G . Reale - D. Antiseri



 HISTORIA
DA FILOSOFIA
      3   Do Humanism0
          a Descartes
Dados lnternacionais de Catalogagto na Publica@o (CIP)
                       (CBmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

                                    Reale, Giovanni
Historia da filosofia: do humanism0 a Descartes, v. 3 1Giovanni Reale, Dario Antiseri;
                                          -
                  [tradupBo Ivo Storn~olo]. SBo Paulo: Paulus, 2004.

                           Titulo original: Storia della filosofia
                                        Bibliografia.
                                   ISBN 85-349-2102-4

1. Filosofia- Historia I. Antiseri, Dario. II. Titulo. Ill. Titulo: Do Humanismoa Descartes.


                           indices para catAlogo sistematico:
                                1. Filosofia: Historia 109




                              Titulo original
      Sfofla de//a fi/osofia - Vo/ume //.' Da/l'Umanes~mo Kanf
                                                        a
            O Editrice LA SCUOLA, Brescia, Italia, 1997
                           ISBN 88-350-9271-X




                                      Revislo
                                   Zo/ferho Tonon

                            IrnpressSo e acabamento
                                    PAULUS




                          0 PAULUS - 2004
         Rua Francisco Cruz, 229.04117-091 SSo Paulo (Brasil)

                                             .
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                                  ISBN 85-349-2102-4
Existem teorias, argumentacdes e
disputas filosoficas pelo fato de existirem pro-        A historia da filosofia e a historia
blemas filosof icos. Assim como na pesquisa        dos problemas filosoficos, das teorias fi-
cientifica ideias e teorias cientificas sdo res-   losoficas e das argumentaq5es filosofi-
postas a problemas cientificos, da mesma           cas. E a historia das disputas entre filo-
forma, analogicamente, na pesquisa filoso-         sofos e dos erros dos filosofos. E sempre
fica as teorias filosoficas sdo tentativas de      a historia de novas tentativas de versar
solucdo dos problemas filosoficos.                 sobre questdes inevitaveis, na esperanca
      0s problemas filosoficos, portanto,          de conhecer sempre melhor a nos mes-
existem, sdo inevitaveis e irreprimiveis; en-      mos e de encontrar orientacdes para
volvem cada homem particular que ndo               nossa vida e motivagdes menos frageis
renuncie a pensar: A maioria desses pro-           para nossas escolhas.
blemas ndo deixa em paz: Deus existe, ou                A historia da filosofia ocidental e a
existiriamos apenas nos, perdidos neste            historia das ideias que in-formaram, ou
imenso universo? 0 mundo e um cosmo                seja, que deram forma a historia do Oci-
ou um caos? A historia humana tem senti-           dente. E um patrimdnio para ndo ser dis-
do? E se tem, qual e? Ou, entdo, tudo - a          sipado, uma riqueza que ndo se deve
gloria e a miseria, as grandes conquistas e        perder: E exatamente para tal fim os pro-
os sofrimentos inocentes, vitimas e car-           blemas, as teorias, as argumentacdes e
nifices - tudo acabara no absurdo, despro-         as disputas filosoficas sao analiticamente
vido de qualquer sentido? E o homem: e             explicados, expostos com a maior clareza
livre e responsavel ou e um simples frag-           possivel.
men to insignificante do universo, determi-                           ***
nado em suas acdes por rigidas leis natu-
rais? A ciencia pode nos dar certezas? 0                 Uma explicacdo que pretenda ser cla-
que e a verdade? Quais sdo as relacdes             ra e detalhada, a mais compreensivel na
entre razdo cientifica e fe religiosa? Quan-       medida do possivel, e que ao mesmo tem-
do podemos dizer que um Estado e demo-             po ofere~a  explica~des exaustivas compor-
cratic~? quais sdo os fundamentos da de-
           E                                       ta, todavia, um "efeito perverso", pelo fato
mocracia? E possivel obter umajustificaqdo         de que pode ndo raramente constituir um
racional dos valores mais elevados? E quan-        obstaculo a "memoriza~do"do complexo
do e que somos racionais?                          pensamento dos filosofos.
       Eis, portanto, alguns dos problemas               Esta e a razdo pela qual os autores
 filosoficos de fundo, que dizem respeito          pensaram, seguindo o paradigma classi-
as escolhas e ao destino de todo homem,            co do Ueberweg, antepor a exposicdo
 e com os quais se aventuraram as men-             analitica dos problemas e das ideias dos
 tes mais elevadas da humanidade, dei-             diferentes filosofos uma sintese de tais
xando-nos como heranca um verdadeiro               problemas e ideias, concebida como ins-
patrimdnio de ideias, que constitui a iden-        trument~didatico e auxiliar para a me-
 tidade e a grande riqueza do Ocidente.            moriza~ao.
Afirmou-se com justeza que, em linha           Ao executar este complexo traqado,
geral, um grande filosofo e o g&io de uma       os autores se inspiraram em c;inones psico-
grande ideia: Platdo e o mundo das ideias,      pedagogicos precisos, a fim de agilizar a
Aristoteles e o conceit0 de Ser, Plotino e a    memorizaqao das ideias filosoficas, que sio
concep@o do Uno, Agostinho e a "tercei-         as mais dificeis de assimilar: seguiram o
ra navegaqiol'sobre o lenho da cruz, Des-       metodo da repetiqao de alguns conceitos-
cartes e o "cogito", Leibniz e as "mbnadas",    chave, assim como em circulos cada vez
Kant e o transcendental, Hegel e a dialetica,   mais amplos, que vaojustamente da sinte-
Marx e a alienaqio do trabalho, Kierke-         se a analise e aos textos. Tais repeti@es,
gaard e o "singular", Bergson e a "dura-        repetidas e amplificadas de mod0 oportu-
@o", Wittgenstein e os "jogos de lingua-        no, ajudam, de mod0 extremamente efi-
gem", Popper e a "falsificabilidade" das        caz, a fixar na atenqdo e na memoria os
teorias cientificas, e assim por diante.        nexos fundantes e as estruturas que sus-
      Pois bem, os dois autores desta obra      tentam o pensamento ocidental.
propdem um lexico filosofico, um diciona-
rio dos conceitos fundamentais dos diver-            Buscou-se tambem oferecer aojovem,
sos filosofos, apresentados de maneira di-      atualmente educado para o pensamento
datica totalmente nova. Se as sinteses          visual, tabelas que representam sinotica-
iniciais s i o o instrumento didatico da me-    mente mapas conceituais.
moriza~ao,o lexico foi idealizado e cons-            Alem disso, julgou-se oportuno enri-
truido como instrumento da conceitual iza-      quecer o texto com vasta e seleta serie de
@o; e, juntos, uma especie de chave que         imagens, que apresentam, alem do rosto
permita entrar nos escritos dos filosofos e     dos fildsofos, textos e momentos tipicos da
deles apresentar interpretaqdes que encon-      discussdo filosofica.
trem pontos de apoio mais solidos nos pro-
prios textos.
                                                      Apresentamos, portanto, um texto ci-
                                                entifica e didaticamente construido, com
     Sinteses, analises, lexico ligam-se,
                                                a intenqdo de oferecer instrumentos ade-
portanto, a ampla e meditada escolha dos
                                                quados para introduzir nossos jovens a
textos, pois os dois autores da presente
                                                olhar para a historia dos problemas e das
obra estio profundamente convencidos
                                                ideias filosoficas como para a historia gran-
do fato de que a compreensdo de um fi-
                                                de, fascinante e dificil dos esfor~osintelec-
Iosofo se alcanqa de mod0 adequado nao
                                                tuais que os mais elevados intelectos do
so recebendo aquilo que o autor diz, mas
                                                Ocidente nos deixaram como dom, mas
lanqando sondas intelectuais tambem nos
                                                tambem como empenho.
modos e nos iarqdes especificos dos tex-
tos filosofico~.-                                             GIOVANNI - DARIO
                                                                    REALE    ANTISERI
[ndice de nomes, XV                                111.0s "profetas" e os "magos"
Indice de conceitos fundamentais, XIX                 orientais e pag5os:
                                                      Hermes Trismegisto,
Primeira parte                                        Zoroastro e Orfeu                    14
                                                   1.0conhecimento hist6rico-critic0 diferen-
0 HUMANISM0                                        te que os humanistas tiveram da tradigiio
                                                   latina em relagiio 2 grega, 14; 2. Hermes
E A RENASCENCA                                     Trismegisto e o "Corpus Hermeticum", 15;
                                                   2.1. Hermes e o "Corpus Hermeticum" na
                                                   realidade histbrica, 15; 2.2. Hermes e o
Capitulo primeiro                                  "Corpus Hermeticum" na interpretagiio da
0 pensamento humanista-                            Renascenga, 16; 3. 0 "Zoroastro" da Re-
renascentista                                      nascenga, 16; 4. 0 Orfeu renascentista, 17.
e suas caracteristicas gerais                 3             P. 0.Kristeller: 1.Nega@o do sig-
                                                   ~$~d'o~filosdfico Humanismo, 18; E.
                                                                       do
I. O significado                                   Garin: 2. Reivindica@o da valdncia "filo-
  historiogriifico                                 sofico-pragmhtica " do Humanismo, 18; J.
  do termo "Humanismo"                        3    Burckhardt: 3 . 0 individualismo como mar-
                                                   co original da Renascen~a, K. Burdach:
                                                                               19;
1. 0 Humanismo e a valorizagiio das "litte-        4. As rakes da Renascen~a  afundam na Ida-
rae humanae", 3; 2. As duas mais signifi-          de Mkdia, 20.
cativas interpretagoes contemporheas do
Humanismo, 6; 2.1. A interpretagiio de
Kristeller, 6; 2.2. A interpretasgo de Garin, 7;   Capitulo segundo
3. Possivel mediaggo sintCtica das duas in-        0 s debates sobre vroblemas morais
terpretag6es opostas, 7.

II. Conceito historiogriifico,                     I. 0 s inicios do Humanism0             21
    cronologia e caracteristicas
    da "Renascenqa"                           9    1. Francisco Petrarca, 21; 2. Coluccio Salu-
                                                   tati, 22.
1. A interpretagiio oitocentista da "Renas-
cenga" como surgimento de novo espiri-             11. 0 s debates sobre temas Ctico-
to e de nova cultura que valorizam o mun-              politicos em L. Bruni,
do antigo em oposigiio 2 Idade MCdia, 10;              P. Bracciolini, L. B. Alberti - 2 3
2. A nova interpretagiio da "Renascenga"
como "renovation e a "volta aos antigos"           1.Leonardo Bruni, 23; 2. Poggio Bracciolini,
como "volta aos principios", 11; 3. Re-            24; 3. Leon Battista Alberti, 24; 4. Outros
flexoes conclusivas sobre o conceit0 de            humanistas do Quatrocentos, 25.
"Renascenga", 11; 4. Cronologia e temas
d o Humanismo e da Renascenga, 12;                 111. Lourenqo Valla                     26
5. Relagoes entre Renascenga e Idade MC-           1. 0 Neo-epicurismo de Valla, 26; 2. A su-
dia, 12.                                           peragiio de Epicuro, 26; 3. A filologia de
VIII    Yndice geral


Valla: a "palavra" como suporte da verda-                -
                                                  T~xros Nicolau de Cusa: 1.0conceito de
de, 27.                                           "douta ignorLincia ",46; 2. A "coincidtncia
           -
T~xros F. Petrarca: 1. Verdadeira sabedo-         dos opostos" em Deus, 47; 3. 0 principio
ria, 28; L. Valla: 2. A defesa da prdpria in-     "tudo esta em tudo" e seu significado, 49;
t e r p r e t ~ @ ~ ccvoluptas",29.
                 da                               4. 0 maximo absoluto e a natureza do ho-
                                                  mem como microcosmo, 51; M. Ficino: 5.
                                                  A c o n c e p ~ i oda alma como "copula
Capitulo terceiro                                 mundi", 52; Pico della Mirandola: 6. A dig-
                                                  nidade do homem, 53.
0 Neoplatonismo renascentista-             31
I. Acenos sobre                                   Capitulo quarto
   a tradigio plat6nica em geral                  0 Aristotelismo renascentista
   e sobre os doutos bizantinos                   e a revivesc2ncia do Ceticismo-             55
   do stc. XV                              31
1. Reviveschcia do platonismo, 3 1.               I. 0 s problemas
                                                     da tradigio aristottlica
11. Nicolau de Cusa:                                 na era do Humanism-                      55
    a "douta ignorhcia"
                                                  1. As tr2s interpretagdes tradicionais de
    em relagio ao infinito                 33     Aristoteles, 55; 2. As temiticas aristotklicas
1. A vida, as obras e o delineamento cultu-       tratadas na Renascenga, 56; 3. A complexa
ral de Nicolau de Cusa, 34; 2. A "douta ig-       questiio da "dupla verdade", 56; 4. Valincia
nori?ncia", 34; 2.1. A busca por aproxima-        do Aristotelismo renascentista, 57.
giio, 34; 2.2. A "coincidCncia dos opostos"
no infinito, 35; 2.3.0s t r k graus do conhe-     11. Pedro Pomponazzi                        58
cimento, 35; 3. A relagio entre Deus e o uni-     1. 0 debate sobre a imortalidade da alma,
verso, 36; 4. 0 significado do principio          58; 2. A natureza da alma e a virtude hu-
"tudo esti em tudo", 36; 5. A proclamaqiio        mana, 59; 3. 0 "principio da naturalida-
do homem como "microcosmo", 36.                   den, 59; 4 . 0 privilkgio que deve ser dado i
                                                  experitncia, 80.
111. Marsilio Ficino
     e a Academia plat6nica                       111. Renascimento
     florentina                            38          de uma forma moderada
1. A posigio de Ficino no pensamento                   de Ceticismo                           61
renascentista e as caracteristicas de sua obra,   1.Reviveschcias das filosofias helenisticas na
38; 2. Ficino como tradutor, 39; 3 . 0 s pon-     Renascenga, 61; 2. Michel de Montaigne e o
tos fundamentais do pensamento filosofico         ceticismo como fundamento de sabedoria, 61.
de Ficino, 39; 4. A filosofia como "revela-
gio" divina, 40; 5. A estrutura hierirquica       TEXTO~ Pomponazzi: 1. A quest20 da
                                                          - P.
do real e a alma como "copula mundi", 40;         imortalidade da a h a , 63; M. de Montaigne:
6. A teoria do "amor plathico" e sua difu-        2. Filosofar e' aprender a mower, 65.
sio, 40; 7. A doutrina migica de Ficino e
sua importihcia, 4 1.
                                                  Capitulo quinto
IV. Pico della Mirandola                          A Renascenga e a Religiiio-                 67
    entre platonismo,
    aristotelismo,                                I. Erasmo de Rotterdam
    cabala e religiio                      42        e a "philosophia C h r i s t i "         67
1. 0 pensamento de Pico, 42; 2. Pico e a          1. A posigio, a vida e a obra de Erasmo, 67;
cabala, 42; 3. Pico e a doutrina da dignida-      2. Concepqiiohumanista da filosofia cristii, 68;
de do homem, 44.                                  3 . 0 conceito erasmiano de "loucura", 69.

V. Francisco Patrizi                       45     11. Martinho Lutero                         70
1.Patrizi: exemplo da continuidade da men-        1. Lutero e suas relagdes com a filosofia,
talidade hermktica, 45.                           70; 2. As relagdes de Lutero com o pensa-
mento renascentista, 71; 3. 0 s pontos basi-     IV. Jean Bodin
cos da teologia de Lutero, 72; 3.1. 0 ho-            e a soberania absoluta
mem se justifica apenas pela fC e sem as             do Estado                            99
obras, 72; 3.2. A "Escritura" como a fonte
de verdade, 73; 3.3. 0 livre exame da "Es-       1.A idCia de "soberania" do Estado no pen-
critura", 74; 4. ConotaqGes pessimistas e        samento de Bodin, 99.
irracionalistas do pensamento de Lutero, 74.
                                                 V. Hugo Grotius
111. Ulrich Zwinglio,                               e a funda~io
     o reformador de Zurique-              76       do jusnaturalismo                    100
1. A posiqiio doutrinal de Zwinglio, 76.         1.Grotius e a teoria do direito natural, 100.
IV. Calvino                                              -
                                                 TEXTOS N. Maquiavel: 1. A necessidade
    e a reforma de G e n e b r a           77    de "ir diretamente a verdade efetiva da coi-
                                                 sa", 101; 2. A sorte e' arbitra da metade de
1. 0 s pontos fundamentais da teoria de          nossas ap5es, 101.
Calvino, 77.
V. Outros teologos da Reforma                    Capitulo setimo
   e figuras ligadas                             VQtices e resultados conclusivos
   ao movimento p r o t e s t a n t e      79    do pensamento renascentista:
1. IntCrpretes importantes do movimento          Leonardo, TelCsio,
protestante, 79.                                 Bruno e Campanella               103
VI. Contra-reforma                               I. Natureza, citncia e arte
    e Reforma catolica                     80       em Leonardo                          103
1. 0 s conceitos historiograficos de "Con-       1. Vida e obras, 103; A ordem mecanicista
tra-reforma" e de "Reforma catolica", 80;        da natureza, 104; 3. "Cogitagiio mental" e
2. 0 Concilio de Trento, 81; 3. 0 relanqa-       "experihcia", 105.
mento da Escolastica, 83.
        -
TEXTOS Erasmo: 1. Erasmo: o elogio da            11. Bernardino Telksio:
loucura, 84; M. Lutero: 2. 0 primado da fe'          a investigasgo da natureza
em Cristo sobre as obras, 8 8; 3. Sobre o ser-       segundo          . ,.
vo-arbitrio do homem, 89; J. Calvino: 4. Deus        seus proprios principios-           106
predestinou alguns homens a salva@o, ou-
tros a dana@o, 90.                               1. Vida e obras, 106; 2. A novidade da fisi-
                                                 ca telesiana, 107; 3. 0 s principios proprios
                                                 da natureza, 108; 4. 0 homem como reali-
Capitulo sexto                                   dade natural, 109; 5. A moral natural, 109;
A Renascenqa e a Politica                  93    6. A transcendcncia divina e a alma como
                                                 ente supra-sensivel, 110.
I. Nicolau Maquiavel                       93    111. Giordano Bruno:
1. A posiqiio de Maquiavel, 93; 2. 0 realis-          universo infinito
mo de Maquiavel, 94; 3. A "virtude" do                e "heroic0 furor"            ..    111
principe, 94; 4. Liberdade e "sorte", 94;
5. 0 "retorno aos principios", 95;               1. Vida e obras, 112; 2. A caracteristica
                                                 de fundo do pensamento de Bruno, 113;
11. Guicciardini e Botero                  96    3. Arte da memoria (mnemottcnica)e ar-
1. A natureza do homem, a sorte e a vida         te magico-hermitica, 114; 4. 0 universo
politica em Guicciardini e Botero, 96.           de Bruno e seu significado, 114; 5. A in-
                                                 finitude do Todo e o significado impress0
111. Tomis Morus                           97    por Bruno a revolugiio copernicana, 115;
                                                 6. 0 s "heroicos furores", 116; 7. Conclu-
1.Imagem emblemitica e conceit0 de "Uto-         sGes, 117.
pia", 97; 2. 0 s principios morais e sociais
em que se inspiram os habitantes de Uto-         MAPA  CONCEITUAL - A deriva@o do univer-
pia, 98.                                         so de Deus e o "herdico furor", 118.
IV. Tomas Campanella:                             pritica, 147; 4. 0 s instrumentos cientifi-
    naturalismo, magia e anseio                   cos como parte integrante do saber cienti-
                                                  fico, 148.
    de reforma universal                 119
1. A vida e as obras, 120; 2. A natureza e o
significado do conhecimento filosofico e o        Capitulo nono
repensamento do sensismo telesiano, 121;          A revoluqiio cientifica
3. A autoconscihcia, 122; 4. A metafisica         e a tradiqiio magico-hermktica--- 151
campanelliana: as tres "primalidades" do
ser, 123; 5 . 0 pan-psiquismo e a magia, 123;     I. Presenqa e rejeiqiio da tradiqiio
6. A "Cidade do Sol", 124; 7. Conclus6es,            migico-hermetica -                151
124.
MAPA    CONCEITUAL. - 0 s fundamentos da
                                                  1. Resultados do pensamento magico-her-
metafisica, 126.                                  mitico sobre a ciincia moderna, 152; 2. A
                                                  uniao estreita entre astrologia, magia e ci&n-
T E X T- Leonardo da Vinci: 1. As caracte-
         ~S                                       cia moderna, 153; 3. Caracteristicas da as-
risticas da ciZncia, 127; B. Telisio: 2. A na-    trologia, 154; 4. Fisiognomonia, quiroman-
tureza deue ser explicada segundo seus            cia e metoposcopia, 154; 5. Caracteristicas
principios, 129; G. Bruno: 3. Unidade e infi-     da magia, 155.
nitude do uniuerso, 130; 4 . 0 mito de Action,
132; T. Campanella: 5. A doutrina do co-          11. Reuchlin
nhecimento, 133; 6. A estrutura metafisica            e a tradiqio cabalistica.
da realidade, 135.                                    Agripa:
                                                      "magia branca"
                                                      e "magia negra"                     156
Segunda parte
                                                  1. Reuchlin e a cabala, 156; 2. Agripa e a
                                                  magia, 156.
                                                  111.0 programa iatroquimico
                                                     de Paracelso                         158
                                                  1. Paracelso: da magia a medicina natural,
Capitulo oitavo                                   158.
Origens e traqos gerais
                                                  IV. TrGs "magos" italianos:
da revoluqiio cientifica                  139
                                                      Fracastoro, Cardano
I. A revoluqio cientifica:                            e Della Porta-                      160
   o que muda com ela                     139     1.Jer6nimo Fracastoro, fundador da epide-
1. Como a imagem do universo muda, 141;           miologia, 161; 2. Jer6nimo Cardano, um
2. A terra niio i mais o centro do universo:      mago que foi midico e matematico, 162;
consequincias filosoficas desta "descober-        3. Giambattista Della Porta, entre 6tica e
tan, 143; 3. A ciEncia torna-se saber experi-     magia, 163.
mental, 143; 4. A autonomia da ciincia em
relaqiio a f6, 144; 5. A cisncia niio i saber
de essincias, 144; 6. Pressupostos filos6-        Capitulo dicimo
ficos da cihcia moderna, 144; 7. Magia e          De CopCrnico a Kepler               -   165
cicncia moderna, 145.
                                                  I. Nicolau Copernico
11. A formaqiio                                      e o novo paradigma
    de novo tip0 de saber,                           da teoria helioctntrica              165
    que requer a uniio de ciEncia
                                                  1. 0 significado filosofico da "revoluqao
    e tecnica                     146             copernicana", 166; 2. A interpretaqso ins-
1. A revoluqiio cientifica cria o cientista ex-   trumentalista da obra de CopCrnico, 167;
perimental moderno, 146; 2. A revoluqso           3 . 0 realism0 e o Neoplatonismo de Copir-
cientifica: fusao da ticnica com o saber,         nico, 168; 4. A situaqiio problematica da
146; 3. A cicncia moderna reune teoria e          astronomia pri-copernicana, 169; 5. A teo-
ria de CopCrnico, 170; 6. CopCrnico e a         IV. Galileu:
tens50 essencial entre tradi@o e revolul50,         as rakes do choque
171.
                                                    com a Igreja
11. Tycho Brahe:                                    e a critica
    nem "a velha                                    do instrumentalismo
    distribuigiio ptolemaica"                       de Belarmino                          199
    nem "a moderna                              1. A origem dos dissidios entre Galileu e a
    inovagiio introduzida                       Igreja, 199; 2. As relaq6es entre Galileu e
    pel0 grande Copernico"              173     Belarmino, 200.
1. Uma restaural50 contendo os germes           V.   A incomensurabilidade
da revoluq50, 173; 2 . 0 sistema tych8nic0,          entre ciihcia e f i                  202
174.
                                                1. A Sagrada Escritura n5o se refere a estru-
111.Johannes Kepler:                            tura do cosmo, 202; 2. Autonomia da citn-
    a passagem do "circulo"                     cia em rela@o i s Escrituras, 202; 3. As Escri-
                                                turas se referem ? nossa salvaq50, 203.
                                                                    i
    para a "elipse"
    e a sistematizac;5o matemitica              VI. 0 primeiro processo                   205
    do sistema copernicano - 176                1. Primeira advertincia a Galileu para n5o
1. Kepler: vida e obras, 177; 1.1.Kepler, ma-   sustentar a teoria copernicana, 205.
temhtico imperial em Praga, 178; 1.2. Kepler
em Linz: as "Tabuas rodolfinas" e a "Har-       VII. A derrocada da cosmologia
monia do mundo", 179; 2. 0 "Mysterium                aristotdica
cosmographicum": em busca da divina or-              e o segundo process0      206
dem matematica dos &us, 180; 3. Do "cir-        1.Uma s6 fisica basta para o mundo celeste
culo" a "elipse". As "tris leis de Kepler",     e o terrestre, 206; 2. 0 principio de relativi-
181; 4. 0 sol como causa dos movimentos         dade galileano, 207; 3. 0 segundo proces-
planetarios, 183.                               so: a condena@o e a abjuraqio, 208.
T~y,ros- N. CopCrnico: 1. A novidade da
concep@o copernicana, 185; T. Brahe: 2.         VIII. A ultima grande obra:
Entre tradi@o e inova@o, 187.                         0s Discursos
                                                      e demonstra@es matematicas
                                                      e m torno
Capitulo dkcimo primeiro                              de duas novas ci2ncias     209
0 drama de Galileu                              1.Estrutura da matiria e estitica, 209; 2. A
e a fundaqiio                                   celebre experihcia do plano inclinado, 210.
da cihcia moderna                       189
                                                1X.A imagem galileana
I. Galileu Galilei:                                da cihcia                              212
   a vida e as obras                    192     1. A ciincia nos diz "como vai o cCu" e a fC
1. As etapas mais importantes na vida de        "como se vai ao cCu", 212; 2. Contra o
Galileu, 192.                                   autoritarismo filosofico, 212; 3. A atitude jus-
                                                ta em rela@o 2 tradiqao, 212; 4. A ciincia
11. Galileu e a "fen na luneta-         195     nos diz verdadeiramente como C feito o mun-
1. A luneta como instrumento cientifico,        do, 21% 5. A citncia C objetiva, porque des-
195.                                            creve as qualidades mensuraveis dos corpos,
                                                213; 6 . 0 pressuposto neoplat8nico da ciin-
111. 0 Sidereus Nuncius                         cia galileana, 214; 7. A citncia n5o busca as
    e as confirmag6es                           essincias, e todavia o homem possui alguns
                                                conhecimentos definitivos e n5o revisiveis,
    do sistema copernicano              197     215; 8 . 0 universo deterministic0 de Galileu
1.0universo torna-se maior, 197; 2 . 0 cho-     ngo C mais o universo antropocintrico de
que entre os maximos sistemas do mundo,         Aristoteles, 215; 9. Contra o vazio e a insen-
197.                                            satez de algumas teorias tradicionais, 216.
J n d i c e geral


X. A quest50 do mktodo:                         1. A importincia da fisica newtoniana na
    <c
    experiencias sensatas"                      historia da cicncia, 241.
   elou "demonstraq6es                          VIII. A descoberta do cilculo
   necessarias" ?                      217            infinitesimal
1. A experihcia cientifica C o experimento,           e a polemica com Leibniz - 242
217; 2. A mente constr6i a experihcia cien-
tifica, 218; 3. Um exemplo de como a ob-        1 . 0 s estudos matemiticos de Newton, 242;
servaqio depende das teorias, 219.              2. Newton e o cilculo infinitesimal, 243; 3. A
                                                poltmica entre Newton e Leibniz, 244.
TEXTOSG. Galilei: 1. 0 telescopio na re-
      -
                                               -
volu@o astron&nica, 220; 2. CiBncia e f&, TEXTOSI. Newton: 1.As quatro regras do
221; 3. Me'todo e experiBncia, 225; 4. CiBn-    me'todo experimental, 245; 2. Deus e a or-
cia e ticnica, 226; R. Belarmino: 5. A inter-   dem do mundo, 246.
pret~@~   instrumentalists do Copernicanis-
mo, 227.
                                                Capitulo dkcimo terceiro
                                                As ciincias da vida,
Capitulo dkcimo segundo                         as Academias
Sistema do mundo,                               e as Sociedades cientificas             249
metodologia
e filosofia na obra                             I. Desenvolvimentos das ciencias
de Isaac Newton                        229         da vida                       249
I. 0 significado filosofico                     1. 0 avanqo da pesquisa anathmica, 250;
                                                2. Harvey: a descoberta da circulaqio do san-
   da obra de Newton                    232     gue e o mecanicismo biologico, 250; 3. Fran-
1. A teoria metodologica de Newton, 232.        cisco Redi contra a teoria da geraqio espon-
                                                tinea, 251.
11. A vida e as obras                   233
1. Como Newton soube ler a queda de uma         11. As Academias
ma@, 233; 2. A polCmica com Hooke, 234.             e as Sociedades cientificas-        253
111. As "regras do filosofar"                   1. A Academia dos Linceus, 254; 2. A Aca-
                                                demia do Cimento, 254; 3. A "Royal Socie-
     e a "ontologia"                            ty" de Londres, 256; 4. A Academia Real
     que elas pressupoem                236     das CiCncias na Franqa, 257.
1.TrCs regras metodologicas, 236; 2. A teo-            -
                                                TEXTOS F. Redi: 1. Contra a teoria da ge-
ria corpuscular, 236; 3. A gravitaqiio uni-     rag20 esponthzea, 258.
versal, 237.
IV. A ordem do mundo
    e a existencia de Deus        238           Terceira Parte
1. 0 sistema do mundo C uma grande mi-
quina, 238.                                     BACON E DESCARTES
V. 0 significado da senten~a
   metodologica:                                Capitulo dkcimo quarto
   "hypotheses non fingo"               23 8    Francis Bacon:
1. 0 mitodo de Newton: formular hipote-         filosofo da era industrial               263
ses e provi-las, 238.
                                                I. Francis Bacon:
VI. A grande maquina do mundo           239        a vida e o projeto cultura-           263
1. As trCs leis do movimento, 239; 2. A lei
de gravitaqio universal, 240.                   1. Bacon: o fil6sofo da era industrial, 263.

VII. A mec5nica de Newton                       11. 0 s escritos de Bacon
     como programa de pesquisa- 241                 e seu significado                    265
1.A filosofia baconiana expressa nas obras,        1. Criticas a filosofia e a logica tradicionais,
265.                                               286; 2. Criticas ao saber matemitico, 287;
                                                   3. 0 problema geral do fundamento do sa-
111. "AntecipaqGes da natureza"                    ber, 288.
     e "interpreta~Ges natureza" -267
                     da
                                                   111. As regras do mttodo                  288
1. 0 mCtodo por meio do qua1 se alcanqa o
verdadeiro saber, 267.                             1. Conceitos e numero das regras do mito-
                                                   do, 289; 2. A primeira regra do mitodo, 289;
IV. A teoria dos "idola"                  269      3. A segunda regra do mitodo, 289; 4. A
1. Significado da teoria dos "idola", 269;         terceira regra do mttodo, 290; 5. A quarta
2 . 0 s "idola tribus", 269; 3 . 0 s "idola spe-   regra do mttodo, 290; 6. As quatro regras
cus", 270; 4. 0 s "idola fori", 270; 5. 0 s        como modelo do saber, 290.
"idola theatri", 271.                              IV. A duvida metodica
V. 0 escopo da ciincia:                                e a certeza fundamental:
   a descoberta das "formas"              272           cogito, ergo sum"
                                                       G<                                     29 1
1. Um ponto cardeal do pensamento de               1. A duvida como passagem obrigatoria,
Bacon, 272; 2. 0 poder do homem esta em            mas provisoria, para chegar a verdade,
~roduzir um corpo novas naturezas, 272;
          em                                       291; 2. Absolutez veritativa da proposi-
3. A citncia esti na descoberta das "formas",      q5o "eu penso, logo existo", 292; 3. A pro-
272; 4. A idiia baconiana de "forma", o            posiqzo "eu penso, logo existo" n5o C um
"processo latente" e o "esquematismo la-           raciocinio dedutivo, mas uma intuiqiio,
tente", 273.                                       292; 4. 0 eixo da filosofia n5o i mais a
                                                   citncia do ser mas a doutrina do conheci-
VI. A induqiio por eliminaqiio                     mento, 293; 5. 0 centro do novo saber C
    e o "experimentum crucis" - 274                o sujeito humano, 294; 6. A reta raz5o
                                                   humana, 294.
1. Critica induq5o aristotClica, 274; 2. As
trts "tabuas" sobre as quais se deve ba-           V. A existincia
sear a nova indug50, 275; 3. Como das                 e o papel de Deus                       295
trts tabuas se extrai a "primeira vindima",
275; 4. A nova induqso como "via media-            1. 0 problema da relagio entre nossas
na" entre as seguidas por empiristas e             idiias, que s5o formas mentais, e a realida-
racionalistas, 276; 5. 0 "experimentum             de objetiva, 295; 2. "IdCias inatas", "idiias
crucis", 276.                                      adventicias" e "idCias facticias", 296; 3. A
                                                   idiia inata de Deus e sua objetividade,
MAPA   CONCEITUAI. -A interpreta@o da nu-
                                                   296; 4. Deus como garantia da funq5o ve-
tureza, 278.                                       ritativa de nossas faculdades cognosciti-
TEXTOSF. Bacon: 1. A necessidade de
        -                                          vas, 297; 5. As verdades eternas, 298; 6 . 0
um novo metodo nus ciBncias e nus artes,           err0 n5o depende de Deus, mas do homem,
279; 2. As linhas gerais do novo metodo,           299.
281.
                                                   VI. 0 mundo t uma maquina                  299
                                                   1. A idCia de extens50 e sua importincia
Capitulo d k i m o quinto                          essencial, 299; 2. Apenas a extensio C pro-
Descartes:                                         priedade essencial, 300; 3. A matiria (ex-
"0 fundador                                        tens5o) e o movimento como principios
da filosofia moderna"                      283     constitutivos do mundo, 300; 4. 0 s prin-
                                                   cipios fundamentais que regem o univer-
I. A vida e as obras                       283     so, 301; 5. Reduq5o de todos os organis-
                                                   mos e do mundo inteiro a maquinas, 301.
1. Um novo tip0 de saber centrado sobre
o homem e sobre a racionalidade huma-              VII. Alma ( "res cogitans" )
na, 283.                                                e corpo ("res extensa") -302
II. A experiincia da derrocada                     1. 0 contato entre "res cogitans" e "res ex-
    da cultura da tpoca                    286     tensa" ocorre no homem, 302.
VIII. As regras da moral                             CONCE~TUAL 0 "cogit0 ",306.
                                                  MAPA         -
      provisoria                         303
1. A primeira regra, 304; 2. A segunda re-        TMTOS R. Descartes: 1.AS regras metodi-
                                                         -
gra, 304; 3. A terceira regra, 304; 4. A quarta   cas, 307; 2. 0 ''cogit0 ergo sum", 309; 3. A
regra, 304; 5. A razz0 e 0 verdadeiro corn0       "terceira meditapio" em torno de Deus e
fundamento da moral, 304.                         de sua exist2ncia, 310.
3,                                        es*




                                                                              BRUNELLESCHI   F., 147
                                                                              BRUNI 21,23-24, 31
                                                                                    L.,
                                                                                      G.,
                                                                              BRUNO 41, 55, 57, 103, 111-
Abetti G., 177, 179, 180                BACONF., 108, 139, 141, 145,
                                                      12,                        118,120,130-133,143, 168,
ACQUAPENDENTE,     F. D,' 249,250           151,153,163,239,253,257,             199,285
Afonso I1 d'Este, 45                        261,263-278,279-282               Bullart I., 136
Afonso X, rei de Leiio e Castela, 170   Bacon N., 263,264                     BUONARROTI    M., 5
AGOSTINH~   IIF HII'ONA,  16,22,68,     BadouGre J., 189, 195                 Buono, C. del, 255
   91,122,135,202                       Baliani J.B., 217                     Buono, P. del, 255
AGRIPA DE NFTTESHEIM
       C.                   (Heinrich   BANFI 167
                                              A.,                             Burckhardt I., 9, 10, 19-20
   Cornelius),161,156-158,163           BARBARO25,42E.,                       Burdach K., 9,11,20
ALBERTI 23,24-25, 147
        L.B.,                           Barone F., 166,167                    B U R I D A172 ,
                                                                                           N~
Alcibiades, 84                          BarSnio C. card., 190,202             Butterfield H., 171
ALEMBERT, LEROND 266
           J.B.              I)',       BARROW229, 233,242
                                                   I.,
ALEXANDRE  DE AFROD~SIA,   56,58,64     BAYIX 145, 151, 153
                                              P.,
Alexandre VI, 44                        BEECKMAN       I., 284
Alexandre VII, 256                      BELARMINO      R., 144,165,168,190,
AMBR~SIO,   68                              200,201,205,208,227-228
Ammannati G., 192                       Bembo P., 38,41
ANAXAG~RAS,     36,49                   BENI 145
                                             P.,
ANSELMOAOSTA,
          DE           297              BERKELEY     F., 243                  CAIETANO   (Tomas de Vio), 83
ARIST~TELES, 8, 22, 23, 24,
               3, 6,                    BERULI. DE,
                                                F P         284               CAIVINO(Jean Cauvin), 77-78,
                                                                                       G.
   25,29,31,45,47,56,57,60,             BESSAIW>NE      G., card., 32            83, 90-92, 144, 190, 200,
   63, 64, 76, 83, 94, 107, 108,        BIRINGUCCIO       V., 147                250
    109,110,115,124,137,143,            Bocchineri G., 193                    CAMPANEILA   T., 9,55,57,103,119-
    144,191,192, 197,199,207,                  J.,
                                        BODIN 99, 200                            126,133-136, 193, 199,285
   210,212,213,215,216,217,             BOHME 79,80
                                                 J.,                          Carafa, 107
   218,225,264,265,273                  BOI.ZANO 244B.,                                 J., ~
                                                                              C A R D A N160, 162-163, 265
A R N A LDE ~
           D BR~SCIA,    20             BORELLI 249,251,255
                                                  A.,                         Carlos 11, 253,256
AKNAULI) 285
          A.,                                     J.,
                                        BORELLI 255                           Carlos V, 75
A K N ~ B 68 ,
          IO                            B6rgia C., 103                        Carlos VIII, 161
ARQUIMEDES, 148, 192
               144,                               J.,
                                        B ~ T E K O96                         CASTELLI 148, 189, 193, 203,
                                                                                       B.,
Arrighetti N., 221, 222                          R.,
                                        BOYLE 145, 148, 153, 229,                205,221
Asimov I., 250                              232,239,252,254                   Castiglione B., 38,41
ATANASIO,  64                           BRA(:C:IOLINI 24 P., 23,              CAUCHY 244
                                                                                       A.L.,
AVERR~IS, 57, 58, 60, 64
           21, 56,                             T.,
                                        BRAHE 142, 152, 173-175, 176,         CAVALIERI B., 211,242
AVICENA,  158                               177,178,180,181,182,187-188       Cellari A., 142


* Neste indice:
-reportam-se em versalete os nomes dos fil6sofos e dos homens de cultura ligados ao desenvolvimento do
  pensamento ocidental, para os quais indicam-se em negrito as piginas em que o autor e tratado de
  acordo com o tema, e em itilico as piginas dos textos;
-reportam-se em itilico os nomes dos criticos;
-reportam-se em redondo todos os nomes n5o pertencentes aos agrupamentos precedentes.
Cellini B., 147, 162                                                        240,254,256,263,283,285,
CESALPINO60, 250
            A.,                                                             288,300
Cesi F., 196, 198,253,254                                                        L.,
                                                                         GALILEI 192
CICERO TULIO,
        M.        3,5,29,76,154,    ECFANTO    PITAG~KICO,171
                                                            166,         Galilei Vincenzo (filho), 192
    170,265,287                     ECKHART    (Mestre) G., 34           Galilei Vincenzo (pai), 192
CIPRIANOCARTAGO,
          DE           68           Eduardo VI, 163                      Galilei Virginia (irml Maria Ce-
Clemente VIII, 178                             A.,
                                    EINSTEIN 141,241                        leste), 192
Cola de Rienzo, 9, 11, 12           Elisabeth I, 263,264                 Gamba M., 192
Colbert J.B., 253, 257              E~rcu~to, 26, 29, 115
                                               24,                       Garin E., 3,7,8,11,18-19,22,24,
Colombo C., 161                     ERASMO ROTTERDAM
                                               DE                (Geer      27,29
COLOMBO 249,250
           R.,                          Geertsz),67-69,70,71,84-87       GASSENDI  P., 285
Constantino, imperador, 14,27       Ernesto de Baviera, 179              Gaywood R., 251
C~PPRNICO   N. (NiklasKoppemigk),   Esco~o   ERIUGENA,   34              GClio Aulo, 3, 5
    117,124,139,140,141,142,        ~ s ~ u i ndesSfetto, 23
                                                e                        GEMISTO   PI.FTON 17, 32
                                                                                           J.,
    143,144,145,152,161,166,        ESTEVAO (Stephanus), 61, 65
                                              H.                         Genser C., 163
   167-172,173,174,175,178,         EUCLIDES, 192,232, 244
                                                148,                             A.,
                                                                         GENTILI 100
   185-187,l88,l99,2Ol,206,         Eunoxlo DE CNIIIO,    244            Geymonat L., 196, 199
                                    EULER,  288                          GHIBEK~ 147
                                                                                 1 L.,
                                    EUSTAQUIO    B., 250                 Giese T., 185
Cosme de MCdici (o Velho), 38
                                                                         GILBEI~T183
                                                                                 W.,
Cosme I1 de MCdici, 189,192,195,
    197                                                                  Giordano A., 222
Cranach L., 71                                                           Giordano P., 222
CI~EMONINI  C., 60                                                       GRASSI 193, 206
                                                                                H.,
CRISOI.ORA 22, 23, 31
            M.,                                                          Gregory T., 64
Cristina da SuCcia, 283,285,286     FALOPIO 250
                                             G.,                         GKOTIUS (Huig de Groot), 100
                                                                                  H.
Cristina de Lorena, 189,193,202,    Farrington B., 266                   GUI(:CIARDINI F., 96
   203,217,221                      Ferdinand0 da Austria, 178           Guldenmann C., 177
                                    FERMAT 242, 243
                                            P.,                          Guthrie D., 161, 162
                                    FERNEI. 163,251
                                            J.,
                                    FICINO 15, 16,17,31,32,38-
                                            M.,
                                        41,42,45,52-53,54,67,71,
                                        76, 109, 113, 114, 115, 116,
                                        145,155
Da Costa Andrade, 233                                                    HAI.I.FY 229, 234
                                                                                  E.,
                                    Filipe de Hessen, 77
DARWIN 147
         C.,                                                             Hals F., 284
                                    FII.OI.AUTEBAS, 171
                                             LIE        166,
DATI C.R., 255                                                                    W.,
                                                                         HARVEY 144, 152, 163, 249,
                                    FOSCARINI200, 228
                                                A.,
          N.
DECUSA (Kryfts ou Kreb), 31,                                                250-251,252
                                    FRACASTORO   J., 151,153,160,161,
    32, 33-37,46-52, 114, 116                                            HEGEL  G.W.F., 71
                                        170
Del Monte EM., 205                                                       Henrique 111, 112, 114
                                    Francisco da Austria, 255
DELLA  PORTA   G.B., 120,145,154,                                        Henrique VIII, 97
                                    Francisco I, 104
    160,163,196                                                          HERACLIDES    P~NTICO, 171
                                                                                                 166,
                                    FRANCK 79, 80
                                             S.,
Demostenes de Atenas, 23                                                 HERACLITO    DF. EFESO, 270
                                    Frederico I1 da Dinamarca, 173,
DESCARTES   J., 283                                                      HERMES   TK~SMF.GISTO/COR~'USHER-
                                        174
            R.,
DESCARTES12, 121, 122, 125,                                                 METICUM,    1,4,7,8,14,15-16,
                                    Frederico V do Palatinato, 286
    139,141,146,153,231,232,                                                17,38,39,40,44,45,53,71,
    239,242,249,250,251,254,        Fugger S., 158
                                                                            113,145,152,155
    261,283-306,307-316                                                  HERON,   148
Devereux R., 264                                                         HERVET 61, 65
                                                                                  G.,
DIDF.ROT 266
          D.,                                                            HOBBES 243, 249, 250, 285
                                                                                 T.,
DIGGES 172
        T.,                                                              Holbein H. (o Jovem), 68,69,97
Dijksterhuis E.J., 181, 183, 233                                         Homen D., 13
Dini P., 189, 193, 201, 204         GAI.ENO, 158, 250, 265
                                           144,
                                                                         Homero, 84
Dro~Lslo AREOPAGITA   (PSEUDO),
                              17,   GALILEI 9, 12, 103, 105, 107,
                                         G.,
                                      108,110,120,137,139,140,           HOOKE 149, 150, 229, 234-
                                                                                 R.,
    33, 34, 39                                                           r 235
                                      141,142,143,144,145,146,
Donato L., 196                        147,148,149,152,153,166,           HORKY LOC:H~VIC179
                                                                                 DE              M.,
Dreyer J.L.E., 179                    168,171,173,175,176,177,           Huss J., 74
DUNS  ES(:OTO 57, 265
                J.,                   178,179,184,189-219,220-           HUYGENS 148,229,234,253,
                                                                                   C.,
Diirer A., 87                         227,228,231,232,233,239,              255,257
Jndice d e    nomes
                                                                                                         XVII


                                     Leopoldo de Toscana, 253, 254,
                                         255,256
                                     Liceti F., 218, 225
                                                                        A
IOTAI)E SIKACUSA, 170
                    166,             LICHTENBEKC   G., 166              OCKHAM 57, 71
                                                                                 G.,
INACIO L ~ Y O I . A ,
        I)F         80               Lipps J.H., 232                    OLDENBURG    H., 253,257
I K E N E ~LIAO, 68
        IIF. J                       LIPSIO (JOOS~ 61
                                            J.        Lips),            OKESME 172
                                                                                N.,
Isabel (filha de Frederico V), 286   LOCKE 229,234
                                             J.,                        O K F E U / H I N ~ S 14, 17, 38,
                                                                                      ORFI(:OS,
                                                                           39,40, 71
                                     Lorini N., 205
                                                                        Orsini card., 205
                                     Lourenfo de' MCdici, 41, 44
                                                                        OSIANL)ERA H. Hosemann),
                                                                                    (Andreas
                                     Luc"i0, 54
                                                                           144,165,168,172,199
                                     Lua&c:lo CAKO,    TITO, 115        OUGHTRED242 W.,
                                     Ludovico, o Mouro, 103
Jaime I, 264, 265
                                     Luis XIII, 121
JA~vilr~.rco CALCIDA,
           LIE        39
                                     Luis XIV, 253,257
JoHo (Evangelists), 16, 51
JoHo de Stefano, 15
                                     Lul.ro R. (Ramon Lhull), 114,307   rg
                                     L L ~ T E R ~ 69, 70-75, 76, 77,
                                              M., 67,
JOKGF. TRF.BISONI)A,
       DF.            32                 78, 79, 83, 88-90, 144, 190,                M.7   25
Juliano de Medici, 178                   200                            PARACF.I.SO      (Theophrast Bombast
Juliano o Teurgo,l6                                                           vonHohnheim),145,151,153,
                                                                              158-160, 163, 265
                                                                        ;;;czL~;;%;;         5
A                                                                       PATRIZI 45, 107
                                                                             F.,
                                            E.,
                                     MACH 231,240                       Paulet A., 264
KANT 167,229,232,233,299
      I.,                            MAESTLIN 172, 176, 177
                                                M.,                     P A U IDE TARSO, 26, 69, 78
                                                                                 .~           17,
Kepler H., 177                       MAGAI.OTTI148, 254, 255
                                                  L.,                   Paulo 111 papa, 169, 185, 199
KEIUK 139, 140, 141, 142,
         J.,                                 v.,
                                     MAGG~ 107                          PEDRO   LOMHARDO,      83
    144, 145,146,147,151, 152,       MA,pl(;,lr M., 148, 252            PFIKCE 154
                                                                                C.S.,
    153,166,168,172,173,174,         MANErrl 25 G.,                     Pelli L., 260
    175,176-184,192,195,196,
    239,242,283                      MANSO   G.B., 145                  PETRAKCA    E, 5,9,11,12,14,21-22,
KIEKKF.GAAKD     S.,71               MAQUIAVFI.  N., 93-95,96,101-102       23,28-29
KIKCHEK 260
          A.,                        MAIWLI 255
                                              A.,                       PICAKII 234
                                                                                 J.,
KI.AU (Clivio), 198, 199
      C.                             Mauricio de Nassau, 284            Picchena C., 206
~      ~ 140, 147, 167, 239j
        A., ~         ~   ,          MAuKol,lc:o F., 178, 196           Piccolomini A., 193
Kristeller PO., 3, 6, 7, 8, 18       Maximiliano da Baviera, 284        Prco DEI LA MIKANDOI.A     Giovanni, 1,
                                     MAZZONI 192
                                               J.,                          31, 32, 38, 41, 42-44, 45, 53-
KUHNTH. 141,166,167,172,
             S.,                                                            54,59,67,71,76,113,121,156
    175, 180, 181, 182, 184, 199     MF.~.ANCHTON  FV79,144,190,200
                                                M.,
                                     MERSENNE 125,254,284,285           Pr(x' GianfrancescO, 61
                                     Micincio F., 192                   PIF.RO I A FKANCFSCA,
                                                                               DEI                   147
                                     Mierevelt, M. van, 100             Pio XI papa, 97
                                     Mocenigo J., 111, 113              PITAGORAS,40    38,
                                     MoisCs, 16                         PLATAO,7, 8, 14, 17,21,22,23,
                                                                                  4,
LAcTANclo L.C. FIRMIANo, 16,169                                             25, 31, 38, 39,40,45,46, 53,
                                     MONTAIc;NE, 61-62, 65-66
                                                   M. de,
Larmessin, N. de, 136                                                       64, 76, 84, 87, 94, 124, 210,
                                     M o ~ u T., 97-98
                                             s
LAUSCHEN (Rheticus), 165,
            G.J.                     Miintzer T., 77                        265
   168,169,171                                                          PIOTINO DF. LI(:(POI 4, 7, 8, 39,
                                                                                                IS,
                                     Muraro L., 164
LAVATEK 154
        J.C.,                                                               45,52,115
          A.-L.,
LAVOISIF.~ 141                                                          PLUTAKCO      IIE QUERON~.IA, 23
LEAO HEBKEU  (JehudahAbarbanel),                                        Poliziano A., 54
   41                                                                   P o ~ n r ~ * zP. r
                                                                                          z (Peretto Mantova-
LeHo X papa, 104, 187                                                       no), 6, 57, 58-60, 63-65
LEEUWENHOEK, 148,252
                A. VAN,              Nard2 B., 60                       POPE 137
                                                                              A.,
LEF~VKE D'~TAPLESJ. (Faber Stapu-    N E w m I., 137, 139, 141, 142,
                                              ~                         PoR~~IO          T1~0, 39
   lensis), 77                          147, 149, 150, 152, 176,184,    Pnocr o,r39, 45, 169
       G.W.,
LEIRNIZ 211,232,242,244,                211,229-244,245-248, 253        ~ ~ ~ 1 . M.,039
                                                                                  1 .
   254,283                           Niethammer, El., 4                 P T ~ L ~ M124, ,151, 154, 171,
                                                                                          EU
LEONAKDO    DA VINCI, 103-105,
                     4,              NOVAL~S, 114                            174,192,197,199,200,204
    127-128, 147                     NOVAKA  D.M., 169                  Piitter, 80
SOCRATES,  22,28, 59,68, 84, 94   VFSALIO 249, 250
                                                                              A.,
                                           B.,
                                  SP~NOZA41, 111, 114, 117          VIETE 242
                                                                          F.,
                                  Sprat R.T., 266                   Vinta B., 218, 226
RAWLEY 264
         W.,                      Stevenzoon van Calcar J., 250     VITRUVIO,   148
Rmr F., 249,251-252,255,258-             F.,
                                  SUAREZ 80, 83                     VIVIANI 148, 189, 194,255
                                                                            V.,
   260                            Sylvius, 163                      VOET (VoCcio),285
                                                                          G.
           E.,
RF.INHOI.D 172                                                      VOLTA~RF. (ArouetEM.), 233,
                                                                              F.M.
REUCHLIN  J. (Capnion), 156                                            235
REY 148
    J.,
Rheticus (ver Lauschen G.J.)
Rlccr O., 189, 192
Richelieu, A.-J. card. de, 119    TARGIONI-TOZZETTI G., 255
RINALDINI255
           C.,                    TARTAGLIA189, 192
                                              N.,                   W~LLENSTE~N
                                                                              A., 180
Rodolfo I1 de Asburgo, 112,174,   TELBSIO 55,57,103,106-110,
                                          B.,                       WALLIS 242,243, 244
                                                                         J.,
    178                               121,123,129
                                                                         M.,
                                                                    WFRER 78
Ronchi V., 178,196                TEM~STIO, 64
                                                                    WEICEL 79-80
                                                                          V.,
Rosselli C., 54                   Ticiano, 82, 250
                                                                    WOI.FF 80, 83
                                                                         C.,
Rossi P., 175, 254                TOMAS AQUINO,
                                         DE        57,58,63, 64,
                                                                         C.,
                                                                    WREN 229,234
                                      83,120,135,265
                                                                    WYCLIF 74
                                                                          J.,
                                  Tomis de Vio (ver Caietano)



Sagredo G., 192,207
SAI.UTATI21, 22
          C.,                                                       Xenofonte de Atenas, 23
Salviati F., 207
Santi di Tito, 95
                                  ULIVA 255
                                       A.,
Sarpi P., 192
Savonarola J., 42
                                  Urbano VIII (Maffeo Barberini),   A
                                     121,191,193,206,208,285        Yates F.A., 113
SCHLEIERMACHER 114F.D.E.,
SCH~LARIOS    GENNADIO J., 32
Schonberg N., 167, 185
      A.,
SEGNI 255
S~NECA, 76
         28,
        M.,
SERVET 79,249,250                 VALLA 15,26-27,29-30
                                        L.,                         ZABARELLA
                                                                            J., 60
SEXTO  EMI~~R~<:o, 65
                  61, 62,         VALTUR~O  DE R~MINI,
                                                     147            Z~ROASTRO(ZARATUSTRA)/ORACU-
SIWR BRABANTE, 57
      LIE            55,          VANINI 60
                                        J.C.,                         LOS CALDEUS, 16-17, 38,
                                                                                   14,
SOCINO 79F.,                      Vayringe, 255,256                   39,40,43, 45, 71
SOCINO 79L.,                      Verrocchio A., 105                ZW~NGLIO
                                                                           U., 76-77, 83
antecipaqiio da natureza, 267                  idtia, 297
anticopernicanos, 200                          indu~iio elimina~iio,
                                                        por            275
                                               interpretaqso da natureza, 268
rq
"cogito, ergo sum", 292



evidtncia, 289                                 "res cogitans" e "res extensa", 293
experitncia (papel da experitncia na pesqui-
sa cientifica), 218



Ft religiosa (finalidade da f i ) , 203        sorte do De revolutionibus, 172
DO HUMANISM0
 A DESCARTES
E A RENASCENCA

Origens
Tra~os
     essenciais
Desenvolvimentos




  'Magnum miracu/um est homo. "
                    Hermes Trismegisto, Asc/ep/i/s

  '6suprema merakdde de Deus Pai! 0 suprema
  e admira've/fekcidadedo homed H o r n ao qua/
  foi concedido obter aqu//oque dese/b e ser aqu//o
  que quel Ao nascerem, 0s brutos /evam consgo,
  do seio materno, tudo aqu//oque ter20, 0 s esp/i-
  tos supeflores, desde o Ihicio oupouco depois, ja
  s20 aqulo que ser20 nos secu/os dos secu/os.No
  h o r n nascente, o Oai depositou semenfes de
  toda especie e germs de toda vida. 6 2 medida
  que cada um os cu/tiva/;e/escrescerao e ne/e da-
  r2o seus frutos, E se forem vegetais, serap/anta;
  se forem sensive&,sera'bruto,,se forem racionais,
  se tornard amha/ ce/este; se forem /hie/ectua/s,
  sera' anjo e Mho de Deus. Se, contudo, n20 con-
  tente com a soHe de nenhuma cHatura, se reco-
  /her no centro de sua unidade, tornando-se um so
  esphito corn Deus, na sokta'rianevoa do Pa/;aque/e
  que foiposto sobre todas as coisas estara' sobre
  todas as coisas. "
                               Pico della Mirandola
Capitulo primeiro

0 pensamento humanista-renascentista
e suas caracteristicas gerais

Capitulo segundo

0 s debates sobre problemas morais e Neo-epicurismo

Capitulo terceiro

0 Neoplatonismo renascentista

Capitulo quarto

0 Aristotelisrno renascentista e a revivescGncia do Ceticismo

Capitulo qulnto

A Renascenqa e a Religiiio

Capitulo sexto

A Renascenqa e a Politica

Capitulo sCtimo

Virtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista:
Leonardo, Telesio, Bruno e Campanella                            103
Capit~Io
                                     primeiro


0 pensamento hMmanista-renascentista
          e s a caracteristicas gerais
             M s




                     d o terrno "tl~zrnanisrno"


        0 termo "Humanismo" foi usado pela primeira vez no inicio do 800 para
indicar a area cultural coberta pelos estudos classicos e pelo espirito que Ihe e
proprio, em contraposi@o ao bmbito das disciplinas cientificas. A palavra hu-
manista, porem, ja era empregada pela metade do 400, e deriva
de humanitas, que em Cicero e Gelio significa educa@o e forma-       Humanismo
@o espiritual do homem, na qua1 tern papel essencial as discipli-
nas literarias (poesia, retdrica, historia, filosofia).            essential
      Ora, a partir sobretudo da metade do 300, e depois de mod0 representado
sempre crescente nos dois seculos sucessivos, desenvolveu-se na pelas "litterae
ltalia justamente uma tendencia a atribuir valor muito grande humanae"
aos estudos das litterae humanae e a considerar a antiguidade + 9 1
classics, grega e latina, como um paradigma e um ponto de refe-
rencia para a atividades espirituais e a cultura em geral. "Humanismo", portanto,
              s
significa em geral esta tendencia que, surgida essencialmente no seio da cultura
italiana, pelo fim do 400 se difundiu em muitos outros paises europeus.

        Entre os estudiosos contemporbneos do Humanismo, sobressaem princi-
palmente P.O. Kristeller e E. Garin, cujas interpretac;ijes contrapostas resultam
na realidade muito fecundas justamente por sua antitese el se prescindirmos de
alguns pressupostos dos dois autores, podemos integrd-las mutuamente.
      Segundo Kristeller, o Humanismo representaria apenas me-
tade do fenbmeno renascentista e melhor dizendo, a " literaria", ouas
                                   ,                                      djfeEnte,
na"o a filosdfica; portanto, ele seria plenamente compreensivel teses modernas
apenas s considerado junto com o Aristotelismo que s desen- sobre o
          e                                              e
volveu paralelamente, e que expressaria a verdadeiras ideias fi- significado
                                            s
losoficas da epoca.                                                 filosdfico
      Segundo Garin, ao contrario, os Humanistas s voltaram a de Humanism0
                                                    e
um tip0 de especu1ac;a"ona"osistematica, problematica e pragmd-     +   3
tica, e formaram novo metodo que, centrado sobre um novo sen-
tido da historia, deve ser considerado como efetivo filosofat; a direc;(?o  contem-
plativo-metafisicaem que o Humanismo italiano embocou desde a segunda me-
tade do 400 teria sido portanto a consequencia do advent0 das Senhorias e do
eclipsar-se das liberdades politicas republicanas.

       Ora, e verdade que "humanista" indica originariamente a tarefa do litera-
to, mas tal tarefa foi muito alem do ensino universitdrio, entrou na vida ativa e se
tornou de fato "nova filosofia". Alem disso, o Aristdteles deste period0 foi um
Aristoteles frequentemente lido no texto original, sem a mediaslio das tradu@es
e das exegeses medievais; tratou-se, portanto, de um Aristoteles revisitado corn
4
       Primeira parte - O t l u m a n i ~ m ~ R e n a s c e n c a
                                          ea




                   novo espirito que apenas o Humanismo pode explicar. Por fim, a
  pOssibi'idade    grande mudanca do pensamento humanista n l o esteve apenas
  de integrar
  mutuamente       ligada a uma mudanca politica, mas a descoberta e As tradu~aes
  as duas          de HermesTrismegisto e dos Profetas-Magos, de Platlo, de Plotino
  interpretac5es   e de toda a tradiclo platgnica. A marca que contradistingue o
  opostas          Humanismo foil portanto, um novo sentido do homem e de seus
  +§3              problemas, novo sentido que encontrou expressdes multiformes
                   e por vezes opostas, mas sempre ricas e freqiientemente muito
 originais, e que culminou nas celebrac$es teoricas da "dignidade do homem" como
 ser "extraordinario" em relaclo a toda a ordem do mundo.



                                                               A quest50 revela-se ainda mais com-
                                                         plexa pelo fato de que, nesse periodo, n5o
                                                         ocorre apenas mudanqa no pensamento fi-
                                                         losofico, mas tambCm, em geral, a mudan-
                                                         qa da vida do homem, em todos os seus as-
                                                         pectos: sociais, politicos, morais, literarios,
      Ha toda uma interminavel literatura                artisticos, cientificos e religiosos. E tornou-
critica sobre o periodo do Humanismo e do                se bem mais complexa ainda pel0 fato de que
Renascimento. No entanto, os estudiosos                  as pesquisas se tornaram predominantemen-
n5o conseguiram chegar a uma definiqso das               te analiticas e setoriais, e os estudiosos apre-
caracteristicas dessa Cpoca, capaz de reunir             sentam a tendencia de fugir das grandes sin-
um consenso unhime, mas, pouco a pou-                    teses ou at6 simplesmente das hipoteses de
co, enredaram a tal ponto a meada dos va-                trabalho de carater global ou das perspecti-
rios problemas que hoje C dificil para o pro-            vas de conjunto.
prio especialista desenreda-la.                                Assim, C necessario antes de mais nada
                                                         focalizar alguns conceitos bisicos, sem os quais
                                                         nHo seria possivel sequer a exposiq50 dos va-
                                                         rios problemas relativos a esse periodo.
                                                               Comecemos por examinar o pr6prio
                                                         conceit0 de "humanismo".
                                                               0 term0 "humanismo" C recente. Pare-
                                                         ce que foi usado pela primeira vez pel0 fi-
                                                         losofo e teologo alemiio F. I. Niethammer
                                                         (1766-1848) para indicar a area cultural
                                                         coberta pelos estudos classicos e pel0 espi-
                                                         rito que Ihe 6 proprio, em contraposiqHo com
                                                         a area cultural coberta pelas disciplinas cien-
5
    Capitdo primeiro - 8 p e n s a m e n t o h u m a n i s t a - r e n a s c e n t i s t n   e suds caracteristicas



tificas. Entretanto, o termo "humanista" (e                         pela intensidade, a ponto de marcar o ini-
seus equivalentes nas varias linguas) nasceu                        cio de um novo period0 na historia da cul-
por volta de meados do skulo XV, calcado                            tura e do ensa amen to.
nos termos "legistan, "jurista", "canonista"                              Grande fervor nasceu em torno dos
e "artista", para indicar os professores e                          cl6ssicos latinos e gregos e de sua redesco-
cultores de gramatica, retorica, poesia, his-                       berta, do paciente trabalho de pesquisa de
toria e filosofia moral. Ademais, j i no s k u -                    codices nas bibliotecas e de sua interpreta-
lo XIV falava-se de studia humanitatis e de                         qiio. Varios acontecimentos levaram a uma
studia humaniora, expressoes referidas a                            nova aquisiqiio do conhecimento da lingua
famosas afirmagoes de Cicero e Gelio para                           grega, considerada patrim6nio espiritual
indicar essas disciplinas.                                          essencial do homem culto (as ~rimeiras >
                                                                                                             c5-
                                                                                                               A

        Para os mencionados autores latinos, hu-                    tedras de lingua e literatura gregas foram
manitas significava aproximadamente aqui-                           instituidas no Trezentos, mas a grande di-
lo que os heknicos indicavam com o termo                            fusiio do grego ocorreu sobretudo no Qua-
paideia, ou seja, educagiio e formaqiio do                          trocentos. De mod0 especial, o Concilio de
homem. Ora, nessa Cpoca de formaqiio es-                            Ferrara e Florenqa, em 1438-1439, e, logo
piritual considerava-se que as letras, ou seja,                     depois, a queda de Constantinopla, ocorri-
a poesia, a retorica, a historia e a filosofia                      da em 1453. levaram alguns doutos bizan-
                                                                                                      L,


desempenhavam um papel essencial. Com                               tinos a fixar moradia na Itdia, tendo por
efeito, siio essas disciplinas que estudam o                        conseqiihcia um grande increment0 no en-
homem naquilo que ele tem de peculiar, pres-                        sino da lingua grega).
cindindo de qualquer utilidade pragmatica.
Por isso, mostram-se particularmente capa-
zes niio apenas de nos dar a conhecer a na-
tureza especifica do proprio homem, mas
tambem de fortale&-la e potencializa-la.
        Sobretudo a partir da segunda metade
do Trezentos e depois, sempre de forma cres-
cente, nos dois seculos seguintes (com seu
ponto culminante precisamente no sCculo
XV), verificou-se uma tendEncia a atribuir
aos estudos relativos as litterae humanae um
grande valor, considerando a antiguidadeclas-
sics, latina e grega, como paradigma e ponto
de referkcia para as atividades espirituais e
a cultura em geral. Pouco a pouco, os auto-
res latinos e gregos se firmavam como mo-
delos insuper6veis nas chamadas "letras hu-
manas", verdadeiros mestres de humanidade.
        Assim, "humanismo" significa essa ten-
 d h c i a geral que, embora com precedentes
 ao longo da tpoca medieval, a partir de Fran-
cisco Petrarca, apresentava-se agora de mo-
 do marcadamente novo por seu particular
 colorido, por suas modalidades peculiares e


               0 ce'lehre "Davt " de M~chelangelo,
                nu m u p t a d e e nohreza dos t r a p s ,
                              rejmsenta vtsua~rnentr,
                             de rnodo puradrgmatl~o,
                       o concerto do hornern conzo
                   "o rnamr rnllugre" do unwerso,
          que constltnr umu das chaues esprrrtuurs
                        mars tlpzcas du Renuscen~a.
               0 "Davl" se encontra ern Floren~a,
                            na Gulerra cia Academta,
    e utnu copra dele esta na P~uzzadella Stgnorru.
Primeira parte - 0+Iumuni.;~?o i. n   Renuscrncn



   ,,,, A s d u a s mais                         sadores peripattticos que retornassem aos
                                                 textos gregos de Aristoteles, deixassem de
     ~i~nificativas
                                                 lado as traduqdes latinas medievais e fizes-
                                                 sem uso dos comentadores gregos e tambCm
                                                 de outros pensadores gregos.
                                                       Desse modo, destaca Kristeller, os es-
                                                 tudiosos hostis h Idade MCdia confundiram
                                                 esse aristotelismo renascentista com o resi-
                                                 duo de tradi~oes   medievais superadas e, por-
      Entre as interpretaqdes contempori-        tanto, como residuo de urna cultura ultra-
neas do "humanismo", duas s i o as mais im-      passada, pensando que deviam deixa-lo de
portantes por se referirem a o seu significa-    lado em beneficio dos "humanistas", verda-
do filosofico.                                   deiros portadores do novo espirito renas-
                                                 centista. Mas, segundo Kristeller, tratar-se-
                                                 ia de grave err0 de compreensiio historica,
                                                 porque frequentemente a condenaqiio do
                                                 aristotelismo renascentista foi feita sem urna
                                                 efetiva consci2ncia daquilo que se estava
       De um lado, P.O. Kristeller procurou      condenando. A exceqio de Pomponazzi (do
limitar fortemente o significado filosofico e    qual falaremos adiante), que no mais das
teorttico do humanismo, inclusive a ponto        vezes foi seriamente considerado, um grave
de elimini-lo.                                   preconceito condicionou o conhecimento
       Segundo esse estudioso, bastaria dei-     desse momento da historia do pensamento.
xar a o termo o significado te'cnico que pos-    E necessario, portanto, estudar a fundo as
suia originalmente, restringindo-o assim ao      questdes discutidas pelos aristotClicos italia-
imbito das disciplinas retorico-literarias       nos desse periodo: desse modo, cairiam por
(gramatica, retorica, historia, poesia e filo-   terra muitos lugares-comuns que so se man-
sofia moral).                                    tem porque foram continuamente repetidos,
       Conforme Kristeller, os humanistas do     mas que carecem de base solida, emergindo
periodo de que estamos tratando foram su-        consequentemente urna nova realidade his-
perestimados, sendo-lhes atribuido um pa-        torica.
pel de renovaqio do pensamento que eles,                Em conclusio, o humanismo repre-
na realidade, niio desempenharam, visto que      sentaria apenas uma metade do fen6meno
niio se ocuparam diretamente da filosofia e      renascentista e, mais ainda, a metade ndo
da ciencia. Em suma, para Kristeller, os hu-     filosofica. Assim, ele so seria plenamente
manistas niio foram verdadeiros refor-           compreensivel se considerado junto com o
madores do pensamento filosofico porque,         aristotelismo que se desenvolveu paralela-
de fato, niio foram filosofos.                   mente, o qual expressaria as verdadeiras
       Na visio de Kristeller, para compreen-    idCias filosoficas da Cpoca. Ademais, segun-
der a Cpoca de que estamos falando, seria        do Kristeller, os artistas do Renascimento
necessario dedicar atenqio h tradigdo aris-      niio deveriam ser vistos na otica do grande
tote'lica, que tratava de mod0 sistematico da    "genio criativo" (que constitui urna visiio
filosofia da natureza e da logica, que ja ha-    romintica e um mito oitocentista), mas sim
via se consolidado fora da Itilia (sobretudo     como "otimos artesiios", cuja excekncia n5o
em Paris e Oxford) ha bastante tempo, mas        decorre de urna espCcie de superior adivi-
que na Itilia so se consolidaria mais tarde.     nhaqiio dos destinos da cicncia moderna, e
Diz Kristeller que foi na segunda metade do      sim da bagagem de conhecimentos ticnicos
Trezentos que "comeqou urna tradiqiio con-       (anatomia, perspectiva, mecgnica etc.), con-
tinua de aristotelismo italiano, a qual po-      siderada indispensiivel para a pratica ade-
de ser seguida atravis do Quatrocentos e         quada de sua arte. Por fim, se a astronomia
do Quinhentos e at6 por boa parte do Seis-       e a fisica realizaram progressos notiveis, niio
centos".                                         foi por motivo de sua ligaqiio com o pensa-
       Esse "aristotelismo renascentista" se-    mento filosofico, e sim com a matematica.
guiu os mCtodos proprios da "escolastica"        0 s filosofos tardaram a se harmonizar com
(leitura e comentario dos textos), mas enri-     essas descobertas, porque, tradicionalmen-
quecendo-se com as novas influcncias huma-       te, n5o havia uma conexio precisa entre
nistas, que exigiriam dos estudiosos e pen-      matematica e filosofia.
7
    Capitulo primezro - 0 p e n s a m e n t o   humantsta-renascentista e s u d s cavactevisticas



                                                         culado B liberdade politzca daquele momen-
                                                         to. 0 advent0 das tutelas e o eclipsar-se das
      Diametralmente oposta C a reconstru-               liberdades politicas republicanas transfor-
qiio de EugBnio Garin, que reivindicou ener-             mou os literatos em cortesiios e impeliu a
gicamente uma precisa valGncia filosdfica                filosofia para evas6es de carater contem-
para o humanismo, notando que a negaqiio                 plativo-metafisico. b:
                                                                             i?
de significado filosofico aos studia huma-
nitatis renascentistas deriva d o fato de que,
"no mais das vezes, entende-se por filosofia
a constru~iio sistematica de grandes propor-                 ;   Possivel mediaG6o sintLtica
@es, negando-se que a filosofia tambe'm                          d a s duas i n t e ~ p r e t a q 6 e s
pode ser outro tip0 de especula@o niio sis-
                                                                 opostas
tematica, aberto, problematico e pragma-
tic0 ".
      Alias, diz Garin, a atenqiio "filologica"
para com os problemas particulares "cons-                      Na realidade, as teses contrapostas de
titui precisamente a nova 'filosofia', ou seja,          Kristeller e de Garin revelam-se muito fe-
o novo mitodo de examinar os problemas,                  cundas precisamente por sua antitese, por-
que, portanto, niio deve ser considerado, ao             que uma destaca aquilo que a outra silen-
lado da filosofia tradicional, como um as-               cia, podendo portanto ser integradas entre
pecto secundario da cultura renascentista,               si, se prescindirmo? de alguns pressupostos
como acreditam alguns (basta pensar, por                 dos dois autores. E verdade que, original-
exemplo, na posiqiio de Kristeller que exa-              mente, o termo "humanista" indica o ofi-
minamos), e sim como o proprio filosofar                 cio do literato, mas essa profissiio vai bem
efetivo ".                                               alCm do simples ensino universitario, entran-
      Uma das mais destacadas caracteristi-              do na vida ativa, iluminando os problemas
cas desse novo mod0 de filosofar t o senti-              da vida cotidiana, tornando-se verdadeira-
do da histdria e da dimensiio historica, com             mente uma "nova filosofia".
seu respectivo sentido de objetivaqiio e de                    Ademais, o humanista distingue-se efe-
afastamento critic0 do objeto historicizado,             tivamente pel0 novo modo como 16 os clas-
ou seja, historicamente considerado.
      A esshcia do humanismo niio deve ser
vista naquilo que ele conheceu do passado,
mas sim no mod0 em que o conheceu, nu
atitude peculiar que adotou diante dele.
      Mas a tese de Garin niio se reduz a isso.
Ele coloca a nova "filosofia" humanista na
realidade concreta daquele momento da vida
hist6rica italiana, tornando-a uma expres-
S ~ dessa realidade, a ponto de explicar com
     O
razoes sociopoliticas a reviravolta sofrida pe-
lo pensamento humanista na segunda meta-
de do Quatrocentos. 0 primeiro humanismo
foi uma exaltaqiio da vida civil e das pro-
blematicas a ela ligadas, porque estava vin-



                                      " A Filosofia ",
                 incisuo tirada da Biblioteca Ciuica
                              "A. Mai" de Be'rgumo.
                        0 estudo du filosofiu antiga
                          alirnentou o nouo espirito
 prescnte no pemamento hurnanistu-re~zascentista.
                       Este esta ligado us trudup5es
                             de Hcrmcs Trismegisto,
         tfos Profetus-Maps, ifc Pldtiio, rfe Plotitto
                     c de toda a tradiqiio plutiinicu.
um Aristoteles revisitado com novo espiri-
                                                             to, que so o "humanismo" pode explicar.
                                                             Portanto, Garin tem razio ao destacar o fato
                                                             de que o humanismo olha o passado com
                                                             novos olhos, com os olhos da "historian, e
                                                             que so atentando para esse fato C que se pode
                                                             compreender toda essa ipoca.
                                                                   E a aquisiqio do sentido da historia
                                                             significa, ao mesmo tempo, aquisiqiio do
                                                             sentido de sua propria individualidade e
                                                             originalidade. So se pode compreender o
                                                             passado do homem quando se compreende
                                                             sua "diversidade" em relaqio ao presente e,
                                                             portanto, quando se compreende a "peculia-
                                                             ridade" e a "especificidade" do presente.
                                                                   Por fim, no que se refere excessiva
                                                             vinculagio do humanismo aos fatos politi-
                                                             cos, que leva Garin a algumas afirmaqdes
                                                             que correm o risco de cair no historicismo
                                                             sociologista, basta destacar que a grande
                                                             mudanga do pensamento humanista n i o
                                                             esta ligada somente a uma mudanga politi-
                                                             ca, mas tambim A descoberta e as tradu-
                                                             qdes de Hermes Trismegisto e dos profetas-
" A Kcttir~sir", irzcrsiio tirilda cia Biblioteca Ci'clica
                                                             magos, de Platio, de Plotino e de toda a
                                AS
" A . hlill" de B i r g ~ t n o . Iittcrae humanae           tradiqio plathica, o que representou a aber-
sor~stlturrno c-orupio du ~ C M ~ ~ L hurnutzistil.
                                          LYLI               tura de novos e ilimitados horizontes, de que
lIntrc cstus rcsrrfwse pzrticuhr ateiz@o 2 rettjrica,        falaremos adiante. De resto, o proprio Garin
porquc soizstitui elemento de continuitfade                  n i o se deixou levar por excessos sociolo-
cJtztrea paidkia antiga e enodcrna.                          gistas, como, no entanto, fizeram outros
                                                             intirpretes por ele influenciados.
                                                                   Concluindo, podemos dizer que a mar-
sicos: houve um humanismo literario por-                     ca que distingue o humanismo consiste em
que surgiram novo espirito, nova sensibili-                  um novo sentido do homem e de seus proble-
dade e novo gosto, com os quais as letras                    mas: um novo sentido que encontra expres-
foram revisitadas. E o antigo alimentou o                    sdes multiformes e, por vezes, opostas, mas
novo espirito, porque este, por seu turno,                   sempre ricas e freqiientemente muito origi-
iluminou o antigo com nova luz.                              nais. Novo sentido que culmina nas celebra-
      Kristeller tem razio quando lamenta que                q6es teoricas da "dignidade do homem"
o aristotelismo renascentista seja um capi-                  como ser em certo sentido "extraordinirio"
tulo a ser reestudado desde o inicio e tambCm                em relaqio a toda a ordem do cosmo, como
tem razio ao insistir no paralelismo desse                   veremos adiante. Mas essas reflex6es teori-
movimento com o movimento propriamen-                        cas nada mais s i o do que express6es concei-
te literario. Mas o pr6prio Kristeller admite                tuais que tim nas representaq6es da pintu-
que o Aristoteles desse period0 t um Aristo-                 ra, da escultura e de grande parte da poesia
teles freqiientemente procurado e lido no                    as correspondincias visuais e fantistico-ima-
texto original, sem a mediaqio das tradu-                    ginativas que, com a majestade, a harmo-
qdes e das exegeses medievais, tanto que                     nia e a beleza de sua figuragio, expressam a
chega at6 a retornar aos comentadores gre-                   mesma idtia, de varios modos, com esplin-
gos para ser iluminado. Assim, trata-se de                   didas variaqdes.
9
   Capitdo prirneiro   - O   pensamento   humanists-renascentista e slnas caracteristicas



                  I.
                  IConceito historiogr6fico,
                 cronoIogia e caracteristicas
                              da "Renascenca"


        A categoria historiografica da "Renascenqa" se impbs no 800 graqas a
1. Burckhardt, segundo o quai a express%o     designava um fenbmeno de origem
tipicamente italiana, oposto a cultura medieval: um fenbme-
no caracterizado pelo individualismo pratico e teorico, a par- A Renascenqa
tir da exaltaqao da vida mundana, do acentuado sensualis- na defini@o
mo, da mundaniza(;ao da religiao, da tendhcia paganizante, oitocentista
da liberdade em relaqao as autoridades que no passado ti- + § 1
nham dominado a vida espiritual, do forte sentido da historia,
do naturalism0 filos6fic0, do extraordinario gosto artistico. "Renascenqa" se-
ria, afinal, a sintese do novo espirito, que se criou na Ithlia, com a antiguidade:
o espirito que, rompendo definitivamente com o da era medieval, abre a era
moderna.

       Em nosso seculo esta interpretaqao foi muitas vezes contestada, particu-
larmente por K. Burdach. 0 s Humanistas explicitamente usaram expressiies como
"fazer reviver", "fazer renascer", e contrapuseram a nova era
em que viviam com a medieval como a era da luz a era da 06s- A Renascenqa
curidade e das trevas. A ldade Media, porem, foi uma epoca de         nova
grande civilizat;lo, percorrida por fermentos e frCmitos de vari- interpretaqao:
os generos quase que desconhecidos aos historiadoresdo Oito- nascimento
centos. Portanto, 0 "Renascimento" que constituiu a peculiari- de nova
dade da "Renascenc;a" foi mais o nascimento de outra civilizaq~o, civiIizaqso
de outra cultura: a Renascenqa representou grandioso fenbme- baseada
no de "regenerasao" e de "reforma" espiritual, em que a volta sobre a volts
aos antigos significou revivesc6ncia das origens, "retorno aos aOSanfig0s
principios aut6nticos", e a imita@o dos antigos revelou-se como      3 2-3     +




o caminho mais eficaz para recriar e regenerar a si mesmos. Em
tal sentido, Humanismo e Renascen~a     constituem uma so coisa, e o Humanismo
torna-se fenbmeno literario e retorico apenas no fim, ou seja, quando s expan-
                                                                          e
de o novo espirito vivificador.

       Do ponto de vista cronologico, o periodo humanista-renascentistaocupou
inteiramente o 400 e o 500, mas seus preludios devem ser buscadosja no 300 (nas
figoras de Cola de Rienzo e de Francisco Petrarca), enquanto o
epllogo alcansa os primeiros decCnios do 600 (com a figura de Cmno/ogia e
Campanella); do ponto de vista dos conteudos filos<5ficos,no 400 caracteristicas
prevalece o pensamento sobre o homem, enquanto o pensamento essenciais do
do 500 abrasou tambem a natureza. A Renascenqa representou periodo
uma era diversa tanto da medieval, como da moderna (a qua1 humanists-
comega corn a revolu@o cientifica, ou seja, com Galileu); assim renascentista
como na ldade Media devem ser buscadas a raizes da Renascen-
                                           s                       3 4-5       +


$a, por sua vez, na Renascenqa devem ser buscadas a raizes do
                                                      s
mundo moderno, ou melhor, o epilog0 da Renascenqa e marcado pela propria
revoluq%o  cientifica.
10
        Primeira parte - 8t l ~ m a n i s m ~ R e n a s c e n c a
                                           ea



      f i n t e r p r e t a q 2 ; o o i t o c e n t i s t a   que viu surgir nova cultura, oposta a me-
                                                               dieval. E a revivesc$ncia do mundo anti-
      da " R e n a s c e n c a "                               go teria desempenhado nisso um papel
      c o m o surgimento                                       importante, mas n i o exclusivamente deter-
      d e novo e s p i r i t o                                 minante. Portanto, partindo da renascen-
      e de nova cultura
                                                               Ca da antiguidade, passou-se a chamar de
                                                               "Renascenqa" toda essa ipoca, que, po-
      q u e valorizam                                          rim, i algo mais complexo: com efeito, i
      o w~uncfo n t i g o
               a                                               a si'ntese d o n o v o espirito que se criou na
                                                               Italia com a propria antiguidade - i o
      e m oposi@o
                                                               espirito que, rompendo definitivamente
      A Jdade Mkdia                                            c s m o espirito da ipoca medieval, inau-
                                                               gurou a tpoca moderna.
                                                                     Essa interpretaqiio foi muito contesta-
      0 term0 "Renascimento", como ca-                         da, por virias vezes, em nosso siculo. Alguns
tegoria historiogrifica, consolidou-se no Oi-                  chegaram mesmo a duvidar que a "Renas-
tocentos, em grande parte por mirito de                        cenqa" constitua efetiva "realidade histo-
uma obra de Jacob Burckhardt (1818-1897)                       rica" e n i o seja muito mais (ou predomi-
intitulada A cultura d a R e n a s c e n ~ ana                 nantemente) uma invenqio construida pela
Italia (publicada em Basiliia, em 1860),                       historiografia oitocentista.
que se tornou muito famosa, impondo-se                               Variados e de diversos tipos foram os
longamente como modelo e como ponto de                         reparos trazidos sobre a questio.
referencia indispensavel. Na obra de Burck-                          Alguns observaram que, se atentamen-
hardt, a Renascenqa emergia como fen&                          te estudadas, as varias "caracteristicas" con-
meno tipicamente italiano quanto A suass                       sideradas tipicas do Renascimento podem
origens, caracterizado pelo individualis-                      ser encontradas na Idade Me'dia. Outros
mo pratico e teorico, pela exaltaqio da vi-                    insistiram muito no fato de que, a partir do
da mundana, pel0 acentuado sensualismo,                        sic. XI, mas sobretudo nos sics. XI1 e XIII,
pela mundanizaqio da religiiio, pela ten-                      a Idade MCdia pode ser considerada plena
dcncia paganizante, pela libertaqio em                         de "renascimentos" de obras e autores an-
relaqio A autoridades constituidas que ha-
          s                                                    tigos, que pouco a pouco emergiam e eram
viam dominado a vida espiritual no pas-                        recuperados. Conseqiientemente, esses au-
sado, pelo forte sentido de historia, pel0                     tores negaram validade dos pariimetros tra-
naturalism0 filosofico e pel0 extraordinii-                    dicionais que durante longo tempo basea-
rio gosto artistico. Segundo Burckhardt,                       ram a distinqiio entre a Idade MCdia e a
a Renascenqa seria portanto uma ipoca                          "Renascenqa".
11
           primeir0 - 0pensamento humanista-renascentista e suas caracteristicas
    Capit~l0

         nova interpreta~Zio                    na idCia de renascimento do espirito nacio-
                                                nal unido a fe', que na Italia se expressou so-
     da lI'Rena~~enCa"
                                                bretudo em Cola de Rienzo, em cujo projeto
     como l'venovatio"                          politico a idCia de renascimento religioso C
     e a "volta aos antigos"                    inserida no projeto politico de renascimento
                                                hist6rico da Ithlia, gerando vida nova.
     cowo        "volts   aos principios"
                                                      Cola de Rienzo (1313-1354) torna-se
                                                assim (junto com Petrarca) o mais significa-
                                                tivo precursor da grande Cpoca da Renas-
      Todavia, logo se estabeleceu novo equi-   cenga italiana.
librio, reconstituido em bases bem mais s6-           "Renascenga" e "Reforma" expressam
lidas.                                          conceitos que se interpenetram at6 consti-
      Em primeiro lugar, estabeleceu-se que     tuir urna unidade indissoluvel: "Pode-se di-
o term0 "Renascenca" niio node em abso-         zer - escreve Burdach - que, no alicerce des-
luto ser considerado como mera invenciio        sas duas visdes, encontra-se aquele conceito
dos historiadores oitocentistas, pel0 simples   mistico do 'renascer', da recriagiio, que en-
fato de que os humanistas usavam expres-        contramos na antiga liturgia pagi e na li-
samente (com insistincia e com plena cons-      turgia sacramental crist5."
ciincia) expressdes como "fazer reviver",
"fazer voltar ao antigo esplendor", "reno-
var". "restituir a urna nova vida". "fazer
renascer o mundo antigo" etc., contrapon-             Reflex~es conclusivas
do a nova Cpoca em que viviam i Cpocai                sobre o conceito
medieval como a idade da luz contraposta
h idade da escuridzo e das trevas.                    de '%enascenca"
     E claro, portanto, que os histori6grafos
do Oitocentos niio erraram sobre este Don-
to. Erraram, porCm, ao julgar que a Idade             A Renascenga, portanto, representou
MCdia constituira verdadeiramente urna          grandioso fen6meno espiritual de "regene-
Cpoca de barbarie, um tempo nebuloso, um        ragiio" e de "reforma", no qua1 o retorno
period0 de escuridiio.                          aos antigos significou revivescincia das ori-
     0 s homens da Renascenga, natural-         gens, "volta aos principios", ou seja, retor-
mente, tinham essa opiniio, mas por razdes      no ao, autintico.
polimicas e niio objetivas: eles sentiam sua          E tambCm nesse espirito que deve ser
mensagem inovadora como mensagem de             entendida a imita@o dos antigos, que se
luz que rompia as trevas. 0 que niio signifi-   revelou o estimulo mais eficaz para que os
ca que "verdadeiramente", ou seja, histori-     homens encontrassem, recriassem e regene-
camente, antes dessa luz houvesse trevas,       rassem a si pr6prios.
pois poderia haver (para manter a imagem)             Sendo assim, conseqiientemente, como
urna luz diferente.                             sustentou Burdach, o Humanismo e a Re-
     Com efeito, as grandes aquisig6es his-     nascenga "constituem urna s6 coisa". Uma
toriogriificas de nosso sCculo mostraram que    tese que, na Itilia, Euginio Garinacornpro-
a Idade Me'dia foi uma e'poca de grande civi-   vou brilhantemente em outras bases, com
liza@o, percorrida por fermentos e frimitos     novos documentos e com provas abundan-
de varios tipos, quase que totalmente des-      tes e de varios tipos.
conhecidos pelos historiadores d o Oitocen-           Desse modo, niio se pode mais susten-
tos. Portanto, o "renascimento" que cons-       tar que foram os studia humanitatis, enten-
titui a peculiaridade da "renascenga" niio C    didos como fen6meno literario e filol6gico
o renascimento da civilizaciio contra a         (retorico), que criaram a Renascenga e o
incivilizacio. da cultura contra a incultura
         >   ,
                                                espirito renascentista (filosofico), como se
e a barbarie, do saber contra a ignoriincia:    se tratasse de urna causa acidental produ-
ele C muito mais o nascimento de outra civi-    zindo como efeitos um novo fen6meno subs-
lizagio, de outra cultura, de outro saber.      tancial. Pode at6 ser que se tenha verificado
      K. Burdach mostrou claramente que a       justamente o contrario, isto C, foi a "renas-
Renascenga tambCm tem raizes na idCia de        cenga" de um novo espil-ito ( o descrito aci-
renascimento d o Estado romano, que era         ma) que se serviu das humanae litterae como
bastante viva na Idade MCdia, quando n i o      de um instrumento. .
12
.   ..         Primezra parte - O t l w n a n i s m o e a R e n a s c e n C a

          0 Humanismo s6 se tornou fen6meno                         De todo modo, o certo t que hoje entende-
    literario e retorico no fim, isto 6, quando se                  se por Renascenqa a denominaqso historio-
    extinguiu o novo espirito vivificador.                          grafica de todo o pensamento dos stculos
          Para concluir: se por "Humanismo" se                      XV e XVI. Por fim, devemos recordar que
    entende a tomada de conscitncia de uma                          os fen6menos de imitaqso extrinseca e de
    missio tipicamente humana atravts das                           filologismo n i o s i o proprios do Quatrocen-
    humanae litterae (concebidas como produ-                        tos, e sim do Quinhentos, constituindo en-
    toras e aperfeiqoadoras da natureza huma-                       quanto tais (corno ja acenamos) os sintomas
    na), entio ele coincide com a renouatio de                      da incipiente dissoluqio da ipoca renascen-
    que falamos, ou seja, com o renascimento                        tista.
    d o espirito d o homem: assim, o Humanismo
    e a Renascenqa s5o duas faces de um unico
    fen6meno.
                                                                          ,   Relacoes e n t r e R e n a s c e n G a
                                                                              e   J d a d e Mkdia
              Cvonologia e t e m a s
              do t l ~ m a n i s m o
                                                                          AlCm disso, no que se refere i s rela-
              e da Renascenca                                       q6es entre a Idade Media e a Renascenqa
                                                                    italiana, devemos dizer que, no atual esta-
                                                                    do dos estudos, n i o se manttm de p i nem a
           Do ponto de vista cronologico, o Hu-                     tese da "ruptura" entre as duas Cpocas e
     m a n i s m ~ a Renascenqa ocupam dois sC-
                  e                                                 tampouco a tese da pura e simples "conti-
     culos inteiros: o Quatrocentos e o Quinhen-                    nuidade".
     tos. Como ja observamos, seus preludios                              A tese correta C uma terceira. A teoria
     devem ser procurados no Trezentos, parti-                      da ruptura pressup6e a oposi@o e a con-
     cularmente na figura singular de Cola de                       trariedade entre as duas Cpocas, ao passo
     Rienzo (cuja obra culmina pel0 Trezentos)                      que a teoria da continuidade postula uma
     e na personalidade e na obra de Francisco                      homogeneidade substancial. Mas, entre a
     Petrarca ( 1304-1374). Seu epilogo alcanqa                     contrariedade e a homogeneidade, existe a
     as primeiras dCcadas do Seiscentos. Cam-                       "diversidade". Ora, dizer que a Renascen-
     panella foi a ultima grande figura da Re-                      qa C uma Cpoca "diversa" da Idade MCdia
     nascenqa.                                                      n i o apenas permite distinguir as duas Cpo-
           Tradicionalmente falava-se do Quatro-                    cas sem contrap6-las, mas tambCm identifi-
     centos como Cpoca do Humanismo e do                            car facilmente seus nexos e suas tangtncias,
     Quinhentos como Cpoca da Renascenqa pro-                       bem como suas diferenqas, com grande li-
     priamente dita. Como, porCm, caiu porter-                      berdade critica.
     ra a possibilidade de distinqso conceitual                            E, conseqiientemente, outro problema
     entre Humanismo e Renascenqa, necessa-                         tambCm pode ser facilmente resolvido.
     riamente tambCm cai por terra essa distin-                            A Renascenqa inaugura a Cpoca mo-
     q5o cronologica.                                               derna? 0 s teoricos da "ruptura" entre Re-
           Se levarmos em conta os conteudos fi-                    nascenqa e Idade MCdia eram fervorosos
     losoficos, eles mostram (e o veremos com                       defensores da resposta positiva a essa per-
     mais amplitude um pouco adiante) que o                         gunta. J4 os teoricos da "continuidade" da-
     pensamento sobre o homem prevalece no                          vam-lhe resposta negativa. Hoje, em geral,
     Quatrocentos, ao passo que, no Quinhen-                        tende-se a identificar o comeqo da Cpoca
     tos, o pensamento se amplia, abrangendo                        moderna com a revoluqio cientifica, ou seja,
     tambim a natureza. Nesse sentido, se, por                      com Galileu. Do ponto de vista da historia
     raz6es de comodidade, quisermos indicar                         d o pensamento, essa parece a tese mais cor-
     como Humanismo predominantemente o                              reta. A Cpoca moderna revela-se dominada
     momento do pensamento renascentista que                         por essa grandiosa revoluqio e pelos efeitos
     teve por objeto sobretudo o homem, e como                       que ela provocou em todos os niveis. Nesse
      Renascenqa este segundo momento do pen-                        sentido, o primeiro filosofo "moderno" foi
      samento, que considera tambCm toda a na-                       Descartes (e, em parte, t/ambCm Bacon), co-
      tureza, podemos at6 fazt-lo, embora com                        mo veremos mais amplamente adiante. Sen-
      muitas reservas e com grande circunspeqio.                     do assim, o Renascimento representa uma
13
    Capitdo primeiro - 8 pensamento     humanistcr-venascentista e suas cavcrrtrristicas         - -

Cpoca diversa tanto da Cpoca medieval como       ferengas" que caracterizam a Renascenga,
da ipoca moderna.                                tanto em relagso a Idade Media como em
     Naturalmente, assim como as raizes da       relag50 ipoca moderna, atravis do exa-
Renascenga devem ser buscadas na Idade           me das viirias correntes de pensamento e,
MCdia, da mesma forma as raizes do mun-          individualmente, dos pensadores de des-
do modern0 devem ser procuradas na Re-           taque. Todavia, antes disso e necessario
nascenga. Podemos dizer atC que, como o          chamar a atengso do leitor para um dos
fim da Idade Media C marcado pela trans-         aspectos mais tipicos do pensamento renas-
formag50 da economia mundial que se se-          centista, ou seja, a reviveschcia do compo-
guiu as descobertas geogriificas, assim o epi-   nente helenistico-orientalizante, cheio de
logo da Renascenga 6 marcado pela pr6pria        ressonincias migico-teiirgicas, difundido
revolug50 cientifica: mas essa revolug5o as-     em alguns escritos que a tardia antiguida-
sinala precisamente o epilogo, nso a "mar-       de havia atribuido a deuses ou profetas anti-
can da Renascenga e sua tEmpera espiritual       quissimos e que, na realidade, eram falsifi-
em geral.                                        cagoes, mas que os renascentistas tomaram
     Falta-nos, agora, examinar concreta-        c o m o aut8nticas, com conseqiihcias de
mente quais s5o as mais significativas "di-      grande importsncia.




             Mapa nautico executado em Veneza em 1560, pelo portuguSs Diego Homen
                                  (Veneza, Biblioteca Marciana).
14
       Primeira parte - 0t l u m a n i s m o   e a Renascenca




                               Um dos aspectos mais tipicos da Renascen~a       foi a
  0s equivocos          revivesc@ncia componente helenistica-orientalizante, cheia
                                     da
     aproximacso        de resson8ncias magico-teurgicase difundida em alguns escri-
  dos gregos            tos que a antiguidade tardia havia atribuido a antiquissimos
  +§ 1                  deuses ou profetas e que na realidade eram falsificaqbes (o
                        Corpus Hermeticum, os Oraculos Caldeus, os Hinos drficos).
      * Ora, os Humanistas, que descobriram a critica filologica do texto, cairam
todavia no erro clamoroso de tomar como autknticas as obras atribuidas aos Pro-
                 fetas-Magos Hermes Trismegisto, Zoroastro e Orfeu, e assim o
                 complexo sincretismo entre doutrinas greco-pagss, neoplato-
  Hermes,        nismo e cristianismo, tao difundido na Renascenqa, baseou-seem
 Zoroastro       larga medida sobre esse equivoco colossal. Atingiu particularmen-
  e Orfeu        te os homens da Renascenga o aceno ao Filho de Deus, apresen-
  + 3 2-4        tad0 como Logos divino destinado a encarnar-se, contido no XI1
                 tratado do Corms Hermeticum. Zoroastro, depois, considerado
o autor dos Oriiculos Caldeus, fo'i apresentado at6 como anterior a Hermes. Orfeu,
por fim, e considerado o anel de conjun@oentre Hermes e Platao: Hermes, Orfeu
e Platao foram assim liaados em uma conexao aue sustentou a construci30 do
platonismo renascentise, que resultou, portanto, completamente diferente do
platonismo medieval.



     O conhecimento                                    desconcertante em relaq5o a esses docu-
                                                       mentos?
     Cist6vico-critico diferente
                                                              A resposta i quest50 C bastante clara i
     que os humanistas                                 luz dos estudos mais recentes.
     tiveram da tvadic~o
                       Iatina                                 0 trabalho de pesquisa dos textos lati-
                                                       nos, que comegou com Petrarca, consolidou-
     e         21
      m veIaG&o gvega
                                                       se antes q u e ocorresse o impact0 c o m os tex-
                                                       t o s gregos. Portanto, a sensibilidade e a
                                                       capacidade tCcnica e critica dos humanistas
      Antes de tudo devemos esclarecer                 se agugaram muito antes em relaqiio aos tex-
uma quest50 importante: como foi possi-                tos latinos do que em relaqiio aos textos gre-
vel que os humanistas, que descobriram a               gos. AlCm disso, os humanistas que se apro-
critica filol6gica do texto e que chegaram             ximaram dos textos latinos tinham interesses
a identificar gritantes falsificaq6es (corno,          intelectuais mais concretos do que aqueles
por exemplo, o ato de doaq5o de Constan-               que se ocuparam predominantemente dos
tino) corn base no exame da lingua, tenham             textos gregos, que tinham interesses mais
caido em erros t50 flagrantes, tomando co-             abstratos e metafisicos. 0 s humanistas que
mo autinticas as obras atribuidas aos pro-             se ocuparam predominantemente de textos
fetas-magos Hermes Trismegisto, Zoro-                  latinos interessaram-se sobretudo pela lite-
astro e Orfeu, que s i o falsificaqoes t i o           ratura e pela histbria, ao passo que os huma-
evidentes para n6s hoje? Como C que dei-               nistas que se ocuparam de textos gregos in-
xaram de aplicar a elas o mesmo mCto-                  teressaram-se sobretudo pela teologia e a
do? Como C possivel observar tHo grande                filosofia. AlCm disso, as fontes e tradiq6es
falta de sagacidade critica e credulidade t5o          usadas como referincia, pelos humanistas
Capi'tulo primeiro - O pensamento humanista-renascentista e suds caracteristicas

que se ocuparam de textos latinos eram bem                         que nunca existiu. Essa figura mitica indica
mais limpidas do que as utilizadas pelos                           o deus Thoth dos antigos egipcios, conside-
humanistas que se ocuparam de textos gre-                          rado inventor das letras do alfabeto e da
gos, as quais se revelam extraordinariamente                       escrita, escriba dos deuses e, portanto,
carregadas de incrustaqoes multisseculares.                        revelador, profeta e intirprete da sabedoria
Por fim, foram os pr6prios gregos doutos                           divina e do logos divino.
que sairam de Biziincio para a Italia que,                               Quando tomaram conhecimento des-
com sua autoridade, avaliaram uma sirie de                         se deus egipcio, os gregos acharam que ele
convicq6es destituidas de fundamentos his-                         apresentava muitas analogias com seu deus
toric~~.                                                           Hermes (= o deus Mercurio dos romanos),
      0 que dissemos, portanto, explica per-                       intirprete e mensageiro dos deuses, qualifi-
feitamente a situaqiio contraditoria que se                        cando-o entiio com o adietivo "Trisme-
criou: enquanto, por um lado, humanistas                           gisto", que significa "trCs vezes grande".
como Valla denunciavam como falsificaq6es                                Na antiguidade tardia, particularmen-
documentos latinos pluriconsagrados, por                           te nos primeiros siculos da ipoca imperial
outro lado, ao contrario, humanistas como                          (sobretudo nos sics. I1 e I11 d.C.), alguns te-
Ficino reafirmavam a "autenticidade" de                            ologos-filosofos pagiios, em contraposiqiio
flagrantes falsificaqoes gregas tardio-antigas,                    ao cristianismo que se expandia, produzi-
com resultados de grande alcance para a                            ram uma sirie de escritos que eles apresen-
historia d o pensamento filosofico, como                           taram sob o nome desse deus, com a evi-
veremos agora.                                                     dente intenqiio de contrapor i s Escrituras
                                                                   divinamente inspiradas dos cristiios outras
                                                                   escrituras, a~resentadas  tambCm como "re-
                                                                   velaq6es" divinas.
       t l e r m e s Trismegisto                                         As pesquisas modernas determinaram,
        e o "Corpus t l e r m e t i c ~ m "                        sem qualquer sombra de duvida, que sob a
                                                                   mascara do deus egipcio ocultam-se diver-
                                                                   sos autores e que, nesses textos, siio bastan-
                                                                   te escassos os elementos "egipcios". Na rea-
               tlermes e o "Corpus tlermeticum"                    lidade, trata-se de uma das ultimas tentativas
na realidade hist6rica                                             de ressurgimento do paganismo, amplamen-
                                                                   te baseada em doutrinas do platonismo da
     Comecemos por Hermes Trismegisto e
pel0 Corpus Hemeticum, que tiveram a maior                               Entre os numerosos escritos atribuidos
importiincia e celebridade na Renascenqa.                           a Hermes Trismegisto, o grupo claramente
     Hoje sabemos com certeza o que iremos                          mais interessante constitui-se de dezessete
expor. Hermes Trismegisto i figura mitica,                          tratados ( o primeiro dos quais leva o titulo




c~orrt3s/x~t~ilorlt(~
                   iro Hrrrrz~~s q o c iro M c ~ i ~ i r YOIIZLIIIO.
                                   gr                      io
  0 s (Sintos ' I 1 3 1 i/tr;l~ui(ios
                        ~             (tot7zizdos t~zlrito
                                                         f'rtrzosos)
                           silo firlsrficirpic~s cfc cnr iriz/)cvi~l.
Primeira parte - O tlumanismo   r a Renascenia



de Pimandro), mais um escrito que s6 che-               Essa estupefaqiio diante do profeta pa-
gou a t i nos apenas em urna versiio latina      giio (tiio antigo quanto MoisCs), que fala do
(que, no passado, era atribuido a Apuleio),      "Filho de Deus", levou aceitaqiio, pel0 me-
intitulado Asclipio (talvez elaborado no sCc.    nos parcial, da estrutura astrologica e gnos-
IV d.C.). E precisamente esse grupo de es-       tica da doutrina. E niio apenas isso: como o
critos que se denomina Corpus Hermeticum         Asclepius tambCm fala expressamente de
(= corpo dos escritos postos sob o nome de       praticas magicas, Ficino e outros encontra-
Hermes).                                         ram em Hermes Trismegisto urna espCcie de
                                                 justificaqiio e legitimaqiio da propria magia,
                                                 embora entendida em novo sentido, como
                                                 veremos.
                                                        A complexa visiio sincretista de plato-
                                                 nismo, cristianismo e magia, que constitui
       A antiguidade tardia aceitou todos es-    urna das marcas do Renascimento, encon-
ses escritos como autinticos. 0 s Padres cris-   tra assim em Hermes Trismegisto, "priscus
tiios, que neles encontraram acenos a doutri-    theologus", urna espCcie de modelo ante
nas biblicas (corno veremos), ficaram muito      litteram ou, pelo menos, urna significativa
impressionados e, conseqiientemente, con-        sCrie de estimulos extremamente nutrientes.
vencidos de que eles remontavam ?      Cpoca
                                        i        Portanto, sem o Corpus Hermeticum niio C
dos patriarcas biblicos, pensando assim que      possivel entender o pensamento renascen-
fossem obra de urna espicie de profeta pa-       tista.
g2o. Foi assim que pensou Lactsncio, por
exemplo, como tambtm, em parte, santo
Agostinho. Ficino consagrou solenemente
essa convicqiio e traduziu o Corpus Herme-
ticum, que se tornou texto basilar do pen-
samento humanista-renascentista. Assim,
por volta de fins do sic. XV (1488), Her-
mes foi solenemente acolhido na catedral de            Um documento que apresenta muitas
Siena, com urna efigie no pavimento com a        analogias com os escritos hermtticos t cons-
inscriqiio: "Hermes Mercurius Trismegistus,      tituido pelos chamados Oraculos caldeus,
contemporaneus Moysi" .                          obra em hexsmetros da qua1 numerosos
       0 sincretismo entre doutrinas greco-      fragmentos chegaram at6 nos. Com efeito,
pagiis, neoplatonismo e cristianismo, tiio       podemos encontrar em ambos os escritos a
difundido no Renascimento, baseia-se em          mesma mistura de filosofemas (extraidos do
grande medida nesse equivoco colossal.           mtdio-platonismo e do neopitagorismo),
Desse modo, muitos aspectos doutrinirios         com acentuaqiio do esquema triidico e tri-
da Renascenqa, considerados estranhamente        nitario e com representaqdes miticas e fan-
paganizantes e estranhamente hibridos, apre-     tisticas, apresentando um tip0 analog0 de
sentam-se agora sob justa luz.                   religiosidade confusa de inspiraqiio oriental,
       Na complexa concepqiio hermitica,         caracteristica do paganism0 tardio, conju-
considerada mais ou menos tiio antiga quan-      gada com aniloga pretensiio de transmitir
to os mais antigos livros da Biblia, os ho-      urna mensagem "revelada".
mens do Renascimento niio podiam deixar                Nos Oraculos, aliis, o elemento migi-
de ficar impressionados com os acenos ao         co predomina ainda mais claramente do que
"filho de Deus", ao Logos divino, que lem-       no Corpus Hermeticum e o componente
bra o Evangelho de Joiio. 0 tratado XI11 do      especulativo se enfraquece e se submete a
Corpus Hermeticum contCm at6 urna espk-          objetivos praticos religiosos, a ponto de per-
cie de "Sermiio da montanha" e afirma que        der toda a sua autonomia.
a obra de "regeneraqiio" e salvaqiio do ho-            Estes Oraculos, mais do que a sabedo-
mem deve-se ao "filho de Deus", definido         ria egipcia (a qua1 os escritos hermiticos
como "um homem por vontade de Deus".             tambtm se referem), se vinculam a sabedo-
       Ficino chegou a considerar o Corpus       ria babilhia. Com efeito, a heliolatria cal-
Hermeticum at6 mais rico que os proprios tex-    dCia ( o culto do sol e do fogo) desempenha
tos de MoisCs, no sentido em que ele previ a     papel fundamental nesses escritos.
encarnaqiio do Logos, do Verbo, dizendo que            Como sabemos, seu autor Juliano (que
a "Palavra" do Criador C o "Filho de Deus".      viveu no sic. 11) foi denominado (ou se fez
17
    Capitulo primeiro - O pensamento humanists-renasceot~sta e suas     camcte~isticas      - --    -   -

denominar) "o Teurgo". A "teurgia" C a            influenciou Pitagoras e Platio, sobretu-
"sabedoria" e a "arte" da magia utilizada         do no que se refere a doutrina da metempsi-
para finalidades mistico-religiosas. E s i o      cose.
precisamente essas finalidades mistico-reli-            Todavia, muitos dos documentos que
giosas que constituem o dado caracteristico       chegaram atC nos como "6rficos" s i o falsi-
que distingue a teurgia da magia comum.           ficaq6es posteriores, nascidas na Cpoca hele-
      0 s estudiosos modernos observaram          nistico-imperial. A Renascenqa conheceu
que, enquanto a magia vulgar utiliza-se de        sobretudo os Hinos orficos. Nas atuais edi-
nomes e formulas de origem religiosa com          qoes, esses hinos s i o oitenta e sete, mais um
objetivos profanos, a teurgia, ao contrario,      proemio. Siio dedicados a varias divinda-
faz uso das mesmas coisas com fins religio-       des, distribuindo-se conforme uma ordem
sos. E esses fins, como sabemos, s i o a liber-   conceitual precisa. Ao lado de doutrinas que
taqio da alma em relaqio a o corporeo e a         remontam ao orfismo original, contem ain-
"fatalidade" a ele ligada e a conjunqio com       da doutrinas estoicas e doutrinas ~rovenien-
o divino.                                         tes do meio filosofico-teologico alixandrino,
      0 s renascentistas, porCm, niio pensa-      sendo portanto, seguramente, de composi-
vam assim, induzidos que foram a grave erro       $50 tardia. Mas os renascentistas os consi-
por abalizado douto bizantino, Jorge Gemis-       deraram autEnticos. Ficino cantava esses
to (cerca de 1355-1450),nascido em Cons-          hinos para obter a influencia benCfica das
tantinopla, que se fez denominar Pleton. Este     estrelas.
considerou ser Zoroastro o autor dos Ora-               Segundo o proprio Ficino, na genea-
culos Caldeus e, indo para a Itilia por oca-      logia dos profetas Orfeu foi sucessor de
siio do Concilio de Florenqa, ministrou li-       Hermes Trismegisto e muito proximo a ele.
q6es sobre Plat50 e sobre as doutrinas dos        Pitagoras ligava-se diretamente a Orfeu.
Oraculos, acreditando-os como express50           Platio teria haurido sua doutrina de Hermes
do pensamento de Zoroastro e suscitando           e de Orfeu. Assim, Hermes, Orfeu e Platio
notavel interesse pelos mesmos.                   ligaram-se em uma conexio que constitui o
      Zoroastro foi, portanto, considerado        alicerce de toda a construqio do platonismo
profeta ("priscus theologus"), e por vezes        renascentista, que, conseqiientemente, mos-
apresentado at6 como anterior a Hermes ou         tra-se completamente diferente do platonis-
como primeiro por cronologia e dignidade          mo medieval.
com ele. Na realidade, Zoroastro (= Za-                 E claro, portanto, que, se n i o se leva-
ratustra) foi reformador religioso iraniano       rem em conta todos os fatores que recorda-
do seculo VIINI a.C., que nada tem a ver          mos, escapa toda possibilidade de captar o
com os Oraculos Caldeus.                          significado da proposiqio metafisico-teolo-
      Esse novo equivoco, portanto, contri-       gico-magica da doutrina da Academia flo-
buiu grandemente para a difusio da menta-         rentina e de grande parte do pensamento dos
lidade magica na Renascenqa.                      sics. XV e XVI.
                                                        A tudo isso devemos agregar ainda a
                                                  enorme autoridade granjeada pel0 Pseudo-
                                                  Dionisio Areopagita, que ja &a apreciado
      CJ   O r f e u venascentista                na Idade Media. mas agora Dassava a ser
                                                                              "
                                                  lido com outros interesses (Ficino tambim
                                                  realizou uma traduqio latina dos escritos de
                                                  Dionisio). Esse autor, como sabemos, n i o t
      Orfeu foi poeta mistico da Tracia. Com      o santo convertido por s8o Paulo em Ate-
ele ligou-se o movimento religioso mistCrico      nas, e sim um autor neoplat6nico tardio. E
chamado "orfico", do qua1 j i falamos no          tambtm essa "falsificaqio" contribuiu para
primeiro volume. Ja no sCculo VI a.C. esse        criar o clima especial de que falamos.
poeta-profeta denominava-se "Orfeu de                   A luz do que foi dito at6 agora, pode-
nome famoso".                                     mos passar ao exame do pensamento dos
      Em relaqio a o Corpus Hermeticum e          varios humanistas e das diversas tendcncias
aos Oraculos Caldeus, o orfismo repre-            e correntes filos6ficas humanistas e renas-
senta uma tradiqio muito mais antiga, que         centistas.
Primeira parte - O tlumanismo e a R e n a s c e n ~ a

                                                campo dos estudos filosoficos ou c~entificos,   mas
                                                no dos estudos grarnat~cais retoricos [...I. Fl
                                                                                   e
                                                critica humanista d cibncia medieval i fre-   :
                                                quentemente radical e violanta, mas ndo toca
                                                seus problemas e suas questdes especificas
                                                [. . .]. Todavia, se os humanistasforarn dlletantas
0     NegagBo do significado
                                                em jurisprudbncia, teologia, rnedicina e at& em
                                                f~losofia,   eles forarn especialistas em uma quan-
      filosofico do Humanismo                   tidade de outras rnathrias. Seu carnpo foram a
                                                gramhtica, a retorica, a poesia, a historla, e o
                                                estudo dos autores gregos e latinos. Eles pe-
       Ssgundo o sstudioso omsricano P. 0. netrararn tambbrn no campo da filosofia moral,
 Kristsllar, o Rsnascsngo n8o foi umo tpoca     e fizeram alguma tentativa de invadir o da 1691-
 de sintsss, mas antss um periodo ds tron-      ca, tentativa que foi pnmeirarnente dirigida a
 si@io, s o Humonismo, porticulorments, rs-     reduzir a logica d rat6r1ca. s humanistas, con-
                                                                               0
 prssentou um movimsnto confinodo oos es-       tudo, ndo daram contributos aos outros rarnos
 tudos rstoricos e Filologicos a, em suo moior  da fllosofia ou da cibncia.
 port@,sstronho oos intsr~ssss     filosoficos.
                                                                                                P. 0.Kristeller,
                                                                Umanesimo e Scolastica nsl R~noscimento
                                                                                                      itoliano.
                                                                                       em "Human~tas". 1950. 5
1. As corrsntss culturais Ja Renascmsa
       No literatura filosofica da Ranascen~a    a
prirneira corrente que nos vern ao encontro & o
Rristotelismo [...I. 0 Humanismo, segundo en-
tre os rnaiores rnovirnantos intelectuais da Re-
nascensa, tombbm tave seus precedentes me-
dievais, mas atinge seu pleno desanvolvirnento
apenas durante a Ranascensa, do qua1 repre-
senta em certo sentido o aspect0 mais caracte-
ristico e rnais difuso. E seus precedentes e
                           m                                         ReivindicagBo da valOncicr
am sua origam, o Humanismo foi um movimen-                           "filosofico-pragm6tica"
to litar6rio rnais qua filosofico, a sua influbncia
sobre a historia da filosofia foi antes indireta,                    do Humcrnismo
mas forte e penetrante [...I. 0 Platonisrno foi
sem dljvida o rnais importante entre os v6rios
                                                                       I9 intsrpretog80 ds Kristsllsr sa opds ds-
movirnentos filosoficos que surgiram do Hurna-
                                                                cisivomants o estudioso itoliono Eug&nio
nismo. Ele rnerece considerqdo 6 parte, tambhm
                                                                Gorin, qus sustsntou qus os vsrdodsiros fi-
porque teve outras raizes fora do classicismo
                                                                Iosofos do 400, otivos foro dos "~scolos     filo-
humanista [...I. Outro grupo de pensadores, o
                                                                soficos" oficiais, forom justarnsnts os humo-
dos assim chamados filosofos da natureza, &
                                                                nistas: elss souberam construir um mQtodo
constituido por alguns dos mas fomosos pen-
                                                                novo para snfr~ntor divsrsos problsrnos
                                                                                        os
sadores do periodo, como Paracelso, Bruno e
                                                                do culturo s do vida prdtico. Contr6rios 6s
Campanella. Ainda menos que os aristot&licos,
                                                                 'Qrondsscotsdrais ds idbias", os humonistos
os humanistas e at& os plat6nicos, ales podem
                                                                se d~dicoramo indogar metodicomsnte s
ser considerados como escola ou trodisdo
                                                                concrstomsnts os objstos dos ci&ncios rno-
unificada [...I. A ljltlma corrente intelectual da
                                                                rois e dos ci$ncios naturo/s.E, ssgundo Gorin,
Renascenp que devernos lernbrar, e talvez a
                                                                o otsnq50 'Klologico" aos problemos porti-
rnais importante, & a que desembocou no ci&n-
                                                                culorss constitui justoments o novo 'filoso-
cia cl6ssica rnoderna.
                                                                fia", thico do Rsnoscsnp.
                                           P. 0. Kr~steller,
                Movirnenti Filosohci d d Rhascimento,
 em "Giornale critic0 della filosofia italiano", 1950. 99
                                                               1. A filosofia humanista foi extra-sscolastica
2. 0 s humanistas niio foram filosofos
                                                                     Repetir, como se tem feito, que o Huma-
      Creio que os humanistas italianos de fato                nismo foi fen6rneno ndo "filosofico",purarnente
ndo foram fil6sofos, nem bons nem maus. Com                    liter6rio e retorico; qua os humanlstas foram
efeito, o movirnento hurnanista ndo surgiu no                  apenas rnestres de eloqu&ncia e grarn6ticos,
- r u w l % / i LLLX   ~3.1~1

                                                                                                       19      &
                                                                                                               81":
     Capitulo primeiro - O pensamento humanisfa-renascentista e suas caracteristicas


signif~ca primsiro lugar dar como pacifica uma
           em                                          ctoritos, tam em todo Bmbto aquela exube-
vis6o do filosofar que est6, ao contrbrio, em dis- rBncia que o "honesto", mas "obtuso", escolas-
cuss6o; s significa, ao mesmo tempo, n60 vsr           ticismo ignorou.
bem claro os studio humonitot~s, "retor~ca"
                                       a           e                                               E. Garin,
as "cartas". E significa tambhm esquecer que                                        I'Umonesimo itoliono.
aquele movimento de cultura afirmou-se primel-
ramente fora da "escola", entre homens de
aq50, polit~cos,   senhores, chanceleres de r e p -
blicas e 0th d~rigentes,     mercadores e mesmo
artistas a artesdos. E na "escola"entrou por meio
das disciplinas logicas e morais; med~ante      nova
linguagem e o estabelec~mento novas rela-
                                     de
@es. R filosofia para a qua1 certos historiodores
olham, a "teologia" das escolas medievais, qua
certamente foi coisa grandissima, naqueles dias                0 individualismo
via justamente suas aulas tornorem-sedesertas,
e sempre menor o eco de seus ensinamentos.
                                                               como marco original
Depois que por sQulos, e grandes sQulos, o pen-                da Renascen~a
samento humano dedicara-se sobretudo 6 ela-
bora(6o de uma filosof~a experi6ncia reli-
                               da
giosa, e tudo fora visto sob tal signo, agora a                 0orgumanto fundomanto1do ansolo da
razSlo humana voltavo todo seu esfor~o        para o     Jocob Rurckhordt, La cultura del Rinascimento
homem "poeta", para sua "cidade", para a na-             in ltalia (1860), C o dassnvolvirnanto do in-
tureza mundana qus estava conquistando.                  d~viduo civilizogio do Ranoscanp: o mito
                                                                   no
                                                         da umo humanitas anfirn libarto do torporme-
                                             E. Gar~n.
                           Meclloevo e Rinascimento.     dtsvol s obarto o todos as axper16nciosdo
                                                         vido (raligiosos, socio~s,ortisticos, politicos).
                                                         Rurckhordt cont~nuovo  ossim o p6r o ocanto,
2. 0 s humanistas contra as grandes
                                                         corno os rombnticos, sobra o tema clo 'kuptu-
    "catedrais de idiias" da Escolastica
                                                         ro" antra Iclode MQdioa Ranoscango.
        Todavia, para dlzer a verdade, a raz6o
intima do condena@o do siqmficado filosofico
do Humanismo 6 outra; e de resto manifesta- 1. 0 despertar do "individuo"
se claramente a partir da continua refer6ncla
por contraste com as sinteses metafisico-teolo-               No ldade M&diaos dois lados da consci6n-
gicas da "obtusa mas honesta Escol6stica":tra-         cia - o que reflete em si o mundo externo s o
ta-se do amor sobrevivente por uma imagem qua mostra a imagem da vida interna do homem
do filosofia qua o pensamento do Quatrocen- - estavam como que envolvidos por urn vhu co-
tos constantamente sentlu. Com efeito, aquilo mum, sob o qua1 ou languesciam em lento torpor
de que se lamenta por tantos a perda foi justa- ou se moviam em u mundo de puros sonhos.
                                                                            m
mente aquilo que os humanistas qulseram des-           Ovhu era tecido de fh, de 1gnor6ncia     infantil, de
truir, isto 6, a constru@o das grandes "catedrais vds ilus6es: vistos atravhs dele, o mundo e a
de idhias", das grandes sistematizaq3es Iogico- historia apareciam revestidos de cores fanMsti-
teoloqicas: do F dosofia qua subsume' todo pro- cas, mas o homem n6o tinha valor a n6o ser como
blem~,    toda pesquisa, ao problema teologico, membro de uma familia, de um povo, de u                    m
que organiza e fecha toda possibilidade no tra- partido, de uma corpora(60, das quais quase
ma de uma ordem logica preestabelecida. inteiramente vivia a vida. fl Itblia & a primeira a
I?quela Filosofia, que foi ignorada na era do Hu- rasgar este vhu e a consideror o Estado e todas
manlsmo como vSl e inutil, se substituem pes- as coisas terrenas de um ponto de vista objati-
quisas concretas, definidas, precisas, nos duos        vo; mas ao mesmo tempo se desperta podero-
dire@ss das ci6ncias morais (htica, polit~ca, samente no ital~ano sentimento de SI e de seu
                                                                             o
econ6m1ca,     esthtica, Iogico-retorica) e das ci6n- valor pessoal ou subjativo: o homem se transfor-
cias do natureza qua, cultivadas luxto propr~o ma no indivicluo, e se ofirma como tal.
principio,"ora de todo vinculo e de toda ou-
                                                       2. 0 advento de homens "universais"
                                                                   Ora, quando este prepotents impulso vi-
   'Subord~no                                                nha a cair em uma natureza extraordinariamen-
   "'Sagundo saus pr~ncip~os
                          paculinras"                        te valorosa e verdtil, a ponto de se apropriar
ao mesmo tempo de todos os elementos da                         R Renascen~a       est6 enraizada na ldade
culturo daquela era, tinha-se entao o homsm              MBdia, e [...I f o ~   dominada por profundo im-
univsrsol, que pertence exclusivamente 6 IM-             pulse para human~zar religido [...I: a opinido.
                                                                                     a
ha. Homens de saber enciclop&dico houve em               h6 muito tempo dominante e ainda ndo intei-
todos os lugares no ldade Mhdia em mais pa-              ramente morta, que atribui b Renascen~a          um
i s e ~porque o saber era mais restrito e os ra-
       ,                                                 car6ter pagdo [...I. & um erro, e esta oplnido
mos do cognoscivel mais afins entre si; e pela           err6nea surgiu de uma visdo anti-historica,
mesma razdo at& o s&culo XI1 encontram-seor-             como de uma tend&ncia racionalista,classicists
tistas universais, porque os problemas da or-            e liberal.
quitetura eram relativamente simples e unifor-                  R Renascen~a      surgiu no despertar, e por
mes, e na escultura e na pintura o conceito ou a         meio do despertar do pensamento de uni-
substdncia do coisa a ser representada preva-            dade do Estado nacional. Na lt6lia o ssnti-
lecia sobre a forma. Na lt6lia da Renascenp,             mento nacional jamais se apagara, mesmo
ao contrdrio, nos nos defrontomos com artistas           durante a ldade MBdia. Conservara-se sob
singulares, os quais em todos os ramos apre-             as cinzas, mesmo quando Bizdncio, os Godos,
sentam criaq%s de fato novas e perfsitas em              os longobardos, a monarquia franco-carolin-
seu g&nero, e ao memo tempo emergem sin-                 gia, os imperadores alemdes das dinastias
gularmente tambhm como homens. Outros sdo                sax6nlca, s6lica, sueca, aplicaram suas pre-
universa~s abraqm, al&m do circulo da arte,
           e                                             tensaes ao dominio politico sobre a It6lia.
tambhm o campo incomensur6vel da ci&nc~a        com      enquanto de outro lado a CCltedra de Pedro,
sintese maravilhosa.                                     em sua r~validade luta com o impbrio uni-
                                                                                  e
                                       J. Burckhardt,    versal olemdo, cr~ara-se,         em base de seu
               l a culturo dsl Rinascimento in Ital~a.   pr~ncipotus      eclesi6stico mundial, um dominlum
                                                         terreno sobre a terra itCllica, em Roma, sede
                                                         origindria da monarquia universal antiga. 0
                                                         sentimento nac~onal        italiano viveu sampre da
                                                         lembrancp do antiga grandeza do Estado ro-
                                                         mano. No s&culo XI1 inflamou-se na revolu-
                                                         $60 e restaurar;do nacional de Rrnaldo de
                                                         Br&scia, que p6de ser abatida pelo papa e
                                                         pelo ~mperadorOarbarroxa. Todavia, desde
                                                         o shculo XI os municipios it6licos haviam
                                                         chegado no auge do bem-estar econ8mico e
                                                         civil [. . .] e quando, depois do morte do Impe-
                                                         rador Federico II e o apos a queda casa de
                                                         Soave, chegou ao fim a terrivel luta entre
                                                         imp&r~o papado pela hegemonia politico
                                                                       e
        0prsconcsito romdntico de umo ruptu-             universal, quando a lt6lia se sentiu livre do
 ro sntrs Idods Mddio s Renoscengo foi ds-               dominio alemdo, seu sentimento nacional ex-
 cididomente combotido sm nosso sQculo                   plodiu em um grande inchndio espiritual, po-
 pslo sstudioso olsmao Konrod Burdoch,                   litico-social e artistico. Esto foi a fonts espiri-
 qua mostrou como o Renoscsnp t~vsro        suos         tual da Ranascenp.
 roi'zss e suo fonts sspirituol no iddio, difun-                0 antigo pensamento de Roma, jamais
 dido no Itdlio mscl,sval e sxprssso sobrs-              extinto, fez afluir nova e maior for~a.      Rienzo,
 tudopor Colo di Risnzo, de renascimento poli-           inspirado pela ld&ia politico de Dante, mas ul-
 tico e rellgioso do Estado romano. FI humanitas         trapassando-a, proclamou, profeto de futuro
 do Ouotrocantos se concrstizou, portonto,               longinquo, a grande exig&ncia nacional do
 nssto perspactivo ds rsconciliog~o      sntrs fd        Renascimento de Roma. 6, sobre esta base, a
 s espi'rito nocionol, s Colo di Rienzo foi o poi        exig&ncia da unidade da It6lia.
 sspirituol do procssso ds formogio dos Es-                                                       K Burdach.
 todos nociono~s     europsus.                                              Slgnlhcoto e origlne ddle parole
                                                                                  "Rinoscimento"s "R~forma "
0 s      debates                                      ernas r n o v a i s




                                                    1)a propagagso d o "naturalismo " di-
                                              fundido pel0 pensamento arabe, especial-
                                              mente por Averrois;
                                                    2 ) o predominio indiscriminado da
     Como j i dissemos, Francisco Petrar-     dialetica e da logica, com a respectiva men-
ca (1304-1374)C considerado unanimemen-       talidade racionalista.
te como o primeiro humanista. Isso estava           E julgou facil indicar os antidotos para
muito claro para todos ja nas primeiras dC-   esses dois males:
cadas do sCc. XV, quando Leonardo Bruni             1)ao invCs de nos dispersarmos no co-
escrevia solenemente: "Francisco Petrarca     nhecimento puramente exterior da nature-
foi o primeiro, tendo tanta graCa e enge-     za, e precis0 voltarmo-nos para nos mesmos,
nho, que reconheceu e trouxe a luz a an-      objetivando o conhecimento da propria
tiga graciosidade do estilo perdido e ex-     alma;
tinto."                                             2) ao invis de nos perdermos nos vazios
     E como Petrarca chegou ao Humanis-       exercicios dialeticos, precisamos redescobrir
mo? Partindo do exame e da atenta analise     a eloqiiikcia, as humanae litterae cicero-
da "corrup@o" e da "impiedade" de seu         nianas.
tempo, ele procurou identificar as causas,          Com isso, ficam perfeitamente delinea-
para tentar remedia-las. E, em sua opiniao,   dos o programa e o mCtodo do "filosofar"
as causas eram basicamente duas, estreita-    proprios de Petrarca: a verdadeira sabedoria
mente ligadas entre si:                       esta em conhecer-se a si mesmo, e o caminho
22    Primeira parfe - 0tlumanismo     r a Renascenia




(0 mCtodo) para alcanqar essa sabedoria esta
nas artes liberais.
      A passagem indubitavelmente mais fa-
mosa que ilustra a primeira parte C aquele               0 caminho aberto por Petrarca foi se-
trecho da Epistola que narra a subida ao mon-     guido com sucesso por Coluccio Salutati,
te Ventoso. Chegando ao cume do monte             que nasceu em 1331 e se tornou chanceler
depois de longa caminhada, Petrarca abriu         da Republics de Florenqa de 1374 a 1406 .
as Confiss6es de santo Agostinho e as pri-               Ele C importante sobretudo pelos se-
meiras ~ a l a v r a s leu foram estas: "E os
                     que                          guintes motivos:
homens admiram os altos montes, as gran-                a) prosseguiu com grande vigor a po-
des ondas do mar, os largos leitos dos rios,      limica contra a medicina e as ciincias natu-
a imensidade do oceano e o curso das estre-       rais, reafirmando a tese da supremacia das
las; e esquecem-se de si mesmos. " E eis o seu    artes liberais;
comentario: "Ha muito tempo eu deveria                   b) contra a colocaS50 dialitico-racio-
ter aprendido, inclusive com os filosofos         nalista de sua Cpoca, sustentou uma vis5o de
pag5os, que nada C digno de admiral50             filosofia entendida como mensagem testemu-
alCm da alma, para a qual nada 6 grande           nhada e transmitida com a propria vida (corno
demais" .                                         fez o pag5o Socrates e como fizeram Cristo e
      Da mesma forma, no que se refere ao se-     santos como Francisco) e centrada no ato da
gundo ponto que apontamos, Petrarca in-           vontade como exercicio de liberdade;
siste no fato de que a "dialktica" leva a im-            c) sustentou vigorosamente o primado
piedade e niio a sabedoria. 0 sentido da vida     da vida ativa sobre a contemplativa;
nao C revelado por montes de silogismos,                 d) como operador cultural teve o gran-
mas sim pelas artes liberais, cultivadas opor-    de mirito de ter promovido a instituic;io da
tunamente, isto C, n5o como fins em si mes-       primeira citedra de grego em Florenqa, sen-
mas, mas como instrumentos de formaqso            do chamado a Itilia para assumi-la o douto
espiritual.                                       bizantino Manuel Crisolora (1350-1415).
       A antiga definiq50 de filosofia dada por          A seguinte passagem d o tratado Sobre
Plat50 no Fe'don C apresentada como coin-         a nobreza das leis e da medicina (utilizamos
cidente com a visiio cristg: a verdadeira fi-     a traduqao de E. Garin), ilustra muito bem
losofia n50 C mais que o pensamento e a           a concepqiio do primado da vida ativa so-
meditaqio sobre a morte.                          bye a contemplativa, a qual retornaria mui-
       Compreendemos, portanto, como a con-       tas vezes o pensamento do Quatrocentos e
traposig50 entre Arist6teles e Plat50 se apre-    que constitui uma das marcas do huma-
 sentasse inevitavel. Em si mesmo, Aristoteles    n i s m ~Dirigindo-se a quem foge da vida dos
                                                            .
 C respeitavel, mas foi ele quem forneceu as      homens para concentrar-se na pura especu-
 armas para os averroistas, sendo utilizado       laqiio, ele escreve: "Para dizer a verdade,
 para construir aquele "naturalismo" e aque-      afirmo corajosamente e confess0 candida-
 la "mentalidade dialCtican a que Petrarca         mente que, sem inveja e sem contrariedade,
 tinha tanta aversgo. Assim, Plat50 (um Pla-       deixo de bom grado para ti e para quem
 t5o que, no entanto, ele n5o podia ler, pois      eleva ao cCu a pura especula@o todas as
 n5o conhecia o grego) torna-se o simbolo          outras verdades, desde que se me deixe a
 do pensamento humanista, "o principe de           cogni@o das coisas humanas. Podes perma-
 toda filosofia".                                  necer cheio de contemplaq50, mas que, ao
       Para concluir, citamos uma afirmaq50        contrario, eu possa ficar rico de bondade.
 que mostra a que altura Petrarca elevara          Podes meditar por ti mesmo, procura o ver-
 a dignidade da "palavra" que, em certo            dadeiro e regozija-te ao encontra-lo. (...)
 sentido, se tornaria para os humanistas           Que eu, ao contrario, esteja sempre imerso
 aquilo que h i de mais importante: "Pois          na a@o, voltado para o fim supremo. Que
 Socrates, vendo um belo jovem em silin-           toda a@o minha sirva a mim, A familia, aos
 cio, disse-lhe: 'Fala, para que eu possa ver-     parentes e - o que C ainda melhor - que
 te!' Pois ele pensava que n2.o e' tanto pela      eu possa ser util aos amigos e a patria e pos-
 fisionomia que se vZ o homem, mas pelas          sa viver de modo a servir a sociedade hu-
palavras. "                                       mana pel0 exemplo e pelas obras. "
23
          Capitulo segundo -   0 s debates sobre problemas morais   e o   Nee-rpicurismo



                                 11. 8
                              debates     s
                sobve tem6ticas ~tico-politicas


          No 400, o Humanism0 es~iritualista intimista de Petrarca foi sendo substi-
                                                 e
 tuido, decisivamente, por u m ~ u m a n i s m o civilmente e politicamente mais empe-
 nhado. Protagonistas desta direqao foram principalmente Leonardo Bruni (1370-
                      1444), cuja fama esta ligada sobretudo as traduqdes da Politica e
   Temas ~tico-       da gtica de Aristoteles, e Poggio Bracciolini (1380-1459), que dis-
   politicos          cutiu a fundo o problema da relasao entre "virtude" e "sorte",
   em alguns          sustentando que a primeira pode ter supremacia sobre a segun-
   humanistas         da principalmente operando em favor d o Estado.
   do Quatrocentos         Figura versatil e polikdrica de humanista f o i Leon Battista
   -+ 5 1-3           Alberti (1404-1472). que se ocupou sobretudo dos seguintes
                      temas:
        a) a critica das investigasdes teologico-metafisicas e a contraposiq2o das in-
 vestigaqdes morais a elas;
        b) a exaltas20 d o homo faber e da sua atividade factiva e construtora dirigida
 a utilidade de todos os outros homens e da Cidade;
        c) a relevdncia d o conceito de "ordem" e de "proporqao" entre as partes nas
 artes, porque a verdadeira arte reproduz e recria a ordem que existe na realidade
 das coisas;
        d)a relaq2o entre "virtude" e "sorte", pel0 que a virtude ti a atividade pecu-
 liar d o homem que o aperfei~oa,garante sua supremacia sobre as coisas e tem
 precedencia sobre a sorte.



                                                porque forneceram linfa vital para a pro-
                                                pria especulagio.
                                                       Bruni op8s ao humanismo espiritualis-
                                                ta e intimista de Petrarca um humanismo
      Leonardo Bruni (1370-1444), inicial-      mais empenhado politica e civilmente. Para
mente funcionirio da Curia Romana e de-         ele, os clissicos s i o precisamente mestres de
pois chanceler em Floren~a,foi discipulo,       virtudes "civis". Assim, para Bruni, C para-
amigo e continuador da obra de Salutati.        d i g m a t i c ~ conceito aristotClico de homem
                                                                o
      0 s efeitos do ensino da lingua grega     entendido como "animal politico", que se
por Crisolora j i se manifestam em Bruni        torna o eixo do seu pensamento: o homem
como frutos extraordinariamente maduros.        so se realiza plena e verdadeiramente na di-
Com efeito, ele traduziu Plat50 (Fkdon, Gor-    mensiio social e civil indicada por Aristoteles
gias, Fedro, Apologia, Criton, Cartas,e par-    em A politica.
cialmente 0 banquete), Aristoteles (Etica a            Mas a Etica a NicBmaco de Arist6teles
NicBmaco, EconBmicos, Politica), e ainda        tambCm C reavaliada por ele. Bruni estava
Plutarco e Xenofonte, Demostenes e Es-          convencido de que sua dimens50 "contem-
quines. Revestem-se de interesse filosofico     plativa" havia sido substancialmente exa-
seus Dialogos e a Introdu@o a promo@o           gerada e, em grande parte, deformada. 0
moral, alCm das Epistolas.                      que vale mais n5o C o objeto contemplado,
      A fama de Bruni liga-se sobretudo i s     e sim o homem que pensa e, enquanto pen-
tradu@es de Politica e Etica a NicBmaco         sa, age. 0 "sumo bem" de que fala a Etica
de Aristoteles, que fizeram ipoca n i o ape-    a NicBmaco n i o 6 um bem abstrato ou, de
nas porque contribuiram para mudar o tip0       qualquer forma, transcendente ao homem,
de aproximaqio desses textos, mas tambCm        mas sim o bem do homem, a realizaq50 con-
24
         Primeira parte - O t l u m a n i s m o e   n Renascenca



creta de sua virtude, que, como tal, nos da a                   C ) a gloria e a nobreza como fruto da
felicidade.                                               virtude individual;
      Como Aristoteles, Bruni reavalia o pra-                   d) a quest20 da "sorte", que torna ins-
zer, entendido sobretudo como conseqiitn-                 tavel e problematica a vida dos homens,
cia da atividade que o homem desenvolve                   mas contra a qual a virtude pode levar a
segundo sua propria natureza.                             melhor;
      Ainda como Aristoteles, Bruni sustenta                    e) a reavaliaqgo das riquezas (ja iniciada
que o verdadeiro parimetro dos juizos morais              por L. Bruni na introduqiio aos Econ6micos
t o homem bom (e n20 uma regra abstra-                    de Aristoteles), consideradas como o nervo
ta). E realizando o bem e a virtude, o homem              do Estado e como aquilo que torna possivel,
realiza a felicidade. Eis as suas conclusdes:             nas cidades, os templos, os monumentos, a
"Se, portanto, quisermos ser felizes, empe-               arte, os ornamentos e toda beleza.
nhemo-nos em ser bons e virtuosos".                             Bracciolini se concentra sobre um dos
                                                          pensamentos-chave do Humanismo: a verda-
                                                          deira nobreza e' aquela que cada um conquis-
                                                          ta agindo. Pensamento que nada mais i do
.&
515
      Pog9io       Bvacciolini                            que uma variante de outro conceit0 basilar,
                                                          de origem romana, ngo menos car0 a essa
                                                          ipoca: cada qual e' artifice da pr6pria sorte.
     Poggio Bracciolini (1380-1459),secre-
tario da Curia Romana e depois chanceler
em Florenqa, tambtm era muito ligado a                          L e o n Battista Albevti
Salutati. Foi um dos mais esforqados e fer-
vorosos descobridores de antigos codices.
     Em suas obras, ele debate tematicas que se
haviam tornado can6nicas nas discussdes dos                    Uma figura de humanista de interesses
humanistas, particularmente as seguintes:                 poliidricos foi Leon Battista Alberti (1404-
     a) o elogio da vida ativa em oposiqio h              1472), que, alim das questdes filosoficas,
ascese da vida contemplativa vivida em so-                tambim se ocupou de matematica e de ar-
lidao;                                                    quitetura. Sao conhecidos especialmente
     b) o valor de formaqao humana e civil                seus escritos Sobre a arquitetura, Da pintu-
das litterae;                                             ra, Da familia, Do govern0 da casa, Inter-
                                                          cenais (recentemente descobertos por Garin
                                                          em sua integridade).
                                                                Eis alguns temas (entre tantos outros)
                                                          que se destacam em Alberti:
                                                                a) Em primeiro lugar, deve-se destacar
                                                          a critica das investigaqdes teologico-meta-
                                                          fisicas, consideradas vas, contrapondo a elas
                                                          as investigaqdes morais. Para Alberti, i inu-
                                                          ti1 procurar descobrir as causas supremas
                                                          das coisas, porque isso nao foi concedido
                                                          aos homens, que s6 podem conhecer aquilo
                                                          que est4 sob seus olhos, ou seja, por meio
                                                          da experitncia.
                                                                b) Ligada a essa critica encontra-se a
                                                          exaltaqio do homo faber e de sua atividade
                                                          produtiva e construtora, ou seja, aquela ati-
                                                          vidade que n2o esta voltada apenas para o
                                                          beneficio do individuo, mas tambCm para o
                                                          beneficio de todos os outros homens e da
                                                          cidade. Por isso, ele censura a sentenqa de
                                                          Epicuro, "que, em Deus, reputa como suma
         L eon Ruttlstu Albert1 ( 1 404-1 472)            felicidade o nada fazer", sustentando que a
      fol hummrsta tic rnteresses polrt.'drrcos,          verdade i exatamente o contririo e que o
          frhsofo, matematrco e arqulteto.                supremo vicio i "estar a toa". Sem a aq20,
       Este retrato fol ttrado tie ulna rncrsio.          a contemplaqiio n2o tem sentido. N o entan-
25
          Capitdo segundo       -   8 s   debates sobre problemas morais    e o   Nee-epicurismo


to, elogia os estoicos, que consideravam "o
homem ser pela natureza constituido no
mundo especulador e operador das coisas"
e achavam que "cada coisa nasceu para ser-
vir ao homem e o homem para conservar a
companhia e a amizade entre os homens".                      Para concluir, recordemos alguns no-
E louva Plat50 por ter escrito que "0s ho-             mes de cilebres humanistas do siculo XV.
mens nasceram por motivo dos homens".                        Giannozzo Manetti (1396-1459) tra-
      C)Nas artes, Alberti destacou a grande           duziu Aristoteles e os Salmos, mas ficou co-
import4ncia do conceit0 de "ordem" e "pro-             nhecido sobretudo por seu escrito De digni-
porqiio" entre as partes: a arte reproduz e            tate et excellentia hominis, corn o qua1 abriu
recria aquela ordem entre as partes que exis-          a grande discuss50 "sobre a dignidade do
te na realidade das coisas.                            homem" e sua superioridade em relaqiio as
      d ) Mas um dos temas mais caracteris-            outras criaturas.
ticos debatidos por Alberti i o da relaqiio                  Mateus Palmieri (1406-1475)conciliou
entre "virtude" e "sorte". Para ele, a "vir-           vida contemplativa e vida ativa. Embora re-
tude" n5o i tanto a virtus crist5, mas muito           afirmando a fecundidade da obra humana
mais a arete' grega, ou seja, aquela atividade         e o papel central da cidade, revela inflexties
peculiar do homem que o aperfeiqoa e lhe               plat8nicas que antecipam uma mudanqa de
garante a supremacia sobre as coisas. Em               clima espiritual.
especial, apesar de algumas observaqties                     Por fim, devemos mencionar Ermolau
pessimistas, Alberti mostra-se firmemente              Barbaro (1453-1493), que se qualificou co-
convencido de que, quando considerada e                mo tradutor de Aristoteles (chegou a t i nos
exercida de mod0 realista e n5o como velei-            a tradu@o da Retorica), empenhando-se em
dade, a virtude leva a melhor sobre a sorte.           restituir ao texto do Estagirita o seu antigo
      Duas afirmaqties mas, sobre o sentido            espirito, libertando-o das incrustaqties me-
da atividade humana e sobre a superiorida-             dievais.
de da virtude sobre a fortuna, tornaram-se                   Uma afirmaqiio sua tornou-se famosis-
particularmente cilebres: o homem nasceu               sima: "Reconheqo dois senhores: Cristo e
 "niio para murchar jazendo, mas sim para              as letras." Essa divinizaqiio das letras leva-
estar de pe' fazendo". " A fortuna subjuga             va Ermolau Barbaro a uma posiqiio quase
apenas q u e m se lhe submete."                        de ruptura; com efeito, ele chegava a ponto
      Essas afirmaqties s5o como que duas              de propor o celibato e o descompromisso
 esplhdidas epigrafes que valem para todo              civil para os doutos, a fim de que pudessem
o movimento humanista.                                 se dedicar inteiramente ao oficio das letras.




      Frs a planta de Eloren~a   por uolta d o ano 1 $00 (trrutla d~ " I '~llustruzrorre rtul~anu"I9 10).
   Murtos dos hunrunrstus mars rmportantes d o '400 vrveranr e m blorerz~a scJ tornurum chatzrelcres;
                                                                                 e
                   errtrc estes C o l u ~ ~ Salutdtl, L2c~onurdo r u n ~ Pogg~oH ~ L I L C I O ~ I I I I .
                                            ro                 R         ,
111. LourenCo Valla

          A posis8o filosofica de Lourenso Valla (1407-1457) constitui uma retomada
 em base crista do Epicurismo: ela, com efeito, esta marcada por uma pol@mica
 cerrada contra o ascetismo estoico e monastico, aos quais Valla contrapde as ins-
                     tancias do prazer, entendido porem no sentido mais amplo. A
   Louren~o   va//a: tese de fundo de Valla e que todo produto da natureza e santo e
   o Neo-epicurismo louvavel, e, portanto, tambem o e o prazer; mas existem diferen-
   e o metodo        tes graus de prazer, e o vertice e constituido pelo amor crist8o de
   filologico        Deus. Por isso o prazer maximamente desejavel, que e tambem o
   + 2 1-3           sumo bem, encontra-se na religi80 crist8 e e alcansavel n8o na
                     terra, mas nos ceus.
        A isso liga-se tambem a conceps80 de Valla da filologia, enquanto a salva-
 $80 do homem e garantida pela verdade, e a verdade e restituida pela correta
 intepretagao da "palavra"; o metodo filologico permite justamente respeitar a
 palavra e restitui-la em sua genuinidade para entender o espirito que ela expri-
 me: isso e necessdrio por causa da propria sacralidade da linguagem, porque a
 lingua e encarnag80 do espirito dos homens, e a palavra e encarnagao de seu
 pensamento.



 1. 0Bee-epic~vismo de VaIIa                         Valla niio tem duvida de que se possa
                                                chamar de "prazer" at6 a felicidade de que
                                                a alma desfruta no Paraiso.

     Uma das figuras mais ricas e significa-
tivas do Quatrocentos foi certamente Lou-
renqo Valla (1407-1457).
      Sua posiq5o filosofica, como se expres-
sa sobretudo na obra Do verdadeiro e do
falso bem, i marcada por viva polemica                0 resultado ultimo dessa amplificaqiio
contra o ascetismo estoico e contra os ex-      do prazer 6 uma transcendcncia em relaqiio
cessos do ascetismo moniistico, em oposi-       ii doutrina do proprio Epicuro. Com efeito,
q5o aos quais afirma as inst2ncias d o "pra-    o impact0 desta doutrina com o cristianis-
zer", entendido, porem, em seu sentido          mo muda sua figura, como o proprio Valla
mais amplo e niio somente como prazer da        expressamente afirma: "Desta forma, refu-
carne. 0 trabalho de Valla representa, por-     tei ou condenei a doutrina tanto dos epi-
tanto. uma curiosa tentativa de retomada        curistas como a dos estoicos, e mostrei que
do epicurismo, relanqado e resgatado em         nem com uns nem com outros, nem mesmo
bases cristiis.                                 com qualquer um dos filosofos, ha o bem
      0 raciocinio de fundo de Valla i o se-    sumo ou desejavel, e sim em nossa religiiio,
guinte: tudo aquilo que a natureza fez "niio    a ser alcanqado niio na terra mas nos cius".
pode ser sen50 santo e louviivel"; o pra-             Se levarmos em conta essas afirmaqties,
zer deve ser visto nessa otica. isto i. deve    n50 nos surpreenderiio as conclusties a que
ser considerado ele proprio como santo e        chega Valla em outra obra cilebre que es-
louvavel; mas, como o homem i feito de cor-     creveu: Sobre o livre-arbitrio. Contra a ra-
po e alma, o prazer se explica em diferentes    ziio silogizante e contra o conhecimento do
niveis; assim, ha um prazer sensivel, que 6 o   divino entendido aristotelicamente, Valla faz
mais inferior, mas tambim existem os pra-       valer as insthcias da fi, entendida como a
zeres do espirito, das leis, das intituiqGes,   entende siio Paulo, e contraptie as virtudes
das artes e da cultura, bem corno, acima        teologais i s virtudes do intelecto, escreven-
de todos, o prazer do amor cristio por          do textualmente: "Fujamos portanto da
Deus.                                           cupidez de conhecer as coisas superiores e
27
          Capitulo segundo -   0 s debates sobre problemas moi.ais e o   Nee-epirurismo




                                                                          l2ouren(-oVullu
                                                                          (1407-14.C7)
                                                                          propfis uinn fortnu
                                                                          tie Epicurlsrno
                                                                          concilratd
                                                                          coin u cl'outrinil iristd;
                                                                          u l t m disso
                                                                          foi filtjlogo de ~ w l o r :
                                                                          cfescohriu -
                                                                          entre ontrus C O ~ S U S-
                                                                          a fulsidade do documento
                                                                          referente a celchre
                                                                           "Doa@o de Constunt~no       ".
                                                                          Tirutnos estc retrato
                                                                          de ulna estuwzp~
                                                                          conservada
                                                                          nu Civica Kuccolta
                                                                          delle Stampc Rcrturelli,
                                                                          ern Miliio.




nos aproximemos muito mais das coisas hu-              0 trabalho de pesquisa filologica de
mildes. Nada importa mais para o cristio         Valla tambCm se estendeu aos textos sagra-
do que a humildade. Desse modo, sentimos         dos, na obra Confrontos e anota~ijes   sobre
muito mais a magnificencia de Deus, pois         o N o v o Testamento extraidas de diuersos
estii escrito: 'Deus resiste aos soberbos, mas   codices de lingua grega e de lingua latina,
concede a graqa aos humildes.' " 8-5,;           que tinha o objetivo de restituir o texto
                                                 genuino d o Novo Testamento e, desse
                                                 modo, torni-lo mais inteligivel. 0 s estu-
                                                 diosos destacaram que, com essa delicada
      A filologia d e Valla:                     operaqio, Valla pretendia opor o mitodo
                                                 filologico ao mitodo filosofico medieval das
      a   "palavra"                              quaestiones na leitura dos textos sacros,
                                                 polindo-os de todas as incrustaqoes que se
                                                 haviam depositado sobre eles ao longo dos
                                                 siculos.
      Analogamente, apenas nessa otica e nes-          Dessa forma, Valla abria um caminho
se espirito podemos entender corretamente        destinado a um grande futuro. E a forqa
o Discurso sobre a falsa e mentirosa doa@o       demolidora do seu metodo revela-se por in-
de Constantino, no qual Valla demonstra com      teiro no termo com o qual ele indica a lin-
rigorosas bases filologicas a falsidade do do-   gua latina, isto 6, "sacramentum." Para
cumento sobre o qual a Igreja fundava a le-      Valla (como bem esclareceu Garin), a lin-
gitimidade de seu poder temporal, fonte de       gua C encarnaqio do espirito dos homens
corrupqio. A correta interpretaqio da "pa-       e a palavra C encarnaqio do seu pensa-
lavra': restitui a verdade, e esta salva.        mento.
      E assim que Valla conclui esse admi-             Dai a sacralidade da linguagem e a ne-
ravel escrito: "Que eu possa um dia ver -        cessidade de respeitar a palavra e restitui-la
e n i o hii nada que eu deseje mais forte-       a sua genuinidade, para entender o espirito
mente d o que ver isso, especialmente se         que ela expressa.
acontecer a meu conselho - o Papa sendo                Com Valla, o humanism0 alcanqa uma
apenas vigiirio de Cristo e n i o tambCm de      de suas conquistas mais elevadas e dura-
CCsar! "                                         douras.
Primeira parte - 0 H u m a n i s m o e a R e n a s c e n G a


                                                           tas estar no sumo grau da felicidade toda vez
                                                           que compuseste por acaso, com muita vertigem
                                                           cerebral, ficando insone uma noite inteira, um
                                                           fr6gil silogismo que ndo conclui nada de nada.

                                                           2. A verdadeira filosofia
      Verdodeiro sobedorin                                    6 meditag6o sobre a morte
                                                                 Meditar profundamente sobre a morte,
                                                           armor-se contra ela, dispor-se a desprez6-la e
        Unonimsmente considerodo como o
                                                           a suportd-la, enfrentd-la, caso necsssdrio, dan-
 principal precursor dos humonistos, ou mes-
                                                           do esta breve e misera vida em troca da vida
 mo como o primeiro humonisto, Francisco
                                                           sterna, da felicidade, da gloria: eis a verda-
 Petrorco teve efetivomente IGcida consci&n-
                                                           deircl filosofia, que alguns disseram ndo ser
 cio do volor dos studio humanitatis no psrs-
                                                           outra coisa que o pensamento do morte. Expli-
 pactivo do filosofio: o verdodeira sobsdorio
                                                           ca<do esta, do filosofia, que, embora encon-
 consist5 em conhecer o si mesmos, e o via
 (o mdtodo) poro reolizor tal sobadorio est6               trada pelos pagdos, todavia & pr6pr1a cris-
                                                                                                  dos
                                                           t6os, que devem sentir o desprezo por esta vida
 nos artes libarois cultivados oportunomante,
                                                           e a esperclnp do sternidads, e o desejo do
 isto 6, como instrumentos de forma@o espi-
 ritual.                                                   dissolu<do.Se tu, 6 velho del~rante,  que pom-
                                                           posamentee te chamas filosofo, tivesses pen-
        Petrorco defin~uoldm disso o verdodei-
                                                           sado aquilo mesmo uma vez apenas em uma
 ro filosofio como pensomento e meditoqdo
                                                           vida assim longa,jamais terias ousado chamar-
 sobre o morte, referindo-ss 6,possogem do
                                                           te filosofo, nem terlas parado onde paraste,
 FBdon plotbnico, em que Socrotes ofirmo: "To-
                                                           nem te venderias torpemente por tdo pouco
 dos oqueles que proticom o filosoFio de modo
                                                           dinheiro, aviltando com os fatos tua profissdo,
 reto arriscom qua posse despercebido oos
                                                           que enalteces com as palavras.
 outros que sua authntico ocupogdo ndo C
 mois qus morrer a estor mortos".
                                            --             3. 0 valor do solid60
                                                              e o conhecimento de si mesmos
                                                                 R soliddo & carente de muitos prazeres
1. A artes liberais s6o o caminho,
    s                                                      do vulgo, mas & abundante de prazeres pro-
   n8o a meta                                              prios: repouso, liberdade, ocio. Rneu disse, s
      Dizes' em primeiro lugar que estou priva-            6 verdade: "0   ocio sem as letras & morte. 6
do de Logica; espero que ndo me negues a                   sepultya dos v ~ v o s " . ~
Retorica e a Gram6tic0, que estdo compreen-                      E certo que o solit6rlo Ignorante, se Cristo
                                                           n6o estiver continuamente com el@,por maior
didas no nome da Logica, embora tamb&m isso
possas facer, conforme teu parecer. Sumo exem-             que seja o espqo do terra qua ele tiver a sua
plo de todo barbarismo, tu me tiras apenas a               disposi@o, estard amarrado sem grilhdes.
Dial&tica, no qua1 taus silogismos te mostram                    Ndo me maravilho que este g&nero de
ser excelente, e que chamas Log~ca.                        vida seja malvisto por ti. 0 que farias sntdo, a
      "€iso delito, 6 juizes". Ora, se quisesse po-        ndo ser contar as horas e esperar o momento
deria fazer ver que os ilustres filosofos cqoam            em que deves ir 6 ceia, conforme teus h6bitos.
dessa propria Dialbtica, do qua1 sou acusado               e quando a0 Ieito? N60 haveria ningubm com
de estar privado; e eu poderia demonstrar, como            quam pudesses dar uma volta, ou com o qua1
                                                           pudesses gritar; nem saberias falar contigo. Tal
se I& em Cicero, que os antigos peripat&ticos,
clarissima seita de filosofos, tamb&m a deixa-             virtude 6 de poucos homens; e nestes lugares,
ram de lado. Todavia, 6 estulto, dela ndo estou            confesso, h6 bem poucos, ou melhor, quase
                                                           ningubm. Eu, ao contrdrio, pelo grande amor
privado: sei que valor dar a ela e que valor dar
ds artes liberais. Rprendi com os filosofos a nBo          que dedico 6s letras, vivo uma vida tdo bela e
estimar excessivamente nenhuma delas. Portan-              t60 doce que, se conhecesses o estado do meu
to, assim como & louv6vel t&-lasaprendido, tam-            Bn~mo,  creio que odiarias a hora em que nas-
b&m & puer~l  nelas envelhecer. Elas s6o o cami-
nho, n60 a meta: exceto para os errantes e
                                                               'Petrorco sa d~rige rnbd~coq u 6 olvo da suo
                                                                                    oo         ~
vogabundos que ndo t&m nenhum porto no v~da.               invact~vo.
Para ti que ndo tens nenhuma meta mais nobre                   "'Corn gronde j~Ct8flCla".
6 meta qualquer coisa que encontres. Rcredi-                   3S&neco.Cartas o lucilio, XIX.
Capitulo segundo -   8 s debates sobre problemas morais e o Neo-epicurismo



caste, porque te colocou em uma vida misera e        tdo. No que se refere a Epicuro parece-meque
infeliz, a qual, pela esperanGa de pouco dinhei-     em todo lugar os vossos tsnham atitude seme-
ro, te ocasiona grandissimas angirstias.             Ihante, quando vos deixais lnduzir em u erro
                                                                                                m
       Com quem portanto falaste, velho miser6       td0 graves afirma~s o termo "prazer"que se
                                                                           que
vel? Com quem sentenciaste contra mim? Rma-          encontra em Epicuro & outra coisa, assim como o
ram a soliddo os patriarcas, os profstas, os         termo "Ieticia", que se encontra em Rristoteles,
santos, os filosofos, os poetas, os c h e f e ~os
                                               ,~    dado que foi assim que os b6rbaros o traduzi-
imperadores famosissimos. E, na verdade, quem        ram. De fato, se Rristoteles ndo condena toda
ndo ama a soliddo sendo quem ndo sobe estar          Ieticia,so dig0 isso, a causa jn @st6vencida: com
consigo mesmo? Odeia a soliddo todo aquele           efeito, quem aprova a letic~a    tambhm ndo con-
que est6 sozinho na soliddo, e teme o ocio todo      dena o prazer, uma vez qua, 00 menos em SGUS
aquele que ndo faz nada.                             escritos, estes dois termos sdo u so. Entre nos,
                                                                                        m
                                      F. P~trorca.   porhm, eles diferem, como o g&nsro e a espkie.
                                 Contra medicum.
                                                     2. 0 duplo significado da palavra "voluptas"
                                                       para os Latinos
                                                           Vos, porhm, dizeis: o termo latino & ver-
                                                     gonhoso. Mais vergonhoso, porhm, 6 quem
                                                     mente e acusa falsamente. Quem de fato vos
                                                     ensinou isso? Deixando de lado todos os ou-
                                                     tros testemunhos, Cicero traduz sempre com
                                                     "voluptas" aquele nome, tanto nos textos de
                                                     Rristoteles como nos de Plat60 e de outros. E
                                                     para que saibais o que isto significa e o termo
      interpretag60 do "voluptos"                    que assim o defina (De fin~bus, 4, 1 3 ) : ne-
                                                                                       11,
                                                     nhuma palavra traduz melhor hsdonQque pra-
       0Nso-spicurismo ds loursngo Vollo 6           zer. R este termo todos aqueles, em qualquer
 o rssultado ds umo tsntatlvo ds concilio~do         lugar, qua sabem folar lotim atribuem dois sen-
 sntrs o cristionismo s o concspgdo spicur~sto       tidos, a alegria do Bnimo que nasce de uma
 do hedonh (sm lotim voluptas, prozsr).              suave comoq50, e o go20 do corpo. Ndo ser6,
       0ssntido do doutrino ds Vollo do pro-         no verdade, prazer aquele deleite que goza-
 zsr foi intsrprstodo finoments por €. Gorin:        mos pela I~beralidade,   pela miserlcordia, por
  "R proclomodo sontidode do voluptas, ds            uma obra Ievada egregiamente a termo, por
 rssto santida muito lucrscionomsnts, Q umo          ter fugido do perigo, de uma desgra~a, uma
                                                                                             de
 defsso do divindods do noturszo, monifss-           doenp e outras coisas semelhantes?
 tag60 odmlr6vsl do ordsnodo s providsnciol               <  dificil para mim entender no que dife-
 bondods ds Dsus. [...I Noda ss psrds do             rem estes do~s    nomes; e quem o nega h sem
 volidsz s do justsza do rsfsr6ncio 2, sxpsri-       dljvida um iletrado, mas, se tambhm ele o diz,
 6ncio cristd, antsndido como rsdsngdo ndo           tambbm a vido eterno ser6 prazeroso.
 ch olmo, mos do homam, ds todo o homsm,
 corns s olmo, contra todo oscstismo psssi-          3. 0 vsrdadsiro prazer 6 bem-avsnturanp,
 misto s todo avidsnts ou loivol monqusismo.            e consiste em servir a Dsus
       R possogsm citodo a ssguir, olQm ds
 mostror como Volla tsnho corojosomants                    Todavia, d~zem    que este nome ndo con-
 dsfsndido suo proprio doutrino hsdonisto, Q         vhm, nem coaduna com quem fala de modo cris-
 u tsstsmunho do pops1 otivo e bostants
   m                                                 tdo; & mois conveniente o termo "frui@o" que
 funcionol dsssmpsnhodopalo filologia nss-           substituis bquele, como se ndo se possa "fruir"
 ts mssmo ombisnte doutrinol.                        e se costume entender tambhm este em sent(-
                                                     do torpe, e "frui@o"ndo seja um termo insolito
                                                     e, por assim dizer. fruto sem dopra que n60 so
1. A defesa de Epicuro                               ndo se encontra jamais nos selvas dos erudi-
      Primeiramente responderei em defesa de         tos, mas tambhm sequer nos jardins do novo e
Epicuro, ~sto de um grego e, portanto, em de-
             &,
                                                     do antlgo testamento, enquanto, ao contr6r10,
Fesa dos Latinos, e por fim sobre o costume cris-    encontramos "prazer", e com frequ&ncia, e en-
                                                     tre as 6rvores no lugar mais ameno. Rcrescen-
                                                     tarsi um testemunho ndo falso, como fazeis a0
                                                     dizer "do vontade da carne" em vez de "do pra-
Primeira parte - 0 tlumanismo e a Renascenca

zer". Com efeito, no principio do G&nesis Iemos:      po com o nome; que o chamem como quise-
"Deus tinha plantado no inicio o paraiso do pra-      rem: prazer, frui@o, deleite, ou alegria, felici-
zer". e esta passagem 6 repetida, e nbo muito         dade e bem-aventuranp, contanto qua a COI-
depois 6 chamado de "paraiso de Deus" (Gn             sa se torne evidente e seja claro aquilo que
2.8; 2.15; 3.23; 3,24). Ora, assim incriminamos       eu me havia proposto provar, ou seja, que nbo
tamb6m o nome ou a dignidada do prazer; a             h6 nenhumo virtude verdad~iro nb0 ser no
                                                                                        a
qua1 coisa foi alguma vez atribuida tanta digni-      servi<ode Deus; e isso para que nbo nos pos-
dade e honra? Com certeza a nenhuma outra,            sam insultar os que sustentam os qmtios,
nbo 6 cihcia, nbo d virtude, nbo 6 pot&ncia,          para os quais existem verdadeiras virtudes
ndo a nenhuma das outras coisas que tamb6m            naqueles que nbo pensam ter recebido de
costumamos louvar e desejar; o qua devemos            Deus suas almas nem acreditam que tives-
ent6o pensar do prazer a ndo ser que seja a           sem sido estabelecidos pr&mios e puni~des
bem-aventuran~a, daqueles que a perseguem
                        e                             por Deus, para os mbritos dos vivos ou dos
o qua podemos augurar a nbo ser que ndo a             mortos.
alcancem jamais e qua deixem para mlm a par-               Onde estbo aqueles que dizem que eu
te deles, caso a merepm? Omito aquilo qua             tenho atitude mb em rela(bo d fC? Eu qua
disse Davi: "Tu os embriagas na torrents de tau       sempre combati assiduamente por ela e qua
prazer" (Salmo 36,9), e tambbm Ezequiel que,          tambCm agora, se 6 licito dizer a verdade,
Falando do paraiso, menciona "0s frutos do pra-       combat0 em sua defesa tanto que meus acu-
zer" (€2 31.9.16.18).                                 sadores devem dizer-se inimigos da FC, e eu
      Mas por que, poderia algubm me pergun-          defensor.
tar, assumiste a tarefa de louvb-lo?                                                         IVda,
                                                                                              .
       [. . .] Eu, no verdade, santissimo poi, como                          Rpologlo ad Eugen~umIV.
testemunhei em minha propria obra, ndo me ocu-                                      sm Opera omnia.




                              Valla,
  xi e m urn6r incisdo renascentista,
              pode ser considerado
   prim reiro dos grandes fildlogos
                    da era moderna.
CaritMlo terceiro




          sobre a tradiCzo platGnica ern geral
     e   sobre os doutos bizantinos do SCCM~O

       A era do Humanismo e da Renascenga e marcada por maci-              NJ
 g revivesctSncia do Platonismo atraves da mediagao de bizantinos
  a                                                                          Neoplatonismo
 doutos, que afluiram ii Ithlia a partir dos inicios do 400; mas o         difundiu-se
 texto platdnico redescoberto continua a ser lido B luz da tradigao                   xv
                                                                           no s ~ c u ~ o
 plat8nica posterior, ou seja, em funs80 dos parametrostornados            por bizantinos
 canbnicos pelos Neoplatcinicos, 0 Platonismo, portanto, chegou            doutos
 aos renascentistas na forma do Neoplatonismo, e seu grande                +§ 1
 relangamento ocorreu principalmente por obra de Nicolau de
 Cusa, Ficino e Pico.



                                                      Para o leitor de hoje, que esta de posse
                                                das mais refinadas tkcnicas exegtticas, isso
                                                pode parecer paradoxal. Na realidade, po-
                                                rim, n i o o 6. Somente a partir de inicios do
       A Cpoca do Humanismo e da Renas-         Oitocentos C que se conseguiu comeqar a se-
cenqa C marcada por maciqa reviveschcia         parar as doutrinas genuinamente plathicas
do platonismo, que cria uma tgmpera espiri-     das doutrinas neoplat6nicas, e somente em
tual inconfundivel.                             nossos dias, pouco a pouco, se esta comple-
       A revivesciincia do platonismo, portm,   tando sistematicamente a imagem filosofi-
n i o significa o renascimento do pensamen-     ca de Platio em todos os seus traqos, como
to de Platio tal comp o encontramos ex-         jA vimos em parte no volume I.
presso nos dialogos. E verdade que a Idade            No fim do Trezentos Manuel Crisolora
Mtdia leu pouquissimos dialogos (Menon,         abrira uma escola de grego em Florenga,
Fe'don e Timeu) e que, ao contr6ri0, ao lon-    destinada a ser a "nova Atenas" no Ociden-
go do Quatrocentos, os didogos foram to-        te. Ai L. Bruni e depois M. Ficino teriam tra-
dos traduzidos para o latim, as vers6es de      duzido Platiio; ai acorreram os doutos de
Leonardo Bruni alcangaram grande sucesso        Constantinopla para o Concilio que em 1439
e muitos humanistas estavam em grau de          teria devido reunificar a Igreja grega com a
ler e entender o texto grego original. Entre-   latina; ai novamente encontraram acolhida
tanto, o redescoberto texto platbnico conti-    os doutos gregos que haviam fugido de
nuou a ser lido i luz da tradiqio platbnica     Constantinopla depois da queda da cidade
posterior, ou seja, em funqio dos pariimetros   na m i o dos turcos em 1453.
que os neoplat6nicos tornaram normativos              Era inevitavel a disputa a respeito da
e com multisseculares incrustag8es.             "superioridade" de Platio ou de Aristoteles.
32         Primeira parte - 0t l u m a n i s m o                e a RenascenGa



Jorge Gemisto (significativamenteapelidado
Pleton) sustentou o primeiro, enquanto Jor-
ge Scholarios Gennadio (por 1405-1472) e
Jorge de Trebisonda (1 396-1486) o segundo;
mais equilibrado, o doutissimo cardeal Bessa-
rione (1400 aproximadamente-1472),"o mais
latino dos gregos e o mais grego dos latinos",
tentou demonstrar a harmonia dos dois fi-
losofos. A preferhcia global dos humanistas
foi, em todo caso, em geral por Platso.
      Todavia, o grande relanqamento do
Neoplatonismo, do ponto de vista filosofi-
CO, aconteceria, de um lado, por obra de
Nicolau de Cusa, e, por outro, por obra da
Academia Plat6nica florentina com Ficino
A sua frente, e depois Pico.

N/c-thrr tic Cusil (1401-1464) for ~rtrileletctilogo c
jilrisol;, r~coplirttirr~~-o;I S tcv,r.~'rss>o c-orno L ~ I I I L I
                                           SIIL
,yrirudc3j901rtc cntrr ir evil rncd~ez'irl '1 rendsc-etztista.
                                                           e
A foto 2 clirc'it~irc~f~roiirrz~norzi~wzerrto Nic-olau
                                              o                    lie
~ J I ~ C ' C ' I I C O I I ~ ~ IV~ I 51111
        sc                    ~       I    Prrtro in Vine-olr,l'N2 K o I ~ z L ~ . .
I)r/c rcc-ovdmnos d tcorid da douta ;p~ori?tzcid m                          e
qric, ~ s t Ii ~ Y C W ~ I ~ ' O C O I Z S C ~ G I I C I C~I L d ~ ~ s p r o p ~ r ~ d o
                                      1                        I

~~sfr//fnrLr1 d t n ~ n t e r~mzn~z
                    crrtr~~                 h            (finit~l) o infinrto
                                                                   1,
'ro q//Lzlcl'r tcntfc. lltnl~~riso, 1 1 1 ~ 1 ~incisilo tir~dLr
                                                en1              1
eft, l f t l t d ol)rd if^ I j 38, N I C O ~ I1; M~ ' J J ) . c s c I ~1 ~ 0~ ~ O
                                                         IT                   2
c.cpntroiolll o c - h ~ cdi~zalic-io,    h               ctzquirnto C gr4iLz(io
[J('/Osc-oreiGcs d o chrz/)Cu prlo przpiz, rr firn dr q ~ l c
trilrrstnitiz ires fibs s i ~~zhetforiir.   ~
33
                                   Capitdo terceiro - O Neoplatonismo   renascentista




                 .
-m.-*-
--..rm.z,s           .   -    11. JJicoIaude Cusa:
             a   "douta      ignov&ncia" em         velaG~o infinito
                                                          a0


            A marca do pensamento de Nicolau de Cusa (1401-1464) e         Predominio do
    constituida principalmente pelo predominio do Neoplatonismo            Neoplatonismo
    (especialmente na formulagao dele dada pelo Pseudo-Dionisio),          no pensamento
    a servigo de fortes interesses teologicos e religiosos. Em particu-    de Njco/au
    lar, ele usa metodos matematicos de forma original, desfrutan-         , tj 1
    do-os em sua valencia analogico-alusiva e dando assim lugar a
    um metodo definido como docta ignorantia.
            A douta ignorsncia consiste:
          a) na consci@ncia desproporgao estrutural entre a mente humana (finita) e
                            da
    o infinito;
          b) na pesquisa relacionada que s mantem rigorosamente dentro do 6mbito
                                            e
    de tat consci4ncia critica: a mente humana, o intelecto, est6 para a verdade como
    o poligono esta para o circulo.
          Ora, a verdade, que e por si inatingivel, podemos porem nos A
    aproximar por meio de uma pesquisa por aproximagao, ja que as ignor;incia:
    varias coisas finitas podem aparecer como tendo certa relagao desproporqdo
    simbolica com o proprio infinito; no infinito (em Deus), com efei- entre mente
    to, tem lugar uma coincidentia oppositorum, no sentido que nele humana (finita)
    coincidem todas as distingbes que nas criaturas s encontram ao e infinito
                                                       e
    inves opostas entre si: Deus e o absolutamente maximo e 6 tao + 3 2
    sem nenhuma oposigao, que nele o minimo coincide com o m6xi-
    mo. A esta verdade pode aproximar-se nao a percepgao sensorial, que e sempre
    positiva, afirmativa, nem a razao (ratio), que e discursiva, e afirma e nega man-
    tendo distintos os opostos segundo o principio de nao-contradi@o, mas o intelec-
    to (intellectus), que esta acima de toda afirmagao e negagao, e capta a coincidh-
    cia dos opostos com um ato intuitivo.
           A derivagao das coisas a partir de Deus comporta tr@s
                                                               aspectos fundamentais:
         1) a complica@o: Deus contem em si todas as coisas, e portanto as "complica"
    (inclui) todas elas;
         2) a explicagao: o universo e a "explicagao" de Deus como A relac30
    explicagao da unidade na multiplicidade, no sentido de que o entre Deus
    universo e "imagem" do Absoluto;                                    e o universo.
         3) a contragao: explicando-se, Deus se "contrai" no universo,    significado
    isto e, s recolhe manifestando-se nele, assim como a unidade doprincipio
              e
    esta "contraida" na pluralidade. Ora, uma vez que cada ser e "tudo
    "contra@o" do universo, assim como o universo e por sua vez esta em tudo"
    contragao de Deus, cada ser reassume em si, de seu modo, o uni- + tj 3-4
    verso inteiro e Dew, e tudo esta em tudo.
           0 homem, por conseguinte, e "microcosmo" em dois niveis:       conceito
         a) em nivel ontologico geral, porque "contrai" em si proprio de
    todas a coisas;
            s                                                           como
         b) em nivel ontologico especial e gnosiologico, porque, sen- ~lmicro,osmolf
    do dotado de mente e de conhecimento, e complicagSo das com- + tj 5
    plicagbes; a mente humana, que e imagem de Deus, e a imagem
    da complicag~o complica~bes.
                    das               Aqui Nicolau esta em sintonia com os humanistas,
    os quais, do conceit0 de homem como "microcosmo", fizeram a sigla espiritual de
    uma epoca.
34
        Primeira parte - 0t l w n a n i s m ~e a   Renascen~a



      A vida,     obras
                   as                                  o adjetivo corrige o substantivo de mod0
                                                       essencial.
      e o delinearnento cukural
                                                             Vejamos, concretamente, em que con-
                                                       siste essa "douta ignorincia" de Nicolau de
                                                       Cusa.

      Uma das personalidades de maior des-
taque do Quatrocentos, talvez o ginio espe-
culativamente mais dotado, foi Nicolau de
Cusa, assim chamado por causa da cidade
de Kues (hoje Bernkastel, sobre o Mosel),
onde nasceu em 1401 (seu nome era Kryfts
ou, na grafia modernizada, Krebs). Alemio
de origem, mas italiano por formaqio, Nico-                  Em geral, quando se busca a verdade
lau estudou especialmente em Padua. Foi                acerca das varias coisas, p6em-se em relaqio
ordenado sacerdote em 1426 e tornou-se                 e comparam-seo certo com o incerto, o desco-
cardeal em 1448. Morreu em 1464.                       nhecido com o conhecido. Portanto, quan-
      Entre suas obras, podemos recordar:              do se indaga no imbito das coisas finitas, o
A douta ignoriincia (1438-1440), As con-               juizo cognoscitivo C ficil ou dificil (quando
jecturas (elaboradas entre 1440 e 1445), A             se trata de coisas complexas), mas, de qual-
busca de Deus (1445), A filia@o de Deus                quer rnodo, e' possivel.
(1445), A apologia da douta ignoriincia                      Entretanto, as coisas s i o bem diferen-
(1449), 0 idiota (1450), A vis2o de Deus               tes quando se indaga do infinito, que, en-
(1453), A esmeralda (1458), 0 principio                quanto tal, escapa a toda propor@o, res-
(1459), 0 poder ser (1460), 0 jogo da bola             tando-nos portanto desconhecido. E essa a
(l463),A caCa da sabedoria (1463), 0 com-              causa do nosso nzo saber em relaqio ao
pdndio (1463) e 0 apice da teoria (1464).              infinito: precisamente o fato de ele n i o ter
      Entretanto, somente em parte Nicolau             "proporqio" alguma em relaqiio i s coisas
de Cusa interpreta as instincias renascen-             finitas. A consciincia dessa desproporqio
tistas. Inicialmente, ele se formou com base           estrutural entre a mente humana (finita) e
na problematica ligada i s correntes ocka-             o infinito, ao qual porCm ela tende e pelo
mistas, e depois foi influenciado pelas cor-           qual anseia, e a busca que se mantCm rigo-
rentes misticas ligadas a Eckhart. Mas a               rosamente no imbito dessa conscihcia cri-
marca de seu pensamento C constituida so-              tics constituem a douta ignorincia.
bretudo pelo predominio do Neoplatonis-                      Eis as conclus6es de Nicolau de Cusa:
mo, especialmente na formulaqiio desenvol-             "0 intelecto ..., que niio C a verdade, n i o
vida pel0 Pseudo-Dionisio, quando niio de              pode compreender nunca a verdade de mod0
Escoto Eriugena (ainda que em menor me-                preciso, n i o podendo portanto compreendi-
dida), a serviqo de fortes interesses teologi-         la ainda mais precisamente ao infinito, por-
cos e religiosos.                                      que esta para a verdade como o poligono
      Entretanto, seria errado pensar em               esta para o circulo. Quanto mais ingulos
Nicolau de Cusa como filosofo predominan-              tiver o poligono, tanto mais sera semelhan-
temente ligado ao passado: com efeito, em-             te ao circulo; entretanto, jamais sera igual a
bora ele n i o se mostre alinhado com os               ele, ainda que multipliquemos seus ingulos
humanistas, tambCm niio se encontra alinha-            ao infinito, ja que nunca se chegari i iden-
do com os escolasticos. Na verdade, ele n i o          tidade com o circulo."
segue o metodo "retorico" (ou seja, inspi-                   Estabelecida essa premissa, Nicolau in-
rado na eloqiiincia antiga) proprio dos pri-           dica um caminho correto de busca por apro-
meiros, mas tambtm n i o segue o mitodo                xima@o daquela uerdade (em si mesma
da quaestio e da disputatio caracteristico dos         inalcanqavel),centrado na concepqio segun-
segundos. Nicolau faz uso original de mC-              do a qual ocorre no infinito uma coincidentia
todos extraidos dos processos matemiiticos,            oppositorum, isto 6, uma "coincidincia dos
nio, porCm, em sua valincia matemitica                 opostos". Por esse caminho, as virias coisas
propriamente dita, e sim em sua vakncia                finitas podem aparecer n i o tanto em antite-
analogico-alusiva. 0 tip0 de conhecimento              se com o infinito, mas muito mais como ten-
que deriva desse mCtodo C denominado por               do com o proprio infinito uma rela@o sim-
nosso filosofo como docta ignorantia, onde             bolica, de certa forma significativa e alusiva.
35
                                        Capitulo terceiro - 8Neoplatonismo renascrntista

     Em Deus, portanto, enquanto infinito,               0 mesmo vale, por exemplo, tambCm
coincidem todas as distinqoes, que nas cria-        para o triingulo. Se, pouco a pouco, pro-
turas se apresentam como opostas entre si.          longarmos um lado ao infinito, o triiingulo
0 que significa isso?                               acabara por coincidir com a reta. E os
                                                    exemplos poderiam se multiplicar. Portan-
                                                    to, ao infinito, os opostos coincidem. Deus
              J? "coincid&ncia dos   opostos"      C, portanto, "complicaq50" dos opostos e
no infinito                                         sua coincidhcia. 3:::""iT'

      Nicolau mostra bem o que entende
quando fala de "coincidhcia dos opostos",
utilizando o conceito de "miiximo". Em                    Tudo isso implica uma superaqiio do
Deus, que C maximo "absoluto", os opos-             mod0 comum de raciocinar, que se funda
tos "maximo" e "minimo" siio a mesma                no principio da niio-contradiqiio.
coisa. Com efeito, pensemos em uma "quan-                 Nicolau p6de tentar uma justificaqiio
tidade" maximamente grande e em uma ma-             das possibilidades dessa superaqiio exploran-
ximamente pequena. Agora, com a mente,              do a distinqiio (degCnese plathica) dos graus
subtraiamos a "quantidade". Note-se que             de conhecimento em: a)percepqiio sensorial;
subtrair a quantidade significa prescindir do       6 ) raziio (ratio); ) intelecto (intellectus).
                                                                        C
"grande" e do "pequeno". 0 que resta en-                  a) A percepqiio sensorial C sempre po-
tiio? Resta a coincidtncia do "maximo" e            sitiva ou afirmativa.
do "minimo", visto que "o maximo C su-                    6 ) A raziio, que C discursiva, afirma e
perlativo, como o C o minimo". Por isso,            nega, mantendo os opostos distintos (afir-
Nicolau escreve: "A quantidade absoluta             mando um nega o outro e vice-versa) segun-
(...) niio C mais maxima do que minima, jA          do o principio da niio-contradiqiio;
que nela coincidem minimo e maximo." Ou,                  C) ja o intelecto, acima de toda afirma-
para melhor dizer, pel0 fato de que Deus C          $50 e negaqiio racionais, capta a coinciden-
coincidhcia de maximo e de minimo, ele              cia dos opostos com um ato de intuiq3o su-
tambCm esta acima de toda afirmaqiio e ne-          perior. Escreve Nicolau: "Assim, de mod0
gaq5o.                                              incompreensivel, acima de todo discurso
      A geometria nos oferece esplhdidos            racional, vemos que o maximo absoluto C o
exemplos "alusivos" de coincidt?ncia dos            infinito, ao qual nada se op6e e com o qual
opostos no infinito. Tomemos um circulo,            o min?mo coincide."
por exemplo, e aumentemos o seu raio, pou-                 E nesse quadro que ele repropoe as
co a pouco, ao infinito, isto 6, at6 faze-lo        principais temiticas do neoplatonismo cris-
tornar-se miximo. Pois bem, nesse caso, o           tiio com originalidade e fineza.
circulo acabari por coincidir com a linha, e              Tr2s pontos merecem ser destacados de
a circunfer2ncia pouco a pouco se tornarii          mod0 particular:
minimamente curva e maximamente reta,                     a) o mod0 como ele apresenta a rela-
como mostra este grifico: r




     AlCm disso, no circulo infinito cada                 6 ) o destaque que dii ao antigo princi-
ponto sera centro e, ao mesmo tempo, tam-            pio segundo o qual "tudo esta em tudo";
bim extremo. E, analogamente, coincidiriio                c) o conceit0 de homem como "micro-
arco, corda, raio e di2metro. E tudo coinci-         cosm~".
diri com tudo.                                            Examinemos estes trss pontos.
f reIaC&o
                                                   vento no vento, C Pgua na agua, C tudo em
                                                    tudo, segundo a antiga maxima de Anaxa-
   '   entre D e u s e o universo                   goras.
                                                          Eis uma belissima pagina de Nicolau
                                                    de Cusa, em que ele expressa esse conceito
       Nicolau de Cusa apresenta a derivaqiio       de mod0 admiravel: "Dizer 'qualquer coisa
das coisas em relaqiio a Deus em funqiio de         esta em qualquer coisa' niio C mais do que
t r k conceitos-chave ( j i utilizados por alguns   dizer 'Deus esta em tudo pel0 tudo' ou kudo
pensadores plat6nicos medievais): 1 ) o con-        estP em Deus pel0 tudo'. Essas elevadissimas
ceito de "complicaqiio"; 2) o conceito de           verdades podem ser cornpreendidas clara-
"explicaqiio"; 3) o conceito de "contraqiio".       mente por um intelecto sutil: ou seja, de que
       1)Deus contCm em si todas as coisas          mod0 Deus, sem diversidade, esth em todas
(corno maximo de todos os maximos). As-             as coisas (porque qualquer coisa esta em
sim, pode-se dizer que ele "complica" (in-          qualquer coisa) e todas estiio em Deus (por-
clui) todas as coisas. Deus C a "complica-          que todas estiio no todo). Mas, como o uni-
qiio" de todas as coisas, assim corno, por          verso esti em qualquer coisa como qualquer
exemplo, a unidade numCrica C a "compli-            coisa esta nele, o universo, de mod0 contra-
casiio" de todos os numeros, dado que es-           ido, C em qualquer coisa aquilo que ele pro-
tes nada mais siio do que a unidade que se          prio C contraidamente. E qualquer coisa no
explica, e em cada numero nada mais se              universo C o proprio universo, embora o uni-
encontra sen50 a unidade. Basta pensar tam-         verso esteja de mod0 diverso em uma coisa
b t m no ponto, que C "complicaqiio" de to-         qualquer e esta esteja diversamente no uni-
das as figuras geomktricas, visto que a linha       verso."
niio C mais do que o ponto que se explica, e              E eis algumas belas exemplificaq6es:
assim por diante.                                   "Esta claro que a linha infinita C linha, tri-
       2) Com esses exemplos, tambim fica           iingulo, circulo e esfera. Toda linha finita
claro o conceito de "explicaqiio". Mas de-          tem seu ser a partir da linha infinita, que C
vemos notar uma coisa: quando se conside-           tudo aquilo que existe. Por isso, na linha
ra Deus como "complicaqiio", deve-se di-            finita, tudo aquilo que C a linha infinita (isto
zer que todas as coisas est5o em Deus, e G o        t, linha, triingulo etc.) C linha finita [...I
Deus em Deus; quando se considera Deus              Todas as coisas na pedra siio pedra, na alma
como "explicaqiio", Deus C em todas as coi-         vegetativa siio alma, na vida siio vida, no
sas aquilo que elas Go. Diz Nicolau: enquan-         sentido siio sentido, na vista siio vista, no
to explicaqiio, Deus "6 como a verdade na            ouvido siio ouvido, na imaginaqiio siio ima-
sua imagem". Desse modo, dizer que o uni-           ginaqiio, na razio siio raziio, no intelecto G o
verso C explicaqso de Deus significa dizer          intelecto, em Deus siio Deus." ",,"     '
 que ele C "imagem" do Absoluto.
        3) 0 conceito de "contraqiio" se expli-
 ca como consequtncia disso, ou seja, como
 manifesta~iiode Deus. N o universo, Deus
 e s d "contraido", assim como a unidade esta
 "contraida" (se manifesta) na pluralidade,
 a simplicidade na composiqiio, a quietude
 no movimento, a eternidade na sucessiio
 temporal e assim por diante.                               0 conceito d e homem como "mi-
                                                    c r o c o s m ~ "nada mais C do que uma con-
                                                    sequincia dessas premissas. N o context0 do
                                                    pensamento de Nicolau, o homem C "mi-
 4 0~ i ~ n i f i c a d o principio
                      do                            crocosm~" dois planos: a ) no plano on-
                                                                     em
       "tudo est6     em   tudol'                   tol6gico geral, porque "contrai" em si mes-
                                                    mo todas as coisas (da mesma forma que,
                                                    nesse sentido, toda coisa C microcosmo);
      Assim sendo, entiio, cada ser C "con-         6) no plano ontologico especial, visto que,
traqiio" do universo, assim como este, por          sendo dotado de mente e conhecimento, o
seu turno, C contraqiio de Deus. 0 que sig-         homem, d o ponto de vista cognoscitivo,
nifica que cada ser resume o universo intei-        t "implicaqiio" das imagens de todas as
ro e Deus. Todo o universo C flor na flor, C        coisas.
Citemos duas passagens mais caracte-          se explicam universalmente no universo,
risticas a esse respeito, dado que, nesse pon-      porque existe um mundo humano. Todas
to, Nicolau de Cusa estii em perfeita sintonia      as coisas siio complzcadas humanamente na
com os humanistas, que fizeram d o concei-          humanidade, porque ela C um deus huma-
to de homem como "microcosmo" uma ver-              no. Com efeito, a humanidade C unidade,
dadeira bandeira ideal, a marca espiritual          que C tambCm infinidade humanamente
de toda uma Cpoca.                                  contraida."
      Nas Conjecturas, lemos: "0 homem                   No escrito A mente (que 6 parte de 0
C um microcosmo ou urn mundo humano.                idiota), no fim, se 1;: "Considero que a men-
Em sua p o t h c i a humana, a area da huma-        te [do homem] C a mais simples imagem da
nidade compreende Deus e o universo-mun-            mente divina, entre todas as imagens da
do. 0 homem pode ser um deus humano                 complica@o divina. A mente C a imagem
ou humanamente urn deus, como pode ser              yrimeira da complica@o divina, que com-
um anjo humano, uma fera humana, um                 plica todas as suas imagens na sua simpli-
lea0 humano, urn urso humano etc. Na                cidade e na sua virtude de complica@io.
potencia da humanidade todos os seres               Deus, com efeito, C a complzcapio das com-
existem segundo o mod0 particular dela.             plica@5es e a mente, que C imagem de Deus,
Na humanidade se explicam humanamen-                C a imagem da complica@o das compli-
te todas as coisas, do mesmo mod0 como              cagoes.   "   .' l
                                                                    f




                Roma, como sede do dominium terreno sobre terra italica do papado,
            opBs urn sentimento nacional italiano contra as pretens6es ao dominio politico
                                       sobre a Italzu do impe'rio.
                        lncisao tirada do Supplementum Chronicarum, 1490.
38     Prtmeira parte - 0t l u m a n ~ s m o
                                           r   a Renascenca




                              III. j'Vlavsilio Ficioo
             e a     Academia plat6nica florentina

  Nascimento
                           * Em 1462 nasce em Florenqa a Academia Platenica, urna
                     associac$o de doutos e amantes da filosofia platbnica sob a dire-
                      l o de Manilio Ficino (1433-1499). Este, corn suas tr&satividades
   caracterjsticas
  do pensamento
                     5undamentais- intimamente ligadas - de a) traduto~; pensa-
                                                                              b)
                     dor e fildsofo, C) mago, marcou urna virada decisiva na historia
  de Ficino          do pensamento humanista-renascentista.
  +§I

         0 pensamento de Ficino, express0 sobretudo na Theologia platonica, 6 urna
forma de Neoplatonismocristianizado, do qua1emergem quatro aspectospeculiares.
                       a) A filosofia como "revela@o". 0 dispor a alma de mod0
  0s qua tro      que s torne intelecto e acolha a luz da divina revelaqao, em que
                        e
 aspectos         consiste a atividade filosofica, coincide corn a propria religi%o:
 principais                       iniciada com Hermes, Orfeu, Zoroastro, e conthua-
                  esta revelac;c?o,
  da fi'osofia    da por Pitagoras e Platlo, completa-se depois definitivamente
  de Ficino
  + 3 3-7         com a vinda de Cristo, com o fazer-se carne do Verbo.
                       b) A alma como "copula mundi". A estrutura metafisica da
                  realidade e urna sucessa"~ cinco graus decrescentes de perfei-
                                             de
qdo: 1) e 2) Deus e anjo (mundo inteligivel), 3) alma, 4) e 5) qualidade e materia
(mundo fisico). A alma representa o no de conjun@o, que e simultaneamente
todas as coisas: ela tem em si a imagem das coisas divinas, das quais depende, e as
razdes e os exemplares das coisas inferiores, que de certo mod0 ela propria pro-
duz. A alma e o centro da natureza, e o n6 e a copula do mundo.
      c) 0 repensamento em senso cristao do "amorplat~nico".0 amor na sua mais
aka manifestasao coincide com a reintegraszo do homem empirico com sua meta-
empirica ldeia em Deus: esta reintegraqao e possivel atraves da progressiva ascen-
Go na escala de amor, e portanto e urna especie de "endeusamento", um tornar-
s eterno no Eterno. A teoria do "amor plat6nico" teve larga difusao na Italia
 e
(Pico, Bembo, Castiglione) e tambem na Fran~a.
       d) A impodncia da magia "natural". Ficino n l o hesitou em se proclamar
"mago", seguidor porCm n%o magia profana, fundada sobre o culto dos de-
                                 da
m6nios, e sim da magia natural, que liga a coisas celestes a terrenas. A magia
                                              s                 s
natural implica a animaszo universal das coisas, e age por meio do "espirito", a
subst4ncia material sutilissima que permeia todos os corpos; particuiarmente, ela
predispae o "espirito" do homem a receber o mais possivel o "espirito" do mun-
do. E em tudo isso Ficino nao via nada de contrario ao Cristianismo: o proprio
Cristo, em muitos casos, fora um curador.




 1 A    posi@o de Ficino                             qiiilidade, dedicar-se ao estudo e B traduqiio
                                                     de PlatHo. Essa data assinala o nascimento
     no pensamento renascentista                     da "Academia Plat(jnican, que ndo foi uma
     e as caracteristicas                            escola organizada, mas muito mais um so-
     de sua obra                                     dalicio de doutos e amantes da filosofia plat&
                                                     nica, d o qua1 Ficino foi a mente diretora.
                                                           Marsilio Ficino (1433-1499) marcou
     Em 1462, Cosme, o Velho, dos Medici,            urna reviravolta decisiva na histbria do pen-
doou a Ficino urna vila em Carregi, para que         samento humanista-renascentista. Em parte,
ele pudesse, com toda a comodidade e tran-           essa reviravolta se explica pelas novas con-
39
                                    Capitdo terceiro - 0N e o p l a t o n i s m o   renuscentisfa



                                                    seguindo um plano filosofico claro. 0 teo-
                                                    rico, portanto, guiou as escolhas do tradu-
                                                    tor. E a atividade do tradutor, assim como a
                                                    do pensador, liga-se com a do mago, n i o de
                                                    mod0 agregado, e sim essencial, pelas ra-
                                                    z6es que explicaremos.


                                                                Ficino c o m o tvadutor
                                                     Lid irio



                                                         A atividade oficial de Ficino como tra-
                                                    dutor comeqou em 1462, precisamente com
                                                    as vers6es de Hermes Trismegisto, ou seja,
                                                    com o Corpus Hermeticum, do qua1 ja fala-
                                                    mos amplamente, e com os Hinos brficos,
                                                    aos quais se seguiram, em 1463, os Com-
                                                    mentaria in Zoroastrem. Em 1463, Ficino co-
                                                    meqou a traduqio das obras de Platio, nas
                                                    quais trabalhou at6 1477. Entre 1484 e 1490
                                                    traduziu as Enbadas de Plotino e, entre 1490
                                                    e 1492, traduziu Dionisio Areopagita.
                                                         Entre uns e outros, traduziu tambim
diq6es politicas, que acarretaram uma trans-        obras de Medio-plat6nicos, de Neopitagoricos
formaqio do literato-chanceler da Republi-          e de NeoplatGnicos, como Porfirio, JBmblico
ca no literato-cortesiio, a serviqo dos novos       e Proclo, alim do bizantino Miguel Pselo.
senhores. Mas a atividade de pensamento dos              Como se v;, o mapa da "tradiqio plat&
literatos-chanceleres ja esgotara todas as suas     nica" esta completo.
possibilidades, e agora era necessario apre-             A traduqio de Hermes Trismegisto,
sentar uma fundamentaqiio teorica daquele           Orfeu e Zoroastro antes de Platiio decorre
"primado" e daquela "dignidade" do homem            do fato de que Ficino considerava como
sobre os quais todos os humanistas da pri-          autcnticos e antiquissimos os documentos
meira metade do Quatrocentos insistiram,            atribuidos aqueles pretensos profetas e ma-
mas, no mais das vezes, permanecendo no             gos, achando que Platio dependia deles.
nivel fenomenologico e descritivo. E essa obra
foi empreendida precisamente por Ficino,
com base na recuperaqiio maciqa e no repen-                ...0 s p o n t o s f u n d a m e n t a i s
samento da grande tradiqio "platGnican.                         do   p e n s a m e n t o filosbfico
      A importiincia de Ficino esta emergin-
do de mod0 sempre mais claro como ver-
dadeiramente essencial n i o somente para
compreender o pensamento da segunda me-                  Como filosofo, Ficino se expressou so-
tade do Quatrocentos, mas tambim para               bretudo nas obras Sobre a veligiiio cristii e
entender o pensamento do Quinhentos.                na Teologia plat6nica, alim de em varios
       Foram tr2s as atividades fundamentais        comentarios a Platio e a Plotino.
i s quais Ficino se dedicou: 1)a de tradutor;            Seu pensamento i uma forma de Neo-
2 ) a de pensador e fiksofo; 3 ) a de mago.         platonismo cristianizado, rico em observa-
N i o acrescentaremos como quarta ativida-          q6es interessantes, entre as quais emergem
de a de sacerdote (fez-se ordenar padre em          como peculiares as seguintes:
 1474, ja na faixa dos quarenta anos de ida-             a ) o novo conceito de filosofia como
de), pois, como veremos, para ele "sacerdo-         "revela@o";
te" e "filosofo" s i o a mesma coisa. Suas tr2s          b ) o conceito de alma como "copula
atividades revelam-se intimamente ligadas           mundi ";
entre si e ate indissoluveis. Ficino traduziu            c ) um repensamento do "amor plat&
grande quantidade de textos (de que falare-         nico" em sentido cristio;
mos logo) nao por erudiqio, mas para res-                d ) uma defesa da "magia natural".
 ponder a necessidades espirituais precisas e            Examinemo-las singularmente.
4 f filosofia                                        Ora, os primeiros dois graus e os ulti-
                                                  mos dois siio claramente distintos entre si,
  I   coma    " r e v e l a ~ o divina
                                "                 como mundo inteligivel e mundo fisico, ao
                                                  passo que a alma representa o "elemento de
                                                  conjunqiio", que tem as caracteristicas do
      A filosofia nasce como "iluminaqiio"        mundo superior e, ao mesmo tempo, C ca-
da mente, conforme dizia Hermes Trisme-           paz de vivificar o mundo inferior.
gisto. 0 ato de dispor e dobrar a alma de              Numa otica neoplatGnica, Ficino ad-
mod0 que se torne intelecto e acolha a luz        mite uma alma do mundo, almas das esfe-
da divina revelaqiio, em que consiste a ativi-    ras celestes e almas dos seres vivos, mas C
dade filosofica, coincide com a propria reli-     sobretudo para a alma racional do homem
giiio. Filosofia e religiiio siio inspiraqiio e   que ele dirige seu interesse.
iniciaqiio aos sagrados mistCrios do verda-            0 lugar mediano da alma C terceiro,
deiro. Hermes Trismegisto, Orfeu e Zoro-          tanto percorrendo os cinco graus da hie-
astro foram igualmente "iluminados" por           rarquia do real de baixo para cima como
essa luz, sendo portanto profetas. Assim, sua     de cima para baixo, como mostra este es-
obra 6 uma mensagem sacerdotal, voltada           quema:
para a divulgaqiio do verdadeiro.
      0 fato de que esses "prisci theologi"



                                                            1 1
                                                       1          Deus               5
tenham podido captar uma mesma verdade
(que tambem foi atingida, sucessivamente,                         ?A
                                                                  &
por Pitagoras e Platgo), segundo Ficino, se            4          qualidade          2
explica perfeitamente em funqiio do Logos,             5          matCria            1
ou seja, do Verbo divino (do qua1 at6 mes-
mo Hermes Trismegisto fala expressamen-
te), que C igual para todos. A vinda de Cristo,         Ficino salienta particularmente a im-
o Verbo fazendo-se carne, assinala o com-         portincia da alma com sua funqiio de "in-
plement~    dessa revelaqiio.                     termCdio7' (medium) de todas as coisas. Ela
      Portanto, Hermes, Orfeu, Zoroastro,         se insere entre os corpos sensiveis, sem ser
Pitagoras, Platiio (e os platbnicos) podiam       corporea nem sensivel; C dominadora dos
perfeitamente se harmonizar com a doutri-         corpos, mas adere ao divino. E isto, diz Fi-
na cristii, posto que derivavam de uma uni-       cino, t o milagre maximo da natureza (hoc
ca fonte ( o Logos divino).                       maximum est in natura miraculum). Ela, em
      A religiiio dos simples niio basta para     certo sentido, inclui em si todas as coisas,
vencer a incredulidade e o ateismo; C preci-      porque tem em si as imagens das coisas di-
so fundar uma douta religiiio (docta religio)     vinas das quais todas as outras dependem,
que sintetize,filosofia platbnica e mensagem      e constitui o nexo que as liga e, portanto,
evangilica. E precisamente nessa 6tica que        ela C "o no e a copula do mundo" (nodusque
deve ser vista a consagraqiio sacerdotal de       et copula mundi).
Ficino, assim como a sua miss20 de sacer-
dote-filosofo.


 5 f estrutura hier6rquica
      do real e a alma
      coma "corula mundi"
                                                        Estreitamente ligado a tematica da al-
                                                  ma esta, em Ficino, o tema do "amor platb-
     Ficino concebe a estrutura metafisica        nico" (ou "amor socratico"), no qua1 o Eros
da realidade, segundo o esquema neopla-           platbnico (entendido por Platiio como for-
tbnico, como uma sucessiio de graus de-           qa que, visiio da beleza, eleva o homem ao
crescentes de perfei~iio,que ele, porCm, de       Absoluto, dando alma as asas de que ne-
mod0 original (em relaqiio aos neoplat6-          cessita para retornar ? patria celeste)
                                                                           sua
                                                                            i
nicos pagiios), identifica nos cinco graus se-    se conjuga com o amor cristiio.
guintes: Deus, anjo, alma, qualidade (= for-            Para Ficino, em sua mais alta manifes-
ma) e matCria.                                    taqiio, o amor coincide com a reintegraqiio
41
                                    Capitulo terceiro - 8~ e o p l c r t o n i s m o~ . e v m s c r n t i s t a

do homem empirico a sua metaempirica                   "magia natural", niio a magia perversa, que
Ideia em Deus, o que se torna possivel atravis         trafica com os espiritos, nem a magia vazia
de uma progressiva ascensiio na escala do              e profana.
amor. Portanto, i uma espicie de "endeusa-                   A "magia natural" de Ficino fundamen-
mento", um fazer-se eterno no Eterno.                  tava-se na construqiio neoplat6nica do seu
      "Certamente - escreve Ficino no Co-              pensamento, que implica a animaqiio uni-
mentario ao Banquete - aqui estamos di-                versal das coisas, mas tambim, particular-
vididos e truncados, mas depois, ligados pel0          mente, na introduqiio de um elemento espe-
Amor a nossa IdCia, voltaremos a ser inte-             cial que ele chama "espirito", que 6 uma
gros, de mod0 que parecera que nos primei-             substLincia material sutilissima que perpas-
ro amamos Deus nas coisas para depois                  sa todos os corpos e que, entre outras coi-
amar as coisas nele e que nos honramos as              sas, constitui o meio pelo qual a alma age
coisas em Deus sobretudo para nos recupe-              sobre os corpos e estes sobre ela.
rarmos - e, amando Deus, amamos a nos                        Esse "espirito" (substiincia pneumati-
mesmos.  "                                             ca) esta difundido em toda parte e, portan-
      A teoria do "amor plat6nicon teve am-            to, esta presente em nos, assim como esta
pla difusiio na Italia (Pico della Mirandola,          presente no mundo e no ciu. 0 "espirito do
Bembo, Castiglione), pois o terreno ja ha-             ciu", porim, C mais puro. Fazendo uso de
via sido preparado pela difusiio do "doce              varios meios, precisamente "naturais", a
estilo novo" e pelas tematicas a ele ligadas,          "magia natural" de Ficino tendia a predis-
mas tambim fora da Italia (especialmente               por oportunamente o "espirito" que esta no
na Franqa).                                            homem a receber o mais possivel o "espiri-
      Leiio Hebreu (cujo verdadeiro nome C             to" do mundo e a absorver sua vitalidade
Jehudah Abarbanel, tendo nascido em 1460               "por meio dos raios dos astros oportuna-
e morrido por volta de 1521), em seus Dia-             mente atraidos".
logos de amor distinguiu-se de todos pel0                    Enquanto portadores de vida e de es-
frescor e originalidade, reelaborando essa             pirito, podiam ser utilizados diversamente
doutrina de forma que fara sentir sua influtn-         pedras, metais, ervas e conchas, desfrutan-
cia at6 mesmo na concepqio do amor Dei                 do-se de sua presumida "simpatia" de mod0
intellectualis de Spinoza, de que falaremos            vantajoso. Assim, Ficino tambim confec-
adiante.                                               cionava talismiis. Alim disso, fazia uso de
      Entre os muitos documentos relativos             encantamentos musicais, cantando hinos or-
ao "amor plat6nicon, para concluir, lembra-            ficos com acompanhamento instrumental
remos a bela Alterca@o de Lourenqo de                  monocordico para assim captar as benifi-
Midici, que mostra a grande penetraqiio                cas influtncias danetarias com consonin-
dessa doutrina do amor e pde em grande                 cias que "simpatizavam" com as dos astros.
salitncia o conceit0 de que, amando a Deus,            E vinculava estreitamente essas praticas com
n6s "nos elevamos a altura dele", e que nos-           a medicina.
sa alma "amando se converte e m Deus, e                      Ele n i o via nada de contrario ao cris-
sobre o Deus visto se dilata".                         tianismo em tudo isso: em muitos casos, o
                                                       proprio Cristo havia sido um curandeiro.
                                                             Essas coisas, notemos bem, niio siio fe-
                                                       n6menos de pura excentricidade isolada,
      A doutrina mhgica                                mas S ~ coisas comuns a muitos homens do
                                                                 O
      de Ficino                                        Renascimento, constituindo portanto um
                                                       elemento caracteristico de uma ipoca, do
      e sua   importAncia                              qual niio podemos prescindir para compreen-
                                                       der esse periodo.
                                                             Notemos que Giordano Bruno, um si-
     A doutrina magica de Ficino pode ser              culo depois, apresentara na Universidade de
vista sobretudo na obra De vita, de 1489               Oxford aulas sobre "magia natural", at6
(que i composta de trts escritos). Ele niio            mesmo plagiando o terceiro dos tratados do
hesita em proclamar-se "mago", seguidor da             De Vita de Marsilio Ficino.
IV. Pico della Mivandola
     entve      plat~ni~mo,
                         avistotelismo, cabala e veligizo

            0 s dois pontos mais relevantes da filosofia de Pico della Mirandola (1463-
     1494) - vizinha, mas com numerosas divergCncias, da posiqiio de Ficino - referem-
     se A concepqiio da cabala e a doutrina da dignidade do homem.
                            A cabala e urna doutrina mistica de origem medieval e de
                       influxo helenistico, ligada 8 teologia hebraica, que reline o aspec-
      Pico della      to tedrico-doutrinalde uma interpretasiio "aleg6ricaUda Biblia, e
      Mirandola:       o aspect0 pratico-mdgico, baseado sobre a concep@ode que as
      a cabala         letras e os nomes hebraicos refletiriam tanto a natureza espiritual
        a dignidade   do mundo como a linguagem criativa do mundo. Ora, Pico afirma
         hornern
       + 3 2-3         erroneamente que a cabala remonta a mais antiga tradisiio
                       hebraica, e at6 a Mois&s, e nesse sentido projetou a unifica~iio
                       de aristotelismo e platonismo, filosofia e religiiio, magia e cabala.
           Preliminar a esse grande projeto de unificaqiio era a doutrina da "digni-
     dade do homem", segundo a qual, enquanto todas as criaturas silo ontologica-
     mente determinadas a ser aquilo que sao e n%o       outra coisa, o homem 6, ao con-
     trario, a unica criatura posta no confim de dois mundos e com urna natureza
     constituida de mod0 a plasmar-se e esculpir-se segundo a forma pre-escolhida:
     a grandeza e o milagre do homem esta, portanto, em ser artifice de s i prdprio,
     autoconstrutor.



:.     ,, 0 pensamento de Pico                   teorico, mas atingisse tambim a vida reli-
                                                 giosa e retomasse a pureza dos costumes
                                                 (nesse sentido, foram significativas suas sim-
     A posig5o de Ficino, t i o rica de ideias   patias por Savonarola).
e tematicas, tem urna correspondincia an6-            Deter-nos-emos aqui em dois pontos de
loga na posigiio de Pico della Mirandola         maior relevo de sua doutrina.
(1463-1494), apesar de suas numerosas di-
ferengas e divergincias.
     As novidades mais vistosas que ele trou-
xe, em relagio a Ficino, foram as seguintes:
                                                      Pico e a     cabala
     a) -2 magia e ao hermetismo, ele agre-
gou tambCm a "cabala" (ou cabbala), cuja
eficacia extraordinaria exaltou;                       Como Pico entendia a "cabala" e como
      b) quis tambCm envolver Aristoteles no     considerava poder inseri-la em seu plano de
programa geral de pacificagiio doutrinaria       conciliaq50 geral entre religi5o e filosofia?
(estudara o aristotelismo sobretudo em                 A cabala C urna doutrina mistica ligada
Padua);                                          a teologia judaica, sendo apresentada como
      C ) alCm disso, sentiu a necessidade de    revelagio especial feita por Deus aos hebreus,
reagir contra os sintomas de um incipiente       a fim de que pudessem conheci-lo melhor e
fen6meno de involuq50 em sentido grama-          melhor pudessem entender a Biblia.
tologico e, portanto, fortemente reducionis-           A cabala conjuga dois aspectos: um
ta, que se manifestava em alguns humanis-        aspecto teorico-doutrinario (que, entre ou-
tas, defendendo assim algumas conquistas         tras coisas, comporta urna particular inter-
da escolistica (nesse sentido, i significativa   pretagzo "alegorica" da Biblia) e um aspec-
a polimica com Ermolau Barbaro), que es-         to pratico-magico, que se desenvolve tanto
tudou especialmente em Paris;                    por urna forma de auto-hipnose voltada para
      d) manifestou o vivo desejo de que a       concretizar a contemplag50 como por urna
reforma religiosa n5o se limitasse ao plano      forma muito proxima da magia, fundada no
43
                                   Capitulo terceiro - 0fleoplatonisrno   renascentista



suposto poder sagrado da lingua hebraica e            Por esse motivo, Pico dedicou-se inten-
no poder proveniente dos anjos oportuna-        samente ao estudo da lingua hebraica (alCm
mente invocados, bem como dos dez nomes         do arabe e do caldeu), porque sem o conhe-
que indicam os poderes e atributos de Deus,     cimento direto do hebraico n30 se pode pra-
chamados sefirot.                               ticar a cabala com eficicia, pel0 motivo que,
      A cabala i de origem medieval, apre-      segundo as convicq8es dos sustentadores da
sentando influhcias helenisticas (em certos     cabala, as letras e os nomes hebraicos teriam
aspectos manifesta um espirito analog0 a o      um poder especial, enquanto refletiriam tan-
dos escritos hermtticos, dos Oraculos Cal-      to a natureza espiritual do mundo como a
deus e do Orfismo), porim seus fundadores       linguagem criativa de Deus.
a fizeram remontar imais antiga tradiqao              Somente nessa otica C que se podem
hebraica.                                       entender as famosas novecentas Teses ins-
      TambCm neste caso, o responsavel por      piradas nu filosofia, nu cabala e na teologia,
uma sCrie de posiq6es assumidas por Pico        apresentadas por Pico, nas quais deveriam
foi um gritante err0 historico. Com efeito,     se unificar aristotilicos e platGnicos, filoso-
ele considerava que a cabala remontava ver-     fia e religiiio, magia e cabala. Algumas des-
dadeiramente a antiga tradi~iio, mesmo
                                 ate'           sas teses foram julgadas herkticas e conde-
a Moise's, que a teria transmitido oralmen-     nadas. Em conseqiicncia disso, Pico sofreu
te, sob a forma de iniciaqiio esotirica.        uma serie de contrariedades, sendo inclusi-
44
       Primeira parte - O t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n G a

ve preso na Savoia, quando fugia para a                     fato de ele ser artifice de si mesmo, auto-
Franqa. (Depois foi libertado por Louren-                   construtor.
qo, o Magnifico, e perdoado por Alexandre                         Eis o belissimo discurso posto por Pico
VI em 1493).0 Discurso sobre a dignidade                    na boca de Deus e imaginado como dirigi-
do homem, que se tornou muito famoso e                      do ao homem recCm-criado, o qua1 teve
que permanece um dos textos mais conhe-                     vastissimo eco sobre contemporheos de
cidos do humanismo, devia constituir a pre-                 todas as tendhcias: "Eu niio te dei, Adgo,
missa geral das Teses.                                      nem um lugar determinado, nem um aspec-
                                                            to proprio, nem qualquer prerrogativa s6
                                                            tua, para que obtenhas e conserves o lugar,
                                                            o aspect0 e as prerrogativas que desejares,
                                                            segundo tua vontade e teus motivos. A na-
                                                            tureza limitada dos outros esta contida den-
                                                            tro das leis por mim prescritas. Mas tu de-
                                                            terminaras a tua sem estar constrito por
                                                            nenhuma barreira, conforme teu arbitrio, a
                                                            cujo poder eu te entreguei. Coloquei-te no
     A doutrina desse grandioso "manifes-                   meio do mundo para que, dai, tu percebes-
to" sobre a "dignidade do homem" i apre-                    ses tudo o que existe no mundo. Niio te fiz
sentada como derivaqiio da sabedoria do                     celeste nem terreno, mortal nem imortal,
Oriente, desenvolvendo-se particularmente                   para que, como livre e soberano artifice, tu
de uma sentenqa do AsclLpio, obra atribui-                  mesmo te esculpisses e te plasmasses na for-
da, como ja dissemos, a Hermes Trismegisto:                 ma que tivesses escolhido. Tu poderas dege-
"Magnum miraculum est homo".                                nerar nas coisas inferiores, que siio brutas,
     Eis as afirmaq6es explicitas do nosso                  e ~ o d e r a ssegundo o teu querer, regenerar-
                                                                           ,
autor: "Li nos escritos dos hrabes, vene-                   te nas coisas superiores, que siio divinas."
randos Padres, que Abdalla Saraceno, inter-                        Este C um verdadeiro e proprio mani-
rogado sobre o que lhe parecia admiravel                    festo do pensamento humanista-renascen-
neste palco do mundo, respondeu que niio                    tista em sua globalidade.
percebia nada de mais esplhdido do que o                           Portanto, enquanto os seres brutos na-
homem. E com essa afirmaqiio concorda o                     da mais podem ser alCm de brutos e os anjos
famoso dito de Hermes: 'Grande milagre, 6                   somente anjos, j4 no homem existe o germe
Asclipio, C o homem.' "                                     de cada vida. Conforme o germe que culti-
     Mas por que o homem C esse grande                      var, o homem se tornari planta, animal ratio-
milagre? A explicaq50 que Pico d i a essa                   nal ou anjo e at6 mesmo, se niio estiver con-
quest50 (e que, com justiqa, tornou-se mui-                 tente com todas essas coisas e recolher-se em
to famosa) C a seguinte. Todas as criaturas                 sua unidade mais intima, entiio, "tornado um
siio ontologicamente determinadas a ser                     s6 espirito com Deus, na solitaria nCvoa do
aquilo que siio e niio outra coisa, em virtu-               Pai, aquele que foi posto acima de todas as
de da esshcia precisa que lhes foi dada.                    coisas estari acima de todas as coisas".
Ja o homem, unico entre as criaturas, foi                          Em conclusiio, como se pode ver, so-
posto no limite entre dois mundos, com                      mente no context0 migico-hermitico e
uma natureza niio predeterminada, mas                       cabalistic0 C que se pode entender a cilebre
constituida de tal modo que ele prdprio se                  mensagem de Pico della Mirandola. E so-
plasmasse e esculpisse segundo a forma                      mente considerando essa otica C que se pode
prL-escolhida. Assim, o homem pode se                       entender a especificidade e a peculiaridade
elevar a vida da pura intelighcia e ser                     do humanismo renascentista e, portanto, sua
como os anjos, podendo a t i mesmo ele-                     diferenqa em relaqiio ao human~smo      medie-
var-se ainda mais acima. Desse modo, a                      val e a outras formas posteriores de huma-
grandeza e o milagre do homem estzo no                      n i s m ~2;
                                                                      .
0 fundamento da filosofia de Francisco Patrizi (1 529-1 597)
 e a conviq%ode que sem filosofia n%o possivel ser religiosos. A
                                         e                                  Patrizi:
 filosofia de Aristoteles ele opde a de Plat$o, mas sobretudo a             a importSncia
 filosofia hermetica, para ele de muito valor. Depois dessa certeza         da filosofia
 convidou o papa a promover o ensinamento do Corpus Her-                    hermetica
 meticum e se atreveu tambem a recomendar-lhe o hermetismo                  +5 1

 no plano de estudos dos jesuitas.



