                                 tomando-se como fonte primária um estudo de caso
       Logo após a Segunda Guerra Mundial,              desenvolvido e sua certificação em um laboratório
esse conceito de processos foi incorporado ao           de larvicultura de camarões marinhos, situado em
ambiente empresarial, inicialmente pelas empresas       Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.
orientais, em especial pela indústria automotiva
japonesa e, posteriormente, na década de 1980,          1. Os subsistemas da cadeia produtiva
no mundo ocidental, com a proposta denominada           de camarões marinhos
de Reengenharia de Processos (HAMMER; CHAMPY,
2003).                                                         A idéia de sistema induz à idéia de ordem,
       No entanto, até a década de 1980, o              arranjo, plano, método e busca da racionalidade,
cliente, notadamente, o stakeholder principal do        mesmo que parcial. A ausência de organização
cenário organizacional, não era tão valorizado          poderia se chamar de “caos”, de forma que um
em função das poucas empresas atuantes e,               sistema organizacional é um conceito, uma visão
consequentemente, de poucos produtos existentes.        funcional e estática da organização (PRESTES;
A década de 1980 inaugurou a necessidade de             BULGACOV, 1999).
maior integração da empresa com o seu ambiente                 A empresa, tipo especial de organização,
externo, colocando o cliente como sujeito das           enquadra-se no modelo de sistemas abertos,
decisões empresariais.                                  considerando sua contínua interação com o ambiente,
       A evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental      recebendo e transformando insumos em produtos
também tem seu marco inicial a partir daquele           acabados, de acordo com Montana e Charnov (1998).
período, pois a preocupação com a preservação                  O conceito de sistema aberto é também
do meio ambiente, conjugada com a melhoria              aplicado na cadeia de produção do cultivo de camarão
das condições sociais e econômicas da população         marinho, que apresenta três elementos principais: o
mundial, trouxe o conceito de ecodesenvolvimento,       laboratório de reprodução e larvicultura, a fazenda


                                                       48
de engorda e o centro de processamento para o           no entanto, isso nem sempre ocorre de forma
mercado. O Laboratório de Camarões Marinhos -           simultânea. Tomando como exemplo o sistema
LCM é um subsistema do sistema de reprodução e          de qualidade, que envolve processos, recursos,
larvicultura de pós-larvas de camarão marinho.          atitudes e responsabilidades de forma que a sua
                                                        sobrevivência depende do nível de atendimento ao
Figura 1 – Fluxograma da Cadeia Produtiva do            mercado e acompanhamento de suas evoluções por
Camarão Marinho
                                                        todos os subsistemas do sistema empresa.
                                                                Para Juran (1995), o Gerenciamento da
                                                        Qualidade por Toda a Empresa (GQTE) é uma
                                                        abordagem sistemática para se estabelecer e atingir
                                                        metas da qualidade na empresa como um todo;
                                                        no planejamento por departamentos, ele deve
                                                        identificar e concentrar-se nas poucas atividades
                                                        mais vitais; os clientes podem constituir todo um
                                                        elenco de personagens, sendo que o planejamento
Fonte: Os autores.                                      departamental da qualidade deve identificar e
       O fluxo de informações permeia toda a cadeia     concentrar-se nos poucos clientes mais importantes
produtiva, entre os seus diversos componentes.          (Classe A, dentro da Classificação ABC). Nesse
Buscam-se informações no fornecedor (capacidade         sistema, a metodologia aplicada é a mesma que
de fornecimento, tecnologias utilizadas, logística      a aplicação em toda a empresa, somente restrita à
de ressuprimento) que, ao mesmo tempo, avalia           divisão em que se pretende planejar a qualidade,
o poder de compra e demanda do cliente e                isoladamente.
assim sucessivamente. O fluxo de informações é,                 Dentro desse contexto, na evolução dos
portanto, nos dois sentidos (bidirecional), desde o     sistemas empresariais, a gestão de processos tornou-
produtor primário, até o consumidor final (usuário).    se ferramenta substancial para a melhoria contínua
Já o de mercadorias/produtos é unidirecional, em        dos processos críticos de uma organização. Cada vez
se tratando de logística direta, visto que é o fluxo    mais a exigência da sociedade para que as empresas
físico que segue do produto primário (origem da         assumam sua responsabilidade socioambiental tem
cadeia), até o consumidor final. Salvo, é claro,        forçado as empresas a evoluírem, especialmente em
em caso de devolução, reutilização num processo         seus sistemas de gestão ambiental. O movimento
anterior, situações contempladas na da logística        ambientalista chegou para ficar e cabe às empresas
reversa.                                                adequarem-se a essa realidade.
                                                                Considerando esse cenário, de crescente
2. A evolução dos sistemas                              preocupação com a variável ambiental, é que
                                                        muitas organizações padronizaram seus processos
       O conceito de “evolução dos sistemas             de gestão voltados a esse enfoque. O conceito
técnicos” defende a idéia de que todo sistema evolui.   de gestão ambiental para organizações pode ser
Essa evolução pode ser a partir de uma idéia inicial    definido como um sistema administrativo integrado
para a qual o sistema técnico ainda não existe de       aos demais processos gerenciais que busca a
forma organizada, como também para sistemas já          excelência da performance ambiental (ALMEIDA,
existentes. Tal consideração foi utilizada como base    2002).
para a Teoria da Resolução de Problemas Inventivos              A evolução dos Sistemas de Gestão
– TRIZ - desenvolvida por Genrich Altshuler (1926-      Ambiental encontra sua maior dificuldade no jogo
1998) conforme relembra Demarque (2005).                de forças existente entre os diversos stakeholders.
       Se o sistema evoluiu como um todo, infere-       Antes da década de 1980, por exemplo, os clientes
se que seus subsistemas também evoluíram,               e o movimento ambientalista não tinham força e

                                                    49
os sistemas de Marketing e os Sistemas de Gestão         engessamento das atividades organizacionais e sim
Ambiental não evoluíram, predominando o lucro a          um mecanismo de suporte à gestão, incluindo os
todo custo, em atendimento ao acionista que tinha        limites de flexibilidade possíveis.
maior influência no sistema empresa.                             Sob a ótica da gestão, um processo é
        Um método inovador que considera a               definido como um ou mais procedimentos/atividades
sustentabilidade como consequência das ações             relacionados, os quais coletivamente realizam o
de inovação e responsabilidade social empresarial        objetivo de um negócio dentro de um contexto
incorporada à visão de longo prazo do modelo             organizacional definido em papéis e relacionamentos
de negócios foi desenvolvido por Gomes Filho et          (WFMC, 1999).
al (2009). Segundo esses autores, o Método para                  Muitas organizações gerenciam suas
Concepção de Negócios Sustentáveis baseado em            operações através da aplicação de sistema de
TRIZ (MCNS-TRIZ) possibilita evoluir o modelo de         processos e suas interações, que podem ser
negócios incluindo a dimensão social e a dimensão        referenciados como “abordagem de processos”. A
ambiental.                                               ABNT ISO 9001 promove a utilização da abordagem
                                                         de processo. Como o PDCA pode ser aplicado a
3. Abordagem de processos e evolução                     todos os processos, ela também pode ser compatível
via padronização                                         com os processos de gestão ambiental (ABNT ISO
                                                         14001, 2004).
        A aplicação de um sistema de gerenciamento               A implementação de sistemas de gestão
por processos em uma organização, junto com a            ambiental - SGAs - é um movimento organizacional
identificação, interações desses processos e sua         recente e que ganhou velocidade a partir da
gestão, pode ser considerada como “abordagem             década de 1990, com a disseminação da norma
de processo”. Uma vantagem da abordagem de               ISO 14001. De acordo com ISO (2003), o número
processo é o controle contínuo que ela permite sobre     de certificações de sistemas de gestão no mundo
a ligação entre os processos individuais dentro do       tem crescido significativamente, o que comprova
sistema de processos, bem como sua combinação e          a credibilidade dessas certificações num mercado
interação.                                               cada vez mais competitivo e globalizado.
        O      estabelecimento      de     processos             Existem várias metodologias para a
documentados dá suporte, para que nada                   implementação e manutenção de sistemas de gestão
importante seja esquecido e também serve para            ambiental, sendo estas baseadas no método do ciclo
que todos tenham o conhecimento do que fazer,            do “PDCA”, já mencionado anteriormente. A própria
quando fazer, como fazer, por que fazer, onde fazer      ISO 14001 foi concebida com essa base conceitual
e dependendo da situação, o quanto custa fazer.          (HARRINGTON; KNIGHT, 2001). O ciclo “PDCA”
Daí a importância da necessidade da existência de        foi proposto por Shewhart na década de 1930 e
processos devidamente formalizados, instruções,          disseminado por Deming na reconstrução do Japão
registros, para assegurar que os executores da tarefa    pós-guerra. Ele é considerado por Moura (2008) e
o façam dentro de um padrão pré-estabelecido do          Moreira (2006) como a ferramenta mais importante
melhor jeito possível e não cada um com o seu            do gerenciamento do SGA, a qual poderá resumir
próprio jeito (MELLO et al., 2002).                      todo processo de gestão. Compõe-se pelo “P” de
        Conforme Harrington (1993), a padronização       plan (planejar), “D” de do (realizar), “C” de check
é um norte para a operacionalização eficiente e          (verificar) e “A” act (atuar para corrigir).
eficaz das atividades organizacionais. Ressalta-                 De acordo com a ABNT ISO 14001 (2002), o
se ainda, que esses documentos padronizados,             processo de operacionalização de um SGA eficiente
podem, de acordo com a necessidade, ser revistos         e eficaz com base no “PDCA” deve ser alcançado
e melhorados. A padronização não significa o             por meio da seguinte forma:


                                                        50
•	 Planejar: estabelecer os objetivos e            propostos pela NBR ISO 14001. O entendimento
        processos necessários, para atingir os          dos autores deste artigo é que o estado da arte
        resultados em conformidade com a política       é atingido pela certificação, isso em termos
        ambiental da organização.                       de práticas e procedimentos de gestão de
     •	 Executar: implementar os processos.             aspectos e impactos ambientais, e também por
                                                        proporcionarem à organização os elementos para
     •	 Verificar: monitorar e medir os processos
                                                        o atendimento à legislação e para o cumprimento
        em conformidade com a política ambiental,
                                                        dos requisitos de melhoria contínua e prevenção
        objetivos, metas, requisitos legais e outros,
                                                        da poluição.
        relatando seus resultados.
                                                               Além de possibilitarem a obtenção de
     •	 Agir: agir para continuamente melhorar o        vantagens diferenciais internas e externas, a
        desempenho do SGA.                              padronização dos processos dos Sistemas de Gestão
        O conceito de gestão ambiental para             Ambiental caracteriza sua evolução e visa apoiar a
empresas pode ser definido como um sistema              sustentabilidade competitiva das organizações.
administrativo integrado aos demais sistemas que
suportam os processos gerenciais e que buscam a         4.A evolução do laboratório de camarões
excelência da performance ambiental. Para Almeida       marinhos (lcm) à padronização e
(2000), gestão ambiental é a forma de como a            certificação pela iso 14001
empresa se mobiliza, internamente e externamente,
para a conquista da qualidade ambiental desejada.               A criação de camarões em cativeiro
Viterbo Junior (1998) enfatiza que a gestão ambiental   (carcinicultura) é uma atividade que nos últimos
é como a organização administra as relações entre       anos tem apresentado grande expansão mundial,
suas atividades e o meio ambiente, observando as        assumindo considerável importância socioeconômica
partes interessadas (consumidores, empregados,          em diversos países (ANDREATTA, 2002).
ONG’s, comunidade, entre outros).                               A cadeia produtiva do cultivo de camarão
        De uma maneira geral, a gestão ambiental é      marinho no caso em estudo apresenta três elementos:
um meio administrativo que liga as atividades de uma    o laboratório de reprodução/larvicultura, a fazenda
organização ao meio ambiente, com a finalidade          de engorda e o centro de processamento para o
de prevenir e minimizar os impactos ou efeitos          mercado. O Laboratório de Camarões Marinhos
ambientais causados direta e/ou indiretamente por       (LCM) está posicionado no segmento de reprodução/
ela. A aplicação de um sistema de gestão ambiental      larcicultura de pós-larvas de camarão marinho.
(SGA) é a melhor estratégia de gestão ambiental,                Idealizado para promover o desenvolvimento
com menor custo e de forma permanente, segundo          do cultivo de camarões marinhos na região sul do
Almeida (2000).                                         Brasil, a construção do LCM iniciou-se em novembro
        A norma ambiental ISO 14001 é o método          de 1983, tendo sido inaugurado em 5 de janeiro
mais aceito e difundido internacionalmente de           de 1985. Em 1984, a Universidade Federal de
SGA, segundo Harrington e Knight (2001). Ela é a        Santa Catarina - UFSC - iniciou as pesquisas com
tentativa de homogeneizar e padronizar conceitos,       reprodução e cultivo das espécies nativas. Durante
ordenar atividades e criar procedimentos que sejam      dezessete anos, dedicou-se ao desenvolvimento de
reconhecidos por aqueles que estejam envolvidos         tecnologia para reprodução e cultivo das espécies
com alguma atividade produtiva que possam gerar         nativas P paulensis e P schmitti, que, apesar dos
                                                                  .              .
impactos ambientais.                                    ótimos resultados na reprodução, em escala
        Nesse contexto, no caso do Laboratório de       comercial não foram competitivos nas fazendas de
Camarões Marinhos, local de estudo, buscou-             produção. Durante esse período, grande parte do
se a fundamentação nos requisitos normativos            potencial do laboratório foi usada para programas


                                                    51
sociais, através do repovoamento de Lagoas                produto que tenha impactos ambientais negativos
Costeiras (entre os anos de 1991 a 1997).                 ao longo de sua cadeia produtiva, até a disposição
        Com o intuito de viabilizar a atividade de        de pagar mais por um produto com efeitos sócio-
carcinicultura em Santa Catarina, no segundo              ambientais relativamente benignos (BOYD et al.,
semestre de 1998, a UFSC e a Empresa de Pesquisa          2002).
Agropecuária e Extensão Rural do Estado de                       Considerando a perspectiva de abertura de
Santa Catarina (EPAGRI) foram responsáveis pela           novos mercados e as pressões das partes interessadas
introdução da espécie Litopenaeus vannamei nas            em relação às questões ambientais (comunidade,
fazendas existentes no Estado.                            ONG´s, órgãos ambientais, entre outros), que
        O LCM possui capacidade instalada para            o LCM-UFSC decidiu implementar um SGA, em
produzir 60 milhões de pós-larvas (filhotes de            conformidade com a ISO 14001. A finalidade dessa
camarão) por mês, além de atuar nas áreas de              implementação foi a possibilidade de obtenção
ensino, pesquisa, planejamento e transferência de         de uma certificação ambiental, concedida por um
tecnologia, atua no povoamento das fazendas de            organismo auditor independente e o mapeamento
cultivo de camarão marinho existentes em toda a           dos processos.
Região Sul do Brasil.                                            Antes do início da implementação do SGA,
        Em suas primeiras etapas, o cultivo de            o LCM não possuía processos documentados.
camarões se baseava nos recursos naturais, como,          As atividades eram executadas de acordo com
por exemplo, a captura de pós-larvas silvestres, os       o conhecimento tácito de seus colaboradores.
viveiros semi-naturais, os alimentos naturais e o         Contudo, para essa finalidade, foi necessário o
uso de grandes ecossistemas para recepção dos             mapeamento e a documentação dos processos
efluentes. Essa grande confiança nos recursos naturais    operacionais e gerenciais, a fim de identificá-los
conduziu a problemas de impacto ambiental. No             e validá-los junto aos colaboradores responsáveis.
entanto, à medida que a indústria foi avançando,          Após essas etapas, foi possível incluir a esses
o uso de recursos naturais foi diminuindo a favor         processos os controles ambientais concernentes.
de um melhor controle, eficiência e sustentabilidade             O LCM recebeu a certificação de seu SGA
(CHAMBERLAIN, 2001).                                      em acordo com os requisitos da NBR ISO 14001. O
        Os aspectos ambientais da carcinicultura são      SGA uma vez implantado forneceu os mecanismos
relativamente claros, sendo os impactos negativos         gerenciais para que o LCM, além de obter a
da indústria extensivamente relatados na literatura       conformidade com as normas e leis ambientais,
como a destruição de mangues, captura de pós-             pudesse proporcionar aos colaboradores uma série
larvas na natureza, poluição das águas, salinização       de vantagens sócio-econômicas.
de solos e mananciais de água potável, além dos
                                                          4.1. Os resultados
conflitos sociais (GESAMP 1991; MACINTOSH et
                            ,
al. 1992; PILLAY, 1992; PHILLIPS, 1993; BARG,                    Como resultados positivos, segundo Richard
1994; FAO/NACA, 1995; PRIMAVERA, 1998; AYPA,              (2003), verificou-se que o LCM passou de um processo
1999; NURDJANA; 1999; CNA, 1999; RAHMANN,                 de trabalho informal, anteriormente calcado em
1999).                                                    conhecimento empírico e sem padronização, para
        Na maioria dos países importadores de             um processo totalmente formal, com procedimentos
camarão, o público está geralmente atento para            organizados, padronizados e, também, evoluído.
a necessidade de proteger o meio ambiente e os            Isso considerando o entendimento de que a ISO
recursos naturais para as futuras gerações. Um            14000 é o que há de mais moderno em termos de
número crescente de consumidores leva em conta            garantia da qualidade ambiental.
as consequências ambientais quando compra certos                 Entre os benefícios proporcionados pelo SGA
produtos, o que vai desde a recusa em adquirir um         no LCM, podem ser citados


                                                         52
•	 o estabelecimento de uma política ambiental de Produção de Camarões Marinhos rumo
         para o Laboratório;                           à padronização de processos e obtenção de
      •	 o mapeamento e padronização de todos certificação ISO 14001 não foi o suficiente para
         os procedimentos operacionais, para garantir a sustentabilidade do sistema por meio da
         a produção de pós-larvas da espécie garantia de qualidade em todos os subsistemas da
         Litopenaeus vannamei;                         cadeia produtiva.
                                                               Com efeito, após a certificação do LCM
      •	 o levantamento e identificação dos aspectos
                                                       apareceram alguns problemas na manutenção de sua
         e impactos ambientais reais e potenciais
                                                       certificação. Esses problemas foram tanto internos
         das atividades realizadas no Laboratório;
                                                       quanto externos ao LCM, ou seja, impactando e
      •	 o estabelecimento de objetivos e metas sendo impactado por todos os elementos da cadeia
         ambientais e dos programas de gestão produtiva.
         ambiental (planos de ação que visam à                 Sendo o LCM um subsistema do sistema de
         eliminação ou mitigação dos impactos ou reprodução/larcicultura de pós-larvas de camarão
         potenciais impactos ambientais significativos marinho, manter a certificação ISO 14001 tanto em
         identificados);                               termos de dependência na integração de processos
      •	 o atendimento a toda legislação ambiental quanto em termos de sustentação financeira da
         aplicável ao setor;                           certificação, a vinculação direta e a vinculação
                                                       indireta ao restante da cadeia produtiva (figura 1)
      •	 a redução no consumo de energia elétrica
                                                       era uma realidade a ser considerada ao adotar-
         e água doce;
                                                       se a estratégia da certificação, de forma que a
      •	 a diminuição no uso e/ou a substituição manutenção da certificação tornou-se inviável
         de produtos químicos por outros menos financeiramente, devido ao problema ocorrido no
         impactantes; o atendimento às situações de subsistema da cadeia.
         emergência;                                           A idéia inicial era de aprender com o SGA e
      •	 a eliminação do escape de organismos disseminar os conhecimentos para os produtores.
         exóticos, para o meio ambiente e a Várias atividades para esta disseminação foram
         ampliação e aprimoramento do sistema desenvolvidas, tais como: palestras, seminários,
         de tratamento dos efluentes sanitários e apoio técnico e científico para as associações dos
         do processo produtivo, culminando com o fazendeiros, legalização das áreas de manejo,
         monitoramento semanal de 12 parâmetros entre outras. Porém, surgiram algumas barreiras
         físico-químicos da água, coletados em mais ao longo desse processo. Aspectos relacionados
         de dez pontos diferentes, incluindo a Lagoa à liderança, cultura e estrutura, aqui abordadas,
         da Conceição.                                 foram muito intensos, dificultando a captura e o
       Em todas as unidades do Laboratório, as entendimento do aprendizado por boa parte dos
lâmpadas fluorescentes, baterias e rejeitos químicos fazendeiros.
passaram a ter uma destinação adequada e estão                 Essas barreiras levaram ao que Levinthal
sendo enviados para empresas especializadas na e March (1993) apontaram sobre a analogia
reciclagem desses materiais. Também foi instituído da cegueira e o compartilhar de percepção. Os
um programa de coleta seletiva de lixo, que segrega líderes desse processo de compartilhamento não
mensalmente dezenas de quilos de materiais conseguiram persuadir as lideranças locais para
recicláveis que são doados para empresas de uma mudança cultural sustentável. O aumento
reciclagem.                                            da produção, a preocupação com maiores lucros
       Como resultado negativo, verificou-se que e a falta de percepção com qualidade ambiental,
a evolução de um único subsistema da Cadeia culminou com aparição do vírus da mancha branca,


                                                   53
gerando grandes perdas econômicas e quebrando           resolve imitar, e por fim, os custos com manutenção
boa parte da cadeia produtiva. As 110 fazendas de       da certificação, que incluem, principalmente, custos
produção no Estado, 90% delas em Laguna, Sul do         com consultorias independentes.
Estado, que antes produziam 4,5 mil toneladas do                O que se precisa ter em mente é que a evolução
crustáceo por ano e que rendiam R$ 40 milhões, hoje     de apenas um subsistema de uma organização
estão desativadas ou são utilizadas em atividades       causa um desequilíbrio do ponto de vista sistêmico;
econômicas alternativas.                                é evidente que a abordagem por processos que
                                                        defende a melhoria contínua diz que se deve melhorar
Considerações finais                                    em “processos críticos” ao negócio num primeiro
                                                        momento, no entanto, num segundo momento,
        Este artigo discorreu sobre a evolução          isso deve ser estendido a toda a organização. A
dos sistemas de gestão ambiental, enfocando a           certificação da qualidade não pode-se dar apenas
necessidade de visão sistêmica da cadeia produtiva.     no setor produtivo, mas em toda a empresa, e isso é
        A     profissionalização     de     qualquer    visão holística de processo de gestão.
empreendimento se dá pela evolução, e essa                      Os problemas acima são comuns a empresas
evolução deve sempre levar em conta seu caráter         já constituídas, levando-se a pensar, que, ou se
sistêmico, sob pena de haver retrocessos.               evolui o sistema empresarial e seus subsistemas
        Igualmente       aos     outros     sistemas    como um todo, ou a sua sustentabilidade, aqui
organizacionais, os sistemas de Gestão Ambiental        entendida como perenidade no tempo, estará
buscam atingir a sua evolução junto ao que foi          comprometida. Na década de 1980, a solução foi
chamado aqui de “estado da arte”. O estado da           a Reengenharia.
arte é entendido nesse contexto, como sendo aquele              Conforme foi visto no caso do Laboratório
mais atual da evolução de um determinado sistema,       de Camarões Marinhos, o problema já conhecido
e no caso dos SGAs, foi aceito como sendo a             pelas empresas aplica-se também a uma cadeia
certificação ISO 14.001.                                produtiva; a certificação ISO 14001, conseguida a
        No entanto, o que se observa é que em alguns    muito trabalho, mostrou-se insustentável pelo não
casos, as organizações adotam a certificação da         acompanhamento da evolução da cadeia produtiva,
qualidade, e num momento seguinte voltam atrás,         comprometendo a sustentabilidade na manutenção
abrindo mão da certificação, demonstrando que o         da certificação e obrigando o laboratório a abrir
seu próprio sistema de gestão estratégica não está      mão de uma conquista já consolidada naquele
evoluído. Esse lapso, ou não discernimento dos          subsistema da cadeia produtiva.
reais motivos que levariam uma empresa a optar                  Conclui-se      que     qualquer     empresa,
pela certificação normalmente passa pelo contexto       organização ou cadeia de produção precisa evoluir
em que ela está inserida; a exigência do cliente, a     de forma integrada e na opção pela certificação
adoção da certificação como um modismo, ou seja,        ISO 14.001 há que se pensar em certificação da
porque a concorrente também fez a empresa também        cadeia produtiva como um todo.

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                                                  56
Projetos Brasileiros de Aterro Sanitário no Mecanismo
  de Desenvolvimento Limpo: uma análise dos indicadores
                    de sustentabilidade
 Brazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzing the indicators of sustainability


Miriam Tiemi Oliveira Takimura1
Valdir Machado Valadão Júnior2

Resumo

Discussões relacionadas ao aquecimento global desencadearam, entre outras iniciativas, o Protocolo de Quioto,
cuja participação brasileira se dá por meio dos projetos MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). O objetivo
deste estudo foi verificar se os projetos brasileiros de aterro sanitário, poderiam ser caracterizados como sustentáveis
na divulgação de seus dados, analisando os indicadores ambientais, sociais e econômicos neles previstos. O
estudo é dito descritivo qualitativo sendo o método de procedimento a análise de conteúdo clássica. Partiu-se pelo
levantamento de indicadores nacionais e internacionais que atendiam ao tripé de sustentabilidade proposto por
Elkington (1997), obtendo-se a combinação entre Dashboard of Sustainability e Indicadores de Sustentabilidade
do IBGE. Ao confrontarem-se os dados dos projetos com as categorias selecionadas, não foi possivel comprovar
a sustentabilidade. Uma segunda apreciação ponderou os critérios descritos na Resolução n.1, de 11 set.
2003, da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, quanto à contribuição dos projetos para o
desenvolvimento sustentável. Mesmo com a crítica adicional não se consegue comprovar a sustentabilidade.
Chega-se à consideração de que a abordagem econômica prevalece em detrimento das abordagens ambiental
e social, ficando claro que os projetos só existem por causa de suas respectivas viabilidades econômicas.
Palavras-chave: Sustentabilidade; Protocolo de Quioto; Aterro Sanitário.


Abstract

Discussions about global warming led, among others initiatives, to Kyoto Protocol where Brazilian participation is
represented by CDM’s projects (Clean Development Mechanism). The general objective of this paper was to verify
if Brazilian landfill site could be defined as sustainable according to their data, analyzing the environmental, social
and economic indicators forecasted. The study is defined as qualitative descriptive and the method of procedure is
the analysis of classical content. It started from the national and international searching indicators, that agrees with
the tripod of sustainability proposed by Elkington (1997), getting the combination of Dashboard of Sustainability
and IBGE (Brazilian Institute for Geography and Statistics) Indicators of Sustainability. Comparing projects data with
categories selected, it was not possible to prove the sustainability. One second assessment was done considering
the criteria from Resolution nr.1 dated September 11, 2003 of Climate Global Changing Committee, in order to

1	   Professora da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil.Possui Mestrado em Administração pela Programa de Pós-Graduação em
Administração da Universidade Federal de Uberlândia - FAGEN/UFU, Brasil. Graduada em Administração e Engenharia Civil pela Universidade
Federal de Uberlândia - UFU, Brasil. Contato: mtakimura@terra.com.br
2	    Professor Adjunto da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil. Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da
Universidade Federal de Uberlandia - FAGEN/UFU, Brasil.Possui doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa
Catarina - UFSC, Brasil, e Mestrado em Administração pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: valdirjr@ufu.ber


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 22/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
verify the contribution of projects for sustainable development. Even with additional criticism it cannot prove the
sustainability. It was concluded that economic approach prevails on environmental and social approach, being
clear that projects only exist because of economic viability.
Key words: Sustainability; Kyoto Protocol; Landfill site.

Introdução                                                   que o aumento da poluição decorrente da emissão
                                                             de CO2 possa gerar no efeito estufa. Não é possível
        Aquecimento global significa o aumento,              esperar por séculos para confirmar se a degradação
além do normal, da capacidade de a atmosfera                 do meio ambiente, juntamente com o aumento
reter calor. Não se sabe ao certo as consequências           populacional, vai dispor para as gerações futuras
decorrentes do aquecimento da Terra. Sabe-se                 os mesmo recursos atuais.
que certos lugares ficam mais quentes, outros mais                   Neste cenário, a ONU (Organização
frios, assim como ocorrem alterações de umidade              das Nações Unidas) teve a iniciativa de reunir
,tornando certos lugares mais secos, outros mais             os países para debater o tema, chegando ao
úmidos (HAWKEN et al, 1999).                                 chamado Protocolo de Quioto, no qual as nações
        Do mesmo modo que existem cientistas                 industrializadas que aderiram à convenção
empenhados em provar a interferência antropogênica           se obrigaram a reduzir emissões. Isso se faz
do aquecimento global, existem aqueles que não               modernizando fábricas, exigindo maior controle na
concordam com os estudos realizados. A grande                emissão de CO2, e, com muita informação para
crítica se dá ao analisar as variações naturais              toda a sociedade. Um dos elementos discutidos
de temperatura. Através de estudos geológicos                nos projetos voltados ao Protocolo de Quioto é a
provou-se que as variações sempre ocorreram,                 sustentabilidade. Para ser sustentável, cada projeto
fazendo parte da história e da evolução das                  deve conter, em si, indicadores que o apontem
espécies (EEROLA, 2003). Os dados de medições                como viável, não apenas economicamente, mas
meteorológicas de temperatura são recentes, datam            também social e ambientalmente, noutras palavras,
de aproximadamente 100 anos. Porém, cem anos é               a ideia do triple-botton-line proposto por Elkington
um período de significado desprezível do ponto de            deve estar presente (ELKINGTON, 2001). Além do
vista geológico, por isso as críticas.                       fato de melhorar a qualidade do ar atmosférico, o
        O IPCC (Painel Intergovernamental sobre              MDL (Mecanismo de Desenvolivimento Limpo) e os
Mudanças Climáticas) utiliza essas medições recentes         certificados de redução de carbono, são vistos como
para provar o aquecimento, mas não deixa claro que           um mercado de grandes perspectivas para o Brasil.
no, período entre 1925 a 1946, o planeta Terra se                    Na primeira etapa do acordo, de 2008 a 2012,
aqueceu mais rapidamente quando a quantidade de              o país não tem cotas a cumprir e pode participar
CO2 lançada na atmosfera era inferior a 10% da atual.        apresentando projetos de redução ou captura de
E que, entre 1947 e 1976, ocorreu um resfriamento,           carbono. Os projetos movimentam grandes valores
mesmo quando os países passavam por um grande                monetários e a mídia oferece destaque. Os créditos
processo de desenvolvimento econômico decorrente             de carbono gerados pelos projetos podem ser
do fim da Segunda Guerra (MOLION, 2008). Outro               negociados diretamente entre a empresa responsável
ponto levantado pelo autor é que a atividade solar           pelo desenvolvimento e acompanhamento do
ainda pouco conhecida também é variável ao longo             projeto e a empresa compradora, ou em Bolsas de
do tempo e influencia diretamente o clima da Terra.          Valores. A BM&F (Bolsa de Mercadorias de Futuros)
        Mesmo que não se possa culpar o homem e              realizou seu primeiro leilão global pela internet para
seu processo de desenvolvimento pelas mudanças               venda de créditos gerados em fevereiro de 2008.
climáticas, muitos estudiosos concordam que é                Foram negociados aproximadamente R$33 milhões
necessário se posicionar frente às consequencias             através do projeto Bandeirantes de Gás e Geração


                                                            58
de Energia da Prefeitura de São Paulo (ACIONISTA,       sólido gerado tem aumentado significativamente
2008).                                                  (IBAM, 2007), preocupação que contribuiu para
        Porém, além da questão econômica, o             a seleção. Não se pode generalizar, entretanto, é
termo sustentabilidade vem acompanhando essa            natural imaginar que demais projetos que partem
ênfase. Saber o que significa sustentabilidade e        da iniciativa privada busquem o retorno financeiro
sua abrangência torna-se imprescindível, já que         com a negociação de créditos de carbono,
o termo é amplamente utilizado. O problema de           redução na emissão de poluentes e exploração
pesquisa levou à busca de referencial sobre o           da imagem decorrente da participação em ações
assunto. Essa investigação revelou que o conceito       ambientais e sociais.
de sustentabilidade é amplo, geral e relativamente
novo, pois as primeiras referências surgem a partir     2.Revisão bibliográfica
da década de 1970. É preciso conhecer melhor
suas características e limitações, para tornar mais             A questão socioambiental tem origem em
significativo o emprego do termo para a sociedade       duas frentes distintas, a gestão social e a gestão
em geral. Para que seja possível tornar aplicáveis      ambiental. A questão da atuação dos órgãos públicos
os conceitos, é necessário conhecer e utilizar          na resolução de problemas sociais é discutida
ferramentas que permitam uma mensuração                 conjuntamente com a atuação e responsabilidade
e para tal utilizam-se indicadores e índices de         das empresas privadas em geração de bens e
sustentabilidade.                                       riqueza e benefício da sociedade. Schroeder e
                                                        Schroeder (2004), em seu artigo, discutem o poder
1. Problema de pesquisa e objetivo                      das organizações ao assumirem as causas sociais e
                                                        questionam até onde essa atuação é benéfica sem
       Partindo-se do pressuposto de que um             gerar dependência. Quando as empresas assumem
projeto aprovado é sustentável, esta pesquisa           a responsabilidade social, podem desenvolver
é fundamentada no seguinte problema: quais              “programas de relação com empregados, serviço
indicadores de sustentabilidade em nível ambiental,     público e à comunidade, assistência médica e
social e econômico, conforme indicadores                educacional, desenvolvimento e renovação urbana,
previamente selecionados e critérios presentes na       cultural, arte ou recreação”, ou seja, “a empresa
Resolução n.1 de 11/set/2003 estão presentes            além de prover a sociedade de bens e serviços,
nos projetos do Mecanismo de Desenvolvimento            terá sob seus domínios o bem-estar do cidadão”
Limpo, inseridos no Protocolo de Quioto, para           (SCHROEDER; SCHROEDER, 2004, p.5-6).
aterros sanitários no Brasil? O objetivo é verificar            Já Schommer e Rocha (2007, p.14) debatem
se os projetos brasileiros de aterro sanitário no       a questão, enfatizando que “pelo poder que elas
MDL podem ser caracterizados como sustentáveis          concentram, empresas não podem estar de fora
na divulgação de seus dados, analisando os              do debate público e da renegociação do pacto
indicadores ambientais, sociais e econômicos.           social”, a elas não cabe a neutralidade, perante os
       Quando delimitada a pesquisa, fez-se a           desafios sociais e ambientais, visando somente à
eleição pela análise dos projetos de aterro sanitário   lucratividade. Muito há de ser estudado e realizado
por ser um ramo de negócio voltado à gestão             para se chegar ao ponto de equilíbrio na busca do
pública, por isso, em tese, comprometida com o          desenvolvimento sustentável, tanto em nível público
bem comum. Normalmente, a gestão pública tem            quanto privado.
participação associada à gestão privada, seja na                Já a questão ambiental antes era vista como
execução de parte do processo de descarte do            uma bandeira levantada por ambientalistas extremos
lixo ou na fiscalização do serviço executado. O         e organizações não governamentais que traçavam
esforço despendido para melhor disposição do            panoramas pessimistas quanto à continuidade de
lixo urbano é grande e a quantidade de resíduo          vida no planeta Terra. Esses grupos não aceitavam a

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sociedade de consumo e seus hábitos e realizavam        outros em desenvolvimento, projetos que reduzam
manifestações e piquetes nas empresas e indústrias      as emissões de poluentes atmosféricos e descontar
que ofereciam produtos considerados não-corretos.       de sua cota o que tiver sido reduzido pelos países
As organizações empresariais, com seu poderio           por eles financiados. Cada tonelada de carbono,
de fabricação e distribuição de produtos, eram          que deixa de ser emitida pela adoção de novas
consideradas as vilãs, pois elas poderiam ser a         tecnologias, poderá ser negociada com outros
ferramenta de mudança para a melhoria social e          países e usada como uma maneira de cumprirem
ambiental do planeta (SOUZA, 2005).                     suas metas de redução de emissões. Assim, o
        A partir de 1968, quando foi fundado            Brasil pode alterar e aperfeiçoar a tecnologia
o Clube de Roma, tornou-se evidente que a               empregada visando à redução de emissão de CO2
preocupação com o meio ambiente era mundial.            em seu processo produtivo e ainda gerar créditos
O grupo composto por especialistas de várias áreas      de carbono que serão vendidos no exterior, isto é
de conhecimento e de vários países, reuniram-se         como obter patrocínio pela boa performance.
com o objetivo de analisar as questões ambientais               Esse mecanismo estabelece que cada governo
e sociais da época e as suas consequências futuras.     é responsável pelo critério de desenvolvimento
Em 1972, publicou-se o Relatório de Limites do          sustentável em seu país e, portanto, os projetos
Crescimento, que condenava a busca incessante           devem passar pela aprovação dos governos
do crescimento da economia sem considerar as            nacionais segundo suas necessidades e prioridades.
implicações decorrentes (HOFF; PRETTO, 2008). A         A AND (Autoridade Nacional Designada), comissão
grande contribuição do relatório foi mostrar que os     brasileira destacada para análise das conformidades,
recursos naturais eram extinguíveis. E que, em nossa    visa atender os requisitos de desenvolvimento
civilização, não se cria valor econômico sem haver,     sustentável, delineada na “Resolução n. 1”, de
como contrapartida, degradação do ambiente.             11 de setembro de 2003, segundo cinco critérios
        Novos grupos surgiram baseados na               básicos: “distribuição de renda, sustentabilidade
cooperação de todos os países na busca de soluções      ambiental local, desenvolvimento das condições
a respeito das relações humanas e meio ambiente.        de trabalho e geração líquida de emprego,
O Protocolo de Quioto foi firmado em dezembro de        capacitação e desenvolvimento tecnológico, e
1997, durante a COP 3 (Conferência das Partes),         integração regional e articulação com outros
em Quioto, Japão. É um tratado internacional com        setores” (MCT, 2008, p.2).
o compromisso de redução de gases responsáveis                  O termo desenvolvimento sustentável e
pelo efeito estufa que gera o aquecimento global.       sustentabilidade auxiliou na difusão da gestão
O acordo foi firmado por 175 países sendo que 36        socioambiental. Em concordância com Almeida
países desenvolvidos se comprometeram a reduzir         (2000) e Van Bellen (2002), ao procurar e
suas emissões de GEE no período de 2008 a 2012          estudar os termos desenvolvimento sustentável e
(MCT, 2007).                                            sustentabilidade, encontrou-se uma profusão de
        O Brasil também é um emissor de                 conceitos e definições que se confundem com as
GEE, principalmente pelas elevadas taxas de             diversas abordagens dadas ao tema, dos diversos
desmatamento e queimadas, especialmente na              campos de estudo e das ideologias e dimensões
região amazônica, porém não possui cotas de             que cada organização adota. Foi utilizado o termo
redução neste primeiro período. O país, juntamente      desenvolvimento sustentável como aquele que se
com outras nações em desenvolvimento, não               preocupa em atender às necessidades da geração
listadas no Anexo I, podem contribuir com a             atual, sem esquecer as gerações futuras. Esse conceito
redução das emissões por meio de projetos do            foi definido pela Comissão Brundtland em 1987 e
MDL. Este, descrito no artigo 12 (MCT, 2007),           é o mais conhecido e difundido mundialmente, de
permite a um país industrializado financiar, em         acordo com Elkington (2001).


                                                       60
Elkington, em 1997, dividiu o termo                               nem sempre o é, depende da metodologia utilizada
sustentabilidade em três dimensões, isto é, para                          e o critério de análise realizado.
que a busca pela sustentabilidade seja possível é
necessário atender à prosperidade econômica,                              3.Metodologia
à qualidade ambiental e à igualdade social, o
chamado triple-bottom-line. Essa decomposição                                    A base de pesquisa se dá nos textos dos
permite a mensuração e tomada de decisão em                               projetos de MDL já aprovados, até 05/junho/2008,
diferentes frentes que ao final irão compor a gestão                      disponíveis na página eletrônica do Ministério da
socioambiental.                                                           Ciência e Tecnologia. Cabe aos aterros sanitários
        Ainda assim, é dificil medir a sustentabilidade                   27 projetos em atividade, sendo 26 aprovados.
de uma nação, localidade, negócio ou empresa.                             Nesta análise, a totalidade da amostra foi analisada,
Quando se faz referência a ferramentas de medição,                        conforme Quadro 1.
precisa-se utilizar indicadores para tal. Na busca                               Quanto aos objetivos, neste estudo em
por indicadores de sustentabilidade em vigência,                          particular, a pesquisa é classificada como descritiva,
encontrou-se em abundância várias metodologias,                           pois os fatos serão observados, registrados,
utilizadas nacionalmente ou internacionalmente.                           analisados, classificados e interpretados, sem que
O levantamento trouxe autores que buscaram                                o pesquisador interfira sobre eles. Quanto aos
conhecer os indicadores da sustentabilidade como                          procedimentos, isto é, a maneira pela qual se
Van Bellen (2002), Coral, Strobel e Selig (2004),                         obtem os dados necessários para a elaboração
Gamboa, Mattos e Silva (2005), Benetti (2006),                            da pesquisa, é categorizada como análise de
Soares, Strauch e Ajara (2006), Bufoni, Ferreira e                        documentos (ANDRADE, 2004).
Legey (2007), Barddal e Alberton (2008), dentre                                  Fez-se então a escolha pela análise de
outros. A quantidade de abordagens, metodologias                          conteúdo clássica - abordagem qualitativa -
e critérios adotados são decorrentes da finalidade                        em que trechos dos documentos são utilizados
da mensuração da sustentabilidade, do campo de                            para comprovação da sustentabilidade ou não
estudo e da organização ou instituição ligada. Cada                       dos projetos aprovados. De acordo com Bauer
qual utiliza a mais conveniente ou faz adaptação                          (2002), um texto pode apresentar uma riqueza
de alguma existente para os moldes necessários                            de informações pois “do mesmo modo que as
à situação. Acredita-se que o problema dessa                              falas, referem-se aos pensamentos, sentimentos,
miscelânea seja em decorrência do conceito de                             memórias, planos e discussões das pessoas, e
sustentabilidade não ser único e ter abordagens                           algumas vezes nos dizem mais do que seus autores
diversas. Então o que é informado como sustentável,                       imaginam” (BAUER, 2002, p.189). Seguindo o
Quadro 1 - Relação de projetos MDL de aterros sanitários
  Projeto                                                 Título                                                Local

 0001/2004              Projeto NovaGerar - Projeto de Energia a partir de Gases de Aterro Sanitário       Nova Iguaçu - RJ       P1
 0002/2004                  Projeto Vega Bahia - Projeto de Gás de Aterro de Salvador da Bahia              Salvador - BA         P2
 0004/2004                  Projeto de Energia de Gases de Aterro Sanitário da Empresa MARCA                Cariacica - ES        P3
 0005/2005            Projeto de Conversão de Gás de Aterro em Energia no Aterro Lara – Mauá – Brasil         Mauá - SP           P4
 0006/2005                   Projeto ONYX de Recuperação de Gás de Aterro Tremembé - Brasil                 Tremembé - SP         P5
 0010/2005                  Projeto de Recuperação de Gás de Aterro ESTRE - Paulínia (PROGAE)                Paulínia - SP        P6
 0011/2005                      Projeto de Redução de Emissões de Biogás, Caieiras - Brasil                  Caieiras - SP        P7
 0013/2005            Projeto Bandeirantes de Gás de Aterro e Geração de Energia em São Paulo, Brasil       São Paulo-SP          P8
 0016/2005                             Projeto de Gás do Aterro Sanitário Anaconda                         Santa Isabel - SP      P9
 0021/2005                   Projeto São João de Gás de Aterro e Geração de Energia no Brasil               São Paulo-SP         P10
 0076/2006                   Projeto de Gás de Aterro Sanitário Canabrava - Salvador-BA, Brasil             Salvador - BA        P11
                                                                                                                               (continua)


                                                                       61
(continuação)

  Projeto                                                       Título                                                                 Local

 0089/2006                          Projeto de Gás do Aterro de Bragança - EMBRALIXO/ARAÚNA                                         Bragança - SP           P13
 0093/2006                                     Projeto de Gás de Aterro SIL (PROGAS)                                             Minas do Leão - RS         P14
 0105/2006                                  Projeto de Gás de Aterro Sanitário de Manaus                                            Manaus - AM             P15
 0109/2006                              Projeto de captura de gás de aterro sanitário Alto-Tietê                                Itaquaquecetuba - SP        P16
 0114/2006                             Projeto de Gás de Aterro Terrestre Ambiental (PROGATA)                                         Santos SP             P17
 0115/2006                               Projeto de Gás de Aterro ESTRE Itapevi - (PROGAEI)                                          Itapevi - SP           P18
 0116/2006                                 Projeto de Gás de Aterro Quitaúna (PROGAQ)                                              Guarulhos - SP           P19
 0138/2006                               Projeto de Gás de Aterro CDR Pedreira (PROGAEP)                                           Tremembé - SP            P20
 0158/2007        Atividade de projeto de redução de emissão de gás de aterro no Aterro Sanitário SANTECH Resíduos                   Içara - SC             P21
 0162/2007                                                  Probiogas – JP                                                        João Pessoa - PB          P22
                                                                                                                               Tijuquinhas, Biguaçu -
 0180/2007               Projeto de Captura e Queima de Gás de Aterro Sanitário de Tijuquinhas da Proactiva                                                 P23
                                                                                                                                          SC

 0182/2007                         URBAM/ARAUNA – Projeto de Gás de Aterro Sanitário (UAPGAS)                                   São José Campos - SP        P24
 0198/2007                                 Projeto de redução de emissão do aterro CTRVV                                           Vila Velha - ES          P25
 0202/2007                              Projeto de gás de aterro sanitário de Feira de Santana                                  Feira de Santana - BA       P26
Fonte: baseado em MCT, 2008

raciocínio do autor “a validade da AC (análise                                   institucional, referente às ações públicas em prol do
de conteúdo) deve ser julgada, não contra uma                                    desenvolvimento sustentável. Essa vertente não foi
‘leitura verdadeira’ do texto, mas em termos de                                  levada em consideração na apreciação proposta,
sua fundamentação nos materiais pesquisados e                                    uma vez que o presente estudo tem a análise focada
sua congruência com a teoria do pesquisador, e                                   em projetos brasileiros de aterros sanitários que
à luz de seu objetivo de pesquisa” (BAUER, 2002,                                 partem da iniciativa privada, operados por terceiros,
p.191).                                                                          e não se leva em conta a localidade, a região de
        Na busca por indicadores, Van Bellen                                     implementação ou a orientação política.
(2002) apontou 18 diferentes métodos utilizados                                          A partir das duas metodologias, houve a
internacionalmente para medição de sustentabilidade                              seleção de critérios de análise pertinentes a aterro
e, destes, o autor considera três ferramentas como                               sanitário, descritos no Quadro 2.
mais relevantes: Ecological Footprint, Barometer of
Sustainability e o Dashboard of Sustainability. No                               Quadro 2 - Indicadores unificados para análise
âmbito nacional, oito foram os modelos tomados                                        Dimensão                               Indicadores

como referência, baseados em estudos realizados                                                                         Emissão de gases estufa;
                                                                                                               Concentração de poluentes atmosféricos;
por Coral, Strobel e Selig (2004), Gamboa, Mattos                                                                   Porcentagem de área protegida.
                                                                                   Dimensão Ambiental
e Silva (2005), Soares, Strauch e Ajara (2006),                                                               Acesso a serviço de coleta de lixo doméstico;
                                                                                                                        Destinação final do lixo;
Bufoni, Ferreira e Legey (2007) e Barddal e Alberton                                                               Tratamento adequado de esgoto;

(2008), para citar alguns.                                                          Dimensão Social
                                                                                                         Doenças relacionadas ao saneamento ambiental
                                                                                                                          inadequado
        Foram selecionados o Dashboard of
                                                                                                                             Investimento;
Sustainability e o critério do IBGE, por se                                                                        Consumo comercial de energia;
                                                                                                                     Fontes renováveis de energia;
enquadrarem dentro das perspectivas de análise                                         Dimensão
                                                                                                               Disposição adequada de resíduos sólidos;
                                                                                       Econômica
ambiental, social e econômica, segundo o tripé da                                                                       Coleta seletiva de lixo
                                                                                                                              Reciclagem;
sustentabilidade proposto por Elkington (1997) e                                                                    Geração de resíduos perigosos;
o artigo 3 parágrafo 14 do Protocolo de Quioto,                                  Fonte: elaborado pela autora a partir de Dashboard of Sustainability e
                                                                                 IBGE (2004).
que menciona a necessidade de implementação
de medidas que minimizem os efeitos sociais,                                           Após esta análise, foi realizada uma segunda
ambientais e econômicos. Ambos possuem a vertente                                apreciação. No caso do Brasil, os projetos são


                                                                              62
analisados pelos integrantes da AND, que avaliam o         critério de análise em relação aos parâmetros
relatório de validação e a contribuição da atividade       definidos pela AND, comissão nacional que julga se
do projeto para o desenvolvimento sustentável do           um projeto irá beneficiar o país.
país, atendendo à Resolução n. 1, de 11 de setembro
de 2003. Os projetos serão ponderados segundo              4.1. Análise da abordagem ambiental
cinco critérios: distribuição de renda, sustentabilidade         Nos documentos se privilegiam as informações
ambiental local, desenvolvimento das condições de         referentes a aspectos ambientais, como o cálculo
trabalho e geração líquida de emprego, capacitação        da metodologia da linha de base e descrição do
e desenvolvimento tecnológico, integração regional        monitoramento, chegando a um valor de redução
e articulação com outros setores. Como se tratam          de emissão de gases do efeito estufa, além da
de pontos adicionais ao levantado pelos métodos           duração do projeto e a descrição dos impactos
de indicadores selecionados, são considerados             ambientais. Portanto, grande parte do documento
como adicionais na análise dos dados.                     analisado refere-se à abordagem ambiental, sendo
                                                          possível levantar seis indicadores: emissão de gases
4.Análise dos resultados                                  estufa; concentração de poluentes atmosféricos;
                                                          porcentagem de área protegida; acesso a serviço
        O primeiro passo para a realização deste
                                                          de coleta de lixo doméstico; destinação final do lixo
trabalho foi conhecer detalhadamente os projetos
                                                          e tratamento adequado de esgoto.
do MDL do Protocolo de Quioto, relativos ao setor
de resíduos, mais especificamente aos aterros 4.1.1. Quanto à emissão de gases de estufa
sanitários. Estes correspondem a somente 9%
do volume total dos projetos brasileiros, porém                  Foi feito um levantamento baseado na
representam 24% de reduções anuais propostas. ocorrência de termos similares e que remetem ao
Assim, apesar da pequena participação, trata-se mesmo fim (levantado pelo referencial teórico),
de um setor de grande relevância, sendo que cada como efeito estufa, gás de aterro, biogás e metano,
projeto individualmente é responsável pela redução sendo verificadas as palavras que fazem limite e o
de grande volume de emissão de GEE (MCT, 2008). conteúdo específico do texto. As maiores ocorrências
        Ao estudar os dados, foi percebida a se deram destacando a descrição do objetivo e a
semelhança existente entre a maioria dos discursos. razão de ser do projeto, e, em outros momentos,
Esta similaridade não se dá somente em decorrência referem-se principalmente a aspectos técnicos da
de utilização de formulário padrão (Documento descrição de metodologia de cálculo utilizada, fato
de Concepção do Projeto) ou orientações sobre o não considerado neste estudo.
preenchimento dos documentos que levam em conta                  Grande parte dos projetos (73%) preveem
a utilização de metodologia de cálculo já aprovadas somente a queima dos gases gerados, o chamado
anteriormente. O que pode explicar esse fato é a biogás. Somente sete (27%) utilizam o biogás para
divulgação pública desses projetos, o que facilita a geração de energia. A utilização secundária do
consulta e cópia, além da presença de empresas biogás é possível devido ao seu alto poder calorífico
de consultoria como autores. Essas semelhanças (BANCOR, 2003), mas se torna viável somente
em projetos podem gerar a ideia de um modelo quando o volume de metano gerado é significativo
que garanta a aprovação, sem a preocupação de e quando existe um usuário ou comprador potencial
apresentar propostas de melhoria, com o intuito de dessa energia. Seja a destinação do biogás qual
torná-los mais sustentáveis.                              for, queima ou aproveitamento, já representa uma
        A seguir, parte-se para a análise individualizada melhoria na qualidade do meio ambiente.
quanto às abordagens ambiental, social e                         Foi citado que os gases gerados pelo
econômica, acompanhado pelo desdobramento aterro são prejudiciais e podem ocasionar
em indicadores específicos. Seguido pelo segundo poluição, doenças e até acidentes como

                                                       63
explosões. Em decorrência da própria natureza do         4.1.3. Quanto à porcentagem de área protegida
empreendimento ter como matéria prima o lixo, a
                                                                 A legislação relativa ao funcionamento de
legislação brasileira (NBR 8419/1984) já prevê a
                                                         aterros sanitários, NBR 8419/1984, exige que estejam
diminuição de riscos, como impermeabilização do
                                                         localizados em áreas geologicamente apropriadas
solo, tratamento dos líquidos residuais mas não
                                                         e que não corram o risco de contaminar o lençol
impõe a queima do metano gerado, somente a
                                                         freático, não sendo determinada a necessidade
implantação de dutos coletores visando dispersão
                                                         de reserva de área para preservação ambiental.
dos gases. Os aterros se localizam em áreas
controladas e poucos são os casos de desastres           Somente quatro projetos fazem referência a áreas
relativos a explosões que tenham ocorrido nesses         de proteção, os demais não se caracterizam nesta
locais. Trata-se então de um exagero por parte           categoria de análise. O projeto P1 faz referência
dos autores dos projetos, a inserção de vários           à área que tem a obrigação de recuperar, por se
pontos negativos. Ponderando o empreendimento            tratar de um lixão a céu aberto, a fim de minimizar
comercial, não seria viável correr o risco de            os danos gerados. Destacam-se os projetos P6, P7
desastres e explosões que colocariam em risco            e P20, por apresentarem cuidados ambientais além
funcionários, equipamentos e a longevidade da            dos decretados por lei, ainda que não se possa
iniciativa privada.                                      afirmar que tal referência seja cláusula do contrato da
        O P25 indica que “a legislação brasileira não    empresa prestadora de serviço. Entretanto, a citação
exige que o gás de aterro seja queimado, a única         de trechos em P1, P6, P7 e P20 que fazem menção
exigência é a ventilação dos aterros para fins de        à preocupação ambiental, foi levado em conta
segurança, isto é para evitar incêndios e explosões”     como atendimento ao critério de sustentabilidade
(CTRVV, 2007, p.14). Para complementar e justificar      analisado.
o pedido de aprovação do projeto cita-se que “é          4.1.4. Quanto ao acesso a serviços de coleta de
bastante improvável que esta situação mude durante       lixo doméstico
o curso do período de obtenção de créditos, uma
vez que nenhum regulamento exigindo a queima ou                  Nada foi citado explicitamente nos
o uso do gás de aterro está em desenvolvimento”          documentos quanto ao serviço de coleta de lixo
(CTRVV, 2007, p.14). Fica claro que não haverá           doméstico, porém tratando-se de projetos de aterro
revisão de regulamentação, mesmo sabendo que é           sanitário, deduz-se que haja serviço de recolhimento
uma atividade que gera gases prejudiciais, enfim,        de resíduos urbanos, principalmente por se tratar
uma brecha da legislação brasileira proporciona a        de áreas metropolitanas e densamente povoadas.
inserção de projetos de MDL.                             Normalmente, a concessão de atividade de lixo
                                                         urbano prevê a prestação desse serviço. Portanto os
4.1.2. Quanto à concentração de poluentes
                                                         projetos preveem a melhoria ambiental e qualidade
atmsféricos
                                                         de vida da população. Não é objeto deste trabalho
        Nesta categoria de análise, a totalidade dos     a verificação do percentual de coleta de lixo das
projetos podem ser classificadas como sustentáveis,      cidades ou busca de informações secundárias, basta
pois apresentam os valores resultantes dos cálculos      analisar a sustentabilidade do projeto.
realizados da transformação dos gases de aterro
                                                         4.1.5. Quanto à destinação final do lixo
coletados em gás carbônico equivalente (CO2e),
isto é, o quanto se deixou de emitir em termos de               Foi observado através da pesquisa do IBAM
concentração de poluentes atmosféricos. Não              (2008) que poucas cidades brasileiras fazem uso de
nos interessa a metodologia de cálculo utilizada,        aterros sanitários controlados, somente os grandes
pois esta é legitimada pelas comissões de análise        municípios e as regiões metropolitanas. Levando-se
e verificadas pelas empresas responsáveis pela           em conta que o lixo coletado atual seja direcionado
validação.                                               ao aterro e que esse resíduo é a matéria prima de

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fornecimento dos gases, razão do projeto de MDL,           Projetos como P1, P5, P11, P12, P15 e P16
parece natural que haja interesse em manter e citam a minimização da contaminação da água
ampliar esse serviço, pode-se considerar então que como fator relevante de redução de doenças. Pela
atendem ao critério de análise.                     NBR 8419/1984, há obrigatoriedade de disposição
                                                    de resíduos em locais distantes de cursos d’água e
5.1.6. Quanto ao tratamento adequado de
esgoto                                              de preparo do solo para impermeabilização, com
                                                    posterior drenagem para tratamento do líquido
       Considera-se como esgoto o resíduo líquido decorrente da decomposição, o que dificulta a
denominado chorume que a disposição do lixo contaminação da água. Incêndios e explosões
gera, sendo a toxidade variável, de acordo com os são citados em P1, P5, P11 e P15. Elas ocorrem
materiais em decomposição. Ele deve ser recolhido quando a concentração de metano não é drenada e
e sofrer tratamento neutralizador, pois corre-se o liberada na atmosfera, porém a legislação obriga a
risco de contaminação das águas subterrâneas presença de dutos, que pode inclusive ser integrado
e rios próximos quando existe infiltração, seja ao sistema de drenagem de líquidos. Desse modo,
pela impermeabilização inadequada, seja por os principais aspectos levantados pelos projetos
vazamentos existentes (BRAGA et al, 2005; MILLER, como benefício à população já são atendidos no
2007). Esse tratamento é obrigatório por força cotidiano e no funcionamento regular da atividade.
da lei de normalização das atividades de aterro e          Alguns projetos citam o retorno do dinheiro
normas ambientais locais. Deduz-se, então, que para obras sociais, educacionais, não relacionadas
todos os empreendimentos já atendam a essa a tratamento de doenças. Já o P12 prevê organizar os
disposição, portanto, atendendo ao indicador de catadores em uma cooperativa formal, o que poderá
sustentabilidade analisado.                         contribuir de maneira significativa para a vida das
                                                    pessoas que necessitam do lixo para sobrevivência,
4.2. Análise da abordagem social                    diminuindo o aparecimento de doenças relativas à
       Os projetos não oferecem muitas informações baixa qualidade de vida.
quanto à abordagem social. Os objetivos sociais de         Portanto nos projetos não se constata a
melhora da qualidade do ar, diminuição do risco contribuição para a sustentabilidade, no que se
de explosões, criação de empregos e capacitação refere à abordagem social e a presença de indicador
da mão-de-obra são válidos, porém pelo critério relativo a doenças relacionadas ao saneamento
escolhido não são levados em consideração. Portanto ambiental inadequado.
quanto aos indicadores selecionados pelo método,
                                                      4.3. Análise da abordagem econômica
foi possível somente a apreciação das doenças
relacionadas. Para tal, fez-se levantamento através          Quanto à abordagem econômica, foi possível
da presença de palavras como doença(s), saúde,        selecionar sete indicadores: investimento, consumo
população e comunidade, buscando ocorrências          comercial de energia, fontes renováveis de energia,
que pudessem ser relacionadas com a preocupação       disposição adequada do lixo, coleta seletiva,
social.                                               reciclagem e geração de resíduos perigosos. A
        Não foi associada nenhuma doença              análise do descarte de resíduos influi na abordagem
decorrente das atividades de aterro sanitário,        econômica quanto aos padrões de produção e de
apenas foram citadas as possibilidades de odores      consumo e se referem à preocupação com o tema
desagradáveis, asfixia, contaminação da água          e aos valores monetários destinados a este fim. De
e incêndios. Odores e asfixia decorrentes da          acordo com IBAM (2008), sabe-se que a quantidade
proximidade do empreendimento não causam              de lixo gerada tem proporção direta com o número
graves problemas de saúde à população, somente        de habitantes da localidade, porém a apreciação
geram desconforto.                                    realizada neste trabalho não busca essa relação.


                                                  65
Optou-se então, por verificar referências às palavras essa informação mostra a preocupação em relação
escolhidas dentro de cada indicador e sua possível a sustentabilidade.
relação com o conceito de sustentabilidade, portanto
                                                       4.3.3.Quanto às fontes renováveis de energia
sem ligação direta com padrão de consumo.
                                                               Somente 27% dos projetos preveem a
4.3.1. Quanto ao investimento
                                                       utilização do gás resultante da decomposição
        Buscou-se     informações      relativas   ao do material depositado para geração de energia
investimento necessário para adequação do adicional. A maioria (73%) propõe somente a
empreendimento. O que se obteve foram poucas queima de gases. Segundo BANCOR (2003),
referências, destacadas em P1, P2, P4 e P5, sendo o poder calorífico do biogás só é menor que o
que reforçam a ideia de que a legislação atual fornecido pelos combustíveis fósseis, sendo prática
não impõe a queima dos gases e deixam claro comum a sua utilização em muitos aterros sanitários
que, caso o projeto não venha a ser aprovado, do mundo. No Brasil a quantidade de material
não se fará nenhum aporte adicional em busca da orgânico depositado facilita a decomposição
sustentabilidade, já que em termos financeiros a e formação do metano (EPA, 1996), porém as
atividade não gera recursos para retorno esperado. empresas responsáveis pelos aterros não fazem
                                                       uso. Existem três possíveis explicações para isto: a
4.3.2.Quanto ao consumo comercial de energia
                                                       implementação requer investimentos financeiros,
        A adequação do empreendimento requer a tecnologia ainda não está disponível no país e,
a instalação de equipamentos e maquinários que como citado anteriormente, as leis brasileiras não
utilizam energia elétrica para funcionamento, sofrerão alterações que imponha a obrigatoriedade
portanto buscou-se referências quanto a esse de queima eficiente ou utilização para geração de
emprego de energia. Nessa categoria de análise os energia.
projetos P7, P9 e P13 são considerados sustentáveis.           Nos projetos que partem para a utilização do
        Os projetos P9 e P13 apresentam calculos de biogás nota-se um esforço adicional, logicamente
gastos decorrentes da utilização de energia elétrica baseado em cálculo de retorno de investimento, já
da rede pública no emprego de equipamentos a que os custos de instalação de bombas conversoras
serem instalados e informam que os valores foram são altos e o metano gerado depende da quantidade
retirados dos cálculos finais de ganho na redução e qualidade do material depositado, da umidade
de emissão de CO2e. Portanto, os resultados local e do tempo de atividade do aterro. Esses
encontrados representam valores mais próximos da projetos que fazem uso secundário do biogás
realidade, já que descontam os aspectos negativos atendem a categoria analisada (P1, P3, P4, P8,
da intervenção. Já o projeto P7 revela que haverá P10, P15 e P26).
gastos adicionais, mas por se tratar de energia da
                                                       4.3.4.Quanto à disposição adequada de resíduos
rede pública e principalmente pela base energética
                                                       sólidos
do Brasil se dar por meio de hidroelétricas
(consideradas menos poluidoras e prejudiciais),                Faz parte da atividade comercial das
pode-se pensar que os autores não o considerem operadoras de aterro sanitário a correta disposição de
tão danoso.                                            resíduos sólidos, desse modo, compreende-se que a
        A preocupação em apresentar esses cálculos empresa prestadora do serviço o faça corretamente.
é uma iniciativa interessante, porém não consta Não foram encontradas informações adicionais que
na maioria dos projetos analisados, somente em 2 demonstrassem uma preocupação maior quanto
deles (P9 e P13). Mesmo se tratando de um pequeno à sustentabilidade, somente descrição de aspectos
percentual de gasto de energia, e, talvez considerado técnicos, mesmo assim os projetos foram considerados
irrelevante pela maior parte dos autores dos projetos, sustentáveis no atendimento na categoria.


                                                    66
Para análise desse indicador, os textos foram             Dessa forma, foi considerado que P4, P6 e
estudados a partir das palavras aterro, lixo e resíduo.   P12 atendem ao crítério de aprovação quanto à
Encontrou-se referências como área destinada,             reciclagem.
em termos de metragem (hectares), população
                                                          4.3.7. Quanto à geração de resíduos perigosos
atendida, cidades favorecidas, local, capacidade
total de utilização da área em toneladas, dentre           O empreendimento não gera resíduos
outros dados a respeito do funcionamento do         perigosos, a não ser os decorrentes da
aterro e atendimento a normas. Foi salientada       decomposição de materiais. Para recebimento de
a idoneidade das operadoras de aterro e sua         materiais provenientes de indústrias e hospitais
capacidade de trabalho, por se tratar de empresas   há regulamentação própria que classifica esses
do ramo que atuam em diversas localidades do        resíduos e os encaminha para neutralização antes
Brasil e do mundo.                                  do descarte. Nos projetos não foi indicada a
                                                    geração de resíduos perigosos ou o recolhimento de
4.3.5. Quanto à coleta seletiva de lixo
                                                    materiais que podem contaminar o meio ambiente.
        Não foi analisado se as localidades onde Somente o projeto P26 prevê a utilização do biogás
estão instalados os projetos possuem diretrizes para queima de resíduos hospitalares. Não havendo
de plano de coleta seletiva de lixo como prática, portanto nenhum projeto que atenda ao critério.
ou se as ações partem das empresas operadoras
                                                    4.4. Considerações a respeito das catego-
dos aterros. Observou-se que, dentre os projetos
                                                    rias selecionadas
analisados, somente P4 e P6 contam com a coleta
seletiva ou separação dos resíduos antes de serem          Após análise de conteúdo dos documentos,
depositados no aterro e cobertos por camada de tendo como base a metodologia dos sistemas
terra.                                              Dashboard of Sustainability e IBGE (2004), pode-
                                                    se considerar que não refletem a intenção do
4.3.6. Quanto à reciclagem
                                                    Protocolo de Quioto quanto à sustentabilidade. Nos
        De maneira semelhante à análise do projetos não se consegue comprovar a existência
indicador de coleta seletiva, a reciclagem do lixo de informações que legitimem os indicadores
não foi citada na maioria dos projetos, somente estudados quanto às abordagens ambiental,
P4 e P6 deixam claro as atividades realizadas. Já social e econômica. Em nenhum deles, ocorreu o
P12 demonstra a intenção de tratar a questão de atendimento integral das categorias de análise e,
maneira diferenciada, oferecendo assistência aos portanto, a sustentabilidade dos projetos é parcial.
catadores. É necessário ressaltar uma controvérsia. O quadro 3 sintetiza o atendimento às categorias
As atividades de aterro sanitário são realizadas em de análise:
áreas fechadas, onde a entrada deve ser restrita, 4.5. Parâmetros definidos pelo Protocolo
os caminhões que fazem o descarte são pesados, de Quioto
materiais perigosos devem passar por tratamento            A fim de averiguar a comprovação
prévio, enfim, a atividade requer todo um cuidado da sustentabilidade por parâmetros traçados
e controle, portanto a população não teria acesso nacionalmente pela AND, estes são verificados pela
permitido. Em P12, o conteúdo selecionado deixa mesma técnica de análise de conteúdo clássica.
transparecer que o aterro funciona como um lixão
                                                    4.5.1.Quanto à distribuição de renda
a céu aberto e que as pessoas retiram deste local
materiais que significam o modo de sobrevivência.          As condições de vida das pessoas que
O que pode parecer uma boa iniciativa para sobrevivem das atividades relacionadas a catação de
a sustentabilidade mostra a irregularidade da materiais recicláveis presentes no lixo e da população
atividade.                                          residente no entorno dos locais destinados a aterro

                                                      67
Quadro 3 - Atendimento categorias de análise
                                                                                                                                                                           Dimensão
                                                                   Dimensão Ambiental                                                                                                                                                                 Dimensão Econômica
                                                                                                                                                                             Social




                                                                                          Acesso a serviço de coleta




                                                                                                                                                                           Doenças relacionadas ao
                Emissão de gases estufa




                                                                                                                                                  Tratamento adequado de




                                                                                                                                                                                                                                                                  Disposição adequada de
                                                                                                                       Destinação final do lixo




                                                                                                                                                                                                                    Consumo comercial de
                                                                                                                                                                            saneamento ambiental
                                          poluentes atmosféricos


                                                                    Porcentagem de área




                                                                                                                                                                                                                                                                                           Coleta seletiva de lixo




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Geração de resíduos
                                                                                                                                                                                                                                           Fontes renováveis de
                                                                                              de lixo doméstico
                                            Concentração de




                                                                                                                                                                                                                                                                      resíduos sólidos
   Projetos




                                                                                                                                                                                                     Investimento
                                                                                                                                                                                 inadequado




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     Reciclagem
                                                                         protegida




                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      perigosos
                                                                                                                                                                                                                          energia



                                                                                                                                                                                                                                                 energia
                                                                                                                                                          esgoto
   P1             ü                              ü                        ü                       ü                        ü                             ü                                             ü                                         ü                       ü

   P2             ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                             ü                                                                 ü

   P3             ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                       ü                       ü

   P4             ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                             ü                                         ü                       ü                    ü                       ü
   P5             ü                              ü                                                ü                        ü                             ü                                             ü                                                                 ü

   P6            ü                               ü                        ü                       ü                       ü                              ü                                                                                                               ü                    ü                       ü
   P7             ü                              ü                        ü                       ü                        ü                             ü                                                                ü                                              ü

   P8            ü                               ü                                                ü                       ü                              ü                                                                                       ü                       ü
   P9             ü                              ü                                                ü                        ü                             ü                                                                ü                                              ü

   P10            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                       ü                       ü

   P11            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P12            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü                                            ü

   P13            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                ü                                              ü

   P14            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P15            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                       ü                       ü

   P16            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P17            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P18            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P19            ü                              ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P20            ü                              ü                        ü                        ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P21             ü                             ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P22             ü                             ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P23             ü                             ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P24             ü                             ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P25             ü                             ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                                               ü

   P26             ü                             ü                                                 ü                       ü                             ü                                                                                        ü                      ü

Fonte: elaborado pela autora

deve ser revista pelo empreendimento. Somente P1                                                                                                                                         Convém destacar que a maioria dos projetos (62%)
e P3 mencionam a criação de novos empregos e                                                                                                                                             nem fazem referência a este ponto de análise, sendo
aumento da renda da população. Projetos como                                                                                                                                             que P1, P3, P4, P8, P11, P12, P15 e P21 atendem
P8, P11, P12, P15 e P21 indicam que parte da                                                                                                                                             ao critério.
receita gerada pelo crédito carbono será distribuída
                                                                                                                                                                                         4.5.2.Quanto à sustentabilidade ambiental
com a prefeitura local, mas não deixa claro como
                                                                                                                                                                                         local
esta irá trabalhar a fim de melhorar a renda da
população. O projeto P4 não visa distribuição de                                                                                                                                                Foram estudados os impactos ambientais
renda em curto prazo pois aplicará em programas                                                                                                                                          locais do projeto, em comparação com a situação
de alfabetização e treinamento para jovens carentes.                                                                                                                                     existente antes da sua implementação. Os projetos


                                                                                                                                                                                  68
de aterros sanitários estudados já estão em              não foi encontrada nenhuma citação nos projetos
funcionamento, portanto, na análise de ganhos            P5, P13, P24, P25 e P26.
ambientais tem-se que verificar aspectos além dos
                                                         4.5.4.Quanto à capacitação e desenvolvimento
cobrados pela legislação de funcionamento do             tecnológico
empreendimento. A queima dos gases decorrentes
da decomposição de material é um ganho a ser                    O MDL incentiva a troca de tecnologia entre
destacado, visto que não ocorreria se o projeto não      nações. No caso dos aterros sanitários, haverá
existisse, conforme P1, P3, P4, P8, P9 e P13. Além       essa possibilidade, visto que não é prática comum
da diminuição de odores e riscos de explosões,           no Brasil a utilização de flares e condutos para
P9 destaca que o ganho ambiental influenciará            direcionamento dos gases gerados e posterior
na valorização imobiliária da região circunvizinha.      queima ou aproveitamento energético. A troca
Ressalta-se que 77% deles não fazem nenhuma              de conhecimento envolvendo várias organizações
referência a esse parâmetro de análise.                  também é incentivada para fomentar o mercado
                                                         nacional no desenvolvimento de empresas
4.5.3.Quanto ao desenvolvimento das condições
                                                         prestadoras de serviço e desenvolvedoras de mesma
de trabalho e geração líquida de emprego
                                                         tecnologia.
       A geração de empregos imediatos, seja para               Por se tratar de uma atividade não usual
construção, execução e manutenção das alterações         no Brasil, a queima dos gases decorrentes da
no funcionamento do aterro sanitário, é fator positivo   decomposição dos materiais depositados no aterro
quanto ao desenvolvimento sustentável, sendo             ou a utilização do biogás para geração de energia,
necessário atestar a quantidade de cargos gerados e      requerem adaptação de tecnologia e equipamentos
nível de instrução requerido. Verifica-se que poucos     vindos de outros países, com os quais serão
postos de trabalho serão gerados pelas atividades        firmadas parcerias de fornecimento e treinamento.
diárias do aterro após implantação do projeto,           Dessa maneira, os projetos conseguem justificar
sendo criados cargos na função de monitoramento,         o parâmetro de capacitação e desenvolvimento
que requerem a capacitação de profissionais. Como        tecnológico. Os projetos P7 e P13 não fazem
se trata de tecnologia estrangeira, inicialmente         nenhuma referência a este critério de análise.
haverá treinamento, porém poucos empregos
                                                         4.5.5.Quanto à integração regional                  e
indiretos serão criados. É citada a contratação de       articulação com outros setores
pessoas no período de construção e adaptação do
empreendimento, porém no dia-a-dia da atividade,                Este parâmetro preza o estabelecimento
que pode se estender por até 21 anos, não há             de parcerias entre municípios para viabilizar a
necessidade de muita mão de obra.                        implantação de aterros sanitários, além de parcerias
       Também cabe nesta análise a criação de            entre municípios e empresas privadas e organizações
programas de coleta seletiva ou reciclagem, nos          não-governamentais, para desenvolver atividades
quais a mão de obra local seja aproveitada e que se      sociais e produtivas. Dos projetos analisados 50%
crie condições de inserção no mercado de trabalho.       não indicam quais benefícios serão alcançados.
Somente 3 projetos preveem programas de seleção          Já outros 50% fazem alusão à articulação, seja
e reciclagem de materiais indicando a possibilidade      incentivando projetos sociais e ambientais, ou
de inserção de catadores de recicláveis que vivem        através de repasse de royalties às prefeituras locais.
na dependência de descarte de resíduos sólidos.          São destacados aspectos do interrelacionamento em
       Apesar de serem destacadas poucas                 que uma boa gestão de resíduos possa favorecer a
alteraçoes após a implantação dos projetos, pode-        população, beneficiando o meio ambiente. Portanto,
se considerar que confirmam a sustentabilidade.          em relação à análise desse parâmetro, pode-se
Mesmo sabendo que o projeto possa gerar empregos,        considerar que a maioria dos projetos justificam os


                                                     69
requisitos de aprovação, conforme P1, P3, P4, P8, de destacar P24 e P26 que não fazem qualquer
P9, P10, P11, P12, P13, P15, P16, P21 e P25.                  referência. Considerando que a apresentação desses
                                                              parâmetros fosse primordial para a aprovação,
4.6. Considerações a respeito dos parâme- poderia-se pensar que a maioria deles não seria
tros selecionados                                             aprovada, pela falta de dados evidenciando a
        Após a análise, segue quadro 4 com sustentabilidade.
compilação dos projetos quanto ao atendimento                        Fica a impressão de que a busca por soluções
aos requisitos de avaliação.                                  para diminuição das emissões de poluentes e alteração
                                                              dos prognósticos pessimistas sobre o aquecimento
Quadro 4 - Atendimento critérios da Resolução 1 global é tratada como uma oportunidade comercial,
de 11 set. 2003.
                                                              em que as empresas (e também governos) valorizam
                             Desenvolvi-
                                                        Inte- as transações financeiras. Lembrando que já há um
                                                      gração
                             mento das
                   Sustenta-             Capacitação regional mercado estabelecido para esses créditos de carbono
        Distribui-            condições
 Proje-             bilidade             e desenvol- e arti-
                                         vimento tec- culação e que a regulamentação atual de aterros sanitários
         ção de              de trabalho
  tos              ambiental
         renda                e geração
                      local
                              líquida de
                                           nológico      com  não exige a queima dos gases, pode-se considerar
                                                       outros
                               emprego
                                                      setores que a abordagem econômica é a propulsora dos
   P1       ü           ü          ü          ü           ü
   P2                              ü          ü
                                                              projeto e dos avaliadores credenciados. Assim os
   P3       ü           ü          ü          ü           ü   objetivos maiores dos projetos de MDL que buscam
   P4       ü           ü          ü          ü           ü
   P5                                         ü
                                                              a transferência de tecnologia, utilização de energia
   P6                              ü          ü               limpa, redução da pobreza e benefícios ambientais
   P7                              ü
   P8       ü           ü          ü          ü           ü
                                                              são consequencia do novo mercado.
   P9                          ü          ü         ü
  P10                          ü          ü         ü
  P11       ü                  ü          ü         ü     Conclusão
  P12       ü                  ü          ü         ü
  P13                                               ü             A proposta geral do trabalho foi analisar
  P14                          ü          ü
  P15       ü                  ü          ü         ü     os indicadores econômicos, sociais e ambientais
  P16                          ü                    ü     presentes nos projetos brasileiros de aterros sanitários
  P17                          ü          ü
  P18                          ü          ü               do MDL do Protocolo de Quioto. As evidências não
  P19                          ü          ü               comprovam a sustentabilidade, ao confrontar os
  P20                          ü          ü
  P21       ü                  ü                    ü     dados dos projetos com as categorias selecionadas
  P22                          ü          ü               no método, tão pouco pelas análises adicionais
  P23                          ü          ü
  P24                                                     quanto aos parâmetros definidos pela AND.
  P25                                               ü             Acredita-se que a falta de dados a respeito da
  P26
                                                          sustentabilidade pode ser afetada pelo desequilíbrio
Fonte: elaborado pela autora
                                                          entre informações técnicas e aspectos das abordagens
        Nota-se que poucos são os projetos que se         estudadas do formulário padrão oferecido. Os
preocupam em apresentar os benefícios gerados,            projetos são escritos de maneira a convencer sobre
frente aos critérios que são solicitados pela             a viabilidade da proposta, e visam passar imagem
comissão brasileira de avaliação. Somente P1, P3,         positiva do empreendimento, sem dar muitas
P4 e P8 apresentam trechos com justificativas para        explicações de como isso vai acontecer. Porém
atendimento de todos os critérios de análise. Isto não    destacam que, caso não consigam a aprovação e
significa que conter as informações seja garantia de      consequente negociação no mercado de crédito
aprovação, mas a omissão deveria ser, no mínimo,          carbono, provavelmente nenhuma iniciativa será
fato que levasse a maiores explicações. Pode-             tomada, mesmo sabendo que mudanças na atividade
se notar que vários deles (80%) não apresentam            atual diminuiriam os efeitos negativos na camada de
informações completas sobre os parâmetros, além           ozônio, riscos de asfixia e explosões, tanto citados.


                                                         70
A conscientização de que a atividade agride o meio        são grandes geradores de gases de efeito estufa,
ambiente e a qualidade de vida das pessoas dos            portanto passível de alteração de processo. À
arredores, não serve de motivo para a empresa             academia uma contribuição aos estudos de gestão
tomar iniciativa particularmente. Então a existência      socioambiental. Caberia como sugestão para
de trechos de discurso enfatizando a preocupação          trabalhos futuros a verificação da sustentabilidade na
social e ambiental contradiz o enfoque econômico.         prática do empreendimento já que se encontram em
        Outro ponto é a atuação das empresas              atividade. Também como proposta, a verificação da
em projetos sociais que permitam às pessoas que           sustentabilidade de outras atividades brasileiras de
sobrevivem de catação de materiais recicláveis            MDL a fim de detectar um padrão de concordância
a criação de cooperativas e centros de triagem.           e aprovação. A análise de projetos aprovados de
Surgem, então, questionamentos a respeito da              aterro em outros países seria interessante para busca
relação público/privado quanto à responsabilidade         dos critérios representativos nas diversas nações e
de cada uma das partes no desenvolvimento                 comparação com os critérios brasileiros.
sustentável do país. Acredita-se que a gestão                     Por fim, faz-se uma ressalva sobre a importância
socioambiental é responsabilidade de cada um,             de mais estudos sobre o tema sustentabilidade.
não cabendo somente ao poder público o bem                Verificou-se que é uma questão abrangente, por isso
estar da população e nem às empresas privadas a           utilizada de maneira indiscriminada, caracterizando-
filantropia ou intencional utilização da imagem de        se até mesmo como um “modismo” de administração.
cidadania.                                                Organizações buscam uma imagem positiva tendo
        Este trabalho pode auxiliar a política pública,   como alicerce um termo que não possui base
pois tem a intenção de alertar sobre a semelhança         sólida, em que cada um faz e adota um modelo ou
entre os documentos e a verificação do cumprimento        padrão mais conveniente. O tema ainda encontra-
das metas sociais descritas nos textos apresentados.      se em desenvolvimento e os estudos na área de
Aos responsáveis pela legislação de disposição de         gestão socioambiental irão enriquecer e elucidar
resíduos sólidos no Brasil cabe modificação das           as empresas de todos os setores e a sociedade a
normas de funcionamento já que foi comprovado,            firmar esses conceitos e sua aplicação em busca do
e as empresas cientes, que os aterros sanitários          desenvolvimento sustentável.

Referências
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país. Disponível em: http://www.acionista.com.br/bmf/290208_liquidacao_financeira.htm. Acesso em:
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Avaliação e Hierarquização dos Atrativos Turísticos de
                         Irati-PR
                                    Evaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PR


Diogo Lüders Fernandes1
Vanessa de Oliveira Menezes2

Resumo
O presente estudo tem como objetivo hierarquizar os atrativos da área urbana da cidade de Irati/PR, mostrando
sua potencialidade para o uso do turismo utilizando a técnica de avaliação e hierarquização de atrativos da
Secretaria de Turismo do Estado do Paraná - SETU. Esta pesquisa se caracteriza por ser descritiva, ocorrendo
um estudo de gabinete em bibliografias específicas, uma pesquisa em documentos da Secretaria de Turismo do
Estado do Paraná e do Departamento de turismo de Irati e a pesquisa de campo em visitas in loco dos atrativos
e equipamentos para avaliação e hierarquização dos atrativos da cidade de Irati. Por meio das pesquisas, foi
possível verificar que os atrativos da cidade necessitam de melhor estruturação.
Palavras-chave: Hierarquização; Atrativos Turísticos; Cidade de Irati-PR.


Abstract
The present study has as prime goal to categorize the urban attraction areas into an hierarchy in Irati, a city in
the South Brazil, in order to show its potentiality for Tourism using the technical support of attraction evaluation
e hierarchy of Tourism Secretariat of Paraná State - SETU. This research characterizes as descriptive, carried out
by means of document study in specific bibliographies, a research in Tourism Secretariat of Paraná State and
Irati Tourism Department documents, as well as a field research through visits to attractions and the equipment
for evaluation and hierarchy of the attractions in Irati. Through the research, it was possible to verify that the city
attractions need better structure.
Key words: Hierarchy; Turistic Attraction; Irati-Brazil./

1 introdução                                                                   de territórios; e ainda possui uma característica
        A atividade turística organizada como                                  única, o turismo é uma atividade que consome
conhecemos hoje, surge em meados do século XIX,                                elementarmente o espaço.
e desde então vem crescendo de maneira bastante                                       Essa apropriação do espaço pelo turismo
significativa.                                                                 é realizada por meio das políticas públicas de
        O turismo, assim como qualquer outra                                   turismo, que são responsáveis segundo Cruz
atividade, causa uma série de relações na localidade                           (2002, p. 44) pelo:
onde se desenvolve, podendo ser positivas ou
negativas. De acordo com Cruz (2002), o turismo                                       [...] estabelecimento de metas e diretrizes que orientam
é ainda um grande agente transformador e                                              o desenvolvimento socioespacial da atividade, tanto
organizador de sociedades e de (re) ordenamento                                       no que tange à esfera pública como no que se refere

1	    Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, Brasil. Possui mestrado em Turismo e Hotelaria pela Universidade do
Vale do Itajaí – UNIVALI, Brasil. Contato: diggtur@yahoo.com.br
2	    Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, Brasil Possui mestrado em Administração de Empresas Turísticas
pela Universidad de Extremadura – UEX, Espanha. Contato: vanessamenezes@hotmail.com


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 22/12/2009 - Aprovado em 04/06/2010
à iniciativa privada. Na ausência da política pública, o turísticos concede “[...] pouca atenção aos aspectos
    turismo dá à revelia, ou seja, ao sabor de iniciativas e voltados para a valorização, em termos turísticos,
    interesses particulares.
                                                          da importância individual, ou mesmo coletiva dos
                                                          atrativos”.
        E dessa falta de planejamento se dão diversos             O enfoque analítico de cada atrativo permite
problemas relacionados à realização da atividade          fixar o valor intrínseco do próprio recurso com base
turística desordenada. Ruschmann (1997) afirma            em suas principais características, das quais se obtém
que no caso do turismo, cabe ao governo a tarefa          um índice de qualidade que pode ser comparável
de planejar a atividade de forma a proporcionar o         ao calculado para outras áreas ou recursos de
bem-estar da população local e do turista, aliado         características similares.
à conservação dos recursos naturais e culturais da                Tal análise possibilita atribuir valor
comunidade e a normatização da atividade turística.       quantitativo ao atrativo, de modo a classificá-lo
Sendo assim a autora compreende que a finalidade          em uma escala de hierarquização, demonstrando
do planejamento turístico “consiste em ordenar            em números o valor de potencialidade de cada
as ações do homem sobre o território e ocupa-se           atrativo e do município. Esse instrumento de análise
em direcionar a construção de equipamentos e              é de fundamental importância para o processo de
facilidades de forma adequada, evitando assim os          planejamento turístico, pois auxilia na tomada de
efeitos negativos nos recursos, como sua destruição       decisão dos planejadores.
e a redução de sua atratividade”. (RUSCHMANN,                     De posse das informações apresentadas
1997, p.84)                                               acima, a problemática deste trabalho é: Qual
        O planejamento turístico por sua vez é            a hierarquia dos atrativos turísticos presentes no
compreendido, segundo Bissoli (1999), como sendo          perímetro urbano da cidade de Irati/PR?
um processo que avalia a atividade turística de um                Este artigo tem como objetivo hierarquizar
determinado espaço geográfico, verificando seu            os atrativos da área urbana da cidade de Irati/
desenvolvimento e fixando um modelo de atuação            PR, mostrando sua potencialidade para o uso do
mediante o estabelecimento de metas, objetivos,           turismo.
estratégias, e diretrizes com os quais se pretende                Este trabalho é de extrema importância, pois
fomentar, coordenar e integrar o turismo ao ambiente      propicia um debate sobre o assunto e levanta dados
em que está inserido.                                     que poderão ser usados pelos órgãos competentes
        Para tanto, é necessário analisar os atrativos    como instrumento para estruturar os atrativos
turísticos do local para avaliá-los de modo a             turísticos locais.
estabelecer o seu valor. Nesse contexto, é importante             Durante o texto, serão descritos os métodos
também hierarquizá-lo, para determinar a sua              científicos utilizados para obter os dados referentes
importância turística dentro do contexto municipal,       à temática da pesquisa, a apresentação e discussão
regional e nacional.                                      dos dados e de posse dessas informações, as
        O objetivo dos processos de avaliação e           considerações e conclusão.
hierarquização, segundo Magalhães (2001), é
empreender uma análise do patrimônio turístico            2 Fundamentação teórica
municipal de modo a determinar o coeficiente de
atratividade de cada atrativo e de cada município.               O turismo, os atrativos turísticos e suas
Muitos documentos ditos inventários turísticos            tipologias, a potencialidade e também a avaliação e
consistem em uma lista de recursos turísticos             hierarquização dos atrativos, são temáticas trabalhadas
naturais e culturais assim como o levantamento            neste artigo, bem como, a abordagem dos autores
da infraestrutura municipal e os empreendimentos          que por meio de livros ou artigos expuseram seus
e serviços turísticos. Porém, Magalhães (2001,            pensamentos adquiridos durante a carreira, ou através
p. 57) afirma que a inventariação dos atrativos           de ciências empíricas para formulação de suas teses.

                                                         74
Ao definir turismo, Barretto (1995), faz              muitos atrativos naturais ou artificiais são únicos em
um apanhado de diversos conceitos do que é                    nosso planeta, com exemplo as pirâmides no Egito,
a atividade em si. De acordo com a autora, a                  apesar de existirem, contemporaneamente outras
primeira definição de turismo remonta do ano de               construções “imitando” pirâmides egípcias, apenas
1911, quando o economista austríaco Hermann                   as originais conservam toda a cultura antiga do seu
Von Schullern Schattenhofen descreve a atividade              povo.
como um processo econômico que se manifesta                           A Secretaria de Estado do Turismo - SETU
na chegada, permanência e saída de um turista                 tem sua fundamentação muito paralela com a do
em uma determinada localidade. As definições de               Ministério do Turismo, caracterizando o atrativo
turismo passaram por diversas transformações,                 como lugar, objeto ou acontecimento que motive o
sendo incorporadas nelas diferentes realidades,               turista a conhecê-lo. (PARANÁ, 2005) Dessa forma,
deixando de ser exclusivamente vista do ponto da              o atrativo faz parte significativa da oferta turística,
economia, para uma visão mais sistêmica. Para                 esse que sua ausência torna-se por dificultar a
Boullón (2002), o turismo é um fator social, não              consolidação da atividade turística, pois o atrativo
foi criado, mas sim surgiu de um fenômeno social              é a matéria prima do turismo, diz Boullón (2002). E
da existência do tempo livre, impulsionado pela               sem a matéria prima toda vontade de trabalho não
tecnologia dos sistemas de transportes.                       se torna ação, consequentemente sem ação não há
        Para De La Torre apud Barretto (1995, p. 13)          turismo.
                                                                      Alguns lugares são potenciais turísticos
    O turismo é um fenômeno social que consiste no des-       e podem vir a se tornar um atrativo, em que
    locamento voluntário e temporário de indivíduos ou        um potencial turístico é um elemento com dois
    grupos de pessoas que, fundamentalmente por moti-         adjetivos: aptidão e disponibilidade. Não adianta
    vos de recreação, descanso, cultura, ou saúde, saem
                                                              este elemento ter aptidão e por motivos outros não
    do seu local de residência habitual para outro, no qual
    não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remu-
                                                              poder ser explorado.
    nerada, gerando múltiplas inter-relações de importân-             O conceito de atrativo tem como
    cia social, econômica e cultural.                         prerrogativa a existência de condições mínimas
                                                              para haver visitação. Essas condições conhecidas
       Portanto, para que haja turismo, é necessário o        como infraestruturas devem suprir as necessidades
deslocamento temporário de pessoas por motivação              básicas das pessoas que a este lugar buscam; caso
diversas, em busca de atrativos, como explica                 o local não ofereça tais facilidades, o produto
Ruschmann (1997); o atrativo é caracterizado por              possui apenas potencial e não pode ser considerado
aquilo que atrai o turista. Ruschmann (1997, p.71)            um atrativo. Infelizmente é comum o equívoco
segue explicando que os atrativos:                            conceitual por muitos profissionais atuantes na
                                                              área.
                                                                      Segundo Ignarra (1998), conceitualizar
    [...] são fundamentais, pois podem proporcionar maio-
    res fontes de renda à comunidade, também ajudar no        o atrativo turístico é uma tarefa complexa, pois
    crescimento de maior conscientização ambiental, pro-      a atratividade varia de turista para turista, ou
    porcionar o bem estar do turista e com conseqüência       seja, o valor de um atrativo para alguns pode ser
    da população.                                             insignificante para outros. O autor segue explicando
                                                              que o atrativo tem maior valor à medida que for
       Para o Brasil (2006), o atrativo é um elemento,        maior seu diferencial, sua singularidade.
seja natural ou artificial, que intrinsecamente motiva                Ainda, segundo a metodologia do Centro
o ser humano, individualmente ou em grupos, a                 Interamericano de Capacitação Turística - CICATUR,
conhecê-lo. A singularidade do atrativo muitas                citado por Ignarra (1998), os atrativos são
vezes é fundamental para motivar o visitante;                 classificados em naturais e culturais, e são divididos


                                                          75
em tipos e subtipos, todavia não cabe especificá-los            Identificando o valor quantitativo da potencialidade
aqui.                                                           do atrativo por meio de estudos de avaliação, após
        Estudar o atrativo é fundamental para a                 hierarquizando-o, de modo a levantar e seu grau de
primeira fase do processo de planejamento, como                 influência no fluxo turístico no cenário municipal e
explica Molina (2005, p. 54), pois nesta primeira               regional, esses estudos permitem aos planejadores
fase, o “Diagnóstico, compreende a análise e                    do turismo levantar as prioridades e os elementos
avaliação da situação histórica e atual do objeto que           do espaço a ser estudado que realmente interessam
vai ser planejado.” Ou seja, ao avaliar e hierarquizar          ao desenvolvimento turístico local.
um atrativo, está se fazendo um levantamento de                         A avaliação é o processo que pode definir
dados para o planejamento. Este por sua vez é                   a importância atual ou futura de um atrativo em
conceitualizado por Petrocchi (2002, p.19) como                 relação a outros de características homogêneas.
“[...] a definição de um futuro desejado e de todas             Para avaliar, é necessário reunir um conjunto de
as providências necessárias à sua materialização”,              fatores que permitam captar as qualidades e valores
então, a providência inicial que ele descreve passa             específicos que possuem cada atrativo, em função
pelo levantamento de dados sobre o objeto a ser                 de sua natureza e dos elementos que exercem ou
planejado e consequentemente, o atrativo está                   podem influenciar o seu aproveitamento turístico.
inserido nele.                                                  (PARANÁ, 2005) A análise desses fatores deverá
        O planejamento turístico é compreendido,                ser efetuada sob o ângulo estritamente turístico,
segundo Bissoli (1999, p. 66) com sendo                         portanto para Ruschmann (2004, p. 142):

    [...] um processo que avalia a atividade turística de um        a avaliação dos atrativos determina seu potencial turís-
    determinado espaço geográfico, diagnosticando seu               tico e constitui elemento fundamental para a tomada
    desenvolvimento e fixando um modelo de atuação me-              de decisões estratégicas para uma localidade e forne-
    diante o estabelecimento de metas, objetivos, estraté-          ce subsídios para determinar a abrangência dos proje-
    gias, e diretrizes com os quais se pretende impulsionar,        tos e a quantidade e a qualidade dos equipamentos e
    coordenar e integrar o turismo ao conjunto macroeco-            da infra-estrutura por instalar.
    nômico em que está inserido.

                                                                        A Hieraquização, por sua vez é o processo
        Para tanto, é necessário analisar os                    que permite ordenar os atrativos de acordo com
atrativos turísticos do local de modo a avaliá-los,             a sua importância turística. Esta análise contribui
estabelecendo assim seu valor de atratividade e                 para a formação de roteiros (de modo a selecionar
determinando a sua importância turística dentro do              atrativos que devem fazer parte ou excluidos), na
contexto municipal, regional e nacional, por meio               identificação dos pontos fortes ou a melhorar, na
da sua hierarquização.                                          identificação do público alvo do atrativo avaliado,
        Segundo Petrocchi (1998), o sistema do                  na priorização de ações, e em outros subsídios
planejamento está composto por três passos;                     que devem pautar a tomada de decisões dos
decisão, informação e ação, formando assim um                   planejadores. (PARANÁ, 2005)
ciclo. Compreende que, para agir é necessário a                         Desse modo, esses dois estudos nos
informação, e inserido na informação a avaliação e              permitem a adquirir informações sobre os atrativos
hierarquização de atrativos é fundamental.                      de forma cinetífica, que se tornam fundametais
        Compreender o atrativo e seu potencial                  para o planejamento turístico de uma localidade,
turístico se faz essencial para trabalhar o turismo             possibilitando elaborar um ranking com os
em uma localidade. Avaliar e hierarquizar um                    atrativos com maior potencial para uso, além
atrativo é um passo importante, na tomada de                    de informar aos gestores, os pontos fortes e os
decisão de qualquer ambiente, com o intuito de                  pontos fracos de cada atrativo da localidade,
conhecer a realidade turística de cada espaço.                  possibilitando, assim, uma tomada de decisão

                                                               76
baseada em conhecimentos que adquiridos por                                        atrativo, se este é rodoviário, ferroviário,
meio de técnicas que favorecem o planjemanto e                                     marítimo ou aéreo, pontuado da seguinte
a gestão do turismo nos municípios.                                                forma:

3 Metodologia                                                         Quadro 1 - Pontuação referente ao acesso aos
                                                                      atrativos
        A pesquisa foi realizada em dois momentos                       RODOVIÁRIO
                                                                                                           AÉREO, MARÍTIMO/FLU-
                                                                                                              VIAL, FERROVIÁRIO
distintos:                                                3 pontos         2 pontos          1 ponto         3 pontos            0 ponto
        O primeiro deles consistiu em um levantamento         Bom          Regular          Precário         Existência       Inexistência

bibliográfico sobre a temática em questão para Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.
embasar teoricamente o trabalho. Para tal pesquisa               •	 Transporte (peso 3): avaliar o transporte
foram levantados temas como; planejamento                             existente e mais utilizado para o atrativo.
turístico, inventário e hierarquização dos atrativos                  Conforme segue abaixo:
turísticos. Nessa etapa, também foi realizada uma
pesquisa documental na Secretaria de Turismo do Quadro 2 - Transporte mais utilizado para o
Estado do Paraná e no Departamento de Turismo de atrativo
Irati/PR onde foi pesquisado o Inventário Turístico         3 pontos             2 pontos             1 ponto                0 ponto
                                                                Bom                Regular              Precário            Não existe
municipal de Irati, elaborado em 2002. O mesmo
                                                      Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.
serviu de base para levantar quais os atrativos
turísticos presentes na área urbana da cidade. Por               •	 Equipamentos e Serviços (peso 3): consistem na
meio desta pesquisa, foram averiguados 6 (seis)                       análise dos equipamentos e serviços instalados
atrativos, sendo eles: Colina Nossa Senhora das                       no atrativo que a valorizarem e agregarem
Graças, Casa da Cultura, Igreja Nossa Senhora da                      valor ao atrativo visitado. Esse fator por sua
Luz, Igreja São Miguel, Igreja Imaculado Coração                      vez foi analisado da seguinte forma:
de Maria e o Parque Aquático.
        Após a etapa de pesquisa de gabinete, Quadro 3 -Valores a serem atribuídos aos atrativos
foi realizada a pesquisa de campo. Os atrativos             Valores a serem atribuídos aos atrativos que possuírem:
                                                             3 pontos            2 pontos              1 ponto               0 ponto
levantados na pesquisa documental foram avaliados         - sinalização;
e hierarquizados de acordo com a metodologia de              - monitor        - sinalização;
                                                         especializado;          - monitor
inventariação da SETU (2005). Para tal, utilizou-se          - local de       especializado;
                                                                                                   - sinalização;
                                                                                                                       - atrativo que não
                                                          alimentação;           - local de                             possuir nenhum
de uma matriz de avaliação do atrativo, no qual            - serviços de      alimentação;
                                                                                                    - serviços de
                                                                                                                          dos serviços
                                                                                                       limpeza.
foram analisadas as características citadas abaixo            limpeza;         - serviços de                                utilizados.
                                                           - sanitários;          limpeza;
de cada atrativo:                                      - integrar roteiros     - sanitários.
                                                                        comercializados.
       1.	Intrínsecas (variáveis internas);                           Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.
       2.	Extrínsecas que compõem o atrativo (natural
                                                                              •	 Valor Intrínseco do Atrativo (peso 10): é o
          ou histórico);
                                                                                 valor próprio do atrativo mediante à análise
       3.	Estrutura (do local), que podem influenciar                            e avaliação do de suas características
          na possibilidade de uso turístico do espaço.                           relevantes, tais características estão
        Vale ressaltar que cada fator de avaliação                               previamente selecionadas por tipo e subtipo
possui um peso e características específicas, sendo                              de atrativos. Este valor varia de 1 a 4 pontos,
atribuídos uma nota de 0 a 3 pontos para cada                                    conforme a comparação dos elementos
fator, sendo este:                                                               relevantes do atrativo com outro da mesma
       •	 Acesso (peso 4): avaliar o acesso mais                                 categoria.
          utilizado pelos visitantes para se chegar ao


                                                                   77
Quadro 4 - Valor intrínseco do atrativo                                                    •	 HIERARQUIA IV: Índice de atratividade de
  4 PONTOS             3 PONTOS              2 PONTOS              1 PONTO
                                                                                              3,26 a 4,00
      Muito                                  Interessante            Pouco                    Atrativo de grande significado para o mercado
                        Interessante
   Interessante                                Relativo           interessante
                                                                                      turístico internacional, capaz por si só de motivar
Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.
                                                                                      expressivas correntes de visitantes, tanto nacionais
       O Valor Intrínseco do Atrativo foi obtido por                                  quanto internacionais.
meio do somatório do valor médio de cada uma das                                              Desse modo, cada um dos 06 (seis) atrativos
características relevantes, divido pela quantidade de                                 encontrados na área urbana de Irati, segundo o
característica que integra o atrativo.                                                Inventário de Oferta Turística do Município, foram
       Após a avaliação de cada elemento e feito a                                    avaliados e hierarquizados. Vale ressaltar que
média dos pontos de cada fator pelos avaliadores,                                     além desses atrativos, o documento aponta mais
multiplica-se cada fator por seu peso para se ter o                                   um atrativo na cidade, mas atualmente tal ponto
Ponto do Fator (PF).                                                                  encontra-se em uma propriedade particular e está
       Utiliza-se então a fórmula seguinte para se                                    fechado para visitação. Por essa razão, o atrativo
chegar ao Índice de Atratividade do Atrativo (IA):                                    não foi apresentado neste trabalho.
                                                                                              Para a realização desta pesquisa, foi
Quadro 5 - Fórmula do índice de atratividade do
                                                                                      organizada uma equipe com 5 profissionais
atrativo
                                                                                      responsáveis pela avaliação dos patrimônios
 IA = PF Acesso + PF Transporte + PF Equipamentos e Serviços + PF Valor Intrínseco
                                       20
                                                                                      culturais e naturais do município, utilizando
Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009.                                     as variáveis representativas das características
                                                                                      que devem possuir cada atrativo turístico, tais
        Após a identificação do Índice de Atratividade
                                                                                      variáveis previamente estipuladas por uma ficha
do atrativo, dá início a segundo etapa, da sua
                                                                                      desenvolvida pela SETU - PR.
hierarquização. Conforme o valor do Índice de
                                                                                              Após a pesquisa de campo e os dados
Atratividade, o atrativo poderá ser classificado nas
                                                                                      coletados, começou o momento de tabular e
seguintes hierarquias, conforme o intervalo de seu                                    analisar os resultados obtidos, para assim redigir o
valor de atratividade:                                                                relatório final de pesquisa.
       •	 HIERARQUIA I: Índice de atratividade de
          1,00 a 1,75                                4 Apresentação dos dados
        Atrativo complementar a outro de maior
interesse, tem capacidade de estimular correntes            O município de Irati está localizado na região
turísticas locais.                                   Centro Sul, segundo planalto do Estado do Paraná,
       •	 HIERARQUIA II: Índice de atratividade de precisamente no Paralelo 25º 27’ 56” de latitude Sul
          1,76 a 2,50                                com intercessão com o meridiano 50º 37’ 51” de
                                                     longitude Oeste a uma altitude de 812,00 metros.
        Atrativo capaz de estimular correntes
                                                     Possui uma área de 998,30 km2 segundo os dados
turísticas locais e regionais, atual ou potencial,
                                                     gerais da Prefeitura Municipal de Irati (2005).
podendo motivar a visitação de turistas nacionais
                                                            A sede encontra-se excentricamente a
e internacionais que visitam a localidade ou região
                                                     nordeste do município com uma área de 33,52
por outras motivações.
                                                     Km2, que está localizado a uma distância de 155
       •	 HIERARQUIA III: Índice de atratividade de km da capital do estado, Curitiba, pela rodovia BR
          2,51 a 3,25                                277 que liga o litoral do estado ao município de Foz
        Atrativo turístico muito interessante, em do Iguaçu, sendo essa a principal via de acesso. As
nível nacional e internacional, capaz de motivar a outras vias de acesso ao município são a BR - 153
visitação por si só ou por um conjunto de atrativos. e a BR - 364, além da ferrovia.


                                                                                     78
Segundo a Prefeitura Municipal de Irati                e italiana, a área urbana de Irati, segundo o
(2004, p.56), o município de Irati apresenta uma              inventário turístico do município, possui alguns
“função microrregional, de caráter complementar,              atrativos que serão avaliados e hierarquizados a
abrigando atividades agropecuárias e industriais que          seguir, será descrito cada atrativo, apresentando
são essencialmente, salvo poucas exceções, uma                suas principais características e particularidades.
extensão do que é mais significativo no centro-sul            Nesse mesmo texto, será demonstrado o valor de
do Estado, na qualidade de economia provedora de              Índice de Atratividade destes atrativos e seu valor
insumos básicos, com baixo valor agregado.” Não               de hierarquia. Os valores foram obtidos a partir da
só como pólo econômico regional, mas também                   metodologia da SETU, descrita no capítulo anterior.
dos sub-setores bancário, de transporte rodoviário
                                                              4.1 Colina Nossa Senhora das Graças
de passageiros e a área cultural e de lazer (esportes,
cinema e eventos).                                                    A colina Nossa Senhora das Graças é um
       A cidade está localizada em um vale, a sede            dos logradouros de maior importância da cidade.
do município segundo a Prefeitura Municipal de Irati          Quanto à sua visitação, este espaço é passagem
(2004, p.71)                                                  obrigatória para os turistas que visitam Irati. Lá se
                                                              encontra uma imagem de 22 metros de altura de
    apresentando uma “parte baixa” — mais antiga — e          Nossa Senhora das Graças, um marco do município.
    uma “parte alta”, circundante — mais recente, e onde      Construída no ano de 1957, em comemoração
    se localizam alguns ícones da paisagem urbana local,      aos 50 anos de Irati, a imagem é esculpida em 70
    como as igrejas católicas de Nossa Senhora da Luz e
                                                              peças pelo artista Ottaviano Papaiz, de Campinas.
    a de São Miguel, bem como os Colégios São Vicente
    de Paula e de Nossa Senhora das Graças, além da           A imagem não representa a padroeira da cidade,
    grande imagem de Nossa Senhora das Graças, com            Nossa Senhora da Luz, pois sua construção se
    22 metros de altura, inaugurada em 1957, por oca-         tornou inviável devido à imagem do menino Jesus
    sião do cinqüentenário da cidade, ícone estes passíveis   que carrega no colo. Feita uma eleição, a imagem
    de avistamento a partir de quase todos os pontos da       de Nossa Senhora das Graças surge em função da
    cidade.
                                                              grande devoção popular (PREFEITURA MUNICIPAL
                                                              DE IRATI, 2009).
       Irati é um município que não se utilizou das                   O acesso se dá através de uma escada que
riquezas formadas pela agricultura para desenvolver           acompanha o declive da colina para os pedestres,
sua indústria, e hoje permanece como uma cidade               ou por duas vias secundárias que permitem ao
com uma morfologia singular. O município                      visitante um acesso por trás da colina. Todos os
desenvolve-se em um vale acidentado, cortado na               caminhos estão em estado regular de conservação
direção norte-sul pela linha da Estrada de Ferro São          sendo necessários alguns ajustes, principalmente
Paulo- Rio Grande, esta ativa até hoje, cruzando              ao acesso de pedestres o qual não é sinalizado. Já
largos espaços urbanos tornando-se um elemento                as escadarias não possuem corrimões nem bancos
forte que estruturou a malha urbana do município,             para descansos em meio à subida.
reforçada mais tarde pelas rodovias. Nos bairros                      A colina está equipada com playground,
do município, não existe uma grande infraestrutura            sanitários, uma capela e um mirante com vista para
comercial e de serviços, além dos serviços públicos,          cidade, equipados com bancos defronte à imagem.
como transporte coletivo, pavimentação, passeios,             Infelizmente atualmente o espaço passou por uma
iluminação pública e arborização, e as vias não               reforma, foram retirados do local a lanchonete e os
possuem uma hierarquização adequada.                          estacionamentos.
       O município vem há vários anos procurando                      Observou-se também que a colina possui
desenvolver a atividade turística, com influência             alguns problemas estruturais, que acabam
da colonização polonesa, ucraniana, alemão                    dificultando ou prejudicando sua visitação: a


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falta de sinalização, e o estado de conservação                  Uma paisagem singular no centro da cidade,
de seu acesso são deficientes. Entretanto as             um casarão de arquitetura eclética preservado, com
condições das instalações foram melhoradas               jardins laterais, onde ao seu entorno encontra-se
quando comparada aos dados coletados por                 residências, que na maioria não possuem harmonia
esta pesquisa em abril de 2005; os bancos de             com a edificação em questão. À sua frente, encontra-
madeiras do mirante foram trocados, foi feito um         se o Clube do Comércio - o primeiro da cidade -
novo mirante no local, houve uma reforma no              hoje com uma nova forma. A rua até pouco tempo
interior da capela, foi aparada a vegetação de           era de paralelepípedo e hoje está asfaltada.
entorno e foram feitos novos banheiros.                          A edificação atualmente é denominada
        Devido às condições descritas anteriormente,     de Casa da Cultura, onde se encontra alojada a
a Colina Nossa Senhora das Graças obteve um              Coordenadora de Cultura do município e é um
índice de atratividade IA = 2,00, ficando, portanto      espaço também destinado a exposições e mostras
com Hierarquia II.                                       de artistas regionais. O pequeno museu no interior
        Sendo um dos principais atrativos da             da casa apresenta alguns artefatos da cultura
cidade, é importante ressaltar a importância de          ucraniana predominante na região, além de objetos
benfeitorias nesse atrativo para que ele tenha seu       da família Gomes, e quadros e gravuras de artistas
valor de atratividade aumentado, principalmente          iratienses que relatam a história do município, a
no que diz respeito ao acesso para o atrativo, além      vida e a cultura de Irati em suas épocas. A Casa
da instalação de lanchonete e de monitores que           da Cultura ainda é um centro de ensino de línguas,
informarem ao turista sobre a imagem que lá se           artes, música e atividades culturais promovidas por
encontra.                                                entidades diversas.
        A colina Nossa Senhora das Graças é hoje                 Sua visão destaca na Rua XV de Julho devido
o espaço mais visitado pelos turistas no município       à singularidade da construção com os demais
de Irati, portanto uma paisagem que merece maior         edifícios do entorno. Portanto um marco urbano
atenção dos responsáveis pela gestão no município,       iratiense, que merece destaque devido ao seu uso
pois é a imagem que o turista mais vê e a que o          como centro cultural onde se encontra um pequeno
visitante realmente vai levar com ele do município. A    museu que conta parte da história da família Gomes
constante manutenção e conservação da paisagem           e da cidade de Irati.
da colina da Santa são de suma importância para a                A área possui um grande potencial para uso
qualidade dessa área turística do município.             turístico, não só por sua preservada forma como
                                                         também pela sua função urbana. Esse é um espaço
4.2 Casa da Cultura
                                                         de cultura que se melhor utilizado, proporcionaria
        Localizada na rua XV de Julho no. 329,           ao turista um resgate da história e da identidade
compreende num antigo casarão de madeira que data        de Irati. A visita orientada poderia proporcionar ao
das primeiras décadas do século XX e que mantém          turista, informações significativas sobre a história e
conservados todas as características impostas pela       sobre o desenvolvimento da cidade.
cultura urbana então vigente. Residência da família              O acesso até ao atrativo encontra-se em
Gomes, foi construída em 1919 por Arcélio Batista        bom estado de conservação e bem sinalizado, mas
Teixeira. O imóvel foi cedido à Prefeitura em 1987,      não há transporte regular. Outras dificuldades são
em comodato pela família proprietária e doada ao         a falta de estacionamento próprio, a ausência de
município em 2004. Hoje a antiga residência da           monitores ou guias especializados no local e de
família Gomes é utilizada como centro de cultura,        serviços de alimentação.
onde ocorrem cursos e exposições periódicas de                   Portanto o Índice de Atratividade da Casa da
diversas áreas (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI,           Cultura (IA) é 1,25, ficando dessa forma classificada
2009).                                                   com Hierarquia I. Deve-se salientar que esses valores


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não são fixos, pois podem sofrer alterações, conforme      arquitetura contemporânea, porém com pouca
o atrativo vá recebendo benfeitorias e melhorias para      expressividade. A Rua XV de Novembro, em que
melhor atender ao turista. Nesse caso, a contratação       está localizada, apresenta uma pavimentação em
de monitores que possam oferecer o serviço de              paralelepípedo, característica da cidade, com
orientação a visitantes, melhoria na exposição do          poucas árvores de pequeno porte, com exceção da
acervo existente e melhor utilização dos espaços           Praça Madalena Anciutti. Esta está bem arborizada
do atrativo poderiam melhorar a classificação do           e ainda possui o monumento, a Bíblia, inaugurado
atrativo.                                                  em 18 de fevereiro de 2001, e é considerado um
                                                           monumento ecumênico que visa à integração entre
4.3 Igreja Nossa Senhora da Luz                            todas as crenças cristãs.
                                                                   Essa edificação encontra-se inscrita numa
       Localizada na Rua Cel. Pires nº994, a
                                                           paisagem bem preservada que proporciona uma
Igreja Matriz Nossa Senhora da Luz, segundo
                                                           qualidade paisagística, devido à harmonia do
dados do Inventário Turístico de Irati (2002), teve
                                                           conjunto edificado.
sua construção iniciada em 1931. Portanto essa
                                                                   Ao contrário da Igreja Nossa Senhora da
edificação religiosa foi a primeira do município, que
                                                           Luz, a paisagem da Igreja São Miguel possui
possui como padroeira Nossa Senhora da Luz.
                                                           atratividade turística, isto porque seu entorno
       No seu entorno, encontra-se residências
                                                           agrega maior valor ao atrativo, onde o conjunto
com jardins frontais, o antigo edifício da Faculdade       paisagístico do atrativo em questão encontra-se
e a Praça Etelvina Gomes, que apresenta sinais             em harmonia, qualificando a paisagem dessa
de descaso e abandono. A rua em frente à igreja            área urbana para o uso turístico.
apresenta pavimentação em calçamento articulado                    Esse atrativo da cidade de Irati obteve
em paralelepípedo, valorizando assim o estilo antigo       como avaliação 1,5 pontos. Isto devido ao fato de
da localidade.                                             que o atrativo encontra-se em local privilegiado
       A arborização é caracterizada por árvores de        do ponto de vista de seu entorno e apresenta
grande porte, localizadas principalmente na praça          também elementos intrínsecos componentes que
em frente à igreja. A Praça Etelvina Gomes faz parte       chamam a atenção para seu interior, ficando com
da paisagem do conjunto desse atrativo, passou             Hierarquia I.
recentemente por reforma o que melhorou muito
o entorno do atrativo, principalmente no que diz           4.5 Igreja Imaculado Coração de Maria
respeito à iluminação.                                            Em 24 de junho de 1950, foi inaugurada
       A Igreja Matriz Nossa Senhora da Luz,               a primeira Igreja Ucraniana no município. Com o
apresenta um Índice de Atratividade (IA) = 1,05,           crescimento da cidade de Irati, novas famílias dos
ficando assim com Hierarquia I. Essa situação é            municípios vizinhos vieram morar nessa cidade e,
devido a falta de recursos para a visitação de turistas.   com elas muitas famílias ucranianas. Assim a igreja
4.4 Igreja São Miguel                                      ficou pequena, sendo necessário ampliar o espaço
                                                           em virtude do aumento de seus fiéis. Foi adquirido
       Localizada na Praça Madalena Anciutti,              então, o terreno na Rua Barão do Rio Branco nº156
anteriormente construída em madeira e hoje em              e, em 1970, construída uma igreja maior, hoje a
alvenaria, a igreja encontra-se em um dos pontos           sede de todas as igrejas ucranianas do município
mais altos da cidade podendo ser vista de vários           (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009).
locais. Na sua frente encontra-se uma praça e aos                 A Igreja tem capacidade para atender
fundos o Cemitério Municipal. Ao lado, o Colégio           a 400 pessoas sendo que, as celebrações são
Nossa Senhora das Graças, um edifício antigo que           feitas em ucraniano, com exceção da missa dos
em seu entorno encontram-se construções em sua             Sábados celebrada em português, pois muitos dos
maioria comerciais com um e dois pavimentos de             descendentes não entendem a língua de origem.

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Essa edificação religiosa chama atenção por      denominado como Parque Aquático e de Exposição
sua forma e construção que apresenta algumas             Santa Terezinha (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI,
particularidades como: uma coroa prateada na             2009).
parte superior e gravuras na fachada do prédio em                Antes da revitalização da área, o terreno em
formato cúbico.                                          que hoje se encontra o parque era uma área sem
        A igreja está localizada em uma área             atratividade, um grande banhado que desqualificava
residencial, com casas que em sua maioria possuem        o bairro e sua área de entorno. Hoje o que vemos é
jardins frontais, em uma rua pavimentada com             uma área urbana qualificada da cidade, um espaço
paralelepípedo e arborização quase que inexistente.      verde propício para realização de atividades de
        A Igreja Imaculado Coração de Maria              lazer e de eventos.
tem destaque como um atrativo, devido à sua                      O parque é caracterizado em seus 79000
singularidade. A forma da edificação é um tanto          m² por ser uma área extensa composta por lago
diferente das demais e esse marco urbano destaca-        e um grande gramado. Possui playground, pontes,
se na paisagem por sua arquitetura singular, que         churrasqueiras, uma mini estrada de ferro de 870
aguça no turista uma curiosidade quanto à imagem         metros. Sua estação e uma réplica de Maria Fumaça
que transmite e quanto ao rito religioso da Igreja       que faz passeios em torno do parque, postos
Católica Ortodoxa. Essa imagem transmite os              médico e odontológico, canchas cobertas, pista de
símbolos da cultura ucraniana ao turista e está          cooper/ciclismo, estrutura para prática de exercícios
fortemente atrelada às características socioculturais    físicos e o Pavilhão de Exposições João Wasilewski
de uma grande parte da população de Irati, ou seja,      (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009).
os descendentes dos imigrantes ucranianos.                       No seu entorno, encontram-se edifícios
        Devido à sua singularidade de construção         comerciais e habitações de um ou dois andares,
e seu rito, a igreja Ucraniana como é conhecida,         com jardins frontais, com estilo arquitetônico
obteve IA = 1,8 pontos, pois é reconhecida como um       contemporâneo, mas de pouca expressividade.
atrativo de destaque devido às suas peculiaridades.      A topografia do local é de solo plano, com ruas
Ainda são necessárias algumas melhorias para             de mão dupla com estacionamento nos dois lados
que ela tenha plenas condições de atender aos            da via, com árvores médias e pavimentação de
turistas como guias, placa indicando os horários         paralelepípedo.
de visitação, estacionamento, etc. Desse modo, o                 O parque aquático é um espaço interessante,
atrativo atingiu Hierarquia II.                          pois apresenta algumas características singulares como
                                                         seu portal de entrada. Esse marco do parque encontra-
Parque Aquático
                                                         se em um acesso secundário, e não na principal rua
       Localizado no Bairro Rio Bonito, na Rua           de acesso ao logradouro. Nessa entrada encontra-se
Adão Panka s/n, este logradouro tem uma grande           um estacionamento pouco utilizado, já que o acesso
importância enquanto paisagem turística e para o         principal ao atrativo se dá pelo outro lado, onde existe
lazer da comunidade de Irati, isto devido ao seu uso     uma grande área sem edificações ou ajardinamento,
atual e a seu histórico, um espaço que deixou de         que a população usa como estacionamento. Outro
ser um ambiente degradante da área urbana para           detalhe que o Parque apresenta é uma gruta com
se transformar em uma área de lazer e visitação da       algumas imagens, como a de Santa Terezinha em
cidade de Irati.                                         homenagem ao nome do parque.
       Essa área pertencia a Olaria Santa Therezinha             O Parque Aquático e de Exposições de Irati
até o ano de 1987, quando foi adquirida pelo             é um espaço de uso público, onde a população
poder municipal entre maio e junho do mesmo ano,         iratiense e os municípios vizinhos utilizam para o
sendo então transformado em parque pela Lei no.          lazer nos finais de semana. O local ainda é muito
834, de 12 de dezembro de 1988, passando a ser           utilizado para realização de eventos tendo como as


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principais festas do município, a Festa do Pêssego e                e de hierarquização, representados pelas hierarquias
a Festa do Kiwi.                                                    I e II, que correspondem a atrativos complementares
       Os problemas estruturais para visitação                      com potencialidades de atração local e regional
que foram identificados podem ser classificados                     ou de fluxos de turistas nacionais que se dirigem a
da seguinte forma; primeiramente há deficiência                     região por outro atrativo de maior potencialidade.
de sinalização para orientar os visitantes, outro                            Portanto hoje a realidade do turismo na cidade
empecilho é o mal estado de conservação dos                         de Irati consiste em atender, se bem trabalhado, aos
sanitários e lixeiras existentes, mas o principal                   turistas que visitam a região por outras motivações,
problema encontrado é a falta de segurança o que                    ou que trafegam pela BR-277, buscando inicialmente
resulta em uma má utilização do espaço.                             um desenvolvimento como centro de excursão, onde
       Essas      deficiências    produzem      uma                 estes fluxos de turistas provavelmente se concentre
desqualificação na paisagem do parque, uma vez                      nos seguintes atrativos: Colina Nossa Senhora das
que esse espaço possui atratividade de abrangência                  Graças, Parque Aquático e Igreja Imaculado Coração
regional e que é, portanto, significativo logradouro                de Maria. Proporcionando a esses turistas opções
da cidade, uma área verde que destoa na paisagem                    para permanecerem algumas horas no município.
urbana de Irati, um espaço de intenso uso pela                               É importante destacar que os valores obtidos
comunidade local principalmente durante os finais                   nesta avaliação não são definitivos, podendo ser
de semana de verão. Essa área poderia ser mais                      alterado ao longo do tempo por intervenções
bem aproveitada, uma paisagem que hoje, devido                      planejadas para melhorar os índices de atratividade
a problemas já citados anteriormente, encontra-se                   dos atrativos avaliados, podendo assim aumentar
degradada, mas que com um bom plano de uso,                         seu potencial. Outra constatação a ser feita é o fato
essa imagem poderia ser revertida.                                  de que se há interesse de Irati desenvolver a prática
       Devido ao exposto anteriormente, o Parque                    do turismo em sua cidade, deve se valer de uma
Aquático de Irati recebeu IA = 1,8 pontos. Mesmo                    organização regional, buscando em conjunto com os
sendo um dos atrativos mais visitados do município,                 municípios vizinhos atrativos que aumentarem o fluxo
seu mau uso e estado de conservação prejudicam a                    turístico regional, para que assim possa favorecer
sua avaliação. Mesmo assim sua Hierarquia atinge                    de uma demanda que conheça os atrativos que se
o valor II.                                                         encontram em seu centro urbano.
       Dessa forma, pode-se ver que os atrativos da
cidade de Irati precisam de algumas melhorias, para                 5 conclusão
que possa aumentar sua pontuação na avaliação e
em sua hierarquização. O quadro a seguir mostra                            O artigo ora apresentado teve como objetivo
os atrativos da cidade de Irati e suas respectivas                  hierarquizar os atrativos da área urbana da
pontuações.                                                         cidade de Irati/PR, mostrando sua potencialidade
                                                                    para o uso do turismo. Para tal, foram analisados
Quadro 6 - Relação dos atrativos avaliados em                       05 (cinco) atrativos, conforme apresentado na
Irati/PR                                                            metodologia.
               Atrativo            Nota Avaliação Hierarquização           A Matriz de Avaliação e Hierarquização
     Colina Nossa Senhora da Luz         2,0             II
            Parque Aquático              1,8             II         de Atrativos utilizada neste estudo foi a da SETU
 Igreja Imaculado Coração de Maria       1,8             II         – Secretaria de Estado do Turismo (2005) que se
           Igreja São Miguel             1,5              I
            Casa da Cultura             1,25              I         baseia em variáveis estritamente intrínsecas do
     Igreja Nossa Senhora da Luz        1,05              I         atrativo. De acordo com os dados apresentadas,
Fonte: FERNANDES, 2009.
                                                                    é possível verificar que os atrativos possuem
       Conforme pode ser observado pelo quadro                      potencial turístico, mas necessitam de melhor
anterior os atrativos que se encontram na área                      estruturação. Para tal, é imprescindível que haja
urbana de Irati possuem baixo índice de atratividade                comprometimento e interesse do poder público

                                                                   83
e maior participação da iniciativa privada. Com          explorarem a temática e desenvolverem diferentes
atrativos bem estruturados, a cidade poderá atrair       pesquisas relacionadas ao planejamento turístico
uma demanda mais significativa, gerando maior            no município. Estudos que valorizem elementos
renda, postos de trabalho e desenvolvimento a            como visitação, número de visitantes e como essa
região.                                                  visitação ocorre, assim como se este atrativo faz
        Fica claro com a pesquisa que a capacidade       parte de um roteiro turístico ou não seriam de igual
de atração de fluxo de turistas dos atrativos            importância para a atividade. São elementos que
estudados na cidade de Irati possui sua influencia       devem ser sim, observados e levados em conta no
em abrangência local e regional, podendo ser             planejamento turístico, uma vez que o atrativo é
utilizado como um atrativo complementar em               um dos componentes de um roteiro. As pesquisas
roteiros nacionais se estes interessarem aos turistas    turísticas são ferramentas para o conhecimento
que passam pela BR – 277 ou visitam outros               da realidade e auxiliam na tomada das decisões.
atrativos na região.                                     Elas dão suporte a um planejamento adequado
        Este trabalho não teve o intuito de cessar       às destinações turísticas. Planejamento necessário
o assunto e sim fomentar outros autores a                para o desenvolvimento ordenado da atividade.

Referências
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                                                        84
Gestão da Responsabilidade Social e o Perfil dos
      Gestores: análise das organizações de Blumenau - SC
 Social Responsibility Management and the Managers Profile: an analysis of Blumenau-SC organizations


Marialva Tomio Dreher1
Danielle Regina Ullrich2

Resumo

Os processos de Responsabilidade Social (RS) preconizam ações para a sustentabilidade das organizações,
porém fundamentadas em estratégias que privilegiam a ética e as demandas socioambientais, que permeiam o
processo produtivo e os relacionamentos entre os stakeholders. Pela complexidade desta temática, os gestores
que conduzem a RS necessitam de capacitação e de poder de decisão contribuam com a efetivação das
suas propostas. Assim, o objetivo deste artigo foi analisar o perfil dos gestores de RS das organizações de
Blumenau (SC). Para tanto, utilizou-se o método da pesquisa qualitativa amparada pela técnica da metodologia
exploratória, envolvendo uma população de dezesseis gestores de RS, que atuam em organizações de vários
portes em diferentes setores da economia. Os resultados evidenciam que os atuais gestores são maioria mulheres
com formação acadêmica na área humana, mas não específica em RS; não conduzem setor exclusivo de RS.
Somente duas organizações têm certificações na área, demonstrando que, embora haja intenção, este processo
é embrionário. Diante disso, como na maioria das organizações a RS ainda não é formalmente instituída, sejam
pelas estratégias ou pelos instrumentos como as certificações, a legitimidade das ações de seus gestores fica
comprometida pela falta de poder de decisão.
Palavras-chave: Responsabilidade Social; Gestão Organizacional; Perfil Dos Gestores.


Abstract

The processes of Social Responsibility (RS) emphasize actions for the organization sustainability, however based
on strategies that grant privilege to ethics and social-environmental demands that permeate the productive
process and the relationships among the stakeholders. For the complexity of this theme, the managers that lead
the RS process need training and decision-making that can contribute to their proposals effect. The objective
of this article was to analyze the RS managers profile in Blumenau (Brazil) organizations. Thus, the qualitative
research method supported by the technique of exploratory methodology, involving a population of sixteen RS
managers that act in organizations of several loads in different economy sections. The results evidence that the
current managers are majority women with academic formation in the human area, but no specific in RS; they
don’t drive exclusive section of RS. Only two organizations have certifications in this area demonstrating that,

1	     Professora titular da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil, do Programa de Pós-Graudação em Ciências Contábeis e
Administração da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil, nível doutorado. Professora dos Programas de Pós-Graduação Em Ciências
Contábeis e Pós-Graduação em Administração da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil.Possui Doutorado em Engenharia de
Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil, e mestrado em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí
- UNIVALI, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGA/UFRGS,
Brasil, nível pós-doutorado. Contato: marialva@furb.br
2	     Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGA/UFRGS, Brasil, nível doutorado.
Possui o mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil. Contato: danielle@ullrich.yahoo.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 08/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
although there is intention, this process is embryonic. Before that, as in most of the organizations RS still isn’t
instituted formally, be for the strategies or for the instruments as the certifications, the legitimacy of their managers’
actions is committed for the lack of power of decision.
Key words: Social Responsibility; Management; Profile Managers.


Introdução                                                    provavelmente o processo não se consolidará
                                                              prejudicando sua legitimidade. Para compreender
        A temática da Responsabilidade Social (RS)            melhor essa problemática, este estudo pretende
ganhou destaque principalmente no final do século             atender ao objetivo de analisar o perfil dos
XX, cenário no qual as organizações passaram a                gestores de RS de dezesseis organizações de
enfatizar com muito mais afinco as preocupações               Blumenau (SC).
sócio-ambientais. Começaram promover gestão                          A relevância deste estudo se dá no momento
mais transparente e responsável, numa tentativa de            em que apresenta uma reflexão que elucida a
minimizar os impactos da atividade produtiva sobre            preocupação em se pensar com muito cuidado na
o ambiente e a sociedade. Todavia, a incorporação             preparação das pessoas que atuam na RS. Esse
da RS, quando adotada estrategicamente                        fato poderá contribuir com o sucesso da RS nas
pelas organizações, exige mudança da cultura                  organizações e ainda minimizar problemas que
organizacional, reestruturação da estrutura e gestores        possam complicarem ainda mais o bem estar das
capacitados. Essas exigências devem-se ao fato de             pessoas que são assistidas pelos projetos de RS.
que a RS, por ser complexa, abrange um processo               Teoricamente, essa reflexão poderá servir como
que precisa envolver várias atitudes, pessoas e outros        um exemplo do atual cenário da gestão da RS nas
recursos da organização. Essa transformação requer            organizações, uma vez que tradicionalmente a visão
um perfil de gestor que consiga conciliar a função            dos gestores é focada somente na sua função. Capra
de produção com questões sociais e ambientais                 (2002, p. 123) afirma que “A correspondente mudança
implícitas nos processos organizacionais.                     do estilo de administração exige uma mudança de
        Esse período de adaptação compreende,                 percepção que é tudo, menos fácil. Porém, quando
ao mesmo tempo, reorganização da estrutura                    acontece traz consigo grandes recompensas.”
de cargos e funções legitimarem a RS como
estratégia e ainda dão conta desse novo desafio,
                                                              Responsabilidade social
especialmente com a criação de espaços abertos
a participação e envolvimento dos stakeholders. A                     No século XX, as organizações enfrentaram
RS movimenta adaptações no modo de administrar                desafios, ligados a alguns fatores como existência
os relacionamentos interpessoais, uma vez que,                de uma demanda crescente, num mercado menos
é fundamentada em decisões éticas. No entanto,                competitivo; necessidade de melhorias e ajustes
em muitas organizações, essa movimentação                     nos processos produtivos; maior orientação para
limita-se, especialmente, no seu estágio de                   o mercado, entre outros. Esses desafios tornam-
concepção e consolidação, na aceitação e na                   se uma motivação na busca pela sobrevivência da
adesão das pessoas que atuam na organização.                  organização, entretanto, em muitos casos, ainda se
Isto no seu estágio embrionário, por exemplo,                 apresentam desarticulados de considerações sobre
torna-se um processo lento e com resultados nem               outros agentes e recursos que devem continuar
sempre mensuráveis. Por isso, em alguns casos,                existindo para que essa sobrevivência seja possível.
essa falta de visualização de resultados dificulta            Competentes em responder às ameaças intrínsecas
o desenvolvimento desse processo. Desse modo,                 ao seu ambiente operacional, no que diz respeito à
se o gestor de RS e sua equipe, não estiverem                 produção e à comercialização de bens e serviços,
capacitados para lidar com esse contexto,                     as empresas têm-se mostrado negligentes quanto

                                                           86
aos fatores que dão sustentação a esse mesmo                         Analisando as correntes de discussão teórica
ambiente. Historicamente, isto é percebido pelas             sobre o termo, percebe-se a sua abrangência, e
inexpressivas conquistas em termos de qualidade              por isso, esse pode ter diversas interpretações. Para
de vida da maioria dos trabalhadores, pela                   alguns, remete a idéia de responsabilidade legal ou
exploração irresponsável dos recursos naturais, pelo         responsabilidade civil, enquanto que, para outros,
descompromisso com qualquer grupo de interesse               significa o comportamento socialmente responsável,
que não seja o dos acionistas (VERGARA; BRANCO,              num sentido ético. E ainda, pode remeter a idéia de
2001).                                                       que é a “responsabilidade para”, em seu modo causal.
        É então, que a RS passa a ser destaque nas           Pode-se equiparar a esse conceito com contribuições
discussões empresariais. Já na década de 50, Bowen           filantrópicas; comparar com algum significado de
(1957) relacionava as ações de responsabilidade              consciência social. Para muitas pessoas, que adotam
social, com imposições da Igreja Protestante, segundo        esse conceito, este é sinônimo de legitimidade, no
a qual, a igreja e os cristãos, individualmente, têm         contexto de “pertencentes”; poucos veem como
o dever de trabalhar por uma ordem social melhor.            uma espécie de dever fiduciário, que impõe padrões
Isso abrange a obrigação de manter-se a par                  mais elevados de comportamento ao empresário,
dos assuntos sociais, e de participar e trabalhar,           do que sobre os cidadãos em geral. Inclusive os
ativamente, em organizações, partidos e movimentos           antônimos, irresponsável ou não-responsável, são
que estejam tentando aperfeiçoar as instituições             sujeitos de múltiplas interpretações (VOTAW, 1973
sociais. Os pensadores protestantes afirmavam que,           apud PRESTON, 1975).
a propriedade não é um direito absoluto ou inerente                  Pode-se considerar que a responsabilidade
e, só pode ser justificada, enquanto o bem-estar da          social, em seu amplo sentido, abrange os atos dos
comunidade estiver sendo atendido pela posse e               indivíduos e suas formas de organização, porque
administração dos bens materiais, por particulares.          tem em sua concepção intrínseca, um dever ético
Os que possuíam propriedade deveriam usá-las e               dos sujeitos. Porém, quando essa concepção de
administrá-las, visando às necessidades de toda a            responsabilidade social passa a ser incorporada
sociedade. Sob o ponto de vista moral, o dono de             pelas organizações privadas ou empresas, surge a
determinada propriedade é responsável perante                responsabilidade social empresarial (RSE) ou, também
Deus e a sociedade.                                          denominada, responsabilidade social corporativa
        A partir desses postulados, determinados             (RSC). Conforme Kraemer (2005), a concepção
pela Igreja Protestante, nos Estados Unidos, novos           de responsabilidade social pelas empresas vem
questionamentos e inquietações surgiram. Ressalta-           sendo bastante difundida, principalmente, porque
se, segundo Preston (1975), que a partir dos trabalhos       as empresas passam a enfrentar desafios impostos
desenvolvidos por Bowen, surgiram três correntes             pelas exigências dos consumidores, pela pressão de
que fundamentaram o papel das organizações de                grupos da sociedade organizada e por legislações
interesse privado, na sociedade: a institucionalista, a      e regras comerciais, que demandam proteção
organizacional e a filosófica. Para os institucionalistas,   ambiental, produtos mais seguros e menos nocivos
as organizações privadas se relacionavam com                 à natureza, e o cumprimento de normas éticas e
o universo social mais amplo. Para os teóricos               trabalhistas em todos os locais de produção e em
organizacionais, as estratégias organizacionais              toda a cadeia produtiva.
são como ferramentas que permitem a adaptação                        Félix (2003) afirma que, a mudança de
da organização às mudanças ambientais. E os                  comportamento, por parte das organizações de
filosóficos, baseiam-se em concepções teóricas da            interesse privado, se deu por um conjunto de
responsabilidade social, que defendem posições               fatores históricos, que correlacionados e paralelos,
de cunho neoliberal, filantrópicas, e de maior               contribuíram para atitudes de responsabilidade
comprometimento com as questões sociais.                     social dessas organizações. Em primeiro lugar, a


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globalização, caracterizada por um processo de           prudência gerencial). O princípio da legitimidade
encurtamento das distâncias, imprimiu um aumento         refere-se ao poder e legitimidade que a sociedade
do fluxo do comércio internacional e das atividades      confere à organização e seus negócios; o princípio da
financeiras, o que fortaleceu as organizações não-       responsabilidade pública expõe que as organizações
estatais. Essa mudança fez com que o Estado perdesse     são responsáveis pelos resultados gerados na sua
o controle dos processos e, passasse a se concentrar     relação com a sociedade; o princípio da prudência
na garantia da estabilidade econômica interna, em        gerencial expõe que os gestores são agentes morais,
detrimento das políticas públicas de caráter social.     obrigados a serem prudentes nos negócios, a fim
Se por um lado, o Estado deixa sua posição de            de obter resultados responsáveis. Baseado nesses
propiciador do bem-estar e realizador de políticas       princípios, é possível avaliar a RS nos processos
de cunho social, por outro lado, as organizações         organizacionais como: diagnóstico ambiental, a
de interesse privado percebem que são, em parte,         gestão da relação com os stakeholders e a gestão
responsáveis pela situação de exclusão e injustiça       de questões sociais (WOOD, 1991).
social. A globalização, portanto, na medida em                   Sethi (1975), já tinha observado, ná
que influencia na evolução das tecnologias de            década de 70, que as ações empresariais podem
informação, influi na conduta dessas organizações,       ser consideradas socialmente responsáveis, sob
já que seus atos passam a ser cada vez mais públicos,    um conjunto de circunstâncias em uma cultura, e
o que demanda um cuidado maior com a imagem              socialmente irresponsável, em outro tempo, sob
transmitida para a sociedade.                            diferentes circunstâncias. Por isso, a legitimidade é
        Nesse sentido, o Instituto Ethos (2008) em       o melhor indicador de avaliação de desempenho
uma conceituação contemporânea, afirma que, a            social das organizações. Assim, o comportamento
RSE está relacionada com a ética e a transparência       de qualquer organização pode ser classificado como
na gestão dos negócios, e deve refletir-se nas           imbuído de obrigação social, responsabilidade social
decisões cotidianas, que podem causar impactos           ou responsividade social. A obrigação social refere-
na sociedade, no meio ambiente, e no futuro dos          se ao comportamento organizacional, em resposta
próprios negócios. Dizem respeito à maneira como         à pressão do mercado ou às restrições legais; a
as empresas realizam seus negócios, os critérios que     responsabilidade social é definida como a atitude da
utilizam na tomada de decisões, e suas prioridades       organização, não vinculada às obrigações legais,
e relacionamento com os públicos que interagem.          que a obriga a ser flexível nas atuações sociais; e
        A idéia básica da RSE é que a empresa            por último, a responsividade social é o papel que a
e a sociedade estão entrelaçadas, ao invés de            organização deve desempenhar, no longo prazo, num
estarem separadas, portanto, a sociedade possui          contexto social dinâmico. Ou seja, as organizações
expectativas sobre o comportamento empresarial           devem iniciar políticas e programas que minimizem
e seus resultados. Entretanto, existem alguns            os efeitos adversos de suas atividades presentes
princípios específicos nessa relação gerados em          e futuras. Destarte, Wood (1991) afirma que, a
relação às expectativas: a expectativa depositada        responsividade, num posicionamento proativo,
em todas as organizações, devido ao seu papel            está no fato de ouvir e integrar os stakeholders no
enquanto instituições econômicas; a expectativa          processo de tomada de decisão das organizações.
depositada nas organizações sobre o que elas são                 Assim, as organizações são também desafiadas
e o que elas fazem; e as expectativas depositadas        a se engajarem em uma ampla interação e diálogo
nos gestores como atores morais das empresas.            com os stakeholders externos, atentando para as
Essas expectativas geram três níveis de análises         ofertas atuais (responsabilidade por produto), bem
distintas em relação a RSE: institucional (princípio     como para o modo como poderiam desenvolver
da legitimidade), organizacional (princípio da           soluções economicamente interessantes para os
responsabilidade pública) e individual (princípio da     problemas sociais e ambientais do futuro (visão de


                                                        88
sustentabilidade). A maioria foca seu tempo e sua         constante com os outros, a fim de construir um
atenção apenas nas soluções presas aos produtos           espaço que lhes permita afirmar seus projetos.
existentes e em grupos de stakeholders. As empresas       Eis a dificuldade para a organização: manter seu
européias, por exemplo, vêm sendo particularmente         próprio projeto (ou pelo menos o essencial deste)
proativas a esse respeito, buscando ativamente            e ser capaz, ao mesmo tempo, de estabelecer
estratégias que permitam o diálogo com os                 laços de cumplicidade e de conivência com
stakeholders. Uma inclusão criativa desses interesses     organizações com as quais não está forçosamente
pode estimular uma posição diferenciada para a            de acordo, ou ainda relações de competitividade
organização, levando a um aumento de reputação            e concorrência com outras, sem com isso angariar
e a uma legitimidade cruciais para a preservação          inimigos empenhados em destruí-la. Em todo
e o crescimento do valor ao acionista e relação           caso, é necessário que o projeto específico que
com a sociedade. Ao engajar construtivamente              a organização defende possa se inserir (ou pelo
os stakeholders, as empresas elevam a confiança           menos participar) num projeto coletivo que tenha
externa em suas intenções e atividades, ajudando          os mesmos objetivos gerais e o ultrapasse, sem,
a otimizar a reputação corporativa e a catalisar a        contudo, desnaturá-lo (ENRIQUEZ, 1996).
disseminação de novas outras práticas dentro do                   Desse modo, Carroll (1991) ressalta
sistema de negócios como um todo (HART; MILSTEIN,         que, as responsabilidades éticas abrangem os
2004).                                                    padrões, as normas, as expectativas ou, refletem
        Para alguns gestores, a responsabilidade social   uma preocupação daquilo que os consumidores,
é uma missão moral; para outros, uma exigência            empregados, acionistas e a comunidade consideram
legal. Ainda para alguns outros, é entendida como         justo, de acordo com o respeito e defesa dos
um custo inerente ao fato de se fazer negócios – um       direitos morais. Elas podem ser vistas como os
mal necessário para se manter a legitimidade e o          valores e normas que a sociedade espera que as
direito da organização funcionar. Friedman (1988),        empresas reúnam, apesar de, tais valores e normas
crítico da responsabilidade social, argumenta             refletirem um maior nível de desempenho, do que
que os assuntos sociais não competem ao setor             o atualmente exigido por lei. Por isso, muitas vezes,
privado, e esse problema pode ser resolvido com o         as responsabilidades éticas são mal definidas e
funcionamento do sistema de livre comércio. Desse         não se entende sua legitimidade, o que dificulta a
modo, administrar é lucrar tanto quanto possível de       compreensão por parte das empresas. Entretanto,
acordo com as regras básicas da sociedade, em             há outras dimensões que compreendem a RS:
que a lei e o costume ético já estão incorporados.        econômica, jurídica, e filantrópica.
        No entanto, as empresas consideradas éticas               Essas dimensões constituem o cenário
são geralmente aquelas cuja conduta é socialmente         organizacional da RS, assim sendo, o exercício
valorizada e cujas políticas se reconhecem                da gestão requer uma orientação ética e um
sintonizadas com a moral vigente, subordinando            comportamento orientado em valores, por parte
as suas atividades e estratégias a uma reflexão           dos seus gestoresa observância mínima da ética
ética prévia e agindo posteriormente de forma             é indispensável para segurança e integridade dos
socialmente responsável (ALMEIDA, 2007). Uma              indivíduos nos momentos de situações conflitantes.
organização nunca está sozinha num lugar. Ela             Conforme Ramos (1983, p.44), “A ética da
estabelece, necessariamente, relações com outras          responsabilidade é ingrediente de toda ação
organizações e pessoas, quer em redes de aliança,         administrativa. É o seu conteúdo subjetivo por
quer em redes de rejeição. Essas relações são às          excelência, os que adotam em todos os níveis de
vezes extremamente complexas e evoluem com o              autoridade, chefe e subordinados, por definição
tempo. De toda forma, um elemento central estrutura       tácita ou explicitamente, se acham sob o vínculo de
a vida dessas organizações, que é a negociação            um compromisso.”


                                                      89
Gestores da responsabilidade social                        efetivamente constituir, ainda que parcialmente, um
                                                           reflexo da maturidade moral dos seus dirigentes.
        A administração é palavra que se aplica a                 Todavia, o gestor ou dirigente depende da
muitos aspectos, coisas, assuntos tão diversos,            dinamicidade da organização. Enriquez (1996),
tão heterogêneos, que é impossível evitar certa            afirma que as organizações mais dinâmicas são
ambiguidade e imprecisão em seu emprego. É                 aquelas que, como, sabem conciliar eficácia
pertinente, portanto, iniciar a sua elaboração             e prazer, trabalho assíduo e convivência,
e esperar que, não se interrompa o esforço de              racionalidade e imaginário, ética e estética. Uma
compreensão, cujo êxito, obviamente, depende               organização dinâmica é um agente de mudança
da contribuição de muitos (RAMOS, 1983). Neste             da cultura local, um ator que dá como exemplo a
estudo, fez um recorte teórico com alguns autores,         sua própria solidariedade interna, que promove os
mas entende-se que vários outros olhares podem             valores democráticos e que cria em seu seio uma
ser valorizados na definição do termo “administrar”,       cultura viva. E uma cultura só é viva se permite a
inclusive utilizando a expressão “gerenciar” no            seus membros realizar seu potencial (ou pelo menos
mesmo sentido, desconsiderando-se posições                 parte deste), desenvolver seu imaginário motor
hierárquicas, mas sim, centralizando-se na ação da         e sua atividade simbólica, e não ser esmagado
prática de administrar ou gerenciar.                       pelo projeto coletivo, mesmo que sua adesão
        Diante dessa complexidade, entende-                seja profunda. Ramos (1983) salienta que o fato
se que os gestores necessitam de habilidades               administrativo está em permanente atualização,
intelectuais, humanas e técnicas nas suas ações            por força do desempenho consciente e ininterrupto
e decisões que impactam diretamente nos seus               dos agentes que constituem dele elemento capital.
desempenhos e nas suas orientações. Administrar,           Sem a atividade dos agentes, só restam do fato
segundo Drucker (2002, p. 96) “[...] significa a           administrativo elementos materiais e estatutos
substituição da obediência hierárquica pelo senso          mortos.
de responsabilidade, e da autoridade de poder pela                Nesse contexto, a decisão ética de um
autoridade de desempenho.” Independentemente               mesmo indivíduo pode ser diferente, consoante
do nível do cargo, os gestores assumem                     o contexto específico que envolva essa decisão
responsabilidades que estarão sujeitas à cooperação        variando, por exemplo, de acordo com a posição
e à aceitação dos demais envolvidos nas tarefas,           que o indivíduo ocupa na empresa ou com a
decorre disso a necessidade de confiança, que              antecipação subjetiva que ele faça da reação pública
geralmente é materializada pelas decisões éticas           à sua decisão (ALMEIDA, 2007). Corroborando,
(DREHER, 2004).                                            Ramos (1983) afirma que as atividades humanas
        Por isso, a elevação de expectativas em relação    “limitadas e orientadas”, tendo em vista objetivos
ao desempenho social das organizações exige uma            sistematicamente estabelecidos, toca no âmago
nova postura quanto ao modo de gerenciar uma               da natureza do fato administrativo e da ação de
organização. Para Almeida (2007), a visão moral            que resulta. Administração é a “ação social com
do mundo de um dirigente é referencial importante          relação a fins”, com limites e orientação, visto que
para compreender algumas das suas decisões e               seleciona e combina meios para atingir objetivos.
das suas escolhas entre opções alternativas. Dessa         Desse modo, o desempenho administrativo refere-
forma, assumindo a ligação entre valores morais            se a atividades humanas associadas. Naturalmente,
e comportamento, pode estabelecer-se uma                   é preciso advertir que o caráter associado de tais
relação entre o nível de desenvolvimento moral             atividades necessariamente precisa ser explícito.
de um dirigente e a orientação social das práticas         A associação confere a devida importância aos
organizacionais que ele define e influencia. A gestão      elementos estruturais, aos fatores que suscitam a
ética e o desempenho social das organizações pode          formação de grupos informais e de critérios tácitos


                                                          90
ou não estatutários entre os indivíduos que integram       nível de realidade que não pode ser quantificado,
a organização.                                             pois trabalha com um universo de significados,
        Muitas das tarefas do gestor envolvem              motivos, aspirações, valores.
condutas diferenciadas, entre elas a gestão da                     Na parte técnica metodológica, utilizar-se-á:
responsabilidade social (RS), foco deste estudo.           pesquisa exploratória. A pesquisa exploratória
Esse gestor precisa considerar não só a estrutura          permite ao pesquisador aumentar sua experiência
interna da administração, mas também as relações           em torno de determinado problema. O pesquisador,
da organização com as outras esferas da vida               normalmente, parte de uma hipótese e aprofunda
social. Isso porque, segundo Capra (2002), as              seu estudo em uma realidade específica, buscando
organizações são um sistema que interagem com              um maior conhecimento acerca da temática
outros sistemas do ambiente social e seus fenômenos,       (TRIVINÕS, 1987).
como regras de comportamento, valores, intenções,                  A população pesquisada compreende os
objetivos, estratégias, projetos, relações de poder.       atores e organizações que atuam no Núcleo RS/
Por um lado são instituições sociais criadas com           ACIB, sendo que participaram desta pesquisa 16
objetivos específicos, como gerar lucro para os            gestores. Para tanto, utilizou-se como instrumento
acionistas, administrar a distribuição do poder            de coleta de dados o formulário de entrevista semi-
político, transmitir conhecimento ou dissiminar uma        estruturada. Segundo Minayo (1994), a entrevista é
fé religiosa. Ao mesmo tempo, as organizações são          o procedimento mais usual na pesquisa de campo,
comunidades de pessoas que interagem umas com              e não significa uma conversa despretensiosa. É um
as outras para construir relacionamentos, ajudar-se        meio de coleta de dados dos fatos relatados pelos
mutuamente e tornar significativas suas atividades         atores, enquanto sujeitos-objeto da pesquisa que
num plano pessoal. Para conseguir administrar uma          vivenciam a realidade que está sendo analisada.
organização, os gestores precisam saber de modo            Ressalta-se que, através das técnicas ou instrumentos
suficientemente detalhado como a organização               de coletas de dados, seja possível responder aos
funciona, posto que os processos e padrões podem           questionamentos desta pesquisa.
ser muito complexos. Para tanto, os administradores                Após o levantamento dos dados, eles foram
precisam lidar com algumas metáforas: a                    organizados de maneira coerente, de forma que
organização como uma máquina (voltada para                 fosse possível responder o problema de pesquisa.
o controle e para a eficiência), como organismo            Posteriormente foi realizada uma análise qualitativa
(desenvolvimento, adaptação), como cérebro                 em torno deles, indicando os resultados mais
(aprendizagem organizativa), como cultura (valores,        significativos, que foram apresentados aos gestores
crenças) e como sistema de governo (conflitos de           do Núcleo RS/ACIB em uma das reuniões.
interesse, poder).
                                                           Análise dos resultados
Metodologia
                                                                   Os resultados evidenciam os dados das
       Como método de pesquisa, optou-se pelo              entrevistas aplicadas aos atuais gestores de RS de 16
Qualitativo, visto que se refere a aspectos da realidade   organizações, que foram escolhidas intencionalmente
social, num recorte sobre o perfil dos gestores da         pelo fato de desenvolverem algumas ações
responsabilidade social, envolvendo os atores,             reconhecidas como de responsabilidade social
suas motivações e percepções sobre a atuação das           (RS) no município de Blumenau em Santa Catarina
organizações às quais pertencem. Muitas respostas          (SC). Esse reconhecimento deu-se por meio da
foram baseadas no sentimento desses, trazendo              participação no Núcleo de Responsabilidade Social
certa subjetividade aos dados coletados. Segundo           da Associação Comercial e Industrial de Blumenau
Minayo (1994), a pesquisa qualitativa responde a           (Núcleo RS/ACIB) único movimento coletivo que
questões muito particulares, e se preocupa com um          fomenta a RS no município. Com relação ao perfil das

                                                       91
organizações nucleadas, os portes variam de grande       que poucas organizações buscam adequar-se às
(12 organizações), médio porte (1 organização),          normas de RS. Na maioria delas, as ações realizadas
pequeno porte (1 organização) e micro empresa (2         não passam por nenhum tipo de acompanhamento,
organizações). Salienta-se que destas, 1 é pública,      de critérios, ou normas. Implantar uma certificação
10 são privadas e 5 são do terceiro setor. Os setores    exige mudanças que afetam a estrutura
de atuação são diversos entre eles: 05 na área de        organizacional como um todo. A maioria (93,75%)
serviços, 02 na de saúde, 06 na área têxtil, 01 na       dos entrevistados afirmou que a RS não é assumida
alimentícia, 01 metal-mecânica e 01 na área gráfica.     formalmente como um setor sendo distribuída em
       Com relação ao desenvolvimento da RS por          ações em vários departamentos, somente uma
essas organizações, evidenciam-se os projetos de         (6,25%) assumem a RS em sua estrutura, através da
responsabilidade social que contemplam o público         criação de um departamento específico. A justificativa
interno e externo. Dentre os programas sociais e         dos entrevistados, quanto a esse quadro alarmante,
ambientais, encontram-se: iniciativas voltadas para      deve-se ao fato das organizações acreditarem que
prevenção e diagnóstico de doenças; ambulatório          todos os setores precisam envolver-se com a RS.
universitário; atendimento jurídico para a               Esse fato, mesmo sendo relativo à abrangência da
comunidade; festas comemorativas (Natal, Páscoa,         RS, não justifica a falta de compromisso formal com
Junina, etc.); projetos que estimulam o voluntariado     este processo.
nos colaboradores; programas de treinamento e                   Outro fator complicador é o baixo
desenvolvimento para os colaboradores; segurança         envolvimento de colaboradores que atuam na
dos colaboradores; ginástica laboral; festas e bailes    RS, dos entrevistados 43,75% afirmaram que a
beneficentes; sistemas de captação de dejetos;           condução dos projetos de RS envolve de 1 a 5
sistema de separação do lixo; sistema de tratamento      colaboradores. Apenas 18,75% ressaltam que há
da água utilizada no processo industrial; projetos       envolvimento de mais de 10 colaboradores e os
voltados para educação (Aluno Nota 10, Formare,          demais (37,5%) não souberam informar o número
Junior Achievement); projetos voltados aos idosos        específico de colaboradores envolvidos com a RS.
(cuidadores de idosos, cursos, palestras, viagens);      Essa falta de conhecimento comprova novamente
cursos de desenvolvimento profissional para a            a falta de compromisso da organização para com
comunidade; pacto contra a corrupção; pacto em           a RS.
defesa dos direitos humanos; apoio para atletas;                Quanto ao perfil dos gestores entrevistados
campanha contra o câncer de mama; ações                  (Quadro 1), a maioria são mulheres (93,75%)
ambientais em geral (limpeza de rios); dentre            apenas um (6,25%) são homens, a idade é bastante
outros. As áreas de atuação são diversas, referem-       variada numa concentração (81,25%) de 25 a 40
se ao desenvolvimento de projetos e programas de         anos, mas com gestores (18,75%) acima de 40 anos.
responsabilidade social, contemplando aspectos           Com relação ao setor de atuação, observa-se que
econômicos, sociais e ambientais. Todavia, ainda         na organização esses se encontram em proporção
percebe-se um maior direcionamento dos projetos          similar de 25% na área de Recursos Humanos,
e programas para o público interno, característica       Marketing e Administração. Além desses, em menor
de organizações que estão em fase inicial do             número, mas também em proporção similar (6,25%)
processo de RS. Geralmente no início a intenção          atuam na área financeira e de projetos, e 6,25%
é disseminar junto aos colaboradores as propostas        atuam com consultoria prestando serviços externos
dessa estratégia, para, posteriormente, atingir o        de RS. Verifica-se que os gestores estão distribuídos
público externo.                                         em áreas distintas. Apenas um (6,25%) dos
       Destaca-se ainda que dessas organizações          entrevistados afirma atuar na área específica de RS.
apenas duas possuem certificações de RS, seguindo        E ainda um (6,25%) não possuem setor específico de
as normas SA 8000 e NBR 16001. Isso demonstra            atuação na organização. Este resultado demonstra


                                                        92
Quadro 1 - Perfil dos Gestores de RS
                                                       Tempo que atua    Motivação para
  Organizações          Sexo          Formação                                                         Setor             Cargo
                                                           na RS         participar da RS
                                                                             Interesse da
                                                                             organização
         A            Feminino       Serviço Social     De 1 a 7 anos                                    RS          Coordenadora RS
                                                                             implantar e
                                                                           regularizar a RS
                                                                             Interesse da
                                                                             organização
         B            Feminino    Comunicação Social    De 1 a 7 anos                                Marketing          Assessora
                                                                             implantar e
                                                                           regularizar a RS
                                                                          Criação de grupos
         C            Feminino      Administração       Mais de 7 anos                               Marketing        Não informou
                                                                           de ações sociais
                                                                            Preenchendo
         D            Feminino      Administração       De 1 a 7 anos     questionário sobre      Recursos Humanos       Gerente
                                                                                  RS
                                                                             Interesse da
                                                                             organização
         E            Feminino      Administração       De 1 a 7 anos                             Recursos Humanos      Assessora
                                                                             implantar e
                                                                           regularizar a RS
                                                                             Interesse da
                                                                             organização          Não possui setor
         F            Feminino      Ciências Sociais    De 1 a 7 anos                                                 Não informou
                                                                             implantar e            específico
                                                                           regularizar a RS
                                                                          Criação de grupos
         G            Feminino    Comunicação Social    De 1 a 7 anos                                Marketing          Assessora
                                                                           de ações sociais
                                                                             Iniciou numa
         H            Feminino       Serviço Social     De 1 a 7 anos    organização do setor     Recursos Humanos   Assistente Social
                                                                                privado
                                                                         Práticas individuais e
         I            Masculino     Contabilidade       De 1 a 7 anos                              Administração       Proprietário
                                                                                doações
                                                                             Criação de
         J            Feminino       Serviço Social     Mais de 7 anos   projetos sociais nas        Marketing           Gerente
                                                                            organizações
                                                                             Criação de
         K            Feminino       Serviço Social     De 1 a 7 anos    projetos sociais nas        Consultoria        Consultor
                                                                            organizações
                                                                           Por indicação da        Financeira e de
         L            Feminino       Serviço Social     De 1 a 7 anos                                                   Assessora
                                                                             organização               projetos
                                                                             Interesse da
                                                                             organização
         M            Feminino        Pedagogia         Mais de 7 anos                            Recursos Humanos       Gerente
                                                                             implantar e
                                                                           regularizar a RS
                                                                             Criação de
         N            Feminino       Não informou       De 1 a 7 anos    projetos sociais nas       Administração        Gerente
                                                                            organizações
                                                                         Práticas individuais e
         O            Feminino      Ciências Sociais    Mais de 7 anos                             Administração       Proprietário
                                                                                doações
                                                                             Criação de
         P            Feminino       Serviço Social     De 1 a 7 anos    projetos sociais nas      Administração       Proprietário
                                                                            organizações
Fonte: da pesquisa.

que as organizações ainda não incorporaram a                           Já, com referência aos cargos ocupados
RS como uma estratégia organizacional, visto que                pelos entrevistados, os assessores representam
não existem setores específicos de RS e, na maioria             25%; 18,75% são proprietários; 25% são gerentes;
das organizações, os gestores estão alocados em                 em igual quantidade (6,25%) estão os consultores,
setores que acumulam funções de RS a outras                     assistente social e coordenador de RS (único com
funções administrativas da organização, dentre elas             cargo específico de RS) e 12,5% não responderam
Recursos Humanos e Marketing.                                   essa questão. De tal modo, somente uma das


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organizações tem um cargo de RS, a maioria                ao pouco tempo em que desempenham atividades
das organizações ainda não apresenta essa                 ligadas a esse processo. Constata-se que em menor
preocupação evidenciando que os gestores da RS            proporção (25%) os entrevistados atuam há mais de
acumulam funções, não tendo tempo suficiente para         7 anos com RS. Neste caso, os gestores já estão
priorizar as ações e os projetos de RS. Observa-se        mais capacitados para o desenvolvimento da RS
que, não havendo setor e nem gerência específica,         nas organizações em que atuam, bem como estão
a RS fica comprometida pela ausência de comando           familiarizados com o tema da RS e suas propostas.
e, portanto, organização. Encontraram-se apenas                   Diante desse quadro, é fundamental que as
gestores que assumiram a RS como mais uma                 organizações revejam a gestão da RS, iniciando
atividade no seu escopo de atuação. A ação dessas         pela capacitação e treinamento dos seus gestores.
pessoas pode ser um resultado das iniciativas             O maior desafio é que, não há uma cultura nas
pessoais, especialmente devido ao fato de que a           organizações em que a responsabilidade social seja
maioria (68,75%) possui formação na área humana e         prioritária, como dito, está nas mãos dos gestores
social, demonstrando conhecimento e envolvimento          de RS, que muitas vezes estão iniciando sua atuação
com o tema da questão social. Dos entrevistados           nessa área, ao mesmo tempo em que iniciam a
25% não possuem formação específica na área               implantação da RS na organização. Significa que o
social. Um deles (6,25%) não informou. Acredita-          processo de implantação ainda é muito novo, cheio
se que a concentração de formação na área social          de desafios e dúvidas.
pode ser um aspecto que motivou o início do                       Salienta-se que os gestores precisam saber
desenvolvimento da RS nas organizações.                   detalhadamente como uma organização funciona
        O início da atuação dos gestores entrevistados    para conseguir geri-la (CAPRA, 2002). Da mesma
no processo de RS, em sua maioria (31,25%) está           forma, os gestores precisam compreender os
relacionado com a necessidade da organização em           processos e ações que envolvem a responsabilidade
que trabalham implantar e regularizar o processo          social e sua influência na gestão da organização,
de RS; mais especificamente, 25% iniciaram sua            posto a complexidade de tal processo. A adoção
atuação com a criação de projetos sociais nas             da RS como um processo pelas organizações,
organizações; 12,5% quando começaram a                    implica uma mudança cultural e gerencial.
trabalhar em uma organização do setor privado, que        Destaca-se a importância de todos na organização
desenvolvia a RS; 6,25% quando responderam um             estarem envolvidos com a RS. Por isso, uma
questionário sobre RS e se interessaram pelo tema;        reformulação da estrutura organizacional, através
12,5% através da criação de grupos que atuam em           da criação de setores e de cargos específicos
ações sociais; e, 12,5% com práticas individuais          de RS, pode auxiliar no desenvolvimento desse
e doações, indicando, portanto, que não havia             processo, principalmente em seu estágio inicial.
envolvimento entre estas práticas e sua atuação na        Trata-se de uma questão de “organização”, ou
organização. Percebe-se, portanto, que na maioria         seja, de estruturar e preparar a organização para
dos casos, o início da atuação dos gestores na área       o desenvolvimento e gestão da RS. Entende-
de RS esteve envolvido, de alguma forma, com as           se que a falta de uma estrutura adequada para
atividades da organização em que esses trabalham.         o desenvolvimento da RS dificulta a atuação e
Poucos, entretanto, tiveram motivações pessoais           demonstra a falta de poder dos próprios gestores.
para iniciar o trabalho nessa área.                       Isso porque, a RS ainda não é considerada
        Todavia, o tempo de atuação na área de RS,        questão primordial nas organizações. Privilegia-se
por parte dos gestores, ainda é recente. A maioria dos    ainda o desenvolvimento de estruturas enxutas e
entrevistados (75%) atua com RS de 1 à 7 anos. Desse      que maximizem o lucro organizacional. A criação
modo, compreende-se que a atuação dos gestores            de um departamento de RS, muitas vezes, não é
com RS ainda encontra-se em estágio inicial, devido       interessante, pois não é um departamento que


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irá agregar diretamente no lucro da organização,          Conclusão
visto que não está envolvido com seu objetivo
inicial.                                                         Como em qualquer processo de mudança
        As mudanças só irão ocorrer quando os gestores    organizacional, a RS também necessita de gestores
dessa área tiverem poder suficiente para alterar as       capacitados para tal, uma vez que pela sua
estruturas organizacionais. Entretanto, conforme os       complexidade exige a participação e controle de
dados expostos, a maioria dos gestores entrevistados,     muitas pessoas que se envolvem nesse processo.
não possui poder de decisão, pois não ocupam              A RS promove a participação social numa tentativa
cargos estratégicos nas organizações. Poucos são os       de humanizar a organização, por isso, está
                                                          fundamentada em comportamentos éticos e morais
proprietários e diretores que se envolvem com esse tipo
                                                          que exigem postura da gestão. Um fator de risco é
de questão. Por isso, entende-se que o caminho ainda
                                                          sua legitimidade que decorre de um processo de
é longo, visto que a RS precisa ser compreendida como
                                                          gestão garantam a confiança dos envolvidos.
uma estratégia, articulada e suportada pelas decisões
                                                                 Com relação ao objeto deste estudo,
dos gestores do nível estratégico das organizações.
                                                          pode-se afirmar que o perfil dos entrevistados
Enquanto for tratada a nível tático e operacional, as
                                                          é propício para encarar esse desafio, com
mudanças culturais não ocorrerão, justamente pela
                                                          destaque para a formação na área humana da
falta de poder nas decisões.
                                                          maioria, entretanto, esses mesmos gestores ainda
        Além da reestruturação da organização,
                                                          não são capacitados, especificamente, na área
outro aspecto é a capacitação dos gestores. Por
                                                          de responsabilidade social, isso pode afetar o
ser uma área relativamente nova, no contexto              desempenho da gestão. A RS é um processo de
organizacional,       ainda     faltam    profissionais   gestão que indica investimentos em todas as áreas
capacitados em RS. Especialmente, ainda falta             de uma organização e já existem na sociedade e no
formação nessa área, sendo que muitos cursos              mercado experiências em modelos consolidados
de graduação ainda não preconizam esse tipo               que podem favorecer sua gestão. Adverte-se que
de discussão no currículo. Para tanto, torna-             os modelos, certificações, entre outros servem de
se necessário o desenvolvimento de cursos de              apoio, para evitar riscos, contudo precisam ser
capacitação para gestores, que discutam a temática        adaptados a cada realidade e exigem discussão
da RS e sua aplicação nas organizações. Além da           coletiva para serem ajustados. Outro fator
formação, o tempo de atuação dos gestores na              fundamental na formação e atuação específica
área de RS, ainda é muito recente, denotando falta        deve-se ao fator comprometimento e foco de
de maturidade e conhecimento do processo.                 trabalho, fortalecendo o engajamento da equipe
        Ressalta-se que as organizações possuem limites   e dos assistidos. Esse é um empecilho no atual
em sua atuação na área social, e o principal deles é o    estágio embrionário em que se encontra a RS nas
econômico; nos investimentos, ainda preconizam sua        organizações estudadas. Os gestores, atualmente,
cultura de geração de lucro econômico. No entanto,        não contam com um sistema de gestão, composto
as práticas socialmente responsáveis iniciam com a        por dados do desempenho social da organização,
intenção de contribuir com o bem-estar dos sujeitos,      diminuindo dessa maneira seu poder de decisão.
e isso pode partir de simples atitudes como, por                 Além disso, a maioria dos gestores
exemplo, respeito, oferecer um adequado ambiente          entrevistados não são os proprietários, diretores das
de trabalho, boa relação entre as pessoas, segurança,     organizações, normalmente são colaboradores que
dignidade, aceitação das diferenças, participação,        acumulam a função de gerir a RS e também outras
entre outros. O amadurecimento dessas práticas            funções na organização, como marketing ou recursos
pelas organizações pode gerar uma nova cultura            humanos. Aliado a isso, a maioria são gestoras do
organizacional, em que a RS seja conduzida de forma       sexo feminino, demonstrando que a atuação social
estratégica.                                              continua na visão tradicional em que as mulheres

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eram as responsáveis pelas preocupações relativas        uma visão aliada as responsabilidades social e
ao bem-estar. Este não é um fator negativo, mas          ambiental podem aproximar ao que preconiza
evidencia a falta de envolvimento dos gestores           a gestão social. Isto é um desafio ao gestor da
masculinos que ainda são a maioria nos cargos            RS que necessita conduzir a função social como
estratégicos (presidência e direção) nas organizações    incorporada às práticas sociais. Desse modo, devido
estudadas.                                               à complexidade do tema, são necessárias outras
        Por fim, entende-se que a responsabilidade       leituras que possam complementar esta discussão,
social conduz a discussão na definição de estratégias    por exemplo, novas pesquisas que investiguem
organizacionais. Por isso, a união da gestão adequada    o desempenho da responsabilidade social e sua
(manutenção mercadológica e econômica) com               contribuição nas organizações e na sociedade.


Referências
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Fatores Culturais e Contextuais. RAC. V. 11, n. 3, p. 105-125, Jul./Set. 2007.
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Ernest Johnson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira SA, 1957.
CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002.
CARROLL, A. B. The pyramid of corporate social responsibility: toward the moral management of
organizacional stakeholders. Business Horizons. V. 34, n. 4, p. 39-46, Jul./Aug. 1991.
DREHER, M. T. Empreendedorismo e responsabilidade ambiental: uma abordagem em
empreendimentos turísticos. 2004. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Departamento de
Engenharia de Produção e Sistemas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004.
DRUCKER, P F. O Melhor de Peter Drucker: o homem, a administração e a sociedade. São Paulo:
          .
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Balanço Social: uma análise comparativa entre objetivos
    propostos na literatura e a realidade empírica
    Social Balance: comparative analysis between goals proposed in the literature and empirical reality


Diocesar Costa de Souza1
Marcos Roberto Kuhl2
Vicente Pacheco3

Resumo

O relacionamento das empresas com o meio em que está inserida é cada vez mais discutido, em função
principalmente da livre concorrência, do efeito globalização e do avanço tecnológico. A sociedade tem
exigido cada vez mais informações sobre esse relacionamento, e a Contabilidade pode fornecer informações
relevantes por meio do Balanço Social (BS). Os anos 60 e a Guerra do Vietnã foram marcos para a
história do BS, que no Brasil passou a ser divulgado de forma mais consistente apenas a partir do final dos
anos 90, com incentivo do sociólogo Betinho e, segundo o modelo do IBASE. O objetivo deste estudo é
verificar quais informações relevantes podem ser extraídas do BS, segundo o modelo do IBASE, divulgado
pelas empresas brasileiras e, principalmente, se a partir dessas informações o BS está conseguindo atingir
os principais objetivos propostos na literatura. Os objetivos levantados na literatura, segundo os conceitos
do BS, são demonstrar o resultado da interação da empresa com o meio, refletir o comprometimento
com as necessidades básicas da população e suprir as necessidades de informações de caráter social e
ecológico. Foram pesquisadas 69 empresas que apresentaram o BS, representando 21% das empresas
que divulgam o BS segundo o modelo IBASE, no período selecionado. As informações extraídas dos BS
podem ser consideradas interessantes, mas são pouco relevantes para cumprir os objetivos propostos pela
literatura. Conclui-se que o modelo IBASE de BS necessita evoluir, contemplando mais informações para
que seja possível atingir aos objetivos que a literatura determina para o BS.
Palavras-chave: Balanço Social; Contabilidade Social; Informação Social.


Abstract

The relationship of companies with the environment in which it is inserted is increasingly discussed, primarily on the
basis of free competition, the effect of globalization and the technological advancement. Society has demanded
more and more information about this relationship, and Accounting can provide relevant information through
the Social Balance (BS). The 1960s and the Vietnam War were landmarks in the history of Social Balance, which
in Brazil was reported more consistently only from the middle of 1990, with encouragement from the sociologist
Betinho and following the IBASE (Brazilian Institute of Social and Economic Analyses) model. The objective of this


1	    Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui mestrado em Contabilidade pela Universidade Federal
do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: diocesarsouza@yahoo.com.br
2	    Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui mestrado em Contabilidade pela Universidade Federal
do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: marcosrobertokuhl@yahoo.com.br
3	    Professor da Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil.Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa
Catarina - UFSC, Brasil. Contato: vpacheco@ufpr.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 12/01/2010 - Aprovado em 07/05/2010
study is to ascertain what relevant information can be extracted from the Social Balance, according to the IBASE
model, issued by Brazilian companies, and especially if based on this information the Social Balance is getting
to achieve the key objectives proposed in the literature. The objectives lifted in the literature, according to the
concepts of the Social Balance, are to demonstrate the result of the company interaction with the environment, to
reflect the commitment to the needs of the population and meet the information needs of social and ecological
character. We searched 69 companies that presented the BS, representing 21% of the companies that reporting
the Social Balance modeled IBASE the selected period. The information obtained from the Social Balance can
be considered interesting, but is little relevant to meet the objectives proposed in the literature. It was concluded
that the IBASE model Social Balance needs to evolve, addressing more information so that you can achieve the
goals that the literature determines for the Social Balance.
Key words: Social Balance; Social Accounting; Social Information.


1 introdução                                                      A responsabilidade social da empresa pode
                                                           ser resumida como sendo a responsabilidade que
        O desenvolvimento tecnológico e a abertura         ela tem para com o meio em que está inserida,
do mercado têm contribuído substancialmente                tanto social, como ambiental, ou seja, compreende
para o acirramento da concorrência. Em função              a integração entre a empresa e os elementos
disso a população tem se conscientizado, unido e           importantes para sua subsistência, sociedade
passou a ter influência na condução da política e da       e meio ambiente. Essa responsabilidade advém
economia, não somente do governo, mas também               do fato de que a empresa, enquanto sistema
nas empresas que auferem lucros à custa de prejuízos       aberto e dinâmico interage com o ambiente
sociais e ambientais (RIBEIRO, 2005, p. 2).                sendo influenciado por ele, mas principalmente
        Ultimamente é comum ver e ouvir nos meios de       influenciando esse meio.
comunicação fatos relacionados à responsabilidade                 A influência que a empresa exerce sobre
das empresas com relação ao meio em que estão              o meio pode apresentar caráter benéfico, como
inseridas, principalmente quando relacionados aos          a geração de emprego, renda, entre outros, mas
aspectos sociais e ambientais. Segundo Oliveira            também pode apresentar caráter maléfico, tal como
(2005, p. 3), “Responsabilidade Social ou Sócio -          a poluição, desmatamento, bolsões de pobreza,
Ambiental de Empresas (RSE) é um tema recente,             discriminação de gênero, raça e de idade, salários
mas de crescente interesse na mídia, empresariado,         baixos, dentre outros.
academia, governo, e sociedade civil no Brasil”.                  A grande dificuldade é dimensionar a
        O indivíduo enquanto pessoa jurídica, é que        responsabilidade social das empresas e identificar
realmente pode ser responsabilizado, já que são as         o que elas têm feito para retribuir ao meio pelos
empresas que mais interagem com o meio em que              recursos que esse lhes fornece, ou seja, “[...],
estão inseridas, e também são as que mais podem            necessário se faz demonstrar o que está sendo feito”
fazer frente a essas responsabilidades.                    (RIBEIRO, 2005, p. 3).
        Mesmo que se considere que a                              É na Contabilidade, principalmente a
responsabilidade social das empresas se limita             Contabilidade Social, por meio do demonstrativo
a gerar empregos e a pagar seus empregados,                contábil chamado Balanço Social (BS), que se podem
impostos e remunerar os investidores, conforme             fornecer informações relevantes sobre a forma
destacado por Tinoco (2002, p. 70), quando diz             como as empresas estão retribuindo ao meio. “As
que “Ao nosso juízo, a grande responsabilidade             demonstrações contábeis representam o principal
social das organizações consiste em gerar renda e          canal de comunicação entre a sociedade e a empresa
emprego, [...]”, a idéia da responsabilidade social das    que presta contas à comunidade, sobre sua conduta
empresas vai além dessas meras obrigações formais.         e estado patrimonial” (RIBEIRO, 2005, p. 3).

                                                        100
Não existe um padrão formal de apresentação        segundo trata da revisão da literatura, a terceira trata
das informações do BS, mas existe um modelo                dos aspectos metodológicos, a quarta trata do estudo
amplamente reconhecido no Brasil, o modelo do              exploratório e a quinta traz as considerações finais.
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
(IBASE). Um número considerável de empresas                2 Revisão da literatura
brasileiras divulga seu BS, segundo este modelo, e
muitas outras em outros modelos.
                                                           2.1 Contabilidade Social
        Diante do exposto, a questão que surge é
se as informações do BS, modelo IBASE, atingem                     Segundo a teoria dos sistemas, a empresa
os objetivos propostos na literatura para o BS.            está inserida dentro do contexto social e ambiental
Portanto, o objetivo deste estudo é verificar quais        e interage com esse meio. Neste processo de
informações relevantes podem ser extraídas do              interação (inter-relação), as empresas causam e
BS, segundo o modelo do IBASE, divulgado pelas             recebem impactos do meio (empregados, sociedade,
empresas brasileiras e, principalmente, se a partir        ambiente, etc.). Os impactos da empresa sobre o
dessas informações esse modelo está conseguindo            meio, e vice-versa, podem ser tanto de forma positiva,
atingir os principais objetivos propostos na literatura.   quanto de forma negativa. Mais especificamente,
        O estudo se justifica pela crescente importância   os impactos que a empresa causa sobre o meio,
dada à responsabilidade social corporativa (CSR)           e principalmente os impactos negativos, são muito
pela literatura (McWILLIAMS; SIEGEL; WRIGHT,               questionados nos últimos anos, conforme Marques
2006; DOH; GUAY, 2006; WADDOCK, 2008;                      (2004, p. 308) “Os frequentes problemas sociais e
entre outros) e, principalmente, pela necessidade          ambientais que vêm ocupando a mídia de quase
de evidenciação dessa responsabilidade, como               todos os países acabaram por atrair a atenção
destacado por Stöström e Welford (2009, p. 281             dos pesquisadores de diversas áreas para o novo
– tradução livre): “uma parte crucial da CSR é a           contexto”.
transparência e a responsabilidade na qual implica                 A grande dificuldade é dimensionar a
uma maior ênfase na evidenciação.”                         responsabilidade social das empresas e identificar
        Não se pretende com isso diminuir a                o que elas têm feito para retribuir ao meio pelos
importância do modelo e da iniciativa do IBASE, mas        recursos que ele lhes fornece, ou seja, “[...],
contribuir para o debate com vistas ao aprimoramento       necessário se faz demonstrar o que está sendo feito”
da Ciência Contábil, ao aperfeiçoamento dos meios          (RIBEIRO, 2005, p. 3).
de evidenciação da contrapartida empresarial                       A Contabilidade Social surge como um
para a sociedade e ao incentivo às empresas para           instrumento capaz de medir esses impactos,
divulgarem o BS. Entende-se que a divulgação,              gerando, demonstrando e analisando o perfil da
segundo um modelo, pode prejudicar a evidenciação          responsabilidade social e ecológica das entidades.
de informações ímpares, mas sem um modelo cada             Para Lisboa Neto (2003, p. 46), “A contabilidade
empresa fará de uma forma diferente, conforme              social é um produto da conscientização, por parte das
apontado por Pinto e Ribeiro (2004, p. 32 – nosso          empresas, de sua responsabilidade social”, e para
grifo)em seu estudo: As entidades adotam modelos           Marques (2004, p. 308) “a Contabilidade absorveu
diferentes e publicam os dados das mais variadas           também essas preocupações e vem desenvolvendo
formas. Um mesmo indicador é expresso em valores           instrumentos para medir os níveis de envolvimento
por algumas organizações, em quantidades físicas           e contribuição das organizações à comunidade”.
ou percentuais por outras. Isso impossibilita ao           Os principais instrumentos que a Contabilidade
usuário fazer comparações entre empresas”.                 vem desenvolvendo atualmente são: Balanço Social
        Este estudo está dividido, além desta              (BS) e Demonstração do Valor Adicionado (DVA),
introdução, em mais quatro partes, sendo que a             sendo está última já objeto de regulamentação dos


                                                      101
critérios de elaboração por meio de Pronunciamento               Kroetz (2000, p. 55) afirma que ao final da
Contábil emitido pelo Comitê de Pronunciamentos           década de 70 foram desenvolvidos modelos de BS
Contábeis (CPC) em outubro de 2008.                       por americanos, europeus e latino-americanos,
        Na sequência será dada ênfase apenas ao           “seguindo os interesses, particularidades e culturas
BS que é o foco principal deste estudo.                   próprias”.
                                                                 Conceitualmente o “Balanço Social é um
2.2 Balanço Social (BS)                                   instrumento de gestão e de informação que visa
        Em Contabilidade, a denominação Balanço           evidenciar, da forma mais transparente possível,
dá a noção de equilíbrio, como acontece no Balanço        informações econômicas e sociais, do desempenho
Patrimonial, mas que não ocorre no BS. Sendo              das entidades, aos mais diferenciados usuários, entre
assim, a denominação BS não é a mais precisa para         esses os funcionários” (TINOCO, 2001, p. 14).
representar o demonstrativo que fornece informações              Segundo Lisboa Neto (2003, p. 53):
de caráter social, entretanto, a ela já foi incorporada
em nível mundial e, portanto, é adotada também                O balanço social é um instrumento de demonstração
                                                              das atividades das empresas, com ênfase no social,
neste estudo. Segundo Kroetz (2000, p. 78), alguns
                                                              que tem por finalidade transmitir maior transparência e
autores entendem “que a expressão utilizada deveria           visibilidade às informações que interessam não apenas
ser relatório de informações sociais, que é mais              aos sócios e acionistas das companhias, mas também
preciso [...]”.                                               a um número maior de atores: empregados, fornece-
        Segundo Sá (apud KROETZ, 2000, p. 55),                dores, parceiros, consumidores e comunidade.
em 1939, a empresa alemã AEG já publicava o
BS. Entretanto o período considerado como marco                   Para Iudícibus et al. (2003, p. 34), “o Balanço
inicial do BS no mundo são os anos 60, nos Estados        Social busca demonstrar o grau de responsabilidade
Unidos da América, onde a sociedade criticava o           social assumido pela empresa e assim prestar contas à
governo Nixon e as entidades que o apoiavam,              sociedade pelo uso do patrimônio público, constituído
em função da Guerra do Vietnã. Nessa época, a             dos recursos naturais, humanos e o direito de conviver
sociedade exigia das empresas uma postura moral e         e usufruir dos benefícios da sociedade em que atua”.
ética perante os cidadãos por meio do fornecimento                Nesses dois conceitos, é possível perceber
de informações relativas às relações sociais, dentro      dois enfoques distintos. No primeiro, sobressai o
e fora das empresas.                                      enfoque de instrumento de gestão e, no segundo,
        O surgimento e a evolução do BS ao redor          destaca-se o enfoque de prestação de contas à
do mundo acompanham a tendência americana,                sociedade. Mesmo assim, os dois conceitos não se
ou seja, a exigência da sociedade por informações         contradizem, mas sim se complementam.
das empresas com foco nas relações sociais. Na                    Ainda com relação aos dois conceitos, o
maioria dos países a iniciativa da sociedade, ou das      primeiro afirma que o BS deve informar aos mais
próprias empresas, é que deu origem a divulgação          diferentes usuários, enquanto que o segundo
de informações sociais. No entanto, em alguns             destaca a sociedade como principal usuário dessas
países ainda impera a determinação legal para que         informações. Nesses dois casos, a determinação de
essas informações sejam fornecidas à sociedade.           usuário é bastante ampla.
        A primeira abordagem a investigar a                       Para reduzir essa amplitude Tinoco (2001, p.
responsabilidade social de um empreendimento se           34) relaciona alguns usuários que, segundo ele se
deu em 1962, quando o professor Raymond Bauer             destacam na utilização do BS:
foi encarregado pela Nasa para fazer investigações              •	 Grupos cujos membros de uma forma
sobre as conseqüências sócio-culturais do programa                 pessoal e direta trabalham para a empresa
espacial (Amorin apud KROETZ, 2000, p. 54).                        – os trabalhadores;



                                                      102
•	 Grupos que se relacionam com a empresa                •	 Abranger o universo das interações sociais
         – os clientes, pois de sua confiança vive a              entre: clientes, fornecedores, associações,
         empresa;                                                 governo, acionistas, investidores, universi-
      •	 Acionistas que aportam recursos a empresas;              dade e outros;

      •	 Sindicatos dos trabalhadores;                         •	 Apresentar os investimentos no desenvolvi-
                                                                  mento de pesquisas e tecnologias;
      •	 Instituições financeiras, fornecedores e
         credores;                                             •	 Formar um banco de dados confiáveis para
                                                                  análise e tomada de decisão dos mais di-
      •	 Autoridades      fiscais,   monetárias      e
                                                                  versos usuários;
         trabalhistas, o Estado;
                                                               •	 Ampliar o grau de confiança da sociedade
      •	 Comunidade local;
                                                                  na entidade;
      •	 Pesquisadores, professores,       todos    os
                                                               •	 Contribuir para a implementação e manu-
         formadores de opinião.
                                                                  tenção de processos de qualidade, sendo
        Por fim, os conceitos destacados acima definem            a própria demonstração do Balanço Social
como objetivo do BS a prestação de informações                    um parâmetro para tal;
sociais à sociedade. Também neste caso, a amplitude
é um fator restritivo. Segundo Kroetz (2000, p. 79), o           •	 Medir os impactos das informações apre-
BS tem como objetivo genérico suprir as necessidades                sentadas no Balanço Social perante a co-
de apresentação de informações de caráter social e                  munidade dos negócios; no amanha da
ecológico. Na sequência, esse objetivo genérico é                   entidade; na marca/godwill, na imagem
tratado de forma mais especifica.                                   do negócio;
        Para Iudícibus et al. (2005, p. 33) e Pinto              •	 Verificar a participação do quadro funcio-
e Ribeiro (2004, p. 24), independente da sua                        nal no processo de gestão (fase da gestão
formatação, o BS deve ter por objetivo demonstrar                   participativa);
o resultado da interação da empresa com o meio                   •	 Servir de instrumento para negociações la-
em que está inserida, ressaltando-se os aspectos                    borais entre a direção da entidade e sindi-
de recursos humanos, contribuição para o                            catos ou representantes dos funcionários;
desenvolvimento econômico e social, ambientais e
contribuições para a cidadania. Para Lisboa Neto                 •	 Melhorar o sistema de controle interno,
(2003, p. 63), “o balanço social tem como objetivo                  permitindo qualificar o ambiente organi-
geral suprir as necessidades de apresentação de                     zacional, numa perspectiva de confirmar a
informações de caráter social e ecológico”.                         regularidade da gestão identificada com o
        Sob o aspecto de benefícios e contribuições                 gerenciamento social;
à sociedade, o BS pode refletir o comprometimento                •	 Clarificar os objetivos e as políticas admi-
da empresa com as necessidades básicas da                           nistrativas, julgando a administração não
população, mediante investimentos voluntários nas                   apenas em função do resultado econômi-
diferentes áreas (PINTO; RIBEIRO, 2004, p. 27).                     co, mas também dos resultados sociais.
        Para Kroetz (2000, p. 79) o BS, tem como objetivos:      Esses objetivos podem ser chamados de
       •	 Revelar, conjuntamente com as demais de- objetivos específicos, que têm por finalidade
          monstrações contábeis, a solidez da estraté- auxiliar no sentido de que os objetivos gerais sejam
          gia de sobrevivência e crescimento da enti- atingidos.
          dade;                                                  A partir das considerações apresentadas, é
       •	 Evidenciar, com indicadores, as contribui- possível determinar quais são os principais objetivos
          ções à qualidade de vida da população;            do BS: demonstrar o resultado da interação da


                                                     103
empresa com o meio; refletir o comprometimento               No tocante ao método de tratamento e
com as necessidades básicas da população e;           análise dos dados, será usada apenas estatística
suprir as necessidades de informações de caráter      descritiva.
social e ecológico.
       Dentro do BS, é comum observar valores         3.3 Seleção da amostra
relativos ao total de valor adicionado pela empresa           A amostra selecionada corresponde aos
e a distribuição desse valor adicionado. Esses        Balanços Sociais divulgados em 2004 e 2005,
valores são encontrados na Demonstração do            respectiva e concomitantemente, por empresas
Valor Adicionado (DVA), que é um demonstrativo        brasileiras, disponíveis no banco de dados do
não obrigatório, segundo a legislação brasileira,     Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
vigente em 2007, mas com critérios de elaboração      (IBASE), disponível em www.ibase.org.br ou www.
regulamentos pelo CPC a partir de 2008.               balancosocial.org.br. Optou-se por utilizar dois
                                                      anos, para se poder evidenciar a evolução das
3 Aspectos metodológico                               informações, mesmo que superficialmente, ao
                                                      menos em termos monetários, já que em termos
3.1 Caracterização do Estudo                          qualitativos apenas o último já seria suficiente.
                                                      A escolha dos anos de 2004 e 2005, e não
       Segundo Collis e Hussey (2005, p. 23),         2007 e 2008 (os mais recentemente divulgados),
os tipos de pesquisa podem ser classificados de       não prejudica os resultados obtidos porque a
acordo com:                                           sistemática utilizada e as informações obtidas
     •	 O objetivo da pesquisa - os motivos pelos     atualmente seriam praticamente as mesmas, com
        quais você a está realizando;                 exceção dos resultados econômico-financeiros, no
     •	 O processo da pesquisa - a maneira pela       entanto, isso provavelmente será objeto de estudo
        qual você coletará e analisará seus dados;    futuro com caráter comparativo. Comparando os
                                                      modelos do BS do IBASE em 2004/2005, e em
     •	 A lógica da pesquisa - se você está se
                                                      2007/2008, não se visualiza qualquer diferença
        movendo do geral para o específico ou
                                                      em termos de estrutura.
        vice-versa;
                                                              Das aproximadamente 330 empresas
     •	 O resultado da pesquisa - se você está        que disponibilizavam seus balanços sociais,
        tentando resolver um determinado              no final de 2006, no banco de dados do
        problema ou fazer uma contribuição geral      IBASE, apenas 116 divulgaram os mesmos nos
        para o conhecimento.                          dois anos selecionados para estudo, o que
       Então, quanto ao objetivo, trata-se de         corresponde a aproximadamente 35% do total
pesquisa exploratória; quanto ao processo da          de empresas com BS disponível no site do IBASE.
pesquisa: qualitativa; quanto ao resultado da         Depois dessa seleção inicial, foram excluídas
pesquisa: aplicada; quanto à lógica da pesquisa:      da amostra 3 empresas, sendo uma por não
indutiva.                                             apresentar os valores de receita líquida e outras
                                                      2 por não apresentar indicadores externos.
3.2 Métodos
                                                      Também foi excluído o BS da Petrobras, já que
        Quanto aos métodos, a pesquisa pode ser       ela apresentava valores que correspondiam, na
classificada como bibliográfica e documental.         maioria dos casos, a mais de 30% do total de
Quanto ao horizonte de tempo tem-se um estudo         todas as empresas, fato que poderia distorcer as
longitudinal. Quanto ao método da coleta de           análises. Nesse momento a amostra totalizava
dados, tratam-se de dados secundários.                112 empresas, ou seja, 33,94% do universo.



                                                  104
A receita líquida das 112 empresas                           de 4,94%. Como os dados serão comparados
correspondia a aproximadamente 15,3% do Produto                     em relações percentuais pequenas diferenças
Interno Bruto (PIB) no ano 2004 e aproximadamente                   apresentadas pelas taxas não apresentarão
15,9% do PIB de 2005. Um parâmetro melhor                           discrepâncias relevantes nas análises.
para demonstrar a importância da amostra é o
percentual do valor adicionado em relação ao PIB,                   4 Estudo exploratório
mas apenas 69 empresas divulgaram esse valor e
sua distribuição nos dois anos, concomitantemente.
                                                                    4.1 Demonstração dos dados preliminares
Nesse caso, a proporção foi aproximadamente 6,7%
em 2004 e 7,3% em 2005. A proporção da receita                            O modelo de BS divulgado pelo IBASE
líquida em relação ao PIB, apenas das 69 empresas                   pode ser observado no sitio eletrônico do instituto.
que restaram na amostra, foi de 11,7% em 2004,                      Ele possui algumas divisões. Em uma delas estão
e 12,1% em 2005. A amostra final corresponde a                      os dados que servirão como base de cálculo dos
aproximadamente 21% do universo de empresas                         percentuais. Os percentuais auxiliam a comparação
que divulgavam o BS pelo modelo IBASE.                              de ano para ano e até de empresa para empresa,
       Para o presente estudo será considerado que                  mas sempre mantidas as precauções necessárias
a inflação no período foi de 5%, já que segundo                     quando se fazem comparações.
a FGV (IPC-DI), o DIEESE (ICV), a FIPE (IPC e o                           Num primeiro momento, foram extraídas
IPCA) e o IBGE (INPC) a inflação foi de 4,93%,                      algumas informações da comparação entre os
4,53%, 4,52%, 5,05% e 5,69, respectivamente,                        dados informados em 2004 e em 2005, conforme
o que resulta em uma média aritmética simples                       Quadros 1 e 2.

Quadro 1 – Indicadores sociais internos e externos e valor adicionado 2004.
                                                                               2004
 1. Dados Econômico-Financeiros
                                             Em mil R$.    % da RL            % do VA        % do RO        % da FPB
          Receita Líquida (RL)               270.254.530                      226,9%         574,1%          801,4%
          Valor adicionado (VA)              119.090.596    44,1%                            253,0%          353,1%
       Resultado Operacional (RO)             47.072.971    17,4%              39,5%                         139,6%
     Folha de Pagamento Bruta (FPB)           33.722.818    12,5%              28,3%          71,6%
 2. Indicadores Sociais Internos
           Alimentação                       2.236.593      0,8%               1,9%           4,8%           6,6%
      Encargos sociais compulsórios          7.292.570      2,7%               6,1%           15,5%          21,6%
            Previdência privada              1.659.303      0,6%               1,4%            3,5%           4,9%
                   Saúde                     1.453.112      0,5%               1,2%            3,1%           4,3%
   Segurança e medicina no trabalho           179.309       0,1%               0,2%            0,4%           0,5%
                 Educação                      66.390       0,0%               0,1%            0,1%           0,2%
                  Cultura                      26.842       0,0%               0,0%            0,1%           0,1%
Capacitação e desenvolvimento profissional    341.887       0,1%               0,3%            0,7%           1,0%
         Creches ou auxílio-creche            118.746       0,0%               0,1%            0,3%           0,4%
  Participações nos lucros ou resultados     2.527.668      0,9%               2,1%            5,4%           7,5%
                  Outros                      581.657       0,2%               0,5%            1,2%           1,7%
      Total – Ind. Sociais Internos          16.484.077     6,1%              13,8%           35,0%          48,9%
   3. Indicadores Sociais Externos
               Educação                       254.258       0,1%               0,2%           0,5%            0,8%
                Cultura                       238.371       0,1%               0,2%           0,5%            0,7%
        Saúde e saneamento                    184.693       0,1%               0,2%           0,4%            0,5%
              Habitação                           34        0,0%               0,0%           0,0%            0,0%
                Esporte                        77.177       0,0%               0,1%           0,2%            0,2%
           Lazer e diversão                      230        0,0%               0,0%           0,0%            0,0%
               Creches                            40        0,0%               0,0%           0,0%            0,0%
             Alimentação                        1.296       0,0%               0,0%           0,0%            0,0%
    Combate à fome e seg. alimentar            89.902       0,0%               0,1%           0,2%            0,3%
                Outros                        511.995       0,2%               0,4%            1,1%           1,5%
     Total das contribuições para a
                                              1.357.996     0,5%               1,1%            2,9%           4,0%
               Sociedade
                                                                                                                (continua)




                                                             105
(continuação)
   3. Indicadores Sociais Externos
    Tributos (excluídos enc. sociais)         51.394.044    19,0%         43,2%         109,2%         152,4%
      Total – Ind. Sociais Externos           52.752.040   19,5%         44,3%          112,1%         156,4%
                Governo                      45.671.655    16,9%         38,4%          97,0%          135,4%
             Colaboradores                    29.309.389   10,8%         24,6%           62,3%          86,9%
               Acionistas                     13.553.756    5,0%         11,4%           28,8%          40,2%
               Terceiros                      12.593.447    4,7%         10,6%           26,8%          37,3%
                 Retido                       17.962.349     6,6%         15,1%          38,2%          53,3%
        Total - Valor Adicionado             119.090.596    44,1%        100,0%         253,0%         353,1%


Quadro 2 – Indicadores sociais internos e externos e valor adicionado 2005.
                                                                          2005
 1. Dados Econômico-Financeiros
                                             Em mil R$.    % da RL       % do VA       % do RO        % do FPB
          Receita Líquida (RL)               308.796.391                 220,1%         563,5%         822,1%
          Valor adicionado (VA)              140.281.359    45,4%                       256,0%         373,5%
       Resultado Operacional (RO)             54.804.369    17,7%         39,1%                        145,9%
     Folha de Pagamento Bruta (FPB)           37.560.001    12,2%         26,8%         68,5%
 2. Indicadores Sociais Internos
           Alimentação                       2.499.648      0,8%          1,8%          4,6%           6,7%
     Encargos sociais compulsórios           8.201.937      2,7%          5,8%          15,0%          21,8%
           Previdência privada               1.780.088      0,6%          1,3%           3,2%           4,7%
                  Saúde                      1.748.144      0,6%          1,2%           3,2%           4,7%
   Segurança e medicina no trabalho           188.631       0,1%          0,1%           0,3%           0,5%
                Educação                       69.824       0,0%          0,0%           0,1%           0,2%
                 Cultura                       23.272       0,0%          0,0%           0,0%           0,1%
Capacitação e desenvolvimento profissional    474.958       0,2%          0,3%           0,9%           1,3%
        Creches ou auxílio-creche             137.129       0,0%          0,1%           0,3%           0,4%
  Participação nos lucros ou resultados      3.582.123      1,2%          2,6%           6,5%           9,5%
                 Outros                       606.636       0,2%          0,4%           1,1%           1,6%
      Total – Ind. Sociais Internos          19.312.390     6,3%         13,8%          35,2%          51,4%
   3. Indicadores Sociais Externos
               Educação                        207.062      0,1%          0,1%           0,4%           0,6%
                 Cultura                       303.349      0,1%          0,2%           0,6%           0,8%
         Saúde e saneamento                    318.989      0,1%          0,2%           0,6%           0,8%
               Habitação                            0       0,0%          0,0%           0,0%           0,0%
                 Esporte                        77.103      0,0%          0,1%           0,1%           0,2%
            Lazer e diversão                     1.379      0,0%          0,0%           0,0%           0,0%
                Creches                             5       0,0%          0,0%           0,0%           0,0%
              Alimentação                          31       0,0%          0,0%           0,0%           0,0%
     Combate à fome e seg. alimentar           275.155      0,1%          0,2%           0,5%           0,7%
                 Outros                       1.081.277      0,4%          0,8%          2,0%           2,9%
Total das contribuições para a Sociedade     2.264.350       0,7%          1,6%          4,1%           6,0%
     Tributos (excluídos enc. sociais)       65.191.916     21,1%         46,5%         119,0%         173,6%
       Total – Ind. Sociais Externos         67.456.266    21,8%         48,1%          123,1%         179,6%
 4. Destinação do valor adicionado
                Governo                      56.758.181    18,4%         40,5%          103,6%         151,1%
             Colaboradores                    33.174.087   10,7%         23,6%           60,5%          88,3%
               Acionistas                     15.625.726    5,1%         11,1%           28,5%          41,6%
               Terceiros                      13.662.911    4,4%          9,7%           24,9%          36,4%
                 Retido                       21.060.454    6,8%         15,0%           38,4%          56,1%
        Total - Valor Adicionado             140.281.359    45,4%        100,0%         256,0%         373,5%



        A partir dos quadros 1 e 2, é possível                       •	 Nos indicadores de investimento social
identificar, dentre outros pontos, que:                                 externo existe um aumento significativo
       •	 Nos dados econômicos e financeiros,                           na proporção com os dados econômicos
          com exceção da folha de pagamento, os                         e financeiros, principalmente nos valores
          demais valores mantêm uma proporção                           referentes a tributos.
          praticamente estável de um ano para outro;                 •	 Na destinação do valor adicionado ocorreu
       •	 As empresas mantêm um padrão de                               um aumento na parcela do governo
          investimento social interno em relação aos                    em comparação com todos os dados
          dados econômicos e financeiros;                               econômicos e financeiros.

                                                              106
No Quadro 3, é possível identificar, dentre                           •	 Os valores econômicos e financeiros
outros pontos, que:                                                             aumentaram de 2004 para 2005, mesmo

Quadro 3 – Variação do investimento social interno e externo.
                                                2004                    2005                            VARIAÇÃO
 1. Dados Econômico-Financeiros
                                              Em mil R$.              Em mil R$.              Normal               Corrigido
           Receita Líquida (RL)               270.254.530             308.796.391             14,26%                8,82%
           Valor adicionado (VA)              119.090.596             140.281.359             17,79%               12,18%
        Resultado Operacional (RO)             47.072.971              54.804.369             16,42%               10,88%
      Folha de Pagamento Bruta (FPB)           33.722.818              37.560.001             11,38%                6,07%
  2. Indicadores Sociais Internos
            Alimentação                        2.236.593               2.499.648              11,76%                6,44%
       Encargos sociais compulsórios           7.292.570               8.201.937              12,47%                7,11%
             Previdência privada               1.659.303               1.780.088               7,28%                2,17%
                    Saúde                      1.453.112               1.748.144              20,30%               14,57%
    Segurança e medicina no trabalho            179.309                 188.631                5,20%                0,19%
                  Educação                       66.390                  69.824                5,17%                0,16%
                   Cultura                       26.842                  23.272               -13,30%              -17,43%
 Capacitação e desenvolvimento profissional     341.887                 474.958               38,92%               32,31%
          Creches ou auxílio-creche             118.746                 137.129               15,48%                9,98%
   Participações nos lucros ou resultados      2.527.668               3.582.123              41,72%               34,97%
                   Outros                       581.657                 606.636                4,29%                -0,67%
       Total – Ind. Sociais Internos          16.484.077              19.312.390              17,16%               11,58%
  3. Indicadores Sociais Externos
                 Educação                       254.258                 207.062               -18,56%               -22,44%
                 Cultura                        238.371                 303.349                27,26%                21,20%
         Saúde e saneamento                     184.693                 318.989                72,71%                64,49%
               Habitação                            34                      0                -100,00%              -100,00%
                 Esporte                         77.177                  77.103                -0,10%                -4,85%
            Lazer e diversão                       230                   1.379               499,57%               471,01%
                Creches                             40                      5                 -87,50%               -88,10%
              Alimentação                         1.296                    31                 -97,61%               -97,72%
     Combate à fome e seg. alimentar             89.902                 275.155              206,06%               191,49%
                 Outros                         511.995               1.081.277               111,19%              101,13%
 Total das contribuições para Sociedade        1.357.996               2.264.350               66,74%               58,80%
     Tributos (excluídos enc. sociais)        51.394.044              65.191.916              26,85%               20,81%
       Total – Ind. Sociais Externos          52.752.040              67.456.266              27,87%               21,78%
4. Destinação do valor adicionado
                 Governo                       45.671.655              56.758.181             24,27%               18,36%
              Colaboradores                   29.309.389              33.174.087              13,19%               7,80%
                Acionistas                    13.553.756              15.625.726              15,29%               9,80%
                Terceiros                     12.593.447              13.662.911               8,49%                3,33%
                  Retido                      17.962.349              21.060.454              17,25%                11,66%
         Total - Valor Adicionado             119.090.596             140.281.359             17,79%                12,18%



            quando desconsiderados                   os     efeitos                 a um investimento baixo em 2004 para um
            inflacionários;                                                         investimento maior em 2005, mas que não
        •	 Os      investimentos  em     indicadores                                representa nada em relação aos dados
           sociais internos também aumentaram,                                      econômicos e financeiros;
           principalmente na capacitação profissional                        •	 O aumento representativo no item outros
           e na participação nos lucros e resultados,                           dos indicadores sociais externos deriva
           mas os investimentos em cultura caíram                               do fato de que algumas empresas não
           significativamente;                                                  subdividiram seus valores nos demais itens,
        •	 Os investimentos em indicadores sociais                              ficando sobrecarregado esse item;
           externos aumentaram mais que os internos,                         •	 A destinação do valor adicionado deixa
           principalmente no combate à fome e                                   claro que houve um aumento na parcela
           segurança alimentar. O aumento exagerado                             destinada ao governo, superior aos demais,
           do investimento em lazer e diversão se deve                          e, conjuntamente com o aumento da

                                                                 107
parcela retida do valor adicionado reduziu                      Nos Quadros 2, 3 e 4 estão demonstrados os
        as parcelas dos colaboradores, acionistas                 dados acumulados extraídos do BS publicado pelas
        e terceiros.                                              69 empresas da amostra. Alguns desses dados foram
       O quadro 4 destaca os indicadores do corpo                 simplesmente somados, outros foram incorporados
funcional.                                                        aos dados pré-existentes. Diante desses, dados é

Quadro 4 – Variação dos indicadores do corpo funcional.
                                                                 2004                       2005
       5. Indicadores do Corpo Funcional                                                                 VARIAÇÃO
                                                      Unidades            %      Unidades          %
   Nº de empregados(as) ao final do período            477.123                   499.963                   4,79%
         Nº de admissões durante o período             82.927            17%     101.882           20%    22,86%
      Nº de empregados(as) terceirizados(as)          139.835            29%     156.686           31%    12,05%
                Nº de estagiários(as)                  24.235             5%      23.716            5%    -2,14%
      Nº de empregados(as) acima de 45 anos            93.101            20%      98.328           20%     5,61%
     Nº de mulheres que trabalham na empresa          166.361            35%     179.780           36%     8,07%
        Nº de mulheres em cargos de chefia             49.464            10%      54.824           11%    10,84%
    Nº de negros(as) que trabalham na empresa          57.299            12%      67.313           13%    17,48%
          Nº de negros em cargos de chefia              6.398             1%       8.013            2%    25,24%
  Nº portadores de defic. ou necessidades especiais    8.795              2%      9.240            2%      5,06%
  % de cargos de chefia ocupados por mulheres                           29,73%                            30,50%
   % de cargos de chefia ocupados por negros(as)                        11,17%                            11,90%
Relação maior / menor remuneração da empresa           30,49                        7,60                  23,32%
      Número total de acidentes de trabalho            101,65                     120,98                  19,02%
                 RL p/empregado                        566,43                     617,64                   9,04%
                 VA p/empregado                        249,60                     280,58                  12,41%
                 RO p/empregado                         98,66                     109,62                  11,11%
                FPB p/empregado                         70,68                      75,13                   6,29%
   VA destinado aos colaboradores p/empregado           61,43                      66,35                   8,02%


       No Quadro 4, é possível identificar, dentre possível visualizar algumas das informações que o BS
outros pontos, que:                                divulgado segundo o Modelo IBASE pode fornecer
     •	 Houve um aumento no número de pessoas aos usuários, primordialmente à sociedade em que
        empregadas, haja vista o aumento de está inserida. Os dados crus normalmente não têm
        pessoas empregadas no final do período e muito a dizer, mas quando analisados em conjunto,
        o número de contratações;                  comparados com outras empresas, acumulados com
     •	 Houve um aumento significativo de negros os de outras empresas ou conjugados com outros
        em relação ao total de pessoas empregadas dados podem fornecer informações pertinentes a
        e principalmente um aumento de negros quem analisa este demonstrativo contábil.
          em cargos de chefia;
                                                                  4.2 Análise complementar dos dados
      •	 O número de mulheres empregadas em
         relação ao total também aumentou, bem             Um dos objetivos do presente estudo era
         como sua participação em cargos de verificar quais informações relevantes podem ser
         chefia;                                    extraídas do BS, segundo o modelo do IBASE,
                                                    divulgado pelas empresas brasileiras. Esse objetivo
      •	 A relação homens/mulheres manteve-se foi atingido em grande parte, conforme visto no
         pouco acima de 1/3 nos dois anos e a item 4.1 deste estudo. Alguns pontos não foram
         relação de mulheres em cargos de chefia analisados, tais como os indicadores ambientais,
         ficou pouco abaixo de 1/3 nos dois anos; que em muitas empresas não foram informados
      •	 A relação entre o maior e o menor salário e que não leva o leitor a conclusões relevantes,
         aumentou significativamente nos dois anos, da forma como está estruturado. Outro ponto
         demonstrando o distanciamento entre as que foi demonstrado e analisado apenas em uma
         classes sociais.                           pequena parte são as informações relevantes


                                                                108
quanto ao exercício da cidadania empresarial, em            facilmente identificáveis, como por exemplo, os
que são relatados apenas dados não qualitativos             recursos naturais, o direito de exploração de uma
e muito restritos, contribuindo apenas para um              atividade poluidora, a dependência local pela
posicionamento superficial quanto às políticas de           empresa, entre muitos outros.
cidadania da empresa.                                              O BS segundo o modelo IBASE não chega
        O outro, e principal objetivo, era verificar se o   da demonstrar a interação da empresa com o meio,
modelo IBASE consegue atingir os objetivos propostos        mas apenas destaca alguns pontos dessa interação.
na literatura. Em função disso, foram definidos que         Existe a necessidade de outras informações
os objetivos que serão utilizados no presente estudo        quantitativas e qualitativas, para que seja possível
são aqueles objetivos gerais evidenciados nas               estabelecer se existe um relacionamento de
definições do BS, ou seja, demonstrar o resultado           interação entre a empresa e o meio.
da interação da empresa com o meio, refletir o                     Para que o BS demonstrasse toda a interação
comprometimento com as necessidades básicas da              entre a empresa e o meio, seriam necessários muito
população e suprir as necessidades de informações           mais dados dos que hoje são apresentados e muitos
de caráter social e ecológico. Justifica-se esta escolha    além daqueles dos que hoje estão disponíveis nas
porque os objetivos específicos são originados dos          empresas. Não se pretende que o BS evidencie
objetivos gerais e, portanto, para que os objetivos         todas as informações que os usuários por ventura
gerais estejam sendo alcançados, é necessário que           venham a necessitar, mas que o atual volume
alguns dos objetivos específicos à eles pertinentes         de informações seja implementado, fornecendo
também estejam sendo alcançados.                            subsídios mais consistentes para que se possa
        Na sequência, são analisadas as informações         demonstrar a interação da empresa com o meio.
obtidas dos Balanços Sociais segundo o modelo                      Nesse ponto, além de muitas outras sugestões
IBASE à luz de cada um dos três objetivos, tentando         que cada usuário do BS poderia ter, sugere-se que ao
identificar se o BS realmente fornece informações           menos ficasse evidenciado os patrocínios a equipes
suficientes para atender aos objetivos. Não se              esportivas e a eventos culturais, as contribuições
pretende esgotar o assunto, mas apenas levantar             para implementação e/ou manutenção de escolas
alguns pontos considerados pertinentes para o               e hospitais, indicação de pessoas beneficiadas
desenvolvimento da ciência contábil. Para iniciar esta      por programas implementados ou apoiados pela
discussão, seria extremamente importante conhecer           empresa, etc. Por exemplo, a implantação de um
as necessidades de informações dos usuários do BS,          centro cultural pode gerar lazer e cultura para a
mas como isso não é possível e não é o objetivo             sociedade.
desse estudo, assumiremos que o conhecimento
                                                            b) Refletir o comprometimento             com    as
destas necessidades é no mínimo aquilo que os               necessidades básicas da população
autores deste estudo percebem.
                                                           Supondo que as necessidades básicas da
a) Demonstrar o resultado da interação da
                                                    população sejam no mínimo, conforme relaciona a
empresa com o meio
                                                    Constituição Brasileira, ou seja, moradia, vestuário,
       Por interação da empresa com o meio alimentação, saúde, higiene, educação, lazer, etc.,
entende-se como a ação recíproca entre ambos, é possível destacar que alguns pontos são mais
ou seja, o meio fornece para a empresa os recursos privilegiados pelas empresas que outros, como
necessários para sua subsistência e esta devolve é o caso do investimento interno em capacitação
ao meio os recursos necessários para compensá- profissional e na participação nos lucros ou
lo. Os salários pagos aos funcionários, os tributos resultados.
pagos e os lucros distribuídos são formas de               O modelo do IBASE não contempla todos os
retribuir ao meio pelos recursos disponibilizados. itens que a Constituição chama de ‘necessidades
Mas existem outros recursos que não são básicas da população’. Com relação apenas aos

                                                       109
dados destacados no modelo IBASE, em sua maioria,           c) Suprir as necessidades de informações de
manteve os mesmos patamares nos dois períodos               caráter social e ecológico
analisados, em relação à receita líquida ou ao
                                                                    Como não se conhece as informações que
resultado operacional, refletindo que não houve um
                                                            os usuários necessitam, é difícil saber como supri-
comprometimento adicional com as necessidades
                                                            la, mas, imaginando que também somos usuários
básicas da população, mas apenas um incremento
                                                            dessas informações, então é possível inferir que
em pontos específicos, como é o caso dos tributos.
                                                            o BS não supre as necessidades de informações
        A carência de investimentos foi destacada no
                                                            de caráter social, fornecendo apenas algumas
estudo de Pinto e Ribeiro (2004, p. 29) “Investimentos
                                                            informações incipientes. Quanto às informações
com vistas a atender às necessidades básicas
                                                            ecológicas, é possível afirmar que praticamente
dos trabalhadores, tais como: educação, saúde,
                                                            inexistem, já que dos poucos dados relativos a esse
transporte, lazer etc.; políticas voltadas à valorização,
                                                            tema no modelo estes não são informados pela
ao desenvolvimento profissional e reconhecimento
                                                            maioria das empresas. Entende-se que suprir não
do trabalho dos empregados, foram informados
                                                            seja em caráter totalitário, mas sim em um nível que
pela minoria das empresas examinadas”.
                                                            possa ser considerado no mínimo satisfatório.
        Uma dificuldade que surge nesse ponto é
                                                                    Seria extremamente relevante que as
definir qual o nível que os indicadores precisam
                                                            empresas divulgassem informações sobre o total de
atingir para refletir o comprometimento da empresa.
                                                            investimentos em projetos sociais e de recuperação
Apenas destinar algum numerário para rubricas
                                                            ambiental segregados, dando condições de suprir
que fazem parte das necessidades básicas da
                                                            algumas necessidades de informações. Para Gray
população não representa o comprometimento da
                                                            (2001, p. 14), “Nós devemos urgentemente mudar
empresa com estas. Mas o que pode refletir o nível
                                                            nossa atenção para os problemas de como reportar
de comprometimento? Talvez o nível de informações
                                                            a sustentabilidade, e especialmente para assunto de
que as empresas podem fornecer atualmente ainda
                                                            justiça social. Neste caso, eu temo, o passado tem
não chegue a refletir esse comprometimento, mas
                                                            pouco a nos ensinar” (tradução livre).
com certeza, apenas os dados que constam do
BS, segundo o modelo IBASE, estão muito aquém               d) Considerações sobre os objetivos
daquilo que se torna necessário para esbarrar de
                                                                   As informações disponíveis no BS, que
leve na reflexão do comprometimento.
                                                            na maioria dos casos é informada em valores
        Nesse ponto, muitas ações que não geram
                                                            monetários (absolutos ou relativos) deixam a desejar
desembolsos diretos podem ser incluídas para
                                                            pela falta de outras informações não monetárias,
demonstrar o comprometimento da empresa
                                                            para que forneçam dados adicionais para uma
com as necessidades básicas da população.
                                                            análise mais efetiva. Mazzioni, Oliveira e Tinoco
A demonstração da evolução do nível de
                                                            (2006, p. 9) identificaram as informações que
escolaridade dos colaboradores, enquanto
                                                            devem ser priorizadas na divulgação do BS. Os
funcionários da empresa, pode dar indícios do
                                                            mesmos autores (2006, p. 11) indicam que o BS é
comprometimento com a educação. O incentivo,
                                                            um instrumento voltado a evidenciar as ações que as
e talvez até a destinação de parte da carga horária
                                                            empresas tomam, com destaque para os seguintes
dos colaboradores, para a realização de trabalho
                                                            grupos, prioritariamente:
voluntário pode dar sinais do comprometimento
                                                                      a) Responsabilidade social: não se
da empresa com o lazer, saúde, etc. A promoção
                                                                          trata de fazer filantropia apenas, ou
ou o incentivo de programas assistenciais podem                           doações caritativas, mas assumir um
demonstrar o comprometimento da empresa com                               posicionamento social responsável e
a moradia, a alimentação, etc.                                            de elevada cidadania;



                                                        110
b) Recursos humanos: o modo pelo              em detrimento de dados qualitativos, e a carência
             qual a organização se relaciona            de mais informações concretas necessárias para
             com os empregados da instituição; a        atender aos anseios da sociedade.
             preservação de direitos individuais e              Não se pretende, em hipótese alguma,
             coletivos; remuneração e benefícios
                                                        desmerecer o trabalho realizado pelo IBASE e nem
             concedidos; pessoas ocupadas no
                                                        tampouco o modelo por ele utilizado, até porque
             fim de cada exercício: por categoria,
             sexo, instrução, idade, estado civil       alguma informação ainda é melhor que nenhuma
             e raça; formação profissional e            e trata-se de uma iniciativa louvável. No entanto,
             desenvolvimento contínuo;                  o que se pretende é retomar o debate em relação
          c) Valor agregado: evidenciar a riqueza       às informações que as empresas geram para o
             gerada e de que maneira é distribuída;     meio em que estão inseridas e se essas informações
          d) Meio ambiente: projetos e ações de         podem atender aos objetivos propostos na literatura,
             proteção, recuperação e melhoria           buscando sempre a evolução da ciência contábil.
             do meio; indicadores ambientais e                  Os autores do modelo IBASE idealizaram o
             socioeconômicos do desempenho              BS e seus objetivos a partir de informações que lhes
             sustentável;                               eram pertinentes à época. Passados vários anos,
           e) Outros: informações para suporte ao       desde que o sociólogo Betinho iniciou seu trabalho
              processo decisorial, dados sobre a        em prol da implantação do BS no Brasil e que os
              satisfação e insatisfação social dos      Balanços Sociais são evidenciados pelo modelo
              diferentes agentes econômicos em          proposto, com as alterações que já se sucederam,
              relação ao desempenho da entidade,        torna-se necessário um novo upgrade do modelo,
              a participação dos empregados no          com vistas ao fornecimento de informações mais
              processo decisório.
                                                        consistentes. Segundo Oliveira (2005, p. 15), “O
       Freire, Botelho e Nunes (2001, p. 28) e          aprimoramento contínuo do Modelo IBASE de BS
Kroetz (2001, p. 60-61) já identificavam modelos        (já foram feitas algumas revisões ao longo dos
para o BS tentando suprir algumas das falhas do         anos) tem permitido a introdução de mais variáveis
modelo IBASE. Nesses modelos as informações que         quantitativas e qualitativas. Espera-se que no futuro
hoje constam do modelo IBASE eram previstas, além       as comparações possam ser feitas com melhores
de informações adicionais, chegando os primeiros        parâmetros e informações mais confiáveis”.
a sugerir uma ponderação dos indicadores pelas                  Mesmo quando o BS é divulgado em outro
opiniões dos usuários.                                  padrão, as empresas não conseguem abranger
                                                        um número satisfatório de informações, conforme
6 Considerações finais                                  destacado por Pinto e Ribeiro (2004, p. 32), “À
                                                        luz dos conceitos estudados, considera-se que
        O BS é uma ferramenta importante para a         o conteúdo dos Balanços Sociais é bastante
evidenciação do comprometimento das empresas            insatisfatório. Nenhum dos indicadores foi
com a sociedade, além do compromisso legal. Para        informado pela unanimidade das empresas. Muitas
Oliveira (2005, p.3), “O Balanço Social, [...], surge   informações relevantes não foram evidenciadas em
como uma das principais ferramentas para sintetizar e   nenhum balanço”. Os mesmos autores sugerem
disponibilizar as informações sobre como a empresa      que o modelo IBASE contenha ainda uma série de
vem trabalhando as questões sócio-ambientais”.          outras informações.
No entanto, Ainda é incipiente para atingir aos                 Portanto, é possível considerar que as
objetivos propostos na literatura, se apresentado       informações fornecidas atualmente pelas empresas
pelas empresas, conforme o modelo do IBASE,             não atingem o nível desejado, de acordo com os
existindo a supremacia de dados quantitativos,          objetivos encontrados na literatura. Muitas coisas


                                                   111
precisam ser implementadas, mas esbarram em               atingimento pleno dos objetivos apenas indica
diversas dificuldades. Por outro lado coisas simples      que existe a necessidade de uma melhoria na
podem ser implementadas e evidenciadas, como,             qualidade das informações nele disponibilizadas
por exemplo, o nível de escolaridade, que poderia ser     e que os objetivos propostos podem ser atingidos
evidenciado simplesmente informando o percentual          com melhorias incrementais nos modelos atuais.
de funcionários analfabetos, com o primeiro grau                 Este estudo apresenta algumas limitações,
incompleto, o primeiro grau completo, e assim por         dentre as quais a adoção apenas do modelo IBASE
diante. Além disso, qual o percentual de funcionários     para análise, a limitação dos objetivos apenas
que melhoraram seu grau de escolaridade durante           nos três propostos na definição do BS, o número
o tempo em que esteve empregado na empresa e              de empresas, o número de períodos, a utilização
como a empresa participou dessa evolução.                 de períodos não recentes e o número limitado de
        Um fato que parece consenso para maioria          sugestões para aprimoramento do modelo de BS.
dos autores pesquisados, com pequenas variações           Por outro lado, confirmou-se que o BS, segundo
entre eles, é que a divisão do BS usada no modelo         o modelo IBASE, precisa evoluir, conforme já vem
IBASE deveria ser diferente, usando ao invés de           ocorrendo, e que cabe aos pesquisadores da ciência
indicadores sociais internos e externos, indicadores      contábil contribuir nesse processo.
ambientais e indicadores de quadro funcional,                    Como sugestões para futuros estudos,
para indicadores laborais, sociais, ambientais e do       indicam-se:
corpo funcional, além de informações adicionais                •	 Ampliar o estudo para outros modelos de
tais como lucro líquido e faturamento bruto, entre                evidenciação do BS;
outras (VASCONCELOS, 2001; PEROTTONI,
                                                               •	 Verificar a evolução histórica nos modelos
2001; KROETZ, 2001; MAZZIONI; GALANTE;
                                                                  de BS, principalmente do IBASE;
KROETS, 2006). Estes ainda podem ser divididos
em monetário e não-monetários, internos e                      •	 Discutir detalhadamente cada uma das
externos, ou qualquer outra subdivisão que se                     informações constantes do modelo atual,
achar pertinente.                                                 em confronto com os objetivos propostos
        Mesmo que o BS divulgado segundo o                        pela literatura;
modelo IBASE, ou qualquer outro, não consiga                   •	 Comparar modelos utilizados em outros
atingir plenamente os objetivos propostos na                      países com o modelo brasileiro, buscando
literatura, isso não significa que ele é inútil. Alguma           naqueles pontos relevantes que possam
informação ainda é melhor que nenhuma. O não                      aprimorar este.

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                                                  113
Metodologias de Intervenção Utilizadas pelos
        Consultores no Trabalho Realizado com ONGs: um
           estudo na região metropolitana de Recife-PE
        Methods of Intervention Used in Labor Performed by the Consultants with NGOs: a study in the
                                       metropolitan area of Recife-PE


Naldeir dos Santos Vieira1
Marcos Gilson Gomes Feitosa2

Resumo

O presente estudo tem como objetivo identificar e analisar as metodologias de intervenção utilizadas pelos
consultores no trabalho realizado com Organizações Não Governamentais (ONGs). Com este fim, além da
pesquisa bibliográfica (ARGYRIS, 1970; FERNANDES, 1994; CARVALHO, 2000; OLIVEIRA, 2004; TENÓRIO,
2004; TUDE; RODRIGUES, 2007; ABONG, 2008), foram realizados estudos qualitativos com consultores de
ONGs que atuam na região metropolitana de Recife-PE, sendo a coleta de dados dividida em três etapas:
entrevistas exploratórias, entrevistas em profundidade e entrevistas de acompanhamento. Em seguida, os dados
foram analisados utilizando-se como método principal a análise da pragmática da linguagem (MATTOS,
2006). Quanto aos resultados, podemos destacar que no trabalho de consultoria com ONGs os consultores
enfatizaram que, pela natureza multifacetada dessas organizações, não existem metodologias pré-determinadas
para a consultoria nesse campo, com exceção para as consultorias especializadas. Grande parte do trabalho
do consultor está relacionada à realização de planejamentos estratégicos que têm como ponto de partida a
realização de diagnósticos organizacionais. Pela escassez de recursos, muitas vezes, o acompanhamento das
atividades planejadas pela consultoria fica a cargo dos próprios integrantes das ONGs.
Palavras-chave: Organizações do Terceiro Setor; Consultoria Organizacional; Aprendizagem.


Abstract

This study aims at identifying and analyzing intervention methods used by the consultants who work with Non-
Governmental Organizations (NGOs). For this purpose, in addition to the literature (ARGYRIS, 1970; FERNANDES,
1994; CARVALHO, 2000; OLIVEIRA, 2004; TENÓRIO, 2004; TUDE; RODRIGUES, 2007; ABONG, 2008),
qualitative studies were conducted with consultants from NGOs that work in the metropolitan area of Recife-
PE, and the collection of data divided into three phases: exploratory interviews, in-depth interviews and follow-
up interviews. Then, the data were analyzed using as the main method the pragmatic analysis of language
(MATTOS, 2006). Regarding the results, it is possible to highlight that the consulting work with NGOs, due to
the multifaceted nature of these organizations, there are no pre-determined methodologies for advising them,
except for specialized consultancy. Much of the consultant work is related to the implementation of strategic plans


1	    Professor Assistente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM, Brasil.Possui mestrado em Administração pela
Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Brasil. Contato: naldeir@yahoo.com.br
2	   Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco - PROPAD/UFPE, Brasil. Possui doutorado em Educação pela Universidade
Federal de São Carlos - UFSCAR, Brasil. Contato: feitosam@terra.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 06/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
that have, as a starting point, the realization of organizational diagnosis. Because of resource scarcity, often the
monitoring of planned activities is carried out by the members of NGOs.
Key words: Organizations of the Third Sector; Organizational Consulting; Learning.

1 Introdução                                           determinada causa em nível universal, agindo
        Desde     que     algumas      Organizações politicamente, de maneira profissional com a
Não Governamentais (ONGs) passaram a se finalidade de realizar transformações sociais em
profissionalizarem com maior intensidade – década todo o planeta”.
de 1990 – tornou-se comum a contratação dos
serviços de especialistas e consultores para este fim. 2.As Organizações Não Governamentais
Muitos desses profissionais tinham especialidade
apenas em empresas e indústrias, mas trabalhando              As Organizações Não Governamentais
nas ONGs, começaram a deparar com uma “caracterizam-se por serem organizações sem
realidade diferente da que estavam acostumados, fins lucrativos, autônomas, isto é, sem vínculo
vista que a lógica empresarial é voltada para com o governo, voltadas para o atendimento das
atividades utilitaristas e pautadas em uma necessidades de organizações de base popular,
racionalidade instrumental.                            complementando a ação do Estado” (TENÓRIO,
        Consequentemente, esses consultores que 2004, p. 11).
trabalharam em ONGs precisaram aprender com                   Essas instituições, na visão de alguns autores,
as singularidades dessas organizações, adotando as fazem parte do terceiro setor, que, para Mota,
posturas apropriadas, para responder às exigências Ckagnaroff e Amaral (2007, p. 6), é visto como
ambientais enfrentadas por estas. Diante desta um termo guarda-chuva, pela falta de consenso
problemática, a questão de pesquisa central desse quanto a uma definição stricto sensu “abarcando
artigo é: quais as principais metodologias utilizadas organizações com diferentes objetivos, tamanhos
pelos consultores durante a prática de consultoria e escopos”. Na visão de Tude e Rodrigues (2007),
em ONGs? Em decorrência desta questão principal, esse termo foi concebido na década de 70, sendo
este estudo, de caráter exploratório, teve como primeiramente utilizado nos Estados Unidos da
objetivo identificar e analisar as metodologias América e, depois, foi difundido para outros
                                                       países no final da década de 80, com os estudos
utilizadas pelos consultores na atividade de
                                                       coordenados por Salamon.
consultoria em ONGs, sendo realizados estudos
qualitativos com 10 (dez) consultores de ONGs
nacionais e internacionais que atuam na região             A idéia de um “terceiro setor” supõe um “primeiro” e
                                                           um “segundo” e nesta medida faz referência ao Esta-
metropolitana de Recife-PE.
                                                           do e ao mercado. A referência, no entanto, é indireta,
        De acordo com Oliveira (2004), considera-se        obtida pela negação – “nem governamental, nem lu-
consultor o profissional externo a ONG que assume          crativo”. Em termos explícitos e positivos, o conceito
a responsabilidade de auxiliar os integrantes da           designa simplesmente um conjunto de iniciativas par-
organização nas tomadas de decisões, não tendo,            ticulares com um sentido público (FERNANDES, 1994,
                                                           p. 127, grifos do autor).
entretanto, o controle direto da situação. Neste
estudo, consideramos os consultores individuais e
não as empresas de consultoria.                               Para Tude e Rodrigues (2007) a visão
        A expressão ONG é polissêmica e ainda implícita sobre as organizações do terceiro
inexiste o consenso por uma definição mais precisa. setor parece limitada, ao compreendê-las como
Adotamos operacionalmente a visão de Tude e uma alternativa para a solução dos problemas
Rodrigues (2007, p. 14), que as classificam como do Estado, escondendo algumas verdadeiras
“organizações da sociedade civil que lutam por motivações do movimento associativo moderno,


                                                        116
resultantes das relações da sociedade civil. Os               No entanto, nem toda associação civil ou fundação é
autores consideram mais apropriado denominar                  uma ONG. Entre clubes recreativos, hospitais e uni-
                                                              versidades privadas, asilos, associações de bairro, cre-
esse conjunto de organizações como Organizações
                                                              ches, fundações e institutos empresariais, associações
da Sociedade Civil (OSCs) que, no sentido utilizado           de produtores rurais, associações comerciais, clubes
por Antônio Gramsci, transfere o eixo explicativo “da         de futebol, associações civis de benefício mútuo, etc. e
necessidade de preenchimento de lacunas deixadas              ONGs, temos objetivos e atuações bastante distintos,
pelo Estado e pelo Mercado, no caso das teorias do            às vezes, até opostos (ABONG, 2008).
terceiro setor, para o aumento da complexidade do
fenômeno estatal e da intensificação dos processos               Como as características que definem
de socialização política, para a sociedade civil”         essas organizações não esclarecem totalmente as
(TUDE; RODRIGUES, 2007, p. 13).                           diferenças entre as ONGs e as demais OSCs, para
        De acordo com a Associação Brasileira de          Tude e Rodrigues (2007), podemos entendê-las
Organizações Não Governamentais (ABONG,                   melhor ao descrevermos o que as primeiras não são.
2008) a expressão terceiro setor traz-nos uma             Desse modo, as ONGs se diferem das demais OSCs
ideia de igualdade, unidade, convergência e               ou terceiro setor por não representarem o interesse
consenso. Contudo, na realidade, a sociedade civil        particular de um grupo específico ao trabalharem
organizada no Brasil é extremamente diversa, plural
                                                          por causas tratadas universalmente; por não agirem
e heterogênea, construída ao longo de séculos
                                                          somente através da filantropia e da caridade,
e marcada por processos brutais de exclusão,
                                                          buscando a justiça social e valores nos quais elas
concentração de renda e violação de direitos, sendo
                                                          acreditam e pretendem disseminar e por serem
que suas organizações expressam os conflitos e
                                                          organizações mais politizadas, não tendo finalidade
contradições existentes.
                                                          comercial, mas buscarem agir profissionalmente
        Em decorrência, a inclusão das ONGs
                                                          para realizar transformações sociais.
no terceiro setor implica problemas de ordem
conceitual, política e de identidade. Essa expressão
                                                              Sabemos que ONG - Organização Não Governamen-
é constantemente utilizada para referir-se às
                                                              tal - não é termo definido em lei, mas sim uma cate-
organizações da sociedade civil sem fins lucrativos           goria que vem sendo socialmente construída e usada
de uma forma geral, abrigando segmentos com                   para designar um conjunto de entidades com carac-
características diversas, como entidades filantrópicas,       terísticas peculiares, reconhecidas pelos seus agentes,
institutos empresariais e até ONGs. É importante              pelo senso comum ou pela opinião pública (ABONG,
afirmar a identidade de cada grupo e campo político           2008).
de organizações da sociedade civil brasileira. Isso
significa marcar as diferenças e os pontos em que                 Desse modo, mesmo sem o respaldo legal,
convergem (ABONG, 2008).                                  consideramos neste trabalho que as ONGs são
        Para a ABONG (2008), “do ponto de vista           ”organizações da sociedade civil que lutam por
formal, uma ONG é constituída pela vontade                determinada causa em nível universal, agindo
autônoma de mulheres e homens, que se reúnem              politicamente, de maneira profissional com a finalidade
com a finalidade de promover objetivos comuns de          de realizar transformações sociais em todo o planeta”
forma não lucrativa”. A legislação brasileira prevê       (TUDE; RODRIGUES, 2007, p. 14). Em decorrência,
quatro formatos institucionais para a constituição        objetivamos estudar somente consultorias realizadas
de uma organização sem fins lucrativos, com essas         para organizações que além de se considerarem
características – associação, fundação, organização       como ONGs, de serem de natureza privada e de
religiosa e partido político. Juridicamente, toda         terem interesses públicos, são também autônomas e
ONG é uma associação civil ou uma fundação                prestam serviços para a coletividade com o objetivo
privada.                                                  de desencadear transformações sociais.


                                                     117
3 A consultoria organizacional em ONGs                          A adoção do management pelas ONGs foi
                                                        provocada por dois fatores principais: a necessidade
        Consultoria organizacional é uma expressão      das ONGs conseguirem uma maior eficiência de suas
utilizada para definir uma relação de interação, que    atividades e a de se tornarem mais “competitivas”
envolve uma atividade de ajuda para a solução de        na obtenção de recursos financeiros, uma vez que a
problemas (MANCIA, 1997). Para Argyris (1970),          partir da década de 90, estes se tornaram escassos.
trata-se de um processo de intervenção, sendo
esse realizado em uma organização denominada                As pressões dos financiadores para que as ONG’s se
sistema-cliente. Intervir, na concepção do autor            profissionalizassem se deu a partir do momento em que
(1970, p. 15), “é entrar num sistema de relações em         estes passaram a estipular determinados critérios para
andamento, aproximar-se de pessoas, grupos ou               a liberação dos financiamentos. Dependentes destas
                                                            Agências as ONG’s para obter créditos das mesmas
objetos com o propósito de ajudá-los”. Esta ajuda
                                                            passam a cumprir os critérios e procedimentos estabe-
pode ser oferecida a diferentes tipos de pessoas            lecidos. Dentre estes critérios está a descrição de proje-
e/ou instituições, sendo estas: órgãos do Estado,           tos, planos e orçamentos, além da prestação de contas
empresas, clubes esportivos, ONGs e outros.                 dos resultados (LYRA, 2005, p. 57).
        Nesse campo, podem atuar diversos
profissionais, sendo que a única exigência é                    Além das exigências dos financiadores, autores
que estes consigam clientes que contratem seus          como Falconer (1999) e Drucker (2002) consideram
serviços. Não existe uma regulamentação dessa           que a profissionalização das organizações do
atividade (VALENÇA; ASSOCIADOS, 1995)                   terceiro setor também foi resultado da necessidade
e, consequentemente, não existem ações ou               delas se tornarem mais eficientes. Para Drucker
metodologias padronizadas.                              (2002), as instituições sem fins lucrativos entenderam
        Para Oliveira (2004), existem dois tipos de     que precisam ser bem gerenciadas e que precisam
consultoria de acordo com o método de intervenção       aprender a utilizar a gerência como uma ferramenta.
adotado pelo consultor. A primeira é a consultoria      “Elas sabem que necessitam de gerência para que
de pacote, que “é realizada às empresas-clientes        possam se concentrar em sua missão” (DRUCKER,
por meio da transferência de fortes estruturas          2002, p. XIV. Na verdade, Drucker crê que está
de metodologias e técnicas administrativas,             ocorrendo um “crescimento gerencial” nessas
sem a preocupação de otimizada adequação à              instituições, sejam elas grandes ou pequenas.
realidade atual ou esperada para a empresa-                     Com essa profissionalização da gestão,
cliente” (OLIVEIRA, 2004, p. 63). O outro tipo é a      técnicos especialistas passam a ser contratados para
consultoria artesanal, que é “aquela que procura        executar funções especializadas nas ONGs. “A visão
atender às necessidades da empresa-cliente por          romântica da organização horizontal baseada na
meio de um projeto baseado em metodologia e             igualdade e na ausência de hierarquia e autoridade,
técnicas administrativas especificamente estruturadas   dá lugar, progressivamente, ao paradigma moderno
para a referida empresa-cliente, tendo, entretanto,     da competência, da produtividade e da eficiência
sustentação de outras abordagens e modelos              no mundo do voluntariado e suas organizações”
aplicados em outras empresas” (OLIVEIRA, 2004,          (CARVALHO, 2000, p. 11).
p. 65).                                                         Como exemplo de consultoria organizacional
        Tratando-se especificamente das atividades      realizada em ONGs, temos a parceria Ashoka-
de consultoria voltadas para ONGs, essa prática         McKinsey, criada em 1996, estando presente
se acentuou a partir do momento em que tais             em mais de 10 países. Com esta parceria, que
organizações começaram a profissionalizar-se,           resultou na criação do Centro de Competência
adotando práticas gerenciais, antes, comuns apenas      para Empreendedores Sociais Ashoka-McKinsey
às organizações mercantis.                              (CCES), consultores voluntários da Mckinsey and


                                                    118
Company ficam à disposição de empreendedores           com 4 (quatro) consultores com o objetivo de obter
sociais e instituições, para contribuírem com sua      dados gerais relativos ao campo de estudo. Estas
profissionalização e desenvolvimento (ASHOKA,          entrevistas exploratórias propiciaram um maior
2007).                                                 embasamento para a elaboração de um segundo
        De acordo com a Ashoka (2007), com essa        roteiro, mais extenso e com questões mais específicas.
parceria, os empreendedores sociais são fortalecidos   Nessa segunda fase, foram entrevistados 7 (sete)
com a adaptação e a transferência de conhecimentos     consultores.
e ferramentas vindas do setor privado. Os consultores,          Além da realização das entrevistas
por sua vez, têm a oportunidade de desenvolver-se      aprofundadas, foi feito o acompanhamento de
profissional e socialmente nesse novo campo. Este é    algumas intervenções por meio dos relatos dos
um processo, às vezes, demorado e que demanda          consultores sobre uma intervenção específica. Antes
aprendizagem da organização e do consultor.            da intervenção, foi dado ao consultor um pequeno
                                                       roteiro com nove pontos relacionados à consultoria
4 Procedimentos metodológicos                          a serem refletidos por ele. Posteriormente, foi
                                                       agendada uma entrevista com o consultor para uma
       Esta pesquisa teve um caráter qualitativo
                                                       discussão sobre suas reflexões referentes àquela
e procurou compreender nuances do processo
                                                       intervenção específica.
de consultoria nas ONGs, sem a intenção de
gerar dados quantificáveis e/ou generalizáveis a Quadro 1(4) – Entrevistas realizadas com os
outros contextos. Caracteriza-se como um estudo consultores de ONGs.
exploratório e descritivo, captando informações Consultores Exploratória Aprofundada Acompanhamento
sobre determinado problema ou questão.                   Consultor A     Maio, 2007          -       Outubro, 2007
                                                         Consultor B     Maio, 2007          -             -
       Para o alcance dos objetivos, a pesquisa foi Consultor C Maio, 2007 Novembro, 2007 Novembro, 2007
realizada seguindo as seguintes etapas:                  Consultor D     Maio, 2007          -             -
                                                         Consultor E          -        Outubro, 2007       -
       1ª fase - Pesquisa bibliográfica: revisão         Consultor F          -        Outubro, 2007       -
bibliográfica em livros e publicações diversas sobre o   Consultor G          -        Outubro, 2007       -
                                                        Consultora H          -       Novembro 2007        -
referido tema, que trouxeram informações relevantes Consultora I              -       Novembro, 2007 Dezembro, 2007
                                                        Consultora J          -       Novembro, 2007       -
para o estudo da consultoria organizacional, das
                                                       Fonte: elaboração própria, 2008.
ONGs e do processo de aprendizagem do consultor
por meio de suas intervenções.                                  4ª fase – Análise dos dados: utilizamos como
       2ª fase – Delimitação do campo empírico: base para o nosso método de análise das entrevistas
o campo empírico foi formado por consultores a análise da pragmática da linguagem desenvolvido
que prestam consultoria a ONGs que atuam por Mattos (2006) e composto por seis fases que
na região metropolitana de Recife-PE. Foram serão especificadas abaixo:
entrevistados 10 (dez) consultores, sendo utilizada             1°: Recuperar os diálogos gravados e fazer
como técnica de seleção de amostra a “bola de a sua transcrição, enfatizando alguns momentos
neve” (MERRIAM, 1998). Embasado nesta técnica, especiais que deverão ser registrados na memória
após a primeira entrevista (Consultor A), os ou anotados para o momento da análise final.
entrevistados foram indicando outros, sendo estes               2°: Resgatar o contexto em que o diálogo
considerados como fontes de dados relevantes aconteceu, a partir do levantamento das seguintes
para o entendimento do processo da consultoria questões: o que aconteceu ali entre aquelas duas
desenvolvido nas ONGs.                                 pessoas; ou o que foi acontecendo ao longo da
       3ª fase – Coleta de dados: a coleta de dados entrevista? Como o assunto foi se desenvolvendo?
foi realizada a partir da realização de entrevistas Onde parece terem ocorrido “pontos altos”
semi-estruturadas com os consultores, sendo que, e momentos de “ausência”. Que respostas
a princípio, foi realizada uma entrevista exploratória “transbordaram” para outras?

                                                       119
3°: Apresentar ao entrevistado o significado ao planejamento estratégicos, e, às consultorias
nuclear da resposta, para que haja uma validação.      pontuais desenvolvidas.
Devido às dificuldades antecipadas de horários
para apresentação dos dados para a validação           5.1 A necessidade de adequação da meto-
da resposta, tivemos o cuidado, após cada seção
                                                       dologia de intervenção ao contexto das
                                                       ONGs
da entrevista, de repetir o que estava sendo dito
pelo entrevistado e perguntar a ele se o nosso                 Pelo fato de o contexto das ONGs ser diferente
entendimento do que ele tinha exposto estava           do contexto das organizações que compõem o
correto, cumprindo assim o proposto nessa fase.        “primeiro” e o “segundo setor”, para os consultores,
        4°: Transcrever os dados colhidos, pelo        há uma necessidade de adequação ou construção
menos os da análise dos significados nucleares         de novas metodologias de intervenção. Algumas
das respostas acima para uma matriz de dupla           diferenças que, primeiramente, devem ser levadas
entrada: em uma os entrevistados, aproximados          em consideração estão relacionadas às atividades
por características de estratificação, em outra, as    a serem desenvolvidas. A metodologia de cada
perguntas.                                             intervenção deve ser elaborada como fruto do
        5°: Analisar o conjunto, visualizando os       contexto entre a organização e o que é solicitado.
fatos de evidência relativos a cada entrevistado, no   Como foi citado pelo Consultor C, metodologias
conjunto das suas respostas, quando se identificarão   diferentes devem ser utilizadas quando a consultoria
“respostas retardadas” ou “antecipadas”; segundo,      está relacionada a um curso de capacitação, ou a uma
visualizando os fatos de evidencia relativos, ou bem   mobilização ou a uma intervenção organizacional.
como aqueles que dizem respeito a cada uma das         Cabe ressaltar que algumas atividades descritas
perguntas; terceiro, “pairando meditativamente”        como consultorias pelos consultores, para autores
sobre todo o conjunto das entrevistas. Nessa etapa,    como Oliveira (2004), trata-se, na verdade, de
demos início à redação parcial dos resultados,         assessoria ou de treinamento.
cuja elaboração, de forma sistemática, se seguiu à
análise.                                                   A questão da metodologia, a gente define em função
        6°: Submeter aos pares certas observações          do que vai ser feito. Então, conforme o que vai ser
conclusivas do pesquisador, antes que este se sinta        feito, combinado em termo de trabalho. A intervenção
                                                           financeira tem uma metodologia de trabalho própria
autorizado a redigir seu texto, funcionando a praxe
                                                           e, aí a gente estabelece esse caminho a se cumprir. Se
como validação da interpretação.                           é uma intervenção organizacional, uma mobilização,
        Posterior à sistematização das entrevistas,        um curso, então, cada um vai ter um processo dife-
os dados foram analisados sob a luz do referencial         rente. Dentre as existentes a gente seleciona algumas
teórico aqui exposto e, finalmente, foram obtidas          (Consultor C, entrevista em maio de 2007).
algumas conclusões sobre o estudo.
                                                              Outra diferença que deve ser considerada
5 Principais metodologias utilizadas                   está relacionada ao ritmo que deve ser seguido no
pelos consultores nas intervenções em                  trabalho com cada organização. Em algumas menos
ONGs                                                   estruturadas ou mais conflituosas, o processo de
                                                       consultoria deve ser mais lento, o que não acontece
      Nesta seção foram descritos os resultados        em ONGs onde as atividades e o envolvimento dos
obtidos com os consultores referentes às               integrantes estão bem articulados.
metodologias utilizadas no trabalho com ONGs,
aos aspectos relacionados à consultoria direcionada        Cada organização tem seu tempo, não adianta impor
para a elaboração do planejamento estratégico              tempo em uma organização e nem achar que o que
destas organizações, às atividades posteriores             você fez com uma organização em um determinado


                                                   120
tempo, vai dar para fazer com a outra. Eu acho que            No entanto, posteriormente, alguns se
    eles têm muito a ensinar para a gente no que diz res- contradisseram, mostrando que isso seria o ideal,
    peito a processo de trabalho. Você entra nos proces-
                                                          mas que nem sempre é o praticado. Podemos
    sos desenhados o que você acha que eles podem ser,
    como é que vai, como é que fica, mas a agenda nunca
                                                          identificar esta contradição na fala do Consultor F:
    conseguirá ser cumprida. Pelo menos, eu nunca conse-
    gui cumprir exatamente aquilo que eu havia planejado      Que você termina sendo solicitado para contribuir.
    (Consultora I, entrevista em novembro de 2007).           Não assim, para fazer que a solução seja criada, mas
                                                              para você próprio facilitar e dizer, é assim, assim, e
                                                              assim. Eu resistia no começo. Eu achava que a pró-
       A terceira diferença diz respeito à complexidade
                                                              pria metodologia do trabalho das ONGs é a busca
da organização, sendo que a complexidade, para                da construção dos sujeitos, que ele descubra o empo-
o Consultor A, está relacionada ao tamanho da                 deramento. Que ele empodere daquelas coisas para
ONG e às dificuldades enfrentadas pela mesma                  ser autônomo. Então, na minha atividade que é asses-
para que suas atividades sejam concluídas. Desse              soria, planejamento e consultoria, eu tentava e daqui
                                                              a pouco eu mesmo dizia: “está perdendo muito tem-
modo, organizações mais complexas demandam
                                                              po e diz logo” [risos, demonstrando que é uma ação
metodologias que dê conta dessa complexidade                  que ele faz, mas que não é a considerada como ideal]
que são diferentes das utilizadas em organizações             (Consultor F, entrevista em outubro de 2007).
com um nível de complexidade menor.
                                                                   A justificativa para essa ação inadequada,
    Não adianta você achar que todas funcionam da mes-
                                                            de acordo com o Consultor F, está no fato de que
    ma forma, que não é. Cada uma pode ter o mesmo
    número de funcionários, pode trabalhar com a mes-
                                                            construir coletivamente demanda muito tempo e nem
    ma coisa, mas tem complexidades e dificuldades,         sempre o consultor dispõe desse tempo demandado,
    problemas diferentes. (...) Depende de cada caso, do    ou os contratos não levam em consideração a
    tamanho da instituição. É muito relativo, e depende     necessidade deste tempo.
    do tamanho da instituição (Consultor A, entrevista de
    acompanhamento em outubro de 2007).                     5.2 O planejamento estratégico nas ONGs
                                                                    Para os consultores entrevistados, na
       E, por fim, como afirmou a Consultora I,             maioria das vezes, quando se trata de consultoria
a própria diferença na área de atuação dessas               organizacional, as ONGs demandam dos consultores
organizações e a falta de um padrão quanto à                a realização de planejamento estratégico, sendo
sua estruturação as tornam diferentes entre si,             este o ponto de partida das consultorias. É por esse
o que dificulta a estruturação de metodologias              motivo que daremos uma maior atenção para as
padronizadas por parte do consultor.                        etapas da realização do mesmo.
       Assim, torna-se necessário uma adaptação                     Para o Consultor F, o método de planejamento
das metodologias às diferenças das ONGs, o que              para as ONGs é posterior aos anos 90. Antes existia
torna inviável tentar aplicar pacotes com etapas            pouco material voltado para essas organizações.
e propostas totalmente definidas. A experiência             Pensava-se basicamente em projetos de maneira
permite a elaboração de algo sistematizado,                 isolada e não na organização como um todo.
mas esta sistematização deve servir apenas como             Poucas ONGs realizavam um planejamento como
orientação para o consultor. Além da necessidade            instituição, e o embrião desse planejamento foi o
de flexibilidade, com unanimidade, foi considerado          chamado projeto institucional.
pelos consultores que uma metodologia que ajuda o
consultor a direcionar suas atividades é necessária,
                                                                Apareceu uma ou outra ONG falando de projeto insti-
mas as propostas do que deve ser feito, quanto às               tucional que já era um grau acima do que era projeto
tomadas de decisão, deve partir dos integrantes das             específico de execução. O projeto institucional tinha
ONGs e não dos consultores.                                     que falar do objetivo da instituição e tinha que ter pro-


                                                       121
gramas e dentro dos programas, terem projetos. En- vai utilizar em sua intervenção. “Aí tem diferentes
    tão, começam as agências, cobrando um pouco mais experiências, e você vai descobrindo que não tem
    de arrumação das ONGs (Consultor F, entrevista em
                                                       um modelo, não existe. Eu duvido, eu desafio quem
    outubro de 2007).
                                                             conseguir levar um modelo de planejamento para
                                                             ONG, depois de muitas experiências” (Consultor F,
        Como uma evolução dos projetos                       entrevista em outubro de 2007).
institucionais, a partir dos anos 90, os consultores de              5.3 O ponto de partida para o planejamento
ONGs passam a ser demandados para dar subsídios
                                                             estratégico
ao desenvolvimento do planejamento dessas
                                                                     A partir das entrevistas com os consultores
instituições e algumas passaram a elaborar seus
                                                             foi possível a identificação de três metodologias
próprios planejamentos. Como afirmou o Consultor
                                                             de planejamento, sendo todas participativas. O
F (entrevista em outubro de 2007): “aí começaram
                                                             primeiro conjunto de metodologias tem como ponto
a aparecer pequenos roteiros, pequenos manuais
                                                             de partida o diagnóstico e definição de problemas,
de planejamento. E aí, algumas ONGs começaram,
                                                             para buscar suas possíveis soluções de acordo
elas próprias, a fazer seus planejamentos com seus
                                                             com a visão dos integrantes das ONGs. Nesse
métodos”.
                                                             grupo, destaca-se o Método Altadir de Planificação
        Com essa demanda por planejamento,
                                                             Popular (MAAP) que é um método de planejamento
começam a aparecer diversos métodos de
                                                             participativo pelo qual, a partir do diagnóstico da
planejamento e os caminhos propostos pelos
                                                             organização, são planejadas as ações futuras.
consultores, pelos financiadores e pelas ONGs,
                                                             Podemos identificar a presença de atividades que
que começaram a desenvolver suas próprias
                                                             se aproximam dessa metodologia embasados nas
metodologias, passaram, muitas vezes, a ser
conflitantes. Assim, o consultor passa, muitas               falas dos consultores E e F:
vezes, a ter que aceitar seguir certas metodologias
propostas pelos financiadores, ou pelas ONGs, e                  Tem gente que acha que deve partir do Método Altadir
somente quando tem abertura, seguem a sua própria                e começa a construir daí. Tem sua validade também,
                                                                 porque no final você termina construindo uma visão de
metodologia. O Consultor E expõe a existência
                                                                 futuro. Na verdade esse é diferente daquele [método
dessas diferentes fontes de metodologias para o                  baseado na visão futura]. Você vai colocar o proble-
planejamento:                                                    ma, combatendo o problema (Consultor F, entrevista
                                                                 em outubro de 2007).
    Que varia em função do trabalho. Mas basicamen-
    te, tem uma fase de discussão. (...) Você é chamado          Tem um diagnóstico que diz respeito apenas à entida-
    para uma coisa e aí você reformula junto com o cliente       de em si. Eventualmente a parceiros. (...) Depois do
    no caso, o pessoal da ONG, o conjunto das pessoas,           diagnóstico, tem uma devolução para o grupo. En-
    pode ser a pessoa única que encomenda, dependen-             tão o diagnóstico vê basicamente a documentação,
    do do trabalho. Há uma reformulação, isto é comum            conversar com o cara individualmente, tem um rotei-
    em consultoria deste tipo. (...) Então, uma vez o foco       ro também. Depois tem o processamento disso tudo.
    pré-definido, tem umas abordagens que podem ser              A devolução para o grupo, e depois geralmente tem
    mais ou menos participativas, dependendo do traba-           um tempo [risos, relacionados ao fato de depender da
    lho (Consultor E, entrevista em outubro de 2007).            participação dos envolvidos] para eles se apropriarem,
                                                                 digerirem e tal. E, às vezes, tem, e, às vezes, não tem
       Desse modo, não existe um modelo para                     continuidade, depende da escolha do grupo (Consul-
                                                                 tor E, entrevista em outubro de 2007).
a realização de planejamento em ONGs, existem
modelos, sendo estes próprios das ONGs, trazidos
pelos financiadores ou desenvolvidos pelos próprios         O segundo conjunto de metodologias segue
consultores. Tendo em vista esses diferentes modelos os pressupostos da investigação apreciativa, em que
o consultor, dependendo da situação, opta pelo que o trabalho não parte do diagnóstico dos problemas,

                                                         122
mas sim das aspirações dos integrantes do sistema- de 2007) “não se consegue nada com no mínimo
cliente. Parte de onde se quer chegar e não dos dois, três encontros. A gente não consegue chegar a
problemas.                                                   lugar nenhum se não tiver no mínimo três encontros.
                                                             Encontros de dois a três dias. De dois dias é mínimo.
     Se eu for trabalhar, eu gosto de trabalhar com visão de O ideal é de três dias”.
     futuro (Consultor F).
                                                                 5.4 Atividades posteriores ao planejamen-
                                                                 to estratégico
     Expectativas?(Pesquisador)
                                                                        Para os consultores, após a realização
     É muito como eles gostariam de ser? (...) E eu fiz um       do planejamento estratégico, muitas vezes, são
     esquema que é visão de futuro (...). Uma visão de futu-     demandas outras atividades relacionadas ao
     ro, quais são os valores que eles têm. O trabalho é em      acompanhamento do que foi planejado e a
     função destes valores, quais são os objetivos institucio-
                                                                 capacitações dos integrantes das ONGs. Apesar de
     nais, e daí pensar o contexto interno e externo, com
     relação a esta visão de futuro dos valores e objetivos,     pontuais, essas atividades tornam as atividades de
     se ela está para peixe ou não? (Consultor F, entrevista     consultoria mais perenes, o que permite a criação
     em outubro de 2007).                                        de um vínculo mais forte entre consultores e ONGs.