                                                 maes retornarem i f i catolica. E chegou att
                                                                    i
                                                 mesmo a recomendar ao pontifice a intro-
                                                 duqao do hermetismo no programa de estu-
     da mentalidade hermktica                    dos dos jesuitas. Em suma, para Patrizi, o
                                                 Corpus Hermeticum teria podido ser otimo
                                                 instrumento a serviqo da restauraqio do
      Francisco Patrizi viveu no sCculo XVI      catolicismo.
(1529-1597), mas trilhou o mesmo cami-                 A Inquisiqio, obviamente, condenou
nho de Ficino e de Pico. Ele representa um       como nao-ortodoxas algumas das idiias de
exemplo paradigmatic0 da tenaz manuten-          Patrizi, que aceitou submeter-se a julgamen-
sao da mentalidade hermttica, como ja ilus-      to. A tentativa de fazer a Igreja acolher ofi-
tramos: Ele se ocupou a fundo do Corpus          cialmente Hermes Trismegisto so podia fa-
Hermeticum, bem como dos Oraculos Cal-           lir, dada a confusio dos planos religioso e
dew. Sua obra teorttica mais notivel i a         magico que implicava. Todavia, tal tentati-
Nova filosofia universal.                        va permanece verdadeiramente emblematica
      Seguindo Hermes Trismegisto (que ele       e muito significativa para fazer compreen-
considerava n i o apenas contemporiineo de       der uma das componentes essenciais do es-
Moisis, mas a t i mesmo mais velho um pou-       pirito renascentista.
co, paulo senior), Patrizi tinha a convicqao
de que, sem filosofia, n i o era possivel ser
religioso nem piedoso. Mas a deformaqgo
da filosofia de Aristoteles, que negava a pro-
vidcncia e a onipotincia de Deus, mostra-
va-se gravemente prejudicial. Portanto, era
necessirio opor a Arist6teles a filosofia pla-
t6nica (PlatHo, Plotino, Proclo e os Padres),
mas especialmente a filosofia berme'tica
 (para ele, um tratado de Hermes valia mais
 do que todos os livros de Arist6teles).
      Patrizi chegou ao ponto de conclamar
o Papa a promover o ensino das doutrinas
do Corpus Hermeticum, que, na sua opi-
niiio, seria de enorme importiincia, poden-
 do ter o efeito de fazer os protestantes ale-
Primeira parte - 0 tlumanismo           eaRenas~en~a



                                                     mente, que seja sd, ndo pode discordar. Todos
                                                     aqueles que buscam, julgam as coisas incertas
                                                     comparando-as e proporcionando-as com u       m
                                                     pressuposto qua seja certo. Toda busca tem
                                                     cardter comparative e emprega o meio do pro-
                                                     porc;do. € quando os objetos da busca podem
0 0 conceito                                         ser comparados ao pressuposto certo e a ele
                                                     ser proporcionalmenteconduzidos por u caml-
                                                                                              m
      de "douta ignoriincia"                         nho breve, entdo o conhecimento se torna fdcil.
                                                     Contudo, se temos necessidade de muitas pas-
                                                     sagens intermedidrias, nascem dificuldades e
        0conceito de "doutoignorBncio Q cer-"
                                                     Fadiga: vemos isso na matemdtica, onde as pri-
 toments u dos mols significotivos e mois
              m                                      meiras proposi(6es sdo remet~das      aos princi-
 conhscidos sntrs os concsitos sloborodos por        pios primeiros, por si mesmos conhecidos, com
 Nicolou ds Cuso.                                    facilidade, enquanto & mais dificil ai reconduzir
        Conhecer implico ssmpre uma possogem         as propos@es sucessivas, e 6 preciso faz&-lo
 do conhaido ao desconhecido. No Bmbito das          atravhs das proposi~bes   precedentes.
 coisas finitos ssto possogam Q ssmprs possi-
 vel, por mois dificil que posso ser om csrtos
 cosos,porque oquilo que 0 buscodo ssM ssm-          2. 0 infinito,
 prs em proporgio dquilo que se busco s do              enquanto transcende
 quo1 ss parte. Ro contrario, quondo sa indo-           toda proporg60 e comparagiio,
 go sobrs Deus, Falto esta relaq3o ou propor-           6 incognoscivel
 (;do, porqus Dsus Q inhito, e entrs o finto e              Toda pesquisa consiste portanto em uma
 o infirtito ntio hd proporgtio.                      propor@ocomparativa, que & fdcil ou diHciI. Mas
        R consci&ncio que ss odquire desta            o infinito, enquanto infmito, urna vez que se
  "despropor@io"    entrs nosso mants s o infini-     subtrai a qualquer propor@o, nos & desconhe-
 to Q justamente o "douto ignordncio critico-
                                        "             cido. R proporq30 exprime conveni&ncia e, ao
 mants fundado. Podsmos nos avizinhar do              mesmo tempo, alteridads em rela~do algo, e
                                                                                             a
 vsrdods apenos por aproxima~do,       ssm jo-        por isso ndo a podemos entender sem empre-
 mais pod&la compresndsr de mod0 prsciso              gar os numeros. 0 numero inclui em si tudo
 e que ndo results supardvsl sm um modo               aquilo que pode ser proporcionado. 0numero,
 aindo mais preciso.                                  que constitui a propor@o, ndo existe apenas
                                                      no Bmbito da quantidade, mas tamb&m em to-
                                                      das as outras colsas que, de qualquer modo.
                                                      podem convir ou diferir entre si pel0 substdncia
1. Em toda pesquisa procedemos                        ou pelos acidentes. Por isso, talvez, Pittigoras
   comparando e proporcionando                        pensava que tudo exists, tern consist&nciae &
   as coisas incertas com prenupostos certos          inteligivel em virtude dos numeros.
      Dom de Deus, vemos que em todas as
coisas 6 inerente certa aspirqdo natural de           3. A douta ignorsncia
existir do melhor mod0 permitido pela natureza           como consci8ncia Fundada da ignorencia
de coda uma delas; e todas agem em vista                 que 6 pr6pria do homem
deste fim e t&m meios adequados; e a elas
est6 ligada certa capacidade de julgamento                  Todavia, a precisdo nos combina$5esen-
conveniente com o objetivo de conhecer sua fi-        tre as coisas corporeas e uma propor~do     per-
nalidade, a fim de que sua aspira@o ndo seja          feita entre o conhecido e o desconhecido & su-
v6 e cada urna possa alcancar a pa2 no centro         perior as capac~dades raz6o humana, razdo
                                                                              da
de gravidade para o qua1 tende a propria natu-        pela qua1 parecia a S6cratas n60 conhecer nada
reza. S s ocorre diversamente, & seguramente          mais que a propria ignordncia;' e Salom6o.
devido a causas acidentais, como quando urna          saplentissirno, sustentava que "todasas CO~SOS
doenp corrompe o gosto ou urna opinido des-           sdo dificeis" e inexplictiveis com nossas pala-
via a razdo. Por isso dizemos que um intelecto        vras;' e outro sbbio, dotado de espirito divino.
sdo e livw conhece e abra<a corn amor a ver-          diz qua a sabedoria e o Iugar da intelig&ncia
dade qua aspira insaciavelmente alcan~ar quan-
do vai indagando sobre toda coisa com o pro-
cedimento discursivo que Ihe & inerente; e sem           'Cf. PlatGo. Rpologia de Sdcrotes, 25b.
dljvida a verdads mais segura 6 a de qua toda            "cles~ostes 1.8.
47       ,i
                                                                                                                ,
                                               Capitulo terceiro - O ~leoplatomis~o
                                                                                  renascentista



estdo escondidos "aos olhos de todos os vi-                pode medi-lacom precisdo, assim como o ndo-
v e n t ~ s "Portanto, se & assim, que tambhm
             .~                                            circulo ndo pode medir o circulo, cuja realida-
Rristoteles, o pensador mais profundo, no filo-            de & 0190 de indivisivel. Por ISSO, o intelecto,
sofia primeira afirma que nas colsas por sua               que ndo & a verdade, jamais consegue
natureza mais evidentes encontramos urna difi-             compreend8-la de modo t6o preciso qua ndo
culdade semelhante b de uma coruja que ten-                possa compreand8-la de modo mais preciso.
tasse fixar o soIr4 entdo quer dizer que deseja-           ao ~nfinito; tam com a verdade uma rela<do
                                                                       s
mos saber n60 saber, dado que o desejo de                  semelhante b do poligono com o circulo: o
saber, que estb em nos, ndo dsve ser vdo. E se             poligono inscrito, quanto mais 6ngulos tivar
pudermos alcan$b-loplenamente, teremos al-                 tanto mais se tornarb semelhante ao circulo,
can~ado    uma douta ignordncia. R coisa mais per-         mas jamais se tornarb igual a ale, mesmo que
feita que um homem, por mas interessado que                multiplique ao infinito os proprios dngulos, a
esteja no saber, poder6 alcanpr na sua doutri-             menos que ndo se resolva em identidade com
na & a consci8ncia plena da ignor8ncia que Ihe             o circulo.
6 propria. E tanto mais ser$ douto, quanto mais                 <  portanto evidente que, no que se refere
se reconhep ignorante. E em vista deste fim                ao verdadeiro, ndo sabemos mais do que o fato
que assumi a fadiga de escrever algumas pou-               de ale ser incompreensivel em sua realidads
cas colsas sobre a douta ignordnc~a.                       de modo preciso; que a verdade & como a ne-
                                                           cessidade mais absoluta, que ndo pode ser nam
4. 0 intelecto humano                                      mais nem menos do que aquilo que &, e nosso
   jamais pode compreender a verdade                       intelecto 6 como a possibilidade. R sss8ncia
   de modo t60 preciso                                     das coisas, qua & a verdade dos entes, & Ina-
   que 16 a possa compremder
        10                                                 tingivel em sua pureza, buscada por todos os
   de mod0 ulteriormsnte sempre mais preciso,              f~losofos, por nenhum debs descoberta sm
                                                                      mas
   ao infinito                                             sua realldads em si. E quanto mais a fundo for-
                                                           mos doutos nesta ignorbncia, tanto mais tere-
      Se & por si evidente que o infinito ndo tam          mos acesso b propria verdade.
propor560 com o f~n~to,  segue-sedo modo mais                                              Nicolau ds Cusa,
claro que, onde se encontra um mais e um me-                                            I douto ignor6ncio.
                                                                                        3
nos, ndo ss chsgou ao mbximo em todos os
sentidos, pois as coisas qua admitem um mais
e um menos s6o entidades finitas. U m6ximo
                                       m
de tal porte & necessariamente infin~to.    Dada
uma coisa qualquer, que ndo seja o m6ximo                        A 'coincidOnck dos opostos"
em todos os sentidos, & claro que poder-se-6                     em Deus
dar algo malor do qua ela. E urna vez que des-
cobrimos que a igualdade & gradual, de modo
que uma coisa & igual mais a uma outra e ndo                      Outro concsito fundamento1 sobrs o
a uma tarceira, em base a conveni8ncias s a                 quo1 ss bosaia o pensomsnto ds Nicolou ds
n6o-conveni&ncias,em rslagio a coisas seme-                 Cuso B o do coincid&ncia dos opostos em
Ihantes, no g&nero, no esphcie, no situaq5o lo-             Deus.
cal, no capac~dade influ&nc~a, tempo, &
                      de             no                           Colocando-sa ocimo c b razdo discur-
evidente que n6o se podem encontrar duas ou                 siva, qua procsds atrovBs ds ohrmo@o s
mais coisas tdo semelhantes e iguais entre si.              nsgogbo, bossondo-sejustomsnts sobrs a
que ndo se &em outras mais semelhantes, ao                  distlngio dos opostos (ou ssjo, ofirmando
~nfinito.Por lsso a medida e a coisa medida,                um dos dols opostos s nsgondo o outro, ou
por mais se avizinhem para ser iguais, perma-               vics-vsrso), o homsm pods com o intui~do
necerdo sempre diferentes entre SI.                         intelectiva colocor-ss aclma do discurso ro-
      U intelecto finito, portanto, ndo pode
       m                                                    cionol, s comprssndsr como no infin~too
alcanrpr com precisdo a verdade das coisas                   "mdximo obsoluto a o "mi'nimo o bsoluto
                                                                               "                           "



procedendo mediante semelhanqs. fl verda-                   coincidam.
de ndo tem graus, nem a mais nem a menos,                         Um sxsmplo olusivo 6, o proposito,
e consiste em 0190 de indlvisivel; de modo que              o do circulo: sa oumsntado ao infinito,
aquilo que ndo seja o proprio verdadeiro, ndo               todo ponto nsls sa tornord cantro s oo
                                                            masmo tempo ponto sxtrsmo, s todo orco,
                                                            corcla, roio a dldmstro ao infinito v1r6o o
    3J0 28,2l.                                              coincidir.
    'Cf Aristoteles, Metofkico, livro II, 1 . 993b 95s
Primeira parte - 8tlwnanismo e a Renasrenca

                                                        B. A coincidhcia dos opostos
            Deste rnodo, Deus ao infinito Q todas          capta-sr pondo-sr acima
     as coisas, e, oo rnesrno tempo, nenhuma de-
                                                           da raz6o discursiva
     los, justornente porqus, sendo sle codo urno
     maxirnamente, Q ao mesmo tempo codo urno                0 s opostos encontram-seapenas nos coi-
     m~nirnamente, couso do coinciddncio, no
                      por                              sas que adrnitsm o mais e o rnsnos, e ai se en-
     infinito, d~rnaxirno e rninirno.                  contram de modos d~versos;      mas em nada con-
            N ~ s t ssntido, sernpre por couso do co-
                    e                                  v&m ao m6ximo absoluto, pois ele & superior a
     incid6ncio dos opostos no infinito, Deus Q o      toda oposi@o.Portanto, uma vez que o rn6ximo
      Unidode obsoluto, ou sejo, o Uniclode que        em ssntido absoluto & em ato, de rnodo rn6xi-
     em oto d tudo oquilo que tern o possibilido-      mo, todas as coisas que podsrn ssr, ssm qual-
     d~de sar, justornente no infinito obsolutez.      quer opos~@o,   pelo fato de no rnbxirno estor o
                                                       coinciddncio do rninmo, el@ tornbQrn superior
                                                                                       C
                                                       o todo ofirrno@o, ossirn como o todo negogdo.
                                                             E tudo aquilo que nele & concebido como
    1. Em qur srntido mdximo r minimo                  ser, n6o h6 razdo para que seja em vez de que
       no absoluto coincidrm                           n6o seja. E tudo aquilo que nele se concebe
                                                       como ndo-ser, n60 h6 razdo para que ndo seja
           0m6ximoabsoluto em todo sentido, do qua1 em vez de que seja. Mas ele Q ~ s t o        coiso de
    n6o pode haver colsa maior, nos o captarnos modo to1 qua Q tochs os coisos, e Q todas os
.   apenas no modo do incompreensivel, pois el@ coisos de rnodo to1qua ndo Q nsnhurno coiso. E
    & superlor b nossa capacidade de compreend&- & de modo m6xirno esta coisa, de tal mod0 a
    lo, pelo fato de ser verdade infinita.             s&-lade modo minirno.
           Ele ndo pertence b natureza das coisas que        Dizer: "Deus, que & a propria maxim~dade
    adrn~tem mais e urn rnenos, mas est6 acima absoluta, & luz", & o mesmo que dizer: "Deus &
               um
    de tudo o qua possa ser concebido por nos. maximamente luz de modo tal que & luz mini-
    Todas as coisas, sejam elas quais forem, que mamente". Se assim ndo fosse, a rnaximidade
    apreendemos corn os sent~dos,     com a razdo ou absoluta nbo serla em ato todas as coisas pos-
    com o intelecto, diferem em si mesrnas e uma siveis, lsto &, se ela n6o fosse ~nfin~ta,         termo
    em relagio d outra de modo tal que entre elas de todas as coisas, mas determin6vel por ne-
    ndo se d6 nenhurna igualdade preclsa. R             nhuma delas. [. ..]
    igualdade m6xtma, que n6o admite alteridads              Este pensamento transcende toda a nos-
    ou diversidads em relaq3o a algurna coisa, su- sa capac~dade        intelect~va, qual, seguindo o
                                                                                      a
    para toda capacidade do intelecto.                 caminho da razdo, n60 consegue p6r junto os
           0mdx~mo sentido absoluto, uma vez contraditorios no proprio principio.Camlnharnos
                       em
    que & tudo aqu~lo     que pode ser, est6 plena- entre as coisas que a naturezo nos torna mani-
    mente em ato. E como ndo pode ser maior fsstas: e a raz60, bem distante desta for~a                infh
    [daquilo que 61, pelo mesmo motivo n60 nita, n6o sabe ligarjunto os contraditor~os,               que
    pode ser rnenor, dado que ele 6 tudo aqu~lo d~stam          ~nfin~tamente SI.Vernos, portanto,
                                                                                entre
    que pode ser.                                                                      6
                                                        que a absoluta maxim~dade inf~n~ta,     aclma de
           Minimo & aquilo do qua1 ndo pode haver todo d~scursoracional, a maximidade b qua1
    colsa menor. E, uma vez que o m6ximo & da nada se op6e, e com a qua1 o minimo coincide.
    mesma natureza, & claro que o minimo coincide Mdximo e minimo, assim corno 560 emprega-
    corn o m6ximo.                                      dos neste I~vro,    s6o termos transcendentes,
           lsso ss tornard mais claro para t~se cons(- dotados de s~gn~ficado     absoluto, e abarcam em
    derares o m6ximo e o minimo controi'dos em sua absoluta simplicidade todas as coisas, aci-
    quantidade.                                         ma ds toda contra@o em um signif~cado or-   de
           n quant~dadem6xirna 6 rnaximamente dm- quantitat~va,              relatwa a massas e forqx.
    grande. R quantidade minima 6 max~marnente
    pequena. C~berta    agora da quantidade o m6-
                                                        3. A maximidade absoluta Q o Uno absoluto
    xlmo e o rninimo, subtraindo-lhes,com o Inte-
     lecto, a n o ~ 6 o grande e de pequeno, e
                       de                                    Mas a unidade n6o pode ser nirmero, pols
    ver6s com clareza que o m6ximo e o rnin~mo o nljmero admite sempre u mais, e n6o pode
                                                                                      m
    coincidem.                                          ser nem minimo nem m6ximo em t d o sentido.
           Tanto o m6x1mocomo o minimo s6o su- Todavla, ela & pr~ncip~o todo numero, pois 6 o
                                                                                  de
                                                                 E
     perlativos. Portanto, na quantidade absoluta min~rno. & o flm de todo numero, pois 6 o m6-
     ndo h6 motlvo para que seja m6xima em vez ximo. Portanto o unidode obsoluto, 6 quo1nodo
    de minima, pois nela o minimo & o m6xim0, co- ss opda, Q o proprio rnoxirnidode obsoluto, qus
     incidindo os dois entre si.                        Q Deus bendito. Tal unidade,sendo rndxima, ndo
49
                                      Capitdo terceiro - 8N e o p l a t o n i s m o   renascentista



C multiplic6vel, pois C tudo aquilo que pode ser. 1. 0 antigo principio de Anaxagoras
E, portanto, ela ndo pode se tornar nljmero.             "tudo esta em tudo"
       V6, portanto, que as considera@es sobre           na interpreta@o metafisica neoplatenica
o nljmero nos levaram a entender como a Deus
                                                            Se considerares corn agudez tudo o que
inomin6vel convenha mais de perto a unidode
                                                     foi dito, ndo te ser6 dificil ver o fundamento de
obsoluto, e qua Deus Q uno de rnodo to1 qua GIG
                                                     verdade daquela express60 de flnaxCl~0raS
Q ern oto tudo oquilo que tern o possibilidode
                                                     que "toda coisa est6 em toda coisa",' verdade
de ser.
                                                     talvez mais profunda do que o proprio Rnaxa-
       Tal unidade n6o acolhe o mais e o menos, e
                                                     goras pensasse. Com efeito, uma vez que do
ndo & multiplic6vel.R divindade 6 unidadeinfinita.
Rqueleque disse: "Owe,Israel",o teu h s "6 uno"; '   pr~meiro    livro se conclui que Deus est6 ern to-
                                                     das as coisas de modo tal que todas estdo nele,
e: "uno & o mestre" e C "o vosso p nos ~ C u s " , ~
                                       i
                                                     e uma vez que agora nos consta que Deus @st6
n60 teria podido dizer coisa mais verdadeira.        em todas as coisas como qua por meio do uni-
                                    N~colau Cusa. verso, a partir disso temos que todas as coisas
                                           de
                                 A douta 1gnor6ncia.
                                                     ~ s t d em todas e toda coisa esM em cada uma.
                                                             o
                                                            0universo, por certa ordem de natureza,
                                                     precedeu toda coisa como realidode perfei-
                                                     tissima, de modo que toda coisa pudesse es-
                                                     tar em toda coisa.
                                                            Ern todo crioturo o universo Q o ser da-
        "tuclo est6 em tudo"                         quelo rnssrno criotura, e assim coda coisa rece-
        e seu significado                            be todas as coisas, de modo que nela esteja o
                                                     proprio ser delas, controido.
                                                            Uma vez que toda coisa ndo pode ser em
         0ontigo princ@iode Rnaxdgoros "tudo ato todas as coisas, estando controido, ela con-
  estd ern tudo" Q retornodo pel0 Naoplo-             trol em s~todas as coisas, a fim de que estas
  tonisrno, a Q lavodo por Nicolou de Cuso ds        sejam o seu propr~o     ser.
  extrernos consequ&ncios. Ern Rnox6goros o                 Se todas as coisas estdo em todas as
  prlnc@io volio poro os 'horneornerios", qua        colsas, todas as coisas parecem preceder coda
  constituern o rnothrio do quo1 os coisos sdo       coisa. Mas a totalidade das colsas ndo C plu-
  feitos: todos os horneornerios esMo presan-         ralidade, pois a pluralidade ndo precede cada
  tes ern todos os coisos, oindo que am peque-        coisa. Todas as coisas, portanto, sem plu-
  nissirno rnedido, rnos o Intelig&ncio perrno-       ralidade, precederam cada coisa por urna or-
  nacio cornplatornenta foro dasss nexo. No           dem natural. R pluralidade, portanto, ndo @st6
  Neoplotonisrno ossurne, oo contrdrio, urn sig-      em ato em toda coisa, mas todas as coisas,
  nificodo global e urno volidez obsoluto poro        sem pluralidade, sdo o proprio ser de cada uma.
  todo forrno de reolidode ern todos os nivais.
         Nicolou de Cuso, oo oprofunclor a da-        2. Em que sentido Deus
  senvolver a t e princ@io,ssrve-sa do concei-           esta em todas as coisas
  to rnetofkico de "controgio". Este conceito            e todas as coisas est6o em Deus
  significo o de-terminar-se da olgo de rnois
  garol a universal ern olgurno coiso rnois por-            0 universo est6 nas coisas apenas de
  ticulor ou rnois definido e em urno rnultipli-      rnodo controido,e toda coisa que existe em ato
  cidode estruturol. Pondo-nos nesto optico           controi todas as colsas, de modo que elas se-
  conceituol, se Daus h rndxirno, obsoluto, inh-     jam em ato aqu~lo      que coda uma C. Tudo aqui-
  nito, o cosrno oporece corno ser Deus de            lo que ex~ste ato est6 em Deus, porque ele
                                                                       em
  rnodo contraido, ou sejo, vern o ser o uno, o       & o ato de todas as coisas. 0ato 6 a perfeicdo
  obsoluto a o infinito de-terminado em urna          e o fim da pot6ncla. Portanto, uma vez que o
  multiplicidade de coisas especificamente di-        universo est6 controido em toda colsa existen-
   ferenciadas e fini tas. Por suo v e ~o universo
                                         ,            te em ato, & evidente que Deus, que esth no
   esM ern todo coiso singulor de rnodo contra-       universo, est6 em toda coisa, e coda coisa exis-
   ido, ou sajo, esM em codo coiso aspecifico-        tente em ato est6 imed~atamente         em Deus,
   rnante da-terrninodo s dlferanciodo, a indi-       enquanto ela & o universo.
   viclvolrnanta rnultiplicodo.                              Portanto, d~zsr  "toda coisa est6 em toda
                                                      co~sa" o mesmo que dizer Deus, mediante
                                                               &
Primeira parte - 6 tlumanismo e a R e n a s c e ~ ~ a


todas as coisas, est6 em todas, e todas as           assim a estupenda unidade das coisas, a ad-
coisas, mediante todas, estdo em Deus.               mir6vel igualdade, a admirdvel conexdo, de
     Estes pensamentos muito profundos se            mod0 que todas as coisas est6o em todas.
compreendem com clareza e com agudez de                    Compreendes tamb&m como disso pro-
intelecto, isto 6 , que Deus sem diversido-          cedam a diversidads e a conexdo das coisas.
de est6 em todas as coisas, porque coda coi-         Com efeito, toda coisa ndo pode ser em ato
sa @st6 toda coisa, e que todas as coisas
        em                                           todas as coisas, uma vez que desse modo ela
@st60em Deus, porque todas estdo em to-              teria sido Deus, e por isso todas as colsas
das. Todavia, uma vez que o universo est6            estariam em cada uma segundo a possibili-
em coda coisa, de mod0 tal que cada uma              dade do ser propria de coda uma. E nem to-
esteja nele, o universo 6 em coda coisa con-         da coisa poderia ser em tudo semelhante a
traidamente aquele ser que coda uma & de             outra  [...I.
modo contraido, e toda coisa no universo 6
o proprio universo, embora o universo em             5. Ulterior sxemplifica@io
cada coisa esteja de modo diverso, e toda               do 'tudo ern tudo"
coisa, igualmente, esteja diversamente no               na imagem do homem
universo.                                               r de wus membros
                                                          Todas as coisas, portanto, encontram pa2
3. Exemplo da linha e das Figuras
                                                    em cada urna delas, uma vez que um grau do
       Eis um exemplo. € claro que a lmha ~nfini- ser n6o poderia estar sem o outro, corno, entre
ta 6 linha, tri6ngul0, circulo e esfera. Toda linha os membros de um corpo, todo membro & ljtil
finita tem o propr~o a partlr da linha infinita, ao outro e todos encontram paz em todos. Uma
                     ser
e esta & todo o ser dela. Por isso, na linha fini- vez que o olho n6o pode ser em ato tambhm
ta todo o ser do linha infinita - que 6 linha, m60, p& e todos os outros membros, o olho se
tridngulo etc. - 6 o proprio ser do linha finita. contenta de ser olho, e o p& de ser p&.
Toda figura, no linha finita, & a mesma linha.            Todos os membros se ajudam reciproca-
       E ndo & que nela exista tridngulo, ou cir- mente, de modo que coda um deles subsiste
culo, ou esfera em oto, porque cle mais coisas no proprio ser do melhor modo possivel.
em ato n6o temos um ato so, uma vez que toda              R m6o e o p& n6o est6o no olho, mas no
coisa ndo est6 em ato em toda coisa, mas o olho eles 560 olho, enquanto o olho est6 no
tri6ngulo na linha & linha, o circulo no linha & homem de modo imediato.
linha, e assim por diante.                                E assim tamb&m todos os membros es-
       Para que vejas isso com maior clareza: a t60 no p&, porque o pb est6 de modo imedia-
linha s6 pode estar em ato no corpo     [...I.      to no homem, e assim todo membro atravhs
       NinguBm p6e em dljvida que em um cor- de todo outro membro est6 imediatamente no
po, dotado de comprimanto, largura e profun- homem, e o homem, ou seja, o todo, em virtu-
didads, estejam complicodas todas as figuras. de de coda membro est6 em cada outro mem-
Na linha em ato todas as figuras em ato s6o a bro, assim como o todo est6 nos partes, ou
propria linha, e no tridngulo sd0 tridngulo, e seja, em cada parte em virtude de coda uma
assim por diante.                                   das outras.
       Com efeito, todas as coisas na pedra s6o           Se considerares a humanidade como algo
pedra, na alma vegetativa s6o a mesma alma absoluto. n6o mistur6vel e n6o contraivel, e
vegetativa, na vida s6o vida, no sentido sdo considerares o homem no qua1 estd a mesma
sentido, no vista s6o vista, no ouvido s6o ouvi- human~dade modo absoluto e do qua1 pro-
                                                                  de
do, na imagina~60,imaglnaG60, na raz60, ra- cede a humanidade controido, que & o ser do
260, no intelecto, intelecto, em Deus, Deus.        homem, ent6o a human~dade       absoluta & como
       E agora v&s como a unidade das coisas, se fosse Deus, e a contraido & como se fosse o
ou seja, o universo, est6 no pluralidade e, vice- universo.
versa, a pluralidade est6 na unidade.                     R humanidade absoluta est6 no homem
                                                    de modo principal e prlorit6rio e, em consequ&n-
                                                    cia disso, tambbm est6 em cada membro e em
4. Todas as coisas s60,
    na coisa especifica, a propria coisa,           coda parte; a humanidade controido, a0 con-
                                                    trbrio, no olho & olho, no corq6o & cora@o, e
    a a propria coisa, em Deus, i Drus
                                                    assim por d~ante, seja, de modo controido
                                                                        ou
       Olho mais atentamente, e ver6s que toda em coda colsa & coda coisa.
coisa existente em ato encontra pa2 porque tudo                                        Nicolau d s Cusa,
nslo Q a10 propr~o, slo om Deus Q Deus. V8s
                      e                                                            R douta ignor6ncia.
5 1 llj'/
                                    Capitdo terceiro - 0 rleoplatonismo    renascentista



                                                  sas, e todas os coisos, snquonto contraidas,
     0 m6ximo absoluto                            nels sncontroriam poz como em suo perfeito
                                                  rsolizogbo.
     e a natureza do homem                              Ele seria medida do homem e do anjo, co-
     como microco~mo                              mo diz Jo6o no Rpocalipse;' serla tomb&m me-
                                                  dida de cada coisa singular, porque seria entida-
                                                  de contraida das criaturas singulares em virtude
       Com boss nos concsltos qua lemos nos
                                                  da mido com a entidade absoluta, que 6 entida-
 pdginos prscsdsntss, Nicolau ds Cuso oprs-
                                                  de absoluta de tudo. Atrav&s dele todas as COIF
 ssnto o homem como "microcosmo". 0 ho-
                                                  sas rcxeber~am inicio e o F de sua contra(60,
                                                                  o            m
                                                                               i
 mam, com efsito, contrai as rsalidodss supe-
                                                  uma vez que atrav6s dele, que & m6ximo contra-
 riores (ongQ11cos) os rsalidadss infsriorss
                   a
                                                  ido, todas as coisas a partir do m6ximo absolu-
 (os onimais s os vsgetois) como rsolichds
                                                  to seriam postas no ser da contra(60, e retor-
 mQdio ou intsrmsdidr~a.
                                                  nariam ao absoluto pela mediac60 dele, como
       E Daus fsito homam (no F~lho), md-
        m                               o
                                                  principio da emana(6o e fim do retorno.
 ximo, o mi'n~mo o mQd~o noturszo ss
                 e            do
 unam smtsticoments no mdximo obsoluto, ds
 modo to1 qus €16-sa imp& como o psrfsigbo        3. Cristo, filho d r Deus e filho do homem
 obsoluto de todos os coisos.                           Deus, sendo a igualdade do ser para to-
       Mos tombam considsrodo em si, o ho-        das as coisas, & o criador do universo, o qua1
 mam Q como um Deus humano, um infinito           foi criado tendo Deus como Flm. R igualdade
  'humonomsnts controi'do", s todos os coisos     sumo e m6xima do ser em relac60 a todas as
 do univsrso sxistsm no homam sob Formo           co~sas sentido absoluto seria aquela b qua1
                                                          em
 humona, s naste ssntido justomsnts o ho-         se uniria a natureza da humanidads, e ossim
 mem Q um "microcosmo".                           Dsus, om virtuds clo humonidads qus ossumiu,
                                                  sario contraidomsnts todos os coisos no humo-
                                                  nidods, assim como & absolutamente todas as
                                                  coisas pela igualdade do ser. Este homem,
1. A natureza humana                              portanto, uma vez que subs~ste virtude da
                                                                                  em
   como a mais devada das criaturas               unido na mesma igualdade mdxima do ser, se-
      R natureza humana & a que vemos eleva-      ria Rlho de Deus como seu verbo, no qua1 Fo-
da acima de todas as obras de Deus, um pou-       ram feitas todas as coisas, ou seja, serla a
co menor em rela(6o b natureza ang&lica; el0      mesma igualdade do ser, a qua1 se chama filho
complico a natureza intelectual e a sensivel, e   de Deus [...I; e todav~ando deixaria de ser Fi-
abrqa em si mesma todas as coisas, de modo        Iho do homem, assim como n60 deixaria de ser
a ser chamada justamente pelos antigos de         homem.
microcosmo ou pequeno mundo. €lo Q oqusla
qua, se fosse elsvodo d unibo com o moxl-         4. Em que sentido o homem 6 "microcosmo"
mldods, constitu~rio planituds ds toclos os
                     o
parfeigbes do univsrso s dos sntss singulorss,
                                                         fldmirdvel criasdo de Deus 6 esta, na qual,
                                                  gradualmente,o poder do discernimentodo pon-
e na unidade todas as coisas alcan(ariam seu
                                                  to central dos sentidos & Ievado at& a natureza
grau supremo.
                                                   intelectual suprema, atrav&s de graus e de car-
                                                  tas vertentes orgenicas, onde, com continuida-
2. Em Deus encarnado no homem                     de, as liga~des   produzidas pelo mais sutil espi-
  esta a totalidade contraida                     rlto corporeo sdo tornados luminosas e simples
  de todas as coisas                              at& a vitoria da virtude da alma e at& a que tal
                                                  Foculdade do discernimento chegue 21 c&lula do
     fl humanidade exlste apenas de modo
                                                   poder da raz6o. Dai, em seguida, ele chega at&
controi'do neste ou naquele homem. De modo
                                                  a virtude supremo do intelecto, como atravbs de
que ndo seria possivel que mas do que um so
                                                   um rlo se chega ao mar sem fim, onde se con-
verdadeiro homem ascendesse b unido com a
                                                  jectura hover outros coros, da disciplina, da mte-
maximidads, e este, certamente, seria homem
                                                   lig6ncia e da intelectual~dade  simplicissima.
de modo tal que serla Deus, e Deus de modo
                                                         fl unidade do humano, uma vez que est6
tal que seria homem, perfei@o do universo,
                                                   controi'do humanamente, parece complicor tudo
primeiro em todas as coisas; nsls o mi'nimo,
o mdximo s o mhdio do noturszo, unidos d
moxlmidods obsoluto, coinc~diriom modo
                                     de
to1 qus sls serio o psrfsigbo ds toclos os COI-
52
        Primeira parte - 0t l v m a n i s m o e a R e n a s c e n c a


segundo a natureza desta controgdo. 0 poder
d a t a sua unidade abrago a universalidade das
colsas e a cont&m dentro dos termos da pro-
pria regido, ds modo que nada de tudo Ihe
escape. Uma vez que se conjectura que todo
ante seja captado ou mediante o sentido, ou
mediante a razdo, ou mediante o intelecto, e o
homem v& que estas faculdades s6o complica-
das em sua unidade, sup6e poder-se esten-                           como "copula mundi"
der, de modo humano, a todos as entes.
       0 homem 6 , com efeito, Deus, mas ndo
em sentdo absolute, porque 6 homem; 6, por-                         Uma dos concepq3es mais significoti-
tanto, um Deus humano. 0 homem & tamb&m                       vos de Morsi'lio Ficino Q a do almo como co-
mundo, mas n6o G controidomante todas as                      pula mundi, de derivogdo neoplotdnico.
coisas, porque & homem. Ele G por isso micro-                       Pora Plotino, com efeito, a olmo Q a ul-
cosmo ou mundo humano. A regido da humani-                    timo deuso, ou sejo, o ultimo dos r~alidodes
dade abra<a Deus e o mundo universal no seu                   inteligiveis e, por conseguinte, Q a real~dode
poder humano. 0 homem pode ser Deus hu-                       que confino com o sansivel, ocupando oss~m
mano e, como Deus, pode ser de modo huma-                     um grau mtermediario entre os sera.
no, anjo humano, besta humana, ledo humano                           ConformaFicino, anologamante, no es-
ou urso ou qualquer outro ser. No poder huma-                 truturo hier6rquica do realidode a olmo do
no existem todos os entes conforme o modo                     mundo ocupa o grau mQdio (o t~rceiro),    reu-
desse poder.                                                  nmdo em suo propria unidode todos os ou-
       Na humanidade todas as coisas a t 6 0                  tros graus, isto 6, o mundo inteligivel (Deus
explicodos humanamente, assim como no uni-                    s onjo) e o mundo fisico (quolidodes 5 ma-
verso elaso sd0 no modo do universo, de sor-                  tQr~o): desse modo, a almo cosmico 6 inter-
te que existe um mundo humano.                                medidrio de todos as coisas, e a todos ultra-
       Na humanidade, por fim, todas as coisas                posso, oscendendo poro o olto e descendo
estdo complicoclos de modo humano, porque o                   poro o baixo.
homem 6 um Deus humano.
       R humanidade 6 unidade, e ela b um infi-
nito humanamente controido.                                        Disponhamos mais uma vez a realidadede
       Uma vez que G propriedade da unidade                  todas as coisas em cinco graus. Coloquemos
expl~cor si os entes, dato que ela & ent~da-
          por                                                Deus e o Rnjo na sum~dade natureza, o cor-
                                                                                           da
de que os complico em sua simplicidade, tam-                 po e a qualidade no grau mais baixo, mas a
b&m a humanidade tem o poder de explicorpor                  alma no meio, entre as coisas altissimas e as
si todas as coisas dentro do circulo da propria              infimas, a alma que com razdo chamamos, de
regido, de extrair tudo a partir da pot6ncia do              mod0 plat8nic0, terceiro ou mQdio ess&ncio,
centro. € propriedade da unidade per-se como                 pois ela est6 no meio em rela<do a todas as
Fim das explicog6es, pois C infinidode.                      colsas e 6 terceira a partir de qualquer parte
       for isso o criar ativo proprio do humani-             que comecemos.
dade nbo tem outro fim a ndo ser a propria hu-                     Dizem corn razdo os Plat6n1cos   que, aci-
manidads. Esta nbo se volta pqra fora de si                  ma daqu~lo   que flui limitado pelo tempo, est6
quando cria, mas, quando expl~ca propria vir-
                                     a                       aquilo que subsiste por todo o tempo, que aln-
tude, tende a si mesma. E ndo produz algo que                da acima est6 aquilo que subsiste pela eterni-
seja novo, mas percebe que tudo o que est6                   dade e que, por fim, aclma do tempo est6 o
criando na explicqdo estava j6 em si mesma.                  eterno. Mas, entre as coisas que sdo apenas
Dissemos, com efeito, que todos os coisos ex~s-              eternas e as outras que fluem apenas no tem-
 tem no homam sob formo humono.                              po, temos a alma, que & espbcie de liga@o
       Rssim como o poder da humanidade tem                  entre as duas ssferas.
a capacidade de estender-sea todas as coisas                       Toda obra que consta de uma rnultipl~c~-
sob forma humana, tambGm todas as coisas t&m                 dade, 6 , entdo, perfe~ta, quando est6 tbo 11ga-
este poder em relag30 a ela, e que este admi-                da em seus membros, a ponto de recolher-se
r6vel poder humano se dir~ja percorrer todas
                                a                            de toda parte em unidade, para ser consisten-
as colsas ndo & mais que um complicor em si,                 te e conforme a si, de modo a ndo se dissipar
sob forma humana, todas as coisas.                           facilmente [. ..]. Com maior razdo devemos pro-
                                  N~colau Cusa,
                                         ds                  por a conexdo das partes do universo, que G
                R douto ~gnordncia Rs conjocturos.
                                  s                          obra de Deus, de modo qua sle tamb&m resul-
53      '/"
                                       Capitdo terceiro - 0 flleoplatonismo   renascentista



te a h i c a obra do unico Deus. Deus e o corpo            Nos escritos dos 6rabes li, venerandos
sdo por natureza as partes extremas e uma di-        Pais, que Abdalla Saraceno, quando Ihe per-
versissirna da outra. 0Anjo ndo consegue reu-        guntaram sobre o qua Ihs parecla sumarnente
ni-las, pois esta inteiramentevoltado para Deus      admiravel nesta esp6c1e teatro qua 6 o mun-
                                                                               de
e esquece o corpo [...I.                             do, respondeu que nada via de mais espl&ndi-
      Nem a qualidade refine os extremos, pois       do do que o homem. E com este dito concorda
se inclina para o corpo e abandona as coisas         o famoso de Hermes: "Grande milagre 6 o ho-
superiores; deixando as coisas incorporeasela        mem, Ascl6pio!".'
propria se torna corporea. At6 este ponto as               Ora, enquanto eu procurava o sentido
coisas sZlo como extremos, e reciprocamente se       dessas sentenps, ndo me satisfaziam os argu-
excluem as coisas superiores a as inferiores, fal-   mentos que em grande numero muitos aduzem
tando os opostos de uma ligagio.                     sobre a grandeza da natureza humana: ser o
      Todavia, urna vez posta no meio a terceira     homem vinculo das criaturas, familiar 6s supe-
ess&ncia, ela 6 tal qua, enquanto se refine corn     riores, soberano das inferiores, inthrprete da
as coisas superiores, nBo deixa as inferiores, de    natureza pela agudez dos sentidos, pela pes-
modo que nela estas e aquelas se encontram           quisa do razdo, pela luz do intelecto, interme-
reunidas. [A alma], corn efeito, 6 imovel e mo-      diario entre o tempo e a eternidade e, como
vel. Daquela parte ela se liga com a realidads       dizem os persas, copula ou seja Himeneuedo
superior, desta com a inferior. ligando-se com       mundo, pouco inferior aos anjos segundo o tes-
ambas, deseja uma e outra. Por isso, [a alma],       temunho de D ~ v iGrandas coisas estas, sem
                                                                           .~
por certo instinto natural, ascende para coisas      d6vida, mas ndo as mais importantes, ndo tais.
superiores e desce para as inferiores.E, anquan-     isto 6, por meio das quais possa justamente
to ascende, ndo abandona as coisas mais bai-         arrogar-se o privilhgio de uma admira@o sem
xas, e, enquanto desce, jamais deixa o divino.       limites. Por que, com efeito, ndo admirar mais
                                        M. Ficino,   os anjos e os beatissimos coros do cbu?
                              Theologio plotonica.         Todavia, no F parece-me ter compresn-
                                                                         i
                                                                         m
                                                     dido porque o homem seja o mais feliz dos se-
                                                     res animados e, por isso, digno de toda admi-
                                                     ra~do, qua1 seja por fim aquels destino que.
                                                             e
                                                     cabendo-lhe na ordem universal, & invej6vel
                                                     ndo so aos brutos, mas aos astros e aos espi-
                                                     ritos ultramundanos. Co~sa  incrivel e maravilho-
                                                     sa! E como poder~a diferente, ss 6 justa-
                                                                           ser
                                                     mente por ela que o homem & proclamado e
                                                     considerado um grande milagre e maravilho
                                                     entre os viventes?
                                                           Mas qua1 seja ela, escutai, 6 Pais, e dai
                                                     benignamente ouvidos, em vossa cortesia, a
                                                     este meu falar. J6 o sumo Poi, Deus criador, ti-
       0Discurso sobre a dignidade do ho-
                                                     nha Formado, conforme as leis de uma arcana
 mern Q certornente o escrito de Pico qua se
                                                     sabedoria, esta morad~a mundo, tal qua1 nos
                                                                               do
 tornou rnois chlabre, e oth se irnp6s corno
                                                     aparece, templo augustissimo da d~v~ndade.
 urn dos textos ernblerndticos do Hurnanismo.
                                                     Havia embelezado com as intelig&nciaso hipe-
       R possogern oqui proposto verso so-
                                                     rur6ni0, avivara de almas etsrnas os globos
 bre o significodo rnstoffsico e rnorol do ho-
                                                     ethreos, povoara com uma turbo de animais de
 mern corno 'Qrandarnilogr@".     Todos os crio-
                                                     toda espCcie as partes vis e torpes do mundo
 turos qua se encontrorn tonto no rnundo
                                                     infenor. Contudo, levando a obra b realiza@o,
 sensi'vel como no rnundo supra-sensivel Fo-
                                                     o artifice desejava que ai houvesse algu6m
 rorn criaclos corno reoliclodes ontologicamen-
                                                     capaz de captar a razdo de tdo grande obra,
 te determinadas. 0hornern, oo contrdrio, foi        de arnor sua belezo, de admirar sua imensida-
 posto no confim dos dois mundos, corn urno          de. Por isso, tendo j6 realizado o todo, como
 noturezo astruturoda de rnodo to1 que e1e pro-      atestam MoisCs4e TimeuZ5 ljltimo pensou
                                                                                   por
 prlo deve deterrn~nor,  plosrnondo-o sagundo
 o forrno de vido rnorolrnente prh-escolhido.
       R grondezo do hornern sstd portonto
 em ter sldo criodo por Deus corno artiflce de          'RsclQp~o, Corpus Hermeticum, vol. 1.
                                                                  em                        1
                                                        "~meneu, ou H~mene, o deus q r q o dns niipclns
                                                                             ern
 SI proprio, como autoconstrutor segundo suos
                                                        'Snlmo 8.5-6.
 escolhos rnorois.                                      4G&nes~s  1.26-28.
                                                        5Piot~o.fimeu, 41 b.
Primeira parte - O t l u m a n i s ~ e ~ R e n a s c e n c a
                                             ? a



em produzir o homem. Mas, dos arquhtipos ndo               aquilo que existe no mundo. Ndo te fiz nern ce-
restava nenhum sobre o qua1 modelar a nova                 leste nern terreno, nern mortal nern imortal, para
criatura, nern dos tesouros urn para entregar              que, por ti mesmo, como livre e soberano artifi-
como heranp ao novo filho, nern dos lugares                ce, te modelasses e te esculp~ssesno forma
de todo o mundo permanecia um sobre o qua1                 que tivesses de antemdo escolhido. Poder6s
se sentasse este contemplador do universe.                 degenerar nas coisas inferiores, que sdo os
Todos j6 estavam ocupados; todos haviam sido               brutos; poder6s regenerar-te,conforms tua von-
distribuidos, nos sumos, nos mtdios, nos infi-             tade, nas coisas superlores que sdo divlnas".
mos graus.                                                       6 suprema liberahdads de Deus poi! 6
       Todavia, ndo teria sido digno do paterno            suprema e admir6vel felicidade do homem, ao
poder tornar-se como que impotente no irltima              qua1 concede-se obter aquilo qua deseja, ser
obra; nern de sua sabedor~a    permanecer incer-           aquilo que quer. 0 s brutos, ao nascerem, tra-
ta na necessidade por falta de conselho; nern              zem consigo do seio materno, como d ~ z   Lu~ilio,~
de seu bentfico amor, que aquele qua era des-              tudo aquilo que terdo. 0 s espiritos superiores
tinado a louvar nos outros a divina liberalidade           ou desde o inicio ou pouco depois tornaram-se
fosse constrangido a reprov6-la em si mesmo.               aquilo que serdo pelos stculos dos stculos. No
       Estabeleceu finalmente o otimo artifice             homem que nasce o Pai colocou sementes de
que, bquele ao qua1 nada podia dar de pro-                 toda esptcie e germes de toda vida. E, confor-
prio, fosse comum tudo aquilo que singularmen-             me coda um os cultivar, ales crescer60 e nele
te atribuira aos outros. Rcolheu por isso o ho-            dardo seus Frutos. E se forem vegetais, ser6
mem como obra d s natureza indefin~dae,                    planta; se sensiveis, ser6 animal; se racionais,
pondo-o no coraq3o do mundo, assim Ihe fa-                 tornar-se-6animal celeste; se intelectuais, ser6
IOU: "NBo te dei, Addo, nern um lugar determi-             anjo e filho de Deus. Todavia se, ndo contente
nado, nern um aspecto teu proprio, nern qual-              com a sorte de nenhuma criatura, se recolher
quer prerrogativa tua, porque o lugar, o aspecto,          no centro de sua un~dade,   tornado um so espi-
as prerrogativas que desejares, tudo enfim,                rito com Deus, na escuriddo solit6ria do Poi,
conforme teu voto e teu parecer, obtenhas e                aquele que f o ~  posto sobre todas as coisas
conserves. A natureza determinada dos outros               estar6 sobre todas as coisas.
estd contida dentro da leis por mim prescritas.                                     G. P~codella M~randola.
Tu determinar6s a tua, ndo constrangido por                            D~scurso
                                                                              sobrs o dignidads d o homsm.
nenhuma barreira, conforme teu arbitrio, a cujo
poder te entreguei. Eu te coloquei no meio do
mundo, para que dai melhor avistasses tudo                             Sobros, 623 ad1q5oMorx
                                                               6Lucil~o,




                    Representam-se aquios presumidos retratos de Marsi'lio Ficino,
                 Pico della Mirandola e Angelo Poliziano (da esquerda para a direita).
                           Particular do afresco do "Milagre do Sacramento",
               de Cosme Rosselli. Floren~a,  igrea de santo Ambrcisio, capela do Milagre.
Nao temos ainda conhecimento preciso das relasties que existem entre os
 dois ramos do Aristotelismo:
      a) o etico-politico, que os humanistas liter
      6) o Iogico-naturalista das Universidad
      0 tom geral da epoca 6 em todo caso
                              ,
 e o Aristotelismo, na dialetica geral d                              0 Aristotelismo
 serve prevalentemente de antitese;
 nhentos (Teksio, Bruno, Campanell
 forto das paginas de Aristoteles.
      0s aristotelicos da Renascenca se ocuDar              - - -   -   -


 problemas Iogico-gnosiolo icos e'de problbmas fisicos, aprofun-
                              9
 dando os aspectos metodo ogicos, tanto que a Escola de Padua cunhou a expres-
 sao "metodo cientifico" (politica, etica e poetica permaneceram, ao contrdrio,
 heranqa dos humanistas filologos.
      No que se refere as fontes do conhecimento, os aristotClicos distinguiram:
      a) a autoridade de Aristoteles;
      6)o raciocinio aplicado aos fatos;
      c) a experiencia &reta; mas pouco a pouco eles comesaram a preferir esta ultima.
      Papel importante teve ate o 600 a doutrina da dupla verdade, proposta peia
 primeira vez na ldade Media por Siger de Brabante, segundo o qua1sobre a base da
 raza'o e da doutrina aristotelica uma coisa pode resultar mais provavel, mesmo que
 sobre a base da fe seja aceito o oposto.
        0 Aristotelismo renascentista merece maiores considerar$ies enquanto 4
 indispensavel para compreender a epoca. Para o momento n80 se tem ainda cai
 nhecimento preciso da diferensa entre o Aristoteles etico-politi-
 co dos humanistas e o Aristoteles Iogico-naturalistic0 das Univer- Importiincia
 sidades. Em geral, porem, o Aristotelismo representa, para o pen- do Aristotelismo
 samento renascentista, a antitese do Platonisrno. Alguns fil6sofos renascentista
 do Quinhentos, ao contrario, experimentarso at6 fastio ao ler as      5    +



 obras de Aristoteles.


     fs t&s intevpretac&s                     claro que o quadro do pensamento renas-
                                               centista permanece incompleto e falso se n2o
     tradicionais     de frist'te'es          levarmos em conta as contribuiq4es que ele
                                               trouxe. Procuraremos agora completar o
     Ja destacamos a importincia atribui-      que ja haviamos antecipado.
da pelos estudiosos ao aristotelismo na Ita-        Deve-se recordar que as interpretaqoes
lia nos skculos XV e XVI e como se tornou      basicas do aristotelismo foram tris.
56
        Primeira parte - O H u m a n i s m o e a R e n a ~ c e n ~ a

      a ) A primeira 6 a alexandrina, que                     No que se refere i s tematicas, devemos
remontava ao antigo comentador de Arist6-               recordar que, em virtude da estrutura do en-
teles Alexandre de Afrodisia. Alexandre sus-            sino universit6rio. os aristotClicos da C ~ o c a
tentava que o homem possui o intelecto po-              renascentista ocu~aram-sesobretudo dos
tencial, mas que o intelecto agente C a                 problemas 16gico-~nosio16gicos dos proble-
                                                                                            e
propria Causa suprema (Deus) que, ilumi-                mas fisicos (a politica, a Ctica e a poCtica fica-
nando o intelecto potencial, torna possivel             ram patrim6nio dos humanistas filologos).
o conhecimento. Assim sendo, n5o ha lugar                     No que diz respeito A fontes do co-
                                                                                        s
para urna alma imortal, pois ela deveria co-            nhecimento, os aristotklicos distinguiam: a )
incidir com o intelecto agente (as interpre-            a autoridade de Aristoteles: b ) o raciocinio
tag6es recentes levaram ao reconhecimento               aplicado aos fatos; c) a experkncia direta.
da presenqa de certa forma de imortalidade              Mas, pouco a pouco, comeqaram a privile-
em Alexandre, mas urna imortalidade im-                 giar esta ultima, tanto que os estudiosos
pessoal e inteiramente atipica; de qualquer             consideravam que (pelo menos tendencial-
modo, urna imortalidade impessoal n5o                   mente) eles podem ser definidos como "em-
podia interessar aos cristios).                         ~iristas".
      b) N o sCc. XI Averrois submeteu as                     Ademais, tambkm aprofundaram os
obras aristotClicas a poderosos comenta-                problemas 16gicos e metodologicos com dis-
rios, que tiveram ampla repercuss50. A ca-              cuss6es de alto nivel. A Escola de Padua che-
racteristica de sua interpretaqio era a tese            gou atk a cunhar a express50 "mitodo cien-
segundo a qua1 haveria um intelecto unico               tifico".
e separado para todos os homens. Caia as-                     Todos os conceitos da fisica aristotilica
sim por terra qualquer possibilidade de se              foram discutidos analiticamente. Mas. nes-
falar de imortalidade do homem, visto que               se terreno, a estrutura geral da cosmologia
so era imortal o Intelecto unico.                       do Estagirita, que distinguia o mundo ce-
      TambCm era tipica dessa corrente a                leste, feito de Cter incorruptivel, do terres-
chamada doutrina da "dupla verdade", que                tre, constituido de elementos corruptiveis,
distinguia entre as verdades acessiveis a for-          n5o permitia progressos notaveis, impondo
qa da razao e as verdades acessiveis unica-             urna rigorosa separaq50 entre a astronomia
mente a f (mais adiante, voltaremos a falar
          C                                             e a fisica. Alkm disso. a teoria dos auatro
do sentido dessa doutrina).                             elementos aualitativamente determinados e
      c) Por fim, havia a interpretaqio to-             a teoria das "formas" tornavam impossivel
mista, que tentara urna grandiosa concilia-             a quantificaqao da fisica e a aplicaq50 da
qio entre o pensamento aristotClico e a dou-            matem5tica.
trina cristi.                                                 Era muito comentado e difundido, em
                                                        particular, o tratado De anima, com sua dou-
                                                        trina sobre a alma (que, no esquema aristo-
                                                        tClico. entrava no fmbito da ~roblematica
      As ternbticas aristotklicas                       "fisica", ~ e l omenos em sua parte funda-
                                                        mental).
      tratadas na RenascenGa

     Na Cpoca da Renascenqa todas essas                        A cornpIexa quest60
interpretaqoes foram repropostas. Entre-                       da "dupla verdade"
tanto, hoje, tende-se a contestar a validade
desse esquema cemodo, destacando que a
realidade era bastante complexa, n i o ha-                   Mas um ponto merece ser destacado
vendo nenhum aristotClico que se possa con-             com especial atenqio. No passado, deu-se a
siderar seguidor de urna dessas tendzncias              doutrina da "dupla verdade", que foi reto-
em todos os pontos, e que, a proposito de               mada na Cpoca renascentista, um significa-
cada problema em particular, o alinha-                  do bastante inexato, que deve ser rediscutido
mento dos varios pensadores muda muito,                 profundamente.
apresentando grande variedade de combi-                      Ha certo tempo os estudiosos chama-
naqdes.                                                 ram a atenqio para o fato de que a relaqio
     Trata-se, portanto, de urna divisio a              entre teologia e filosofia constituiu um pro-
ser usada com cautela.                                  blema que explodiu repentinamente no sC-
57
       Capitulo quarto - 0Pristotelismo renasrentista e   a revivesc&cin   do Ceticismo


culo XIII, em virtude do encontro entre a               Resta. alem disso. o fato de clue o tom
teologia, que se constituira em bases 16gi-
cas, com um conjunto coerente de doutri-
                                                  -                C
                                                  geral da ~Doca dado' sobretudo-~elo       Pla-
                                                  tonismo, e que o Aristotelismo, na dialitica
nas, e a filosofia de Aristoteles, que, por seu   global do pensamento renascentista, repre-
turno, representava um conjunto de doutri-        senta de mod0 prevalente a antitese.
nas coerentes -e desse encontro brotaram                0 s proprios filosofos do Quinhentos
contrastes de varios tipos.                       aue estudaremos mais adiante., aue se diri-
                                                  -
                                                                                   A

      A tentativa de sintese proposta por         giram i Natureza em ~rimeira    instincia. niio
Tomas fora muito contestada: Escoto e             s6 niio trario nenhum conforto das paginas
Ockham haviam alargado o fosso que se-            de Aristoteles, e sim fastio: Teltsio achari
para a ciencia da fC, e Siger de Brabante pro-    Aristbteles, ao mesmo tempo, demasiada-
pusera a doutrina da "dupla verdade", que         mente pouco fisico e demasiadamente pou-
os averroistas latinos tornaram sua, sendo        co metafisico; Bruno o considerari "um velho
sustentada por alguns aristotClicos at6 o sC-     deplorhvel", "inclinado, curvo, corcunda,
culo XVII.                                        dobrado Dara a frente. como Atlante. o ~ r i -
      Pois bem, o que significa "dupla ver-       mido         peso do c&, de mod0 q;e h i o
dade" ?                                           pode vC-lo"; enquanto os habitantes da Ci-
      0 s estudiosos mais atentos colocaram       dade do Sol de Campanella, que exprimem
em evidihcia que tal teoria, em seu nucleo        as idCias do filosofo, "siio inimigos de Aris-
de fundo, pode ser essencialmente reduzida        toteles, e o chamam de pedante".
a este principio: sobre a base da razz0 e da
doutrilza aristotelica uma coisa pode se tor-
nar mais provhvel, mesmo que sobre a base
da fe seja aceito o oposto.
      Isto n i o significava abandon0 da teo-
logia e da fC, mas apenas uma distin~iio   heu-
ristica e metodologica das esferas da ciGn-
cia e da fC.



      renascentista


      Dissemos acima que d m razio os que
sustentam que o Aristotelismo renascentista
merece maior consideraqiio do que teve no
passado e que ele constitui uma componen-
te indispens5vel para compreender a Cpoca.
De nossa parte, logo levaremos em conside-
raqiio a figura de Pedro Pomponazzi.
      Isto C certamente exato em si. Toda-
via, no momento encontramo-nos ainda Ion-
ge de um conhecimento precis0 das relaq6es
subsistentes entre os dois ramos do Aristote-
lismo: o que os humanistas literatos fizeram
reviver, que 6 o Aristoteles Ctico-politico, e
o Aristotelismo 16gico-naturalista das Uni-
versidades.
O tlurnanisrn~ a Renascenca
                                       e




                          11. Pedro PomPonazzi

       * Sob muitos aspectos, o mais interessante dos aristotelicos foi Pedro Pom-
 ponazzi (1462-1525), segundo o qua1 a alma intelectiva e principio de intelec@oe
                   voli@o imanente no homem, e e capaz de conhecer o universal e
   Pietro          o supra-sensivel; todavia, ela nao 6 uma inteligencia separada:
   Pornponazzi:    nOo pode estruturalmente prescindir do corpo, que e o mais no-
   a natureza      bre dos seres materiais, tem perfume de imaterialidade, embora
   da a h a        nOo de mod0 absolute. Pomponazzi pde tal posi+o dentro da
     O principio
                   doutrina da dupla verdade, porque a imortalidade da alma e ar-
   da              tigo de fP que deve ser provado com os instrumentos da fe (reve-
   4 3 7-3
                   iagao e Escrituras), mas nao e urna verdade demonstravel pela
                   raz%o;a "virtude", isto e a vida moral, e em todo caso garantida
                                             ,
 mais com a tese da "mortalidade" do que com a da "imortalidade" da alma: a
 verdadeira felicidade 6 posta na propria virtude, prescindindo de recompensas
 futuras no aldm.
       No quadro da dupla verdade deve ser inserido tambem o principio de natura-
 lidade, segundo o qua1todos os eventos sem exce@opodem ser explicados sobre
 a base de causas naturais e da experiencia, compreendendo tudo o que acontece
 na histbria dos homens; em todo caso, os eventos admitem tambCm urna explica-
 $40 com base em verdades sobrenaturais.



      0debate                                            Mas, sendo assim, a alma n i o pode
                                                   estruturalmente prescindir do corpo, ja que,
      sobre a imortalidade da alrna                privada dele, n i o poderia desenvolver sua
                                                   funqiio propria. Assim, ela deve ser consi-
                                                   derada urna forma que nasce e perece com
      Pedro Pomponazzi (1462-1525), cha-           o corpo, niio tendo nenhuma possibilldade
mado Peretto Mantovano, foi certamente o           de agir sem o corpo. Entretanto, como diz
mais discutido dos aristotClicos e, por mui-       Pomponazzi, sendo o mais nobre dos seres
tos aspectos, considerado o mais interessante      materiais e encontrando-se na fronteira com
deles.                                             os seres imateriais, a alma "recende a imate-
      Sua obra que maiores pol&micassusci-         rialidade, ainda que n i o em absoluto".
tou foi o De immortalitate animae, que de-               A tese desencadeou verdadeira tempes-
batia um problema central no Quinhentos.           tade, at6 porque - C bom lembrar - o
      N o inicio, Pomponazzi era averroista,       dogma da imortalidade da alma era consi-
mas pouco a pouco seu averroismo entrara           derado absolutamente fundamental pelos
em crise. Depois de ter meditado longamente        plat8nicos e, em geral, por todos os cristios.
sobre as soluq6es opostas de Averrois e de               Para dizer a verdade, Pomponazzi niio
santo Tomas, ele assumiu urna posiqiio con-        queria em absoluto negar a imortalidade,
siderada "alexandrina", mas que, embora            pretendendo neg6-la apenas como "verda-
tenha pontos de contato com a teoria de            de demonstravel com seguranqa pela razio".
Alexandre, C por ele formulada com novo            Diz ele que a imortalidade da alma O artigo
colorido.                                          de fb, e que, como tal, deve ser provado com
      A alma intelectiva C o principio do enten-   os instrumentos da fC, ou seja, "com a reve-
der e do querer imanente do homem. Dife-           laqiio e as escrituras can8nicasn, ja que os
rentemente da alma sensitiva dos animais, a        outros argumentos n i o siio apropriados
alma intelectiva do homem C capaz de conhe-        para isso. E diz tambCm niio ter duvidas
cer o universal e o supra-sensivel. Entretan-      sobre esse artigo de fC. Levando-se entiio em
to, ela niio 6 urna "intelighcia separada",        conta o que dissemos sobre o significado da
tanto que so pode conhecer mediante as             "dupla verdade", a posiqiio de Pomponazzi
imagens que Ihe derivam dos sentidos.              torna-se bem clara.    z   ~m
59
       Capitulo quarto - 0Sristotelismo   rrnascenfista e a vevivescZncia co Ceticismo
                                                                            !




                                                       A alma aparece em primeiro lugar na
                                                 hierarquia dos seres materiais e, portanto,
                                                 como tal, confina com os seres imateriais,
                                                 sendo assim "mCdia entre uns e outros": t
                                                 material, se comparada com o imaterial; C
      Outro ponto tambim merece ser desta-       imaterial, se comparada com o material.
cado. Pomponazzi sustenta que a "virtude"        Participa das propriedades das puras inteli-
(ou seja, a vida moral) salva-se mais com a      ghcias, bem como das propriedades mate-
tese da "mortalidade" do que com a tese da       riais. Quando realiza aq6es pelas quais se
"imortalidade" da alma, porque aquele que t      assemelha i s intelighcias puras t chamada
bom tendo em vista os pr6mios do alCm esta       divina e, em certo sentido, transforma-se em
de alguma forma corrompendo a pureza da          realidade divina; quando realiza obras ani-
virtude, submetendo-a a algo fora dela. De       mais, transforma-se em animal.
resto, diz ainda nosso fiksofo, retomando
uma cClebre idCia j i defendida por Socrates
e pela Estoa, a verdadeira felicidade esta de-
positada na propria virtude, ao passo que a            0" p v i n c i p i o da natuvalidade"
infelicidade esta depositada no proprio vicio.
      Todavia, apesar dessas drasticas con-
traq6es da imagem metafisica do homem,
Pomponazzi retoma a idCia do homem como                TambCm foi muito apreciado o De in-
"microcosmo" e algumas idCias do cklebre          cantationibus (0livro dos encantamentos),
"manifesto" de Pico.                              no qua1 Pomponazzi responde i quest50 se
60     Primeira parte - 8H~rnanisrno a Renascensa
                                    e




existem causas sobrenaturais na produqiio         a opiniiio do pr6prio Aristoteles e a contida
dos fen6menos naturais, mostrando que to-         no respectivo comentirio de Averrois, bem
dos os acontecimentos, sem exce~iio,podem         como depois de expor de forma silogistica
ser explicados com o principio da naturali-       as demonstraq6es sobre a inabitabilidade,
dude, inclusive tudo o que ocorre na histo-       de repente ele afirma poder desmentir os si-
ria dos homens.                                   logismos apoditicos de Aristoteles e Aver-
      N o passado, exagerou-se muito o va-        rois com a carta de um amigo do Vineto,
lor da formulaqiio desse "principio da na-        que atravessara a zona torrida, encontran-
turalidade" e sua respectiva aplicaqiio, afir-    do-a habitada.
mando-se que Pomponazzi pressentia o                    E agora?
novo e era muito superior aos seus tempos.              A conclusiio de Pomponazzi C a seguin-
Mas a critica historicamente mais conscien-       te: "Oportet stare sensui". E a experiincia,
te chamou a atenqiio para o fato de que Pom-      e niio Aristoteles, que sempre tem raziio.
ponazzi, no caso, realiza uma operaqiio que             Depois de Pomponazzi, destacaram-se
expressamente declara circunscrita ao pon-        ainda entre os aristotilicos os nomes de An-
t o de vista aristote'lico, alCm de afirmar ter   drC Cesalpino (1519-1603), Jacopo Zaba-
consciincia da existincia de uma verdade          rella (1533-1589), CCsar Cremonini (1550-
diferente, que C precisamente a verdade da        1631) e Julio CCsar Vanini (1585-1619).
fC. Isso redimensiona notavelmente o senti-
do do seu discurso.
      Analoga C a posiqiio do De fato, de li-
bero arbitrio et de praedestinatione, no qua1
sustenta que, do ponto de vista natural, niio
h i soluq6es certas para a quest50 do desti-
no, mas que tambCm se mostram contradi-
torias a proposit0 as soluq6es dos teologos.
TambCm nesse caso, para se ter uma resposta
segura, C precis0 confiar na fC e na revela-
qiio. Entretanto, como filosofo natural, ele
prefere a soluqiio dos estoicos, que admitiam
o destino como soberano.



      O priviIkgio
      que deve s e v dado




      Mas a modernidade de Pom~onazzi.
como aristotklico. esta ~recisamente fato
                                     no
de comeqar a preferir a experiincia h auto-
ridade dos escritos de Aristoteles, quando
estes siio contraries iquela.
      Em uma aula de 1523 (apontada de
mod0 especial por B. Nardi), comentando
uma passagem dos Meteorol6gicos de
Aristoteles sobre a habitabilidade da terra
na zona torrida (entre o tropic0 de Cincer e
o tropic0 de Capricornio), depois de expor
61
       Capitulo quarto - 0Sristotelismo   renascentista e a revivesc2ncia   do Ceticismo




         de     uma       f o r m a moderada d e C e t i c i s m o

        A tradiqees dominantes no 400 d o a do Platonismo e do Aristotelismo.
          s                                     s
 Grande difusao no 500 tiveram tambem o Epicurismo, Estoicismo e Ceticismo, este
 ultimo na formulaqao que Ihe foi dada por Sexto Empirico. O Ceticismo conseguiu
 ate criar verdadeira e propria tempera cultural, especialmentena Franqa com Michel
 de Montaigne (1533-1592). E Montaigne o Ceticismo convive
                                 m
 com uma fe sincera, porque ele e estrutural desconfian~a fa-na
 za"oe, justamente por isso, nao pode per em causa a fP. Inspiran- do Ceticismo.
 do-se na posi@o de Sexto Empirico, para quem a tranquilidade Michel
 de iinimo consegue, pela renuncia, conhecer a verdade absolu- de Montaigne
 ta, Montaigne sustenta que a sabedoria, o "conhecer a si mes- + § 1-2
 mo", n%opode chegar a uma resposta sobre a esshcia do ho-
 mem, mas apenas sobre caracteristicas do homem singular: cada um deve cons-
 truir para si uma sabedoria conforme sua propria medida. A grandeza do homem
 esta em reconhecer e aceitar sua propria mediocridade, em dizer sempre sim a
 vida, aprendendo a aceita-la e am$-la assim como ela e.



     Revivesc&cias                                 liga-se Heinrich Cornelius (que se fez cha-
                                                   mar de Agrippa de Nettesheim, 1486-1535,
      d a s filosofias helenisticas
                                                   conhecido sobretudo como mago) na obra
                                                   Incerteza e fatuidade das cizncias e das artes
                                                   (escrita em 1526 e publicada em 1530), na
                                                   qua1 sustenta que niio siio as ciencias e as
      As tradig6es predominantes no Quatro-        artes humanas (que siio refutadas com argu-
centos eram as do Platonismo e do Aristo-          mentos extraidos de Sexto Empirico) que
telismo, como vimos, ao passo que o Epicuris-      salvam o homem, mas somente a f6.
mo e o Estoicismo constituiam apenas                     Na Franga, foram publicadas sucessi-
instfncias marginais, que transparecem em          vamente nove vers6es latinas de Sexto Em-
alguns autores, sem, no entanto, imporem-          pirico. Em 1562, EstCviio (Henri Estienne,
se de mod0 relevante. Muito maior, porkm,          1531-1   598) traduziu os E s b o ~ o s
                                                                                         pirronia-
foi a difusiio que estes ultimos tiveram no        nos e, em 1569, Gentian Hervet (1499-1584)
Quinhentos, juntamente com o renascido             publicou todas as obras de Sexto Empirico
Ceticismo, na formulagiio que lhe foi dada         em versiio latina.
por Sexto Empirico.                                      Nesse meio tempo, Justo Lipsio (Joost
      0 Ceticismo conseguiu at6 criar uma          Lips, 1547-1606) repropunha na Alemanha
verdadeira e peculiar timpera cultural, es-        e na BClgica o estoicismo, tomando por
pecialmente na Franga, encontrando sua ex-         modelo sobretudo Sineca e procurando con-
pressiio mais elevada em Montaigne.                cilii-lo com o cristianismo.
      Como ocorreu esse renascimento?
      0 primeiro a utilizar Sexto Empirico de
mod0 sistemitico foi Gianfrancesco Pico
della Mirandola (1469-1533),net0 do gran-
                                                         e o ceticismo como t ~ n d a m e n t o
de Pico, em sua obra Exame das fatuidades
das teorias dos pagiios e da verdade da dou-             d e sabedoria
trina cristii (1520),na qua1 ele utiliza elemen-
tos ckticos para demonstrar a insuficiincia
das teorias filosoficas e, portanto, da raziio          No quadro acima brevemente tragado,
pura, concluinda que, para alcangar a ver-         insere-se tambCm o pensamento de Michel
dade, C precis0 a fC. A Gianfrancesco Pico         de Montaigne (1533-1592), autor dos En-
62         Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a

saios (1580 e 1588), que siio obras-primas                             A soluqiio adotada por Montaigne ins-
ainda hole muito consideradas.                                   pira-se nessa, mas 6 muito mais articula-
       Tambim em Montaigne o ceticismo                           da, rica em nuanqas e sofisticada, com a in-
convive com uma fC sincera. Isso surpreen-                       clusio, tambim, de sugest6es epicuristas e
deu muitos historiadores. Na realidade, po-                      estoicas.
rim, sendo o ceticismo desconfianqa na ra-                             0 homem C misero? Pois bem, captemos
Z ~ O ,ele niio p6e a fe' em causa, pois esta                    o sentido dessa misiria. E limitado? Capte-
situa-se num plano diferente, sendo portan-                      mos o sentido dessa limitaqiio. E mediocre?
to estruturalmente inatacivel pel0 espirito                      Captemos o sentido dessa mediocridade.
citico. "0ateismo -escreve Montaigne -                           Mas, se compreendermos isso, compreende-
i [. ..] uma proposiqiio quase contra a natu-                    remos tambim que a grandeza do homem
reza e monstruosa, dificil tambim e inapta                       esta precisamente em sua mediocridade.
para fixar-se no espirito humano, por mais                             Enti50 6 claro que o "conhece-te a ti
insolente e desregulado que ele possa ser".                      mesmo" nHo pode desembocar em uma res-
Entretanto, a "naturalidade" do conheci-                         posta sobre a essi2ncia d o homem, mas so-
mento de Deus depende inteira e exclusiva-                       mente sobre as caracteristicas do homem
mente da fi.0 citico, portanto, s6 pode ser                      singular, que alcanqamos vivendo e obser-
fideista.                                                        vando os outros viverem, bem como procu-
      Mas o fideismo de Montaigne niio C o                       rando nos reconhecer a nos mesmos refleti-
de mistico. E o interesse dos Ensaios volta-                     dos na experiincia dos outros.
se predominantemente para o homem e niio                               0 s homens siio notavelmente diversos
para Deus. A antiga exortaqiio contida na                        entre si e, niio sendo possivel estabelecer os
sentenqa inscrita no templo de Delfos, "ho-                      mesmos preceitos para todos, i preciso que
mem, conhece-te a ti mesmo", da qua1 So-                         cada um construa uma sabedoria a sua pro-
crates e grande parte do pensamento antigo                       pria medida. Cada qua1 s6 pode ser sabio
se apropriaram, torna-se para Montaigne o                        de sua propria sabedoria; o sabio deve sa-
programa do autintico filosofar. Mas niio                        ber dizer sim a vida, e m qualquer circuns-
s6 isso: os filosofos antigos visavam ao co-                     tdncia, e aprender a aceita-la e ama-la as-
nhecimento do homem com o objetivo de                            sim como k, sempre.
alcanqar a felicidade -e esse objetivo tam-
bim estL no centro dos Ensaios de Mon-
taigne. A dimensiio mais autintica da filo-
sofia i a da "sabedoria", que ensina como
devemos viver para sermos felizes.
      Mas como a razio cCtica, abragada por
Montaigne, pode alcanqar esses objetivos,
aquela mesma raz5o citica que prop6e aci-
ma de todas as coisas a pergunta de adver-
tencia "o que sei eu?" (que sais-je?).
      Sexto Empirico escreveu que os citi-
cos conseguiram resolver o problema da fe-
licidade precisamente mediante a renuncia
ao conhecimento da verdade. A este propo-
sito, ele citava o conhecido ap6logo do pin-
tor Apeles que, n5o conseguindo pintar sa-
tisfatoriamente a espuma sobre a boca de
um cavalo, tomado de raiva, lanqou contra
a pintura a esponja embebida em tintas.                          Mii-he1 d e Morrtizig~re( 1 .5.j.j-1.592)
Entiio, a esponja deixou na tela uma man-                        re/,ro/lhs e m setis Ensnios rim / I C I Z S L ~ I I Z C ~ I ~ O
cha que parecia espuma. E da mesma ma-                           ric fundo c+trcm, ric.0 cJr,l tcrmifrc-'1s c i r s i ~ ~ t ~ t i i l s
neira que, com a renuncia, Apeles alcangou                       pelLrs ~ r t r t i g ~i~l s s ~ f i ~ ~ s ~ / ~ / ' s t i i ~ ~ ~ .
                                                                                          f o             hel
                                                                 rrms trL~~frtzrifL~s rirtz~zlirrgu~rger1z
                                                                                             ern                                   1~11trtoI I O ~ ( Y I I L ~ ,
                                                                                                                                              I
o seu objetivo, os citicos, com a renuncia a                     j i ~ d i i df2111 / l ~ i g i / 7 d ~
                                                                                                    dl?11/il / l f l / c ' l l ~ ~ i l ! O ; ~ ~ l l ~ t l l ~ ~ ' l ~ .
                                                                                                                                       tl!
encontrar o verdadeiro (ou seja, suspenden-                      I-:st? yr4c. rc~proJsizirtrosr; r.rrlr 1wIo rcptr'rto
do o juizo), acabaram encontrando a tran-                        dc rrrn ~zrrtorm f i ~ l i r ~ o ,
qiiilidade.                                                      c-orlscr~~iltio0 (:ilstr~lo /c~sL7ill~s.
                                                                                        12                tic,
fi$
      Capitdo qUUYto - O Fristotelismo     renascentista e a revivescEncia d o Ceticismo                -

                                                   Deus, a confirma irrevogavelmente. Todavia,
                                                   sobre o que tenho duvidas 6 se estas asssr@es
                                                   n6o superam os limites naturais do homem, de
                                                   modo a pressupor algo aceito por f6 e revela-
                                                   do, e se estejam conformes 6s palavras de
                                                   Aristoteles, como sustenta o proprio S. Tom6s.l
                                                   Na verdade, dado que a autoridads de tdo
                                                   ilustre doutor 6 para mim grandissima, nBo
     da -imortalidade da alma                      apenas no campo do teologia, mas tambhm
                                                   no do pensamento aristotblico, ndo ousaria
                                                   afirmar qualquer coisa contra sua opinido; mas
       R tsss d s Pomponazzi, qus suscitou         o que direi eu o proporei sob a Forma de du-
 todo umo s&ris ds discussdas, C o do insus-       vida e ndo como afirma@o, e 6 prov6vel que
 tsntabilidods por pura rozdo s sm ssntido         pelos seus doutissimos seguidores a verda-
 cotsgorico do imortalichds do almo. R olmo        de poder6 ser-me desvelada. Sobre sua pri-
 ~ntslectlvodo homam, smboro rodicalmsn-           meira afirma@o, isto 6, que na rsalidade no
 ts superior 6 olmo sansitivo dos animais, ndo     homem a faculdade sensitiva e a intelectiva
 pods considsror-ss uma rsolidods sspora-          sejam a mesma coisa, ndo tenho nenhuma du-
 do, ou ssjo, tronscsndsnts ao corpo, porqua       vida; mas as outrcls quatro me parecem muito
 n60 pods conhecsr e ogir a ndo sar ma-            obscuras.
 dionts os sentidos s, portanto, msdionts o              E, em primeiro lugar, que tal ess&ncia seja
 corpo. Portonto, do ponto ds visto do razdo       por si e verdadeiramente imortal, mas impro-
 filosofico, slo sario formo ds um corpo, s        priamente e segundo csrto aspect0 mortal. E      m
 como nosca com o corpo, ossim tombhm po-          primeiro lugar, porque com raciocinios semelhan-
 rscario parscar com o corpo, porque ndo           tes bqueles com os quais ele sustenta esta tese
 pods ogir e subsistir ssm o corpo. TombQm         pode ser provada tamb6m a tese oposta. Com
 ssgundo o pansomanto d s Rristotslas, so-         efeito, do constata<doqua tal ess&ncia acolhe
 brs o boss d s umo intsrprsta@o difundi-          todas as formas materiais, que aquilo que nes-
 do, Pomponozzi ofirmo que dsvs "dizsr-se          to se acolhe 6 entendido em ato, que ndo se
 mortoI".                                          ssrve de um orgdo corporeo, que tende b eter-
       Molgrodo os orgumsntag6es qus Pom-          nidade e ds coisas divinas, se concluia que ela
 ponozzi oduz nests sentdo, els solisnto           6 imortal. Mas, igualmente, uma vez que ela,
 vdrios vszes o 'psrfums" ds imotsriolido-         como alma vegetativa, opera materialmente, e
 ds e imortolidods do olmo. No rsolidods,          como alma sensitiva ndo acolhe em si todas as
 Pomponozzindo pretandia de modo nenhum            formas, e alCm do mals se serve de um or960
 negar a imortal~dade,mos prstsndio ope-           corporeo e tende 6s coisas temporais e cadu-
 nos nsgor que ssto fossa dsmonstrdvsl com         cas, poder-se-6provar que ela 6 propria do fi-
 obsoluto csrtszo s ds modo cotsgor~co    palo      Iosofo n a t u r ~ lA ~
                                                                          . esta considera@o se refere
 roz6o. Na imortalidade se cr& por f6, como        Aristoteles naquela passagem do I livro do Ds
 dsmonstro o sagundo possogem qus oqui             partibus onimolium. E a outra dfirma$do, que a
 oprsssntomos.                                     mente vem de fora, deve ser referida a ela como
                                                   pura mente, n6o como mente humana; ou, caso
                                                   se queira entender como referida a ela como
                                                    mente humana, ndo deve ser tomada em senti-
1. Dcvidas sobre a imortalidade da alma            do absolute, mas apenas enquanto, em con-
      Naturalmente, sobre a verdade desta tese      front~  com a vegetativa e com a sensitiva, ela
[ou seja, a tese tomista de que no homem a          participa maiormente do divindade. Com efei-
alma sensitiva e a intelectiva sdo uma so subs-     to, no cap. 9"do IV livro do Da portibus animo-
t8ncia simples e individual, imortal por sua na-    lium se diz que apenas o homem & de natureza
tureza e mortal sob certo aspecto, forma subs-      ereta porque so ele participa de modo not6vel
tancial do homem, multiplicada com o numero         do d i ~ i n d a d e . ~
dos corpos humanos, que comega a existir jun-
to com o corpo por um ato de cria~do    imediata
por parte de Deus e continua a viver depo~s  do
                                                       'Torn65 da nqu~no,De un~tate~ntellectuscontra
morte do corpo] ndo h6 para mim nenhuma in-
                                                   overrontas pro&m~o
certeza, uma vez que a Escritura can8nic0, que        %st6teles. Fis~ca,hvro 1 1 , 7 . 1980 97-31
deve ser anteposta a todo raciocin~o expe-
                                         e             3Ar~stoteles. pornbus an~mohum,
                                                                  De                         hvro IV. 10 ( e nBo
rihncia humana uma vez qua nos f o ~   dado por    9). 6860 27-28
Primeira parte - 0 t     l ~ m a n i ~ m Renascen~a
                                               ea~



        Ndo admitirnos, todavia, que o homern               blema n60 possa ser resolvido de mod0 certo
sobreviva como alrna depois de sua rnorte, dado            a ndo ser por Deus. Todavia, ndo me parece
que ela tem um principio, e (I livro do Ds coslo)          justo nem conveniente que os homens perma-
"tudo aquilo que tem um principio tambbm tem                nqarn privados desta certeza. [. . .] Contudo, urna
            e Platdo, no Vlll livro das Leis, diz: "Tudo
urn f i ~ n " ; ~                                          vez que ele proprio tornou manifesto com a
aquilo que de qualquer modo cornqa a ser,                   palavra e com a obra que a alma & imortal -
tamb&m cessa de ~ e r " . ~                                corn a palavra, quando ameaGa os rnaus com o
        Quanto ao que depois se diz a proposito            fog0 eterno e prornete aos bons a vida eterna
do texto 1 7 O do livro VII da Mstafisico, ndo              (ele diz, com efeito: "Vinde, banditos de meu
condivido a resposta de Rlexandre que ai re-               Pai",e continua: We, malditos, para o Fog0 eter-
porta Rverrois, tirando-a de Temistio, ou seja,             n ~ " ecom a obra, quando no terceiro dia res-
                                                                    ),~
de que isso seja dito corn refer6ncia ao intelec-           suscitou do morte - o quanto d~fere luz ema
to ~ g e n t ecom efeito, o intelecto agente ndo
                  :~                                        relagio ao objeto lurninoso e a verdade em
Q forrna do homern; ao contr6ri0, diz-se em re-             rela@o ao verdadeiro e o quanto a causa infi-
fer6ncia ao intelecto possivel, que por vezes              nita 6 mais nobre que o efeito finito, tanto mais
entende, outras vezes ndo; corn efeito, ele se             eficazrnente isso dernonstra a irnortalidade da
corrompe a partir da corrupgio de algurna coi-             alma.
sa em SI, ou seja, da alma sensitiva corn a qua1                  Por isso, se h6 alguns argurnentos que
se ident~fica. realidade, Ar~stoteles ex-
                   Na                            se         parecern provar a rnortalidade da alma, eles
prime assim corn refer6ncia ao intelecto como              s6o falsos e apenas aparenternente justos, a
ele Q por si e n6o como & por acidente, como                partir do mornento que a primeira luz e a pri-
se dissesse que nada impede que sobreviva                   meira verdade nos demonstram o contrdrio; se
enquanto & intelecto, ndo enquanto & intelecto              alguns outros, depois, parecern provar sua imor-
humano, dado que j6 no I livro do Ds coslo fo~              talidade, eles s6o t6o verdadeiros e lurn~no-
dernonstrado que tudo aquilo que & gerado se               sos, mas n6o sdo a luz e a verdade. Por isso
corrompe.                                                   apenas esta & a via rnais segura, ndo desrno-
        E que exatamente este tenha sido o pen-             ron6vel e firme; as outras, 00 contr6ri0, estdo
sarnento de Aristoteles sobre a a h a hurnana,              todas sujeitas a incertezas. Rlbrn do mais toda
pode ser esclarecido tarnbhrn por rneio daque-             arte deve servir-se de rneios proprios e adap-
la passagern do livro X1 da Mstofisico, texto
                              I                             tados a si, pois de outro rnodo se desvia e ndo
39", onde escreve estas palavras: "Mas a feli-              procede segundo seus ditames, conforme dlz
cidade, em sua rnais alto forrna, a nos & conce-            Aristoteles no I livro do Rnolit~cos   ssgundos e
dido por breve tempo; naquela forrna & conce-               no I livro da €tica.1° Todav~a,que a alma seja
dido aos deuses como sterna, enquanto para                  irnortal & artigo de f&, como est6 no Simbolo
nos 6 coisa irnpo~sivel".~                                  dos Rpostolos e em Rtondsio, e por isso deve
                                                           ser dernonstrado corn os meios que sdo pro-
                                                            prios do f&; e o rnelo sobre o qua1 a f& se ba-
2. A imortalidade da alma i verdade de f
                                       i
                                                           sela 6 a revela<doe a escritura can8nica; ape-
   e n60 dt3 pura rat60
                                                            nas com seu auxil~o,portanto, verdadeira e
      Estando assim as colsas, parece-me de-                propriamente sernelhante verdade se deve
ver sustentar este argumento, perrnanecendo
salvo a doutrina rnais justa, de que o problema
da imortalidade da alma & suscetivel de duos         4Rr~st6teles. coelo. 1. 10, 279b 20-21
                                                                    De
solu<des opostas, corno o da eternidade do            SPlot~o, Republics (e n60 leis). VIII. 5460.
mundo. Parece-me,com efeto, que n6o se po-           R esta respato escrave Gregory: "No raal~doda,
                                                     '
dern aduzir argumentos de ordem natural que Rverro~s,       noqualo passagem, n6o folo, c~tnndo    Rlexondre,
concluarn com absoluta certeza que a alrna seja de lntelecto ogente, mas de '~ntellectus
                                                 de                                         odeptus', e o lsso
                                                     Foto Rlexondre se rafere, tanto no comantdr~o Me- b
imortal, e rnuito menos que seja mortal, corno tafisico (Rlexondr~   Aphrodisi~ns~s RristotelnMetophpco
                                                                                    In
declararn mu~tissirnos   doutores que tamb&m commentorio, ad. M . Hoyduck, nos 'Commentorlo in Rr~sto-
sustentam sua imortal~dade. isso n6o me telem groeca', vol 1, p. 678 r. 4). como no De animo (ed
                                Por
preocupei em responder 2.1 outra tese, coisa j6  Bruns., pp. 90r. 13-91 r. 44); mos tombbm Q verdode que
                                                 Rverro~s onimo, Ill, comm. 36, digr. pors II) ohrmo que o
                                                           (De
feita por outros e, em particular, de modo arn- 'intellectus odeptus' de Rlexondre n6o Q mas queo Ink-
plo, exaustivo e s&rio por S.Tombs.              lecto ogente no oto em que este mforrno o ~ntelacto    mote-
      Por isso d~rei,corno Plat60 no livro I das r~ol" 714; n. 52)
                                                       (p.
l e a que apenas a Deus foi dado fornecer a          'Rr1st6telas.Metofism, hvro Xll, 7, 1072b 14-16.
                                                        PIot60, leis, I. 641
certezo daquilo sobre o que muitos di~cordam;~ 'Moteus 25.54.41 d
pois, de fcto, tantos homens ilustres estdo em        'ORr~s~oteles, Rnoliticos segundos. hvro 1, 7. 750 36-
desacordo entre si, que eu penso que este pro- 74b 21, Etica a Nic8maco. Ivro I, 75n 10980 26-32.
Capitulo quarto - 6 Fvistotelismo venascentista e a vevivescEncia do Ltirismo

provar, e todos os outros argumentos n60 560           1. Filosofar 6 preparar-se para a morts
aproprrados e se fundamentam sobre melos que
                                                             Cicero dlz que filosofar n6o 6 mais que
n6o esttio em grau de provar aquilo que se nos
                                                       preparar-se para a morte. € por isso que o es-
propde. N60 deve, portanto, suscitar maravilha
                                                       tudo a a contempla~60    transportam de alguma
se os filosofos discordam entre SI sobre o pro-
                                                       forma nossa a h a para fora de nos e a mant&m
blema da imortalidade da alma, dado que eles
                                                       ocupada, separada do corpo. € uma esp&cie
se fundamentam sobre argumentos n6o ade-
                                                       de experi&nclae semelhanp da morte; ou me-
quados 6 conclus60 e falazes; enquanto todos
                                                       Ihor, & fato que toda a sabedorra e todas as
os cristdos esttio de acordo porque recorrem a
                                                       considera@es do mundo se resolvem por fim
meios aproprlados e infaliveis, a partir do mo-
                                                       neste ponto: ensinar-nos a n6o ter medo de
mento que as coisas n60 podem estar a n6o
                                                       morrer. No verdade, ou a raztio cocoa, ou deve
ser em apenas um modo.     [. .IPor isso, sem qual-
                                                       apenas mirar para a nossa satisfa$30, e todo
quer hes~ta@o preciso afirmar que a alma 6
                 6
                                                       seu esfor~o  deve, em conclustio, tender a fa-
imortal, mas n6o se p8r naquele caminho so-
                                                       zer-nos viver bem e na alegr~a,  corno diz a Sa-
bre o qua1 caminharam os sapientes desk s&-
                                                       grada Escritura.
culo, - que tais se dizem, mas termlnam por ser
estultos -, pols, a meu ver, quem quiser perse-
verar nesse camlnho sempre se mover6 na in-            2. Tambim na virtuds o fim io prazsr
certeza e na vaguid6o. [. . .] Rqueles, porhm, que            Todas as opinides das pessoas s6o que
procedem no caminho dos crentes, permane-              o prazer & nosso escopo, embora a ele se mire
cem firmes e seguros: demonstram isso o des-           com meios diversos; de outro modo, algu&mas
prezo da riqueza, das honras, dos prazeres e           exputsaria logo que nascem, umo vez qua quem
de todo bem mundano, e por fim a coroa do              ficaria ouvindo aquele que pusesse para si como
martirio qua eles ardentemente desejavam e             fim nosso sofrimento e nosso infortirnio?
finalmente alcanpvam, alegres depois de tan-                  Rs diverg&nc~as seitas filosof~cas,
                                                                             das                     nes-
to desejo.                                             ts caso, stio apenas de palavras. H6 mais obs-
                                      P. Pomponazzi,   tinaq3o e teimosia do que conv&m a uma tdo
                          L k ~rnrnortalitate
                                            onirnoa.   santa profisstio. Mas qualquer que seja o per-
                                                       sonagem que o homem represente, nele sem-
                                                       pre representa a si mesmo. Digam o que disse-
                                                       rem, at& na virtude o irltlmo escopo de nossa
                                                       aspira<bo6 o prazer. Gosto de rspetlr no ouvi-
                                                       do deles esta palavra que tanto os perturba. E
                                                       se ela significa um prazer supremo e uma enor-
                                                       me satisfo@o, melhor condiz com a virtude do
                                                       que com qualquer outra coisa. Esta volirpia, para
                                                       ser mais forte, nervosa, robusta, viril, 6 por isso
                                                       tamb&m mars fortemente voluptuosa. E deve-
      Filosobr aprcndcr a rnorrcr                      riamos dar a ela o nome do prazer, que 6 mais
                                                       propicio, mais doce e natural: n6o o da vlrtude.
        Montoignesituo-seno quodro do renas-           com o qua1 a chamamos.
 cimento dos Esbo<os pirronianos de Sexto
 Empirico s do Ceticismo em gerol (Iembre-             3. A virtude e o desprszo da morts
 rnos que no Frongo Henri EstevLio, isto 8, o
 Stephonus, publicou o editio princeps de Sex-               R felicidade e a bem-aventuranga que res-
 to e troduziu em lotim os Esbo~os pirronlanos,        plandecem na virtude preenchem todas as suas
 enquonto G. Hervet publicou o versdo lotino           pertin&nclase todas as suas ambi&ncias,des-
 de todos os obros de Sexto). E Montoigne
                                  m                    de sua entrada at8 sua irltima porta. Ora, entre
 o pirronismo temperodo a o ceticismo mode-            os principais baneficios da virtude est6 o das-
 rodo se cosom corn umo F Forte s sincero.
                             d                         prezo do morte. € um meio que fornece 6 nossa
        No trecho que segue, Montoigne ofir-           vida uma doce tranquilidade, que torna nosso
 mo que o contemplo@o e o estudo hobituom              gosto puro e am6vel, sem que seja a p ~ g a d a
 o morrer, porque nos tronsportom corno qus            qualquer outra volirpia.
 poro Foro do vido. 0desprezo do morte estd                  €15 que todas as regras se encontram
                                                                 por
 entre os principois bensfcios c/o virtude,por-        e conv&m neste principio. E, embora elas tam-
 que 8 preciso pensor que o msto poro o quo1           b&m nos Ievem de comum acordo a desprezar
 o vido corre 8 o morte.                               a dor, a pobreza e outros acidentes aos quais
                                                       a vlda humana est6 sujeita, isso n60 ocorre com
Primeira parte - 0+Ir*manismo e a R e n a s c e n p a

igual preocupa<do, seja porque tais acidentes        p6lidos e lacrimosos, um quarto sern luz, cirios
ndo sdo absolutamente necess6rios (a maior           acesos, m6dicos e padres apinhados 6 nossa
parte dos homens transcorre a vida sern provar       cabeceira: em suma, so horror e espanto ao
a pobreza, e outros ainda sem provar dor e           nosso redor. Eis-nos j6 sepultados e soterra-
doenp, como Xenofilo o Musico, o qua1 viveu          dos. Rs crian~as  t&m medo at6 de seus ami-
cento e seis anos com sairde plena) ou por-          gos, quando os v&em com aquela m6scar0, e
que, no pior dos casos, a morte pods p6r fim,        assim a temos nos. E precis0 tlrar a mdscara
quando nos aprouver, e eliminar todos os ou-         das coisas, e tamb6m das pessoas: quando for
tros inconvenientes, mas, quanto 6 morte, ela        tirada, encontraremos sob ela apenas aquela
6 inevit6vel.                                        mesma morte que um servo ou uma simples
                                                     camareira assistiram sem nenhum medo. Feliz
4. Ensinar a morrsr 6 ensinar a viver                a morte que acontece sern os enfeites de tal
                                                     aparato.
      Eu, no momento, estou, grasas a Deus,                                     M~chel Montaigne,
                                                                                     de
em tal condi<do que posso partir quando Iha                                              Ensolos.
aprouver [. . .].
      Como os egipcios que, depois de seus
banquetes, mandavam oferecer aos presentes
uma grande imagem da morte por algubm que
lhes gritava: "Rebe e goza, pois, quando mor-
to, assim serds": do mesmo modo tenho por
h6bit0, de modo continuo, manter a morte ndo
so no pensamento mas tamb&m no boca; e n60
h6 nada de que me informe com tanto prazer
como do morte dos homens: que palavras, que
aspecto, que postura tiveram naquele momen-
to, e ndo h6 passagem das h~storias   que eu
ndo note com tanta aten<do.Pela interpola<bo
de meus exemplos manifesto-se como eu te-
nha particular amor por este assunto. Se eu
Fosse um fazedor de livros, faria um livro co-
mentado sobre d~versasmortes. Quem ensi-
nasse os homens a morrer, estaria lhes ensi-
nando a viver.

5. € prsciso tirnr a mirscara das coisas,
   s tamb6m das pessoas
      Ora, pensei frequentementede onde pro-
v&m que nos guerras a imagem da morte, tanto
ao v&-la em nos como nos outros, nos parece
sern compara<do menos terrivel do que em
nossas casas; de outra forma, veriamos um
ex&rc~to rnbd~cos de carpideiras: e pensei
          de           e
que, sendo ela sempre uma so, h6 sempre mais
for~a dnimo nos pessoas de aldeias e de
       de
baixa condi~do que nas outras. Na verda-
                   do
de, creio que existam as imagens e apar&ncias
terriveis, com as quais pintamos a morte e que        Frontispicio de uma edi@o dos Essais
nos ddo mois medo do que ela propria: um              de Michel de Montaigne (Paris, 16S9).
modo completamente d~ferente se compor-
                                 de                   Notemos a pergunta admoestadora "que sei eu?"
tar, os gritos das mdes, das mulheres e dos           (que sais-je?) sob o retrato do autor,
filhos, as visitas de pessoas espantados e aba-       que represents bem o ceticismo professado'
tidas, a assisthncia de uma multiddo de servos        pelo fiMsofo.
I. Crasmo de Rotterdam
                       ea      '+hilosophia Christi"

         Erasmo (1466-1 536) e contrario a filosofia compreendida como constru@o
 de tip0 aristotClico-escol6stic0, centrada sobre problemas metafisicos, fisicos e
 dialeticos. A verdadeira filosofia e, para Erasmo, conhecimento sapiencialde vida,
 e sobretudo C! sabedoria e pratica de vida crista"; o caminho que Cristo indicou
 para a salvagao 6 o mais simples: fe sincera, caridade n%ohipbcrita e esperanga
 aue nil0 se enveraonha. Nesse sentido, ha a necessidade de vol-
 kr as origens, tambem com instrumentosfilol6gicos adequados.
      A manifestasao mais peculiar da filosofia de Erasmo s en- A ~ o s i ~ a o
                                                              e
 contra na obra Elogio da loucura, na qua1 Erasmo, depois de ofe-
 recer toda uma gama de graus de "loucura", apresenta esta ulti-
 ma na sua autenticidade como reveladora da verdade, como d,
                                                                           ::Ez:o
                                                                       conceito
 aquilo que rompe os veus e faz ver a comedia da vida; e o 6pice
 da loucura esta na fe em Cristo, que e a loucura da Cruz, e sobre-
                                                                           ,
 tudo na felicidade celeste, que aos fieis e concedido a vezes
                                                           s
 saborear ja aqui, sobre a terra. Muitas posiqaes de Erasmo, sobretudo a critica a
 lgreja e ao clero renascentista, antecipam algumas posiq8es de Lutero, embora de
 mod0 atenuado e com grande fineza; todavia, depois da ruptura de Lutero com
 Roma, Erasmo n%oe juntou a ele, mas escreveu contra ele o tratado Sobre o livre-
                     s
 arbitrio.



                                                 mo de Rotterdam e, sobretudo, corn Lutero
                . -
          posiqzo, a vida
      e a obra de kvasmo
                                                 (e, depois, corn os outros reformadores). 0
                                                 primeiro p6s o humanism0 a servieo da
                                                 Reforma sem romper com a Igreja catolica;
                                                 ja o segundo comprometeu o proprio huma-
      Todo o pensamento humanista-renas-         nismo e quebrou a unidade cristii.
centista C perpassado por um poderoso                  Comecemos por Erasmo.
frimito e por grande anseio de renovaqiio              Desiderius Erasmus (esse C o nome lati-
religiosa. Vimos, inclusive, que a propria pa-   nizado do flamengo Geer Geertsz) nasceu
lavra "Renascenqa" apresenta raizes tipica-      em Rotterdam em 1466 ( 6 possivel que a
mente religiosas. Tambkm vimos emergirem         data de nascimento seja tambCm 1469).
tematicas especificamente religiosas em al-      Ordenado sacerdote em 1492, pediu te ob-
guns humanistas, e a grandiosa tentativa de      teve dispensa do ministirio e do habito. Mas
construir uma "docta religio" em Ficino,         nem por isso seus interesses religiosos se
bem como a posiqiio analoga de Pico. Mas         enfraqueceram. Em muitas de suas posigoes
a explosiio da problemitica religiosa, por       teoricas, sobretudo na critica a Igreja e ao
assim dizer, ocorreu fora da Italia, com Eras-   clero renascentista, embora de forma ate-
68
       Primeira parte - 8tl~~wmnismoa RenascenCa
                                   e



nuada e com grande fineza, ele antecipou        livre-arbitrio (1524) ja citado, suas ediqoes
algumas posigoes de Lutero, tanto que foi       de Padres da Igreja e, sobretudo, a ediqiio
acusado de ter preparado o terreno para o       critica do texto grego do Novo Testamento
protestantismo. Mas, depois da flagrante        (1514-1516), com a relativa traduqiio.
ruptura de Lutero com Roma, Erasmo niio
se alinhou com ele, chegando at6 a escrever
contra ele (embora impelido por varias so-
licitaqoes de amigos e niio espontaneamen-            ConcepC6o humanists
te) um tratado intitulado Sobre o livre-arbi-         d a filosofia crist6
trio. Mas tambkm niio se alinhou a o lado
de Roma, preferindo ficar numa posiqiio
propria ao assumir ambigua posiqiio de neu-           Erasmo tinha aversiio a filosofia enten-
tralidade que, se lhe foi favorivel por certo   dida como construqiio de tip0 aristotklico-es-
periodo, com o correr do tempo foi-lhe pre-     colastico, centrada sobre problemas metafi-
judicial, deixando-o isolado e sem seguido-     sicos, fisicos e dialkticos. Contra essa forma de
res. E, assim, a grande fama que granjeara      filosofia adota, alias, tons quase de desprezo.
em vida acabou se dissolvendo rapidamen-              A filosofia 6 , para Erasmo, o conhecer-
te depois de sua morte, ocorrida em 1536.       se a si mesmo ao mod0 de Socrates e dos
      Entre suas obras, merecem especial men-   antigos: k conhecimento sapiencial de vida e,
qiio 0 manual d o soldado cristzo (1504), os    sobretudo, k sabedoria e pratica de vida cris-
Prove'rbios (publicados em sua redaqiio de-     t2. E a sabedoria cristii niio tem necessidade
finitiva em 1508), o Elogio da loucura, de      de complicados silogismos, podendo ser al-
1509 (impressa em 1511), o tratado Sobre o      canqada em poucos livros: os Evangelhos e
                                                as Epistolas de siio Paulo. Escreve Erasmo:
                                                "Que outra coisa k a doutrina de Cristo, que
                                                ele proprio denomina renascenGa, sen50 um
                                                retorno a natureza bem criada?" Essa filoso-
                                                fia de Cristo, portanto, i uma "renascenqa",
                                                que representa um "retorno a natureza bem
                                                criada". E os melhores livros dos pagiios con-
                                                t&m "grande numero de coisas que concor-
                                                dam com a doutrina de Cristo".
                                                      Para Erasmo, a grande reforma religio-
                                                sa se resume em sacudir dos ombros tudo
                                                aquilo que o poder eclesiastico e as dispu-
                                                tas dos escolasticos acrescentaram simpli-
                                                cidade das verdades evangklicas, confun-
                                                dindo-as e complicando-as. 0 caminho que
                                                Cristo indicou para a salva@o 6 o mais sim-
                                                ples: fe' sincera, caridade niio hipocrita e es-
                                                peran~a niio se envergonha. Se tomarmos
                                                           que
                                                os grandes santos como exemplo, veremos
                                                que eles niio fizeram outra coisa sen50 viver
                                                com liberdade de espirito a genuina doutri-
                                                na evangklica. E a mesma coisa pode ser en-
                                                contrada nas origens no monaquismo e na
                                                vida +st5 primitiva.
                                                      E preciso, portanto, retornar as origens.
                                                E nessa otica de retomada das fontes que se
                                                inserem a ediqiio critica e a traduqio do
                                                Novo Testamento (que Erasmo gostaria de
                                                ter visto nas miios de todos), alkm da edi-
                                                qiio dos antigos Padres: Cipriano, Arnobio,
                                                Ireneu, Ambrosio, Agostinho e outros (nes-
                                                se sentido, Erasmo pode ser considerado o
                                                iniciador da patrologia). A reconstruq50
                                                filologica do texto e sua correta ediqiio d m
portanto significado bem precis0 em Eras-           mas da qual, as vezes, C dado aos piedosos
mo, um sentido que vai alCm da mera ope-            perceberem, ja aqui nesta terra, o sabor e o
raq5o tCcnica e erudita.                            perfume, pelo menos por breve momento.
                                                          A rigidez com que Erasmo criticou pa-
                                                    pas, prelados, eclesiasticos e monges do seu
      O conceit0       erasmiano                    tempo e certos costumes dominantes na Igre-
      d e "lowzMraN                                 ja, bem como certas afirmaqdes doutrina-
                                                    rias que fez, valeram-lhe a avers50 dos ca-
                                                    tolicos, que, mais tarde, puseram no Index
      E no Elogio da loucura que encontra-          algumas de suas obras e recomendaram cau-
mos o espirito filosofico erasmiano em sua          tela critica em relaq5o a outras.
manifestaq50 mais peculiar. Trata-se de uma               Lutero, porCm, enfureceu-se com a po-
obra que se tornou muito famosa e entre as          kmica sobre o livre-arbitrio, definindo Eras-
poucas obras suas que ainda hoje se kem             mo, com insolita violencia, como ridiculo,
de bom grado.                                       tolo, sacrilego, tagarela, sofista e ignorante,
      0 que C essa "loucura"?                       qualificando sua doutrina como um misto de
      N5o C ficil individua-la e defini-la, da-     "cola e lama", de "lixo e excrementos". Mas
do que Erasmo a apresenta em extensa ga-            Lutero, como logo veremos, n5o admitia opo-
ma, que vai do extremo (negativo)em que se          siqdes. Com efeito, para alcanqar objetivos
manifesta a pior parte do homem, ao extre-          em parte identicos, esses dois homens trilha-
mo oposto, que consiste na fC em Cristo, que        vam caminhos de direqdes opostas.           P I
C a loucura da cruz (corno o proprio s5o Paulo
a define). E, entre os dois extremos, Erasmo
apresenta toda uma gama de graus de "lou-
cura", num jogo muito habil, por vezes usan-
do a ironia socratica, outras vezes gostosos
paradoxos e outras ainda uma critica dila-
cerante e um n50 disfarqado desapontamen-
to (corno quando denuncia a corrupqiio dos
costumes da Igreja da Cpoca).
       As vezes, Erasmo denuncia a loucura
com a evidente intenqzo de condenaq50; ou-
tras vezes, como no caso da fC, com a inten-
q5o evidente de exaltar seu valor transcen-
dental; outras, ainda, simplesmente para
mostrar a ilusiio bumana, alias, apresentan-
do-a como elemento indispensavel do viver.
       A "loucura" C como uma vassoura ma-
gica, que varre tudo o que se antepde a com-
preens50 das verdades mais profundas e se-
veras da vida ou que nos faz ver que as vezes,
sob as vestes de um rei, nada mais ha do que
um pobre mendigo ou o contrario, e que as
vezes, sob a miscara do poderoso, nada mais
h i do que um vil. A "loucura" erasmiana
arranca os vCus, fazendo-nos ver a comCdia
da vida e a verdadeira face daqueles que se
escondem sob mascaras; mas, ao mesmo tem-
po, mostra o sentido do palco, das mascaras
e dos atores, procurando de certa forma fa-         0 espirrto frlostific-o            c~ils~ni~l~lo

zer com que se aceitem todas as coisas como
elas s5o. Assim, a "loucura" erasmiana 6
                                                    csplrc-'1-sc, I I O    Elogio J a l o u c u r ; ~ :
                                                                        l ~Ji'l'liioj.Lz(
                                                    ' I L ~ l o ~ ~ i; 1.6'1 ~ ' l
                                                                  " ~                            1 L ' l ~ ~ ~ d l l.'. l ' s
                                                                                                   ~                 ll         -
                                                    c ~ l i ~ ~t ~ i d tlql4i/o q l t r sc3 r ~ z t c ~ / ) '7 kc, ~ o t i 1 / ) r c c ~ 1 1 ~ 2 0
                                                                 ~ ~o~ rr                                   (
reveladora de "verdade".                            '/'IS l~Prii'zci(5111111s / ~ r o f l l t l t ~6, s1,1 lc>I.lls i l l l
                                                                                                    ~ls           [             h   ,
       0 ponto culminante da "loucura" eras-        f;rz c o i n / ~ r i ~ e r ~ oi e r
                                                                                 t sc~rrtitio  iiirs s o i s l l s ;
 miana, como diziamos, esta na fC.                  c o ~ 1 1 1 1 1 ~ z " l o 1 i ~ l l r ~C " ~ I T I I ~ost'i I1 / 1 1 fb.
                                                                   dt                      z Y                 I ~
       E o cume dos cumes da "loucura" C a          PLigina f;lld/ tio 1-logio J a l o u c u r a
 felicidade celeste, que C propria da outra vida,   COIH 1 1Z I ! ~ S C ' I ZdeO ~ 0 / ~ ~ 1 ' ]Olfl'171.
                                                            4i                    /J ~             0111
II. MartiM       ~   Lutero
                                                      O



       * A nosicSo de Lutero (1483-1546) em relacao aos filosofos e totalmente
 negativa]       ele negava qbalquer valor a uma' pesquisa racional autbnoma,
                   considerando a filosofia como fruto da soberba abominavel
  A posi~so        d o homem. Quanto 3s relasties com o movimento humanista,
  de Lutero        Lutero:
  em rela~do            a) deu grande voz ao desejo de renova~ao     religiosa e 2 ne-
                                                                                  I
  a fi~osofia      cessidade de regeneragao, que constituem as proprias raises da
  e ao pensamento Renascen~a;
  renascentista         b) levou as extremas conseqijCncias o principio humanista da
  + 2 1-2          valta 4s origens, apresentando a volta ao Evangelhocomo revolu-
                   ~a"o sub versa"^ da tradiciio cristk
                       e
       c) rompeu com a tradisiio na sua totahdade, porque a teologia luterana nega
 qualquer valor a propria fonte da qua1 brotam as humanae litterae e a especula-
 @o filosofica, e confia a salva@o inteiramente a fe.

                                          e Lutero d o substancialmente trCs.
                                                       penas. A doutrina tradicional da
                                                        fe como pelas obras, enquanto
                                                       s com base na tese de que o ho-
                                                         ,sozinho nao pode fazer nada,
                                                  lusivamente do amor divino: a fe esta
                                                  regar-se totalmente a Deus.
                                                  ilidade da Escritura, considerada como
                                                  do o que sabemos de Deus e da rela-
                                               dito pelo prbprio Deus na Escritura: ape-
                                              dade infalivel de que temos necessidade,
                                              e toda a tradi@o mais nil0 fazem do que
                                                 I do livre exame das Escrituras. Entre o
                                                  e
                                               m intermediario especial: um cristao isola-
                                               nte por Deus, pode ter raza"o contra u m
                                               pregar a palavra de Deus.



 1
d' 1        e
       L~tero         SMQS      veIaC&s          Romanos (1515-1516), as noventa e cinco
                                                 Teses sobre as indulgBncias (1517), as vinte
       corn   cl   filosoficl
                                                 e oito teses relativas i Disputa de Heidelberg
                                                 (1518) e os grandes escritos de 1520, que
     J i se disse muito bem que "ubi Eras-       constituem verdadeiros manifestos da Re-
mus innuit ibi Luterus irruit" ("Onde Eras-      forma: Apelo a nobreza cristii da napio ale-
mo aludiu, Lutero irrompeu"). Com efeito,        mii pela reforma do culto cristiio, 0 cativei-
Lutero (1483-1546)irrompeu no cenirio da         ro babil6nico da lgreja e A liberdade do
vida espiritual e politica da tpoca como au-     cristiio, altm do Servo arbitrio, contra Eras-
tEntico furaciio, que envolveu toda a Euro-      mo, em 1525.
pa e cujo resultado foi a dolorosa ruptura             Do ponto de vista historico, o pspel de
da unidade do mundo cristiio. Do ponto de        Lutero t da maior importincia, pois com
vista da unidade da ft, a Idade Mtdia ter-       sua Reforma religiosa logo se entrela~aram
mina com Lutero, iniciando-se com ele im-        elementos sociais e politicos que mudaram
portante fase d o mundo moderno.                 a fisionomia da Europa, sendo tambtm de
      Entre os numerosos escritos de Lutero,     importincia primordial em termos de his-
podemos recordar: o Comentario a carta aos       t6ria das religi6es e do pensamento teol6gi-
71
                                        Capitulo quinto - A RenascenGae a Religi60

co. Entretanto, Lutero merece um lugar tam-      z20. Para ele, a filosofia era v5 sofistica-
bem em termos de historia do pensamento          $20 e, pior ainda, fruto daquela absurda e
filosofico, seja porque verbalizou a instiin-    abominavel soberba propria do homem
cia de renovaggo que os filosofos da Cpoca       que quer basear-se em suas proprias for-
fizeram valer, seja por algumas valtncias te6-   gas e n5o na unica coisa que salva, isto C,
ricas (sobretudo de carater antropologico e      a fi.
teologico) intrinsecas ao seu pensamento               Nessa optica, Aristoteles parece-lhe co-
religioso, seja ainda pelas consequtncias que    mo que a expressgo de certa forma paradig-
o novo tip0 de religiosidade por ele suscita-    matica dessa soberba humana. 0 unico filo-
do exerceu sobre os pensadores da Cpoca          sofo que n i o t inteiramente envolvido nessa
moderna (por exemplo, sobre Hegel e Kier-        condenaqio parece ser Ockham; mas, pre-
kegaard) e da Cpoca contemporiinea (por          cisamente ao separar e contrapor f e reli-
                                                                                      C
exemplo, certas correntes do existencialismo     giio, fora Ockham que, sob certos aspec-
e da nova teologia).                             tos, abrira urn dos caminhos que levariam i
      A posiqio de Lutero em relaggo aos         posiqio de Lutero.
filosofos i totalmente negativa: a descon-
fianqa nas possibilidades de a natureza hu-
mana salvar-se por si sd, sem a graga divi-
na (como logo veremos), levaria Lutero a               As  r e l a G ~ e de L u t e r o
                                                                          s
n2o dar qualquer valor a uma investiga@o
racional autdnoma, a qualquer tentativa                corn o p e n s a r n e n t o
de examinar os problemas de fundo d o                  renascentista
homem corn base no logos, na pura ra-

                                                      Vejamos brevemente a posiq5o de Lu-
                                                 tero no iimbito da Cpoca renascentista, para
                                                 depois examinar os nucleos centrais de seu
                                                 pensamento religiose-teologico.
                                                      As relagdes de Lutero com o movimen-
                                                 to humanista ja estio bastante claras (e, em
                                                 parte, ja as antecipamos com algumas ob-
                                                 servaldes).
                                                      a ) Por um lado, ele verbaliza com voz
                                                 potente e at6 prepotente aquele desejo de
                                                 renova@o religiosa, aquele anseio de re-
                                                 nascimento para uma nova vida e aquela
                                                 necessidade de regenera@o que constitu-
                                                 em as proprias raizes da Renascenga. E,
                                                 desse ponto de vista, a Reforma protestan-
                                                 te pode ser vista como um dos resultados
                                                 desse grande e multiforme movimento es-
                                                 piritual.
                                                       b) Alim disso, Lutero retoma e leva as
                                                 ultimas consequhcias o grande principio do
                                                 "retorno as origens", ou seja, do retorno as
                                                 fontes e aos principios, que os humanistas
                                                 haviam procurado realizar pel0 retorno aos
                                                 classicos, que Ficino e Pico pretendiam me-
                                                 diante o retorno aos prisci theologi ( i s ori-
                                                 gens da revelagio sapiencial: Hermes, Orfeu,
                                                 Zoroastro, a cabala) e que Erasmo ja apon-
                                                 tara claramente no Evangelho e n o p e n -
                                                 samento das origens cristis e dos Padres da
                                                 Igreja. Mas o retorno a o Evangelho, que
                                                 Erasmo havia procurado fazer mantendo
                                                 equilibrio e medida, em Lutero torna-se re-
                                                 volu@o e subvers20: tudo aquilo que a tra-
72
        Prirneira parte - O t l u w n n i ~ m o
                                              e   a Renascencn




                                                              0 s pontos doutrinirios basicos de Lu-
                                                        tero S ~ substancialmente tris:
                                                                  O
                                                              1)a doutrina da justificagio radical do
                                                        homem unicamente pela fb;
                                                             2) a doutrina da infalibilidade da Es-
                                                        critura, considerada como a unica fonte de
                                                        verdade;
                                                              3) a doutrina do sacerdocio universal
                                                        e a decorrente doutrina do livre-exame das
                                                        Escrituras. Todas as outras proposig6es
                                                        teologicas de Lutero nada mais siio do que
                                                        corolarios ou conseqiiincias que derivam
                                                        desses principios.

                                                                    0hornern se justifica
                                                        apenas r e l a   f.e
                                                                          i    sem a s obras


                                                                A doutrina tradicional da Igreja era e C
                                                        a de que o homem se salva pela fe' e pelas
                                                        obras: a fC so C verdadeira quando se pro-
                                                        longa e se expressa concretamente nas obras;
                                                        as obras S ~ testemunhos autinticos de vida
                                                                        O
                                                        cristi, quando s i o inspiradas e movidas pela
                                                        f i , impregnando-se dela. Ou seja, as obras
digiio cristii construira ao longo dos s k u -          S ~ indispensaveis.
                                                               O
10s parece a Lutero incrustagiio, constru-                      Lutero contestou energicamente o va-
giio artificiosa e peso sufocante, do qual era          lor das obras. Por qua1 razao? Vamos assi-
precis0 se libertar. Para ele, a tradigiio mor-         nalar apenas de passagem as complexas ra-
tifica o Evangelho. E mais: uma C a antite-             z6es de carater psicologico e existencial, sobre
se do outro, a tal ponto que, diz Lutero,               as quais os estudiosos muito insistiram, por-
"o acordo 6 impossivel". Portanto, para                 que aqui nos interessam predominantemen-
Lutero, o retorno ao Evangelho significa niio           te as motivag6es doutrinarias. Durante mui-
apenas urn dristico redimensionamento,                  to tempo, Lutero sentiu-se profundamente
mas at6 mesmo a eliminagiio do valor da                 frustrado e incapaz de merecer a salvaqio
tradi~iio.                                              com as proprias obras, que lhe pareciam
      c) Isso, evidentemente, comporta uma              sempre inadequadas, e, conseqiientemente,
ruptura niio apenas com a tradigiio religio-            a angustia diante da problematicidade da
sa, mas tamb6m corn a tradigiio cultural, que           salvaqio eterna o atormentou incessante-
em muitos asuectos constituia o substrato               mente. A soluq80 que adotou, afirmando que
daquela. Como pensamento e como teoria,                 basta a fC para salvar-se, libertou-o comple-
portanto, o humanism0 C rejeitado em blo-               ta e radicalmente dessa angustia.
co. Nesse sentido, a posigiio de Lutero C de-                   Mas eis as motivaq6es conceituais: nos,
cididamente anti-humanista: com efeito, o               homens, somos criaturas feitas "do nada"
nucleo central da teologia luterana nega qual-          e, enquanto tais, niio podemos fazer nada
quer valor verdadeiramente construtivo B                de b o m que tenha valor aos olhos de peus,
dropria fonte de onde brotam as humanae                 isto e, nada que tenha valor para nos trans-
litterae, bem como i especulagao filosofica,            formar naquelas "novas criaturas" e reali-
como j i recordamos, visto que considera                zar aquela "renascen~a"  exigida pelo Evan-
a raziio humana como nada diante de Deus                gelho. Como Deus nos criou do nada com
e visto que confia a salvagiio inteiramente
. -.
                                                        um ato de livre vontade, da mesma forma
a fe.                                                   nos regenera com ato analog0 de livre von-
73
                                               Capi'tulo quinto              - $        Renascencn r a Tirligi&o



tade, completamente gratuito. Depois do pe-            precisas indicam que deviam circular pel0
cad0 de Ad50, o homem decaiu a tal ponto               menos cem mil exemplares do Novo Testa-
que, por si sd, niio pode fazer absolutamen-           mento e cerca de vinte mil exemplares dos
te nada. Considerado em si mesmo, tudo                 Salmos. Entretanto, a demanda era muito
aquilo que deriva do homem i "concupis-                superior a oferta. E a grande ediqiio da Bi-
czncia", termo que, em Lutero, designa tudo            blia feita por Lutero respondia precisamen-
aquilo que i ligado ao egoismo, a o amor de            te a essa necessidade: dai seu triunfal suces-
si proprio. Sendo assim, a salvaqiio do ho-            so. Portanto, n5o foi Lutero que (como se
mem n5o pode deixar de depender do amor                dizia no passado) solicitou aos cristios que
divino, que i dom absolutamente gratuito.              lessem a Biblia, mas foi ele quem, mais do
A f i consiste em compreender isso 5 entre-            que todos, soube satisfazer essa premente
gar-se totalmente a o amor de Deus. E preci-           necessidade de leitura direta dos textos sa-
samente como ato de total confianqa em                 grados, que ja havia amadurecido em sua
Deus que a f i nos transforma e regenera.              ipoca.
      A f i "justifica sem obra alguma". Ain-                Uma diferenqa, contudo, merece ser
da que, dada a f i , Lutero admita que dai             ressaltada. 0 s estudiosos observaram que,
decorrem boas obras, nega que elas possam              na Biblia, os humanistas procuravam algo
ter aquele sentido e aquele valor que tradi-           diferente do que Lutero buscava: com efei-
cionalmente lhes eram atribuidos.                      to, os primeiros queriam encontrar nela um
      Deve-se recordar que essa doutrina pres-         codigo de comportamento itico, as normas
supoe como fundo toda a quest50 das "in-               da vida moral, a o passo que Lutero pro-
dulg2nciasn (e as polgmicas relativas), liga-
da justamente 2 teologia das "obras" (sobre
a qual, aqui, so estamos acenando), mas que
vai muito alim dessas polcmicas, atingindo
os proprios fundamentos da doutrina cris-
tii. Lutero niio apenas corrigiu os abusos li-
gados i pregaqiio das indulgencias, mas tam-
        i
 bim cortou pela raiz a base doutriniria, com
gravissimas conseqiiCncias, das quais fala-
 remos adiante. %

           j   "E-scvit~ra"
                           C       a
                               O ~ O   fonte
de   vrrdadr


      Tudo o que ja dissemos seria suficiente
para tornar compreensivel o sentido do se-
gundo ponto basico do luteranismo. Tudo
o que nos sabemos de Deus e da relaqiio ho-
mem-Deus nos i dito pel0 proprio Deus na
Escritura. Esta, portanto, deve ser entendi-
da com rigor absoluto, sem a interferhcia
de raciocinios e glosas metafisico-teologicas.
      So a Escritura constitui a autoridade
infalivel de que necessitamos: o papa, os bis-
pos, os concilios e toda a tradiqio niio so-
mente n i o beneficiam, mas at6 obstaculizam
a compreensiio do texto sagrado.
      Essa energica remitencia a Escritura j i
era propria de muitos humanistas, como
vimos. Mas os estudos recentes destacaram               rfe / L , I ~ Z ~ Y dZi ~ t i d o s tcxtos
                                                                            L         i
                                                        l ~ l l z ' 7 t i l 4 ~ c ~ r - i t f '1l1 d b 1 ) 0 ' ~ ~ 7 .
                                                                                                                         S~~~YLZ~I'OS.
                                                                                                                                              l l
                                                                                                                                                     -
                                                        t C L I C l l 0 t ~ l 1 O S/ k l C l ' S S O [ J O Y i i l l 4 S i l rii7 S R I I I L ~l C' ~ ( ' ~ ~ l t / L l t ~ ~



tambkm o fato de que, quando Lutero deci-               P ~ I 1I, 1 1 t c w             C ~ / J P I I L I '7
                                                                                                           ~    l.;surt~ir'r
diu-se a empreender a traduqiio e a ediqiio
da Biblia, ja circulavam numerosas ediq6es
tanto do Antigo como do Novo Testamen-
to. Calculos realizados com bases bastante
cura nela a justificapio da fe', diante da qual   induziu os principes a controlarem a vida
(como ele a entende), o c6digo moral,             religiosa, chkgando a t i a exorti-10s a amea-
considerado em si, perde qualquer signifi-        gar e punir todos aqueles que desleixavam
cado.                                             as maticas religiosas. Desse modo. o desti-
                                                  no ;spiritual d; individuo tornavaLse patri-
                                                  m6nio da autoridade politica, nascendo as-
                                                  sim o principio cuius regio, eius religio ("a
                                                  religiio deve depender do Estado").
       0 terceiro ponto basico do luteranismo
pode ser muito bem explicado, alCm de pela
logica interna da nova doutrina ( n i o ha ne-
cessidade de um intermediirio especial en-              ConotaG6es pessimistas
tre o homem e Deus, entre o homem e a                   e iwa~ionalistas
Palavra de Deus), tambCm pela situagio his-
torica que se viera criando no fim da Idade
MCdia e durante o Renascimento: o clero se
mundanizara, perdera credibilidade, n i o se
vendo mais uma distingio efetiva entre pa-              0 s componentes pessimistas e irracio-
dres e leigos.                                    nalistas do pensamento de Lutero estio evi-
       As revoltas de Wyclif e Huss, no cre-      dentes em todas as suas obras, mas de mod0
pusculo da Idade MCdia, s i o particularmen-      especial no Servo-arbitrio, escrito contra
te significativas.                                Erasmo. Nesse escrito, aquela "dignidade do
       N i o era precis0 muito, portanto, para    homem", t i 0 cara aos humanistas italianos
extrair dai as conclus6es extremas, como fez      e da qual Erasmo havia sido defensor, em
justamente Lutero, isto i, a idCia de que um      ampla medida subverte-se inteiramente,
cristio isolado pode ter razio contra um          apresentando-se com sinal oposto.
concilio, se estiver iluminado e inspirado              0 homem so pode se salvar se com-
diretamente por Deus, n i o sendo portanto        preender que n i o pode em absoluto ser o
necessiria uma casta sacerdotal, visto que        artifice de seu proprio destino: com efeito,
cada cristio t sacerdote em relagio h comu-       sua salvagio niio depende dele, mas de Deus;
nidade em que vive. Todo homem pode pre-          enquanto estiver tolamente convencido de
gar a palavra de Deus. Assim, elimina-se a        que pode agir por si proprio, estara se ilu-
disting2o entre "clero" e "leigos", embora        dindo, nada rnais fazendo do que pecar. 0
n i o seja eliminado o ministkrio pastoral en-    homem precisa aprender a "desesperan-
quanto tal, indispensavel em uma socieda-         qar-se de si mesmo" a fim de abrir cami-
de organizada.                                    nho para a salvagio, ja que, desesperan-
       Todavia, nesse aspecto, as coisas logo     gando-se de si mesmo, entrega-se a Deus e
assumiram uma conotag20 francamente ne-           tudo espera da vontade de Deus - e, des-
gativa. A liberdade de interpretagio abriu        se modo, aproxima-se da graga e da sal-
caminho a uma sCrie de perspectivas n i o         vaqio.
desejadas por Lutero, que, pouco a pouco,               Considerado em si mesmo, ou seja, sem
foi se tornando dogmatic0 e intransigente,        o Espirito de Deus, o g h e r o humano C "o
pretendendo, em certo sentido, estar dota-        reino do diabo", t "um caos confuso de
do daquela "infalibilidade" que contestara        trevas".
ao papa ( n i o por acaso foi chamado de "o             0 arbitrio humano e sempre e somen-
papa de Wittenberg"). E pior ainda aconte-        te "escravo": de Deus ou do Dem6nio. Lu-
ceu quando, tendo perdido toda confianqa          tero compara a vontade humana a urn ca-
no povo cristiio organizado em bases reli-        valo que se encontra entre dois cavaleiros:
giosas, em virtude dos infinitos abusos, Lu-      Deus e o Dembnio; tendo Deus sobre o dor-
tero entregou aos principes a Igreja por ele      so, quer andar e vai aonde Deus quiser; ten-
reformada: nasceu assim a "Igreja de Esta-        do no dorso o Dembnio, anda e vai aonde
do", que C a antitese daquela Igreja i qual a
                                       i          quer o Dem6nio. Ela n i o possui sEquer a
Reforma deveria ter levado.                       faculdade de escolher entre os dois cava-
       Portanto, aconteceu que, depois de ter     leiros, s20 eles que disputam entre si o di-
afirmado solenemente a liberdade da fb,           reito de cavalgi-la. E a quem acha "injus-
Lutero depois se contradisse de mod0 cla-         ta" essa sorte do homem, que desse mod0
moroso nos fatos. Pouco a pouco, Lutero           fica predestinado, Lutero responde com
75
                                           Capitulo quinto - $ R r n a s c e n G n e n Rrl~cJ~do


uma doutrina extraida d o voluntarismo              reza, o homem outra coisa niio pode fazer
ockhamista: Deus C Deus precisamente por-           senio pecar; e, quando pensa de acordo com
que n i o precisa prestar contas daquilo que        seu intelecto, outra coisa n i o pode fazer se-
quer e faz, estando bem acima daquilo que           n i o errar. As virtudes e o pensamento dos
parece justo ou injusto para o direito hu-          antigos s i o vicios e erros.
mano.                                                     Nenhum e s f o r ~ ohumano pode salvar
      Desse modo, natureza e graqa ficam            o homem, mas somente a graGa e a miseri-
radicalmente separadas, assim como raziio           cordia de Deus. Essa C a unica certeza que,
e fC. Quando age de acordo com sua natu-            segundo Lutero, nos d5 a paz. P '          a




         Martinho Lutero diante da Dieta de Worms (1.521) e m que foi afastado d o lmpkrio
            por conta de Carlos V. Segundo Lutero, ndo e' necessaria uma casta sacerdotal,
                                                           a
                 pois cada cristiio d sacerdote e m rela~iio comunidade e m que vive,
   mas a liberdade de interpreta@o abriu caminho para u m a se'rie de perspectivas tamhkm politicas
                                        ndo deseiadas por Lutero.
76
         Primeira parte - O t l w n a n i s t n ~
                                                e   a Renas~en~a




                                 III. Mlrich Z w i ~ ~ l i o ,




                                                         critura C a unica fonte de verdade; 6) o papa
                                                         e os concilios n5o possuem uma autoridade
                                                         que v alim da autoridade das Escrituras;
                                                               A
                                                         c) a salvaq5o ocorre pela f6 e n5o pelas obras;
      Ulrich Zwinglio (1484-1531) foi ini-               d) o homem C predestinado.
cialmente discipulo de Erasmo. E, apesar de                    Separavam Zwinglio de Lutero, alCm
um rompimento formal que teve com ele,                   de algumas idiias teologicas (em particular
permaneceu profundamente ligado a men-                   sobre os sacramentos, aos quais ele dava um
talidade humanista. Aprendeu o grego e o                 valor quase que simbolico), tambCm a cul-
hebraico e estudou niio somente a Escritu-               tura humanista, com fortes elementos de
ra, mas tambCm os pensadores antigos,                    racionalismo, e um marcado nacionalismo
como Plat50 e Aristoteles, Cicero e S2neca.              helvitico (que, inconscientemente, o levou
Pelo menos no inicio de sua evoluqiio espi-              a privilegiar os habitantes de Zurique, como
ritual, compartilhou a convicq50 de Ficino               se eles fossem os eleitos por excelhcia).
e de Pico sobre a revelaqiio estendida uni-                    Para dar uma idCia concreta do desdo-
versalmente, mesmo fora da Biblia.                       bramento da doutrina zwingliana em senti-
      Em 1519 comeqou a sua atividade de                 do humanista-filosofico, escolhemos dois
pregador luterano na Suiqa. Zwinglio era                 pontos muito importantes: a quest50 do pe-
ativo defensor das teses fundamentais de Lu-             cad0 e da convers5o e a retomada de tema-
tero, particularmente das seguintes: a ) a Es-           ticas ontologicas de carater panteista.


              Em Zurrque
      (aqut reproduztda em
   utrn mc~srioquznhmtrsta),
     desenvolueu suu obra
       Zwinglzo, conutcto
 tiefensor de algumas das
    teses fundanzentats de
         Lutero. U m forte
   patrrotrsmo heludt~co  o
        leuou a przurlegrar
     ~nconsczentemente   os
 hab~tantes tul czdade,
             de
        como se fossem os
                    elertos.
No que se refere ao pecado, Zwinglio         logo Zwinglio deu sinais de autonomia, n5o
reafirma que ele tem sua raiz no amor de si        cessou nem mesmo com a sua morte, que
proprio (egoismo).Tudo aquilo que o homem          ele assim comentou: "Zwinglio teve o fim
faz enquanto homem C determinado por esse          de um assassin0 (...); ameaqou com a espa-
amor de si proprio, sendo, portanto, pecado.       da e teve a sorte que merecia." Lutero afir-
A convers5o C uma "iluminag50 da mente".           mara solenemente (com as palavras do Evan-
      Para Zwinglio, a predestinag50 se in-        gelho) que "quem usar a espada, perecera
sere em um context0 determinista, e i con-         ~ e l espada", pois a espada n5o deveria ser
                                                         a
siderada um dos aspectos da Providtncia.           usada em defesa da religiiio. Mas depois se
Ha um sinal seguro para reconhecer os elei-        contradisse gravemente: ja em 1525 ele exor-
tos, sinal que, precisamente, consiste em ter      tara Filipe de Hessen a reprimir com san-
f6. Enquanto eleitos, os fiCis s5o todos iguais.   gue os camponeses revoltados sob a lideran-
A comunidade dos fi6is se constitui tambCm         qa de Thomas Muntzer, que fora convertido
como comunidade politica. Assim, a Refor-          por ele e nomeado pastor de uma localida-
ma religiosa desembocava em uma concep-            de da SaxBnia.
qzo teocratica, sobre a qua1 pesavam ambi-               A espiral da violhcia j i se tornara
guidades de diversos tipos.                        irreprimivel: o germe das guerras religiosas
      Zwinglio morreu em 1531,combaten-            estava se difundindo fatalmente e se torna-
do contra as tropas dos cantees catolicos.         ria uma das maiores calamidades da Euro-
A ira de Lutero contra ele, que comeqou t5o        pa moderna.




                                   IV. Calvin0
                        e a     reforma de Genebra


   Calvino               0 destino do franc& JoBo Caivino (1 509-1564) esta ligado
                  a cidade de Genebra, onde, de 1541 a 1564, soube realizar um
  teocrdtico      govern0 teocratico inspirado na Reforma. Como Lutero, Calvino
  ern Genebra      est6 convicto de que a salva@o esta apenas na Palavra de Deus
  +§I              revelada na Sagrada Escritura, e que o pecado original eliminou
                   completamente os dons sobrenaturais do homem.
      0 s conceitos peculiares do Calvinismo s%o:
      a) a Provid@ncia, entendida como continua~Bo ato de cria~Bo,
                                                     do                cuja ag%ose
 estende a todos;
      b) a predestina@o, que consiste no eterno conselho de Deus por meio do
 qua1 determinou aquilo que queria fazer de cada homem.



      0s    pontes f ~ n d a m e n t a i s         soube realizar um governo teocratico inspi-
                                                   rado na Reforma, muito rigido tanto em
      d a t e o v i a d e Calvino                  relaqiio 5 vida religiosa e moral dos cida-
                                                   d5os corno, sobretudo, em relag50 aos dis-
     Calvino (Jean Cauvin)nasceu em Noyon,         sidentes.
na Franqa, em 1509, formando-se sobretu-                 0 calvinismo ja foi definido como o
do em Paris, onde sofreu especialmente as          mais dinimico de todos os tipos de protes-
influCnciaqhumanistasdo circulo de Jacques         tantismo. Mais pessimists que Lutero a res-
Lefkvre d'Etaples (Faber Stapulensis, 1455-        peito do homem, Calvino foi mais otimista
1536). Seu destino, porCm, esteve ligado 5         que ele a respeito de Deus. Enquanto, para
cidade de Genebra, onde atuou sobretudo            Lutero, o texto basic0 era o de Mateus 9,2
entre 1541 e 1564, ano de sua morte, e onde        ("0s teus pecados te s5o perdoados"), para
da aue niio tenha retirado inteiramente) os
                                                don's naturais do homem. e eliminou cbm-
                                                ~letarnente dons sobrenaturais.
                                                                os
                                                         Como Lutero, Calvino insiste no "servo
                                                arbitrio", apresentando a obra da salva-
                                                $50, que ocorre unicamente pela f i , como
                                                obra do poder de Deus. Se nos pudCsse-
                                                mos realizar at6 mesmo a menor aq5o por
                                                n6s mesmos, por meio do nosso livre-arbi-
                                                trio, entao Deus n5o seria plenamente nos-
                                                so criador.
                                                         Mas, bem mais que Lutero, Calvino
                                                insiste na predestina~iioe amplia o sentido
                                                da onipotincia do querer divino, a ponto
                                                de subordinar quase inteiramente a ele as
                                                volic6es e as decisoes do homem. Ele subs-
                                                titui o determinismo de tip0 estoico, que i
                                                de cariter naturalista e panteista, por uma
                                                forma de determinismo teista e transcen-
                                                dentalista igualmente extrema.
                                                           "Providincia" e "predestinaq5ow
                                                constituem, portanto, os dois conceitos car-
                                                deais do calvinismo.
                                                         Em certo sentido. a Provid2ncia C o
                                                prosseguimento do ato de criaqgo e sua aqao
                                                se estende a todos, n i o so no geral, mas tam-
                                                bim no particular, sem qualquer limite.
                                                         A predestina~iioi "o eterno conselho
                                                de Deus, pel0 qual ele determinou aquilo
                                                que queria fazer de cada homem". E sim-
                                                plesmente absurdo procurar a causa de tal
                                                decis5o de Deus: ou melhor, a causa 6 a von-
Calvino, a o contririo, era o de Paulo, Epis-   tade livre do proprio Deus, e sua vontade e
tola aos Romanos 8,31: "Se Deus esta conos-     a lei suprema.
CO, quem estari contra nos?"                             0 proprio pecado original de Ad50 n5o
      E Calvino se convenceu de que Deus        apenas foi permitido por Deus como tam-
estava com ele a o construir a "Cidade dos      bCm ele o quis e o determinou. Isso pode
eleitos" na terra, que foi Genebra, o novo      parecer absurdo apenas para aqueles que
Israel de Deus.                                 n i o temem a Deus e n2o compreendem que
      A doutrina de Calvino encontra-se so-     a propria culpa de Adio, assim concebida,
bretudo na Institui@o da religiiio cristi, da   inscreve-se em um admiravel e superior de-
qual publicou numerosas ediqoes a partir de     signio providencial.
1536, em latim e em francis.                             Segundo Max Weber, foi da posiq5o
      Como Lutero, Calvino tinha a convic-      protestante que derivou o espirito do capi-
q5o de que a salvaqiio esti somente na Pala-    t a l i s m ~ Corn efeito, Lutero foi o primeiro
                                                              .
vra de Deus, revelada na Sagrada Escritura.     que traduziu o conceit0 de "trabalho" pel0
Qualquer representaqao de Deus que n5o          termo "beruf", que significa voca@o no sen-
derive da Biblia, mas sim da sabedoria hu-      tido de profissiio, limitando-o, porim, as
mana, t um v5o produto de fantasia, mero
        ?                                       atividades agricolas e artesanais. 0 s calvi-
idolo. A inteligincia e a vontade humana        nistas o estenderam a todas as atividades
foram irreparavelmente comprometidas pel0       produtoras da riqueza. E mais: viram na
pecado de Adso, de modo que a inteligin-        produq5o de riquezas e no sucesso a-ela li-
cia deforma o verdadeiro e a vontade tende      gado quase que um sinal tangivel preci-
para o mal.                                     samente da predestinaqgo e, portanto, um
      Mais precisamente, explica Calvino, o     notivel incentivo a o empenho profissional.
pecado original reduziu e enfraqueceu (ain-     "i:""
                                                   "Qq
V.   O u t r o s te6Iogos              da Reforma
    e figuras ligadas a0 movimento protestante


        Entre os discipulos de Lutero foi importante Filipe Melanchton (1497-1560),
 que poremtentou uma especie de mediagao entre as posi$6esda teoiogia luterana
 e a tradicional.
       Fortes tintas racionalistas se encontram em Miguel Servet (1511-1553), que
 pijs em discusslo a divindade de Cristo.
                         Lelio Socino (1525-1562) e, sobretudo, o sobrinho Fausto
  outras figuras   Socino (1539-1604) interpretaram os dogmas cristlos em chave
  ligadas          claramente etica e racionalista, portanto em antitese em relat;tio
  ao movimento     a luferanos e calvinistas.
  protestante           0 aspecto mistico do pensamento da Reforma protestan-
  +§ 1             te foi levado as extremas conseqtidncias por Sebastiao Franck
                    (1499-1542/3), por Valentim Weigel (1533-1588) e por Jakob
 Bdhme (1575-1624), o qua1 terS grandes infludncias sobre os pensadores ro-




     J n t k r p r e t e s importantes            tisbona, onde as partes em causa (luteranos,
                                                  calvinistas e catolicos) niio aceitaram as ba-
     do movimento p r o t e s t a n t e           ses do acordo por ele proposto.
                                                        Uma forte coloraq50 racionalista pode
                                                  ser encontrada em Miguel Servet (1511-
      Entre os discipulos de Lutero destaca-      1553), que, em sua obra 0 s erros da Trin-
se com certa importincia Filipe Melanchton        dade (1531), p6s em discussiio o dogma
(1497-1560), o qual, porim, atenuou pou-          trinitario e, conseqiientemente, a divindade
co a pouco certas asperezas do mestre e ten-      de Cristo, que, para ele, foi homem que se
tou uma espCcie de mediaqiio entre as posi-       aproximou extraordinariamente de Deus e
q6es da teologia luterana e a posiqiio catolica   que os homens devem procurar imitar. Foi
tradicional. A obra que lhe deu fama intitu-      condenado h morte por Calvino, que niio
la-se Loci communes (que conttm exposi-           tolerava qualquer forma de dissensiio em
q6es sintiticas dos fundamentos teologicos),      questiio de dogma.
publicada em 1521 e viirias vezes reeditada,            TambCm dignos de menq5o foram Lelio
com variantes sempre mais acentuadamen-           Socino (1525-1562)e, sobretudo, seu sobri-
te moderadas.                                     nho Fausto Socino (1539-1604), que, asila-
      Melanchton procurou corrigir Lutero         do na Polhia, fundou uma seita religiosa
em trts pontos basicos:                           denominada "irmiios poloneses". Para
      1)sustentou a tese de que a fC tem papel    Socino, ao contrario do que sustentavam os
essencial na salvaq50, mas que, com sua obra,     outros reformadores, o homem pode "mere-
o homem "colabora" com ela, funcionando           cer" a graqa, porque C livre. A Escritura i a
assim quase como concausa da salvaqiio;           unica fonte atraves da qual conhecemos a
      2) esforqou-se por revalorizar a tradi-     Deus, mas a inteligcncia do homem deve se
qiio, a fim de acabar com os dissidios teol6-     exercer precisamente na obra de interpreta-
gicos que a doutrina do livre-exame desen-        $20 dos textos sagrados. E cada um C inteira-
cadeara;                                          mente livre nessa interpretaqiio. Socino ten-
      3) pareceu dar certo espaqo h liberda-      de a uma interpretaqiio em bases clarmente
de, embora exiguo, como tambtm censurou           Cticas e racionalistas dos dogmas, em widen-
seu mestre pel0 carater despotico, rigidez e      te antitese com o irracionalismo de fundo
belicosidade.                                      dos luteranos e dos calvinistas.
      Seus hibeis designios de reconciliaqiio           0 aspecto mistico proprio do pensa-
dos cristiios dissiparam-se em 1541, em Ra-        mento da Reforma protestante, porim, C
80    Primeira parte - 0+ I M M ~ C L M ~ S M ~ O   e a RenascenGa



levado as ultimas conseqiihcias por Sebas-                  As idCias de Bohme niio podem ser resumi-
tiso Franck (1499-1542/3), cujos Parado-                    das, pois G Oexpress50 de uma experihcia
x o s tornaram-se celebres (1534/35), por                   mistica intensamente vivida e sofrida. Tra-
Valentim Weigel (1533-1588), cujas obras                    ta-se de verdadeiras "alucinag6es metafi-
so circularam depois de sua morte, e por                    sicas", como ja disse alguim.
Jakob Bohme (1575-1624), do qua1 se tor-                          As obras de Bohme foram muitissimo
naram famosos sobretudo estes dois escri-                   criticadas, mas, talvez devido h sua opg5o
tos: A aurora nascente (1612)e 0 s tr& prin-                de vida simples (viveu exercendo a humil-
cipios da natureza divina (1619).                           de profiss5o de artes5o), Bohme n5o foi
       Este ultimo pensador, sobretudo, iria                perseguido, mas substancialmente tole-
influenciar pensadores da Cpoca romsntica.                  rado.




                                     VI.         Comtra-reforma



          0termo "Contra-reforma", cunhado no Setecentos, indica hoje propriamente:
       a) o aspect0 doutrinal express0 na condenagao dos erros do Protestantismo e
 na formulagao positiva do dogma catolico;
       b) o conjunto das medidas restritivas e constritivas, como a instituiqao da
 InquisigZio romana em 1542 e a compilagao do lndice dos livros proibidos.
                        A "Reforma catolica" designa o complexo movimento dirigi-
  Aspectos         do a regenerar a lgreja dentro de s i mesma, que tem rakes j%no
  doutrinais       fim da ldade Media e que depois s desdobra no decorrer da era
                                                      e
  da Contra-
  reforma
                   renascentista: manifesta-se tambdm na forma peculiar de
  e da Reforma     militiincia vivaz, sobretudo a propugnada por Indcio de Loyola e
  ca tolica        pela Companhia de Jesus por ele fundada (oficialmente reconhe-
  +§I              cida pela lgreja em 1540).

         A ligagao entre "Reforma catolica" e "Contra-reforma" estd na fun@ocen-
 tral do papado interiormente renovado, sancionada solenemente durante o Con-
                    cilio de Trento (realizado com vhrias interrupgdes, de 1545 a 1563.
  o ~oncilio        As decisdes do Concilio, aldm disso, solicitaram ulteriormente a
  de Trento         retomada da Escoldstica, cujo florescimento mais notdvel ocor-
  e a retomada      reu na Espanha com Francisco Suarez (1548-1617), que com sua
  da Escoldstica    ontologia nao deixou de influenciar o pensamento moderno, par-
  -+ 2 2-3          ticularmente Wolff.




      0 s conceitos                                          no caso dos conceitos de Humanismo e Re-
                                                             nascimento. Essa observagiio vale tambem
      historiogr6ficos
                                                             para o conceit0 de "Contra-reforma".
      d e "Contra-veforma"                                        0 termo "Contra-reforma" foi cunha-
      e d e "Reforma catblica"                               do em 1776 por Piitter (jurista de G~tinga),
                                                             e teve logo muito sucesso.
                                                                  Esth implicita no termo uma conotagiio
     0 s conceitos historiogrificos siio ex-                 negativa ("contra" = "anti"), ou seja, a idCia
tremamente complexes e, no mais das vezes,                   de conservag5o e reag50, como que um re-
S ~ gerados por uma sCrie de causas dificeis
    O                                                        trocesso em relagiio 5s posig6es da Refor-
de determinar, como vimos, por exemplo,                      ma protestante. Mas os estudos feitos sobre
plo, a instituiqio da Inquisjq20 romana em
                                                 1542 e a compilaqio do lndex dos livros
        INDEX                                    proibidos. (Sobre este ultimo ponto, deve-
                                                 se recordar que a imprensa tornara-se o
    LIBRORVM                                     mais formidavel instrumento de difusio das
                                                 idCias dos protestantes, dai a contramedida
        PROHIBITORVM                             do Index.)
    ALEXANDRI V I L Pontificis Maximi                  A conexio entre a "Reforma catolica"
                  iufsu editus.                  e a "Contra-reforma" esti na funqio cen-
                                                 tral do papado que, renovado internamen-
                                                 te, torna-se promotor da Contra-reforma em
                                                 suas diversas manifestaqoes.
                                                       Concluindo, diremos, com H. Jedin
                                                 (que C o historiador que estudou mais pro-
                                                 funda e amplamente este problema), que
                                                 "Reforma catolica" e "Contra-reforma" de-
                                                 vem ser bem distintas, justamente para bem
                                                 entender suas estreitas ligaqoes: "A Refor-
                                                 ma catdlica e' a reflex20 sobre si mesma re-
                                                 alizada pela Igreja, tendo em vista o ideal
                                                 de vida catolica que pode ser alcan~ado atra-
                                                 ve's de uma renova@o interna; a Contra-
                                                 Reforma e' a auto-afirma@io da Igreja nu luta
                                                 contra o brotestantismo. A Reforma catoli-
                                                 ca baseia-se na auto-reforma de seus mem-
   Frontispicio do index d m livros proihidos.   bros na tardia Idade Midia; ela cresceu sob
                                                 o estimulo da apostasia e chegou i vitoria
                                                 pela conquista do papado, a organizaqio e
                                                 a concretizacio do Concilio de Trento: C a
esse movimento, que foi bastante amplo e         alma da Igreja retomada em seu vigor, ao
articulado, levaram pouco a pouco a des-         passo que a Contra-reforma C o seu corpo.
cobrir a existhcia de um complexo movi-          A Reforma catdlica armazenou as for~as  que
mento (que se manifestou de varios modos),       depois foram descarregadas nu Contra-re-
voltado para a regeneraqio da Igreja no in-      forma. E o ponto em que ambas se interligam
terior dela mesma, movimento que tem suas        e' o papado. A ruptura religiosa subtraiu a
raizes no fim da Idade MCdia e que depois        Igreja forqas preciosas, aniquilando-as, mas
se desdobra ao longo da Cpoca renascen-          tambCm despertou aquelas forqas que ainda
tista.                                           existiam, aumentando-as e fazendo com que
       A esse process0 de renova@o no inte-      lutassem at6 o fim. Ela foi um mal, mas um
rior da Igreja foi dado o nome de "Reforma       ma1 do qua1 tambim nasceu algo de positi-
cat61ican,termo hoje acolhido de mod0 qua-       vo. Nos dois conceitos de 'Reforma catoli-
se uninime. As conclus6es a que se chegou        ca' e de 'Contra-reforma' estio incluidos
indicam que aquele complexo fen6meno que         tambCm os efeitos que a elas se seguiram."
se chama "Contra-reforma" n i o teria sido
possivel sem a existhcia de tais forqas de
regeneraqio pr6prias da catolicidade.
       A Contra-reforma tem um aspect0 dou-
trinario, que se expressa na condenaqio dos
erros do protestantismo e na formulaqio
positiva do dogma catolico. Mas tambim                A Igreja catolica conta at6 hoje vinte e
se manifesta numa forma peculiar de viva mi-     um concilios, do Concilio de NicCia, em 325,
litsncia, sobretudo a propugnada por Inacio      ao Vaticano 11, de 1962 a 1965. Entretodos
de Loyola e pela Companhia de Jesus por          esses concilios, o de Trento (que foi o dCci-
ele fundada (e reconhecida oficialmente pela     mo nono), realizado de 1545 a 1563,k cer-
Igreja em 1540). A Contra-reforma mani-          tamente um dos mais importantes, sendo
festou-se tambim sob a forma de medidas          talvez aquele que goza de maior notorieda-
restritivas e constritivas, como, por exem-      de, embora niio tenha sido o mais numero-
82     Primeira parte - 6 tlumanismo e n Renascenca

so nem o mais faustoso, e ainda que sua pro-          diante de uma reviravolta que, na historia
pria duraqso tenha de ser redimensionada              da Igreja, tem o mesmo significado que as
drasticamente, considerando-se o numero               descobertas de CopCrnico e Galileu tim para
dos anos de interrupq50 (de 1548 a 1551 e,            a imagem do mundo elaborada pelas cicn-
depois, de 1552 a 1561). Com efeito, a sua            cias naturais."
importiincia na historia da Igreja e do cato-               No que se refere ao primeiro ponto que
licismo foi muito grande e a sua eficacia             mencionamos, que aqui C o que interessa
bastante notavel.                                     mais, deve-se notar o que segue.
       A importiincia desse concilio esta no                0 s documentos do concilio usam de
fato de que ele                                       termos e conceitos tomistas e escolasticos
       a ) tomou clara posiqio doutrinaria            com parcimGnia e cautela e, corno foi bem
acerca das teses dos protestantes e                   notado por diversos intirpretes atentos, o
       b) promoveu a renovaq50 da discipli-           metro com que se medem as coisas C o da fe
na da Igreja, t5o invocada pelos crist5os             da Igreja e n i o o de Escolas teologicas par-
ha muito tempo, dando precisas indicaqoes             ticulares.
sobre a formagio e o comportamento do                       Responde-se sobretudo as questoes de
clero.                                                fundo suscitadas pelos protestantes, ou seja,
       Deve-se destacar tambCm que, no Con-           a justifica@o pela fi,a questio das obras, a
cilio de Trento, a Igreja readquire a plena           predestina@o e, corn grande amplitude, a
consciincia de ser Igreja de "cuidado com as          quest50 dos sacramentos, que os protestan-
almas" e de missio, propondo-se a si mes-             tes tendiam a reduzir somente ao batismo e
ma corno objetivo precis0 o seguinte: "Sa-            2 eucaristia (em especial, reafirmam a dou-
/ U S animarum suprema lex esto" ("a lei su-          trina da transubstanciaq50 eucaristica, se-
prema devera ser a salvaqiio das almas").             gundo a qua1 a substiincia do p5o e do vi-
Esta t uma reviravolta historica basilar, que         nho se transforma em carne e sangue de
Jedin analisa do seguinte modo: "Estamos              Cristo; Lutero, a o invts, falava de consubs-




             Ticiano, "0 Concilio de Trenton, conservado e m Paris no Museu d o Louvre.
      Este concilio (1 545-1 56.3) marca a mais significatiua uirada da lgreja nos tempos modernos.
83
                                        Capitulo quinto -   $ Renascenca e a Religi60




                                                                   Purticular de ulna e s t u m p
                                                                   represe~ta~zdoa cidude de Trento,
                                                                   onde se realizou
                                                                   o Corzcilio que nzarcou
                                                                   pura a Igreja u reconquista
                                                                   da plena consci&cid
                                                                   de ser "curu de alwm".



tanciaqiio, o que implicava a permanincia        foi expoente ilustre Tomas de Vio (1468-
do piio e do vinho, mesmo realizando-se a        1533), mais conhecido sob o nome de car-
presenla de Cristo, a o passo que Zwinglio       deal Caietano.
e Calvino tendiam a uma interpretaqiio sim-           Caietano, alias, foi o primeiro que in-
bolica da Eucaristia), bem como reafirmam        troduziu como texto-base de teologia, ao
o valor da tradi@o.                              invts das tradicionais Senten~asde Pedro
                                                 Lombardo, a Summa Theologica de santo
                                                 Tomas, que, posteriormente, se tornaria o
                                                 ponto de refercncia tanto para os domini-
                                                 canos como para os jesuitas. Recorde-se
                                                 tambtm que, a o longo do stculo XVII, os
                                                 comentirios a Aristoteles foram substitui-
                                                 dos pelos Cursus philosophici, amplamente
                                                 inspirados no tomismo e destinados a ter
      Lutero foi duro adversario niio apenas     ampla difusio e repercussiio.
de Aristoteles, mas tambtm do pensamento              0 florescimento mais notavel dessa
tomista e escolastico em geral. As raz6es siio   "segunda escoliistica" ocorreu na Espanha,
bem evidentes: as tentativas de conciliagiio     pais no qual tanto os debates humanistas
entre a ft e a razio, entre a natureza e a       como os religiosos chegaram de forma ate-
gra-la e entre o humano e o divino estavam       nuada e que, portanto, apresentava condi-
em antitese com seu pensamento de fundo,         @es particularmente favoraveis para isso. 0
que pressupunha a existincia de uma sepa-        maior expoente da "segunda escol~stica"  foi
raqiio categorica entre esses polos. Mas         Francisco Suarez (1548-1617), denominado
tambtm t evidente que as decisoes do Con-        doctor eximius, do qual ficaram famosas so-
cilio de Trento deveriam estimular uma re-       bretudo as seguintes obras: Disputationes
tomada do pensamento escolastico, do qual,       metaphysicae (1  597) e De legibus (1612).
alias, houvera uma revivescincia a o longo       A ontologia de Suarez n i o deixou de in-
do stculo XV e no inicio do stculo XVI (is-      fluenciar o pensamento moderno, especial-
to 6, ja antes do pr6prio concilio), e do qual   mente o de Wolff.
84   '
          Primeira parte - 8tlumanismo     e a Renascen~a



                                                     ele n6o sobe medir. 0 s6bio so sabe se refu-
                                                     giar nos clClssicos, para aprender apenas suas
                                                     sutilezas verbais; o outro, ao inv&s, lanpndo-
                                                     se temerariamente aos riscos, recolhe - ou me
                                                     engano? - frutos de prud6ncia. Homero tam-
                                                     b&m viu isso, embora ceqo, onde diz que "o
                                                     destino doma tarnbbm um e s t ~ l t o " . ~
                                                           Existem de fato do~s  obst6culos que, mais
      o alogio da loucura                            que os outros, se op6em b aquisi~dodo co-
                                                     nhecimento do mundo, e s6o a vergonha, que
                                                     ofusca a intelighcia, e a t~m~dez, exagera
                                                                                        que
        0 sscrito ds Erosrno csrtarnenta rnois       os perigos, desviando assim da q b o . Ora, h6
 lido, a do ponto ds visto ortistico o rnais Feliz   urn espl&ndido modo de se libertar de uma e
 (6 urno obro-prirno srn ssu g&naro), Q o Elo-       outra: possuir urn gr6ozinho de loucura. Poucos
 gro do loucura.                                     s6o os homens que conseguem entender que
       R "loucuro" da qua folo Erosrno ossa-         ndo estar sempre a se envergonhar e estar
 malho-sa, am carto santido, 2, socrdtico "iro-      prontos para tudo ousar produz infinitas outras
 nio" qua sob divsrsos m6scaras 6, o seu             vantagens. Mas h6 quem cr6 ssr preferivel a
 rnodo, rsvaladoro c b varcloda. Estas vdrias        tudo aquela espbcie de prud6ncia que se ad-
 rndscoros constitusrn urno gamo rnulticolorido      quire com o reto juizo das coisas, ouv~   bem, de
 que voi ds urn sxtrarno nagotivo, qua p6a           grqa, quanto longe estejam aqueles que v6o
 am avid&nc~o ports plor do homsrn, oo sx-
                  o                                  recomendando a si mesmos sob este aspecto.
 trarno positivo do fb am Cr~sto no loucuro
                                   e                        E primeiro lugar, sabe-se que, corno os
                                                             m
 do cruz.                                            Silenos de nlcibiad~s,~   todas as coisas huma-
        R "loucuro arosrniono, srn rnuitos pon-
                  "
                                                     nas t&m duos faces, completamente diferentes
 tos do livro, rosga os vQusa tira as rndscoros      uma do outro, de modo que oquilo que b pri-
 sob os quois os podarosos do rnundo sa as-          meira vista & morte, olhando bem mais para
 condsrn s os rnostro corno otorss qus srn seu       dentro, se apresenta corno vida, e ao contr6rio
 intirno sao fraquantarnenta bam difarantss          a vida se revel0 morte, o belo feio, a opul6ncia
 dos parsonogens qua parsonificom: mas - a           n6o & sendo mis&r~a, m6 fama torna-se 910-
                                                                             a
 nisto r a i d s a toconta poasio do obro -, oo      ria, a cultura se descobre ignorhcia, a robustez
 fozer isso, Erosrno foz cornpraandar o senti-       fraqueza, a nobrezo ignobilidade, a alegrio tris-
 do do csno, do cornbdio rscitodo, dos oto-          teza, as boas condi(6es escondem a desgra-
 ras a da suas rndscoros, s da olgurn modo           (a, a amizade a ~n~mizade, rem&dio salutar
                                                                                  um
 convida o ocsitor (ou rnostro corno ocaitor)        vos acarreta dano; em uma palavra, se obres a
 as coisos ossirn corno sbo, comprssndsndo           caixa ai encontrar6s de repente o oposto com-
 sxatornanta sau sentido.                            pleto do externo.
        E justomants d a t e rnodo a "loucuro"              Parece-vos que eu me exprima demas~a-
 arosrniono ss torno ravalodoro da "vardoda".        do filosoficamente? Pois bem, para ser mois cla-
                                                     ra. falarei francamente. Quem, do rei, n6o pen-
                                                     sa que & um senhor poderoso e riquiss~mo?
                                                     Todavia, se o espirito dele n6o est6 provido
1 . 0 verdadeiro juizo 6 "loucum"                    de bons dotes, se n60 h6 coisa que Ihe baste.
      Depois de ter re~vindicado   para mim' a       & paup&rrimo, evidentemente. Se depois tem
@ria de forte e suscitadora de atividade, que        a alma escravizada a muitos vicios, & um es-
dirieis se eu Fizesse o mesmo para a prud6n-         cravo, um desprezivel escrovo. Do mesmo
cia? Objetareis: tanto faz p6r junto o fog0 com      modo se poderia Filosofar sobre as outras
a agua! Mas eu ndo desesperaria de conse-            qualidades, mas basta o quanto foi dito corno
gui-lo, por pouco que prosslgals, corno antes,       exemplo.
a dar-ms ouvido atento.                                     "Com qua proposito ~sto?",   dir6 alguhm.
      E, para comepr, o que & a prud&ncia se-        Ouvi onde quero chegar. Se alguhm, enquanto
ndo a pr6tica da vida? E a quem pode melhor
competir a honra de tal atribui(60, ao sdbio,
                                                     os atores representom um drama, tentasse ar-  .
qua, um pouco por vergonha, um pouco por ti-
midez, ndo ousa tomar nenhuma iniciativa, ou
                                                         'A "loucuro" folo em prlmalro pessoo.
entdo 00 galhofeiro, que nada consegue im-               Womaro, liiodo, livro XVII, v 32.
pedir de agir? Ndo ser6 certamente o pudor a             3Alude13 comporo$50 entre Socrotes e os Slenos fe~to
frear este; ele n6o o tam; e nem o pengo, que        por Rlc~biodas Aonquete de Plotdo.
                                                                    no
85       IIi
                                           Capitdo quinto - A RenascenFa e a Religi60

rancor-lhesa rn6scar0, para mostr6-10s aos ex-       char urn olho algurna vez, junto com toda a irnen-
pactadores com seus rostos verdadeiros e na-         sa multiddo dos homens, ou antdo cometer d~s-
turais, ndo arruinaria toda a representqdo?Ndo       parates, humanamente. Isso, porhrn, dirdo, se-
mereceria ser expulso do teatro a vassouradas,       ria aglr como pessoa sem bom senso. Ndo o
como um doido? Sem dljvida, por obra sua to-         negaria, contanto que de outro lado ndo se con-
das as coisas tomariam novo aspecto, e quern         ceda que tal 6 a vida, a combdia da vida, que
antes era mulher, agora seria homem, quem h6         recitamos.
pouco era jovem, logo depois, velho, quem era                                                  Erasmo.
rei pouco antes, se revelaria improvisamente                                 Elog~o loucura. cap. XXIX.
                                                                                  da
um tratante, quem antes era deus, apareceria
de repente um pobre homem. Mas [...I 6 licito        2 . 0 s filosofos e a "loucura"
destruir este engano? Ndo se desmontaria todo
o drama? Pois 6 justamente esta ilusdo, este                Sobre suas pegadas avancam os fil6so-
truque que mant6m presos os expectadores.            fos, que incutem reverhncia com o rnanto e corn
[...I E a vida humana, que mais 6 sendo urna         a barba. Proclamam ser apenas eles os depo-
combdia? Nesta os atores saem em pljblico, es-       s1t6riosda sabedoria, enquanto todos os ou-
condendo-se um sob urna m6scar0, outro sob            tros rnortais seriam sombras que esvoaGam
outra, e coda urn faz sua parts, at6 que o dire-     aqui a ali.
tor os fa2 sair de cena. frequentemente, po-                Doce, na verdade, 6 o delirio que os pos-
rbm, a0 mesmo hornem d6 ordem de represen-           sui! E sua rnente erigem inumerdveis rnundos,
                                                            m
tar-se sob outro revestimento, de rnodo que           medindo quass a fio de prumo o sol, as estre-
quern antes representaro o rei vestido de pirr-       las, a lua, os planetas, explicarn a origem dos
purcl, agora representa o escravo esfarrapado.        raos, dos ventos, dos eclipses e de todos os
Toda a vida ndo tem nenhuma consisti;ncia; mas,      outros fendmenos inexplic6veis do natureza, e
por outro lado, esta cornhdia ndo pode ser re-       jamais hesitam, corno se fossern os confiden-
presentada d s outro modo.                           tes secretos do supremo regulador do univer-
       Ora, se algum sabichdo, caido do cbu, se      so, ou entdo nos viessem trazer as noticias das
pusesse de repents a gritar: "Oh, este senhor,        reunides dos deuses. Mas a natureza cqoa
que todos adrniram corno urn deus, um podero-        deles e da suas elucubrag.des.Com efeito, sles
so, ndo 6 sequer urn hornern, pois se deixa gui-      ndo conhecem nada com certeza. Prova mais
or pelas paixdes como um animal; ndo 6 rnais          que suficiente disso 6 o fato de que, entre os
qua um escravo do pior esptcie, porque est6           filosofos, a respeito de todo questdo nascem
submetido espontanearnente a tantos patrdes          polhrnicas interrnln6veis. Eles n60 sabem nada,
vergonhosos!"; ou entdo, se a outro que cho-          mas afirmam saber tudo; ndo conhcscem a si
rasse a morte do p i , ordenasse: "Ri enfim; teu      mesmos, por vezes ndo conseguem perceber
poi justamente agora cornqa a viver; 6 esta          os buracos ou as pedras qua lhes aparecern b
vida que vivemos que 6 morte, nada rnais que          frente, ou porque a maioria deles 6 cega ou
morte"; ou a urn terceiro, que se vangloria da        porque sempre est6o nas nuvens. Todav~a,      pro-
propria origem, dirigisse o titulo de ignobil bas-   clarnarn corn orgulho ver bern as idbias, os uni-
tardo, acrescentando-lheque est6 bem longe           versais, as formas separadas, as mat6rias-
de possuir a virtude, e que 6 esta a unica fon-       primas, CIS quididades. a hec~eidade,~      todos
te da verdadeira nobreza; se, portanto, este          coisas tdo sutis, que nem Linceur5   creio, nelas
s6b1ofalosse do mesmo modo de todas as ou-           conseguiria penetrar com o olhar.
tras coisas, que rnais fazer sendo rnostrar a               Seu desprezo pelas pessoas comuns sa
todos que 6 um insensato, um louco a ser amar-       manifesto sobretudo quando amontoam, um
rado?                                                sobre o outro, tridngulos, quadrados, circunfe-
       Rssim como ndo existe idiotice rnaior do       rhncias e outras figuras geom6tricas e as con-
que urna sabedoria moportuna, tamb6m n60 h6           fundern at6 fazer dalas um labirinto; al6m dis-
maior irnprudhncia do que uma prudhncia              so, eles, clispondo as letras como sobre um
destrutiva. Faz muito rnal quem ndo se adapta        xadrez de opera@es militares e continuamente
aos tempos e bs circunst8ncias, quern ndo olha       renovando sua ordern uma vez depois da ou-
o avesso do pano, quem, esquecido das re-            tra, jogarn areia nos olhos dos cr6dulos.
gras dos gregos b mesa - ou bebe, ou retira-te              E ndo faltam em sua fileira indlvidu6s que
-, pretendesse que a comhdia ndo seja rnais           at6 sdo capazes, interrogando os astros, de
combdia. Ro contr6rio. 6 proprio do homem ver-
dadeiramente prudente, pelo fato de sermos
mortais, n6o aspirar a urna sabedoria superior          'SBO termos coracteristicosdo flosof~a escol6stico.
ao proprio destino. € precis0 reslgnar-se ou fe-         5Personngemmitol6g1co.  farnoso pelo ogudez do olhor.
predizer o futuro e, prometendo milagres ainda     ria ter-se subst~tuido urna mulher. ao diabo, a
                                                                            a
maiores do que os da magia, encontram, feli-       um asno, a uma abobora, a uma pedra? E de
zes deles!, quem acredita.                         que modo uma abobora teria podido falar, fa-
                                          Erasrno, zer milagres e ser posta no cruz? Qual consa-
                        Elogio da loucuro, cap. 11
                                                 1.gra~do     teria operado Sdo Pedro, se tivesse
                                                   celebrado a fun~bo momsnto em que Cristo
                                                                           no
                                                   estava pregado M cruz?Poder-se-iaafirmar que
3. 0 s te61ogos e a "loucura"                      naquele mssmo instante subsist~sse Cristo    em
       Dos teologos, a0 contr6ri0, seria melhor o estado humano? Depois da ressurreicbo serd
n6o falar, poro evtor remover u brejo lodoso permitido comer e beber? Pois desde agora j6
                                  m
 como o de Comorina ou de tocar urna erva mal- se preocupam com a fome e a sede futuras.
cheirosa. Pois esta b uma r a p de homens ex-              Depois, dispdem de urna infinidade de
 traordinariamente carrancuda e irritdvsl, e eu sutilezas, muito mais sutis que as preceden-
 temo que atlrem sobre mim Bs centenas as fi- tes, sobre no~des,          relo@es, formalidade, qui-
 leiras de suas conclusdes e n6o me constran- didade, heceidade; coisas todas que ningubm
jam a recitar o mea culpa, ou que, na falta disso, conseguiria captar com o olhar, a menos que
 ndo me proclamem simplesmente de inf~tado fosse um I~nceu d~v~sasse nas trevas mais
                                                                      e             0th
 por heresia. Com efeito, este 6 o raio de que densas aquilo que de fato ndo exlste.
se valem habitualmente para inspirar terror em             Acrescentai agora a estas certas mdximos
quem lhes & antipdtico.                            t6o porodoxois que aqueles famosos or6culos
      <  fato qua n60 existem outros homens dos Estoicos, chamados de paradoxos, diante
que menos prazerosamente reconheqxn os destas parecem vulgaridadss boas para pia-
beneficios de mim recebidos, mas eles tam- da: por exsmplo, que & falta mais lave matar
bbm t&m para comigo muitos motivos de re- mil homens do que coser uma so vez as sand6
conhecimento.                                      lias de um pobre em um dia de domingo, ou
       0 amor proprio os torna felizes a ponto entdo que se deve deixar perecer o mundo in-
de lhes parecer habitar o sbtimo cbu: do alto teiro com tudo o que nele existe, em vez de
olham smbaixo todos os outros mortais, como pronunciar uma so mentirinha, por mais Ieve que
se fossem animais qua rastejam no chdo, e seja. [...I
quase chegam a deles ter compaixbo. A seu                  AIbm disso, sdo infinitos os caminhos pe-
 redor t&m um conjunto infinito de defini@es ma- 1 s quais os Escol6sticos tornam ainda mais sutis
                                                     0
gistrais, de conclusdes, de corol6rios, de pro- aquelas infinitesimais sutilezas: em suma, seria
 posi@es explicitas e implicitas, t&m d disposi- mais f6cil escapar de um labirinto do que dos
$30 tal exuberBncia de subterf6gios, que nem emaranhados dos Realistas, Nominalistas,
a rede de Vulcano6 com suas malhas poderia Tomistas, Rlbertistas. Ockam~stas,                Escotistas, e
 impedir de safar-se por entre seus "d~stingo". nbo acenu a todas as escolas, mas apenas Bs
 Com estes eles cortam todo no com tal facilida- principais.
 de que nem a machadinha de dois gumes de                  E todas estas escolas erudiq3o e abstru-
                                                            m
Tenedo7 poderia fazer melhor, e infinito b o fer- sidade estdo na ordem do dia e eu penso que
vilhar dos tsrmos que inventam na hora, e dos os proprios ap6stolos teriam necessidade do
 estranhos voc6bulos que usam.                     socorro de outro Espir~to       Santo, caso fossem
       Rlhm disso, deleitam-se em explicar com forpdos a cruzar armas com esta nova estirpe
 prazer os misteriosos arcanos da rdigido, ou de teologos.
 seja, o modo da cria@o e a ordenasdo do uni-                                                     Erasrno,
 verso, os canais por meio dos quais a mancha                                 Elog~o loucura, cap. 11.
                                                                                      da                11
 do pecado original se espalhou sobre os des-
 cendentes, o modo, a medida e o 6timo em 4. A fslicidade celeste
 qua Cristo se formou no seio da Virgem, e a           6 uma forma de "loucura"
 razbo do fato de que na Eucaristia os acidentes
 subsistem sem a subst6ncia corporea.                      Tal coisa se tornard mais evidente se de-
       Estes, porbm, sdo argumentos abusivos.      monstrar logo, conforme prometi, que o decan-
 Rtualmente as questdes consideradas dignas tado pr&m~o             supremo ndo & mais qua uma es-
 de teologos grandes e iluminados, como os pbcie de loucura. Considerai em primeiro lugar
 chamam, sdo outras e quando nelas se em-
 batem, ent6o sdo todo ouvidos. Cis algumas.
                                                                    b
 H6 um instante precis0 na gera~do   divina? Exis- juntos a rnulher Vhus aconstruida palo daus para enredor
                                                        6Refer&nc~o rede
                                                                           Marta.
 tsm em Cristo mais filia<das?6 possivel a pro-         'Na ~lho Tenedo era la1 G pr6t1ca dacap~ta@o
                                                                 de                        a             de
 posi(6o "Deus pai odela o Filho"? Deus pode- quem apresentavn Falso acusa<do.
que Platdo sonhou 0190 de semelhante, quan-          Ihor, n6o se perde, mas se aperfeicoa. Quem,
do escreveu8que o furor dos amantes C o mais         portanto, saboreia antecipadamente na terra a
docs de todos. Com efeito, quem ama arden-           alegria do cCu (sorte concedida a bem poucos)
temente n60 viva mais em si mesmo mas na-            est6 sujeito a manifesta<6es muito semelhan-
quele que ama, e quanto mais se afasta de SI         tes d loucura: pronuncia palavras sern nexo ndo
mesmo, para transferir-se inteiro no outro, mais     ao modo dos homens, mas emitindo palavras
goza. Ora, quando a alma se dedica a vagar           inconscientemente; em seguida muda a ex-
fora do corpo, sern mais se ssrvir normalmente       press60 do rosto sern interrupq30,ora vivaz, ora
dos proprios org6os, isso & furor, sern dirvida,     abatido, ora a chorar, depois a rir, a suspirar,
e pode-seafirm6-lo com raz6o. De outro modo,         em suma, est6 completamente fora de si. Quan-
o que significaria aquilo que comumente se           do depois volta a si mssmo, diz que n60 sabe
diz: "n6o est6 em si mesmo", "cai em ti mesmo"       onde tenha estado, se no corpo ou fora do cor-
ou entdo "voltou a si"? E quanto mais o amor &       po, se desperto ou a dormir, nem se lembra do
perfeito, tanto maior e mais delicioso 6 este        que ssntiu ou viu ou disse ou fez, a n60 ser
furor.                                               como em uma nbvoa e em sonho: sabe apenas
       Qual ser6 ent6o aquela vida celeste, d        ter estado no dpice da bem-aventuran<a,du-
qua1 anelam com tanto ardor os espiritos r d -       rants todo o tempo em que se encontrava fora
giosos? Evidentemente o espirito absorverd o         dos sentidos. E lamenta-sepor ter voltado a si
corpo, como vitorioso e mais forte. E assim o        mesmo e ndo desejarin outra coisa sen60 es-
far6 tanto mais facilmente pois j6 antes, duran-     tar cont~nuamente   louco com tal tipo de loucu-
te a vida, o purificou e enfraqueceu portal trans-   ra. E ndo se trata mais do qua uma Ieve pre-
f o r m ~ @ em seguida, de modo admiravel,
              ~;                                     gustaq6o da bem-aventuranp futura!
esse espirito serd absorwdo pala mente su-
prema, que C sob infinitos aspectos mais po-                                                  Erosmo,
derosa; desse modo o homem estard todo fora                               Clog10 do lowuro, cap. WII.
de si e ssr6 feliz apenas pelo fato que, posto
fora de si mesmo, experimentarc5 algo de ine-
f6vel daquele sumo bem que tudo atra e rapta
para SI.
       6 fato que tal felicidade nos tocard de mo-
do perfeito apenas quando as almas, reentran-
do em posse dos corpos de antes, receberem
o dom da imortalidade. Mas tambhm, desde
que a vida dos homens religiosos ndo t mais  :
que rneditqbo daquela celeste e como qua uma
sombra dela, por consequ&nciaalguma vez eles
 provam desde agora, aqui na terra, um gosto e
como que urn perfume daquele pr&mio. Trata-
se de uma gotinha minuscula em compara~do
com aquela fonte de bem-aventuranp eterna;
 todav~a, infinitamentesuperior a todos os pra-
           6
zeres do corpo, mesmo que fossem colocados
juntos todos os gozos de todos os mortals, pois
em muito as coisas espirituais ultrapassam as
corpor~as, invisiveis as visiveis.
             as
       E isto, se v&, quando o Profeta9promete:
 "0olho n6o viu, o ouvido n6o ouv~u      nem che-
 gou a0 cora<dodo homem o que Deus prepa-
 rou para quem o ama". Esta & aquela parte de
 loucura que, com a possagem para vida me-

                                                     Erasmo de Rotterdam
                                                     em uma incisdo que remonta a 1526,
                                                                                              .
                                                     do ce'bbre pintor Albrecht Diirer.
Primeira parte - O t I u 1 ~ a n i s ~ 1 0a R e n a s c e n c a
                                               e



                                                              2. Uma reta H em Cristo
                                                                 6 uma riqueza superabundante
                                                                     Por isso, razoavelmsnte, a unica obra, a
                                                              irn~ca ocupa<dode todo cristdo deveria ser esta:
                                                              compenetrar-sebem da palavra e de Cristo, exer-
                                                              citar e reforqr tal f& continuamente,pois nenhu-
      0 primado da H em Cristo                                ma outra obra pode tornar algu&m cristdo. Cris-
      sobre as obras                                          to, em Jo 6,285. diz aos judsus, que Ihe pediam
                                                              o que dever~am    fazer para realizar obras divinas
                                                              e cristds: "Esta 6 a irnica obra dw~na,    que vos
        0principal dos pontos Fundomsntois do                 creiais naquele que Deus enviou", que Deus Pal
 tsologio ds lutsro Q qus o homsm sa solvo                    tambhm apenas isso ordenou. Por isso, uma reta
 pela fC e ndo pelas obras. E outros tsr-
                                    m                         f& em Cristo & riqueza superabundante, pois ela
 mos, o possibilidode ds solvogdo ssM com-                    traz consigo toda felicidade e tira toda infelicl-
 platomants no fQ, umo v m qus o homem 8                      dads, como escreve Sdo Marcos no f~m 6,16):(1
 crloturo fsito do nodo, e como to1 nodo poda                 "Quemcr6 e rmebeu o batismo ser6 salvo; quem
 fozsr poro se tornor "novo crioturo': ou ssjo,               ndo cr6, ser6 condenado". Por isso o profeta
 poro rsalizor o rsnoscimanto ssp~ritual    rsque-            Isaias (1 0.22) contemplou a rlqueza desta f& e
 rido pel0 Evongelho.                                         disse: "Deus far6 uma breve aval~a<do       sobre a
        Evidsntsmsnts, lutsro ndo nag0 qus                    terra, e esta avalia<do, como um diluvio, far6
 hojo 'bbros boos': suo ofirmogdo ds que o                    transbordar a justisa"; isso sign~fica a f&, em
                                                                                                     qua
 fd p o r s justifica ssm os obros significo,subs-
            ~                                                 que se resume o cumprimento de todos os man-
 toncialmente, qus os obros ndo podem ter                     damentos, justificar6 superabundantemente to-
 por si o Fungdo salvi'fica qua trodicionolmsn-               dos aqueles que a possusm, de modo que elas
 ts otribui'a-sa o slos.                                      de nada mais necessitardo para serjustos e pios.
        levando ssto tesa ds sxtramos conse-                  Rssim diz Sdo Paulo em R 10: "Que se creia de
                                                                                          m
 qu&ncios, lutero ndo corrigia opanas os obu-                 cora<do, isto & o que torna justo e pio".
 sos e os sxcsssos opostos ds um modo ds
 entsndsr s ds proticor os "obras",mos otin-
 gia os pr6prios fundamantos do doutrino cris-                3. So a H,sem nenhuma obra,
 td, corn todo uma sQrisd s conssqu&nciosda                      torna justos, livres e salvos
 gravs irnportdncio.                                                Como sucede entdo que a f& sozinha pos-
                                                              so tornar-nosjustos e sem nenhuma obra dar-
                                                              nos tdo superabundante riqueza, enquanto nos
                                                              sdo prescritos na Escritura tantas leis, manda-
1. A alma pode deixar tudo,                                   mentos, obras, estados e comportamentos?
   mas 1160 a palavra de Deus                                 Rqui & preciso observar corn dilighncia e rater
                                                              decisivamenteque somente a f& sem nenhuma
      Nem no c&u nem no terra a a h a tem ou-                 obra torna justos, livres e salvos, como melhor
tra coisa, na qua1 viver e ser justa, livre, cristd,          ouviremos a seguir. E & preciso saber que toda
fora do Santo Evangelho, a palavra de Deus                    a Sagrada Escr~tura    divide-se em duos ssp&-
pregada por Cristo. Com efeito, ale proprio diz               cies de palavras, as quais sdo os mandamentos
am Jo 1 1.25: "Eu sou a vida e a ressurrei@o;                 ou leis de Deus e as garantias ou promessas.
quem cr6 em mim, vive eternamente"; da mes-                   0 s mandamentos nos ensinam e prescrevem
ma forma 14.6: "Eu sou o caminho, a verdade                   mais esp&cies de boas obras, mas estas ndo
e a vida". E ainda em Mateus 4.4: "0homem                     sdo, pelo fato de sersm mandadas, ainda rea-
ndo vive apenas de pBo, mas de todas as                       lizadas. Certamente os mandamentos nos diri-
palavras qua saem do boca de Deus". Deve-                     gem; contudo, ndo nos ajudam; eles nos ensi-
mos, portanto, estar convictos de que a alma                  nam aquilo que se deve fazer, mas ndo nos
pode deixar qualquer coisa, mas ndo a pala-                   ddo nenhuma forp para efetiv6-lo. Eles, por-
vra de Deus, e que sem a palavra de Deus                      tanto, sdo ordenados apenas para este fim, que
nenhuma coisa a ajuda. Ro contrdrio, quando                   o homem tenha como neles constatar bpropria
tem a palavra de Deus, ela de mais nada ne-                   incapacidode para o bem e aprenda a perder
cessita; encontra nisso apagamento, alimen-                   a esperan~a si proprio
                                                                             de            [...I.
to, alegria, paz, luz, intelecto, justip, verda-                     Ora, estas palavras, como todas as de
de, sabedor~a,liberdade e exuberdncia de                      Deus, sdo santas, verdade~ras,     justas, pacifi-
todo bem.                                                     cas, livres e ricas de todo bem. Por lsso a alma
daquele que a elas se at&m com reta f&, une-             1. Apenas o Espirito de Dsus opera tudo,
se a Deus tdo totalmente, que todas as virtu-               o homsm n60 opera nada
des da palavra se tornam tambtm proprias da                     N6s, corn efeito, afirmamos e sustenta-
alma, e assim, mediante a f&, a alma pela pa-            mos que Deus, quando opera fora da gracp
lavra de Deus torna-se santa, justa, veraz, pa-          do Espirito, opsra tudo em todos, tarnbhm nos
c i f i c ~ livre e rica de todo bem, verdadeira filha
            ,                                            impios. Ele, corno criou sozinho todas as coi-
de Deus como d~z Jo6o em 1,12: "Ele con-
                          Sdo                            sas, tamb&m sozinho as move, as imp& e ar-
cadeu poder tornar-se filhos de Deus a todos             rasta no movimento de sua onipothncia, que
aqueles que crhem em seu nome".                          elas ndo podem evitar nem mudar, mas qus
          Tudo ~sso    permite compreender facilmente    necessariamente.continuam,     obedecendo, coda
por que a f& tern u poder tdo grande e nenhu-
                          m                              uma segundo a propria natureza que Ihe foi
ma boa obra pode igua16-la.Nenhuma boa obra              dado por Deus: dessa forma, todas as criatu-
com efeto & tdo ligada B palavra de Deus como            ras, tamb&m as impias, sdo colaboradoras de
a f&; nenhuma boa obra pode estar na alma.               Deus. E, por outro lado, aqueles sobre os quais
mas no alma reinam somsnts a palavra s a f&.             Deus age corn Espirito de graga, aquelss que
Qualh a palavra, assim se torna tambhm a alma            ole justificou em seu Reino, sdo igualmente por
gragas a ela: assim como o ferro se torna verme-         ele impelidos s movidos; e eles, corno suas
Iho como o fogo, depois da mi60 com ale. Por-            novas criaturas, o seguem a corn ele coops-
tanto, nos verificamos que o F basto poro um
                                     b                   ram, ou melhor, como diz Paulo, sdo por ele
cristdo s qua sls ndo tsm necessidods ds ns-             conduz~dos.
nhumo obro poro ser justo; s se ndo tsm mois                    Ndo &, por&m, disso que agora devsmos
nscsssiclods de nanhumo obro, sntdo sls esM              falar. Ndo discutimos corn efsito sobre aquilo
csrtomsnte desvinculodo ds todos os mondo-               que podemos por efeito da a@o de Deus, mas
mentos s ds todos os Isis; s se GIG sstd dss-            daquilo qu,e nos homens podemos, isto 6 , se
vinculodo, b csrtomsnte livrs. Esto C sxotomants         nos, criados do nada, podemos, tambbm na-
o libsrdods crist8, o F somsnts, o quo1 compor-
                             b                           quele movimento gsral da onipothncia divina,
to n8o qus nos possomos permanacsr ociosos               fazer ou tentar alguma coisa para nos prepa-
ou Fozsr o ma/, mos que ndo tsnhamos nacess~-            rormos para ser nova criatura do espirito.
 dads ds nenhumo obro poro chegor 2, justifica-                 R isso deveriamos responder, e n6o diva-
gio s 2, bem-avsnturon<o.                                gar sobre outras coisas. E sobre o ponto em
                                        M. lutaro,       questdo assim respondsmos: como o homsm,
                             A libardad~ crist6o.
                                        do               antes de ser criado homem, nada faz ou tenta
                                                         para se tornar criatura, e, depois que foi feito
                                                         ou criado, nada faz ou tsnta para psrmanecsr
                                                         criatura, mas ambas as coisas ocorrem unica-
       Sobre o servo-arbitrio                            mente pela vontade da onipotente virtude e
                                                         bondade de Deus, que nos cria e conserva ssm
                                                         nenhuma participagdo nossa (por outro lado
                                                         Deus ndo opera em nos totalmente sem nos,
        E 0servo-arbitrio, sscrito sm pl6mico
          m                                              enquanto nos criou e conservoujustamente para
  dlreta contro 0livre-arbitriods Erosmo de Roffsr-      o fim de operar em nos e de fazer-nos cooperar
  dom, smergem ds modo sspciol os comp-                  com ale, tanto sa isso acontece fora de seu rei-
  nsntss pssimistos do pensomento ds lutsro.              no, pela sua onipotente agdo universal, como
        Rqui o relormodor ofirmo, com sfsito,             dentro de seu reino pela virtude particular de
  qua o livre-orbitriopods Fozer olgo openos              seu espirito); assim, dizemos qus o homem, an-
  am rslogdo 2,s at~vidodss     noturois, como co-        tes de ser renovado em nova criatura do rsino
  mar, bsbsr, geror, govsrnor, mas para o rss-            do Espir~to, nada faz e nada tenta para se pre-
  to sls pods opsnos pacor. TombCm foro do                parar para tal reaova~do para aquele reino,
                                                                                      e
  grog0 ds Dsus, o homem permonacs ssm-                   e tamb6m depois de seu renascimento nada
  pre sob o onipot&nc~o Dsus, o quo1 Foz,
                             ds                           faz, nada tenta para permanecer naquele rei-
  movs e dsstroi tudo nale sm um curso ne-                no, mas uma e outra coisa em nos produzem-
  cessdrio e inFoIivs1. Oro, o groqo consists             se apenas pelo Espir~to, sem a nos? par-
                                                                                    qua
  openos no Cristo crucificodo: portonto, ss              ticipagdo nos cria de novo e, depois ds ter-nos
  tsmos F no Cristo que rsd~miu homens
           b                           os                 assim recriados, nos conserva, como d~z    tarn-
  com ssu songus, dsvemos tombbm rsconha-                 b&m o apostolo Tiago (1 ,18): Ele de sua von-
  car qua em coso divsrso o homsm tsr-ss-io               tade nos gerou com o verbo de seu poder, para
  complatomsnte perdido.                                  que f6ssernos as primicias de suas criaturas. (E
                                                          aqui fala das criaturas renovadas).
Primeira parte - O H M M I ~ Me a Renascenqa
                                      ~SM~O


      0 Espirito, pordm, n6o opera sem nos,
pois nos recriou e conservou justamente pa-
ra o firn de operar em nos e fazer-nos coope-
rar com ele. Assim, mediante nossa coope-
ra@o, prega, ajuda os pobres, consola os
aflitos. Mas nisso qua1 p a r k cabe ao livre-
arbitrio? 0qua Ihe resta sen60 nada? Exata-
mente nada.                                               Deus predestinou
                                                          alguns homens 6 salva@o,
2. Ter F em Cristo significo reconhecer
       L                                                  outros i danastio
                                                                 i
  que o homsm, com o pecado,
  estava totalmsnte perdido                                 Pode-sa dizer que Colvino Q rnois p a -
                                                     s~misto  sobre o homem do que lutero, po-
       Aqu~ terminarei este livrinho, disposto, se   rem, em certo sentdo, mois otlmisto em re-
for necasscirio, a tratar a quest60 mais am-         lagdo o Deus.
plamente, embora eu pense ter largamente                    0 s estudiosos htr tempo ~ndicororn bem
satisfeito todo homem pio, qua queira reco-          os diferengos, solientondo qus se o texto-
nhecer a verdade sem ter tornado partido. Com        bosa emblsmtrtico poro lutero Q Moteus 9,P:
efeito, se cremos qua a verdade seja que Deus         "0s teus pecodos te sdo psrdoodos", poro
sabe com preced&ncia tudo e tudo prd-orde-           Colv~no Poulo no Carta aos Romanos 8,3 1:
                                                              Q
na a que, portnnto, n6o pode falir nem sofrer         '5e Deus estd conosco, quem estord contra
obstClculo em sua prescihcia e predestinac60         nos?"
e que, por fim, nada pode acontecer a n6o ser               Sou livro, Institui@o do religido crist6,
por seu querer, corno a propria raz6o deve ad-       publicodo em 7 536, teve enorma sucesso e
mitir, dai deduzimos, nlsso confortados igual-       dele forom logo feitos numsrosos edig6es.
mente pela raz60, qua n6o pode de fato ha-           Mols que umo reconstrugdo doutrinol siste-
ver livre-arbitrio nem em homem nem em anjo          rnat~co pensomanto cristdo, o Institui<do
                                                              do
nem em nenhuma criatura. Pois, se cremos qua         pretende sar umo opresantogdo dos textos
Satancis is o principe do mundo e que eterna-        teologicos corn bosa nos quois Q precis0 en-
mente ins~dia combate com todas as for~as
                 e                                   frentar o reformo do Igrejo.
o reino de Cristo, de modo a n60 deixar os                  R possogem que reportornos apresen-
homens por ele feitos escravos a n6o ser quan-        to o ponto fundomento1 do teolog~o Col-de
do delas seja expulso pela virtude div~na       do    vlno sobre o predestina@o. Esto 6, poro
Espirito, de novo aparece claramente que o            Colvino, a eterno decisdo com o qua1 Deus
 livre-arbitrio n6o pode existir. Igualmente, se      deterrninou aquilo que de codo um dos ho-
cremos que o pecado original nos corrompeu,           mens ole pretendia fozsr. Portonto, ssgun-
de modo tal a ponto de opor sua repugn6ncia           do Colvmo, Deus ndo crio todos os homens
ao bem, gravissimo obst6culo tambdm para              em umo condigdo de iguol grou, mas uns or-
aqueles que sdo impelidos pelo Espirito, d evi-       denodos B donogdo, outros poro o viclo eter-
d e n t ~ no homem privado de Espirito nada
        que                                           no. Portonto, o predestlnogdo do homem Q o
permanece que possa voltar-se para o bem,             firn sagundo o quo1 ele foi criodo. Buscor os
 mas tudo est6 voltado para o mal. Por f~m,     se    roz6ss desso decisdo de Deus Q ~mpossivel,
 os judeus, que tendiam 6 justica com todas as        pois o couso 6 suo vontode, e nodo se pode
 for~as,cairam na injustip, enquanto os pa-           pensor corno mois equdnime e rnelhor do que
 gdos, que tendiam d impiedade, chegaram d            suo vontade.
justip por graga dlvina e inesperadamente.
 mais uma vez 6 manifesto, pelas proprias obras
 e pela experi&ncia,que o homem sem a g r q a
 n6o pode querer a n6o ser o rnal. Enfim, se         1. A d d @ o e a prsdestina@io
 cremos que Cristo redimiu os homens com seu            operada por Reus
 sangue, somos for<ados a reconhecer que o             0pacto de g r a p n6o 6 pregado a todos
 homem estava intsiramente perdido; do con-       de modo igual, e mesmo onde se pr&ga ele
 tr6r10,devemos supor que Cristo d supdrfluo      n6o d receb~do todos do mesmo modo; tal
                                                                  por
 ou redentor do parte mais v ~ de nos, o que
                                   l              diversidade revela o admir6vel segredo do pla-
 seria blasfemo e sacrilego.                      no de Deus: indubitavelmente esta diversida-
                                      M . lutero, de deriva do fato de que ass~m agrada. Se
                                                                                  Ihe
                                  0servo-orbitr~o d evidente que por vontade de Deus a salva-
560 & oferecida a uns enquanto outros dela sdo     mos, 6 melhor diferir a solugdo de cada uma
excluidos, disso nascem grandas e graves ques-     delas no ordem em que se apresentar.
tbas que nd0 se podem resolver a ndo ser en-             for ora desejo fazer compreender a to-
sinando aos crentes o significado da elei@o s      dos que nbo devemos buscar as coisas que Deus
do predestinasdo de Deus.                          quis esconder, e ndo devemos descurar as que
      Muitos consideram a questdo bastante         ele manifestou, por medo de qua, de um lado,
tortuosa, pois ndo admitem que Deus predestine     nos condene por demas~ada     curiosidads e, do
alguns 6 salvasdo e outros b morte. Mas a          outro, por ingrotiddo. 6 otima a afirmasdo de
trata<dodo problema demonstrar6 que sua falta      santo Rgostinho, que podemos seguir a Escri-
de bom senso e de dlscernlmento os pbe em          tura com seguransa pois ela condescsnde com
situasdo inextric6vel. Rl&mdisso, na obscurida-    nossa fraqueza, como faz a mde com seu behi:
de que os espanta, veremos quanto tal ensi-        quando quer ensin6-lo a a n d ~ r . ~
namento ndo so seja irtil, mas tambhm docs e             Quanto 6queles que sdo tdo timidos ou
saboroso pelos frutos que dele derivam.            circunspectos que quereriam abolir inteiramen-
                                                   te a predestina<do para ndo perturbar as al-
                                                   mas d&beis, sob qua1 veste, vos peso, masca-
2. As dificuldadss que a doutrina
                                                   rardo seu orgulho, visto que indiretamente
  da predestina~80
                 Ievanta
                                                   acusam Deus de estulta Isviandads, como se
       Reconheso que os maus e os blasfema-        ndo tivesse previsto o perigo a0 qua1 tais inso-
dores logo encontram, no argumento da predes-      lentes pensam remediar com sabedoria?
tinasdo, do que acusar, sofismar, ladror ou ca-          Portanto, quem torna odiosa a doutrina da
soar. Contudo, se tem&ssemos sua arrogdncia,       predest~nasdo,  denigra ou abertamente fala ma1
d~veriamos   calar os pontos prlncipais de nos-    de Deus, como se inadvertidamente tivesse
so f&, e ndo um dos que est6 isento da conta-      deixado escapar aquilo que so pode prejudi-
minasdo de suas blasfi:mias. Urn espirito rebel-   car a Igreja.
de perseverar6 em sua insol&ncia ouvindo dizer
que em uma so ess&ncia de Deus h6 tr&s pes-        3. C m a prrdrstina@o Deus
                                                       o
soas, ou entdo que Deus previu, criando o ho-         estabrlrcr aquilo
mem, aquilo que Ihe devia acontecer. Da mes-          qus qusr fazer dr cada homem
ma forma, esses maus ndo conterdo seu riso,
quando se lhes disser que o mundo foi criado              Quem quiser considerar-se homem temen-
apenas h6 clnco mil anos, e perguntardo como       te a Deus, n60 ousar6 negar a predestinqbo,
o poder de Deus permaneceu assim tdo lon-          por meio do qua1 Deus atribuiu a uns a salva-
gomente ocioso.                                    560 e a outros a condenqdo sterna; muitos,
       Deveriamos talvez, para evitar semelhan-    ao contrdrio, a envolvem em variadas cavila-
tes sacril&gios, deixar de falar do divindade      <bas,em particular aqueles que a querem fun-
de Cristo e do Espirito Santo? Deveriamos calar    damsntar sobre sua presci&ncia.
a respeito da criasdo do mundo? Ao contr6rio.             Digamos que ele previ: todas as colsas e
a verdade de Deus 6 tdo poderosa, sobre es-        tambbm as disp6e; mas dizer que Deus esco-
tes e sobre outros pontos, que ndo tame a ma-      Ihe ou rejeita enquanto previ: isto ou aqudo,
ledic&ncia dos iniquos. Tamb&m santo Agosti-       significa confundir tudo. Quando atribuimos uma
nho o indica muito claramente no livrinho que      presci&ncia a Deus, queremos dizer que todas
intitulou: 0dom da persavaronp' Com efeito,        as coisas sempre foram e permanecem eterna-
vemos que os falsos apostolos, difamando e         mente compreendidas em seu olhar, de modo
casoando do ensinamento de sdo Paulo, ndo          que em seu conhecimento nada 6 futuro ou
conseguiram obter que ele disso se envergo-        passado, mas toda coisa Ihe & presente, e de
nhasse.                                            tal forma presente que ndo a imagina como por
       0 fato de que alguns pensem que toda        meio de alguma aparhcia, assim como as coi-
esta discussdo & perigosa tambbm entre os          sas que temos no memoria como que escorrem
crentes, enquanto 6 contr6ria bs exortasbes,       diante de nossos olhos por meio da imagina-
abala a f&, perturba os cora<bes e os abate, &     $60, mas as vi: e olha em sua verdade,.como
uma afirmqdo frivola. Santo Rgostinho ndo es-      se estivessem diante de seu rosto. Rfirmamos
conde que casoavam dele por estes mesmos           que tal presci&ncia se estende sobre o rnundo
motivos, enquanto pregava demasiado livre-         inteiro e sobre todas as criaturas.
mente a predestlna<do,mas ale refutou f6cil e
suficientementeessas objq6es. Quanto a nos,
uma vez que se objetam muitas e variadas              'Cf Rgost~nho. dono perseverontm XV-XX
                                                                   De
absurdidades contra a doutrina qua ensinare-          "f. Rgost~nho. Genes, od IltteromV. 3-6.
                                                                   De
Prirneira parte - O tiumanismo   e a Renascenca



      Definimos predestinasdo como o decreto       <do: "€laescolheu para nos a nossa heranp, a
eterno de Deus, por meio do qua1 estabeleceu       gloria de Jaco, por ele am ad^".^
aquilo que queria fazer de cada homem. Com                Com e f ~ i t oatribuem a este amor gratuito
                                                                         ,
efeito, n8o os cria todos na mesma condi$do,       toda a gloria de que Deus os havia dotado,
mas ordena uns 6 vida eterna, outros a eterna      ndo so porque sabiam bem qua esta ndo fora
condenaq30. Assim, com base no fim para o          providenciadaa ales por algum mbrito, mas que
qua1 o homem foi criado, dizemos qua 6 pre-        nem o santo patriarca Jaco tivera em si tal po-
destinado a vida ou a morte.                       der de modo a conquistar, para si e para seus
                                                   sucessores, tdo aka prerrogativa. E, para des-
4. Testemunhos deprsendidos                        truir e abater com maior vigor todo orgulho, re-
   dos tsxtos biblicos                             cords freqijentemente aos judeus que de fato
                                                   ndo mereceram a honra a eles Feita por Deus,
      Ora, Deus deu testemunho de sua predes-      visto qua sdo um povo cabep dura e r e b e l d ~ . ~
tinasdo ndo so em cada pessoa, mas em toda a       Por vezes os profetas se referem a elei@o tam-
descend6ncia de AbraBo, que p6s corno exem-        bBm para fazer com qua os hebreus se enver-
plo do fato de que c a b a ele ordenar conforma    gonhem de seu oprobno, porque b por sua in-
seu agrado qua1 deve ser a condi@o de cada         gratiddo que miseravelmante dela decairam.
povo. "Quando o Soberano dividia as nq6es".               E todo caso, aqueles que querem ligar
                                                           m
diz Moisbs, "e seprava os filhos de Addo, es-      a elei<dode Deus 6 dignidade dos homens ou
colheu como sua por~do heransa o povo de
                          de                       aos mQritosde suas obras, respondam a isto:
         A
Isrc~el".~elei~do evidente: na pessoa de
                     Q                             quando v&em que uma so estirpe 6 preferida a
Abrado, como em um tronco completamente scxo       todo o resto do mundo, e ouvem da boca de
e motto, um povo 6 escolhido e separado dos        Deus que ele ndo foi movido por nenhum moti-
outros, que sdo rejeitados. Ndo se revela a cau-   vo a ser mais inclinado para urn rebanho pe-
sa disso, mas MoisQsacaba com todo motivo          queno e desprezado, depois mau e parverso.
de g16ria. indicando aos sucessores que toda       do que para os outros, eles o acusardo porque
a dignidade deles consiste no amor gratuito de      Ihe agradou estabelecer tal exemplo de sua
Deus. Com efeito, el@ esta explica@ode sua
                       d6                           misericordia?Com todos os murmljrios e oposi-
redenq3o: Deus amou seus pais e escolheu sua       @es dales, n60 impedirdo com certeza sua
dsscend6ncia, depois dele^.^                       obra; e jogando seu despeito contra o cbu como
      Fala de modo mais explicito em outra pos-     pedras, ndo atingirdo nem FerirZlo de modo al-
sagem, dizendo: "Ndo & porque &reis mais nu-       gum sua justi<a, mas tudo recair6 sobre sua
merosos do que outros povos que Deus se            cabep.
comprouve em vos para vos escolhar, mas por-                                              J. Calvino,
que vos a m ~ u " . ~ odvert6ncia ele a repete
                  Esta                                                            do
                                                                          Inst~tu~@o religiBo crist6.
v6rias vezes: "Cis, o c&u e a terra pertencem ao
Senhor, ao teu Deus; todavia, ele amou teus
pais, se comprouve com eles e te escolheu por-
que descendes dele^".^ E em outro lugar orde-         3DeuteronBm~o 3 . 8 ~ ~ .
                                                                   2
na-lhesmanter-sepuros em sqntidade, pois sdo          41dern4,31
escolhidos como povo que the pertence de              51dem 7.3.
                                                      Oldem 10.14.
mod0 particular. E outra passagem ainda, in-
                   m                                  'Idem 23.5.
dica que Deus os protqe porque os ama7Tam-            8Salmo 47.5.
b&m os crentes o reconhecem com um so cora-           gDeuteronBm~o9.6.
j/laquiaveI -
                         I. N i c o I a ~

         Com Maquiavel (1469-1527) a pesquisa politica se destaca do pensamento
 especulativo, etico e religioso, assumindo como cinon metodologico a espe-
 cificidade do proprio objeto, o qua1 deve ser estudado autonomamente, sem ser
 condicionado por principios validos em outros campos. Para a posi@o maquia-
 veliana, centrada sobre o principio da cido entre "ser" e "dever ser", sSo impor-
 tantes os seguintes aspectos:
       a) o realism0politico, baseado sobre o principio de que e precis0 permanecer
 na verdade efetiva da coisa, sem se perder na busca de como a coisa "deveria" ser;
       b) a virtude do principe;
       c) a relag30 entre "virtude" (liberdade) e "sorte": a "virtu- Aspectos
 de" e em geral, para Maquiavel, "habilidade natural", e a "virtu- principais
 dewpolitica do principe ti um complexo de forsa, astucia e capa- do pensamento
 cidade de dominar a situasiio: esta virtude sabe contrapor-se a de Maquiavel
 sorte, mesmo que, no melhor dos casos, pela metade as coisas -r § 1-5
 humanas dependem quase sempre da sorte;
       d ) a volta aos principios da republica romana, fundada sobre a liberdade e
 sobre os bons costumes: e este o ideal politico de Maquiavel, enquanto o principe
 por ele descrito e apenas uma necessidade do momento historico.




                                                o conceit0 de autonomia que ilustramos an-
                                                teriormente.
                                                      A mudanqa brusca de direq5o que en-
      Com Nicolau Maquiavel(1469-1527)          contramos nas reflexoes de Maquiavel, em
inicia-se nova ipoca do pensamento politi-      comparaqao com os humanistas anterio-
co: com efeito, a investigaqiio politica, com   res, certamente se explica em larga medida
ele, tende a afastar-se do pensamento espe-     pela nova realidade politica que se criara
culativo, Ctico e religioso, assumindo como     em Floren~a na Italia, mas tambim pres-
                                                              e
ciinon metodologico o principio da especifi-    supde grande crise dos valores morais que
cidade do seu proprio objeto, que deve ser      comeqava a grassar. Ela n50 apenas de-
estudado (podemos dizer com uma expres-         monstrava a divisso entre "ser" (as coisas
s5o telesiana) iuxta propria principia, ou      como elas efetivamente s5o) e "dever ser"
seja, de mod0 authnomo, sem ser condicio-       (as coisas como deveriam ser para se con-
nado por principios validos em outros iim-      formarem aos valores morais), mas' tam-
bitos, mas que s6 indebitamente poderiam        bim elevava essa divisio a principio e a co-
ser impostos h investigaqiio politica. A po-    locava como base da nova vis5o dos fatos
si@o de Maquiavel pode tambCm ser resu-         politicos.
mida com a formula "a politica para a poli-           0 s pontos sobre os quais devemos fi-
tics", que expressa sintCtica e plasticamente   xar a atenq5o siio os seguintes:
94
        Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a

     a ) o realismo politico, ao qual esta li-              temido e a tomar as medidas necessarias
gada forte vertente do pessimismo antropo-                  para tornar-se temivel. Claro, o ideal para
logico;                                                     um principe seria o de ser ao mesmo tempo
      b) o novo conceito de "virtude" do prin-              amado e temido. Mas essas duas coisas s i o
cipe, que deve governar eficazmente o Esta-                 muito dificeis de serem conciliadas e, as-
do e deve saber resistir a "sorte";                         sim, o principe deve fazer a escolha mais
      c) a relaqio diniimica entre liberdade e              funcional para o govern0 eficaz do Estado.
sorte; e, por fim,
      d ) a tematica do "retorno aos princi-
pios", como condiqgo de regenera~50 re-   e
novaqiio da vida politica.
                                                                    fi "virtude" do principe

                                                                  0 s dotes do principe, que emergem
                                                            muito bem desse quadro, sHo chamados
                                                            por Maquiavel de "virtudes". Obviamen-
      N o que se refere ao realismo politico,               te, a "virtude" politica de Maquiavel nada
i basico o capitulo XV de 0 Principe (escri-                tem a ver com a "virtude" em sentido cris-
to em 1513, mas publicado somente em 1531,                  t5o. Ele usa o termo retomado da antiga
cinco anos apos a morte do autor), que dis-                 acepqio grega de arete', ou seja, a virtude
cute o principio de que 6 necessario se ater                como habilidade entendida naturalmen-
A "verdade efetiva das coisas", sern se per-                te. Alias, trata-se da arete' grega como era
der na busca de como as coisas "deveriam"                   concebida antes da espiritualizaqio que
ser; trata-se, em suma, da separaq5o entre                  Socrates, Plat50 e Aristoteles nela reali-
"ser" e "dever ser". Maquiavel, portanto,                   zaram, transformando-a em "razHo". Em
chega i s seguintes conclus6es: "[ ...I ele [o              particular, ela recorda o conceito de are-
principe] esta longe tanto de como se vive e                te' cultivado especialmente por alguns so-
de como se deveria viver, pois aquele que                   fistas.
deixa aquilo que se faz por aquilo que se                         Nos humanistas, esse conceito apa-
deveria fazer, aprende antes a trabalhar em                 rece varias vezes, mas Maquiavel o leva
pro1 da propria ruina do que de sua conser-                 as extremas conseqiitncias, entendendo a
vaqgo, porque um homem, que queira em                       "virtude" como forqa, vontade, habilida-
todo lugar parecer bom, atrai ruina entre                   de, astucia, capacidade de dominar a si-
tantos que nHo s5o bons. Dai e' necessario                  tua@o.
que urn principe, desejoso de conservar-se,
aprenda os meios de poder nrZo ser bom e a
fazer ou niio uso disso, conforme as neces-
sidades" .                                                              Liberdade e   "sorte"
      Maquiavel chega a t i a dizer que o so-
berano pode se encontrar em situaqHo de ter
de a ~ l i c a r
               mitodos extremamente cruiis e
desumanos. Quando s5o necessaries remi-                            E essa virtude sabe se contrapor a "sor-
dios extremos para males extremos, ele deve                  ten. Assim, com Maquiavel, retorna o tema
adotar tais remCdios extrernos e, de qual-                   do contraste entre "liberdade" e "sorte", tHo
quer forma, evitar o meio-termo, que C o                     car0 aos humanistas. Muitos consideram
caminho do cornpromisso, que de nada ser-                    que o destino seja a raz5o dos acontecimen-
ve; ao contrario, C sempre e somente de ex-                  tos e que, portanto, i inutil se esforqar para
tremo dano.                                                  impor-lhe uma barreira, sendo melhor dei-
      Essas consideraq6es est5o ligadas a                    xar-se guiar por ele.
uma visgo pessimista do homem. Segundo                             Maquiavel confessa ter sentido a ten-
Maquiavel, em si mesmo, o homem n5o 6                        taqso de acomodar-se a essa opini56.
bom nem mau, mas, de fato, tende a ser mau.                        Sua soluqiio, porim, i a seguinte: meta-
Conseqiientemente, o politico n5o deve con-                  de das coisas humanas dependem da sorte, a
fiar no aspecto positivo do homem, e sim                     outra metade da virtude e da liberdade. Ele
constatar seu aspecto negativo e agir em con-                escreve: "NHo por acaso, mas para que o nos-
seqiihcia disso. Assim, n5o hesitar5 em ser                  so livre-arbitrio n5o desapareqa, julgo poder
ser verdade que a sorte seja arbitra de meta-         0" r e t o r n o   aos principios"
de de nossas aqoes, mas que, tambCm, ela
deixe a n6s governar a outra metade, ou
quase."                                                  0 ideal politico de Maquiavel, porCm,
     E com uma imagem que se tornou             nZo C o principe por ele descrito, que C mui-
muito famosa (tipico reflex0 da mentali-        to mais uma necessidade do momento his-
dade da Cpoca), depois de mencionar po-         t o r i c ~mas sim o da republica romana, ba-
                                                           ,
derosos exemplos de forqa e virtude que         seada na liberdade e nos bons costumes, e,
barraram o curso dos acontecimentos,            portanto, um "retorno aos principios".
Maquiavel escreve: "[ ...I porque a sorte C             Descrevendo essa republica, ele pare-
mulher. E, querendo mante-la sob domi-          ce flexionar em novo sentido o seu proprio
nio, C necessirio bater-lhe e espanci-la. 0     conceit0 de "virtude", particularmente
que se v C que ela deixa-se mais vencer
         E                                      quando discute a antiga quest50 de se o
por estes (= os temperamentos impetuo-          povo romano foi mais favorecido pela sor-
sos) do que por aqueles que procedem fria-      te do que pela virtude na conquista do seu
mente. E sempre, como mulher, C amiga           impCrio. EntZo responde, sem sombra de
dos jovens, porque s5o menos,respeitosos,       duvida, pela demonstraqZo de que "mais
mais ferozes e a dominam com mais au-           p6de a virtude d o que a sorte para que eles
dicia. "                                        conquistassem aquele impe'rio".
- 11. G ~ i c c i a r d ie Botero
                  -.                       ~i

        Uma ordem de ideias analoga a de Maquiavel sobre a natureza do homem,
 sobre a virtude, a sorte e a vida politica, encontra-se em Francisco Guicciardini
                  (1483-1540), o qual, porem, mais do que na dimensao historica,
  Guicciardini    e sensivel a esfera do "particular", dos interesses do individuo
                  singular.
  Botero                De Maquiavel foi tambem extraida a no@o de "raz%ode
  e a "razdo      Estado", a respeito da qua1 e particularmente importante a obra
  de Estado"      de Joao Botero (1533 aproximadamente - 1617) intitulada Da
  +§ 7            raza'o de Estado, na qua1 esta viva a exighcia de valores morais
                  e religiosos.



      A   natureza do howem,                               A doutrina de Maquiavel foi resumida
                                                     por ele na formula "0s fins justificam os
      a sorte e a vida        politics e m           meios", formula que, se n i o faz justiqa i efe-
      Guicciardini e Botero                          tiva estatura do pensamento do autor de 0
                                                     Principe, no entanto explicita uma das li@es
                                                     que a Cpoca moderna extraiu desta obra.
      Uma ordem de idCias analoga 2 de Ma-                 TambCm de Maquiavel deriva a noqso
quiavel sobre a natureza do homem, a virtu-          de "razio de Estado".
de, a sorte e a vida politica pode ser encontra-           Uma rica literatura, constituida de obras
da em Francisco Guicciardini (1483-1540),            de virios gheros e variada consist&ncia,    flo-
particularmente em suas Recordagdes poli-            resceu em torno desses aspectos do pensa-
ticas e civis (concluidas em 1530).Todavia,          mento de Maquiavel, destacando-se a obra
mais que h dimensso historica, Guicciardini          de Jose Botero (aproximadamente 1533-
parece sensivel 2 dimensio do "particular".          1617)intitulada Sobre a raziio de Estado, que
      Dois de seus pensamentos ficaram mui-          visa a temperar o cru realism0 maquiavClico
to conhecidos.                                       mediante efetiva referencia a incidhcia dos
      Em um deles expressa trcs desejos:             valores morais e religiosos.
      1)viver em uma republica bem ordenada;
      2) ver a Italia liberta dos barbaros;
      3) ver o mundo liberto da tirania dos
padres.
      No outro, com poucas pinceladas, traqa
um esplendidoauto-retrato espiritual: "Eu nso
sei a quem desgostem mais que a mim a ambi-
qio, a avareza e a indokncia dos padres: por-
que cada um desses vicios, em si, ja C odioso;
porque cada um e todos juntos pouco con-
vem a quem faz profissso de vida ligada a Deus;
porque, ainda, sgo vicios tso contraries que
nso podem estar juntos sen50 em um sujeito
muito estranho. Nso obstante, o contato que
tive com muitos pontifices levou-me, por mi-
nha conta particular, a amar a sua grandeza.
Se n i o fosse esse respeito, teria amado Mar-
tinho Lutero como a mim mesmo, d o para
libertar-me das leis impostas pela religiiio cris-
tii, no modo como d interpretada e comumente
entendida, mas para ver essa caterva de cele-
rados reduzida aos devidos temzos, isto b, para
que ficasse sem vicios ou sem autoridade. "
A obra que deu fama imortal ao ingliis Tomds Morus (1478-1535) 6 Utopia,
 titulo aue indica uma dimenstio do e s ~ i r i t o
                                                  humano aue, Dor meio da representa-
                     $20 mais ou menos'imagindria daguilo que n3o e, representa
   A razso e as leis aquilo 9ue deveria ser ou como o homem gostaria que a realida-
   de natureza       de foSSe.
   na base                0 s principios basilares que re
   de "Utopia"
   de Tomas Morus    pies: basta seguir a sB razBo e
   + 5 1-2           res, que esttio em perfeita ha
                     tar os males que afligem a socr




                                                miragem"; o rio de Utopia chama-se Anidro
                                                (do grego anydros = privado de agua), ou
                                                seja, um rio que niio C rio de agua, mas rio
                                                sem igua; ja o principe chama-se Ademo
                                                (formadopor um alfa privativo e demos, que
     Tomas Morus nasceu em Londres em           significa "povo"), que significa o chefe que
1478. Foi amigo e discipulo de Erasmo e         niio tem povo. Trata-se, evidentemente, de
humanista de estilo elegante. Participou ati-   jogos lingiiisticos que visam a reforgar a ten-
vamente da vida politica, exercendo altos       siio entre o real e o irreal e, portanto, o ideal,
cargos. Firme em sua fC catolica, recusou-se    do qua1 a Utopia 6 expressiio.
a reconhecer Henrique VIII como chefe da
Inreia. sendo por isso condenado a morte em
98     Primeira parte - O tlumanismo   e a Renasrenca




     A fonte em que Morus bebeu foi, na-               0 s habitantes de Utopia siio pacifistas,
turalmente, Platiio, com amplas infiltraq6es      seguem prazeres sadios, admitem cultos di-
de doutrinas estoicas, tomistas e erasmianas.     ferentes, honram a Deus de diferentes mo-
Na contraluz esti a Inglaterra, com sua his-      dos e sabem se compreender e se aceitar re-
toria, suas tradiq6es e seus dramas sociais       ciprocamente nessas diversidades.
de entiio (a reestruturaqiio do sistema agri-          Por fim, os habitantes de Utopia elimi-
cola, que privava de terra e trabalho grande      nam, com a aboliqiio do dinheiro e de seu
quantidade de camponeses; as lutas religio-       uso, todas as calamidades que a avidez do
sas e a intolerincia; a insaciavel sede de ri-    mesmo produz entre os homens. E em uma
quezas).                                          das piginas conclusivas Morus p6e em pri-
                                                  meiro plano este belissimo pensamento em
                                                  forma de paradoxo: seria tiio mais facil pro-
                                                  curar-se o de que viver, caso niio o impedis-
                                                  se justamente a busca do dinheiro, que nas
      morais e sociais                            intengoes de quem o inventou teria devido
                                                  servir-nos precisamente para o fim de
      em   que   se inspivam                      agilizar a vida, quando na realidade ocorre
      o habitantes de Utopia
       s                                          exatamente o contrario.


      0 s principios basilares que regem o re-
lato (que C imaginado como narrado por
Rafael Itlodeo, que, tendo participado de uma
das viagens de Amtrico Vespucio, teria visto
a ilha de Utopia) siio muito simples. Morus
                                                                TOHIOAM AAE
                                                                M K * NGLI E
estava profundamente convencido (influen-
ciado nisso pelo otimismo humanista) de que
bastaria seguir a sii raziio e as mais elemen-
tares leis da natureza, que est5o em perfeita
harmonia com a raZ50, para acabar com os
males que afligem a sociedade.
      Utopia niio apresentava urn programa
social a ser realizado, e sim principios desti-
nados a terem funqiio normativa que, com
habeis jogos de alusoes, apresentavam os
males da Cpoca e indicavam os critCrios com
os quais deveriam ser curados.
      AlCm disso, em Utopia todos os cida-
diios siio iguais entre si. Desaparecem as di-
ferenqas de renda, desaparecendo entiio as
diferengas de status social. E mais: os habi-
tantes de Utopia se substituem de mod0
equilibrado nos trabalhos da agricultura e
do artesanato, de mod0 que niio renasqam,
em virtude da divisiio do trabalho, tambCm
as divis6es sociais.
      0 trabalho n5o C massacrante e niio
dura toda a jornada (como durava naquela
Cpoca), e sim seis horas diirias, para deixar
                                                  dl'        S Z N Y I s(~,yliir ~ ' 1 ~ 1 1 c L I S leis tla tl~I/rnrc,iii
                                                                  ~            ~ Z    11              0
espago ao lazer e a outras atividades.                  C ~ I I ( >


      Em Utopia tambCm existem sacerdo-
tes dedicados ao culto e um lugar especial C
                                                  /ILULI

                                                  0 . ~ / i t r ~ t s
                                                                          os
                                                                           t       t
                                                                                        Y
                                                                                        o s o IS^,
                                                  irchiicvz i u l i o ~ ~ I ~ C C ' I C ~ I I ZC, ' S
                                                                              L                 L
                                                                                                         .
                                                        c~lirrz11zi7r rt~irles C I C '1f71gcr11 ~ o ~ ~ i c ~ d i ~ i l ( ~ .
                                                                                                            'I


garantido aos "literatos", ou seja, iqueles       t~l2dO l h O / ~ d OC / ~ P ~ ~ J C ; ~ ~ ,
                                                         ~                 0
que, nascendo com dotes e inclinaq6es es-         c-i~r~c-clLznlr~r I J I ~ L J ; Q L I C LJI~' , ~ ) r o d u z
                                                                      ir L I

peciais, pretendem dedicar-se ao estudo.          rrrtrc os / I ( I I ~ Z L ~ I I S .
99
                                          Capitulo sexto -    Rehasce~~a
                                                                      e a       Politica


                     --- .- IV. Sean Bodin
                  - - = . , a                                     :
             e a      soberania absoluta do Cstado

         Em seus Seis livros sobre a Republica, Jean Bodin (1 529130-1596) sustenta
 que o verdadeiro fundamento do Estado e a soberania, que mantem unidos os
 vdrios membros sociais, ligando-os como que em um so corpo.
       Uma soberania forte e absoluta se obtem instaurando a US- N~ ., de Bodin
                                                                       b
 tiqa e fazendo apelo a razao. 0 absolutismo tem por isso limites a soberania
 objetivos precisos nas normas eticas, nas leis de natureza e nas como
 leis divinas: a soberania que nao respeitasse estas leis seria uma fundamento
 tirania.                                                           do Estado
       lmportante e tambem a justificaqio de Bodin da tolerdncia 4 5 1
 religiosa: uma vez que existe um fundamento natural que e co-
 mum a todas as religiGes, seria entao possivel um acordo religioso geral, mesmo
 sem sacrificar as diferenqas proprias das religi8es positivas.



                                                 duos um unico corpo perfeito, que C preci-
                                                 samente o Estado".
                                                       Por "soberania" Bodin entende poder
                                                 absoluto e perpktuo, proprio de todo tip0 de
                                                 Estado. Tal soberania se exerce sobretudo no
                                                 dar leis aos suditos sem o seu consentimento.
      Distante tanto dos excessos do realis-            Como j i dissemos, o absolutismo de
mo de Maquiavel como do utopismo de Mo-          Bodin tem limites objetivos precisos nas
rus, surgiu tambCm Jean Bodin (152911530-        normas Cticas (a justiga), nas leis da nature-
1596),corn seus Seis livros sobre a Republica.   za e nas leis divinas - e esses limites consti-
      Para existir o Estado, C precis0 uma       tuem tambCm sua forqa. A soberania que
forte soberania, que mantenha unidos os          n i o respeitasse essas leis n i o seria sobera-
virios membros sociais, ligando-os como em       nia, e sim tirania.
um s6 corpo. Mas essa forte soberania n i o            TambCm se destaca o escrito de Bodin
se obtim com os mCtodos recomendados por         intitulado Colloquium heptaplomeres ("co-
Maquiavel, que pecam por imoralismo e por        loquio entre sete pessoas"), que tern por tema
                                      e
ateismo, e sim instaurando a justi~a recor-      a tolerincia religiosa e C imaginado desen-
rendo i razio.
        i                                        volver-se em Veneza entre sete seguidores de
      Eis a cClebre definiqio de Estado dada     religioes diferentes: 1) um catolico, 2) um
por Bodin: "Por Estado se entende o gover-       seguidor de Lutero, 3) um seguidor de Cal-
no justo, que se exerce com poder soberano       vino, 4) um judeu, 5) um maometano, 6) um
sobre diversas familias e em tudo aquilo que     pagio e 7) um defensor da religiio natural.
elas tCm em comum entre sin; "[ ...I o Esta-            A tese da obra C a de que (como sus-
do ja n i o seri tal sem aquele poder sobera-    tentara o humanismo florentino) existe um
no que mantCm unidos todos os membros e          fundamento natural que 6 comum a todas
partes dele, fazendo de todas as familias e      as religioes. Com essa base comum, seria
de todos os circulos um s6 corpo. [...I Em       possivel um acordo religioso geral, sem sa-
suma, a soberania e' o verdadeiro fundamen-      crificar as diferengas (ou seja, aquele plus)
to, o ponto cardeal sobre o qual se apdia        pr6prias das religioes positivas.
toda a estrutura do Estado e do qual depen-             Havendo, portanto, esse f u n d h e n t o
dem todas as magistraturas, leis e normas.       natural implicit0 nas diferentes religioes,
Ela C o unico lago e o unico vinculo que faz     aquilo que as une revela-se mais forte do
de familias, corporagGes, colegiados e indivi-   que aquilo que as separa.
IV. +Iugo         Grotius
                 ea       fuodac6o do jusnaturalismo

                            * 0 holandCs Hugo Grotius (1583-1645), com o escrito De
                       jure belli acpacis (1625), p6e as solidas bases do jusnaturalismo,
                       isto $ da teoria do direito natural. 0 direito natural, que regula
                       a ccmviv&ncia humana, funda-se sobre a razao e sobre a nature-
                       za, que coincidem entre si: o direito natural espelha portanto a
                       racionalidade, que 4 o prbprio critkrio corn o qua1 Deus criou o
                       mundo.



    1,,   Gvoti~s                                      0 direito internacional baseia-se na
1
                                                  identidade de natureza entre os homens.
          e a teoria   do direito   ~atMval       Portanto, os tratados internacionais t6m
                                                  valor mesmo quando estipulados por ho-
      Entre os ultimos lustros do Quinhentos      mens de confissiies diferentes, ja que o fato
e as primeiras dCcadas do Seiscentos formou-      de pertencer a fCs diversas n i o modifica a
                                                  natureza humana.
se e se consolidou a teoria do direito natural,
                                                       0 objetivo da puniqio para as infraqoes
por obra do italiano AlbCrico Gentili (1552-
1608) no escrito De iure belli (1588)e, sobre-    aos direitos deve ser corretivo: n i o se pune
                                                  quem errou porque errou, mas para que n i o
tudo, do holandcs Hugo Grotius (Huigde Groot,     erre mais (no futuro). E a puniqio deve ser,
1583-1645) no escrito De jure belli ac pacis      ao mesmo tempo, proporcional tanto inatu-
(1625, reeditado com ampliagties em 1646).        reza do err0 como B convenihcia e iutilida-
      Ainda se podem sentir as raizes huma-       de que se pretende tirar da propria puniqio.
nistas de Grotius, mas ele ja esti encami-
nhado na estrada que levari ao modern0
racionalismo, ainda que so a tenha percor-
rid0 em parte.
      0 s fundamentos da convivhcia dos
homens s i o a raziio e a natureza, que coin-
cidem entre si. 0 "direito natural", que re-
gula a convivtncia humana, possui esse fun-
damento racional-natural.
      Todavia, notemos a consisthcia onto-
logica que Grocio da ao direito natural: este
se revela t i o estivel e alicerqado que o pro-
prio Deus n i o poderia muda-lo. Isso signi-
fica que o direito natural reflete a raciona-
lidade, que C o proprio critirio com que Deus
criou o mundo e que, como tal, Deus n i o
poderia alterar, a n i o ser se contradizendo,
o que C impensavel.
      Diferente d o direito natural C o "di-
reito civil", que depende das decisiies dos
homens, e que C promulgado pelo poder
civil. Este tem como objetivo a utilidade e
C sustentado pel0 consentimento dos ci-
dadios.
      A vida, a dignidade da pessoa e a pro-
priedade pertencem ao iimbito dos direitos
naturais.
101     ,'(d
                                              Capitdo sexto - A Renascenqa e 4 Politics

                                                    rendo sobre as que sdo verdadairas, digo que
                                                    todos os homens, quando se Fala disso, e prin-
                                                    cipalmente os principes, para serem postos rnais
                                                    altos, sbo dotados de algumas destas quali-
                                                    dades que lhes acarretam casoada ou elogio.
                                                    Tanto isto i; verdade, que urn & considerado
                                                    liberal, outro misero (usando um termo toscano,
      A necessidade                                 porque ovoro em nossa lingua & ainda aquele
      de "ir diretarnante                           que por ropino deseja ter, misero charnomos
      6 verdade detivo da coisa"                    aquele que se abstkm dernasiado de usar o
                                                    que & seu); urn 6 considerado doador, outro
                                                    rapaz; um cruel, outro piedoso; um desleal, ou-
       0trecho d tirodo do cop. XVdo Princi-        tro fiel; um efeminado e pusil8nime, outro feroz
 pe (YI respeito das coisos pelos quo~s        os   e animoso; um humano, outro soberbo: um las-
 homens, e espsciolmsnte os Principes, sdo          civo, outro casto; um integro, outro astuto; um
 slogiodos ou vituperodos'>.                        severo, outro condescendente; um grave, outro
       Com este copitulo comego o p o r k mois      leviano; um religioso, outro incr&dulo, e assim
 mteressonte e originol do trotodo, no quo1         por diante. E sei que coda um confessarc5 que
 Moquiovel indico os quolidodes, osvirtudes,        seria coisa laudabilissima encontrar um princi-
 que sdo necess6rios o um princlpe poro de-         pe que tivesse todas as qualidades acima, as
 senvolver suo obro de mod0 eficisnte.              qua sbo consideradas boas: todavia, porque
       Notavel, e justomente Fomosa, d o de-        n6o se podem tar, nem inteiramente observar,
 clorag6o moquioveliono do princ@ioreolisto         pelas condiq3es humanas que ndo o permitem,
 ssgundo o quo1 tonto em politico como no           Ihe k necessdrio ser tdo prudente, que saiba
 pansomanto politico d precis0 ir diretomente       fugir da inf6mia das que Ihe ameo<amo esta-
 d verdade efetiva do coiso, ssm perder-ss          do, e das que Ihe impedem pracaver-se, se pos-
 nos fontosios vds de filosofos e morolistos;       sivel; contudo, n60 podendo, & possivel com
 o o@stivo 'Bfetivo ", em particulor, d criagdo     menos respeito deixar passar. E tambkm nbo
 de Moquiovel e, como diz Tomoseo, slgnifi-         tema de incorrer na fama dos vicios sem os quais
 co "mgis do que 'real'; isto 6, o verdode, aldm    ele dificilmente possa salvor o estado; porque,
 de em si, tombdm em seus eFeitos".                 se considerarmos bem tudo, poderc5 encontror
                                                    alguma coisa que parecer6 virtude, e seguln-
                                                    do-a seria sua ruina, e alguma outra que pare-
      Resta agora ver quais devam ser os mo-        cerc5 vicio, e seguindo-a conseguir6 sua segu-
dos e governos de um principe com suditos ou        ranco e bem-estar.
com os amigos. E, corno sei que muitos escre-                                         N. Maquiavsl.
veram sobre isso, duvido, escrevando ainda eu,                                            0principo
nbo ser tido como presunsoso, partindo, princi-
palmente ao d~sputar   esta matkria, das ordens
dos outros. Contudo, como & meu intento es-
crevar coisa util para quem a entende, pare-
ceu-me mais conveniente ir direto 6 verdade               A sorte i 6rbitra
efetiva do coisa, e ndo tanto 6 imag~na@o  dela.          da metade de nossas agks
E muitos se imaginarorn republicas e principa-
dos que jamais foram vistos ou conhecidos como
existentes de fato; porque ele est6 tbo sepa-              No cop. XXV do Principe ("0 quonto o
rado do como se vive, e de como se deveria           destino pode nos coisos humonas, s de que
viver, que aquele que deixa aquilo que se faz        modo se lhes deve r~sistir")  obordo-se um
por aquilo que se deveria fazer, aprende mais        temo muto coro oos Humonlstos, o do relo-
sua ruina do que sua preserva~60:    porque um       gdo antre "liberdode" e 'sorte", temo cuja
hornam, que queira fazer em todos os lugares         solydo tem um popel central tombdm no
profissdo de bom, atral ruinas entre tantos que      pensomento politico de Moquiovel. Ppro o
ndo sdo bons. Dai ser necess6rio a urn princi-       Secretdrio florentino os ocontecimentos his-
pe, querendo manta-se, aprender a poder ser          toricos sdo determlnodos metode por umo
ndo bom, e us6-lo ou nbo conforme a necessi-         Forgo que tronscende o homem (e qus GIG
dade.                                                designo com o termo 'sort@'> matode por
                                                                                    e
      Deixando, portanto, para trc5s as coisas       vontode e obro do homam.
imaginadas a respeito de urn principe, e discor-
E ndo me 6 desconhecido como muitos ti-       tem 6 sua frente, isto 6 , glorias e riquezas, pro-
veram e t&m a opinido de que as coisas do            cederem ds modo diverso: um com respeito,
mundo sejam de to1 rnodo governadas pela             outro corn impeto; um pela viohcia, outro com
sorte e por Deus, que os homens com sua pru-         arte; um com paci&ncia,outro com o seu contrci-
disncia ndo as possam corrigir; ao contrbrio, ndo    rio: e coda um com estes diversos modos o pode
t&m nenhum rem&dio.E, por isso, poderiam jul-        alcanqx. V&-se ainda duos (coisas) respecti-
gar qua ndo devessem suar' muito nas coisas,         vas: um a l c a n p seu designio, o outro ndo; e
mas deixar-se governar pela sorte. Esta opi-         do mesma forma duas (coisas) prosperarem
nido & mais crida em nossos tempos pela gran-        corn dois diversos e ~ t u d o sum com respeito e
                                                                                      ,~
de varia(80 das coisas que foram vistas e se         o outro com impeto: o que ndo prov&m de ou-
v&em todo dia, fora de qualquer conjectura hu-       tra coisa a ndo ser da qualidads dos tempos
mana. Pensando nisso alguma vez, estou de            que se conformam ou ndo com o procedimento
algum modo inclinado b opinido deles. Ainda          deles. Daqui nasce aquilo qua eu disse, que
mais, para que nosso livre-arbitrio ndo seja         duas (coisas), operando diversamente, produ-
apagado, julgo poder ser verdadeiro que a            zam o mesmo efeito; e outras duas, igualmen-
sorte seja 6rbitra da metade de nossas a@es,         te operando, uma se conduz a seu fim e a outra
mas que tambhm ela nos deixe governar a ou-          ndo. Disto ainda depende a varia~do bem:  do
tra metade, ou q u a s ~Assernelho a sorte a
                            .~                       porque, se um se governa com respeitoe paci&n-
um desses rios perigosos que, quando se iram,        cia, os tempos e as coisas giram de rnodo que
alagam os lugares planos, arruinam as 6rvores        seu govern0 seja bom, e vai prosperando; mas,
e 0s edificios, arrastam3 desta parte terreno,       se os tempos e as coisas mudam, arruina, por-
poem em outra: coda um foge de sua presen-           que o modo de proceder ndo muda. Tambbm
<a, coda um cede a seu impeto, sem poder de          ndo se encontra homem tdo prudante, que sai-
nenhum modo r ~ s i s t i rEmbora sejam assim,
                           .~                        ba acomodar-sea isso; com efeito, porque ndo
resta a possibilidada, porbm, que os homens,         se pode desviar daquilo a que a natureza o
nos tempos tranqijilos, possam tomar provid&n-       inclina, tamb&m porque, tendo algubm sempre
cias corn defesas e diques, de modo que, nos         prosperado caminhando por um caminho, ndo
enchentes, ou os rios correriam por um canal,        se pode persuadi-lo a usar outro. Todavia, o
ou seu impeto ndo seria nem licencioso5 nem          homem de respeito, quando & tempo de usar o
danoso. Da mesma forma interv6m a sorte: ela         impeto, ela ndo o sabe fazer; dai arruina-se:
mostra sua pot&ncia onde ndo h6 virtude que          com efeito, se se mudasse de natureza com os
Ihe resista, e portanto dirige seus impetos onde     tempos e com as coisas, a sorte ndo muda-
sabe que ndo estdo feitos os diques e defesas        ria. [...I
que a contenham. E se considerardes a Itcilia,               Concluo, portanto, qua, variando a sorte,
que & a sede destas varia@es e a que lhes            e permanecendo os homens em seus modos
deu o movimento, vereis que ela & um campo           obstinados, sdo felizes enquanto concordam
sem diques e sem nenhuma defesa; que, se             juntos, e, quando discordam, sdo infelizes. Jul-
ela fosse defendida por conveniente virtude.         go bem isso, que seja rnelhor ser impetuoso do
como a M a g n ~ ,Espanha e a Franp, ou esta
                   a ~                               que respeitoso, porque a sorte & senhora; e 6
cheia ndo teria feito as grandes variapzs que        necessdrio, querendo monte-la submissa, bat&-
fez, ou ndo teria vindo. E quero que isso baste       la e feri-la. Vemos qua ela se deixa vencer mais
sobre o que disse quanto a opor-se b sorte em        por estes do qua por aqueles que procedem
universais.                                           friamente. Todavia, como mulher, & sempre
       Todavia, restringindo-me mais a particu-      amiga dos jovens, porque eles sdo rnenos de
 tares, digo como se v& este principe hoje felici-    respeito, sdo rnais ferozes, e a comandam com
 tar7 e amanhd arruinar-se, sem t&-lo visto mu-       mais aud6cia.
 dar natureza ou qualquer qualidade: o que creio                                         N. Maqu~avd,
 que nasca, primeiro, das causas sobre as quais                                             0prhcipe.
 longammte falamos, isto 6, que tal principe que
 se apoia inteiramente no sorte arruina-se, as-          '
                                                         Afad~gor-se.
 sirn como ela varia. Creio, ainda, que seja feliz      gAprox~modom~nte.
 aquele que cornbina o modo de seu proceder             31avom.
 com as qualidades dos tempos; e da mesma               40bstacular.
                                                        SDasragulodo.
 forma seja infeliz aquele com cujo proceder os         6Alemanho.
 tempos discordarn. Porque se v& os homens,             'Prosperar.
 nos coisas que os induzem ao fim, que coda um                duns apl~cqbes
                                                                           dlvarsos
CapituIo sktimo




             do    pensamento renascentista:




       '.,   A      I. Ilatlzreza,               ci2ncia e arte
                                  e m Leonardo


        Em Leonardo (1452-1519) e muito forte a ideia neoplat6nica do paralelismo
 entre microcosmo e macrocosmo, e ela Ihe serve particularmente como legitima~lro
 da ordem mecanicista de toda a natureza; esta ordem, que deri-
 va de Deus e e necessdria, e interpretada do melhor mod0 pelo
 pensamento matematico, que investiga de mod0 eficaz as forqas
                                                                    da Vinci:
 e as leis imanentes aos fen6menos.                                 o mecanicismo,
      0 conhecimento e o saber t@m    duas fontes:                  a experiencia
      a) a experikncia, entendida como construto em que v@m e a s
 progressivamente a confluir artes mecanicas e artes liberais, como "cogi*ac&s
 a geometria ou a perspectiva;                                      mentais"
      b) as cogitaqdes mentais, que descobrem discursivamente, + 3 1-3
 para alem da experi@ncia, razdes pelas quais ocorrem os fen&
                            as
 menos da natureza.
       Leonardo procura portanto a via intermediaria entre razao e experiencia que
 tende a conhecer a lei que regula os fendmenos, e com isso antecipa o "m&odo
 resolutivo" de Galileu e da ciencia moderna.