        Com uma última proposta de metodologia,              Depois, eu posso ficar acompanhando, treinando o
                                                             pessoal e apresentando como os passos devem ser.
destaca-se a Consultora I que não segue uma
                                                             (...) Por exemplo, eu fiz uma intervenção, no mês de
metodologia detalhada. Seu planejamento parte                maio. Vou voltar lá agora, a partir de segunda-feira, eu
somente do seu envolvimento no grupo, e embasada             continuo a ver o que está acontecendo e dando con-
em perguntas, vai identificando as necessidades              tinuidade ao que eu sugeri. E, paralelo à consultoria,
do grupo e proporcionando as discussões que                  tem a questão da capacitação. Sempre tem uma capa-
resultarão em propostas futuras. Estas perguntas não         citação, ou antes, ou depois (Consultora J, entrevista
                                                             em novembro de 2007).
têm como objetivo a elaboração de um diagnóstico
sistematizado, mas busca despertar no grupo
questionamentos e respostas que gerem ações para                 No entanto, muitas vezes, o que é considerado
o desenvolvimento da ONG. São utilizadas também como necessidade de planejamento por parte dos
atividades lúdicas e dinâmicas de grupo, como no membros das ONGs trata-se de outra demanda
caso do Consultor G.                                     específica como organização e redução de conflitos.
                                                         Desse modo, cabe ao consultor identificar qual
     Nós nos consideramos consultores perguntadores. Só
                                                         papel ele deve assumir na instituição. Muitas vezes,
     ajuda as pessoas a fazerem as suas próprias pergun- como foi identificado na fala do consultor F, realizar
     tas. Não é que a gente elabora as perguntas para as um planejamento estratégico não é prioritário:
     pessoas não, a gente elabora perguntas que levam as
     pessoas a elaborarem suas próprias perguntas e suas
                                                                     Aí, pronto, na ASA [Articulação do Semi-Árido] nós
     próprias respostas. Ou não, a deixá-las até no ar para
                                                                     descobrimos, ali na hora, nós fizemos uma constru-
     que um dia elas sejam respondidas (...) A ferramenta
                                                                     ção. O que eles queriam? Eles queriam um plano de
     é a pergunta (Consultora I, entrevista em novembro de
                                                                     trabalho para o ano, aquele ano, onde todas as pesso-
     2007).
                                                                     as da coordenação, aproximadamente trinta tivessem
                                                                     responsabilidade nele, porque o que estava existindo
       Independente do ponto de partida ou                           era: pela falta de planejamento, que não era estraté-
                                                                     gico, estava tendo poucas pessoas super atarefadas e
da metodologia utilizada para a realização do
                                                                     muitas pessoas, sem nada para fazer. Um dos planeja-
planejamento nas ONGs essa atividade não                             mentos em que senti o maior grau de felicidade foi este
demanda muito tempo, em média, menos de uma                          que aconteceu na ASA, ou seja, era exatamente aquilo
semana. Para a Consultora I (entrevista em novembro                  que eles queriam, mas só descobri lá na hora. O que

                                                            123
estavam me pedindo antes, na comissão encarrega- para estruturação organizacional, algumas que
    da de organizar, era um planejamento estratégico. Aí, trabalham focadas nos projetos ou que já têm
    eu queria a missão, eu queria os valores? Nada disso
                                                          suas estruturas profissionalizadas, muitas vezes,
    (Consultor F, entrevista em outubro de 2007).
                                                         demandam atividades bem específicas e pontuais.
                                                         Nessas intervenções pontuais, a metodologia de
       Além da etapa da realização do planejamento       intervenção dependerá do serviço demandado,
estratégico, que é realizada em sua maioria em           que pouco se diferencia das demandadas pelas
conjunto com os integrantes das ONGs, as etapas          empresas privadas. Dentre essas demandas,
posteriores, implementação, controle e avaliação dos     estão a aplicação de cursos de capacitações e
resultados são realizadas com a ajuda dos membros        treinamentos, e, a implementação de ferramentas
dessas organizações. Apesar de o consultor, como         gerenciais que o consultor tem no formato de
afirmou o Consultor F muitas vezes, mesmo não
                         ,                               “pacotes” a serem implementados. Porém, mesmo
sendo adequado, aconselhar e fazer propostas, estas      tendo um pacote, por serem ferramentas muito
propostas são apreciadas pelos membros das ONGs          técnicas, torna-se necessário que se tenham
que participam de todas as etapas da intervenção. “Por   algumas adaptações. Essa necessidade foi
exemplo, uma ação na área financeira, muitas vezes       destacada pelo Consultor B, que foi contratado
a gente intervém usando os próprios colaboradores        por uma ONG, para realizar uma capacitação
da ONG” (Consultor C, entrevista em novembro de          em desenvolvimento de competências para seus
2007).                                                   funcionários.
       Em algumas intervenções, são os próprios
membros das ONGs que dão continuidade às                     Ele era muito técnico para um programa de compe-
atividades propostas no planejamento estratégico e os        tências. Era um instrumento de apoio à decisão, que
consultores se afastam da organização. De acordo com         requereria, para ser aplicado melhor, mais tempo e o
alguns consultores, o que dificulta a sua permanência        apliquei em pouco tempo e parte do grupo entendeu
nas atividades pós-planejamento é o fato de nem              e a outra parte não entendeu. Alguns questionaram, e
                                                             não deu para corrigir. O que tive que fazer foi dizer:
sempre as instituições terem recursos para mantê-los.        olha este instrumento aqui é muito valioso, mas não foi
       Desse modo, nem sempre os consultores                 adequado. Então eu pedi desculpa e, hoje, não farei
acompanham todo o processo de estruturação                   de novo (Consultor B, entrevista em maio de 2007).
organizacional. Quando acompanham todas as etapas,
desde o planejamento até a avaliação, eles levam,                Além das consultorias voltadas para
em média, de um a dois anos, o que é considerado         treinamentos, capacitações e elaboração de projetos,
como pouco por eles. No entanto, eles precisam se        algumas são voltadas para a minimização dos
adequar a estes prazos pelo fato de os financiamentos,   conflitos, uma vez que estes são muito acentuados
muitas vezes, cobrirem as atividades somente dentro      nas ONGs. Esse é o caso do Consultor G, cujo
dos limites especificados. Então, como foi afirmado      trabalho se pauta na geração da confiança e na
pelo Consultor E (entrevista em outubro de 2007):        integração dos membros das ONGs clientes.
“depende do dinheiro disponível. Vai depender muita
da demanda e do tempo disponível, mas normalmente
                                                             Todo o trabalho que o Libertas [empresa de consul-
dura um ano. Um trabalho organizacional é cerca de,          toria da qual é sócio] desenvolve, é um trabalho de
no mínimo, um ano”.                                          integração das pessoas dos grupos, nas equipes, nas
                                                             organizações. (...) Trata-se de pessoas que estão lá,
5.5 Metodologias utilizadas nos traba-                       reunidas em grupos e que o processo de integração,
lhos de consultorias pontuais                                normalmente, tem se mostrado rico para Organiza-
                                                             ções Não Governamentais. Porque, muitas vezes, as
      No entanto, nem todas as ONGs, como foi                pessoas vêm de uma educação muito competitiva.
exposto pelo Consultor C, contratam consultoria              (...) A união, a cooperação é simbolizada pelas mãos


                                                     124
dadas, só que as Organizações Não Governamen- Assim sendo, essa metodologia serve somente como
    tais muitas vezes não têm esta visão, até por causa norte para o consultor, mas é extremamente flexível e
    da formação das pessoas (Consultor G, entrevista em
                                                        adaptável às realidades de cada organização.
    outubro de 2007).
                                                                 Se por um lado as metodologias de intervenção
                                                         condizem com a proposta da consultoria artesanal
                                                         (WOOD Jr.; PAES de PAULA, 2004), por outro,
6 Discussão dos                 resultados          e    certas limitações como a realização das atividades
considerações finais                                     em curto prazo levam os consultores, muitas vezes,
                                                         a darem conselhos e a dizerem o que deve ser feito
        Quanto aos serviços de consultorias              pelos integrantes das ONGs. Essa prática inviabiliza
demandados pelas ONGs, podemos afirmar,                  o cumprimento das três tarefas primárias propostas
embasados na definição de Oliveira (2004), que           por Argyris (1970) por não permitir o cumprimento
são demandadas tanto consultorias ”especializadas”       da segunda – propiciar a escolha livre do sistema-
quanto “totais”. No primeiro grupo, estão as             cliente -, o que pode dificultar o desenvolvimento
atividades relacionadas a capacitações, treinamentos,    do comprometimento interno dos integrantes
implantação de ferramentas gerenciais e elaboração       com as decisões propostas. Além de não gerar
de projetos e, no segundo, destacam-se a elaboração      comprometimento, ela pode gerar dependência
de planejamentos estratégicos e atividades posteriores   dos integrantes do sistema-cliente pelo consultor. É
ou resultantes deles. Podemos observar que as            para não ter essa dependência que os integrantes
consultorias especializadas são mais demandadas          das ONGs estudadas por Correia e Vieira (2007)
pelas ONGs mais estruturadas ou que se estruturam        preferem consultores com postura de mediador e não
somente em torno de projetos, e as consultorias totais   de conselheiro.
são demandas por ONGs menos profissionalizadas                   Quanto ao envolvimento dos integrantes
com maior carência para a estruturação administrativa.   nas etapas da intervenção do consultor, há uma
        Com relação às metodologias de intervenção       adequação à proposta de Argyris (1970) de o
utilizadas pelos consultores nas ONGs, por               consultor envolver todos os membros no processo
unanimidade, foi considerado como inadequada a           de intervenção, mesmo que o contato inicial seja
adoção da consultoria de pacote (OLIVEIRA, 2004;         somente com a diretoria da organização. Na
WOOD Jr.; PAES de PAULA, 2004), sendo a consultoria      presente pesquisa identificou-se uma tendência de
artesanal (OLIVEIRA, 2004), que Wood Jr. e Paes de       metodologias participativas, tanto na realização do
Paula (1997) chamam de construtivista, considerada       diagnóstico quanto nas etapas posteriores como
como a mais adequada, uma vez que as realidades          planejamento, execução e avaliação das atividades.
entre as ONGs e as empresas são diferentes, assim        No entanto, nas consultorias especializadas, esse
como, entre as próprias ONGs. Desse modo, não            envolvimento das partes interessadas é bem menor.
existe pacote pronto para se atuar em ONGs, com                  Além da implantação de pacotes vindos das
exceção para as consultorias “especializadas”. É por     empresas privadas de forma acrítica (DINIZ, 2000),
isso que Chapman (1998) alerta as Organizações           foi destacado como um segundo erro praticado pelos
Sem Fins Lucrativos, para terem cuidado com receitas     consultores no processo de consultoria a ONGs o
prontas trazidas pelos consultores.                      excesso de academicismo. A ocorrência desse erro se
        No entanto, torna-se necessário que se           configura como uma das críticas citadas por Wood Jr. e
desenvolvam metodologias por meio das experiências       Paes de Paula (2004) em que o consultor é acusado de
nesse contexto, mas como foi afirmado por Argyris        ser arrogante e de utilizar uma linguagem hermética.
(1970) estas metodologias devem atuar somente            Como os consultores destacaram a necessidade de
como mapa cognitivo das ações do consultor               evitar aconselhamentos e de elaborar propostas em
permitindo que este, consciente de seu papel, tenha      conjunto com os integrantes das ONGs, o excesso
consciência de suas ações prioritárias nesse sistema.    de academicismo pode proporcionar aos consultores

                                                    125
uma percepção de que são detentores do saber que              culdades para pesquisas futuras, como
deve ser “transmitido” para o sistema-cliente, sendo          a distinção entre ONGs, terceiro setor
esta premissa considerada como equivocada pelos               e organizações da sociedade civil; e o
entrevistados.                                                que vem a ser eficiência e eficácia nas
       Diante dos resultados desta pesquisa de                organizações sem fins lucrativos.
natureza exploratória, fica como propostas para            •	 Analisar as metodologias utilizadas pe-
futuras pesquisas:                                            los consultores em cada subconjunto
          •	 Esclarecer de maneira mais aprofun-              de ONGs (nacionais, internacionais,
             dada alguns conceitos que ainda não              micro crédito, educacionais, e outras),
             estão amadurecidos e se constituíram             fazendo as devidas comparações e dis-
             como dificuldades para esta pesquisa             tinções entre os contextos de cada sub-
             e que podem se configurar como difi-             conjunto.

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                                                 127
Avaliação da Qualidade dos Serviços de uma Instituição
   de Ensino Superior Utilizando a Aplicação do Modelo
           Adaptado de Mensuração dos 5 GAP’s
        Evaluation of Higher Education Service Quality through the Adapted Measure Model of 5 GAPs


Rodrigo Navarro Xavier1

Resumo

O desenvolvimento de instrumentos de avaliação institucional aptos a reconhecer a percepção dos clientes
de instituições de ensino superior é de fundamental importância para a adequada prestação de serviços
educacionais. Partindo-se dessa premissa, este artigo apresenta uma adaptação do modelo conceitual de
qualidade em serviço ou modelo GAP à avaliação educacional em um curso de Pós-Graduação de uma
instituição de ensino superior no município de Guarapuava-Pr. Seus objetivos específicos consistem em discutir
sucintamente os modelos de escalas de avaliação da qualidade associados ao ensino de Pós-Graduação,
detalhando as potencialidades e as limitações do emprego dessa técnica em reconhecer a percepção de
qualidade dos estudantes do curso em estudo. Em seus resultados, o trabalho pôde identificar variáveis bem
avaliadas e, também, estruturas, processos e condutas que devem ser aperfeiçoados na oferta dos próximos
cursos. Puderam-se reconhecer, ainda, os grupos com julgamentos distintos e os atributos responsáveis pelos
dissensos, que servirão de parâmetro para a priorização oportunidades de melhoria.
Palavras-chave: Educação; Qualidade em Serviços; GAP5.


Abstract

The development of institutional assessment tools able to recognize the clients’ perception of higher education
institutions is fundamentally important for the adequate provision of educational services. Starting from this
premise, this paper presents an adaptation of the conceptual model of service quality, GAP model or educational
evaluation in a graduate course of an institution of higher education in Guarapuava, Brazil. Specific objectives
consist of discussing, briefly, the models of rating scales associated with the quality of graduate education,
detailing the potential and limitations of this technique in recognizing the perceived quality of the students in the
course studied. In its results, it was possible to identify well evaluated variables, as well as structure, processes and
procedures that must be improved for the provision of forthcoming courses. It was also possible to be recognized,
the groups with different trials and the attributes responsible for dissent, which serve as a parameter for prioritizing
improvement opportunities.
Key words: Educational; Service Quality; GAP5.




1	    Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui Mestrado Profissionalizante em Gestão Ambiental pela
Universidade Positivo - UP Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Processos Biotecnológicos pela Universidade Federal do Paraná
                          ,
- UFPR, Brasil. Contato: baterlino@hotmail.com


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 09/06/2010 - Aprovado em 13/11/2010
Introdução                                               uma ferramenta adequada de avaliação do
                                                         ensino superior deve também estar direcionada à
        Nos tempos atuais, o mercado tem exercido        identificação das possíveis falhas daa instituição
forte influência no setor educacional, isto, devido      em perceber as reais necessidades de seus alunos,
à especialização e à divisão do trabalho dentro          o que contribui para fortalecer o foco da avaliação,
das organizações, o que originou o surgimento de         evitando a ênfase em aspectos secundários do
necessidades por profissionais mais qualificados         processo educacional.
para exercer funções mais específicas e de alta                  Contudo, o desafio da emancipação humana
especialização.                                          permanece presente nas políticas educacionais,
        Segundo Leitão et al. (2007), na última          integrando as visões de “educação para a cidadania” e
década, a educação superior brasileira sofreu            “educação para a competitividade”, que têm orientado
intensas mudanças, especialmente no âmbito de            a reforma do ensino em todos os seus níveis.
Pós-Graduação. Hoje, a Pós-Graduação é um elo                    Tendo esses aspectos como ponto de
importante na constituição das diversas relações que     partida, o artigo pretende apresentar uma
exercem o desenvolvimento tecnológico e científico       aplicação do modelo adaptado de mensuração
do país por meio da interação e parcerias com os         dos 5 Gap’s à avaliação educacional de um curso
sistemas econômico, social e cultural; assim, vem        de Pós-Graduação. Seu emprego ocorreu junto
contribuindo para a formação de profissionais e          aos discentes da pós-graduação lato sensu de
professores para os diversos níveis da economia          uma instituição paranaense, cuja estratégia para
e educação, prestando serviços comunitários e de         captação de alunos baseia-se na oferta de cursos
desenvolvimento estrutural em todas as regiões do        de qualidade e que promovam a diferenciação
país, criando parcerias interinstitucionais e, até,      profissional de seus alunos.
interagindo com empresas para a transferência de                 A relevância deste trabalho deve-se ao fato
conhecimento em setores estratégicos, como o de          de que o aperfeiçoamento de qualquer sistema
tecnologia.                                              educacional depende, necessariamente, de
        Nesse sentido, a pós-graduação tem sido          avaliações, e estas carecem de modelos adequados e
um esteio indispensável à formação de recursos           abrangentes que forneçam parâmetros comparáveis,
humanos de alta qualificação e à produção de             confiáveis e relevantes para a tomada de decisões
conhecimentos necessários para o desenvolvimento         gerenciais e pedagógicas.
científico e tecnológico do país. Esse desenvolvimento
possibilita ao país a atualização de saberes e a         1. O novo contexto do ensino
busca sistemática e metódica do conhecimento de          superior
ponta (CURY, 2004).
        Os cursos de Pós-Graduação e educação                   Na década de 1990, a educação passou
superior crescentemente têm sido reconhecidos como       a ser considerada, sobretudo, promotora de
uma indústria de Prestação de serviços e, como um        competitividade. O novo contexto mundial, marcado
setor da economia, deve canalizar seus esforços em       pela globalização e por uma menor intervenção do
identificar as expectativas e as necessidades de seus    Estado na economia, estimulou a competição entre
principais clientes, que são os estudantes (Cheng &      países e organizações. No sistema produtivo, um
Tam, 1997).                                              novo padrão a ser seguido de métodos e valores
        Segundo Bandeira et al. (1999), a avaliação      dentro das organizações, associado à indústria
da qualidade do ensino superior pode ser utilizada       eletroeletrônica, caracterizou-se pela maleabilidade,
como ferramenta da reforma universitária,                pela conjugação de tarefas e pelo tratamento holístico
fortalecendo um padrão de política educacional           dos problemas, valorizando o poder da criatividade
e contribuindo para o desenvolvimento das                (SOBRAL, 2000). Nesse contexto, educação e
instituições de ensino superior. Desse modo,             conhecimento associam-se ao desenvolvimento

                                                     130
científico e tecnológico dentro das organizações,       literatura, sendo uma das ferramentas relacionadas
que, por sua vez, conduz à competitividade. Com         à mensuração na qualidade de serviços de maior
isso, a formação de recursos humanos tornou-se          importância. Pesquisas utilizando o SERVQUAL em
importante para o ingresso nesta nova era baseada       sua forma direta ou com pequenas alterações têm
no domínio do conhecimento.                             sido feitas por inúmeros pesquisadores
        De acordo com Lovelock (1983), o serviço                Num segundo momento, o modelo
educacional é classificado como um serviço de           SERVIQUAL passou por algumas modificações
ações intangíveis, dirigido à mente das pessoas, de     por meio da redefinição de alguns pontos e da
entrega contínua, realizado através de uma parceria     substituição de outros. As dimensões resultantes
entre a organização de serviço e seu cliente, e,        foram: tangibilidade, confiabilidade, presteza,
apesar de proporcionar um alto contato pessoal, é       segurança e empatia (PARASURAMAN et al., 1991).
de baixa customização.                                  Os autores sustentam que a qualidade em serviços
        A pós-graduação sistemática tem uma origem      é resultado da percepção dos clientes sobre as cinco
recente e, como promotora de graus acadêmicos,          dimensões abaixo:
usufrui de alto grau de flexibilidade organizacional,        •	 Tangibilidade: refere-se aos aspectos
articulada com possibilidades interdisciplinares.               tangíveis do serviço que podem servir de
Além disso, o rigoroso processo de reconhecimento               pistas ou indicadores de sua qualidade
de programas imprimiu um ritmo ordenado na                      como aparência física das instalações,
expansão da pós-graduação (CURY, 2004).                         equipamentos, pessoal e material de
                                                                comunicação;
2. Algumas considerações sobre a
                                                             •	 Confiabilidade: diz respeito à capacidade
qualidade em serviços                                           da empresa prestadora do serviço em
        O interesse pela otimização da qualidade                executá-lo conforme contratado, de modo
em serviços aumentou exponencialmente durante                   confiável e preciso;
a década de 1980. A literatura tem analisado de              •	 Presteza: disposição de ajudar os clientes
forma significativa o importante papel da qualidade             e de fornecer o serviço com prontidão.
dos serviços e como as organizações devem se                    Relaciona-se também à rapidez de respostas
posicionar para alcançá-lo. Segundo Parasuraman                 na correção de erros;
et al. (1985), o estudo da qualidade em serviços             •	 Segurança: refere-se à capacidade dos
surgiu com a preocupação em melhorar a qualidade                funcionários da prestadora de serviço
dos produtos, sendo que o fato das empresas de                  em inspirar credibilidade e confiança nos
bens de consumo experimentarem ganhos em                        clientes, além de conhecimento e cortesia;
competitividade, fez com que as empresas de serviços
se interessassem pela temática. No entanto, as               •	 Empatia: refere-se ao grau em que a
especificidades dos serviços são bastante diferentes            prestadora do serviço é capaz de adequar-
das características dos bens de consumo.                        se para atender as especificidades de cada
        Partindo de uma estrutura que compara                   cliente, ou seja, a atenção individualizada e
expectativas e percepções de desempenho                         cuidadosa que as empresas proporcionam
Parasuraman et al. (1985, 1988 e 1991) propuseram               aos clientes.
uma escala denominada SERVQUAL utilizada para                  Outro modelo de mensuração da qualidade
mensurar e avaliar a percepção da qualidade em          em serviços amplamente utilizado na literatura é
serviços em geral.                                      o modelo conceitual de qualidade em serviço ou
        Desde a sua introdução, o SERVQUAL              modelo GAP que originou-se a partir de estudos
                                                                    ,
tem sido amplamente estudado e utilizado na             realizados por ZEITHAML, PARASURAMAN e BERRY


                                                   131
(1990) e se propunha a encontrar respostas para as          Gap 4: discrepância entre o serviço prometido
seguintes questões:                                 (muito influenciado pelas comunicações externas) e
     •	 Como exatamente os consumidores avaliam o serviço prestado.
        a qualidade de um serviço?                          No ano de 1985, os mesmos autores haviam
                                                    concluído que a qualidade dos serviços poderia ser
     •	 Os serviços são avaliados pelos
                                                    descrita baseada em dez dimensões da qualidade,
        consumidores de uma forma global ou
                                                    porém, posteriormente, no ano de 1988, após
        parcial?
                                                    tentativas de medir essas dez dimensões, eles
     •	 Quais as múltiplas facetas das dimensões revelaram que os clientes só são capazes de distinguir
        de um serviço?                              cinco delas.
     •	 Essas dimensões diferem de acordo com o             A partir do modelo da Figura 1 e dessas
        segmento do serviço?                        cinco dimensões da qualidade estabelecidas como
       E neste estudo foram incluídos entrevistas principais, foram desenvolvidos questionários para
com clientes de quatro setores de serviços: banco determinação dos “gaps”, os quais se destinam aos
de varejo, cartão de crédito, seguros e serviços de clientes externos (gap 5), gerentes (gaps 1 e 2) e
manutenção. As questões utilizadas nas entrevistas clientes internos (gaps 3 e 4)
abordavam quais eram as razões de satisfação
ou insatisfação percebida pelos consumidores;           3. Indicador de impacto
descrição de um serviço ideal; o significado da
qualidade no serviço prestado; e o desempenho                   O cálculo de indicadores de satisfação é feito
da empresa prestadora em relação às expectativas.       a partir de dados colhidos sobre as importâncias
Os pontos comuns observados nas entrevistas             e satisfações dos requisitos do cliente utilizando a
determinaram que o ponto chave da qualidade             metodologia proposta por Kenny e Shike (1994). Esses
de um serviço prestado é atender ou exceder a           requisitos, após terem sido definidos como resultados
expectativa do cliente. Em decorrência disso, a         da pesquisa qualitativa foram submetidos a uma
qualidade de um serviço pode ser definida como          avaliação por meio da aplicação do questionário
o grau da discrepância entre as expectativas ou         a uma amostra estatisticamente representativa do
desejos dos clientes em relação às suas percepções      segmento de clientes. Tal procedimento permite a
(PARASURAMAN et al., 1991).                             determinação da Importância e Satisfação Médias
       Esses autores alertam para a existência de um    Relativas de cada um dos Requisitos do Cliente,
afastamento entre as expectativas do cliente antes de   assim definidas:
receber um serviço e a percepção a respeito desse            •	 Importância Média - Quantificação do
serviço após ele ter sido prestado. Esse afastamento,           grau de importância atribuído ao requisito
denominado de “gap 5”, é o resultado dos outros                 considerado pelo cliente;
quatro “gaps”, como pode ser observado na Figura1.           •	 Satisfação Média - Quantificação da
       Os demais “gaps” são definidos da seguinte               percepção do cliente a respeito da maneira
forma:                                                          como o requisito está sendo atendido.
       Gap 1: discrepância entre o que o cliente               Uma vez colhidos os dados, são calculadas
quer (expectativas) e o que a gerência imagina          as médias de importância e satisfação e os
serem aquelas expectativas.                             resultados são empregados em cálculos que
       Gap 2: discrepância entre a percepção por        buscam agrupar dados segundo critérios de
parte do gerente das expectativas do cliente e as       produtos, serviços, ou dimensões da qualidade.
especificações do serviço.                              Um exemplo é o da determinação da satisfação
       Gap 3: discrepância entre a especificação        do cliente a respeito de uma particular dimensão
do serviço e o serviço prestado.                        representado na Equação 1.


                                                    132
Figura 1 - Esquema do Modelo Conceitual de Qualidade em serviços (GAP5)




Fonte: ZEITHAML, PARASURAMAN e BERRY, 1990.

Equação 1.                                                Onde:
                                                          Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente.
SDk=                         , i € k , k = 1,2…
                                                          Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente.
Onde:
                                                          4. O indicador gap ponderado
Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente,
da dimensão k da qualidade;                                      Observa-se que o Indicador de Impacto
                                                          proposto por Kenny e Shike utiliza o hiato existente
Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente.
                                                          entre a importância e a satisfação do cliente, mas não
       Kenny e Shike propuseram um Indicador
                                                          leva em consideração a expectativa existente nesse
de Impacto dos requisitos do cliente, o produto
                                                          cliente com respeito aos requisitos. A expectativa
da importância média pelo hiato existente entre a
                                                          média pode ser definida como a quantificação da
importância e satisfação média para cada requisito
                                                          percepção do cliente da intensidade com que ele
do cliente representado na Equação 2.
                                                          imagina que o requisito será atendido, ou seja, é
Equação 2.                                                uma pré-concepção do serviço, ou seja, a imagem
                                                          gerada por meio das mais diversas influências
IIi=Ii(Ii - Si)                                           sofridas pelo cliente.


                                                     133
Verificando-se o modelo para a qualidade          de 83%, representados pelos questionários válidos
nos serviços proposto por Parasuraman (1990),             retornados.
nota-se que o mais importante dos “Gaps” é                        Optou-se pela realização do censo em vez
o de número cinco, o qual retrata exatamente              de uma amostragem significativa, atendendo o
a discrepância existente entre a expectativa e a          que observa MATTAR (1996) de que se realizam
satisfação do cliente, o que não foi considerado          censos ao invés de amostras quando a população
no modelo de Kenny (1994). É natural então que            for pequena ou quando houver facilidade em obter
se façam algumas perguntas: Seria a expectativa           dados sobre a população
desprezível ao tratar-se de impacto dos requisitos                A coleta de dados foi realizada ao
do cliente? Como poderia ela ser inserida em um           final de oito módulos do programa do curso,
modelo que viesse a traduzir melhor o impacto de          obtida diretamente junto aos pesquisados. Os
um determinado requisito?                                 questionários foram baseados no modelo dos 5
        Acredita-se que a resposta à primeira             Gap’s adaptado ao serviço educacional, sendo
pergunta seja “não”. Afinal, parece ser razoável          composto por 17 questões sobre as quais os alunos
afirmar que uma grande expectativa acompanhada            opinaram dentro de uma escala de concordância
de uma baixa satisfação também provoque alto              do tipo Diferencial Semântica de cinco pontos.
impacto, e ainda, esses dois parâmetros são de            As sentenças foram divididas em três blocos de
mesma natureza e referem-se à “satisfação antes”          perguntas relativas às generalidades do curso,
e “satisfação após”, podendo ser subtraído um do          dos módulos e dos docentes relatando suas
outro. Já a resposta à segunda pergunta requer            expectativas e percepções sobre cada item. Neste
um pouco mais de cuidado. Assim, após alguns              estudo, considera-se o bloco das variáveis de
testes que empregaram dados coletados, chegou-            percepção do desempenho como o conjunto de
se à expressão denominada Gap Ponderado (GP)              variáveis independentes diferenciada pelos seus
(Equação 3), a qual permite o emprego do “Gap             graus de importância.
5” sem desprezar o peso da importância dos                        Para mensurar a discrepância entre a
requisitos.                                               expectativa dos clientes e a satisfação percebida
Equação 3:
                                                          utilizou-se a metodologia do indicador GAP
                                                          ponderado proposta por Parasuraman (1990).
SP = Ii (Ei-Si) + 18                                              Como o desejo era o de se traduzir o
                                                          afastamento do atendimento dos requisitos do cliente
Onde:
                                                          sem que a expressão assumisse valores negativos,
Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente.   foi necessária a soma do valor 17 (relativo ao
Ei = Expectativa Média do i-ésimo requisito do cliente.   número de questões). Assim, no caso do emprego
Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente.    de uma escala de 1 a 5 (Likert,1932), a expressão
                                                          não assumiria valores negativos, pois mesmo
                                                          que a diferença entre as médias de expectativa e
5. Metodologia
                                                          importância assumisse seu valor mínimo (-4), o GP
       Para o desenvolvimento deste trabalho,             seria igual a zero.
realizou-se uma pesquisa descritiva de caráter                    Buscou-se assim, desenvolver uma expressão
quali-quantitativo com os alunos de pós- graduação        que melhor representasse a oportunidade de
do curso de MBA Executivo em Administração de             melhoria apresentada por alguns requisitos, fazendo
uma faculdade do município de Guarapuava - Pr.            uso do “GAP 5” na forma como foi concebido por
O universo pesquisado foi o conjunto de alunos            Parasuraman, como um meio de fácil identificação
da 3ª e 4ª edição do curso, somando assim um              do grau de afastamento do atendimento a cada um
número de 39 pesquisados. A taxa de retorno foi           dos requisitos do cliente.

                                                      134
6. Resultados e discussão                                             comentados, tarefa esta, facilitada pela verificação
                                                                      das duas últimas colunas da Tabela 1.
        Para o desenvolvimento deste trabalho,                               Após o cálculo do Gap Ponderado, pode-se
realizou-se uma pesquisa descritiva de caráter quali-                 observar que os requisitos “Conteúdo das Aulas”
quantitativo, cujos dados receberam um tratamento                     e “Aplicabilidade” destacam-se como possuidores
estatístico para análise dos resultados.                              dos maiores valores de Gap Ponderado (21,9606
        A figura 2 mostra as médias de Importância,                   e 20,8326 respectivamente), aparecendo em
Expectativa e Satisfação para os dezessete requisitos                 primeiro e segundo lugares na ordem dos
que compõem as dimensões de qualidade do                              requisitos (última coluna da tabela), pois , tanto a
serviço prestado, onde se pode notar a diferença                      importância como o Gap ponderado são elevados.
entre alguns dos perfis apresentados por diferentes                   São os requisitos que merecem a maior atenção,
requisitos. Levando-se em conta os três parâmetros                    ou o que apresentam as maiores oportunidades
(Importância, Expectativa e Satisfação) ao mesmo                      de melhoria.
tempo, torna-se possível inferir quais os requisitos do                      Os requisitos “Coffe-Break” e “Suporte On-
cliente estão sendo os maiores responsáveis pela sua                  line” são os que apresentam os menores índices de
insatisfação e fornecendo uma maior oportunidade                      Gap Ponderado, pois, além de possuir uma baixa
de melhoria ao serviço.                                               importância para o cliente, estão sendo prestados
FIGURA 2.




*Gráfico das médias de Importância, Expectativa e Satisfação para os dezessete requisitos que compõem as dimensões de qualidade do serviço
prestado no curso de pós-graduação.


      É comum a afirmação de que a satisfação                         além das suas expectativas, logo merecem menor
do cliente ocorre quando suas expectativas são                        atenção.
superadas, porém, o GP (Gap Ponderado) não leva                              O requisito “Infraestrutura”, apesar de possuir
em consideração apenas essa discrepância entre                        importância mediana e uma expectativa inferior à
expectativa e satisfação. No cálculo do Índice de                     maioria dos outros requisitos, o valor da satisfação
Gap Ponderado é inserida a multiplicação pela                         do cliente atribuído a esse requisito encontra-se
importância média do requisito, o que requer maior                    próximo ao valor da expectativa, o que faz com que
cuidado com as afirmações a serem feitas. Assim,                      esse requisito também tenha um valor baixo de Gap
alguns perfis representados na Figura acima serão                     Ponderado, merecendo dessa forma pouca atenção.


                                                                  135
Tabela 1 - tabela representativa da mensuração da discrepância existente entre a expectativa e a
satisfação para os requisitos verificados
                                                                    Importância -   Expectativa -   GAP Ponde-    Ordem do Va-
     Requesitos           Expectativa   Satisfação    Importante
                                                                       Satisfação    Satisfação         rado       lor do GAP
   Material de Apoio      4,956521739   4,956521739       3          -0,685548293   1,270973446     20,81292030          3
    Suporte On-Line       4,869565217    3,75136689       1          -2,751366893   1,118198324     18,11819832         16
 Recursos Audio-Visuais   4,869565217   4,869565217       3          -1,102719798   0,766845419     19,30053626         10
     Infra-Estrutura      4,681818182   4,00560897        3          -1,005608974   0,676209208     19,02862762         12
Conhecimento (Docentes)   4,913043478   4,31440666        5           0,685593344   0,598636822     19,99318411          7
      Atendimento         4,681818182   4,29299318        3          -1,292993183   0,388824999       18,166475         15
      Coffe-Break         4,608695655   4,49878363        1          -3,498783633   0,109912023     17,10991202         17
 Despertar do Interesse   4,869565217   3,93340595        4           0,066594045   0,936159262     20,74463705          4
     Aplicabilidade       4,913043478    3,9548953        4           0,045107466   0,958150944     20,83260378          2
  Conteúdo das Aulas      4,956521739   3,96440909        5           1,035590911    0,99211265     21,96056325          1
  Adequação ao Prog.      4,859565217   4,23218022        5           0,767819783     0,637385        20,186925          6
     Carga Horária        4,869565217   4,18291734        4          -0,182917336   0,686647881     19,74659153          8
      Organização              5        4,20424403        3          -1,204244032   0,795755968      19,3872679          9
        Didática               5        4,29019088        5           0,709809123   0,709809123     20,54904561          5
    Relacionamento             5        4,43971845        3          -1,439718451   0,560281549     18,68084465         13
   Cump. de Horário            5        4,69329589        4          -0,693295886   0,306704114     18,22681646         14
 Domínio do Conteúdo           5        4,55618401        5           0,443815988   0,443815988     19,21907994         11


7. Considerações finais                                                A avaliação contínua da qualidade é uma
                                                               ferramenta fundamental não só para mensurar o
       Neste artigo, buscou-se investigar o emprego            serviço como um todo, mas também traz outros
o do modelo conceitual de qualidade em serviço                 benefícios a organização prestadora de serviços,
ou modelo GAP na avaliação da Qualidade dos                    tais como: capturar idéias para a inovação, cultivar
Serviços prestados por um curso de pós-graduação               e consolidar a predisposição à participação por
de uma instituição de ensino no município de                   parte dos funcionários para seguirem as metas
Guarapuava-Pr, segundo o ponto de vista de uma                 propostas pela direção e criar uma visão mais
amostra de clientes (alunos).                                  clara tendo melhores informações para a tomada
       Através do experimento foi possível extrair             de decisões.
informações relevantes em análises dessa natureza,                     Apesar da elevada contribuição que uma
tais como: a expectativa dos usuários quanto ao                análise dessa natureza pode oferecer ao prestador
serviço prestado pelo curso à luz das Dimensões                do serviço, é importante ressaltar que os resultados
e itens da Qualidade; o desempenho do serviço                  apresentados retratam apenas a avaliação da
prestado pela instituição, avaliada segundo a                  qualidade dos serviços prestados pelo curso em um
percepção de uma amostra de usuários; além de                  período específico, segundo o ponto de vista de
obter os Gaps provenientes da diferença entre as               uma amostra de clientes (alunos).
percepções e expectativas dos usuários,                                Nesse sentido, uma análise mais conclusiva
       O curso de pós-graduação analisado, apesar              pode ser obtida a partir da continuidade das
de apresentar posição de destaque e sinônimo de                avaliações, realizadas periodicamente. Além disso,
qualidade na cidade Guarapuava-Pr, ainda precisa,              seria importante “ouvir a voz” dos clientes internos
de acordo com o seu corpo discente (usuários),                 (funcionários) da instituição.
melhorar em alguns aspectos considerados                               Portanto, o estabelecimento de instrumentos
importantes e fundamentais ao avaliar o seu                    de avaliação da qualidade mostra-se indispensável
desempenho nos serviços educacionais promovidos.               para qualquer instituição de ensino comprometida
       Ouvir o cliente não é um fim, é um meio para            com a melhoria de processos e com a satisfação do
melhorar os serviços e pode fornecer informações               aluno, ou seja, seu consumidor. Entretanto, muitas
de valor inestimável e imprescindível para tomada              instituições não possuem métodos formais, legítimos
de decisões futuras, que em alguns casos julga-se,             e validados para identificar a percepção discente
erradamente, serem conhecidas.                                 sobre os serviços prestados.

                                                              136
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                                                137
BRT-ADM/I – Banco de Recursos Tecnológicos: apoio ao
                ensino, pesquisa e extensão
         BRT-ADM/I – Bank of Technological Resources: supporting education, research and extension


Carlos César Garcia Freitas1

Resumo

A presente pesquisa teve a finalidade de identificar recursos tecnológicos que pudessem servir de apoio a
atividade acadêmica no âmbito da pesquisa, ensino e extensão. Para tanto, foi utilizado como procedimentos
metodológicos um estudo exploratório de caráter descritivo, dividido em duas etapas distintas, sendo estas: a)
identificação e análise de alternativas de espaço, para alocação dos recursos tecnológicos e sua divulgação; e
b) levantamento, catalogação e disponibilização de diversos recursos disponíveis que pudessem ser livremente
utilizados no âmbito da instituição de ensino. Como principal resultado da pesquisa, obteve-se a criação
de um sistema de informação, de caráter universal, acessível, oficial, flexível, atualizável e tecnológico, em
formato página da WEB, hospedada junto ao portal corporativo da UNICENTRO, acessado por meio do link
http://www.unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos/, no qual estão disponíveis tecnologias de apoio
à atividade acadêmica, entre elas: softwares, links, documentos e procedimentos.
Palavras-chave: Recursos Tecnológicos; Sistemas de Informação; Ensino, Pesquisa e Extensão.


Abstract

The present researches, it had the purpose of identifying technological resources that could serve as support
the academic activity in the ambit of the research, education and extension. For so much it was used as
methodological procedures an exploratory study of descriptive character, divided in two different stages, being
these: the) identification and analysis of space alternatives for allocation of the technological resources and
popularization of the same ones; and b) rising, cataloguing and disposition of several available resources that
could be used freely in the ambit of the teaching institution. As principal result of the research, was obtained the
creation of a system of information, of character universal, accessible, official, flexible, update and technological,
in format page of the WEB, accommodated the corporate portal of UNICENTRO close to, accessed through the
link http://www.unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos /, in which are available support technologies
the academic activity, among these: softwares, links, documents and procedures.
Key words: Technological Resources; Systems of Information; Teaching, Researches, Extension.


1. Introdução
       Em uma era em que o conhecimento se torna a maior vantagem competitiva a ser conquistada
pelas empresas e o capital intelectual torna-se um dos principais ativos das organizações, é de se esperar
que os olhares se voltem para a gestão do conhecimento e para desenvolvimento de organizações de

1	    Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil. Possui graduação em Administração de Empresas e mestrado
em Administração pela Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da
Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil, nível doutorado. Contato: cesarfreitas@sercomtel.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 10/08/2010 - Aprovado em 26/11/2010
aprendizagem, ou seja, instituições que saibam        concorrência, fruto do avanço do modelo capitalista
conduzir seus integrantes a “aprender a aprender”,    e da integração dos mercados regionais, nacionais
oferecendo-lhes oportunidades para o seu              e internacionais, que expõem as suas fraquezas,
desenvolvimento contínuo.                             frente ao desafio de se manterem competitivas.
       Por outro lado, estudos indicam que muitos     Tais fraquezas dizem respeito à capacidade de
conceitos modernos da gestão das empresas não         criação, diversificação e inovação de seus produtos
podem ser facilmente comunicados através dos          e serviços, como meio de atender a consumidores
métodos e técnicas tradicionais de ensino, o que      cada vez mais exigentes e informados sobre as
acaba resultando em um gap entre a formação           diversas opções disponíveis.
teórica e a prática do administrador, tão almejada            Capacidade esta, que se apresenta como
pelo mercado de trabalho (CARVALHO et al., 1995;      um desafio para o acadêmico de Administração,
ANDRADE et al., 1999; ANDRADE et al., 2004).          requerendo esforços para a compreensão dos
       Muitos desses conceitos advêm do crescente     conceitos teóricos, de uma realidade complexa que,
e complexo processo de globalização econômica         conforme destacado anteriormente, não pode ser
e social vivenciados nas últimas décadas, em          facilmente ensinada através de métodos e técnicas
que as fronteiras geográficas deixaram de             de ensino tradicional (transmissão por via única do
representar uma limitação para os relacionamentos     conhecimento).
interorganizacionais. Como consequência, houve o              Diante disso, o papel das instituições de
surgimento de interações dinâmicas, advindas do       ensino, entre outros, torna-se de suma importância
crescimento quantitativo e qualitativo de variáveis   como incentivadora de profissionais competentes
ambientais, tanto internas como externas as           para o exercício da gestão, ensejando, dessa
organizações, cujo impacto pode ser comparado         maneira, um postura metodológica de ensino que
às mudanças provocadas pela Revolução Industrial.     supra as demandas de instrumentos pedagógicos
Tais mudanças denominadas Revolução Tecnológica       que sirvam de meio à capacitação desses novos
e do Conhecimento têm provocado profundas             profissionais, de forma a encontrar respostas para
modificações nas organizações, principalmente no      as dificuldades de ensino-aprendizagem enfrentadas
processo de sua gestão.                               por professores na formação de seus alunos, por
       Diante deste contexto, surge uma demanda       meio do ensino, da extensão e da pesquisa.
por profissionais que administrem a complexidade              Em resposta a essa demanda, foi desenvolvida
(LÊ BOTERF, 2003). Profissionais que sejam formados   uma pesquisa com o intuito de identificar recursos
não apenas com foco na habilidade (técnica) ou no     tecnológicos que apoiem as atividades de ensino,
conhecimento, que já não são mais considerados        pesquisa e extensão do Curso de Administração,
suficientes para o exercício frente à complexidade.   voltados à formação de futuros profissionais da
Tais demandas exigem dos atuais gestores a atitude    complexidade, embasados pelos pressupostos de
da pró-atividade frente aos problemas e desafios do   confrontação experimental do contexto cultural do
mundo empresarial. É preciso que os profissionais     ambiente profissional, e da promoção do ensino
da sociedade moderna possuam competência para         deslinearizado.
o propósito, que, segundo Brandão e Guimarães                 Resultado do esforço empreendido, houve a
(2002), Lê Boterf (2003), Antonello (2005) e tantos   identificação de recursos tecnológicos norteados pelos
outros, de conceituarem-na como o ato de agir         princípios de aplicabilidade contextual, potencial de
pelo domínio de três dimensões: conhecimento,         complementariedade e legalidade de utilização;
habilidade e atitude.                                 vinculados à promoção de atitudes estimuladoras ao
       Somado ao crescente avanço da complexidade     processo de ensino-aprendizagem. Ainda destaca-
das relações interorganizacionais, as empresas        se a concepção de um “espaço” democrático
ainda se deparam com o crescente aumento da           informacional de tecnologias, direcionado a captar


                                                  140
e institucionalizar novos conhecimentos, visando à           A falta de clareza acerca do projeto-pedagógico reduz
gestão do conhecimento, como arcabouço para a                qualquer curso a uma grade curricular fragmentada,
                                                             uma vez que até mesmo as ementas a as bibliográ-
aprendizagem organizacional.
                                                             ficas perdem a razão de ser. Assim, o que dá clare-
                                                             za ao projeto-pedagógico é sua intencionalidade... o
2. Fundamentação Teórica                                     projeto pedagógico como instrumento de ação política
                                                             deve estar sintonizado com uma nova visão de mundo,
                                                             expressa no paradigma emergente de ciência e edu-
2.1 O Ensino na Educação Superior                            cação, a fim de garantir uma formação global e críti-
                                                             ca para os envolvidos neste processo, como forma de
        A crescente intensidade das relações
                                                             capacitá-los para o exercício da cidadania, formação
internacionais e nacionais, que caracteriza o processo       profissional e pleno desenvolvimento pessoal.
de globalização, tem provocado modificações
significativas no modo de vida das pessoas, assim
                                                                 Nesse contexto, as universidades e demais
como das organizações, em especial no sistema
                                                         instituições de ensino superior “representam um
educacional que busca preparar os indivíduos
                                                         segmento importante no contexto econômico e
para o exercício da cidadania e para a atuação
                                                         social e têm uma parcela de responsabilidade
profissional.
                                                         pelos profissionais que colocam no mercado de
        Apesar de todo o sistema educacional             trabalho” (HANASHIRO; NASSIF, 2006, p. 45). Tal
receber uma forte carga de responsabilidade frente       responsabilidade justifica o constante questionamento
às necessidades de equalização do status quo,            sobre a necessidade de atualização das instituições
diante das pressões de atualização e modernização,       de ensino na busca de um constante ajustamento
o ensino superior sofre maior pressão por ter que        tanto do processo como dos mecanismos utilizados
absorver criticamente tamanha carga de conteúdos         para a formação dos profissionais, de modo que
e conhecimentos e possibilitar meios adequados           possam não somente estar preparados para atuar
de absorção desses aos seus indivíduos formativos.       frente às mudanças, como estar à frente das mesmas.
Essa responsabilidade enseja-se pela própria função
dos cursos superiores em formar e diplomar pessoas       2.2 O Processo de Ensino-Aprendizagem e
nas diferentes áreas do conhecimento, tornando-          a Formação do Administrador
as aptas para a inserção em setores profissionais e              De acordo com Mintzberg (1979), há
para participação no desenvolvimento da sociedade        várias pedagogias disponíveis para pedagogos
brasileira (MEC, 2003; MEC, 2005).                       empresariais. Segundo o autor, a academia
        Ao curso superior é muitas vezes denominado      influenciará a prática de administração, quando
como a “última fronteira”, após o que o indivíduo        for capaz de “ensinar um jogo” de habilidades
deveria estar apto a exercer de modo crítico sua         associadas com o trabalho de administrar.
profissão, participando integralmente, não apenas                Para Mintzberg (1979), da mesma maneira
na manutenção, mas também no desenvolvimento             que o estudante de medicina tem que aprender
da sociedade brasileira. Tal responsabilidade            a realizar um diagnóstico e o estudante de
advém do fato deste ser “portador” de habilidades e      engenharia tem que aprender design, o estudante
conhecimentos promovedores e ampliadores de sua          de administração precisa aprender negociação,
própria atuação profissional, o que se subentende        liderança e outras habilidades administrativas.
estar preparado a conhecer, a compreender e a                    O autor segue, afirmando que aprender
promover novos conhecimentos à cerca do homem            é muito efetivo quando o estudante, na verdade,
e do meio em que vive. Para isso é preciso que o         executa suas habilidades dentro de um ambiente
sistema esteja ajustado em seu processo de formar        realístico, desse modo, o estudante deve ser imerso
e capacitar as pessoas frente aos desafios atuais,       no ambiente, de modo que ele possa praticar a
como destaca Veiga (2000, p. 186):                       habilidade (MINTZBERG, 1979).

                                                    141
Ainda com relação à aprendizagem, Abreu                       Diante disso, trazer para o ambiente de
e Masseto (1996) classificam a aprendizagem em               aprendizado recursos tecnológicos que levem os
três categorias: cognitiva ou de conhecimento, de            alunos a aprimorarem seus conhecimentos, suas
valores e atitudes e de habilidades, indicando que           habilidades e atitudes, mediante a confrontação
o professor lida o tempo todo não só com o que o             experimental do contexto cultural de seu futuro
aluno aprende cognitivamente, mas também com                 profissional, contribuir-se-á para o re-ligare
atitudes e habilidades.                                      destes com o universo da administração (campo
       Além desses aspectos, deve-se lembrar que um          profissional), de modo a desenvolver pensadores
ambiente de aprendizagem, como qualquer outro,               autônomos, que ajam com consciência, autonomia
deve reconhecer a importância do papel da cultura            e responsabilidade, frente às demandas de seu dia-
e do contexto na construção do conhecimento. De              a-dia.
acordo com Moraes (2000), o responsável pelo
processo de aprendizagem deve “compreender que               2.3 Aprendizagem Organizacional e Com-
a construção de conceitos ou o desenvolvimento
                                                             petências – O novo Contexto das Organi-
                                                             zações
de quaisquer outras habilidades intelectuais são
diretamente relacionados com a riqueza ou pobreza                    Possibilitar ao indivíduo aprender de
de materiais existentes na cultura e no contexto, e          modo a agir conscientemente, com autonomia
que são dependentes de certos tipos de modelo                e responsabilidade é um grande desafio que se
fornecidos e reforçados pela cultura”.                       apresenta ao papel do professor, que deve buscar,
       Dessa forma, Moraes (2000, p. 223) destaca            conforme destacado por Abreu e Masseto (1996),
que,                                                         desenvolver uma aprendizagem significativa por
                                                             meio das três categorias de aprendizagem: cognitiva
     Os novos ambientes e métodos de aprendizagem po-        ou de conhecimento, habilidade e atitude.
     dem colaborar para o desenvolvimento de pensado-                O desafio da aprendizagem significativa não
     res autônomos, de cooperação, de diálogo, median-       se restringe apenas ao meio acadêmico, mas também
     te o desenvolvimento de operações de reciprocidade,
                                                             se aplica às organizações, dentro do processo de
     complementaridade e correspondência, o que pode
     ser incentivado com vivencias de trabalhos em grupo     desenvolvimento de seus elementos. Tal aplicação
     na busca de soluções para problemas propostos, que      se dá pela necessidade dessas frente às demandas
     reconheçam a importância da experiência e do saber      das constantes pressões de seu ambiente externo,
     de cada membro do grupo na construção do saber          em virtude da ação dos concorrentes, exigências
     coletivo.
                                                             dos consumidores, interferências internacionais,
                                                             políticas governamentais e ambientais.
         Continuando suas reflexões, Moraes (2000)                   “Em um ambiente cada vez mais complexo,
afirma que, ao criar ambientes de aprendizagem que           demandante e instável, a competitividade
facilitem a vivência dos processos intuitivos e criativos,   organizacional passa a ser determinada pela
que permitam o re-ligare do individuo com o universo,        agilidade que uma empresa tem de mobilizar
é que proporcionará mais autoconfiança, mais                 esforços e adaptar-se internamente para atender
capacidade de enfrentar problemas, mais condições de         às demandas de clientes cada vez mais exigentes”
preservar a integridade e o equilíbrio psico-emocional:      (DUTRA, 2001, p. 72).
“é essa capacidade de reflexão que leva o indivíduo a                Essas pressões cada vez mais fortes e
aprender a conhecer, a aprender a pensar, a aprender         frequentes geram uma constante demanda
a aprender, a aprender a fazer, a aprender a conviver        por adaptação, inovação e criação dentro da
[...] para que possa aprender e estar em condições de        organização. A ênfase diante de tal contexto está na
agir com consciência, autonomia e responsabilidade”          busca pela competitividade, ou seja, manter-se em
(MORAES, 2000, p. 224).                                      condição de competir em seu mercado.


                                                         142
“No contexto de constantes transformações              possíveis entre blocos vinculados por remissões,
em busca de maior competitividade, a aprendizagem             sem estar preso a um encadeamento linear único”,
organizacional surge como uma alternativa de                  ou seja, uma forma de apresentação de um
resposta a essas alterações”, assim destaca Bitencourt        conteúdo de forma não contínua, mas cambiável
(2005, p. 15), o papel da aprendizagem para as                em suas partes, através de vínculos ou nós ligados
organizações que deve servir como instrumento                 por conexões, as quais o leitor pode acessar de
de “desenvolver a capacidade de aprender                      forma autônoma o conteúdo, montando a si
continuamente, tomando por base suas experiências             próprio o conhecimento de acordo com o tempo
e traduzindo esses conhecimentos em práticas                  desejado.
que contribuam para seu melhor desempenho”                           Cabe destacar que tal recurso não é novidade
(BITENCOURT, 2005, p. 15).                                    no meio acadêmico, podendo ser encontrado nos
       Corroborando a definição acima, Antonello              textos em forma de referências, citações, notas de
(2005, p. 27) a partir de uma revisão crítica acerca          rodapé, sumário e índices remissivos. O que existe
dos mais diversos enfoques (socialização, processo-           de novo é a evolução da tecnologia pelos recursos
sistema, cultura, gerenciamento do conhecimento,              computacionais que trouxeram uma verdadeira
melhoria contínua, inovação) sobre a aprendizagem             revolução ao hipertexto, proporcionando uma maior
organizacional a conceitua da seguinte forma:                 aplicação desse ao ensino.
                                                                     Sobre esse aspecto, Valente (2006, p. 1)
    A aprendizagem organizacional é um processo contí-        destaca que os computadores podem “enriquecer
    nuo de apropriação e geração de novos conhecimen-         ambientes de aprendizagem onde o aluno,
    tos nos níveis individual, grupal e organizacional, en-   interagindo com os objetos desse ambiente, tem
    volvendo todas as formas de aprendizagem – formais        chance de construir o seu conhecimento [...]. O
    e informais – no contexto organizacional, alicerçando
                                                              aluno não é mais instruído, ensinado, mas é o
    em dinâmica de reflexão e ação sobre as situações-
    -problema e voltado para o desenvolvimento de com-        construtor do seu próprio conhecimento.”
    petências gerenciais.                                            A liberdade de escolher caminhos e interagir
                                                              de forma “autônoma” ao conhecimento caracteriza
       Pela definição dada por Bitencourt (2005), é           a ação hipertextual e representa não só mais um
possível ressaltar a aprendizagem como o meio de              método de ensino, mas um encontro à realidade da
gerar uma ação por meio de um conhecimento, e                 sociedade moderna, ao que se pode destacar Silva
ligando-a com a definição dada por Antonello (2005),          (2002, p. 25):
tal ação pode ser entendida como consequência
do atributo competência do indivíduo, ou seja,                    Há uma cultura da interatividade historicamente emer-
                                                                  gente. Pode-se dizer que a cena interativa, tomada
competência para realizar a ação, concluindo-
                                                                  genericamente como interação da emissão e recep-
se dessa forma que o papel da aprendizagem                        ção, é tão antiga quanto as primeiras manifestações
organizacional é o de propiciar às pessoas a                      comunicacionais entre seres humanos. No entanto, em
necessária competência para o desenvolvimento de                  nosso tempo, é explícita a pregnância tanto do termo
seu papel.                                                        interatividade quanto de práticas comunicacionais di-
                                                                  tas interativas. No campo das novas tecnologias da
2.4 A Hipertextualidade e os Novos Recur-                         informação da infotecnologia, tal pregnância parece
sos Tecnológicos na Educação                                      ter chegado ao paroxismo, a ponto de o termo passar
                                                                  a ser visto como originário do funcionamento “amigá-
       Houaiss (2001, p. 1536) apresenta como                     vel” e “conversacional” do computador. Também no
definição para hipertexto uma “apresentação de                    campo mercadológico, precisamente a partir da Inter-
                                                                  net, a perspectiva tomada necessariamente como um
informações escritas, organizadas de tal maneira
                                                                  mais comunicacional, torna-se explícita reescrevendo
que o leitor tem liberdade de escolher vários                     o ambiente comunicacional que envolve a comunida-
caminhos, a partir de seqüências associativas                     de de negócios.


                                                         143
Tal contexto explicitado por Silva (2002)              Diante disso Silva (2002, p. 70) destaca
representa bem o “status quo societal”, configurado    que “o professor está diante do desafio que se
por uma emergente cultura de interatividade, que       constitui em conhecer e adotar a metodologia
envolve não somente o campo das novas tecnologias      comunicacional interativa e ao mesmo tempo não
de informação, mas o setor mercadológico,              invalidar o paradigma clássico que predomina na
assim como, a própria configuração social. No          escola”, ou seja, não anular o que existe numa ação
meio de toda essa transformação interativa, de         de troca, mas sim, complementar, numa ação de
informações e conhecimentos que se formam e            soma. “O professor então se dará conta de que tal
informam de modo livre através dos novos canais        modificação significa a emergência de um novo leitor
de comunicação (midias interativas), os indivíduos     [...] Não mais que se submete às récitas da emissão,
passam a criar um modo de ver, interpretar e           mas aquele que, não se identificando apenas como
interagir com seu mundo e trazem consigo aos           receptor, interfere, manipula, modifica e assim
bancos acadêmicos essa herança comportamental          reinventa a mensagem” (SILVA, 2002, p. 71).
contrastando com as metodologias tradicionais                  No esforço de somar ao velho o novo, de
de formação linear do conhecimento, gerando            responder às demandas da sociedade pelo processo
hiatos educacionais, pelo distanciamento do setor      de interatividade e incorporar a hipertextualidade
educacional em relação à prática comunicacional        ao processo educacional, apresenta-se diversos
derivada da interatividade.                            recursos tecnológicos, como: jogos de empresa,
        Alencastro et al (2003, p. 57) destacam        simuladores, plataformas, sites de comunicação,
que “a grande diferença entre a cultura da             softwares educativos e profissionais e diversas
escrita linear e a linguagem hipertextual reside       outras ferramentas; como metodologias adequadas
na deslinearização da comunicação, em que a            de auxílio ao processo de ensino-aprendizagem,
linguagem é construída de forma estritamente           seja pelo desenvolvimento específico do ensino,
linear”, ou seja, uma linguagem não contínua,          como pela pesquisa e extensão, para contribuir na
                                                       superação das deficiências na formação dos futuros
que procede por diversas direções, gerando um
                                                       administradores.
exercício do leitor e consequentemente um ensino
mais interativo e envolvente. Alencastro et al
(2003) destacam a importância dos “novos meios,        3. Análise e Descrição dos Dados
tais como redes de computadores, linguagens                    A pesquisa foi realizada em duas etapas
de consulta a banco de dados, comunicação              distintas, de modo a atender ao seu objetivo o
móvel e outros, ao operarem em suporte digital,        de identificar recursos tecnológicos de apoio
tornam possível saltar de um pensamento ao             ao ensino, pesquisa e extensão do Curso de
outro estabelecer conexões por associação,             Administração da UNICENTRO: a) etapa inicial, de
movimentar-se num texto tal como em uma rede           estudo exploratório, que consistiu na identificação
multidimensional e com isto, aproximar tempos          e análise de alternativas de espaço para alocação
distintos”.                                            dos recursos tecnológicos e sua divulgação; e b)
        Desenvolver a deslinearização da comunicação   etapa final, de estudo exploratório, que consistiu
apresenta-se como desafio à educação, na sua           no levantamento de diversos recursos disponíveis
função de fomento da sociedade; é buscar nivelar a     que pudessem ser utilizados dentro do âmbito da
escola com o espírito de sua época, é poder como       instituição de ensino.
destacado por Abreu e Masseto (1996), possibilitar             Para o desenvolvimento da etapa inicial,
ao aluno uma aprendizagem significativa, ou            foram delineados alguns pressupostos básicos
seja, relacionar o ato de aprender com as suas         sobre o espaço de alocação dos recursos, que,
experiências e vivências, é encontrar no aluno o seu   propriamente dito, consisti num sistema de
próprio caminho de aprender.

                                                   144
informações, que doravante será denominado BRT-                  professor ou em sua prática do dia a dia,
ADM/I (Banco de Recursos Tecnológicos do curso                   “inacessível” aos demais docentes ou
de Administração)..                                              discentes que ora ou futuramente possam
     •	 O BRT-ADM/I foi concebido como uma                       necessitar deste.
        “porta de acesso” a diversos mecanismos                O BRT-ADM/I foi concebido como um
        sejam eles softwares, documentos,               “espaço” democrático no qual os professores
        informações, links, instruções e recursos,      possam arquivar publicamente o conhecimento,
        de modo em geral, que possam servir de          permitindo       que    este    seja      socializado,
        auxílio ao docente, no intuito de aperfeiçoar   promovendo a sua institucionalização. Nesse
        o processo de ensino. Desse modo, os            intuito o BRT-ADM/I está direcionado à gestão
        recursos disponíveis no BRT-ADM/I servem        do conhecimento, por permitir a instituição
        como ferramentas para aprimoramento             gerir conhecimentos e potencializar o processo
        das atividades docentes, assim como,            de aprendizagem tanto dos docentes como
        instrumentos de auxílio aos discentes           discentes; o foco está em prover um mecanismo
        dentro do seu processo de formação;             de aprendizagem organizacional.
     •	 O BRT-ADM/I não foi criado com o intuito               Destaca-se como elemento importantíssimo
        de servir de um repositório de materiais de     a democratização do espaço, uma vez que a
        aula ou mesmo materiais particulares de         participação, como contribuinte, ou usuário do BRT-
        docentes e discentes, mas sim de um local       ADM/I é livre, ficando a critério de cada docente
        que pudesse armazenar conhecimentos             a disponibilização ou não de seus conhecimentos.
        tecnológicos aplicáveis nas atividades          Enfatiza-se, porém o exercício de cooperação
        destinadas ao ensino, pesquisa e extensão       entre profissionais e estudantes, que ora estará
        do curso de administração;                      ajudando, e ora sendo ajudado, e, que além do
                                                        mais, contribuirá para uma melhor formação de
     •	 Os mecanismos dispostos no BRT-ADM/I
                                                        futuros profissionais.
        são dedicados tanto ao processo de
                                                               Outra contribuição importante está na
        ensino-aprendizagem dos conteúdos vistos        divulgação; o conhecimento em sua grande
        em sala, como de sua própria aplicação,         maioria está vinculado a uma aplicação, e estando
        quando cabível, em situações profissionais      ele à disposição pública dos demais professores e
        ou particulares. Exemplo disso, um              estudantes, na hora conveniente, é possível utilizá-
        software estatístico disponibilizado, pode      lo e reutilizá-lo.
        ser tanto utilizado pelo docente em sala               Exposto os pressupostos básicos e
        de aula para elucidação de um conceito,         benefícios da utilização do BRT-ADM/I, esclarece-
        como pode ser utilizado pelos discentes,        se que a escolha desse espaço foi norteada pela
        para realizar uma análise apurada de uma        preocupação de optar por um meio com as seguintes
        pesquisa;                                       características: universal, acessível, oficial, flexível,
     •	 Outro pressuposto básico envolvido              atualizável e tecnológico.
        no BRT-ADM/I é que este sirva como                     O caráter universal do BRT-ADM/I está
        mecanismo de captação e divulgação              na condição de atender a todos os públicos da
        de conhecimento. O professor, sendo             academia, sendo docentes, discentes e demais
        um estudioso e pesquisador de sua               interessados, uma vez que os recursos disponíveis
        área, acaba se deparando com novos              podem ser utilizados tanto em sala de aula como
        conhecimentos, quando, não raras vezes          fora dela, em ambientes profissionais ou não.
        acaba ele mesmo criando. Por sua vez,                  O caráter acessível está na condição de
        esse rico conhecimento fica estanque no         que BRT-ADM/I possa ser acessado em qualquer


                                                   145
ambiente, desde que o usuário interessado tenha                •	 A página WEB pessoal, implicaria uma
acesso a uma conexão de Internet, uma vez que                     apropriação particular do conhecimento,
este está disponibilizado no ambiente WEB.                        o que feriria o princípio da socialização
        O caráter oficial do BRT-ADM/I está em sua                e da democratização do conhecimento,
vinculação com a Instituição de Ensino UNCIENTRO,                 além de ser um mecanismo de custo
mais especificamente com o Curso de Administração                 elevado, e que não permitiria a alocação
do campus Irati, disponibilizado por meio do portal               de recursos públicos para sua manutenção;
da universidade.                                               •	 O sistema moodle por sua vez, apesar
        O caráter atualizável do BRT-ADM/I está na                de ser uma ferramenta direcionado ao
ampla possibilidade da inclusão de novos recursos,                e-learning, apresentava restrições quanto
o que permite uma constante atualização do                        ao limite de espaço destinado dentro
conhecimento, de modo a atender às demandas                       da Instituição, e quanto à exposição
que possam surgir, assim como o aperfeiçoamento                   do conhecimento uma vez que seu
deste.                                                            acesso está vinculado a formalidades
        O caráter flexível do BRT-ADM/I encontra-se               de cadastramento de acesso, o que não
na condição de atender as três áreas de atuação                   permitiria uma exposição direta dos
da universidade, pesquisa, ensino e extensão, assim               recursos tecnológicos.
como, seus desdobramentos. Tal característica vai              •	 Em última análise, a página WEB
ao encontro de um antigo ensejo de uma maior                      corporativa foi a alternativa considerada
aproximação e integração entre elas O caráter                     mais adequada, permitindo a apropriação
tecnológico do BRT-ADM/I consiste na utilização                   coletiva do conhecimento, possibilitando
da mais moderna plataforma em Tecnologia                          a socialização deste, em um ambiente já
da Informação disponível no momento que é o                       financiado pela própria instituição, com
ambiente WEB, que possibilita a democratização do                 amplo espaço para alocação dos recursos,
conhecimento.                                                     assim como exposição destes.
        Tomando os esclarecimentos destacados, foi             A partir das considerações expostas optou-
identificado três alternativas possíveis, sendo estas   se pela criação do BRT-ADM/I no formato página
página WEB pessoal, sistema moodle e página             da WEB, hospedada junto ao portal corporativo da
WEB corporativa. A análise, realizada em conjunto       UNICENTRO, acessado por meio do link http://www.
com um especialista da área de Tecnologia da            unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos/,
Informação, apontou os seguintes aspectos que           tendo sua apresentação visual definida, conforme
nortearam a decisão:                                    figura 2.


Figura 1 – características básicas do BRT-ADM/I

                                                 Universal

               Flexível                                                              Acessivel

                                                BRT-ADM/I

             Tecnológico                                                              Oficial

                                                 Atualizável




                                                    146
Figura 2: imagem do BRT-ADM/I




        Uma vez definido o formato do BRT-ADM/I,       possam ser amplamente utilizados por todo o meio
deu-se a etapa de levantamento de recursos,            acadêmico.
catalogação e alocação, conforme as peculiaridades             Em síntese a análise foi norteada pela
de cada área e seus desdobramentos. A análise de       aplicabilidade no contexto cultural do ambiente
cada recurso levou em conta o potencial deste, o       profissional, pelo potencial de complementariedade
de permitir aos usuários, condições de experimentar    com ênfase na hipertextualidade e pela legalidade
o contexto cultural de seu futuro profissional, ou     de utilização. Tais aspectos estão vinculados à
seja, tornar o conhecimento passado por meio de        necessidade de promover atitudes positivas de
um recurso que faz parte do ambiente que em um         interesse dos acadêmicos em relação aos conteúdos
futuro próximo será seu, desse modo, possibilitando    ministrados, por permitir a eles vivenciarem não
além da compreensão cognitiva, o desenvolvimento       somente o processo de ensino, mas sim ensino-
de habilidades importantes ao exercício de sua         aprendizagem.
profissão                                                      Aplicado no levantamento e análise, os
        Além do mais o recurso foi analisado           aspectos mencionados foram levantados diversos
segundo seu potencial de complementariedade aos        recursos, catalogados e atualmente disponíveis
métodos tradicionais de ensino, que enfatizasse a      no BRT-ADM/I. A seguir é apresentado alguns
hipertextualidade, contribuindo para o entendimento    exemplares:
maior de conceitos complexos em sala de aula.               •	 Área de pesquisa: Links de sites direcionados
        Por fim um aspecto relevante, considerado              à divulgação da produção científica. Esse
na etapa de levantamento, foi a atenção dada                   recurso é de extrema importância ao meio
para a obrigatoriedade legal do conhecimento                   acadêmico, pois serve como meio para um
disponibilizado, ou seja, ele deveria ser de acesso            aprofundamento do conhecimento, assim
livre, consistindo assim em instrumentos lícitos que           como um referencial para a pesquisa científica;


                                                  147
•	 Programa          Estatístico        gratuito,       •	 Software post-it disponibilizado pela 3M que
        desenvolvimento pelo Instituo Mamiraua,                  auxilia os acadêmicos no agendamento de
        em português, de fácil utilização. Apresenta             compromissos
        diversos recursos de auxílio ao planejamento         •	 Software BrOffice que oferece diversos
        da análise de dados em pesquisa. O mesmo                 programas livres de uso geral nas
        foi desenvolvido para aplicações nas áreas               organizações, como: planilha eletrônica,
        das ciências biológicas e médicas, porém,                editor de texto, apresentação de slides,
        por se tratar de um software estatístico, não            entre outros.
        há limitações para aplicações em outras                A lista de recursos descrita não é exaustiva, mas
        áreas do conhecimento. Ainda acompanha meramente exemplificativa destacando-se alguns dos
        um manual passo a passo para utilização principais recursos obtidos. A ampla possibilidade
        do software.                                   do uso do BRT-ADM/I é vasta e a considerar suas
     •	 Mecanismo online para referências, características e a versatilidade de sua plataforma,
        mantido pela Universidade Federal de Santa pode-se dizer que seu uso é quase ilimitado. Ainda
        Catarina, que auxilia na elaboração de é importante esclarecer que BRT-ADM/I, fruto deste
        referências dos mais diversos documentos estudo, não é “algo” final e acabado, mas sim um
        que possam ser pesquisados por alunos e sistema em processo de desenvolvimento, dado pela
        professores.                                   possibilidade de constante aprimoramento.
      Área de ensino, tendo a disciplina de                    4. Conclusões
empreendedorismo e sistemas de informação, como                A considerar o objetivo da pesquisa o de
exemplo:                                               identificar recursos tecnológicos que pudessem
     •	 Links de diversos sites de apoio ao apoiar as atividades de pesquisa, ensino e extensão,
        empreendedorismo         e    sistemas     de do Curso de Administração, compreendendo os
        informação, nos quais, além de artigos passo de levantamento, análise, catalogação
        sobre o assunto, os acadêmicos poderão e divulgação, ela tornou-se possível pela
        encontrar vídeos e materiais de apoio. disponibilização de recursos tecnológicos, em um
        A título de exemplo: sebrae, endeavor, sistema de informação, denominado BRT-ADM/I
        geranegocio, olhar digital...                  (Banco de Recursos Tecnológicos de Apoio ao Ensino,
                                                       Pesquisa e Extensão do Curso de Administração de
     •	 Software de elaboração de plano de Irati).
        negócio, desenvolvido e fornecido pelo                 Constituído com base nos pressupostos de: a)
        SEBRAE-MG, com o intuito de permitir armazenamento de conhecimentos tecnológicos; b)
        por meio de um software atraente e “portal de acesso” a tecnologias de apoio ao ensino,
        dinâmico, a compreensão do processo de pesquisa e extensão; e c) mecanismo de captação
        desenvolvimento de um plano de negócio. e divulgação de conhecimento. Desse modo o BRT-
      Área de extensão:                                ADM/I foi concebido como um “espaço” democrático
     •	 Roteiro analítico para levantamento de no qual os docentes podem arquivar livremente
        dados e diagnóstico organizacional, e publicamente o conhecimento, permitindo que
        desenvolvido e utilizado junto ao curso de este seja captado e institucionalizado, visando à
        administração da UNICENTRO;                    gestão do conhecimento, como arcabouço para a
     •	 Orientação para cópia de vídeos livres aprendizagem organizacional.
        disponibilizados na Internet                           Uma vez concebido o “espaço”, o
                                                       resultado em essência do levantamento foi a
                                                       identificação de recursos tecnológicos norteados
                                                       pelos princípios de aplicabilidade contextual,


                                                      148
potencial de complementariedade e legalidade de     administração, o seu formato pode ser aplicado
utilização. Aspectos estes vinculados à promoção    a qualquer curso de formação, sendo a grande
de atitudes estimuladoras ao processo de ensino-    contribuição do presente estudo a disponibilização
aprendizagem.                                       de um recurso modelo à comunidade acadêmica,
        Por fim, vale ressaltar que apesar do       direcionado a apoiar atividades de ensino,
BRT-ADM/I estar direcionado ao curso de             pesquisa e a extensão.
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                                                149
Dados de Clientes no Customer Relationship
         Management (CRM): estudo de casos múltiplos no
                 desenvolvimento de software
     Clients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiple cases study for software
                                                development


Flávio Régio Brambilla1

Resumo

Para que ações de Customer Relationship Management (CRM) sejam efetivas, não basta apenas o desenvolvimento
de tecnologias inovadoras. É preciso que essas ferramentas sejam alimentadas com dados pertinentes. Ainda,
que sejam corretos e os mais completos possíveis. A fidelidade dos dados de clientes é necessária, para que as
ações do Marketing de Relacionamento por meio das soluções de CRM sejam adequadas. Este artigo está dividido
em duas etapas. Na primeira, foi desenvolvido o panorama teórico. Na etapa seguinte, foram feitas análises
empíricas, através de Estudo de Caso na relação entre empresas desenvolvedora e usuária de CRM. Através da
condução de entrevistas semi-estruturadas com gestores responsáveis nas respectivas empresas, foram obtidos
subsídios que suportam a relevância do adequado uso dos dados de clientes, e também a importância do
entendimento e comunicação entre empresas durante a elaboração de uma ferramenta de CRM. Mais que uma
referência técnica, a elaboração dos perfis de clientes, com base em dados coletados pela firma, permitem ações
de relacionamento mais próximas dos desejos dos clientes e ações de marketing direcionadas adequadamente
ao segmento de mercado almejado. Estudos específicos sobre variáveis técnicas ou operacionais do CRM ainda
são requeridos ao entendimento mais completo desse tipo de solução empresarial. Portanto, além de investigar
o papel dos dados de clientes, futuras pesquisas devem migrar da visão geral de CRM aos componentes
específicos que o compõe, sejam indicadores tecnológicos, organizacionais ou financeiros.
Palavras-chave: Gestão de Marketing; Marketing de Relacionamento.


Abstract

Unilateral development of new technologies is not enough to make Customer Relationship Management
(CRM) actions effective. Alignment with adequate data from these tools is also necessary. Yet, correction and
completeness are required in that set of data. Clients’ data fidelity are necessary to adequate the CRM next to the
conceptual idea of Relationship Marketing. This academic research consists of two steps. Firstly, the development
of theoretical assumptions was carried out. Secondly, empirical analysis based on Case Study research between
developer and client firms which use CRM. Semi-structured interviews were conducted with managers in those
enterprises, where evidence supports the relevance of clients’ data ideal use and the importance of inter-business
communications between firms during the CRM tool development. More than technical report, the consumers’
identification made by the firm, allows relationship actions closely to clients’ desires and marketing actions
conduced to the adequate market segmentation. Specific new studies based on technical or organizational

1	    Professor da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) Curso de AdministraçãoPossui mestrado em Administração e Negócios: Marketing
pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, Brasil, nível doutorado. Contato: flaviobrambilla@terra.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 20/11/2009 - Aprovado em 29/05/2010
variables of CRM are needed to a more complete understanding of that kind of business solution. Throughout
the identification of clients’ data, future research must comprise more than a general CRM vision, to investigate
specific components, technological, organizational or financial indicators.
Key words: Marketing Management; Relationship Marketing.]

1 introdução                                                       Marketing de Relacionamento, para Berry
                                                           (2002), é relativo à atração, manutenção, e aumento
        Como mencionado no artigo clássico de Dwyer,       dos relacionamentos com os clientes. O foco nos
Schurr e Oh (1987) a extensão dos relacionamentos de       relacionamentos com os clientes se dá porque “a
troca contribui na diferenciação de produtos e serviços    elevação da orientação para o cliente resulta em
da empresa, promovendo barreiras às substituições          programas de marketing mais significativos” (IM,
que em muitos casos pode culminar em vantagem              WORKMAN Jr., 2004, p.126). Tem-se que somente
competitiva. Nessa perspectiva, é encontrado em            organizações que constroem fortes e positivos
Veloutsou, Saren e Tzokas (2002), que o marketing,         relacionamentos com os clientes, Rowe e Barnes
como um composto de conhecimento, é concebido              (1998) têm potencial na geração de algum tipo
pelo entendimento dos pontos de relacionamento             de vantagem competitiva sustentável, viabilizando
entre os prestadores de serviços e clientes. A retenção    para a empresa um desempenho superior ao da
de clientes então, Rowe e Barnes (1998), possui uma        concorrência. Manter uma base de clientes rentáveis
série de vantagens, como os baixos custos de esforços      e fiéis baseia o Marketing de Relacionamento e
para os clientes que retornam e os efeitos positivos nos   nada mais é do que um conjunto de práticas de
resultados financeiros, além da criação dos conhecidos     marketing, “para que os clientes continuem como
advogados da organização, os quais positivamente a         clientes” (BERRY, 2002, p.70). As ações de CRM
divulgam. Entende-se que o cliente já conquistado, e       são suportadas pela filosofia do Marketing de
que realmente gera valor para a organização, deve          Relacionamento, e conforme Sheth e Parvatiyar
ser o foco da excelência nos serviços, porque manter       (2002), tratam do entendimento dos clientes, em
um cliente é reconhecidamente mais barato do que           especial quanto aos seus comportamentos de compra
prospectar novos clientes. Esforços de marketing           e desejos. Rowe e Barnes (1998) afirmam que uma
em retenção são significativamente mais efetivos do        vantagem competitiva existe quando a organização
que identificar novos segmentos de clientes a serem        explora estratégias que gerem valor para os clientes,
conquistados.                                              não desenvolvidas pelas empresas concorrentes ou
        Para Verhoef (2003, p.30), “empresas podem         potenciais concorrentes e, que o cliente entenda
utilizar as mesmas estratégias tanto para a retenção       como uma relação de troca justa. Quando a empresa
de clientes quando para o desenvolvimento de sua           trabalha para escutar e responder às demandas dos
segmentação”, o que proporciona a adoção de                clientes e para interagir de maneira mais próxima,
um conceito que incorpore todos esses aspectos             compartilhando informações, a tendência é que
no trato com os clientes. Trata-se do propósito            a empresa proporcione produtos e serviços mais
deste estudo, que traz o CRM, como uma extensão            significativos por programas igualmente significantes
do Marketing de Relacionamento com suporte                 (IM, WORKMAN Jr., 2004). Esses preceitos
tecnológico. Diz Winer (2001, p.99), que “o serviço        relacionais constituem a base formativa do CRM.
ao cliente precisa receber o status de alta prioridade             Customer Relationship Management (CRM)
no ambiente organizacional”. Esta é a essência do          é o ‘gerenciamento dos relacionamentos com os
CRM, composto por uma complexa relação entre               clientes’. É definido como uma abordagem gerencial
marketing e tecnologia, tendo em vista o adequado          orientada à identificação, atração e retenção dos
trato com os clientes, especialmente os que geram          clientes. Objetiva-se maior rentabilidade para
maior valor à empresa. O primeiro conceito a ser           a empresa mediante ações de identificação e
explorado é o do Marketing de Relacionamento.              aumento nas transações com os clientes de maior

                                                      152
valor (WILSON, DANIEL, McDONALD, 2002), em               modelos de sequência de compras que permitem a
que estes percebam que existe justiça interacional       identificação de quais clientes serão os compradores
nas relações (AUH et al., 2007). CRM é focado na         de quais produtos e quando”. Trata-se do tema
automação e melhorias dos processos de negócio           central desenvolvido neste artigo.
associados ao gerenciamento dos relacionamentos                  Como problema de pesquisa norteador da
com os clientes em vendas, serviços e suporte. Nesse     investigação é proposto o questionamento: Qual
sentido, Lin e Su (2003, p.716) definem CRM como         a relevância da gestão de dados dos clientes na
“a chave da competição estratégica necessária para       relação de criação das soluções de software entre
manter o foco nas necessidades dos clientes”. É uma      uma empresa desenvolvedora e outra consumidora
ferramenta relacional.                                   do sistema de CRM? O objetivo do estudo consiste
        Wilson, Daniel e McDonald (2002), o              em melhor entender como é desenvolvida uma
apresentam como um conjunto de processos e               solução de relacionamento com clientes na relação
tecnologias que suportam o planejamento, execução        Business-to-Business (B2B), através de implantação
e monitoramento dos consumidores. Para Dwyer,            de um sistema de CRM, assim conduzida uma
Schurr e Oh (1987) a extensão dos relacionamentos        análise empírica qualitativa que capture a relação
contribui na diferenciação de produtos e serviços.       entre empresa de desenvolvimento de CRM e sua
É relatado por Berry (2002) que bons serviços são        cliente e usuária da solução.
necessários para que a retenção dos clientes ocorra.             Tem-se a seguir, uma discussão conceitual
Como apresenta Winer (2001), a meta global dos           acerca da utilização dos dados de clientes, seguida
programas de relacionamento consiste em entregar         do método de pesquisa. Na etapa empírica, foram
satisfação ao cliente, superando a concorrência.         analisadas duas empresas, a ‘Alpha’, vendedora
Ainda, Winer (2001, p.99), diz que “o serviço ao         das soluções de CRM, e ‘Beta’, usuária do software
cliente precisa receber o status de alta prioridade      desenvolvido pela primeira. Foram utilizadas
no ambiente organizacional”. Croteau e Li (2003)         evidências qualitativas na análise dessa situação de
relatam que grande número de organizações                negócio entre empresas.
reconhece a importância de focar os negócios na
estratégia de orientação ao cliente, o que requer        2 Caracterização dos dados de clientes
a incorporação da base de conhecimento dos
mesmos. O’Malley e Mitussis (2002) alertam que                  Como critério primário sobre os dados de
na ausência da cultura focada em Marketing de            clientes, a fidedignidade é um dos mais importantes
Relacionamento, não são entendidos os processos          requisitos, para que ações de relacionamento
de CRM. A utilização do CRM não é uma solução            sejam viáveis. Lembram Nogueira, Mazzon e Terra
de cunho exclusivamente tecnológico, mas sim,            (2004) que é muito importante a eliminação de
relacional. O “CRM é uma estratégia de negócio;          problemas que possam distorcer o perfil e hábitos
não apenas um aparato de software” (RAGINS,              dos clientes, por exemplo, disfunções como
GRECO, 2003, P    .29).                                  redundância e duplicidades. Pedron (2001) lembra
        Verhoef (2003, p.41) comprova que “o             que os dados armazenados sobre a clientela
compromisso afetivo é um antecedente da retenção         de uma organização podem prover vantagens,
de clientes e do desenvolvimento da segmentação”,        como acessibilidade aos clientes, mensuração
ilustrando o foco em clientes. Em termos estratégicos,   das transações efetuadas, e, mais importante, a
CRM pode ser vislumbrado como a pretensão de obter       possibilidade de delimitar segmentos e clientes
uma vantagem competitiva, através da conquista           individuais para prover a solução de negócios
do cliente (ROGERS, 2003). Para Rust et al. (2004,       que melhor se adéque a suas necessidades,
p.80), “uma base de dados de clientes pode ser           desejos e aspirações. A captação e o registro
utilizada pela empresa para o desenvolvimento de         das respostas fornecidas pelos consumidores são


                                                    153
críticas no processo de identificação e coleta de     para uma comunicação efetiva com o cliente. CRM
dados dos clientes, e também na prospecção de         é uma iniciativa de marketing com vistas ao contato
clientes potenciais que ainda não interagem com       com os clientes, desenvolvida por meio de suporte
a organização.                                        tecnológico, o que permite mesmo para grandes
        Para que dados obtidos no contato com os      corporações, com grandes carteiras de clientes,
clientes sejam de valor, Pedron (2001, p.26) afirma   a projeção de campanhas e ofertas condizentes
que “o real valor do processo das comunicações        a cada categoria ou segmento almejado. Para
integradas de marketing reside no fato de ser         Bretzke (2000), a estratégia de CRM possibilita que
naturalmente circular, em que dados dos clientes      a empresa se torne orientada para clientes, através
são coletados, analisados, armazenados e a cada       da utilização dos dados de clientes existentes nos
interação com o cliente, novamente atualizados”.      sistemas de informação, possibilitando a obtenção
Devem-se relevar mais do que os pressupostos          de uma sustentável vantagem competitiva. Existe
já referidos, Nogueira, Mazzon e Terra (2004),        a importância de capturar dados dos clientes em
incorporando atenção a fatores igualmente             todos os pontos de contato da empresa, como por
críticos, como segurança, garantia de integridade,    exemplo, sistemas de call center, em orçamentos,
e privacidade. A adequada combinação desses           vendas diretas ou pela web, etc. Os múltiplos
elementos promove o CRM de qualidade. Aos             pontos de relacionamento com o cliente favorecem
requisitos já mencionados, Churchill e Peter (2003)   a construção de históricos e perfis de clientes mais
adicionam a questão ética, que compõe o conjunto      próximos da realidade de seus múltiplos contatos
de princípios e valores morais que preconizam as      com a empresa. Esses dados, depois de agrupados
condutas, do indivíduo ou grupo de indivíduos, e      em bancos de dados, devem ser analisados em
orienta as atividades aos preceitos morais de uma     sua totalidade, categorizados e direcionados aos
sociedade. Pedron (2001) ressalta a dificuldade       vários pontos de contato com os clientes, onde a
de manter a privacidade dos dados em virtude da       informação será utilizada para uma melhor interação
facilidade com que as tecnologias de informação       entre a empresa e o cliente. Hansotia (2002, p.121)
proporcionam coletas, processamento, transmissão      salienta que “CRM é essencialmente um esforço
e armazenagem de dados, principalmente quando         intensivo com dados de clientes”.
postas em pauta tecnologias de comunicação e                  No centro do CRM, está a habilidade
a internet. Para o uso em marketing, por meio da      organizacional de nivelar dados para projetar e
utilização de sistemas de CRM, os dados de clientes   implantar estratégias focadas em clientes. Missi,
devem ser armazenados e restritos aos bancos de       Alshawi e Irani (2003, p.1607) corroboram com
dados, com o consentimento dos clientes, cientes      essa afirmativa, porque para eles “a essência do
da utilização restrita dos mesmos no provimento de    sistema de CRM implica entender, controlar e
vantagens ou de ofertas específicas da firma com a    otimizar os negócios e o gerenciamento dos dados”
qual transacionam. Esse aspecto é potencializado,     de clientes. Campbell (2003) diz que para os
quando analisadas as práticas de vendas de bancos     dados de clientes serem utilizados adequadamente,
de dados que muitas organizações conduzem             devem ser transformados em informações de
de maneira não consentida, expondo clientes e         clientes e integrados aos processos de marketing.
delegando informações não permitidas a terceiros.     Os processos da empresa geram e integram
        Segundo Bolton e Steffens (2004), a           informações específicas dos clientes, que propiciam
habilidade da firma em entender a privacidade e as    condições ao uso de CRM. Shoemaker (2001) diz
preferências dos clientes ao longo das transações     que é nas interações com clientes o ponto de coleta
realizadas, guia as campanhas e os processos de       e utilização dos dados e informações, que devem
marketing. Sob tal ótica, diz McKim (2002), que os    sistematicamente compor o conhecimento de
dados ajudam na descoberta do que é necessário        clientes. Os softwares de conhecimento de clientes


                                                  154
oferecem ferramentas tecnológicas para segmentá-         relação Business-to-Business (B2B). As questões
los e interagir com base em contatos prévios, nos        desenvolvidas foram orientadas pelos preceitos
quais são estipulados comportamentos esperados e         abaixo relevados sobre dados de clientes:
predições de negócios futuros.                                •	 Obrigatoriedade da fidelidade dos dados
        A diferenciação de clientes é fundamental às             de clientes em ações de CRM;
estratégias de CRM. Conforme Ferreira e Sganzerlla            •	 Operações de CRM efetivas são relacionais
(2000), diferenciação e categorização dos clientes               e informacionais;
representam as oportunidades de maior faturamento
                                                              •	 Privacidade e ética com os dados de clien-
para empresa. A preferência imediata das ações de
                                                                 tes é compromisso indispensável;
CRM é direcionada aos clientes de maior valor, porque
são eles que sustentam a atividade empresarial.               •	 A qualidade nos dados de clientes deve
        Boon, Corbitt e Parker (2002), trazem outra              proporcionar a tomada de decisão.
implicação relativa aos dados de clientes. Os autores         •	 Os dados, necessariamente, viabilizam de-
argumentam da importância de classificar dados por               cisões estratégicas no CRM;
categorias, por exemplo, valor de clientes, e ainda           •	 Diferenciação e categorização dos clientes
relevar outras características individuais, como                 são práticas essenciais.
preferências, hábitos, renda, escolaridade, classe
                                                                 Os preceitos que guiaram a etapa empírica
ou segmento social, constituição familiar, etc. Na
                                                         deste estudo são os seis supracitados. Através desses
mesma linha, Papatla, Zahedi e Zekic-Susac (2002,
                                                         postulados, foram analisadas as relações comerciais
p.456) dizem que “a modelagem do comportamento
                                                         entre uma empresa de desenvolvimento e uma
e das escolhas do cliente são características comuns
                                                         usuária de CRM. Outros conceitos importantes estão
em muitas aplicações de data mining (em geral),
                                                         contemplados nessa caracterização da ferramenta/
e em CRM (em particular)”. Trata-se da utilização
                                                         filosofia de CRM, como as distintas faces de
imprescindível dos dados de clientes, para que um
                                                         aplicação. Basicamente, o CRM pode ser subdividido
CRM atinja os propósitos de maximizar transações,        entre CRM Operacional e CRM Analítico.
diferenciar clientes e obter deles melhores retornos             Conforme delimitado em Bampi, Eberle
em troca de serviços justos e que ampliem a              e Barcellos (2008), o CRM Operacional é o
satisfação dos contratantes. Wilson, Daniel e            primeiro estágio na concepção de um sistema de
McDonald (2002) relatam que a segmentação pode           relacionamento com clientes. Nessa etapa, o foco
ser vista como a simplificação da carteira de clientes   está nos relacionamentos, mais precisamente na
individuais, separando-os por grupos com base em         construção de relacionamentos com base em
similaridades e comportamentos. Segundo Srivastava       eficiência e eficácia operacional, etapa esta
et al. (2002, p.18), a “segmentação de clientes é a      condizente com os processos de implantação de
divisão da população total de clientes em grupos         algumas ferramentas de contato, por exemplo,
menores”, através de critérios que os agrupam em         Call Center e Sales Force Automation. Com escopo
diferentes perfis. Parvatiyar e Sheth (2001) advertem    mais aprimorado, o CRM Analítico consiste na
que a empresa precisa ser seletiva em correlacionar      busca de conhecimento ampliado do cliente, tendo
e integrar as informações de marketing, através de       em vista análises mais aprimoradas e criação
uma segmentação e seleção apropriada de clientes,        de campanhas relacionais para atender aos
customizando ofertas adequadamente.                      consumidores de maneira mais próxima de seus
        Tendo por base a construção teórica              interesses (BAMPI, EBERLE, BARCELLOS, 2008).
desenvolvida, foram definidos critérios relevantes       Podem ser vistos como etapas complementares de
para a investigação nas empresas. Desenvolveu-           uma solução CRM.
se o estudo na relação entre duas empresas,                      Dentre outras ferramentas de contato com
caracterizando o tipo de negócio como uma                clientes, duas sobressaem diante dos objetivos do

                                                    155
estudo, centrado em dados de clientes. A primeira       uma maior familiaridade com o problema” de
é o Call Center, definido como uma forma de             pesquisa.
contato dinâmico com os consumidores, através                   Basicamente foram adotadas três técnicas
do uso do telefone como ferramenta para a               na condução da coleta de dados deste estudo.
efetividade das práticas de marketing relacional,       Entrevistas semi-estruturadas, com base nos seis
em especial quando operacionalizadas com base           indicadores já referenciados (fidelidade dos dados;
em CRM (BRAMBILLA, SAMPAIO, PERIN, 2008).               relacionamentos com base em informações;
A segunda, Sales Force Automation (SFA), ou             privacidade e ética com os dados de clientes;
Automatização da Força de Vendas, que para              tomada de decisão; postura estratégica e;
Brambilla, Sampaio e Perin (2008) consiste em           diferenciação e categorização de clientes). Para
ferramentas tecnológicas empregadas para auxílio        cada um desses elementos, foram elaboradas cinco
do vendedor em algumas etapas do processo de            questões, totalizando trinta questões de entrevista.
vender, tendo como foco o relacionamento acima          As entrevistas foram aplicadas para dois grupos de
da simples prática comercial impessoal. Conforme        interação entre as empresas, compostos por quatro
identificado em Brambilla (2009, p.8), uma              colaboradores de cada empresa. O acesso ao
iniciativa de SFA proporciona que a organização,        ambiente organizacional foi obtido em função de
por intermédio dos seus vendedores, possa “ter          pesquisas anteriores, realizadas nessas empresas
uma visão melhor do cliente, tomando conta desta        que concordaram em ser novamente selecionadas
relação”.                                               para pesquisa acadêmica. Por solicitação das
        Para   o    melhor     entendimento      dos    organizações, seus nomes serão omitidos. Estão
procedimentos de coleta e análise dos dados, a seguir   tratadas como Alpha e Beta. Ambas são de
é apresentado o capítulo acerca da metodologia          grande porte, localizadas em diferentes partes do
adotada no estudo. Tendo em vista os propósitos         território nacional e podem ser classificadas como
exploratórios de pesquisa, optou-se pela condução       organizações adequadas ao uso de tecnologias
centrada em casos, no B2B.                              de informação e comunicação. A desenvolvedora
                                                        é uma empresa que comercializa produtos e
3 Metodologia de condução da pesquisa                   serviços (multinacional), e Beta uma empresa
                                                        tradicionalmente orientada para serviços (empresa
       Com base nos critérios de observação, a          brasileira de grande porte).
definição metodológica foi orientada ao emprego                 Além das entrevistas, foram utilizados dados
de técnicas qualitativas de investigação. O ponto de    secundários, em especial contratos, manuais e
corte para análise foi na relação entre as empresas     especificações internas das empresas, que apesar
Alpha (vendedora) e Beta (cliente), numa situação       de terem contribuído na análise dos dados coletados
de desenvolvimento do CRM entendida como a              e na elaboração dos resultados, não constam
venda de um serviço co-produzido – ou criação           menções explícitas sobre seu conteúdo. Documentos
compartilhada de valor com o cliente (PRAHALAD,         com informações financeiras da parceria entre as
RAMASWAMY, 2004; BENDAPUDI, LEONE, 2003).               empresas foram vetados de inclusão neste artigo, e
Yin (2001) apresenta como válida a pesquisa que         por isso, desconsiderados também na elaboração
objetiva a investigação de uma realidade específica     dos resultados, direcionados para a análise de
e, conforme seus preceitos, um Estudo de Caso           atributos técnicos, operacionais e relacionais.
atende ao propósito deste trabalho. Classificada        Terceira e última sistemática de intervenção,
como uma pesquisa qualitativa (MALHOTRA, 2001),         a observação do pesquisador foi relevada na
no formato Estudo de Caso (YIN, 2001). Também é         comparação entre documentos e entrevistas, mas
entendida como exploratória, que segundo Vieira         não foram encontradas distorções entre o discurso,
(2002, p.65), “visa a proporcionar ao pesquisador       documentos e o que fora observado nas firmas.


                                                    156
Para análise dos dados, foi adotada a           dos entrevistados de Alpha relatou sobre o CRM
comparação por indicadores, relevando o discurso       desenvolvido que “este produto é desenvolvido para
em ambas as empresas sobre questões relacionadas.      não haver duplicidade”.
Foram feitas perguntas com o objetivo de analisar              Na empresa cliente Beta, um dos gestores
a consistência das versões das diferentes empresas     entende que “a integridade do banco de dados é
para mesmos fatos. Constatou-se que as pequenas        excepcional”. Duplicidade de dados é um problema
inconsistências entre falas dos entrevistados não      descartado, mas problemas de preenchimento e
comprometem a credibilidade dos resultados da          inclusão de dados de clientes, por depender do
parceria B2B. O instrumento de coleta de dados foi     elemento humano, pode ser o ponto gerador de
desenvolvido com suporte teórico do uso dos dados      pequenas discrepâncias. Essa análise é baseada na
de clientes nas operações de CRM.                      percepção das pessoas.
       Finalizando a etapa de elaboração dos                   Quanto aos critérios de relacionamentos
resultados e conclusões, foram observados              e informações, identificou-se que as transações
preceitos de Bardin (1977) e Yin (2001).               correntes são lançadas em bancos de dados
Basicamente, foram agrupados os resultados de          transacionais      sem      que    sejam     alteradas
cada empresa e comparados com o auxílio da             informações históricas consolidadas. Informações
teoria. A base de análise consiste do entendimento     já agrupadas são armazenadas na ferramenta
das similaridades e diferenças entre empresas          de Data Warehouse da Beta, o que é essencial
e entre as fontes de evidência. Apresenta-se a         ao CRM analítico. A atualização sistemática nos
discussão dos resultados, e posteriormente, as         dados transacionais, por exemplo, está alinhada
considerações finais do estudo.                        ao que apregoam as teorias de CRM. Os dados
                                                       de cliente permitem a ilustração da realidade
4 Resultados da análise entre                          de momento do cliente, o que favorece nos
desenvolvedora e usuária de crm                        relacionamentos entre a empresa e o cliente.
                                                       Nesse sentido, a análise deixa claro que os dados
       Para melhor compreensão do cenário da           e modo de coleta e conversão em informações,
relação entre empresas, serão distribuídos os          permitem a prática do CRM.
resultados no primeiro momento integrados na                   Pouco foi identificado sobre a conduta ética na
relação entre Alpha e Beta. As questões empregadas     relação entre empresas e entre a usuária de CRM e o
e a análise foram desenvolvidas de maneira             cliente final. Porém, uma possibilidade importante foi
a agrupar os depoimentos dos entrevistados,            referenciada. Todos os dados do cliente da empresa
detalhando a relação interfirmas. No segundo           Beta, referentes ao relacionamento transacional,
momento, serão apresentadas as sínteses de Alpha,      estão ao alcance do cliente, sejam históricas ou
de impressão da empresa quanto à relação com           especificações de serviços.
Beta, e posteriormente será relevada a impressão               A qualidade de dados foi confirmada, o
de Beta. A análise foi concebida com base nos seis     que proporciona base à tomada de decisões.
preceitos delineados.                                  Como já referenciado, os dados históricos não são
       Quanto à fidedignidade nos dados de clientes,   alterados em operações transacionais, atendendo
as opiniões gerais dos entrevistados demonstraram      aos critérios técnicos do CRM. A composição
em ambas as empresas, incerteza. Porém, todos          de diferentes informações com base nos dados
os indícios e respostas ilustram que a margem          disponíveis promove os caminhos relacionais a
de erro possível não impacta negativamente no          serem desempenhados. A prática de mineração
escopo das aplicações de CRM. Como vantagens           nesses dados é outra evidência da efetividade nas
do sistema, agrupamento adequado dos dados e           práticas de relacionamento utilizadas por Beta, e
a capacidade de atualizações em tempo real. Um         implantadas através de soluções da empresa Alpha.


                                                  157
A tomada de decisões estratégicas também      operação de práticas para a diferenciação dos
foi identificada nessa relação entre empresas e na    clientes, o que serve para, por exemplo, definir
utilização do sistema de CRM por Beta. Entende-se     categorias e modalidades de relacionamentos.
o CRM, nessas empresas, como o “coração” das                  A solução é entendida como uma aplicação
práticas relacionais com clientes. A configuração     de CRM desenvolvida para evitar redundâncias e
e análise dos dados já são, em essência, ações        duplicações, como outros problemas associados à
de características estratégicas. A geração das        inserção de dados. Porém, relatam que, em muitas
informações necessárias para atender aos clientes     empresas, são utilizadas tecnologias de diferentes
com excelência é uma atribuição de CRM. Dados         desenvolvedores e fornecedores de software e
de clientes são revertidos em informações. Estas      hardware, que não permite a garantia de que nas
indicam as evidências comportamentais, por sua        migrações e compartilhamentos de dados entre
vez, convertidas no que pode ser classificado por     tecnologias não venham a ocorrer os problemas de
conhecimento de cliente.                              qualidade e fidedignidade dos dados, seja por erros
        Dos critérios mais relevantes na utilização   ou perdas.
de CRM são destacadas a diferenciação e a                     Alpha é uma empresa de tecnologia que
categorização de clientes. Os dados são utilizados    fornece produtos e serviços prontos, mas também
para estes fins. As empresas entendem que a solução   sob demanda, atendendo aos requisitos de seus
desenvolvida é ideal e que as práticas da empresa     clientes. No caso dos negócios com Beta, o que
que aplica o CRM também estão de acordo com           a empresa fornece é feito a pedido, atendendo
o que a teoria recomenda. Existe a diferenciação      especificidades da empresa cliente. A aplicação
por categorias, ou segmentos, que é uma ação de       de CRM em análise conta com instrumentos online
marketing. Chegam a ser feitas subcategorias de       e integrados, permitindo que a alimentação do
clientes em Beta, o que, segundo os entrevistados     sistema seja conduzida em tempo real. Uma das
de empresa, é um requisito ao tipo de serviço que     utilizações do sistema de CRM em investigação é
desenvolvem.                                          a identificação dos clientes potenciais, e análises
                                                      preditivas.
4.1 Resultados de alpha
                                                      4.2 Resultados de beta
        A desenvolvedora prima em suas soluções,
para que as transações de negócio em realização               Na empresa cliente Beta, quando se fala em
sejam lançadas em base de dados diferente daquela     controle de fidelidade e precisão dos dados, um dos
em que se armazenam dados e informações               entrevistados menciona uma pequena margem de
históricas. No panorama técnico, são desenvolvidas    erro no que a desenvolvedora fornece para utilização
soluções de banco de dados transacionais e Data       com os clientes finais, que não afeta na qualidade
Warehouse, uma espécie de armazém de dados            das operações. Não foi identificada a razão para tal
consolidados. Referenciaram os entrevistados          situação, porém, os entrevistados reconhecem que
que, sua solução é uma ferramenta de aplicação        existe, embora dentro dos limites de tolerância.
relacional.                                                   Confirmou-se a necessidade de categorizar
        O dado transacional, diferente de dados       clientes no negócio da firma Beta, que reconhece
como endereço e outras características que devem      ser uma prática possível com o uso das ferramentas
ser alteradas quando necessário em bancos de dados    fornecidas por Alpha, e é realizada seguindo o
de uso comercial, depois de inseridos no sistema      que recomenda a literatura de CRM. Os critérios
tornam-se rígidos. Esses dados são configurados       viáveis para categorizar clientes são diversos, como
de diferentes maneiras para obtenção de diferentes    por rentabilidade, volume, e periodicidade de
tipos de informações, conforme necessidades do        compras. Entende-se que esse tipo de ranking de
momento. Essa capacidade analítica permite a          clientes é tradicional em CRM para estipular o perfil


                                                  158
dos relacionamentos, transações e dos próprios            que o ambiente pesquisado é propício à condução
clientes, seus gostos, desejos e possibilidades. A        das práticas de Marketing de Relacionamento. O
informação histórica construída na organização é          alinhamento entre empresas permite que o CRM
adequadamente estruturada.                                em pauta seja adequadamente construído. Tais
       Beta converte dados em informações,                pressupostos baseiam-se em observação.
diferencia e segmenta clientes e conduz práticas                  Diante do escopo, dados consultados
efetivas e analíticas de CRM. Resultados já discutidos,   apresentaram aderência com os critérios teóricos
tanto na relação entre empresas quanto em suas            selecionados para análise. Porém, foi detectada,
individualidades, tecem-se as considerações finais e      ainda que tênue, uma margem de erro hoje sem
sugestões para pesquisas futuras.                         impacto nas ações de CRM, mas que sinalizam
                                                          a importância de identificar e tentar sanar essa
5 Considerações finais                                    situação, antes que fique fora de controle e possa
                                                          comprometer a capacidade de ações com dados de
        A solução de CRM proposta na relação              clientes. Mais importante, e relevante, foi identificar
entre as empresas consiste de uma ferramenta              que a situação analisada se trata mesmo de CRM, e
desenvolvida por demanda advinda da empresa               não de um apelo empresarial ao modismo ou erro
cliente, fator qual pode justificar a baixa detecção      de interpretação do que é feito. CRM é constituído
de problemas de adaptação. O serviço prestado             pela filosofia do Marketing de Relacionamento
pela empresa cliente de CRM (mídia/propaganda),           alinhada com Tecnologia de Informação adequada
apesar de complexo é estável, temporalmente               ao contato dinâmico com os clientes, relevando
determinado e, em virtude de suas disponibilidades        as interações e dados armazenados pela empresa
pré-definidas, de fácil gerenciamento para venda.         ao longo do tempo. Esses dados em posse das
O componente de SFA, proporcionado na relação             organizações é que permitem, inclusive em grandes
interorganizacional, ainda que não central aos            corporações, identificar clientes, segmentá-los e
propósitos desta pesquisa, mostra-se outro                proporcionar soluções condizentes com expectativas
facilitador aos processos de pré-vendas, vendas           e necessidades.
e pós-vendas.                                                     A qualidade dos dados impacta diretamente
        Verificou-se, na relação entre empresas e         nos resultados dos programas de CRM. Pesquisas
na aplicação da solução CRM desenvolvida, que             futuras devem relevar não apenas a percepção
a compreensão da utilização adequada dos dados            empresarial, mas a opinião e entendimento dos
no relacionamento com os clientes é entendida             clientes. Entende-se que o cliente, por ser o centro
e praticada pelos envolvidos e instrumentos               da utilização de CRM é o informante mais adequado
investigados nesta pesquisa (conforme informações         na avaliação da qualidade e efeito dos programas
obtidas através das entrevistas). A atualização de        em desenvolvimento e em operação. CRM é uma
dados transacionais em tempo real, e a aplicação          prática de marketing orientada aos clientes, e
online, além da utilização de um depósito de dados        são eles os personagens essenciais nos pareceres
consolidados neste contexto de CRM, deixam claro          acerca da efetividade destas campanhas.

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                                                 161
Storytellings Organizacionais: narrativas contadas
            pelos anúncios e vídeos institucionais
               Organizationals Storytellings: The Narratives Told In The Videos And Ads Institutional


Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros1

Resumo

Este artigo trata do modo como a cultura organizacional de uma empresa é disseminada nos vídeos institucionais
e nos anúncios publicitários, por meio de storytellings ou narrativas organizacionais. Histórias são narradas
em toda cultura e são consideradas um meio de prover o indivíduo de significados, de forma a compreender
o mundo em que vive. As narrativas são símbolos que prevalecem nas organizações, que utilizam storytellings
como um mecanismo para criar, manter e disseminar a cultura corporativa. Partindo de uma abordagem
essencialmente interpretativa, o presente estudo tem como objetivo explorar quais narrativas estão presentes
nos vídeos e anúncios publicitários de uma empresa. Para tanto, propõe-se à análise de anúncios publicitários
e vídeos institucionais de uma empresa, a CVRD, disponibilizados no seu website, para identificar as narrativas
da empresa utilizadas para construir significado. Os resultados evidenciam um conjunto de elementos presentes
nas narrativas da empresa.
Palavras-chave: Storytellings; Cultura Organizacional; Simbolismo Organizacional.


Abstract

This study concerns with the way the organizational culture of a company is spread in institutional videos and
advertisements, through storytellings or organizational narratives. Stories are told in every culture, and are
considered a means of providing the individual with meanings to understand the world we live. The narratives
are symbols that prevail in organizations, using storytellings as a mechanism to create, maintain and disseminate
corporate culture. Assuming an essentially interpretative approach, this study aims to explore narratives presented
in videos and advertisements of a company. Thus, it is proposed the analysis of institutional advertisements and
videos of a company, CVRD, available on its website, to identify the narratives of the company used to construct
meaning. The results show a number of elements present in the narratives of the company.
Key words: Storytellings; Organizational Culture; Organizational Simbolism.




1	 Professora da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Federal de Uberlandia - FAGEN/UFU, Brasil.Possui mestrado em
Administração pelo Centro Universitário de Franca - UNIFACEF, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola de
Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas - EAESP/FGV, Brasil, nível doutorado. Contato: cintia@fagen.ufu.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 28/06/2010 - Aprovado em 18/12/2010
Introdução                                                1.   Storytelling    organizacional:
                                                          organizações como textos
       A partir dos anos 80, quando os estudos sobre
cultura organizacional passaram a fazer parte, de                 A idéia de que as organizações são construídas
forma significativa, da agenda dos pesquisadores          e reconstruídas discursivamente, visto que são faladas,
e interessados em estudos organizacionais, o              escritas, personificadas, codificadas e registradas
tema tem se revelado singular no que diz respeito         (Kornberger; Clegg & Carter, 2006), leva ao
a divergências metodológicas e conceituais.               conceito de polifonia organizacional (Hazen, 1993),
As abordagens de cunho funcionalista tiveram              compreendido como sistemas verbais socialmente
hegemonia nos trabalhos de cultura, desde o seu           construídos, ou a variedade de diferentes discursos
surgimento como campo de conhecimento até as              que constituem a realidade organizacional. De
duas últimas décadas do século XX, quando as              acordo com esses autores, as organizações são
abordagens interpretativas passaram a fazer parte         entidades que persistem, resistem e reproduzem a
da agenda de pesquisadores, que se inspiraram             si mesmas por serem discursivamente constituídas.
nos estudos organizacionais, e, principalmente, na        Desse modo, a polifonia está sempre presente nas
influência da cultura organizacional no desempenho        organizações, mesmo pensando que vozes podem
empresarial, delineando um novo paradigma da              ser silenciadas por discursos dominantes.
área de cultura.                                                  Nessa mesma direção, caminham os estudos
       Este trabalho trata do modo como a cultura         de Putnam; Philipps e Chapman (2004) sobre
organizacional de uma empresa é disseminada nos           as relações entre comunicação e organização,
vídeos institucionais e nos anúncios publicitários, por   que identificam sete linhas metafóricas (conduíte,
meio de storytellings ou narrativas organizacionais.      lente, linkage, performance, símbolo, voz e
Storytelling organizacional é definida como um            discurso) presentes nos programas de pesquisa
sistema coletivo de contar histórias, em que o seu        em comunicação organizacional. Segundo esses
desfecho é fundamental para criar significados            autores, foi na década de 80 que novos campos
(sensemaking) para os membros da organização              de pesquisa em comunicação estenderam seu
(BOJE, 1991).                                             foco para além do tratamento tradicional da
       Partindo de uma abordagem essencialmente           comunicação como uma transmissão variável ou
interpretativa, o presente estudo tem como objetivo       linear. A emergência de temas como a ambiguidade
explorar quais narrativas estão presentes nos             estratégica, as linguagens, os símbolos e a cultura
vídeos e anúncios publicitários de uma empresa, a         organizacional, o discurso público corporativo,
Cia Vale do Rio Doce (CVRD). Para tanto, propõe-          entre outros, deslocou o foco da eficiência da
se à análise de seus anúncios publicitários e             comunicação para as interpretações fundamentadas
vídeos institucionais para identificar como a cultura     no contexto e na situação, desencadeando
corporativa é disseminada por meio de storytellings       diferentes modos de investigar a complexidade do
ou narrativas que constroem significado.                  campo.
       A estrutura do artigo contempla, além dessa                As imagens e metáforas (Putnam et al, 2004)
introdução, outras quatro seções. A segunda seção         são um modo de ver algo, como se isso fosse diverso
apresenta a revisão da literatura, cuja ênfase é          do que é, legitimando ações e fornecendo insights
dirigida para a storytelling organizacional, visando      que permitem criar, compreender e interpretar a
dar sustentação ao desenvolvimento do trabalho.           realidade social. Dessa forma, segundo Putnam et
Na terceira seção, são descritos os aspectos              al (2004, p.81), a metáfora delineia “a maneira
metodológicos e, na quarta seção, os resultados           como vemos o mundo e como lhe atribuímos sentido
encontrados são apresentados e discutidos. Por fim,       – orientando nossa percepção, conceituação e
fazem-se as considerações finais do estudo.               entendimento de uma coisa, à luz de outra”.


                                                      164
As metáforas da performance e do                ambíguo de experiências, ao contrário do que os
símbolo, além de explorarem diversos aspectos da        modelos analíticos pressupõem, visto que naquele
comunicação, incluem a relação entre as mensagens,      existem apenas “registros de ação material e
significado e contexto. Segundo Putnam et al (2004,     simbólica” (SMIRCICH; STUBBART, 1986, P       .726). A
p. 93), a metáfora da performance sugere que “as        idéia de enactement, conforme os autores, abandona
organizações também são narradoras de histórias.        as suposições de que organização/ambiente é algo
Suas imagens e identidades emergem, em parte,           concreto, material, a favor de um mundo simbólico
das narrativas que elas constroem com diferentes        socialmente criado.
públicos”. Nesse sentido, os demais atores (membros)            Diante desse quadro de referência, recorremos
são co-construtores, visto que essa abordagem           ao conceito de storytelling organizacional,
trata a comunicação como um feixe de relações           pesquisado por diversos autores (BOJE, 1991;
que compõem o processo colaborativo no qual as          BOJE, 1995; KAYE & JACOBSON, 1999; GEPHART,
interações sociais e simbólicas ocorrem. Logo, o        1991; MILLS; BOYLSTEIN & LOREAN, 2001; BARRY
caráter multifacetado e pluralista de representações,   & ELMES, 1997; NYMARC, 1999) para discutir
improvisações e narração de histórias, que resulta      como as empresas usam suas histórias para criar
na idéia de que comunicação e organização são           uma realidade comum entre os membros internos e
uma produção conjunta.                                  externos.
        A metáfora do símbolo, segundo Putnam et al             Boje (1991, p.106) define storytelling
(2004, p.94), sustenta-se na idéia que a comunicação    organizacional como um sistema coletivo de contar
funciona como “a criação, a manutenção e a              histórias, cujo desfecho é fundamental para criar
transformação dos sentidos”. Nesse contexto, as         significados (sensemaking) para os membros da
narrativas, como símbolos que são, configuram os        organização. Para Gephart (1991), storytellings
significados da organização tornando-se quadro de       são construídas a partir de histórias sucessivas
referência para os diversos públicos interpretarem      como uma ferramenta ou programa para dar
as ações da organização e, assim, viabilizam o          significado a um evento. Nesse sentido, storytelling
ato de organizar. Essa metáfora emerge da cultura       organizacional é compreendida por muitos autores
organizacional, para projetar a comunicação como        como uma manifestação cultural que, de um lado,
interpretação de formas literárias, tais como, as       pode coagir ou ser uma imposição, no caso de ser
narrativas que, nas palavras dos autores, não são       uma “grande narrativa” ou “grande história”, e, de
simplesmente artefatos das culturas, mas sim, meios     outro lado, pode ser uma construção plural de uma
de persuadir o público visando ao controle social.      multiplicidade de histórias que criam a realidade
        Abraçando a idéia de que os ambientes           (BOJE, 1995; MILLS et al, 2001).
organizacionais são construções, Smircich e Stubbart            O uso de storytelling pelas organizações é
(1986) desenvolveram uma visão para conhecer e          visto por alguns autores como um instrumento para
analisar o ambiente, que denominam de ambiente          disseminação de significados compartilhados dentro
enacted (constituído, aprovado), ressaltando a          das organizações (KAYE; JACOBSON, 1999),
importância da natureza social das organizações         já outros, como Vendelo (1998), sugerem que
para a formação da estratégia e dos processos           storytelling é um mecanismo para legitimação da
organizacionais. Essa perspectiva, fortemente           organização e garantia de sua reputação. Segundo
influenciada pela sociologia do conhecimento            esse autor, narrativas de desempenho futuro têm
de Berger e Luckmann (2001), concebe que a              impacto na reputação de uma empresa junto aos
organização e o ambiente são criados juntos, através    consumidores na medida em que criam expectativas
dos processos de interação social dos participantes     quanto a ela. Storytellings, para Mills et al (2001),
chaves da organização (Smircich & Stubbart, 1986).      são ferramentas motivacionais usadas em grandes e
O mundo enacted é essencialmente um campo               pequenas empresas, para dirigir o comportamento


                                                   165
dos funcionários e, assim, consolidar a cultura              se nesse contexto, visto que implicam uma visão
corporativa. Nesse sentido, storytellings, como              particular de gestão empresarial. Segundo esse
uma produção de conhecimento e poder, são                    autor, o conceito de OSIs é compreendido por quatro
utilizadas pelas organizações como uma técnica               categorias (liderança, comunicação, inovação e
disciplinar de modo a obter o controle social sobre          força de trabalho) que devem ser considerados
seus empregados e, assim, alcançar os objetivos              “como sistemas de significados, metáforas-raizes
pretendidos.                                                 ou geradoras de narrativas” (Wood Jr, 2000, p.23),
        Assim, retomando o conceito de ambiente              cuja função é o gerenciamento da impressão, uma
enacted (Smircich & Stubbart, 1986) e as metáforas           estratégia que se fundamenta na premissa de que
de Putnam et al (2004), storytelling organizacional          a construção da imagem afeta a percepção das
pode ser compreendida como uma forma pela qual as            pessoas.
organizações narram suas histórias, visando construir                O gerenciamento da impressão (GI), segundo
significados. As interpretações dos diferentes sujeitos      Wood Jr (2000), refere-se à utilização, pelos atores, de
são múltiplas, assim, a administração não pode               estratégias de comunicação destinadas a influenciar
prever se esse processo corre, mas pode buscar obter         a percepção e as interpretações da audiência
uma maior influência sobre essas interpretações.             (clientes, outras organizações, empregados,
        Berry e Elmes (1997) preocuparam-se em               governos e outros atores). Goffman (2004), a quem
analisar a estratégia como uma forma de narrativa,           a origem dos estudos de GI é atribuída, compreende
visto que, a narrativa da estratégia é usada para            o GI como a tentativa de estabelecer o significado
construir significado e, consequentemente, explora           ou o propósito de interações sociais, as quais
modos nos quais os stakeholders criam um discurso            dirigirão as ações das pessoas, ajudando a projetar
de direção para compreender e influenciar as ações           as expectativas de papéis.
entre si. Storytelling é, então, conforme Mills, Boylstein           A construção e uso de histórias de sucesso,
e Lorean (2001), uma tecnologia de poder que                 como Wood Jr (2000) ressalta, são uma das formas
fabrica uma realidade para indivíduos, na medida             de GI, e funcionam como sistemas de controle, na
em que criam uma ilusão para consumidores,                   medida em que transmitem o que é relevante, assim
empregados e a comunidade em geral.                          como a forma pela qual as condutas são aceitáveis
        Para Kaplan (2003), as histórias ou narrativas       e aprovadas. As OSIs utilizam-se do gerenciamento
desempenham papel fundamental na criação de                  de impressões, para influenciar comportamentos
significados e na aprendizagem organizacional, o             de forma a alcançar uma interpretação comum
que é compartilhado por Kaye e Jacobson (1999) e             dos eventos que ocorrem no contexto da empresa,
por Weick (1995, p.127): “a maioria das realidades           reduzindo a ambiguidade na construção da sua
organizacionais são baseadas em narrativas”. Além            imagem.
disso, segundo Kaplan (2003), as narrativas ajudam                   As organizações não podem ser registradas
a compreender a complexidade dos sistemas, a não             como apenas uma história, mas sim, como uma
linearidade, a fragilidade das predições e, ainda, o         multiplicidade, uma pluralidade de histórias e
caráter emergente da estratégia. Pentland (1999,             interpretações coletivas, como propõem os autores
p.712) considera que as histórias ou narrativas podem        que analisaram a Disney (BOJE, 1995), a Hewllet-
ser fonte valiosa de insights sobre organizações,            Packard (NYMARC, 1999), a Saturn Corporation
visto que os participantes não apenas atribuem               (MILLS et al, 2001) e a Enron (WHITTINGTON et
sentidos de seu mundo em termos da narrativa, “mas           al, 2003)1. Tais histórias são disseminadas de várias
proativamente planejam e aprovam narrativas que              maneiras ( dentre elas, anúncios publicitários e
são consistentes com suas expectativas e valores”.           vídeos institucionais) e, dessa forma, instituem-se
        As organizações de simbolismo intensivo              narrativas que passam a circular entre os membros
(OSIs), como Wood Jr (2000) denomina, enquadram-             organizacionais.


                                                         166
2. Procedimentos metodológicos                             dos eventos; b) protagonista(s); c) as vozes; d) os
                                                           significados; e e) outros indicadores de contexto.
        Este trabalho tem como foco as narrativas
da empresa e, se sustentando em uma abordagem              3. Storytelling organizacional da
interpretativo-simbólica (HATCH, 1993), busca              companhia Vale do Rio Doce
compreender como os anúncios publicitários e
vídeos institucionais, através de storytellings, são               As informações a seguir referem-se à empresa
usados para construir significado. A abordagem             ( cujos vídeos são analisados) e foram extraídas do
interpretativo-simbólica, segundo Hatch (1993,             seu website, com o propósito de oferecer um quadro
p.669), “compreende a noção de símbolo como                de referência sobre a mesma.
algo que representa um associação consciente ou                    A Companhia Vale do Rio Doce (nesse estudo
inconsciente com algo mais amplo, usualmente um            referida como VALE), originariamente uma empresa
conceito ou significado mais abstrato”.                    brasileira, fundada em 1942, foi privatizada em 1997,
        Tsoukas e Hatch (2001) atribuem a                  quando o Consórcio Brasil, liderado pela Companhia
introdução da narrativa nos estudos organizacionais        Siderúrgica Nacional (CSN), adquiriu 41,73% das
a Czarniawska (1997), que define três abordagens:          ações ordinárias do Governo Brasileiro. Inicialmente,
narrar organizações (relato sobre organizações             a empresa atuava apenas na região Sudeste do Brasil,
usando uma estrutura narrativa como uma                    mas atualmente está presente em outras regiões do país
sequência de eventos),            organizações como        e no exterior. O texto no seu website esclarece que “o
narrativa (pesquisa interpretativa) e coletar histórias    desenvolvimento de um amplo programa de pesquisas
(documentar artefatos culturais e storytellings que        minerais tem por objetivo buscar oportunidades de
criam significado) que é a abordagem escolhida             qualidade e que estejam em sintonia com a estratégia
para este estudo.                                          de crescimento da Vale, garantindo novas reservas
        A seleção do material analisado considerou         minerais para o futuro”.
os vídeos institucionais e publicitários produzidos pela
                                                           Quadro 1 - descrição técnica dos vídeos analisados
Companhia Vale do Rio Doce e disponibilizados em
                                                           Código        Título             Tipo           Data      Duração
seu website (http:/www.cvrd.br). Foram consultados                   Mina de Cobre     Comercial para
                                                             (1)                                       Julho - 2004    60”
26 arquivos, totalizando quatro horas de gravação,                      Sossego               TV
                                                                                       Comercial para   Outubro -
                                                             (2)       Logística Vale                                  60”
aproximadamente, no formato Windows media                                                     TV           2004
                                                                        Campanha       Comercial para
player ou flash. A seleção dos arquivos para compor          (3)
                                                                    Institucional CVRD        TV
                                                                                                       Abril - 2005   1’01”

o corpus da pesquisa foi feita de forma aleatória,           (4)
                                                                       Investimentos        Vídeo
                                                                                                      Fevereiro-2006    1’
                                                                            2006        institucional
ou seja, os arquivos foram numerados de 1 a 26                                              Vídeo
                                                             (5)    Expansão Alunorte                  Março -2006     30”
e, posteriormente, por sorteio, chegou-se aos três                                      institucional
                                                                                            Vídeo
                                                             (6)          Mais Um                      Abril – 2006    60”
anúncios de televisão e três vídeos institucionais que                                  institucional

são objeto de análise neste estudo, considerados                  A análise de um conjunto de seis vídeos
suficientes para as representações que se quer             (quadro 1) produzidos pela empresa examinou quais
caracterizar, conforme orientação de Bauer e Aarts         narrativas estão presentes no material analisado.
(2002).                                                    Da análise, emergiram seis storytellings, conforme
        Para a transcrição dos vídeos, cuja finalidade     descrição a seguir:
é gerar dados para análise (ROSE, 2002),
                                                           StorYtelling 1: A VALE INAUGURA
consideraram-se como unidades de análise duas
                                                           UMA NOVA ERA PARA O BRASIL
dimensões, a visual e a verbal, para compor uma
narrativa ou storytelling. A partir de então, baseando-           No vídeo (1), a narrativa inicia-se com a
se em Barthes (1976) e Pentland (1999), foram              apresentação da empresa e a promessa de um futuro
estabelecidas as categorias de análise: a) sequência       de desenvolvimento, acenando para uma nova era: “a


                                                      167
vale do Rio doce está inaugurando uma nova era no          Tudo, cuja letra reforça a importância da estratégia
Brasil”. A narrativa continua vislumbrando um futuro       da empresa para o país: “Pro Brasil crescer, Vale o
para o Brasil e para a empresa: “a era do cobre,           que quiser, [...] do Sul ao Norte, onde, onde vier,
uma era em que o Brasil vai passar a ser exportador        essa Vale, por alguns caminhos, leva o que tiver,
de cobre”. Uma “era de mais desenvolvimento e              vale leva pelo Brasil afora, tudo o que você quiser”.
empregos para o Pará” é a narrativa da estratégia da               Ao final do vídeo (2), o locutor encerra com
empresa: crescer, expandir e diversificar. Na dimensão     as palavras: “é o peso da Companhia Vale do Rio
visual, a narrativa inicia-se com imagens da empresa,      Doce na logística do Brasil. Vale, Inteligência em
suas minas, instalações, equipamentos, grandes e           logística”. A música reforça a imagem do letreiro
modernos, ambiente de trabalho seguro e agradável.         com o refrão: “Vale vai, Vale leva, Vale traz”.
Imagens de funcionários trabalhando nas instalações
da empresa, acenando, felizes, unidos, cantando,           StorYtelling 3: A VALE É SOCIALMEN-
confundindo-se com a comunidade. Os funcionários
                                                           TE RESPONSÁVEL
mostram, com orgulho, o crachá da empresa, acenam                 O vídeo (3) inicia a narrativa, na dimensão
com sinal de positivo para as ações estratégicas           visual, com imagens da vista aérea de mata
da empresa. Ainda na dimensão visual, letreiros            verde em uma montanha, seguida de um maestro
apontam a empresa como modelo de integração                regendo uma orquestra e os funcionários da VALE
com a comunidade, modelo inédito de preservação            preparando-se para o trabalho. Ainda na dimensão
ambiental, de eficiência e de nacionalismo. Na             visual, o letreiro anuncia “homens e mulheres
dimensão oral, a narrativa é centrada na geração de        trabalhando”. Na dimensão oral, a locução
empregos para a região, onde “todo mundo, ganha            começa a narrativa da estratégia de crescimento
tudo”, ou seja, apostar na Vale, é apostar no Brasil. Ao   e expansão: “Vale do Rio Doce, construindo dias
final da narrativa, as imagens das novas instalações da    melhores para o Brasil”. A narrativa continua, na
empresa na Mina do Sossego e a locução enfatizam           dimensão oral, com a música “Vivemos esperando
a estratégia de internacionalização da empresa:            dias melhores, dias de paz, dias a mais, dias que
“Mina do cobre do Sossego, para o Brasil passar a ser      não deixaremos para trás, vivemos esperando o
exportador de Cobre”.                                      dia em que seremos para sempre”; e na dimensão
                                                           visual, um jogo de imagens dos músicos em
StorYtelling 2: A VALE TEM CORAGEM
                                                           uma orquestra combinando com o maquinário
        O vídeo (2) inicia, na dimensão visual, com a      moderno da empresa, crianças jogando futebol,
imagem de um trem despontando de um túnel; em              funcionários trabalhando, instalações modernas,
seguida, a ferrovia e o horizonte passam a impressão       idosos e crianças nos projetos sociais da empresa
de distância, da dimensão pela qual a empresa              e a comunidade. As imagens da mata verde
transporta produtos Brasil afora. Na dimensão oral,        preservada, árvores grandes e altas, filmadas
a locução narra como a VALE está diversificando:           de baixo para cima, enfatizam a preocupação
“Agora você vai conhecer o caminho das pedras.             da VALE com o meio ambiente. Fazendo parte
E também do agronegócio, da siderurgia, da                 da narrativa, também na dimensão visual, os
construção, do cimento, do combustível e de mais           dizeres sobre os investimentos da empresa,
uma série de produtos transportados pela Vale              tanto nas suas operações como na proteção
Logística”. A narrativa continua com imagens das           ambiental, pesquisa e projetos sociais que “estão
instalações da empresa, equipamentos grandes e             beneficiando três milhões de brasileiros”. Ao final,
modernos, funcionários nas minas e nos escritórios,        crianças construindo a bandeira nacional no
acenando, sorridentes, ora com a bandeira nacional,        solo, utilizando-se da grama densa, verde e bem
ora com a mão no peito, ora abraçados uns aos              cuidada. A locução encerra: “Vale, a empresa
outros. O jingle é uma adaptação da música Vale            privada que mais investe no Brasil”.


                                                       168
StorYtelling 4: A VALE É MODERNA E a maior refinaria da alumina do mundo”. A música
EFICIENTE                          comemora a estratégia de expansão com o refrão
                                                        “meu grito de guerra é o grito de gol, gol, gol [...]
        A narrativa do vídeo (4), reforçando a
                                                        faz um, mais um, faz um”, típico dos brasileiros. Na
estratégia de crescimento da empresa, inicia com
                                                        dimensão visual, os funcionários narram, utilizando-
a locução: “A Vale é a empresa privada que mais
                                                        se de placas, como a empresa investiu para ser a
investe no Brasil”. Em seguida, as imagens de
                                                        maior refinaria do mundo, ao mesmo tempo em
funcionários acenando rumo à empresa, mostrando
                                                        que investiu na conservação de florestas e no Brasil.
as instalações, maquinários, as ferrovias e as minas
                                                        A última placa é uma homenagem ao sucesso da
da empresa. Os funcionários mostram o crachá,
                                                        estratégia da empresa, já que a Vale se confunde
acenam com a bandeira nacional, num misto de
                                                        com o país: “Parabéns Brasil”. A narrativa encerra-
orgulho e forte nacionalismo para com a empresa.
                                                        se com o refrão “eu sou um brasileiro e mando um
As imagens das letras garrafais contam como a VALE
                                                        beijo para você. Brasil” na dimensão oral e com o
investiu e tornou-se a “maior mineradora de ferro do
                                                        slogan da empresa: “CVRD, a empresa privada que
mundo”, “a empresa brasileira que mais exporta”; e
como ela se importa com o país e o meio ambiente:       mais investe no Brasil”.
“maior investimento em reflorestamento da história”,    StorYtelling 6: A VALE É ORGULHO
“um dos maiores investimentos sociais do Brasil”,       NACIONAL
“maior refinaria de Alumina do mundo”, “maior
investimento em ferrovias do país”. A narrativa                No vídeo (6), a narrativa inicia-se com a
presente na música é clara: a empresa é brasileira,     apresentação da empresa como “orgulho nacional”,
confunde-se com o país: “meu grito de guerra            assim como o futebol brasileiro, que conforme a
é o grito de gol, gol, gol ...”. A locução reforça      empresa, é “o maior orgulho de todos nós”. Mostra,
narrando os investimentos que ela pretende fazer        logo no início, o crepúsculo, a vista aérea da mata,
no futuro e justifica com o forte nacionalismo: “Por    os equipamentos da empresa. A locução narra
que, para crescer como a Vale, é preciso acreditar      como a “Vale, orgulho nacional, torcendo pelo
no Brasil, como a Vale”. A narrativa encerra-se, na     maior orgulho de todos nós... o futebol brasileiro”.
dimensão visual, com o slogan da empresa: “CVRD         O refrão da música reforça: “Brasil, [...] eu sou
– a empresa privada que mais investe no Brasil”; e,     um brasileiro e mando um beijo pra você”. Na
na dimensão oral, a locução: “Vale! Vale a pena         sequência, as imagens contam como a empresa
acreditar no Brasil” é reforçada pelo jingle: “eu sou   se confunde com o país: os funcionários, no local
um brasileiro e mando um beijo para você. Brasil.”      de trabalho, festejando, ao mesmo tempo em que
                                                        imagens de pessoas dançando, em vestes verde-
StorYtelling 5: A VALE CRESCE E FAZ                     amarelo, fazem batucada, dançam capoeira e
O BRASIL CRESCER
                                                        comemoram o futebol. Os funcionários assistem ao
       O vídeo (5) inicia a narrativa, na dimensão      jogo pela televisão, na própria empresa, acenando
oral, com a apresentação de “mais um grande             com a bandeira nacional. A narrativa enfatiza que
empreendimento da Vale para o crescimento do            a empresa, assim como o futebol, deve ser motivo
Pará e do Brasil: a expansão da Alunorte” e a           de orgulho nacional, pois faz parte da paisagem
música “Brasil, [...] eu sou um brasileiro e mando um   brasileira e, se a companhia é bem sucedida; logo,
beijo pra você”. Na dimensão visual, funcionários       o Brasil também será.
entram acenando, sorrindo, fazendo sinal positivo,             A VALE é a protagonista da narrativa, porém,
tendo ao fundo as instalações e equipamentos da         analisando-se a dimensão visual, as imagens
empresa. A narrativa oral prossegue enfatizando         mostram os funcionários e o povo brasileiro também
os investimentos realizados pela empresa, com o         como atores principais, assim, como na dimensão
objetivo de crescer ainda mais: “fazer da Alunorte      oral, o refrão da música: “eu sou um brasileiro e

                                                   169
mando um beijo pra você”. Os brasileiros fazem             de trabalho diversa, ou seja, estão presentes nesse
parte da estratégia da empresa, visto que ela é            universo, homens, mulheres, negros, brancos,
“orgulho nacional”.                                        jovens e adultos. Todas as músicas dos vídeos são
        Sintetizando os seis vídeos em uma única           de compositores da música popular brasileira,
narrativa, e utilizando-se dos parâmetros de Barthes       que tiveram as letras adaptadas para os jingles da
(1976), observa-se que a sequência dos eventos             empresa. A seguir (quadro 2), a análise da narrativa
inicia-se apresentando a empresa como aquela que é         revela os protagonistas, as vozes e os significados
privada e mais investe no Brasil. Uma empresa grande,      encontrados no material analisado.
rica, com instalações e equipamentos modernos. Uma                 A VALE é, por sua própria definição, “a
empresa que, embora privada, pertence ao povo              empresa privada que mais investe no Brasil”. A
brasileiro. Ao longo do tempo, a empresa investiu          imagem que a empresa estabelece dela mesma é
em pesquisa, na geração de empregos, no Brasil,            que ela cresce, porque acredita no Brasil, investe
em projetos sociais, na produção, no meio ambiente,        no desenvolvimento do país e, ainda, o seu sucesso
como parte de sua bem sucedida estratégia de               confunde-se com o sucesso do próprio país,
crescimento e expansão, que obteve como resultado          remetendo a Vendelo (1998), quando esse sugere
o reconhecimento da empresa, em âmbito mundial,            que storytellings são mecanismos usados pelas
como a maior, a que mais investe, a que mais cresce.       corporações para fortalecer sua reputação e ganhar
Para crescer, a empresa diversificou, internacionalizou,   legitimidade.
e atuou de forma socialmente responsável. Retomando                Os vídeos não apenas oferecem informações
os dizeres de Boje (1991), quanto à relevância do          sobre a empresa, mas também produzem uma
desfecho para criar significados, encontramos, ao          narrativa. De uma perspectiva interpretativo-
final da narrativa, homenagens para a empresa, que         simbólica, os vídeos criam uma intrincada rede de
foi bem sucedida, e para o Brasil, que recebe os seus      simbolismo visual e discursivo, uma estratégia de
investimentos, contribuindo, assim, para a construção      comunicação destinada a influenciar a percepção e
de significados que unem o país e a empresa.               as interpretações da audiência (WOOD JR, 2000),
        O protagonista das narrativas é a empresa,         construindo uma imagem de uma empresa forte,
embora funcionários, o Brasil e os brasileiros também      moderna, nacionalista, socialmente responsável e
atuem como atores coadjuvantes. A narrativa                eficiente, cujas estratégias foram bem sucedidas.
é construída por diversas vozes: funcionários, a                   Os valores organizacionais, entendidos como
empresa, o povo brasileiro e um locutor anônimo,           os comportamentos escolhidos pelos membros da
constituindo um único discurso, ao contrário da            organização, na perspectiva da integração (MARTIN,
polifonia (KORNBERGER, CLEGG E CARTER, 2006),              2002), traduzem as preferências da organização
que emerge de forma estratégica para que a empresa         ou os princípios de conduta adotados por todos os
reproduza a si mesma. Nesse sentido, os vídeos             membros, homogênea e harmoniosamente. Assim,
constituem-se em uma forma de narrar a história            esses valores são utilizados na gestão da cultura
silenciando discursos para construir a realidade a         corporativa para assegurar melhores resultados.
partir do discurso dominante (BOJE, 1995).                         As imagens e palavras nos vídeos analisados
        A análise dos vídeos encontrou alguns              estabelecem uma ligação entre as histórias
aspectos comuns como, por exemplo, o slogan                bem sucedidas da empresa e os diversos atores
da empresa, “CVRD – A empresa privada que                  (funcionários, comunidade, a torcida do povo
mais investe no Brasil” finaliza todas as narrativas.      brasileiro) que contribuem para a construção de
Um outro aspecto bastante simbólico é que os               uma empresa que é privada, mas nacional, forte,
funcionários da empresa estão todos uniformizados,         eficiente e responsável. Nessa perspectiva, como
utilizando equipamentos de segurança, com crachás          Boje (1991) ressalta, tanto o narrador quanto os
de identificação e apresentam-se como uma força            ouvintes da história são co-construtores, na medida


                                                       170
Quadro 2 - análise da narrativa
         Protagonista                             Vozes                                Significados                    Outros contextos
                                                                                 Força, grandeza, riqueza,
                                                                            nacionalismo, orgulho, segurança,     - a visão de futuro da empresa
                                                                               diversidade, tecnologia, uma            - a missão da empresa
                                                                           empresa do povo brasileiro, empresa       - os objetivos da empresa
   VALE, Brasil, povo brasileiro,   Vale, funcionários, povo brasileiro,   socialmente responsável, valorização        - os valores, e crenças
           funcionários                           locutor                    da comunidade, valorização do                 - as estratégias
                                                                           meio ambiente, preocupação com o                    - heróis
                                                                            desenvolvimento do país, empresa                 -cerimônias
                                                                               privada que investe no Brasil,                  - rituais
                                                                               capacidade de investimentos

em que o público interno e externo aceita essa                             membros, manter e desenvolver a percepção da
história como parte da realidade, passando assim,                          organização de forma a garantir a consistência na
a participar de sua construção e reconstrução.                             coordenação de diferentes elementos que estão
        De acordo com Putnam et al (2004), as                              envolvidos em uma organização.
metáforas da performance e do símbolo exploram a                                   Para alcançar o propósito do trabalho,
relação entre as mensagens, significado e contexto                         utilizou-se de uma abordagem interpretativa,
que, nesse caso, foi marcado pelas manifestações                           considerando as dimensões visual e oral do material
nacionais anti-privatização da empresa em questão,                         utilizado para construir a narrativa da empresa. Da
por ocasião da venda de parte da empresa. Logo, a                          análise, emergiram seis storytellings. Foi examinada
construção do significado de empresa nacional, que                         a sequência dos eventos, os protagonistas, as
acredita no Brasil tanto quanto qualquer brasileiro                        vozes, os significados e as histórias presentes, que
deve acreditar.                                                            evidenciaram vários elementos (estratégia, valores e
        Tanto a dimensão visual quanto a oral narram                       crenças) que são disseminados para criar, manter e
como a empresa é bem sucedida: sua eficiência                              disseminar a cultura organizacional.
na administração de recursos e investimentos,                                      Foram evidenciados vários elementos que,
o tratamento dispensado aos funcionários e à                               juntos contribuem para criar um senso de patriotismo,
comunidade em seu entorno, a responsabilidade da                           orgulho e disposição em crescer, funcionando
empresa quanto ao ambiente e à sociedade, e o                              como o gerenciamento de impressão, constituindo,
esforço despendido para o crescimento do Brasil, o                         assim, uma organização de simbolismo intensivo
que parece sugerir, que trata-se de um mecanismo                           (WOOD JR., 2000). As vozes são múltiplas: Vale,
para legitimar (VENDELO, 1998) a estratégia da                             funcionários, comunidade e o povo brasileiro.
organização e garantir sua reputação. Assim, parece                        Contudo, como Kornberger, Clegg e Carter (2006)
clara a perspectiva do ambiente enacted (SMIRCICH;                         sugerem, algumas vozes podem ser silenciadas
STUBBART, 1986), na qual a organização/ambiente                            por discursos dominantes. Cabe esclarecer que a
é um mundo simbólico socialmente criado, cuja                              perspectiva deste artigo é contrária à omissão de
gestão pressupõe a criação de um contexto.                                 vozes, cujas consequências devem ser conhecidas
                                                                           pelos executivos. Admite-se sim, que as organizações
4. Considerações finais                                                    são construídas e reconstruídas discursivamente pela
                                                                           emergência de uma multiplicidade de discursos,
        Este estudo analisou como o uso de                                 embora o gerenciamento da impressão seja aplicado
storytellings através de vídeos institucionais e                           como uma tentativa de redução da ambiguidade e
anúncios publicitários são utilizados para construir                       aumentar o nível de estruturação.
significados. As organizações são constituídas por                                 O estudo contribui para os estudos da
suas histórias que, por sua vez, estão relacionadas                        cultura organizacional na medida em que ressalta
com a realidade das organizações. Histórias                                o modo como as organizações produzem e
organizacionais são vistas como uma forma de                               reproduzem suas narrativas com o objetivo de criar,
transmitir a cultura organizacional para os novos                          manter e disseminar a cultura. Recorrendo, outra

                                                                       171
vez, a Smircich e Stubbart (195), a abordagem                 Finalmente, sugerem-se alguns desafios para
interpretativa tem potenciais contribuições na       o avanço de estudos interpretativos que considerem
solução de problemas estratégicos, como no           as narrativas, como, por exemplo, incluir outro tipo
caso de falhas de implementação de mudanças          de material para ilustrar a consistência do repertório
decorrentes da falta de atenção dada à natureza      dos vídeos. Além disso, conhecer as interpretações
social da formação das organizações. Outras          de outros sujeitos, sejam eles parte do público
contribuições são apontadas, como as possíveis       interno ou externo, com o propósito de identificar
implicações da narrativa como elemento na            ambiguidades, dissensos ou conflitos que possam
construção da realidade organizacional.              existir.

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Mudando para Seleção por Competência: um Caso
                           Paranaense
                                     Moving To Competency-Based Selection: A Parana Case


Keyla Cristina Pereira Prado1
Sérgio Bulgacov2

Resumo

O principal objetivo deste estudo é descrever e analisar as formas e conteúdos dos processos de seleção dos
trabalhadores, em uma organização que investe no desenvolvimento das competências e conhecimentos dos
trabalhadores, adotando o método de seleção baseado em Gestão por Competências. Um estudo de caso
realizado em uma indústria paranaense mostrou que a Seleção por Competências constitui-se em ferramenta
eficaz de gestão de pessoas, desenvolvida com base no mapeamento de habilidades, conhecimentos e atitudes
necessárias para cada cargo. Trata-se de um recurso personalizado para a captação de perfis mais compatíveis
com o especificado pelos setores da organização. O estudo realizado durante a implantação do sistema na
empresa mostrou que o investimento no desenvolvimento das competências e conhecimentos dos trabalhadores
traz repercussões sobre a produtividade final e a competitividade da empresa.
Palavras-chave: Seleção por Competência; Gestão por Competência; Gestão do Conhecimento.


Abstract

The main goal of this study is to describe and analyze the procedures and approaches for worker selection of
a corporation bounded to invest in knowledge and competency-based people management. The process has
started with the introduction of competency-based selection. The case study conducted in an industrial corporation
in the State of Paraná, Brazil, resulted in showing how effective is the competency-based selection process for
employees hiring. The process is grounded with mapping the abilities, knowledge and behavior specified for
each organization area. The outcome of this study shows that the investments in employee’s competencies and
knowledge development have a positive impact on work productivity and market competitiveness.
Key words: Competency-based Selection, Competence Management, Knowledge Management.

1 Introdução                                                                   pela globalização, financeira, comercial, provoca
                                                                               alterações expressivas na maneira de atuar das
      Nos últimos anos, as organizações têm                                    organizações. Antes o planejamento das empresas
passado por inúmeras e crescentes mudanças, em                                 era regional ou no máximo nacional, hoje ela tem
razão das transformações que vem ocorrendo no                                  que agir e planejar estratégica e globalmente.
cenário político econômico, social e também no                                        Tais mudanças têm afetado diretamente
ambiente interno. As mudanças externas causadas                                o ambiente interno das organizações, que

1	    Possui graduação em Administração pela Faculdade de Educação Superior do Paraná - FESP-PR, Brasil e Especialização em Administração
de Pessoas pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: keyla_prado@yahoo.com.br
2	    Professor de graduação da Universidade Federal do Paraná - UFPR e do Programa de Pós-Graduação em Administração da mesma
universidade - PPGADM/UFPR, Brasil. Possui doutorado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo - FGV/SP Brasil e pós-
                                                                                                                        ,
doutorado pela University of Birmingham, Inglaterra. Contato: s.bulgacov@ufpr.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 21/10/2010 - Aprovado em 18/12/2010
precisam rever alguns conceitos de seus modelos      implantação estudada. Para situar a situação do
tradicionais de gestão. Modelos, onde o homem é      estudo, apresenta-se breve caracterização da
visto de maneira secundária, como mera peça da       empresa estudada, a metodologia da pesquisa e
engrenagem. Para se manter competitivo no atual      as recomendações à implantação do Sistema de
mercado, há uma necessidade de substituição          Seleção por Competências.
gradativa dessa visão reducionista e focar mais os
indivíduos como seres humanos, com a percepção       2 Revisão bibliográfica
de que pessoas são peças essenciais para dar
movimento à engrenagem das organizações. Desse               O mundo em transformação constrói o futuro
modo, a Gestão por Competência ganhou grande         em ciclos, ora estáveis, ora instáveis. São grandes
                                                     revoluções que colocam em dúvida, questionam e
impulso nesta era globalizada.
                                                     modificam o que até então era tido como a maneira
        O mercado atual de trabalho tem como
                                                     correta de fazer, de viver, de administrar, de se
foco as competências. Antes se observava apenas
                                                     relacionar, reordenando o funcionamento das coisas,
as habilidades técnicas do profissional, hoje
                                                     numa transição que vai de um período de estabilidade,
trabalhadores que possuem grandes habilidades
                                                     adaptação e conformismo, para momentos de
técnicas podem ser vistos como dispensáveis se
                                                     instabilidades na preparação de um novo ciclo.
não possuírem competências comportamentais
                                                             As forças dinamizadoras da Era digital
desejáveis.
                                                     criaram um ambiente de rápidas mudanças, onde
        A implantação do Sistema de Gestão por
                                                     predomina a velocidade e a volatilidade ao invés da
Competências promove mudanças estruturais na
                                                     estabilidade. No entanto, é de grande valia lembrar
área de recursos humanos, com a finalidade de
                                                     que na transição é preciso adaptar o melhor do que
simplificar a execução do processo e aproximar
                                                     foi construído, o melhor da história de uma cultura,
seus clientes internos. A Gestão por Competências
                                                     do que começar do zero. A história é repleta de bons
constitui-se em ferramenta eficaz de gestão
                                                     valores e hábitos que irão determinar os caminhos
estratégica de pessoas, desenvolvida com base        do futuro. Antes havia uma maneira certa de fazer
no mapeamento de habilidades, conhecimentos e        alguma coisa, hoje existem centenas, milhares. É
atitudes necessárias para cada cargo. Trata-se de    preciso aproveitar o que foi construído e as novas
um recurso personalizado para a captação de perfis   oportunidades para repensar os métodos, processos
mais compatíveis com o especificado pelas áreas      e relações.
organizacionais.                                             Essa nova economia, apesar de representar
        Com o objetivo de descrever e analisar as    o progresso, apresenta uma falta de sincronia no
formas e conteúdos dos processos de seleção dos      que tange ao mercado de trabalho. Na medida
trabalhadores, em uma organização determinada,       em que novas oportunidades surgem, ocorre uma
a investir no desenvolvimento das competências e     dificuldade de adequação, tanto dos indivíduos,
conhecimentos de seus colaboradores, com base        moldados pela antiga realidade, quanto das
em Gestão por Competências e RH Estratégico,         organizações movida pela nova economia. Silva
realizou-se um estudo de caso em uma indústria       (2003) observa que diariamente encontram-se
paranaense do setor de embalagens. O estudo          pessoas insatisfeitas com as condições a que estão
mostrou que investir no desenvolvimento de           submetidas no ambiente de trabalho e, contrastando
competências e conhecimentos dos colaboradores       com o constante investimento organizacional em
da empresa repercute sobre sua produtividade e       busca de produtividade, qualidade, competitividade
competitividade.                                     e lucratividade. O retorno desses investimentos
        Este artigo apresenta uma fundamentação      pode ser positivo quanto aos aspectos econômicos
teórica sobre a Seleção por Competências, que        e técnicos. No entanto, quanto aos aspectos
serviu de base para o processo bem sucedido da       humanos, nem sempre são tão significativos, além

                                                 176
do surgimento de problemas colaterais, tais como               As competências essenciais, na teoria de
estresse, desemprego, deteriorização do clima          Prahalad e Hamel (1998), são conceituadas como
organizacional, etc.                                   o aprendizado coletivo na organização, dependente
        O mundo do trabalho passa por profundas        da comunicação, envolvimento e comprometimento
transformações, tanto em termos qualitativos           de trabalhar intersetorialmente em equipes
quanto quantitativos, que por sua vez acabam           multidisciplinares. Não se restringe às qualificações
por provocar reestruturações nos campos político       específicas do cargo ou posição, tendo em vista que
e social. Essas mudanças são impulsionadas, em         a complexidade das tarefas não pode ser contida
grande parte, pela globalização da economia e          numa descrição tradicional de cargos.
aumento da interdependência entre mercados, mas,               Silva (2003) ressalta que fatores e
também, pela rapidez com que novas tecnologias de      contingências econômicos, políticos e sociais de
informação são introduzidas e renovadas, alterando     mercado influenciam a relação entre a organização
rapidamente o padrão das trocas de informação e        e seus recursos humanos, em concordância com a
o acesso a novos territórios.                          teoria de Hamel e Prahalad (2000).
        As mudanças estruturais mais significativas            Um ambiente empresarial caracterizado por
em andamento no cenário econômico foram                profundas mudanças e pela necessidade de respostas
apontadas por Hamel e Prahalad (2000) como             de mercado cada vez rápidas engendra mudanças
sendo a globalização (exige maior capacidade de        no perfil de gestores e de colaboradores. Novas
inovação), a desregulamentação e privatização          competências são exigidas da área de recursos
                                                       humanos, para que desempenhe papel estratégico na
(altera as relações microeconômicas), a volatilidade
                                                       gestão das organizações. Dessa forma, a concepção
(afeta a produção e o desenvolvimento de produtos),
                                                       de recursos humanos foi sendo substituída pela de
a convergência de tecnologias, a ruptura de
                                                       gestão de pessoas (DUTRA, 2007). Com a concepção
fronteiras entre os setores, a mudança de padrões,
                                                       de gestão de pessoas foram introduzidos novos
o surgimento de novos canais entre produtor e
                                                       métodos e novos questionamentos sobre cultura,
consumidor-final e a consciência ecológica, que
                                                       comprometimento organizacional, subjetividade
tenderá a moldar as demais variáveis. Nesse
                                                       e sentido do trabalho (DEJOURS, 2001). O novo
contexto, as organizações necessitam instituir uma
                                                       estilo passou a focar o desenvolvimento de culturas
política de gestão que as tornem mais competitivas
                                                       organizacionais de competência e resultados,
do ponto de vista econômico e, ao mesmo tempo,
                                                       refletindo-se em mudanças nas políticas e práticas
mais atraentes no que diz respeito à gestão de seus
                                                       de gestão. Tal evolução ocorreu concomitantemente
Recursos Humanos, como a implantação de projetos
                                                       à construção de discursos sobre valorização dos
de Gestão por Competências.                            indivíduos e suas capacidades de iniciativa, decisão
        O foco da Gestão por Competência é             e intervenção.
a observação e a análise do desempenho das                     De acordo com Gramigna (2004), a Gestão
pessoas reais numa situação real, para identificar     por Competências promove grande impacto
as competências existentes na empresa, as              nos resultados organizacionais. Os treinamentos
competências desejáveis e as lacunas que por           são montados, de acordo com as estratégias da
ventura existam entre elas. As organizações buscam     organização. Para isso, são cruciais a criação
identificar as competências (conhecimentos,            e fortalecimento de valores que facilitem a
habilidades e atitudes) necessárias para melhoria      aprendizagem, tais como respeito à diversidade,
das performances individuais que se convertam em       tolerância a erros e abertura a ideias alheias,
melhor desempenho empresarial. As organizações         conforme recomenda Leonard-Barton (1998).
com foco na excelência buscam competências e                   A palavra competência normalmente está
não mão de obra.                                       associada à aptidão individual para executar uma


                                                  177
tarefa. Há várias interpretações e conceitos de          imprevistas; é poder improvisar onde os outros não
competência e podem-se identificar duas linhas           fazem mais do que imitar.
principais: a escola francesa, com ênfase no vínculo             Para Le Boterf (2003) competência é
entre trabalho e educação, e a escola anglo-saxã,        um saber agir responsável, reconhecido pelos
com ênfase no mercado de trabalho e desempenhos          outros, baseado no conjunto de aprendizagens
demandados no exercício profissional.                    sociais e comunicacionais resultantes do processo
       O tema da gestão por competência ganhou           de socialização-educação e pelo sistema de
relevância após artigo de McClelland, publicado          avaliações. Isto implica saber mobilizar, integrar e
em 1973 (FLEURY e FLEURY, 2004), em que                  transferir conhecimentos, recursos e habilidades no
afirmava que os testes tradicionais de seleção não       contexto organizacional. Le Boterf (2003) compara
eram capazes de predizer o sucesso do candidato          a competência a um saber mobilizador, porque a
nem no trabalho nem na vida pessoal. A partir            posse de conhecimentos, capacidades e habilidades
de então, McClelland empreendeu a busca                  não faz ninguém tornar-se automaticamente em um
de métodos de avaliação, para identificar as             competente. É preciso saber mobilizar os atributos
competências associadas à previsibilidade de êxito       da competência de forma oportuna no momento
no trabalho e na vida. Concluiu que competências         oportuno, em uma situação de trabalho.
são características pessoais compostas de                        O significado de competência é utilizado por
aptidões, habilidades e conhecimentos, capazes           Fleury e Fleury (2004) como sendo a conjugação
de promover desempenho superior em tarefas               de uso, mobilização, integração, desenvolvimento
específicas. Tal conclusão é sintetizada por             e transferência de conhecimentos, recursos,
Rabaglio (2004), afirmando que conhecimentos,            habilidades e experiências que agreguem valor à
habilidades e atitudes são os diferenciais de cada       organização e valor social ao indivíduo.
pessoa para gerar impacto diferencial em seus                    Dutra (2007) observa que embora as pessoas
desempenho e resultados.                                 desenvolvam conhecimentos, habilidades e atitudes,
       Zarifian (2001) justificou a emergência da        não há garantias de que a organização se beneficie
gestão das competências diante da necessidade de         disso diretamente se não houver compartilhamento,
se obter cooperação dos trabalhadores na resolução       e introduz a noção de “entrega”, que se refere ao agir
de problemas e compartilhamento de conhecimentos         com responsabilidade para receber reconhecimento
sobre o processo produtivo. Isso coincide com a          como recompensa.
introdução do conceito de cliente interno nas práticas           Da convergência dos conceitos, pode-se
administrativas. Portanto, a competência pressupõe       dizer que competências indicam um conjunto de
a capacidade de transferência de conhecimento,           características pessoais (conhecimento, habilidades
aprendizagem e adaptação. No entanto, no contexto        e atitudes) que estimulam atuações profissionais
da gestão do conhecimento, a autonomia do                de resultados previsivelmente excelentes, para uma
trabalhador não poder ser entendida apenas como          determinada demanda, numa determinada cultura
a adoção de um procedimento mais adequado, mas           organizacional.
sim, como a liberdade de tomar uma iniciativa.
                                                         2.1 Evolução do processo de seleção de
       Para Gilbert e Parlier, apud Le Boterf
                                                         pessoas
(2003), as competências compõem um conjunto
de conhecimentos, capacidade de ação e                          O processo de seleção de pessoas visa agregar
comportamentos regidos pela racionalidade                indivíduos à organização. Seu objetivo é identificar
instrumental. Sendo assim, a competência pressupõe       indivíduos que apresentem grande probabilidade de
a capacidade de transferência de conhecimento,           obter bom desempenho no trabalho. De forma geral,
de aprendizagem e de adaptação. Ser competente           a seleção tradicional é um processo de comparação e
é poder adaptar a conduta a situações novas e            escolha. Na comparação, considera-se a descrição e


                                                     178
análise do cargo em conjunto com os procedimentos         internos que influenciam no cargo, cultura da
de seleção. Na escolha, a decisão final de aceitar        equipe, cultura da liderança, missão, visão e valores
ou rejeitar os candidatos é responsabilidade do setor     da área requisitante, cultura da empresa e outras
requisitante. Os procedimentos técnicos tradicionais      informações específicas do cargo. A partir desses
valorizam as variáveis internas em detrimento das         indicadores extraem-se as competências desejáveis
condições ambientais necessárias para a ocorrência        para a eficácia do colaborador. As competências
dos comportamentos esperados. Reunidas as                 profissionais fazem parte das estratégias de
informações sobre o cargo a ser preenchido, o             diferenciação competitiva no mercado de trabalho.
passo seguinte é a escolha de técnicas de seleção                 Com base no Perfil de Competências,
(entrevista, provas de conhecimento e capacidade,         elaboram-se a Entrevista Comportamental e os
testes psicométricos, testes de personalidade, técnicas   Jogos com foco em Competências, que são as duas
de simulação, etc.) para conhecer e escolher os           ferramentas propostas pela metodologia. A partir
melhores candidatos.                                      da descrição das atividades, são identificadas as
        A Seleção por Competências, do ponto              competências necessárias e as informações a serem
de vista estratégico, fornece aos gestores e              se assimiladas, para se gerar os conhecimentos
profissionais de RH ferramentas que permitam              associados a cada competência. A definição do perfil
mapear o perfil de competências. Trata-se de um           de competências para o cargo a ser preenchido é
processo para identificar candidatos com as maiores       baseada nos comportamentos do atual ocupante do
probabilidades de ajustar as características pessoais     cargo, pois se trata de exemplo sobre o que deve
às características organizacionais. Rabaglio (2004)       ser procurado nos pretendentes para o cargo em
afirma que a seleção por competências apresenta           questão.
maior objetividade e maior grau de validade,                      As etapas para o mapeamento das
porque troca as avaliações subjetivas e intuitivas        competências, de acordo com Rabaglio (2004), são
pela métrica comportamental.                              três. A primeira, é o levantamento dos indicadores
        Segundo Rabaglio (2001), o método pode ser        de competências, em que se compilam todas as
empregado na seleção de todos os cargos de uma            informações sobre o cargo, os conhecimentos,
organização, mesmo que não tenha implantado               habilidades e atitudes. Cada informação de uma
a Gestão por Competência. Suas principais                 descrição de cargo indica várias Competências.
vantagens são: maior objetividade, previsibilidade        A segunda etapa consiste no agrupamento
e sistematização; melhor adequação do profissional        das competências comportamentais. A terceira
à atividades da empresa; maior produtividade e            etapa é a definição das competências técnicas
percepção de respeito aos seres humanos.                  e comportamentais. Para Rabaglio (2004),
        O processo de Seleção por Competência             conhecimentos e habilidades são competências
ocorre em três etapas: construção do Perfil de            técnicas do cargo, enquanto as atitudes são
Competências; Entrevista Comportamental e Jogos           as Competências Comportamentais. Feito tal
com foco em competências.                                 levantamento, é possível mapeá-las para utilizar na
        O perfil de competência profissional              entrevista.
é construído através de responsabilidade                          A entrevista comportamental de seleção
compartilhada entre profissionais da área de seleção      com foco em competências é uma técnica valoriza
e da área requisitante. São definidos os indicadores      o tempo nas organizações. Entrevistar é dialogar,
de competências, critérios baseados nos requisitos        trocar informações, entender o ponto de vista
técnicos e comportamentais exigidos para o exercício      do outro, compreender e ser compreendido,
do cargo, a sua descrição, principais desafios,           influenciar e ser influenciado, num tom amistoso
projetos a ser desenvolvidos, situações críticas a ser    e não persecutório ou policialesco, com vistas a
administradas, características dos principais clientes    desenvolver um conhecimento mais aprofundado a


                                                     179
respeito de informações de interesse de cada parte            d) Todas as perguntas são planejadas para
(BUENO 1999).                                                    identificar a presença ou ausência de
        A entrevista comportamental foi criada na                competências do Perfil de Competências no
década de 70 por psicólogos organizacionais e                    comportamento passado do candidato, em
popularizada pelo Dr. Paul Green da empresa                      suas rotinas e atribuições.
Behavioral Technology, em Memphis, Tennessee,                       Trata-se de uma técnica de investigação
EUA. Segundo Rabaglio (2004), é o tipo de entrevista        que compara os comportamentos que as pessoas
e método mais popular usado nos Estados Unidos,             utilizam no seu dia-a-dia. Como observa Le Boterf
tanto em pequenas quanto em grandes empresas.               (2003), a competência manifesta-se na ação, não
A estrutura da entrevista é elaborada, de modo a            pode ser inventada na hora. Por isso, na entrevista
tornar possível investigar o comportamento passado          comportamental as questões são abordadas com
da pessoa numa situação similar da competência a            verbos no passado, em que o entrevistado relata
ser investigada.                                            fatos ocorridos, dificultando a mentira.
        A partir de conjunto estruturado e padronizado              Segundo Rabaglio (2001), as perguntas
de questionamento possibilita que o entrevistador           são planejadas para obter respostas que tenham:
colha as informações necessárias de cada um                 Contexto, Ação e Resultado, denominando a
dos entrevistados. A entrevista comportamental é            entrevista como técnica CAR.
uma entrevista personalizada baseada no Perfil                      Exemplo: “Fomos alertados que estávamos
de Competências específico. Cada Perfil de                  com problemas de comunicação. Então fiz um
Competências gera uma entrevista personalizada,             levantamento e observação, concluí que o problema
com foco nas competências imprescindíveis para              realmente era falta de treinamento. Contratamos
o cargo. Nessa entrevista não se recomendam                 uma empresa para treinar nossos funcionários.”
as perguntas hipotéticas, fechadas, de múltipla                     Contexto: problemas de comunicação
escolha, indutiva. A entrevista é um encontro face                  Ação: levantamento, observação e conclusão.
a face entre um ou mais entrevistadores, que estão                  Resultado: contratação de treinamento.
recolhendo informações ou tomando decisões para                       Essa técnica permite ao entrevistador
contratação, e um entrevistado (SPECTOR 2002).              desenvolver habilidades para colher respostas
        Gramigna (2004) cita, em acréscimo, a               completas que contenham esses três itens essenciais
entrevista de incidentes críticos, utilizada com grande     para o diagnóstico das competências pretendidas.
êxito até hoje, como uma técnica que permite a              Utilizam-se perguntas abertas e específicas, com
verificação da adequação de uma pessoa ao perfil            verbo de ação voltado ao passado.
de competências de determinada cargo ou função.                     Rabaglio (2001) sugere algumas regras de
        As       características       da      entrevista   codificação de competências, tais como:
comportamental consistem em:
                                                                 •	 Eu (não “nós”, “a gente”);
   a) Perguntas abertas específicas, com verbos de
                                                                 •	 Fatos específicos (não generalizações);
      ação no passado, que possibilitam investigar
      os comportamentos passados em situações                    •	 Comportamento passado;
      específicas da função; são perguntas                       •	 Clareza, sobre quem estava envolvido no
      comportamentais que ajudam a investigar                       evento (papéis, etc.);
      a presença ou ausência de competências
                                                                 •	 Pensamentos e sentimentos no momento
      específicas;
                                                                    do evento (não os relativos a reflexão).
   b) Investigação da experiência passada do         Declarações que oferecem poucas informações
      candidato;                               não devem ser aceitas em uma entrevista CAR, pois
   c) Conhecer o comportamento do candidato em não permitem a classificação das competências
      situações específicas do cargo;          comportamentais. Se o candidato insistir em dar

                                                        180
respostas vazias, o entrevistador precisa intervir com            preparado com as perguntas de acordo
perguntas que ajudem a complementar a busca do                    com o perfil de competências e relógio).
comportamento desejado, como por exemplo:                        Por considerar que a estrutura da entrevista
       Os questionamentos são elaborados de modo          por competências é fundamental para evitar a
a provar por evidências comportamentais (exemplos         subjetividade e os preconceitos, Rabaglio (2004)
de situações vividas) o que o candidato disse, fez,       sugere duração planejada e controlada de 45 a 60
sentiu e pensou e quais foram os resultados da            minutos.
sua ação em determinada situação. Isso é o que                   Ao término de uma entrevista, Almeida
possibilita ao entrevistador obter dados sobre as         (2004) recomenda que o entrevistador proceda a
habilidades críticas relacionadas ao atributo ou          avaliação de cada competência do candidato. Ao
competência investigada.                                  se avaliar logo após o término da entrevista, evita-se
       O objetivo será levantar os comportamentos         cometer erros comuns, tais como efeito halo (formar
relevantes do histórico do candidato e classificá-los,    impressão boa ou ruim do candidato e aplicá-la a
a fim de compreender e avaliar sua qualificação           todas as competências avaliadas), síndrome de anjo
e capacitação para o cargo proposto. Obtendo              da guarda (erro da leniência), síndrome do lobo
essas informações de maneira completa, será               mau (erro da rigidez excessiva), etc.
possível analisar as competências, comparando-                   Não há regras prontas para pontuar as
as com aquelas que foram definidas no Perfil de           competências, cada entrevistador pode definir
Competências.                                             sua fórmula para formar o gradiente dos níveis de
       A entrevista deve ser vista no contexto como       competências encontradas no candidato.
um dos métodos de investigação, como uma
forma complementar do processo de seleção.                2.2 Jogos de empresa baseados em compe-
Assim, a entrevista para seleção por competências
                                                          tências
é um processo desenhado para obter e esclarecer                   Em 1938, Johan Huizinga (2000) publicou
evidências do candidato relativas às competências         um livro intitulado “Homo ludens: o jogo como
necessárias para a função.                                elemento da cultura”, no qual afirma que o jogo
       A     preparação       para    a      entrevista   é algo muito além de um fenômeno fisiológico
comportamental envolve quatro aspectos que não            ou reflexo psicológico, mas exerce uma função
podem ser negligenciados pelos entrevistados:             significante, conferindo um sentido à ação. Para
      1.	Análise do currículo ou solicitação de           Huizinga (2000), o jogo é mais primitivo do que
         emprego – conferência do currículo antes da      a cultura, constituindo-se em uma base ancestral
         entrevista, pretensão salarial, levantamento     profundamente enraizada em toda a realidade
         de inconsistências e lacunas informacionais.     humana da qual nasce a cultura. Portanto, a
      2.	Preparar adequadamente o local da                existência do jogo independe de qualquer cultura,
         entrevista para que seja reservado,              raça ou ideologia e é pleno de imprevisibilidade.
         agradável, sem barulho, pouco suscetível         A imprevisibilidade, por sua vez, como observa
         a interrupções inesperadas e com poucos          Albornoz (2009), é introduzida e acentuada pelas
         estímulos visuais.                               táticas e estratégias, conduzindo o jogo a um
                                                          processo de rápida organização e reorganização
      3.	Respeitar a pontualidade, pois representa        mental, física e tática, sob influência das variáveis
         respeito pelo ser humano, postura ética          ambientais.
         profissional e transmite imagem positiva do              Moreno (1997) afirma que umas das
         trabalho da seleção e da empresa.                características fundamentais dos Jogos é o conceito
      4.	Ter em mãos todo o material necessário           de espontaneidade, pois o indivíduo está diante de
         (currículo, formulário de    entrevista          uma situação nova e inusitada, o que não permite


                                                     181
e não há tempo para simulações ou repetições de              Para quebrar o gelo e reduzir o nível de
respostas fundamentadas em modelos anteriores         ansiedade dos candidatos antes da dinâmica
pré-estabelecidos pelas normas e regras sociais.      principal com os jogos de seleção, Almeida
        Os jogos concebidos para auxiliar no          (2004) recomenda que se aplique um exercício
processo de seleção por competência, de acordo        harmonizador. Baseando-se no Perfil de
com Rabaglio (2001), são ferramentas utilizadas       Competências, seleciona-se uma bateria de jogos,
com o objetivo de criar e recriar o conhecimento.     de aproximadamente quatro horas. Almeida
São dinamizadas para que, por meio delas,             (2004) observa também que a aplicação de
sejam detectados traços de personalidade,             jogos no processo de seleção por competências,
crenças, valores, habilidades e conhecimentos         mantém a motivação do grupo, por meio de
dos candidatos. Ou seja, são utilizados os jogos      uma atividade divertida, facilitando a observação
adequados para observar o desempenho do               das competências comportamental, verbal e não
candidato quanto à manifestação das competências      verbal, estimulando e promovendo a integração e
do Perfil de Competências.                            descontração nos grupos.
        Nos processos seletivos, é cada vez mais             Gramigna (2007) classifica os jogos de
comum o uso de dinâmicas e também de jogos para       empresas em três tipos:
grupos. Dentre os objetivos dessas técnicas estão        a) Jogos de comportamentos, direcionados aos
a integração, a sociabilidade, o levantamento de           temas de cooperação, flexibilidade, cortesia,
competências e a criatividade. É possível, também,         confiança, afetividade etc.;
avaliar como as pessoas administram o tempo,
                                                         b) Jogos de processo, direcionados aos temas
como lidam com as frustrações, qual o poder de
                                                           de planejamento, liderança, coordenação de
persuasão e de argumentação, entre outros.
                                                           equipes, administração do tempo, etc.;
        Bueno (1999) define jogo como uma
brincadeira que estimula a competição. É baseado         c) Jogos de mercado, direcionados aos temas de
em regras claras, compreensíveis e específicas,            concorrência, pesquisa de mercado, relação
gerando       entretenimento,    estimulando      a        empresa / fornecedores, etc.
competitividade dos participantes. Nos Jogos com              Os jogos podem ser utilizados também
foco em Competências, as pessoas reproduzem           para auxiliar no aprendizado, em treinamentos
comportamentos do dia-a-dia, até mesmo sem            empresariais. De acordo com Yozo (1996), as
perceber, e revelam facetas de seu caráter que        habilidades e os conhecimentos podem ser adquiridos
normalmente não são exibidos por recear sanções.      “jogando”, pois enquanto jogam, os participantes
Por isso é uma poderosa e preciosa ferramenta de      desenvolvem a senso percepção e comunicação.
observação de comportamentos no processo de           Ou ainda, pode-se afirmar que conhecimentos e
Seleção de Pessoal. Pois, como observam Bueno         habilidades são desenvolvidos com a prática exercida
(1999) e Gramigna (2007), a espontaneidade            constantemente, ou seja, por meio de atitudes.
da vivência estimulada pelo ambiente permissivo,              Após a aplicação dos jogos ou dinâmicas, com
onde as respostas não há refúgio nos processos        o intuito de trabalhar os resultados, uma metodologia
rotineiros, surgem os comportamentos assertivos       amplamente utilizada é o Ciclo da Aprendizagem
ou não assertivos e o candidato passa a mostrar as    Vivencial. Segundo Gramigna (2004), o método
características da personalidade, valores objetivos   possibilita melhor compreensão e interpretação dos
de vida, estilos, formas de relacionamento e          comportamentos dos participantes, confirmando ou
grau de maturidade. No ambiente de jogos, as          mudando totalmente as percepções obtidas. Esse
pessoas exercitam habilidades necessárias para o      procedimento consiste em quatro etapas:
desenvolvimento de autodisciplina, sociabilidade,          1.	Análise, com os candidatos, dos sentimentos
espírito de equipe e bom senso.                               e emoções que a tarefa possibilitou;


                                                  182
2.	Discutir em relação ao desempenho do especialistas, isto é, funcionários da empresa que
          grupo na realização da tarefa, questões atuam como instrutores internos.
          como liderança, comunicação, etc.                    Para implantar a Gestão por Competência,
       3.	Pedir para que os candidatos relacionem o as        atenções     iniciais   concentraram-se     no
          vivenciaram com seu dia-a-dia;               desenvolvimento das competências dos líderes,
                                                       inspetores de qualidade e tecnólogos. Isso porque
       4.	Mostrar como os participantes poderão
                                                       são em número menor e era preciso testar o modelo
          aplicar os aprendizados vivenciados, em
                                                       projetado, qual seja, avaliar as competências,
          seu dia-a-dia.
                                                       identificar as deficiências e dar início à preparação
        A aplicação dessa análise pode ser feita de um percurso formativo para cada profissional.
apenas na principal dinâmica, não sendo necessária
em todas. No encerramento das dinâmicas, todas
                                                       4 Metodologia da pesquisa
as dúvidas devem ser sanadas.
                                                               Para este estudo, a metodologia empregada
3 Caracterização da empresa                            como instrumento de coleta e tratamento dos dados
estudada                                               privilegiou a abordagem qualitativa, entendida por
                                                       Trivinõs (1992) como aquela capaz de analisar os
        A empresa estudada foi criada na década de aspectos implícitos no desenvolvimento das práticas
80, no sudoeste do Paraná, em uma área de 300 m2 de uma organização e a interação entre seus
, com produção de 15 ton/mês de embalagens para integrantes.
cereais. Atualmente a empresa é uma das líderes em             A cultura da pesquisa deste estudo foi
seu mercado no Paraná, ocupa espaço de 69.000 realizada a partir de uma perspectiva epistemológica
m2, com área construída de 10.500 m2, instalada nomotética funcional, através do método crítico
com equipamentos de alta tecnologia para produzir dialético, apoiando-se na concepção dinâmica da
embalagens plásticas flexíveis monoextrusadas, realidade e nas relações dialéticas entre sujeito e
coextrusadas e laminadas.                              objeto e entre conhecimento e ação.
        As pressões impostas pelo mercado                      A seleção do procedimento metodológico
conquistado e as exigências do novo perfil de clientes recaiu sobre o estudo de caso, entendido por Trivinõs
(maior, mais organizado e com altos padrões de (1992), como a categoria de pesquisa, cujo objeto de
qualidade), tornaram imprescindíveis as mudanças estudo é uma unidade analisada em profundidade,
comportamentais. O primeiro passo dessa mudança para que as circunstâncias específicas e as múltiplas
foi dado pela realização do diagnóstico através da dimensões que se apresentam na situação possam
percepção do clima organizacional, que verificou permitir a compreensão do todo. O nível de análise
demanda interna por implantação de cultura foi departamental, tendo como objeto de estudo o
participativa e realinhamento no estilo gerencial. Departamento de Recursos Humanos da empresa
O segundo passo na mudança foi contratar uma estudada.
consultoria externa, com o propósito de acelerar e             Os dados foram coletados principalmente
facilitar a legitimação das mudanças.                  através de entrevistas individuais semiestruturadas.
        A empresa delineou as ações de redefinir Elas foram realizadas com a colaboração de vários
a política de gestão de pessoas, desenvolver o funcionários, selecionados por meio da técnica de
perfil de liderança e formar equipes multissetoriais. amostragem intencional:
Decorrente disso, a empresa designou um gestor
do conhecimento, cujas atribuições incluem gerir 5 Análise e recomendação
a adequação das competências dos profissionais
às necessidades estratégicas organizacionais e                 A empresa estudada mudou o foco da
identificar a necessidade de desenvolvimento de organização para o RH estratégico e adotou a Gestão

                                                   183
por Competência. Para isso, implantou o processo           reducionista instrumental-tecnicista da gestão de
de Seleção por Competências, utilizando entrevista         pessoas na gestão das competências, analisaram-se
comportamental juntamente com dinâmica de grupo.,          as práticas da empresa estudada, a fim de identificar
o RH da empresa verificou também a necessidade             como elas estão articuladas com a gestão do
de selecionar seus colaboradores através do método         conhecimento e das competências. O reducionismo
de “Seleção por Competências”. Quando o estudo             precisa ser evitado, para não expor a gestão
foi realizado, o processo encontrava-se na primeira        de pessoas ao risco de dar prioridade exclusiva
fase da implantação, em que a aplicabilidade do            ao atendimento dos interesses e necessidades
método de Seleção por Competências ocorria                 empresariais e tornar a gestão de pessoas em
apenas para os cargos de chefia.                           procedimento instrumentalizante e tecnicista.
        Foram definidas e mapeadas as competências
essenciais e básicas necessárias a cada setor,             6 Considerações finais
organizando-se o processo de desdobramento de
                                                                  Com o rápido desenvolvimento das
competências, conforme proposição de Gramigna
                                                           tecnologias de informação e a necessidade de
(2004). Nesse mapeamento foram definidas
                                                           empresas competirem em mercados internacionais,
também as competências técnicas, possibilitando
                                                           as áreas de recursos humanos foram convidadas a
a formatação das performances de cada setor. O
                                                           agirem estrategicamente e encontrarem formas de
mapeamento das competências define o desempenho
                                                           preparar as empresas para a nova economia, pois,
dos setores e respectivos talentos necessários aos
                                                           um ambiente de trabalho em contínua mudança
negócios da empresa, o que possibilita a formação
                                                           exige aprendizagem constante, geração de novos
do banco de talentos próprio. Mapeados os perfis,
                                                           conhecimentos, além de uma cultura empresarial
elaborou-se a Entrevista Comportamental e o Jogo
                                                           de competência e resultado. Tudo isso pressupõe
com foco em Competência, que são as ferramentas
                                                           mudanças nas políticas e nas práticas da gestão de
utilizadas, segundo Rabaglio (2004), para perfazer
                                                           pessoas, principalmente na seleção e formação dos
uma seleção baseada em competências.
                                                           trabalhadores.
        Ao implantar esse processo, a empresa                     A competência pressupõe a capacidade de
movimentou-se conforme tendência apontada na               transferência, de aprendizagem e de adaptação.
literatura, de substituir a tradicional área de recursos   Mas nem sempre a introdução de modelos de
humanos pela moderna e estratégica gestão de               competência trazem resultados positivos para
pessoas, que se posiciona mais proximamente                toda a organização. Às vezes, as empresas focam
dos níveis operacionais, a fim de entender melhor          excessivamente a redução de custo ou, então,
suas demandas e dar respostas mais ágeis e                 deixam de promover mudanças nos seus sistemas
apropriadas às demandas organizacionais. Ao                de valores e crenças, permitindo que os interesses
mesmo tempo, ela garantiu o suporte necessário             e necessidades empresariais estejam acima
para um processo de avaliação e aperfeiçoamento            dos interesses coletivos, tornando a gestão dos
das competências.                                          conhecimentos e das competências apenas mais um
        Observou-se que, para maximizar a gestão           instrumento de controle gerencial.
de competências, a empresa fez adequações na                      No caso estudado, averiguaram-se quais
estrutura funcional da área de Desenvolvimento de          foram as mudanças introduzidas nos conteúdos dos
Pessoal. Foi preciso, pois, provocar mudanças nas          processos de seleção e da formação dos trabalhadores
práticas de gestão de pessoas e, principalmente, no        com a implantação da gestão por competências,
papel das lideranças, criando o ambiente propício          porque a geração de novos conhecimentos e o
para a Gestão por Competências.                            gerenciamento das competências requer mudanças
        Tendo em vista a necessidade de atentar para       nas políticas e nas práticas da gestão de pessoas.
a totalidade humana, para evitar uma perspectiva           Constatou-se que a estrutura de seleção de pessoas

                                                       184
foi reformulada para focar no aproveitamento das      novas metodologias e procedimentos, pois, é por
competências e qualidades de cada indivíduo mais      meio dessa combinação que ocorre a inovação.
adequadas à sua função. Desta forma, a área de               Os resultados obtidos na primeira fase de
RH pode posicionar-se mais proximamente dos           implantação da Gestão por Competências na
níveis operacionais e, assim, atender melhor suas     empresa estudada, mostraram que as necessidades
demandas, além de dar respostas mais ágeis e          emergentes de seleção de pessoas em um mundo
apropriadas.                                          competitivo vêm sendo mais bem supridas do que
        Como no contexto da gestão do                 com o método tradicional. As práticas de seleção de
conhecimento, os funcionários precisam valorizar      pessoas articuladas à gestão do conhecimento e das
iniciativas inovadoras, então se atribui maior peso   competências tendem a facilitar a mediação das relações
aos critérios de pró-atividade e de potencial de      sociais na organização. Porém, é necessário atentar
aprendizado no processo seletivo. Grande peso         para a obtenção da legitimação e comprometimento
também é atribuído às experiências e iniciativas na   necessários. Os resultados positivos dependem do
solução de problemas. Os gerentes precisam saber      equacionamento entre competências técnicas e
gerenciar as atividades geradoras de conhecimento e   comportamentais, em que o perfil comportamental,
combinar as diversas individualidades das pessoas a   pode representar o diferencial competitivo individual a
um conjunto de atividades, permitindo experimentar    serviço dos objetivos organizacionais.


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                                              186
Ensaio: O Princípio da Bicicleta: revisitando a mudança
                      organizacional
                                   The Bicycle Principle: revisiting an organizational change


Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães1

Resumo

O equilíbrio da bicicleta apenas é alcançado quando ela está em movimento. E as pessoas têm que aprender a
se equilibrar nela, também em movimento. Não existe outro tipo de aprendizado que não seja o cair e levantar.
Não existem teorias que possam ser estudadas previamente, não existem ensaios, nem adianta nada o uso
de demonstrações. É só caindo e levantando que se aprende. A tese apresentada neste artigo, através do uso
de metáforas, fala da dificuldade de implantação de mudanças nas organizações, decorrente do simples fato
de que a empresa e as pessoas que nela trabalham, muitas vezes precisam aceitar a inovação pedalando a
bicicleta, com medo do tombo provável e sem teorias de sustentação.
Palavras-chave: Mudança Organizacional; Metáforas Organizacionais; Andar de Bicicleta.


Abstract

The balance of the bicycle is only achieved when it is in motion. And people have to learn to balance it, also in
motion. There is not another type of learning than to fall and stand up. There are no theories that may be studied
beforehand, there are no tests or meaningless using demos. The thesis presented in this article, through the use
of metaphors, regards the difficulty of deploying changes in organizations, arising from the simple fact that the
company and the people who work there, often need to accept innovation by “pedaling a bicycle”, fearing the
probable fall and without sustaining theories.
Key words: Organizational Change; Organizational Metaphors; Cycling.


Introdução                                                                     organização é uma delas. A empresa não vai parar,
                                                                               absorver a mudança e reiniciar a operação. Ela
      A bicicleta é um veículo que, simplesmente,                              precisa ser implementada com os negócios fluindo,
não para em pé sozinho. Seu equilíbrio somente                                 os fluxos fazendo seus caminhos, e as pessoas
é alcançado quando está em movimento. Assim,                                   trabalhando. E trabalhando com facilidade dentro
o aprendizado não é feito em livros e manuais.                                 de processos conhecidos, confiáveis, gostosamente
Não existem ensaios, e a teoria resume-se à frase                              familiares, que são exatamente aqueles que se quer
“olhe para frente e não para o chão”. As crianças                              mudar.
aprendem a andar de bicicleta, andando.                                               A tese apresentada neste ensaio teórico
      Algumas coisas são assim mesmo, para que                                 diz respeito à dificuldade de implantação de
aconteçam é preciso que o processo esteja em                                   mudanças nas organizações, sejam essas
pleno funcionamento. Produzir mudanças em uma                                  mudanças incrementais, qualitativas, planejadas,

1	 Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo.Possui doutorado em Administração pela Faculdade de Economia,
Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo - FEA/USP.Pesquisador de assuntos de estratégia, principalmente em redes de
negócios e cadeias de suprimentos. Contato: teodoroguimaraes@uol.com.br


Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991
Recebido em 08/02/2010 - Aprovado em 04/08/2010
ou de qualquer outro tipo, decorrente do simples         metáfora não são totais, embora possam ser muito
fato de que a empresa e as pessoas que nela              significativas.
trabalham têm dificuldade inicial em aceitar                     O objetivo do uso da metáfora, neste texto,
facilmente qualquer tipo de inovação.                    não foi o de estudar as similaridades possivelmente
       Mudança organizacional está em seu declínio,      existentes entre ela e o objeto, que de fato não
como matéria dentro da ciência da administração,         existem, mas sim o de permitir sua interpretação
em termos de consideração acadêmica. Na                  como mais uma referência de visão, de maneira
realidade, diminuiu o numero de livros e artigos         a ajudar na compreensão dos problemas das
tratando do assunto, talvez em razão das formas          mudanças nas organizações.
anteriores de abordagem terem sido insatisfatórias.              Nas palavras de Wood, Jr. e Caldas (1995),
Muitas dessas abordagens foram testadas, muito           a intenção do proponente, ao sugerir ou utilizar
trabalho foi desenvolvido tendo como escopo esse         uma metáfora, é a peça-chave para entender o
tema, muitos pesquisadores estudaram a mudança           seu sentido. O entendimento, portanto, envolve
nas empresas, dentro de uma matéria normalmente          a descoberta de um sistema de pontos comuns
chamada de Desenvolvimento Organizacional.               associando, por relações assimétricas, a metáfora
       O ápice desses estudos aconteceu na década        ao objeto. O entendimento passa, igualmente, pelo
de 1980. E o assunto “mudança organizacional”            reconhecimento, por parte do receptor, da intenção
foi caindo no esquecimento, apesar de ser um tipo        do autor ao fazer tal declaração.
de conhecimento em administração da mais alta                    Algumas dessas visões, envolvendo o andar
relevância: se a empresa não muda, ela não melhora,      de bicicleta (figura suficientemente forte para permitir
consequentemente não evolui. É preciso criar,            sua associação com várias metáforas), são bastante
pensar coisas novas, e, principalmente, não deixar       significativas a respeito da intenção de seus autores.
de tentar. Perseverar, insistir sempre, ultrapassar os
obstáculos, superar as resistências, em busca dessa      Metodologia
situação nova, que a mudança pode trazer, e que
parece ser tão melhor que a atual.                              Cabe ao método garantir os roteiros básicos
       A relação cognitiva que surgiu ao se pensar nos   do trabalho, a fim de diminuir os elementos de
problemas decorrentes da quase sempre resistente         incerteza que resultam da falta de informação, assim,
aceitação de mudanças pelas organizações e o             a metodologia aplicada a este artigo é de caráter
aprender a andar de bicicleta foi imediata.              exploratório, baseada em coleta de dados primários
                                                         e secundários. A partir de levantamento bibliográfico
O uso de metáforas                                       e documental, descrevem-se evidências e práticas
                                                         gerenciais relacionadas à mudança organizacional,
       Segundo Beck (1995), muito mais que simples       suas dificuldades de implantação e as vantagens
figuras de linguagem, as metáforas são manifestações     decorrentes para a empresa quando o processo é
de operações cognitivas fundamentais. O raciocínio       bem sucedido.
metafórico é uma habilidade-chave humana. As                    A coleta de dados primária foi obtida mediante
metáforas são como pontes, conduzindo ligações           a técnica da realidade observável de constatação
mentais entre entidades e expressando significados       (Stal, Campanário, Sbragia e Andreassi, 2006),
impossíveis de traduzir em linguagem literária, no       por intermédio de oitivas de relatos técnicos em
dizer de Gibbs, Jr. e Hall (1995).                       encontros realizados como atividades pedagógicas
       Por conter o conceito de visão de mundo,          do Programa de Pós Graduação em Administração,
a metáfora produz imagens bastante importantes           em nível de doutorado, da Universidade de São Paulo
para o estudo do objeto ao qual se refere. No caso       e palestras proferidas em seminários e encontros
das organizações, sua utilização mais adequada           realizados como atividades pedagógicas da disciplina
acontece quando as diferenças entre objeto e             Mudanças Organizacionais – Novos Enfoques,

                                                     188
com o Prof. Dr. Sergio Baptista Zaccarelli (2008);      da empresa, fatos que consumiram pesadamente os
e também pela oitiva da palestra A Construção do        recursos disponíveis.
Conhecimento, do evento Expomanagement, com                     Quando as vendas desaqueceram, o mercado
Peter Senge (2002).                                     refluiu. A Encol não conseguiu mais pedalar sua
       A coleta de dados secundários foi realizada      “bicicleta financeira”, pois os recursos advindos
com pesquisa na literatura científica e na busca        da venda do prédio novo, que não estavam mais
de informações veiculadas em alguns periódicos          financiando o próprio prédio, mas sim a construção
especializados em administração de empresas, sites      de prédio anteriormente vendido, já não entravam
e publicações diversas sobre o estado da arte do        no caixa, por não existirem.
tema mudança organizacional.                                    A partir de um determinado momento, quando
                                                        a empresa entendeu a extensão do problema criado
A pedalada financeira da Encol                          pela má gerência do caixa, sua política comercial
                                                        tornou-se mais e mais agressiva, pois a venda do
         O Brasil, durante as décadas em que            novo prédio era vital, não mais para a manutenção
conviveu com uma inflação muito alta, sempre foi        de sua liderança no mercado, mas pela simples
pródigo produtor de conceitos econômicos novos,         necessidade de sobrevivência de curto prazo.
ou antigos, mas em novas vestimentas, que deram                 Quando a empresa não conseguiu mais
sustentação para as técnicas utilizadas pelos agentes   “pedalar” sua crise, à semelhança de uma bicicleta
da economia, em sua luta pela organização e             não pedalada, foi parando até perder o equilíbrio,
sobrevivência das empresas, pela diminuição dos         e caiu, ou melhor, quebrou.
efeitos com que esse imposto invisível onerava
a população, e, mais que tudo, pela tentativa de        A pedalada da construção                         do
produção de horizontes futuros mais confiáveis, com
                                                        conhecimento de Peter Senge
os quais fosse possível se obter planejamentos micro
e macroeconômicos minimamente exequíveis.                      Em sua palestra no Expomanagement 2002,
         Os brasileiros com idade ao redor dos          Senge baseou sua fala no fato de que, para ele, o
quarenta e cinco, para mais, certamente hão de se       aprendizado não se constrói com a repetição das
lembrar do conceito desenvolvido pelos economistas,     idéias desenvolvidas por outras pessoas. Isso seria
tão falado à época, que se chamou efeito bicicleta,     como se tentássemos ensinar numa criança a andar
e que justificou a quebra da construtora Encol.         de bicicleta, ensinando para ela os princípios do
         Essa empresa, por razões que não cabem         movimento giroscópico, que é a base teórica sobra
no escopo deste artigo discutir, tornou-se a maior      a qual se assentam os fundamentos do andar de
empreiteira brasileira de construção civil voltada      bicicleta.
para o mercado não governamental. Seus prédios                 Muitas pessoas, que andam bem de bicicleta,
de apartamentos residenciais, naqueles anos, eram       não têm a menor noção de como aprenderam a
objetos de desejo da classe média alta, e benchmark     fazê-lo, pois andar de bicicleta vai na “contra-mão”
para a concorrência.                                    do andar a pé.
         Todos os seus lançamentos eram rapidamente            O andar a pé é uma sucessão de desequilíbrios,
vendidos “na planta”, isto é, as pessoas compravam      que é administrado automaticamente pelas
os apartamentos ainda no projeto, sem que um único      pessoas, num conhecimento incorporado desde
tijolo já tivesse sido assentado. Com a multiplicação   muito cedo. Quando é dado um passo com a
dos lançamentos de prédios, por todo o país, o          perna esquerda, o corpo se desequilibra para
caixa da empresa era altamente superavitário, o que     aquele lado, e, para recuperar o equilíbrio, novo
permitiu a compra, até certo ponto irresponsável, de    passo é dado com a outra perna, o que leva o
muitos terrenos para futuros lançamentos, além de       corpo a se desequilibrar para o lado direito, e
má gestão na própria administração dos negócios         assim, sucessivamente, vai sendo corrigido o

                                                   189
desequilíbrio para um dos lados jogando o corpo                     Indo mais além, Senge (2002) deixou claro,
para o lado oposto. Isso é o ato de andar, num              em sua opinião, que todas as pessoas sabem que o
movimento para frente e para o lado oposto ao               aprendizado não ocorre pela absorção e implantação
do desequilíbrio anterior.                                  das idéias de outras pessoas: “aprendemos a
         Andar de bicicleta é exatamente o oposto           andar, andando, e caindo; aprendemos a andar de
disso. Se a bicicleta se desequilibra para a esquerda,      bicicleta, pedalando, e caindo; aprendemos tudo
por exemplo, o movimento que é preciso fazer é              na vida, fazendo, e errando, sempre. Não existem
virar a bicicleta para o próprio lado esquerdo, para        substitutos”.
recuperar o equilíbrio, exatamente no sentido oposto
ao da correção do desequilíbrio do andar natural.           A pedalada deste ensaio teórico
         Quando as pessoas, andando a pé,
desequilibram-se, é necessário parar para recuperar                 Uma terceira metáfora ainda pode ser
o equilíbrio. Na bicicleta, é, novamente, ao contrário.     construída sobre a imagem do andar de bicicleta,
Se, ao andar de bicicleta, a pessoa começa a                partindo do fato de ser impossível, teoricamente,
perder o equilíbrio, é preciso acelerar as pedaladas        ensinar alguém a andar de bicicleta, como ensina
para obter mais velocidade e buscar novamente o             Peter Senge, até por razões de aplicação de teorias
equilíbrio.                                                 de física conflitantes. A partir da aceitação desse
         Parece até uma ação anti-natural virar a           ponto, é razoável aceitar também que só se aprende
bicicleta para o lado em que se está caindo, ou para        andar de bicicleta com ela em movimento.
recuperar o equilíbrio, aumentar a velocidade. Mas                  Esse conhecimento novo só é incorporado
não é, trata-se apenas da aplicação dos princípios          pela pessoa durante a experiência, e não antes,
do movimento giroscópico, o que é muito natural e           nem depois.
fácil, tanto que a maioria das pessoas sabe andar                   A metáfora do andar de bicicleta é
bem de bicicleta.                                           extremamente oportuna e adequada para fortalecer
         Só fica difícil do ponto de vista do andar a pé,   a imagem do que acontece em muitas das atividades
que foi um aprendizado anterior, cujo conhecimento          humanas. Uma partida de futebol não é interrompida
já foi incorporado pela pessoa. Teoricamente, para          para que o técnico provoque uma mudança tática,
aprender a andar de bicicleta, a pessoa precisa, de         substituindo um atleta. O novo jogador entra no
alguma forma, “desaprender” o andar a pé, que               time com o jogo em andamento, seus colegas não
obedece a outros princípios de física.                      param e vão discutir a nova orientação estratégica,
         E esse aprender e desaprender, no caso da          nem os adversários. O time precisa absorver a
bicicleta, é impossível de ser ensinado sem a prática.      mudança com as coisas acontecendo.
Não existe forma de ensinar teoricamente a andar                    Quando surge uma nova tecnologia, destinada
de bicicleta. É só pedalando realmente, caindo,             a substituir outra existente já há algum tempo, não
tomando a pedalar, que se aprende a andar.                  é possível abandonar a antiga e introduzir a nova
         Quando esse novo aprendizado fica                  com data marcada. A telefonia celular começou
incorporado, as pessoas, ao subirem numa bicicleta,         utilizando uma tecnologia analógica e, quando a
automaticamente passam a aplicar as regras                  digital já estava madura comercialmente, não era
diferenciadas desse outro conhecimento.                     razoável, nem possível, exigir que todos os usuários
         O que Senge (2002) pretendeu mostrar com           substituíssem seus aparelhos. As empresas foram
a utilização dessa metáfora, é que, se, muitas vezes,       obrigadas a manter os dois sistemas em paralelo,
as pessoas acham algum novo conhecimento muito              e, aos poucos, irem incentivando a troca. O novo
difícil de ser aprendido, isso se deve a algum outro        foi incorporado sem interrupção no fornecimento
conhecimento incorporado, que colide na mente dessas        do serviço antigo, até a sua extinção pelo próprio
pessoas com alguns aspectos do novo aprendizado.            mercado.


                                                        190
O mesmo vale em processos de substituição         natural do ser humano para conviver com conflitos e
tecnológica mais radical, como o que aconteceu             tentar supera-los, e a satisfação do “ter conseguido”.
quando da entrada no mercado dos CDs com som
digital, em substituição aos discos de vinil, os antigos   O medo presente nas mudanças
LPs. Enquanto a população era convencida a trocar
seus aparelhos de reprodução de som analógicos,                    As pessoas convivem com mudanças todo
as gravadoras lançavam os sucessos musicais nas            o tempo. Na própria vida, caminham da infância
duas mídias.                                               para a adolescência, depois para a juventude,
         Também nas organizações, não ocorrem              para a idade adulta e finalmente para a velhice.
mudanças que obriguem a parada dos negócios até            Nem sempre passam por essas mudanças de
sua implantação. Nem mudanças tecnológicas, nem            modo pacífico. Muitas pessoas tentam inutilmente
administrativas, nem nenhuma outra. As mudanças            agarrar-se a uma dessas fases, manterem-se nela,
sempre ocorrem com os negócios fluindo. Os                 esquecidas que estão que a mudança é natural, e
funcionários precisam absorver o novo, abandonar           por isso mesmo, necessária.
o confortável antigo, e seguir em frente com suas                  As empresas também evoluem, com grandes
tarefas, sem interrupção.                                  mudanças em todos os níveis. A ecologia das
         Eles não são como as máquinas, que podem          empresas é diferente hoje do que era há trinta anos,
ser desligadas na sexta-feira, após o expediente,          e muito mais diferente ainda do que há cem anos.
retiradas do local e substituídas por outras durante       O mundo mudou. A tecnologia mudou o mundo.
o fim de semana. Eles operavam as máquinas                 Os computadores e a telecomunicação criaram um
que foram obsoletadas, e, porque a empresa não             mercado global.
pode parar, na segunda-feira vão operar as novas                   Os movimentos de internacionalização
máquinas, mesmo com todos os conflitos que isso            das economias têm produzido o surgimento de
possa gerar com o conhecimento anteriormente               novos modelos e dinâmicas organizacionais. As
incorporado, independentemente de todo o                   necessidades de eficiência, de ganhos de escala,
treinamento que tenham recebido.                           somadas a complexos modelos de logística, têm
         E esse pedalar a mudança é um processo            provocado a criação de mega-conglomerados
difícil, com os conhecimentos antigos e novos em           a partir de fusões, aquisições e alianças entre
conflito. Exatamente como disse Senge (2002), sobre        empresas. De bancos a empresas automobilísticas,
a dificuldade de aprender a andar de bicicleta, em         de seguradoras a indústrias, são raros os setores
razão do contraste existente entre o conhecimento          que ainda não viveram esta realidade.
já incorporado, da física do movimento andar,                      Em um contexto de maior competitividade, as
e o conhecimento sendo absorvido, da física do             organizações buscam concentrar esforços em torno
movimento giroscópico.                                     de suas competências, terceirizando as atividades
         Mas, como no aprender a andar de bicicleta,       periféricas, abrindo espaço para as pequenas e
nas mudanças organizacionais, a maioria dos                médias empresas, arranjadas em redes ou em clusters.
funcionários incorpora o novo conhecimento,                        Até como decorrência dessa mudança, a
também, como na bicicleta, tomando tombos e                sociedade em geral, e os empregados, passaram a ter
levantando e perseverando.                                 maior poder dentro das corporações. Preocupações
         Durante a implantação de mudanças numa            com o nível de emprego, a utilização de recursos
empresa, assim como durante o processo de                  naturais, a produção de dejetos, o aumento do
aprendizado de andar numa bicicleta, as pessoas            tráfego, da poluição, entre outros, somam-se à
transitam por algumas etapas muito similares: o            maior expressão e organização dos agentes da
medo do novo, a dor decorrente dos machucados              sociedade, aumentando o poder de pressão desses
produzidos pelos tombos, o uso da capacidade               atores nas estratégias das empresas.


                                                      191
Diversos outros participantes, como o                     Um aumento das forças de impulsão poderia
governo, fornecedores e concorrentes, e outros,           melhorar o desempenho, mas também poderia
merecem ser ainda considerados no desenho da              aumentar as forças de restrição. As forças de impulsão
teia de influência sobre a empresa.                       ativam suas próprias forças de restrição. Portanto,
         E não apenas empresas, mas também                diminuir as forças de restrição é, normalmente, uma
as organizações governamentais e as sem fins              maneira mais eficaz de se estimular a mudança do
lucrativos, necessitam saber cada vez mais quais          que aumentar as forças de impulsão.
e como os diversos atores devem ser levados em                     O conceito de equilíbrio também parece
conta na formulação de suas estratégias.                  mostrar que as organizações têm forças que evitam
         Não é possível precisar se as empresas           que o desempenho fique em nível muito baixo, bem
chegaram à juventude, à idade adulta, ou acabaram         como forças que evitam que ele melhore muito.
de entrar na adolescência, mas, certamente, entraram               As chamadas por Lewin (1965) de forças
em uma nova idade. E isso implica mudanças. E em          de restrição estão, quase sempre, ligadas ao fato
mudanças obrigatórias.                                    de que as pessoas que detinham o conhecimento
         Um dique se rompeu, e a água vem subindo.        antigo, têm muitas razões, em seu próprio modo de
Como as empresas poderão reagir? Viver sem medo           pensar, para não acreditar no novo, para achar que
o ponto de virada desse novo período da história,         o novo vai se transformar em algum tipo de desastre,
não só das empresas, mas da humanidade, ou                pessoal ou para a organização.
resistir e agonizar. Como diz Srour (1994), o dilema               O modelo posteriormente elaborado por
é “mudar a forma de gestão que as ordena ou               esse autor, e outros, também pode ser aplicado a
enfrentar em absoluta desigualdade de condições a         pessoas, grupos ou a organizações inteiras. Envolve
exposição à concorrência”.                                o “descongelamento” do padrão de comportamento
         O “viver sem medo” esses novos tempos            atual, a “mudança” ou o estabelecimento de novos
implicam reescrever sua própria história; desmontar       padrões de comportamento e, depois, a “nova
conceitos fundidos numa sólida base cultural;             cristalização” ou reforço do novo comportamento.
cortar, enfim, na própria carne. Esses pensamentos                 O descongelamento implica tornar-se e
dão medo e doem, doem muito, antes mesmo de               necessidade de mudança tão óbvia que o indivíduo,
tomarem-se realidade.                                     grupo ou a organização possa vê-la e aceitá-la
         Entre empresários e consultores, são muitas      prontamente.
as lembranças de desilusões dos inúmeros e caros                   Na mudança, um agente de mudança
fracassos resultantes das tentativas de concretizar       treinado      pode      desempenhar      um      papel
mudanças. Entre os empregados e profissionais, o          particularmente útil no estabelecimento de novos
medo das reengenharias e dos downsizings, da              padrões de comportamento. Ao lado dos membros
panacéia administrativa que estiver na moda, e das        da organização, o agente de mudança ajuda a
mágicas orientações do guru de plantão contratado         criar situações nas quais novos valores, atitudes e
pela empresa.                                             comportamentos serão apropriados, além de dar
                                                          exemplos de cada um deles.
O chão se aproxima rápido                                          Estes valores, atitudes e comportamentos
                                                          são absorvidos pelos membros da organização, via
        As pessoas têm muito medo do tombo, da            processos de identificação e internalização.
dor e dos machucados que ele poderá provocar.                      Na identificação, os membros da organização
        De acordo com a teoria do campo de força, de      identificam-se com os valores e atitudes do agente
Lewin (1965), qualquer comportamento é resultante do      de mudança, modelando seu comportamento de
equilíbrio entre forças de impulsão e forças de reação.   acordo com esse agente. Na internalização, os
Aquelas atuam numa direção e estas atuam em outra.        membros da organização aprendem novos valores,


                                                      192
atitudes e comportamentos quando se vêem em                   Para algumas pessoas, ou muitas, o custo da
situações que exigem deles um desempenho eficaz.      mudança em termos de perda de poder, prestígio,
       A nova cristalização quer dizer o firme        ordenado, qualidade do trabalho, outros benefícios,
estabelecimento do novo padrão de comportamento       ou ainda o próprio emprego, será sempre muito alto.
por meio de mecanismos de apoio. O indivíduo,                 A terceira e não menos importante fonte de
grupo ou organização que tenha mudado tem os          resistência que as pessoas têm em relação à mudança,
benefícios do novo comportamento ou da nova           pode ser a consciência da fraqueza das mudanças
estrutura.                                            propostas. Às vezes, os membros da organização
       Lewin (1965) propôs, através de uma fórmula    resistem à mudança, porque têm conhecimento de
simples, um método para que os administradores        problemas potenciais que foram aparentemente
tenham mais facilidade para saber se um esforço de    desconsiderados pelos que iniciaram a mudança.
mudança tem ou não probabilidade de dar certo:        Essa forma de resistência é, obviamente, bastante
                                                      útil, se a organização souber como trabalhar com
      C = (ABD) > X
                                                      essas pessoas.
       onde C representa a mudança; A, o nível
de insatisfação com a situação atual; B, a posição    A voz do adulto: olhe para frente ...
futura a ser alcançada, perfeitamente definida; D,    olhe para frente
os primeiros passos práticos na direção do estado
desejado; e X, o custo da mudança.                            No aprender a andar de bicicleta,
       Ou seja, só é recomendável partir              apenas dois conhecimentos podem ser ensinados
em direção à mudança, quando seu custo é              previamente: não olhe para o chão e olhe para
suportável, quando as possibilidades de superar       frente. Daí em diante, trata-se apenas de pedalar,
as forças de restrição sejam razoáveis. O custo       cair, levantar, pedalar, cair, levantar, pedalar... até
da mudança será considerado alto, a menos             não cair mais.
que a insatisfação com a situação atual (A) seja              Nas organizações, os administradores estão
suficientemente forte, que a posição futura seja      em busca dessas verdades sobre o processo de
clara e desejada pela maioria dos envolvidos (B),     mudança.
e que os primeiros passos práticos possam ser                 Kotler e Schlesinger (1979) propõem seis
tomados rumo à situação futura desejada (D) sem       maneiras de se vencer a resistência das pessoas. A
muita dificuldade.                                    primeira, e mais óbvia, compreende a educação e a
       Stoner (1985) ensina que existem três          comunicação. Trata-se de informar as pessoas acerca
fontes gerais de resistência à mudança. Em            da lógica da mudança planejada e da necessidade
primeiro lugar, quando existe um grau elevado de      dessa mudança logo no início do processo.
incerteza quanto às causas e efeitos da mudança.              A segunda é buscar a participação e o
Os membros da organização podem resistir              envolvimento daqueles que, provavelmente,
psicologicamente à mudança por quererem evitar        resistirão à mudança. Se essas pessoas fizerem parte
a incerteza.                                          do projeto e da sua efetiva implantação, esta pode
       A segunda fonte de resistência está na         ser bem mais fácil de ser levada a cabo.
falta de disposição para abrir mão de benefícios              A terceira maneira identificada pelos autores
existentes. Mesmo que a mudança possa beneficiar      é facilitar o processo de mudança e dar apoio aos
a organização como um todo, não beneficiará,          que dela participam.
necessariamente, os milhares de operários demitidos           Outra maneira é a negociar com as pessoas
para que a folha de pagamento seja adequada           que, com certeza, ou potencialmente, resistirão
ao volume de operações, como aconteceu no             à mudança. Exemplos claros seriam os acordos
recentíssimo caso da GM norte-americana.              sindicais para redução de jornada de trabalho.


                                                 193
A quinta maneira envolve manipulação e  de movimento necessário, que obriga que as coisas
cooptação. Às vezes, os administradores evitam,aconteçam simultaneamente a ele mesmo, e que
                                               podem justificá-lo e até modificá-lo.
disfarçadamente, que as pessoas ou grupos resistam
à mudança. Podem manipular ou cooptar os               Na primeira utilização, uma metáfora criada
                                               pelos economistas, quando se discutiu a pedalada
empregados, liberando informações seletivamente,
ou estruturando, conscientemente, a sequência  da Encol, mostrou-se que a mudança no ambiente
dos acontecimentos. Além da ética dúbia dessas aconteceu com tanto impacto, de maneira tão
                                               importante, que o tombo foi muito grande, e não foi
técnicas, elas também podem ter um efeito oposto
ao desejado.                                   possível retomar o movimento.
       Finalmente, na visão de Kotler e                Na segunda utilização da metáfora, criada
Schlesinger (1979), pode ser usada a coação.   por Peter Senge, ocorreu uma tentativa de explicar
Os administradores podem forçar uma pessoa a   a aprendizagem do novo, pelas pessoas, dos
aceitar uma mudança com ameaças explícitas ou  processos de mudança, pela capacidade inata que
implícitas, envolvendo perda de emprego, perda elas têm, mesmo em pleno movimento, de substituir
de promoção, etc. Também podem demitir ou      um conhecimento antigo por outro, muitas vezes até
transferir empregados que dificultem a mudança.conflitantes com o anterior..
Neste caso, como no anterior, o efeito pode ser        A terceira utilização reuniu o conceito do
negativo.                                      movimento e do aprendizado do novo em um mesmo
                                               processo e mesmo espaço de tempo, quando propôs
       Essa teoria, por ser bastante abrangente,
parece ser tão simples como o olhe para frente,que em muitas situações, principalmente no mundo
não olhe para o chão, que os adultos dizem paracompetitivo, e especialmente na gestão das empresas,
as crianças na primeira vez que elas sentam no não é possível separar a continuidade da ação que
selim da sua bicicleta. Na verdade, não existemestá se desenrolando da mudança que precisa ser
teorias.                                       implementada.
                                                       A própria vida das pessoas é um permanente
Considerações Finais - Pedalando, enfim! aprender a andar de bicicleta, provavelmente sob
                                               qualquer ótica que se queira utilizar. Pelo menos, essa
     Todas as três utilizações da metáfora do afirmativa parece ser verdadeira quando se pensa
andar de bicicleta, encaminham para um sentido nas pedaladas comentadas neste artigo.


Referências
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                                             195
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que não estiverem de acordo com as normas serão devolvidas aos autores.
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                                        aceitará a submissão.

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       6. O Resumo e Abstract em sua redação e estilo, em conformidade com a NBR - 6028/2003 da
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        No mínimo 3 (três) e no máximo 5 (cinco) Palavras-chave, bem como Key Words. Obs: o
 resumo, palavras-chave, abstract e key words devem ficar na(s) primeira(s) página(s), separados
                       do restante do artigo por uma quebra de página.

        7. O corpo do texto redigido em português, digitados na fonte Times New Roman, tamanho
   12, formatado para o tamanho A4 (210 x 297 mm), espaçamento simples, e configurações de
    margem sendo de 3 cm superior e esquerda da página e 2 cm inferior e direita da mesma ,
                                    parágrafo de recuo 1,25cm.

          8. Nas tabelas e nos gráficos, as margens devem ser limitadas ao máximo de 17 cm de
 largura, considerando fonte de tamanho 10. Devem ser numerados (números arábicos) de acordo
             com a ordem em que aparecem no texto. Importados do Excel para o Word.

       Importante: Todas as ilustrações devem ser fornecidas no portal em formato solicitado, no
corpo do texto e também separadas em arquivo complementar de extensão “DOC” (adiante, veja o
                     item de verificação sobre imagens, fotos e ilustrações).
9. As citações seguem a norma NBR 10520/2002 da ABNT.

          10. As notas de rodapé e explicativa, não são aceitas e dessa maneira o texto não deve
                                              contê-las.

       11. As Referências seguem a norma NBR 6023/2002 da ABNT, que demonstra como deverão
                ser listadas as referências (bibliográficas, eletrônicas e periódicos).

         12. O texto original (excetuando-se os resumo, palavras-chave, abstract e key words) não
                                        ultrapassa 15 páginas.

                  13. A numeração de páginas se inicia a partir da introdução em diante.

        14. As imagens, fotos e ilustrações, quando houverem, devem ser enviadas em arquivo de
  extensão “DOC” complementar no portal da revista. Serão aceitas imagens no Corel-draw® em
 formato JPEG (extensão JPG), e com no mínimo 300 dpi de resolução. Devem conter fonte e data;
caso não seja de domínio público, será necessária autorização dos detentores dos direitos autorais
                                  para reprodução das ilustrações.
      Observação: Desconsidere esse item quando não houverem imagens, fotos e ilustrações.

Declaração de Direito Autoral

       O(s) Autor(es) que publica(m) nesta revista concorda(m) com os termos da declaração a seguir.
       Estes termos ficam aceitos no momento em que finalizam os itens do processo da submissão do
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    UNICENTRO, através da Revista Capital Científico com o trabalho simultaneamente licenciado
   sob a Creative Commons Attribution License, permitindo o compartilhamento do conteúdo com
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Revista Científica  - Capital Científico - v7n1