     Vida e obras                                        Em 1482 foi para Milio, junto a Ludo-
                                                   vico, o Mouro, 16 permanecendo at6 1499,
                                                   vale dizer, at6 a queda de Ludovico. Em
                                                   Milio, escreveu varios Tratados e desenvol-
        Conhecido e admirado em todo o mun-        veu atividades de engenharia. Nesse perio-
do por suas obras-primas artisticas, Leonardo      do se concluiu a sua maturidade artistica.
da Vinci C conhecido de um pddico tam-                   Depois de estadas em Miintua, Veneza
bCm mais amplo por seus desenhos mara-             e Florenga, Leonardo entrou a servigo de
vilhosos e seus projetos tCcnicos, cheios de       CCsar B6rgia em 1502, na qualidade de ar-
intuig6es fulgurantes, mas n i o C t i o conhe-    quiteto e engenheiro militar.
cido por seu pensamento filos6fico.                      Com a queda de Valentino, seu prote-
        Leonardo nasceu em Vinci, em Valdar-       tor, em 1503 Leonardo foi novamente para
no, em 1542, e freqiientou as primeiras le-        Florenga, dedicando-se aos estudos de ana-
tras em Florenga. Entrou para o ate12 de           tomia e empenhando-se na solu@o dos pro-
Verrocchio em 1470, o que constituiu expe-         blemas relativos ao v60, que o levafiam I?
r i h c i a fundamental para sua formagio.         construgio de uma miquina para voar. A
Estudou matematica e perspectiva; interes-         Mona Lisa 6 desse periodo.
sou-se por anatomia e botiinica; enfrentou               Em 1506 volta a Milio, a servigo do
problemas de geologia; fez projetos mecii-         rei da Franqa. Corn a volta dos Sforza para
nicos e de arquitetura.                            Milio, em 1512, ele se transfere para Roma,
104
         Primeira parte - 8t l u m a n i s m o   e aR e ~ a s c e n ~ a



                                                           culos e armadura da carne, o mundo tem as
                                                           pedras, sustentaculos da terra." Como se vt,
                                                           essa idCia neoplat8nica do paralelismo entre
                                                           microcosmo e macrocosmo tem em Leonar-
                                                           do, contudo, um aspecto diferente da con-
                                                           cepfiio mistico-animista do neoplatonismo:
                                                           alias, serve a Leonardo como legitimaqgo da
                                                           ordem mecanicista de toda a natureza.
                                                                 Essa ordem deriva de Deus, sendo preci-
                                                           samente uma ordem necessaria e mecinica.
                                                           Leonardo niio nega a alma, que desenvolve
                                                           sua funqiio "na composi@o dos corpos ani-
                                                           mados". Entretanto, deixa os incontrolaveis
                                                           discursos sobre ela para a "mente dos frades,
                                                           que, por inspira@o, sabem todos os segredos".
                                                                 N5o hi, portanto, um saber que valha
                                                           por inspiraqiio. E tambim n50 C saber o de
                                                           todos os que se respaldam na pura e simples
                                                           autoridade dos antigos. Esses repetidores da
                                                           tradi~iiosiio "trombetas e recitadores das
                                                           obras alheias". Como tambim niio 6 saber o
                                                           dos magos, dos alquimistas e de todos os
                                                           "procuradores de ouro", pois estes falam de
                                                           invenq6es fantasticas e de explicaq6es que
                                                           apelam para causas espirituais.
1 eotzardo (14 52-1 Sf 9)
for u m dos maroves urtrstas
e urna d m mentes unruersars du Renascenpr.
Este t seu ctlehre auto-retrato,
cotzsevvado e m Turrm n o Palazzo Reale.


desta vez a serviqo de Leiio X. Finalmente,
em 1516, transfere-se para a Franqa, na qua-
lidade de pintor, engenheiro e arquiteto.
     Morreu em 2 de maio de 15 19 em Am-
boise, no castelo de Cloux, h6spede de Fran-
cisco I.


 2 Ih ordern rneca~icista
      da n a t ~ r e z a


      Leonardo n5o C homem da Renascenqa
apenas por ser pensador "universal", isto C,
niio especialista, mas tambCm porque, por
exemplo, pode-se observar nele alguns tra-
qos de neoplatonismo, como quando ele de-
lineia o paralelismo entre o h o m e m e o uni-
verso: "0homem i considerado pelos antigos
como um mundo menor. E certo que o uso
desse nome esta bem colocado, ja que, como
o homem C composto de terra, agua, ar e
fogo, esse corpo C semelhante A terra; assim
como o homem tem em si os ossos, sustenti-
Para Leonardo, C o pensamento mate-               Em suma: "a natureza esta cheia de
matico que projeta, ou melhor, interpreta a      infinitas razoes aue nunca estiveram sob
ordem mecinica e necessaria de toda a na-        experitncia"; "todo o nosso conhecimen-
tureza: "A necessidade C mestra e tutora da      to comeqa a partir do sentido"; "0s senti-
natureza; a necessidade 6 tema e inventora       dos G O terrenos, mas a razio esta fora de-
da natureza, sendo seu freio e norma eter-       l e ~quando contempla". E "aqueles que se
                                                      ,
na." Leonardo, portanto, elimina dos fen&        enamoram de pratica sem ciencia s i o como
menos naturais -mecinicos e materiais -          o timoneiro que entra no navio sem leme
a intervenqio de forgas e poderes animistas,     ou bussola, nunca tendo certeza para on-
misticos e espirituais, para concentrar-se       de vai".
sobre forqas e leis imanentes a eles.                   E Leonardo prossegue: "A ciincia C o
                                                 capitio, a pratica os soldados." E quando
                                                 se tem ciencia das coisas, entao, por um lado,
                                                 essa ciincia termina "em conhecida expe-
                                                 riincia", isto 6, as teorias s i o confirmadas,
                                                 e, por outro lado, permite todas aquelas re-
                                                 alizaqoes tecnol6gicas que Leonardo proje-
                                                 ta com suas "miiquinas".
       Qua1 6, portanto, a id6ia de experiin-           Como os estudiosos justamente salien-
cia e de saber em Leonardo?                      taram, Leonardo procura a via intermedii-
       Contrapondo-se a figura d o "douto"       ria entre razio e experihcia que tende a co-
de sua ipoca, Leonardo gostava de se defi-       nhecer a lei que regula os fenbmenos, e que,
nir como "homem sem letras". Mas ele ha-         de qualquer modo, ainda que de forma
via freqiientado a oficina de Verrocchio,        esboqada e parcial, antecipa o "mitodo reso-
onde praticara muitas "artes mecinicas". E       lutivo" de Galileu e da ciencia moderna. do
exatamente a pritica das "artes mechicas"        qual falaremos mais adiante. ;,
aprendidas em certos ateliis vinha fazendo
emergir gradualmente um conceit0 de ex-
periincia que n i o era mais a empiria desar-
ticulada dos praticantes das diversas artes
nem o discurso puro e simples dos especia-
listas das artes liberais, privados de qual-
quer contato com operagoes, inspeqoes e
aplicaq6es no mundo da natureza.
       A experidncia que se realizava nas ofi-
cinas, como a de Verrocchio, era precisa-
mente um elemento para o qual vinham con-
fluindo progressivamente as artes mecinicas
e liberais, como a geometria ou a perspecti-
va. Conseqiientemente, Leonardo se revol-
ta contra aqueles que consideram que o
"senso" - ou seja, a sensaqio ou a obser-
vagio - seja um obstaculo para a "fisica e
sutil cogitaqio mental".
       Por outro lado, Leonardo tinha a con-
vicqio de que "nenhuma investigaqio huma-
na pode-se considerar verdadeira ciencia se
n i o passar pelas demonstraq6esmatematicas".
       N5o basta a observaqio nua e crua. E,
na natureza, existem "infinitas raz6esn que
"nunca estiveram sob experitncia". Em
suma, os fen6menos da natureza so podem
ser compreendidos sob a condiqao de que
lhes descubramos as razoes. E essa desco-
berta i obra de discurso, de cogita~iio men-
tal: C a razio que demonstra por que "tal
experiincia C forqada de tal mod0 a operar".
11. Bernardino L                k i o :
                   a investigaq&o da natureza
             segundo seus               prbprios principios


         Em sua obra-prima De rerum natura iuxta propria principia, Bernardino
Telesio (1509-1588) opera uma das mais avanqadas tentativas de p6r a fisica no
caminho de uma rigorosa pesquisa autcinoma, desligada tanto a) dos interesses e
                    dos pressupostos da tradiq80 hermetico-plathica, como b) dos
 A fisica telesiana pressupostos da metafisica aristotelica. Telesio n8o nega nem um
 +§2                Deus transcendente nem uma alma supra-sensivel, mas p6e um e
                    outra tematicamente fora da pesquisa fisica, e estabelece assim
a autonomia da natureza e de seus principios e, por conseguinte, a autonomia da
pesquisa destes principios. Alem disso, a fisica construida por Telesio e qualitativa;
todavia, ele entrev@    tambem a perspectiva quantitativa, mas, n8o podendo de-
senvolv0-la, augura que outros o possam fazer.
         Na concepqao da natureza, Telesio se remete ao hilozoismo e ao pan-
 psiquismo prk-socratico, segundo o qua1 tudo e vivo. Como fundamento da natu-
                  reza, que em sua essencia e vitalidade e sensibilidade, ha tr@s
  osprincjpios    principios: dois principios agentes incorporeos, o quente e o frio,
  da natureza     e uma massa corporeal que sob a aqao dos principios agentes as-
  e o nespiritow  sume diferentes disposiqdes; os dois principios agentes pervadem
  no hornern      todo corpo, s contrastam e se percebem reciprocamente, e dis-
                                e
  -+ 3 3-4        so deriva que todos os entes, tanto os complexos como os sim-
                  ples, sentem a relac80 reciproca.
      0 animal se distingue das coisas porque ha nele o "espirito produzido pelo
 semen", uma substdncia corporea tenuissima incluida no corpo como no proprio
 revestimento. No homem, depois, alem do "espirito", ha ainda uma especie de
 alma divina e imortal, que porem n8o serve para explicar os aspectos naturais do
 homem, mas apenas os aspectos que transcendem sua naturalidade: em vista do
 conhecimento, com efeito, o senso e o "espirito" sao mais criveis do que a raz8o e
 a alma, porque aquilo que e apreendido pelos sentidos n8o tem mais necessidade
 de ser ulteriormente pesquisado.
        Telesio admite o Deus biblico e regedor do mundo, de cuja atividade criado-
 ra dependem a "natureza" e o destino do homem; ele simplesmente nega que s             e
                   deva recorrer a Deus na pesquisa fisica. Deus infunde a mens
                   superaddita, isto e, a alma intelectiva, que e imortal: ela esta unida
  0 hornern
  e a mens
                   ao corpo e especialmente ao "espirito" natural, como forma dele.
  superaddita,     Com o "espirito" o homem conhece e apetece as coisas que se
  ou seia, a a,rna referem a sua conservaq80 natural; com a mens superaddita co-
  intelectiva,     nhece e tende as coisas divinas, que se referem a sua salvaq80
  dada por Deus    eterna. 0 homem deve procurar n8o sucumbir com sua mens a            s
  +§ 5             forqas do espirito material, mas mant@-la     pura e torna-la seme-
                   lhante a seu criador.


     Vida e obras                             nio Telksio, que era homem de lefras. Se-
                                              guiu o tio a Miliio e depois a Roma, onde,
                                              em 1527, foi aprisionado pela soldadesca,
     Bernardino TelCsio nasceu em 1509 em     por ocasiiio do conhecido "saque de Ro-
Cosenza. Num primeiro momento, recebeu        man, sendo libertado pela intervengiio de um
solida educagiio humanista de seu tio Ant&    conterrbeo, ap6s dois meses de prisiio.
1
      Capitulo se'timo -   Vertices e resultados c o ~ c l u s i u o s o pensamefito venascentista
                                                                     d



      Foi entiio para Pidua, onde ainda eram                 0 s primeiros dois livros do De rerum
bem vivos os debates sobre Aristoteles, e              natura foram publicados em 1565, apos
onde estudou filosofia e cihcias naturais              muitas incertezas e n5o sem antes ter con-
(talvez, em especial, a medicina), forman-             sultado em BrCscia o maior exDoente do
do-se em 1535.                                         aristotelismo na epoca, Vincenzo Maggi. 0
      Depois de formado, irrequieto, TelCsio           resultado positivo do confront0 com Maggi,
andou por varias cidades da Italia. Parece             que por muitos aspectos devia ser conside-
que, durante alguns anos, retirou-se, para             rado como o adversario ideal, convenceu
meditar em solidiio, em um mosteiro de                 TelCsio da oportunidade da publica@o. Mas
monges beneditinos (alguns pensam que esse             a obra inteira. em nove livros. so viu a luz
mosteiro pode ter sido o de Seminara).                 em 1586. em iirtude das dificujdades finan-
      Posteriormente, de 1544 a 1553, TelC-            ceiras do' nosso filosofo.
sio foi hospede dos Carafa, duques de No-                    As outras obras de Telisio siio margi-
cera. Nesse periodo, lanqou os fundamentos             nais, limitando-se a explicaq5o de alguns fe-
e delineou a estrutura do seu sistema, redi-           ntimenos naturais (Sobre os terremotos, So-
gindo um primeiro esboqo da sua obra-pri-              bre os cometas, Sobre os vapores, Sobre o
ma De rerum natura iuxta propria principia.            raio etc.).
      A partir de 1553, TelCsio se estabele-                 Foi notivel a fama alcanqada pel0 fi-
ceu em Cosenza, onde permaneceu at6 1563.              losofo, tendo inicio antes mesmo da publi-
Passou depois por Roma e Nipoles, mas                  ca@o de suas obras. A Academia Cosen-
retornou varias vezes a Cosenza, onde mor-             tina, da qual ele foi membro, tornou-se o
reu em 1588.                                           mais ativo centro de difusiio do telesianis-
                                                       mo. Amigos poderosos e influentes prote-
                                                       geram-no dos ataques dos aristotClicos, em-
                                                       bora n5o tenham faltado os debates e as




                                                             f.novidade
                                                              d a fisica telesiana

                                                            0 sentido e o valor do pensamento te-
                                                       lesiano mudam completamente, conforme a
                                                       perspectiva com base na qual ele 6 visto e
                                                       interpretado. Conseqiientemente, tambCm
                                                       varia o tip0 de exposiqiio que se pode fazer
                                                       desse pensamento.
                                                            Se o olharmos assumindo como pars-
                                                       metro a revoluqiio cientifica que Galileu ope-
                                                       raria, entiio as conclusdes niio podem ser
                                                       outras que as extraidas por Patrizi (embora
                                                       baseando-se em outros elementos), isto C,
                                                       que o telesianismo "parece ser mais uma
                                                       metafisica do que uma fisica", contraria-
                                                       mente i s suas intenqdes declaradas.
                                                            No entanto, se o olharmos pela otica
                                                       do seu tempo, o pensamento de Telesio re-
                                                       vela-se efetivamente uma das tentativas mais
                                                       radicais e avanqadas de encaminhar a fisica
                                                       pela senda de uma rigorosa pesquisa 'aut6-
Bernardino Teltkio (aqui em uma estampa antiga,
procurou fundar u m tigo de pesquisa fisica
                                                       noma, desligando-se de dois tipos de pres-
inteiramente diferente em rela@o a aristote'lica,      supostos metafisicos: a ) dos pressupostos
antecipando nus exigincias,                            dos magos renascentistas ligados a tradiqiio
embora niio nos resultados,                            hermttico-plathica; b) dos pressupostos da
algumas instLincias da fisica moderna.                 metafisica aristotClica.
Primeira parte - O tlumanismo e n R e n a s c e n c n

      a ) Sobre o primeiro ponto, deve-se su-
blinhar n5o apenas o fato de que estiio au-
sentes do De rerum natura os interesses e
pressupostos magico-hermkticos, mas tam-
bCm o fato de aue TelCsio diz com todas as
letras, numa evidente alus50, que em sua                   TelCsio reconstruiu os principios de sua
obra ningutm encontrara nihil divinum e              fisica em base sensistica, convencido de que
nihil admiratione dignum ("nada de di-               o "sentido" revela a realidade da nature-
vino" e "nada de extraordinarion).Entre-             za, sendo a propria natureza, em sua essen-
tanto, como veremos, Telisio continua a              cia, vitalidade e sensibilidade. Nessa con-
ter em comum com as doutrinas magicas                cepg5o vitalista da natureza, Telksio se refere
a convicg50 de que, na natureza, tudo esth           ao hilozoismo e ao pan-psiquismo prC-so-
vivo.                                                critico, segundo os quais tudo esta vivo, com
      b) Sobre o segundo ponto, devemos              coloragaes at6 mesmo j6nicas (recordando
relevar o que segue. Aristoteles (com os pe-         sobretudo o esquema de interpretagiio da
ripatiticos) considerava a fisica como co-           realidade que fora proposto por Anaxi-
nhecimento teorktico daquele genero parti-           menes). Seus modelos, portanto, niio s5o
cular de ser ou de substiincia que esta sujeito      tanto os neoplat6nicos, e sim os fisicos mais
a movimento. Para o Estagirita, os quadros           antigos.
da metafisica (ciincia do ser ou da substiin-               Ora, o "sentido" nos revela que o "quen-
cia em geral) k seus principios constituiam          ten e o "frio" G O principios fundamentais.
os pressupostos necessirios para fundamen-           0 primeiro tem agiio dilatadora, faz as coi-
tar a fisica. A consideragiio da substiincia         sas serem leves e p6e-nas em movimento. Ja
sensivel, portanto, desembocava necessa-             o segundo produz condensag50 e, portanto,
riamente na consideragiio da substincia su-          torna as coisas pesadas e tende a imobili-
ma-sensivel. e o estudo da substiincia move1         za-las.
terminava com a demonstracio metafisica                     0 sol C quente por excelencia e a terra
da substiincia imovel.                               C fria. Mas o sol, como tudo aquilo que arde,
      Telksio realizou um corte claro em re-         n i o C so calor, assim como a terra tambim
lag50 a essa posig5o. N5o nega um Deus               niio coincide com o frio. Quente e frio s i o
transcendente nem uma alma supra-sensi-              incorporeos e, portanto, tim necessidade de
vel (corno veremos melhor mais adiante),             massa corporea a qua1 aderir. Portanto, con-
mas tematicamente coloca ambos fora da               clui TelCsio, deve-se sem duvida p6r na base
pesquisa fisica, estabelecendo assim'a auto-         dos entes tris principios: dois principios
nomia da natureza e dos seus principios e,           agentes, o quente e o frio, e uma massa
conseqiientemente, a autonomia da pesqui-            corp6rea, que sob a aqio de principios agen-
 sa desses principios. Desse modo, TelCsio           tes assume diferentes disposig6es. Se assim
 realiza aquilo que foi chamado "redugio             n5o fosse, os entes n i o poderiam se trans-
 naturalista", precisamente proclamando a            formar uns nos outros, impossibilitando
 autonomia da natureza.                               aquela unidade que, ao contrario, existe efe-
       Nesse sentido, pode-se dizer que, em-         tivamente na natureza.
 bora com bases que eram inadequadas, co-                   Assim, cai por terra a fisica dos quatro
 mo veremos. TelCsio fez valer uma instiincia         elementos, bem como a concepqiio geral das
 (a autonomia da pesquisa fisica) destinada           coisas como sin010 de matCria e forma, sus-
 a revelar-se muito fecunda.                          tentada pelos peripateticos: os elementos
       Mas ainda ha um ponto que merece               derivam dos principios descritos, como tam-
 ser destacado.                                       bCm todas as formas das coisas.
       Como veremos, TelCsio construiu uma                  0 s dois principios agentes perpassam
 fisica qualitativa. Entretanto, entreviu a pers-     todo corpo, contrastando-se, expulsando-se
 pectiva quantitativa, embora tenha dito que          e se substituindo mutuamente nos corpos, e
 n5o podia desenvolvi-la, augurando que               tendo a faculdade de se perceberem recipro-
 outros pudessem faze-lo, para que, destaca           camente. Essa faculdade que cada ;m deles
 ele, os homens possam se tornar n i o ape-           tem de perceber suas proprias ag6es e pai-
 nas "scientes", mas tambCm "potentes".               x6es e as conex6es que apresentam com as
 Trata-se de dois temas que, como veremos,            do outro da lugar a sensag6es agradaveis em
 se tornariam centrais, respectivamente, em           relag50 aquilo que C afim e que favorece a
 Galileu e em Bacon.          i]
                               z                      sua propria conservagiio, e a sensag6es de-
109
      CdphLl0 se'tim0 -   VLrtices e resultados conclusivos d o pensamento renascentista



sagradaveis no caso contrario. Assim, con-        tos que transcendem sua naturalidade, dos
clui Telisio, "todos os entes sentem a rela-      quais falaremos adiante.
qiio reciproca" .                                       Em suas varias formas, o conhecimen-
      Entio, como i que s6 os animais pos-        to se explica mediante o "espirito", sendo,
suem orgiios sensoriais? 0 s animais s i o en-    precisamente, a percepqio das sensaqoes,
tes complexos e os orgiios sensoriais desem-      mudanqas e movimentos que as coisas pro-
penham o papel de vias de acesso das forqas       duzem sobre ele. Em outros termos: o quente
externas a substiincia que sente. Ja as coisas    e o frio produzidos pelas coisas, que agem
simples, precisamente porque siio tais, sen-      sobre o organism0 por contato, provocam
tem diretamente.                                  aqoes de movimento, de dilataqso e de res-
      A fisica de Telisio, portanto, i uma fi-    triqio sobre o "espirito", e desse mod0 rea-
sica baseada nas "qualidades" elementares         liza-se a percepqio, que i consciCncia da
do quente e do frio. Mas, nesse quadro, co-       modificaqiio.
mo ja observamos, ele compreende que po-                A intelighcia nasce da sensaqio, mais
deria ser de notivel vantagem para sua con-       precisamente da semelhanqa que constata-
cepqio uma investigaqio ulterior voltada          mos entre as coisas percebidas, das quais
para determinar a "quantidade" de calor           conservamos a lembranqa, e a extensio por
necessiria para produzir os varios fen6me-        analogia a outras coisas, que atualmente niio
nos. E i precisamente essa investigaqio           ~ercebemos.Por exemplo, quando vemos
"quantitativa" que ele afirma niio ter podi-      um homem jovem, a intelighcia nos diz que
do realizar, desejando deixi-la como tarefa       ele envelheceri. Esse "envelhecimento" niio
para outros que viessem depois dele.              C percebido por nos, j i que ainda esti por
                                                  vir, niio podendo portanto produzir qual-
                                                  quer sensaqio em nos; no entanto, nos po-
                                                  demos "entend&lo" justamente com o au-
      0howew                                      xilio da experihcia passada e da semelhanqa
      cow0    realidade natural                   daquilo que ja percebemos com aquilo que
                                                  percebemos agora, ou seja, por analogia.
                                                        Telisio declara expressamente que n i o
     Considerado como realidade natural,          despreza em absoluto a razio; ao contra-
o homem i explicavel como todas as outras         rio, diz que se deve de~ositar confianqa nela
realidades naturais.                               "quase como nos sentidos". Mas o sentido
      0 s organismos animais eram explica-        i mais crivel do que a razio, pel0 motivo de
dos por Aristoteles em funqiio da "alma           que aquilo que i apreendido pelos sentidos
sensitiva". Telisio, naturalmente, n i o pode     n i o tem mais necessidade de ser ulterior-
mais abrigar tal tese, mas tem necessidade        mente investigado.
de introduzir algo capaz de diferenciar o               Para Telisio, a propria matematica i
animal das coisas restantes. Por isso, recorre    fundada no sentido, nas similitudes e nas
iquilo que ele chama de "espirito produzi-        analogias, do mod0 ja explicado.
do pela semente" (spirituse semine eductus).
A terminologia (de origem estoica) se refe-
re provavelmente a tradiqiio midica antiga
(que Telisio conhecia muito bem). 0 "es-                A woral natural
pirito", substincia corporea muito h u e ,
esti incluido no corpo, como no seu pro-
prio revestimento e no seu proprio 6rgio.               A vida moral do homem, pel0 menos
Conseqiientemente, o "espirito" explica           num primeiro nivel, t a m b i m pode ser
tudo aquilo que Aristoteles explicava com         explicada com base nos principios naturais.
a alma sensitiva (recorde-se a analoga con-             Para o homem, como para todo ser, o
cepqio do "espirito" de Ficino, no qual,          bem i a sua propria autoconserva@o, as-
porim, cumpria uma funqio totalmente di-          sim como o ma1 i o seu dano ou a sua des-
ferente).                                         truiqiio. 0 prazer e a dor entram ness'e jogo
      Telisio logo percebeu que, alim d o         de conservaqiio e destruiqio. E prazeroso
"espirito", ha no homem algo mais, "uma           aquilo que agrada ao "espirito", e agrada
espicie de alma divina e imortal", que, po-       ao "espirito" aquilo que o vivifica, consti-
rim, n i o serve para explicar os aspectos        tuindo portanto uma forqa favoravel. E do-
naturais do homem, mas somente os aspec-          loroso aquilo que abate e prostra o "espiri-
110
       Primeira parte - 8+ I C .  W ~ M I S M ? O   e aRe~nscrn~n



to", e abate o "espirito" aquilo que Ihe i                 de Telisio 6 o Deus biblico, criador e regen-
nocivo. Assim, o prazer i "a sensaqiio da                  te do mundo. E i precisamente de sua ativi-
conservaqiio", ao passo que a dor e "a sen-                dade criadora que depende aquela "nature-
saqiio da destruiqiio" .                                   za" estruturada do mod0 como vimos, bern
      0 prazer e a dor, portanto, tim um                   como o destino superior dos homens em
precis0 objetivo funcional. Desse modo, o                  relaqiio a todos os outros seres, como agora
prazer niio pode ser o fim ultimo que perse-               veremos.
guimos, mas sim o meio que nos facilita al-                      A "mens superaddita", isto C a alma
                                                                                                   ,
canqar esse fim, o qual, como ja dissemos, C               intelectiva, que e imortal, C infundida no
a autoconservaqiio. Em geral, tudo aquilo                  homem por Deus. A alma esta unida ao cor-
que o homem deseja esta em funqiio dessa                   po e, especialmente, ao "espirito" natural,
conservaqiio.                                              como forma dele.
      Entendidas do ponto de vista natura-                       Por meio do espirito o homem conhe-
lista, as pr6prias virtudes siio praticadas e              ce e apetece as coisas que se referem a sua
exercidas em funqiio desse mesmo objetivo,                 conservaqiio natural; ja com a mens super-
ou seja, para que facilitem a conservaqiio e               addita, ele conhece as coisas divinas e tende
o aperfeiqoamento do "espirito".                           para elas, que niio dizem respeito 2 sua sau-
                                                           de natural, mas sim a eterna. Assim, exis-
                                                           tem no homem dois apetites e dois intelectos.
                                                           Por isso, ele esti em condiqoes de entender
                                                           niio somente o bern sensivel, mas tambim o
      e a alma                                             bern eterno, bern como de quer4-lo (e isto i
            ente
      C O ~ O               suppa-sensivel                 o livre-arbitrio). Conseqiientemente, o ho-
                                                           mem deve procurar niio sucumbir com sua
                                                           "mente" as forqas do "espirito" material,
      Como ja observamos, Telisio operou                   mas sim manti-la pura e torna-la semelhan-
a "reduqiio naturalista" na sua pesquisa fi-               te ao seu criador. Em suma, essa "mente"
sica e na reconstruqiio da realidade natural,              concerne a atividade religiosa do homem e
mas ficou bern distante de dar a tal "redu-                assinala a sua especificidade em toda a or-
qiio" uma valincia metafisica geral. Ele ad-               dem do real.
mite um Deus criador e acima da natureza;                        0 s intirpretes viram freqiientemente,
o que ele nega, simplesmente, i que se deva                nessas doutrinas de Telisio, algumas con-
recorrer a ele na investigaqiio fisica.                    cessoes indibitas (talvez feitas pro bono pa-
      Alias, a esse proposito, i interessante              cis, para evitar complicaqoes), ou, de todo
notar o fato de que Telesio, que normalmen-                modo, teses em contraste com o seu "natu-
te censura Aristoteles por ser excessivamente              ralism~". realidade, porem, niio i assim.
                                                                       Na
metafisico em fisica, objeta-lhe precisamen-               Quando muito, seria verdade precisamente
te o oposto no que se refere ao Motor Imo-                 o oposto. A sua originalidade esta exatamen-
vel. E completamente inadequada uma con-                   te na tentativa de estabelecer uma distinqiio
cepqiio de Deus reduzido a funqiio motriz,                 clara de imbitos de investigaqiio, sem que a
ao modo aristotklico. Telesio chega a escre-               distingiio implique exclusiio. Embora com
ver que, a esse respeito, Aristoteles "parece              todos os seus limites, tambim nesse sentido
digno niio apenas de criticas, mas tambim                  Telisio apresenta analogias com Galileu,
de abominaqiio". A moqiio do ciu podia                     que, precisamente, distinguirh de modo pa-
muito bern ser atribuida a propria natureza                radigmatic~    ciincia e religiiio, atribuindo a
do ciu, sem chamar Deus em causa daquele                   primeira a funqiio de mostrar c o m o vai o
modo. Ademais, i inconcebivel o fato de                    ce'u (com suas leis especificas), e segunda
Aristoteles negar ao seu Deus a providincia                a tarefa de mostrar como se vai a0 C&U (cren-
em relaqiio aos homens. Em suma: o Deus                    do e agindo em conformidade com a f6).
III.    Giovdano Bruno:
            universo infinito e "herbico fuvov"



       Nascido em Nola em 1548, Giordano Bruno entrou muito jovem no conven-
to de Sao Domingos em Napoles, onde foi ordenado sacerdote em 1572. Acusado
em 1576 de heresia e de homicidio, deixou o habito e iniciou
uma fase de peregrina~6es    pela Europa, ate que em 1591 voltou A vida
para a Italia, aceitando o convite do nobre veneziano Joao Mo- e os escritos
cenigo, que desejava dele aprender a mnemotecnica. Mocenigo, maisimportantes
porem, denunciou-o ao Santo Oficio; comey;ouent%o process0 de Giordano
                                                      o
por heresia que s concluiu com a condena@o a morte na fo- Bruno
                   e
gueira, executada em Roma dia 7 de fevereiro de 1600: ate o fim,  +5
Bruno n%orenegou seu credo filosofico-religioso.
     Entre suas numerosas obras, a mais importantes sao: De umbris idearum
                                     s
(1 582), Da causa, do princfpio e do uno (1584), Do infinito, do univeno e dos
mundos (1584), Circulaga"~ besta triunfante (1584), Dos heroicos furores (15851,
                            da
Do minimo (1591), Das mtjnadas (1591), De immenso et innumerabilibus (1591).
        Bruno 4 sem duvida o filosofo renascentista mais complexo; com sua visa0
vitalista e magics, de fato nao antecipa as descobertas cientificas do s4cufo se-
guinte, mas e possivel encontrar em seu pensamento surpreen-
dentes antecipa~iaes Spinoza e dos Romdnticos, sobretudo do o carater
                      de
jovem Schelling.                                                  magico-
      A marca que distingue seu pensamento e de car6ter magi- hermetic0
co-hermetico, e este n%o  pode ser entendido como uma especie da f h o f i a
de gnose renascentista, mensagem de salva@o neoplato-              $:yyO
nicamente marcada pelo tip0 de religiosidade "egipcia" prdpria
dos escritos herm4ticos: o "egipcianismo" aqui 4 uma experidn-
cia teurgica e extdtica que leva ao Uno dos Neoplatdnicos, C; a "boa religi3o"
destruida pelo Cristianismo, a qua1 e preciso voltar e da qua1 Bruno s sente o
                                                                       e
profeta, investido precisamente da miss%o fazd-la reviver.
                                            de
      Ele, portanto, n%opodia estar de acordo nem com os catolicos nem com os
protestantes, e por fin nao s pode dizer sequer crist80, porque acabou pondo
                               e
em duvida a divindade de Cristo e os dogmas fundamentais do Cristianismo: seu
escopo era o de ele pritiprio fundar nova religiso.

     * A visa0 que Bruno tem do universo 6 de tipo copernicano, baseada sobre a
concep@oheliocdntrica e sobre a infinitude do cosmo, ligada a magia astral e ao
culto solar. Acima de tudo esta uma Causa ou Principio supremo (o Uno plotiniano
reinferpretado em chave renascentista), que Bruno chama de
mente sobre as coisas, da qua1 tudo o mais deriva, mas que nos A visdo
permanece incognoscivel; o universo inteiro, que e uno, infinito de Bruno
e imcivel, constitui o efeito deste primeiro Principio, mas pelo do universo:
conhecimento dele n8o s pode remontar ao conhecimento de -0 heroic0
                          e
sua Causa.                                                          furor"
     Do Principio supremo deriva o lntelecto universal, entendi- + § 4-6
do ccrmo mente nas coisas, como faculdade da Alma universal da
qua1 brotam todas as formas dindmicas imanentes a materia: a Alma do mando
est6 em toda coisa, e na Alma esta presente o lnteledo universal, fonte perene de
formas que continuamente s renovam. A infinitude do universo C acompanhada
                              e
pela existdncia de mundos infinitos semelhantes ao nosso, cam outros planetas e
outras estrelas; em particular, ele 4 "infinito" el ao mesmo tempo, "esferiforme",
112    Primeira parte - O t l w n a n i ~ m ~ R e n a s c r n c a
                                          e a




 conforme uma fdrmula de derivac;%o      hermBtica e cusaniana: o universo 6 uma
 esfera que tem seu centro em todo lugar e a circunferencia em nenhum lugar; e
 infinita 6 tambitm a vida, porque infinitos individuos vivem em nbs, como em
 todas a coisas compostas: nada s aniquila, e por isso o morrer e apenas mutac;%o
         s                         e
 acidental, enquanto aquilo que muda permanece eterno.
      A contemplac;%oe transforma assim em uma forma de "eudeusamento", de
                       s
 heroic0 furor, que B anseio de ser uno com a coisa ansiada: a Divindade, a verdade
 ansiada, estci em nds mesmos, e quando descobrimos isso, tornamo-nos anseio de
 nossos prdprios pensamentos; no &picedo "herdic0 furor"', o homem v& inteira-
 mente o Tudo, porque se assimilou a esse Tudo.



 1 Vida e o b ~ a s                                      do Ficino em suas lig6es (as doutrinas ma-
                                                         gico-hermtticas).
                                                              Em 1585 retornou a Paris, mas logo
                                                         percebeu que nZo gozava mais da protegiio
     Giordano Bruno nasceu em Nola, em                   do rei e teve de fugir, depois de um desen-
1548. Seu nome de batismo era Filipe, o                  contro com os aristotClicos.
nome de Giordano lhe foi dado quando, ain-                    Desta vez escolheu a Alemanha lute-
da muito jovem, ingressou no convent0 de                 rana. Em 1586 estabeleceu-se em Witten-
SZo Domingos, em Napoles, onde foi orde-                 berg, onde elogiou publicamente o lutera-
nado sacerdote em 1572.                                  nismo. Mas tambem ai nZo permaneceu por
      Seu espirito rebelde ja se manifestou              muito tempo. Em 1588 tentou obter os fa-
quando ainda era estudante, e em 1567 foi                vores do imperador Rodolfo I1 de Asburgo,
instaurado um processo contra ele, que de-               na Austria, mas sem sucesso. Retornou en-
pois foi suspenso.
      Mais grave foi o processo de 1576, ins-
taurado, mais do que pelas suspeitas de he-
resia que havia suscitado, pela suspeita de
que lhe coubesse a responsabilidade pel0
assassinio de um confrade que o havia de-
nunciado. Na realidade, a suspeita era in-
fundada. Mas a situagiio complicou-se a tal
ponto que Bruno, que nesse meio tempo
fugira para Roma, chegou a pensar em lar-
gar o hibito, e refugiou-se no norte do pais
(Gsnova, Noli, Savona, Turim e Veneza) e
finalmente na Suiga, em Genebra, onde fre-
qiientou ambientes calvinistas. Mas logo se
rebelaria tambCm contra os teologos calvi-,
nistas.
      A partir de 1579, Bruno viveu na Fran-
qa, primeiro em Tolosa, por dois anos, e a
partir de 1581 em Paris, onde conseguiu
atrair a atenqiio de Henrique 111, do qua1
teve protegso e apoio.
      Em 1583 foi para a Inglaterra, acom-
panhando o embaixador franc& e vivendo
sobretudo em Londres. Esteve durante um
period0 tambCm em Oxford, onde, porCm,
logo entrou em choque com os docentes da
universidade (que ele considerava "pedan-
tes"). Documentos vindos recentemente i     i
luz demonstram, entre outras coisas, que os
doutos locais o contestaram por ter plagia-
Capitulo sdtirno -   VCrtices e resultados conclusivos d o pensamento rrnascrntista




tiio a Alemanha, onde, em 1589, em Helms-          cautelosamente iniciara, procurando man-
tadt, inscreveu-se na comunidade luterana,         ter-se dentro dos limites da ortodoxia cris-
da qual foi expulso depois de apenas um ano.       ta, mas que ele tratou de levar as ultimas
      Em 1590, foi para Frankfurt, onde pu-        conseqiihcias. E mais: o pensamento bru-
blicou a trilogia dos seus grandes poemas          niano pode ser entendido como urna espC-
latinos. Quando ai estava, recebeu urn con-        cie de gnose renascentista, urna mensagem
vite, por livreiros, do nobre veneziano Joiio      de salvaqio moldada no tip0 de religiosida-
Mocenigo, para transferir-se a Veneza. Ele         de "egipcia", como precisamente pretendia
desejava aprender a mnemoticnica, da qual          ser a mensagem dos escritos hermiticos. 0
Bruno era mestre. Imprevidentemente, acei-         seu neoplatonismo serve de base e de moldu-
tou o convite e voltou a Italia em 1591.           ra conceitual para essa visio religiosa, do-
      No mesmo ano, Mocenigo denuncia-             brando-se continuamente i s suas exiggncias.
va Bruno a o Santo Oficio. Em 1592 come-                  Esta i a documentadissima tese apre-
qou em Veneza o processo contra Bruno, que         sentada recentemente por F. A. Yates que
se concluiu com a sua retrataqiio.                 desejamos enfocar brevemente, porque re-
      Em 1593, o filosofo foi transferido para     solve muitos problemas de interpretaqio da
Roma, sendo submetido a novo processo.             obra de Bruno. A filosofia de Bruno - es-
Depois de extenuantes tentativas de con-           creve Yates - "e fundamentalmente hermi-
vencc-lo a retratar-se de algumas de suas          tica [...I, ele era mago hermitico do tip0 mais
teses, chegou-se a urna ruptura final, com         radical, com urna espCcie de missiio magi-
sua condenaqio a morte na fogueira, sen-           co-religiosa [. ..] ".
tenqa que foi executada no Campo dei Fiori,               Portanto, conclui Yates, "[ ...I toda a
em 7 de fevereiro de 1600.                         tentativa ficiniana de construir urna theo-
      Giordano Bruno n i o renegou seu cre-        logia platonica crists, com seus prisci theo-
do filosofico-religioso, morrendo para teste-      logi e magi e com o seu platonismo cristiio,
munha-lo. Sao muito numerosas as obras             furtivamente permeado de alguns elemen-
de Giordano Bruno. Dentre elas, merecem            tos magicos, era menos do que nada aos
particular atenqio: a comidia o Candeeiro          olhos de Giordano Bruno, que, aceitando
(1582),o De umbris idearum (1582),a Ceia           plena e despreconceituosamente a religiiio
das Cinzas (1584),Sobre a causa, principio         magica egipcia do Asclepius (e desprezando
e uno (1584), Sobre o infinito, universo e         os presumidos prenuncios do cristianismo
mundos (1584), o Despacho da fera triun-           contidos no Corpus Hermeticum), conside-
fante (1584), Sobre os herdicos furores            rou a religiao magica egipcia como urna
(1585), D e minimo (1591), D e monade              experigncia teurgica e extatica genuinamente
(1591) e D e immenso et innumerabilibus            neoplathica, como urna elevaqiio em dire-
(1591).                                            fa0 ao Uno. E assim era de fato, ja que o
                                                   'egipcianismo' hermitico nada mais era do
                                                   que o 'egipcianismo' interpretado por neo-
                                                   plat6nicos da antiguidade tardia. Entretan-
 2 A caracteristica                                to, o problema da interpretaqiio de Bruno
      de fundo do pensamento                       niio se resolve reduzindo-o a mero conti-
                                                   nuador desse tip0 de neoplatonismo e con-
      de Bvuno                                     siderando-o um simples seguidor de um cul-
                                                   t o misteriosofico egipcio, porque ele
                                                   certamente foi influenciado pelas idCias pro-
     Para entender a mensagem de um fi16-          duzidas por Ficino e por Pico, com toda a
sofo i precis0 captar o fulcro do seu pensa-       sua forga psicologica, suas associaq6es caba-
mento, a fonte dos seus conceitos e o espiri-      listicas e cristss, o seu sincretismo de diver-
to que Ihe da vida. N o caso de Giordano           sas posiqoes filosoficas e religiosas, antigas
Bruno, onde estiio esse fulcro, essa fonte e       ou medievais, e com sua magia".
essa alma?                                                Conseqiientemente, i claro que Bruno
     0 s estudos mais recentes conseguiram         niio podia estar de acordo com os catolicos
lanqar luz sobre a questio: a marca que dis-       nem com os protestantes (em ultima i n s t h -
tingue o pensamento bruniano i de carater          cia, niio pode ser considerado sequer cris-
m6gico-hermitico. Bruno se coloca na tri-          tio, pois acabou pondo em duvida a divin-
Iha dos magos-filosofos renascentistas, le-        dade de Cristo e os dogmas fundamentais
vando muito adiante o discurso que Ficino          do cristianismo) e que os apoios que busca-
Primeira parte - 0+IL~M?UM~SM?O   r n Renascen~a



va, ora de urna parte ora de outra, eram            sol ideal que i o intelecto. As "sombras das
apenas apoios taticos para realizar a pro-          idCias7'niio siio as coisas sensiveis, mas mui-
pria reforma. E precisamente por isso C que         to mais (no context0 bruniano) as "imagens
ele provocou violentas reaqties em todos os         magicas" que refletem as idCias da mente
ambientes nos auais ensinou. Bruno niio             divina e das quais as coisas sensiveis siio
podia seguir nenhuma seita, porque seu ob-          copias. Imprimindo na mente essas "imagens
jetivo era o de fundar ele proprio urna nova        magicas", obtCm-se entiio como que um re-
religiiio.                                          flexo do universo inteiro na mente, adqui-
       E, no entanto, estava e'brio de Deus         rindo-se desse mod0 niio apenas urna poten-
(para usar urna expressiio que Novalis usou         cializagiio maravilhosa da memoria, mas
a respeito de Spinoza) e o infinito foi o seu       tambim fortalecimento da capacidade ope-
principio e o seu fim (como podemos dizer           rativa do homem em geral.
com outra exmess50 de Schleiermacher em                   A obra apresenta urna strie de relaqdes
relaciio a S ~ i n o z a )Mas trata-se de um "di-
                          .                         de imagens, com base nas quais Bruno or-
v i n 2 e de ;
             m "iifinito" de carater neopa-         ganiza o sistema da memoria e, como Ficino
giio, que o aparato conceitual do neopla-           jii comeqara a fazer, da fundamentos ploti-
tonismo, feito renascer por Nicolau de Cusa         nianos A sua construqiio.
e por Ficino, prestava-se a expressar de mo-              0 Bruno parisiense, portanto, com essa
do quase perteito.                                  obra dedicada propriamente a Henrique 111,
                                                    se apresenta como expoente e renovador da
                                                    tradiqiio magico-hermitica inaugurada por
                                                    Ficino, mas em sentido muito mais radical,
                                                    ou seja, no sentido de que niio Ihe interessa
                                                    mais a conciliaqiio ficiniana dessa doutrina
      e arte ~?&~ico-hevm&tica                      com a dogmitica cristii, decidido que esta-
                                                    va a trilhar at6 as ultimas conseqiicncias esse
                                                    caminho.
      As primeiras obras brunianas siio de-
dicadas a mnemoticnica, destacando-se en-
tre elas a De umbris idearum, elaborada em
Paris e dedicada a Henrique 111. Mas a sua
propria mnemote'cnica ju apresenta fortes
colora$es magico-herme'ticas.
      A arte da memoria era muito antiga.
0 s oradores romanos, particularmente, re-               Depois do period0 na Franqa, a etapa
comendavam, para a memorizaqiio dos                 mais significativa da carreira de Bruno foi
seus discursos, que se associasse a estrutu-        sua estada na Inglaterra, onde elaborou e
ra e a sucessiio dos conceitos e argumenta-         publicou os "dialogos italianos7', que cons-
qdes a favor dos mesmos a um edificio e a           tituem suas obras-primas.
sucessiio das partes de um edificio. Na Ida-             Antes de falar do seu conteudo (do
de MCdia, Raimundo Lulio ja havia desen-            qua1 os posteriores poemas latinos, compos-
volvido a mnemotCcnica, niio so procuran-           tos e publicados na Alemanha, constituem
do definir normas destinadas a favorecer            apenas o desenvolvimento e aprofunda-
a memorizaqao, identificando urna preci-            mento), C bom identificar com que roupa-
sa escansiio das regras da mente, mas tam-          gem Bruno se apresentou aos ingleses, par-
bCm procurando identificar a coordena-              ticularmente aos doutos da Universidade
$50 dessas regras da mente com a estrutura          de Oxford. Documentos que so vieram a luz
do real.                                            no Novecentos nos informam sobre os te-
      Na Renascen~a, mnemottcnica renas-
                      a                             mas tratados por Bruno em Oxford e sobre
ceu, alcanqando seu ponto culminante com            as realties que teve dos seus ouvintes. Ele
Giordano Bruno.                                     exp6s uma viszo copernicana do universo,
      Alim disso, no De umbris idearum,             centrada na concep@o heliocintrica e na
Bruno vincula-se expressamente a Hermes             infinitude do cosmo, vinculando-o a magia
Trismegisto, convencido de que a religiiio          astral e ao culto solar tal como havia sido
"egipcia" era melhor do que a cristii, en-          proposto por Ficino, a tal ponto que um dos
quanto C religiiio da mente, que se realiza         doutos "achou que tanto a primeira como
superando o culto ao sol, imagem visivel do         a segunda liqiio haviam sido extraidas, quase
Capitdo se'timo -   V&vtices e resultados conclusivos d o pensamento renasrentista



palavra por palavra, das obras de Marsilio              Por isso, C compreensivel que, nesse
Ficino" (em particular da obra De vita            contexto, Deus e natureza, forma e mati-
coelitus comparanda). Criou-se um esciin-         ria, ato e potencia acabem por coincidir, a
dalo, que obrigou Bruno a despedir-se ra-         ponto de Bruno escrever: "Dai, n5o C dificil
pidamente dos "pedantes gramaticos" de            ou grave, em ultima instiincia, aceitar que,
Oxford, que nada haviam entendido de sua          segundo a substiincia, tudo C uno, como tal-
mensagem.                                         vez tenha entendido ParmEnides, tratado
      A imagem que ele queria transmitir de       ignobilmente por Aristoteles. "
si mesmo, portanto, era a do mago renas-
centista, de alguCm que propunha a nova
religi50 "egipcia" da revelaq50 hermetica,
o culto do deus in rebus, o deus que esta               fi infinitude do L d o
presente nas coisas.                                    e o   significado impresso
      No Despacho o "egipcianismo" 6 apre-
sentado at6 mesmo como tematica, ao pas-                por Bruno
so que o "sapientissimo Mercurio Egipcio",              2   revoIuG2;ocopernicana
ou seja, Hermes Trismegisto, C apresentado
como fonte de sabedoria. E essa vis5o do
"deus nas coisas" esta expressamente liga-              A partir desta concepq50 bruniana o
da a magia, entendida como sabedoria pro-         infinito se torna, como ja dissemos, a mar-
veniente do "sol inteligivel", que C revelada     ca emblematica da concepq50 bruniana.
a o mundo ora em menor ora em maior me-           Com efeito, para Bruno, se a Causa ou o
dida.                                             Principio primeiro C infinito, tambCm o efei-
      0 "egipcianismo" de Bruno C uma for-        to deve ser infinito.
ma de religi5o paganizante, com base na                 Com base nisso, Bruno sustenta n5o
qual ele pretendia fundar a reforma moral         apenas a infinitude do mundo em geral, mas
universal.                                        tamb6m (retomando a idCia de Epicuro e de
      Mas quais s5o seus fundamentos filo-        LucrCcio) a infinitude no sentido da exis-
soficos?                                          tincia de mundos infinitos semelhantes ao
      Acima de tudo Bruno admite uma              nosso, com outros planetas e outras estre-
"causa" ou um "principio supremo", a o            las: "e isso se charna universo infinito, no
qual ele chama tambCm de "mente sobre as          qual ha inumeraveis mundos".
coisas", da qual deriva todo o restante, mas            Infinita tambCm C a vida, porque infi-
que permanece incognoscivel para nos. Todo        nitos individuos vivem em nos, assim como
o universo C efeito desse primeiro principio;     em todas as coisas compostas. 0 morrer n5o
mas n5o se pode remontar do conhecimen-           C morrer, porque "nada se aniquila". Assim,
to dos efeitos ao conhecimento da causa,          o morrer C apenas uma mudanqa acidental,
como n5o se pode remontar da vis5o de uma         ao passo que aquilo que muda permanece
estatua i visiio do escultor que a fez. Esse      eterno.
principio outra coisa n5o C do que o Uno                Mas, entso, por que existe essa muta-
plotiniano revisitado por urn renascentista.      @o? Por que a matiria particular procura
      Assim como em Plotino o Intelecto de-       sempre outra forma? Sera que procura ou-
riva do supremo Principio, analogamente,          tro ser? De mod0 bastante engenhoso, Bru-
Bruno tambCm fala de um Intelecto univer-         no responde que a m u t a ~ 5 o  n50 procura
sal, mas o entende, de mod0 mais marcada-         "outro ser" (pois tudo j6 existe desde sem-
mente imanentista, como mente nas coisas          pre), e sim "outro modo de ser". E nisso
e precisamente como faculdade da Alma             reside precisamente a diferen~a   entre o uni-
universal, da qual brotam todas as formas         verso e as coisas singulares do universo:
que s5o imanentes a matiria, constituindo         "aquele abrange todo o ser e todos os mo-
corn ela um todo indissoluvel.                    dos de ser; estas, cada qual tem todo o ser,
      As formas s5o a estrutura diniimica da      mas n5o todos os modos de ser".
matiria, "que v5o e vim, cessam e se reno-              Assim, Bruno pode dizer que o univer-
vam", precisamente porque tudo C anima-           SO C "esferiforme" e, ao mesmo tempo, "in-
do, tudo esta vivo. A alma do mundo esta          finito". 0 conceit0 de Deus como "esfera
em cada coisa. E na alma esta presente o          que tem o centro em toda parte e a circun-
intelecto universal, fonte perene de formas       ferincia em nenhum lugar", que apareceu
que continuamente se renovam.                     pela primeira vez em tratado hermktico e
-   'I6
     -     PRmeim parte - 0tlumonismo       e n Rennscensn




    que foi tornado cClebre por Nicolau de Cusa,    necer todas as "fantasticas muralhas" dos
    serve admiravelmente a Bruno; C precisa-        cCus, tornando-os sem limites rum0 ao in-
    mente com essa base que ele opera a conci-      finito.
    liaqio j i referida.
          Deus C todo infinito e totalmente in-
    finito, pprque C todo em tudo e totalmen-
    te tambem em toda parte d o todo. Como
    efeito derivado de Deus, o universo C todo
    infinito, mas n20 totalmente infinito, por-
    que e todo em tudo, mas n i o totalmente               Na visio bruniana, a "contempla~io"
    em todas as suas partes (ou, de todo mo-        plotiniana e o tornar-se uno com o Todo
    do, n i o pode ser infinito no mod0 como        tornam-se "heroico furor".
    Deus 6, sendo causa de tudo em todas as                TambCm para Bruno trata-se de per-
    partes).                                        correr novamente, em elevaqio cognoscitiva,
          Estamos agora em condiq8es de enten-      ou seja, voltando sobre os proprios passos,
    der as raz6es da entusiastica aceitaqio da      aquela descida que do principio levou ao
    revoluqio copernicana por Giordano Bru-         principiado. Mas, em Bruno, a contempla-
    no. Com efeito, o heliocentrismo a ) har-       qio se transforma em uma forma de "divi-
    monizava-se perfeitamente com sua gnose         nizaqio", que C furor de amor, anseio de ser
    hermitica, que atribuia a o sol (simbolo do     uma so coisa com o objeto anelado, trans-
    intelecto) um significado inteiramente par-     formando desse mod0 o ixtase plotiniano
    ticular, e b) permitia-lhe romper a visio es-   em experiincia rnagica. (Ficino j i denomi-
    treita dos aristotClicos, que sustentava a      nara furor divino o amor que leva o homem
    finitude do universo, e assim fazia desva-      a "endeusar-sen ).
                                                           0 ponto central do escrito Sobre os he-
                                                    roicos furores, que C uma de suas obras-pri-
                                                    mas, explica que o proprio sentido dos "fu-
                                                    rores heroicos" esta no mito do caqador
                                                    Action, que viu Diana no banho e, de caqa-
                                                    dor, foi transformado em cervo, isto C, em
                                                    uma caqa selvagem, sendo devorado por seus
                GIORDA:                             cies. Diana C o simbolo da divindade ima-
                  N O BRVNO                         nente da natureza e ActCon simboliza o inte-
                      3yolano.                      lecto, voltado para a caqa i verdade e i bele-
                  DE G C H E R O I C 1              za divina; ja os mastins e galgos de ActCon
                     FVRORf.                        simbolizam as voliqoes (0s primeiros, que s i o
                                                    mais fortes), e os pensamentos (0s segundos,
                                                    que s i o mais velozes).
                                                           ActCon, portanto, foi convertido naqui-
                                                    lo que procurava (caqa)e seus proprios c5es
                                                    (pensamentos e voliq6es) o devoram. Por
                                                    q u i ? Porque a uerdade procurada esta em
                                                    nos mesmos e, quando descobrimos isso,
                       PARIGI,
                ApprcCTo AntonioB,~tf,
                                                    tornamo-nos anseio de nossos proprios pen-
                   k d n n o . I 5 8f.              samentos e compreendemos que "tendo ja
                                                    contraida em si a divindade, n i o era preci-
                                                    so procura-la fora de sin.
                                                           Por isso Bruno conclui: "Desse modo,
                                                    os cies, pensamentos de coisas divinas, de-
                                                    voram Action, tornando-o morto para o
                                                    vulgo, para a multidio, liberto das amar-
    Na obra-prima de Bruno Dos heroicos furores     ras dos sentidos perturbados, livrewdocar-
    esta presente o mito do ca~ador   Action,
    que depois de ter uisto Diana                   cere carnal da matiria; n5o vendo mais sua
    foi transformado em ceruo                       Diana como que atravCs de cortinas e ja-
    e dilacerudo por seus ciies.                    nelas, mas, tendo posto por terra as mura-
    Acte'on simboliza o intelecto dirigido          lhas, C agora todo olhos para o aspect0 de
    a caCa da uerdade e da beleza diuina.           todo o horizonte." N o ponto culminante
117
                      -
      Capit2410 ~e'tZm0   Vbrtices e resultados ronclusivos d o pensamento renascentista



do "heroic0 furor", o homem v@tudo in-              mente tenha entendido o sentido cientifico
teiramente todo, porque assimilou-se a esse         daquela doutrina.
                                                          Niio 6 possivel destacar o aspect0 mate-
                                                    matizante de muitos escritos brunianos, pois
                                                    a matemitica bruniana C aritmologia pita-
                                                    gorizante, sendo portanto metafisica.
                                                          Em suma, com sua visiio vitalista e
                                                    magica, Bruno niio C pensador "moderno",
                                                    no sentido de que n i o antecipa as descober-
      Bruno C certamente um dos filosofos           tas do sCculo seguinte, que nascem em ba-
mais dificeis de entender. E, no imbito da          ses totalmente diferentes.
filosofia renascentista, certamente C o mais              Entretanto, Bruno antecipa de modo
complexo. Dai as exegeses tiio diversas que         surpreendente certas posiqoes de Spinoza e,
sobre ele foram propostas.                          sobretudo, dos romsnticos. A embriaguez
      N o estado atual dos estudos, porCm,          de Deus e do infinito propria desses fil6so-
muitas conclus6es a que se chegara no pas-          fos ja esth presente em muitas piginas de
sado devem ser revistas.                            Bruno. Schelling C o pensador que mostrara
      N i o parece possivel fazer dele um pre-      (pelo menos em uma fase do seu pensamen-
cursor da revoluqiio do pensamento moder-           to) as mais fortes afinidades de opqio com
no, no sentido em que operara a revoluqiio          o nosso filosofo. E uma das obras schellin-
cientifica, porque seus interesses eram de          guianas mais belas e sugestivas intitular-se-
natureza completamente diferente: magico-           a precisamente Bruno.
religiosos e metafisicos.                                 Em seu conjunto, a obra de Bruno
      A defesa que ele fez da revoluqio             marca um dos pontos culminantes da Re-
copernicana fundamenta-se em bases total-           nascensa e, a o mesmo tempo, um dos re-
mente diferentes daquelas em que se basea-          sultados conclusivos mais significativos
ra CopCrnico, tanto que alguns chegaram             desse period0 irrepetivel do pensamento
at6 a levantar duvidas de que Bruno real-           ocidental.




     <;rord'ztzoBrum) &ante do trrl~utzaldo Santo Oficro (releuo do tnorzumerzto u Bruno, Roma).


                                                                                              -
118
        Primeira parte - O t l u m a n i s m o e    a Renascenca




                                     /

                                            Deus
                         /
                                /'

                               Uno todo e totalmente infinito                 ,

                                     em toda sua parte,
                                     Principio supremo                            I

                               e Causa incognoscivel do Todo:
                                  Mente acima das coisas




         Intelecto universal              
              For~a divina,
      faculdade da Alma d o mundo             ',
         Mente nas coisas
                                          /
                                            ,
                                            '
                                               I
                                                I




                                                               o tornar-se-uno do homem com o Todo
                                                                        C HEROICO FUROR,
                                                                            endeusamento
                                                                   (iguala@o corn a Divindade),
                                                                     Pnsia de ser-uno com a coisa
                                                                       ansiada que culmina na
                                                                   assimila@o do homem ao Todo




                                            todas as formas
                         (as estruturas dinimicas perenemente em renovaqiio)
                                              da matiria


                                Universe uno, imovel, esferiforme,
                                todo, mas n2o totalmente infinito:
               contCm inumeraveis mundos infinitos, mas em toda sua parte C finito
119
    Capitdo se'timo -   VLrtices e resultados ronclusivos d o pensamento renasrentista




                    IV. TOM?&
                            Campanella:
                                        magia
                            naturaIis~?o,
               e anseio            de reforma universal

       Nascido em Stilo, na Calabria, em 1568, e entrando com 15 anos na Ordem
dos Dominicanos, Tomas Campanella foi dominado por uma dnsia de reforma
universal, certo de ter uma missao a realizar. Sua vida aventurosa pode-se dividir
em quatro periodos:
     1) a juventude, constelada de processes por heresia e prati- A vida
cas magicas, ate o insucesso da revolta poiitica por ele organiza- e os textos
da contra a Espanha (1599);                                        mais importantes
     2) o longo cativeiro em Napoles (1599-1626), durante o qua1 + 3 1
fingiu-se louco para livrar-se da fogueira;
     3) a reabilitaqSo romana (1626-1634), tanto que teve 21 disposi~ao palhcio
                                                                           o
do Santo Oficio;
     4) as grandes honras na Fran~a,  onde fruiu dos favores de Richelieu. Morreu
em 1639.
     Entre suas obras, lembramos: A cidade do sol (1602), a Teologia em 30 livros
(1613-24), a Metafisica em 18 livros (publicada em latim em Paris, em 1638).
       0 novo significado que Campanella confere ao conhecer telesiano 6 expres-
so pela palavra "sabedoria", feita derivar de "sabor"; o sabor 4 a revelar;rio de
tudo o que ha de mais intimo na coisa pela uniao com a propria
coisa; alem disso, sabe-se aquilo que se P: viver 6 um crescer no o sentido
ser e no saber, e este mudar 6 tambem de certo mod0 morrer: da "sabedoria"
apenas mudar-se em Deus e vida eterna.                              e as tr6s
      Toda coisa e constituida pela potencia de ser, do saber de primalidades
ser, do amor de ser; estas 580 as tr@s
                                     primalidades do ser, que tem do ser
igual dignidade, ordem e origem, e d o uma imanente a outra. + 9 2 ~
Nas coisas finitas, existem tambem as tr@s  primalidades do n 7 -
                                                               c0
ser; Deus e ao inves, Potencia suprema, Sabedoria suprema, Amor supremo, e a
            ,
cria~80  repete portanto, em diferentes niveis, o esquema trinitdrio.
      0 conhecimento de si e prerrogativa nao do homem, mas de todas as coisas,
que sao todas vivas e animadas: todas as coisas d o de fato dotadas de uma sapientia
indita ou inata, que e um sensus sui, um auto-sentir-se; mas enquanto nas coisas
ordinarias o sensus sui permanece prevalentemente escondido (sensus abditus),
no homem ele pode chegar a niveis not6veis de consciencia, e em Deus se desdo-
bra por fim em toda a sua perfei~ao.
     0 conhecimento do outro diverso de si mesmo e, ao contrd- A natureza
rio, uma sapientia illata, isto e, adquirida em contato com as eoconhecimento
outras coisas, e todas as coisas falam e comunicam entre si ime- -+§ 3
diatamente, porque tudo esta em tudo. Alem da alma-espirito,
no homem ha a mente incorpdrea e divina, que tem a capacidade de conhecer,
assimilando a si mesma ao inteligivel que estS nas coisas, os modos e as formas
segundo as quais Deus as criou.
      A arte magical de que Campanella foi apaixonado cultor, tem tr@s     forlnas:
    1) divina, que Deus concede aos profetas e aos santos;
    2) natural, que se serve das propriedades ativas e passivas das coisas naturais
para produzir efeitos maravilhosos;
    3) demoniaca, que se serve dos espiritos malignos e deve ser condenada.
Desse modo, Campanella inclui na magia todas as artes, as inven~des as
                                                                         e
 descobertas, mas esta em todo caso convict0 de que a maior a@o magica huma-
 na consiste em dar leis aos homens. A Cidade do sol representa
 assim a suma das aspiracbes de Campanella: d6 voz a sua insia A magia
 de reforma do mundo e de libertaqao dos males que o afligem,
 fazendo uso dos poderosos instrumentos da magia e da astro-       5-6
                                                                      do         EiZade
 logia.
                                                                                 +




      A vida e as obvas                               obras com forqa irrefreavel, como urn vul-
                                                      ciio em erupqiio.
                                                            Submetido a torturas e muitas vezes
                                                      preso, escapou da condenaqiio A morte fin-
     0 pensamento renascentista se conclui            gindo perfeitamente estar louco. Foi por isso
com Tomas Campanella.                                 que niio acabou na fogueira, como Bruno,
     Nascido em Stilo, na Calibira, em 1568,          e, depois de ter passado quase a metade de
Campanella ingressou na ordem dos domi-               sua vida na priszo, conseguiu lentamente
nicanos aos quinze anos (seu nome de batis-           readquirir credibilidade, que reconstituiu
mo era Giandomenico, mudado para Tomas                com incansavel fadiga cotidiana. Por fim,
em homenagem a santo Tomis de Aquino                  inesperados triunfos na Franqa coroaram
quando ingressou no convento).                        sua turbulenta existsncia.
     Ele se assemelha a Bruno em muitos                     Siio quatro os periodos que se podem
aspectos. Mago e astrologo, dominado por              distinguir nessa vida verdadeiramente ro-
grande anseio de reforma universal, convic-           mancesca: 1) o da juventude, que se con-
to de que tinha uma miss50 a cumprir, infa-           cluiu com a falsncia de uma revolta politica
tigavel em sua obra, extraordinariamente              organizada por ele contra a Espanha; 2) o
culto e capaz de escrever e reescrever suas           do longuissimo encarceramento em Napo-
                                                      les; 3 ) o da reabilitaqiio romana; 4) o das
                                                      grandes homenagens francesas.
                                                            Percorreremos brevemente essas eta-
                                                      pas, bastante significativas.
                                                            1) 0 period0 da juventude foi muito
                                                      aventuroso. Insatisfeito com o aristotelismo
                                                      e o tomismo, leu varios filosofos (tanto an-
                                                      tigos como modernos) e escritos orientais.
                                                      A indisci~linados rnosteiros dominicanos
                                                      meridionais permitiu-lhe freqiientar em
                                                      Nipoles o cultor de rnagia Giambattista
                                                      Della Porta. Em 1591, sofreu um primeiro
                                                      process0 por heresia e priticas magicas. Fi-
                                                      cou poucos meses na prisiio e, ao sair, ao
                                                      invks de retornar aos mosteiros de sua pro-
                                                      vincia, contrariando o que lhe fora ordena-
                                                      do, partiu para Padua, onde, entre outros,
                                                      conheceu Galileu.
                                                            Seguiram-se trcs outros processos: um
                                                      em Padua (1592) e dois em Roma (1596 e
                                                       1597). Por fim, foi obrigado a retornar a
Tomas Campanella (1568-1 6 39)                         Stilo, com a proibiqiio de pregar e confessar
foi a ultima das grandes figuras                      e com a funqiio de esclarecer a ort'odoxia
de pensadores renascentistas.                          dos seus escritos.
Tentou fundrr metafiszca, teologra, magra e utopra.
F o l reahllrtado, depors de longos anos de prrsao,
                                                             Mas seus anseios de renovaciio. os so-
                                                                                          >   ,


quarrdo o pensamento europeu                           nhos de reformas religiosas e politicas e as
estaua 16 dlreczonado                                 visBes de tip0 messiiinico, exaltadas por suas
para camrnhos totalmente tfzferentes rfos scws.        concepq6es astrologicas, levaram-no a tra-
121
      Capitdo setzmo -   VCrtices e ~ e s u l t a d o s
                                                      conclusivos d o pensamento renascrntista




m a r e pregar uma revolta contra a Espanha,        em dezoito livros (dos quais Campanella fez
que deveria constituir o inicio de seu gran-        nada menos do que cinco redaqties, das
dioso projeto. PorCm, em 1559, traido por           quais possuimos a latina, publicada em
dois c o n ~ ~ i r a d o r eCampanella foi preso,
                            s,                      1638, em Paris), e a Teologia, em trinta li-
encarcerado e condenado 21 morte.                   vros (1613-1624).
       2 ) Inicia-se assim o segundo periodo.             Encarcerado durante os melhores anos
Como ja observamos, Campanella salvou-              de sua vida, Campanella niio p6de criar dis-
se da morte com uma habil simulaqiio de             cipulos. E quando, na Franga, passou a go-
loucura, que soube sustentar com heroica            zar do reconhecimento que antes Ihe fora
firmeza diante dos testes de confirmagiio           negado, ja era muito tarde para isso, pois
mais duros e cruiis. A condenaqiio a morte          seu pensamento j6 era fruto fora de esta-
foi transformada em prisiio perpktua. Sua           giio. Descartes dominava entiio a cena inte-
prisiio, que durou nada menos que vinte e           lectual e as vanguardas estavam com ele.
sete anos, inicialmente foi durissima, mas
depois tornou-se pouco a pouco toleravel,
at6 tornar-se quase formal. Campanella po-
dia escrever seus livros, trocar correspon-
dEncia e at6 receber visitas.
       3 ) Em 1626, o rei da Espanha mandou
liberta-lo, mas sua liberdade durou muito                  e o vepensamento
pouco, porque o nuncio apostolico mandou                   do   sensismo telesiano
~rendG-lo novo, transferindo-o para Ro-
              de
ma, nos carceres do Santo Oficio. Mas aqui
a sorte de Campanella mudou radicalmen-                    Campanella comeqou sendo telesiano,
te, em virtude da proteqiio de Urbano VIII,         mas logo a seu proprio modo. Para ele, a
tanto que, em vez do carcere, Campanella            mensagem de TelCsio significa, atravis dos
teve a sua disposiqiio nada menos que o pa-         sentidos, um contato direto com a nature-
lacio do Santo Oficio.                              za, unica fonte de conhecimento, e, portan-
       Enquanto esteve preso em Nipoles, seus       to, ruptura com a cultura livresca.
designios politicos se haviam orientado para               A Carta a D o m Ant6nio Quarengo, de
a Espanha, considerada como a potEncia que          1607, muito bela e justamente famosa, con-
teria condigties de realizar a sonhada "refor-      tCm como que um manifesto, que nos mos-
ma universal" (dai a sua libertaqiio). Mas,         tra algumas das idiias programiticas essen-
em Roma, Campanella tornou-se filofran-             ciais de Campanella. Assim, vamos destacar
ces. Por essa raziio, tendo sido descoberta,        dois trechos mais importantes.
em Napoles, uma conjura contra os espanhois                "Eis, portanto, o meu filosofar, diver-
em 1634, organizada por um discipulo de             so em relaqiio ao de Pico; eu aprendo mais
 Campanella, o nosso filosofo foi injustamente      com a anatomia de uma formiga ou de uma
considerado co-responsavel, tendo por isso          erva (sem falar na do mundo, admirabilis-
 de fugir para Paris, sob a proteqiio do em-        sima) do que com todos os livros que foram
 baixador franc&.                                   escritos do principio do sCculo at6 hoje, de-
       4 ) A partir de 1634, Campanella viveu       pois que aprendi a filosofar e a ler o livro de
 momentos de gloria em Paris, admirado e            Deus, em cujo modelo corrijo os livros hu-
 reverenciado por muitos doutos e nobres.           manos, inabilmente copiados ao bel-prazer
 0 rei Luis XI11 concedeu-lhe otima c8ngrua          e niio segundo o que esta no universo, livro
 e ele chegou a gozar dos favores do pode-           original. E isso fez-me ler todos os autores
 rosissimo Richelieu. 0 seu falecimento ocor-       com facilidade e guarda-10s na memoria, da
 reu em 1639, enquanto procurava em viio             qua1 grande dom me fez o Altissimo, mas
 manter a morte distante. com suas artes             muito mais ainda ensinando-me a julga-10s
 magico-astrologicas.                                com o modelo do seu original".
        Entre os seus numerosos escritos, re-              "Eu o [Pico] consider0 um grande ho-
 cordamos: Philosophia sensibus demons-              mem mais por aquilo que deveria fazer do
 trata (1591), D o sentido das coisas e da           que pel0 que fez. Se bem que creio niio ape-
 magia (1604),Apologia pro Galileu (1616,            nas nele, mas tambim em qualquer outro
 publicada em 1622), Epilogo magno (1604-            g&nioque me seja testemunha daquilo que
 1609),A Cidade d o so1 (1602),o Atheismus           se aprende na escola da natureza e da arte,
 triumphatus (1 I),a imponente Metafisica,
                    63                               enquanto harmonizam com a primeira a
.
.   .
    .   .
            122      Primeira parte - 0t l ~ r n a n i s r n ~a R e n a s c e n c a
                                                           e




                 [AD D l VVM Y E T R V M ~
                                                                                 Em suas reflex6es sobre o conhecimento,
                                                                           que se encontram no primeiro livro da Me-
                 ATHEISMVS TRIVMPHATVS                                     tafisica, Campanella apresenta uma refuta-
                                         Seu                               qiio do ceticismo, baseando-se na autocons-
                 REDVCTIO AD RELIGIONEM                                    cicncia, muito considerada postumamente
                     PER S C I E N T I A R V M V E R I T A T E S .         pelos intCrpretes, que nela encontraram sur-
                 F. T H O M X C A M P A N E L L d STYLENSIS                preendentes analogias com a teoria tornada
                         ORDINIS PRAEDICATORVM.                            cClebre por Descartes no Discurso sobre o
                                                                           me'todo, que C de 1637, ao passo que a Meta-
                                     C O N T R A
                 ANTICHRlSTl ANISMVM ACHITOPHF,LLISTlCVM             .     fisica de Campanella, como ja dissemos, foi
                           Sexu Tomi Pars Prima.
                                                                           publicada em Paris um ano depois, mas ja
                                                                           havia sido elaborada alguns anos antes.
                                                                                 A descoberta cartesiana (de que fala-
                                                                           remos mais longamente adiante) teria sido
                                                                           entiio antecipada por Campanella?
                                                                                 As analogias com Descartes existem,
                                                                           mas mostram-se movidas por exigzncias di-
                                                                           ferentes e, sobretudo, se inserem em uma vi-
                                                                           siio metafisica pan-psiquista geral da reali-
                                                                           dade, que chega, inclusive, a se opor i de
                                                                           Descartes.
                                                                                 Para Campanella, o conhecimento de
                                                                           si niio 6 prerrogativa do homem enquanto
                                                                           pensamento, mas de todas as coisas, que siio
                                                                           (todas elas, sem exceqiio) vivas e animadas.
            Frontispicio da primeira edi~ao                                Com efeito, para ele, todas as coisas siio
            do theismu us triumphatus, de Toma's Campanella.               dotadas de uma "sapientia indita" ou ina-
                                                                           ta, pela qua1 sabem que existem e que estiio
                                                                           ligadas a seu proprio ser ("amam" seu pro-
            IdCia e o Verbo, da qua1 dependem. Mas,                        prio ser). Esse autoconhecimento C urn "sen-
            quando os homens falam como opinantes                          sus sui ", um auto-sentir-se.
            das escolas humanas, considero-os iguais e                           0 conhecimento que toda coisa tem do
            sem sequelas, pois santo Agostinho e Lactiin-                  que C diferente de si C "sapientia illata", isto
            cio negaram os antipodas com argumentos                        C, aquela que se adquire no contato com as
            e por opiniiio, mas um marinheiro os tornou                    outras coisas. Cada coisa C modificada pela
            mentirosos ao testemunhar de visu (...)."                      outra e de certa forma se transforma, "alie-
                  Filosofar, portanto, i aprender a ler "o                 nando-sen na outra. Quem sente niio sente
            livro de Deus", a criaqiio, de visu e direta-                  o calor, mas a si mesmo modificado pelo
            mente, ou melhor, como ele proprio diz, por                    calor; niio percebe a cor, mas, por assim di-
            tactum intrinsecum, tornando-se urn so com                     zer, a si mesmo colorido.
            as coisas.                                                           A conscihcia "inata" que toda coisa
                  0 s estudiosos realqaram freqiiente-                     tem de si C ofuscada pel0 conhecimento que
            mente o fato de que o novo significado que                     se acrescenta (superaddita), de mod0 que a au-
            Campanella confere ao conhecimento, en-                        toconscihcia (consequentemente) se trans-
            tendido sensisticamente, C simbolicamente                      forma quase em um sensus abditus, ou seja,
            express0 pela interpretaqiio que ele dii da                     "oculto" dos conhecimentos que sobrevem.
            palavra "sapihcia", que derivaria de "sa-                      Nas coisas, o sensus sui permanece predo-
            born (sapore em italiano) ("dos sabores que                     minantemente oculto; no homem, pode al-
            o gosto saboreia").                                             canqar niveis notiveis de consciCncia; em
                  0 gosto implica um tornar-se intimo                       Deus, se desdobra em toda a sua perfeiqiio.
            das coisas, pois o sabor C a revelaqiio de tudo                       AlCm da alma-espirito, devemos destacar
            o que ha de mais intimo na coisa, atraves                       que Campanella tambCm reconhece no ho-
            da uniiio com essa coisa.                                       mem a mente incorporea e divina. TelCsio j4
123
      Capitulo sttimo -    V C r t i c e s e r e s u l t a d o s concl~zsivos o p e n s a m e n t o r e n a s c e n t i s t a
                                                                             d



o havia feito. Mas Cam~anella   confere a men-                         Obviamente, pode-se falar tambCm de
te um papel de importhcia-muitomaior, tan-                       "primalidades do n5o-ser", que s5o a "im-
to que chega atC mesmo, segundo as doutri-                       potincia", a "insipiincia" e o "odio". Elas
nas neoplathicas, a atribuir-lhe a capacidade                    constituem as coisas finitas, enquanto toda
de conhecer, assimilando-se ao inteligivel que                   coisa finita C potincia, mas n i o de tudo aqui-
h i nas coisas, os modos e as formas (as idCias                  lo que C possivel; conhece, mas n5o conhece
eternas) segundo os quais Deus as criou.                         tudo aquilo que C cognoscivel; ama e, ao
        Nessa doutrina ha um ponto que, por                      mesmo tempo, odeia.
sua originalidade, merece particular relevo.                           Deus, por seu turno, C Potincia supre-
0 conhecimento 6, ao mesmo tempo, perda                          ma, Sapiincia suprema e Amor supremo.
e aquisiqio: C aquisi@o precisamente atra-                             Assim, em diferentes niveis, a cria@o re-
vCs da perda. Ser C saber. Sabe-se aquilo que                    Pete o esquema trinitario. Trata-se de urna dou-
se C (e aquilo que se faz): "Quem C tudo sabe                    trina de ginese agostiniana, que Campanel-
tudo; quem C pouco, sabe pouco." Conhe-                          la amplia em sentido pan-psiquista.
cendo, nos nos "alienamos", dilatamos nos-
so ser. Eis um dos textos mais simificativos:
                                  "
"[ ...I todos os cognoscentes s50 alienados do
seu proprio ser, como se acabassem na lou-
cura e na morte; nos estamos no reino da
morte." Este tip0 de morte, porCm, em certo
sentido, C como o da sFmente que, justamen-                            Ainda urna vez partindo de Telisio e
te morrendo, cresce. E um crescer no ser. E                      de sua doutrina da animaq5o universal das
Campanella prossegue: "E o aprender e o                          coisas, Campanella vai muito mais alCm,
conhecer. sendo transformar-se na natureza                       n50 apenas se movendo na diresio concei-
do cognoscivel, s5o tambCm urna espCcie de                       tual dos neoplat6nicos, mas a ela mesclan-
morte; so o transformar-se em Deus C vida                        do visoes nascidas de sua vivida e densa
eterna, porque n5o se perde o ser no infinito                    fantasia, formulando desse mod0 urna
mar do ser, mas se magnifica".                                   doutrina animistico-magica levada ao ex-
                                                                 tremo.
                                                                       Segundo Campanella, as coisas falam
                                                                 e se comunicam entre si diretamente. En-
      P metafisica                                              viando os seus raios, as estrelas comunicam
                     ,I.                                         "seus conhecimentos". Ademais, os metais
      campanelliana:
                                                                 e as pedras "se nutrem e crescem, mudando
      a s t r s s " p r i m a l i d a d e s " d o ser            o solo onde inicialmente nascem com a aju-
                                                                 da do sol, bem como as ervas em licor, que
                                                                 puxam para si pelas suas veias, onde os dia-
     Entendido como o entende Campa-                             mantes crescem em pirsmides e os cristais
nella, o conhecimento C revelador da estru-                      em figura cubica (...)".
tura das coisas, de sua "essenciasio", como                            Para ele, ha plantas cujos frutos tor-
diz nosso filosofo. Toda coisa C constituida                     nam-se passaros.
"pela potBncia de ser, pelo saber de ser e                             Ha urna "gerag50 espontinea" de to-
pel0 amor de ser".                                               dos os viventes, inclusive dos superiores,
     Essas s5o as "primalidades do ser",                         porque tudo est6 em tudo e, portanto, tudo
que, de certo modo, correspondem hquilo                          pode derivar de tudo.
que eram os transcendentais na ontologia                               No que se refere h arte magica, Cam-
medieval.                                                        panella nela distingue tris formas: 1)a divi-
     A medida que pode ser, todo ente 1)C                        nu; 2) a natural; 3) a demoniaca.
"potincia" de ser; 2) alCm disso, tudo aqui-                           A primeira C a que Deus concede aos
lo que pode ser "sabe" tambCm que C 3) e,
                                        ;                        profetas e santos.
se sabe que C, "ama" seu proprio ser. Isso                             A ultima C a que se vale da arte dos
prova-se pel0 fato de que, se n i o soubesse                     espiritos malignos, sendo condenada por
que C, n i o fugiria daquilo que o prejudica e                   Campanella.
destroi.                                                               A segunda, a natural, "6 arte pratica
      As tr&s "primalidades" s i o iguais em                     que se serve das propriedades ativas e passi-
dignidade, ordem e origem: urna "imane",                         vas das coisas naturais para produzir efei-
ou seja, esta presente na outra e vice-versa.                    tos maravilhosos e insolitos, dos quais, no
124
       Primeira parte - 0t l u m a n i s m ~ a Renascenca
                                           e



mais das vezes, se ignoram a causa e o mod0       dos no espiritual e no temporal". 0 s princi-
de provoca-10s ( ...)".                           pes que o assistem chamam-se Pon, Sin e
     Nessa linha, Campanella amplia em            Mor, que significam "Potencia, Sapicncia e
sentido pan-magistico a magia natural, a          Amor" (ou seja, representam as "prima-
ponto de nela inserir todas as artes, inven-      lidades" do ser), cada qua1 desenvolvendo
qdes e descobertas, como a invenqi o da im-       funqdes adequadas ao seu nome.
prensa e da polvora, entre outras.                      Todos os circulos de muralhas cont&m
     0 s proprios oradores e poetas en-           inscriq6es, apresentando representaq6es pre-
tram na relaqio dos magos: "sio magos se-         cisas tanto no interior como externamente,
gundos".                                          de mod0 a fixar todas as imagens-simbolos
     Mas, conclui Campanella, "a maior aqio       de todas as coisas e dos acontecimentos do
magica do homem i dar leis aos homens".           mundo. Na parte externa do ultimo circulo
                                                  figuram "todos os inventores das leis, das
                                                  cihcias e das armas" e, alCm disso, "em
                                                  lugar de muita honra estavam Jesus Cristo
      fi "Cidade do Sol''                         e os doze apostolos [..Iy'.
                                                        Nessa cidade, todos os bens siio co-
                                                  muns (corno na Republics de Platiio).
                                                        As virtudes, alCm disso, ostentam a vi-
      Desse modo, estamos agora em condi-         t6ria sobre os vicios, tanto que s i o magis-
qdes de compreender a "Cidade do Sol" e           trados que presidem as virtudes e levam os
seu significado: ela representa a soma das        seus nomes.
aspiraqdes de Campanella e verbaliza seus               Por essas caracteristicas, pode-se ver
anseios de reforma do mundo e de liberta-         que se trata de urna "cidade magican (e os
     dos males que o afligem, fazendo uso         estudiosos apresentaram inclusive um mo-
dos poderosos instrumentos da magia e da          delo, em urna conhe~idaobra de magia
astrologia. Assim, t como que um cadinho          intitulada Picatrix). E urna cidade cons-
de motivos no aual estio contidas todas as        truida de mod0 a captar toda a influencia
aspiraqdes da Renascenqa.                         benifica dos astros em todos os seus parti-
      Eis, entio, urna breve descriqio da ci-     culares.
dade do sol.                                            Mas est6 presente tambim todo o cri-
      A cidade ergue-se sobre um vale que         sol sincretista renascentista. Jii falamos so-
domina vasta planicie, sendo dividida em          bre a influencia de Platio. Mas, alim dis-
"sete grandes circulos, denominados com o         so, como diz Campanella, os habitantes da
nome dos sete planetas, entrando de um para       cidade "louvam Ptolomeu e admiram
o outro atravks de quatro estradas e quatro       Copirnico" e (corno jii sabemos) %O ini-
portas, situadas nos quatro respectivos i n -     migos de Aristoteles, chamando-o de pe-
gulos do mundo". Acima do vale, surge um          dante".
templo redondo, sem muralhas em torno,                  A filosofia que eles professam, natu-
mas "situado sobre colunas grossas e bas-         ralmente, C a de Campanella. Sua expecta-
tante belas". A cupula tem urna cupula me-        tiva messiinica i muito forte: "Acreditam
nor, com urna espiral que "pende sobre o          ser verdadeiro aquilo que disse Cristo sobre
altar", que esta no centro.                       os sinais das estrelas, do sol e da lua, que
      Sobre o altar, "nada mais h i do que        niio parecem verdadeiros para os tolos, mas
um mapa-mundi bem grande, onde esta pin-          que virio, como o ladrio A noite, no fim
tad0 todo o c h , alCm de outro, onde est6 a      das coisas. Por isso, esperam a renovaq20
terra. No ciu da cupula estiio todas as maio-     do se'culo e talvez o fim."
res estrelas do cCu. tendo inscritos os seus
nomes e as virtudes aue tern sobre as coisas
terrenas, com tres versos para cada urna (...),
havendo sempre sete liimpadas acesas, com
os nomes dos sete planetas".
      A cidade C dirigida por um principe-
sacerdote chamado Sol, que Campanella                  As avaliaqdes do pensamento de Cam-
indica nos manuscritos com o sinal astrol6-       panella siio muito contrastantes. N i o se
gico, especificando que "em nossa lingua          pode dizer que suas obras sejam conhecidas
dizemos Metafisico". Ele i o "chefe de to-        e estudadas a fundo como mereceriam.
AlCm de sua tumultuada vida, isso tam-         0 ultimo period0 de sua vida, a fase
bCm deriva do fato de que nosso filosofo,     parisiense, C emblemitica. Foi homenagea-
como j dissemos, representa em parte um
       i                                      do por aqueles que estavam voltados para
fruto que amadurecei fora de Cpoca.           o passado e para o presente imediato, mas
                                              foi desprezado ou ate mesmo rejeitado por
                                              aqueles que olhavam para o futuro.
                                                    0 teologo Mersenne (1588-1648), que
                                              o encontrou e conversou longamente com
                                              ele, escreveu categoricamente: " [ ...I ele n5o
                                              pode nos ensinar nada em materia de ciin-
                                              cia." Descartes n2o quis receber a visita de
                                              Campanella na Holanda, a ele proposta por
                                              Mersenne, respondendo que tudo o que sa-
                                              bia dele ja era suficiente para fazi-lo dese-
                                              jar nada mais saber.
                                                    Com efeito, Campanella era um sobre-
                                              vivente: a ultima das grandes figuras renas-
                                              centistas. Um homem que viveu sua vida sob
                                              o signo de um destino de miss50 e de total
                                              renovagiio, como ele proprio propunha sig-
                                              nificativamente neste soneto:

                                              "Nasci para debelar tris males extremos:
                                                tiranias, sofismas, hipocrisias,
                                                pel0 que me conform0 com toda a har-
                                                monia
                                              Potincia, Sabedoria e Amor que me ensi-
                                                nou Timis.
                                              Esses principios s5o verdadeiros e supremos
                                                da grande filosofia descoberta,
                                                remedio contra a trina mentira
                                                sob a qual, 6 mundo, chorando tremes.
126      Primeira parte - O t l u m o n i s m a                 e a Renascenca



                                 &y&&@qQ*Wt&.              :'
                                 .. .i   i
                                                 *   CAMPANELLA
                                 OS FUNDAMENTOS DA METAF~ICA


                                                          Deus i
                         /   '           Ente por esshcia, de mod0 eminentissimo:
                     1                             1. PotBncia suprema
                 /                                 2. Sabedoria suprema
                                                   3. Amor supremo
                     
                                                             -
                                                    As trSs Primalidades divinas




                         Da superabundiincia divina emana o Amor que i causa
                                                do Bem,
                               e das idiias eternas de Deus deriva assim


                                                                         1
                                              ,
                                         _,           o ente criado (essenciado),

                     i                                constituido intrinsecamente de:
                                                             1. potincia de ser
                     i                                       2. saber de ser
                                                            3. amor de ser
                         
                                 -                                       -
                                                                         -
                                             as tr2s primalidades imanentes uma na outra
                                             1




                                                       F                              
                    0 homem.                                                         Toda coisa C animada e.
              al&mda aha-espirito                                            segundo o pr6prio grau de ser, possui:
         (substincia corporea sutilissima),                                  a ) conhecimento de si: sapientia indita
                  tambim possui                                                        ("inata": sensus mi)
           a mente incorporea e diuina,
        capaz de assimilar-se ao inteligivel                         I
                                                                                 b) conhecimento das outras coisas:
                                                                     1                 sapientia illata (addita)
               que existe nas coisas




      Com efeito, enquanto nas outras coisas o sensus sui permanece prevalentemente escondido
                                          (sensus abditus),
                   o homem pode chegar a conhecer a si mesmo e as outras coisas
                     segundo as idCias mediante as quais Deus criou o universo
Capitdo se'timo - V&rtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista

                                                   riamos dizer multo bem que tal parte & igual a
                                                   seu todo. E isto se prova com o zero ou nada,
                                                   isto 6 , a dhcima figura do aritmhtica, pela qua1
                                                   se figura um 0 para esse nada; o qual, posto
                                                   depois da unidade, Ihe far6 dizer dez, e se pu-
                                                   sera dois depois de tal unidade, dir6 cem, e
                                                   assim infinitamente crescer6 sempre dez vezes
                                                   o numero onde ele for acrescentado; e ele em
                                                   si ndo vale mais que nada, e todos os nadas
      leonordo foi grondksirno ortista e pen-      do universo sdo iguais a um so nada quanto a
 sodor sm sentido univsrsol. €Is rsprssento        sua substBncia e valor. Nenhuma investigagbo
 portonto, ds modo emblemdtico, o homem            humana pods-se dizer verdadeira ci&ncia, se
 universal do Rsnoscenp                            ela n6o passar pelas demonstragdes matemn-
      Como psnsodor, laonordo n60 0 siste-         ticas; e se disseres que as cl&ncias,qua princi-
 mdtico: seus codernos s6o fragmsntdrios s         piam e terminam na mente, t&m verdade, isto
 frsqusntements desorgonizodos, mos con-           n60 se concede, mas se nega por muitas ra-
 t&mpensomentos recorrsntes de notdvsl im-         zdes; a0 contr6ri0, em tais discursos mentais
 portdncio a prC-intuig6esgsniais.                 ndo ocorre experi&ncia, sem a qua1 nada d6
      Ss as carocteri'sticos definitivas do        certeza de si.
 ci8ncio moderno n8o @st60  nala oinda ple-
 nornente desenvolvidos, C porCm inagd-            2. A utilidade da ci8ncia em geral,
 vel qus olgumos destos coroctsrktico~    fun-        e da pintura em particular
 dornsntois porspm dslinaor-se oo msnos
 sm nivel embriondrio e, por vezes, j d de               A ci&ncia & mais util quando seu fruto &
 modo bostonte cloro, como os ssguintes            mais comunic6vel e, ao contr6ri0, menos util
 possagsns mostrom.                                quando d menos comunic6vel. A pintura tem seu
                                                   fim comunic6vel a todas as geraq3es do univer-
                                                   so, porque seu fim 6 sujeito da virtude visiva, e
                                                   ndo passa pelo ouvido ao sentido comum do
                                                   mesmo modo como passa pelo ver. Esta, por-
      Ci&ncia diz-se o discurso mental que tem     tanto, ndo tem necessidade de intbrpretes de
origem de seus principios Ijltimos, dos quais em   diversas linguas, como o t&m as letras, e logo
natureza nenhuma outra coisa se pode encon-        satisfez a esp&cie humana, de forma ndo dife-
trar que seja parte dessa cihncia, como na quan-   rente como sdo feitas as coisas produzidas pela
tidade continua, isto 6, a cl&ncio de geometria,   natureza. En6o openas a esphcia humana, mas
a qual, comepndo pela superficie dos corpos,       os outros animais, como se manifestou em uma
descobre-se como tendo origem na linha, ter-       pintura representada por um pai de familia, na
mo desta superficie; e com isto ndo permane-       qua1 eram acariciados os filhinhos beb&s, que
cemos satisfeitos, porque conhecemos que a         ainda estavam enfaixados, e da mesma for-
linha tem seu termo no ponto, e que o ponto &      ma o faziam o c6o e a goto do mesma casa,
aqu~lo qua1 nenhuma outra coisa pode ser
        do                                         um espet6culo tal que era coisa maravilhosa
menor. 0 ponto, portanto, & o primeiro princi-     de se ver.
pio do geometria; e nenhuma outra coisa pode             R pintura represento no sentho com mois
exlstir na natureza ou na msnte humana que         vsrdade s certsza as obras da natureza, do que
possa dar inicio ao ponto. Porque se falares       as palavras ou as letras, mas as letras repre-
qua o contato feito sobre uma superficie por       sentam com mais verdade as palavras ao sen-
uma ultimo acuidade da ponta da caneta & a         tido, do que a p~ntura. Mas dizemos que & mais
cria~do ponto, lsto n60 & verdadeiro; dire-
         do                                        admirClvel a ci&nciaque representa as obras da
mos, porhm, que tal contato & uma superficie       natureza, do que a que representa as obras do
que c~rcunda   seu melo, e nesse meio est6 a       operodor, isto 8 , as obras dos homens, que sdo
resid&ncia do ponto, e tal ponto ndo & do ma-      as palavras, como a poesia, e semelhantes, que
t&ria dessa superficie, nem de, nem todos os       passom pela lingua humana.
pontos do universo sdo em pot&ncia ainda que
estivessem unidos, nem, dado que se pudes-         3. Ciincias mec6nicas e ci8ncias n60 mec6nicas
sem unir, comportariam parte alguma de uma
superficie. E dado que imaginasses um todo              Dizem ser mecBnica a cognigdo parturida
como compost0 de mil pontos, aqui, dividindo       pela exper~&ncia, ser cientifica a que nasce
                                                                   e
alguma parte dessa quantidade de mil, pode-        e termina na mente, e ser sem1mec6nicaa
Prirneira parte - 0 t l u m a n i s m o   e a Renascenca



que nasce do ci&ncia e termina na OPGTQ<~O               quantidade descontinua e continua. Rqui ndo
manual. Todavia, parece-me que sejam vds                 se arguir6 que duas vezes tr&s seja mais ou
e cheias de erros as ci&ncias que ndo nas-               menos seis, nem que um tridngulo tenha seus
ceram da expsriBncia, mde de toda certeza, e             6ngulos menores do qua dois 6ngulos retos,
que ndo terminam em experi6ncia conhecida,               mas com eterno sil&ncio permanece eliminada
isto 6, que sua origem, ou meio, ou fim, ndo             toda argui~do,e com paz sdo fruidas pelos
passam por nqnhum dos cinco sentidos. E se               seus devotos, o que ndo o podem fazer as
duvidamos da certeza de coda coisa que                   mentirosas ci&ncias mentais. E se disseres que
passa pelos sentidos, com muito maior razdo              tais ci&ncias verdadeiras e conhecidos s60
devemos duvidar das coisas rebeldes a es-                esphcies de mecdnicas, apesar de so pode-
ses sentidos, como a aus&ncia de Deus e                  rem terminar manualmente, direi o mesmo de
da alma e coisas semelhantes, pelas quais                todas as artes que passam pelas mdos dos
sempre se disputa e briga. E verdadeiramen-              escritores, que s6o esp6cie de desenho, rnem-
te ocorre qua sempre onde falta a razdo su-              bro da pintura; e a astrologia e as outras pas-
prem os gritos, o que ndo acontece nas coisas            sam pelas opsra<bes manuais, mas primeiro
certas.                                                  sdo mentais como a pintura, que prlmelro exis-
      Por ISSO, diremos que onde se grita ndo            te na mente de seu especulador, e ndo pode
h6 verdadeira ci&ncia, porque a verdade tem              chegar a sua psrfei~do      sem a opera@o ma-
um so termo que, ao ser publicado, o litigio             nual; essa pintura, do quol seus cientificos e
permanece para sempre destruido, e se o li-              verdadeiros principios primeiro colocam o que
tigio ressurge, ela B ci&ncia mentirosa e con-           Q corpo sombrio, e o que Q sombra primitiva e
Fusa, e nBo certeza renascida. Mas as ci&n-              som6ra derivativa, e o que 6 lume, ~sto , tre-
                                                                                                   6
cias verdadeiras sdo as qug a esperanp fez               vas, luz, cor, corpo, figura, lugar, rsmo@o, pro-
penetrar pelos sentidos e silenciam a lingua             ximidade, movimento e repouso, os quais ape-
dos litigantes, e que ndo alimentam de so-               nas s60 compreendidos pela mente sem
nhos seus investigadores, mas sempre pro-                operqdo manual; e esta ssr6 a c~&ncia         da
 cedem sucessivamente sobre os primeiros                 p~ntura,  que permanece na mente dos que a
verdadeiros e conhecidos principios e com                contemplam, da qua1 nasce depois a opera-
verdadeiras sequ&ncias at6 o fim, como ve-               $10, muito mais digna do que a predita con-
 mos nas primsiras matem6ticas, isto 6, nu-               templa<do ou ci&ncia.
 mero e msdida, chamodas oritm6tica s geo-                                                Leonardo da V i m .
 metrla, que tratam com sumo verdade do                            Trotado do pmtura. I. § 1 , 3. 29. s II. § 77




                                                         Leonardo da Vzncr,
                                                         estudos sohre a durqiio du per~cp+ao      vrsud,
                                                         dtzca, prospectrcu ( d o Cod~cc   Atlcint~co).
                                                         Leonardo se servza habrtuul~nente
                                                         de ulna escvzturu "rnvcrtrda ",
                                                         rsto e', da dzreztu para LI esquerdu,
                                                         e apenas esporadzcamerztc
                                                                                         a
                                                         ein sum notas en~ontravzos escrrtuva "drrc~tiz      ".
                                                         A explzcaCdomurs f i c ~ iest~i fato
                                                                                         no
                                                         de que ele era curzhoto,
                                                         mas na reulzdude este inodo hrz~2rro L'SC vltuiil
                                                                                                 d~
                                                         correspondla a seu carater esqz4z110e s o h r r o ,
                                                         atento para defender-se de curzosrdudes ~tzdrscrc~tus
                                                         A o espelho seus textos se lienz,
                                                         salvo dzficctldades mznrmas,
                                                         como qualquer outro manuscurto.
12
      Capitdo se'tirno -   Vkrtices                          do
                                      e resultados con~lusivos pensamento renascentista



                                                    dos quais vemos que o mundo & constituido,
                                                    atribuiram ndo a grandeza e posi~60, u se  q       ~
                                                    v& que obtiveram, nem a dignidade e as for-
                                                    Gas, das quais vemos que sdo dotados, mas
                                                    aquelas das quais teriam devido ser dotados
                                                    conforme os ditames de sua razdo. Ou seja,
                                                    nBo era necess6rio que os homens satisfizes-
     A noturszo                                     sem a si mesmos e ensoberbecessem at6 o
     dsvs ssr sxplicoda                             ponto de atribuir (corno que antecipando a na-
     segundo seus principios                        tureza e afetando ndo so a sabedoria mas tam-
                                                    b6m a pot&ncia de Deus) as coisas as pro-
                                                    priedades qua eles ndo tinham visto qua eram
       Nests trscho, tirado do Pro&mio do De        a elas inerentes, e qua, oo contrbrio, deviam
 rerum natura iuxta propria principia, Tsldsio      ser absolutamente tiradas das coisas. Nos, por-
 ilustro o "outonomio"do fkico sm relogdo a         que nBo tivemos tanta confiansa em nos mes-
 todo outro pasqu~so ndo se otsnho oos
                       qus                          mos, s uma vez que somos dotados de um
 principios peculiores do noturszo, mos pro-        engenho mais lento e de um dnimo mais d6-
 cure ultrapossd-10sporo indwiduor principios       bil, e porque somos amantes e cultores de urna
 tronscendentss. No reol~dods,el@ndo                sabedoria completamente humana (a qua1
 n a p o sxist&ncio do tronscsndante, mos           certamente sempre deve parecer que tenha
 coloco tudo oquilo que estt, ligodo oo             chegado a0 6pice de suas possibilidades,caso
 tronscendente Fora da pesquisa fis~cado            tenha conseguido perceber as coisas que o
 natureza.                                          sentido manifestou e as que se podem ex-
       R sstruturo do mundo, e o grondezo e         trair do semelhan<acom as coisas percebidas
 naturszo dos corpos qua els contbm, ndo            com o sentido), nos nos propusemos a
 dsve ssr pssquisodo com o rozdo obstroto,          pesquisar apenas o mundo e suas singulares
 como o Fizsrom os ontigos, mos dsve ser cop-       partes e as paixbes, ag3es, opera@es e as-
 todo com os sentldos s tirodo dos proprios         pectos das partes e das coisos nele contidas.
 coisos.                                            Cada uma delas, com efeito, se corretamente
                                                    observada, manifastar6 a propria grandeza,
                                                    e coda uma delas sua propr~a       indole, f o r ~ a
                                                                                                       e
      Rqueles que antes de nos pesquisoram          natureza.
a estrutura de nosso mundo a a natureza das                Rssim, se parecer que nada de div~no        e
coisas nele contidas, fizeram-no certamente         que seja digno de adm1raq5o que seja tam-
                                                                                     e
com longas vigilias e grandes fodigas, mas inu-     b6m demasiado agudo se encontra em nos-
tilmente, como parece. 0 que, com efeito, esta      sos escritos, eles por&m ndo contrastardo de
natureza pode ter revelado a eles, cujos dis-       fato com as coisas ou consigo; isto 6,      segui-
cursos, sem excluir nenhum, ndo concordam e          mos o sentido e a natureza, e nada mais; a
contrclstclm com as coisas e tamb6m com si mes-      natureza que, concordando sempre consigo,
mos? E podemos afirmar que isto assim acon-         age e opera sempre as mesmas coisas e do
teceu justamente porque, tendo tido talvez de-       mesmo modo. Todavia, se 0190 daquilo que
masiada conf~anp si mesmos, depois de
                     em                             afirmamos ndo estivesse de acordo com as
ter pesquisado as coisas e suas forqx, ndo           sagrodas escrituras ou com os decretos do igre-
atribuiram a elas, como era necess6ri0, a gran-     ja catolica, afirmamos e dsclaramos formalmen-
deza, indole e faculdade de que agora se v&          te que ndo deve ser mant~do,       mas deve ser
que sdo dotadas; mas, quase d~sputando       e       inteiramente rejeitado. A elas, com efeito, deve
competindo com Deus em sabedoria, tendo ou-          estar posposto ndo so qualquer raciocinio hu-
sado pesquisar com a razBo as causas e prin-         mano, mas tamb6m o proprio sentido; e se nBo
cipios do propno mundo, e crendo e querendo         concorda com elas, at6 o sentido deve ser re-
crer que haviam encontrado estas coisas que          negado.
ndo encontraram, construiram para si um mun-                                                  0. TeI&s~o,
do conforme seu arbitrio. Portanto, aos corpos,                  De rerum natura iuxto propria principia.
Prirneira parte - 0 t l ~ m a n i s m o a R e n a s ~ e n ~ a
                                              e



                                                         ndo & terminado nern termin6vel. Ndo & forma,
                                                         porque ndo informa nern figura outro, admitido
                                                         que 6 tudo, 6 m6ximo. & uno, & universo. Ndo &
                                                         mensur6vel nem medida. Ndo se compreende,
                                                         porque ndo 6 maior do que ele mesmo. Ndo &
                                                         compreendido, porque nd0 & menor do que ele
                                                         mesmo. Ndo se nivela, porque ndo & outro e
      Unidode e infinitude                               outro, mas uno e o mesmo. Sendo o mesmo e
      do univsrso                                        uno, ndo tem ser e ser; e porque ndo tem ser e
                                                         ser, ndo tem parte e parte; e pelo fato de ndo
       Entrs os didlogos itolionos ds Bruno,             ter parte e parts, ndo 6 composto. Este & termo
 os mois lidos e os mois importantss 580 os              de mod0 que ndo 6 termo, & talmente forma
 cinco qua comp6sm o Da causa, principio e               que ndo 6 forma, e de talmente mathria que
 uno ( 1 584).R possogsm oqui rsportodo 6                ndo & matbria, & de tal modo alma que ndo 6
 t~racla dldlogo V, sm qus Bruno sxalto o
         do                                              alma: porque 6 o todo ~ndiferentemente, po-e
 unidode puro, onds todos os dstsrmina-                  r6m 6 uno, o universo & uno.
 <Gas, oo inhnito, psrdsm significodo, por-
 qua coinc~dsm Uno. Couso, Principio s
                 no                                      2. A unidade do cosmo em sun infinitude
 Uno constitusm poro Bruno umo trindods                     em grandeza a temporalidads
 meromsnts concsituol, pois o Uno Q princi-
                                                          Neste certamente ndo & maior a altura do
 pi0 s couso.
                                                   que o comprimento e a profundidada; de onde,
                                                   por certa semelhan<a se chama, mas ndo 6 ,
                                                   esfera. Na esfera o comprimento, a largura e a
1. 0 universo, uno e infinito,                     profundidade sGo a mama coisa porque t&m o
   6 imovel, inalteravel,                          mesmo termo; mas, no universo, 8 a mesma
   comp8e e resolve em si                          colsa a largura, o comprimento e a profundida-
   todas as dihrencia@es e oposig8es               de, porque da mesma forma ndo t&m termo e
      0 universo &, portanto, uno, infinito, imo- sdo ~nfinitas. ndo t&m meio, quadrantee e
                                                                    Se
vel.' Una, digo, & a possibilidade absoluta, uno outras medidas, se ndo h6 medida, ndo h6 tam-
o ato, una a forma ou alma, una a mathria ou b&m parte proportional, nern absolutamente
corpo, una a coisa, uno o ente, uno o m6ximo e uma parte que se diferencie do todo. Porque,
otimo; o qua1 ndo deve poder ser compreendi- se quiseres d i m parts do infinito, 6 precis0 diz&-
do; e por isso & infind6vel e intsrmindvel, e por- la infmito; se 6 infinito, concorre em um ser com
tanto infinito e interminado e, por consequ&n- o todo: o universo, portanto, & uno, infinito, im-
cia, imovel. Este ndo se move localmente, partivel. E se no infinito ndo se encontra d~fe-
porque ndo h6 coisa fora de si para onde se renp, como da todo e parte, e como de outro
transportar, admitido que seja o todo. Ndo se e outro, certamente o infinito b uno. Sob a com-
gera; porque ndo existe outro ser que ele pos- preens60 do infinito ndo exists parte maior e
sa desejar ou esperar, admitido que tenhaQtodo parte menor, porque propor@o do infinito n6o
o ser. Ndo se corrompe; porque ndo exlste ou- se coaduna mais uma parte o quanto se queira
tra coisa no qua1 se muds, adm~tido     que ele maior que outra o quanto se queira menor; po-
seja toda coisa. Ndo pode diminuir ou crescer, r&m, na infinita dura~do          ndo difere a hora do
admitido que 6 infin~to; qua1 como ndo se dia, o dia do ano, o ano do s&culo, o s6culo do
                          ao
pode acrescentor, tambhm b aquele do qua1 momento; porque os momentos e as horas ndo
ndo se pode subtrair, pelo fato de que o ~nfini- sdo mais que os s6culos. e ndo t&m menor pro-
to n60 tam partes proporcion6veis. Ndo 6 alte- por(do aqueles do que estes em rela@o 6 eter-
r6vel em outra disposigio, porque ndo tem ex- nidade. Da mesma forma no imenso ndo & di-
terior, do qua1 sofra e pelo qua1 venha a ser ferente o palmo do sst6di0, o est6dio3 da
afetado. W m de qua, para compreender to- para sang^;^ porque 6 proporgio do imensiddo
das as contrariedades em seu ser em unidade ndo se coaduna mais para as parasangas do
e conven~&ncia, nenhuma inclina@o possa ter
                 e
para outro e novo ser, ou tambhm para outro e
outro modo de ser, ndo pode ser sujeito de
muta~do   segundo qualidode nenhuma, nern              'Tanho-se presenta que, aqul. Bruno ndo Falo do Rbso-


porque nele toda coisa est6 de acordo. Ndo &
                                                             "
pode ter contrdrio ou diverso, que o altere, luto, ou seja, da Daus, mos do cosmo como Imagam da Deus.
                                                          quadronte Q matode do matoda.
                                                       3Estad~o med~dn a 185 metros.
                                                               Q         d
matbria, porque ndo & figurado nern figur6ve1,         4Pamsango Q med~dode 3.000 metros.
Capitdo se'timo - VLrtices e resultados conrlusivos do pensamento renascentista

que para os palmos. Portanto, infinitas horas       gar, e que a circunfer8ncia ndo @st6 parte
                                                                                          em
ndo sdo mais qua infinitos s&culos, e infinitos     nenhuma por ser diferente do centro, ou entdo
palmos ndo sdo de maior nljmero que infinitas       que a circunferhcia est6 em todo lugar, mas o
parasangas. h proporsdo, semelhansa, unido          centro ndo se encontra enquanto & difsrente
e identidade do infinito ndo mais te aproximas      dela. Cis como ndo & impossivel, mas necess6-
pelo fato de ser homem e ndo formiga, uma           rio, que o otimo, maxima, incompreensivel &
estrela e ndo um homem; porque bquele ser           tudo, est6 para tudo, estd em tudo, porque,
ndo mais te avizinhas por ser sol, lua, e ndo um    como simples s indivisivel, pode ssr tudo, ser
homem ou uma formiga; e, todavia, no infinito       para tudo, ser em tudo. E assim ndo foi dito de
estas coisas sdo indiferentes. E o que digo des-    forrna vd qua Jupiter enche todas as coisas,
tas, entendo de todas as outras coisas que sub-     habita todas as partss do universo, & centro
sistem particularmente.                             daquiio qua tern o ser, uno sm tudo a pel0 qua1
                                                    uno & tudo. 0 qual, ssndo todas as coisas e
3. No cosmo uno-infinito                            compreendendo todo o ssr em si, tambhm faz
   1-160se dikrenciam ato e pot8ncia,               com que toda coisa esteja em toda coisa.
   e portanto nern ponto e linha,
   superficie e corpo                               5. 0 cosmo uno-infinito
                                                       6 "multimodo multiirnico"
       Ora, se todas estas coisas particulares no      e uno em substencia
infinito ndo sdo outro e outro, ndo sdo diferen-
tes, ndo 5.60 espbcie, por necessdria consequ-            Dir-me-eis, porbm: entdo por que as coi-
&ncia ndo sdo nirmero; portanto, o universo 6       sas se mudam, a matbria particular se for~a  para
ainda uno imovel. E isto porque compreenda          outras formas? Raspondo-vosque ndo & muta-
tudo, e ndo sofre outro e outro ser, e ndo com-     <do que procura outro ser, mas outro modo de
porta consigo nem em si muta@o nenhuma; por         ser. E esta & a diferenp entre o universo e as
conssqij6ncia. 6 tudo aquilo qua pode ser; e        coisas do universo: porque aquele compreen-
nele (corno eu disse outro dia) o ato ndo & di-     de todo o ser e todos os modos de ser, estas
ferente do pothcia. Se do pothcia ndo & di-         cada uma tem todo o ser, mas ndo todos os
ferente o ato, 8 necessdrio que nela o ponto, a     modos de ser; e ndo pode atualmente ter to-
linha, a superficie e o corpo nbo se diferen-       das as circunstdncias e acidentes, porque mui-
ciem: porque assim tal linha d superficis, assim    tas formas sdo incompossiveis em um mesmo
como a linha, movendo-se, pode ssr superfi-         sujelto, ou por serem contrdrias ou por perten-
cie; assim, aquela superficie movida 6 feita cor-   cer a espbcies diversas; assim como ndo pode
po, porque a superficie pode mover-se e, com        haver um masmo suposto individual sob aciden-
                                  <
seu fluxo, pode tornar-se corpo. necessdrio,        tes de covalo e homem, sob dimensdss de urna
portanto, que o ponto no infinito nd0 se difs-      planta e um animal. RI&mdisso, ale compreen-
rencie do corpo, porque o ponto, desl~zando         da todo o ser totalmente, porque extra e alhm
do ser ponto, se torna linha; deslizando do ser     o infinito ser ndo h coisa que exista, ndo tendo
linha, se torna superficie; deslizando do ser su-   extra nem al&m; destas, portanto, cada uma
perficie, ss torna corpo; o ponto, portanto, por-   compreende todo o ser, mas ndo totalmente.
que 6 em pothncia o ser corpo, ndo difere do        porque al&m de cada uma h6 infinitas outras.
ser corpo onde a potencia e o ato sdo urna          Entendeis, porbm, que tudo est6 em tudo, mas
mesma coisa.                                        n60 totalmente e do mesma forma em cada urn.
                                                    Entendeis como toda coisa & una, mas ndo do
                                                    mesma forma.
4. Tudo esta em tudo
   e neste sentido tudo 6 uno
                                                    6. Todas as coisas est6o no universo
      0 individuo ndo & diferente, portanto, do        e o universo em todas as coisas
dividuo, o simplicissimo do infmito, o centro do
circunfer6ncia.Dai por qua o infinto & tudo aqui-        Ndo Falha, porhm, quem diz ser uno o ente,
lo que pode ser, & imovel; porque nele tudo 6       a substdncia e a ess&ncia; o qual, como infini-
indiferente, & uno; e porque tem toda a gran-       to e ~nterminado, tanto segundo a substdncia
deza e perfei~do se possa ter alhm e akm,
                  que                               quanto segundo a durqdo quanto segundo a
& m6ximo e otimo imenso. Se o ponto n6o dife-       grandeza quanto segundo o vigor, ndo tem ra-
re do corpo, o centro da circunfer&ncia, o finito   zdo de principio nern ds principiado; porque,
do infinito, o m6ximo do minimo, seguramente        concorrendo toda coisa em unidade e identida-
podemos afirmar que o universo & todo centro,       de, digo mesmo ser, vem a ter razdo absoluta
ou que o centro do unlverso est6 em todo lu-        e n60 respectiva. No uno infinito, imovel, que &
a substdncia, que 6 o ente, se ai se encontra a
multid60, o numero, qua, por ser modo e                d o simbolo do divindods prssants no no-
multiformidads do ente, a qua1 vem a denomi-           turszo, snquonto Rctton simbolizo o ints-
nor coisa por coisa, nem por isso faz que o en-        lscto qus sstd sm c o p do vsrdods s do
te seja mais que uno, mas multimodo e                  beleza divino; os mostins e os golgos, por
multiforme e multifigurado. Porhm, profunda-           fim, s6o simbolos dos voli@es s dos psn-
mente considerando com os fil6soFos naturals,          somsntos.
deixando os Iogicos em suas fantasias, perce-                R transforma@io de Rctton em coca
bemos que tudo o que F z diferen~a numero
                         a            e                (noquilo qus procurova), e o foto da ser
& puro acidente, & pura figura, & pura complei-        dsvorodo por saus c6as (pansomentos s
~ 6 oToda produq30, de qualquer tipo seja, 6
      .                                                voli@ss), significa que a vsrdads procu-
uma altera@o, permanecendo a substdncia                rodo estd em nos mesmos, e quondo dss-
sempre a mssma; porque ndo & mais qua una,             cobrimos isso tornomo-nos dsssjo ds nos-
uno ente divino, imortal. lsto p8da ser entsndi-       sos proprios pensomentos, pslo foto de
                                                       vsrmos tudo s nos ossimilormos o ssse
do por Pittigoras, que ndo tame a morte, mas
espera a mutac6o. Puderam-noentender todos         I   tudo
os Filosofos, chamados vulgarrnente de fis~cos,
que nado dizem gerar-se segundo a substdn-
cia nem corromper-se, se n8o quisermos de-               TANSCIO. Rssim se descreve o discurso do
nominar desse modo a alteraq30. lsto FOI en-       amor heroico, por tender ao proprio objeto, que
tendido por Salomdo, que diz "ndo hover coisa      B o sumo bem, e o heroico intelecto que procu-
nova sob o sol, mas aquilo que Q j6 ex~stiu        ra unir-se ao proprio objeto, que & o verdadei-
antes".Vedes entdo como todas as coisas es-        ro primeiro ou a verdade absoluta. Ora, no pri-
too no universo, e o universo est6 em todas        meiro discurso apresenta toda a soma disso e
as coisas; nos nele, ele em nos; e assim tudo      a intenc$io, cuja ordem 6 descrita em cinco ou-
concorre em perfeita unidade. Cis como n6o         tros que seguern. Diz entao:
devemos atormentar o espirito, eis como n60
& coisa pela qua1 devamos nos espantar. Por-       Rs selvas os mastins e galgos solta
que esta unidade 6 unica e estdvel, e sernpre         o jovem Actbon, quando o destino
perrnanece; este uno & eterno; todo semblan-          apresenta-lhe o dljbio e incauto caminho,
te, toda face, toda outra coisa & vacuidade, &        nos pegadas de Feras selvagens.
como nada, o melhor, 6 nada tudo aquilo que
              w                                    Cis entre as 6guas o mais belo busto e face
est6 fora deste uno.                                  que ver possa o mortal e o divino,
                                                      em purpura, alabastro e our0 fino
                                      G. Bruno,
                       Da causo, princbio s uno.      v&, e o grande ca~ador torna caGa.
                                                                              se
                                                   0cervo, que em espessos lugares dirigia
                                                      os mais ligeiros passos, C raptado
                                                      e por sews muitos e grandes c6es devorado.
                                                   Estendo-lhemeus pensamentos
                                                      como nobre presa, e ales, voltando-se,
                                                      devoram-me com ferozes e cruhis mordidas.

        E Bruno, o "contamplo~do" o
         m                               a               RctGon significa o intelecto aplicado b cap
 htnosls, isto t , o tornar-se um corn o Uno       do sabedoria divina, 6 apreensho do beleza di-
 dos Nsoplot6n1cos. tornom-ss "heroico fu-         vina. Ele solto os mostins s os golgos. Estes sdo
 ror'', omor hsroico, qus sign~fico tornar-se
                                    o              os mois velozes, aqueles, os mais fortes. C m  o
 um com o objeto amado, "sndsusor-ss".             efeito, a opercqao do mtelecto precede a ope-
 Ficino jd denominoro "furor divino" o omor        ra<do do vontade; mas esta & mais vigorosa e
 que leva o homam o sndeusor-se, e Bru-            eficaz do que aquela; ao intelecto humano 6 mais
 no, no obro justomsnts intitulodo Dos heroi-      am6vel do que compreensivel a bondade e a
 cos furores, Isvo to1 idtio as sxtrGmos con-      beleza divina, mas o amor & aquilo que move e
 sequ&ncios.                                       impele o intelecto bquilo que o precede, como
        R possogem que tronscrsvsmos, e qus        lanterns. As selvos, lugares incultos e sol1t6rios.
 sm carto ssntido contdm o matdforo sm-            visitados e perscrutados por pouquissimos e,
 blamdtico do obro, intsrprsto o mlto ds           todavia, onde ndo estao impressas as pegadas
 Rctton, o copdor qua viu Diono s, como            de muitos homens. 0 jovsm, pouco esperto e
 conssqu&ncio, foi tronsformodo de copdor          prbtico, como aquele cuja vida 6 breve e inst6-
 am cogo s diloc~rado saus c6as. Diono
                         por                       vel o furor, no dfibio comlnho da incerta e am-
                                        C          bigua razao e afeto desenhado na letra de
Capitulo se'timo - Vcrtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista

Pit6goras,' onde se v& rnais espmhoso, inculto e por tanta beleza, torna-se presa, v&-seconver-
desert0 o direito e 6rduo carninho, e por onde tido naquilo que procurova; e percebeu que dos
este solta os galgos e mastins nos pegodas de cdes de seus pensarnentos ele memo vern a
F~ros  salvogsns, que sdo as esp&cies ~ntel~gi-ser a desejada presa, porque tendo j6 encon-
veis dos conceltos ideals; que sdo ocultas, per- trado a divindade em si rnesmo, ndo era rnais
seguidas por poucos, visitadas por rarissimos, e necess6rio procur6-la fora de si.
que ndo se oferecern a todos os que as procu-
ram. €is entre os dguos, isto 6, espelho das
                                no                      CICADA.Portanto, bern se diz que o relno
semelhangas, nos obras onde reluz a efic6c1a  do de Deus est6 em nos,3e que a d~vindade       habl-
bondade e esplendor divino, cujas obras sBo       ta em nos por meio do intelecto e da vontade
sign~ficadas pelo sujeito das 6guas superiores transformados.
e ~nfer~ores, estdo sob e sobre o firrnamen-
             que
to; v& o mois belo busto e Foce, isto 6,pot&ncia        TANSILIO.Exatarnente. Eis, portanto, corno
e operagdo externa qus verposso, por h6bito e Rctbon, posto corno presa de seus cdes, per-
ato de conternpla<doe aplicqdo de mente mor- seguido por seus proprios pensarnentos, corre
tal e d~v~na, algurn homern ou deus.
             de                                   e dirige os novos possos; renova-se para pro-
                                                  ceder divinarnente e rnais og~lmente, &, corn
                                                                                        isto
       CICADA.
             Creio que ndo faga cornparagdo, rnaior facilidade e corn energio rnais eficaz, a
mas ponha corno no rnesrno g&nero a apreen- lugores mois espsssos, aos desertos, B regido
sdo divina e hurnana quanto ao rnodo de corn- de coisas incornpreensiveis; oquele que era u      m
preender, que & diversissimo, mas quanto ao hornern vulgar e cornum, torna-se raro e heroi-
sujeito, que 6 o rnesrno.                         co, tern costumes e conceitos roros, e experi-
                                                  rnenta urna vida extraordin6ria. Rqui o devo-
       TRNSI~O.Exatamente. DIZ em purpuro,        rom seus mutos e grondes c6es: aqul termina
olobastro e ouro, porque aqu~lo    que na figura sua v~da  segundo o rnundo louco, sensual, cego
de corporal beleza & vermelho, bronco e louro, e fant6st1c0, cornega a viver intelectualrnente:
                                                               e
na divindade significa a pirrpura do divina po- vive urna vida de deuses, nutre-sede ambrosia
t&ncia vigorosa, o our0 da sabedoria div~na,   o e ernbriaga-se de n&ctar.
alabastro da beleza divina, na contemplagdo                                        G~ordano  Bruno,
da qua1 os pitagoricos, caldeus, plat6nicos e                                  Dos hero~cos furores.
outros, do rnelhor rnodo que podern, procurarn
se elevar. V& o gronde cogodor: compreendeu,
o quanto B possivel; e se tornou c o p : este ca-
p d o r andava para prender e se torna presa.
por causa da operagdo do mtelecto corn a qua1
converte em si as coisas apreendidas.

     CICADA. Entendo, porque ele forrna as es-
phciss inteligiveis a seu rnodo e as proporcio-
na conforme sua capacidade, porque sdo rece-
bidas segundo o rnodo de quern as recebe.                 A doutrina do conhecimento
     Tfl~siuo. esta caga
             E            [&I
                          pela operaq3o da
vontade, por ato do qua1 ele se converte no               R doutrino componelliono do conhsci-
objeto.                                              mento & fundomentodo sobre o estruturo prl-
                                                     mdr~o ente. 0 ponto de portido desto
                                                            do
     CICADA.
           Entendo; porque o arnor transfor-         doutrlno & o dirvida, cujo supero@o dd-sa
ma e converte na colsa amada.

      TANSILIO.Bem sabes que o intelecto apre-
ende as coisas inteligivelmente, isto 6 ,confor-       'R letrn emblemdt~co Ptdgoros, a quo1 Bruno olude.
                                                                           de
                                                   i o V, tropdo oss~m.'/,ou
                                                    ;                       sap, com o t r q o d~raito olto
                                                                                                     no
me seu r n ~ d oe ~ vontade persegue as COI-
                 ;a                                quose vert~col portonto, ~ndicondo drdua oscens80, e
                                                                  e,                   o
sas naturalmente, ou seja, segundo a razdo corn    com o t r q o esquerdo mu~tolnclinndo a quose plono a.
a qua1 estdo em 8 1 .Desse rnodo. Rct&on, com      portonto, indicondo o vio fdc~l.
aqueles pensamentos, aqueles cdes que pro-             "run0 olude oqu~ pr~ncip~o Escoldsticos, segun-
                                                                         oo         dos
                                                   do o quo1 aqu~lo se raceba cognosc~t~vomente,
                                                                     qua                           Q race-
curavam fora de si o bem, o sabedoria, a bele-     b~do  conformando-se oo receptor: "qu~dquldraclpltur ad
za, a fera selvagem, e no rnodo pelo qua1 che-     modum recipentls recip~tu?.
gou 2.1 presenga dela, raptado para fora de si         3Cf,Lucos 17.21
Primeira parte - 0 t l ~ m a n i s m o a R e n a s c e n c a
                                             e



                                                            numerosos objetos e, portanto, nos transferi-
 rodicolmenta palo autoconsci6ncia qua, por                 mos quase no ser do outro, uma vsz que o ser
 suo vaz, Q fundomsntodo sobre o astrutu-                   passivos e ser mudados C tornar-se outro; a
 rolidode do saber am todo ante.                            alma, portanto, cai no esquecimento e no 19-
       R alma tam um conhecimsnto inato de                  norencia de si porque 6 sempre sacudida pe-
 si masmo, o notitia indita ("sobedorio ina-                las forqx do alto.
 to'? qua, porQm, Q psrturbado a ofuscoda                         0 acrescentamento do ser alheio, mdlti-
 pelo complaxo ds conhacimentos provenian-                  plo e veemente, com o proprio e ljnico ser pro-
 tas do sxtarior (as notitioe superadditae),                duz nos entes uma evidente ignor6ncia de si
 transmutondo-se, ossim, am notitia abdita                  mesmos e permite apenas um saber escondi-
 ('kobadorio escondido      I>).
                                                            do sobre si mesmo; [todavia, permanece sem-
       0homam, qua pode olconpr olto ni-                    pre verdadeiro que] toda alma conhece a si
 vel de outoconsci$ncia, estd am grau de                    mesma com um conhecimento inato.
 coptar o verdade dos coisos openas quon-
 do sa ossimilo o alos poro antend&-los
 como 580, isto 8, como cousodos pala cihn-                 3. Conhecimrnto e vsrdads
 cia de Daus. 0 conhecar 6, em suo com-                           R ci6ncia de Deus 6 causa das coisas; a
 plaxidoda, 'sar", a Q oo masmo tempo con-                  nossa, ao contrdrio, C causada; 6 causa nos .
 quisto a perdo.                                            limites clas coisas excogitadas por nos.
                                                                  Como a verdade & dodo pelo conhecimen-
                                                            to adequado entre as coisas e a alma sen-
                                                            siente-inteligente, e como tal conhecimento
                                                            parte das coisas, criadas e existentes e dispos-
      R alma conhece a si mesma com um co-                  tas pelo sumo Criador no modo com que devem
nhecimento de presencialidade, e ndo com um                 ser conhecidas, deduzimos que os slgnificados
conhecimsnto objetivo, exceto sobre o plano                 das coisas devem ser assumidos das proprias
reflaxo. € certissimo primeiro principio que so-            coisas da experi&ncia, e que devem ser deter-
mos e podemos, sabemos e queremos; depols,                  minados como sdo, e de modo nenhum segun-
em segundo lugar, C certo que somos alguma                  do o qua a nossa razdo dita.
coisa e ndo tudo, e que podemos conhecer algu-                    R verdade & a propria entidade da coisa,
ma coisa, e ndo tudo e ndo totalmente. Depois,              como ela &, e ndo como nos a imaginamos.
quando do conhecimento de presencialidade                   Todas as coisas dizem-severdadeiras enquan-
se procede aos particulares por um conhe-                   to se adequam ao intelecto divino, do qua1 re-
cimento objetivo comec;a a incerteza, pelo fato             cebem o ser; enquanto no verdada se adequam
de que a alma se torna alienada, por causa                  a nosso intelecto, ndo sdo ditas verdadeiros,
dos objetos, do conhecimsnto de si, e os obje-              mas produzem em nos a verdade; nos, porbm,
tos nd0 se revelam totalmente e distintamente,              somos verdadeiros se conhecemos a coisa como
mas parcialmente e confusamente. E, na ver-                 ela 6.
dads, nos podemos, sabemos e queremos o                           0intelecto humano ndo meda as colsas,
outro porque podemos, sabemos e queremos                    das quais ndo & o autor; mas & medido pelas
a nos mesmos.                                               coisas, e & verdadeiro quando se assim~laa
      A sabedoria inere o nos pelo Autor da                 elas para entend&-lascomo elas s6o; e ndo de
natureza, e & dado como a pot&ncia e o amor                 outra forrna.
de ser; a ci&ncia, ao contrdrio, adquire-se aci-
dentalmente atrav&s da sabedoria enquan-                    4. Conhecimsnto r srr
to olha os entes que exteriormente estdo dian-
te de nos.                                        Rfirmamos que a sabedoria pertence ao
      0que conhecemos & minima parte diante proprio ser das coisas, e que uma coisa & sen-
daquilo que ignoramos, mas saber lsto & sumotida e conhecida porque & a proprla natureza
sabedoria para nos, e ela nos convida e nos cognoscente. Uma vez que a sensa(8o 6 assi-
impele a aceitar o ensinamento de Deus.     rnllqdo e que todo conhecimento ocorre palo
                                            fato de que a propr~a    natureza cognoscente
                                            se torna o proprio conhecldo, conhecer & ser;
2. "Notitia indita" r "notitia abdita"
                                            portanto, qualquer ente, se C multas coisas,
     0 conhecimento de si mesrno & ~mpedi- conhece muitas coisas; se 6 poucas, conhece
do pelo conhecimento do outro; com efeito, poucas.
somos gerados entre entes contrdrios, e so-       0 conhecimento sensit~vo,imag~nativo,
mos passivos diante do color e do frio e da intelectivo e memorativo consists no fato de
Capitdo se'timo - V&rtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista

que o cognoscente Q ou se torna o ser do
conhecido. Portanto, real e Fundamentalmen-
te conhecer 6 ser; Formalmente, por&m, se dis-
                                                            n estrutura metafisica
tinguem, porque o conhecer & o ser enquan-                  da realidade
to julgado.
                                                               R metofkico ds Torn& Cornpanello
                                                        sa apresento como s i n t ~ s a pensomen-
                                                                                        do
5. Aquisigtio e perda no conhecer                       to ds sonto Rgostinho e do da sonto To-
      0valor do saber pode ser apreciado pelo           rn&. Do tradigdo tomisto Componsllo re-
fato de qua quanto mais sabernos, tanto mais            torno o conceito de "ente" corno concsito
somos; portanto, quem C tudo, sabe tudo, e         I    fundamento1 paro psnsor o reolidode;
quem 6 pouco, sobe pouco.                               rnos, urno vez que prstende fozer srnargir
      Sabemos apenas poucas coisas, e parci-           j d nests conceito iniciol a idhio prima do
almente e imperFeitamente.[Todavia] como tor-           cristianisrno, isto d, a iddla do Trindods, sle
nar-se muitas outras coisas por meio da passi-          tambhm ss rernsts b filosofia ogostiniono,
vidade da sxperihcia & o mesmo que dilator              a quo1individua no hornem o triods posse,
o proprio ser, isto &, tornar-se de um muitos, o        nosse, vella, corno reflsxo do rnistdrio
saber & coisa divina, mesmo no passivtdade              trinitdrio.
da exneri&ncia.                                    I           Carnpansllo sntends, portonto, o con-
      Conhecer e amar a si mesmo G em todo              ceito de ente corno sstruturodo sagundo uma
ente um ato ou opera<doprimordial incessan-             dioldtica interno ds trhs ospectos: pot&ncia,
te. Portanto, quando o objeto move a mente              sabedoria, amor, qus constituern as 'pi-
rnovendo o espirito corporeo, ao qua1 a msnte           malidodes'', isto Q, os ospectos primeirk-
estd unida mediante a primariedode, a ope-              sirnos, do reol.
r a @ ~ mente & modificada; e, enquanto
       da
antes senti0 e amava a SI mesma essencial-
mente, agora sente e ama a si acidental-
mente. Com efetto, a mente & mudada actden-        1. Ser e existir ern relagiio ao ente
talmente pelos objetos, os quais n8o tolhem
a operocdo, mas a modiFicam com aquela                    Dizemos que todas as coisas conv&m no
passividade; daqui provCm que a faculdade          comunissimo termo de ente.
cognoscitiva julga o objeto de modo a conhe-              0ente ndo pode ser definido, mas se pre-
c&-lo, conhecendo ndo o objeto em si, mas          c i s ~ si como aquilo que tem o ser ou aquilo
                                                         por
conhecendo a si proprto rnudada, por rneio         que 6.
da faculdade imaginativa, no objeto. A men-               0ante da experi&ncia C aquele que cai
te, portanto, sembre conhece a si-mesma,mas        por primeiro no conhecer, e & conhecido de
nem sempre conhece a si mesma como mu-             rnaneira confusa. No verdade, a sabedoria hu-
dado. E Deus, portanto, que ndo 6 passivo
        m                                          mana nbo 6 construtora da realidade, e tam-
diante de nenhum objeto exterior nem ocasio-       bbm ndo & Interno nas coisas, de modo a po-
nalmente nem causdmente, ndo se veriFica           dar conhec&-laa priori e do proprio tntarior;
uma pausa no conhecer, no ver-se e no amar-        & Fato que a real~dade     age sobre o sujeito
se; ele est6 sempre em ato no conhecimento         que conhece, e este, percebendo seu ser,
de si mesmo e, por meio de si, do outro. Nos,      chega em segu~da saber seu significado. 0
                                                                        a
porbm, embora conhe<amos sempre a nos              termo ente 6, portanto, o primeiro indlcs do
mesmos otualmente, somos mudados pelos             primeiro conhecimento confuso; tomado no-
objetos; portanto, parecemos soFrer pausas         minalmente, significa a ess&ncia das coisas,
no conhecimento de nos mesmos e somos rap-         enquanto, tomado verbalmente, indica o ato
tados no realidade diferente de nos.               de ser.
      [CISque entdo] todos os cognoscentes                Dizemos "existir"a respeito daquelos coi-
sdo alienados do proprio ser, como se termi-       sas que, Fora da causa, estdo em outras e com
nassem no loucura e no rnorte; nos estamos         outros, como que sustentados pela For~a      de
no reino da morte. Estamos de Fato em uma          alguma coisa.
terra estrangeira, alienados de nos mesrnos;              € claro que o ente como tal ndo existe;
anelamos uma p6tria e nossa sede 6 junto de        ele simplesmente "&", e tal "6"d dele dito
Deus.                                              de modo essencial, e ndo existenc~al.     Aqui-
                                                   lo que simplesmente 6, causa de todas as
                                                                              &
                                 T. Componsllo.    exist6ncias; existir 6 , com efeito, posterior
                                         Textos.   ao sar.
Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a

2. A estrutura primalitiiria do ente                         outra. R sabedoria, que emana da potknc~a,
                                                             nela imane: do mesma forma, tamb6m o amor
      R "essencia@o" 6 a constitui~do ente
                                         do
                                                             imane em uma e em outra, das quais procede.
intrinseca, simplicissima, primeira, por toticipa-
                                                                   A pothncia, a sabedoria, o amor, enquan-
560' e n6o por participa@o. 0 ente 6 es-
                                                             to essenciam, n6o sda tr6s coisas nem trhs en-
senciado em primeiro lugar pela pothncia de
                                                             tes, mas trhs momentos ontologicos da mesma
ser, pela sabsdoria de ser, pelo amor de ser.
                                                             realidode. [Portanto,] a sabedoria, a pothncia
      Estas primalidades esssnciam todo ente.
                                                             e o amor sdo um principio unltdrio na a@o;
Com efeito, todo ente, podendo ser, tem a po-
                                                             podem d~zer-se   unalidades3do uno.
thncia de ser. Rquilo que pode ser, sabe ser;
                                                                   [Rs trks primalidades constituem o dina-
se n6o percebesse ser, ndo amaria a si mesmo
                                                             mismo ou] a opera<docomo ato interno Bs COI-
e ndo fugiria do inimigo que o destroi, e ndo
                                                             sas; as opera@es metafisicas sdo o posss, o
seguiria o ante que o conserva, como o fazem
                                                             nosse, e o vella.
todos os entes. 0 saber emana do poder: os
entes amam aquilo que sabem; portanto, to-                                                 T. Campansllo, T~xtos.
dos os entes amam ser sempre e em todo lu-
gar. 0 amor flui antecipadamente do sabedo-
ria e do potkncla.                                                          Q
                                                                 "'Tot~c~par" tarmo companallmo para ~nd~carco-a
      cada uma das primal,dades imaneQa                      astrvtural~dadedas tr&s pr~mal~dndes ente a do propr~o
                                                                                                do
                                                             ante; ale sa opda a "partic~par",
                                                                                             que implco dar~va$io a
outra da qua1 procede. Ndo tem precedhncia
de tempo, nem de dignidade, nem de ordem,                           imanenta
mas apenas de origem, enquanto uma vem da                         3Coracterist~cns
                                                                                 const~tut~vas
                                                                                            unit~lr~os




                   Erontrspicro da segunda edrp?o
           da ctlehre obra de Bernardrno Teltszo
  " D e rerum nutura luxta proprru prrncrpra",
                  irnpressa e m Napoles e m 1587.
                  Retrato de Tomus Campanella,
                             (rncrsao sobre cohre),
                   obra de Nzcolas de I,armess~n,
                              que remonta a 1670.
E s t i tza obra Academic des sclences et des arts
                   (Bruxelas, 1682), de I. Bullart.
Ggnese
Caracteristicas essenciais
Desenvolvimento na epoca moderna




  "Mas, senhor S/inp/cio, v~hde razo"es, vossas
                                com
  ou de Ansfofe/es, e niTo com texfos e futeis aufon:
  dades, porgue nossos discursos se d2o acerca do
  mundo sensivel na"o sobre um mundo de papeL "
                                      Galileu Galilei

  7 .,] na"o/hventohipofeses. Comefeifo, fudo aqui-
      e
  /O que se deduz dos fendmenos deve ser chama-
  do hipofese. Eas hipoteses, tanto mefahisicas como
  hisicas, seja de quahdades ocu/tas ou mecdnicas,
  n20 encontram nenhum /ugar na f7osof/h expen:
  menfa/ "
                                      Isaac Newton

  ' nafureza e as /e/sda nafureza estavam ocu/fas
   H
  na noife. Deus disse: h p s e Newton! E fudo for-
  nou-se /uz "
                                    Alexander Pope
Capitulo oitavo

Origens e traqos gerais da revoluqiio cientifica

Capitulo nono

A revoluqiio cientifica e a tradiqiio magico-hermktica

Capitulo dtcimo

De Capirnico a Kepler

Capitulo dtcimo primeiro

0 drama de Galileu e a fundaqiio da citncia moderna

Capitulo dCcimo segundo

Sistema do mundo, metodologia e filosofia
na obra de Isaac Newton

Capitulo dtcimo terceiro

As citncias da vida, as Academias e as Sociedades cientificas   249
Capit~lo
                                      oitavo




        0 periodo que vai de 1543, ano da publicaglo do De revolutionibus de
Nicolau Copernico, ate 1687, ano da publicaglo de Philosophiae naturalis princi-
pia mathernatica de Isaac Newton, e geralmente indicado como periodo da "revo-
lug80 cientifica". A revolug~o    cientifica e um grandioso movi-
mento de ideias que, a partir da obra de Copernico e Kepler, A revoluqdo
adquire no Seiscentos suas caracteristicas qualificativas na obra cientifica:
de Galileu, encontra seus filosofos - em aspectos diferentes - em de Copernico
Bacon e Descartes, e exprime sua mais madura configuraglo na a bkwton
imagem newtoniana do universo-relogio. Nos anos que inter-
correm entre Copernico e Newton muda a imagem do universo,
mas mudam tambem a ideias sobre a cihcia, sobre o trabalho cientifico e as
                          s
instituig6es cientificas, sobre a relag6es entre ciencia e sociedade e entre saber
                                 s
cientifico e fe religiosa.
      Copernico desloca a terra - e com a terra o homem - do       ~ l ~ ~ ~ t e r r a
centro do Universo. A terra n l o 6 mais o lugar privilegiado da   do centre
criag%o, lugar designado por Deus a um homem concebido como
       o                                                           do universe
o ponto mais nobre e mais elevado da criaglo.                      + 5 1.2
       Muda a imagem do mundo, muda a imagem do homem,
muda lentamente a imagem da ciencia. A cigncia n l o sera mais A ciencia
a intuiglo privilegiada do mago ou astrologo singular nem o ndo e mais
comentario ao filosofo ou ao medico que disse "a verdade"; urn discurso
a ciencia n l o sera mais um discurso sobre "o mundo de pa- sobre
pel", mas sera um discurso sobre o mundo da natureza; um O
discurso dirigido a obtenglo de proposig6es verdadeiras, ex- $ [ ~ ~                1"
perimentalmente e portanto publicamente controlaveis sobre
os fatos.

       0 trago mais caracteristico da ciencia moderna e a ideia de metodo, e mais
especificamente de metodo hipotetico-dedutivo. Tornam-se necessarias hipote-
ses como tentativas de solugao de problemas; hipoteses das quais
se deduzem conseqiihcias experimentais publicamente contro- Aindependencia
Iaveis. 6 a ideia de ciencia metodologicamente controiada e pu- da ciencia
blicamente controlavel que, de um lado, exige as novas insti- em relacdo
tuiqbes - sedes de discuss6es, confrontos e controles - como as a filosofja
academias e os laboratorios, e de outro funda a autonomia da e a fe
ciencia em relaglo a fe; dai o desencontro com a lgreja e o "caso + §
Galileu".
                                                                   A ciencia
      A revoluglo cientifica leva a rejeiglo das pretensdes        hdaga
essencialistas da filosofia aristotelica. A ciencia galileana      ndoasubst;incia
e pos-galileana n l o indaga sobre a substdncia, e sim sobre              fUnq,-,
a funqiio.                                                         -+ 3 1.5
0 pressuposto
                            A rejei@odo essencialismo aristotelico n%o significa que o
 filosofico:         process0 da revolu@ocientifica seja privado de pressupostos fi-
 o Deus que          losoficos. Basta aqui recordar que o tema neoplatiinico de um
 geometriza          Deus que geometriza e que cria um mundo, imprimindo nele
 -+§ 1.6             uma ordem matematica e geometrical e uma idPia que atravessa
                     a pesquisa de Copernico, a de Kepler e a de Galileu.
 A tradiq50                 Dentro do processo que leva a ci6ncia moderna a histo-
 mdgica
 e a hermetica
                     riografia mais atualizada p6s em relevo a importante presenGa
 4 2 1.7
                     da tradic;%omagica e da hermetica.

         E todo caso, a forma@o de novo tipo de saber - pllblico, controlBvel,
           m
progressivo e fruto de colabora@o-, que para validar-se necessita dg continuo
controle da prdxis, isto el da experi@ncia,
                                          requer novo tip0 de douto; o novo douto
                 n%o nem o mago, nem o astrologo, nem o professor medieval
                       e
 Novo tipo       comentador de textos antigos; o novo douto e o cientista expe-
 de saber        rimental moderno, que usa instrumentos sempre mais precisos,
 e nova figura   e que consegue fundir a "teoria" com a "tecnica"; e o pesquisa-
 de "douto"
 -+ 3 1 .I
       1
                 dor que conwlida teorias com experimentos realizados por meio
                 de operaq6es instrumentais com e sobre objetos.

 A ciPncia
                             Sustentou-se que a ciCncia moderna teria nascido corn os
 moderna:            artesaos e depois teria sido retomada pelos cientistas.
 a reaproximaq50          Uma segunda tese afirma, ao contriirio, que a ciCncia foi
 entre tecnica       feita justamente pelos cientistas.
 e saber                  A pergunta "quem criou a ciCncia?", a resposta mais plausi-
 + 3 11.2            vel P a de Koire: foram os cientistas que criararn a cigncia, mas
                     esta s desenvolveu porque encontrou uma base tecnolcjgica de
                            e
                     maquinas e instrumentos.

 0 s traqos
                             A ciiincia e obra dos cientistas, e a ciCncia experimental
 mais salientes      encontra confirmar;%o     por meio dos experimentos.
 da ciPncia               A revolug%o    cientifica e nova forma de saber, diferente do
 moderna             saber religioso, astrol6gico e tecnico-artesanal. 0 "cientista" nao
 -3 5 11.3           e mais o douto que sabe o latim, mas pertence a uma sociedade
                     cientifica, a uma academia.

 A fun@o                   0 nexo entre teoria e pratica, entre saber e tecnica propi-
 cognoscitiva        cia um feniimeno ulterior que acompanha o nascimento e o de-
 dos instrurnentos   senvolvimento da ciencia moderna, isto el do crescimenta da
 cientificos         instrumentac;%o.
 -+ § 11.4                No decorrer da revolu@ocientifica os instrumentos entram
                     com fun@o cognoscitiva dentro da cihcia: a revolug;%o    cientifi-
                     ca sanciona a legalidade dos instrumentos cientificos.
141
                        Capitulo oztavo -   Orige~s tra~os
                                                  e      gerais d a revoluc&o cientifica




                        I. j revoIuG2io cientifica:
                              o que         muda com ela
     C o m o a imagem                               A transiqiio de um paradigma em crise para
                                                    um novo [...I 6 uma reconstruqiio do campo
     do u n i v e r s o m u d a                     sobre novas bases [...I. 0 pr6prio Cop6rnic0,
                                                    no prefacio ao De revolutionibus, escrevia
                                                    que a tradiqiio astron6mica que havia her-
      0 periodo de tempo que vai mais ou            dado terminara por simplesmente criar um
menos da data de publicaqiio do De revolu-          monstro. Desde o inicio do sCc. XVI, os
tionibus de Nicolau CopCrnico, isto 6, de           melhores astr6nomos da Europa em nume-
1543, B obrdde Isaac Newton, Philosopbiae           ro sempre crescente reconheciam que o
naturalis principia matbematica, publicada          paradigma da astronomia niio conseguira
pela primeira vez em 1687, hoje C comu-             resolver seus problemas tradicionais. Este
mente apontado como o periodo da "revo-             reconhecimento preparou o terreno sobre o
luqiio cientifica". Trata-se de um poderoso         qua1 foi possivel a CopCrnico abandonar o
movimento de idCias que adquire no sCculo           paradigma ptolemaico e elaborar um novo".
XVII suas caracteristicas determinantes na                Elemento detonador desse process0 de
obra de Galileu, que encontra seus filosofos        idCias foi certamente a "revoluqiio astron6-
- em aspectos diferentes - nas idCias de            mica", que teve seus representantes mais
Bacon e Descartes e que depois encontrara           prestigiosos em Copirnico, Tycho Brahe,
a sua expressiio clhssica na imagem newto-          Kepler e Galileu, e que iria confluir para a
niana do universo concebido como maqui-             "fisica classican de Newton. Nesse perio-
na, ou seja, como um relogio.                       do, portanto, muda a imagem do mundo.
      0 epistemologo Thomas Kuhn em A               Peqa por pega, trabalhosa, mas progressi-
estrutura das reuolup5es cientificas escreve:
" 0 s exemplos mais evidentes de revoluq6es
cientificas s5o os famosos e~is6dios de-
                                      do
senvolvimento cientifico que ja no passado
foram frequentemente indicados como re-
voluq6es [...]: reviravoltas fundamentais do
desenvolvimento cientifico ligadas aos no-
mes de CopCrnico, de Newton, de Lavoisier
e de Einstein. Esses etisodios mostram em
que consistem todas as revoluq6es cientifi-
cas. mais claramente do aue muitos outros
episodios, ao menos quanto ao que se refe-
re ii historia das cihcias fisicas.
      Toda revoluqiio tornou necessario o
abandon0 por parte da comunidade de uma
teoria cientifica uma vez honrada, em favor
de outra, incompativel com ela; produziu,
consequentemente, uma mudanga dos pro-
blemas a propor B pesquisa cientifica e dos
critirios segundo os quais a profissiio esta-
belecia o que se deveria considerar como
problema admissivel ou como sua soluqiio
legitima [...I. Quando os paradigmas mu-
dam, o proprio mundo toma novas direq6es.
Mas o fato ainda mais importante C que,
durante as revoluc6es. os cientistas Gem
                    >     2
                                                    CracBvia, em uma incis20 tirada
coisas novas e diversas tambim quando               do Liber Chronicarum (Nuremberg, 149.3).
olham com os instrumentos tradicionais nas          Cope'rnico estudou na cdebre universidade
direq6es em que haviam olhado antes [...I.          desta cidade.
142
       Segunda parte - A   revoIus~oc~entifisa




                         Esta imagem que representa o sistemu de Copdrnico
                     d tirada de Andre' Cellari, Harmonia macroc6smica, 1660.
                          A reuolu@o copernicana, de carater ustroncirnico,
                 tomou-se uma espe'cie de emblema da reuolu@o cientifica em geral.



vamente, caem por terra os pilares da cos-         pio de inircia; Newton, corn sua teoria
mologia aristotilico-ptolemaica: assim, por        gravitacional, unificaria a fisica de Galileu
exemplo, Copirnico coloca o sol no centro          com a de Kepler; com efeito, do ponto de
do mundo, ao invis da terra; Tycho Brahe,          vista da mechica de Newton, pode-se di-
mesmo sendo anticopernicano, elimina as            zer que as teorias de Galileu e de Kepler
esferas materiais que, na velha cosmologia,        constituem boas aproximaq6es a certos re-
teriam arrastado os planetas com seu movi-         sultados particulares obtidos por Newton.
mento, e substitui a idiia de orbe (ou esfe-             Entretanto, durante os cento e cinqiien-
ra) material pela moderna idiia de 6rbita;         ta anos que decorrem entre Copirnico e
Kepler apresenta uma sistematizaqso mate-          Newton, nso 6 apenas a imagem do mundo
matica do sistema copernicano e realiza a          que se transforma. Vinculada a essa trans-
revolucioniria passagem do movimento cir-          formagso, esta a mudanga - que tambkm
cular ("natural" e "perfeito", na velha cos-       foi lenta e tortuosa, mas decisiva -das idti-
mologia) para o movimento eliptico dos             as sobre o homem, sobre a cidncia, sobre o
planetas; Galileu mostra a falsidade da dis-       homem de cidncia, sobre o trabalho cienti-
tingso entre fisica terrestre e fisica celeste,    fico e as institui~6es cientificas, sobre as re-
fazendo ver que a lua k da mesma natureza          la~oes entre cidncia e sociedade, entre cidn-
que a terra e, entre outras coisas, cria novos     cia e filosofia e entre saber cientifico e fe'
fundamentos corn a formulaqso do princi-           religiosa.
143
                       Capi'tulo oitavo -   Origens e t r a ~ o s
                                                                gerais d a revoluc80 cienfif~ca




           t e r r a n&o   &   mais                  explicitar com clareza absoluta -niio C mais
                                                     a intuiqiio privilegiada do mago ou astrolo-
      o centro d o universo:
                                                     go iluminado, individualmente, nem o co-
      conseqG&ncias filosbficas                      mentario a um filosofo (Aristoteles) que dis-
      desta "descoberta"                             se "a" verdade e toda a verdade, isto C, n5o
                                                     6 mais um discurso sobre "o mundo de pa-
                                                     pel", mas sim investiga~iio discurso sobre
                                                                                    e
      Copernico desloca a terra do centro do         o mundo da natureza.
universo e, com ela, o homem. A terra niio                  Essa imagem de ciincia niio surge toda
C mais o centro do universo, mas um corpo            pronta, de uma vez, mas emerge progres-
celeste como os outros; ela, precisamente,           sivamente de um tumultuado cadinho de
niio C mais aquele centro do universo cria-          conceps6es e idiias em que se entrelaqam e
do por Deus em fungi50 de um homem con-              entrecruzam misticismo, hermetismo, astro-
cebido como o ponto mais alto da criaqiio,           logia, magia e, sobretudo, tematicas da fi-
em funqiio do qua1 estaria todo o universo.          losofia neoplat6nica. Trata-se de um pro-
      E se a terra niio C mais o lugar privile-      cesso verdadeiramente complexo, que, como
giado da criaqiio e se ela niio C diferente dos      diziamos, encontra seu resultado mais cla-
outros corpos celestes, entiio niio poderia          ro na funda@o galileana d o metodo cienti-
haver outros homens tambCm em outros                 fico e, portanto, na autonomia da ciincia
planetas? E, ocorrendo isso, como poderia            em relaqiio as proposiq6es de ft e as con-
resistir a verdade da narraqiio biblica sobre        c e p ~ o e filosoficas. 0 discurso qualifica-se
                                                                 s
a descendincia de todos os homens de Adso            enquanto tal porque -como disse Galileu
e Eva? E como i que Deus, que desceu nesta           -procede com base nas "experiincias sen-
terra para redimir os homens, poderia ter            satas" e nas "demonstraqoes necessarias".
redimido outros eventuais homens?                    AKexperiincia"de Galileu C o "experimen;
      Essas interrogaqoes ja se haviam pro-          to". A ciBncia e' ciincia experimental. E
posto com a descoberta dos "selvagens" da            atravCs do experiment0 que os cientistas
AmCrica, descoberta que, alCm de levar a             tendem a obter proposip5es verdadeiras
mudanqas politicas e econijmicas, tambim             sobre o mundo, ou melhor, proposiqdes
proporia inevit5veis questoes religiosas e an-
tropoldgicas a cultura ocidental, colocando-
a diante da "experiincia da diversidade". E
quando Bruno rompe os limites do mundo,
tornando o universo infinito, o pensamento
ocidental encontrou-se na premtncia de bus-
car nova morada para Deus.


      f cigncia torna-se
      saber experimental


    Mudando a imagem do mundo, muda
tambCm a imagem do homem. Mas tam-
bCm, progressivamente, muda a imagem da
citncia.
      A revoluqiio cientifica niio consiste so-
mente em adquirir teorias novas e diferen-
tes das anteriores sobre o universo astron6-
mico, sobre a dinimica, sobre o corpo                Copermco ( 1 473-1 543)
humano ou, talvez, sobre a composiqiio da            e u m dos representantes ~ U I prestlgtosos
                                                                                        S

terra.                                               du "reuolu@io ustroizdmrcu":
                                                     e h afirma que a terra niio d mats o centro d o unwerso,
      Ao mesmo tempo, a revoluqiio cienti-           mas urn corpo celeste como o s outros;
fica C revoluqiio da idCia de saber e de citn-       cat, portanto, a teorra da terra
cia. A cihcia - e esse 5 o resultado da re-          consrderadu centro d o unlverso crlado por Deus
voluqiio cientifica, resultado que Galileu iria      em f u n ~ a odo homem.
144
        Segunda parte   - $ r e v o I u G ~ o
                                             cientifica



sempre vais verdadeiras, mais amplas e po-                mesmo. 0 saber de Aristoteles C "pseudo-
derosas, e publicamente controlaveis sobre                filosofia" e a Escritura niio tem a funqiio de
os fatos.                                                 nos informar sobre o mundo, mas C palavra
                                                          de salvaq5o que apresenta um sentido para
                                                          a vida dos homens.


                           I
                                                                f cigncia     n60   & saber
                                                                de ess&ncias
     0 traco mais caracteristico desse fen6-
meno aue C a cizncia moderna resume-se
precisakente no me'todo, que, por um lado,
exige imagina~iio criatividade de hipote-
                     e                                          Juntamente com a cosmologia aristo-
                                                          tClica, a revolu~20   cientifica leva a rejeiq2o
ses e, por outro lado, o controle publico
                                                          das categorias, dos principios e das preten-
dessas imaginagdes. Em sua esshcia, a c i h -             sdes essencialistas da filosofia aristotilica.
cia 6,publica - e o C por questdes de mCto-
do. E a idtia de cihcia metodologicamen-
                                                          0 antigo saber pretendia ser saber de ess8n-
te regulada e publicamente controliivel que
                                                          cias, ciCncia feita de teorias e conceitos defi-
exige as novas instituiqdes cientificas, como             nitivos. Mas o processo da revoluq50 cien-
                                                          tifica confluira para a idCia de Galileu, que
as academias, os laboratories, os contatos
                                                          afirma que buscar as esshcias C empresa
internacionais (basta pensar em todos os
                                                          impossivel e v5.
epistolarios importantes).
       E t com base no mitodo experimen-
                                                                A cihcia, portanto, assim como ela se
                                                          configura ao fim do longo processo da re-
tal que se funda a autonomia da ci8ncia:
                                                          voluq5o cientifica, niio estii mais voltada
esta encontra suas verdades independente-
                                                          para a esshcia ou substincia das coisas e dos
mente da filosofia e da ft. Mas tal indepen-
                                                          fenGmenos, mas para a qualidade das coi-
dcncia niio tarda a se transformar em con-
                                                          sas e dos acontecimentos de mod0 objetivo
f r o n t ~ que, no "caso Galileu", torna-se
            ,
                                                          e, portanto, sendo comprovaveis e quan-
tragCdia.
                                                          tificiveis publicamente. N5o C mais o que,
       Quando CopCrnico tornou publico o
                                                          mas o como; n5o i mais a substiincia, mas
seu De revolutionibus, o teologo luterano                 sim a fun@io, que a citncia galileana e p6s-
Andri Osiander apressou-se em escrever
                                                          galileana passaria a indagar.
um Prefacio sustentando sue a teoria co-
pernicaka - contraria a ~ ~ s r n o l o gconti-
                                         ia
da na Biblia - niio deve ser considerada
como descri@o verdadeira do mundo, mas
                                                                Press~~ostos
                                                                          filosbficos
muito mais como instrumento para fazer
previs6es.                                                      da cizncia moderna
       Esta seria tambCm a idiia sustentada
pel0 cardeal Belarmino em rela~iio defesa
                                      a
do copernicanismo realizada por Galileu.                       Se o processo da revoluqiio cientifica C
Lutero, Melanchton e Calvino iriam se opor                tambCm um processo de rejeiqiio da filoso-
duramente 5 concepqiio copernicana. E a                   fia aristotilica, niio devemos em absoluto
Igreja catolica processou duas vezes Galileu,             pensar que ele careqa de pressupostos filo-
que seria condenado e forqado a abjuraqiio.               sdficos. 0 s artifices da revoluq2o cientifica,
Entre outras coisas, estamos diante de um                 de varios modos, tambCm estiveram ligados
confront0 entre dois mundos, entre dois                   ao passado, referindo-se, por exemplo, a
modos de ver a realidade, entre duas ma-                  Arquimedes e Galeno.
neiras de conceber a ci2ncia e a verdade. Para                 A mistica do sol, tanto hermktica como
CopCrnico, Kepler e Galileu, a nova teoria                neoplat6nica, por exemplo, domina a obra
astron6mica n2o e' mera suposi@o mate-                    de Coptrnico e a de Kepler, podendo ser
matica nem simples instrumento de calcu-                  encontrada na de Harvey. E o grande tema
lo, embora util para melhorar a feitura do                neoplat6nico do Deus que geometriza e que,
calendario, mas sim uma descri@o verda-                   criando o mundo, cria-o imprimindo nele
deira da realidade, obtida atravis de um mi-              uma ordem matematica e geomitrica que o
todo que niio esmola garantias fora de si                 pesquisador deve procurar, C um tema que
145
                      Capitulo oitavo -   Orisens e tracos gerais d a r e v o l ~ l ~ irientifica
                                                                                        io



atravessa grande parte da revoluqiio cienti-        remos, tinha seus mCritos) niio tanto por
fica, como a pesquisa de CopCrnico, de Ke-          desertar a experihcia, mas muito mais por
pler ou de Galileu.                                 &-la traido, corrompendo as fontes da cicn-
                                                    cia e despojando a mente dos homens. E,
                                                    da mesma forma, os astrologos reagiram
                                                    violentamente ao "novo sistema do mun-
                                                    do". Com as descobertas de Galileu, o mun-
                                                    do tornou-se maior, e a quantidade de cor-
                                                    pos celestes fez-se muito mais numerosa,
                                                    de mod0 imprevisto e de maneira conside-
       Assim, podemos dizer com certa cau-          ravel. Esse fato convulsionava os funda-
tela que o Neoplatonismo constitui a "fi-           mentos da astrologia. E os astrologos se re-
losofia" da revolu~iiocientifica. De todo           belaram.
modo. ele r e ~ r e s e n t acertamente o Dres-           A proposito do assunto, eis trechos de
su~osto      metafisico do eixo da revoluciio       uma carta d o mecenas napolitano G. B.
cientifica, vale dizer, da revoluqiio astro-        Manso, amigo de Porta, a Paulo Beni, leitor
nBmica. Entretanto, as coisas siio ainda            de grego no estudio de Padua, que o pusera
mais complexas do que aquilo que expu-              a par das incriveis descobertas feitas por
semos at6 agora. Com efeito, a historio-            Galileu com a luneta: "[ ...I escreverei tam-
~ r a f i arecente e mais atualizada destacou       bim de uma aspera querela, que me foi fei-
:om abundhcia de dados a relevante me-              ta por todos os astrologos e por grande par-
senqa da tradiqiio migica e hermitic; no            te dos mCdicos, os quais entendem que
interior do processo que levou a cicncia mo-        foram acrescentados tantos novos planetas
derna.                                              aos primeiros ja conhecidos que lhes parece
       Naturalmente, houve aqueles que, co-         que, necessariamente, isso arruine a astro-
mo Bacon ou Robert Boyle, criticaram a ma-          logia e derrube grande parte da medicina,
gia e a alquimia com toda a dureza possi-           ja que a distribuiqiio das casas do zodiaco,
vel, ou aqueles que, como Pierre Bayle,             as dignidades essenciais dos signos, a quali-
investiram contra as superstiq6es da astro-         dade das naturezas das estrelas fixas, a or-
logia. Mas, em todos os casos, a magia, a           dem das interpretaqdes, o govern0 da idade
alquimia e a astrologia siio ingredientes ati-      dos homens, os meses da formaqiio do em-
vos do processo que foi a revoluqiio cienti-        briiio, as raz6es dos dias criticos, bem como
 fica. Como tambCm o foi a tradiqiio hermC-         centenas e milhares de outras coisas que
tica, isto C, aquela tradiqiio que, referindo-se    dependem do numero setenario dos plane-
 a Hermes Trismegisto (recordamos que o             tas, seriam todos destruidos desde seus fun-
 Corpus Hermeticurn fora traduzido por              d a m e n t ~ ~ . " realidade, a progressiva
                                                                    Na
 Marsilio Ficino), tinha como principios fun-       afirmaqiio da visiio copernicana do mundo
 damentais o paralelismo entre o macro-             reduzira sempre mais o espaqo da astrolo-
 cosmo e o microcosmo, a simpatia c6smica           gia. Mas ela teve de lutar tambe'rn contra a
 e a concepqiio do universo como um ser             astrologia.
 vivo.                                                     Dizemos tudo isso para mostrar que
        N o curso da revoluqiio cientifica, al-      a cisncia moderna, autBnoma em relaqiio
 guns temas e ideias magicos e hermtticos,           a fe, publica nos controles, regulada por
 devido ao context0 cultural diferente em clue       um mCtodo, corrigivel e em progresso, com
 vivem ou revivem, se tornariam funcionais           uma linguagem especifica e clara e com suas
 para a ggnese e o desenvolvimento da cisn-          instituiqdes tipicas, foi resultado de um
 cia moderna. Mas isso nem sempre era pos-           longo e tortuoso processo em que se entre-
 sivel ou nem sempre ocorreu. Em suma, a             laqam a mistica neoplatBnica, a tradiqiio
 revoluqiio cientifica avanqou por um mar de         hermCtica, a magia, a alquimia e a astro-
 idCias que nem sempre ou nem sempre com-            logia.
 ~letamente     mostraram-se funcionais ao de-             Em suma, a revoluqiio cientifica niio
 senvolvimento da citncia moderna. Assim,            foi marcha triunfal. E quando relaciona-
 por exemplo, enquanto CopCrnico se refe-            mos e pesquisamos seus fil6es "racionais",
 ria i autoridade de Hermes Trismegisto              niio devemos deixar de atentar tambem
 (alCm da autoridade dos neoplat6nicos) para         para as eventuais contrapartidas misticas,
 legitimar seu heliocentrismo, ja Bacon cen-         magicas, hermeticas e ocultistas desses
 sura Paracelso (que, no entanto, como ve-           fil6es.
14'
       Segunda parte - A     reuoIui~o iientifica




- 11. $ formaG&o de novo tip0 de sabev, -
                               que requev a uni&o
                              de ciSncia e tkcnica

      fi   revoIuC&o c i e n t i f i c a            douto freqiientemente opera fora (se n i o at6
                                                    mesmo contra) das velhas instituiq6es do
      c r i a o cientista
                                                    saber, como as universidades.
                                                          Antes do period0 de que estamos tra-
                                                    tando, as artes liberais (o trabalho intelec-
                                                    tual) eram distintas das artes mechicas.
      0 resultado do processo cultural que          Estas eram "baixas" e "vis"; implicando o
passou a ser denominado "revoluqio cien-            trabalho manual e o contato com a mate-
tifica" foi uma nova imagem do mundo que,           ria, identificavam-se com o trabalho servil.
entre outras coisas, prop& problemas reli-          As artes meciinicas eram consideradas in-
giosos e antropologicos n i o indiferentes. Ao      dignas de um homem livre. Mas, no proces-
mesmo tempo, representou a proposta de              so da revoluqio cientifica, essa separaqio
nova imagem da ciincia: aut6noma, publi-            foi superada: a experiincia do novo cientis-
ca, controlavel e progressiva.                      ta 6 o experimento - e o experimento exi-
      Mas a revoluqio cientifica foi, preci-        ge uma strie de operaq6es e medidas.
samente, um processo: um processo que,                    Assim, fundem-se numa so coisa o no-
para ser compreendido, deve ser dissecado           vo saber e a uniio entre teoria e pratica, que
em todos os seus comDonentes. inclusive a           freqiientemente resulta na cooperaqio en-
tradiqiio hermCtica, a alquimia, a astrologia       tre cientistas, por um lado, e tCcnicos e ar-
ou a magia, posteriormente abandonadas              tesios superiores (engenheiros, artistas, hi-
pela ciincia moderna, mas que, bem ou mal,          draulicos, arquitetos etc.), por outro. Foi a
influiram sobre sua ginese ou, pel0 menos,          pr6pria idtia do saber experimental, publi-
sobre seu desenvolvimento inicial. E preci-         camente controlavel, que mudou o status das
so, contudo, ir mais alCm, j i que outra ca-        artes mechicas.
racteristica fundamental da revolucio cien-
tifica t a formaciio de um saber -a ciincia.
precisamente - que, ao contririo do saber
medieval, reune teoria e pratica, ciincia e               A   revoluG&o c i e n t i f i c a :
te'cnica, dando assim origem a um novo tip0               f u s ~ d a t&cvica
                                                                  o          COM? o s a b e r
de "douto", bem diferente do filosofo me-
dieval, do humanista, do mago, do astrolo-
go, ou tambtm do artesio ou do artista da                  Sustentou-se que a ciincia moderna,
Renascenca.                                         isto 6, o saber de carater publico, coopera-
      Esse =nova  tip0 de douto gerado pela
revoluqio cientifica, precisamente, n i o 6
                                                    tivo e progressivo teria nascido primeiro
                                                    com os artesios superiores (navegantes, en-
mais o mago ou o astrologo possuidor de             genheiros de fortificaq6es, tCcnicos das ofi-
um saber privado ou de iniciados, nem o             cinas de artilharia, agrimensores, arquitetos,
professor universitario comentador e inter-         artistas etc.) para depois influir na transfor-
prete dos textos do passado, e sim o cientis-       maqio das artes liberais.
ta fautor de nova forma de saber, publico,                 Contra esta tese se disse que a ciincia
controliivel e progressivo, isto C, de uma          n i o foi feita pelos artesiios e pelos engenhei-
forma de saber que, para ser validado, ne-          ros, mas justamente pelos cientistas, por
cessita do continuo controle da praxis, da          Calileu, Kepler, Descartes etc. Esti t a tese
experiincia. A revolu@o cientifica cria o           do historiador da ciincia A. Koyrt, o qua1
cientista experimental moderno, cuja expe-          sustentou que a nova balistica n i o foi in-
riincia e' o experimento, tornado sempre            ventada por operarios e artilheiros, mas con-
mais rigoroso por novos instrumentos de             tra eles, e que Calileu n i o aprendeu sua pro-
medida, cada vez mais precisos. E o novo            fissio das pessoas que trabalhavam nos
Capitulo oitavo -   Origens e t r a ~ o s
                                                               gerais d a revoluGdo cientifica



arsenais e nos canteiros de obras de Veneza,          Mas ela surgiu e se desenvolveu tambe'm
mas que, ao contrario, ele a ensinou a eles.          porque encontrou toda uma base tecnolo-
E. de fato. niio foram os tCcnicos do arsenal         gica, toda uma sCrie de maquinas e instru-
que criaram o principio de inircia.                   mentos que constituiam quase que uma ba-
      Claro, Galileu ia ao arsenal e, como            se natural de testes, oferecendo tCcnicas de
ele proprio diz, o coloquio com os ticnicos           comprovaqiio e talvez at6 propondo novos,
do arsenal "muitas vezes ajudou-me na in-             profundos e fecundos problemas. Galileu
vestigaqiio da raziio de efeitos niio apenas          niio aprendeu a dinimica com os ticnicos
maravilhosos. mas tambCm r e c h d i t o s e          do arsenal, assim corno, mais tarde, Darwin
quase imprevistos". As ttcnicas, os acha-             niio aprendera a teoria da evoluqiio com os
dos e os processos presentes no arsenal aju-          criadores de animais. Mas, da mesma for-
daram a reflexiio tedrica de Galileu. E pro-          ma como Darwin falava com os criadores,
puseram novos problemas para ela: "E                  tambim Galileu visitava o arsenal. E esse
verdade que, por vezes, at6 deixou-me con-            fato niio C de somenos importincia. 0 tCc-
fuso e desesperado de saber como penetrar             nico C aquele que sabe que e7 amiude, sabe
e seguir aquilo que, longe de toda opiniiio           tambCm como. Mas C o cientista que sabe
minha, o sentido demonstra-me ser verda-              por que. Em nossos dias, um eletricista sabe
deiro."                                               muitas coisas sobre as aplicaq6es da corrente
      Foram os oculistas que descobriram o            elCtrica e sabe como implantar um sistema,
fato de que duas lentes, dispostas de mod0            mas que eletricista conhece por que a cor-
adequado, aproximam as coisas distantes,              rente funciona do mod0 como funciona ou
mas niio foram os oculistas que descobri-             sabe alguma coisa sobre a natureza da luz?
ram por que as lentes funcionam assim. E
niio foi nem mesmo Galileu. Para isso. foi
precis0 Kepler: foi ele quem compreendeu
as leis de funcionamento das lentes. Como                  fi cizncia ~ o d e r n a
tambCm niio foram os tCcnicos que escava-                   r&ne teoria e p k t i c a
vam p o ~ o s compreenderam por que a
             que
agua das bombas niio subia alCm dos dez
metros e trinta e seis centimetros. Foi ~ r e c i -         Em seus Discursos acerca de duas no-
so Torricelli para demonstrar que a altura            vas cizncias, Galileu escreve: "Parece-me que
maxima de trinta e quatro pis (= 10,36                a pratica freqiiente do vosso famoso arsenal,
metros) para a coluna d'agua no interior do           senhores venezianos, p6e um amplo campo
cilindro revela simplesmente a press50 total          de filosofar aos intelectos especulativos,
da atmosfera sobre a superficie do pr6prio            particularmente aquela parte que envolve a
POSO.                                                 mecinica, B medida que, aqui, toda sorte de
       E quantos eximios navegantes n i o ti-         instrumentos e maquinas C posta em movi-
veram de lutar contra as altas e baixas ma-           mento por grande numero de artifices, entre
rks? E, no entanto, so com Newton chegou-             os quais, pelas observaqdes feitas por seus an-
se a uma boa teoria das marks (embora                 tecessores e por aquelas que, por sua propria
Kepler ja a houvesse roqado; note-se, po-             percepqiio, sem cessar eles proprios conti-
rCm, que Galileu dera-lhe explicaqio equi-            nuam fazendo, forqosamente encontramos
vocada). Eis, portanto, duas teses sobre o            alguns muito peritos e de finissirno discur-
fato da reaproxima@o entre tLcnica e sa-              SO." E entre estes "homens muito peritos e de
ber. entre artes5o e intelectual. fen6meno            finisismo discurso" devemos lembrar tam-
tipico da revoluqiio cientifica. Pois bem, nos        bCm Brunelleschi, Ghiberti, Piero della Fran-
pensamos que essa aproximagiio, at6 mes-              cesca, Leonardo, Cellini; como tambCm Leon
mo a fusiio da tCcnica com o saber, consti-           Battista Alberti, Valturio de Rimini (autor
tuem a propria ciihcia moderna. Uma c i h -           de urn livro sobre maquinas militares), Bi-
cia que se baseia no experimento, por si              ringuccio (autor de uma Pirotecnia) etc.
mesma, exige as te'cnicas de comprova@o,                    A cihcia C obra dos cientistas. A ciEn-
as operaq6es manuais e instrumentais que              cia experimental convalida-se atravCs dos
servem para controlar uma teoria, sendo as-           experimentos. Estes se realizam mediante
sim saber unido B tecnologia.                         tCcnicas de teste resultantes de operaq6es
      Mas, entiio, quem criou a citncia? A res-       manuais e instrumentais com e sobre os
posta mais plausivel parece-nos a de KoyrC:           objetos. A revoluqiio cientifica 6 precisamen-
foram os cientistas que criaram a cihcia.             te aquele processo historic0 do qua1 decor-
14'     Segunda parte - A V ~ V O I U cieniificv
                                      ~~O


re a ciincia experimental, vale dizer, urna        cia moderna acom~anham-se subito cres-
                                                                           de
nova forma de saber, nova e diferente do           cimento da instrumentagiio.
"saber" religioso, do "metafisico", do "as-              N o principio do Quinhentos a instru-
trologico e magico" e tambtm do "ticnico           mentagio reduzia-se a n i o muitas coisas li-
e artesanal".                                      gadas i observagio astron6mica e ao le-
      A ciincia moderna, assim como se con-        vantamento topografico; em meciinica,
figurou a o fim da revolugio cientifica, n i o     usavam-se alavancas e polias. No entanto,
C mais o saber das universidades, mas tam-         logo depois, no curso de poucas dCcadas,
bCm niio pode ser reduzida tampouco 2              surgem o telescopio de Galileu (1610),o mi-
pratica dos artesiios. Trata-se precisamen-        croscopio de Malpighi (16601, de Hooke
te de um novo saber que, reunindo teoria e         (1665) e de van Leeuwenhoek; o pindulo
pritica, por um lado leva as teorias a o con-      cicloidal de Huygens C de 1673; a descrig2o
tat0 com a realidade e as torna publicas,          que Castelli fez do term6metro a ar de Ga-
controlaveis, progressivas e fruto de cola-        lileu t de 1638; o term6metro a agua de Jean
boragio, e, por outro lado, leva para den-         Rey C de 1632 e Magalotti inventou o ter-
tro do saber e d o conhecimento (conce-            m6metro a ilcool em 1666; o bar6metro de
bendo-os como banco de prova das teorias           Torricelli C de 1643; Robert Boyle descre-
e como sua aplicagio) muitos achados das           veu a bomba pneumatica em 1660.
"artes mechicas" e artesanais, conferin-                 Pois bem, o que interessa em urna his-
do a estas um novo status epistemologico           toria das idCias n5o C tanto o elenco dos ins-
antes at6 do que social. E C obvio que a gi-       trumentos (que poderia continuar), mas
nese, o desenvolvimento e o sucesso dessa          muito mais a compreensgo de que, no curso
nova forma de saber anda de bragos dados           da revolugio cientifica, os instrumentos
com nova figura de douto ou sabio e tam-           cientificos tornam-se parte integrante do
bCm com novas instituigoes, dedicadas pel0         saber cientifico: n i o existe o saber cientifi-
menos a o controle das varias partes desse         co separado e, ao seu lado, os instrumen-
saber em formagiio. 0 "cientista" n i o C          tos: os instrumentos estio dentro da teoria.
mais o douto que sabe latim, que leu os li-        tornando-se teorias eles proprios. Em urna
vros, antigos ou ensina em urna universida-        nota manuscrita do acadimico experimen-
de. E muito mais aquele que pertence a urna        tal Vicente Viviani, encontramos o seguin-
sociedade cientifica ou a urna academia, as        te: "Perguntar a Gonfia (um habil soprador
quais, junto com observatorios, laborato-          de vidro): qua1 dos licores esta mais pronto
rios e museus, constituem as novas insti-          a fervilhar com o calor, isto 6, a receber o
tuig6es do saber, fora e por vezes contra as       calor do ambiente." E. mais adiante. vere-
Universidades.                                     mos a corajosa operagio de Galileu, conse-
       E, no entanto, apesar dessas rupturas,      guindo, atravCs de um mar de obstaculos,
n i o devemos nos esquecer dos elementos de        levar um instrumento de "vis meciinicos"
continuidade que ligam a evolugio cientifi-        como a luneta para dentro do saber e usa-lo
ca ao passado. Trata-se do retorno a auto-         com objetivos cognoscitivos, embora ini-
res e textos que podiam contribuir para a          cialmente o divulgasse para finalidades pra-
nova perspectiva cultural: Euclides, Arqui-        ticas, como as militares. E, por seu turno,
medes, Vitruvio, Heron e outros.                   na introdugio 2 primeira edigio dos Princi-
                                                   pios, Newton se opes 2 distingio entre "me-
                                                   ciinica racional" e "meciinica prhtica", de-
                                                   fendida pelos "antigos".
      0 s instr~mentos      cientificos                   Mas vamos nos aprofundar um pou-
      C O ~ O a r t e integrante
             p                                     co mais na teoria ou nas teorias dos instru-
                                                   mentos que podem ser detectadas no inte-
      do s a b e r cientifico                      rior da revolugio cientifica. A primeira
                                                   idCia sobre os instrumentos aue aflora nos
                                                   escritos de alguns grandes expoentes da
      0 reencontro do elo entre teoria e pra-      revolucio cientifica C a visiio dos instru-
tica, isto 6, entre saber e tCcnica, esta vincu-   mentos como ajuda e potencializagiio dos
lado a (e, em parte, se identifica com) outro      sentidos. Galileu afirma que, no uso das ma-
fen6meno evidente criado pela revolugio            quinas antigas, como a alavanca e o plano
cientifica: estamos falando do fen6meno pe-        inclinado, "a maior contribuigio que nos
lo qua1 o nascimento e a fundagio da ciin-         trazem os instrumentos meciinicos C a que
149
                     Capitdo oitavo -   Orisens e t r a ~ o gerals
                                                            s        da   revolrzc&o c ~ e n t i f i c a



diz respeito a o movente (...), como quan-       uso de instrumentos oticos como o prisma
do nos servimos do curso de um rio para          ou as Iiiminas finas acompanha-se de refle-
mover moinhos, ou da forla de um cavalo          x6es - por exemplo, em Newton - que
para criar aquele efeito para o qua1 nZo         tendem a considerar o instrumento niio tan-
bastaria a forla de quatro ou seis hornens".     to como potencializaqiio dos sentidos, mas
Portanto, o instrumento aparece aqui como        muito mais como um meio em condiq6es de
ajuda aos sentidos. N o que se refere a lu-      libertar dos enganos dos olhos. Nesse senti-
neta, Galileu tambim escreve que "6 coi-         do, portanto, o instrumento aparece como
sa belissima, que, a l i m de se ver, C atra-    meio que, levando-nos ao interior dos obje-
ente por se poder admirar o corpo lunar,         tos (e nZo somente a mais objetos), garante
distante de nos quase sessenta semidiime-        maior objetividade contra os sentidos e os
tros terrestres, assim tiio de perto, como se    seus testemunhos.
distasse de nos somente duas dessas me-                Mas as coisas niio ficam por ai, ja que,
didas". E Hooke dep6e no mesmo sentido,          na importante polemica entre Newton e
quando afirma que "a primeira coisa a            Hooke sobre a teoria das cores e sobre o
fazer no que se refere aos sentidos i uma        funcionamento do prisma, aparece outro te-
tentativa de suprir sua deficihcia com ins-      ma da teoria dos instrumentos (um tema
trumentos, isto 6, acrescentar orgiios arti-     destinado a desempenhar um papel de pri-
ficiais aos naturais".                           meira ordem na fisica contemporinea), isto
      Falando de instrumentaqiio cientifica,     6, a quest50 do instrumento perturbador
niio se pode deixar de lado o fato de que o      do objeto de pesquisa, e, conseqiientemen-




   PHILOSOPWIAE
          N A T U R A L I S

   Y R I N C I P I A
       M A T H E M A T I C A .

                  A U C T O R E

       I S A A C 0 NEWTONO,
             E ~ U I TA W R A T ~
                       B




                                                              Frontispicio du segunda cdi@o
                                                              dos Principia mathematics,
                                                              de Isaac Newton ( 1 71 1).
lSo
       Segunda parte - A   rrvoIuc~o
                                   sie~tifica



te, a temhtica de como poder controlar -        que o prisma "analisa" 2 medida que "mo-
e o quanto t possivel faze-lo - o instru-       dula".
mento perturbador. Hooke apreciava os ex-            Assim, em conclusio, no curso da re-
p e r i m e n t ~ ~ Newton com o prisma por
                de                              volu~io cientifica, os instrumentos entram na
sua agudeza e elegiincia, mas o que ele con-    ciBncia com fun@o cognoscitiva: em suma,
testava era a hipotese de que a luz branca      a revolu@o cientifica sanciona a legalidade
pudesse ter uma natureza composta e, de         dos instrumentos cientificos. E se por outro
todo modo, que essa pudesse ser a iinica        lado alguns instrumentos s i o concebidos
hipotese justa. Hooke n i o pensava que a       como potencializaq50 dos nossos sentidos,
cor fosse uma propriedade original dos rai-     por outro lado devemos constatar a emer-
0s. Para ele, a luz branca era produto do       gincia de dois outros temas: o do instrumen-
movimento das particulas que compoem o          to contraposto ao sentido e o do instrumento
prisma. E isso significa que a dispersiio das   perturbador do objeto sob investiga~io.
cores seria o resultado de uma perturba-        Dois temas que retornario com freqiiincia
qio operada pel0 prisma. Hoje, diriamos         no desenvolvimento posterior da fisica.
A presenqa da tradiqZio neoplatenica e da neopitagorica, do pensamento
hermetic0 e da tradiqZio magica no processo da revoluqZio cientifica, e um fato
indubitavel. Basta aqui lembrar: o Deus que geometriza do Neoplatonismo; a na-
tureza escandida sobre o numero dos Pitagoricos; o culto do sol por parte dos
Neoplat8nicos e do hermetismo; a ideia de harmonia das esfe-
ras, uma ideia que guiou Kepler em suas pesquisas; a teoria do
contagium de Fracastoro; a ideia do corpo humano visto como AS diversas
um sistema quimico e a ideia da especificidade da doenqa e dos func6es
respectivos remedios, concepqdes retomadas na iatroquimica de da tradi@o
Paracelso, e assim por diante. Ora, mesmo que algumas destas mdgico-hermetica
ideias resultem funcionais para a criaqiio e os desenvolvimentos    ProCeSSO
                                                                 da revolu@o
da ciCncia, o processo da revolu@o cientifica progressivamente cientjfica
distingue, critica e elimina o pensamento magico, levando a + §
maturaqao a forma de saber que e a cibcia moderna: saber pu-
blico e controlavel e fruto de cooperaqao.
     E exatamente a genialidade descontrolada do pensamento magico, da astro-
logia e da alquimia Bacon opora a clareza e a publicidade de um saber criado por
uma comunidade que trabalha com regras reconhecidas.
     Por sua vez, Pierre Bayle (1647-1706) escrevera nos Pensamentos diversos
sobre o cometa (1682) que as regras da astrologia sao simplesmente "mise-
raveis".

       A estreita uniao entre astrologia e astronomia passa da antiguidade -
Ptolomeu e autor do Almagesto, tratado astron8mic0, mas e tambem autor do
Tetrabiblos, grande tratado de astrologia - a ldade Media e a
reencontramos no period0 do Humanismo e da Renascenqa.               Tracos
      0 astrologo era aquele que, compilando "efemerides" - isto caracteristicos
e, tabuas onde sZio especificadas as posiqdes dos diversos plane- da astrologia
tas dia por dia -, presumia estabelecer o influxo positivo ou ne- e da magia
gativo dos astros sobre a pessoa. Mais especificamente a astrolo- + § 2-5
gia judiciaria pretendia desvelar o julgamento dos astros sobre a
pessoa e ao mesmo tempo sobre os eventos. Nas conjunqdes dos astros o astrolo-
go via o destino das pessoas e a sorte dos governantes; ele sabia coisas tao impor-
tantes que todo principe ou potentado tinha seu astrologo de corte.
      Praticas divinatorias ulteriores s aliaram a astrologia, praticas ligadas a
                                        e
fisiognomonia (onde s presume conhecer o carater de um homem por meio do
                        e
exame de seu corpo, e especialmente mediante o exame dos olhos, da fronte, da
face), a quiromancia (previsao do futuro da pessoa pelas linhas da mao) e a
metoposcopia (previsao do futuro pelas rugas da fronte). E se a astrologia se apre-
 senta como o saber que prevC o curso dos eventos - favoraveis ou desfavoraveis
 que sejam - a magia se apresenta como a ciCncia da intervenqao sobre as coisas e
 sobre os homens, intervenqao dirigida a dominar e a transformar a realidade em
 nosso beneficio.




                                                       Por seu turno. Keder conhecia muito
                                                 bem o Corpus Hermeticum; muito do seu
                                                 trabalho consistiu em compilar efemiri-
                                                 des; quando casou-se pela segunda vez,
                                                 aconselhou-se com os amigos, mas consul-
                                                 tou tambkm as estrelas. E. sobretudo. a sua
      Com base no que dissemos ate agora         visio da harmonia das esferas esta ~ r e n h e
sobre a magia, n i o se deve pensar que, du-     de misticismo neopitagorico. N o Myste-
rante o periodo que estamos tratando, a          rium Cosmographicum, a proposito de sua
magia tenha estado de um lado e a ciincia        investigaqiio a respeito "do numero, da
de outro. A cicncia moderna - com a ima-         extensio e do periodo dos orbes", escreve:
gem que dela nos apresentou Galileu e que        "A admiravel harmonia das coisas im6-
Newton consolidar5 -constitui. como ob-          veis - o sol, as estrelas e o espaqo -,
servamos anteriormente. o resultado do bro-      que correspondem Trindade de Deus
cesso da revoluqiio cientifica. Por essa ra-     Pai, Deus Filho e o Espirito Santo, me en-
zio, no curso desse processo, a medida que       corajou nessa tentativa". Tambtm o mes-
assume consistincia a nova forma de saber        tre de Kepler, isto C, Tycho Brahe, estava
que i a ciincia moderna, a outra forma de        persuadido da influincia dos astros sobre
saber - isto e, a magia - passa a ser com-       o andamento das coisas e sobre os aconte-
batida como forma de ~seudociincia de     e      cimentos humanos, chegando a ver paz e
saber e s ~ u r i o .                            riqueza no aparecimento da stella nova de
      N o entanto, os vinculos entre filosofia   1572. E assim como os horoscopos de Ke-
neoplathica, hermetismo, tradiqio cabalis-       pler eram muito requisitados, tambim Ga-
tica, magia, astrologia e alquimia, por um       lileu fazia os seus horoscopos na corte dos
lado, e as teorias empiricas e a nova ideia      MCdici.
de saber que avanqa nesse sentido cultural,            William Harvey - o descobridor da
por outro lado, siio vinculos cujos elos so se   circulaqio do sangue -, no prefacio a sua
dissolvem com lentidiio e esforco. Com efei-     grande obra De motu cordis, combate com
to, deixando de lado o compoiente neopla-        muito rigor a idiia dos espiritos que rege-
t6nico que constitui o fundamento de toda        riam as operaqoes do organism0 ("Normal-
a revoluqio astronbmica, ningukm pode            mente, acontece que, quando tolos e igno-
hoje negar o peso relevante que o pensamen-      rantes niio sabem como explicar algum fato,
to magico-hermitico exerceu tambkm sobre         entio logo recorrem aos espiritos, que s i o
os expoentes mais representativos da revo-       causa e artifices de tudo, levados ao palco
lucio cientifica.                                na conclusio de estranhas historias. como
      Alim de astr6nomo. Co~Crnico
                           J    L
                                         tam-    o Deus ex machina dos poetastros."); mas,
bim foi midico, tendo praticado sua medi-        nas pegadas da concep~iio  solar da tradiqiio
cina por meio da teoria da influincia dos        neoplat6nica e hermetica, escreve que "o
astros. E n i o 6 o caso de um Copirnico         coraqio pode (...)muito bem ser designa-
midico que se comporta como astrologo e          do como o principio da vida e o sol do
um Copirnico astr6nomo que se comporta           microcosmo, corno, analogamente, o sol
como cientista puro (assim como nos con-         pode muito bem ser designado o coraqiio
cebemos o cientista), pois, quando Copir-        do mundo". Hermetismo e alauimia tam-
nico trata de iustificar a centralidade do sol   bim estario presentes no pensamento de
no universo, ele se remete tambkm a autori-      Newton.
dade de Hermes Trismegisto, que chama o                Assim, a presenqa da tradiqio p l a t h i -
sol de "Deus visivel".                           ca e da neopitagorica, do pensamento her-
153
                Capitdo nono -   $   revolwGiiocientifica e a tradiciio m6c~ico-hermi.tica




metico e da tradiqiio magica no processo da       qoes? O u que urna ordem cumprida urna
revoluqiio cientifica, 6 um fato indubita-        hora apos o estabelecido faz falir certos pro-
vel. Todavia, podemos ver que, enquanto al-       jetos trabalhosamente elaborados? Ou que
gumas dessas ideias tornam-se funcionais          a morte de um so homem pode mudar a
para a criaqiio da ciincia (basta pensar no       face de urna situaqiio e que, as vezes, C por
seguinte: o Deus que geometriza o neoplato-       urna besteira, a mais fortuita do mundo,
nismo; a natureza simbolizada pelo nume-          que niio se vencem batalhas cuja perda i
ro dos pitagoricos; o culto neoplat6nico e        seguida por urna infinidade de males? Co-
hermetic0 a o sol; a idkia kepleriana de har-     mo se ode re tender que os atomos de um
monia das esferas; a idkia do contagium de        cometa, revoluteando pelo ar, produzam
Fracastoro; a concepqso do corpo humano           todos esses efeitos?" Na opiniiio de Bayle,
como um sistema quimico ou a idkia da es-         as regras da astrologia siio simplesmente
pecificidade das doenqas e dos respectivos        "miseraveis".
remkdios, concepqiio e idCia propostas e                Durissima foi a critica de Bacon con-
defendidas na iatroquimica de Paracelso, en-      tra o pensamento magico. Na opiniiio de
tre outras coisas), por outro lado, o proces-     Bacon, a cihcia 6 feita de contribuiqoes in-
so da revoluqiio cientifica, levando 21 ma-       dividuais que, inserindo-se no patrim6nio
turaqiio, na praxis e na teoria, aquela forma     cognoscitivo da humanidade, servem ao seu
unica de saber que 6 a ciincia moderna, pro-      sucesso e bem-estar. Por isso, Bacon niio
gressivamente distingue, critica e rejeita o      condena os "nobres" fins da magia, da as-
pensamento magico. Assim, por exemplo,            trologia e da alquimia, mas rejeita decidi-
Kepler expressa urna Iucida consciincia a         damente seu ideal do saber, pertencente a
proposito do fato de que, enquanto o pen-          um individuo iluminado e, portanto, estra-
samento magico revolve-se no redemoinho            nho ao controle publico da experiincia e,
dos "tenebrosos enigmas das coisas", es-          conseqiientemente, arbitririo e obscuro. A
creve ele, "eu, ao contrario, esforqo-me por       genialidade sem controle, Bacon contrapoe
 levar a clareza do intelecto as coisas envol-     o carater publico do saber; ao individuo ilu-
tas em obscuridades". A tenebrosidade,             minado, urna comunidade cientifica que
 alias, para Kepler, 6 a caracteristica do pen-    opera com normas reconhecidas; a obscuri-
 samento dos alquimistas, dos hermkticos e         dade, a clareza; a sintese apressada, a cau-
 dos seguidores de Paracelso, a o passo que        tela e o paciente controle.
 o pensamento dos "matematicos" se carac-
 teriza por sua clareza. Boyle tambCm se
 lanqari contra Paracelso. E, embora por
 dever tivesse de fazer horoscopos, Calileu         2    $   &mi&    estveita
 mostra-se totalmente estranho ao pensamen-              entre castvologica,
 to magico em seus escritos. E o mesmo vale
                                                         m c l g i c a e cizncicl moderncl
 para Descartes.
       Em seus Pensamentos diversos sobre o
 cometa ( 1682), Pierre Bayle (1647-1706)
 ataca vigorosamente a astrologia, escreven-             N o contexto das ideias do Quinhen-
 do: "Afirmo que os pressagios especificos         tos, C impossivel delimitar urna disciplina
 dos cometas, niio se apoiando em outra coisa      cientifica em relaqiio a outra, como de cer-
 alCm dos principios da astrologia, niio po-       ta forma se tornou possivel em seguida.
 dem ser sen20 extremamente ridicules ( ...).      Na cultura do Quinhentos, nem sempre 6
 Sem precisar repetir tudo o que ja disse so-      possivel traqar muitas linhas de separaqiio
  bre a liberdade do homem (e que seria sufi-      entre as idkias cientificas de um lado e as
 ciente para decidir essa questiio), como e        teorias filosoficas, magicas e astrologicas do
  possivel alguem imaginar que um cometa           outro. A Renascenqa p6s entre a Idade Me-
  seja a causa de guerras que explodem no          dia e a Cpoca moderna, freqiientemente vin-
  mundo um ou dois anos depois que ele de-         culando-se a o passado, ideias da tradiqiio
  sapareceu? E como podem os cometas ser a         neoplat6nica, ideias derivadas da cabala
  causa da prodigiosa variedade de aconteci-       e da tradiqiio hermetica e ideias magicas e
  mentos que se registram no curso de urna         astrologicas. Trata-se de idkias que a histo-
  longa guerra? Niio se sabe, talvez, que a        riografia mais atualizada reconhece serem
  interceptaqiio de urna carta pode fazer falir    um ingrediente que niio pode ser elimina-
  todo o plano de urna campanha de opera-          do da revoluqiio cientifica: onde vemos que
154
           Segunda parte - A   ~ e v o I u cieniifica
                                           ~ ~ o




toda disciplina ou conjunto de teorias (em              sas que estio sobre a terra". Essa estreita
sentido moderno) tem a sua contrapartida                uniiio entre astrologia e astronomia que en-
ocultista. Naturalmente, um dos resultados              contramos na antiguidade atravessa a Ida-
mais maduros da revolugio cientifica seria              de Media e pode ser encontrada no perio-
a progressiva (mas, de todo modo, nunca                 d o do humanism0 e da Renascenga e, por
total e definitiva) expulsio das id6ias ma-             vezes, at6 mais tarde. 0 astrdlogo 6 aquele
gico-hermitico-astrologicas do iimbito da               que, atravis da observagiio dos astros, com-
ciincia. Entretanto, ha outro lado da ques-             pila as "efemirides", ou seja, os quadros
tio: a ciincia moderna teria surgido sem a              onde siio especificadas as posigoes que os
"ruptura" que essas idtias efetuaram em rela-           diversos planetas assumem dia apos dia.
gio ao mundo medieval? Mais adiante vere-               Com base em tais posigoes e configurag6es
mos de que mod0 a revolugio astron6mica                 dos astros, o astrologo tratava "temas de
encontrara sua garantia filosofica no plato-            nascimento", isto 6, fixava quais astros es-
nismo e no neoplatonismo. E o programa                  tavam mais proximos de uma pessoa na
de Paracelso, que via o corpo humano co-                data do seu nascimento, para depois esta-
mo sistema quimico, n i o foi util e fecundo            belecer sua influincia positiva ou negativa
para a ciincia? Nem sempre os principios                sobre a pessoa, da qua1 fazia-se assim o ho-
niio-cientificos, as fantasias "absurdas" e os          roscopo ( o hodierno termo "influEncian
sistemas que parecem nascer do ar consti-               encontra ai a sua origem). N o Quatrocen-
tuem obstaculos para o desenvolvimento                  tos e no Quinhentos foi grande o sucesso
da ciincia. Existem idiias nio-cientificas              da astrologia judiciaria, ou seja, da astro-
que se revelam fecundas para a ciincia, in-             logia voltada para revelar o juizo dos as-
fluindo positivamente em seu desenvolvi-                tros sobre as pessoas e tamb6m sobre os
mento. E, embora uma das caracteristicas                acontecimentos. Em suma, o astrologo via
da ciincia moderna seja sua linguagem cla-              nas conjungoes dos astros as condigoes de
ra, especifica e controlavel, niio se exclui            saude e o destino das pessoas, mas tam-
que idiias confusas possam ser uteis na gi-             bim as perspectivas da estagiio, as revoltas
nese de algumas teorias cientificas. Mesmo              populares, a sorte dos senhores reinantes,
em nossos dias, ha quem evidencie os me-                das politicas e das religioes, as guerras fu-
ritos da confusiio; na realidade, pode ocor-            turas. Como era o astr6logo que via e sa-
rer, as vezes, que a clareza seja o ultimo              bia dessas coisas t i o importantes, niio ha-
refugio de quem niio tem nada a dizer. As-              via principe ou poderoso que niio tivesse o
sim escrevia o filosofo norte-americano                 seu astrologo na corte.
Charles S. Peirce por volta de fins do Oito-
centos: "Diem-me um povo cuja medicina
originiria niio esteja misturada com a ma-
gia e os encantamentos, e eu lhes mostrarei                   Fisiognomonia,
um povo privado de qualquer capacidade
                                                              quiromancia
cientifica."
                                                              e metoposcopia


 3
'4 J "
    4
      ,   Caracteristicas                                     Ao lado da astrologia, exerciam-se ou-
                                                                                -   ,

          da astrologia                                 tras priticas divinatorias, como a fisiog-
                                                        nomonia. N o De fato (V, l o ) , Cicero fala
                                                        do fisiognomonista Zopiro, que afirmava
     De origem egipcia e caldiia, a astro-              poder chegar a conhecer o carater de um
logia era uma ciincia, isto 6, um autintico             homem atrav6s do exame de seu corpo, es-
saber, para os homens do Quatrocentos e                 pecialmente pelo exame de seus olhos, da
do Quinhentos. A astrologia e a astrono-                fronte e da face. Durante a Renascenga, essa
mia aparecem ligadas entre si desde a anti-             arte foi extensamente cultivada, com gran-
guidade. Ptolomeu, como sabemos, i au-                  de sucesso. Em 1580, Giambattista Della
tor do famoso e muito influente tratado de              Porta publicou o livro Sobre a fisiognomonia
astronomia Almagesto, mas tambim escre-                 humana. A fisiognomonia esteve presente
veu um volumoso tratado de astrologia ( o               at6 mesmo no Setecentos (basta pensar em
Tetrabiblos).Tinha a convicgiio de que " h i            Lavater), encontrando-se tragos dela at6 em
certa influincia do ciu sobre todas as coi-             nossos dias. Outras formas de adivinhagio
eram ainda a quiromancia (previsiio do fu-         seus efeitos e suas conseqiiCncias. Desse mo-
turo de uma pessoa pelas linhas da m i o ) e a     do, se a astrologia e a citncia que previ o curso
metoposcopia (previsiio do futuro pelas ru-        dos eventos, a magia C a ciincia da inter-
gas da fronte).                                    venqiio sobre as coisas, os homens e os acon-
                                                   tecimentos, a fim de dominar, dirigir e trans-
                                                   formar a realidade segundo nossa vontade.
                                                         A magia C o conhecimento dos modos
                                                   pelos quais o homem pode agir para levar
                                                   as coisas para o sentido por ele desejado.
                                                   Desse modo, no mais das vezes, ela se con-
      0 paralelismo entre macrocosmo e mi-         figura como ciincia que envolve o saber as-
crocosmo, a simpatia cosmica e a concepqiio        trologico: a astrologia indica o curso dos
do universo como ser vivo s i o principios         acontecimentos (favoraveis e desfavoraveis)
fundamentais d o pensamento hermCtico,             e a magia apresenta os instrumentos de in-
relanqado por Marsilio Ficino con1 a tradu-        tervenqiio sobre esse curso. A magia inter-
$50 do Corpus Hermeticum. Com base no              vem para mudar as coisas que est2o "escri-
pensamento hermktico, niio h i qualquer du-        tas n o ceu " e que foram lidas pela astrologia.
vida a respeito da influhcia dos aconteci-         Evidentemente, a intervenqiio sobre o curso
mentos celestes sobre os eventos humanos e         dos acontecimentos pressupoe o conheci-
terrestres. Mas, como o universo C urn ser vivo,   mento desse curso. Dai ter-se impost0 e al-
em que cada parte depende da outra, toda           canqado grande sucesso a figura do astrolo-
aqio e intervenqio humana tambCm t t m             go-mago, o sabio que domina as estrelas.
II. Reuchlim
                      e a    tradic~o
                                    cabalistica.



  Reuchlin                Johann Reuchlin (1455-1522), professor de grego em
  e a cabala      Tubinga, e autor de um De arte cabalistica. Reuchlin aproximou-
  +§I             s da cabala (que quer dizer tradi@o) talvez sob a influencia de
                   e
                  Pico della Mirandola.
     Na cabala Reuchlin v@ revelaq$odivina imediata: a cabala e ciencia da divin-
                             a
 dade; e o cabalista - escreve Reuchlin - e um taumaturgo que, s tem fe intensa,
                                                                 e
 pode fazer milagres em nome de Jesus.

  Agripa
                         Medico, astrologo, filosofo e alquimista foi Cornelio Agripa
  entre          de Nettesheim (1486-1535), segundo o qua1 a partes do univer-
                                                                  s
  magia branca   so estao em rela~ao    entre si por meio do espirito que anima o
  e magia negra  mundo inteiro.
  -+§2                 E justamente a magia que torna o homem senhor das po-
                 t@ncias  escondidas que agem no universo: a magia natural 4 co-
 nhecimento e controle das forsas que animam os corpos materiais; a magia celes-
 te e conhecimento e controle das influsncias exercidas pelos astros; a magia reli-
 giosa ou cerimonial e a que vigia e expulsa a for~as
                                                s       demoniacas.
      A magia natural e a magia celeste constituem a que e chamada de magia
 branca; a magia religiosa ou cerimonial adquiriu o nome de magia negra ou ma-
 gia negromdntica.



                                               sensivel do qual dependem as coisas sensi-
                                               veis, coloca-o em condig6es de operar coi-
                                               sas milagrosas. Como escreve Reuchlin no
      A cabala esta ligada a primeira figura   Capnion sive de verbo divino, o cabalista C
de mago de certo interesse, ou seja, o ale-    um taumaturgo que, tendo fC intensa, pode
m50 Johann Reuchlin (1455-1522). A ca-         fazer milagres em nome de Jesus.
bala (que significa "tradiq50n) t a mistica
hebraica que, atravks de articulada e com-
plexa simbologia, vZ os fen6menos huma-
nos como reflex0 dos divinos.                       fig 4 pa e a magia
      Pois bem, Reuchlin (ou Capnion, nome
grego que adotou) conheceu Pico della Mi-
randola na Italia. E talvez tenha sido Pico         Para o mCdico, astrologo, filosofo e al-
quem o introduziu nos estudos cabalisticos.    quimista CornClio Agripa de Nettesheim
Professor de grego em Tubinga, Reuchlin foi    (nascido em Col6nia em 1486 e morto em
autor de um De arte cabalistica. Ele via a     Grenoble em 1535), as partes do universo
imediata revelaq5o divina na cabala, que       est5o em rela@o entre si atraves do espirito
seria entio a cihcia da divindade. Afirma      que anima o mundo inteiro. Escreve Agripa
Reuchlin: "A cabala C uma teologia simbo-      em seu De occulta philosophia que, assim
lica, na qual n5o somente as letras e os no-   como uma corda estendida vibra sempre que
mes, mas as proprias coisas, S ~ sinais das
                                  O            C tocada em algum ponto, da mesma forma
coisas." E o conhecimento desses simbolos      o universo, sendo tocado em um dos seus
C obtido mediante a arte cabalistica, que,     extremos, vibra no extremo oposto. 0 ho-
elevando quem a pratica ao mundo supra-        mem esta situado no centro daqueles tres
mundos que, segundo a cabala e como que-                             ceira C a magia religiosa ou cerimonial, vol-
riam tambtm Pico e Reuchlin, siio o mundo                            tada para manter sob controle e p6r em xe-
dos elementos, o mundo celeste e o mundo                             que todas as formas demoniacas. A magia
inteligivel, e, como microcosmo, conhece a                           natural e a magia celeste eram chamadas de
forqa espiritual que perpassa e une o mun-                           magia branca, enquanto que a magia reli-
do, utilizando-se dela para realizar aqoes                           giosa ou cerimonial era conhecida por ma-
miraculosas.                                                         gia negra ou magia negrom6ntica.
      Eis, portanto, a magia, que C "a c i h -                             Ademais, para Agripa, "o principio e
cia mais perfeita", pois, com efeito, torna o                        a chave de todas as operaqoes da magia"
homem senhor das forqas ocultas que agem                             consistiam na dignificaqio do homem, "dig-
no universo. E a citncia do mago diz respei-                         nificaq50" pela qua1 o homem se afasta da
to tanto ao mundo dos elementos como ao                              carne e dos sentidos e, atravCs de subita ilu-
mundo celeste e ao mundo inteligivel. Con-                           minaqso, eleva-se iquela virtude divina que
seqiientemente, Agripa fala de trBs tipos de                         o faz conhecer as operaqoes secretas. E essa
magia. A primeira C a magia natural, que                             sabedoria revelada deve permanecer secre-
realiza aqoes prodigiosas servindo-se do co-                         ta: o mago tern a obrigaq50 de n5o revelar a
nhecimento das forqas ocultas que animam                             ninguCm 'hem o lugar, nem o tempo, nem a
os corpos materiais. A segunda C a magia                             meta perseguida". 0 s6bio iluminado nHo
celeste, que C o conhecimento e o controle                           deve se confundir com os tolos e, por isso,
das influhcias exercidas pelos astros. A ter-                        escreve Agripa, "usamos urn estilo capaz de




              CORNELII AGRIP-
                P A L A 8 N E T T E S H L Y M A' C O N S I L I I S
                   BArchuis Indiciariifacrz c AE-
                    S A R E A E ~airfiatir:l)c
                       OCCVLTA PHI-
                              L OSOPHIA
                                 LibriTrcr.
                                     k,
           XENRICVS CORNELIVS ACRIPPA,
confundir o tolo, mas que C facilmente com-   cos. Trata-se de um ideal de saber diferente
preendido pela mente iluminada".              e bem distante do ideal da ciincia moderna.
     0 ideal do saber de Agripa nHo 6, em     Durante os ultimos anos de sua vida, Agripa
absoluto, o de um saber publico, claro e      condenou o saber e exaltou a fC, no De
control~vel. o ideal de um saber privado,
             E                                vanitate et incertitudine scientiarum (1527).
oculto e que deve ser ocultado, sem um        Mas, dois anos antes de sua morte, fez
mCtodo e uma linguagem rigorosos e publi-     republicar o seu De occulta philosophia.




                 III. 8 programa i a t r o q ~ i m i c o
                                de Paracelso

        A mais importante figura de mago e certamente a de Paracelso (1493-1541).
 Theophrast Bombast von Hohenheim, filho de um medico e ele proprio medico,
 mudou seu nome para o de Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Paracelsus:
 Paracelso, uma vez que s considerava maior do que o medico romano Celso. E
                            e                                                    m
 1514 o encontramos em atividade nas minas e nas oficinas metalurgicas de
 Sigismundo Fugger, banqueiro alemao, tambem alquimista.
                        Paracelso rompeu com a tradisao do ensino medico: "Lutero
   Paracelso:      da quimica", queimou os livros de Galeno e de Avicena; conce-
   ocorpohurnano beu a alquimia corno citncia da transforma~ao metais brutos
                                                                  de
   corno sisterna  encontriveis na natureza em produtos finitos uteis para a huma-
   quimico         nidade; rejeitou a teoria medica dos humores; e prop& a teoria
   e a g@nese      pela qua1 o corpo humano e um sistema quimico em que desem-
   daiatroquimica penham papel fundamental os dois principios tradicionais dos
   +§I             alquimistas, o enxofre e o mercurio, aos quais Paracelso acres-
                   centou o sal.
       Paracelso foi da opiniao de que a doensas s originam do desequilibrio des-
                                        s          e
 tes principios quimicos e nao da desarmonia dos humores de que falam os galenicos.
 Por conseguinte, a saude deve ser restabelecida por meio do auxilio de remedios
 de natureza mineral. Foi assim que nasceu a iatroquimica, que teve tambem su-
 cessos - e hoje compreendemos sua razao - corno quando se administraram sais
 de ferro aos doentes antmicos.
       Em suma, o corpo corno sistema quimico e as doenps corno processos especi-
 ficos para os quais funcionam remedios igualmente especificos sao a duas ideias
                                                                      s
 que no futuro mostrarao toda a sua fecundidade.




     Paracelso:                             mudou seu nome para o de Paracelso, ja que
                                            se considerava maior do que o medico ro-
                                            mano Celso. Em 1514 atuava nas minas e nas
                                            oficinas metalurgicas de Sigismundo Fugger,
                                            o banqueiro alemHo que tambim era alqui-
                                            mista. Estudante de medicina em BasilCia,
     A mais importante figura de mago 6 depois de formado ai ensinou durante dois
certamente a de Paracelso (1493-1541). anos.
Theophrast Bombast von Hohenheim, filho           A ruptura de Paracelso corn a tradi@o
de um mCdico e mCdico ele tambCm, mudou ja se mostrava evidente em suas aulas: mi-
seu nome para o de Philippus Aureolus Theo- nistrava os cursos em alemao ao invCs de
phrastus Bombastus Paracelsus. Ou seja, usar o latim; convidava os farmaciuticos e
Capitulo nono -   $ r e v o l ~ ~cientifica e
                                                  ~lo            a   tradic&o m69ico-hermCtica



os barbeiros-cirurgi6e.s de BasilCia para ou-            Na medicina de Paracelso misturam-
vir suas liq6es; e, assim como Lutero quei-         se elementos teologicos, filosoficos, astro-
mara a bula papal, Paracelso inaugurou seu          16gicos e alquimicos, mas o mais importan-
curso queimando os livros das duas aucto-           te - e importante pel0 que deveria ocorrer
ritates no campo mCdico, isto 6, as obras de        em seguida -C que do cadinho de idCias de
Galeno e de Avicena, sendo por isso cha-            Paracelso emergiu o programa de pesquisas
mado "o Lutero da quimica". Paracelso               centrado na ide'ia de que o corpo humano e'
tambim foi grande viajante, e foi grande            urn sistema quimico. A passagem de um sis-
sua fama e ferozes as pol@micasque favo-            tema de idCias para outro n5o C como um
receu, procurou ou nas quais se viu envol-          tiro de pistola; em geral, C uma passagem
vido.                                               lenta e trabalhosa. Uma boa idCia precisa
      Para Paracelso, a alquimia era a citn-        de tempo para crescer e se afirmar. E, no
cia da transformag50 dos metais brutos en-          fim das contas. as idCias iatroauimicas de
contrados na natureza em produtos aca-              Paracelso revelaram-se mais fecundas e uteis
bados, uteis para a humanidade. Ele nHo             para a citncia do que as constituidas pela
pensava que a alquimia pudesse produzir             teoria dos humores. Paracelso considerava-
our0 ou prata; em sua opiniHo, a alquimia           se um revolucionario que restaurava a dou-
era precisamente cigncia de transforma~6es.         trina hipocratica em sua pureza. Para ele,
      Interessado na magia natural, Paracelso       os midicos galtnicos "est5o completamen-
reestruturou a medicina. Rejeitando a idCia         te na escurid50 em relaqHo aos grandes se-
de que a saude ou a doenqa dependessem              gredos da natureza, que me foram revela-
do equilibrio ou da desordem dos quatro             dos do alto nestes dias de graga".
humores fundamentais, prop& a teoria pela                 Outra idiia interessante gerada pel0
qual o corpo humano e' u m sistema qui-             programa iatroquimico de Paracelso C a de
mico no qual desempenham papel funda-               que as doen~as processos muito especi-
                                                                     siio
mental os dois tradicionais principios dos          ficos, para as quais sd funcionam reme'dios
alquimistas, isto C, o enxofre e o mercurio,        tambe'm especificos. Essa idiia tambCm rom-
aos quais Paracelso acrescentou um tercei-          pia com a tradiqiio, que sustentava e pro-
ro: o sal. 0 mercurio C o principio comum           pugnava remidios considerados bons para
a todos os metais; o enxofre C o principio          todas as doenqas e contendo muitos elemen-
da combustibilidade; o sal representa o             tos. Paracelso defendia e praticava a aplica-
principio da imutabilidade e da resisttncia         $50 de remCdios especificos para doenqas
ao fogo. As doenqas surgem do desequili-            es~ecificas.  TambCm nesse caso. embora a
brio desses principios quimicos e n5o da            idka da especificidade das doehqas e dos
desarmonia dos humores, de que falam os             remCdios se revelasse posteriormente uma
galinicos. Desse modo, na opini5o de Pa-            idiia vencedora, a justificaqiio que Paracelso
racelso, a saude pode ser restabelecida pe-         deu para ela nHo se mostrou igualmente ven-
la ajuda de remidios de natureza mineral e          cedora. A doenqa C especifica porque todo
niio de natureza orginica. (NHo devemos es-         ente e toda coisa aue existem na natureza
quecer que, ainda em 1618, a primeira far-          G o seres vivos authornos, porque Deus,
macopkia londrina listava entre os remC-            aue cria as coisas do nada. as cria como se-
dios a administrar por via oral a bilis, o          mentes nas quais "desde o inicio esta ine-
sangue, os piolhos das irvores, as cristas          rente a elas o objetivo do seu uso e da sua
de frango).                                         funq5o". Toda coisa se desenvolve a partir
      Foi assim que, com Paracelso, nasceu          "daquilo que ela C em si mesma". E Para-
e se imp& a iatroquimica. E os iatroquimi-          celso chama de arqueu essa forqa que, no
COS, em certos casos, chegaram a alcanqar           interior das varias sementes. estimula o seu
grandes ixitos, muito embora as justifica-          crescimento. 0 arqueu C uma espCcie de for-
p5es de suas teorias, vistas com os olhos da        ma aristotilica materializada, sendo o prin-
citncia moderna, apareqam-nos hoje bastan-          cipio vital organizador da madria. Paracelso
te fantasiosas. Assim, por exemplo, com             compara sua aqHo i do verniz: "Nos fomos
base na idiia de que o ferro C associado ao         entalhados por Deus e colocados nas tris
planeta vermelho Marte e a Marte, deus da           substincias. Posteriormente, fomos enverni-
guerra coberto de sangue e de ferro, admi-          zados de vida."
nistraram com sucesso sais de ferro a doen-               Como se vt. tambCm no caso da idCia
tes antmicos - e hoje conhecemos as ra-             -que, com o tempo, se revelaria cientifica-
z6es cientificas desse sucesso.                     mente fecunda - da especificidade das
160
        Segunda parte - A   revnIuriio iicntifica



doenqas e dos relativos remkdios, a justifi-        de bons filhos (teorias controlaveis). Para-
caqiio dessa idtia, do ponto de vista da c i h -    celso n i o deixou de ser mago. Sua magia,
cia moderna, esta bem distante da cisncia.          portm, continha projetos cognoscitivos "po-
Como acontece freqiientemente na hist6ria           sitivos": sua iatroquimica pretende revelar
da cicncia, tambtm aqui uma idtia metafi-           os processos secretos da natureza, mas tam-
sica revela-se como a miie ma (incontrolivel)       btm pretende completa-10s artificialmente.




                      IV. T v Z s       "magos
                                                        N
                                                            italiaoos:
            Fvacastovo, C a v d a o o e                       Della P o v t a

        De familia nobre, Jer6nimo Fracastoro (1478-1553) foi medico, astr6nomo e
 poeta.
       Na obra De sympathia et antipathia Fracastoro defende a influencia recipro-
 ca das coisas; sustenta a atraqao das coisas semelhantes e a rejeiqao das desse-
 melhantes; e afirma que sao fluxos de atomos que estabelecem as relac8es entre
 as coisas, motivo pelo qua1 nenhuma asso pode ter lugar sem contato.
                          De 1530 e o poema Syphylis sive morbus Gallicus: aqui Fra-
   Fracastoro:     castor0 6 o primeiro a usar o termo "sifilis", descrevendo a peste
   a teoria         e o tratamento da doensa por meio do mercurio.
   do contdgio            De 1546 e a obra-prima de Fracastoro, o De contagione,
   e o nascimento onde sao descritos tres modos de infecqao: por contato direto,
   da               por "estimulos" (por exemplo, por meio de roupas), e a distsn-
   epidemiologia    cia (corno no caso da variola e da peste).
   +§ 1                  A obra de Fracastoro e considerada de extraordinaria mo-
                    dernidade. Naquela epoca nao era conhecida a existencia de
 microorganismos, e Fracastoro falava porem de "seminaria", as sementes da do-
 en$a que, invisiveis, se multiplicam rapidamente. E por isso que Fracastoro e con-
 siderado o fundador da epidemiologia.
        Outro medico mago que nao devemos esquecer e Jerdnimo Cardano (1501-
 1576). Foi autor de um tratado de algebra, Ars Magna (1545), onde exp6e o meto-
                   do resolutivo das equaebes de terceiro grau, descoberto na ver-
                   dade por seu rival Tartaglia.
   Cardano:             Ja matematico famoso, treze anos depois de Ars Magna,
   mtorde Obras Cardano publica um livro sobre metoposcopia, ou seja, sobre a
   de matematica
   e de
                   interpretagao das rugas da fronte. Seu De subtilitate constituiu
   metoposcopia    uma especie de "enciclopedia domestica" (da qua1 e possivel vir
   +§2             a saber como se selecionam os fungos, como se recuperam os
                   navios afundados, como se originam as montanhas, como e feita
                   a junsao universal conhecida como "junta carddnica" etc.).
      Um documento excepcional e a autobiografia De vita propria liber (1575).
 Cardano tambem e autor de um livrinho de preceitos para seus filhos, um
 dos quais sera justieado por assassinio, livrinho chamado: Praeceptorum filiis
 liber.

   Della Porta:             Experiente em otica, alem da magia, foi o napolitano
   experiente         Giambattista Della Porta (1535-1615).
   em otica               Foi autor do De refractione e de outra afortunada obra:
   e magia natural    Magia naturalis sive de miraculis rerum naturalium (1558), em
   +§3                que a magia natural e vista como a perfeiqao da sabedoria.
A Magia naturalis de Della Porta teve sucesso estrepitoso: basta pensar nas
 23 edis8es do original latino e nas tradu@es italiana, francesa, espanhola, holan-
 desa e tambem Orabe. Eis alguns dos titulos dos 23 livros da obra, verdadeira e
 pr6pria encicloptidia: Cruzamento dos animais; Metodospara produzir novasplan-
 tas; As distilagbes; 0s unguentos; 0 tratamento do ferro; A caga; A cosmetics fe-
 minina.




     ,=Jer&niwo    Fracastoro,                  descreve tris modos de infecqiio: por con-
                                                tat0 direto, por "estimulo" (atravts do ves-
     f~ndador                                   tuario, por exemplo) e a disthcia (como
                                                ocorria, em sua opiniiio, com a variola ou
                                                a peste). E dentro de uma visiio filos6fica
                                                (substancialmente empedocleana) que Fra-
       JerBnimo Fracastoro (1478-1553) foi      castor0 desenvolve a sua obra, considera-
mtdico, astrBnomo e poeta. De familia no-       da "de estupenda modernidade, porque,
bre, viveu sempre em uma vila de sua pro-       embora niio sendo conhecida a existincia
priedade em Verona. Estudando em Padua,         de microbios naquela tpoca, Fracastoro fa-
conheceu Coptrnico, de quem foi amigo. Na       lou de 'seminais', as sementes das doenqas,
obra De sympathia et antipathia, Fracastoro     que se multiplicam e se propagam rapida-
defende a influincia reciproca das coisas,      mente. Sera o desenvolvimento da ciincia
sustenta a atraqiio entre as coisas semelhan-   futura que fara com que Fracastoro pudes-
tes e a repulsa entre as dessemelhantes e,      se ser considerado o fundador da epidemio-
em sua opiniiio, siio fluxos de itomos que      logia" (D. Guthrie).
estabelecem as relaq6es entre as coisas, de
mod0 que nenhuma aqiio pode se verificar
sem contato.
       Em 1495. auando Carlos VIII, rei da
Franqa, sitiou 'a cidade de ~ i ~ o l emani-
                                        s;
festou-se nova e terrivel doenqa: a sifilis.
Dizia-se que a doenqa fora levada a Espa-
nha por Colombo e que os espanhois leva-
ram-na depois para Napoles. Em seguida,
os espanh6is de Napoles a teriam transmi-
tido aos franceses, que chamaram a doen-
ga de "napolitana", ao passo que, para os
espanh6is, ela era o "ma1 francis". 0 nome
 "sifilis" foi usado pela primeira vez por
Fracastoro, quando, em 1530, publicou o
poema Syphylis sive morbus Gallicus. Si-
filo, pastor mitologico, tendo provocado
a ira dos deuses, foi atacado por uma doen-
ga contagiosa e repugnante. 0 poema niio
tem uma trama propriamente dita: a fi-
gura de Sifilo t apenas um pretext0 util a
Fracastoro para descrever a sifilis e o tra-
 tamento da doenqa por meio de mercurio e
guaiaco ou lenho sagrado, um remidio
 importado da Amirica juntamente com a
 doenqa.
        Fracastoro niio se ocupou so com a
 sifilis; conseguiu identificar tambtm o tifo
 petequial. E, em 1546, publicou a sua
 obra-prima midica, o De contagione, que
162
        Segunda parte - $   revoIuG&o c i e ~ t i f i c a




      3ev6nimo Cardano,                                      rece estar ao lado do outro excepcional do-
                                                             cumento que C a autobiografia de Benvenuto
      u m m a g o q u e foi m k d i c o
                                                             Cellini.
                                                                  Para se ter uma idCia, eis alguns tre-
                                                             chos dessa cClebre autobiografia: "Dedi-
                                                             quei-me durante muitos anos a ambos os
      Outro medico-mago que devemos re-                      jogos: a o xadrez por mais de quarenta, e
cordar 6 J e r h i m o Cardano. Nascido em                   aos dados durante cerca de vinte e cinco
Pavia em 1501, professor de medicina em                      anos. E, durante tantos anos, niio me en-
Pidua e Milso, morreu em Roma em 1576.                       vergonho de dizi-lo, jogava todo dia." E
Autor de uma autobiografia (De vita pro-                     informa ter dedicado um livro a o xadrez,
pria), deixou-nos varios escritos, entre eles                no qual, declarava ele, "descobri muitos
alguns de maior destaque: De subtilitate                     problemas notaveis". Substancialmente
(1547), De rerum varietate (1556) e Arca-                    misantropo, confessa: "E, se olho para a
na aeternitatis. Cardano foi um escritor                     alma, pergunto-me: que animal C mais
muito fecundo, como testernunha a Ope-                       malvado, enganador e pCrfido do que o
ra omnia em dez volumes, publicados um                       homem?" Depois da e x e c u ~ a o filho,
                                                                                               do
apos o outro. Em seu tratado de algebra                      Cardano niio encontra mais paz, v i ini-
Ars Magna (1545),ele exp6e o mCtodo de                       migos e conjuras por toda parte e nso con-
resolugio das equaqoes de terceiro grau,                     segue mais dormir: "Em 1560, la pelo mis
na verdade descoberto por seu rival Tar-                     de maio, em virtude da dor pela morte do
taglia.                                                      meu filho, pouco a pouco eu vinha per-
      Matematico famoso, treze anos de-
pois da Ars Magna, Cardano publicou um
livro de natureza completamente diferente
sobre a metoposcopia, isto C, sobre a inter-
pretaqio das rugas da fronte. Sua obra De
subtilitate foi muito popular, sendo defi-
nida por um estudioso contemporiineo
(Douglas Guthrie) corno uma espCcie de                                MEDIOLANENSI S
"encicloptdia domistica", onde C possivel                          PHILOSOPHI A C M t I > I C t
encontrar de tudo urn pouco: como mar-                                         CELEBERRlMI
car as roupas de casa, como recuperar os                                              O P E R Y M

navios afundados, como selecionar os co-                              TOMVS TEKTIVS,         <oxt,xchrtr
gumelos, a origem das rnontanhas, a sina-                                     P H Y S I C A
lizaqio por meio de tochas e a articulaqZo                          C O N 7 f h r T O R Y M HI'IYS
                                                                                     I.&.    T,,.b,U.
                                                                                                          ' T O M 1 J E R I L Af
                                                                                                        ,z&,
universal conhecida como "junta cards-
nica" .
      Sua autobiografia i um livro que se 16
corn prazer ainda nos dias de hoje. Carda-
no apresenta-se a si mesmo como homem
excepcional, com poderes sobrenaturais
que o colocam acima dos simples mor-
tais. E apresenta os acontecimentos de sua
vida sempre acompanhados do miraculoso
e d o extraordinirio. Para ele, sao impor-
tantes os sonhos e outros sinais premoni-                                         LVGDVNI.
torios.                                                            Sumptttn~sIOANNISN T O N I IV C . V L T A N .
                                                                                  A         H
                                                                          & MARCI N T O NR I V A V D .
                                                                                 A              IA
      A infiincia infeliz e a juventude dificil,                              at             ~c-r
                                                                                      .I. I l k
a batalha contra a pobreza, a triste experiin-                                CVhl    @     IVlLLLlr)      LECll

cia de mkdico do interior, o acesso ii univer-
sidade, a gloria, as descobertas matemati-
cas, a celebridade como rnCdico, a e x e c u ~ i o
do filho condenado como assassino, a ve-
lhice como protegido do papa em Roma,
todas essas coisas Cardano descreve no De
vita propria liber (1575), um livro que me-
dendo o sono (...).Rezei entHo a Deus para       qualificara Paracelso como um monstro que
que tivesse misericordia de mim: com efei-       acasala fantasmas e Agripa como um bufHo
to, corria o risco de que aquele nHo dor-        trivial.
mir sem interrupqiio me levasse a morte
ou a loucura (...).Supliquei-lhe entHo que
me fizesse morrer, coisa que C concedida a
todos os homens, e fui estender-me sobre              C i i a m b a t t i s t a Della P o r t a ,
o leito". Tendo adormecido, Cardano ou-               e n t r e &ica e m a g i a
viu uma voz que lhe dizia para levar a boca
a esmeralda que carregava a o pescoqo. Ao
fazE-lo, logo a dor passou, bem como a                 0 napolitano Giambattista Della Por-
                       E
penosa recorda~iio. isso acontecia sem-          ta (1535-1615)era um cultor de otica, au-
pre que levava a esmeralda i boca. Mas,          tor de De refractione, obra dedicada preci-
relata, "quando comia ou dava aulas, n i o       samente A otica, e de um livro que ficou
podendo usufruir da ajuda da esmeralda,          muito famoso, a Magia naturalis sive de
retorcia-me em dores a ponto de suar mor-        miraculis rerum naturalium (1558). Nesse
talmente."                                       livro ele distingue a magia diabolica (a ma-
      Cardano conta ainda que aprendeu           gia que se serve das aqdes dos espiritos imun-
miraculosamente o latim, o grego, o fran-        dos) da magia natural, que C a perfeiqzo da
c& e o espanhol. Diz que um zumbido nos          sabedoria, o ponto mais alto da filosofia
ouvidos o advertia se alguCm estivesse           natural.
tramando contra ele. E escreve ainda: "En-             Pode-se ter uma idCia do que era essa
tre os acontecimentos naturais de que fui        obra - que teve vinte e t r k ediqdes do ori-
testemunha, o primeiro e mais excepcio-          ginal latino, dez traduqdes italianas, oito
nal foi o de ter nascido nesta nossa Cpoca, na   francesas e outras traduqoes espanholas,
qua1 pela primeira vez se conheceu todo o        holandesas e at6 arabes - com base nos ti-
mundo."                                          tulos dos seus vinte livros: 1) Causas das
      CClebre como mkdico, Cardano, em           coisas; 2) Cruzamento dos animais; 3 ) Mo-
1552, chegou a ser at6 mesmo chamado para        dos de produzir novas plantas; 4 ) A admi-
consulta na Escocia, a fim de curar o arce-      nistraqiio da casa; 5 ) Transformaqiio dos
bispo Hamilton que, apos os tratamentos,         metais; 6 ) Adulteraqio das pedras precio-
ficou curado. Durante a sua viagem para a        sas; 7) As maravilhas do imH; 8) ExperiEn-
Escocia, Cardano conheceu em Paris o me-         cias mCdicas; 9 ) CosmCtica feminina; 10) As
dico Jean Fernel (que seria criticado por        destilaqdes; 11) 0 s ungiientos; 12) 0 fogo
Harvey por causa de sua teoria dos espiri-       artificial; 13) 0 tratamento do ferro; 14) A
tos do organismo) e o anatomista Sylvius.        culinaria; 15) A caqa; 16) 0 s cifrarios; 17)
Em Zurique, encontrou-se com o naturalis-        As imagens oticas; 1 8 ) A meciinica; 1 9 )
ta Conrad Genser. Em Londres, conheceu o         Aerologia (De pneumaticis); 20) Diversos
rei Eduardo VI.                                  (Chaos). Em suma, uma verdadeira enciclo-
      Cardano tambCm C autor de um livrete       pCdia.
de preceitos para os seus filhos, um dos               Na realidade, Della Porta "preferia
quais, como dissemos, seria executado por        seguir sua paixiio pelos conhecimentos,
assassinio. Nesse Praeceptorum filiis liber      mas niio se esquecendo nunca de que es-
encontramos conselhos como os seguintes:         tava diante de um campo de paixoes e in-
 "NHo faleis aos outros de vos mesmos, de        teresses, advertido que era pela tradiqao,
vossos filhos, de vossas mulheres. NHo vos       que lhe fornecia estimulos para suas pes-
acompanheis de estranhos pelas vias publi-       quisas e para a sociedade que o cercava,
cas. Se estiverdes falando com um homem          bem como pelos consensos, as expectati-
mau ou desonesto, niio o olheis na face, mas     vas e as desconfianqas que sua obra susci-
 nas miios."                                     tava (. ..).Certamente, a o fazer cisncia, ele
      Bacon atacara o ideal de saber defen-      tinha em mente muitas coisas: o util e o
 dido e professado por Cardano (um saber         supCrfluo, o absolutamente verdadeiro e
 de iniciados e cheio de maravilhas e mila-      o vagamente provivel, o sucesso de pu-
 gres). Em nome de um saber publico, claro       blico e o tribunal da Inquisiqiio, a tradi-
 e que cresce por colabora@o, Bacon falari       $20 magica e os experimentos de Arqui-
 de Cardano como de urn esforqado cons-          medes (...). Na sintese racional operada
 trutor de teias de aranha; da mesma forma       pela ciincia moderna, niio encontraremos
mais muitas dessas referhcias (...). Della    tudo o que aconteceu nesse meio tempo,
Porta, portanto, demorou-se no palco da       particularmente pel0 que foi a caminhada
nossa vida, das nossas paix6es e da nossa     da ci2ncia depois dele. 0 que n i o faz com
morte. Isso fez com que, durante s6culos,     que sua obra n5o possa mais suscitar nos-
ele parecesse urn cientista parado no tem-    sa curiosidade, tambCm por seus aspectos
po. E esse juizo se tornou irreversivel por   arcaicos" (L. Muraro).
e o movo        paradigma da teoria Celioc&mtrica

       A teoria astron6mica de Copernico comportou autiintica "revolu~%o"        no
mundo das ideias que o homem tinha ha seculos sobre o universo, sobre sua rela-
c;%ocom ele e sobre seu lugar nele.
     E devemos logo esclarecer que Copernico - diversamente de A ,,revoluciondria,,
Osiander e tambem de tudo o que Belarmino sustentara - deu teoria
uma intefpfetaq80 reali~ta propria teoria. Com efeito, Co- he/ioc@ntrica
                             da
pernico escreve: "Todas as esferas giram em torno do sol como interpretada
seu ponto central e portanto o centro do universo esta dentro realisticamente
do sol [...I. 0 movimento da terra sozinha e portanto suficiente pelo
para explicar todas as desigualdades que aparecem no ceu".          "neoplatbnico"
     E esta interpretaq%o realista da teoria heliocentrica encon- Copernico
tra solida base na metafisica de cunho plat6nico e neoplat6nico    +  4
que sustenta o empreendimento cientifico de Copernico. De fato,
se olharmos os ceus a partir da perspectiva neoplatdnica, os calculos que especifi-
cam posi@es e movimentos dos corpos celestes n%o simplesmente apetrechos
                                                     s%o
uteis para fazer previsdes, mas revelam a estruturas imutaveis que o Deus que
                                           s
geometriza imprimiu no mundo.
      Nicolau Copernico (1473-1543) nasce em Torun - cidadezi- C o p ~ m i c o ~
nha polonesa as margens do Vistula -, estuda primeiro em vidae ohms
Cracovia e sucessivamente em Bolonha, Padua e Ferrara, onde se + tj 2
laureia em direito can6nico (1503). Voltando a Pol6nia, leva a
termo - entre compromissos sociais e religiosos - sua obra mais celebre: De
revolutionibus orbium coelestium.
     Desta obra sai, em 1540, com o titulo de Narratio prima, um resumo prepara-
do por Georg Joachim Lauschen, dito Rheticus (por causa de sua proveniCncia da
antiga provincia chamada Rhetia pelos romanos).
       Da publica@o do manuscrito de Copernico ocupou-se o
teologo protestante Andre Osiander (1498-1552), o qua1 fez pre-     Osiander
ceder o texto por um prefacio an6nimo em que se propde uma          oferece uma
interpretaqao instrumentalista e n%orealista da teoria coper-       interprefaP0
nicana. A teoria de Copernico, em outras palavras, seria apenas
                                                                    do De
um instrumento util para fazer previsdes e n i o uma descri~ao      revo,utionibus
verdadeira da realidade.                                            de Copernico
     Copernico morre dia 24 de maio de 1543. Conta-se o fato de
que, justamente no dia de sua morte, Copernico tenha recebido
                                                                    ,
a primeira copia impressa do De revolutionibus.
Realista e neoplat6nic0, convict0 da novidade revolucionaria da propria
 teoria, Copernico tinha percebido o contraste que poderia explodir entre certas
 interpretaqbes de determinadas passagens da Biblia e a teoria heliocCntrica. Ele,
                    todavia, n%o podia aceitar a "monstruosidade" representada pela
  A teoria          teoria ptolomaica. E assim veio a abraqar a ideia de que e a terra
  helioc@ntrica     que se move, ideia ja defendida na antiguidade por lceta de
   entre tradigso   Siracusa (sec. V a.C.), pelo pitagorico Filolau (sec. V a.C.), por
   e revolu@o        Heraclides P6ntico e Ecfanto o pitagorico (sec. IV a.C.).
   -+ 3 4-6              No primeiro livro do De revolutionibus Copernico defende
                    teses como estas: 1) o mundo deve ser esferico; 2) a terra deve ser
 esferica; 3) a terra com a agua forma urna unica esfera; 4) o movimento dos corpos
 celestes e uniforme, circular e perpetuo, ou ent%ocomposto por movimentos cir-
 culares; 5) a terra se move em um circulo orbital em torno do centro, girando
 tambkm sobre seu eixo; 6) a dimensso dos ceus, s comparada com a dimensso da
                                                     e
 terra, e enorme.
       S%oestas as ideias que revolucionam o velho sistema do mundo. Copernico
 assumiu no novo mundo diversas peqas do velho mundo (a forma perfeita e a
 esferica; o movimento perfeito e natural e o circular; os planetas n%o movemse
 em orbitas, mas d o transportados por esferas cristalinas que giram e que tCm
 urna realidade material etc.) el todavia, sua teoria foi revolucionaria, pois rompia
 com urna tradi~ao    mais que milenar; Copernico prop6s um paradigma alternativo
 que, embora nos inicios parecesse n%o     levar muitas vantagens, continha toda urna
 sPrie de previsbes (semelhanqa entre os planetas e a terra, as fases de VCnus, um
 universo maior etc.) que sucessivamente foram confirmadas por Galileu.




                                                tituindo-as pelas orbitas planetarias elip-
                                                ticas. E as novidades sucediam-se rapida-
                                                mente urna a outra: a abertura do mundo
                                                fechado, embora vasto, de CopCrnico em
                                                um universo infinito; a identificaqao de
      "Enquanto a terra esteve parada, tam-     um elemento din2mico no movimento dos
bem a astronomia esteve parada" - assim         corpos celestes, niio mais considerados
falou Georg Lichtenberg (1749-1799)a pro-       copernicamente imoveis, em virtude de sua
posito de CopCrnico. Na realidade, tendo        propria forma esfkrica. N o curso de um sC-
situado o sol ao invis da terra no centro       culo e meio, o sistema de Newton, que con-
do mundo, e tendo afirmado que C a terra        clui urna etapa daquela caminhada que
que gira ao redor do sol e nao o contrario,     CopCrnico fez a astronomia retomar, ja tem
CopCrnico recolocou em movimento a pes-         muito pouco do sistema copernicano em
quisa astron6mica, que adquiriu tal velo-       termos de conteudo, talvez nada mais do
cidade que, quando Newton, cento e cin-         que o heliocentrismo" (F. Barone). Natu-
qiienta anos depois da obra de CopCrnico,       ralmente, "o primeiro significado da revo-
deu a fisica aquela forma que hoje conhe-       luqiio copernicana C (...) o de urna reforma
cemos como "fisica classica", ja quase nada     das concepqoes fundamentais da astrono-
restara das concepqi5es de CopCrnico, a         mia" (Th. S. Kuhn), mas o alcance do De
exceqiio da idCia de que o sol C o centro d o   revolutionibus de CopCrnico vai muito mais
universo. Com efeito, quando Kepler -           alCm de urna reforma tCcnica da astrono-
que, no entanto, proclamava-se coperni-         mia. Deslocando a terra do centro do uni-
can0 - publicou, em 1609, a Astronomia          verso, Copirnico mudou tambCm o lugar
nova, ainda niio haviam passado sessenta        do homem no cosmo. A ~evolu@oas-
anos da publicaqiio do De revolutionibus        tron6mica implicou tambe'm uma revolu-
de CopCrnico, "e, no entanto, o avanqo da       @o filosofica: "Homens que acreditavam
astronomia ja havia deixado na escuridiio       que sua morada terrestre fosse apenas um
do passado as orbitas circulares de que tra-    planeta, girando cegamente em torno de
ta a obra de toda a vida de CopCrnico, subs-    urna dentre as bilhi5es de estrelas, comeqa-
vam a avaliar a sua posi@o no esquema         nos parece mais distante da nossa c i h c i a
cosmico de mod0 bem diferente dos seus        que a vis5o de mundo de Nicolau Coptr-
antecessores, que viam a terra como o uni-    nico". N o entanto, sem a concepq50 de
co centro focal da criaqio divina" (Th. S.    Coptrnico, "a nossa cigncia nunca teria
Kuhn).                                        existido" (A. Koyrt). Como tambim n5o
     Ao deslocar a posi@o da terra, Co-       teria existido, para usar as palavras de An-
ptrnico tambtm retirou o homem do cen-        t6nio Banfi, "o homem copernicano", isto
tro do universo. Em seu conhecido livro       6, o homem "que se libertou da ilus5o de
A revolu@o copernicana (1957), escreve        estar no centro do universo e, com ela, li-
ainda Kuhn: "Sua doutrina planetaria e a      bertou-se tambtm de muitos outros mitos
concepq5o a ela ligada, de um universo        com os quais havia tecido seu saber" (F.
centrado no sol, foram instrumentos da        Barone). Esse t o sentido pelo qua1 CopCr-
passagem da sociedade medieval para a mo-     nico, ainda hoje, representa a inovaqio ra-
derna sociedade ocidental, enquanto atin-     dical e revolucionaria. Com efeito, mesmo
giam (...) a rela@o do homem com o uni-       nos dias de hoje, ainda t comum usar a
verso e com Deus. Desenvolvida com urna       express50 "revoluq50 copernicana" para
revisio estritamente ttcnica. de alto nivel   qualificar urna grande e significativa mu-
matematico, da astronomia classica, a teo-    d a n ~ aE n i o devemos nos esquecer de que,
                                                       .
ria copernicana tornou-se um centro focal     quando Kant avaliava a profunda transfor-
das terriveis controvirsias no campo reli-    ma@o que ele proprio produziu no Bmbito
gioso, filosofico e das doutrinas sociais     da teoria do conhecimento, acabou falan-
que, nos dois stculos posteriores a desco-    do dela como de urna "revoluq5o coper-
berta da AmCrica, fixaram a orientaqio do     nicana" .
pensamento europeu." Em suma, a revo-
1 ~ ~ copernicana foi tambtm urna revo-
       5 0
luqio no mundo das idtias, a transforma-
$50 de idtias inveteradas que o homem              A   interpretaq60
tinha d o universo, de sua rela@o com ele e         instwmentalista d a o b r a
do seu lugar nele. Nos dias de hoje, "nada


                                                    Nicolau CopCrnico (Niklas Kopper-
                                              nigk) nasceu em Torun, urna cidadezinha
                                              polonesa as margens do Vistula, em 19 de
                                              fevereiro de 1473. Estudou primeiro em Cra-
                                              covia (onde aprendeu geometria, trigo-
                                              nometria, calculo astron6mico e os funda-
                                              mentos teoricos da astronomia) e depois em
                                              Bolonha, Padua e Ferrara, onde se laureou
                                              em direito can6nico (1503).Passa ainda em
                                              Padua de 1503 a 1506 e depois volta para a
                                              PolGnia, onde, entre empenhos sociais e re-
                                              ligiosos, n5o descura os estudos de astro-
                                              nomia e por volta de 1532 sua obra mais
                                              ctlebre, as Revolug6es dos corpos celestes
                                              (De revolutionibus orbium coelestium), t
                                              completada. Nesse meio tempo a fama de
                                              CopCrnico ultrapassara as fronteiras da Po-
                                              16nia. Em l o d e novembro de 1536, urna car-
                                              ta do arcebispo de Capua, Nicolau Schon-
                                              berg (falecido em 1537) solicita a Coptrnico
                                              o envio de urna copia de sua obra, acrescen-
                                              tando: "Suplico-te calorosamente que dgs
                                              a conhecer tua descoberta aos estudiosos."
                                              Como se sabe, CopCrnico costumava dizer
                                              que guardava seu segredo "como os segui-
                                              dores de Pitagoras" e que mantinha seu li-
vro "fechado no esconderijo". Entretanto,         terra, portanto, C suficiente para explicar
em maio de 1538, chegou a Frombork, para          todas as desigualdades que aparecem no
conhecer CopCrnico e sua obra, o estudioso        cCu." CopCrnico morreu em 24 de maio de
Georg Joachim Lauschen ( 1516-1574) cha-          1543 "por hemorragia, mas ja ha muito tem-
mado Rheticus por ser proveniente da anti-        po perdera a memoria e a conscitncia".
ga provincia que os romanos denominavam           Conta-se que, no dia de sua morte, CopCr-
de Rhetia.                                        nico recebeu a primeira copia publicada do
      Professor da Universidade de Witten-        De revolutionibus. 0 s despojos mortais de
berg, Rheticus conquistou a confianqa de          CopCrnico foram sepultados na catedral de
CopCrnico e, entusiasmado com as teorias          Frombork.
do mestre, logo preparou um resumo delas,
que foi publicado em 1540, em Gdansk, e
no ano seguinte em BasilCia, sob o titulo de
Narratio prima. Rheticus (ou RCtico) con-
segue convencer finalmente CopCrnico a
publicar o seu De revolutionibus. E quem
tratou da impress20 do manuscrito de Co-
pCrnico foi o tiologo protestante AndrC
Osiander (Andreas Hosemann, 1498-1552),                Alguns anos antes da publicaqiio do
que, sem o consentimento do autor, prece-         De revolutionibus, CopCrnico fizera circu-
deu o texto de um prefacio a n h i m o in-        lar entre pessoas amigas um breve resumo
titulado Ao leitor, sobre as hipoteses desta      de sua obra, sob o titulo de Commenta-
obra. Nessa premissa, Osiander sustenta           riolus. Entretanto, confessa o pr6prio CopCr-
uma interpretaqiio niio realista, mas instru-     nico na carta dedicatoria a Paulo I11 anexa-
mentalista, da teoria de CopCrnico: "E fun-       da a o De revolutionibus, "minha longa
qiio do astrBnomo (. ..) elaborar, mediante       hesitaqiio e tambCm minha resisttncia foram
uma observaqiio diligente e habil, a historia     vencidas por pessoas amigas (...uma das
dos movimentos celestes e, portanto, bus-         quais) repetidamente me estimulou e at6 me
car suas causas, ou entiio, ja que niio C pos-    solicitou a publicar esse livro, que perma-
sivel de mod0 algum captar as causas ver-         necera em suspenso junto a mim nao ape-
dadeiras, imaginar e inventar hipoteses           nas por nove anos, mas por mais de trts
quaisquer com base nas quais esses movi-          vezes nove anos (...).Eles me exortavam a
mentos, tanto em relaqiio ao futuro como          n i o mais negar ao p a t r i m h i 0 comum dos
ao passado, possam ser calculados com exa-        estudiosos de matemitica a minha obra, por
tidao, em conformidade com os principios          causa de meus medos".
da geometria. E o autor desta obra cumpriu              Pois bem, a primeira coisa que niio
egregiamente essas duas funqoes. Com efei-        deixaria CopCrnico em paz era a novidade
to, niio 6 necessario que essas hipoteses sejam   de sua propria teoria helioctntrica, tao nova
verdadeiras e nem mesmo verossimeis. Bas-         que, para muitos, niio podia deixar de pa-
ta apenas o seguinte: que elas apresentem         recer absurda.
calculos conformes a observaqiio." Como ve-             Em segundo lugar, se isso ainda fosse
remos nas piginas dedicadas a controversia        necessario, deve-se reafirmar que precisa-
entre o "realista" Galileu e o "instrumen-        mente na carta dedicatoria emerge com cla-
talista" cardeal Belarmino, nem Giordano          reza a concepqiio realista que CopCrnico ti-
Bruno, nem Kepler, nem Galileu aceitaram          nha de sua teoria. Afirma ele: "A fungi0
a interpretaqiio instrumentalista da teoria       (do filosofo) C a de procurar a verdade em
copernicana, segundo a qua1 as teorias de         todas as coisas at6 o limite concedido por
CopCrnico niio seriam descrigoes verdadei-        Deus a raziio humana" e, por isso, "consi-
ras da realidade, mas apenas instrumentos               (...)
                                                  d e r ~ que as idCias absolutamente con-
uteis para efetuar previs6es e dar explica-       trarias a verdade devem ser refutadas". Por
q6es das posiqoes dos corpos celestes. E,         outro lado, CopCrnico se declara convenci-
antes que para os outros, a interpretaqiio de     do de que, com a publicaqiio dos seus co-
Osiander era equivocada aos olhos do pro-         mentarios, "se poderia ver o vCu do absur-
prio CopCrnico, que escreve: "Todas as es-        do rasgado por clarissimas demonstraq6esn.
feras giram em torno do sol como seu pon-         Em duas palavras: dada a desastrosa situa-
to central. Portanto, o centro do universo        qiio em que se encontrava a astronomia de
esta em torno do sol (...).0 movimento da         sua ipoca, CopCrnico estava em busca de
"um sistema que respondesse com seguran-
ga aos fen8menosn.
                                                     da astronornia
      Um terceiro ponto, que n5o pode ser
deixado de lado, C a metafisica de matriz            prk-copernicana
plat6nica e neoplathica que esti por tras
d o empreendimento cientifico de CopCr-
nico.                                                  Realista e neoplat6nic0, persuadido da
      Como sabemos, em Bolonha, CopCr-          novidade de sua propria teoria, CopCrnico
nico foi discipulo de Domingos Maria Nova-      n5o ignora o contraste que poderia ex-
ra, que era ligado a escola neoplat6nica de     plodir entre certas interpretagdes de deter-
Florenqa; estudara os neoplat6nicos, entre      minadas passagens da Biblia e sua teoria
os quais Proclo, e, com este, acreditava na     heliocintrica. Mas passava a impress50 que
matematica como a chave para a compreen-        poderia sair desse problema com poucas mas
s5o do universo. Na opinizo dos neoplat6ni-     agudas observagdes: "Se porventura surgi-
cos, as propriedades matemiticas constituem     rem desocupados que, embora totalmente
as caracteristicas verdadeiras, imutiveis e     ignorantes de matematica, se arroguem o
profundas, para alCm das aparincias, das coi-   direito de julgar minha obra e, com base em
sas reais. Assim, olhando para os cCus nu-      algum trecho da Escritura inabilmente in-
ma perspectiva neoplat6nica, fica evidente      terpretado segundo os seus interesses, ou-
que os calculos que determinam posig6es e       sarem criticar e combater este meu projeto,
movimentos dos corpos celestes n i o s5o pu-    eu n5o me ocuparei com eles: pel0 contri-
ros e simples instrumentos uteis, mas muito     rio, desprezarei o seu juizo como temera-
mais elementos reveladores daquelas estru-      rio." A proposito, CopCrnico apresentava
turas ordenadas e daquelas imutaveis sime-      o exemplo de Lactincio: "Com efeito, te-
trias impressas no mundo pel0 Deus que          nho conhecimento de que Lactincio, escri-
geometriza.                                     tor ilustre mas pouco versado em matemi-
      CopCrnico sustentava que os astr6no-      tica, se expressa em termos pueris sobre a
mos que o precederam, com os meios teo-         forma da terra, ridicularizando aqueles que
ricos que tinham sua disposiqio, n5o es-        sustentavam que a terra tem a forma de uma
tavam em condiq6es de compreender nem           esfera. Assim, n i o devem se maravilhar os
mesmo a coisa mais importante, "vale di-        estudiosos se algum tip0 semelhante fizer
zer, a forma do universo e a imutavel si-       chacotas tambCm sobre mim. A matemati-
metria de suas partes". 0 Deus do plato-        ca C feita para os matemiticos. E, se eu n5o
nismo e dos neoplat6nicos 6 urn Deus que        estiver errado, eles achario que estes meus
geometriza: por isso, o universo 6 simples      trabalhos trazem alguma contribuiqiio tam-
e geometricamente ordenado. Conseqiien-         bCm para o governo da Igreja, da qua1 Vos-
temente, o pesquisador tem por fungi50 pe-      sa Santidade C agora o principe." Nesse pon-
netrar nessa ordem e descobri-la, bem co-       to, CopCrnico acena para a grande quest50
mo suas estruturas simples e racionais e sua    da reforma do calendario.
imutavel simetria. E foi isso, na opiniio              CopCrnico, portanto, com sua sensibi-
de Rheticus, o que fez o mestre CopCrnico.      lidade, acena para o eventual dissidio entre
"Ora - escreve muito significativamente         sua teoria heliochtrica e trechos biblicos.
Rheticus -, uma vez que vemos que me-           E o contorna com poucas mas penetrantes
diante este unico movimento da terra en-        considerag6es. Estava longe de imaginar
contram explicag5o um numero quase in-          que, apenas setenta anos depois de sua mor-
finito de fenGrnenos, por que n5o devemos       te, um grande furac5o se desencadearia em
atribuir a Deus, criador da natureza, a habi-   torno de sua teoria, um furacao que atingi-
lidade que observamos nos simples fabri-        ria seu apogeu com o drama de Galileu.
cantes de relogios? Eles pdem todo cuidado             Todavia, enquanto isso, CopCrnico
em evitar em seus mecanismos rodas inu-         narra ao papa (Paulo 111) como C que ele foi
teis ou tais que sua funq5o possa ser reali-    induzido, contra a tradiqao, "a conceber
zada de mod0 melhor por outra roda em           alguns movimentos da terra" e "a pensar
virtude de uma pequena mudanqa na po-           em outro mCtodo de ciilculo para o movi-
siqio. E o que podia induzir o meu mes-         mento das esferas". Afirma CopCrnico que
tre, que era um matemitico, a n5o adotar        isso aconteceu pel0 fato de que, para ele,
a teoria conveniente do movimento d o glo-      tornara-se claro "que os matematicos n i o
bo terrestre?"                                  t i m idCias claras em torno desses movimen-
tos". E, alem do fato de que CopCrnico con-     da em outro, a teoria do Almagesto ja ha-
sidera-os "tiio incertos sobre os movimen-      via proliferado em uma dezena de sistemas,
tos do sol e da lua que niio conseguem nem      todos "ptolemaicos", e o seu numero au-
mesmo explicar e observar o comprimento         mentava rapidamente com a multiplicaqio
constante d o ano estacional", ha ainda um      dos astrbnomos tecnicamente competen-
fato mais grave, o de que, "ao determinar       tes. A situaqio tornara-se desastrosamente
o movimento desses planetas e dos outros        insuportavel. N o seculo XIII, Afonso X de-
cinco, eles niio usam os mesmos principios      clarou que, se Deus o houvesse consults-
nem as mesmas demonstraqdes adotadas            do quando estava criando o universo, ele
para as revoluqdes dos movimentos apa-          teria podido dar-lhe bons conselhos. E Do-
rentes." Assim, enquanto alguns usam o sis-     mingos Maria Novara expressou a ideia
tema aristottlico das esferas homocEntricas     de que um sistema t50 confuso como o pto-
(defendido, por exemplo, por Fracastoro e       lemaico n i o podia, por natureza, ser ver-
seguidores), outros usam excintricos e          dadeiro. CopCrnico, por seu turno, viu a
epiciclos. Desse modo, havia uma plura-         astronomia de sua Cpoca em um estado
lidade de teorias que niio deixava ninguim      monstruoso. Naturalmente, a crise do sis-
tranquilo.                                      tema ptolemaico se tornara mais aguda
      Mas niio C so isso: enquanto os aristo-   por causa de diversos fatores: as criticas
tClicos niio acertam em muitas previsdes,       dos medievais ii cosmologia aristotelica,
 "niio alcanqando integralmente seus obje-      a afirmaqiio d o Neoplatonismo, a exi-
tivos", os outros, os ptolemaicos, alcanqam     gcncia de reforma d o calendario. N o en-
maior sucesso em suas previsGes, mas pa-        tanto, as maiores lacunas estavam nas
gando um preqo muitissimo elevado. Com          previsoes n i o confirmadas, apesar do ins-
efeito, nota CopCrnico, eles "foram (...)for-   trumental te6rico crescer cancerosamente
qados a acrescentar muitas coisas, que pa-      sobre si mesmo, contrastando com as exi-
recem violar os principios basilares da uni-    gcncias fundamentais e irrecusaveis da
formidade do movimento. Niio estiveram          metafisica neoplathica do Deus que geo-
em condiqoes de descobrir ou entiio dedu-       metriza.        kc
zir de tais meios a coisa mais importante,
ou seja, a forma do universo e a imutiivel
simetria de suas partes. Entiio aconteceu
com eles aquilo que acontece com um pin-
tor que toma mios, pCs, cabeqa e os outros       5 fi teoria de       Cop&rnico
membros de modelos diferentes e os dese-
nha de mod0 excelente, mas niio em fun-
qao de um corpo singular; de sorte que,               Estando a situaciio assim t i o descon-
como todas essas partes niio se harmoni-        iuntada. Co~Crnico.   como ele mesmo escre-
zam absolutamente entre si, surge um ser        be, "tendo keditadb longamente sobre essa
monstruoso a o invis de um homem. As-           incerteza da tradiqiio matematica na deter-
sim, no curso da demonstraqiio que cha-         minaqiio dos movimentos do mundo das es-
mam de metodo, vi-se que esqueceram al-         feras, comecei a ficar perturbado pel0 fato
go de indispensivel ou e n t i o introduziram   de que os filosofos niio podiam se fixar em
algo de estranho ou irrelevante. 0 que cer-     nenhuma teoria segura do movimento do
tamente niio lhes teria acontecido se hou-      mecanismo de um universo criado Dara nos
vessem se uniformizado com base em prin-        Dor um Deus aue 6 bondade e ordem su-
cipios seguros. Com efeito, se as hipoteses     Drema. embora fizessem observasdes t i 0
 por eles assumidas niio estivessem erradas,    acuradas no que se refere aos minimos de-
tudo aquilo que delas deriva encontraria,       talhes desse universo". Atormentado por
 sem qualquer duvida, a sua confirmaqiio."      tal problema, Copernico, como ele proprio
A metafisica neoplat6nica defende um            conta, p6s-se a "reler as obras dos filoso-
 mundo simples, mas o sistema (ou "0s sis-      fos", com a intenqiio de ver "se algum de-
temas ptolemaicos") torna-se (ou se tor-        les havia pensado alguma vez que as esferas
 nam) sempre mais complexo (ou comple-                                se         -
                                                do universo ~ o d i a m mover senundo mo-
 xos). E o Neoplatonismo forqa CopCrnico        vimentos diferentes daqueles propostos pe-
 a rejeitar o sistema ptolemaico.               10s professores de matematica nas escolas".
       A realidade 6 que, retocada aqui ou      E descobre que Cicero registra a opiniio
 ali, mudada em um p o n t o o u modifica-      de Iceta de Siracusa (skc. V a.C.) de que
era a terra que se movia. E descobre tam-        meu, mas ainda C um mundo fechado. A
bCm que o pitagorico Filolau (sCc. V a.C.),      forma perfeita C a esferica e o movimento
Hericlides P6ntico e o pitagorico Ecfanto        perfeito e natural 6 o circular. 0 s planetas
(sCc. IV a.C.) pensavam que era a terra que      niio se movem em orbitas, sendo transpor-
girava.                                          tados por esferas cristalinas que giram. As
      Encorajado pelo fato de que, antes dele,   esferas possuem realidade material. Butter-
outros ja haviam defendido tal ideia, que        field fala do "conservadorismo de Copir-
parecia "absurda" para a maioria, Copir-         nico".
nico comeqou "a pensar na mobilidade da                Sem duvida encontramos em CopCr-
terra". Sentindo-se seguro da verdade de         nico todos os fragmentos do velho mundo
suas teorias, CopCrnico decide entio tornar      que citamos e tambim traqos da tradiqio
publicos seus pensamentos, n i o querendo        hermCtica. Quem passa para um novo mun-
se subtrair "ao juizo de ninguim" e nem          do sempre leva para ele algo mais ou menos
duvidar que "0s matemiticos dotados de           embaraqoso do velho mundo. Mas o mais
engenho e cultura concordem comigo, se           importante C que o novo mundo ja foi toca-
quiserem conhecer e apreciar, n i o superfi-     do e alcanqado. E foi precisamente isso o
cialmente, mas em profundidade, j i que C        que aconteceu com CopCrnico.
exatamente isso o que a filosofia exige, aqui-         Sua teoria "nao era mais acurada do
lo que eu apresento nesta obra para demons-      aue a de Ptolomeu e n i o introduzia nenhu-
trar tais coisas" .                              ma melhoria imediata no calendario". En-
      E no seu primeiro livro do De revolu-      tretanto, foi revolucionaria, rompendo com
tionibus, CopCrnico defende as seguintes         uma tradiqio mais do que milenar.
teses:                                                 Copirnico n i o chegou -e tinha meios
       1)o mundo deve ser esfirico;              para faze-lo - a melhorar ou remendar o
      2) a terra deve ser esfCrica;              sistema ptolomaico neste ou naquele pon-
      3 ) com a agua, a terra forma uma uni-     to, pois tal sistema se transformara em um
ca esfera:                                       conjunto monstruoso de teorias que nada
      4 ) o movimento dos corpos celestes 6      mais prometiam. CopCrnico foi grande por-
uniforme, circular e perpituo, ou entio com-     que teve a coragem de mudar de caminho:
posto de movimentos circulares;                  prop6s um paradigma ou uma grande teo-
      5)a terra se move em um circulo orbital    ria alternativa que, embora no principio nZo
em torno de seu centro, girando tambim           parecesse trazer muitas vantagens e ate mes-
sobre seu eixo:                                  mo niio parecesse tampouco muito mais sim-
      6) comparada com a dimensio da ter-        ples do que a de Ptolomeu (Ptolomeu tinha
ra, C enorme a vastidio dos cCus.                quarenta circulos ao passo que CopCrnico
      0 capitulo 7 discute as razoes pelas       por fim foi forlado a propor trinta e seis
quais os antigos consideravam que a terra        circulos), no entanto n i o tinha mais nada a
era im6vel no centro do mundo. A insufi-         ver com as eternas e insuperiiveis dificulda-
cicncia de tais raz6es C demonstrada no ca-      des do velho sistema (embora apresentasse
pitulo 8. 0 capitulo 9 discute se e possivel     outras - mas eram outras),alCm de conter
atribuir mais movimentos a terra e fala do       toda uma sirie de previsoes (semelhanqa
centro do universo. Por fim, o capitulo 10 C     entre os planetas e a terra, as fases de Venus,
dedicado ii ordem das esferas celestes.          um universo maior etc.), que mais tarde fo-
                                                 ram clamorosamente confirmadas por
                                                 Galileu. 0 dado mais importante do traba-
                                                 lho de Copkrnico i o de ter impost0 a o
      CoP&rnico                                  mundo das idCias uma nova tradi@ode pen-
      e   a tens60   essential                   samento.
      entre tradic60 e r e v o l q h o                 CopCrnico morreu em 1543, mesmo
                                                 ano em que apareceu publicado o De revo-
                                                 lutionibus. E n i o demoraram a aparecer os
     Copirnico subverteu todo o sistema          ataques contra a nova teoria. Mas tambim
do mundo. N o entanto, arrastou para o seu       houve quem falou de CopCrnico como "o
novo mundo muitos pedaqos e diversas es-         segundo Ptolomeu". Pouco a pouco, a ideia
truturas d o velho mundo. 0 mundo de             heliochtrica abria caminho. A Narratio pri-
CopCrnico n i o C um universo infinito. Na-      ma de Rheticus ja vinha difundindo a teoria
turalmente, C bem maior do que o de Ptolo-       copernicana antes de 1543. Em 1576, o as-
172
       Segunda parte - $ r e v o l u ~ 2  0
                                            cientifica



tr6nomo ingles Thomas Digges (aproxima-
damente 1546-1596) publicou uma popular
defesa da teoria copernicana, a qua1 exer-                  A sorte do De revolutionibus.
ceu grande influencia na Inglaterra, difun-              "Copernico morreu em 1543, no mes-
                                                         mo ano em que foi publicado o De
dindo a idkia da mobilidade da terra n i o               revolutionibus, e a tradiqiio conta que
apenas entre os astr6nomos. Tambem foi                   ele recebeu sobre o leito de morte a
copernicano Michael Maestlin (1550- 1631),               primeira cdpia impressa da obra que
professor de astronomia na Universidade                  o empenhara a vida inteira.
de Tubinga; e teve Kepler como discipulo.                0 livro teve, portanto, de combater
      Todavia., aDesar desses e de outros                suas batalhas sem poder contar com
                                                         a posterior ajuda do autor. Mas para
                  L

adeptos, a teoria copernicana nso ganhou
                                                         aquelas batalhas Copernico tinha fa-
de imediato muitas aprovag6es, nem mes-                  bricado uma arma quase ideal. Ele
mo entre os astr6nomos, que adotaram o                   com efeito escrevera o livro de mod0
sistema rnatematico copernicano, negando-                que resultasse incompreensivel a to-
lhe a veracidade fisica; ou seja, basicamente            dos com exceq3o dos astrdnomos eru-
seguiram o caminho apontado por Osiander.                ditos de seu tempo. Fora de seu mun-
De todo modo, porCm, CopCrnico n i o foi                 do, o De revolutionibus produziu
rejeitado; a adogio dos cilculos coperni-                inicialmente muito pouco fermento.
                                                         Depois, quando corneqou a desenvol-
canos por parte de diversos astr6nomos per-              ver-se a maxima oposic;iio leiga e ecle-
mitiu precisamente a infiltra@o da teoria                sidstica, grande parte dos mais emi-
copernicana nas fileiras de seus opositores.             nentes artr6nomoseuropeus, aos quais
E 6 a essa infiltraggo que se deve a progres-            se dirigia o livro, ja admitiam que niio
siva modificaqiio da concepgio inicial dos               se podia deixar de lado um ou outro
astr6nomos, para os quais a ideia do movi-               procedimento matematico de Cop&-
mento da terra era sim~lesmente      absurda.            nico. Resultou portanto impossivel
                                                         suprimir completamente a obra, tan-
E entre os astr6nomos, copernicanos nos                  t o mais que se tratava de um livro
ciilculos e anticopernicanos no que se refere            impress0 e n3o um manuscrito, como
ao sistema fisico, encontrava-se Erasmus                 fora ao inves o caso da obra de Nico-
Reinhold (1511-1S53),que prestou imenso                  lau Oresme e Buridano.
                                  om
servigo ao ~o~ernicanismo. efeito, s i o                 Estivesse ou n%onas intenqges de seu
                                                         autor, a vitdria final do De revolu-
suas as Tabulae Prutenicae (1551)que, com-
piladas com base nos calculos de CopCrnico,              tionibus foi obtida por infiltra(;iio".
                                                         Assim escreve Thomas 5. Kuhn em A
se transformariam em instrumento cada vez                revoluq~o   copernicana.
mais indispensivel para a cultura astron6-
mica.
173
                                             Capitdo ddcimo - De   CopCruico a   Keplev


-----
s
-        ."
               *
              ,"                1 . trcho
                                 1                Brahe:                          d-
                                                                                  -7
                                                                                  m
                                                                                       ..,"w




                   nem "a velha distribmiCZIo ptolemaica"
                        nem "a moderns inova~60
                   introdmzida p I o C rande CoP&rnico''
                                     J



            Entre Copernico e Kepler encontramos a figura do dinamarqu@s       Tycho Brahe
    (1546-1601), a grande auctoritas da astronomia da segunda metade do sec. XVI.
    Protegido inicialmente por Frederico II da Dinamarca, na morte deste Brahe s          e
    transferiu para Praga a serviqo do imperador Rodolfo II. Sucessor de Brahe no
    cargo de matematico imperial foi, em 1601, Kepler.
          AutGntico virtuoso da observaqio, Brahe, estudando o movimento dos come-
    tas, conseguiu demonstrar em 1577 que as esferas cristalinas da cosmologia tradi-
                       cional n i o existem: as esferas materiais - admitidas tambem por
      T ~ C Brahe:
            ~ O        Copernico - sio substituidas pelas orbitas, entendidas no sentido
      nern corn        atual de trajetorias. Brahe sustenta alem disso a ideia de que o
      ~tolorneu        cometa teria tido uma orbita "oval".
      nern corn             Em todo caso, embora estivesse persuadido de que o siste-
      Copernico        ma ptolomaico "nao era suficientemente coerente", Brahe con-
      + 5 1-2          trariou tambem "a moderna inovaqao introduzida pelo grande
                       Copernico". N%o verdade que a terra s move: com efeito, ar-
                                          e                        e
    gumentava Brahe, s fosse verdade que a terra gira do Ocidente para o Oriente,
                          e
    entao o trajeto de uma bola, disparada para o poente por um canhao, deveria ser
     mais longo do que o de uma bola disparada pelo mesmo para o levante; porem,
    como estes diferentes trajetos previstos n i o s verificam na pratica, a terra - assim
                                                      e
    concluia Brahe - esta parada.
          Portanto, nern Ptolomeu nern Copernico. Tycho prop6e seu sistema do mun-
     do, em que a terra esta no centro do universo; so que ela esta no centro das
     orbitas do sol, da h a e das estrelas fixas; enquanto o sol esta no centro das orbitas
     dos cinco planetas. Em outros termos, eis o sistema tychbnico: a terra permanece
     no centro do universo; o sol e a h a giram ao redor da terra; os outros cinco plane-
    tas (Mercurio, Venus, Marte, Jupiter, Saturno) giram ao redor do sol.
          0 sistema tychbnico n%o    convenceu nern Kepler nern Galileu. Galileu, no Dia-
     logo sobre os dois maximossistemas, confrontara o sistema aristotelico-ptolomaico
     com o copernicano e nZo levara em consideraqao o "terceiro sistema do mundo",
     proposto por Tycho Brahe.



                                                  CopCrnico e Kepler situa-se o trabalho de
                                                  outra personagem, que muito influenciaria
                                                  a astronomia: trata-se do dinamarqucs Ty-
         os germes      da   revoluc&o            cho Brahe.
                                                       Tycho (latinizagzo do nome dinamar-
                                                  qucs Tyge) nasceu trts anos depois da morte
         A grande obra de CopCrnico apareceu      de Copernico, isto 6, em 1546, vindo a fale-
    em 1543. Em 1609 Kepler publicou seu tra-     cer em 1601. Se Coptrnico foi o astr6nomo
    balho sobre Marte, que desferia outro vio-    mais importante da primeira metade do sC-
    lento golpe B cosmologia tradicional: nesta   culo XVI, Tycho Brahe foi a auctoritas em
    obra, com efeito, Kepler demonstrava que      astronomia da segunda metade do sCculo.
    as orbitas dos planetas nZo sao circulares         Frederico I1 da Dinamarca foi o gran-
    mas elipticas. Todavia, entre as obras de     de protetor de Brahe, ao qual, alCm de uma
Segunda parte - A     ~ r . v o I u ~cieetifica
                                             ~io




                                                          "oval". Em todo caso, persuadido de que o
                                                          sistema ptolemaico "niio era suficientemen-
                                                          te coerente", e que "era supCrfluo recorrer
                                                          a tiio numerosos e t50 grandes epiciclos",
                                                          Brahe tambtm rejeitou o sistema copernica-
                                                          no e propGs, contra ele, urna argumentaqiio
                                                          destinada a se tornar urna objeqiio cabal. Se
                                                          fosse verdade que a terra roda do Ocidente
                                                          para o Oriente, entiio - objeta Brahe - o
                                                          trajeto de urna bala, disparada para o po-
                                                          ente por um canhiio, deveria ser mais longo
                                                          do que o de urna bala disparada pel0 mes-
                                                          mo canhiio para o nascente. Todavia, urna
                                                          vez que estes diversos trajetos previstos niio
                                                          se verificam na pratica, a terra, concluia
                                                          Brahe, esta parada.




Tycho Brahe, uqur ern unza rrzcrsiio d o shculo XVI,
    o
f o ~  ustrdrzorno I N ~ I Jrm,twrtunte                         Portanto, nem Ptolomeu nem CopCr-
tlil seguntfa tnetude d o shculo XVI.
                                                          nico. Entiio, sempre nas palavras de Brahe,
                                                          "havendo compreendido muito bem que
                                                          ambas essas hipoteses admitiam niio pou-
                                                          cos absurdos, comecei a meditar profunda-
remuneragiio, deu a ilha de Hven, no estrei-              mente comigo mesmo se era possivel encon-
to de Copenhague. Nessa ilha, Brahe man-                  trar alguma hipotese que niio estivesse em
dou construir um castelo, um observatorio,                contraste com a matemiitica nem com a fi-
laboratorios e urna griifica privada, ai tra-             sica, que niio tivesse que se esconder das cen-
balhando de 1576 a 1597, ajudado por nu-                  suras teologicas e que, ao mesmo tempo,
merosos assistentes, recolhendo enorme                    satisfizesse completamente as aparincias
quantidade de observap5es precisas.                       celestes". E prossegue Brahe: "Por fim, qua-
      Com a morte de Frederico 11, seu su-                se inesperadamente, veio-me a mente o
cessor niio continuou se comportando como                 mod0 pelo qua1 deve ser disposta adequa-
mecenas em relagiio a Brahe, que, em 1599,                damente a ordem das revoluqdes celestes,
transferiu-se para Praga a servigo do impe-               de forma a fechar o caminho a todas essas
rador Rodolfo 11. Aqui Brahe chamou o jo-                 incongruincias." E, dessa forma, chegamos
vem Kepler, que, com a morte de Brahe (em                 ao sistema tych6nico.
1601), sucedeu-lhe na funqiio de matemiti-                      Nesse sistema do mundo, a terra en-
co imperial.                                              contra-se no centro do universo. Entretan-
      Autintico virtuoso da observagiio as-               to, ela est4 no centro das orbitas do sol, da
tronbmica, em 1577, estudando o movimen-                  lua e das estrelas fixas, ao passo que o sol
to dos cometas, Brahe conseguiu demons-                   esta no centro das orbitas dos cinco plane-
trar que as esferas cristalinas da cosmologia             tas. Para se ter urna idCia do sistema de
tradicional, concebidas como fisicamente                  Brahe, basta olhar a fig. 1, onde, entre ou-
reais e destinadas a transportar os planetas,             tras coisas, pode-se observar que, como as
na realidade niio existiam. Desapareciam                  orbitas apresentam intersecqiio em virios
assim do mundo as esferas materiais das                   pontos, era necessario que as esferas per-
quais nem CopCrnico se desligara. E em seu                dessem seu cariter material. Na fig. 2, te-
lugar entravam as drbitas, entendidas em                  mos a representaqiio do sistema coperni-
nosso sentido de trajetorias.                             cano, de mod0 que se possam observar
      AlCm dessa inovagiio muito significa-               suas diferengas em relagiio ao sistema tych6-
tiva, Brahe abriu outra brecha dentro da                  nico.
cosmologia tradicional, ventilando a opiniiio                   A terra permanece n o centro d o uni-
de que o cometa teria tido urna orbita                    verso, como argumenta o proprio Brahe: "Pa-
175
                                           Capitulo de'cimo - De   Cop&vnicoa KePIep



ra alCm de qualquer duvida, penso que se             Por seu turno, no Dialogo sobre os dois
deve estabelecer, com os antigos astr6nomos    sistemas maximos, Galileu confrontara o
e com os pareceres ja aceitos pelos fisicos,   sistema aristotClico-ptolomaico com o sis-
com a autenticaqiio posterior das sagradas     tema copernicano, sem considerar em ab-
Escrituras, que a terra que nos habitamos      soluto o "terceiro sistema do mundo", de
ocupa o centro do universo e niio se move      Tycho Brahe.
em circulos por efeito de nenhum movimen-            No entanto, o sistema de Brahe conquis-
to anual, como quer Copirnico [...I." 0 sol    tou relativo sucesso, sendo a b r a ~ a d o
                                                                                         pela
e a lua giram em torno da terra: "Conside-     maior parte dos astr6nomos, n i o coperni-
ro que os circuitos celestes siio governados   canos, insatisfeitos com o sistema ptolomai-
de tal mod0 que somente ambas as lumina-       co. Na realidade, seu sistema foi engenho-
rias do mundo [o sol e a lua], que presi-      samente concebido: mantinha as vantagens
dem i discriminaqiio do tempo, e com elas
      i                                        matematicas do sistema de CopCrnico e,
a distante e oitava esfera [das estrelas fi-   alCm disso, evitava as criticas de natureza
xas] que contim todas as outras, olham         fisica e as acusaq6es de ordem teologica.
para a terra como o centro de suas revolu-            Mas o sucesso do sistema tychbnico e'
q6es." 0 s outros cinco planetas giram em      o sucesso de um compromisso. E embora
torno do sol: "Assevero ademais que os         esse compromisso tivesse o aspect0 de uma
cinco planetas restantes [Mercurio, Venus,     "restauraqiio", ele niio p6de ignorar a revo-
Marte, Jupiter e Saturno] desenvolvem seus     luqiio que ocorrera; Tycho Brahe tambtm
proprios giros em torno do sol, como seu       negou o sistema ptolomaico, afirmando que
guia e rei, sempre o observando quando se      a terra niio era o centro das revoluq6es de
situa no espaqo intermediirio de suas revo-    todos os planetas.
luq6es. "                                            Duas observaq6es ainda. Em Urani-
      0 sistema tychBnico niio convenceu       borg, na ilha de Hven, alCm do observato-
Kepler nem Galileu. Em seu leito de morte,     rio, Brahe possuia tambCm um laboratorio
Brahe confiou seu sistema a o jovem assis-     quimico. E, embora criticasse as praticas
tente Kepler, mas este estava muito atraido    astrologicas, estava convencido de que exis-
pela grande simetria de Copernico, ao pas-     tia uma afinidade essencial entre os f e n 6
so que o sistema de Brahe niio era estrutu-    menos celestes e os acontecimentos terres-
rado simetricamente (assim, por exemplo,       tres. Essa crenqa, de origem estoica, na
o centro geomktrico do universo niio C mais    existencia de uma relaqio entre todas as
o centro da maior parte dos movimentos         coisas, constituiu fonte de inspiraqiio para
celestes).                                     muitos grandes cientistas. 7' ,




Sistcrrza tvchfirzic-o (de Th. S. Ktihn,       st stem^ coprrmc-mo (tic 1'. Kossi, A revolu<,io
A rcvoluqrio copernicana, Einaudi).            cicntifica d e (:op&nico a Newton, I.orsc/~cv).
III. Sohanne~Kepler:
      a passagem do c ~ r c d o para a elipse"
                                    N   /                         /I
                                "


                     do    sistema copernicano


       Johannes Kepler (1571-1630), discipulo em Tubinga de Michael Maestlin - 0
qua1 o convenceu da validade do sistema copernicano -, foi assistente e sucessor
de Tycho Brahe em Praga. Eis os titulos de suas obras de maior peso: Prodromus
                  ou Mysterium cosmographicum (1596); A d Vitellionem parali-
 Keplec           pomena (1604); Astronomia nova (1609); Nova stereometria
 copernicano      doliorum vinariorium (1613); entre 1618 e 1621, aparece em Linz,
 e neoplat6nico   em sete livros, o tratado de astronomia Epitome astronomiae
 -+§ 1            copernicanae; em 1619 aparece a obra Harmonices mundi libri V  ;
                  de 1627 sao as Tabuas rodolfinas. Copernicano e neoplat6nic0,
Kepler acreditava que a natureza fosse ordenada por regras matematicas que o
cientista tem a tarefa de descobrir.
     No Mysterium cosmographicum a fe no sistema copernicano se liga com a fe
neoplat8nica de que uma Raz%omatematica divina presidiu a criaqao do mundo.
Deus e matematico. E o trabalho de Kepler consistiu justamente na busca das
harmonias matematicas e geometricas do mundo, como as que ele proprio conse-
guiu captar e expor nas famosas tr& "leis de Kepler".
        Por dez anos Kepler estuda com grande empenho o irregular "movimento
de Marte", e no fim chega a conclusao de que o problema era insoluvel com quais-
quer combinaqbes de circulos, enquanto teoria e observaqbes estavam de acordo
                   quando se concebia o movimento dos planetas em orbitas elipti-
 A grande          cas. Eis, entso, as tr@sleis de Kepler:
 passagem               - primeira lei: as orbitas dos planetas sdo elipses das quais o
 do "circulo"      so1 ocupa um dos focos;
 a "elipse"             - segunda lei: a velocidade orbital de cada planeta varia de
 +§3               mod0 tal que a linha que liga o sol com o planeta cobre, em
                   iguais intervalos de tempo, iguais porg6es de superficies de elipse;
     - terceira lei: os quadrados dos periodos de revolugdo dos planetas estdo na
mesma relaPo dos cubos das respectivas dist5ncias do sol.
         Misticismo, matematica, astronomia e fisica estao indissoluvelmente liga-
dos no pensamento de Kepler. E e nas Harmonias do mundo que Kepler deixa
transparecer mais do que em outro lugar sua fe nas harmonias, na ordem mate-
matica da natureza: e nesta harmonia do universo o sol desempenha um papel
fundamental. No pensamento de Kepler estamos na presenqa de verdadeira e
                   propria metafisica do sol. 0 s planetas se movem em elipses; e s%o
  Uma metafisica movidos por uma forga motriz como a magnetica, f o r ~ a que emana
  do sol           do sol. Logo, os planetas percorrem suas orbitas impulsionados
  +§4              pelos raios de uma anima motrix que brotam do sol. Kepler esbo-
                   qa uma especie de teoria magnetica do universo. Discute sobre a
forqa com que a terra atrai um corpo, e na introduqao a Astronomia nova fala
tambem de reciproca atraqao. Nas notas ao seu Somnium (escrito entre 1620 e
1630) ele atribui as mares "aos corpos do sol e da lua que atraem as aguas do mar
com uma forqa semelhante a magnetica". Alguem quis ver nestas ideias a anteci-
paq%o teoria gravitational de Newton. Talvez as coisas n%osejam assim, mas e
         da
certo que Newton, reunindo os resultados obtidos por Kepler e por Galileu, deve
ter-se consolidado com os problemas que eles deixaram em aberto, dando assim a
fisica a configura@o conhecida com o nome de "fisica classics".
Kepler: vida     e   obras


      Kepler nasceu em 2 7 de dezembro de
1571, em Weil, nas proximidades de Estu-
garda. Filho de Henrique, funcionirio lute-
ran0 a serviqo do Duque de Brunswick, e de
Catarina Guldenmann, filha de um alberguei-
ro, Kepler veio ao mundo prematuramente
iL'sebtemmestris sum". escreveu de si mes-
   ,


mo), sendo muito enfermiqo. Quando pe-
queno, teve variola, que lhe deixou as miios
contraidas e a vista enfraquecida. Seu pai
tambCm foi soldado mercenario. Deixando
o filho com os avos, Henrique, juntamente
com a mulher, foi combater nas fileiras do
duque de Alba contra os belgas. Voltando
da guerra em 1575, os genitores de Kepler
instalaram uma hospedaria em Ellmendin-
gen, na regiio de Baden. E o pequeno Kepler,
logo que esteve em condiq6es para tanto,
tinha de lavar os copos na hospedaria do
pai, alCm de ajudar na cantina e tambCm no
campo. Em 1577 comeGou a freqiientar a
                     -
escola em L e o n b e r ~ .Tendo-se mostrado
muito capaz e interessado, seus pais decidi-
ram envia-lo em 1584 para o seminario de
Adelberg. Dai passou para o seminario de
Maulbronn, de onde saiu quatro anos de-           inverno, sobre as agitaqdes camponesas etc.
pois para ingressar na Universidade de Tu-        Em 1596 Kepler publicou o Prodromus ou
binga, onde teve por mestre o astr8nomo e         Mysterium cosmographicum no qual, como
matematico Michael Maestlin. aue o con-
                                 2   1
                                                  veremos melhor adiante. ele relacionava os
venceu da justeza do sistema copernicano.         "cinco solidos regulares" (o cubo, o tetrae-
Nesse periodo, agravava-se a luta entre ca-       dro, o dodecaedro, o octaedro e o icosaedro)
tolicos e protestantes. Embora protestante,       com o numero e as distiincias dos planetas
Kepler via essa luta como coisa absurda. E,       ent5o conhecidos. Publicado com um pre-
permanecendo naquela situaqiio de "liber-         facio de Maestlin, o livro foi logo enviado a
dade" em que Deus o fizera nascer, imputa-        Tvcho Brahe e a Galileu Galilei. Brahe res-
va " i s tolices deste mundo (...)as persegui-    pondeu a Kepler convidando-o a ver a even-
~ 6 e que dominavam os partidos religiosos,
       s                                          tual relagiio entre as descobertas do Pro-
a presunq5o de que os seus problemas eram         dromus e o sistema tych8nico. E em 4 de
tambCm os de Deus, a arrogincia dos teolo-        agosto de 1597, de Pidua, Galileu enviou
gos a o considerarem que se deve crer cega-       uma resposta a Kepler, na qual, entre ou-
mente neles e, por fim, a intransighcia com       tras coisas, lemos: " [ ...I Agradeqo-te tam-
que eles condenavam aqueles que fazem uso         bem, de mod0 muito particular, por teres te
da liberdade evangdica" (G. Abetti).              dignado a dar-me tal prova de tua amizade.
       Aos vinte e dois anos. K e ~ l e r
                                        abando-   Por enquanto, so tive a vis5o do prefacio de
nou a teologia e, com ela,' a i&ia de dedi-       tua obra, com base na qual compreendi tua
car-se i carreira eclesiastica. Aceitou uma       intenqiio. E posso verdadeiramente estar
oferta para ensinar matematica e moral no         satisfeito por ter tal aliado na indag?gZo da
ginisio de Graz. Entre suas funqdes estava        verdade e tal amigo dessa verdade. E deplo-
tambtm a de preparar o calendirio para a          rive1 que sejam t5o raros aqueles que com-
regiiio da Estiria, para o ano de 1594. E a       batem pela verdade e n i o seguem um cami-
preparaqiio do calendario implicava tambCm        nho errado no filosofar. PorCm. este niio C o
um trabalho de urevis6es. como., uor exem-
                                     A
                                                  lugar para lamentar a misCria de nosso sC-
plo, sobre o rigor mais ou menos intenso do       culo, e sim para congratular-me contigo pe-
las belas idtias expostas em comprovagiio                         -
                                                  luminoso chegar at6 a retina, reconhecen-
da verdade [...I. Muito escrevi para apre-        do-se que a figura assim projetada na retina
sentar as provas que aniquilam os argumen-        fica de cabega para baixo, mas sem reputar
tos contrarios a hipotese copernicana, mas        esse fato como danoso, porque, a medida
at6 agora n5o ousei publicar nada, aterrori-      que a localizag5o das imagens fora do olho
zado pel0 que sucedeu a Copirnico, nosso          i uma fung5o realizada pelo prciprio olho,
mestre, que, se conquistou fama imortal jun-      o problema esta em determinar a regra com
to a alguns, na verdade, junto a infinitos        base na qua1 deve proceder o olho para co-
outros i desmoralizado e apupado, tiio gran-      locar a imagem, quando recebe certos esti-
de t o numero dos tolos. Eu ousaria desfral-      mulos. Assim, a regra agora i a seguinte:
dar abertamente meus pensamentos se hou-          quando o estimulo sobre o fundo do olho
vesse muitas pessoas como tu, mas, como           esta embaixo, a figura vista fora do olho
niio existem, devo me conter."                    deve estar em cima e vice-versa; da mesma
                                                  forma. auando o estimulo sobre a retina esta
                                                  a direit;, a figura vista fora do olho deve
           Kepler, m a f r m & t i r o imperial   estar a esquerda e vice-versa" (V. Ronchi).
em Praga                                          Alim disso, no capitulo primeiro, Kepler
                                                  dava uma definiqiio da luz completamente
      Em 1597, Kepler casou-se com Barba-         nova:
ra Miiller von Muhlek, rica viuva de vinte e            1) "a luz compete a propriedade de
trts anos. Nesse meio tempo, depois da vi-        afluir ou ser lancada de sua fonte em dire-
sita do arquiduque Ferdinand0 ao papa Cle-        ga0 a um lugar distante";
mente VIII, todos os n5o-catolicos foram                2 ) "de um ponto qualquer, o afluxo da
expulsos da Estiria. Kepler mobilizou-se ra-      luz ocorre segundo um numero infinito de
pidamente junto a seu velho mestre Maestlin       retas";
para obter um lugar na Universidade de                  3) "por si mesma, a luz i capaz de avan-
Tubinga, mas niio o conseguiu. Entiio, apre-      gar at6 o infinito";
sentou-se inesperada solug50: Brahe convi-              4 ) "as linhas dessas emissdes siio retas
dou Kepler a visita-lo no castelo de Benatek,     e se chamam raios".
nas proximidades de Praga. Em 1" de agos-               Vasco Ronchi comenta que, nessas qua-
to de 1600, mais de um milhar de cidadios         tro proposig6es, esta a definigiio do raio lu-
foram expulsos da Estiria. Kepler escreve a       minoso, que depois seria definitivamente
Maestlin, dizendo que nunca teria acredita-       adotada pela otica geomttrica.
do que deveriam suportar tanto sofrimen-                Em 1609, publica-se a Nova astrono-
to, abandonar a casa e os amigos e perder         mia, que Kepler enviou ao imperador Ro-
os proprios bens por motivos religiosos e         dolfo I1 com uma carta dedicatoria datada
em nome de Cristo. Em Praga, Tycho Brahe          de 29 de margo. Essa i a obra mais memo-
assume Kepler como sell assistente. Pouco         ravel de Kepler, estabelecendo dois princi-
depois, porim, em 24 de outubro de 1601,          pios fundamentais da astronomia moderna
com apenas cinqiienta e cinco anos de ida-        (as primeiras duas leis de Kepler, sobre as
de, Brahe morre. E o imperador Rodolfo I1         quais falaremos adiante). Nessa obra, Kepler
nomeia Kepler "matematico imperial", com          estuda o movimento de Marte, podendo fi-
um salario que era a metade do de Brahe, e        nalmente declarar-se vitorioso sobre o deus
com a tarefa de concluir as Tabuas rodol-         da guerra - e assim entregava o planeta,
finas.                                            feito prisioneiro, aos pis do imperador. Mas
      Em 1604, Kepler publica a obra Ad           Marte tem muitos parentes - Jupiter,
Vitellionem paralipomena. Trata-se de uma         Saturno, Vtnus, Merciirio etc. - que ainda
obra de otica geomitrica, que marca um mo-        era precis0 combater e vencer. E, para pros-
mento relevante da historia da citncia. A         seguir a batalha, necessita-se de recursos. E
obra compde-se de onze capitulos, aperfei-        Kepler pede-os ao imperador.
goando conceitos ja expressos por Alhazen               Em margo de 1610, Galileu publicou
e Vittlio, alim de apresentar concepgdes que      o seu Sideveus Nuncius, que, com todas as
muito se assemelham as de Francisco Mau-          descobertas astron6micas w e continha. des-
rolico (1494-1577). 0 capitulo V da obra          pertou o mais alto interesse no mundo cien-
reveste-se de grande importiincia: "Nele,         tifico. Galileu enviou uma copia para Kepler,
pela primeira vez depois de dois mil anos de      por intermidio de Juliano de Midici, que
estudo, niio se hesita em fazer o estimulo        era embaixador da Toscana em Praga. Em
179
                                          Capitulo decimo - Dr   Cop6vnico n Keplrr


resposta a Galileu, Kepler escreveu a sua metes a intelighcia humana os limites ce-
Dissertatio cum Nuncio Sidereo, em que lestes e o caminho dos astros." Pode-se afir-
apresenta suas duvidas. Sobretudo em rela- mar com certeza que a Didtrica constituiu
q i o i existhcia dos satelites de Jupiter. 0 "o inicio e o fundamento de uma cicncia
      i
mistico neoplatBnico Kepler, para quem "o otica capaz de explicar o funcionamento das
sol C o corpo mais belo" e "o olho do mun- lentes e de suas varias combinaqoes, como
do", niio podia admitir que Jupiter possuis- as usadas na luneta 'galileana' ou na luneta
se satklites e pudesse assim reivindicar uma 'kepleriana', tambkm chamada 'astron6mi-
dignidade analoga ii do sol. Ademais, "niio ca' " (G. Abetti).
se compreende bem por que (tais satilites)
existiriam, quando sobre esse planeta n i o
ha ninguCm para admirar tal espetaculo".
Mais tarde, de posse de uma boa luneta -
aquela que Galileu enviara a Ernesto de
Baviera, principe eleitor do Sacro ImpCrio
Romano em ColBnia, e que este havia pas-           Em 1611, o imperador Rodolfo I1 teve
sado para Kepler -, ele se convenceu da de abdicar em favor do irmio Matias. Ke-
opiniiio de Galileu, publicando entiio a pler, que ja lutava em viio para obter sua
Narratio de observatis a se quattuor Jovis remuneraqio, compreendeu que n5o era sa-
satellitibus erronibus. Nesse meio tempo, bio continuar em Praga. Ass!m, p&-se a ser-
Martin Horky de Lochovic - que assistira viqo dos governadores da Austria superior
i s demonstraq6es com a luneta que Galileu e transferiu-se para Linz, a fim de comple-
realizara em Bolonha, por volta de fins de tar as Tabuas rodolfinas e dedicar-se aos
abril de 1610, na casa de AntBnio Magini, estudos de matematica e filosofia.
professor de matematica em Bolonha e ad-           Em 1613, Kepler publicou a Nova ste-
versario de Galileu -escreveu a Kepler uma reometria doliorum vinariorum, que resol-
carta sobre a ineficacia da luneta: "In infe- ve um problema pritico n i o irrelevante para
rioribus facit mirabilia; in coelo fallit quia aquela tpoca: como determinar o conteudo
aliae stellae fixae duplicatae videntur. Habeo dos barris. A questiio niio deixava de ser
testes excellentissimos viros et nobilissimos importante, pois entiio o conteiido dos bar-
doctores (...) omnes instrumentum fallere ris era medido com a introduqio de um bas-
sunt confessi. At Galileus obmutuit, et die tiio: devidamente inclinado, ele deveria in-
26 (...) tristis ab Illustrissimo D. Magino dicar o numero de "baldes" de que o barril
discessit." Horky escreveu tambtm um li- era capaz. Tratava-se, obviamente, de uma
belo contra as recentes descobertas de Ga- mensuraqio rudimentar. E o interessante C
lileu: Brevissima peregrinatio contra Nun- que Kepler resolve tal problema atraves de
cium Sidereum. E, em 30 de junho (1610), procedimentos que se aproximam dos rea-
enviou-o a Kepler. Mas este, embora com lizados no calculo infinitesimal. Em 1616,
urn pouco de atraso, renegou as opinioes de porkm, tem inicio a desgraqada aventura da
Horky. Galileu, como veremos nas paginas pobre m5e de Kepler, que foi acusada de fei-
a ele dedicadas, levou para dentro da ciin- tiqaria e submetida a interminavel proces-
cia a luneta, um instrumento que entiio era so, no qual se envolve tambCm a faculdade
visto como objeto tipico dos "vis mecini- juridica de Tubinga. Kepler empenhou-se
cos" e indigno dos "filhsofos". E Kepler, por profundamente na defesa da mie. E, final-
seu turno, era a pessoa matematicamente mente, saiu vencedor. Em 1621, a miie de
melhor aparelhada para estuda-lo e desen- Kepler foi inocentada da acusaqio. Mas,
volver sua teoria. E, com efeito, na prima- tanto pela idade avanqada como em funqio
Vera de 161l, apareceu em Augusta a Diotri- de seu encarceramento e do processo, a atri-
ca ou "demonstraq50 daquelas coisas, nunca bulada m i e morreu em abril de 1622. Nes-
antes vistas por ninguim, que se podem se entretempo, entre 1618 e 1621, Kepler
observar com a luneta". Diz Kepler que a havia publicado em Linz, em sete livros, seu
Diotrica C importante porque amplia os tratado de astronomia: Epitome astronomiae
horizontes da filosofia. E, sobre a luneta, copernicanae.Ja nos primeiros meses de 1619,
diz ele: "0 sabio tub0 optico C precioso em Augusta, aparecia sua obra Harmonices
como um cetro; quem observa com ele tor- mundi libri V , sobre a qual falaremos adian-
na-se um rei e pode compreender a obra de te: trata-se do "at0 conclusivo da fecunda
Deus. Por isso, valem estas palavras: tu sub- vida de Kepler" (J.L.E. Dreyer). Em 1627,
Segunda parte - A   reuoIus,io iientificn




aparecem finalmente as Tabuas rodolfinas,          suma, Kepler acreditava que a natureza era
onde se encontram as tabuas dos logaritmos,        ordenada por regras matematicas, que C fun-
as tabuas para calcular a refragao, e um cath-     $50 do cientista descobrir. Uma fungzo que
logo das 777 estrelas observadas por Tycho         Kepler acreditou ter cumprido, pelo menos
Brahe, cujo numero Kepler eleva para 1005.         em parte, quando publicou o Mysterium cos-
Com essas tabuas, "por mais de um skculo,          mographicum, em 1596. Nessa obra, preci-
os astr6nomos puderam calcular com exa-            samente, a f no sistema copernicano vin-
                                                                   C
tidao suficiente, jamais alcangada antes de        cula-se f C p l a t h i c a de que uma Razao
Kepler, as posigdes da terra e dos virios pla-     matematica divina presidiu B criagao do
netas em relag20 ao sol" (G. Abetti). Em           mundo. E, depois de ter desenvolvido ex-
1628, Kepler estava novamente em Praga,            tensamente -usando at6 desenhos detalha-
de onde foi para Sagan, pequena cidade da          dos - as argumentagdes em favor do siste-
Silisia, entre Dresden e Breslavia, colocan-       ma copernicano, ele afirma que o numero
do-se a servigo do duque de Friedland, Al-         de planetas e a dimensso de suas orbitas
brecht Wallenstein. Este prometeu pagar a          podiam ser compreendidos a medida que se
Kepler os doze mil florins de atrasados a          compreendesse a relagso entre as esferas
que tinha direito pel0 trabalho passado.           planetarias e os cinco s6lidos regulares, "pla-
Kepler, de sua parte, publicaria as efemCrides     tbnicos" ou "cosmicos". Esses s6lidos. como
at6 1626. Entretanto, desmoronando os bens         ja mostramos anteriormente, Go: o cubo, o
de Wallenstein, Kepler decidiu ir a Ratisbona      tetraedro. o dodecaedro. o icosaedro e o
para obter da Dieta o pagamento de sua re-         octaedro. Como C facil perceber, examinan-
muneraggo atrasada. Feita no lombo de um           do a fig. 1,esses solidos se caracterizam por
velho burro - do qual Kepler se desemba-           terem as faces todas identicas e constituidas
ragou por dois florins tao logo chegou -, a        apenas de figuras eqiiilhteras. Desde a anti-
viagem foi desastrosa. Acometido de febre,         guidade, sabia-se que somente cinco solidos
Kepler foi submetido a sangrias. Mas de            ~ o s s u i a m caracteristicas: os cinco indi-
                                                                 tais
nada adiantou. Morreu no dia 1 5 de no-            Lados na figura. Pois bem, em seu trabalho,
vembro de 1630, distante de casa e dos que         Kepler sustenta que, se a esfera de Saturno
Ihe eram caros. Estava com cinqiienta e nove       fosse circunscrita ao cubo no qual estivesse
anos de idade. Foi sepultado fora das mu-          inscrita a esfera de Jupiter e se o tetraedro
ralhas da cidade, no cemitCrio de Sao Pedro,       fosse inscrito na esfera de Jupiter com a es-
ja que niio era costume sepultar os luteranos      fera de Marte inscrita nele. e assim sucessi-
dentro da cidade. Entretanto, os funerais fo-      vamente com os outros tres solidos e as ou-
ram solenes. E o discurso funebre desenvol-        tras t r e ~esferas (cf. a fig. 2), entso se poderia
veu-se em torno de um versiculo de Lucas           demonstrar as dimensdes relativas de todas
(LC 11,28): "Felizes os que ouvem a pala-          as esferas, compreendendo-se tambCm por
vra de Deus e a observam."                         que existem apenas seis planetas. Eis o que
                                                   diz o pr6prio Kepler: " 0 orbe da terra C a
                                                   medida de todos os outros orbes. Circuns-
                                                   creve-se a ele um dodecaedro, e a esfera por
                                                   ele circunscrita C a de Marte. A esfera de
                                                   Marte circunscreve um tetraedro, que con-
                                                   tCm a esfera de Jupiter. A esfera de Jupiter
      em  busca d a divina                         circunscreve um cubo, sendo que a esfera
      olrdem matembtica dos            C&S         por ele encerrada C a esfera de Saturno. No
                                                   orbe da terra, inscrevi um icosaedro, sendo
                                                   a esfera nele inscrita a de V h u s . Em VEnus
     Se Tycho Brahe sempre foi anticoper-          inscrevi um octaedro. onde esta inscrita a
nicano, Kepler sempre foi copernicano: "Du-        esfera de Mercurio. E ai encontras a raziio
rante toda a sua vida, ele se referiu a per-       do numero dos planetas." Deus e' matema-
tinencia do papel que CopCrnico atribuira           tico. E o trabalho de Kepler consistiu preci-
ao sol com os tons entusiasticos do neo-           samente em buscar as harmonias matema-
platonismo renascentista" (Th. S. Kuhn).            ticas e geome'tricas do mundo. Ele acreditou
Kepler foi um neoplatBnico matematico ou           ter encontrado muitas, embora aquelas des-
um neopitagorico que acreditava na harmo-          tinadas a ter futuro fossem sobretudo as suas
nia do mundo. Por isso, niio podia apreciar        famosas trEs leis para os planetas. De todo
o pouco harmbnico sistema de Brahe. Em             modo, "a convicgao de uma estrutura do
Th. 5. Kuhn,
(11~1


A revolu~ao copernicana, cit.).




                            Satumo cubo
                       Jlipiter tetraedro
                     Marte dodecaedro
                         Terra ~cosaedro
                         V&us octaedro
                        (lie Th. S. Kuhn,
        A revoluc;?io copernicana, cit.).



mundo matematicamente definivel, que en-              3,. Do " c i r c ~ l o lh "elipsell.
                                                                              '
contrava a sua formulaqiio teologica na cren-    -i   Y


qa de que, na criaqiio do mundo, Deus havia               fs   "tvgs   leis d e Kepler"
sido guiado por consideraq6es matematicas;
a irremovivel certeza de que a simplicidade            A ciincia tem necessidade de mentes
tambim i um sinal de veracidade e de que a       criativas (de hipoteses e teorias), ou seja, pre-
simplicidade matemitica se identifica com        cisa de imaginaqgo e, simultaneamente, de
a harmonia e a beleza; por fim, a utilizaqgo     rigor no controle dessas hipoteses. Pois bem,
da sur~reendente   circunstiincia de que exis-   na historia do pensamento cientifico, talvez
tem exatamente cinco poliedros que satis-        niio tenha existido outro cientista com tan-
fazem as mais altas exighcias de regulari-       ta forqa de imaginaqgo quanto Kepler, e que,
dade e que, portanto, devem ter alguma           ao mesmo tempo, assumisse como ele uma
coisa a ver com a estrutura do universo -        atitude tiio critica em relaqgo i s suas pro-
todos esses dados S ~ sintomas inequivocos
                        O                        prias hipoteses. A idiia da relaqiio entre os
da concepqiio do mundo pitagorico-platti-        planetas e os solidos logo se mostraria in-
nico, que aqui aparece mais viva do que          sustentavel. Mas o que ela expressava era o
nunca. Esse era o estilo de pensamento do        sintoma de um programa de pesquisa, que
Timeu, que, depois de ter desafiado o pre-       ainda mostraria toda a sua fecundidade.
dominio do aristotelismo durante toda a          Ptolomeu niio havia sido capaz de explicar
Idade Midia, em uma tradiqgo continua,           o movimento "irregular" de Marte. E Co-
embora por vezes invisivel, agora punha-se       pirnico tambim ngo o conseguira. Tycho
novamente de pi" (E.J. Dijksterhuis).            Brahe havia realizado numerosas observa-
Segunda parte   - f rrvoIuG~o
                                   cientificu



gdes sobre Marte, mas tambCm tivera de                  - segunda lei: a velocidade orbital de
ceder as dificuldades. Depois da morte de         cada planeta varia de tal modo que a linha
Brahe, foi Kepler quem teve de se defrontar       que liga o sol e o planeta cobre, em iguais
com o problema, nele trabalhando durante          intervalos de tempo, iguais por~oesde su-
cerca de dez anos. E o proprio Kepler quem        perficie da elipse (cf. a fig. 4).
nos informa sobre esse seu extenuante tra-              A substituiq50 das orbitas circulares de
balho, do qua1 deixou uma apaixonante e           Ptolomeu, de CopCrnico e tambCm de
detalhada descriqiio. As tentativas seguiam-      Galileu pelas elipses ( l a e a substituiq50
                                                                            lei),
se urna 2 outra, mas todas caiam no vazio.
         1                                        do movimento uniforme em torno de um
Entretanto, com base nessa longa sCrie de         centro com a lei das superficies iguais (2"
tentativas falidas, Kepler chegou 2 conch-        lei), s i o suficientes para eliminar toda a
s5o de que era impossivel resolver o proble-      caterva dos exctntricos e dos epiciclos.
ma com qualquer combinaqiio de circulos,                Em 1 6 18, no Epitome astronomiae
pois todas as combinaqdes possiveis niio          copernicanae, Kepler estendeu essas suas leis
correspondiam aos dados observiveis e as          aos outros planetas, a h a e aos quatro sat&
orbitas propostas, portanto, deviam ser eli-      lites de Jupiter, que haviam sido descober-
minadas. Assim, alCm dos circulos, experi-        tos h i poucos anos. Em 1619, nas Harmo-
mentou tambCm as figuras ovais. Mas, no-          nias d o mundo, Kepler anuncia sua
vamente, as observagdes desmentiram as                  - terceira lei: os quadrados dos perio-
propostas teoricas. Por fim, percebeu que a       dos de revolu@o dos planetas estiio na mes-
teoria e as observaqdes se harmonizavam           ma rela@o que os cubos das respectivas dis-
quando fazia os planetas moverem-se em            t2ncias d o sol. Ou seja: se T 1 e T2 s5o os
orbitas elipticas, com velocidades variaveis,     periodos necessarios a dois planetas para
determinaveis segundo urna lei simples.           que eles completem urna volta em suas or-
      Foi urna descoberta sensational: esta-      bitas e se R1 e R2 s5o as res~ectivas  distin-
va definitivamente rompido o dogma antigo         cias mCdias entre os planetas e o sol, entio
e ja venerivel da naturalidade e perfeigiio       a relag50 entre os quadrados dos periodos
do movimento circular. E um procedimento          orbitais C igual a relagiio existente entre os
matematico muito simples estava em con-           cubos das disthcias mCdias em relaqiio ao
digdes de dominar, em u m universo coper-         sol. Ou seja: (T1/T2)2= (Rl/R2)3.
nicano, urna quantidade interminavel de                 Trata-se. conforme foi dito. de "urna
observagdes e permitia fazer previsoes (e         lei fascinante, porque estabelece urna regra
pos-visdes) seguras e acuradas.                   nunca antes observada no sistema planeta-
      E eis as duas leis que conttm a soluq5o     rio". Mas o fundamental era que os princi-
final do problema, solugiio que e vilida tam-     pios da cosmologia aristotClica haviam-se
bCm para nos, hoje:                               despeda~ado.Com efeito, a esse ponto, o
      - primeira lei: as orbitas dos planetas     sistema solar encontrava-se ~lenamente    des-
(Marte) s2o elipses das quais o sol ocupa         velado em toda urna rede de relacdes mate-
u m dos focos (cf. a fig. 3.);                    maticas limpidas e simples.




                  Fig. 3

A primeira lei de Kepler                          A segumia lei de Kepler
(de Th. S. Kuhn, A revolu@o copernicana, cit.).   (de Th. S. Kuhn, A revoluqZo copernicana, cit.).
0sol C O ~ O a u s a
                      c                               nar-se a morada do proprio Deus, para niio
                                                      dizer o primeiro motor". E, no Epitome
      dos m o v i m e n t o s p I a n e t 6 v i o s   astronomiae copernicanae, tambem pode-
                                                      mos ler: "0sol C o corpo mais belo; de cer-
                                                      ta forma, C o olho do mundo. Enquanto fon-
      Como observa Dijksterhuis, misticis-            te de luz ou lanterna resplandecente, adorna,
mo, matematica, astronomia e fisica estiio            pinta e embeleza os outros corpos do mun-
estreita e at6 inextricavelmente associados           do [...I. N o que se refere ao calor, o sol C o
na mente de Kepler. Nas Harmonias d o                 fogareiro do mundo, que esquenta os glo-
mundo, ele fala de um "frenesi divino" e de           bos no espaqo intermediario [...I. N o que
um "arrebatamento inefavel" na contempla-             se refere a o movimento. o sol C a causa mi-
qiio das harmonias celestes. E precisamente           meira do movimento dos planetas, o pri-
nesse livro Kepler mostra mais que em qual-           meiro motor do universo, a causa do seu
quer outro lugar sua fC nas harmonias que             proprio corpo [...I." Ha em Kepler urna
se expressam na ordem matematica da na-               metafisica do sol. 0 s planetas niio se mo-
tureza: e o sol desempenha um papel fun-              vem mais com um movimento circular na-
damental nessa harmonia.                              tural; eles percorrem elipses. Entiio, qual a
      0 mod0 como Kepler descreve ter che-            forqa que os move? Pois bem, eles siio mo-
gado a elaboraqiio de sua primeira lei C exal-        vidos por urna f o r ~ a motriz como a forqa
tad0 em nossos dias como exemplo perfeito             magnktica, urna forqa que emana do sol.
de procedimento cientifico: ha um proble-             Estamos diante de urna intuiqiio metafisica
ma (a irregularidade do movimento de Mar-             relacionada com o mundo fisico, segundo a
te); elabora-se toda urna sGie de conjecturas         qual os planetas percorrem suas orbitas im-
como tentativas de soluqiio do problema;              pelidos pelos raios de urna anima motrix que
desencadeia-se o mecanismo da prova sele-             brotam do sol. Kepler considerava que es-
tiva sobre essa gama de conjecturas; descar-          ses raios agem sobre o planeta; mas a 6rbita
tam-se todas as hipoteses que niio se susten-         do planeta i eliptica; por isso, os raios da
tam ao crivo das observaq6es; finalmente,             anima motrix que caem sobre urn planeta a
chega-se teoria justa. E niio i apenas o pro-         urna distdncia dupla d o sol estariio pela
cedimento que C considerado como modelo               metade; conseqiientemente, a velocidade do
de pesquisa cientifica, exalta-se tambCm o            ~laneta    sera a metade da velocidade orbital
relato com o qual Kepler narra o mod0                 que apresenta quando esta mais proximo do
como chegou a essa lei. Vemos toda a pai-             sol. Em suma, Kepler sup6s que "houvesse
xiio por um problema que perseguiu Kepler             no sol um intelecto motor capaz de mover
a o longo de dez anos; com ele percorremos            todas as coisas em torno de si, mas sobretu-
as expectativas alegres e as amargas desilu-          do as mais proximas, enfraquecendo-se po-
Ges, os reiterados assaltos e os sucessivos           r i m no caso das mais distantes. em virtude
fracassos, os becos sem saida em que se               da atenuaqiio de sua influincia, dado que
mete, a tenacidade com que empreende o                aumentam as distdncias". A fig. 5 esclarece
desenvolvimento de cilculos dificeis, a               graficamente a idCia de ~ e ~ l e r . P o r t a n tfoi
                                                                                                          o,
constdncia e perseveranqa na busca de urna            a " f i n neoplat6nica que conduziu Kepler a
ordem que deve existir porque Deus a criou;           sua segunda lei: ele acreditava em urna es-
vemos urna verdadeira luta de Kepler com              trutura matematica e simples do universo e
o Anjo, que no fim niio lhe nega sua bin-             que o sol fosse causa de todos os fenbme-
qiio. Encontramo-nos diante da descriqiio             nos fisicos. E Kepler esboqou precisamente
de urna pesquisa em que a retorica das con-           urna teoria magnttica do sistema planeti-
clus6es C substituida pel0 pathos da mais             rio, com base nessa sua ultima convicqiio,
nobre aventura: o pathos da pesquisa da ver-          alem de influenciado pela leitura do De Mag-
dade.                                                 nete, que o mCdico inglis William Gilbert
       Mas niio menos interessante e instruti-         (1540-1603) publicara em 1600. Ele fala da
va C a maneira pela qual Kepler chega a sua           forqa com que a terra atrai um corpo, e na
segunda lei, da qual, alias, depende a pri-           introduqao a Nova astronomia fala tambCm
meira. N o quarto capitulo da Nova astro-             de urna atraqiio reciproca. E, nas notas ao seu
nomia, Kepler descreve o sol como o corpo             Somnium (elaborado entre 1620 e 1630),
 "que aparece, em virtude de sua dignidade            atribui as marks "aos corpos do sol e da h a ,
e potcncia, como o unico capaz (de mover              que atraem as aguas do mar com urna forqa
 os planetas em suas orbitas) e digno de tor-         semelhante magnCtican.
184..
---     Segunda parte - $   revoIuGiio c~entifica




                                                     isso. Mas o certo k que a sistematizaqio
                                                     matematica do sistema~o~ernicano pas-  ea
                                                     saeem do movimento circular ("natural" e
                                                        "
                                                     "perfeito") ao movimento eliitico propu-
                                                     nham problemas que Kepler percebeu, iden-
                                                     tificou e tentou resolver. Trata-se de proble-
                                                     mas que, juntamente com os resultados
                                                     obtidos, Kepler deixava de heranqa igera-
                                                     @ o seguinte. Kepler desapareceu em 1630,
                                                     Galileu morreu no principio de 1642. E pre-
Kepler sufids que "houvesse no sol um intelecto      cisamente neste ano nascia em Woolsthor~e.
motor capaz de mover todas as coisas                 no condado de Lincoln, na Inglaterra,
ao redor de si, mas sobretudo as mais prciximas"     homem chamado Isaac Newton, que, re-
(de Th. S. Kuhn, A revolu$o copernicana, cit.).      colhendo os resultados obtidos por Kepler
                                                     e Galileu, estava destinado a resolver os
                                                     problemas que eles deixaram em aberto,
     Alguns chegaram a ver nessas idkias a           dando assim a fisica a condicao aue hoie
                                                                                    >    1

antecipaqio da teoria gravitacional de New-          nos conhecemos com o nome de "fisica clas-
ton. Ao que tudo indica, n i o chega a ser           sica".
185   '"ij#
                                               Capitulo de'cirno - De CopCwico    a   Kepler   -

                                                   por aqueles que, embora impelidos pelas exor-
                                                   taqks e pelo exemplo de outros aos estudos
                                                    liberais da filosofia, todavia, por causa do ob-
                                                   tus~dade seu engenho, movem-seentre os
                                                              de
                                                   f~losofos  como os zangdes entre as obelhas.
                                                   Enquanto, porGm, avaliava comlgo mesmo es-
                                                   tas coisas, o desprezo, qua devia temer pela
       A novidade                                  novidade e absurdidade desta opinido, por
       do concep#o copernicana                     pouco nao me impeliu a abandonar completa-
                                                   mente a obra realizada.
                                                          Mas os amigos me dissuadiram, embora
        0trecho que segue d o corto dedico-        hes~tasse    muito e tambhm relutasse; e entre
  torm o Poulo 111 (Rlessondro Fornese, 1468-      estes o prlmelro ~ ON~colau
                                                                           I     Schonberg, cardeal
   1549); corto que Copdrnico ontepae oo De        de Cdpua, chlebre em todo campo do saber;
  revolutionibus orb~um   coelest~um(1543), o      junto com ele aquele ins~gne     personagem que
  texto c l d s s ~ o teorio helioc&ntrico: 'I...]
                    do                             me ama tanto, Tiedemann Giese, b~spo           de
  tombhm eu comacei o pensor no mobilida-          Culm, tdo assiduo nos sagradas letras e em
  de do terro".                                    todas as boas letras. Este, corn efeito, fre-
                                                   quentemente ms exortou e com censuras vez
                                                    por outra a mim dirigidas me incitou a publicar
      Santissimo Padre, com sufic~ente  seguran- este livro e a permitir que fosse finalmente
<a posso pensar que logo qua alguns soube- dado 6 luz uma obra que teimava em permane-
rem que nestes meus l~vros     escritos sobre as cer oculta comlgo ndo apenas por nove anos.
revolu~des    das esferas do mundo atribuo ao mas j6 por quatro vezes nove anos.
globo terrestre alguns movmentos, imediata-               0 memo fizeram junto de mim ndo pou-
mente proclamardo em aka voz que devo ser cos outros personagens eminentissirnos e dou-
descartado junto com tal opinido. Nem, na ver- tissimos, os quais me exortaram a ndo recusar
dade, minhas coisas me agradam a ponto de por mais tempo - pelo medo concebido - co-
au n60 querer ponderar aquilo que outros jul-       municar minha obra para utilldade dos estudio-
gardo sobre elas. E embora saiba que as re- sos de matem6tica.Talvez por mais absurda que
flexaes do filosofo estdo longe do julgamento aparep agora 6 malor parte deles minha dou-
do vulgo, porque & seu trabalho procurar a ver- trina sobre o movlmento do terra, maior admi-
dade em todas as coisas, 6 med~da       que isso rag30 e gratiddo receber6 depois qua, com a
permite-se6 razdo humana por Deus, nem por ed~<do meus coment6rios, eles verdo dis-
                                                             de
isso penso que se devam abandonar as opi- solvidas as n&voas da absurdidade corn cla-
nides de fato estranhas a retiddo. nss~m,  quan- rissimas demonstra@es. Impelido, portanto, por
do eu pensava comigo mesmo qudo absurdo estes persuasores e por tal esperanp, final-
teriam avaliado este ochroomo [discurso] aque- mente permit^ aos amigos que providencrassem
les que sabem ter sido confirmada pelo julga-       a edi@o do obra, por tanto tempo aguardada.
mento ds muitos s&culos a oplnido de que a                Todavia, talvez Sua Santidade ndo se
terra est6 imovel no meio do cGu, como que maravilhar6 tanto de que eu anseie dar b luz
posta no centro dele, se ao contr6rio eu tives- minhas reflexdes, depo~s        que assumi elabor6-
se af~rmadoque a terra se move, por muito las com tanto trabalho que ndo duvide~              confiar
tempo hesitei se devia expor meus comenthri- tambbm por carta meus pansamentos sobre o
os escritos para demonstrar tal movimento, ou movimento da terra, mas, ao contr6ri0, espera-
entdo se ndo seria melhor seguir o exemplo r6 sobretudo ouvir de mim como me veio em
dos pitagoricos e de alguns outros que costu- mente ousar imaginar - contra a opinido uni-
mavam tradicionar os misthr~osda filosof~a versalmente aceito pelos matem6ticos, e qua-
apenas a membros e amlgos, ndo por escrito, se contra o senso comum - algum movlmento
mas oralmente, como atesta a carta de Cisides da terra. Rss~m, quero esconder a Sua San-
                                                                     ndo
a Hiparco. E parece-me no verdade que isso tidade que nada mais me levou a pensar em
era fsito ndo tanto - como pensa algubm - outro modo de calcular os movimentos das es-
por certo ciums do saber que deveria ter sido feras do mundo, a ndo ser que compreendi que
comunicado, mas para que as belissimas coi- os matem6ticos ndo estdo eles proprios con-
sas, pesqu~sadas      com muito estudo por gran- cordes no pesquisa deles.
des homsns, ndo fossem desprest~giadas         por        Com efe~to, primeiro lugar estdo t60
                                                                        em
aqueles a quem & molesto dedicar algum es- incertos sobre o movimento do sol e da lua que
 forso 6s letras, quando ndo sdo lucrativas, ou nao podem demonstrar e observar a grandeza
constants do ano que passa. Depois, ao fixar surda que aparecesse tal opini60, todavia, uma
os movimentos tanto destas corno das outras vez que eu sabla que a outros antes de mim
cinco estrelas errantes [os planetas], n6o recor- tivesse sido concedida a liberdade de imagi-
rem aos mesmos principios, nem aos mesmos nor alguns circulos para indicar os fenBmenos
assuntos, nem ds mesmas demonstra@es das dos astros, pensel que tambhm a mim teria sido
revolu@es e dos movimentos que aparecem. facilmente permitido experimentar se, posto
Rlguns, com efeito, recorrem apenas a circulos certo mov~mento terra, se pudessem encon-
                                                                   da
homoc&ntricos,outros a exc6ntricos e a ep~c~clos, trar demonstra~6es  mas f~rmes   das deles, no
com os quais, porhm, n6o conseguem absolu- revolugio dos orbes celestes.
tamente aquilo que buscam...                            Portanto, supostos os movimentos qua
      Por lsso assumi o trabalho de reunir os mais adiante em minha obra atribuo d tsrra,
livros de todos os filosofos, que pudesse ter, encontrei finalmente, depois de muitas e lon-
com o fito de indagar se acaso algum tivesse gas observa(6es, que se se relacionavam com
opinado que os movimentos das esferas do a circula@o da terra os movimentos das outras
mundo fossem diversos daqueles que s6o ad- estrelas e se calculavam para a revolu$6o de
mitidos por aqueles que ensinam matemdtica toda estrela, n6o apenas descobriram os fen6
nas escolas. E sncontre~   asslm primeiro em Ci-  menos delas, mas tambhm as ordens e as gran-
cero que Niceto pensara que a terra se moves- dezas das estrelas e de todos os orbes, e o
se. Depois tambhm em Plutarco encontrei que proprio c&u assim se conecta que em nenhuma
outros ainda eram da mesma opini6o e, para parte dele pode transpor-se qualquer coisa sem
tornar suas palavras acessiveis a todos, pen- que disso derive confusao nos outras partes e
sei transcrev&-lasaqul:                           na sua totalidade. Por isso, ad~ante obra.
                                                                                        no
       "Outros pensam qua a tsrra esteja para- segui esta ordem, e no primeiro hvro descrevo
do, mas Filolau o Pitagor~co  admits que ela se todas as posl@es dos orbes com os movimen-
mova glrando em torno ao foco com um circulo tos qua atribuo d tsrra, a fim de que este livro
obliquo, corno o sol e a lua. Herdcl~des PBntico contenha quase que a toda a constitui$do ge-
e Ecfanto o Pitagorico tambhm fazem a terra se ral do universo. Nos outros livros, depois, relacio-
mover, mas nao atravhs do espaSo, e sim como no os movimentos das outras estrelas e de to-
 roda, do Ocidente para o Oriente, ao redor de dos os orbes com a mobil~dade terra, a fim
                                                                                    da
seu proprio centro".                              de que ai se possa deduzir em que medida h
       A partir daqui, portanto, deparando-me possivel salvar os movimentos e as aparhcias
 corn esta oportunidade, tambhm eu comecei a das outras estrelas e dos orbes, quando estdo
 pansar no mobil~dade terra. E, por mas ab- relacionados com o movimento da terra. E n6o
                        da




Representa~iio
d o sistema copernicano.
Como escreue o pr6prio
Copkrnico:
"Todas as esferas giram
ao redor do sol
como seu ponto central,
e portanto o centro d o uniuerso
esta dentro d o sol [...I.
0 mouimento da terra e'.
portanto, suficiente para explicar
todas as desigualdades
yue aparecem n o cku".
duv~do   que os engenhosos e doutos matem6t1-
cos me aprovardo se, conforme a filosof~a       re-
quer em prlmelro lugar, quiserem conhecer e
ponderar ndo superficialmante, mas a fundo,
aquilo que trago nesta obra para a demonstra-
<do destas colsas. E a fim de que os doutos e
tambbm os ignorantes vejam que de minha
parte ndo me subtra~o fato a0 julgamento
                           de
de ningubm, preferi dedlcar estas m~nhas     refle-
x6es a Sua Santidade, mais qus a qualquer                     Tycho Brohe Iongo o hipotese de urn sis-
outro, porque tambbm neste 6ngulo remotissimo           terno do rnundo diferante tonto do de
da terra, em que vivo, 6s julgado o persona-            Ptolorneu corno do de Coptrnico "Poro oltm
gem mals em~nente        tanto pela d~gnidade   de      de quolquer duvido penso que se devo es-
grau como de amor por todas as letras e tam-            tobslecar corn os ontigos ostr6nornos s os
bbm das matem6tlcas; assim, poderdis fac~lmen-          poreceres dorovonte ocaitos palos Fisicos,
te, com tua autoridode e teu julgamento, con-           corn o ulterior otestogdo dos Sogrodos Escri-
ter a mordida dos caluniadores, embora o                turos, que o t a m que hobitornos ocupo o
provbrbio diga que ndo existe rembdio para a            centro do universo s que ndo 6 rnoviclo em
mordida dos delatores.                                  circulo por nenhum rnovirnanto onuol, corno o
       Se porventura houver rnozoiologoi [linguo-       quer Coptrnico [ 1"
rudos] que, embora ~gnorando       completamente              No sisterno tych8nico o t w o sa encon-
as matem6tms, memo assim se arrogam o jul-              tro, portonto, no centro do universo, elo esM
gamento sobre elas, e em base a alguma pas-             no centro do orbito do sol, do luo e clos es-
sagem da Escritura, pessimamente d~storcida       a     trslos fixos, enquonto o sol estd no centro
seu favor, ousarem tro<ar ou d~famar      esta em-      do orbito dos cinco plonetos (Mercljrio,
press, ndo me preocupo de modo nenhum com               Vhnus, Morte, Jfipitsr, Soturno)
eles, pois desprszo o julgamento deles corno
temer6rio. € bem sab~do,    com efeito, qua LactGn-
c~o, escrtor ali6s famoso, mas matem6tico supe-
rado. falou de modo completamente pueril do                  Do momento em que me d e ~  conto de que
forma da terra, cacoando daqueles que haviam           a velha distr~bu~<do  ptoloma~ca dos orbes ce-
mostrado que a terra tem forma de globo. Por-          lestes ndo era suficientemente coerente e que
tanto, ndo deve parecer estranho aos sstud~o-          era supbrfluo o recurso a tdo numerosos e gram
sos se alguns tambbm rirem de mim. Fl matem6-          des ep~c~clos melo dos quals se justificam
                                                                      por
t~ca  escreve-se para os matem6ticos, aos quals        os comportamentos dos planetas em rela$do
- se ndo me engano - tambbm estes meus tra-            ao sol, suas retrograda<bese suas paradas com
balhos aparecerdo de algum modo vantajosos             alguma parte de sua aparente desigualdade;
para a propria republica eclesi6stica, da qua1 Sua     logo que me dei conta de que estas hipoteses
Santidade detbm agora o princ~pado.       Com efei-    contradizem os primsiros prmcipios da propria
 to, h6 ndo muito tempo, sob Ledo X, quando se         teoria, uma vez que admitem a uniform~dade
debatia no concilio lateranense a questdo de           do movimento circular ndo em torno cle seu pro-
emendar o calsnd6rio ecles16st1c0, perma-
                                      essa             prlo centro, corno seria necess6r10, mas ao re-
 necsu entdo ~ndecisa    apenas pela razdo ds que      dor de outro, isto &, ao redor do centro de ou-
 as grandezas dos anos e dos msses e os movi-          tro exc&ntr~co (qua por este motivo chamam de
 mentos do sol e da lua ndo eram ainda conside-        equante); tendo considerado ao mesmo tem-
 rados suficientemente medidos: e desde aquele         po a inovagdo moderna ~ntroduzida    pelo gran-
 tempo pus-me a observar lsso mais acurada-            de Copbrn~co ..], e tendo compreend~do
                                                                      [.                         como
 mente, inc~tado  pelo iluminado blspo de Fossom-      ela sab~amente    evta tudo aqu~lo que no d~s-
 brone, Paulo, que presid~a tais quest6es.
                               a                       posi$do ptolomaica resulta supbrfluo e in-
       0qus, portanto, demonstrei nestas coisas,       coerente, sem contradizer os principios da ma-
 deixo ao julgamento de Sua Santidade, em pri-         tembtica, mas, a partir do momento que
 meiro lugor, e ao de todos os outros doutores         estabelece que o corpo da terra, grande, lento
                 E,
 matem6t1cos. para qus ndo parep a Sua                 s in6bil para se mover b mov~do um movi-
                                                                                         por
 Sant~dade   que sobre a utilidade da obra pro-        mento ndo mas fragment6rio (ou melhor, um
 meto mais do que posso oferecer, passo agora          tripl~cemovimento) do qua o dos outros astros
 ao meu proposito.                                     etbreos, chocava-se ndo so com os principios
                                       N. Copbrn~co.   da fis~ca,mas tambbm contra a autor~dade    das
                D revolutionibus orbium coelestium
                  e                                    Sagradas Escr~turas   que conhrmam em v6rias
Segunda parte   - $ revoIuC2iociefitificn

passagens a estabilidade do terra, para ndo          para Cophrnico devia-se ao movimento anual
falar depois do espago vastisslrno interposto        da terra, justifica-se de modo rnuito convenien-
entre o orbe de Saturno e a oitava esfera que        te mediante tais concomit6ncias do centro da
esta doutrina torna vazio at& as estrelas, e de      orblta dos proprios planetas junto corn a revo-
outros inconvenientes que acompanham esta            lug60 anual do sol. Deste modo, encontrarnos
especulagbo, entdo, sigo, tendo cornpreendi-         expllca@o suficiente para as paradas ou retro-
do bem corno arnbas assas hipoteses adrnitis-        grada~des planetas, para aproxirnagdes e
                                                                 dos
sem ndo pequenas absurdidades, comecei a             distanciarnentos da terra, para a var1aq3oda
meditar cornigo mesrno profundarnente se se-         aparente grandeza e para todos os outros fe-
ria possivel encontrar uma hipotese qualquer         n6rnenos de tal monta, originados ou com o pre-
que ndo estivesse em contraste nem corn a rna-       texto dos epiciclos ou pela aceita@o do rnovi-
tern6tica nern corn a fisica, e que ndo devesse      rnento da terra. [. . .] E corn isso se torna evidente
fugir ocultarnentedas censuras teologicas e que,     a razbo pela qua1 o rnovimento simples do sol
ao mesrno tempo, satisfizesse de modo corn-          se mistura necessariamente corn os movirnen-
pleto as apar&ncias celestes. Por firn, quase        tos de todos os cinco planetas com peculiar e
inesperadarnente, vaio-me 2.1 mente de qua1          certo andarnento; de forrna que todos os fen6
rnaneira deva ser disposta oportunarnente a          rnenos celestes se referern ao sol corno sua
ordern das revolu~des     celestes, de rnodo que     rnedida e norrna e ele governa toda a harrno-
ficasse excluida toda ocasibo para todas estas       nia do fila dos planetas corno Rpolo (norne do
incongru&nc~as. agora comunicarei esta d ~ s -
                   E                                 qua1 era datado pelos antigos) no rneio das
posiqdo dos orbes, j6 brevemente acenada, aos        Musas.
cultores da filosofia celeste.                                                                      T. Or~hs,
       Para alhrn de qualquer dirvda, penso que           De mundi oathsrsl rscent~onbus    phasnomenls,
se dsvo estabelecer corn os antigos astrdno-              liber secundus qui est de illustr~stello coudoto
rnos e os pareceresj6 aceltos pelos fisicos, com                             em l o rivoluzione scientihco
                                                                                 do Copernico o Newton,
a atesta~bo    ulterior das Sagradas Escrituras,
                                                                         edtada por P. Ross~,     loeschsr.
que a terra que habitarnos ocupa o centro do
universo e que nbo h movida ern circulo por
nenhum rnovimento anual, como o cluer
Cophrnico. Todavia, ndo ouso confirmar, cbmo
crerarn Ptolorneu e os velhos astr6nornos, que
junto da terra sa situern os centros de todos os
orbes do segundo rnovel; mas penso que os
circuitos celestes sejam de tal forma governa-
dos que apenas arnbos os luminares do rnun-
 do [o sol e a lua], que presidern a d~scrirnina-
 $10 do tempo, e corn slesa muitissimo d~stante
 oitava esfera [das estrelas fixas], continente de
 todas as outras, olhem para a terra corno para
 o centro de suas revolu@es. Albrn disso, asse-
vero que os cinco planetas restantes [Mercljrio,
V&nus. Marte, Jljp~ter,Saturno] desenvolvem
 seus proprios glros ao redor do sol corno pro-
 prio guia e rei, e que sempre o observarn quan-
 do se situa no espqo intermedi6rio de suas
 revolu@es. De rnodo que, em relagdo ao circui-
 to dele tarnbhrn os centros das orbitas que clr-
 cularn a seu redor realizam urn giro anual. En-
 contrei, de fato, que isso nBo ocorria apenas
 em V&nus e Mercljrio para as menores digres-
 sdes de tais planetas em relacdo ao sol, mas
 tarnbhrn nos tr&s planetas superiores. E desse
 modo nestes tr&s rnais distantes planetas que,
 corn a amplitude de suas revolug6es ao redor
 do sol, incluern a terra e todo o rnundo elernen-
 tar juntamente corn a lua que com el@confina,
 toda aparente dssigualdade de movirnento que
 pelos antigos era axplicada corn os epic~clos,      Instrumento astrondmico de 7: Brahe.
0drama de Cialile~
     e a      f ~ n d a ~ & o &&cia cnoderna
                          da



        Galileu Galilei (1564-1642) estuda em Pisa como aluno de Ostilio Ricci, disci-
pulo d o algebrista Nicolau Tartaglia. Chamado para ensinar em Padua, ai pronun-
cia a lis%oinaugural dia 7 de dezembro de 1592. Em Padua Galileu permanece
dezoito anos, ate 1610. A 1610 remonta o Sidereus Nuncius; e, sempre nesse ano,
obtem da parte d o grao-duque Cosme II o rendoso posto de
"matematico extraordinario d o estudio de Pisa". Entre 1613 e OensinO
1615 Galileu escreve as famosas quatro cartas copernicanas so-         ~ ~ ~ ~ $
bre as relasees entre ciencia e fe: uma a seu discipulo, o beneditino
Benedetto Castelli, duas a dom Piero Dini; e uma a senhora
                                                                        ,  ,gundo
Cristina de Lorena, gra-duquesa de Toscana.                            a solidao
       Denunciado ao Santo Oficio, Galileu e processado em Roma de Arcetri
em 1616 e e proibido de ensinar o u defender com ; palavra o u + 5 I. I
                                                         ,
com os escritos a teoria copernicana.
       0 Saggiatore 6 de 1623.0 Dialogo sobre os dois maximos sistemas d o mundo
aparece em 1632. Processado pela segunda vez em 1633, Galileu e condenado e
forqado a abjuraqao. A prisao perpetua Ihe e logo comutada em confinamento,
primeiro junto a seu amigo Ascdnio Piccolomini, arcebispo de Siena, o qua1 o tra-
t o u com grande e benevola atenqao; e depois em sua casa em Arcetri.
       Na solid20 de Arcetri escreve os Discursos e demonstrag6es matemdticas so-
bre duas novas ci&cias, que aparecerao em Leiden em 1638. Assistido por seus
discipulos Vicente Viviani e Evangelista Torricelli, Galileu morre n o dia 8 de janeiro
de 1642.
       Na primavera de 1609 Galileu vem a saber que "certo flamengo havia fabri-
cad0 uma lente mediante a qua1 os objetos visiveis, por mais distantes que estives-
sem dos olhos d o observador, eram vistos distintamente como se
estivessem proximos". A mesma noticia Ihe 6 confirmada por seu ~ ~ l i l ~ ~
ex-discipulo Jacques Badouere. Justamente com base nestas no- I,, a luneta
ticias Galileu construiu a luneta. E a coisa realmente interessante para "dentro"
e que ele a tenha levado para dentro da ciencia, como instru- da ciencia
mento cientifico a ser utilizado como potencializa@o de nossos + § 11.1
sentidos.
       Dia 12 de marqo de 1610 Galileu publica em Veneza o Sidereus Nuncius,
obra que inicia com estas palavras: "Grandes na verdade sao as coisas que neste
breve tratado proponho a visao e contemplaqiio dos estudiosos
da natureza. Grandes, digo, tanto pela excelencia da materia em o "Sidereus
si mesma, como pela novidade delas jamais ouvida em todos os Nuncius"
tempos passados, como tambem pelo instrumento em virtude corrobora
d o qua1 as proprias coisas se tornaram manifestas a nosso senti- osistema
do". Mediante a luneta, se podem ver, alem das estrelas fixas, copernicano
"outras inumeraveis estrelas jamais divisadas antes de agora"; o e desmente
                                                                       ,
                                                                   sistema
universe, em suma, torna-se maior; constata-se que a lua n l o e ptolomaico
u m corpo perfeitamente esferico, como ate entao se acreditava,
mas e escabrosa e desigual como a terra (este e u m resultado
                                                                       ,
190
      Segunda parfe - A   revaluFdo cientifico



que destroi uma coluna da cosmologia aristotelico-ptolomaica, isto e, a ideia da
clara distinqao entre a terra e os outros corpos celestes); v@-se a Galaxia n%o
                                                                 que              e
"nada mais que um monte de inumeraveis estrelas, disseminadas em amontoa-
dos"; observa-se que as nebulosas sao "rebanhos de pequenas estrelas"; v@em-se
os satelites de Jupiter (e esta descoberta oferecia a Galileu a inesperada visa0 no
ceu de um modelo menor do que o modelo copernicano). Com tudo isso o Sidereus
Nuncius corroborava o sistema copernicano e disparava decisivos golpes contra-
rios ao sistema ptolomaico.
         Daqui as raizes do desencontro entre Galileu e a Igreja.
       Copernico afirmara que "todas as esferas giram em torno do sol como seu
ponto central e portanto o centro do universo esta dentro do sol". E ele pensava
                    que sua propria teoria fosse uma representaqao verdadeira do
    pressuposto     universo. Deste parecer era tambem Galileu: a teoria copernicana
  do desencontro descreve 0 sistema do mundo.
  entre Galileu         Tal tese realista devia necessariamente aparecer perigosa a
  e a lgreja        todos - catolicos e protestantes- pois pensavam que a Biblia em
  4 3 IV: 7-2       sua verdo literal nao podia errar. No Eclesiastes (1,4-5) lemos
                    que "a terra permanece sempre em seu lugar" e que "o sol surge
e se pde voltando ao lugar de onde surgiu"; e por Josue (10,13) somos informados
de que Josue ordena ao sol que pare. Com base nestas passagens da Escritura
Lutero, Calvino e Melanchton s opuseram ferrenhamente a teoria copernicana.
                                   e
Lutero dira que Copernico e "um astrologo de quatro vintens". De sua parte, o
cardeal Roberto Belarmino apresenta uma interpretaqao instrumentalistada teo-
ria copernicana, no sentido de que ela seria um instrumento capaz de fazer predi-
~;des,  mas n%oe propriamente uma descriq%overdadeira do mundo: esta e en-
contravel na Biblia, que nao pode errar.
        Galileu teoriza a incomensurabilidade entre saber cientifico e fe religiosa:
 os conhecimentos cientificos sao aut6nomos em relaqao a fe, pois pretendem des-
                   crever o mundo; os dogmas da fe, as proposiqdes religiosas, de
  ~ ; 6 fe: ~ ; ~
            ~      sua parte, nao sao e nao querem ser um tratado de astronomia,
  e-e,             mas uma mensagem de salvaqao.
  e nso ou-ou           Galileu fixa o principio da distinqao entre ciencia e fe nas
  +3 ~ 7 - 3       palavras que ele diz ter ouvido do cardeal BarBnio, segundo o
                   qua1 "a intenqao do Espirito Santo seria ensinar-nos como s vai
                                                                                e
 ao ceu e nao como vai o ceu". Para Galileu, portanto, ci@ncia fe silo compativeis
                                                                e
 porque incomensuraveis: nao se trata de um ou-ou, e sim de um e-e; o discurso
 cientifico e um discurso factualmente controlavel, destinado a fazer-nos ver como
 funciona o mundo; o discurso religioso e um discurso de "salva@o" que n%o        se
 ocupa de descrever o mundo, e sim do "sentido" do universo, da vida dos indivi-
 duos e de toda a humanidade.
        Dia 19 de fevereiro de 1616 o Santo Oficio passou a seus teologos as duas
 proposiqdes que resumiam o nucleo da questao:
                       a) "Que o sol esteja no centro do mundo, e por conseguinte
  0 primeiro       imovel de movimento local".
  process0              b) "Que a terra nao esta no centro do mundo nem 4 imovel,
  + 3 VI. 1        mas se move segundo si mesma inteira, tambem com movimento
                   diurno".
      Cinco dias depois, dia 24 de fevereiro, todos os teologos do Santo Oficio con-
 denaram as duas proposiq6es. A sentenqa do Santo Oficio e transmitida a Congre-
 gaqao do index, que no dia 3 de marqo de 1616 emana a condenaqao do Coperni-
 canismo. Entrementes, dia 26 de fevereiro, Belarmino, sob ordem do papa, tinha
 admoestado Galileu a abandonar a ideia copernicana e Ihe ordenava, sob pena de
 prido, "nao ensina-la e nao defend@-la nenhum modo, nem com as palavras
                                            de
 nem com os escritos". Galileu concordou e prometeu obedecer.
Em 1623 sobe ao trono pontificio, com o nome de Urbano VIII, o cardeal
Maffeo Barberini, amigo e admirador de Galileu. Encorajado por este evento,
Galileu retoma sua batalha cultural; e em 1632 publica o Dialogo de Galileu Galilei
Linceu, onde nos congresses de quatro jornadas se discorre sobre os dois maximos
sistemas do mundo ptolomaico e copernicano. 0 s interlocutores
do Dialogo s%otr&: Simplicio, que representa o filosofo aristo- 0 n ~ ; a ~ o g o
telico, defensor do saber tradicional; Salviati, o cientista coper- sobre
nicano paciente e resoluto; Sagredo, que representa o pljblico osdoismaximos
aberto a novidade e que deseja conhecer as razdes de uma e de sistemas";
outra parte. 0 Dialogo se abre com uma declara@o favoravel a eose9undo
validez da condenaqao do Copernicanismo; obviamente, trata- proceS0
va-se de um truque n%odificil de descobrir: o Dialogo e uma + 3 VII.1-3
defesa cerrada do sistema copernicano.
      Urbano Vlll foi convencido pelos adversarios de Galileu de que o Dialogo
constituia um descredito da autoridade e talvez tambem do prestigio do papa, o
qua1 estaria sendo ridicularizado na figura de Simplicio. Foi assim que iniciou o
segundo processo contra Galileu. Dia 12 de abril de 1633 Galileu esta diante do
Santo Oficio; dia 22 de junho os inquisidores emitem a sentenqa de condenaqao e,
no mesmo dia, Galileu pronuncia a abjuraqso.

        Depois do segundo processo e da abjuraqao Galileu escre-         contribute
ve os Discursos e demonstraq6es matematicas a respeito de duas         de
novas ciencias, que silo a estatica e a din2mica. Tais discursos s%o   para a histdria
propostos em forma de dialogo: discute-se sobre a resisthcia           das id@jas
dos materiais, sobre sistemas de alavanca, e esta presente a cele-     cientifjcas
bre experihcia sobre pianos inclinados. Nesta obra apresenta-se        -+ 3 VIII. 1-2
o contributo mais original de Galileu a historia das ideias cienti-
f icas.

       Querendo agora explicitar mais detalhadamente a imagem galileana da
ciencia e preciso salientar que, para Galileu, a ci6ncia n%o mais um saber a servi-
                                                            e
$0da fe, n%o   depende da fe, tem um escopo diferente do da fe, aceita-se e encon-
tra fundamentos diferentes dos da fe. Aut6noma em relaqao a fe, a ciGncia est6
desvinculada tambem do autoritarismo da tradiqao aristotelica
que bloqueia a pesquisa cientifica. E contra os aristotelicos Galileu:
dogmaticos e livrescos, Galileu recorre justamente a Aristoteles, platbnico
o qua1 "antepde [...I as experiencias sensatas a todos os discur- em filosofia,
sos"; de mod0 que "n%oduvido nada de que s Aristoteles vives- arisfot@lico
                                                 e
se em nosso tempo, mudaria de opiniio". Com isso Galileu faz           : -'
                                                                       $ $
"o funeral [...I da pseudofilosofia", mas n%o funeral da tradi-
                                                o
$30 enquanto tal.
     Com as devidas cautelas se pode dizer que Galileu e platdnico em filosofia
("0 livro da natureza esta escrito em linguagem matematica") e aristotelico no
mCtodo (Aristoteles "teria [...I anteposto, como convem, a sensata experiencia ao
discurso natural").

       A ciencia de Galileu e a c i h c i a de um realista, ou seja, a ci@ncia um
                                                                               de
cientista convict0 de que as teorias cientificas alcancem e descrevam a realidade; a
cihcia e descriq%o    verdadeira da realidade, e nos diz "como vai o ceu"; e e obje-
tiva porque descreve as qualidades objetivas e mensuraveis (qualidades primarias)
e n%o qualidades subjetivas (qualidades secundarias) dos cor-
       as
pos. E esta ciCncia, descritiva de realidadesobjetivas e mensuraveis, ''0 mundO
e possivel porque e o proprio livro da natureza que "esta escrito estd escrito
em linguagem matematica". A ciencia, portanto, e objetiva por- em linguagem
                                                                       matemdtica,,
que n%o embrenha nas qualidadessubjetivas e secundarias nem
         se
se propde a busca das "essencias". Do que foi dito segue-se que a
                                                                       ,   x,
pesquisa qualitativa e suplantada pela quantitativa, e sso eliminadas as causas
finais em favor total das mecEinicas. 0 universo de Galileu e um universo determi-
nista e mecanicista; ngo e mais o universo antropoc@ntrico Aristoteles e da
                                                               de
tradisiio, n%oC mais hierarquizado, ordenado e finalizado em fun@o do homem.
E perdem todo valor os discursos vazios e os ensinamentos de certa tradi@o filo-
s6fica privada de contato com a experiencia. Enquanto sobre o mundo nos dao
informac;6esas teorias construidas sobre "sensatas experiencias" e "necessarias
demonstrac;6es".A experiencia cientifica de Galileu e o experimento, que se faz
para ver se uma suposi$lo corresponde ou nso a realidade.




                            a   vida     e

     As eta pas wais       iwpo~tantes              Convidado a ensinar em Pidua, Galileu
                                               da sua aula inaugural em 7 de dezembro de
      na vida de G a l i l e ~                 1592. Ele permanecerii durante dezoito anos
                                               (at6 1610) em Pidua, os anos mais belos de
     Galileu Galilei nasceu em Pisa, em 15 sua vida. Professor de matemiitica, comen-
de fevereiro de 1564, filho de Vincenzo, ta o Almagesto de Ptolomeu e os Elementos
musico e comerciante, e de Giulia Amman- de Euclides. Entre 1592 e 1593 elabora sua
nati de Pescia. Em 1581, ja estava inscrito Breve instru@o de arquitetura militar, o
entre os "alunos artistas" do Estudio de Pisa. Tratado das fortifica~6es as Mecdnicas. 0
                                                                        e
Deveria tornar-se mCdico, mas dedicou-se Tratado da esfera ou Cosmografia C de
aos estudos de matemitica, sob a oriental50 1597, obra em que Galileu ainda exp6e o
de Ostilio Ricci, discipulo d o algebrista sistema geomttrico de Ptolomeu. Entretan-
Nicolau Tartaglia, a quem devemos a f6r- to, duas cartas dessa Cpoca (a primeira para
mula de resolus50 das equag6es de terceiro Jacopo Mazzoni, em 30 de maio de 1597; a
grau. Em 1585, Galileu escreve os Teore- segunda para Kepler, de 4 de agosto do mes-
mas sobre o centro de grauidade dos soli- mo ano) indicam que ele j i abragara a teo-
dos, em latim. Em 1586, publica a Bilan- ria copernicana. Freqiienta os ambientes
cetta, onde se mostra evidente a influcncia culturais paduanos e venezianos, tendo es-
do "divino Arquimedes" e onde - e esse treitado amizade com Giovanfrancesco Sa-
C o dado importante - mais do que inda- gredo (nobre veneziano e estudioso de 6ti-
gar sobre a natureza dos corpos, procura- ca), com frei Paulo Sarpi e com frei Fulgincio
se determinar seu peso especifico. Para Micincio.
Galileu, a Bilancetta constitui "sua estrkia         Ainda em Veneza, relaciona-se com
na produs50 cientifica". Entrementes, po- Marina Gamba, da qua1 teri trCs filhos:
rCm, ele tambCm cuidava de seus interesses Virginia, Livia e Vincenzo. Em Padua, esta-
humanisticos, como mostram as duas au- belece amizade com o aristotilico CCsar
las que ministrou na Academia Florentina, Cremonini. Em 1606, publica As opera~Ges
em 1588, Sobre a figura, o local e a grande- do compasso geome'trico militar.
za do inferno de Dante e as Considera~Ges            Em 1609, tendo recebido a noticia so-
sobre Tasso, que remontam aproximada- bre a luneta, a reconstrbi por sua conta e a
mente ao ano de 1590. Nomeado profes- aperfeigoa. Depois, ousa a~onta-la supe-    in
sor de matematica em Pisa em 1589, com o rioribus e faz as rumorosas descobertas as-
apoio do cardeal Francisco del Monte, em tron6micas expostas no Sidereus Nuncius,
1590 Galileu escreveu o De Motu, cuja te- de 1610. Ainda em 1610, jii famoso, C agra-
oria central, embora modificada, ainda C a ciado pel0 gr5o-duque Cosme 11, dos MCdici,
teoria do impetus.                             com o cargo (muito rentivel) de "matemfi-
193
    Capitdo de'cimo primeiro - O drama de Galileu e a f ~ . t n d a da cisncia modevna
                                                                    ~~o


tic0 extraordinario do Estudio de Pisa", sem      Galileu quem a batizou [...I. Ele deu o pri-
ter obrigagiio de residincia local nem de         meiro passo importante, abrindo desse
ministrar ligoes, bem como o posto de "fi-        mod0 o caminho, novo e imenso, que leva-
losofo d o Serenissimo Duque".                    ria a mecBnica a progredir enquanto ciin-
        Em Florenga, prossegue suas pesquisas     cia". Em Arcetri, Galileu teve o consolo de,
astron6micas, mas sua ades5o ao coperni-          por algum tempo, ser assistido pela irm5
canismo comega a criar-lhe as primeiras di-       Maria Celeste (sua filha Virginia), que, no
ficuldades. Entre 1613 e 1615, escreve as         entanto, morreu em 2 de abril de 1643, aos
famosas quatro cartas copernicanas sobre          trinta e trEs anos. Para Galileu, essa morte
as relaq6es entre ciincia e f i : urna ao seu     foi "matiria de inconsoliivel pranto". Pou-
discipulo, o beneditino Benedetto Castelli;       cos dias depois, em urna carta ao irmiio de
duas a dom Piero Dini e urna ii senhora           sua nora, Geri Bocchineri, que era empre-
Cristina de Lorena, grii-duquesa da Toscana.      gado nos escritorios do govern0 griio-ducal,
Acusado de heresia devido a o seu coper-          Galileu escreverii estas palavras: " [Sinto] tris-
nicanismo, e depois denunciado ao Santo           teza e melancolia imensas, inapetencia ex-
Oficio, foi processado em Roma em 1616,           trema, tornei-me odioso para mim mesmo.
sendo-lhe impost0 niio ensinar nem defen-         E sinto que sou continuamente chamado
der com a palavra e com escritos as teorias       pela minha querida filhinha."
incriminadas. Da polcmica com o jesuita                 Para compreender as relag6es entre
Horacio Grassi sobre a natureza dos come-         Galileu e sua filha predileta, que foi mulher
tas nasceu o Saggiatore, publicado em 1623.       de finissimos sentimentos e de "elevado in-
Essa obra defende urna teoria dos cometas         telecto", basta acenar a algumas cartas por
que depois se revelaria equivocada (Galileu       ela enviadas a o pai, em Roma, depois da
sustentava que os cometas seriam aparin-          condenagiio de 1633. Galileu n5o queria que
cias produzidas pela luz refletida sobre os       a noticia de sua condenagiio chegasse aos
vapores de origem terrestre). Entretanto,         ouvidos de sua filha, freira e pessoa de gran-
como veremos adiante, nela ja siio propos-        de sensibilidade religiosa. Mas tratava-se de
tos alguns dos elementos basicos da concep-       um fato que n5o podia ficar oculto. Tiio lo-
giio filosofica e metodologica de Galileu.        go a irmii Maria Celeste soube da condena-
         Em 1623 subiu a o trono pontificio,      $50 do pai, enviou-lhe urna carta (em 30 de
com o nome de Urbano VIII, o cardeal Maf-         abril): "Carissimo senhor pai, quis escre-
feo Barberini, amigo de Galileu, que ja lhe       ver-lhe agora, de mod0 que saiba que estou
havia sido favorivel e que chegara a prote-       a par de suas vicissitudes, o que Ihe deve
ger o proprio Campanella. Retomando co-           servir como lenitivo. E deixei de escrever
ragem e esperanga, Galileu escreve o Dialo-       qualquer outra carta, desejando que essas
g o sobre os dois maximos sistemas d o            coisas desgostosas sejam so minhas [...I."
mundo (1632). Apesar das precaug6es to-           Nos primeiros dias de julho, escreve-lhe no-
madas, niio foi dificil compreender que a         vamente: "Carissimo senhor pai: agora i o
nova obra representava a mais firme defesa        momento de, mais do que nunca, langar miio
do copernicanismo. Novamente processa-            daquela prudincia que Deus nosso Senhor
d o em 1633, Galileu foi condenado e obri-        lhe concedeu, suportando esses golpes com
gado a abjurar. Logo a prisiio perpitua foi       a fortaleza de espirito que a profissiio, reli-
comutada com a pena de confinamento, pri-         giiio e idade exigem. E corno, pela muita
meiro junto ao seu amigo Ascsnio Piccolo-         experiincia, o senhor pode ter plena cons-
mini, arcebispo de Siena, que o tratou com        ciincia da falicia e instabilidade de todas
muita atengiio, e depois em sua casa de           as coisas deste pobre mundo, niio devera
Arcetri, onde niio podia encontrar ninguim        fazer muito caso dessas borrascas; alias,
nem podia escrever nada sem autorizagiio          pode a t i esperar que logo se aquietem, trans-
privia.                                           formando-se em satisfagiio para o senhor."
         Foi precisamente na solid50 de Arcetri   E em 16 de julho: "Quando V. Sa.estava em
 que Galileu escreveu sua obra mais original      Roma, dizia-me em meus pensamentos: se
 e de maior relevo: os Discursos e demons-        eu tiver a graqa que ele parta de la e venha
 t r a ~ o e matematicas sobre duas novas ci8n-
             s                                    para Siena, isso me bastara, pois poderei
 cias, que foram publicados em Leiden, em         quase dizer que estara em sua casa. E agora
 1638. Mais tarde, escreveria Lagrange: "A        n5o me contento, pois morro de vontade
 diniimica C urna ciincia devida inteiramen-      de ti-lo aqui mais proximo". Tendo, por-
te aos cientistas da ipoca moderna. Mas foi       tanto, a irmii Maria Celeste morrido em
1634, Galileu ficou inconsolavel. Depois,      co de Viviani, Galileu "com filosofica e cris-
portm, pouco a pouco se recuperou, re-         tii consciencia entregou a alma a seu Cria-
tornou B c i h c i a e escreveu seus grandes   dor, saindo desta vida - e nos alegramos
Discursos. N o ultimo periodo de sua vida,     em crer nisso - para desfrutar e ver mais
Galileu perdeu a visiio e foi acometido de     de perto aquelas maravilhas eternas e imu-
muitos e graves sofrimentos. Na noite de 8     tiveis que, por meio de fragil artificio, mas
de janeiro de 1642, assistido por seus dis-    com t a n t a avidez e impaciincia, ele ha-
cipulos Vincenzo Viviani e Evangelista Tor-    via procurado aproximar de nossos olhos
ricelli, como podemos ler no Relato histori-   mortais".
195
     Capitulo decimo primeiro - O drama cle L i a l i l r ~ a fundnc&o da ciGncia modevna
                                                          e




 3    f Iuneta
                                                 o ceu, Galileu comesou a acumular toda
                                                  uma sCrie de provas que, por um lado, asses-
      c o w 0 instvuwento cientifico              tavam golpes decisivos ?i veneravel imagem
                                                  aristotilico-ptolomaica do mundo, enquan-
      Em 1597, em uma carta a Kepler, Gali-       to, por outro lado, afastavam do caminho
leu afirma ter aderido "ja ha muitos anos         os obstaculos que se interpunham ?i aceita-
[...] a doutrina de CopCrnico". E acrescen-       @o do sistema copernicano, oferecendo a
ta: "Partindo dessa posiqiio, descobri as cau-    este uma forte cadeia de suportes.
sas de muitos efeitos naturais, que, sem du-            Na primavera de 1609, Galileu teve a
vida alguma, siio inexplicaveis com base na       informaqiio de que "certo flamengo fabri-
hipotese corrente. J i escrevi muitas argu-       cara uma lente atravCs da qua1 os objetos
mentaq6es e muitas refutaq6es dos argumen-        visiveis, mesmo muito distantes do olho do
tos contrarios, mas ate agora n5o ousei           observador, podiam ser vistos distintamen-
publica-las, apavorado com o destino do           te como se estivessem proximos". A noticia
proprio CopCrnico, nosso mestre". Poucos          foi-lhe confirmada logo depois, de Paris, por
anos depois, portm, essas preocupaq6es e          um ex-discipulo, Tiago Badoukre, "o que
esses temores desvaneceram-se totalmente,         constituiu por fim o motivo que me impeliu
cpando, em 1609, apontando a luneta para          a dedicar-me totalmente a procurar as ra-
z6es e cogitar os meios pelos quais eu pode-     Della Porta que, com sua Magia natural
ria chegar i invenqiio de um instrumento
              i                                  (1589), arrancou as lentes do mundo dos
semelhante". Entiio Galileu preparou um tu-      artesiios para engloba-las na filosofia. E tan-
bo de chumbo, a cujas extremidades apli-         to Della Porta como Kepler (nos Paralipo-
cou duas lentes, "ambas planas de um lado,       menu ad Vitellionem, 1604) "chegaram bem
ao passo que, do outro, uma era convexa e        perto da luneta, quase que raspando-a a
outra c6ncava; aproximando o olho da c6n-        ponto de escrever frases que podiam fazer
cava, vi os objetos bastante grandes e pro-      crer que a haviam encontrado, mas niio con-
x i m o ~ja que apareciam trzs vezes mais pro-
          ,                                      seguiram concretizh-la". Niio havia con-
ximos e nove vezes maiores do que quando         fianqa nas lentes, pensava-se que elas "en-
eram vistos apenas com a visiio natural. De-     ganavam", havia a idCia de que os olhos que
pois, preparei outro, mais exato, que repre-     o born Deus nos deu eram suficientes para
sentava os objetos mais de sessenta vezes        ver as coisas que existem, niio necessitando
maiores". E por fim, diz ainda Galileu, "sem     de "aperfeiqoamentos". AlCm disso e acima
poupar esforqo nem despesa alguma, che-          de tudo, havia arraigados preconceitos por
guei a ponto de construir um instrumento         parte da cultura acadzmica e eclesiastica em
tiio excelente que as coisas vistas por meio     relaqiio A artes meciinicas. Mesmo depois,
                                                           s
dele aparecem quase mil vezes maiores e          a express50 "vil meciinico" seria tomada
mais de trinta vezes mais proximas do que        como ofensa. E o proprio Della Porta, em
quando olhadas apenas com a faculdade            28 de agosto de 1609, ou seja, quatro dias
natural. Seria inteiramente suptrfluo enu-       depois que Galileu escreveu ao doge Leo-
merar quantas e quais siio as vantagens desse    nardo Donato apresentando-lhe a luneta,
instrumento, tanto na terra como no mar".        enviaria de N b o l e s uma carta a Federico
Em 25 de agosto de 1609, Galileu apresen-        Cesi, fundadorLda Academia dos Linceus,
tou a o governo de Veneza aquele aparelho,       na qua1 li-se: "Vi o segredo da lente: C uma
como invenqiio sua. 0 entusiasmo foi gran-       burla, que examinei em meu livro De refuac-
de, tanto que a renda anual de Galileu foi       tione. E a escreverei, pois que, querendo-a
aumentada de quinhentos para mil florins,        fazer, apesar de tudo, V.E. se comprazera
sendo-lhe tambkm feita a proposta de reno-       nisso."
vaqiio vitalicia do contrato de ensino, cujo           Em substiincia, a importiincia de Gali-
prazo se encerraria no ano seguinte.             leu em relaqiio a luneta esta no fato de que
      Ora, como observou Vasco Ronchi, a         ele superou toda uma sCrie de obstaculos
invenqiio da luneta por obra de holandeses       epistemologicos, ou seja, idCias que proi-
ou at6 mesmo, um pouco antes, por miios          biam outras idCias e posteriores pesquisas.
de italianos, ou a redescoberta e reconstru-     0 s militares niio se desconcertaram diante
qiio da luneta por parte de Galileu niio C um    da novidade e o ~ u b l i c o
                                                                             culto niio manifes-
episodio que possa causar grande admira-         tou nenhuma confianca na luneta. Dizia-se.
$50. 0 fato realmente importante C que           por exemplo, que ela niio proporcionava
Galileu levou a luneta para dentro da cicn-      imagens veridicas, mas Galileu confessa a
cia, usando-a como instrumento cientifico        Matteo Carozio que experimentou seu te-
e concebendo-a como potencializa@o dos           lescopio "cem mil vezes em cem mil estrelas
nossos sentidos.                                 e objetos diversos". Diz Geymonat que a
    A filosofia da Idade Midia havia igno-       observaqiio desses "objetos diversos tinha a
rado as lentes de oculos, coisa para doen-       funciio de fornecer-lhe Drovas da veridici-
tes, para velhos ou para fazer truques du-       dad; do aparelho, ao pisso que a observa-
rante as feiras. Elas foram estudadas por        qiio das estrelas visava a dar-lhe provas de
Francisco Maurolico, mas foi Giambattista        sua importiincia". "'m
197
    Capitulo de'cimo primeiro   - 6   drama de Galileu   e n fundnG60 d n c l j n c l n vnodrrnn




                       111. 0S i d e v e u s f l u m c i u s
     e as confirmaG6es do sisteena copernicano


                                                       5 ) Mas o argument0 mais importante
                                                  do Sidereus Nuncius, para Galileu, k a des-
                                                  coberta dos satklites de Jupiter (que, em
                                                  homenagem a Cosme 11, dos Mkdici, ele
      Em 12 de marqo de 1610 Galileu publi-       chamou de "estrelas mediceanas"), pois
ca em Veneza o Sidereus Nuncius. assim es-        dava a possibilidade de "revelar e divulgar
crevendo no comeqo da obra: " ~ i i o  verda-     quatro planetas, nunca vistos desde as ori-
deiramente grandes as coisas que proponho         gens do mundo atk nossos dias, dando oca-
neste tratado A visiio e A contemplaqiio dos      siio de descobri-10s e estuda-los, alem de
estudiosos da natureza. Grandes, digo eu, tan-    sua posiqiio e das observaq6es feitas duran-
to pela excelincia da matkria em si mesma         te os dois ultimos meses sobre seus movi-
como por sua novidade, jamais ouvida nos          mentos e suas transformaq6esn. Essa des-
tempos passados, como ainda pelo instru-          coberta oferecia a Galileu a inesperada visiio,
mento em virtude do qua1 essas coisas se tor-     no ciu, de um modelo menor que o univer-
naram manifestas ao nosso sentido".               so copernicano.
      Eis as grandes coisas que Galileu pro-
p6e h visiio e h contemplaqiio dos estudio-
sos da natureza:
      1)0 acrkscimo h multidiio das estrelas       1 0clroque
fixas, bisiveis tambkm a olho nu, de "ou-                 e n t r e os w & i m o s      sistemas
tras inumeraveis estrelas jamais vistas an-
tes". 0 universo, portanto, torna-se maior.
      2) "Com a certeza que k dada pela ex-
periincia sensivel", i possivel apreender que           A medida que se obtinham confirma-
"a lua n2o 6, em absoluto, feita de uma su-       q6es da teoria copernicana, ao mesmo tem-
perficie lisa e polida, mas escalavrada e de-     po caia aos pedaqos a concepqiio do mundo
sigual e, da mesma forma que a face da ter-       aristotilico-ptolomaica. Antes de mais nada,
ra, apresenta-se em grande parte coberta de       contra Aristoteles e Ptolomeu, Galileu pode
grandes proeminincias, profundos vales e          sustentar que niio ha diferenqa de natureza
sinuosidades". Esse resultado i de grande         entre a terra e a h a : portanto, entre os as-
relevsncia, pois destroi a distinqiio entre       tros, pelo menos a lua niio possui as carac-
corpos terrestres e corpos celestes, uma dis-     teristicas de "absoluta perfeiqiio" que a tra-
tinqiio que era um verdadeiro pilar de sus-       diqiio a ela atribuia; ademais, embora sendo
tentaqiio da cosmologia aristotilico-ptolo-       como a terra, a lua se move e, sendo assim,
maica.                                            por que niio deveria mover-se tambCm a ter-
      3) 0 dado de que a galaxia "nada mais       ra, que, precisamente, niio i de natureza di-
k do que um amontoado de inumeraveis              ferente da h a ? Assim, a imagem do universo
estrelas, disseminadas aos punhados; para         niio somente se amplia, atravis da observa-
qualquer regiiio dela que se dirija a luneta,     qiio das galaxias, das nebulosas e de outras
logo grande multidiio de estrelas apresenta-      estrelas fixas, mas tambim muda: o mundo
se A vista [...In. Atravis dessa observaqiio,     sublunar niio C diferente do lunar. E muda
Galileu sustenta ficarem resolvidas. "com a       tambim pelo fato de que a observaqiio das
certeza que k dada pelos olhos, tod& as dis-      estrelas fixas nos p6e em condiq6es de dizer
putas que por tantos skculos atormentaram         que elas estiio muito mais distantes dos pla-
os filosofos, libertando-nos de discuss6es        netas e niio apenas por detras do ciu de Sa-
verbosas".                                        turno, como exigia a tradiqiio. E, como dis-
      4) "Ademais (maravilha ainda maior),        semos, com seus satilites Jupiter oferecia um
as estrelas chamadas atk hole pelos astr6-        modelo em escala reduzida do sistema co-
nomos individualmente como nebulosas sao          pernicano.
amontoados de pequenas estrelas, dissemi-               Assim, est2o em competiqiio duas gran-
nadas de modo admiravel".                         des teorias. Trata-se de dois sistemas: o
ptolomaico (com a terra fixa no centro e o
sol girando) e o copernicano (no qua1 6 a
terra que gira em torno do sol). Com o Side-
reus Nuncius, Galileu apresenta argumen-
tos contra o primeiro e em favor do segun-
do: cada argument0 que corrobora a teoria
copernicana C mais um golpe que atinge a
concepqiio ptolomaica. Mas as coisas n3o
ficam nisso.
      Com efeito, pouco antes de partir de
Padua, transferindo-se para Florenqa, e logo
no inicio do seu period0 florentino (11 de
setembro de 1611), Galileu efetua outras
observaq6es de importincia capital para o
fortalecimento da doutrina de Copernico e
que, a o mesmo tempo, iriam acabar de de-
molir o sistema de Ptolomeu. Antes de mais
nada, ele nota o aspect0 tricorporeo de Sa-
turno (trata-se do anel de Saturno, que n3o
podia ser distinguido pela luneta de Galileu),
mas sobretudo descobre as fases de Vinus e
as manchas do sol. Vgnus mostra fases como
a lua: essa e uma "sensata experiincia",
explicavel na teoria copernicana, mas n5o
na de Aristoteles e Ptolomeu. Desse modo,
 "temos [. ..] fatos certos de que todos os pla-
netas recebem a luz do sol, sendo por sua
natureza escuros". Ademais, Galileu esta
certo "de que as estrelas fixas G O por si
mesmas muito luminosas. n3o tendo neces-
sidade da irradiaqio do sol, que s6 Deus sabe
se chega a tanta distincia". A proposito das
manchas solares, escrevendo a Federico Cesi
em 1 2 de maio de 1612, Galileu afirma que
tal novidade C "o funeral ou, mais, o extre-
mo e ultimo juizo sobre a pseudofilosofia".
Ao contrario do que sustenta a concepqiio
 aristotklica. tambkm no sol ocorrem muta-
q6es e alter&ies.
       Chegado a esse ponto, Galileu ja n3o
 sabe imaginar como C que os peripateticos         vio (Crist6vio Klau), professor de matema-
poderiam salvar e manter a "imutabilidade          tica no ColCgio Romano, a fim de salvar a
 dos cCus". Na realidade, os peripatCticos co-     "perfeiq30n da h a , cogitou a hipotese de
gitariio "imaginaq6esn (hoje, diriamos "hi-        que as montanhas e os vales observados por
 poteses ad hoc") em favor do sistema ptolo-       Galileu sobre a face da lua seriam recobertos
 maico em perigo. Assim, por exemplo, o            Dor uma substincia cristalina transuarente
 jesuita Cristovio Scheiner interpretara as        e perfeitamente esfkrica. Assim, diante dos
 manchas solares como "enxames" de astros          ataques "factuais" realizados por Galileu
 girantes diante do sol. Essa hipotese visava      contra a teoria ptolomaica, Clavio efetuava
 levar a causa das manchas para fora do sol,       um contra-ataque "teorico" (logicamente
 restabelecendo assim a imutabilidade e a          possivel, mas metodologicamente incorre-
 "perfeita" constituiqiio do sol. Mas Galileu      to, porque, impedindo a descoberta de er-
                                                                                ..
 fez notar que as manchas eram irregulares
 em sua formaqiio e desenvolvimento, alkm
                                                                           .
                                                   ros em uma teoria., i m ~ e d i a avanco no
                                                                                    o
                                                   sentido de teorias melhores e., uortanto. o
                                                                                   L


 de serem disformes, n30 apresentando por-         progress0 do saber), um contra-ataque vol-
 tanto, em absoluto, as caracteristicas de um      tad0 para o restabelecimento da velha teo-
 sistema de astros. Outro jesuita, o padre Cla-    ria. E Galileu respondeu a Clavio:
199
    Capitulo de'cimo primeiro - O d m m a d r Galileu r   a   fundac&o d a   cizncia   modevna


      "Verdadeiramente, a imaginaqao e bela      mente a favor do primeiro. Como escreve
(...);so peca por niio ser demonstrada nem       Thomas S. Kunh: "A teoria de Copirnico
demonstriivel." Naquela ipoca, a hipotese        [...I sugeria que os planetas deviam ser se-
de Clavio, com efeito, niio podia ser verifi-    melhantes a terra, que VEnus devia apresen-
cada empiricamente (mas hoje o seria): como      tar fases e que o universo devia ser muito
podia Clavio provar a existhcia de uma           mais amplo do que se supusera anteriormen-
esfera cristalina circundando a lua? E se fos-   te. Conseqiientemente, quando, sessenta
se dito que ha uma substhcia cristalina so-      anos depois de sua morte, o telescopio reve-
bre a lua, mas disposta em forma de vales e      lou repentinamente a existhcia de monta-
montanhas, de que mod0 Clavio poderia            nhas sobre a lua, as fases de VCnus e um
demonstrar a falsidade dessa hipotese? A         numero imenso de estrelas, de cuja existh-
realidade i que a "revoluqao cientifica ope-     cia niio se suspeitava antes, essas observa-
rada por Galileu niio se baseia somente nas      q6es converteram a nova teoria numerosos
novidades contidas em (suas) descobertas,        cientistas, particularmente entre os que nao
mas tambim e sobretudo na nova maturi-           eram astrbnomos". Mas, com isso, Galileu
dade metodologica por elas revelada" (L.         havia estabelecido todas as condiq6es que o
Geymonat). Em todo caso, por meio de suas        levariam ao choque com a Igreja.
descobertas astronbmicas, Galileu resolveu              E pouquissimos o defenderam aberta-
a disputa entre o sistema copernicano e o        mente: entre os que o defenderam, estava
sistema aristotilico-ptolomaico completa-        Campanella.




                               IV. ClalileM:
               as      raizes do choqMe cow                         a   Jgreja


   ,,,   A   origern dos dissidios               somente instrumentos capazes de fazer previ-
                                                 s6es sobre os movimentos celestes com maior
         entre Cialilem e a Jgreja
                                                 rapidez.
                                                       Em sua A ceia das cinzas, Giordano Bru-
                                                 no voltou-se contra a interpretaqiio instru-
      Copirnico havia afirmado que "todas        mentalista das teorias de Copirnico dada
as esferas giram em torno do sol como ao         por Osiander, afirmando que tudo o que Co-
seu ponto central e, portanto, o centro do       pirnico escreve na carta dedicatoria a Pau-
universo esta em torno do sol". Ele pensava      lo 111, introdutoria ao De revolutionibus,
que se tratasse de uma representa@o ver-         mostra claramente que ele niio i apenas um
dadeira do universo.                             "matemiitico que sup6en, mas tambim um
      Mas, como sabemos, no prefacio ao De       "fisico que demonstra o movimento da ter-
revolutionibus, o luterano Andreas Osiander      ra". E acrescentava que o prefacio anbni-
(1498-1552) afirmou que "nao 6 necessa-          mo (de Osiander) foi "grudado" B obra de
rio que essas hipoteses sejam verdadeiras e      Copirnico "niio sei por qua1 asno ignoran-
nem mesmo verossimeis; basta apenas que          te e presunqoso". E tambtm para Kepler "as
elas ofereqam c ~ l c u l o sem conformidade     hip6teses de Copirnico niio apenas nao es-
com a observa~iio".  Ptolomeu, cujas teorias     tao erradas em relaqiio a natureza, mas es-
entravam em colisiio com a fisica de Aristo-     tiio ate em maior conson2ncia com ela. Com
teles, tambem sustentara que suas hipoteses      efeito, a natureza ama a simplicidade e a
fossem "calculos matematicos" em condi-          unidade [. ..I" e Copirnico conseguiu "niio
q6es de "salvar as aparcncias" e niio descri-    apenas [. ..] demonstrar os movimentos trans-
~ 6 e verdadeiras dos movimentos reais. Para
      s                                          corridos, que remontavam a distante anti-
Osiander, portanto, como ja ocorrera com         guidade, mas tambim os movimentos futu'
Ptolomeu, as teorias astronbmicas eram           ros, se niio de mod0 certissimo, pel0 menos
200       Segunda parte - A            cientifica
                               revoIui~o



                                                    de modo mais seguro d o que o faziam
                                                    Ptolomeu. Afonso e outros".
                                                           ~ ~ o iporCm, a defesa da tese realista
                                                                   a ,
        Anticopernicanos.                           (a tese segundo a qual o sistema copernicano
                                                    seria uma descriqao verdadeira da realida-
      Jean Bodin: "Nenhum homem em                  de e n i o um conjunto de instrumentos de
      plena posse de suas faculdades men-           calculo para fazer previs6es ou possibilitar
      tais, ou entgo dotado das mais ele-           um calendario melhor) n5o podia deixar
      mentares noq6es de fisica, jamais po-         de parecer perigosa para todos aqueles
      dera crer que a terra, pesada e lenta         que, catolicos ou protestantes, pensavam
      por seu proprio peso e pela sua mas-
      sa, se agite para cima e para baixo em        que, em sua versiio literal, a Bibl~a  niio po-
      redor de seu centro e do sol, pois, ao        dia errar. 0 Eclesiastes (1,4-5) diz que "a
      minimo abalo da terra, veriamos des-          terra permanece para sempre (em seu lugar)"
      moronar as cidades e fortalezas, al-          e que "o sol se levanta, o sol se deita, apres-
      deias e montanhas".                           sando-se a voltar ao seu lugar". J i em JosuC
      Martinho Lutero: "As pessoas deram            (10,13), pode-se ler que JosuC ordenou ao
      ouvidos a um astrologo de quatro vin-         sol que se detivesse. Pois bem, foi com base
      tens, que se empenhou em demons-              nesses trechos da Escritura que Lutero, Cal-
      trar que e a terra que gira, e nao os         v i n ~ Melanchton opuseram-se duramente
                                                           e
      ceus e o firmamento, o sol e a lua [...I.     B teoria copernicana.
      Este louco pretende abalar toda a                    Se o copernicanismo parecia perigoso
      ci6ncia astron6mica; mas a Sagrada            para os protestantes, fautores do contato
      Escritura nos diz (Josue 10,13) que           imediato de cada crente com as fontes tes-
      Josue ordenou ao sol e n%oa terra
      que parasse".                                 tamentirias, muito mais perigoso devia ser
                                                    para os catolicos, segundo os quais a inter-
      Filipe Melanchton: " 0 s olhos nos mos-       pretaqao da Sagrada Escritura depende do
      tram corn toda evid6ncia que os ceus          magistirio eclesiastico. A Contra-reforma
      realizam uma revoluq;?~ espaqo de
                                 no                 n i o poderia admitir que um crente qualquer
      vinte e quatro horas. Todavia, alguns,
      por causa de novidades ou para dar            - mesmo aue fosse um Galileu - estabe-
      prova de engenho, sustentaram que             lecesse os principios hermeneuticos de in-
      a terra se move [...I. E falta de hones-      terpretaqao da Biblia e propusesse inter-
      tidade e de dignidade sustentar pu-           pretaqoes deste ou daquele trecho. Ai reside
      blicamente tais conceitos, e o exem-          a raiz do choque entre Galileu e a Igreja. E
      plo e perigoso".                              ai residem as raz6es da interpretaqao ins-
      J O ~ Calvino: "Quem tera a ousadia
            O                                       trumentalista do copernicanismo proposta
      de antepor a autoridade de Coper-             por Belarmino e rejeitada pelo realista
      nico a do Espirito Santo?".                   Galileu.
      Roberto Belarmino: "Digo que [...I o
      Concilio proibe expor as escrituras
      contra o consenso comum dos san-
      tos Padres; e se VSa. quiser ler n%o
      dig0 apenas os santos Padres, mas os
      comentarios modernos sobre o
      Genesis, sobre os Salmos, sobre o Ecle-
      siastes, sobre Josue, encontrara que               Em 1615, em Napoles, onde ensinava
      todos conv6m em expor ad litteram
      que o sol esta no ceu e gira ao redor
                                                    filosofia e teologia, o matematico e teologo
      da terra com suma velocidade, e que           carmelita Ant6nio Foscarini (1565-1616)pu-
      a terra encontra-se afastadissima do          blicou uma Carta sobre a opiniiio dos pita-
      cCu e esta no centro do mundo, imo-           goricos e de Cope'rnico, na qual se harmoni-
      vel. Considere entgo o senhor, com            zam e se apaziguam as passagens da Sagrada
      sua prudencia, se a lgreja pode su-           Escritura e as proposigoes teologicas, que
      portar que se d6 as Escrituras um             jamais se poderiam apresentar contra tal
      sentido contrario aos santos Padres           opiniiio. Foscarini enviou seu pequeno tra-
      e a todos os expositores gregos e la-         tado a Belarmino, pedindo ao cardeal um
      tinos".
                                                    parecer sobre ele. E Belarmino responde com
                                                    breve carta, "porque o senhor agora tem
                                                    pouco tempo para ler e eu para escrever".
201
    Capitulo de'cimo primeiro   - 8dmmn de G ~ I I I c u
                                                       r   n   funr)aG80 dn clsncin modema


Essa breve carta C um texto classico do ins-      que seja para proibir, mas crt que o pior
trumentalism~.    Belarmino recorda a Fosca-      que possa acontecer-lhe seria fazer-lhe uma
rini que, "como sabe o senhor, o Concilio         advertencia de que sua doutrina teria sido
proibe que se exponham as Escrituras con-         introduzida para salvar as apartncias, ou
tra o comum consenso dos santos Padres. E         coisa semelhante, dirigida aqueles que in-
se V. Sa. quiser ler, nzo digo somente os san-    troduziram os epiciclos e depois n5o acre-
tos Padres, mas tambCm os comentadores            ditaram mais [. ..] ".
modernos, sobre o Gtnesis, sobre os Sal-                Pois bem, respondendo de Florenqa a
mos, sobre o Eclesiastes e sobre Josuk, vera      Dini, em 23 de marqo, Galileu reafirmou a
que todos convergem em expor ad litteram          veracidade do sistema copernicano. Na opi-
que o sol esta no ciu e gira em torno da          niio de Galileu, CopCrnico falou da cons-
terra com suma velocidade, bem como que           tituigiio do universo e descreveu aquilo que
a terra esta muito distante do cCu e esta no      existe realmente in rerum natura, "de mod0
centro do mundo, imovel. E considere ago-         que querer persuadir que CopCrnico n5o
ra o senhor, com sua prudtncia, se a Igreja       considerava verdadeira a mobilidade da
pode suportar que se d t as Escrituras um         terra, a o meu ver, niio poderia encontrar
sentido contrario aos santos Padres e a to-       concordiincia, sengo, talvez, junto a quem
dos os expositores gregos e latinos". Mas         niio o tenha lido, visto que todos os seus
logo afirma: "Quanto a o sol e a terra, ne-       seis livros estio plenos de doutrina que de-
nhum sabio tem necessidade de corrigir o          pende da mobilidade da terra, explicando-
erro, porque experimenta claramente que a         a e confirmando-a. E se, em sua dedicato-
terra esta firme e que o olho n i o se engana     ria, ele muito bem entende e confessa que
quando julga que a lua e as estrelas se mo-       a posiqiio da mobilidade da terra o levaria
vem". Sendo assim, e considerando que o           a ser considerado tolo universalmente, jui-
Concilio tridentino proibiu interpretar as Es-    zo que ele afirma n3o levar em conta, mui-
crituras "contra o comum consenso dos san-        to mais tolo teria sido ele deixar-se repu-
tos Padres", Belarmino afirma: "Parece-           tar por uma opiniiio por ele introduzida,
me que V.Sa. e o senhor Galileu seriam            mas n i o inteira e verdadeiramente acre-
prudentes em contentar-se de falar ex suppo-      ditada".
sitione e niio em absoluto, como sempre                 Em suma, CopCrnico n5o C um "mate-
acreditei que Copirnico tenha feito. Pois         matico" que apronta hipoteses como puros
dizer que a suposiqio de que a terra se move      instrumentos de calculo, mas sim um fisico,
e o sol esta firme salva as apartncias melhor     que pretende dizer como realmente siio as
que os exchtricos e epiciclos esta muito          coisas. Em conseqiitncia disso, prossegue
bem dito, niio havendo perigo algum -             Galileu, CopCrnico "nio C capaz de mode-
e isso basta para o matematico. Mas que-          raggo, constituindo a mobilidade da terra e
rer afirmar que realmente o sol esta no           a estabilidade do sol o ponto principal de
centro do mundo e s6 gira sobre si mes-           toda a sua doutrina e o seu fundamento
mo, sem correr do Oriente para o Ociden-          universal: por isso, C preciso condena-lo in-
te, e que a terra esta n o terceiro cCu e gi-     teiramente ou deixa-lo em seu ser".
ra com suma velocidade em torno do sol C                Realista C Coptrnico e realista C Gali-
coisa perigosa, capaz n i o somente de irri-      leu. Mas se, como fazia Belarmino e, com
tar todos os filosofos e teologos escolasti-      ele, a Igreja, se sup6e que as passagens da
cos, mas tambCm arriscado de incomodar            Biblia relativas a o sistema do mundo, in-
a Santa S por tornar falsas as Escrituras Sa-
          C                                       terpretadas literalmente pela tradiqio, s5o
gradas."                                          efetivamente verdadeiras e intocaveis, en-
      Galileu, porCm, n5o era da opiniao de       tZo o choque frontal entre a Igreja e Gali-
Belarmino. Para ele, as "sensatas experitn-       leu tornava-se inevitavel, dada a interpre-
cias" e as "demonstraq6es certas" estavam         taqiio galileana realista da doutrina de
ali, proclamando a veracidade d o sistema         Copirnico, doutrina que contrastava com
copernicano. Em 7 de marqo de 1615, dom           as passagens biblicas referidas e interpreta-
Piero Dini, que era ent5o referendario apos-      das ao pC da letra. E foi sobre esse aspect0
tolic~ junto i corte pontificia, enviou uma       importante que acabou ocorrendo o cho-
carta a Galileu, informando ter mantido           que entre Galileu e a Igreja. Galileu teve de
 longo coloquio com o cardeal Belarmino e         ceder. Mas primeiro vejamos de que mod0
comunica-lhe o seguinte: "Quanto a Co-            Galileu concebia as relaqoes entre citncia
pCrnico, diz S.S. Ilma. ngo poder acreditar       e fC.
Em suma: niio i intenqiio da Sagrada
                                                 Escritura "nos ensinar se o ciu se move ou
                                                 esta firme, nem se sua figura C em forma de
                                                 esfera, de disco ou estendida num plano,
                                                 nem se a terra esta contida em seu centro
                                                 ou de um lado". Por isso, "tambim niio tera
      Por um lado, Galileu teoriza a demar-      tido nem mesmo a intenqiio de nos tornar
caqiio entre proposiqdes cientificas e propo-    certos de outras conclusdes do mesmo gi-
siqdes de fC, reclamando a autonomia dos         nero, relacionadas com as que agora referi-
conhecimentos cientificos, que siio compro-      mos, sem cuja determinaqiio niio se pode
vados e avaliados por meio da aparelhagem        asseverar esta ou aquela posiqiio, como seja
constituida pelas regras do mitodo experi-       a determinaqiio do movimento ou da quie-
mental ("sensatas experiincias" e "demons-       tude da terra e do sol".
traq6es certas"). Mas, por outro lado, essa
autonomia das ciincias em relaqiio as Sa-
gradas Escrituras encontra sua justificaqiio
no principio (que, em sua carta a senhora
Cristina de Lorena, em 1615, Galileu diz ter
ouvido do cardeal BarBnio) de que "a in-
tenqiio do Espirito Santo i a de nos ensinar
como se vai ao cCu e niio como uai o cCu".             Conseqiientemente, niio sendo funqiio
Apoiando-se em s a n t o Agostinho ( I n         da Escritura determinar "a constituiqiio e
Genesim ad litteram, lib. 1 , c. 9), Galileu
                              1                  os movimentos dos cCus e das estrelas", Ga-
afirma que "niio somente os autores das          lileu chega a afirmar: "Parece-me que, nas
Sagradas Escrituras niio pretenderam nos         dis~utas  sobre problemas naturais, niio se
ensinar a constituiqiio e os movimentos dos      deveria comeqar pela autoridade de passa-
cCus e das estrelas, com suas figuras, gran-     gens das Escrituras, mas sim pelas sensatas
dezas e disthcias, mas tambim, estudan-          experiincias e pelas demonstraqdes neces-
do-se bem, embora todas essas coisas fos-        sarias: pois, procedendo do verbo divino a
sem conhecidissimas deles, vi-se que eles se     Escritura sagrada e igualmente a natureza,
abstiveram disso". Diz Galileu que Deus nos      aquela como ditada pelo Espirito Santo e
deu sentidos, discurso e intelecto: C por meio   esta como observantissima executora das
deles que podemos chegar aquelas "conclu-        ordens de Deus; e mais, convindo as Escri-
sdes naturais" que podem ser obtidas "pe-        turas, para acomodar-se a o entendimen-
las sensatas experiCncias ou pelas necessa-      to universal, dizer muitas coisas diversas da
rias demonstraqdes".                             verdade absoluta, em aspecto e quanto ao
      A Escritura niio 6 u m tratado de astro-   cru sipificado das palavras; mas, ao con-
nomia, tanto que, "se os escritores sagra-       trario, sendo a natureza inexoravel e imu-
 dos houvessem pensado em persuadir o            tivel e nunca niio-transcendente aos termos
povo das disposiqdes e dos movimentos dos        das leis que Ihe 60 impostas, como a de que
corpos celestes e se, conseqiientemente, nos     suas rec6nditas razdes e modos de operar
 devZssemos ainda ter essa informaqiio das       estiio ou niio expostos capacidade dos
 Sagradas Escrituras, entiio, a meu ver, eles    homens; parece entiio que a quest30 dos efei-
 niio teriam tratado tiio pouco do assunto,      tos naturais que a sensata expericncia nos
 quase nada em comparaqiio com as infini-        coloca diante dos olhos ou as demonstra-
 tas e admiraveis conclusdes contidas e de-      qdes necessarias concluem, niio deva ser, por
 monstradas em tal ciincia". Com efeito, nas     nenhuma raziio, posta em duvida, menos
 Escrituras niio encontramos nem mesmo           ainda condenada, por passagens da Escri-
 nomeados os planetas, exceto o sol e a h a ,    tura que apresentassem aparincia diversa
 e somente uma ou duas vezes, sob o nome         nas palavras, pois nem toda palavra da Es-
 de Lucifer, o planeta VCnus".                   critura esta ligada a obrigaqdes tiio severas
203
    Capitulo de'cimo primeiro - 6 drama d r Galileu r   a   fundaG80 dn cii?ncia modrrna


como todo efeito da natureza, nem se des-
cobre Deus com menos excelencia nos efei-
tos da natureza do que nas palavras sagra-
                                                         Fe religiosa (finalidade da fe).
das das Escrituras."                                 "N%otendo desejado o Espirito San-
      Fica, portanto, reivindicada a autono-         t o ensinar-nos s o ceu se move ou se
                                                                      e
mia da ciencia: tudo aquilo de que podemos           esta parado, nem se sua forma seja a
ter informaqiio atravCs das "experiincias            de esfera ou de disco ou estendida no
sensatas" e das "necessarias demonstraq6es7'         plano, nem se a terra esteja contida
fica subtraido a autoridade das Escrituras.          no centro dele ou de um lado, n%o  tera
                                                     tido nem mesmo a intengso de tor-
                                                     nar-nos certos de outras conclusbes do
                                                     mesmo gsnero, e ligadas de algum
                                                     mod0 com as agora citadas, que sem
                                                     a determinagao delas n%ose pode
                                                     asserir esta ou aquela parte; corno,
                                                     por exemplo, determinar o movimen-
                                                     t o e o repouso de uma terra e do sol.
      N o entanto, se as Escrituras n i o s i o      E se o proprio Espirito Santo pruden-
um tratado de astronomia, qua1 C entio seu           temente omitiu ensinar-nos tais pro-
objetivo? De que nos falam? Qua1 C o sm-             posigbes, como nada atinentes a sua
bito das "verdades" que, n i o sendo englo-          intengao, ou seja, para nossa salvag%o,
                                                     como se podera agora afirmar, que
biveis na cicncia, elas podem propor e es-           manter delas esta parte, e n%o    aque-
tabelecer? A essas interrogaqoes, Galileu             la, seja t%onecesdrio que uma seja
responde o seguinte: "Eu consideraria [. ..]         de fide, e a outra errbnea? Podera,
que a autoridade das Sagradas Escrituras             entao, haver uma opiniao heretica. e
tenha o objetivo de persuadir os homens              em nada referente a salvag%o     das al-
principalmente daqueles artigos e proposi-            mas? Ou poderemos dizer que o Es-
q6es que, superando todo discurso huma-               pirito Santo tenha desejado n%oen-
no, niio poderiam fazer-se criveis por outra         sinar-nos uma coisa que s refere a
                                                                                 e
                                                     salvag$o?Eu diria aqui algo que,ouvi
cihcia nem por outro meio senio pela boca             de uma pessoa eclesiastica em emi-
do proprio Espirito Santo".                           nentissimo grau [cardeal BarBnio],
      As proposiq6es de fide dizem respeito a         isto e, a inteng8o do Espirito Santo 6
nossa salvaqiio ("corno se vai a o cCu7'),sen-        nos ensinar como se vai ao ceu, e n%o
do "decretos de absoluta e inviolivel vera-           como vai o ceu [...Im.
cidade". Em outros termos, a Escritura e              Assim escrevia Galileu, em 1615, a se-
uma mensagern de salvapio que deixa intacta           nhora Cristina de Lorena.
a autonomia da investiga@o cientifica.
      Mas n i o C so isso, pois Galileu se em-
penha em outras importantes consideraq6es:
      1) Erram aqueles que pretendem se
deter sempre no "puro significado das pa-
lavras", pois, caso se fizesse isso, escreve           3) A Escritura "niio apenas C capaz,
Galileu numa carta de 1613 a dom Bene-            mas necessariamente carente de exposiq6es
detto Castelli, entio na Escritura "apare-        diversas do aparente significado das pala-
ceriam n i o somente diversas contradiqGes,       vras", pois os escritores sacros dirigem-se "a
mas tambCm graves heresias e blasfimias,          povos rudes e indisciplinados" .
ja que seria necessario ver em Deus pCs,               4) "Ademais, sendo manifesto que duas
mios e olhos, bem como efeitos corporais e        verdades n i o podem se contrariar nunca, C
humanos, como os de ira, de arrependimen-         funqio dos sabios expositores esforqarem-
to, de odio e ate, por vezes, de esquecimen-      se por encontrar o sentido das passagens
 to das coisas passadas e de ignorsncia das       sacras, harmonizando-as com aquelas con-
 futuras".                                        clus6es naturais que se tornaram certas e
      2) Dai deriva que, tendo a Escritura        seguras pelo sentido manifesto ou pelas de-
 sido obrigada a se "acomodar a incapaci-         monstraq6es necessarias."
 dade do vulgo", entiio "os sabios exposito-           5 ) Desse modo, a cikncia torna-se um
 res produzem os virios sentidos e acrescen-      dos instrumentos a serem usados para se
 tam as raz6es particulares pelas quais foram     interpretar alguns trechos da Escritura.
 proferidas tais palavras".                       Com efeito, "tendo adquirido a certeza de
204     Segunda parte - A   revaIu+a   cientificn



algumas proposiq6es naturais, devemos nos                  3) devido i s suas finalidades. a Escri-
servir delas como meios adequadissimos              tura n i o tem nenhuma autoridade no aue
ii verdadeira exposiqio das Escrituras e a          se refere a todos aaueles conhecimentos
investigaqio dos sentidos que necessaria-           que podem ser estabelecidos por meio de
mente estio contidos nelas, como verdadei-          "sensatas experiincias e necessirias demons-
ros e conformes com as verdades demons-             traq6esn;
tradas".                                                   4) quando fala sobre aquilo que C ne-
      6) Por outro lado, na carta a dom Piero       cessario para a nossa salvaqio (ou sobre
Dini, em 1615, Galileu afirma que C preciso         coisas n i o cognosciveis por outro meio ou
ter muita circunspecqiio "no que se refere          por outra cihcia), a Escritura n i o pode ser
iiquelas conclus6es naturais que n i o s i o de     desmentida;
fide, mas as quais podem chegar a expe-                    5 ) entretanto, dado que escritores sa-
rihcia e as demonstraq6es necessarias", e           cros dirigiam-se ao "vulgo rude e indis-
diz que "seria pernicioso asseverar como            ciplinado", em muitas passagens a Escritu-
doutrina resolvida nas Sagradas Escrituras          ra necessita de interpretaqio;
alguma proposiqzo da qual, alguma vez,                     6) a citncia pode constituir um meio
se pudesse ter demonstraqio em contrario".          para interpretaqoes corretas;
Com efeito, "quem quer p6r um termo ao                     7) nem todos os intkrpretes da Escritu-
gf nio humano? E quem podera afirmar que            ra siio infaliveis;
ja se sabe tudo aquilo que 6 sabivel no                    8) n i o se pode comprometer a Escri-
mundo?".                                            tura em coisas que o homem pode conhecer
      7) Em suma, a Escritura n i o deve ser        com sua razio;
comprometida por intkrpretes faliveis e n i o              9 ) a cicncia C aut6noma: suas verdades
inspirados no que se refere a quest6es que          s i o estabelecidas com sensatas ex~eriincias
podem ser resolvidas pela razio humana.             e demonstraq6es certas e n i o com base na
 Como a ciincia progride, C pernicioso pre-         autoridade da Escritura;
tender comprometer a Escritura em propo-                   10) nas quest6es naturais, a Escritura
 siq6es (corno, por exemplo, as posiq6es de         vem em ultimo lugar.
 Ptolomeu) que posteriormente poderzo ser                  Portanto, na opini2o de Galileu, ci8n-
 refutadas. Desse modo, "alCm dos artigos           cia e fe' siio incomensuraveis. E. sendo inco-
 referentes a salvaqio e ao estabelecimento         mensuraveis, s2o compativeis. Ou seja, n i o
 da fC, contra a firmeza dos quais n i o ha         se trata tanto de um ou-ou, mas muito mais
 qualquer perigo de que possa se insurgir           de um e-e. 0 discurso cientifico C um dis-
 nunca alguma doutrina valida e eficaz, tal-        curso empiricamente control6ve1, que visa
 vez fosse um 6timo conselho n i o acrescenta-      a nos fazer compreender como funciona este
 10s outros sem necessidade. E, sendo assim,        mundo, ao passo que o discurso religioso C
 quanto maior n i o seria a desordem o acres-       discurso de salvaqio, que n i o se preocupa
 centi-10s a pedido de pessoas que, alCm de         com "o que", ma? sim com o "sentido" das
 ignorarmos, se dizem inspiradas por virtu-         coisas e da nossa vida. A citncia 6 cega para
 de celeste e vemos claramente que sso de            o mundo dos valores e do sentido da vida; a
 todo despidas daquela intelighcia que se-           fC C incompetente sobre quest6es factuais.
 ria necessaria, n i o digo para retrucar, mas       CiEncia e fC tratam cada qual de suas ques-
 mesmo para compreender, as demonstra-              t6es pr6prias: C essa a razio pela qual se
 q6es com as quais as agudas cihcias proce-          harmonizam. Elas n i o se contradizem e nem
                                                     ~    ~




 dem na confirmaqio de algumas de suas con-          podem se contradizer, ja que s i o incomen-
 clus6es?"                                           suraveis: a cicncia nos diz "corno vai o ciu"
       Portanto:                                     e a f6 nos diz "corno se vai ao cCu".
       1)a Escritura C necessiria para a sal-              Assim, quando emergem coisas que
 vaqio do homem;                                    parecem contradiqijes, deve-se logo suspei-
       2) os "artigos relativos i salvaqao e ao      tar que o cientista transformou-se em meta-
 estabelecimento da f i n s i o t i o firmes que     fisico ou entio que o homem religioso trans-
 contra eles "nio ha qualquer perigo de que          formou o texto sagrado em um tratado de
 possa se insurgir um dia alguma doutrina            fisica ou biologia (ou em algum capitulo de
 vilida e eficaz";                                   tais tratados).
Capitdo de'cimo primeiro - 8 drama de Galileu e a funda+o da c i h c i a moderna


                       VI. O           pvimeivo pvocesso

                                                 marqo de 1616, tal Congregaqiio emitiu a
                                                 condenaqiio do copernicanismo. Nesse meio
                                                 tempo, em 26 de fevereiro, por ordem do
      p a r a n2io s u s t e n t a r             papa, o cardeal Belarmino advertia Galileu
      a teoria copernicana                       para que abandonasse a idCia copernicana
                                                 e o instava, sob pena de prisiio, "a niio en-
                                                 sina-la e niio defend&-lade nenhum modo,
                                                 nern com a palavra nern com os escritos".
      No dia de finados de 1612, em um ser-      Galileu aquiesceu (acquieuit), prometendo
miio pronunciado em Florenqa, na Igreja de       obedecer. (Aqui, deve-se observar que mui-
Siio Mateus, o dominicano Nicolau Lorini         to se discutiu sobre a autenticidade da ata
acusou os copernicanos de heresia. Dois          dessa sessiio, ata que seria importante para
anos depois, em 1614, outro dominicano,          o segundo processo. Santillana sustenta que
Tomas Caccini, em sermiio pronunciado no         isso seja uma falsidade, posta na ata pelo
quarto doming0 de Advento, na Igreja de          comissirio, padre Seguri, particularmente
Santa Maria Novella, empreendeu outro            hostil em relaqiio a Galileu.)
ataque contra os defensores da teoria co-              Depois da advertcncia, Galileu perma-
pernicana. Em 7 de fevereiro de 1615, o          neceu em Roma por mais tr&smeses. Como
mesmo Nicolau Lorini denunciou Galileu ao        se havia difundido o boato de que ele abju-
Santo Oficio, enviando c6pia da carta de         rara suas proprias teorias diante do cardeal
Galileu a dom Benedetto Castelli e chaman-       Belarmino, Galileu pediu-lhe uma declara-
do a atenqiio sobre algumas proposiqoes          150, que o cardeal emitiu, para poder des-
"perigosas", como as que asseveravam "que        mentlr as acusaq8es e calunias que circula-
certos modos de dizer da santa Escritura niio    vam sobre a sua posiqiio. Pode-se ler nessa
siio validos; que, nas coisas naturais, as Es-   declaraqiio: "N6s, Roberto cardeal Belar-
crituras tim o ultimo lugar; que os inttrpre-    mino, tendo sabido que o senhor Galileu
tes freqiientemente erram; que as Escrituras     Galilei esta sendo caluniado ou acusado de
s6 dizem respeito h fC; que, nas coisas natu-    ter abjurado em nossa miio, e tambCm de
rais, a argumentaqiio matematico-filosofica      ter sido por isso penitenciado com penitin-
i superior".                                     cias salutares, e interessados na busca da ver-
      Em 19 de fevereiro de 1616, o Santo        dade, declaramos que o referido senhor
Oficio passou a seus teologos as duas pro-       Galileu niio abjurou em nossa miio nern de
posiqoes que resumiam o nucleo da questiio       outros aqui em Roma, nern mesmo em ou-
para que fossem examinadas. As duas pro-         tro lugar que nos saibamos, de alguma sua
posiq8es eram as seguintes: a ) "Que o sol 6     opiniio ou doutrina, nern que tenha recebi-
o centro do mundo, sendo conseqiientemen-        do penitencias salutares ou de outra ordem,
te imovel de movimento local." b ) "Que a        mas somente lhe foi anunciada a declara-
terra niio esta no centro do mundo nern i        qiio [...I cujo conteudo C o de que a doutri-
imovel, mas move-se por si mesma, tambe'm        na atribuida a Copirnico, de que a terra se
de movimento diario". Cinco dias depois,         move em torno do sol e que o sol esti fir-
em 24 de fevereiro, todos os teologos, de        me no centro do mundo, sem mover-se do
acordo, sentenciaram que a primeira pro-         Oriente para o Ocidente, i contraria hs sa-
posiqiio era tola e absurda em filosofia e       gradas Escrituras, niio podendo por isso ser
formalmente here'tica, enquanto contrasta-       defendida nern mantida. E para dar fC dis-
va com as sentenqas da sagrada Escritura         SO, escrevemos e assinamos a presente de
em seu significado literal e segundo a expo-     proprio punho."
sigiio comum dos santos Padres e dos dou-               Com essa declarac;iioem miios, Galileu
tores em teologia. E acrescentaram que a         partiu de Roma para Florenqa em 4 de ju-
segunda proposiqiio merecia a mesma cen-         nho de 1616. Niio somente Belarmino, mas
sura em filosofia e que, teologicamente, era     tambCm os cardeais Alexandre Orsini e
pelo menos err6nea em relaqiio h fC.             Francisco Maria del Monte expressaram
      0 Santo Oficio transmitiu a sua sen-       sentimentos de "elevada reputaqiio" em re-
tenqa h Congregaqiio do Index. Em 3 de           laqiio a Galileu. Entretanto, este se defron-
206    Segunda parte - A   reualus~acientifica



tara com sua primeira derrota. Bem perce-        Entre outras coisas, escrevia o embaixador:
bera o embaixador da Toscana em Roma,            "Sei bem que alguns frades de Siio Domin-
Pedro Guicciardini, que, quando soube que        gos, que tCm grande participaqio no Santo
Galileu iria a Roma para se defender, es-        Oficio, e outros nutrem ma vontade para
creveu uma carta ao ministro dos MCdici,         com ele. E este n i o C um lugar para se vir
Curcio Picchena, na qual observava que           discutir sobre a lua, nem, no sCculo que
Galileu iludia-se ao pretender levar idCias      corre, querer defender ou trazer doutrinas
novas para a capital da Contra-reforma.          novas".



                             VII.
                               derrocada
                    da cosmoIogia aristotAica
                      e o segundo processo


      Mma sb fisica basta                        Dialogo de Galileu Galilei Linceu, no qual,
                                                 nos congressos de quatro jornadas, se dis-
      para o   WMM~Oceleste
                                                 corre sobre os dois maximos sistemas d o
      e o terrestre                              mundo, ptolomaico e copernicano, de 1632.
                                                 No preiimbulo da obra, Galileu escreve que
                                                 considera a teoria de CopCrnico como "pura
      Em polCmica com o jesuita Horacio          hipotese matematica" e acrescenta que o
Grassi a prop6sito da natureza dos come-         trabalho pretende mostrar aos protestantes
tas, Galileu publicou o Saggiatore em 1623,      e a todos os outros que a condenaqio do
obra A qual voltaremos quando tratarmos          copernicanismo estabelecida pela Igreja em
da questgo do mitodo, ja que ela contCm          1616 fora uma coisa sCria, fundada em
precisamente importantissimas doutrinas          motivos derivados da piedade, da religiio,
filos6fico-metodol6gicas. Entretanto, ainda      do reconhecimento da onipotincia divina e
em 1623, mais precisamente em 6 de agos-         da consciCncia do quanto C dCbil o conheci-
to, foi eleito papa, com o nome de Urbano        mento humano. Obviamente, o truque era
VIII, o cardeal Maffeo Barberini, amigo e        facilmente desmascaravel.
sincero admirador de Galileu, e Galileu ti-            0 s interlocutores do Dialogo s i o tris:
Vera provas da estima de Barberini quando        Simplicio, Salviati e Sagredo. Simplicio re-
do processo de 1616.                             presenta o filosofo aristotklico, defensor do
      Assim, retemperado por esse fato, Ga-      saber constituido da tradiqio; Salviati k o
lileu retomou sua batalha cultural. Para co-     cientista copernicano, cauteloso mas reso-
meqar, respondeu A pretensa refutaqio do         luto, paciente e tenaz; Sagredo representa o
sistema copernicano feita por Francisco          publico, aberto para a novidade, mas que
Ingoli, de Ravena, secretario da Congrega-       quer conhecer as razdes de ambas as partes.
$50 de Propaganda Fide. E voltou ao pro-         Historicamente, Filipe Salviati (1  583-1614)
blema das m a r k (Dialogo sobre o fluxo e o     era um nobre florentino, amigo de Galileu;
refluxo d o mar), persuadido de que tinha        Giovanfrancesco Sagredo (1      571-1620) era
em mios uma prova arrasadora, de ordem           um nobre veneziano muito ligado a Galileu;
fisica, do movimento da terra e, portanto,       Simplicio talvez recorde um comentador de
do copernicanismo. Com efeito, Galileu           Aristoteles que viveu no stculo IV. 0 dido-
apresentava as marks como resultado do mo-       go foi escrito propositadamente em lingua-
vimento de rotaqio diario da terra e do mo-      gem popular, j6 que "o publico que Galileu
vimento de revoluqio anual. Sua interpre-        quer convencer 6 o das cortes, das novas ca-
taqio estava errada: o problema das marks        madas intelectuais, da burguesia e do clero".
seria resolvido mais tarde por Newton com              E s i o quatro as jornadas "nos congres-
a teoria da gravitaqio.                          sos" em que se desenvolve o Dialogo. A pri-
      Em todo caso, Galileu discute sobre        meira jornada dedica-se a demonstrar a fal-
esses assuntos na quarta jornada do seu          ta de fundamento da distin@o aristotklica
207
    Capitdo de'cimo primeiro - 0d r a m a d e Galileu e a fundac&o d a cigncia m o d e r n a

entre o mundo celeste, que seria incor-            te, coisa que n i o deveria se verificar se a
ruptivel, e o mundo terrestre dos elementos        terra se movesse; as coisas que "se mandm
que, ao contririo, seria mutivel e alterivel.      longamente no ar", como o caso das nu-
N f o existe tal distinqio: isso C atestado pe-    vens, deveriam nos aparecer em movimen-
10s sentidos, potencializados pela luneta. E       to veloz se a terra verdadeiramente se mo-
como tambCm para Aristoteles aquilo que            vesse; ao se disparar dois projiteis iguais
dizem os sentidos esta no fundamento do            de um mesmo canhio, um em diregfo ao
discurso, entio, como Salviati recorda a Sim-      oriente e outro em direqfo ao ocidente, en-
plicio, "estaras filosofando mais aristote-        tf o o alcance deste ultimo deveria ser muito
licamente dizendo que o cCu C alteravel por-       maior que o do outro, ja que, enquanto o
que assim mostram os sentidos d o que              projttil se desloca em diregio ao ocidente, o
dizendo que o cCu C inalteravel porque as-         canhio tambCm deveria se deslocar, seguin-
sim discursou Aristoteles". As montanhas           do o movimento da terra. em direciio ao
sobre a lua, as manchas lunares e o movi-          oriente. Mas, como isso n i o ocorre, entfo
mento da terra atestam que existe uma so           a terra nfo esta em movimento, diz Sim-
fisica e n i o duas fisicas, uma valida para o     plicio. Ademais, continua argumentando
mundo celeste e outra para o terrestre. E na       Sirnplicio, se, em um navio parado, faz-se
"perfeigfo" dos movimentos circulares que          cair uma pedra de cima do mastro, ela cai
Aristoteles fundamenta a "perfeiqio" dos           perpendicularmente na base do proprio
corpos celestes; depois, com base nesta ulti-      mastro; mas, sendo em um navio em movi-
ma, afirma a veracidade da primeira. Na            mento, entfo a pedra que se deixa cair do
realidade, o movimento circular pertence           alto do mastro cai longe da base do mas-
niio so aos corpos celestes, mas tambtm            tro, desviando-se em diregio A popa. En-
terra. Conseqiientemente, na segunda jor-          tiio, o mesmo deveria ocorrer com uma
nada, o Dialogo volta-se para a critica dos        pedra que se deixa cair de cima de uma tor-
argumentos observados e tipicos da obser-          re, supondo-se que a terra esteja em movi-
vaqio comum que eram propostos contra a            mento. Mas isso n i o se d6; portanto, a terra
teoria copernicana. Entretanto, antes de           esti parada.
passar para a segunda jornada (e depois a                Pois bem, nesse ponto, partindo da
terceira, ambas dedicadas a analise e a so-        experihcia que Sirnplicio afirma verificar-
lugio das dificuldades contra o movimento          se sobre o navio, Galileu, pela boca de Sal-
diario e anual da terra), Galileu realiza in-      viati e Sagredo, estabelece o principio da
teressantes consideraq6es sobre a linguagem,       relatividade dos movimentos. destruindo
que ele vi! como "o selo de todas as admira-       com isso de um s6 golpe todas aquelas "ex-
veis invengdes humanas". E escreve: "Mas,          perihcias" do senso comum que eram ar-
acima de todas as estupendas invenq6es, que        gumentadas contra a teoria do movimento
mente eminente foi aquela de quem imagi-           da terra. Em suma, por meio de suas teo-
nou encontrar os modos de comunicar seus           rias, consegue varrer todo o conjunto de "fa-
rec6nditos pensamentos a qualquer outra            tos" contrarios a Copkrnico e favoraveis a
pessoa, mesmo que distante por longuissimo         Ptolomeu. substituindo-os Dor outros "fa-
interval0 de tempo e,de lugar? falar com           tos", outras "experihcias" e outras "evi-
aqueles que estio na India ou com aqueles          dhcias". Com efeito, quem quer que faqa a
que ainda n i o nasceram nem nascerio se-          experihcia da pedra sobre o navio, vera que
nfo daqui a mil ou dez mil anos? e com tal         ela "mostra todo o contrario daquilo que C
facilidade? com as vhrias junqoes de vinte         escrito".
sinaizinhos sobre um papel! "                            Diz Salviati: "Encerra-te com algum
                                                   amigo no maior c6modo que exista sob a
                                                   coberta de algum grande navio. Cuida de
                                                   que haja moscas, borboletas e semelhantes
      0 principio de relatividade                  animaizinhos voadores. Que exista tambCm
                                                   um grande vaso com Bgua, com peixinhos
      galileano                                    dentro. Suspenda-se tambCm no alto algu-
                                                   ma jarra, que gota a gota v6 derramando
                                                   6gua em outro vaso, de boca estreita, que
     Portanto, existem argumentos antigos          esteja colocado embaixo. Estando o navio
e atuais contra o movimento da terra. Eis          parado, observa com atenqfo como os ani-
alguns: os graves caem perpendicularmen-           maizinhos voadores, com igual velocidade,
Segunda parte   -   revoIuG~o
                                   cientifica



v5o em direq5o a todas as partes do c6mo-              TambCm niio se deve esquecer que, pel0
do; veras os peixes nadando indiferentemen-      principio da relatividade, Galileu consegue
te em todas as diregoes; as gotas que caem       neutralizar todo um conjunto de experiCn-
entrario todas no vaso que esta embaixo; ao      cias que apontavam contra o sistema coper-
jogar alguma coisa para teu amigo, n5o de-       nicano, construindo outros fatos e interpre-
veriis lanqa-la com mais forqa para esta par-    tando diversamente os antigos.
te do que para aquela, quando as distiincias           E, mais ainda, o fato de que todo mo-
forem iguais; e, ao saltar, como se diz, com     vimento C relativo significa que o movimento
os pCs juntos, percorreras espaqos iguais em     n5o 6 atribuivel a um corpo em si mesmo: e
qualquer direg5o. Oserva que teris diligen-      isto k o fim da doutrina aristotilica e medie-
temente todas essas coisas, embora niio haja     val do impetus, ou seja, de um movimento
nenhuma duvida de que assim devem ocor-          que necessita de um motor para produzi-lo
rer quando o navio esti parado. Entiio, faz      e conservi-lo. Repouso e movimento siio
com que a nave se mova com qualquer ve-          dois estados persistentes dos corpos. E as-
locidade que queiras (desde que o movimen-       sim Galileu abre o caminho para a formu-
to seja uniforme e n50 flutuante daqui para      laq5o do principio de inircia.
ali) e veris que n5o reconheceras nem mini-
ma mudanqa em todos os efeitos citados,
nem por qualquer dos efeitos poderas per-
ceber se o navio esta andando ou parado:
continuark percorrendo os mesmos espa-
qos que antes no chiio; por mais que a nave
se mova velozmente, nem por isso dar6s
saltos maiores em direqiio h popa do que h
proa, muito embora, no tempo em que es-
tiveres no ar, o ch5o esteja se deslocando            Urbano VIII foi convencido pelos ad-
em direqiio h parte contraria h do teu sal-      versiirios de Galileu de que o Dialogo so-
to; ao jogar alguma coisa para teu compa-        bre os dois maximos sistemas d o m u n d o
nheiro, n5o precisaras atir4-la, para atin-      constituia uma afronta, desacreditando
gi-lo, com maior forqa se ele estiver na         a autoridade e a t i o prestigio do papa, que
direqao da proa do que da popa, estando          teria sido ridicularizado na figura de Sim-
situado tu no ponto oposto; as gotas d'agua      plicio, defensor daquela "admiravel e ver-
continuariio caindo como antes no vaso que       dadeiramente angClica doutrina", h qual "6
esta embaixo, sem que uma sequer caia em         forqoso acomodar-se", de que se fala na
direqiio h popa, muito embora, enquanto a        ultima pigina do Dialogo. Logo depois de
gota esth no ar, a nave ande muitos palmos."     sua publicaqao, o inquisidor de Florenqa
       Tudo isso nos mostra que, com base        ordenou que sua difusio fosse suspensa.
em observag6es meciinicas realizadas no in-      Em outubro de 1632, ordenou-se a Galileu
terior de determinado sistema, i impossi-        que fosse a Roma, para ficar idisposiq50
vel estabelecer se tal sistema esta parado       do Santo Oficio. Galileu tentou atrasar sua
ou em movimento retilineo uniforme: "Se-         viagem para Roma, alegando motivos de
ja, pyrtanto, o principio de nossa contem-       saude, mas a reaqiio da Inquisiqiio foi du-
plaqao o considerar que, seja qual for o         rissima. Em 12 de abril de 1633 Galileu
movimento que se atribua h terra, 6 neces-       estava diante do Santo Oficio, sendo acu-
shrio que a n6s, como habitantes dela e,         sado de ter enganado o padre Riccardi, que
conseqiientemente, participes desse movi-        dera o imprimatur ao Dialogo, porque n50
mento, apresente-se inteiramente impercep-       lhe havia comunicado o preceito que lhe
tivel, sendo como se n5o existisse enquanto      fora imposto em 1616, segundo o qual
estivermos olhando somente para as coi-          Galileu niio podia "ensinar ou defender de
sas terrestres."                                 mod0 algum" a teoria de Copirnico. Ga-
       A importiincia desse principio de rela-   lileu defendeu-se afirmando que o Dialogo
tividade (galileana) salta logo aos olhos se     fora escrito para mostrar a niio-validade
recordarmos que a relatividade estrita de        do copernicanismo e que niio se recordava
Einstein outra coisa niio C do que uma am-       de nenhum preceito que lhe houvesse sido
pliaqio da relatividade galileana a todos os     imposto em presenqa de testemunhas. E
fen6menos naturais, inclusive os da eletrodi-    mostrou a declaraqiio que lhe havia sido da-
niimica e da 6tica".                             da por Belarmino em 3 616.
209
    Capit~10
           de'cimo primeiro - 8 d r a m a d e Galileu e a f u n d a c & o d a ciEncia m o d e r n a

      Persuadidos de que Galileu quisesse              solutes, mais que antes, com coraq5o since-
engana-los, visto que o Dialogo era forte              ro e fC niio fingida, diante de nos, abjures,
defesa da idCia copernicana, realizada ade-            maldigas e detestes os referidos erros e he-
mais com "argumentos novos, nunca pro-                 resias, bem como qualquer outro err0 e he-
postos antes por nenhum ultramontano";                 resia contraries h Igreja catolica e apostoli-
irritados por ter Galileu escrito a obra niio          ca, do mod0 e na forma que por nos te seriio
em latim, mas em linguagem popular, "para              dados [. ..] " .
arrastar A sua parte o vulgo ignorante, que                  E eis as partes inicial e final do texto
C facil presa do err0 [...I"; atentando para o         com o qua1 Galileu abjurou: "Eu, Galileu,
fato de que "o autor sustenta ter discutido            filho daquele Vincenzo Galileu de Florenqa,
uma hip6tese matemitica, mas confere-lhe               nesta minha idade de setenta anos, consti-
uma realidade fisica, coisa que os matema-             tuido pessoalmente em juizo e ajoelhado
ticos nunca fazem" - com base em tudo                  diante de vos, Eminentissimos e Reveren-
isso, depois de outro interrogatorio, os in-           dissimos Cardeais, Inquisidores gerais em
quisidores emitiram sua condenaqiio em 22              toda a Republics Crist5 contra a herCtica
de junho. E nesse mesmo dia, de joelhos,               maldade, e tendo diante de meus olhos os
Galileu abjurou. "Dizemos, pronunciamos,               sacrossantos Evangelhos, que toco com as
sentenciamos e declaramos -assim termi-                proprias miios, juro que sempre acreditei,
na o texto da condenaqiio - que tu, o refe-            acredito agora e, com a ajuda de Deus, acre-
rid0 Galileu, pelas coisas aduzidas em pro-            ditarei tambtm no futuro em tudo aquilo
cesso e por ti confessadas como referidas              que a santa Igreja catolica e apostolica man-
acima, te tornaste para este Santo Oficio              tCm, prega e ensina [. ..]. Portanto, queren-
veementemente suspeito de heresia, isto C,             do eu retirar da mente das Eminincias
de haver mantido e crido em doutrina falsa             Reverendissimas e de todo fie1 crist5o essa
e contraria i s sagradas e divinas Escrituras,         veemente suspei~iio,    justamente concebida
que o sol seja o centro da terra e que niio se         em relaqiio a mim, com coraqio sincero e fC
mova do oriente para o ocidente, e que a               n5o fingida, abjuro, maldigo e detest0 os
terra se mova e niio esteja no centro do               referidos erros e heresias e, em geral, todo e
mundo, e que se possa manter e defender                qualquer outro erro, heresia e seita contra-
como provavel uma opiniiio depois de ela               ria a santa Igreja. E juro que, para o futuro,
ter sido declarada e definida como contra-             nunca mais direi nem afirmarei, por voz ou
ria A sagrada Escritura. Conseqiientemente,            por escrito, coisas tais pelas quais se possa
incorreste em todas as censuras e penas dos            ter de mim semelhante suspeita. E, se co-
cinones sagrados e outras constitui~oes    ge-         nhecer algum heretic0 ou suspeito de here-
rais e particulares impostas e promulgadas             sia, o denunciarei a este Santo Oficio, ao
contra semelhantes delinqiientes. E pelas              Inquisidor ou Ordinirio do local onde me
quais nos contentaremos se, em termos ab-              encontrar [. ..] ".




    os Discursos e d e m o n s t ~ a ~ d e s
                                         matem6ticas
                em torno              de d u a s          novas c i i b c i a s


      &itrutura da matkria                             sobre duas novas citncias, atinentes a me-
                                                       cdnica e aos movimentos locais.
      e est6tica
                                                            A analise da quest50 do movimento era
                                                       uma constante no trabalho de Galileu, des-
                                                       de a Cpoca do juvenil De Motu (1590).
     Depois de ter sofrido seu segundo pro-                 0 s Discursos tambtm s5o redigidos em
cesso e abjurado, Galileu escreveu ainda os            forma de dialog0 e nele encontramos os
Discursos e demonstra~6es      matematicas             mesmos protagonistas do Dialogo sobre os
dois maximos sistemas: Salviati, Sagredo e         fesse ser a virtude da geometria um instru-
Simplicio. Tambim os Discursos se desen-           mento mais potente que qualquer outro
volvem em quatro jornadas. Nas primeiras           para aguqar o engenho e disp6-lo a o per-
duas jornadas discute-se a citncia que se          feito discorrer e especular? E que com muita
ocupa da resisttncia dos materiais. Eis a          raziio queria Plat50 seus estudantes bem
questiio: quando se constroem maquinas de          fundamentados nas matematicas? Eu ha-
proporqdes diversas, "a maquina maior,             via compreendido muito bem a faculdade
fabricada com a mesma matiria e com as             da alavanca e como, crescendo ou reduzin-
mesmas proporq6es que a menor, em todas            do o seu comprimento, crescia ou desapa-
as outras condiqdes responder4 com justa           recia o momento da f o r ~ a da resistincia.
                                                                                e
simetria em relaq5o a menor, a niio ser na         Apesar de tudo isso, estava enganado na
robustez e na resisttncia 2s invasdes violen-      determinaqiio do presente problema: e n5o
tas; mas, quanto maior, for ela, proporcio-        de pouco, mas a o infinito." E Simplicio
nalmente sera mais fraca".                         acrescenta: "Comeqo verdadeiramente a
      Em outros termos: em todos os corpos         compreender que a logica, embora instru-
solidos encontra-se uma "resisttncia a ser         mento poderosissimo para regular o nosso
quebrada". E a quest50 que Galileu quer            discurso, niio alcanga a agudeza da geome-
resolver i a de identificar as relagoes mate-      tria quanto a preparar a mente para a in-
maticas entre tal resisttncia e "o comprimen-      venqiio" .
to e a espessura" de tais corpos.
      Pois bem, na primeira jornada vt-se lo-
go que a coisa que esta antes de qualquer
outra necessidade 6 a investigaqiio sobre a
estrutura da matiria: trata-se da "continui-
dade", do "vacuo" e do "itomo". Sao ana-
lisadas as analogias e as diferenqas entre a
subdivisiio do matematico e do fisico. A pro-            A terceira e a quarta jornadas siio de-
posito do vacuo, Galileu polemiza contra a         dicadas a segunda nova citncia, isto 6, a di-
idiia aristotilica de que o movimento seria        d m i c a . Salviati 1 em latim um tratado so-
                                                                         6
 impossivel no vicuo. E tambim s5o cri-            bre o movimento que diz ter sido elaborado
ticadas as idiias de Aristoteles sobre a que-      por seu amigo Acadtmio (ou seja, Galileu).
da dos pesados, segundo as quais haveria           E, i medida que Salviati li, os outros dois
proporcionalidade entre o peso dos diver-          interlocutores, Sagredo e Simplicio, pouco
 sos pesados e a velocidade de sua queda.          a pouco viio pedindo esclarecimentos e os
 Galileu, porim, reafirma a opiniiio de que,       recebendo. Mais especificamente, na tercei-
 "caso se retirasse totalmente a resisttncia       ra jornada S ~ demonstradas as leis classi-
                                                                       O
 do meio, todas as matGias desceriam com           cas sobre o movimento uniforme, sobre o
 igual velocidade". Depois, passa-se ao exa-       movimento naturalmente acelerado ou re-
 me das oscilaq6es do ptndulo e de suas leis:      tardado.
 isocronismo e proporcionalidade entre o                  Galileu parte de defini~6es"concebi-
 period0 de oscilaq50 e a raiz quadrada do         das e admitidas em abstrato" dos movimen-
 comprimento do ptndulo. Discutem-se ques-         tos e, depois, delas deduz rigorosamente as
 tdes de acustica, propondo aplicaqdes dos         caracteristicas do movimento. Diante das
 resultados obtidos a proposito das oscila-        objeqdes de Sagredo e Simplicio, segundo
 qdes pendulares.                                  as quais siio necessarias experiincias para
      Na segunda jornada, a resisttncia dos        se ter confirmaqiio de que as leis dos movi-
 corpos solidos C reconduzida aos sistemas e       mentos correspondem a realidade, Galileu
 combinaq6es de alavancas. Assim, a nova           (pela boca de Salviati) narra a cilebre expe-
 ciincia (que remonta a o "sobre-humano            ritncia dos planos inclinados, que C mais do
 Arquimedes, que nunca nomeio sem admi-            que oportuno conhecer: "Em uma rCgua -
 raqiio"), isto 6, a estatica, permite a Galileu   ou, se quiserem, uma vigota - de madeira,
 mostrar a "virtude", ou seja, a eficacia, da      com doze braqas de comprimento e com lar-
 geometria no estudo da natureza fisica (e         gura de meia braqa por um lado e trts de-
 tambim biologics: a natureza dos ossos            dos pelo outro, escavou-se nesta menor lar-
 cavos, a proporqao dos membros dos gi-            gura uma canaleta pouco mais larga que um
 gantes etc.). Diz Sagredo: "0 que diremos,        dedo. Estirava-se em linha reta, limpava-se
 senhor Simplicio? N5o convCm que ele con-         e alisava-se, colocava-se dentro da canaleta
21 1
    Capitulo de'czmo primeiro - 6 drama de Galileu e   a   fundaC80 da cisncia moderna


um pergaminho bem polido e lustrado e,         pois, as particulas de agua recolhidas de tal
depois, fazia-se descer por ela urna bola de   mod0 eram pesadas a cada vez com urna
bronze durissimo, bem arredondada e poli-      balanqa exatissima, dando-nos as diferen-
da. Fazendo-se a regua ficar pendente, o que   qas e proporq6es dos pesos em relaqio as
se conseguia elevando acima do plano hori-     diferenqas e proporqoes dos tempos. E isso
zontal urna de suas extremidadas, por urna     com tal exatidio que, como disse, tais ope-
ou duas braqas, a vontade, deixava-se en-      raq6es, repetidas muitas vezes, nunca dife-
tio, (como dizia), a bola descer pela cana-    riam nem mesmo de um momento".
leta. Entio anotava-se, no mod0 que logo             Como se v6, essa experiencia n i o con-
direi, o tempo que a bola levava para correr   siste em urna observaqio isenta de teoria, a
toda a canaleta, repetindo o mesmo ato         experiincia n5o t dada, mas constrdi-se, t
muitas vezes para se assegurar bem da quan-    feita. E C feita e construida porque a teoria
tidade de tempo, no qual nunca se encon-       o exige. A experiencia n i o 6, antes de mais
trava diferenqa, nem mesmo da dCcima           nada, pura e simples observaqio: a expe-
parte de urna batida de pulso. Feita e esta-   ricncia C experimento. E o experimento se
belecida precisamente tal operaqio, fazia-     faz e se constroi. 0 "fato" do experimento
mos descer a mesma bola somente pela quar-     i um dado so depois que foi feito. Assim, o
ta parte do comprimento dessa canaleta. E,     experimento C perpassado pela teoria de
medido o tempo de sua descida, desco-          cima abaixo. TambCm C notavel, nas discus-
briamos sempre ser exatamente a metade         s6es da terceira jornada, o aparecimento,
do outro. Depois, fazendo as experiencias      ainda em estado confuso, dos conceitos de
das outras partes, examinando ora o tempo      infinito e infinitesimal. Esses conceitos ou,
de todo o comprimento com o tempo da me-       mais exatamente, o conceit0 de limite, s i o
tade, ora com o tempo de dois terqos, ora      essenciais para as ideias de velocidade ins-
com o tempo de tres quartos, ou, em con-       tantsnea e de aceleraqio. Hoje, para nos, as
clusio, com qualquer outra divisio, por        coisas s i o simples. Mas Galileu n i o conhe-
meio de experiencias repetidas por bem cem     cia o calculo (infinitesimal), que so seria des-
vezes, sempre concluiamos que os espaqos       coberto mais tarde por Newton e Leibniz (e
necessarios eram entre si como os quadra-      ao qua1 Boaventura Cavalieri tanto desejou,
dos dos tempos, e isso em todas as inclina-    em vio, que seu mestre Galileu se houvesse
q6es do plano, isto 6, da canaleta por onde    dedicado). De todo modo, Galileu fala de
se fazia descer a bola. Observamos ainda        "infinitos graus de atraso".
que os tempos das descidas nas diversas in-          E esta tambim C urna gloria que per-
clinaqoes mantinham tipicamente entre si       tence a ele.
aquela proporqio que mais adiante veremos            Na quarta jornada se discute, com mui-
ter sido assinalada e demonstrada pel0 au-     ta amplitude e profundidade, a trajetoria dos
tor. N o que se refere medida do tempo,        projCteis (trajetoria que possui forma para-
mantinha-se um grande vaso cheio de igua       bolica). E essa anilise se fundamenta na lei
amarrado no alto, o qual, atravCs de um        da composiqio dos movimentos.
can0 muito fino, que Ihe estava soldado ao           0 s Discursos foram impressos na Ho-
fundo, derramava um fino fio d'agua, que       landa, aonde chegaram clandestinamente.
era recolhido por um pequeno cop0 duran-             Eles representam a contribuiqio mais
te todo o tempo ao longo do qual a bola        madura e original dada por Galileu a histo-
descia pela canaleta e em suas partes; de-     ria das idCias cientificas.
Segunda parte - $   revoIuCzo cientificcr




            IX.           iwmgem gaIiIeana                      da ci2ncia             ,
                                                                                       ,


         cig~cia
               nos diz                              como a fC em Aristoteles e o apego cego as
                                                    suas palavras - impedem sua realizagiio.
       coma vai o c&uN                                    Diz Salviati no Dialogo sobre os dois
      ea   f&   "como s r vai ao       cku"         maximos sisternas do mundo: "Havera algo
                                                    mais vergonhoso do que, nas discussdes pu-
                                                    blicas, quando se trata de conclusdes demons-
       Na explicitaqiio dos pressupostos, na        traveis, ver alguim aparecer de travts com
delimitaqiio de sua autonomia, na identifi-         um texto, muito amiude escrito com propo-
caqiio das normas do metodo, em tudo isso           sito inteiramente diferente, e com ele fechar
a cihcia moderna e a citncia de Galileu.            a boca do adversario? [.. .] Por isso, senhor
Entretanto, qua1 era exatamente a imagem            Simplicio, venha com razdes e demonstra-
que Galileu tinha da ciencia? Ou, melhor            gdes, suas ou de Aristoteles, e n5o com tex-
ainda, quais siio as caracteristicas da ciin-       tos e cruas autoridades, porque nossos dis-
cia que se podem extrair tanto das pesqui-          cursos devem ser em torno do mundo sensivel
sas efetivas de Galileu quanto das reflex6es        e niio sobre um mundo de papel".
filosoficas e metodologicas sobre a cizncia
feitas pel0 proprio Galileu? A interrogagiio
e premente. E, depois de tudo o que temos
dito at6 aqui, estamos agora em condiqdes
de expor toda uma sCrie de traqos distinti-
vos capazes de nos reconstruir a "imagem
galileana" da cihcia.
       Antes de mais nada, a cihcia de Galileu      Portanto, a ciikcia C aut6noma em re-
niio C mais um saber a s e r v i ~ o fe'; n i o
                                    da        lag20 A fC, mas tambCm C algo bem diferen-
depende da fC; tem um objetivo diferente do   te daquele saber dogmatico representado
da f i ; se alicerqa e se fundamenta em razdespels tradiqio aristotklica. Isso, porCm, niio
diversas das da ft. A Escritura contim a      significa para Galileu que a tradigiio C da-
mensagem da salvaqiio, niio sendo sua a fun-  nosa enquanto tradig5o. Ela C danosa quan-
$20 de determinar "a constituig50 dos cCus    do se erige em dogma, dogma incontrolAve1
e das estrelas". As proposigdes de fide nos   que pretende ser intocavel. "Nem por isso
dizem "como se vai a o cCu"; as proposiqdes   digo que n5o se deve ouvir Aristoteles; ao
cientificas, obtidas atravCs de "sensatas ex- contrhrio, louvo que seja visto e diligente-
perihcias" e "demonstraqdes necessarias",     mente estudado. Censuro apenas que al-
atestam "como vai o cCu". Em suma, com        guCm se entregue a ele de mod0 tal que subs-
base em suas diferentes finalidades (salva-   creva cegamente toda palavra sua e, sem
@o para a f6; conhecimento para a cihcia)     buscar outra raziio, a tenha, por 'decreto,
e com base nas modalidades diversas de        inviolavel, o que C um abuso que arrasta
 alicergamento e fundamentaqiio (na fe, a     atras pe si outra desordem extrema, isto
autoridade da Escritura e a resposta do ho-   6, que ninguCm mais se aplica a procurar
mem a mensagem revelada; na cicncia, as       entender a forqa de suas demonstragdes."
 sensatas experiincias e as necessarias pro-  Como foi o caso daquele aristotClico que
posiq6es da fC. E "parece-me que, nas dis-    (sustentando, com base nos textos de Aris-
 putas naturais, ela (a Escritura) deveria sertoteles, que os nervos partem do coragiio),
 reservada para o ultimo lugar".              diante de uma dissecagiio anat6mica que
                                              desmentia essa teoria, afirmou: "Vos me
                                              fizestes ver esta coisa de tal forma aberta e
                                              sensata que, se o texto de Aristoteles niio a
                                              contrariasse, pois abertamente diz que os
                                              nervos nascem do coraqiio, por forqa seria
                                              precisp reconheci-la como verdadeira."
     Sendo aut6noma em relagiio a fe, a ciEn-       E contra o dogmatismo e o "puro ipse
cia deve ser muito mais aut6noma ainda em dixit" que Galileu se choca, contra a "crua
relaqiio a todos os vinculos humanos que - autoridade", mas niio contra as razoes que
Capitulo de'cimo primeiro   - O drama de Galileu r   a   fundnGuo d a   ciZncia   modrrna


ainda hoje poderiam ser encontradas, por          ja encontra sua raiz mais profunda precisa-
exemplo, em Aristoteles: "No entanto, se-         mente na concepqao realista e profunda que
nhor Sirnplicio, venha com razdes e de-           Galileu tinha da cigncia.
monstraqdes, suas ou de Aristoteles [. ..] ".
N5o se pede certidzo de nascimento para a
verdade: em toda parte podem-se encon-
trar "razdes" e "demonstraqdes". 0 im-                   A cigncia Q objetiva,
portante C fazer ver que S ~ validas e n50
                                  O                      p o r q u e descreve
que estiio escritas nos livros de Aristoteles.
                                                         a s qualidades mensurClveis
      E contra os aristotklicos dogmaticos e
livrescos, Galileu se refere precisamente a              dos ~ o r p o s
Aristoteles: C "o proprio Aristoteles" que "an-
tepde [...] as experitncias sensatas a todos
os discursos", de mod0 que "niio duvido em            A cihcia pode nos dar uma descri@io
absoluto de que, se Aristoteles vivesse em      verdadeira da realidade, alcanqando os ob-
nossa Cpoca, mudaria de opiniio. Isso pode      jetos e, assim, sendo objetiva. Mas so pode
ser recolhido manifestamente do seu proprio     $10 se estiver em condiqdes de traqar uma
mod0 de filosofar: assim, quando ele escreve    distinqao fundamental entre as qualidades
considerar os cCus inalteriveis etc., porque    objetivas e as qualidades subjetivas dos cor-
n5o se viu nenhuma coisa nova se gerar das      pos, ou seja, somente na condiqao de que a
velhas ou nelas se dissolver, d i a entender    cicncia descreva as qualidades objetivas dos
implicitamente que, se houvesse visto um        corpos, quantitativas e mensuraveis (publi-
desses acidentes, teria considerado o con-      camente verificaveis), e exclua o homem de
trario, antepondo a sensata expericncia ao      si mesma, ou seja, as qualidades subjetivas.
discurso natural, como convCm [. ..] ".         No Saggiatore, podemos ler: "Portanto, digo
      Portanto, o que Galileu pretende C li-    que me sinto bem arrastado pela necessida-
bertar o caminho da ciincia de um verdadei-     de, t50 logo concebo uma matiria ou subs-
ro obst5culo epistemologico, o autoritaris-     tincia corporea, concebendo tudo ao mes-
mo de uma tradiqiio sufocante que bloqueia      mo tempo que ela C acabada e figurada por
a citncia. Em suma, Galileu promove "o fu-      esta ou aquela figura, que 6 pequena ou
neral [. ..] da pseudofilosofia", mas n50 o fu- grande em relaq5o a outras, que esta neste
neral da tradiq5o enquanto tal. E isso i t5o    ou naquele lugar, neste ou naquele tempo,
verdadeiro que, mesmo com as devidas cau-       que ela se move ou esta parada, que toca ou
telas, pode-se dizer que ele 6 plat6nico na fi- niio toca outro corpo, que ela C uma, pou-
losofia e aristote'lico n o me'todo. i";':      cas ou muitas - e por nenhuma imagina-
                                                q5o posso separa-la dessas condiq6es. Mas
                                                niio me sinto forqado pela mente a ter de
                                                saber se ela C branca ou vermelha, amarga
                                                ou doce, surda ou muda, de bom ou mau
                                                cheiro, necessariamente acompanhada de
                                                tais condiq6es: ao contrario, se os sentidos
      como k feito o mundo                       n5o a houvessem percebido, talvez o discur-
                                                 so ou a imaginaq50, por si mesma, n5o a
                                                 alcanqasse jamais (...)".
     A u t h o m a em relaq5o f C e contraria         Em suma: cores, odores, sabores etc.,
as pretens6es do saber dogmatico, a cicncia G Oqualidades subjetivas, ou seja, n5o exis-
de Galileu C a ciBncia de u m realista. Realis- tem no objeto, mas somente no sujeito que
ta C CopCrnico, realista C Galileu. Este n5o sente, assim como as cocegas n5o estiio na
raciocina como "puro matematico", mas pluma, mas sim no sujeito que as sente. A
como fisico, considerando-se mais "fil6so- citncia e objetiva porque niio se interessa
fo" (isto C, fisico) do que matematico. Em pelas qualidades subjetivas, que variam de
outros termos, na opini5o de Galileu, a citn- homem para homem, mas sim por aqueles
cia niio 6 um conjunto de instrumentos (de aspectos dos corpos que, sendo quantifi-
calculos) uteis (para fazer previsdes), mas caveis e mensuraveis, s5o iguais para todos.
muito mais a descriqao verdadeira da reali- E nem a cihcia quer "buscar a esshcia ver-
dade, dizendo-nos "como vai o cCu". E, dadeira e intrinseca das substincias natu-
como vimos, o choque entre Galileu e a Igre- rais". Alias, escreve Galileu, "considero o
214
         Segunda parte - $               cientiflco
                                  revoIuG~o




              E n o Saggatore,
          puhlrcr~doe m 162 3 ,
             que encontramos
              u rdira galdeana
          fundavnentul de que
    " o unwerso esta escnto e m
      hnguagetn mutemutrcu,
                e os caracteves
     siio tndngulos, circulos,
c outrus figuras geomktncas ".




buscar a esstncia como empresa n5o menos               produqao e a dissoluqio, que podem ser
impossivel e como esforqo n3o menos v3o                apreendidas por nos [. ..] ". A cigncia, por-
tanto nas substincias elementares proximas             tanto, 6 conhecimento objetivo, conhecimen-
quanto nas remotissimas e celestes. E pare-            to das qualidades objetivas dos corpos - e
ce-me ser igualmente ignaro da substincia              essas qualidades s3o quantitativamente de-
da terra e da substiincia da lua, das nuvens           terminiveis, ou seja, s3o mensuraveis.
elementares das manchas do sol [...In.   As-
sim, nem as qualidades subjetivas nem a es-
stncia das coisas constituem o objeto da
citncia. Esta deve se contentar "em tomar
conhecimento de algumas de suas sensa-
q6esn, corno, por exemplo: "Por mais que
se empreenda a investigaq5o da substincia
das manchas solares, n i o restariam nada                   A citncia descreve a realidade, sendo
mais d o que algumas de suas sensaqGes,                conhecimento e n i o "pseudofilosofia", pel0
como o lugar, o movimento, a figura, a                 fato de que descreve as qualidades objeti-
grandeza, a opacidade, a mutabilidade, a               vas (isto 6, primirias) e niio as subjetivas
215
    Capitdo de'cimo primeiro - 6 drama d e Gc1111e~( f u n d a C ~d a clgncia modevna
                                                 e a              o


(secundirias) dos corpos. Mas - e, aqui,           infinidade C como zero; mas, d o ponto de
chegamos a um ponto central do pensamen-           vista intensivo, enquanto tal termo impor-
to de Galileu - essa ciincia descritiva da         ta intensivamente, isto C perfeitamente, al-
                                                                             ,
realidade objetiva e mensuravel so i possi-        guma proposiqiio, digo que o intelecto hu-
vel porque o proprio livro da natureza "esta       mano entende algumas t i o perfeitamente
escrito em linguagem matematica". Ainda            que delas tern certeza t i o absoluta quanto
no Saggiatore encontramos: "A filosofia esta       a tenha a propria natureza. E tais s i o as
escrita neste imenso h r o que continuamente       ciincias matemiticas puras, isto i, a geo-
permanece aberto diante de nossos olhos (es-       metria e a aritmCtica, das quais o intelecto
tou falando do universo), mas que n i o se         divino sabe infinitas proposiq6e.s a mais,
pode entender se primeiro n i o se aprende a       porque sabe-as todas, mas, daquelas pou-
entender sua lingua e conhecer os caracteres       cas entendidas pel0 intelecto humano, creio
em que esta escrito. Ele esta escrito em lin-      que sua cogniqio iguale a divina em certe-
guagem matematica e seus caracteres s i o          za objetiva, ja que consegue entender sua
circulos, triiingulos e outras figuras geomC-      necessidade, sobre a qua1 niio pode haver
tricas, meios sem os quais C impossivel en-        seguranqa maior". Ora, se os conhecimen-
tender humanamente suas palavras: sem tais         tos geometricos e matematicos S ~ defini-
                                                                                          O
meios, vagamos inutilmente por labirinto           tivos, necessaries e seguros, se a natureza
escuro" .                                          esta escrita em linguagem geomitrica e
                                                   matematica e se o conhecimento i a redes-
                                                   coberta da linguagem da natureza, entiio
                                                   qualquer um pode ver o grau de confianqa
                                                   que Galileu alimentava na razio e no co-
      nco busca as essencias,                     nhecimento cientifico. Assim, o conheci-
                                                   mento cientifico C muito mais do que um
      e todavia o homem p o s s ~ i                conjunto de instrumentos mais ou menos
      alguns conhecimentos                         uteis.
      definitivos e     M&O   revisiveis


      A ciincia C o conhecimento objetivo          4;   C3   universo deterministic0
das "afecq6esn ou qualidades quantificaveis             d e Galileu
e mensuriiveis dos corpos. Trata-se da re-
descoberta da linguagem d o livro da natu-
reza, "escrito em linguagem matematica".
A ciincia C objetiva porque n i o se emara-
nha nas qualidades subjetivas ou secunda-
rias e porque n i o se prop6e a "buscar as
essincias". Entretanto, embora para Gali-               Evidentemente, basear-se nas qualida-
leu "o buscar a essincia" seja empresa im-         des objetivas ou primarias dos corpos e nas
possivel e vi, certo essencialismo faz parte       qualidades geomitricas e mensuraveis dos
da filosofia galileana da ciincia. 0 homem         corpos comporta toda uma sirie de conse-
n i o conhece tudo. E, das "substbcias na-         qiiincias:
turais" que conhece, niio conhece sua "es-              a ) exclui o homem do universo de in-
sincia verdadeira e intrinseca". Entretanto,       vestigaqio da fisica;
o homem possui alguns conhecimentos de-                 b) excluindo o homem, exclui urn cos-
finitivos, que n i o S ~ mais passiveis de re-
                          O                        mo inteiro de coisas e objetos ordenados e
visio (e nisso consiste o essencialismo de         hierarquizados em funqio do homem;
Galileu):                                               c) exclui a investigaqio qualitativa em
       "[ . .I ConvCm recorrer a uma distinqiio    beneficio da quantitativa;
filosofica, dizendo que o entender pode se              d) elimina as causas finais em favor das
dar de dois modos. isto 6. intensivamente          causas mecdnicas e eficientes.
o u extensivamente: d o ponto de vista ex-              Em poucas palavras: o mundo descri-
tensivo, isto 6, quanto a multidio dos inte-       to pela fisica de Galileu niio i mais o mun-
ligiveis, que sf o infinitos, o entender huma-     do de que fala a fisica de Aristoteles.
no C como nada, por mais que entendesse                 E eis alguns exemplos que iluminam o
mil proposiq6es, porque mil em relaqiio i      i   contraste entre o "mundo" de Galileu e o
S e p n d a parte   - $ r e v o I ~ l ~ a o
                                                  cirntifica



de Aristoteles. N o Dialogo, Simplicio afir-                   satez das teorias e dos conceitos do saber
ma que "nenhuma coisa foi criada em v5o e                      aristotklico. Assim ocorre, por exemplo, com
esta ociosa no universo", tanto que nos ve-                    a idCia de "perfeiqio" de alguns movimen-
mos "esta bela ordem de planetas, dispos-                      tos e de algumas formas dos corpos.
tos em torno da terra em distsncias propor-                          Na opini5o dos aristotClicos, a lua n5o
cionadas para produzir sobre ela os seus                       podia ter vales e montanhas, j6 que eles a
efeitos, em nosso beneficio". Assim, como                      teriam privado daquela forma esfkrica e per-
se podera, sem desconhecer o plano de Deus                     feita que cabe aos corpos celestes. Galileu,
em favor do homem, "interpor [. ..] entre o                    porkm, observa: "Esse discurso ja esta bas-
orbe supremo de Saturno e a esfera estrela-                    tante gasto nas escolas peripatkticas, mas
da um espaqo vastissimo, sem qualquer es-                      suspeito que sua maior eficicia consista so-
trela, supCrfluo e v5o? Com que fim? Em                        mente no ter-se tornado habitual nas mentes
beneficio e para a utilidade de quem?". Mas                    dos homens e n5o no fato de que suas pro-
logo Salviati responde a Sirnplicio: "Quan-                    posiq6es sejam demonstradas ou necessirias;
do me C dito que seria inutil e v5o um espa-                   ao contrario, creio que S ~ muito titubean-
                                                                                              O
qo imenso interposto entre os orbes dos pla-                   tes e incertas. Em primeiro lugar, n5o vejo
netas e a esfera estrelada, privado de estrelas                como se possa afirmar em absoluto que a fi-
e ocioso, como tambkm seria supkrflua tan-                     gura esfCrica C mais ou menos perfeita que as
ta imensidade, em relag50 as estrelas fixas,                   outras, mas apenas com algumas reservas.
a ponto de superar toda nossa capacidade                       Por exemplo: para o corpo que necessita po-
de apreensso, digo que C temeridade querer                     der virar-se para todos os lados, a figura es-
transformar o nosso fraquissimo discurso                       fCrica C perfeitissima, raz5o pela qua1 os olhos
em juiz das obras de Deus, chamando de v5o                     e as extremidades superiores dos ossos das
ou supCrfluo tudo aquilo que, no universo,                     coxas foram feitos pela natureza perfeitamen-
n5o serve para nos."                                           te esfkricos. Mas, ao contrario, para um cor-
      Assim, o universo determinista e me-                     po que necessitasse permanecer estavel, tal
canicista de Galileu n5o 6 mais o universo                     figura seria de todas a mais imperfeita, raz5o
antropocEntrico de Aristoteles e da tradiq50.                  pela qual, na construq50 de muralhas, esta-
Ele n5o C mais hierarquizado, ordenado e                       ria agindo pessimamente quem se servisse
finalizado em funq5o do homem.                                 de pedras esfkricas, pois para este caso per-
                                                               feitiss?mas S ~ as pedras angulares [. ..] ".
                                                                                 O
                                                                     E assim que Galileu mostra a vacuida-
                                                               de de um conceito proposto "em absoluto",
 9, C o n t r a o v a z i o
    ,                                                          ao mesmo tempo em que mostra a eficacia
                                                               de um conceito ao leva-lo para o plano em-
        e a insensate2
                                                               pirico e relativizando-o: a idkia de "perfei-
                                                               q5o" so funciona quando se fala dela "a res-
        teovias t r a d i c i o n a i s                        peito de algo", ou seja, do ponto de vista de
                                                               algum fim. Assim, uma coisa C mais ou me-
                                                               nos perfeita enquanto for mais ou menos
      Outra conseqiiCncia da concepq50 ga-                     adequada a um fim prefixado ou, de todo
lileana do conhecimento cientifico C a de-                     modo, dado. E essa "perfeiq20" 6 um atri-
monstraq5o da vacuidade ou at6 da insen-                       buto controlivel.
Capitdo de'cimo primeiro - 8 drama de Galilru e    a   fundaclo d a   ciGncia   modrvna



                      X. $ q ~ e s t 6 o w&todo:
                                        do
                        //
                             ex peri2ncias sensatas"
              e/oM    "demo~stra~~es
                                 necess6rias"?