Revista Científica - Capital Científico - v7n1

  • 1.
    R evista C apital C ientífico
  • 2.
    Rua Salvatore Renna,875, Santa Cruz Cep 85015-430 Guarapuava, Paraná Fone: (0xx42) 3621-1019 Fax: (0xx42) 3621-1090 editora@unicentro.br www.unicentro.br/editora Revista Capital Científico - RCCi Fone: (55+) 042 3621-1072 Fax: (55+) 042 3623-8644 http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico
  • 3.
    R evista C apital C ientífico Volume 7 Número 1 2009 Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO Guarapuava/Irati - Paraná- Brasil htttp://www.unicentro.br
  • 4.
    Revista Capital Científico- RCCi Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO Reitor: Vitor Hugo Zanette Vice-reitor: Aldo Nelson Bona Editora UNICENTRO Comissão Científica Beatriz Anselmo Olinto Dra. Lucia Cortes da Costa – Universidade Estadual de Ponta Assessoria Técnica: Bruna Silva, Luiz Gilberto Bertotti, Luciano Grossa (UEPG) Farinha Watzlawick, Waldemar Feller Dr. Eduardo Fernando Appio – Centro Universitário Filadélfia Divisão de Editoração: Renata Daletese (UNIFIL) Dra. Márcia Maria Dos Santos Bortolocci Espejo – Universidade Seção de Revisão de Inglês: Raquel Cristina Mendes de Federal do Paraná (UFPR) Carvalho. Dra. Patrícia Morilha Muritiba – Universidade Nove de Julho Estagiários: André Justus Czovny; Fernanda Gongra; Marcio (UNINOVE) Fraga de Oliveira; Lucas Casarini Dra. Rúbia Nara Rinaldi – Universidade Estadual do Oeste do Revisão: Dalila Oliva Lima de Oliveira Paraná (UNIOESTE) Diagramação: Lucas Casarini Dr. Weimar Freire da Rocha Júnior – Universidade Estadual do Capa: Lucas Gomes Thimoteo Oeste do Paraná (UNIOESTE) Impressão: Gráfica UNICENTRO Setor de Ciências Sociais Aplicadas Santa Cruz: Luiz Fernando de Lima Irati: Edelcio José Stroparo Comissão Editorial Dr. Ivan de Souza Dutra (presidente-editor); Ms. Ana Léa Macohon Klosowski; Dr. Carlos Alberto Marçal Gonzaga; Ms. Carlos Alberto Ferreira Gomes; Ms. Diogo Lüders Fernandes; Ms. Ivonaldo Brandani Gusmão; Ms. Juliane Sachser Angnes; Ms. Rosangela Bujokas de Siqueira Publicação do Setor de Ciências Sociais Aplicadas capitalcientifico@unicentro.br Para submissões: http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico Edição aprovada pelo Conselho Editorial da UNICENTRO Catalogação na publicação Biblioteca da UNICENTRO Capital Científico / Centro de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual do Centro-Oeste. – v.1, n.1 (2003) – Guarapuava: UNICENTRO, 2009 - Anual. ISSN 1679-1991 1. Ciências Sociais – Periódicos. Versão online, ISSN 2177-4153 em http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico Copyright © 2009 Editora UNICENTRO Nota: Os conteúdos dos artigos desta revista são de inteira responsabilidade de seus autores.
  • 5.
    Editorial A Revista Capital Científico - RCCi encerrou o ano de 2009 com várias novidades de volume, comunicação eletrônica e impressa, design gráfico, bem como na especialização e balanceamento temático dos artigos, marcando uma fase de crescimento, decorrente de mudanças significativas que estão sendo implementadas desde 2008. A Comissão Editorial ensejou a procura incessante em conteúdos com melhor qualidade científica e contribuição para a sociedade, tendo sempre em vista a missão do periódico, um desafio que foi e continua árduo, o que pode ser observado nas considerações que seguem. Diante da conjuntura recente, verificaram-se obstáculos comuns como em vários periódicos acadêmicos de instituição pública que não têm receita por assinaturas ou fomento institucional externo, a exemplo do trabalho com equipe reduzida. Além disso, existiu a dificuldade de recebimento de artigos relevantes, que pudessem ser aprovados dentro das exigências e condições necessárias, atendendo à qualidade e contribuição almejadas, dentro do prazo estabelecido para encerramento da edição. Isso também é explicado pela fase atual do periódico, que ainda é relativamente pouco conhecido para o público de estudiosos externos e não tem alto fator de impacto, ao verificar-se o baixo volume de artigos recebidos para dar giro de publicação das edições. Por causa dessas circunstâncias, a comissão considerou publicar artigos recebidos e aprovados após o ano de 2009 dentro dos critérios exigidos, sem perda da qualidade exigida, como pode ser verificado nesta edição. Por outro lado, as contribuições dos autores desta publicação, e o recebimento mensal de novas submissões especialmente a partir de 2010, por autores de diversas origens institucionais, serviram de estímulo para superar as dificuldades de manutenção, e as crescentes exigências do sistema de avaliação Qualis, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/MEC. É importante ressaltar que várias manifestações de sugestões ou críticas dos pesquisadores, discentes e leitores recebidas ao longo do ano, contribuíram em boa parte para as modificações de melhoria do formato e consolidação do conteúdo. Sendo assim, apresentamos essa edição com novo design gráfico para abarcar as temáticas contemporâneas do campo de Sociais Aplicadas. Na nova capa, buscou-se uma síntese dessa proposta, pela representação do globo terrestre estilizado, dando a idéia da característica interdisciplinar desse campo, em face de estudos que alcançam dimensão mundial, na perspectiva de que não é possível distinguir as fronteiras entre novas e diferentes realidades sócio-econômicas, bem como nas várias ciências do escopo das Ciências Sociais Aplicadas. A formatação interna de fonte e conteúdo acompanhou essa filosofia, também adaptada às novas tendências. Para as ações de gestão e editoração periódica, foi implantado o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas – SEER, uma ferramenta desenvolvida pelo Public Knowledge Project (Open Journal Systems) da Universidade British Columbia e customizada no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia – IBICT. Com isso, iniciou-se um novo ciclo de edições com publicações eletrônicas em portal da revista via Internet, por meio do endereço http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico. Em consequência, foi requerido e registrado um segundo número de ISSN, o 2177-4153, que é designado para a versão on line da revista. Com esse sistema, que é visto com aprovação pelo Qualis/CAPES/MEC, ganha-se em segurança, aumenta-se o controle, melhora a qualidade e cresce o nível de compartilhamento e socialização do conhecimento publicado. Uma Comissão Científica foi criada para a constante melhoria das diretrizes, normas e conteúdos do periódico, constituída por doutores de instituições externas, representados em cada uma das seis áreas
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    de Sociais Aplicadasaceitas no periódico. Nessa edição, a RCCi tem um privilégio de contar com essa comissão composta por professores e pesquisadores que se destacam nas suas áreas de trabalho e na academia nacional, cujos nomes dão reconhecimento à missão e aos propósitos científicos do periódico. Os artigos publicados nesta edição são de autores vinculados a instituições de ensino e organizações de pesquisa de renome, com a participação em mais de 70% de autores externos, que não possuem qualquer vínculo formal com a UNICENTRO, conferindo legitimidade e seriedade à revista aos seus objetivos editoriais. Esses autores também contribuíram significativamente com seus estudos em qualidade e relevância do conteúdo. Esta edição contempla estudos, discussões e aspectos sobre a mudança social, organizacional e a sustentabilidade. Assim, apresentam-se artigos que trazem pesquisas e reflexões sobre as transformações organizacionais diante da vida no mundo, em termos macroambientais e microambientais, de sistemas em que vivem pessoas e organizações sócio-econômicas. O leitor encontrará estudos do processo produtivo sobre o trabalho e o capitalismo, e outros, das desigualdades sociais, das alternativas de desenvolvimento sustentável e a crise ambiental, dos sistemas de gestão ambiental e de responsabilidade social, bem como do perfil daqueles que dirigem organizações com esses processos. Em perspectiva adjacente, são apresentados artigos tais como: o da hierarquização de atrativos turísticos da cidade de Irati-PR; o da análise dos objetivos do balanço social, da análise das metodologias de intervenção de consultores em ONG no Recife-PE; da qualidade de serviços em uma IES, utilizando-se o modelo metodológico 5 GAP´s; recursos de tecnologia e informação para o apoio ao ensino, pesquisa e extensão, além de trabalhos das narrativas (storytellings) contadas pelos anúncios e vídeos institucionais da organizações, de casos de ações em Customer Relationship Management (CRM) e sobre os processos de seleção de empregados por competência. Um ensaio que discute e traz metáfora para a mudança organizacional encerra o periódico. Diante disso, a Revista Capital Científico traz conteúdos pela busca e auxílio do conhecimento contemporâneo nas Ciências Sociais Aplicadas, em suas diversas áreas, com a contribuição dos autores, sempre seremos agradecidos. Desejamos uma excelente leitura! Dr. Ivan de Souza Dutra Editor da revista Capital Científico
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    Sumário Capitalismo e asTransformações no Processo de Trabalho.................... 11 Caroline Goerck Crise Ambiental e Desenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia como uma das soluções de longo prazo........................................................... 21 Marcia Regina Gabardo da Camara Rafael Borim de Souza A Polarização e as Desigualdades Regionais no Brasil.......................... 35 Francieli do Rocio de Campos Patrícia Estanislau A Evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental: o caso do Laboratório de Camarões Marinhos................................................................................. 47 Antonio Costa Gomes Filho Fernando Antonio Forcellini Marilene Bronoski Rafael Feyh Jappur Projetos Brasileiros de Aterro Sanitário no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo: uma análise dos indicadores de sustentabilidade...................... 57 Miriam Tiemi Oliveira Takimura Valdir Machado Valadão Júnior Avaliação e Hierarquização dos Atrativos Turísticos de Irati-PR............ 73 Diogo Lüders Fernandes Vanessa de Oliveira Menezes Gestão da Responsabilidade Social e o Perfil dos Gestores: análise das organizações de Blumenau - SC..............................................................85 Danielle Regina Ullrich Marialva Tomio Dreher Balanço Social: uma análise comparativa entre objetivos propostos na literatura e a realidade empírica............................................................ 99 Diocesar Costa de Souza Marcos Roberto Kuhl Vicente Pacheco
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    Metodologias de IntervençãoUtilizadas pelos Consultores no Trabalho Realizado com ONGs: um estudo na região metropolitana de Recife- PE..................................................................................................... 115 Marcos Gilson Gomes Feitosa Naldeir dos Santos Vieira Avaliação da Qualidade dos Serviços de uma Instituição de Ensino Superior Utilizando a Aplicação do Modelo Adaptado de Mensuração dos 5 GAP’s................................................................................................... 129 Rodrigo Navarro Xavier BRT-ADM/I – Banco de Recursos Tecnológicos: apoio ao ensino, pesquisa e extensão..............................................................................................139 Carlos César Garcia Freitas Dados de Clientes no Customer Relationship Management (CRM): estudo de casos múltiplos no desenvolvimento de software............................151 Flávio Régio Brambilla Storytellings Organizacionais: narrativas contadas pelos anúncios e vídeos institucionais............................................................................... 163 Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros Mudando para Seleção por Competência: um caso paranaense..........175 Keyla Cristina Pereira Prado Sérgio Bulgacov Ensaio: O Princípio da Bicicleta: revisitando a mudança organizacional....187 Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
  • 9.
    Summary Capitalism and theChanges in the Working Process.............................. 11 Caroline Goerck Environmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnology as one of the long run solutions.............................................................. 21 Marcia Regina Gabardo da Camara Rafael Borim de Souza The Polarization of Regional Inequalities in the Brazil........................... 35 Francieli do Rocio de Campos Patrícia Estanislau Environment Management System Evolution: the case of Marine Shrimps Laboratory................................................................................................ 47 Antonio Costa Gomes Filho Fernando Antonio Forcellini Marilene Bronoski Rafael Feyh Jappur Brazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzing the indicators of sustainability................................................................. 57 Miriam Tiemi Oliveira Takimura Valdir Machado Valadão Júnior Evaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PR...................... 73 Diogo Lüders Fernandes Vanessa de Oliveira Menezes Social Responsibility Management and the Managers Profile: an analysis of Blumenau-SC organizations................................................................85 Danielle Regina Ullrich Marialva Tomio Dreher Social Balance: comparative analysis between goals proposed in the literature and empirical reality............................................................... 99 Diocesar Costa de Souza Marcos Roberto Kuhl Vicente Pacheco
  • 10.
    Methods of InterventionUsed in Labor Performed by the Consultants with NGOs: a study in the metropolitan area of Recife-PE.............. 115 Marcos Gilson Gomes Feitosa Naldeir dos Santos Vieira Evaluation of Higher Education Service Quality through the Adapted Measure Model of 5 GAPs...................................................................... 129 Rodrigo Navarro Xavier Clients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiple cases study for software development...................................................139 Flávio Régio Brambilla Organizationals Storytellings: the narratives told in the videos and ads institutional............................................................................................ 151 Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros Moving to Competency-Based Selection: a Parana case...............................163 Keyla Cristina Pereira Prado Sérgio Bulgacov The Bicycle Principle: revisiting an organizational change...........................175 Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães
  • 11.
    Capitalismo e asTransformações no Processo de Trabalho Capitalism and the Changes in the Working Process Caroline Goerck1 Resumo No capitalismo, os proprietários dos meios de produção exercem a hegemonia absoluta sobre as forças produtivas, apropriando-se com exclusividade dos excedentes gerados no processo de trabalho. Os capitalistas almejam intensificar a acumulação de capital, por meio da mais-valia absoluta e relativa, reduzindo os custos de produção e aumentando a sua produtividade. O processo de produção realizado pelo maquinário a vapor, durante a I Revolução Industrial, pelo petróleo e pela eletricidade, na II Revolução Industrial, e pelo desenvolvimento da automação, robótica e microeletrônica, elaborado por meio da III Revolução Industrial, foram submetendo os trabalhadores à máquina. Entretanto, faz-se necessário enfatizar que o desemprego é permanente no sistema capitalista, sendo que o investimento em mais-valia relativa, só o acentua. Este estudo está relacionado com uma revisão bibliográfica sobre o assunto apresentado e propõe-se também a desencadear alguns questionamentos junto a estudantes e/ou profissionais que trabalham com a questão social e suas manifestações, para serem objeto de prospecções sobre a realidade social e econômica. Nesse sentido, este artigo propõe-se a desencadear reflexões sobre as transformações que estão ocorrendo no processo de trabalho, visando prospectar alternativas à conjuntura macro social e econômica vigente. Palavras-chave: Capitalismo; Processos de Trabalho; Revoluções Industriais; Desigualdade Social Abstract The owners of means of production in the capitalist system exert an absolute hegemony over the productive forces, suiting themselves exclusively from the surplus generated through the work processes. The capitalists intend to intensify the cumulative capital by relative and absolute surplus value, reducing the production costs and increasing their productivity. Production achieved by steam engines, during the First Industrial Revolution, by petroleum and electricity, during the Second Industrial Revolution, and by the development of automation, robots and micro-electronics, originated during the Third Industrial Revolution, were substituting machine operators. However, it becomes necessary to emphasize that unemployment is permanent in the capitalist system, considering that the investment in relative surplus accentuates this unemployment. In this sense, the present article proposes to elicit some reflections with students and/or professionals who carry about social manifestation issues, aiming to prospect alternatives to the social macro and economical conjuncture being viewed. Key words: Capitalism; Work Processes; Industrial Revolutions; Social inequality 1 Possui doutorado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS.Contato: goerck@yahoo.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 04/10/2009 - Aprovado em 04/06/2010
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    Introdução de alienação. Na manufatura, entretanto, o trabalhador ainda possuía certa autonomia, em As questões referentes ao trabalho e relação às atividades que estava desempenhando, seus processos produtivos, exercem influência pois a ferramenta era utilizada para auxiliá-lo na fundamental na forma de organização da sociedade, produção, e não substituí-lo. “Na manufatura, o com suas respectivas relações sociais e econômicas, trabalho é desenvolvido pelo esforço humano, as políticas e culturais. Para a existência de alternativas operações são manuais e dependem da habilidade, e proposições em relação ao capitalismo, rapidez, segurança e destreza individual dos primeiramente se faz necessário, um conhecimento trabalhadores” (PIRES, 1998, p. 31). Assim, no mais elaborado desse sistema. trabalho desenvolvido pela manufatura, o capital Esse artigo tem como finalidade, introduzir e ainda dependia da habilidade manual do operário. elucidar conceitos do modo de produção capitalista Durante o século XVIII, na Inglaterra, emergiu e sobre o processo de trabalho, por meio de uma um intenso processo de transformação nos processos retrospectiva histórica de forma que a questão produtivos, intitulado de 1ª Revolução Industrial. social seja evidenciada. Primeiramente, serão “A Revolução Industrial assinala a mais radical apresentadas as primeiras formas de sistematização transformação da vida humana já registrada em do trabalho coletivo e os procedimentos adotados documentos escritos” (HOBSBAWM, 1983, p. 13). pelo capital, para a obtenção da mais-valia. Num Nesse momento histórico, acentuou-se a divisão segundo momento, serão abordadas a II Revolução entre a classe trabalhadora e os proprietários dos Industrial e as transformações que estão ocorrendo meios de produção. no final do século XX e limiar do século XXI, com O período da 1ª Revolução Industrial suas respectivas implicações sociais e econômicas. corresponde ao momento de consolidação do Por fim, serão tecidas as considerações finais. capitalismo industrial, principalmente na Inglaterra. O trabalho manufatureiro fora substituído pela 1. O Processo de Trabalho e o Sistema criação da máquina a vapor, pelo tear mecânico, Capitalista pelas estradas de ferro e pelo surgimento das fábricas. Antes de introduzir a I Revolução Industrial, faz- “Ainda que a indústria seja a forma através da qual a se necessário abordar um dos primeiros processos sociedade apropria-se da natureza e transforma-a, de trabalho existentes no sistema capitalista, como a industrialização é um processo mais amplo, que por exemplo, o trabalho manufaturado artesanal. marca a chamada Idade Contemporânea, e que se Os processos de trabalho manufaturados artesanais caracteriza pelo predomínio da atividade industrial foram caracterizados pela fragmentação das sobre as outras atividades econômicas” (SPOSITO, atividades produtivas, pelo acirramento da divisão 2000, p. 43). A I Revolução Industrial foi mais do do trabalho, pela redução dos custos de produção que uma simples causa dessas invenções, do tear e pela culminação do trabalho assalariado. Essa mecânico, da estrada de ferro etc. Contrapondo- dissociação entre o produtor e os meios de produção se a isso, essas inovações são consequências das é nomeada de acumulação primitiva (MARX, 1988). mutações que estavam ocorrendo nos processos de No trabalho manufatureiro artesanal, produção industrial, desde o trabalho manufaturado, cada trabalhador se tornou especialista de uma visando a realização do capital. determinada função, auxiliado pela ferramenta. “A máquina, por meio de uma força externa, Pelo intermédio do parcelamento das atividades faz com suas próprias ferramentas, o que o homem laborais, realizadas na manufatura, ocorreu um fazia com suas ferramentas manuais” (PIRES, 1998, processo de estranhamento, entre os trabalhadores p. 31). Assim, a industrialização e as inovações de e as mercadorias por eles produzidas (MARX, maquinarias, reduziram os custos de produção, 1988). Esse processo de estranhamento é nomeado aumentaram a produtividade e substituíram a mão- 12
  • 13.
    de-obra, ocasionando umcrescente desemprego como o conflito suscitado entre o capital (proprietários e uma exacerbada exploração dos trabalhadores, dos meios de produção) e o trabalho (trabalhadores entre eles, o trabalho feminino e o infantil. que vendem suas forças de trabalho em troca de Por intermédio da perspectiva social e um salário), bem como, as desigualdades geradas econômica liberal, os processos de produção através dessa relação social, de compra e venda da continuaram sendo modificados. A produção força de trabalho (BULLA, 1992). realizada pelo maquinário a vapor – na 1ª Revolução Os trabalhadores, ao disponibilizarem a Industrial, e pelo petróleo e pela eletricidade - sua mão-de-obra aos capitalistas, são explorados durante a II Revolução Industrial, foram submetendo gerando a mais-valia, que perpetua a acumulação os trabalhadores à máquina. A II Revolução Industrial capitalista. A força de trabalho pode ser caracterizada teve como características, o desenvolvimento dos como o conjunto das faculdades físicas e intelectuais setores de transportes, comunicação, produção em do trabalhador que as vende à burguesia (SALAMA, série e, principalmente, a utilização do aço e de novas 1975). Os proprietários dos meios de produção formas de energia (petróleo e eletricidade), gerando compram a força de trabalho do proletariado, a concentração de capital e favorecendo a transição em troca de salários. “[...] o que distingue o pior do capitalismo concorrencial ao monopolista. arquiteto da melhor abelha é que ele figura na Esses novos protótipos de produções industriais, mente da sua construção antes de transformá-la ocasionados pela I e II Revoluções Industriais, em realidade” (MARX, 1968, p. 202). A mão-de- desencadearam o acirramento da divisão social do obra é vendida como mercadoria pelos próprios trabalho. Nessa época, a classe trabalhadora era trabalhadores. “Ao firmar o contrato salarial [...] os destituída de direitos trabalhistas e as condições de trabalhadores submetem-se ao empregador, que trabalho eram precárias. disporá da força de trabalho alienada” (CATTANI, No modo de produção capitalista, os 1996, p. 93). O valor desse salário é definido pela detentores dos meios de produção exerciam quantidade de horas trabalhadas pelos operários (exercem) a hegemonia absoluta sobre as forças (jornada de trabalho). produtivas (meios de produção e força de trabalho), Para os capitalistas, o processo produtivo apropriando-se com exclusividade dos excedentes possui um valor, pois lhes são úteis, gerando a gerados (mais-valia) na atividade econômica. Os mais-valia. Esta realiza-se, quando os trabalhadores proprietários dos meios de produção exploram os consomem mercadorias adquiridas, por intermédio trabalhadores pela obtenção da mais-valia, gerando de seus valores de troca, com os seus salários. a concentração de riquezas. Essa concentração de Ou seja, o salário dos operários que foi gasto capital e do trabalho socialmente produzido resultou em mercadorias, retorna aos capitalistas, que por em tensões e lutas sociais, especialmente a luta de sua vez, acumulam mais capitais, perpetuando o classes, processo analisado no livro “O Capital” sistema (MARX, 1988). A mais-valia produzida pela (MARX, 1988). classe operária é apropriada pelos capitalistas que O trabalho produzido pela classe trabalhadora sempre tentam aumentar os seus lucros, através da era (é) apropriado pelos capitalistas e, na medida em intensificação da produção que não é paga - através que a força de trabalho é algo passível de compra, ela dos salários, aos trabalhadores. Para o aumento passa também a ser considerada uma mercadoria. da mais-valia, da produtividade, os capitalistas Nesse processo, o valor da força de trabalho é usufruem de duas possibilidades. A primeira ocorre determinado pelo tempo de duração destinado à com a mais-valia absoluta, que se subdivide em produção e à reprodução das mercadorias. Essa outras duas alternativas: ampliação da duração relação entre a compra e venda da mão-de-obra da jornada de trabalho (horas trabalhadas); e a é considerada uma relação social e desencadeia a segunda pelo aumento da intensidade do trabalho, questão social. A questão social pode ser apreendida, visando à produção máxima dos trabalhadores 13
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    junto às máquinas(quase robóticos) durante a pura e simples do progresso técnico é, na realidade, execução do trabalho (MARX, 1988). Entretanto, um fenômeno inerente ao sistema capitalista e das ambas sofrem limitações, a primeira se contrapõe à suas próprias contradições (MARX, 1988). Nesse resistência física dos trabalhadores, que não teriam trabalho, ressalta-se o significado econômico da condições de trabalhar muitas horas consecutivas; mais-valia, pois essa acirra a desigualdade social. na segunda, os operários não possuem condições Conforme Karl Marx (1818–1883) e Friedrich de acompanhar o ritmo dos maquinários, quando Engels (1820–1895), pensadores do Socialismo muito acelerados. Científico, somente existiriam sociedades mais justas e A outra possibilidade de ampliação do igualitárias, quando o sistema capitalista se esgotasse acúmulo de capital é obtido pela mais-valia relativa, e fosse substituído por outro modo de produção, que que é responsável por uma grande exacerbação superasse a contradição capitalista. Esse outro sistema da produtividade no trabalho. A mais-valia relativa produtivo, segundo esses autores, seria o socialismo. é realizada a partir do uso intensivo de capital Neste, a propriedade privada e as classes sociais constante (maior investimento em compra de deveriam ser eliminadas, gerando a propriedade maquinários, do que em contratação da força de social dos meios de produção. Na sequência dessas trabalho), ocasionando uma redução nos custos de transformações, entre os modos de produção, em seu produção e no tempo socialmente necessário para último estágio, pregavam Marx e Engels, haveria a a fabricação de uma mercadoria, sem alterar o passagem do socialismo ao comunismo, eliminando tempo de duração na jornada de trabalho (MARX, assim, as classes sociais e o Estado Burguês. 1988). É nesse processo de intensificação da mais- Para Marx, a práxis “está presente como valia relativa, que se reduz o tempo socialmente elemento fundamental de transformação da sociedade necessário à produção de mercadorias, que e da natureza pela ação dos homens” (GOHN, 2002, geram acumulação de capital. Assim, as máquinas P 176). A transformação do social por intermédio de . aumentam a produção reduzindo a quantidade de atividades teóricas, conjuntamente com atividades trabalhadores contratados. políticas e/ou produtivas, constituem a práxis, que tem A redução da contratação de mão-de- como base fundante o mundo do trabalho. Entretanto, obra suscita o desemprego. O desemprego pode para que ocorra a transformação por meio da práxis, ser para os proprietários dos meios de produção, é necessário que exista a consciência de classe. Essa uma vantagem, pois se cria um exército de reserva consciência de classe, que Marx se refere, foi uma das (muita oferta de força de trabalho) a disposição dos condições necessárias à emergência dos movimentos capitalistas, que podem escolher a mão-de-obra, sociais existentes no século XIX. As Internacionais de acordo com as suas necessidades de produção. Socialistas, organizadas pelo próprio Marx e Engels, Portanto, o progresso técnico reduziu a contratação se constituíram em movimentos de organização da da mão-de-obra. Mas se faz necessário o classe operária. A Primeira Internacional, realizada esclarecimento de que o desemprego é permanente em Londres (1824) e a Segunda Internacional em no capitalismo, sendo que o investimento na Paris (1889), fixou a data de 1º de maio como o mais-valia relativa só o acentua. O objetivo dos Dia Internacional do Trabalho, em homenagem à proprietários dos meios de produção é intensificar mobilização realizada pelos grevistas em Chicago, a acumulação de capital, permitindo-lhe competir no ano de 1886. Outros movimentos sociais com os demais capitalistas, mantendo-se no sistema emergiram no século XIX frente ao capitalismo, como e evitando a sua eliminação ou incorporação a outro forma de resistência dos trabalhadores diante do capitalista e/ou grupo de maior porte. A lógica do capital. No próximo subitem, serão problematizadas capitalismo se sobrepõe ao processo técnico, esse as transformações que ocorreram e estão ocorrendo último só complementa-o. O desemprego, longe no processo de produção e gestão que envolvem o de ser um fenômeno natural ou uma decorrência sistema. 14
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    2. As Transformaçõesno Processo de trabalho de concepção e de execução; utilização Trabalho desenvolvidas nos Cenários do conhecimento, para controlar cada fase da dos Séculos XX e XXI produção e o seu modo de execução (HARVEY, 1999). Através da cisão entre o trabalho intelectual Os Séculos XX e XXI são cenários de acentuadas e o operacional, a gerência científica racionalizava transformações no mundo do trabalho, com suas a produção, estabelecendo rigidamente os modos respectivas implicações sociais e econômicas. Para e tempos de produção, bem como os rendimentos apresentar as novas transformações que estão da força de trabalho, colocando os trabalhadores ocorrendo nos processos de trabalho - que têm sobre uma estrutura hierárquica de produção, em como finalidade a intensificação da acumulação que eles eram vigiados e controlados. capitalista, é necessário que se introduza, o contexto O Taylorismo caracterizou-se pelo controle social e econômico existente no Século XX - cenário do capital (com o objetivo de elevar a produtividade originário e que permeou essas transformações. do trabalho) sobre processos de produção, nos O sistema capitalista, com a finalidade de quais o capital dependia ainda da habilidade do expandir a acumulação de capital, promoveu trabalhador. Esse controle era efetivado através a Segunda Revolução Industrial, manifestada, dos tempos e movimentos do trabalhador. Após principalmente, pelo binômio Taylorismo/Fordismo. as inovações dos processos produtivos de Taylor, Esses dois modelos predominaram no processo de em 1913 Henry Ford, utilizando essas inovações, industrialização, tendo sua ascensão na segunda criou a linha de montagem (automobilismo) e o década do século XX. Suas caracterizações estão método de produção em massa (esteira), obtendo relacionadas à hierarquização das relações de produtos padronizados (FLEURY; VARGAS, 1983). O trabalho, a homogeneização das mercadorias, a Fordismo, que teve seu desenvolvimento hegemônico produção em massa e em série (ANTUNES, 2003). no período pós-guerra, pôde ser desenvolvido ao Na indústria automobilística Taylorista e fundir-se com o Taylorismo. Fordista, foram considerados elementos centrais à produção, a racionalização das operações, o O Fordismo caracteriza o que poderíamos chamar de combate ao desperdício na produção (redução socialização da proposta de Taylor, pois, enquanto este procurava administrar a forma de execução de cada tra- de tempo), o aumento do ritmo do trabalho e da balho individual, o Fordismo realiza isso de forma cole- intensificação das formas de exploração pelos tiva, ou seja, a administração pelo capital da forma de capitalistas (ANTUNES, 2003). Taylor, fundador execução das tarefas individuais se dá de uma forma da gerência científica, começou sua carreira como coletiva, pela via da esteira (NETO, 1991, p. 36). operário numa fábrica. A partir de suas experiências, enquanto sujeito trabalhador, dedicou-se em Ao contrário do Taylorismo, que se baseava observar e em estudar os tempos e movimentos no rendimento individual de cada trabalhador, no realizados em cada tarefa e atividade da produção. Fordismo, o controle dos tempos e dos movimentos “O ‘Taylorismo’ ou ‘administração científica do era determinado pelo ritmo do funcionamento das trabalho’ surge como uma nova cultura do trabalho maquinarias. Nesse modelo, eram as máquinas na passagem do século XIX para o século XX, nos (esteiras) que levavam o trabalho até os operários, Estados Unidos, nação que começava a despontar eliminando assim, os tempos mortos de produção. como potência mundial” (DRUCK, 1999, p. 41). Com esse protótipo, que desenvolveu a mecanização Para o enfrentamento do capital em relação associada e parcialmente automatizada, o controle à dependência da habilidade manual da força de sobre o trabalho não precisava mais ser realizado trabalho, Taylor estabeleceu os seguintes princípios: diretamente pelo gerente, mas sim, pelos maquinários dissociação dos processos de produção das (PIRES, 1998). O Fordismo constituiu-se no processo especialidades dos trabalhadores; separação do contínuo da produção que agregou a produtividade 15
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    ao consumo, ouseja, sempre dispondo de estoque de vigência do Welfare State e com os modelos mínimo às mercadorias (Just-In-Case). Também de produção Fordistas e Tayloristas, ocorreu a pode ser considerado, o modelo de produtividade massificação da classe operária, conjuntamente que separou rispidamente o trabalho de concepção com a precarização das condições e relações de e o de execução. Esse tipo de produção ocasionou trabalho, fazendo com que eclodissem movimentos a “expansão das unidades fabris concentradas e reivindicatórios e questionadores desses métodos de verticalizadas e pela constituição/consolidação do produção. Essas manifestações foram concebidas operário-massa, do trabalhador coletivo fabril” por meio de greves, boicotes e resistência ao trabalho (ANTUNES, 1995, p. 17). despótico e verticalizado, oriundo do Taylorismo/ O Fordismo criou as linhas de montagem, Fordismo (ANTUNES, 2003). desqualificando, parcelando e desenvolvendo Outros elementos, além das manifestações atividades laborais repetitivas, prejudiciais à saúde operárias, que constituíram a crise desses dos trabalhadores. Tanto o Taylorismo como o modelos produtivos foram: a queda dos ganhos Fordismo, foram modelos produtivos degradantes de produtividade pelo capital; a abertura à das condições e relações de trabalho. A ruptura concorrência internacional, caracterizada pelo entre o trabalho de concepção e o de execução processo de globalização; a flexibilização do capital; foram elementos preponderantes para a alienação a desterritorialização e a crise do Welfare State dos operários diante do trabalho. Porém, não se (COCCO, 2001). A crise do Welfare State, modelo deve confundir o Taylorismo com o Fordismo. O de Estado que regulava o capital e reproduzia Taylorismo se caracterizou pela racionalização a força de trabalho, efetivou-se pela retirada das científica do trabalho, eliminando os tempos mortos coberturas sociais públicas e pelo corte nos direitos de produção e pôde ser viabilizado em pequenas sociais, num processo de ajuste do Estado que visa à e médias empresas; enquanto que o Fordismo diminuição dos ônus do capital e do déficit público, envolveu uma nova organização dos processos na esquematização da reprodução da força de de trabalho, através de máquinas-ferramentas trabalho e das condições para a perpetuação da especializadas, mecanização e intensa divisão de acumulação capitalista (NETTO, 1996). O Estado atividades laborativas, sendo que foi desenvolvido mínimo proposto pelas políticas neoliberais propõe em grandes empresas com produtos padronizados a retirada do Estado, junto aos bens e serviços (CATTANI, 2000). Esses modelos contribuíram para sociais públicos e não em relação ao financiamento a exploração da classe trabalhadora no século XX. do capital. Paralelamente ao modelo de produção Nesses contextos sociais e econômicos, os Taylorista/Fordista, também no período Pós- governos dos Estados de capitalismo avançado, Guerra, emergiu o modelo de Estado designado liderados por Margaret Tatcher na Inglaterra, em como Welfare State nos países liberais. “O Estado 1979, e Ronald Reagan nos Estados Unidos, em é chamado para arbitrar o conflito entre o capital e 1980, implementaram uma política econômica e o trabalho” (SCHONS, 1999, p. 119). Esse modelo social embasados no aporte teórico neoliberal. Essa de Estado contribuiu para o Boom Econômico até política econômica e social tem como medidas: o o final da década de 1960 e “é entendido como a enxugamento e a redução das responsabilidades dos mobilização em larga escala do aparelho do Estado Estados diante das sociedades; o fortalecimento da em uma sociedade capitalista, a fim de executar liberdade de mercado; as privatizações de instituições e medidas orientadas diretamente ao bem-estar organismos estatais; a redução e a extinção do capital de sua população” (MEDEIROS, 2001, p. 6). O produtivo estatal; o desenvolvimento de uma legislação Welfare State interviu no planejamento econômico, “desregulamentadora” das relações de trabalho e montando esquemas de transferências sociais e “flexibilizadora” dos direitos sociais; o enfraquecimento de distribuição de bens e serviços. Nesse período dos movimentos sindicais etc (ANTUNES, 2003). 16
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    Outro elemento preponderanteque constituiu Terceira Revolução Industrial, intensificam-se as a crise do Taylorismo e Fordismo foi o processo mais-valias relativas, que são responsáveis por um de globalização do capitalismo. A globalização, grande aumento da produtividade nos processos de intensificada durante a década de 1990, é trabalho. Com a revolução tecnológica, “o homem constituída pela: mundialização dos mercados; deve exercer na automação funções mais abstratas dinamização do mercado mundial; acumulação e intelectuais” (IANNI, 1999, p. 19), fazendo flexível; liderança econômica dos grandes bancos com que o mercado requisite constantemente um e empresas oligopólicas; revolução tecnológica; profissional mais qualificado e polivalente. Com implementação do referencial teórico neoliberal os novos processos tecnológicos - mecanização, nas políticas econômicas e sociais; subordinação automação e robótica -, o capital não gera mais dos países periféricos aos de capitalismo avançado uma significativa quantidade de emprego, a ponto (ANTUNES, 2003). Na mundialização do capital, os de absorver a força de trabalho disponível, pois as países periféricos são subordinados às instituições inovações tecnológicas intensificam a produção e financeiras dos países de economia avançada, não racionalizam os processos produtivos. possuindo condições de competir em condições de O processo de reestruturação do capital, igualdade nos mercados internacionais. juntamente com o neoliberalismo, vem apresentando Juntamente com a globalização, outro no aspecto econômico, porém, limitações, que estão fenômeno emergiu no término do século XX, o sendo materializadas pelas crises que ocorreram processo de desterritorialização. Este é caracterizado nos Tigres Asiáticos (1997-1999), no México pela mobilidade do capital e consequentemente dos (1994-1995), na Argentina (2001-2002), e, mais trabalhadores, em escala mundial (IANNI, 1999). recentemente, nos Estados Unidos da América, O trabalhador migra conforme os movimentos desencadeando a crise mundial em 2008 e 2009. do capital, e este, por meio das transnacionais e/ A recessão norte-americana que está ocasionando ou multinacionais, direciona-se conforme os seus a crise mundial possui sua origem vinculada à interesses de aumento na reprodução e acumulação crise das hipotecas dos EUA, desde agosto de de capital. 2007, alastrou-se rapidamente por todo o setor A crise dos modelos de produção que financeiro da economia norte-americana e do vigoraram no Século XX e do Welfare State, o advento mundo - mundialização do capital. Esse mecanismo do neoliberalismo, a infiltração do capital nos países permitiu a expansão do consumo nos EUA e no tidos como socialistas, a expansão da globalização, desenvolvimento da economia chinesa, entre outros juntamente com o processo de desterritorialização, aspectos. são elementos que integraram o cenário do Século XX. Ainda não se tem conhecimento de quais Diante dessas circunstâncias, iniciou-se um processo serão as consequências futuras dessa crise, porém, de reorganização do próprio capital, com seu sistema sabe-se que ela não é equivalente a de 1929, que ideológico e político de dominação, resultando num desencadeou a depressão econômica generalizada acentuado processo de reestruturação da produção (FACHIN, 2008). O que está ocorrendo constitui-se e do trabalho (ANTUNES, 2003). O término do numa recessão materializada pela redução na taxa século XX e o limiar do século XXI são marcados por de crescimento econômico, que gera desempregos, uma profunda transformação do mundo do trabalho entre outros elementos. O que se sabe, entretanto, e seus processos produtivos. com a atual recessão mundial - advinda da crise norte- Essa transição do Taylorismo/Fordismo ao americana -, é que o protótipo neoliberal respaldado Toyotismo também é expressa pela passagem da na autorregulação do mercado, na liberalização máquina-ferramenta, ao sistema de máquinas e expansão da economia em escala mundial e na auto-reguladas, em que “a máquina se vigia e se não intervenção estatal nas relações comerciais, regula a si mesma” (IANNI, 1999, p. 18). Com a vem demonstrando sinais sérios de esgotamento, 17
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    principalmente nos EUA,no Japão e na Europa de 20,4% (outubro de 2008) (ATLAS..., 2009). Já Ocidental - que possui como moeda o Euro. em relação à taxa de crescimento econômico no Na América Latina, diante desse cenário Brasil, ocorreu uma redução maior do que 3% mundial, o trabalho informal constitui-se num dos entre os anos de 2007 e 2008. Em 2007, houve elementos que contribui para a sobrevivência dos um crescimento de 7,0%, e, em 2008, com a crise sujeitos que estão exclusos do mercado formal mundial, o crescimento no Brasil reduziu para 3,8%. de trabalho (CATTANI, 2003). Já no Brasil 32,6% Outra característica fundamental que se atribui dos municípios possuem mais da metade de sua ao trabalho feminino é que, para a inserção da mulher população vivendo na pobreza, e a Região Nordeste no mercado formal de trabalho, faz-se necessário possui a realidade mais alarmante, totalizando um nível de qualificação, que comumente é superior 77,1% dos municípios nessas condições. ao masculino, devido à desigualdade de gênero Salienta-se ainda que, além das velhas nas relações de (re) produção social e econômica. formas estocadas de exclusão social nos países Mesmo com o fato das mulheres brasileiras terem periféricos - entre eles os países latino-americanos -, em média um ano a mais de escolaridade que os designada de “velha pobreza”, representada pelos homens, as mesmas recebem salários inferiores a pobres, miseráveis, mendigos, pedintes, indigentes eles mesmos (CAMPUS, 2008). Uma trabalhadora subnutridos e minorias sociais (idosos, deficientes, que possui escolaridade entre 8 e 10 anos, recebe mulheres, negros, índios), com a Reestruturação valor semelhante ao de um trabalhador que estudou do Capital ou III Revolução Industrial, surge tanto no máximo 3. Além do aspecto cultural, outro motivo nos países centrais, como também nos periféricos que possivelmente desencadeie essa diferença salarial - emergentes -, outra forma de exclusão social, pode ser explicado pelo fato de os homens possuírem nomeada de “nova pobreza” (REIS, 2002). Essas uma maior taxa de abandono e defasagem escolar novas exclusões sociais, que atingem tanto os maior do que as mulheres, e por entrarem em média países periféricos como os centrais, são originárias com menos idade do que as mulheres no mercado do desemprego estrutural e de suas manifestações, de trabalho (CAMPUS, 2008). compreendidas como exclusão de bens e serviços, Frente a essa realidade de desemprego tanto do mercado formal de trabalho, da terra, da feminino como também o masculino, constata-se segurança, dos direitos humanos (REIS, 2002). que estão sendo prospectadas novas formas ou Segundo os dados coletados pela PED-IBGE possibilidades de geração de trabalho e renda, (Pesquisa de emprego e desemprego) entre os anos com vistas a incluir os sujeitos – especialmente os de 2002 e 2008, houve uma redução na taxa de menos qualificados - no sistema, possibilitando desemprego total em todas as capitais pesquisadas, uma melhoria nas suas condições de vida e e em Belo Horizonte, chegou a diminuir 11%. Em consequentemente de seus familiares. Para isso, Porto Alegre, teve uma redução de 4,7%, pois a estão sendo pensados novos protótipos de região metropolitana de Porto Alegre, em outubro desenvolvimento (DE PAULA, 2001) que podem ser de 2008, possuía 10,6% de sua população observados sob o aspecto de que o desenvolvimento economicamente ativa desempregada (dados para social significa desenvolvimento não-desigual e que outubro de 2008). Na região metropolitana de São visa à inclusão social de todos os sujeitos. Paulo, os índices de desemprego correspondiam a 12,5% (outubro de 2008); na região metropolitana Considerações Finais de Belo Horizonte, a 9,0% (outubro de 2008); na região metropolitana de Recife, a 18,9% (outubro Neste artigo pretendeu-se esclarecer o modo de 2008); no Distrito Federal, a 16,0% (outubro de produção capitalista e seus processos de trabalho, de 2008) e, na região metropolitana de Salvador durante as três Revoluções Industriais. No sistema ainda há o maior índice de desemprego, em torno capitalista, os proprietários dos meios de produção, 18
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    sempre visam intensificara acumulação de capital, trabalhadores sobrantes - desnecessários ao capital, seja através da mais-valia absoluta, ou por meio da que não conseguirão mais serem absorvidos pelo mais-valia relativa, reduzindo os custos de produção sistema? Será que emergirá alguma alternativa e aumentando a sua produtividade. O processo de viável ao crescente desemprego? Será que não está acumulação e centralização de capital é inerente a no momento da sociedade como um todo, bem esse sistema, pois deles dependem, a permanência como, profissionais, refletirem seriamente sobre as de qualquer empreendimento no mercado, evitando “novas armadilhas” do capital? Ou será que, ao sua eliminação e/ou incorporação a outro capitalista criar alternativas para atenuar as manifestações da de maior porte. questão social, não se está novamente deixando de Nesse sentido, este estudo propõe-se a prospectar mudanças, que realmente transformem desencadear algumas reflexões, a estudantes a realidade, reduzindo a desigualdade social e ou profissionais que trabalham com a questão econômica, assim como a exploração capitalista? social e suas manifestações, para serem objeto de E por último, será que a criação de alternativas de prospecções sobre a realidade social e econômica. geração de trabalho e renda, além de serem fruto das Diante das transformações que estão ocorrendo próprias contradições do capital, não se constituem no processo de trabalho, o que será proposto aos também, como uma forma de alienação? Referências ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho. 3. ed., São Paulo: Cortez, 1995. _______. Os Sentidos do Trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. 6. ed., São Paulo: Boitempo Editorial, 2003. ATLAS na alimentação e moradia respondem pela inflação. Disponível em: <http:/www.dieese. org.br>. Acesso em: 06 fev. 2009. BULLA, L. C. Serviço Social, Educação e Práxis: Tendências Teóricas e Metodológicas (Tese de Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Curso de Pós-Gradualção em Educação. Porto Alegre, 1992. CAMPOS; O. S. Pobreza é menor se há equidade de gênero. Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/pobreza_desigualdade/reportagens/index. php?id01=2955&lay=pde>. Acesso em: 13 ago. 2008. CATTANI, A. D. Trabalho & Autonomia. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes Ltda, 1996. ______ (org.). Trabalho e Tecnologia: dicionário crítico (org.). 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. ______ (org.). A Outra Economia. Porto Alegre: Veraz, 2003. COCCO, G. Trabalho e Cidadania: produção e direitos na era da globalização. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SÓCIO-ECONÔMICOS. Pesquisa de Emprego e Desemprego das Regiões Metropolitanas (ano de 2005). http:/www.dieese.org.br. Acesso em 21 de maio de 2005. DE PAULA, J. Desenvolvimento e gestão compartilhada. In: SILVEIRA, C. M. ; REIS, L. C. Desenvolvimento Local: dinâmicas e estratégias. Rio de Janeiro: Comunidade Solidária / Governo Federal / Ritz, 2001. DRUCK, M. G. Terceirização: (des) fordizando a fábrica. Um estudo do complexo petroquímico. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999. FACHIN, P Brasil será atingido pela crise mundial. In.: IHU ON-LINE. Revista do Instituto Humanistas . 19
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    Crise Ambiental eDesenvolvimento Sustentável: a nanotecnologia como uma das soluções de longo prazo Environmental Crisis and Sustainable Development: the nanotechnology as one of the long run solutions Marcia Regina Gabardo da Camara1 Rafael Borim de Souza2 Resumo O artigo discute os determinantes da crise ambiental e possíveis soluções, a partir da emergência de uma nova realidade internacional e organizacional, amparada por um paradigma de sustentabilidade ambiental e social. O objetivo do artigo é o de analisar o comportamento organizacional que desencadeou a crise ambiental e a reflexão sobre as soluções não imediatistas que permitiriam uma produção sustentável e suas consequências. A pesquisa é de natureza qualitativa, exploratória, bibliográfica e documental. Foi realizado um levantamento teórico-metodológico a partir do paradigma de sustentabilidade e convergências tecnológicas. Apresentou- se, também, como exemplificação, o movimento nanotecnológico do continente europeu, possibilitado pela análise do documento: European activities in the field of ethical, legal and social aspects (ELSA) and governance of nanotechnology, cuja primeira versão foi disponibilizada em outubro de 2008, pela European Comission, DG Research, Unit “Nano and Converging Sciences and Technologies”. A disseminação das nanotecnologias, coordenadas por uma governança multilateral global responsável por institucionalizar e legitimar valores sociais e ambientais necessários em tais convergências tecnológicas, é apresentada como uma das possíveis soluções para a problemática ambiental. Palavras-chave: Nanotecnologia; Sustentabilidade e Governança Multilateral. Abstract This article discusses the determinants of environmental crisis and its possible solutions which come from the emergence of a new international and organizational reality structured in a sustainable paradigm. The objective of this qualitative, exploratory, bibliographic and documental research was to analyze the organizational behavior that resulted in the environmental crisis and its consequences. A survey on theories and methodologies that deals with sustainable paradigm and technologic convergences was carried out. It was presented, for instance, the European movement on nanotechnology, through the following document: European activities in the field of ethical, legal, and social aspects (ELSA) and governance of nanotechnology, which first version was published in October 2008, by the European Commission, DG Research, Unit ‘Nano and Converging Sciences and Technologies’. One of the solutions for the environmental problem is the dissemination of the nanotechnologies, 1 Professora Associada da Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Desenvolve estudos e tem experiência em Economia, com ênfase em Organização Industrial e Estudos Industriais.Possui doutorado em Economia pela Universidade de São Paulo - USP Brasil, mestrado em , Economia pela mesma instituição, e graduação em em Economia pela Universidade de Brasília - UnB, Brasil. Contato: mgabardo@uel.com.br 2 Discente do curso de Administração pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Estadual de Londrina e Universidade Estadual de Maringá, consorciadas - PPA/UEM-UEL, Brasil.Possui especialização em Controladoria e Finanças pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil, e especialização em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro - FGV-RJ, Brasil, ambas nível latu sensu. Bacharelado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Brasil. Contato: rafaelborim@yahoo.com Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 27/06/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    coordinated by aglobal governance, which is responsible for institutionalize social and environmental values needed in these technologic convergence. Key words: Nanotechnology; Sustainability and Multilateral Governance Introdução O artigo levanta o problema que alimenta o debate sobre produção sustentável nos meios A solução da crise ambiental passa por um acadêmicos e empresariais: a crise ambiental amplo debate internacional. Pesquisadores das derivada da ação humana e empresarial. A questão de mais diversas áreas têm destacado a importância da pesquisa que o estudo busca responder é: há soluções criação de um órgão internacional multidisciplinar, para a crise ambiental? O objetivo do trabalho é através de um grupo consultivo constituído por analisar os comportamentos organizacionais que membros de diversos países, que possua a desencadearam a crise ambiental e refletir sobre capacidade e a legitimidade para estabelecer em as soluções não imediatistas que permitiriam uma nível global, um sistema de governança multilateral produção sustentável. como resposta institucional à crise ambiental. É nesse O trabalho está estruturado em cinco contexto também que surgem propostas focando capítulos: introdução, metodologia, a crise do às convergências tecnológicas e à necessidade de meio ambiente e o contexto de ascensão de um avaliação dos impactos transformativos oriundos paradigma pautado por valores de sustentabilidade das novas tecnologias. O estabelecimento de um social e ambiental, a convergência tecnológica conceito avançado de desenvolvimento responsável como fenômeno exigente de uma governança deve abranger critérios como: avaliação de multilateral e global sobre os anseios do paradigma saúde, segurança e ética, engajamento de atores de sustentabilidade: a nanotecnologia na Europa, e internacionais quanto a parcerias, e instigação considerações finais. de um comprometimento social, pautado por planejamentos e investimentos interessados em 1. Metodologia fatores de longo prazo. As convergências da nanotecnologia, A abordagem do problema aconteceu de biologia, revolução digital e ciências cognitivas, por maneira qualitativa, por ser uma forma adequada exemplo, promovem o desenvolvimento de inovações de entender a natureza de um fenômeno social. construtivas e transformadoras à concepção de novos O objetivo foi analisado pelo ponto de vista produtos e serviços, oportunidades de melhores exploratório, uma vez que se orienta por conhecer condições de desenvolvimento ao potencial humano as características de um fenômeno, para procurar, e conquistas sociais necessárias, que, com o tempo, em um momento posterior, explicações de suas remodelarão os relacionamentos estruturais e causas e consequências. Em relação às estratégias institucionais até então vivenciados. Para tanto, a de pesquisas abordadas, o estudo classifica-se como participação de todos os sujeitos sociais influenciados bibliográfico, uma vez que busca conhecer, analisar por essas novas tecnologias, a transparência das e explicar contribuições sobre o tema abordado, e estratégias dessa governança, e a responsabilidade documental, por utilizar documentos como fonte de específica de cada stakeholder precisam efetivar-se dados, informações e evidências (RICHARDSON, plenamente. A nova realidade é promotora de uma 2008; MARTINS; THEÓPHILO, 2007). emancipação social, caracterizada, principalmente, Três possíveis soluções de longo prazo à pela legitimação urgente do paradigma de problemática ambiental são apresentadas: os sustentabilidade, o qual retira os ferramentais programas de responsabilidade social adotados por decisórios de uma unilateralidade e os insere em organizações com poder de atuação local, regional, um multilateralismo interdisciplinar. nacional e internacional (CLAPP 2005); a reforma , 22
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    mediante determinadas atitudesmercadológicas, ecológica (BORINELLI, 2007); e o desenvolvimento oriundo do movimento de convergências tomadas no intuito único de incrementarem seus lucros, sem estarem preocupadas com as respectivas tecnológicas exemplificado pelas nanotecnologias consequências sociais e ambientais de tais decisões. (MARTINS, 2005). O artigo aborda as diferentes A legitimação dos lucros empresariais por uma soluções e concentra-se na última proposição. aceitação social e comunitária, portanto, passa a O levantamento teórico-metodológico é ser imprescindível. realizado a partir do paradigma de sustentabilidade e A ação de tais agentes sociais incorre em convergências tecnológicas. Apresenta-se, também, consequências ambientais, estas nem sempre como exemplificação, o movimento nanotecnológico agradáveis. A análise da problemática ambiental se do continente europeu, possibilitado pela análise do dá por uma diversidade de abordagens, as quais se documento: European activities in the field of ethical, mostram distintas em alguns pontos e convergentes legal and social aspects (ELSA) and governance em outros. Nesse sentido, adota-se a via interpretativa of nanotechnology, elaborado pela Dra. Angela das ciências sociais. Huffman, cuja primeira versão foi disponibilizada em outubro de 2008 pela European Comission, DG Zioni (2005, p.39) destaca que “para discutir a relação entre as ciências sociais e o meio ambiente, Research, Unit “Nano and Converging Sciences and Technologies”. é fundamental uma reflexão sobre o cenário em que essas questões emergiram: a modernidade”. A análise do documento permite verificar O ambiente tem sofrido os impactos das ações que o financiamento das atividades de pesquisas capitalistas; no caso específico das revoluções acontece através de programas sistêmicos (framework industriais, caracterizaram-se pela exploração do programme - FP) com períodos de duração pré- solo e da mão-de-obra, gerando inúmeros resíduos determinados. No documento mencionado, são sólidos, líquidos e gasosos que se intensificaram no apresentados 2 projetos referentes ao 5º FP (1998- século XX. 2002); 20 projetos referentes ao 6º FP (2002- A modernidade trouxe gradativamente uma 2006), e 5 projetos referentes ao 7º FP (2007-2008) exigência de sociabilidade do homem para com o (HULLMANN, 2008). meio e vice-e-versa. Os mecanismos de produção A essência dos programas são as pesquisas desenvolvidos, ao serem analisados de maneira tecnológicas e científicas, mas há a presença de isolada, pouco emancipam a sociedade atual projetos interessados em evidenciar os aspectos das comunidades antigas, porém se aliados aos éticos, legais e sociais dessas atividades européias, acontecimentos ambientais, permitirão constatar a tais como os: Science and Society, The New Emerging emergência de uma nova representação simbólica Science and Technology e Citizens and Governance, do mundo por inéditas relações de poder. os quais pertencem ao 6º FP e serão apresentados As ocorrências históricas, os acontecimentos com maiores detalhes no capítulo quatro, deste sociais e o desenvolvimento econômico permitem trabalho. a construção na modernidade de uma nova representatividade da vida social. A sequência de 2. A crise do meio ambiente e o contexto movimentações econômicas é caracterizada como de ascensão de um paradigma pautado o próprio desenvolvimento, que, segundo Coimbra por valores de sustentabilidade social (2002, p.51), é: e ambiental um progresso contínuo e progressivo, gerado na co- Em um momento de questionamento sobre munidade e por ela assumido, que leva as populações as estruturas mundiais, as relações de poder estão a um crescimento global e harmonizado de todos os ameaçadas e as empresas líderes nos mercados setores da sociedade, através do aproveitamento dos globais podem ter seu posicionamento questionado, seus diferentes valores e potencialidades, em modo a 23
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    produzir e distribuiros bens e serviços necessários a na engenharia econômica das organizações que satisfação das necessidades individuais e coletivas do buscam a minimização de seus custos privados. ser humano, por meio de um aprimoramento técnico e A insuficiência dos instrumentos estatais de cultural, e com menor impacto ambiental possível. combate e a busca incessante de lucros pelo setor privado oneram a sociedade e agravam as questões Ao longo da historicidade econômica, não ambientais. É necessário, portanto, discutir novos foram promovidas metodologias de desenvolvimento modelos, normas e valores, que vislumbrem a melhoria aplicáveis a todas as sociedades e ao meio ambiente, na qualidade de vida das populações. pois pequeno foi o interesse em preservar os recursos O modelo capitalista é o “representante legítimo e energias não renováveis para as futuras gerações, e universal da racionalidade, cuja proposta era libertar através de seu uso racional. Surgiram inúmeras o homem do reino das necessidades pelo uso científico explicações para justificar a escassez de atitudes dos recursos naturais e econômicos do planeta, pela favoráveis ao ambiente nos meios governamentais adaptação do conhecimento científico à produção, e organizacionais; mas o debate contribuiu para o processos que criariam riquezas incessantemente” desenvolvimento científico, econômico e social. (ZIONI, 2005, p.41). Segundo Montibeller (2007, p.57), as teorias O desenvolvimento capitalista contribui do desenvolvimento são “o conjunto de formulações para o incremento da inovação e do desempenho que visam compreender e modificar a realidade tecnológico, entretanto, os índices de desenvolvimento pelo exame dos mecanismos, segundo os quais, os humano e de qualidade de vida não acompanham fenômenos sociais inter-relacionam-se, dos elementos o fator econômico. Segundo Montibeller (2007), principais que respondem pela evolução da economia o crescimento capitalista instiga a degradação, a e das tendências seculares”. Mas o desenvolvimento poluição e o esgotamento de bens ambientais e, econômico pode ocorrer em diferentes ambientes quando da retração das atividades econômicas, as institucionais, por meio de atividades produtivas, negociações virtuais, redes de relacionamento, cadeias questões ambientais são desprezadas por implicarem de suprimento, entre outros. custos adicionais. Nesse contexto, a instituição se apresenta De acordo com Brunacci e Philip Jr. (2005), a como protetora da propriedade privada ao incentivar era de conquistar o desenvolvimento econômico sem investimentos que apreciem decisões democráticas qualquer restrição e às custas de prejuízos ambientais capazes de disponibilizar socialmente os benefícios já não permanece, entretanto, persistem em algumas oriundos de tais negociações. Para Montibeller ideologias empresariais. Há de se compreender a (2007), o desenvolvimento adequado e a qualificação insuficiência de fatores naturais, dos quais, depende institucional são condições necessárias, mas insuficientes a sobrevivência social do planeta. É, ainda mais para sanar os problemas sociais e ambientais em toda importante, necessário reconhecer que, após a sua contingência. geração presente, outras virão e também habitarão Muitos são os fatores inerentes a uma neste mesmo território. concepção solucionadora de inúmeras patologias Segundo Diaz (2002) é iminente a precisão de sociais e ambientais provenientes de mecanismos de romper definitivamente com a filosofia do crescimento desenvolvimento econômico. Através da concepção ilimitado, uma vez que, o desenvolvimento insustentável capitalista da economia, a sociedade e o meio apresentará seu limite de esgotamento em tempos ambiente estão imersos em uma rede entrelaçada breves caso as tendências sociais e econômicas de custos privados e sociais; os custos ambientais em não sejam transformadas em prol do bem estar da particular, pelas situações de poluição, e incremento população mundial. da produção diferenciam os custos privados dos custos Logo, mediante os “impasses gerados por essa sociais. Todavia a importância dos últimos, em grande conjuntura social, faz-se extremamente urgente uma maioria dos estudos, é relegada a um segundo plano rediscussão sobre normas, valores, orientações culturais 24
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    e formas deconhecimento em todas as sociedades. A diferentes tempos. A iminência de tais transformações crise ambiental é, com certeza, a maior razão para que faz notória a insustentabilidade do antigo paradigma isso ocorra com amplitude e profundidade” (ZIONI, desenvolvimentista. Por essa evolução da importância 2005, p.56). da questão ambiental através da economia, Uma nova interpretação sobre o funcionamento vislumbram-se as decisões políticas e econômicas econômico no mundo é necessária. Mesmo que sendo alinhadas a preceitos sustentáveis. algumas ações voluntárias ocorram por empresas Os interesses econômicos coincidem com e governantes, ainda sim são insatisfatórias, pois é os ecológicos em um quadro de desenvolvimento reconhecida a capacidade econômica das nações sustentável que foca o longo prazo, pois os recursos de apresentarem, conforme Montibeller (2007), um são limitados e esgotáveis. Entretanto, no paradigma comportamento menos agressivo à natureza somente anterior os cálculos eram fundamentados na quando pressionadas por externalidades com poder minimização dos custos privados e na ótica neoclássica de regulação. da economia que até recentemente não inseriam os Meio ambiente e economia entrelaçam- custos e benefícios sociais nas contas capitalistas. se no campo teórico e econômico. Há uma série Os institucionalistas integram as discussões de denominações tais como economia ambiental, econômicas e ambientais, ao adicionarem custos economia ecológica, economia humana, em que e benefícios sociais à análise econômica das cada uma representa uma abordagem explicativa do organizações (EHLERS, 2007; NORTH, 1990). problema. Todavia, o que mais interessa é a dimensão Porém, a essência da sustentabilidade tem de econômica associada às questões ambientais, por ser ser compreendida, no intuito de evitar falsas situação fundamental na formulação de diretrizes de interpretações a ações não condizentes com atuação do governo, das empresas e dos cidadãos valores éticos, ambientais e representativos de uma para a própria compreensão dos fatos e das relações responsabilidade social corporativa. sociais, culturais e políticas (CALDERONI, 2004). Segundo Brunacci e Philip Jr.(2005, p.268), O paradigma da sustentabilidade, então, há “a possibilidade de um entendimento pragmático emerge entendido como aquele que e imediatista que conduz ao risco de se implantar um programa de sustentabilidade do desenvolvimento expressa hoje o desejo de quase todas as sociedades, como sutil desdobramento de uma política moldada em qualquer parte do mundo, por uma situação em que por um sistema capitalista ainda conservador e o econômico, o social e o ambiental sejam tomados de predatório”. Assim, iniciativas que envolvam políticas, maneira equânime. Então, não basta apenas haver cres- cimento econômico, avanço tecnológico e as instituições; instituições, tratados ou acordos internacionais, e, sim, pensar na revolução tecnológica e no arcabouço interessados na problemática ambiental e abordagem institucional objetivando o bem-estar social com a ampli- sustentável, devem ser capazes de transpor as barreiras tude a este inerente (MONTIBELLER, 2007, p.59). físicas no intuito de se obter uma maior eficácia na resolução de calamidades. Observa-se a ocorrência de um crescimento Flora, fauna, microorganismos, atmosfera, solo, econômico pautado por características de água e formas geológicas formam os ecossistemas. Os sustentabilidade, logo, o vocábulo ‘sustentável’, em componentes se ligam mediante cadeias alimentares, palavras de Brunacci e Philip Jr. (2005, p.274), ao ciclos minerais e hidrológicos e pela circulação de qualificar o tipo de desenvolvimento que se deseja energia. Há um equilíbrio dinâmico que pode ser “deve ser aplicado à realidade ambiental do presente”. alterado com o uso intensivo e desordenado dos Dentro desse aparato interpretativo, as elementos e a deposição de resíduos. A intervenção mudanças institucionais tornam-se necessárias, humana e a produção capitalista, em particular, uma vez que as instituições precisam ser eficientes modificaram os sistemas produtivos, os conhecimentos no atendimento pleno dos anseios originados em científicos e tecnológicos (BORINELLI, 2007). 25
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    A resposta aouso desordenado dos recursos organizações com poder de atuação local, regional, naturais e a crescente demanda por energia tem de nacional e internacional (CLAPP 2005). E uma terceira , ocorrer por uma ótica capaz de abranger as diferenças vertente solucionadora pode advir das transformações e especificidades entre as nações, de maneira geradas pelas nanociências, nanobiotecnologias e que, uma intervenção em favor da humanidade e nanotecnologias, em geral (MARTINS, 2005). do meio ambiente seja aceita como verdade, e, conseqüentemente, como um apoio ao acontecimento 3. A convergência tecnológica como do desenvolvimento sustentável. Os vieses ambientais fenômeno exigente de uma governança não são de responsabilidade exclusiva das nações, multilateral e global sobre os anseios das empresas e da humanidade, mas de todos os que do paradigma de sustentabilidade: a habitam e agem intensivamente sobre o planeta Terra. nanotecnologia na Europa Como afirmou MacNeill e outros autores (1992, p.16) “o mundo avançou agora da interdependência Convergência tecnológica caracteriza, segundo econômica para a interdependência ecológica – e Sáenz e Souza-Paula (2008), o moderno processo de até, para além desta, para um entrelaçamento entre avanço do conhecimento e inovação já estabelecido ambas”. em um elevado nível de complexidade, o qual, não Tanto é verdade que, “o sistema climático permite a separação entre o teor científico e técnico global possui um alto grau de inércia e cria uma pela prerrogativa intensa de inserir nas discussões grande defasagem entre as alterações nas emissões as relações dialéticas entre ciência, tecnologia e e as consequências sobre os sistemas naturais, o que sociedade. significa que, quando se descobre que uma catástrofe A interação temática é imprescindível, pois a vai acontecer, talvez seja tarde demais para evitá-la” (LA partir das novas tecnologias surgem implicações sociais TORRE; FAJNZYLBER; NASH, 2009, p.20). Questões a serem analisadas por um processo criterioso, através ambientais, tal como a mudança climática, incorporarão de metas estabelecidas, ao vislumbrar os benefícios custos significativos à humanidade e aos ecossistemas. sociais, e as possíveis consequências inesperadas, A amenização desses efeitos pode ocorrer através de por meio de uma combinação dos possíveis riscos possíveis ações globais solucionadoras, pois iniciativas prospectados em diferentes cenários. Para Roco (2008) individuais serão muito limitadas, implementadas com tais adversidades apresentam-se como influentes em grande atraso, e realizadas por países e organizações diversas áreas, tais como economia, ambiente, saúde, inadequadas. Nesse sentido, quais seriam as possíveis educação, ética, moral e filosofia. soluções à crise ambiental? Por esse entrelaçamento de ideologias e Zioni (2005) aponta o novo paradigma de ciências, constata-se a busca por um mecanismo sustentabilidade para a solução dos problemas organizador, tal como uma governança global e e desequilíbrios evidenciados, o qual deve partir multilateral capaz de abranger, compreender e da crítica do conhecimento existente, e evoluir do institucionalizar convergências tecnológicas livres de monoculturalismo ao multiculturalismo de tal forma atuações prejudiciais a qualquer ordem ambiental que o domínio global da ciência moderna não possa e social. Para tanto, um sistema politicamente silenciar os outros saberes, e assim, emancipe-se um democrático, consenso social e conhecimento da conhecimento que consiga discernir a objetividade da engenharia econômica do sistema promovem um neutralidade. quadro agradável à implantação de uma eficaz Por esse contexto, a reforma ecológica torna-se governança. uma solução viável e equacionadora do problema da Caberá a esse sistema de governança, de degradação ambiental (GIDDENS apud BORINELLI, acordo com Roco (2008), a adaptação das instituições 2007, p.7). Uma segunda solução está nos e organizações já existentes; o estabelecimento de programas de responsabilidade social adotados por novos programas, regulamentações e organizações 26
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    interessadas em propagarinovações não promotoras e comercialização dos produtos. Através da de prejuízos ao meio; a promoção de mecanismos figura, é possível verificar que cada ciclo gera de legitimação de tais mudanças por vias políticas e novas classes de produtos, os quais determinam institucionais; e, a realização de parcerias e acordos diferentes implicações sociais e exigem diversos internacionais. patamares de decisões. Pelo fato de transformações Conforme Sáenz e Souza-Paula (2008), os fundamentais ocorrerem sobre os conhecimentos processos que envolvem tal anseio são essencialmente implícitos em cada ciclo, estabelece-se um sistema dinâmicos e cumulativos e, para acompanhar a aberto em termos tecnológicos e socioeconômicos evolução de tais convergências tecnológicas é de (ROCO, 2008). extrema importância que as ações ocorram de forma As questões éticas devem constar como contínua, rápida e flexível. A governança multilateral objetos de monitoramento e discussões, desde e global deve preparar-se para antever os riscos o início de um projeto até as avaliações ex-post. complexos e de elevado impacto negativo dos tipos As avaliações dessas tecnologias, por meio de social e ambiental. A figura 1 mostra a representação um mecanismo regulador de governança, devem de um sistema de governança baseado nos critérios ocorrer no entorno de tais inovações e considerar inseridos na realidade das convergências tecnológicas todos os respectivos ciclos, ao levar em conta (ROCO, 2008). sua disposição futura e confluentes efeitos ao Os processos de decisões sobre as questões meio, oriundos de suas manufaturas e operações de convergências tecnológicas seguem um ciclo de (ROCO, 2008). interferências aberto, constituído por etapas que Em todo esse processo, é imprescindível levam desde a pesquisa até a efetiva fabricação a análise da presença dos fatores envolvidos Figura 1 – Sistemas abertos em uma governança de convergências tecnológicas Fonte: adaptado de ROCO, 2008. 27
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    em uma governançade risco, para amparar Dentre as novas tecnologias, destaca-se a as decisões e as ações tomadas no intuito de importância da nanotecnologia. Nano é um prefixo amenização das patologias sociais e ambientais. usado nas ciências para designar uma parte em um Tal sistemática é de extrema importância nos casos bilhão e, assim, um nanômetro (1nm) corresponde constatados com altos riscos, cuja redução dos a um bilionésimo de um metro. Dado o seu caráter mesmos exige a coordenação e colaboração de integrador, convergente e por caracterizar-se por inúmeros stakeholders. As decisões unilaterais se inovações concentradas no tempo, poderá gerar apresentam como ineficazes e inaplicáveis, pois, a um processo de destruição criadora atenuando os disseminação de novas tecnologias promove uma impactos do uso intensivo dos fatores produtivos, interferência dos possíveis riscos nas esferas social, gerando redução do consumo energético e, ambiental, tecnológica, e, com maior evidência possivelmente, uma revolução produtiva (SÁENZ; na dinâmica evolutiva e interativa de todo o SOUZA-PAULA, 2008). sistema social. As convergências tecnológicas, Para Martins (2005), as nanotecnologias por exemplo, focam suas prioridades sobre os validam a necessidade de uma governança global possíveis benefícios a serem gerados nos âmbitos e multilateral, pois, somente por um mecanismo individuais e sociais. Os parâmetros de sucesso como esse, será possível gerenciar os benefícios para essas redes de empresas e instituições são econômicos, sociais e ambientais oriundos de tais os indicadores de qualidade de vida, saúde, inovações. Suas aplicabilidades implicam diminuir segurança, e, principalmente, a análise de como os problemas ambientais nos processos produtivos, se dá a distribuição desses resultados sociais a ou seja, responsabilizam-se por eliminar os conflitos todos os seres humanos inseridos em um modelo sociais fundamentados em questões de prejuízos à democrático. Roco (2008) apresenta, através natureza. da figura 2, quais são os atores afetados pelas Entretanto Schnaiberg (2005) assume que convergências tecnológicas. tudo o que for apresentado e produzido pelo setor Figura 2 – Visão geral de uma governança de convergência tecnológica Fonte: adaptado de ROCO, 2008. 28
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    privado é passívelde suspeita pela possibilidade responderiam e melhores seriam os resultados para de interesses na alocação de capital. Ele o meio ambiente”. evidencia que a própria história confirma muitas Sandler (2009) observa que a eficiência de contradições em torno de novas tecnologias um fenômeno tecnológico, como a nanotecnologia, sempre demonstradas como algo beneficiário ao está em sua contribuição à prosperidade humana, público em geral. através da oferta de um cenário estruturado Por apresentar uma nova aplicabilidade por uma sociedade justa e preceitos ambientais de fatores científicos, sociais e ambientais a de sustentabilidade. O autor apresenta, ainda, nanotecnologia não pode ser tratada unicamente que as funções sociais a serem observadas pela ótica das organizações. Lerma (2005) admite em um desenvolvimento sustentável advindo que a humanidade exige um novo paradigma das nanotecnologias são: o esclarecimento ecológico, portanto sustentável, por compreender de constituição de uma sociedade justa e a que sua existência está inserida em uma continuidade prosperidade da raça humana; identificação de de processos sociais mutantes, alteradores das oportunidades socioambientais às nanotecnologias; estruturas vigentes e promotores de inúmeros desenvolvimento de padrões de avaliação sobre conflitos transnacionais. os prospectos nanotecnológicos; provisão de Não se pode esperar, segundo Martins ferramentais éticos que possibilitem a sociedade uma (2005), que o ambiente seletivo supra a questão efetiva adaptação às emergentes nanotecnologias; ambiental em sua totalidade, pois, tal expectativa e, a identificação dos limites ambientais para o é incompatível para com o modo de produção alcance das plenitudes nanotecnológicas. capitalista. Logo, a admissão dessa nova tecnologia Porém, em referência à nanotecnologia e a deve ser pautada por discussões interessadas em outras inúmeras problemáticas de ordem ambiental, entender plenamente suas aplicabilidades e objetivos não há qualquer instituição com estrutura capaz para com a sociedade. de impor e dirigir uma intervenção política global. Schnaiberg (2005) acredita que a Todavia, a construção dessa instituição global, nanotecnologia irá promover uma distribuição mais representativa de uma governança multilateral é negativa ao transferir a renda dos trabalhadores importante fator que está por trás da emergência para um lucro adicional dos investidores. Ao longo do movimento transnacional antiglobalização dos prejuízos, o autor cita o incremento do problema corporativa (MARTINS, 2005). ou crise ambiental, cuja maior causa é a extrema Roco (2008) também aborda a questão liquidez do sistema econômico mundial. supranacional deste tema, ao admitir que as Lerma (2005) analisa a crise ambiental inovações tecnológicas provenientes desse movimento como um conflito oriundo de relações de produção de convergência, tal como as nanotecnologias, e não como algo adicional aos conflitos sociais. rompem com as barreiras geográficas existentes ao Por essa percepção, ele entende a interferência da transporem os limites das jurisdições nacionais. Logo, nanotecnologia nas relações sociais e econômicas a concepção de uma governança multilateral e global ao promover a intervenção nos diversos sistemas de como resposta institucional a crise do meio ambiente produção e controles de exploração. e consequente do paradigma de sustentabilidade, Segundo Cramer e Zegveld (1991), as alcançará sua plenitude através da separação clara demandas de soluções estruturais para problemas das opiniões fundamentadas em pilares científicos ambientais requerem a participação ativa e daquelas oriundas de julgamentos políticos, representativa dos públicos a serem atingidos. Pois, para que assim, sejam adotadas, em definitivo, em palavras de Romero e Salles Filho (1995, p.17) institucionalizações e regulamentações eficientes “quanto maior a pressão [...], mais os agentes para com a realidade do problema abordado. 29
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    Toda essa realidadeé envolta por uma Para Sandler (2009), ainda não há um série de fatores. Estes se unem e promovem uma consenso entre os cientistas quanto aos possíveis governança contínua e avaliativa. A nanotecnologia riscos da nanotecnologia, pois, assim como pode apresenta um modelo de governança proposto por contribuir para uma revolução tecnológica e Roco (2008), possivelmente capaz de ser aplicado ambiental ao consumir menos energia e promover em nível global. E, bem por isso, esse autor propõe a o uso mais eficiente dos novos fatores produtivos, nanotecnologia como uma das respostas essenciais também é possível um cenário composto por à crise do meio ambiente. A estruturação do modelo inúmeras reações adversas nos seres humanos e no é apresentada na figura 3. meio ambiente. Figura 3 – Passos para a definição de uma governança multilateral na análise de riscos derivados das nanotecnologias que podem ser aplicadas à mitigação da crise ambiental Fonte: Renn; Roco apud ROCO, 2008, p.16. Sáenz e Souza-Paula (2008), no entanto, A aplicabilidade da nanotecnologia fica apresentam os seguintes riscos da nanotecnologia, os questionada mediante tantas dúvidas discursivas. quais se traduzem nos desafios a serem enfrentados por Nesse sentido, para se validar a efetiva contribuição uma governança multilateral: criação descontrolada social deste fenômeno advindo de uma convergência de formas de vida; redução da biodiversidade; tecnológica, apresenta-se em sequência a realidade desestabilização da engenharia ambiental; desse tema no continente europeu. Através da concorrência trans-humana, biológica e cibernética; análise minuciosa do relatório European activities in maiores desigualdades sociais; desenvolvimento de the field of ethical, legal and social aspects (ELSA) armas de poder letal; entre outros. and governance of nanotechnology, elaborado pela 30
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    Quadro 1 –Projetos de pesquisa com aplicabilidades sociais O programa Science and Society Objetivo: Desenvolver conexões estruturais entre instituições e atividades sociais interessadas em um diálogo a ser estabelecido entre a comunidade científica e o público em geral, de maneira que, as pesquisas fossem aproximadas da sociedade. Contexto: As ações inseridas neste programa promoveram conversações contextuais em nível global; a emancipação de uma consciência social; treinamentos; pesquisa sobre a relação dos valores éticos relacionados à ciência e tecnologia; a aplicação dos princípios de risco; reconhecimento público em relação às comunicações científicas; prêmios para conquistas científicas referenciadas à colaborações e comunicações sociais; e a promoção das mulheres no meio científico. Recursos: Foram investidos 3,814,402€ neste programa. O programa Citizens and Governance Objetivo: Prover um embasamento científico para o gerenciamento de transições voltado ao conhecimento social europeu, para tanto, condicionou seus estudos em duas vertentes: as políticas locais, regionais e nacionais; e, o comportamento decisório dos cidadãos, famílias e demais unidades sociais. Contexto: Constam, neste projeto, ações tomadas no intuito de melhorar a geração, distribuição e utilização de conhecimentos em um processo de desenvolvimento de novas formas de governança. Recursos: Foram investidos 1,163,100€ neste programa. O programa New Emerging Science and Technology Objetivo: Apoiar pesquisas visionárias e não convencionais, mas potencialmente capazes de abrir novos campos às ciências e tecnologias européias. Contexto: Sustentou projetos interessados em problemas ainda não pesquisados, mas que se relacionassem diretamente aos aspectos éticos, legais e sociais da nanotecnologia. Recursos: Foram investidos 222,265€ neste programa. Fonte: adaptado de HULLMANN, 2008. Dra. Angela Hullman, em 2008, observa-se uma destaque, pois representam a possibilidade de concepção construtiva sobre a nanotecnologia. apresentar esse fenômeno a um público maior, Sendo assim, a seguir, é disponibilizada uma breve o qual estabelece uma discussão sobre as análise da contribuição européia baseada em expectativas sociais geradas, que são informadas fatos, números e programas extraídos do relatório aos poderes políticos nacionais e internacionais. supramencionado. O intuito destes projetos está em facilitar A União Européia junto a demais nações tem a cooperação entre stakeholders, localizados em promovido debates sobre a questão principal de que diferentes partes da Europa, e promover uma massa esses desenvolvimentos científicos e tecnológicos crítica sobre o desenvolvimento sustentável, pela não ocorrem separados da movimentação social dos identificação de diferenças nacionais e culturais seres humanos. Muitos atores sociais, com visões percebidas entre as diversas regiões do continente, e, diferentes sobre o tema têm modelado os processos assim, providenciar mecanismos sociais que agreguem envoltos à nanotecnologia, situação promotora de desenvolvimento social e econômico a essas áreas. aplicabilidades fundamentadas em critérios éticos, Os financiamentos deles se dão pelo legais, e sociais. EC Framework Programmes for Research and Os critérios éticos, legais e sociais da Technological Development (FP). Os FPs acontecem nanotecnologia compreendem uma diversidade de há anos e incentivam áreas de pesquisa que campos de pesquisas, produções e aplicabilidades amparam interesses europeus. A nanotecnologia de nanoprodutos. Estes aspectos, então, abrangem tornou-se um tema em evidência a partir de 1998, questões de privacidade, aceitação social, saúde mas apenas no 6º FP alcançou uma escala maior humana, acesso comunitário, responsabilidade de reconhecimento e investimentos. cívica, regulamentações normativas e controles O 6º FP (2002 a 2006) dedicou prioridade institucionais. máxima a nanotecnologia. De 17,5€ bilhões As atividades européias sobre os aspectos revertidos aos projetos integrantes desse Framework éticos, legais e sociais de uma governança Program, 1,3€ bilhão foram destinados a pesquisas, referenciada à nanotecnologia abrangem cujo problema de investigação estava em analisar numerosas iniciativas, das quais algumas merecem a interação entre nanotecnologia, conhecimento 31
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    social, recursos naturais,e desenvolvimento sustentáveis. Cada nação interessada em estabelecer de novos procedimentos industriais. Por uma uma iniciativa nanotecnológica, assim como as abordagem articuladora, projetos de longo prazo européias, permitir-se à uma oportunidade única de têm sido financiados, pois intentam introduzir as fomentar um campo crítico e construtivo sobre as nanotecnologias nos setores industriais já existentes, relações interativas entre tecnologia, governo, ambiente e, também, originar novos caminhos operacionais e sociedade. As emergentes nanotecnologias, portanto, que confluam na concepção de materiais inovadores, oferecem possibilidades efetivas de progressos sociais novos aparelhos, produtos diferenciados, e indústrias e tecnológicos, através de um desenvolvimento sustentáveis. compreensivo, inovador e sustentável. Embora o 6º FP estivesse focado em pesquisas científicas e tecnológicas, houve a Considerações Finais inclusão de tópicos essenciais relacionados aos aspectos éticos, legais e sociais da nanotecnologia. O artigo analisou os determinantes da Estes foram tratados pela instigação de uma crise ambiental e as soluções propostas pela comunicação entre os diversos atores e redes academia, tendo em vista a emergência de uma sociais. Dentro dessa abordagem aplicativa de uma nova realidade internacional e organizacional governança global da nanotecnologia, os aspectos ,amparada pelo paradigma da sustentabilidade supramencionados passaram a alicerçar projetos ambiental e social. Discorreu-se sobre a ascensão de pesquisa com aplicabilidade social, tais como de uma nova compreensão social pautada os: Science and Society, The New Emerging Science por premissas sustentáveis, amparada pela and Technology e Citizens and Governance. Vale necessidade de novas tecnologias – nanociências, ressaltar que todos esses programas orientaram- nanobiotecnologia e nanotecnologias e seus riscos se em interligar o movimento social aos aspectos – e a imprescindibilidade de uma governança éticos, sociais e legais da nanotecnologia. Para multilateral global como resposta institucional à melhor compreensão o detalhamento deles é crise do meio ambiente. exposto na página seguinte: Verificou-se que a teoria econômica Mediante a exposição da realidade européia neoclássica tradicional – base do paradigma de quanto aos aspectos sociais da nanotecnologia, produção capitalista anterior – discutia custos verifica-se que o desenvolvimento de seus preceitos e benefícios privados. No século XX, a teoria apenas ocorre com respectivas alocações de institucionalista incorpora à análise os custos e capitais. Entretanto, a destinação de tais valores benefícios sociais, dando origem à economia do apenas incrementa a legitimação sustentável desse meio ambiente, ao propor soluções possíveis para fenômeno, responsável pela propagação de uma a questão ambiental. A complexidade dos sistemas governança multilateral e global, possível de ser dinâmicos, a criação de novas ferramentas de utilizada como mecanismos de resposta institucional trabalho, a oferta de uma ampla plataforma à crise do meio ambiente. tecnológica, a ampliação das capacidades Sandler (2009) admoesta que, quando as produtivas e a conversão da educação, engenharia dúvidas são esclarecidas e as expectativas controladas, e tecnologia nos principais fatores contributivos concebe-se um ambiente articulador e integrador às inovações industriais, conferem ao meio uma entre os fatores éticos e sociais e as emergentes riqueza jamais vista. nanotecnologias. Os aspectos éticos, legais, e sociais Já o meio ambiente, com seus recursos limitados, da nanotecnologia são essenciais para a articulação não consegue acompanhar o desenvolvimento de respostas proativas a possíveis cenários negativos. intelectual do homem quanto aos seus anseios Bem por isso, as nanotecnologias precisam promover tecnológicos. Através desta incompatibilidade de a prosperidade dos seres humanos, por vias justas e recursos, estabelece-se a crise do meio ambiente, 32
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    por meio daqual, inúmeras nações e organizações ambiental vivenciada. É extremamente necessário optam por operacionalizar suas metodologias este mecanismo regulador internacional, porque a mercadológicas em práticas alinhadas aos conceitos economia, aqui representante dos governos, nações de desenvolvimento insustentável. e organizações, somente se atenta ao quesito Daí emerge a concepção de um novo paradigma ambiental e social se drasticamente pressionada interessado em valores sustentáveis e preocupado em por órgãos externos, cujos poderes de regulação oferecer às gerações presentes e futuras condições de sejam devidamente reconhecidos e comprovados. habitação e sobrevivência neste planeta. Por essa nova Um exemplo, a nanotecnologia, representante compreensão da realidade, as ciências sociais se fazem do movimento de convergência tecnológica observado presentes com uma miscelânea dialética de ideologias há tempos. Suas benfeitorias e lucros sociais são e interpretações, as quais, em conjunto, reafirmam inquestionáveis, entretanto os possíveis riscos a necessidade de um novo agir das organizações e incalculáveis. Além de prescindir um enorme valor em nações para com as questões ambientais. alocação de capitais representa, na ótica de muitos Logo, a sociedade passa de um colóquio estudiosos, uma ameaça a já desqualificada divisão de passivo para um ator emancipado no intuito renda mundial, além dos inúmeros questionamentos de prover-se de munições e regulamentações ambientais ainda não respondidos. Em casos como imprescindíveis à continuidade de sua existência esses, as decisões sobre a continuidade em pesquisas na Terra. Por conseguinte, fatores de discussão e aplicabilidades referenciadas a nanotecnologia, anteriormente unilaterais passam a ser vislumbrados por exemplo, não podem ser pautadas por uma por uma ótica multilateral exigente de um sistema unilateralidade. Torna-se imprescindível, portanto, de governança que ampare, fiscalize, determine uma multilateralidade de informações que abasteçam e institucionalize meios de proteção, coerção e um sistema de governança global oriundo de uma legitimação no intuito único de sanar questões que resposta institucional, em nível internacional, como alarmem a já existente crise ambiental. uma consequência ao paradigma de sustentabilidade, Entretanto, todo esse esforço somente este, emergente, no intuito de amenizar a constatada será válido se aplicado em sua ordem global, crise ambiental. pois, se uma governança responsável por toda O intangível a ser alcançado em um longo a organização e aplicabilidade dos vieses e prazo passa a ser mais valorizado do que o tangível soluções ambientais ocorrer através de uma conquistável em curto prazo, pois, aquele representa institucionalização supranacional legitimada, a concepção moral e ética de uma sociedade imersa serão verificadas respostas mercadológicas e na compreensão do paradigma defensor de uma econômicas condizentes para com a realidade sustentabilidade social, ambiental e econômica. Referências BORINELLI, B. Instituições e crise ambiental: contribuições da sociologia em debate. Serviço Social em Revista. v.9, n.2, 2007, s/p. Disponível em <http://www.ssrevista.uel.br/c-v9n2_benilson.htm>. Capturado 16 fev. 2009. BRUNACCI, A.; PHILIP J. A. Dimensão Humana do Desenvolvimento Sustentável. In: PHILIP J., A.; PELICIONI, M.C.F. Educação ambiental e sustentabilidade. Barueri: Manole, 2005, p.257-283. CALDERONI, S. Economia Ambiental. In: PHILIP Jr, A.; ROMÉRO, M.A.; BRUNA, G.C. Curso de gestão ambiental. Barueri: Manole, 2004, p. 571-617. CLAPP J. Global environmental governance for corporate responsibility and accountability. Global , Environmental Politics. v.5, n.3, 2005, p. 23-34. COIMBRA J.A. O outro lado do meio ambiente. Campinas: Millenium, 2002. 33
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    A Polarização eas Desigualdades Regionais no Brasil The Polarization of Regional Inequalities in the Brazil Francieli do Rocio de Campos1 Patrícia Estanislau2 Resumo O artigo tem como objetivo evidenciar as desigualdades regionais das Unidades Federativas Brasileiras no período de 1985 a 2006. O método utilizado é embasado em análise estatística descritiva, e o coeficiente de Williamson capaz de captar os efeitos da desigualdade regional. Entre as diferenças apresentadas pelos Estados brasileiros, os efeitos das desigualdades alcançam o ápice em 1995, seguindo o processo de declínio até se estabilizarem entre período de 2000 e 2006. Por meio do Produto Interno Bruto de cada Estado, os resultados do estudo apontam para concentração industrial e populacional no Estado de São Paulo. Dessa forma, constatou-se no período estudado, que o processo de polarização e despolarização no Brasil decorre das desigualdades econômicas regionais. Palavras-chave: Economia Regional; Indústria e Aglomeração de Negócios; Pólos de Crescimento. Abstract The article aims to highlight the regional differences of Brazilian states from 1985 to 2006. The method is grounded in statistical analysis, and coefficient of Williamson which is able to capture the effects of regional inequality. Among the differences presented by the Brazilian states, the effects of inequality reached its top level in 1995, following the process of decline until stabilizing period between 2000 and 2006. By means of the Gross Domestic Product of each state the study findings point to industrial and population concentration in São Paulo State. Thus it was found out during the study period, the process of polarization and depolarization in Brazil follows regional economic inequalities. Key words: Regional Economics; Industry; Growth Poles, Agglomeration. Introdução adota-se o Coeficiente de Williason (1977), cujo procedimento utilizado por Souza (1993) capaz de O objetivo do artigo é evidenciar as captar os efeitos da desigualdade regional. desigualdades regionais nas Unidades Federativas O processo de polarização decorre do efeito Brasileiras partindo do processo de polarização causado pela instalação de uma indústria motriz, ascendente no período de 1985 a 2006. Nessa ou um conjunto de indústrias (complexo industrial), ocasião, acredita-se que houve um movimento cuja função é interagir de forma independente com de polarização e despolarização desencadeando os espaços produtivos das diversas empresas. Ao a desigualdade no processo de crescimento do atrair mais indústrias, o modelo passa a funcionar país. Para verificar a existência desse movimento do seguinte modo: quando há oferta de empregos 1 Discente do Programa em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus Toledo, Brasil, nível mestrado. Bacharel em Economia Doméstica pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Brasil. Contato: frandecampos@yahoo.com.br 2 Discente do Programa em Desenvolvimento Regional e Agronegócio da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Campus Toledo, Brasil, nível mestrado. Contato: patiestanislau@yahoo.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 26/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    aumenta a populaçãode uma região e eleva o concentrando a população em uma dada localidade consumo de bens/serviços. Sob esse efeito se encadeia e tornando-a principal em seu entroncamento uma força atrativa (força motriz) de indústrias e/ou regional (SCOTT, 2003). Assim procurar-se-á verificar empresas para localidade, assumindo condições a participação do PIB dos Estados brasileiros para de crescimento ou desenvolvimento à economia da elucidar as desigualdades regionais, a fim de relacionar região (pólo de crescimento) (SOUZA, 1993). com a distribuição da população e a quantidade de A desigualdade regional concebida pela empresas em cada unidade federativa. deterioração do nível de vida advém da maior Visto a possível existência concentração concentração industrial em algumas regiões, em populacional e de empresas nos Estados, para detrimento a outras sem tais atributos econômicos. evidenciar as disparidades regionais no Brasil, utilizar- De tal modo, Perroux (1977) relaciona essas se-á o Coeficiente de Williamson (1977) para o PIB questões de desigualdades procedentes da per capita, na tentativa de mensurar as desigualdades inovação intensificada pela vontade de acumular regionais. Pressupondo-se que com o aumento do capital, conquistar o poder e desestimular o crescimento econômico, essas desigualdades atinjam subdesenvolvimento. um máximo e depois declinam gradativamente, O enredo do trabalho está segmentado em formando um “U” invertido. Esse fenômeno varia cinco seções, partindo desta breve introdução, entre proximidades de 1 (maior polarização) e na seção dois, aborda-se os procedimentos proximidades de 0 (menor polarização). O cálculo é metodológicos. Na seção três, apresenta-se os dado como: conceitos de polarização e despolarização, assim como os fatores de desenvolvimento e as possíveis causas das disparidades regionais. Na quarta seção, têm-se os resultados da pesquisa, com Em que: a apresentação de dados sobre as disparidades Fj = é a população da iésima região regionais entre os Estados brasileiros e, na quinta n = população nacional yj = PIB per capita da iésima região seção, as conclusões que sumarizam este trabalho. yNac = PIB per capita Nacional N = Número de regiões 1. Procedimentos metodológicos De acordo com Williamson (1977), o “coeficiente ponderado de avaliação que mede a A princípio buscar-se-á o método estatístico descritivo que procura descrever e avaliar certo dispersão dos níveis da renda regional per capita, objeto, conforme menciona Peternelli (2005). Os relativamente à média nacional, enquanto cada dados utilizados são oriundos do Instituto Brasileiro desvio regional é ponderado por sua participação na de Geografia e Estatística (IBGE) compilados pelo população nacional” (WILLIAMSON, 1977, p. 64). Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a Souza (1993) observa que o Coeficiente de fim de averiguar a participação do Produto Interno Williamson (1977) mostra a possível reversão do Bruto (PIB) dos Estados e macrorregiões do Brasil. processo de polarização de um país, constituindo- O período a ser analisado corresponde ao ano se de um índice de desigualdade regional. Azzoni 1985 até o ano de 2006, partindo da premissa de (1997) complementa o fato do coeficiente de existência de polos estaduais e de que há regiões Willianson ser tradicional visto pela vertente de ser mais desenvolvidas do que outras. “unidimensional da desigualdade de renda, relativa Na teoria dos polos de crescimento e a uma distribuição regional igualitária da renda desenvolvimento de Perroux (1977), os efeitos positivos média nacional” (AZZONI, 1997 p.5). Outros no PIB per capita de região propiciam rendimentos autores também fizeram o uso desse coeficiente maiores na cidade pluriativadas (que tendem a atrair como Souza (1993), Azzoni (1997), Gomes (1997), investimentos, diversas atividades e demais fatores a si) Cavalcante (2003) e Chiarini (2006). 36
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    Conforme Cavalcante (2003),a medida da região independente de sua localização tende de desconcentração fornecida pelo Coeficiente de intensificar o poder na estrutura da economia no Williamson depende de um componente arbitrário, âmbito nacional (PERROUX, 1977). associado à forma como o país em análise foi Cabe ressaltar que a formação de polos subdividido em regiões. Se o país corresponder à industriais, diz respeito a um fenômeno essencial, apenas uma região ou estado, i i Y / P será igual ao modo provisório do processo de crescimento a Y / P e Vw tenderá a zero, involuntariamente das econômico. Desse pressuposto, a polarização desigualdades que se poderiam efetivamente observar. tem princípios calcados na aglomeração de indústrias em pleno advento tecnológico e, 2. Aspectos conceituais sobre a oriundo da concentração espacial de um complexo polarização e despolarização industrial acessível as atividades de produção (WILTGEN, 1991). De acordo Tellier (2004), Segundo Perroux (1977), o processo de o processo de polarização ocorre com a complexa polarização favorece um crescimento destinado interação entre forças de atração e de repulsão a raras regiões, as quais são obra da associação de ativos, as quais intervêm na decisão da de conjuntos ativos (indústrias motrizes e atividades localização industrial, além de reforçar o seu grau aglomeradas em territórios) e conjuntos passivos de dependência. (indústrias movidas, regiões periféricas dependentes Em um território com regiões marcadas por das aglomerações industriais), que sofrem influência um desenvolvimento industrial insignificante, ou de fornecedores e compradores de insumos. até mesmo inexistente, configura-se numa situação Assim, Souza (2005) complementa que a essência de poucas perspectivas de crescimento econômico do processo de polarização está interligada às significativo. Ao contrario, quando se observa economias externas geradas pela infraestrutura crescimento aglomerado no mercado econômico, produtiva, possíveis de ser encontrada em regiões tem-se a dimensão das funcionalidades das com disponibilidade de consumidores, mão-de-obra atividades produtivas em mesmo território. Por isso, especializada e serviços destinados às indústrias dos a ideologia do polo aglomerado é contrária em diversos setores econômicos. promover um crescimento distribuído em uma única O objetivo central da polarização é fomentar região (PERROUX, 1977). O contraste se encontra incentivos às regiões com caráter secundário, em regiões, que o progresso econômico alcançou possibilitando a propulsão de empresas pusilânimes elevados patamares se tornando um gerador de se tornarem canais de difusão e, não apenas impacto negativo constituído na moderna situação contribuir com concentração de uma ou duas de produção (SCOTT, 2003). regiões principais (SOUZA, 2005). A idéia que 2.1 Fatores propulsores do crescimento e procede na atração de polos decorre de uma do desenvolvimento regional política fundamentada na redução da concentração de crescimento dos polos, e desconcentração Para ilustrar teoricamente as desigualdades e deles em grandes centros. E tende a um equilíbrio contrabalançar com desenvolvimento das regiões, econômico proveniente da oportunidade dada as remete-se ao crescimento econômico mediante regiões subdesenvolvidas atrair novos investimentos uso da distribuição de renda. Em que, Scott (2003) produtivos (AZZONI, 1986). correlaciona o termo desenvolvimento com um Nessa conjuntura, um polo industrial processo construtivo, no qual as emissões dos apresenta características acessíveis de crescimento e recursos econômicos se tornam necessárias para representatividade aglomerativa, além de conceber melhoria da produtividade. Ao sintetizar o termo intensificação das atividades econômicas. Seu crescimento faz menção das linhas de melhorias, contingente remodela toda a estrutura geográfica seguindo os aumentos do produto bruto das regiões. 37
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    O crescimento eo desenvolvimento adentrando no chamado declínio econômico estão associados à aglomeração territorial, e a (SCOTT, 2003). densidade dos investimentos nas trocas ou nas Dessa forma, o processo de crescimento de informações aplicadas em pontos determinados uma região se explica mediante um desenvolvimento pelos indivíduos. Suas implicações por causa da em ascensão, que ao atingir seu ponto máximo medida formalizada pelo crescimento econômico dá inicio ao processo de despolarização e a partir da região se fundamentam pela espacionalidade desse, descresse o crescimento estável da região. A territorial da aglomeração geográfica, das representação curvilínea inicia com aumentos dos atividades econômicas, e por conta dos aumentos indicadores e depois um declínio deles. da produtividade nacional (SCOTT, 2003). As atividades produtivas industriais se 2.2 Detalhamento teórico sobre desigual- concentram em poucos locais de um território fazendo dades regionais parte do processo, cuja conjuntura econômica se As desigualdades regionais são evidentes abasta da acumulação dos recursos naturais, bem em regiões com amplos avanços no contingente como tem sido considerado nos últimos tempos, os econômico, dando margem para mesma antecedentes históricos econômicos, formalizando a continuarem evoluindo, por receber maior número atual estrutura econômica, moldando seus padrões de investimentos industriais. Em casos de regiões produtivos de acordo com industrialização (AZZONI, que permanecerem pobres significa ausência em 1985). quantidade de intervenções estatais, falta de aspectos O auge do crescimento regional deriva do de rentabilidade econômica, seguindo em condições efeito da aglomeração alcançado pela indústria, de pobreza e subdesenvolvimento (AZZONI, 1986). ou conjunto de indústrias medido pelos índices Por isso, a solução encontrada para esse econômicos e aguçado pela estrutura de produção. problema está no investimento da industrialização, A ponto de ser registrado como fenômeno que assume como precedente o desenvolvimento desequilibrado, devido um progresso econômico com regional. A indústria tende angariar grande número ausência de crescimento homogêneo, equilibrado e populacional e consumir mais mão-de-obra, pois igualmente distribuído entre populações e territórios ocorre expansão do setor terciário, alcança-se um (SILVA et al, 2000). mercado de amplas oportunidades de inserção de O crescimento econômico regional funciona novas indústrias, sobretudo se concentra o setor como mediador do estágio de desenvolvimento, ao de subsistência incorporando- no mercado interno perceber sua influência na maioria das empresas, (SINGER, 1986). fragmentado no controle de seus investimentos, Kuznets (1955) propõe o desenho da curva além de emergir, conforme o andamento dos saldos em U-invertido para representar a oscilação do positivos dos negócios. Outro fator propulsor é a contingente de desenvolvimento e enfatizar as especialização de um setor econômico, visível a disparidades regionais. O aumento do índice da partir do desenvolvimento instantâneo do próprio desigualdade regional pode ser representado pela (LIMA, 2006). forma como é conduzida a distribuição de mão- De tal forma, para contribuir com o de-obra nos polos industriais. Muito comum de se desenvolvimento e crescimento de uma região encontrar fenômenos como êxodo rural, devido à a ferramenta essencial é delimitar as suas movimentação em busca de empregos e políticas potencialidades de mercado. Para tentar superar sociais, resultando num desenvolvimento regional as etapas do seu desenvolvimento, uma região desordenado. Sendo que, a diminuição da pobreza subdesenvolvida ao tentar alcançar todas as etapas e das desigualdades em regiões de desenvolvimento para sua industrialização percorre um caminho pode ser atingida a partir de um tempo e contando bloqueado por crises ou forças insípidas do mercado com a tendência natural. 38
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    No seguimento damesma proposta, os contra- que não foi necessário haver alguma interferência sensos dos indicadores propiciam as desigualdades para eliminar as disparidades regionais, já que elas regionais a aumentarem e depois declinarem, dando seriam eliminadas naturalmente no longo prazo. margem a um processo chamado de despolarização. Portanto, houve a necessidade de fazer uma análise Em gráfico isso significa uma curva com um formato entre diferentes regiões para verificar a proporção de “U” invertido (∩) que representa as desigualdades do desenvolvimento regional do país. regionais (AZZONI, 1997). 3. Desigualdades regionais dos estados 2.3 A situação das disparidades intra-re- gionais do Brasil brasileiros O Brasil assumiu formato de industrialização A desigualdade regional representada no instituído para todos os países colonizados no Brasil perdura com o modelo implantado no cerco período de 1500, um processo que perpetua com das atividades produtivas, o qual tem beneficiado características de uma rápida expansão do comércio uma ou outra região específica. Essa dinâmica em sua exterior, com forte apoio do governo e com alta dimensão se apresenta em maior proporcionalidade proteção tarifária. Desde então, ocorre a sucessão nas Regiões Sudeste e Nordeste. de atividades econômicas desenvolvidas numa série A análise sobre o Produto Interno Bruto de estágios, estabelecidas numa proposta de causas fundamenta-se em dados extraídos do Ipeadata. com natureza do crescimento industrial descontínuo, Para melhor apresentar as participações do PIB e impacto na estrutura de funcionamento da dos Estados brasileiros, agrupa em regiões. Entre economia no país (BAER, 2003). as regiões, a Região Sudeste é a que mais se Nos anos de 1970, pode ser visto uma destaca na participação do PIB nacional. Em 1985, oscilação na quantidade de indústrias instaladas era responsável por 60,15% do PIB nacional, no e várias formulações de polos de crescimento no entremeio do período, teve algumas oscilações, Brasil. A partir da década de 1980, houve crises sua percentagem decaiu (56,78%) em 2006, mas econômicas, decorrentes da problemática gerada continua sendo a Região que mais contribui com pelo declínio econômico de diversas regiões o PIB nacional. Conforme Perroux (1987) salienta- brasileiras, em que os polos industriais passaram se que as regiões com maior concentração de exercer frequência negativa, ao invés de apresentar indústrias intensificam seu desenvolvimento das continuidade positiva no crescimento do país. Com demais regiões. a extensiva falência de firmas em todo o território, A Região Sul responde pela segunda colocação ocorre transformação nas áreas polarizadas - na composição do PIB no ano de 1985, a qual conhecido por fenômeno de transferências de colaborava com 17,10% no PIB nacional declinando atividades produtivas. Essas mudanças foram de para 16,32% em 2006. A Região Norte apresentou alta escala para todos os envolvidos, tanto em menor resultado junto ao PIB nacional, no entanto, nível regional, como na condensação de serviços visto pela grande extensão territorial composta por oriundos e mais submissos das indústrias (LIMA, matas e florestas, e dada à região amazônica situar- 2006). se nesse território, justifica-se o aumento de sua taxa Seguindo a linha de raciocínio das de participação no período exposto. disparidades regionais encontradas no Brasil, A Região Nordeste se sobressaiu pela o constante crescimento de algumas atividades influente receita advinda de bens não inclusos na econômicas, a distribuição desigual do produto economia nacional, bens característicos da cultura nacional e a emergente concentração industrial local do território (BAER, 2003). Essa Região obteve refletiram numa situação de redistribuição espacial 14,10% na composição do PIB nacional, no ano de em determinadas regiões. Kuznets (1955) mostra 1985, durante o período sua taxa de participação 39
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    sofreu leves oscilaçõese fechou em 2006 com porcentagens oscilaram, mas manteve-se em queda 13,13% no PIB nacional. A região Centro-Oeste na participação do PIB nacional, alcançando uma iniciou o período com 5,66% de participação no média de 11,72%. O terceiro Estado com maior PIB nacional e chegou ao ano de 2006 com 8,71 % índice no PIB nacional é o Estado de Minas Gerais de participação no PIB nacional. com uma média de 9,23%. A tabela a seguir apresenta os valores de Os Estados de Roraima e Acre são os que participação do Produto Interno Bruto dos Estados menos contribuíram para o PIB nacional, entretanto, Brasileiros: seus índices de crescimento se elevaram, visto pelas Na tabela 1, nota-se a participação dos atividades econômicas como extrativista e auto- Estados na composição do PIB Nacional, no consumo desenvolvidas por tais Estados. período analisado, destaca-se a redução da O elo entre o processo de industrialização contribuição do Estado de São Paulo, sendo numa e a elevada disparidade econômica das Regiões média de 34,53%. O Estado do Rio de Janeiro brasileiras está representado pelas mudanças ocupa-se da segunda colocação, porém suas de distribuição de renda nos setores industriais, Tabela 1 - Participação do Produto Interno Bruto, com preços constantes dos Estados no Produto Interno Bruto do Brasil entre 1985 e 2006 em (%) ESTADOS 1985 1990 1995 2000 2006 Média São Paulo 36,12 37,02 35,47 33,67 33,87 34,53 Rio de Janeiro 12,70 10,86 11,52 12,52 11,62 11,72 Minas Gerais 9,61 9,29 9,74 9,64 9,06 9,23 Rio Grande do Sul 7,88 8,13 8,30 7,73 6,62 7,48 Paraná 5,92 6,35 5,94 5,99 5,77 6,07 Bahia 5,35 4,49 4,14 4,38 4,07 4,32 Santa Catarina 3,30 3,73 3,65 3,85 3,93 3,80 Distrito Federal 1,37 1,61 2,05 2,69 3,78 2,92 Pernambuco 2,62 2,66 2,70 2,64 2,34 2,49 Goiás 1,80 1,75 1,84 1,97 2,41 2,17 Espírito Santo 1,72 1,66 1,99 1,96 2,23 1,93 Ceará 1,72 1,62 1,93 1,89 1,95 1,86 Pará 1,52 2,06 1,87 1,72 1,87 1,80 Amazonas 1,52 1,82 1,70 1,71 1,65 1,62 Mato Grosso 0,69 0,83 1,01 1,22 1,49 1,31 Mato Grosso do Sul 0,95 0,96 1,08 1,08 1,03 1,05 Maranhão 0,74 0,80 0,78 0,84 1,21 0,97 Paraíba 0,72 0,85 0,82 0,84 0,84 0,82 Rio Grande do Norte 0,78 0,72 0,73 0,84 0,87 0,80 Alagoas 0,86 0,71 0,62 0,64 0,66 0,68 Sergipe 0,92 0,57 0,55 0,54 0,64 0,64 Rondônia 0,48 0,49 0,46 0,51 0,55 0,53 Piauí 0,39 0,45 0,49 0,48 0,54 0,49 Tocantins 0,00 0,16 0,19 0,22 0,41 0,29 Amapá 0,12 0,16 0,19 0,18 0,22 0,19 Acre 0,13 0,14 0,15 0,15 0,20 0,17 Roraima 0,07 0,11 0,07 0,10 0,15 0,12 Brasil 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 Fonte: Ipeadata, 2009. 40
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    agrícolas e serviços(BAER, 2003). Ao relacionar a A tabela 2 mostra o Estado de São Paulo participação do PIB estadual com o PIB nacional, em 1985 com 48,53% de PIB atrelado à indústria, aborda-se a composição do valor adicionado enquanto em 2006, esse valor diminuiu para dos Estados Brasileiros, composto pelos setores 34,76%. No entanto, quando se analisa o setor de agropecuário, industrial e de serviços. serviços, obteve um crescimento de 33,35% em 1985 Os dados mostram que a Região Sudeste para 34,14% em 2006. Já o setor agropecuário possui valores mais elevados no segmento assentiu uma queda de 18% para 12,78%. As industrial, e acredita-se que devido a isso, haja diversas participações desses setores em diferentes maior concentração urbana, dada a localização das anos mostram mudanças no padrão de produção, indústrias. A Região Centro-Oeste atribui valores consumo e fatores de trabalho que implicam na atrelados ao segmento agropecuário, justificando diversa evolução econômica dos Estados. sua participação ativa no agronegócio brasileiro. A O Estado do Rio de Janeiro apresenta os Região Sul possui valores correlativos à agricultura, resultados do setor de serviços (16,48%) em 1985, aos serviços presentes e à crescente ativação do sendo que tal decaiu no ano de 2006 (11,66%) segmento industrial. Os dados referentes às Regiões admitindo que esse setor se tornou o maior Norte e Nordeste mostram que seus aspectos contribuinte na formação de seu PIB estadual. O econômicos têm incrementado gradativamente as Estado de Minas Gerais tem na agricultura o fator participações da indústria, serviços e agricultura. de maior contribuição para o PIB estadual no Conforme apresenta a tabela 2: decorrer dos anos de 1985 e 2006. Os Estados Tabela 2 – PIB Estadual a preços básicos em R$ de 2000, no valor adicionado da Indústria, Agropecuária e Serviços, nos anos selecionados de 1985 e 2006 1985 2006 Estados Indústria Agropecuária Serviços Indústria Agropecuária Serviços São Paulo 43,58 18,00 33,35 34,76 12,78 34,14 Rio de Janeiro 13,21 1,41 16,48 13,09 1,04 11,66 Minas Gerais 9,25 14,71 7,93 10,21 14,12 8,38 Rio Grande do Sul 7,00 11,25 6,99 6,52 11,30 6,34 Paraná 4,82 12,66 5,39 5,94 8,87 5,60 Santa Catarina 3,32 5,23 2,50 4,80 5,07 3,57 Bahia 4,90 8,46 4,40 4,32 5,84 3,79 Amazonas 1,94 1,13 0,95 2,57 1,48 1,22 Espírito Santo 1,41 3,03 1,50 2,48 3,64 1,80 Goiás 1,08 3,11 2,13 2,28 4,65 2,38 Pará 1,01 3,51 1,34 2,27 3,29 1,71 Pernambuco 1,95 3,00 2,72 1,76 2,22 2,61 Ceará 1,39 2,44 2,02 1,63 2,65 2,10 Mato Grosso 0,30 1,21 0,89 0,96 7,04 1,31 Distrito Federal 0,35 0,10 5,54 0,87 0,15 5,59 Maranhão 0,31 1,80 0,90 0,86 3,85 1,23 Rio Grande do Norte 0,88 0,63 0,69 0,79 1,03 0,92 Sergipe 1,37 0,65 0,47 0,72 0,59 0,64 Paraíba 0,43 1,28 0,78 0,67 1,16 0,95 Mato Grosso do Sul 0,36 3,09 0,88 0,65 2,70 1,04 Alagoas 0,48 1,49 0,70 0,63 1,03 0,70 Tocantins 0 0 0 0,36 1,44 0,37 Piauí 0,17 0,61 0,51 0,33 0,97 0,63 (continua) 41
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    (continuação) 1985 2006 Estados Indústria Agropecuária Serviços Indústria Agropecuária Serviços Rondônia 0,33 0,74 0,50 0,28 2,02 0,57 Acre 0,05 0,27 0,17 0,10 0,66 0,23 Amapá 0,06 0,09 0,19 0,08 0,17 0,32 Roraima 0,02 0,07 0,11 0,06 0,23 0,21 BRASIL 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 Fonte: Ipeadata, 2009 com maior contribuição no PIB nacional (São Paulo, da Região. A partir do exposto, destacam-se as Rio de Janeiro e Minas Gerais) têm composições disparidades entre regiões, pelos valores restringidos diferenciadas de valor adicionado (para a produção de habitantes e empresas em ambos os Estados. da indústria, agricultura e serviços). Com base no registro populacional, o gráfico 2 De acordo com Andrade e Serra (1998), mostra a distinção populacional entre os Estados do o período de 1985 a 2006 possui concentração Brasil. industrial em grandes centros brasileiros, como Segundo a representação do gráfico 2, mostra o gráfico 1: as unidades federativas brasileiras com maior Gráfico 1 – Número de Empresas por Estados Brasileiros no ano de 2006 Fonte: IBGE, 2009. No gráfico 1 e no gráfico 2, observa-se que número de empresas se assemelham aos Estados o Estado de São Paulo concentra o maior número que possuem maior adensamento populacional. de empresas (30,45%) e, por conseguinte, é o Portanto, existe atração populacional nessas regiões Estado mais populoso (21,95%) do Brasil. O Estado que tendem investir nas empresas já existentes, de Roraima é o menos populoso com 0,21% da possibilitando manutenção/formação de novos população total do país e possui número reduzido empregos e empreendimentos. Com isso, essas de empresas, no ano de 2006. regiões mantêm um crescimento continuo em Em contrapartida, o Estado do Amapá ocupa o termos de PIB que lhes permite a possibilidade do menor índice de empresas devido as potencialidades desenvolvimento econômico. 42
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    Gráfico 2 –População Total por Estados Brasileiros no ano de 2006 Fonte: Estimativa Populacional, 2009. Outras regiões com ausências de Gráfico 3 – Medida de Desigualdade Regional do desenvolvimento não viabiliza em níveis de PIB per capita a preços constantes em R$ de 2000 do Brasil, para os Estados Brasileiros, no período crescimento econômico contínuos, e por diversos de 1985 á 2006. fatores acabam não tendo a mesma possibilidade gerir desenvolvimento. E ainda o crescimento desigual entre as regiões brasileiras se atribui a algumas diferenças regionais, considerando o enfoque populacional e número de empresas em cada Estado. O gráfico 3 apresenta a disparidade regional do PIB per capita dos Estados Brasileiros, mediante a representatividade dos dados extraídos Fonte: Resultados da Pesquisa, 2009. do IBGE para as anos de 1985 á 2006. De Como mostra o gráfico 3, ocorre aumento das acordo com Williamson (1977), as disparidades disparidades entre os Estados Brasileiros até 1995. regionais crescem por um determinado período Esse fato se explica por meio do declínio caracterizado de tempo, após declinam mostrando o movimento pela despolarização entre 1996 á 2002, o qual de polarização ou movimento de despolarização. permite destacar a redução das disparidades entre os Entre a amostra das desigualdades averiguadas Estados brasileiros. Esse período é caracterizado pela nos Estados brasileiros, o valor máximo atingido implantação do Plano Real na economia brasileira e chegou a torno (0.0866) no ano de 1995, sua desvalorização a partir de 1998/99, atingindo, representando o maior diferencial de PIB per capita no ano 2000, o menor índice de disparidade entre entre os Estados Brasileiros, seguindo no decorrer os Estados brasileiros. Após 2002 até 2006, as dos anos um declínio gradativo formando a figura disparidades estaduais se mantiveram a níveis estáveis, de um “U” invertido. Como está representado no porém não nulas, as quais indicam a existência das gráfico a seguir: disparidades estaduais a níveis menores. 43
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    Conclusões Verificou-se através das tabelas 1 e 2 e dos gráficos 1 e 2, que o Estado de São Paulo é o O período de 1985 á 2006 proposto para representante motriz brasileiro. Pois maior parte da estudo foi um momento de transformações na população e empresas situa-se nesse Estado, isso economia Brasileira. Com taxas exorbitantes de gera atração de investimentos e mão-de-obra em inflação em um primeiro momento, assumindo intensa escala. Em contraste os Estados de Roraima um equilíbrio com o controle inflacionário sob (menos populoso) e Amapá (menor número de intensa mudança econômica em vários setores da empresas) possuem maiores dificuldades em economia, tendo que se adaptarem às mudanças relação a atração de investimentos. Desse modo, da abertura econômica, proposta em 1990. Visto no período analisado, as desigualdades regionais isso, como influencia nas disparidades regionais e entre os Estados reduziram relativamente com desenvolvimento econômico desigual no conjunto a abertura econômica, principalmente após a de Estados brasileiros. desvalorização cambial de 1999, e estabilizaram a O movimento de crescimento das partir do ano 2002. desigualdades no início nos anos 1990 e a Nas disparidades econômicas entre os concomitante ascensão em 1995, remota a Estados Brasileiros, o papel do investimento público característica da teoria da polarização na impactante em infraestrutura é essencial, pois consideram atração de empresas e pessoas em relação aos polos. a caracterização e a adequabilidade como As quais transmitem o movimento de regiões mais instrumentos de desenvolvimento regional para ricas à frente de regiões mais empobrecidas. Esse as áreas menos favorecidas. Sendo assim, as movimento, depois de 1995 até 2002, manteve-se disparidades regionais devem ser analisadas com em queda, comprovando a hipótese de “U” invertido, mais atenção e cuidado pelas autoridades públicas, mostrando que o crescimento elevado aumenta as no sentido de melhor qualificar a mão de obra, desigualdades regionais, depois declinarem dando incentivando políticas internas de crescimento nos margem a um processo chamado de despolarização, Estados subdesenvolvidos, a fim de equiparar ao que ocorre sem qualquer tipo de interferência. crescimento dos demais Estados. Referências ANDRADE, T. A.; SERRA, R. V. O recente desempenho das cidades médias no crescimento populacional urbano Brasileiro. Rio de Janeiro: IPEA, 1998. AZZONI, C. R. Distribuição Pessoal de Renda nos Estados e Desigualdade de Renda entre os Estados do Brasil - 1960, 1970, 1980 e 1991. Revista Pesquisa e Planejamento Econômico. Rio de Janeiro, v. 27, n. 2, p.251-278, ago. 1997. ______. Indústria e reversão da polarização no Brasil. São Paulo: IPE-USP 1986. , ______. Aspectos da evolução industrial de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com destaque para o caso Paulista. In: Carlos Roberto Azzoni (org.) Onde produzir? Aplicações da Teoria da localização no Brasil. São Paulo: IPE-USP 1985, Cap.4, p.230-262. , BAER, W. A Economia Brasileira. São Paulo: Nobel, 2003. CAVALCANTE, L. R. M. T. Desigualdades regionais no Brasil: uma análise do período 1985-1999. Revista Econômica do Nordeste. Fortaleza, v. 34, n. 3, p.466-481, 2003. CHIARINI, T . Coeficiente de Williamson e as disparidades regionais de rendimento e educação no Brasil. Revista Econômica do Nordeste. Fortaleza, v. 37, s/n, p.493-511, 2006. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. SIDRA. Disponível em: < www.sidra.ibge.gov.br>. Acesso em 1 maio 2009. 44
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    A Evolução dosSistemas de Gestão Ambiental: o caso do Laboratório de Camarões Marinhos Environment Management System Evolution: the case of Marine Shrimps Laboratory Rafael Feyh Jappur1 Antonio Costa Gomes Filho2 Marilene Bronoski3 Fernando Antonio Forcellini4 Resumo O estado da arte em um Sistema de Gestão Ambiental se dá quando ele consegue a certificação NBR ISO 14001. Isso significa que as práticas e procedimentos de gestão de aspectos e impactos ambientais estão adequados, por proporcionarem à organização os elementos para o atendimento à legislação e para o cumprimento dos requisitos de melhoria contínua e prevenção da poluição, além de proporcionarem a obtenção de vantagens interna e externa. Este artigo tem por objetivo mostrar a necessidade de evolução dos sistemas de gestão ambiental, de forma que a garantia da qualidade ambiental seja para toda a cadeia produtiva. A análise é feita a partir de um estudo de caso. A evolução de um único subsistema da Cadeia de Produção de Camarões Marinhos rumo à padronização de processos e obtenção de certificação ISO 14001 não foi o suficiente para garantir a sustentabilidade do sistema. Conclui-se que qualquer empresa, organização ou cadeia de produção precisa evoluir de forma integrada e na opção pela certificação ISO 14.001 há que se pensar em certificação da cadeia produtiva como um todo. Palavras-chave: Sistemas de Gestão Ambiental; Cadeia Produtiva; Sustentabilidade. Abstract The state of the art in an Environmental Management System is when it gets the certification ISO 14001. This means that the practices and procedures for managing environmental aspects and impacts are appropriate for the organization providing the information for compliance and to meet the requirements of continuous improvement and pollution prevention, and provide benefits to obtain internal and external advantaged. This article aims at showing the need for environmental management systems development, so that environmental quality is guaranteed for the whole production chain. The analysis was carried out from a case study. The evolution of a single subsystem of Marine Shrimps production chain toward standardization of processes and obtaining ISO 14001 was not enough to ensure the sustainability of the system. It was concluded that any 1 Professor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de Santa Catarina - SENAC/SC, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina - EGC/UFSC, Brasil, nível doutorado. Contato:rjappur@gmail.com 2 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Discente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina - EGC/UFSC, Brasil, nível doutorado. Contato: acgfilho@unicentro.br 3 Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui doutorado em Engenharia Florestal pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: marilene.bronoski@gmail.com 4 Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil. Possui doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil, e Pós-doutorado em Engenharia Mecânica pela Universidade de São Paulo - USP Brasil. Pesquisador Nível 2 , do CNPQ. Contato: forcellini@gmail.com Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 13/05/2010 - Aprovado em 26/11/2010
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    company, organization orproduction chain needs to evolve in an integrated way, and in choosing ISO 14001 certification it is to consider the certification of the production chain as a whole. Key words: Environmental Management Systems; Supply Chain; Sustentability. Introdução sendo mais tarde substituído por Desenvolvimento Sustentável (LEIS, 1999). As cinco dimensões da As organizações são sistemas sociais abertos sustentabilidade - social, econômica, ecológica, em constante interação com o ambiente no qual estão espacial e cultural - foram fundamentadas inseridas. As funções administrativas e operacionais conceitualmente por Sachs (1993). devem ser estruturadas e gerenciadas de forma a No macroambiente empresarial os estudos manter o equilíbrio entre os ambientes geral externo focam o Desenvolvimento Sustentável; no contexto e o ambiente de tarefas internas de maneira a evitar do microambiente empresarial, o conceito mais o conflito entre a organização e a sociedade à qual utilizado é o do triple bottom line – TBL e se refere pertence (PRESTES; BULGACOV, 1999). à prosperidade econômica, qualidade ambiental Por influência da Teoria Geral de Sistemas e progresso social e à construção de métricas que proposta por Bertalanfy, na década de 1950, permitem mensurar a atuação da empresa nas (Bertalanfy, 1977), a Ciência das Organizações esferas econômica, social e ambiental. incorporou o conceito de sistema aberto; isso Este artigo discorre sobre a evolução dos trouxe à tona a forma de se pensar a empresa a Sistemas de Gestão Ambiental, enfocando a partir de processos e uma visão de interação com necessidade de visão sistêmica da cadeia produtiva. as necessidades dos stakeholders internos e externos A pesquisa foi caracterizada como descritiva, ao sistema empresarial. tomando-se como fonte primária um estudo de caso Logo após a Segunda Guerra Mundial, desenvolvido e sua certificação em um laboratório esse conceito de processos foi incorporado ao de larvicultura de camarões marinhos, situado em ambiente empresarial, inicialmente pelas empresas Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. orientais, em especial pela indústria automotiva japonesa e, posteriormente, na década de 1980, 1. Os subsistemas da cadeia produtiva no mundo ocidental, com a proposta denominada de camarões marinhos de Reengenharia de Processos (HAMMER; CHAMPY, 2003). A idéia de sistema induz à idéia de ordem, No entanto, até a década de 1980, o arranjo, plano, método e busca da racionalidade, cliente, notadamente, o stakeholder principal do mesmo que parcial. A ausência de organização cenário organizacional, não era tão valorizado poderia se chamar de “caos”, de forma que um em função das poucas empresas atuantes e, sistema organizacional é um conceito, uma visão consequentemente, de poucos produtos existentes. funcional e estática da organização (PRESTES; A década de 1980 inaugurou a necessidade de BULGACOV, 1999). maior integração da empresa com o seu ambiente A empresa, tipo especial de organização, externo, colocando o cliente como sujeito das enquadra-se no modelo de sistemas abertos, decisões empresariais. considerando sua contínua interação com o ambiente, A evolução dos Sistemas de Gestão Ambiental recebendo e transformando insumos em produtos também tem seu marco inicial a partir daquele acabados, de acordo com Montana e Charnov (1998). período, pois a preocupação com a preservação O conceito de sistema aberto é também do meio ambiente, conjugada com a melhoria aplicado na cadeia de produção do cultivo de camarão das condições sociais e econômicas da população marinho, que apresenta três elementos principais: o mundial, trouxe o conceito de ecodesenvolvimento, laboratório de reprodução e larvicultura, a fazenda 48
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    de engorda eo centro de processamento para o no entanto, isso nem sempre ocorre de forma mercado. O Laboratório de Camarões Marinhos - simultânea. Tomando como exemplo o sistema LCM é um subsistema do sistema de reprodução e de qualidade, que envolve processos, recursos, larvicultura de pós-larvas de camarão marinho. atitudes e responsabilidades de forma que a sua sobrevivência depende do nível de atendimento ao Figura 1 – Fluxograma da Cadeia Produtiva do mercado e acompanhamento de suas evoluções por Camarão Marinho todos os subsistemas do sistema empresa. Para Juran (1995), o Gerenciamento da Qualidade por Toda a Empresa (GQTE) é uma abordagem sistemática para se estabelecer e atingir metas da qualidade na empresa como um todo; no planejamento por departamentos, ele deve identificar e concentrar-se nas poucas atividades mais vitais; os clientes podem constituir todo um elenco de personagens, sendo que o planejamento Fonte: Os autores. departamental da qualidade deve identificar e O fluxo de informações permeia toda a cadeia concentrar-se nos poucos clientes mais importantes produtiva, entre os seus diversos componentes. (Classe A, dentro da Classificação ABC). Nesse Buscam-se informações no fornecedor (capacidade sistema, a metodologia aplicada é a mesma que de fornecimento, tecnologias utilizadas, logística a aplicação em toda a empresa, somente restrita à de ressuprimento) que, ao mesmo tempo, avalia divisão em que se pretende planejar a qualidade, o poder de compra e demanda do cliente e isoladamente. assim sucessivamente. O fluxo de informações é, Dentro desse contexto, na evolução dos portanto, nos dois sentidos (bidirecional), desde o sistemas empresariais, a gestão de processos tornou- produtor primário, até o consumidor final (usuário). se ferramenta substancial para a melhoria contínua Já o de mercadorias/produtos é unidirecional, em dos processos críticos de uma organização. Cada vez se tratando de logística direta, visto que é o fluxo mais a exigência da sociedade para que as empresas físico que segue do produto primário (origem da assumam sua responsabilidade socioambiental tem cadeia), até o consumidor final. Salvo, é claro, forçado as empresas a evoluírem, especialmente em em caso de devolução, reutilização num processo seus sistemas de gestão ambiental. O movimento anterior, situações contempladas na da logística ambientalista chegou para ficar e cabe às empresas reversa. adequarem-se a essa realidade. Considerando esse cenário, de crescente 2. A evolução dos sistemas preocupação com a variável ambiental, é que muitas organizações padronizaram seus processos O conceito de “evolução dos sistemas de gestão voltados a esse enfoque. O conceito técnicos” defende a idéia de que todo sistema evolui. de gestão ambiental para organizações pode ser Essa evolução pode ser a partir de uma idéia inicial definido como um sistema administrativo integrado para a qual o sistema técnico ainda não existe de aos demais processos gerenciais que busca a forma organizada, como também para sistemas já excelência da performance ambiental (ALMEIDA, existentes. Tal consideração foi utilizada como base 2002). para a Teoria da Resolução de Problemas Inventivos A evolução dos Sistemas de Gestão – TRIZ - desenvolvida por Genrich Altshuler (1926- Ambiental encontra sua maior dificuldade no jogo 1998) conforme relembra Demarque (2005). de forças existente entre os diversos stakeholders. Se o sistema evoluiu como um todo, infere- Antes da década de 1980, por exemplo, os clientes se que seus subsistemas também evoluíram, e o movimento ambientalista não tinham força e 49
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    os sistemas deMarketing e os Sistemas de Gestão engessamento das atividades organizacionais e sim Ambiental não evoluíram, predominando o lucro a um mecanismo de suporte à gestão, incluindo os todo custo, em atendimento ao acionista que tinha limites de flexibilidade possíveis. maior influência no sistema empresa. Sob a ótica da gestão, um processo é Um método inovador que considera a definido como um ou mais procedimentos/atividades sustentabilidade como consequência das ações relacionados, os quais coletivamente realizam o de inovação e responsabilidade social empresarial objetivo de um negócio dentro de um contexto incorporada à visão de longo prazo do modelo organizacional definido em papéis e relacionamentos de negócios foi desenvolvido por Gomes Filho et (WFMC, 1999). al (2009). Segundo esses autores, o Método para Muitas organizações gerenciam suas Concepção de Negócios Sustentáveis baseado em operações através da aplicação de sistema de TRIZ (MCNS-TRIZ) possibilita evoluir o modelo de processos e suas interações, que podem ser negócios incluindo a dimensão social e a dimensão referenciados como “abordagem de processos”. A ambiental. ABNT ISO 9001 promove a utilização da abordagem de processo. Como o PDCA pode ser aplicado a 3. Abordagem de processos e evolução todos os processos, ela também pode ser compatível via padronização com os processos de gestão ambiental (ABNT ISO 14001, 2004). A aplicação de um sistema de gerenciamento A implementação de sistemas de gestão por processos em uma organização, junto com a ambiental - SGAs - é um movimento organizacional identificação, interações desses processos e sua recente e que ganhou velocidade a partir da gestão, pode ser considerada como “abordagem década de 1990, com a disseminação da norma de processo”. Uma vantagem da abordagem de ISO 14001. De acordo com ISO (2003), o número processo é o controle contínuo que ela permite sobre de certificações de sistemas de gestão no mundo a ligação entre os processos individuais dentro do tem crescido significativamente, o que comprova sistema de processos, bem como sua combinação e a credibilidade dessas certificações num mercado interação. cada vez mais competitivo e globalizado. O estabelecimento de processos Existem várias metodologias para a documentados dá suporte, para que nada implementação e manutenção de sistemas de gestão importante seja esquecido e também serve para ambiental, sendo estas baseadas no método do ciclo que todos tenham o conhecimento do que fazer, do “PDCA”, já mencionado anteriormente. A própria quando fazer, como fazer, por que fazer, onde fazer ISO 14001 foi concebida com essa base conceitual e dependendo da situação, o quanto custa fazer. (HARRINGTON; KNIGHT, 2001). O ciclo “PDCA” Daí a importância da necessidade da existência de foi proposto por Shewhart na década de 1930 e processos devidamente formalizados, instruções, disseminado por Deming na reconstrução do Japão registros, para assegurar que os executores da tarefa pós-guerra. Ele é considerado por Moura (2008) e o façam dentro de um padrão pré-estabelecido do Moreira (2006) como a ferramenta mais importante melhor jeito possível e não cada um com o seu do gerenciamento do SGA, a qual poderá resumir próprio jeito (MELLO et al., 2002). todo processo de gestão. Compõe-se pelo “P” de Conforme Harrington (1993), a padronização plan (planejar), “D” de do (realizar), “C” de check é um norte para a operacionalização eficiente e (verificar) e “A” act (atuar para corrigir). eficaz das atividades organizacionais. Ressalta- De acordo com a ABNT ISO 14001 (2002), o se ainda, que esses documentos padronizados, processo de operacionalização de um SGA eficiente podem, de acordo com a necessidade, ser revistos e eficaz com base no “PDCA” deve ser alcançado e melhorados. A padronização não significa o por meio da seguinte forma: 50
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    • Planejar: estabeleceros objetivos e propostos pela NBR ISO 14001. O entendimento processos necessários, para atingir os dos autores deste artigo é que o estado da arte resultados em conformidade com a política é atingido pela certificação, isso em termos ambiental da organização. de práticas e procedimentos de gestão de • Executar: implementar os processos. aspectos e impactos ambientais, e também por proporcionarem à organização os elementos para • Verificar: monitorar e medir os processos o atendimento à legislação e para o cumprimento em conformidade com a política ambiental, dos requisitos de melhoria contínua e prevenção objetivos, metas, requisitos legais e outros, da poluição. relatando seus resultados. Além de possibilitarem a obtenção de • Agir: agir para continuamente melhorar o vantagens diferenciais internas e externas, a desempenho do SGA. padronização dos processos dos Sistemas de Gestão O conceito de gestão ambiental para Ambiental caracteriza sua evolução e visa apoiar a empresas pode ser definido como um sistema sustentabilidade competitiva das organizações. administrativo integrado aos demais sistemas que suportam os processos gerenciais e que buscam a 4.A evolução do laboratório de camarões excelência da performance ambiental. Para Almeida marinhos (lcm) à padronização e (2000), gestão ambiental é a forma de como a certificação pela iso 14001 empresa se mobiliza, internamente e externamente, para a conquista da qualidade ambiental desejada. A criação de camarões em cativeiro Viterbo Junior (1998) enfatiza que a gestão ambiental (carcinicultura) é uma atividade que nos últimos é como a organização administra as relações entre anos tem apresentado grande expansão mundial, suas atividades e o meio ambiente, observando as assumindo considerável importância socioeconômica partes interessadas (consumidores, empregados, em diversos países (ANDREATTA, 2002). ONG’s, comunidade, entre outros). A cadeia produtiva do cultivo de camarão De uma maneira geral, a gestão ambiental é marinho no caso em estudo apresenta três elementos: um meio administrativo que liga as atividades de uma o laboratório de reprodução/larvicultura, a fazenda organização ao meio ambiente, com a finalidade de engorda e o centro de processamento para o de prevenir e minimizar os impactos ou efeitos mercado. O Laboratório de Camarões Marinhos ambientais causados direta e/ou indiretamente por (LCM) está posicionado no segmento de reprodução/ ela. A aplicação de um sistema de gestão ambiental larcicultura de pós-larvas de camarão marinho. (SGA) é a melhor estratégia de gestão ambiental, Idealizado para promover o desenvolvimento com menor custo e de forma permanente, segundo do cultivo de camarões marinhos na região sul do Almeida (2000). Brasil, a construção do LCM iniciou-se em novembro A norma ambiental ISO 14001 é o método de 1983, tendo sido inaugurado em 5 de janeiro mais aceito e difundido internacionalmente de de 1985. Em 1984, a Universidade Federal de SGA, segundo Harrington e Knight (2001). Ela é a Santa Catarina - UFSC - iniciou as pesquisas com tentativa de homogeneizar e padronizar conceitos, reprodução e cultivo das espécies nativas. Durante ordenar atividades e criar procedimentos que sejam dezessete anos, dedicou-se ao desenvolvimento de reconhecidos por aqueles que estejam envolvidos tecnologia para reprodução e cultivo das espécies com alguma atividade produtiva que possam gerar nativas P paulensis e P schmitti, que, apesar dos . . impactos ambientais. ótimos resultados na reprodução, em escala Nesse contexto, no caso do Laboratório de comercial não foram competitivos nas fazendas de Camarões Marinhos, local de estudo, buscou- produção. Durante esse período, grande parte do se a fundamentação nos requisitos normativos potencial do laboratório foi usada para programas 51
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    sociais, através dorepovoamento de Lagoas produto que tenha impactos ambientais negativos Costeiras (entre os anos de 1991 a 1997). ao longo de sua cadeia produtiva, até a disposição Com o intuito de viabilizar a atividade de de pagar mais por um produto com efeitos sócio- carcinicultura em Santa Catarina, no segundo ambientais relativamente benignos (BOYD et al., semestre de 1998, a UFSC e a Empresa de Pesquisa 2002). Agropecuária e Extensão Rural do Estado de Considerando a perspectiva de abertura de Santa Catarina (EPAGRI) foram responsáveis pela novos mercados e as pressões das partes interessadas introdução da espécie Litopenaeus vannamei nas em relação às questões ambientais (comunidade, fazendas existentes no Estado. ONG´s, órgãos ambientais, entre outros), que O LCM possui capacidade instalada para o LCM-UFSC decidiu implementar um SGA, em produzir 60 milhões de pós-larvas (filhotes de conformidade com a ISO 14001. A finalidade dessa camarão) por mês, além de atuar nas áreas de implementação foi a possibilidade de obtenção ensino, pesquisa, planejamento e transferência de de uma certificação ambiental, concedida por um tecnologia, atua no povoamento das fazendas de organismo auditor independente e o mapeamento cultivo de camarão marinho existentes em toda a dos processos. Região Sul do Brasil. Antes do início da implementação do SGA, Em suas primeiras etapas, o cultivo de o LCM não possuía processos documentados. camarões se baseava nos recursos naturais, como, As atividades eram executadas de acordo com por exemplo, a captura de pós-larvas silvestres, os o conhecimento tácito de seus colaboradores. viveiros semi-naturais, os alimentos naturais e o Contudo, para essa finalidade, foi necessário o uso de grandes ecossistemas para recepção dos mapeamento e a documentação dos processos efluentes. Essa grande confiança nos recursos naturais operacionais e gerenciais, a fim de identificá-los conduziu a problemas de impacto ambiental. No e validá-los junto aos colaboradores responsáveis. entanto, à medida que a indústria foi avançando, Após essas etapas, foi possível incluir a esses o uso de recursos naturais foi diminuindo a favor processos os controles ambientais concernentes. de um melhor controle, eficiência e sustentabilidade O LCM recebeu a certificação de seu SGA (CHAMBERLAIN, 2001). em acordo com os requisitos da NBR ISO 14001. O Os aspectos ambientais da carcinicultura são SGA uma vez implantado forneceu os mecanismos relativamente claros, sendo os impactos negativos gerenciais para que o LCM, além de obter a da indústria extensivamente relatados na literatura conformidade com as normas e leis ambientais, como a destruição de mangues, captura de pós- pudesse proporcionar aos colaboradores uma série larvas na natureza, poluição das águas, salinização de vantagens sócio-econômicas. de solos e mananciais de água potável, além dos 4.1. Os resultados conflitos sociais (GESAMP 1991; MACINTOSH et , al. 1992; PILLAY, 1992; PHILLIPS, 1993; BARG, Como resultados positivos, segundo Richard 1994; FAO/NACA, 1995; PRIMAVERA, 1998; AYPA, (2003), verificou-se que o LCM passou de um processo 1999; NURDJANA; 1999; CNA, 1999; RAHMANN, de trabalho informal, anteriormente calcado em 1999). conhecimento empírico e sem padronização, para Na maioria dos países importadores de um processo totalmente formal, com procedimentos camarão, o público está geralmente atento para organizados, padronizados e, também, evoluído. a necessidade de proteger o meio ambiente e os Isso considerando o entendimento de que a ISO recursos naturais para as futuras gerações. Um 14000 é o que há de mais moderno em termos de número crescente de consumidores leva em conta garantia da qualidade ambiental. as consequências ambientais quando compra certos Entre os benefícios proporcionados pelo SGA produtos, o que vai desde a recusa em adquirir um no LCM, podem ser citados 52
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    • o estabelecimentode uma política ambiental de Produção de Camarões Marinhos rumo para o Laboratório; à padronização de processos e obtenção de • o mapeamento e padronização de todos certificação ISO 14001 não foi o suficiente para os procedimentos operacionais, para garantir a sustentabilidade do sistema por meio da a produção de pós-larvas da espécie garantia de qualidade em todos os subsistemas da Litopenaeus vannamei; cadeia produtiva. Com efeito, após a certificação do LCM • o levantamento e identificação dos aspectos apareceram alguns problemas na manutenção de sua e impactos ambientais reais e potenciais certificação. Esses problemas foram tanto internos das atividades realizadas no Laboratório; quanto externos ao LCM, ou seja, impactando e • o estabelecimento de objetivos e metas sendo impactado por todos os elementos da cadeia ambientais e dos programas de gestão produtiva. ambiental (planos de ação que visam à Sendo o LCM um subsistema do sistema de eliminação ou mitigação dos impactos ou reprodução/larcicultura de pós-larvas de camarão potenciais impactos ambientais significativos marinho, manter a certificação ISO 14001 tanto em identificados); termos de dependência na integração de processos • o atendimento a toda legislação ambiental quanto em termos de sustentação financeira da aplicável ao setor; certificação, a vinculação direta e a vinculação indireta ao restante da cadeia produtiva (figura 1) • a redução no consumo de energia elétrica era uma realidade a ser considerada ao adotar- e água doce; se a estratégia da certificação, de forma que a • a diminuição no uso e/ou a substituição manutenção da certificação tornou-se inviável de produtos químicos por outros menos financeiramente, devido ao problema ocorrido no impactantes; o atendimento às situações de subsistema da cadeia. emergência; A idéia inicial era de aprender com o SGA e • a eliminação do escape de organismos disseminar os conhecimentos para os produtores. exóticos, para o meio ambiente e a Várias atividades para esta disseminação foram ampliação e aprimoramento do sistema desenvolvidas, tais como: palestras, seminários, de tratamento dos efluentes sanitários e apoio técnico e científico para as associações dos do processo produtivo, culminando com o fazendeiros, legalização das áreas de manejo, monitoramento semanal de 12 parâmetros entre outras. Porém, surgiram algumas barreiras físico-químicos da água, coletados em mais ao longo desse processo. Aspectos relacionados de dez pontos diferentes, incluindo a Lagoa à liderança, cultura e estrutura, aqui abordadas, da Conceição. foram muito intensos, dificultando a captura e o Em todas as unidades do Laboratório, as entendimento do aprendizado por boa parte dos lâmpadas fluorescentes, baterias e rejeitos químicos fazendeiros. passaram a ter uma destinação adequada e estão Essas barreiras levaram ao que Levinthal sendo enviados para empresas especializadas na e March (1993) apontaram sobre a analogia reciclagem desses materiais. Também foi instituído da cegueira e o compartilhar de percepção. Os um programa de coleta seletiva de lixo, que segrega líderes desse processo de compartilhamento não mensalmente dezenas de quilos de materiais conseguiram persuadir as lideranças locais para recicláveis que são doados para empresas de uma mudança cultural sustentável. O aumento reciclagem. da produção, a preocupação com maiores lucros Como resultado negativo, verificou-se que e a falta de percepção com qualidade ambiental, a evolução de um único subsistema da Cadeia culminou com aparição do vírus da mancha branca, 53