'aa expeviCncia cientifica
A A                                              cias do discurso. orientando-o e adestran-
                                                 do-o para bem silogizar e deduzir das pre-
      k   o   expevirnento                       missas [. ..] a necessaria conclusiio" . E Ga-
                                                 lileu ainda faz Salviati dizer: "A logica [.. .]
                                                 t o orgiio da filosofia".
      Na carta a senhora Cristina de Lorena,            Portanto, por um lado, ha o chamado
Galileu escreve: "Parece-me que, nas discus-     as observaqdes, aos fatos, i s "experitncias
sdes sobre problemas naturais, niio se deveria   sensatas" e, por outro, a acentuaqio do pa-
comeqar pela autoridade de passagens da          pel das "hipoteses matemiticas" e da forqa
Escritura, e sim pelas experiincias sensatas     logics, que delas extrai as conseqiiincias.
e pelas demonstraqoes necessarias". E ain-       Mas eis o problema com que se defronta-
da: "Parece-me entiio que a questiio dos efei-   ram os estudiosos: qua1 C a relaqio existen-
tos naturais que a experitncia sensata nos       te entre as "experiikcias sensatas" e as "ne-
poe diante dos olhos ou as demonstraqdes         cessarias demonstraqdes"? Esse problema
necessarias concluem, n i o deve ser, por ne-    niio apenas C tipico da filosofia da citncia
nhuma raziio, posta em duvida, quando niio       contemporsnea, mas tambCm C uma ques-
condenada, por passagens da Escritura que        tiio existente em Galileu. emeraindo com
apresentassem apartncia diversa nas palavras".   toda a clareza de suas obias. ~fGivamente,
      Pois bem, nessas frases encerra-se o       esti fora de qualquer duvida que Galileu
nucleo essential do me'todo cientifico segun-    baseia a ciincia nu experiincia. E por isso
do Galileu. A citncia C aquilo que 6, ou seja,   que ele se refere a Aristoteles, que "antepde
conhecimento objetivo, com todos os tra-         [. ..] as experihcias sensatas a todos os dis-
qos especificos que ja analisamos, precisa-      cursos". E n i o ha lugar para equivocos
mente porque procede segundo um mCtodo           quando Galileu afirma que "aquilo que a
preciso e exatamente porque determina e          experitncia e o senso nos demonstram deve
fundamenta suas teorias atravis das regras       se antepor a qualquer discurso, mesmo que
que constituem o mCtodo cientifico. E, se-       niio nos parecesse muito bem fundamenta-
gundo Galileu, esse mitodo consiste intei-       do". Entretanto, niio obstante essas limpidas
ramente nas "experitncias sensatas" e nas        declaraqoes n i o s i o raros os casos em que
"demonstraq6es necessarias" . As primeiras,      Galileu parece exatamente antepor o discur-
ou seja, as "experitncias sensatas", siio as     so a experitncia, acentuando a importincia
experiincias efetuadas mediante nossos sen-      das "suposiq6esn em prejuizo das observa-
tidos, isto C, as observaqoes, especialmente     qoes. Assim, por exemplo, em carta de 7 de
as feitas com nossos olhos; as segundas, ou      janeiro de 1639 a J o i o Batista Baliani, ele
seja, as "demonstraqdes necessarias", s i o as   escreve: "Mas, voltando ao meu tratado so-
argumentaqoes nas quais, partindo-se de          bre o movimento, nele eu argument0 ex
uma hipotese (ex suppositione; por exem-         suppositione sobre o movimento, definido
plo, de uma definiqiio fisico-matemitica de      daquela maneira. De modo que, quando as
movimento uniforme), se deduzem rigoro-          conseqiitncias n i o correspondessem aos
samente as conseqiitncias ("eu demonstro         acidentes do movimento natural, pouco me
concludentemente muitos acidentes") que          importaria, da mesma forma que o fato de
depois deveriam se dar na realidade.             niio se encontrar na natureza nenhum mo-
      E da mesma forma como, mediante a          vel que se mova por linhas espirais nada
luneta, Galileu procurou potencializar e aper-   anula das demonstraqdes de Arquimedes".
feiqoar a vista natural, tambim, sobretudo       Eis, portanto, a questio: por um lado, Gali-
em idade mais avanqada, reconheceu que           leu baseia a citncia na experizncia, mas por
Aristoteles, em sua Diale'tica, nos ensina a     outro lado parece precisamente condenar a
sermos "cautelosos para escapar das fala-        experitncia em nome d o "discurso".
218
          Segunda parte - f r e v o l u G ~ o
                                             cie~tifica



                                                          tos a experi2ncia cientifica. A experiencia
                                                          cientifica n i o C pura e simples observaqio
         Experihcia (papel da experih-                    comum. Entre outras coisas, as observaqdes
      cia na pesquisa cientifica). "Entre                 comuns podem ser erradas. E Galileu bem
      as maneiras seguras para chegar a ver-              o sabia; com efeito, ele teve de combater
      dade esta antepor a experihcia a                    durante toda a sua vida contra os fatos e
      qualquer discurso, permanecendo                     observaq6es efetuados a luz (das teorias)
      seguros de que neste, ao menos dis-                 daquilo que ja era senso comum.
      fargadamente, estara contida a fala-
      cia, n l o sendo possivel que urna ex-                    Mas, da mesma forma, a experiEncia
      periencia sensata seja contraria ao                 cientifica n i o pode ser reduzida a urna teo-
      verdadeiro; e este C tambem um pre-                 ria ou a um conjunto de suposiqdes priva-
      ceito estimadissimo por Aristoteles e               das de qualquer contato com a realidade:
      ha muito tempo anteposto ao valor                   Galileu pretendia ser mais fisico que mate-
      e a forsa da autoridade de todos os                 mitico. Com efeito, i assim que ele escreve
      homens do mundo, a qua1 VSa. mes-                   a Belisario Vinta em 7 de maio de 1610, em
      ma admite que n l o devamos credi-                  carta em que procura fixar as condiqdes da
      tar as autoridades de outros, mas de-               sua transferincia para Florenqa: "Finalmen-
      vemos neg6-la a nos mesmos, todas
      as vezes que descobrimos que o sen-                 te, quanto ao titulo e pretext0 do meu ser-
      tido nos mostra o contrario".                       viqo, eu desejaria que, al6m do nome de
      Assim escrevia, entre outras coisas,                Matematico, Sua Alteza acrescentasse o de
      Galileu em 15 de setembro de 1640 a                 Filosofo, professando eu ter usado mais anos
      Fortunio Liceti em Padua.                           em filosofia do que meses em matematica
                                                          pura" . Portanto, "experihcias sensatas" e
                                                          "demonstraqdes necessarias" e niio umas ou
                                                          as outras. Umas e outras, integrando-se e
                                                          corrigindo-se mutuamente, diio origem 5 ex-
                                                          perizncia cientifica, que n i o consiste nem
      Ora, diante dessa situaqio, os interpre-            na nua e passiva observaqio nem na teoria
tes e estudiosos do metodo cientifico toma-               vazia. A experitncia cientifica e' o experi-
ram os caminhos mais diversos. Ha quem                    mento. g
tenha visto nas "experihcias sensatas" e nas
"demonstraqdes necessarias" urna espCcie de
antitese entre expericncia e razio. Ha aque-
les que, sem afirmar tal antitese, sustentam                        mente constr6i
mais sabiamente que, dessa forma, Galileu                       a e x p e r i Z n c i a cientifica
expressa "a plena consciikcia [...I da im-
possibilidade de confusio entre deduqio
matematica e demonstraqio fisica". Ja ou-                       A experihcia cientifica, portanto, e
tros, enfatizando o papel da observaqio,                  experimento cientifico. E, no experimento,
pretenderam dizer que Galileu era indutivis-              a mente n i o 6 de mod0 nenhum passiva.
ta. Ha quem tenha sustentado que Galileu,                 Ao contrario, a mente C ativa: faz suposi-
ao contrario, era um racionalista dedutivista             p5es, extrai rigorosamente suas conseqiign-
que confiava mais nos poderes da razio do                 cias e depois vai comprovar se elas se d i o
que nos da observaqio. E n i o falta quem                 ou n i o na realidade. A mente n i o sofre urna
diga que Galileu, segundo lhe seja mais c6-               experi2ncia cientifica: ela a faz, projetando-
modo, usa sem preconceitos ora o metodo                   a. E a efetua para ver se urna experigncia
indut-o, ora o metodo dedutivo.                           sua 6 verdadeira ou falsa.
      E impossivel nos determos aqui nas                        Portanto, a experihcia cientifica i fei-
discussdes sobre a idCia galileana de meto-               ta de teorias que instituem fatos e de fatos
do cientifico a o longo da ipoca moderna e                que controlam teorias. Existe ai urna inte-
nas controvirsias epistemologicas contem-                 graqio reciproca e urna relaqio mutua de
poriineas. Mas, para os autores destas pa-                correqio e aperfeiqoamento. Na opiniio de
ginas, parece legitimo sustentar que as                   Galileu, Aristoteles teria mudado de opiniiio
"experi2ncias sensatas" e as "necessarias de-             se houvesse visto fatos contrarios as suas
monstraq6es" que se desenvolvem a partir                  proprias idkias. De resto, as teorias (ou su-
de "suposiqdes" s i o dois elementos que se               posiqoes) podem muito bem servir para
implicam reciprocamente, constituindo jun-                mudar ou corrigir teorias cristalizadas, que
Capitdo de'cimo primeiro - 0drama de G a l i l e ~ GI fundaczo da cidncia lnoderna
                                                     e




ninguim ousa p6r em discuss20, mas que           que, A primeira vista, parecia mostrar uma
encapsularam a observag20 em interpreta-         coisa, quando mais bem considerada nos as-
~ 6 einadequadas, criando as$m muitos "fa-
      s                                          segura do contririo". Naturalmente, "aqui-
tos" obstinados mas falsos. E o caso do sis-     lo que a experiincia e o senso nos demons-
tema aristotilico-ptolomaico: antes de           tram" deve ser anteposto "a todo discurso,
Copirnico, ao alvorecer, todos viam o sol        por mais que nos parecesse bem fundamen-
que surgia; depois de Copirnico, ao alvore-      tado". Mas a expericncia sensata i fruto de
cer, a teoria heliochtrica nos faz ver a terra   experiment0 programado, i tentativa de
que se abaixa.                                   forgar a natureza a responder i s nossas per-
                                                 guntas.




      derende dcls teoricls

       Eis, sucintamente, outro exemplo de
como uma teoria ode fazer mudar a inter-
~retac2o    observadora dos fatos. Nos Dis-
cursos, respondendo as objeq6es de nature-
za empirica a lei pela qua1 a velocidade do
movimento naturalmente acelerado deve
crescer proporcionalmente ao tempo, Sa-
gredo afirma: "Essa i uma dificuldade que,
no principio, tambCm me deu o que pensar,
mas n5o muito depois a removi; e o que a
removeu foi o resultado da pr6pria experi-
h c i a que presentemente essa dificuldade
suscita para vos. Dizeis parecer-vos que a
experihcia mostra que, t20 logo parte da
quietude, o pesado entra em uma velocida-
de muito notivel. E eu digo que essa mesma
experihcia nos esclarece que os primeiros
impetos do objeto cadente, por mais pesa-
do que seja, s2o lentissimos e retardadis-
simos".
       E a discuss20 se conclui do seguinte
modo: "Vede agora quanto C grande a for-
$a da verdade, pois a mesma experihcia
Segunda parte -      revoI~.r~do
                                      ciefltifica


                                                            Mas o aue em muito sunera toda maravl-
                                                     Iha, e que prkpalmente no; Ievou a informar
                                                     todos os astr6nomos e hlosofos, h a nossa des-
                                                     coberta de quatro estrelas errantes, ndo conhe-
                                                     cidas nem observadas nor nenhum outro antes
                                                     de nos, as quais, corno V&nus e Mercljrio ao
0 0 telesc6pio                                       redor do sol, efetuam suas rota@es per~odicas
                                                     ao redor de um dos maiores planetasj6 conhe-
      na revolu~Bocrstron6mica                       cidos; e a este ora precedem, ora seguem, sem
                                                     iama~s afastar dele para alhm de determi-
                                                              se
                                                     nados limites. Tais coisak foram por mim desco-
       Sidereus Nuncius: Golilsu onuncio com         bertas e observadas recentemente, mediante
 ssfo obra, publicoda em Vsnszo sm 16 10,            uma luneta que excogitei, depo~s ter sido
                                                                                          de
 suas rsvoluciontrrios dsscobartas astronbmi-        iluminado pela gra<a divina.
 cas; dsscobsrtas sf~tuodos maio ds urn
                             por                            No futuro, com o emprego de tal instru-
 novo instrumanto, o tslssc6pio.                     mento, por mim ou por outros serdo realizadas
                                                     ulteriores descobertas, talvez tambhm de
       Nesta breve tratagdo apresento coisas im-     maior importdnc~a; sua forma e estrutura,
                                                                          de
portantes, que devem ser consideradas e aten-        como tambhm de sua ~nvengdo,       falarei agora
tamenta avaliadas por todos os que estudam           brevemente, antes de passar ao relato de mi-
a natureza.Coisas importantes, repito tanto pela     nhas observagdes.
superioridadeda propria mathria, como por sua               H6 cerca de dez meses chegou a nossos
efetiva novidade, como por fim pelo instruman-       ouvldos noticia de que um flamengo havia cons-
to com qua se manifestararn a nossos sentidos.       truido uma lente, com a qua1 os objetos visi-
       Sem dljvida 6 importante conseguir acres-     veis, mesmo que um tanto distantes do olho do
centar inumeraveis outros astros b grandiosa         observador, se percebiam distintamente como
multiddo das estrelas fixas, que at6 hoje pu-        se estivessem proximos; e deste foto, verda-
derarn ser percebidas com as faculdades natu-        deiramente admir6veI, c~rculavam    diversos tes-
rais, e tornb-10s claros aos olhos, enquanto an-     temunhos, aos quais alguns davam fi: e outros
tes nunca tinham sido vistos, salientando por        ndo. R mesma coisa me foi conf~rmado      poucos
outro lado que seu nljmero 6 mais de dez ve-         dias depois pel0 gent11franc&s Jacques Ba-
zes maior do que o das estrelas j6 conhecidas.       doudre, o que me impeliu a me dedicar inteira-
       Bela e interessante & tambhm a superfi-       mente ao exame clas causas e ao estudo dos
cie lunar, distante de nos cerca de sessenta raios   meios para chegar 6 inven~do tal instrumen-
                                                                                     de
terrestres, e que pode ser observada tdo da          to. Rtingi este fim pouco depois, baseando-me
perto, como se distasse apenas duas de tais          sobre a doutrina das refra@es. E primer0 lu-
                                                                                        m
distdncias; onde o didmetro do propria lua apa-      gar, providenciei um tubo de chumbo, aplican-
rece aumentado cerca de 30 vezes, sua super-         do em suas extremidades duas lentes de vidro
ficie cerca de 900, e seu volume aproxlmativa-       de ooculos, ambas com uma face plana e com
mente 27.000 vezes, em rsla<do a quanto se           a outra esfericamente c6ncava na pr~me~ra    Ien-
vi: com o mero auxilio do capacidade visual: do      te e convexa no segunda; entdo, encostando o
que, dapois, coda urn est6 em grou de apurar,        olho no lente c6ncava, percebi as objetos bas-
com a certeza dos proprios sentidos, que a lua       tante grandes e proximos, pois apareciam tr&s
ndo 6 de fato revestida de uma superficie lisa       vezes mais pr6ximos e nove vezes maiores do
e Iljcida, mas aparece rugosa e desigual, sen-       que se apresentavam olhados apenas com a
do, como a terra, recoberta em toda parte de         visdo natural. E seguida apronte~
                                                                       m                    outro mais
not6veis relevos, ab~smos     profundos e anfrac-     precis0 e que aumentava os objetos mais de
tuosidadas.                                          sessenta vezes. No fim, ndo poupando fad~ga
       Ndo parece, al8m disso, coisa de pouca        nem despesa, consegul construir um instrumen-
monta ter resolv~doas controvhrsias sobre a           to tdo extraordin6rio que as coisas vistas por
Gol6xia ou Via-16ctea e ter mostrado sua ver-         meio dele pareclam quase mil vezes maiores e
dadeira natureza a nossos sentidos, alhm de           trinta vezes mais proximas do que se observa-
para o intelecto; como ser6 colsa interessan-        das apenas a olho nu. Totalmente sup&rfluo
te e beliss~matambhm mostrar diretamente              seria dizer qudo mumerosas e conspicuas se-
que os corpos estelares, denominados at6             jam as vantagens deste instrumento, tanto no
hoje por todos os astr6nomos Nebulosas, sdo           terra como no mar. Mas eu, dsixando as coisas
bastante diversos do que foram comumente con-        terrenas, me dirigi 6 contemplagdo das celes-
s~derados.                                            tes; e, em primeiro lugar, olhei a lua t60 de
Capitdo de'cimo prirneiro - O drama de Galileu e a fi.tnda+o da ciEncia moderna

perto, como se distasse apenas do~s     raos ter-     temos mais apenas um planeta que giro ao re-
restres. Depois, com incrivel alegria do espirito,    dor de outro, enquanto ambos percorrem o gran-
observei repetidamente as estrelas, tanto as          de orbe ao redor do sol; mas nossos sentidos
f~xas, como as errantes; e, percebendo-as tdo         nos mostram bem quatro estrelas que, como a
densas, comecel a pensar o modo de poder              lua ao redor da terra, giram ao redor de Jljp~ter,
medir suas distbncias, o que por fim descobri.        enquanto todos juntos com Jljpiter percorrem o
Todos aquelss que pretendem proceder a ob-            grande orbe ao redor do sol no espqo de doze
serva~6ss tal tipo, convbm que sejam previ-
             de                                       anos. Por fim, ndo deve ser transcurado o fato
amente advertidos dlsto. E prlmelro lugar, com
                            m                         por qua1 motivo aconteca que os Astros Medi-
efeito, ales devem providenciar uma otima lu-         ceus, enquanto sfetuam rota~des      muito proxi-
neta, que mostre os objetos bem claros, distin-       mas ao redor de Jljpiter, parscem por vezes
tos e em nada embacados, mas os engrande-             maiores do que o dobro. Ndo se pode absolu-
<a ao menos quatrocentas vezss. fazsndo-os            tamante procurar a causa disso nos vapores
aparecer vinte vezes mais proximos; se o instru-      celestes, dado que eles resultam maores ou
mento ndo for tal, em vdo se procuror6 descor-        menores sem que as dimensdes de Jljpiter s
tlnar todas as coisas por nos percebldas no c&u.      das fixas proximas aparepm contempora-
das quais em breve falaremos.                         neamente em nada alteradas. Nem parece cri-
       Tais 560 as observa~6es   sobre os quatro      vel qua tal mudan~a   dependa de suas diversas
Planetas Mediceus, por mim recentemente e em          distbnc~as terra no perigeu e no apogeu das
                                                                  da
primeiro lugar descobertos; e, embora ndo seja        rotaq3es por eles realizadas, ndo podendo uma
ainda possivel deles conseguir a dura@o de            rota<do circular estrita produzir qualquer efeito
seus periodos, podemos todav~a      tornar conhe-     do g&nero;e nem mesmo um mov~mento        eliptico
cidas algumas coisas dignas de atencdo. E        m    (que neste caso seria quase reto) parece con-
prime~ro   lugar, pelo fato de ora seguir e ora       cebivel, mas at& contrario 6s apar&ncias [...].
preceder Jljpiter com tais intervalos s uma vez       0 s limites de tempo me impedem de proceder
que se afastam deste tanto para orients como          al6m; mas destas coisas o sereno leitor espere
para ocidente com reduzidissimos alongamen-           em breve uma trata~do     mais longa.
tos, acompanhando-o tanto no mov~mento          re-                                          G. Galilei,
trogrado, quanto, igualmente, no d~rig~do,     nln-                                   S i d ~ r ~ Nuncius.
                                                                                                  us
gu&m pode duvidar que eles girem a0 redor de
Jupiter, enquanto todos juntos realizam seus
periodos de doze anos ao redor do centro do
mundo. RI&mdisso, giram sobre circulos de ralo
diferente, isto 6 , que facilmente se deduz do
fato de que aos mchmos alongamsntos de
Jljp~ter jamais se puderam ver dois planetas                  Nssto corto enviodo srn 2 1 ds dszsrn-
unidos juntos, enquanto, ao contrbrio, em pro-         bro ds 16 13 o seu discl;oulo dorn Bsnedstto
ximidade de Jupiter foram perceb~dos     bem pro-      Costslli - Isitor ds motorndtica no EstOdio ds
ximos dois, tr&s s por vezes todos os quatro.          P~so, Golileu ssclorsca o rslogdo que els
                                                             -
 Igualmente, salientamos que as rota@es dos            v& sntrs ci&ncio s Fd. "Eu creria qua o outorL
planetas que descrevem circulos menores ao             dode dos Sogrodos lstros tivssse tido om
redor de Jupiter sdo os mais velozes: com efei-        rnira sornsnts persuodir os hornens doqus-
to, as estrelas mais proximas de Jljpiter 560          Iss ortigos a proposig6ss. qua, sando neces-
percebidas bastante frequentemente a onen-             sdrios para suo solvogdo s suparondo todo
te, tendo no dia anterior aparecido a ocidente,        discurso hurnano, ndo podiorn por outro ci&n-
e vice-versa, enquanto o planeta que procede           c/o nsrn por outro rnsio so tornar cri'vsis, o
ao longo do orbe mais amplo, contanto qua se           ndo ser palo boco do intsiro Espi'rito Sonto".
atente para suas voltas, p a r a s ter um ciclo de            Mais tarde, srn 16 15, srn urno iguol-
 meio m&s. Temos igualmente um excelente e             rnsnts fornoso corto d ssnhora Cristino ds
clarissimo argumento para aliviar de qualquer          lorsno, Golileu sustsntard quo "6a intsngdo
dljvida a todos os que, embora admitindo sem           do Espirito Sonto [. . .] snsinor como se voi oo
dificuldade no sistema copernicano a rotasdo           cdu, s ndo corno voi o cdu [...I".
 dos planetas ao redor do sol, ficam totalmente
 perplexes a respeito da ljnica rotacdo lunar ao
 redor da terra, enquanto esta e a lua percor-            Mui Reverend0 Padre e Senhor meu
 rem o orbe anual ao redor do sol, de modo a          Observantissimo,
 concluir que tal estrutura do cosmo deva ser             Ontem veio a meu encontro o Sr. Nicolau
 reje~tada  como impossivel: ora, com efeito, ndo     Rrnghett~,que me trouxs informa@es de V.
Segunda parte - P r e v o I u G ~ o
                                           cieotificn



Revma.,em que tive infinito prazer ao ouvir aqui-       pendimento, o odio, e por vezes at& o esqueci-
lo de que eu de modo nenhum duvidava, isto              mento das coisas passadas e a ignor6ncia das
6, do g r a d e satisfqdo que V. Revma. dava a          futuras. De onde, assim como na Escritura se
todo este Estudio, tanto para seus superinten-          encontram multas proposigdas que, quanto a0
dentes quanto para os proprios leitores e aos           sentido nu das palavras, t&m aspecto diverso
estudiosos de todas as na@ss; o aplauso de-             do verdade~ro     mas sdo postas desse modo b
Ies ndo tinha contra o senhor acrescido o nir-          guisa de se acornodor 2.1 incapacidads do vul-
mero dos &mulos, como costuma acontecer en-             go, tambQm para os poucos que merecam ser
tre aqueles que sdo de pr6t1ca    semelhante, mas       separados da plebe & necessdrio qua os s6bi-
bem depressa o restringira a pouquissimos; e            os expositores produzam os verdadeiros senti-
estes poucos deverdo a~nda aquietar, se ndo
                                se                      dos, e acrescentem a isso as razdes particula-
quiserem que tal emula@o, que costuma ainda             res pslas quais tenham s~do   proferidas sob tais
por vezes merecer o titulo de virtude, degenere         palavras.
e muds o nome para afeto censur6vel e preju-                    Portanto, sendo que a Escritura em multos
dicial finalmente mais aos que com ele se ves-          lugares & ndo somente capaz, mas necessarla-
tem do que a nenhum outro.                              mente carente de exposi~des     diversas do apa-
        Mas o selo de todo o meu gosto foi o de         rente significado das palavras, parece-me que
ouvi-lo contar os raciocinios que V Revma. teve
                                     .                  nas disputas naturais ela dsveria ser resew-
ocasido, merc& da sumo benignidode destas               do para o irltimo lugar: porque procedendo
Rltezas Serenissimas, de promover b mesa de-            igualmente do Verbo divino a Escritura Sagrada
Ies e de continuar depois no aposento da se-            e a natureza, aquela como ditada pelo Espir~to
nhora Serenissima, presentes tamb6m o Grdo-             Santo, e esta como fideliss~ma     executora das
Duque e a Serenissima Rrquiduquesa, e os                ordens de Deus; e sendo, mais a~nda,       conve-
ilustrissimos e excalentissimos Senhores D. Rn-         n i e n t ~ Escrituras, para acomodar-seao en-
                                                                  nos
t8nio e D. Paulo Giordano e alguns dos mui              tendimento do universal, dizer muitas colsas di-
excelentes Filosofos. E que maior favor pods V    .     versos, no aspecto e quanto ao s~gn~ficado   dos
Revma. desejar, sendo o ver Suas Altezas mes-           palavras, do verdadeiro absoluto; mas, a0 con-
mas experimentarem satisfqdo de d~scorrer      con-     trbrio, sendo a natureza inexor6vel e imut6vel
sigo, de promover-lhedljvidas, de ouvir sum so-         e de nada cuidando a n6o ser de suas rec6ndi-
 lu@es, e finalmente de permanecer sastifeitas          tas razdes e modos de operar por bem ou por
com as respostas de Vossa Paternidode?                  mal, expostos b capacidade dos homens, pelo
        0 s particulares que V. Revma. disse, refe-     fato de ela jamais transgred~r termos das
                                                                                          os
ridos a mim pelo Sr. Arrighetti, deram-me oca-          le~s eta impostas; parece que o que diz res-
                                                              a
sido de voltar a consideror algumas coisas em           peito 00s efeitos naturais que a sensata expe-
geral a respeito de Ievar a Escritura Sagrada           ri&ncia nos pde diante dos olhos ou as ne-
em disputas de conclus6es naturais, e algumas           cess6rias demonstra@es nos concluem, n6o
outras, em particular sobre o lugar de JosuC,           deve de modo algum ser revogado como duvi-
que Ihe foi proposto, em contradi<do da mobi-           doso por passagens do Escritura que tivessem
 lidade da terra e estabilidade do sol, pela Grd-       nas palavras semblante diverso, pois nem todo
Duquesa Mde, corn alguma r6plica do Sere-               dito da Escritura est6 ligado a obrigaq3es t60
nissima Rrquiduquesa.                                   severas corno todo efeito de natureza.
        Quanto b primeira pergunta gen6rica da                  Ro contr6ri0, se apenas por este respei-
senhora Serenissima, parece-me que pruden-              to, de acomodar-se 2.1 capacidade dos povos
 tlssimamente fosse proposto por ela e conce-           rudes e ind~sciplinados, Escritura ndo se abs-
                                                                                  a
dido e estabelecido por V. Revma., ndo poder            teve de sombrear seus dogmas fundamenta~s,
jamais a Escritura Sagrada mentir ou error, mas         at& atribuindo ao proprio Deus condi@es afas-
 serem seus decretos de absoluta e invioldvel           tadissimas e contr6rias b sua ess&ncia, quem
verdade. Eu apenas teria acrescentado que,              ir6 querer sustentar de modo asseverativo que
 embora a Escritura ndo possa error, por vezes          ela, ao falar ainda que incidentalmente de ter-
 poderia errar algum de seus intbrpretes e ex-          ra ou de sol ou de outra criatura, tenha escolhi-
 p o s i t o r ~de v6rios modos: entre eles um se-
                ~,                                      do conter-se com todo rlgor dentro dos limita-
ria gravissimo e freqijentissimo, quando quises-        dos e restritos significados das palavras? E
sem parar sempre no puro significado das                principalmente pronunciando destas criaturas
palavras, porque assim apareceriam ndo so di-           coisas muitissimo distantes do instituto prim6
versas contradi@es, mas tamb6m graves here-             rio destas Sagradas letras, ou melhor, corsas
sias s at6 blasf&mias; pois seria necessario dar        tais que, ditas e Ievadas com verdade nua e
a Deus pbs e mdos e olhos, sem falar dos afe-           crua, teriam mais depressa danificado a inten-
tos corporais e humanos, como a ira, o arre-            560 primeira, tornando o vulgo mais contumaz
Capitdo de'cimo prirneiro - O d r a m a d e Galileu e a funda+o da   ci&ncia moderna



6s psrsuasaes a respato dos artlgos referen-       tas. Todavia, se os primeiros escritores sacros
tes b salva~6o.                                    tivessem como pemamento proprio persuadir
       lsto posto, e sendo ainda manifesto que     o povo das disposi$3es e mov~mentos cor-dos
duas verdades jamais podem se contradizer, b       pos celestes, ndo teriam tratado tdo pouco dis-
oHcio dos s6b1os    expositores afadigar-se para   so, que 6 como nada em compara~do        cam as
encontrar os verdadeiros sentidos dos textos       infinitas conclusdes altissimas e admir6veis que
sagrados, de acordo com as conclusdes naturais     estdo contidas em tal ci&ncia.
das quais antes o sentido manifesto ou as de-             Veja, portanto, V Revma. o quanto, se n6o
                                                                           .
monstrag6es necess6rias nos tivessem tornado       estou errado, desordenadamente procedem os
certos e saguros. Ou rnelhor, sendo, como eu       clue nos disputas naturais, e que diretarnente
disse, que as Escr~turas,   embora ditadas pelo    ndo sBo de Fide, na primeira frente constituem
Espirito Santo, pelos aduzidas razdes admitem      passagens da Escriturcl, e com frequ&ncia pes-
em muitos lugares exposi~aes    distantes do tom   simamente entendidas por eles. Contudo, se
literal e, albm do mais, n6o podendo nQ com cer-   esses tas verdadeiramente cr6em ter o verda-
teza asserir que todos os intbrpretes falem ins-   deiro sentido daquela particular passagem da
pirados divinamente, eu creio que fosse pru-       Escritura, e por conseguinte se mant&m segu-
dentemente feito que n6o se permit~sse algubm
                                        a          ros de ter em mdo a absoluta verdade do ques-
empenhar os lugares da Escritura e obrig6-10s      tdo que pretendem disputar, digam-me em se-
de certo modo a tar de sustentar como verda-       guida ingenuamente, se consideram grand@
deiras algumas conclus6es naturais, das quais      vantagem ter aquele que em uma disputa no-
o sentido e as razdes demonstrativas e neces-      tural acha-se a sustentar o verdadeiro, vanta-
s6rias nos pudessem manifestor o contr6rio.        gem, digo, sobre o outro a quem toca sustentar
       E quem quer p6r termo aos engenhos hu-      o falso? Sei que me responder60 que sim, e
manos? Quem desejar6 asserir que j6 & sabi-        que aquele que sustsnta a parte vsrdadelra
do tudo o que d cognoscivel no mundo? E, por       poder6 ter mil experi&ncias e mil demonstra-
isso, albm dos artigos referentes B salva<6oe      @as necess6rias para a sua parte, e qua o outro
ao estabelecimento da fb, contra a firmeza dos     ndo pode ter sen60 sofismas, paralogismos e
quais ndo h6 perigo nenhum de que jama~s           fal6cias. Mas, se ales, mantendo-sedentro de
possa insurgir alguma doutrina v6lida e eficaz,    termos naturals nem produzindo outras armas
seria otimo talvez ndo acrescentar outros sem      a n6o ser as filosoficas, sabem ser tdo superio-
necessidade: e, se assim 6, quanto maior de-       res ao advers6ri0, por que, ao vir depois ao
sordem serla acrsscentd-los a pedido de pes-       congresso, trazem na mdo uma arma inevtthvel
soas que, albm do fato de ignorarmos se falam      e tremenda, que so ao v&-laaterroriza todo mais
insp~radas virtude celeste, claramente ve-
              por                                  h6bil e esperto campedo? Todavia, se devo di-
mos que sdo inte~raments     desprovidas daque-    zer a verdade, creio que eles sejam os primei-
la intelig6ncia que seria necess6ria n6o direi     ros apavorados, e qua, sentindo-se in6bsis a
para redarguir, mas para compreender as de-        poder estar fortes contra os assaltos do adver-
monstragdes com as quais as agudissimas cl&n-      s6ri0, tentem encontrar um modo de n6o o dei-
cias procedem para confirmar algumas conclu-       xar se aproximar. Mas visto que, como acabei
sass suas?                                         de dizer, aquele que tem de seu lado a parte
       Eu creria que a autoridade das Sagradas     verdadeira, tem grande vantagem, ou melhor,
letras twesse tido apenas a intengdo de per-       grandissima, sobre o advers6ri0, e porque b
suadir sobre os homens os artigos e proposi-       impossivel que duas verdades se contradigam,
g6es que, sendo necess6rios para sua salvo-        porbm n6o devemos temer assaltos que sejam
g6o s superando todo discurso humano, n6o          fertos por quem quer que seja, contanto qua
podiam por outra ci6ncia nem por outro meio        nos d&em oportunidade para falar e ser ouvi-
tornar-se criveis, a n6o ser pel0 boca do pro-     dos por pessoas compreenslvas e n6o opressi-
prlo Espirito Santo. Mas que aquele mesmo          vamente alteradas pelas proprias paixaes e
Deus que nos dotou de sentidos, de discurso e      interesses.
de ~ntelecto,   tenha desejado, pospondo o uso            Como confirmagdo disso, vou agora con-
destes, dar-nos com outro meio as noticias que     siderar o lugar particular de Josub, pelo qua1 V.
podemos conseguir por aqueles, n6o penso ser       Revma. fez a suas Rltezas Serenissimas tr&s
necess6rio crer nisso, e principalmente naque-     declarac$%s; e tomo a terceira, que V. Revma.
 las ci&nc~as quais apenas minima particula
               das                                 fez como minha, como verdadeiramente 6, e a
e em conclusdes divrdidas podemos I&-las na        ela acrescento alguma cons~dsra@o mats, que
                                                                                        a
Escrrtura: corno, justamente, a astronomia, da     n6o creio tar-lhe dito outra vez.
qua1 h6 tdo pequena parte, que ai ndo se en-              Posto e concedido por enquanto a0 ad-
contram denominados nem mesmo os plane-            vers6rio que as palavras do texto sagrado ds-
Segunda parte - j   revolm+o   cientffica



vam ser tomadas exatamente no sentido com                   Sendo, portanto, absolutamente ~rnpossi-
que soam, isto 6, que Dews a pedido de Josu&         vel no constitui$dode Ptolomeu e de Rristoteles
fizesse parar o sol e prolongasseo dia, de modo      parar o movimento do sol e alongar o dia, assim
que ele conseguiu a vitbria; mas, requerendo         como afirma a Escritura ter acontec~do, sntdo 6
eu ainda que a mesma coisa valha para mim,           preciso que os movimentos ndo sejam ordena-
de mod0 que o advers6rio ndo presuma pren-           dos como quer Ptolomeu, ou 6 preciso alterar o
der-me e deixar-se livre quanto a poder alte-        sentido das palavras, e dizer qua quando a
rclr ou mudar os significados das palavras; digo     Escritura diz qua Dews parou o sol, queria dizer
que esta passagem nos mostra manifestamen-           que parou o primelro movel, masque, para aco-
te a falsidade e impossibilidade do mundano          modar-seb capacidade daqueles qua sdo com
sistema aristot&lico e ptolemaico, e, ao con-        fadiga id6neos a entender o nascer e o par-
tr6ri0, se acomoda muito bem com o coper-            do-sol, ela dissesse ao contrbrio daquilo que
nicano.                                              teria dito falando a hornens sensatos.
       Em primeiro lugar, pergunto ao advers6-              Rcrsscentemosa isso que ndo 6 crivel que
rio se ele sabe corn quais movlmentos o sol se       Deus parasse apenas o sol, deixando correr as
move? Se eel o sobs, & preciso que responda          outras esferas; porque sem necessidade nenhu-
o mover-secom dois movimentos, ou seja, o mo-        ma teria alterado e permutodo toda a ordem,
vimento anual do poente para o levante, e do         os aspectos e as disposi@es das outras estre-
diurno 00 oposto, do Ievante para o poente.          las em relagdo ao sol, e grandemente pertur-
       Rgora, em segundo lugar, Ihe pergunto se      bado todo o curso da natureza: mas 6 crivel
estes dois movimentos, tdo diversos e quase          que ele parasse todo o sistema das esferas
contrdrios entre si, compstem ao sol e 560 igual-    celestes, as quais, depols daquele tempo do
mente seus propnos? E preciso responder que          repouso Interposto, retornassem concordemente
ndo, mas que um so & proprio e particular dele,      a suas opsra$bes sem qualquer confusdo ou
isto 6, anual, e o outro ndo & de fato seu,
         o                                           alteragdo.
mas do c&u altissimo, digo, do primeiro mdvel,              Mas, uma vez que j concordamos que
                                                                                6
o qua1 rapta consigo o sol e os outros planetas      ndo se deve alterar o sentido das palavras do
sainda a esfera estrelada, obrigando-os a fa-        texto, & necess6rio recorrer a outra constituigdo
zer uma conversdo ao redor da terra em 24            das partes do mundo, e ver se conforme a ela
horas, com movimento, conforme disse, quase          o sentimento nu das palavras caminha reta-
contrdrio ao seu natural e proprio.                  mente e sem tropeso, como verdadeiramente
       Vou para a terceira interrogagdo, e Ihe       se percebe ocorrer.
pergunto com qua1 desses dois movimentos o                  Tendo eu portanto descoberto, e neces-
sol produz o dia e a noite, isto 6, se com o sev     sariamente demonstrado, o globo do sol revol-
proprio ou entdo com o do primelro movel? E          ver-se em si mssmo, fazendo uma inteira con-
preciso responder que o dia e a noite sdo efel-      versdo em aproximadamenteum m&s lunar, para
 tos do movimento do primeiro movel, e que           aquele lado justamente que se fazam todas as
do movimento proprio do sol dependem ndo             outras conversbes celestes; e sendo, albm dis-
o dia e a noite, mas as estagbes dlversas e o        so, muito prov6vel e razo6vel que o sol, corno
 proprio ano.                                         instrumento e ministro mdximo da natureza,
       Ora, se o dia dspende ndo do movimen-         como que o coragdo do mundo, d& ndo somen-
 to do sol, mas do do primeiro movel, quem ndo        te, como claramente d6, luz, mas ainda o movl-
v& que para prolongar o dia & preciso parar o         mento a todos os planetas que giram ao redor
primeiro m6vel, e ndo o sol? Ou melhor, quem         de si; se, conformed posi@o de Cop&rnico, atri-
 haverd que entenda estes primeiros elementos        buirmos a terra principalmente a conversBo diur-
 de astronomia e ndo saiba que, se Deus tives-       no; quem ndo v& que para parar todo o siste-
 se parado o movimento do sol, em vez de pro-         ma, e portanto, sem alterar o restante das
 longar o dia ele o teria reduzido e tornado mais     mut6veis relagbes dos planetas, apenas se pro-
 breve? Pois, sendo o movimento do sol ao con-        longassem o espago e o tempo da iluminagdo
 tr6rio da conversdo diurna, quanto mais o sol       diurna, bastou que fosse parado o sol, como
 se movesse para o oriente, tanto mais serla         justamente soam as palovras do texto sagra-
 retardado seu percurso para o oc~dente, di- e        do? Eis, entdo, o movimento segundo o qual,
 minuindo-se ou anulando-se o movimento do            sem introduzir confusdo alguma entre as partes
 sol, em mais breve tempo alcangarla o ocaso:         do mundo e sem altera<Bo das palavras da
 tal acidente sensatamente se v& na lua, que          Escritura, se pode, com o parar do sol, olongar
 faz suas conversdes diurnas tanto mais tarda        o dia no terra.
 do que as do sol, quanto seu movimento pro-                Escrevi multo mais do que comportam mi-
 prio & mais veloz que o do sol.                      nhas indlsposigbes: termino, porbm, oferecen-
229 :+51i
    Capitdo dbcimo primeiro        - 8drama de Galileu e a fundaG2ioda cigncia moderna

do-me como servidor, e Ihe beijo as mbos, de-            riam; contudo, sua singular cortesia ndo me per-
sejando-lheas boas festas de Nosso Senhor e              mitiu podsr usar maiores.
toda felic~dada.                                                Estou grato de ouvir que V. So. Exma.,junto
                                    G. Galilei,          corn muitos outros, asslm como me diz a carta,
                     Corto o dom Bened~tto ell^
                                             cost        tenha-me como avesso 21 filosofia peripat6tica.
                                (escrita de Fl o r ~ n p porque isto me dd ocasido cle libertar-me de
                   no dia 21 de dezembro de 1613)        tal conotacdo (pois assim a considero) e de
                                                         mostrar como eu internamente sou admirador
                                                         de urn homem do ports de Arist6tsles. Conten-
                                                         tar-me-ei bem nesta estreiteza de tempo de
                                                         acenar com brevidade aquilo qus penso, com
                                                         mais tempo, poder mais largo e manifestamen-
                                                         te declarar e confirmar.
         0rnCtodo cientifico: "Entre os seguros                 Considero (e creio que V. So. ainda consi-
  rnonairosporo olconpr o verdode esM o on-              dere) que ser verdadeiramente peripathtico, isto
  tepor o experi6ncio o quolquer discurso, es-           6, filosofo aristot&ltco, consista principalmente
  tondo seguros de que nele, oo rnenos de                em filosofar conforme os ensinamentos aristo-
  rnodo encoberto, esM cont~do Foldcio, ndo
                                   o                     thl~cos, procedsndo com os m6todos e as ver-
  sendo possivel qua urno sensoto axps-                  dade~ras   suposi@es e principios sobre os quais
  ri&nciosejo contririo oo verdodairo [. ..]. Es-        se fundamenta o discurso cientifico, supondo as
  tou saguro de que, se Rristoteles voltosse             noticias gerais cujo desvio seria grandissimo
  oo rnundo, ele me raceberio antre seus se-             defeito. Entre essas suposi@es est6 tudo aquilo
              .I.
  guidores [. . E quondo Rristoteles visa os             que Aristoteles nos ensina em sua Dialhtica,
  novidodes descobertos otuolrnsnte no cCu,              atinente a nos tornar cautos em fugir das fa16
  que GIG   ofirrnou ser ~nolterivel irnutivel,
                                       e                 cias do discurso, enderecando-o e adsstrando-
  porqua nenhurno alterogio Foro otC entdo               o a bem silogizar e deduzir das concessbes pre-
  visto, indubitovelrnente ale, rnudando de              missas a necessdria conclusdo; e tal doutrina
  opinido, dirio ogoro o contrdrio; pois bern se         se refere 21 forma do retamente argumentar.
  deduz qua, enquonto nos diz que o ctu C                Quanto a esta parte, creio ter aprendido pelos
  inoltardvel, 6 porque ndo Foro visto oltero-           inumerdveis progressos matem6ticos puros, ja-
  @o, rnos ogoro dlrio que Q olter6ve1, porqua           mais falozes, to1 seguranco no demonstrar, que,
  o i se percebern olterogbss".                          sendo jamais, ao menos rarisslmas vezes eu
                                                         tenha em minha argumentacbo caido em equi-
                                                         vocos. Rt6 aqui, portanto, sou peripat6tico.
                                                                Entre as mansiras seguras para alcanpr
       A Fortljnio l~ceti Pddua
                         em                              a verdade estb o antepor a experi&ncia a qual-
                                                         quer discurso, estando seguros de que nele,
       Mui llustre e Excelentissimo Senhor               ao menos de modo encoberto, estd contida a
       A gratiss~ma  carta da V. Sa. mui llustre e falbcia, ndo sendo possivel que urna ssnsata
Exma. do 7 ljltimo, cheia de termos corteses e experi6ncia seja contrdria ao verdadeiro: este
afetuosissimos, foi-me entregue hoje; e ndo 6 tambhm um preceito muito apreciado por
tendo eu outro tempo para responder-lhemais Aristoteles e cons~deravelmsnte                  anteposto ao
que poucas horas que restam at6 a noite, para valor e 21 forca da autoridade de todos os ho-
ndo diferir a resposta uma semana a mais, pro- mens do mundo, a qua1 V. Sa. masma admite
cur0 satisfazer esta obriga~do,   embora sucinta- que nbo so nbo devemos ceder 2s autoridadss1
mente, por6m com palavras puros e simples.               de outros, mas devemos negd-la a nos mes-
       Ro que V. Sa. Exma.junto comigo grande- mos, todas as vezes virmos que o sentido nos
mente deseja, isto 6, que em disputas de ci&n- mostre o contrdrio. Ora, aqui, Exmo. Sr., seja
cia sejam observados os mais corteses e mo- dito com boa poz para V. Sa., parace-me ser
destos termos que em mathria tdo veneranda, julgado contrariamente ao filosofar peripathtico
como a sagrada filosofia, conv&m, dou-lhe a por aqueles que sinistramente se servem do
palavra de que n6o me separo sequer um dedo suprad~to                preceito, purissimo e segurissimo, isto
de seu ing&nuo e honroso estilo: motivo pelo 6, que querem que o bem filosofar seja rece-
qua1 usarei os mesmos titulos, atributos e enc6- ber e sustentar toda proposi~do              dita a escrita
mios de honra para com sua pessoa, qua V. Sa. por Rristoteles, a cuja autoridade absoluta se
empregou humanomentepara comigo, embora submetem, e para cuja manutenc60 se induzem
[convenham] muito mats a0 senhor do que a a negar experi&ncias sensatas ou a dar estra-
mim, e de modo muito mais excelente convi- nhas Intsrpretac6es aos textos de Rristoteles,
Segunda parte - A   revoIu+o   cientifica



por declara<do e limitqdo dos quais mui fre-         nha, a ndo ser enquanto com menor t&dio do
qijantemente fariam com que o mesmo f~losofo         leitor eu poderia exprimir rneus sentidos; po-
dissesse outras coisas n60 menos extravagan-         r&m, minha dureza natural ao manifestar-mefaz
tes e seguramente distantes de sua imagina-          qua por vezes permito-metransbordar onde ndo
$60. Ndo repugna qua um grande artifice tenha        desejaria: al6m do mais, seja por nossa con-
segurissimos e perfeitissimos preceitos em sua       corde filosofia e amig6vel liberdade licito agra-
arts, e que por vezes ao operar erre em algum        davelmente d~zer,  quando o senhor comparas-
particular; corno, por exemplo, que um music0        se a multiplicidade e sxtensdo das oposi(6es
ou pintor, possuindo os verdadeiros preceitos        qus o senhor faz 6 minho h i c a proposi<dodo
do arts, cometa na pratica alguma dissondncia,       candor lunar, trqada em pouquissimos versos,
ou inadvertidamente algum erro na perspecti-         comparasse digo, com a extensdo de minhas
va. Eu, portanto, por saber que tais artifices n60   respostas, talvez o senhor ndo encontraria a
so possuiam os verdadeiros preceitos, mas eles       propor<do de seus ditos com os meus rnenor
proprios foram seus inventores, vendo olguma         que a propor<dodos versos de minha carta com
falta em alguma de suas obras, devo aceitar          os versos que suas inst6ncias contern. Mas es-
isso como bem feito e digno de ser sustentado        tas sdo questiunculas que nao devem ser to-
e imitado, em virtude da autoridads deles? Rqui      madas ssndo como brincadeira.
de fato ndo prestarei meu assentimento. Que-               Muito me agrada que V. So. aplauda meu
ro acrescentar por ora apenas isto: qua eu me        pensamento de reduzir em outra textura minhas
sinto seguro de que, se Rristoteles voltasse ao      respostas, enviando-as a V. So. mesmo; antdo
mundo, ele me receberia entre seus seguido-          terei ocasido de ndo me deixar vencer no uso
res, por causa de minhas poucas contradi@es,         de termos de rever&nciaao seu nome, ernbora
mas bem concludentes, muito mais que muitis-         eu esteja certo de dever ter s~do muito su-
                                                                                       em
simos outros qua, para sustentar tudo o que          perado na doutrina pelo seu elevado engenho.
dizem como verdadeiro, vdo respigandode seus         Poderia bem ocorrer que meu inforthio, de ter
textos conceitos que jamais Ihe ter~om      ocorrw   de servir-me dos olhos e da pena de outros,
do. E quando Rristoteles visse as novidades          com demasndo tBdio do escritor, prolongasse
descobertas atualmente no c&u, que ele afir-         algum dia a mais aquilo que em outros tempos
mou sar inalterdvel e ~mutdvel,  porque nenhu-       por mim mesmo teria exped~do poucos dias,
                                                                                     em
ma altera~dofora at6 entdo vista, indubita-          e V. Sa., pela prontiddo e v~vacidade seu de
velmente, mudando de opinido, ele diria agora        engenho, em poucas horas. Viva feliz e conti-
o contrdrio; pois bem se deduz que, enquanto         nue tendo comigo sua boa grap, por mim estl-
nos diz que o c&u 6 inalter6vel, 6 porque ndo        mada e apreciada como favor6vel fortuna; e
fora vista altera<do,mas agora d~ria    que B al-    qua o Senhor a f q a prosperar.
ter6vel, porque ai se percebem altera<bes. fl                                               G. Galllel,
hora avan<a,e eu entraria em um mar vastissimo                                  Corta a FortGnio liceti
se quisesse contar tudo o que em tal ocasido           (escr~ta Rrcetr~ dia 15 ds setembro ds 1640)
                                                              de      no
me passou mais vezes pela mente; reservar-
me-ei, porbm, para outra ocasido.
      Quanto a V. So. tar-me atribuido op~nides
que ndo sdo minhas, pode ter acontec~do        que
V. So. tenha tomado algumas opiniaes atribui-
das a mim por outros, mas ndo escritas por mim:
como, por exemplo, qua, segundo o filosofo La-
galla, eu considere a luz como corporea, en-
                                                            R importdncia do ci&ncioporo o tCcnico
quanto no mesmo autor e no mesmo lugar se
                                                      C o tsma do primeiro trscho, tirodo ds umo
escreve que sempre ingenuamente confessei
                                                      corta ds Golilsi o Belisdrio Vinto; snquonto
ndo saber o que seja a luz; e assim consideror
                                                      no segundo tr~cho,     tirodo de Discursos e de-
como resolutamente primdr~os   meus pensamen-
                                                      monstra@es matemdticas sobre duos novas
tos, alguns reportados pelo Sr. M6rio Guiducci,
                                                      ci&ncias (primeira jornada), chomo o otsnq3o
poderia ser que eu n60 os tivesse falado, em-
                                                      paro os ~sti'mulosqus a tCcnico ofsrscs a
bora eu me repute como honra que s~ creia
                                                      reFl~x6o  cienti'fico.
que tais conceitos sejam meus, considerando-
os verdadeiros e nobres.
      R respeito de parecer porventura prolix0            Gostaria que meus livros, dirigidos sem-
ao responder a suas obje<6es,ndo o subscre-          pre a0 vener6vel nome de meu Senhor. fossem
vo de nenhum modo, nem como sombra de in-            os que me ganhassem o pdo; ndo restando, no
dignqdo em V. Sa. nem ainda como falta mi-           entanto, sendo conferir a Sua Rlteza tantas e
227
    Capitdo de'cimo primeiro - 8 drama de Gialileu e a fundacdo da &&cia moderna

tais invengdes, que talvez nenhum outro princl-      do rnsu Cornposso Gaorndtrico, dedicado a Sua
pe as tenha maiores, das quais eu ndo so te-         Rltaza, pois ndo h6 mais exemplares; esse ins-
nho rnuitas com efeito, mas posso estar seguro       trurnento foi de tal modo abragado pelo mun-
de encontrar muitas delas ainda durante o dia,       do, que agora verdadeiramente ndo se fazem
conforme as ocasides que se apresentarem:            outros instrumentos deste g&nero, e ssi que at&
alhm de que, das invengdes que dependem de           hoje foram fabricados alguns m~lhares     [...I.
minha profissdo, poderia estar Sua Rlteza se-              F~nalments,  quanto a0 titulo e pretext0 de
gura de ndo ter de empregar em alguma delas          rneu servlgo, desejaria que, al&mdo nome de Ma-
seu dinhe~roinutilmente, como porventura ou-         tem6tico. Sua Rlteza acrescentasse o de F~losofo,
tra vez foi felto e em vultosas somas, nem ain-      pois eu confess0 ter estudado mas anos de fi-
do para deixar fugir das mbos qualquer desco-        losofia do que meses de matemdt~ca      pura [...I.
berta que Ihe fosse proposta por outros, que              G. Galilei, Corto o Bal~sdr~o am Norang.
                                                                                      Vinto
verdadelramente fosse Gtil e bela.                         (escrita de PCldua no dm 7 de maio de 1610)
        Tenho um nurnero tdo grande de segre-
dos particulares, tanto uteis quanto curiosos e            SRLVIATI- Senhores Venezianos, parece-me
adrnirClveis, que somente a dernasiada abunddn-      que a pr6tica frequente ds vosso famoso arse-
cia me prejudica e sempre prejudicou; porque.        nal, sobretudo na parts denorninada mecdnl-
se eu tivesse apenas urn, eu o teria estimado        ca, proporciona vasto campo ao filosofar dos
muito, e com ele em mdos poderia ter encontrado      intslectos especulativos; dado que, aqul, todo
junto de algum grands principe aqusla ventura        tipo de instrumento e de m6quina & operado
que at& agora ndo encontrei nsm procurei.            continuamente por grande numero de artifices,
Mogno longsqua odrnirobilio opud ma hobso:           entre os quais, seja pelas observagdes feitas
 mas ndo podem servir, ou, melhor dizendo, ser       por seus predecessores, seja por aquelas qua,
colocadas em q d o a ndo ser por principes,          por reflexdo pessoal, eles proprios fazem con-
 porque eles fazem e sustentam guerras, fabri-       tinuamente, & natural que existam muitos peri-
cam e defendem fortalezas, e por seus rels de-       tos inslgnes.
 portados fazern enormes despesas, e ndo eu                          - V.
                                                           SAGREDO So. de fato ndo se engana:
ou hornens part~culares.                             eu, curioso por natureza, frequento esss am-
        Rs obras que tenho de levar a cabo sdo       bient~,  ouvindo aqueles que, devido a certa
 principalmente dois l ivros Ds sisternote sau       superiorldade sobre outros professores, nos
 constitutions univsrsl, conceit0 imenso e cheio     chamamos chefes; a prelegdo deles rnu~tas       ve-
 de filosofia, astronomia s geometria; tr&s livros   zes ajudou-me a descobr~r,       pela pesqulsa ra-
 De rnotu locoli, ci&ncia inteiramente nova, ndo     cional, efei tos ndo apenas maravilhosos, mas
 havsndo nenhum outro, antlgo ou moderno,            ainda rec6nditos e quase irnpens6veis.
 descoberto algurn dos muitissimos sintomas                        G. Gali h , Discursos a damonstrogBes
 adrnir6ve1s dernonstro exlstir nos rnovimen-
              que                                                motamdticos sobre duos novas ci&nclos
 tos naturais e nos violentos, que posso de modo
 rnuito razo6vel chamar de cikncia nova e en-
 contrada por rnim desde seus primeiros princi-
 pios: tr&s l~vros das mecdnicas, dois referentes
 6s demonstragdes dos principios a fundamen-
 tos, e um dos problemas; e, embora outros te-
 nham escrito a mesrna mathria, todavia o qua
 dsla at& aqui foi escrito, nern em quantldade
 nem em outras colsas & um quarto daquilo que
 escrevo. Tenho a~nda    diversos opljsculos sobre
 questdes naturais, como Ds sono s t vocs, De
 visu at coloribus, Ds mans sstu, Da cornpositions         instrumentcrlista
 continui, Ds onirnoliurn rnotibus, e outros. Pen-         do Copernicanismo
 so al&m disso escrever alguns livros referentes
 ao soldado, formando-o nbo so em id&ia, mas
 ensinando com regras muito especiais tudo                  Corn ssto corto d a 12 d s obril d s 16 IS
 aquilo que Ihe cabe saber e que depende das          o cordsol Robsrto Bslorrnlno ohrrno qus
 matern6ticas, corno o conhecimento de castra-        Gollleu pods sustsntor o tsono copernlcono,
 metaq%s, disposigdes, fortifica@es, expugna-         rnos opsnos corn o condlg60 d s qua o Intsr-
 @as, fazer plantas, medir com a vista, conheci-      prsts em urno parspsct~vo diri'ornos hojs -
                                                                                  -
  mentos referentes 6s artilharias, usos de v6r1os    ~nstrurnentol~sto 'Porsca-rns que V So s o
  lnstrurnentos etc. Preciso tarnbhm reed~tar Uso
                                             o
228     Segunda parte - A   vrvoIuc~osientificn



                                                    todos os expositores gregos e latinos. Nem se
 senhor Golilsu seriom prud~ntes conten-
                                  em                pode responder que esta ndo seja mathria de
 tor-se d~ folor ex suppositione e nbo obso-        f&, porque se ndo & mat&ria de f t ex port@
 lutomante, como sempre acreditsi que tsnho         obiecti, h mathria de f6 GX pate d~csntis;     e,
 folodo CopCrnico.  "                               assim, seria herege quem dissesse que Rbrado
                                                    n60 tenha tido dois filhos e Jaco doze, como
                                                    quem dlssesse que Cristo ndo nasceu de uma
                                                    virgem, porque uma e outra coisa t dita pelo
     Ro mui Reverendo Prior Paulo RntBnio           Espirito Santo por boca dos Profetas e dos Rpos-
Foscarini, Provincial dos Carmelitas da Provincia   tolos.
de Cal6bria [em Roma].                                     3) Dig0 que quando houvesse verdadei-
                                                    ra demonstra<do de que o sol est6 no centro
      Mui Reverendo Padre,                          do mundo e a terra no terceiro chu, e que o sol
       Li com prazer a epistola em italiano e o     nbo circunda a terra, mas a terra circunda o sol,
escrito em latim queV. Revma. me envlou; agra-      entdo seria necess6rio andar com multa cons+
dqo-lhe uma e outro, e confesso que estdo           deraq3o ao explicar as Escrituras que parecem
todos che~os engenho e de doutrina. Mas.
               de                                   contr6rias, e mais ainda dizer que apenas pre-
como o Sr. pede meu parecer, eu o farei com         tendemos afirmar que seja falso aquilo que se
muita brevidade, porque agora o Sr. tem pou-        demonstra. Mas eu ndo crerei que exista tal
co tempo para ler e eu pouco tempo para es-         dsmonstrqdo, 0th que ndo me seja mostrada:
crever.                                             nem 6 o mesmo demonstrar que suposto que o
       1 ) Digo que parece-me que V. Revma. e       sol esteja no centro e a terra no cCu, se salvem
o Sr. Galileu prudentemente se contentem em         as aparhncias, e demonstrar qua na verdade o
falar ex supposit~ons ndo absolutamente,
                         e                          sol est6 no centro e a terra no chu; porque a
como sempre acred~tei      que Cop&rnico falas-     primeira demonstra@o creio que possa hover,
se. Porque quando dizemos que se supde que          mas sobre a segunda tsnho grande duvida, e
a terra se mova e o sol esteja parado ficam         em caso de duvida ndo se deve de~xar Escri-
                                                                                              a
salvas todas as apar&ncias melhor que com o         tura Santa exposta pelos Santos Padres. Rcres-
colocar os exchtricos e epic~clos; muito bem
                                     &              canto que quem escreveu Oritur sol st occid~t,
colocado, e ndo tem perigo nenhum: e isto bas-       et od locum suum rsvertitur etc. foi Salomdo, o
ta para o matem6tico. Mas querer afirmar que        qua1 ndo so falou inspirado por Deus, mas foi
realmente o sol esteja no centro do mundo, e        homem sobre todos os outros sapientissimo e
apenas se revolva em si mesmo sem correr            doutissimo nos ci$ncias humanas e no conheci-
do oriente para o ocidente, e que a terra es-        mento das coisas criadas, e toda esta sabedo-
teja no terceiro ctu e gire com sumo veloci-         ria a teve de Deus; dai nd0 ser verossimil que
dade ao redor do sol, & coisa muito perlgosa        ahrmasse uma coisa que fosse contr6ria b ver-
ndo so de irritar os filosofos e teologos esco-     dade demonstrada ou que se pudesse demons-
16sticos, mas ainda de ferir a Santa F&, tor-        trar. E se alguhm me disser que Salomdo fala
nando falsas as Escrituras Santas; porque V.         segundo a aparhcia, parecendo a nos que o
Revma. bem demonstrou muitos modos de                sol gire, enquanto a terra giro, como a quem
expor as Santas Escrituras, mas ndo os apli-         quando parte da praia Ihe parece que a praia
cou em particular, pois sem dljvida haveria de       parta do navio, responderei que quem quan-
encontrar grandes d~f~culdades tivessese             do parte do praia, embora Ihe parep que a
querido expor todas aquelas partes que o Sr.         prala parte dele, tamb&m sabe que isto & erro
mesmo citou.                                         e o corrige, vendo claramente que o navio se
       2) Digo que, como o Sr. sabe, o Concilio      move e nbo a praia; todavia, quanto ao sol e
 proibe expor as Escrituras contra o consenso co-    b terra, nenhum s6bio tem necessidade de
 mum dos Santos Padres; e se V. Revma. quiser        corrigir o erro, porque claramente experimsnta
 Ier ndo digo apenas os Santos Padres, mas os        que a terra est6 parada e que o olho ndo se
 coment6rios modernos sobre o G&nesis, sobre         engana quando julga que o sol se move, como
 os Salmos, sobre o Eclesiastes, sobre Josut,        tambhm ndo se engana quando julga que a
ver6 que todos concordam em expor od litterom        lua e as estrelas se movem. E isto baste por
 que o sol est6 no c&u e giro ao redor da terra      agora.
 com sumo velocidade, e que a terra est6 muito              Com isto saudo claramente V. Revma., e
 longe do chu e est6 no centro do mundo, imo-        Ihe p q o de Deus todo contentamento.
vel. Considere agora o Sr., com sua prud&ncia,                                          R. Oslarrn~no.
 se a Igreja pode suportar que se d& bs Escrltu-                       Carta a Poulo Rnt6n1o Foscorini
 ras um sentido contr6rio aos Santos Padres e a                   (de Rorna, dia 12 ds abr~l 1615)
                                                                                            ds
do m~ndo,
                    Sistema
                 metodologia e filosofia



      S nao compreendermos o pensamento de Newton sera Sem Newton
        e
impossivel compreender a fundo tanto o Empirismo inglCs, como e impossivel
o lluminismo (sobretudo o franc&) e tambem a filosofia de Kant. compreender
Com efeito, a "razao" dos empiristas ingleses - razao limitada o Empirismo,
e controlada pela "experi@ncia"- e a razao de Newton; a "ra- o lluminismo
zao" dos iluministas e a de Locke, isto e, a razao que encontra e o pensamen-
seu paradigma na ciencia de Boyle e na fisica de Newton. E, por t o de Kant
outro lado, e precis0 estar lembrado de que a "ci@nciaN que + § / . I
                                                         de
fala Kant e a ci@ncia Newton e que a como@o kantiana di-
                      de
ante dos "ceus estrelados" e a comoqao diante da ordem do unh
Newton.
       lsaac Newton (1642-1727) estuda no Trinity College de Cambridge, e B aqui
que seu grande g@nio compreendido e estimulado pelo matematico Isaac Barrow
                       e
(1630-1677). Em 1665-1666, por causa da peste, Newton deixa Cambridge e volta
para o campo, em Woolsthorpe, sua terra natal. E foi justamente em Woolsthorpe
que ele teve pela primeira vez a ideia da gravitacao universal. Quando, em 1669,
Barrow comecou a ensinar teologia, Newton foi chamado a catedra de matemati-
ca, que ja fora de Barrow.
     Tr@s anos depois, em 1672, Newton apresenta a Royal Society um memorandum
com o titulo Nova teoria a respeito da luz e das cores, em que encontramos a
teoria da natureza corpuscular da luz, teoria que contrastava com
a teoria ondulatoria da luz formulada pelo fisico holand@s,o Newton
cartesiano Christian Huygens (1629-1695).                          em polemica
     Newton tera outra disputa com Leibniz a proposito da prio- corn Hooke
ridade na descoberta do calculo infinitesimal.                     e Leibniz
     Alem disso, foi durissima a controversia que Newton teve + 5 11.2; v111.3
com Robert Hooke (1635-1703), o qua1 desejava fosse reconhe-
cida a propria prioridade na descoberta da lei da forca inversamente proporcio-
nal ao quadrado da distdncia. Primeiro Newton se ofendeu terrivelmente; de-
pois a briga se aplacou e Newton inseriu nos Principia uma nota em que se regis-
trava que a lei do inverso do quadrado ja fora proposta por Wren, Hooke e
Halley.
     0 s Philosophiae naturalis principia rnathematica apareceram em 1687. Em
 1689 Newton foi nomeado deputado na representaqao da Universidade de
Cambridge. Neste period0 estreitou amizade com John Locke; continuou seus es-
tudos sobre o cdlculo infinitesimal. Entrementes fora nomeado diretor da Zecca,
da qua1 se tornara governador tr@s   anos mais tarde. Em 1703 e eleito presidente
da Royal Society. Em 1704 aparece a dtica; em 1713 publica-se a segunda edi@o
dos Principia.
       No inicio do terceiro livro dos Principia Newton fixa'as quatro "regras do
raciocinio filosofico". 580 certamente regras metodoldgicas, mas pressup8em
assuntos de ordem metafisica sobre a natureza e sobre a estrutura do uni-
verso.
Regra I: " Nao devemos admitir mais causas das coisas natu-
 AS "regras       rais do que aquelas que sdo tanto verdadeiras como suficientes
 do filosofar"    para explicar was apar$nciasn.
 + 5 111.1             Regra II: "Por isso aos mesmos efeitos devemos, o quanto
                  possivel, atribuir as mesmas causas".
     Regra Ill: "As qualidades dos corpos, que ndo admitem nem aumento nem
diminui@o de grau, e que se percebem pertencer a todos os corpos dentro do
dmbito de nossos experimentos, devem ser consideradas qualidades universais de
todos 0s corpos".
     Regra IV: "Na filosofia experimental as regras inferidas por induggo geral a
partir dos fendmenos devem ser consideradas como estritamente verdadeiras o u
como muito proximas da verdade, apesar das hipoteses contrarias que possam ser
imaginadas, ate quando se verifiquem fendmenos a respeito dos quais elas se
tornam mais exatas o u enta"o se tornam sujeitas a excegdes".

 ~odos                 E por meio dos sentidos que chegamos a estabelecer as
 0 s corpos     qualidades fundamentais dos corpos, os quais s2o formados por
 sdo formados   partes menores tambem elas "extensas, duras, impenetraveis,
 de partes      moveis e dotadas de sua propria inercia". Esta e a teoria do
 menores        corpuscularismo.
 + 2 111.2           E, por outro lado, e a experiencia que nos leva a "admitir
                universalmente que todos os corpos s2o dotados de um principio
de gravitasao reciproca". E a gravidade dos corpos "diminui em relac20 a seu
afastamento da terra".

 A lei                   Com a leide gravidade Newton propunha um unico princi-
 de gravidade     pio em grau de dar conta de uma quantidade ilimitada de fenb-
 + 5 111.3        menos: a forsa que faz cair uma pedra ou uma ma@ e da mesma
                  natureza da forsa que explica o fenbmeno das mares como efei-
                  t o da a t r a ~ 2 o sol ou da lua sobre a massa da agua dos mares.
                                     do
                        E a grande maquina do mundo, a ordem dos ceus estrela-
 A prova          dos, e a base sobre a qua1 Newton fundamenta a demonstra@o
 da
 de Deus
                  da exist@ncia Deus. "Este extremamente maravilhoso sistema
                                     de
 +5 IVI           do sol, dos planetas e dos cometas so pbde se originar do projeto
                  e da potencia de um Ser inteligente e poderoso".

        Hypotheses non fingo: e a celebre sentensa metodologica de Newton a
qua1 se reportam todos os indutivistas. Todavia, Newton e conhecido, e sua gran-
deza e ilimitada, nao porque viu uma ma@ cair; ele e conhecido e grande porque
formulou hipoteses e as provou, hipoteses que explicam por que a maq2 cai por
terra e por que a lua n2o despenca sobre a terra, por que os cometas gravitam em
torno do sol e por que ocorrem as mares.
                       Todavia, o que entendia Newton com "hipoteses", quando
 A sentenga       dizia para "nso inventar hipoteses"?
  "Hypotheses          Eis a sua resposta: "[ ...I e nao invento hipoteses; com efeito,
 non fingo"       tudo aquilo que n2o se deduz dos fenbmenos, deve-se chamar
 +g V I           de hipoteses; e as hipoteses, tanto metafisicas como fisicas, tanto
                  de qualidades ocultas como mecdnicas, n2o tem nenhum lugar
na filosofia experimental. Em tal filosofia proposis6es particulares s2o deduzidas
dos fenbmenos, e sucessivamente tornadas gerais por induq2o. Foi assim que se
descobriram a impenetrabilidade, a mobilidade e a forca dos corpos, as leis do
movimento e de gravita@o. E para nos e suficiente que a gravidade exista de fato
e aja conforme as leis que expusemos, e esteja em grau de amplamente dar conta
dos movimentos dos corpos celestes e de nosso mar". A gravidade existe de fato;
ela explica os movimentos dos corpos; serve para prever suas posisdes futuras. lsto
e o que basta ao fisico. Qual seja a causa da gravidade e uma quest20 cuja respos-
ta sai do dmbito da observaq20 e da experimentaqao e que, portanto, foge a "fi-
23 1
Capitulo de'cimo segundo -   Sistema   do mundo, mrtodologia   r   filosofia   na oLra   d r Newtoo


 losofia experimental". E Newton niio quer se perder em conjecturas metafisicas
 n%ocontrolaveis. Este e o sentido de sua expressao Hypotheses non fingo.
        A natureza e simples e uniforme. E eis, a seguir, as tres leis newtonianas que
 descrevem os ordenados e rigorosos movimentos do universo e que permitem
 prever orbitas e posiq6es futuras dos corpos celestes.
      A primeira lei e a lei de inercia, sobre a qua1 Galileu tinha As tr6s leis
 trabalhado e que Descartes havia formulado com muita preci- do movimento
 sio. Newton escreve: "Todo corpo persevera em seu estado de e as nog8es
 repouso o u de movimento retilineo uniforme, a menos que n2io de espaqo
                                                 dirigidas sobre ele" . e tempo
 seja forqado a mudar tal estado p o r f o r ~ a s
      A segunda lei, ja formulada por Galileu, diz: "A mudanqa absolutes
 de movimento e proporcional a forqa motriz aplicada; e ocorre + S V1.l
 sob a direqao da linha reta segundo a qua1a forca f o i aplicada".
      A terceira lei, formulada por Newton, afirma que "A toda aqdo se opde sem-
 pre urna igual reaqdo: o u seja, as aqBes reciprocas de dois corpos sdo sempre iguais
 e dirigidas em direq6es contrarias" .
       E claro que os estados de repouso e de movimento retilineo uniforme po-
 dem-se determinar apenas em relac20 a outros corpos que estejam em repouso
 ou em movimento. E, urna vez que a remitencia a sempre ulteriores sistemas de
 referencia n2o pode chegar ao infinito, Newton introduz as duas nogaes de tem-
 p o absoluto e de espaqo absoluto: duas noq6es que serio objeto de sucessivas e
 devastadoras criticas, como conceitos privados de significado operativo e em-
 piricamente nao controlaveis (Ernst Mach dira que o tempo absoluto e o espaco
 absoluto de Newton sao "monstruosidades intelectuais").
       Eis como Newton define os dois conceitos:
      - "o tempo absoluto verdadeiro e matematico, em si e por sua natureza, flui
 uniformemente sem relaq2o com algo interno, e com outro nome chama-se dura-
 $20; o tempo relativo aparente e comum e a medida sensivel e externa [...I da
 duraqio atraves do meio do movimento, e ele e comumente usado em lugar do
 tempo verdadeiro, ele e a hora, o dia, o m@s,o ano";
      - "o espaqo absoluto, por sua natureza privado de relagio com algo de exter-
 no, permanece sempre semelhante a si mesmo e imovel".

       Justamente dentro deste espaqo absoluto - que Newton
 chama tambem de sensorium Dei- o maravilhoso e elegantissimo A leide g,vidade
 conjunto dos corpos mantem-se junto pela lei de gravidade, que
 encontramos no terceiro livro dos Principia. A lei de gravidade
                                                                                          ,
 diz que a forqa de gravitaqio com a qua1 dois corpos se atraem e
 diretamente proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcio-
 nal ao quadrado de sua distdncia. Tal lei e expressa pela conhecida formula:




 onde F e a forqa de atraqao, m l e m2 s3o as duas massas, D e a distdncia entre as
 duas massas e G e urna constante que vale em todos os casos: na reciproca atraqao
 entre a terra e a lua, entre a terra e urna ma@ etc.

       A mecdnica de Newton foi um dos mais fecundos pro- oprograma
 gramas de pesquisa da historia da cihcia. Tal programa ira a depesquisa
 frente por muito tempo ate urna revoluqio das ideias funda- ne,toniana:
 mentais da ci6ncia newtoniana. A fisica newtoniana, alem disso, a mecdnica
 admite urna razao limitada que nao tem a tarefa de descobrir 4 5 vll.7
 substdncias.
232    Segunda parte - A   revoIui~a i i c n i i f i o




          Newton ocupou-se com matematica em seus primeiros anos de estudo, len-
 d o os Elementos d e Euclides e a Geometria de Descartes; bem depressa a matriz
                    fisica se far6 sentir de mod0 determinante em suas pesquisas
   o cdlculo        matematicas, dado que ao mesmo tempo estudava a acustica e a
   infinitesimal    otica. Em 1687 publica a primeira sintese sobre o calculo infini-
   e a controversia tesimal na obra Philosophiae naturalisprincipia mathematica em
         Leibniz    que aparece a teoria "dos fluentes e das flux6es". No dmbito dos
   -3 3 VIII. 1-3   estudos sobre o calculo dos infinitesimos deve ser inserida a dis-
                    puta entre Newton e Leibniz sobre a prioridade da descoberta.




 1       teoria   met0dol6~ica
      de n e w t o n

      Galileu morreu em 8 de janeiro de 1642.
No mesmo ano, no dia de Natal, nascia em
Woolsthorpe, nas proximidades da aldeia de
Colsterworth, em Lincolnshire, Isaac New-
ton. Newton foi o cientista que levou a re-
voluqiio cientifica ao seu termo. E foi com
o seu sistema do mundo que se configurou
a fisionomia da fisica classica. Mas n i o fo-
ram apenas suas descobertas astron6micas,
oticas ou, talvez, matematicas (independen-
temente de Leibniz, ele inventou o c ~ l c u l o
diferencial e integral) que fizeram com que
merecesse um lugar na historia das idCias
filosoficas. Com efeito, Newton preocupou-
se com prementes questoes teologicas e for-
mulou uma teoria metodologica precisa.
Mas a coisa mais importante, em nosso caso,
C que, sem adequada compreensiio do pensa-
mento de Newton, estariamos nos proibin-
do de compreender a fundo grande parte do
empirismo inglzs, o iluminismo (sobretudo
o francts) e o proprio Kant. Na realidade,
como veremos melhor adiante, a "raziio"
dos empiristas ingleses, limitada e controla-
da pela "experitncia", motivo pel0 qua1 niio
C mais livre para mover-se a seu bel-prazer
no mundo das esstncias, C precisamente a
 "razio" de Newton. A "razio" dos ilumi-
nistas C a do empirista Locke, "raziio" que
encontra seu paradigma na citncia de Boyle
e na fisica de Newton: esta n i o se perde em controlada pela experitncia, procura e pro-
hipoteses sobre a natureza intima ou a es- va as leis do seu funcionamento. Por fim,
sincia dos fedmenos, mas, continuamente n i o devemos nos esquecer de que a "citn-
233
Capitulo decimo segundo - Sistema do mundo,     metodologia e filosofia   na oLra   defiewton


cia" de que fala Kant i a ciincia de Newton,      preender a din2mica do universo, os princi-
e que a comoqiio kantiana diante dos "cius        pios da forga e o movimento e a fisica dos
estrelados" i a comogiio diante da ordem          corpos em movimento em meios diversos"
do universo-rel6gio de Newton. Kant, com          (I. B. Cohen). E, "a medida que a continui-
efeito, acreditava que a funq5o do filosofo       dade do desenvolvimento do pensamento
fosse a de explicar a unicidade e a veracida-     nos permite falar de uma conclus5o e de um
de da teoria de Newton. Assim, sem a com-         novo ponto de partida, podemos dizer que,
preens50 da imagem da ciincia newtoniana,         com Isaac Newton, acabava um periodo da
i verdadeiramente impossivel compreender          atitude dos filosofos em relaq5o a natureza
a Critica da raziio pura de Kant.                 e comeqava outro, inteiramente novo. Em
      0 livro mais famoso de Newton 6 Phi-        sua obra, a cihcia classica [...I alcanqou
losophiae naturalis principia mathematica         existincia independente e, dai em diante,
(Principios matematicos da filosofia natu-        comeqou a exercer toda a sua influgncia so-
ral), publicado em primeira edigso em 1687.       bre a sociedade humana. Se alguem devesse
Pois bem, "a publicaq5o dos Principia [...I       assumir a funq5o de descrever essa influin-
foi um dos acontecimentos mais importan-          cia em suas numerosas ramificaqoes [. ..],
tes de toda a historia da fisica. Esse livro      Newton poderia constituir o ponto de par-
pode ser considerado o ponto culminante           tida: tudo aquilo que foi feito antes era ape-
de milhares de anos de esforgos para com-         nas uma introdugiio" (E. J. Dijksterhuis).



                          11. f vidn e as *bras
                               
                                                  de, apesar das extraordinarias realiza~oes
                                                  dos anos posteriores, esse foi talvez o perio-
                                                  do mais fecundo da vida de Newton, que,
                                                  em sua velhice, assim recordava seu extra-
                                                  ordinario trabalho em Woolsthorpe: "Tudo
                                                  isso ocorria nos dois anos da peste, em 1665
     Isaac Newton, portanto, nasceu em            e 1666, j i que naquela ipoca eu estava em
1642. Em 1661, depois de uma adolescin-           plena idade criativa e me dedicava a mate-
cia normal, entrou no Trinity College de          matica e filosofia muito mais do que pos-
Cambridge. Ai passou a ser encorajado pelo        sa ter feito posteriormente." (A "filosofia"
seu professor de matematica, Isaac Barrow         ou "filosofia natural" de Newton 6 o que
(1630-1677), que, por seu turno, foi o au-        hoje nos chamamos de "fisica".) Com efei-
tor de influentes Lectiones mathematicae e        to, foi em Woolsthorpe que Newton teve
de outros escritos sobre a matematica gre-        pela primeira vez a idiia da gravitaf5o uni-
ga. Barrow havia percebido a intelighcia          versa!.
do discipulo, que, em um periodo de tempo                 E conhecido o relato (que a neta de
bastante curto, ja se assenhoreara de todas       Newton contou a Voltaire, que depois o di-
as partes essenciais da matemitica da Cpo-        fundiu) segundo o qua1 tal ideia lhe teria
ca. N o periodo que marca o fim dos seus          ocorrido quando meditava sobre a queda
estudos, Newton ja chegara ao "calculo das        de uma mag5 de uma arvore sob a qua1 es-
flux6esn, ou seja, o calculo infinitesimal,       tava descansando. Nesse periodo, tambim
usando-o na soluqiio de alguns problemas          aprofundou alguns problemas de otica, pros-
de geometria analitica. Passou o caderno dos      seguindo nesses estudos mesmo depois do
seus apontamentos a Barrow e a poucos             seu retorno a Cambridge. Tendo adquirido
outros amigos, para que o lessem. Entretan-       grande habilidade no polimento de espelhos
to, em 1665-1666, em virtude da peste,            metalicos e sabendo dos defeitos d o teles-
Newton, a exemplo de muitos estudantes e          copio de Galileu, Newton construiu um te-
professores, deixou Cambridge. Voltou para        lescopio por reflexiio.
Woolsthorpe, dedicando-se a meditar na                    Em 1669, Barrow assumiu a catedra
pequena casa de pedra, isolada em uma vas-        de teologia, cedendo sua catedra de mate-
ta planicie. Como escreve Da Costa Andra-         mitica ao jovem Newton. Tendo concluido
seus experimentos sobre a decomposiqiio da         misso. Entiio, no mgs de agosto, Halley foi
luz branca atravCs de um prisma, Newton            a Cambridge para ouvir a opiniiio de New-
apresentou um relatorio a Royal Society em         ton. A pergunta de Halley sobre qual seria
1672. Intitulado Nova teoria acerca da luz         a 6rbita de um planeta atraido pelo sol com
e das cores, o relatorio foi publicado nas Phi-    uma forqa gravitacional inversamente pro-
losophical transactions da propria Royal           porcional ao quadrado da distincia, New-
Society. Nesse trabalho, como tambCm em            ton respondeu: "Uma elipse!" Cheio de ale-
outro trabalho posterior, em 1675, Newton          gria, Halley perguntou a Newton como fazia
formulava a ousada teoria da natureza cor-         para saber isso. E Newton replicou que o
puscular da luz, segundo a qual os fen6me-         sabia porque ja fizera os calculos relativos
nos luminosos encontravam sua explicaqiio          a questiio. Halley pediu entiio para ver es-
na emissiio de particulas de diferentes gran-      ses calculos, mas Newton, niio conseguin-
dezas: as particulas menores davam origem          do encontri-los, prometeu que os manda-
ao violeta e as maiores ao vermelho. A teo-        ria a ele. E assim fez.
ria corpuscular da luz entrava em competi-               E mais: escreveu um livrete, o De motu
qiio com a teoria ondulatoria proposta pelo        corporum, que tambCm enviou a Halley.
fisico holandis cartesiano Christian Huygens       Este logo se deu conta da grandeza do tra-
(1629-1695)em seu Traite de la lumiere. Ir-        balho de Newton e o convenceu a escrever
ritado e desgostoso com,tais polimicas, New-       um tratado que tornasse publicas suas des-
ton so publicaria sua Otica em 1704. Con-          cobertas. Foi assim que nasceu aquela que C
tudo, seu trabalho no campo da otica ja Ihe        considerada a maior obra-prima da histo-
havia propiciado a nomeaqiio para membro           ria da ciincia, isto 6, a Philosophiae naturalis
da Royal Society (1672).                           principia mathematica.
      Em 1671, o francis Jean Picard (1620-              Newton comeqou a trabalhar em 1685.
1682) havia efetuado otimas medidas das            Em abril de 1686, o manuscrito do primei-
dimens6es da terra. Em 1679, Newton toma           ro livro foi enviado a Royal Society, em cujos
conhecimento da medida do diimetro da              registros encontramos a seguinte anotaqiio,
terra calculado por Picard. Retomou suas no-       com data de 28 de abril: "0doutor Vincent
tas sobre a gravitaqiio, refez os calculos (que,   apresentou a Sociedade o manuscrito de um
em Woolsthorpe niio fechavam) e, desta vez,        tratado intitulado Philosophiae naturalis
com a nova medida de Picard, os calculos           principia mathematica, que o sr. Isaac New-
fecharam, fazendo com que a idiia da gra-          ton dedica i Sociedade e no qual apresenta
vital30 se tornasse entiio uma teoria cienti-      uma demonstraqiio matematica da hipotese
fica. Entretanto, ainda sob a impressiio das       copernicana como foi proposta por Kepler,
asperas polimicas anteriores, ele niio publi-      explicando todos os fen6menos dos movi-
cou os resultados alcanqados. Enquanto isso,       mentos celestes por meio da unica hipotese
prosseguia em suas liqoes de otica, publica-       de uma gravitaqiio em direqiio ao centro do
das em 1729 sob o titulo de Lectiones opti-        sol, decrescente segundo o inverso dos qua-
cue, bem como as de algebra, que apareceram        drados das distincias em relaqiio a ele". E,
em 1707 sob o titulo Arithmetica universalis.      posteriormente, foram redigidos o segundo
                                                   e o terceiro livros. 0 proprio Halley se en-
                                                   carregou da publicaqiio do trabalho.
                                                         Nesse meio tempo, porCm, explodiu
                                                   grande controvirsia com Hooke, que recla-
                                                   mava a prioridade da descoberta da lei da
                                                   forqa inversamente proporcional ao quadra-
      No inicio de 1684, o grande astr6no-         do da distincia. Newton ofendeu-se terri-
mo Edmond Halley (1656-1742)encontrou-             velmente, ameaqando ati deixar de publicar
se com Sir Christopher Wren (1632-1723)            o terceiro livro da obra, relativo ao sistema
e com Robert Hooke (1635-1703) para dis-           do mundo. Depois, a disputa se aplacou e
cutir a quest50 dos movimentos planeta-            Newton inseriu em seu trabalho uma nota
rios. Hooke afirmou que as leis dos movi-          registrando que a lei do inverso do quadrado
mentos dos corpos celestes seguiam a lei da        ja fora proposta por Wren, Hooke e Halley.
forqa inversamente proporcional ao quadra-               0 s Principia apareceram em 1687. Dois
do da distincia. Wren deu a Hooke dois me-         anos depois, Newton foi nomeado deputa-
ses de tempo para formular a demonstraqiio         do, representando a Universidade de Cam-
da lei. Mas Hooke niio cumpriu o compro-           bridge. Nesse periodo, conheceu John Lo-
235
Capitulo de'cimo segundo -   Sistema   do mundo, metodologia   e ftlosofia   M a   oLva d r Newton


cke, com quem estreitou sincera e solida ami-      Em fevereiro de 1727, Newton partiu de
zade. Prosseguindo seus estudos sobre o cil-       Kensington (onde residia e que era ent5o
culo infinitesimal, publicou parte deles em        uma aldeia proxima de Londres, ao passo
1692. E manifestou intenso interesse pela qui-     que e hoje parte integrante do aglomerado
mica.                                              urbano) para Londres, a fim de presidir uma
      Mas, a o mesmo tempo, iniciava sua           sessiio da Royal Society. Voltando a Ken-
prestigiosa carreira publica. Em 1696, foi         sington, sentiu-se muito mal. N5o conse-
nomeado diretor da Casa da Moeda; tris             guindo superar a crise, morreu em 20 de
anos depois, tornou-se governador. Desen-          margo de 1727. Foi sepultado na Abadia
volveu seu trabalho com grande empenho,            de Westminster. E Voltaire estava presente
granjeando com isso verdadeira benemeren-          aos seus funerais, o mesmo Voltaire que,
cia national. Em 1703, foi eleito presidente       como veremos quando falarmos do Ilumi-
da Royal Society. Em 1704 publicou a Oti-          nismo, contribuiu de mod0 relevante para
ca, em 1713 a segunda edigiio dos Pyinci-          fazer conhecer o pensamento de Newton na
pia, em 1717 a segunda edigio da Otica.            Franga.




                                                    OPTICE:            S I V E D E
                   OR, A                      II       R e f l z x i o n i b u s , Refkaltionibus,
      TREATISE
                  OP     THE
                                              (1          Inflexionibus & C o l o r i b u s
  REFLEXIONS, REFRACTIONS,
   INFLEXIONS and COLOURS
                                                       L U C I S   L I B R L TKES.
                     0   P
                                                                                                      --
                                                    Author~I s A A c o       N E w TON,E/quite Auraco.
                    ALSO                                Latine reddidit S a w Clarke, A.             M.
       Two T R E A T I S E S                        R O rrendo admodum Patri ac P J 0A N N I
                   OF THE
                                                       M O O R E Epifcopo N O R V I C E NaS I
                                                       Sacris Domeiticis.
  SPECIES                MAGNITUDE
                                              1
                 aod
                       0 I
                                                     Accedunt T r a h t u s duo ejufdan A u ,r H o R I s
       Curvilinear Figures.                            de Speciebus €k Magnitdine F i p r u m
                                                       Curvilinearum, Latine fcripti.




Frontispicio da primeira edi@o
do Opticks de Newton (Londres, 1704).               do ophcks de ~ e & o n(Londres, 1706).
III. As          do filosofar"
                                  "regras
           e a     "omtoIosiar' aue eIas pressupbem

     TrGs regras metodolbgicas                   sobre os planetas; mas, com base no fato de
                                                 que a natureza se comporta uniformemente
                                                 tanto na terra como nos planetas, nos C pos-
                                                 sivel dizer como a luz se comporta tambCm
     No inicio do livro I11 dos Principia,       sobre os planetas.
Newton estabelece quatro "regras do racio-             E eis a terceira regra:
cinio filosofico".                                     "Regra 111: As qualidades dos corpos
     Trata-se certamente de regras meto-         que niio admitem aumento nem diminui-
dologicas, mas, como veremos, elas pressu-       @O de grau, e que se descobre pertencerem
poem e se entrelaqam com questoes de or-         a todos os corpos no interior do ambit0 dos
dem metafisica sobre a natureza e sobre a        nossos experimentos, devem ser considera-
estrutura do universo, corno, alias, ocorre      das qualidades universais de todos os corpos".
com qualquer metodologia, ja que as regras             Tambem essa regra pressupoe o prin-
que explicitam o como devemos investigar         cipio ontologico da uniformidade da natu-
pressupoem o que devemos procurar.               reza. Escreve Newton: "Como nos s6 co-
      "Regra I: Niio devemos admitir mais        nhecemos as qualidades dos corpos atravCs
causas para as coisas naturais d o que ague-     dos experimentos, devemos considerar uni-
las que siio tanto verdadeiras como sufi-        versais todas as qualidades que universal-
cientes para explicar suas apar8ncias ".         mente revelam-se concordantes nos experi-
     Esta primeira regra C urn principio de      mentos e que nso podem ser diminuidas nem
parcim6nia no uso das hipoteses, uma es-         retiradas. Certamente, n5o devemos aban-
pCcie de navalha de Ockham referente as          donar a evidcncia dos experimentos por
teorias explicativas.                            amor aos sonhos e as vss fantasias da nossa
      Mas por que devemos nos circunscre-        especulaqiio, mas tambCm niio devemos
ver a obtenqiio de teorias simples; ou seja,     abandonar a analogia da natureza, que e
por que nso devemos complicar a aparelha-        simples e conforme consigo mesma".
gem hipotitica de nossas explicaqoes?
      Pois bem, a resposta de Newton a tais
interrogaqijes C que "a natureza niio faz nada
em vso, ao passo que, com muitas coisas,
faz-se em viio aquilo que se pode fazer com
poucas. Com efeito, a natureza ama a sim-
plicidade e n5o superabunda em causas su-            A natureza, portanto, e simples e uni-
pirfluas" .                                      forme. Sso esses os dois pilares metafisicos
      Este, precisamente, C o postulado onto-    que sustentam a metodologia de Newton.
logico - o postulado da simplicidade da               E, uma vez fixados tais pressupostos,
natureza - subjacente a primeira regra           Newton passa a estabelecer algumas quali-
metodologica de Newton.                          dades fundamentais dos corpos, como a
      Estreitamente relacionada com a pri-       extensiio, a dureza, a impenetrabilidade e o
meira regra, vem entso a segunda:                movimento. E 6 por meio dos nossos senti-
      "Regra 11: Por isso, tanto quanto pos-     dos que conseguimos estabelecer essas qua-
sivel, aos mesmos efeitos devemos atribuir       lidades. "Extensiio, dureza, impenetrabili-
as mesmas causas. Como na questiio da res-       dade, mobilidade e forga de intrcia do todo
piraqso no homem e no animal, no caso da         decorrem da extensso, dureza, impenetra-
queda das pedras na Europa e na AmCrica,         bilidade, mobilidade e forqa de inCrcia das
no problema da luz do nosso fogo de cozi-        partes. Dai, concluimos que as menores par-
nha e do sol ou no fato da reflex50 da luz       tes de todos os corpos tambCm devem ser
sobre a terra e sobre os planetas".              extensas, duras, impenetraveis, moveis e
     Essa regra expressa outro postulado         dotadas de sua propria inkcia. E esse C o
ontologico: o da uniformidade da natureza.       fundamento de toda a filosofia". Trata-se
NinguCm pode controlar a reflex50 da luz         do corpuscularismo.
237
Capitdo de'cimo segundo - Sistelna do mundo, metodologia e filosofia na obrcl de Newton

      Entretanto, Newton n5o podia evitar        larmente; que, de mod0 semelhante, a lua
urna grande questio ligada a essa: os cor-       gravita na diregio da terra, em proporq50
pusculos de que sao feitos os corpos mate-       quantidade da sua matkria; que, por outro
riais s i o ou n i o ulteriormente divisiveis?   lado, o nosso mar gravita em direg5o i lua;
                                                                                          i
Matematicamente, urna parte C sempre di-         que todos os planetas gravitam uns em di-
visivel, mas o mesmo valeri tambCm fisica-       reg50 aos outros e que, de igual modo, os
mente?                                           cometas gravitam em dire@o ao sol, entiio,
      Eis a argumentagao de Newton a esse        em conseqiiincia dessa regra, devemos ad-
proposito: "0fato de que as particulas dos       mitir universalmente que todos os corpos
corpos, divididas, mas contiguas, podem ser      siio dotados de um principio de gravitagio
separadas umas das outras C uma quest50          reciproca. Por isso, o argument0 extraido
de observagio. E, nas particulas que perma-      dos fen6menos conclui com maior forqa em
necem indivisas, nossas mentes estiio em         favor da gravitag50 universal do que em fa-
condig6es de distinguir partes ainda meno-       vor de sua impenetrabilidade, sobre a qual
res, como pode ser demonstrado em mate-          n5o temos nenhum experimento e nenhu-
mitica. Mas n5o nos C ~ossivel    determinar     ma forma de observagao que possam ser
com certeza se as partes assim distintas e       efetuados sobre os corpos celestes. E eu n5o
n i o ainda divididas podem ser efetivamen-      afirmo que a gravidade 6 essencial aos cor-
te divididas e separadas urna da outra por       pos: pelo termo vis insita entendo unicamen-
meio dos poderes da natureza. Entretanto,        te a sua forga de intrcia. Esta C imutivel.
se mesmo com um unico experimento tivCs-         Mas a sua gravidade diminui em relag50
semos a prova de que urna particula qual-        com o seu afastamento da terra".
quer indivisa, rompendo um corpo solido e              A natureza, portanto, 6 simples e uni-
duro, sofre urna divisio, nos poderemos          forme. E, a partir dos sentidos, isto C, das
concluir, em virtude dessa regra, que as par-    observag6es e dos experimentos, podemos
ticulas indivisas, como as divisas, podem ser    estabelecer algumas das propriedades fun-
divididas e efetivamente separadas ao infi-      damentais dos corpos: extensio, dureza, im-
nito".                                           penetrabilidade, mobilidade, forga de ink-
                                                 cia do todo e a gravitagio universal.
                                                       E essas qualidades sio estabelecidas pre-
                                                 cisamente a partir dos sentidos, vale dizer,
                                                 indutivamente, isto C, ainda atravCs daquele
                                                 que, para Newton, C o unico procedimento
                                                 vilido para alcangar e fundamentar as pro-
      Assim, no que se refere a divisibilidade   posig6es da ciincia: o mitodo indutivo.
das particulas ao infinito, a urna seguranga           E, com isso, chegamos quarta regra:
matemitica corresponde urna incerteza fac-             "Regra IV N a filosofia experimental,
tual. Uma incerteza, porCm, que n5o ocorre       as proposi@es inferidas por indu@o geral
no que se refere a forga de gravitagso.          dos fen6menos devem ser consideradas como
      Com efeito, "se C universalmente evi-      estritamente verdadeiras ou como muito pro-
dente, a partir dos experimentos e das ob-       ximas da verdade, apesar das hipoteses con-
servag6es astronBmicas, que todos os cor-        t~arias possam ser imaginadas, ate' quan-
                                                        que
pos em torno da terra gravitam em sua            d o se verifiquem outros fendmenos, pelos
diregso, proporcionalmente a quantidade de       quais se tornem mais exatas ou ent2o sejam
matCria que cada um deles contCm singu-          submetidas a exceg6es ".
IV. fi ordem do mundo
                                     de
                        e a e~istgncia Deus


     0sistema do mundo                          estrelas fixas, em virtude de sua gravidade,
                                                n i o caiam uns sobre os outros, ele p6s esses
     k uma grande mbquina                       sistemas a uma imensa distiincia entre si."
                                                       A ordem do mundo mostra com toda
                                                evidtncia a existtncia de um Deus sumamen-
      As "regras do filosofar" encontram-se     te inteligente e poderoso. Mas, alCm de sua
no inicio do livro terceiro dos Principia. E    existtncia, o que mais podemos afirmar so-
no fim desse mesmo livro encontramos o          bre Deus? "Assim como o cego niio tem
Scholium generale, em que Newton liga os        nenhuma idCia das cores, nos tambCm niio
resultados de suas investigag6es cientificas    temos nenhuma idCia do mod0 como Deus
a considerag6es de ordem filosofico-teolo-      sapientissimo percebe e compreende todas
gica. 0 sistema d o mundo e' urna grande        as coisas. Ele C completamente privado de
maquina. E as leis de funcionamento das         corpo e de figura corporea, raziio pela qua1
varias partes dessa m6quina podem ser de-       niio pode ser visto, nem ouvido, nem toca-
tectadas indutivamente atraves da observa-      do; nem deve ser adorado sob a representa-
giio e do experimento.                          giio de algo corporal." Diz Newton que, das
      Mas eis um ulterior e importante quesi-   coisas naturais, nos so conhecemos aquilo
to de natureza filosofica: de onde se origina   que podemos constatar com os nossos sen-
esse sistema do mundo, esse mundo orde-         tidos: figuras e cores, superficies, cheiros,
nado e regulado? "Esse sistema extrema-         sabores etc. Entretanto, nenhum de nos co-
mente maravilhoso do sol, dos planetas e        nhece "o que seja a substiincia de uma coi-
dos cometas so pode ter-se originado do         sa". E se isso vale para o mundo natural,
projeto e da potkncia de um Ser inteligente     vale muito mais quando queremos falar de
e poderoso. E se as estrelas fixas siio cen-    Deus: "Muito menos ainda temos idCia da
tros de outros sistemas aniilogos, tudo isso,   substiincia de Deus." 0 que podemos dizer
dado que foi formado pel0 idtntico proje-       de Deus C que ele existe, 6 sumamente inte-
to, deve estar sujeito ao dominio do Uno,       ligente e 6 perfeito. E podemos dizi-lo a
sobretudo visto que a luz das estrelas fixas    partir da constatagio da ordem do mundo,
C da mesma natureza que a luz do sol e que      j6 que, no que se refere a Deus, "C fungiio
a luz passa de cada sistema a todos os ou-      da filosofia natural falar dele partindo dos
tros sistemas; e, para que os sistemas das      fen6menosV.




      O mktodo de flewton:                      a existcncia de um Deus ordenador, conscien-
                                                te e onipotente. Pois bem, como escreve
      formula'          rrovb-las               Newton no final do Scholium generale, "ate
                                                agora explicamos os fenhmenos do cCu e do
                                                nosso mar pel0 recurso 21 forqa de gravida-
      0 mundo C ordenado. E, "pela sapien-      de, mas ainda niio estabelecemos a causa da
tissima e otima estrutura das coisas e pelas    gravidade. E certo que ela se origina de uma
causas finais", estamos autorizados a afirmar   causa que penetra at6 o centro do sol e dos
239
Capitulo de'cimo segundo -   Sistewa   do wundo, m e t ~ d o l o ~e a
                                                                   i filosofia na obra deflewton


planetas, sem sofrer a minima redugiio de sua        e conhecido porque formulou hipoteses e as
forga, que niio opera em relaqiio i quantida-        prouou, hip6teses que explicam por que a
de de superficie das particulas sobre as quais       mag5 cai no chiio e por que a lua niio se
age (corno costuma ocorrer com as causas             choca com a terra, por que os cometas
mecfnicas), mas em relaciio i quantidade             gravitam em dire~iio sol e por que ocor-
                                                                             ao
de matCria s6lida que elas contCm, e sua agiio       rem as marks.
se estende por toda parte, a distfncias imen-              Mas, sendo assim, o que entendia New-
sas, decrescendo sempre em raziio inversa ao         ton por "hipoteses" quando dizia que "niio
quadrado das dist8ncias. A gravitagiio em di-        inventava hipoteses"? Eis a resposta de
r e @ ~ sol C composta pela gravita~iio
       ao                                   em       Newton: "[ ...I e niio invento hipoteses. Com
diregiio i s particulas singulares de que C fei-     efeito, tudo aquilo que niio C deduzido dos
to o corpo do sol. E, afastando-se do sol,           fenbmenos deve ser chamado de hipdtese.
decresce exatamente em razHo inversa do              E as hipoteses, tanto metafisicas como fisi-
quadrado das distfncias at6 a orbita de              cas, tanto de qualidades ocultas como me-
Saturno, como C mostrado claramente pela             cf nicas, niio tern nenhum lugar na filosofia
quietude do afClio dos planetas e at6 os ulti-       experimental. Em tal filosofia, as proposi-
mos afClios dos cometas, se C que esses afClios      gBes particulares siio deduzidas dos fen&
estiio em quietude".                                 menos e, posteriormente, tornadas gerais
      A forga de gravidade, portanto, existe.        por induggo. Foi assim que se descobriu a
E C a observagiio que a atesta. Mas, se qui-         impenetrabilidade, a mobilidade e a forga
sermos nos aprofundar mais, h i uma per-             dos corpos, bem como as leis do movimen-
gunta que niio pode ser evitada: qua1 6 a            to e da gravitagiio. Para nos, C suficiente que
raziio, a causa ou, se preferirmos, a esshcia        a gravidade exista de fato e atue segundo as
da gravidade? Responde Newton: "Na ver-              leis que expusemos, estando em condigBes
dade, ainda niio consegui deduzir dos fen&           de explicar amplamente todos os movimen-
menos as razBes dessas propriedades da gra-          tos dos corpos celestes e do nosso mar." A
vidade. E niio invento hipoteses".                   gravidade existe de fato; ela explica os movi-
      Hypotheses non fingo: essa C a famosa          mentos dos corpos e serve para prever as
e conhecida sentenga metodologica de New-            suas futuras posigBes. Isso C o que basta
ton, tradicionalmente citada como irrevo-            para o fisico. Ja a causa da gravidade C uma
gavel chamado aos fatos e como condena-              questgo cuja resposta extrapola o fmbito
$20 decidida e motivada das hipoteses ou             da observagiio e do experimento, escapan-
conjecturas.                                         do portanto do campo da "filosofia experi-
      Entretanto, esta claro para todos que          mental".
Newton tambCm formulou hipoteses. Ele                      E Newton niio quer se perder em
ficou conhecido e sua grandeza C ilimitada           conjecturas metafisicas que nHo sejam pas-
niio porque tenha visto uma ma@ cair ou              siveis de verificagiio. Esse C o sentido de sua
porque tenha observado a h a , ele e' grande         expressiio "hypotheses non fingo".




      As tr& leis do         movimento                rente a heranga de Descartes e Galileu e, ao
                                                      mesmo tempo, a de Bacon e Boyle. Com efei-
                                                      to, tanto para Boyle como para Newton, "o
     Tanto no que se refere ao mitodo como            livro da natureza esta escrito em caracteres
quanto aos conteudos, os Principia repre-             e termos corpusculares; entretanto, exata-
sentam a realizagiio completa daquela re-             mente como para Galileu e Descartes, i uma
volugiio cientifica que, iniciada por CopCr-          sintaxe puramente matematica o elemento
nico, havia encontrado em Kepler e Galileu            que liga esses corpusculos, dando assim sig-
os dois representantes mais geniais e presti-         nificado ao texto do livro da natureza". Es-
giosos. Como sugere KoyrC, Newton reco-               sencialmente, as letras do alfabeto em que
lhe e plasma em um todo orgfnico e coe-               est6 escrito o livro da natureza siio um nu-
240
        Segunda parte - A    r e u o l u s ~ oc i e n t p i a



mero infinito de particulas, cujos movimen-                     dois corpos siio sempre iguais e dirigidas e m
tos siio regulados por urna sintaxe constitui-                  dire~oes contrarias".
da pelas leis do movimento e pela lei da gra-                         Esse principio de igualdade entre aqiio
vitaqiio universal.                                             e reaqiio 6 ilustrado por Newton do seguinte
      Eis, entiio, as tres leis newtonianas do                  modo: "Qualquer coisa que exerqa press20
movimento, leis que representam a enun-                         sobre outra coisa ou puxe outra coisa sofre
cia~iio  clissica dos principios da dinimica.                   essa pressiio em igual medida ou C puxada
      A primeira lei C a lei da ine'rcia, na qual               tambCm por essa outra coisa. Se tu apertas
trabalhara Galileu e que Descartes formu-                       urna pedra com o dedo, teu dedo tambCm 6
lara com toda a exatidiio. Assim, Newton                        apertado pela pedra. Se um cavalo puxa urna
escreve: "Todo corpo persevera e m seu es-                      pedra ligada por urna corda, o cavalo tam-
tad0 de quietude ou de movimento retilineo                      bim C (se assim posso dize-lo)puxado igual-
uniforme, a menos que seja for~adoa mu-                         mente para tris em direqiio a pedra [...I".
dar esse e s t a d o por f o r ~ a ssobre ele                         Siio essas, portanto, as leis d o movi-
exercidas ".                                                    mento. Entretanto, os estados de quietude e
      Newton exemplifica esse principio fun-                    de movimento retilineo uniforme s6 podem
damental do seguinte modo: " 0 s projCteis                      ser determinados em relaqio aos outros cor-
perseveram em seus movimentos enquanto                          pos, que estejam em quietude ou em movi-
niio forem retardados pela resistencia do ar                    mento. Mas, como niio se pode estender ao
ou niio sejam puxados para baixo pela for-                      infinito o reenvio a sistemas ulteriores de
qa da gravidade. Um piiio (. ..) niio cessa de                  referencia, Newton introduz as noqBes (que
rodar seniio pel0 motivo de ser retardado                       se tornariam objeto de grandes debates e fir-
pela resistencia do ar. 0 s corpos maiores dos                  mes contestaqdes) de tempo absoluto e de
planetas e dos cometas, estando em espaqos                      espaGo absoluto: "0 tempo absoluto, ver-
mais livres e com menos resistencia, pre-                       dadeiro e matemitico, em si e por sua natu-
servam seus movimentos progressives e ao                        reza, flui uniformemente, sem relaqiio com
mesmo tempo circulares por um tempo                             qualquer coisa de externo e, corn outro
muito mais longo."                                              nome, chama-se duraqio. 0 tempo relati-
      A segunda lei, j i formulada por Gali-                    vo, aparente e comum, C a medida sensivel
leu, diz: " A m u d a n ~ a movimento e' pro-
                          de                                    e externa [...I da duraqiio do movimento
porcional a f o r ~ amotriz exercida e ocor-                    atravCs do meio, sendo comumente usado
re nu dire~iio linha reta segundo a qual a
              da                                                em lugar do tempo verdadeiro: C a hora, o
f o r ~ a exercida".
        foi                                                     dia, o mes, o ano." "0espaqo absoluto, por
      A formulaqiio da lei, Newton faz se-                      natureza privado de relaqiio com qualquer
guirem-se observaqdes como estas: "Se de-                       coisa de exterior, permanece sempre seme-
terminada forqa gera um movimento, urna                         lhante a si mesmo e im6velm.
forqa dupla gerari movimento duplo, urna                              Esses dois conceitos, de tempo absolu-
forqa tripla um movimento triplo, seja quan-                    to e de espaGo absoluto, niio tern significa-
do a forqa for exercida ao mesmo tempo e                        do operativo e siio conceitos empiricamente
de um so golpe, seja quando for gradual e                       niio verificiveis. Entre outras criticas con-
sucessivamente. E esse movimento (dirigin-                      tra eles, ficou cklebre a de Ernst Mach, que,
do-se sempre na mesma direqiio da forqa                         em seu livro A mecinica e m seu desenvolvi-
geradora), quando o corpo j i estava em mo-                     mento historico-critico, afirmara que o es-
vimento, C acrescentado ou subtraido do                         paqo e o tempo absolutos de Newton s50
primeiro movimento, conforme se conju-                          "monstruosidades conceituais".
guem diretamente ou sejam diretamente
contririos um ao outro, ou entiio se acres-
centam obliquamente, se eles forem obli-
quos, de mod0 a produzir novo movimen-                               A lei de gvavitaq2io universal
to, composto pela determinaqiio de ambos".
Essas duas leis, juntamente com a terceira,
que exporemos a seguir, constituem ele-                               Entretanto, no interior do espaqo ab-
mentos centrais da mecincia clissica que se                     soluto - que Newton chama tambCm de
aprende na escola.                                              sensorium Dei -, a maravilhosa e elegan-
      A terceira lei, formulada por Newton,                     tissima conexiio dos corpos C sustentada por
afirma que "a toda a@o se op6e sempre uma                       aquela lei da gravidade que Newton expde
igual rea~iio, seja, as a ~ 6 e reciprocas de
             ou                 s                               no terceiro livro dos Principia.
24 1
Capitulo de'cimo segundo - Sistema do mundo, m e t o d ~ l o ~ei a
                                                                 filosofia na obra de Newton


     Tal lei de gravidade diz que a forqa de       em todos os casos, tanto da atraqiio reci-
gravitagiio com que dois corpos se atraem C        proca entre terra e h a como entre a terra e
diretamente proporcional ao produto de             urna ma@ etc.
suas massas e inversamente proporcional ao              Com a lei da gravidade, Newton che-
quadrado de sua distiincia. Em simbolos,           gava a unico principio capaz de explicar urna
essa lei se expressa na conhecida formula:         quantidade ilimitada de fen6menos.
                                                         Com efeito, a forqa que faz cair urna
                                                   pedra ou urna ma@ ao chiio tem a mesma
                                                   natureza que a forqa que mantCm a lua vin-
                                                   culada a terra e a terra vinculada ao sol. E
                                                   essa forga 6 a mesma que explica o fen6me-
onde F C a forga de atraqiio, m, e m, siio as      no das maris (corno efeito combinado da
duas massas, D C a distiincia que separa as        atraqiio do sol e da lua sobre a massa de
duas massas e G 6 urna constante que vale          hgua dos mares).




                    VII.           mecznica de N e w t o n
                          nvotlvama
                    C O ~ O                            de p e s q ~ i s a


      Ih i m p o r t & n c i a                     base fundamental de sua meciinica, com o
                                                    tempo, conseguiria fornecer a chave para a
      d a fisica n e w t o n i a n a                compreensiio de todos os fen6menos. Assim
                                                    pensaram seus seguidores, com maior certe-
                                                    za que ele, e assim tambCm pensaram os
                                                    seus sucessores, at6 o fim do siculo XVIII".
      No final do Scholium generale, Newton               A meciinica de Newton foi um dos mais
prop8e um claro "programa de pesquisa",             poderosos e fecundos paradigmas ou pro-
pel0 qual a forqa de gravidade n i o esth ape-      gramas de pesquisa da hist6ria da cihcia:
nas em condig8es de explicar fen6menos              depois de Newton, para a comunidade cien-
fisicos como a queda dos graves, as orbitas         tifica, "todos os fen6menos de ordem fisica
dos corpos celestes ou as maris, mas tam-           deviam se referir i s massas, que obedecem
bCm, como ele sustenta, poderh ainda, no            a lei do movimento de Newton" (A. Eins-
futuro, explicar fen6menos elCtricos, fen&          tein). A realizagiio do programa de Newton
menos oticos e atC fatos fisiologicos. Muito        ainda caminharia por muito tempo at6 se
embora, como acrescentava Newton, "niio             confrontar com problemas que, para serem
C possivel expor essas coisas em poucas pa-         resolvidos, demandariam verdadeira revo-
lavras e n6s n i o dispomos dos experimen-          lugiio cientifica, vale dizer, urna reviravolta
tos suficientes para urna acurada determi-          radical nas idiias fundamentais da cihcia
nag50 e demonstraqio das leis com as quais          newtoniana.
opera esse espirito elCtrico e elhstico".                 A fisica newtoniana admite urna raziio
      0 pr6prio Newton procurou realizar            limitada: a cihcia niio tem a fungiio de des-
esse programa atravCs de suas pesquisas no          cobrir substiincias, esshcias ou causas es-
campo da otica "quando sup6s que a luz              senciais. A ci@ncianiio busca substiincias,
fosse composta de corpusculos inertes" (A.          mas funq8es; niio busca a esshcia da gravi-
Einstein). A verdade C que, como escreve            dade, mas contenta-se em saber que ela exis-
ainda Einstein, "Newton foi o primeiro que          te de fato e explica os movimentos dos cor-
conseguiu encontrar urna base claramente             pos celestes e do nosso mar. Entretanto,
formulada a partir da qual podia deduzir             como escreve Newton na Otica,"a causa
grande numero de fen6menos mediante o                primeira certamente n i o e meciinica". E tan-
raciocinio matemhtico, logico, quantitativo          to a raziio limitada e verificada pela expe-
e em harmonia com a experiincia. Na ver-             ricncia como o deismo seriam duas heran-
dade, ele podia justamente esperar que a             qas centrais que o Iluminismo receberia de
242    Segunda parte - A r r v ~ I ~ + cieniifica
                                       o


Newton, ao passo que os materialistas do            ele n i o o 6, pois entre os corpos atua uma
siculo XVIII encontrario sua base teorica           "aqiio a disthcia". Por isso, tanto os carte-
sobretudo no mecanicismo cartesiano. E, ja          sianos como Leibniz veriam nessas misterio-
que falamos do mecanicismo cartesiano,              sas forqas que agem a distincias ilimitadas
devemos recordar que, enquanto para os              nada mais que um retorno 5s "qualidades
cartesianos o mundo i pleno, para Newton            ocultas" do passado.




                             VIII.  descobevta
                          do c6IcuIo infinitesimaI
                                      corn Leibniz


                                                    bim foram-lhe de validade os estudos de
                                                    Franqois Viite (1540-1603),particularmente
                                                    a Isagoge in artem analyticam, que teorizava
                                                    sobre a aplicaqio da algebra ii geometria
                                                    pela introduqio de rudimentos do cdculo
      Em seus primeiros anos de estudo no           literal, com a relativa e oportuna escritura
Trinity College de Cambridge, Newton ocu-           simbolica. E Newton encontrou ainda ou-
pou-se predominantemente de matematica:             tras fontes para as suas pesquisas matema-
aritmitica, trigonometria e, sobretudo, geo-        ticas na Clavis mathematicae de William
metria. Estudou-as com base nos Elemen-             Oughtred (1574-1660), e em varios escri-
tos de Euclides, que leu com grande facili-         tos de John Wallis (1616-1703).
dade, e na Geometria de Descartes, lida com               Com efeito, os estudos sobre os infi-
alguma dificuldade, pel0 menos no princi-           nitesimais foram muito impulsionados pelos
pio. Como ja sabemos, em Cambridge, Bar-            problemas geomitricos, mais precisamente
row logo percebeu as grandes qualidades do          pelos problemas de medida das figuras soli-
discipulo, apreciando especialmente as suas         das, isto 6, pela estereometria. A figura cen-
novas idiias no camDo da matematica. E              tral nesse campo de estudo i constituida por
quando, em 1669, recebeu o escrito Analysis         Boaventura Cavalieri (1    598 aproximada-
per aequationes numero terminorum infini-           mente - 1647), que, na Geometria indivisi-
tas, elaborado nos tres anos anteriores, ce-        bilibus continuorum nova quadam ratione
deu-lhe a sua citedra na propria universi-          promota (trabalho publicado em 1635, de-
dade. Na realidade (e isso 6 importante no          pois de muitos anos de preparaqio), estabe-
aue se refere 2 sua historica controvirsia          lece aquele principio que at6 hoje porta o
com Leibniz, sobre a qual falaremos), os            seu nome: o principio de que a relagio en-
~rimeiros  escritos de matemitica de Newton         tre as ireas ou os volumes de duas figuras
s i o ainda anteriores. 0 pequeno tratado           geomitricas t igual a relaqiio entre as suas
Methodus firuxionum et seriarum infinita-           partes indivisiveis, obtidas com mitodos
rum, no qual registra os resultados de suas         adequados. Outras contribuiqees prelimina-
primeiras pesquisas, i presumivelmente qua-         res para o estudo dos infinitesimais provim
tro anos posterior ao trabalho de 1669. Tra-        de Kepler, com sua Nova stereometria do-
ta-se de estudos sobre os infinitesimais. isto      liorum vinariorum (1 5); grande difusor
                                                                            61
6, sobre pequenas variaqi5es de certas gran-        e aplicador do mitodo de Cavalieri foi Evan-
dezas, sobre as suas relasees, que depois           gelista Torricelli (1608-1647);Pierre Fermat
serio chamadas de derivadas, e sobre as suas        (1601-1665) deu a esse mitodo melhor e
somas, que seriam denominadas integrais.            mais rigorosa formulaqio matematica.
      Para tanto, representou para ele um                 Pois bem, Newton trabalhou com es-
instrumento precioso a geometria analitica          sas bases, mas introduzindo desde o inicio
de Descartes, ou seja, a traduq5o de curvas         tambim algumas refercncias precisas iacus-
e superficies em equaq6es algibricas. Tam-          tica e A otica, ou seja, ramos da fisica que
243
Capitulo de'czmo segundo - S i s t e m a d o mundo, metodologm e filosofia n a obva d e Newton       - -      -   -


tambim estava estudando na epoca. E logo             para indicar a velocidade de um ponto nas
a matriz fisica se fara sentir de mod0 deter-        tr2s diregoes coordenadas. Dai derivam va-
minante em suas pesquisas matematicas.               rios problemas, mas fundamentalmente
                                                     dois: calcular as relaqdes entre fluentes, sen-
                                                     do conhecidas as relaqoes entre fluxdes, e
                                                     vice-versa.
                                                             N o caso particular da mecinica, sen-
                                                     do conhecido o espaqo em funqiio do tem-
                                                     po, calcular a velocidade; e, vice-versa, co-
                                                     nhecendo-se a velocidade em f u n ~ i i odo
      Newton so publicaria a primeira sin-           tempo, calcular o espaqo percorrido. Em
tese sobre o calculo infinitesimal mais tar-         termos contemporineos, respectivamente,
de, em 1687, no inicio de sua obra mais              derivar o espaqo em relaqiio ao tempo e in-
importante, as Philosophiae naturalis prin-          tegrar a velocidade no tempo. Sem nos
cipia mathematica. A publicaqiio impressa            aprofundarmos muito nos particulares de
de suas obras principais sobre o tema sera           tip0 ticnico, devemos dizer que Newton
ainda posterior: em 1711, saiu um escrito            conseguiu demonstrar muitas das mais im-
de 1669, intitulado De analysis per aequa-           portantes regras de derivaqiio e integraqiio.
tiones numero terminorum infinitas; em               Ademais, introduziu os conceitos de deri-
1704 foi publicado, como ap2ndice a o tra-           vada segunda (derivada da derivada; no caso
tad0 de Otica, o seu Tractatus de qua-               mecsnico, a aceleraqiio) e de derivada de
dratura curvarum, que havia escrito em               urna ordem qualquer. Tambim teorizou ri-
1676; o ja mencionado tratado Methodus               gorosamente as ligaqdes entre derivaqiio e
fluxionurn et seriarum infinitorum, escrito          integraqiio, alCm de introduzir e resolver as
em latim no ano de 1673, so sairia em edi-           primeiras equaqoes diferenciais (isto 6, com
q5o inglesa em 1736, ou seja, postuma-                urna funqiio incognita, consistindo em urna
mente.                                                igualdade entre expressdes contendo a fun-
      Mas vejamos a teoria, denominada pe-            180 incognita e suas derivadas).
lo proprio Newton de teoria "dos fluentes e                  Com tudo isso, fica clara a poderosa
das fluxdes". Nos primeiros escritos, ele se         contribuiqiio conceitual que a mecinica lhe
limita a ampliar e desenvolver o estudo "al-          forneceu na elaboraqiio de sua nova teoria
gibrico" do problema, especialmente com               matematica. Com efeito, Newton possuia
base nos trabalhos de Fermat e Wallis. Lo-            urna concepqiio instrumental da matemati-
go, porim, sera urna intuiqiio de tip0 fisi-          ca: para ele, ela nada mais era do que urna
co, mais precisamente de tip0 mecinico, que           linguagem a utilizar para descrever aconte-
 lhe indicara o caminho correto para resol-           cimentos naturais. Nisso, alinhava-se com
ver o problema.                                       o pensamento de Thomas Hobbes, ao pas-
      Graqas 2 contribuiqiio conceitual des-          so que, como veremos, em 1734, George
 se ram0 fundamental da fisica, ele supe-             Berkeley, na obra 0 analista ou discurso a
 ra a idiia de que as linhas sejam somente            urn matematico incre'dulo, o acusara de pou-
 agregados de pontos, considerando-as co-             co rigoroso. Talvez niio seja casual que a
 m o trajetorias d o movimento de um pon-             notaqiio newtoniana (o ponto sobre a va-
 to. Conseqiientemente, as superficies tor-           riavel, para indicar a sua derivada em rela-
 nam-se movimentos de linhas e os solidos             q5o ao tempo) s6 tenha permanecido em uso
 transformam-se em movimentos de su-                  at6 nossos dias nos campos da mecsnica
 perficies. Por exemplo, as superficies siio          racional, da fisica matematica e em outras
 descritas por movimentos proporcionais i             areas afins - e, assim mesmo, s6 raramen-
 ordenada, a o passo que a abscissa cresce            te, tendendo a desaparecer.
 com o transcorrer do tempo: dai o nome                      Desse modo, a teoria newtoniana res-
 de "momento" para o acriscimo infini-                sente-se claramente de sua particular origem.
 tesimal, de "fluente" para a area e de               Ademais, a sua represeniaqiio formal (x, y,
 =fluxiion para a ordenada, em um dado                z.. . para os fluentes; g, jr, z.. . para as fluxoes;
 instaqte.                                            xo, yo, zo.. . para os momentos ou diferen-
       E com base nisso que ele introduz a            ciais) i certamente preciosa para o estudio-
 notaq5o                                              so de mecinica, na qua1 so se deriva em re-
                                                      laqiio a o tempo e as derivadas possuem um
                                                      significado previamente fixado (precisamen-
244
         Segunda parte   - $           cientffica
                                revolu~80



te, a derivada primeira C a velocidade e a           para a derivada de y em relag50 a x. Ade-
derivada segunda C a aceleraqso),mas mostra-         mais, Leibniz introduziu um grande S maius-
se pouco flexivel e substancialmente esttril         culo para denotar a integral, notaqiio que
para outros setores. Ademais, na represen-           tambim se tornou de uso comum. Quanto
taqiio formal newtoniana falta um simbolo            ao resto, sua teoria nHo difere muito da de
para o integral. Em esshcia, siio essas as           Newton. E seus pontos de chegada na elabo-
criticas que Ihe s50 dirigidas pel0 outro gran-      raqiio posterior sHo mais ou menos analogos.
de fundador do calculo infinitesimal: Gott-                Entretanto, falta-lhe tambCm o rigor
fried Wilhelm Leibniz (1646-1716).                   matematico de fundo -e isso faz falta por-
                                                     que ainda niio se consolidara e teorizara a
                                                     noqiio necessiria de "limite".
                                                           Na realidade, as bases conceituais des-
   if   A ro lewica
              A                                      sa noqso fundamental ja estavam presentes
        entre n e w t o n e      Leibniz             na Aritbmetica infinitorum do ja citado John
                                                     Wallis. E, se quisermos remontar as origens,
                                                     a idCia ja esta presente no mCtodo da exaus-
      A aproximaqiio que levou Leibniz ao            tiio de Eud6xio (408-355 a.C.), aplicado
problema era fundamentalmente diferente              com sucesso a varios problemas geomitri-
e, em alguns aspectos, complementar. Ele             cos por Euclides e Arquimedes. Entretanto,
partiu de notiveis contribuiqdes, at6 inCdi-         so se encontra tratamento rigoroso dessa
tas, de Blaise Pascal, sobretudo da geome-           nogiio e sua posiqiio como base da analise
tria analitica. Foi sobre essa base - mate-          infinitesimal no skulo X I X , com Bernhard
matica, portanto, e nHo fisica -que Leibniz          Bolzano (1781-1848) e com Augustin-Louis
teorizou a derivada de um ponto de uma               Cauchy (1789-1857).
curva como o coeficienteangular da reta tan-               A obra de Leibniz data aproximada-
gente no ponto (isto C, aquilo que n6s hoje          mente do period0 1672-1673, sendo portanto
chamamos de tangente trigonomktrica do               posterior ou, quando muito, contemporiinea
iingulo que ela forma com o eixo das abscis-         ide Newton. Entretanto, a publicaqiio im-
sas), entendendo tal reta tangente como uma          pressa do seu trabalho fundamental, Nova
secante ideal naquele ponto e em outro pon-          metbodus pro maximis et minimis itemque
to infinitamente pr6ximo do ponto dado.              tangentibus, t de 1684, portanto tris anos
Em virtude dessas consideraqijes, formulou           antes a dos newtonianos Pbilosophiae natu-
a conhecida, mais difundida e hoje comum             ralis principia rnathematica. Por isso, alimen-
notaqiio                                             tada tambCm por equivocos, explodiu feroz
                     dx dy                           disputa entre Newton e Leibniz sobre a prio-
                                                     ridade da descoberta: disputa muito pouco
para as diferenciais das variiveis x e y e           cavalheiresca, dominada pela animosidade,
                                                     por acusaqdes e tambCm permeada pel0 or-
                                                     gulho nacionalista. Mas nHo C o caso de nos
                                                     alongarmos muito sobre essa controvirsia.




                                                     V ~ s t de I orztlres no sec14lo XVIII.
                                                             ~r
                                                     0 balrro dr Kensrngton.
                                                     on& Newton se transferlu ern 172 T,
                                                     nu r;,im-a era apenus unz v r h r q o cumpestre.
245     1:
Capitulo de'cimo segundo - Sistema do mundo, ~ e t o d o l o ~ i a
                                                              e filosofia na obra deNewton




                                                    resulta da dureza das partes, dai deduzimos
                                                    corretamente que 860 duras as particulas ndo
                                                    so dos corpos que tocamos, mas de todos os
                                                    outros. Que todos os corpos sdo impenetrd-
                                                    veis nos o aprendemos ndo pela razdo, mas
                                                    pela sensa<do. Achamos impenatrdveis os
                                                    corpos que rnanipulamos, e dai concluimos
      AS quatro regrcrs                             que a impenetrabilidade b propriedade uni-
      do rn6todo                                    versal ds todos os corpos. Qua todos os cor-
      experimental                                  pos sdo moveis e dotados de certos poderes
                                                    (qua definirnos inbrcia) de parseverar em seu
                                                    estado de movimento ou de repouso, nos o
        Rs regros rnetodologicos enunciados         deduzimos apenas de propriedades and-
 por Newton no inicio do livro Ildos Principia
                                l                   logas que observamos nos corpos que ve-
 recjnern tornbQrn os ossuntos de tipo meto-        rnos. R extensdo, dureza, impenetrabilidade,
 flsico por sle reconhscidos.                       rnobilidade e inBrcia do conjunto resultam da
                                                    extensdo, dureza, impenetrab~lidade,    mobili-
                                                    dade e inhrcia das partes; e dai concluimos
      I. N6o devernos odrnitir rnois causos dos     que as particulas rninirnas de todos os cor-
coisas noturois, do qus os verdodeiros e sufi-      pos sdo tarnbBm extensas, duras, irnpenetr6-
cientes poro explicar suas opor6ncias. Neste        veis, rnoveis e dotadas de uma inBrcia pro-
sentido os filosofos dizern que a notureza nada     pria. E este b o fundarnento de toda a
faz em vdo, e o mais B vdo quando o rnenos          filosofia. RlBrn disso, que as particulas divi-
basta; porque a natureza se cornpraz corn a sirn-   didas mas contiguas dos corpos sdo separd-
plicidade e ndo ostenta a pornpa das causas         veis urnas das outras 6 urn dado da observa-
sup&rfluas.                                         <do; e, nos particulas que perrnanecern
      II. Por isso, oos rnesrnos efeitos noturois   indivisas, nossa rnente b capaz de distinguir
devernos, o quanto possi'vel, otribuir as mas-      outras partes rnenores, corno se dernonstra
mos cousos. Rssirn, por examplo, a respira<do       rnaternaticamente. Mas, se as partes assim
no hornem e no animal; a queda de uma pedra         distintas e ndo clinda divididas podem, me-
na Europa e na Rrnbrica; a luz de nosso fogo        diante as forps do natureza, ser realmente
de cozinha e do sol; a reflexdo da luz sobre a      divididas e separadas urnas das outras, ndo
terra e sobre os planetas.                          o podernos deterrninar com certeza. Todavia,
      111. Rs quolidodes dos corpos que ndo         se tivBssemos a prova, mesmo com urn s6 ex-
admitern incrernsnto ou decrernento de grau,        perirnento, que uma particula indivisa sofre
a que resultern psrtinentes a todos os corpos       uma divisdo quando se quebra um corpo duro
dentro do esfero de nossos experirnentos, de-       e solido, podernos concluir dai, em virtude
vern ser considerodos quolidodes universois         desta regra, que as particulas divisas ou
de todos os corpos. Urna vez que as qualida-        indivisas podem ser divididas e realrnents
des dos corpos nos sdo conhecidas apenas            separadas ao infinito.
grqas aos experirnentos, devernos conside-                Por firn, urna vez que resulta universal-
rar unrversais todas as que concordam uni-          rnente dos experimentos e das observo@es
versalrnente corn os experimentos; e as que         astronhicas que todos os corpos circumter-
ndo s60 passiveis de decrernentos ndo po-           restres gravitam em dire~do terra, propor-
                                                                                   6
dem jarnais ser excec;des.Ndo devemos sern          cionalmente b quantidade de rnatbria que
duvida deixar a evid&ncia dos experirnentos         coda urn deles contBrn: que analogarnente
para correr atr6s de sonhos e de vds fic<des        a lua, segundo sua quantidade de rnatbria,
forjadas por nos rnesrnos; nem devernos afas-       gravita em dire560 6 terra; que, por outro
tar-nos da analogia do natureza, que B sirn-        lado, nosso mar gravita em d~regao lua; e
                                                                                          6
ples e sempre conforme a si mesrna. Ndo             todos os planetas urn para o outro; e os co-
podernos conhecer a extensdo dos corpos de          rnetas do rnesrno modo para o sol; devemos,
outra forrna que mediante nossos sentidos,          em base a esta regra, admitir universalrnente
nern estes sentidos a captarn em todos os           que todos os corpos sdo dotados de um prin-
corpos; mas, urna vez que colhemos a exten-         cip~o gravitqdo reciproca. lsso porque a
                                                          de
sdo em todos os que sdo sensiveis, nos a            prova fenornhica demonstra com mais forp
atribuimos tambbm a todos os outros. Rpren-         a gravita$do universal de todos as corpos e
demos da experihcia que urna quantidade             ndo sua impenetrabilidade; do qual, em re-
de corpos B dura; e corno a dureza do inteiro       la560 aos corpos celestes, ndo temos experi-
Segunda parte -      revoIuC~o
                                     cientifica


mentos nem outra observq2lo qualquer. N6o
afirmo qua a gravidode 6 essential aos cor-                Deus
pos: falando de sua vis insita design0 nada                e a ordem do mundo
mais qua sua inbrcia. Esta & imut6vel. Sua gra-
vidade decresce 2.1 med~da    que ss afastam
do terra.                                                  lsoac Neu~ton: ordem do mundo oo
                                                                          do
     IV. E filosofio experimental devemos
          m                                           Deus ordenodor. "Estoelegantissimo conjun-
consideror os proposi$bes extroidos por               $80 do sol, dos plonetos e dos cometas n8o
indugdo gerol dos fen6menos como precisas             p6de surgir sem o projeto s o poder de um
ou rnuito oproximados, opesor de todo hipo-           snte inteligente e poderoso".
tese contr6ria que se posso imoginor, 0th qua
se opresentem outros fen6menos qua as pos-
sarn tornor mais precisos ou os exponham a
exceg6es. Devemos seguir esta regra at& que                   0 s seis principais planetas giram em tor-
a prova indutiva n6o seja eludida mediante               no do sol em circulos conc&ntricos ao sol com
hip6tese.                                                movimento orientado na mesma dirq2lo e
                                        I. N ~ w t o n , aproximadamente sobre o mesmo plano. Dez
                            Philosophioe naturolis       luas giram em torno da terra, de Jirpiter e de
                            principio mothemotico.       Saturno em circulos conc&ntricos com movimen-




                                                                      NATURALIS

                                                                   PRINCIPIA
                                                                      NATHEMATICA,

                                                                              A   U   cro   R E
                                                                    ISAAC0 NE WTONO. Ha Au*

                                                                      Editio tertis &a   Rr emudrrp
                                                                              LONDINI:




Isaac Newton (aqui retratado nu margem do frontispicio de sua obra mais famosa
Philosophiae naturalis principia mathernatica),
foi o cientista que leuou a cabo a reuolupio cientifica.
Com seu "sistema do mundo" toma uulto a "fisica classica".
247 l;s#j#
Capitdo de'cimo segundo - S i s t e ~ a o undo,
                                      d           m e t ~ d o l o ~ea
                                                                   i filosofia na obra derlewton



to orientado na mesma dirqbo e aproximati-          versos orgbos de sentido e nos movimentos.
vamente sobre planos dos orbitas dos pla-           Na dura~bo    estbo presentes partes sucessi-
netas. E todos estes movimentos regularas           vas, no espa<opartes coexistentes: mas nern
nbo tiram sua origem de causas mecdn~cas;     os    umas nern as outras estbo presentes no pes-
cometas, com efeito, sbo transportados livre-       soa do homem, no seu principio pensante, e
mente em todas as partes do c&u conforme            muito menos na substbncia pensante de Deus.
orbitas fortemente exc&ntricas.E por este mo-       Todo homem, enquanto senciente, & um so
vimento os cometas passam muito rapidamen-          id&ntico homem em todos os orgbos de senti-
te e facilmente atrav&s das orbitas dos plane-      do singulares. Deus & um so e identico Deus
tas; s nos proprios af&lios onde sdo mais           sempre e em todo lugar. Deus nZlo &
lentas e retardam mais tempo, estbo tambbm          onipresente apenas pela virtude, mas tambbm
tdo distantes umas das outras qua se atraam         pela substdncia, j6 que ndo pode subsistir vir-
reciprocamente em minima medida. Esta ele-          tude sem substdncia. Nele os universos estdo
gantissima conjun~do sol, dos planetas e
                         do                         contidos e movidos, mas sem nenhuma pertur-
dos cometas nbo p8de surgir sem o projeto           ba~bo  reciproca. Deus nbo sofre nada por cau-
e o poder de um ente inteligente e podero-          sa dos movimentos dos corpos que ndo ofere-
so. E se as estrelas fixas 5.60 por sua vez cen-    cem nenhuma resist&ncia por causa da
tros de sistemas an61ogos, todos estes, sen-                                  <
                                                    onipresenp de Deus. manifesto qua o sumo
do construidos com id&ntico designio, estarbo       Deus deve existir necessariamente, e sm vir-
sujeitos ao poder do Uno: sobretudo enquan-         tude do mesma necessidade est6 sampre e
to a luz das estrelas fixas & do mesma nature-      em todo lugar. Por este motivo, ele & tambhm
za qua a luz do sol e todos os slstemas en-         inteiramente semelhante a si mesmo, todo
viam a luz reciprocamente para todos os outros.     olho, todo ouvido, todo c&rebro, todo braso,
E, a fim de qua os sistemas das estrelas fixas      todo forp sensorial, intelectiva e ativa, mas
nbo caiam um sobre o outro, por causa da gra-       de nenhum modo humano, de nenhum modo
vidade, ele colocou uma distdncia imensa en-        corporeo, em um mod0 para nos inteiramente
tre eles.                                           desconhecido. Rssim como o cego ndo tem
       Ele regs todas as coisas ndo como alma       id&ia das cores, tambbm nos nbo temos id&ia
do mundo, mas como senhor de todos os uni-          dos modos com que Deus sapientissimo sente
versos e pelo seu dominio costuma ser cha-          e entende todas as coisas. Ele & completa-
mado de Senhor Deus Pantochrator [dominador         mente privado de corpo e de figura corporea
universal].Deus, com efeito, 8 uma palavra re-      e por isso ndo pode ser visto nern ouvido, nern
lativa e se refers aos servos: a divindade, po-     tocado, nern deve ser venerado sob a ssp&-
r&m, & o dominio ds Dkus, nbo sobre o pro-          cis de algo corporeo. Temos idbias dos atri-
prio corpo, como afirmam aqueles para os            butos, mas ndo conhecemos por nada o que
quais Deus & a alma do mundo, mas sobre os          seja a substdncia de uma coisa. Dos corpos
servos. 0sumo Deus & o ante eterno, ~nfinito,       vemos apenas as figuras e as cores, ouvimos
absolutamente perfeito: mas um ente, embo-          apenas 0s sons, tocamos apenas as superfici-
ra perfeito, mas que ndo tenha dominio, ndo         es externas, sentimos o cheiro apenas dos
6 o Senhor Deus [...I. Da verdadeira denomi-        odores e degustamos os sabores, mas nBo
nacdo segue-se que o verdadeiro Deus &              conhecemos as substdncias intimas com ne-
                                    <
sumo, isto 6 , sumamente perfeito. eterno e         nhum sentido, com nenhuma atividade reflexi-
infinito, onipotente e onisciente, dura do eter-    va; e muito menos temos uma id&ia do subs-
nidade para a eternidade, e est6 presente no        tdncia de Deus. Nos o conhecemos apenas
infinito pela infinidade. Regs tudo e conhece       mediante suas propriedades e atributos e pela
tudo, tanto as coisas que acontecem, como           sapientissima e otima estrutura das coisas e
aquelas que podem acontecer. Nbo & eterni-          pelas causas finais; e o admiramos em virtude
dade e infinidade, mas & eterno e infinito; n60     da perfei~do,  mas, na verdade, nos o venera-
& dura~do espqo, mas dura e est6 presen-
             e                                      mos e o adoramos por causa de seu dominio.
te. Durci sempre e est6 presente em todo lu-        Nos adoramos, com efeito, como servos, e
gore, por existir sempra e em todo lugar, cons-     Deus sem dominio, provid&ncia e causas finals
titui a duraQ3o e o espaso, a infinidade e a        nbo 6 mais qua fato e natureza. Mas, a partir
eternidade. Toda particula do espqo est6            de uma cega necessidade metafisica que 6
sempre, todo momento indivisivel do dura<bo         perfe~tamente   id&ntica sempre e em todo lu-
est6 em todo lugor: o Autor e Senhor de todas       gar ndo surge nenhuma variedade das coisas.
as coisas ndo poderia jamais estclr e em ne-        A total diversidads por lugares e por tempos
 nhum lugar. Toda alma senciente 6 a propria        das coisas criadas pBde surgir apenas das id&-
 pessoa indivisivel nos diversos tempos, nos di-    as e do vontade de um Ente necessariamente
existente. E sentido als90ric0, com efeito, se
            m                                     ta, mas todav~a    semslhanta. E tudo ~sso res-
                                                                                            a
diz que Dsus v&, ouve, fala, ri, ama, odeia,      peito de Dsus: a respeito do qual 6 tarefa do
dessja, d6, toma, ira-se,combate, fabrica. fun-   filosofia natural falar partindo dos FsnBmsnos.
damsnta, constroi, pois todo discus0 em torno                                            I. Newton,
ds Dws dsriva inteiramente das coisas huma-                                 Philosophioe naturalis
nas por ssmslhanqx sem dljvida n8o perfei-                                  principia rnathernat~ca.
Capitulo dkcimo terceiro


fs cigncias      da vida,




  I. Desenvolvi~?entos
 das ciZncias da vida
go), podemos ler: " 0 sangue C transporta-
                                                do das artirias pulmonares para as veias
                                                pulmonares mediante prolongada passagem
                                                pelos pulm6es, durante a qual ele se torna
      N o sCculo XVI, assiste-se a grande       de cor carmesim" e "purifica-se pelos va-
florescimento da pesquisa anatGmica, cujos      pores fuliginosos com o ato de expiraqiio".
representantes mais conhecidos siio AndrC       Ja Realdo Colombo, em seu De re anato-
Vesalio (1514-1564), Miguel Servet (1509-       mica, escreve o seguinte: " 0 sangue chega
1553), Gabriel Falopio (1523-1562),Realdo       aos ~ u l m 8 e s
                                                                atravCs da veia arterial; depois,
Colombo (aprox. 15l6-1559), Andre Cesal-        misturado com ar, passa para o coraqio es-
pino (1529-1603) e Fabricio de Acquapen-        querdo, atravCs da artiria venosa".
dente (1533-1619).                                    Anatomista, botiinico e mineralogists,
      N o mesmo ano em que Nicolau Co-          AndrC Cesalpino, professor de anatomia em
pCrnico publicou o seu De revolutionibus,       Pisa e Padua, chegou a afirmar, contra a teo-
Vesalio, flamengo de origem e professor em      ria galinica, que os vasos sanguineos tim
Phdua, publicava tambtm o De corporis hu-       origem no coraqiio e nao no figado, susten-
mani fabrica. Feito com base em observa-        tando tambCm que o sangue chega a todas
q6es realizadas pel0 autor, esse livro "foi o   as partes do corpo.
primeiro texto acurado de anatomia apre-              Fabricio de Acquapendente, anatomis-
sentado a o mundo" (I. Asimov). Como ja         ta e embriologo, que tambCm trabalhou em
havia sido inventada a impressiio, ele foi      Padua, estudou as valvulas venosas, sem
difundido em milhares de c6pias por toda a      contudo conseguir chegar i circula~iio        do
Europa. E continha ilustraqoes verdadeira-      sangue.
mente belas, algumas das quais feitas por             Nesse meio tempo, continuando a tra-
Jan Stevenzoon van Calcar, discipulo de         diqiio de Vesalio, Falopio descreveu os ca-
Ticiano.                                        nais que V ~ do ovario ao utero e que ainda
                                                                 O
      Galeno afirmara que o sangue fluia do     hoje se chamam "trompas de Falopio".
ventriculo direito do coraqio para o esquer-          Finalmente, Bartolomeu Eustaquio (apro-
do, atravessando a parede de separaqio cha-     ximadamente 1500-1574),contrario a Vesa-
mado septo. Ao contriirio de Galeno, Vesalio    lio e seguidor de Galeno, estudou, entre
observou que o septo do coral50 C de natu-      outras coisas, o conduto que leva do ouvi-
reza muscular e espesso. E, na segunda edi-     d o $ garganta, que ainda hoje se chama
qiio de sua obra (1555), negou com toda cla-    "trompa de Eustaquio".
reza que o sangue pudesse atravessi-lo: "At6
algum tempo, eu niio teria ousado afastar-
me nem mesmo por um fio de cabelo da
opiniiio de Galeno. Mas o septo n2o i me-
nos denso, espesso e compact0 do que o res-           a   descoberta
to do coraqiio. Niio vejo, portanto, como a
menor particula que seja possa passar do
ventriculo direito para o ventriculo esquer-
d o d o coraqiio". Entretanto, Vesalio niio
conseguiu explicar o movimento do sangue.
      Miguel Servet, o reformador religioso           Tudo isso serve para dar uma idCia do
que em 1553 Calvino mandara executar, e         avanqo da anatomia no s k u l o XVI. Entre-
que havia conhecido Vesalio em Paris, su-       tanto, as pesquisas anat6micas mudaram de
p6s que o sangue circulava do receptaculo       rum0 quando William Harvey (1    578-1657),
direito para o esquerdo atravCs dos pulmoes.    em 1628, publicou o seu De motu cordis,
       Depois de Servet, foi Realdo Colombo     expondo a teoria da circula@o do sangue.
-tambCm professor de anatomia em Pidua          Trata-se de uma descoberta ~~~~~~~~~~~~ia,
- quem apresentou a idtia de que a respi-       pelo menos por tris raz6es: em primeiro lu-
 raqiio era um processo de purificaqiio do      gar, representou mais um golpe - e golpe
 sangue e niio um processo de resfriamento.     decisivo - na tradiqiio galinica; em segun-
 Na Restitutio christianismi (obra que foi      do lugar, fixou um ponto cardeal da fisiolo-
 queimada juntamente com o autor, Servet,       gia experimental; em terceiro lugar, a teoria
 e da qual so sobraram tris copias: uma em      da circulaq20 do sangue - acolhida por
 Paris, uma em Viena e a outra em Edimbur-      Descartes e Hobbes - tornou-se uma das
Capitulo de'cimo terceiro - ASciihcias da vida, a s Academias e a s Sociedades cientificas

bases mais solidas do paradigma mecanicista       (1497-1559),que, examinando cadiveres e
em biologia. Com efeito, embora Harvey            vendo que as artirias e o ventriculo esquer-
afirme que "o coraq5o pode muito bem [. ..I       do do coraqgo estavam vazios, havia afir-
ser designado como o principio da vida e o        mado, em sua Universa medicina (1542),
sol do microcosmo", ele sistematiza os re-        que um "corpo etireo" ou "espirito" vital
sultados da pesquisa anat6mica anterior           preenchia esses lugares enquanto o homem
dentro de um modelo claramente mecani-            estava vivo, desaparecendo com a morte.
cista: "E o seguinte [. ..I o verdadeiro movi-    Diz Harvey: "Fernel - e n i o somente
mento do sangue: [...I o sangue [...I, sob a      Fernel - sustenta que esses espiritos s i o
a@o do ventriculo esquerdo, i impelido para       substgncias invisiveis [...I. Mas basta di-
fora do coraqio e distribuido atravis das ar-     zer que, ao longo das investigaqoes anat6-
tirias para o interior do organismo e para        micas, nunca encontramos nenhuma forma
cada uma de suas partes - assim corno,            de espirito, nem nas veias, nem nos ner-
pelas pulsaq6es do ventriculo direito, ele i      vos, nem em qualquer outra parte do orga-
impelido e distribuido aos pulmties, atravis      n i s m ~".
da veia arterial - e [...I, recomeqando do               A teoria de Harvey, portanto, represen-
inicio, atravis das veias, o sangue reflui para   ta uma contribuiqao de primeira ordem pa-
a veia cava at6 o auriculo direito -da mes-       ra a filosofia mecanicista. Descartes es-
ma forma corno, pela artiria denominada           tendera para todos os animais a idiia (ja
venosa, ele reflui dos pulmoes para o ven-        explicitada por Leonardo da Vinci e presente
triculo esquerdo, do mod0 como indicamos          em Galileu) de que o organismo vivo i uma
acima". 0 coraqao e visto como uma bom-           maquina.
ba, as veias e artirias como tubos, o sangue             E essa idiia sera a base das pesquisas
como um liquid0 em movimento sob pres-            de Afonso Borelli (1608-1679), acadEmico
s50 e as vilvulas das veias cumprem a mes-        do Cimento*, professor de matematica em
ma funqso das valvulas mecbicas. Arma-            Pisa e autor da grande obra De motu ani-
do com esse modelo mecanicista, Harvey            malium, publicada postumamente em 1680.
lanqa-se contra o midico franc& Jean Fernel       Borelli, que Newton recordara em sua obra
                                                  maior, estudou a estitica e a dinimica do
                                                  corpo calculando a forqa desenvolvida pe-
                                                  10s musculos ao caminhar, ao correr, ao sal-
                                                  tar, ao levantar pesos e nos movimentos in-
                                                  ternos do coraqiio. Assim, mediu a forqa
                                                  muscular do coraqso e a velocidade do san-
                                                  gue nas artirias e nas veias. Para Borelli, o
                                                  coraqzo funciona como o pistso de um ci-
                                                  lindro e os pulm6es como dois foles. Corn
                                                  os mesmos objetivos, Borelli tambCm anali-
                                                  sou o v60 dos passaros, o nado dos peixes e
                                                  o arrastar dos vermes.



                                                         Francisco      Redi
                                                         contra a teovia




                                                        Outro acadEmico do Cimento que con-
                                                   tribuiu para o desenvolvimento das cihcias
                                                   midico-biologicas foi o aretense Francisco
                                                   Redi (1626-1698), que, com um experimen-


                                                   * Academia do Cimento: das experhcias cientifi-
                                                   cas, instituida em Floren~a 1657. Durou 10 anos.
                                                                             em
Segunda parte -   revoIuG~o
                                 cientifira



to que, com justiqa, ficou famoso na histo- cidas. E tanto mais se confirmavam minhas
ria da biologia, fez, naquela Cpoca, urna cri- suspeitas quando via que, em todas as gera-
tics decisiva contra a teoria da geraqiio es- q6es por mim feitas nascer, eu sempre havia
pontiinea. Em suas ExperiBncias acerca da visto sobre as carnes, antes que se enches-
gera@o dos insetos, escreve Redi: "Portan- sem de vermes, pousarem moscas da mes-
to, segundo o que eu vos disse e segundo o ma espCcie daquelas que depois nasciam.
que os antigos e novos escritores e a opi- Mas vii teria sido a duvida se a experiincia
niiio comum do povo querem dizer, toda niio a houvesse confirmado. Desse modo, em
podridiio de cadaver corrompido e toda su- meados do m2s de julho, coloquei em qua-
jeira de qualquer outra coisa putrefata gera tro frascos de boca larga urna serpente, al-
os vermes e os produz. De mod0 que, queren- guns peixes de rio, quatro enguias do Arno
do eu buscar a verdade, desde o principio e um naco de vitela; depois, fechei muito
do mi% de junho mandei matar tris daque- bem as bocas com papel e as selei muito bem
las serpentes chamadas 'cobras de Escula- com cera. Em outros tantos frascos, coloquei
pio'. THO logo morreram, coloquei-as em as mesmas coisas, mas deixei-os abertos.
urna caixa aberta, para que ali ficassem. Niio N i o passou muito tempo para que os pei-
foi precis0 muito tempo para que as visse xes e as carnes desses segundos frascos se
todas cobertas de vermes, que tinham a for- tornassem verminosos; e via-se que as mos-
ma de cones, sem perna alguma mas com o cas entravam e saiam ao bel-prazer nesses
olho aparecendo. Enquanto devoravam aque- frascos. Mas, nos frascos fechados, nunca
la carne, os vermes a cada momento cres- vi nascer sequer um verme, mesmo depois
ciam Fm tamanho [. ..] ".                       de terem transcorrido virios meses a partir
        E assim, portanto, que Redi apresenta do dia em que os cadaveres foram fecha-
a teoria da geraqiio espontiinea, ja venerada dos dentro deles. As vezes, porCm, encon-
em sua Cpoca. Entretanto, repetindo os ex- trava-se pel0 lado de fora do papel algu-
p e r i m e n t ~ escreve ele, "quase sempre eu ma larva ou vermezinho, que [...] procurava
                  ~,
vi, sobre aquelas carnes e aqueles peixes, encontrar alguma brecha por onde en-
bem como nas laterais das caixas onde es- trar para poder se nutrir dentro daqueles
tavam depositados, niio apenas os vermes, frascos. "
 mas tambCm os ovos dos quais, como disse            Mas voltemos agora a Harvey. A teo-
 acima, nascem os vermes. Esses ovos fize- ria da circulaqiio do sangue por ele propos-
 ram-me lembrar daqueles ovos que as mos- ta e provada constituiu um resultado de
 cas deixam sobre o peixe ou sobre a carne e importiincia enorme. Mas, como sempre, ao
 que, depois, tornam-se larvas, o que ja foi resolver um problema, urna teoria levanta
 observado muito bem pelos compiladores outros. A teoria de Harvey postulava a exis-
 do vocabulirio de nossa Academia e que tincia de vasos capilares entre as artCrias e
 tambem C observado pelos caqadores nas as veias, mas Harvey nunca os vira. E nem
 feras por eles mortas nos dias quentes, bem podia vi-los, jh que para tanto seria neces-
 como pelos aqougueiros e pelas donas-de- sario o microscopio. E foi Marcelo Malpighi
 casa, que, para salvar a carne dessa imundi- (1628-1694),o grande microscopista do sC-
 cie no veriio, colocam-na em alguidares e a culo XVII, que, em 1661, observaria o san-
 recobrem com panos brancos. Dai que, com gue nos capilares dos pulmoes de urna rii.
 muita raziio, no dCcimo nono livro da Iliada Malpighi foi pesquisador incansivel e ge-
 o grande Homero fez com que Aquiles te- nial. Em 1669, foi nomeado membro da
 messe que as moscas cobrissem com vermes Royal Society. Muito hibil nas tCcnicas ex-
 as feridas do morto Patroclo no momento perimentais, estudou os pulmoes, a lingua,
 em que ele rumava para realizar sua vin- o cCrebro, a formaqiio do embriio no ovo da
 ganqa contra Heitor [...]. E por isso a pie- galinha etc. Em 1663, Robert Boyle (1627-
 dosa miie prometeu-lhe que, com sua divi- 1691) conseguiu observar a direqzo dos
 na forqa, manteria longe daquele cadaver capilares, mediante a injeqiio de fluidos
 as imundas fileiras de moscas e que, contra coloridos e de cera derretida. E Antony van
 a ordem da natureza, o conservaria incor- Leeuwenhoek (1623-1723), que foi o pai
 rupto e inteiro at6 mesmo pel0 espaqo de da microscopia (construiu microsc6pios de
 um ano [. ..] ". E prossegue Redi: "Dai, co- at6 duzentos por um de aumento), viu a
 mecei a duvidar se, por acaso, todos os ver- propria circulaqio do sangue nos capilares
 mes niio derivariam apenas dos ovulos das da cauda de um girino e da perna de urna
 moscas e niio das pr6prias carnes apodre- ra. ad";L:X$m
253
Capitdo decimo terceiro - As cigncias da vida,   a s Pcademias e a s   Sociedades cientlficas



                             11. As Fcademias
                    e as Sociedades cientificas


         A ciencia e um fato social em sua genese, em suas aplica-
 ~ 6 e e sobretudo no metodo, pois o conhecimento cientifico, para 7603:
       s

 controlavel por todos. Ora, justamente com a finalidade de satis-
 fazer esta caracteristica essential da ciencia moderna, o jovem
                                                                           '::::z
 ser tall deve ser controlavel: publicamente controlavel, em teoria Cesi funds

 principe Federico Cesi (1585-1630) fundou em 1603 em Roma a
 Academia dos Linceus, provida de biblioteca, de laboratorio de
 historia natural e com jardim botdnico anexo. Galileu foi membro da Academia
 dos Linceus. Tal instituisao encerrou sua atividade em 1651 e tornou a funcionar
 em 1847.

        Em 1657 o principe Leopoldo de Toscana quis a instituisiiio
 da Academia d o Cimento. Foram academicos, entre outros,                         1657:
 Vincenzo Viviani, Afonso Borelli e Francisco Redi. Entre os socios               Leopo/do
 estrangeiros correspondentes devemos recordar Stenon. As pes-                    de Toscana
 quisas dos acadCmicos do Cimento contemplaram todo o ieque                       fund,
 das ciencias naturais: fisiologia, farmacologia, mecdnica, otica etc.            a Academia
 0 lema da Academia f o i "provando e reprovando". Devemos                        do Cimento
 salientar a grande atensiiio que os acad@micos    deram a constru-               +3 2
 @o e ao uso de instrumentos sempre mais exatos: termbmetros,
 microsc~pios,pdndulos etc.
        A Sociedade real de Londres para a promogao dos conhecimentos naturais
 (Royal Society for the Promotion o f Natural Knowledge) teve seu estatuto em
 1662, tlor Carlos 11. Tal estatuto estabelece que a finalidade da Sociedade e o de
 redigi; com linguagem clara, proxima da "dos artesaos, dos cam-
 poneses, dos mercadores" mais que da "dos filosofos". Nullius in ,662:
 verba foi e 4 o lema da Royal society. "Contra os fatos e os expe- carlos 11
 rimentos - disse Newton, que f o i primeiro membro e depois pre- dd o ~statuto
 sidente da Academia - nao se pode discutir".                        da Royal
      De 1662 a 1677, ano em que morreu, o secretario da Socie- society
 dade f o i Henry Oldenburg, que em 1665 iniciou a publicac;iiio das + 3 3
 Atas da Sociedade (as "Philosophical Transactions", que saem ain-
 da hoje), Na inten@o de Oldenburg as "Transactions" eram um convite aos estu-
 diosos "a pesquisar, experimentar e descobrir coisas novas, a comunicar-se mutua-
 mente os pr6prios conhecimentos". Isso, obviamente, com o fito de contribuir
 com o crescimento d o conhecimento humano.
      * Em 1666, sob o reinado d o Luis XIV,     e instituida e por    -           1666:
                                                                                         reinado
                                     -
 interesse d o ministro Colbert a Academia real das ciGncias                       de LuisXIV
 ( A c a d h i e royale des sciences). E no Memorandum de Christian                funda-se
 Huygens ao ministro Colbert afirma-se que "a ocupa@o fun-                         a~cad~mie
 damentai e mais util" dos membros da Academia e a de "tra-                        royale
 balhar para a historia natural conforme o plano trasado por                       dessciences
 Bacon".                                                                           +3 4
254     Segunda parte - A    reuolui~a cicntificn




 1 A Academia dos L i n c e ~ s                      dim botinico anexo. Em seu Do natural
                                                     desejo de saber e da institui@o dos Linceus
                                                     para realiza@o do mesmo (1616), Cesi es-
                                                     creve que, "faltando uma instituiqiio orde-
        "Organizar e coordenar as pesquisas,         nada, uma milicia filos6fica para uma em-
tornar estaveis e fecundas as relagdes entre a       presa tZo digna, tiio grande e tZo propria
cultura dos mecinicos e dos ticnicos e a dos         do homem como a aquisiqiio da sapiincia,
te6ricos e cientistas; transmitir a um public0       particularmente com os meios das princi-
o mais amplo possivel os resultados dos ex-          pais disciplinas, com esse fim e intento foi
                 e
p e r i m e n t ~ ~das pesquisas; abrir possibili-   erguida a Academia ou congress0 dos Lin-
dades sempre mais amplas de colaboraqiio             ceus, que, proporcionando a unizo das pes-
e verificagiio - foi com base nessas exigin-         soas aptas e preparadas para tal obra, pro-
cias, que siio comuns a Descartes e Mersenne,        cure, bem regulada, suprir a todas as faltas
a Boyle e Leibniz, que nasceram na Europa            e carincias, remover todos os obstaculos e
as primeiras sociedades e academias cientifi-        impedimentos e cumprir esse bom desejo,
cas. Separadas das universidades, que eram           propondo-se o agugadissimo Linceu como
tradicionalmente controladas pel0 poder ecle-        estimulo e lembranga para habilitar-se com
siastico, nasceram ao longo do siculo XVII           a agudeza e a penetragiio dos olhos da men-
novas sedes para a discussiio e a pesquisa.          te, necesshrias para a informagiio das coi-
0 s grandes epistolarios do siculo XVII, de          sas, e para resguardar minuciosa e diligen-
sua parte, documentam como era fortemen-             temente, por dentro e por fora, no que for
te sentida a exigincia de ampla colaboraqiio         possivel, todos os objetos que se apresen-
intelectual, capaz de superar as fronteiras dos      tam neste grande teatro da natureza".
Estados e a particularidade das culturas na-               Galileu foi membro da Academia dos
cionais" (Paulo Rossi).                              Linceus. Tendo encerrado suas atividades em
        A ciincia i fato social. E o i porque sur-   1651, a Academia, depois de algumas reto-
ge sempre no interior de uma tradigiio cultu-        madas niio muito significativas, voltou a
ral (com problemas especificos, sua lingua-          funcionar em 1847.
gem etc.). Ela i social nas suas aplicaqdes,
mas o t sobretudo n o seu m t t o d o de
legitimaqgo enquanto cicncia, ja que, para ser
tal, o conhecimento cientifico deve ser                   A Academia do C i m e n t o
verificavel - e a verificabilidade e' quest20
publica. A teoria cientifica pretende valer para
todos. E essa sua pretenszo so se v i satisfeita           Niio mais que dez anos foi o que du-
com a condigiio de que as conseqiiincias             rou a Academia do Cimento, idealizada em
operativas e experimentais da teoria obri-           1657 pel0 principe Leopoldo de Toscana,
guem todos a aceita-la. E isso enquanto, por         amigo e discipulo de Galileu. Lourenqo Ma-
outro lado, o saber filosofico (como era pra-        galotti (1637-1712), que foi membro dessa
ticado nas universidades, nos seminaries e           Academia, deixou escrito que "era objeti-
nos colCgios eclesiasticos)se configurara e era      vo de nossa Academia, alCm daquele, que
entendido mais como fidelidade a uma esco-           tambim ocorreu conosco, de experimentar
la ou idoutrina de um mestre do que como             aquelas coisas por proveitosa curiosidade ou
fie1 aplicaqiio de um mitodo que exponha as          por confronto, coisas que tenham sido fei-
teorias, as tCcnicas de prova e os resultados        tas ou escritas por outros, muito embora
da pesquisa a critica publica.                       sabendo que, sob esse nome de 'experiin-
        Pois bem, precisamente em contrapo-          cia', muitas vezes nos enganamos e acredi-
siqiio ao ensino universitario eclesiastico ("e      tamos em erros. E foi justamente isso que
confessam comumente os ouvintes e at6                moveu inicialmente a perspicaz e infatiga-
mesmo leitores que, nos estudios, nada mais          vel mente do Serenissimo Principe Leopoldo
se aprende alCm dos primeiros termos e re-           de Toscana, que, para descansar das assi-
g a s , alias, o caminho e o mod0 de estudar         duas atividades e das solicitas ateng6es que
e abrir os livros ..."), o jovem principe Fe-        lhe acarreta o grau de sua alta condiqso, pde-
derico Cesi fundou em Roma, no ano de                se a cansar o intelecto pel0 irduo caminho
 1603, arcando com as despesas, a Acade-             das mais nobres cogniqdes. Portanto, foi bas-
mia dos Linceus, provida de biblioteca, de           tante facil para o sublime entendimento de
gabinete de historia natural e com um jar-           Sua Alteza Serenissima compreender que o
255
Capitdo de'cimo terceiro - fs cigncias da vida,   a s Acadrmias r a s   Sociedadrs cientif~cas


cridito de que gozam os grandes Autores              mento em termos de instrumentos, que so-
move muitas vezes os engenhos - que, por             breviveu ate nossos dias, esti conservado no
suma confianqa ou por reverhcia ao seu               Museu de Hist6ria da Citncia de Florenqa,
nome, niio ousam p8r em duvida aquilo que            sendo constituido por 223 peqas, algumas
eles abalizadamente pressup6em - julgou              das quais danificadas. Por ocasiiio da mor-
dever ser obra de seu grande espirito con-           te de Leopoldo (1675),parece que existiam
frontar o valor de suas afirmagdes com mais          1282 peqas de vidro. E muitos desses ins-
exatas e mais sensatas experihcias e, con-           trumentos ainda se conservavam em 1740,
seguida a comprovag50 ou alcanqado o de-             como testemunha Targioni-Tozzetti, que os
sengano, fazer disso t50 desejavel e precio-         viu em um c6modo contiguo a Biblioteca
so dom a quem quer que muito anseie pelas            do Palicio Pitti.
descobertas da verdade". Diz ainda Maga-                    G. Targioni-Tozzetti escreve, em suas
lotti que "esses prudentes ditames do nosso          Informap5es sobre o crescimento das cidnci-
Serenissimo Protetor" n5o visavam a trans-           as fiicas ocorrido nu Toscana ao longo da
formar os acadCmicos em "censores indis-             de'cada de 60 do se'culo XVII: "Alias, os ins-
cretos dos doutos esforqos alheios ou pre-           trumentos eram infinitos, por assim dizer, ou
sunqosos dispensadores de desenganos; na             seja, todos aqueles publicados nas placas de
verdade, o principal entendimento foi o de           cobre dos Ensaios e quase o dobro ou ate
dar a outros oportunidade de se confronta-           mais ainda n5o publicados. A maior parte
rem com suma severidade com as mesmas                deles eu ainda vi, em 1740, colocados, den-
experihcias, de mod0 que entiio tivemos              tro dos magnificos armarios, em um saliio ao
a ousadia de fazer nos mesmos as coisas              lado da Biblioteca do Real Palacio dos Pitti,
alheias [..Iy'. A cihcia t fato social: exige a      que era o mesmo em que se realizavam regu-
prova publica, a "sinceridade" de "desapai-          larmente as sess6es da Academia do Cimento
xonados e respeitosos sentimentos" e o con-          [...I. Outros desses instrumentos foram deixa-
curso de muitas forqas ("e de outras forqas          dos aqui e ali, dispersos, ou passaram para
que para tal empresa forem exigidas").               outras mzos. E outra parte consideravel o
      Com base no Diario original dos anais          senhor Vayringe, maquinista da S.M.C., le-
da Academia, pode-se constatar que os aca-           vou para a sua casa, sem que a conhecesse
dcmicos do Cimento teriam sido somente               anteriormente. A proposito disso, recordo-
os seguintes: Vicente Viviani, Cindido e             me que, indo uma vez ao encontro desse
Paulo del Buono, Alessandro Marsili, An-             Vayringe, como de quando em quando cos-
t8nio Uliva, Carlos Rinaldini, Jo5o e Afon-          tumava fazer, agradando-me muito a conver-
so Borelli, e o conde Lourenqo Magalotti,            saqiio com aquele bravo mecinico e homem
secretario.                                          honradissimo, ele me fez ver quantidade
      Entretanto, alCm destes citados no ma-         imensa e confusa de instrumentos do Cimen-
nuscrito, sabe-se que tambim foram acads-            to, de cristal, de metal, de madeira etc., per-
micos Alessandro Segni (que foi secretario           guntando-me se eu sabia para que podiam
da Academia ate 20 de maio de 1660, data             ter servido. Eu, que logo os reconhecera, dis-
em que assumiu Lourenqo Magalotti), Fran-            se-lhe o que eram. Como o nome da Acade-
cisco Redi e Carlos Roberto Dati.                    mia do Cimento soou completamente novo
      Entre os socios estrangeiros correspon-        para ele, tive uma idtia: na manhii seguinte,
dentes, devemos recordar Stenon e, de cer-           levei-lhe os Ensaios, mostrei-lhe as figuras e
to modo, tambkm Huygens, que mantinha                expliquei-lhe as descriqoes, que ele ainda n5o
correspondhcia astron6mica com o princi-             entendia muito bem. Depois da morte de
pe Leopoldo.                                         Vayringe, dos instrumentos do Cimento e dos
      0 lema distintivo da Academia era a            instrumentos proprios de Vayringe, uma par-
express50 "provando e reprovando". E as              te foi encaixotada e enviada a Viena, por or-
pesquisas cientificas dos acadCmicos do Ci-          dem do Augustissimo Imperador Francisco,
mento abarcaram todo o arc0 das citncias             dizendo-se que foi presenteada ao Grande
naturais: fisiologia, botinica, farmacologia,         ColCgio Teresiano, e todos os outros foram
zoologia, mecinica, otica, meteorologia etc.         depositados no referido saliio do Palacio dos
E niio devemos esquecer a grande atengiio            Pitti e em um c6modo contiguo. Quanto as
que os acadEmicos dedicaram a construq5o             placas de cobre, tanto as publicadas nos En-
de instrumentos sempre mais exatos: term8-           saios quanto algumas outras, ainda niio
metros, higrGmetros, microsc6pios, pcndu-            publicadas, mas aparentemente destinadas
10s etc. 0 patrim8nio da Academia do Ci-              a uma entiio idealizada continuaq50 dos En-
256     Segunda parte - A   revoIu+o   cientificn




saios, conservam-se no guarda-roupa real [. ..I.
                                           Natural Knowledge) nasceu dos encontros
                                           que urn grupo de seguidores da nova filoso-
Ademais, deve-se acreditar que os instrumen-
tos feitos por conta do principe Leopoldo  fia ou filosofia experimental realizou desde
                                           1645.
fossem rnuitissimos, ja que era grande o nu-
mero dos que me foram mostrados pelo Sr.         Em 1662, Carlos I1 concedeu o Esta-
Vayringe, muitos outros se haviam quebra-  tuto (Charter) que estabelecia os direitos e
                                           as prerrogativas da Royal Society. 0 objeti-
do ou sido levados antes, e muitos o proprio
cardeal Leopoldo enviara de presente ao papa
                                           vo da sociedade era o de redigir "relatorios
Alexandre VII, corn uma instrug50 sobre o  fi6is de todas as obras da natureza", fazen-
mod0 de opera-los, redigida elegantemente  do-o mediante linguagem enxuta e natural,
pel0 conde Lourengo Magalotti".            isto 6, uma linguagem de "express6es posi-
                                           tivas" e com "significados claros": a socie-
                                           dade queria uma linguagem que se aproxi-
                                           masse da "dos artesgos, dos camponeses,
    i; A 'XoyaI Society" de Londves
     i                                     dos comerciantes" mais do que a linguagem
                                           "dos filosofos".
                                                 E tal linguagem, naturalmente, 6 a lin-
       A Sociedade Real de Londres para a guagem das ciCncias: da anatomia, do mag-
Promo@o dos Conhecimentos Naturais (Ro- 'netisrno, da rnecinica ou da fisiologia. 0
yal Society of London for the Promotion of lema da Sociedade Real de Londres foi e
Capitulo dicimo terceiro - As cigncias da vida,   a s Academias e a s   Sociedades cientificas


continua sendo Nullius in verba, ou seja:                     Academia Real
Niio se deve jurar sobre as palavras de nin-
gue'm. A cisncia niio encontra seu fundamen-              d a s Ci&cias n a FranCa
to na autoridade de algum pensador, mas
somente nas provas dos fatos. Como disse                 Na Franqa, graqas ao interesse do mi-
Newton, que foi membro e depois presidente          nistro Colbert, foi constituida em 1666, no
da Sociedade Real, "contra os fatos e expe-         reinado de Luis XIV, a Academia Real das
rimentos, niio se pode discutir".                   CiBncias (Acadkmie Royale des Sciences).E
      De 1662 a 1677 (an0 em que morreu),           de Christian Huygens um famoso memoran-
secretirio da sociedade foi Henry Olden-            do enviado ao ministro Colbert, afirmando
burg, que, em 1665, deu inicio A publicaqiio        que "a ocupaqiio fundamental e mais util"
dos Anais da sociedade (as "Philosophical           dos membros da academia seria a de "tra-
Transactions", que siio publicadas at6 hoje).       balhar na historia natural segundo o plano
      As Transactions da Royal Society cons-        traqado por Bacon".
tituem o primeiro exemplo europeu de re-                 Eis, em suas linhas essenciais, o proje-
vista periodica dedicada a questoes de na-          to de Huygens: realizar experihcias sobre
tureza cientifica. E Oldenburg iniciou sua          o vacuo por intermkdio de bombas e deter-
publicaqiio por estar convencido de que dar         minar o peso do ar; analisar a forqa explo-
a conhecer aos outros as descobertas cienti-        siva da p6lvora fechada em um recipiente
ficas era algo necessario ao progress0 do co-       de ferro ou de cobre suficientemente espes-
nhecimento cientifico.                              so; examinar a forqa do vapor; examinar a
      Em projeto inicial, as Transactions cons-     forqa e a velocidade dos ventos e estudar os
tituiam um convite e um encorajamento para          seus usos para a navegaqiio e as miquinas;
os estudiosos, a fim de leva-10s "a pesquisar,      analisar "a forqa (...) do movimento me-
a experimentar e descobrir novas coisas, a          diante percussiio" .
transmitir uns aos outros seus proprios co-              Como ainda escrevia Huygens, h i
nhecimentos e, assim, dentro do possivel,           muitas coisas que, de util conhecimento,
contribuir para o grande projeto que consis-        siio-nos completamente ou quase desconhe-
te no enriquecimento do conhecimento da             cidas: a natureza do peso, do calor, do frio,
natureza e no aperfeiqoamento de todas as           da luz, da atraqiio magnktica, a respiraqiio
artes e cihcias filosoficas". E tudo isso "pela     animal, a composiqiio da atmosfera, o mo-
gloria de Deus, a honra e o beneficio deste         do de crescimento das plantas e assim por
Reino e o bem universal da Humanidade".             diante.
Segunda parte - 14 revoIh+o   cientifica



                                                   veis; dai, engelhando-se em si mesmos, insen-
                                                   sivelmente tomaram uma forma semelhante b
                                                   de um ovo; no dia vinte e um todos haviam se
                                                   transformado naquela forma de ovo de cor bran-
                                                   ca no pr~ncipio, depois dourada, que pouco a
                                                   pouco se tornou avermelhada; e assim se con-
                                                   servou em alguns ovos, mas em outros, conti-
         Contrcr cr tsoria                         nuando sempre a escurecer, por fim tornou-se
                                                   como que negra; e os ovos, tanto negros como
                                                   vermelhos, chegando a este ponto, de moles e
                                                   tenros que eram, tornaram-se de casca dura e
         0trscho qus segue constitui um rnarco     quebradip; de onde se poderia dizer que te-
  no historio do psnsomento biologico: Fron-       nham alguma semelhanp com as cris6lidas ou
  cisco Rsdi dssmente, corn urn sxperirnsnto       aurblias ou ninfas, como quer que sejam cha-
    "cldssico", o teorio do garoqdo espontdnsa.    madas, nos quais por algum tempo se transfor-
                                                   mom as larvas, os bichos-da-sedae outros in-
                                                   setos semelhantes. Rssim sendo, tornando-me
        Portanto, segundo vos disse, e qua os mas curioso observador, vi que entre os ovos
antigos e os novos escrtores e a opinido publi- vermslhos e os negros havia alguma diFeren<a
ca comum querem d~zer,       toda podridbo de ca- de forma, pois, embora parecesse que todos
dClver corrompido e toda sujeira de qualquer indiferentemente Fossem compostos como que
outra coisa putrefota gera os vermes e os pro- de tantos aneiz~nhos      ligados, apesar de tudo
duz; de modo qua, querendo eu rastrear a ver- estes an& eram mais esculpidos e mais visto-
dade, no principio do m&s de junho mandei sos nos negros do que nos vermelhos, os quais,
esmagar tr&s daquelas serpentes qua se cha- b primeira vista, pareciam como que lisos, e em
mom serpentes de EsculClpio e, logo que Foram uma das extremidades ndo tinham, como os
mortas, as coloquei em uma caixa aberta de negros, certa pequena concav~dade           n6o muito
modo que ai se deteriorassem; nbo muito tem- diferente da dos limdes ou de outros frutos
 po depois as vi inte~ramente     cobertas de ver- quando s6o destacados do galho. Coloquei es-
mas que tinham Forma de cone e sem nenhu- tes ovos separados e diferentes em alguns va-
ma perna, pelo que apareciam a olho nu, como sos de vidro bem fechados com papel, e ao
vermes, esperando para devorar aquelas car- cabo de oito dias de coda ovo de cor aver-
 nes, iam por momentos crescendo ds tamanho; melhada, rompendo a casca, escapava para
e, de um dia para o outro, conforme pude ob- fora uma mosca acinzentada, turva, estonteada
servar, ainda cresceram em numero; dai, em- e, por assim d i m , esbo~ada ainda n6o bem
                                                                                e
 bora tivessem todos a mesma Forma de um acabada, cam as asas ainda n6o abertas que
 cone, ndo tinham o mesmo tamanho, pois nas- depois, no espaSo de meio quarto de hora,
ceram em mais e d~versos       dim, mas os meno- come<ando a desdobrar-se, se dilatavam no
 res de acordo com os maiores, depois de ter justa propor~do        daquele pequeno corpo, que
 consumido a carne e deixado intactos apenas nesse tempo tambbm reduz~ra-se convenlen-
                                                                                     b
 os ossos nus, por um pequeno Furo do caixa te e natural simetria das partes e, como que
qua eu tinha fechado, fugiram todos sem que totalmente rsfeito, tendo deixado aquela
eu pudesse jamais encontrar o lugar onde se esmaecida cor de cinza, vestira-se de um verde
 esconderam; pelo que, mais curioso de ver qua1 v~vissimo maravilhosamente brilhante; e o
                                                               e
 Fm pudessem ter t~do, novo no dia onze de corpo inteiro t~nha-se
  i                        de                                             assim dilatado e cresci-
junho coloquei em obra outras tr&s das mes- do, que parecia impossivel poder crer como na-
 mas serpentes; sabre as quais, passados tr&s quela pequena casca tivesse podido cabar.
 dias, vi vermezinhos que pouco a pouco Foram Todav~a, estas moscas verdes nasceram de-
                                                             se
 crescendo em numero e tamanho; todos, po- pols de oito dias daqueles ovos avermelhados,
 rQm, com a mesma Forma, embora n60 todos dos outros ovos de cor negra penaram quatorze
 do mesma cor, a qua1 nos maiores do lado de d ~ a spara nascer certos grandes e negros
 Fora era branca e nos menores tendia 2.1 cor de moscdes listados de branco e com o ventre pelu-
 carne. Ro terminar de comer as carnes, procu- do e vermelho no Fundo, daquela mesma raGa
 ravam ansiosamente um caminho para poder que vemos diariamente rodear nos aGougues e
 fugir; mas, tendo eu fechado bem todas as fres- nos casas ao redor das carnes mortas; quando
 tas, observei que no dia dezenove do mesmo nasceram eram malfeitos e precyi<osissimos
 m&s alguns dos grandes e dos pequenos co- para o movimento e com as asas n6o abertas,
 meqxam, quase adormecidos, a tornar-se 1m6- como acontmera as pnmsiras verdes, que acima
259
Capitdo ddcimo terceiro - Ss ci>~cias vida,
                                     da             as fcadrmias r as Socieclarles cirntificas           -

menconei. Todavia, nem todos aqueles ovos ne-           sem ou nbo das propr~as      carnes apodrec~das,  e
gros nasceram depois dos quatorze d~as; con-ao          tanto mas me conf~rmava m~nhaem        duv~da, pols
trdr~o,boa parte sa atrasou para nascer at& o           em todas as geragbes por mlm feitas nascer eu
v~g&s~mo  primelro dia, quando entdo escaparam          sempre t~nha     v~sto sobre carnes, antes de cria-
fora certas moscas blzarras completamente di-           rem vermes, pousar moscas da mesma esp&cie
ferentes das duas prlmelras gera~bes       tanto no     das que depo~s nasceram: mas teria sido v6
                                                                           dai
tamanho como no forma, que nenhum histo-                m~nha    diivida se a experi&ncian6o a tivesse con-
r~ador, que eu saiba, tinha descr~to; s60, por&m,       firmado. Por ISSO, na metade do m&s de julho.
multo menores que as moscas ord1n6rias      que fre-    em quatro frascos de boca largo coloque~uma
quentam e lnfestam nossas mesas; voam com               serpente, alguns peixes de rio, quatro enguia-
duos asas como que de prata, cujo tamanho n6o           zinhas do rio Rrno, e um talho de vitela de Ielte;
excede o do corpo, que 6 todo negro da cor do           depo~s,    fechando mu~to   bem as bocas com pa-
ferro polldo e lustroso no ventre inferlor, que         pel e barbante, e muito bem lacradas, em ou-
relembra na forma o das formlgas aladas, tom            tros frascos coloquel outras tantas das coisas
algum pQlo curto mostrado pelo microscopio. DOIS        ditas aclma e deixei as bocas abertas; n6o pas-
longos ch~fres antenas (assim as chamam os
               ou                                       sou muito tempo, e os peixes e as carnes des-
escrltores da historia natural) se Ievantam sobre       tas segundos hascos se tornaram vermlnosos; e
a cabega; as prlmelras quatro pernas n6o saem           nesses frascos V I entrar e sair as moscas 2.1 von-
                                                                               ~
do lugar ordindr~o   das outras moscas, mas as          tade, mas nos frascos Fechados nunca vi nascer
duos est~cadass6o muito mals longas e gran-             um verme, embora tenham passado mu~tos          me-
des do que as que pareceriam convenlentes a             ses desde o d ~ a     que nestes foram fechados
t6o pequeno corpo, a s60 feitas justamente de           aqueles caddveres: encontrava-se, porkm, algu-
mat6r1acrustada como a das pernas da lagosta            ma vez do lado de fora, sobre o papel, alguma
mar~nha;  t&m a mesma cor, ou talvez mas vlva,          larva ou verme que com todo esfor~o sol~citu-
                                                                                                  e
e t6o avermelhada que d e ~ x a r ~ a az~nhavre
                                      o                 de tentava encontrar alguma grata para poder
envergonhado e, todas pont~lhadas bran-    de           entrar e alimentar-se nos frascos, dentro dos
co, parecem um trabalho de f~niss~mo       esmalte.     quais todas as coisas colocadas j6 estavam f&ti-
      Essas gerag6es t6o d~ferentes moscas
                                        de              das, umidas e corrompidas: os pelxes fluv~a~s,
saidas de um so caddver n6o me apagaram o               exceto os I~sos, hav~am
                                                                            se         todos convertido em
intelacto, mas me estimularam a facer novas ex-         uma dgua espessa e turva que pouco a pouco.
per16ncias;e para este firn aparelhando seis            no fundo, se tornou clara e Iimpida, com algum
caixas sem tampa, na pr~meira   coloquei duos das       t r q o de gordura liquefeita nadando na superf-
mencionadas serpentes, na segunda um gran-              cle; da serpente brotou a~nda      muita dgua, po-
de pombo, na tercelra duas libras de vitala, na         r&m seu cad6ver n6o se desfez, al16s conser-
                                                                                                 se
quarto um grande p e d q o de carne de cavalo.          vou a~nda     quase s6o e lntelro com as mesmas
na qu~nta capdo, na sexta um cora<6o de
            um                                          cores, como se t~vesse      sldo fechado I6 no d ~ a
castrado; e todas, em pouco mas de vlnte e              anterior; ao contr6r10,as enguias soltaram muto
quatro horas, crlaram vermes; e os vermes, de-          pouca 6gua, mas, inchando e fervilhando e pou-
pols de clnco ou seis dlas de seu nascimento, se        co a pouco perdendo a forma, tornaram-sacomo
transformaram como de costume em ovos; e dos            que uma massa de cola ou de v~sco          bastante
das serpentes, todos vermelhos e sem cavida-            tenaz e grudento; mas a v~tela,     depo~s mul-
                                                                                                    de
de, nasceram ao cabo de doze d ~ a s         alguns     tas e rnuitas semanas, permaneceu dr~da seca.e
moscdes de cor turquesa e alguns outros de cor          Todav~a,     060 me aeontentel apenas corn estas
v~oleta. do grande pombo, dos quais alguns
         Dos                                            experi&nc~as; contrdrio, f~z
                                                                         ao              ~nfinitasoutras em
eram vermelhos e outros negros, nasceram dos            diversos tempos e em diversos vasos; e para
vermelhos ao cabo de oito d ~ a s  moscas verdes,       n6o de~xarnada n6o tentado, por fim mande~
e dos negros, no d&c~mo    quarto d ~ a rompendo
                                         ,              que fossem colocados sob a terra alguns peda-
a casca na ponta onde n6o h6 cavidade, esca-            <os de carne, que, recobertos multo bem com a
param para fora outros moscbes negros l~stados           propria terra, embora tlvessem f~cado multas
                                                                                                 por
de branco; e tais moscdes listados da branco            semanas sepultados, jama~sgeraram vermes,
tamb6m sairam ao mesmo tempo da todos os                como produziram todos os outros tipos de car-
outros ovos das carnes da v~tela, cavalo, do
                                     do                 nes sobre os quais havlam pousado as moscas:
cap60 e do coraq3o de castrado; com a diferen-          e de n60 pouca considera@o & que no m&s de
<a, porbm, que do cora~6o castrado, al6m
                               de                       junho, tendo colocado em uma garrafa de v~dro
dos mosc8es negros l~stados branco, nasce-
                                de                      de gargalo bastante longo e aberto as visceras
ram anda outros de cor turquesa e v~oleta.      [...I   de trks capbes, 12.1 dentro criaram vermes; e n8o
      Comecei a duvidar se todos os vermes das          podendo todos aqueles varmes salr pela gran-
carnes da semente apenas das moscas der~vas-            da altura do gargalo, caiam de novo no fundo
da garrafa e ai, morrendo, serviam de pasto e
de ninho para as moscas, que continuarama fazer
ai vermes ndo so durante todo o verdo, mas ain-
da at&os irltimos dias do m&sde outubro. Entdo
certo d n mandei esmagar boa quantidade de
vermes nascidos na came de bufalo e, coloca-
dos parte em vaso fechado e parte em vaso
aberto, nos primeiros dias nada foi gerado, mas
depois nasceram os vermes que, transforman-
do-se em ovos, tornaram-se por fim moscas or-
dindr~as: o mesmo justamente aconteceu com
          e
grande numero dos referidas moscas ordin6rias
esmagadas e colocadas em semelhantes vasos
abertos e fechados: nada se viu nascer no vaso
fechado; mas no aberto nasceram os vermes
dos quals, depois de se tornarem ovos, nasce-
ram moscas do mesma espbcie daquelas sobre
as quais tlnham nascido os vermes; do que eu
poderia t~lvez   conjeturar que o doutissimo pa-
dre Rtan6s1o   Kircher, homem digno de qualquer
elogio maior, tomasse, ndo sei corno, um equi-
voco, no hvro dhcimo segundo do Mundo sub-
terr6ne0, onde prop& o experimento de fazer
nascer as moscas da seus cad6veres. Molhem-
se, diz este bom virtuoso, os cad6veres das
moscas e se ensopem com 6gua doce; dai, so-
bre uma placa ds cobre se exponham ao t&pido
calor das cinzas, e vejam-se insensivelmente
                                                      ESPERIENZE
nascer deles alguns vermiculos, visiveis ape-
nos por meio do m~croscopio;     pouco a pouco,
despegando as asas do dorso, tomam a forma
de pequenissimas moscas, as quais tamb&m,
crescendo pouco a pouco, tornam-se moscas
grandes e de estatura perfeita. Eu, porbm, creio
que a 6gua doce ndo serve para outra colsa
senao para convidar mais facilmente as mos-
cas vivas a alimentor-se dos cad6veres e a ne-
 Ies deixar suas sementes; e pouco, ou mesmo
 nada, tenho que merep experi6ncia em vaso de
                                                      CAKLO DATI.
 cobre e no thpido calor das cinzas, pois sempre
 e em todo lugar dos cad6vsres nascerdo os ver-
 mas, e do8 vermes as moscas, contanto que so-
 bre os cad6veres das proprias moscas tenham
 sido parturidos os vermes ou as sementes dos
vermes. Mas ndo entendo como aqueles su-
 tiliss~mosvermes descritos por Kircher se trans-
 formem em pequenas moscas sem antes, pelo
 espqo de alguns dias, terem sido transforma-
 dos em ovos; e tambhm ndo entendo, inge-
 nuaments confessando minha ignorcincia, como
 aquelas moscas possam nascer tdo pequenas
 e depois v8o crescendo, pois todas as moscas,
 mosquitinhos, mosquitos e borboletas, como vi
 milhares de vezes, saem de seu ovo 1 com o
                                         6
 mesmO tamonhO clue cons@rvamdurante todo           N o alto, Francisco Redi e m u m a incisiio de L. Pelli;
 tempo de sua vida.                                 acima, frontispicio da primeira e d i p o
                                         F. Rsdl,   das Experigncias ao redor da geraqlo dos insetos
     €xpen&nciosem torno cb gorog6o dos insetos.    (Florenga, 1668).
BACON
E DESCARTES

A reviravolta social e teorica
impressa no pensamento filosofico
pela revolu@o cientifica




   'Fsfas tr@s  coisas (a arfe da /inpress20, a po/vora
  e a busso/a) mudaram a sifua@o do mundo todo,
  a pr/ine//i-anas /etras, a segunda na arfe m/;lfac a
  ferceira na navegaMo; pro vocaram mudangas f20
  extraord/ha'rias que nenhum /inpe/b, nem seita,
  nem esfre/aparece fer exercido maior ~hf/u@nc//b    e
  eficdcia sobre a humanidade do que essas tris
  in veng6es."


                                         Francis Bacon

  'Se me absfenho de dar meuju/zosobre uma coi-
  sa, quando nao a concebo com suficienfe c/areza
  e disf1hg20, e ewdenfe que fago otho uso doju~zo
  e n20 me de/xo enganaI;' mas, se me deferm~ho a
  nega-/a ou a af/i-ma-/',enf2o n2o esfou mais me
  sen//ido como devo de meu ivre-arbAr/o.    "



                                    Rene Descartes
Capitulo dCcimo quarto

Francis Bacon: filosofo da era industrial
Capitulo dCcimo quinto

Descartes: "o fundador da filosofia moderna"
filbsofo          da     era       industrial



                             I. F V ~ M a c o nS
                                       BC ~
                     a   vida     e o     projeto c ~ l t u r a l

        Nascido em Londres em 1561, filho de Sir Nicholas Bacon, lorde tabeliio da
 rainha Elisabeth, Francis Bacon gozou do privilegio de ser introduzido na corte
 desde pequeno. E 1584 foi eleito para a Cdmara dos Comuns, onde permaneceu
                   m
 cerca de vinte anos; sua carreira politica tornou-se em todo caso
 rapida e brilhante a partir de 1603, ou seja, com a ascendo ao Bacon:
 trono de Jaime I culminando na nomea~io
                 ,                             como lorde chanceler a vida
                                                                            e a forrnula@o
                                                                            de novas teorias
 que, nas intenqbes do autor, deveria substituir o organon-aristo-          para a pesquisa
 telico; a obra era apresentada como a segunda parte de um pro-             cientifica
 jeto enciclopedico, a Instauratio Magna, da qua1 no mesmo ano - 3 1
 foram publicadas a introduqio e o plano geral. E 1621, porem,
                                                   m
 Bacon foi acusado de corrupqio e condenado e, embora a culpa Ihe fosse logo
 perdoada pelo rei, sua carreira politica estava acabada para sempre. Em 1624 rev6
 o texto da Nova Atldntida, onde prefigurava uma ativa comunidade dos doutos e
 dos cientistas. Morreu no dia de Pascoa, em 9 de abril de 1626.
       Com Bacon tem inicio na historia do Ocidente uma "nova atmosfera intelec-
 tual". Ele indagou e escreveu sobre a funqio da ci6ncia na vida e na hist6ria hu-
 mana; formulou uma etica da pesquisa cientifica que s contrapunha de mod0
                                                          e
 ciarissimo a mentalidade de tip0 magico que, ainda em seus tempos, era iarga-
 mente dominante; tentou teorizar nova tecnica de pesquisa da realidade natural;
 lanqou as bases da moderna enciclopedia das ciencias, que s tornar6 um dos
                                                                 e
 empreendimentos mais importantes da filosofia europeia.



     Bacon:                                     efeito, essas trEs coisas mudaram a situaqiio
                                                do mundo todo, a primeira nas letras, a se-
     o fiksofo d a e r a    indmstrial          gunda na arte militar, a terceira na navega-
                                                @o; provocaram mudanqas t5o extraordi-
     N o Novum Organum, que 6 sua obra          narias que nenhum impirio, nem seita, nem
mais conhecida, escreve Francis Bacon: "E       estrela parece ter exercido maior influincia
precis0 considerar ainda a forqa, a virtude e   e eficicia sobre a humanidade do que essas
os efeitos das coisas descobertas, que niio     trEs invenq6es."
se apresentam t5o claramente em outras                Se Galileu, entre outras coisas, teorizou
coisas como nestas trcs invenqties, que eram    a natureza do mktodo cientifico; se Descar-
desconhecidas para os antigos e cuja origem,    tes, entre outras coisas, propora uma meta-
embora recente, i obscura e ingloria: a arte    fisica que influenciou extremamente a ciin-
da impressiio, a polvora e a bussola. Com       cia; Bacon, por seu turno, foi o fildsofo da
264    Terceira parte   - Bacon e Descartes


era industrial, pois expressou de mod0 mui-      sido eleito para a Cimara dos Comuns, onde
to eficaz e penetrante a influincia das des-     ficou cerca de vinte anos.
cobertas cientificas sobre o delineamento da           Ao ~ e r i o d o
                                                                      entre 1592 e 1601 remon-
vida do homem, com as conseqiiincias que         ta sua amizade com Robert Devereux, se-
delas derivam.                                   gundo conde de Essex, que protegeu Bacon
       Francis Bacon nasceu em Londres, em       nessa Cpoca. Tal amizade terminou tragica-
22 de janeiro de 1561, em York House no          mente, ja que o conde de Essex foi acusado
Strand. Seu pai, Sir Nicholas Bacon, era ta-     de traigio e insurreigio e, como consultor
beliio da rainha Elisabeth, e assim Francis      legal da Coroa, Bacon teve de sustentar es-
teve o privilkgio de ser introduzido na corte    sas acusac6es. Antes favorito da rainha. o
desde garoto.                                    conde foi condenado 2 morte c dcca~itado.
       Entrando na Universidade de Cam-                Nesse meio tempo, em 1603, &bia ao
bridge quando tinha doze anos, ficou no          trono inglis Jaime I, homem amante da cul-
Trinity College at6 1575. William Rawley,        tura e protetor de intelectuais. Sob Jaime I,
que foi secretario particular e que escreveu     a carreira de Bacon foi rapida e brilhante:
conhecida biografia de Bacon, falando do         advogado geral em 1607, procurador-geral
period0 transcorrido por seu "senhor" na         da Coroa em 1613. lorde tabeliio em 1617
universidade, nos diz que, "quando ainda         e lorde chanceler em 1618. Nesse mesmo
estava na universidade, por volta dos dezes-     ano, Bacon recebeu do rei o titulo de bar50
seis anos de idade, sentiu pela primeira vez     de Verolme e, tris anos mais tarde, o de vis-
que se estava 'desapaixonando' -como sua         conde de Santo Albano.
Senhoria mesmo expressou-se para mim -                 Apesar de seu trabalho, suas ocupag6es
da filosofia de Aristoteles: n i o por despre-   e preocupag6es politicas, Bacon n i o descu-
zo pel0 autor, ao qual sempre tributou altos     rou de seu trabalho intelectual, tanto que,
louvores, mas sim pela inutilidade do mkto-      em 1620, publicou sua obra mais famosa, o
do, sendo a filosofia aristotklica uma filoso-   Novum Organum, que, na intengio do au-
fia (corno sua Senhoria sempre gostava de        tor, deveria substituir o Organum aristotk-
dizer) boa somente para as disputas e as con-    lico. A obra era apresentada como a segun-
trovkrsias, mas estkril em obras vantajosas      da parte de um projeto enciclopidico muito
para a vida do homem; e ele manteve esse         mais amplo e ambicioso: a Instauratio Mag-
mod0 de pensar at6 o dia de sua morte".          na, da qual ainda em 1620, alkm do Novum
Com efeito, para Bacon, Aristoteles foi o        Organum, eram publicados a introdugio e
simbolo de uma filosofia "estiril no que se      o plano geral.
refere a produgio de obras vantajosas para             Nesse entretempo, porkm, isto 6, em
a vida humana".                                  1621, a carreira de Bacon foi bruscamente
       Como os estudos juridicos eram neces-     interrompida e sua fama ficou decididamen-
sarios para empreender a carreira politica,      te comprometida. Com efeito, na primavera
em junho de 1575 Bacon ingressou no Gray's       de 1621, Bacon foi acusado de corrupgio
Inn de Londres, uma escola de jurisprudin-       diante da Cimara dos Lordes. Bacon, que
cia onde eram formados jurisconsultos e          sempre teve muita necessidade de dinheiro
advogados.                                       durante toda a vida, havia aceitado presen-
       Logo depois, porkm, partia para a Fran-   tes de uma parte contendora antes de, na qua-
ga, seguindo o embaixador inglis Sir Amias       lidade de juiz, emitir a sentenga. Assim, foi
Paulet. Teve pkssima impress50 da Franga         acusado de corrupgio e condenado. Entretan-
( o rei era homem desregrado e o pais era cor-   to, apesar do rigor da sentenga, a prisio na
rupto, ma1 administrado e pobre).                Torre de Londres durou apenas poucos dias,
       Em 1579 voltou a Londres, em virtude      e a multa foi perdoada pel0 rei. Assim, Bacon
da morte do pai. Durante o reinado de Eli-       p8de continuar seus estudos, mas sua carrei-
sabeth, embora despendesse muito esforgo         ra politica estava encerrada para sempre.
nesse sentido, n i o conseguiu deslanchar na           Morreu no dia de Pascoa, em 9 de abril
carreira politica, ainda que, em 1584, tenha     de 1626.
265
                    Capitulo de'cimo quarto -   Francis   BCICOM: da
                                                              fil6sofo   era   industrial



                      II. Os escritos d e Bacon




,
*I
 1
     A filosofia     baconiana
      e)cpressa n a s o b ~ a s


      A primeira obra de Bacon foram os
Ensaios. Publicados pela primeira vez em
1597, consistem de analises eruditas sobre
a vida moral e politica. Tendo-se tornado
um classico da literatura inglesa, foram tra-
duzidos para o latim sob o titulo Sermones
fideles sive interiora rerum.
      Em 1603 publica-se o De interpre-
tatione naturae proemium. Como 1603 i o
ano da ascensso de Jaime I ao trono, Bacon
se estende em observaq6es de cariter auto-
biografico em seu escrito, considerando suas
proprias qualidades como adequadas para
o projeto de reforma da cultura.
      Escreve ele: "A raziio desta minha pu-
 blicaqiio 6 a seguinte: quero que tudo aqui-
 lo que visa a estabelecer relaqoes intelec-
tuais e libertar as mentes se difunda entre as
 multid6es e passe de boca em boca [...I. Na
 verdade, ponho em movimento uma reali-
 dade que outros experimentariio [...I. Bas-
 ta-me a conscihcia do serviqo bem presta-
 do e a realizaqiio de uma obra na qua1 a
 propria sorte niio poderia interferir."
      J i no anto anterior (1602), porkm,
 Bacon tinha escrito o Temporis partus
 masculus. 0 parto masculino do tempo e
 um escrito muito pol~mico    contra os filoso-
 fos, tanto antigos (Platso, Aristoteles, Ga-
 leno, Cicero) como medievais (Tomas, Es-
 coto) e renascentistas (Cardano, Paracelso).
       Na opiniso de Bacon, todos esses filo-
 sofos S ~ moralmente culpados de nso te-
             O
 rem dado a devida atengiio a natureza e o
  respeito necessario para com essa obra do
266
        Terceira parte   - Bacon e Drscavies


Criador, que deve ser ouvida com humilda-                  Desta obra Bacon considerou o Novum
de e interpretada com a necessiria cautela e         Organum como a segunda parte e o De dig-
pacitncia. Para ele, a filosofia do passado k        nitate et augmentis scientiarum (1623)como
estkril e verbosa.                                   a primeira. Este ultimo escrito k a traduqiio
      Semelhante critica a cultura tradicio-         latina ampliada do O f Proficience and Advan-
nal voltara a tona diversas vezes nas suces-         cement of Learning, Human and Divine. A
sivas obras de Bacon, corno, entre outras, o         terceira parte da Instauratio 6 representada
Valerius terminus (1603), os Cogitata et visa        pela Historia naturalis et experimentalis ad
(1607-1609),a Redargutio philosophiarum              condendam philosophiam sive phenomena
(1608) e a Descriptio globi intellectualis           universi, publicada em 1622 e 1623, em dois
(1612).                                              volumes, que continham, respectivamente,
      0 trabalho intitulado O f Proficience          Historia ventorum e Historia vitae et mortis.
and Advancement of Learning, Human and                     Em 1624, Bacon fez uma revis50 do
Divine (ou seja, "Sobre a dignidade e o pro-         texto de N e w Atlantis (a Nova Atldntida),
gresso do saber humano e divino") 6 de               onde prefigura sociedades e instituiqi5es
1605. Esse trabalho, que seria ampliado em           cientificas, e uma efetiva e proficua comu-
1623, e uma espkcie de defesa e elogio do            nidade dos doutos e dos cientistas.
saber. 0 segundo livro da obra analisa o                   Na primeira historia da Royal Society,
estado de decadtncia do saber e projeta uma          escrita pel0 bispo de Rochester, Thomas
enciclopkdia do saber, dividido em historia          Sprat, podemos ler: "Recordarei somente
(fundada na faculdade da memoria), poesia            um grande homem, que teve clara vis5o de
(baseada na fantasia) e citncia (alicer~ada          todas as possibilidades dessa nova institui-
na raz20).                                           ~ a otal como ela C agora: estou falando de
                                                           ,
      0 s Cogitata et visa s5o de 1607. Em           lorde Bacon. Em seus livros est5o esparsos
1609, Bacon publicou o De sapientia vete-            por toda parte os mais validos argumentos
rum, onde, mediante a interpretasso de al-           que se podem produzir em favor da filoso-
guns mitos da antiguidade, o autor apresenta         fia experimental e as melhores diretrizes
ao publico douto as doutrinas da nova filo-          capazes de promovi-la, argumentos que ele
sofia.                                               adornou com tanta arte que, se meus dese-
      Ao que tudo indica, foi em 1608 que            jos houvessem prevalecido sobre os de al-
Bacon iniciou o N o v u m Organum, no qual           guns de meus 6timos amigos, que me indu-
retoma tambkm os conceitos elaborados nas            ziram a escrever esta obra, nenhum escrito
obras anteriores que ainda n50 haviam sido           seria mais adequado para servir de prefa-
publicadas. Nessa obra, publicada em 1620,           cio a historia da Royal Society do que qual-
Bacon trabalhou quase dez anos, apresen-             quer de suas obras." Pode-se afirmar, sem
tando-a como a segunda parte da Instauratio          sombra de duvida, comenta Benjamin
magna, um projeto n5o realizado, cujo pla-           Farrington, que "a Royal Society representa
no geral era o seguinte:                             o maior monument0 comemorativo a Fran-
      1)divisao das ciincias;                        cis Bacon".
      2 ) novo 6rg5o ou indicios para a inter-             E se a Nova Atlintida prefigura aquilo
pretagiio da natureza;                               que seriio as sociedades cientificas, o proje-
      3) fentimenos do universo ou historia          to enciclopkdico da Instauratio magna ins-
natural e experimental para a c o n s t r u ~ i o
                                                da   pira Diderot e d'Alembert na idealiza~iio  da
filosofia;                                           Enciclopedia iluminista.
      4) escala do intelecto;                              Com Bacon, portanto, como os estu-
      5 ) prodromos o u antecipaq6es da filo-        diosos de comum acordo reconhecem, inau-
sofia segunda;                                       gura-se nova atmosfera intelectual e novo
      6 ) filosofia segunda ou citncia ativa.        mod0 moral e social de entender a citncia.
267
                   Capitulo de'cimo quarto -    F r a n c i s Bacoh: filbsofo   dn e r a i o c i u s t v i a l



              III.    "fintecipaG6es d a natureza"                                                          1 2 ~ ~ 2 .

                e "interpretaG~es natureza"
                                da


        Conforme Bacon, ciencia e poder coincidem, no sentido de que se pode agir
sobre fen6menos apenas quando se conhecem suas causas. Para remediar os de-
feitos do saber de seu tempo, tecido de axiomas abstratos e de Iogica silogistica,
Bacon prop6e a importante distinqao entre:
      a) as antecipagdes da natureza, que s%onoq6es tomadas de A impomnte
poucos dados habituais e sobre as quais a opiniao comum facil- distinqzoentre
mente dd seu prciprio consentimento;                                as antecipaqdes
      6)asinterpretag6esdanatureza, quederivamaocontrario d a n a t u r e ~ a e
de uma pesquisa que se desenvolve a partir das proprias coisas asinterpretaqdes
conforme os modos adequados.                                        da natureza
      Ora, s%oas interpretag6es da natureza, e n%oas antecipa- 4 § 1
gcjes, que constituem o verdadeiro saber, obtido com o verdadei-
ro metodo, o qua1 e um novum organum, um instrumento novo e eficaz para
alcan~ar verdade. Trata-se, portanto, de seguir propriamente duas fases:
           a
      1) a primeira (a pars destruens) consiste em limpar a mente de falsas no@es
(idola) que invadiram o intelecto humano;
      2) a segunda (a pars construens) consiste na exposiqSo e justifica@o das re-
gras do novo metodo.



 1 O m&todo pov meio                               "corn energia limitada e escasso sucesso".
                                                   Por isso, i tolo e contraditorio pensar que
     do q ~ ase alcampa
              l                                    aquilo que n5o se conseguiu fazer a t i agora
     o vevdadeiro sabeu.                           possa ser feito no futuro sem recorrer a
                                                   me'todos novos e ainda n5o tentados. 0 fato
                                                   t? que admiramos as forqas da mente huma-
      Escreve Bacon no inicio do primeiro
livro do Novum Organum: "Ministro e in-
tirprete da natureza, o homem faz e enten-
de o que observa da ordem da natureza, corn
a observaqiio das coisas ou com a obra da               W AntecipaqSea do naturera. E 0
mente - ele nao sabe nem pode nada mais                 process0 "temerario e prematuro" da
que isso."                                              raz80, de que o homem comumente
      Em conseqiiikcia, prossegue Bacon, "a             faz uso em relac80 a natureza.
cicncia e a potencia humana coincidem,                  Trata-se de um procedimento muito
porque a ignorincia da causa impede o efei-             util para induzir ao consenso, porque
to, e so se comanda a natureza obedecendo               suas no~ijes tipicas d o tiradas de pou-
a ela: aquilo que C causa na teoria torna-se            cos exemplos muito familiares e "ime-
                                                        diatamente agarram o intelecto e
regra na operaqao pratica".                             preenchem a fantasia"; porem, justa-
      Assim, podemos agir sobre os fen6me-              mente por isso, suas noqijes s80 em
nos, ou seja, i possivel intervir eficazmente           primeiro lugar "falsas", e chegam a
sobre eles, mas apenas com a condiqiio de               constituir os idolos, os preconceitos
conhecermos suas causas.                                errados dos quais todo intelecto que
      Ora, C bem verdade que "o mecinico,               queira ser cientifico deve absoluta-
o matematico, o alquimista e o mago" se                 mente se libertar. Mediante as ante-
ocupam da natureza e procuram entender                  cipaqdes, n3o se pode obter nenhum
                                                        progress0 nas cihcias.
seus fen6menos, mas tambim i verdade,
 observa Bacon, que "todos eles, pelo me-
nos ate agora", ocuparam-se da natureza
268     Terceira parte - Bacon e Descavies

                                                   qam facil concordincia, "porque, extraidas
                                                   de poucos dados, sobretudo daqueles que
                                                   se repetem habitualmente, logo ocupam o
                                                   intelecto e preenchem a fantasia; em suma,
                                                   sio no~des   produzidas com mitodo equi-
                                                   vocado" .
                                                         b) As interpreta~oesda natureza, ao
                                                   contrario, s i o resultado "daquele outro
                                                   mod0 de indagar, que se desenvolve a partir
                                                   das proprias coisas, segundo os modos de-
                                                   vidos": "recolhidas de dados diversos e
                                                   muito distantes entre si, elas n i o podem logo
                                                   atingir o intelecto; por isso, parecem difi-
                                                   ceis e estranhas a opiniio comum, quase
                                                   semelhantes aos mistCrios da fC".
                                                         Entretanto, szo as interpretap5es da
                                                   natureza e nzo suas antecipa~ties cons-que
                                                   tituem o verdadeiro saber: o saber obtido
                                                   com o verdadeiro me'todo.
                                                         As antecipaqdes subjugam a concor-
                                                   dincia, mas n i o levam "a novos particula-
                                                   res"; as interpretas6es subjugam a realida-
                                                   de e, precisamente por isso, s i o fecundas. E
na, mas n i o procuramos fornecer verdadei-        subjugam a realidade e s i o fecundas exata-
ra ajuda ao engenho humano. E a mente              mente porque existe um mitodo - do qua1
necessita de tal ajuda, pois "a natureza su-       falaremos adiante - que C um "nouum
pera infinitamente o sentido e o intelecto         organum", u m instrumento nouo e uerda-
pela fineza de suas operaqdes".                    deiramente eficaz para alcan~ar uerdade.
                                                                                  a
     Bacon via o saber de sua Cpoca como                Se o que foi dito C verdadeiro, entio
entretecido de axiomas que, sendo produzi-         fica claro que, pondo junto o saber do pas-
dos precipitadamente a partir de poucos e          sado - saber feito de antecipaq6es -, n i o
insuficientes exemplos, sequer arranham a          se estaria contribuindo de mod0 algum para
realidade, servindo apenas para alimentar          o progress0 das cihcias.
disputas estkreis. E a 16gica silogistica, pres-         A primeira urghcia, portanto, C a da
supondo tais axiomas t i o pouco fundamen-         instauraqio do saber, "comeqando pelos
tados, C "mais danosa que util", dado que          proprios fundamentos da cihcia".
serve somente "para estabelecer e fixar os               E essa premente e radical tarefa tem
erros que derivam da cognigio vulgar, mais         duas fases:
do que servir a busca da verdade".                       a) a primeira (a pars destruens) consis-
     Pois bem, sendo assim, Bacon propde-          te em limpar a mente dos idolos (idola)ou
se "reconduzir os homens aos proprios par-         falsas noqdes que invadiram o intelecto hu-
ticulares, respeitando sua sucesszo e sua          mano;
ordem, de mod0 que eles se obriguem a re-                6 ) a segunda (a pars construens) con-
negar por algum tempo as nogdes e come-            siste na exposiqio e na justificagio das re-
cem a se habituar com as proprias coisas".         gras do unico mCtodo que, sozinho, pode
E, com tal objetivo, ele logo distingue entre:     levar a mente humana ao contato com a re-
a) antecipap5es da natureza e b) interpreta-       alidade e que, sozinho, pode estabelecer um
@es da natureza.                                   nouum commercium mentis et rei.
    a) As antecipa~6esda natureza s i o                 Examinemos estas duas fases em seus
noq6es construidas e obtidas "de mod0 pre-         nucleos e em suas articulaq6e.s essenciais.
maturo e temerario": s i o nogdes que alcan-
Capitulo de'cimo quarto - Francis Bacon: fil6sofo da era industrial


                       IV.         teoria         dos "idola"

       A primeira fun@o da teoria dos idolos C a de tornar os homens conscientes
das falsas noq8es que obscurecem sua mente e barram o caminho para a verdade.
0 s gCneros de idolos que assediam a mente d o quatro:
     1) os idolos da tribo, fundados sobre a prdpria natureza hu- A
mana e dependentes do fato de que o intelecto humano mistura do, idolos
sempre a prdpria natureza com a das coisas, deformando-a e tornaoshomens
transfigurando-a;                                                  conscientes
     2) os idolos da caverna, que derivam do individuo sin uiar, e de suas falsas
                                                                 3
precisamente da natureza especifica da alma e do corpo o indi- n o ~ B e s
viduo singular, ou entiio de sua educaqao e de seus hiibitos, ou -) 7-5
ainda de outros casos fortuitos;
     3) os idolos do for0 ou do mercado, dependentes dos contatos reciprocos do
gCnero humano, que s insinuam no intelecto por via das combinq6es impr6-
                         e
prias das palavras e dos nomes;
     4) os idolos do teatro, que penetram na alma humana por obra das diversas
doutrinas filos6ficas e das pCssimas regras de demonstraq80.



     Sigmificado da teoria                        da qua1 falaremos. Todavia, uma identifica-
                                                  qiio preliminar deles constitui grande van-
     dos "idola"                                  tagem para sua eliminagiio.
      " 0 s idolos e as falsas noq6es que inva-
diram o intelecto humano, nele lanqando
raizes profundas, niio s6 sitiam a mente hu-           0 s   "idola tribus"
mana, a ponto de tornar-lhe dificil o acesso
h verdade, mas tambtm (mesmo quando
dado e concedido tal acesso) continuam a                0 s idolos da tribo se fundamentam so-
nos incomodar durante o process0 de ins-          bre a propria natureza, e sobre a propria
tauraqiio das ciincias, quando os homens,         familia humana ou "tribo".
avisados disso, n i o se disp6em em condi-              0 intelecto humano mistura sua pro-
q6es de combati-10s h medida do possivel."        pria natureza com a das coisas, deforman-
      A primeira funqgo da teoria dos ido-        do-a e desfigurando-a.
los, portanto, 6 a de tornar os homens cons-            Assim, por exem~lo, intelecto huma-
                                                                               o
cientes das falsas noq6es que congestionam        no C levado por sua natureza a supor nas
sua mente e barram-lhe o caminho para a           coisas "uma ordem maior" do que aquela
verdade.                                          que efetivamente nelas se encontra, ou seja,
      Desse modo, a identificaqiio dos ido-       paralelismos, correspondincias e relag6es
10s t o primeiro passo que se deve realizar       que na realidade niio existem.
para tornar ~ossivel     libertar-se deles.             Ou ainda: "Quando encontra alguma
      Todavia, quais G o esses idolos? Pois       noqiio que o satisfaz, porque a considera
bem, Bacon responde a essa pergunta dizen-        verdadeira ou porque convincente e agra-
do que eles siio de quatro gineros e os cha-      divel, o intelecto humano leva todo o resto
ma, com belas imagens didhticas:                  a valida-la e coincidir com ela. E mesmo que
      1)idolos da tribo;                          a forqa ou o n6mero das instfncias contra-
      2) idolos da caverna;                       rias seja maior, no entanto, ou niio d o leva-
      3) idolos do foro;                          das em conta por desprezo ou sf o confun-
      4) idolos do teatro.                        didas com distinq6es e rejeitadas, niio sem
      Tais "idolos" siio eliminados aprenden-     grave e danoso prejuizo, desde que isso con-
do conceitos adequados, alcanqados com            serve im~erturbavel autoridade das suas
                                                                          a
 mttodo justo, ou seja, mediante a indu~rio,      afirmaq6es primeiras."
270
        Terceira parte - Bacon e Descartes

      Em suma. um vicio do intelecto huma-       dos livros que 1 i e da autoridade daqueles
no C o que hoje chamariamos de equivoca-         que admira e honra ou por causa da di-
da tendincia verificacionista, contriria a       versidade de impressoes, i medida que elas
                                                                               i
justa atitude falsificacionista, com base na     encontrem o espirito jii ocupado por pre-
qual, se queremos o progress0 da ciincia,        conceitos ou entiio descongestionado e tran-
devemos estar Drontos a descartar uma hi-        q u i l ~ " .0 espirito dos individuos singula-
potese, conjectura ou teoria quando obser-       res "C variado e muthvel, quase fortuito".
vamos fatos contririos a ela.                    Por isso, escreve Bacon, Heraclito estava
      Mas as tendincias perniciosas do inte-     com a raziio quando disse: " 0 s homens pro-
lecto niio siio somente as que sup6em or-        curam as cisncias em seus pequenos mun-
dens e relagoes que um mundo complexo            dos, niio no mundo maior, que C idintico
niio tem ou entiio as que niio levam em con-     para todos."
ta os casos contririos. 0 intelecto, de fato,            0 s idolos da caverna, portanto, "tsm
tambCm tende a atribuir com facilidade as        [...I sua origem na natureza especifica da
qualidades de algo que o impressionou a          alma e do corpo do individuo, em sua edu-
outros objetos que, no entanto, nso tirn es-     cagiio e seus habitos ou entiio em outros
sas qualidades. Em suma, "o intelecto hu-        casos fortuitos". Assim, por exemplo, pode
mano niio C apenas luz intelectual, mas tam-     ocorrer que alguns se afeigoem A suas es-
                                                                                      s
bCm sofre a influincia da vontade e dos          peculag6es particulares "porque se acredi-
afetos, o que faz com que as ciincias sejam      tam seus autores e descobridores ou porque
como se quer. Isso ocorre porque o homem         a elas dedicaram todo o seu engenho e a elas
cri que C verdadeiro aquilo que ele prefere,     se habituaram". Ou entiio, baseando-se em
rejeitando por isso as coisas dificeis, pela     alguma parcela de saber por eles construida,
impaciincia de pesquisar; a realidade pura       os individuos a extrapolam, propondo sis-
e simples, porque deprime as suas esperan-       temas filosoficos inteiramente fantasticos. E
gas; as verdades supremas da natureza, por       h6 ainda aqueles que se deixam tomar de
superstigiio; a luz da experiincia, por sober-   admiragiio pela antiguidade, enquanto ou-
ba e presungiio [...]; os paradoxos, para fi-    tros, pela atraqiio da novidade; "poucos siio
car com a opiniiio do vulgo; e o sentimento      aqueles que conseguem manter-se num cami-
ainda penetra no intelecto e o corrompe por      nho intermediirio, ou seja, sem desprezar
muitos outros modos, frequentemente im-          aquilo que C justo na doutrina dos antigos e
perceptiveis".                                   sem condenar aquilo que foi corretamente
      E h i tambCm os obst6culos dos senti-      descoberto pelos modernos".
dos enganosos, que s5o obstaculo porque
amiude "a especulaqiio se limita [. ..] ao as-
pecto visivel das coisas, deixando de lado
ou reduzindo a muito pouco a observaqiio               0 s   "idola fori"
daquilo que nelas h i de invisivel [.. I ".
      AlCm disso, "por sua propria nature-
za, o intelecto humano tende para as abstra-           0 s idolos do for0 ou do mercado deri-
q6es e imagina como estivel aquilo que, no       vam da comunhiio e das relagoes que os
entanto. C mutivel".                             homens tim entre si. Na realidade, escreve
      S& esses, portanto, os idolos da tribo.    Bacon, "a relagiio entre os homens ocorre
                                                 por meio da fala, mas os nomes siio impostos
                                                 as coisas segundo a compreensiio do vulgo.
                                                 E basta essa informe e inadequada atribui-
      0 s "idola specusl'                        $20 de nomes para perturbar extraordina-
                                                 riamente o intelecto. E, naturalmente, para
                                                 retomar a relagiio natural entre o intelecto e
     0 s idolos da caverna "derivam do in-       as coisas, tambim n5o tim valor todas aque-
dividuo singular. AlCm das aberrag6es co-        las definiqoes e explicag6es das quais fre-
muns ao ginero humano, cada um de nos            qiientemente os doutos se servem para se
tem uma caverna ou gruta particular na qual      precaver e se defender em certos casos".
a luz da natureza se perde e se corrompe,              Em outros termos, Bacon parece ex-
por causa da natureza propria e singular         cluir exatamente aquilo que hoje nos cha-
de cada um, por causa de sua educagiio e         mamos hipoteses ad hoc, isto 0, hipoteses
das conversagoes com os outros, por causa        cogitadas e introduzidas nas teorias em pe-
271
                     Capitulo de'cimo quarto -     Francis Bacofi:   fil6sofo da era industrial


rigo com o zinico objetivo de salva-las da           (corno, por exemplo, a "sorte", o "primei-
critica e da refutagiio.                             ro m6veln etc.), ou s i o nomes de coisas que
      Entretanto, diz Bacon, "as palavras fa-        existem, mas confusos, indeterminados e
zem grande violihcia ao intelecto e perturbam        impropriamente abstraidos das coisas.
os raciocinios, arrastando os homens a inu-
meraveis controvksias e viis consideraq6es".
      Na opiniiio da Bacon, os idolos do for0
siio os mais incBmodos de todos, "justamen-
te porque estio ligados a linguagem". 0 s
homens "acreditam que sua raziio domina
as palavras; mas ocorre tambim que as pa-                  0 s idolos do teatro "penetraram no
lavras retrucam e refletem sua forga sobre o         espirito humano por meio das diversas dou-
intelecto, o que torna a filosofia e as citncias     trinas filosoficas e por causa das pissimas
sofisticas e inativas".                              regras de demonstraqiio" .
      0 s idolos que, por intermtdio das pa-               Bacon os chama de idolos do teatro
lavras, penetram no intelecto, siio de duas          porque considera "todos os sistemas filos6-
espicies: siio nomes de coisas inexistentes          ficos que foram acatados ou cogitados como
                                                     f6bulas preparadas para serem representa-
                                                     das no palco, boas para construir mundos
                                                     de ficciio e de teatro". Encontramos fabu-
                                                     las niio somente nas filosofias atuais ou nas
                                                     "seitas filosoficas antigas", mas tambim em
                                                     "muitos axiomas e principios das cihcias
                                                     que se afirmaram por tradiqiio, f i cega e
                                                     desleixo".
                                                           Bacon particularmente classifica tres
                                                     tipos de idolos do teatro, que estio na ori-
                                                     gem da falsa filosofia: a ) idolos sofistas,
                                                     baseados sobre experihcias comuns niio
                                                     suficientemente provadas, e depois integra-
                                                     das artificiosamente pela inteligcncia; b) ido-
                                                     10s empiricos, baseados sobre poucos expe-
                                                     rimentos acurados, mas com a pretensiio de
                                                     sobre eles construir sistemas filosoficos:, c) r


                                                     idolos subersticiosos. baseados sobre uma
                                                     mistura acritica da filosofia coni a teologia
                                                     e com as tradiqoes.
                                                           Bacon n i o pretende com isso menos-
                                                     prezar os antigos nem atingir sua respeita-
                                                     bilidade. Nos, diz ele, nos ocupamos de novo
                                                     mitodo, um mitodo desconhecido dos an-
                                                     tigos, que permite a gsnios menos fortes que
                                                     os antigos ir bastante alim dos seus resulta-
                                                     dos: "Diz-se que at6 um manco, se coloca-
                                                     do no caminho certo, pode ultrapassar urn
                                                     corredor que esteja fora do caminho; por-
                                                     que 6 verdade que, quanto mais veloz cor-
                                                     re, quem esta fora do caminho mais se per-
                                                     de e erra."
                                                           E assim chegamos ao ponto em que
                                                     podemos tratar daquilo que, para Bacon,
                                                     constitui a ) o verdadeiro objetivo da ciin-
                                                     cia e b) o verdadeiro me'todo da pesquisa.
272
        Terceira parte - Bacon e Descartes


                        V. 8 escopo da cizncia:
                      a descoberta das "formas"




      L m ponto cardeal
       4                                           ou inquebrivel; um projeto para conservar
                                                   os lim6es, as laranjas e as cidras durante o
      do pensamento de Bacon
                                                   veriio; um projeto para fazer amadurecer
                                                   mais rapidamente as ervilhas, os morangos
      Descongestionada a mente dos "ido-           ou as cerejas. Outro projeto seu consistia
los", isto 6 , libertado o espirito das apressa-   em procurar obter - usando o ferro unido
das "antecipag6es da natureza", na opini5o         h silica ou a qualquer outra pedra - um
de Bacon, o homem pode entiio encaminhar-          metal mais leve que o ferro e imune h ferru-
se para o estudo da natureza. Pois bem, "a         gem. Para esse composto ( o nosso aqo), Ba-
obra e o fim da f o r ~ ahumana esth em gerar      con via os seguintes usos: " E m primeiro lu-
e introduzir em um dado corpo uma nova             gar, para os utensilios de cozinha, como
natureza ou mais naturezas diversas. A obra        espetos, fornos, assadores, panelas etc.; em
e o fim da ciBncia humana est5o na desco-          segundo lugar, para os instrumentos bdicos,
berta da forma de uma natureza dada, isto          como peqas de artilharia, comportas, gri-
6 , de sua verdadeira diferenqa, natureza          IhGes, correntes etc."
naturante ou fonte de emanaqiio".                        Esses exemplos nos permitem com-
                                                   preender o que significa "introduzir em um
                                                   corpo dado uma nova natureza". E tambCm
                                                   nos permitem compreender o que Bacon quer
      0poder do homem                              dizer quando afirma que "a obra e o firn da
      esth e produzir e u corpo
            m          m m                         for~a humana est5o em gerar e introduzir em
      novas naturezas
                                                   um corpo dado uma nova natureza ou mais
                                                   naturezas diversas". Isso esclarece a primei-
                                                   ra parte do trecho citado de Bacon.
     Esse elemento central do pensamento
de Bacon necessita de alguns esclarecimen-
tos. Antes do mais, o que pretendia dizer                   cigncia est6 na descoberta
Bacon com a express50 "gerar e introduzir               das "formas"
em um corpo dado uma nova natureza"?
     Eis alguns "projetos" que exemplificam
a idCia de Bacon: um projeto para fazer li-             Vejamos entiio a segunda parte, onde
gas de metais para fins diversos; outro pro-       ele escreve que "a obra e o fim da ciBncia
jet0 para tornar o vidro mais transparente         humana est5o na descoberta da forma de
273
                     Capitdo dtcimo quarto - Francis Bacon: filbsofo da era industrial

uma natureza dada, isto 6, de sua verdadei-             f idkia baconiana
                                                         
ra diferenga, natureza naturante ou fonte de
emanaqiio".                                              de "fo~wm",
      Bacon encontra em Arist6teles a dou-               o l l r v ~ ~ e ~ ~ ~
                                                                     Iatente"
trina das auatro causas necessarias i com-               e o "esquematismo Iatente"
preens50 de uma coisa qualquer. Siio elas: a
causa material; a causa eficiente; a causa
formal; a causa final. Assim, por exemplo,               Mas o que siio essas formas? De que
se considerarmos uma estatua, n6s a com-           mod0 Bacon as concebe?
preenderemos se entendermos de que C fei-                Pois bem, para compreender a idCia de
;a (causa material: por exemplo, o-mirmo-          forma, t necessirio falar de dois novos con-
re); quem a fez (causa eficiente: por exemplo,     ceitos introduzidos por Bacon: o de "proces-
o escultor): sua forma (causa formal: a idCia
            .,                                     SO latente" e o de "esquematismo latente".
que o escultor impri;ne nd marmore); o                   a ) 0 processo latente niio C o processo
motivo pel0 qua1 foi feita (causa final: por       que se ve atravis da observagiio dos fen&
exemplo, a raziio que impeliu o escultor a         menos: "Com efeito, niio pretendemos fa-
faze-la).                                          lar de medidas, sinais ou escalas do processo
      Pois bem. Bacon esta de acordo com           visivel nos corpos, mas de processo conti-
Arist6teles sobre o fato de aue "o verdadei-       nuado, que em sua maior parte escapa aos
ro saber i saber por causas". Mas, entre es-       sentidos."
sas causas, acrescenta ele, a causa final so             b) Quanto ao esquematismo latente,
pode valer para o estudo das ag6es huma-           Bacon escreve que "nenhum corpo pode ser
nas. Por outro lado, a causa eficiente e a ma-     dotado de nova natureza, nem se pode trans-
terial siio de pouca importiincia para a c i h -   form6-lo oportunamente e com sucesso em
cia verdadeira e ativa.                            novo corpo, se niio se conhece com perfei-
      0 que resta, portanto, C a causa for-        giio a natureza do corpo a alterar ou a trans-
mal. E esta que n6s devemos conhecer se            formar".
quisermos introduzir "novas naturezas" em                Na opiniiio da Bacon, a anatomia dos
determinado corpo: "Um homem que co-               corpos orgiinicos, ainda que insuficiente-
nhega as formas pode descobrir e obter efei-       mente, dii de alguma forma a idiia de es-
tos nunca antes obtidos, efeitos que nem as        quematismo latente. Brevemente, pode-se
mudangas naturais, nem o acaso, nem a ex-          dizer que o esquematismo latente C a estru-
periincia, nem a industriosidade humana            tura de uma natureza, a essencia de um fe-
jamais produziram, efeitos que, de outra           n8meno natural, ao passo que o processo
forma, a mente humana jamais teria podi-           latente pode ser visto como a lei que regula
do prever."                                        a geraqiio e a produqiio do fen8meno.
      Em suma, conhecer as formas das va-                Assim, compreender a forma significa
rias coisas ou "naturezas" significa pe-           compreender a estrutura de um fen6meno e
netrar nos segredos profundos da natureza          a lei que regula o seu processo. 0 s eventos
e tornar o homem poderoso em relagiio a            se produzem segundo uma lei. E "nas cien-
ela. E Bacon era de opini5o que esses se-          cias i essa propria lei e a pesquisa, desco-
gredos da natureza niio deviam ser muitos          berta e explicagiio da mesma, que constitu-
em comparagiio com a grande variedade e            em o fundamento do saber e do operar. Sob
riqueza dos fenGmenos, aparentemente tiio          o nome de forma, n6s entendemos essa lei e
d'iversos.                                         seus artigos [...In."quem conhece a for-
                                                                        E
      No fundo, Bacon pretendia assenho-           ma, abrange a unidade da natureza, att nas
rear-se daquele alfabeto da natureza que po-       matirias mais dessemelhantes [. ..I. Por isso,
deria permitir compreender as express6es da        da descoberta das formas derivam a veraci-
linguagem, isto 6, seus fen8menos variados.        dade na especulaqiio e a liberdade na ope-
      Em outros termos: as palavras da lin-        ragiio".
guagem da natureza seriam os fedmenos,                   Poder-se-ia quase dizer que, com essas
e as letras do alfabeto seriam as poucas e         especulaqoes, Bacon, de certa forma, sonhou
simples formas.                                    a realidade do bioquimico ou a t i a aventu-
                                                   ra dos fisicos at6micos contemporiineos.
2 74   Terceira parte - B a c o ~ D e s c n r t e s
                                r




                   VI. j indmG&o por eliminaG&o
                        



  0 s dois                 Uma vez purificada a mente dos idolos e fixado o verda-
  procedimen tos   deiro escopo d o saber no conhecimento das formas da natureza,
  que compeem      o metodo para alcanqar tal escopo se compZie de dois procedi-
  o metodo para    tTIentos:
  o conhecimento         1) extrair os axiomas da experiencia;
  das formas             2) derivar experimentos novos dos axiomas.
  da na tureza           0 s axiomas sao assim tirados da experi@nciamediante a
  4 3 1-2          indu(;a"o p o r elimina(;a"o da hipotese falsa, que suplanta a indu(;a"o
                   tradicional de t i p 0 aristotelico, conduzida por simples enurnera-
 gao de casos particulares. A induqao por eliminaqao e precedida de uma impor-
 tante classificag30 que registra:
     a) nas tabuas de presenga, todos os caos em que o fen6meno indagado se
 apresenta;
     6) nas tabuas da ausencia, os casos afins aos precedentes em que, porem, o
 fen6meno nao se apresenta;
     C) nas tabuas dos graus, todos os casos em que o fen6meno se apresenta
 segundo maior o u menor intensidade.
        Depois da compilaq~o tr@sdas      tabuas, comega a operaqao de verdadeira e
 propria exclusao o u eliminaqao das hipoteses falsas de explicaqao d o fenbmeno,
 ate que se chegue a uma primeira vindima, isto e, a uma primeira hip6tese coe-
                   rente com os dados expostos nas tr@s   tabuas e avaliados por meio
  0 conceit0       d o processo seletivo de exclusao. A primeira vindima e assumida
  da primeira      depois como hipotese-guia para a pesquisa posterior, isto 4, dela
  vindima          deduzindo os fatos que ela implica e preve, e experimentando se
  4 3 3-5          tais fatos se verificam tambem em condigdes tecnicas experimen-
                   tais (ou instrincias prerrogativas), entre as quais assumem parti-
 cular relevo as instrincias da cruz. De tal modo, Bacon iniciava u m caminho dirigi-
 d o a unir de mod0 sempre mais firme a faculdade experimental e a faculdade
 rational.



                                                             Para Bacon, o caminho a seguir C o da
                                                      indu@o, mas a "indu@o legitima e verda-
                                                      deira, que 6 a propria chave da interpreta-
                                                      @o", e niio a indu@o aristote'lica.
     Purificada a mente dos "idolos" e fi-                   Conforme diz Bacon, a induqiio aristo-
xado no conhecimento das formas da natu-              tClica C uma induqiio por simples enumera-
reza o verdadeiro objetivo do saber, C preci-         @o de casos particulares, "passando muito
so ver agora atravCs de qua1 mitodo tal               rapidamente sobre a experitncia e sobre os
objetivo pode ser alcanqado.                          particulares". A partir de poucos particula-
     Bacon afirma que o objetivo C alcan-             res, secundando a m i tendencia da mente a
qavel realizando-se um procedimento de                subir imediatamente de escassas experiin-
pesquisa compost0 de duas partes: "A pri-             cias aos principios mais abstratos, ela "cons-
meira consiste em extrair e fazer surgir os           titui logo de inicio conceitos tiio gerais quan-
axiomas da experihcia, a segunda em de-               to inuteis".
duzir e derivar novos experimentos dos axio-                 Em poucas palavras: a induqiio de Aris-
mas." Mas que fazer para extrair e fazer sur-         toteles deslizaria sobre os fatos, ao passo que
gir os axiomas da experigncia?                        a induqiio proposta por Bacon, que C uma
275
                     Capitulo de'cirno quarto -   Francis Bacon: filbsofo   da   ern   industrial


                                                          Assim, se pesquisamos a natureza do
                                                    calor, devemos inicialmente compilar urna "ta-
                                                    bua de presenqa" (tabula praesentiae), onde
        Induqtio por eliminas3o.O me-               registrarnos todos os casos ou instiincias em
     todo indutivo tradicional, que re-             que se apresenta o calor: "1) os raios do sol,
     monta a Aristoteles, caracteriza-se            sobretudo no veriio e ao meio-dia; 2) os raios
     segundo Bacon pela simples enume-              do sol refletidos e reunidos em pequeno espa-
     ra@o dos fencimenos, razao pela qual           $0, como entre montes, entre muros ou, mais
     se julga com base a um nlimero de              ainda, nos espelhos ustorios; 3) os meteoros
     fencimenos inferior ao necessario e            incandescentes; 4) os reliimpagos ardentes; 5 )
     apenas em base aos que se tern ao
     alcance da m%o: este metodo, que               erupqoes de chamas das crateras dos montes
     procede silogisticamente do mais par-          etc.; 6) toda chama; 7) solidos em fogo; 8) as
     ticular ao mais universal, saltando os         aguas quentes naturais; (...); 18) a cal viva,
     aneis intermediarios, leva a conclu-           borrifada de agua (...); 20) os animais, so-
     s6es precarias e constantemente ex-            bretudo e sempre nas entranhas etc."
     postas ao perigo de teses contradi-                  Compilada a "tabua da presenqa", pro-
     torias.                                        cede-se 2 compilaqio da "tibua das ausin-
     A verdadeira induqso cientifica, que           cia" (tabula declinationis sive absentiae in
     faz "uso de muitas coisas as quais ate
     o momento nenhum mortal jamais                 proximo), na qual siio registrados os casos
     pensou", deve ao contrario analisar            proximos, isto 6, afins, aos anteriores, nos
     os fenbmenos da natureza a partir              quais, porim, o fen6men0, em nosso caso o
     dos experimentos, mediante as de-              calor, n i o se apresenta: 6 o caso dos raios
     vidas elimina@es e exclusBes dos               da lua (que S ~ luminosos como os do sol,
                                                                       O
     casos em que o fendmeno em ques-               mas n i o s i o quentes), dos fogos-fatuos, do
     ti30 esta ausente ou n%oesta presen-           fogo-de-santelmo (que C fen8meno de fosfo-
     t e de mod0 pleno, para chegar a s             rescincia marinha) e assim por diante.
     causas e aos axiomas sempre mais
     gerais que expressamente a ele se                    Concluida a tibua da ausincia, pas-
     referem.                                       sa-se a compilaqiio da "tabua dos graus"
     A induq%opor eliminaq%o e "a pro-              (tabula graduum), na qual s i o registrados
     pria chave da interpreta@o", e nela            todos os casos ou instiincias em que o fen&
      "sem duvida e depositada a maior es-          meno se apresenta segundo urna intensida-
     peranqa".                                      de maior ou menor. Em nosso caso, deve-se
                                                    atentar para a variaqiio do calor no mesmo
                                                    corpo, colocado em ambientes diversos ou
                                                    em condiqoes particulares.


indu~iio por elimina@o, estaria em condi-            3    Como das tr2s t6buas
q6es de captar a natureza, a forma ou a es-               se extrai a "primeira vindima"
sincia dos fenemenos.
                                                          Armado com essas tabuas, Bacon pro-
                                                    cede entiio a operaqiio de induqiio propria-
 2     A s tr& "t6buas"                             mente dita, seguindo o procedimento da
       sobre as quais se deve                       exclusio ou eliminaqiio. Escreve ele: "0
       basear a nova induC&o
                                                    objetivo e a funqao dessas tris tabuas s i o o
                                                    de fazer urna citagiio de inst2ncias diante do
                                                    intelecto [...I. Feita a citaqiio, C preciso p6r
     Pois bem, na opiniiio de Bacon, a pes-         em a@o a propria indupio."
quisa das formas procede do mod0 que des-                 Deus, "criador e introdutor das for-
creveremos.                                         mas", e "talvez tambem os anjos e as inteli-
     Antes do mais, ao se indagar sobre urna        gincias celestes" tim "a faculdade de captar
natureza, como, por exemplo, o calor, C pre-        imediatamente as formas por via afirmativa
ciso "fazer urna cita@o, diante do intelecto,       e desde o inicio da especulaqiio". 0 homem,
de todas as instiincias conhecidas que coin-        porkm, n i o possui essa faculdade, sendo-
cidem em urna mesma natureza, ainda que             lhe "concedido somente proceder primeiro
se encontrem em matirias muito diversas".           por via negativa e apenas por ultimo, de-
276
             Terceira parte - Bncan   r Del-cn~+es



pois de um processo completo de exclusiio,           Ele proprio escreve: "At6 agora, aqueles que
passar a afirmaqiio". A natureza, portanto,          trataram das cihcias eram empiricos ou
deve ser analisada e decomposta com o fogo           dogmaticos. 0 s empiricos, como as formi-
da mente, "que i quase um fogo divino".              gas, acumulam e consomem. 0 s racionalis-
      Mais especificamente, porim, em que            tas, como as aranhas, extraem de si mes-
consiste o procedimento por exclusiio ou             mos sua teia. 0 caminho intermediario e' o
eliminaqiio? Pois bem, por "exclusiio" ou            das abelhas, que extraem sua mat6ria-pri-
"eliminaqiio" Bacon entende exatamente a             ma das flores do jardim e do campo, trans-
exclusiio ou eliminaqiio da hipotese falsa.          formando-a e digerindo-a em virtude de urna
      Retomemos o exemplo da pesquisa da             capacidade que lhes C pr6pria. N5o muito
natureza do calor. Considerando as tibua             diferente i o trabalho da verdadeira filoso-
de presenqa, aushcia e graus, o pesquisa-            fia, que niio deve se servir somente ou prin-
dor deve excluir ou eliminar como proprias           cipalmente das forgas da mente, pois a ma-
da forma ou natureza naturante do calor              tCria-prima que ela extrai da historia natural
todas aquelas qualidades niio possuidas por          e dos experimentos mecinicos niio deve ser
algum corpo quente, as qualidades possui-            conservada intacta na memoria, mas sim
das por algum corpo frio e as que permane-           transformada e trabalhada ~ e l o   intelecto.
cem invariiveis sob o aumento do calor.              Assim, a nossa esperanqa se deposita na
      Para ficar ainda mais claro, a proposito       uniiio sempre mais estreita e s6lida entre
da pesquisa da natureza do calor, o procedi-         essas duas faculdades, a experimental e a
mento por exclusiio poderia assumir o seguin-        racional, uniiio que ate agora ainda n i o se
te processo de argumentaqiio: o calor 6 ape-         realizou. "
nas um fen6meno celeste?Niio, pois tambim
os fogos terrenos siio quentes. Ele i, entiio,
apenas um fenBmeno terrestre? Niio, pois o
sol i quente. Todos os corpos celestes siio
quentes? Niio, porque a lua i fria. Sera que o
calor depende da presenqa de alguma parte
constitutiva no corpo quente, como poderia                 Chegando a "primeira colheita", Ba-
ser o antigo elemento chamado "fogo"? Niio,          con toma essa primeira hipotese como guia
pela raziio de que qualquer corpo pode ser           para a pesquisa posterior, que consiste na
tornado quente pel0 atrito. Sera que depen-          dedu~iio no experimento, no sentido de
                                                                e
de entiio da composiqiio particular dos cor-         que, da hipotese obtida, devem-se deduzir
pos? Niio, ja que podem ser esquentados os           os fatos por ela implicados e previstos, ex-
corpos de qualquer composiqiio.                      perimentando em condiq6es diversas se tais
      E assim por diante, at6 se chegar a urna       fatos implicados e previstos pela hipotese
"primeira colheita" (vindeminatio prima),            se verificam.
isto 6, a uma primeira hipotese coerente com               Desse mod0 se constroi urna espicie de
os dados expostos nus tris tabuas e criva-           rede de investigaqao, da qua1 parte toda urna
dos atrave's do procedimento seletivo de eli-        s6rie de "interrogag6esn a que a natureza C
mina@o e exclusiio. No que se refere ao              forqada a responder.
exemplo do calor, Bacon chega a urna con-                  Com tal objetivo, Bacon cogita um
clusiio como esta: "0calor i um movimen-             conjunto rico de ticnicas experimentais (ou
to expansivo e forqado, que se desenvolve            de instiincias prerrogativas), por ele indica-
segundo as partes menores."                          das com nomes muito fantasiosos (instin-
                                                     cias solitarias; instincias migrantes; instin-
                                                     cias ostensivas; instincias clandestinas;
                                                     instincias constitutivas; instincias confor-
,t4L"#" "   f nova induC&o
                                                     mes ou proporcionais; instincias monidicas;
                  "via
            C O ~ O      mediana"                    instincias desviadoras etc.), entre as quais
            entre as seguidas                        destacam-se particularmente as "instiincias
            por empiristas e racionalistas           da cruz", assim chamadas "por methfora
                                                     extraida das cruzes colocadas nos caminhos
                                                     para indicar urna bifurcaqiio".
     Procedendo desse mod0 na busca da                     A estratigia do experimentum crucis
verdade, Bacon trilhava um caminho dife-             se da "quando, durante a pesquisa de urna
rente do dos empiristas e dos racionalistas.         natureza, o intelecto esta incerto e como que
277
                     Capitdo de'czmo quarto -      Franc~s
                                                         Bacon:   fil6sof0 da era industrial


em equilibrio no decidir sobre a qua1 de duas       pre o mesmo peso, ao passo que, sendo ver-
naturezas, ou mais de duas, deve ser atribui-       dadeira a segunda hipotese, deveria seguir-
da a causa da natureza examinada; pel0 con-         se que "quanto mais os graves se aproxi-
curso freqiiente e ordinario de varias natu-        mam da terra, tanto maiores siio a forqa e o
rezas, as instincias cruciais mostram que o         impeto com que siio impelidos em sua dire-
vinculo de uma dessas naturezas com a na-           $30, ao passo que, quanto mais se afastam
tureza dada C constante e indissoluvel, ao          dela, mais lenta e fraca se torna aquela for-
passo que o das outras C variavel e separa-         qa [...]".
vel. Assim, a questiio resolve-se, e C acolhi-             Pois bem, sendo assim, eis a instiincia
da como causa a primeira natureza, enquan-          da cruz: "Tomam-se dois relbgios, um da-
to a outra C rejeitada e repudiada". E Bacon        queles que se movem por contrapesos de
comenta: "Tais instincias trazem portanto           chumbo, outro daqueles que se movem por
muita luz e apresentam uma como que for-            contragiio de uma mola de ferro. Experimen-
te autoridade, de mod0 que, algumas vezes,          te-se se um C mais veloz ou mais lento que o
chegando a elas, nelas se dettm o process0          outro. Depois, coloque-se o primeiro na
de interpretaqiio".                                 extremidade de um templo altissimo, apos
      N o segundo livro d o Novum Orga-             te-lo regulado de acordo com o outro, de
num, niio faltam exemplos de pesquisas que          mod0 a que marquem o mesmo tempo, dei-
necessitam de experimenta crucis para se-           xando-se entiio o outro aqui embaixo. E
rem resolvidas. Detenhamo-nos sobre o               isso para observar diligentemente se o re-
exemplo da solugiio da quest50 da forma             logio colocado no alto move-se mais lenta-
d o peso.                                           mente do que antes, em virtude da menor
      Para alguns, o peso dos corpos devia-         forga de gravidade. 0 experiment0 deve ser
se a uma propriedade intrinseca dos corpos,         repetido, levando-se o relogio para a pro-
a o passo que, para outros, devia-se B gravi-       fundidade de alguma mina, situada muito
dade.                                               abaixo da superficie da terra, para ver se ele
      Eis, portanto, para exemplificar, a bifur-    se move mais velozmente que antes, em ra-
ca@o: "1) Ou os corpos pesados e graves             ziio do aumento da forqa de atraqiio. E so-
tendem para o centro da terra por sua pro-          mente no caso de se concluir que efetiva-
pria natureza, isto C, segundo o seu esquema-       mente o peso dos corpos diminui quando se
tismo, 2) ou entiio S ~ atraidos e aprisiona-
                          O                         elevam ou aumenta quando se abaixam em
dos pela propria forga da massa terrestre."         diregiio ao centro da terra, C que se determi-
      Ora, se a primeira hipotese fosse ver-        n a r i que a causa do peso C a atraqiio da
dadeira, entiio todo objeto deveria ter sem-        massa terrestre."
278        Terceira parte - Bnscn e Desco~+es



                                                          BACON
                                    NTERPRETAC~O NATUREZA
                                               DA

    ,
/
        0 NOVO ORGANUM DA "GRANDE RESTAURACAO DAS CIENCIAS E DAS ARTES"
                                                                ou
                         "PRINC~PIOS INTERPRETACAO DA NATUREZA"
                                    DA




                                                                                    1. idolos da tribo
           i                                          Refuta~iio  das               2. idolos da caverna
         -..
          -I
                                                 antecipa~oes natureza,
                                                              da                    3. idolos do for0 otr do mercado
                   DE PARTIDA           I   w                                       4. idolos do teatro
                                                        isto e, dos
    7-
                                                                                    A) CLASSIFICAQ~O:
                                                                                       a. tibuas da presenga
                                                                                       b. tibuas da aushcia
                                                         Primeira parte:               c. tibuas dos graus
               I
               1                            @       deriva~do axiomas
                                                                dos
                           -    -                    a partir da experigncia        B) METODO:
                                                                                       indu~do elimina@o
                                                                                             por
                      - --
                               7                                                       da hip6tese falsa
                                                                                       na explicaqIo do fedmeno

                                                                                    C) OBJETIVO:
               I    /"            Segunda parte:                                       primeira vindima
                         deriva~do novos fendmenos
                                    de                                                 (ou interpretagIo inicial),
                               da primeira vindima                                     isto 6 , primeira hipotese
                       por meio de te'cnicas experimentais                             coerente
                                                                                       corn os dados
                            (insthcias prerrogativas,
                                                                                       experimentados
                          retificaq6es da induqiio etc.)




                                                                         COGNOSCITIVO:
                                                              descoberta da forma de uma natureza dada
                                                            (interpreta~ao final completa dos fenhmenos),
                                                      isto 6, compreens50 da estrutura (esquematismo latente)
                                                 v            de um fen6meno e da lei (processo latente)
                                                                       que regula seu processo
                                    -
                                                 A
                                                                             OPERATIVO:
                                                              geragiio de uma ou mais novas naturezas
                                                                          em um corpo dado,
                                                             isto 6, transforma@o dos corpos materiais
                                                                     por meio da introduqiio neles
                                                                de uma ou rnais qualidades sensiveis
2
                     Capitulo dtcimo quarto - Francis Bacon: filbsofo da era industrial


                                                    corpos naturais: o resto 6 obra do natureza, que
                                                    opera a partir de dentro.

                                                    2. lnsufici&nciadas ciQnciasatuais
                                                       e da 16gica traditional
                                                           1 . Costumam ocupar-se da natureza, no
      A necessidade                                 que se refere bs obras, o rnec6nic0, o matern6-
      de u novo m8todo
          m                                         tico, o rnhdico, o alquimista e o rnago; todos.
      nas ci9ncias e nas arks                       porhm, no atual estado das coisas, com I e v ~
                                                    empenho e escasso resultado.
                                      --                   2. Seria loucura e contraditorio em si crer
        No opinido da Bocon, as c/&ncias da         que aquilo qua at& ac~ora    jomais foi feito, pos-
 sua Qpocondo sdo capozes da novos das-             sa ser feito sem recorrer a rn&todos ainda ja-
 cobartas, e o prdprio Iogica trodiclonal Q mci-    mais tentados.
 ti1 poro os pesquisas ciantificos.                        3. Nos livros e nos oficinas parecern de-
        0 s conceltos qua Figurom nos silogis-      rnasiadamente numerosos os produtos da man-
 mos do filosofia trodicionol 580, no raalida-      te e da mBo. Mas toda essa variedade est6
 de, no@s Fontdsticos, ndo axtraidas dos            fundarnentada sobre urna extraordin6ria sutile-
 objatos com mhtodo; a o masmo discurso             za e sobre uma s&rie de consequ&nciasextrai-
 vole poro os oxiomos, qua am garal sdo in-         das de poucos conhecirnentos j6 adquiridos, e
 davidomente extroi'dos por maio de uma             ndo @st6fundarnentada sobre o nljrnero dos
 passogem precipitodo a ilagitima de poucos         axiomas.
 cosos particularas oo univarsol.                          4. Tamb6rn as invenq3es jd realizadas se
        /7 aste procedimanto, que h o falsa         devem ao acaso e b empiria rnais do qua bs
 indusdo, Aocon op6e a verdadeira indu~bo,          ci&ncias. Corn efeito, as cihcias que hoje te-
 qua avonqo para os princ@ios madianta os            mos, ndo sdo mais que combinagies de coisas
 oxiomos mddios a procada com cautalo e             j6 encontrodas, ndo mQtodos para a inven@o
 paci&ncio, continuamanta controlodo palos          ou indicqdes de novas obras.
 cosos do axpari&ncio.                                     5. R causa e a raiz de quase todos os
        Nessa p ~ p a c t i v odeva-sa antandar a    males nos ci&ncias & apenas esta: enquanto
 chlabra distin~do  baconiano entra antecipa-       erronearnente admiramos e exaltarnos as for-
 @es da natureza e interpretag%s da natureza.       <as da mente hurnana, nBo procuramos verda-
                                                    deiros auxilios para ela.
                                                           6. A sutileza do natureza supera em muito
                                                    a sutileza do sentido e do intelecto, tanto que
1. A natureza pode ser vencida
                                                     todas as boas msdita<bes,especula@es e con-
   apenas obedecendo a ela
                                                     trovCrsias hurnanas sdo coisas sern sentido;
      1 . 0 homern, rninistro e inthrprete da na-    apenas ndo existe algu&m que perceba ISSO.
tureza, opera e entende apenas pelo que, com               7. Como as ci&ncias,que agora temos, sdo
a pr6tica ou corn a teoria, tiver aprendido da       totalrnente inljteis para a inven~do obras,
                                                                                             de
ordern da natureza: al&m disso nada sabe nem         tarnbbm a logics, como & atualmente, & ~nljtil
pode.                                                para a inven~do    das ci&ncias.
      2. Nem a mdo nua, nem o intelecto aban-              8. R logica hoje em uso vale rnais para con-
donado a si mesmo t&m poder. 0 s resultados          firmar e para fixar erros que se apoiam sobre
sbo alcanpdos corn instrumentos e corn auxi-         no~bes   vulgares do que para a busca da verda-
lios e destes tern necessidade ndo rnenos o          de: por isso, ela d rnais danosa do que util.
intelecto do que a rndo. Como os instrurnentos             9. 0 siloglsrno, sendo totalrnente inade-
ampliam e regsrn o rnovimento da rndo, tam-          quado para a sutileza da natureza, ndo se apli-
bQrn os instrurnentos da rnente guiarn ou man-       ca aos principios das ci&ncias e i; aplicado em
t&m o intelecto.                                     vdo aos axiornas rn&d~os.     Obriga ao assenti-
      3. R ci&ncia e o poder humano coincidem,       rnento, ndo obriga as coisas.
porque a ignor6ncia do causa faz corn que fake              10. 0 silogismo consta de proposiq%s,
o efeito. fl natureza, com efeito, nBo se vence a    as proposi@es de palavras, as palavros sBo
ndo ser obedecendo a ela, e o que na teoria tem      as etiquetas das no@es. Portanto, se as pro-
valor de causa, na opera@o tern valor de regra.      prias no@es, que estdo na base de tudo, sdo
      4. E relaq3o 6s obras o hornem nBo tern
           m                                         confusas e arbitrariamente abstraidas das coi-
outro poder que o de aproxirnar ou afastar os        sas, ser6 totalrnente privado de sol~dez    aquilo
e"; ds2%0   Terceira parte - Bacon e Descartes

   qua se constroi sobre sua base Rsslm, a ljnlca             3. 0 intelecto abandonado a si mesmo,
   esperanca reside na verdadslra ~ndugdo               em uma mente sobria, paciente, severa (sobre-
          1 1 Ndo h6 nada de incorrupto nos no-         tudo se ndo for impedido pelas doutrinas tradi-
   @es, nam nos Iog~cas     nem nos fislcas As no-      cionais), tenta por vezes tamb6m o segundo
   cdes de substdnaa, quo lid ad^, agdo, paix60,        caminho, que 6 o justo, mas com escasso pro-
   e as propnos no$% de ssr nbo sbo v6l idas e          veito. 0 intelecto, com efeito, se ndo for guia-
   muto menos o sdo as de pesodo, Isva demo             do e sustentado, procede irregularmente e 6
    tgnus, cjrnldo, ssco, gsrogdo, corrupgdo, otra-     completamente incapaz de vencer a obscunda-
    <do, r~pulsdo,  sl~rnsnto,rnattr~a, Forma s se-     de das coisas.
    melhantes Todas essas n o p i x sdo fant6sti-             4. Rmbos os caminhos sa movem do sen-
   cas e ma1 dehnrdas                                   tido e dos particulares e terminam nos principios
          12 Rs no<desdas espbcles inflmas, como        mais gsrais, mas diferem enormemente entrs
    hornsm, cdo, pornba, e das percep<dessensi-         si: um toca apenas de passagem a exper~hncia
   vsis ~msd~atas,   como qusnta frio, bronco, pre-     e os fatos particulares, o outro oi se demor~
    to, nbo sdo multo falazes Elas, porhm, por ve-      com m6todo e com ordem; um estabelece des-
   zes sbo confusas pelo fluir do mat6r1ae pela         de o inicio principios gerais abstratos e inljteis:
    m~stura colsas Todas as outras nocdes, que
             das                                        o outro sobe gradativamente as coisas mais
   os homens usaram at6 agora, sbo aberra<des           conhecidas por natureza.
   abstraidas ou extraidas das coisas com modos               5. N8o 6 pequena a diferenp entre os
    nbo apropriados                                     idolos do mente humana s as idhias da mente
          13 0 arbitno e a absrra~do constru-
                                        na              divina, isto 8, entre opinides falazes e os ver-
   sbo dos axiomas ndo sdo menores do que no            dadeiros selos e marcas impressos por Deus
   abstrqdo das nocdes, e lsso tamb6m nos pro-          sobre as criaturas assim como se encontram.
    prlos principios que dependem do indugio co-              6. De nenhum mod0 pods ocorrer que os
    mum Muto maior 6 o arbitr~o     nos axlomas e       axiomas estabelecidos mediante a argumenta-
    nas propos~c;des   conseguidas por melo do          <do sirvam para a inven<do de novas obras,
   silogismo                                            porque a sutileza da natureza supera grande-
          14 Aqu~lo at6 agora foi produz~do
                     que                        nos     mente a da argumenta<bo. Mas os axiomas
    cihncias 8 de tat monta que depende quase           extraidos com m6todo e com ordem dos parti-
    sempre das no~des   vulgares Para penetrar nos      culares facilmente por sua vez indicam e desig-
    recessos escondidos do natureza 6 necess6r1o        nam particulares novos, e desse modo tornam
    que tanto 0s concsltos quanto os axiomas se-        ativas as cihncias.
   jam abstraidos das colsas por uma via mais certa           7. 0 s axiomas agora em uso sdo extrai-
    e segura e que nos hab~tuemos usar o Inte-
                                     a                  dos de uma limitada e superficial experihncia e
    lecto de modo melhor e mals seguro                  dos poucos particulares que mais frequents-
                                                        mente se apresentam; sdo de tal modo feitos b
                                                        medida e segundo a extensdo destes; ndo h6,
   3. Antecipa~6es natureza
                    da
                                                        portanto, nada de estranho se nbo conduzem
      e interpretag6es da natureza
                                                        a novos particulares. E se por acaso se apre-
          1 . Sdo e podem ser dois os caminhos para     senta uma inst6ncia qualquer antes n6o perce-
   a pesquisa e a descoberta da verdade. 0pri-          bida ou conhecida, cuida-se de salvar o axio-
   meiro, do sentido e dos fatos particulares voa       ma com alguma Frivola distinsdo, quando ssria
   para os axiomas mais gerais e, sobre a base          mais justo emend6-lo.
   destes principios e de sua imut6vel verdade,               8. Para fazermo-nos sntender melhor, es-
   julga e descobre os axiomas mhdios: sste 6 o         tabelecemos chamar de ant~~/pag%s notu-  do
   caminho agora em uso. 0segundo, do sentido           rsza os temer6rios e prematuros procedimen-
   s dos fatos particulares extrai os axiomas, su-      tos da razbo dos quais fazemos uso comumsnts
    bindo corn medida e gradativamente ds modo          nas rela<descom a natureza. Chamaremos ao
   a alcan~ar   apenas no fim os axiomas mais ge-       contr6rio de int~rpretogdo noturszo a raz8o
                                                                                     da
    rais: este 6 o caminho verdadeiro, mas ainda        que se desenvolve a partir das coisas confor-
   ndo tentado.                                         me os modos devidos.
          2. 0 intelecto abandonado a si mesmo se             9. As antecipa@es sbo bastante firmes
   pde no primeiro caminho e o percorre ssgundo         relativamenteao consenso; com efeito, se tam-
   as regras do dial6tica. R mente tende, com efei-     b6m os homens enlouquecessem de modo uni-
   to, a subir aos principios mais gerais e ai parar;   co e conforms, poderiam mu~to     bem encontrar-
   enfastia-sa logo com a experihncia. A dial6tica.     se todos de acordo.
   por causa de sua complac&ncia com as dispu-                 10. Ou melhor, as antecipa<dss servem
   tas, torna estes deFeitos ainda mais pesados.        muito mais que as ~ntarpreta(des     para provo-
281 ,, ,
                     Capitdo de'cimo quarto -       Francis Bacon: filbsofo da era   industrial


car o consenso porque, extraidas de poucos            suas ordens, de modo que elss, por algum tem-
exsmplos e justamente dos qus parecsm mais            po, se imponham renunciar 6s no@es s come-
familiares. logo prendem o intelecto e preen-         cem a familiarizar-se com as proprias coisas.
chem a fantasia; ao contrario, as interpretaq3es.                                              F. Bacon,
extraidas esparsamente de exemplos bastante                               Novum organum (Novo orc$o)
variados e muito distantes entre si, ndo podem
atingir imsdiatamente o intel~cto parecsm
                                      s
necessariamente, para a opinido comum, dificeis
e estranhas, quase como os mistbrios da f6.
      1 1 . Nas ciisncias fundamentadas sobre
opiniaes e sobre principios prov6vais & oportu-             As linhas gerais
no o uso das antecipaQ3es e da dialhtica: nes-              do novo m6todo
tes casos trata-se de f o r p o assentimento, e
ndo de obrigar as coisas.
      12. TambBm se todos os engenhos da                     0caminho sminants para a d~scobar-
todas as eras colaborasssmjuntos e reunissem           to da vsrdada 6, portanto, o q u do santido
                                                                                         ~
e transmitissem suas fadigas, nenhum grands            s dos particularss sxtroi os axiomas, rsmon-
progresso poderia ser obtido nas ciisncias me-         tando por graus a ascola da genaralizo@o,
diante as antecipa@ss, porque os erros enrai-          at6 chsgar aos axiomas gsnsralissimos. Tal
zados na mente e que remontam a suas primei-           cominho Q a indu~do elimina<do, no qua1
                                                                            por
ras slabora<desndo podem ser corrigidos pela            'ispbs-ss a ssperanga maior".
excelisncia das fun@es e dos remhdios suces-
sivos.                                                       1. Ndo se trata apenas de procurar s pro-
      1 3. E vdo se espera um grands progres-
            m                                         videnciar maior quantidade ds experimentos de
so nas ci&ncias pela superposi<do s pelo en-          gisnero diverso dos at& agora em uso; deve-se
xerto do novo sobre o velho. A instaura@o deve        tamb&m introduzir um m&todo complatamente
investir os primeiros fundamentos, se ndo qui-        diverso e um procedimento diferente para con-
sarmos girar perpetuamente em um circulo com          duzir s fazsr avanpr a experiisncia.Como j6 foi
progresso escasso e quase insignificante.             dito, uma experi&ncia vaga s que segue ape-
      14. 0 s autores antigos e todos os outros       nas a si mesma & a190 semelhante a um andar
conservam sua honra, porque aqui ndo ss insti-        as apalpadelas, que confunde os homens em
tui um confront0 sntre os engenhos e as capaci-       vez de informa-10s.Mas onde a experi&nciapro-
dades, mas entre diversos caminhos e mbtodos.         cede squndo uma lei certa, regularmentes sem
Ndo pretendemos ssr juizes, mas indicadores.          interrup~aes,  entdo se pode esperar a190 de
      15. € precis0 dizer com clareza que sobre       melhor das ciisncias.
a base das antecipa~aes(isto 6, do mbtodo                   2. Depois qua todo o abundante material
agora em uso) ndo se pode formular nenhum             da historia natural a da experihcia tiver sido
reto juizo a respeito de nosso mQtodo ou em           aprontado e preparado assim como requer a
torno das descobertas a que ele conduz. Ndo           obra do intelecto, ou seja, da filosofia, nem por
s~ pode, com efeito, pretender que nos sub-           isso o intelecto est6 em grau de agir esponta-
metamos ao julgamento de quem deve ser ele            neaments e confiante na memor~a      sobre aqua-
proprio chamado em julgamento.                        le material: seria como s@algu&m esperasse
       16. E ndo 6 fdcil sxpor ou explicar aquilo     poder tar de memoria e dominar os c6lculos de
que aqui se propas, porque coisas novas em si         um livro de efem6rides.' At& agora, nos inven-
serdo entendidas apenas por analogia corn as          @as, preferiu-semeditar a escrever e, portan-
antigas.                                              to, ainda ndo existe a experi&ncia Istrada. Ndo
       17. Da expedi(do dos franceses na IMlia,       pode ser aprovada nenhuma inven~do ndo    qua
Rorgia disse que eles vieram trazendo no mdo o        se sirva do escrito. Quando isso tiver entrado
giz para marcar os alojamentos, e ndo as armas        no uso e a experiisncia tiver ss tornado letrada,
para combater. Do mesmo modo, nosso m&todo            poder-ss-donutrir maiores esperanps.
deve penetrar em espiritos capazes e adqua-                  3. 0 numero dos particulares, que sdo
dos a recebis-lo. Ndo podem ser utilizadas as         quass um ex6rcito. & grandissimo, e estss par-
refuta@es, dado que ndo sstamos de acordo             ticulares estdo tBo esparsos e difundidos que
sobre principios, nem sobre conceitos, e nsm          confundem e desorientam o intelecto. Ndo se
sequer sobre a forma das demonstra@es.
       18. Resta-nosapenas um cinico e simples
mod0 de exposic;do: conduzir os homens para                'Tabuos nurnQr~cas reg~strorn coordenodas dos
                                                                            que        as
diante de fatos particulares, para suas s&rias e      astros.
282     Terceira parte - B a c o ~ Descavtes
                                 e



deve, portanto, esperar algo de bom das es- n6o sejam abstratos, mas sejam verdadeira-
caramucas, dos movimentos Ievianose dos sus- mente limitados pelos axiomas mbdios.
piros do intelecto, at6 qua todo o material que        Ao intelecto dos homens, portanto, ndo
se refers ao orgumento que & objeto do pes- devemos acrescentar asas, mas chumbo e pe-
quisa ndo tiver sido preparado e coordenado sos a fim de impedi-lode saltar evoar. lsso at&
medianta t6buas de pesquisa id8neas, orde- agora ndo foi feito; quando isso for feito se
nadamente dispostas e quase vivas, e at& qua poder6o nutrir mais altos esperanps sobre o
a mente ndo se aplique a trabalhar sobre os destino das ci&ncias.
auxilios devidamente dispostos e preparados            6. Para estabelecer os axiomas, devemos
que estas t6buas fornecern.                      alhm disso excogitar uma forma de indu@o di-
      4. Na verdade, depois que tivermos sob ferente da qua at& agora ssta em uso, que ndo
os olhos a grande quantidade dos partlculares deve apenas encontrar e provar os assim cha-
bem ordenados, ndo 6 preciso colocar-se ime- mados principios; mas tambbm os axiomas me-
diatamente a pesquisar e a inventar novos par- nores e mhdios e todos os outros. R inducdo
ticulares e novas obras: e, em todo caso, se qua procede por enumera<do simples &, com
isso acontecer, ndo ser6 preciso parar nestes. efeito, uma coisa pueril: suas conclusdes sdo
De fato, quando todos os experimentos de to- prec6rias; ela & exposta ao perigo de uma ins-
das as artes tivessem sido recolhidos e reuni- tdncia contraditoria; julga com base em um nir-
dos, e submetidos ao conhecimento e ao jul-      mero de fatos inferior ao necess6r10, apenas
                                                                                        e
gamento de um so homem, este - limitando-se em base aos que tem ao alcance do mdo. A
a transferir estes experimentos de uma arte para indu~do   que sera 6til para a inven@o e a de-
outra e mediante a experi6ncia que chamamos monstrqdo das cihcias e das artes deve QO
letrada - estaria em grau de descobrir muitas contrbrio analisar a natureza medlante as devi-
coisas novas, irteis b vida e 6 condi@o huma- das elimina$%s e exclusdes; e finalmente, de-
na. Ndo negamos isso, mesmo que as maiores pois de um nirmero suf~ciente negativas,de
ssperanps n6o devam ser postas no expe- pode concluir em base as afirmativas. lsso at&
ri&ncia Ietrada, mas no nova luz dos axiomas, agora jamais foi feito e nem tentado, a n60 ser
que sdo extraidos dos particulares segundo talvez por Platdo, que em algum caso faz uso
regras certas e que, por sua vez, indicam e de- desta forma de indu<dopara ~sxtrair    defini@es
signam particulares novos. 0 caminho n percor- e idbias. Todavia, para fazer que esta forma de
rer, com efeito, ndo & plano, mas em subida e    indugm ou de demonstra@o possa operar de
em descida: primeiro se sobe at& os axiomas,     modo bom e legitimo, & preciso fazer uso de
depois se desce as obras.                        muitas coisas bs quais, at& agora, nenhum mor-
       5. Todavia, n60 devemos permitir qua o tal jamais pensou. Deveremos, portanto, trabo-
intelecto sake e voe dos particulares para axio- lhar sobre ela mais do que at& agora ndo se
mas mais distantes e gerais (tais sdo os assim trabalhou em torno do silogismo. Com o auxilio
chamados principios das artes e das CO~SOS),     dessa indu~do dever6 proceder nd0 so para
                                                                 se
para depois provar e verificar os axiomas m&- descobrir os axiomas, mas tamb&m para definir
dios b luz de sua verdade imovel. Rt& agora se as no<des. Nessa indu~do        sem duvida pde-se
procedeu assim, em parte porque o intelecto a esperanca maior.
seguia este caminho por impulso natural, em            7. Ao constituir os axiomas mediante esta
parte porque a isso o tinham habituado as de- indu~do, preciso tambhm consideror e exami-
                                                           &
monstra@es de tipo silogistico. Poderemos es- nar se o axioma que se const~tui adequado e
                                                                                    &
peror bem das ci&ncias apenas quando, por quase construido sobre medida em rela@o aos
 meio de uma escala verdadeira, em graus con- particulares dos quais se extrai, ou se ao contr6-
 tinuos, sem saltos ou interrup~des, podera rio & mais amplo e mais vasto. Se for mais am-
                                     se
subir dos particulares at& os axiomas menores, plo ou mais vasto, & preciso ver se esta sua
 destes aos mbdios, depois aos outros superio- amplitude e vastid60 560 justificadas pela de-
 res e, finalmente, aos axiomas mais gerais. 0 s signa<do de novos particulares, como por uma
 axiomas mais baixos, com efeito, ndo diferem fidejussoria: a fim de que n60 ocontqa ou de
 muito da pura experi6ncia. 0 s mais altos ou fixar-seapenas sobre particularesj6 conhecidos,
 mais gerais (falo daqueles de que dispomos ou entdo de prender, em um abrqo confuso.
 atualmente) s6o conceituais e abstratos, priva- apenas sombras ou formas abstratos, e ndo coi-
 dos de qualquer solidez. 0 s axiomas m&dios, sas solidas e determinodas na mathria. Quando
 ao contr6ri0, sdo verdadeiros, solidos e vivos: tudo isso tiver entrado no uso, entdo veremos
 a eles estdo confiadas as esperantos e as sor- nascer com raz6o esperanps bem fundadas.
 tes dos homens. Sobre eles, enf~m, funda-
                                       se                                                 F. Bacon,
 mentam os axiomas mais gerais, por&mtais que                                      Novum organum.
Capitulo dkcimo q ~ i n t o


                                 Desca
       "O    fw~dadov filosofia wodevna"
                    da



                          I.        vida e as obras



        Rene Descartes (latinizado Cartesius) nasceu em La Haye em 1596. Enviado
ao colegio jesuita de La F&che, em Anjou, teve depois a licenciatura em direito
pela Universidade de Poitiers. De I618 a 1620 se arrolou em varios ext5rcitos que
participavam da Guerra dos Trinta Anos; em novembro de 1619 teve uma "revela-
~%o  intelectual" a respeito dos fundamentos de nova ciCncia: a
intuigao foi desenvolvida mais frente sobretudo nas incomple- As ,patas
tas Regras para a guia do intelecto (1627-1628). De 1629 a 1649 principais
viveu na Holanda, onde publicou suas obras mais importantes: o da vida
Discurso sqbre o metodo (1637), as Medita~des    metafisicas (jun- 3 § 1
t o com as Respostas A objegdes, 1641), os Principios de filosofia
                       s
(1644) e As paixaes da alma (1649). Em I649 aceitou o convite da rainha Cristina
da SuCcia e deixou definitivamente a Holanda, mas em fevereiro de 1650 foi aco-
metido de uma pneumonia que em uma semana o levou a morte. Seus despojos,
transladados para a Franga em 1667, repousam na igreja de Saint-Germain-des-
Prl?s, em Paris.



     b h novo tip0                              filosofo, que da a medida exata da personali-
                                                dade de Descartes, com toda razso chama-
     de saber centrado                          do precisamente de pai da filosofia moder-
                                                na. Com efeito, ele assinalou uma reviravolta
     e   sobre a racionalidade                  radical no campo do pensamento pela criti-
                                                ca a que submeteu a heranqa cultural, filo-
                                                sofica e cientifica da tradiqiio e pelos novos
                                                principios sobre os quais edificou um tip0
      Leibniz afirma: "Costumo chamar os        de saber, niio mais centrado no ser ou em
escritos de Descartes de vestibulo da verda-    Deus, mas no homem e na racionalidade hu-
deira filosofia, ja que, embora ele niio te-    mana.
nha a l c a n ~ a d o nucleo intimo, foi quem
                    seu                               Rent Descartes (Cartesius) nasceu em
dele se aproximou mais do que qualquer          La Haye, na Touraine, em 31 de marqo de
outro antes dele, com a unica exceqiio de       1596, ano da publicaqiio d o Mysterium
Galileu, do qua1 oxala tivCssemos todas as      cosmographicum de Kepler. De familia no-
meditaq6es sobre os diversos temas, que o       bre - seu pai Joaquim era conselheiro no
destino adverso reduziu a o silcncio. Quem      Parlamento da Bretanha -, foi logo envia-
ler Galileu e Descartes se encontrara em me-    do para o coltgio jesuita de La Flkche, no
lhores condiqees de descobrir a verdade do      Anjou, uma das mais cClebres escolas da
que se houvesse explorado todo o gcnero         Cpoca, onde recebeu solida formaqiio filo-
dos autores comuns". Um juizo ponderado         s6fica e cientifica, segundo a ratio studiovum
de um grande filosofo sobre outro grande        daquele tempo, ratio que abarcava seis anos
284    Terceira parte - Bacon r D e s i n r i r s

de estudos humanisticos e tris anos de ma-          veria depois no Studium bonae mentis, de
tematica e teologia. Inspirado nos principios       1623, e nas Regulae ad directionem ingenii
da filosofia Escol6stica, considerada a mais        (Regraspara a guia d o intelecto),que escre-
valida defesa da religi5o catolica contra os        veu entre 1627 e 1628.
sempre renascentes germes da heresia, aque-              Tendo-se estabelecido na Holanda, ter-
le tip0 de ensino, embora sensivel A novi-
                                      s             ra de tolersncia e liberdade, Descartes, por
dades cientificas e aberto para o estudo da         sugest5o do padre Marino Mersenne, con-
matematica, deixou Descartes insatisfeito e         siderado o "secretario da Europa douta", e
confuso. Ele logo se deu conta do abismo            do cardeal Pierre de Btrulle, comeqou a ela-
enorme entre aquela orienta@o cultural e            borar um tratado de metafisica, que, portm,
os novos fermentos cientificos e filosoficos        logo interrompeu para dedicar-se a uma
que brotavam por toda parte. Em especial,           grande obra fisica, o Traite' de physique (Tra-
percebeu logo a austncia de uma &ria meto-          tad0 de fisica), dividido em duas partes: a
dologia, capaz de instituir, controlar e or-        primeira sobre tematica cosmologica, Le
denar as idtias existentes e guiar a busca da       monde ou traite'de la l u m i k e ( 0mundo ou
verdade.                                            tratado da luz), e a segunda de carater an-
     0 ensino de filosofia, ministrado se-          tropologico, C h o m m e ( 0homem). Em 22
gundo a codificaq50 de Suarez, levava os            de julho de 1633, de Deventer, na Holanda,
espiritos para o passado, para as intermina-        anunciou a Mersenne que o Tratado sobre
veis controvCrsias dos tratadistas escolas-         o m u n d o e sobre o homem estava quase
ticos, reservando pouco espaqo para os pro-         pronto ("so me resta corrigi-lo e copia-lo"),
blemas do presente.                                 e que esperava envia-lo no fim do ano. En-
      Embora criticando a filosofia aprendi-        tretanto, tomando conhecimento da conde-
da naqueles anos, Descartes certamente n50          nag50 de Galileu por causa da tese coperni-
esquece o espaqo reservado aos problemas            cana, que ele compartilhava e cujas razi5es
cientificos e ao estudo da matematica. Mas          expusera no Tratado em quest50, Descartes
at6 no que se refere a essas disciplinas, ao
tCrmino de seus estudos ele sentiu-se pro-




damentos de "&a citncia admir6veln. Por
                                                    Descartes (1 596- 1650)
causa dessa "reve1aq90"7 Descartes fez a            foi o furrdidor da filusofia m a d e r w ,
promessa de ir em peregrinaqlo Santa Ca-            tgnto no p0ntf) de t ~ s t a tefn&iiYs
                                                                               (ids
sa de Loreto- Em um pequenO diario7 em              como d o ponto de vista dd eexpos~ tnetodoltigccr.
                                                                                        jdo
que anotava suss reflex% Descartes fala             Reproduzrmos urn + d r ~ ) d s ,
                                                                                  de h H
de urn" inventum mirabile", que desenvol-           conservacio ern Pans rm Museu d o 1 ouvre.
285
              Capitulo de'cimo quinto - D ~ S C Q P ~ ~ S : d a filosofm
                                                   fundadov
                                                   "O                      I Y  o ~ ~ P Y  ~ "




apressou-se a escrever novamente para o             E desse period0 o seu amor por Helene
mesmo Mersenne: "Estou quase decidido a        Jans, da qual teve Francine, a filhinha que
queimar todas as minhas apostilas ou, pel0     amou ternamente e que perdeu com apenas
menos, n2o mostra-las a ningukm." A lem-       cinco anos. A dor pela perda da menina
branqa da morte de Giordano Bruno na fo-       incidiu profundamente sobre o seu espirito
gueira e da prisao de Campanella, que a        e talvez, pelo menos em parte, sobre seu
condenaqao de Galileu avivava em sua men-      pensamento, apesar de seus escritos conti-
te, agiram com forqa sobre seu espirito es-    nuarem sempre severos e rigorosos. Reto-
quivo, inimigo das vicissitudes que prejudi-   mou a elaboraqiio do Tratado de metafisica,
cam a paz de espirito, t2o necessaria para o   mas agora sob a forma de Medita~ijes,es-
estudo.                                        critas em latim porque reservadas aos
      Superada a grave perturbaqao, Descar-    doutos, obra na qua1 os acenos "a enfermi-
tes sentiu a necessidade urgente de enfren-    dade e a fraqueza da natureza humana" tes-
tar o problema da objetividade da razao e      temunham um espirito cheio de angustia.
da autonomia da ciencia em relaq2o ao Deus     Enviadas a Mersenne para que as levasse ao
onipotente. E motivou-se nesse sentido tam-    conhecimento dos doutos e recolhesse as
bCm pel0 fato de que Urbano VIII havia con-    suas objeqoes - ficaram famosas as obje-
denado a tese galileana como contraria a Es-   qoes de Hobbes, de Gassendi, de Arnauld e
critura. Assim, de 1633 a 1637, fundindo       do proprio Mersenne -, as Meditationes
os estudos de metafisica que iniciara e de-    de prima philosophia ser2o finalmente publi-
pois interrompera com suas pesquisas cien-     cadas, juntamente com as Respostas de Des-
tificas, escreveu o famoso Discurso sobre o    cartes em 1641, sob o titulo Meditationes
me'todo, que introduzia trcs ensaios cienti-   de prima philosophia in qua Dei existentia
ficos nos quais compendiava os resultados      et animae immortalitas demonstrantur (Me-
alcanqados: a Dioptrique, o Me'te'ores e a     dita~6es  metafisicas onde se demonstra a
Ge'ome'trie. Diferentemente de Galileu, que    existBncia de Deus e a imortalidade da al-
nao havia elaborado nenhum tratado expli-      ma). Atacado pel0 teologo protestante Gis-
cit~  sobre o mCtodo, Descartes considerou     bert Voet, replicou com a Epistola Renati
importante demonstrar o carater objetivo da    Des Cartes ad celeberrimum uirum Gisber-
raz2o e indicar as regras em que devemos       t u m Voetium, na qual procurou demonstrar
nos inspirar para alcanqar tal objetividade.   a pobreza e a inconsistihcia das concepqoes
Nascido em context0 polCmico e em defesa       filosoficas e teologicas do adversario.
da nova cicncia, o Discurso sobre o me'todo         Apesar das muitas pokmicas que seus
tornou-se a "magna carta" da nova filosofia.   escritos de metafisica e ciencia suscitavam,
286
        Terceira parte - B a c o ~ Descartes
                                 e



Descartes dedicou-se com empenho a ela-          obscuros de sua doutrina, particularmente
boragiio dos Principia philosophiae (Prin-       das relag6es entre alma e corpo, do proble-
cipios de filosofia), obra em quatro livros      ma moral e do livre-arbitrio.
compostos de artigos breves, conforme o                Na corte sueca, para festejar o fim da
modelo dos manuais escolasticos da tpo-          Guerra dos Trinta Anos e a paz de Vestfa-
ca. Trata-se de uma exposig5o compilada          lia, Descartes escreveu La naissance de la
e sistematica de sua filosofia e de sua fisi-    paix ( 0 nascimento da paz). Mas foi bem
ca, com particular destaque para os vin-         curto o tempo transcorrido na corte sueca,
culos entre filosofia e cihcia. A obra foi pu-   porque a rainha Cristina, devido ao habit0
blicada em Amsterdam, sendo dedicada a           de ter suas conversa@es as cinco horas da
princesa Isabel, filha de Frederico V do Pa-     manhii, obrigava Descartes a levantar-se
latinato.                                        muito cedo, apesar do clima rigoroso e da
       Amargurado com as polEmicas com os        n5o muito robusta constituigiio fisica do fi-
professores da Universidade de Leida, que        16sofo. Assim, ao deixar a corte, em 2 de
chegaram a proibir o estudo de suas obras,       fevereiro de 1650, o fil6sofo pegou uma pneu-
mas sem qualquer desejo de voltar para a         monia que, depois de uma semana de sofri-
F r a n ~ a em virtude da situag5o caotica em
            ,                                    mentos, o levou a morte. Transportados
que havia caido seu pais, em 1649 Descar-        para a Franga em 1667, seus despojos re-
tes aceitou o convite da rainha Cristina da      pousam na Igreja de Saint-Germain des PrCs,
SuCcia e, depois de entregar para impress50      em Paris.
os manuscritos de seu ultimo trabalho, Les             Postumamente, foram publicados os
passions de l'rime (As paix8es da alma), dei-    seguintes escritos de Descartes: o Compen-
xou definitivamente a Holanda, niio mais         dium musicae (1650), o Trait&de l'hom-
hospitaleira e agora cheia de contrastes. Ape-   me (1664), Le Monde ou Traite de la
sar de suas graves preocupag?ies, Descartes      lumiere (1664),as Lettres (1657-1667),as
continuou mantendo relagiio epistolar com        Regulae a d directionem ingenii (1701) e a
a princesa Isabel, de grande import2ncia         Inquisitio veritatis per lumen naturale
para o esclarecimento de muitos pontos           (1701).




                11. A e ~ p e r i Z o c i a derrocada
                                          da
                           da cuItura da kpoca

  Necessidade
                          Em um tempo em que haviam s afirmado e se desenvolvi-
                                                         e
  denovomCtodo     am com vigor novas perspectivas cientificas e se abriam novos
  como inicio      horizontes filosoficos, Descartes percebe a falta de um metodo
  de nova saber    ordenador e seja tambhm instrumento fundacional verdadeira-
  -+ 3 1-3         mente eficaz. 0 novo mtitodo deve se apresentar como o inicio
                   de novo saber, e do fundamento deste saber depende a amplitu-
 de e a solidez do edificio que 6 precis0 construir em contraposi~rfo edificio
                                                                         ao
 aristot6lic0, sobre o qua1 toda a tradi~rfo apdia.
                                            se



      Criticas A filosofia                       tes acena para o estado de profunda incer-
                                                 teza em que se encontrou ao tCrmino de seus
      e A I6c~icatradicionais                    estudos: "Encontrei-me tiio perdido entre
                                                 tantas duvidas e erros que me parecia que,
     Em um trecho autobiogr6fic0, depois         ao procurar me instruir, niio alcangara ou-
de reconhecer ter sido "aluno de uma das         tro proveito que o de ter descoberto cada vez
mais cClebres escolas da Europa", Descar-        mais a minha ignoriincia."
287
               Capitulo de'cimo quinto -   Descavtes: "o   f~zndadord a filosofia moderna ,
                                                                                          ,


      Vejamos, em pormenor, algumas ra-           mos com novos problemas, a raziio disso
z6es da sua insatisfaqio e perplexidade. No       deriva da falta de um guia capaz de nos
que se refere a filosofia, repetindo urna frase   acompanhar na soluqfo dos novos proble-
de Cicero, escreve ele: "Seria dificil imagi-     mas. Com efeito, falando da geometria e da
nar algo t5o estranho e incrivel que n i o        algebra, ele recorda que estas "se referem a
tenha sido dito por algum filosofo". E em-        matirias muito abstratas e aparentemente
bora a filosofia "tenha sido cultivada pe-        de nenhuma utilidade": a primeira, a geo-
10s espiritos mais excelentes que ja viveram",    metria, "porque ligada a consideraqio das
continua Descartes no Discurso sobre o            figuras"; a segunda, a aritmttica, porque
me'todo, n50 conta ainda "com coisa algu-         "confusa e obscura" a ponto de "embara-
ma da qual niio se discuta e que niio seja        gar o espirito".
duvidosa". No que se refere a logics, que               Dai seu proposito de dar vida a urna
ele reduz i silogistica tradicional, pel0         espicie de matematica universal, isto 6, li-
menos mostra-se disposto a conceder-lhe           vre dos numeros ou das figuras, para poder
valor didatico-pedagogic0 mas i logica            servir de modelo para todo saber.
dos dialkticos, para a qual era conduzida               Descartes niio ode adotar a matema-
a silogistica, nega qualquer forga de fun-
damentagiio e qualquer capacidade heu-
                                                  tica tradicional como modelo do saber. Dor-
                                                                                          ,
                                                  que ela niio possui mitodo unitirio. Para
                                                                                              .
ristica.                                          teorizar esse modelo, ele cr@  necessario de-
      Portanto, at6 no melhor do seu desem-       monstrar que as diferenqas entre aritmitica
penho, a 16gica tradicional nada mais faz         e geometria n i o s i o relevantes, porque
do que ajudar a expor a verdade, mas ado a        ambas se inspiram, ainda que implicitamen-
conquista-la.                                     te. no mesmo rne'todo.
      Assim, se i severo o seu juizo sobre a            E, com tal objetivo, traduz os pro-
filosofia tradicional, ainda mais drastic0 i      blemas geomCtricos em problemas algibri-
o juizo sobre a 16gica. E C por causa dessas      cos, mostrando sua substancial homoge-
profundas insatisfaq6es e de tais pontos de       neidade.
vista que a filosofia aprendida no colCgio              Como i que isso lhe foi possivel? Atra-
de La F k h e parece-lhe extremamente cheia       vCs daquilo que se chama geometria ana-
de lacunas. Em urna Cpoca em que se ha-           litica. e com a aual Descartes tornou a
viam afirmado e se desenvolviam com vigor         matematica mais limpida em seus princi-
novas perspectivas cientificas e se abriam        pios e em seus procedimentos, aplicando
novos horizontes filosoficos, Descartes per-      a ilgebra geometria, isto 6, estudando
cebia a falta de urn rne'todo que ordenasse o     determinadas figuras com determinadas
pensamento e, ao mesmo tempo, fosse ins-          equag6es.
trumento heuristic0 e de fundamentagio ver-             E este, no fundo, era o objetivo que
dadeiramente eficaz.                              ele se propunha, e C nesse contexto de cri-
                                                  tics e de recuperag50 das ci&nciasmatema-
                                                  ticas que devemos ler o trecho no qual Des-
                                                  cartes, ainda no Discurso sobre o me'todo,
      Criticas                                    afirma querer inspirar o mitodo do novo
      a o saber mafem6tico                        saber na clareza e no rigor tipicos dos pro-
                                                  cedimentos geomitricos: "Aquela longa
                                                  cadeia de raciocinios, todos simples e fa-
     Alim disso, mesmo admirando o rigor          ceis, de que os gebmetras t i m o habit0 de
do saber matemitico, ele critica tanto a arit-    se servir para chegar as suas dificeis de-
mCtica como a geometria tradicionais, por-        monstraq6es, me havia possibilitado ima-
que elaboradas com procedimentos que,             ginar que todas as coisas de que o homem
embora lineares, niio se sustentavam em urna      pode ter conhecimento derivam do mesmo
clara orientagio metodologica. 0 fato de          mod0 e que, desde que se abstenha de acei-
suas passagens serem rigorosas e coerentes        tar como verdadeira urna coisa aue n i o o i
n5o significa que a aritmitica e a geometria      e respeite sempre a ordem necessaria para
foram elaboradas no contexto de um bom            deduzir urna coisa da outra, ndo havera
mitodo, nunca teorizado. Se permanecemos          nada de tdo distante que niio se possa al-
quase como que desarmados e induzidos a           caqar, nem de tdo oculto que se ndo possa
recomegar do inicio quando nos defronta-          descobrir. "
288
       Terceira parte - Bacon   e Descartes



      0problems g e ~ a l                       busca da verdade, e urn mCtodo universal e
                                                fecundo.
      do fMndamento do saber                          Niio se trata, portanto, de lanqar idis-
                                                cuss50 este ou aquele ram0 do saber, e sim
                                                o fundamento do proprio saber. Por isso,
      Se toda a casa est6 desmoronando, isto    mesmo admirando Galileu, Descartes o cri-
C, se caem por terra a velha metafisica e a     tics, precisamente por n5o ter apresentado
velha cihcia, entiio o nouo me'todo deve se     um mCtodo em condiq9es de ir as raizes da
apresentar como o inicio de novo saber, em      filosofia e da cihcia. (E de 1619 sua desco-
condiq6es de impedir que nos dispersernos       berta da formula que hoje leva o nome de
em urna sCrie desarticulada de observaqijes     Euler, u + f = s + 2, onde u f , s estiio, respec-
                                                                            ,
ou caiamos em forrnas novas e mais refina-      tivamente, para o numero dos vertices, das
das de ceticismo.                               faces e dos ringulos de um poliedro con-
      Esses, com efeito, siio dois resultados   vex~.)
conseqiientes ao ruir de antigas concepqijes          E para o fundamento que Descartes
sob a pressiio de novas aquisiq6es cientifi-    chama a atenqiio, ji que C do alicerce que
cas e de novas insthcias filos6ficas. Se es-    dependem a amplitude e a solidez do edifi-
tava difundida a confianqa no homem e no        cio que C preciso construir para se contra-
seu poder racional, tambim estava bastan-       por ao edificio aristotilico, no qua1 se ap6ia
te difundida a incerteza sobre o caminho a      toda a tradiqiio. Descartes niio separa a filo-
tomar para garantir urna coisa e superar a      sofia da cicncia.
outra. Niio podia mais se sustentar a filoso-         0 que urge evidenciar C o fundamen-
fia tradicional, muito estranha aquele con-     to que permita um nouo tip0 de conheci-
junto de novas teorizaq6es e descobertas,       mento da totalidade do real, pelo menos
tornadas possiveis tambCm por instrumen-        em suas linhas essenciais. Necessita-se de
tos tkcnicos que, potencializando ou corri-     novos principios, niio importando que eles
gindo nossos sentidos, nos introduziam em       sejam depois explorados mais em urna do
reinos at6 entiio inexplorados. Era urgente     que em outra direqiio. Principios que, des-
urna filosofia que justificasse a confianqa     locando os principios aristotClicos, aos
comum na raz5o. S6 era possivel opor ao         quais a cultura academics ainda C ciumen-
ceticismo desagregador urna raziio metafisi-    tamente fiel, contribuam para a edificaqiio
camente fundada, capaz de se sustentar na       da nova casa.




      * Descartes quer primeiramente oferecer regras certas e faceis que, corretq-
 rnente obsewadas, levarilo ao conhecimento verdadeiro de tudo aquilo que se
 pode conhecer. No Discurso sobre o metodo, estas regras sZio quatro:
                        1) a evidE3ncia racional, que se alcansa mediante um ato in-
                  t u i t / que se autofundamenta;
                            ~~
  AS quatro             2) a andlise, uma vez que para a intui@o b necessdria a sim-
  normas          plicidade, que se alcanqa mediante a decomposic;ilodo complexo
  que c0n5tituem em partes elementares;
  o metodo              3) a sintese, que deve partir de elementos absolutos ou n l o
  cartesiano
    3 1-6         dependentes de outros, e proceder em dire~ilo elementos
                                                                      aos
                  relativos ou dependentes, dando lugar a urna cadeia de nexos
                  coerentes;
      4) o controle, efetuado mediante a enurnerasilo completa dos elementos
 analisados e a redsilo das operas6es sintbticas. Em suma, para proceder com reti-
      em
 d%o quaique~      pesquisa, 4 preciso r'epetir o movimento de simplificac;Zio e rigo-
 rosa concatena@o, tipico do procedimento geometrico.
Capitulo de'cimo quznto -   D e s c a r t r s : "o   fundador d a f i l o ~ o f m moderna ,
                                                                                                         ,   289


  &
  ,   Conceitos e 4 m e r o
      das   vegvas    do mktodo
                                                                EvidGncia. o principio metodico
                                                             fundamental, a primeira regra do
    Como escreve nas Regulae ad directio-                    mt5todo cartesiano.
nem ingenii, Descartes queria apresentar                     A evidsncia consiste na clareza e na
"regras certas e ficeis que, sendo observa-                  distingdo, as quais sao os sinais da
das exatamente por quem quer que seja, tor-                  verdade das coisas, e deriva do
nem impossivel tomar o falso por verdadei-                   lumen naturale que existe em todo
ro e, sem qualquer esforqo mental inutil, mas                homem; mais precisamente, a evi-
                                                             detncia ti alcan~adamediante um
aumentando sempre gradualmente a ciin-                       ato intuitivo, que t5 "urn conceito
cia, levem ao conhecimento verdadeiro de                     nZio ddbio da mente pura e atenta
tudo o que se i capaz de conhecer".                          que narce apenas da luz da raz%o
      Entretanto, se, na obra citada, ele ha-                e 6 mais certo que a propria de-
via chegado a enumerar vinte e uma regras                    du@o".
e interrompera a elaboragiio da obra para                     Em tal sentido, a evidetncia se
evitar sua prolixidade, ja no Discurso sobre                 autofundamenta e se autojustifica,
o me'todo reduz essas regras a quatro.                       porque sua garantia deposita-se nZio
                                                             em uma base argumentativa qual-
      A raziio dessa simplificagiio i dada pel0              quer, e sim unicamente na mutua
proprio Descartes: "Como grande numero                       transparCnria entre razao e conteu-
de leis amiude so serve para fornecer pre-                   do do ato intuitivo.
texto i ignorsncia e ao vicio, raziio pela qual
uma naqiio regula-se tanto melhor quanto
menos leis tem, desde que as observe de
mod0 rigoroso, entiio eu pensei que, ao in-
vSs da multidgo de leis da logica, me basta-
riam as quatro seguintes, corn a condiqiio              captagiio de "um conceito nHo dubio da men-
de que se decidisse firme e constantemente              te pura e atenta que nasce apenas da luz da
observi-las, sem qualquer exceqiio. "                   razHo e i mais certo que a propria deduqHo".
                                                             Trata-se, portanto, de ato que se auto-
                                                        fundamenta e se autojustifica, porque sua
                                                        garantia nHo repousa sobre uma base qual-
 2.. f pvimeira v e g r a do mktodo
 ".t,
                                                        quer de argumentagiio, mas somente sobre
                                                        a transparincia mutua entre raziio e con-
                                                        teudo do ato intuitivo. Trata-se daquela idCia
                                                        clara e distinta que reflete "unicamente a
      A primeira regra, mas que tambim 6 a              luz da raziio", niio ainda conjugada com
ultima, enquanto i o ponto de chegada, alim             outras idiias, mas considerada em si mes-
de ser o ponto de partida, i a regra da evi-            ma, intuida e niio argumentada. Trata-se da
dincia, que ele assim enuncia: "NHo se deve             idiia presente na mente e da mente aberta
acatar nunca como verdadeiro aquilo que                 para a idtia sem qualquer mediaqiio.
niio se reconhece ser tal pela evidincia, ou                 0 objetivo das outras tris regras i che-
seja, evitar acuradamente a precipitaqiio e a           gar a essa transparincia mutua.
prevenqiio, assim como nunca se deve abran-
ger entre nossos juizos aquilo que niio se
apresente tao clara e distintamente i nossa
inteligincia a ponto de excluir qualquer pos-                       f segMnda
                                                                                       vegra     do mktodo
sibilidade de duvida."
      Mais que uma regra, trata-se de um
principio normativo fundamental, exata-                      A segunda regra 6 a de "dividir cada
mente porque tudo deve convergir para a                 problema que se estuda em tantas partes me-
clareza e a distin~zo, quais, precisamen-
                       nas                              nores, quantas for possivel e necessirio para
te, se da a evidincia. Falar de idiias claras e         melhor resolvBlo".
distintas e falar de idiias evidentes 6 a mes-               E a defesa do me'todo analitico, unico
ma coisa.                                               que ode levar a evidhcia, porque, desarti-
      Mas qual e o ato int~lectual com o qual           culando o complexo no simples, permite i
se alcanqa a evidcncia? E o ato intuitivo ou            luz do intelecto dissipar as ambigiiidades.
290      Terceira parre   - Bacon e Descartes


     Este C um momento preparatorio es-
sencial, ja que, se a evidtncia C necessaria
                                                  ,A. A q ~ a r t a e g r a d o m & t o d o
                                                   I lJ
                                                                  r
para a certeza e a intuiqio C necessaria para
a evidtncia, ja para a intuiqiio C necessaria a
simplicidade, que se alcanqa atravCs da de-             Por fim, para impedir qualquer pre-
composiqio do conjunto "em partes elemen-         cipitaqio, que C a m i e de todos os er-
tares at6 o limite do possivel".                  ros, C preciso verificar cada urna das pas-
     Chega-se as grandes conquistas etapa         sagens.
ap6s etapa, parte apos parte. Esse C o cami-            Por isso, Descartes conclui dizendo: "A
nho que permite escapar i s presunqosas ge-       ultima regra C a de fazer sempre enumera-
neralizaqdes. E como toda dificuldade o C         qdes t i o completas e revisdes t i o gerais a
porque o verdadeiro esta misturado com o          ponto de se ficar seguro de n i o ter omitido
falso, o procedimento analitico deveria per-      nada."
mitir libertar o primeiro das escorias do se-           Portanto, enumeraqiio e revisio: a pri-
gundo.                                            meira verifica se a analise i completa; a se-
                                                  gunda verifica se a sintese 6 correta.


   I:
        A terceira        regra   do   m&todo
                                                              As   q~catro egras
                                                                          r
                                                              t o m o modelo d o saber
      A decomposiqiio do conjunto em seus
elementos simples n i o basta, porque apre-
senta um conjunto desarticulado de ele-                 S i o regras simples, que destacam a ne-
mentos, mas n i o o nexo de coesio que de-        cessidade de se ter ~ l e n a consci@nciados
les faz um todo complexo e real. Por isso,        momentos em que se articula qualquer pes-
i analise deve-se seguir a sintese, o objeti-     quisa rigorosa. Elas constituem o modelo
vo da terceira regra, que Descartes, ainda        do saber, precisamente porque a clareza e
no Discurso sobre o me'todo, enuncia com          a distin~iio  garantem contra possiveis equi-
as seguintes palavras: "A terceira regra C a      vocos ou generalizaqdes apressadas. Com
de conduzir com ordem meus pensamen-              tal objetivo, diante de problemas comple-
tos, comeqando pelos objetos mais simples         xos como de fenemenos confusos. e ~ r e c i -
                                                                                      r   L

e mais faceis de conhecer, para elevar-se,        so chegar aos elementos simples, que n i o
pouco a pouco, como por degraus, at6 o            sejam mais decomponiveis, para que pos-
conhecimento dos mais complexos, supon-           sam ser totalmente invadidos pela luz da
do urna ordem tambim entre aqueles nos            raziio.
quais uns n i o precedem naturalmente aos               Em suma, para proceder com correqio
outros."                                          C preciso repetir, a proposito de qualquer
      Assim, C necessario recompor os ele-        pesquisa, aquele movimento de simplifica-
mentos em que foi decomposta urna rea-            $20 e rigorosa concatenaqio constituido
lidade complexa. Trata-se de urna sintese que     pelas operaqdes tipicas do procedimento
deve partir de elementos absolutos (ab-so-        geomCtrico.
lutus) ou n i o dependentes de outros, e di-            Entretanto, o que comporta a adoqiio
recionar-se para os elementos relativos ou        de tal modelo?
dependentes, dando lugar assim a um enca-               Pois bem, antes de mais nada e de
deamento que ilumina os nexos do conjunto.        forma geral, comporta a rejeiqiio de todas
      Trata-se de recompor a ordem ou criar       aquelas noqdes aproximativas, imper-
urna cadeia de raciocinios que se desenvol-       feitas, fantasticas ou apenas verossimeis,
vam do simples a o composto, o que n i o          que escapam a operaqio simplificadora
pode deixar de ter urna correspondhcia na         considerada indispensavel. 0 "simples"
realidade. Quando essa ordem n i o existe, i      de Descartes niio C o universal da filoso-
preciso sup6-la como a hip6tese mais con-         fia tradicional, assim como a "intuic;iio"
veniente para interpretar e expressar a rea-      n i o C a abstraciio. 0 universal e a a b s -
lidade efetiva. Se a evidincia 6 necessiria       tracBo. dois momentos fundamentais da
                                                          3    2



para se ter a intuiqio, o process0 do simples     filosofia aristotClico-escolastica, s i o su-
ao complexo C necessario para o ato dedu-         plantados pelas naturezas simples e pela
tivo.                                             intuiqio. " ",      a
29 1
               Capitulo de'cimo quinto - Descartes:   "o   fundador d a filosofia modernaN



                       IV. A dhvida vnetbdica
                      e a certeza fundamental:
                             //
                                  cogito, ergo sum''


       r Estabelecidas as regras metodicas, Descartes passa a aplica-las aos principios
 sobre os quais o saber tradicional se fundamentou, e como condit$o da aplicaqZio
 exige nao aceitar como verdadeira nenhuma assergao que esteja poluida pela
 dcivida. Ora, neste sentido nZio h6 setor do saber que se sustente, porque nada
 resiste B forqa corrosiva da dOvida, exceto a proposl~80     "penso,
 log0 existo", que C uma verdade imediata, intui$%o       pura, graqas A dcjvida deve
 B qua1 percebo minha existbncia como ser pensante, e esta exis- levar a certeza
 tbncia C uma res cogitans, uma substdncia pensante.                   que e dada
       A aplicaqZio das regras do mktodo leva assim B descoberta pels verdade
 de uma verdade que, retroagindo, confirma a validez das mes-
 mas regrar para qualquer saber. 0 banco de prova do novo sa- ~ ~ f - ~ m ' '
 ber, filoslfrfico e cientffico 4, portanto, o sujeito humano, a cons-
 ciencia racional, e em todos os ramos do conhecimento o homem
 deve proceder na cadeia das dedusbes a partir de verdades claras e distintas ou de
 principios auto-evidentes. A filosofia nao C mais, portanto, a cibncia do ser, e sim
 a doutrina d o conhecimento, gnosiologia. Esta e a reviravolta que Descartes im-
 prime na filosofia.



 I ,dLvida
  :                                              nenhuma certeza e a nenhuma verdade que
                                                 tenham as caracteristicas da clareza e da dis-
      C O ~ O passagem obri9at6ria,              tingio, entio sera preciso rejeitar semelhante
      mas provis6ria,                            saber e admitir a sua esterilidade. Se, ao
      p a r a chegar h verdade                   contrario, a aplicagio de tal regra nos leva
                                                 a uma verdade indubitdvel, entio deve-se
                                                 assumi-la como o inicio da longa cadeia de
       Estabelecidas as regras do mitodo, C      raciocinios ou como fundamento do saber.
preciso justifica-las, ou melhor, explicar sua         A condiqio que se precisa respeitar
universalidade e fecundidade.                    nessa operagio C que n i o C licito aceitar
       E verdade que a matematica sempre se      como verdadeira a afirmagio que esteja
ateve a essas regras. Mas quem nos autoriza      maculada pela duvida ou por qualquer pos-
a estendt-las para fora desse iimbito, delas     sivel perplexidade. E, para chegar a isso,
fazendo um modelo de saber universal? Qua1       basta examinar os principios sobre os quais
C seu fundamento? Existe uma verdade n i o       se fundamentou o saber tradicional. Cain-
matematica que reflita em si as caracte-         do os principios, as conseqii&nciasn5o po-
risticas da evidtncia e da distingiio e que,     derio mais se manter.
n i o sujeita duvida de mod0 algum, possa              a ) Em primeiro lugar, observamos que
justificar tais regras e ser adotada como fon-   boa parte do saber tradicional pretende ter
te de todas as outras possiveis verdades?        base na experi&cia sensivel. Entretanto,
       Para responder a essa sCrie de pergun-    como i possivel considerar certo e indubi-
tas, Descartes aplica as suas regras a o saber   tavel um saber que tem sua origem nos sen-
tradicional, para ver se ele contCm alguma       tidos, se C verdade que estes por vezes se
verdade de tal forma clara e distinta que se     revelam enganadores?
subtraia a qualquer razio de duvida. Se o              b ) Ademais, se boa parte do saber tra-
resultado for negativo, no sentido de que,       dicional se baseia nos sentidos, parte n i o
com essas regras, n i o C possivel chegar a      irrelevante do saber se funda sobre a raziio
292       Terceira parte - B a c o n   e Descartes



e sobre seu poder discursivo. Ora, tambim            em duvida sem nada oferecer em troca. E, em
esse principio niio parece imune a obscuri-          Descartes, i evidente o anseio pela verdade.
dade e incerteza.                                         A negaqiio aqui remete a afirmaqiio, a
        c) Por fim, ha o saber matematico, que       duvida leva icerteza.
parece indubitavel, porque valido em todas
as circunst8ncias. 0 fato de 2 + 2 = 4 i ver-
dadeiro em qualquer circunst8ncia e em                    A b s o l u t e z veritativa
qualquer condiqiio. E, no entanto, quem me
impede de pensar que exista "um gtnio                     da proposi~6o
maligno, astuto e enganador", que, brincan-
do comigo, me faz considerar evidentes coi-
sas que n i o o siio? E aqui a duvida torna-se
hiperbdica, no sentido de que se estende at6                Como relata Descartes no Discurso so-
a setores que se presumiam fora de qual-             bre o me'todo, depois de ter posto tudo em
quer suspeita. 0 saber matematico niio po-           duvida, "somente depois tive de constatar
deria ser uma construqiio grandiosa, baseada         que, embora eu quisesse pensar que tudo era
em equivoco ou em colossal mistificaqiio?            falso, era preciso necessariamente que eu,
       Portanto, niio ha setor do saber que se       que assim pensava, fosse alguma coisa. E
mantenha. A casa desmorona porque seus               observando que essa verdade - "penso,
alicerces estiio minados. Nada resiste a for-        logo sou" - era t i o firme e s6lida que ne-
qa corrosiva da duvida.                              nhuma das mais extravagantes hipoteses dos
       E evidente que n i o nos encontramos          ckticos seria capaz de abala-la, julguei que
aqui diante da duvida dos cCticos. Neste             podia aceita-la sem reservas como o princi-
caso, a duvida quer levar a verdade. Por isso        pio primeiro da filosofia que procurava".
C chamada duvida metodica, enquanto C                       Esta certeza n i o pode ser minada de
passagem obrigatdria, ainda que provisoria,          nenhum mod0 pel0 gtnio maligno, porque,
para chegar verdade.                                 ainda que exista um gtnio maligno que me
       Descartes quer p6r em crise o dog-            engana, eu, em todo caso, devo existir para
m a t i s m ~ filosofos tradicionais, ao mes-
            dos                                      ser enganado.
mo tempo que tambim quer combater a ati-                    Portanto, a proposiqio "eu penso, logo
tude cktica, que se comprazia em p8r tudo            existo" C absolutamente verdadeira, porque
                                                     a t i a duvida, mesmo a mais extremada e
                                                     radicalizada, a confirma.
                                                            Mas o que entende Descartes por "pen-
                                                     samento"? Afirma ele nas Respostas: "Com
         "Cogito, ergo sum". 6 o princi-             o termo 'pensamento' eu abranjo tudo aqui-
      pio teorico primeiro da filosofia car-         lo que existe em nos de t50 factual que so-
      tesiana, originado da duvida radical:          mos imediatamente conscientes dele, como,
      "Do proprio fato de duvidar das ou-            por exemplo, todas as operaq6es da vonta-
      tras coisas", diz Descartes, "segue-se         de, do intelecto, da imaginaqio e dos senti-
      do mod0 mais evidente e certo que              dos siio 'pensamentos'. E acrescentei 'imedi-
      eu existo", porque "se v@  claramente          atamente' para excluir tudo aquilo que delas
      que para pensar e preciso existir".            deriva; assim, por exemplo, um movimento
      A proposiqao "Eu sou, eu existo" e
      uma verdade sem nenhuma media-
                                                     voluntario tem como seu ponto inicial o pen-
      @o; embora seja formulada como                 samento, mas ele proprio niio t pensamento."
      um silogismo qualquer, a proposi-
      @o "penso, logo existo" nao e um
      raciocinio, mas intuiqao pura, ato
      intuitivo graqas ao qua1 percebo mi-           ,    A   proposi~60
                                                                       "eu penso,
      nha existencia como ser pensante.                    logo existo"
      Esta existencia e uma res cogitans,
      sem nenhuma ruptura entre pensa-                     n60   &   um raciocinio dedutivo,
      mento e ser: a substincia pensante                   mas uma intuiq6o
      e o pensamento em ato, e o pensa-
      mento em ato e uma realidade pen-
      sante.                                              Estamos, portanto, diante de uma ver-
                                                     dade sem qualquer mediaqiio. A transparh-
                                                     cia do eu a si mesmo e, portanto, o pensa-
Capitulo dicimo quinto -   Descartes:   "0 fundador d n filosofin moclerna"


mento em ato, escapa a qualquer duvida,
indicando por que a clareza C a regra fun-
damental do conhecimento e por que a in-                   "Res cogitans" e "res extensa".
tuiqio i seu ato fundamental. Com efeito,               Para Descartes existem apenas dois
nesse caso a existencia ou o meu ser s6 i               tipos de substhncias, claramente dis-
admitido enquanto se torna presente ao meu              tintas e irredutiveis urna a outra: a
                                                        substdncia pensante (res cogitans) e
eu, sem qualquer passagem argumentativa.                a substsncia extensa (res extensa).
      Efetivamente, apesar de ser formulada             A res cogitans e a existBncia espiritual
como qualquer silogismo, "penso, logo exis-             d o homem sem nenhuma ruptura
to", tal proposiqio n2o 6 um raciocinio, mas            entre pensar e ser, e a alma humana
uma intui@o pura.                                       como realidade pensante que e pen-
      N5o se trata da abreviaqzo de urna ar-            samento em ato, e como pensamen-
gumentag20 como a seguinte: "Tudo aquilo                t o em ato que e realidade pensante.
                                                        A res extensa e o mundo material
que pensa existe; eu penso, logo, existo."              (compreendendo obviamente o cor-
Trata-se simplesmente de um ato intuitivo               po humano), do qual, justamente, se
graqas a o qual percebo minha existencia                pode predicar como essential apenas
enquanto 6 pensante.                                    a propriedade da extendo.
      Com efeito, procurando definir a na-
tureza de sua propria existincia, Descartes
afirma que ela C urna res cogitans, urna rea-
lidade pensante, sem qualquer corte entre
pensamento e ser. A substiincia pensante 6 o
pensamento em ato, e o pensamento em ato          dade, como no caso da filosofia tradicio-
i urna realidade pensante.                        nal? N5o. Tais regras se fundamentam na
      Assim, Descartes chegou a um ponto          certeza adquirida de que o nosso "eu" ou a
firme, que nada pode p6r em discussio. Ele        consciencia de si mesmo como realidade
sabe que o homem i urna realidade pensante        pensante se apresenta com as caracteristi-
e est4 bem consciente do fato fundamental         cas da clareza e da distinpio.
representado pela logica da clareza e da dis-           A partir dai, a atividade cognoscitiva,
tinqio. Desse modo, ele conquistou urna           mais do que se preocupar em fundamentar
 certeza inabalavel, primeira e irrenunciivel,    suas conquistas em sentido metafisico, deve
porque relativa A propria existencia, que,        procurar a clareza e a distinqio, que s i o os
enquanto pensante, revela-se clara e distin-      traqos tipicos da primeira verdade que se
ta. Assim, a aplicaqio das regras do mCtodo       imp6s nossa raz5o e que devem ser a mar-
levou a descoberta de urna verdade que,           ca de qualquer outra verdade. Como a nos-
 retroagindo, confirma a validade daquelas        sa existencia enquanto res cogitans foi acei-
 regras que se encontram fundamentadas e,         ta como indubitavel com base na clareza e
portanto, assumidas como norma de qual-           na distinqiio e niio com base em outros fun-
 quer saber.                                      damentos, entio toda outra verdade so po-
                                                  derii ser acatada se exibir os traqos da :la-
                                                  reza e da distinqio. E, para alcanqa-los, C
                                                  preciso seguir o itinerario da anilise, da sin-
      0eixo d a filosofia                         tese e da verificaqio, sabendo-se que uma
     &
     ,,,    &   MaiS   a ,-i&,-ia   do ser;       afirmaqio com tais caracteristicas n i o esta-
                                                  r5 mais sujeita i duvida.
                                                                   i
      mas a do~trina                                    Desse modo, a filosofia n i o C mais a
      do conlecimento                            cicncia do ser, mas sim a doutrina do co-
                                                  nhecimento. Assim, antes de mais nada, a
                                                  filosofia se torna gnosiologia.
      Aquilo que deve ser destacado 6 que,              E essa a reviravolta que Descartes im-
como regras do mitodo de pesquisa, a clareza      prime a filosofia, que passa a se orientar no
e a distin@o jh estio bem fundamentadas.          sentido de encontrar ou fazer emergir, a pro-
      Mas fundamentadas em quE?                   posito de qualquer proposiqio, os dados da
      Talvez no ser, finito ou infinito? Ou nos   clareza e da distinq20, que, alcanqados, tor-
principios logicos gerais, que S ~ tambCm
                                       O          nam desnecessarios outros suportes ou ou-
principios ontologicos, como o principio de       tras garantias. Assim como a certeza de mi-
nio-contradiq20 ou o principio de identi-         nha existhcia enquanto res cogitans s6
294
         Terieira parte - Bacon   e Descartes



necessita da clareza e da distingio, da mes-
ma forma qualquer outra verdade n i o tera
necessidade de outras garantias fora da cla-
reza e da distingio, imediata (intuiqio) ou
derivada (deduqio).


        0centro do       novo s a b e r
        k o s~jeito M M ? C I ~ O
                  ~



      0 banco de provas do novo saber, filo-
s6fico e cientifico, portanto, C o sujeito hu-
mano, a consciencia racional.
      Qualquer tip0 de pesquisa devera se
preocupar somente em perseguir o grau
maximo de clareza e distin~iio, i o se preo-
                                  n
cupando com outras justificaqoes quando
alcanqii-lo. 0 homem C feito assim, so de-
vendo admitir verdades que reflitam tais
exiaikcias.
   L,


      Estamos diante da humaniza~iio     radi-
cal do conhecimento, reconduzido a sua fon-
te primiggnia. Em todos os ramos do conhe-
cimento, na cadeia das deduqoes, o homem
deve proceder de verdades claras e distintas
ou de principios auto-evidentes.
      Quando esses principios n i o siio facil-
mente identificiveis, C precis0 hipotetiza-los,
seja para ordenar a mente humana, seja para       apresentam somente um setor do saber, que
fazer emergir a ordem da realidade - con-         sempre se inspirou em um me'todo que, ao
fianqa na racionalidade do real -, i s vezes      contrario, tem dimensiio universal. De agora
coberta por elementos secundirios ou pela         em diante, qualquer saber devera se inspirar
sobreposiqio de elementos subjetivos, acri-       nesse mitodo, porque nio se trata de mCtodo
ticamente projetados fora de nos.                 fundado pela matematica, mas que funda a
                                                  matemiitica, como toda outra ciincia.
                                                        Aquilo a que esse metodo conduz e no
                                                  qua1 se fundamenta C a "raziio humana" ou
                                                  aquela reta raziio (bona mens) que pertence
                                                  a todos os homens e que, como diz Descar-
                                                  tes no Discurso sobre o me'todo, "C a coisa
     Descartes, portanto, aplicando as re-        mais bem distribuida no mundo".
gras do mCtodo, defronta-se com a primei-                0 que C tal reta razio? "A faculdade de
ra certeza fundamental, a do cogito. Esta,        julgar bem e distinguir o verdadeiro do fal-
porCm, n i o 6 apenas uma das muitas verda-       so C propriamente aquilo que se chama bom
des que se alcanqa atravCs daquelas regras,       senso ou razio, [e que] C naturalmente igual
mas sim a verdade que, uma vez alcanqada,         em todos os homens."
fundamenta tais regras, porque revela a na-              E a unidade dos homens 6 representa-
tureza da conscihcia humana que, como res         da pela raziio bem guiada e desenvolvida.
cogitans, C transparhcia de si para si mes-              Descartes ja explicita isso no ensaio ju-
ma. Qualquer outra verdade so sera acolhi-        venil Regulae ad directionem ingenii, onde
da h medida que se adequar ou aproximar           escreve: "Todas as diversas cihcias nada mais
de tal evidhcia.                                  s i o do que a sabedoria humana, que per-
      Tendo-se ins~irado  inicialmente na cla-    manece sempre una e idhtica, por mais que
reza e na evidincia da matematica, agora Des-     se aplique a diferentes objetos, n i o receben-
cartes destaca que as citncias matemiiticas       do destes maior distingio do que possa re-
Capitulo de'cirno quinto -   Descartes: "o fundador
                                                                                         ,
                                                                                         ,
                                                                     d a filosofia moderns
                                                                                             295


ceber a luz do sol da diversidade das coisas            Se a raz5o C uma res cogitans, que
que ilumina." Mais do que sobre as coisas          emerge atravis da duvida universal, a pon-
iluminadas - cada uma das ciincias - t             to de nenhum ginio malign0 poder sitii-
precis0 p6r o acento sobre o sol, a raz50, que     la e nenhum engano dos sentidos obscu-
deve emergir e impor sua logica e fazer res-       reci-la, entfo o saber deve basear-se nela e
peitar suas exigtncias. A unidade das ci&n-        repetir sua clareza e distingao, que sfo os
cias remete a unidade da raz5o. E a unidade        unicos postulados irrenuncihveis do novo
da razfo remete unidade do mttodo.                 saber.




        0 Eu, como ser pensante, revela-se o lugar de uma multiplicidade de ideias
 (atos mentais dos quais se tem percepc;Sioimediata), que a filosofia deve rigorosa-
 mente examinar. Para Descartes ha particularmente trQ classes de ideias:
                         1) as ideias inatas, que encontro em mim, nascidas junto com
  A existencia     minha consciCncia;
  de tres classes       2) as ideias adventicias, que prov@m mim de fora e me re-
                                                                a
  de ideias        metem a coisas totalmente diferentes de mim;
  e a ideia inata        3) as ideias facticias, construidas por mim mesmo.
  de Deus               Ora, entre as muitas ideias de que a conscibncia e deposith-
  + 3 1-5          ria, ha a id6ia inata de Deus, isto e, a ideia de uma substancia
                   infinita, eterna, imutavel, independente, onisciente, e da qua1
 eu mesmo e todas as outras coisas existentes fomos criados e produzidos. A ideia
 de Deus 6 subjetiva e objetiva ao mesmo tempo, e atesta ser inata em nbs porque
 produzida pelo proprio Deus.
       Desse modo, o problema da fundamenta@o do mittodo de pesquisa se en-
 contra definitivamente resolvido, porque a evidbncia proposta de mod0 hipothti-
 co 6 confirmada pelo cogito, e este se torna por sua ues reforcado pela presenqa
 de Deus que garante sua objetividade. Deus e garante tambem de todas as verda-
 des claras e distintas, "eternas", que devem constituir a ossatura do novo saber;
 mas estas verdades, criadas livremente por Deus, sSio contingentes, e sc?ochama-
 das "eternas" apenas porque Deus e imutavel; elas nSio participam da essbncia de
 Deus, e por isso ninguem, mesmo conhecendo-as, pode afirmar conhecer os desig-
 nios imperscrutaveis de Deus.



      0problems da relacGo                         dadeiramente para o mundo e s5o adequa-
                                                   das para fazer-me conhecer o mundo? E o
      entre nossas idkias,                         mundo estara aberto a essas regras? Minhas
      que sGo formas mentais,                      faculdades cognoscitivas S ~ adequadas pa-
                                                                                  O

      e a realidade objetiva                       ra fazer-me conhecer efetivamente o que nio
                                                   t identificavel com a minha conscihcia?
                                                         Trata-se de perguntas que postulam
     A primeira certeza fundamental alcan-         maior fundamentag50 da atividade cognos-
qada pela aplicaq50 das regras do mCtodo,          citiva do homem.
portanto, C a conscihcia de si mesmos como               Como ser pensante, o "eu" revela-se o
seres pensantes.                                   lugar de multiplicidade de ide'ias, que a filo-
     A reflex50 de Descartes concentra-se          sofia deve considerar com rigor.
agora no cogito e no seu conteudo, acossa-               Se o cogito i a primeira verdade auto-
da por algumas perguntas fundamentais:             evidente, que outras idiias se apresentam
sera que as regras do mttodo abrem-se ver-         com o carater da auto-evidincia do cogito?
296     Terceira parte   - Bacon   e Drscnv+es



Partindo dele e com idtias que, como o co-          certos da objetividade das faculdades sensi-
gito, siio claras e distintas, t possivel recons-   veis e imaginativas atravts das quais as idCias
truir o edifico do saber?                           facticias chegam at6 nos, abrindo-nos para
      E mais: dado que o fundamento do              o mundo? Aquilo de que estou certo, at6 na
saber esta na consciincia, como sera possi-         duvida universal, t de minha existincia em
vel sair dela e reafirmar o mundo externo?          sua atividade cogitativa. Mas quem me ga-
      Em suma, as idCias que Descartes n5o          rante que ela permanece valida mesmo quan-
considera no sentido tradicional de essin-          do seus resultados passam da percepg5o em
cias ou arquktipos do real, mas como pre-           ato para o reino da memoria? Estara a me-
senGus reais na consciincia, t i m carater ob-      moria em grau de conserva-10s intactos, com
jetivo, no sentido de representarem um              a clareza e a distingzo originais?
objeto, uma realidade?                                    Para enfrentar essa strie de dificulda-
      E, por fim, se elas s5o indubitaveis          des e para fundamentar definitivamente o
como formas mentais, porque tenho a ime-            cariter objetivo de nossas faculdades cog-
diata percepgso delas, la como formas re-           noscitivas, Descartes proptie e resolve o pro-
presentativas de realidades diversas de rnim        blema da existincia e do papel de Deus.
sera0 elas verdadeiras, ou seja, representa-
r5o uma realidade objetiva ou seriam puras
fungoes mentais?
                                                          f idkia inata de D e u s
                                                          e sua objetividade

 3    "Jdkias inatas",
                                                          Com tal objetivo, entre as muitas idCias
      "id&ias adventiciasN                          de que a consciincia C depositaria, Descar-
      e "idkias facticias"                          tes depara com a idCia inata de Deus que,
                                                    como lemos nas Meditagoes metafisicas, C a
                                                    idCia de "urna substiincia infinita, eterna,
      Antes de responder a essas questties,         imutavel, independente e onisciente, da qua1
deve-se recordar que Descartes divide as idtias     eu proprio e todas as outras coisas que exis-
em:                                                 tem (se C verdade que h i coisas existentes)
      1)ide'ias inatas, isto 6, as que encontro     fomos criados e produzidos". E, a proposi-
em rnim mesmo, nascidas junto com a mi-             to de tal idCia, ele se pergunta se 6 pura-
nha consciencia;                                    mente subjetiva ou se niio deve ser conside-
      2) ide'ias adventicias, isto e, as que vim    rada ao mesmo tempo subjetiva e objetiva.
de fora de rnim e me remetem a coisas intei-        Trata-se do problema da existincia de Deus,
ramente diferentes de mim;                          nao mais proposto a partir do mundo ex-
      3) ide'ias facticias ou construidas por       terno ao homem, mas a partir do proprio
rnim mesmo.                                         homem, ou melhor, de sua consciincia.
      Descartando estas ultimas como iluso-               Pois bem, falando dessa idcia com tais
rias, porque quimkricas ou construidas ar-          caracteristicas, diz Descartes: "E uma coisa
bitrariamente por rnim mesmo, o problema            manifesta, por luz natural, que deve haver
se restringe ent5o a objetividade das idCias        pelo menos tanta realidade na causa eficien-
inatas e das adventicias. Embora as tris clas-      te e total quanto no seu efeito: porque, de
ses de idCias n50 sejam diferentes do ponto         onde o efeito ode ria extrair a sua realida-
de vista de sua realidade subjetiva - todas         de sen50 de sua propria causa, e como essa
as tris S ~ atos mentais dos quais tenho per-
             O                                      causa poderia transmiti-la ao efeito se n5o
cepqiio imediata -, do ponto de vista de seu        a tivesse em si mesma?" Ora, proposto tal
conteudo elas s5o profundamente diversas.           principio, fica evidente que o autor dessa
      Com efeito, se as idCias facticias ou ar-     idCia que esta em rnim niio sou eu, imperfei-
bitrarias niio constituem nenhum problema,          to e finito, nem qualquer outro ser, da mes-
ser5o verdadeiramente objetivas as idtias ad-       ma forma limitado. Tal idCia, que est5 em
venticias, que me remetem a um mundo ex-            mim, mas n i o t de mim, so pode ter por
terno? Quem garante tal objetividade?               causa adequada um ser infinito, isto e, Deus.
      Poderiamos responder: a clareza e a                 A propria idtia inata de Deus pode pro-
distingiio. E se as faculdades sensiveis fos-       piciar uma segunda reflexiio, que compro-
sem enganadoras? Estamos verdadeiramente            va o resultado da primeira argumentagzo.
297
               Capitulo de'cimo quinto -   Descartes:                    rla
                                                        "o f ~ t n d a d o ~ f~losofia m o d r r n a "


Se a idiia de um ser infinito que esta em
mim fosse minha, niio me teria eu feito per-
feito e ilimitado e niio, ao contrario, um ser
imperfeito, como resulta da duvida e da as-                 Ideia. Descartes da o nome de
piraqiio nunca satisfeita $ felicidade e a              "ideias" propriamente as imagens das
perfeiqiio? Com efeito, quem nega o Deus                coisas, e as distingue das "afeiqbes"
criador por esse proprio fato esta se consi-            (que se fundamentam sobre necessi-
derando um autoproduto. Ora, nesse caso,                dades, desejos, temores, esperangas
tendo a idCia do ser perfeito, entiio nos te-           etc.) e dos "juizos" (que pbem dis-
riamos dado todas as perfeiqoes que encon-              cursivamente em confront0 duas ou
tramos na idkia de Deus. E isso C desmenti-             mais ideias entre si e a partir daqui
                                                        movem para afirmar ou negar).
do pela realidade.                                      Alem disso, ele distingue as ideias em
      Por fim, detendo-se nas implicaq6es des-          tr& categorias:
sa idCia, Descartes formula um terceiro ar-             1) ideiasadventicias, isto e, estranhas
gumento, conhecido como prova ontologica.               e vindas de fora, "corno a ideia que
A existencia C parte integrante da essencia,            vulgarmente se tem do sol";
de mod0 que niio 6 possivel ter a ideia (a es-          2) ideias facticias, isto e, ideias fei-
sencia) de Deus sem simultaneamente admi-               tas e inventadas pelo homem, "en-
tir sua existencia, da mesma forma que niio e           tre as quais se pode pbr a que os as-
possivel conceber um triBngulo sem pensa-lo             trbnomos fazem do sol com seus
                                                        raciocinios";
com a soma dos Sngulos internos igual a dois            3) ideias inatas, que nascem com o
retos, ou como niio C concebivel uma mon-               homem, inerentes a sua consciGncia,
tanha sem vale. So que, enquanto do fato de             "como a ideia de Deus, da mente, do
niio poder "conceber uma montanha sem vale              corpo, do tridngulo e, em geral, as
niio deriva que existam no mundo monta-                 ideias que representam as essbcias
nhas e vales, mas somente que a montanha e              verdadeiras, imutaveis e eternas". A
o vale, existindo ou niio existindo, niio po-           ideia inata de Deus, em particular, e
dem de mod0 algum ser separados um do                   a mais evidente e contem em si mais
outro, (...) j i do simples fato de que niio            realidade objetiva que qualquer ou-
                                                        tra: ela garante a objetividade de to-
posso conceber Deus sem existincia deriva               das as outras ideias inatas e das ad-
que a existencia C inseparavel dele e, portan-          venticias.
to, que ele existe verdadeiramente". Esta C a
prova ontologica de Anselmo, que Descartes
retoma e a torna sua.



        D e ~ cowo gcarantia
              s                                        Ora, se isso C verdadeiro e se C verdade
   18
                                                 que Deus, porque sumamente perfeito, 6 tam-
        d a ~ M M ~ Z ;veritativa
         c              O
                                                 bem sumamente veraz e imutavel, niio deve-
        d e nossas fac~ldades                    mos entiio ter imensa confianqa em nos e em
        cognoscitivas                            nossas faculdades, que siio todas obras suas?
                                                       Assim, a dependincia do homem em
                                                 relaqiio a Deus niio leva Descartes A con-
                                                                                         s
      Mas por que Descartes se detem com         clus6es a que haviam chegado a metafisica
tanta insistincia no problema da existencia      e a teologia tradicional, isto C, ao primado
de Deus, a niio ser para evidenciar a riqueza    de Deus e ao valor normativo de seus pre-
de nossa consciencia? Com efeito, nas Medi-      ceitos e de tudo o que C revelado na Escritu-
tag6es metafisicas, ele escreve que a idCia de   ra. A idtia de Deus em nos, como a marca
Dew C "corno a marca do artesiio impressa        do artesiio na sua obra, C utilizada para de-
sobre sua obra, niio sendo sequer necessirio     fender a positividade da realiza@o humana
que essa marca seja algo diferente da pro-       e, do ponto de vista do poder cognoscitivo,
pria obra". Assim, analisando a conscihcia,      sua natural capacidade de conhecer o ver-
Descartes se defronta com uma ideia que esta     dadeiro; e, no que se refere ao mundo, a
em nos, mas niio C nossa, a qual, todavia,       imutabilidade de suas leis.
nos permeia profundamente, como o selo do              E ai que encontra derrota radical a ideia
artifice sobre seu manufaturado.                 do g h i o malign0 ou de uma forqa corrosi-
298          Terceira parte - Bacon            e Descartes



va que pode enganar ou burlar o homem. E                                       duvidas sobre o que lhe C sugerido por suas
isso porque, sob a forqa protetora de Deus,                                    faculdades cognoscitivas, ja que n i o reco-
as faculdades cognoscitivas n i o podem nos                                    nhece que tais faculdades sejam criadas por
enganar, ja que, nesse caso, o proprio Deus,                                   Deus, suma bondade e verdade.
que C o seu criador, seria responsavel por
tal engano. E Deus, sendo sumamente per-
feito, n5o pode ser mentiroso.
      Desse modo, aquele Deus em cujo                                           5 ASverdades           etevmas
nome se tentava bloquear a expansio do
novo pensamento cientifico aparece aqui
como aquele que, garantindo a capacidade                                            Desse modo, o problema da fundamen-
cognoscitiva de nossas faculdades, estimula                                    taqio do mitodo de pesquisa encontra-se
tal empresa.                                                                   conclusivamente resolvido, porque aquela
      Assim, a duvida C derrotada e o critC-                                   evidincia proposta por via hipotCtica 15
rio da evidencia C conclusivamente justifi-                                    comprovada pela primeira certeza relativa
cado. 0 Deus criador impede que se consi-                                      ao nosso cogito, e este, com as faculdades
dere que a criatura seja portadora de um                                       cognoscitivas, C ainda mais reforqado pela
principio dissolutivo dentro de si, ou que                                     presenqa de Deus, que garante o seu carater
suas faculdades n i o estejam em condiqoes                                     objetivo.
de cumprir suas funqoes. Somente para o                                             AlCm do poder cognoscitivo das facul-
ateu a duvida n i o C debelada conclusiva-                                     dades, Deus garante tambCm todas aquelas
mente, porque pode continuar alimentando                                       verdades, claras e distintas, que o homem
                                                                               estiver em condiq6es de alcanqar.
                                                                                     Expressando a essencia dos varios se-
                                                                               tores do real, s i o as verdades eternas que
                                                                               compoem a ossatura do novo saber.
                                                                                    Tais verdades s i o eternas n i o porque
                                                                               sejam vinculadas a o proprio Deus ou in-
                                                                               dependentes dele. Claro, Deus C criador ab-
     METAPHYSI QVE5                                                            soluto e, portanto, responsive1 tambCm pe-
                                                                               las verdades ou idCias sob cuja luz criou o
                                                                               mundo.
                                                                                     Mas entio por que s i o chamadas "eter-
                                                                               nas", essas verdades criadas livremente por
                                                                               Deus? Porque Deus C imutavel. Assim, aque-
  II   'exObF&bom fa~crr  contrc c n Mcdtraoonc par dturtrc~
        ptrlonnn trcs-d&n,aucc Icr dponfn dc I Aucrur.                         le voluntarismo de ascendencia escotista,
                     Tr&m p M' C.L.R.                                          que levava os metafisicos a falarem de um
                                                                               contingentismo radical do mundo e, portan-
                                                                               to, a considerar impossivel um saber uni-
                                                                               versal, C usado por Descartes para garantir
                                                                               a imutabilidade de certas verdades e, por-
                                                                               tanto, defender o desenvolvimento da cien-
                                                                               cia e garantir sua objetividade.
                                                                                     Ademais, como essas verdades contin-
                        A I'ARIS,                                              gentes e, ao mesmo tempo, eternas n i o cons-
       ,'lrcz I., Vc*lur 1 E A N C A M V 5 A i
                                         '                                     tituem participaqio na essencia de Deus,
                                  ET                                           ninguCm pode considerar que, corn o conhe-
 p     E R R E LE PETIT,h p r t m c i ~ r      c'rJtst   ttrc   rlt,   il,?)
                                                                               cimento dessas verdades, conhece os impers-
                  ruc S.lxqoes,i la T o ~ l o 4 t ) t
                             -                ~
                        h-   "
                             -

                        bl I?(..    XlYll
                                                                               crutaveis designios de Deus. 0 homem co-
             ,J    bmfc RIL 11 k G L r ) r -
                         l                                f
                                                                               nhece e isso ja basta, sem qualquer pretensio
                                                                               de emulaqio com Deus.
                                                                                     E, com isso, defende-se ao mesmo tem-
                                                                               po o sentido da finitude da razio e o senti-
                                                                               do de sua objetividade. A razio do homem
                                                                               C especificamente humana, n i o divina, mas
                                                                               e garantida em sua atividade por aquele
                                                                               Deus que a criou.
299
                  Capitulo de'cimo quinto -   Descartes:   "o fhndador d a filosofia m o d e ~ n,,
                                                                                                 a


 6 0ewo n            ~ depende d e Deus,
                        o                           do n5o a concebo com suficiente clareza e
                                                    distinqao, C evidente que estou fazendo 6ti-
      mas     do h o m e m                          mo uso do juizo e nZo estou sendo engana-
                                                    do; mas, se me determino a nega-la ou afir-
      Mas, se 6 verdade que Deus C verda-           ma-la, e n d o niio estou mais me servindo
deiro e nao enganoso, tambCm C verdade que          como devo do meu livre-arbitrio; e se afir-
o homem erra.                                       mo aquilo que n i o C verdadeiro, C evidente
      Qua1 6, entao, a origem do erro?              que estou me enganando; [. ..] porque a luz
      Naturalmente, o err0 n i o e imputavel        natural nos ensina que o conhecimento do
a Deus, mas sim ao homem, porque nem                intelecto deve preceder sempre a determi-
sempre ele se demonstra fie1 a clareza e a          naqiio da vontade. E precisamente nesse mau
distingzo.                                          uso do livre-arbitrio 6 que se encontra a pri-
      As faculdades do homem funcionam.             vaqiio que constitui a forma do erro".
Mas cabe ao homem fazer bom uso delas,                    Com essa imensa confianqa no homem
niio confundindo com claras e distintas as          e em suas faculdades cognoscitivas, e depois
idCias que siio aproximativas e confusas. 0         de indicar as causas e implicaq6es do erro,
err0 se da no juizo. E, para Descartes, dife-       Descartes pode agora tratar do conheci-
rentemente do que pensaria Kant, pensar             mento do mundo e de si enquanto existe
niio C julgar, porque no juizo intervcm tan-        no mundo. 0 mCtodo esta justificado, a cla-
to o intelecto como a vontade. 0 intelecto,         reza e a distinqso fundamentadas, e a uni-
que elabora as ideias claras e distintas, nao       dade do saber reconduzida a sua fonte. a
erra. 0 err0 brota da pressiio indevida da          razz0 humana. sustentada e iluminada
vontade sobre o intelecto: "Se me abstenho          pela garantia da suma veracidade do seu
de dar meu juizo sobre alguma coisa, quan-          Cr iador.




                     VI. O m u n d o C u m a                      m6quina

        Deus 4 arante do fato de que a faculdade imaginativa e a sensivel atestam
 a existencia of tjetiva do mundo corporeo, e entre todas as coisas que do mundo
 externo chegam a consci4ncia C possivel conceber como clara e distinta apenas a
                    extensiio. N%oha, pottanto, mais que uma mesma materia em
  o universo        todo o universo, e n6s a conhecemos apenas porque ela C exten-
  6 uma srande      S em comprimento, largura e profundidade. Este e um ponto de
                     a
  "mdquina",        imensa importhcia revolucioniiria, ja proposto em pauta por
  cujose/ementos Galileu, que Descartes retoma porque dele depende a possibili-
  essenciais        dade de aviar um discurso cientifico rigoroso e novo. O universo
      materia       e uma grande "mSquinan, cujos elementos essenciais s%omate-
  e rnovimento      ria e movimento. Tambem o corpo humano e os organismos ani-
  -+ 3 1-5          mais sao mSquinas e, portanto, funcionam em base a princfpios
                    mecanicos que regulam seus movimentos e relat$3es; isso que cha-
 mamos "vida" C3 redutivel a uma entidade material, isto e, a elementos sutilissimos
 que, veiculados pelo sangue, se difundem por todo o corpo e presidem as princi-
 pais fun~bes organismo.
               do


 3    A idkia d e e x t e n s 6 0                    dade externa para a conscihcia, que n i o C
 t;
                                                     artifice delas, mas so depositaria.
      e   S   M   import&ncia essential
                  ~
                                                           Antes de mais nada, a existincia do
                                                     mundo corporeo 6 possivel por causa do fato
      Descartes chega a existhcia do mun-            de que ele C objeto das demonstraqoes geo-
do corporeo aprofundando as ideias adven-            metricas, que se baseiam na ide'ia de exten-
ticias, isto 6, as idCias que V ~ de uma reali-
                                  O                  Go. Ademais, ha em nos uma faculdade dis-
300     Terceira parte - Bacon e Dessartes

tinta do intelecto e niio redutivel a ele, isto    mundo espiritual C yes cogitans, o mundo
C, a capacidade de imaginar e sentir. Com          material 6-res extensa.
efeito, o intelecto C "uma coisa pensante ou             Descartes considera "secund6rias" to-
urna substincia, cuja esshcia ou natureza          das as outras propriedades, como a cor, o
toda C apenas a de pensar", essencialmente         sabor, o peso ou o som, porque n i o C possi-
ativa. Jii a faculdade de imaginar C essen-        vel ter delas urna idiia clara e distinta. Atri-
cialmente representativa de entidades mate-        bui-las ao mundo material como componen-
riais ou corporeas, razio pela qua1 "estou         tes constitutivas simificaria abandonar as
                                                                        "
inclinado a considerar que C intimamente           regras do mitodo.
                                                     "
ligada ou dependente do corpo". Desse                    A tendencia a considera-las obietivas 6
modo, o intelecto pode considerar o mun-           muito mais fruto de exoeriencias infantis.
do corporeo valendo-se da imaginaqiio e das        niio avaliadas criticamente, porque niio nos
faculdades sensorias, que se revelam passi-        demos conta de que se trata mais de urna
vas ou receptivas de estimulos e sensaq6es.        sirie de respostas do sistema nervoso aos
       Ora, se esse poder de ligaqio com o         estimulos do mundo fisico.
mundo material, operado pela faculdade de                Esse C um Donto de imenso alcance re-
imaginaqiio e pelas faculdades sensorias,          volucion6ri0, j6 enfocado por Galileu e que
fosse enganoso, dever-se-ia concluir entiio        Descartes retoma porque sabe que dele de-
que Deus, que me criou assim, n i o i veraz.       pende a possibilidade de encaminhar um
Mas isso C falso, como ja dissemos. Desse          discurso cientifico rigoroso e novo. A ajuda
modo, se as faculdades imaginativas e sen-         dos sentidos pode significar fonte de esti-
siveis atestam a existencia do mundo corpo-        mulos, mas niio C a sede da ciencia. Esta
reo, niio h i raziio para p6-lo em discussiio.     pertence ao mundo das idCias claras e dis-
       Isso, porCm, niio deve me induzir a         tintas.
"admitir temerariamente todas as coisas que              Chegando a esse ponto, reduzida a
os sentidos parecem me ensinar". Como              materia a extensiio, Descartes encontra-se
tambCm nao deve me induzir a "revogar pela         diante de urna realidade global dividida em
d h i d a todas elas em geral".                    duas vertentes claramente distintas e irre-
       Mas como operar tal seleqio? Isso pode      dutiveis urna a outra: a yes cogitans no que
ser feito aplicando o mitodo das idiias cla-       se refere ao mundo esoiritual e a res extensa
ras e distintas, isto C, s6 admitindo como         no aue concerne ao mundo material. N i o
reais aquelas propriedades que consigo con-        exisiem realidades intermedihrias.
ceber de mod0 distinto.                                  A forqa dessa colocaqio C devastado-
       Pois bem, dentre todas as coisas que me     ra, sobretudo em relagio i s concepq6es
chegam do mundo externo atravis das fa-            renascentistas de matriz animista, segundo
culdades sensiveis, s6 consigo conceber como       as quais tudo era permeado de espirito e
clara e distinta a extensiio, que, conseqiiente-   vida, e com as quais eram explicadas as co-
mente, podemos considerar como consti-             nex6es entre os fen6menos e sua natureza
tutiva ou essencial. "Com efeito, toda outra       mais rec6ndita. N i o ha graus intermedii-
coisa que se pode atribuir ao corpo pressup6e      rios entre a res cogitans e a res extensa. A
a extensiio, sendo apenas algum mod0 da            exemplo do mundo fisico em geral, tanto o
propria coisa extensa, como tambCm todas           corpo humano como o reino animal devem
as coisas que encontramos na mente siio            encontrar explicaqio suficiente no mundo
somente modos diversos de pensar".                 da mecinica, fora e contra qualquer doutri-
                                                   na magico-ocultista.


      Arenas a extens60
      i. propriedade essencial
       .
                                                         como principios
      Assim, aplicando as regras da clareza
e da distinqiio, Descartes chega a conclusio
de que s6 se pode atribuir como essencial
ao mundo material a propriedade da exten-               A doutrina que atribui um carater pu-
siio, porque s6 ela C concebivel de mod0 cla-      ramente subjetivo ao reino das qualidades C
ro e completamente distinto das outras. 0          o primeiro resultado dessa nova filosofia. E
301
              Capitdo de'cimo quinto - Descartes: "o fundador d a filosofia moderna"

sua importincia reside na capacidade de eli-         Mais do que na variabilidade dos fe-
minar todos os obsticulos que haviam im-        nGmenos, Descartes estava interessado em
pedido a afirmaqiio da nova ciincia.            sua unificagiio, mediante modelos mecini-
     Mas quais siio entiio os elementos es-     cos de inspiraqiio geomCtrica.
senciais para se explicar o mundo fisico?
     0 universo cartesiano C constituido por
poucos elementos e principios: matCria (en-
tendida no sentido geomitrico de extensiio)           Reduc&o
e movimento.                                          d e todos   os o r g a n i s m o s
     A matCria como pura extensiio, priva-
da de qualquer profundidade, leva a rejei-
qio do vicuo. 0 mundo C como um ovo
pleno. 0 vicuo dos atomistas C inconcebivel
com a continuidade da matiria extensa.
Como explicar entio a multiplicidade dos
fen6menos e seu carater dinimico? Atra-        ao qual niio se subtraem sequer aquelas re-
vCs do movimento ou daquela "quantida-         alidades tradicionalmente reservadas a ou-
de de movimento" que Deus injetou no           tras ciincias, como a vida e os organismos
mundo quando o criou e que permanece           animais.
constante, porque niio cresce nem diminui.           Tanto o corpo como os organismos ani-
                                               mais siio maquinas e, portanto, funcionam
                                               com base em principios mecinicos que regu-
                                               lam seus movimentos e suas relaq8es. Em con-
                                               traste com a teoria aristotilica das almas, ex-
      0 s principios f u n d a m e n t a i s   clui-se todo principio vital (vegetativo e
      q u e r e g e m o universo               sens6rio) do mundo vegetal e animal. Tam-
                                               bCm nesse caso o que importa C a mudanqa
                                               do quadro sistemitico, porque dai em dian-
      Quais as leis fundamentais?              te tambCm o corpo e qualquer outro orga-
      Antes de mais nada, o principio de con- nismo seriio objeto de anilise cientifica no
serva@o, segundo o qual a quantidade de mo- quadro dos principios do mecanicismo.
vimento permanece constante, contra qual-            0 s animais e o corpo humano nada
quer possivel degradaqiio de energia ou mais s i o do que miquinas, "autbmatos",
entropia. 0 segundo C o principio de ine'rcia. como os define Descartes, ou "miquinas
      Tendo excluido todas as qualidades da semoventes" mais ou menos complicadas,
matCria, s6 pode haver alguma mudanqa de semelhantes a "rel6gios, compostos simples-
diregio mediante a impulsiio de outros cor- mente de rodas e molas. aue podem contar
pos. 0 corpo n i o se detCm nem diminui seu as horas e medir o tempoi'.
proprio movimento, a menos que o ceda a              E as numerosissimas operaq6es dos
outro. Em si, uma vez iniciado, o movimen- animais? Aquilo que chamamos de "vida"
to tende a prosseguir na mesma diregio.         C redutivel a uma esptcie de entidade mate-
      Portanto, o principio de conservaqiio e, rial, isto C, a elementos sutilissimos e pu-
conseqiientemente, o principio de inCrcia sio rissimos, que, levados do coraqiio ao &re-
principios basilares que regem o universo. bro por meio do sangue, se difundem por
      A eles deve-se acrescentar outro prin- todo o corpo e presidem A principais fun-
                                                                             s
cipio, segundo o qual toda coisa tende a q6es do organismo. Dai a exaltaqio da teo-
mover-se em linha reta. 0 movimento ori- ria da circulaqiio do sangue proposta por
ginirio C o movimento retilineo, do qual os Harvey, seu contemporineo, que publicou
outros derivam. Essa extrema simplificaqiio seu famoso ensaio sobre o Movimento d o
da natureza esti em funqiio de uma raziio cora@o em 1627.
que, atravCs de modelos tebricos, quer co-           Descartes, portanto, nega aos organis-
nhecer e dominar o mundo.                       mos qualquer principio vital autbnomo, tan-
      Trata-se de uma tentativa relevante de to vegetativo como sens6rio. convencido de
                                                     "
unificar a realidade, a primeira vista multi- que, se eles possuissem alma, a teriam reve-
  la e variivel, atravCs de uma espkcie de lado pela palavra, que "C o unico sinal e a
modelo mecBnico facilmente dominivel pel0 unica prova segura do pensamento oculto e
homem.                                          encerrado no corpo" .
302
       Terceira parte - B a c o n c Drscartrs


                     VII. A l m a           ("res cogitansr')
                         e corpo ("res extensa")


  No hornern               Entre o mundo espiritual, a res cogitans, e o mundo mate-
  as duas           rial, a res extensa, n8o ha grandes intermediiirios: trata-se de
  subst&xias,       duas vertentes claramente distintas e irredutiveis uma outra.
  a/ma e C O ~ ~ O ,Ora, no homem, diferentemente de todos os serest as duas subs-
  estso juntas      tancias est80 juntas. Com efeito, a alma C! pensamento, n8o vida,
  -+§ 1           e sua separa~lio corpo n%o
                                 do             provoca a morte; a alma tem pro-
                  priamente sede em urna pequena glsndula, chamada pineal, si-
 tuada no centro doxtirebro, onde se reunem ramificados todos os tecidos das
 arterias que veiculam o sangue para o ctirebro.




      0contato                                  perimentar sentimentos e apetites seme-
                                                lhantes aos nossos, compondo assim um
      entre "res cogitansN
                                                verdadeiro homem." Mas, por qua1 raziio
                                                e de que mod0 a alma move o corpo e age
                                                sobre ele?
                                                       Foi para enfrentar essas dificuldades
                                                que Descartes escreveu o Tratado d o ho-
     Ao contrario de todos os outros se-        m e m , no qua1 tenta urna explicaqio dos
res, no homem encontram-se juntas duas          processos fisicos e orgsnicos, em urna es-
substsncias claramente distintas entre si: a    pCcie de ousada antecipaqio da fisiologia
res cogitans e a res extensa. Ele C urna es-    moderna.
pCcie de ponto de encontro entre dois mun-             Ele imagina que Deus tenha formado
dos ou, em termos tradicionais, entre alma      urna estatua de terra semelhante a nosso cor-
e corpo. A heterogeneidade da res cogitans      po, com os mesmos orgios e as mesmas fun-
em relaqio a res extensa significa antes de     qdes. E urna espkcie de modelo ou de hi-
mais nada que a alma n i o deve ser conce-      potese, com que tenta a explicaqio de nossa
bida em relacio com a vida. como se hou-        realidade biologica, com especial atenqiio
vesse varios tipos de vida, da vegetativa h     para a circulaqiio do sangue, para a res-
sensitiva e dai a racional. A alma C Densa-     piraqio e para o movimento dos espiritos
mento e n i o vida. E sua separaqio do cor-     animais.
po niio provoca a morte, que C determina-              Sem abandonar a hipotese, ele explica
da por causas fisiologicas. A alma C urna       o calor do sangue por urna espkcie de fogo
realidade inextensa, a o passo que o corpo      sem luz que, penetrando nas cavidades do
C extenso. Trata-se de duas realidades que      coraqiio, contribui para conserva-lo inflado
nada t&mem comum.                               e elistico. Do coraqio, o sangue passa para
     E, no entanto, a experiincia nos ates-     os pulmdes, onde a respiraqiio, introduzin-
ta urna interferhcia constante entre essas      do o ar, o refresca. 0 s vapores do sangue da
duas vertentes, como o comprova o fato          cavidade direita do coraqio alcanqam os
de que nossos atos voluntaries movem o          pulmdes atravis da veia arterial, e caem len-
corpo e as sensaqdes, provenientes do mun-      tamente na cavidade esquerda, provocando
do externo, se refletem sobre a alma, mo-       o movimento do coraqio, do qua1 depen-
dificando-a. Escreve Descartes: " N i o bas-    dem todos os outros movimentos do or-
ta que ela [a alma] seja inserida no corpo      g a n i s m ~ Afluindo a o cCrebro, o sangue
                                                              .
como um piloto em.seu navio, senio, tal-        n i o apenas nutre a substsncia cerebral, mas
vez, para mover seus membros, mas e ne-         tambCm produz "certo vento, muito sutil,
cessario que ela seja conjugada e unida mais    ou antes urna chama muito viva e muito
estreitamente com ele, para, ademais, ex-       pura, a o que se d4 o nome de 'espiritos ani-
Capi'tulo de'cirno quinto -   D e s r a r t r s : "o   fundador d a filosofia m o c l r r ~ ,
                                                                                                          ,
                                                                                                          a   303


mais' ". As artirias que veiculam o sangue              no tratado Les passions de l'ime, mas
no cerebra ramificam-se em inumeros teci-               com preocupaqdes e contornos claramente
dos, que se reunem depois em torno de pe-               iticos.
quena glindula, chamada pineal, situada no                   Nele Descartes oferece um quadro
centro do cirebro, que constitui a sede da              bastante complexo e subtil de analise das
alma.                                                   aqdes, movidas pela vontade, e das alteraqdes,
      Com tal objetivo, escreve Descartes, "i           que s i o percepqdes, sentimentos ou emo-
preciso saber que, por mais que a alma este-            q6es provocadas pelo corpo e captadas pela
ja conjugada com todo o corpo, entretanto               alma.
ha no corpo algumas partes em que ela exer-                  0 objetivo moral desse estudo t o
ce suas funqdes de modo mais especifico que             de demonstrar que a alma pode vencer
em todas as outras. [...I A parte do corpo              as emoqdes ou, pelo menos, frear as soli-
em aue a alma exerce imediatamente suas                 citaqdes sensiveis que a distraem da ati-
funqdes n i o i em absoluto o coraqio e nem             vidade intelectual, projetando-a para as
mesmo todo o cirebro, mas somente a parte               amarras das paixdes. Para tanto, dois sen-
interna dele, que t certa glindula muito pe-            timentos s i o importantes, a tristeza e a
quena, situada em meio a sua substincia e               alegria: a primeira esta em condiqdes de
suspensa sobre o conduto pelo qua1 os espi-             mostrar as coisas das quais devemos es-
ritos das cavidades anteriores se comunicam             capar; a segunda, as coisas que devemos
com os espiritos das cavidades posteriores,             cultivar.
de modo aue os seus mais leves movimentos                    0 guia do homem, porim, n i o s i o
podem mudar muito o curso dos espiritos,                as emoqdes ou os sentimentos em geral,
ao passo que, inversamente, as minimas mu-              mas sim a razso, a unica que pode avaliar
danqas no curso dos espiritos podem levar               e, portanto, induzir a acolher ou rejeitar
a grandes mudanqas nos movimentos dessa                 certas emoqdes.
glindula".                                                   A sabedoria consiste precisamente
      0 tema d o dualismo cartesiano e d o              na adoqio d o pensamento claro e distin-
possivel contato entre a yes cogitans e a               to como norma, tanto do pensar como do
res extensa foi aprofundado ainda mais                  viver.




                               VIII. $s                  vegvas




        Para favorecer o dominio da razao sobre a tirania das paixiies, no Discurso
 sobre o mCtodo Descartes propde como "moral provisoria" quatro normas que
 depois s revelaram vdlidas e, para ele, definitivas:
           e
       1) obedecer as leis, aos costumes e a religiao do proprio pais, acolhendo as
 opinides comuns mais moderadas;
      2) perseverar nas aciies com a maior firmeza e resoluc;$o possivel;
                        3) vencer de preferencia a si mesmos do que o destino, e
  A etica         mudar preferentemente os proprios desejos do que a ordem do
  cartesiana      mundo;
  e a subrnissdo        4) cultivar a razao e o conhecimento da verdade.
  da vontade
  a razzo,
                        Do conjunto torna-se evidente a diresilo da etica cartesiana,
  as norrnas       isto e, a submissa"~  lenta e fatigante da vontade B raztio, como
  a seguir        forca-guia de todo o homem: a liberdade da vontade s realiza
                                                                            e
  + 3 1-5         apenas pela submisdo a logica da ordem que o inteledo e cha-
                   mado a descobrir, fora e dentro de si.
304
          Terceira parte - Bacon   e Desca~trs



                                                       Descartes C inimigo da falta de decisiio.
                                                  Para superar isso, ele prop6e o remkdio "de
                                                  habituar-se a formular juizos certos e deter-
                                                  minados sobre as coisas que se apresentam,
      Foi exatamente para favorecer o do-         convencendo-se de que se cumpriu o proprio
minio da raziio sobre a tirania das paix6es       dever quando se fez aquilo que se julgava o
que, desde o Discurso sobre o me'todo, Des-       melhor, ainda que seja julgado muito mal".
;artes enunciou e prop8s como "moral pro-         A vontade se retifica refinando o intelecto.
visoria" algumas normas que depois, tanto
no intercimbio e~istolar    como no Tratado
sobre as paixoes, revelaram-se para ele va-
lidas e definitivas.                                   A terceira       regra
      Trata-se de normas simples, que C opor-
tun0 recordar sempre: "A primeira [regra]
era a de obedecer i s leis e aos costumes do
meu ~ a i sobservando constantemente a re-
            .                                           Nesse contexto, ele prop6e a "terceira
      1    ,

ligiiio em que Deus me deu a graqa de ser         maxima", que i a de "esforqar-me sempre
instruido desde a infincia, e norteando-me        para vencer muito mais a mim mesmo do
em todas as outras coisas segundo as opi-         que ao destino e para mudar muito mais
ni6es mais moderadas e mais distantes de          meus desejos do que a ordem do mundo. E,
todo excesso, que fossem comumente acolhi-        em geral, acostumar-me a crer que niio h i
das e praticadas pelas mais sensatas dentre       nada que esteja inteiramente em nosso po-
as pessoas com quem me coubesse viver."           der, exceto nossos pensamentos" .
      Distinguindo entre a contemplaqio e a             0 tema de Descartes, portanto, C a re-
busca da verdade, por um lado, e as exigtn-       forma de si mesmo, reforma que i possivel
cias cotidianas da vida, por outro, Descar-       fazer, refinando a razao mediante o habi-
tes, para a verdade, exige a evidtncia e a        tuar-se i s regras da clareza e da distinqio.
distin~iio,que, se alcanqadas, nos dao o
juizo; j i para as segundas considera sufi-
ciente o bom senso, express0 pelos costu-
mes do povo junto ao qua1 se vive. No pri-
meiro caso, i necessaria a evidtncia da
verdade; no'segundo, C suficiente a proba-
bilidade.                                               Nos retificamos a vontade reforman-
       0 respeito as leis do pais C ditado pela   do a vida do pensamento. E C com esse ob-
necessidade de tranqiiilidade, sem a qua1 niio    jetivo que ele destaca na quarta maxima que
C possivel a busca da verdade.                    sua funqio mais importante foi a de "dedi-
                                                  car toda a minha vida a cultivar minha ra-
                                                  ziio e progredir o mais possivel no conheci-
                                                  mento do verdadeiro, seguindo o mitodo
                                                  que me havia prescrito".
                                                        0 fato de ser esse o sentido das primei-
                                                  ras tris maximas, bastante conformistas, i
      "A segunda maxima era a de perseve-         indicado com exatidio pel0 pr6prio Descar-
rar o mais firme e resolutamente possivel em      tes, que acrescenta: "As trts maximas ante-
minhas aq6es, n i o deixando de seguir com        riores fundamentavam-se precisamente no
menos constsncia as opini6es mais duvido-         meu proposito de continuar a me instruir."
sas, quando alguma vez a elas me determi-
nasse, como se elas fossem as mais seguras".
      Trata-se de norma muito pragmatica, que
conclama a romper as protelaq6es e superar a                ra2~0 o
                                                                e     verdadeiro
incerteza e a indecisio, porque a vida nio pode         C O ~   fundamento da moral
                                                                O
esperar, sendo premente, mas sem esquecer que
permanece a obrigaqiio de examinar a veraci-
dade e a bondade dessas opiniijes, ja que a            0 conjunto torna evidente a orienta-
veracidade e a bondade permanecem como os         $50 da Ctica cartesiana, isto 6, a lenta e tra-
ideais que regulam a vida humana.                 balhosa submissiio da vontade a raziio,
305
              Capitulo de'cimo quinto   -   Descavtes:   fundador d a filo~ofia moderna"


como forqa-guia de todo o homem. Identi-          se impde com a forqa da raziio. Apenas sob
ficando a virtude com a raziio nessa pers-        o peso da verdade C que o homem h ode se
pectiva, Descartes se propde a "seguir tudo       considerar livre, no sentido de que obedece
aquilo que a raziio me aconselhar, sem que        a si mesmo e niio a forqas exteriores.
as paixdes e os apetites me afastem disso".             Se o "eu" define-se como res cogitans,
      Com tal objetivo, o estudo das paixdes      seguir a verdade significa seguir no fundo a
e do seu entrelagamento na alma visa a tor-       si mesmo, na maxima unidade interior e no
nar mais facil a consecugiio do primado da        pleno respeito i realidade objetiva. 0 pri-
raziio sobre a vontade e sobre as paixdes.        mado da raziio deve impor-se tanto no cam-
      A liberdade da vontade so se realiza        po do pensamento como no da aqiio.
pela submiss50 16gica da ordem que o in-                A virtude, iqual, em ultima anhlise, a
telecto C chamado a descobrir, dentro e fora      "moral provisoria" conduz, identifica-se
de si.                                            com a vontade do bem e esta com a vonta-
      Em Descartes predomina o amor do            de de pensar o verdadeiro que, enquanto tal,
verdadeiro, cuja logica, uma vez alcangada,       tambCm C bem.
306
            Terceira parfe - B a c o n          e Drscavtes




                                                              0 "COGITO"

                              0 METODO PARA A DESCOBERTA DA VERDADE
                                                             -                       --             -




                                                        --             --                                   -               --            -


            ?                                            No exame dos principios do saber tradicional
(       REGRA APLICATIVA                        C precis~
                                                        rejeitar como falso tudo aquilo de que se possa duvidar,

                       --

            1
            I                                       -    para chegar a algo absolutamente indubitavel
                                                                             -


            I                                                          _,  -       -- -    --           -




/
            +--
        PRINCIPIO PRIMEIRO
                            -
                                                                                        - -
                                                                 - ~ O G I T O , ERGO SUM" 
                                                                       (existCncia da alma):
                                                                                             1




(       DA NOVA PILOsOPIA
                                                            ,
                                                               do prdprio fato de duvidar (= pensar),
                                                              segue-se do m o d ~
                                                                                mais evidente e certo
            T-                                                     que eu sou, isto i, exzsto    ,,
                                                                                                    '
            I                                                       ..                                      --
                                                                                                                                     ,
                                                                                                                                     ,

            I                                                                                       I
                                                                         /
                                                                                 --        -        t               - - -



                                                                        1             Faculdades da alma
                                                                                               --           -                    i
                                                                                 


                                                /
                                                        /
                                                                                       p                ,Y              Eletiva:
                                                                                                                                          
                                                                                                                                                  
                                                1           Cognoscitivas:

                                    /.
                                            '
                                            I

                                            
                                                            sens~bilidade
                                                             imagina~iio
                                                        intelecto (ou raziio)            I
                                                                                           
                                                                                                                (OU
                                                                                                                         vontade
                                                                                                                        llvre-arbitrio)
                                                                                                                                 -
                                                                                                                                         ,
                                                                                                                                         '
                                                                                                                                             ,
                                                                                                                                                           4
            I      [       Idiias       )           
                                                                                 1                                                            (       Afeiq6es
                           v
                                     1
                                                                                                                                              .       --



            I                 --
                                    Y                   -                                           -




            1
            I
                       --             -
                                         znatas
                   [(lnerenfes desde sempre
                                     -
                                                                                        adventiaas
                                                                                        - --                                         -
                                                                                                                                         factiaas

                                                                                                                 - -




                                                                                                        Deus                                               ,
                                                        /              (Ser perferto, Substiincra rnfinrta e eterna):        

                       -
                                -           '               a 1d6ia inatn de substBncia inflnita pode ter sido posta na alma
(FUNDAMENTO ULTIMO ) ~i                                                          (que C substBncia f ~ n i t a )
    L       --

                  ' 
                       --
                                                                 apenas por uma substBncia verdadeiramente infin~ta.                                             i
                                                                             a e a verdade de toda crdncra dependem          ,
                                                                              do conhecrmento do verdaderro Deus          ,


                                                                                                                -   -
Capitulo dkimo quinto -     Descartes: "o    fundador da filosofia moderna"


                                                    culpas para os vicios, de mod0 que um Estado
                                                    & muito melhor regulado quando, tsndo pou-
                                                    quissimas, etas ai sdo mui rigorosoments ob-
                                                    servadas; assim, em vez do grande nirmero de
                                                    preceitos de que Iogica & composta, acreditei
                                                    ter o suficiante deles com os quatro seguintes,
                                                    com a condi~do    que tomasse firme e constants
                                                    resolu$do de ndo descurar uma s6 vez de
                                                    observa-10s.
        0Discurso sobre o mhtodo, publicado               0 primeiro ero ndo aceitar jamais nada
 ern 1637, B a obra corn qua se inougura o          como verdadeiro, que ndo conhecesse eviden-
 esto@o do filosofio rnoderno.                      temente ser tal; ou seja, v i t a r acuradamente a
        Troto-ss de brevs sxposigio, de ports       prscipitqdo e a preven~do; ndo compreen-
                                                                                      e
 outobiografico, dos Fundornsntos mstodo-           der em meus juizos nada mais al6m do que se
 log icos do originol rnetofisico cortesiano.       apresentasse tdo clara e distintamente a mi-
                                                    nha mente, que eu ndo tivesse alguma possi-
                                                    bilidode de p6-lo em dljvida.
                                                          0 segundo, dividir coda uma das dificul-
1. A insuficiQnciada Iogica r da matrmatica         dades que examinasse, em tantas partes
                                                    quantas fosse possivel, e quantas fossem
       Quando eu era mais jovem,' havia estu-       requeridas para melhor resolver as proprias di-
dado um pouco, sntre as partes do filosofia, a      ficuldades.
Iogica, e entre as matem6ticas, a an6lise dos             0terceiro, conduzir com ordem meus pen-
ge6metras e a 61gebra, tr& artes ou cihncias        samentos, comqando pelos objetos mais sim-
qua pareciam dever contribuir em alguma coi-        plss e mais Mceis de conhecer, para subir pou-
sa para meu projsto. Contudo, examinando,           co a pouco, como por graus, at6 o conhecimento
percebi qua, quanto 6 Iogica, seus silogismos       dos mais compostos; e supondo tamb6m uma
e a maior parts de suas outras instru@es ser-       ordem entre aquelss que ndo se precedem
vam mais pora explicar a outros as coisas que        naturalmente um ao outro.
ja sdo sabidas ou entdo, como a arte de Wlio,'            E, em ljltimo lugar, fazer em tudo enume-
a falar, ssm discernimento, das que se igno-         ra@es tdo completas, e resenhas tdo gerais,
 ram, e ndo para aprend&-las. E embora ela           que estivesse seguro de nada omitir.
contenha, com efeito, muitos preceitos
verissimos e otimos, h6 todavia tantos outros,
 misturados com aqueles, qua sdo nocivos ou         3. A nova matrmatica, modrlo do saber
 sup6rfluos, que 6 quase tdo dificil separ6-los
 quanto extrair uma Diana ou urna Minerva para             Rs longas cadeias de rozbes, todas sim-
 fora de um bloco de marmore que ainda ndo          ples e fdceis, das quais os ge6metras costu-
 foi esbo~ado.   Depois, quanto a an6lise dos       mom se ssrvir para chegar a suas mais dificeis
 antigos e a Cllgebra dos modernos, al6m do         demonstra@es, deram-me ocasido de imagi-
 fato que elas se reFsrem apenas a mothrias         nor que todas as coisas, qua podem cair sob
 abstratissimas, e que parecem de nenhum uso,       o conhecimento dos homens, se sucedam en-
 a primeira @st6sempre tdo ligada b conside-        tre si no mesmo modo, e qua, embora apenas
 ra@o das figuras, que ndo pods exercitar o         nos abstenhamos de acolher alguma delas
 intelecto sem cansar muito a imagina<do: e o       como verdadeira e ndo o seja, e qua se ob-
 individuo fica de tal forma submetido, na irlti-   serve sempre a ordem nscessdria para dedu-
 ma, a certas regras e a certas cifras, que dela    zi-las umas das outras, ndo podem existir coi-
 se F z urna arte confusa e obscura que embo-
      e                                             sas tdo distantes as quais ndo se possa
 r q a a mente, em vez de uma ci&ncla que a         chegar, nem tdo escondidas que ndo se pos-
 cultive.                                           sam descobrir.
                                                           E ndo pensei muito par0 buscar de onde
                                                    prscisava comecar: com efaito, eu j6 sabia que
2. As rrgras do novo mOtodo
      Este foi o motivo pelo qua1 pensei que era        -



precis0 buscar algum outro m6todo que, reu-             'Ou sejo, quando estnvo no coldg~o La FlBche
                                                                                            de
                                                        2 ~ a ~ m u n d o (Ramon Lhull) (1 932-131 6) mange
                                                                      16110
nindo as vantagens daqueles tr&s, estivesse         franc~scano, autor de urn0 cdlebre Rrs magna que "dev~a
issnto de saus defsitos. E como o sxcessivo         perrn~t~rprovar a verdade do cr~st~ontsrno os lnhhs e
                                                                                             para
nljmero das leis fornece freqijentemente dss-       convertb-10s'
Terceira parte - B a r o ~ Descartes
                                 e



devia partir das mais simples e das mais fdceisdeles que outra vez julgara dificilimos, mas
de conhecer; e considerando que entre todos    pareceu-metamb&m, no fim, que podia deter-
aqusles que j6 buscaram a verdade nos cihn-    minor, naqueles mesmos qua eu ignorava, com
cias, ndo houve outros al&m dos matem6ticos    quais meios, e at& onde. fosse possivel resol-
que puderam encontrar demonstra~des, 6,    istov&-10s. Motivo pelo qua1 ndo vos parecerel
razdes certas e evidentes, eu ndo duvidava ab- talvez muito vaidoso se considerardes que, ndo
soluramente que devesse comqar por aque-       havendo mais que uma verdade de toda coi-
las mesmas verdades que eles examlnaram,       sa, quem a encontra sobe tanto dela quanto 6
embora ndo esperasse nenhuma outra utilida-    possivel dela saber; e que, por exemplo, um
de, a ndo ser que elas habituariam minha men-  rapaz instruido no aritm&tica, tendo feito uma
te a apascentar-se de verdade, e a ndo con-    soma conforme as regras dela, pode estar
tentar-se com razdes falsas.                   seguro de ter encontrado, em rela@o b soma
      Todavia, nem por isso decidi procurar    que procurava, tudo aquilo qua o espirito hu-
aprender todas as ci&ncias particular+, que se mono poderia encontrar. Por fim, porque o
chamam comumente matem6ticas; e vendo          mhtodo que enslna a seguir a verdadeira or-
qua, embora seus objetos fossem diferentes,    dem, e a enumerar exatamente todas as cir-
elas ndo deixam de concordor todas num pon-    cunst6ncias daquilo que se procura, cont6m
to, o de n6o considerar outra coisa al6m das   tudo aquilo qua d6 certeza bs regras do arit-
diversas rela<desou das propor~des se en-
                                       que     mbtica. Mas aquilo que me satisfazia mais em
contram, pensei que fosse melhor examinar      tal m&todo era que, por meio dale, eu estava
apenas estas propor@es em geral, e sem su-     seguro de servir-me em tudo da minha razdo,
                                               se ndo perfeitamente,ao menos o melhor qua
p6-las em outro lugar fora dos sujeitos que ser-
viriam para tornar seu conhacimento mais f6cil;estivesse em meu poder; al6m de que sentia,
ou melhor, sem for~6-las nenhum modo, para
                          de                   ao empreg6-lo, que minha mente se habitua-
depois pod&-lasaplicar melhor a todos os ou-   va pouco a pouco a conceber mais clara e dis-
tros aos quais conviessem.                     tintamente seus objetos, e que, ndo tendo-o
      Depois, tendo percebido que, para co-    absolutamente submetido a nenhuma ma-
nhec&-las, teria necessidade alguma vez de     t&ria particular, eu me comprometia a apl1c6-
considera-lascoda uma em particular, e algu-    lo tambBm utilmente bs dif~culdades       das ou-
ma vez apanas record6-las ou compreender       tras ci&ncias, como tinha feito com as do
diversas delas ao mesmo tempo, pensei que,     6lgebra.
para considerd-las melhor em particular, de-          N6o qua, por isso, ousasse empreender
veria sup6-las na forma de linhas, porque eu   sem mais o exame de todas as qua se apre-
n60 encontrava nada mais simples, nem que      sentassem; isto de fato teria sido contr6rio 2.1
pudesse mais distintamente representar ci mi-   ordem que tal mdtodo prescreva. Mas, tendo
 nha imagina(do e a meus sentidos: mas qua,     notado que seus principios deviam ser todos
 para reth-las, e para compreender diversas     atinentes b filosofia, na quo ainda ndo se en-
delas ao mesmo tempo, ero precis0 que as        contram principios certos, pensei que fosse ne-
expressasse mediante cifras, as mais breves     cessdrio, antes de tudo, que eu procurasse
 possiveis; e que, com este meio, teria tornado estabelec&-10s;e que, sendo esta a coisa mais
 todo o melhor da an6lise geom6trica e da 61-   importante do mundo, e onde a precipita@o e
 gebra, e teria corrigido os defeitos de uma pora preven~do   eram o que mais se devia temer,
 meio do outra.                                 eu de fato n6o devia empreender at6 o fim.
                                                antes de ter chegado a uma idade bastante
4. A aplicngtio do mOtodo a filosofia           mais madura do que a de vinte e tr&s anos,
                                                que era entdo minha idade; e antes de ter em-
      E, com efeito, ouso afirmar que a obser- pregado muito tempo para preparar-mea isso,
vdncia exata daqueles poucos preceitos que tanto desenra~zando meu espirito todas as
                                                                       de
eu ascolhera deu-me tal facilidade de resol- m6s opinidas que acolhera antes daquele tem-
ver todos os problemas aos quais se esten- po, como reunindo muitas experi&ncias que
dem aquelas duos cihncias, que nos dois ou constituissem depois a matbrio de meus racio-
tr&s meses que empreguei para examin6-10s. cinios, e tamb&m me exercitando sempre no
tando comeqdo pelos mais simples e gerals, m&todo que eu me h w ~ a         prescrito, para nele
e coda verdade qua encontrava sendo uma sempre mais me reforpr.
regra que me servia depois para encontrar                                            R . Descortss,
outras, ndo somante cheguei ao fim de muitos                             D~scurso o h @o matodo.
                                                                                s
Capitdo de'cimo quinto -      Descartes:   "o +dador     da filosofia moderna"


                                                       notando que esta verdade: supsnso, logo sxis-
                                                       to, ero tdo f~rme tdo segura que todas as mais
                                                                       e
                                                       extravagantes suposisdes dos c&ticosndo Gram
                                                       capazes de abala-la,julguei que podia aceit6-
       Dspois ds sstabelecidos as rsgras               la sem escrljpulo como o principio da filosofia
 '~rov~sorias" novo mhtodo, Descartss as
              do                                       que eu procurava.
 pde imsdiotamsnts 2, prova, aplicando-as
 a todas as convic@es s pini id^^, tanto co-
 muns como cianti'ficos. E o primsiro rssulta-         2. A alma a o corpo
 do indubittrval dsssa aplica@o sertr o co-                Depois, examinando com atensdo aquilo
 gito, ergo sum, o princ@iofundamsntol do          que eu era, e vendo que podia fingir que ndo
 cartssionismo.                                    possuia nenhum corpo, e que ndo existia ne-
                                                   nhum mundo nem nenhum lugar em que eu exis-
                                                   tisse; mas que nem por isso podia fingir ndo
                                                   existir; e que, ao contrcirio, do proprio fato de
1 . 0 engano dos sentidos                          que eu pensava em duvidar do verdade das
    e o "eu psnso, logo existo"                    outras coisas, seguia-se,evidentissimamentee
       Ndo sei se devo ocupar-vos com as pri- certissimamente, que eu existia; quando, se ti-
meiras medita<desque vos' Rz; porque 5.60 tdo vesse apenas deixado de pensar, ainda que
metafisicasee tdo pouco comuns, qua talvez ndo todo o resto daquilo que tinha imaginado ti-
sejam do gosto de to do^.^ Todavia, para que vessa sido verdadeiro, eu ndo teria tido nenhu-
se possa julgar se os fundamentos que tomei ma razdo de crer que eu existia: a partir disso
sdo bastante Rrmes, acho-me, de algum modo, percebi que eu era uma substdncia da qua1 toda
constrangido a falar disso.                        a ess&ncia ou natureza ndo & mais que pensar
       H6 longo tempo notara que, pelos cos- e qua, para ser, n60 tem necessidade ds ns-
tumes, & alguma vez necess6rio seguir opini- nhum lugar e ndo depende de nsnhumacoisa                          "
des, que sabemos ser muito incertas, como se material. De mod0 que este eu, ou seja, a alrna,
fossem indubit6veis, segundo j6 falei ~ c i m a ; ~pala qua1 eu sou o que sou, & inteiramenta dis-
mas, uma vez que entdo eu desejava dedicar- tinta do corpo e, mais ainda, & mais facil de
me unicamente 6 pesquisa da verdade, pen- conhecer do que ale, e, mesmo que ele ndo
sei que era preciso fazer tudo o contrario e existisse, ela ndo deixaria de ser tudo aquilo
que rejeitasse como absolutamente falso tudo que 6.
aquilo em que pudesse imaginar a minima
dhvida, com o escopo de ver se depois disso 3 . 0 crithrio da verdade e da certeza
me restaria alguma coisa que fosse inteiramen-
te indubitavel.                                            Depois disso considerei em geral o que &
       Assim, corno nossos sentidos alguma vez     necess6rio para que uma proposi@o seja ver-
nos enganam, quis supor que ndo houvesse dadsiro e carta; porque, do momsnto qus ho-
nsnhuma coisa que fosse tal como no-la fa- via encontrado uma que sabia ser tal, pensei
zem imaginar. € uma vez qua h6 homens que que deveria igualmente saber em que consists
se enganam raciocinando, tamb&m a respei- tal certeza.
 to das mais simples matbrias de geometria,                E tendo notado que nada existe neste su
e Fazem para lo gismo^,^ julgando que eu es- penso, logo sxisto, que me assegure que digo
tava sujeito a falir como qualquer outro, re- a verdads, a ndo ser que vsjo clarissimomenta
jeitei como falsas todas as razdes qua, an- que, para pensar, & preciso ser, julguei poder
tes, havia tomado como demonstra@es. €,            tomar como regra geral que as coisas que con-
 finalmente, considerando que todos os mes- cebemos bem claramente e bem distintamente
 mos pensamentos, que temos quando desper- sdo todas verdadeiras, mas que apenas h6 al-
 tos, podem vir a nos tambhm quando dormi- guma dificuldade em bem discernir quais sejam
 mos, sem que haja entdo nenhum que seja as qua concel.xmos distintamente.
verdadeiro, resolvi fingir que todas as coisas
que jamais haviam entrado em minha mente ndo
 fossem mais verdadeiras do que as ilusdes de           'Entre outubro de 1628 a julho de 1629. quando esta-
 meus sonhos.                                      vo no Holanda.
       Todavia, logo depois, percebi que, en-          'Ou sap, abstratos.
                                                       'Isto 6: tSIo difarentes doqu~lo cornurnante se pnsa.
                                                                                      qua
quanto desse modo eu queria pensar qua tudo            4Quandose deteve a expor a moral pravisor~a.
 fosse falso, era preciso necessariamente que          5Paralog~srno: grqo: para a logos: contra a rozbo)
                                                                         (do
eu, qua pensava isso, fosse alguma coisa. €,       raciocin~o errado que a prirne~ra vlsta parece certo.
Terceira parte - B a c o ~ Descartes
                                 e




                                                           Rqui Descortes se move ern urn plono
                                                     bern diferente do "outobiogrdfico"do Discur-
      E segulda, refletindosobre o fato de que
       m                                             so, ao passo qua o dialQtico sntre clcjviclo
eu duvidavo e que, por conseguinte, meu ser          rodical s certezo obsoluta 6 posto sobre urn
ndo sra todo perfeito, porque via claramente         nivel verdodeiramsnte universal.
qua sra perFei<domaior conhecer do que duvi-               Nos pdginos saguintes propornos quo-
dar, propus-me a buscar onde tivesse aprendi-        sa integrolrnente o terceiro meditogtio, sm
do a pensar em alguma coisa de mais perfeito         que Descortes, a partir do absoluto certezo
qua ndo fosse eu, e percebi com evid&ncia que        do id&o do eu, demonstro a exist&ncio de
devia ser de alguma natureza que no realida-         Dsus como Ser perfeito s infinito.
de fosse mais perfeita.
      No que se refere aos pensamentos que
eu tinha de muitas outras coisas fora de mim,
como do cCu, do terra, do luz, do calor e de mil    1. A regra geral:
outras, ndo era muito dificil saber de onde vi-        6 verdadeiro apenas aquilo
essem, pelo fato de que, ndo vendo nelas nada          que i concebido muito clararnente
que me parecesse torn6-las superiores a mim.           e distintamento
eu podia crer que, se eram verdadeiras, eram
                                                           Rgora fecharei os olhos, taparei os ouvi-
depend6ncias de minha natureza, enquanto ela
                                                    dos, distrairei todos os meus sentidos, cance-
possuia alguma parfei<do;e que se ndo o eram,
                                                    larei tamb8m de meu pensamento todas as ima-
eu as repetia a partir do nada, ou seja, elas
                                                    gens das coisas corporeas, ou ao menos, uma
estavam em mim por aquele tanto que eu era
                                                    vez que ~sso  pods dificilmente ser feito, as con-
imperfeito.
                                                    siderarei vBs e falsas; e assim, entretendo ape-
      Todavia, ndo podia ser o mesmo a res-
                                                    nas a mim mesmo e considerando meu interior,
peito da idbig de um ser mais perfeito do que
                                                    procurarei tornar-me pouco a pouco mais co-
o meu; porque, que viesse do nada, era coisa
                                                    nhecido e mais familiar a mim mesmo. Sou urna
manifestamsnte impossivel. E uma vez que n6o
                                                    coisa que pensa, isto 8, que duvida, que afir-
h6 menos repugndncia entre que o mais parfei-
                                                    ma, que nega, que conhece poucas coisas, que
to seja uma conseqij&ncia e uma depend&ncia
                                                    ignora muitas debs, que ama, que odeia, que
do menos perfeito, e que do nada proceda al-
                                                    quer, que ndo quer, que tamb8m imagina, e
guma coisa, eu ndo podia sequar t&-la recebi-
                                                    qua sente. Uma vez que, como notei antes, em-
do de mim mesmo: de modo que restava que
                                                    bora as coisas que sinto e imagino ndo sejam
ela tivesse sido posto em mim por urna nature-
                                                    talvez nada al8m de mim e em si mesmas, eu
za que fosse verdadeiramente mais perfeita da-
                                                    todavia estou seguro de que os modos de pen-
quilo que eu n6o fosse e que oli6s tivesss em
                                                    sar, que chamo de sensa~des imagina<6es,
                                                                                      e
si todas as perfei@es das quais eu podia ter
                                                    pel0 Onico fato de qua sdo modos de pensar
alguma idbia, ou seja, para explicar-meem uma
                                                    residem e se encontram certamente em mim. E
palavra, que fosse Deus.
                                                    naquele pouco que eu disse, creio tar reporta-
                                    R. Descartes,   do tudo aquilo que verdadeiramente sei ou, ao
                        Discurso sobre o m6todo.
                                                    menos, tudo aquilo que at8 aqui notei saber.
                                                           Agora considerarei mais exatamente se,
                                                    talvez, ndo se encontrem em mim outros conhe-
                                                    cimentos, que eu n6o tenha ainda percebido.
                                                    Estou certo de ser uma coisa que pensa; mas
      A "terceira medita@iorr                       sei eu talvez tamb8m aquilo qua se requer para
      em torno de Deus                              tornar-me certo de alguma coisa? Neste primei-
                                                    ro conhec~mento se encontra nada mais que
                                                                      ndo
      e de sua exist6ncio                           uma clara e distinta percep@o do fato de que
                                                    eu conhqo; percep~do       que, para dizer a ver-
      Pouco depois do publicagGo do Discur-         dade, nBo seria suficiente para assegurar-me
 so sobre o m8tod0, Descartes comsgou a             de que ela 8 verdadeira caso pudesse ocorrer
 escrever sua metofkico de Formo mais om-           que se achasse que uma coisa 8 falsa, que eu
 plo: em 1640 os Meditationes de prima              concebesse tdo claramente e distintamente.
 philosophia em lotim forom completodas, a           Portanto, parece-meque j6 possa estabelecer
 em 164 1 forom publicadas com sais grupos          como regra geral, que todas as CO~SOS    que con-
 de objeg6es e respostos.                           cebemos muito claramente e muito distintamen-
                                                     te sdo verdadeiras.
Capi'tulo de'cimo quinto -   Descartes:   "o fumdador d a filosofia moderna"   -

      Contudo, aceitei e admiti anteriormente      tafisica. Mas, para poder elimina-la inteiramen-
como realmente certas e manifestos diversas        te, devo examinar se existe um Deus, logo que
coisas que, todavia, reconheci depois que eram     se apresentar a ocasido; e se acho que exists
dljbias e incertas. Quais eram, portanto, essas    um, devo tambbm examinar se els pode ser
coisas? Cram a terra, o cbu, os astros e todas     enganador, uma vez qua, sem o conhecimento
as outras coisas que eu percebia por meio de       dessas duos verdadss. ndo vejo como eu pos-
meus sentidos. Ora, o que eu concebia clara-       sa jamais estar certo de alguma coisa. E, a fim
mente e distintamente nelas? Nada mais que         de que possa tar ocasido de examinar isso, sern
isto: que as idbias ou os pensamentos dessas       interromper a ordem de meditar que me pro-
coisas se apr8sentavam ao meu espirito. E tam-     pus, que Q a ds passar por graus das no@es
bbm agora ndo nego que tais idbias se encon-       que encontrei em primeiro lugar em meu espiri-
trem em mim. Mas outra coisa ainda eu afirma-      to, para aquelas que podarei encontrar em se-
va, que, por causa do h6bito que tinha de nela     guida, 6 preciso aqui que eu divida todos os
crer, eu pensava perceber muito claramente,        meus pensamentos em certos gbneros, e que
embora, na verdade, de fato ndo a percebes-        considere em quais dessas gbneros se sncon-
se, lsto 6, que ex~stiam coisas fora de mim, de    tre propriamente verdade ou erro.
onde procediam tais idbias, e 6s quais elas
eram em tudo semelhantes. E era nisso que eu
me enganava; ou, se tambbm julgava segundo
                                                   2. As tr& espbcies dr idbias:
a verdade, nenhum conhecimento era causa do           inatas, adventicias, Facticias
verdade de meu julgamento.                                Entre meus pensamentos, alguns sdo co-
      Todavia, quando eu considerava alguma        mo as imagens das coisas, e a elas apenas
coisa como bastante simples e f6cil a respaito     convbm propriamente o nome de id&ia: como
da aritmbtica e da geometria, por exemplo, que     quando me represento um homem, ou uma qui-
dois e trgs, somados, produzem o nljmero cinco,    mera, ou o cbu, ou um anjo, ou o proprio Deus.
e outras coisas semelhantes, ndo as conceb~a       Outros t&m tambbm outras formas: assim, quan-
eu ao menos bastante claramente para afirmar       do quero, temo, afirmo ou nego, concebo 0190
que eram verdadeiras? De fato, se depois jul-      como objeto do ato de meu pensamento, mas
guei que se podia duvidar destas coisas, ndo       acrescento tambbm outro, por meio desta asdo,
foi por outra razdo, sendo porque me vinha em      d idbia daquela coisa; e deste g&nero de pen-
mente que, talvez, algum Deus tinha podido dar-    samentos, uns sdo chamados vontade ou afei-
me uma natureza tal que me enganasse tam-          ~ d e se os outros, julgamentos.
                                                           ,
bbm sobre as coisas que me parecem as mais                Ora, quanto ao que concerne 6s idbias,
manifestas. Mas, todas as vezes que esta opi-      se n6s as consideramos apenas em si mesmas,
nido, acima concebida, da soberana pot&nc~a  de    sem report6-lasa outra coisa, elas ndo podem,
um Deus, se apresenta ao meu pensamento,sou        falando propriamente, ser falsas; uma vez que,
forqxJoa confessor que Ihe 6 fbc~l, o desejar,
                                    se             mesmo que imaginando uma cobra ou urna qui-
fazer a seu capricho com que eu me engane tam-     mera, imagino uma ndo menos que a outra.
bbm sobra coisas que crelo conhecer com                   Igualmente, n6o 6 preciso temer falsida-
grandissima evid&ncia.E, ao contrbrio, todas as    de nas afeisbes ou vontade; porque embora
vezes que me volto para as coisas que penso        eu possa desejar coisas m6s, ou tambbm coi-
conceber multo claramente, estou de tal forma      sas que jamais existiram, todavia nem por isso
persuadido delas que por mim mesmo me deixo        6 menos verdade que eu as desejo.
arrastar a estas palavras: "Engane-me quem                Restam assim apenas os julgamentos, nos
puder: jamais poder6 fazer que eu ndo seja         quais devo atentar acuradamente para ndo me
nada, enquanto eu pensar ser alguma coisa; ou      enganar. Ora, o erro principal e mclis ordinbrio
que um dia seja verdadeiro que eu jamais tenha     que se possa encontrar consiste nisso, que eu
existido, sendo verdadeiro agora de que existo;    julgo que as idbias, que est6o em mim, sejam
ou ant60 que do~s tr&s, somados, d&em mais
                    e                              semelhantes ou conformes a coisas que estdo
ou menos do que cinco, ou coisas semelhantes,       fora de mim; uma vez que certamente, se consi-
que vejo claramente ndo poder ser de outro         derasse as idbias somente como modos ou
 modo de como as concebo".                          maneiras de meu pensamento, sem quer&-las
       De fato, uma vez que ndo tenho nenhuma       reportar a outra coisa, bem dificilmente pode-
 razdo de crer que exista um Deus enganador,        riam dar-me ocas~do errar.
                                                                          de
 ou melhor, urna vez que ainda ndo considerei             Ora, destas idbias, algumas me parecem
 as razdes que provam existir um Deus, a razdo      nascidas comigo [innotos],outras estranhas e
 de duv~dar depende apenas desta opinido
             que                                   vindas de fora [odvsntitios],outras ainda fei-
 b muito inconsistents e, por assim dizer, me-      tas e inventadas por mlm mesmo [Foctitios].Com
j2     Terceira parte - Bacon e Descartes


efeito, a faculdade de conceber uma coisa, uma       virtudes e os vicios, que elas me Ievaram ndo
verdade, ou um pensamento, parece ndo provir         menos ao ma1 do que ao bem; e eis por que
de outra coisa do que de minha natureza; mas         ndo tenho razdo de segui-las nem mesmo na-
se ouso agora algum rumor, se vejo o sol, se         qu~lo que se refere ao verdadeiro e ao falso.
sinto calor, at6 agora julguei que estas sensa-            E quanto b outra razdo, isto 6, que estas
(;des proviessem de coisas existentes fora de        idbias devem vir de outro lugar, uma vez qua
mim; a, por rim, parece-me que as sereias, os        n60 dependem de minha vontade, nem mesmo
hipogrifos a todas as outras quimeras semelhan-      esta julgo convincente. Porque, como as incli-
tes sejam fiqdes e inven@es de meu espirito.         na~des, que falava justamente agora, se
                                                              de
Mas igualmente, talvez, poderia persuadir-mede       encontram em mim, embora ndo concordem
que todas estas idbias sejam do g$nero das que       sempre com minha vontade, assim pode ser que
chamo de estranhas, e que v6m de fora, ou en-        em rnim haja alguma faculdade ou pot&nc~a,
tdo que tenham todas nascido comigo, ou ainda        adsquado a produzir estas idbias sem o auxi-
que tanham sido todas feitas por mim, uma vez        lio de coisas exteriores, mesmo que ela ainda
que ainda ndo descobri claramente sua verda-         ndo me seja conhecida; como, com efeito, sem-
deira origem. E o que tenho principalmente a         pre me pareceu at6 agora que, quando eu dur-
facer neste lugar 6 consideror,em rela~do id&
                                        as           mo, elas se formem em mim, sem o auxilio dos
as que me parecem vir de objetos postos fora         objetos que representam. E, finalmente, mes-
de mim, quais sdo as razdes que me obrigam a         mo que concordasse que elas sdo produzidas
cr&-lassemelhantes a estes objetos.                  por estes objetos, n60 6 uma consequ6ncia
                                                     necessdria que etas devam ser semelhantes a
                                                     eles. Ro contrdrio, frequentemente notei, em
3. Exame das idbias que parecem adventicias
                                                     muitos exemplos, que havia grande diferen~a
       R primeira dessas razdes 6 que parece-        entre o objeto e sua id6ia. Como, por exemplo,
me que isso me seja ensinado pela natureza; e        encontro em meu espirito duos idbias do sol de
a segunda, que experimento em rnim mesmo,            fato d~versas: uma tem sua origem a partir dos
que estas idbias ndo dependem de minha von-          sentidos, e deve ser posta no g&nero daque-
tade; porque frequentemente elas se apresen-         las que acima eu disse virem de fora (e em tal
tam a rnim malgrado eu mesmo, como agora,            id6ia o sol me parece extremamente peque-
quer eu queira ou ndo, sinto calor, e por esta       no); a outra 6 tomada das razdes do astrono-
razdo me conven5o de que esta sensa@o, ou            mia, ou seja, de certas no~des   que nasceram
entdo esta id6ia do calor, 6 produzida em mlm        comigo, ou, por fim, 6 formada por rnim mesmo,
por urna coisa deferente de mim, lsto 6, pelo        de qualquer modo que isso possa ser: e por
calor do fog0 junto ao qua1 me encontro. E ndo       esta id6ia ele me parece diversas vezes maior
vejo nada que me parqa mais razodvel que o           do que toda a terra. De fato, estas duos id6las
julgar que esta coisa estranha envia e lmprime       que concebo do sol ndo podem ser ambas se-
em mim, mais que outra coisa, uma imagem             melhantes ao mesmo sol; e a razdo me mostra
semelhante a si.                                     que a que pareca derivar imediatamente dele
       Ora, 6 necessdrio que eu veja se estas        6 a que Ihe 6 mais dessemelhante.
razdes sdo bastante fortes e convincentas.                 Tudo isso me faz conhecer com sufici6ncia
Quando digo que me parece que isso me seja           que at6 agora, nZlo por u juizo certo e preme-
                                                                               m
ensinado pela natureza, entendo apenas, com          ditado, mas apenas por cego e temerdrio im-
esta palavra natureza, certa inclina@50que me        pulse, acreditei hover coisas fora de mim e di-
 leva a crer esta coisa, e ndo urna luz natural      ferentes de meu ser, que, para os orgdos de
que me f a ~ a conhecer que ela 6 verdadeira.        meus sentidos, ou por qualquer outro meio,
Ora, estas duos coisas diferem muito entre si.       enviavam em mim suas idbias ou imagens, e ai
 porque eu ndo saberia p6r em duvida nada            imprimiam suas semelhanqs
daquilo que a luz natural me faz ver que 6 ver-
dadeiro, assim como eta me fez ver que, pelo
 fato de eu duvidar, podia concluir que existia. E   4. Aquilo que 6 mais perfeito
eu ndo tenho em mim nenhuma outra faculda-              n60 pode ser consequ8ncia
de ou pothcia, para distinguir o verdadeiro do          do menos perfdto
falso, que me possa snslnar que aquilo que                Contudo, apresenta-se ainda outro cami-
esta luz me mostra comoverdadeiro ndo 6 tal, e       nho para pesquisar se, entre as coisas cujas
da qua1 possa me fiar tanto como desta. Mas,         idhias tenho em mim, haja algumas que exis-
por aquilo que se refere B inclina@as, que me p-
                          s                          tam fora de mim. lsto 6 , se estas idhias sdo
recem ser naturais tamb6m etas, frequentemente       consideradas apenas enquanto sdo certas ma-
notei, quando se tratou de escolher entre as         neiras de pensar, eu ndo reconhe~o  entre elas
Capitulo de'cimo quinto -      Descavtes:   "o fundador d a filosofia moderna"


nenhuma diferen~a desigualdade, e todas
                          ou                        Mas, enfim, o que concluirei de tudo isso? 0
parecem proceder de mim de um mesmo modo;           seguinte: que, se a realidade objetiva de algu-
mas, considerando-ascomo imagens, das quais         ma de minhas idhias & tal que eu conhesa cla-
umas representam urna coisa e as outras uma         ramente que ela nbo @st6em mim, nem for-
outra, & ev~dente       que elas sdo diferentissimasmalmente, nem eminentemente, s qua, por
umas das outras. Porque, com efeito, as qua me      consaqu&ncia, eu memo ndo posso ser sua
representam substdncias sdo sem duv~da           algu-
                                                    causa, dlsso segue necessariamente que eu
ma coisa a mais, e cont&m em si (por asslm          ndo estou sozinho no mundo, mas que ha ain-
dizer) maior realidade objetiva, isto 6, partici-   da alguma outra coisa que existe, e que & a
 pam por representa<dode um nljmero maior de        causa desta idQia; enquonto que, ss em mim
graus de ser ou de perfei~do, que aquelas
                                     do             tal idBia n60 se encontra, nbo tere~  argumen-
que me representam apenas modos ou aciden-          tos que possam me convencer e tornar certo da
 tes. RI&m disso, aquala pela qua1 eu concsbo       existgncia de alguma outra coisa albm ds rnim
 um Deus soberano, eterno, infinito, imut6vel.      mesmo; porque procurei acuradamente todos
onlsciente, onipotente e criador universal de       eles, e at6 agora ndo pude encontrar nenhum
 todas as coisas que estdo fora de si, tal id&ia,   outro deles.
digo. tem certamente em si mais realidade ob-             Ora, entre estas idbias, al6m da que me
jetiva do qua aquelas de que me sdo repre-          represento a mim mesmo, da qua1 nbo pode
sentadas as subst8ncias flnitas.                    exist~rnenhuma dljvida, h6 outra, que me repre-
                                                    senta um Deus; outras, coisas corporeas e ina-
           Ora, & coisa manifesta por luz natural que
deve hover palo menos tanto de rmlidade no          nimadas; outras, anjos; outras, an~mais; ou-
                                                                                               e
causa ef~c~ente                                     tras, enfim, que me representam homans
                    e total, quanto em seu efeito: por-
qua, de onde o efeito pode tirar sua realidade,     semelhantss a mirn. Mas para aquilo que se
 sendo da propria causa? E como esta causa pode-    refere bs idhias que me representam outros
 ria comunica-la, se ndo a tivesse em si mesma?     homens, ou animais, ou anjos, eu concebo fa-
           E disso segue ndo somente que o nada     cilmente que elas podem ser formadas pela
 ndo poderia produzir nenhuma coisa, mas tam-       mistura e composi@o das outras idbias, que
 bbm qua aquilo que 6 mais perfeito, isto 6, que    tenho das coisas corporeas e de Deus, embora
 conthm em si maior realidade, ndo pode ser         fora da mim ndo existam outros homsns no
 consequ$ncia e depend&ncia do menos perfei-        mundo, nem animais, nem anjos. E por aquilo
 to. E esta verdade ndo & somente clara e evi-      que se refere 6s idhias das coisas corpbreas,
 dente nos efeitos, que t&m aquela realidade        ndo reconhqo nelas nada de tdo grande, nem
 que os filosofos chamam atual ou formal, mas       de tdo excelente, que n8o me parep poder vir
 tamb&m nos idbias, onde se considera somen-        de mim mesmo; porque, se as consider0 mais
 te a realidade que ales chamam de objetiva         de perto, e as examino do mesmo modo com
 [. . .]. E, embora possa ocorrer que uma id6ia d&  que examinei ontem a idhia da csra, descubro
 nascimento a outra idbia, isso ndo pode, toda-     que ai ndo se encontram sendo pouquissimas
 vla, ir at& o infinito, mas & precis0 no fim chegarcoisas, que eu conceba claramente e distinta-
 a uma primeira id&ia, da qua1 a causa seja como    mente; isto &, a grandeza, ou seja, a extansdo
 um modelo ou um original, no qua1 esteja conti-    em comprimento, largura e profundidade; a fi-
 do formalmente e de fato toda a realidade ou       gura, que 6 formada pelos termos s pelos limi-
 perfei~do, se sncontra apenas objetivamen-
                que                                 tes dessa extensbo; a situa@o, que os corpos
 te ou por representa@onestas idbias. De modo       diversamente flgurados conservam entre si; e o
 que a luz natural me faz conhecer evidentemente    movimento ou a mudanp dessa situa<do; bs
 que as idbias sdo em mirn como quadros, ou         quais se podem acrescentar a substdncia, a
 imagens, que podem, na verdade, facilmente         dura@o e o n6mero. [...I
 decair do perfei@o das coisas de onde foram              Quanto 6s idhias claras e distintas que
 t~radas,     mas que n60 podem conterjamais nada   tenho das coisas corporeas, h6 algumas qus
 de maior ou de mais perfeito.                      parece que eu tenha podido tirar da id&ia de
                                                    mlm mesmo, como a id6ia da substdncia, do
                                                    duraq50, do nljmero, e de outras coisas seme-
5. I3 realidade objetiva de algumas idiias
                                                     Ihantes. [...]
   pode ser garantida
                                                          Por aquilo que se refers bs outras quali-
   apenas por uma causa diferente
                                                    dades, das quais s6o compostas as idbias das
   do sujeito pensante
                                                    coisas corporeas, isto &, a extensdo, a figura, a
       E quanto mais longa e acuradamente exa- sltua<do e o movimento local, & verdade que
mino todas essas coisas, tanto mais clara e d ~ s - elas ndo estdo formalmente em mim, urna vez
tintamente conhqo que elas sdo verdadeiras. que su sou apenas urna coisa que psnsa; mas,
Terceira parte - Bacon e Descartes

uma vez que sdo somente modos da substdn-            quer outra, ndo ha nenhuma qua por si seja
cia, e como que as vestes sob as quais a subs-       mais verdade~ra,      nern que possa ser menos
tdncia corporea nos aparece, e eu mesmo sou          suspeita de erro e de falsidade.
urna subst6ncia, parece que possam estar con-              R id&ia, digo, deste ser soberanamente
tidas am mim de modo eminente.                       perfeito e infinito & inteiramenteverdadeira; uma
                                                     vez que, embora, talvez, se possa fingir que tal
                                                     ser ndo exista, ndo se pode fingir, todavia, que
6. Deus, enquanto substencia infinita, exists,
                                                     sua idbia ndo me represente nada de real, como
   e a id6ia de Deus como Ser perkito
                                                     j6 disse a respeito da id&~a frio.
                                                                                      do
   6 inteiramente verdadrira
                                                           Esta mesma id&ia & tambhm surnamente
      Resta, portanto, apenas a id&ia de Deus,       clara e distinta, uma vez que tudo aquilo que
na qua1 & preciso considerar se haja 0190 que        meu espirito concebe claramente e distintamen-
ndo tenha podido vir de mim mesmo. Com o             te de real e de verdadeiro, e que contbm em si
nome de Deus entendo uma substdncia infini-          alguma perfei~do,      @st6 contido e encerrado in-
to, eterna, imut6ve1, independente, onisciente,      teiramente nesta idQia.
onipotente, e da qua1 eu masmo, e todas as                 E isto ndo deixa de ser verdadeiro, em-
outras coisas que existem (se & verdade que          bora eu ndo compreenda o infinito, e ainda que
haja de existentes), fomos criados e produzi-        se encontre em Deus uma infinidads de coisas
dos. Ora, estas prerrogativas sdo tdo grandes        que ndo posso compreender, e talvez nern mes-
e tdo eminentes, que quanto mais atentamen-          mo atingir de algum mod0 com o pensamento:
te as considero, menos me persuado de que a          porque & do natureza do ~nfinito minha na-
                                                                                          que
id&ia que disso tenho possa tirar sua origem         tureza, qua& finita e limitada, ndo o possa com-
apenas de mim. E, por consequhncia, & preciso        preender; e basta que eu compreenda isto, e
necessariamente concluir, de tudo aquilo que         que julgue que todas as coisas que concebo
eu disse antes, qua Deus existe; uma vez qua,        claramente, e nos quais sei que h6 alguma per-
embora a id& da substdncia esteja em mim             fei<do, e talvez tamb&m uma infinidade de ou-
pelo proprio fato de que sou uma substdncia,         tras que ignoro, existem em Deus formalmente
eu nZlo teria, todavia, a id&ia de uma substdn-      ou eminentemente, para que a idhia que dele
cia infinita, eu que sou um ser finito, se ela ndo   tenho seja a mais verdadeira, a mais clara e a
tivesse sido posta em mim por alguma subs-           mais distinta de todas aquelas que existem em
tdncia verdadeiramente infinita.                     meu espirito.
      Nem devo supor conceber o infinito, ndo              Mas & possivel tamb6m que eu seja algu-
por meio da urna verdadeira id&ia, mas ape-          ma coisa a mais que ndo imagino, e qua todas as
nas por meio da nsga~do     daquilo que & finito,    perfei@es que atribuo d natureza de um Deus
assim como compreendo o repouso e as trevas          estejam de algum modo em mim em potancia,
por meio da nega~do movimento e da luz:
                         do                          embora ndo se produzam ainda, e ndo se tor-
uma vez qua, ao contrario, vejo manifestamen-        nern manifestas por meio de suas agies. [...]
te que se encontra mais realidads na substdn-
cia infinita do que na substdncia finita, e por-
tanto que, de certo modo, tenho em mim               7. As consequ6ncias absurdas
primeiro a no@o do infinito do que do finito,
                                                        que derivam da hipotese
isto 6 , primeiro a noc;do de Deus do que a no-
                                                        de que Deus n60 exista
<do de mim mesmo. Porque, como poderia co-                 Cis por que quero aqui   [. .Iconsiderar se
nhecer que duvido e que desejo, isto 6 , que         eu mesmo, que tenho esta idQiade Deus, po-
me falta alguma coisa, e que n6o sou total-          deria existir, caso Deus ndo existisse. E pergun-
mente perfeito, se ndo tivesse em mim nenhu-         to: de onde tiraria minha existhncia?Talvez de
ma id&iade um ser mais perfeitodo que o meu,         mim mesmo, ou de meus genitores, ou entdo
de cuja compara@5oiria reconhecer os defeitos        de outras causas menos perfeitas do que Deus,
de minha natureza?                                   porque nada se pode imaginar de mais perfei-
      Nem se pode dizer qua, talvez, esta id&ia      to, e nern mesmo igual a ele.
de Deus 6 materialmente falsa, e que, por con-             Ora, se eu fosse independente de qual-
seguinte, eu a posso tirar do nada, isto &, que      quer outro, e fosse eu mesmo o autor de meu
ela pode se encontrar em mlm porque me falta         ser, certamente ndo duvidaria de coisa nenhu-
alguma coisa, como disse acima a respeito das        ma, n6o conceberia mais desejos, e por fim ndo
idhias do quente e do frio, e de outras coisas       me faltaria nenhuma perfei@o; porque ter-
semelhantas: porque, ao contrdrio, sendo esta        me-la dado eu mesmo todas aquelas de que
id&ia suficientemente clara e distinta, e conten-    tenho em mim alguma idbia, e assim eu seria
do em si mais realidade objetiva do que qual-        Deus.
32$
                Capitdo de'cimo quinto -     Descartes:    "0 fr*rdador d a filosofia vnoderna"


       E eu ndo devo imaginar que as coisas que        virtude de ser e de existir por si, deve tambCm
me faltam sejam mais dificeis de adquirir do que       ter, sem dljvida, a pothncia de possuir atual-
aquelas de que j6 estou em posse: porque, a0           mente todas as perfeiqks das quais concebe
contr6rio. & certissimo que foi rnuito mais-dificil    as idbias, isto &, todas as que eu concebo ha-
que eu, isto 8, urna coisa ou subst6ncia               ver em Deus. Pois, se ela tira sua exist&ncia de
pensante, tenha saido do nada, daquilo que             alguma coisa diferente de si, perguntar-se-6de
ndo me seria o adquirir os lumes e os conheci-          ~nicio,pela mesma razdo, desta segunda causa,
mentos de diversas coisas que Ignoro, e que            se existe por si ou por obra de outros, at& qua,
sdo apenas acidentes desta subst6ncia. E as-           de grau em grau, se chegue a uma ljltima causa,
sim, sem dificuldade, se me tivesse dado eu            que se descobrir6 ser Deus. E 6 muitissimo claro
mesmo aquele mais do qua1 falei, isto 6, se            que nisso ndo pode haver progress0 at& o in-
fosse o autor de meu nascimento e de m~nha             finito, visto que ndo se trata tanto, aqui, da
ex~st&ncia, me teria privado a0 menos das
             ndo                                       causa que me produziu outra vez, quanto da
coisas que sdo de mais f6cil aquisi~do,      isto 6,   que me conserva presentemente. [. . .]
de muitos conhecimentos de qua minha nature-                   No que se refere a meus genitores, dos
za est6 privada; n6o me teria privado sequer           quais parece que eu tire rneu nascimento, m a -
de nenhuma das coisas que estdo contidas na             mo se tudo aquilo qua jamais pude crer seja
id&ia de Deus, porque ndo h6 nenhuma que               verdadeiro, isso, todavia, n6o faz com que se-
me parqa de mais dificil aquisi~do; se hou-
                                         e             jam eles que me conservem, e que me tenham
vesse alguma, certamente ela me pareceria tal           feito e produzido enquanto coisa que pensa, pois
(suposto que eu tivesse por mim todas as ou-            eles apenas colocaram algumas disposi@es
tras coisas que possuo), porque experimenta-            naquela mathria, na qua1 julgo que eu, isto 6.
ria que minha pot&nc~a      nela teria sau termo, e     meu espirito, que so tom0 agora por mim mes-
ndo seria capaz de ai chegar.                           mo, se encontre encerrado; s, portanto, ndo pode
       E embora eu possa supor que talvez te-           haver aqui a respeito deles alguma dificuldade;
nha sempre existido como existo agora, nem              mas & preciso necessariamente concluir que,
por isso saberia evitar a for~a    deste raciocinio,    pelo ljnico fato de que eu existo, e qua a id6ia
deixar da crer necessario que Deus seja o au-           de um ser soberanamente perfeito (isto &, de
tor de minha exist&ncia. Uma vez que todo o             Deus) est6 em mim, a exist&ncia de Deus fica,
tempo de minha vida pode ser dividido em urna           de modo multo evidente, demonstrada.
infinidads de partes, coda uma das quais ndo
depende de modo nenhum das outras; mas do
                                                       8. A idiia ds Deus 6 inata no homsm
fato de que um pouco antes eu tenha exlstido
ndo se segue que eu deva existir agora, a me-                 Resta-meapenas examinar de que modo
nos que neste momento alguma causa me pro-             eu tenha adquirido esta id&ia, pois n6o a rece-
duza e me crie, por assim dizer, desde o inicio,       b~por meio dos sentidos, e jamais ela se ofe-
 isto &, me conserve. [...I                            receu a mim contra minha expectativa, como
       Ora, n6o poderia ocorrer que aquele ser,        ocorre com as idbias das coisas sensiveis, quan-
do qua1 eu dependo, ndo seja aquilo que cha-           do estas se apresentam, ou parecem apresen-
 mo Deus, e qua eu seja produzido, ou pelos            tar-se, aos orgdos exteriores de meus sentidos.
 meus genitores, ou por outras causas menos            €la ndo & sequer pura produ@o ou fic~do      de
 perfeitas do que Deus? Bem longs disso, a coi-        meu espirito, porque ndo est6 em meu poder
 sa ndo pode ser assim. Porque, como j6 d~sse          tirar ou acrescantar alguma coisa a ela. E, por
 antes, 8 evidentissimo que deve haver ao me-          conseguinte, ndo resta outra coisa a dizer, a
 nos tanta realidode no causa quonto no seu            ndo ser que, como a idbia de mim mesmo, ela
 efeito. Portanto, urna vez qua sou uma coisa          nasceu e foi produzida comigo, desde quando
 que pensa, e tenho em mim alguma id&ia de             fui criado.
 Deus, seja qua1 for enfim a causa que se atri-               E, sem dljvida, ndo se deve achar estra-
 bua b minha natureza, 8 preciso necessariamen-        nho que Deus, criando-me, tenha posto em mim
 te confessar que ela deve igualmente ser uma          esta idbia, para que fosse como a marca do
 coisa que pensa, e deve possuir em si a id&ia         oper6rio impressa em sua obra; e ndo 6 se-
 de todas as perfeiq3es que atribuo 2.1 natureza       quer necess6rio que esta marca seja 0190 de
 divina. Depois, pode-se desde o inicio procurar       diferente dessa mesma obra. Mas do fato ape-
 se esta causa deriva sua origem e sua exist&-         nos que Deus me criou, & bastante crivel que
 cia de si mesma ou de alguma outra coisa. Uma         ele me tenha de algum modo produzido 2.1 sua
 vez que, se @laderiva de si mesma, disto se-          imagem e semelhanp, e que eu conceba esta
 gue-se, pelas razdes que aclma aleguei, que           semelhanp (na qual a id6ia de Deus se acha
 ela propria deve ser Deus; com efeito, tendo a        contida) por meio da mesrna faculdade com a
'
j6
        Terceira parte - Bacon   e Descartes



qua1 concebo a mim mesmo: isto C, que quan-               De onde resulta com evid&ncla suficiente
do eu reflito sobre mim, ndo somente conheso        que ele ndo pode ser enganador, pois a luz
ser uma coisa ~mperfeita,  mcompleta e depen-       natural nos ensina que o engano depende ne-
dents de outros, que tende e que aspira sem         cessariamente de algum defelto.
parar a qualquer coisa melhor e maior do que              Mas, antes que eu examine isto mais acu-
eu seja, mas conhe~o  tambbm, ao mesmo tem-         radamente, e que passe a considera<do das
po, que aquele, do qua1 dependo, possui em          outras verdades que se possam reunlr, parece-
si todas as grandes coisas 6s quais aspiro, e       me muito a proposito parar algum tempo na
das quais encontro em mim as idbias; e que as       contempla@odeste Deus perfeltissirno,ponde-
possui, ndo indefinidamente e apenas em po-         rar 6 vontade seus marovilhosos atrlbutos, con-
tcncia, mas as g o em efeitos, atualmente e
                       ~ ~                          siderar, admirar e adorar a incompardvel be-
infinitamente e, portanto, que C Deus. E toda a     leza desta imensa luz, ao menos tanto quanto
for~a argumento, do qua1 aqui usei para pro-
       do                                           puder permiti-lo a forp de meu espirlto, que
var a exist&nciads Deus, consiste nisso, que eu     com isso permanece de certo modo deslum-
reconheg.~  que ndo seria possivel que mlnha        brado.
natureza fosse tal qual6, isto 6 , que tivesse em         Uma vez que, como nos ensina a fC, a
mim a idCia de um Deus, se Deus verdadeira-         soberana felicidade da outra vida consiste tdo-
mente ndo existisse; aquele mssmo Deus, digo,       somente nesta contempla@o do divina Majes-
a idbia do qua1 est6 em mim: isto C, que possui     tade, assim experimentamos desde agora que
todas as altas perfei@es, das quais nosso espi-     tal medita@o,embora incomparavelmente me-
rto pode bem ter alguma idCia, ssm todavio          nos perfeita, nos f ~ gozar a maior alegr~a
                                                                          z                      de
compreend&-lastodas; que ndo est6 sujelto e         que somos capazes nesta vida.
ndo tem nenhum defeito; que ndo tem nenhuma                                          R. Dsscartss.
das coisas que indicam alguma imperfei@o.                                 Msdito@es metoffsicas, I II.
Bibliog&fia do vbdLcne111*




Obras de carater geral
                   --
                                                      .-
                                                             Cap. 1. 0 pensamento humanista
                                                                     renascentista
E. Garin, Storia della filosofia italiana, 3 vols.,          - -
                                                              . .

Einaudi, Turirn 1966; F. Copleston, Storia della filo-       Elencarnos aqui uma sCrie de obras de carater geral
sofia, 9 vols., Paideia, Brescia 1966-1984; G. De            sobre o Hurnanismo e a Renascenqa que contCm,
Ruggiero, Storia della filosofia, 13 vols., Laterza, Bari    frequenternente, tambCm estudos especificos sobre
1967-1968; L. Geymonat (e colaboradores), Storia             autores particulares, e que por este motivo seri bom
del pensiero filosofico e scientifico, 6 vols., Garzanti,    ter presentes tambCm para os capitulos seguintes,
Miliio 1970-1972 (citada a seguir como Geymonat,             onde niio seriio, obviamente, repetidas:
Storia);E. Cassirer, Storia della filosofia moderna, 4
                                                             K. Burdach, Riforma, Rinascimento, Umanesimo,
vols., Einaudi, Turim 1971; M. Dal Pra (diretor),
                                                             Sansoni, Florenga 1935; J. Burckhardt, La ciuilta
Storia della filosofia, vols. VII-VIII, Vallardi, Millo
                                                             del Rinascimento in Italia, introd. de E. Garin,
1975-1976;S. Vanni Rovighi (ecolaboradores),Sto-             Sansoni, Florenga 1962;J. Huizinga, L'autunno del
ria della filosofia modema dalla riuoluzione scientifica     Medioeuo, Sansoni, Florenga 1966; F. Chabod, Studi
a Hegel, La Scuola, Brescia 1976; N. Abbagnano,              sul rinascimento, Einaudi, Turim 1967; G. Gentile,
Storia della filosofia, 4 vols., Utet, Turim 1991 ( oIV      I1 pensiero italiano del Rinascimento, Sansoni, Flo-
vol. C de G. Fornero e colaboradores).                       renqa 1968; C. Vasoli, La dialettica e la retorica
De particular interesse siio tambCm:                         nell'Umanesimo, Feltrinelli, Miliio 1968;E. Cassirer,
a ) Grande Antologia Filosofica, dirigida por U.             Indiuiduo e cosmo nella filosofia del Rinascimento,
Padovani e M. F. Sciacca, vols. VI-XVI, Marzorati,           La Nuova Italia, Florenqa 1974; W. Dilthey, L'analisi
Millo 1988: as introduqbes Qs seg6es antokgicas              dell'uomo e l'intuizione della natura. Dal Rinas-
                                                             cimento a1 secolo XVIII, La Nuova Italia, Florenga
particulares s5o cuidadas por especialistas no as-
                                                             1974 ( 2 vols.); C. Vasoli, Umanesimo e Rinasci-
sunto; as bibliografias slo muito amplas, e a elas
                                                             mento, Palurnbo, Palermo 1977;A. G. Debus, L'uo-
remetemos aqui de urna vez por todas;
                                                             mo e la natura nel Rinascimento, Jaca Book, Mil50
6 ) Questioni di storiografia filosofica. La storia della    1982; G. B. Schrnitt, Problemi dell'aristotelismo
filosofia attrauerso i suoi interpreti, La Scuola, Bres-     rinascimentale,Bibliopolis, Nipoles 1985; C. Vasoli,
cia 1974-1976, em 6 vols. (aqui interessa-nos o se-          Filosofia e religione nella cultura del Rinascimento,
gundo, sob a organizaqiio de V . Mathieu, Dall'uma-          Guida, Nipoles 1988; L. M. Batkin, Gli umanisti
nesimo a Rousseau, citado de agora em diante                 italiani. Stile di vita e di pensiero, Laterza, Roma-Bari
simplesmente como Questioni).                                1990; P. Zambelli, L'ambigua natura della magia,
Instrumentos uteis para consulta G o , por fim: En-          I1 Saggiatore, Miliio 1991. Para a historia das inter-
ciclopedia filosofica, sob a direqiio do Centro di           pretaqbes: W. K. Ferguson, I1 Rinascimento nella
Studi Filosoficidi Gallarate, Sansoni, Florenqa 1967-        critica storica, I1 Mulino, Bolonha 1969, e F. Ador-
 1969; e a agil Enciclopedia Garzanti di filosofia (e        no, Umanesimo e Rinascimento, in Questioni, cit.,
logica, linguistica, epistemologia, pedagogia, psico-        pp. 9-57.
logia, psicoanalisi, sociologia, antropologia c u h -        D6-se particular atenqlo, neste volume, as teses de
rule, religioni, teologia), sob a direqiio das Redazioni     Kristeller e de Garin. Do primeiro vejam-se: P. 0.
Garzanti, com a consultoria geral de G. Vattimo              Kristeller, La tradizione aristotelica nel Rinasci-
em colaboraqiio com M. Ferraris e D. Marconi,                mento, Antenore, Pidua 1962;La tradizione classica
 Garzanti. Miliio 1994.                                      nel pensiero del Rinascimento, La Nuova Italia, Flo-
                                                             renqa 1965; Otto pensatori del Rinascimento,
                                                             Ricciardi, Miliio-Nipoles 1970; Concetti rinasci-
     'Para a presente bibliografia nHo nos propusemos, ob-   mentali dell'uomo e altri saggi, La Nuova Italia,
viamente, nenhuma pretensao de ser completes, mas pro-
                                                             Florenqa 1978. Do segundo: E. Garin, La cultura
curamos fornecer uma plataforma de partida suficiente-
mente ampla para qualquer aprofundamento posterior           filosofia del Rinascimento italiano, Sansoni, Floren-
sirio.                                                       ga 1961; Ritratti di umanisti, Sansoni, Florenqa
     Foram excluidas, de proposito, citagbes de revistas.     1967, e, todos editados por Laterza, Bari: L'educa-
0 s volumes elencados estHo todos exclusivamente em lin-     zione in Europa (1400-1600), 1976; Rinascite e
gua italiana: C por isso que nunca indicamos, para os au-    riuoluzioni. Mouimenti culturali dal XIV a1 XVIIl
tores estrangeiros, que se trata de tradu@5es.               secolo, 1976; Medioeuo e Rinascimento, 1980;
318      B ~ L l i o ~ r a f d a t e r c c i r a volume
                             io



L'Umanesimo italiano, 1981; Scienza e vita civile            direqiio de), Marsilio Ficino e il ritorno di Platone.
nel Rinascimento italiano, 1980; La cultura del              Studi e documenti, Florenqa 1986.
Rinascimento. Profilo storico, 1981; Lo zodiaco              Para Pico: E. Garin, G. Pico della Mirandola, Le
della vita. La polemica sull'astrologia dal Trecento         Monnier, Florenqa 1937; G. Di Napoli, G. Pico della
a1 Cinquecento, 1982; L'uomo del Rinascimento,               Mirandola e la problematica dottrinale del suo tem-
1988 (deste ultimo volume Garin n5o C autor, mas             po, DesclCe, Roma 1965; P. Zambelli, L'apprendista
organizador).                                                stregone. Astrologia, cabala e arte lulliana in Pico
                                                             della Mirandola e seguaci, Marsilio, Veneza 1995.
Cap. 2. 0 s debates sobre problemas morais
        e o Neo-epicurismo                                   Cap. 4. 0 Aristotelismo renascentista
Para os autores que slio tambCm, ou sobretudo, li-           -    -
                                                                     e a revivescincia do Ceticismo
                                                                           -            ---  -


teratos, remetemos a uma boa historia da literatura          Textos
italiana. Aqui nos ocuparemos dos pensadores de              Pomponazzi: Tractatus de immortalitate animae,
interesse mais especificamente filos6fico.                   texto latino em paralelo, sob a direqao de Morra,
Textos                                                       Manni e Fiammenghi, Bolonha 1954; De fato, de
Valla: Scritti filosofici e religiosi, sob a direq5o de      libero arbitrio et de praedestinatione, sob a direqzo
                                                             de R. Lemay, Antenore, Padua 1957. NZo facilmente
G. Radetti, Sansoni, Florenqa 1953; Opera omnia,
                                                             localizivel C P. Pomponazzi, Trattato sull'immor-
sob a direqio de E. Garin, Turim 1962.
                                                             talita dell'anima. I1 libro degli incantesimi, preficio
Literatura                                                   de R. Ardigo, introduqlo, traduqLo e notas de I.
S. I. Camporeale, L. Valla. Umanesimo e filologia,           Toscani, Editoriale G. Galilei, Roma 1914.
Le Monnier, Florenqa 1972.                                   Montaigne: Saggi, 3 vols., sob a direq5o de V. Enrico,
                                                             Mondadori, Mil50 1986; Saggi, 2 vols., sob a dire-
                                                             qZo de F. Garavini, Adelphi, Mil50 1992.
Cap. 3. 0 Neoplatonismo renascentista                        Literatura
Textos                                                       Para Pomponazzi: B. Nardi, Studi su Pietro Pom-
Nicolau de Cusa: Scritti filosofici (com texto latino        ponazzi, Le Monnier, Florenqa 1965; A. Poppi, Saggi
em paralelo), sob a direq5o de G. Santinello,                sul pensiero inedito di P. Pomponazzi, Antenore,
Zanichelli, Bolonha (vol. I, 1965; vol. 11, 1980);           Pidua 1970; L. Olivieri, Certezza e gerarchia del
Opere religiose, sob a direqlo de P. Gaia, Utet, Tu-         sapere. Crisi dell'idea di scientificita nell'aris-
rim 1971; Opere filosofiche, sob a direqiio de G.            totelismo del secolo XVI, Antenore, Pidua 1983.
Federici Vescovini, Utet, Turim 1972; La dotta igno-         Para Montaigne: A. M. Battista, Alle origini del
ranza. Le congetture, sob a direqgo de G. Santinello,        pensiero politico libertino: Montaigne e Charron,
Rusconi, Mil50 1988; La pace della fede e altri testi,       Giuffrk, Mil50 1966; J. Starobinski, Montaigne e il
sob a direqiio de G. Federici Vescovini, Cultura della       paradosso dell'apparenza, I1 Mulino, Bolonha 1984.
pace, Florenqa 1992.
Ficino: Teologia platonica (com texto latino em              Cap. 5. A Renascenqa e a ReligiBo
                                                               -
paralelo), sob a direqiio de M. Schiavone, 2 vols.,          -                             - -
                                                                                            -    - -



Zanichelli, Bolonha 1965.                                    Textos
G. Pico della Mirandola: De hominis dignitate,               Erasmo de Rotterdam: Elogio della pazzia, sob a di-
Heptaplus, De ente et uno, e scritti vari, texto e tradu-    req5o de C. Annarratone, Rizzoli, Mil50 1963; Elo-
qlo sob a direqgo de E. Garin, Vallecchi, Florenqa           gio della pazzia, trad. de T. Fiore, Einaudi, Turim
1942 (nova ed. La Scuola, Brescia 1987); Dis-                1964; I colloqui, sob a direqlo de G. P. Brega, Fel-
putationes adversus astrologiam diuinatricem, tex-           trinelli, Milao 1967; 1 lamento della pace, sob a di-
                                                                                     1
to e traduqiio sob a direqao de E. Garin, 2 vols., Vallec-   reqlo de L. Firpo, Utet, Turim 1967; La formazione
chi, Florenqa 1946-1952; Discorso sulla dignita              cristiana dell'uomo, sob a direqdo de F. Orlandini
dell'uomo, sob a direqiio de A. Tognon, La Scuola,           Traverso, Rusconi, Millo 1989; Elogio della follia,
Brescia 1987; Opere scelte, sob a direqiio de V. Del         sob a direq5o de E. Garin, Mondadori, Mil20 1992.
Nero, Theorema, Mil50 1993.                                  Lutero: Scritti politici, tr. de G. Panzeri Saija, intr. e
                                                             bibl. di L. Firpo, Utet, Turim 1959; Scritti religiosi,
Literatura                                                   sob a direqlo de V. Vinay, Utet, Turim 1967; Dalla
Para Nicolau de Cusa: W. AA., Niccolo Cusano                 payola alla vita. Scritti spirituali, sob a direqlo de
agli inizi del mondo moderno, sob a direq5o de G.            U. Brelime e M. Deveno, Citta Nuova, Roma 1984.
Santinello, Sansoni, Florenqa 1970; G. Santinello,           Calvino: lstituzione de11a religione cristiana, 2 vols.,
Introduzione a Cusano, Laterza, Roma-Bari 1987;              sob a direqso de G. Tourn, Utet, Turim 1971.
Id., N. Cusano, em Questioni, cit., pp. 59-96.
Para Ficino: P. 0. Kristeller, I pensiero filosofico di
                               1                             Literatura
Marsilio Ficino, Sansoni, Florenqa 1953; M.                  Sobre a Reforma em geral s5o muito boas as sinte-
Schiavone, Problemi filosofici in Marsilio Ficino,           ses de R. H. Bainton, La Riforma protestante,
Marzorati, Mil50 1957; G. C. Genfragnini (sob a              Einaudi, Turim 1958, e de J. Lortz-E. Iserloh, Storia
Bibliografia do    terceiro   volume       319


della Riforma (ambas, a primeira protestante e a         machiauellismo, La Nuova Italia, Florenp 1980;
segunda catdica, com bibliografia). De valor cien-       E. Garin, Machiauelli fra politica e storia, Einaudi,
tifico bastante notivel C o vol. VI da Storia della      Turim 1993.
chiesa, dirigida por H. Jedin, a cujas amplas e deta-    Para Guicciardini: alCm do volume cit. de U. Spirito,
lhadas bibliografias sem duvida remetemos: E. Iser-      pode-se ver F. Gilbert, Machiauelli e Guicciardini.
loh-J. Glazik-H. Jedin, Riforma e Controriforma          Pensiero politico e storiografia a Firenze nel Cin-
(XVI-XVII secolo), Jaca Book, Milfo 1975. Ou-            quecento, Einaudi, Turim 1970.
tras boas sinteses sfo as de M. Bendiscioli: La Rifor-
ma protestante, Studium, Roma 1967, e La Riforma         Para T. Morus: F. Battaglia, Saggi sull'utopia di T.
cattolica, Studium, Roma 1973; e as de H. Strohl,        Moro, Zuffi, Bolonha 1949; J. H. Hexter, L'utopia
11pensiero della Riforma, I1 Mulino, Bolonha 1971;       di iT: Moro, Guida, Nipoles 1975.
G. Martina: La Chiesa nell'eta della riforma,            Para Bodin: V. I. Comparato, Bodin, I1 Mulino,
Morcelliana, Brescia 1978; M. G. Reardon, I1 pen-        Bolonha 1981 (com antologia de textos e biblio-
siero religioso della Riforma, Laterza, Roma-Bari        grafia); VV. AA., La "Ripublique" di J. Bodin,
1984; J. Delumeau, La riforma. Origini e afferma-        Olschki, Florenga 1981.
zione, Mursia, Mil50 1988.                               Para todos esses autores vejam-se, por fim: P. Mes-
Sobre a Contra-reforma e a Reforma catdica: H.           nard, 11 pensiero politico rinascimentale, 2 vols.,
Jedin, Riforma cattolica o Controriforma?,               Laterza, Bari 1963-1964; G. Fassb, Storia della fi-
Morcelliana, Brescia 1974. Fundamental 6 a j i clas-     losofia del diritto, 3 vols., I1 Mulino, Bolonha 1968
sics obra, em cinco volumes: H. Jedin, 11 Concilio       (vol. 11);G. H. Sabine, Storia delle dottrine politiche,
di Trento, Morcelliana, Brescia 1973-1982; mas do        2 vols., Etas Libri, Milfo 1978 (vol. I). Estas duas
m e m o autor se pode ver tambCm a mais sintetica        ultimas obras devem ser mantidas presentes tam-
Breve storia dei Concili, Morcelliana, Brescia 1979.     bCm para o pensamento juridic0 e politico dos au-
Para a documenta@o se pode ver: Decisioni dei            tores tratados nos capitulos sucessivos.
Concili Ecumenici, sob a direc;Ho de G. Alberigo,
Utet, Turim 1978.
                                                         Cap. 7. Leonardo, Telbio, Bruno
                                                                 e Campanella
Cap. 6. A Renascenca e a Politica
----   - -
            .                                            Textos
Textos                                                   Leonardo da Vinci: Scritti letterari, sob a dire@o
Maquiavel: Opere, 8 vols., sob a direpiio de S.          de A. Marinoni, Rizzoli, Milfo 1974; L'uomo e la
Bertelli e F. Gaeta, Feltrinelli, MiHo 1960-1962.        natura, sob a d i r e ~ f o M. De Micheli, Mil50 1982;
                                                                                   de
Guicciardini: Ricordi, sob a direqfo de R. Spongano,     Trattato della pittura, sob a direqfo de M. Tabarrini
Sansoni, Florenp 1951.                                   e G. Milanesi, Melita, Roma 1984 (restauraqHo
                                                         anastatica da ediqso de 1890).
(Tanto do Principe de Maquiavel como dos Ricordi
de Guicciardini existem diversas edicbes escolisticas,   Telesio: De rerum natura iuxta propria principia,
freqiientemente com bons comentarios).                   livros I-IV, com texto latino em paralelo, sob a di-
T. Morus: Utopia, sob a d i r e ~ f o L. Firpo, Guida,
                                    de                   replo de L. De Franco, 2 vols., Casa del libro
Nipoles 1979; Utopia, sob a dire@o de T. Fiore,          Editrice, Cosenza 1965-1974; De rerum natura, li-
Laterza, Roma-Bari 1982; Thomas More, antolo-            vros VII-IX, sob a direqfo de L. De Franco, La
gia de textos, sob a direffo de C. Quarta, Cultura       Nuova Italia, Florenqa 1976.
della pace, Floren~a  1988.                              Bruno: Dialoghi italiani, com notas de G. Gentile,
Bodin: I sei libri dello Stato, sob a d i r e ~ f o M.
                                                  de     sob a direqiio de G. Aquilecchia, Sansoni, Florenp
Isnardi Parente, Utet, Turim 1964 (com ampla bi-         1985; Opere latine, sob a direqfo de C. Monti, Utet,
bliografia).                                             Turim 1980; De causa, principio et uno, sob a dire-
                                                         ~ f de A. Guzzo, Mursia, Mil50 1985; Spaccio de
                                                               o
Grotius: Prolegomeni a1 diritto della guerra e della     la bestia trionfante, sob a dire@o de M. Ciliberto,
pace, sob a direqfo de G. Fasso, Zanichelli, Bolo-       Rizzoli, Mil50 1985.
nha 1949; Della uera religione cristiana, sob a dire-
$50 de F. Pintacuda De Michelis, Laterza, Roma-          Bruno e Campanella: Opere, sob a dire~Ho A.         de
Bari 1973.                                               Guzzo e R. Amerio, Ricciardi, MilLo-Nipoles 1956.
                                                         Campanella: Del senso delle cose e della magia, sob
Literatura                                               a direqfo de A. Bruers, Laterza, Bari 1925; La citta
Para Maquiavel: L. Russo, N. Machiauelli, Laterza,       del Sole, sob a dire~5o N. Bobbio, Einaudi, Tu-
                                                                                      de
Bari 1957; G. Sasso, N. Machiauelli. Storia del suo      rim 1941; Metafisica, com texto latino em parale-
pensiero politico, Istituto Italiano per gli Studi       lo, sob a d i r e ~ a o G. Di Napoli, 3 vols., Zanichelli,
                                                                               de
Storici, Nipoles 1958 (nova ed. I1 Mulino, Bolo-         Bolonha 1967; Apologia per Galileo, com texto la-
nha 1980); F. Chabod, Scritti su Machiavelli,            tino em paralelo, sob a direqiio de S. Femiano,
Einaudi, Turim 1964; G. Sasso, Studi su Machiauelli,     Marzorati, Milfo 1971.
Morano, Nipoles 1967; U. Spirito, Machiauelli e
Guicciardini, Sansoni, Florensa 1968; F. Gilbert,        Literatura
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Florenqa 1974; E. Solmi, Scritti vinciani, La Nuova       Id., La struttura delle riuoluzioni scientifiche,
Italia, Florenqa 1976; W. AA., Leonardo e l'eta           Einaudi, Turim 1972; W. AA., La scuola galileiana
della ragione, sob a direqiio de E. Bellone e P. Rossi,   e l'origine della vita, sob a direqgo de P. Cristofolini,
Edizioni di "Scientia", Mil20 1982.                       Loescher, Turim 1974; P. Rossi, La rivoluzione
Sobre TelCsio: N. Abbagnano, B. Telesio, Bocca,           scientifica da Copernico a Newton, Loescher, Tu-
MilPo 1941; Id., B. Telesio e la filosofia del Rinas-     rim 1974; E. J. Dijksterhuis, I1 meccanicismo e
cimento, Garzanti, Milao 1941; W. AA., Bernar-            l'imrnagine del mondo: dai Presocratici a Newton,
dino Telesio nel IV centenario della morte (1588),        Feltrinelli, Mil20 1980.
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                                                          --
Sobre Bruno: G. Gentile, I1 pensiero italiano del
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                                                          rivoluzione intellettuale di Galileo, Sansoni, Floren-
Sobre Campanella: L. Firpo, Ricerche campanel-            c;a 1974; A. KoyrC, Studi galileiani, Einaudi, Turim
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Badaloni, T Campanella, Feltrinelli, MilPo 1965;          Bertani Editore, Verona 1981; P. Redondi, Galileo
S. Femiano, Lo spiritualismo di T Campanella, 2           eretico, Einaudi Turim 1983, VV. AA., Galileo
vols., Iem, NLpoles 1965; Id., La metafisica di T         Galilei: 350 anni di storia, sob a dire~Po Mons.
                                                                                                      de
Campanella, Marzorati, Mil20 1968; W. AA., Atti           P. Poupard, com uma declaraqgo de J o l o Paulo 11,
del conuegno internazionale sul tema: Campanella          Piemme, Casale Monferrato 1984; A. Battistini,
e Vico, Academia Nazionale dei Lincei, Roma 1969;         Introduzione a Galilei, Laterza, Roma-Bari 1989.
L. Firpo, 11 supplizio di Tommaso Campanella.
Narrazioni, documenti, uerbali delle torture,
Salerno, Roma 1985; G. Scalici (sob a dire@o de),         Cap. 12. Newton
La "Citta del sole" di Campanella e il pensiero
utopistico fra Cinquecento e Seicento, Paravia, Tu-       Textos
rim 1992.                                                 Newton: Sistema del mondo, Boringhieri, Turim
                                                          1959; Principi matematici della filosofia naturale,
                                                          sob a direqiio de A. Pala, Utet, Turim 1965.
Cap. 8. Origens e traqos gerais
        da revoluqio cientifica                           Literatura
                                                          S. I. Vavilov, Isaac Newton, Einaudi, Turim 1954;
Elencamos aqui uma sCrie de obras de cariter geral
sobre a revoluqiio cientifica.                            A. Pala, Isaac Newton: scienza e filosofia, Einaudi,
                                                          Turim 1 9 6 9 ; I. B. Cohen, La riuoluzione
A. C. Crombie, Da S. Agostino a Galileo. Storia           newtoniana, Feltrinelli, MilPo 1982.
della scienza dal V a1 XVlIl secolo, Feltrinelli, Mi-
120 19822; H. Butterfield, Le origini della scienza
moderna, I1 Mulino, Bolonha 1962; A. Einstein,            Cap. 13. As citncias da vida, as Academias
Pensieri degli anni difficili, Boringhieri, Turim 1965;            e as Sociedades cientificas
A. Koyr6, La rivoluzione astronomica: Copernico,
Keplero, Borelli, Feltrinelli, MilPo 1966; Id., Dal       Textos
mondo del pressapoco all'uniuerso della precisione,       Harvey: Opere, sob a direq2o de F. Alessio,
Einaudi, Turim 1967; Id., Dal mondo chiuso all'uni-       Boringhieri, Turim 1963.
Bibliografia do terceiro volwwe            321


Cap. 14. Bacon                                           Roma-Bari 1986. S5o numerosas as e d i ~ b e comen-
                                                                                                      s
                                                         tadas d o Discurso sobre o me'todo.
Textos
                                                         Literatura
Bacon: Opere filosofiche, sob a direggo de E. De
Mas, 2 vols., Laterza, Bari 1965; Scritti politici,      A. Del Noce, Riforma cattolica e filosofia moder-
giuridici e storici, sob a direqiio de E. De Mas, 2      na, vol. I: Cartesio, I1 Mulino, Bolonha 1965; K .
vols., Utet, Turim 1971; Scritti filosofici, sob a di-   Lowith, Dio, u o m o e mondo da Cartesio a Nietzs-
reglo de P. Rossi, Utet, Turim 1975.                     che, Morano, Napoles 1966; G. Bontadini, Studi di
                                                         filosofia moderna, La Scuola, Brescia 1966 (a ter pre-
Literatura                                               sente at6 Kant); E. Garin, Introduzione a Cartesio,
E. De Mas, Francesco Bacone da Verulamio. La fi-         Opere, cit.; L. Verga, L'etica di Cartesio, Celuc,
losofia dell'uomo, Edizioni di "Filosofia", Turim        MilPo 1974; S. Blasucci, La sapienza di Socrate e la
1964; Id., Francis Bacon, La Nuova Italia, Floren-       saggezza di Cartesio, Adriatica Editrice, Bari 1974;
qa 1978; B. Farrington, E Bacone filosofo dell'eta       A . Pavan, All'origine del progetto borghese. 11
industriale, Einaudi, Turim 1967; P. Rossi, Francesco    giouane Descartes, Morcelliana, Brescia 1979; An-
Bacone. Dalla magia alla scienza, Einaudi, Turim         tonio Negri, Descartes politico o della ragionevole
1974; Id., Bacone, e m Questioni, cit., pp. 183-206.     ideologia, Feltrinelli, M i l l o 1980; G . Canziani, Fi-
                                                         losofia e scienza nella morale di Descartes, La
                                                         Nuova Italia, Florenqa 1980; E. Garin, Vita e ope-
Cap. 15. Descartes                                       re d i Cartesio, Laterza, Roma-Bari 1984; C .
                                                         Crapulli, Introduzione a Descartes, Laterza, Roma-
Textos                                                   Bari 1988; G. Brianese ( s o b a direqlo d e ) , 11 "Dis-
Descartes: Opere, sob a direglo de E. Garin, 2 vols.,    corso sul metodo" d i Cartesio e il problema del
Laterza, Bari 1967; Opere filosofiche, sob a dire-       metodo nel X V l l secolo, Paravia, Turim 1988; W.
giio de B. Widmar, Utet, Turim 1969; 11 mondo.           AA., Descartes: il metodo e i Saggi, 2 vols., Istituto
L'uomo, sob a diregiio de M . e E. Garin, Laterza,       della Enciclopedia Italiana, R o m a 1990; J .
Bari 1969; 1 principi della filosofia, sob a direqzo     Cottingham, Cartesio, I1 Mulino, Bolonha 1991. An-
de P. Cristofolini, Boringhieri, Turim 1967; Opere       tologia da critica: A. Deregibus, Cartesio, e m Que-
filosofiche, sob a diregPo de E. Garin, Laterza,         stioni, cit., pp. 207-271.