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    gerando grandes perdaseconômicas e quebrando resolve imitar, e por fim, os custos com manutenção boa parte da cadeia produtiva. As 110 fazendas de da certificação, que incluem, principalmente, custos produção no Estado, 90% delas em Laguna, Sul do com consultorias independentes. Estado, que antes produziam 4,5 mil toneladas do O que se precisa ter em mente é que a evolução crustáceo por ano e que rendiam R$ 40 milhões, hoje de apenas um subsistema de uma organização estão desativadas ou são utilizadas em atividades causa um desequilíbrio do ponto de vista sistêmico; econômicas alternativas. é evidente que a abordagem por processos que defende a melhoria contínua diz que se deve melhorar Considerações finais em “processos críticos” ao negócio num primeiro momento, no entanto, num segundo momento, Este artigo discorreu sobre a evolução isso deve ser estendido a toda a organização. A dos sistemas de gestão ambiental, enfocando a certificação da qualidade não pode-se dar apenas necessidade de visão sistêmica da cadeia produtiva. no setor produtivo, mas em toda a empresa, e isso é A profissionalização de qualquer visão holística de processo de gestão. empreendimento se dá pela evolução, e essa Os problemas acima são comuns a empresas evolução deve sempre levar em conta seu caráter já constituídas, levando-se a pensar, que, ou se sistêmico, sob pena de haver retrocessos. evolui o sistema empresarial e seus subsistemas Igualmente aos outros sistemas como um todo, ou a sua sustentabilidade, aqui organizacionais, os sistemas de Gestão Ambiental entendida como perenidade no tempo, estará buscam atingir a sua evolução junto ao que foi comprometida. Na década de 1980, a solução foi chamado aqui de “estado da arte”. O estado da a Reengenharia. arte é entendido nesse contexto, como sendo aquele Conforme foi visto no caso do Laboratório mais atual da evolução de um determinado sistema, de Camarões Marinhos, o problema já conhecido e no caso dos SGAs, foi aceito como sendo a pelas empresas aplica-se também a uma cadeia certificação ISO 14.001. produtiva; a certificação ISO 14001, conseguida a No entanto, o que se observa é que em alguns muito trabalho, mostrou-se insustentável pelo não casos, as organizações adotam a certificação da acompanhamento da evolução da cadeia produtiva, qualidade, e num momento seguinte voltam atrás, comprometendo a sustentabilidade na manutenção abrindo mão da certificação, demonstrando que o da certificação e obrigando o laboratório a abrir seu próprio sistema de gestão estratégica não está mão de uma conquista já consolidada naquele evoluído. Esse lapso, ou não discernimento dos subsistema da cadeia produtiva. reais motivos que levariam uma empresa a optar Conclui-se que qualquer empresa, pela certificação normalmente passa pelo contexto organização ou cadeia de produção precisa evoluir em que ela está inserida; a exigência do cliente, a de forma integrada e na opção pela certificação adoção da certificação como um modismo, ou seja, ISO 14.001 há que se pensar em certificação da porque a concorrente também fez a empresa também cadeia produtiva como um todo. Referências ABNT - NBR ISO 14001 – Sistema de gestão ambiental: especificação e diretrizes para uso. 2004. ALMEIDA, F. O bom negócio da sustentabilidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. ALMEIDA, J. R.; MELLO, C.; CAVALCANTI, Y. Gestão ambiental: planejamento, avaliação, implantação, operação e verificação. Rio de Janeiro: Thex, 2000. ANDREATTA, E. R.; BELTRAME, E.; WINCKLER, S. Pacific white shrimp culture in southern Brazil. In.: Global Aquaculture Advocate. v. 5, n. 6, p. 76-77. dez. 2002 54
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    Projetos Brasileiros deAterro Sanitário no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo: uma análise dos indicadores de sustentabilidade Brazilian’s Landfill Projects to Clean Development Mechanism: analyzing the indicators of sustainability Miriam Tiemi Oliveira Takimura1 Valdir Machado Valadão Júnior2 Resumo Discussões relacionadas ao aquecimento global desencadearam, entre outras iniciativas, o Protocolo de Quioto, cuja participação brasileira se dá por meio dos projetos MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo). O objetivo deste estudo foi verificar se os projetos brasileiros de aterro sanitário, poderiam ser caracterizados como sustentáveis na divulgação de seus dados, analisando os indicadores ambientais, sociais e econômicos neles previstos. O estudo é dito descritivo qualitativo sendo o método de procedimento a análise de conteúdo clássica. Partiu-se pelo levantamento de indicadores nacionais e internacionais que atendiam ao tripé de sustentabilidade proposto por Elkington (1997), obtendo-se a combinação entre Dashboard of Sustainability e Indicadores de Sustentabilidade do IBGE. Ao confrontarem-se os dados dos projetos com as categorias selecionadas, não foi possivel comprovar a sustentabilidade. Uma segunda apreciação ponderou os critérios descritos na Resolução n.1, de 11 set. 2003, da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, quanto à contribuição dos projetos para o desenvolvimento sustentável. Mesmo com a crítica adicional não se consegue comprovar a sustentabilidade. Chega-se à consideração de que a abordagem econômica prevalece em detrimento das abordagens ambiental e social, ficando claro que os projetos só existem por causa de suas respectivas viabilidades econômicas. Palavras-chave: Sustentabilidade; Protocolo de Quioto; Aterro Sanitário. Abstract Discussions about global warming led, among others initiatives, to Kyoto Protocol where Brazilian participation is represented by CDM’s projects (Clean Development Mechanism). The general objective of this paper was to verify if Brazilian landfill site could be defined as sustainable according to their data, analyzing the environmental, social and economic indicators forecasted. The study is defined as qualitative descriptive and the method of procedure is the analysis of classical content. It started from the national and international searching indicators, that agrees with the tripod of sustainability proposed by Elkington (1997), getting the combination of Dashboard of Sustainability and IBGE (Brazilian Institute for Geography and Statistics) Indicators of Sustainability. Comparing projects data with categories selected, it was not possible to prove the sustainability. One second assessment was done considering the criteria from Resolution nr.1 dated September 11, 2003 of Climate Global Changing Committee, in order to 1 Professora da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil.Possui Mestrado em Administração pela Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Uberlândia - FAGEN/UFU, Brasil. Graduada em Administração e Engenharia Civil pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil. Contato: mtakimura@terra.com.br 2 Professor Adjunto da Universidade Federal de Uberlândia - UFU, Brasil. Professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Uberlandia - FAGEN/UFU, Brasil.Possui doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil, e Mestrado em Administração pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: valdirjr@ufu.ber Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 22/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    verify the contributionof projects for sustainable development. Even with additional criticism it cannot prove the sustainability. It was concluded that economic approach prevails on environmental and social approach, being clear that projects only exist because of economic viability. Key words: Sustainability; Kyoto Protocol; Landfill site. Introdução que o aumento da poluição decorrente da emissão de CO2 possa gerar no efeito estufa. Não é possível Aquecimento global significa o aumento, esperar por séculos para confirmar se a degradação além do normal, da capacidade de a atmosfera do meio ambiente, juntamente com o aumento reter calor. Não se sabe ao certo as consequências populacional, vai dispor para as gerações futuras decorrentes do aquecimento da Terra. Sabe-se os mesmo recursos atuais. que certos lugares ficam mais quentes, outros mais Neste cenário, a ONU (Organização frios, assim como ocorrem alterações de umidade das Nações Unidas) teve a iniciativa de reunir ,tornando certos lugares mais secos, outros mais os países para debater o tema, chegando ao úmidos (HAWKEN et al, 1999). chamado Protocolo de Quioto, no qual as nações Do mesmo modo que existem cientistas industrializadas que aderiram à convenção empenhados em provar a interferência antropogênica se obrigaram a reduzir emissões. Isso se faz do aquecimento global, existem aqueles que não modernizando fábricas, exigindo maior controle na concordam com os estudos realizados. A grande emissão de CO2, e, com muita informação para crítica se dá ao analisar as variações naturais toda a sociedade. Um dos elementos discutidos de temperatura. Através de estudos geológicos nos projetos voltados ao Protocolo de Quioto é a provou-se que as variações sempre ocorreram, sustentabilidade. Para ser sustentável, cada projeto fazendo parte da história e da evolução das deve conter, em si, indicadores que o apontem espécies (EEROLA, 2003). Os dados de medições como viável, não apenas economicamente, mas meteorológicas de temperatura são recentes, datam também social e ambientalmente, noutras palavras, de aproximadamente 100 anos. Porém, cem anos é a ideia do triple-botton-line proposto por Elkington um período de significado desprezível do ponto de deve estar presente (ELKINGTON, 2001). Além do vista geológico, por isso as críticas. fato de melhorar a qualidade do ar atmosférico, o O IPCC (Painel Intergovernamental sobre MDL (Mecanismo de Desenvolivimento Limpo) e os Mudanças Climáticas) utiliza essas medições recentes certificados de redução de carbono, são vistos como para provar o aquecimento, mas não deixa claro que um mercado de grandes perspectivas para o Brasil. no, período entre 1925 a 1946, o planeta Terra se Na primeira etapa do acordo, de 2008 a 2012, aqueceu mais rapidamente quando a quantidade de o país não tem cotas a cumprir e pode participar CO2 lançada na atmosfera era inferior a 10% da atual. apresentando projetos de redução ou captura de E que, entre 1947 e 1976, ocorreu um resfriamento, carbono. Os projetos movimentam grandes valores mesmo quando os países passavam por um grande monetários e a mídia oferece destaque. Os créditos processo de desenvolvimento econômico decorrente de carbono gerados pelos projetos podem ser do fim da Segunda Guerra (MOLION, 2008). Outro negociados diretamente entre a empresa responsável ponto levantado pelo autor é que a atividade solar pelo desenvolvimento e acompanhamento do ainda pouco conhecida também é variável ao longo projeto e a empresa compradora, ou em Bolsas de do tempo e influencia diretamente o clima da Terra. Valores. A BM&F (Bolsa de Mercadorias de Futuros) Mesmo que não se possa culpar o homem e realizou seu primeiro leilão global pela internet para seu processo de desenvolvimento pelas mudanças venda de créditos gerados em fevereiro de 2008. climáticas, muitos estudiosos concordam que é Foram negociados aproximadamente R$33 milhões necessário se posicionar frente às consequencias através do projeto Bandeirantes de Gás e Geração 58
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    de Energia daPrefeitura de São Paulo (ACIONISTA, sólido gerado tem aumentado significativamente 2008). (IBAM, 2007), preocupação que contribuiu para Porém, além da questão econômica, o a seleção. Não se pode generalizar, entretanto, é termo sustentabilidade vem acompanhando essa natural imaginar que demais projetos que partem ênfase. Saber o que significa sustentabilidade e da iniciativa privada busquem o retorno financeiro sua abrangência torna-se imprescindível, já que com a negociação de créditos de carbono, o termo é amplamente utilizado. O problema de redução na emissão de poluentes e exploração pesquisa levou à busca de referencial sobre o da imagem decorrente da participação em ações assunto. Essa investigação revelou que o conceito ambientais e sociais. de sustentabilidade é amplo, geral e relativamente novo, pois as primeiras referências surgem a partir 2.Revisão bibliográfica da década de 1970. É preciso conhecer melhor suas características e limitações, para tornar mais A questão socioambiental tem origem em significativo o emprego do termo para a sociedade duas frentes distintas, a gestão social e a gestão em geral. Para que seja possível tornar aplicáveis ambiental. A questão da atuação dos órgãos públicos os conceitos, é necessário conhecer e utilizar na resolução de problemas sociais é discutida ferramentas que permitam uma mensuração conjuntamente com a atuação e responsabilidade e para tal utilizam-se indicadores e índices de das empresas privadas em geração de bens e sustentabilidade. riqueza e benefício da sociedade. Schroeder e Schroeder (2004), em seu artigo, discutem o poder 1. Problema de pesquisa e objetivo das organizações ao assumirem as causas sociais e questionam até onde essa atuação é benéfica sem Partindo-se do pressuposto de que um gerar dependência. Quando as empresas assumem projeto aprovado é sustentável, esta pesquisa a responsabilidade social, podem desenvolver é fundamentada no seguinte problema: quais “programas de relação com empregados, serviço indicadores de sustentabilidade em nível ambiental, público e à comunidade, assistência médica e social e econômico, conforme indicadores educacional, desenvolvimento e renovação urbana, previamente selecionados e critérios presentes na cultural, arte ou recreação”, ou seja, “a empresa Resolução n.1 de 11/set/2003 estão presentes além de prover a sociedade de bens e serviços, nos projetos do Mecanismo de Desenvolvimento terá sob seus domínios o bem-estar do cidadão” Limpo, inseridos no Protocolo de Quioto, para (SCHROEDER; SCHROEDER, 2004, p.5-6). aterros sanitários no Brasil? O objetivo é verificar Já Schommer e Rocha (2007, p.14) debatem se os projetos brasileiros de aterro sanitário no a questão, enfatizando que “pelo poder que elas MDL podem ser caracterizados como sustentáveis concentram, empresas não podem estar de fora na divulgação de seus dados, analisando os do debate público e da renegociação do pacto indicadores ambientais, sociais e econômicos. social”, a elas não cabe a neutralidade, perante os Quando delimitada a pesquisa, fez-se a desafios sociais e ambientais, visando somente à eleição pela análise dos projetos de aterro sanitário lucratividade. Muito há de ser estudado e realizado por ser um ramo de negócio voltado à gestão para se chegar ao ponto de equilíbrio na busca do pública, por isso, em tese, comprometida com o desenvolvimento sustentável, tanto em nível público bem comum. Normalmente, a gestão pública tem quanto privado. participação associada à gestão privada, seja na Já a questão ambiental antes era vista como execução de parte do processo de descarte do uma bandeira levantada por ambientalistas extremos lixo ou na fiscalização do serviço executado. O e organizações não governamentais que traçavam esforço despendido para melhor disposição do panoramas pessimistas quanto à continuidade de lixo urbano é grande e a quantidade de resíduo vida no planeta Terra. Esses grupos não aceitavam a 59
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    sociedade de consumoe seus hábitos e realizavam outros em desenvolvimento, projetos que reduzam manifestações e piquetes nas empresas e indústrias as emissões de poluentes atmosféricos e descontar que ofereciam produtos considerados não-corretos. de sua cota o que tiver sido reduzido pelos países As organizações empresariais, com seu poderio por eles financiados. Cada tonelada de carbono, de fabricação e distribuição de produtos, eram que deixa de ser emitida pela adoção de novas consideradas as vilãs, pois elas poderiam ser a tecnologias, poderá ser negociada com outros ferramenta de mudança para a melhoria social e países e usada como uma maneira de cumprirem ambiental do planeta (SOUZA, 2005). suas metas de redução de emissões. Assim, o A partir de 1968, quando foi fundado Brasil pode alterar e aperfeiçoar a tecnologia o Clube de Roma, tornou-se evidente que a empregada visando à redução de emissão de CO2 preocupação com o meio ambiente era mundial. em seu processo produtivo e ainda gerar créditos O grupo composto por especialistas de várias áreas de carbono que serão vendidos no exterior, isto é de conhecimento e de vários países, reuniram-se como obter patrocínio pela boa performance. com o objetivo de analisar as questões ambientais Esse mecanismo estabelece que cada governo e sociais da época e as suas consequências futuras. é responsável pelo critério de desenvolvimento Em 1972, publicou-se o Relatório de Limites do sustentável em seu país e, portanto, os projetos Crescimento, que condenava a busca incessante devem passar pela aprovação dos governos do crescimento da economia sem considerar as nacionais segundo suas necessidades e prioridades. implicações decorrentes (HOFF; PRETTO, 2008). A A AND (Autoridade Nacional Designada), comissão grande contribuição do relatório foi mostrar que os brasileira destacada para análise das conformidades, recursos naturais eram extinguíveis. E que, em nossa visa atender os requisitos de desenvolvimento civilização, não se cria valor econômico sem haver, sustentável, delineada na “Resolução n. 1”, de como contrapartida, degradação do ambiente. 11 de setembro de 2003, segundo cinco critérios Novos grupos surgiram baseados na básicos: “distribuição de renda, sustentabilidade cooperação de todos os países na busca de soluções ambiental local, desenvolvimento das condições a respeito das relações humanas e meio ambiente. de trabalho e geração líquida de emprego, O Protocolo de Quioto foi firmado em dezembro de capacitação e desenvolvimento tecnológico, e 1997, durante a COP 3 (Conferência das Partes), integração regional e articulação com outros em Quioto, Japão. É um tratado internacional com setores” (MCT, 2008, p.2). o compromisso de redução de gases responsáveis O termo desenvolvimento sustentável e pelo efeito estufa que gera o aquecimento global. sustentabilidade auxiliou na difusão da gestão O acordo foi firmado por 175 países sendo que 36 socioambiental. Em concordância com Almeida países desenvolvidos se comprometeram a reduzir (2000) e Van Bellen (2002), ao procurar e suas emissões de GEE no período de 2008 a 2012 estudar os termos desenvolvimento sustentável e (MCT, 2007). sustentabilidade, encontrou-se uma profusão de O Brasil também é um emissor de conceitos e definições que se confundem com as GEE, principalmente pelas elevadas taxas de diversas abordagens dadas ao tema, dos diversos desmatamento e queimadas, especialmente na campos de estudo e das ideologias e dimensões região amazônica, porém não possui cotas de que cada organização adota. Foi utilizado o termo redução neste primeiro período. O país, juntamente desenvolvimento sustentável como aquele que se com outras nações em desenvolvimento, não preocupa em atender às necessidades da geração listadas no Anexo I, podem contribuir com a atual, sem esquecer as gerações futuras. Esse conceito redução das emissões por meio de projetos do foi definido pela Comissão Brundtland em 1987 e MDL. Este, descrito no artigo 12 (MCT, 2007), é o mais conhecido e difundido mundialmente, de permite a um país industrializado financiar, em acordo com Elkington (2001). 60
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    Elkington, em 1997,dividiu o termo nem sempre o é, depende da metodologia utilizada sustentabilidade em três dimensões, isto é, para e o critério de análise realizado. que a busca pela sustentabilidade seja possível é necessário atender à prosperidade econômica, 3.Metodologia à qualidade ambiental e à igualdade social, o chamado triple-bottom-line. Essa decomposição A base de pesquisa se dá nos textos dos permite a mensuração e tomada de decisão em projetos de MDL já aprovados, até 05/junho/2008, diferentes frentes que ao final irão compor a gestão disponíveis na página eletrônica do Ministério da socioambiental. Ciência e Tecnologia. Cabe aos aterros sanitários Ainda assim, é dificil medir a sustentabilidade 27 projetos em atividade, sendo 26 aprovados. de uma nação, localidade, negócio ou empresa. Nesta análise, a totalidade da amostra foi analisada, Quando se faz referência a ferramentas de medição, conforme Quadro 1. precisa-se utilizar indicadores para tal. Na busca Quanto aos objetivos, neste estudo em por indicadores de sustentabilidade em vigência, particular, a pesquisa é classificada como descritiva, encontrou-se em abundância várias metodologias, pois os fatos serão observados, registrados, utilizadas nacionalmente ou internacionalmente. analisados, classificados e interpretados, sem que O levantamento trouxe autores que buscaram o pesquisador interfira sobre eles. Quanto aos conhecer os indicadores da sustentabilidade como procedimentos, isto é, a maneira pela qual se Van Bellen (2002), Coral, Strobel e Selig (2004), obtem os dados necessários para a elaboração Gamboa, Mattos e Silva (2005), Benetti (2006), da pesquisa, é categorizada como análise de Soares, Strauch e Ajara (2006), Bufoni, Ferreira e documentos (ANDRADE, 2004). Legey (2007), Barddal e Alberton (2008), dentre Fez-se então a escolha pela análise de outros. A quantidade de abordagens, metodologias conteúdo clássica - abordagem qualitativa - e critérios adotados são decorrentes da finalidade em que trechos dos documentos são utilizados da mensuração da sustentabilidade, do campo de para comprovação da sustentabilidade ou não estudo e da organização ou instituição ligada. Cada dos projetos aprovados. De acordo com Bauer qual utiliza a mais conveniente ou faz adaptação (2002), um texto pode apresentar uma riqueza de alguma existente para os moldes necessários de informações pois “do mesmo modo que as à situação. Acredita-se que o problema dessa falas, referem-se aos pensamentos, sentimentos, miscelânea seja em decorrência do conceito de memórias, planos e discussões das pessoas, e sustentabilidade não ser único e ter abordagens algumas vezes nos dizem mais do que seus autores diversas. Então o que é informado como sustentável, imaginam” (BAUER, 2002, p.189). Seguindo o Quadro 1 - Relação de projetos MDL de aterros sanitários Projeto Título Local 0001/2004 Projeto NovaGerar - Projeto de Energia a partir de Gases de Aterro Sanitário Nova Iguaçu - RJ P1 0002/2004 Projeto Vega Bahia - Projeto de Gás de Aterro de Salvador da Bahia Salvador - BA P2 0004/2004 Projeto de Energia de Gases de Aterro Sanitário da Empresa MARCA Cariacica - ES P3 0005/2005 Projeto de Conversão de Gás de Aterro em Energia no Aterro Lara – Mauá – Brasil Mauá - SP P4 0006/2005 Projeto ONYX de Recuperação de Gás de Aterro Tremembé - Brasil Tremembé - SP P5 0010/2005 Projeto de Recuperação de Gás de Aterro ESTRE - Paulínia (PROGAE) Paulínia - SP P6 0011/2005 Projeto de Redução de Emissões de Biogás, Caieiras - Brasil Caieiras - SP P7 0013/2005 Projeto Bandeirantes de Gás de Aterro e Geração de Energia em São Paulo, Brasil São Paulo-SP P8 0016/2005 Projeto de Gás do Aterro Sanitário Anaconda Santa Isabel - SP P9 0021/2005 Projeto São João de Gás de Aterro e Geração de Energia no Brasil São Paulo-SP P10 0076/2006 Projeto de Gás de Aterro Sanitário Canabrava - Salvador-BA, Brasil Salvador - BA P11 (continua) 61
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    (continuação) Projeto Título Local 0089/2006 Projeto de Gás do Aterro de Bragança - EMBRALIXO/ARAÚNA Bragança - SP P13 0093/2006 Projeto de Gás de Aterro SIL (PROGAS) Minas do Leão - RS P14 0105/2006 Projeto de Gás de Aterro Sanitário de Manaus Manaus - AM P15 0109/2006 Projeto de captura de gás de aterro sanitário Alto-Tietê Itaquaquecetuba - SP P16 0114/2006 Projeto de Gás de Aterro Terrestre Ambiental (PROGATA) Santos SP P17 0115/2006 Projeto de Gás de Aterro ESTRE Itapevi - (PROGAEI) Itapevi - SP P18 0116/2006 Projeto de Gás de Aterro Quitaúna (PROGAQ) Guarulhos - SP P19 0138/2006 Projeto de Gás de Aterro CDR Pedreira (PROGAEP) Tremembé - SP P20 0158/2007 Atividade de projeto de redução de emissão de gás de aterro no Aterro Sanitário SANTECH Resíduos Içara - SC P21 0162/2007 Probiogas – JP João Pessoa - PB P22 Tijuquinhas, Biguaçu - 0180/2007 Projeto de Captura e Queima de Gás de Aterro Sanitário de Tijuquinhas da Proactiva P23 SC 0182/2007 URBAM/ARAUNA – Projeto de Gás de Aterro Sanitário (UAPGAS) São José Campos - SP P24 0198/2007 Projeto de redução de emissão do aterro CTRVV Vila Velha - ES P25 0202/2007 Projeto de gás de aterro sanitário de Feira de Santana Feira de Santana - BA P26 Fonte: baseado em MCT, 2008 raciocínio do autor “a validade da AC (análise institucional, referente às ações públicas em prol do de conteúdo) deve ser julgada, não contra uma desenvolvimento sustentável. Essa vertente não foi ‘leitura verdadeira’ do texto, mas em termos de levada em consideração na apreciação proposta, sua fundamentação nos materiais pesquisados e uma vez que o presente estudo tem a análise focada sua congruência com a teoria do pesquisador, e em projetos brasileiros de aterros sanitários que à luz de seu objetivo de pesquisa” (BAUER, 2002, partem da iniciativa privada, operados por terceiros, p.191). e não se leva em conta a localidade, a região de Na busca por indicadores, Van Bellen implementação ou a orientação política. (2002) apontou 18 diferentes métodos utilizados A partir das duas metodologias, houve a internacionalmente para medição de sustentabilidade seleção de critérios de análise pertinentes a aterro e, destes, o autor considera três ferramentas como sanitário, descritos no Quadro 2. mais relevantes: Ecological Footprint, Barometer of Sustainability e o Dashboard of Sustainability. No Quadro 2 - Indicadores unificados para análise âmbito nacional, oito foram os modelos tomados Dimensão Indicadores como referência, baseados em estudos realizados Emissão de gases estufa; Concentração de poluentes atmosféricos; por Coral, Strobel e Selig (2004), Gamboa, Mattos Porcentagem de área protegida. Dimensão Ambiental e Silva (2005), Soares, Strauch e Ajara (2006), Acesso a serviço de coleta de lixo doméstico; Destinação final do lixo; Bufoni, Ferreira e Legey (2007) e Barddal e Alberton Tratamento adequado de esgoto; (2008), para citar alguns. Dimensão Social Doenças relacionadas ao saneamento ambiental inadequado Foram selecionados o Dashboard of Investimento; Sustainability e o critério do IBGE, por se Consumo comercial de energia; Fontes renováveis de energia; enquadrarem dentro das perspectivas de análise Dimensão Disposição adequada de resíduos sólidos; Econômica ambiental, social e econômica, segundo o tripé da Coleta seletiva de lixo Reciclagem; sustentabilidade proposto por Elkington (1997) e Geração de resíduos perigosos; o artigo 3 parágrafo 14 do Protocolo de Quioto, Fonte: elaborado pela autora a partir de Dashboard of Sustainability e IBGE (2004). que menciona a necessidade de implementação de medidas que minimizem os efeitos sociais, Após esta análise, foi realizada uma segunda ambientais e econômicos. Ambos possuem a vertente apreciação. No caso do Brasil, os projetos são 62
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    analisados pelos integrantesda AND, que avaliam o critério de análise em relação aos parâmetros relatório de validação e a contribuição da atividade definidos pela AND, comissão nacional que julga se do projeto para o desenvolvimento sustentável do um projeto irá beneficiar o país. país, atendendo à Resolução n. 1, de 11 de setembro de 2003. Os projetos serão ponderados segundo 4.1. Análise da abordagem ambiental cinco critérios: distribuição de renda, sustentabilidade Nos documentos se privilegiam as informações ambiental local, desenvolvimento das condições de referentes a aspectos ambientais, como o cálculo trabalho e geração líquida de emprego, capacitação da metodologia da linha de base e descrição do e desenvolvimento tecnológico, integração regional monitoramento, chegando a um valor de redução e articulação com outros setores. Como se tratam de emissão de gases do efeito estufa, além da de pontos adicionais ao levantado pelos métodos duração do projeto e a descrição dos impactos de indicadores selecionados, são considerados ambientais. Portanto, grande parte do documento como adicionais na análise dos dados. analisado refere-se à abordagem ambiental, sendo possível levantar seis indicadores: emissão de gases 4.Análise dos resultados estufa; concentração de poluentes atmosféricos; porcentagem de área protegida; acesso a serviço O primeiro passo para a realização deste de coleta de lixo doméstico; destinação final do lixo trabalho foi conhecer detalhadamente os projetos e tratamento adequado de esgoto. do MDL do Protocolo de Quioto, relativos ao setor de resíduos, mais especificamente aos aterros 4.1.1. Quanto à emissão de gases de estufa sanitários. Estes correspondem a somente 9% do volume total dos projetos brasileiros, porém Foi feito um levantamento baseado na representam 24% de reduções anuais propostas. ocorrência de termos similares e que remetem ao Assim, apesar da pequena participação, trata-se mesmo fim (levantado pelo referencial teórico), de um setor de grande relevância, sendo que cada como efeito estufa, gás de aterro, biogás e metano, projeto individualmente é responsável pela redução sendo verificadas as palavras que fazem limite e o de grande volume de emissão de GEE (MCT, 2008). conteúdo específico do texto. As maiores ocorrências Ao estudar os dados, foi percebida a se deram destacando a descrição do objetivo e a semelhança existente entre a maioria dos discursos. razão de ser do projeto, e, em outros momentos, Esta similaridade não se dá somente em decorrência referem-se principalmente a aspectos técnicos da de utilização de formulário padrão (Documento descrição de metodologia de cálculo utilizada, fato de Concepção do Projeto) ou orientações sobre o não considerado neste estudo. preenchimento dos documentos que levam em conta Grande parte dos projetos (73%) preveem a utilização de metodologia de cálculo já aprovadas somente a queima dos gases gerados, o chamado anteriormente. O que pode explicar esse fato é a biogás. Somente sete (27%) utilizam o biogás para divulgação pública desses projetos, o que facilita a geração de energia. A utilização secundária do consulta e cópia, além da presença de empresas biogás é possível devido ao seu alto poder calorífico de consultoria como autores. Essas semelhanças (BANCOR, 2003), mas se torna viável somente em projetos podem gerar a ideia de um modelo quando o volume de metano gerado é significativo que garanta a aprovação, sem a preocupação de e quando existe um usuário ou comprador potencial apresentar propostas de melhoria, com o intuito de dessa energia. Seja a destinação do biogás qual torná-los mais sustentáveis. for, queima ou aproveitamento, já representa uma A seguir, parte-se para a análise individualizada melhoria na qualidade do meio ambiente. quanto às abordagens ambiental, social e Foi citado que os gases gerados pelo econômica, acompanhado pelo desdobramento aterro são prejudiciais e podem ocasionar em indicadores específicos. Seguido pelo segundo poluição, doenças e até acidentes como 63
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    explosões. Em decorrênciada própria natureza do 4.1.3. Quanto à porcentagem de área protegida empreendimento ter como matéria prima o lixo, a A legislação relativa ao funcionamento de legislação brasileira (NBR 8419/1984) já prevê a aterros sanitários, NBR 8419/1984, exige que estejam diminuição de riscos, como impermeabilização do localizados em áreas geologicamente apropriadas solo, tratamento dos líquidos residuais mas não e que não corram o risco de contaminar o lençol impõe a queima do metano gerado, somente a freático, não sendo determinada a necessidade implantação de dutos coletores visando dispersão de reserva de área para preservação ambiental. dos gases. Os aterros se localizam em áreas controladas e poucos são os casos de desastres Somente quatro projetos fazem referência a áreas relativos a explosões que tenham ocorrido nesses de proteção, os demais não se caracterizam nesta locais. Trata-se então de um exagero por parte categoria de análise. O projeto P1 faz referência dos autores dos projetos, a inserção de vários à área que tem a obrigação de recuperar, por se pontos negativos. Ponderando o empreendimento tratar de um lixão a céu aberto, a fim de minimizar comercial, não seria viável correr o risco de os danos gerados. Destacam-se os projetos P6, P7 desastres e explosões que colocariam em risco e P20, por apresentarem cuidados ambientais além funcionários, equipamentos e a longevidade da dos decretados por lei, ainda que não se possa iniciativa privada. afirmar que tal referência seja cláusula do contrato da O P25 indica que “a legislação brasileira não empresa prestadora de serviço. Entretanto, a citação exige que o gás de aterro seja queimado, a única de trechos em P1, P6, P7 e P20 que fazem menção exigência é a ventilação dos aterros para fins de à preocupação ambiental, foi levado em conta segurança, isto é para evitar incêndios e explosões” como atendimento ao critério de sustentabilidade (CTRVV, 2007, p.14). Para complementar e justificar analisado. o pedido de aprovação do projeto cita-se que “é 4.1.4. Quanto ao acesso a serviços de coleta de bastante improvável que esta situação mude durante lixo doméstico o curso do período de obtenção de créditos, uma vez que nenhum regulamento exigindo a queima ou Nada foi citado explicitamente nos o uso do gás de aterro está em desenvolvimento” documentos quanto ao serviço de coleta de lixo (CTRVV, 2007, p.14). Fica claro que não haverá doméstico, porém tratando-se de projetos de aterro revisão de regulamentação, mesmo sabendo que é sanitário, deduz-se que haja serviço de recolhimento uma atividade que gera gases prejudiciais, enfim, de resíduos urbanos, principalmente por se tratar uma brecha da legislação brasileira proporciona a de áreas metropolitanas e densamente povoadas. inserção de projetos de MDL. Normalmente, a concessão de atividade de lixo urbano prevê a prestação desse serviço. Portanto os 4.1.2. Quanto à concentração de poluentes projetos preveem a melhoria ambiental e qualidade atmsféricos de vida da população. Não é objeto deste trabalho Nesta categoria de análise, a totalidade dos a verificação do percentual de coleta de lixo das projetos podem ser classificadas como sustentáveis, cidades ou busca de informações secundárias, basta pois apresentam os valores resultantes dos cálculos analisar a sustentabilidade do projeto. realizados da transformação dos gases de aterro 4.1.5. Quanto à destinação final do lixo coletados em gás carbônico equivalente (CO2e), isto é, o quanto se deixou de emitir em termos de Foi observado através da pesquisa do IBAM concentração de poluentes atmosféricos. Não (2008) que poucas cidades brasileiras fazem uso de nos interessa a metodologia de cálculo utilizada, aterros sanitários controlados, somente os grandes pois esta é legitimada pelas comissões de análise municípios e as regiões metropolitanas. Levando-se e verificadas pelas empresas responsáveis pela em conta que o lixo coletado atual seja direcionado validação. ao aterro e que esse resíduo é a matéria prima de 64
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    fornecimento dos gases,razão do projeto de MDL, Projetos como P1, P5, P11, P12, P15 e P16 parece natural que haja interesse em manter e citam a minimização da contaminação da água ampliar esse serviço, pode-se considerar então que como fator relevante de redução de doenças. Pela atendem ao critério de análise. NBR 8419/1984, há obrigatoriedade de disposição de resíduos em locais distantes de cursos d’água e 5.1.6. Quanto ao tratamento adequado de esgoto de preparo do solo para impermeabilização, com posterior drenagem para tratamento do líquido Considera-se como esgoto o resíduo líquido decorrente da decomposição, o que dificulta a denominado chorume que a disposição do lixo contaminação da água. Incêndios e explosões gera, sendo a toxidade variável, de acordo com os são citados em P1, P5, P11 e P15. Elas ocorrem materiais em decomposição. Ele deve ser recolhido quando a concentração de metano não é drenada e e sofrer tratamento neutralizador, pois corre-se o liberada na atmosfera, porém a legislação obriga a risco de contaminação das águas subterrâneas presença de dutos, que pode inclusive ser integrado e rios próximos quando existe infiltração, seja ao sistema de drenagem de líquidos. Desse modo, pela impermeabilização inadequada, seja por os principais aspectos levantados pelos projetos vazamentos existentes (BRAGA et al, 2005; MILLER, como benefício à população já são atendidos no 2007). Esse tratamento é obrigatório por força cotidiano e no funcionamento regular da atividade. da lei de normalização das atividades de aterro e Alguns projetos citam o retorno do dinheiro normas ambientais locais. Deduz-se, então, que para obras sociais, educacionais, não relacionadas todos os empreendimentos já atendam a essa a tratamento de doenças. Já o P12 prevê organizar os disposição, portanto, atendendo ao indicador de catadores em uma cooperativa formal, o que poderá sustentabilidade analisado. contribuir de maneira significativa para a vida das pessoas que necessitam do lixo para sobrevivência, 4.2. Análise da abordagem social diminuindo o aparecimento de doenças relativas à Os projetos não oferecem muitas informações baixa qualidade de vida. quanto à abordagem social. Os objetivos sociais de Portanto nos projetos não se constata a melhora da qualidade do ar, diminuição do risco contribuição para a sustentabilidade, no que se de explosões, criação de empregos e capacitação refere à abordagem social e a presença de indicador da mão-de-obra são válidos, porém pelo critério relativo a doenças relacionadas ao saneamento escolhido não são levados em consideração. Portanto ambiental inadequado. quanto aos indicadores selecionados pelo método, 4.3. Análise da abordagem econômica foi possível somente a apreciação das doenças relacionadas. Para tal, fez-se levantamento através Quanto à abordagem econômica, foi possível da presença de palavras como doença(s), saúde, selecionar sete indicadores: investimento, consumo população e comunidade, buscando ocorrências comercial de energia, fontes renováveis de energia, que pudessem ser relacionadas com a preocupação disposição adequada do lixo, coleta seletiva, social. reciclagem e geração de resíduos perigosos. A Não foi associada nenhuma doença análise do descarte de resíduos influi na abordagem decorrente das atividades de aterro sanitário, econômica quanto aos padrões de produção e de apenas foram citadas as possibilidades de odores consumo e se referem à preocupação com o tema desagradáveis, asfixia, contaminação da água e aos valores monetários destinados a este fim. De e incêndios. Odores e asfixia decorrentes da acordo com IBAM (2008), sabe-se que a quantidade proximidade do empreendimento não causam de lixo gerada tem proporção direta com o número graves problemas de saúde à população, somente de habitantes da localidade, porém a apreciação geram desconforto. realizada neste trabalho não busca essa relação. 65
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    Optou-se então, porverificar referências às palavras essa informação mostra a preocupação em relação escolhidas dentro de cada indicador e sua possível a sustentabilidade. relação com o conceito de sustentabilidade, portanto 4.3.3.Quanto às fontes renováveis de energia sem ligação direta com padrão de consumo. Somente 27% dos projetos preveem a 4.3.1. Quanto ao investimento utilização do gás resultante da decomposição Buscou-se informações relativas ao do material depositado para geração de energia investimento necessário para adequação do adicional. A maioria (73%) propõe somente a empreendimento. O que se obteve foram poucas queima de gases. Segundo BANCOR (2003), referências, destacadas em P1, P2, P4 e P5, sendo o poder calorífico do biogás só é menor que o que reforçam a ideia de que a legislação atual fornecido pelos combustíveis fósseis, sendo prática não impõe a queima dos gases e deixam claro comum a sua utilização em muitos aterros sanitários que, caso o projeto não venha a ser aprovado, do mundo. No Brasil a quantidade de material não se fará nenhum aporte adicional em busca da orgânico depositado facilita a decomposição sustentabilidade, já que em termos financeiros a e formação do metano (EPA, 1996), porém as atividade não gera recursos para retorno esperado. empresas responsáveis pelos aterros não fazem uso. Existem três possíveis explicações para isto: a 4.3.2.Quanto ao consumo comercial de energia implementação requer investimentos financeiros, A adequação do empreendimento requer a tecnologia ainda não está disponível no país e, a instalação de equipamentos e maquinários que como citado anteriormente, as leis brasileiras não utilizam energia elétrica para funcionamento, sofrerão alterações que imponha a obrigatoriedade portanto buscou-se referências quanto a esse de queima eficiente ou utilização para geração de emprego de energia. Nessa categoria de análise os energia. projetos P7, P9 e P13 são considerados sustentáveis. Nos projetos que partem para a utilização do Os projetos P9 e P13 apresentam calculos de biogás nota-se um esforço adicional, logicamente gastos decorrentes da utilização de energia elétrica baseado em cálculo de retorno de investimento, já da rede pública no emprego de equipamentos a que os custos de instalação de bombas conversoras serem instalados e informam que os valores foram são altos e o metano gerado depende da quantidade retirados dos cálculos finais de ganho na redução e qualidade do material depositado, da umidade de emissão de CO2e. Portanto, os resultados local e do tempo de atividade do aterro. Esses encontrados representam valores mais próximos da projetos que fazem uso secundário do biogás realidade, já que descontam os aspectos negativos atendem a categoria analisada (P1, P3, P4, P8, da intervenção. Já o projeto P7 revela que haverá P10, P15 e P26). gastos adicionais, mas por se tratar de energia da 4.3.4.Quanto à disposição adequada de resíduos rede pública e principalmente pela base energética sólidos do Brasil se dar por meio de hidroelétricas (consideradas menos poluidoras e prejudiciais), Faz parte da atividade comercial das pode-se pensar que os autores não o considerem operadoras de aterro sanitário a correta disposição de tão danoso. resíduos sólidos, desse modo, compreende-se que a A preocupação em apresentar esses cálculos empresa prestadora do serviço o faça corretamente. é uma iniciativa interessante, porém não consta Não foram encontradas informações adicionais que na maioria dos projetos analisados, somente em 2 demonstrassem uma preocupação maior quanto deles (P9 e P13). Mesmo se tratando de um pequeno à sustentabilidade, somente descrição de aspectos percentual de gasto de energia, e, talvez considerado técnicos, mesmo assim os projetos foram considerados irrelevante pela maior parte dos autores dos projetos, sustentáveis no atendimento na categoria. 66
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    Para análise desseindicador, os textos foram Dessa forma, foi considerado que P4, P6 e estudados a partir das palavras aterro, lixo e resíduo. P12 atendem ao crítério de aprovação quanto à Encontrou-se referências como área destinada, reciclagem. em termos de metragem (hectares), população 4.3.7. Quanto à geração de resíduos perigosos atendida, cidades favorecidas, local, capacidade total de utilização da área em toneladas, dentre O empreendimento não gera resíduos outros dados a respeito do funcionamento do perigosos, a não ser os decorrentes da aterro e atendimento a normas. Foi salientada decomposição de materiais. Para recebimento de a idoneidade das operadoras de aterro e sua materiais provenientes de indústrias e hospitais capacidade de trabalho, por se tratar de empresas há regulamentação própria que classifica esses do ramo que atuam em diversas localidades do resíduos e os encaminha para neutralização antes Brasil e do mundo. do descarte. Nos projetos não foi indicada a geração de resíduos perigosos ou o recolhimento de 4.3.5. Quanto à coleta seletiva de lixo materiais que podem contaminar o meio ambiente. Não foi analisado se as localidades onde Somente o projeto P26 prevê a utilização do biogás estão instalados os projetos possuem diretrizes para queima de resíduos hospitalares. Não havendo de plano de coleta seletiva de lixo como prática, portanto nenhum projeto que atenda ao critério. ou se as ações partem das empresas operadoras 4.4. Considerações a respeito das catego- dos aterros. Observou-se que, dentre os projetos rias selecionadas analisados, somente P4 e P6 contam com a coleta seletiva ou separação dos resíduos antes de serem Após análise de conteúdo dos documentos, depositados no aterro e cobertos por camada de tendo como base a metodologia dos sistemas terra. Dashboard of Sustainability e IBGE (2004), pode- se considerar que não refletem a intenção do 4.3.6. Quanto à reciclagem Protocolo de Quioto quanto à sustentabilidade. Nos De maneira semelhante à análise do projetos não se consegue comprovar a existência indicador de coleta seletiva, a reciclagem do lixo de informações que legitimem os indicadores não foi citada na maioria dos projetos, somente estudados quanto às abordagens ambiental, P4 e P6 deixam claro as atividades realizadas. Já social e econômica. Em nenhum deles, ocorreu o P12 demonstra a intenção de tratar a questão de atendimento integral das categorias de análise e, maneira diferenciada, oferecendo assistência aos portanto, a sustentabilidade dos projetos é parcial. catadores. É necessário ressaltar uma controvérsia. O quadro 3 sintetiza o atendimento às categorias As atividades de aterro sanitário são realizadas em de análise: áreas fechadas, onde a entrada deve ser restrita, 4.5. Parâmetros definidos pelo Protocolo os caminhões que fazem o descarte são pesados, de Quioto materiais perigosos devem passar por tratamento A fim de averiguar a comprovação prévio, enfim, a atividade requer todo um cuidado da sustentabilidade por parâmetros traçados e controle, portanto a população não teria acesso nacionalmente pela AND, estes são verificados pela permitido. Em P12, o conteúdo selecionado deixa mesma técnica de análise de conteúdo clássica. transparecer que o aterro funciona como um lixão 4.5.1.Quanto à distribuição de renda a céu aberto e que as pessoas retiram deste local materiais que significam o modo de sobrevivência. As condições de vida das pessoas que O que pode parecer uma boa iniciativa para sobrevivem das atividades relacionadas a catação de a sustentabilidade mostra a irregularidade da materiais recicláveis presentes no lixo e da população atividade. residente no entorno dos locais destinados a aterro 67
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    Quadro 3 -Atendimento categorias de análise Dimensão Dimensão Ambiental Dimensão Econômica Social Acesso a serviço de coleta Doenças relacionadas ao   Emissão de gases estufa Tratamento adequado de Disposição adequada de Destinação final do lixo Consumo comercial de saneamento ambiental poluentes atmosféricos Porcentagem de área Coleta seletiva de lixo Geração de resíduos Fontes renováveis de de lixo doméstico Concentração de resíduos sólidos Projetos Investimento inadequado Reciclagem protegida perigosos energia energia esgoto P1 ü ü ü ü ü ü ü ü ü P2 ü ü ü ü ü ü ü P3 ü ü ü ü ü ü ü P4 ü ü ü ü ü ü ü ü ü ü P5 ü ü ü ü ü ü ü P6 ü ü ü ü ü ü ü ü ü P7 ü ü ü ü ü ü ü ü P8 ü ü ü ü ü ü ü P9 ü ü ü ü ü ü ü P10 ü ü ü ü ü ü ü P11 ü ü ü ü ü ü P12 ü ü ü ü ü ü ü P13 ü ü ü ü ü ü ü P14 ü ü ü ü ü ü P15 ü ü ü ü ü ü ü P16 ü ü ü ü ü ü P17 ü ü ü ü ü ü P18 ü ü ü ü ü ü P19 ü ü ü ü ü ü P20 ü ü ü ü ü ü ü P21 ü ü ü ü ü ü P22 ü ü ü ü ü ü P23 ü ü ü ü ü ü P24 ü ü ü ü ü ü P25 ü ü ü ü ü ü P26 ü ü ü ü ü ü ü Fonte: elaborado pela autora deve ser revista pelo empreendimento. Somente P1 Convém destacar que a maioria dos projetos (62%) e P3 mencionam a criação de novos empregos e nem fazem referência a este ponto de análise, sendo aumento da renda da população. Projetos como que P1, P3, P4, P8, P11, P12, P15 e P21 atendem P8, P11, P12, P15 e P21 indicam que parte da ao critério. receita gerada pelo crédito carbono será distribuída 4.5.2.Quanto à sustentabilidade ambiental com a prefeitura local, mas não deixa claro como local esta irá trabalhar a fim de melhorar a renda da população. O projeto P4 não visa distribuição de Foram estudados os impactos ambientais renda em curto prazo pois aplicará em programas locais do projeto, em comparação com a situação de alfabetização e treinamento para jovens carentes. existente antes da sua implementação. Os projetos 68
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    de aterros sanitáriosestudados já estão em não foi encontrada nenhuma citação nos projetos funcionamento, portanto, na análise de ganhos P5, P13, P24, P25 e P26. ambientais tem-se que verificar aspectos além dos 4.5.4.Quanto à capacitação e desenvolvimento cobrados pela legislação de funcionamento do tecnológico empreendimento. A queima dos gases decorrentes da decomposição de material é um ganho a ser O MDL incentiva a troca de tecnologia entre destacado, visto que não ocorreria se o projeto não nações. No caso dos aterros sanitários, haverá existisse, conforme P1, P3, P4, P8, P9 e P13. Além essa possibilidade, visto que não é prática comum da diminuição de odores e riscos de explosões, no Brasil a utilização de flares e condutos para P9 destaca que o ganho ambiental influenciará direcionamento dos gases gerados e posterior na valorização imobiliária da região circunvizinha. queima ou aproveitamento energético. A troca Ressalta-se que 77% deles não fazem nenhuma de conhecimento envolvendo várias organizações referência a esse parâmetro de análise. também é incentivada para fomentar o mercado nacional no desenvolvimento de empresas 4.5.3.Quanto ao desenvolvimento das condições prestadoras de serviço e desenvolvedoras de mesma de trabalho e geração líquida de emprego tecnologia. A geração de empregos imediatos, seja para Por se tratar de uma atividade não usual construção, execução e manutenção das alterações no Brasil, a queima dos gases decorrentes da no funcionamento do aterro sanitário, é fator positivo decomposição dos materiais depositados no aterro quanto ao desenvolvimento sustentável, sendo ou a utilização do biogás para geração de energia, necessário atestar a quantidade de cargos gerados e requerem adaptação de tecnologia e equipamentos nível de instrução requerido. Verifica-se que poucos vindos de outros países, com os quais serão postos de trabalho serão gerados pelas atividades firmadas parcerias de fornecimento e treinamento. diárias do aterro após implantação do projeto, Dessa maneira, os projetos conseguem justificar sendo criados cargos na função de monitoramento, o parâmetro de capacitação e desenvolvimento que requerem a capacitação de profissionais. Como tecnológico. Os projetos P7 e P13 não fazem se trata de tecnologia estrangeira, inicialmente nenhuma referência a este critério de análise. haverá treinamento, porém poucos empregos 4.5.5.Quanto à integração regional e indiretos serão criados. É citada a contratação de articulação com outros setores pessoas no período de construção e adaptação do empreendimento, porém no dia-a-dia da atividade, Este parâmetro preza o estabelecimento que pode se estender por até 21 anos, não há de parcerias entre municípios para viabilizar a necessidade de muita mão de obra. implantação de aterros sanitários, além de parcerias Também cabe nesta análise a criação de entre municípios e empresas privadas e organizações programas de coleta seletiva ou reciclagem, nos não-governamentais, para desenvolver atividades quais a mão de obra local seja aproveitada e que se sociais e produtivas. Dos projetos analisados 50% crie condições de inserção no mercado de trabalho. não indicam quais benefícios serão alcançados. Somente 3 projetos preveem programas de seleção Já outros 50% fazem alusão à articulação, seja e reciclagem de materiais indicando a possibilidade incentivando projetos sociais e ambientais, ou de inserção de catadores de recicláveis que vivem através de repasse de royalties às prefeituras locais. na dependência de descarte de resíduos sólidos. São destacados aspectos do interrelacionamento em Apesar de serem destacadas poucas que uma boa gestão de resíduos possa favorecer a alteraçoes após a implantação dos projetos, pode- população, beneficiando o meio ambiente. Portanto, se considerar que confirmam a sustentabilidade. em relação à análise desse parâmetro, pode-se Mesmo sabendo que o projeto possa gerar empregos, considerar que a maioria dos projetos justificam os 69
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    requisitos de aprovação,conforme P1, P3, P4, P8, de destacar P24 e P26 que não fazem qualquer P9, P10, P11, P12, P13, P15, P16, P21 e P25. referência. Considerando que a apresentação desses parâmetros fosse primordial para a aprovação, 4.6. Considerações a respeito dos parâme- poderia-se pensar que a maioria deles não seria tros selecionados aprovada, pela falta de dados evidenciando a Após a análise, segue quadro 4 com sustentabilidade. compilação dos projetos quanto ao atendimento Fica a impressão de que a busca por soluções aos requisitos de avaliação. para diminuição das emissões de poluentes e alteração dos prognósticos pessimistas sobre o aquecimento Quadro 4 - Atendimento critérios da Resolução 1 global é tratada como uma oportunidade comercial, de 11 set. 2003. em que as empresas (e também governos) valorizam Desenvolvi- Inte- as transações financeiras. Lembrando que já há um gração mento das Sustenta- Capacitação regional mercado estabelecido para esses créditos de carbono Distribui- condições Proje- bilidade e desenvol- e arti- vimento tec- culação e que a regulamentação atual de aterros sanitários ção de de trabalho tos ambiental renda e geração local líquida de nológico com não exige a queima dos gases, pode-se considerar outros emprego setores que a abordagem econômica é a propulsora dos P1 ü ü ü ü ü P2 ü ü projeto e dos avaliadores credenciados. Assim os P3 ü ü ü ü ü objetivos maiores dos projetos de MDL que buscam P4 ü ü ü ü ü P5 ü a transferência de tecnologia, utilização de energia P6 ü ü limpa, redução da pobreza e benefícios ambientais P7 ü P8 ü ü ü ü ü são consequencia do novo mercado. P9 ü ü ü P10 ü ü ü P11 ü ü ü ü Conclusão P12 ü ü ü ü P13 ü A proposta geral do trabalho foi analisar P14 ü ü P15 ü ü ü ü os indicadores econômicos, sociais e ambientais P16 ü ü presentes nos projetos brasileiros de aterros sanitários P17 ü ü P18 ü ü do MDL do Protocolo de Quioto. As evidências não P19 ü ü comprovam a sustentabilidade, ao confrontar os P20 ü ü P21 ü ü ü dados dos projetos com as categorias selecionadas P22 ü ü no método, tão pouco pelas análises adicionais P23 ü ü P24 quanto aos parâmetros definidos pela AND. P25 ü Acredita-se que a falta de dados a respeito da P26 sustentabilidade pode ser afetada pelo desequilíbrio Fonte: elaborado pela autora entre informações técnicas e aspectos das abordagens Nota-se que poucos são os projetos que se estudadas do formulário padrão oferecido. Os preocupam em apresentar os benefícios gerados, projetos são escritos de maneira a convencer sobre frente aos critérios que são solicitados pela a viabilidade da proposta, e visam passar imagem comissão brasileira de avaliação. Somente P1, P3, positiva do empreendimento, sem dar muitas P4 e P8 apresentam trechos com justificativas para explicações de como isso vai acontecer. Porém atendimento de todos os critérios de análise. Isto não destacam que, caso não consigam a aprovação e significa que conter as informações seja garantia de consequente negociação no mercado de crédito aprovação, mas a omissão deveria ser, no mínimo, carbono, provavelmente nenhuma iniciativa será fato que levasse a maiores explicações. Pode- tomada, mesmo sabendo que mudanças na atividade se notar que vários deles (80%) não apresentam atual diminuiriam os efeitos negativos na camada de informações completas sobre os parâmetros, além ozônio, riscos de asfixia e explosões, tanto citados. 70
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    A conscientização deque a atividade agride o meio são grandes geradores de gases de efeito estufa, ambiente e a qualidade de vida das pessoas dos portanto passível de alteração de processo. À arredores, não serve de motivo para a empresa academia uma contribuição aos estudos de gestão tomar iniciativa particularmente. Então a existência socioambiental. Caberia como sugestão para de trechos de discurso enfatizando a preocupação trabalhos futuros a verificação da sustentabilidade na social e ambiental contradiz o enfoque econômico. prática do empreendimento já que se encontram em Outro ponto é a atuação das empresas atividade. Também como proposta, a verificação da em projetos sociais que permitam às pessoas que sustentabilidade de outras atividades brasileiras de sobrevivem de catação de materiais recicláveis MDL a fim de detectar um padrão de concordância a criação de cooperativas e centros de triagem. e aprovação. A análise de projetos aprovados de Surgem, então, questionamentos a respeito da aterro em outros países seria interessante para busca relação público/privado quanto à responsabilidade dos critérios representativos nas diversas nações e de cada uma das partes no desenvolvimento comparação com os critérios brasileiros. sustentável do país. Acredita-se que a gestão Por fim, faz-se uma ressalva sobre a importância socioambiental é responsabilidade de cada um, de mais estudos sobre o tema sustentabilidade. não cabendo somente ao poder público o bem Verificou-se que é uma questão abrangente, por isso estar da população e nem às empresas privadas a utilizada de maneira indiscriminada, caracterizando- filantropia ou intencional utilização da imagem de se até mesmo como um “modismo” de administração. cidadania. Organizações buscam uma imagem positiva tendo Este trabalho pode auxiliar a política pública, como alicerce um termo que não possui base pois tem a intenção de alertar sobre a semelhança sólida, em que cada um faz e adota um modelo ou entre os documentos e a verificação do cumprimento padrão mais conveniente. O tema ainda encontra- das metas sociais descritas nos textos apresentados. se em desenvolvimento e os estudos na área de Aos responsáveis pela legislação de disposição de gestão socioambiental irão enriquecer e elucidar resíduos sólidos no Brasil cabe modificação das as empresas de todos os setores e a sociedade a normas de funcionamento já que foi comprovado, firmar esses conceitos e sua aplicação em busca do e as empresas cientes, que os aterros sanitários desenvolvimento sustentável. Referências ACIONISTA.COM.BR. Liquidação financeira do 1º leilão de créditos de carbono organizado no país. Disponível em: http://www.acionista.com.br/bmf/290208_liquidacao_financeira.htm. Acesso em: 17 jun. 2008. ALMEIDA, S.T.; LEITE FILHO, C.A.P ALMEIDA, H.T. A gestão socialmente responsável como diferencial de .; estratégia organizacional. In: Encontro de Estudos Organizacionais, IV EnEO, 2006, Anais... Porto Alegre, 2006, CDROM. ANDRADE, M.M. Como preparar trabalhos para cursos de pós-graduação. São Paulo: Atlas, 2004. BANCOR. Bancor Internacional, Consultoria e Implementação do Meio Ambiente. Consulta Pública Sobre Proinfa, 15 de Agosto de 2003. Disponível em: <www.bancor.com.br> Acesso em: 30 jun. 2007. BARDDAL, R.; ALBERTON, A. Uma análise comparativa de métodos de mensuração da sustentabilidade: aplicabilidade no setor turístico. In: SIMPOI, 2008, XI, São Paulo. Anais... São Paulo: 2008. CDROM. BAUER, M.W. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In BAUER, M.W.; GASKELL, G.(org). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis: Vozes, 2002. BUFONI, A.L.; FERREIRA, A.C.S.; LEGEY, L.F.L. Os investimentos ambientais divulgados no balanço social IBASE pelas empresas brasileiras. In: Encontro Nacional de Gestão Empresarial e Meio Ambiente, IX, 2007, Curitiba. Anais... Curitiba: 2007. CDROM. 71
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    Avaliação e Hierarquizaçãodos Atrativos Turísticos de Irati-PR Evaluation and Hierarchy of Turistic Attractive of Irati-PR Diogo Lüders Fernandes1 Vanessa de Oliveira Menezes2 Resumo O presente estudo tem como objetivo hierarquizar os atrativos da área urbana da cidade de Irati/PR, mostrando sua potencialidade para o uso do turismo utilizando a técnica de avaliação e hierarquização de atrativos da Secretaria de Turismo do Estado do Paraná - SETU. Esta pesquisa se caracteriza por ser descritiva, ocorrendo um estudo de gabinete em bibliografias específicas, uma pesquisa em documentos da Secretaria de Turismo do Estado do Paraná e do Departamento de turismo de Irati e a pesquisa de campo em visitas in loco dos atrativos e equipamentos para avaliação e hierarquização dos atrativos da cidade de Irati. Por meio das pesquisas, foi possível verificar que os atrativos da cidade necessitam de melhor estruturação. Palavras-chave: Hierarquização; Atrativos Turísticos; Cidade de Irati-PR. Abstract The present study has as prime goal to categorize the urban attraction areas into an hierarchy in Irati, a city in the South Brazil, in order to show its potentiality for Tourism using the technical support of attraction evaluation e hierarchy of Tourism Secretariat of Paraná State - SETU. This research characterizes as descriptive, carried out by means of document study in specific bibliographies, a research in Tourism Secretariat of Paraná State and Irati Tourism Department documents, as well as a field research through visits to attractions and the equipment for evaluation and hierarchy of the attractions in Irati. Through the research, it was possible to verify that the city attractions need better structure. Key words: Hierarchy; Turistic Attraction; Irati-Brazil./ 1 introdução de territórios; e ainda possui uma característica A atividade turística organizada como única, o turismo é uma atividade que consome conhecemos hoje, surge em meados do século XIX, elementarmente o espaço. e desde então vem crescendo de maneira bastante Essa apropriação do espaço pelo turismo significativa. é realizada por meio das políticas públicas de O turismo, assim como qualquer outra turismo, que são responsáveis segundo Cruz atividade, causa uma série de relações na localidade (2002, p. 44) pelo: onde se desenvolve, podendo ser positivas ou negativas. De acordo com Cruz (2002), o turismo [...] estabelecimento de metas e diretrizes que orientam é ainda um grande agente transformador e o desenvolvimento socioespacial da atividade, tanto organizador de sociedades e de (re) ordenamento no que tange à esfera pública como no que se refere 1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, Brasil. Possui mestrado em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI, Brasil. Contato: diggtur@yahoo.com.br 2 Professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO, Brasil Possui mestrado em Administração de Empresas Turísticas pela Universidad de Extremadura – UEX, Espanha. Contato: vanessamenezes@hotmail.com Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 22/12/2009 - Aprovado em 04/06/2010
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    à iniciativa privada.Na ausência da política pública, o turísticos concede “[...] pouca atenção aos aspectos turismo dá à revelia, ou seja, ao sabor de iniciativas e voltados para a valorização, em termos turísticos, interesses particulares. da importância individual, ou mesmo coletiva dos atrativos”. E dessa falta de planejamento se dão diversos O enfoque analítico de cada atrativo permite problemas relacionados à realização da atividade fixar o valor intrínseco do próprio recurso com base turística desordenada. Ruschmann (1997) afirma em suas principais características, das quais se obtém que no caso do turismo, cabe ao governo a tarefa um índice de qualidade que pode ser comparável de planejar a atividade de forma a proporcionar o ao calculado para outras áreas ou recursos de bem-estar da população local e do turista, aliado características similares. à conservação dos recursos naturais e culturais da Tal análise possibilita atribuir valor comunidade e a normatização da atividade turística. quantitativo ao atrativo, de modo a classificá-lo Sendo assim a autora compreende que a finalidade em uma escala de hierarquização, demonstrando do planejamento turístico “consiste em ordenar em números o valor de potencialidade de cada as ações do homem sobre o território e ocupa-se atrativo e do município. Esse instrumento de análise em direcionar a construção de equipamentos e é de fundamental importância para o processo de facilidades de forma adequada, evitando assim os planejamento turístico, pois auxilia na tomada de efeitos negativos nos recursos, como sua destruição decisão dos planejadores. e a redução de sua atratividade”. (RUSCHMANN, De posse das informações apresentadas 1997, p.84) acima, a problemática deste trabalho é: Qual O planejamento turístico por sua vez é a hierarquia dos atrativos turísticos presentes no compreendido, segundo Bissoli (1999), como sendo perímetro urbano da cidade de Irati/PR? um processo que avalia a atividade turística de um Este artigo tem como objetivo hierarquizar determinado espaço geográfico, verificando seu os atrativos da área urbana da cidade de Irati/ desenvolvimento e fixando um modelo de atuação PR, mostrando sua potencialidade para o uso do mediante o estabelecimento de metas, objetivos, turismo. estratégias, e diretrizes com os quais se pretende Este trabalho é de extrema importância, pois fomentar, coordenar e integrar o turismo ao ambiente propicia um debate sobre o assunto e levanta dados em que está inserido. que poderão ser usados pelos órgãos competentes Para tanto, é necessário analisar os atrativos como instrumento para estruturar os atrativos turísticos do local para avaliá-los de modo a turísticos locais. estabelecer o seu valor. Nesse contexto, é importante Durante o texto, serão descritos os métodos também hierarquizá-lo, para determinar a sua científicos utilizados para obter os dados referentes importância turística dentro do contexto municipal, à temática da pesquisa, a apresentação e discussão regional e nacional. dos dados e de posse dessas informações, as O objetivo dos processos de avaliação e considerações e conclusão. hierarquização, segundo Magalhães (2001), é empreender uma análise do patrimônio turístico 2 Fundamentação teórica municipal de modo a determinar o coeficiente de atratividade de cada atrativo e de cada município. O turismo, os atrativos turísticos e suas Muitos documentos ditos inventários turísticos tipologias, a potencialidade e também a avaliação e consistem em uma lista de recursos turísticos hierarquização dos atrativos, são temáticas trabalhadas naturais e culturais assim como o levantamento neste artigo, bem como, a abordagem dos autores da infraestrutura municipal e os empreendimentos que por meio de livros ou artigos expuseram seus e serviços turísticos. Porém, Magalhães (2001, pensamentos adquiridos durante a carreira, ou através p. 57) afirma que a inventariação dos atrativos de ciências empíricas para formulação de suas teses. 74
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    Ao definir turismo,Barretto (1995), faz muitos atrativos naturais ou artificiais são únicos em um apanhado de diversos conceitos do que é nosso planeta, com exemplo as pirâmides no Egito, a atividade em si. De acordo com a autora, a apesar de existirem, contemporaneamente outras primeira definição de turismo remonta do ano de construções “imitando” pirâmides egípcias, apenas 1911, quando o economista austríaco Hermann as originais conservam toda a cultura antiga do seu Von Schullern Schattenhofen descreve a atividade povo. como um processo econômico que se manifesta A Secretaria de Estado do Turismo - SETU na chegada, permanência e saída de um turista tem sua fundamentação muito paralela com a do em uma determinada localidade. As definições de Ministério do Turismo, caracterizando o atrativo turismo passaram por diversas transformações, como lugar, objeto ou acontecimento que motive o sendo incorporadas nelas diferentes realidades, turista a conhecê-lo. (PARANÁ, 2005) Dessa forma, deixando de ser exclusivamente vista do ponto da o atrativo faz parte significativa da oferta turística, economia, para uma visão mais sistêmica. Para esse que sua ausência torna-se por dificultar a Boullón (2002), o turismo é um fator social, não consolidação da atividade turística, pois o atrativo foi criado, mas sim surgiu de um fenômeno social é a matéria prima do turismo, diz Boullón (2002). E da existência do tempo livre, impulsionado pela sem a matéria prima toda vontade de trabalho não tecnologia dos sistemas de transportes. se torna ação, consequentemente sem ação não há Para De La Torre apud Barretto (1995, p. 13) turismo. Alguns lugares são potenciais turísticos O turismo é um fenômeno social que consiste no des- e podem vir a se tornar um atrativo, em que locamento voluntário e temporário de indivíduos ou um potencial turístico é um elemento com dois grupos de pessoas que, fundamentalmente por moti- adjetivos: aptidão e disponibilidade. Não adianta vos de recreação, descanso, cultura, ou saúde, saem este elemento ter aptidão e por motivos outros não do seu local de residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade lucrativa nem remu- poder ser explorado. nerada, gerando múltiplas inter-relações de importân- O conceito de atrativo tem como cia social, econômica e cultural. prerrogativa a existência de condições mínimas para haver visitação. Essas condições conhecidas Portanto, para que haja turismo, é necessário o como infraestruturas devem suprir as necessidades deslocamento temporário de pessoas por motivação básicas das pessoas que a este lugar buscam; caso diversas, em busca de atrativos, como explica o local não ofereça tais facilidades, o produto Ruschmann (1997); o atrativo é caracterizado por possui apenas potencial e não pode ser considerado aquilo que atrai o turista. Ruschmann (1997, p.71) um atrativo. Infelizmente é comum o equívoco segue explicando que os atrativos: conceitual por muitos profissionais atuantes na área. Segundo Ignarra (1998), conceitualizar [...] são fundamentais, pois podem proporcionar maio- res fontes de renda à comunidade, também ajudar no o atrativo turístico é uma tarefa complexa, pois crescimento de maior conscientização ambiental, pro- a atratividade varia de turista para turista, ou porcionar o bem estar do turista e com conseqüência seja, o valor de um atrativo para alguns pode ser da população. insignificante para outros. O autor segue explicando que o atrativo tem maior valor à medida que for Para o Brasil (2006), o atrativo é um elemento, maior seu diferencial, sua singularidade. seja natural ou artificial, que intrinsecamente motiva Ainda, segundo a metodologia do Centro o ser humano, individualmente ou em grupos, a Interamericano de Capacitação Turística - CICATUR, conhecê-lo. A singularidade do atrativo muitas citado por Ignarra (1998), os atrativos são vezes é fundamental para motivar o visitante; classificados em naturais e culturais, e são divididos 75
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    em tipos esubtipos, todavia não cabe especificá-los Identificando o valor quantitativo da potencialidade aqui. do atrativo por meio de estudos de avaliação, após Estudar o atrativo é fundamental para a hierarquizando-o, de modo a levantar e seu grau de primeira fase do processo de planejamento, como influência no fluxo turístico no cenário municipal e explica Molina (2005, p. 54), pois nesta primeira regional, esses estudos permitem aos planejadores fase, o “Diagnóstico, compreende a análise e do turismo levantar as prioridades e os elementos avaliação da situação histórica e atual do objeto que do espaço a ser estudado que realmente interessam vai ser planejado.” Ou seja, ao avaliar e hierarquizar ao desenvolvimento turístico local. um atrativo, está se fazendo um levantamento de A avaliação é o processo que pode definir dados para o planejamento. Este por sua vez é a importância atual ou futura de um atrativo em conceitualizado por Petrocchi (2002, p.19) como relação a outros de características homogêneas. “[...] a definição de um futuro desejado e de todas Para avaliar, é necessário reunir um conjunto de as providências necessárias à sua materialização”, fatores que permitam captar as qualidades e valores então, a providência inicial que ele descreve passa específicos que possuem cada atrativo, em função pelo levantamento de dados sobre o objeto a ser de sua natureza e dos elementos que exercem ou planejado e consequentemente, o atrativo está podem influenciar o seu aproveitamento turístico. inserido nele. (PARANÁ, 2005) A análise desses fatores deverá O planejamento turístico é compreendido, ser efetuada sob o ângulo estritamente turístico, segundo Bissoli (1999, p. 66) com sendo portanto para Ruschmann (2004, p. 142): [...] um processo que avalia a atividade turística de um a avaliação dos atrativos determina seu potencial turís- determinado espaço geográfico, diagnosticando seu tico e constitui elemento fundamental para a tomada desenvolvimento e fixando um modelo de atuação me- de decisões estratégicas para uma localidade e forne- diante o estabelecimento de metas, objetivos, estraté- ce subsídios para determinar a abrangência dos proje- gias, e diretrizes com os quais se pretende impulsionar, tos e a quantidade e a qualidade dos equipamentos e coordenar e integrar o turismo ao conjunto macroeco- da infra-estrutura por instalar. nômico em que está inserido. A Hieraquização, por sua vez é o processo Para tanto, é necessário analisar os que permite ordenar os atrativos de acordo com atrativos turísticos do local de modo a avaliá-los, a sua importância turística. Esta análise contribui estabelecendo assim seu valor de atratividade e para a formação de roteiros (de modo a selecionar determinando a sua importância turística dentro do atrativos que devem fazer parte ou excluidos), na contexto municipal, regional e nacional, por meio identificação dos pontos fortes ou a melhorar, na da sua hierarquização. identificação do público alvo do atrativo avaliado, Segundo Petrocchi (1998), o sistema do na priorização de ações, e em outros subsídios planejamento está composto por três passos; que devem pautar a tomada de decisões dos decisão, informação e ação, formando assim um planejadores. (PARANÁ, 2005) ciclo. Compreende que, para agir é necessário a Desse modo, esses dois estudos nos informação, e inserido na informação a avaliação e permitem a adquirir informações sobre os atrativos hierarquização de atrativos é fundamental. de forma cinetífica, que se tornam fundametais Compreender o atrativo e seu potencial para o planejamento turístico de uma localidade, turístico se faz essencial para trabalhar o turismo possibilitando elaborar um ranking com os em uma localidade. Avaliar e hierarquizar um atrativos com maior potencial para uso, além atrativo é um passo importante, na tomada de de informar aos gestores, os pontos fortes e os decisão de qualquer ambiente, com o intuito de pontos fracos de cada atrativo da localidade, conhecer a realidade turística de cada espaço. possibilitando, assim, uma tomada de decisão 76
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    baseada em conhecimentosque adquiridos por atrativo, se este é rodoviário, ferroviário, meio de técnicas que favorecem o planjemanto e marítimo ou aéreo, pontuado da seguinte a gestão do turismo nos municípios. forma: 3 Metodologia Quadro 1 - Pontuação referente ao acesso aos atrativos A pesquisa foi realizada em dois momentos RODOVIÁRIO AÉREO, MARÍTIMO/FLU- VIAL, FERROVIÁRIO distintos: 3 pontos 2 pontos 1 ponto 3 pontos 0 ponto O primeiro deles consistiu em um levantamento Bom Regular Precário Existência Inexistência bibliográfico sobre a temática em questão para Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. embasar teoricamente o trabalho. Para tal pesquisa • Transporte (peso 3): avaliar o transporte foram levantados temas como; planejamento existente e mais utilizado para o atrativo. turístico, inventário e hierarquização dos atrativos Conforme segue abaixo: turísticos. Nessa etapa, também foi realizada uma pesquisa documental na Secretaria de Turismo do Quadro 2 - Transporte mais utilizado para o Estado do Paraná e no Departamento de Turismo de atrativo Irati/PR onde foi pesquisado o Inventário Turístico 3 pontos 2 pontos 1 ponto 0 ponto Bom Regular Precário Não existe municipal de Irati, elaborado em 2002. O mesmo Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. serviu de base para levantar quais os atrativos turísticos presentes na área urbana da cidade. Por • Equipamentos e Serviços (peso 3): consistem na meio desta pesquisa, foram averiguados 6 (seis) análise dos equipamentos e serviços instalados atrativos, sendo eles: Colina Nossa Senhora das no atrativo que a valorizarem e agregarem Graças, Casa da Cultura, Igreja Nossa Senhora da valor ao atrativo visitado. Esse fator por sua Luz, Igreja São Miguel, Igreja Imaculado Coração vez foi analisado da seguinte forma: de Maria e o Parque Aquático. Após a etapa de pesquisa de gabinete, Quadro 3 -Valores a serem atribuídos aos atrativos foi realizada a pesquisa de campo. Os atrativos Valores a serem atribuídos aos atrativos que possuírem: 3 pontos 2 pontos 1 ponto 0 ponto levantados na pesquisa documental foram avaliados - sinalização; e hierarquizados de acordo com a metodologia de - monitor - sinalização; especializado; - monitor inventariação da SETU (2005). Para tal, utilizou-se - local de especializado; - sinalização; - atrativo que não alimentação; - local de possuir nenhum de uma matriz de avaliação do atrativo, no qual - serviços de alimentação; - serviços de dos serviços limpeza. foram analisadas as características citadas abaixo limpeza; - serviços de utilizados. - sanitários; limpeza; de cada atrativo: - integrar roteiros - sanitários. comercializados. 1. Intrínsecas (variáveis internas); Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. 2. Extrínsecas que compõem o atrativo (natural • Valor Intrínseco do Atrativo (peso 10): é o ou histórico); valor próprio do atrativo mediante à análise 3. Estrutura (do local), que podem influenciar e avaliação do de suas características na possibilidade de uso turístico do espaço. relevantes, tais características estão Vale ressaltar que cada fator de avaliação previamente selecionadas por tipo e subtipo possui um peso e características específicas, sendo de atrativos. Este valor varia de 1 a 4 pontos, atribuídos uma nota de 0 a 3 pontos para cada conforme a comparação dos elementos fator, sendo este: relevantes do atrativo com outro da mesma • Acesso (peso 4): avaliar o acesso mais categoria. utilizado pelos visitantes para se chegar ao 77
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    Quadro 4 -Valor intrínseco do atrativo • HIERARQUIA IV: Índice de atratividade de 4 PONTOS 3 PONTOS 2 PONTOS 1 PONTO 3,26 a 4,00 Muito Interessante Pouco Atrativo de grande significado para o mercado Interessante Interessante Relativo interessante turístico internacional, capaz por si só de motivar Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. expressivas correntes de visitantes, tanto nacionais O Valor Intrínseco do Atrativo foi obtido por quanto internacionais. meio do somatório do valor médio de cada uma das Desse modo, cada um dos 06 (seis) atrativos características relevantes, divido pela quantidade de encontrados na área urbana de Irati, segundo o característica que integra o atrativo. Inventário de Oferta Turística do Município, foram Após a avaliação de cada elemento e feito a avaliados e hierarquizados. Vale ressaltar que média dos pontos de cada fator pelos avaliadores, além desses atrativos, o documento aponta mais multiplica-se cada fator por seu peso para se ter o um atrativo na cidade, mas atualmente tal ponto Ponto do Fator (PF). encontra-se em uma propriedade particular e está Utiliza-se então a fórmula seguinte para se fechado para visitação. Por essa razão, o atrativo chegar ao Índice de Atratividade do Atrativo (IA): não foi apresentado neste trabalho. Para a realização desta pesquisa, foi Quadro 5 - Fórmula do índice de atratividade do organizada uma equipe com 5 profissionais atrativo responsáveis pela avaliação dos patrimônios IA = PF Acesso + PF Transporte + PF Equipamentos e Serviços + PF Valor Intrínseco 20 culturais e naturais do município, utilizando Fonte: SETU, 2005 e adaptado por FERNANDES, 2009. as variáveis representativas das características que devem possuir cada atrativo turístico, tais Após a identificação do Índice de Atratividade variáveis previamente estipuladas por uma ficha do atrativo, dá início a segundo etapa, da sua desenvolvida pela SETU - PR. hierarquização. Conforme o valor do Índice de Após a pesquisa de campo e os dados Atratividade, o atrativo poderá ser classificado nas coletados, começou o momento de tabular e seguintes hierarquias, conforme o intervalo de seu analisar os resultados obtidos, para assim redigir o valor de atratividade: relatório final de pesquisa. • HIERARQUIA I: Índice de atratividade de 1,00 a 1,75 4 Apresentação dos dados Atrativo complementar a outro de maior interesse, tem capacidade de estimular correntes O município de Irati está localizado na região turísticas locais. Centro Sul, segundo planalto do Estado do Paraná, • HIERARQUIA II: Índice de atratividade de precisamente no Paralelo 25º 27’ 56” de latitude Sul 1,76 a 2,50 com intercessão com o meridiano 50º 37’ 51” de longitude Oeste a uma altitude de 812,00 metros. Atrativo capaz de estimular correntes Possui uma área de 998,30 km2 segundo os dados turísticas locais e regionais, atual ou potencial, gerais da Prefeitura Municipal de Irati (2005). podendo motivar a visitação de turistas nacionais A sede encontra-se excentricamente a e internacionais que visitam a localidade ou região nordeste do município com uma área de 33,52 por outras motivações. Km2, que está localizado a uma distância de 155 • HIERARQUIA III: Índice de atratividade de km da capital do estado, Curitiba, pela rodovia BR 2,51 a 3,25 277 que liga o litoral do estado ao município de Foz Atrativo turístico muito interessante, em do Iguaçu, sendo essa a principal via de acesso. As nível nacional e internacional, capaz de motivar a outras vias de acesso ao município são a BR - 153 visitação por si só ou por um conjunto de atrativos. e a BR - 364, além da ferrovia. 78
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    Segundo a PrefeituraMunicipal de Irati e italiana, a área urbana de Irati, segundo o (2004, p.56), o município de Irati apresenta uma inventário turístico do município, possui alguns “função microrregional, de caráter complementar, atrativos que serão avaliados e hierarquizados a abrigando atividades agropecuárias e industriais que seguir, será descrito cada atrativo, apresentando são essencialmente, salvo poucas exceções, uma suas principais características e particularidades. extensão do que é mais significativo no centro-sul Nesse mesmo texto, será demonstrado o valor de do Estado, na qualidade de economia provedora de Índice de Atratividade destes atrativos e seu valor insumos básicos, com baixo valor agregado.” Não de hierarquia. Os valores foram obtidos a partir da só como pólo econômico regional, mas também metodologia da SETU, descrita no capítulo anterior. dos sub-setores bancário, de transporte rodoviário 4.1 Colina Nossa Senhora das Graças de passageiros e a área cultural e de lazer (esportes, cinema e eventos). A colina Nossa Senhora das Graças é um A cidade está localizada em um vale, a sede dos logradouros de maior importância da cidade. do município segundo a Prefeitura Municipal de Irati Quanto à sua visitação, este espaço é passagem (2004, p.71) obrigatória para os turistas que visitam Irati. Lá se encontra uma imagem de 22 metros de altura de apresentando uma “parte baixa” — mais antiga — e Nossa Senhora das Graças, um marco do município. uma “parte alta”, circundante — mais recente, e onde Construída no ano de 1957, em comemoração se localizam alguns ícones da paisagem urbana local, aos 50 anos de Irati, a imagem é esculpida em 70 como as igrejas católicas de Nossa Senhora da Luz e peças pelo artista Ottaviano Papaiz, de Campinas. a de São Miguel, bem como os Colégios São Vicente de Paula e de Nossa Senhora das Graças, além da A imagem não representa a padroeira da cidade, grande imagem de Nossa Senhora das Graças, com Nossa Senhora da Luz, pois sua construção se 22 metros de altura, inaugurada em 1957, por oca- tornou inviável devido à imagem do menino Jesus sião do cinqüentenário da cidade, ícone estes passíveis que carrega no colo. Feita uma eleição, a imagem de avistamento a partir de quase todos os pontos da de Nossa Senhora das Graças surge em função da cidade. grande devoção popular (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009). Irati é um município que não se utilizou das O acesso se dá através de uma escada que riquezas formadas pela agricultura para desenvolver acompanha o declive da colina para os pedestres, sua indústria, e hoje permanece como uma cidade ou por duas vias secundárias que permitem ao com uma morfologia singular. O município visitante um acesso por trás da colina. Todos os desenvolve-se em um vale acidentado, cortado na caminhos estão em estado regular de conservação direção norte-sul pela linha da Estrada de Ferro São sendo necessários alguns ajustes, principalmente Paulo- Rio Grande, esta ativa até hoje, cruzando ao acesso de pedestres o qual não é sinalizado. Já largos espaços urbanos tornando-se um elemento as escadarias não possuem corrimões nem bancos forte que estruturou a malha urbana do município, para descansos em meio à subida. reforçada mais tarde pelas rodovias. Nos bairros A colina está equipada com playground, do município, não existe uma grande infraestrutura sanitários, uma capela e um mirante com vista para comercial e de serviços, além dos serviços públicos, cidade, equipados com bancos defronte à imagem. como transporte coletivo, pavimentação, passeios, Infelizmente atualmente o espaço passou por uma iluminação pública e arborização, e as vias não reforma, foram retirados do local a lanchonete e os possuem uma hierarquização adequada. estacionamentos. O município vem há vários anos procurando Observou-se também que a colina possui desenvolver a atividade turística, com influência alguns problemas estruturais, que acabam da colonização polonesa, ucraniana, alemão dificultando ou prejudicando sua visitação: a 79
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    falta de sinalização,e o estado de conservação Uma paisagem singular no centro da cidade, de seu acesso são deficientes. Entretanto as um casarão de arquitetura eclética preservado, com condições das instalações foram melhoradas jardins laterais, onde ao seu entorno encontra-se quando comparada aos dados coletados por residências, que na maioria não possuem harmonia esta pesquisa em abril de 2005; os bancos de com a edificação em questão. À sua frente, encontra- madeiras do mirante foram trocados, foi feito um se o Clube do Comércio - o primeiro da cidade - novo mirante no local, houve uma reforma no hoje com uma nova forma. A rua até pouco tempo interior da capela, foi aparada a vegetação de era de paralelepípedo e hoje está asfaltada. entorno e foram feitos novos banheiros. A edificação atualmente é denominada Devido às condições descritas anteriormente, de Casa da Cultura, onde se encontra alojada a a Colina Nossa Senhora das Graças obteve um Coordenadora de Cultura do município e é um índice de atratividade IA = 2,00, ficando, portanto espaço também destinado a exposições e mostras com Hierarquia II. de artistas regionais. O pequeno museu no interior Sendo um dos principais atrativos da da casa apresenta alguns artefatos da cultura cidade, é importante ressaltar a importância de ucraniana predominante na região, além de objetos benfeitorias nesse atrativo para que ele tenha seu da família Gomes, e quadros e gravuras de artistas valor de atratividade aumentado, principalmente iratienses que relatam a história do município, a no que diz respeito ao acesso para o atrativo, além vida e a cultura de Irati em suas épocas. A Casa da instalação de lanchonete e de monitores que da Cultura ainda é um centro de ensino de línguas, informarem ao turista sobre a imagem que lá se artes, música e atividades culturais promovidas por encontra. entidades diversas. A colina Nossa Senhora das Graças é hoje Sua visão destaca na Rua XV de Julho devido o espaço mais visitado pelos turistas no município à singularidade da construção com os demais de Irati, portanto uma paisagem que merece maior edifícios do entorno. Portanto um marco urbano atenção dos responsáveis pela gestão no município, iratiense, que merece destaque devido ao seu uso pois é a imagem que o turista mais vê e a que o como centro cultural onde se encontra um pequeno visitante realmente vai levar com ele do município. A museu que conta parte da história da família Gomes constante manutenção e conservação da paisagem e da cidade de Irati. da colina da Santa são de suma importância para a A área possui um grande potencial para uso qualidade dessa área turística do município. turístico, não só por sua preservada forma como também pela sua função urbana. Esse é um espaço 4.2 Casa da Cultura de cultura que se melhor utilizado, proporcionaria Localizada na rua XV de Julho no. 329, ao turista um resgate da história e da identidade compreende num antigo casarão de madeira que data de Irati. A visita orientada poderia proporcionar ao das primeiras décadas do século XX e que mantém turista, informações significativas sobre a história e conservados todas as características impostas pela sobre o desenvolvimento da cidade. cultura urbana então vigente. Residência da família O acesso até ao atrativo encontra-se em Gomes, foi construída em 1919 por Arcélio Batista bom estado de conservação e bem sinalizado, mas Teixeira. O imóvel foi cedido à Prefeitura em 1987, não há transporte regular. Outras dificuldades são em comodato pela família proprietária e doada ao a falta de estacionamento próprio, a ausência de município em 2004. Hoje a antiga residência da monitores ou guias especializados no local e de família Gomes é utilizada como centro de cultura, serviços de alimentação. onde ocorrem cursos e exposições periódicas de Portanto o Índice de Atratividade da Casa da diversas áreas (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, Cultura (IA) é 1,25, ficando dessa forma classificada 2009). com Hierarquia I. Deve-se salientar que esses valores 80
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    não são fixos,pois podem sofrer alterações, conforme arquitetura contemporânea, porém com pouca o atrativo vá recebendo benfeitorias e melhorias para expressividade. A Rua XV de Novembro, em que melhor atender ao turista. Nesse caso, a contratação está localizada, apresenta uma pavimentação em de monitores que possam oferecer o serviço de paralelepípedo, característica da cidade, com orientação a visitantes, melhoria na exposição do poucas árvores de pequeno porte, com exceção da acervo existente e melhor utilização dos espaços Praça Madalena Anciutti. Esta está bem arborizada do atrativo poderiam melhorar a classificação do e ainda possui o monumento, a Bíblia, inaugurado atrativo. em 18 de fevereiro de 2001, e é considerado um monumento ecumênico que visa à integração entre 4.3 Igreja Nossa Senhora da Luz todas as crenças cristãs. Essa edificação encontra-se inscrita numa Localizada na Rua Cel. Pires nº994, a paisagem bem preservada que proporciona uma Igreja Matriz Nossa Senhora da Luz, segundo qualidade paisagística, devido à harmonia do dados do Inventário Turístico de Irati (2002), teve conjunto edificado. sua construção iniciada em 1931. Portanto essa Ao contrário da Igreja Nossa Senhora da edificação religiosa foi a primeira do município, que Luz, a paisagem da Igreja São Miguel possui possui como padroeira Nossa Senhora da Luz. atratividade turística, isto porque seu entorno No seu entorno, encontra-se residências agrega maior valor ao atrativo, onde o conjunto com jardins frontais, o antigo edifício da Faculdade paisagístico do atrativo em questão encontra-se e a Praça Etelvina Gomes, que apresenta sinais em harmonia, qualificando a paisagem dessa de descaso e abandono. A rua em frente à igreja área urbana para o uso turístico. apresenta pavimentação em calçamento articulado Esse atrativo da cidade de Irati obteve em paralelepípedo, valorizando assim o estilo antigo como avaliação 1,5 pontos. Isto devido ao fato de da localidade. que o atrativo encontra-se em local privilegiado A arborização é caracterizada por árvores de do ponto de vista de seu entorno e apresenta grande porte, localizadas principalmente na praça também elementos intrínsecos componentes que em frente à igreja. A Praça Etelvina Gomes faz parte chamam a atenção para seu interior, ficando com da paisagem do conjunto desse atrativo, passou Hierarquia I. recentemente por reforma o que melhorou muito o entorno do atrativo, principalmente no que diz 4.5 Igreja Imaculado Coração de Maria respeito à iluminação. Em 24 de junho de 1950, foi inaugurada A Igreja Matriz Nossa Senhora da Luz, a primeira Igreja Ucraniana no município. Com o apresenta um Índice de Atratividade (IA) = 1,05, crescimento da cidade de Irati, novas famílias dos ficando assim com Hierarquia I. Essa situação é municípios vizinhos vieram morar nessa cidade e, devido a falta de recursos para a visitação de turistas. com elas muitas famílias ucranianas. Assim a igreja 4.4 Igreja São Miguel ficou pequena, sendo necessário ampliar o espaço em virtude do aumento de seus fiéis. Foi adquirido Localizada na Praça Madalena Anciutti, então, o terreno na Rua Barão do Rio Branco nº156 anteriormente construída em madeira e hoje em e, em 1970, construída uma igreja maior, hoje a alvenaria, a igreja encontra-se em um dos pontos sede de todas as igrejas ucranianas do município mais altos da cidade podendo ser vista de vários (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009). locais. Na sua frente encontra-se uma praça e aos A Igreja tem capacidade para atender fundos o Cemitério Municipal. Ao lado, o Colégio a 400 pessoas sendo que, as celebrações são Nossa Senhora das Graças, um edifício antigo que feitas em ucraniano, com exceção da missa dos em seu entorno encontram-se construções em sua Sábados celebrada em português, pois muitos dos maioria comerciais com um e dois pavimentos de descendentes não entendem a língua de origem. 81
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    Essa edificação religiosachama atenção por denominado como Parque Aquático e de Exposição sua forma e construção que apresenta algumas Santa Terezinha (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, particularidades como: uma coroa prateada na 2009). parte superior e gravuras na fachada do prédio em Antes da revitalização da área, o terreno em formato cúbico. que hoje se encontra o parque era uma área sem A igreja está localizada em uma área atratividade, um grande banhado que desqualificava residencial, com casas que em sua maioria possuem o bairro e sua área de entorno. Hoje o que vemos é jardins frontais, em uma rua pavimentada com uma área urbana qualificada da cidade, um espaço paralelepípedo e arborização quase que inexistente. verde propício para realização de atividades de A Igreja Imaculado Coração de Maria lazer e de eventos. tem destaque como um atrativo, devido à sua O parque é caracterizado em seus 79000 singularidade. A forma da edificação é um tanto m² por ser uma área extensa composta por lago diferente das demais e esse marco urbano destaca- e um grande gramado. Possui playground, pontes, se na paisagem por sua arquitetura singular, que churrasqueiras, uma mini estrada de ferro de 870 aguça no turista uma curiosidade quanto à imagem metros. Sua estação e uma réplica de Maria Fumaça que transmite e quanto ao rito religioso da Igreja que faz passeios em torno do parque, postos Católica Ortodoxa. Essa imagem transmite os médico e odontológico, canchas cobertas, pista de símbolos da cultura ucraniana ao turista e está cooper/ciclismo, estrutura para prática de exercícios fortemente atrelada às características socioculturais físicos e o Pavilhão de Exposições João Wasilewski de uma grande parte da população de Irati, ou seja, (PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI, 2009). os descendentes dos imigrantes ucranianos. No seu entorno, encontram-se edifícios Devido à sua singularidade de construção comerciais e habitações de um ou dois andares, e seu rito, a igreja Ucraniana como é conhecida, com jardins frontais, com estilo arquitetônico obteve IA = 1,8 pontos, pois é reconhecida como um contemporâneo, mas de pouca expressividade. atrativo de destaque devido às suas peculiaridades. A topografia do local é de solo plano, com ruas Ainda são necessárias algumas melhorias para de mão dupla com estacionamento nos dois lados que ela tenha plenas condições de atender aos da via, com árvores médias e pavimentação de turistas como guias, placa indicando os horários paralelepípedo. de visitação, estacionamento, etc. Desse modo, o O parque aquático é um espaço interessante, atrativo atingiu Hierarquia II. pois apresenta algumas características singulares como seu portal de entrada. Esse marco do parque encontra- Parque Aquático se em um acesso secundário, e não na principal rua Localizado no Bairro Rio Bonito, na Rua de acesso ao logradouro. Nessa entrada encontra-se Adão Panka s/n, este logradouro tem uma grande um estacionamento pouco utilizado, já que o acesso importância enquanto paisagem turística e para o principal ao atrativo se dá pelo outro lado, onde existe lazer da comunidade de Irati, isto devido ao seu uso uma grande área sem edificações ou ajardinamento, atual e a seu histórico, um espaço que deixou de que a população usa como estacionamento. Outro ser um ambiente degradante da área urbana para detalhe que o Parque apresenta é uma gruta com se transformar em uma área de lazer e visitação da algumas imagens, como a de Santa Terezinha em cidade de Irati. homenagem ao nome do parque. Essa área pertencia a Olaria Santa Therezinha O Parque Aquático e de Exposições de Irati até o ano de 1987, quando foi adquirida pelo é um espaço de uso público, onde a população poder municipal entre maio e junho do mesmo ano, iratiense e os municípios vizinhos utilizam para o sendo então transformado em parque pela Lei no. lazer nos finais de semana. O local ainda é muito 834, de 12 de dezembro de 1988, passando a ser utilizado para realização de eventos tendo como as 82
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    principais festas domunicípio, a Festa do Pêssego e e de hierarquização, representados pelas hierarquias a Festa do Kiwi. I e II, que correspondem a atrativos complementares Os problemas estruturais para visitação com potencialidades de atração local e regional que foram identificados podem ser classificados ou de fluxos de turistas nacionais que se dirigem a da seguinte forma; primeiramente há deficiência região por outro atrativo de maior potencialidade. de sinalização para orientar os visitantes, outro Portanto hoje a realidade do turismo na cidade empecilho é o mal estado de conservação dos de Irati consiste em atender, se bem trabalhado, aos sanitários e lixeiras existentes, mas o principal turistas que visitam a região por outras motivações, problema encontrado é a falta de segurança o que ou que trafegam pela BR-277, buscando inicialmente resulta em uma má utilização do espaço. um desenvolvimento como centro de excursão, onde Essas deficiências produzem uma estes fluxos de turistas provavelmente se concentre desqualificação na paisagem do parque, uma vez nos seguintes atrativos: Colina Nossa Senhora das que esse espaço possui atratividade de abrangência Graças, Parque Aquático e Igreja Imaculado Coração regional e que é, portanto, significativo logradouro de Maria. Proporcionando a esses turistas opções da cidade, uma área verde que destoa na paisagem para permanecerem algumas horas no município. urbana de Irati, um espaço de intenso uso pela É importante destacar que os valores obtidos comunidade local principalmente durante os finais nesta avaliação não são definitivos, podendo ser de semana de verão. Essa área poderia ser mais alterado ao longo do tempo por intervenções bem aproveitada, uma paisagem que hoje, devido planejadas para melhorar os índices de atratividade a problemas já citados anteriormente, encontra-se dos atrativos avaliados, podendo assim aumentar degradada, mas que com um bom plano de uso, seu potencial. Outra constatação a ser feita é o fato essa imagem poderia ser revertida. de que se há interesse de Irati desenvolver a prática Devido ao exposto anteriormente, o Parque do turismo em sua cidade, deve se valer de uma Aquático de Irati recebeu IA = 1,8 pontos. Mesmo organização regional, buscando em conjunto com os sendo um dos atrativos mais visitados do município, municípios vizinhos atrativos que aumentarem o fluxo seu mau uso e estado de conservação prejudicam a turístico regional, para que assim possa favorecer sua avaliação. Mesmo assim sua Hierarquia atinge de uma demanda que conheça os atrativos que se o valor II. encontram em seu centro urbano. Dessa forma, pode-se ver que os atrativos da cidade de Irati precisam de algumas melhorias, para 5 conclusão que possa aumentar sua pontuação na avaliação e em sua hierarquização. O quadro a seguir mostra O artigo ora apresentado teve como objetivo os atrativos da cidade de Irati e suas respectivas hierarquizar os atrativos da área urbana da pontuações. cidade de Irati/PR, mostrando sua potencialidade para o uso do turismo. Para tal, foram analisados Quadro 6 - Relação dos atrativos avaliados em 05 (cinco) atrativos, conforme apresentado na Irati/PR metodologia. Atrativo Nota Avaliação Hierarquização A Matriz de Avaliação e Hierarquização Colina Nossa Senhora da Luz 2,0 II Parque Aquático 1,8 II de Atrativos utilizada neste estudo foi a da SETU Igreja Imaculado Coração de Maria 1,8 II – Secretaria de Estado do Turismo (2005) que se Igreja São Miguel 1,5 I Casa da Cultura 1,25 I baseia em variáveis estritamente intrínsecas do Igreja Nossa Senhora da Luz 1,05 I atrativo. De acordo com os dados apresentadas, Fonte: FERNANDES, 2009. é possível verificar que os atrativos possuem Conforme pode ser observado pelo quadro potencial turístico, mas necessitam de melhor anterior os atrativos que se encontram na área estruturação. Para tal, é imprescindível que haja urbana de Irati possuem baixo índice de atratividade comprometimento e interesse do poder público 83
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    e maior participaçãoda iniciativa privada. Com explorarem a temática e desenvolverem diferentes atrativos bem estruturados, a cidade poderá atrair pesquisas relacionadas ao planejamento turístico uma demanda mais significativa, gerando maior no município. Estudos que valorizem elementos renda, postos de trabalho e desenvolvimento a como visitação, número de visitantes e como essa região. visitação ocorre, assim como se este atrativo faz Fica claro com a pesquisa que a capacidade parte de um roteiro turístico ou não seriam de igual de atração de fluxo de turistas dos atrativos importância para a atividade. São elementos que estudados na cidade de Irati possui sua influencia devem ser sim, observados e levados em conta no em abrangência local e regional, podendo ser planejamento turístico, uma vez que o atrativo é utilizado como um atrativo complementar em um dos componentes de um roteiro. As pesquisas roteiros nacionais se estes interessarem aos turistas turísticas são ferramentas para o conhecimento que passam pela BR – 277 ou visitam outros da realidade e auxiliam na tomada das decisões. atrativos na região. Elas dão suporte a um planejamento adequado Este trabalho não teve o intuito de cessar às destinações turísticas. Planejamento necessário o assunto e sim fomentar outros autores a para o desenvolvimento ordenado da atividade. Referências BARRETTO, M. Iniciação ao estudo do turismo. Campinas: Papirus, 1995. BISSOLI, M. Planejamento turístico municipal com suporte em sistemas de informação. São Paulo: Futura, 1999. BOULLÓN, R. C. Planejamento do espaço turístico. São Paulo: EDUSC, 2002. BRASIL, Ministério do Turismo. Projeto de inventário da oferta turística – Manual do pesquisador: Módulo C. Brasília, 2006. CRUZ, R. Políticas de turismo e território. São Paulo: Contexto, 2002 IGNARRA, L.R. Fundamentos do turismo. São Paulo: Cengage Learning, 1998. MAGALHÃES, C. F. Diretrizes para o turismo sustentável em municípios. São Paulo: Roca, 2002. MOLINA, S. Turismo: metodologia e planejamento. Bauru: EDUSC, 2005. PARANÁ. Orientações para gestão do turismo municipal. Secretaria de Estado do Turismo, 2005. PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI. Dados sobre os atrativos turísticos do município. Disponível em: http:// www.irati.pr.gov.br. Acesso em: 30 de outubro de 2009. PREFEITURA MUNICIPAL DE IRATI. Inventário turístico de Irati, 2002. PETROCCHI, M. Turismo: planejamento e gestão. São Paulo: Futura, 2002. RUSHMANN, D. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. Campinas: Papirus, 2004. ________. Turismo e planejamento sustentável: a proteção do meio ambiente. Campinas: Papirus, 1997. 84
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    Gestão da ResponsabilidadeSocial e o Perfil dos Gestores: análise das organizações de Blumenau - SC Social Responsibility Management and the Managers Profile: an analysis of Blumenau-SC organizations Marialva Tomio Dreher1 Danielle Regina Ullrich2 Resumo Os processos de Responsabilidade Social (RS) preconizam ações para a sustentabilidade das organizações, porém fundamentadas em estratégias que privilegiam a ética e as demandas socioambientais, que permeiam o processo produtivo e os relacionamentos entre os stakeholders. Pela complexidade desta temática, os gestores que conduzem a RS necessitam de capacitação e de poder de decisão contribuam com a efetivação das suas propostas. Assim, o objetivo deste artigo foi analisar o perfil dos gestores de RS das organizações de Blumenau (SC). Para tanto, utilizou-se o método da pesquisa qualitativa amparada pela técnica da metodologia exploratória, envolvendo uma população de dezesseis gestores de RS, que atuam em organizações de vários portes em diferentes setores da economia. Os resultados evidenciam que os atuais gestores são maioria mulheres com formação acadêmica na área humana, mas não específica em RS; não conduzem setor exclusivo de RS. Somente duas organizações têm certificações na área, demonstrando que, embora haja intenção, este processo é embrionário. Diante disso, como na maioria das organizações a RS ainda não é formalmente instituída, sejam pelas estratégias ou pelos instrumentos como as certificações, a legitimidade das ações de seus gestores fica comprometida pela falta de poder de decisão. Palavras-chave: Responsabilidade Social; Gestão Organizacional; Perfil Dos Gestores. Abstract The processes of Social Responsibility (RS) emphasize actions for the organization sustainability, however based on strategies that grant privilege to ethics and social-environmental demands that permeate the productive process and the relationships among the stakeholders. For the complexity of this theme, the managers that lead the RS process need training and decision-making that can contribute to their proposals effect. The objective of this article was to analyze the RS managers profile in Blumenau (Brazil) organizations. Thus, the qualitative research method supported by the technique of exploratory methodology, involving a population of sixteen RS managers that act in organizations of several loads in different economy sections. The results evidence that the current managers are majority women with academic formation in the human area, but no specific in RS; they don’t drive exclusive section of RS. Only two organizations have certifications in this area demonstrating that, 1 Professora titular da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil, do Programa de Pós-Graudação em Ciências Contábeis e Administração da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil, nível doutorado. Professora dos Programas de Pós-Graduação Em Ciências Contábeis e Pós-Graduação em Administração da Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil.Possui Doutorado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil, e mestrado em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGA/UFRGS, Brasil, nível pós-doutorado. Contato: marialva@furb.br 2 Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - PPGA/UFRGS, Brasil, nível doutorado. Possui o mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Regional de Blumenau - FURB, Brasil. Contato: danielle@ullrich.yahoo.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 08/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    although there isintention, this process is embryonic. Before that, as in most of the organizations RS still isn’t instituted formally, be for the strategies or for the instruments as the certifications, the legitimacy of their managers’ actions is committed for the lack of power of decision. Key words: Social Responsibility; Management; Profile Managers. Introdução provavelmente o processo não se consolidará prejudicando sua legitimidade. Para compreender A temática da Responsabilidade Social (RS) melhor essa problemática, este estudo pretende ganhou destaque principalmente no final do século atender ao objetivo de analisar o perfil dos XX, cenário no qual as organizações passaram a gestores de RS de dezesseis organizações de enfatizar com muito mais afinco as preocupações Blumenau (SC). sócio-ambientais. Começaram promover gestão A relevância deste estudo se dá no momento mais transparente e responsável, numa tentativa de em que apresenta uma reflexão que elucida a minimizar os impactos da atividade produtiva sobre preocupação em se pensar com muito cuidado na o ambiente e a sociedade. Todavia, a incorporação preparação das pessoas que atuam na RS. Esse da RS, quando adotada estrategicamente fato poderá contribuir com o sucesso da RS nas pelas organizações, exige mudança da cultura organizações e ainda minimizar problemas que organizacional, reestruturação da estrutura e gestores possam complicarem ainda mais o bem estar das capacitados. Essas exigências devem-se ao fato de pessoas que são assistidas pelos projetos de RS. que a RS, por ser complexa, abrange um processo Teoricamente, essa reflexão poderá servir como que precisa envolver várias atitudes, pessoas e outros um exemplo do atual cenário da gestão da RS nas recursos da organização. Essa transformação requer organizações, uma vez que tradicionalmente a visão um perfil de gestor que consiga conciliar a função dos gestores é focada somente na sua função. Capra de produção com questões sociais e ambientais (2002, p. 123) afirma que “A correspondente mudança implícitas nos processos organizacionais. do estilo de administração exige uma mudança de Esse período de adaptação compreende, percepção que é tudo, menos fácil. Porém, quando ao mesmo tempo, reorganização da estrutura acontece traz consigo grandes recompensas.” de cargos e funções legitimarem a RS como estratégia e ainda dão conta desse novo desafio, Responsabilidade social especialmente com a criação de espaços abertos a participação e envolvimento dos stakeholders. A No século XX, as organizações enfrentaram RS movimenta adaptações no modo de administrar desafios, ligados a alguns fatores como existência os relacionamentos interpessoais, uma vez que, de uma demanda crescente, num mercado menos é fundamentada em decisões éticas. No entanto, competitivo; necessidade de melhorias e ajustes em muitas organizações, essa movimentação nos processos produtivos; maior orientação para limita-se, especialmente, no seu estágio de o mercado, entre outros. Esses desafios tornam- concepção e consolidação, na aceitação e na se uma motivação na busca pela sobrevivência da adesão das pessoas que atuam na organização. organização, entretanto, em muitos casos, ainda se Isto no seu estágio embrionário, por exemplo, apresentam desarticulados de considerações sobre torna-se um processo lento e com resultados nem outros agentes e recursos que devem continuar sempre mensuráveis. Por isso, em alguns casos, existindo para que essa sobrevivência seja possível. essa falta de visualização de resultados dificulta Competentes em responder às ameaças intrínsecas o desenvolvimento desse processo. Desse modo, ao seu ambiente operacional, no que diz respeito à se o gestor de RS e sua equipe, não estiverem produção e à comercialização de bens e serviços, capacitados para lidar com esse contexto, as empresas têm-se mostrado negligentes quanto 86
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    aos fatores quedão sustentação a esse mesmo Analisando as correntes de discussão teórica ambiente. Historicamente, isto é percebido pelas sobre o termo, percebe-se a sua abrangência, e inexpressivas conquistas em termos de qualidade por isso, esse pode ter diversas interpretações. Para de vida da maioria dos trabalhadores, pela alguns, remete a idéia de responsabilidade legal ou exploração irresponsável dos recursos naturais, pelo responsabilidade civil, enquanto que, para outros, descompromisso com qualquer grupo de interesse significa o comportamento socialmente responsável, que não seja o dos acionistas (VERGARA; BRANCO, num sentido ético. E ainda, pode remeter a idéia de 2001). que é a “responsabilidade para”, em seu modo causal. É então, que a RS passa a ser destaque nas Pode-se equiparar a esse conceito com contribuições discussões empresariais. Já na década de 50, Bowen filantrópicas; comparar com algum significado de (1957) relacionava as ações de responsabilidade consciência social. Para muitas pessoas, que adotam social, com imposições da Igreja Protestante, segundo esse conceito, este é sinônimo de legitimidade, no a qual, a igreja e os cristãos, individualmente, têm contexto de “pertencentes”; poucos veem como o dever de trabalhar por uma ordem social melhor. uma espécie de dever fiduciário, que impõe padrões Isso abrange a obrigação de manter-se a par mais elevados de comportamento ao empresário, dos assuntos sociais, e de participar e trabalhar, do que sobre os cidadãos em geral. Inclusive os ativamente, em organizações, partidos e movimentos antônimos, irresponsável ou não-responsável, são que estejam tentando aperfeiçoar as instituições sujeitos de múltiplas interpretações (VOTAW, 1973 sociais. Os pensadores protestantes afirmavam que, apud PRESTON, 1975). a propriedade não é um direito absoluto ou inerente Pode-se considerar que a responsabilidade e, só pode ser justificada, enquanto o bem-estar da social, em seu amplo sentido, abrange os atos dos comunidade estiver sendo atendido pela posse e indivíduos e suas formas de organização, porque administração dos bens materiais, por particulares. tem em sua concepção intrínseca, um dever ético Os que possuíam propriedade deveriam usá-las e dos sujeitos. Porém, quando essa concepção de administrá-las, visando às necessidades de toda a responsabilidade social passa a ser incorporada sociedade. Sob o ponto de vista moral, o dono de pelas organizações privadas ou empresas, surge a determinada propriedade é responsável perante responsabilidade social empresarial (RSE) ou, também Deus e a sociedade. denominada, responsabilidade social corporativa A partir desses postulados, determinados (RSC). Conforme Kraemer (2005), a concepção pela Igreja Protestante, nos Estados Unidos, novos de responsabilidade social pelas empresas vem questionamentos e inquietações surgiram. Ressalta- sendo bastante difundida, principalmente, porque se, segundo Preston (1975), que a partir dos trabalhos as empresas passam a enfrentar desafios impostos desenvolvidos por Bowen, surgiram três correntes pelas exigências dos consumidores, pela pressão de que fundamentaram o papel das organizações de grupos da sociedade organizada e por legislações interesse privado, na sociedade: a institucionalista, a e regras comerciais, que demandam proteção organizacional e a filosófica. Para os institucionalistas, ambiental, produtos mais seguros e menos nocivos as organizações privadas se relacionavam com à natureza, e o cumprimento de normas éticas e o universo social mais amplo. Para os teóricos trabalhistas em todos os locais de produção e em organizacionais, as estratégias organizacionais toda a cadeia produtiva. são como ferramentas que permitem a adaptação Félix (2003) afirma que, a mudança de da organização às mudanças ambientais. E os comportamento, por parte das organizações de filosóficos, baseiam-se em concepções teóricas da interesse privado, se deu por um conjunto de responsabilidade social, que defendem posições fatores históricos, que correlacionados e paralelos, de cunho neoliberal, filantrópicas, e de maior contribuíram para atitudes de responsabilidade comprometimento com as questões sociais. social dessas organizações. Em primeiro lugar, a 87
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    globalização, caracterizada porum processo de prudência gerencial). O princípio da legitimidade encurtamento das distâncias, imprimiu um aumento refere-se ao poder e legitimidade que a sociedade do fluxo do comércio internacional e das atividades confere à organização e seus negócios; o princípio da financeiras, o que fortaleceu as organizações não- responsabilidade pública expõe que as organizações estatais. Essa mudança fez com que o Estado perdesse são responsáveis pelos resultados gerados na sua o controle dos processos e, passasse a se concentrar relação com a sociedade; o princípio da prudência na garantia da estabilidade econômica interna, em gerencial expõe que os gestores são agentes morais, detrimento das políticas públicas de caráter social. obrigados a serem prudentes nos negócios, a fim Se por um lado, o Estado deixa sua posição de de obter resultados responsáveis. Baseado nesses propiciador do bem-estar e realizador de políticas princípios, é possível avaliar a RS nos processos de cunho social, por outro lado, as organizações organizacionais como: diagnóstico ambiental, a de interesse privado percebem que são, em parte, gestão da relação com os stakeholders e a gestão responsáveis pela situação de exclusão e injustiça de questões sociais (WOOD, 1991). social. A globalização, portanto, na medida em Sethi (1975), já tinha observado, ná que influencia na evolução das tecnologias de década de 70, que as ações empresariais podem informação, influi na conduta dessas organizações, ser consideradas socialmente responsáveis, sob já que seus atos passam a ser cada vez mais públicos, um conjunto de circunstâncias em uma cultura, e o que demanda um cuidado maior com a imagem socialmente irresponsável, em outro tempo, sob transmitida para a sociedade. diferentes circunstâncias. Por isso, a legitimidade é Nesse sentido, o Instituto Ethos (2008) em o melhor indicador de avaliação de desempenho uma conceituação contemporânea, afirma que, a social das organizações. Assim, o comportamento RSE está relacionada com a ética e a transparência de qualquer organização pode ser classificado como na gestão dos negócios, e deve refletir-se nas imbuído de obrigação social, responsabilidade social decisões cotidianas, que podem causar impactos ou responsividade social. A obrigação social refere- na sociedade, no meio ambiente, e no futuro dos se ao comportamento organizacional, em resposta próprios negócios. Dizem respeito à maneira como à pressão do mercado ou às restrições legais; a as empresas realizam seus negócios, os critérios que responsabilidade social é definida como a atitude da utilizam na tomada de decisões, e suas prioridades organização, não vinculada às obrigações legais, e relacionamento com os públicos que interagem. que a obriga a ser flexível nas atuações sociais; e A idéia básica da RSE é que a empresa por último, a responsividade social é o papel que a e a sociedade estão entrelaçadas, ao invés de organização deve desempenhar, no longo prazo, num estarem separadas, portanto, a sociedade possui contexto social dinâmico. Ou seja, as organizações expectativas sobre o comportamento empresarial devem iniciar políticas e programas que minimizem e seus resultados. Entretanto, existem alguns os efeitos adversos de suas atividades presentes princípios específicos nessa relação gerados em e futuras. Destarte, Wood (1991) afirma que, a relação às expectativas: a expectativa depositada responsividade, num posicionamento proativo, em todas as organizações, devido ao seu papel está no fato de ouvir e integrar os stakeholders no enquanto instituições econômicas; a expectativa processo de tomada de decisão das organizações. depositada nas organizações sobre o que elas são Assim, as organizações são também desafiadas e o que elas fazem; e as expectativas depositadas a se engajarem em uma ampla interação e diálogo nos gestores como atores morais das empresas. com os stakeholders externos, atentando para as Essas expectativas geram três níveis de análises ofertas atuais (responsabilidade por produto), bem distintas em relação a RSE: institucional (princípio como para o modo como poderiam desenvolver da legitimidade), organizacional (princípio da soluções economicamente interessantes para os responsabilidade pública) e individual (princípio da problemas sociais e ambientais do futuro (visão de 88
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    sustentabilidade). A maioriafoca seu tempo e sua constante com os outros, a fim de construir um atenção apenas nas soluções presas aos produtos espaço que lhes permita afirmar seus projetos. existentes e em grupos de stakeholders. As empresas Eis a dificuldade para a organização: manter seu européias, por exemplo, vêm sendo particularmente próprio projeto (ou pelo menos o essencial deste) proativas a esse respeito, buscando ativamente e ser capaz, ao mesmo tempo, de estabelecer estratégias que permitam o diálogo com os laços de cumplicidade e de conivência com stakeholders. Uma inclusão criativa desses interesses organizações com as quais não está forçosamente pode estimular uma posição diferenciada para a de acordo, ou ainda relações de competitividade organização, levando a um aumento de reputação e concorrência com outras, sem com isso angariar e a uma legitimidade cruciais para a preservação inimigos empenhados em destruí-la. Em todo e o crescimento do valor ao acionista e relação caso, é necessário que o projeto específico que com a sociedade. Ao engajar construtivamente a organização defende possa se inserir (ou pelo os stakeholders, as empresas elevam a confiança menos participar) num projeto coletivo que tenha externa em suas intenções e atividades, ajudando os mesmos objetivos gerais e o ultrapasse, sem, a otimizar a reputação corporativa e a catalisar a contudo, desnaturá-lo (ENRIQUEZ, 1996). disseminação de novas outras práticas dentro do Desse modo, Carroll (1991) ressalta sistema de negócios como um todo (HART; MILSTEIN, que, as responsabilidades éticas abrangem os 2004). padrões, as normas, as expectativas ou, refletem Para alguns gestores, a responsabilidade social uma preocupação daquilo que os consumidores, é uma missão moral; para outros, uma exigência empregados, acionistas e a comunidade consideram legal. Ainda para alguns outros, é entendida como justo, de acordo com o respeito e defesa dos um custo inerente ao fato de se fazer negócios – um direitos morais. Elas podem ser vistas como os mal necessário para se manter a legitimidade e o valores e normas que a sociedade espera que as direito da organização funcionar. Friedman (1988), empresas reúnam, apesar de, tais valores e normas crítico da responsabilidade social, argumenta refletirem um maior nível de desempenho, do que que os assuntos sociais não competem ao setor o atualmente exigido por lei. Por isso, muitas vezes, privado, e esse problema pode ser resolvido com o as responsabilidades éticas são mal definidas e funcionamento do sistema de livre comércio. Desse não se entende sua legitimidade, o que dificulta a modo, administrar é lucrar tanto quanto possível de compreensão por parte das empresas. Entretanto, acordo com as regras básicas da sociedade, em há outras dimensões que compreendem a RS: que a lei e o costume ético já estão incorporados. econômica, jurídica, e filantrópica. No entanto, as empresas consideradas éticas Essas dimensões constituem o cenário são geralmente aquelas cuja conduta é socialmente organizacional da RS, assim sendo, o exercício valorizada e cujas políticas se reconhecem da gestão requer uma orientação ética e um sintonizadas com a moral vigente, subordinando comportamento orientado em valores, por parte as suas atividades e estratégias a uma reflexão dos seus gestoresa observância mínima da ética ética prévia e agindo posteriormente de forma é indispensável para segurança e integridade dos socialmente responsável (ALMEIDA, 2007). Uma indivíduos nos momentos de situações conflitantes. organização nunca está sozinha num lugar. Ela Conforme Ramos (1983, p.44), “A ética da estabelece, necessariamente, relações com outras responsabilidade é ingrediente de toda ação organizações e pessoas, quer em redes de aliança, administrativa. É o seu conteúdo subjetivo por quer em redes de rejeição. Essas relações são às excelência, os que adotam em todos os níveis de vezes extremamente complexas e evoluem com o autoridade, chefe e subordinados, por definição tempo. De toda forma, um elemento central estrutura tácita ou explicitamente, se acham sob o vínculo de a vida dessas organizações, que é a negociação um compromisso.” 89
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    Gestores da responsabilidadesocial efetivamente constituir, ainda que parcialmente, um reflexo da maturidade moral dos seus dirigentes. A administração é palavra que se aplica a Todavia, o gestor ou dirigente depende da muitos aspectos, coisas, assuntos tão diversos, dinamicidade da organização. Enriquez (1996), tão heterogêneos, que é impossível evitar certa afirma que as organizações mais dinâmicas são ambiguidade e imprecisão em seu emprego. É aquelas que, como, sabem conciliar eficácia pertinente, portanto, iniciar a sua elaboração e prazer, trabalho assíduo e convivência, e esperar que, não se interrompa o esforço de racionalidade e imaginário, ética e estética. Uma compreensão, cujo êxito, obviamente, depende organização dinâmica é um agente de mudança da contribuição de muitos (RAMOS, 1983). Neste da cultura local, um ator que dá como exemplo a estudo, fez um recorte teórico com alguns autores, sua própria solidariedade interna, que promove os mas entende-se que vários outros olhares podem valores democráticos e que cria em seu seio uma ser valorizados na definição do termo “administrar”, cultura viva. E uma cultura só é viva se permite a inclusive utilizando a expressão “gerenciar” no seus membros realizar seu potencial (ou pelo menos mesmo sentido, desconsiderando-se posições parte deste), desenvolver seu imaginário motor hierárquicas, mas sim, centralizando-se na ação da e sua atividade simbólica, e não ser esmagado prática de administrar ou gerenciar. pelo projeto coletivo, mesmo que sua adesão Diante dessa complexidade, entende- seja profunda. Ramos (1983) salienta que o fato se que os gestores necessitam de habilidades administrativo está em permanente atualização, intelectuais, humanas e técnicas nas suas ações por força do desempenho consciente e ininterrupto e decisões que impactam diretamente nos seus dos agentes que constituem dele elemento capital. desempenhos e nas suas orientações. Administrar, Sem a atividade dos agentes, só restam do fato segundo Drucker (2002, p. 96) “[...] significa a administrativo elementos materiais e estatutos substituição da obediência hierárquica pelo senso mortos. de responsabilidade, e da autoridade de poder pela Nesse contexto, a decisão ética de um autoridade de desempenho.” Independentemente mesmo indivíduo pode ser diferente, consoante do nível do cargo, os gestores assumem o contexto específico que envolva essa decisão responsabilidades que estarão sujeitas à cooperação variando, por exemplo, de acordo com a posição e à aceitação dos demais envolvidos nas tarefas, que o indivíduo ocupa na empresa ou com a decorre disso a necessidade de confiança, que antecipação subjetiva que ele faça da reação pública geralmente é materializada pelas decisões éticas à sua decisão (ALMEIDA, 2007). Corroborando, (DREHER, 2004). Ramos (1983) afirma que as atividades humanas Por isso, a elevação de expectativas em relação “limitadas e orientadas”, tendo em vista objetivos ao desempenho social das organizações exige uma sistematicamente estabelecidos, toca no âmago nova postura quanto ao modo de gerenciar uma da natureza do fato administrativo e da ação de organização. Para Almeida (2007), a visão moral que resulta. Administração é a “ação social com do mundo de um dirigente é referencial importante relação a fins”, com limites e orientação, visto que para compreender algumas das suas decisões e seleciona e combina meios para atingir objetivos. das suas escolhas entre opções alternativas. Dessa Desse modo, o desempenho administrativo refere- forma, assumindo a ligação entre valores morais se a atividades humanas associadas. Naturalmente, e comportamento, pode estabelecer-se uma é preciso advertir que o caráter associado de tais relação entre o nível de desenvolvimento moral atividades necessariamente precisa ser explícito. de um dirigente e a orientação social das práticas A associação confere a devida importância aos organizacionais que ele define e influencia. A gestão elementos estruturais, aos fatores que suscitam a ética e o desempenho social das organizações pode formação de grupos informais e de critérios tácitos 90
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    ou não estatutáriosentre os indivíduos que integram nível de realidade que não pode ser quantificado, a organização. pois trabalha com um universo de significados, Muitas das tarefas do gestor envolvem motivos, aspirações, valores. condutas diferenciadas, entre elas a gestão da Na parte técnica metodológica, utilizar-se-á: responsabilidade social (RS), foco deste estudo. pesquisa exploratória. A pesquisa exploratória Esse gestor precisa considerar não só a estrutura permite ao pesquisador aumentar sua experiência interna da administração, mas também as relações em torno de determinado problema. O pesquisador, da organização com as outras esferas da vida normalmente, parte de uma hipótese e aprofunda social. Isso porque, segundo Capra (2002), as seu estudo em uma realidade específica, buscando organizações são um sistema que interagem com um maior conhecimento acerca da temática outros sistemas do ambiente social e seus fenômenos, (TRIVINÕS, 1987). como regras de comportamento, valores, intenções, A população pesquisada compreende os objetivos, estratégias, projetos, relações de poder. atores e organizações que atuam no Núcleo RS/ Por um lado são instituições sociais criadas com ACIB, sendo que participaram desta pesquisa 16 objetivos específicos, como gerar lucro para os gestores. Para tanto, utilizou-se como instrumento acionistas, administrar a distribuição do poder de coleta de dados o formulário de entrevista semi- político, transmitir conhecimento ou dissiminar uma estruturada. Segundo Minayo (1994), a entrevista é fé religiosa. Ao mesmo tempo, as organizações são o procedimento mais usual na pesquisa de campo, comunidades de pessoas que interagem umas com e não significa uma conversa despretensiosa. É um as outras para construir relacionamentos, ajudar-se meio de coleta de dados dos fatos relatados pelos mutuamente e tornar significativas suas atividades atores, enquanto sujeitos-objeto da pesquisa que num plano pessoal. Para conseguir administrar uma vivenciam a realidade que está sendo analisada. organização, os gestores precisam saber de modo Ressalta-se que, através das técnicas ou instrumentos suficientemente detalhado como a organização de coletas de dados, seja possível responder aos funciona, posto que os processos e padrões podem questionamentos desta pesquisa. ser muito complexos. Para tanto, os administradores Após o levantamento dos dados, eles foram precisam lidar com algumas metáforas: a organizados de maneira coerente, de forma que organização como uma máquina (voltada para fosse possível responder o problema de pesquisa. o controle e para a eficiência), como organismo Posteriormente foi realizada uma análise qualitativa (desenvolvimento, adaptação), como cérebro em torno deles, indicando os resultados mais (aprendizagem organizativa), como cultura (valores, significativos, que foram apresentados aos gestores crenças) e como sistema de governo (conflitos de do Núcleo RS/ACIB em uma das reuniões. interesse, poder). Análise dos resultados Metodologia Os resultados evidenciam os dados das Como método de pesquisa, optou-se pelo entrevistas aplicadas aos atuais gestores de RS de 16 Qualitativo, visto que se refere a aspectos da realidade organizações, que foram escolhidas intencionalmente social, num recorte sobre o perfil dos gestores da pelo fato de desenvolverem algumas ações responsabilidade social, envolvendo os atores, reconhecidas como de responsabilidade social suas motivações e percepções sobre a atuação das (RS) no município de Blumenau em Santa Catarina organizações às quais pertencem. Muitas respostas (SC). Esse reconhecimento deu-se por meio da foram baseadas no sentimento desses, trazendo participação no Núcleo de Responsabilidade Social certa subjetividade aos dados coletados. Segundo da Associação Comercial e Industrial de Blumenau Minayo (1994), a pesquisa qualitativa responde a (Núcleo RS/ACIB) único movimento coletivo que questões muito particulares, e se preocupa com um fomenta a RS no município. Com relação ao perfil das 91
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    organizações nucleadas, osportes variam de grande que poucas organizações buscam adequar-se às (12 organizações), médio porte (1 organização), normas de RS. Na maioria delas, as ações realizadas pequeno porte (1 organização) e micro empresa (2 não passam por nenhum tipo de acompanhamento, organizações). Salienta-se que destas, 1 é pública, de critérios, ou normas. Implantar uma certificação 10 são privadas e 5 são do terceiro setor. Os setores exige mudanças que afetam a estrutura de atuação são diversos entre eles: 05 na área de organizacional como um todo. A maioria (93,75%) serviços, 02 na de saúde, 06 na área têxtil, 01 na dos entrevistados afirmou que a RS não é assumida alimentícia, 01 metal-mecânica e 01 na área gráfica. formalmente como um setor sendo distribuída em Com relação ao desenvolvimento da RS por ações em vários departamentos, somente uma essas organizações, evidenciam-se os projetos de (6,25%) assumem a RS em sua estrutura, através da responsabilidade social que contemplam o público criação de um departamento específico. A justificativa interno e externo. Dentre os programas sociais e dos entrevistados, quanto a esse quadro alarmante, ambientais, encontram-se: iniciativas voltadas para deve-se ao fato das organizações acreditarem que prevenção e diagnóstico de doenças; ambulatório todos os setores precisam envolver-se com a RS. universitário; atendimento jurídico para a Esse fato, mesmo sendo relativo à abrangência da comunidade; festas comemorativas (Natal, Páscoa, RS, não justifica a falta de compromisso formal com Junina, etc.); projetos que estimulam o voluntariado este processo. nos colaboradores; programas de treinamento e Outro fator complicador é o baixo desenvolvimento para os colaboradores; segurança envolvimento de colaboradores que atuam na dos colaboradores; ginástica laboral; festas e bailes RS, dos entrevistados 43,75% afirmaram que a beneficentes; sistemas de captação de dejetos; condução dos projetos de RS envolve de 1 a 5 sistema de separação do lixo; sistema de tratamento colaboradores. Apenas 18,75% ressaltam que há da água utilizada no processo industrial; projetos envolvimento de mais de 10 colaboradores e os voltados para educação (Aluno Nota 10, Formare, demais (37,5%) não souberam informar o número Junior Achievement); projetos voltados aos idosos específico de colaboradores envolvidos com a RS. (cuidadores de idosos, cursos, palestras, viagens); Essa falta de conhecimento comprova novamente cursos de desenvolvimento profissional para a a falta de compromisso da organização para com comunidade; pacto contra a corrupção; pacto em a RS. defesa dos direitos humanos; apoio para atletas; Quanto ao perfil dos gestores entrevistados campanha contra o câncer de mama; ações (Quadro 1), a maioria são mulheres (93,75%) ambientais em geral (limpeza de rios); dentre apenas um (6,25%) são homens, a idade é bastante outros. As áreas de atuação são diversas, referem- variada numa concentração (81,25%) de 25 a 40 se ao desenvolvimento de projetos e programas de anos, mas com gestores (18,75%) acima de 40 anos. responsabilidade social, contemplando aspectos Com relação ao setor de atuação, observa-se que econômicos, sociais e ambientais. Todavia, ainda na organização esses se encontram em proporção percebe-se um maior direcionamento dos projetos similar de 25% na área de Recursos Humanos, e programas para o público interno, característica Marketing e Administração. Além desses, em menor de organizações que estão em fase inicial do número, mas também em proporção similar (6,25%) processo de RS. Geralmente no início a intenção atuam na área financeira e de projetos, e 6,25% é disseminar junto aos colaboradores as propostas atuam com consultoria prestando serviços externos dessa estratégia, para, posteriormente, atingir o de RS. Verifica-se que os gestores estão distribuídos público externo. em áreas distintas. Apenas um (6,25%) dos Destaca-se ainda que dessas organizações entrevistados afirma atuar na área específica de RS. apenas duas possuem certificações de RS, seguindo E ainda um (6,25%) não possuem setor específico de as normas SA 8000 e NBR 16001. Isso demonstra atuação na organização. Este resultado demonstra 92
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    Quadro 1 -Perfil dos Gestores de RS Tempo que atua Motivação para Organizações Sexo Formação Setor Cargo na RS participar da RS Interesse da organização A Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos RS Coordenadora RS implantar e regularizar a RS Interesse da organização B Feminino Comunicação Social De 1 a 7 anos Marketing Assessora implantar e regularizar a RS Criação de grupos C Feminino Administração Mais de 7 anos Marketing Não informou de ações sociais Preenchendo D Feminino Administração De 1 a 7 anos questionário sobre Recursos Humanos Gerente RS Interesse da organização E Feminino Administração De 1 a 7 anos Recursos Humanos Assessora implantar e regularizar a RS Interesse da organização Não possui setor F Feminino Ciências Sociais De 1 a 7 anos Não informou implantar e específico regularizar a RS Criação de grupos G Feminino Comunicação Social De 1 a 7 anos Marketing Assessora de ações sociais Iniciou numa H Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos organização do setor Recursos Humanos Assistente Social privado Práticas individuais e I Masculino Contabilidade De 1 a 7 anos Administração Proprietário doações Criação de J Feminino Serviço Social Mais de 7 anos projetos sociais nas Marketing Gerente organizações Criação de K Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos projetos sociais nas Consultoria Consultor organizações Por indicação da Financeira e de L Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos Assessora organização projetos Interesse da organização M Feminino Pedagogia Mais de 7 anos Recursos Humanos Gerente implantar e regularizar a RS Criação de N Feminino Não informou De 1 a 7 anos projetos sociais nas Administração Gerente organizações Práticas individuais e O Feminino Ciências Sociais Mais de 7 anos Administração Proprietário doações Criação de P Feminino Serviço Social De 1 a 7 anos projetos sociais nas Administração Proprietário organizações Fonte: da pesquisa. que as organizações ainda não incorporaram a Já, com referência aos cargos ocupados RS como uma estratégia organizacional, visto que pelos entrevistados, os assessores representam não existem setores específicos de RS e, na maioria 25%; 18,75% são proprietários; 25% são gerentes; das organizações, os gestores estão alocados em em igual quantidade (6,25%) estão os consultores, setores que acumulam funções de RS a outras assistente social e coordenador de RS (único com funções administrativas da organização, dentre elas cargo específico de RS) e 12,5% não responderam Recursos Humanos e Marketing. essa questão. De tal modo, somente uma das 93
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    organizações tem umcargo de RS, a maioria ao pouco tempo em que desempenham atividades das organizações ainda não apresenta essa ligadas a esse processo. Constata-se que em menor preocupação evidenciando que os gestores da RS proporção (25%) os entrevistados atuam há mais de acumulam funções, não tendo tempo suficiente para 7 anos com RS. Neste caso, os gestores já estão priorizar as ações e os projetos de RS. Observa-se mais capacitados para o desenvolvimento da RS que, não havendo setor e nem gerência específica, nas organizações em que atuam, bem como estão a RS fica comprometida pela ausência de comando familiarizados com o tema da RS e suas propostas. e, portanto, organização. Encontraram-se apenas Diante desse quadro, é fundamental que as gestores que assumiram a RS como mais uma organizações revejam a gestão da RS, iniciando atividade no seu escopo de atuação. A ação dessas pela capacitação e treinamento dos seus gestores. pessoas pode ser um resultado das iniciativas O maior desafio é que, não há uma cultura nas pessoais, especialmente devido ao fato de que a organizações em que a responsabilidade social seja maioria (68,75%) possui formação na área humana e prioritária, como dito, está nas mãos dos gestores social, demonstrando conhecimento e envolvimento de RS, que muitas vezes estão iniciando sua atuação com o tema da questão social. Dos entrevistados nessa área, ao mesmo tempo em que iniciam a 25% não possuem formação específica na área implantação da RS na organização. Significa que o social. Um deles (6,25%) não informou. Acredita- processo de implantação ainda é muito novo, cheio se que a concentração de formação na área social de desafios e dúvidas. pode ser um aspecto que motivou o início do Salienta-se que os gestores precisam saber desenvolvimento da RS nas organizações. detalhadamente como uma organização funciona O início da atuação dos gestores entrevistados para conseguir geri-la (CAPRA, 2002). Da mesma no processo de RS, em sua maioria (31,25%) está forma, os gestores precisam compreender os relacionado com a necessidade da organização em processos e ações que envolvem a responsabilidade que trabalham implantar e regularizar o processo social e sua influência na gestão da organização, de RS; mais especificamente, 25% iniciaram sua posto a complexidade de tal processo. A adoção atuação com a criação de projetos sociais nas da RS como um processo pelas organizações, organizações; 12,5% quando começaram a implica uma mudança cultural e gerencial. trabalhar em uma organização do setor privado, que Destaca-se a importância de todos na organização desenvolvia a RS; 6,25% quando responderam um estarem envolvidos com a RS. Por isso, uma questionário sobre RS e se interessaram pelo tema; reformulação da estrutura organizacional, através 12,5% através da criação de grupos que atuam em da criação de setores e de cargos específicos ações sociais; e, 12,5% com práticas individuais de RS, pode auxiliar no desenvolvimento desse e doações, indicando, portanto, que não havia processo, principalmente em seu estágio inicial. envolvimento entre estas práticas e sua atuação na Trata-se de uma questão de “organização”, ou organização. Percebe-se, portanto, que na maioria seja, de estruturar e preparar a organização para dos casos, o início da atuação dos gestores na área o desenvolvimento e gestão da RS. Entende- de RS esteve envolvido, de alguma forma, com as se que a falta de uma estrutura adequada para atividades da organização em que esses trabalham. o desenvolvimento da RS dificulta a atuação e Poucos, entretanto, tiveram motivações pessoais demonstra a falta de poder dos próprios gestores. para iniciar o trabalho nessa área. Isso porque, a RS ainda não é considerada Todavia, o tempo de atuação na área de RS, questão primordial nas organizações. Privilegia-se por parte dos gestores, ainda é recente. A maioria dos ainda o desenvolvimento de estruturas enxutas e entrevistados (75%) atua com RS de 1 à 7 anos. Desse que maximizem o lucro organizacional. A criação modo, compreende-se que a atuação dos gestores de um departamento de RS, muitas vezes, não é com RS ainda encontra-se em estágio inicial, devido interessante, pois não é um departamento que 94
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    irá agregar diretamenteno lucro da organização, Conclusão visto que não está envolvido com seu objetivo inicial. Como em qualquer processo de mudança As mudanças só irão ocorrer quando os gestores organizacional, a RS também necessita de gestores dessa área tiverem poder suficiente para alterar as capacitados para tal, uma vez que pela sua estruturas organizacionais. Entretanto, conforme os complexidade exige a participação e controle de dados expostos, a maioria dos gestores entrevistados, muitas pessoas que se envolvem nesse processo. não possui poder de decisão, pois não ocupam A RS promove a participação social numa tentativa cargos estratégicos nas organizações. Poucos são os de humanizar a organização, por isso, está fundamentada em comportamentos éticos e morais proprietários e diretores que se envolvem com esse tipo que exigem postura da gestão. Um fator de risco é de questão. Por isso, entende-se que o caminho ainda sua legitimidade que decorre de um processo de é longo, visto que a RS precisa ser compreendida como gestão garantam a confiança dos envolvidos. uma estratégia, articulada e suportada pelas decisões Com relação ao objeto deste estudo, dos gestores do nível estratégico das organizações. pode-se afirmar que o perfil dos entrevistados Enquanto for tratada a nível tático e operacional, as é propício para encarar esse desafio, com mudanças culturais não ocorrerão, justamente pela destaque para a formação na área humana da falta de poder nas decisões. maioria, entretanto, esses mesmos gestores ainda Além da reestruturação da organização, não são capacitados, especificamente, na área outro aspecto é a capacitação dos gestores. Por de responsabilidade social, isso pode afetar o ser uma área relativamente nova, no contexto desempenho da gestão. A RS é um processo de organizacional, ainda faltam profissionais gestão que indica investimentos em todas as áreas capacitados em RS. Especialmente, ainda falta de uma organização e já existem na sociedade e no formação nessa área, sendo que muitos cursos mercado experiências em modelos consolidados de graduação ainda não preconizam esse tipo que podem favorecer sua gestão. Adverte-se que de discussão no currículo. Para tanto, torna- os modelos, certificações, entre outros servem de se necessário o desenvolvimento de cursos de apoio, para evitar riscos, contudo precisam ser capacitação para gestores, que discutam a temática adaptados a cada realidade e exigem discussão da RS e sua aplicação nas organizações. Além da coletiva para serem ajustados. Outro fator formação, o tempo de atuação dos gestores na fundamental na formação e atuação específica área de RS, ainda é muito recente, denotando falta deve-se ao fator comprometimento e foco de de maturidade e conhecimento do processo. trabalho, fortalecendo o engajamento da equipe Ressalta-se que as organizações possuem limites e dos assistidos. Esse é um empecilho no atual em sua atuação na área social, e o principal deles é o estágio embrionário em que se encontra a RS nas econômico; nos investimentos, ainda preconizam sua organizações estudadas. Os gestores, atualmente, cultura de geração de lucro econômico. No entanto, não contam com um sistema de gestão, composto as práticas socialmente responsáveis iniciam com a por dados do desempenho social da organização, intenção de contribuir com o bem-estar dos sujeitos, diminuindo dessa maneira seu poder de decisão. e isso pode partir de simples atitudes como, por Além disso, a maioria dos gestores exemplo, respeito, oferecer um adequado ambiente entrevistados não são os proprietários, diretores das de trabalho, boa relação entre as pessoas, segurança, organizações, normalmente são colaboradores que dignidade, aceitação das diferenças, participação, acumulam a função de gerir a RS e também outras entre outros. O amadurecimento dessas práticas funções na organização, como marketing ou recursos pelas organizações pode gerar uma nova cultura humanos. Aliado a isso, a maioria são gestoras do organizacional, em que a RS seja conduzida de forma sexo feminino, demonstrando que a atuação social estratégica. continua na visão tradicional em que as mulheres 95
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    eram as responsáveispelas preocupações relativas uma visão aliada as responsabilidades social e ao bem-estar. Este não é um fator negativo, mas ambiental podem aproximar ao que preconiza evidencia a falta de envolvimento dos gestores a gestão social. Isto é um desafio ao gestor da masculinos que ainda são a maioria nos cargos RS que necessita conduzir a função social como estratégicos (presidência e direção) nas organizações incorporada às práticas sociais. Desse modo, devido estudadas. à complexidade do tema, são necessárias outras Por fim, entende-se que a responsabilidade leituras que possam complementar esta discussão, social conduz a discussão na definição de estratégias por exemplo, novas pesquisas que investiguem organizacionais. Por isso, a união da gestão adequada o desempenho da responsabilidade social e sua (manutenção mercadológica e econômica) com contribuição nas organizações e na sociedade. Referências ALMEIDA, F. J. R. Ética e Desempenho Social das organizações: um Modelo Teórico de Análise dos Fatores Culturais e Contextuais. RAC. V. 11, n. 3, p. 105-125, Jul./Set. 2007. BOWEN, H. R. Responsabilidades sociais do homem de negócios com um comentário por F. Ernest Johnson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira SA, 1957. CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo: Cultrix, 2002. CARROLL, A. B. The pyramid of corporate social responsibility: toward the moral management of organizacional stakeholders. Business Horizons. V. 34, n. 4, p. 39-46, Jul./Aug. 1991. DREHER, M. T. Empreendedorismo e responsabilidade ambiental: uma abordagem em empreendimentos turísticos. 2004. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2004. DRUCKER, P F. O Melhor de Peter Drucker: o homem, a administração e a sociedade. São Paulo: . Nobel, 2002. ENRIQUEZ, E. Como estudar as organizações locais. In: FISCHER, T. Gestão contemporânea: cidades estratégicas e organizações locais. Rio de Janeiro: FGV, 1996. FÉLIX, L. F. F. O ciclo virtuoso do desenvolvimento responsável. IN: Responsabilidade social das empresas: a contribuição das universidades. São Paulo: Peirópolis, Instituto Ethos, 2003. FRIEDMAN, M. Capitalismo e liberdade. 3 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988. HART, S. L.; MILSTEIN, M. B. Criando valor sustentável. RAE Executivo. V. 3, n. 2, p. 65-79, maio/julho 2004. INSTITUTO ETHOS. Sobre o Instituto Ethos. Disponível em: <http://www.ethos.org.br>. Acesso em: 20 fev. 2008. KRAEMER, M. E. P Responsabilidade social corporativa: uma contribuição das empresas para o . desenvolvimento sustentável. Gestão Ambiental, Itajaí, out. 2005. Disponível em: <http://www. gestaoambiental.com.br/articles.php?id=66>. Acesso em: 19 abr. 2007. MINAYO, M. C. (org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. PRESTON, L. Corporation and society: the search for a paradigm. Journal of Economic Literature, p. 435-453, 1975. RAMOS, A. G. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2.ed. Rio de Janeiro: FVG, 1983. 96
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    Balanço Social: umaanálise comparativa entre objetivos propostos na literatura e a realidade empírica Social Balance: comparative analysis between goals proposed in the literature and empirical reality Diocesar Costa de Souza1 Marcos Roberto Kuhl2 Vicente Pacheco3 Resumo O relacionamento das empresas com o meio em que está inserida é cada vez mais discutido, em função principalmente da livre concorrência, do efeito globalização e do avanço tecnológico. A sociedade tem exigido cada vez mais informações sobre esse relacionamento, e a Contabilidade pode fornecer informações relevantes por meio do Balanço Social (BS). Os anos 60 e a Guerra do Vietnã foram marcos para a história do BS, que no Brasil passou a ser divulgado de forma mais consistente apenas a partir do final dos anos 90, com incentivo do sociólogo Betinho e, segundo o modelo do IBASE. O objetivo deste estudo é verificar quais informações relevantes podem ser extraídas do BS, segundo o modelo do IBASE, divulgado pelas empresas brasileiras e, principalmente, se a partir dessas informações o BS está conseguindo atingir os principais objetivos propostos na literatura. Os objetivos levantados na literatura, segundo os conceitos do BS, são demonstrar o resultado da interação da empresa com o meio, refletir o comprometimento com as necessidades básicas da população e suprir as necessidades de informações de caráter social e ecológico. Foram pesquisadas 69 empresas que apresentaram o BS, representando 21% das empresas que divulgam o BS segundo o modelo IBASE, no período selecionado. As informações extraídas dos BS podem ser consideradas interessantes, mas são pouco relevantes para cumprir os objetivos propostos pela literatura. Conclui-se que o modelo IBASE de BS necessita evoluir, contemplando mais informações para que seja possível atingir aos objetivos que a literatura determina para o BS. Palavras-chave: Balanço Social; Contabilidade Social; Informação Social. Abstract The relationship of companies with the environment in which it is inserted is increasingly discussed, primarily on the basis of free competition, the effect of globalization and the technological advancement. Society has demanded more and more information about this relationship, and Accounting can provide relevant information through the Social Balance (BS). The 1960s and the Vietnam War were landmarks in the history of Social Balance, which in Brazil was reported more consistently only from the middle of 1990, with encouragement from the sociologist Betinho and following the IBASE (Brazilian Institute of Social and Economic Analyses) model. The objective of this 1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui mestrado em Contabilidade pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: diocesarsouza@yahoo.com.br 2 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui mestrado em Contabilidade pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: marcosrobertokuhl@yahoo.com.br 3 Professor da Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil.Doutor em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil. Contato: vpacheco@ufpr.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 12/01/2010 - Aprovado em 07/05/2010
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    study is toascertain what relevant information can be extracted from the Social Balance, according to the IBASE model, issued by Brazilian companies, and especially if based on this information the Social Balance is getting to achieve the key objectives proposed in the literature. The objectives lifted in the literature, according to the concepts of the Social Balance, are to demonstrate the result of the company interaction with the environment, to reflect the commitment to the needs of the population and meet the information needs of social and ecological character. We searched 69 companies that presented the BS, representing 21% of the companies that reporting the Social Balance modeled IBASE the selected period. The information obtained from the Social Balance can be considered interesting, but is little relevant to meet the objectives proposed in the literature. It was concluded that the IBASE model Social Balance needs to evolve, addressing more information so that you can achieve the goals that the literature determines for the Social Balance. Key words: Social Balance; Social Accounting; Social Information. 1 introdução A responsabilidade social da empresa pode ser resumida como sendo a responsabilidade que O desenvolvimento tecnológico e a abertura ela tem para com o meio em que está inserida, do mercado têm contribuído substancialmente tanto social, como ambiental, ou seja, compreende para o acirramento da concorrência. Em função a integração entre a empresa e os elementos disso a população tem se conscientizado, unido e importantes para sua subsistência, sociedade passou a ter influência na condução da política e da e meio ambiente. Essa responsabilidade advém economia, não somente do governo, mas também do fato de que a empresa, enquanto sistema nas empresas que auferem lucros à custa de prejuízos aberto e dinâmico interage com o ambiente sociais e ambientais (RIBEIRO, 2005, p. 2). sendo influenciado por ele, mas principalmente Ultimamente é comum ver e ouvir nos meios de influenciando esse meio. comunicação fatos relacionados à responsabilidade A influência que a empresa exerce sobre das empresas com relação ao meio em que estão o meio pode apresentar caráter benéfico, como inseridas, principalmente quando relacionados aos a geração de emprego, renda, entre outros, mas aspectos sociais e ambientais. Segundo Oliveira também pode apresentar caráter maléfico, tal como (2005, p. 3), “Responsabilidade Social ou Sócio - a poluição, desmatamento, bolsões de pobreza, Ambiental de Empresas (RSE) é um tema recente, discriminação de gênero, raça e de idade, salários mas de crescente interesse na mídia, empresariado, baixos, dentre outros. academia, governo, e sociedade civil no Brasil”. A grande dificuldade é dimensionar a O indivíduo enquanto pessoa jurídica, é que responsabilidade social das empresas e identificar realmente pode ser responsabilizado, já que são as o que elas têm feito para retribuir ao meio pelos empresas que mais interagem com o meio em que recursos que esse lhes fornece, ou seja, “[...], estão inseridas, e também são as que mais podem necessário se faz demonstrar o que está sendo feito” fazer frente a essas responsabilidades. (RIBEIRO, 2005, p. 3). Mesmo que se considere que a É na Contabilidade, principalmente a responsabilidade social das empresas se limita Contabilidade Social, por meio do demonstrativo a gerar empregos e a pagar seus empregados, contábil chamado Balanço Social (BS), que se podem impostos e remunerar os investidores, conforme fornecer informações relevantes sobre a forma destacado por Tinoco (2002, p. 70), quando diz como as empresas estão retribuindo ao meio. “As que “Ao nosso juízo, a grande responsabilidade demonstrações contábeis representam o principal social das organizações consiste em gerar renda e canal de comunicação entre a sociedade e a empresa emprego, [...]”, a idéia da responsabilidade social das que presta contas à comunidade, sobre sua conduta empresas vai além dessas meras obrigações formais. e estado patrimonial” (RIBEIRO, 2005, p. 3). 100
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    Não existe umpadrão formal de apresentação segundo trata da revisão da literatura, a terceira trata das informações do BS, mas existe um modelo dos aspectos metodológicos, a quarta trata do estudo amplamente reconhecido no Brasil, o modelo do exploratório e a quinta traz as considerações finais. Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE). Um número considerável de empresas 2 Revisão da literatura brasileiras divulga seu BS, segundo este modelo, e muitas outras em outros modelos. 2.1 Contabilidade Social Diante do exposto, a questão que surge é se as informações do BS, modelo IBASE, atingem Segundo a teoria dos sistemas, a empresa os objetivos propostos na literatura para o BS. está inserida dentro do contexto social e ambiental Portanto, o objetivo deste estudo é verificar quais e interage com esse meio. Neste processo de informações relevantes podem ser extraídas do interação (inter-relação), as empresas causam e BS, segundo o modelo do IBASE, divulgado pelas recebem impactos do meio (empregados, sociedade, empresas brasileiras e, principalmente, se a partir ambiente, etc.). Os impactos da empresa sobre o dessas informações esse modelo está conseguindo meio, e vice-versa, podem ser tanto de forma positiva, atingir os principais objetivos propostos na literatura. quanto de forma negativa. Mais especificamente, O estudo se justifica pela crescente importância os impactos que a empresa causa sobre o meio, dada à responsabilidade social corporativa (CSR) e principalmente os impactos negativos, são muito pela literatura (McWILLIAMS; SIEGEL; WRIGHT, questionados nos últimos anos, conforme Marques 2006; DOH; GUAY, 2006; WADDOCK, 2008; (2004, p. 308) “Os frequentes problemas sociais e entre outros) e, principalmente, pela necessidade ambientais que vêm ocupando a mídia de quase de evidenciação dessa responsabilidade, como todos os países acabaram por atrair a atenção destacado por Stöström e Welford (2009, p. 281 dos pesquisadores de diversas áreas para o novo – tradução livre): “uma parte crucial da CSR é a contexto”. transparência e a responsabilidade na qual implica A grande dificuldade é dimensionar a uma maior ênfase na evidenciação.” responsabilidade social das empresas e identificar Não se pretende com isso diminuir a o que elas têm feito para retribuir ao meio pelos importância do modelo e da iniciativa do IBASE, mas recursos que ele lhes fornece, ou seja, “[...], contribuir para o debate com vistas ao aprimoramento necessário se faz demonstrar o que está sendo feito” da Ciência Contábil, ao aperfeiçoamento dos meios (RIBEIRO, 2005, p. 3). de evidenciação da contrapartida empresarial A Contabilidade Social surge como um para a sociedade e ao incentivo às empresas para instrumento capaz de medir esses impactos, divulgarem o BS. Entende-se que a divulgação, gerando, demonstrando e analisando o perfil da segundo um modelo, pode prejudicar a evidenciação responsabilidade social e ecológica das entidades. de informações ímpares, mas sem um modelo cada Para Lisboa Neto (2003, p. 46), “A contabilidade empresa fará de uma forma diferente, conforme social é um produto da conscientização, por parte das apontado por Pinto e Ribeiro (2004, p. 32 – nosso empresas, de sua responsabilidade social”, e para grifo)em seu estudo: As entidades adotam modelos Marques (2004, p. 308) “a Contabilidade absorveu diferentes e publicam os dados das mais variadas também essas preocupações e vem desenvolvendo formas. Um mesmo indicador é expresso em valores instrumentos para medir os níveis de envolvimento por algumas organizações, em quantidades físicas e contribuição das organizações à comunidade”. ou percentuais por outras. Isso impossibilita ao Os principais instrumentos que a Contabilidade usuário fazer comparações entre empresas”. vem desenvolvendo atualmente são: Balanço Social Este estudo está dividido, além desta (BS) e Demonstração do Valor Adicionado (DVA), introdução, em mais quatro partes, sendo que a sendo está última já objeto de regulamentação dos 101
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    critérios de elaboraçãopor meio de Pronunciamento Kroetz (2000, p. 55) afirma que ao final da Contábil emitido pelo Comitê de Pronunciamentos década de 70 foram desenvolvidos modelos de BS Contábeis (CPC) em outubro de 2008. por americanos, europeus e latino-americanos, Na sequência será dada ênfase apenas ao “seguindo os interesses, particularidades e culturas BS que é o foco principal deste estudo. próprias”. Conceitualmente o “Balanço Social é um 2.2 Balanço Social (BS) instrumento de gestão e de informação que visa Em Contabilidade, a denominação Balanço evidenciar, da forma mais transparente possível, dá a noção de equilíbrio, como acontece no Balanço informações econômicas e sociais, do desempenho Patrimonial, mas que não ocorre no BS. Sendo das entidades, aos mais diferenciados usuários, entre assim, a denominação BS não é a mais precisa para esses os funcionários” (TINOCO, 2001, p. 14). representar o demonstrativo que fornece informações Segundo Lisboa Neto (2003, p. 53): de caráter social, entretanto, a ela já foi incorporada em nível mundial e, portanto, é adotada também O balanço social é um instrumento de demonstração das atividades das empresas, com ênfase no social, neste estudo. Segundo Kroetz (2000, p. 78), alguns que tem por finalidade transmitir maior transparência e autores entendem “que a expressão utilizada deveria visibilidade às informações que interessam não apenas ser relatório de informações sociais, que é mais aos sócios e acionistas das companhias, mas também preciso [...]”. a um número maior de atores: empregados, fornece- Segundo Sá (apud KROETZ, 2000, p. 55), dores, parceiros, consumidores e comunidade. em 1939, a empresa alemã AEG já publicava o BS. Entretanto o período considerado como marco Para Iudícibus et al. (2003, p. 34), “o Balanço inicial do BS no mundo são os anos 60, nos Estados Social busca demonstrar o grau de responsabilidade Unidos da América, onde a sociedade criticava o social assumido pela empresa e assim prestar contas à governo Nixon e as entidades que o apoiavam, sociedade pelo uso do patrimônio público, constituído em função da Guerra do Vietnã. Nessa época, a dos recursos naturais, humanos e o direito de conviver sociedade exigia das empresas uma postura moral e e usufruir dos benefícios da sociedade em que atua”. ética perante os cidadãos por meio do fornecimento Nesses dois conceitos, é possível perceber de informações relativas às relações sociais, dentro dois enfoques distintos. No primeiro, sobressai o e fora das empresas. enfoque de instrumento de gestão e, no segundo, O surgimento e a evolução do BS ao redor destaca-se o enfoque de prestação de contas à do mundo acompanham a tendência americana, sociedade. Mesmo assim, os dois conceitos não se ou seja, a exigência da sociedade por informações contradizem, mas sim se complementam. das empresas com foco nas relações sociais. Na Ainda com relação aos dois conceitos, o maioria dos países a iniciativa da sociedade, ou das primeiro afirma que o BS deve informar aos mais próprias empresas, é que deu origem a divulgação diferentes usuários, enquanto que o segundo de informações sociais. No entanto, em alguns destaca a sociedade como principal usuário dessas países ainda impera a determinação legal para que informações. Nesses dois casos, a determinação de essas informações sejam fornecidas à sociedade. usuário é bastante ampla. A primeira abordagem a investigar a Para reduzir essa amplitude Tinoco (2001, p. responsabilidade social de um empreendimento se 34) relaciona alguns usuários que, segundo ele se deu em 1962, quando o professor Raymond Bauer destacam na utilização do BS: foi encarregado pela Nasa para fazer investigações • Grupos cujos membros de uma forma sobre as conseqüências sócio-culturais do programa pessoal e direta trabalham para a empresa espacial (Amorin apud KROETZ, 2000, p. 54). – os trabalhadores; 102
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    • Grupos quese relacionam com a empresa • Abranger o universo das interações sociais – os clientes, pois de sua confiança vive a entre: clientes, fornecedores, associações, empresa; governo, acionistas, investidores, universi- • Acionistas que aportam recursos a empresas; dade e outros; • Sindicatos dos trabalhadores; • Apresentar os investimentos no desenvolvi- mento de pesquisas e tecnologias; • Instituições financeiras, fornecedores e credores; • Formar um banco de dados confiáveis para análise e tomada de decisão dos mais di- • Autoridades fiscais, monetárias e versos usuários; trabalhistas, o Estado; • Ampliar o grau de confiança da sociedade • Comunidade local; na entidade; • Pesquisadores, professores, todos os • Contribuir para a implementação e manu- formadores de opinião. tenção de processos de qualidade, sendo Por fim, os conceitos destacados acima definem a própria demonstração do Balanço Social como objetivo do BS a prestação de informações um parâmetro para tal; sociais à sociedade. Também neste caso, a amplitude é um fator restritivo. Segundo Kroetz (2000, p. 79), o • Medir os impactos das informações apre- BS tem como objetivo genérico suprir as necessidades sentadas no Balanço Social perante a co- de apresentação de informações de caráter social e munidade dos negócios; no amanha da ecológico. Na sequência, esse objetivo genérico é entidade; na marca/godwill, na imagem tratado de forma mais especifica. do negócio; Para Iudícibus et al. (2005, p. 33) e Pinto • Verificar a participação do quadro funcio- e Ribeiro (2004, p. 24), independente da sua nal no processo de gestão (fase da gestão formatação, o BS deve ter por objetivo demonstrar participativa); o resultado da interação da empresa com o meio • Servir de instrumento para negociações la- em que está inserida, ressaltando-se os aspectos borais entre a direção da entidade e sindi- de recursos humanos, contribuição para o catos ou representantes dos funcionários; desenvolvimento econômico e social, ambientais e contribuições para a cidadania. Para Lisboa Neto • Melhorar o sistema de controle interno, (2003, p. 63), “o balanço social tem como objetivo permitindo qualificar o ambiente organi- geral suprir as necessidades de apresentação de zacional, numa perspectiva de confirmar a informações de caráter social e ecológico”. regularidade da gestão identificada com o Sob o aspecto de benefícios e contribuições gerenciamento social; à sociedade, o BS pode refletir o comprometimento • Clarificar os objetivos e as políticas admi- da empresa com as necessidades básicas da nistrativas, julgando a administração não população, mediante investimentos voluntários nas apenas em função do resultado econômi- diferentes áreas (PINTO; RIBEIRO, 2004, p. 27). co, mas também dos resultados sociais. Para Kroetz (2000, p. 79) o BS, tem como objetivos: Esses objetivos podem ser chamados de • Revelar, conjuntamente com as demais de- objetivos específicos, que têm por finalidade monstrações contábeis, a solidez da estraté- auxiliar no sentido de que os objetivos gerais sejam gia de sobrevivência e crescimento da enti- atingidos. dade; A partir das considerações apresentadas, é • Evidenciar, com indicadores, as contribui- possível determinar quais são os principais objetivos ções à qualidade de vida da população; do BS: demonstrar o resultado da interação da 103
  • 104.
    empresa com omeio; refletir o comprometimento No tocante ao método de tratamento e com as necessidades básicas da população e; análise dos dados, será usada apenas estatística suprir as necessidades de informações de caráter descritiva. social e ecológico. Dentro do BS, é comum observar valores 3.3 Seleção da amostra relativos ao total de valor adicionado pela empresa A amostra selecionada corresponde aos e a distribuição desse valor adicionado. Esses Balanços Sociais divulgados em 2004 e 2005, valores são encontrados na Demonstração do respectiva e concomitantemente, por empresas Valor Adicionado (DVA), que é um demonstrativo brasileiras, disponíveis no banco de dados do não obrigatório, segundo a legislação brasileira, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas vigente em 2007, mas com critérios de elaboração (IBASE), disponível em www.ibase.org.br ou www. regulamentos pelo CPC a partir de 2008. balancosocial.org.br. Optou-se por utilizar dois anos, para se poder evidenciar a evolução das 3 Aspectos metodológico informações, mesmo que superficialmente, ao menos em termos monetários, já que em termos 3.1 Caracterização do Estudo qualitativos apenas o último já seria suficiente. A escolha dos anos de 2004 e 2005, e não Segundo Collis e Hussey (2005, p. 23), 2007 e 2008 (os mais recentemente divulgados), os tipos de pesquisa podem ser classificados de não prejudica os resultados obtidos porque a acordo com: sistemática utilizada e as informações obtidas • O objetivo da pesquisa - os motivos pelos atualmente seriam praticamente as mesmas, com quais você a está realizando; exceção dos resultados econômico-financeiros, no • O processo da pesquisa - a maneira pela entanto, isso provavelmente será objeto de estudo qual você coletará e analisará seus dados; futuro com caráter comparativo. Comparando os modelos do BS do IBASE em 2004/2005, e em • A lógica da pesquisa - se você está se 2007/2008, não se visualiza qualquer diferença movendo do geral para o específico ou em termos de estrutura. vice-versa; Das aproximadamente 330 empresas • O resultado da pesquisa - se você está que disponibilizavam seus balanços sociais, tentando resolver um determinado no final de 2006, no banco de dados do problema ou fazer uma contribuição geral IBASE, apenas 116 divulgaram os mesmos nos para o conhecimento. dois anos selecionados para estudo, o que Então, quanto ao objetivo, trata-se de corresponde a aproximadamente 35% do total pesquisa exploratória; quanto ao processo da de empresas com BS disponível no site do IBASE. pesquisa: qualitativa; quanto ao resultado da Depois dessa seleção inicial, foram excluídas pesquisa: aplicada; quanto à lógica da pesquisa: da amostra 3 empresas, sendo uma por não indutiva. apresentar os valores de receita líquida e outras 2 por não apresentar indicadores externos. 3.2 Métodos Também foi excluído o BS da Petrobras, já que Quanto aos métodos, a pesquisa pode ser ela apresentava valores que correspondiam, na classificada como bibliográfica e documental. maioria dos casos, a mais de 30% do total de Quanto ao horizonte de tempo tem-se um estudo todas as empresas, fato que poderia distorcer as longitudinal. Quanto ao método da coleta de análises. Nesse momento a amostra totalizava dados, tratam-se de dados secundários. 112 empresas, ou seja, 33,94% do universo. 104
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    A receita líquidadas 112 empresas de 4,94%. Como os dados serão comparados correspondia a aproximadamente 15,3% do Produto em relações percentuais pequenas diferenças Interno Bruto (PIB) no ano 2004 e aproximadamente apresentadas pelas taxas não apresentarão 15,9% do PIB de 2005. Um parâmetro melhor discrepâncias relevantes nas análises. para demonstrar a importância da amostra é o percentual do valor adicionado em relação ao PIB, 4 Estudo exploratório mas apenas 69 empresas divulgaram esse valor e sua distribuição nos dois anos, concomitantemente. 4.1 Demonstração dos dados preliminares Nesse caso, a proporção foi aproximadamente 6,7% em 2004 e 7,3% em 2005. A proporção da receita O modelo de BS divulgado pelo IBASE líquida em relação ao PIB, apenas das 69 empresas pode ser observado no sitio eletrônico do instituto. que restaram na amostra, foi de 11,7% em 2004, Ele possui algumas divisões. Em uma delas estão e 12,1% em 2005. A amostra final corresponde a os dados que servirão como base de cálculo dos aproximadamente 21% do universo de empresas percentuais. Os percentuais auxiliam a comparação que divulgavam o BS pelo modelo IBASE. de ano para ano e até de empresa para empresa, Para o presente estudo será considerado que mas sempre mantidas as precauções necessárias a inflação no período foi de 5%, já que segundo quando se fazem comparações. a FGV (IPC-DI), o DIEESE (ICV), a FIPE (IPC e o Num primeiro momento, foram extraídas IPCA) e o IBGE (INPC) a inflação foi de 4,93%, algumas informações da comparação entre os 4,53%, 4,52%, 5,05% e 5,69, respectivamente, dados informados em 2004 e em 2005, conforme o que resulta em uma média aritmética simples Quadros 1 e 2. Quadro 1 – Indicadores sociais internos e externos e valor adicionado 2004. 2004 1. Dados Econômico-Financeiros Em mil R$. % da RL % do VA % do RO % da FPB Receita Líquida (RL) 270.254.530 226,9% 574,1% 801,4% Valor adicionado (VA) 119.090.596 44,1% 253,0% 353,1% Resultado Operacional (RO) 47.072.971 17,4% 39,5% 139,6% Folha de Pagamento Bruta (FPB) 33.722.818 12,5% 28,3% 71,6% 2. Indicadores Sociais Internos Alimentação 2.236.593 0,8% 1,9% 4,8% 6,6% Encargos sociais compulsórios 7.292.570 2,7% 6,1% 15,5% 21,6% Previdência privada 1.659.303 0,6% 1,4% 3,5% 4,9% Saúde 1.453.112 0,5% 1,2% 3,1% 4,3% Segurança e medicina no trabalho 179.309 0,1% 0,2% 0,4% 0,5% Educação 66.390 0,0% 0,1% 0,1% 0,2% Cultura 26.842 0,0% 0,0% 0,1% 0,1% Capacitação e desenvolvimento profissional 341.887 0,1% 0,3% 0,7% 1,0% Creches ou auxílio-creche 118.746 0,0% 0,1% 0,3% 0,4% Participações nos lucros ou resultados 2.527.668 0,9% 2,1% 5,4% 7,5% Outros 581.657 0,2% 0,5% 1,2% 1,7% Total – Ind. Sociais Internos 16.484.077 6,1% 13,8% 35,0% 48,9% 3. Indicadores Sociais Externos Educação 254.258 0,1% 0,2% 0,5% 0,8% Cultura 238.371 0,1% 0,2% 0,5% 0,7% Saúde e saneamento 184.693 0,1% 0,2% 0,4% 0,5% Habitação 34 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Esporte 77.177 0,0% 0,1% 0,2% 0,2% Lazer e diversão 230 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Creches 40 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Alimentação 1.296 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Combate à fome e seg. alimentar 89.902 0,0% 0,1% 0,2% 0,3% Outros 511.995 0,2% 0,4% 1,1% 1,5% Total das contribuições para a 1.357.996 0,5% 1,1% 2,9% 4,0% Sociedade (continua) 105
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    (continuação) 3. Indicadores Sociais Externos Tributos (excluídos enc. sociais) 51.394.044 19,0% 43,2% 109,2% 152,4% Total – Ind. Sociais Externos 52.752.040 19,5% 44,3% 112,1% 156,4% Governo 45.671.655 16,9% 38,4% 97,0% 135,4% Colaboradores 29.309.389 10,8% 24,6% 62,3% 86,9% Acionistas 13.553.756 5,0% 11,4% 28,8% 40,2% Terceiros 12.593.447 4,7% 10,6% 26,8% 37,3% Retido 17.962.349 6,6% 15,1% 38,2% 53,3% Total - Valor Adicionado 119.090.596 44,1% 100,0% 253,0% 353,1% Quadro 2 – Indicadores sociais internos e externos e valor adicionado 2005. 2005 1. Dados Econômico-Financeiros Em mil R$. % da RL % do VA % do RO % do FPB Receita Líquida (RL) 308.796.391 220,1% 563,5% 822,1% Valor adicionado (VA) 140.281.359 45,4% 256,0% 373,5% Resultado Operacional (RO) 54.804.369 17,7% 39,1% 145,9% Folha de Pagamento Bruta (FPB) 37.560.001 12,2% 26,8% 68,5% 2. Indicadores Sociais Internos Alimentação 2.499.648 0,8% 1,8% 4,6% 6,7% Encargos sociais compulsórios 8.201.937 2,7% 5,8% 15,0% 21,8% Previdência privada 1.780.088 0,6% 1,3% 3,2% 4,7% Saúde 1.748.144 0,6% 1,2% 3,2% 4,7% Segurança e medicina no trabalho 188.631 0,1% 0,1% 0,3% 0,5% Educação 69.824 0,0% 0,0% 0,1% 0,2% Cultura 23.272 0,0% 0,0% 0,0% 0,1% Capacitação e desenvolvimento profissional 474.958 0,2% 0,3% 0,9% 1,3% Creches ou auxílio-creche 137.129 0,0% 0,1% 0,3% 0,4% Participação nos lucros ou resultados 3.582.123 1,2% 2,6% 6,5% 9,5% Outros 606.636 0,2% 0,4% 1,1% 1,6% Total – Ind. Sociais Internos 19.312.390 6,3% 13,8% 35,2% 51,4% 3. Indicadores Sociais Externos Educação 207.062 0,1% 0,1% 0,4% 0,6% Cultura 303.349 0,1% 0,2% 0,6% 0,8% Saúde e saneamento 318.989 0,1% 0,2% 0,6% 0,8% Habitação 0 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Esporte 77.103 0,0% 0,1% 0,1% 0,2% Lazer e diversão 1.379 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Creches 5 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Alimentação 31 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% Combate à fome e seg. alimentar 275.155 0,1% 0,2% 0,5% 0,7% Outros 1.081.277 0,4% 0,8% 2,0% 2,9% Total das contribuições para a Sociedade 2.264.350 0,7% 1,6% 4,1% 6,0% Tributos (excluídos enc. sociais) 65.191.916 21,1% 46,5% 119,0% 173,6% Total – Ind. Sociais Externos 67.456.266 21,8% 48,1% 123,1% 179,6% 4. Destinação do valor adicionado Governo 56.758.181 18,4% 40,5% 103,6% 151,1% Colaboradores 33.174.087 10,7% 23,6% 60,5% 88,3% Acionistas 15.625.726 5,1% 11,1% 28,5% 41,6% Terceiros 13.662.911 4,4% 9,7% 24,9% 36,4% Retido 21.060.454 6,8% 15,0% 38,4% 56,1% Total - Valor Adicionado 140.281.359 45,4% 100,0% 256,0% 373,5% A partir dos quadros 1 e 2, é possível • Nos indicadores de investimento social identificar, dentre outros pontos, que: externo existe um aumento significativo • Nos dados econômicos e financeiros, na proporção com os dados econômicos com exceção da folha de pagamento, os e financeiros, principalmente nos valores demais valores mantêm uma proporção referentes a tributos. praticamente estável de um ano para outro; • Na destinação do valor adicionado ocorreu • As empresas mantêm um padrão de um aumento na parcela do governo investimento social interno em relação aos em comparação com todos os dados dados econômicos e financeiros; econômicos e financeiros. 106
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    No Quadro 3,é possível identificar, dentre • Os valores econômicos e financeiros outros pontos, que: aumentaram de 2004 para 2005, mesmo Quadro 3 – Variação do investimento social interno e externo. 2004 2005 VARIAÇÃO 1. Dados Econômico-Financeiros Em mil R$. Em mil R$. Normal Corrigido Receita Líquida (RL) 270.254.530 308.796.391 14,26% 8,82% Valor adicionado (VA) 119.090.596 140.281.359 17,79% 12,18% Resultado Operacional (RO) 47.072.971 54.804.369 16,42% 10,88% Folha de Pagamento Bruta (FPB) 33.722.818 37.560.001 11,38% 6,07% 2. Indicadores Sociais Internos Alimentação 2.236.593 2.499.648 11,76% 6,44% Encargos sociais compulsórios 7.292.570 8.201.937 12,47% 7,11% Previdência privada 1.659.303 1.780.088 7,28% 2,17% Saúde 1.453.112 1.748.144 20,30% 14,57% Segurança e medicina no trabalho 179.309 188.631 5,20% 0,19% Educação 66.390 69.824 5,17% 0,16% Cultura 26.842 23.272 -13,30% -17,43% Capacitação e desenvolvimento profissional 341.887 474.958 38,92% 32,31% Creches ou auxílio-creche 118.746 137.129 15,48% 9,98% Participações nos lucros ou resultados 2.527.668 3.582.123 41,72% 34,97% Outros 581.657 606.636 4,29% -0,67% Total – Ind. Sociais Internos 16.484.077 19.312.390 17,16% 11,58% 3. Indicadores Sociais Externos Educação 254.258 207.062 -18,56% -22,44% Cultura 238.371 303.349 27,26% 21,20% Saúde e saneamento 184.693 318.989 72,71% 64,49% Habitação 34 0 -100,00% -100,00% Esporte 77.177 77.103 -0,10% -4,85% Lazer e diversão 230 1.379 499,57% 471,01% Creches 40 5 -87,50% -88,10% Alimentação 1.296 31 -97,61% -97,72% Combate à fome e seg. alimentar 89.902 275.155 206,06% 191,49% Outros 511.995 1.081.277 111,19% 101,13% Total das contribuições para Sociedade 1.357.996 2.264.350 66,74% 58,80% Tributos (excluídos enc. sociais) 51.394.044 65.191.916 26,85% 20,81% Total – Ind. Sociais Externos 52.752.040 67.456.266 27,87% 21,78% 4. Destinação do valor adicionado Governo 45.671.655 56.758.181 24,27% 18,36% Colaboradores 29.309.389 33.174.087 13,19% 7,80% Acionistas 13.553.756 15.625.726 15,29% 9,80% Terceiros 12.593.447 13.662.911 8,49% 3,33% Retido 17.962.349 21.060.454 17,25% 11,66% Total - Valor Adicionado 119.090.596 140.281.359 17,79% 12,18% quando desconsiderados os efeitos a um investimento baixo em 2004 para um inflacionários; investimento maior em 2005, mas que não • Os investimentos em indicadores representa nada em relação aos dados sociais internos também aumentaram, econômicos e financeiros; principalmente na capacitação profissional • O aumento representativo no item outros e na participação nos lucros e resultados, dos indicadores sociais externos deriva mas os investimentos em cultura caíram do fato de que algumas empresas não significativamente; subdividiram seus valores nos demais itens, • Os investimentos em indicadores sociais ficando sobrecarregado esse item; externos aumentaram mais que os internos, • A destinação do valor adicionado deixa principalmente no combate à fome e claro que houve um aumento na parcela segurança alimentar. O aumento exagerado destinada ao governo, superior aos demais, do investimento em lazer e diversão se deve e, conjuntamente com o aumento da 107
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    parcela retida dovalor adicionado reduziu Nos Quadros 2, 3 e 4 estão demonstrados os as parcelas dos colaboradores, acionistas dados acumulados extraídos do BS publicado pelas e terceiros. 69 empresas da amostra. Alguns desses dados foram O quadro 4 destaca os indicadores do corpo simplesmente somados, outros foram incorporados funcional. aos dados pré-existentes. Diante desses, dados é Quadro 4 – Variação dos indicadores do corpo funcional. 2004 2005 5. Indicadores do Corpo Funcional VARIAÇÃO Unidades % Unidades % Nº de empregados(as) ao final do período 477.123 499.963 4,79% Nº de admissões durante o período 82.927 17% 101.882 20% 22,86% Nº de empregados(as) terceirizados(as) 139.835 29% 156.686 31% 12,05% Nº de estagiários(as) 24.235 5% 23.716 5% -2,14% Nº de empregados(as) acima de 45 anos 93.101 20% 98.328 20% 5,61% Nº de mulheres que trabalham na empresa 166.361 35% 179.780 36% 8,07% Nº de mulheres em cargos de chefia 49.464 10% 54.824 11% 10,84% Nº de negros(as) que trabalham na empresa 57.299 12% 67.313 13% 17,48% Nº de negros em cargos de chefia 6.398 1% 8.013 2% 25,24% Nº portadores de defic. ou necessidades especiais 8.795 2% 9.240 2% 5,06% % de cargos de chefia ocupados por mulheres 29,73% 30,50% % de cargos de chefia ocupados por negros(as) 11,17% 11,90% Relação maior / menor remuneração da empresa 30,49 7,60 23,32% Número total de acidentes de trabalho  101,65 120,98 19,02% RL p/empregado 566,43 617,64 9,04% VA p/empregado 249,60 280,58 12,41% RO p/empregado 98,66 109,62 11,11% FPB p/empregado 70,68 75,13 6,29% VA destinado aos colaboradores p/empregado 61,43 66,35 8,02% No Quadro 4, é possível identificar, dentre possível visualizar algumas das informações que o BS outros pontos, que: divulgado segundo o Modelo IBASE pode fornecer • Houve um aumento no número de pessoas aos usuários, primordialmente à sociedade em que empregadas, haja vista o aumento de está inserida. Os dados crus normalmente não têm pessoas empregadas no final do período e muito a dizer, mas quando analisados em conjunto, o número de contratações; comparados com outras empresas, acumulados com • Houve um aumento significativo de negros os de outras empresas ou conjugados com outros em relação ao total de pessoas empregadas dados podem fornecer informações pertinentes a e principalmente um aumento de negros quem analisa este demonstrativo contábil. em cargos de chefia; 4.2 Análise complementar dos dados • O número de mulheres empregadas em relação ao total também aumentou, bem Um dos objetivos do presente estudo era como sua participação em cargos de verificar quais informações relevantes podem ser chefia; extraídas do BS, segundo o modelo do IBASE, divulgado pelas empresas brasileiras. Esse objetivo • A relação homens/mulheres manteve-se foi atingido em grande parte, conforme visto no pouco acima de 1/3 nos dois anos e a item 4.1 deste estudo. Alguns pontos não foram relação de mulheres em cargos de chefia analisados, tais como os indicadores ambientais, ficou pouco abaixo de 1/3 nos dois anos; que em muitas empresas não foram informados • A relação entre o maior e o menor salário e que não leva o leitor a conclusões relevantes, aumentou significativamente nos dois anos, da forma como está estruturado. Outro ponto demonstrando o distanciamento entre as que foi demonstrado e analisado apenas em uma classes sociais. pequena parte são as informações relevantes 108
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    quanto ao exercícioda cidadania empresarial, em facilmente identificáveis, como por exemplo, os que são relatados apenas dados não qualitativos recursos naturais, o direito de exploração de uma e muito restritos, contribuindo apenas para um atividade poluidora, a dependência local pela posicionamento superficial quanto às políticas de empresa, entre muitos outros. cidadania da empresa. O BS segundo o modelo IBASE não chega O outro, e principal objetivo, era verificar se o da demonstrar a interação da empresa com o meio, modelo IBASE consegue atingir os objetivos propostos mas apenas destaca alguns pontos dessa interação. na literatura. Em função disso, foram definidos que Existe a necessidade de outras informações os objetivos que serão utilizados no presente estudo quantitativas e qualitativas, para que seja possível são aqueles objetivos gerais evidenciados nas estabelecer se existe um relacionamento de definições do BS, ou seja, demonstrar o resultado interação entre a empresa e o meio. da interação da empresa com o meio, refletir o Para que o BS demonstrasse toda a interação comprometimento com as necessidades básicas da entre a empresa e o meio, seriam necessários muito população e suprir as necessidades de informações mais dados dos que hoje são apresentados e muitos de caráter social e ecológico. Justifica-se esta escolha além daqueles dos que hoje estão disponíveis nas porque os objetivos específicos são originados dos empresas. Não se pretende que o BS evidencie objetivos gerais e, portanto, para que os objetivos todas as informações que os usuários por ventura gerais estejam sendo alcançados, é necessário que venham a necessitar, mas que o atual volume alguns dos objetivos específicos à eles pertinentes de informações seja implementado, fornecendo também estejam sendo alcançados. subsídios mais consistentes para que se possa Na sequência, são analisadas as informações demonstrar a interação da empresa com o meio. obtidas dos Balanços Sociais segundo o modelo Nesse ponto, além de muitas outras sugestões IBASE à luz de cada um dos três objetivos, tentando que cada usuário do BS poderia ter, sugere-se que ao identificar se o BS realmente fornece informações menos ficasse evidenciado os patrocínios a equipes suficientes para atender aos objetivos. Não se esportivas e a eventos culturais, as contribuições pretende esgotar o assunto, mas apenas levantar para implementação e/ou manutenção de escolas alguns pontos considerados pertinentes para o e hospitais, indicação de pessoas beneficiadas desenvolvimento da ciência contábil. Para iniciar esta por programas implementados ou apoiados pela discussão, seria extremamente importante conhecer empresa, etc. Por exemplo, a implantação de um as necessidades de informações dos usuários do BS, centro cultural pode gerar lazer e cultura para a mas como isso não é possível e não é o objetivo sociedade. desse estudo, assumiremos que o conhecimento b) Refletir o comprometimento com as destas necessidades é no mínimo aquilo que os necessidades básicas da população autores deste estudo percebem. Supondo que as necessidades básicas da a) Demonstrar o resultado da interação da população sejam no mínimo, conforme relaciona a empresa com o meio Constituição Brasileira, ou seja, moradia, vestuário, Por interação da empresa com o meio alimentação, saúde, higiene, educação, lazer, etc., entende-se como a ação recíproca entre ambos, é possível destacar que alguns pontos são mais ou seja, o meio fornece para a empresa os recursos privilegiados pelas empresas que outros, como necessários para sua subsistência e esta devolve é o caso do investimento interno em capacitação ao meio os recursos necessários para compensá- profissional e na participação nos lucros ou lo. Os salários pagos aos funcionários, os tributos resultados. pagos e os lucros distribuídos são formas de O modelo do IBASE não contempla todos os retribuir ao meio pelos recursos disponibilizados. itens que a Constituição chama de ‘necessidades Mas existem outros recursos que não são básicas da população’. Com relação apenas aos 109
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    dados destacados nomodelo IBASE, em sua maioria, c) Suprir as necessidades de informações de manteve os mesmos patamares nos dois períodos caráter social e ecológico analisados, em relação à receita líquida ou ao Como não se conhece as informações que resultado operacional, refletindo que não houve um os usuários necessitam, é difícil saber como supri- comprometimento adicional com as necessidades la, mas, imaginando que também somos usuários básicas da população, mas apenas um incremento dessas informações, então é possível inferir que em pontos específicos, como é o caso dos tributos. o BS não supre as necessidades de informações A carência de investimentos foi destacada no de caráter social, fornecendo apenas algumas estudo de Pinto e Ribeiro (2004, p. 29) “Investimentos informações incipientes. Quanto às informações com vistas a atender às necessidades básicas ecológicas, é possível afirmar que praticamente dos trabalhadores, tais como: educação, saúde, inexistem, já que dos poucos dados relativos a esse transporte, lazer etc.; políticas voltadas à valorização, tema no modelo estes não são informados pela ao desenvolvimento profissional e reconhecimento maioria das empresas. Entende-se que suprir não do trabalho dos empregados, foram informados seja em caráter totalitário, mas sim em um nível que pela minoria das empresas examinadas”. possa ser considerado no mínimo satisfatório. Uma dificuldade que surge nesse ponto é Seria extremamente relevante que as definir qual o nível que os indicadores precisam empresas divulgassem informações sobre o total de atingir para refletir o comprometimento da empresa. investimentos em projetos sociais e de recuperação Apenas destinar algum numerário para rubricas ambiental segregados, dando condições de suprir que fazem parte das necessidades básicas da algumas necessidades de informações. Para Gray população não representa o comprometimento da (2001, p. 14), “Nós devemos urgentemente mudar empresa com estas. Mas o que pode refletir o nível nossa atenção para os problemas de como reportar de comprometimento? Talvez o nível de informações a sustentabilidade, e especialmente para assunto de que as empresas podem fornecer atualmente ainda justiça social. Neste caso, eu temo, o passado tem não chegue a refletir esse comprometimento, mas pouco a nos ensinar” (tradução livre). com certeza, apenas os dados que constam do BS, segundo o modelo IBASE, estão muito aquém d) Considerações sobre os objetivos daquilo que se torna necessário para esbarrar de As informações disponíveis no BS, que leve na reflexão do comprometimento. na maioria dos casos é informada em valores Nesse ponto, muitas ações que não geram monetários (absolutos ou relativos) deixam a desejar desembolsos diretos podem ser incluídas para pela falta de outras informações não monetárias, demonstrar o comprometimento da empresa para que forneçam dados adicionais para uma com as necessidades básicas da população. análise mais efetiva. Mazzioni, Oliveira e Tinoco A demonstração da evolução do nível de (2006, p. 9) identificaram as informações que escolaridade dos colaboradores, enquanto devem ser priorizadas na divulgação do BS. Os funcionários da empresa, pode dar indícios do mesmos autores (2006, p. 11) indicam que o BS é comprometimento com a educação. O incentivo, um instrumento voltado a evidenciar as ações que as e talvez até a destinação de parte da carga horária empresas tomam, com destaque para os seguintes dos colaboradores, para a realização de trabalho grupos, prioritariamente: voluntário pode dar sinais do comprometimento a) Responsabilidade social: não se da empresa com o lazer, saúde, etc. A promoção trata de fazer filantropia apenas, ou ou o incentivo de programas assistenciais podem doações caritativas, mas assumir um demonstrar o comprometimento da empresa com posicionamento social responsável e a moradia, a alimentação, etc. de elevada cidadania; 110
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    b) Recursos humanos:o modo pelo em detrimento de dados qualitativos, e a carência qual a organização se relaciona de mais informações concretas necessárias para com os empregados da instituição; a atender aos anseios da sociedade. preservação de direitos individuais e Não se pretende, em hipótese alguma, coletivos; remuneração e benefícios desmerecer o trabalho realizado pelo IBASE e nem concedidos; pessoas ocupadas no tampouco o modelo por ele utilizado, até porque fim de cada exercício: por categoria, sexo, instrução, idade, estado civil alguma informação ainda é melhor que nenhuma e raça; formação profissional e e trata-se de uma iniciativa louvável. No entanto, desenvolvimento contínuo; o que se pretende é retomar o debate em relação c) Valor agregado: evidenciar a riqueza às informações que as empresas geram para o gerada e de que maneira é distribuída; meio em que estão inseridas e se essas informações d) Meio ambiente: projetos e ações de podem atender aos objetivos propostos na literatura, proteção, recuperação e melhoria buscando sempre a evolução da ciência contábil. do meio; indicadores ambientais e Os autores do modelo IBASE idealizaram o socioeconômicos do desempenho BS e seus objetivos a partir de informações que lhes sustentável; eram pertinentes à época. Passados vários anos, e) Outros: informações para suporte ao desde que o sociólogo Betinho iniciou seu trabalho processo decisorial, dados sobre a em prol da implantação do BS no Brasil e que os satisfação e insatisfação social dos Balanços Sociais são evidenciados pelo modelo diferentes agentes econômicos em proposto, com as alterações que já se sucederam, relação ao desempenho da entidade, torna-se necessário um novo upgrade do modelo, a participação dos empregados no com vistas ao fornecimento de informações mais processo decisório. consistentes. Segundo Oliveira (2005, p. 15), “O Freire, Botelho e Nunes (2001, p. 28) e aprimoramento contínuo do Modelo IBASE de BS Kroetz (2001, p. 60-61) já identificavam modelos (já foram feitas algumas revisões ao longo dos para o BS tentando suprir algumas das falhas do anos) tem permitido a introdução de mais variáveis modelo IBASE. Nesses modelos as informações que quantitativas e qualitativas. Espera-se que no futuro hoje constam do modelo IBASE eram previstas, além as comparações possam ser feitas com melhores de informações adicionais, chegando os primeiros parâmetros e informações mais confiáveis”. a sugerir uma ponderação dos indicadores pelas Mesmo quando o BS é divulgado em outro opiniões dos usuários. padrão, as empresas não conseguem abranger um número satisfatório de informações, conforme 6 Considerações finais destacado por Pinto e Ribeiro (2004, p. 32), “À luz dos conceitos estudados, considera-se que O BS é uma ferramenta importante para a o conteúdo dos Balanços Sociais é bastante evidenciação do comprometimento das empresas insatisfatório. Nenhum dos indicadores foi com a sociedade, além do compromisso legal. Para informado pela unanimidade das empresas. Muitas Oliveira (2005, p.3), “O Balanço Social, [...], surge informações relevantes não foram evidenciadas em como uma das principais ferramentas para sintetizar e nenhum balanço”. Os mesmos autores sugerem disponibilizar as informações sobre como a empresa que o modelo IBASE contenha ainda uma série de vem trabalhando as questões sócio-ambientais”. outras informações. No entanto, Ainda é incipiente para atingir aos Portanto, é possível considerar que as objetivos propostos na literatura, se apresentado informações fornecidas atualmente pelas empresas pelas empresas, conforme o modelo do IBASE, não atingem o nível desejado, de acordo com os existindo a supremacia de dados quantitativos, objetivos encontrados na literatura. Muitas coisas 111
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    precisam ser implementadas,mas esbarram em atingimento pleno dos objetivos apenas indica diversas dificuldades. Por outro lado coisas simples que existe a necessidade de uma melhoria na podem ser implementadas e evidenciadas, como, qualidade das informações nele disponibilizadas por exemplo, o nível de escolaridade, que poderia ser e que os objetivos propostos podem ser atingidos evidenciado simplesmente informando o percentual com melhorias incrementais nos modelos atuais. de funcionários analfabetos, com o primeiro grau Este estudo apresenta algumas limitações, incompleto, o primeiro grau completo, e assim por dentre as quais a adoção apenas do modelo IBASE diante. Além disso, qual o percentual de funcionários para análise, a limitação dos objetivos apenas que melhoraram seu grau de escolaridade durante nos três propostos na definição do BS, o número o tempo em que esteve empregado na empresa e de empresas, o número de períodos, a utilização como a empresa participou dessa evolução. de períodos não recentes e o número limitado de Um fato que parece consenso para maioria sugestões para aprimoramento do modelo de BS. dos autores pesquisados, com pequenas variações Por outro lado, confirmou-se que o BS, segundo entre eles, é que a divisão do BS usada no modelo o modelo IBASE, precisa evoluir, conforme já vem IBASE deveria ser diferente, usando ao invés de ocorrendo, e que cabe aos pesquisadores da ciência indicadores sociais internos e externos, indicadores contábil contribuir nesse processo. ambientais e indicadores de quadro funcional, Como sugestões para futuros estudos, para indicadores laborais, sociais, ambientais e do indicam-se: corpo funcional, além de informações adicionais • Ampliar o estudo para outros modelos de tais como lucro líquido e faturamento bruto, entre evidenciação do BS; outras (VASCONCELOS, 2001; PEROTTONI, • Verificar a evolução histórica nos modelos 2001; KROETZ, 2001; MAZZIONI; GALANTE; de BS, principalmente do IBASE; KROETS, 2006). Estes ainda podem ser divididos em monetário e não-monetários, internos e • Discutir detalhadamente cada uma das externos, ou qualquer outra subdivisão que se informações constantes do modelo atual, achar pertinente. em confronto com os objetivos propostos Mesmo que o BS divulgado segundo o pela literatura; modelo IBASE, ou qualquer outro, não consiga • Comparar modelos utilizados em outros atingir plenamente os objetivos propostos na países com o modelo brasileiro, buscando literatura, isso não significa que ele é inútil. Alguma naqueles pontos relevantes que possam informação ainda é melhor que nenhuma. O não aprimorar este. Referencias COLLIS, J.; HUSSEY, R. Pesquisa em Administração: um guia prático para alunos de graduação e pós- graduação. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2005. CONSENZA, J. P A eficácia informativa da Demonstração do Valor Adicionado. Revista Contabilidade . & Finanças. São Paulo: USP Ed. Comemorativa, Out, 2003, p. 7 – 29. , DOH, J. P GUAY,T. R. (2006). Corporate social responsibility, public policy, and NGO activism in Europe . and the United States: an institutional-stakeholder perspective. Journal of Management Studies. v. 43, n. 1, Jan, 2006, p. 47-73. FREIRE, F. S.; BOTELHO, D. R.; NUNES, F. M. Balanço social abrangente: ferramenta contábil eficaz para mensuração do papel social das empresas. Revista Brasileira de Contabilidade. Brasília, n. 130, Jul/ Ago, 2001, p. 23-33. GRAY, R. Thirty years of social accounting, reporting and auditing: what (if anything) have we learnt? Business Ethics: A Europian Rewiew. v. 10, n. 1, Jan, 2001, p. 9 – 15. 112
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    Metodologias de IntervençãoUtilizadas pelos Consultores no Trabalho Realizado com ONGs: um estudo na região metropolitana de Recife-PE Methods of Intervention Used in Labor Performed by the Consultants with NGOs: a study in the metropolitan area of Recife-PE Naldeir dos Santos Vieira1 Marcos Gilson Gomes Feitosa2 Resumo O presente estudo tem como objetivo identificar e analisar as metodologias de intervenção utilizadas pelos consultores no trabalho realizado com Organizações Não Governamentais (ONGs). Com este fim, além da pesquisa bibliográfica (ARGYRIS, 1970; FERNANDES, 1994; CARVALHO, 2000; OLIVEIRA, 2004; TENÓRIO, 2004; TUDE; RODRIGUES, 2007; ABONG, 2008), foram realizados estudos qualitativos com consultores de ONGs que atuam na região metropolitana de Recife-PE, sendo a coleta de dados dividida em três etapas: entrevistas exploratórias, entrevistas em profundidade e entrevistas de acompanhamento. Em seguida, os dados foram analisados utilizando-se como método principal a análise da pragmática da linguagem (MATTOS, 2006). Quanto aos resultados, podemos destacar que no trabalho de consultoria com ONGs os consultores enfatizaram que, pela natureza multifacetada dessas organizações, não existem metodologias pré-determinadas para a consultoria nesse campo, com exceção para as consultorias especializadas. Grande parte do trabalho do consultor está relacionada à realização de planejamentos estratégicos que têm como ponto de partida a realização de diagnósticos organizacionais. Pela escassez de recursos, muitas vezes, o acompanhamento das atividades planejadas pela consultoria fica a cargo dos próprios integrantes das ONGs. Palavras-chave: Organizações do Terceiro Setor; Consultoria Organizacional; Aprendizagem. Abstract This study aims at identifying and analyzing intervention methods used by the consultants who work with Non- Governmental Organizations (NGOs). For this purpose, in addition to the literature (ARGYRIS, 1970; FERNANDES, 1994; CARVALHO, 2000; OLIVEIRA, 2004; TENÓRIO, 2004; TUDE; RODRIGUES, 2007; ABONG, 2008), qualitative studies were conducted with consultants from NGOs that work in the metropolitan area of Recife- PE, and the collection of data divided into three phases: exploratory interviews, in-depth interviews and follow- up interviews. Then, the data were analyzed using as the main method the pragmatic analysis of language (MATTOS, 2006). Regarding the results, it is possible to highlight that the consulting work with NGOs, due to the multifaceted nature of these organizations, there are no pre-determined methodologies for advising them, except for specialized consultancy. Much of the consultant work is related to the implementation of strategic plans 1 Professor Assistente da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri - UFVJM, Brasil.Possui mestrado em Administração pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, Brasil. Contato: naldeir@yahoo.com.br 2 Professor Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco - PROPAD/UFPE, Brasil. Possui doutorado em Educação pela Universidade Federal de São Carlos - UFSCAR, Brasil. Contato: feitosam@terra.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 06/07/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    that have, asa starting point, the realization of organizational diagnosis. Because of resource scarcity, often the monitoring of planned activities is carried out by the members of NGOs. Key words: Organizations of the Third Sector; Organizational Consulting; Learning. 1 Introdução determinada causa em nível universal, agindo Desde que algumas Organizações politicamente, de maneira profissional com a Não Governamentais (ONGs) passaram a se finalidade de realizar transformações sociais em profissionalizarem com maior intensidade – década todo o planeta”. de 1990 – tornou-se comum a contratação dos serviços de especialistas e consultores para este fim. 2.As Organizações Não Governamentais Muitos desses profissionais tinham especialidade apenas em empresas e indústrias, mas trabalhando As Organizações Não Governamentais nas ONGs, começaram a deparar com uma “caracterizam-se por serem organizações sem realidade diferente da que estavam acostumados, fins lucrativos, autônomas, isto é, sem vínculo vista que a lógica empresarial é voltada para com o governo, voltadas para o atendimento das atividades utilitaristas e pautadas em uma necessidades de organizações de base popular, racionalidade instrumental. complementando a ação do Estado” (TENÓRIO, Consequentemente, esses consultores que 2004, p. 11). trabalharam em ONGs precisaram aprender com Essas instituições, na visão de alguns autores, as singularidades dessas organizações, adotando as fazem parte do terceiro setor, que, para Mota, posturas apropriadas, para responder às exigências Ckagnaroff e Amaral (2007, p. 6), é visto como ambientais enfrentadas por estas. Diante desta um termo guarda-chuva, pela falta de consenso problemática, a questão de pesquisa central desse quanto a uma definição stricto sensu “abarcando artigo é: quais as principais metodologias utilizadas organizações com diferentes objetivos, tamanhos pelos consultores durante a prática de consultoria e escopos”. Na visão de Tude e Rodrigues (2007), em ONGs? Em decorrência desta questão principal, esse termo foi concebido na década de 70, sendo este estudo, de caráter exploratório, teve como primeiramente utilizado nos Estados Unidos da objetivo identificar e analisar as metodologias América e, depois, foi difundido para outros países no final da década de 80, com os estudos utilizadas pelos consultores na atividade de coordenados por Salamon. consultoria em ONGs, sendo realizados estudos qualitativos com 10 (dez) consultores de ONGs nacionais e internacionais que atuam na região A idéia de um “terceiro setor” supõe um “primeiro” e um “segundo” e nesta medida faz referência ao Esta- metropolitana de Recife-PE. do e ao mercado. A referência, no entanto, é indireta, De acordo com Oliveira (2004), considera-se obtida pela negação – “nem governamental, nem lu- consultor o profissional externo a ONG que assume crativo”. Em termos explícitos e positivos, o conceito a responsabilidade de auxiliar os integrantes da designa simplesmente um conjunto de iniciativas par- organização nas tomadas de decisões, não tendo, ticulares com um sentido público (FERNANDES, 1994, p. 127, grifos do autor). entretanto, o controle direto da situação. Neste estudo, consideramos os consultores individuais e não as empresas de consultoria. Para Tude e Rodrigues (2007) a visão A expressão ONG é polissêmica e ainda implícita sobre as organizações do terceiro inexiste o consenso por uma definição mais precisa. setor parece limitada, ao compreendê-las como Adotamos operacionalmente a visão de Tude e uma alternativa para a solução dos problemas Rodrigues (2007, p. 14), que as classificam como do Estado, escondendo algumas verdadeiras “organizações da sociedade civil que lutam por motivações do movimento associativo moderno, 116
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    resultantes das relaçõesda sociedade civil. Os No entanto, nem toda associação civil ou fundação é autores consideram mais apropriado denominar uma ONG. Entre clubes recreativos, hospitais e uni- versidades privadas, asilos, associações de bairro, cre- esse conjunto de organizações como Organizações ches, fundações e institutos empresariais, associações da Sociedade Civil (OSCs) que, no sentido utilizado de produtores rurais, associações comerciais, clubes por Antônio Gramsci, transfere o eixo explicativo “da de futebol, associações civis de benefício mútuo, etc. e necessidade de preenchimento de lacunas deixadas ONGs, temos objetivos e atuações bastante distintos, pelo Estado e pelo Mercado, no caso das teorias do às vezes, até opostos (ABONG, 2008). terceiro setor, para o aumento da complexidade do fenômeno estatal e da intensificação dos processos Como as características que definem de socialização política, para a sociedade civil” essas organizações não esclarecem totalmente as (TUDE; RODRIGUES, 2007, p. 13). diferenças entre as ONGs e as demais OSCs, para De acordo com a Associação Brasileira de Tude e Rodrigues (2007), podemos entendê-las Organizações Não Governamentais (ABONG, melhor ao descrevermos o que as primeiras não são. 2008) a expressão terceiro setor traz-nos uma Desse modo, as ONGs se diferem das demais OSCs ideia de igualdade, unidade, convergência e ou terceiro setor por não representarem o interesse consenso. Contudo, na realidade, a sociedade civil particular de um grupo específico ao trabalharem organizada no Brasil é extremamente diversa, plural por causas tratadas universalmente; por não agirem e heterogênea, construída ao longo de séculos somente através da filantropia e da caridade, e marcada por processos brutais de exclusão, buscando a justiça social e valores nos quais elas concentração de renda e violação de direitos, sendo acreditam e pretendem disseminar e por serem que suas organizações expressam os conflitos e organizações mais politizadas, não tendo finalidade contradições existentes. comercial, mas buscarem agir profissionalmente Em decorrência, a inclusão das ONGs para realizar transformações sociais. no terceiro setor implica problemas de ordem conceitual, política e de identidade. Essa expressão Sabemos que ONG - Organização Não Governamen- é constantemente utilizada para referir-se às tal - não é termo definido em lei, mas sim uma cate- organizações da sociedade civil sem fins lucrativos goria que vem sendo socialmente construída e usada de uma forma geral, abrigando segmentos com para designar um conjunto de entidades com carac- características diversas, como entidades filantrópicas, terísticas peculiares, reconhecidas pelos seus agentes, institutos empresariais e até ONGs. É importante pelo senso comum ou pela opinião pública (ABONG, afirmar a identidade de cada grupo e campo político 2008). de organizações da sociedade civil brasileira. Isso significa marcar as diferenças e os pontos em que Desse modo, mesmo sem o respaldo legal, convergem (ABONG, 2008). consideramos neste trabalho que as ONGs são Para a ABONG (2008), “do ponto de vista ”organizações da sociedade civil que lutam por formal, uma ONG é constituída pela vontade determinada causa em nível universal, agindo autônoma de mulheres e homens, que se reúnem politicamente, de maneira profissional com a finalidade com a finalidade de promover objetivos comuns de de realizar transformações sociais em todo o planeta” forma não lucrativa”. A legislação brasileira prevê (TUDE; RODRIGUES, 2007, p. 14). Em decorrência, quatro formatos institucionais para a constituição objetivamos estudar somente consultorias realizadas de uma organização sem fins lucrativos, com essas para organizações que além de se considerarem características – associação, fundação, organização como ONGs, de serem de natureza privada e de religiosa e partido político. Juridicamente, toda terem interesses públicos, são também autônomas e ONG é uma associação civil ou uma fundação prestam serviços para a coletividade com o objetivo privada. de desencadear transformações sociais. 117
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    3 A consultoriaorganizacional em ONGs A adoção do management pelas ONGs foi provocada por dois fatores principais: a necessidade Consultoria organizacional é uma expressão das ONGs conseguirem uma maior eficiência de suas utilizada para definir uma relação de interação, que atividades e a de se tornarem mais “competitivas” envolve uma atividade de ajuda para a solução de na obtenção de recursos financeiros, uma vez que a problemas (MANCIA, 1997). Para Argyris (1970), partir da década de 90, estes se tornaram escassos. trata-se de um processo de intervenção, sendo esse realizado em uma organização denominada As pressões dos financiadores para que as ONG’s se sistema-cliente. Intervir, na concepção do autor profissionalizassem se deu a partir do momento em que (1970, p. 15), “é entrar num sistema de relações em estes passaram a estipular determinados critérios para andamento, aproximar-se de pessoas, grupos ou a liberação dos financiamentos. Dependentes destas Agências as ONG’s para obter créditos das mesmas objetos com o propósito de ajudá-los”. Esta ajuda passam a cumprir os critérios e procedimentos estabe- pode ser oferecida a diferentes tipos de pessoas lecidos. Dentre estes critérios está a descrição de proje- e/ou instituições, sendo estas: órgãos do Estado, tos, planos e orçamentos, além da prestação de contas empresas, clubes esportivos, ONGs e outros. dos resultados (LYRA, 2005, p. 57). Nesse campo, podem atuar diversos profissionais, sendo que a única exigência é Além das exigências dos financiadores, autores que estes consigam clientes que contratem seus como Falconer (1999) e Drucker (2002) consideram serviços. Não existe uma regulamentação dessa que a profissionalização das organizações do atividade (VALENÇA; ASSOCIADOS, 1995) terceiro setor também foi resultado da necessidade e, consequentemente, não existem ações ou delas se tornarem mais eficientes. Para Drucker metodologias padronizadas. (2002), as instituições sem fins lucrativos entenderam Para Oliveira (2004), existem dois tipos de que precisam ser bem gerenciadas e que precisam consultoria de acordo com o método de intervenção aprender a utilizar a gerência como uma ferramenta. adotado pelo consultor. A primeira é a consultoria “Elas sabem que necessitam de gerência para que de pacote, que “é realizada às empresas-clientes possam se concentrar em sua missão” (DRUCKER, por meio da transferência de fortes estruturas 2002, p. XIV. Na verdade, Drucker crê que está de metodologias e técnicas administrativas, ocorrendo um “crescimento gerencial” nessas sem a preocupação de otimizada adequação à instituições, sejam elas grandes ou pequenas. realidade atual ou esperada para a empresa- Com essa profissionalização da gestão, cliente” (OLIVEIRA, 2004, p. 63). O outro tipo é a técnicos especialistas passam a ser contratados para consultoria artesanal, que é “aquela que procura executar funções especializadas nas ONGs. “A visão atender às necessidades da empresa-cliente por romântica da organização horizontal baseada na meio de um projeto baseado em metodologia e igualdade e na ausência de hierarquia e autoridade, técnicas administrativas especificamente estruturadas dá lugar, progressivamente, ao paradigma moderno para a referida empresa-cliente, tendo, entretanto, da competência, da produtividade e da eficiência sustentação de outras abordagens e modelos no mundo do voluntariado e suas organizações” aplicados em outras empresas” (OLIVEIRA, 2004, (CARVALHO, 2000, p. 11). p. 65). Como exemplo de consultoria organizacional Tratando-se especificamente das atividades realizada em ONGs, temos a parceria Ashoka- de consultoria voltadas para ONGs, essa prática McKinsey, criada em 1996, estando presente se acentuou a partir do momento em que tais em mais de 10 países. Com esta parceria, que organizações começaram a profissionalizar-se, resultou na criação do Centro de Competência adotando práticas gerenciais, antes, comuns apenas para Empreendedores Sociais Ashoka-McKinsey às organizações mercantis. (CCES), consultores voluntários da Mckinsey and 118
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    Company ficam àdisposição de empreendedores com 4 (quatro) consultores com o objetivo de obter sociais e instituições, para contribuírem com sua dados gerais relativos ao campo de estudo. Estas profissionalização e desenvolvimento (ASHOKA, entrevistas exploratórias propiciaram um maior 2007). embasamento para a elaboração de um segundo De acordo com a Ashoka (2007), com essa roteiro, mais extenso e com questões mais específicas. parceria, os empreendedores sociais são fortalecidos Nessa segunda fase, foram entrevistados 7 (sete) com a adaptação e a transferência de conhecimentos consultores. e ferramentas vindas do setor privado. Os consultores, Além da realização das entrevistas por sua vez, têm a oportunidade de desenvolver-se aprofundadas, foi feito o acompanhamento de profissional e socialmente nesse novo campo. Este é algumas intervenções por meio dos relatos dos um processo, às vezes, demorado e que demanda consultores sobre uma intervenção específica. Antes aprendizagem da organização e do consultor. da intervenção, foi dado ao consultor um pequeno roteiro com nove pontos relacionados à consultoria 4 Procedimentos metodológicos a serem refletidos por ele. Posteriormente, foi agendada uma entrevista com o consultor para uma Esta pesquisa teve um caráter qualitativo discussão sobre suas reflexões referentes àquela e procurou compreender nuances do processo intervenção específica. de consultoria nas ONGs, sem a intenção de gerar dados quantificáveis e/ou generalizáveis a Quadro 1(4) – Entrevistas realizadas com os outros contextos. Caracteriza-se como um estudo consultores de ONGs. exploratório e descritivo, captando informações Consultores Exploratória Aprofundada Acompanhamento sobre determinado problema ou questão. Consultor A Maio, 2007 - Outubro, 2007 Consultor B Maio, 2007 - - Para o alcance dos objetivos, a pesquisa foi Consultor C Maio, 2007 Novembro, 2007 Novembro, 2007 realizada seguindo as seguintes etapas: Consultor D Maio, 2007 - - Consultor E - Outubro, 2007 - 1ª fase - Pesquisa bibliográfica: revisão Consultor F - Outubro, 2007 - bibliográfica em livros e publicações diversas sobre o Consultor G - Outubro, 2007 - Consultora H - Novembro 2007 - referido tema, que trouxeram informações relevantes Consultora I - Novembro, 2007 Dezembro, 2007 Consultora J - Novembro, 2007 - para o estudo da consultoria organizacional, das Fonte: elaboração própria, 2008. ONGs e do processo de aprendizagem do consultor por meio de suas intervenções. 4ª fase – Análise dos dados: utilizamos como 2ª fase – Delimitação do campo empírico: base para o nosso método de análise das entrevistas o campo empírico foi formado por consultores a análise da pragmática da linguagem desenvolvido que prestam consultoria a ONGs que atuam por Mattos (2006) e composto por seis fases que na região metropolitana de Recife-PE. Foram serão especificadas abaixo: entrevistados 10 (dez) consultores, sendo utilizada 1°: Recuperar os diálogos gravados e fazer como técnica de seleção de amostra a “bola de a sua transcrição, enfatizando alguns momentos neve” (MERRIAM, 1998). Embasado nesta técnica, especiais que deverão ser registrados na memória após a primeira entrevista (Consultor A), os ou anotados para o momento da análise final. entrevistados foram indicando outros, sendo estes 2°: Resgatar o contexto em que o diálogo considerados como fontes de dados relevantes aconteceu, a partir do levantamento das seguintes para o entendimento do processo da consultoria questões: o que aconteceu ali entre aquelas duas desenvolvido nas ONGs. pessoas; ou o que foi acontecendo ao longo da 3ª fase – Coleta de dados: a coleta de dados entrevista? Como o assunto foi se desenvolvendo? foi realizada a partir da realização de entrevistas Onde parece terem ocorrido “pontos altos” semi-estruturadas com os consultores, sendo que, e momentos de “ausência”. Que respostas a princípio, foi realizada uma entrevista exploratória “transbordaram” para outras? 119
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    3°: Apresentar aoentrevistado o significado ao planejamento estratégicos, e, às consultorias nuclear da resposta, para que haja uma validação. pontuais desenvolvidas. Devido às dificuldades antecipadas de horários para apresentação dos dados para a validação 5.1 A necessidade de adequação da meto- da resposta, tivemos o cuidado, após cada seção dologia de intervenção ao contexto das ONGs da entrevista, de repetir o que estava sendo dito pelo entrevistado e perguntar a ele se o nosso Pelo fato de o contexto das ONGs ser diferente entendimento do que ele tinha exposto estava do contexto das organizações que compõem o correto, cumprindo assim o proposto nessa fase. “primeiro” e o “segundo setor”, para os consultores, 4°: Transcrever os dados colhidos, pelo há uma necessidade de adequação ou construção menos os da análise dos significados nucleares de novas metodologias de intervenção. Algumas das respostas acima para uma matriz de dupla diferenças que, primeiramente, devem ser levadas entrada: em uma os entrevistados, aproximados em consideração estão relacionadas às atividades por características de estratificação, em outra, as a serem desenvolvidas. A metodologia de cada perguntas. intervenção deve ser elaborada como fruto do 5°: Analisar o conjunto, visualizando os contexto entre a organização e o que é solicitado. fatos de evidência relativos a cada entrevistado, no Como foi citado pelo Consultor C, metodologias conjunto das suas respostas, quando se identificarão diferentes devem ser utilizadas quando a consultoria “respostas retardadas” ou “antecipadas”; segundo, está relacionada a um curso de capacitação, ou a uma visualizando os fatos de evidencia relativos, ou bem mobilização ou a uma intervenção organizacional. como aqueles que dizem respeito a cada uma das Cabe ressaltar que algumas atividades descritas perguntas; terceiro, “pairando meditativamente” como consultorias pelos consultores, para autores sobre todo o conjunto das entrevistas. Nessa etapa, como Oliveira (2004), trata-se, na verdade, de demos início à redação parcial dos resultados, assessoria ou de treinamento. cuja elaboração, de forma sistemática, se seguiu à análise. A questão da metodologia, a gente define em função 6°: Submeter aos pares certas observações do que vai ser feito. Então, conforme o que vai ser conclusivas do pesquisador, antes que este se sinta feito, combinado em termo de trabalho. A intervenção financeira tem uma metodologia de trabalho própria autorizado a redigir seu texto, funcionando a praxe e, aí a gente estabelece esse caminho a se cumprir. Se como validação da interpretação. é uma intervenção organizacional, uma mobilização, Posterior à sistematização das entrevistas, um curso, então, cada um vai ter um processo dife- os dados foram analisados sob a luz do referencial rente. Dentre as existentes a gente seleciona algumas teórico aqui exposto e, finalmente, foram obtidas (Consultor C, entrevista em maio de 2007). algumas conclusões sobre o estudo. Outra diferença que deve ser considerada 5 Principais metodologias utilizadas está relacionada ao ritmo que deve ser seguido no pelos consultores nas intervenções em trabalho com cada organização. Em algumas menos ONGs estruturadas ou mais conflituosas, o processo de consultoria deve ser mais lento, o que não acontece Nesta seção foram descritos os resultados em ONGs onde as atividades e o envolvimento dos obtidos com os consultores referentes às integrantes estão bem articulados. metodologias utilizadas no trabalho com ONGs, aos aspectos relacionados à consultoria direcionada Cada organização tem seu tempo, não adianta impor para a elaboração do planejamento estratégico tempo em uma organização e nem achar que o que destas organizações, às atividades posteriores você fez com uma organização em um determinado 120
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    tempo, vai darpara fazer com a outra. Eu acho que No entanto, posteriormente, alguns se eles têm muito a ensinar para a gente no que diz res- contradisseram, mostrando que isso seria o ideal, peito a processo de trabalho. Você entra nos proces- mas que nem sempre é o praticado. Podemos sos desenhados o que você acha que eles podem ser, como é que vai, como é que fica, mas a agenda nunca identificar esta contradição na fala do Consultor F: conseguirá ser cumprida. Pelo menos, eu nunca conse- gui cumprir exatamente aquilo que eu havia planejado Que você termina sendo solicitado para contribuir. (Consultora I, entrevista em novembro de 2007). Não assim, para fazer que a solução seja criada, mas para você próprio facilitar e dizer, é assim, assim, e assim. Eu resistia no começo. Eu achava que a pró- A terceira diferença diz respeito à complexidade pria metodologia do trabalho das ONGs é a busca da organização, sendo que a complexidade, para da construção dos sujeitos, que ele descubra o empo- o Consultor A, está relacionada ao tamanho da deramento. Que ele empodere daquelas coisas para ONG e às dificuldades enfrentadas pela mesma ser autônomo. Então, na minha atividade que é asses- para que suas atividades sejam concluídas. Desse soria, planejamento e consultoria, eu tentava e daqui a pouco eu mesmo dizia: “está perdendo muito tem- modo, organizações mais complexas demandam po e diz logo” [risos, demonstrando que é uma ação metodologias que dê conta dessa complexidade que ele faz, mas que não é a considerada como ideal] que são diferentes das utilizadas em organizações (Consultor F, entrevista em outubro de 2007). com um nível de complexidade menor. A justificativa para essa ação inadequada, Não adianta você achar que todas funcionam da mes- de acordo com o Consultor F, está no fato de que ma forma, que não é. Cada uma pode ter o mesmo número de funcionários, pode trabalhar com a mes- construir coletivamente demanda muito tempo e nem ma coisa, mas tem complexidades e dificuldades, sempre o consultor dispõe desse tempo demandado, problemas diferentes. (...) Depende de cada caso, do ou os contratos não levam em consideração a tamanho da instituição. É muito relativo, e depende necessidade deste tempo. do tamanho da instituição (Consultor A, entrevista de acompanhamento em outubro de 2007). 5.2 O planejamento estratégico nas ONGs Para os consultores entrevistados, na E, por fim, como afirmou a Consultora I, maioria das vezes, quando se trata de consultoria a própria diferença na área de atuação dessas organizacional, as ONGs demandam dos consultores organizações e a falta de um padrão quanto à a realização de planejamento estratégico, sendo sua estruturação as tornam diferentes entre si, este o ponto de partida das consultorias. É por esse o que dificulta a estruturação de metodologias motivo que daremos uma maior atenção para as padronizadas por parte do consultor. etapas da realização do mesmo. Assim, torna-se necessário uma adaptação Para o Consultor F, o método de planejamento das metodologias às diferenças das ONGs, o que para as ONGs é posterior aos anos 90. Antes existia torna inviável tentar aplicar pacotes com etapas pouco material voltado para essas organizações. e propostas totalmente definidas. A experiência Pensava-se basicamente em projetos de maneira permite a elaboração de algo sistematizado, isolada e não na organização como um todo. mas esta sistematização deve servir apenas como Poucas ONGs realizavam um planejamento como orientação para o consultor. Além da necessidade instituição, e o embrião desse planejamento foi o de flexibilidade, com unanimidade, foi considerado chamado projeto institucional. pelos consultores que uma metodologia que ajuda o consultor a direcionar suas atividades é necessária, Apareceu uma ou outra ONG falando de projeto insti- mas as propostas do que deve ser feito, quanto às tucional que já era um grau acima do que era projeto tomadas de decisão, deve partir dos integrantes das específico de execução. O projeto institucional tinha ONGs e não dos consultores. que falar do objetivo da instituição e tinha que ter pro- 121
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    gramas e dentrodos programas, terem projetos. En- vai utilizar em sua intervenção. “Aí tem diferentes tão, começam as agências, cobrando um pouco mais experiências, e você vai descobrindo que não tem de arrumação das ONGs (Consultor F, entrevista em um modelo, não existe. Eu duvido, eu desafio quem outubro de 2007). conseguir levar um modelo de planejamento para ONG, depois de muitas experiências” (Consultor F, Como uma evolução dos projetos entrevista em outubro de 2007). institucionais, a partir dos anos 90, os consultores de 5.3 O ponto de partida para o planejamento ONGs passam a ser demandados para dar subsídios estratégico ao desenvolvimento do planejamento dessas A partir das entrevistas com os consultores instituições e algumas passaram a elaborar seus foi possível a identificação de três metodologias próprios planejamentos. Como afirmou o Consultor de planejamento, sendo todas participativas. O F (entrevista em outubro de 2007): “aí começaram primeiro conjunto de metodologias tem como ponto a aparecer pequenos roteiros, pequenos manuais de partida o diagnóstico e definição de problemas, de planejamento. E aí, algumas ONGs começaram, para buscar suas possíveis soluções de acordo elas próprias, a fazer seus planejamentos com seus com a visão dos integrantes das ONGs. Nesse métodos”. grupo, destaca-se o Método Altadir de Planificação Com essa demanda por planejamento, Popular (MAAP) que é um método de planejamento começam a aparecer diversos métodos de participativo pelo qual, a partir do diagnóstico da planejamento e os caminhos propostos pelos organização, são planejadas as ações futuras. consultores, pelos financiadores e pelas ONGs, Podemos identificar a presença de atividades que que começaram a desenvolver suas próprias se aproximam dessa metodologia embasados nas metodologias, passaram, muitas vezes, a ser conflitantes. Assim, o consultor passa, muitas falas dos consultores E e F: vezes, a ter que aceitar seguir certas metodologias propostas pelos financiadores, ou pelas ONGs, e Tem gente que acha que deve partir do Método Altadir somente quando tem abertura, seguem a sua própria e começa a construir daí. Tem sua validade também, porque no final você termina construindo uma visão de metodologia. O Consultor E expõe a existência futuro. Na verdade esse é diferente daquele [método dessas diferentes fontes de metodologias para o baseado na visão futura]. Você vai colocar o proble- planejamento: ma, combatendo o problema (Consultor F, entrevista em outubro de 2007). Que varia em função do trabalho. Mas basicamen- te, tem uma fase de discussão. (...) Você é chamado Tem um diagnóstico que diz respeito apenas à entida- para uma coisa e aí você reformula junto com o cliente de em si. Eventualmente a parceiros. (...) Depois do no caso, o pessoal da ONG, o conjunto das pessoas, diagnóstico, tem uma devolução para o grupo. En- pode ser a pessoa única que encomenda, dependen- tão o diagnóstico vê basicamente a documentação, do do trabalho. Há uma reformulação, isto é comum conversar com o cara individualmente, tem um rotei- em consultoria deste tipo. (...) Então, uma vez o foco ro também. Depois tem o processamento disso tudo. pré-definido, tem umas abordagens que podem ser A devolução para o grupo, e depois geralmente tem mais ou menos participativas, dependendo do traba- um tempo [risos, relacionados ao fato de depender da lho (Consultor E, entrevista em outubro de 2007). participação dos envolvidos] para eles se apropriarem, digerirem e tal. E, às vezes, tem, e, às vezes, não tem Desse modo, não existe um modelo para continuidade, depende da escolha do grupo (Consul- tor E, entrevista em outubro de 2007). a realização de planejamento em ONGs, existem modelos, sendo estes próprios das ONGs, trazidos pelos financiadores ou desenvolvidos pelos próprios O segundo conjunto de metodologias segue consultores. Tendo em vista esses diferentes modelos os pressupostos da investigação apreciativa, em que o consultor, dependendo da situação, opta pelo que o trabalho não parte do diagnóstico dos problemas, 122
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    mas sim dasaspirações dos integrantes do sistema- de 2007) “não se consegue nada com no mínimo cliente. Parte de onde se quer chegar e não dos dois, três encontros. A gente não consegue chegar a problemas. lugar nenhum se não tiver no mínimo três encontros. Encontros de dois a três dias. De dois dias é mínimo. Se eu for trabalhar, eu gosto de trabalhar com visão de O ideal é de três dias”. futuro (Consultor F). 5.4 Atividades posteriores ao planejamen- to estratégico Expectativas?(Pesquisador) Para os consultores, após a realização É muito como eles gostariam de ser? (...) E eu fiz um do planejamento estratégico, muitas vezes, são esquema que é visão de futuro (...). Uma visão de futu- demandas outras atividades relacionadas ao ro, quais são os valores que eles têm. O trabalho é em acompanhamento do que foi planejado e a função destes valores, quais são os objetivos institucio- capacitações dos integrantes das ONGs. Apesar de nais, e daí pensar o contexto interno e externo, com relação a esta visão de futuro dos valores e objetivos, pontuais, essas atividades tornam as atividades de se ela está para peixe ou não? (Consultor F, entrevista consultoria mais perenes, o que permite a criação em outubro de 2007). de um vínculo mais forte entre consultores e ONGs. Com uma última proposta de metodologia, Depois, eu posso ficar acompanhando, treinando o pessoal e apresentando como os passos devem ser. destaca-se a Consultora I que não segue uma (...) Por exemplo, eu fiz uma intervenção, no mês de metodologia detalhada. Seu planejamento parte maio. Vou voltar lá agora, a partir de segunda-feira, eu somente do seu envolvimento no grupo, e embasada continuo a ver o que está acontecendo e dando con- em perguntas, vai identificando as necessidades tinuidade ao que eu sugeri. E, paralelo à consultoria, do grupo e proporcionando as discussões que tem a questão da capacitação. Sempre tem uma capa- resultarão em propostas futuras. Estas perguntas não citação, ou antes, ou depois (Consultora J, entrevista em novembro de 2007). têm como objetivo a elaboração de um diagnóstico sistematizado, mas busca despertar no grupo questionamentos e respostas que gerem ações para No entanto, muitas vezes, o que é considerado o desenvolvimento da ONG. São utilizadas também como necessidade de planejamento por parte dos atividades lúdicas e dinâmicas de grupo, como no membros das ONGs trata-se de outra demanda caso do Consultor G. específica como organização e redução de conflitos. Desse modo, cabe ao consultor identificar qual Nós nos consideramos consultores perguntadores. Só papel ele deve assumir na instituição. Muitas vezes, ajuda as pessoas a fazerem as suas próprias pergun- como foi identificado na fala do consultor F, realizar tas. Não é que a gente elabora as perguntas para as um planejamento estratégico não é prioritário: pessoas não, a gente elabora perguntas que levam as pessoas a elaborarem suas próprias perguntas e suas Aí, pronto, na ASA [Articulação do Semi-Árido] nós próprias respostas. Ou não, a deixá-las até no ar para descobrimos, ali na hora, nós fizemos uma constru- que um dia elas sejam respondidas (...) A ferramenta ção. O que eles queriam? Eles queriam um plano de é a pergunta (Consultora I, entrevista em novembro de trabalho para o ano, aquele ano, onde todas as pesso- 2007). as da coordenação, aproximadamente trinta tivessem responsabilidade nele, porque o que estava existindo Independente do ponto de partida ou era: pela falta de planejamento, que não era estraté- gico, estava tendo poucas pessoas super atarefadas e da metodologia utilizada para a realização do muitas pessoas, sem nada para fazer. Um dos planeja- planejamento nas ONGs essa atividade não mentos em que senti o maior grau de felicidade foi este demanda muito tempo, em média, menos de uma que aconteceu na ASA, ou seja, era exatamente aquilo semana. Para a Consultora I (entrevista em novembro que eles queriam, mas só descobri lá na hora. O que 123
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    estavam me pedindoantes, na comissão encarrega- para estruturação organizacional, algumas que da de organizar, era um planejamento estratégico. Aí, trabalham focadas nos projetos ou que já têm eu queria a missão, eu queria os valores? Nada disso suas estruturas profissionalizadas, muitas vezes, (Consultor F, entrevista em outubro de 2007). demandam atividades bem específicas e pontuais. Nessas intervenções pontuais, a metodologia de Além da etapa da realização do planejamento intervenção dependerá do serviço demandado, estratégico, que é realizada em sua maioria em que pouco se diferencia das demandadas pelas conjunto com os integrantes das ONGs, as etapas empresas privadas. Dentre essas demandas, posteriores, implementação, controle e avaliação dos estão a aplicação de cursos de capacitações e resultados são realizadas com a ajuda dos membros treinamentos, e, a implementação de ferramentas dessas organizações. Apesar de o consultor, como gerenciais que o consultor tem no formato de afirmou o Consultor F muitas vezes, mesmo não , “pacotes” a serem implementados. Porém, mesmo sendo adequado, aconselhar e fazer propostas, estas tendo um pacote, por serem ferramentas muito propostas são apreciadas pelos membros das ONGs técnicas, torna-se necessário que se tenham que participam de todas as etapas da intervenção. “Por algumas adaptações. Essa necessidade foi exemplo, uma ação na área financeira, muitas vezes destacada pelo Consultor B, que foi contratado a gente intervém usando os próprios colaboradores por uma ONG, para realizar uma capacitação da ONG” (Consultor C, entrevista em novembro de em desenvolvimento de competências para seus 2007). funcionários. Em algumas intervenções, são os próprios membros das ONGs que dão continuidade às Ele era muito técnico para um programa de compe- atividades propostas no planejamento estratégico e os tências. Era um instrumento de apoio à decisão, que consultores se afastam da organização. De acordo com requereria, para ser aplicado melhor, mais tempo e o alguns consultores, o que dificulta a sua permanência apliquei em pouco tempo e parte do grupo entendeu nas atividades pós-planejamento é o fato de nem e a outra parte não entendeu. Alguns questionaram, e não deu para corrigir. O que tive que fazer foi dizer: sempre as instituições terem recursos para mantê-los. olha este instrumento aqui é muito valioso, mas não foi Desse modo, nem sempre os consultores adequado. Então eu pedi desculpa e, hoje, não farei acompanham todo o processo de estruturação de novo (Consultor B, entrevista em maio de 2007). organizacional. Quando acompanham todas as etapas, desde o planejamento até a avaliação, eles levam, Além das consultorias voltadas para em média, de um a dois anos, o que é considerado treinamentos, capacitações e elaboração de projetos, como pouco por eles. No entanto, eles precisam se algumas são voltadas para a minimização dos adequar a estes prazos pelo fato de os financiamentos, conflitos, uma vez que estes são muito acentuados muitas vezes, cobrirem as atividades somente dentro nas ONGs. Esse é o caso do Consultor G, cujo dos limites especificados. Então, como foi afirmado trabalho se pauta na geração da confiança e na pelo Consultor E (entrevista em outubro de 2007): integração dos membros das ONGs clientes. “depende do dinheiro disponível. Vai depender muita da demanda e do tempo disponível, mas normalmente Todo o trabalho que o Libertas [empresa de consul- dura um ano. Um trabalho organizacional é cerca de, toria da qual é sócio] desenvolve, é um trabalho de no mínimo, um ano”. integração das pessoas dos grupos, nas equipes, nas organizações. (...) Trata-se de pessoas que estão lá, 5.5 Metodologias utilizadas nos traba- reunidas em grupos e que o processo de integração, lhos de consultorias pontuais normalmente, tem se mostrado rico para Organiza- ções Não Governamentais. Porque, muitas vezes, as No entanto, nem todas as ONGs, como foi pessoas vêm de uma educação muito competitiva. exposto pelo Consultor C, contratam consultoria (...) A união, a cooperação é simbolizada pelas mãos 124
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    dadas, só queas Organizações Não Governamen- Assim sendo, essa metodologia serve somente como tais muitas vezes não têm esta visão, até por causa norte para o consultor, mas é extremamente flexível e da formação das pessoas (Consultor G, entrevista em adaptável às realidades de cada organização. outubro de 2007). Se por um lado as metodologias de intervenção condizem com a proposta da consultoria artesanal (WOOD Jr.; PAES de PAULA, 2004), por outro, 6 Discussão dos resultados e certas limitações como a realização das atividades considerações finais em curto prazo levam os consultores, muitas vezes, a darem conselhos e a dizerem o que deve ser feito Quanto aos serviços de consultorias pelos integrantes das ONGs. Essa prática inviabiliza demandados pelas ONGs, podemos afirmar, o cumprimento das três tarefas primárias propostas embasados na definição de Oliveira (2004), que por Argyris (1970) por não permitir o cumprimento são demandadas tanto consultorias ”especializadas” da segunda – propiciar a escolha livre do sistema- quanto “totais”. No primeiro grupo, estão as cliente -, o que pode dificultar o desenvolvimento atividades relacionadas a capacitações, treinamentos, do comprometimento interno dos integrantes implantação de ferramentas gerenciais e elaboração com as decisões propostas. Além de não gerar de projetos e, no segundo, destacam-se a elaboração comprometimento, ela pode gerar dependência de planejamentos estratégicos e atividades posteriores dos integrantes do sistema-cliente pelo consultor. É ou resultantes deles. Podemos observar que as para não ter essa dependência que os integrantes consultorias especializadas são mais demandadas das ONGs estudadas por Correia e Vieira (2007) pelas ONGs mais estruturadas ou que se estruturam preferem consultores com postura de mediador e não somente em torno de projetos, e as consultorias totais de conselheiro. são demandas por ONGs menos profissionalizadas Quanto ao envolvimento dos integrantes com maior carência para a estruturação administrativa. nas etapas da intervenção do consultor, há uma Com relação às metodologias de intervenção adequação à proposta de Argyris (1970) de o utilizadas pelos consultores nas ONGs, por consultor envolver todos os membros no processo unanimidade, foi considerado como inadequada a de intervenção, mesmo que o contato inicial seja adoção da consultoria de pacote (OLIVEIRA, 2004; somente com a diretoria da organização. Na WOOD Jr.; PAES de PAULA, 2004), sendo a consultoria presente pesquisa identificou-se uma tendência de artesanal (OLIVEIRA, 2004), que Wood Jr. e Paes de metodologias participativas, tanto na realização do Paula (1997) chamam de construtivista, considerada diagnóstico quanto nas etapas posteriores como como a mais adequada, uma vez que as realidades planejamento, execução e avaliação das atividades. entre as ONGs e as empresas são diferentes, assim No entanto, nas consultorias especializadas, esse como, entre as próprias ONGs. Desse modo, não envolvimento das partes interessadas é bem menor. existe pacote pronto para se atuar em ONGs, com Além da implantação de pacotes vindos das exceção para as consultorias “especializadas”. É por empresas privadas de forma acrítica (DINIZ, 2000), isso que Chapman (1998) alerta as Organizações foi destacado como um segundo erro praticado pelos Sem Fins Lucrativos, para terem cuidado com receitas consultores no processo de consultoria a ONGs o prontas trazidas pelos consultores. excesso de academicismo. A ocorrência desse erro se No entanto, torna-se necessário que se configura como uma das críticas citadas por Wood Jr. e desenvolvam metodologias por meio das experiências Paes de Paula (2004) em que o consultor é acusado de nesse contexto, mas como foi afirmado por Argyris ser arrogante e de utilizar uma linguagem hermética. (1970) estas metodologias devem atuar somente Como os consultores destacaram a necessidade de como mapa cognitivo das ações do consultor evitar aconselhamentos e de elaborar propostas em permitindo que este, consciente de seu papel, tenha conjunto com os integrantes das ONGs, o excesso consciência de suas ações prioritárias nesse sistema. de academicismo pode proporcionar aos consultores 125
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    uma percepção deque são detentores do saber que culdades para pesquisas futuras, como deve ser “transmitido” para o sistema-cliente, sendo a distinção entre ONGs, terceiro setor esta premissa considerada como equivocada pelos e organizações da sociedade civil; e o entrevistados. que vem a ser eficiência e eficácia nas Diante dos resultados desta pesquisa de organizações sem fins lucrativos. natureza exploratória, fica como propostas para • Analisar as metodologias utilizadas pe- futuras pesquisas: los consultores em cada subconjunto • Esclarecer de maneira mais aprofun- de ONGs (nacionais, internacionais, dada alguns conceitos que ainda não micro crédito, educacionais, e outras), estão amadurecidos e se constituíram fazendo as devidas comparações e dis- como dificuldades para esta pesquisa tinções entre os contextos de cada sub- e que podem se configurar como difi- conjunto. Referências ABONG. Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais. Disponível em: <http:// www.abong.org.br/>. Acesso em: 03 de jan. 2008. ARGYRIS, C. Intervention, Theory and Method: a behavioral science view. San Francisco: Jossey-Bass, 1970. ASHOKA. Parceria Ashoka-McKinsey. Disponível em: <http://www.ashoka.org.br/main. php?var1=left&var2=amk>. Acesso em 15 de out. 2007. CARVALHO, C. A. P Preservar a identidade e buscar padrões de eficiência: questões complementares . ou contraditórias na atualidade das organizações não governamentais? Revista Eletrônica de Administração – REAd. 14 ed., v. 6, n. 2, mar-abr 2000. CHAPMAN, J. Do process consultants need different skills when working with nonprofits? In: Leadership & Organization Development Journal. 19/4 [1998] 211-215. CORREIA, F. B. C.; VIEIRA, N. S. A Consultoria como Oportunidade de Aprendizagem para as Organizações Não Governamentais: um estudo na cidade de Recife/PE. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO – EnANPAD, 31., Rio de Janeiro-RJ, 2007. Anais Eletrônicos. Rio de Janeiro: ANPAD, 2007. CD. DINIZ, João H. A. S. O reflexo dos ajustes das Organizações Não-governamentais Internacionais – ONGIs, às modernas práticas administrativas, sobre o seu caráter institucional original. Recife: O Autor, 2000. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco. CCSA. Administração, 2000. DRUCKER, P F. Administração de Organizações Sem Fins Lucrativos: princípios e práticas. Nivaldo . Montingelli (trad.). São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. FALCONER, A. P A promessa do terceiro setor: um estudo sobre a construção do papel das organizações . sem fins lucrativos e do seu campo de gestão. Centro de Estudos em Administração do Terceiro Setor. São Paulo: Universidade de São Paulo. 1999. FERNANDES, R. C.; Privado porém público: o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro: Relume- Dumará, 1994. LYRA, C. Ação Política e autonomia: a cooperação não-governamental para o desenvolvimento. São Paulo: Annablume: Terre des Hommes Suisse, 2005. MANCIA, L. T. S. Os desafios do modelo de consultoria interna: uma experiência gaúcha. Dissertação (Mestrado) – Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul /EA/PPGA, 1997. 126
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    Avaliação da Qualidadedos Serviços de uma Instituição de Ensino Superior Utilizando a Aplicação do Modelo Adaptado de Mensuração dos 5 GAP’s Evaluation of Higher Education Service Quality through the Adapted Measure Model of 5 GAPs Rodrigo Navarro Xavier1 Resumo O desenvolvimento de instrumentos de avaliação institucional aptos a reconhecer a percepção dos clientes de instituições de ensino superior é de fundamental importância para a adequada prestação de serviços educacionais. Partindo-se dessa premissa, este artigo apresenta uma adaptação do modelo conceitual de qualidade em serviço ou modelo GAP à avaliação educacional em um curso de Pós-Graduação de uma instituição de ensino superior no município de Guarapuava-Pr. Seus objetivos específicos consistem em discutir sucintamente os modelos de escalas de avaliação da qualidade associados ao ensino de Pós-Graduação, detalhando as potencialidades e as limitações do emprego dessa técnica em reconhecer a percepção de qualidade dos estudantes do curso em estudo. Em seus resultados, o trabalho pôde identificar variáveis bem avaliadas e, também, estruturas, processos e condutas que devem ser aperfeiçoados na oferta dos próximos cursos. Puderam-se reconhecer, ainda, os grupos com julgamentos distintos e os atributos responsáveis pelos dissensos, que servirão de parâmetro para a priorização oportunidades de melhoria. Palavras-chave: Educação; Qualidade em Serviços; GAP5. Abstract The development of institutional assessment tools able to recognize the clients’ perception of higher education institutions is fundamentally important for the adequate provision of educational services. Starting from this premise, this paper presents an adaptation of the conceptual model of service quality, GAP model or educational evaluation in a graduate course of an institution of higher education in Guarapuava, Brazil. Specific objectives consist of discussing, briefly, the models of rating scales associated with the quality of graduate education, detailing the potential and limitations of this technique in recognizing the perceived quality of the students in the course studied. In its results, it was possible to identify well evaluated variables, as well as structure, processes and procedures that must be improved for the provision of forthcoming courses. It was also possible to be recognized, the groups with different trials and the attributes responsible for dissent, which serve as a parameter for prioritizing improvement opportunities. Key words: Educational; Service Quality; GAP5. 1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil.Possui Mestrado Profissionalizante em Gestão Ambiental pela Universidade Positivo - UP Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Processos Biotecnológicos pela Universidade Federal do Paraná , - UFPR, Brasil. Contato: baterlino@hotmail.com Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 09/06/2010 - Aprovado em 13/11/2010
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    Introdução uma ferramenta adequada de avaliação do ensino superior deve também estar direcionada à Nos tempos atuais, o mercado tem exercido identificação das possíveis falhas daa instituição forte influência no setor educacional, isto, devido em perceber as reais necessidades de seus alunos, à especialização e à divisão do trabalho dentro o que contribui para fortalecer o foco da avaliação, das organizações, o que originou o surgimento de evitando a ênfase em aspectos secundários do necessidades por profissionais mais qualificados processo educacional. para exercer funções mais específicas e de alta Contudo, o desafio da emancipação humana especialização. permanece presente nas políticas educacionais, Segundo Leitão et al. (2007), na última integrando as visões de “educação para a cidadania” e década, a educação superior brasileira sofreu “educação para a competitividade”, que têm orientado intensas mudanças, especialmente no âmbito de a reforma do ensino em todos os seus níveis. Pós-Graduação. Hoje, a Pós-Graduação é um elo Tendo esses aspectos como ponto de importante na constituição das diversas relações que partida, o artigo pretende apresentar uma exercem o desenvolvimento tecnológico e científico aplicação do modelo adaptado de mensuração do país por meio da interação e parcerias com os dos 5 Gap’s à avaliação educacional de um curso sistemas econômico, social e cultural; assim, vem de Pós-Graduação. Seu emprego ocorreu junto contribuindo para a formação de profissionais e aos discentes da pós-graduação lato sensu de professores para os diversos níveis da economia uma instituição paranaense, cuja estratégia para e educação, prestando serviços comunitários e de captação de alunos baseia-se na oferta de cursos desenvolvimento estrutural em todas as regiões do de qualidade e que promovam a diferenciação país, criando parcerias interinstitucionais e, até, profissional de seus alunos. interagindo com empresas para a transferência de A relevância deste trabalho deve-se ao fato conhecimento em setores estratégicos, como o de de que o aperfeiçoamento de qualquer sistema tecnologia. educacional depende, necessariamente, de Nesse sentido, a pós-graduação tem sido avaliações, e estas carecem de modelos adequados e um esteio indispensável à formação de recursos abrangentes que forneçam parâmetros comparáveis, humanos de alta qualificação e à produção de confiáveis e relevantes para a tomada de decisões conhecimentos necessários para o desenvolvimento gerenciais e pedagógicas. científico e tecnológico do país. Esse desenvolvimento possibilita ao país a atualização de saberes e a 1. O novo contexto do ensino busca sistemática e metódica do conhecimento de superior ponta (CURY, 2004). Os cursos de Pós-Graduação e educação Na década de 1990, a educação passou superior crescentemente têm sido reconhecidos como a ser considerada, sobretudo, promotora de uma indústria de Prestação de serviços e, como um competitividade. O novo contexto mundial, marcado setor da economia, deve canalizar seus esforços em pela globalização e por uma menor intervenção do identificar as expectativas e as necessidades de seus Estado na economia, estimulou a competição entre principais clientes, que são os estudantes (Cheng & países e organizações. No sistema produtivo, um Tam, 1997). novo padrão a ser seguido de métodos e valores Segundo Bandeira et al. (1999), a avaliação dentro das organizações, associado à indústria da qualidade do ensino superior pode ser utilizada eletroeletrônica, caracterizou-se pela maleabilidade, como ferramenta da reforma universitária, pela conjugação de tarefas e pelo tratamento holístico fortalecendo um padrão de política educacional dos problemas, valorizando o poder da criatividade e contribuindo para o desenvolvimento das (SOBRAL, 2000). Nesse contexto, educação e instituições de ensino superior. Desse modo, conhecimento associam-se ao desenvolvimento 130
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    científico e tecnológicodentro das organizações, literatura, sendo uma das ferramentas relacionadas que, por sua vez, conduz à competitividade. Com à mensuração na qualidade de serviços de maior isso, a formação de recursos humanos tornou-se importância. Pesquisas utilizando o SERVQUAL em importante para o ingresso nesta nova era baseada sua forma direta ou com pequenas alterações têm no domínio do conhecimento. sido feitas por inúmeros pesquisadores De acordo com Lovelock (1983), o serviço Num segundo momento, o modelo educacional é classificado como um serviço de SERVIQUAL passou por algumas modificações ações intangíveis, dirigido à mente das pessoas, de por meio da redefinição de alguns pontos e da entrega contínua, realizado através de uma parceria substituição de outros. As dimensões resultantes entre a organização de serviço e seu cliente, e, foram: tangibilidade, confiabilidade, presteza, apesar de proporcionar um alto contato pessoal, é segurança e empatia (PARASURAMAN et al., 1991). de baixa customização. Os autores sustentam que a qualidade em serviços A pós-graduação sistemática tem uma origem é resultado da percepção dos clientes sobre as cinco recente e, como promotora de graus acadêmicos, dimensões abaixo: usufrui de alto grau de flexibilidade organizacional, • Tangibilidade: refere-se aos aspectos articulada com possibilidades interdisciplinares. tangíveis do serviço que podem servir de Além disso, o rigoroso processo de reconhecimento pistas ou indicadores de sua qualidade de programas imprimiu um ritmo ordenado na como aparência física das instalações, expansão da pós-graduação (CURY, 2004). equipamentos, pessoal e material de comunicação; 2. Algumas considerações sobre a • Confiabilidade: diz respeito à capacidade qualidade em serviços da empresa prestadora do serviço em O interesse pela otimização da qualidade executá-lo conforme contratado, de modo em serviços aumentou exponencialmente durante confiável e preciso; a década de 1980. A literatura tem analisado de • Presteza: disposição de ajudar os clientes forma significativa o importante papel da qualidade e de fornecer o serviço com prontidão. dos serviços e como as organizações devem se Relaciona-se também à rapidez de respostas posicionar para alcançá-lo. Segundo Parasuraman na correção de erros; et al. (1985), o estudo da qualidade em serviços • Segurança: refere-se à capacidade dos surgiu com a preocupação em melhorar a qualidade funcionários da prestadora de serviço dos produtos, sendo que o fato das empresas de em inspirar credibilidade e confiança nos bens de consumo experimentarem ganhos em clientes, além de conhecimento e cortesia; competitividade, fez com que as empresas de serviços se interessassem pela temática. No entanto, as • Empatia: refere-se ao grau em que a especificidades dos serviços são bastante diferentes prestadora do serviço é capaz de adequar- das características dos bens de consumo. se para atender as especificidades de cada Partindo de uma estrutura que compara cliente, ou seja, a atenção individualizada e expectativas e percepções de desempenho cuidadosa que as empresas proporcionam Parasuraman et al. (1985, 1988 e 1991) propuseram aos clientes. uma escala denominada SERVQUAL utilizada para Outro modelo de mensuração da qualidade mensurar e avaliar a percepção da qualidade em em serviços amplamente utilizado na literatura é serviços em geral. o modelo conceitual de qualidade em serviço ou Desde a sua introdução, o SERVQUAL modelo GAP que originou-se a partir de estudos , tem sido amplamente estudado e utilizado na realizados por ZEITHAML, PARASURAMAN e BERRY 131
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    (1990) e sepropunha a encontrar respostas para as Gap 4: discrepância entre o serviço prometido seguintes questões: (muito influenciado pelas comunicações externas) e • Como exatamente os consumidores avaliam o serviço prestado. a qualidade de um serviço? No ano de 1985, os mesmos autores haviam concluído que a qualidade dos serviços poderia ser • Os serviços são avaliados pelos descrita baseada em dez dimensões da qualidade, consumidores de uma forma global ou porém, posteriormente, no ano de 1988, após parcial? tentativas de medir essas dez dimensões, eles • Quais as múltiplas facetas das dimensões revelaram que os clientes só são capazes de distinguir de um serviço? cinco delas. • Essas dimensões diferem de acordo com o A partir do modelo da Figura 1 e dessas segmento do serviço? cinco dimensões da qualidade estabelecidas como E neste estudo foram incluídos entrevistas principais, foram desenvolvidos questionários para com clientes de quatro setores de serviços: banco determinação dos “gaps”, os quais se destinam aos de varejo, cartão de crédito, seguros e serviços de clientes externos (gap 5), gerentes (gaps 1 e 2) e manutenção. As questões utilizadas nas entrevistas clientes internos (gaps 3 e 4) abordavam quais eram as razões de satisfação ou insatisfação percebida pelos consumidores; 3. Indicador de impacto descrição de um serviço ideal; o significado da qualidade no serviço prestado; e o desempenho O cálculo de indicadores de satisfação é feito da empresa prestadora em relação às expectativas. a partir de dados colhidos sobre as importâncias Os pontos comuns observados nas entrevistas e satisfações dos requisitos do cliente utilizando a determinaram que o ponto chave da qualidade metodologia proposta por Kenny e Shike (1994). Esses de um serviço prestado é atender ou exceder a requisitos, após terem sido definidos como resultados expectativa do cliente. Em decorrência disso, a da pesquisa qualitativa foram submetidos a uma qualidade de um serviço pode ser definida como avaliação por meio da aplicação do questionário o grau da discrepância entre as expectativas ou a uma amostra estatisticamente representativa do desejos dos clientes em relação às suas percepções segmento de clientes. Tal procedimento permite a (PARASURAMAN et al., 1991). determinação da Importância e Satisfação Médias Esses autores alertam para a existência de um Relativas de cada um dos Requisitos do Cliente, afastamento entre as expectativas do cliente antes de assim definidas: receber um serviço e a percepção a respeito desse • Importância Média - Quantificação do serviço após ele ter sido prestado. Esse afastamento, grau de importância atribuído ao requisito denominado de “gap 5”, é o resultado dos outros considerado pelo cliente; quatro “gaps”, como pode ser observado na Figura1. • Satisfação Média - Quantificação da Os demais “gaps” são definidos da seguinte percepção do cliente a respeito da maneira forma: como o requisito está sendo atendido. Gap 1: discrepância entre o que o cliente Uma vez colhidos os dados, são calculadas quer (expectativas) e o que a gerência imagina as médias de importância e satisfação e os serem aquelas expectativas. resultados são empregados em cálculos que Gap 2: discrepância entre a percepção por buscam agrupar dados segundo critérios de parte do gerente das expectativas do cliente e as produtos, serviços, ou dimensões da qualidade. especificações do serviço. Um exemplo é o da determinação da satisfação Gap 3: discrepância entre a especificação do cliente a respeito de uma particular dimensão do serviço e o serviço prestado. representado na Equação 1. 132
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    Figura 1 -Esquema do Modelo Conceitual de Qualidade em serviços (GAP5) Fonte: ZEITHAML, PARASURAMAN e BERRY, 1990. Equação 1. Onde: Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente. SDk= , i € k , k = 1,2… Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente. Onde: 4. O indicador gap ponderado Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente, da dimensão k da qualidade; Observa-se que o Indicador de Impacto proposto por Kenny e Shike utiliza o hiato existente Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente. entre a importância e a satisfação do cliente, mas não Kenny e Shike propuseram um Indicador leva em consideração a expectativa existente nesse de Impacto dos requisitos do cliente, o produto cliente com respeito aos requisitos. A expectativa da importância média pelo hiato existente entre a média pode ser definida como a quantificação da importância e satisfação média para cada requisito percepção do cliente da intensidade com que ele do cliente representado na Equação 2. imagina que o requisito será atendido, ou seja, é Equação 2. uma pré-concepção do serviço, ou seja, a imagem gerada por meio das mais diversas influências IIi=Ii(Ii - Si) sofridas pelo cliente. 133
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    Verificando-se o modelopara a qualidade de 83%, representados pelos questionários válidos nos serviços proposto por Parasuraman (1990), retornados. nota-se que o mais importante dos “Gaps” é Optou-se pela realização do censo em vez o de número cinco, o qual retrata exatamente de uma amostragem significativa, atendendo o a discrepância existente entre a expectativa e a que observa MATTAR (1996) de que se realizam satisfação do cliente, o que não foi considerado censos ao invés de amostras quando a população no modelo de Kenny (1994). É natural então que for pequena ou quando houver facilidade em obter se façam algumas perguntas: Seria a expectativa dados sobre a população desprezível ao tratar-se de impacto dos requisitos A coleta de dados foi realizada ao do cliente? Como poderia ela ser inserida em um final de oito módulos do programa do curso, modelo que viesse a traduzir melhor o impacto de obtida diretamente junto aos pesquisados. Os um determinado requisito? questionários foram baseados no modelo dos 5 Acredita-se que a resposta à primeira Gap’s adaptado ao serviço educacional, sendo pergunta seja “não”. Afinal, parece ser razoável composto por 17 questões sobre as quais os alunos afirmar que uma grande expectativa acompanhada opinaram dentro de uma escala de concordância de uma baixa satisfação também provoque alto do tipo Diferencial Semântica de cinco pontos. impacto, e ainda, esses dois parâmetros são de As sentenças foram divididas em três blocos de mesma natureza e referem-se à “satisfação antes” perguntas relativas às generalidades do curso, e “satisfação após”, podendo ser subtraído um do dos módulos e dos docentes relatando suas outro. Já a resposta à segunda pergunta requer expectativas e percepções sobre cada item. Neste um pouco mais de cuidado. Assim, após alguns estudo, considera-se o bloco das variáveis de testes que empregaram dados coletados, chegou- percepção do desempenho como o conjunto de se à expressão denominada Gap Ponderado (GP) variáveis independentes diferenciada pelos seus (Equação 3), a qual permite o emprego do “Gap graus de importância. 5” sem desprezar o peso da importância dos Para mensurar a discrepância entre a requisitos. expectativa dos clientes e a satisfação percebida Equação 3: utilizou-se a metodologia do indicador GAP ponderado proposta por Parasuraman (1990). SP = Ii (Ei-Si) + 18 Como o desejo era o de se traduzir o afastamento do atendimento dos requisitos do cliente Onde: sem que a expressão assumisse valores negativos, Ii = Importância Média do i-ésimo requisito do cliente. foi necessária a soma do valor 17 (relativo ao Ei = Expectativa Média do i-ésimo requisito do cliente. número de questões). Assim, no caso do emprego Si = Satisfação Média do i-ésimo requisito do cliente. de uma escala de 1 a 5 (Likert,1932), a expressão não assumiria valores negativos, pois mesmo que a diferença entre as médias de expectativa e 5. Metodologia importância assumisse seu valor mínimo (-4), o GP Para o desenvolvimento deste trabalho, seria igual a zero. realizou-se uma pesquisa descritiva de caráter Buscou-se assim, desenvolver uma expressão quali-quantitativo com os alunos de pós- graduação que melhor representasse a oportunidade de do curso de MBA Executivo em Administração de melhoria apresentada por alguns requisitos, fazendo uma faculdade do município de Guarapuava - Pr. uso do “GAP 5” na forma como foi concebido por O universo pesquisado foi o conjunto de alunos Parasuraman, como um meio de fácil identificação da 3ª e 4ª edição do curso, somando assim um do grau de afastamento do atendimento a cada um número de 39 pesquisados. A taxa de retorno foi dos requisitos do cliente. 134
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    6. Resultados ediscussão comentados, tarefa esta, facilitada pela verificação das duas últimas colunas da Tabela 1. Para o desenvolvimento deste trabalho, Após o cálculo do Gap Ponderado, pode-se realizou-se uma pesquisa descritiva de caráter quali- observar que os requisitos “Conteúdo das Aulas” quantitativo, cujos dados receberam um tratamento e “Aplicabilidade” destacam-se como possuidores estatístico para análise dos resultados. dos maiores valores de Gap Ponderado (21,9606 A figura 2 mostra as médias de Importância, e 20,8326 respectivamente), aparecendo em Expectativa e Satisfação para os dezessete requisitos primeiro e segundo lugares na ordem dos que compõem as dimensões de qualidade do requisitos (última coluna da tabela), pois , tanto a serviço prestado, onde se pode notar a diferença importância como o Gap ponderado são elevados. entre alguns dos perfis apresentados por diferentes São os requisitos que merecem a maior atenção, requisitos. Levando-se em conta os três parâmetros ou o que apresentam as maiores oportunidades (Importância, Expectativa e Satisfação) ao mesmo de melhoria. tempo, torna-se possível inferir quais os requisitos do Os requisitos “Coffe-Break” e “Suporte On- cliente estão sendo os maiores responsáveis pela sua line” são os que apresentam os menores índices de insatisfação e fornecendo uma maior oportunidade Gap Ponderado, pois, além de possuir uma baixa de melhoria ao serviço. importância para o cliente, estão sendo prestados FIGURA 2. *Gráfico das médias de Importância, Expectativa e Satisfação para os dezessete requisitos que compõem as dimensões de qualidade do serviço prestado no curso de pós-graduação. É comum a afirmação de que a satisfação além das suas expectativas, logo merecem menor do cliente ocorre quando suas expectativas são atenção. superadas, porém, o GP (Gap Ponderado) não leva O requisito “Infraestrutura”, apesar de possuir em consideração apenas essa discrepância entre importância mediana e uma expectativa inferior à expectativa e satisfação. No cálculo do Índice de maioria dos outros requisitos, o valor da satisfação Gap Ponderado é inserida a multiplicação pela do cliente atribuído a esse requisito encontra-se importância média do requisito, o que requer maior próximo ao valor da expectativa, o que faz com que cuidado com as afirmações a serem feitas. Assim, esse requisito também tenha um valor baixo de Gap alguns perfis representados na Figura acima serão Ponderado, merecendo dessa forma pouca atenção. 135
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    Tabela 1 -tabela representativa da mensuração da discrepância existente entre a expectativa e a satisfação para os requisitos verificados Importância - Expectativa - GAP Ponde- Ordem do Va- Requesitos Expectativa Satisfação Importante Satisfação Satisfação rado lor do GAP Material de Apoio 4,956521739 4,956521739 3 -0,685548293 1,270973446 20,81292030 3 Suporte On-Line 4,869565217 3,75136689 1 -2,751366893 1,118198324 18,11819832 16 Recursos Audio-Visuais 4,869565217 4,869565217 3 -1,102719798 0,766845419 19,30053626 10 Infra-Estrutura 4,681818182 4,00560897 3 -1,005608974 0,676209208 19,02862762 12 Conhecimento (Docentes) 4,913043478 4,31440666 5 0,685593344 0,598636822 19,99318411 7 Atendimento 4,681818182 4,29299318 3 -1,292993183 0,388824999 18,166475 15 Coffe-Break 4,608695655 4,49878363 1 -3,498783633 0,109912023 17,10991202 17 Despertar do Interesse 4,869565217 3,93340595 4 0,066594045 0,936159262 20,74463705 4 Aplicabilidade 4,913043478 3,9548953 4 0,045107466 0,958150944 20,83260378 2 Conteúdo das Aulas 4,956521739 3,96440909 5 1,035590911 0,99211265 21,96056325 1 Adequação ao Prog. 4,859565217 4,23218022 5 0,767819783 0,637385 20,186925 6 Carga Horária 4,869565217 4,18291734 4 -0,182917336 0,686647881 19,74659153 8 Organização 5 4,20424403 3 -1,204244032 0,795755968 19,3872679 9 Didática 5 4,29019088 5 0,709809123 0,709809123 20,54904561 5 Relacionamento 5 4,43971845 3 -1,439718451 0,560281549 18,68084465 13 Cump. de Horário 5 4,69329589 4 -0,693295886 0,306704114 18,22681646 14 Domínio do Conteúdo 5 4,55618401 5 0,443815988 0,443815988 19,21907994 11 7. Considerações finais A avaliação contínua da qualidade é uma ferramenta fundamental não só para mensurar o Neste artigo, buscou-se investigar o emprego serviço como um todo, mas também traz outros o do modelo conceitual de qualidade em serviço benefícios a organização prestadora de serviços, ou modelo GAP na avaliação da Qualidade dos tais como: capturar idéias para a inovação, cultivar Serviços prestados por um curso de pós-graduação e consolidar a predisposição à participação por de uma instituição de ensino no município de parte dos funcionários para seguirem as metas Guarapuava-Pr, segundo o ponto de vista de uma propostas pela direção e criar uma visão mais amostra de clientes (alunos). clara tendo melhores informações para a tomada Através do experimento foi possível extrair de decisões. informações relevantes em análises dessa natureza, Apesar da elevada contribuição que uma tais como: a expectativa dos usuários quanto ao análise dessa natureza pode oferecer ao prestador serviço prestado pelo curso à luz das Dimensões do serviço, é importante ressaltar que os resultados e itens da Qualidade; o desempenho do serviço apresentados retratam apenas a avaliação da prestado pela instituição, avaliada segundo a qualidade dos serviços prestados pelo curso em um percepção de uma amostra de usuários; além de período específico, segundo o ponto de vista de obter os Gaps provenientes da diferença entre as uma amostra de clientes (alunos). percepções e expectativas dos usuários, Nesse sentido, uma análise mais conclusiva O curso de pós-graduação analisado, apesar pode ser obtida a partir da continuidade das de apresentar posição de destaque e sinônimo de avaliações, realizadas periodicamente. Além disso, qualidade na cidade Guarapuava-Pr, ainda precisa, seria importante “ouvir a voz” dos clientes internos de acordo com o seu corpo discente (usuários), (funcionários) da instituição. melhorar em alguns aspectos considerados Portanto, o estabelecimento de instrumentos importantes e fundamentais ao avaliar o seu de avaliação da qualidade mostra-se indispensável desempenho nos serviços educacionais promovidos. para qualquer instituição de ensino comprometida Ouvir o cliente não é um fim, é um meio para com a melhoria de processos e com a satisfação do melhorar os serviços e pode fornecer informações aluno, ou seja, seu consumidor. Entretanto, muitas de valor inestimável e imprescindível para tomada instituições não possuem métodos formais, legítimos de decisões futuras, que em alguns casos julga-se, e validados para identificar a percepção discente erradamente, serem conhecidas. sobre os serviços prestados. 136
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    Referências BANDEIRA, M. L.et al. Avaliação da qualidade da pós-graduação: construção e validação de um instrumento de pesquisa. BALAS - LATIN AMERICA’S NEW MILLENNIUM - PROCEEDINGS - 1999. p. 48- 56. CHENG, Y.C. TAM M.M. Multi-models of quality in education. Quality Assurance In Education. Vol. 5 . Dec. 1997 p. 22-31. CURY, C. R. J. Graduação/pós-graduação: a busca de uma relação virtuosa. Educ. Soc. [online]. 2004, vol.25, n.88, pp. 777-793. ISSN 0101-7330. doi: 10.1590/S0101-73302004000300007. DUTRA, H. F. O.; OLIVEIRA, P A. S.; GOUVEIA, T. B. Avaliando a qualidade de serviço numa instituição . de ensino superior. In: ENCONTRO NACIONAL DOS PROGRAMAS DE PÓS GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO, Anais... 26., Salvador, 2002. KENNY, A; SHIKE, J. Improving Improvement : How a Hospital CQI Program Practices what it Preaches, Competitive. SID/ASQC, vol4, nr2, october,1994. LEITÃO, R. A.; GIULIANI, A.C.; PIZZINATO, N.K.; PEREIRA, J.S. A Análise Dos Serviços Recebidos Pelos Alunos De Pós-Graduação Da Faculdade De Odontologia De Piracicaba – Unicamp. Revista Contemporânea de Economia e Gestão. Vol.5 - 1 - jan/jun/2007. (59-68). LIKERT, R.A. Technique for the measurement of attitudes. Archives of Psychology. N. 140. 1932 LOVELOCK, C. H. Classifying services to gain strategic marketing insights. Journal of Marketing, volume 47, summer, 1983. p. 9-20. MATTAR, F.N. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas, 1996. Pag 276. PARASURAMAN, A.; BERRY, L. L.; ZEITHAML, V. A. A conceptual model of service quality and its implications for future research. Journal of Marketing, v.49, p.41-50, fall, 1985. PARASURAMAN, A., V. A. SERVQUAL: a multiple-item scale for measuring consumer perceptions of service quality. Journal of Retailing, v.64, n.1, p.12-40, spring, 1988. PARASURAMAN, A., ZEITHAML, V.A.; BERRY, L. L. Delivering Quality Service:Balancing customer perceptions and Expectations. New York: The free Press 1990. PARASURAMAN, A.; BERRY, L. L.; ZEITHAML, V. A. Refinement and reassessment of the SERVQUAL Scale. Journal of Retailing, v. 67, n. 4, winter, 1991 SOBRAL, F. A. F. Educação para a competitividade ou para a cidadania social? São Paulo em Perspectiva, v. 14, n. 1, p. 3-11, 2000. 137
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    BRT-ADM/I – Bancode Recursos Tecnológicos: apoio ao ensino, pesquisa e extensão BRT-ADM/I – Bank of Technological Resources: supporting education, research and extension Carlos César Garcia Freitas1 Resumo A presente pesquisa teve a finalidade de identificar recursos tecnológicos que pudessem servir de apoio a atividade acadêmica no âmbito da pesquisa, ensino e extensão. Para tanto, foi utilizado como procedimentos metodológicos um estudo exploratório de caráter descritivo, dividido em duas etapas distintas, sendo estas: a) identificação e análise de alternativas de espaço, para alocação dos recursos tecnológicos e sua divulgação; e b) levantamento, catalogação e disponibilização de diversos recursos disponíveis que pudessem ser livremente utilizados no âmbito da instituição de ensino. Como principal resultado da pesquisa, obteve-se a criação de um sistema de informação, de caráter universal, acessível, oficial, flexível, atualizável e tecnológico, em formato página da WEB, hospedada junto ao portal corporativo da UNICENTRO, acessado por meio do link http://www.unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos/, no qual estão disponíveis tecnologias de apoio à atividade acadêmica, entre elas: softwares, links, documentos e procedimentos. Palavras-chave: Recursos Tecnológicos; Sistemas de Informação; Ensino, Pesquisa e Extensão. Abstract The present researches, it had the purpose of identifying technological resources that could serve as support the academic activity in the ambit of the research, education and extension. For so much it was used as methodological procedures an exploratory study of descriptive character, divided in two different stages, being these: the) identification and analysis of space alternatives for allocation of the technological resources and popularization of the same ones; and b) rising, cataloguing and disposition of several available resources that could be used freely in the ambit of the teaching institution. As principal result of the research, was obtained the creation of a system of information, of character universal, accessible, official, flexible, update and technological, in format page of the WEB, accommodated the corporate portal of UNICENTRO close to, accessed through the link http://www.unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos /, in which are available support technologies the academic activity, among these: softwares, links, documents and procedures. Key words: Technological Resources; Systems of Information; Teaching, Researches, Extension. 1. Introdução Em uma era em que o conhecimento se torna a maior vantagem competitiva a ser conquistada pelas empresas e o capital intelectual torna-se um dos principais ativos das organizações, é de se esperar que os olhares se voltem para a gestão do conhecimento e para desenvolvimento de organizações de 1 Professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO, Brasil. Possui graduação em Administração de Empresas e mestrado em Administração pela Universidade Estadual de Londrina - UEL, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil, nível doutorado. Contato: cesarfreitas@sercomtel.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 10/08/2010 - Aprovado em 26/11/2010
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    aprendizagem, ou seja,instituições que saibam concorrência, fruto do avanço do modelo capitalista conduzir seus integrantes a “aprender a aprender”, e da integração dos mercados regionais, nacionais oferecendo-lhes oportunidades para o seu e internacionais, que expõem as suas fraquezas, desenvolvimento contínuo. frente ao desafio de se manterem competitivas. Por outro lado, estudos indicam que muitos Tais fraquezas dizem respeito à capacidade de conceitos modernos da gestão das empresas não criação, diversificação e inovação de seus produtos podem ser facilmente comunicados através dos e serviços, como meio de atender a consumidores métodos e técnicas tradicionais de ensino, o que cada vez mais exigentes e informados sobre as acaba resultando em um gap entre a formação diversas opções disponíveis. teórica e a prática do administrador, tão almejada Capacidade esta, que se apresenta como pelo mercado de trabalho (CARVALHO et al., 1995; um desafio para o acadêmico de Administração, ANDRADE et al., 1999; ANDRADE et al., 2004). requerendo esforços para a compreensão dos Muitos desses conceitos advêm do crescente conceitos teóricos, de uma realidade complexa que, e complexo processo de globalização econômica conforme destacado anteriormente, não pode ser e social vivenciados nas últimas décadas, em facilmente ensinada através de métodos e técnicas que as fronteiras geográficas deixaram de de ensino tradicional (transmissão por via única do representar uma limitação para os relacionamentos conhecimento). interorganizacionais. Como consequência, houve o Diante disso, o papel das instituições de surgimento de interações dinâmicas, advindas do ensino, entre outros, torna-se de suma importância crescimento quantitativo e qualitativo de variáveis como incentivadora de profissionais competentes ambientais, tanto internas como externas as para o exercício da gestão, ensejando, dessa organizações, cujo impacto pode ser comparado maneira, um postura metodológica de ensino que às mudanças provocadas pela Revolução Industrial. supra as demandas de instrumentos pedagógicos Tais mudanças denominadas Revolução Tecnológica que sirvam de meio à capacitação desses novos e do Conhecimento têm provocado profundas profissionais, de forma a encontrar respostas para modificações nas organizações, principalmente no as dificuldades de ensino-aprendizagem enfrentadas processo de sua gestão. por professores na formação de seus alunos, por Diante deste contexto, surge uma demanda meio do ensino, da extensão e da pesquisa. por profissionais que administrem a complexidade Em resposta a essa demanda, foi desenvolvida (LÊ BOTERF, 2003). Profissionais que sejam formados uma pesquisa com o intuito de identificar recursos não apenas com foco na habilidade (técnica) ou no tecnológicos que apoiem as atividades de ensino, conhecimento, que já não são mais considerados pesquisa e extensão do Curso de Administração, suficientes para o exercício frente à complexidade. voltados à formação de futuros profissionais da Tais demandas exigem dos atuais gestores a atitude complexidade, embasados pelos pressupostos de da pró-atividade frente aos problemas e desafios do confrontação experimental do contexto cultural do mundo empresarial. É preciso que os profissionais ambiente profissional, e da promoção do ensino da sociedade moderna possuam competência para deslinearizado. o propósito, que, segundo Brandão e Guimarães Resultado do esforço empreendido, houve a (2002), Lê Boterf (2003), Antonello (2005) e tantos identificação de recursos tecnológicos norteados pelos outros, de conceituarem-na como o ato de agir princípios de aplicabilidade contextual, potencial de pelo domínio de três dimensões: conhecimento, complementariedade e legalidade de utilização; habilidade e atitude. vinculados à promoção de atitudes estimuladoras ao Somado ao crescente avanço da complexidade processo de ensino-aprendizagem. Ainda destaca- das relações interorganizacionais, as empresas se a concepção de um “espaço” democrático ainda se deparam com o crescente aumento da informacional de tecnologias, direcionado a captar 140
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    e institucionalizar novosconhecimentos, visando à A falta de clareza acerca do projeto-pedagógico reduz gestão do conhecimento, como arcabouço para a qualquer curso a uma grade curricular fragmentada, uma vez que até mesmo as ementas a as bibliográ- aprendizagem organizacional. ficas perdem a razão de ser. Assim, o que dá clare- za ao projeto-pedagógico é sua intencionalidade... o 2. Fundamentação Teórica projeto pedagógico como instrumento de ação política deve estar sintonizado com uma nova visão de mundo, expressa no paradigma emergente de ciência e edu- 2.1 O Ensino na Educação Superior cação, a fim de garantir uma formação global e críti- ca para os envolvidos neste processo, como forma de A crescente intensidade das relações capacitá-los para o exercício da cidadania, formação internacionais e nacionais, que caracteriza o processo profissional e pleno desenvolvimento pessoal. de globalização, tem provocado modificações significativas no modo de vida das pessoas, assim Nesse contexto, as universidades e demais como das organizações, em especial no sistema instituições de ensino superior “representam um educacional que busca preparar os indivíduos segmento importante no contexto econômico e para o exercício da cidadania e para a atuação social e têm uma parcela de responsabilidade profissional. pelos profissionais que colocam no mercado de Apesar de todo o sistema educacional trabalho” (HANASHIRO; NASSIF, 2006, p. 45). Tal receber uma forte carga de responsabilidade frente responsabilidade justifica o constante questionamento às necessidades de equalização do status quo, sobre a necessidade de atualização das instituições diante das pressões de atualização e modernização, de ensino na busca de um constante ajustamento o ensino superior sofre maior pressão por ter que tanto do processo como dos mecanismos utilizados absorver criticamente tamanha carga de conteúdos para a formação dos profissionais, de modo que e conhecimentos e possibilitar meios adequados possam não somente estar preparados para atuar de absorção desses aos seus indivíduos formativos. frente às mudanças, como estar à frente das mesmas. Essa responsabilidade enseja-se pela própria função dos cursos superiores em formar e diplomar pessoas 2.2 O Processo de Ensino-Aprendizagem e nas diferentes áreas do conhecimento, tornando- a Formação do Administrador as aptas para a inserção em setores profissionais e De acordo com Mintzberg (1979), há para participação no desenvolvimento da sociedade várias pedagogias disponíveis para pedagogos brasileira (MEC, 2003; MEC, 2005). empresariais. Segundo o autor, a academia Ao curso superior é muitas vezes denominado influenciará a prática de administração, quando como a “última fronteira”, após o que o indivíduo for capaz de “ensinar um jogo” de habilidades deveria estar apto a exercer de modo crítico sua associadas com o trabalho de administrar. profissão, participando integralmente, não apenas Para Mintzberg (1979), da mesma maneira na manutenção, mas também no desenvolvimento que o estudante de medicina tem que aprender da sociedade brasileira. Tal responsabilidade a realizar um diagnóstico e o estudante de advém do fato deste ser “portador” de habilidades e engenharia tem que aprender design, o estudante conhecimentos promovedores e ampliadores de sua de administração precisa aprender negociação, própria atuação profissional, o que se subentende liderança e outras habilidades administrativas. estar preparado a conhecer, a compreender e a O autor segue, afirmando que aprender promover novos conhecimentos à cerca do homem é muito efetivo quando o estudante, na verdade, e do meio em que vive. Para isso é preciso que o executa suas habilidades dentro de um ambiente sistema esteja ajustado em seu processo de formar realístico, desse modo, o estudante deve ser imerso e capacitar as pessoas frente aos desafios atuais, no ambiente, de modo que ele possa praticar a como destaca Veiga (2000, p. 186): habilidade (MINTZBERG, 1979). 141
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    Ainda com relaçãoà aprendizagem, Abreu Diante disso, trazer para o ambiente de e Masseto (1996) classificam a aprendizagem em aprendizado recursos tecnológicos que levem os três categorias: cognitiva ou de conhecimento, de alunos a aprimorarem seus conhecimentos, suas valores e atitudes e de habilidades, indicando que habilidades e atitudes, mediante a confrontação o professor lida o tempo todo não só com o que o experimental do contexto cultural de seu futuro aluno aprende cognitivamente, mas também com profissional, contribuir-se-á para o re-ligare atitudes e habilidades. destes com o universo da administração (campo Além desses aspectos, deve-se lembrar que um profissional), de modo a desenvolver pensadores ambiente de aprendizagem, como qualquer outro, autônomos, que ajam com consciência, autonomia deve reconhecer a importância do papel da cultura e responsabilidade, frente às demandas de seu dia- e do contexto na construção do conhecimento. De a-dia. acordo com Moraes (2000), o responsável pelo processo de aprendizagem deve “compreender que 2.3 Aprendizagem Organizacional e Com- a construção de conceitos ou o desenvolvimento petências – O novo Contexto das Organi- zações de quaisquer outras habilidades intelectuais são diretamente relacionados com a riqueza ou pobreza Possibilitar ao indivíduo aprender de de materiais existentes na cultura e no contexto, e modo a agir conscientemente, com autonomia que são dependentes de certos tipos de modelo e responsabilidade é um grande desafio que se fornecidos e reforçados pela cultura”. apresenta ao papel do professor, que deve buscar, Dessa forma, Moraes (2000, p. 223) destaca conforme destacado por Abreu e Masseto (1996), que, desenvolver uma aprendizagem significativa por meio das três categorias de aprendizagem: cognitiva Os novos ambientes e métodos de aprendizagem po- ou de conhecimento, habilidade e atitude. dem colaborar para o desenvolvimento de pensado- O desafio da aprendizagem significativa não res autônomos, de cooperação, de diálogo, median- se restringe apenas ao meio acadêmico, mas também te o desenvolvimento de operações de reciprocidade, se aplica às organizações, dentro do processo de complementaridade e correspondência, o que pode ser incentivado com vivencias de trabalhos em grupo desenvolvimento de seus elementos. Tal aplicação na busca de soluções para problemas propostos, que se dá pela necessidade dessas frente às demandas reconheçam a importância da experiência e do saber das constantes pressões de seu ambiente externo, de cada membro do grupo na construção do saber em virtude da ação dos concorrentes, exigências coletivo. dos consumidores, interferências internacionais, políticas governamentais e ambientais. Continuando suas reflexões, Moraes (2000) “Em um ambiente cada vez mais complexo, afirma que, ao criar ambientes de aprendizagem que demandante e instável, a competitividade facilitem a vivência dos processos intuitivos e criativos, organizacional passa a ser determinada pela que permitam o re-ligare do individuo com o universo, agilidade que uma empresa tem de mobilizar é que proporcionará mais autoconfiança, mais esforços e adaptar-se internamente para atender capacidade de enfrentar problemas, mais condições de às demandas de clientes cada vez mais exigentes” preservar a integridade e o equilíbrio psico-emocional: (DUTRA, 2001, p. 72). “é essa capacidade de reflexão que leva o indivíduo a Essas pressões cada vez mais fortes e aprender a conhecer, a aprender a pensar, a aprender frequentes geram uma constante demanda a aprender, a aprender a fazer, a aprender a conviver por adaptação, inovação e criação dentro da [...] para que possa aprender e estar em condições de organização. A ênfase diante de tal contexto está na agir com consciência, autonomia e responsabilidade” busca pela competitividade, ou seja, manter-se em (MORAES, 2000, p. 224). condição de competir em seu mercado. 142
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    “No contexto deconstantes transformações possíveis entre blocos vinculados por remissões, em busca de maior competitividade, a aprendizagem sem estar preso a um encadeamento linear único”, organizacional surge como uma alternativa de ou seja, uma forma de apresentação de um resposta a essas alterações”, assim destaca Bitencourt conteúdo de forma não contínua, mas cambiável (2005, p. 15), o papel da aprendizagem para as em suas partes, através de vínculos ou nós ligados organizações que deve servir como instrumento por conexões, as quais o leitor pode acessar de de “desenvolver a capacidade de aprender forma autônoma o conteúdo, montando a si continuamente, tomando por base suas experiências próprio o conhecimento de acordo com o tempo e traduzindo esses conhecimentos em práticas desejado. que contribuam para seu melhor desempenho” Cabe destacar que tal recurso não é novidade (BITENCOURT, 2005, p. 15). no meio acadêmico, podendo ser encontrado nos Corroborando a definição acima, Antonello textos em forma de referências, citações, notas de (2005, p. 27) a partir de uma revisão crítica acerca rodapé, sumário e índices remissivos. O que existe dos mais diversos enfoques (socialização, processo- de novo é a evolução da tecnologia pelos recursos sistema, cultura, gerenciamento do conhecimento, computacionais que trouxeram uma verdadeira melhoria contínua, inovação) sobre a aprendizagem revolução ao hipertexto, proporcionando uma maior organizacional a conceitua da seguinte forma: aplicação desse ao ensino. Sobre esse aspecto, Valente (2006, p. 1) A aprendizagem organizacional é um processo contí- destaca que os computadores podem “enriquecer nuo de apropriação e geração de novos conhecimen- ambientes de aprendizagem onde o aluno, tos nos níveis individual, grupal e organizacional, en- interagindo com os objetos desse ambiente, tem volvendo todas as formas de aprendizagem – formais chance de construir o seu conhecimento [...]. O e informais – no contexto organizacional, alicerçando aluno não é mais instruído, ensinado, mas é o em dinâmica de reflexão e ação sobre as situações- -problema e voltado para o desenvolvimento de com- construtor do seu próprio conhecimento.” petências gerenciais. A liberdade de escolher caminhos e interagir de forma “autônoma” ao conhecimento caracteriza Pela definição dada por Bitencourt (2005), é a ação hipertextual e representa não só mais um possível ressaltar a aprendizagem como o meio de método de ensino, mas um encontro à realidade da gerar uma ação por meio de um conhecimento, e sociedade moderna, ao que se pode destacar Silva ligando-a com a definição dada por Antonello (2005), (2002, p. 25): tal ação pode ser entendida como consequência do atributo competência do indivíduo, ou seja, Há uma cultura da interatividade historicamente emer- gente. Pode-se dizer que a cena interativa, tomada competência para realizar a ação, concluindo- genericamente como interação da emissão e recep- se dessa forma que o papel da aprendizagem ção, é tão antiga quanto as primeiras manifestações organizacional é o de propiciar às pessoas a comunicacionais entre seres humanos. No entanto, em necessária competência para o desenvolvimento de nosso tempo, é explícita a pregnância tanto do termo seu papel. interatividade quanto de práticas comunicacionais di- tas interativas. No campo das novas tecnologias da 2.4 A Hipertextualidade e os Novos Recur- informação da infotecnologia, tal pregnância parece sos Tecnológicos na Educação ter chegado ao paroxismo, a ponto de o termo passar a ser visto como originário do funcionamento “amigá- Houaiss (2001, p. 1536) apresenta como vel” e “conversacional” do computador. Também no definição para hipertexto uma “apresentação de campo mercadológico, precisamente a partir da Inter- net, a perspectiva tomada necessariamente como um informações escritas, organizadas de tal maneira mais comunicacional, torna-se explícita reescrevendo que o leitor tem liberdade de escolher vários o ambiente comunicacional que envolve a comunida- caminhos, a partir de seqüências associativas de de negócios. 143
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    Tal contexto explicitadopor Silva (2002) Diante disso Silva (2002, p. 70) destaca representa bem o “status quo societal”, configurado que “o professor está diante do desafio que se por uma emergente cultura de interatividade, que constitui em conhecer e adotar a metodologia envolve não somente o campo das novas tecnologias comunicacional interativa e ao mesmo tempo não de informação, mas o setor mercadológico, invalidar o paradigma clássico que predomina na assim como, a própria configuração social. No escola”, ou seja, não anular o que existe numa ação meio de toda essa transformação interativa, de de troca, mas sim, complementar, numa ação de informações e conhecimentos que se formam e soma. “O professor então se dará conta de que tal informam de modo livre através dos novos canais modificação significa a emergência de um novo leitor de comunicação (midias interativas), os indivíduos [...] Não mais que se submete às récitas da emissão, passam a criar um modo de ver, interpretar e mas aquele que, não se identificando apenas como interagir com seu mundo e trazem consigo aos receptor, interfere, manipula, modifica e assim bancos acadêmicos essa herança comportamental reinventa a mensagem” (SILVA, 2002, p. 71). contrastando com as metodologias tradicionais No esforço de somar ao velho o novo, de de formação linear do conhecimento, gerando responder às demandas da sociedade pelo processo hiatos educacionais, pelo distanciamento do setor de interatividade e incorporar a hipertextualidade educacional em relação à prática comunicacional ao processo educacional, apresenta-se diversos derivada da interatividade. recursos tecnológicos, como: jogos de empresa, Alencastro et al (2003, p. 57) destacam simuladores, plataformas, sites de comunicação, que “a grande diferença entre a cultura da softwares educativos e profissionais e diversas escrita linear e a linguagem hipertextual reside outras ferramentas; como metodologias adequadas na deslinearização da comunicação, em que a de auxílio ao processo de ensino-aprendizagem, linguagem é construída de forma estritamente seja pelo desenvolvimento específico do ensino, linear”, ou seja, uma linguagem não contínua, como pela pesquisa e extensão, para contribuir na superação das deficiências na formação dos futuros que procede por diversas direções, gerando um administradores. exercício do leitor e consequentemente um ensino mais interativo e envolvente. Alencastro et al (2003) destacam a importância dos “novos meios, 3. Análise e Descrição dos Dados tais como redes de computadores, linguagens A pesquisa foi realizada em duas etapas de consulta a banco de dados, comunicação distintas, de modo a atender ao seu objetivo o móvel e outros, ao operarem em suporte digital, de identificar recursos tecnológicos de apoio tornam possível saltar de um pensamento ao ao ensino, pesquisa e extensão do Curso de outro estabelecer conexões por associação, Administração da UNICENTRO: a) etapa inicial, de movimentar-se num texto tal como em uma rede estudo exploratório, que consistiu na identificação multidimensional e com isto, aproximar tempos e análise de alternativas de espaço para alocação distintos”. dos recursos tecnológicos e sua divulgação; e b) Desenvolver a deslinearização da comunicação etapa final, de estudo exploratório, que consistiu apresenta-se como desafio à educação, na sua no levantamento de diversos recursos disponíveis função de fomento da sociedade; é buscar nivelar a que pudessem ser utilizados dentro do âmbito da escola com o espírito de sua época, é poder como instituição de ensino. destacado por Abreu e Masseto (1996), possibilitar Para o desenvolvimento da etapa inicial, ao aluno uma aprendizagem significativa, ou foram delineados alguns pressupostos básicos seja, relacionar o ato de aprender com as suas sobre o espaço de alocação dos recursos, que, experiências e vivências, é encontrar no aluno o seu propriamente dito, consisti num sistema de próprio caminho de aprender. 144
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    informações, que doravanteserá denominado BRT- professor ou em sua prática do dia a dia, ADM/I (Banco de Recursos Tecnológicos do curso “inacessível” aos demais docentes ou de Administração).. discentes que ora ou futuramente possam • O BRT-ADM/I foi concebido como uma necessitar deste. “porta de acesso” a diversos mecanismos O BRT-ADM/I foi concebido como um sejam eles softwares, documentos, “espaço” democrático no qual os professores informações, links, instruções e recursos, possam arquivar publicamente o conhecimento, de modo em geral, que possam servir de permitindo que este seja socializado, auxílio ao docente, no intuito de aperfeiçoar promovendo a sua institucionalização. Nesse o processo de ensino. Desse modo, os intuito o BRT-ADM/I está direcionado à gestão recursos disponíveis no BRT-ADM/I servem do conhecimento, por permitir a instituição como ferramentas para aprimoramento gerir conhecimentos e potencializar o processo das atividades docentes, assim como, de aprendizagem tanto dos docentes como instrumentos de auxílio aos discentes discentes; o foco está em prover um mecanismo dentro do seu processo de formação; de aprendizagem organizacional. • O BRT-ADM/I não foi criado com o intuito Destaca-se como elemento importantíssimo de servir de um repositório de materiais de a democratização do espaço, uma vez que a aula ou mesmo materiais particulares de participação, como contribuinte, ou usuário do BRT- docentes e discentes, mas sim de um local ADM/I é livre, ficando a critério de cada docente que pudesse armazenar conhecimentos a disponibilização ou não de seus conhecimentos. tecnológicos aplicáveis nas atividades Enfatiza-se, porém o exercício de cooperação destinadas ao ensino, pesquisa e extensão entre profissionais e estudantes, que ora estará do curso de administração; ajudando, e ora sendo ajudado, e, que além do mais, contribuirá para uma melhor formação de • Os mecanismos dispostos no BRT-ADM/I futuros profissionais. são dedicados tanto ao processo de Outra contribuição importante está na ensino-aprendizagem dos conteúdos vistos divulgação; o conhecimento em sua grande em sala, como de sua própria aplicação, maioria está vinculado a uma aplicação, e estando quando cabível, em situações profissionais ele à disposição pública dos demais professores e ou particulares. Exemplo disso, um estudantes, na hora conveniente, é possível utilizá- software estatístico disponibilizado, pode lo e reutilizá-lo. ser tanto utilizado pelo docente em sala Exposto os pressupostos básicos e de aula para elucidação de um conceito, benefícios da utilização do BRT-ADM/I, esclarece- como pode ser utilizado pelos discentes, se que a escolha desse espaço foi norteada pela para realizar uma análise apurada de uma preocupação de optar por um meio com as seguintes pesquisa; características: universal, acessível, oficial, flexível, • Outro pressuposto básico envolvido atualizável e tecnológico. no BRT-ADM/I é que este sirva como O caráter universal do BRT-ADM/I está mecanismo de captação e divulgação na condição de atender a todos os públicos da de conhecimento. O professor, sendo academia, sendo docentes, discentes e demais um estudioso e pesquisador de sua interessados, uma vez que os recursos disponíveis área, acaba se deparando com novos podem ser utilizados tanto em sala de aula como conhecimentos, quando, não raras vezes fora dela, em ambientes profissionais ou não. acaba ele mesmo criando. Por sua vez, O caráter acessível está na condição de esse rico conhecimento fica estanque no que BRT-ADM/I possa ser acessado em qualquer 145
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    ambiente, desde queo usuário interessado tenha • A página WEB pessoal, implicaria uma acesso a uma conexão de Internet, uma vez que apropriação particular do conhecimento, este está disponibilizado no ambiente WEB. o que feriria o princípio da socialização O caráter oficial do BRT-ADM/I está em sua e da democratização do conhecimento, vinculação com a Instituição de Ensino UNCIENTRO, além de ser um mecanismo de custo mais especificamente com o Curso de Administração elevado, e que não permitiria a alocação do campus Irati, disponibilizado por meio do portal de recursos públicos para sua manutenção; da universidade. • O sistema moodle por sua vez, apesar O caráter atualizável do BRT-ADM/I está na de ser uma ferramenta direcionado ao ampla possibilidade da inclusão de novos recursos, e-learning, apresentava restrições quanto o que permite uma constante atualização do ao limite de espaço destinado dentro conhecimento, de modo a atender às demandas da Instituição, e quanto à exposição que possam surgir, assim como o aperfeiçoamento do conhecimento uma vez que seu deste. acesso está vinculado a formalidades O caráter flexível do BRT-ADM/I encontra-se de cadastramento de acesso, o que não na condição de atender as três áreas de atuação permitiria uma exposição direta dos da universidade, pesquisa, ensino e extensão, assim recursos tecnológicos. como, seus desdobramentos. Tal característica vai • Em última análise, a página WEB ao encontro de um antigo ensejo de uma maior corporativa foi a alternativa considerada aproximação e integração entre elas O caráter mais adequada, permitindo a apropriação tecnológico do BRT-ADM/I consiste na utilização coletiva do conhecimento, possibilitando da mais moderna plataforma em Tecnologia a socialização deste, em um ambiente já da Informação disponível no momento que é o financiado pela própria instituição, com ambiente WEB, que possibilita a democratização do amplo espaço para alocação dos recursos, conhecimento. assim como exposição destes. Tomando os esclarecimentos destacados, foi A partir das considerações expostas optou- identificado três alternativas possíveis, sendo estas se pela criação do BRT-ADM/I no formato página página WEB pessoal, sistema moodle e página da WEB, hospedada junto ao portal corporativo da WEB corporativa. A análise, realizada em conjunto UNICENTRO, acessado por meio do link http://www. com um especialista da área de Tecnologia da unicentro.br/graduacao/deadm/bancoderecursos/, Informação, apontou os seguintes aspectos que tendo sua apresentação visual definida, conforme nortearam a decisão: figura 2. Figura 1 – características básicas do BRT-ADM/I Universal Flexível Acessivel BRT-ADM/I Tecnológico Oficial Atualizável 146
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    Figura 2: imagemdo BRT-ADM/I Uma vez definido o formato do BRT-ADM/I, possam ser amplamente utilizados por todo o meio deu-se a etapa de levantamento de recursos, acadêmico. catalogação e alocação, conforme as peculiaridades Em síntese a análise foi norteada pela de cada área e seus desdobramentos. A análise de aplicabilidade no contexto cultural do ambiente cada recurso levou em conta o potencial deste, o profissional, pelo potencial de complementariedade de permitir aos usuários, condições de experimentar com ênfase na hipertextualidade e pela legalidade o contexto cultural de seu futuro profissional, ou de utilização. Tais aspectos estão vinculados à seja, tornar o conhecimento passado por meio de necessidade de promover atitudes positivas de um recurso que faz parte do ambiente que em um interesse dos acadêmicos em relação aos conteúdos futuro próximo será seu, desse modo, possibilitando ministrados, por permitir a eles vivenciarem não além da compreensão cognitiva, o desenvolvimento somente o processo de ensino, mas sim ensino- de habilidades importantes ao exercício de sua aprendizagem. profissão Aplicado no levantamento e análise, os Além do mais o recurso foi analisado aspectos mencionados foram levantados diversos segundo seu potencial de complementariedade aos recursos, catalogados e atualmente disponíveis métodos tradicionais de ensino, que enfatizasse a no BRT-ADM/I. A seguir é apresentado alguns hipertextualidade, contribuindo para o entendimento exemplares: maior de conceitos complexos em sala de aula. • Área de pesquisa: Links de sites direcionados Por fim um aspecto relevante, considerado à divulgação da produção científica. Esse na etapa de levantamento, foi a atenção dada recurso é de extrema importância ao meio para a obrigatoriedade legal do conhecimento acadêmico, pois serve como meio para um disponibilizado, ou seja, ele deveria ser de acesso aprofundamento do conhecimento, assim livre, consistindo assim em instrumentos lícitos que como um referencial para a pesquisa científica; 147
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    • Programa Estatístico gratuito, • Software post-it disponibilizado pela 3M que desenvolvimento pelo Instituo Mamiraua, auxilia os acadêmicos no agendamento de em português, de fácil utilização. Apresenta compromissos diversos recursos de auxílio ao planejamento • Software BrOffice que oferece diversos da análise de dados em pesquisa. O mesmo programas livres de uso geral nas foi desenvolvido para aplicações nas áreas organizações, como: planilha eletrônica, das ciências biológicas e médicas, porém, editor de texto, apresentação de slides, por se tratar de um software estatístico, não entre outros. há limitações para aplicações em outras A lista de recursos descrita não é exaustiva, mas áreas do conhecimento. Ainda acompanha meramente exemplificativa destacando-se alguns dos um manual passo a passo para utilização principais recursos obtidos. A ampla possibilidade do software. do uso do BRT-ADM/I é vasta e a considerar suas • Mecanismo online para referências, características e a versatilidade de sua plataforma, mantido pela Universidade Federal de Santa pode-se dizer que seu uso é quase ilimitado. Ainda Catarina, que auxilia na elaboração de é importante esclarecer que BRT-ADM/I, fruto deste referências dos mais diversos documentos estudo, não é “algo” final e acabado, mas sim um que possam ser pesquisados por alunos e sistema em processo de desenvolvimento, dado pela professores. possibilidade de constante aprimoramento. Área de ensino, tendo a disciplina de 4. Conclusões empreendedorismo e sistemas de informação, como A considerar o objetivo da pesquisa o de exemplo: identificar recursos tecnológicos que pudessem • Links de diversos sites de apoio ao apoiar as atividades de pesquisa, ensino e extensão, empreendedorismo e sistemas de do Curso de Administração, compreendendo os informação, nos quais, além de artigos passo de levantamento, análise, catalogação sobre o assunto, os acadêmicos poderão e divulgação, ela tornou-se possível pela encontrar vídeos e materiais de apoio. disponibilização de recursos tecnológicos, em um A título de exemplo: sebrae, endeavor, sistema de informação, denominado BRT-ADM/I geranegocio, olhar digital... (Banco de Recursos Tecnológicos de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão do Curso de Administração de • Software de elaboração de plano de Irati). negócio, desenvolvido e fornecido pelo Constituído com base nos pressupostos de: a) SEBRAE-MG, com o intuito de permitir armazenamento de conhecimentos tecnológicos; b) por meio de um software atraente e “portal de acesso” a tecnologias de apoio ao ensino, dinâmico, a compreensão do processo de pesquisa e extensão; e c) mecanismo de captação desenvolvimento de um plano de negócio. e divulgação de conhecimento. Desse modo o BRT- Área de extensão: ADM/I foi concebido como um “espaço” democrático • Roteiro analítico para levantamento de no qual os docentes podem arquivar livremente dados e diagnóstico organizacional, e publicamente o conhecimento, permitindo que desenvolvido e utilizado junto ao curso de este seja captado e institucionalizado, visando à administração da UNICENTRO; gestão do conhecimento, como arcabouço para a • Orientação para cópia de vídeos livres aprendizagem organizacional. disponibilizados na Internet Uma vez concebido o “espaço”, o resultado em essência do levantamento foi a identificação de recursos tecnológicos norteados pelos princípios de aplicabilidade contextual, 148