Reale, giovanni 3

  • 1.
    G . Reale- D. Antiseri HISTORIA DA FILOSOFIA 3 Do Humanism0 a Descartes
  • 2.
    Dados lnternacionais deCatalogagto na Publica@o (CIP) (CBmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Reale, Giovanni Historia da filosofia: do humanism0 a Descartes, v. 3 1Giovanni Reale, Dario Antiseri; - [tradupBo Ivo Storn~olo]. SBo Paulo: Paulus, 2004. Titulo original: Storia della filosofia Bibliografia. ISBN 85-349-2102-4 1. Filosofia- Historia I. Antiseri, Dario. II. Titulo. Ill. Titulo: Do Humanismoa Descartes. indices para catAlogo sistematico: 1. Filosofia: Historia 109 Titulo original Sfofla de//a fi/osofia - Vo/ume //.' Da/l'Umanes~mo Kanf a O Editrice LA SCUOLA, Brescia, Italia, 1997 ISBN 88-350-9271-X Revislo Zo/ferho Tonon IrnpressSo e acabamento PAULUS 0 PAULUS - 2004 Rua Francisco Cruz, 229.04117-091 SSo Paulo (Brasil) . . Fax (11) 5579-3627 Tel. (11) 5084-3066 www.paulus.com.br editorial@paulus.com.br ISBN 85-349-2102-4
  • 3.
    Existem teorias, argumentacdese disputas filosoficas pelo fato de existirem pro- A historia da filosofia e a historia blemas filosof icos. Assim como na pesquisa dos problemas filosoficos, das teorias fi- cientifica ideias e teorias cientificas sdo res- losoficas e das argumentaq5es filosofi- postas a problemas cientificos, da mesma cas. E a historia das disputas entre filo- forma, analogicamente, na pesquisa filoso- sofos e dos erros dos filosofos. E sempre fica as teorias filosoficas sdo tentativas de a historia de novas tentativas de versar solucdo dos problemas filosoficos. sobre questdes inevitaveis, na esperanca 0s problemas filosoficos, portanto, de conhecer sempre melhor a nos mes- existem, sdo inevitaveis e irreprimiveis; en- mos e de encontrar orientacdes para volvem cada homem particular que ndo nossa vida e motivagdes menos frageis renuncie a pensar: A maioria desses pro- para nossas escolhas. blemas ndo deixa em paz: Deus existe, ou A historia da filosofia ocidental e a existiriamos apenas nos, perdidos neste historia das ideias que in-formaram, ou imenso universo? 0 mundo e um cosmo seja, que deram forma a historia do Oci- ou um caos? A historia humana tem senti- dente. E um patrimdnio para ndo ser dis- do? E se tem, qual e? Ou, entdo, tudo - a sipado, uma riqueza que ndo se deve gloria e a miseria, as grandes conquistas e perder: E exatamente para tal fim os pro- os sofrimentos inocentes, vitimas e car- blemas, as teorias, as argumentacdes e nifices - tudo acabara no absurdo, despro- as disputas filosoficas sao analiticamente vido de qualquer sentido? E o homem: e explicados, expostos com a maior clareza livre e responsavel ou e um simples frag- possivel. men to insignificante do universo, determi- *** nado em suas acdes por rigidas leis natu- rais? A ciencia pode nos dar certezas? 0 Uma explicacdo que pretenda ser cla- que e a verdade? Quais sdo as relacdes ra e detalhada, a mais compreensivel na entre razdo cientifica e fe religiosa? Quan- medida do possivel, e que ao mesmo tem- do podemos dizer que um Estado e demo- po ofere~a explica~des exaustivas compor- cratic~? quais sdo os fundamentos da de- E ta, todavia, um "efeito perverso", pelo fato mocracia? E possivel obter umajustificaqdo de que pode ndo raramente constituir um racional dos valores mais elevados? E quan- obstaculo a "memoriza~do"do complexo do e que somos racionais? pensamento dos filosofos. Eis, portanto, alguns dos problemas Esta e a razdo pela qual os autores filosoficos de fundo, que dizem respeito pensaram, seguindo o paradigma classi- as escolhas e ao destino de todo homem, co do Ueberweg, antepor a exposicdo e com os quais se aventuraram as men- analitica dos problemas e das ideias dos tes mais elevadas da humanidade, dei- diferentes filosofos uma sintese de tais xando-nos como heranca um verdadeiro problemas e ideias, concebida como ins- patrimdnio de ideias, que constitui a iden- trument~didatico e auxiliar para a me- tidade e a grande riqueza do Ocidente. moriza~ao.
  • 4.
    Afirmou-se com justezaque, em linha Ao executar este complexo traqado, geral, um grande filosofo e o g&io de uma os autores se inspiraram em c;inones psico- grande ideia: Platdo e o mundo das ideias, pedagogicos precisos, a fim de agilizar a Aristoteles e o conceit0 de Ser, Plotino e a memorizaqao das ideias filosoficas, que sio concep@o do Uno, Agostinho e a "tercei- as mais dificeis de assimilar: seguiram o ra navegaqiol'sobre o lenho da cruz, Des- metodo da repetiqao de alguns conceitos- cartes e o "cogito", Leibniz e as "mbnadas", chave, assim como em circulos cada vez Kant e o transcendental, Hegel e a dialetica, mais amplos, que vaojustamente da sinte- Marx e a alienaqio do trabalho, Kierke- se a analise e aos textos. Tais repeti@es, gaard e o "singular", Bergson e a "dura- repetidas e amplificadas de mod0 oportu- @o", Wittgenstein e os "jogos de lingua- no, ajudam, de mod0 extremamente efi- gem", Popper e a "falsificabilidade" das caz, a fixar na atenqdo e na memoria os teorias cientificas, e assim por diante. nexos fundantes e as estruturas que sus- Pois bem, os dois autores desta obra tentam o pensamento ocidental. propdem um lexico filosofico, um diciona- rio dos conceitos fundamentais dos diver- Buscou-se tambem oferecer aojovem, sos filosofos, apresentados de maneira di- atualmente educado para o pensamento datica totalmente nova. Se as sinteses visual, tabelas que representam sinotica- iniciais s i o o instrumento didatico da me- mente mapas conceituais. moriza~ao,o lexico foi idealizado e cons- Alem disso, julgou-se oportuno enri- truido como instrumento da conceitual iza- quecer o texto com vasta e seleta serie de @o; e, juntos, uma especie de chave que imagens, que apresentam, alem do rosto permita entrar nos escritos dos filosofos e dos fildsofos, textos e momentos tipicos da deles apresentar interpretaqdes que encon- discussdo filosofica. trem pontos de apoio mais solidos nos pro- prios textos. Apresentamos, portanto, um texto ci- entifica e didaticamente construido, com Sinteses, analises, lexico ligam-se, a intenqdo de oferecer instrumentos ade- portanto, a ampla e meditada escolha dos quados para introduzir nossos jovens a textos, pois os dois autores da presente olhar para a historia dos problemas e das obra estio profundamente convencidos ideias filosoficas como para a historia gran- do fato de que a compreensdo de um fi- de, fascinante e dificil dos esfor~osintelec- Iosofo se alcanqa de mod0 adequado nao tuais que os mais elevados intelectos do so recebendo aquilo que o autor diz, mas Ocidente nos deixaram como dom, mas lanqando sondas intelectuais tambem nos tambem como empenho. modos e nos iarqdes especificos dos tex- tos filosofico~.- GIOVANNI - DARIO REALE ANTISERI
  • 5.
    [ndice de nomes,XV 111.0s "profetas" e os "magos" Indice de conceitos fundamentais, XIX orientais e pag5os: Hermes Trismegisto, Primeira parte Zoroastro e Orfeu 14 1.0conhecimento hist6rico-critic0 diferen- 0 HUMANISM0 te que os humanistas tiveram da tradigiio latina em relagiio 2 grega, 14; 2. Hermes E A RENASCENCA Trismegisto e o "Corpus Hermeticum", 15; 2.1. Hermes e o "Corpus Hermeticum" na realidade histbrica, 15; 2.2. Hermes e o Capitulo primeiro "Corpus Hermeticum" na interpretagiio da 0 pensamento humanista- Renascenga, 16; 3. 0 "Zoroastro" da Re- renascentista nascenga, 16; 4. 0 Orfeu renascentista, 17. e suas caracteristicas gerais 3 P. 0.Kristeller: 1.Nega@o do sig- ~$~d'o~filosdfico Humanismo, 18; E. do I. O significado Garin: 2. Reivindica@o da valdncia "filo- historiogriifico sofico-pragmhtica " do Humanismo, 18; J. do termo "Humanismo" 3 Burckhardt: 3 . 0 individualismo como mar- co original da Renascen~a, K. Burdach: 19; 1. 0 Humanismo e a valorizagiio das "litte- 4. As rakes da Renascen~a afundam na Ida- rae humanae", 3; 2. As duas mais signifi- de Mkdia, 20. cativas interpretagoes contemporheas do Humanismo, 6; 2.1. A interpretagiio de Kristeller, 6; 2.2. A interpretasgo de Garin, 7; Capitulo segundo 3. Possivel mediaggo sintCtica das duas in- 0 s debates sobre vroblemas morais terpretag6es opostas, 7. II. Conceito historiogriifico, I. 0 s inicios do Humanism0 21 cronologia e caracteristicas da "Renascenqa" 9 1. Francisco Petrarca, 21; 2. Coluccio Salu- tati, 22. 1. A interpretagiio oitocentista da "Renas- cenga" como surgimento de novo espiri- 11. 0 s debates sobre temas Ctico- to e de nova cultura que valorizam o mun- politicos em L. Bruni, do antigo em oposigiio 2 Idade MCdia, 10; P. Bracciolini, L. B. Alberti - 2 3 2. A nova interpretagiio da "Renascenga" como "renovation e a "volta aos antigos" 1.Leonardo Bruni, 23; 2. Poggio Bracciolini, como "volta aos principios", 11; 3. Re- 24; 3. Leon Battista Alberti, 24; 4. Outros flexoes conclusivas sobre o conceit0 de humanistas do Quatrocentos, 25. "Renascenga", 11; 4. Cronologia e temas d o Humanismo e da Renascenga, 12; 111. Lourenqo Valla 26 5. Relagoes entre Renascenga e Idade MC- 1. 0 Neo-epicurismo de Valla, 26; 2. A su- dia, 12. peragiio de Epicuro, 26; 3. A filologia de
  • 6.
    VIII Yndice geral Valla: a "palavra" como suporte da verda- - T~xros Nicolau de Cusa: 1.0conceito de de, 27. "douta ignorLincia ",46; 2. A "coincidtncia - T~xros F. Petrarca: 1. Verdadeira sabedo- dos opostos" em Deus, 47; 3. 0 principio ria, 28; L. Valla: 2. A defesa da prdpria in- "tudo esta em tudo" e seu significado, 49; t e r p r e t ~ @ ~ ccvoluptas",29. da 4. 0 maximo absoluto e a natureza do ho- mem como microcosmo, 51; M. Ficino: 5. A c o n c e p ~ i oda alma como "copula Capitulo terceiro mundi", 52; Pico della Mirandola: 6. A dig- nidade do homem, 53. 0 Neoplatonismo renascentista- 31 I. Acenos sobre Capitulo quarto a tradigio plat6nica em geral 0 Aristotelismo renascentista e sobre os doutos bizantinos e a revivesc2ncia do Ceticismo- 55 do stc. XV 31 1. Reviveschcia do platonismo, 3 1. I. 0 s problemas da tradigio aristottlica 11. Nicolau de Cusa: na era do Humanism- 55 a "douta ignorhcia" 1. As tr2s interpretagdes tradicionais de em relagio ao infinito 33 Aristoteles, 55; 2. As temiticas aristotklicas 1. A vida, as obras e o delineamento cultu- tratadas na Renascenga, 56; 3. A complexa ral de Nicolau de Cusa, 34; 2. A "douta ig- questiio da "dupla verdade", 56; 4. Valincia nori?ncia", 34; 2.1. A busca por aproxima- do Aristotelismo renascentista, 57. giio, 34; 2.2. A "coincidCncia dos opostos" no infinito, 35; 2.3.0s t r k graus do conhe- 11. Pedro Pomponazzi 58 cimento, 35; 3. A relagio entre Deus e o uni- 1. 0 debate sobre a imortalidade da alma, verso, 36; 4. 0 significado do principio 58; 2. A natureza da alma e a virtude hu- "tudo esti em tudo", 36; 5. A proclamaqiio mana, 59; 3. 0 "principio da naturalida- do homem como "microcosmo", 36. den, 59; 4 . 0 privilkgio que deve ser dado i experitncia, 80. 111. Marsilio Ficino e a Academia plat6nica 111. Renascimento florentina 38 de uma forma moderada 1. A posigio de Ficino no pensamento de Ceticismo 61 renascentista e as caracteristicas de sua obra, 1.Reviveschcias das filosofias helenisticas na 38; 2. Ficino como tradutor, 39; 3 . 0 s pon- Renascenga, 61; 2. Michel de Montaigne e o tos fundamentais do pensamento filosofico ceticismo como fundamento de sabedoria, 61. de Ficino, 39; 4. A filosofia como "revela- gio" divina, 40; 5. A estrutura hierirquica TEXTO~ Pomponazzi: 1. A quest20 da - P. do real e a alma como "copula mundi", 40; imortalidade da a h a , 63; M. de Montaigne: 6. A teoria do "amor plathico" e sua difu- 2. Filosofar e' aprender a mower, 65. sio, 40; 7. A doutrina migica de Ficino e sua importihcia, 4 1. Capitulo quinto IV. Pico della Mirandola A Renascenga e a Religiiio- 67 entre platonismo, aristotelismo, I. Erasmo de Rotterdam cabala e religiio 42 e a "philosophia C h r i s t i " 67 1. 0 pensamento de Pico, 42; 2. Pico e a 1. A posigio, a vida e a obra de Erasmo, 67; cabala, 42; 3. Pico e a doutrina da dignida- 2. Concepqiiohumanista da filosofia cristii, 68; de do homem, 44. 3 . 0 conceito erasmiano de "loucura", 69. V. Francisco Patrizi 45 11. Martinho Lutero 70 1.Patrizi: exemplo da continuidade da men- 1. Lutero e suas relagdes com a filosofia, talidade hermktica, 45. 70; 2. As relagdes de Lutero com o pensa-
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    mento renascentista, 71;3. 0 s pontos basi- IV. Jean Bodin cos da teologia de Lutero, 72; 3.1. 0 ho- e a soberania absoluta mem se justifica apenas pela fC e sem as do Estado 99 obras, 72; 3.2. A "Escritura" como a fonte de verdade, 73; 3.3. 0 livre exame da "Es- 1.A idCia de "soberania" do Estado no pen- critura", 74; 4. ConotaqGes pessimistas e samento de Bodin, 99. irracionalistas do pensamento de Lutero, 74. V. Hugo Grotius 111. Ulrich Zwinglio, e a funda~io o reformador de Zurique- 76 do jusnaturalismo 100 1. A posiqiio doutrinal de Zwinglio, 76. 1.Grotius e a teoria do direito natural, 100. IV. Calvino - TEXTOS N. Maquiavel: 1. A necessidade e a reforma de G e n e b r a 77 de "ir diretamente a verdade efetiva da coi- sa", 101; 2. A sorte e' arbitra da metade de 1. 0 s pontos fundamentais da teoria de nossas ap5es, 101. Calvino, 77. V. Outros teologos da Reforma Capitulo setimo e figuras ligadas VQtices e resultados conclusivos ao movimento p r o t e s t a n t e 79 do pensamento renascentista: 1. IntCrpretes importantes do movimento Leonardo, TelCsio, protestante, 79. Bruno e Campanella 103 VI. Contra-reforma I. Natureza, citncia e arte e Reforma catolica 80 em Leonardo 103 1. 0 s conceitos historiograficos de "Con- 1. Vida e obras, 103; A ordem mecanicista tra-reforma" e de "Reforma catolica", 80; da natureza, 104; 3. "Cogitagiio mental" e 2. 0 Concilio de Trento, 81; 3. 0 relanqa- "experihcia", 105. mento da Escolastica, 83. - TEXTOS Erasmo: 1. Erasmo: o elogio da 11. Bernardino Telksio: loucura, 84; M. Lutero: 2. 0 primado da fe' a investigasgo da natureza em Cristo sobre as obras, 8 8; 3. Sobre o ser- segundo . ,. vo-arbitrio do homem, 89; J. Calvino: 4. Deus seus proprios principios- 106 predestinou alguns homens a salva@o, ou- tros a dana@o, 90. 1. Vida e obras, 106; 2. A novidade da fisi- ca telesiana, 107; 3. 0 s principios proprios da natureza, 108; 4. 0 homem como reali- Capitulo sexto dade natural, 109; 5. A moral natural, 109; A Renascenqa e a Politica 93 6. A transcendcncia divina e a alma como ente supra-sensivel, 110. I. Nicolau Maquiavel 93 111. Giordano Bruno: 1. A posiqiio de Maquiavel, 93; 2. 0 realis- universo infinito mo de Maquiavel, 94; 3. A "virtude" do e "heroic0 furor" .. 111 principe, 94; 4. Liberdade e "sorte", 94; 5. 0 "retorno aos principios", 95; 1. Vida e obras, 112; 2. A caracteristica de fundo do pensamento de Bruno, 113; 11. Guicciardini e Botero 96 3. Arte da memoria (mnemottcnica)e ar- 1. A natureza do homem, a sorte e a vida te magico-hermitica, 114; 4. 0 universo politica em Guicciardini e Botero, 96. de Bruno e seu significado, 114; 5. A in- finitude do Todo e o significado impress0 111. Tomis Morus 97 por Bruno a revolugiio copernicana, 115; 6. 0 s "heroicos furores", 116; 7. Conclu- 1.Imagem emblemitica e conceit0 de "Uto- sGes, 117. pia", 97; 2. 0 s principios morais e sociais em que se inspiram os habitantes de Uto- MAPA CONCEITUAL - A deriva@o do univer- pia, 98. so de Deus e o "herdico furor", 118.
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    IV. Tomas Campanella: pritica, 147; 4. 0 s instrumentos cientifi- naturalismo, magia e anseio cos como parte integrante do saber cienti- fico, 148. de reforma universal 119 1. A vida e as obras, 120; 2. A natureza e o significado do conhecimento filosofico e o Capitulo nono repensamento do sensismo telesiano, 121; A revoluqiio cientifica 3. A autoconscihcia, 122; 4. A metafisica e a tradiqiio magico-hermktica--- 151 campanelliana: as tres "primalidades" do ser, 123; 5 . 0 pan-psiquismo e a magia, 123; I. Presenqa e rejeiqiio da tradiqiio 6. A "Cidade do Sol", 124; 7. Conclus6es, migico-hermetica - 151 124. MAPA CONCEITUAL. - 0 s fundamentos da 1. Resultados do pensamento magico-her- metafisica, 126. mitico sobre a ciincia moderna, 152; 2. A uniao estreita entre astrologia, magia e ci&n- T E X T- Leonardo da Vinci: 1. As caracte- ~S cia moderna, 153; 3. Caracteristicas da as- risticas da ciZncia, 127; B. Telisio: 2. A na- trologia, 154; 4. Fisiognomonia, quiroman- tureza deue ser explicada segundo seus cia e metoposcopia, 154; 5. Caracteristicas principios, 129; G. Bruno: 3. Unidade e infi- da magia, 155. nitude do uniuerso, 130; 4 . 0 mito de Action, 132; T. Campanella: 5. A doutrina do co- 11. Reuchlin nhecimento, 133; 6. A estrutura metafisica e a tradiqio cabalistica. da realidade, 135. Agripa: "magia branca" e "magia negra" 156 Segunda parte 1. Reuchlin e a cabala, 156; 2. Agripa e a magia, 156. 111.0 programa iatroquimico de Paracelso 158 1. Paracelso: da magia a medicina natural, Capitulo oitavo 158. Origens e traqos gerais IV. TrGs "magos" italianos: da revoluqiio cientifica 139 Fracastoro, Cardano I. A revoluqio cientifica: e Della Porta- 160 o que muda com ela 139 1.Jer6nimo Fracastoro, fundador da epide- 1. Como a imagem do universo muda, 141; miologia, 161; 2. Jer6nimo Cardano, um 2. A terra niio i mais o centro do universo: mago que foi midico e matematico, 162; consequincias filosoficas desta "descober- 3. Giambattista Della Porta, entre 6tica e tan, 143; 3. A ciEncia torna-se saber experi- magia, 163. mental, 143; 4. A autonomia da ciincia em relaqiio a f6, 144; 5. A cisncia niio i saber de essincias, 144; 6. Pressupostos filos6- Capitulo dicimo ficos da cihcia moderna, 144; 7. Magia e De CopCrnico a Kepler - 165 cicncia moderna, 145. I. Nicolau Copernico 11. A formaqiio e o novo paradigma de novo tip0 de saber, da teoria helioctntrica 165 que requer a uniio de ciEncia 1. 0 significado filosofico da "revoluqao e tecnica 146 copernicana", 166; 2. A interpretaqso ins- 1. A revoluqiio cientifica cria o cientista ex- trumentalista da obra de CopCrnico, 167; perimental moderno, 146; 2. A revoluqso 3 . 0 realism0 e o Neoplatonismo de Copir- cientifica: fusao da ticnica com o saber, nico, 168; 4. A situaqiio problematica da 146; 3. A cicncia moderna reune teoria e astronomia pri-copernicana, 169; 5. A teo-
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    ria de CopCrnico,170; 6. CopCrnico e a IV. Galileu: tens50 essencial entre tradi@o e revolul50, as rakes do choque 171. com a Igreja 11. Tycho Brahe: e a critica nem "a velha do instrumentalismo distribuigiio ptolemaica" de Belarmino 199 nem "a moderna 1. A origem dos dissidios entre Galileu e a inovagiio introduzida Igreja, 199; 2. As relaq6es entre Galileu e pel0 grande Copernico" 173 Belarmino, 200. 1. Uma restaural50 contendo os germes V. A incomensurabilidade da revoluq50, 173; 2 . 0 sistema tych8nic0, entre ciihcia e f i 202 174. 1. A Sagrada Escritura n5o se refere a estru- 111.Johannes Kepler: tura do cosmo, 202; 2. Autonomia da citn- a passagem do "circulo" cia em rela@o i s Escrituras, 202; 3. As Escri- turas se referem ? nossa salvaq50, 203. i para a "elipse" e a sistematizac;5o matemitica VI. 0 primeiro processo 205 do sistema copernicano - 176 1. Primeira advertincia a Galileu para n5o 1. Kepler: vida e obras, 177; 1.1.Kepler, ma- sustentar a teoria copernicana, 205. temhtico imperial em Praga, 178; 1.2. Kepler em Linz: as "Tabuas rodolfinas" e a "Har- VII. A derrocada da cosmologia monia do mundo", 179; 2. 0 "Mysterium aristotdica cosmographicum": em busca da divina or- e o segundo process0 206 dem matematica dos &us, 180; 3. Do "cir- 1.Uma s6 fisica basta para o mundo celeste culo" a "elipse". As "tris leis de Kepler", e o terrestre, 206; 2. 0 principio de relativi- 181; 4. 0 sol como causa dos movimentos dade galileano, 207; 3. 0 segundo proces- planetarios, 183. so: a condena@o e a abjuraqio, 208. T~y,ros- N. CopCrnico: 1. A novidade da concep@o copernicana, 185; T. Brahe: 2. VIII. A ultima grande obra: Entre tradi@o e inova@o, 187. 0s Discursos e demonstra@es matematicas e m torno Capitulo dkcimo primeiro de duas novas ci2ncias 209 0 drama de Galileu 1.Estrutura da matiria e estitica, 209; 2. A e a fundaqiio celebre experihcia do plano inclinado, 210. da cihcia moderna 189 1X.A imagem galileana I. Galileu Galilei: da cihcia 212 a vida e as obras 192 1. A ciincia nos diz "como vai o cCu" e a fC 1. As etapas mais importantes na vida de "como se vai ao cCu", 212; 2. Contra o Galileu, 192. autoritarismo filosofico, 212; 3. A atitude jus- ta em rela@o 2 tradiqao, 212; 4. A ciincia 11. Galileu e a "fen na luneta- 195 nos diz verdadeiramente como C feito o mun- 1. A luneta como instrumento cientifico, do, 21% 5. A citncia C objetiva, porque des- 195. creve as qualidades mensuraveis dos corpos, 213; 6 . 0 pressuposto neoplat8nico da ciin- 111. 0 Sidereus Nuncius cia galileana, 214; 7. A citncia n5o busca as e as confirmag6es essincias, e todavia o homem possui alguns conhecimentos definitivos e n5o revisiveis, do sistema copernicano 197 215; 8 . 0 universo deterministic0 de Galileu 1.0universo torna-se maior, 197; 2 . 0 cho- ngo C mais o universo antropocintrico de que entre os maximos sistemas do mundo, Aristoteles, 215; 9. Contra o vazio e a insen- 197. satez de algumas teorias tradicionais, 216.
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    J n di c e geral X. A quest50 do mktodo: 1. A importincia da fisica newtoniana na <c experiencias sensatas" historia da cicncia, 241. elou "demonstraq6es VIII. A descoberta do cilculo necessarias" ? 217 infinitesimal 1. A experihcia cientifica C o experimento, e a polemica com Leibniz - 242 217; 2. A mente constr6i a experihcia cien- tifica, 218; 3. Um exemplo de como a ob- 1 . 0 s estudos matemiticos de Newton, 242; servaqio depende das teorias, 219. 2. Newton e o cilculo infinitesimal, 243; 3. A poltmica entre Newton e Leibniz, 244. TEXTOSG. Galilei: 1. 0 telescopio na re- - - volu@o astron&nica, 220; 2. CiBncia e f&, TEXTOSI. Newton: 1.As quatro regras do 221; 3. Me'todo e experiBncia, 225; 4. CiBn- me'todo experimental, 245; 2. Deus e a or- cia e ticnica, 226; R. Belarmino: 5. A inter- dem do mundo, 246. pret~@~ instrumentalists do Copernicanis- mo, 227. Capitulo dkcimo terceiro As ciincias da vida, Capitulo dkcimo segundo as Academias Sistema do mundo, e as Sociedades cientificas 249 metodologia e filosofia na obra I. Desenvolvimentos das ciencias de Isaac Newton 229 da vida 249 I. 0 significado filosofico 1. 0 avanqo da pesquisa anathmica, 250; 2. Harvey: a descoberta da circulaqio do san- da obra de Newton 232 gue e o mecanicismo biologico, 250; 3. Fran- 1. A teoria metodologica de Newton, 232. cisco Redi contra a teoria da geraqio espon- tinea, 251. 11. A vida e as obras 233 1. Como Newton soube ler a queda de uma 11. As Academias ma@, 233; 2. A polCmica com Hooke, 234. e as Sociedades cientificas- 253 111. As "regras do filosofar" 1. A Academia dos Linceus, 254; 2. A Aca- demia do Cimento, 254; 3. A "Royal Socie- e a "ontologia" ty" de Londres, 256; 4. A Academia Real que elas pressupoem 236 das CiCncias na Franqa, 257. 1.TrCs regras metodologicas, 236; 2. A teo- - TEXTOS F. Redi: 1. Contra a teoria da ge- ria corpuscular, 236; 3. A gravitaqiio uni- rag20 esponthzea, 258. versal, 237. IV. A ordem do mundo e a existencia de Deus 238 Terceira Parte 1. 0 sistema do mundo C uma grande mi- quina, 238. BACON E DESCARTES V. 0 significado da senten~a metodologica: Capitulo dkcimo quarto "hypotheses non fingo" 23 8 Francis Bacon: 1. 0 mitodo de Newton: formular hipote- filosofo da era industrial 263 ses e provi-las, 238. I. Francis Bacon: VI. A grande maquina do mundo 239 a vida e o projeto cultura- 263 1. As trCs leis do movimento, 239; 2. A lei de gravitaqio universal, 240. 1. Bacon: o fil6sofo da era industrial, 263. VII. A mec5nica de Newton 11. 0 s escritos de Bacon como programa de pesquisa- 241 e seu significado 265
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    1.A filosofia baconianaexpressa nas obras, 1. Criticas a filosofia e a logica tradicionais, 265. 286; 2. Criticas ao saber matemitico, 287; 3. 0 problema geral do fundamento do sa- 111. "AntecipaqGes da natureza" ber, 288. e "interpreta~Ges natureza" -267 da 111. As regras do mttodo 288 1. 0 mCtodo por meio do qua1 se alcanqa o verdadeiro saber, 267. 1. Conceitos e numero das regras do mito- do, 289; 2. A primeira regra do mitodo, 289; IV. A teoria dos "idola" 269 3. A segunda regra do mitodo, 289; 4. A 1. Significado da teoria dos "idola", 269; terceira regra do mttodo, 290; 5. A quarta 2 . 0 s "idola tribus", 269; 3 . 0 s "idola spe- regra do mttodo, 290; 6. As quatro regras cus", 270; 4. 0 s "idola fori", 270; 5. 0 s como modelo do saber, 290. "idola theatri", 271. IV. A duvida metodica V. 0 escopo da ciincia: e a certeza fundamental: a descoberta das "formas" 272 cogito, ergo sum" G< 29 1 1. Um ponto cardeal do pensamento de 1. A duvida como passagem obrigatoria, Bacon, 272; 2. 0 poder do homem esta em mas provisoria, para chegar a verdade, ~roduzir um corpo novas naturezas, 272; em 291; 2. Absolutez veritativa da proposi- 3. A citncia esti na descoberta das "formas", q5o "eu penso, logo existo", 292; 3. A pro- 272; 4. A idiia baconiana de "forma", o posiqzo "eu penso, logo existo" n5o C um "processo latente" e o "esquematismo la- raciocinio dedutivo, mas uma intuiqiio, tente", 273. 292; 4. 0 eixo da filosofia n5o i mais a citncia do ser mas a doutrina do conheci- VI. A induqiio por eliminaqiio mento, 293; 5. 0 centro do novo saber C e o "experimentum crucis" - 274 o sujeito humano, 294; 6. A reta raz5o humana, 294. 1. Critica induq5o aristotClica, 274; 2. As trts "tabuas" sobre as quais se deve ba- V. A existincia sear a nova indug50, 275; 3. Como das e o papel de Deus 295 trts tabuas se extrai a "primeira vindima", 275; 4. A nova induqso como "via media- 1. 0 problema da relagio entre nossas na" entre as seguidas por empiristas e idiias, que s5o formas mentais, e a realida- racionalistas, 276; 5. 0 "experimentum de objetiva, 295; 2. "IdCias inatas", "idiias crucis", 276. adventicias" e "idCias facticias", 296; 3. A idiia inata de Deus e sua objetividade, MAPA CONCEITUAI. -A interpreta@o da nu- 296; 4. Deus como garantia da funq5o ve- tureza, 278. ritativa de nossas faculdades cognosciti- TEXTOSF. Bacon: 1. A necessidade de - vas, 297; 5. As verdades eternas, 298; 6 . 0 um novo metodo nus ciBncias e nus artes, err0 n5o depende de Deus, mas do homem, 279; 2. As linhas gerais do novo metodo, 299. 281. VI. 0 mundo t uma maquina 299 1. A idCia de extens50 e sua importincia Capitulo d k i m o quinto essencial, 299; 2. Apenas a extensio C pro- Descartes: priedade essencial, 300; 3. A matiria (ex- "0 fundador tens5o) e o movimento como principios da filosofia moderna" 283 constitutivos do mundo, 300; 4. 0 s prin- cipios fundamentais que regem o univer- I. A vida e as obras 283 so, 301; 5. Reduq5o de todos os organis- mos e do mundo inteiro a maquinas, 301. 1. Um novo tip0 de saber centrado sobre o homem e sobre a racionalidade huma- VII. Alma ( "res cogitans" ) na, 283. e corpo ("res extensa") -302 II. A experiincia da derrocada 1. 0 contato entre "res cogitans" e "res ex- da cultura da tpoca 286 tensa" ocorre no homem, 302.
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    VIII. As regrasda moral CONCE~TUAL 0 "cogit0 ",306. MAPA - provisoria 303 1. A primeira regra, 304; 2. A segunda re- TMTOS R. Descartes: 1.AS regras metodi- - gra, 304; 3. A terceira regra, 304; 4. A quarta cas, 307; 2. 0 ''cogit0 ergo sum", 309; 3. A regra, 304; 5. A razz0 e 0 verdadeiro corn0 "terceira meditapio" em torno de Deus e fundamento da moral, 304. de sua exist2ncia, 310.
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    3, es* BRUNELLESCHI F., 147 BRUNI 21,23-24, 31 L., G., BRUNO 41, 55, 57, 103, 111- Abetti G., 177, 179, 180 BACONF., 108, 139, 141, 145, 12, 118,120,130-133,143, 168, ACQUAPENDENTE, F. D,' 249,250 151,153,163,239,253,257, 199,285 Afonso I1 d'Este, 45 261,263-278,279-282 Bullart I., 136 Afonso X, rei de Leiio e Castela, 170 Bacon N., 263,264 BUONARROTI M., 5 AGOSTINH~ IIF HII'ONA, 16,22,68, BadouGre J., 189, 195 Buono, C. del, 255 91,122,135,202 Baliani J.B., 217 Buono, P. del, 255 AGRIPA DE NFTTESHEIM C. (Heinrich BANFI 167 A., Burckhardt I., 9, 10, 19-20 Cornelius),161,156-158,163 BARBARO25,42E., Burdach K., 9,11,20 ALBERTI 23,24-25, 147 L.B., Barone F., 166,167 B U R I D A172 , N~ Alcibiades, 84 BarSnio C. card., 190,202 Butterfield H., 171 ALEMBERT, LEROND 266 J.B. I)', BARROW229, 233,242 I., ALEXANDRE DE AFROD~SIA, 56,58,64 BAYIX 145, 151, 153 P., Alexandre VI, 44 BEECKMAN I., 284 Alexandre VII, 256 BELARMINO R., 144,165,168,190, AMBR~SIO, 68 200,201,205,208,227-228 Ammannati G., 192 Bembo P., 38,41 ANAXAG~RAS, 36,49 BENI 145 P., ANSELMOAOSTA, DE 297 BERKELEY F., 243 CAIETANO (Tomas de Vio), 83 ARIST~TELES, 8, 22, 23, 24, 3, 6, BERULI. DE, F P 284 CAIVINO(Jean Cauvin), 77-78, G. 25,29,31,45,47,56,57,60, BESSAIW>NE G., card., 32 83, 90-92, 144, 190, 200, 63, 64, 76, 83, 94, 107, 108, BIRINGUCCIO V., 147 250 109,110,115,124,137,143, Bocchineri G., 193 CAMPANEILA T., 9,55,57,103,119- 144,191,192, 197,199,207, J., BODIN 99, 200 126,133-136, 193, 199,285 210,212,213,215,216,217, BOHME 79,80 J., Carafa, 107 218,225,264,265,273 BOI.ZANO 244B., J., ~ C A R D A N160, 162-163, 265 A R N A LDE ~ D BR~SCIA, 20 BORELLI 249,251,255 A., Carlos 11, 253,256 AKNAULI) 285 A., J., BORELLI 255 Carlos V, 75 A K N ~ B 68 , IO B6rgia C., 103 Carlos VIII, 161 ARQUIMEDES, 148, 192 144, J., B ~ T E K O96 CASTELLI 148, 189, 193, 203, B., Arrighetti N., 221, 222 R., BOYLE 145, 148, 153, 229, 205,221 Asimov I., 250 232,239,252,254 Castiglione B., 38,41 ATANASIO, 64 BRA(:C:IOLINI 24 P., 23, CAUCHY 244 A.L., AVERR~IS, 57, 58, 60, 64 21, 56, T., BRAHE 142, 152, 173-175, 176, CAVALIERI B., 211,242 AVICENA, 158 177,178,180,181,182,187-188 Cellari A., 142 * Neste indice: -reportam-se em versalete os nomes dos fil6sofos e dos homens de cultura ligados ao desenvolvimento do pensamento ocidental, para os quais indicam-se em negrito as piginas em que o autor e tratado de acordo com o tema, e em itilico as piginas dos textos; -reportam-se em itilico os nomes dos criticos; -reportam-se em redondo todos os nomes n5o pertencentes aos agrupamentos precedentes.
  • 14.
    Cellini B., 147,162 240,254,256,263,283,285, CESALPINO60, 250 A., 288,300 Cesi F., 196, 198,253,254 L., GALILEI 192 CICERO TULIO, M. 3,5,29,76,154, ECFANTO PITAG~KICO,171 166, Galilei Vincenzo (filho), 192 170,265,287 ECKHART (Mestre) G., 34 Galilei Vincenzo (pai), 192 CIPRIANOCARTAGO, DE 68 Eduardo VI, 163 Galilei Virginia (irml Maria Ce- Clemente VIII, 178 A., EINSTEIN 141,241 leste), 192 Cola de Rienzo, 9, 11, 12 Elisabeth I, 263,264 Gamba M., 192 Colbert J.B., 253, 257 E~rcu~to, 26, 29, 115 24, Garin E., 3,7,8,11,18-19,22,24, Colombo C., 161 ERASMO ROTTERDAM DE (Geer 27,29 COLOMBO 249,250 R., Geertsz),67-69,70,71,84-87 GASSENDI P., 285 Constantino, imperador, 14,27 Ernesto de Baviera, 179 Gaywood R., 251 C~PPRNICO N. (NiklasKoppemigk), Esco~o ERIUGENA, 34 GClio Aulo, 3, 5 117,124,139,140,141,142, ~ s ~ u i ndesSfetto, 23 e GEMISTO PI.FTON 17, 32 J., 143,144,145,152,161,166, ESTEVAO (Stephanus), 61, 65 H. Genser C., 163 167-172,173,174,175,178, EUCLIDES, 192,232, 244 148, A., GENTILI 100 185-187,l88,l99,2Ol,206, Eunoxlo DE CNIIIO, 244 Geymonat L., 196, 199 EULER, 288 GHIBEK~ 147 1 L., EUSTAQUIO B., 250 Giese T., 185 Cosme de MCdici (o Velho), 38 GILBEI~T183 W., Cosme I1 de MCdici, 189,192,195, 197 Giordano A., 222 Cranach L., 71 Giordano P., 222 CI~EMONINI C., 60 GRASSI 193, 206 H., CRISOI.ORA 22, 23, 31 M., Gregory T., 64 Cristina da SuCcia, 283,285,286 FALOPIO 250 G., GKOTIUS (Huig de Groot), 100 H. Cristina de Lorena, 189,193,202, Farrington B., 266 GUI(:CIARDINI F., 96 203,217,221 Ferdinand0 da Austria, 178 Guldenmann C., 177 FERMAT 242, 243 P., Guthrie D., 161, 162 FERNEI. 163,251 J., FICINO 15, 16,17,31,32,38- M., 41,42,45,52-53,54,67,71, 76, 109, 113, 114, 115, 116, 145,155 Da Costa Andrade, 233 HAI.I.FY 229, 234 E., Filipe de Hessen, 77 DARWIN 147 C., Hals F., 284 FII.OI.AUTEBAS, 171 LIE 166, DATI C.R., 255 W., HARVEY 144, 152, 163, 249, FOSCARINI200, 228 A., N. DECUSA (Kryfts ou Kreb), 31, 250-251,252 FRACASTORO J., 151,153,160,161, 32, 33-37,46-52, 114, 116 HEGEL G.W.F., 71 170 Del Monte EM., 205 Henrique 111, 112, 114 Francisco da Austria, 255 DELLA PORTA G.B., 120,145,154, Henrique VIII, 97 Francisco I, 104 160,163,196 HERACLIDES P~NTICO, 171 166, FRANCK 79, 80 S., Demostenes de Atenas, 23 HERACLITO DF. EFESO, 270 Frederico I1 da Dinamarca, 173, DESCARTES J., 283 HERMES TK~SMF.GISTO/COR~'USHER- 174 R., DESCARTES12, 121, 122, 125, METICUM, 1,4,7,8,14,15-16, Frederico V do Palatinato, 286 139,141,146,153,231,232, 17,38,39,40,44,45,53,71, 239,242,249,250,251,254, Fugger S., 158 113,145,152,155 261,283-306,307-316 HERON, 148 Devereux R., 264 HERVET 61, 65 G., DIDF.ROT 266 D., HOBBES 243, 249, 250, 285 T., DIGGES 172 T., Holbein H. (o Jovem), 68,69,97 Dijksterhuis E.J., 181, 183, 233 Homen D., 13 Dini P., 189, 193, 201, 204 GAI.ENO, 158, 250, 265 144, Homero, 84 Dro~Lslo AREOPAGITA (PSEUDO), 17, GALILEI 9, 12, 103, 105, 107, G., 108,110,120,137,139,140, HOOKE 149, 150, 229, 234- R., 33, 34, 39 r 235 141,142,143,144,145,146, Donato L., 196 147,148,149,152,153,166, HORKY LOC:H~VIC179 DE M., Dreyer J.L.E., 179 168,171,173,175,176,177, Huss J., 74 DUNS ES(:OTO 57, 265 J., 178,179,184,189-219,220- HUYGENS 148,229,234,253, C., Diirer A., 87 227,228,231,232,233,239, 255,257
  • 15.
    Jndice d e nomes XVII Leopoldo de Toscana, 253, 254, 255,256 Liceti F., 218, 225 A IOTAI)E SIKACUSA, 170 166, LICHTENBEKC G., 166 OCKHAM 57, 71 G., INACIO L ~ Y O I . A , I)F 80 Lipps J.H., 232 OLDENBURG H., 253,257 I K E N E ~LIAO, 68 IIF. J LIPSIO (JOOS~ 61 J. Lips), OKESME 172 N., Isabel (filha de Frederico V), 286 LOCKE 229,234 J., O K F E U / H I N ~ S 14, 17, 38, ORFI(:OS, 39,40, 71 Lorini N., 205 Orsini card., 205 Lourenfo de' MCdici, 41, 44 OSIANL)ERA H. Hosemann), (Andreas Luc"i0, 54 144,165,168,172,199 Lua&c:lo CAKO, TITO, 115 OUGHTRED242 W., Ludovico, o Mouro, 103 Jaime I, 264, 265 Luis XIII, 121 JA~vilr~.rco CALCIDA, LIE 39 Luis XIV, 253,257 JoHo (Evangelists), 16, 51 JoHo de Stefano, 15 Lul.ro R. (Ramon Lhull), 114,307 rg L L ~ T E R ~ 69, 70-75, 76, 77, M., 67, JOKGF. TRF.BISONI)A, DF. 32 78, 79, 83, 88-90, 144, 190, M.7 25 Juliano de Medici, 178 200 PARACF.I.SO (Theophrast Bombast Juliano o Teurgo,l6 vonHohnheim),145,151,153, 158-160, 163, 265 ;;;czL~;;%;; 5 A PATRIZI 45, 107 F., E., MACH 231,240 Paulet A., 264 KANT 167,229,232,233,299 I., MAESTLIN 172, 176, 177 M., P A U IDE TARSO, 26, 69, 78 .~ 17, Kepler H., 177 MAGAI.OTTI148, 254, 255 L., Paulo 111 papa, 169, 185, 199 KEIUK 139, 140, 141, 142, J., v., MAGG~ 107 PEDRO LOMHARDO, 83 144, 145,146,147,151, 152, MA,pl(;,lr M., 148, 252 PFIKCE 154 C.S., 153,166,168,172,173,174, MANErrl 25 G., Pelli L., 260 175,176-184,192,195,196, 239,242,283 MANSO G.B., 145 PETRAKCA E, 5,9,11,12,14,21-22, KIEKKF.GAAKD S.,71 MAQUIAVFI. N., 93-95,96,101-102 23,28-29 KIKCHEK 260 A., MAIWLI 255 A., PICAKII 234 J., KI.AU (Clivio), 198, 199 C. Mauricio de Nassau, 284 Picchena C., 206 ~ ~ 140, 147, 167, 239j A., ~ ~ , MAuKol,lc:o F., 178, 196 Piccolomini A., 193 Kristeller PO., 3, 6, 7, 8, 18 Maximiliano da Baviera, 284 Prco DEI LA MIKANDOI.A Giovanni, 1, MAZZONI 192 J., 31, 32, 38, 41, 42-44, 45, 53- KUHNTH. 141,166,167,172, S., 54,59,67,71,76,113,121,156 175, 180, 181, 182, 184, 199 MF.~.ANCHTON FV79,144,190,200 M., MERSENNE 125,254,284,285 Pr(x' GianfrancescO, 61 Micincio F., 192 PIF.RO I A FKANCFSCA, DEI 147 Mierevelt, M. van, 100 Pio XI papa, 97 Mocenigo J., 111, 113 PITAGORAS,40 38, MoisCs, 16 PLATAO,7, 8, 14, 17,21,22,23, 4, LAcTANclo L.C. FIRMIANo, 16,169 25, 31, 38, 39,40,45,46, 53, MONTAIc;NE, 61-62, 65-66 M. de, Larmessin, N. de, 136 64, 76, 84, 87, 94, 124, 210, M o ~ u T., 97-98 s LAUSCHEN (Rheticus), 165, G.J. Miintzer T., 77 265 168,169,171 PIOTINO DF. LI(:(POI 4, 7, 8, 39, IS, Muraro L., 164 LAVATEK 154 J.C., 45,52,115 A.-L., LAVOISIF.~ 141 PLUTAKCO IIE QUERON~.IA, 23 LEAO HEBKEU (JehudahAbarbanel), Poliziano A., 54 41 P o ~ n r ~ * zP. r z (Peretto Mantova- LeHo X papa, 104, 187 no), 6, 57, 58-60, 63-65 LEEUWENHOEK, 148,252 A. VAN, Nard2 B., 60 POPE 137 A., LEF~VKE D'~TAPLESJ. (Faber Stapu- N E w m I., 137, 139, 141, 142, ~ PoR~~IO T1~0, 39 lensis), 77 147, 149, 150, 152, 176,184, Pnocr o,r39, 45, 169 G.W., LEIRNIZ 211,232,242,244, 211,229-244,245-248, 253 ~ ~ ~ 1 . M.,039 1 . 254,283 Niethammer, El., 4 P T ~ L ~ M124, ,151, 154, 171, EU LEONAKDO DA VINCI, 103-105, 4, NOVAL~S, 114 174,192,197,199,200,204 127-128, 147 NOVAKA D.M., 169 Piitter, 80
  • 16.
    SOCRATES, 22,28,59,68, 84, 94 VFSALIO 249, 250 A., B., SP~NOZA41, 111, 114, 117 VIETE 242 F., Sprat R.T., 266 Vinta B., 218, 226 RAWLEY 264 W., Stevenzoon van Calcar J., 250 VITRUVIO, 148 Rmr F., 249,251-252,255,258- F., SUAREZ 80, 83 VIVIANI 148, 189, 194,255 V., 260 Sylvius, 163 VOET (VoCcio),285 G. E., RF.INHOI.D 172 VOLTA~RF. (ArouetEM.), 233, F.M. REUCHLIN J. (Capnion), 156 235 REY 148 J., Rheticus (ver Lauschen G.J.) Rlccr O., 189, 192 Richelieu, A.-J. card. de, 119 TARGIONI-TOZZETTI G., 255 RINALDINI255 C., TARTAGLIA189, 192 N., W~LLENSTE~N A., 180 Rodolfo I1 de Asburgo, 112,174, TELBSIO 55,57,103,106-110, B., WALLIS 242,243, 244 J., 178 121,123,129 M., WFRER 78 Ronchi V., 178,196 TEM~STIO, 64 WEICEL 79-80 V., Rosselli C., 54 Ticiano, 82, 250 WOI.FF 80, 83 C., Rossi P., 175, 254 TOMAS AQUINO, DE 57,58,63, 64, C., WREN 229,234 83,120,135,265 WYCLIF 74 J., Tomis de Vio (ver Caietano) Sagredo G., 192,207 SAI.UTATI21, 22 C., Xenofonte de Atenas, 23 Salviati F., 207 Santi di Tito, 95 ULIVA 255 A., Sarpi P., 192 Savonarola J., 42 Urbano VIII (Maffeo Barberini), A 121,191,193,206,208,285 Yates F.A., 113 SCHLEIERMACHER 114F.D.E., SCH~LARIOS GENNADIO J., 32 Schonberg N., 167, 185 A., SEGNI 255 S~NECA, 76 28, M., SERVET 79,249,250 VALLA 15,26-27,29-30 L., ZABARELLA J., 60 SEXTO EMI~~R~<:o, 65 61, 62, VALTUR~O DE R~MINI, 147 Z~ROASTRO(ZARATUSTRA)/ORACU- SIWR BRABANTE, 57 LIE 55, VANINI 60 J.C., LOS CALDEUS, 16-17, 38, 14, SOCINO 79F., Vayringe, 255,256 39,40,43, 45, 71 SOCINO 79L., Verrocchio A., 105 ZW~NGLIO U., 76-77, 83
  • 17.
    antecipaqiio da natureza,267 idtia, 297 anticopernicanos, 200 indu~iio elimina~iio, por 275 interpretaqso da natureza, 268 rq "cogito, ergo sum", 292 evidtncia, 289 "res cogitans" e "res extensa", 293 experitncia (papel da experitncia na pesqui- sa cientifica), 218 Ft religiosa (finalidade da f i ) , 203 sorte do De revolutionibus, 172
  • 18.
    DO HUMANISM0 ADESCARTES
  • 19.
    E A RENASCENCA Origens Tra~os essenciais Desenvolvimentos 'Magnum miracu/um est homo. " Hermes Trismegisto, Asc/ep/i/s '6suprema merakdde de Deus Pai! 0 suprema e admira've/fekcidadedo homed H o r n ao qua/ foi concedido obter aqu//oque dese/b e ser aqu//o que quel Ao nascerem, 0s brutos /evam consgo, do seio materno, tudo aqu//oque ter20, 0 s esp/i- tos supeflores, desde o Ihicio oupouco depois, ja s20 aqulo que ser20 nos secu/os dos secu/os.No h o r n nascente, o Oai depositou semenfes de toda especie e germs de toda vida. 6 2 medida que cada um os cu/tiva/;e/escrescerao e ne/e da- r2o seus frutos, E se forem vegetais, serap/anta; se forem sensive&,sera'bruto,,se forem racionais, se tornard amha/ ce/este; se forem /hie/ectua/s, sera' anjo e Mho de Deus. Se, contudo, n20 con- tente com a soHe de nenhuma cHatura, se reco- /her no centro de sua unidade, tornando-se um so esphito corn Deus, na sokta'rianevoa do Pa/;aque/e que foiposto sobre todas as coisas estara' sobre todas as coisas. " Pico della Mirandola
  • 20.
    Capitulo primeiro 0 pensamentohumanista-renascentista e suas caracteristicas gerais Capitulo segundo 0 s debates sobre problemas morais e Neo-epicurismo Capitulo terceiro 0 Neoplatonismo renascentista Capitulo quarto 0 Aristotelisrno renascentista e a revivescGncia do Ceticismo Capitulo qulnto A Renascenqa e a Religiiio Capitulo sexto A Renascenqa e a Politica Capitulo sCtimo Virtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista: Leonardo, Telesio, Bruno e Campanella 103
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    Capit~Io primeiro 0 pensamento hMmanista-renascentista e s a caracteristicas gerais M s d o terrno "tl~zrnanisrno" 0 termo "Humanismo" foi usado pela primeira vez no inicio do 800 para indicar a area cultural coberta pelos estudos classicos e pelo espirito que Ihe e proprio, em contraposi@o ao bmbito das disciplinas cientificas. A palavra hu- manista, porem, ja era empregada pela metade do 400, e deriva de humanitas, que em Cicero e Gelio significa educa@o e forma- Humanismo @o espiritual do homem, na qua1 tern papel essencial as discipli- nas literarias (poesia, retdrica, historia, filosofia). essential Ora, a partir sobretudo da metade do 300, e depois de mod0 representado sempre crescente nos dois seculos sucessivos, desenvolveu-se na pelas "litterae ltalia justamente uma tendencia a atribuir valor muito grande humanae" aos estudos das litterae humanae e a considerar a antiguidade + 9 1 classics, grega e latina, como um paradigma e um ponto de refe- rencia para a atividades espirituais e a cultura em geral. "Humanismo", portanto, s significa em geral esta tendencia que, surgida essencialmente no seio da cultura italiana, pelo fim do 400 se difundiu em muitos outros paises europeus. Entre os estudiosos contemporbneos do Humanismo, sobressaem princi- palmente P.O. Kristeller e E. Garin, cujas interpretac;ijes contrapostas resultam na realidade muito fecundas justamente por sua antitese el se prescindirmos de alguns pressupostos dos dois autores, podemos integrd-las mutuamente. Segundo Kristeller, o Humanismo representaria apenas me- tade do fenbmeno renascentista e melhor dizendo, a " literaria", ouas , djfeEnte, na"o a filosdfica; portanto, ele seria plenamente compreensivel teses modernas apenas s considerado junto com o Aristotelismo que s desen- sobre o e e volveu paralelamente, e que expressaria a verdadeiras ideias fi- significado s losoficas da epoca. filosdfico Segundo Garin, ao contrario, os Humanistas s voltaram a de Humanism0 e um tip0 de especu1ac;a"ona"osistematica, problematica e pragmd- + 3 tica, e formaram novo metodo que, centrado sobre um novo sen- tido da historia, deve ser considerado como efetivo filosofat; a direc;(?o contem- plativo-metafisicaem que o Humanismo italiano embocou desde a segunda me- tade do 400 teria sido portanto a consequencia do advent0 das Senhorias e do eclipsar-se das liberdades politicas republicanas. Ora, e verdade que "humanista" indica originariamente a tarefa do litera- to, mas tal tarefa foi muito alem do ensino universitdrio, entrou na vida ativa e se tornou de fato "nova filosofia". Alem disso, o Aristdteles deste period0 foi um Aristoteles frequentemente lido no texto original, sem a mediaslio das tradu@es e das exegeses medievais; tratou-se, portanto, de um Aristoteles revisitado corn
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    4 Primeira parte - O t l u m a n i ~ m ~ R e n a s c e n c a ea novo espirito que apenas o Humanismo pode explicar. Por fim, a pOssibi'idade grande mudanca do pensamento humanista n l o esteve apenas de integrar mutuamente ligada a uma mudanca politica, mas a descoberta e As tradu~aes as duas de HermesTrismegisto e dos Profetas-Magos, de Platlo, de Plotino interpretac5es e de toda a tradiclo platgnica. A marca que contradistingue o opostas Humanismo foil portanto, um novo sentido do homem e de seus +§3 problemas, novo sentido que encontrou expressdes multiformes e por vezes opostas, mas sempre ricas e freqiientemente muito originais, e que culminou nas celebrac$es teoricas da "dignidade do homem" como ser "extraordinario" em relaclo a toda a ordem do mundo. A quest50 revela-se ainda mais com- plexa pelo fato de que, nesse periodo, n5o ocorre apenas mudanqa no pensamento fi- losofico, mas tambCm, em geral, a mudan- qa da vida do homem, em todos os seus as- pectos: sociais, politicos, morais, literarios, Ha toda uma interminavel literatura artisticos, cientificos e religiosos. E tornou- critica sobre o periodo do Humanismo e do se bem mais complexa ainda pel0 fato de que Renascimento. No entanto, os estudiosos as pesquisas se tornaram predominantemen- n5o conseguiram chegar a uma definiqso das te analiticas e setoriais, e os estudiosos apre- caracteristicas dessa Cpoca, capaz de reunir sentam a tendencia de fugir das grandes sin- um consenso unhime, mas, pouco a pou- teses ou at6 simplesmente das hipoteses de co, enredaram a tal ponto a meada dos va- trabalho de carater global ou das perspecti- rios problemas que hoje C dificil para o pro- vas de conjunto. prio especialista desenreda-la. Assim, C necessario antes de mais nada focalizar alguns conceitos bisicos, sem os quais nHo seria possivel sequer a exposiq50 dos va- rios problemas relativos a esse periodo. Comecemos por examinar o pr6prio conceit0 de "humanismo". 0 term0 "humanismo" C recente. Pare- ce que foi usado pela primeira vez pel0 fi- losofo e teologo alemiio F. I. Niethammer (1766-1848) para indicar a area cultural coberta pelos estudos classicos e pel0 espi- rito que Ihe 6 proprio, em contraposiqHo com a area cultural coberta pelas disciplinas cien-
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    5 Capitdo primeiro - 8 p e n s a m e n t o h u m a n i s t a - r e n a s c e n t i s t n e suds caracteristicas tificas. Entretanto, o termo "humanista" (e pela intensidade, a ponto de marcar o ini- seus equivalentes nas varias linguas) nasceu cio de um novo period0 na historia da cul- por volta de meados do skulo XV, calcado tura e do ensa amen to. nos termos "legistan, "jurista", "canonista" Grande fervor nasceu em torno dos e "artista", para indicar os professores e cl6ssicos latinos e gregos e de sua redesco- cultores de gramatica, retorica, poesia, his- berta, do paciente trabalho de pesquisa de toria e filosofia moral. Ademais, j i no s k u - codices nas bibliotecas e de sua interpreta- lo XIV falava-se de studia humanitatis e de qiio. Varios acontecimentos levaram a uma studia humaniora, expressoes referidas a nova aquisiqiio do conhecimento da lingua famosas afirmagoes de Cicero e Gelio para grega, considerada patrim6nio espiritual indicar essas disciplinas. essencial do homem culto (as ~rimeiras > c5- A Para os mencionados autores latinos, hu- tedras de lingua e literatura gregas foram manitas significava aproximadamente aqui- instituidas no Trezentos, mas a grande di- lo que os heknicos indicavam com o termo fusiio do grego ocorreu sobretudo no Qua- paideia, ou seja, educagiio e formaqiio do trocentos. De mod0 especial, o Concilio de homem. Ora, nessa Cpoca de formaqiio es- Ferrara e Florenqa, em 1438-1439, e, logo piritual considerava-se que as letras, ou seja, depois, a queda de Constantinopla, ocorri- a poesia, a retorica, a historia e a filosofia da em 1453. levaram alguns doutos bizan- L, desempenhavam um papel essencial. Com tinos a fixar moradia na Itdia, tendo por efeito, siio essas disciplinas que estudam o conseqiihcia um grande increment0 no en- homem naquilo que ele tem de peculiar, pres- sino da lingua grega). cindindo de qualquer utilidade pragmatica. Por isso, mostram-se particularmente capa- zes niio apenas de nos dar a conhecer a na- tureza especifica do proprio homem, mas tambem de fortale&-la e potencializa-la. Sobretudo a partir da segunda metade do Trezentos e depois, sempre de forma cres- cente, nos dois seculos seguintes (com seu ponto culminante precisamente no sCculo XV), verificou-se uma tendEncia a atribuir aos estudos relativos as litterae humanae um grande valor, considerando a antiguidadeclas- sics, latina e grega, como paradigma e ponto de referkcia para as atividades espirituais e a cultura em geral. Pouco a pouco, os auto- res latinos e gregos se firmavam como mo- delos insuper6veis nas chamadas "letras hu- manas", verdadeiros mestres de humanidade. Assim, "humanismo" significa essa ten- d h c i a geral que, embora com precedentes ao longo da tpoca medieval, a partir de Fran- cisco Petrarca, apresentava-se agora de mo- do marcadamente novo por seu particular colorido, por suas modalidades peculiares e 0 ce'lehre "Davt " de M~chelangelo, nu m u p t a d e e nohreza dos t r a p s , rejmsenta vtsua~rnentr, de rnodo puradrgmatl~o, o concerto do hornern conzo "o rnamr rnllugre" do unwerso, que constltnr umu das chaues esprrrtuurs mars tlpzcas du Renuscen~a. 0 "Davl" se encontra ern Floren~a, na Gulerra cia Academta, e utnu copra dele esta na P~uzzadella Stgnorru.
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    Primeira parte -0+Iumuni.;~?o i. n Renuscrncn ,,,, A s d u a s mais sadores peripattticos que retornassem aos textos gregos de Aristoteles, deixassem de ~i~nificativas lado as traduqdes latinas medievais e fizes- sem uso dos comentadores gregos e tambCm de outros pensadores gregos. Desse modo, destaca Kristeller, os es- tudiosos hostis h Idade MCdia confundiram esse aristotelismo renascentista com o resi- duo de tradi~oes medievais superadas e, por- Entre as interpretaqdes contempori- tanto, como residuo de urna cultura ultra- neas do "humanismo", duas s i o as mais im- passada, pensando que deviam deixa-lo de portantes por se referirem a o seu significa- lado em beneficio dos "humanistas", verda- do filosofico. deiros portadores do novo espirito renas- centista. Mas, segundo Kristeller, tratar-se- ia de grave err0 de compreensiio historica, porque frequentemente a condenaqiio do aristotelismo renascentista foi feita sem urna efetiva consci2ncia daquilo que se estava De um lado, P.O. Kristeller procurou condenando. A exceqio de Pomponazzi (do limitar fortemente o significado filosofico e qual falaremos adiante), que no mais das teorttico do humanismo, inclusive a ponto vezes foi seriamente considerado, um grave de elimini-lo. preconceito condicionou o conhecimento Segundo esse estudioso, bastaria dei- desse momento da historia do pensamento. xar a o termo o significado te'cnico que pos- E necessario, portanto, estudar a fundo as suia originalmente, restringindo-o assim ao questdes discutidas pelos aristotClicos italia- imbito das disciplinas retorico-literarias nos desse periodo: desse modo, cairiam por (gramatica, retorica, historia, poesia e filo- terra muitos lugares-comuns que so se man- sofia moral). tem porque foram continuamente repetidos, Conforme Kristeller, os humanistas do mas que carecem de base solida, emergindo periodo de que estamos tratando foram su- consequentemente urna nova realidade his- perestimados, sendo-lhes atribuido um pa- torica. pel de renovaqio do pensamento que eles, Em conclusio, o humanismo repre- na realidade, niio desempenharam, visto que sentaria apenas uma metade do fen6meno niio se ocuparam diretamente da filosofia e renascentista e, mais ainda, a metade ndo da ciencia. Em suma, para Kristeller, os hu- filosofica. Assim, ele so seria plenamente manistas niio foram verdadeiros refor- compreensivel se considerado junto com o madores do pensamento filosofico porque, aristotelismo que se desenvolveu paralela- de fato, niio foram filosofos. mente, o qual expressaria as verdadeiras Na visio de Kristeller, para compreen- idCias filosoficas da Cpoca. Ademais, segun- der a Cpoca de que estamos falando, seria do Kristeller, os artistas do Renascimento necessario dedicar atenqio h tradigdo aris- niio deveriam ser vistos na otica do grande tote'lica, que tratava de mod0 sistematico da "genio criativo" (que constitui urna visiio filosofia da natureza e da logica, que ja ha- romintica e um mito oitocentista), mas sim via se consolidado fora da Itilia (sobretudo como "otimos artesiios", cuja excekncia n5o em Paris e Oxford) ha bastante tempo, mas decorre de urna espCcie de superior adivi- que na Itilia so se consolidaria mais tarde. nhaqiio dos destinos da cicncia moderna, e Diz Kristeller que foi na segunda metade do sim da bagagem de conhecimentos ticnicos Trezentos que "comeqou urna tradiqiio con- (anatomia, perspectiva, mecgnica etc.), con- tinua de aristotelismo italiano, a qual po- siderada indispensiivel para a pratica ade- de ser seguida atravis do Quatrocentos e quada de sua arte. Por fim, se a astronomia do Quinhentos e at6 por boa parte do Seis- e a fisica realizaram progressos notiveis, niio centos". foi por motivo de sua ligaqiio com o pensa- Esse "aristotelismo renascentista" se- mento filosofico, e sim com a matematica. guiu os mCtodos proprios da "escolastica" 0 s filosofos tardaram a se harmonizar com (leitura e comentario dos textos), mas enri- essas descobertas, porque, tradicionalmen- quecendo-se com as novas influcncias huma- te, n5o havia uma conexio precisa entre nistas, que exigiriam dos estudiosos e pen- matematica e filosofia.
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    7 Capitulo primezro - 0 p e n s a m e n t o humantsta-renascentista e s u d s cavactevisticas culado B liberdade politzca daquele momen- to. 0 advent0 das tutelas e o eclipsar-se das Diametralmente oposta C a reconstru- liberdades politicas republicanas transfor- qiio de EugBnio Garin, que reivindicou ener- mou os literatos em cortesiios e impeliu a gicamente uma precisa valGncia filosdfica filosofia para evas6es de carater contem- para o humanismo, notando que a negaqiio plativo-metafisico. b: i? de significado filosofico aos studia huma- nitatis renascentistas deriva d o fato de que, "no mais das vezes, entende-se por filosofia a constru~iio sistematica de grandes propor- ; Possivel mediaG6o sintLtica @es, negando-se que a filosofia tambe'm d a s duas i n t e ~ p r e t a q 6 e s pode ser outro tip0 de especula@o niio sis- opostas tematica, aberto, problematico e pragma- tic0 ". Alias, diz Garin, a atenqiio "filologica" para com os problemas particulares "cons- Na realidade, as teses contrapostas de titui precisamente a nova 'filosofia', ou seja, Kristeller e de Garin revelam-se muito fe- o novo mitodo de examinar os problemas, cundas precisamente por sua antitese, por- que, portanto, niio deve ser considerado, ao que uma destaca aquilo que a outra silen- lado da filosofia tradicional, como um as- cia, podendo portanto ser integradas entre pecto secundario da cultura renascentista, si, se prescindirmo? de alguns pressupostos como acreditam alguns (basta pensar, por dos dois autores. E verdade que, original- exemplo, na posiqiio de Kristeller que exa- mente, o termo "humanista" indica o ofi- minamos), e sim como o proprio filosofar cio do literato, mas essa profissiio vai bem efetivo ". alCm do simples ensino universitario, entran- Uma das mais destacadas caracteristi- do na vida ativa, iluminando os problemas cas desse novo mod0 de filosofar t o senti- da vida cotidiana, tornando-se verdadeira- do da histdria e da dimensiio historica, com mente uma "nova filosofia". seu respectivo sentido de objetivaqiio e de Ademais, o humanista distingue-se efe- afastamento critic0 do objeto historicizado, tivamente pel0 novo modo como 16 os clas- ou seja, historicamente considerado. A esshcia do humanismo niio deve ser vista naquilo que ele conheceu do passado, mas sim no mod0 em que o conheceu, nu atitude peculiar que adotou diante dele. Mas a tese de Garin niio se reduz a isso. Ele coloca a nova "filosofia" humanista na realidade concreta daquele momento da vida hist6rica italiana, tornando-a uma expres- S ~ dessa realidade, a ponto de explicar com O razoes sociopoliticas a reviravolta sofrida pe- lo pensamento humanista na segunda meta- de do Quatrocentos. 0 primeiro humanismo foi uma exaltaqiio da vida civil e das pro- blematicas a ela ligadas, porque estava vin- " A Filosofia ", incisuo tirada da Biblioteca Ciuica "A. Mai" de Be'rgumo. 0 estudo du filosofiu antiga alirnentou o nouo espirito prescnte no pemamento hurnanistu-re~zascentista. Este esta ligado us trudup5es de Hcrmcs Trismegisto, tfos Profetus-Maps, ifc Pldtiio, rfe Plotitto c de toda a tradiqiio plutiinicu.
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    um Aristoteles revisitadocom novo espiri- to, que so o "humanismo" pode explicar. Portanto, Garin tem razio ao destacar o fato de que o humanismo olha o passado com novos olhos, com os olhos da "historian, e que so atentando para esse fato C que se pode compreender toda essa ipoca. E a aquisiqio do sentido da historia significa, ao mesmo tempo, aquisiqiio do sentido de sua propria individualidade e originalidade. So se pode compreender o passado do homem quando se compreende sua "diversidade" em relaqio ao presente e, portanto, quando se compreende a "peculia- ridade" e a "especificidade" do presente. Por fim, no que se refere excessiva vinculagio do humanismo aos fatos politi- cos, que leva Garin a algumas afirmaqdes que correm o risco de cair no historicismo sociologista, basta destacar que a grande mudanga do pensamento humanista n i o esta ligada somente a uma mudanga politi- ca, mas tambim A descoberta e as tradu- qdes de Hermes Trismegisto e dos profetas- " A Kcttir~sir", irzcrsiio tirilda cia Biblioteca Ci'clica magos, de Platio, de Plotino e de toda a AS " A . hlill" de B i r g ~ t n o . Iittcrae humanae tradiqio plathica, o que representou a aber- sor~stlturrno c-orupio du ~ C M ~ ~ L hurnutzistil. LYLI tura de novos e ilimitados horizontes, de que lIntrc cstus rcsrrfwse pzrticuhr ateiz@o 2 rettjrica, falaremos adiante. De resto, o proprio Garin porquc soizstitui elemento de continuitfade n i o se deixou levar por excessos sociolo- cJtztrea paidkia antiga e enodcrna. gistas, como, no entanto, fizeram outros intirpretes por ele influenciados. Concluindo, podemos dizer que a mar- sicos: houve um humanismo literario por- ca que distingue o humanismo consiste em que surgiram novo espirito, nova sensibili- um novo sentido do homem e de seus proble- dade e novo gosto, com os quais as letras mas: um novo sentido que encontra expres- foram revisitadas. E o antigo alimentou o sdes multiformes e, por vezes, opostas, mas novo espirito, porque este, por seu turno, sempre ricas e freqiientemente muito origi- iluminou o antigo com nova luz. nais. Novo sentido que culmina nas celebra- Kristeller tem razio quando lamenta que q6es teoricas da "dignidade do homem" o aristotelismo renascentista seja um capi- como ser em certo sentido "extraordinirio" tulo a ser reestudado desde o inicio e tambCm em relaqio a toda a ordem do cosmo, como tem razio ao insistir no paralelismo desse veremos adiante. Mas essas reflex6es teori- movimento com o movimento propriamen- cas nada mais s i o do que express6es concei- te literario. Mas o pr6prio Kristeller admite tuais que tim nas representaq6es da pintu- que o Aristoteles desse period0 t um Aristo- ra, da escultura e de grande parte da poesia teles freqiientemente procurado e lido no as correspondincias visuais e fantistico-ima- texto original, sem a mediaqio das tradu- ginativas que, com a majestade, a harmo- qdes e das exegeses medievais, tanto que nia e a beleza de sua figuragio, expressam a chega at6 a retornar aos comentadores gre- mesma idtia, de varios modos, com esplin- gos para ser iluminado. Assim, trata-se de didas variaqdes.
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    9 Capitdo prirneiro - O pensamento humanists-renascentista e slnas caracteristicas I. IConceito historiogr6fico, cronoIogia e caracteristicas da "Renascenca" A categoria historiografica da "Renascenqa" se impbs no 800 graqas a 1. Burckhardt, segundo o quai a express%o designava um fenbmeno de origem tipicamente italiana, oposto a cultura medieval: um fenbme- no caracterizado pelo individualismo pratico e teorico, a par- A Renascenqa tir da exaltaqao da vida mundana, do acentuado sensualis- na defini@o mo, da mundaniza(;ao da religiao, da tendhcia paganizante, oitocentista da liberdade em relaqao as autoridades que no passado ti- + § 1 nham dominado a vida espiritual, do forte sentido da historia, do naturalism0 filos6fic0, do extraordinario gosto artistico. "Renascenqa" se- ria, afinal, a sintese do novo espirito, que se criou na Ithlia, com a antiguidade: o espirito que, rompendo definitivamente com o da era medieval, abre a era moderna. Em nosso seculo esta interpretaqao foi muitas vezes contestada, particu- larmente por K. Burdach. 0 s Humanistas explicitamente usaram expressiies como "fazer reviver", "fazer renascer", e contrapuseram a nova era em que viviam com a medieval como a era da luz a era da 06s- A Renascenqa curidade e das trevas. A ldade Media, porem, foi uma epoca de nova grande civilizat;lo, percorrida por fermentos e frCmitos de vari- interpretaqao: os generos quase que desconhecidos aos historiadoresdo Oito- nascimento centos. Portanto, 0 "Renascimento" que constituiu a peculiari- de nova dade da "Renascenc;a" foi mais o nascimento de outra civilizaq~o, civiIizaqso de outra cultura: a Renascenqa representou grandioso fenbme- baseada no de "regenerasao" e de "reforma" espiritual, em que a volta sobre a volts aos antigos significou revivesc6ncia das origens, "retorno aos aOSanfig0s principios aut6nticos", e a imita@o dos antigos revelou-se como 3 2-3 + o caminho mais eficaz para recriar e regenerar a si mesmos. Em tal sentido, Humanismo e Renascen~a constituem uma so coisa, e o Humanismo torna-se fenbmeno literario e retorico apenas no fim, ou seja, quando s expan- e de o novo espirito vivificador. Do ponto de vista cronologico, o periodo humanista-renascentistaocupou inteiramente o 400 e o 500, mas seus preludios devem ser buscadosja no 300 (nas figoras de Cola de Rienzo e de Francisco Petrarca), enquanto o epllogo alcansa os primeiros decCnios do 600 (com a figura de Cmno/ogia e Campanella); do ponto de vista dos conteudos filos<5ficos,no 400 caracteristicas prevalece o pensamento sobre o homem, enquanto o pensamento essenciais do do 500 abrasou tambem a natureza. A Renascenqa representou periodo uma era diversa tanto da medieval, como da moderna (a qua1 humanists- comega corn a revolu@o cientifica, ou seja, com Galileu); assim renascentista como na ldade Media devem ser buscadas a raizes da Renascen- s 3 4-5 + $a, por sua vez, na Renascenqa devem ser buscadas a raizes do s mundo moderno, ou melhor, o epilog0 da Renascenqa e marcado pela propria revoluq%o cientifica.
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    10 Primeira parte - 8t l ~ m a n i s m ~ R e n a s c e n c a ea f i n t e r p r e t a q 2 ; o o i t o c e n t i s t a que viu surgir nova cultura, oposta a me- dieval. E a revivesc$ncia do mundo anti- da " R e n a s c e n c a " go teria desempenhado nisso um papel c o m o surgimento importante, mas n i o exclusivamente deter- d e novo e s p i r i t o minante. Portanto, partindo da renascen- e de nova cultura Ca da antiguidade, passou-se a chamar de "Renascenqa" toda essa ipoca, que, po- q u e valorizam rim, i algo mais complexo: com efeito, i o w~uncfo n t i g o a a si'ntese d o n o v o espirito que se criou na Italia com a propria antiguidade - i o e m oposi@o espirito que, rompendo definitivamente A Jdade Mkdia c s m o espirito da ipoca medieval, inau- gurou a tpoca moderna. Essa interpretaqiio foi muito contesta- 0 term0 "Renascimento", como ca- da, por virias vezes, em nosso siculo. Alguns tegoria historiogrifica, consolidou-se no Oi- chegaram mesmo a duvidar que a "Renas- tocentos, em grande parte por mirito de cenqa" constitua efetiva "realidade histo- uma obra de Jacob Burckhardt (1818-1897) rica" e n i o seja muito mais (ou predomi- intitulada A cultura d a R e n a s c e n ~ ana nantemente) uma invenqio construida pela Italia (publicada em Basiliia, em 1860), historiografia oitocentista. que se tornou muito famosa, impondo-se Variados e de diversos tipos foram os longamente como modelo e como ponto de reparos trazidos sobre a questio. referencia indispensavel. Na obra de Burck- Alguns observaram que, se atentamen- hardt, a Renascenqa emergia como fen& te estudadas, as varias "caracteristicas" con- meno tipicamente italiano quanto A suass sideradas tipicas do Renascimento podem origens, caracterizado pelo individualis- ser encontradas na Idade Me'dia. Outros mo pratico e teorico, pela exaltaqio da vi- insistiram muito no fato de que, a partir do da mundana, pel0 acentuado sensualismo, sic. XI, mas sobretudo nos sics. XI1 e XIII, pela mundanizaqio da religiiio, pela ten- a Idade MCdia pode ser considerada plena dcncia paganizante, pela libertaqio em de "renascimentos" de obras e autores an- relaqio A autoridades constituidas que ha- s tigos, que pouco a pouco emergiam e eram viam dominado a vida espiritual no pas- recuperados. Conseqiientemente, esses au- sado, pelo forte sentido de historia, pel0 tores negaram validade dos pariimetros tra- naturalism0 filosofico e pel0 extraordinii- dicionais que durante longo tempo basea- rio gosto artistico. Segundo Burckhardt, ram a distinqiio entre a Idade MCdia e a a Renascenqa seria portanto uma ipoca "Renascenqa".
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    11 primeir0 - 0pensamento humanista-renascentista e suas caracteristicas Capit~l0 nova interpreta~Zio na idCia de renascimento do espirito nacio- nal unido a fe', que na Italia se expressou so- da lI'Rena~~enCa" bretudo em Cola de Rienzo, em cujo projeto como l'venovatio" politico a idCia de renascimento religioso C e a "volta aos antigos" inserida no projeto politico de renascimento hist6rico da Ithlia, gerando vida nova. cowo "volts aos principios" Cola de Rienzo (1313-1354) torna-se assim (junto com Petrarca) o mais significa- tivo precursor da grande Cpoca da Renas- Todavia, logo se estabeleceu novo equi- cenga italiana. librio, reconstituido em bases bem mais s6- "Renascenga" e "Reforma" expressam lidas. conceitos que se interpenetram at6 consti- Em primeiro lugar, estabeleceu-se que tuir urna unidade indissoluvel: "Pode-se di- o term0 "Renascenca" niio node em abso- zer - escreve Burdach - que, no alicerce des- luto ser considerado como mera invenciio sas duas visdes, encontra-se aquele conceito dos historiadores oitocentistas, pel0 simples mistico do 'renascer', da recriagiio, que en- fato de que os humanistas usavam expres- contramos na antiga liturgia pagi e na li- samente (com insistincia e com plena cons- turgia sacramental crist5." ciincia) expressdes como "fazer reviver", "fazer voltar ao antigo esplendor", "reno- var". "restituir a urna nova vida". "fazer renascer o mundo antigo" etc., contrapon- Reflex~es conclusivas do a nova Cpoca em que viviam i Cpocai sobre o conceito medieval como a idade da luz contraposta h idade da escuridzo e das trevas. de '%enascenca" E claro, portanto, que os histori6grafos do Oitocentos niio erraram sobre este Don- to. Erraram, porCm, ao julgar que a Idade A Renascenga, portanto, representou MCdia constituira verdadeiramente urna grandioso fen6meno espiritual de "regene- Cpoca de barbarie, um tempo nebuloso, um ragiio" e de "reforma", no qua1 o retorno period0 de escuridiio. aos antigos significou revivescincia das ori- 0 s homens da Renascenga, natural- gens, "volta aos principios", ou seja, retor- mente, tinham essa opiniio, mas por razdes no ao, autintico. polimicas e niio objetivas: eles sentiam sua E tambCm nesse espirito que deve ser mensagem inovadora como mensagem de entendida a imita@o dos antigos, que se luz que rompia as trevas. 0 que niio signifi- revelou o estimulo mais eficaz para que os ca que "verdadeiramente", ou seja, histori- homens encontrassem, recriassem e regene- camente, antes dessa luz houvesse trevas, rassem a si pr6prios. pois poderia haver (para manter a imagem) Sendo assim, conseqiientemente, como urna luz diferente. sustentou Burdach, o Humanismo e a Re- Com efeito, as grandes aquisig6es his- nascenga "constituem urna s6 coisa". Uma toriogriificas de nosso sCculo mostraram que tese que, na Itilia, Euginio Garinacornpro- a Idade Me'dia foi uma e'poca de grande civi- vou brilhantemente em outras bases, com liza@o, percorrida por fermentos e frimitos novos documentos e com provas abundan- de varios tipos, quase que totalmente des- tes e de varios tipos. conhecidos pelos historiadores d o Oitocen- Desse modo, niio se pode mais susten- tos. Portanto, o "renascimento" que cons- tar que foram os studia humanitatis, enten- titui a peculiaridade da "renascenga" niio C didos como fen6meno literario e filol6gico o renascimento da civilizaciio contra a (retorico), que criaram a Renascenga e o incivilizacio. da cultura contra a incultura > , espirito renascentista (filosofico), como se e a barbarie, do saber contra a ignoriincia: se tratasse de urna causa acidental produ- ele C muito mais o nascimento de outra civi- zindo como efeitos um novo fen6meno subs- lizagio, de outra cultura, de outro saber. tancial. Pode at6 ser que se tenha verificado K. Burdach mostrou claramente que a justamente o contrario, isto C, foi a "renas- Renascenga tambCm tem raizes na idCia de cenga" de um novo espil-ito ( o descrito aci- renascimento d o Estado romano, que era ma) que se serviu das humanae litterae como bastante viva na Idade MCdia, quando n i o de um instrumento. .
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    12 . .. Primezra parte - O t l w n a n i s m o e a R e n a s c e n C a 0 Humanismo s6 se tornou fen6meno De todo modo, o certo t que hoje entende- literario e retorico no fim, isto 6, quando se se por Renascenqa a denominaqso historio- extinguiu o novo espirito vivificador. grafica de todo o pensamento dos stculos Para concluir: se por "Humanismo" se XV e XVI. Por fim, devemos recordar que entende a tomada de conscitncia de uma os fen6menos de imitaqso extrinseca e de missio tipicamente humana atravts das filologismo n i o s i o proprios do Quatrocen- humanae litterae (concebidas como produ- tos, e sim do Quinhentos, constituindo en- toras e aperfeiqoadoras da natureza huma- quanto tais (corno ja acenamos) os sintomas na), entio ele coincide com a renouatio de da incipiente dissoluqio da ipoca renascen- que falamos, ou seja, com o renascimento tista. d o espirito d o homem: assim, o Humanismo e a Renascenqa s5o duas faces de um unico fen6meno. , Relacoes e n t r e R e n a s c e n G a e J d a d e Mkdia Cvonologia e t e m a s do t l ~ m a n i s m o AlCm disso, no que se refere i s rela- e da Renascenca q6es entre a Idade Media e a Renascenqa italiana, devemos dizer que, no atual esta- do dos estudos, n i o se manttm de p i nem a Do ponto de vista cronologico, o Hu- tese da "ruptura" entre as duas Cpocas e m a n i s m ~ a Renascenqa ocupam dois sC- e tampouco a tese da pura e simples "conti- culos inteiros: o Quatrocentos e o Quinhen- nuidade". tos. Como ja observamos, seus preludios A tese correta C uma terceira. A teoria devem ser procurados no Trezentos, parti- da ruptura pressup6e a oposi@o e a con- cularmente na figura singular de Cola de trariedade entre as duas Cpocas, ao passo Rienzo (cuja obra culmina pel0 Trezentos) que a teoria da continuidade postula uma e na personalidade e na obra de Francisco homogeneidade substancial. Mas, entre a Petrarca ( 1304-1374). Seu epilogo alcanqa contrariedade e a homogeneidade, existe a as primeiras dCcadas do Seiscentos. Cam- "diversidade". Ora, dizer que a Renascen- panella foi a ultima grande figura da Re- qa C uma Cpoca "diversa" da Idade MCdia nascenqa. n i o apenas permite distinguir as duas Cpo- Tradicionalmente falava-se do Quatro- cas sem contrap6-las, mas tambCm identifi- centos como Cpoca do Humanismo e do car facilmente seus nexos e suas tangtncias, Quinhentos como Cpoca da Renascenqa pro- bem como suas diferenqas, com grande li- priamente dita. Como, porCm, caiu porter- berdade critica. ra a possibilidade de distinqso conceitual E, conseqiientemente, outro problema entre Humanismo e Renascenqa, necessa- tambCm pode ser facilmente resolvido. riamente tambCm cai por terra essa distin- A Renascenqa inaugura a Cpoca mo- q5o cronologica. derna? 0 s teoricos da "ruptura" entre Re- Se levarmos em conta os conteudos fi- nascenqa e Idade MCdia eram fervorosos losoficos, eles mostram (e o veremos com defensores da resposta positiva a essa per- mais amplitude um pouco adiante) que o gunta. J4 os teoricos da "continuidade" da- pensamento sobre o homem prevalece no vam-lhe resposta negativa. Hoje, em geral, Quatrocentos, ao passo que, no Quinhen- tende-se a identificar o comeqo da Cpoca tos, o pensamento se amplia, abrangendo moderna com a revoluqio cientifica, ou seja, tambim a natureza. Nesse sentido, se, por com Galileu. Do ponto de vista da historia raz6es de comodidade, quisermos indicar d o pensamento, essa parece a tese mais cor- como Humanismo predominantemente o reta. A Cpoca moderna revela-se dominada momento do pensamento renascentista que por essa grandiosa revoluqio e pelos efeitos teve por objeto sobretudo o homem, e como que ela provocou em todos os niveis. Nesse Renascenqa este segundo momento do pen- sentido, o primeiro filosofo "moderno" foi samento, que considera tambCm toda a na- Descartes (e, em parte, t/ambCm Bacon), co- tureza, podemos at6 fazt-lo, embora com mo veremos mais amplamente adiante. Sen- muitas reservas e com grande circunspeqio. do assim, o Renascimento representa uma
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    13 Capitdo primeiro - 8 pensamento humanistcr-venascentista e suas cavcrrtrristicas - - Cpoca diversa tanto da Cpoca medieval como ferengas" que caracterizam a Renascenga, da ipoca moderna. tanto em relagso a Idade Media como em Naturalmente, assim como as raizes da relag50 ipoca moderna, atravis do exa- Renascenga devem ser buscadas na Idade me das viirias correntes de pensamento e, MCdia, da mesma forma as raizes do mun- individualmente, dos pensadores de des- do modern0 devem ser procuradas na Re- taque. Todavia, antes disso e necessario nascenga. Podemos dizer atC que, como o chamar a atengso do leitor para um dos fim da Idade Media C marcado pela trans- aspectos mais tipicos do pensamento renas- formag50 da economia mundial que se se- centista, ou seja, a reviveschcia do compo- guiu as descobertas geogriificas, assim o epi- nente helenistico-orientalizante, cheio de logo da Renascenga 6 marcado pela pr6pria ressonincias migico-teiirgicas, difundido revolug50 cientifica: mas essa revolug5o as- em alguns escritos que a tardia antiguida- sinala precisamente o epilogo, nso a "mar- de havia atribuido a deuses ou profetas anti- can da Renascenga e sua tEmpera espiritual quissimos e que, na realidade, eram falsifi- em geral. cagoes, mas que os renascentistas tomaram Falta-nos, agora, examinar concreta- c o m o aut8nticas, com conseqiihcias de mente quais s5o as mais significativas "di- grande importsncia. Mapa nautico executado em Veneza em 1560, pelo portuguSs Diego Homen (Veneza, Biblioteca Marciana).
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    14 Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a Renascenca Um dos aspectos mais tipicos da Renascen~a foi a 0s equivocos revivesc@ncia componente helenistica-orientalizante, cheia da aproximacso de resson8ncias magico-teurgicase difundida em alguns escri- dos gregos tos que a antiguidade tardia havia atribuido a antiquissimos +§ 1 deuses ou profetas e que na realidade eram falsificaqbes (o Corpus Hermeticum, os Oraculos Caldeus, os Hinos drficos). * Ora, os Humanistas, que descobriram a critica filologica do texto, cairam todavia no erro clamoroso de tomar como autknticas as obras atribuidas aos Pro- fetas-Magos Hermes Trismegisto, Zoroastro e Orfeu, e assim o complexo sincretismo entre doutrinas greco-pagss, neoplato- Hermes, nismo e cristianismo, tao difundido na Renascenqa, baseou-seem Zoroastro larga medida sobre esse equivoco colossal. Atingiu particularmen- e Orfeu te os homens da Renascenga o aceno ao Filho de Deus, apresen- + 3 2-4 tad0 como Logos divino destinado a encarnar-se, contido no XI1 tratado do Corms Hermeticum. Zoroastro, depois, considerado o autor dos Oriiculos Caldeus, fo'i apresentado at6 como anterior a Hermes. Orfeu, por fim, e considerado o anel de conjun@oentre Hermes e Platao: Hermes, Orfeu e Platao foram assim liaados em uma conexao aue sustentou a construci30 do platonismo renascentise, que resultou, portanto, completamente diferente do platonismo medieval. O conhecimento desconcertante em relaq5o a esses docu- mentos? Cist6vico-critico diferente A resposta i quest50 C bastante clara i que os humanistas luz dos estudos mais recentes. tiveram da tvadic~o Iatina 0 trabalho de pesquisa dos textos lati- nos, que comegou com Petrarca, consolidou- e 21 m veIaG&o gvega se antes q u e ocorresse o impact0 c o m os tex- t o s gregos. Portanto, a sensibilidade e a capacidade tCcnica e critica dos humanistas Antes de tudo devemos esclarecer se agugaram muito antes em relaqiio aos tex- uma quest50 importante: como foi possi- tos latinos do que em relaqiio aos textos gre- vel que os humanistas, que descobriram a gos. AlCm disso, os humanistas que se apro- critica filol6gica do texto e que chegaram ximaram dos textos latinos tinham interesses a identificar gritantes falsificaq6es (corno, intelectuais mais concretos do que aqueles por exemplo, o ato de doaq5o de Constan- que se ocuparam predominantemente dos tino) corn base no exame da lingua, tenham textos gregos, que tinham interesses mais caido em erros t50 flagrantes, tomando co- abstratos e metafisicos. 0 s humanistas que mo autinticas as obras atribuidas aos pro- se ocuparam predominantemente de textos fetas-magos Hermes Trismegisto, Zoro- latinos interessaram-se sobretudo pela lite- astro e Orfeu, que s i o falsificaqoes t i o ratura e pela histbria, ao passo que os huma- evidentes para n6s hoje? Como C que dei- nistas que se ocuparam de textos gregos in- xaram de aplicar a elas o mesmo mCto- teressaram-se sobretudo pela teologia e a do? Como C possivel observar tHo grande filosofia. AlCm disso, as fontes e tradiq6es falta de sagacidade critica e credulidade t5o usadas como referincia, pelos humanistas
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    Capi'tulo primeiro -O pensamento humanista-renascentista e suds caracteristicas que se ocuparam de textos latinos eram bem que nunca existiu. Essa figura mitica indica mais limpidas do que as utilizadas pelos o deus Thoth dos antigos egipcios, conside- humanistas que se ocuparam de textos gre- rado inventor das letras do alfabeto e da gos, as quais se revelam extraordinariamente escrita, escriba dos deuses e, portanto, carregadas de incrustaqoes multisseculares. revelador, profeta e intirprete da sabedoria Por fim, foram os pr6prios gregos doutos divina e do logos divino. que sairam de Biziincio para a Italia que, Quando tomaram conhecimento des- com sua autoridade, avaliaram uma sirie de se deus egipcio, os gregos acharam que ele convicq6es destituidas de fundamentos his- apresentava muitas analogias com seu deus toric~~. Hermes (= o deus Mercurio dos romanos), 0 que dissemos, portanto, explica per- intirprete e mensageiro dos deuses, qualifi- feitamente a situaqiio contraditoria que se cando-o entiio com o adietivo "Trisme- criou: enquanto, por um lado, humanistas gisto", que significa "trCs vezes grande". como Valla denunciavam como falsificaq6es Na antiguidade tardia, particularmen- documentos latinos pluriconsagrados, por te nos primeiros siculos da ipoca imperial outro lado, ao contrario, humanistas como (sobretudo nos sics. I1 e I11 d.C.), alguns te- Ficino reafirmavam a "autenticidade" de ologos-filosofos pagiios, em contraposiqiio flagrantes falsificaqoes gregas tardio-antigas, ao cristianismo que se expandia, produzi- com resultados de grande alcance para a ram uma sirie de escritos que eles apresen- historia d o pensamento filosofico, como taram sob o nome desse deus, com a evi- veremos agora. dente intenqiio de contrapor i s Escrituras divinamente inspiradas dos cristiios outras escrituras, a~resentadas tambCm como "re- velaq6es" divinas. t l e r m e s Trismegisto As pesquisas modernas determinaram, e o "Corpus t l e r m e t i c ~ m " sem qualquer sombra de duvida, que sob a mascara do deus egipcio ocultam-se diver- sos autores e que, nesses textos, siio bastan- te escassos os elementos "egipcios". Na rea- tlermes e o "Corpus tlermeticum" lidade, trata-se de uma das ultimas tentativas na realidade hist6rica de ressurgimento do paganismo, amplamen- te baseada em doutrinas do platonismo da Comecemos por Hermes Trismegisto e pel0 Corpus Hemeticum, que tiveram a maior Entre os numerosos escritos atribuidos importiincia e celebridade na Renascenqa. a Hermes Trismegisto, o grupo claramente Hoje sabemos com certeza o que iremos mais interessante constitui-se de dezessete expor. Hermes Trismegisto i figura mitica, tratados ( o primeiro dos quais leva o titulo c~orrt3s/x~t~ilorlt(~ iro Hrrrrz~~s q o c iro M c ~ i ~ i r YOIIZLIIIO. gr io 0 s (Sintos ' I 1 3 1 i/tr;l~ui(ios ~ (tot7zizdos t~zlrito f'rtrzosos) silo firlsrficirpic~s cfc cnr iriz/)cvi~l.
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    Primeira parte -O tlumanismo r a Renascenia de Pimandro), mais um escrito que s6 che- Essa estupefaqiio diante do profeta pa- gou a t i nos apenas em urna versiio latina giio (tiio antigo quanto MoisCs), que fala do (que, no passado, era atribuido a Apuleio), "Filho de Deus", levou aceitaqiio, pel0 me- intitulado Asclipio (talvez elaborado no sCc. nos parcial, da estrutura astrologica e gnos- IV d.C.). E precisamente esse grupo de es- tica da doutrina. E niio apenas isso: como o critos que se denomina Corpus Hermeticum Asclepius tambCm fala expressamente de (= corpo dos escritos postos sob o nome de praticas magicas, Ficino e outros encontra- Hermes). ram em Hermes Trismegisto urna espCcie de justificaqiio e legitimaqiio da propria magia, embora entendida em novo sentido, como veremos. A complexa visiio sincretista de plato- nismo, cristianismo e magia, que constitui A antiguidade tardia aceitou todos es- urna das marcas do Renascimento, encon- ses escritos como autinticos. 0 s Padres cris- tra assim em Hermes Trismegisto, "priscus tiios, que neles encontraram acenos a doutri- theologus", urna espCcie de modelo ante nas biblicas (corno veremos), ficaram muito litteram ou, pelo menos, urna significativa impressionados e, conseqiientemente, con- sCrie de estimulos extremamente nutrientes. vencidos de que eles remontavam ? Cpoca i Portanto, sem o Corpus Hermeticum niio C dos patriarcas biblicos, pensando assim que possivel entender o pensamento renascen- fossem obra de urna espicie de profeta pa- tista. g2o. Foi assim que pensou Lactsncio, por exemplo, como tambtm, em parte, santo Agostinho. Ficino consagrou solenemente essa convicqiio e traduziu o Corpus Herme- ticum, que se tornou texto basilar do pen- samento humanista-renascentista. Assim, por volta de fins do sic. XV (1488), Her- mes foi solenemente acolhido na catedral de Um documento que apresenta muitas Siena, com urna efigie no pavimento com a analogias com os escritos hermtticos t cons- inscriqiio: "Hermes Mercurius Trismegistus, tituido pelos chamados Oraculos caldeus, contemporaneus Moysi" . obra em hexsmetros da qua1 numerosos 0 sincretismo entre doutrinas greco- fragmentos chegaram at6 nos. Com efeito, pagiis, neoplatonismo e cristianismo, tiio podemos encontrar em ambos os escritos a difundido no Renascimento, baseia-se em mesma mistura de filosofemas (extraidos do grande medida nesse equivoco colossal. mtdio-platonismo e do neopitagorismo), Desse modo, muitos aspectos doutrinirios com acentuaqiio do esquema triidico e tri- da Renascenqa, considerados estranhamente nitario e com representaqdes miticas e fan- paganizantes e estranhamente hibridos, apre- tisticas, apresentando um tip0 analog0 de sentam-se agora sob justa luz. religiosidade confusa de inspiraqiio oriental, Na complexa concepqiio hermitica, caracteristica do paganism0 tardio, conju- considerada mais ou menos tiio antiga quan- gada com aniloga pretensiio de transmitir to os mais antigos livros da Biblia, os ho- urna mensagem "revelada". mens do Renascimento niio podiam deixar Nos Oraculos, aliis, o elemento migi- de ficar impressionados com os acenos ao co predomina ainda mais claramente do que "filho de Deus", ao Logos divino, que lem- no Corpus Hermeticum e o componente bra o Evangelho de Joiio. 0 tratado XI11 do especulativo se enfraquece e se submete a Corpus Hermeticum contCm at6 urna espk- objetivos praticos religiosos, a ponto de per- cie de "Sermiio da montanha" e afirma que der toda a sua autonomia. a obra de "regeneraqiio" e salvaqiio do ho- Estes Oraculos, mais do que a sabedo- mem deve-se ao "filho de Deus", definido ria egipcia (a qua1 os escritos hermiticos como "um homem por vontade de Deus". tambtm se referem), se vinculam a sabedo- Ficino chegou a considerar o Corpus ria babilhia. Com efeito, a heliolatria cal- Hermeticum at6 mais rico que os proprios tex- dCia ( o culto do sol e do fogo) desempenha tos de MoisCs, no sentido em que ele previ a papel fundamental nesses escritos. encarnaqiio do Logos, do Verbo, dizendo que Como sabemos, seu autor Juliano (que a "Palavra" do Criador C o "Filho de Deus". viveu no sic. 11) foi denominado (ou se fez
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    17 Capitulo primeiro - O pensamento humanists-renasceot~sta e suas camcte~isticas - -- - - denominar) "o Teurgo". A "teurgia" C a influenciou Pitagoras e Platio, sobretu- "sabedoria" e a "arte" da magia utilizada do no que se refere a doutrina da metempsi- para finalidades mistico-religiosas. E s i o cose. precisamente essas finalidades mistico-reli- Todavia, muitos dos documentos que giosas que constituem o dado caracteristico chegaram atC nos como "6rficos" s i o falsi- que distingue a teurgia da magia comum. ficaq6es posteriores, nascidas na Cpoca hele- 0 s estudiosos modernos observaram nistico-imperial. A Renascenqa conheceu que, enquanto a magia vulgar utiliza-se de sobretudo os Hinos orficos. Nas atuais edi- nomes e formulas de origem religiosa com qoes, esses hinos s i o oitenta e sete, mais um objetivos profanos, a teurgia, ao contrario, proemio. Siio dedicados a varias divinda- faz uso das mesmas coisas com fins religio- des, distribuindo-se conforme uma ordem sos. E esses fins, como sabemos, s i o a liber- conceitual precisa. Ao lado de doutrinas que taqio da alma em relaqio a o corporeo e a remontam ao orfismo original, contem ain- "fatalidade" a ele ligada e a conjunqio com da doutrinas estoicas e doutrinas ~rovenien- o divino. tes do meio filosofico-teologico alixandrino, 0 s renascentistas, porCm, niio pensa- sendo portanto, seguramente, de composi- vam assim, induzidos que foram a grave erro $50 tardia. Mas os renascentistas os consi- por abalizado douto bizantino, Jorge Gemis- deraram autEnticos. Ficino cantava esses to (cerca de 1355-1450),nascido em Cons- hinos para obter a influencia benCfica das tantinopla, que se fez denominar Pleton. Este estrelas. considerou ser Zoroastro o autor dos Ora- Segundo o proprio Ficino, na genea- culos Caldeus e, indo para a Itilia por oca- logia dos profetas Orfeu foi sucessor de siio do Concilio de Florenqa, ministrou li- Hermes Trismegisto e muito proximo a ele. q6es sobre Plat50 e sobre as doutrinas dos Pitagoras ligava-se diretamente a Orfeu. Oraculos, acreditando-os como express50 Platio teria haurido sua doutrina de Hermes do pensamento de Zoroastro e suscitando e de Orfeu. Assim, Hermes, Orfeu e Platio notavel interesse pelos mesmos. ligaram-se em uma conexio que constitui o Zoroastro foi, portanto, considerado alicerce de toda a construqio do platonismo profeta ("priscus theologus"), e por vezes renascentista, que, conseqiientemente, mos- apresentado at6 como anterior a Hermes ou tra-se completamente diferente do platonis- como primeiro por cronologia e dignidade mo medieval. com ele. Na realidade, Zoroastro (= Za- E claro, portanto, que, se n i o se leva- ratustra) foi reformador religioso iraniano rem em conta todos os fatores que recorda- do seculo VIINI a.C., que nada tem a ver mos, escapa toda possibilidade de captar o com os Oraculos Caldeus. significado da proposiqio metafisico-teolo- Esse novo equivoco, portanto, contri- gico-magica da doutrina da Academia flo- buiu grandemente para a difusio da menta- rentina e de grande parte do pensamento dos lidade magica na Renascenqa. sics. XV e XVI. A tudo isso devemos agregar ainda a enorme autoridade granjeada pel0 Pseudo- Dionisio Areopagita, que ja &a apreciado CJ O r f e u venascentista na Idade Media. mas agora Dassava a ser " lido com outros interesses (Ficino tambim realizou uma traduqio latina dos escritos de Dionisio). Esse autor, como sabemos, n i o t Orfeu foi poeta mistico da Tracia. Com o santo convertido por s8o Paulo em Ate- ele ligou-se o movimento religioso mistCrico nas, e sim um autor neoplat6nico tardio. E chamado "orfico", do qua1 j i falamos no tambtm essa "falsificaqio" contribuiu para primeiro volume. Ja no sCculo VI a.C. esse criar o clima especial de que falamos. poeta-profeta denominava-se "Orfeu de A luz do que foi dito at6 agora, pode- nome famoso". mos passar ao exame do pensamento dos Em relaqio a o Corpus Hermeticum e varios humanistas e das diversas tendcncias aos Oraculos Caldeus, o orfismo repre- e correntes filos6ficas humanistas e renas- senta uma tradiqio muito mais antiga, que centistas.
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    Primeira parte -O tlumanismo e a R e n a s c e n ~ a campo dos estudos filosoficos ou c~entificos, mas no dos estudos grarnat~cais retoricos [...I. Fl e critica humanista d cibncia medieval i fre- : quentemente radical e violanta, mas ndo toca seus problemas e suas questdes especificas [. . .]. Todavia, se os humanistasforarn dlletantas 0 NegagBo do significado em jurisprudbncia, teologia, rnedicina e at& em f~losofia, eles forarn especialistas em uma quan- filosofico do Humanismo tidade de outras rnathrias. Seu carnpo foram a gramhtica, a retorica, a poesia, a historla, e o estudo dos autores gregos e latinos. Eles pe- Ssgundo o sstudioso omsricano P. 0. netrararn tambbrn no campo da filosofia moral, Kristsllar, o Rsnascsngo n8o foi umo tpoca e fizeram alguma tentativa de invadir o da 1691- de sintsss, mas antss um periodo ds tron- ca, tentativa que foi pnmeirarnente dirigida a si@io, s o Humonismo, porticulorments, rs- reduzir a logica d rat6r1ca. s humanistas, con- 0 prssentou um movimsnto confinodo oos es- tudo, ndo daram contributos aos outros rarnos tudos rstoricos e Filologicos a, em suo moior da fllosofia ou da cibncia. port@,sstronho oos intsr~ssss filosoficos. P. 0.Kristeller, Umanesimo e Scolastica nsl R~noscimento itoliano. em "Human~tas". 1950. 5 1. As corrsntss culturais Ja Renascmsa No literatura filosofica da Ranascen~a a prirneira corrente que nos vern ao encontro & o Rristotelismo [...I. 0 Humanismo, segundo en- tre os rnaiores rnovirnantos intelectuais da Re- nascensa, tombbm tave seus precedentes me- dievais, mas atinge seu pleno desanvolvirnento apenas durante a Ranascensa, do qua1 repre- senta em certo sentido o aspect0 mais caracte- ristico e rnais difuso. E seus precedentes e m ReivindicagBo da valOncicr am sua origam, o Humanismo foi um movimen- "filosofico-pragm6tica" to litar6rio rnais qua filosofico, a sua influbncia sobre a historia da filosofia foi antes indireta, do Humcrnismo mas forte e penetrante [...I. 0 Platonisrno foi sem dljvida o rnais importante entre os v6rios I9 intsrpretog80 ds Kristsllsr sa opds ds- movirnentos filosoficos que surgiram do Hurna- cisivomants o estudioso itoliono Eug&nio nismo. Ele rnerece considerqdo 6 parte, tambhm Gorin, qus sustsntou qus os vsrdodsiros fi- porque teve outras raizes fora do classicismo Iosofos do 400, otivos foro dos "~scolos filo- humanista [...I. Outro grupo de pensadores, o soficos" oficiais, forom justarnsnts os humo- dos assim chamados filosofos da natureza, & nistas: elss souberam construir um mQtodo constituido por alguns dos mas fomosos pen- novo para snfr~ntor divsrsos problsrnos os sadores do periodo, como Paracelso, Bruno e do culturo s do vida prdtico. Contr6rios 6s Campanella. Ainda menos que os aristot&licos, 'Qrondsscotsdrais ds idbias", os humonistos os humanistas e at& os plat6nicos, ales podem se d~dicoramo indogar metodicomsnte s ser considerados como escola ou trodisdo concrstomsnts os objstos dos ci&ncios rno- unificada [...I. A ljltlma corrente intelectual da rois e dos ci$ncios naturo/s.E, ssgundo Gorin, Renascenp que devernos lernbrar, e talvez a o otsnq50 'Klologico" aos problemos porti- rnais importante, & a que desembocou no ci&n- culorss constitui justoments o novo 'filoso- cia cl6ssica rnoderna. fia", thico do Rsnoscsnp. P. 0. Kr~steller, Movirnenti Filosohci d d Rhascimento, em "Giornale critic0 della filosofia italiano", 1950. 99 1. A filosofia humanista foi extra-sscolastica 2. 0 s humanistas niio foram filosofos Repetir, como se tem feito, que o Huma- Creio que os humanistas italianos de fato nismo foi fen6rneno ndo "filosofico",purarnente ndo foram fil6sofos, nem bons nem maus. Com liter6rio e retorico; qua os humanlstas foram efeito, o movirnento hurnanista ndo surgiu no apenas rnestres de eloqu&ncia e grarn6ticos,
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    - r uw l % / i LLLX ~3.1~1 19 & 81": Capitulo primeiro - O pensamento humanisfa-renascentista e suas caracteristicas signif~ca primsiro lugar dar como pacifica uma em ctoritos, tam em todo Bmbto aquela exube- vis6o do filosofar que est6, ao contrbrio, em dis- rBncia que o "honesto", mas "obtuso", escolas- cuss6o; s significa, ao mesmo tempo, n60 vsr ticismo ignorou. bem claro os studio humonitot~s, "retor~ca" a e E. Garin, as "cartas". E significa tambhm esquecer que I'Umonesimo itoliono. aquele movimento de cultura afirmou-se primel- ramente fora da "escola", entre homens de aq50, polit~cos, senhores, chanceleres de r e p - blicas e 0th d~rigentes, mercadores e mesmo artistas a artesdos. E na "escola"entrou por meio das disciplinas logicas e morais; med~ante nova linguagem e o estabelec~mento novas rela- de @es. R filosofia para a qua1 certos historiodores olham, a "teologia" das escolas medievais, qua certamente foi coisa grandissima, naqueles dias 0 individualismo via justamente suas aulas tornorem-sedesertas, e sempre menor o eco de seus ensinamentos. como marco original Depois que por sQulos, e grandes sQulos, o pen- da Renascen~a samento humano dedicara-se sobretudo 6 ela- bora(6o de uma filosof~a experi6ncia reli- da giosa, e tudo fora visto sob tal signo, agora a 0orgumanto fundomanto1do ansolo da razSlo humana voltavo todo seu esfor~o para o Jocob Rurckhordt, La cultura del Rinascimento homem "poeta", para sua "cidade", para a na- in ltalia (1860), C o dassnvolvirnanto do in- tureza mundana qus estava conquistando. d~viduo civilizogio do Ranoscanp: o mito no da umo humanitas anfirn libarto do torporme- E. Gar~n. Meclloevo e Rinascimento. dtsvol s obarto o todos as axper16nciosdo vido (raligiosos, socio~s,ortisticos, politicos). Rurckhordt cont~nuovo ossim o p6r o ocanto, 2. 0 s humanistas contra as grandes corno os rombnticos, sobra o tema clo 'kuptu- "catedrais de idiias" da Escolastica ro" antra Iclode MQdioa Ranoscango. Todavia, para dlzer a verdade, a raz6o intima do condena@o do siqmficado filosofico do Humanismo 6 outra; e de resto manifesta- 1. 0 despertar do "individuo" se claramente a partir da continua refer6ncla por contraste com as sinteses metafisico-teolo- No ldade M&diaos dois lados da consci6n- gicas da "obtusa mas honesta Escol6stica":tra- cia - o que reflete em si o mundo externo s o ta-se do amor sobrevivente por uma imagem qua mostra a imagem da vida interna do homem do filosofia qua o pensamento do Quatrocen- - estavam como que envolvidos por urn vhu co- tos constantamente sentlu. Com efeito, aquilo mum, sob o qua1 ou languesciam em lento torpor de que se lamenta por tantos a perda foi justa- ou se moviam em u mundo de puros sonhos. m mente aquilo que os humanistas qulseram des- Ovhu era tecido de fh, de 1gnor6ncia infantil, de truir, isto 6, a constru@o das grandes "catedrais vds ilus6es: vistos atravhs dele, o mundo e a de idhias", das grandes sistematizaq3es Iogico- historia apareciam revestidos de cores fanMsti- teoloqicas: do F dosofia qua subsume' todo pro- cas, mas o homem n6o tinha valor a n6o ser como blem~, toda pesquisa, ao problema teologico, membro de uma familia, de um povo, de u m que organiza e fecha toda possibilidade no tra- partido, de uma corpora(60, das quais quase ma de uma ordem logica preestabelecida. inteiramente vivia a vida. fl Itblia & a primeira a I?quela Filosofia, que foi ignorada na era do Hu- rasgar este vhu e a consideror o Estado e todas manlsmo como vSl e inutil, se substituem pes- as coisas terrenas de um ponto de vista objati- quisas concretas, definidas, precisas, nos duos vo; mas ao mesmo tempo se desperta podero- dire@ss das ci6ncias morais (htica, polit~ca, samente no ital~ano sentimento de SI e de seu o econ6m1ca, esthtica, Iogico-retorica) e das ci6n- valor pessoal ou subjativo: o homem se transfor- cias do natureza qua, cultivadas luxto propr~o ma no indivicluo, e se ofirma como tal. principio,"ora de todo vinculo e de toda ou- 2. 0 advento de homens "universais" Ora, quando este prepotents impulso vi- 'Subord~no nha a cair em uma natureza extraordinariamen- "'Sagundo saus pr~ncip~os paculinras" te valorosa e verdtil, a ponto de se apropriar
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    ao mesmo tempode todos os elementos da R Renascen~a est6 enraizada na ldade culturo daquela era, tinha-se entao o homsm MBdia, e [...I f o ~ dominada por profundo im- univsrsol, que pertence exclusivamente 6 IM- pulse para human~zar religido [...I: a opinido. a ha. Homens de saber enciclop&dico houve em h6 muito tempo dominante e ainda ndo intei- todos os lugares no ldade Mhdia em mais pa- ramente morta, que atribui b Renascen~a um i s e ~porque o saber era mais restrito e os ra- , car6ter pagdo [...I. & um erro, e esta oplnido mos do cognoscivel mais afins entre si; e pela err6nea surgiu de uma visdo anti-historica, mesma razdo at& o s&culo XI1 encontram-seor- como de uma tend&ncia racionalista,classicists tistas universais, porque os problemas da or- e liberal. quitetura eram relativamente simples e unifor- R Renascen~a surgiu no despertar, e por mes, e na escultura e na pintura o conceito ou a meio do despertar do pensamento de uni- substdncia do coisa a ser representada preva- dade do Estado nacional. Na lt6lia o ssnti- lecia sobre a forma. Na lt6lia da Renascenp, mento nacional jamais se apagara, mesmo ao contrdrio, nos nos defrontomos com artistas durante a ldade MBdia. Conservara-se sob singulares, os quais em todos os ramos apre- as cinzas, mesmo quando Bizdncio, os Godos, sentam criaq%s de fato novas e perfsitas em os longobardos, a monarquia franco-carolin- seu g&nero, e ao memo tempo emergem sin- gia, os imperadores alemdes das dinastias gularmente tambhm como homens. Outros sdo sax6nlca, s6lica, sueca, aplicaram suas pre- universa~s abraqm, al&m do circulo da arte, e tensaes ao dominio politico sobre a It6lia. tambhm o campo incomensur6vel da ci&nc~a com enquanto de outro lado a CCltedra de Pedro, sintese maravilhosa. em sua r~validade luta com o impbrio uni- e J. Burckhardt, versal olemdo, cr~ara-se, em base de seu l a culturo dsl Rinascimento in Ital~a. pr~ncipotus eclesi6stico mundial, um dominlum terreno sobre a terra itCllica, em Roma, sede origindria da monarquia universal antiga. 0 sentimento nac~onal italiano viveu sampre da lembrancp do antiga grandeza do Estado ro- mano. No s&culo XI1 inflamou-se na revolu- $60 e restaurar;do nacional de Rrnaldo de Br&scia, que p6de ser abatida pelo papa e pelo ~mperadorOarbarroxa. Todavia, desde o shculo XI os municipios it6licos haviam chegado no auge do bem-estar econ8mico e civil [. . .] e quando, depois do morte do Impe- rador Federico II e o apos a queda casa de Soave, chegou ao fim a terrivel luta entre imp&r~o papado pela hegemonia politico e 0prsconcsito romdntico de umo ruptu- universal, quando a lt6lia se sentiu livre do ro sntrs Idods Mddio s Renoscengo foi ds- dominio alemdo, seu sentimento nacional ex- cididomente combotido sm nosso sQculo plodiu em um grande inchndio espiritual, po- pslo sstudioso olsmao Konrod Burdoch, litico-social e artistico. Esto foi a fonts espiri- qua mostrou como o Renoscsnp t~vsro suos tual da Ranascenp. roi'zss e suo fonts sspirituol no iddio, difun- 0 antigo pensamento de Roma, jamais dido no Itdlio mscl,sval e sxprssso sobrs- extinto, fez afluir nova e maior for~a. Rienzo, tudopor Colo di Risnzo, de renascimento poli- inspirado pela ld&ia politico de Dante, mas ul- tico e rellgioso do Estado romano. FI humanitas trapassando-a, proclamou, profeto de futuro do Ouotrocantos se concrstizou, portonto, longinquo, a grande exig&ncia nacional do nssto perspactivo ds rsconciliog~o sntrs fd Renascimento de Roma. 6, sobre esta base, a s espi'rito nocionol, s Colo di Rienzo foi o poi exig&ncia da unidade da It6lia. sspirituol do procssso ds formogio dos Es- K Burdach. todos nociono~s europsus. Slgnlhcoto e origlne ddle parole "Rinoscimento"s "R~forma "
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    0 s debates ernas r n o v a i s 1)a propagagso d o "naturalismo " di- fundido pel0 pensamento arabe, especial- mente por Averrois; 2 ) o predominio indiscriminado da Como j i dissemos, Francisco Petrar- dialetica e da logica, com a respectiva men- ca (1304-1374)C considerado unanimemen- talidade racionalista. te como o primeiro humanista. Isso estava E julgou facil indicar os antidotos para muito claro para todos ja nas primeiras dC- esses dois males: cadas do sCc. XV, quando Leonardo Bruni 1)ao invCs de nos dispersarmos no co- escrevia solenemente: "Francisco Petrarca nhecimento puramente exterior da nature- foi o primeiro, tendo tanta graCa e enge- za, e precis0 voltarmo-nos para nos mesmos, nho, que reconheceu e trouxe a luz a an- objetivando o conhecimento da propria tiga graciosidade do estilo perdido e ex- alma; tinto." 2) ao invis de nos perdermos nos vazios E como Petrarca chegou ao Humanis- exercicios dialeticos, precisamos redescobrir mo? Partindo do exame e da atenta analise a eloqiiikcia, as humanae litterae cicero- da "corrup@o" e da "impiedade" de seu nianas. tempo, ele procurou identificar as causas, Com isso, ficam perfeitamente delinea- para tentar remedia-las. E, em sua opiniao, dos o programa e o mCtodo do "filosofar" as causas eram basicamente duas, estreita- proprios de Petrarca: a verdadeira sabedoria mente ligadas entre si: esta em conhecer-se a si mesmo, e o caminho
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    22 Primeira parfe - 0tlumanismo r a Renascenia (0 mCtodo) para alcanqar essa sabedoria esta nas artes liberais. A passagem indubitavelmente mais fa- mosa que ilustra a primeira parte C aquele 0 caminho aberto por Petrarca foi se- trecho da Epistola que narra a subida ao mon- guido com sucesso por Coluccio Salutati, te Ventoso. Chegando ao cume do monte que nasceu em 1331 e se tornou chanceler depois de longa caminhada, Petrarca abriu da Republics de Florenqa de 1374 a 1406 . as Confiss6es de santo Agostinho e as pri- Ele C importante sobretudo pelos se- meiras ~ a l a v r a s leu foram estas: "E os que guintes motivos: homens admiram os altos montes, as gran- a) prosseguiu com grande vigor a po- des ondas do mar, os largos leitos dos rios, limica contra a medicina e as ciincias natu- a imensidade do oceano e o curso das estre- rais, reafirmando a tese da supremacia das las; e esquecem-se de si mesmos. " E eis o seu artes liberais; comentario: "Ha muito tempo eu deveria b) contra a colocaS50 dialitico-racio- ter aprendido, inclusive com os filosofos nalista de sua Cpoca, sustentou uma vis5o de pag5os, que nada C digno de admiral50 filosofia entendida como mensagem testemu- alCm da alma, para a qual nada 6 grande nhada e transmitida com a propria vida (corno demais" . fez o pag5o Socrates e como fizeram Cristo e Da mesma forma, no que se refere ao se- santos como Francisco) e centrada no ato da gundo ponto que apontamos, Petrarca in- vontade como exercicio de liberdade; siste no fato de que a "dialktica" leva a im- c) sustentou vigorosamente o primado piedade e niio a sabedoria. 0 sentido da vida da vida ativa sobre a contemplativa; nao C revelado por montes de silogismos, d) como operador cultural teve o gran- mas sim pelas artes liberais, cultivadas opor- de mirito de ter promovido a instituic;io da tunamente, isto C, n5o como fins em si mes- primeira citedra de grego em Florenqa, sen- mas, mas como instrumentos de formaqso do chamado a Itilia para assumi-la o douto espiritual. bizantino Manuel Crisolora (1350-1415). A antiga definiq50 de filosofia dada por A seguinte passagem d o tratado Sobre Plat50 no Fe'don C apresentada como coin- a nobreza das leis e da medicina (utilizamos cidente com a visiio cristg: a verdadeira fi- a traduqao de E. Garin), ilustra muito bem losofia n50 C mais que o pensamento e a a concepqiio do primado da vida ativa so- meditaqio sobre a morte. bye a contemplativa, a qual retornaria mui- Compreendemos, portanto, como a con- tas vezes o pensamento do Quatrocentos e traposig50 entre Arist6teles e Plat50 se apre- que constitui uma das marcas do huma- sentasse inevitavel. Em si mesmo, Aristoteles n i s m ~Dirigindo-se a quem foge da vida dos . C respeitavel, mas foi ele quem forneceu as homens para concentrar-se na pura especu- armas para os averroistas, sendo utilizado laqiio, ele escreve: "Para dizer a verdade, para construir aquele "naturalismo" e aque- afirmo corajosamente e confess0 candida- la "mentalidade dialCtican a que Petrarca mente que, sem inveja e sem contrariedade, tinha tanta aversgo. Assim, Plat50 (um Pla- deixo de bom grado para ti e para quem t5o que, no entanto, ele n5o podia ler, pois eleva ao cCu a pura especula@o todas as n5o conhecia o grego) torna-se o simbolo outras verdades, desde que se me deixe a do pensamento humanista, "o principe de cogni@o das coisas humanas. Podes perma- toda filosofia". necer cheio de contemplaq50, mas que, ao Para concluir, citamos uma afirmaq50 contrario, eu possa ficar rico de bondade. que mostra a que altura Petrarca elevara Podes meditar por ti mesmo, procura o ver- a dignidade da "palavra" que, em certo dadeiro e regozija-te ao encontra-lo. (...) sentido, se tornaria para os humanistas Que eu, ao contrario, esteja sempre imerso aquilo que h i de mais importante: "Pois na a@o, voltado para o fim supremo. Que Socrates, vendo um belo jovem em silin- toda a@o minha sirva a mim, A familia, aos cio, disse-lhe: 'Fala, para que eu possa ver- parentes e - o que C ainda melhor - que te!' Pois ele pensava que n2.o e' tanto pela eu possa ser util aos amigos e a patria e pos- fisionomia que se vZ o homem, mas pelas sa viver de modo a servir a sociedade hu- palavras. " mana pel0 exemplo e pelas obras. "
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    23 Capitulo segundo - 0 s debates sobre problemas morais e o Nee-rpicurismo 11. 8 debates s sobve tem6ticas ~tico-politicas No 400, o Humanism0 es~iritualista intimista de Petrarca foi sendo substi- e tuido, decisivamente, por u m ~ u m a n i s m o civilmente e politicamente mais empe- nhado. Protagonistas desta direqao foram principalmente Leonardo Bruni (1370- 1444), cuja fama esta ligada sobretudo as traduqdes da Politica e Temas ~tico- da gtica de Aristoteles, e Poggio Bracciolini (1380-1459), que dis- politicos cutiu a fundo o problema da relasao entre "virtude" e "sorte", em alguns sustentando que a primeira pode ter supremacia sobre a segun- humanistas da principalmente operando em favor d o Estado. do Quatrocentos Figura versatil e polikdrica de humanista f o i Leon Battista -+ 5 1-3 Alberti (1404-1472). que se ocupou sobretudo dos seguintes temas: a) a critica das investigasdes teologico-metafisicas e a contraposiq2o das in- vestigaqdes morais a elas; b) a exaltas20 d o homo faber e da sua atividade factiva e construtora dirigida a utilidade de todos os outros homens e da Cidade; c) a relevdncia d o conceito de "ordem" e de "proporqao" entre as partes nas artes, porque a verdadeira arte reproduz e recria a ordem que existe na realidade das coisas; d)a relaq2o entre "virtude" e "sorte", pel0 que a virtude ti a atividade pecu- liar d o homem que o aperfei~oa,garante sua supremacia sobre as coisas e tem precedencia sobre a sorte. porque forneceram linfa vital para a pro- pria especulagio. Bruni op8s ao humanismo espiritualis- ta e intimista de Petrarca um humanismo Leonardo Bruni (1370-1444), inicial- mais empenhado politica e civilmente. Para mente funcionirio da Curia Romana e de- ele, os clissicos s i o precisamente mestres de pois chanceler em Floren~a,foi discipulo, virtudes "civis". Assim, para Bruni, C para- amigo e continuador da obra de Salutati. d i g m a t i c ~ conceito aristotClico de homem o 0 s efeitos do ensino da lingua grega entendido como "animal politico", que se por Crisolora j i se manifestam em Bruni torna o eixo do seu pensamento: o homem como frutos extraordinariamente maduros. so se realiza plena e verdadeiramente na di- Com efeito, ele traduziu Plat50 (Fkdon, Gor- mensiio social e civil indicada por Aristoteles gias, Fedro, Apologia, Criton, Cartas,e par- em A politica. cialmente 0 banquete), Aristoteles (Etica a Mas a Etica a NicBmaco de Arist6teles NicBmaco, EconBmicos, Politica), e ainda tambCm C reavaliada por ele. Bruni estava Plutarco e Xenofonte, Demostenes e Es- convencido de que sua dimens50 "contem- quines. Revestem-se de interesse filosofico plativa" havia sido substancialmente exa- seus Dialogos e a Introdu@o a promo@o gerada e, em grande parte, deformada. 0 moral, alCm das Epistolas. que vale mais n5o C o objeto contemplado, A fama de Bruni liga-se sobretudo i s e sim o homem que pensa e, enquanto pen- tradu@es de Politica e Etica a NicBmaco sa, age. 0 "sumo bem" de que fala a Etica de Aristoteles, que fizeram ipoca n i o ape- a NicBmaco n i o 6 um bem abstrato ou, de nas porque contribuiram para mudar o tip0 qualquer forma, transcendente ao homem, de aproximaqio desses textos, mas tambCm mas sim o bem do homem, a realizaq50 con-
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    24 Primeira parte - O t l u m a n i s m o e n Renascenca creta de sua virtude, que, como tal, nos da a C ) a gloria e a nobreza como fruto da felicidade. virtude individual; Como Aristoteles, Bruni reavalia o pra- d) a quest20 da "sorte", que torna ins- zer, entendido sobretudo como conseqiitn- tavel e problematica a vida dos homens, cia da atividade que o homem desenvolve mas contra a qual a virtude pode levar a segundo sua propria natureza. melhor; Ainda como Aristoteles, Bruni sustenta e) a reavaliaqgo das riquezas (ja iniciada que o verdadeiro parimetro dos juizos morais por L. Bruni na introduqiio aos Econ6micos t o homem bom (e n20 uma regra abstra- de Aristoteles), consideradas como o nervo ta). E realizando o bem e a virtude, o homem do Estado e como aquilo que torna possivel, realiza a felicidade. Eis as suas conclusdes: nas cidades, os templos, os monumentos, a "Se, portanto, quisermos ser felizes, empe- arte, os ornamentos e toda beleza. nhemo-nos em ser bons e virtuosos". Bracciolini se concentra sobre um dos pensamentos-chave do Humanismo: a verda- deira nobreza e' aquela que cada um conquis- ta agindo. Pensamento que nada mais i do .& 515 Pog9io Bvacciolini que uma variante de outro conceit0 basilar, de origem romana, ngo menos car0 a essa ipoca: cada qual e' artifice da pr6pria sorte. Poggio Bracciolini (1380-1459),secre- tario da Curia Romana e depois chanceler em Florenqa, tambtm era muito ligado a L e o n Battista Albevti Salutati. Foi um dos mais esforqados e fer- vorosos descobridores de antigos codices. Em suas obras, ele debate tematicas que se haviam tornado can6nicas nas discussdes dos Uma figura de humanista de interesses humanistas, particularmente as seguintes: poliidricos foi Leon Battista Alberti (1404- a) o elogio da vida ativa em oposiqio h 1472), que, alim das questdes filosoficas, ascese da vida contemplativa vivida em so- tambim se ocupou de matematica e de ar- lidao; quitetura. Sao conhecidos especialmente b) o valor de formaqao humana e civil seus escritos Sobre a arquitetura, Da pintu- das litterae; ra, Da familia, Do govern0 da casa, Inter- cenais (recentemente descobertos por Garin em sua integridade). Eis alguns temas (entre tantos outros) que se destacam em Alberti: a) Em primeiro lugar, deve-se destacar a critica das investigaqdes teologico-meta- fisicas, consideradas vas, contrapondo a elas as investigaqdes morais. Para Alberti, i inu- ti1 procurar descobrir as causas supremas das coisas, porque isso nao foi concedido aos homens, que s6 podem conhecer aquilo que est4 sob seus olhos, ou seja, por meio da experitncia. b) Ligada a essa critica encontra-se a exaltaqio do homo faber e de sua atividade produtiva e construtora, ou seja, aquela ati- vidade que n2o esta voltada apenas para o beneficio do individuo, mas tambCm para o beneficio de todos os outros homens e da cidade. Por isso, ele censura a sentenqa de Epicuro, "que, em Deus, reputa como suma L eon Ruttlstu Albert1 ( 1 404-1 472) felicidade o nada fazer", sustentando que a fol hummrsta tic rnteresses polrt.'drrcos, verdade i exatamente o contririo e que o frhsofo, matematrco e arqulteto. supremo vicio i "estar a toa". Sem a aq20, Este retrato fol ttrado tie ulna rncrsio. a contemplaqiio n2o tem sentido. N o entan-
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    25 Capitdo segundo - 8 s debates sobre problemas morais e o Nee-epicurismo to, elogia os estoicos, que consideravam "o homem ser pela natureza constituido no mundo especulador e operador das coisas" e achavam que "cada coisa nasceu para ser- vir ao homem e o homem para conservar a companhia e a amizade entre os homens". Para concluir, recordemos alguns no- E louva Plat50 por ter escrito que "0s ho- mes de cilebres humanistas do siculo XV. mens nasceram por motivo dos homens". Giannozzo Manetti (1396-1459) tra- C)Nas artes, Alberti destacou a grande duziu Aristoteles e os Salmos, mas ficou co- import4ncia do conceit0 de "ordem" e "pro- nhecido sobretudo por seu escrito De digni- porqiio" entre as partes: a arte reproduz e tate et excellentia hominis, corn o qua1 abriu recria aquela ordem entre as partes que exis- a grande discuss50 "sobre a dignidade do te na realidade das coisas. homem" e sua superioridade em relaqiio as d ) Mas um dos temas mais caracteris- outras criaturas. ticos debatidos por Alberti i o da relaqiio Mateus Palmieri (1406-1475)conciliou entre "virtude" e "sorte". Para ele, a "vir- vida contemplativa e vida ativa. Embora re- tude" n5o i tanto a virtus crist5, mas muito afirmando a fecundidade da obra humana mais a arete' grega, ou seja, aquela atividade e o papel central da cidade, revela inflexties peculiar do homem que o aperfeiqoa e lhe plat8nicas que antecipam uma mudanqa de garante a supremacia sobre as coisas. Em clima espiritual. especial, apesar de algumas observaqties Por fim, devemos mencionar Ermolau pessimistas, Alberti mostra-se firmemente Barbaro (1453-1493), que se qualificou co- convencido de que, quando considerada e mo tradutor de Aristoteles (chegou a t i nos exercida de mod0 realista e n5o como velei- a tradu@o da Retorica), empenhando-se em dade, a virtude leva a melhor sobre a sorte. restituir ao texto do Estagirita o seu antigo Duas afirmaqties mas, sobre o sentido espirito, libertando-o das incrustaqties me- da atividade humana e sobre a superiorida- dievais. de da virtude sobre a fortuna, tornaram-se Uma afirmaqiio sua tornou-se famosis- particularmente cilebres: o homem nasceu sima: "Reconheqo dois senhores: Cristo e "niio para murchar jazendo, mas sim para as letras." Essa divinizaqiio das letras leva- estar de pe' fazendo". " A fortuna subjuga va Ermolau Barbaro a uma posiqiio quase apenas q u e m se lhe submete." de ruptura; com efeito, ele chegava a ponto Essas afirmaqties s5o como que duas de propor o celibato e o descompromisso esplhdidas epigrafes que valem para todo civil para os doutos, a fim de que pudessem o movimento humanista. se dedicar inteiramente ao oficio das letras. Frs a planta de Eloren~a por uolta d o ano 1 $00 (trrutla d~ " I '~llustruzrorre rtul~anu"I9 10). Murtos dos hunrunrstus mars rmportantes d o '400 vrveranr e m blorerz~a scJ tornurum chatzrelcres; e errtrc estes C o l u ~ ~ Salutdtl, L2c~onurdo r u n ~ Pogg~oH ~ L I L C I O ~ I I I I . ro R ,
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    111. LourenCo Valla A posis8o filosofica de Lourenso Valla (1407-1457) constitui uma retomada em base crista do Epicurismo: ela, com efeito, esta marcada por uma pol@mica cerrada contra o ascetismo estoico e monastico, aos quais Valla contrapde as ins- tancias do prazer, entendido porem no sentido mais amplo. A Louren~o va//a: tese de fundo de Valla e que todo produto da natureza e santo e o Neo-epicurismo louvavel, e, portanto, tambem o e o prazer; mas existem diferen- e o metodo tes graus de prazer, e o vertice e constituido pelo amor crist8o de filologico Deus. Por isso o prazer maximamente desejavel, que e tambem o + 2 1-3 sumo bem, encontra-se na religi80 crist8 e e alcansavel n8o na terra, mas nos ceus. A isso liga-se tambem a conceps80 de Valla da filologia, enquanto a salva- $80 do homem e garantida pela verdade, e a verdade e restituida pela correta intepretagao da "palavra"; o metodo filologico permite justamente respeitar a palavra e restitui-la em sua genuinidade para entender o espirito que ela expri- me: isso e necessdrio por causa da propria sacralidade da linguagem, porque a lingua e encarnag80 do espirito dos homens, e a palavra e encarnagao de seu pensamento. 1. 0Bee-epic~vismo de VaIIa Valla niio tem duvida de que se possa chamar de "prazer" at6 a felicidade de que a alma desfruta no Paraiso. Uma das figuras mais ricas e significa- tivas do Quatrocentos foi certamente Lou- renqo Valla (1407-1457). Sua posiq5o filosofica, como se expres- sa sobretudo na obra Do verdadeiro e do falso bem, i marcada por viva polemica 0 resultado ultimo dessa amplificaqiio contra o ascetismo estoico e contra os ex- do prazer 6 uma transcendcncia em relaqiio cessos do ascetismo moniistico, em oposi- ii doutrina do proprio Epicuro. Com efeito, q5o aos quais afirma as inst2ncias d o "pra- o impact0 desta doutrina com o cristianis- zer", entendido, porem, em seu sentido mo muda sua figura, como o proprio Valla mais amplo e niio somente como prazer da expressamente afirma: "Desta forma, refu- carne. 0 trabalho de Valla representa, por- tei ou condenei a doutrina tanto dos epi- tanto. uma curiosa tentativa de retomada curistas como a dos estoicos, e mostrei que do epicurismo, relanqado e resgatado em nem com uns nem com outros, nem mesmo bases cristiis. com qualquer um dos filosofos, ha o bem 0 raciocinio de fundo de Valla i o se- sumo ou desejavel, e sim em nossa religiiio, guinte: tudo aquilo que a natureza fez "niio a ser alcanqado niio na terra mas nos cius". pode ser sen50 santo e louviivel"; o pra- Se levarmos em conta essas afirmaqties, zer deve ser visto nessa otica. isto i. deve n50 nos surpreenderiio as conclusties a que ser considerado ele proprio como santo e chega Valla em outra obra cilebre que es- louvavel; mas, como o homem i feito de cor- creveu: Sobre o livre-arbitrio. Contra a ra- po e alma, o prazer se explica em diferentes ziio silogizante e contra o conhecimento do niveis; assim, ha um prazer sensivel, que 6 o divino entendido aristotelicamente, Valla faz mais inferior, mas tambim existem os pra- valer as insthcias da fi, entendida como a zeres do espirito, das leis, das intituiqGes, entende siio Paulo, e contraptie as virtudes das artes e da cultura, bem corno, acima teologais i s virtudes do intelecto, escreven- de todos, o prazer do amor cristio por do textualmente: "Fujamos portanto da Deus. cupidez de conhecer as coisas superiores e
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    27 Capitulo segundo - 0 s debates sobre problemas moi.ais e o Nee-epirurismo l2ouren(-oVullu (1407-14.C7) propfis uinn fortnu tie Epicurlsrno concilratd coin u cl'outrinil iristd; u l t m disso foi filtjlogo de ~ w l o r : cfescohriu - entre ontrus C O ~ S U S- a fulsidade do documento referente a celchre "Doa@o de Constunt~no ". Tirutnos estc retrato de ulna estuwzp~ conservada nu Civica Kuccolta delle Stampc Rcrturelli, ern Miliio. nos aproximemos muito mais das coisas hu- 0 trabalho de pesquisa filologica de mildes. Nada importa mais para o cristio Valla tambCm se estendeu aos textos sagra- do que a humildade. Desse modo, sentimos dos, na obra Confrontos e anota~ijes sobre muito mais a magnificencia de Deus, pois o N o v o Testamento extraidas de diuersos estii escrito: 'Deus resiste aos soberbos, mas codices de lingua grega e de lingua latina, concede a graqa aos humildes.' " 8-5,; que tinha o objetivo de restituir o texto genuino d o Novo Testamento e, desse modo, torni-lo mais inteligivel. 0 s estu- diosos destacaram que, com essa delicada A filologia d e Valla: operaqio, Valla pretendia opor o mitodo filologico ao mitodo filosofico medieval das a "palavra" quaestiones na leitura dos textos sacros, polindo-os de todas as incrustaqoes que se haviam depositado sobre eles ao longo dos siculos. Analogamente, apenas nessa otica e nes- Dessa forma, Valla abria um caminho se espirito podemos entender corretamente destinado a um grande futuro. E a forqa o Discurso sobre a falsa e mentirosa doa@o demolidora do seu metodo revela-se por in- de Constantino, no qual Valla demonstra com teiro no termo com o qual ele indica a lin- rigorosas bases filologicas a falsidade do do- gua latina, isto 6, "sacramentum." Para cumento sobre o qual a Igreja fundava a le- Valla (como bem esclareceu Garin), a lin- gitimidade de seu poder temporal, fonte de gua C encarnaqio do espirito dos homens corrupqio. A correta interpretaqio da "pa- e a palavra C encarnaqio do seu pensa- lavra': restitui a verdade, e esta salva. mento. E assim que Valla conclui esse admi- Dai a sacralidade da linguagem e a ne- ravel escrito: "Que eu possa um dia ver - cessidade de respeitar a palavra e restitui-la e n i o hii nada que eu deseje mais forte- a sua genuinidade, para entender o espirito mente d o que ver isso, especialmente se que ela expressa. acontecer a meu conselho - o Papa sendo Com Valla, o humanism0 alcanqa uma apenas vigiirio de Cristo e n i o tambCm de de suas conquistas mais elevadas e dura- CCsar! " douras.
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    Primeira parte -0 H u m a n i s m o e a R e n a s c e n G a tas estar no sumo grau da felicidade toda vez que compuseste por acaso, com muita vertigem cerebral, ficando insone uma noite inteira, um fr6gil silogismo que ndo conclui nada de nada. 2. A verdadeira filosofia Verdodeiro sobedorin 6 meditag6o sobre a morte Meditar profundamente sobre a morte, armor-se contra ela, dispor-se a desprez6-la e Unonimsmente considerodo como o a suportd-la, enfrentd-la, caso necsssdrio, dan- principal precursor dos humonistos, ou mes- do esta breve e misera vida em troca da vida mo como o primeiro humonisto, Francisco sterna, da felicidade, da gloria: eis a verda- Petrorco teve efetivomente IGcida consci&n- deircl filosofia, que alguns disseram ndo ser cio do volor dos studio humanitatis no psrs- outra coisa que o pensamento do morte. Expli- pactivo do filosofio: o verdodeira sobsdorio ca<do esta, do filosofia, que, embora encon- consist5 em conhecer o si mesmos, e o via (o mdtodo) poro reolizor tal sobadorio est6 trada pelos pagdos, todavia & pr6pr1a cris- dos t6os, que devem sentir o desprezo por esta vida nos artes libarois cultivados oportunomante, e a esperclnp do sternidads, e o desejo do isto 6, como instrumentos de forma@o espi- ritual. dissolu<do.Se tu, 6 velho del~rante, que pom- posamentee te chamas filosofo, tivesses pen- Petrorco defin~uoldm disso o verdodei- sado aquilo mesmo uma vez apenas em uma ro filosofio como pensomento e meditoqdo vida assim longa,jamais terias ousado chamar- sobre o morte, referindo-ss 6,possogem do te filosofo, nem terlas parado onde paraste, FBdon plotbnico, em que Socrotes ofirmo: "To- nem te venderias torpemente por tdo pouco dos oqueles que proticom o filosoFio de modo dinheiro, aviltando com os fatos tua profissdo, reto arriscom qua posse despercebido oos que enalteces com as palavras. outros que sua authntico ocupogdo ndo C mois qus morrer a estor mortos". -- 3. 0 valor do solid60 e o conhecimento de si mesmos R soliddo & carente de muitos prazeres 1. A artes liberais s6o o caminho, s do vulgo, mas & abundante de prazeres pro- n8o a meta prios: repouso, liberdade, ocio. Rneu disse, s Dizes' em primeiro lugar que estou priva- 6 verdade: "0 ocio sem as letras & morte. 6 do de Logica; espero que ndo me negues a sepultya dos v ~ v o s " . ~ Retorica e a Gram6tic0, que estdo compreen- E certo que o solit6rlo Ignorante, se Cristo n6o estiver continuamente com el@,por maior didas no nome da Logica, embora tamb&m isso possas facer, conforme teu parecer. Sumo exem- que seja o espqo do terra qua ele tiver a sua plo de todo barbarismo, tu me tiras apenas a disposi@o, estard amarrado sem grilhdes. Dial&tica, no qua1 taus silogismos te mostram Ndo me maravilho que este g&nero de ser excelente, e que chamas Log~ca. vida seja malvisto por ti. 0 que farias sntdo, a "€iso delito, 6 juizes". Ora, se quisesse po- ndo ser contar as horas e esperar o momento deria fazer ver que os ilustres filosofos cqoam em que deves ir 6 ceia, conforme teus h6bitos. dessa propria Dialbtica, do qua1 sou acusado e quando a0 Ieito? N60 haveria ningubm com de estar privado; e eu poderia demonstrar, como quam pudesses dar uma volta, ou com o qua1 pudesses gritar; nem saberias falar contigo. Tal se I& em Cicero, que os antigos peripat&ticos, clarissima seita de filosofos, tamb&m a deixa- virtude 6 de poucos homens; e nestes lugares, ram de lado. Todavia, 6 estulto, dela ndo estou confesso, h6 bem poucos, ou melhor, quase ningubm. Eu, ao contrdrio, pelo grande amor privado: sei que valor dar a ela e que valor dar ds artes liberais. Rprendi com os filosofos a nBo que dedico 6s letras, vivo uma vida tdo bela e estimar excessivamente nenhuma delas. Portan- t60 doce que, se conhecesses o estado do meu to, assim como & louv6vel t&-lasaprendido, tam- Bn~mo, creio que odiarias a hora em que nas- b&m & puer~l nelas envelhecer. Elas s6o o cami- nho, n60 a meta: exceto para os errantes e 'Petrorco sa d~rige rnbd~coq u 6 olvo da suo oo ~ vogabundos que ndo t&m nenhum porto no v~da. invact~vo. Para ti que ndo tens nenhuma meta mais nobre "'Corn gronde j~Ct8flCla". 6 meta qualquer coisa que encontres. Rcredi- 3S&neco.Cartas o lucilio, XIX.
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    Capitulo segundo - 8 s debates sobre problemas morais e o Neo-epicurismo caste, porque te colocou em uma vida misera e tdo. No que se refere a Epicuro parece-meque infeliz, a qual, pela esperanGa de pouco dinhei- em todo lugar os vossos tsnham atitude seme- ro, te ocasiona grandissimas angirstias. Ihante, quando vos deixais lnduzir em u erro m Com quem portanto falaste, velho miser6 td0 graves afirma~s o termo "prazer"que se que vel? Com quem sentenciaste contra mim? Rma- encontra em Epicuro & outra coisa, assim como o ram a soliddo os patriarcas, os profstas, os termo "Ieticia", que se encontra em Rristoteles, santos, os filosofos, os poetas, os c h e f e ~os ,~ dado que foi assim que os b6rbaros o traduzi- imperadores famosissimos. E, na verdade, quem ram. De fato, se Rristoteles ndo condena toda ndo ama a soliddo sendo quem ndo sobe estar Ieticia,so dig0 isso, a causa jn @st6vencida: com consigo mesmo? Odeia a soliddo todo aquele efeito, quem aprova a letic~a tambhm ndo con- que est6 sozinho na soliddo, e teme o ocio todo dena o prazer, uma vez qua, 00 menos em SGUS aquele que ndo faz nada. escritos, estes dois termos sdo u so. Entre nos, m F. P~trorca. porhm, eles diferem, como o g&nsro e a espkie. Contra medicum. 2. 0 duplo significado da palavra "voluptas" para os Latinos Vos, porhm, dizeis: o termo latino & ver- gonhoso. Mais vergonhoso, porhm, 6 quem mente e acusa falsamente. Quem de fato vos ensinou isso? Deixando de lado todos os ou- tros testemunhos, Cicero traduz sempre com "voluptas" aquele nome, tanto nos textos de Rristoteles como nos de Plat60 e de outros. E para que saibais o que isto significa e o termo interpretag60 do "voluptos" que assim o defina (De fin~bus, 4, 1 3 ) : ne- 11, nhuma palavra traduz melhor hsdonQque pra- 0Nso-spicurismo ds loursngo Vollo 6 zer. R este termo todos aqueles, em qualquer o rssultado ds umo tsntatlvo ds concilio~do lugar, qua sabem folar lotim atribuem dois sen- sntrs o cristionismo s o concspgdo spicur~sto tidos, a alegria do Bnimo que nasce de uma do hedonh (sm lotim voluptas, prozsr). suave comoq50, e o go20 do corpo. Ndo ser6, 0ssntido do doutrino ds Vollo do pro- no verdade, prazer aquele deleite que goza- zsr foi intsrprstodo finoments por €. Gorin: mos pela I~beralidade, pela miserlcordia, por "R proclomodo sontidode do voluptas, ds uma obra Ievada egregiamente a termo, por rssto santida muito lucrscionomsnts, Q umo ter fugido do perigo, de uma desgra~a, uma de defsso do divindods do noturszo, monifss- doenp e outras coisas semelhantes? tag60 odmlr6vsl do ordsnodo s providsnciol < dificil para mim entender no que dife- bondods ds Dsus. [...I Noda ss psrds do rem estes do~s nomes; e quem o nega h sem volidsz s do justsza do rsfsr6ncio 2, sxpsri- dljvida um iletrado, mas, se tambhm ele o diz, 6ncio cristd, antsndido como rsdsngdo ndo tambbm a vido eterno ser6 prazeroso. ch olmo, mos do homam, ds todo o homsm, corns s olmo, contra todo oscstismo psssi- 3. 0 vsrdadsiro prazer 6 bem-avsnturanp, misto s todo avidsnts ou loivol monqusismo. e consiste em servir a Dsus R possogsm citodo a ssguir, olQm ds mostror como Volla tsnho corojosomants Todavia, d~zem que este nome ndo con- dsfsndido suo proprio doutrino hsdonisto, Q vhm, nem coaduna com quem fala de modo cris- u tsstsmunho do pops1 otivo e bostants m tdo; & mois conveniente o termo "frui@o" que funcionol dsssmpsnhodopalo filologia nss- substituis bquele, como se ndo se possa "fruir" ts mssmo ombisnte doutrinol. e se costume entender tambhm este em sent(- do torpe, e "frui@o"ndo seja um termo insolito e, por assim dizer. fruto sem dopra que n60 so 1. A defesa de Epicuro ndo se encontra jamais nos selvas dos erudi- Primeiramente responderei em defesa de tos, mas tambhm sequer nos jardins do novo e Epicuro, ~sto de um grego e, portanto, em de- &, do antlgo testamento, enquanto, ao contr6r10, Fesa dos Latinos, e por fim sobre o costume cris- encontramos "prazer", e com frequ&ncia, e en- tre as 6rvores no lugar mais ameno. Rcrescen- tarsi um testemunho ndo falso, como fazeis a0 dizer "do vontade da carne" em vez de "do pra-
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    Primeira parte -0 tlumanismo e a Renascenca zer". Com efeito, no principio do G&nesis Iemos: po com o nome; que o chamem como quise- "Deus tinha plantado no inicio o paraiso do pra- rem: prazer, frui@o, deleite, ou alegria, felici- zer". e esta passagem 6 repetida, e nbo muito dade e bem-aventuranp, contanto qua a COI- depois 6 chamado de "paraiso de Deus" (Gn sa se torne evidente e seja claro aquilo que 2.8; 2.15; 3.23; 3,24). Ora, assim incriminamos eu me havia proposto provar, ou seja, que nbo tamb6m o nome ou a dignidada do prazer; a h6 nenhumo virtude verdad~iro nb0 ser no a qua1 coisa foi alguma vez atribuida tanta digni- servi<ode Deus; e isso para que nbo nos pos- dade e honra? Com certeza a nenhuma outra, sam insultar os que sustentam os qmtios, nbo 6 cihcia, nbo d virtude, nbo 6 pot&ncia, para os quais existem verdadeiras virtudes ndo a nenhuma das outras coisas que tamb6m naqueles que nbo pensam ter recebido de costumamos louvar e desejar; o qua devemos Deus suas almas nem acreditam que tives- ent6o pensar do prazer a ndo ser que seja a sem sido estabelecidos pr&mios e puni~des bem-aventuran~a, daqueles que a perseguem e por Deus, para os mbritos dos vivos ou dos o qua podemos augurar a nbo ser que ndo a mortos. alcancem jamais e qua deixem para mlm a par- Onde estbo aqueles que dizem que eu te deles, caso a merepm? Omito aquilo qua tenho atitude mb em rela(bo d fC? Eu qua disse Davi: "Tu os embriagas na torrents de tau sempre combati assiduamente por ela e qua prazer" (Salmo 36,9), e tambbm Ezequiel que, tambCm agora, se 6 licito dizer a verdade, Falando do paraiso, menciona "0s frutos do pra- combat0 em sua defesa tanto que meus acu- zer" (€2 31.9.16.18). sadores devem dizer-se inimigos da FC, e eu Mas por que, poderia algubm me pergun- defensor. tar, assumiste a tarefa de louvb-lo? IVda, . [. . .] Eu, no verdade, santissimo poi, como Rpologlo ad Eugen~umIV. testemunhei em minha propria obra, ndo me ocu- sm Opera omnia. Valla, xi e m urn6r incisdo renascentista, pode ser considerado prim reiro dos grandes fildlogos da era moderna.
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    CaritMlo terceiro sobre a tradiCzo platGnica ern geral e sobre os doutos bizantinos do SCCM~O A era do Humanismo e da Renascenga e marcada por maci- NJ g revivesctSncia do Platonismo atraves da mediagao de bizantinos a Neoplatonismo doutos, que afluiram ii Ithlia a partir dos inicios do 400; mas o difundiu-se texto platdnico redescoberto continua a ser lido B luz da tradigao xv no s ~ c u ~ o plat8nica posterior, ou seja, em funs80 dos parametrostornados por bizantinos canbnicos pelos Neoplatcinicos, 0 Platonismo, portanto, chegou doutos aos renascentistas na forma do Neoplatonismo, e seu grande +§ 1 relangamento ocorreu principalmente por obra de Nicolau de Cusa, Ficino e Pico. Para o leitor de hoje, que esta de posse das mais refinadas tkcnicas exegtticas, isso pode parecer paradoxal. Na realidade, po- rim, n i o o 6. Somente a partir de inicios do A Cpoca do Humanismo e da Renas- Oitocentos C que se conseguiu comeqar a se- cenqa C marcada por maciqa reviveschcia parar as doutrinas genuinamente plathicas do platonismo, que cria uma tgmpera espiri- das doutrinas neoplat6nicas, e somente em tual inconfundivel. nossos dias, pouco a pouco, se esta comple- A revivesciincia do platonismo, portm, tando sistematicamente a imagem filosofi- n i o significa o renascimento do pensamen- ca de Platio em todos os seus traqos, como to de Platio tal comp o encontramos ex- jA vimos em parte no volume I. presso nos dialogos. E verdade que a Idade No fim do Trezentos Manuel Crisolora Mtdia leu pouquissimos dialogos (Menon, abrira uma escola de grego em Florenga, Fe'don e Timeu) e que, ao contr6ri0, ao lon- destinada a ser a "nova Atenas" no Ociden- go do Quatrocentos, os didogos foram to- te. Ai L. Bruni e depois M. Ficino teriam tra- dos traduzidos para o latim, as vers6es de duzido Platiio; ai acorreram os doutos de Leonardo Bruni alcangaram grande sucesso Constantinopla para o Concilio que em 1439 e muitos humanistas estavam em grau de teria devido reunificar a Igreja grega com a ler e entender o texto grego original. Entre- latina; ai novamente encontraram acolhida tanto, o redescoberto texto platbnico conti- os doutos gregos que haviam fugido de nuou a ser lido i luz da tradiqio platbnica Constantinopla depois da queda da cidade posterior, ou seja, em funqio dos pariimetros na m i o dos turcos em 1453. que os neoplat6nicos tornaram normativos Era inevitavel a disputa a respeito da e com multisseculares incrustag8es. "superioridade" de Platio ou de Aristoteles.
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    32 Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a RenascenGa Jorge Gemisto (significativamenteapelidado Pleton) sustentou o primeiro, enquanto Jor- ge Scholarios Gennadio (por 1405-1472) e Jorge de Trebisonda (1 396-1486) o segundo; mais equilibrado, o doutissimo cardeal Bessa- rione (1400 aproximadamente-1472),"o mais latino dos gregos e o mais grego dos latinos", tentou demonstrar a harmonia dos dois fi- losofos. A preferhcia global dos humanistas foi, em todo caso, em geral por Platso. Todavia, o grande relanqamento do Neoplatonismo, do ponto de vista filosofi- CO, aconteceria, de um lado, por obra de Nicolau de Cusa, e, por outro, por obra da Academia Plat6nica florentina com Ficino A sua frente, e depois Pico. N/c-thrr tic Cusil (1401-1464) for ~rtrileletctilogo c jilrisol;, r~coplirttirr~~-o;I S tcv,r.~'rss>o c-orno L ~ I I I L I SIIL ,yrirudc3j901rtc cntrr ir evil rncd~ez'irl '1 rendsc-etztista. e A foto 2 clirc'it~irc~f~roiirrz~norzi~wzerrto Nic-olau o lie ~ J I ~ C ' C ' I I C O I I ~ ~ IV~ I 51111 sc ~ I Prrtro in Vine-olr,l'N2 K o I ~ z L ~ . . I)r/c rcc-ovdmnos d tcorid da douta ;p~ori?tzcid m e qric, ~ s t Ii ~ Y C W ~ I ~ ' O C O I Z S C ~ G I I C I C~I L d ~ ~ s p r o p ~ r ~ d o 1 I ~~sfr//fnrLr1 d t n ~ n t e r~mzn~z crrtr~~ h (finit~l) o infinrto 1, 'ro q//Lzlcl'r tcntfc. lltnl~~riso, 1 1 1 ~ 1 ~incisilo tir~dLr en1 1 eft, l f t l t d ol)rd if^ I j 38, N I C O ~ I1; M~ ' J J ) . c s c I ~1 ~ 0~ ~ O IT 2 c.cpntroiolll o c - h ~ cdi~zalic-io, h ctzquirnto C gr4iLz(io [J('/Osc-oreiGcs d o chrz/)Cu prlo przpiz, rr firn dr q ~ l c trilrrstnitiz ires fibs s i ~~zhetforiir. ~
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    33 Capitdo terceiro - O Neoplatonismo renascentista . -m.-*- --..rm.z,s . - 11. JJicoIaude Cusa: a "douta ignov&ncia" em velaG~o infinito a0 A marca do pensamento de Nicolau de Cusa (1401-1464) e Predominio do constituida principalmente pelo predominio do Neoplatonismo Neoplatonismo (especialmente na formulagao dele dada pelo Pseudo-Dionisio), no pensamento a servigo de fortes interesses teologicos e religiosos. Em particu- de Njco/au lar, ele usa metodos matematicos de forma original, desfrutan- , tj 1 do-os em sua valencia analogico-alusiva e dando assim lugar a um metodo definido como docta ignorantia. A douta ignorsncia consiste: a) na consci@ncia desproporgao estrutural entre a mente humana (finita) e da o infinito; b) na pesquisa relacionada que s mantem rigorosamente dentro do 6mbito e de tat consci4ncia critica: a mente humana, o intelecto, est6 para a verdade como o poligono esta para o circulo. Ora, a verdade, que e por si inatingivel, podemos porem nos A aproximar por meio de uma pesquisa por aproximagao, ja que as ignor;incia: varias coisas finitas podem aparecer como tendo certa relagao desproporqdo simbolica com o proprio infinito; no infinito (em Deus), com efei- entre mente to, tem lugar uma coincidentia oppositorum, no sentido que nele humana (finita) coincidem todas as distingbes que nas criaturas s encontram ao e infinito e inves opostas entre si: Deus e o absolutamente maximo e 6 tao + 3 2 sem nenhuma oposigao, que nele o minimo coincide com o m6xi- mo. A esta verdade pode aproximar-se nao a percepgao sensorial, que e sempre positiva, afirmativa, nem a razao (ratio), que e discursiva, e afirma e nega man- tendo distintos os opostos segundo o principio de nao-contradi@o, mas o intelec- to (intellectus), que esta acima de toda afirmagao e negagao, e capta a coincidh- cia dos opostos com um ato intuitivo. A derivagao das coisas a partir de Deus comporta tr@s aspectos fundamentais: 1) a complica@o: Deus contem em si todas as coisas, e portanto as "complica" (inclui) todas elas; 2) a explicagao: o universo e a "explicagao" de Deus como A relac30 explicagao da unidade na multiplicidade, no sentido de que o entre Deus universo e "imagem" do Absoluto; e o universo. 3) a contragao: explicando-se, Deus se "contrai" no universo, significado isto e, s recolhe manifestando-se nele, assim como a unidade doprincipio e esta "contraida" na pluralidade. Ora, uma vez que cada ser e "tudo "contra@o" do universo, assim como o universo e por sua vez esta em tudo" contragao de Deus, cada ser reassume em si, de seu modo, o uni- + tj 3-4 verso inteiro e Dew, e tudo esta em tudo. 0 homem, por conseguinte, e "microcosmo" em dois niveis: conceito a) em nivel ontologico geral, porque "contrai" em si proprio de todas a coisas; s como b) em nivel ontologico especial e gnosiologico, porque, sen- ~lmicro,osmolf do dotado de mente e de conhecimento, e complicagSo das com- + tj 5 plicagbes; a mente humana, que e imagem de Deus, e a imagem da complicag~o complica~bes. das Aqui Nicolau esta em sintonia com os humanistas, os quais, do conceit0 de homem como "microcosmo", fizeram a sigla espiritual de uma epoca.
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    34 Primeira parte - 0t l w n a n i s m ~e a Renascen~a A vida, obras as o adjetivo corrige o substantivo de mod0 essencial. e o delinearnento cukural Vejamos, concretamente, em que con- siste essa "douta ignorincia" de Nicolau de Cusa. Uma das personalidades de maior des- taque do Quatrocentos, talvez o ginio espe- culativamente mais dotado, foi Nicolau de Cusa, assim chamado por causa da cidade de Kues (hoje Bernkastel, sobre o Mosel), onde nasceu em 1401 (seu nome era Kryfts ou, na grafia modernizada, Krebs). Alemio de origem, mas italiano por formaqio, Nico- Em geral, quando se busca a verdade lau estudou especialmente em Padua. Foi acerca das varias coisas, p6em-se em relaqio ordenado sacerdote em 1426 e tornou-se e comparam-seo certo com o incerto, o desco- cardeal em 1448. Morreu em 1464. nhecido com o conhecido. Portanto, quan- Entre suas obras, podemos recordar: do se indaga no imbito das coisas finitas, o A douta ignoriincia (1438-1440), As con- juizo cognoscitivo C ficil ou dificil (quando jecturas (elaboradas entre 1440 e 1445), A se trata de coisas complexas), mas, de qual- busca de Deus (1445), A filia@o de Deus quer rnodo, e' possivel. (1445), A apologia da douta ignoriincia Entretanto, as coisas s i o bem diferen- (1449), 0 idiota (1450), A vis2o de Deus tes quando se indaga do infinito, que, en- (1453), A esmeralda (1458), 0 principio quanto tal, escapa a toda propor@o, res- (1459), 0 poder ser (1460), 0 jogo da bola tando-nos portanto desconhecido. E essa a (l463),A caCa da sabedoria (1463), 0 com- causa do nosso nzo saber em relaqio ao pdndio (1463) e 0 apice da teoria (1464). infinito: precisamente o fato de ele n i o ter Entretanto, somente em parte Nicolau "proporqio" alguma em relaqiio i s coisas de Cusa interpreta as instincias renascen- finitas. A consciincia dessa desproporqio tistas. Inicialmente, ele se formou com base estrutural entre a mente humana (finita) e na problematica ligada i s correntes ocka- o infinito, ao qual porCm ela tende e pelo mistas, e depois foi influenciado pelas cor- qual anseia, e a busca que se mantCm rigo- rentes misticas ligadas a Eckhart. Mas a rosamente no imbito dessa conscihcia cri- marca de seu pensamento C constituida so- tics constituem a douta ignorincia. bretudo pelo predominio do Neoplatonis- Eis as conclus6es de Nicolau de Cusa: mo, especialmente na formulaqiio desenvol- "0 intelecto ..., que niio C a verdade, n i o vida pel0 Pseudo-Dionisio, quando niio de pode compreender nunca a verdade de mod0 Escoto Eriugena (ainda que em menor me- preciso, n i o podendo portanto compreendi- dida), a serviqo de fortes interesses teologi- la ainda mais precisamente ao infinito, por- cos e religiosos. que esta para a verdade como o poligono Entretanto, seria errado pensar em esta para o circulo. Quanto mais ingulos Nicolau de Cusa como filosofo predominan- tiver o poligono, tanto mais sera semelhan- temente ligado ao passado: com efeito, em- te ao circulo; entretanto, jamais sera igual a bora ele n i o se mostre alinhado com os ele, ainda que multipliquemos seus ingulos humanistas, tambCm niio se encontra alinha- ao infinito, ja que nunca se chegari i iden- do com os escolasticos. Na verdade, ele n i o tidade com o circulo." segue o metodo "retorico" (ou seja, inspi- Estabelecida essa premissa, Nicolau in- rado na eloqiiincia antiga) proprio dos pri- dica um caminho correto de busca por apro- meiros, mas tambtm n i o segue o mitodo xima@o daquela uerdade (em si mesma da quaestio e da disputatio caracteristico dos inalcanqavel),centrado na concepqio segun- segundos. Nicolau faz uso original de mC- do a qual ocorre no infinito uma coincidentia todos extraidos dos processos matemiiticos, oppositorum, isto 6, uma "coincidincia dos nio, porCm, em sua valincia matemitica opostos". Por esse caminho, as virias coisas propriamente dita, e sim em sua vakncia finitas podem aparecer n i o tanto em antite- analogico-alusiva. 0 tip0 de conhecimento se com o infinito, mas muito mais como ten- que deriva desse mCtodo C denominado por do com o proprio infinito uma rela@o sim- nosso filosofo como docta ignorantia, onde bolica, de certa forma significativa e alusiva.
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    35 Capitulo terceiro - 8Neoplatonismo renascrntista Em Deus, portanto, enquanto infinito, 0 mesmo vale, por exemplo, tambCm coincidem todas as distinqoes, que nas cria- para o triingulo. Se, pouco a pouco, pro- turas se apresentam como opostas entre si. longarmos um lado ao infinito, o triiingulo 0 que significa isso? acabara por coincidir com a reta. E os exemplos poderiam se multiplicar. Portan- to, ao infinito, os opostos coincidem. Deus J? "coincid&ncia dos opostos" C, portanto, "complicaq50" dos opostos e no infinito sua coincidhcia. 3:::""iT' Nicolau mostra bem o que entende quando fala de "coincidhcia dos opostos", utilizando o conceito de "miiximo". Em Tudo isso implica uma superaqiio do Deus, que C maximo "absoluto", os opos- mod0 comum de raciocinar, que se funda tos "maximo" e "minimo" siio a mesma no principio da niio-contradiqiio. coisa. Com efeito, pensemos em uma "quan- Nicolau p6de tentar uma justificaqiio tidade" maximamente grande e em uma ma- das possibilidades dessa superaqiio exploran- ximamente pequena. Agora, com a mente, do a distinqiio (degCnese plathica) dos graus subtraiamos a "quantidade". Note-se que de conhecimento em: a)percepqiio sensorial; subtrair a quantidade significa prescindir do 6 ) raziio (ratio); ) intelecto (intellectus). C "grande" e do "pequeno". 0 que resta en- a) A percepqiio sensorial C sempre po- tiio? Resta a coincidtncia do "maximo" e sitiva ou afirmativa. do "minimo", visto que "o maximo C su- 6 ) A raziio, que C discursiva, afirma e perlativo, como o C o minimo". Por isso, nega, mantendo os opostos distintos (afir- Nicolau escreve: "A quantidade absoluta mando um nega o outro e vice-versa) segun- (...) niio C mais maxima do que minima, jA do o principio da niio-contradiqiio; que nela coincidem minimo e maximo." Ou, C) ja o intelecto, acima de toda afirma- para melhor dizer, pel0 fato de que Deus C $50 e negaqiio racionais, capta a coinciden- coincidhcia de maximo e de minimo, ele cia dos opostos com um ato de intuiq3o su- tambCm esta acima de toda afirmaqiio e ne- perior. Escreve Nicolau: "Assim, de mod0 gaq5o. incompreensivel, acima de todo discurso A geometria nos oferece esplhdidos racional, vemos que o maximo absoluto C o exemplos "alusivos" de coincidt?ncia dos infinito, ao qual nada se op6e e com o qual opostos no infinito. Tomemos um circulo, o min?mo coincide." por exemplo, e aumentemos o seu raio, pou- E nesse quadro que ele repropoe as co a pouco, ao infinito, isto 6, at6 faze-lo principais temiticas do neoplatonismo cris- tornar-se miximo. Pois bem, nesse caso, o tiio com originalidade e fineza. circulo acabari por coincidir com a linha, e Tr2s pontos merecem ser destacados de a circunfer2ncia pouco a pouco se tornarii mod0 particular: minimamente curva e maximamente reta, a) o mod0 como ele apresenta a rela- como mostra este grifico: r AlCm disso, no circulo infinito cada 6 ) o destaque que dii ao antigo princi- ponto sera centro e, ao mesmo tempo, tam- pio segundo o qual "tudo esta em tudo"; bim extremo. E, analogamente, coincidiriio c) o conceit0 de homem como "micro- arco, corda, raio e di2metro. E tudo coinci- cosm~". diri com tudo. Examinemos estes trss pontos.
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    f reIaC&o vento no vento, C Pgua na agua, C tudo em tudo, segundo a antiga maxima de Anaxa- ' entre D e u s e o universo goras. Eis uma belissima pagina de Nicolau de Cusa, em que ele expressa esse conceito Nicolau de Cusa apresenta a derivaqiio de mod0 admiravel: "Dizer 'qualquer coisa das coisas em relaqiio a Deus em funqiio de esta em qualquer coisa' niio C mais do que t r k conceitos-chave ( j i utilizados por alguns dizer 'Deus esta em tudo pel0 tudo' ou kudo pensadores plat6nicos medievais): 1 ) o con- estP em Deus pel0 tudo'. Essas elevadissimas ceito de "complicaqiio"; 2) o conceito de verdades podem ser cornpreendidas clara- "explicaqiio"; 3) o conceito de "contraqiio". mente por um intelecto sutil: ou seja, de que 1)Deus contCm em si todas as coisas mod0 Deus, sem diversidade, esth em todas (corno maximo de todos os maximos). As- as coisas (porque qualquer coisa esta em sim, pode-se dizer que ele "complica" (in- qualquer coisa) e todas estiio em Deus (por- clui) todas as coisas. Deus C a "complica- que todas estiio no todo). Mas, como o uni- qiio" de todas as coisas, assim corno, por verso esti em qualquer coisa como qualquer exemplo, a unidade numCrica C a "compli- coisa esta nele, o universo, de mod0 contra- casiio" de todos os numeros, dado que es- ido, C em qualquer coisa aquilo que ele pro- tes nada mais siio do que a unidade que se prio C contraidamente. E qualquer coisa no explica, e em cada numero nada mais se universo C o proprio universo, embora o uni- encontra sen50 a unidade. Basta pensar tam- verso esteja de mod0 diverso em uma coisa b t m no ponto, que C "complicaqiio" de to- qualquer e esta esteja diversamente no uni- das as figuras geomktricas, visto que a linha verso." niio C mais do que o ponto que se explica, e E eis algumas belas exemplificaq6es: assim por diante. "Esta claro que a linha infinita C linha, tri- 2) Com esses exemplos, tambim fica iingulo, circulo e esfera. Toda linha finita claro o conceito de "explicaqiio". Mas de- tem seu ser a partir da linha infinita, que C vemos notar uma coisa: quando se conside- tudo aquilo que existe. Por isso, na linha ra Deus como "complicaqiio", deve-se di- finita, tudo aquilo que C a linha infinita (isto zer que todas as coisas est5o em Deus, e G o t, linha, triingulo etc.) C linha finita [...I Deus em Deus; quando se considera Deus Todas as coisas na pedra siio pedra, na alma como "explicaqiio", Deus C em todas as coi- vegetativa siio alma, na vida siio vida, no sas aquilo que elas Go. Diz Nicolau: enquan- sentido siio sentido, na vista siio vista, no to explicaqiio, Deus "6 como a verdade na ouvido siio ouvido, na imaginaqiio siio ima- sua imagem". Desse modo, dizer que o uni- ginaqiio, na razio siio raziio, no intelecto G o verso C explicaqso de Deus significa dizer intelecto, em Deus siio Deus." ",," ' que ele C "imagem" do Absoluto. 3) 0 conceito de "contraqiio" se expli- ca como consequtncia disso, ou seja, como manifesta~iiode Deus. N o universo, Deus e s d "contraido", assim como a unidade esta "contraida" (se manifesta) na pluralidade, a simplicidade na composiqiio, a quietude no movimento, a eternidade na sucessiio temporal e assim por diante. 0 conceito d e homem como "mi- c r o c o s m ~ "nada mais C do que uma con- sequincia dessas premissas. N o context0 do pensamento de Nicolau, o homem C "mi- 4 0~ i ~ n i f i c a d o principio do crocosm~" dois planos: a ) no plano on- em "tudo est6 em tudol' tol6gico geral, porque "contrai" em si mes- mo todas as coisas (da mesma forma que, nesse sentido, toda coisa C microcosmo); Assim sendo, entiio, cada ser C "con- 6) no plano ontologico especial, visto que, traqiio" do universo, assim como este, por sendo dotado de mente e conhecimento, o seu turno, C contraqiio de Deus. 0 que sig- homem, d o ponto de vista cognoscitivo, nifica que cada ser resume o universo intei- t "implicaqiio" das imagens de todas as ro e Deus. Todo o universo C flor na flor, C coisas.
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    Citemos duas passagensmais caracte- se explicam universalmente no universo, risticas a esse respeito, dado que, nesse pon- porque existe um mundo humano. Todas to, Nicolau de Cusa estii em perfeita sintonia as coisas siio complzcadas humanamente na com os humanistas, que fizeram d o concei- humanidade, porque ela C um deus huma- to de homem como "microcosmo" uma ver- no. Com efeito, a humanidade C unidade, dadeira bandeira ideal, a marca espiritual que C tambCm infinidade humanamente de toda uma Cpoca. contraida." Nas Conjecturas, lemos: "0 homem No escrito A mente (que 6 parte de 0 C um microcosmo ou urn mundo humano. idiota), no fim, se 1;: "Considero que a men- Em sua p o t h c i a humana, a area da huma- te [do homem] C a mais simples imagem da nidade compreende Deus e o universo-mun- mente divina, entre todas as imagens da do. 0 homem pode ser um deus humano complica@o divina. A mente C a imagem ou humanamente urn deus, como pode ser yrimeira da complica@o divina, que com- um anjo humano, uma fera humana, um plica todas as suas imagens na sua simpli- lea0 humano, urn urso humano etc. Na cidade e na sua virtude de complica@io. potencia da humanidade todos os seres Deus, com efeito, C a complzcapio das com- existem segundo o mod0 particular dela. plica@5es e a mente, que C imagem de Deus, Na humanidade se explicam humanamen- C a imagem da complica@o das compli- te todas as coisas, do mesmo mod0 como cagoes. " .' l f Roma, como sede do dominium terreno sobre terra italica do papado, opBs urn sentimento nacional italiano contra as pretens6es ao dominio politico sobre a Italzu do impe'rio. lncisao tirada do Supplementum Chronicarum, 1490.
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    38 Prtmeira parte - 0t l u m a n ~ s m o r a Renascenca III. j'Vlavsilio Ficioo e a Academia plat6nica florentina Nascimento * Em 1462 nasce em Florenqa a Academia Platenica, urna associac$o de doutos e amantes da filosofia platbnica sob a dire- l o de Manilio Ficino (1433-1499). Este, corn suas tr&satividades caracterjsticas do pensamento 5undamentais- intimamente ligadas - de a) traduto~; pensa- b) dor e fildsofo, C) mago, marcou urna virada decisiva na historia de Ficino do pensamento humanista-renascentista. +§I 0 pensamento de Ficino, express0 sobretudo na Theologia platonica, 6 urna forma de Neoplatonismocristianizado, do qua1emergem quatro aspectospeculiares. a) A filosofia como "revela@o". 0 dispor a alma de mod0 0s qua tro que s torne intelecto e acolha a luz da divina revelaqao, em que e aspectos consiste a atividade filosofica, coincide corn a propria religi%o: principais iniciada com Hermes, Orfeu, Zoroastro, e conthua- esta revelac;c?o, da fi'osofia da por Pitagoras e Platlo, completa-se depois definitivamente de Ficino + 3 3-7 com a vinda de Cristo, com o fazer-se carne do Verbo. b) A alma como "copula mundi". A estrutura metafisica da realidade e urna sucessa"~ cinco graus decrescentes de perfei- de qdo: 1) e 2) Deus e anjo (mundo inteligivel), 3) alma, 4) e 5) qualidade e materia (mundo fisico). A alma representa o no de conjun@o, que e simultaneamente todas as coisas: ela tem em si a imagem das coisas divinas, das quais depende, e as razdes e os exemplares das coisas inferiores, que de certo mod0 ela propria pro- duz. A alma e o centro da natureza, e o n6 e a copula do mundo. c) 0 repensamento em senso cristao do "amorplat~nico".0 amor na sua mais aka manifestasao coincide com a reintegraszo do homem empirico com sua meta- empirica ldeia em Deus: esta reintegraqao e possivel atraves da progressiva ascen- Go na escala de amor, e portanto e urna especie de "endeusamento", um tornar- s eterno no Eterno. A teoria do "amor plat6nico" teve larga difusao na Italia e (Pico, Bembo, Castiglione) e tambem na Fran~a. d) A impodncia da magia "natural". Ficino n l o hesitou em se proclamar "mago", seguidor porCm n%o magia profana, fundada sobre o culto dos de- da m6nios, e sim da magia natural, que liga a coisas celestes a terrenas. A magia s s natural implica a animaszo universal das coisas, e age por meio do "espirito", a subst4ncia material sutilissima que permeia todos os corpos; particuiarmente, ela predispae o "espirito" do homem a receber o mais possivel o "espirito" do mun- do. E em tudo isso Ficino nao via nada de contrario ao Cristianismo: o proprio Cristo, em muitos casos, fora um curador. 1 A posi@o de Ficino qiiilidade, dedicar-se ao estudo e B traduqiio de PlatHo. Essa data assinala o nascimento no pensamento renascentista da "Academia Plat(jnican, que ndo foi uma e as caracteristicas escola organizada, mas muito mais um so- de sua obra dalicio de doutos e amantes da filosofia plat& nica, d o qua1 Ficino foi a mente diretora. Marsilio Ficino (1433-1499) marcou Em 1462, Cosme, o Velho, dos Medici, urna reviravolta decisiva na histbria do pen- doou a Ficino urna vila em Carregi, para que samento humanista-renascentista. Em parte, ele pudesse, com toda a comodidade e tran- essa reviravolta se explica pelas novas con-
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    39 Capitdo terceiro - 0N e o p l a t o n i s m o renuscentisfa seguindo um plano filosofico claro. 0 teo- rico, portanto, guiou as escolhas do tradu- tor. E a atividade do tradutor, assim como a do pensador, liga-se com a do mago, n i o de mod0 agregado, e sim essencial, pelas ra- z6es que explicaremos. Ficino c o m o tvadutor Lid irio A atividade oficial de Ficino como tra- dutor comeqou em 1462, precisamente com as vers6es de Hermes Trismegisto, ou seja, com o Corpus Hermeticum, do qua1 ja fala- mos amplamente, e com os Hinos brficos, aos quais se seguiram, em 1463, os Com- mentaria in Zoroastrem. Em 1463, Ficino co- meqou a traduqio das obras de Platio, nas quais trabalhou at6 1477. Entre 1484 e 1490 traduziu as Enbadas de Plotino e, entre 1490 e 1492, traduziu Dionisio Areopagita. Entre uns e outros, traduziu tambim diq6es politicas, que acarretaram uma trans- obras de Medio-plat6nicos, de Neopitagoricos formaqio do literato-chanceler da Republi- e de NeoplatGnicos, como Porfirio, JBmblico ca no literato-cortesiio, a serviqo dos novos e Proclo, alim do bizantino Miguel Pselo. senhores. Mas a atividade de pensamento dos Como se v;, o mapa da "tradiqio plat& literatos-chanceleres ja esgotara todas as suas nica" esta completo. possibilidades, e agora era necessario apre- A traduqio de Hermes Trismegisto, sentar uma fundamentaqiio teorica daquele Orfeu e Zoroastro antes de Platiio decorre "primado" e daquela "dignidade" do homem do fato de que Ficino considerava como sobre os quais todos os humanistas da pri- autcnticos e antiquissimos os documentos meira metade do Quatrocentos insistiram, atribuidos aqueles pretensos profetas e ma- mas, no mais das vezes, permanecendo no gos, achando que Platio dependia deles. nivel fenomenologico e descritivo. E essa obra foi empreendida precisamente por Ficino, com base na recuperaqiio maciqa e no repen- ...0 s p o n t o s f u n d a m e n t a i s samento da grande tradiqio "platGnican. do p e n s a m e n t o filosbfico A importiincia de Ficino esta emergin- do de mod0 sempre mais claro como ver- dadeiramente essencial n i o somente para compreender o pensamento da segunda me- Como filosofo, Ficino se expressou so- tade do Quatrocentos, mas tambim para bretudo nas obras Sobre a veligiiio cristii e entender o pensamento do Quinhentos. na Teologia plat6nica, alim de em varios Foram tr2s as atividades fundamentais comentarios a Platio e a Plotino. i s quais Ficino se dedicou: 1)a de tradutor; Seu pensamento i uma forma de Neo- 2 ) a de pensador e fiksofo; 3 ) a de mago. platonismo cristianizado, rico em observa- N i o acrescentaremos como quarta ativida- q6es interessantes, entre as quais emergem de a de sacerdote (fez-se ordenar padre em como peculiares as seguintes: 1474, ja na faixa dos quarenta anos de ida- a ) o novo conceito de filosofia como de), pois, como veremos, para ele "sacerdo- "revela@o"; te" e "filosofo" s i o a mesma coisa. Suas tr2s b ) o conceito de alma como "copula atividades revelam-se intimamente ligadas mundi "; entre si e ate indissoluveis. Ficino traduziu c ) um repensamento do "amor plat& grande quantidade de textos (de que falare- nico" em sentido cristio; mos logo) nao por erudiqio, mas para res- d ) uma defesa da "magia natural". ponder a necessidades espirituais precisas e Examinemo-las singularmente.
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    4 f filosofia Ora, os primeiros dois graus e os ulti- mos dois siio claramente distintos entre si, I coma " r e v e l a ~ o divina " como mundo inteligivel e mundo fisico, ao passo que a alma representa o "elemento de conjunqiio", que tem as caracteristicas do A filosofia nasce como "iluminaqiio" mundo superior e, ao mesmo tempo, C ca- da mente, conforme dizia Hermes Trisme- paz de vivificar o mundo inferior. gisto. 0 ato de dispor e dobrar a alma de Numa otica neoplatGnica, Ficino ad- mod0 que se torne intelecto e acolha a luz mite uma alma do mundo, almas das esfe- da divina revelaqiio, em que consiste a ativi- ras celestes e almas dos seres vivos, mas C dade filosofica, coincide com a propria reli- sobretudo para a alma racional do homem giiio. Filosofia e religiiio siio inspiraqiio e que ele dirige seu interesse. iniciaqiio aos sagrados mistCrios do verda- 0 lugar mediano da alma C terceiro, deiro. Hermes Trismegisto, Orfeu e Zoro- tanto percorrendo os cinco graus da hie- astro foram igualmente "iluminados" por rarquia do real de baixo para cima como essa luz, sendo portanto profetas. Assim, sua de cima para baixo, como mostra este es- obra 6 uma mensagem sacerdotal, voltada quema: para a divulgaqiio do verdadeiro. 0 fato de que esses "prisci theologi" 1 1 1 Deus 5 tenham podido captar uma mesma verdade (que tambem foi atingida, sucessivamente, ?A & por Pitagoras e Platgo), segundo Ficino, se 4 qualidade 2 explica perfeitamente em funqiio do Logos, 5 matCria 1 ou seja, do Verbo divino (do qua1 at6 mes- mo Hermes Trismegisto fala expressamen- te), que C igual para todos. A vinda de Cristo, Ficino salienta particularmente a im- o Verbo fazendo-se carne, assinala o com- portincia da alma com sua funqiio de "in- plement~ dessa revelaqiio. termCdio7' (medium) de todas as coisas. Ela Portanto, Hermes, Orfeu, Zoroastro, se insere entre os corpos sensiveis, sem ser Pitagoras, Platiio (e os platbnicos) podiam corporea nem sensivel; C dominadora dos perfeitamente se harmonizar com a doutri- corpos, mas adere ao divino. E isto, diz Fi- na cristii, posto que derivavam de uma uni- cino, t o milagre maximo da natureza (hoc ca fonte ( o Logos divino). maximum est in natura miraculum). Ela, em A religiiio dos simples niio basta para certo sentido, inclui em si todas as coisas, vencer a incredulidade e o ateismo; C preci- porque tem em si as imagens das coisas di- so fundar uma douta religiiio (docta religio) vinas das quais todas as outras dependem, que sintetize,filosofia platbnica e mensagem e constitui o nexo que as liga e, portanto, evangilica. E precisamente nessa 6tica que ela C "o no e a copula do mundo" (nodusque deve ser vista a consagraqiio sacerdotal de et copula mundi). Ficino, assim como a sua miss20 de sacer- dote-filosofo. 5 f estrutura hier6rquica do real e a alma coma "corula mundi" Estreitamente ligado a tematica da al- ma esta, em Ficino, o tema do "amor platb- Ficino concebe a estrutura metafisica nico" (ou "amor socratico"), no qua1 o Eros da realidade, segundo o esquema neopla- platbnico (entendido por Platiio como for- tbnico, como uma sucessiio de graus de- qa que, visiio da beleza, eleva o homem ao crescentes de perfei~iio,que ele, porCm, de Absoluto, dando alma as asas de que ne- mod0 original (em relaqiio aos neoplat6- cessita para retornar ? patria celeste) sua i nicos pagiios), identifica nos cinco graus se- se conjuga com o amor cristiio. guintes: Deus, anjo, alma, qualidade (= for- Para Ficino, em sua mais alta manifes- ma) e matCria. taqiio, o amor coincide com a reintegraqiio
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    41 Capitulo terceiro - 8~ e o p l c r t o n i s m o~ . e v m s c r n t i s t a do homem empirico a sua metaempirica "magia natural", niio a magia perversa, que Ideia em Deus, o que se torna possivel atravis trafica com os espiritos, nem a magia vazia de uma progressiva ascensiio na escala do e profana. amor. Portanto, i uma espicie de "endeusa- A "magia natural" de Ficino fundamen- mento", um fazer-se eterno no Eterno. tava-se na construqiio neoplat6nica do seu "Certamente - escreve Ficino no Co- pensamento, que implica a animaqiio uni- mentario ao Banquete - aqui estamos di- versal das coisas, mas tambim, particular- vididos e truncados, mas depois, ligados pel0 mente, na introduqiio de um elemento espe- Amor a nossa IdCia, voltaremos a ser inte- cial que ele chama "espirito", que 6 uma gros, de mod0 que parecera que nos primei- substLincia material sutilissima que perpas- ro amamos Deus nas coisas para depois sa todos os corpos e que, entre outras coi- amar as coisas nele e que nos honramos as sas, constitui o meio pelo qual a alma age coisas em Deus sobretudo para nos recupe- sobre os corpos e estes sobre ela. rarmos - e, amando Deus, amamos a nos Esse "espirito" (substiincia pneumati- mesmos. " ca) esta difundido em toda parte e, portan- A teoria do "amor plat6nicon teve am- to, esta presente em nos, assim como esta pla difusiio na Italia (Pico della Mirandola, presente no mundo e no ciu. 0 "espirito do Bembo, Castiglione), pois o terreno ja ha- ciu", porim, C mais puro. Fazendo uso de via sido preparado pela difusiio do "doce varios meios, precisamente "naturais", a estilo novo" e pelas tematicas a ele ligadas, "magia natural" de Ficino tendia a predis- mas tambim fora da Italia (especialmente por oportunamente o "espirito" que esta no na Franqa). homem a receber o mais possivel o "espiri- Leiio Hebreu (cujo verdadeiro nome C to" do mundo e a absorver sua vitalidade Jehudah Abarbanel, tendo nascido em 1460 "por meio dos raios dos astros oportuna- e morrido por volta de 1521), em seus Dia- mente atraidos". logos de amor distinguiu-se de todos pel0 Enquanto portadores de vida e de es- frescor e originalidade, reelaborando essa pirito, podiam ser utilizados diversamente doutrina de forma que fara sentir sua influtn- pedras, metais, ervas e conchas, desfrutan- cia at6 mesmo na concepqio do amor Dei do-se de sua presumida "simpatia" de mod0 intellectualis de Spinoza, de que falaremos vantajoso. Assim, Ficino tambim confec- adiante. cionava talismiis. Alim disso, fazia uso de Entre os muitos documentos relativos encantamentos musicais, cantando hinos or- ao "amor plat6nicon, para concluir, lembra- ficos com acompanhamento instrumental remos a bela Alterca@o de Lourenqo de monocordico para assim captar as benifi- Midici, que mostra a grande penetraqiio cas influtncias danetarias com consonin- dessa doutrina do amor e pde em grande cias que "simpatizavam" com as dos astros. salitncia o conceit0 de que, amando a Deus, E vinculava estreitamente essas praticas com n6s "nos elevamos a altura dele", e que nos- a medicina. sa alma "amando se converte e m Deus, e Ele n i o via nada de contrario ao cris- sobre o Deus visto se dilata". tianismo em tudo isso: em muitos casos, o proprio Cristo havia sido um curandeiro. Essas coisas, notemos bem, niio siio fe- n6menos de pura excentricidade isolada, A doutrina mhgica mas S ~ coisas comuns a muitos homens do O de Ficino Renascimento, constituindo portanto um elemento caracteristico de uma ipoca, do e sua importAncia qual niio podemos prescindir para compreen- der esse periodo. Notemos que Giordano Bruno, um si- A doutrina magica de Ficino pode ser culo depois, apresentara na Universidade de vista sobretudo na obra De vita, de 1489 Oxford aulas sobre "magia natural", at6 (que i composta de trts escritos). Ele niio mesmo plagiando o terceiro dos tratados do hesita em proclamar-se "mago", seguidor da De Vita de Marsilio Ficino.
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    IV. Pico dellaMivandola entve plat~ni~mo, avistotelismo, cabala e veligizo 0 s dois pontos mais relevantes da filosofia de Pico della Mirandola (1463- 1494) - vizinha, mas com numerosas divergCncias, da posiqiio de Ficino - referem- se A concepqiio da cabala e a doutrina da dignidade do homem. A cabala e urna doutrina mistica de origem medieval e de influxo helenistico, ligada 8 teologia hebraica, que reline o aspec- Pico della to tedrico-doutrinalde uma interpretasiio "aleg6ricaUda Biblia, e Mirandola: o aspect0 pratico-mdgico, baseado sobre a concep@ode que as a cabala letras e os nomes hebraicos refletiriam tanto a natureza espiritual a dignidade do mundo como a linguagem criativa do mundo. Ora, Pico afirma hornern + 3 2-3 erroneamente que a cabala remonta a mais antiga tradisiio hebraica, e at6 a Mois&s, e nesse sentido projetou a unifica~iio de aristotelismo e platonismo, filosofia e religiiio, magia e cabala. Preliminar a esse grande projeto de unificaqiio era a doutrina da "digni- dade do homem", segundo a qual, enquanto todas as criaturas silo ontologica- mente determinadas a ser aquilo que sao e n%o outra coisa, o homem 6, ao con- trario, a unica criatura posta no confim de dois mundos e com urna natureza constituida de mod0 a plasmar-se e esculpir-se segundo a forma pre-escolhida: a grandeza e o milagre do homem esta, portanto, em ser artifice de s i prdprio, autoconstrutor. :. ,, 0 pensamento de Pico teorico, mas atingisse tambim a vida reli- giosa e retomasse a pureza dos costumes (nesse sentido, foram significativas suas sim- A posig5o de Ficino, t i o rica de ideias patias por Savonarola). e tematicas, tem urna correspondincia an6- Deter-nos-emos aqui em dois pontos de loga na posigiio de Pico della Mirandola maior relevo de sua doutrina. (1463-1494), apesar de suas numerosas di- ferengas e divergincias. As novidades mais vistosas que ele trou- xe, em relagio a Ficino, foram as seguintes: Pico e a cabala a) -2 magia e ao hermetismo, ele agre- gou tambCm a "cabala" (ou cabbala), cuja eficacia extraordinaria exaltou; Como Pico entendia a "cabala" e como b) quis tambCm envolver Aristoteles no considerava poder inseri-la em seu plano de programa geral de pacificagiio doutrinaria conciliaq50 geral entre religi5o e filosofia? (estudara o aristotelismo sobretudo em A cabala C urna doutrina mistica ligada Padua); a teologia judaica, sendo apresentada como C ) alCm disso, sentiu a necessidade de revelagio especial feita por Deus aos hebreus, reagir contra os sintomas de um incipiente a fim de que pudessem conheci-lo melhor e fen6meno de involuq50 em sentido grama- melhor pudessem entender a Biblia. tologico e, portanto, fortemente reducionis- A cabala conjuga dois aspectos: um ta, que se manifestava em alguns humanis- aspecto teorico-doutrinario (que, entre ou- tas, defendendo assim algumas conquistas tras coisas, comporta urna particular inter- da escolistica (nesse sentido, i significativa pretagzo "alegorica" da Biblia) e um aspec- a polimica com Ermolau Barbaro), que es- to pratico-magico, que se desenvolve tanto tudou especialmente em Paris; por urna forma de auto-hipnose voltada para d) manifestou o vivo desejo de que a concretizar a contemplag50 como por urna reforma religiosa n5o se limitasse ao plano forma muito proxima da magia, fundada no
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    43 Capitulo terceiro - 0fleoplatonisrno renascentista suposto poder sagrado da lingua hebraica e Por esse motivo, Pico dedicou-se inten- no poder proveniente dos anjos oportuna- samente ao estudo da lingua hebraica (alCm mente invocados, bem como dos dez nomes do arabe e do caldeu), porque sem o conhe- que indicam os poderes e atributos de Deus, cimento direto do hebraico n30 se pode pra- chamados sefirot. ticar a cabala com eficicia, pel0 motivo que, A cabala i de origem medieval, apre- segundo as convicq8es dos sustentadores da sentando influhcias helenisticas (em certos cabala, as letras e os nomes hebraicos teriam aspectos manifesta um espirito analog0 a o um poder especial, enquanto refletiriam tan- dos escritos hermtticos, dos Oraculos Cal- to a natureza espiritual do mundo como a deus e do Orfismo), porim seus fundadores linguagem criativa de Deus. a fizeram remontar imais antiga tradiqao Somente nessa otica C que se podem hebraica. entender as famosas novecentas Teses ins- TambCm neste caso, o responsavel por piradas nu filosofia, nu cabala e na teologia, uma sCrie de posiq6es assumidas por Pico apresentadas por Pico, nas quais deveriam foi um gritante err0 historico. Com efeito, se unificar aristotilicos e platGnicos, filoso- ele considerava que a cabala remontava ver- fia e religiiio, magia e cabala. Algumas des- dadeiramente a antiga tradi~iio, mesmo ate' sas teses foram julgadas herkticas e conde- a Moise's, que a teria transmitido oralmen- nadas. Em conseqiicncia disso, Pico sofreu te, sob a forma de iniciaqiio esotirica. uma serie de contrariedades, sendo inclusi-
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    44 Primeira parte - O t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n G a ve preso na Savoia, quando fugia para a fato de ele ser artifice de si mesmo, auto- Franqa. (Depois foi libertado por Louren- construtor. qo, o Magnifico, e perdoado por Alexandre Eis o belissimo discurso posto por Pico VI em 1493).0 Discurso sobre a dignidade na boca de Deus e imaginado como dirigi- do homem, que se tornou muito famoso e do ao homem recCm-criado, o qua1 teve que permanece um dos textos mais conhe- vastissimo eco sobre contemporheos de cidos do humanismo, devia constituir a pre- todas as tendhcias: "Eu niio te dei, Adgo, missa geral das Teses. nem um lugar determinado, nem um aspec- to proprio, nem qualquer prerrogativa s6 tua, para que obtenhas e conserves o lugar, o aspect0 e as prerrogativas que desejares, segundo tua vontade e teus motivos. A na- tureza limitada dos outros esta contida den- tro das leis por mim prescritas. Mas tu de- terminaras a tua sem estar constrito por nenhuma barreira, conforme teu arbitrio, a cujo poder eu te entreguei. Coloquei-te no A doutrina desse grandioso "manifes- meio do mundo para que, dai, tu percebes- to" sobre a "dignidade do homem" i apre- ses tudo o que existe no mundo. Niio te fiz sentada como derivaqiio da sabedoria do celeste nem terreno, mortal nem imortal, Oriente, desenvolvendo-se particularmente para que, como livre e soberano artifice, tu de uma sentenqa do AsclLpio, obra atribui- mesmo te esculpisses e te plasmasses na for- da, como ja dissemos, a Hermes Trismegisto: ma que tivesses escolhido. Tu poderas dege- "Magnum miraculum est homo". nerar nas coisas inferiores, que siio brutas, Eis as afirmaq6es explicitas do nosso e ~ o d e r a ssegundo o teu querer, regenerar- , autor: "Li nos escritos dos hrabes, vene- te nas coisas superiores, que siio divinas." randos Padres, que Abdalla Saraceno, inter- Este C um verdadeiro e proprio mani- rogado sobre o que lhe parecia admiravel festo do pensamento humanista-renascen- neste palco do mundo, respondeu que niio tista em sua globalidade. percebia nada de mais esplhdido do que o Portanto, enquanto os seres brutos na- homem. E com essa afirmaqiio concorda o da mais podem ser alCm de brutos e os anjos famoso dito de Hermes: 'Grande milagre, 6 somente anjos, j4 no homem existe o germe Asclipio, C o homem.' " de cada vida. Conforme o germe que culti- Mas por que o homem C esse grande var, o homem se tornari planta, animal ratio- milagre? A explicaq50 que Pico d i a essa nal ou anjo e at6 mesmo, se niio estiver con- quest50 (e que, com justiqa, tornou-se mui- tente com todas essas coisas e recolher-se em to famosa) C a seguinte. Todas as criaturas sua unidade mais intima, entiio, "tornado um siio ontologicamente determinadas a ser s6 espirito com Deus, na solitaria nCvoa do aquilo que siio e niio outra coisa, em virtu- Pai, aquele que foi posto acima de todas as de da esshcia precisa que lhes foi dada. coisas estari acima de todas as coisas". Ja o homem, unico entre as criaturas, foi Em conclusiio, como se pode ver, so- posto no limite entre dois mundos, com mente no context0 migico-hermitico e uma natureza niio predeterminada, mas cabalistic0 C que se pode entender a cilebre constituida de tal modo que ele prdprio se mensagem de Pico della Mirandola. E so- plasmasse e esculpisse segundo a forma mente considerando essa otica C que se pode prL-escolhida. Assim, o homem pode se entender a especificidade e a peculiaridade elevar a vida da pura intelighcia e ser do humanismo renascentista e, portanto, sua como os anjos, podendo a t i mesmo ele- diferenqa em relaqiio ao human~smo medie- var-se ainda mais acima. Desse modo, a val e a outras formas posteriores de huma- grandeza e o milagre do homem estzo no n i s m ~2; .
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    0 fundamento dafilosofia de Francisco Patrizi (1 529-1 597) e a conviq%ode que sem filosofia n%o possivel ser religiosos. A e Patrizi: filosofia de Aristoteles ele opde a de Plat$o, mas sobretudo a a importSncia filosofia hermetica, para ele de muito valor. Depois dessa certeza da filosofia convidou o papa a promover o ensinamento do Corpus Her- hermetica meticum e se atreveu tambem a recomendar-lhe o hermetismo +5 1 no plano de estudos dos jesuitas. maes retornarem i f i catolica. E chegou att i mesmo a recomendar ao pontifice a intro- duqao do hermetismo no programa de estu- da mentalidade hermktica dos dos jesuitas. Em suma, para Patrizi, o Corpus Hermeticum teria podido ser otimo instrumento a serviqo da restauraqio do Francisco Patrizi viveu no sCculo XVI catolicismo. (1529-1597), mas trilhou o mesmo cami- A Inquisiqio, obviamente, condenou nho de Ficino e de Pico. Ele representa um como nao-ortodoxas algumas das idiias de exemplo paradigmatic0 da tenaz manuten- Patrizi, que aceitou submeter-se a julgamen- sao da mentalidade hermttica, como ja ilus- to. A tentativa de fazer a Igreja acolher ofi- tramos: Ele se ocupou a fundo do Corpus cialmente Hermes Trismegisto so podia fa- Hermeticum, bem como dos Oraculos Cal- lir, dada a confusio dos planos religioso e dew. Sua obra teorttica mais notivel i a magico que implicava. Todavia, tal tentati- Nova filosofia universal. va permanece verdadeiramente emblematica Seguindo Hermes Trismegisto (que ele e muito significativa para fazer compreen- considerava n i o apenas contemporiineo de der uma das componentes essenciais do es- Moisis, mas a t i mesmo mais velho um pou- pirito renascentista. co, paulo senior), Patrizi tinha a convicqao de que, sem filosofia, n i o era possivel ser religioso nem piedoso. Mas a deformaqgo da filosofia de Aristoteles, que negava a pro- vidcncia e a onipotincia de Deus, mostra- va-se gravemente prejudicial. Portanto, era necessirio opor a Arist6teles a filosofia pla- t6nica (PlatHo, Plotino, Proclo e os Padres), mas especialmente a filosofia berme'tica (para ele, um tratado de Hermes valia mais do que todos os livros de Arist6teles). Patrizi chegou ao ponto de conclamar o Papa a promover o ensino das doutrinas do Corpus Hermeticum, que, na sua opi- niiio, seria de enorme importiincia, poden- do ter o efeito de fazer os protestantes ale-
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    Primeira parte -0 tlumanismo eaRenas~en~a mente, que seja sd, ndo pode discordar. Todos aqueles que buscam, julgam as coisas incertas comparando-as e proporcionando-as com u m pressuposto qua seja certo. Toda busca tem cardter comparative e emprega o meio do pro- porc;do. € quando os objetos da busca podem 0 0 conceito ser comparados ao pressuposto certo e a ele ser proporcionalmenteconduzidos por u caml- m de "douta ignoriincia" nho breve, entdo o conhecimento se torna fdcil. Contudo, se temos necessidade de muitas pas- sagens intermedidrias, nascem dificuldades e 0conceito de "doutoignorBncio Q cer-" Fadiga: vemos isso na matemdtica, onde as pri- toments u dos mols significotivos e mois m meiras proposi(6es sdo remet~das aos princi- conhscidos sntrs os concsitos sloborodos por pios primeiros, por si mesmos conhecidos, com Nicolou ds Cuso. facilidade, enquanto & mais dificil ai reconduzir Conhecer implico ssmpre uma possogem as propos@es sucessivas, e 6 preciso faz&-lo do conhaido ao desconhecido. No Bmbito das atravhs das proposi~bes precedentes. coisas finitos ssto possogam Q ssmprs possi- vel, por mois dificil que posso ser om csrtos cosos,porque oquilo que 0 buscodo ssM ssm- 2. 0 infinito, prs em proporgio dquilo que se busco s do enquanto transcende quo1 ss parte. Ro contrario, quondo sa indo- toda proporg60 e comparagiio, go sobrs Deus, Falto esta relaq3o ou propor- 6 incognoscivel (;do, porqus Dsus Q inhito, e entrs o finto e Toda pesquisa consiste portanto em uma o infirtito ntio hd proporgtio. propor@ocomparativa, que & fdcil ou diHciI. Mas R consci&ncio que ss odquire desta o infinito, enquanto infmito, urna vez que se "despropor@io" entrs nosso mants s o infini- subtrai a qualquer propor@o, nos & desconhe- to Q justamente o "douto ignordncio critico- " cido. R proporq30 exprime conveni&ncia e, ao mants fundado. Podsmos nos avizinhar do mesmo tempo, alteridads em rela~do algo, e a vsrdods apenos por aproxima~do, ssm jo- por isso ndo a podemos entender sem empre- mais pod&la compresndsr de mod0 prsciso gar os numeros. 0 numero inclui em si tudo e que ndo results supardvsl sm um modo aquilo que pode ser proporcionado. 0numero, aindo mais preciso. que constitui a propor@o, ndo existe apenas no Bmbito da quantidade, mas tamb&m em to- das as outras colsas que, de qualquer modo. podem convir ou diferir entre si pel0 substdncia 1. Em toda pesquisa procedemos ou pelos acidentes. Por isso, talvez, Pittigoras comparando e proporcionando pensava que tudo exists, tern consist&nciae & as coisas incertas com prenupostos certos inteligivel em virtude dos numeros. Dom de Deus, vemos que em todas as coisas 6 inerente certa aspirqdo natural de 3. A douta ignorsncia existir do melhor mod0 permitido pela natureza como consci8ncia Fundada da ignorencia de coda uma delas; e todas agem em vista que 6 pr6pria do homem deste fim e t&m meios adequados; e a elas est6 ligada certa capacidade de julgamento Todavia, a precisdo nos combina$5esen- conveniente com o objetivo de conhecer sua fi- tre as coisas corporeas e uma propor~do per- nalidade, a fim de que sua aspira@o ndo seja feita entre o conhecido e o desconhecido & su- v6 e cada urna possa alcancar a pa2 no centro perior as capac~dades raz6o humana, razdo da de gravidade para o qua1 tende a propria natu- pela qua1 parecia a S6cratas n60 conhecer nada reza. S s ocorre diversamente, & seguramente mais que a propria ignordncia;' e Salom6o. devido a causas acidentais, como quando urna saplentissirno, sustentava que "todasas CO~SOS doenp corrompe o gosto ou urna opinido des- sdo dificeis" e inexplictiveis com nossas pala- via a razdo. Por isso dizemos que um intelecto vras;' e outro sbbio, dotado de espirito divino. sdo e livw conhece e abra<a corn amor a ver- diz qua a sabedoria e o Iugar da intelig&ncia dade qua aspira insaciavelmente alcan~ar quan- do vai indagando sobre toda coisa com o pro- cedimento discursivo que Ihe & inerente; e sem 'Cf. PlatGo. Rpologia de Sdcrotes, 25b. dljvida a verdads mais segura 6 a de qua toda "cles~ostes 1.8.
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    47 ,i , Capitulo terceiro - O ~leoplatomis~o renascentista estdo escondidos "aos olhos de todos os vi- pode medi-lacom precisdo, assim como o ndo- v e n t ~ s "Portanto, se & assim, que tambhm .~ circulo ndo pode medir o circulo, cuja realida- Rristoteles, o pensador mais profundo, no filo- de & 0190 de indivisivel. Por ISSO, o intelecto, sofia primeira afirma que nas colsas por sua que ndo & a verdade, jamais consegue natureza mais evidentes encontramos urna difi- compreend8-la de modo t6o preciso qua ndo culdade semelhante b de uma coruja que ten- possa compreand8-la de modo mais preciso. tasse fixar o soIr4 entdo quer dizer que deseja- ao ~nfinito; tam com a verdade uma rela<do s mos saber n60 saber, dado que o desejo de semelhante b do poligono com o circulo: o saber, que estb em nos, ndo dsve ser vdo. E se poligono inscrito, quanto mais 6ngulos tivar pudermos alcan$b-loplenamente, teremos al- tanto mais se tornarb semelhante ao circulo, can~ado uma douta ignordncia. R coisa mais per- mas jamais se tornarb igual a ale, mesmo que feita que um homem, por mas interessado que multiplique ao infinito os proprios dngulos, a esteja no saber, poder6 alcanpr na sua doutri- menos que ndo se resolva em identidade com na & a consci8ncia plena da ignor8ncia que Ihe o circulo. 6 propria. E tanto mais ser$ douto, quanto mais < portanto evidente que, no que se refere se reconhep ignorante. E em vista deste fim ao verdadeiro, ndo sabemos mais do que o fato que assumi a fadiga de escrever algumas pou- de ale ser incompreensivel em sua realidads cas colsas sobre a douta ignordnc~a. de modo preciso; que a verdade & como a ne- cessidade mais absoluta, que ndo pode ser nam 4. 0 intelecto humano mais nem menos do que aquilo que &, e nosso jamais pode compreender a verdade intelecto 6 como a possibilidade. R sss8ncia de modo t60 preciso das coisas, qua & a verdade dos entes, & Ina- que 16 a possa compremder 10 tingivel em sua pureza, buscada por todos os de mod0 ulteriormsnte sempre mais preciso, f~losofos, por nenhum debs descoberta sm mas ao infinito sua realldads em si. E quanto mais a fundo for- mos doutos nesta ignorbncia, tanto mais tere- Se & por si evidente que o infinito ndo tam mos acesso b propria verdade. propor560 com o f~n~to, segue-sedo modo mais Nicolau ds Cusa, claro que, onde se encontra um mais e um me- I douto ignor6ncio. 3 nos, ndo ss chsgou ao mbximo em todos os sentidos, pois as coisas qua admitem um mais e um menos s6o entidades finitas. U m6ximo m de tal porte & necessariamente infin~to. Dada uma coisa qualquer, que ndo seja o m6ximo A 'coincidOnck dos opostos" em todos os sentidos, & claro que poder-se-6 em Deus dar algo malor do qua ela. E urna vez que des- cobrimos que a igualdade & gradual, de modo que uma coisa & igual mais a uma outra e ndo Outro concsito fundamento1 sobrs o a uma tarceira, em base a conveni8ncias s a quo1 ss bosaia o pensomsnto ds Nicolou ds n6o-conveni&ncias,em rslagio a coisas seme- Cuso B o do coincid&ncia dos opostos em Ihantes, no g&nero, no esphcie, no situaq5o lo- Deus. cal, no capac~dade influ&nc~a, tempo, & de no Colocando-sa ocimo c b razdo discur- evidente que n6o se podem encontrar duas ou siva, qua procsds atrovBs ds ohrmo@o s mais coisas tdo semelhantes e iguais entre si. nsgogbo, bossondo-sejustomsnts sobrs a que ndo se &em outras mais semelhantes, ao distlngio dos opostos (ou ssjo, ofirmando ~nfinito.Por lsso a medida e a coisa medida, um dos dols opostos s nsgondo o outro, ou por mais se avizinhem para ser iguais, perma- vics-vsrso), o homsm pods com o intui~do necerdo sempre diferentes entre SI. intelectiva colocor-ss aclma do discurso ro- U intelecto finito, portanto, ndo pode m cionol, s comprssndsr como no infin~too alcanrpr com precisdo a verdade das coisas "mdximo obsoluto a o "mi'nimo o bsoluto " " procedendo mediante semelhanqs. fl verda- coincidam. de ndo tem graus, nem a mais nem a menos, Um sxsmplo olusivo 6, o proposito, e consiste em 0190 de indlvisivel; de modo que o do circulo: sa oumsntado ao infinito, aquilo que ndo seja o proprio verdadeiro, ndo todo ponto nsls sa tornord cantro s oo masmo tempo ponto sxtrsmo, s todo orco, corcla, roio a dldmstro ao infinito v1r6o o 3J0 28,2l. coincidir. 'Cf Aristoteles, Metofkico, livro II, 1 . 993b 95s
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    Primeira parte -8tlwnanismo e a Renasrenca B. A coincidhcia dos opostos Deste rnodo, Deus ao infinito Q todas capta-sr pondo-sr acima as coisas, e, oo rnesrno tempo, nenhuma de- da raz6o discursiva los, justornente porqus, sendo sle codo urno maxirnamente, Q ao mesmo tempo codo urno 0 s opostos encontram-seapenas nos coi- m~nirnamente, couso do coinciddncio, no por sas que adrnitsm o mais e o rnsnos, e ai se en- infinito, d~rnaxirno e rninirno. contram de modos d~versos; mas em nada con- N ~ s t ssntido, sernpre por couso do co- e v&m ao m6ximo absoluto, pois ele & superior a incid6ncio dos opostos no infinito, Deus Q o toda oposi@o.Portanto, uma vez que o rn6ximo Unidode obsoluto, ou sejo, o Uniclode que em ssntido absoluto & em ato, de rnodo rn6xi- em oto d tudo oquilo que tern o possibilido- mo, todas as coisas que podsrn ssr, ssm qual- d~de sar, justornente no infinito obsolutez. quer opos~@o, pelo fato de no rnbxirno estor o coinciddncio do rninmo, el@ tornbQrn superior C o todo ofirrno@o, ossirn como o todo negogdo. E tudo aquilo que nele & concebido como 1. Em qur srntido mdximo r minimo ser, n6o h6 razdo para que seja em vez de que no absoluto coincidrm n6o seja. E tudo aquilo que nele se concebe como ndo-ser, n60 h6 razdo para que ndo seja 0m6ximoabsoluto em todo sentido, do qua1 em vez de que seja. Mas ele Q ~ s t o coiso de n6o pode haver colsa maior, nos o captarnos modo to1 qua Q tochs os coisos, e Q todas os . apenas no modo do incompreensivel, pois el@ coisos de rnodo to1qua ndo Q nsnhurno coiso. E & superlor b nossa capacidade de compreend&- & de modo m6xirno esta coisa, de tal mod0 a lo, pelo fato de ser verdade infinita. s&-lade modo minirno. Ele ndo pertence b natureza das coisas que Dizer: "Deus, que & a propria maxim~dade adrn~tem mais e urn rnenos, mas est6 acima absoluta, & luz", & o mesmo que dizer: "Deus & um de tudo o qua possa ser concebido por nos. maximamente luz de modo tal que & luz mini- Todas as coisas, sejam elas quais forem, que mamente". Se assim ndo fosse, a rnaximidade apreendemos corn os sent~dos, com a razdo ou absoluta nbo serla em ato todas as coisas pos- com o intelecto, diferem em si mesrnas e uma siveis, lsto &, se ela n6o fosse ~nfin~ta, termo em relagio d outra de modo tal que entre elas de todas as coisas, mas determin6vel por ne- ndo se d6 nenhurna igualdade preclsa. R nhuma delas. [. ..] igualdade m6xtma, que n6o admite alteridads Este pensamento transcende toda a nos- ou diversidads em relaq3o a algurna coisa, su- sa capac~dade intelect~va, qual, seguindo o a para toda capacidade do intelecto. caminho da razdo, n60 consegue p6r junto os 0mdx~mo sentido absoluto, uma vez contraditorios no proprio principio.Camlnharnos em que & tudo aqu~lo que pode ser, est6 plena- entre as coisas que a naturezo nos torna mani- mente em ato. E como ndo pode ser maior fsstas: e a raz60, bem distante desta for~a infh [daquilo que 61, pelo mesmo motivo n60 nita, n6o sabe ligarjunto os contraditor~os, que pode ser rnenor, dado que ele 6 tudo aqu~lo d~stam ~nfin~tamente SI.Vernos, portanto, entre que pode ser. 6 que a absoluta maxim~dade inf~n~ta, aclma de Minimo & aquilo do qua1 ndo pode haver todo d~scursoracional, a maximidade b qua1 colsa menor. E, uma vez que o m6ximo & da nada se op6e, e com a qua1 o minimo coincide. mesma natureza, & claro que o minimo coincide Mdximo e minimo, assim corno 560 emprega- corn o m6ximo. dos neste I~vro, s6o termos transcendentes, lsso ss tornard mais claro para t~se cons(- dotados de s~gn~ficado absoluto, e abarcam em derares o m6ximo e o minimo controi'dos em sua absoluta simplicidade todas as coisas, aci- quantidade. ma ds toda contra@o em um signif~cado or- de n quant~dadem6xirna 6 rnaximamente dm- quantitat~va, relatwa a massas e forqx. grande. R quantidade minima 6 max~marnente pequena. C~berta agora da quantidade o m6- 3. A maximidade absoluta Q o Uno absoluto xlmo e o rninimo, subtraindo-lhes,com o Inte- lecto, a n o ~ 6 o grande e de pequeno, e de Mas a unidade n6o pode ser nirmero, pols ver6s com clareza que o m6ximo e o rnin~mo o nljmero admite sempre u mais, e n6o pode m coincidem. ser nem minimo nem m6ximo em t d o sentido. Tanto o m6x1mocomo o minimo s6o su- Todavla, ela & pr~ncip~o todo numero, pois 6 o de E perlativos. Portanto, na quantidade absoluta min~rno. & o flm de todo numero, pois 6 o m6- ndo h6 motlvo para que seja m6xima em vez ximo. Portanto o unidode obsoluto, 6 quo1nodo de minima, pois nela o minimo & o m6xim0, co- ss opda, Q o proprio rnoxirnidode obsoluto, qus incidindo os dois entre si. Q Deus bendito. Tal unidade,sendo rndxima, ndo
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    49 Capitdo terceiro - 8N e o p l a t o n i s m o renascentista C multiplic6vel, pois C tudo aquilo que pode ser. 1. 0 antigo principio de Anaxagoras E, portanto, ela ndo pode se tornar nljmero. "tudo esta em tudo" V6, portanto, que as considera@es sobre na interpreta@o metafisica neoplatenica o nljmero nos levaram a entender como a Deus Se considerares corn agudez tudo o que inomin6vel convenha mais de perto a unidode foi dito, ndo te ser6 dificil ver o fundamento de obsoluto, e qua Deus Q uno de rnodo to1 qua GIG verdade daquela express60 de flnaxCl~0raS Q ern oto tudo oquilo que tern o possibilidode que "toda coisa est6 em toda coisa",' verdade de ser. talvez mais profunda do que o proprio Rnaxa- Tal unidade n6o acolhe o mais e o menos, e goras pensasse. Com efeito, uma vez que do ndo & multiplic6vel.R divindade 6 unidadeinfinita. Rqueleque disse: "Owe,Israel",o teu h s "6 uno"; ' pr~meiro livro se conclui que Deus est6 ern to- das as coisas de modo tal que todas estdo nele, e: "uno & o mestre" e C "o vosso p nos ~ C u s " , ~ i e uma vez que agora nos consta que Deus @st6 n60 teria podido dizer coisa mais verdadeira. em todas as coisas como qua por meio do uni- N~colau Cusa. verso, a partir disso temos que todas as coisas de A douta 1gnor6ncia. ~ s t d em todas e toda coisa esM em cada uma. o 0universo, por certa ordem de natureza, precedeu toda coisa como realidode perfei- tissima, de modo que toda coisa pudesse es- tar em toda coisa. Ern todo crioturo o universo Q o ser da- "tuclo est6 em tudo" quelo rnssrno criotura, e assim coda coisa rece- e seu significado be todas as coisas, de modo que nela esteja o proprio ser delas, controido. Uma vez que toda coisa ndo pode ser em 0ontigo princ@iode Rnaxdgoros "tudo ato todas as coisas, estando controido, ela con- estd ern tudo" Q retornodo pel0 Naoplo- trol em s~todas as coisas, a fim de que estas tonisrno, a Q lavodo por Nicolou de Cuso ds sejam o seu propr~o ser. extrernos consequ&ncios. Ern Rnox6goros o Se todas as coisas estdo em todas as prlnc@io volio poro os 'horneornerios", qua colsas, todas as coisas parecem preceder coda constituern o rnothrio do quo1 os coisos sdo coisa. Mas a totalidade das colsas ndo C plu- feitos: todos os horneornerios esMo presan- ralidade, pois a pluralidade ndo precede cada tes ern todos os coisos, oindo que am peque- coisa. Todas as coisas, portanto, sem plu- nissirno rnedido, rnos o Intelig&ncio perrno- ralidade, precederam cada coisa por urna or- nacio cornplatornenta foro dasss nexo. No dem natural. R pluralidade, portanto, ndo @st6 Neoplotonisrno ossurne, oo contrdrio, urn sig- em ato em toda coisa, mas todas as coisas, nificodo global e urno volidez obsoluto poro sem pluralidade, sdo o proprio ser de cada uma. todo forrno de reolidode ern todos os nivais. Nicolou de Cuso, oo oprofunclor a da- 2. Em que sentido Deus senvolver a t e princ@io,ssrve-sa do concei- esta em todas as coisas to rnetofkico de "controgio". Este conceito e todas as coisas est6o em Deus significo o de-terminar-se da olgo de rnois garol a universal ern olgurno coiso rnois por- 0 universo est6 nas coisas apenas de ticulor ou rnois definido e em urno rnultipli- rnodo controido,e toda coisa que existe em ato cidode estruturol. Pondo-nos nesto optico controi todas as colsas, de modo que elas se- conceituol, se Daus h rndxirno, obsoluto, inh- jam em ato aqu~lo que coda uma C. Tudo aqui- nito, o cosrno oporece corno ser Deus de lo que ex~ste ato est6 em Deus, porque ele em rnodo contraido, ou sejo, vern o ser o uno, o & o ato de todas as coisas. 0ato 6 a perfeicdo obsoluto a o infinito de-terminado em urna e o fim da pot6ncla. Portanto, uma vez que o multiplicidade de coisas especificamente di- universo est6 controido em toda colsa existen- ferenciadas e fini tas. Por suo v e ~o universo , te em ato, & evidente que Deus, que esth no esM ern todo coiso singulor de rnodo contra- universo, est6 em toda coisa, e coda coisa exis- ido, ou sajo, esM em codo coiso aspecifico- tente em ato est6 imed~atamente em Deus, rnante da-terrninodo s dlferanciodo, a indi- enquanto ela & o universo. viclvolrnanta rnultiplicodo. Portanto, d~zsr "toda coisa est6 em toda co~sa" o mesmo que dizer Deus, mediante &
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    Primeira parte -6 tlumanismo e a R e n a s c e ~ ~ a todas as coisas, est6 em todas, e todas as assim a estupenda unidade das coisas, a ad- coisas, mediante todas, estdo em Deus. mir6vel igualdade, a admirdvel conexdo, de Estes pensamentos muito profundos se mod0 que todas as coisas est6o em todas. compreendem com clareza e com agudez de Compreendes tamb&m como disso pro- intelecto, isto 6 , que Deus sem diversido- cedam a diversidads e a conexdo das coisas. de est6 em todas as coisas, porque coda coi- Com efeito, toda coisa ndo pode ser em ato sa @st6 toda coisa, e que todas as coisas em todas as coisas, uma vez que desse modo ela @st60em Deus, porque todas estdo em to- teria sido Deus, e por isso todas as colsas das. Todavia, uma vez que o universo est6 estariam em cada uma segundo a possibili- em coda coisa, de mod0 tal que cada uma dade do ser propria de coda uma. E nem to- esteja nele, o universo 6 em coda coisa con- da coisa poderia ser em tudo semelhante a traidamente aquele ser que coda uma & de outra [...I. modo contraido, e toda coisa no universo 6 o proprio universo, embora o universo em 5. Ulterior sxemplifica@io cada coisa esteja de modo diverso, e toda do 'tudo ern tudo" coisa, igualmente, esteja diversamente no na imagem do homem universo. r de wus membros Todas as coisas, portanto, encontram pa2 3. Exemplo da linha e das Figuras em cada urna delas, uma vez que um grau do Eis um exemplo. € claro que a lmha ~nfini- ser n6o poderia estar sem o outro, corno, entre ta 6 linha, tri6ngul0, circulo e esfera. Toda linha os membros de um corpo, todo membro & ljtil finita tem o propr~o a partlr da linha infinita, ao outro e todos encontram paz em todos. Uma ser e esta & todo o ser dela. Por isso, na linha fini- vez que o olho n6o pode ser em ato tambhm ta todo o ser do linha infinita - que 6 linha, m60, p& e todos os outros membros, o olho se tridngulo etc. - 6 o proprio ser do linha finita. contenta de ser olho, e o p& de ser p&. Toda figura, no linha finita, & a mesma linha. Todos os membros se ajudam reciproca- E ndo & que nela exista tridngulo, ou cir- mente, de modo que coda um deles subsiste culo, ou esfera em oto, porque cle mais coisas no proprio ser do melhor modo possivel. em ato n6o temos um ato so, uma vez que toda R m6o e o p& n6o est6o no olho, mas no coisa ndo est6 em ato em toda coisa, mas o olho eles 560 olho, enquanto o olho est6 no tri6ngulo na linha & linha, o circulo no linha & homem de modo imediato. linha, e assim por diante. E assim tamb&m todos os membros es- Para que vejas isso com maior clareza: a t60 no p&, porque o pb est6 de modo imedia- linha s6 pode estar em ato no corpo [...I. to no homem, e assim todo membro atravhs NinguBm p6e em dljvida que em um cor- de todo outro membro est6 imediatamente no po, dotado de comprimanto, largura e profun- homem, e o homem, ou seja, o todo, em virtu- didads, estejam complicodas todas as figuras. de de coda membro est6 em cada outro mem- Na linha em ato todas as figuras em ato s6o a bro, assim como o todo est6 nos partes, ou propria linha, e no tridngulo sd0 tridngulo, e seja, em cada parte em virtude de coda uma assim por diante. das outras. Com efeito, todas as coisas na pedra s6o Se considerares a humanidade como algo pedra, na alma vegetativa s6o a mesma alma absoluto. n6o mistur6vel e n6o contraivel, e vegetativa, na vida s6o vida, no sentido sdo considerares o homem no qua1 estd a mesma sentido, no vista s6o vista, no ouvido s6o ouvi- human~dade modo absoluto e do qua1 pro- de do, na imagina~60,imaglnaG60, na raz60, ra- cede a humanidade controido, que & o ser do 260, no intelecto, intelecto, em Deus, Deus. homem, ent6o a human~dade absoluta & como E agora v&s como a unidade das coisas, se fosse Deus, e a contraido & como se fosse o ou seja, o universo, est6 no pluralidade e, vice- universo. versa, a pluralidade est6 na unidade. R humanidade absoluta est6 no homem de modo principal e prlorit6rio e, em consequ&n- cia disso, tambbm est6 em cada membro e em 4. Todas as coisas s60, na coisa especifica, a propria coisa, coda parte; a humanidade controido, a0 con- trbrio, no olho & olho, no corq6o & cora@o, e a a propria coisa, em Deus, i Drus assim por d~ante, seja, de modo controido ou Olho mais atentamente, e ver6s que toda em coda colsa & coda coisa. coisa existente em ato encontra pa2 porque tudo Nicolau d s Cusa, nslo Q a10 propr~o, slo om Deus Q Deus. V8s e R douta ignor6ncia.
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    5 1 llj'/ Capitdo terceiro - 0 rleoplatonismo renascentista sas, e todas os coisos, snquonto contraidas, 0 m6ximo absoluto nels sncontroriam poz como em suo perfeito rsolizogbo. e a natureza do homem Ele seria medida do homem e do anjo, co- como microco~mo mo diz Jo6o no Rpocalipse;' serla tomb&m me- dida de cada coisa singular, porque seria entida- de contraida das criaturas singulares em virtude Com boss nos concsltos qua lemos nos da mido com a entidade absoluta, que 6 entida- pdginos prscsdsntss, Nicolau ds Cuso oprs- de absoluta de tudo. Atrav&s dele todas as COIF ssnto o homem como "microcosmo". 0 ho- sas rcxeber~am inicio e o F de sua contra(60, o m i mam, com efsito, contrai as rsalidodss supe- uma vez que atrav6s dele, que & m6ximo contra- riores (ongQ11cos) os rsalidadss infsriorss a ido, todas as coisas a partir do m6ximo absolu- (os onimais s os vsgetois) como rsolichds to seriam postas no ser da contra(60, e retor- mQdio ou intsrmsdidr~a. nariam ao absoluto pela mediac60 dele, como E Daus fsito homam (no F~lho), md- m o principio da emana(6o e fim do retorno. ximo, o mi'n~mo o mQd~o noturszo ss e do unam smtsticoments no mdximo obsoluto, ds modo to1 qus €16-sa imp& como o psrfsigbo 3. Cristo, filho d r Deus e filho do homem obsoluto de todos os coisos. Deus, sendo a igualdade do ser para to- Mos tombam considsrodo em si, o ho- das as coisas, & o criador do universo, o qua1 mam Q como um Deus humano, um infinito foi criado tendo Deus como Flm. R igualdade 'humonomsnts controi'do", s todos os coisos sumo e m6xima do ser em relac60 a todas as do univsrso sxistsm no homam sob Formo co~sas sentido absoluto seria aquela b qua1 em humona, s naste ssntido justomsnts o ho- se uniria a natureza da humanidads, e ossim mem Q um "microcosmo". Dsus, om virtuds clo humonidads qus ossumiu, sario contraidomsnts todos os coisos no humo- nidods, assim como & absolutamente todas as coisas pela igualdade do ser. Este homem, 1. A natureza humana portanto, uma vez que subs~ste virtude da em como a mais devada das criaturas unido na mesma igualdade mdxima do ser, se- R natureza humana & a que vemos eleva- ria Rlho de Deus como seu verbo, no qua1 Fo- da acima de todas as obras de Deus, um pou- ram feitas todas as coisas, ou seja, serla a co menor em rela(6o b natureza ang&lica; el0 mesma igualdade do ser, a qua1 se chama filho complico a natureza intelectual e a sensivel, e de Deus [...I; e todav~ando deixaria de ser Fi- abrqa em si mesma todas as coisas, de modo Iho do homem, assim como n60 deixaria de ser a ser chamada justamente pelos antigos de homem. microcosmo ou pequeno mundo. €lo Q oqusla qua, se fosse elsvodo d unibo com o moxl- 4. Em que sentido o homem 6 "microcosmo" mldods, constitu~rio planituds ds toclos os o parfeigbes do univsrso s dos sntss singulorss, fldmirdvel criasdo de Deus 6 esta, na qual, gradualmente,o poder do discernimentodo pon- e na unidade todas as coisas alcan(ariam seu to central dos sentidos & Ievado at& a natureza grau supremo. intelectual suprema, atrav&s de graus e de car- tas vertentes orgenicas, onde, com continuida- 2. Em Deus encarnado no homem de, as liga~des produzidas pelo mais sutil espi- esta a totalidade contraida rlto corporeo sdo tornados luminosas e simples de todas as coisas at& a vitoria da virtude da alma e at& a que tal Foculdade do discernimento chegue 21 c&lula do fl humanidade exlste apenas de modo poder da raz6o. Dai, em seguida, ele chega at& controi'do neste ou naquele homem. De modo a virtude supremo do intelecto, como atravbs de que ndo seria possivel que mas do que um so um rlo se chega ao mar sem fim, onde se con- verdadeiro homem ascendesse b unido com a jectura hover outros coros, da disciplina, da mte- maximidads, e este, certamente, seria homem lig6ncia e da intelectual~dade simplicissima. de modo tal que serla Deus, e Deus de modo fl unidade do humano, uma vez que est6 tal que seria homem, perfei@o do universo, controi'do humanamente, parece complicor tudo primeiro em todas as coisas; nsls o mi'nimo, o mdximo s o mhdio do noturszo, unidos d moxlmidods obsoluto, coinc~diriom modo de to1 qus sls serio o psrfsigbo ds toclos os COI-
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    52 Primeira parte - 0t l v m a n i s m o e a R e n a s c e n c a segundo a natureza desta controgdo. 0 poder d a t a sua unidade abrago a universalidade das colsas e a cont&m dentro dos termos da pro- pria regido, ds modo que nada de tudo Ihe escape. Uma vez que se conjectura que todo ante seja captado ou mediante o sentido, ou mediante a razdo, ou mediante o intelecto, e o homem v& que estas faculdades s6o complica- das em sua unidade, sup6e poder-se esten- como "copula mundi" der, de modo humano, a todos as entes. 0 homem 6 , com efeito, Deus, mas ndo em sentdo absolute, porque 6 homem; 6, por- Uma dos concepq3es mais significoti- tanto, um Deus humano. 0 homem & tamb&m vos de Morsi'lio Ficino Q a do almo como co- mundo, mas n6o G controidomante todas as pula mundi, de derivogdo neoplotdnico. coisas, porque & homem. Ele G por isso micro- Pora Plotino, com efeito, a olmo Q a ul- cosmo ou mundo humano. A regido da humani- timo deuso, ou sejo, o ultimo dos r~alidodes dade abra<a Deus e o mundo universal no seu inteligiveis e, por conseguinte, Q a real~dode poder humano. 0 homem pode ser Deus hu- que confino com o sansivel, ocupando oss~m mano e, como Deus, pode ser de modo huma- um grau mtermediario entre os sera. no, anjo humano, besta humana, ledo humano ConformaFicino, anologamante, no es- ou urso ou qualquer outro ser. No poder huma- truturo hier6rquica do realidode a olmo do no existem todos os entes conforme o modo mundo ocupa o grau mQdio (o t~rceiro), reu- desse poder. nmdo em suo propria unidode todos os ou- Na humanidade todas as coisas a t 6 0 tros graus, isto 6, o mundo inteligivel (Deus explicodos humanamente, assim como no uni- s onjo) e o mundo fisico (quolidodes 5 ma- verso elaso sd0 no modo do universo, de sor- tQr~o): desse modo, a almo cosmico 6 inter- te que existe um mundo humano. medidrio de todos as coisas, e a todos ultra- Na humanidade, por fim, todas as coisas posso, oscendendo poro o olto e descendo estdo complicoclos de modo humano, porque o poro o baixo. homem 6 um Deus humano. R humanidade 6 unidade, e ela b um infi- nito humanamente controido. Disponhamos mais uma vez a realidadede Uma vez que G propriedade da unidade todas as coisas em cinco graus. Coloquemos expl~cor si os entes, dato que ela & ent~da- por Deus e o Rnjo na sum~dade natureza, o cor- da de que os complico em sua simplicidade, tam- po e a qualidade no grau mais baixo, mas a b&m a humanidade tem o poder de explicorpor alma no meio, entre as coisas altissimas e as si todas as coisas dentro do circulo da propria infimas, a alma que com razdo chamamos, de regido, de extrair tudo a partir da pot6ncia do mod0 plat8nic0, terceiro ou mQdio ess&ncio, centro. € propriedade da unidade per-se como pois ela est6 no meio em rela<do a todas as Fim das explicog6es, pois C infinidode. colsas e 6 terceira a partir de qualquer parte for isso o criar ativo proprio do humani- que comecemos. dade nbo tem outro fim a ndo ser a propria hu- Dizem corn razdo os Plat6n1cos que, aci- manidads. Esta nbo se volta pqra fora de si ma daqu~lo que flui limitado pelo tempo, est6 quando cria, mas, quando expl~ca propria vir- a aquilo que subsiste por todo o tempo, que aln- tude, tende a si mesma. E ndo produz algo que da acima est6 aquilo que subsiste pela eterni- seja novo, mas percebe que tudo o que est6 dade e que, por fim, aclma do tempo est6 o criando na explicqdo estava j6 em si mesma. eterno. Mas, entre as coisas que sdo apenas Dissemos, com efeito, que todos os coisos ex~s- eternas e as outras que fluem apenas no tem- tem no homam sob formo humono. po, temos a alma, que & espbcie de liga@o Rssim como o poder da humanidade tem entre as duas ssferas. a capacidade de estender-sea todas as coisas Toda obra que consta de uma rnultipl~c~- sob forma humana, tambGm todas as coisas t&m dade, 6 , entdo, perfe~ta, quando est6 tbo 11ga- este poder em relag30 a ela, e que este admi- da em seus membros, a ponto de recolher-se r6vel poder humano se dir~ja percorrer todas a de toda parte em unidade, para ser consisten- as colsas ndo & mais que um complicor em si, te e conforme a si, de modo a ndo se dissipar sob forma humana, todas as coisas. facilmente [. ..]. Com maior razdo devemos pro- N~colau Cusa, ds por a conexdo das partes do universo, que G R douto ~gnordncia Rs conjocturos. s obra de Deus, de modo qua sle tamb&m resul-
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    53 '/" Capitdo terceiro - 0 flleoplatonismo renascentista te a h i c a obra do unico Deus. Deus e o corpo Nos escritos dos 6rabes li, venerandos sdo por natureza as partes extremas e uma di- Pais, que Abdalla Saraceno, quando Ihe per- versissirna da outra. 0Anjo ndo consegue reu- guntaram sobre o qua Ihs parecla sumarnente ni-las, pois esta inteiramentevoltado para Deus admiravel nesta esp6c1e teatro qua 6 o mun- de e esquece o corpo [...I. do, respondeu que nada via de mais espl&ndi- Nem a qualidade refine os extremos, pois do do que o homem. E com este dito concorda se inclina para o corpo e abandona as coisas o famoso de Hermes: "Grande milagre 6 o ho- superiores; deixando as coisas incorporeasela mem, Ascl6pio!".' propria se torna corporea. At6 este ponto as Ora, enquanto eu procurava o sentido coisas sZlo como extremos, e reciprocamente se dessas sentenps, ndo me satisfaziam os argu- excluem as coisas superiores a as inferiores, fal- mentos que em grande numero muitos aduzem tando os opostos de uma ligagio. sobre a grandeza da natureza humana: ser o Todavia, urna vez posta no meio a terceira homem vinculo das criaturas, familiar 6s supe- ess&ncia, ela 6 tal qua, enquanto se refine corn riores, soberano das inferiores, inthrprete da as coisas superiores, nBo deixa as inferiores, de natureza pela agudez dos sentidos, pela pes- modo que nela estas e aquelas se encontram quisa do razdo, pela luz do intelecto, interme- reunidas. [A alma], corn efeito, 6 imovel e mo- diario entre o tempo e a eternidade e, como vel. Daquela parte ela se liga com a realidads dizem os persas, copula ou seja Himeneuedo superior, desta com a inferior. ligando-se com mundo, pouco inferior aos anjos segundo o tes- ambas, deseja uma e outra. Por isso, [a alma], temunho de D ~ v iGrandas coisas estas, sem .~ por certo instinto natural, ascende para coisas d6vida, mas ndo as mais importantes, ndo tais. superiores e desce para as inferiores.E, anquan- isto 6, por meio das quais possa justamente to ascende, ndo abandona as coisas mais bai- arrogar-se o privilhgio de uma admira@o sem xas, e, enquanto desce, jamais deixa o divino. limites. Por que, com efeito, ndo admirar mais M. Ficino, os anjos e os beatissimos coros do cbu? Theologio plotonica. Todavia, no F parece-me ter compresn- i m dido porque o homem seja o mais feliz dos se- res animados e, por isso, digno de toda admi- ra~do, qua1 seja por fim aquels destino que. e cabendo-lhe na ordem universal, & invej6vel ndo so aos brutos, mas aos astros e aos espi- ritos ultramundanos. Co~sa incrivel e maravilho- sa! E como poder~a diferente, ss 6 justa- ser mente por ela que o homem & proclamado e considerado um grande milagre e maravilho entre os viventes? Mas qua1 seja ela, escutai, 6 Pais, e dai benignamente ouvidos, em vossa cortesia, a este meu falar. J6 o sumo Poi, Deus criador, ti- 0Discurso sobre a dignidade do ho- nha Formado, conforme as leis de uma arcana mern Q certornente o escrito de Pico qua se sabedoria, esta morad~a mundo, tal qua1 nos do tornou rnois chlabre, e oth se irnp6s corno aparece, templo augustissimo da d~v~ndade. urn dos textos ernblerndticos do Hurnanismo. Havia embelezado com as intelig&nciaso hipe- R possogern oqui proposto verso so- rur6ni0, avivara de almas etsrnas os globos bre o significodo rnstoffsico e rnorol do ho- ethreos, povoara com uma turbo de animais de mern corno 'Qrandarnilogr@". Todos os crio- toda espCcie as partes vis e torpes do mundo turos qua se encontrorn tonto no rnundo infenor. Contudo, levando a obra b realiza@o, sensi'vel como no rnundo supra-sensivel Fo- o artifice desejava que ai houvesse algu6m rorn criaclos corno reoliclodes ontologicamen- capaz de captar a razdo de tdo grande obra, te determinadas. 0hornern, oo contrdrio, foi de arnor sua belezo, de admirar sua imensida- posto no confim dos dois mundos, corn urno de. Por isso, tendo j6 realizado o todo, como noturezo astruturoda de rnodo to1 que e1e pro- atestam MoisCs4e TimeuZ5 ljltimo pensou por prlo deve deterrn~nor, plosrnondo-o sagundo o forrno de vido rnorolrnente prh-escolhido. R grondezo do hornern sstd portonto em ter sldo criodo por Deus corno artiflce de 'RsclQp~o, Corpus Hermeticum, vol. 1. em 1 "~meneu, ou H~mene, o deus q r q o dns niipclns ern SI proprio, como autoconstrutor segundo suos 'Snlmo 8.5-6. escolhos rnorois. 4G&nes~s 1.26-28. 5Piot~o.fimeu, 41 b.
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    Primeira parte -O t l u m a n i s ~ e ~ R e n a s c e n c a ? a em produzir o homem. Mas, dos arquhtipos ndo aquilo que existe no mundo. Ndo te fiz nern ce- restava nenhum sobre o qua1 modelar a nova leste nern terreno, nern mortal nern imortal, para criatura, nern dos tesouros urn para entregar que, por ti mesmo, como livre e soberano artifi- como heranp ao novo filho, nern dos lugares ce, te modelasses e te esculp~ssesno forma de todo o mundo permanecia um sobre o qua1 que tivesses de antemdo escolhido. Poder6s se sentasse este contemplador do universe. degenerar nas coisas inferiores, que sdo os Todos j6 estavam ocupados; todos haviam sido brutos; poder6s regenerar-te,conforms tua von- distribuidos, nos sumos, nos mtdios, nos infi- tade, nas coisas superlores que sdo divlnas". mos graus. 6 suprema liberahdads de Deus poi! 6 Todavia, ndo teria sido digno do paterno suprema e admir6vel felicidade do homem, ao poder tornar-se como que impotente no irltima qua1 concede-se obter aquilo qua deseja, ser obra; nern de sua sabedor~a permanecer incer- aquilo que quer. 0 s brutos, ao nascerem, tra- ta na necessidade por falta de conselho; nern zem consigo do seio materno, como d ~ z Lu~ilio,~ de seu bentfico amor, que aquele qua era des- tudo aquilo que terdo. 0 s espiritos superiores tinado a louvar nos outros a divina liberalidade ou desde o inicio ou pouco depois tornaram-se fosse constrangido a reprov6-la em si mesmo. aquilo que serdo pelos stculos dos stculos. No Estabeleceu finalmente o otimo artifice homem que nasce o Pai colocou sementes de que, bquele ao qua1 nada podia dar de pro- toda esptcie e germes de toda vida. E, confor- prio, fosse comum tudo aquilo que singularmen- me coda um os cultivar, ales crescer60 e nele te atribuira aos outros. Rcolheu por isso o ho- dardo seus Frutos. E se forem vegetais, ser6 mem como obra d s natureza indefin~dae, planta; se sensiveis, ser6 animal; se racionais, pondo-o no coraq3o do mundo, assim Ihe fa- tornar-se-6animal celeste; se intelectuais, ser6 IOU: "NBo te dei, Addo, nern um lugar determi- anjo e filho de Deus. Todavia se, ndo contente nado, nern um aspecto teu proprio, nern qual- com a sorte de nenhuma criatura, se recolher quer prerrogativa tua, porque o lugar, o aspecto, no centro de sua un~dade, tornado um so espi- as prerrogativas que desejares, tudo enfim, rito com Deus, na escuriddo solit6ria do Poi, conforme teu voto e teu parecer, obtenhas e aquele que f o ~ posto sobre todas as coisas conserves. A natureza determinada dos outros estar6 sobre todas as coisas. estd contida dentro da leis por mim prescritas. G. P~codella M~randola. Tu determinar6s a tua, ndo constrangido por D~scurso sobrs o dignidads d o homsm. nenhuma barreira, conforme teu arbitrio, a cujo poder te entreguei. Eu te coloquei no meio do mundo, para que dai melhor avistasses tudo Sobros, 623 ad1q5oMorx 6Lucil~o, Representam-se aquios presumidos retratos de Marsi'lio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano (da esquerda para a direita). Particular do afresco do "Milagre do Sacramento", de Cosme Rosselli. Floren~a, igrea de santo Ambrcisio, capela do Milagre.
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    Nao temos aindaconhecimento preciso das relasties que existem entre os dois ramos do Aristotelismo: a) o etico-politico, que os humanistas liter 6) o Iogico-naturalista das Universidad 0 tom geral da epoca 6 em todo caso , e o Aristotelismo, na dialetica geral d 0 Aristotelismo serve prevalentemente de antitese; nhentos (Teksio, Bruno, Campanell forto das paginas de Aristoteles. 0s aristotelicos da Renascenca se ocuDar - - - - - problemas Iogico-gnosiolo icos e'de problbmas fisicos, aprofun- 9 dando os aspectos metodo ogicos, tanto que a Escola de Padua cunhou a expres- sao "metodo cientifico" (politica, etica e poetica permaneceram, ao contrdrio, heranqa dos humanistas filologos. No que se refere as fontes do conhecimento, os aristotClicos distinguiram: a) a autoridade de Aristoteles; 6)o raciocinio aplicado aos fatos; c) a experiencia &reta; mas pouco a pouco eles comesaram a preferir esta ultima. Papel importante teve ate o 600 a doutrina da dupla verdade, proposta peia primeira vez na ldade Media por Siger de Brabante, segundo o qua1sobre a base da raza'o e da doutrina aristotelica uma coisa pode resultar mais provavel, mesmo que sobre a base da fe seja aceito o oposto. 0 Aristotelismo renascentista merece maiores considerar$ies enquanto 4 indispensavel para compreender a epoca. Para o momento n80 se tem ainda cai nhecimento preciso da diferensa entre o Aristoteles etico-politi- co dos humanistas e o Aristoteles Iogico-naturalistic0 das Univer- Importiincia sidades. Em geral, porem, o Aristotelismo representa, para o pen- do Aristotelismo samento renascentista, a antitese do Platonisrno. Alguns fil6sofos renascentista do Quinhentos, ao contrario, experimentarso at6 fastio ao ler as 5 + obras de Aristoteles. fs t&s intevpretac&s claro que o quadro do pensamento renas- centista permanece incompleto e falso se n2o tradicionais de frist'te'es levarmos em conta as contribuiq4es que ele trouxe. Procuraremos agora completar o Ja destacamos a importincia atribui- que ja haviamos antecipado. da pelos estudiosos ao aristotelismo na Ita- Deve-se recordar que as interpretaqoes lia nos skculos XV e XVI e como se tornou basicas do aristotelismo foram tris.