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    potencial de complementariedadee legalidade de administração, o seu formato pode ser aplicado utilização. Aspectos estes vinculados à promoção a qualquer curso de formação, sendo a grande de atitudes estimuladoras ao processo de ensino- contribuição do presente estudo a disponibilização aprendizagem. de um recurso modelo à comunidade acadêmica, Por fim, vale ressaltar que apesar do direcionado a apoiar atividades de ensino, BRT-ADM/I estar direcionado ao curso de pesquisa e a extensão. Referências ABREU, M.C.; MASSETO, M. T. O professor universitário em sala de aula: prática e princípios teóricos. São Paulo: MG Editora Associados, 1996. ALENCASTRO, M. S. C. ; et al. Hipertexto: a re-evolução da econologia cognitiva. Revista das Faculdades Santa Cruz. V.3, n.1, Jan/Jun. 2003:55-64 ANDRADE, R. O. B. ; et al. Perfil, Formação e Oportunidades de Trabalho do Administrador Profissional. São Paulo: ESPM, 1999. ______. et al Pesquisa Nacional sobre o perfil, formação, atuação e oportunidades de trabalho do administrador. Brasília: Conselho Federal de Administração, 2004. ANTONELLO, C. S. A Metamorfose da Aprendizagem Organizacional: uma revisão crítica. In: RUAS, C. R.; ANTONELLO, C. S.; COLS, L. H. B. ; Os Novos Horizontes da Gestão: aprendizagem organizacional e competências. Porto Alegre-RS: Bookman, 2005. BITENCOURT, C. C. Gestão de Competências e Aprendizagem nas Organizações. São Leopoldo: Unisinos, 2005. BRANDÃO, H. P ; GUIMARÃES, T. A. ; Gestão de Competências e Gestão de Desempenho. In: WOOD . JR, T. ; Gestão Empresarial: o fator humano, São Paulo: Atlas, 2002. CARVALHO, I. C. A. et al. Perfil do Administrador e perspectivas no mercado de trabalho: pesquisa nacional. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Administração, 1995. DUTRA, J. S. ; Gestão por Competências: um modelo avançado para o gerenciamento de pessoas. São Paulo: Gente, 2001. HANASHIRO, D. M. M. ; NASSIF, V. M. J. ; Competências de Professores: um fator competitivo. RBGN, São Paulo, vol. 8, n. 20, p. 45-46, jan / abr. 2006. HOUAISS, A. ; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Lexicografia e Banco de Dados da Língua Português S/C Ltda. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. LÊ BOTERF, G. ; Desenvolvendo a Competência dos Profissionais. Porto Alegre: Artmed, 2003. MEC. Parecer CNE/CES 136/2003. Brasília. Ministério da Educação e Cultura: 2003 MEC. Parecer CNE/CES 4/2005. Brasília. Ministério da Educação e Cultura: 2005. MINTZBERG, H. ; The Managers Role. In: MILES, R. H.; RANDOLPH, W. A. ; The organization Games: a simulation in organization behavior, design, change and development. Santa Monica, California – US: Goodyear Publish Co., 1979. MORAES, M. C. ; O Paradigma Educacional Emergente. Campinas, SP: Papirus Editoras, 2000. SILVA, M. Sala de Aula Interativa, 3.ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2002 VALENTE, J. A. ; Por que o Computador na Educação. Campinas-SP: Edutec.Net. Disponível em <http:// edutec.net/Textos/Alia/PROINFO/prf_txtie09.htm>. Acesso 10 dez. 2006. VEIGA, I. P A. In: O Que Há de Novo na Educação Superior: do projeto pedagógico à prática . transformadora. 2. ed. São Paulo: Papirus, 2000 149
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    Dados de Clientesno Customer Relationship Management (CRM): estudo de casos múltiplos no desenvolvimento de software Clients’ data from the Customer Relationship Management (CRM): multiple cases study for software development Flávio Régio Brambilla1 Resumo Para que ações de Customer Relationship Management (CRM) sejam efetivas, não basta apenas o desenvolvimento de tecnologias inovadoras. É preciso que essas ferramentas sejam alimentadas com dados pertinentes. Ainda, que sejam corretos e os mais completos possíveis. A fidelidade dos dados de clientes é necessária, para que as ações do Marketing de Relacionamento por meio das soluções de CRM sejam adequadas. Este artigo está dividido em duas etapas. Na primeira, foi desenvolvido o panorama teórico. Na etapa seguinte, foram feitas análises empíricas, através de Estudo de Caso na relação entre empresas desenvolvedora e usuária de CRM. Através da condução de entrevistas semi-estruturadas com gestores responsáveis nas respectivas empresas, foram obtidos subsídios que suportam a relevância do adequado uso dos dados de clientes, e também a importância do entendimento e comunicação entre empresas durante a elaboração de uma ferramenta de CRM. Mais que uma referência técnica, a elaboração dos perfis de clientes, com base em dados coletados pela firma, permitem ações de relacionamento mais próximas dos desejos dos clientes e ações de marketing direcionadas adequadamente ao segmento de mercado almejado. Estudos específicos sobre variáveis técnicas ou operacionais do CRM ainda são requeridos ao entendimento mais completo desse tipo de solução empresarial. Portanto, além de investigar o papel dos dados de clientes, futuras pesquisas devem migrar da visão geral de CRM aos componentes específicos que o compõe, sejam indicadores tecnológicos, organizacionais ou financeiros. Palavras-chave: Gestão de Marketing; Marketing de Relacionamento. Abstract Unilateral development of new technologies is not enough to make Customer Relationship Management (CRM) actions effective. Alignment with adequate data from these tools is also necessary. Yet, correction and completeness are required in that set of data. Clients’ data fidelity are necessary to adequate the CRM next to the conceptual idea of Relationship Marketing. This academic research consists of two steps. Firstly, the development of theoretical assumptions was carried out. Secondly, empirical analysis based on Case Study research between developer and client firms which use CRM. Semi-structured interviews were conducted with managers in those enterprises, where evidence supports the relevance of clients’ data ideal use and the importance of inter-business communications between firms during the CRM tool development. More than technical report, the consumers’ identification made by the firm, allows relationship actions closely to clients’ desires and marketing actions conduced to the adequate market segmentation. Specific new studies based on technical or organizational 1 Professor da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) Curso de AdministraçãoPossui mestrado em Administração e Negócios: Marketing pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, Brasil, nível doutorado. Contato: flaviobrambilla@terra.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 20/11/2009 - Aprovado em 29/05/2010
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    variables of CRMare needed to a more complete understanding of that kind of business solution. Throughout the identification of clients’ data, future research must comprise more than a general CRM vision, to investigate specific components, technological, organizational or financial indicators. Key words: Marketing Management; Relationship Marketing.] 1 introdução Marketing de Relacionamento, para Berry (2002), é relativo à atração, manutenção, e aumento Como mencionado no artigo clássico de Dwyer, dos relacionamentos com os clientes. O foco nos Schurr e Oh (1987) a extensão dos relacionamentos de relacionamentos com os clientes se dá porque “a troca contribui na diferenciação de produtos e serviços elevação da orientação para o cliente resulta em da empresa, promovendo barreiras às substituições programas de marketing mais significativos” (IM, que em muitos casos pode culminar em vantagem WORKMAN Jr., 2004, p.126). Tem-se que somente competitiva. Nessa perspectiva, é encontrado em organizações que constroem fortes e positivos Veloutsou, Saren e Tzokas (2002), que o marketing, relacionamentos com os clientes, Rowe e Barnes como um composto de conhecimento, é concebido (1998) têm potencial na geração de algum tipo pelo entendimento dos pontos de relacionamento de vantagem competitiva sustentável, viabilizando entre os prestadores de serviços e clientes. A retenção para a empresa um desempenho superior ao da de clientes então, Rowe e Barnes (1998), possui uma concorrência. Manter uma base de clientes rentáveis série de vantagens, como os baixos custos de esforços e fiéis baseia o Marketing de Relacionamento e para os clientes que retornam e os efeitos positivos nos nada mais é do que um conjunto de práticas de resultados financeiros, além da criação dos conhecidos marketing, “para que os clientes continuem como advogados da organização, os quais positivamente a clientes” (BERRY, 2002, p.70). As ações de CRM divulgam. Entende-se que o cliente já conquistado, e são suportadas pela filosofia do Marketing de que realmente gera valor para a organização, deve Relacionamento, e conforme Sheth e Parvatiyar ser o foco da excelência nos serviços, porque manter (2002), tratam do entendimento dos clientes, em um cliente é reconhecidamente mais barato do que especial quanto aos seus comportamentos de compra prospectar novos clientes. Esforços de marketing e desejos. Rowe e Barnes (1998) afirmam que uma em retenção são significativamente mais efetivos do vantagem competitiva existe quando a organização que identificar novos segmentos de clientes a serem explora estratégias que gerem valor para os clientes, conquistados. não desenvolvidas pelas empresas concorrentes ou Para Verhoef (2003, p.30), “empresas podem potenciais concorrentes e, que o cliente entenda utilizar as mesmas estratégias tanto para a retenção como uma relação de troca justa. Quando a empresa de clientes quando para o desenvolvimento de sua trabalha para escutar e responder às demandas dos segmentação”, o que proporciona a adoção de clientes e para interagir de maneira mais próxima, um conceito que incorpore todos esses aspectos compartilhando informações, a tendência é que no trato com os clientes. Trata-se do propósito a empresa proporcione produtos e serviços mais deste estudo, que traz o CRM, como uma extensão significativos por programas igualmente significantes do Marketing de Relacionamento com suporte (IM, WORKMAN Jr., 2004). Esses preceitos tecnológico. Diz Winer (2001, p.99), que “o serviço relacionais constituem a base formativa do CRM. ao cliente precisa receber o status de alta prioridade Customer Relationship Management (CRM) no ambiente organizacional”. Esta é a essência do é o ‘gerenciamento dos relacionamentos com os CRM, composto por uma complexa relação entre clientes’. É definido como uma abordagem gerencial marketing e tecnologia, tendo em vista o adequado orientada à identificação, atração e retenção dos trato com os clientes, especialmente os que geram clientes. Objetiva-se maior rentabilidade para maior valor à empresa. O primeiro conceito a ser a empresa mediante ações de identificação e explorado é o do Marketing de Relacionamento. aumento nas transações com os clientes de maior 152
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    valor (WILSON, DANIEL,McDONALD, 2002), em modelos de sequência de compras que permitem a que estes percebam que existe justiça interacional identificação de quais clientes serão os compradores nas relações (AUH et al., 2007). CRM é focado na de quais produtos e quando”. Trata-se do tema automação e melhorias dos processos de negócio central desenvolvido neste artigo. associados ao gerenciamento dos relacionamentos Como problema de pesquisa norteador da com os clientes em vendas, serviços e suporte. Nesse investigação é proposto o questionamento: Qual sentido, Lin e Su (2003, p.716) definem CRM como a relevância da gestão de dados dos clientes na “a chave da competição estratégica necessária para relação de criação das soluções de software entre manter o foco nas necessidades dos clientes”. É uma uma empresa desenvolvedora e outra consumidora ferramenta relacional. do sistema de CRM? O objetivo do estudo consiste Wilson, Daniel e McDonald (2002), o em melhor entender como é desenvolvida uma apresentam como um conjunto de processos e solução de relacionamento com clientes na relação tecnologias que suportam o planejamento, execução Business-to-Business (B2B), através de implantação e monitoramento dos consumidores. Para Dwyer, de um sistema de CRM, assim conduzida uma Schurr e Oh (1987) a extensão dos relacionamentos análise empírica qualitativa que capture a relação contribui na diferenciação de produtos e serviços. entre empresa de desenvolvimento de CRM e sua É relatado por Berry (2002) que bons serviços são cliente e usuária da solução. necessários para que a retenção dos clientes ocorra. Tem-se a seguir, uma discussão conceitual Como apresenta Winer (2001), a meta global dos acerca da utilização dos dados de clientes, seguida programas de relacionamento consiste em entregar do método de pesquisa. Na etapa empírica, foram satisfação ao cliente, superando a concorrência. analisadas duas empresas, a ‘Alpha’, vendedora Ainda, Winer (2001, p.99), diz que “o serviço ao das soluções de CRM, e ‘Beta’, usuária do software cliente precisa receber o status de alta prioridade desenvolvido pela primeira. Foram utilizadas no ambiente organizacional”. Croteau e Li (2003) evidências qualitativas na análise dessa situação de relatam que grande número de organizações negócio entre empresas. reconhece a importância de focar os negócios na estratégia de orientação ao cliente, o que requer 2 Caracterização dos dados de clientes a incorporação da base de conhecimento dos mesmos. O’Malley e Mitussis (2002) alertam que Como critério primário sobre os dados de na ausência da cultura focada em Marketing de clientes, a fidedignidade é um dos mais importantes Relacionamento, não são entendidos os processos requisitos, para que ações de relacionamento de CRM. A utilização do CRM não é uma solução sejam viáveis. Lembram Nogueira, Mazzon e Terra de cunho exclusivamente tecnológico, mas sim, (2004) que é muito importante a eliminação de relacional. O “CRM é uma estratégia de negócio; problemas que possam distorcer o perfil e hábitos não apenas um aparato de software” (RAGINS, dos clientes, por exemplo, disfunções como GRECO, 2003, P .29). redundância e duplicidades. Pedron (2001) lembra Verhoef (2003, p.41) comprova que “o que os dados armazenados sobre a clientela compromisso afetivo é um antecedente da retenção de uma organização podem prover vantagens, de clientes e do desenvolvimento da segmentação”, como acessibilidade aos clientes, mensuração ilustrando o foco em clientes. Em termos estratégicos, das transações efetuadas, e, mais importante, a CRM pode ser vislumbrado como a pretensão de obter possibilidade de delimitar segmentos e clientes uma vantagem competitiva, através da conquista individuais para prover a solução de negócios do cliente (ROGERS, 2003). Para Rust et al. (2004, que melhor se adéque a suas necessidades, p.80), “uma base de dados de clientes pode ser desejos e aspirações. A captação e o registro utilizada pela empresa para o desenvolvimento de das respostas fornecidas pelos consumidores são 153
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    críticas no processode identificação e coleta de para uma comunicação efetiva com o cliente. CRM dados dos clientes, e também na prospecção de é uma iniciativa de marketing com vistas ao contato clientes potenciais que ainda não interagem com com os clientes, desenvolvida por meio de suporte a organização. tecnológico, o que permite mesmo para grandes Para que dados obtidos no contato com os corporações, com grandes carteiras de clientes, clientes sejam de valor, Pedron (2001, p.26) afirma a projeção de campanhas e ofertas condizentes que “o real valor do processo das comunicações a cada categoria ou segmento almejado. Para integradas de marketing reside no fato de ser Bretzke (2000), a estratégia de CRM possibilita que naturalmente circular, em que dados dos clientes a empresa se torne orientada para clientes, através são coletados, analisados, armazenados e a cada da utilização dos dados de clientes existentes nos interação com o cliente, novamente atualizados”. sistemas de informação, possibilitando a obtenção Devem-se relevar mais do que os pressupostos de uma sustentável vantagem competitiva. Existe já referidos, Nogueira, Mazzon e Terra (2004), a importância de capturar dados dos clientes em incorporando atenção a fatores igualmente todos os pontos de contato da empresa, como por críticos, como segurança, garantia de integridade, exemplo, sistemas de call center, em orçamentos, e privacidade. A adequada combinação desses vendas diretas ou pela web, etc. Os múltiplos elementos promove o CRM de qualidade. Aos pontos de relacionamento com o cliente favorecem requisitos já mencionados, Churchill e Peter (2003) a construção de históricos e perfis de clientes mais adicionam a questão ética, que compõe o conjunto próximos da realidade de seus múltiplos contatos de princípios e valores morais que preconizam as com a empresa. Esses dados, depois de agrupados condutas, do indivíduo ou grupo de indivíduos, e em bancos de dados, devem ser analisados em orienta as atividades aos preceitos morais de uma sua totalidade, categorizados e direcionados aos sociedade. Pedron (2001) ressalta a dificuldade vários pontos de contato com os clientes, onde a de manter a privacidade dos dados em virtude da informação será utilizada para uma melhor interação facilidade com que as tecnologias de informação entre a empresa e o cliente. Hansotia (2002, p.121) proporcionam coletas, processamento, transmissão salienta que “CRM é essencialmente um esforço e armazenagem de dados, principalmente quando intensivo com dados de clientes”. postas em pauta tecnologias de comunicação e No centro do CRM, está a habilidade a internet. Para o uso em marketing, por meio da organizacional de nivelar dados para projetar e utilização de sistemas de CRM, os dados de clientes implantar estratégias focadas em clientes. Missi, devem ser armazenados e restritos aos bancos de Alshawi e Irani (2003, p.1607) corroboram com dados, com o consentimento dos clientes, cientes essa afirmativa, porque para eles “a essência do da utilização restrita dos mesmos no provimento de sistema de CRM implica entender, controlar e vantagens ou de ofertas específicas da firma com a otimizar os negócios e o gerenciamento dos dados” qual transacionam. Esse aspecto é potencializado, de clientes. Campbell (2003) diz que para os quando analisadas as práticas de vendas de bancos dados de clientes serem utilizados adequadamente, de dados que muitas organizações conduzem devem ser transformados em informações de de maneira não consentida, expondo clientes e clientes e integrados aos processos de marketing. delegando informações não permitidas a terceiros. Os processos da empresa geram e integram Segundo Bolton e Steffens (2004), a informações específicas dos clientes, que propiciam habilidade da firma em entender a privacidade e as condições ao uso de CRM. Shoemaker (2001) diz preferências dos clientes ao longo das transações que é nas interações com clientes o ponto de coleta realizadas, guia as campanhas e os processos de e utilização dos dados e informações, que devem marketing. Sob tal ótica, diz McKim (2002), que os sistematicamente compor o conhecimento de dados ajudam na descoberta do que é necessário clientes. Os softwares de conhecimento de clientes 154
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    oferecem ferramentas tecnológicaspara segmentá- relação Business-to-Business (B2B). As questões los e interagir com base em contatos prévios, nos desenvolvidas foram orientadas pelos preceitos quais são estipulados comportamentos esperados e abaixo relevados sobre dados de clientes: predições de negócios futuros. • Obrigatoriedade da fidelidade dos dados A diferenciação de clientes é fundamental às de clientes em ações de CRM; estratégias de CRM. Conforme Ferreira e Sganzerlla • Operações de CRM efetivas são relacionais (2000), diferenciação e categorização dos clientes e informacionais; representam as oportunidades de maior faturamento • Privacidade e ética com os dados de clien- para empresa. A preferência imediata das ações de tes é compromisso indispensável; CRM é direcionada aos clientes de maior valor, porque são eles que sustentam a atividade empresarial. • A qualidade nos dados de clientes deve Boon, Corbitt e Parker (2002), trazem outra proporcionar a tomada de decisão. implicação relativa aos dados de clientes. Os autores • Os dados, necessariamente, viabilizam de- argumentam da importância de classificar dados por cisões estratégicas no CRM; categorias, por exemplo, valor de clientes, e ainda • Diferenciação e categorização dos clientes relevar outras características individuais, como são práticas essenciais. preferências, hábitos, renda, escolaridade, classe Os preceitos que guiaram a etapa empírica ou segmento social, constituição familiar, etc. Na deste estudo são os seis supracitados. Através desses mesma linha, Papatla, Zahedi e Zekic-Susac (2002, postulados, foram analisadas as relações comerciais p.456) dizem que “a modelagem do comportamento entre uma empresa de desenvolvimento e uma e das escolhas do cliente são características comuns usuária de CRM. Outros conceitos importantes estão em muitas aplicações de data mining (em geral), contemplados nessa caracterização da ferramenta/ e em CRM (em particular)”. Trata-se da utilização filosofia de CRM, como as distintas faces de imprescindível dos dados de clientes, para que um aplicação. Basicamente, o CRM pode ser subdividido CRM atinja os propósitos de maximizar transações, entre CRM Operacional e CRM Analítico. diferenciar clientes e obter deles melhores retornos Conforme delimitado em Bampi, Eberle em troca de serviços justos e que ampliem a e Barcellos (2008), o CRM Operacional é o satisfação dos contratantes. Wilson, Daniel e primeiro estágio na concepção de um sistema de McDonald (2002) relatam que a segmentação pode relacionamento com clientes. Nessa etapa, o foco ser vista como a simplificação da carteira de clientes está nos relacionamentos, mais precisamente na individuais, separando-os por grupos com base em construção de relacionamentos com base em similaridades e comportamentos. Segundo Srivastava eficiência e eficácia operacional, etapa esta et al. (2002, p.18), a “segmentação de clientes é a condizente com os processos de implantação de divisão da população total de clientes em grupos algumas ferramentas de contato, por exemplo, menores”, através de critérios que os agrupam em Call Center e Sales Force Automation. Com escopo diferentes perfis. Parvatiyar e Sheth (2001) advertem mais aprimorado, o CRM Analítico consiste na que a empresa precisa ser seletiva em correlacionar busca de conhecimento ampliado do cliente, tendo e integrar as informações de marketing, através de em vista análises mais aprimoradas e criação uma segmentação e seleção apropriada de clientes, de campanhas relacionais para atender aos customizando ofertas adequadamente. consumidores de maneira mais próxima de seus Tendo por base a construção teórica interesses (BAMPI, EBERLE, BARCELLOS, 2008). desenvolvida, foram definidos critérios relevantes Podem ser vistos como etapas complementares de para a investigação nas empresas. Desenvolveu- uma solução CRM. se o estudo na relação entre duas empresas, Dentre outras ferramentas de contato com caracterizando o tipo de negócio como uma clientes, duas sobressaem diante dos objetivos do 155
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    estudo, centrado emdados de clientes. A primeira uma maior familiaridade com o problema” de é o Call Center, definido como uma forma de pesquisa. contato dinâmico com os consumidores, através Basicamente foram adotadas três técnicas do uso do telefone como ferramenta para a na condução da coleta de dados deste estudo. efetividade das práticas de marketing relacional, Entrevistas semi-estruturadas, com base nos seis em especial quando operacionalizadas com base indicadores já referenciados (fidelidade dos dados; em CRM (BRAMBILLA, SAMPAIO, PERIN, 2008). relacionamentos com base em informações; A segunda, Sales Force Automation (SFA), ou privacidade e ética com os dados de clientes; Automatização da Força de Vendas, que para tomada de decisão; postura estratégica e; Brambilla, Sampaio e Perin (2008) consiste em diferenciação e categorização de clientes). Para ferramentas tecnológicas empregadas para auxílio cada um desses elementos, foram elaboradas cinco do vendedor em algumas etapas do processo de questões, totalizando trinta questões de entrevista. vender, tendo como foco o relacionamento acima As entrevistas foram aplicadas para dois grupos de da simples prática comercial impessoal. Conforme interação entre as empresas, compostos por quatro identificado em Brambilla (2009, p.8), uma colaboradores de cada empresa. O acesso ao iniciativa de SFA proporciona que a organização, ambiente organizacional foi obtido em função de por intermédio dos seus vendedores, possa “ter pesquisas anteriores, realizadas nessas empresas uma visão melhor do cliente, tomando conta desta que concordaram em ser novamente selecionadas relação”. para pesquisa acadêmica. Por solicitação das Para o melhor entendimento dos organizações, seus nomes serão omitidos. Estão procedimentos de coleta e análise dos dados, a seguir tratadas como Alpha e Beta. Ambas são de é apresentado o capítulo acerca da metodologia grande porte, localizadas em diferentes partes do adotada no estudo. Tendo em vista os propósitos território nacional e podem ser classificadas como exploratórios de pesquisa, optou-se pela condução organizações adequadas ao uso de tecnologias centrada em casos, no B2B. de informação e comunicação. A desenvolvedora é uma empresa que comercializa produtos e 3 Metodologia de condução da pesquisa serviços (multinacional), e Beta uma empresa tradicionalmente orientada para serviços (empresa Com base nos critérios de observação, a brasileira de grande porte). definição metodológica foi orientada ao emprego Além das entrevistas, foram utilizados dados de técnicas qualitativas de investigação. O ponto de secundários, em especial contratos, manuais e corte para análise foi na relação entre as empresas especificações internas das empresas, que apesar Alpha (vendedora) e Beta (cliente), numa situação de terem contribuído na análise dos dados coletados de desenvolvimento do CRM entendida como a e na elaboração dos resultados, não constam venda de um serviço co-produzido – ou criação menções explícitas sobre seu conteúdo. Documentos compartilhada de valor com o cliente (PRAHALAD, com informações financeiras da parceria entre as RAMASWAMY, 2004; BENDAPUDI, LEONE, 2003). empresas foram vetados de inclusão neste artigo, e Yin (2001) apresenta como válida a pesquisa que por isso, desconsiderados também na elaboração objetiva a investigação de uma realidade específica dos resultados, direcionados para a análise de e, conforme seus preceitos, um Estudo de Caso atributos técnicos, operacionais e relacionais. atende ao propósito deste trabalho. Classificada Terceira e última sistemática de intervenção, como uma pesquisa qualitativa (MALHOTRA, 2001), a observação do pesquisador foi relevada na no formato Estudo de Caso (YIN, 2001). Também é comparação entre documentos e entrevistas, mas entendida como exploratória, que segundo Vieira não foram encontradas distorções entre o discurso, (2002, p.65), “visa a proporcionar ao pesquisador documentos e o que fora observado nas firmas. 156
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    Para análise dosdados, foi adotada a dos entrevistados de Alpha relatou sobre o CRM comparação por indicadores, relevando o discurso desenvolvido que “este produto é desenvolvido para em ambas as empresas sobre questões relacionadas. não haver duplicidade”. Foram feitas perguntas com o objetivo de analisar Na empresa cliente Beta, um dos gestores a consistência das versões das diferentes empresas entende que “a integridade do banco de dados é para mesmos fatos. Constatou-se que as pequenas excepcional”. Duplicidade de dados é um problema inconsistências entre falas dos entrevistados não descartado, mas problemas de preenchimento e comprometem a credibilidade dos resultados da inclusão de dados de clientes, por depender do parceria B2B. O instrumento de coleta de dados foi elemento humano, pode ser o ponto gerador de desenvolvido com suporte teórico do uso dos dados pequenas discrepâncias. Essa análise é baseada na de clientes nas operações de CRM. percepção das pessoas. Finalizando a etapa de elaboração dos Quanto aos critérios de relacionamentos resultados e conclusões, foram observados e informações, identificou-se que as transações preceitos de Bardin (1977) e Yin (2001). correntes são lançadas em bancos de dados Basicamente, foram agrupados os resultados de transacionais sem que sejam alteradas cada empresa e comparados com o auxílio da informações históricas consolidadas. Informações teoria. A base de análise consiste do entendimento já agrupadas são armazenadas na ferramenta das similaridades e diferenças entre empresas de Data Warehouse da Beta, o que é essencial e entre as fontes de evidência. Apresenta-se a ao CRM analítico. A atualização sistemática nos discussão dos resultados, e posteriormente, as dados transacionais, por exemplo, está alinhada considerações finais do estudo. ao que apregoam as teorias de CRM. Os dados de cliente permitem a ilustração da realidade 4 Resultados da análise entre de momento do cliente, o que favorece nos desenvolvedora e usuária de crm relacionamentos entre a empresa e o cliente. Nesse sentido, a análise deixa claro que os dados Para melhor compreensão do cenário da e modo de coleta e conversão em informações, relação entre empresas, serão distribuídos os permitem a prática do CRM. resultados no primeiro momento integrados na Pouco foi identificado sobre a conduta ética na relação entre Alpha e Beta. As questões empregadas relação entre empresas e entre a usuária de CRM e o e a análise foram desenvolvidas de maneira cliente final. Porém, uma possibilidade importante foi a agrupar os depoimentos dos entrevistados, referenciada. Todos os dados do cliente da empresa detalhando a relação interfirmas. No segundo Beta, referentes ao relacionamento transacional, momento, serão apresentadas as sínteses de Alpha, estão ao alcance do cliente, sejam históricas ou de impressão da empresa quanto à relação com especificações de serviços. Beta, e posteriormente será relevada a impressão A qualidade de dados foi confirmada, o de Beta. A análise foi concebida com base nos seis que proporciona base à tomada de decisões. preceitos delineados. Como já referenciado, os dados históricos não são Quanto à fidedignidade nos dados de clientes, alterados em operações transacionais, atendendo as opiniões gerais dos entrevistados demonstraram aos critérios técnicos do CRM. A composição em ambas as empresas, incerteza. Porém, todos de diferentes informações com base nos dados os indícios e respostas ilustram que a margem disponíveis promove os caminhos relacionais a de erro possível não impacta negativamente no serem desempenhados. A prática de mineração escopo das aplicações de CRM. Como vantagens nesses dados é outra evidência da efetividade nas do sistema, agrupamento adequado dos dados e práticas de relacionamento utilizadas por Beta, e a capacidade de atualizações em tempo real. Um implantadas através de soluções da empresa Alpha. 157
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    A tomada dedecisões estratégicas também operação de práticas para a diferenciação dos foi identificada nessa relação entre empresas e na clientes, o que serve para, por exemplo, definir utilização do sistema de CRM por Beta. Entende-se categorias e modalidades de relacionamentos. o CRM, nessas empresas, como o “coração” das A solução é entendida como uma aplicação práticas relacionais com clientes. A configuração de CRM desenvolvida para evitar redundâncias e e análise dos dados já são, em essência, ações duplicações, como outros problemas associados à de características estratégicas. A geração das inserção de dados. Porém, relatam que, em muitas informações necessárias para atender aos clientes empresas, são utilizadas tecnologias de diferentes com excelência é uma atribuição de CRM. Dados desenvolvedores e fornecedores de software e de clientes são revertidos em informações. Estas hardware, que não permite a garantia de que nas indicam as evidências comportamentais, por sua migrações e compartilhamentos de dados entre vez, convertidas no que pode ser classificado por tecnologias não venham a ocorrer os problemas de conhecimento de cliente. qualidade e fidedignidade dos dados, seja por erros Dos critérios mais relevantes na utilização ou perdas. de CRM são destacadas a diferenciação e a Alpha é uma empresa de tecnologia que categorização de clientes. Os dados são utilizados fornece produtos e serviços prontos, mas também para estes fins. As empresas entendem que a solução sob demanda, atendendo aos requisitos de seus desenvolvida é ideal e que as práticas da empresa clientes. No caso dos negócios com Beta, o que que aplica o CRM também estão de acordo com a empresa fornece é feito a pedido, atendendo o que a teoria recomenda. Existe a diferenciação especificidades da empresa cliente. A aplicação por categorias, ou segmentos, que é uma ação de de CRM em análise conta com instrumentos online marketing. Chegam a ser feitas subcategorias de e integrados, permitindo que a alimentação do clientes em Beta, o que, segundo os entrevistados sistema seja conduzida em tempo real. Uma das de empresa, é um requisito ao tipo de serviço que utilizações do sistema de CRM em investigação é desenvolvem. a identificação dos clientes potenciais, e análises preditivas. 4.1 Resultados de alpha 4.2 Resultados de beta A desenvolvedora prima em suas soluções, para que as transações de negócio em realização Na empresa cliente Beta, quando se fala em sejam lançadas em base de dados diferente daquela controle de fidelidade e precisão dos dados, um dos em que se armazenam dados e informações entrevistados menciona uma pequena margem de históricas. No panorama técnico, são desenvolvidas erro no que a desenvolvedora fornece para utilização soluções de banco de dados transacionais e Data com os clientes finais, que não afeta na qualidade Warehouse, uma espécie de armazém de dados das operações. Não foi identificada a razão para tal consolidados. Referenciaram os entrevistados situação, porém, os entrevistados reconhecem que que, sua solução é uma ferramenta de aplicação existe, embora dentro dos limites de tolerância. relacional. Confirmou-se a necessidade de categorizar O dado transacional, diferente de dados clientes no negócio da firma Beta, que reconhece como endereço e outras características que devem ser uma prática possível com o uso das ferramentas ser alteradas quando necessário em bancos de dados fornecidas por Alpha, e é realizada seguindo o de uso comercial, depois de inseridos no sistema que recomenda a literatura de CRM. Os critérios tornam-se rígidos. Esses dados são configurados viáveis para categorizar clientes são diversos, como de diferentes maneiras para obtenção de diferentes por rentabilidade, volume, e periodicidade de tipos de informações, conforme necessidades do compras. Entende-se que esse tipo de ranking de momento. Essa capacidade analítica permite a clientes é tradicional em CRM para estipular o perfil 158
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    dos relacionamentos, transaçõese dos próprios que o ambiente pesquisado é propício à condução clientes, seus gostos, desejos e possibilidades. A das práticas de Marketing de Relacionamento. O informação histórica construída na organização é alinhamento entre empresas permite que o CRM adequadamente estruturada. em pauta seja adequadamente construído. Tais Beta converte dados em informações, pressupostos baseiam-se em observação. diferencia e segmenta clientes e conduz práticas Diante do escopo, dados consultados efetivas e analíticas de CRM. Resultados já discutidos, apresentaram aderência com os critérios teóricos tanto na relação entre empresas quanto em suas selecionados para análise. Porém, foi detectada, individualidades, tecem-se as considerações finais e ainda que tênue, uma margem de erro hoje sem sugestões para pesquisas futuras. impacto nas ações de CRM, mas que sinalizam a importância de identificar e tentar sanar essa 5 Considerações finais situação, antes que fique fora de controle e possa comprometer a capacidade de ações com dados de A solução de CRM proposta na relação clientes. Mais importante, e relevante, foi identificar entre as empresas consiste de uma ferramenta que a situação analisada se trata mesmo de CRM, e desenvolvida por demanda advinda da empresa não de um apelo empresarial ao modismo ou erro cliente, fator qual pode justificar a baixa detecção de interpretação do que é feito. CRM é constituído de problemas de adaptação. O serviço prestado pela filosofia do Marketing de Relacionamento pela empresa cliente de CRM (mídia/propaganda), alinhada com Tecnologia de Informação adequada apesar de complexo é estável, temporalmente ao contato dinâmico com os clientes, relevando determinado e, em virtude de suas disponibilidades as interações e dados armazenados pela empresa pré-definidas, de fácil gerenciamento para venda. ao longo do tempo. Esses dados em posse das O componente de SFA, proporcionado na relação organizações é que permitem, inclusive em grandes interorganizacional, ainda que não central aos corporações, identificar clientes, segmentá-los e propósitos desta pesquisa, mostra-se outro proporcionar soluções condizentes com expectativas facilitador aos processos de pré-vendas, vendas e necessidades. e pós-vendas. A qualidade dos dados impacta diretamente Verificou-se, na relação entre empresas e nos resultados dos programas de CRM. Pesquisas na aplicação da solução CRM desenvolvida, que futuras devem relevar não apenas a percepção a compreensão da utilização adequada dos dados empresarial, mas a opinião e entendimento dos no relacionamento com os clientes é entendida clientes. Entende-se que o cliente, por ser o centro e praticada pelos envolvidos e instrumentos da utilização de CRM é o informante mais adequado investigados nesta pesquisa (conforme informações na avaliação da qualidade e efeito dos programas obtidas através das entrevistas). A atualização de em desenvolvimento e em operação. CRM é uma dados transacionais em tempo real, e a aplicação prática de marketing orientada aos clientes, e online, além da utilização de um depósito de dados são eles os personagens essenciais nos pareceres consolidados neste contexto de CRM, deixam claro acerca da efetividade destas campanhas. Referências AUH, S. et al. Co-Production and Customer Loyalty in Financial Services. Journal of Retailing, v.83, n.3, p.359-370, 2007. BAMPI, R. E. ; EBERLE, L. ; BARCELLOS, P F. P A Prática e Aplicabilidade da Ferramenta CRM: Estudo . . Desenvolvido em Empresa Prestadora de Serviços na Serra Gaúcha. In: XXV Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, p.1-16. Brasília/DF: ANPAD, 2008. BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977. 159
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    Storytellings Organizacionais: narrativascontadas pelos anúncios e vídeos institucionais Organizationals Storytellings: The Narratives Told In The Videos And Ads Institutional Cintia Rodrigues de Oliveira Medeiros1 Resumo Este artigo trata do modo como a cultura organizacional de uma empresa é disseminada nos vídeos institucionais e nos anúncios publicitários, por meio de storytellings ou narrativas organizacionais. Histórias são narradas em toda cultura e são consideradas um meio de prover o indivíduo de significados, de forma a compreender o mundo em que vive. As narrativas são símbolos que prevalecem nas organizações, que utilizam storytellings como um mecanismo para criar, manter e disseminar a cultura corporativa. Partindo de uma abordagem essencialmente interpretativa, o presente estudo tem como objetivo explorar quais narrativas estão presentes nos vídeos e anúncios publicitários de uma empresa. Para tanto, propõe-se à análise de anúncios publicitários e vídeos institucionais de uma empresa, a CVRD, disponibilizados no seu website, para identificar as narrativas da empresa utilizadas para construir significado. Os resultados evidenciam um conjunto de elementos presentes nas narrativas da empresa. Palavras-chave: Storytellings; Cultura Organizacional; Simbolismo Organizacional. Abstract This study concerns with the way the organizational culture of a company is spread in institutional videos and advertisements, through storytellings or organizational narratives. Stories are told in every culture, and are considered a means of providing the individual with meanings to understand the world we live. The narratives are symbols that prevail in organizations, using storytellings as a mechanism to create, maintain and disseminate corporate culture. Assuming an essentially interpretative approach, this study aims to explore narratives presented in videos and advertisements of a company. Thus, it is proposed the analysis of institutional advertisements and videos of a company, CVRD, available on its website, to identify the narratives of the company used to construct meaning. The results show a number of elements present in the narratives of the company. Key words: Storytellings; Organizational Culture; Organizational Simbolism. 1 Professora da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Federal de Uberlandia - FAGEN/UFU, Brasil.Possui mestrado em Administração pelo Centro Universitário de Franca - UNIFACEF, Brasil. Discente do Programa de Pós-Graduação em Administração da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas - EAESP/FGV, Brasil, nível doutorado. Contato: cintia@fagen.ufu.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 28/06/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    Introdução 1. Storytelling organizacional: organizações como textos A partir dos anos 80, quando os estudos sobre cultura organizacional passaram a fazer parte, de A idéia de que as organizações são construídas forma significativa, da agenda dos pesquisadores e reconstruídas discursivamente, visto que são faladas, e interessados em estudos organizacionais, o escritas, personificadas, codificadas e registradas tema tem se revelado singular no que diz respeito (Kornberger; Clegg & Carter, 2006), leva ao a divergências metodológicas e conceituais. conceito de polifonia organizacional (Hazen, 1993), As abordagens de cunho funcionalista tiveram compreendido como sistemas verbais socialmente hegemonia nos trabalhos de cultura, desde o seu construídos, ou a variedade de diferentes discursos surgimento como campo de conhecimento até as que constituem a realidade organizacional. De duas últimas décadas do século XX, quando as acordo com esses autores, as organizações são abordagens interpretativas passaram a fazer parte entidades que persistem, resistem e reproduzem a da agenda de pesquisadores, que se inspiraram si mesmas por serem discursivamente constituídas. nos estudos organizacionais, e, principalmente, na Desse modo, a polifonia está sempre presente nas influência da cultura organizacional no desempenho organizações, mesmo pensando que vozes podem empresarial, delineando um novo paradigma da ser silenciadas por discursos dominantes. área de cultura. Nessa mesma direção, caminham os estudos Este trabalho trata do modo como a cultura de Putnam; Philipps e Chapman (2004) sobre organizacional de uma empresa é disseminada nos as relações entre comunicação e organização, vídeos institucionais e nos anúncios publicitários, por que identificam sete linhas metafóricas (conduíte, meio de storytellings ou narrativas organizacionais. lente, linkage, performance, símbolo, voz e Storytelling organizacional é definida como um discurso) presentes nos programas de pesquisa sistema coletivo de contar histórias, em que o seu em comunicação organizacional. Segundo esses desfecho é fundamental para criar significados autores, foi na década de 80 que novos campos (sensemaking) para os membros da organização de pesquisa em comunicação estenderam seu (BOJE, 1991). foco para além do tratamento tradicional da Partindo de uma abordagem essencialmente comunicação como uma transmissão variável ou interpretativa, o presente estudo tem como objetivo linear. A emergência de temas como a ambiguidade explorar quais narrativas estão presentes nos estratégica, as linguagens, os símbolos e a cultura vídeos e anúncios publicitários de uma empresa, a organizacional, o discurso público corporativo, Cia Vale do Rio Doce (CVRD). Para tanto, propõe- entre outros, deslocou o foco da eficiência da se à análise de seus anúncios publicitários e comunicação para as interpretações fundamentadas vídeos institucionais para identificar como a cultura no contexto e na situação, desencadeando corporativa é disseminada por meio de storytellings diferentes modos de investigar a complexidade do ou narrativas que constroem significado. campo. A estrutura do artigo contempla, além dessa As imagens e metáforas (Putnam et al, 2004) introdução, outras quatro seções. A segunda seção são um modo de ver algo, como se isso fosse diverso apresenta a revisão da literatura, cuja ênfase é do que é, legitimando ações e fornecendo insights dirigida para a storytelling organizacional, visando que permitem criar, compreender e interpretar a dar sustentação ao desenvolvimento do trabalho. realidade social. Dessa forma, segundo Putnam et Na terceira seção, são descritos os aspectos al (2004, p.81), a metáfora delineia “a maneira metodológicos e, na quarta seção, os resultados como vemos o mundo e como lhe atribuímos sentido encontrados são apresentados e discutidos. Por fim, – orientando nossa percepção, conceituação e fazem-se as considerações finais do estudo. entendimento de uma coisa, à luz de outra”. 164
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    As metáforas daperformance e do ambíguo de experiências, ao contrário do que os símbolo, além de explorarem diversos aspectos da modelos analíticos pressupõem, visto que naquele comunicação, incluem a relação entre as mensagens, existem apenas “registros de ação material e significado e contexto. Segundo Putnam et al (2004, simbólica” (SMIRCICH; STUBBART, 1986, P .726). A p. 93), a metáfora da performance sugere que “as idéia de enactement, conforme os autores, abandona organizações também são narradoras de histórias. as suposições de que organização/ambiente é algo Suas imagens e identidades emergem, em parte, concreto, material, a favor de um mundo simbólico das narrativas que elas constroem com diferentes socialmente criado. públicos”. Nesse sentido, os demais atores (membros) Diante desse quadro de referência, recorremos são co-construtores, visto que essa abordagem ao conceito de storytelling organizacional, trata a comunicação como um feixe de relações pesquisado por diversos autores (BOJE, 1991; que compõem o processo colaborativo no qual as BOJE, 1995; KAYE & JACOBSON, 1999; GEPHART, interações sociais e simbólicas ocorrem. Logo, o 1991; MILLS; BOYLSTEIN & LOREAN, 2001; BARRY caráter multifacetado e pluralista de representações, & ELMES, 1997; NYMARC, 1999) para discutir improvisações e narração de histórias, que resulta como as empresas usam suas histórias para criar na idéia de que comunicação e organização são uma realidade comum entre os membros internos e uma produção conjunta. externos. A metáfora do símbolo, segundo Putnam et al Boje (1991, p.106) define storytelling (2004, p.94), sustenta-se na idéia que a comunicação organizacional como um sistema coletivo de contar funciona como “a criação, a manutenção e a histórias, cujo desfecho é fundamental para criar transformação dos sentidos”. Nesse contexto, as significados (sensemaking) para os membros da narrativas, como símbolos que são, configuram os organização. Para Gephart (1991), storytellings significados da organização tornando-se quadro de são construídas a partir de histórias sucessivas referência para os diversos públicos interpretarem como uma ferramenta ou programa para dar as ações da organização e, assim, viabilizam o significado a um evento. Nesse sentido, storytelling ato de organizar. Essa metáfora emerge da cultura organizacional é compreendida por muitos autores organizacional, para projetar a comunicação como como uma manifestação cultural que, de um lado, interpretação de formas literárias, tais como, as pode coagir ou ser uma imposição, no caso de ser narrativas que, nas palavras dos autores, não são uma “grande narrativa” ou “grande história”, e, de simplesmente artefatos das culturas, mas sim, meios outro lado, pode ser uma construção plural de uma de persuadir o público visando ao controle social. multiplicidade de histórias que criam a realidade Abraçando a idéia de que os ambientes (BOJE, 1995; MILLS et al, 2001). organizacionais são construções, Smircich e Stubbart O uso de storytelling pelas organizações é (1986) desenvolveram uma visão para conhecer e visto por alguns autores como um instrumento para analisar o ambiente, que denominam de ambiente disseminação de significados compartilhados dentro enacted (constituído, aprovado), ressaltando a das organizações (KAYE; JACOBSON, 1999), importância da natureza social das organizações já outros, como Vendelo (1998), sugerem que para a formação da estratégia e dos processos storytelling é um mecanismo para legitimação da organizacionais. Essa perspectiva, fortemente organização e garantia de sua reputação. Segundo influenciada pela sociologia do conhecimento esse autor, narrativas de desempenho futuro têm de Berger e Luckmann (2001), concebe que a impacto na reputação de uma empresa junto aos organização e o ambiente são criados juntos, através consumidores na medida em que criam expectativas dos processos de interação social dos participantes quanto a ela. Storytellings, para Mills et al (2001), chaves da organização (Smircich & Stubbart, 1986). são ferramentas motivacionais usadas em grandes e O mundo enacted é essencialmente um campo pequenas empresas, para dirigir o comportamento 165
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    dos funcionários e,assim, consolidar a cultura se nesse contexto, visto que implicam uma visão corporativa. Nesse sentido, storytellings, como particular de gestão empresarial. Segundo esse uma produção de conhecimento e poder, são autor, o conceito de OSIs é compreendido por quatro utilizadas pelas organizações como uma técnica categorias (liderança, comunicação, inovação e disciplinar de modo a obter o controle social sobre força de trabalho) que devem ser considerados seus empregados e, assim, alcançar os objetivos “como sistemas de significados, metáforas-raizes pretendidos. ou geradoras de narrativas” (Wood Jr, 2000, p.23), Assim, retomando o conceito de ambiente cuja função é o gerenciamento da impressão, uma enacted (Smircich & Stubbart, 1986) e as metáforas estratégia que se fundamenta na premissa de que de Putnam et al (2004), storytelling organizacional a construção da imagem afeta a percepção das pode ser compreendida como uma forma pela qual as pessoas. organizações narram suas histórias, visando construir O gerenciamento da impressão (GI), segundo significados. As interpretações dos diferentes sujeitos Wood Jr (2000), refere-se à utilização, pelos atores, de são múltiplas, assim, a administração não pode estratégias de comunicação destinadas a influenciar prever se esse processo corre, mas pode buscar obter a percepção e as interpretações da audiência uma maior influência sobre essas interpretações. (clientes, outras organizações, empregados, Berry e Elmes (1997) preocuparam-se em governos e outros atores). Goffman (2004), a quem analisar a estratégia como uma forma de narrativa, a origem dos estudos de GI é atribuída, compreende visto que, a narrativa da estratégia é usada para o GI como a tentativa de estabelecer o significado construir significado e, consequentemente, explora ou o propósito de interações sociais, as quais modos nos quais os stakeholders criam um discurso dirigirão as ações das pessoas, ajudando a projetar de direção para compreender e influenciar as ações as expectativas de papéis. entre si. Storytelling é, então, conforme Mills, Boylstein A construção e uso de histórias de sucesso, e Lorean (2001), uma tecnologia de poder que como Wood Jr (2000) ressalta, são uma das formas fabrica uma realidade para indivíduos, na medida de GI, e funcionam como sistemas de controle, na em que criam uma ilusão para consumidores, medida em que transmitem o que é relevante, assim empregados e a comunidade em geral. como a forma pela qual as condutas são aceitáveis Para Kaplan (2003), as histórias ou narrativas e aprovadas. As OSIs utilizam-se do gerenciamento desempenham papel fundamental na criação de de impressões, para influenciar comportamentos significados e na aprendizagem organizacional, o de forma a alcançar uma interpretação comum que é compartilhado por Kaye e Jacobson (1999) e dos eventos que ocorrem no contexto da empresa, por Weick (1995, p.127): “a maioria das realidades reduzindo a ambiguidade na construção da sua organizacionais são baseadas em narrativas”. Além imagem. disso, segundo Kaplan (2003), as narrativas ajudam As organizações não podem ser registradas a compreender a complexidade dos sistemas, a não como apenas uma história, mas sim, como uma linearidade, a fragilidade das predições e, ainda, o multiplicidade, uma pluralidade de histórias e caráter emergente da estratégia. Pentland (1999, interpretações coletivas, como propõem os autores p.712) considera que as histórias ou narrativas podem que analisaram a Disney (BOJE, 1995), a Hewllet- ser fonte valiosa de insights sobre organizações, Packard (NYMARC, 1999), a Saturn Corporation visto que os participantes não apenas atribuem (MILLS et al, 2001) e a Enron (WHITTINGTON et sentidos de seu mundo em termos da narrativa, “mas al, 2003)1. Tais histórias são disseminadas de várias proativamente planejam e aprovam narrativas que maneiras ( dentre elas, anúncios publicitários e são consistentes com suas expectativas e valores”. vídeos institucionais) e, dessa forma, instituem-se As organizações de simbolismo intensivo narrativas que passam a circular entre os membros (OSIs), como Wood Jr (2000) denomina, enquadram- organizacionais. 166
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    2. Procedimentos metodológicos dos eventos; b) protagonista(s); c) as vozes; d) os significados; e e) outros indicadores de contexto. Este trabalho tem como foco as narrativas da empresa e, se sustentando em uma abordagem 3. Storytelling organizacional da interpretativo-simbólica (HATCH, 1993), busca companhia Vale do Rio Doce compreender como os anúncios publicitários e vídeos institucionais, através de storytellings, são As informações a seguir referem-se à empresa usados para construir significado. A abordagem ( cujos vídeos são analisados) e foram extraídas do interpretativo-simbólica, segundo Hatch (1993, seu website, com o propósito de oferecer um quadro p.669), “compreende a noção de símbolo como de referência sobre a mesma. algo que representa um associação consciente ou A Companhia Vale do Rio Doce (nesse estudo inconsciente com algo mais amplo, usualmente um referida como VALE), originariamente uma empresa conceito ou significado mais abstrato”. brasileira, fundada em 1942, foi privatizada em 1997, Tsoukas e Hatch (2001) atribuem a quando o Consórcio Brasil, liderado pela Companhia introdução da narrativa nos estudos organizacionais Siderúrgica Nacional (CSN), adquiriu 41,73% das a Czarniawska (1997), que define três abordagens: ações ordinárias do Governo Brasileiro. Inicialmente, narrar organizações (relato sobre organizações a empresa atuava apenas na região Sudeste do Brasil, usando uma estrutura narrativa como uma mas atualmente está presente em outras regiões do país sequência de eventos), organizações como e no exterior. O texto no seu website esclarece que “o narrativa (pesquisa interpretativa) e coletar histórias desenvolvimento de um amplo programa de pesquisas (documentar artefatos culturais e storytellings que minerais tem por objetivo buscar oportunidades de criam significado) que é a abordagem escolhida qualidade e que estejam em sintonia com a estratégia para este estudo. de crescimento da Vale, garantindo novas reservas A seleção do material analisado considerou minerais para o futuro”. os vídeos institucionais e publicitários produzidos pela Quadro 1 - descrição técnica dos vídeos analisados Companhia Vale do Rio Doce e disponibilizados em Código Título Tipo Data Duração seu website (http:/www.cvrd.br). Foram consultados Mina de Cobre Comercial para (1) Julho - 2004 60” 26 arquivos, totalizando quatro horas de gravação, Sossego TV Comercial para Outubro - (2) Logística Vale 60” aproximadamente, no formato Windows media TV 2004 Campanha Comercial para player ou flash. A seleção dos arquivos para compor (3) Institucional CVRD TV Abril - 2005 1’01” o corpus da pesquisa foi feita de forma aleatória, (4) Investimentos Vídeo Fevereiro-2006 1’ 2006 institucional ou seja, os arquivos foram numerados de 1 a 26 Vídeo (5) Expansão Alunorte Março -2006 30” e, posteriormente, por sorteio, chegou-se aos três institucional Vídeo (6) Mais Um Abril – 2006 60” anúncios de televisão e três vídeos institucionais que institucional são objeto de análise neste estudo, considerados A análise de um conjunto de seis vídeos suficientes para as representações que se quer (quadro 1) produzidos pela empresa examinou quais caracterizar, conforme orientação de Bauer e Aarts narrativas estão presentes no material analisado. (2002). Da análise, emergiram seis storytellings, conforme Para a transcrição dos vídeos, cuja finalidade descrição a seguir: é gerar dados para análise (ROSE, 2002), StorYtelling 1: A VALE INAUGURA consideraram-se como unidades de análise duas UMA NOVA ERA PARA O BRASIL dimensões, a visual e a verbal, para compor uma narrativa ou storytelling. A partir de então, baseando- No vídeo (1), a narrativa inicia-se com a se em Barthes (1976) e Pentland (1999), foram apresentação da empresa e a promessa de um futuro estabelecidas as categorias de análise: a) sequência de desenvolvimento, acenando para uma nova era: “a 167
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    vale do Riodoce está inaugurando uma nova era no Tudo, cuja letra reforça a importância da estratégia Brasil”. A narrativa continua vislumbrando um futuro da empresa para o país: “Pro Brasil crescer, Vale o para o Brasil e para a empresa: “a era do cobre, que quiser, [...] do Sul ao Norte, onde, onde vier, uma era em que o Brasil vai passar a ser exportador essa Vale, por alguns caminhos, leva o que tiver, de cobre”. Uma “era de mais desenvolvimento e vale leva pelo Brasil afora, tudo o que você quiser”. empregos para o Pará” é a narrativa da estratégia da Ao final do vídeo (2), o locutor encerra com empresa: crescer, expandir e diversificar. Na dimensão as palavras: “é o peso da Companhia Vale do Rio visual, a narrativa inicia-se com imagens da empresa, Doce na logística do Brasil. Vale, Inteligência em suas minas, instalações, equipamentos, grandes e logística”. A música reforça a imagem do letreiro modernos, ambiente de trabalho seguro e agradável. com o refrão: “Vale vai, Vale leva, Vale traz”. Imagens de funcionários trabalhando nas instalações da empresa, acenando, felizes, unidos, cantando, StorYtelling 3: A VALE É SOCIALMEN- confundindo-se com a comunidade. Os funcionários TE RESPONSÁVEL mostram, com orgulho, o crachá da empresa, acenam O vídeo (3) inicia a narrativa, na dimensão com sinal de positivo para as ações estratégicas visual, com imagens da vista aérea de mata da empresa. Ainda na dimensão visual, letreiros verde em uma montanha, seguida de um maestro apontam a empresa como modelo de integração regendo uma orquestra e os funcionários da VALE com a comunidade, modelo inédito de preservação preparando-se para o trabalho. Ainda na dimensão ambiental, de eficiência e de nacionalismo. Na visual, o letreiro anuncia “homens e mulheres dimensão oral, a narrativa é centrada na geração de trabalhando”. Na dimensão oral, a locução empregos para a região, onde “todo mundo, ganha começa a narrativa da estratégia de crescimento tudo”, ou seja, apostar na Vale, é apostar no Brasil. Ao e expansão: “Vale do Rio Doce, construindo dias final da narrativa, as imagens das novas instalações da melhores para o Brasil”. A narrativa continua, na empresa na Mina do Sossego e a locução enfatizam dimensão oral, com a música “Vivemos esperando a estratégia de internacionalização da empresa: dias melhores, dias de paz, dias a mais, dias que “Mina do cobre do Sossego, para o Brasil passar a ser não deixaremos para trás, vivemos esperando o exportador de Cobre”. dia em que seremos para sempre”; e na dimensão visual, um jogo de imagens dos músicos em StorYtelling 2: A VALE TEM CORAGEM uma orquestra combinando com o maquinário O vídeo (2) inicia, na dimensão visual, com a moderno da empresa, crianças jogando futebol, imagem de um trem despontando de um túnel; em funcionários trabalhando, instalações modernas, seguida, a ferrovia e o horizonte passam a impressão idosos e crianças nos projetos sociais da empresa de distância, da dimensão pela qual a empresa e a comunidade. As imagens da mata verde transporta produtos Brasil afora. Na dimensão oral, preservada, árvores grandes e altas, filmadas a locução narra como a VALE está diversificando: de baixo para cima, enfatizam a preocupação “Agora você vai conhecer o caminho das pedras. da VALE com o meio ambiente. Fazendo parte E também do agronegócio, da siderurgia, da da narrativa, também na dimensão visual, os construção, do cimento, do combustível e de mais dizeres sobre os investimentos da empresa, uma série de produtos transportados pela Vale tanto nas suas operações como na proteção Logística”. A narrativa continua com imagens das ambiental, pesquisa e projetos sociais que “estão instalações da empresa, equipamentos grandes e beneficiando três milhões de brasileiros”. Ao final, modernos, funcionários nas minas e nos escritórios, crianças construindo a bandeira nacional no acenando, sorridentes, ora com a bandeira nacional, solo, utilizando-se da grama densa, verde e bem ora com a mão no peito, ora abraçados uns aos cuidada. A locução encerra: “Vale, a empresa outros. O jingle é uma adaptação da música Vale privada que mais investe no Brasil”. 168
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    StorYtelling 4: AVALE É MODERNA E a maior refinaria da alumina do mundo”. A música EFICIENTE comemora a estratégia de expansão com o refrão “meu grito de guerra é o grito de gol, gol, gol [...] A narrativa do vídeo (4), reforçando a faz um, mais um, faz um”, típico dos brasileiros. Na estratégia de crescimento da empresa, inicia com dimensão visual, os funcionários narram, utilizando- a locução: “A Vale é a empresa privada que mais se de placas, como a empresa investiu para ser a investe no Brasil”. Em seguida, as imagens de maior refinaria do mundo, ao mesmo tempo em funcionários acenando rumo à empresa, mostrando que investiu na conservação de florestas e no Brasil. as instalações, maquinários, as ferrovias e as minas A última placa é uma homenagem ao sucesso da da empresa. Os funcionários mostram o crachá, estratégia da empresa, já que a Vale se confunde acenam com a bandeira nacional, num misto de com o país: “Parabéns Brasil”. A narrativa encerra- orgulho e forte nacionalismo para com a empresa. se com o refrão “eu sou um brasileiro e mando um As imagens das letras garrafais contam como a VALE beijo para você. Brasil” na dimensão oral e com o investiu e tornou-se a “maior mineradora de ferro do slogan da empresa: “CVRD, a empresa privada que mundo”, “a empresa brasileira que mais exporta”; e como ela se importa com o país e o meio ambiente: mais investe no Brasil”. “maior investimento em reflorestamento da história”, StorYtelling 6: A VALE É ORGULHO “um dos maiores investimentos sociais do Brasil”, NACIONAL “maior refinaria de Alumina do mundo”, “maior investimento em ferrovias do país”. A narrativa No vídeo (6), a narrativa inicia-se com a presente na música é clara: a empresa é brasileira, apresentação da empresa como “orgulho nacional”, confunde-se com o país: “meu grito de guerra assim como o futebol brasileiro, que conforme a é o grito de gol, gol, gol ...”. A locução reforça empresa, é “o maior orgulho de todos nós”. Mostra, narrando os investimentos que ela pretende fazer logo no início, o crepúsculo, a vista aérea da mata, no futuro e justifica com o forte nacionalismo: “Por os equipamentos da empresa. A locução narra que, para crescer como a Vale, é preciso acreditar como a “Vale, orgulho nacional, torcendo pelo no Brasil, como a Vale”. A narrativa encerra-se, na maior orgulho de todos nós... o futebol brasileiro”. dimensão visual, com o slogan da empresa: “CVRD O refrão da música reforça: “Brasil, [...] eu sou – a empresa privada que mais investe no Brasil”; e, um brasileiro e mando um beijo pra você”. Na na dimensão oral, a locução: “Vale! Vale a pena sequência, as imagens contam como a empresa acreditar no Brasil” é reforçada pelo jingle: “eu sou se confunde com o país: os funcionários, no local um brasileiro e mando um beijo para você. Brasil.” de trabalho, festejando, ao mesmo tempo em que imagens de pessoas dançando, em vestes verde- StorYtelling 5: A VALE CRESCE E FAZ amarelo, fazem batucada, dançam capoeira e O BRASIL CRESCER comemoram o futebol. Os funcionários assistem ao O vídeo (5) inicia a narrativa, na dimensão jogo pela televisão, na própria empresa, acenando oral, com a apresentação de “mais um grande com a bandeira nacional. A narrativa enfatiza que empreendimento da Vale para o crescimento do a empresa, assim como o futebol, deve ser motivo Pará e do Brasil: a expansão da Alunorte” e a de orgulho nacional, pois faz parte da paisagem música “Brasil, [...] eu sou um brasileiro e mando um brasileira e, se a companhia é bem sucedida; logo, beijo pra você”. Na dimensão visual, funcionários o Brasil também será. entram acenando, sorrindo, fazendo sinal positivo, A VALE é a protagonista da narrativa, porém, tendo ao fundo as instalações e equipamentos da analisando-se a dimensão visual, as imagens empresa. A narrativa oral prossegue enfatizando mostram os funcionários e o povo brasileiro também os investimentos realizados pela empresa, com o como atores principais, assim, como na dimensão objetivo de crescer ainda mais: “fazer da Alunorte oral, o refrão da música: “eu sou um brasileiro e 169
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    mando um beijopra você”. Os brasileiros fazem de trabalho diversa, ou seja, estão presentes nesse parte da estratégia da empresa, visto que ela é universo, homens, mulheres, negros, brancos, “orgulho nacional”. jovens e adultos. Todas as músicas dos vídeos são Sintetizando os seis vídeos em uma única de compositores da música popular brasileira, narrativa, e utilizando-se dos parâmetros de Barthes que tiveram as letras adaptadas para os jingles da (1976), observa-se que a sequência dos eventos empresa. A seguir (quadro 2), a análise da narrativa inicia-se apresentando a empresa como aquela que é revela os protagonistas, as vozes e os significados privada e mais investe no Brasil. Uma empresa grande, encontrados no material analisado. rica, com instalações e equipamentos modernos. Uma A VALE é, por sua própria definição, “a empresa que, embora privada, pertence ao povo empresa privada que mais investe no Brasil”. A brasileiro. Ao longo do tempo, a empresa investiu imagem que a empresa estabelece dela mesma é em pesquisa, na geração de empregos, no Brasil, que ela cresce, porque acredita no Brasil, investe em projetos sociais, na produção, no meio ambiente, no desenvolvimento do país e, ainda, o seu sucesso como parte de sua bem sucedida estratégia de confunde-se com o sucesso do próprio país, crescimento e expansão, que obteve como resultado remetendo a Vendelo (1998), quando esse sugere o reconhecimento da empresa, em âmbito mundial, que storytellings são mecanismos usados pelas como a maior, a que mais investe, a que mais cresce. corporações para fortalecer sua reputação e ganhar Para crescer, a empresa diversificou, internacionalizou, legitimidade. e atuou de forma socialmente responsável. Retomando Os vídeos não apenas oferecem informações os dizeres de Boje (1991), quanto à relevância do sobre a empresa, mas também produzem uma desfecho para criar significados, encontramos, ao narrativa. De uma perspectiva interpretativo- final da narrativa, homenagens para a empresa, que simbólica, os vídeos criam uma intrincada rede de foi bem sucedida, e para o Brasil, que recebe os seus simbolismo visual e discursivo, uma estratégia de investimentos, contribuindo, assim, para a construção comunicação destinada a influenciar a percepção e de significados que unem o país e a empresa. as interpretações da audiência (WOOD JR, 2000), O protagonista das narrativas é a empresa, construindo uma imagem de uma empresa forte, embora funcionários, o Brasil e os brasileiros também moderna, nacionalista, socialmente responsável e atuem como atores coadjuvantes. A narrativa eficiente, cujas estratégias foram bem sucedidas. é construída por diversas vozes: funcionários, a Os valores organizacionais, entendidos como empresa, o povo brasileiro e um locutor anônimo, os comportamentos escolhidos pelos membros da constituindo um único discurso, ao contrário da organização, na perspectiva da integração (MARTIN, polifonia (KORNBERGER, CLEGG E CARTER, 2006), 2002), traduzem as preferências da organização que emerge de forma estratégica para que a empresa ou os princípios de conduta adotados por todos os reproduza a si mesma. Nesse sentido, os vídeos membros, homogênea e harmoniosamente. Assim, constituem-se em uma forma de narrar a história esses valores são utilizados na gestão da cultura silenciando discursos para construir a realidade a corporativa para assegurar melhores resultados. partir do discurso dominante (BOJE, 1995). As imagens e palavras nos vídeos analisados A análise dos vídeos encontrou alguns estabelecem uma ligação entre as histórias aspectos comuns como, por exemplo, o slogan bem sucedidas da empresa e os diversos atores da empresa, “CVRD – A empresa privada que (funcionários, comunidade, a torcida do povo mais investe no Brasil” finaliza todas as narrativas. brasileiro) que contribuem para a construção de Um outro aspecto bastante simbólico é que os uma empresa que é privada, mas nacional, forte, funcionários da empresa estão todos uniformizados, eficiente e responsável. Nessa perspectiva, como utilizando equipamentos de segurança, com crachás Boje (1991) ressalta, tanto o narrador quanto os de identificação e apresentam-se como uma força ouvintes da história são co-construtores, na medida 170
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    Quadro 2 -análise da narrativa Protagonista Vozes Significados Outros contextos Força, grandeza, riqueza, nacionalismo, orgulho, segurança, - a visão de futuro da empresa diversidade, tecnologia, uma - a missão da empresa empresa do povo brasileiro, empresa - os objetivos da empresa VALE, Brasil, povo brasileiro, Vale, funcionários, povo brasileiro, socialmente responsável, valorização - os valores, e crenças funcionários locutor da comunidade, valorização do - as estratégias meio ambiente, preocupação com o - heróis desenvolvimento do país, empresa -cerimônias privada que investe no Brasil, - rituais capacidade de investimentos em que o público interno e externo aceita essa membros, manter e desenvolver a percepção da história como parte da realidade, passando assim, organização de forma a garantir a consistência na a participar de sua construção e reconstrução. coordenação de diferentes elementos que estão De acordo com Putnam et al (2004), as envolvidos em uma organização. metáforas da performance e do símbolo exploram a Para alcançar o propósito do trabalho, relação entre as mensagens, significado e contexto utilizou-se de uma abordagem interpretativa, que, nesse caso, foi marcado pelas manifestações considerando as dimensões visual e oral do material nacionais anti-privatização da empresa em questão, utilizado para construir a narrativa da empresa. Da por ocasião da venda de parte da empresa. Logo, a análise, emergiram seis storytellings. Foi examinada construção do significado de empresa nacional, que a sequência dos eventos, os protagonistas, as acredita no Brasil tanto quanto qualquer brasileiro vozes, os significados e as histórias presentes, que deve acreditar. evidenciaram vários elementos (estratégia, valores e Tanto a dimensão visual quanto a oral narram crenças) que são disseminados para criar, manter e como a empresa é bem sucedida: sua eficiência disseminar a cultura organizacional. na administração de recursos e investimentos, Foram evidenciados vários elementos que, o tratamento dispensado aos funcionários e à juntos contribuem para criar um senso de patriotismo, comunidade em seu entorno, a responsabilidade da orgulho e disposição em crescer, funcionando empresa quanto ao ambiente e à sociedade, e o como o gerenciamento de impressão, constituindo, esforço despendido para o crescimento do Brasil, o assim, uma organização de simbolismo intensivo que parece sugerir, que trata-se de um mecanismo (WOOD JR., 2000). As vozes são múltiplas: Vale, para legitimar (VENDELO, 1998) a estratégia da funcionários, comunidade e o povo brasileiro. organização e garantir sua reputação. Assim, parece Contudo, como Kornberger, Clegg e Carter (2006) clara a perspectiva do ambiente enacted (SMIRCICH; sugerem, algumas vozes podem ser silenciadas STUBBART, 1986), na qual a organização/ambiente por discursos dominantes. Cabe esclarecer que a é um mundo simbólico socialmente criado, cuja perspectiva deste artigo é contrária à omissão de gestão pressupõe a criação de um contexto. vozes, cujas consequências devem ser conhecidas pelos executivos. Admite-se sim, que as organizações 4. Considerações finais são construídas e reconstruídas discursivamente pela emergência de uma multiplicidade de discursos, Este estudo analisou como o uso de embora o gerenciamento da impressão seja aplicado storytellings através de vídeos institucionais e como uma tentativa de redução da ambiguidade e anúncios publicitários são utilizados para construir aumentar o nível de estruturação. significados. As organizações são constituídas por O estudo contribui para os estudos da suas histórias que, por sua vez, estão relacionadas cultura organizacional na medida em que ressalta com a realidade das organizações. Histórias o modo como as organizações produzem e organizacionais são vistas como uma forma de reproduzem suas narrativas com o objetivo de criar, transmitir a cultura organizacional para os novos manter e disseminar a cultura. Recorrendo, outra 171
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    vez, a Smirciche Stubbart (195), a abordagem Finalmente, sugerem-se alguns desafios para interpretativa tem potenciais contribuições na o avanço de estudos interpretativos que considerem solução de problemas estratégicos, como no as narrativas, como, por exemplo, incluir outro tipo caso de falhas de implementação de mudanças de material para ilustrar a consistência do repertório decorrentes da falta de atenção dada à natureza dos vídeos. Além disso, conhecer as interpretações social da formação das organizações. Outras de outros sujeitos, sejam eles parte do público contribuições são apontadas, como as possíveis interno ou externo, com o propósito de identificar implicações da narrativa como elemento na ambiguidades, dissensos ou conflitos que possam construção da realidade organizacional. existir. Referências BARRY, D.; ELMES, M. Strategy Retold: towards a narrative view of strategic discourse. Academy of Management Review. V.22, n.2, p.429-452, 1997 BARTHES, R. Introdução à análise estrutural da narrativa. In: BARTHES, R. et al (org). Análise Estrutural da Narrativa. 4.ed. Petrópolis: Vozes, p.19-60, 1976. BAUER, M.W.; AARTS, B. A construção do corpus: um princípio para a coleta de dados qualitativos. In: BAUER, M.W.; GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Um manual prático. 2.ed. Petrópolis: Vozes, p.39-63, 2002. BERGER, P L.; LUCKMANN, T A construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 2001. . BOJE, D. M. Stories of the sotorytelling organization: a postmodern analysis of Disney as “Tamara-Land”. Academy of Management Journal. 38,(4), 997-1035, 1995. _____. The storytelling organization: a study of storytelling performance in an office supply firm. Administrative Science Quarterly. V.36, n.2, 1991, p.106-126., 1991. BURREL, G.; MORGAN, G. Sociological paradigms and organizational analysis. London: Heinemann, 1979. CZARNIAWSKA, B. A four times told tale: combining narrative and scientific knowledge in organization studies. Organization, 4 (1), 7-30, 1997. GHEPART JR, R.P Succession sensemaking and organizational change: a story of a deviant college . president. Journal of Organizational Change Management. 4(3), 35-44, 1991. GIOIA, D.A. Give it up! Reflections on an interpreted world (A commentary on Meckler and Baillie). Journal of Management Inquiry. 12 (3), 285-292, 2003. GOFFMAN, E. A Representação do Eu na Vida Cotidiana.12.ed. Petrópolis: Vozes, 2004. HATCH, M.J. The dynamics of organizational culture. The Academy of Management Review. 18(4), 657-693, 1993. HAZEN, M. Towards polyphonic organization. Journal of Organizational Change Management. 6(5), 15-26, 1993. KAYE, B.; JACOBSON, B. True tales and tall tales: the power of organizational storytelling. Training & Development. 53 (3), 44-50, 1999. KAPLAN, S. The seduction of best practice commentary on “Taking Strategy Seriously”. Journal of Management Inquiry. 12 (4), 410-413, 2003. KNIGHTS, D.; MORGAN, G. Strategic discourse and subjectivity: towards a critical analysis of corporate strategy in organizations. Organization Studies. 12 (2), 251-273, 1991. 172
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    Mudando para Seleçãopor Competência: um Caso Paranaense Moving To Competency-Based Selection: A Parana Case Keyla Cristina Pereira Prado1 Sérgio Bulgacov2 Resumo O principal objetivo deste estudo é descrever e analisar as formas e conteúdos dos processos de seleção dos trabalhadores, em uma organização que investe no desenvolvimento das competências e conhecimentos dos trabalhadores, adotando o método de seleção baseado em Gestão por Competências. Um estudo de caso realizado em uma indústria paranaense mostrou que a Seleção por Competências constitui-se em ferramenta eficaz de gestão de pessoas, desenvolvida com base no mapeamento de habilidades, conhecimentos e atitudes necessárias para cada cargo. Trata-se de um recurso personalizado para a captação de perfis mais compatíveis com o especificado pelos setores da organização. O estudo realizado durante a implantação do sistema na empresa mostrou que o investimento no desenvolvimento das competências e conhecimentos dos trabalhadores traz repercussões sobre a produtividade final e a competitividade da empresa. Palavras-chave: Seleção por Competência; Gestão por Competência; Gestão do Conhecimento. Abstract The main goal of this study is to describe and analyze the procedures and approaches for worker selection of a corporation bounded to invest in knowledge and competency-based people management. The process has started with the introduction of competency-based selection. The case study conducted in an industrial corporation in the State of Paraná, Brazil, resulted in showing how effective is the competency-based selection process for employees hiring. The process is grounded with mapping the abilities, knowledge and behavior specified for each organization area. The outcome of this study shows that the investments in employee’s competencies and knowledge development have a positive impact on work productivity and market competitiveness. Key words: Competency-based Selection, Competence Management, Knowledge Management. 1 Introdução pela globalização, financeira, comercial, provoca alterações expressivas na maneira de atuar das Nos últimos anos, as organizações têm organizações. Antes o planejamento das empresas passado por inúmeras e crescentes mudanças, em era regional ou no máximo nacional, hoje ela tem razão das transformações que vem ocorrendo no que agir e planejar estratégica e globalmente. cenário político econômico, social e também no Tais mudanças têm afetado diretamente ambiente interno. As mudanças externas causadas o ambiente interno das organizações, que 1 Possui graduação em Administração pela Faculdade de Educação Superior do Paraná - FESP-PR, Brasil e Especialização em Administração de Pessoas pela Universidade Federal do Paraná - UFPR, Brasil. Contato: keyla_prado@yahoo.com.br 2 Professor de graduação da Universidade Federal do Paraná - UFPR e do Programa de Pós-Graduação em Administração da mesma universidade - PPGADM/UFPR, Brasil. Possui doutorado em Administração pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo - FGV/SP Brasil e pós- , doutorado pela University of Birmingham, Inglaterra. Contato: s.bulgacov@ufpr.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 21/10/2010 - Aprovado em 18/12/2010
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    precisam rever algunsconceitos de seus modelos implantação estudada. Para situar a situação do tradicionais de gestão. Modelos, onde o homem é estudo, apresenta-se breve caracterização da visto de maneira secundária, como mera peça da empresa estudada, a metodologia da pesquisa e engrenagem. Para se manter competitivo no atual as recomendações à implantação do Sistema de mercado, há uma necessidade de substituição Seleção por Competências. gradativa dessa visão reducionista e focar mais os indivíduos como seres humanos, com a percepção 2 Revisão bibliográfica de que pessoas são peças essenciais para dar movimento à engrenagem das organizações. Desse O mundo em transformação constrói o futuro modo, a Gestão por Competência ganhou grande em ciclos, ora estáveis, ora instáveis. São grandes revoluções que colocam em dúvida, questionam e impulso nesta era globalizada. modificam o que até então era tido como a maneira O mercado atual de trabalho tem como correta de fazer, de viver, de administrar, de se foco as competências. Antes se observava apenas relacionar, reordenando o funcionamento das coisas, as habilidades técnicas do profissional, hoje numa transição que vai de um período de estabilidade, trabalhadores que possuem grandes habilidades adaptação e conformismo, para momentos de técnicas podem ser vistos como dispensáveis se instabilidades na preparação de um novo ciclo. não possuírem competências comportamentais As forças dinamizadoras da Era digital desejáveis. criaram um ambiente de rápidas mudanças, onde A implantação do Sistema de Gestão por predomina a velocidade e a volatilidade ao invés da Competências promove mudanças estruturais na estabilidade. No entanto, é de grande valia lembrar área de recursos humanos, com a finalidade de que na transição é preciso adaptar o melhor do que simplificar a execução do processo e aproximar foi construído, o melhor da história de uma cultura, seus clientes internos. A Gestão por Competências do que começar do zero. A história é repleta de bons constitui-se em ferramenta eficaz de gestão valores e hábitos que irão determinar os caminhos estratégica de pessoas, desenvolvida com base do futuro. Antes havia uma maneira certa de fazer no mapeamento de habilidades, conhecimentos e alguma coisa, hoje existem centenas, milhares. É atitudes necessárias para cada cargo. Trata-se de preciso aproveitar o que foi construído e as novas um recurso personalizado para a captação de perfis oportunidades para repensar os métodos, processos mais compatíveis com o especificado pelas áreas e relações. organizacionais. Essa nova economia, apesar de representar Com o objetivo de descrever e analisar as o progresso, apresenta uma falta de sincronia no formas e conteúdos dos processos de seleção dos que tange ao mercado de trabalho. Na medida trabalhadores, em uma organização determinada, em que novas oportunidades surgem, ocorre uma a investir no desenvolvimento das competências e dificuldade de adequação, tanto dos indivíduos, conhecimentos de seus colaboradores, com base moldados pela antiga realidade, quanto das em Gestão por Competências e RH Estratégico, organizações movida pela nova economia. Silva realizou-se um estudo de caso em uma indústria (2003) observa que diariamente encontram-se paranaense do setor de embalagens. O estudo pessoas insatisfeitas com as condições a que estão mostrou que investir no desenvolvimento de submetidas no ambiente de trabalho e, contrastando competências e conhecimentos dos colaboradores com o constante investimento organizacional em da empresa repercute sobre sua produtividade e busca de produtividade, qualidade, competitividade competitividade. e lucratividade. O retorno desses investimentos Este artigo apresenta uma fundamentação pode ser positivo quanto aos aspectos econômicos teórica sobre a Seleção por Competências, que e técnicos. No entanto, quanto aos aspectos serviu de base para o processo bem sucedido da humanos, nem sempre são tão significativos, além 176
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    do surgimento deproblemas colaterais, tais como As competências essenciais, na teoria de estresse, desemprego, deteriorização do clima Prahalad e Hamel (1998), são conceituadas como organizacional, etc. o aprendizado coletivo na organização, dependente O mundo do trabalho passa por profundas da comunicação, envolvimento e comprometimento transformações, tanto em termos qualitativos de trabalhar intersetorialmente em equipes quanto quantitativos, que por sua vez acabam multidisciplinares. Não se restringe às qualificações por provocar reestruturações nos campos político específicas do cargo ou posição, tendo em vista que e social. Essas mudanças são impulsionadas, em a complexidade das tarefas não pode ser contida grande parte, pela globalização da economia e numa descrição tradicional de cargos. aumento da interdependência entre mercados, mas, Silva (2003) ressalta que fatores e também, pela rapidez com que novas tecnologias de contingências econômicos, políticos e sociais de informação são introduzidas e renovadas, alterando mercado influenciam a relação entre a organização rapidamente o padrão das trocas de informação e e seus recursos humanos, em concordância com a o acesso a novos territórios. teoria de Hamel e Prahalad (2000). As mudanças estruturais mais significativas Um ambiente empresarial caracterizado por em andamento no cenário econômico foram profundas mudanças e pela necessidade de respostas apontadas por Hamel e Prahalad (2000) como de mercado cada vez rápidas engendra mudanças sendo a globalização (exige maior capacidade de no perfil de gestores e de colaboradores. Novas inovação), a desregulamentação e privatização competências são exigidas da área de recursos humanos, para que desempenhe papel estratégico na (altera as relações microeconômicas), a volatilidade gestão das organizações. Dessa forma, a concepção (afeta a produção e o desenvolvimento de produtos), de recursos humanos foi sendo substituída pela de a convergência de tecnologias, a ruptura de gestão de pessoas (DUTRA, 2007). Com a concepção fronteiras entre os setores, a mudança de padrões, de gestão de pessoas foram introduzidos novos o surgimento de novos canais entre produtor e métodos e novos questionamentos sobre cultura, consumidor-final e a consciência ecológica, que comprometimento organizacional, subjetividade tenderá a moldar as demais variáveis. Nesse e sentido do trabalho (DEJOURS, 2001). O novo contexto, as organizações necessitam instituir uma estilo passou a focar o desenvolvimento de culturas política de gestão que as tornem mais competitivas organizacionais de competência e resultados, do ponto de vista econômico e, ao mesmo tempo, refletindo-se em mudanças nas políticas e práticas mais atraentes no que diz respeito à gestão de seus de gestão. Tal evolução ocorreu concomitantemente Recursos Humanos, como a implantação de projetos à construção de discursos sobre valorização dos de Gestão por Competências. indivíduos e suas capacidades de iniciativa, decisão O foco da Gestão por Competência é e intervenção. a observação e a análise do desempenho das De acordo com Gramigna (2004), a Gestão pessoas reais numa situação real, para identificar por Competências promove grande impacto as competências existentes na empresa, as nos resultados organizacionais. Os treinamentos competências desejáveis e as lacunas que por são montados, de acordo com as estratégias da ventura existam entre elas. As organizações buscam organização. Para isso, são cruciais a criação identificar as competências (conhecimentos, e fortalecimento de valores que facilitem a habilidades e atitudes) necessárias para melhoria aprendizagem, tais como respeito à diversidade, das performances individuais que se convertam em tolerância a erros e abertura a ideias alheias, melhor desempenho empresarial. As organizações conforme recomenda Leonard-Barton (1998). com foco na excelência buscam competências e A palavra competência normalmente está não mão de obra. associada à aptidão individual para executar uma 177
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    tarefa. Há váriasinterpretações e conceitos de imprevistas; é poder improvisar onde os outros não competência e podem-se identificar duas linhas fazem mais do que imitar. principais: a escola francesa, com ênfase no vínculo Para Le Boterf (2003) competência é entre trabalho e educação, e a escola anglo-saxã, um saber agir responsável, reconhecido pelos com ênfase no mercado de trabalho e desempenhos outros, baseado no conjunto de aprendizagens demandados no exercício profissional. sociais e comunicacionais resultantes do processo O tema da gestão por competência ganhou de socialização-educação e pelo sistema de relevância após artigo de McClelland, publicado avaliações. Isto implica saber mobilizar, integrar e em 1973 (FLEURY e FLEURY, 2004), em que transferir conhecimentos, recursos e habilidades no afirmava que os testes tradicionais de seleção não contexto organizacional. Le Boterf (2003) compara eram capazes de predizer o sucesso do candidato a competência a um saber mobilizador, porque a nem no trabalho nem na vida pessoal. A partir posse de conhecimentos, capacidades e habilidades de então, McClelland empreendeu a busca não faz ninguém tornar-se automaticamente em um de métodos de avaliação, para identificar as competente. É preciso saber mobilizar os atributos competências associadas à previsibilidade de êxito da competência de forma oportuna no momento no trabalho e na vida. Concluiu que competências oportuno, em uma situação de trabalho. são características pessoais compostas de O significado de competência é utilizado por aptidões, habilidades e conhecimentos, capazes Fleury e Fleury (2004) como sendo a conjugação de promover desempenho superior em tarefas de uso, mobilização, integração, desenvolvimento específicas. Tal conclusão é sintetizada por e transferência de conhecimentos, recursos, Rabaglio (2004), afirmando que conhecimentos, habilidades e experiências que agreguem valor à habilidades e atitudes são os diferenciais de cada organização e valor social ao indivíduo. pessoa para gerar impacto diferencial em seus Dutra (2007) observa que embora as pessoas desempenho e resultados. desenvolvam conhecimentos, habilidades e atitudes, Zarifian (2001) justificou a emergência da não há garantias de que a organização se beneficie gestão das competências diante da necessidade de disso diretamente se não houver compartilhamento, se obter cooperação dos trabalhadores na resolução e introduz a noção de “entrega”, que se refere ao agir de problemas e compartilhamento de conhecimentos com responsabilidade para receber reconhecimento sobre o processo produtivo. Isso coincide com a como recompensa. introdução do conceito de cliente interno nas práticas Da convergência dos conceitos, pode-se administrativas. Portanto, a competência pressupõe dizer que competências indicam um conjunto de a capacidade de transferência de conhecimento, características pessoais (conhecimento, habilidades aprendizagem e adaptação. No entanto, no contexto e atitudes) que estimulam atuações profissionais da gestão do conhecimento, a autonomia do de resultados previsivelmente excelentes, para uma trabalhador não poder ser entendida apenas como determinada demanda, numa determinada cultura a adoção de um procedimento mais adequado, mas organizacional. sim, como a liberdade de tomar uma iniciativa. 2.1 Evolução do processo de seleção de Para Gilbert e Parlier, apud Le Boterf pessoas (2003), as competências compõem um conjunto de conhecimentos, capacidade de ação e O processo de seleção de pessoas visa agregar comportamentos regidos pela racionalidade indivíduos à organização. Seu objetivo é identificar instrumental. Sendo assim, a competência pressupõe indivíduos que apresentem grande probabilidade de a capacidade de transferência de conhecimento, obter bom desempenho no trabalho. De forma geral, de aprendizagem e de adaptação. Ser competente a seleção tradicional é um processo de comparação e é poder adaptar a conduta a situações novas e escolha. Na comparação, considera-se a descrição e 178
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    análise do cargoem conjunto com os procedimentos internos que influenciam no cargo, cultura da de seleção. Na escolha, a decisão final de aceitar equipe, cultura da liderança, missão, visão e valores ou rejeitar os candidatos é responsabilidade do setor da área requisitante, cultura da empresa e outras requisitante. Os procedimentos técnicos tradicionais informações específicas do cargo. A partir desses valorizam as variáveis internas em detrimento das indicadores extraem-se as competências desejáveis condições ambientais necessárias para a ocorrência para a eficácia do colaborador. As competências dos comportamentos esperados. Reunidas as profissionais fazem parte das estratégias de informações sobre o cargo a ser preenchido, o diferenciação competitiva no mercado de trabalho. passo seguinte é a escolha de técnicas de seleção Com base no Perfil de Competências, (entrevista, provas de conhecimento e capacidade, elaboram-se a Entrevista Comportamental e os testes psicométricos, testes de personalidade, técnicas Jogos com foco em Competências, que são as duas de simulação, etc.) para conhecer e escolher os ferramentas propostas pela metodologia. A partir melhores candidatos. da descrição das atividades, são identificadas as A Seleção por Competências, do ponto competências necessárias e as informações a serem de vista estratégico, fornece aos gestores e se assimiladas, para se gerar os conhecimentos profissionais de RH ferramentas que permitam associados a cada competência. A definição do perfil mapear o perfil de competências. Trata-se de um de competências para o cargo a ser preenchido é processo para identificar candidatos com as maiores baseada nos comportamentos do atual ocupante do probabilidades de ajustar as características pessoais cargo, pois se trata de exemplo sobre o que deve às características organizacionais. Rabaglio (2004) ser procurado nos pretendentes para o cargo em afirma que a seleção por competências apresenta questão. maior objetividade e maior grau de validade, As etapas para o mapeamento das porque troca as avaliações subjetivas e intuitivas competências, de acordo com Rabaglio (2004), são pela métrica comportamental. três. A primeira, é o levantamento dos indicadores Segundo Rabaglio (2001), o método pode ser de competências, em que se compilam todas as empregado na seleção de todos os cargos de uma informações sobre o cargo, os conhecimentos, organização, mesmo que não tenha implantado habilidades e atitudes. Cada informação de uma a Gestão por Competência. Suas principais descrição de cargo indica várias Competências. vantagens são: maior objetividade, previsibilidade A segunda etapa consiste no agrupamento e sistematização; melhor adequação do profissional das competências comportamentais. A terceira à atividades da empresa; maior produtividade e etapa é a definição das competências técnicas percepção de respeito aos seres humanos. e comportamentais. Para Rabaglio (2004), O processo de Seleção por Competência conhecimentos e habilidades são competências ocorre em três etapas: construção do Perfil de técnicas do cargo, enquanto as atitudes são Competências; Entrevista Comportamental e Jogos as Competências Comportamentais. Feito tal com foco em competências. levantamento, é possível mapeá-las para utilizar na O perfil de competência profissional entrevista. é construído através de responsabilidade A entrevista comportamental de seleção compartilhada entre profissionais da área de seleção com foco em competências é uma técnica valoriza e da área requisitante. São definidos os indicadores o tempo nas organizações. Entrevistar é dialogar, de competências, critérios baseados nos requisitos trocar informações, entender o ponto de vista técnicos e comportamentais exigidos para o exercício do outro, compreender e ser compreendido, do cargo, a sua descrição, principais desafios, influenciar e ser influenciado, num tom amistoso projetos a ser desenvolvidos, situações críticas a ser e não persecutório ou policialesco, com vistas a administradas, características dos principais clientes desenvolver um conhecimento mais aprofundado a 179
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    respeito de informaçõesde interesse de cada parte d) Todas as perguntas são planejadas para (BUENO 1999). identificar a presença ou ausência de A entrevista comportamental foi criada na competências do Perfil de Competências no década de 70 por psicólogos organizacionais e comportamento passado do candidato, em popularizada pelo Dr. Paul Green da empresa suas rotinas e atribuições. Behavioral Technology, em Memphis, Tennessee, Trata-se de uma técnica de investigação EUA. Segundo Rabaglio (2004), é o tipo de entrevista que compara os comportamentos que as pessoas e método mais popular usado nos Estados Unidos, utilizam no seu dia-a-dia. Como observa Le Boterf tanto em pequenas quanto em grandes empresas. (2003), a competência manifesta-se na ação, não A estrutura da entrevista é elaborada, de modo a pode ser inventada na hora. Por isso, na entrevista tornar possível investigar o comportamento passado comportamental as questões são abordadas com da pessoa numa situação similar da competência a verbos no passado, em que o entrevistado relata ser investigada. fatos ocorridos, dificultando a mentira. A partir de conjunto estruturado e padronizado Segundo Rabaglio (2001), as perguntas de questionamento possibilita que o entrevistador são planejadas para obter respostas que tenham: colha as informações necessárias de cada um Contexto, Ação e Resultado, denominando a dos entrevistados. A entrevista comportamental é entrevista como técnica CAR. uma entrevista personalizada baseada no Perfil Exemplo: “Fomos alertados que estávamos de Competências específico. Cada Perfil de com problemas de comunicação. Então fiz um Competências gera uma entrevista personalizada, levantamento e observação, concluí que o problema com foco nas competências imprescindíveis para realmente era falta de treinamento. Contratamos o cargo. Nessa entrevista não se recomendam uma empresa para treinar nossos funcionários.” as perguntas hipotéticas, fechadas, de múltipla Contexto: problemas de comunicação escolha, indutiva. A entrevista é um encontro face Ação: levantamento, observação e conclusão. a face entre um ou mais entrevistadores, que estão Resultado: contratação de treinamento. recolhendo informações ou tomando decisões para Essa técnica permite ao entrevistador contratação, e um entrevistado (SPECTOR 2002). desenvolver habilidades para colher respostas Gramigna (2004) cita, em acréscimo, a completas que contenham esses três itens essenciais entrevista de incidentes críticos, utilizada com grande para o diagnóstico das competências pretendidas. êxito até hoje, como uma técnica que permite a Utilizam-se perguntas abertas e específicas, com verificação da adequação de uma pessoa ao perfil verbo de ação voltado ao passado. de competências de determinada cargo ou função. Rabaglio (2001) sugere algumas regras de As características da entrevista codificação de competências, tais como: comportamental consistem em: • Eu (não “nós”, “a gente”); a) Perguntas abertas específicas, com verbos de • Fatos específicos (não generalizações); ação no passado, que possibilitam investigar os comportamentos passados em situações • Comportamento passado; específicas da função; são perguntas • Clareza, sobre quem estava envolvido no comportamentais que ajudam a investigar evento (papéis, etc.); a presença ou ausência de competências • Pensamentos e sentimentos no momento específicas; do evento (não os relativos a reflexão). b) Investigação da experiência passada do Declarações que oferecem poucas informações candidato; não devem ser aceitas em uma entrevista CAR, pois c) Conhecer o comportamento do candidato em não permitem a classificação das competências situações específicas do cargo; comportamentais. Se o candidato insistir em dar 180
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    respostas vazias, oentrevistador precisa intervir com preparado com as perguntas de acordo perguntas que ajudem a complementar a busca do com o perfil de competências e relógio). comportamento desejado, como por exemplo: Por considerar que a estrutura da entrevista Os questionamentos são elaborados de modo por competências é fundamental para evitar a a provar por evidências comportamentais (exemplos subjetividade e os preconceitos, Rabaglio (2004) de situações vividas) o que o candidato disse, fez, sugere duração planejada e controlada de 45 a 60 sentiu e pensou e quais foram os resultados da minutos. sua ação em determinada situação. Isso é o que Ao término de uma entrevista, Almeida possibilita ao entrevistador obter dados sobre as (2004) recomenda que o entrevistador proceda a habilidades críticas relacionadas ao atributo ou avaliação de cada competência do candidato. Ao competência investigada. se avaliar logo após o término da entrevista, evita-se O objetivo será levantar os comportamentos cometer erros comuns, tais como efeito halo (formar relevantes do histórico do candidato e classificá-los, impressão boa ou ruim do candidato e aplicá-la a a fim de compreender e avaliar sua qualificação todas as competências avaliadas), síndrome de anjo e capacitação para o cargo proposto. Obtendo da guarda (erro da leniência), síndrome do lobo essas informações de maneira completa, será mau (erro da rigidez excessiva), etc. possível analisar as competências, comparando- Não há regras prontas para pontuar as as com aquelas que foram definidas no Perfil de competências, cada entrevistador pode definir Competências. sua fórmula para formar o gradiente dos níveis de A entrevista deve ser vista no contexto como competências encontradas no candidato. um dos métodos de investigação, como uma forma complementar do processo de seleção. 2.2 Jogos de empresa baseados em compe- Assim, a entrevista para seleção por competências tências é um processo desenhado para obter e esclarecer Em 1938, Johan Huizinga (2000) publicou evidências do candidato relativas às competências um livro intitulado “Homo ludens: o jogo como necessárias para a função. elemento da cultura”, no qual afirma que o jogo A preparação para a entrevista é algo muito além de um fenômeno fisiológico comportamental envolve quatro aspectos que não ou reflexo psicológico, mas exerce uma função podem ser negligenciados pelos entrevistados: significante, conferindo um sentido à ação. Para 1. Análise do currículo ou solicitação de Huizinga (2000), o jogo é mais primitivo do que emprego – conferência do currículo antes da a cultura, constituindo-se em uma base ancestral entrevista, pretensão salarial, levantamento profundamente enraizada em toda a realidade de inconsistências e lacunas informacionais. humana da qual nasce a cultura. Portanto, a 2. Preparar adequadamente o local da existência do jogo independe de qualquer cultura, entrevista para que seja reservado, raça ou ideologia e é pleno de imprevisibilidade. agradável, sem barulho, pouco suscetível A imprevisibilidade, por sua vez, como observa a interrupções inesperadas e com poucos Albornoz (2009), é introduzida e acentuada pelas estímulos visuais. táticas e estratégias, conduzindo o jogo a um processo de rápida organização e reorganização 3. Respeitar a pontualidade, pois representa mental, física e tática, sob influência das variáveis respeito pelo ser humano, postura ética ambientais. profissional e transmite imagem positiva do Moreno (1997) afirma que umas das trabalho da seleção e da empresa. características fundamentais dos Jogos é o conceito 4. Ter em mãos todo o material necessário de espontaneidade, pois o indivíduo está diante de (currículo, formulário de entrevista uma situação nova e inusitada, o que não permite 181
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    e não hátempo para simulações ou repetições de Para quebrar o gelo e reduzir o nível de respostas fundamentadas em modelos anteriores ansiedade dos candidatos antes da dinâmica pré-estabelecidos pelas normas e regras sociais. principal com os jogos de seleção, Almeida Os jogos concebidos para auxiliar no (2004) recomenda que se aplique um exercício processo de seleção por competência, de acordo harmonizador. Baseando-se no Perfil de com Rabaglio (2001), são ferramentas utilizadas Competências, seleciona-se uma bateria de jogos, com o objetivo de criar e recriar o conhecimento. de aproximadamente quatro horas. Almeida São dinamizadas para que, por meio delas, (2004) observa também que a aplicação de sejam detectados traços de personalidade, jogos no processo de seleção por competências, crenças, valores, habilidades e conhecimentos mantém a motivação do grupo, por meio de dos candidatos. Ou seja, são utilizados os jogos uma atividade divertida, facilitando a observação adequados para observar o desempenho do das competências comportamental, verbal e não candidato quanto à manifestação das competências verbal, estimulando e promovendo a integração e do Perfil de Competências. descontração nos grupos. Nos processos seletivos, é cada vez mais Gramigna (2007) classifica os jogos de comum o uso de dinâmicas e também de jogos para empresas em três tipos: grupos. Dentre os objetivos dessas técnicas estão a) Jogos de comportamentos, direcionados aos a integração, a sociabilidade, o levantamento de temas de cooperação, flexibilidade, cortesia, competências e a criatividade. É possível, também, confiança, afetividade etc.; avaliar como as pessoas administram o tempo, b) Jogos de processo, direcionados aos temas como lidam com as frustrações, qual o poder de de planejamento, liderança, coordenação de persuasão e de argumentação, entre outros. equipes, administração do tempo, etc.; Bueno (1999) define jogo como uma brincadeira que estimula a competição. É baseado c) Jogos de mercado, direcionados aos temas de em regras claras, compreensíveis e específicas, concorrência, pesquisa de mercado, relação gerando entretenimento, estimulando a empresa / fornecedores, etc. competitividade dos participantes. Nos Jogos com Os jogos podem ser utilizados também foco em Competências, as pessoas reproduzem para auxiliar no aprendizado, em treinamentos comportamentos do dia-a-dia, até mesmo sem empresariais. De acordo com Yozo (1996), as perceber, e revelam facetas de seu caráter que habilidades e os conhecimentos podem ser adquiridos normalmente não são exibidos por recear sanções. “jogando”, pois enquanto jogam, os participantes Por isso é uma poderosa e preciosa ferramenta de desenvolvem a senso percepção e comunicação. observação de comportamentos no processo de Ou ainda, pode-se afirmar que conhecimentos e Seleção de Pessoal. Pois, como observam Bueno habilidades são desenvolvidos com a prática exercida (1999) e Gramigna (2007), a espontaneidade constantemente, ou seja, por meio de atitudes. da vivência estimulada pelo ambiente permissivo, Após a aplicação dos jogos ou dinâmicas, com onde as respostas não há refúgio nos processos o intuito de trabalhar os resultados, uma metodologia rotineiros, surgem os comportamentos assertivos amplamente utilizada é o Ciclo da Aprendizagem ou não assertivos e o candidato passa a mostrar as Vivencial. Segundo Gramigna (2004), o método características da personalidade, valores objetivos possibilita melhor compreensão e interpretação dos de vida, estilos, formas de relacionamento e comportamentos dos participantes, confirmando ou grau de maturidade. No ambiente de jogos, as mudando totalmente as percepções obtidas. Esse pessoas exercitam habilidades necessárias para o procedimento consiste em quatro etapas: desenvolvimento de autodisciplina, sociabilidade, 1. Análise, com os candidatos, dos sentimentos espírito de equipe e bom senso. e emoções que a tarefa possibilitou; 182
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    2. Discutir em relaçãoao desempenho do especialistas, isto é, funcionários da empresa que grupo na realização da tarefa, questões atuam como instrutores internos. como liderança, comunicação, etc. Para implantar a Gestão por Competência, 3. Pedir para que os candidatos relacionem o as atenções iniciais concentraram-se no vivenciaram com seu dia-a-dia; desenvolvimento das competências dos líderes, inspetores de qualidade e tecnólogos. Isso porque 4. Mostrar como os participantes poderão são em número menor e era preciso testar o modelo aplicar os aprendizados vivenciados, em projetado, qual seja, avaliar as competências, seu dia-a-dia. identificar as deficiências e dar início à preparação A aplicação dessa análise pode ser feita de um percurso formativo para cada profissional. apenas na principal dinâmica, não sendo necessária em todas. No encerramento das dinâmicas, todas 4 Metodologia da pesquisa as dúvidas devem ser sanadas. Para este estudo, a metodologia empregada 3 Caracterização da empresa como instrumento de coleta e tratamento dos dados estudada privilegiou a abordagem qualitativa, entendida por Trivinõs (1992) como aquela capaz de analisar os A empresa estudada foi criada na década de aspectos implícitos no desenvolvimento das práticas 80, no sudoeste do Paraná, em uma área de 300 m2 de uma organização e a interação entre seus , com produção de 15 ton/mês de embalagens para integrantes. cereais. Atualmente a empresa é uma das líderes em A cultura da pesquisa deste estudo foi seu mercado no Paraná, ocupa espaço de 69.000 realizada a partir de uma perspectiva epistemológica m2, com área construída de 10.500 m2, instalada nomotética funcional, através do método crítico com equipamentos de alta tecnologia para produzir dialético, apoiando-se na concepção dinâmica da embalagens plásticas flexíveis monoextrusadas, realidade e nas relações dialéticas entre sujeito e coextrusadas e laminadas. objeto e entre conhecimento e ação. As pressões impostas pelo mercado A seleção do procedimento metodológico conquistado e as exigências do novo perfil de clientes recaiu sobre o estudo de caso, entendido por Trivinõs (maior, mais organizado e com altos padrões de (1992), como a categoria de pesquisa, cujo objeto de qualidade), tornaram imprescindíveis as mudanças estudo é uma unidade analisada em profundidade, comportamentais. O primeiro passo dessa mudança para que as circunstâncias específicas e as múltiplas foi dado pela realização do diagnóstico através da dimensões que se apresentam na situação possam percepção do clima organizacional, que verificou permitir a compreensão do todo. O nível de análise demanda interna por implantação de cultura foi departamental, tendo como objeto de estudo o participativa e realinhamento no estilo gerencial. Departamento de Recursos Humanos da empresa O segundo passo na mudança foi contratar uma estudada. consultoria externa, com o propósito de acelerar e Os dados foram coletados principalmente facilitar a legitimação das mudanças. através de entrevistas individuais semiestruturadas. A empresa delineou as ações de redefinir Elas foram realizadas com a colaboração de vários a política de gestão de pessoas, desenvolver o funcionários, selecionados por meio da técnica de perfil de liderança e formar equipes multissetoriais. amostragem intencional: Decorrente disso, a empresa designou um gestor do conhecimento, cujas atribuições incluem gerir 5 Análise e recomendação a adequação das competências dos profissionais às necessidades estratégicas organizacionais e A empresa estudada mudou o foco da identificar a necessidade de desenvolvimento de organização para o RH estratégico e adotou a Gestão 183
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    por Competência. Paraisso, implantou o processo reducionista instrumental-tecnicista da gestão de de Seleção por Competências, utilizando entrevista pessoas na gestão das competências, analisaram-se comportamental juntamente com dinâmica de grupo., as práticas da empresa estudada, a fim de identificar o RH da empresa verificou também a necessidade como elas estão articuladas com a gestão do de selecionar seus colaboradores através do método conhecimento e das competências. O reducionismo de “Seleção por Competências”. Quando o estudo precisa ser evitado, para não expor a gestão foi realizado, o processo encontrava-se na primeira de pessoas ao risco de dar prioridade exclusiva fase da implantação, em que a aplicabilidade do ao atendimento dos interesses e necessidades método de Seleção por Competências ocorria empresariais e tornar a gestão de pessoas em apenas para os cargos de chefia. procedimento instrumentalizante e tecnicista. Foram definidas e mapeadas as competências essenciais e básicas necessárias a cada setor, 6 Considerações finais organizando-se o processo de desdobramento de Com o rápido desenvolvimento das competências, conforme proposição de Gramigna tecnologias de informação e a necessidade de (2004). Nesse mapeamento foram definidas empresas competirem em mercados internacionais, também as competências técnicas, possibilitando as áreas de recursos humanos foram convidadas a a formatação das performances de cada setor. O agirem estrategicamente e encontrarem formas de mapeamento das competências define o desempenho preparar as empresas para a nova economia, pois, dos setores e respectivos talentos necessários aos um ambiente de trabalho em contínua mudança negócios da empresa, o que possibilita a formação exige aprendizagem constante, geração de novos do banco de talentos próprio. Mapeados os perfis, conhecimentos, além de uma cultura empresarial elaborou-se a Entrevista Comportamental e o Jogo de competência e resultado. Tudo isso pressupõe com foco em Competência, que são as ferramentas mudanças nas políticas e nas práticas da gestão de utilizadas, segundo Rabaglio (2004), para perfazer pessoas, principalmente na seleção e formação dos uma seleção baseada em competências. trabalhadores. Ao implantar esse processo, a empresa A competência pressupõe a capacidade de movimentou-se conforme tendência apontada na transferência, de aprendizagem e de adaptação. literatura, de substituir a tradicional área de recursos Mas nem sempre a introdução de modelos de humanos pela moderna e estratégica gestão de competência trazem resultados positivos para pessoas, que se posiciona mais proximamente toda a organização. Às vezes, as empresas focam dos níveis operacionais, a fim de entender melhor excessivamente a redução de custo ou, então, suas demandas e dar respostas mais ágeis e deixam de promover mudanças nos seus sistemas apropriadas às demandas organizacionais. Ao de valores e crenças, permitindo que os interesses mesmo tempo, ela garantiu o suporte necessário e necessidades empresariais estejam acima para um processo de avaliação e aperfeiçoamento dos interesses coletivos, tornando a gestão dos das competências. conhecimentos e das competências apenas mais um Observou-se que, para maximizar a gestão instrumento de controle gerencial. de competências, a empresa fez adequações na No caso estudado, averiguaram-se quais estrutura funcional da área de Desenvolvimento de foram as mudanças introduzidas nos conteúdos dos Pessoal. Foi preciso, pois, provocar mudanças nas processos de seleção e da formação dos trabalhadores práticas de gestão de pessoas e, principalmente, no com a implantação da gestão por competências, papel das lideranças, criando o ambiente propício porque a geração de novos conhecimentos e o para a Gestão por Competências. gerenciamento das competências requer mudanças Tendo em vista a necessidade de atentar para nas políticas e nas práticas da gestão de pessoas. a totalidade humana, para evitar uma perspectiva Constatou-se que a estrutura de seleção de pessoas 184
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    foi reformulada parafocar no aproveitamento das novas metodologias e procedimentos, pois, é por competências e qualidades de cada indivíduo mais meio dessa combinação que ocorre a inovação. adequadas à sua função. Desta forma, a área de Os resultados obtidos na primeira fase de RH pode posicionar-se mais proximamente dos implantação da Gestão por Competências na níveis operacionais e, assim, atender melhor suas empresa estudada, mostraram que as necessidades demandas, além de dar respostas mais ágeis e emergentes de seleção de pessoas em um mundo apropriadas. competitivo vêm sendo mais bem supridas do que Como no contexto da gestão do com o método tradicional. As práticas de seleção de conhecimento, os funcionários precisam valorizar pessoas articuladas à gestão do conhecimento e das iniciativas inovadoras, então se atribui maior peso competências tendem a facilitar a mediação das relações aos critérios de pró-atividade e de potencial de sociais na organização. Porém, é necessário atentar aprendizado no processo seletivo. Grande peso para a obtenção da legitimação e comprometimento também é atribuído às experiências e iniciativas na necessários. Os resultados positivos dependem do solução de problemas. Os gerentes precisam saber equacionamento entre competências técnicas e gerenciar as atividades geradoras de conhecimento e comportamentais, em que o perfil comportamental, combinar as diversas individualidades das pessoas a pode representar o diferencial competitivo individual a um conjunto de atividades, permitindo experimentar serviço dos objetivos organizacionais. Referências ALBORNOZ, S. G. Jogo e trabalho: do homo ludens, de Johann Huizinga, ao ócio criativo, de Domenico de Masi. In: Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v.12, n.1, p.75-92, 2009. Disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/cpst/v12n1/v12n1a07.pdf. Acesso em: set/2009. ALMEIDA, W. Captação e seleção de talentos. São Paulo: Atlas, 2004. BUENO, H. Manual do selecionador de pessoal: do planejamento à ação. 3. ed. São Pulo : LTr,1999. DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora da FVG, 154p, 2001. DUTRA, J. S. Gestão por competências: um modelo avançado para o gerenciamento de pessoas. 7 ed. São Paulo: Gente, 2007. FLEURY, A.; FLEURY, M. T. L. Estratégias empresariais e formação de competências: um quebra- cabeça caleidoscópico da indústria brasileira. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2004 GRAMIGNA, MARIA RITA. Jogos de empresa e técnicas vivenciais. 2 ed. São Paulo: Pearson, 2007. ______. Modelo de competências e gestão dos talentos. São Paulo: Makron, 2004. HAMEL, G.; PRAHALAD, C. K. Competing for the future. Boston: Harvard, 2000. HUIZINGA, J. Homo ludens (1938). 4 ed. São Paulo: Perspectiva, 2000. LE BOTERF, G. Desenvolvendo a competência dos profissionais. 3. ed. Porto Alegre: Bookman/ Artmed, 2003. LEONARD-BARTON, D. Nascente do saber: criando e sustentando as fontes. São Paulo: FGV, 1998. MORENO, J. L. Psicodrama. 7. ed. São Paulo : Cultrix, 1997 PRAHALAD, C. K.; HAMEL, G. A competência essencial da corporação. In: MONTGOMERY, Cynthia; PORTER, Michael. Estratégia: a busca da vantagem competitiva. Rio de Janeiro: Campus, 1998, p.293-316. RABAGLIO, Ferramentas de avaliação de performance com foco em competências. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2004. 185
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    Ensaio: O Princípioda Bicicleta: revisitando a mudança organizacional The Bicycle Principle: revisiting an organizational change Antonio Teodoro Ribeiro Guimarães1 Resumo O equilíbrio da bicicleta apenas é alcançado quando ela está em movimento. E as pessoas têm que aprender a se equilibrar nela, também em movimento. Não existe outro tipo de aprendizado que não seja o cair e levantar. Não existem teorias que possam ser estudadas previamente, não existem ensaios, nem adianta nada o uso de demonstrações. É só caindo e levantando que se aprende. A tese apresentada neste artigo, através do uso de metáforas, fala da dificuldade de implantação de mudanças nas organizações, decorrente do simples fato de que a empresa e as pessoas que nela trabalham, muitas vezes precisam aceitar a inovação pedalando a bicicleta, com medo do tombo provável e sem teorias de sustentação. Palavras-chave: Mudança Organizacional; Metáforas Organizacionais; Andar de Bicicleta. Abstract The balance of the bicycle is only achieved when it is in motion. And people have to learn to balance it, also in motion. There is not another type of learning than to fall and stand up. There are no theories that may be studied beforehand, there are no tests or meaningless using demos. The thesis presented in this article, through the use of metaphors, regards the difficulty of deploying changes in organizations, arising from the simple fact that the company and the people who work there, often need to accept innovation by “pedaling a bicycle”, fearing the probable fall and without sustaining theories. Key words: Organizational Change; Organizational Metaphors; Cycling. Introdução organização é uma delas. A empresa não vai parar, absorver a mudança e reiniciar a operação. Ela A bicicleta é um veículo que, simplesmente, precisa ser implementada com os negócios fluindo, não para em pé sozinho. Seu equilíbrio somente os fluxos fazendo seus caminhos, e as pessoas é alcançado quando está em movimento. Assim, trabalhando. E trabalhando com facilidade dentro o aprendizado não é feito em livros e manuais. de processos conhecidos, confiáveis, gostosamente Não existem ensaios, e a teoria resume-se à frase familiares, que são exatamente aqueles que se quer “olhe para frente e não para o chão”. As crianças mudar. aprendem a andar de bicicleta, andando. A tese apresentada neste ensaio teórico Algumas coisas são assim mesmo, para que diz respeito à dificuldade de implantação de aconteçam é preciso que o processo esteja em mudanças nas organizações, sejam essas pleno funcionamento. Produzir mudanças em uma mudanças incrementais, qualitativas, planejadas, 1 Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo.Possui doutorado em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo - FEA/USP.Pesquisador de assuntos de estratégia, principalmente em redes de negócios e cadeias de suprimentos. Contato: teodoroguimaraes@uol.com.br Revista Capital Científico - Guarapuava - PR - v.7 n.1 - jan./dez. 2009 - ISSN 1679-1991 Recebido em 08/02/2010 - Aprovado em 04/08/2010
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    ou de qualqueroutro tipo, decorrente do simples metáfora não são totais, embora possam ser muito fato de que a empresa e as pessoas que nela significativas. trabalham têm dificuldade inicial em aceitar O objetivo do uso da metáfora, neste texto, facilmente qualquer tipo de inovação. não foi o de estudar as similaridades possivelmente Mudança organizacional está em seu declínio, existentes entre ela e o objeto, que de fato não como matéria dentro da ciência da administração, existem, mas sim o de permitir sua interpretação em termos de consideração acadêmica. Na como mais uma referência de visão, de maneira realidade, diminuiu o numero de livros e artigos a ajudar na compreensão dos problemas das tratando do assunto, talvez em razão das formas mudanças nas organizações. anteriores de abordagem terem sido insatisfatórias. Nas palavras de Wood, Jr. e Caldas (1995), Muitas dessas abordagens foram testadas, muito a intenção do proponente, ao sugerir ou utilizar trabalho foi desenvolvido tendo como escopo esse uma metáfora, é a peça-chave para entender o tema, muitos pesquisadores estudaram a mudança seu sentido. O entendimento, portanto, envolve nas empresas, dentro de uma matéria normalmente a descoberta de um sistema de pontos comuns chamada de Desenvolvimento Organizacional. associando, por relações assimétricas, a metáfora O ápice desses estudos aconteceu na década ao objeto. O entendimento passa, igualmente, pelo de 1980. E o assunto “mudança organizacional” reconhecimento, por parte do receptor, da intenção foi caindo no esquecimento, apesar de ser um tipo do autor ao fazer tal declaração. de conhecimento em administração da mais alta Algumas dessas visões, envolvendo o andar relevância: se a empresa não muda, ela não melhora, de bicicleta (figura suficientemente forte para permitir consequentemente não evolui. É preciso criar, sua associação com várias metáforas), são bastante pensar coisas novas, e, principalmente, não deixar significativas a respeito da intenção de seus autores. de tentar. Perseverar, insistir sempre, ultrapassar os obstáculos, superar as resistências, em busca dessa Metodologia situação nova, que a mudança pode trazer, e que parece ser tão melhor que a atual. Cabe ao método garantir os roteiros básicos A relação cognitiva que surgiu ao se pensar nos do trabalho, a fim de diminuir os elementos de problemas decorrentes da quase sempre resistente incerteza que resultam da falta de informação, assim, aceitação de mudanças pelas organizações e o a metodologia aplicada a este artigo é de caráter aprender a andar de bicicleta foi imediata. exploratório, baseada em coleta de dados primários e secundários. A partir de levantamento bibliográfico O uso de metáforas e documental, descrevem-se evidências e práticas gerenciais relacionadas à mudança organizacional, Segundo Beck (1995), muito mais que simples suas dificuldades de implantação e as vantagens figuras de linguagem, as metáforas são manifestações decorrentes para a empresa quando o processo é de operações cognitivas fundamentais. O raciocínio bem sucedido. metafórico é uma habilidade-chave humana. As A coleta de dados primária foi obtida mediante metáforas são como pontes, conduzindo ligações a técnica da realidade observável de constatação mentais entre entidades e expressando significados (Stal, Campanário, Sbragia e Andreassi, 2006), impossíveis de traduzir em linguagem literária, no por intermédio de oitivas de relatos técnicos em dizer de Gibbs, Jr. e Hall (1995). encontros realizados como atividades pedagógicas Por conter o conceito de visão de mundo, do Programa de Pós Graduação em Administração, a metáfora produz imagens bastante importantes em nível de doutorado, da Universidade de São Paulo para o estudo do objeto ao qual se refere. No caso e palestras proferidas em seminários e encontros das organizações, sua utilização mais adequada realizados como atividades pedagógicas da disciplina acontece quando as diferenças entre objeto e Mudanças Organizacionais – Novos Enfoques, 188
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    com o Prof.Dr. Sergio Baptista Zaccarelli (2008); da empresa, fatos que consumiram pesadamente os e também pela oitiva da palestra A Construção do recursos disponíveis. Conhecimento, do evento Expomanagement, com Quando as vendas desaqueceram, o mercado Peter Senge (2002). refluiu. A Encol não conseguiu mais pedalar sua A coleta de dados secundários foi realizada “bicicleta financeira”, pois os recursos advindos com pesquisa na literatura científica e na busca da venda do prédio novo, que não estavam mais de informações veiculadas em alguns periódicos financiando o próprio prédio, mas sim a construção especializados em administração de empresas, sites de prédio anteriormente vendido, já não entravam e publicações diversas sobre o estado da arte do no caixa, por não existirem. tema mudança organizacional. A partir de um determinado momento, quando a empresa entendeu a extensão do problema criado A pedalada financeira da Encol pela má gerência do caixa, sua política comercial tornou-se mais e mais agressiva, pois a venda do O Brasil, durante as décadas em que novo prédio era vital, não mais para a manutenção conviveu com uma inflação muito alta, sempre foi de sua liderança no mercado, mas pela simples pródigo produtor de conceitos econômicos novos, necessidade de sobrevivência de curto prazo. ou antigos, mas em novas vestimentas, que deram Quando a empresa não conseguiu mais sustentação para as técnicas utilizadas pelos agentes “pedalar” sua crise, à semelhança de uma bicicleta da economia, em sua luta pela organização e não pedalada, foi parando até perder o equilíbrio, sobrevivência das empresas, pela diminuição dos e caiu, ou melhor, quebrou. efeitos com que esse imposto invisível onerava a população, e, mais que tudo, pela tentativa de A pedalada da construção do produção de horizontes futuros mais confiáveis, com conhecimento de Peter Senge os quais fosse possível se obter planejamentos micro e macroeconômicos minimamente exequíveis. Em sua palestra no Expomanagement 2002, Os brasileiros com idade ao redor dos Senge baseou sua fala no fato de que, para ele, o quarenta e cinco, para mais, certamente hão de se aprendizado não se constrói com a repetição das lembrar do conceito desenvolvido pelos economistas, idéias desenvolvidas por outras pessoas. Isso seria tão falado à época, que se chamou efeito bicicleta, como se tentássemos ensinar numa criança a andar e que justificou a quebra da construtora Encol. de bicicleta, ensinando para ela os princípios do Essa empresa, por razões que não cabem movimento giroscópico, que é a base teórica sobra no escopo deste artigo discutir, tornou-se a maior a qual se assentam os fundamentos do andar de empreiteira brasileira de construção civil voltada bicicleta. para o mercado não governamental. Seus prédios Muitas pessoas, que andam bem de bicicleta, de apartamentos residenciais, naqueles anos, eram não têm a menor noção de como aprenderam a objetos de desejo da classe média alta, e benchmark fazê-lo, pois andar de bicicleta vai na “contra-mão” para a concorrência. do andar a pé. Todos os seus lançamentos eram rapidamente O andar a pé é uma sucessão de desequilíbrios, vendidos “na planta”, isto é, as pessoas compravam que é administrado automaticamente pelas os apartamentos ainda no projeto, sem que um único pessoas, num conhecimento incorporado desde tijolo já tivesse sido assentado. Com a multiplicação muito cedo. Quando é dado um passo com a dos lançamentos de prédios, por todo o país, o perna esquerda, o corpo se desequilibra para caixa da empresa era altamente superavitário, o que aquele lado, e, para recuperar o equilíbrio, novo permitiu a compra, até certo ponto irresponsável, de passo é dado com a outra perna, o que leva o muitos terrenos para futuros lançamentos, além de corpo a se desequilibrar para o lado direito, e má gestão na própria administração dos negócios assim, sucessivamente, vai sendo corrigido o 189
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    desequilíbrio para umdos lados jogando o corpo Indo mais além, Senge (2002) deixou claro, para o lado oposto. Isso é o ato de andar, num em sua opinião, que todas as pessoas sabem que o movimento para frente e para o lado oposto ao aprendizado não ocorre pela absorção e implantação do desequilíbrio anterior. das idéias de outras pessoas: “aprendemos a Andar de bicicleta é exatamente o oposto andar, andando, e caindo; aprendemos a andar de disso. Se a bicicleta se desequilibra para a esquerda, bicicleta, pedalando, e caindo; aprendemos tudo por exemplo, o movimento que é preciso fazer é na vida, fazendo, e errando, sempre. Não existem virar a bicicleta para o próprio lado esquerdo, para substitutos”. recuperar o equilíbrio, exatamente no sentido oposto ao da correção do desequilíbrio do andar natural. A pedalada deste ensaio teórico Quando as pessoas, andando a pé, desequilibram-se, é necessário parar para recuperar Uma terceira metáfora ainda pode ser o equilíbrio. Na bicicleta, é, novamente, ao contrário. construída sobre a imagem do andar de bicicleta, Se, ao andar de bicicleta, a pessoa começa a partindo do fato de ser impossível, teoricamente, perder o equilíbrio, é preciso acelerar as pedaladas ensinar alguém a andar de bicicleta, como ensina para obter mais velocidade e buscar novamente o Peter Senge, até por razões de aplicação de teorias equilíbrio. de física conflitantes. A partir da aceitação desse Parece até uma ação anti-natural virar a ponto, é razoável aceitar também que só se aprende bicicleta para o lado em que se está caindo, ou para andar de bicicleta com ela em movimento. recuperar o equilíbrio, aumentar a velocidade. Mas Esse conhecimento novo só é incorporado não é, trata-se apenas da aplicação dos princípios pela pessoa durante a experiência, e não antes, do movimento giroscópico, o que é muito natural e nem depois. fácil, tanto que a maioria das pessoas sabe andar A metáfora do andar de bicicleta é bem de bicicleta. extremamente oportuna e adequada para fortalecer Só fica difícil do ponto de vista do andar a pé, a imagem do que acontece em muitas das atividades que foi um aprendizado anterior, cujo conhecimento humanas. Uma partida de futebol não é interrompida já foi incorporado pela pessoa. Teoricamente, para para que o técnico provoque uma mudança tática, aprender a andar de bicicleta, a pessoa precisa, de substituindo um atleta. O novo jogador entra no alguma forma, “desaprender” o andar a pé, que time com o jogo em andamento, seus colegas não obedece a outros princípios de física. param e vão discutir a nova orientação estratégica, E esse aprender e desaprender, no caso da nem os adversários. O time precisa absorver a bicicleta, é impossível de ser ensinado sem a prática. mudança com as coisas acontecendo. Não existe forma de ensinar teoricamente a andar Quando surge uma nova tecnologia, destinada de bicicleta. É só pedalando realmente, caindo, a substituir outra existente já há algum tempo, não tomando a pedalar, que se aprende a andar. é possível abandonar a antiga e introduzir a nova Quando esse novo aprendizado fica com data marcada. A telefonia celular começou incorporado, as pessoas, ao subirem numa bicicleta, utilizando uma tecnologia analógica e, quando a automaticamente passam a aplicar as regras digital já estava madura comercialmente, não era diferenciadas desse outro conhecimento. razoável, nem possível, exigir que todos os usuários O que Senge (2002) pretendeu mostrar com substituíssem seus aparelhos. As empresas foram a utilização dessa metáfora, é que, se, muitas vezes, obrigadas a manter os dois sistemas em paralelo, as pessoas acham algum novo conhecimento muito e, aos poucos, irem incentivando a troca. O novo difícil de ser aprendido, isso se deve a algum outro foi incorporado sem interrupção no fornecimento conhecimento incorporado, que colide na mente dessas do serviço antigo, até a sua extinção pelo próprio pessoas com alguns aspectos do novo aprendizado. mercado. 190
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    O mesmo valeem processos de substituição natural do ser humano para conviver com conflitos e tecnológica mais radical, como o que aconteceu tentar supera-los, e a satisfação do “ter conseguido”. quando da entrada no mercado dos CDs com som digital, em substituição aos discos de vinil, os antigos O medo presente nas mudanças LPs. Enquanto a população era convencida a trocar seus aparelhos de reprodução de som analógicos, As pessoas convivem com mudanças todo as gravadoras lançavam os sucessos musicais nas o tempo. Na própria vida, caminham da infância duas mídias. para a adolescência, depois para a juventude, Também nas organizações, não ocorrem para a idade adulta e finalmente para a velhice. mudanças que obriguem a parada dos negócios até Nem sempre passam por essas mudanças de sua implantação. Nem mudanças tecnológicas, nem modo pacífico. Muitas pessoas tentam inutilmente administrativas, nem nenhuma outra. As mudanças agarrar-se a uma dessas fases, manterem-se nela, sempre ocorrem com os negócios fluindo. Os esquecidas que estão que a mudança é natural, e funcionários precisam absorver o novo, abandonar por isso mesmo, necessária. o confortável antigo, e seguir em frente com suas As empresas também evoluem, com grandes tarefas, sem interrupção. mudanças em todos os níveis. A ecologia das Eles não são como as máquinas, que podem empresas é diferente hoje do que era há trinta anos, ser desligadas na sexta-feira, após o expediente, e muito mais diferente ainda do que há cem anos. retiradas do local e substituídas por outras durante O mundo mudou. A tecnologia mudou o mundo. o fim de semana. Eles operavam as máquinas Os computadores e a telecomunicação criaram um que foram obsoletadas, e, porque a empresa não mercado global. pode parar, na segunda-feira vão operar as novas Os movimentos de internacionalização máquinas, mesmo com todos os conflitos que isso das economias têm produzido o surgimento de possa gerar com o conhecimento anteriormente novos modelos e dinâmicas organizacionais. As incorporado, independentemente de todo o necessidades de eficiência, de ganhos de escala, treinamento que tenham recebido. somadas a complexos modelos de logística, têm E esse pedalar a mudança é um processo provocado a criação de mega-conglomerados difícil, com os conhecimentos antigos e novos em a partir de fusões, aquisições e alianças entre conflito. Exatamente como disse Senge (2002), sobre empresas. De bancos a empresas automobilísticas, a dificuldade de aprender a andar de bicicleta, em de seguradoras a indústrias, são raros os setores razão do contraste existente entre o conhecimento que ainda não viveram esta realidade. já incorporado, da física do movimento andar, Em um contexto de maior competitividade, as e o conhecimento sendo absorvido, da física do organizações buscam concentrar esforços em torno movimento giroscópico. de suas competências, terceirizando as atividades Mas, como no aprender a andar de bicicleta, periféricas, abrindo espaço para as pequenas e nas mudanças organizacionais, a maioria dos médias empresas, arranjadas em redes ou em clusters. funcionários incorpora o novo conhecimento, Até como decorrência dessa mudança, a também, como na bicicleta, tomando tombos e sociedade em geral, e os empregados, passaram a ter levantando e perseverando. maior poder dentro das corporações. Preocupações Durante a implantação de mudanças numa com o nível de emprego, a utilização de recursos empresa, assim como durante o processo de naturais, a produção de dejetos, o aumento do aprendizado de andar numa bicicleta, as pessoas tráfego, da poluição, entre outros, somam-se à transitam por algumas etapas muito similares: o maior expressão e organização dos agentes da medo do novo, a dor decorrente dos machucados sociedade, aumentando o poder de pressão desses produzidos pelos tombos, o uso da capacidade atores nas estratégias das empresas. 191
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    Diversos outros participantes,como o Um aumento das forças de impulsão poderia governo, fornecedores e concorrentes, e outros, melhorar o desempenho, mas também poderia merecem ser ainda considerados no desenho da aumentar as forças de restrição. As forças de impulsão teia de influência sobre a empresa. ativam suas próprias forças de restrição. Portanto, E não apenas empresas, mas também diminuir as forças de restrição é, normalmente, uma as organizações governamentais e as sem fins maneira mais eficaz de se estimular a mudança do lucrativos, necessitam saber cada vez mais quais que aumentar as forças de impulsão. e como os diversos atores devem ser levados em O conceito de equilíbrio também parece conta na formulação de suas estratégias. mostrar que as organizações têm forças que evitam Não é possível precisar se as empresas que o desempenho fique em nível muito baixo, bem chegaram à juventude, à idade adulta, ou acabaram como forças que evitam que ele melhore muito. de entrar na adolescência, mas, certamente, entraram As chamadas por Lewin (1965) de forças em uma nova idade. E isso implica mudanças. E em de restrição estão, quase sempre, ligadas ao fato mudanças obrigatórias. de que as pessoas que detinham o conhecimento Um dique se rompeu, e a água vem subindo. antigo, têm muitas razões, em seu próprio modo de Como as empresas poderão reagir? Viver sem medo pensar, para não acreditar no novo, para achar que o ponto de virada desse novo período da história, o novo vai se transformar em algum tipo de desastre, não só das empresas, mas da humanidade, ou pessoal ou para a organização. resistir e agonizar. Como diz Srour (1994), o dilema O modelo posteriormente elaborado por é “mudar a forma de gestão que as ordena ou esse autor, e outros, também pode ser aplicado a enfrentar em absoluta desigualdade de condições a pessoas, grupos ou a organizações inteiras. Envolve exposição à concorrência”. o “descongelamento” do padrão de comportamento O “viver sem medo” esses novos tempos atual, a “mudança” ou o estabelecimento de novos implicam reescrever sua própria história; desmontar padrões de comportamento e, depois, a “nova conceitos fundidos numa sólida base cultural; cristalização” ou reforço do novo comportamento. cortar, enfim, na própria carne. Esses pensamentos O descongelamento implica tornar-se e dão medo e doem, doem muito, antes mesmo de necessidade de mudança tão óbvia que o indivíduo, tomarem-se realidade. grupo ou a organização possa vê-la e aceitá-la Entre empresários e consultores, são muitas prontamente. as lembranças de desilusões dos inúmeros e caros Na mudança, um agente de mudança fracassos resultantes das tentativas de concretizar treinado pode desempenhar um papel mudanças. Entre os empregados e profissionais, o particularmente útil no estabelecimento de novos medo das reengenharias e dos downsizings, da padrões de comportamento. Ao lado dos membros panacéia administrativa que estiver na moda, e das da organização, o agente de mudança ajuda a mágicas orientações do guru de plantão contratado criar situações nas quais novos valores, atitudes e pela empresa. comportamentos serão apropriados, além de dar exemplos de cada um deles. O chão se aproxima rápido Estes valores, atitudes e comportamentos são absorvidos pelos membros da organização, via As pessoas têm muito medo do tombo, da processos de identificação e internalização. dor e dos machucados que ele poderá provocar. Na identificação, os membros da organização De acordo com a teoria do campo de força, de identificam-se com os valores e atitudes do agente Lewin (1965), qualquer comportamento é resultante do de mudança, modelando seu comportamento de equilíbrio entre forças de impulsão e forças de reação. acordo com esse agente. Na internalização, os Aquelas atuam numa direção e estas atuam em outra. membros da organização aprendem novos valores, 192
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    atitudes e comportamentosquando se vêem em Para algumas pessoas, ou muitas, o custo da situações que exigem deles um desempenho eficaz. mudança em termos de perda de poder, prestígio, A nova cristalização quer dizer o firme ordenado, qualidade do trabalho, outros benefícios, estabelecimento do novo padrão de comportamento ou ainda o próprio emprego, será sempre muito alto. por meio de mecanismos de apoio. O indivíduo, A terceira e não menos importante fonte de grupo ou organização que tenha mudado tem os resistência que as pessoas têm em relação à mudança, benefícios do novo comportamento ou da nova pode ser a consciência da fraqueza das mudanças estrutura. propostas. Às vezes, os membros da organização Lewin (1965) propôs, através de uma fórmula resistem à mudança, porque têm conhecimento de simples, um método para que os administradores problemas potenciais que foram aparentemente tenham mais facilidade para saber se um esforço de desconsiderados pelos que iniciaram a mudança. mudança tem ou não probabilidade de dar certo: Essa forma de resistência é, obviamente, bastante útil, se a organização souber como trabalhar com C = (ABD) > X essas pessoas. onde C representa a mudança; A, o nível de insatisfação com a situação atual; B, a posição A voz do adulto: olhe para frente ... futura a ser alcançada, perfeitamente definida; D, olhe para frente os primeiros passos práticos na direção do estado desejado; e X, o custo da mudança. No aprender a andar de bicicleta, Ou seja, só é recomendável partir apenas dois conhecimentos podem ser ensinados em direção à mudança, quando seu custo é previamente: não olhe para o chão e olhe para suportável, quando as possibilidades de superar frente. Daí em diante, trata-se apenas de pedalar, as forças de restrição sejam razoáveis. O custo cair, levantar, pedalar, cair, levantar, pedalar... até da mudança será considerado alto, a menos não cair mais. que a insatisfação com a situação atual (A) seja Nas organizações, os administradores estão suficientemente forte, que a posição futura seja em busca dessas verdades sobre o processo de clara e desejada pela maioria dos envolvidos (B), mudança. e que os primeiros passos práticos possam ser Kotler e Schlesinger (1979) propõem seis tomados rumo à situação futura desejada (D) sem maneiras de se vencer a resistência das pessoas. A muita dificuldade. primeira, e mais óbvia, compreende a educação e a Stoner (1985) ensina que existem três comunicação. Trata-se de informar as pessoas acerca fontes gerais de resistência à mudança. Em da lógica da mudança planejada e da necessidade primeiro lugar, quando existe um grau elevado de dessa mudança logo no início do processo. incerteza quanto às causas e efeitos da mudança. A segunda é buscar a participação e o Os membros da organização podem resistir envolvimento daqueles que, provavelmente, psicologicamente à mudança por quererem evitar resistirão à mudança. Se essas pessoas fizerem parte a incerteza. do projeto e da sua efetiva implantação, esta pode A segunda fonte de resistência está na ser bem mais fácil de ser levada a cabo. falta de disposição para abrir mão de benefícios A terceira maneira identificada pelos autores existentes. Mesmo que a mudança possa beneficiar é facilitar o processo de mudança e dar apoio aos a organização como um todo, não beneficiará, que dela participam. necessariamente, os milhares de operários demitidos Outra maneira é a negociar com as pessoas para que a folha de pagamento seja adequada que, com certeza, ou potencialmente, resistirão ao volume de operações, como aconteceu no à mudança. Exemplos claros seriam os acordos recentíssimo caso da GM norte-americana. sindicais para redução de jornada de trabalho. 193
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    A quinta maneiraenvolve manipulação e de movimento necessário, que obriga que as coisas cooptação. Às vezes, os administradores evitam,aconteçam simultaneamente a ele mesmo, e que podem justificá-lo e até modificá-lo. disfarçadamente, que as pessoas ou grupos resistam à mudança. Podem manipular ou cooptar os Na primeira utilização, uma metáfora criada pelos economistas, quando se discutiu a pedalada empregados, liberando informações seletivamente, ou estruturando, conscientemente, a sequência da Encol, mostrou-se que a mudança no ambiente dos acontecimentos. Além da ética dúbia dessas aconteceu com tanto impacto, de maneira tão importante, que o tombo foi muito grande, e não foi técnicas, elas também podem ter um efeito oposto ao desejado. possível retomar o movimento. Finalmente, na visão de Kotler e Na segunda utilização da metáfora, criada Schlesinger (1979), pode ser usada a coação. por Peter Senge, ocorreu uma tentativa de explicar Os administradores podem forçar uma pessoa a a aprendizagem do novo, pelas pessoas, dos aceitar uma mudança com ameaças explícitas ou processos de mudança, pela capacidade inata que implícitas, envolvendo perda de emprego, perda elas têm, mesmo em pleno movimento, de substituir de promoção, etc. Também podem demitir ou um conhecimento antigo por outro, muitas vezes até transferir empregados que dificultem a mudança.conflitantes com o anterior.. Neste caso, como no anterior, o efeito pode ser A terceira utilização reuniu o conceito do negativo. movimento e do aprendizado do novo em um mesmo processo e mesmo espaço de tempo, quando propôs Essa teoria, por ser bastante abrangente, parece ser tão simples como o olhe para frente,que em muitas situações, principalmente no mundo não olhe para o chão, que os adultos dizem paracompetitivo, e especialmente na gestão das empresas, as crianças na primeira vez que elas sentam no não é possível separar a continuidade da ação que selim da sua bicicleta. Na verdade, não existemestá se desenrolando da mudança que precisa ser teorias. implementada. A própria vida das pessoas é um permanente Considerações Finais - Pedalando, enfim! aprender a andar de bicicleta, provavelmente sob qualquer ótica que se queira utilizar. Pelo menos, essa Todas as três utilizações da metáfora do afirmativa parece ser verdadeira quando se pensa andar de bicicleta, encaminham para um sentido nas pedaladas comentadas neste artigo. Referências BECK, B.E.F. Metaphor: Cognition and Artificial Intelligence, apud Wood Jr. e Caldas, 1995, citado. GIBBS JR, R.W.; HALL, C.K. What does it mean to say that a metaphor has been understood? Apud Wood Jr. e Caldas, 1995, citado. KOTLER, J.P ; SCHLESINGER, L.A. Choosing Strategies for Change. Harvard Business Revue v.57, n.2, . março/abril, 1979. LEWIN, K. Teoria de Campo em Ciência Social. São Paulo: Pioneira, 1965. STAL, E. et al. Inovação – como vencer esse desafio empresarial. São Paulo: Clio Editora, 2006. SENGE, P A Construção do Conhecimento. São Paulo: Palestra realizada no evento Expomanagement, . promovido pela HSM Management, 2002. SROUR, R. H. Formas de Gestão: O Desafio da Mudança. São Paulo: Revista de Administração de Empresas/FGV v.34, n.4, p.31-45, 1994. STONER, J. F. Administração. São Paulo: Prentice Hall, 1985. 194
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    WOOD JR, T.;CALDAS, M. P Quem Tem Medo de Eletrochoque? Identidade, Terapias Convulsivas e . Mudança Organizacional. São Paulo: Revista de Administração de Empresas/FGV v.35, n.5, p.13- 21, 1995. ZACCARELLI, S. B. Anotações de aula e de encontros pedagógicos da matéria Mudança Organizacional – Novos Enfoques, do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade de São Paulo, 2008. 195
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    PARA SUBMISSÕES: Diretrizes para Autores Para a submissão, será aceito estudo científico sob forma de artigo ou ensaio, inédito e original, que não esteja em processo de avaliação por outro periódico simultaneamente. Admite-se que o artigo que tenha sido apresentado em evento científico (seminário, congresso, etc.), mas o(s) autor(es) deve(m) destacar isso no ato da submissão que só pode ser feita por meio eletrônico no portal pela Internet em http://revistas.unicentro.br/index.php/capitalcientifico . Caso seja identificada a publicação ou submissão simultânea em outro periódico, o artigo será desconsiderado. Serão aceitos artigos em formato DOC (Microsoft Word®), na versão 2003 ou posterior não contendo notas, marcações ou identificações explícitas ou ocultas no arquivo eletrônico que revelem autoria. Os estudos (artigos ou ensaios) devem observar estritamente as normas que a Revista Capital Científico – RCCi estabelece em conformidade com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Itens de Verificação para Submissão (conforme o portal da RCCi) Como parte do processo de submissão, os autores são obrigados a verificar a conformidade da submissão em relação a todos os itens listados a seguir, que constam no portal da revista. As submissões que não estiverem de acordo com as normas serão devolvidas aos autores. 1. O trabalho possui até 4 autores, pois mais do que essa quantidade o periódico não aceitará a submissão. 2. Os arquivos para submissão estão em formato Microsoft Word®, na versão 2003 (desde que não ultrapassem 2MB). 3. A identificação de autoria do trabalho foi removida do arquivo e da opção Propriedades no Microsoft Word®, garantindo desta forma o critério de sigilo da revista quando for submetido para avaliação por pares 4. O texto segue os padrões de estilo e requisitos bibliográficos descritos em “Diretrizes para Autores”, no portal do periódico, na seção “Sobre a Revista”. 5. Além do título em língua portuguesa, deve haver também o título em língua inglesa e está revisado. 6. O Resumo e Abstract em sua redação e estilo, em conformidade com a NBR - 6028/2003 da ABNT, e não excedem as 250 palavras recomendadas. No mínimo 3 (três) e no máximo 5 (cinco) Palavras-chave, bem como Key Words. Obs: o resumo, palavras-chave, abstract e key words devem ficar na(s) primeira(s) página(s), separados do restante do artigo por uma quebra de página. 7. O corpo do texto redigido em português, digitados na fonte Times New Roman, tamanho 12, formatado para o tamanho A4 (210 x 297 mm), espaçamento simples, e configurações de margem sendo de 3 cm superior e esquerda da página e 2 cm inferior e direita da mesma , parágrafo de recuo 1,25cm. 8. Nas tabelas e nos gráficos, as margens devem ser limitadas ao máximo de 17 cm de largura, considerando fonte de tamanho 10. Devem ser numerados (números arábicos) de acordo com a ordem em que aparecem no texto. Importados do Excel para o Word. Importante: Todas as ilustrações devem ser fornecidas no portal em formato solicitado, no corpo do texto e também separadas em arquivo complementar de extensão “DOC” (adiante, veja o item de verificação sobre imagens, fotos e ilustrações).
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    9. As citaçõesseguem a norma NBR 10520/2002 da ABNT. 10. As notas de rodapé e explicativa, não são aceitas e dessa maneira o texto não deve contê-las. 11. As Referências seguem a norma NBR 6023/2002 da ABNT, que demonstra como deverão ser listadas as referências (bibliográficas, eletrônicas e periódicos). 12. O texto original (excetuando-se os resumo, palavras-chave, abstract e key words) não ultrapassa 15 páginas. 13. A numeração de páginas se inicia a partir da introdução em diante. 14. As imagens, fotos e ilustrações, quando houverem, devem ser enviadas em arquivo de extensão “DOC” complementar no portal da revista. Serão aceitas imagens no Corel-draw® em formato JPEG (extensão JPG), e com no mínimo 300 dpi de resolução. Devem conter fonte e data; caso não seja de domínio público, será necessária autorização dos detentores dos direitos autorais para reprodução das ilustrações. Observação: Desconsidere esse item quando não houverem imagens, fotos e ilustrações. Declaração de Direito Autoral O(s) Autor(es) que publica(m) nesta revista concorda(m) com os termos da declaração a seguir. Estes termos ficam aceitos no momento em que finalizam os itens do processo da submissão do trabalho no portal da revista na Internet, em que o(s) autor(es) dão por verdadeiro, e assim dispensa(m) a essa declaração na forma impressa e assinada: 1. Declara(m) que é (são) proprietário(s) exclusivo(s) e titular(es) dos direitos autorais do conteúdo submetido a ser editado e que nessa qualidade cede, gratuitamente os direitos decorrentes da primeira edição e publicação à editora da Universidade Estadual do Centro-Oeste – Editora UNICENTRO, através da Revista Capital Científico com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Creative Commons Attribution License, permitindo o compartilhamento do conteúdo com reconhecimento da autoria do trabalho e publicação inicial nesta revista. Dessa maneira, autoriza(m) a Editora UNICENTRO, através da Revista Capital Científico a publicação desse conteúdo nos meios impresso e eletrônico, também para comunicação ao público, incluindo a exibição pública, reprodução por qualquer processo, incluindo a digitalização, distribuição, divulgação e colocação à disposição do público, por quaisquer meios e suportes no na edição impressa; 2. Que se responsabiliza(m) pela originalidade da obra, e declara(m) que seu conteúdo não foi publicado no todo ou em parte por outra editora, como também não está sendo considerado para publicação em outra editora ou revista, seja em qualquer formato ou mídia. O(s) autor(es) se responsabiliza(m) pela veracidade das informações e dos dados contidos no conteúdo submetido. 3. Declara(m) que na confecção do texto (conteúdo) foram observadas com exatidão as regras referentes à citação e referências às fontes de pesquisas utilizadas, conforme teor da Lei 9.610/1988 (Lei de Direitos Autorais), bem como observadas as disposições contidas nos Comitês e Códigos de Ética referente ao objeto pesquisado; 4. Declara(m) que adquiriu(ram) os direitos autorais reservados a terceiros quando na obra existir remissões, traduções, coletâneas, inserções de fotos e imagens, cuja autoria originária não pertença ao(s) autor(es), bem como autorização(ões) junto a proprietários ou titulares de marcas registradas, nomes de organizações ou empresas que forem citadas;
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    5. Declara(m) eObriga(m)-se a indenizar a UNICENTRO e ou a sua Editora, caso sofram quaisquer prejuízos materiais ou morais em conseqüência de medidas judiciais ou extrajudiciais promovidas por terceiro em razão da publicação da obra cedida. Política de Privacidade Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.