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    56 Primeira parte - O H u m a n i s m o e a R e n a ~ c e n ~ a a ) A primeira 6 a alexandrina, que No que se refere i s tematicas, devemos remontava ao antigo comentador de Arist6- recordar que, em virtude da estrutura do en- teles Alexandre de Afrodisia. Alexandre sus- sino universit6rio. os aristotClicos da C ~ o c a tentava que o homem possui o intelecto po- renascentista ocu~aram-sesobretudo dos tencial, mas que o intelecto agente C a problemas 16gico-~nosio16gicos dos proble- e propria Causa suprema (Deus) que, ilumi- mas fisicos (a politica, a Ctica e a poCtica fica- nando o intelecto potencial, torna possivel ram patrim6nio dos humanistas filologos). o conhecimento. Assim sendo, n5o ha lugar No que diz respeito A fontes do co- s para urna alma imortal, pois ela deveria co- nhecimento, os aristotklicos distinguiam: a ) incidir com o intelecto agente (as interpre- a autoridade de Aristoteles: b ) o raciocinio tag6es recentes levaram ao reconhecimento aplicado aos fatos; c) a experkncia direta. da presenqa de certa forma de imortalidade Mas, pouco a pouco, comeqaram a privile- em Alexandre, mas urna imortalidade im- giar esta ultima, tanto que os estudiosos pessoal e inteiramente atipica; de qualquer consideravam que (pelo menos tendencial- modo, urna imortalidade impessoal n5o mente) eles podem ser definidos como "em- podia interessar aos cristios). ~iristas". b) N o sCc. XI Averrois submeteu as Ademais, tambkm aprofundaram os obras aristotClicas a poderosos comenta- problemas 16gicos e metodologicos com dis- rios, que tiveram ampla repercuss50. A ca- cuss6es de alto nivel. A Escola de Padua che- racteristica de sua interpretaqio era a tese gou atk a cunhar a express50 "mitodo cien- segundo a qua1 haveria um intelecto unico tifico". e separado para todos os homens. Caia as- Todos os conceitos da fisica aristotilica sim por terra qualquer possibilidade de se foram discutidos analiticamente. Mas. nes- falar de imortalidade do homem, visto que se terreno, a estrutura geral da cosmologia so era imortal o Intelecto unico. do Estagirita, que distinguia o mundo ce- TambCm era tipica dessa corrente a leste, feito de Cter incorruptivel, do terres- chamada doutrina da "dupla verdade", que tre, constituido de elementos corruptiveis, distinguia entre as verdades acessiveis a for- n5o permitia progressos notaveis, impondo qa da razao e as verdades acessiveis unica- urna rigorosa separaq50 entre a astronomia mente a f (mais adiante, voltaremos a falar C e a fisica. Alkm disso. a teoria dos auatro do sentido dessa doutrina). elementos aualitativamente determinados e c) Por fim, havia a interpretaqio to- a teoria das "formas" tornavam impossivel mista, que tentara urna grandiosa concilia- a quantificaqao da fisica e a aplicaq50 da qio entre o pensamento aristotClico e a dou- matem5tica. trina cristi. Era muito comentado e difundido, em particular, o tratado De anima, com sua dou- trina sobre a alma (que, no esquema aristo- tClico. entrava no fmbito da ~roblematica As ternbticas aristotklicas "fisica", ~ e l omenos em sua parte funda- mental). tratadas na RenascenGa Na Cpoca da Renascenqa todas essas A cornpIexa quest60 interpretaqoes foram repropostas. Entre- da "dupla verdade" tanto, hoje, tende-se a contestar a validade desse esquema cemodo, destacando que a realidade era bastante complexa, n i o ha- Mas um ponto merece ser destacado vendo nenhum aristotClico que se possa con- com especial atenqio. No passado, deu-se a siderar seguidor de urna dessas tendzncias doutrina da "dupla verdade", que foi reto- em todos os pontos, e que, a proposito de mada na Cpoca renascentista, um significa- cada problema em particular, o alinha- do bastante inexato, que deve ser rediscutido mento dos varios pensadores muda muito, profundamente. apresentando grande variedade de combi- Ha certo tempo os estudiosos chama- naqdes. ram a atenqio para o fato de que a relaqio Trata-se, portanto, de urna divisio a entre teologia e filosofia constituiu um pro- ser usada com cautela. blema que explodiu repentinamente no sC-
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    57 Capitulo quarto - 0Pristotelismo renasrentista e a revivesc&cin do Ceticismo culo XIII, em virtude do encontro entre a Resta. alem disso. o fato de clue o tom teologia, que se constituira em bases 16gi- cas, com um conjunto coerente de doutri- - C geral da ~Doca dado' sobretudo-~elo Pla- tonismo, e que o Aristotelismo, na dialitica nas, e a filosofia de Aristoteles, que, por seu global do pensamento renascentista, repre- turno, representava um conjunto de doutri- senta de mod0 prevalente a antitese. nas coerentes -e desse encontro brotaram 0 s proprios filosofos do Quinhentos contrastes de varios tipos. aue estudaremos mais adiante., aue se diri- - A A tentativa de sintese proposta por giram i Natureza em ~rimeira instincia. niio Tomas fora muito contestada: Escoto e s6 niio trario nenhum conforto das paginas Ockham haviam alargado o fosso que se- de Aristoteles, e sim fastio: Teltsio achari para a ciencia da fC, e Siger de Brabante pro- Aristbteles, ao mesmo tempo, demasiada- pusera a doutrina da "dupla verdade", que mente pouco fisico e demasiadamente pou- os averroistas latinos tornaram sua, sendo co metafisico; Bruno o considerari "um velho sustentada por alguns aristotClicos at6 o sC- deplorhvel", "inclinado, curvo, corcunda, culo XVII. dobrado Dara a frente. como Atlante. o ~ r i - Pois bem, o que significa "dupla ver- mido peso do c&, de mod0 q;e h i o dade" ? pode vC-lo"; enquanto os habitantes da Ci- 0 s estudiosos mais atentos colocaram dade do Sol de Campanella, que exprimem em evidihcia que tal teoria, em seu nucleo as idCias do filosofo, "siio inimigos de Aris- de fundo, pode ser essencialmente reduzida toteles, e o chamam de pedante". a este principio: sobre a base da razz0 e da doutrilza aristotelica uma coisa pode se tor- nar mais provhvel, mesmo que sobre a base da fe seja aceito o oposto. Isto n i o significava abandon0 da teo- logia e da fC, mas apenas uma distin~iio heu- ristica e metodologica das esferas da ciGn- cia e da fC. renascentista Dissemos acima que d m razio os que sustentam que o Aristotelismo renascentista merece maior consideraqiio do que teve no passado e que ele constitui uma componen- te indispens5vel para compreender a Cpoca. De nossa parte, logo levaremos em conside- raqiio a figura de Pedro Pomponazzi. Isto C certamente exato em si. Toda- via, no momento encontramo-nos ainda Ion- ge de um conhecimento precis0 das relaq6es subsistentes entre os dois ramos do Aristote- lismo: o que os humanistas literatos fizeram reviver, que 6 o Aristoteles Ctico-politico, e o Aristotelismo 16gico-naturalista das Uni- versidades.
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    O tlurnanisrn~ aRenascenca e 11. Pedro PomPonazzi * Sob muitos aspectos, o mais interessante dos aristotelicos foi Pedro Pom- ponazzi (1462-1525), segundo o qua1 a alma intelectiva e principio de intelec@oe voli@o imanente no homem, e e capaz de conhecer o universal e Pietro o supra-sensivel; todavia, ela nao 6 uma inteligencia separada: Pornponazzi: nOo pode estruturalmente prescindir do corpo, que e o mais no- a natureza bre dos seres materiais, tem perfume de imaterialidade, embora da a h a nOo de mod0 absolute. Pomponazzi pde tal posi+o dentro da O principio doutrina da dupla verdade, porque a imortalidade da alma e ar- da tigo de fP que deve ser provado com os instrumentos da fe (reve- 4 3 7-3 iagao e Escrituras), mas nao e urna verdade demonstravel pela raz%o;a "virtude", isto e a vida moral, e em todo caso garantida , mais com a tese da "mortalidade" do que com a da "imortalidade" da alma: a verdadeira felicidade 6 posta na propria virtude, prescindindo de recompensas futuras no aldm. No quadro da dupla verdade deve ser inserido tambem o principio de natura- lidade, segundo o qua1todos os eventos sem exce@opodem ser explicados sobre a base de causas naturais e da experiencia, compreendendo tudo o que acontece na histbria dos homens; em todo caso, os eventos admitem tambCm urna explica- $40 com base em verdades sobrenaturais. 0debate Mas, sendo assim, a alma n i o pode estruturalmente prescindir do corpo, ja que, sobre a imortalidade da alrna privada dele, n i o poderia desenvolver sua funqiio propria. Assim, ela deve ser consi- derada urna forma que nasce e perece com Pedro Pomponazzi (1462-1525), cha- o corpo, niio tendo nenhuma possibilldade mado Peretto Mantovano, foi certamente o de agir sem o corpo. Entretanto, como diz mais discutido dos aristotClicos e, por mui- Pomponazzi, sendo o mais nobre dos seres tos aspectos, considerado o mais interessante materiais e encontrando-se na fronteira com deles. os seres imateriais, a alma "recende a imate- Sua obra que maiores pol&micassusci- rialidade, ainda que n i o em absoluto". tou foi o De immortalitate animae, que de- A tese desencadeou verdadeira tempes- batia um problema central no Quinhentos. tade, at6 porque - C bom lembrar - o N o inicio, Pomponazzi era averroista, dogma da imortalidade da alma era consi- mas pouco a pouco seu averroismo entrara derado absolutamente fundamental pelos em crise. Depois de ter meditado longamente plat8nicos e, em geral, por todos os cristios. sobre as soluq6es opostas de Averrois e de Para dizer a verdade, Pomponazzi niio santo Tomas, ele assumiu urna posiqiio con- queria em absoluto negar a imortalidade, siderada "alexandrina", mas que, embora pretendendo neg6-la apenas como "verda- tenha pontos de contato com a teoria de de demonstravel com seguranqa pela razio". Alexandre, C por ele formulada com novo Diz ele que a imortalidade da alma O artigo colorido. de fb, e que, como tal, deve ser provado com A alma intelectiva C o principio do enten- os instrumentos da fC, ou seja, "com a reve- der e do querer imanente do homem. Dife- laqiio e as escrituras can8nicasn, ja que os rentemente da alma sensitiva dos animais, a outros argumentos n i o siio apropriados alma intelectiva do homem C capaz de conhe- para isso. E diz tambCm niio ter duvidas cer o universal e o supra-sensivel. Entretan- sobre esse artigo de fC. Levando-se entiio em to, ela niio 6 urna "intelighcia separada", conta o que dissemos sobre o significado da tanto que so pode conhecer mediante as "dupla verdade", a posiqiio de Pomponazzi imagens que Ihe derivam dos sentidos. torna-se bem clara. z ~m
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    59 Capitulo quarto - 0Sristotelismo rrnascenfista e a vevivescZncia co Ceticismo ! A alma aparece em primeiro lugar na hierarquia dos seres materiais e, portanto, como tal, confina com os seres imateriais, sendo assim "mCdia entre uns e outros": t material, se comparada com o imaterial; C Outro ponto tambim merece ser desta- imaterial, se comparada com o material. cado. Pomponazzi sustenta que a "virtude" Participa das propriedades das puras inteli- (ou seja, a vida moral) salva-se mais com a ghcias, bem como das propriedades mate- tese da "mortalidade" do que com a tese da riais. Quando realiza aq6es pelas quais se "imortalidade" da alma, porque aquele que t assemelha i s intelighcias puras t chamada bom tendo em vista os pr6mios do alCm esta divina e, em certo sentido, transforma-se em de alguma forma corrompendo a pureza da realidade divina; quando realiza obras ani- virtude, submetendo-a a algo fora dela. De mais, transforma-se em animal. resto, diz ainda nosso fiksofo, retomando uma cClebre idCia j i defendida por Socrates e pela Estoa, a verdadeira felicidade esta de- positada na propria virtude, ao passo que a 0" p v i n c i p i o da natuvalidade" infelicidade esta depositada no proprio vicio. Todavia, apesar dessas drasticas con- traq6es da imagem metafisica do homem, Pomponazzi retoma a idCia do homem como TambCm foi muito apreciado o De in- "microcosmo" e algumas idCias do cklebre cantationibus (0livro dos encantamentos), "manifesto" de Pico. no qua1 Pomponazzi responde i quest50 se
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    60 Primeira parte - 8H~rnanisrno a Renascensa e existem causas sobrenaturais na produqiio a opiniiio do pr6prio Aristoteles e a contida dos fen6menos naturais, mostrando que to- no respectivo comentirio de Averrois, bem dos os acontecimentos, sem exce~iio,podem como depois de expor de forma silogistica ser explicados com o principio da naturali- as demonstraq6es sobre a inabitabilidade, dude, inclusive tudo o que ocorre na histo- de repente ele afirma poder desmentir os si- ria dos homens. logismos apoditicos de Aristoteles e Aver- N o passado, exagerou-se muito o va- rois com a carta de um amigo do Vineto, lor da formulaqiio desse "principio da na- que atravessara a zona torrida, encontran- turalidade" e sua respectiva aplicaqiio, afir- do-a habitada. mando-se que Pomponazzi pressentia o E agora? novo e era muito superior aos seus tempos. A conclusiio de Pomponazzi C a seguin- Mas a critica historicamente mais conscien- te: "Oportet stare sensui". E a experiincia, te chamou a atenqiio para o fato de que Pom- e niio Aristoteles, que sempre tem raziio. ponazzi, no caso, realiza uma operaqiio que Depois de Pomponazzi, destacaram-se expressamente declara circunscrita ao pon- ainda entre os aristotilicos os nomes de An- t o de vista aristote'lico, alCm de afirmar ter drC Cesalpino (1519-1603), Jacopo Zaba- consciincia da existincia de uma verdade rella (1533-1589), CCsar Cremonini (1550- diferente, que C precisamente a verdade da 1631) e Julio CCsar Vanini (1585-1619). fC. Isso redimensiona notavelmente o senti- do do seu discurso. Analoga C a posiqiio do De fato, de li- bero arbitrio et de praedestinatione, no qua1 sustenta que, do ponto de vista natural, niio h i soluq6es certas para a quest50 do desti- no, mas que tambCm se mostram contradi- torias a proposit0 as soluq6es dos teologos. TambCm nesse caso, para se ter uma resposta segura, C precis0 confiar na fC e na revela- qiio. Entretanto, como filosofo natural, ele prefere a soluqiio dos estoicos, que admitiam o destino como soberano. O priviIkgio que deve s e v dado Mas a modernidade de Pom~onazzi. como aristotklico. esta ~recisamente fato no de comeqar a preferir a experiincia h auto- ridade dos escritos de Aristoteles, quando estes siio contraries iquela. Em uma aula de 1523 (apontada de mod0 especial por B. Nardi), comentando uma passagem dos Meteorol6gicos de Aristoteles sobre a habitabilidade da terra na zona torrida (entre o tropic0 de Cincer e o tropic0 de Capricornio), depois de expor
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    61 Capitulo quarto - 0Sristotelismo renascentista e a revivesc2ncia do Ceticismo de uma f o r m a moderada d e C e t i c i s m o A tradiqees dominantes no 400 d o a do Platonismo e do Aristotelismo. s s Grande difusao no 500 tiveram tambem o Epicurismo, Estoicismo e Ceticismo, este ultimo na formulaqao que Ihe foi dada por Sexto Empirico. O Ceticismo conseguiu ate criar verdadeira e propria tempera cultural, especialmentena Franqa com Michel de Montaigne (1533-1592). E Montaigne o Ceticismo convive m com uma fe sincera, porque ele e estrutural desconfian~a fa-na za"oe, justamente por isso, nao pode per em causa a fP. Inspiran- do Ceticismo. do-se na posi@o de Sexto Empirico, para quem a tranquilidade Michel de iinimo consegue, pela renuncia, conhecer a verdade absolu- de Montaigne ta, Montaigne sustenta que a sabedoria, o "conhecer a si mes- + § 1-2 mo", n%opode chegar a uma resposta sobre a esshcia do ho- mem, mas apenas sobre caracteristicas do homem singular: cada um deve cons- truir para si uma sabedoria conforme sua propria medida. A grandeza do homem esta em reconhecer e aceitar sua propria mediocridade, em dizer sempre sim a vida, aprendendo a aceita-la e am$-la assim como ela e. Revivesc&cias liga-se Heinrich Cornelius (que se fez cha- mar de Agrippa de Nettesheim, 1486-1535, d a s filosofias helenisticas conhecido sobretudo como mago) na obra Incerteza e fatuidade das cizncias e das artes (escrita em 1526 e publicada em 1530), na qua1 sustenta que niio siio as ciencias e as As tradig6es predominantes no Quatro- artes humanas (que siio refutadas com argu- centos eram as do Platonismo e do Aristo- mentos extraidos de Sexto Empirico) que telismo, como vimos, ao passo que o Epicuris- salvam o homem, mas somente a f6. mo e o Estoicismo constituiam apenas Na Franga, foram publicadas sucessi- instfncias marginais, que transparecem em vamente nove vers6es latinas de Sexto Em- alguns autores, sem, no entanto, imporem- pirico. Em 1562, EstCviio (Henri Estienne, se de mod0 relevante. Muito maior, porkm, 1531-1 598) traduziu os E s b o ~ o s pirronia- foi a difusiio que estes ultimos tiveram no nos e, em 1569, Gentian Hervet (1499-1584) Quinhentos, juntamente com o renascido publicou todas as obras de Sexto Empirico Ceticismo, na formulagiio que lhe foi dada em versiio latina. por Sexto Empirico. Nesse meio tempo, Justo Lipsio (Joost 0 Ceticismo conseguiu at6 criar uma Lips, 1547-1606) repropunha na Alemanha verdadeira e peculiar timpera cultural, es- e na BClgica o estoicismo, tomando por pecialmente na Franga, encontrando sua ex- modelo sobretudo Sineca e procurando con- pressiio mais elevada em Montaigne. cilii-lo com o cristianismo. Como ocorreu esse renascimento? 0 primeiro a utilizar Sexto Empirico de mod0 sistemitico foi Gianfrancesco Pico della Mirandola (1469-1533),net0 do gran- e o ceticismo como t ~ n d a m e n t o de Pico, em sua obra Exame das fatuidades das teorias dos pagiios e da verdade da dou- d e sabedoria trina cristii (1520),na qua1 ele utiliza elemen- tos ckticos para demonstrar a insuficiincia das teorias filosoficas e, portanto, da raziio No quadro acima brevemente tragado, pura, concluinda que, para alcangar a ver- insere-se tambCm o pensamento de Michel dade, C precis0 a fC. A Gianfrancesco Pico de Montaigne (1533-1592), autor dos En-
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    62 Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a saios (1580 e 1588), que siio obras-primas A soluqiio adotada por Montaigne ins- ainda hole muito consideradas. pira-se nessa, mas 6 muito mais articula- Tambim em Montaigne o ceticismo da, rica em nuanqas e sofisticada, com a in- convive com uma fC sincera. Isso surpreen- clusio, tambim, de sugest6es epicuristas e deu muitos historiadores. Na realidade, po- estoicas. rim, sendo o ceticismo desconfianqa na ra- 0 homem C misero? Pois bem, captemos Z ~ O ,ele niio p6e a fe' em causa, pois esta o sentido dessa misiria. E limitado? Capte- situa-se num plano diferente, sendo portan- mos o sentido dessa limitaqiio. E mediocre? to estruturalmente inatacivel pel0 espirito Captemos o sentido dessa mediocridade. citico. "0ateismo -escreve Montaigne - Mas, se compreendermos isso, compreende- i [. ..] uma proposiqiio quase contra a natu- remos tambim que a grandeza do homem reza e monstruosa, dificil tambim e inapta esta precisamente em sua mediocridade. para fixar-se no espirito humano, por mais Enti50 6 claro que o "conhece-te a ti insolente e desregulado que ele possa ser". mesmo" nHo pode desembocar em uma res- Entretanto, a "naturalidade" do conheci- posta sobre a essi2ncia d o homem, mas so- mento de Deus depende inteira e exclusiva- mente sobre as caracteristicas do homem mente da fi.0 citico, portanto, s6 pode ser singular, que alcanqamos vivendo e obser- fideista. vando os outros viverem, bem como procu- Mas o fideismo de Montaigne niio C o rando nos reconhecer a nos mesmos refleti- de mistico. E o interesse dos Ensaios volta- dos na experiincia dos outros. se predominantemente para o homem e niio 0 s homens siio notavelmente diversos para Deus. A antiga exortaqiio contida na entre si e, niio sendo possivel estabelecer os sentenqa inscrita no templo de Delfos, "ho- mesmos preceitos para todos, i preciso que mem, conhece-te a ti mesmo", da qua1 So- cada um construa uma sabedoria a sua pro- crates e grande parte do pensamento antigo pria medida. Cada qua1 s6 pode ser sabio se apropriaram, torna-se para Montaigne o de sua propria sabedoria; o sabio deve sa- programa do autintico filosofar. Mas niio ber dizer sim a vida, e m qualquer circuns- s6 isso: os filosofos antigos visavam ao co- tdncia, e aprender a aceita-la e ama-la as- nhecimento do homem com o objetivo de sim como k, sempre. alcanqar a felicidade -e esse objetivo tam- bim estL no centro dos Ensaios de Mon- taigne. A dimensiio mais autintica da filo- sofia i a da "sabedoria", que ensina como devemos viver para sermos felizes. Mas como a razio cCtica, abragada por Montaigne, pode alcanqar esses objetivos, aquela mesma raz5o citica que prop6e aci- ma de todas as coisas a pergunta de adver- tencia "o que sei eu?" (que sais-je?). Sexto Empirico escreveu que os citi- cos conseguiram resolver o problema da fe- licidade precisamente mediante a renuncia ao conhecimento da verdade. A este propo- sito, ele citava o conhecido ap6logo do pin- tor Apeles que, n5o conseguindo pintar sa- tisfatoriamente a espuma sobre a boca de um cavalo, tomado de raiva, lanqou contra a pintura a esponja embebida em tintas. Mii-he1 d e Morrtizig~re( 1 .5.j.j-1.592) Entiio, a esponja deixou na tela uma man- re/,ro/lhs e m setis Ensnios rim / I C I Z S L ~ I I Z C ~ I ~ O cha que parecia espuma. E da mesma ma- ric fundo c+trcm, ric.0 cJr,l tcrmifrc-'1s c i r s i ~ ~ t ~ t i i l s neira que, com a renuncia, Apeles alcangou pelLrs ~ r t r t i g ~i~l s s ~ f i ~ ~ s ~ / ~ / ' s t i i ~ ~ ~ . f o hel rrms trL~~frtzrifL~s rirtz~zlirrgu~rger1z ern 1~11trtoI I O ~ ( Y I I L ~ , I o seu objetivo, os citicos, com a renuncia a j i ~ d i i df2111 / l ~ i g i / 7 d ~ dl?11/il / l f l / c ' l l ~ ~ i l ! O ; ~ ~ l l ~ t l l ~ ~ ' l ~ . tl! encontrar o verdadeiro (ou seja, suspenden- I-:st? yr4c. rc~proJsizirtrosr; r.rrlr 1wIo rcptr'rto do o juizo), acabaram encontrando a tran- dc rrrn ~zrrtorm f i ~ l i r ~ o , qiiilidade. c-orlscr~~iltio0 (:ilstr~lo /c~sL7ill~s. 12 tic,
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    fi$ Capitdo qUUYto - O Fristotelismo renascentista e a revivescEncia d o Ceticismo - Deus, a confirma irrevogavelmente. Todavia, sobre o que tenho duvidas 6 se estas asssr@es n6o superam os limites naturais do homem, de modo a pressupor algo aceito por f6 e revela- do, e se estejam conformes 6s palavras de Aristoteles, como sustenta o proprio S. Tom6s.l Na verdade, dado que a autoridads de tdo ilustre doutor 6 para mim grandissima, nBo da -imortalidade da alma apenas no campo do teologia, mas tambhm no do pensamento aristotblico, ndo ousaria afirmar qualquer coisa contra sua opinido; mas R tsss d s Pomponazzi, qus suscitou o que direi eu o proporei sob a Forma de du- todo umo s&ris ds discussdas, C o do insus- vida e ndo como afirma@o, e 6 prov6vel que tsntabilidods por pura rozdo s sm ssntido pelos seus doutissimos seguidores a verda- cotsgorico do imortalichds do almo. R olmo de poder6 ser-me desvelada. Sobre sua pri- ~ntslectlvodo homam, smboro rodicalmsn- meira afirma@o, isto 6, que na rsalidade no ts superior 6 olmo sansitivo dos animais, ndo homem a faculdade sensitiva e a intelectiva pods considsror-ss uma rsolidods sspora- sejam a mesma coisa, ndo tenho nenhuma du- do, ou ssjo, tronscsndsnts ao corpo, porqua vida; mas as outrcls quatro me parecem muito n60 pods conhecsr e ogir a ndo sar ma- obscuras. dionts os sentidos s, portanto, msdionts o E, em primeiro lugar, que tal ess&ncia seja corpo. Portonto, do ponto ds visto do razdo por si e verdadeiramente imortal, mas impro- filosofico, slo sario formo ds um corpo, s priamente e segundo csrto aspect0 mortal. E m como nosca com o corpo, ossim tombhm po- primeiro lugar, porque com raciocinios semelhan- rscario parscar com o corpo, porque ndo tes bqueles com os quais ele sustenta esta tese pods ogir e subsistir ssm o corpo. TombQm pode ser provada tamb6m a tese oposta. Com ssgundo o pansomanto d s Rristotslas, so- efeito, do constata<doqua tal ess&ncia acolhe brs o boss d s umo intsrprsta@o difundi- todas as formas materiais, que aquilo que nes- do, Pomponozzi ofirmo que dsvs "dizsr-se to se acolhe 6 entendido em ato, que ndo se mortoI". ssrve de um orgdo corporeo, que tende b eter- Molgrodo os orgumsntag6es qus Pom- nidade e ds coisas divinas, se concluia que ela ponozzi oduz nests sentdo, els solisnto 6 imortal. Mas, igualmente, uma vez que ela, vdrios vszes o 'psrfums" ds imotsriolido- como alma vegetativa, opera materialmente, e ds e imortolidods do olmo. No rsolidods, como alma sensitiva ndo acolhe em si todas as Pomponozzindo pretandia de modo nenhum formas, e alCm do mals se serve de um or960 negar a imortal~dade,mos prstsndio ope- corporeo e tende 6s coisas temporais e cadu- nos nsgor que ssto fossa dsmonstrdvsl com cas, poder-se-6provar que ela 6 propria do fi- obsoluto csrtszo s ds modo cotsgor~co palo Iosofo n a t u r ~ lA ~ . esta considera@o se refere roz6o. Na imortalidade se cr& por f6, como Aristoteles naquela passagem do I livro do Ds dsmonstro o sagundo possogem qus oqui partibus onimolium. E a outra dfirma$do, que a oprsssntomos. mente vem de fora, deve ser referida a ela como pura mente, n6o como mente humana; ou, caso se queira entender como referida a ela como mente humana, ndo deve ser tomada em senti- 1. Dcvidas sobre a imortalidade da alma do absolute, mas apenas enquanto, em con- Naturalmente, sobre a verdade desta tese front~ com a vegetativa e com a sensitiva, ela [ou seja, a tese tomista de que no homem a participa maiormente do divindade. Com efei- alma sensitiva e a intelectiva sdo uma so subs- to, no cap. 9"do IV livro do Da portibus animo- t8ncia simples e individual, imortal por sua na- lium se diz que apenas o homem & de natureza tureza e mortal sob certo aspecto, forma subs- ereta porque so ele participa de modo not6vel tancial do homem, multiplicada com o numero do d i ~ i n d a d e . ~ dos corpos humanos, que comega a existir jun- to com o corpo por um ato de cria~do imediata por parte de Deus e continua a viver depo~s do 'Torn65 da nqu~no,De un~tate~ntellectuscontra morte do corpo] ndo h6 para mim nenhuma in- overrontas pro&m~o certeza, uma vez que a Escritura can8nic0, que %st6teles. Fis~ca,hvro 1 1 , 7 . 1980 97-31 deve ser anteposta a todo raciocin~o expe- e 3Ar~stoteles. pornbus an~mohum, De hvro IV. 10 ( e nBo rihncia humana uma vez qua nos f o ~ dado por 9). 6860 27-28
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    Primeira parte -0 t l ~ m a n i ~ m Renascen~a ea~ Ndo admitirnos, todavia, que o homern blema n60 possa ser resolvido de mod0 certo sobreviva como alrna depois de sua rnorte, dado a ndo ser por Deus. Todavia, ndo me parece que ela tem um principio, e (I livro do Ds coslo) justo nem conveniente que os homens perma- "tudo aquilo que tem um principio tambbm tem nqarn privados desta certeza. [. . .] Contudo, urna e Platdo, no Vlll livro das Leis, diz: "Tudo urn f i ~ n " ; ~ vez que ele proprio tornou manifesto com a aquilo que de qualquer modo cornqa a ser, palavra e com a obra que a alma & imortal - tamb&m cessa de ~ e r " . ~ corn a palavra, quando ameaGa os rnaus com o Quanto ao que depois se diz a proposito fog0 eterno e prornete aos bons a vida eterna do texto 1 7 O do livro VII da Mstafisico, ndo (ele diz, com efeito: "Vinde, banditos de meu condivido a resposta de Rlexandre que ai re- Pai",e continua: We, malditos, para o Fog0 eter- porta Rverrois, tirando-a de Temistio, ou seja, n ~ " ecom a obra, quando no terceiro dia res- ),~ de que isso seja dito corn refer6ncia ao intelec- suscitou do morte - o quanto d~fere luz ema to ~ g e n t ecom efeito, o intelecto agente ndo :~ relagio ao objeto lurninoso e a verdade em Q forrna do homern; ao contr6ri0, diz-se em re- rela@o ao verdadeiro e o quanto a causa infi- fer6ncia ao intelecto possivel, que por vezes nita 6 mais nobre que o efeito finito, tanto mais entende, outras vezes ndo; corn efeito, ele se eficazrnente isso dernonstra a irnortalidade da corrompe a partir da corrupgio de algurna coi- alma. sa em SI, ou seja, da alma sensitiva corn a qua1 Por isso, se h6 alguns argurnentos que se ident~fica. realidade, Ar~stoteles ex- Na se parecern provar a rnortalidade da alma, eles prime assim corn refer6ncia ao intelecto como s6o falsos e apenas aparenternente justos, a ele Q por si e n6o como & por acidente, como partir do mornento que a primeira luz e a pri- se dissesse que nada impede que sobreviva meira verdade nos demonstram o contrdrio; se enquanto & intelecto, ndo enquanto & intelecto alguns outros, depois, parecern provar sua imor- humano, dado que j6 no I livro do Ds coslo fo~ talidade, eles s6o t6o verdadeiros e lurn~no- dernonstrado que tudo aquilo que & gerado se sos, mas n6o sdo a luz e a verdade. Por isso corrompe. apenas esta & a via rnais segura, ndo desrno- E que exatamente este tenha sido o pen- ron6vel e firme; as outras, 00 contr6ri0, estdo sarnento de Aristoteles sobre a a h a hurnana, todas sujeitas a incertezas. Rlbrn do mais toda pode ser esclarecido tarnbhrn por rneio daque- arte deve servir-se de rneios proprios e adap- la passagern do livro X1 da Mstofisico, texto I tados a si, pois de outro rnodo se desvia e ndo 39", onde escreve estas palavras: "Mas a feli- procede segundo seus ditames, conforme dlz cidade, em sua rnais alto forrna, a nos & conce- Aristoteles no I livro do Rnolit~cos ssgundos e dido por breve tempo; naquela forrna & conce- no I livro da €tica.1° Todav~a,que a alma seja dido aos deuses como sterna, enquanto para irnortal & artigo de f&, como est6 no Simbolo nos 6 coisa irnpo~sivel".~ dos Rpostolos e em Rtondsio, e por isso deve ser dernonstrado corn os meios que sdo pro- prios do f&; e o rnelo sobre o qua1 a f& se ba- 2. A imortalidade da alma i verdade de f i sela 6 a revela<doe a escritura can8nica; ape- e n60 dt3 pura rat60 nas com seu auxil~o,portanto, verdadeira e Estando assim as colsas, parece-me de- propriamente sernelhante verdade se deve ver sustentar este argumento, perrnanecendo salvo a doutrina rnais justa, de que o problema da imortalidade da alma & suscetivel de duos 4Rr~st6teles. coelo. 1. 10, 279b 20-21 De solu<des opostas, corno o da eternidade do SPlot~o, Republics (e n60 leis). VIII. 5460. mundo. Parece-me,com efeto, que n6o se po- R esta respato escrave Gregory: "No raal~doda, ' dern aduzir argumentos de ordem natural que Rverro~s, noqualo passagem, n6o folo, c~tnndo Rlexondre, concluarn com absoluta certeza que a alrna seja de lntelecto ogente, mas de '~ntellectus de odeptus', e o lsso Foto Rlexondre se rafere, tanto no comantdr~o Me- b imortal, e rnuito menos que seja mortal, corno tafisico (Rlexondr~ Aphrodisi~ns~s RristotelnMetophpco In declararn mu~tissirnos doutores que tamb&m commentorio, ad. M . Hoyduck, nos 'Commentorlo in Rr~sto- sustentam sua imortal~dade. isso n6o me telem groeca', vol 1, p. 678 r. 4). como no De animo (ed Por preocupei em responder 2.1 outra tese, coisa j6 Bruns., pp. 90r. 13-91 r. 44); mos tombbm Q verdode que Rverro~s onimo, Ill, comm. 36, digr. pors II) ohrmo que o (De feita por outros e, em particular, de modo arn- 'intellectus odeptus' de Rlexondre n6o Q mas queo Ink- plo, exaustivo e s&rio por S.Tombs. lecto ogente no oto em que este mforrno o ~ntelacto mote- Por isso d~rei,corno Plat60 no livro I das r~ol" 714; n. 52) (p. l e a que apenas a Deus foi dado fornecer a 'Rr1st6telas.Metofism, hvro Xll, 7, 1072b 14-16. PIot60, leis, I. 641 certezo daquilo sobre o que muitos di~cordam;~ 'Moteus 25.54.41 d pois, de fcto, tantos homens ilustres estdo em 'ORr~s~oteles, Rnoliticos segundos. hvro 1, 7. 750 36- desacordo entre si, que eu penso que este pro- 74b 21, Etica a Nic8maco. Ivro I, 75n 10980 26-32.
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    Capitulo quarto -6 Fvistotelismo venascentista e a vevivescEncia do Ltirismo provar, e todos os outros argumentos n60 560 1. Filosofar 6 preparar-se para a morts aproprrados e se fundamentam sobre melos que Cicero dlz que filosofar n6o 6 mais que n6o esttio em grau de provar aquilo que se nos preparar-se para a morte. € por isso que o es- propde. N60 deve, portanto, suscitar maravilha tudo a a contempla~60 transportam de alguma se os filosofos discordam entre SI sobre o pro- forma nossa a h a para fora de nos e a mant&m blema da imortalidade da alma, dado que eles ocupada, separada do corpo. € uma esp&cie se fundamentam sobre argumentos n6o ade- de experi&nclae semelhanp da morte; ou me- quados 6 conclus60 e falazes; enquanto todos Ihor, & fato que toda a sabedorra e todas as os cristdos esttio de acordo porque recorrem a considera@es do mundo se resolvem por fim meios aproprlados e infaliveis, a partir do mo- neste ponto: ensinar-nos a n6o ter medo de mento que as coisas n60 podem estar a n6o morrer. No verdade, ou a raztio cocoa, ou deve ser em apenas um modo. [. .IPor isso, sem qual- apenas mirar para a nossa satisfa$30, e todo quer hes~ta@o preciso afirmar que a alma 6 6 seu esfor~o deve, em conclustio, tender a fa- imortal, mas n6o se p8r naquele caminho so- zer-nos viver bem e na alegr~a, corno diz a Sa- bre o qua1 caminharam os sapientes desk s&- grada Escritura. culo, - que tais se dizem, mas termlnam por ser estultos -, pols, a meu ver, quem quiser perse- verar nesse camlnho sempre se mover6 na in- 2. Tambim na virtuds o fim io prazsr certeza e na vaguid6o. [. . .] Rqueles, porhm, que Todas as opinides das pessoas s6o que procedem no caminho dos crentes, permane- o prazer & nosso escopo, embora a ele se mire cem firmes e seguros: demonstram isso o des- com meios diversos; de outro modo, algu&mas prezo da riqueza, das honras, dos prazeres e exputsaria logo que nascem, umo vez qua quem de todo bem mundano, e por fim a coroa do ficaria ouvindo aquele que pusesse para si como martirio qua eles ardentemente desejavam e fim nosso sofrimento e nosso infortirnio? finalmente alcanpvam, alegres depois de tan- Rs diverg&nc~as seitas filosof~cas, das nes- to desejo. ts caso, stio apenas de palavras. H6 mais obs- P. Pomponazzi, tinaq3o e teimosia do que conv&m a uma tdo L k ~rnrnortalitate onirnoa. santa profisstio. Mas qualquer que seja o per- sonagem que o homem represente, nele sem- pre representa a si mesmo. Digam o que disse- rem, at& na virtude o irltlmo escopo de nossa aspira<bo6 o prazer. Gosto de rspetlr no ouvi- do deles esta palavra que tanto os perturba. E se ela significa um prazer supremo e uma enor- me satisfo@o, melhor condiz com a virtude do que com qualquer outra coisa. Esta volirpia, para ser mais forte, nervosa, robusta, viril, 6 por isso tamb&m mars fortemente voluptuosa. E deve- Filosobr aprcndcr a rnorrcr riamos dar a ela o nome do prazer, que 6 mais propicio, mais doce e natural: n6o o da vlrtude. Montoignesituo-seno quodro do renas- com o qua1 a chamamos. cimento dos Esbo<os pirronianos de Sexto Empirico s do Ceticismo em gerol (Iembre- 3. A virtude e o desprszo da morts rnos que no Frongo Henri EstevLio, isto 8, o Stephonus, publicou o editio princeps de Sex- R felicidade e a bem-aventuranga que res- to e troduziu em lotim os Esbo~os pirronlanos, plandecem na virtude preenchem todas as suas enquonto G. Hervet publicou o versdo lotino pertin&nclase todas as suas ambi&ncias,des- de todos os obros de Sexto). E Montoigne m de sua entrada at8 sua irltima porta. Ora, entre o pirronismo temperodo a o ceticismo mode- os principais baneficios da virtude est6 o das- rodo se cosom corn umo F Forte s sincero. d prezo do morte. € um meio que fornece 6 nossa No trecho que segue, Montoigne ofir- vida uma doce tranquilidade, que torna nosso mo que o contemplo@o e o estudo hobituom gosto puro e am6vel, sem que seja a p ~ g a d a o morrer, porque nos tronsportom corno qus qualquer outra volirpia. poro Foro do vido. 0desprezo do morte estd €15 que todas as regras se encontram por entre os principois bensfcios c/o virtude,por- e conv&m neste principio. E, embora elas tam- que 8 preciso pensor que o msto poro o quo1 b&m nos Ievem de comum acordo a desprezar o vido corre 8 o morte. a dor, a pobreza e outros acidentes aos quais a vlda humana est6 sujeita, isso n60 ocorre com
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    Primeira parte -0+Ir*manismo e a R e n a s c e n p a igual preocupa<do, seja porque tais acidentes p6lidos e lacrimosos, um quarto sern luz, cirios ndo sdo absolutamente necess6rios (a maior acesos, m6dicos e padres apinhados 6 nossa parte dos homens transcorre a vida sern provar cabeceira: em suma, so horror e espanto ao a pobreza, e outros ainda sem provar dor e nosso redor. Eis-nos j6 sepultados e soterra- doenp, como Xenofilo o Musico, o qua1 viveu dos. Rs crian~as t&m medo at6 de seus ami- cento e seis anos com sairde plena) ou por- gos, quando os v&em com aquela m6scar0, e que, no pior dos casos, a morte pods p6r fim, assim a temos nos. E precis0 tlrar a mdscara quando nos aprouver, e eliminar todos os ou- das coisas, e tamb6m das pessoas: quando for tros inconvenientes, mas, quanto 6 morte, ela tirada, encontraremos sob ela apenas aquela 6 inevit6vel. mesma morte que um servo ou uma simples camareira assistiram sem nenhum medo. Feliz 4. Ensinar a morrsr 6 ensinar a viver a morte que acontece sern os enfeites de tal aparato. Eu, no momento, estou, grasas a Deus, M~chel Montaigne, de em tal condi<do que posso partir quando Iha Ensolos. aprouver [. . .]. Como os egipcios que, depois de seus banquetes, mandavam oferecer aos presentes uma grande imagem da morte por algubm que lhes gritava: "Rebe e goza, pois, quando mor- to, assim serds": do mesmo modo tenho por h6bit0, de modo continuo, manter a morte ndo so no pensamento mas tamb&m no boca; e n60 h6 nada de que me informe com tanto prazer como do morte dos homens: que palavras, que aspecto, que postura tiveram naquele momen- to, e ndo h6 passagem das h~storias que eu ndo note com tanta aten<do.Pela interpola<bo de meus exemplos manifesto-se como eu te- nha particular amor por este assunto. Se eu Fosse um fazedor de livros, faria um livro co- mentado sobre d~versasmortes. Quem ensi- nasse os homens a morrer, estaria lhes ensi- nando a viver. 5. € prsciso tirnr a mirscara das coisas, s tamb6m das pessoas Ora, pensei frequentementede onde pro- v&m que nos guerras a imagem da morte, tanto ao v&-la em nos como nos outros, nos parece sern compara<do menos terrivel do que em nossas casas; de outra forma, veriamos um ex&rc~to rnbd~cos de carpideiras: e pensei de e que, sendo ela sempre uma so, h6 sempre mais for~a dnimo nos pessoas de aldeias e de de baixa condi~do que nas outras. Na verda- do de, creio que existam as imagens e apar&ncias terriveis, com as quais pintamos a morte e que Frontispicio de uma edi@o dos Essais nos ddo mois medo do que ela propria: um de Michel de Montaigne (Paris, 16S9). modo completamente d~ferente se compor- de Notemos a pergunta admoestadora "que sei eu?" tar, os gritos das mdes, das mulheres e dos (que sais-je?) sob o retrato do autor, filhos, as visitas de pessoas espantados e aba- que represents bem o ceticismo professado' tidas, a assisthncia de uma multiddo de servos pelo fiMsofo.
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    I. Crasmo deRotterdam ea '+hilosophia Christi" Erasmo (1466-1 536) e contrario a filosofia compreendida como constru@o de tip0 aristotClico-escol6stic0, centrada sobre problemas metafisicos, fisicos e dialeticos. A verdadeira filosofia e, para Erasmo, conhecimento sapiencialde vida, e sobretudo C! sabedoria e pratica de vida crista"; o caminho que Cristo indicou para a salvagao 6 o mais simples: fe sincera, caridade n%ohipbcrita e esperanga aue nil0 se enveraonha. Nesse sentido, ha a necessidade de vol- kr as origens, tambem com instrumentosfilol6gicos adequados. A manifestasao mais peculiar da filosofia de Erasmo s en- A ~ o s i ~ a o e contra na obra Elogio da loucura, na qua1 Erasmo, depois de ofe- recer toda uma gama de graus de "loucura", apresenta esta ulti- ma na sua autenticidade como reveladora da verdade, como d, ::Ez:o conceito aquilo que rompe os veus e faz ver a comedia da vida; e o 6pice da loucura esta na fe em Cristo, que e a loucura da Cruz, e sobre- , tudo na felicidade celeste, que aos fieis e concedido a vezes s saborear ja aqui, sobre a terra. Muitas posiqaes de Erasmo, sobretudo a critica a lgreja e ao clero renascentista, antecipam algumas posiq8es de Lutero, embora de mod0 atenuado e com grande fineza; todavia, depois da ruptura de Lutero com Roma, Erasmo n%oe juntou a ele, mas escreveu contra ele o tratado Sobre o livre- s arbitrio. mo de Rotterdam e, sobretudo, corn Lutero . - posiqzo, a vida e a obra de kvasmo (e, depois, corn os outros reformadores). 0 primeiro p6s o humanism0 a servieo da Reforma sem romper com a Igreja catolica; ja o segundo comprometeu o proprio huma- Todo o pensamento humanista-renas- nismo e quebrou a unidade cristii. centista C perpassado por um poderoso Comecemos por Erasmo. frimito e por grande anseio de renovaqiio Desiderius Erasmus (esse C o nome lati- religiosa. Vimos, inclusive, que a propria pa- nizado do flamengo Geer Geertsz) nasceu lavra "Renascenqa" apresenta raizes tipica- em Rotterdam em 1466 ( 6 possivel que a mente religiosas. Tambkm vimos emergirem data de nascimento seja tambCm 1469). tematicas especificamente religiosas em al- Ordenado sacerdote em 1492, pediu te ob- guns humanistas, e a grandiosa tentativa de teve dispensa do ministirio e do habito. Mas construir uma "docta religio" em Ficino, nem por isso seus interesses religiosos se bem como a posiqiio analoga de Pico. Mas enfraqueceram. Em muitas de suas posigoes a explosiio da problemitica religiosa, por teoricas, sobretudo na critica a Igreja e ao assim dizer, ocorreu fora da Italia, com Eras- clero renascentista, embora de forma ate-
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    68 Primeira parte - 8tl~~wmnismoa RenascenCa e nuada e com grande fineza, ele antecipou livre-arbitrio (1524) ja citado, suas ediqoes algumas posigoes de Lutero, tanto que foi de Padres da Igreja e, sobretudo, a ediqiio acusado de ter preparado o terreno para o critica do texto grego do Novo Testamento protestantismo. Mas, depois da flagrante (1514-1516), com a relativa traduqiio. ruptura de Lutero com Roma, Erasmo niio se alinhou com ele, chegando at6 a escrever contra ele (embora impelido por varias so- licitaqoes de amigos e niio espontaneamen- ConcepC6o humanists te) um tratado intitulado Sobre o livre-arbi- d a filosofia crist6 trio. Mas tambkm niio se alinhou a o lado de Roma, preferindo ficar numa posiqiio propria ao assumir ambigua posiqiio de neu- Erasmo tinha aversiio a filosofia enten- tralidade que, se lhe foi favorivel por certo dida como construqiio de tip0 aristotklico-es- periodo, com o correr do tempo foi-lhe pre- colastico, centrada sobre problemas metafi- judicial, deixando-o isolado e sem seguido- sicos, fisicos e dialkticos. Contra essa forma de res. E, assim, a grande fama que granjeara filosofia adota, alias, tons quase de desprezo. em vida acabou se dissolvendo rapidamen- A filosofia 6 , para Erasmo, o conhecer- te depois de sua morte, ocorrida em 1536. se a si mesmo ao mod0 de Socrates e dos Entre suas obras, merecem especial men- antigos: k conhecimento sapiencial de vida e, qiio 0 manual d o soldado cristzo (1504), os sobretudo, k sabedoria e pratica de vida cris- Prove'rbios (publicados em sua redaqiio de- t2. E a sabedoria cristii niio tem necessidade finitiva em 1508), o Elogio da loucura, de de complicados silogismos, podendo ser al- 1509 (impressa em 1511), o tratado Sobre o canqada em poucos livros: os Evangelhos e as Epistolas de siio Paulo. Escreve Erasmo: "Que outra coisa k a doutrina de Cristo, que ele proprio denomina renascenGa, sen50 um retorno a natureza bem criada?" Essa filoso- fia de Cristo, portanto, i uma "renascenqa", que representa um "retorno a natureza bem criada". E os melhores livros dos pagiios con- t&m "grande numero de coisas que concor- dam com a doutrina de Cristo". Para Erasmo, a grande reforma religio- sa se resume em sacudir dos ombros tudo aquilo que o poder eclesiastico e as dispu- tas dos escolasticos acrescentaram simpli- cidade das verdades evangklicas, confun- dindo-as e complicando-as. 0 caminho que Cristo indicou para a salva@o 6 o mais sim- ples: fe' sincera, caridade niio hipocrita e es- peran~a niio se envergonha. Se tomarmos que os grandes santos como exemplo, veremos que eles niio fizeram outra coisa sen50 viver com liberdade de espirito a genuina doutri- na evangklica. E a mesma coisa pode ser en- contrada nas origens no monaquismo e na vida +st5 primitiva. E preciso, portanto, retornar as origens. E nessa otica de retomada das fontes que se inserem a ediqiio critica e a traduqio do Novo Testamento (que Erasmo gostaria de ter visto nas miios de todos), alkm da edi- qiio dos antigos Padres: Cipriano, Arnobio, Ireneu, Ambrosio, Agostinho e outros (nes- se sentido, Erasmo pode ser considerado o iniciador da patrologia). A reconstruq50 filologica do texto e sua correta ediqiio d m
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    portanto significado bemprecis0 em Eras- mas da qual, as vezes, C dado aos piedosos mo, um sentido que vai alCm da mera ope- perceberem, ja aqui nesta terra, o sabor e o raq5o tCcnica e erudita. perfume, pelo menos por breve momento. A rigidez com que Erasmo criticou pa- pas, prelados, eclesiasticos e monges do seu O conceit0 erasmiano tempo e certos costumes dominantes na Igre- d e "lowzMraN ja, bem como certas afirmaqdes doutrina- rias que fez, valeram-lhe a avers50 dos ca- tolicos, que, mais tarde, puseram no Index E no Elogio da loucura que encontra- algumas de suas obras e recomendaram cau- mos o espirito filosofico erasmiano em sua tela critica em relaq5o a outras. manifestaq50 mais peculiar. Trata-se de uma Lutero, porCm, enfureceu-se com a po- obra que se tornou muito famosa e entre as kmica sobre o livre-arbitrio, definindo Eras- poucas obras suas que ainda hoje se kem mo, com insolita violencia, como ridiculo, de bom grado. tolo, sacrilego, tagarela, sofista e ignorante, 0 que C essa "loucura"? qualificando sua doutrina como um misto de N5o C ficil individua-la e defini-la, da- "cola e lama", de "lixo e excrementos". Mas do que Erasmo a apresenta em extensa ga- Lutero, como logo veremos, n5o admitia opo- ma, que vai do extremo (negativo)em que se siqdes. Com efeito, para alcanqar objetivos manifesta a pior parte do homem, ao extre- em parte identicos, esses dois homens trilha- mo oposto, que consiste na fC em Cristo, que vam caminhos de direqdes opostas. P I C a loucura da cruz (corno o proprio s5o Paulo a define). E, entre os dois extremos, Erasmo apresenta toda uma gama de graus de "lou- cura", num jogo muito habil, por vezes usan- do a ironia socratica, outras vezes gostosos paradoxos e outras ainda uma critica dila- cerante e um n50 disfarqado desapontamen- to (corno quando denuncia a corrupqiio dos costumes da Igreja da Cpoca). As vezes, Erasmo denuncia a loucura com a evidente intenqzo de condenaq50; ou- tras vezes, como no caso da fC, com a inten- q5o evidente de exaltar seu valor transcen- dental; outras, ainda, simplesmente para mostrar a ilusiio bumana, alias, apresentan- do-a como elemento indispensavel do viver. A "loucura" C como uma vassoura ma- gica, que varre tudo o que se antepde a com- preens50 das verdades mais profundas e se- veras da vida ou que nos faz ver que as vezes, sob as vestes de um rei, nada mais ha do que um pobre mendigo ou o contrario, e que as vezes, sob a miscara do poderoso, nada mais h i do que um vil. A "loucura" erasmiana arranca os vCus, fazendo-nos ver a comCdia da vida e a verdadeira face daqueles que se escondem sob mascaras; mas, ao mesmo tem- po, mostra o sentido do palco, das mascaras e dos atores, procurando de certa forma fa- 0 espirrto frlostific-o c~ils~ni~l~lo zer com que se aceitem todas as coisas como elas s5o. Assim, a "loucura" erasmiana 6 csplrc-'1-sc, I I O Elogio J a l o u c u r ; ~ : l ~Ji'l'liioj.Lz( ' I L ~ l o ~ ~ i; 1.6'1 ~ ' l " ~ 1 L ' l ~ ~ ~ d l l.'. l ' s ~ ll - c ~ l i ~ ~t ~ i d tlql4i/o q l t r sc3 r ~ z t c ~ / ) '7 kc, ~ o t i 1 / ) r c c ~ 1 1 ~ 2 0 ~ ~o~ rr ( reveladora de "verdade". '/'IS l~Prii'zci(5111111s / ~ r o f l l t l t ~6, s1,1 lc>I.lls i l l l ~ls [ h , 0 ponto culminante da "loucura" eras- f;rz c o i n / ~ r i ~ e r ~ oi e r t sc~rrtitio iiirs s o i s l l s ; miana, como diziamos, esta na fC. c o ~ 1 1 1 1 1 ~ z " l o 1 i ~ l l r ~C " ~ I T I I ~ost'i I1 / 1 1 fb. dt z Y I ~ E o cume dos cumes da "loucura" C a PLigina f;lld/ tio 1-logio J a l o u c u r a felicidade celeste, que C propria da outra vida, COIH 1 1Z I ! ~ S C ' I ZdeO ~ 0 / ~ ~ 1 ' ]Olfl'171. 4i /J ~ 0111
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    II. MartiM ~ Lutero O * A nosicSo de Lutero (1483-1546) em relacao aos filosofos e totalmente negativa] ele negava qbalquer valor a uma' pesquisa racional autbnoma, considerando a filosofia como fruto da soberba abominavel A posi~so d o homem. Quanto 3s relasties com o movimento humanista, de Lutero Lutero: em rela~do a) deu grande voz ao desejo de renova~ao religiosa e 2 ne- I a fi~osofia cessidade de regeneragao, que constituem as proprias raises da e ao pensamento Renascen~a; renascentista b) levou as extremas conseqijCncias o principio humanista da + 2 1-2 valta 4s origens, apresentando a volta ao Evangelhocomo revolu- ~a"o sub versa"^ da tradiciio cristk e c) rompeu com a tradisiio na sua totahdade, porque a teologia luterana nega qualquer valor a propria fonte da qua1 brotam as humanae litterae e a especula- @o filosofica, e confia a salva@o inteiramente a fe. e Lutero d o substancialmente trCs. penas. A doutrina tradicional da fe como pelas obras, enquanto s com base na tese de que o ho- ,sozinho nao pode fazer nada, lusivamente do amor divino: a fe esta regar-se totalmente a Deus. ilidade da Escritura, considerada como do o que sabemos de Deus e da rela- dito pelo prbprio Deus na Escritura: ape- dade infalivel de que temos necessidade, e toda a tradi@o mais nil0 fazem do que I do livre exame das Escrituras. Entre o e m intermediario especial: um cristao isola- nte por Deus, pode ter raza"o contra u m pregar a palavra de Deus. 1 d' 1 e L~tero SMQS veIaC&s Romanos (1515-1516), as noventa e cinco Teses sobre as indulgBncias (1517), as vinte corn cl filosoficl e oito teses relativas i Disputa de Heidelberg (1518) e os grandes escritos de 1520, que J i se disse muito bem que "ubi Eras- constituem verdadeiros manifestos da Re- mus innuit ibi Luterus irruit" ("Onde Eras- forma: Apelo a nobreza cristii da napio ale- mo aludiu, Lutero irrompeu"). Com efeito, mii pela reforma do culto cristiio, 0 cativei- Lutero (1483-1546)irrompeu no cenirio da ro babil6nico da lgreja e A liberdade do vida espiritual e politica da tpoca como au- cristiio, altm do Servo arbitrio, contra Eras- tEntico furaciio, que envolveu toda a Euro- mo, em 1525. pa e cujo resultado foi a dolorosa ruptura Do ponto de vista historico, o pspel de da unidade do mundo cristiio. Do ponto de Lutero t da maior importincia, pois com vista da unidade da ft, a Idade Mtdia ter- sua Reforma religiosa logo se entrela~aram mina com Lutero, iniciando-se com ele im- elementos sociais e politicos que mudaram portante fase d o mundo moderno. a fisionomia da Europa, sendo tambtm de Entre os numerosos escritos de Lutero, importincia primordial em termos de his- podemos recordar: o Comentario a carta aos t6ria das religi6es e do pensamento teol6gi-
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    71 Capitulo quinto - A RenascenGae a Religi60 co. Entretanto, Lutero merece um lugar tam- z20. Para ele, a filosofia era v5 sofistica- bem em termos de historia do pensamento $20 e, pior ainda, fruto daquela absurda e filosofico, seja porque verbalizou a instiin- abominavel soberba propria do homem cia de renovaggo que os filosofos da Cpoca que quer basear-se em suas proprias for- fizeram valer, seja por algumas valtncias te6- gas e n5o na unica coisa que salva, isto C, ricas (sobretudo de carater antropologico e a fi. teologico) intrinsecas ao seu pensamento Nessa optica, Aristoteles parece-lhe co- religioso, seja ainda pelas consequtncias que mo que a expressgo de certa forma paradig- o novo tip0 de religiosidade por ele suscita- matica dessa soberba humana. 0 unico filo- do exerceu sobre os pensadores da Cpoca sofo que n i o t inteiramente envolvido nessa moderna (por exemplo, sobre Hegel e Kier- condenaqio parece ser Ockham; mas, pre- kegaard) e da Cpoca contemporiinea (por cisamente ao separar e contrapor f e reli- C exemplo, certas correntes do existencialismo giio, fora Ockham que, sob certos aspec- e da nova teologia). tos, abrira urn dos caminhos que levariam i A posiqio de Lutero em relaggo aos posiqio de Lutero. filosofos i totalmente negativa: a descon- fianqa nas possibilidades de a natureza hu- mana salvar-se por si sd, sem a graga divi- na (como logo veremos), levaria Lutero a As r e l a G ~ e de L u t e r o s n2o dar qualquer valor a uma investiga@o racional autdnoma, a qualquer tentativa corn o p e n s a r n e n t o de examinar os problemas de fundo d o renascentista homem corn base no logos, na pura ra- Vejamos brevemente a posiq5o de Lu- tero no iimbito da Cpoca renascentista, para depois examinar os nucleos centrais de seu pensamento religiose-teologico. As relagdes de Lutero com o movimen- to humanista ja estio bastante claras (e, em parte, ja as antecipamos com algumas ob- servaldes). a ) Por um lado, ele verbaliza com voz potente e at6 prepotente aquele desejo de renova@o religiosa, aquele anseio de re- nascimento para uma nova vida e aquela necessidade de regenera@o que constitu- em as proprias raizes da Renascenga. E, desse ponto de vista, a Reforma protestan- te pode ser vista como um dos resultados desse grande e multiforme movimento es- piritual. b) Alim disso, Lutero retoma e leva as ultimas consequhcias o grande principio do "retorno as origens", ou seja, do retorno as fontes e aos principios, que os humanistas haviam procurado realizar pel0 retorno aos classicos, que Ficino e Pico pretendiam me- diante o retorno aos prisci theologi ( i s ori- gens da revelagio sapiencial: Hermes, Orfeu, Zoroastro, a cabala) e que Erasmo ja apon- tara claramente no Evangelho e n o p e n - samento das origens cristis e dos Padres da Igreja. Mas o retorno a o Evangelho, que Erasmo havia procurado fazer mantendo equilibrio e medida, em Lutero torna-se re- volu@o e subvers20: tudo aquilo que a tra-
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    72 Prirneira parte - O t l u w n n i ~ m o e a Renascencn 0 s pontos doutrinirios basicos de Lu- tero S ~ substancialmente tris: O 1)a doutrina da justificagio radical do homem unicamente pela fb; 2) a doutrina da infalibilidade da Es- critura, considerada como a unica fonte de verdade; 3) a doutrina do sacerdocio universal e a decorrente doutrina do livre-exame das Escrituras. Todas as outras proposig6es teologicas de Lutero nada mais siio do que corolarios ou conseqiiincias que derivam desses principios. 0hornern se justifica apenas r e l a f.e i sem a s obras A doutrina tradicional da Igreja era e C a de que o homem se salva pela fe' e pelas obras: a fC so C verdadeira quando se pro- longa e se expressa concretamente nas obras; as obras S ~ testemunhos autinticos de vida O cristi, quando s i o inspiradas e movidas pela f i , impregnando-se dela. Ou seja, as obras digiio cristii construira ao longo dos s k u - S ~ indispensaveis. O 10s parece a Lutero incrustagiio, constru- Lutero contestou energicamente o va- giio artificiosa e peso sufocante, do qual era lor das obras. Por qua1 razao? Vamos assi- precis0 se libertar. Para ele, a tradigiio mor- nalar apenas de passagem as complexas ra- tifica o Evangelho. E mais: uma C a antite- z6es de carater psicologico e existencial, sobre se do outro, a tal ponto que, diz Lutero, as quais os estudiosos muito insistiram, por- "o acordo 6 impossivel". Portanto, para que aqui nos interessam predominantemen- Lutero, o retorno ao Evangelho significa niio te as motivag6es doutrinarias. Durante mui- apenas urn dristico redimensionamento, to tempo, Lutero sentiu-se profundamente mas at6 mesmo a eliminagiio do valor da frustrado e incapaz de merecer a salvaqio tradi~iio. com as proprias obras, que lhe pareciam c) Isso, evidentemente, comporta uma sempre inadequadas, e, conseqiientemente, ruptura niio apenas com a tradigiio religio- a angustia diante da problematicidade da sa, mas tamb6m corn a tradigiio cultural, que salvaqio eterna o atormentou incessante- em muitos asuectos constituia o substrato mente. A soluq80 que adotou, afirmando que daquela. Como pensamento e como teoria, basta a fC para salvar-se, libertou-o comple- portanto, o humanism0 C rejeitado em blo- ta e radicalmente dessa angustia. co. Nesse sentido, a posigiio de Lutero C de- Mas eis as motivaq6es conceituais: nos, cididamente anti-humanista: com efeito, o homens, somos criaturas feitas "do nada" nucleo central da teologia luterana nega qual- e, enquanto tais, niio podemos fazer nada quer valor verdadeiramente construtivo B de b o m que tenha valor aos olhos de peus, dropria fonte de onde brotam as humanae isto e, nada que tenha valor para nos trans- litterae, bem como i especulagao filosofica, formar naquelas "novas criaturas" e reali- como j i recordamos, visto que considera zar aquela "renascen~a" exigida pelo Evan- a raziio humana como nada diante de Deus gelho. Como Deus nos criou do nada com e visto que confia a salvagiio inteiramente . -. um ato de livre vontade, da mesma forma a fe. nos regenera com ato analog0 de livre von-
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    73 Capi'tulo quinto - $ Renascencn r a Tirligi&o tade, completamente gratuito. Depois do pe- precisas indicam que deviam circular pel0 cad0 de Ad50, o homem decaiu a tal ponto menos cem mil exemplares do Novo Testa- que, por si sd, niio pode fazer absolutamen- mento e cerca de vinte mil exemplares dos te nada. Considerado em si mesmo, tudo Salmos. Entretanto, a demanda era muito aquilo que deriva do homem i "concupis- superior a oferta. E a grande ediqiio da Bi- czncia", termo que, em Lutero, designa tudo blia feita por Lutero respondia precisamen- aquilo que i ligado ao egoismo, a o amor de te a essa necessidade: dai seu triunfal suces- si proprio. Sendo assim, a salvaqiio do ho- so. Portanto, n5o foi Lutero que (como se mem n5o pode deixar de depender do amor dizia no passado) solicitou aos cristios que divino, que i dom absolutamente gratuito. lessem a Biblia, mas foi ele quem, mais do A f i consiste em compreender isso 5 entre- que todos, soube satisfazer essa premente gar-se totalmente a o amor de Deus. E preci- necessidade de leitura direta dos textos sa- samente como ato de total confianqa em grados, que ja havia amadurecido em sua Deus que a f i nos transforma e regenera. ipoca. A f i "justifica sem obra alguma". Ain- Uma diferenqa, contudo, merece ser da que, dada a f i , Lutero admita que dai ressaltada. 0 s estudiosos observaram que, decorrem boas obras, nega que elas possam na Biblia, os humanistas procuravam algo ter aquele sentido e aquele valor que tradi- diferente do que Lutero buscava: com efei- cionalmente lhes eram atribuidos. to, os primeiros queriam encontrar nela um Deve-se recordar que essa doutrina pres- codigo de comportamento itico, as normas supoe como fundo toda a quest50 das "in- da vida moral, a o passo que Lutero pro- dulg2nciasn (e as polgmicas relativas), liga- da justamente 2 teologia das "obras" (sobre a qual, aqui, so estamos acenando), mas que vai muito alim dessas polcmicas, atingindo os proprios fundamentos da doutrina cris- tii. Lutero niio apenas corrigiu os abusos li- gados i pregaqiio das indulgencias, mas tam- i bim cortou pela raiz a base doutriniria, com gravissimas conseqiiCncias, das quais fala- remos adiante. % j "E-scvit~ra" C a O ~ O fonte de vrrdadr Tudo o que ja dissemos seria suficiente para tornar compreensivel o sentido do se- gundo ponto basico do luteranismo. Tudo o que nos sabemos de Deus e da relaqiio ho- mem-Deus nos i dito pel0 proprio Deus na Escritura. Esta, portanto, deve ser entendi- da com rigor absoluto, sem a interferhcia de raciocinios e glosas metafisico-teologicas. So a Escritura constitui a autoridade infalivel de que necessitamos: o papa, os bis- pos, os concilios e toda a tradiqio niio so- mente n i o beneficiam, mas at6 obstaculizam a compreensiio do texto sagrado. Essa energica remitencia a Escritura j i era propria de muitos humanistas, como vimos. Mas os estudos recentes destacaram rfe / L , I ~ Z ~ Y dZi ~ t i d o s tcxtos L i l ~ l l z ' 7 t i l 4 ~ c ~ r - i t f '1l1 d b 1 ) 0 ' ~ ~ 7 . S~~~YLZ~I'OS. l l - t C L I C l l 0 t ~ l 1 O S/ k l C l ' S S O [ J O Y i i l l 4 S i l rii7 S R I I I L ~l C' ~ ( ' ~ ~ l t / L l t ~ ~ tambkm o fato de que, quando Lutero deci- P ~ I 1I, 1 1 t c w C ~ / J P I I L I '7 ~ l.;surt~ir'r diu-se a empreender a traduqiio e a ediqiio da Biblia, ja circulavam numerosas ediq6es tanto do Antigo como do Novo Testamen- to. Calculos realizados com bases bastante
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    cura nela ajustificapio da fe', diante da qual induziu os principes a controlarem a vida (como ele a entende), o c6digo moral, religiosa, chkgando a t i a exorti-10s a amea- considerado em si, perde qualquer signifi- gar e punir todos aqueles que desleixavam cado. as maticas religiosas. Desse modo. o desti- no ;spiritual d; individuo tornavaLse patri- m6nio da autoridade politica, nascendo as- sim o principio cuius regio, eius religio ("a religiio deve depender do Estado"). 0 terceiro ponto basico do luteranismo pode ser muito bem explicado, alCm de pela logica interna da nova doutrina ( n i o ha ne- cessidade de um intermediirio especial en- ConotaG6es pessimistas tre o homem e Deus, entre o homem e a e iwa~ionalistas Palavra de Deus), tambCm pela situagio his- torica que se viera criando no fim da Idade MCdia e durante o Renascimento: o clero se mundanizara, perdera credibilidade, n i o se vendo mais uma distingio efetiva entre pa- 0 s componentes pessimistas e irracio- dres e leigos. nalistas do pensamento de Lutero estio evi- As revoltas de Wyclif e Huss, no cre- dentes em todas as suas obras, mas de mod0 pusculo da Idade MCdia, s i o particularmen- especial no Servo-arbitrio, escrito contra te significativas. Erasmo. Nesse escrito, aquela "dignidade do N i o era precis0 muito, portanto, para homem", t i 0 cara aos humanistas italianos extrair dai as conclus6es extremas, como fez e da qual Erasmo havia sido defensor, em justamente Lutero, isto i, a idCia de que um ampla medida subverte-se inteiramente, cristio isolado pode ter razio contra um apresentando-se com sinal oposto. concilio, se estiver iluminado e inspirado 0 homem so pode se salvar se com- diretamente por Deus, n i o sendo portanto preender que n i o pode em absoluto ser o necessiria uma casta sacerdotal, visto que artifice de seu proprio destino: com efeito, cada cristio t sacerdote em relagio h comu- sua salvagio niio depende dele, mas de Deus; nidade em que vive. Todo homem pode pre- enquanto estiver tolamente convencido de gar a palavra de Deus. Assim, elimina-se a que pode agir por si proprio, estara se ilu- disting2o entre "clero" e "leigos", embora dindo, nada rnais fazendo do que pecar. 0 n i o seja eliminado o ministkrio pastoral en- homem precisa aprender a "desesperan- quanto tal, indispensavel em uma socieda- qar-se de si mesmo" a fim de abrir cami- de organizada. nho para a salvagio, ja que, desesperan- Todavia, nesse aspecto, as coisas logo gando-se de si mesmo, entrega-se a Deus e assumiram uma conotag20 francamente ne- tudo espera da vontade de Deus - e, des- gativa. A liberdade de interpretagio abriu se modo, aproxima-se da graga e da sal- caminho a uma sCrie de perspectivas n i o vaqio. desejadas por Lutero, que, pouco a pouco, Considerado em si mesmo, ou seja, sem foi se tornando dogmatic0 e intransigente, o Espirito de Deus, o g h e r o humano C "o pretendendo, em certo sentido, estar dota- reino do diabo", t "um caos confuso de do daquela "infalibilidade" que contestara trevas". ao papa ( n i o por acaso foi chamado de "o 0 arbitrio humano e sempre e somen- papa de Wittenberg"). E pior ainda aconte- te "escravo": de Deus ou do Dem6nio. Lu- ceu quando, tendo perdido toda confianqa tero compara a vontade humana a urn ca- no povo cristiio organizado em bases reli- valo que se encontra entre dois cavaleiros: giosas, em virtude dos infinitos abusos, Lu- Deus e o Dembnio; tendo Deus sobre o dor- tero entregou aos principes a Igreja por ele so, quer andar e vai aonde Deus quiser; ten- reformada: nasceu assim a "Igreja de Esta- do no dorso o Dembnio, anda e vai aonde do", que C a antitese daquela Igreja i qual a i quer o Dem6nio. Ela n i o possui sEquer a Reforma deveria ter levado. faculdade de escolher entre os dois cava- Portanto, aconteceu que, depois de ter leiros, s20 eles que disputam entre si o di- afirmado solenemente a liberdade da fb, reito de cavalgi-la. E a quem acha "injus- Lutero depois se contradisse de mod0 cla- ta" essa sorte do homem, que desse mod0 moroso nos fatos. Pouco a pouco, Lutero fica predestinado, Lutero responde com
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    75 Capitulo quinto - $ R r n a s c e n G n e n Rrl~cJ~do uma doutrina extraida d o voluntarismo reza, o homem outra coisa niio pode fazer ockhamista: Deus C Deus precisamente por- senio pecar; e, quando pensa de acordo com que n i o precisa prestar contas daquilo que seu intelecto, outra coisa n i o pode fazer se- quer e faz, estando bem acima daquilo que n i o errar. As virtudes e o pensamento dos parece justo ou injusto para o direito hu- antigos s i o vicios e erros. mano. Nenhum e s f o r ~ ohumano pode salvar Desse modo, natureza e graqa ficam o homem, mas somente a graGa e a miseri- radicalmente separadas, assim como raziio cordia de Deus. Essa C a unica certeza que, e fC. Quando age de acordo com sua natu- segundo Lutero, nos d5 a paz. P ' a Martinho Lutero diante da Dieta de Worms (1.521) e m que foi afastado d o lmpkrio por conta de Carlos V. Segundo Lutero, ndo e' necessaria uma casta sacerdotal, a pois cada cristiio d sacerdote e m rela~iio comunidade e m que vive, mas a liberdade de interpreta@o abriu caminho para u m a se'rie de perspectivas tamhkm politicas ndo deseiadas por Lutero.
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    76 Primeira parte - O t l w n a n i s t n ~ e a Renas~en~a III. Mlrich Z w i ~ ~ l i o , critura C a unica fonte de verdade; 6) o papa e os concilios n5o possuem uma autoridade que v alim da autoridade das Escrituras; A c) a salvaq5o ocorre pela f6 e n5o pelas obras; Ulrich Zwinglio (1484-1531) foi ini- d) o homem C predestinado. cialmente discipulo de Erasmo. E, apesar de Separavam Zwinglio de Lutero, alCm um rompimento formal que teve com ele, de algumas idiias teologicas (em particular permaneceu profundamente ligado a men- sobre os sacramentos, aos quais ele dava um talidade humanista. Aprendeu o grego e o valor quase que simbolico), tambCm a cul- hebraico e estudou niio somente a Escritu- tura humanista, com fortes elementos de ra, mas tambCm os pensadores antigos, racionalismo, e um marcado nacionalismo como Plat50 e Aristoteles, Cicero e S2neca. helvitico (que, inconscientemente, o levou Pelo menos no inicio de sua evoluqiio espi- a privilegiar os habitantes de Zurique, como ritual, compartilhou a convicq50 de Ficino se eles fossem os eleitos por excelhcia). e de Pico sobre a revelaqiio estendida uni- Para dar uma idCia concreta do desdo- versalmente, mesmo fora da Biblia. bramento da doutrina zwingliana em senti- Em 1519 comeqou a sua atividade de do humanista-filosofico, escolhemos dois pregador luterano na Suiqa. Zwinglio era pontos muito importantes: a quest50 do pe- ativo defensor das teses fundamentais de Lu- cad0 e da convers5o e a retomada de tema- tero, particularmente das seguintes: a ) a Es- ticas ontologicas de carater panteista. Em Zurrque (aqut reproduztda em utrn mc~srioquznhmtrsta), desenvolueu suu obra Zwinglzo, conutcto tiefensor de algumas das teses fundanzentats de Lutero. U m forte patrrotrsmo heludt~co o leuou a przurlegrar ~nconsczentemente os hab~tantes tul czdade, de como se fossem os elertos.
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    No que serefere ao pecado, Zwinglio logo Zwinglio deu sinais de autonomia, n5o reafirma que ele tem sua raiz no amor de si cessou nem mesmo com a sua morte, que proprio (egoismo).Tudo aquilo que o homem ele assim comentou: "Zwinglio teve o fim faz enquanto homem C determinado por esse de um assassin0 (...); ameaqou com a espa- amor de si proprio, sendo, portanto, pecado. da e teve a sorte que merecia." Lutero afir- A convers5o C uma "iluminag50 da mente". mara solenemente (com as palavras do Evan- Para Zwinglio, a predestinag50 se in- gelho) que "quem usar a espada, perecera sere em um context0 determinista, e i con- ~ e l espada", pois a espada n5o deveria ser a siderada um dos aspectos da Providtncia. usada em defesa da religiiio. Mas depois se Ha um sinal seguro para reconhecer os elei- contradisse gravemente: ja em 1525 ele exor- tos, sinal que, precisamente, consiste em ter tara Filipe de Hessen a reprimir com san- f6. Enquanto eleitos, os fiCis s5o todos iguais. gue os camponeses revoltados sob a lideran- A comunidade dos fi6is se constitui tambCm qa de Thomas Muntzer, que fora convertido como comunidade politica. Assim, a Refor- por ele e nomeado pastor de uma localida- ma religiosa desembocava em uma concep- de da SaxBnia. qzo teocratica, sobre a qua1 pesavam ambi- A espiral da violhcia j i se tornara guidades de diversos tipos. irreprimivel: o germe das guerras religiosas Zwinglio morreu em 1531,combaten- estava se difundindo fatalmente e se torna- do contra as tropas dos cantees catolicos. ria uma das maiores calamidades da Euro- A ira de Lutero contra ele, que comeqou t5o pa moderna. IV. Calvin0 e a reforma de Genebra Calvino 0 destino do franc& JoBo Caivino (1 509-1564) esta ligado a cidade de Genebra, onde, de 1541 a 1564, soube realizar um teocrdtico govern0 teocratico inspirado na Reforma. Como Lutero, Calvino ern Genebra est6 convicto de que a salva@o esta apenas na Palavra de Deus +§I revelada na Sagrada Escritura, e que o pecado original eliminou completamente os dons sobrenaturais do homem. 0 s conceitos peculiares do Calvinismo s%o: a) a Provid@ncia, entendida como continua~Bo ato de cria~Bo, do cuja ag%ose estende a todos; b) a predestina@o, que consiste no eterno conselho de Deus por meio do qua1 determinou aquilo que queria fazer de cada homem. 0s pontes f ~ n d a m e n t a i s soube realizar um governo teocratico inspi- rado na Reforma, muito rigido tanto em d a t e o v i a d e Calvino relaqiio 5 vida religiosa e moral dos cida- d5os corno, sobretudo, em relag50 aos dis- Calvino (Jean Cauvin)nasceu em Noyon, sidentes. na Franqa, em 1509, formando-se sobretu- 0 calvinismo ja foi definido como o do em Paris, onde sofreu especialmente as mais dinimico de todos os tipos de protes- influCnciaqhumanistasdo circulo de Jacques tantismo. Mais pessimists que Lutero a res- Lefkvre d'Etaples (Faber Stapulensis, 1455- peito do homem, Calvino foi mais otimista 1536). Seu destino, porCm, esteve ligado 5 que ele a respeito de Deus. Enquanto, para cidade de Genebra, onde atuou sobretudo Lutero, o texto basic0 era o de Mateus 9,2 entre 1541 e 1564, ano de sua morte, e onde ("0s teus pecados te s5o perdoados"), para
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    da aue niiotenha retirado inteiramente) os don's naturais do homem. e eliminou cbm- ~letarnente dons sobrenaturais. os Como Lutero, Calvino insiste no "servo arbitrio", apresentando a obra da salva- $50, que ocorre unicamente pela f i , como obra do poder de Deus. Se nos pudCsse- mos realizar at6 mesmo a menor aq5o por n6s mesmos, por meio do nosso livre-arbi- trio, entao Deus n5o seria plenamente nos- so criador. Mas, bem mais que Lutero, Calvino insiste na predestina~iioe amplia o sentido da onipotincia do querer divino, a ponto de subordinar quase inteiramente a ele as volic6es e as decisoes do homem. Ele subs- titui o determinismo de tip0 estoico, que i de cariter naturalista e panteista, por uma forma de determinismo teista e transcen- dentalista igualmente extrema. "Providincia" e "predestinaq5ow constituem, portanto, os dois conceitos car- deais do calvinismo. Em certo sentido. a Provid2ncia C o prosseguimento do ato de criaqgo e sua aqao se estende a todos, n i o so no geral, mas tam- bim no particular, sem qualquer limite. A predestina~iioi "o eterno conselho de Deus, pel0 qual ele determinou aquilo que queria fazer de cada homem". E sim- plesmente absurdo procurar a causa de tal decis5o de Deus: ou melhor, a causa 6 a von- Calvino, a o contririo, era o de Paulo, Epis- tade livre do proprio Deus, e sua vontade e tola aos Romanos 8,31: "Se Deus esta conos- a lei suprema. CO, quem estari contra nos?" 0 proprio pecado original de Ad50 n5o E Calvino se convenceu de que Deus apenas foi permitido por Deus como tam- estava com ele a o construir a "Cidade dos bCm ele o quis e o determinou. Isso pode eleitos" na terra, que foi Genebra, o novo parecer absurdo apenas para aqueles que Israel de Deus. n i o temem a Deus e n2o compreendem que A doutrina de Calvino encontra-se so- a propria culpa de Adio, assim concebida, bretudo na Institui@o da religiiio cristi, da inscreve-se em um admiravel e superior de- qual publicou numerosas ediqoes a partir de signio providencial. 1536, em latim e em francis. Segundo Max Weber, foi da posiq5o Como Lutero, Calvino tinha a convic- protestante que derivou o espirito do capi- q5o de que a salvaqiio esti somente na Pala- t a l i s m ~ Corn efeito, Lutero foi o primeiro . vra de Deus, revelada na Sagrada Escritura. que traduziu o conceit0 de "trabalho" pel0 Qualquer representaqao de Deus que n5o termo "beruf", que significa voca@o no sen- derive da Biblia, mas sim da sabedoria hu- tido de profissiio, limitando-o, porim, as mana, t um v5o produto de fantasia, mero ? atividades agricolas e artesanais. 0 s calvi- idolo. A inteligincia e a vontade humana nistas o estenderam a todas as atividades foram irreparavelmente comprometidas pel0 produtoras da riqueza. E mais: viram na pecado de Adso, de modo que a inteligin- produq5o de riquezas e no sucesso a-ela li- cia deforma o verdadeiro e a vontade tende gado quase que um sinal tangivel preci- para o mal. samente da predestinaqgo e, portanto, um Mais precisamente, explica Calvino, o notivel incentivo a o empenho profissional. pecado original reduziu e enfraqueceu (ain- "i:"" "Qq
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    V. O u t r o s te6Iogos da Reforma e figuras ligadas a0 movimento protestante Entre os discipulos de Lutero foi importante Filipe Melanchton (1497-1560), que poremtentou uma especie de mediagao entre as posi$6esda teoiogia luterana e a tradicional. Fortes tintas racionalistas se encontram em Miguel Servet (1511-1553), que pijs em discusslo a divindade de Cristo. Lelio Socino (1525-1562) e, sobretudo, o sobrinho Fausto outras figuras Socino (1539-1604) interpretaram os dogmas cristlos em chave ligadas claramente etica e racionalista, portanto em antitese em relat;tio ao movimento a luferanos e calvinistas. protestante 0 aspecto mistico do pensamento da Reforma protestan- +§ 1 te foi levado as extremas conseqtidncias por Sebastiao Franck (1499-1542/3), por Valentim Weigel (1533-1588) e por Jakob Bdhme (1575-1624), o qua1 terS grandes infludncias sobre os pensadores ro- J n t k r p r e t e s importantes tisbona, onde as partes em causa (luteranos, calvinistas e catolicos) niio aceitaram as ba- do movimento p r o t e s t a n t e ses do acordo por ele proposto. Uma forte coloraq50 racionalista pode ser encontrada em Miguel Servet (1511- Entre os discipulos de Lutero destaca- 1553), que, em sua obra 0 s erros da Trin- se com certa importincia Filipe Melanchton dade (1531), p6s em discussiio o dogma (1497-1560), o qual, porim, atenuou pou- trinitario e, conseqiientemente, a divindade co a pouco certas asperezas do mestre e ten- de Cristo, que, para ele, foi homem que se tou uma espCcie de mediaqiio entre as posi- aproximou extraordinariamente de Deus e q6es da teologia luterana e a posiqiio catolica que os homens devem procurar imitar. Foi tradicional. A obra que lhe deu fama intitu- condenado h morte por Calvino, que niio la-se Loci communes (que conttm exposi- tolerava qualquer forma de dissensiio em q6es sintiticas dos fundamentos teologicos), questiio de dogma. publicada em 1521 e viirias vezes reeditada, TambCm dignos de menq5o foram Lelio com variantes sempre mais acentuadamen- Socino (1525-1562)e, sobretudo, seu sobri- te moderadas. nho Fausto Socino (1539-1604), que, asila- Melanchton procurou corrigir Lutero do na Polhia, fundou uma seita religiosa em trts pontos basicos: denominada "irmiios poloneses". Para 1)sustentou a tese de que a fC tem papel Socino, ao contrario do que sustentavam os essencial na salvaq50, mas que, com sua obra, outros reformadores, o homem pode "mere- o homem "colabora" com ela, funcionando cer" a graqa, porque C livre. A Escritura i a assim quase como concausa da salvaqiio; unica fonte atraves da qual conhecemos a 2) esforqou-se por revalorizar a tradi- Deus, mas a inteligcncia do homem deve se qiio, a fim de acabar com os dissidios teol6- exercer precisamente na obra de interpreta- gicos que a doutrina do livre-exame desen- $20 dos textos sagrados. E cada um C inteira- cadeara; mente livre nessa interpretaqiio. Socino ten- 3) pareceu dar certo espaqo h liberda- de a uma interpretaqiio em bases clarmente de, embora exiguo, como tambtm censurou Cticas e racionalistas dos dogmas, em widen- seu mestre pel0 carater despotico, rigidez e te antitese com o irracionalismo de fundo belicosidade. dos luteranos e dos calvinistas. Seus hibeis designios de reconciliaqiio 0 aspecto mistico proprio do pensa- dos cristiios dissiparam-se em 1541, em Ra- mento da Reforma protestante, porim, C
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    80 Primeira parte - 0+ I M M ~ C L M ~ S M ~ O e a RenascenGa levado as ultimas conseqiihcias por Sebas- As idCias de Bohme niio podem ser resumi- tiso Franck (1499-1542/3), cujos Parado- das, pois G Oexpress50 de uma experihcia x o s tornaram-se celebres (1534/35), por mistica intensamente vivida e sofrida. Tra- Valentim Weigel (1533-1588), cujas obras ta-se de verdadeiras "alucinag6es metafi- so circularam depois de sua morte, e por sicas", como ja disse alguim. Jakob Bohme (1575-1624), do qua1 se tor- As obras de Bohme foram muitissimo naram famosos sobretudo estes dois escri- criticadas, mas, talvez devido h sua opg5o tos: A aurora nascente (1612)e 0 s tr& prin- de vida simples (viveu exercendo a humil- cipios da natureza divina (1619). de profiss5o de artes5o), Bohme n5o foi Este ultimo pensador, sobretudo, iria perseguido, mas substancialmente tole- influenciar pensadores da Cpoca romsntica. rado. VI. Comtra-reforma 0termo "Contra-reforma", cunhado no Setecentos, indica hoje propriamente: a) o aspect0 doutrinal express0 na condenagao dos erros do Protestantismo e na formulagao positiva do dogma catolico; b) o conjunto das medidas restritivas e constritivas, como a instituiqao da InquisigZio romana em 1542 e a compilagao do lndice dos livros proibidos. A "Reforma catolica" designa o complexo movimento dirigi- Aspectos do a regenerar a lgreja dentro de s i mesma, que tem rakes j%no doutrinais fim da ldade Media e que depois s desdobra no decorrer da era e da Contra- reforma renascentista: manifesta-se tambdm na forma peculiar de e da Reforma militiincia vivaz, sobretudo a propugnada por Indcio de Loyola e ca tolica pela Companhia de Jesus por ele fundada (oficialmente reconhe- +§I cida pela lgreja em 1540). A ligagao entre "Reforma catolica" e "Contra-reforma" estd na fun@ocen- tral do papado interiormente renovado, sancionada solenemente durante o Con- cilio de Trento (realizado com vhrias interrupgdes, de 1545 a 1563. o ~oncilio As decisdes do Concilio, aldm disso, solicitaram ulteriormente a de Trento retomada da Escoldstica, cujo florescimento mais notdvel ocor- e a retomada reu na Espanha com Francisco Suarez (1548-1617), que com sua da Escoldstica ontologia nao deixou de influenciar o pensamento moderno, par- -+ 2 2-3 ticularmente Wolff. 0 s conceitos no caso dos conceitos de Humanismo e Re- nascimento. Essa observagiio vale tambem historiogr6ficos para o conceit0 de "Contra-reforma". d e "Contra-veforma" 0 termo "Contra-reforma" foi cunha- e d e "Reforma catblica" do em 1776 por Piitter (jurista de G~tinga), e teve logo muito sucesso. Esth implicita no termo uma conotagiio 0 s conceitos historiogrificos siio ex- negativa ("contra" = "anti"), ou seja, a idCia tremamente complexes e, no mais das vezes, de conservag5o e reag50, como que um re- S ~ gerados por uma sCrie de causas dificeis O trocesso em relagiio 5s posig6es da Refor- de determinar, como vimos, por exemplo, ma protestante. Mas os estudos feitos sobre
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    plo, a instituiqioda Inquisjq20 romana em 1542 e a compilaqio do lndex dos livros INDEX proibidos. (Sobre este ultimo ponto, deve- se recordar que a imprensa tornara-se o LIBRORVM mais formidavel instrumento de difusio das idCias dos protestantes, dai a contramedida PROHIBITORVM do Index.) ALEXANDRI V I L Pontificis Maximi A conexio entre a "Reforma catolica" iufsu editus. e a "Contra-reforma" esti na funqio cen- tral do papado que, renovado internamen- te, torna-se promotor da Contra-reforma em suas diversas manifestaqoes. Concluindo, diremos, com H. Jedin (que C o historiador que estudou mais pro- funda e amplamente este problema), que "Reforma catolica" e "Contra-reforma" de- vem ser bem distintas, justamente para bem entender suas estreitas ligaqoes: "A Refor- ma catdlica e' a reflex20 sobre si mesma re- alizada pela Igreja, tendo em vista o ideal de vida catolica que pode ser alcan~ado atra- ve's de uma renova@o interna; a Contra- Reforma e' a auto-afirma@io da Igreja nu luta contra o brotestantismo. A Reforma catoli- ca baseia-se na auto-reforma de seus mem- Frontispicio do index d m livros proihidos. bros na tardia Idade Midia; ela cresceu sob o estimulo da apostasia e chegou i vitoria pela conquista do papado, a organizaqio e a concretizacio do Concilio de Trento: C a esse movimento, que foi bastante amplo e alma da Igreja retomada em seu vigor, ao articulado, levaram pouco a pouco a des- passo que a Contra-reforma C o seu corpo. cobrir a existhcia de um complexo movi- A Reforma catdlica armazenou as for~as que mento (que se manifestou de varios modos), depois foram descarregadas nu Contra-re- voltado para a regeneraqio da Igreja no in- forma. E o ponto em que ambas se interligam terior dela mesma, movimento que tem suas e' o papado. A ruptura religiosa subtraiu a raizes no fim da Idade MCdia e que depois Igreja forqas preciosas, aniquilando-as, mas se desdobra ao longo da Cpoca renascen- tambCm despertou aquelas forqas que ainda tista. existiam, aumentando-as e fazendo com que A esse process0 de renova@o no inte- lutassem at6 o fim. Ela foi um mal, mas um rior da Igreja foi dado o nome de "Reforma ma1 do qua1 tambim nasceu algo de positi- cat61ican,termo hoje acolhido de mod0 qua- vo. Nos dois conceitos de 'Reforma catoli- se uninime. As conclus6es a que se chegou ca' e de 'Contra-reforma' estio incluidos indicam que aquele complexo fen6meno que tambCm os efeitos que a elas se seguiram." se chama "Contra-reforma" n i o teria sido possivel sem a existhcia de tais forqas de regeneraqio pr6prias da catolicidade. A Contra-reforma tem um aspect0 dou- trinario, que se expressa na condenaqio dos erros do protestantismo e na formulaqio positiva do dogma catolico. Mas tambim A Igreja catolica conta at6 hoje vinte e se manifesta numa forma peculiar de viva mi- um concilios, do Concilio de NicCia, em 325, litsncia, sobretudo a propugnada por Inacio ao Vaticano 11, de 1962 a 1965. Entretodos de Loyola e pela Companhia de Jesus por esses concilios, o de Trento (que foi o dCci- ele fundada (e reconhecida oficialmente pela mo nono), realizado de 1545 a 1563,k cer- Igreja em 1540). A Contra-reforma mani- tamente um dos mais importantes, sendo festou-se tambim sob a forma de medidas talvez aquele que goza de maior notorieda- restritivas e constritivas, como, por exem- de, embora niio tenha sido o mais numero-
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    82 Primeira parte - 6 tlumanismo e n Renascenca so nem o mais faustoso, e ainda que sua pro- diante de uma reviravolta que, na historia pria duraqso tenha de ser redimensionada da Igreja, tem o mesmo significado que as drasticamente, considerando-se o numero descobertas de CopCrnico e Galileu tim para dos anos de interrupq50 (de 1548 a 1551 e, a imagem do mundo elaborada pelas cicn- depois, de 1552 a 1561). Com efeito, a sua cias naturais." importiincia na historia da Igreja e do cato- No que se refere ao primeiro ponto que licismo foi muito grande e a sua eficacia mencionamos, que aqui C o que interessa bastante notavel. mais, deve-se notar o que segue. A importiincia desse concilio esta no 0 s documentos do concilio usam de fato de que ele termos e conceitos tomistas e escolasticos a ) tomou clara posiqio doutrinaria com parcimGnia e cautela e, corno foi bem acerca das teses dos protestantes e notado por diversos intirpretes atentos, o b) promoveu a renovaq50 da discipli- metro com que se medem as coisas C o da fe na da Igreja, t5o invocada pelos crist5os da Igreja e n i o o de Escolas teologicas par- ha muito tempo, dando precisas indicaqoes ticulares. sobre a formagio e o comportamento do Responde-se sobretudo as questoes de clero. fundo suscitadas pelos protestantes, ou seja, Deve-se destacar tambCm que, no Con- a justifica@o pela fi,a questio das obras, a cilio de Trento, a Igreja readquire a plena predestina@o e, corn grande amplitude, a consciincia de ser Igreja de "cuidado com as quest50 dos sacramentos, que os protestan- almas" e de missio, propondo-se a si mes- tes tendiam a reduzir somente ao batismo e ma corno objetivo precis0 o seguinte: "Sa- 2 eucaristia (em especial, reafirmam a dou- / U S animarum suprema lex esto" ("a lei su- trina da transubstanciaq50 eucaristica, se- prema devera ser a salvaqiio das almas"). gundo a qua1 a substiincia do p5o e do vi- Esta t uma reviravolta historica basilar, que nho se transforma em carne e sangue de Jedin analisa do seguinte modo: "Estamos Cristo; Lutero, a o invts, falava de consubs- Ticiano, "0 Concilio de Trenton, conservado e m Paris no Museu d o Louvre. Este concilio (1 545-1 56.3) marca a mais significatiua uirada da lgreja nos tempos modernos.
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    83 Capitulo quinto - $ Renascenca e a Religi60 Purticular de ulna e s t u m p represe~ta~zdoa cidude de Trento, onde se realizou o Corzcilio que nzarcou pura a Igreja u reconquista da plena consci&cid de ser "curu de alwm". tanciaqiio, o que implicava a permanincia foi expoente ilustre Tomas de Vio (1468- do piio e do vinho, mesmo realizando-se a 1533), mais conhecido sob o nome de car- presenla de Cristo, a o passo que Zwinglio deal Caietano. e Calvino tendiam a uma interpretaqiio sim- Caietano, alias, foi o primeiro que in- bolica da Eucaristia), bem como reafirmam troduziu como texto-base de teologia, ao o valor da tradi@o. invts das tradicionais Senten~asde Pedro Lombardo, a Summa Theologica de santo Tomas, que, posteriormente, se tornaria o ponto de refercncia tanto para os domini- canos como para os jesuitas. Recorde-se tambtm que, a o longo do stculo XVII, os comentirios a Aristoteles foram substitui- dos pelos Cursus philosophici, amplamente inspirados no tomismo e destinados a ter Lutero foi duro adversario niio apenas ampla difusio e repercussiio. de Aristoteles, mas tambtm do pensamento 0 florescimento mais notavel dessa tomista e escolastico em geral. As raz6es siio "segunda escoliistica" ocorreu na Espanha, bem evidentes: as tentativas de conciliagiio pais no qual tanto os debates humanistas entre a ft e a razio, entre a natureza e a como os religiosos chegaram de forma ate- gra-la e entre o humano e o divino estavam nuada e que, portanto, apresentava condi- em antitese com seu pensamento de fundo, @es particularmente favoraveis para isso. 0 que pressupunha a existincia de uma sepa- maior expoente da "segunda escol~stica" foi raqiio categorica entre esses polos. Mas Francisco Suarez (1548-1617), denominado tambtm t evidente que as decisoes do Con- doctor eximius, do qual ficaram famosas so- cilio de Trento deveriam estimular uma re- bretudo as seguintes obras: Disputationes tomada do pensamento escolastico, do qual, metaphysicae (1 597) e De legibus (1612). alias, houvera uma revivescincia a o longo A ontologia de Suarez n i o deixou de in- do stculo XV e no inicio do stculo XVI (is- fluenciar o pensamento moderno, especial- to 6, ja antes do pr6prio concilio), e do qual mente o de Wolff.
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    84 ' Primeira parte - 8tlumanismo e a Renascen~a ele n6o sobe medir. 0 s6bio so sabe se refu- giar nos clClssicos, para aprender apenas suas sutilezas verbais; o outro, ao inv&s, lanpndo- se temerariamente aos riscos, recolhe - ou me engano? - frutos de prud6ncia. Homero tam- b&m viu isso, embora ceqo, onde diz que "o destino doma tarnbbm um e s t ~ l t o " . ~ Existem de fato do~s obst6culos que, mais o alogio da loucura que os outros, se op6em b aquisi~dodo co- nhecimento do mundo, e s6o a vergonha, que ofusca a intelighcia, e a t~m~dez, exagera que 0 sscrito ds Erosrno csrtarnenta rnois os perigos, desviando assim da q b o . Ora, h6 lido, a do ponto ds visto ortistico o rnais Feliz urn espl&ndido modo de se libertar de uma e (6 urno obro-prirno srn ssu g&naro), Q o Elo- outra: possuir urn gr6ozinho de loucura. Poucos gro do loucura. s6o os homens que conseguem entender que R "loucuro" da qua folo Erosrno ossa- ndo estar sempre a se envergonhar e estar malho-sa, am carto santido, 2, socrdtico "iro- prontos para tudo ousar produz infinitas outras nio" qua sob divsrsos m6scaras 6, o seu vantagens. Mas h6 quem cr6 ssr preferivel a rnodo, rsvaladoro c b varcloda. Estas vdrias tudo aquela espbcie de prud6ncia que se ad- rndscoros constitusrn urno gamo rnulticolorido quire com o reto juizo das coisas, ouv~ bem, de que voi ds urn sxtrarno nagotivo, qua p6a grqa, quanto longe estejam aqueles que v6o am avid&nc~o ports plor do homsrn, oo sx- o recomendando a si mesmos sob este aspecto. trarno positivo do fb am Cr~sto no loucuro e E primeiro lugar, sabe-se que, corno os m do cruz. Silenos de nlcibiad~s,~ todas as coisas huma- R "loucuro arosrniono, srn rnuitos pon- " nas t&m duos faces, completamente diferentes tos do livro, rosga os vQusa tira as rndscoros uma do outro, de modo que oquilo que b pri- sob os quois os podarosos do rnundo sa as- meira vista & morte, olhando bem mais para condsrn s os rnostro corno otorss qus srn seu dentro, se apresenta corno vida, e ao contr6rio intirno sao fraquantarnenta bam difarantss a vida se revel0 morte, o belo feio, a opul6ncia dos parsonogens qua parsonificom: mas - a n6o & sendo mis&r~a, m6 fama torna-se 910- a nisto r a i d s a toconta poasio do obro -, oo ria, a cultura se descobre ignorhcia, a robustez fozer isso, Erosrno foz cornpraandar o senti- fraqueza, a nobrezo ignobilidade, a alegrio tris- do do csno, do cornbdio rscitodo, dos oto- teza, as boas condi(6es escondem a desgra- ras a da suas rndscoros, s da olgurn modo (a, a amizade a ~n~mizade, rem&dio salutar um convida o ocsitor (ou rnostro corno ocaitor) vos acarreta dano; em uma palavra, se obres a as coisos ossirn corno sbo, comprssndsndo caixa ai encontrar6s de repente o oposto com- sxatornanta sau sentido. pleto do externo. E justomants d a t e rnodo a "loucuro" Parece-vos que eu me exprima demas~a- arosrniono ss torno ravalodoro da "vardoda". do filosoficamente? Pois bem, para ser mois cla- ra. falarei francamente. Quem, do rei, n6o pen- sa que & um senhor poderoso e riquiss~mo? Todavia, se o espirito dele n6o est6 provido 1 . 0 verdadeiro juizo 6 "loucum" de bons dotes, se n60 h6 coisa que Ihe baste. Depois de ter re~vindicado para mim' a & paup&rrimo, evidentemente. Se depois tem @ria de forte e suscitadora de atividade, que a alma escravizada a muitos vicios, & um es- dirieis se eu Fizesse o mesmo para a prud6n- cravo, um desprezivel escrovo. Do mesmo cia? Objetareis: tanto faz p6r junto o fog0 com modo se poderia Filosofar sobre as outras a agua! Mas eu ndo desesperaria de conse- qualidades, mas basta o quanto foi dito corno gui-lo, por pouco que prosslgals, corno antes, exemplo. a dar-ms ouvido atento. "Com qua proposito ~sto?", dir6 alguhm. E, para comepr, o que & a prud&ncia se- Ouvi onde quero chegar. Se alguhm, enquanto ndo a pr6tica da vida? E a quem pode melhor competir a honra de tal atribui(60, ao sdbio, os atores representom um drama, tentasse ar- . qua, um pouco por vergonha, um pouco por ti- midez, ndo ousa tomar nenhuma iniciativa, ou 'A "loucuro" folo em prlmalro pessoo. entdo 00 galhofeiro, que nada consegue im- Womaro, liiodo, livro XVII, v 32. pedir de agir? Ndo ser6 certamente o pudor a 3Alude13 comporo$50 entre Socrotes e os Slenos fe~to frear este; ele n6o o tam; e nem o pengo, que por Rlc~biodas Aonquete de Plotdo. no
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    85 IIi Capitdo quinto - A RenascenFa e a Religi60 rancor-lhesa rn6scar0, para mostr6-10s aos ex- char urn olho algurna vez, junto com toda a irnen- pactadores com seus rostos verdadeiros e na- sa multiddo dos homens, ou antdo cometer d~s- turais, ndo arruinaria toda a representqdo?Ndo parates, humanamente. Isso, porhrn, dirdo, se- mereceria ser expulso do teatro a vassouradas, ria aglr como pessoa sem bom senso. Ndo o como um doido? Sem dljvida, por obra sua to- negaria, contanto que de outro lado ndo se con- das as coisas tomariam novo aspecto, e quern ceda que tal 6 a vida, a combdia da vida, que antes era mulher, agora seria homem, quem h6 recitamos. pouco era jovem, logo depois, velho, quem era Erasmo. rei pouco antes, se revelaria improvisamente Elog~o loucura. cap. XXIX. da um tratante, quem antes era deus, apareceria de repente um pobre homem. Mas [...I 6 licito 2 . 0 s filosofos e a "loucura" destruir este engano? Ndo se desmontaria todo o drama? Pois 6 justamente esta ilusdo, este Sobre suas pegadas avancam os fil6so- truque que mant6m presos os expectadores. fos, que incutem reverhncia com o rnanto e corn [...I E a vida humana, que mais 6 sendo urna a barba. Proclamam ser apenas eles os depo- combdia? Nesta os atores saem em pljblico, es- s1t6riosda sabedoria, enquanto todos os ou- condendo-se um sob urna m6scar0, outro sob tros rnortais seriam sombras que esvoaGam outra, e coda urn faz sua parts, at6 que o dire- aqui a ali. tor os fa2 sair de cena. frequentemente, po- Doce, na verdade, 6 o delirio que os pos- rbm, a0 mesmo hornem d6 ordem de represen- sui! E sua rnente erigem inumerdveis rnundos, m tar-se sob outro revestimento, de rnodo que medindo quass a fio de prumo o sol, as estre- quern antes representaro o rei vestido de pirr- las, a lua, os planetas, explicarn a origem dos purcl, agora representa o escravo esfarrapado. raos, dos ventos, dos eclipses e de todos os Toda a vida ndo tem nenhuma consisti;ncia; mas, outros fendmenos inexplic6veis do natureza, e por outro lado, esta cornhdia ndo pode ser re- jamais hesitam, corno se fossern os confiden- presentada d s outro modo. tes secretos do supremo regulador do univer- Ora, se algum sabichdo, caido do cbu, se so, ou entdo nos viessem trazer as noticias das pusesse de repents a gritar: "Oh, este senhor, reunides dos deuses. Mas a natureza cqoa que todos adrniram corno urn deus, um podero- deles e da suas elucubrag.des.Com efeito, sles so, ndo 6 sequer urn hornern, pois se deixa gui- ndo conhecem nada com certeza. Prova mais or pelas paixdes como um animal; ndo 6 rnais que suficiente disso 6 o fato de que, entre os qua um escravo do pior esptcie, porque est6 filosofos, a respeito de todo questdo nascem submetido espontanearnente a tantos patrdes polhrnicas interrnln6veis. Eles n60 sabem nada, vergonhosos!"; ou entdo, se a outro que cho- mas afirmam saber tudo; ndo conhcscem a si rasse a morte do p i , ordenasse: "Ri enfim; teu mesmos, por vezes ndo conseguem perceber poi justamente agora cornqa a viver; 6 esta os buracos ou as pedras qua lhes aparecern b vida que vivemos que 6 morte, nada rnais que frente, ou porque a maioria deles 6 cega ou morte"; ou a urn terceiro, que se vangloria da porque sempre est6o nas nuvens. Todav~a, pro- propria origem, dirigisse o titulo de ignobil bas- clarnarn corn orgulho ver bern as idbias, os uni- tardo, acrescentando-lheque est6 bem longe versais, as formas separadas, as mat6rias- de possuir a virtude, e que 6 esta a unica fon- primas, CIS quididades. a hec~eidade,~ todos te da verdadeira nobreza; se, portanto, este coisas tdo sutis, que nem Linceur5 creio, nelas s6b1ofalosse do mesmo modo de todas as ou- conseguiria penetrar com o olhar. tras coisas, que rnais fazer sendo rnostrar a Seu desprezo pelas pessoas comuns sa todos que 6 um insensato, um louco a ser amar- manifesto sobretudo quando amontoam, um rado? sobre o outro, tridngulos, quadrados, circunfe- Rssim como ndo existe idiotice rnaior do rhncias e outras figuras geom6tricas e as con- que urna sabedoria moportuna, tamb6m n60 h6 fundern at6 fazer dalas um labirinto; al6m dis- maior irnprudhncia do que uma prudhncia so, eles, clispondo as letras como sobre um destrutiva. Faz muito rnal quem ndo se adapta xadrez de opera@es militares e continuamente aos tempos e bs circunst8ncias, quern ndo olha renovando sua ordern uma vez depois da ou- o avesso do pano, quem, esquecido das re- tra, jogarn areia nos olhos dos cr6dulos. gras dos gregos b mesa - ou bebe, ou retira-te E ndo faltam em sua fileira indlvidu6s que -, pretendesse que a comhdia ndo seja rnais at6 sdo capazes, interrogando os astros, de combdia. Ro contr6rio. 6 proprio do homem ver- dadeiramente prudente, pelo fato de sermos mortais, n6o aspirar a urna sabedoria superior 'SBO termos coracteristicosdo flosof~a escol6stico. ao proprio destino. € precis0 reslgnar-se ou fe- 5Personngemmitol6g1co. farnoso pelo ogudez do olhor.
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    predizer o futuroe, prometendo milagres ainda ria ter-se subst~tuido urna mulher. ao diabo, a a maiores do que os da magia, encontram, feli- um asno, a uma abobora, a uma pedra? E de zes deles!, quem acredita. que modo uma abobora teria podido falar, fa- Erasrno, zer milagres e ser posta no cruz? Qual consa- Elogio da loucuro, cap. 11 1.gra~do teria operado Sdo Pedro, se tivesse celebrado a fun~bo momsnto em que Cristo no estava pregado M cruz?Poder-se-iaafirmar que 3. 0 s te61ogos e a "loucura" naquele mssmo instante subsist~sse Cristo em Dos teologos, a0 contr6ri0, seria melhor o estado humano? Depois da ressurreicbo serd n6o falar, poro evtor remover u brejo lodoso permitido comer e beber? Pois desde agora j6 m como o de Comorina ou de tocar urna erva mal- se preocupam com a fome e a sede futuras. cheirosa. Pois esta b uma r a p de homens ex- Depois, dispdem de urna infinidade de traordinariamente carrancuda e irritdvsl, e eu sutilezas, muito mais sutis que as preceden- temo que atlrem sobre mim Bs centenas as fi- tes, sobre no~des, relo@es, formalidade, qui- leiras de suas conclusdes e n6o me constran- didade, heceidade; coisas todas que ningubm jam a recitar o mea culpa, ou que, na falta disso, conseguiria captar com o olhar, a menos que ndo me proclamem simplesmente de inf~tado fosse um I~nceu d~v~sasse nas trevas mais e 0th por heresia. Com efeito, este 6 o raio de que densas aquilo que de fato ndo exlste. se valem habitualmente para inspirar terror em Acrescentai agora a estas certas mdximos quem lhes & antipdtico. t6o porodoxois que aqueles famosos or6culos < fato qua n60 existem outros homens dos Estoicos, chamados de paradoxos, diante que menos prazerosamente reconheqxn os destas parecem vulgaridadss boas para pia- beneficios de mim recebidos, mas eles tam- da: por exsmplo, que & falta mais lave matar bbm t&m para comigo muitos motivos de re- mil homens do que coser uma so vez as sand6 conhecimento. lias de um pobre em um dia de domingo, ou 0 amor proprio os torna felizes a ponto entdo que se deve deixar perecer o mundo in- de lhes parecer habitar o sbtimo cbu: do alto teiro com tudo o que nele existe, em vez de olham smbaixo todos os outros mortais, como pronunciar uma so mentirinha, por mais Ieve que se fossem animais qua rastejam no chdo, e seja. [...I quase chegam a deles ter compaixbo. A seu AIbm disso, sdo infinitos os caminhos pe- redor t&m um conjunto infinito de defini@es ma- 1 s quais os Escol6sticos tornam ainda mais sutis 0 gistrais, de conclusdes, de corol6rios, de pro- aquelas infinitesimais sutilezas: em suma, seria posi@es explicitas e implicitas, t&m d disposi- mais f6cil escapar de um labirinto do que dos $30 tal exuberBncia de subterf6gios, que nem emaranhados dos Realistas, Nominalistas, a rede de Vulcano6 com suas malhas poderia Tomistas, Rlbertistas. Ockam~stas, Escotistas, e impedir de safar-se por entre seus "d~stingo". nbo acenu a todas as escolas, mas apenas Bs Com estes eles cortam todo no com tal facilida- principais. de que nem a machadinha de dois gumes de E todas estas escolas erudiq3o e abstru- m Tenedo7 poderia fazer melhor, e infinito b o fer- sidade estdo na ordem do dia e eu penso que vilhar dos tsrmos que inventam na hora, e dos os proprios ap6stolos teriam necessidade do estranhos voc6bulos que usam. socorro de outro Espir~to Santo, caso fossem Rlhm disso, deleitam-se em explicar com forpdos a cruzar armas com esta nova estirpe prazer os misteriosos arcanos da rdigido, ou de teologos. seja, o modo da cria@o e a ordenasdo do uni- Erasrno, verso, os canais por meio dos quais a mancha Elog~o loucura, cap. 11. da 11 do pecado original se espalhou sobre os des- cendentes, o modo, a medida e o 6timo em 4. A fslicidade celeste qua Cristo se formou no seio da Virgem, e a 6 uma forma de "loucura" razbo do fato de que na Eucaristia os acidentes subsistem sem a subst6ncia corporea. Tal coisa se tornard mais evidente se de- Estes, porbm, sdo argumentos abusivos. monstrar logo, conforme prometi, que o decan- Rtualmente as questdes consideradas dignas tado pr&m~o supremo ndo & mais qua uma es- de teologos grandes e iluminados, como os pbcie de loucura. Considerai em primeiro lugar chamam, sdo outras e quando nelas se em- batem, ent6o sdo todo ouvidos. Cis algumas. b H6 um instante precis0 na gera~do divina? Exis- juntos a rnulher Vhus aconstruida palo daus para enredor 6Refer&nc~o rede Marta. tsm em Cristo mais filia<das?6 possivel a pro- 'Na ~lho Tenedo era la1 G pr6t1ca dacap~ta@o de a de posi(6o "Deus pai odela o Filho"? Deus pode- quem apresentavn Falso acusa<do.
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    que Platdo sonhou0190 de semelhante, quan- Ihor, n6o se perde, mas se aperfeicoa. Quem, do escreveu8que o furor dos amantes C o mais portanto, saboreia antecipadamente na terra a docs de todos. Com efeito, quem ama arden- alegria do cCu (sorte concedida a bem poucos) temente n60 viva mais em si mesmo mas na- est6 sujeito a manifesta<6es muito semelhan- quele que ama, e quanto mais se afasta de SI tes d loucura: pronuncia palavras sern nexo ndo mesmo, para transferir-se inteiro no outro, mais ao modo dos homens, mas emitindo palavras goza. Ora, quando a alma se dedica a vagar inconscientemente; em seguida muda a ex- fora do corpo, sern mais se ssrvir normalmente press60 do rosto sern interrupq30,ora vivaz, ora dos proprios org6os, isso & furor, sern dirvida, abatido, ora a chorar, depois a rir, a suspirar, e pode-seafirm6-lo com raz6o. De outro modo, em suma, est6 completamente fora de si. Quan- o que significaria aquilo que comumente se do depois volta a si mssmo, diz que n60 sabe diz: "n6o est6 em si mesmo", "cai em ti mesmo" onde tenha estado, se no corpo ou fora do cor- ou entdo "voltou a si"? E quanto mais o amor & po, se desperto ou a dormir, nem se lembra do perfeito, tanto maior e mais delicioso 6 este que ssntiu ou viu ou disse ou fez, a n60 ser furor. como em uma nbvoa e em sonho: sabe apenas Qual ser6 ent6o aquela vida celeste, d ter estado no dpice da bem-aventuran<a,du- qua1 anelam com tanto ardor os espiritos r d - rants todo o tempo em que se encontrava fora giosos? Evidentemente o espirito absorverd o dos sentidos. E lamenta-sepor ter voltado a si corpo, como vitorioso e mais forte. E assim o mesmo e ndo desejarin outra coisa sen60 es- far6 tanto mais facilmente pois j6 antes, duran- tar cont~nuamente louco com tal tipo de loucu- te a vida, o purificou e enfraqueceu portal trans- ra. E ndo se trata mais do qua uma Ieve pre- f o r m ~ @ em seguida, de modo admiravel, ~; gustaq6o da bem-aventuranp futura! esse espirito serd absorwdo pala mente su- prema, que C sob infinitos aspectos mais po- Erosmo, derosa; desse modo o homem estard todo fora Clog10 do lowuro, cap. WII. de si e ssr6 feliz apenas pelo fato que, posto fora de si mesmo, experimentarc5 algo de ine- f6vel daquele sumo bem que tudo atra e rapta para SI. 6 fato que tal felicidade nos tocard de mo- do perfeito apenas quando as almas, reentran- do em posse dos corpos de antes, receberem o dom da imortalidade. Mas tambhm, desde que a vida dos homens religiosos ndo t mais : que rneditqbo daquela celeste e como qua uma sombra dela, por consequ&nciaalguma vez eles provam desde agora, aqui na terra, um gosto e como que urn perfume daquele pr&mio. Trata- se de uma gotinha minuscula em compara~do com aquela fonte de bem-aventuranp eterna; todav~a, infinitamentesuperior a todos os pra- 6 zeres do corpo, mesmo que fossem colocados juntos todos os gozos de todos os mortals, pois em muito as coisas espirituais ultrapassam as corpor~as, invisiveis as visiveis. as E isto, se v&, quando o Profeta9promete: "0olho n6o viu, o ouvido n6o ouv~u nem che- gou a0 cora<dodo homem o que Deus prepa- rou para quem o ama". Esta & aquela parte de loucura que, com a possagem para vida me- Erasmo de Rotterdam em uma incisdo que remonta a 1526, . do ce'bbre pintor Albrecht Diirer.
  • 106.
    Primeira parte -O t I u 1 ~ a n i s ~ 1 0a R e n a s c e n c a e 2. Uma reta H em Cristo 6 uma riqueza superabundante Por isso, razoavelmsnte, a unica obra, a irn~ca ocupa<dode todo cristdo deveria ser esta: compenetrar-sebem da palavra e de Cristo, exer- citar e reforqr tal f& continuamente,pois nenhu- 0 primado da H em Cristo ma outra obra pode tornar algu&m cristdo. Cris- sobre as obras to, em Jo 6,285. diz aos judsus, que Ihe pediam o que dever~am fazer para realizar obras divinas e cristds: "Esta 6 a irnica obra dw~na, que vos 0principal dos pontos Fundomsntois do creiais naquele que Deus enviou", que Deus Pal tsologio ds lutsro Q qus o homsm sa solvo tambhm apenas isso ordenou. Por isso, uma reta pela fC e ndo pelas obras. E outros tsr- m f& em Cristo & riqueza superabundante, pois ela mos, o possibilidode ds solvogdo ssM com- traz consigo toda felicidade e tira toda infelicl- platomants no fQ, umo v m qus o homem 8 dads, como escreve Sdo Marcos no f~m 6,16):(1 crloturo fsito do nodo, e como to1 nodo poda "Quemcr6 e rmebeu o batismo ser6 salvo; quem fozsr poro se tornor "novo crioturo': ou ssjo, ndo cr6, ser6 condenado". Por isso o profeta poro rsalizor o rsnoscimanto ssp~ritual rsque- Isaias (1 0.22) contemplou a rlqueza desta f& e rido pel0 Evongelho. disse: "Deus far6 uma breve aval~a<do sobre a Evidsntsmsnts, lutsro ndo nag0 qus terra, e esta avalia<do, como um diluvio, far6 hojo 'bbros boos': suo ofirmogdo ds que o transbordar a justisa"; isso sign~fica a f&, em qua fd p o r s justifica ssm os obros significo,subs- ~ que se resume o cumprimento de todos os man- toncialmente, qus os obros ndo podem ter damentos, justificar6 superabundantemente to- por si o Fungdo salvi'fica qua trodicionolmsn- dos aqueles que a possusm, de modo que elas ts otribui'a-sa o slos. de nada mais necessitardo para serjustos e pios. levando ssto tesa ds sxtramos conse- Rssim diz Sdo Paulo em R 10: "Que se creia de m qu&ncios, lutero ndo corrigia opanas os obu- cora<do, isto & o que torna justo e pio". sos e os sxcsssos opostos ds um modo ds entsndsr s ds proticor os "obras",mos otin- gia os pr6prios fundamantos do doutrino cris- 3. So a H,sem nenhuma obra, td, corn todo uma sQrisd s conssqu&nciosda torna justos, livres e salvos gravs irnportdncio. Como sucede entdo que a f& sozinha pos- so tornar-nosjustos e sem nenhuma obra dar- nos tdo superabundante riqueza, enquanto nos sdo prescritos na Escritura tantas leis, manda- 1. A alma pode deixar tudo, mentos, obras, estados e comportamentos? mas 1160 a palavra de Deus Rqui & preciso observar corn dilighncia e rater decisivamenteque somente a f& sem nenhuma Nem no c&u nem no terra a a h a tem ou- obra torna justos, livres e salvos, como melhor tra coisa, na qua1 viver e ser justa, livre, cristd, ouviremos a seguir. E & preciso saber que toda fora do Santo Evangelho, a palavra de Deus a Sagrada Escr~tura divide-se em duos ssp&- pregada por Cristo. Com efeito, ale proprio diz cies de palavras, as quais sdo os mandamentos am Jo 1 1.25: "Eu sou a vida e a ressurrei@o; ou leis de Deus e as garantias ou promessas. quem cr6 em mim, vive eternamente"; da mes- 0 s mandamentos nos ensinam e prescrevem ma forma 14.6: "Eu sou o caminho, a verdade mais esp&cies de boas obras, mas estas ndo e a vida". E ainda em Mateus 4.4: "0homem sdo, pelo fato de sersm mandadas, ainda rea- ndo vive apenas de pBo, mas de todas as lizadas. Certamente os mandamentos nos diri- palavras qua saem do boca de Deus". Deve- gem; contudo, ndo nos ajudam; eles nos ensi- mos, portanto, estar convictos de que a alma nam aquilo que se deve fazer, mas ndo nos pode deixar qualquer coisa, mas ndo a pala- ddo nenhuma forp para efetiv6-lo. Eles, por- vra de Deus, e que sem a palavra de Deus tanto, sdo ordenados apenas para este fim, que nenhuma coisa a ajuda. Ro contrdrio, quando o homem tenha como neles constatar bpropria tem a palavra de Deus, ela de mais nada ne- incapacidode para o bem e aprenda a perder cessita; encontra nisso apagamento, alimen- a esperan~a si proprio de [...I. to, alegria, paz, luz, intelecto, justip, verda- Ora, estas palavras, como todas as de de, sabedor~a,liberdade e exuberdncia de Deus, sdo santas, verdade~ras, justas, pacifi- todo bem. cas, livres e ricas de todo bem. Por lsso a alma
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    daquele que aelas se at&m com reta f&, une- 1. Apenas o Espirito de Dsus opera tudo, se a Deus tdo totalmente, que todas as virtu- o homsm n60 opera nada des da palavra se tornam tambtm proprias da N6s, corn efeito, afirmamos e sustenta- alma, e assim, mediante a f&, a alma pela pa- mos que Deus, quando opera fora da gracp lavra de Deus torna-se santa, justa, veraz, pa- do Espirito, opsra tudo em todos, tarnbhm nos c i f i c ~ livre e rica de todo bem, verdadeira filha , impios. Ele, corno criou sozinho todas as coi- de Deus como d~z Jo6o em 1,12: "Ele con- Sdo sas, tamb&m sozinho as move, as imp& e ar- cadeu poder tornar-se filhos de Deus a todos rasta no movimento de sua onipothncia, que aqueles que crhem em seu nome". elas ndo podem evitar nem mudar, mas qus Tudo ~sso permite compreender facilmente necessariamente.continuam, obedecendo, coda por que a f& tern u poder tdo grande e nenhu- m uma segundo a propria natureza que Ihe foi ma boa obra pode igua16-la.Nenhuma boa obra dado por Deus: dessa forma, todas as criatu- com efeto & tdo ligada B palavra de Deus como ras, tamb&m as impias, sdo colaboradoras de a f&; nenhuma boa obra pode estar na alma. Deus. E, por outro lado, aqueles sobre os quais mas no alma reinam somsnts a palavra s a f&. Deus age corn Espirito de graga, aquelss que Qualh a palavra, assim se torna tambhm a alma ole justificou em seu Reino, sdo igualmente por gragas a ela: assim como o ferro se torna verme- ele impelidos s movidos; e eles, corno suas Iho como o fogo, depois da mi60 com ale. Por- novas criaturas, o seguem a corn ele coops- tanto, nos verificamos que o F basto poro um b ram, ou melhor, como diz Paulo, sdo por ele cristdo s qua sls ndo tsm necessidods ds ns- conduz~dos. nhumo obro poro ser justo; s se ndo tsm mois Ndo &, por&m, disso que agora devsmos nscsssiclods de nanhumo obro, sntdo sls esM falar. Ndo discutimos corn efsito sobre aquilo csrtomsnte desvinculodo ds todos os mondo- que podemos por efeito da a@o de Deus, mas mentos s ds todos os Isis; s se GIG sstd dss- daquilo qu,e nos homens podemos, isto 6 , se vinculodo, b csrtomsnte livrs. Esto C sxotomants nos, criados do nada, podemos, tambbm na- o libsrdods crist8, o F somsnts, o quo1 compor- b quele movimento gsral da onipothncia divina, to n8o qus nos possomos permanacsr ociosos fazer ou tentar alguma coisa para nos prepa- ou Fozsr o ma/, mos que ndo tsnhamos nacess~- rormos para ser nova criatura do espirito. dads ds nenhumo obro poro chegor 2, justifica- R isso deveriamos responder, e n6o diva- gio s 2, bem-avsnturon<o. gar sobre outras coisas. E sobre o ponto em M. lutaro, questdo assim respondsmos: como o homsm, A libardad~ crist6o. do antes de ser criado homem, nada faz ou tenta para se tornar criatura, e, depois que foi feito ou criado, nada faz ou tsnta para psrmanecsr criatura, mas ambas as coisas ocorrem unica- Sobre o servo-arbitrio mente pela vontade da onipotente virtude e bondade de Deus, que nos cria e conserva ssm nenhuma participagdo nossa (por outro lado Deus ndo opera em nos totalmente sem nos, E 0servo-arbitrio, sscrito sm pl6mico m enquanto nos criou e conservoujustamente para dlreta contro 0livre-arbitriods Erosmo de Roffsr- o fim de operar em nos e de fazer-nos cooperar dom, smergem ds modo sspciol os comp- com ale, tanto sa isso acontece fora de seu rei- nsntss pssimistos do pensomento ds lutsro. no, pela sua onipotente agdo universal, como Rqui o relormodor ofirmo, com sfsito, dentro de seu reino pela virtude particular de qua o livre-orbitriopods Fozer olgo openos seu espirito); assim, dizemos qus o homem, an- am rslogdo 2,s at~vidodss noturois, como co- tes de ser renovado em nova criatura do rsino mar, bsbsr, geror, govsrnor, mas para o rss- do Espir~to, nada faz e nada tenta para se pre- to sls pods opsnos pacor. TombCm foro do parar para tal reaova~do para aquele reino, e grog0 ds Dsus, o homem permonacs ssm- e tamb6m depois de seu renascimento nada pre sob o onipot&nc~o Dsus, o quo1 Foz, ds faz, nada tenta para permanecer naquele rei- movs e dsstroi tudo nale sm um curso ne- no, mas uma e outra coisa em nos produzem- cessdrio e inFoIivs1. Oro, o groqo consists se apenas pelo Espir~to, sem a nos? par- qua openos no Cristo crucificodo: portonto, ss ticipagdo nos cria de novo e, depois ds ter-nos tsmos F no Cristo que rsd~miu homens b os assim recriados, nos conserva, como d~z tarn- com ssu songus, dsvemos tombbm rsconha- b&m o apostolo Tiago (1 ,18): Ele de sua von- car qua em coso divsrso o homsm tsr-ss-io tade nos gerou com o verbo de seu poder, para complatomsnte perdido. que f6ssernos as primicias de suas criaturas. (E aqui fala das criaturas renovadas).
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    Primeira parte -O H M M I ~ Me a Renascenqa ~SM~O 0 Espirito, pordm, n6o opera sem nos, pois nos recriou e conservou justamente pa- ra o firn de operar em nos e fazer-nos coope- rar com ele. Assim, mediante nossa coope- ra@o, prega, ajuda os pobres, consola os aflitos. Mas nisso qua1 p a r k cabe ao livre- arbitrio? 0qua Ihe resta sen60 nada? Exata- mente nada. Deus predestinou alguns homens 6 salva@o, 2. Ter F em Cristo significo reconhecer L outros i danastio i que o homsm, com o pecado, estava totalmsnte perdido Pode-sa dizer que Colvino Q rnois p a - s~misto sobre o homem do que lutero, po- Aqu~ terminarei este livrinho, disposto, se rem, em certo sentdo, mois otlmisto em re- for necasscirio, a tratar a quest60 mais am- lagdo o Deus. plamente, embora eu pense ter largamente 0 s estudiosos htr tempo ~ndicororn bem satisfeito todo homem pio, qua queira reco- os diferengos, solientondo qus se o texto- nhecer a verdade sem ter tornado partido. Com bosa emblsmtrtico poro lutero Q Moteus 9,P: efeito, se cremos qua a verdade seja que Deus "0s teus pecodos te sdo psrdoodos", poro sabe com preced&ncia tudo e tudo prd-orde- Colv~no Poulo no Carta aos Romanos 8,3 1: Q na a que, portnnto, n6o pode falir nem sofrer '5e Deus estd conosco, quem estord contra obstClculo em sua prescihcia e predestinac60 nos?" e que, por fim, nada pode acontecer a n6o ser Sou livro, Institui@o do religido crist6, por seu querer, corno a propria raz6o deve ad- publicodo em 7 536, teve enorma sucesso e mitir, dai deduzimos, nlsso confortados igual- dele forom logo feitos numsrosos edig6es. mente pela raz60, qua n6o pode de fato ha- Mols que umo reconstrugdo doutrinol siste- ver livre-arbitrio nem em homem nem em anjo rnat~co pensomanto cristdo, o Institui<do do nem em nenhuma criatura. Pois, se cremos qua pretende sar umo opresantogdo dos textos Satancis is o principe do mundo e que eterna- teologicos corn bosa nos quois Q precis0 en- mente ins~dia combate com todas as for~as e frentar o reformo do Igrejo. o reino de Cristo, de modo a n60 deixar os R possogem que reportornos apresen- homens por ele feitos escravos a n6o ser quan- to o ponto fundomento1 do teolog~o Col-de do delas seja expulso pela virtude div~na do vlno sobre o predestina@o. Esto 6, poro Espirito, de novo aparece claramente que o Colvino, a eterno decisdo com o qua1 Deus livre-arbitrio n6o pode existir. Igualmente, se deterrninou aquilo que de codo um dos ho- cremos que o pecado original nos corrompeu, mens ole pretendia fozsr. Portonto, ssgun- de modo tal a ponto de opor sua repugn6ncia do Colvmo, Deus ndo crio todos os homens ao bem, gravissimo obst6culo tambdm para em umo condigdo de iguol grou, mas uns or- aqueles que sdo impelidos pelo Espirito, d evi- denodos B donogdo, outros poro o viclo eter- d e n t ~ no homem privado de Espirito nada que no. Portonto, o predestlnogdo do homem Q o permanece que possa voltar-se para o bem, firn sagundo o quo1 ele foi criodo. Buscor os mas tudo est6 voltado para o mal. Por f~m, se roz6ss desso decisdo de Deus Q ~mpossivel, os judeus, que tendiam 6 justica com todas as pois o couso 6 suo vontode, e nodo se pode for~as,cairam na injustip, enquanto os pa- pensor corno mois equdnime e rnelhor do que gdos, que tendiam d impiedade, chegaram d suo vontade. justip por graga dlvina e inesperadamente. mais uma vez 6 manifesto, pelas proprias obras e pela experi&ncia,que o homem sem a g r q a n6o pode querer a n6o ser o rnal. Enfim, se 1. A d d @ o e a prsdestina@io cremos que Cristo redimiu os homens com seu operada por Reus sangue, somos for<ados a reconhecer que o 0pacto de g r a p n6o 6 pregado a todos homem estava intsiramente perdido; do con- de modo igual, e mesmo onde se pr&ga ele tr6r10,devemos supor que Cristo d supdrfluo n6o d receb~do todos do mesmo modo; tal por ou redentor do parte mais v ~ de nos, o que l diversidade revela o admir6vel segredo do pla- seria blasfemo e sacrilego. no de Deus: indubitavelmente esta diversida- M . lutero, de deriva do fato de que ass~m agrada. Se Ihe 0servo-orbitr~o d evidente que por vontade de Deus a salva-
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    560 & oferecidaa uns enquanto outros dela sdo mos, 6 melhor diferir a solugdo de cada uma excluidos, disso nascem grandas e graves ques- delas no ordem em que se apresentar. tbas que nd0 se podem resolver a ndo ser en- for ora desejo fazer compreender a to- sinando aos crentes o significado da elei@o s dos que nbo devemos buscar as coisas que Deus do predestinasdo de Deus. quis esconder, e ndo devemos descurar as que Muitos consideram a questdo bastante ele manifestou, por medo de qua, de um lado, tortuosa, pois ndo admitem que Deus predestine nos condene por demas~ada curiosidads e, do alguns 6 salvasdo e outros b morte. Mas a outro, por ingrotiddo. 6 otima a afirmasdo de trata<dodo problema demonstrar6 que sua falta santo Rgostinho, que podemos seguir a Escri- de bom senso e de dlscernlmento os pbe em tura com seguransa pois ela condescsnde com situasdo inextric6vel. Rl&mdisso, na obscurida- nossa fraqueza, como faz a mde com seu behi: de que os espanta, veremos quanto tal ensi- quando quer ensin6-lo a a n d ~ r . ~ namento ndo so seja irtil, mas tambhm docs e Quanto 6queles que sdo tdo timidos ou saboroso pelos frutos que dele derivam. circunspectos que quereriam abolir inteiramen- te a predestina<do para ndo perturbar as al- mas d&beis, sob qua1 veste, vos peso, masca- 2. As dificuldadss que a doutrina rardo seu orgulho, visto que indiretamente da predestina~80 Ievanta acusam Deus de estulta Isviandads, como se Reconheso que os maus e os blasfema- ndo tivesse previsto o perigo a0 qua1 tais inso- dores logo encontram, no argumento da predes- lentes pensam remediar com sabedoria? tinasdo, do que acusar, sofismar, ladror ou ca- Portanto, quem torna odiosa a doutrina da soar. Contudo, se tem&ssemos sua arrogdncia, predest~nasdo, denigra ou abertamente fala ma1 d~veriamos calar os pontos prlncipais de nos- de Deus, como se inadvertidamente tivesse so f&, e ndo um dos que est6 isento da conta- deixado escapar aquilo que so pode prejudi- minasdo de suas blasfi:mias. Urn espirito rebel- car a Igreja. de perseverar6 em sua insol&ncia ouvindo dizer que em uma so ess&ncia de Deus h6 tr&s pes- 3. C m a prrdrstina@o Deus o soas, ou entdo que Deus previu, criando o ho- estabrlrcr aquilo mem, aquilo que Ihe devia acontecer. Da mes- qus qusr fazer dr cada homem ma forma, esses maus ndo conterdo seu riso, quando se lhes disser que o mundo foi criado Quem quiser considerar-se homem temen- apenas h6 clnco mil anos, e perguntardo como te a Deus, n60 ousar6 negar a predestinqbo, o poder de Deus permaneceu assim tdo lon- por meio do qua1 Deus atribuiu a uns a salva- gomente ocioso. 560 e a outros a condenqdo sterna; muitos, Deveriamos talvez, para evitar semelhan- ao contrdrio, a envolvem em variadas cavila- tes sacril&gios, deixar de falar do divindade <bas,em particular aqueles que a querem fun- de Cristo e do Espirito Santo? Deveriamos calar damsntar sobre sua presci&ncia. a respeito da criasdo do mundo? Ao contr6rio. Digamos que ele previ: todas as colsas e a verdade de Deus 6 tdo poderosa, sobre es- tambbm as disp6e; mas dizer que Deus esco- tes e sobre outros pontos, que ndo tame a ma- Ihe ou rejeita enquanto previ: isto ou aqudo, ledic&ncia dos iniquos. Tamb&m santo Agosti- significa confundir tudo. Quando atribuimos uma nho o indica muito claramente no livrinho que presci&ncia a Deus, queremos dizer que todas intitulou: 0dom da persavaronp' Com efeito, as coisas sempre foram e permanecem eterna- vemos que os falsos apostolos, difamando e mente compreendidas em seu olhar, de modo casoando do ensinamento de sdo Paulo, ndo que em seu conhecimento nada 6 futuro ou conseguiram obter que ele disso se envergo- passado, mas toda coisa Ihe & presente, e de nhasse. tal forma presente que ndo a imagina como por 0 fato de que alguns pensem que toda meio de alguma aparhcia, assim como as coi- esta discussdo & perigosa tambbm entre os sas que temos no memoria como que escorrem crentes, enquanto 6 contr6ria bs exortasbes, diante de nossos olhos por meio da imagina- abala a f&, perturba os cora<bes e os abate, & $60, mas as vi: e olha em sua verdade,.como uma afirmqdo frivola. Santo Rgostinho ndo es- se estivessem diante de seu rosto. Rfirmamos conde que casoavam dele por estes mesmos que tal presci&ncia se estende sobre o rnundo motivos, enquanto pregava demasiado livre- inteiro e sobre todas as criaturas. mente a predestlna<do,mas ale refutou f6cil e suficientementeessas objq6es. Quanto a nos, uma vez que se objetam muitas e variadas 'Cf Rgost~nho. dono perseverontm XV-XX De absurdidades contra a doutrina qua ensinare- "f. Rgost~nho. Genes, od IltteromV. 3-6. De
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    Prirneira parte -O tiumanismo e a Renascenca Definimos predestinasdo como o decreto <do: "€laescolheu para nos a nossa heranp, a eterno de Deus, por meio do qua1 estabeleceu gloria de Jaco, por ele am ad^".^ aquilo que queria fazer de cada homem. Com Com e f ~ i t oatribuem a este amor gratuito , efeito, n8o os cria todos na mesma condi$do, toda a gloria de que Deus os havia dotado, mas ordena uns 6 vida eterna, outros a eterna ndo so porque sabiam bem qua esta ndo fora condenaq30. Assim, com base no fim para o providenciadaa ales por algum mbrito, mas que qua1 o homem foi criado, dizemos qua 6 pre- nem o santo patriarca Jaco tivera em si tal po- destinado a vida ou a morte. der de modo a conquistar, para si e para seus sucessores, tdo aka prerrogativa. E, para des- 4. Testemunhos deprsendidos truir e abater com maior vigor todo orgulho, re- dos tsxtos biblicos cords freqijentemente aos judeus que de fato ndo mereceram a honra a eles Feita por Deus, Ora, Deus deu testemunho de sua predes- visto qua sdo um povo cabep dura e r e b e l d ~ . ~ tinasdo ndo so em cada pessoa, mas em toda a Por vezes os profetas se referem a elei@o tam- descend6ncia de AbraBo, que p6s corno exem- bBm para fazer com qua os hebreus se enver- plo do fato de que c a b a ele ordenar conforma gonhem de seu oprobno, porque b por sua in- seu agrado qua1 deve ser a condi@o de cada gratiddo que miseravelmante dela decairam. povo. "Quando o Soberano dividia as nq6es". E todo caso, aqueles que querem ligar m diz Moisbs, "e seprava os filhos de Addo, es- a elei<dode Deus 6 dignidade dos homens ou colheu como sua por~do heransa o povo de de aos mQritosde suas obras, respondam a isto: A Isrc~el".~elei~do evidente: na pessoa de Q quando v&em que uma so estirpe 6 preferida a Abrado, como em um tronco completamente scxo todo o resto do mundo, e ouvem da boca de e motto, um povo 6 escolhido e separado dos Deus que ele ndo foi movido por nenhum moti- outros, que sdo rejeitados. Ndo se revela a cau- vo a ser mais inclinado para urn rebanho pe- sa disso, mas MoisQsacaba com todo motivo queno e desprezado, depois mau e parverso. de g16ria. indicando aos sucessores que toda do que para os outros, eles o acusardo porque a dignidade deles consiste no amor gratuito de Ihe agradou estabelecer tal exemplo de sua Deus. Com efeito, el@ esta explica@ode sua d6 misericordia?Com todos os murmljrios e oposi- redenq3o: Deus amou seus pais e escolheu sua @es dales, n60 impedirdo com certeza sua dsscend6ncia, depois dele^.^ obra; e jogando seu despeito contra o cbu como Fala de modo mais explicito em outra pos- pedras, ndo atingirdo nem FerirZlo de modo al- sagem, dizendo: "Ndo & porque &reis mais nu- gum sua justi<a, mas tudo recair6 sobre sua merosos do que outros povos que Deus se cabep. comprouve em vos para vos escolhar, mas por- J. Calvino, que vos a m ~ u " . ~ odvert6ncia ele a repete Esta do Inst~tu~@o religiBo crist6. v6rias vezes: "Cis, o c&u e a terra pertencem ao Senhor, ao teu Deus; todavia, ele amou teus pais, se comprouve com eles e te escolheu por- que descendes dele^".^ E em outro lugar orde- 3DeuteronBm~o 3 . 8 ~ ~ . 2 na-lhesmanter-sepuros em sqntidade, pois sdo 41dern4,31 escolhidos como povo que the pertence de 51dem 7.3. Oldem 10.14. mod0 particular. E outra passagem ainda, in- m 'Idem 23.5. dica que Deus os protqe porque os ama7Tam- 8Salmo 47.5. b&m os crentes o reconhecem com um so cora- gDeuteronBm~o9.6.
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    j/laquiaveI - I. N i c o I a ~ Com Maquiavel (1469-1527) a pesquisa politica se destaca do pensamento especulativo, etico e religioso, assumindo como cinon metodologico a espe- cificidade do proprio objeto, o qua1 deve ser estudado autonomamente, sem ser condicionado por principios validos em outros campos. Para a posi@o maquia- veliana, centrada sobre o principio da cido entre "ser" e "dever ser", sSo impor- tantes os seguintes aspectos: a) o realism0politico, baseado sobre o principio de que e precis0 permanecer na verdade efetiva da coisa, sem se perder na busca de como a coisa "deveria" ser; b) a virtude do principe; c) a relag30 entre "virtude" (liberdade) e "sorte": a "virtu- Aspectos de" e em geral, para Maquiavel, "habilidade natural", e a "virtu- principais dewpolitica do principe ti um complexo de forsa, astucia e capa- do pensamento cidade de dominar a situasiio: esta virtude sabe contrapor-se a de Maquiavel sorte, mesmo que, no melhor dos casos, pela metade as coisas -r § 1-5 humanas dependem quase sempre da sorte; d ) a volta aos principios da republica romana, fundada sobre a liberdade e sobre os bons costumes: e este o ideal politico de Maquiavel, enquanto o principe por ele descrito e apenas uma necessidade do momento historico. o conceit0 de autonomia que ilustramos an- teriormente. A mudanqa brusca de direq5o que en- Com Nicolau Maquiavel(1469-1527) contramos nas reflexoes de Maquiavel, em inicia-se nova ipoca do pensamento politi- comparaqao com os humanistas anterio- co: com efeito, a investigaqiio politica, com res, certamente se explica em larga medida ele, tende a afastar-se do pensamento espe- pela nova realidade politica que se criara culativo, Ctico e religioso, assumindo como em Floren~a na Italia, mas tambim pres- e ciinon metodologico o principio da especifi- supde grande crise dos valores morais que cidade do seu proprio objeto, que deve ser comeqava a grassar. Ela n50 apenas de- estudado (podemos dizer com uma expres- monstrava a divisso entre "ser" (as coisas s5o telesiana) iuxta propria principia, ou como elas efetivamente s5o) e "dever ser" seja, de mod0 authnomo, sem ser condicio- (as coisas como deveriam ser para se con- nado por principios validos em outros iim- formarem aos valores morais), mas' tam- bitos, mas que s6 indebitamente poderiam bim elevava essa divisio a principio e a co- ser impostos h investigaqiio politica. A po- locava como base da nova vis5o dos fatos si@o de Maquiavel pode tambCm ser resu- politicos. mida com a formula "a politica para a poli- 0 s pontos sobre os quais devemos fi- tics", que expressa sintCtica e plasticamente xar a atenq5o siio os seguintes:
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    94 Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a a ) o realismo politico, ao qual esta li- temido e a tomar as medidas necessarias gada forte vertente do pessimismo antropo- para tornar-se temivel. Claro, o ideal para logico; um principe seria o de ser ao mesmo tempo b) o novo conceito de "virtude" do prin- amado e temido. Mas essas duas coisas s i o cipe, que deve governar eficazmente o Esta- muito dificeis de serem conciliadas e, as- do e deve saber resistir a "sorte"; sim, o principe deve fazer a escolha mais c) a relaqio diniimica entre liberdade e funcional para o govern0 eficaz do Estado. sorte; e, por fim, d ) a tematica do "retorno aos princi- pios", como condiqgo de regenera~50 re- e novaqiio da vida politica. fi "virtude" do principe 0 s dotes do principe, que emergem muito bem desse quadro, sHo chamados por Maquiavel de "virtudes". Obviamen- N o que se refere ao realismo politico, te, a "virtude" politica de Maquiavel nada i basico o capitulo XV de 0 Principe (escri- tem a ver com a "virtude" em sentido cris- to em 1513, mas publicado somente em 1531, t5o. Ele usa o termo retomado da antiga cinco anos apos a morte do autor), que dis- acepqio grega de arete', ou seja, a virtude cute o principio de que 6 necessario se ater como habilidade entendida naturalmen- A "verdade efetiva das coisas", sern se per- te. Alias, trata-se da arete' grega como era der na busca de como as coisas "deveriam" concebida antes da espiritualizaqio que ser; trata-se, em suma, da separaq5o entre Socrates, Plat50 e Aristoteles nela reali- "ser" e "dever ser". Maquiavel, portanto, zaram, transformando-a em "razHo". Em chega i s seguintes conclus6es: "[ ...I ele [o particular, ela recorda o conceito de are- principe] esta longe tanto de como se vive e te' cultivado especialmente por alguns so- de como se deveria viver, pois aquele que fistas. deixa aquilo que se faz por aquilo que se Nos humanistas, esse conceito apa- deveria fazer, aprende antes a trabalhar em rece varias vezes, mas Maquiavel o leva pro1 da propria ruina do que de sua conser- as extremas conseqiitncias, entendendo a vaqgo, porque um homem, que queira em "virtude" como forqa, vontade, habilida- todo lugar parecer bom, atrai ruina entre de, astucia, capacidade de dominar a si- tantos que nHo s5o bons. Dai e' necessario tua@o. que urn principe, desejoso de conservar-se, aprenda os meios de poder nrZo ser bom e a fazer ou niio uso disso, conforme as neces- sidades" . Liberdade e "sorte" Maquiavel chega a t i a dizer que o so- berano pode se encontrar em situaqHo de ter de a ~ l i c a r mitodos extremamente cruiis e desumanos. Quando s5o necessaries remi- E essa virtude sabe se contrapor a "sor- dios extremos para males extremos, ele deve ten. Assim, com Maquiavel, retorna o tema adotar tais remCdios extrernos e, de qual- do contraste entre "liberdade" e "sorte", tHo quer forma, evitar o meio-termo, que C o car0 aos humanistas. Muitos consideram caminho do cornpromisso, que de nada ser- que o destino seja a raz5o dos acontecimen- ve; ao contrario, C sempre e somente de ex- tos e que, portanto, i inutil se esforqar para tremo dano. impor-lhe uma barreira, sendo melhor dei- Essas consideraq6es est5o ligadas a xar-se guiar por ele. uma visgo pessimista do homem. Segundo Maquiavel confessa ter sentido a ten- Maquiavel, em si mesmo, o homem n5o 6 taqso de acomodar-se a essa opini56. bom nem mau, mas, de fato, tende a ser mau. Sua soluqiio, porim, i a seguinte: meta- Conseqiientemente, o politico n5o deve con- de das coisas humanas dependem da sorte, a fiar no aspecto positivo do homem, e sim outra metade da virtude e da liberdade. Ele constatar seu aspecto negativo e agir em con- escreve: "NHo por acaso, mas para que o nos- seqiihcia disso. Assim, n5o hesitar5 em ser so livre-arbitrio n5o desapareqa, julgo poder
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    ser verdade quea sorte seja arbitra de meta- 0" r e t o r n o aos principios" de de nossas aqoes, mas que, tambCm, ela deixe a n6s governar a outra metade, ou quase." 0 ideal politico de Maquiavel, porCm, E com uma imagem que se tornou nZo C o principe por ele descrito, que C mui- muito famosa (tipico reflex0 da mentali- to mais uma necessidade do momento his- dade da Cpoca), depois de mencionar po- t o r i c ~mas sim o da republica romana, ba- , derosos exemplos de forqa e virtude que seada na liberdade e nos bons costumes, e, barraram o curso dos acontecimentos, portanto, um "retorno aos principios". Maquiavel escreve: "[ ...I porque a sorte C Descrevendo essa republica, ele pare- mulher. E, querendo mante-la sob domi- ce flexionar em novo sentido o seu proprio nio, C necessirio bater-lhe e espanci-la. 0 conceit0 de "virtude", particularmente que se v C que ela deixa-se mais vencer E quando discute a antiga quest50 de se o por estes (= os temperamentos impetuo- povo romano foi mais favorecido pela sor- sos) do que por aqueles que procedem fria- te do que pela virtude na conquista do seu mente. E sempre, como mulher, C amiga impCrio. EntZo responde, sem sombra de dos jovens, porque s5o menos,respeitosos, duvida, pela demonstraqZo de que "mais mais ferozes e a dominam com mais au- p6de a virtude d o que a sorte para que eles dicia. " conquistassem aquele impe'rio".
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    - 11. G~ i c c i a r d ie Botero -. ~i Uma ordem de ideias analoga a de Maquiavel sobre a natureza do homem, sobre a virtude, a sorte e a vida politica, encontra-se em Francisco Guicciardini (1483-1540), o qual, porem, mais do que na dimensao historica, Guicciardini e sensivel a esfera do "particular", dos interesses do individuo singular. Botero De Maquiavel foi tambem extraida a no@o de "raz%ode e a "razdo Estado", a respeito da qua1 e particularmente importante a obra de Estado" de Joao Botero (1533 aproximadamente - 1617) intitulada Da +§ 7 raza'o de Estado, na qua1 esta viva a exighcia de valores morais e religiosos. A natureza do howem, A doutrina de Maquiavel foi resumida por ele na formula "0s fins justificam os a sorte e a vida politics e m meios", formula que, se n i o faz justiqa i efe- Guicciardini e Botero tiva estatura do pensamento do autor de 0 Principe, no entanto explicita uma das li@es que a Cpoca moderna extraiu desta obra. Uma ordem de idCias analoga 2 de Ma- TambCm de Maquiavel deriva a noqso quiavel sobre a natureza do homem, a virtu- de "razio de Estado". de, a sorte e a vida politica pode ser encontra- Uma rica literatura, constituida de obras da em Francisco Guicciardini (1483-1540), de virios gheros e variada consist&ncia, flo- particularmente em suas Recordagdes poli- resceu em torno desses aspectos do pensa- ticas e civis (concluidas em 1530).Todavia, mento de Maquiavel, destacando-se a obra mais que h dimensso historica, Guicciardini de Jose Botero (aproximadamente 1533- parece sensivel 2 dimensio do "particular". 1617)intitulada Sobre a raziio de Estado, que Dois de seus pensamentos ficaram mui- visa a temperar o cru realism0 maquiavClico to conhecidos. mediante efetiva referencia a incidhcia dos Em um deles expressa trcs desejos: valores morais e religiosos. 1)viver em uma republica bem ordenada; 2) ver a Italia liberta dos barbaros; 3) ver o mundo liberto da tirania dos padres. No outro, com poucas pinceladas, traqa um esplendidoauto-retrato espiritual: "Eu nso sei a quem desgostem mais que a mim a ambi- qio, a avareza e a indokncia dos padres: por- que cada um desses vicios, em si, ja C odioso; porque cada um e todos juntos pouco con- vem a quem faz profissso de vida ligada a Deus; porque, ainda, sgo vicios tso contraries que nso podem estar juntos sen50 em um sujeito muito estranho. Nso obstante, o contato que tive com muitos pontifices levou-me, por mi- nha conta particular, a amar a sua grandeza. Se n i o fosse esse respeito, teria amado Mar- tinho Lutero como a mim mesmo, d o para libertar-me das leis impostas pela religiiio cris- tii, no modo como d interpretada e comumente entendida, mas para ver essa caterva de cele- rados reduzida aos devidos temzos, isto b, para que ficasse sem vicios ou sem autoridade. "
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    A obra quedeu fama imortal ao ingliis Tomds Morus (1478-1535) 6 Utopia, titulo aue indica uma dimenstio do e s ~ i r i t o humano aue, Dor meio da representa- $20 mais ou menos'imagindria daguilo que n3o e, representa A razso e as leis aquilo 9ue deveria ser ou como o homem gostaria que a realida- de natureza de foSSe. na base 0 s principios basilares que re de "Utopia" de Tomas Morus pies: basta seguir a sB razBo e + 5 1-2 res, que esttio em perfeita ha tar os males que afligem a socr miragem"; o rio de Utopia chama-se Anidro (do grego anydros = privado de agua), ou seja, um rio que niio C rio de agua, mas rio sem igua; ja o principe chama-se Ademo (formadopor um alfa privativo e demos, que Tomas Morus nasceu em Londres em significa "povo"), que significa o chefe que 1478. Foi amigo e discipulo de Erasmo e niio tem povo. Trata-se, evidentemente, de humanista de estilo elegante. Participou ati- jogos lingiiisticos que visam a reforgar a ten- vamente da vida politica, exercendo altos siio entre o real e o irreal e, portanto, o ideal, cargos. Firme em sua fC catolica, recusou-se do qua1 a Utopia 6 expressiio. a reconhecer Henrique VIII como chefe da Inreia. sendo por isso condenado a morte em
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    98 Primeira parte - O tlumanismo e a Renasrenca A fonte em que Morus bebeu foi, na- 0 s habitantes de Utopia siio pacifistas, turalmente, Platiio, com amplas infiltraq6es seguem prazeres sadios, admitem cultos di- de doutrinas estoicas, tomistas e erasmianas. ferentes, honram a Deus de diferentes mo- Na contraluz esti a Inglaterra, com sua his- dos e sabem se compreender e se aceitar re- toria, suas tradiq6es e seus dramas sociais ciprocamente nessas diversidades. de entiio (a reestruturaqiio do sistema agri- Por fim, os habitantes de Utopia elimi- cola, que privava de terra e trabalho grande nam, com a aboliqiio do dinheiro e de seu quantidade de camponeses; as lutas religio- uso, todas as calamidades que a avidez do sas e a intolerincia; a insaciavel sede de ri- mesmo produz entre os homens. E em uma quezas). das piginas conclusivas Morus p6e em pri- meiro plano este belissimo pensamento em forma de paradoxo: seria tiio mais facil pro- curar-se o de que viver, caso niio o impedis- se justamente a busca do dinheiro, que nas morais e sociais intengoes de quem o inventou teria devido servir-nos precisamente para o fim de em que se inspivam agilizar a vida, quando na realidade ocorre o habitantes de Utopia s exatamente o contrario. 0 s principios basilares que regem o re- lato (que C imaginado como narrado por Rafael Itlodeo, que, tendo participado de uma das viagens de Amtrico Vespucio, teria visto a ilha de Utopia) siio muito simples. Morus TOHIOAM AAE M K * NGLI E estava profundamente convencido (influen- ciado nisso pelo otimismo humanista) de que bastaria seguir a sii raziio e as mais elemen- tares leis da natureza, que est5o em perfeita harmonia com a raZ50, para acabar com os males que afligem a sociedade. Utopia niio apresentava urn programa social a ser realizado, e sim principios desti- nados a terem funqiio normativa que, com habeis jogos de alusoes, apresentavam os males da Cpoca e indicavam os critCrios com os quais deveriam ser curados. AlCm disso, em Utopia todos os cida- diios siio iguais entre si. Desaparecem as di- ferenqas de renda, desaparecendo entiio as diferengas de status social. E mais: os habi- tantes de Utopia se substituem de mod0 equilibrado nos trabalhos da agricultura e do artesanato, de mod0 que niio renasqam, em virtude da divisiio do trabalho, tambCm as divis6es sociais. 0 trabalho n5o C massacrante e niio dura toda a jornada (como durava naquela Cpoca), e sim seis horas diirias, para deixar dl' S Z N Y I s(~,yliir ~ ' 1 ~ 1 1 c L I S leis tla tl~I/rnrc,iii ~ ~ Z 11 0 espago ao lazer e a outras atividades. C ~ I I ( > Em Utopia tambCm existem sacerdo- tes dedicados ao culto e um lugar especial C /ILULI 0 . ~ / i t r ~ t s os t t Y o s o IS^, irchiicvz i u l i o ~ ~ I ~ C C ' I C ~ I I ZC, ' S L L . c~lirrz11zi7r rt~irles C I C '1f71gcr11 ~ o ~ ~ i c ~ d i ~ i l ( ~ . 'I garantido aos "literatos", ou seja, iqueles t~l2dO l h O / ~ d OC / ~ P ~ ~ J C ; ~ ~ , ~ 0 que, nascendo com dotes e inclinaq6es es- c-i~r~c-clLznlr~r I J I ~ L J ; Q L I C LJI~' , ~ ) r o d u z ir L I peciais, pretendem dedicar-se ao estudo. rrrtrc os / I ( I I ~ Z L ~ I I S .
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    99 Capitulo sexto - Rehasce~~a e a Politica --- .- IV. Sean Bodin - - = . , a : e a soberania absoluta do Cstado Em seus Seis livros sobre a Republica, Jean Bodin (1 529130-1596) sustenta que o verdadeiro fundamento do Estado e a soberania, que mantem unidos os vdrios membros sociais, ligando-os como que em um so corpo. Uma soberania forte e absoluta se obtem instaurando a US- N~ ., de Bodin b tiqa e fazendo apelo a razao. 0 absolutismo tem por isso limites a soberania objetivos precisos nas normas eticas, nas leis de natureza e nas como leis divinas: a soberania que nao respeitasse estas leis seria uma fundamento tirania. do Estado lmportante e tambem a justificaqio de Bodin da tolerdncia 4 5 1 religiosa: uma vez que existe um fundamento natural que e co- mum a todas as religiGes, seria entao possivel um acordo religioso geral, mesmo sem sacrificar as diferenqas proprias das religi8es positivas. duos um unico corpo perfeito, que C preci- samente o Estado". Por "soberania" Bodin entende poder absoluto e perpktuo, proprio de todo tip0 de Estado. Tal soberania se exerce sobretudo no dar leis aos suditos sem o seu consentimento. Distante tanto dos excessos do realis- Como j i dissemos, o absolutismo de mo de Maquiavel como do utopismo de Mo- Bodin tem limites objetivos precisos nas rus, surgiu tambCm Jean Bodin (152911530- normas Cticas (a justiga), nas leis da nature- 1596),corn seus Seis livros sobre a Republica. za e nas leis divinas - e esses limites consti- Para existir o Estado, C precis0 uma tuem tambCm sua forqa. A soberania que forte soberania, que mantenha unidos os n i o respeitasse essas leis n i o seria sobera- virios membros sociais, ligando-os como em nia, e sim tirania. um s6 corpo. Mas essa forte soberania n i o TambCm se destaca o escrito de Bodin se obtim com os mCtodos recomendados por intitulado Colloquium heptaplomeres ("co- Maquiavel, que pecam por imoralismo e por loquio entre sete pessoas"), que tern por tema e ateismo, e sim instaurando a justi~a recor- a tolerincia religiosa e C imaginado desen- rendo i razio. i volver-se em Veneza entre sete seguidores de Eis a cClebre definiqio de Estado dada religioes diferentes: 1) um catolico, 2) um por Bodin: "Por Estado se entende o gover- seguidor de Lutero, 3) um seguidor de Cal- no justo, que se exerce com poder soberano vino, 4) um judeu, 5) um maometano, 6) um sobre diversas familias e em tudo aquilo que pagio e 7) um defensor da religiio natural. elas tCm em comum entre sin; "[ ...I o Esta- A tese da obra C a de que (como sus- do ja n i o seri tal sem aquele poder sobera- tentara o humanismo florentino) existe um no que mantCm unidos todos os membros e fundamento natural que 6 comum a todas partes dele, fazendo de todas as familias e as religioes. Com essa base comum, seria de todos os circulos um s6 corpo. [...I Em possivel um acordo religioso geral, sem sa- suma, a soberania e' o verdadeiro fundamen- crificar as diferengas (ou seja, aquele plus) to, o ponto cardeal sobre o qual se apdia pr6prias das religioes positivas. toda a estrutura do Estado e do qual depen- Havendo, portanto, esse f u n d h e n t o dem todas as magistraturas, leis e normas. natural implicit0 nas diferentes religioes, Ela C o unico lago e o unico vinculo que faz aquilo que as une revela-se mais forte do de familias, corporagGes, colegiados e indivi- que aquilo que as separa.
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    IV. +Iugo Grotius ea fuodac6o do jusnaturalismo * 0 holandCs Hugo Grotius (1583-1645), com o escrito De jure belli acpacis (1625), p6e as solidas bases do jusnaturalismo, isto $ da teoria do direito natural. 0 direito natural, que regula a ccmviv&ncia humana, funda-se sobre a razao e sobre a nature- za, que coincidem entre si: o direito natural espelha portanto a racionalidade, que 4 o prbprio critkrio corn o qua1 Deus criou o mundo. 1,, Gvoti~s 0 direito internacional baseia-se na 1 identidade de natureza entre os homens. e a teoria do direito ~atMval Portanto, os tratados internacionais t6m valor mesmo quando estipulados por ho- Entre os ultimos lustros do Quinhentos mens de confissiies diferentes, ja que o fato e as primeiras dCcadas do Seiscentos formou- de pertencer a fCs diversas n i o modifica a natureza humana. se e se consolidou a teoria do direito natural, 0 objetivo da puniqio para as infraqoes por obra do italiano AlbCrico Gentili (1552- 1608) no escrito De iure belli (1588)e, sobre- aos direitos deve ser corretivo: n i o se pune quem errou porque errou, mas para que n i o tudo, do holandcs Hugo Grotius (Huigde Groot, erre mais (no futuro). E a puniqio deve ser, 1583-1645) no escrito De jure belli ac pacis ao mesmo tempo, proporcional tanto inatu- (1625, reeditado com ampliagties em 1646). reza do err0 como B convenihcia e iutilida- Ainda se podem sentir as raizes huma- de que se pretende tirar da propria puniqio. nistas de Grotius, mas ele ja esti encami- nhado na estrada que levari ao modern0 racionalismo, ainda que so a tenha percor- rid0 em parte. 0 s fundamentos da convivhcia dos homens s i o a raziio e a natureza, que coin- cidem entre si. 0 "direito natural", que re- gula a convivtncia humana, possui esse fun- damento racional-natural. Todavia, notemos a consisthcia onto- logica que Grocio da ao direito natural: este se revela t i o estivel e alicerqado que o pro- prio Deus n i o poderia muda-lo. Isso signi- fica que o direito natural reflete a raciona- lidade, que C o proprio critirio com que Deus criou o mundo e que, como tal, Deus n i o poderia alterar, a n i o ser se contradizendo, o que C impensavel. Diferente d o direito natural C o "di- reito civil", que depende das decisiies dos homens, e que C promulgado pelo poder civil. Este tem como objetivo a utilidade e C sustentado pel0 consentimento dos ci- dadios. A vida, a dignidade da pessoa e a pro- priedade pertencem ao iimbito dos direitos naturais.
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    101 ,'(d Capitdo sexto - A Renascenqa e 4 Politics rendo sobre as que sdo verdadairas, digo que todos os homens, quando se Fala disso, e prin- cipalmente os principes, para serem postos rnais altos, sbo dotados de algumas destas quali- dades que lhes acarretam casoada ou elogio. Tanto isto i; verdade, que urn & considerado liberal, outro misero (usando um termo toscano, A necessidade porque ovoro em nossa lingua & ainda aquele de "ir diretarnante que por ropino deseja ter, misero charnomos 6 verdade detivo da coisa" aquele que se abstkm dernasiado de usar o que & seu); urn 6 considerado doador, outro rapaz; um cruel, outro piedoso; um desleal, ou- 0trecho d tirodo do cop. XVdo Princi- tro fiel; um efeminado e pusil8nime, outro feroz pe (YI respeito das coisos pelos quo~s os e animoso; um humano, outro soberbo: um las- homens, e espsciolmsnte os Principes, sdo civo, outro casto; um integro, outro astuto; um slogiodos ou vituperodos'>. severo, outro condescendente; um grave, outro Com este copitulo comego o p o r k mois leviano; um religioso, outro incr&dulo, e assim mteressonte e originol do trotodo, no quo1 por diante. E sei que coda um confessarc5 que Moquiovel indico os quolidodes, osvirtudes, seria coisa laudabilissima encontrar um princi- que sdo necess6rios o um princlpe poro de- pe que tivesse todas as qualidades acima, as senvolver suo obro de mod0 eficisnte. qua sbo consideradas boas: todavia, porque Notavel, e justomente Fomosa, d o de- n6o se podem tar, nem inteiramente observar, clorag6o moquioveliono do princ@ioreolisto pelas condiq3es humanas que ndo o permitem, ssgundo o quo1 tonto em politico como no Ihe k necessdrio ser tdo prudente, que saiba pansomanto politico d precis0 ir diretomente fugir da inf6mia das que Ihe ameo<amo esta- d verdade efetiva do coiso, ssm perder-ss do, e das que Ihe impedem pracaver-se, se pos- nos fontosios vds de filosofos e morolistos; sivel; contudo, n60 podendo, & possivel com o o@stivo 'Bfetivo ", em particulor, d criagdo menos respeito deixar passar. E tambkm nbo de Moquiovel e, como diz Tomoseo, slgnifi- tema de incorrer na fama dos vicios sem os quais co "mgis do que 'real'; isto 6, o verdode, aldm ele dificilmente possa salvor o estado; porque, de em si, tombdm em seus eFeitos". se considerarmos bem tudo, poderc5 encontror alguma coisa que parecer6 virtude, e seguln- do-a seria sua ruina, e alguma outra que pare- Resta agora ver quais devam ser os mo- cerc5 vicio, e seguindo-a conseguir6 sua segu- dos e governos de um principe com suditos ou ranco e bem-estar. com os amigos. E, corno sei que muitos escre- N. Maquiavsl. veram sobre isso, duvido, escrevando ainda eu, 0principo nbo ser tido como presunsoso, partindo, princi- palmente ao d~sputar esta matkria, das ordens dos outros. Contudo, como & meu intento es- crevar coisa util para quem a entende, pare- ceu-me mais conveniente ir direto 6 verdade A sorte i 6rbitra efetiva do coisa, e ndo tanto 6 imag~na@o dela. da metade de nossas agks E muitos se imaginarorn republicas e principa- dos que jamais foram vistos ou conhecidos como existentes de fato; porque ele est6 tbo sepa- No cop. XXV do Principe ("0 quonto o rado do como se vive, e de como se deveria destino pode nos coisos humonas, s de que viver, que aquele que deixa aquilo que se faz modo se lhes deve r~sistir") obordo-se um por aquilo que se deveria fazer, aprende mais temo muto coro oos Humonlstos, o do relo- sua ruina do que sua preserva~60: porque um gdo antre "liberdode" e 'sorte", temo cuja hornam, que queira fazer em todos os lugares solydo tem um popel central tombdm no profissdo de bom, atral ruinas entre tantos que pensomento politico de Moquiovel. Ppro o ndo sdo bons. Dai ser necess6rio a urn princi- Secretdrio florentino os ocontecimentos his- pe, querendo manta-se, aprender a poder ser toricos sdo determlnodos metode por umo ndo bom, e us6-lo ou nbo conforme a necessi- Forgo que tronscende o homem (e qus GIG dade. designo com o termo 'sort@'> matode por e Deixando, portanto, para trc5s as coisas vontode e obro do homam. imaginadas a respeito de urn principe, e discor-
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    E ndo me6 desconhecido como muitos ti- tem 6 sua frente, isto 6 , glorias e riquezas, pro- veram e t&m a opinido de que as coisas do cederem ds modo diverso: um com respeito, mundo sejam de to1 rnodo governadas pela outro corn impeto; um pela viohcia, outro com sorte e por Deus, que os homens com sua pru- arte; um com paci&ncia,outro com o seu contrci- disncia ndo as possam corrigir; ao contrbrio, ndo rio: e coda um com estes diversos modos o pode t&m nenhum rem&dio.E, por isso, poderiam jul- alcanqx. V&-se ainda duos (coisas) respecti- gar qua ndo devessem suar' muito nas coisas, vas: um a l c a n p seu designio, o outro ndo; e mas deixar-se governar pela sorte. Esta opi- do mesma forma duas (coisas) prosperarem nido & mais crida em nossos tempos pela gran- corn dois diversos e ~ t u d o sum com respeito e ,~ de varia(80 das coisas que foram vistas e se o outro com impeto: o que ndo prov&m de ou- v&em todo dia, fora de qualquer conjectura hu- tra coisa a ndo ser da qualidads dos tempos mana. Pensando nisso alguma vez, estou de que se conformam ou ndo com o procedimento algum modo inclinado b opinido deles. Ainda deles. Daqui nasce aquilo qua eu disse, que mais, para que nosso livre-arbitrio ndo seja duas (coisas), operando diversamente, produ- apagado, julgo poder ser verdadeiro que a zam o mesmo efeito; e outras duas, igualmen- sorte seja 6rbitra da metade de nossas a@es, te operando, uma se conduz a seu fim e a outra mas que tambhm ela nos deixe governar a ou- ndo. Disto ainda depende a varia~do bem: do tra metade, ou q u a s ~Assernelho a sorte a .~ porque, se um se governa com respeitoe paci&n- um desses rios perigosos que, quando se iram, cia, os tempos e as coisas giram de rnodo que alagam os lugares planos, arruinam as 6rvores seu govern0 seja bom, e vai prosperando; mas, e 0s edificios, arrastam3 desta parte terreno, se os tempos e as coisas mudam, arruina, por- poem em outra: coda um foge de sua presen- que o modo de proceder ndo muda. Tambbm <a, coda um cede a seu impeto, sem poder de ndo se encontra homem tdo prudante, que sai- nenhum modo r ~ s i s t i rEmbora sejam assim, .~ ba acomodar-sea isso; com efeito, porque ndo resta a possibilidada, porbm, que os homens, se pode desviar daquilo a que a natureza o nos tempos tranqijilos, possam tomar provid&n- inclina, tamb&m porque, tendo algubm sempre cias corn defesas e diques, de modo que, nos prosperado caminhando por um caminho, ndo enchentes, ou os rios correriam por um canal, se pode persuadi-lo a usar outro. Todavia, o ou seu impeto ndo seria nem licencioso5 nem homem de respeito, quando & tempo de usar o danoso. Da mesma forma interv6m a sorte: ela impeto, ela ndo o sabe fazer; dai arruina-se: mostra sua pot&ncia onde ndo h6 virtude que com efeito, se se mudasse de natureza com os Ihe resista, e portanto dirige seus impetos onde tempos e com as coisas, a sorte ndo muda- sabe que ndo estdo feitos os diques e defesas ria. [...I que a contenham. E se considerardes a Itcilia, Concluo, portanto, qua, variando a sorte, que & a sede destas varia@es e a que lhes e permanecendo os homens em seus modos deu o movimento, vereis que ela & um campo obstinados, sdo felizes enquanto concordam sem diques e sem nenhuma defesa; que, se juntos, e, quando discordam, sdo infelizes. Jul- ela fosse defendida por conveniente virtude. go bem isso, que seja rnelhor ser impetuoso do como a M a g n ~ ,Espanha e a Franp, ou esta a ~ que respeitoso, porque a sorte & senhora; e 6 cheia ndo teria feito as grandes variapzs que necessdrio, querendo monte-la submissa, bat&- fez, ou ndo teria vindo. E quero que isso baste la e feri-la. Vemos qua ela se deixa vencer mais sobre o que disse quanto a opor-se b sorte em por estes do qua por aqueles que procedem universais. friamente. Todavia, como mulher, & sempre Todavia, restringindo-me mais a particu- amiga dos jovens, porque eles sdo rnenos de tares, digo como se v& este principe hoje felici- respeito, sdo rnais ferozes, e a comandam com tar7 e amanhd arruinar-se, sem t&-lo visto mu- mais aud6cia. dar natureza ou qualquer qualidade: o que creio N. Maqu~avd, que nasca, primeiro, das causas sobre as quais 0prhcipe. longammte falamos, isto 6, que tal principe que se apoia inteiramente no sorte arruina-se, as- ' Afad~gor-se. sirn como ela varia. Creio, ainda, que seja feliz gAprox~modom~nte. aquele que cornbina o modo de seu proceder 31avom. com as qualidades dos tempos; e da mesma 40bstacular. SDasragulodo. forma seja infeliz aquele com cujo proceder os 6Alemanho. tempos discordarn. Porque se v& os homens, 'Prosperar. nos coisas que os induzem ao fim, que coda um duns apl~cqbes dlvarsos
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    CapituIo sktimo do pensamento renascentista: '., A I. Ilatlzreza, ci2ncia e arte e m Leonardo Em Leonardo (1452-1519) e muito forte a ideia neoplat6nica do paralelismo entre microcosmo e macrocosmo, e ela Ihe serve particularmente como legitima~lro da ordem mecanicista de toda a natureza; esta ordem, que deri- va de Deus e e necessdria, e interpretada do melhor mod0 pelo pensamento matematico, que investiga de mod0 eficaz as forqas da Vinci: e as leis imanentes aos fen6menos. o mecanicismo, 0 conhecimento e o saber t@m duas fontes: a experiencia a) a experikncia, entendida como construto em que v@m e a s progressivamente a confluir artes mecanicas e artes liberais, como "cogi*ac&s a geometria ou a perspectiva; mentais" b) as cogitaqdes mentais, que descobrem discursivamente, + 3 1-3 para alem da experi@ncia, razdes pelas quais ocorrem os fen& as menos da natureza. Leonardo procura portanto a via intermediaria entre razao e experiencia que tende a conhecer a lei que regula os fendmenos, e com isso antecipa o "m&odo resolutivo" de Galileu e da ciencia moderna. Vida e obras Em 1482 foi para Milio, junto a Ludo- vico, o Mouro, 16 permanecendo at6 1499, vale dizer, at6 a queda de Ludovico. Em Milio, escreveu varios Tratados e desenvol- Conhecido e admirado em todo o mun- veu atividades de engenharia. Nesse perio- do por suas obras-primas artisticas, Leonardo do se concluiu a sua maturidade artistica. da Vinci C conhecido de um pddico tam- Depois de estadas em Miintua, Veneza bCm mais amplo por seus desenhos mara- e Florenga, Leonardo entrou a servigo de vilhosos e seus projetos tCcnicos, cheios de CCsar B6rgia em 1502, na qualidade de ar- intuig6es fulgurantes, mas n i o C t i o conhe- quiteto e engenheiro militar. cido por seu pensamento filos6fico. Com a queda de Valentino, seu prote- Leonardo nasceu em Vinci, em Valdar- tor, em 1503 Leonardo foi novamente para no, em 1542, e freqiientou as primeiras le- Florenga, dedicando-se aos estudos de ana- tras em Florenga. Entrou para o ate12 de tomia e empenhando-se na solu@o dos pro- Verrocchio em 1470, o que constituiu expe- blemas relativos ao v60, que o levafiam I? r i h c i a fundamental para sua formagio. construgio de uma miquina para voar. A Estudou matematica e perspectiva; interes- Mona Lisa 6 desse periodo. sou-se por anatomia e botiinica; enfrentou Em 1506 volta a Milio, a servigo do problemas de geologia; fez projetos mecii- rei da Franqa. Corn a volta dos Sforza para nicos e de arquitetura. Milio, em 1512, ele se transfere para Roma,
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    104 Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e aR e ~ a s c e n ~ a culos e armadura da carne, o mundo tem as pedras, sustentaculos da terra." Como se vt, essa idCia neoplat8nica do paralelismo entre microcosmo e macrocosmo tem em Leonar- do, contudo, um aspecto diferente da con- cepfiio mistico-animista do neoplatonismo: alias, serve a Leonardo como legitimaqgo da ordem mecanicista de toda a natureza. Essa ordem deriva de Deus, sendo preci- samente uma ordem necessaria e mecinica. Leonardo niio nega a alma, que desenvolve sua funqiio "na composi@o dos corpos ani- mados". Entretanto, deixa os incontrolaveis discursos sobre ela para a "mente dos frades, que, por inspira@o, sabem todos os segredos". N5o hi, portanto, um saber que valha por inspiraqiio. E tambim n50 C saber o de todos os que se respaldam na pura e simples autoridade dos antigos. Esses repetidores da tradi~iiosiio "trombetas e recitadores das obras alheias". Como tambim niio 6 saber o dos magos, dos alquimistas e de todos os "procuradores de ouro", pois estes falam de invenq6es fantasticas e de explicaq6es que apelam para causas espirituais. 1 eotzardo (14 52-1 Sf 9) for u m dos maroves urtrstas e urna d m mentes unruersars du Renascenpr. Este t seu ctlehre auto-retrato, cotzsevvado e m Turrm n o Palazzo Reale. desta vez a serviqo de Leiio X. Finalmente, em 1516, transfere-se para a Franqa, na qua- lidade de pintor, engenheiro e arquiteto. Morreu em 2 de maio de 15 19 em Am- boise, no castelo de Cloux, h6spede de Fran- cisco I. 2 Ih ordern rneca~icista da n a t ~ r e z a Leonardo n5o C homem da Renascenqa apenas por ser pensador "universal", isto C, niio especialista, mas tambCm porque, por exemplo, pode-se observar nele alguns tra- qos de neoplatonismo, como quando ele de- lineia o paralelismo entre o h o m e m e o uni- verso: "0homem i considerado pelos antigos como um mundo menor. E certo que o uso desse nome esta bem colocado, ja que, como o homem C composto de terra, agua, ar e fogo, esse corpo C semelhante A terra; assim como o homem tem em si os ossos, sustenti-
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    Para Leonardo, Co pensamento mate- Em suma: "a natureza esta cheia de matico que projeta, ou melhor, interpreta a infinitas razoes aue nunca estiveram sob ordem mecinica e necessaria de toda a na- experitncia"; "todo o nosso conhecimen- tureza: "A necessidade C mestra e tutora da to comeqa a partir do sentido"; "0s senti- natureza; a necessidade 6 tema e inventora dos G O terrenos, mas a razio esta fora de- da natureza, sendo seu freio e norma eter- l e ~quando contempla". E "aqueles que se , na." Leonardo, portanto, elimina dos fen& enamoram de pratica sem ciencia s i o como menos naturais -mecinicos e materiais - o timoneiro que entra no navio sem leme a intervenqio de forgas e poderes animistas, ou bussola, nunca tendo certeza para on- misticos e espirituais, para concentrar-se de vai". sobre forqas e leis imanentes a eles. E Leonardo prossegue: "A ciincia C o capitio, a pratica os soldados." E quando se tem ciencia das coisas, entao, por um lado, essa ciincia termina "em conhecida expe- riincia", isto 6, as teorias s i o confirmadas, e, por outro lado, permite todas aquelas re- alizaqoes tecnol6gicas que Leonardo proje- ta com suas "miiquinas". Qua1 6, portanto, a id6ia de experiin- Como os estudiosos justamente salien- cia e de saber em Leonardo? taram, Leonardo procura a via intermedii- Contrapondo-se a figura d o "douto" ria entre razio e experihcia que tende a co- de sua ipoca, Leonardo gostava de se defi- nhecer a lei que regula os fenbmenos, e que, nir como "homem sem letras". Mas ele ha- de qualquer modo, ainda que de forma via freqiientado a oficina de Verrocchio, esboqada e parcial, antecipa o "mitodo reso- onde praticara muitas "artes mecinicas". E lutivo" de Galileu e da ciencia moderna. do exatamente a pritica das "artes mechicas" qual falaremos mais adiante. ;, aprendidas em certos ateliis vinha fazendo emergir gradualmente um conceit0 de ex- periincia que n i o era mais a empiria desar- ticulada dos praticantes das diversas artes nem o discurso puro e simples dos especia- listas das artes liberais, privados de qual- quer contato com operagoes, inspeqoes e aplicaq6es no mundo da natureza. A experidncia que se realizava nas ofi- cinas, como a de Verrocchio, era precisa- mente um elemento para o qual vinham con- fluindo progressivamente as artes mecinicas e liberais, como a geometria ou a perspecti- va. Conseqiientemente, Leonardo se revol- ta contra aqueles que consideram que o "senso" - ou seja, a sensaqio ou a obser- vagio - seja um obstaculo para a "fisica e sutil cogitaqio mental". Por outro lado, Leonardo tinha a con- vicqio de que "nenhuma investigaqio huma- na pode-se considerar verdadeira ciencia se n i o passar pelas demonstraq6esmatematicas". N5o basta a observaqio nua e crua. E, na natureza, existem "infinitas raz6esn que "nunca estiveram sob experitncia". Em suma, os fen6menos da natureza so podem ser compreendidos sob a condiqao de que lhes descubramos as razoes. E essa desco- berta i obra de discurso, de cogita~iio men- tal: C a razio que demonstra por que "tal experiincia C forqada de tal mod0 a operar".
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    11. Bernardino L k i o : a investigaq&o da natureza segundo seus prbprios principios Em sua obra-prima De rerum natura iuxta propria principia, Bernardino Telesio (1509-1588) opera uma das mais avanqadas tentativas de p6r a fisica no caminho de uma rigorosa pesquisa autcinoma, desligada tanto a) dos interesses e dos pressupostos da tradiq80 hermetico-plathica, como b) dos A fisica telesiana pressupostos da metafisica aristotelica. Telesio n8o nega nem um +§2 Deus transcendente nem uma alma supra-sensivel, mas p6e um e outra tematicamente fora da pesquisa fisica, e estabelece assim a autonomia da natureza e de seus principios e, por conseguinte, a autonomia da pesquisa destes principios. Alem disso, a fisica construida por Telesio e qualitativa; todavia, ele entrev@ tambem a perspectiva quantitativa, mas, n8o podendo de- senvolv0-la, augura que outros o possam fazer. Na concepqao da natureza, Telesio se remete ao hilozoismo e ao pan- psiquismo prk-socratico, segundo o qua1 tudo e vivo. Como fundamento da natu- reza, que em sua essencia e vitalidade e sensibilidade, ha tr@s osprincjpios principios: dois principios agentes incorporeos, o quente e o frio, da natureza e uma massa corporeal que sob a aqao dos principios agentes as- e o nespiritow sume diferentes disposiqdes; os dois principios agentes pervadem no hornern todo corpo, s contrastam e se percebem reciprocamente, e dis- e -+ 3 3-4 so deriva que todos os entes, tanto os complexos como os sim- ples, sentem a relac80 reciproca. 0 animal se distingue das coisas porque ha nele o "espirito produzido pelo semen", uma substdncia corporea tenuissima incluida no corpo como no proprio revestimento. No homem, depois, alem do "espirito", ha ainda uma especie de alma divina e imortal, que porem n8o serve para explicar os aspectos naturais do homem, mas apenas os aspectos que transcendem sua naturalidade: em vista do conhecimento, com efeito, o senso e o "espirito" sao mais criveis do que a raz8o e a alma, porque aquilo que e apreendido pelos sentidos n8o tem mais necessidade de ser ulteriormente pesquisado. Telesio admite o Deus biblico e regedor do mundo, de cuja atividade criado- ra dependem a "natureza" e o destino do homem; ele simplesmente nega que s e deva recorrer a Deus na pesquisa fisica. Deus infunde a mens superaddita, isto e, a alma intelectiva, que e imortal: ela esta unida 0 hornern e a mens ao corpo e especialmente ao "espirito" natural, como forma dele. superaddita, Com o "espirito" o homem conhece e apetece as coisas que se ou seia, a a,rna referem a sua conservaq80 natural; com a mens superaddita co- intelectiva, nhece e tende as coisas divinas, que se referem a sua salvaq80 dada por Deus eterna. 0 homem deve procurar n8o sucumbir com sua mens a s +§ 5 forqas do espirito material, mas mant@-la pura e torna-la seme- lhante a seu criador. Vida e obras nio Telksio, que era homem de lefras. Se- guiu o tio a Miliio e depois a Roma, onde, em 1527, foi aprisionado pela soldadesca, Bernardino TelCsio nasceu em 1509 em por ocasiiio do conhecido "saque de Ro- Cosenza. Num primeiro momento, recebeu man, sendo libertado pela intervengiio de um solida educagiio humanista de seu tio Ant& conterrbeo, ap6s dois meses de prisiio.
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    1 Capitulo se'timo - Vertices e resultados c o ~ c l u s i u o s o pensamefito venascentista d Foi entiio para Pidua, onde ainda eram 0 s primeiros dois livros do De rerum bem vivos os debates sobre Aristoteles, e natura foram publicados em 1565, apos onde estudou filosofia e cihcias naturais muitas incertezas e n5o sem antes ter con- (talvez, em especial, a medicina), forman- sultado em BrCscia o maior exDoente do do-se em 1535. aristotelismo na epoca, Vincenzo Maggi. 0 Depois de formado, irrequieto, TelCsio resultado positivo do confront0 com Maggi, andou por varias cidades da Italia. Parece que por muitos aspectos devia ser conside- que, durante alguns anos, retirou-se, para rado como o adversario ideal, convenceu meditar em solidiio, em um mosteiro de TelCsio da oportunidade da publica@o. Mas monges beneditinos (alguns pensam que esse a obra inteira. em nove livros. so viu a luz mosteiro pode ter sido o de Seminara). em 1586. em iirtude das dificujdades finan- Posteriormente, de 1544 a 1553, TelC- ceiras do' nosso filosofo. sio foi hospede dos Carafa, duques de No- As outras obras de Telisio siio margi- cera. Nesse periodo, lanqou os fundamentos nais, limitando-se a explicaq5o de alguns fe- e delineou a estrutura do seu sistema, redi- ntimenos naturais (Sobre os terremotos, So- gindo um primeiro esboqo da sua obra-pri- bre os cometas, Sobre os vapores, Sobre o ma De rerum natura iuxta propria principia. raio etc.). A partir de 1553, TelCsio se estabele- Foi notivel a fama alcanqada pel0 fi- ceu em Cosenza, onde permaneceu at6 1563. losofo, tendo inicio antes mesmo da publi- Passou depois por Roma e Nipoles, mas ca@o de suas obras. A Academia Cosen- retornou varias vezes a Cosenza, onde mor- tina, da qual ele foi membro, tornou-se o reu em 1588. mais ativo centro de difusiio do telesianis- mo. Amigos poderosos e influentes prote- geram-no dos ataques dos aristotClicos, em- bora n5o tenham faltado os debates e as f.novidade d a fisica telesiana 0 sentido e o valor do pensamento te- lesiano mudam completamente, conforme a perspectiva com base na qual ele 6 visto e interpretado. Conseqiientemente, tambCm varia o tip0 de exposiqiio que se pode fazer desse pensamento. Se o olharmos assumindo como pars- metro a revoluqiio cientifica que Galileu ope- raria, entiio as conclusdes niio podem ser outras que as extraidas por Patrizi (embora baseando-se em outros elementos), isto C, que o telesianismo "parece ser mais uma metafisica do que uma fisica", contraria- mente i s suas intenqdes declaradas. No entanto, se o olharmos pela otica do seu tempo, o pensamento de Telesio re- vela-se efetivamente uma das tentativas mais radicais e avanqadas de encaminhar a fisica pela senda de uma rigorosa pesquisa 'aut6- Bernardino Teltkio (aqui em uma estampa antiga, procurou fundar u m tigo de pesquisa fisica noma, desligando-se de dois tipos de pres- inteiramente diferente em rela@o a aristote'lica, supostos metafisicos: a ) dos pressupostos antecipando nus exigincias, dos magos renascentistas ligados a tradiqiio embora niio nos resultados, hermttico-plathica; b) dos pressupostos da algumas instLincias da fisica moderna. metafisica aristotClica.
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    Primeira parte -O tlumanismo e n R e n a s c e n c n a ) Sobre o primeiro ponto, deve-se su- blinhar n5o apenas o fato de que estiio au- sentes do De rerum natura os interesses e pressupostos magico-hermkticos, mas tam- bCm o fato de aue TelCsio diz com todas as letras, numa evidente alus50, que em sua TelCsio reconstruiu os principios de sua obra ningutm encontrara nihil divinum e fisica em base sensistica, convencido de que nihil admiratione dignum ("nada de di- o "sentido" revela a realidade da nature- vino" e "nada de extraordinarion).Entre- za, sendo a propria natureza, em sua essen- tanto, como veremos, Telisio continua a cia, vitalidade e sensibilidade. Nessa con- ter em comum com as doutrinas magicas cepg5o vitalista da natureza, Telksio se refere a convicg50 de que, na natureza, tudo esth ao hilozoismo e ao pan-psiquismo prC-so- vivo. critico, segundo os quais tudo esta vivo, com b) Sobre o segundo ponto, devemos coloragaes at6 mesmo j6nicas (recordando relevar o que segue. Aristoteles (com os pe- sobretudo o esquema de interpretagiio da ripatiticos) considerava a fisica como co- realidade que fora proposto por Anaxi- nhecimento teorktico daquele genero parti- menes). Seus modelos, portanto, niio s5o cular de ser ou de substiincia que esta sujeito tanto os neoplat6nicos, e sim os fisicos mais a movimento. Para o Estagirita, os quadros antigos. da metafisica (ciincia do ser ou da substiin- Ora, o "sentido" nos revela que o "quen- cia em geral) k seus principios constituiam ten e o "frio" G O principios fundamentais. os pressupostos necessirios para fundamen- 0 primeiro tem agiio dilatadora, faz as coi- tar a fisica. A consideragiio da substiincia sas serem leves e p6e-nas em movimento. Ja sensivel, portanto, desembocava necessa- o segundo produz condensag50 e, portanto, riamente na consideragiio da substincia su- torna as coisas pesadas e tende a imobili- ma-sensivel. e o estudo da substiincia move1 za-las. terminava com a demonstracio metafisica 0 sol C quente por excelencia e a terra da substiincia imovel. C fria. Mas o sol, como tudo aquilo que arde, Telksio realizou um corte claro em re- n i o C so calor, assim como a terra tambim lag50 a essa posig5o. N5o nega um Deus niio coincide com o frio. Quente e frio s i o transcendente nem uma alma supra-sensi- incorporeos e, portanto, tim necessidade de vel (corno veremos melhor mais adiante), massa corporea a qua1 aderir. Portanto, con- mas tematicamente coloca ambos fora da clui TelCsio, deve-se sem duvida p6r na base pesquisa fisica, estabelecendo assim'a auto- dos entes tris principios: dois principios nomia da natureza e dos seus principios e, agentes, o quente e o frio, e uma massa conseqiientemente, a autonomia da pesqui- corp6rea, que sob a aqio de principios agen- sa desses principios. Desse modo, TelCsio tes assume diferentes disposig6es. Se assim realiza aquilo que foi chamado "redugio n5o fosse, os entes n i o poderiam se trans- naturalista", precisamente proclamando a formar uns nos outros, impossibilitando autonomia da natureza. aquela unidade que, ao contrario, existe efe- Nesse sentido, pode-se dizer que, em- tivamente na natureza. bora com bases que eram inadequadas, co- Assim, cai por terra a fisica dos quatro mo veremos. TelCsio fez valer uma instiincia elementos, bem como a concepqiio geral das (a autonomia da pesquisa fisica) destinada coisas como sin010 de matCria e forma, sus- a revelar-se muito fecunda. tentada pelos peripateticos: os elementos Mas ainda ha um ponto que merece derivam dos principios descritos, como tam- ser destacado. bCm todas as formas das coisas. Como veremos, TelCsio construiu uma 0 s dois principios agentes perpassam fisica qualitativa. Entretanto, entreviu a pers- todo corpo, contrastando-se, expulsando-se pectiva quantitativa, embora tenha dito que e se substituindo mutuamente nos corpos, e n5o podia desenvolvi-la, augurando que tendo a faculdade de se perceberem recipro- outros pudessem faze-lo, para que, destaca camente. Essa faculdade que cada ;m deles ele, os homens possam se tornar n i o ape- tem de perceber suas proprias ag6es e pai- nas "scientes", mas tambCm "potentes". x6es e as conex6es que apresentam com as Trata-se de dois temas que, como veremos, do outro da lugar a sensag6es agradaveis em se tornariam centrais, respectivamente, em relag50 aquilo que C afim e que favorece a Galileu e em Bacon. i] z sua propria conservagiio, e a sensag6es de-
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    109 CdphLl0 se'tim0 - VLrtices e resultados conclusivos d o pensamento renascentista sagradaveis no caso contrario. Assim, con- tos que transcendem sua naturalidade, dos clui Telisio, "todos os entes sentem a rela- quais falaremos adiante. qiio reciproca" . Em suas varias formas, o conhecimen- Entio, como i que s6 os animais pos- to se explica mediante o "espirito", sendo, suem orgiios sensoriais? 0 s animais s i o en- precisamente, a percepqio das sensaqoes, tes complexos e os orgiios sensoriais desem- mudanqas e movimentos que as coisas pro- penham o papel de vias de acesso das forqas duzem sobre ele. Em outros termos: o quente externas a substiincia que sente. Ja as coisas e o frio produzidos pelas coisas, que agem simples, precisamente porque siio tais, sen- sobre o organism0 por contato, provocam tem diretamente. aqoes de movimento, de dilataqso e de res- A fisica de Telisio, portanto, i uma fi- triqio sobre o "espirito", e desse mod0 rea- sica baseada nas "qualidades" elementares liza-se a percepqio, que i consciCncia da do quente e do frio. Mas, nesse quadro, co- modificaqiio. mo ja observamos, ele compreende que po- A intelighcia nasce da sensaqio, mais deria ser de notivel vantagem para sua con- precisamente da semelhanqa que constata- cepqio uma investigaqio ulterior voltada mos entre as coisas percebidas, das quais para determinar a "quantidade" de calor conservamos a lembranqa, e a extensio por necessiria para produzir os varios fen6me- analogia a outras coisas, que atualmente niio nos. E i precisamente essa investigaqio ~ercebemos.Por exemplo, quando vemos "quantitativa" que ele afirma niio ter podi- um homem jovem, a intelighcia nos diz que do realizar, desejando deixi-la como tarefa ele envelheceri. Esse "envelhecimento" niio para outros que viessem depois dele. C percebido por nos, j i que ainda esti por vir, niio podendo portanto produzir qual- quer sensaqio em nos; no entanto, nos po- demos "entend&lo" justamente com o au- 0howew xilio da experihcia passada e da semelhanqa cow0 realidade natural daquilo que ja percebemos com aquilo que percebemos agora, ou seja, por analogia. Telisio declara expressamente que n i o Considerado como realidade natural, despreza em absoluto a razio; ao contra- o homem i explicavel como todas as outras rio, diz que se deve de~ositar confianqa nela realidades naturais. "quase como nos sentidos". Mas o sentido 0 s organismos animais eram explica- i mais crivel do que a razio, pel0 motivo de dos por Aristoteles em funqiio da "alma que aquilo que i apreendido pelos sentidos sensitiva". Telisio, naturalmente, n i o pode n i o tem mais necessidade de ser ulterior- mais abrigar tal tese, mas tem necessidade mente investigado. de introduzir algo capaz de diferenciar o Para Telisio, a propria matematica i animal das coisas restantes. Por isso, recorre fundada no sentido, nas similitudes e nas iquilo que ele chama de "espirito produzi- analogias, do mod0 ja explicado. do pela semente" (spirituse semine eductus). A terminologia (de origem estoica) se refe- re provavelmente a tradiqiio midica antiga (que Telisio conhecia muito bem). 0 "es- A woral natural pirito", substincia corporea muito h u e , esti incluido no corpo, como no seu pro- prio revestimento e no seu proprio 6rgio. A vida moral do homem, pel0 menos Conseqiientemente, o "espirito" explica num primeiro nivel, t a m b i m pode ser tudo aquilo que Aristoteles explicava com explicada com base nos principios naturais. a alma sensitiva (recorde-se a analoga con- Para o homem, como para todo ser, o cepqio do "espirito" de Ficino, no qual, bem i a sua propria autoconserva@o, as- porim, cumpria uma funqio totalmente di- sim como o ma1 i o seu dano ou a sua des- ferente). truiqiio. 0 prazer e a dor entram ness'e jogo Telisio logo percebeu que, alim d o de conservaqiio e destruiqio. E prazeroso "espirito", ha no homem algo mais, "uma aquilo que agrada ao "espirito", e agrada espicie de alma divina e imortal", que, po- ao "espirito" aquilo que o vivifica, consti- rim, n i o serve para explicar os aspectos tuindo portanto uma forqa favoravel. E do- naturais do homem, mas somente os aspec- loroso aquilo que abate e prostra o "espiri-
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    110 Primeira parte - 8+ I C . W ~ M I S M ? O e aRe~nscrn~n to", e abate o "espirito" aquilo que Ihe i de Telisio 6 o Deus biblico, criador e regen- nocivo. Assim, o prazer i "a sensaqiio da te do mundo. E i precisamente de sua ativi- conservaqiio", ao passo que a dor e "a sen- dade criadora que depende aquela "nature- saqiio da destruiqiio" . za" estruturada do mod0 como vimos, bern 0 prazer e a dor, portanto, tim um como o destino superior dos homens em precis0 objetivo funcional. Desse modo, o relaqiio a todos os outros seres, como agora prazer niio pode ser o fim ultimo que perse- veremos. guimos, mas sim o meio que nos facilita al- A "mens superaddita", isto C a alma , canqar esse fim, o qual, como ja dissemos, C intelectiva, que e imortal, C infundida no a autoconservaqiio. Em geral, tudo aquilo homem por Deus. A alma esta unida ao cor- que o homem deseja esta em funqiio dessa po e, especialmente, ao "espirito" natural, conservaqiio. como forma dele. Entendidas do ponto de vista natura- Por meio do espirito o homem conhe- lista, as pr6prias virtudes siio praticadas e ce e apetece as coisas que se referem a sua exercidas em funqiio desse mesmo objetivo, conservaqiio natural; ja com a mens super- ou seja, para que facilitem a conservaqiio e addita, ele conhece as coisas divinas e tende o aperfeiqoamento do "espirito". para elas, que niio dizem respeito 2 sua sau- de natural, mas sim a eterna. Assim, exis- tem no homem dois apetites e dois intelectos. Por isso, ele esti em condiqoes de entender niio somente o bern sensivel, mas tambim o e a alma bern eterno, bern como de quer4-lo (e isto i ente C O ~ O suppa-sensivel o livre-arbitrio). Conseqiientemente, o ho- mem deve procurar niio sucumbir com sua "mente" as forqas do "espirito" material, Como ja observamos, Telisio operou mas sim manti-la pura e torna-la semelhan- a "reduqiio naturalista" na sua pesquisa fi- te ao seu criador. Em suma, essa "mente" sica e na reconstruqiio da realidade natural, concerne a atividade religiosa do homem e mas ficou bern distante de dar a tal "redu- assinala a sua especificidade em toda a or- qiio" uma valincia metafisica geral. Ele ad- dem do real. mite um Deus criador e acima da natureza; 0 s intirpretes viram freqiientemente, o que ele nega, simplesmente, i que se deva nessas doutrinas de Telisio, algumas con- recorrer a ele na investigaqiio fisica. cessoes indibitas (talvez feitas pro bono pa- Alias, a esse proposito, i interessante cis, para evitar complicaqoes), ou, de todo notar o fato de que Telesio, que normalmen- modo, teses em contraste com o seu "natu- te censura Aristoteles por ser excessivamente ralism~". realidade, porem, niio i assim. Na metafisico em fisica, objeta-lhe precisamen- Quando muito, seria verdade precisamente te o oposto no que se refere ao Motor Imo- o oposto. A sua originalidade esta exatamen- vel. E completamente inadequada uma con- te na tentativa de estabelecer uma distinqiio cepqiio de Deus reduzido a funqiio motriz, clara de imbitos de investigaqiio, sem que a ao modo aristotklico. Telesio chega a escre- distingiio implique exclusiio. Embora com ver que, a esse respeito, Aristoteles "parece todos os seus limites, tambim nesse sentido digno niio apenas de criticas, mas tambim Telisio apresenta analogias com Galileu, de abominaqiio". A moqiio do ciu podia que, precisamente, distinguirh de modo pa- muito bern ser atribuida a propria natureza radigmatic~ ciincia e religiiio, atribuindo a do ciu, sem chamar Deus em causa daquele primeira a funqiio de mostrar c o m o vai o modo. Ademais, i inconcebivel o fato de ce'u (com suas leis especificas), e segunda Aristoteles negar ao seu Deus a providincia a tarefa de mostrar como se vai a0 C&U (cren- em relaqiio aos homens. Em suma: o Deus do e agindo em conformidade com a f6).
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    III. Giovdano Bruno: universo infinito e "herbico fuvov" Nascido em Nola em 1548, Giordano Bruno entrou muito jovem no conven- to de Sao Domingos em Napoles, onde foi ordenado sacerdote em 1572. Acusado em 1576 de heresia e de homicidio, deixou o habito e iniciou uma fase de peregrina~6es pela Europa, ate que em 1591 voltou A vida para a Italia, aceitando o convite do nobre veneziano Joao Mo- e os escritos cenigo, que desejava dele aprender a mnemotecnica. Mocenigo, maisimportantes porem, denunciou-o ao Santo Oficio; comey;ouent%o process0 de Giordano o por heresia que s concluiu com a condena@o a morte na fo- Bruno e gueira, executada em Roma dia 7 de fevereiro de 1600: ate o fim, +5 Bruno n%orenegou seu credo filosofico-religioso. Entre suas numerosas obras, a mais importantes sao: De umbris idearum s (1 582), Da causa, do princfpio e do uno (1584), Do infinito, do univeno e dos mundos (1584), Circulaga"~ besta triunfante (1584), Dos heroicos furores (15851, da Do minimo (1591), Das mtjnadas (1591), De immenso et innumerabilibus (1591). Bruno 4 sem duvida o filosofo renascentista mais complexo; com sua visa0 vitalista e magics, de fato nao antecipa as descobertas cientificas do s4cufo se- guinte, mas e possivel encontrar em seu pensamento surpreen- dentes antecipa~iaes Spinoza e dos Romdnticos, sobretudo do o carater de jovem Schelling. magico- A marca que distingue seu pensamento e de car6ter magi- hermetic0 co-hermetico, e este n%o pode ser entendido como uma especie da f h o f i a de gnose renascentista, mensagem de salva@o neoplato- $:yyO nicamente marcada pelo tip0 de religiosidade "egipcia" prdpria dos escritos herm4ticos: o "egipcianismo" aqui 4 uma experidn- cia teurgica e extdtica que leva ao Uno dos Neoplatdnicos, C; a "boa religi3o" destruida pelo Cristianismo, a qua1 e preciso voltar e da qua1 Bruno s sente o e profeta, investido precisamente da miss%o fazd-la reviver. de Ele, portanto, n%opodia estar de acordo nem com os catolicos nem com os protestantes, e por fin nao s pode dizer sequer crist80, porque acabou pondo e em duvida a divindade de Cristo e os dogmas fundamentais do Cristianismo: seu escopo era o de ele pritiprio fundar nova religiso. * A visa0 que Bruno tem do universo 6 de tipo copernicano, baseada sobre a concep@oheliocdntrica e sobre a infinitude do cosmo, ligada a magia astral e ao culto solar. Acima de tudo esta uma Causa ou Principio supremo (o Uno plotiniano reinferpretado em chave renascentista), que Bruno chama de mente sobre as coisas, da qua1 tudo o mais deriva, mas que nos A visdo permanece incognoscivel; o universo inteiro, que e uno, infinito de Bruno e imcivel, constitui o efeito deste primeiro Principio, mas pelo do universo: conhecimento dele n8o s pode remontar ao conhecimento de -0 heroic0 e sua Causa. furor" Do Principio supremo deriva o lntelecto universal, entendi- + § 4-6 do ccrmo mente nas coisas, como faculdade da Alma universal da qua1 brotam todas as formas dindmicas imanentes a materia: a Alma do mando est6 em toda coisa, e na Alma esta presente o lnteledo universal, fonte perene de formas que continuamente s renovam. A infinitude do universo C acompanhada e pela existdncia de mundos infinitos semelhantes ao nosso, cam outros planetas e outras estrelas; em particular, ele 4 "infinito" el ao mesmo tempo, "esferiforme",
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    112 Primeira parte - O t l w n a n i ~ m ~ R e n a s c r n c a e a conforme uma fdrmula de derivac;%o hermBtica e cusaniana: o universo 6 uma esfera que tem seu centro em todo lugar e a circunferencia em nenhum lugar; e infinita 6 tambitm a vida, porque infinitos individuos vivem em nbs, como em todas a coisas compostas: nada s aniquila, e por isso o morrer e apenas mutac;%o s e acidental, enquanto aquilo que muda permanece eterno. A contemplac;%oe transforma assim em uma forma de "eudeusamento", de s heroic0 furor, que B anseio de ser uno com a coisa ansiada: a Divindade, a verdade ansiada, estci em nds mesmos, e quando descobrimos isso, tornamo-nos anseio de nossos prdprios pensamentos; no &picedo "herdic0 furor"', o homem v& inteira- mente o Tudo, porque se assimilou a esse Tudo. 1 Vida e o b ~ a s do Ficino em suas lig6es (as doutrinas ma- gico-hermtticas). Em 1585 retornou a Paris, mas logo percebeu que nZo gozava mais da protegiio Giordano Bruno nasceu em Nola, em do rei e teve de fugir, depois de um desen- 1548. Seu nome de batismo era Filipe, o contro com os aristotClicos. nome de Giordano lhe foi dado quando, ain- Desta vez escolheu a Alemanha lute- da muito jovem, ingressou no convent0 de rana. Em 1586 estabeleceu-se em Witten- SZo Domingos, em Napoles, onde foi orde- berg, onde elogiou publicamente o lutera- nado sacerdote em 1572. nismo. Mas tambem ai nZo permaneceu por Seu espirito rebelde ja se manifestou muito tempo. Em 1588 tentou obter os fa- quando ainda era estudante, e em 1567 foi vores do imperador Rodolfo I1 de Asburgo, instaurado um processo contra ele, que de- na Austria, mas sem sucesso. Retornou en- pois foi suspenso. Mais grave foi o processo de 1576, ins- taurado, mais do que pelas suspeitas de he- resia que havia suscitado, pela suspeita de que lhe coubesse a responsabilidade pel0 assassinio de um confrade que o havia de- nunciado. Na realidade, a suspeita era in- fundada. Mas a situagiio complicou-se a tal ponto que Bruno, que nesse meio tempo fugira para Roma, chegou a pensar em lar- gar o hibito, e refugiou-se no norte do pais (Gsnova, Noli, Savona, Turim e Veneza) e finalmente na Suiga, em Genebra, onde fre- qiientou ambientes calvinistas. Mas logo se rebelaria tambCm contra os teologos calvi-, nistas. A partir de 1579, Bruno viveu na Fran- qa, primeiro em Tolosa, por dois anos, e a partir de 1581 em Paris, onde conseguiu atrair a atenqiio de Henrique 111, do qua1 teve protegso e apoio. Em 1583 foi para a Inglaterra, acom- panhando o embaixador franc& e vivendo sobretudo em Londres. Esteve durante um period0 tambCm em Oxford, onde, porCm, logo entrou em choque com os docentes da universidade (que ele considerava "pedan- tes"). Documentos vindos recentemente i i luz demonstram, entre outras coisas, que os doutos locais o contestaram por ter plagia-
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    Capitulo sdtirno - VCrtices e resultados conclusivos d o pensamento rrnascrntista tiio a Alemanha, onde, em 1589, em Helms- cautelosamente iniciara, procurando man- tadt, inscreveu-se na comunidade luterana, ter-se dentro dos limites da ortodoxia cris- da qual foi expulso depois de apenas um ano. ta, mas que ele tratou de levar as ultimas Em 1590, foi para Frankfurt, onde pu- conseqiihcias. E mais: o pensamento bru- blicou a trilogia dos seus grandes poemas niano pode ser entendido como urna espC- latinos. Quando ai estava, recebeu urn con- cie de gnose renascentista, urna mensagem vite, por livreiros, do nobre veneziano Joiio de salvaqio moldada no tip0 de religiosida- Mocenigo, para transferir-se a Veneza. Ele de "egipcia", como precisamente pretendia desejava aprender a mnemoticnica, da qual ser a mensagem dos escritos hermiticos. 0 Bruno era mestre. Imprevidentemente, acei- seu neoplatonismo serve de base e de moldu- tou o convite e voltou a Italia em 1591. ra conceitual para essa visio religiosa, do- No mesmo ano, Mocenigo denuncia- brando-se continuamente i s suas exiggncias. va Bruno a o Santo Oficio. Em 1592 come- Esta i a documentadissima tese apre- qou em Veneza o processo contra Bruno, que sentada recentemente por F. A. Yates que se concluiu com a sua retrataqiio. desejamos enfocar brevemente, porque re- Em 1593, o filosofo foi transferido para solve muitos problemas de interpretaqio da Roma, sendo submetido a novo processo. obra de Bruno. A filosofia de Bruno - es- Depois de extenuantes tentativas de con- creve Yates - "e fundamentalmente hermi- vencc-lo a retratar-se de algumas de suas tica [...I, ele era mago hermitico do tip0 mais teses, chegou-se a urna ruptura final, com radical, com urna espCcie de missiio magi- sua condenaqio a morte na fogueira, sen- co-religiosa [. ..] ". tenqa que foi executada no Campo dei Fiori, Portanto, conclui Yates, "[ ...I toda a em 7 de fevereiro de 1600. tentativa ficiniana de construir urna theo- Giordano Bruno n i o renegou seu cre- logia platonica crists, com seus prisci theo- do filosofico-religioso, morrendo para teste- logi e magi e com o seu platonismo cristiio, munha-lo. Sao muito numerosas as obras furtivamente permeado de alguns elemen- de Giordano Bruno. Dentre elas, merecem tos magicos, era menos do que nada aos particular atenqio: a comidia o Candeeiro olhos de Giordano Bruno, que, aceitando (1582),o De umbris idearum (1582),a Ceia plena e despreconceituosamente a religiiio das Cinzas (1584),Sobre a causa, principio magica egipcia do Asclepius (e desprezando e uno (1584), Sobre o infinito, universo e os presumidos prenuncios do cristianismo mundos (1584), o Despacho da fera triun- contidos no Corpus Hermeticum), conside- fante (1584), Sobre os herdicos furores rou a religiao magica egipcia como urna (1585), D e minimo (1591), D e monade experigncia teurgica e extatica genuinamente (1591) e D e immenso et innumerabilibus neoplathica, como urna elevaqiio em dire- (1591). fa0 ao Uno. E assim era de fato, ja que o 'egipcianismo' hermitico nada mais era do que o 'egipcianismo' interpretado por neo- plat6nicos da antiguidade tardia. Entretan- 2 A caracteristica to, o problema da interpretaqiio de Bruno de fundo do pensamento niio se resolve reduzindo-o a mero conti- nuador desse tip0 de neoplatonismo e con- de Bvuno siderando-o um simples seguidor de um cul- t o misteriosofico egipcio, porque ele certamente foi influenciado pelas idCias pro- Para entender a mensagem de um fi16- duzidas por Ficino e por Pico, com toda a sofo i precis0 captar o fulcro do seu pensa- sua forga psicologica, suas associaq6es caba- mento, a fonte dos seus conceitos e o espiri- listicas e cristss, o seu sincretismo de diver- to que Ihe da vida. N o caso de Giordano sas posiqoes filosoficas e religiosas, antigas Bruno, onde estiio esse fulcro, essa fonte e ou medievais, e com sua magia". essa alma? Conseqiientemente, i claro que Bruno 0 s estudos mais recentes conseguiram niio podia estar de acordo com os catolicos lanqar luz sobre a questio: a marca que dis- nem com os protestantes (em ultima i n s t h - tingue o pensamento bruniano i de carater cia, niio pode ser considerado sequer cris- m6gico-hermitico. Bruno se coloca na tri- tio, pois acabou pondo em duvida a divin- Iha dos magos-filosofos renascentistas, le- dade de Cristo e os dogmas fundamentais vando muito adiante o discurso que Ficino do cristianismo) e que os apoios que busca-
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    Primeira parte -0+IL~M?UM~SM?O r n Renascen~a va, ora de urna parte ora de outra, eram sol ideal que i o intelecto. As "sombras das apenas apoios taticos para realizar a pro- idCias7'niio siio as coisas sensiveis, mas mui- pria reforma. E precisamente por isso C que to mais (no context0 bruniano) as "imagens ele provocou violentas reaqties em todos os magicas" que refletem as idCias da mente ambientes nos auais ensinou. Bruno niio divina e das quais as coisas sensiveis siio podia seguir nenhuma seita, porque seu ob- copias. Imprimindo na mente essas "imagens jetivo era o de fundar ele proprio urna nova magicas", obtCm-se entiio como que um re- religiiio. flexo do universo inteiro na mente, adqui- E, no entanto, estava e'brio de Deus rindo-se desse mod0 niio apenas urna poten- (para usar urna expressiio que Novalis usou cializagiio maravilhosa da memoria, mas a respeito de Spinoza) e o infinito foi o seu tambim fortalecimento da capacidade ope- principio e o seu fim (como podemos dizer rativa do homem em geral. com outra exmess50 de Schleiermacher em A obra apresenta urna strie de relaqdes relaciio a S ~ i n o z a )Mas trata-se de um "di- . de imagens, com base nas quais Bruno or- v i n 2 e de ; m "iifinito" de carater neopa- ganiza o sistema da memoria e, como Ficino giio, que o aparato conceitual do neopla- jii comeqara a fazer, da fundamentos ploti- tonismo, feito renascer por Nicolau de Cusa nianos A sua construqiio. e por Ficino, prestava-se a expressar de mo- 0 Bruno parisiense, portanto, com essa do quase perteito. obra dedicada propriamente a Henrique 111, se apresenta como expoente e renovador da tradiqiio magico-hermitica inaugurada por Ficino, mas em sentido muito mais radical, ou seja, no sentido de que niio Ihe interessa mais a conciliaqiio ficiniana dessa doutrina e arte ~?&~ico-hevm&tica com a dogmitica cristii, decidido que esta- va a trilhar at6 as ultimas conseqiicncias esse caminho. As primeiras obras brunianas siio de- dicadas a mnemoticnica, destacando-se en- tre elas a De umbris idearum, elaborada em Paris e dedicada a Henrique 111. Mas a sua propria mnemote'cnica ju apresenta fortes colora$es magico-herme'ticas. A arte da memoria era muito antiga. 0 s oradores romanos, particularmente, re- Depois do period0 na Franqa, a etapa comendavam, para a memorizaqiio dos mais significativa da carreira de Bruno foi seus discursos, que se associasse a estrutu- sua estada na Inglaterra, onde elaborou e ra e a sucessiio dos conceitos e argumenta- publicou os "dialogos italianos7', que cons- qdes a favor dos mesmos a um edificio e a tituem suas obras-primas. sucessiio das partes de um edificio. Na Ida- Antes de falar do seu conteudo (do de MCdia, Raimundo Lulio ja havia desen- qua1 os posteriores poemas latinos, compos- volvido a mnemotCcnica, niio so procuran- tos e publicados na Alemanha, constituem do definir normas destinadas a favorecer apenas o desenvolvimento e aprofunda- a memorizaqao, identificando urna preci- mento), C bom identificar com que roupa- sa escansiio das regras da mente, mas tam- gem Bruno se apresentou aos ingleses, par- bCm procurando identificar a coordena- ticularmente aos doutos da Universidade $50 dessas regras da mente com a estrutura de Oxford. Documentos que so vieram a luz do real. no Novecentos nos informam sobre os te- Na Renascen~a, mnemottcnica renas- a mas tratados por Bruno em Oxford e sobre ceu, alcanqando seu ponto culminante com as realties que teve dos seus ouvintes. Ele Giordano Bruno. exp6s uma viszo copernicana do universo, Alim disso, no De umbris idearum, centrada na concep@o heliocintrica e na Bruno vincula-se expressamente a Hermes infinitude do cosmo, vinculando-o a magia Trismegisto, convencido de que a religiiio astral e ao culto solar tal como havia sido "egipcia" era melhor do que a cristii, en- proposto por Ficino, a tal ponto que um dos quanto C religiiio da mente, que se realiza doutos "achou que tanto a primeira como superando o culto ao sol, imagem visivel do a segunda liqiio haviam sido extraidas, quase
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    Capitdo se'timo - V&vtices e resultados conclusivos d o pensamento renasrentista palavra por palavra, das obras de Marsilio Por isso, C compreensivel que, nesse Ficino" (em particular da obra De vita contexto, Deus e natureza, forma e mati- coelitus comparanda). Criou-se um esciin- ria, ato e potencia acabem por coincidir, a dalo, que obrigou Bruno a despedir-se ra- ponto de Bruno escrever: "Dai, n5o C dificil pidamente dos "pedantes gramaticos" de ou grave, em ultima instiincia, aceitar que, Oxford, que nada haviam entendido de sua segundo a substiincia, tudo C uno, como tal- mensagem. vez tenha entendido ParmEnides, tratado A imagem que ele queria transmitir de ignobilmente por Aristoteles. " si mesmo, portanto, era a do mago renas- centista, de alguCm que propunha a nova religi50 "egipcia" da revelaq50 hermetica, o culto do deus in rebus, o deus que esta fi infinitude do L d o presente nas coisas. e o significado impresso No Despacho o "egipcianismo" 6 apre- sentado at6 mesmo como tematica, ao pas- por Bruno so que o "sapientissimo Mercurio Egipcio", 2 revoIuG2;ocopernicana ou seja, Hermes Trismegisto, C apresentado como fonte de sabedoria. E essa vis5o do "deus nas coisas" esta expressamente liga- A partir desta concepq50 bruniana o da a magia, entendida como sabedoria pro- infinito se torna, como ja dissemos, a mar- veniente do "sol inteligivel", que C revelada ca emblematica da concepq50 bruniana. a o mundo ora em menor ora em maior me- Com efeito, para Bruno, se a Causa ou o dida. Principio primeiro C infinito, tambCm o efei- 0 "egipcianismo" de Bruno C uma for- to deve ser infinito. ma de religi5o paganizante, com base na Com base nisso, Bruno sustenta n5o qual ele pretendia fundar a reforma moral apenas a infinitude do mundo em geral, mas universal. tamb6m (retomando a idCia de Epicuro e de Mas quais s5o seus fundamentos filo- LucrCcio) a infinitude no sentido da exis- soficos? tincia de mundos infinitos semelhantes ao Acima de tudo Bruno admite uma nosso, com outros planetas e outras estre- "causa" ou um "principio supremo", a o las: "e isso se charna universo infinito, no qual ele chama tambCm de "mente sobre as qual ha inumeraveis mundos". coisas", da qual deriva todo o restante, mas Infinita tambCm C a vida, porque infi- que permanece incognoscivel para nos. Todo nitos individuos vivem em nos, assim como o universo C efeito desse primeiro principio; em todas as coisas compostas. 0 morrer n5o mas n5o se pode remontar do conhecimen- C morrer, porque "nada se aniquila". Assim, to dos efeitos ao conhecimento da causa, o morrer C apenas uma mudanqa acidental, como n5o se pode remontar da vis5o de uma ao passo que aquilo que muda permanece estatua i visiio do escultor que a fez. Esse eterno. principio outra coisa n5o C do que o Uno Mas, entso, por que existe essa muta- plotiniano revisitado por urn renascentista. @o? Por que a matiria particular procura Assim como em Plotino o Intelecto de- sempre outra forma? Sera que procura ou- riva do supremo Principio, analogamente, tro ser? De mod0 bastante engenhoso, Bru- Bruno tambCm fala de um Intelecto univer- no responde que a m u t a ~ 5 o n50 procura sal, mas o entende, de mod0 mais marcada- "outro ser" (pois tudo j6 existe desde sem- mente imanentista, como mente nas coisas pre), e sim "outro modo de ser". E nisso e precisamente como faculdade da Alma reside precisamente a diferen~a entre o uni- universal, da qual brotam todas as formas verso e as coisas singulares do universo: que s5o imanentes a matiria, constituindo "aquele abrange todo o ser e todos os mo- corn ela um todo indissoluvel. dos de ser; estas, cada qual tem todo o ser, As formas s5o a estrutura diniimica da mas n5o todos os modos de ser". matiria, "que v5o e vim, cessam e se reno- Assim, Bruno pode dizer que o univer- vam", precisamente porque tudo C anima- SO C "esferiforme" e, ao mesmo tempo, "in- do, tudo esta vivo. A alma do mundo esta finito". 0 conceit0 de Deus como "esfera em cada coisa. E na alma esta presente o que tem o centro em toda parte e a circun- intelecto universal, fonte perene de formas ferincia em nenhum lugar", que apareceu que continuamente se renovam. pela primeira vez em tratado hermktico e
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    - 'I6 - PRmeim parte - 0tlumonismo e n Rennscensn que foi tornado cClebre por Nicolau de Cusa, necer todas as "fantasticas muralhas" dos serve admiravelmente a Bruno; C precisa- cCus, tornando-os sem limites rum0 ao in- mente com essa base que ele opera a conci- finito. liaqio j i referida. Deus C todo infinito e totalmente in- finito, pprque C todo em tudo e totalmen- te tambem em toda parte d o todo. Como efeito derivado de Deus, o universo C todo infinito, mas n20 totalmente infinito, por- que e todo em tudo, mas n i o totalmente Na visio bruniana, a "contempla~io" em todas as suas partes (ou, de todo mo- plotiniana e o tornar-se uno com o Todo do, n i o pode ser infinito no mod0 como tornam-se "heroico furor". Deus 6, sendo causa de tudo em todas as TambCm para Bruno trata-se de per- partes). correr novamente, em elevaqio cognoscitiva, Estamos agora em condiq8es de enten- ou seja, voltando sobre os proprios passos, der as raz6es da entusiastica aceitaqio da aquela descida que do principio levou ao revoluqio copernicana por Giordano Bru- principiado. Mas, em Bruno, a contempla- no. Com efeito, o heliocentrismo a ) har- qio se transforma em uma forma de "divi- monizava-se perfeitamente com sua gnose nizaqio", que C furor de amor, anseio de ser hermitica, que atribuia a o sol (simbolo do uma so coisa com o objeto anelado, trans- intelecto) um significado inteiramente par- formando desse mod0 o ixtase plotiniano ticular, e b) permitia-lhe romper a visio es- em experiincia rnagica. (Ficino j i denomi- treita dos aristotClicos, que sustentava a nara furor divino o amor que leva o homem finitude do universo, e assim fazia desva- a "endeusar-sen ). 0 ponto central do escrito Sobre os he- roicos furores, que C uma de suas obras-pri- mas, explica que o proprio sentido dos "fu- rores heroicos" esta no mito do caqador Action, que viu Diana no banho e, de caqa- dor, foi transformado em cervo, isto C, em uma caqa selvagem, sendo devorado por seus GIORDA: cies. Diana C o simbolo da divindade ima- N O BRVNO nente da natureza e ActCon simboliza o inte- 3yolano. lecto, voltado para a caqa i verdade e i bele- DE G C H E R O I C 1 za divina; ja os mastins e galgos de ActCon FVRORf. simbolizam as voliqoes (0s primeiros, que s i o mais fortes), e os pensamentos (0s segundos, que s i o mais velozes). ActCon, portanto, foi convertido naqui- lo que procurava (caqa)e seus proprios c5es (pensamentos e voliq6es) o devoram. Por q u i ? Porque a uerdade procurada esta em nos mesmos e, quando descobrimos isso, PARIGI, ApprcCTo AntonioB,~tf, tornamo-nos anseio de nossos proprios pen- k d n n o . I 5 8f. samentos e compreendemos que "tendo ja contraida em si a divindade, n i o era preci- so procura-la fora de sin. Por isso Bruno conclui: "Desse modo, os cies, pensamentos de coisas divinas, de- voram Action, tornando-o morto para o vulgo, para a multidio, liberto das amar- Na obra-prima de Bruno Dos heroicos furores ras dos sentidos perturbados, livrewdocar- esta presente o mito do ca~ador Action, que depois de ter uisto Diana cere carnal da matiria; n5o vendo mais sua foi transformado em ceruo Diana como que atravCs de cortinas e ja- e dilacerudo por seus ciies. nelas, mas, tendo posto por terra as mura- Acte'on simboliza o intelecto dirigido lhas, C agora todo olhos para o aspect0 de a caCa da uerdade e da beleza diuina. todo o horizonte." N o ponto culminante
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    117 - Capit2410 ~e'tZm0 Vbrtices e resultados ronclusivos d o pensamento renascentista do "heroic0 furor", o homem v@tudo in- mente tenha entendido o sentido cientifico teiramente todo, porque assimilou-se a esse daquela doutrina. Niio 6 possivel destacar o aspect0 mate- matizante de muitos escritos brunianos, pois a matemitica bruniana C aritmologia pita- gorizante, sendo portanto metafisica. Em suma, com sua visiio vitalista e magica, Bruno niio C pensador "moderno", no sentido de que n i o antecipa as descober- Bruno C certamente um dos filosofos tas do sCculo seguinte, que nascem em ba- mais dificeis de entender. E, no imbito da ses totalmente diferentes. filosofia renascentista, certamente C o mais Entretanto, Bruno antecipa de modo complexo. Dai as exegeses tiio diversas que surpreendente certas posiqoes de Spinoza e, sobre ele foram propostas. sobretudo, dos romsnticos. A embriaguez N o estado atual dos estudos, porCm, de Deus e do infinito propria desses fil6so- muitas conclus6es a que se chegara no pas- fos ja esth presente em muitas piginas de sado devem ser revistas. Bruno. Schelling C o pensador que mostrara N i o parece possivel fazer dele um pre- (pelo menos em uma fase do seu pensamen- cursor da revoluqiio do pensamento moder- to) as mais fortes afinidades de opqio com no, no sentido em que operara a revoluqiio o nosso filosofo. E uma das obras schellin- cientifica, porque seus interesses eram de guianas mais belas e sugestivas intitular-se- natureza completamente diferente: magico- a precisamente Bruno. religiosos e metafisicos. Em seu conjunto, a obra de Bruno A defesa que ele fez da revoluqio marca um dos pontos culminantes da Re- copernicana fundamenta-se em bases total- nascensa e, a o mesmo tempo, um dos re- mente diferentes daquelas em que se basea- sultados conclusivos mais significativos ra CopCrnico, tanto que alguns chegaram desse period0 irrepetivel do pensamento at6 a levantar duvidas de que Bruno real- ocidental. <;rord'ztzoBrum) &ante do trrl~utzaldo Santo Oficro (releuo do tnorzumerzto u Bruno, Roma). -
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    118 Primeira parte - O t l u m a n i s m o e a Renascenca / Deus / /' Uno todo e totalmente infinito , em toda sua parte, Principio supremo I e Causa incognoscivel do Todo: Mente acima das coisas Intelecto universal For~a divina, faculdade da Alma d o mundo ', Mente nas coisas / , ' I I o tornar-se-uno do homem com o Todo C HEROICO FUROR, endeusamento (iguala@o corn a Divindade), Pnsia de ser-uno com a coisa ansiada que culmina na assimila@o do homem ao Todo todas as formas (as estruturas dinimicas perenemente em renovaqiio) da matiria Universe uno, imovel, esferiforme, todo, mas n2o totalmente infinito: contCm inumeraveis mundos infinitos, mas em toda sua parte C finito
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    119 Capitdo se'timo - VLrtices e resultados ronclusivos d o pensamento renasrentista IV. TOM?& Campanella: magia naturaIis~?o, e anseio de reforma universal Nascido em Stilo, na Calabria, em 1568, e entrando com 15 anos na Ordem dos Dominicanos, Tomas Campanella foi dominado por uma dnsia de reforma universal, certo de ter uma missao a realizar. Sua vida aventurosa pode-se dividir em quatro periodos: 1) a juventude, constelada de processes por heresia e prati- A vida cas magicas, ate o insucesso da revolta poiitica por ele organiza- e os textos da contra a Espanha (1599); mais importantes 2) o longo cativeiro em Napoles (1599-1626), durante o qua1 + 3 1 fingiu-se louco para livrar-se da fogueira; 3) a reabilitaqSo romana (1626-1634), tanto que teve 21 disposi~ao palhcio o do Santo Oficio; 4) as grandes honras na Fran~a, onde fruiu dos favores de Richelieu. Morreu em 1639. Entre suas obras, lembramos: A cidade do sol (1602), a Teologia em 30 livros (1613-24), a Metafisica em 18 livros (publicada em latim em Paris, em 1638). 0 novo significado que Campanella confere ao conhecer telesiano 6 expres- so pela palavra "sabedoria", feita derivar de "sabor"; o sabor 4 a revelar;rio de tudo o que ha de mais intimo na coisa pela uniao com a propria coisa; alem disso, sabe-se aquilo que se P: viver 6 um crescer no o sentido ser e no saber, e este mudar 6 tambem de certo mod0 morrer: da "sabedoria" apenas mudar-se em Deus e vida eterna. e as tr6s Toda coisa e constituida pela potencia de ser, do saber de primalidades ser, do amor de ser; estas 580 as tr@s primalidades do ser, que tem do ser igual dignidade, ordem e origem, e d o uma imanente a outra. + 9 2 ~ Nas coisas finitas, existem tambem as tr@s primalidades do n 7 - c0 ser; Deus e ao inves, Potencia suprema, Sabedoria suprema, Amor supremo, e a , cria~80 repete portanto, em diferentes niveis, o esquema trinitdrio. 0 conhecimento de si e prerrogativa nao do homem, mas de todas as coisas, que sao todas vivas e animadas: todas as coisas d o de fato dotadas de uma sapientia indita ou inata, que e um sensus sui, um auto-sentir-se; mas enquanto nas coisas ordinarias o sensus sui permanece prevalentemente escondido (sensus abditus), no homem ele pode chegar a niveis not6veis de consciencia, e em Deus se desdo- bra por fim em toda a sua perfei~ao. 0 conhecimento do outro diverso de si mesmo e, ao contrd- A natureza rio, uma sapientia illata, isto e, adquirida em contato com as eoconhecimento outras coisas, e todas as coisas falam e comunicam entre si ime- -+§ 3 diatamente, porque tudo esta em tudo. Alem da alma-espirito, no homem ha a mente incorpdrea e divina, que tem a capacidade de conhecer, assimilando a si mesma ao inteligivel que estS nas coisas, os modos e as formas segundo as quais Deus as criou. A arte magical de que Campanella foi apaixonado cultor, tem tr@s forlnas: 1) divina, que Deus concede aos profetas e aos santos; 2) natural, que se serve das propriedades ativas e passivas das coisas naturais para produzir efeitos maravilhosos; 3) demoniaca, que se serve dos espiritos malignos e deve ser condenada.
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    Desse modo, Campanellainclui na magia todas as artes, as inven~des as e descobertas, mas esta em todo caso convict0 de que a maior a@o magica huma- na consiste em dar leis aos homens. A Cidade do sol representa assim a suma das aspiracbes de Campanella: d6 voz a sua insia A magia de reforma do mundo e de libertaqao dos males que o afligem, fazendo uso dos poderosos instrumentos da magia e da astro- 5-6 do EiZade logia. + A vida e as obvas obras com forqa irrefreavel, como urn vul- ciio em erupqiio. Submetido a torturas e muitas vezes preso, escapou da condenaqiio A morte fin- 0 pensamento renascentista se conclui gindo perfeitamente estar louco. Foi por isso com Tomas Campanella. que niio acabou na fogueira, como Bruno, Nascido em Stilo, na Calibira, em 1568, e, depois de ter passado quase a metade de Campanella ingressou na ordem dos domi- sua vida na priszo, conseguiu lentamente nicanos aos quinze anos (seu nome de batis- readquirir credibilidade, que reconstituiu mo era Giandomenico, mudado para Tomas com incansavel fadiga cotidiana. Por fim, em homenagem a santo Tomis de Aquino inesperados triunfos na Franqa coroaram quando ingressou no convento). sua turbulenta existsncia. Ele se assemelha a Bruno em muitos Siio quatro os periodos que se podem aspectos. Mago e astrologo, dominado por distinguir nessa vida verdadeiramente ro- grande anseio de reforma universal, convic- mancesca: 1) o da juventude, que se con- to de que tinha uma miss50 a cumprir, infa- cluiu com a falsncia de uma revolta politica tigavel em sua obra, extraordinariamente organizada por ele contra a Espanha; 2) o culto e capaz de escrever e reescrever suas do longuissimo encarceramento em Napo- les; 3 ) o da reabilitaqiio romana; 4) o das grandes homenagens francesas. Percorreremos brevemente essas eta- pas, bastante significativas. 1) 0 period0 da juventude foi muito aventuroso. Insatisfeito com o aristotelismo e o tomismo, leu varios filosofos (tanto an- tigos como modernos) e escritos orientais. A indisci~linados rnosteiros dominicanos meridionais permitiu-lhe freqiientar em Nipoles o cultor de rnagia Giambattista Della Porta. Em 1591, sofreu um primeiro process0 por heresia e priticas magicas. Fi- cou poucos meses na prisiio e, ao sair, ao invks de retornar aos mosteiros de sua pro- vincia, contrariando o que lhe fora ordena- do, partiu para Padua, onde, entre outros, conheceu Galileu. Seguiram-se trcs outros processos: um em Padua (1592) e dois em Roma (1596 e 1597). Por fim, foi obrigado a retornar a Tomas Campanella (1568-1 6 39) Stilo, com a proibiqiio de pregar e confessar foi a ultima das grandes figuras e com a funqiio de esclarecer a ort'odoxia de pensadores renascentistas. dos seus escritos. Tentou fundrr metafiszca, teologra, magra e utopra. F o l reahllrtado, depors de longos anos de prrsao, Mas seus anseios de renovaciio. os so- > , quarrdo o pensamento europeu nhos de reformas religiosas e politicas e as estaua 16 dlreczonado visBes de tip0 messiiinico, exaltadas por suas para camrnhos totalmente tfzferentes rfos scws. concepq6es astrologicas, levaram-no a tra-
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    121 Capitdo setzmo - VCrtices e ~ e s u l t a d o s conclusivos d o pensamento renascrntista m a r e pregar uma revolta contra a Espanha, em dezoito livros (dos quais Campanella fez que deveria constituir o inicio de seu gran- nada menos do que cinco redaqties, das dioso projeto. PorCm, em 1559, traido por quais possuimos a latina, publicada em dois c o n ~ ~ i r a d o r eCampanella foi preso, s, 1638, em Paris), e a Teologia, em trinta li- encarcerado e condenado 21 morte. vros (1613-1624). 2 ) Inicia-se assim o segundo periodo. Encarcerado durante os melhores anos Como ja observamos, Campanella salvou- de sua vida, Campanella niio p6de criar dis- se da morte com uma habil simulaqiio de cipulos. E quando, na Franga, passou a go- loucura, que soube sustentar com heroica zar do reconhecimento que antes Ihe fora firmeza diante dos testes de confirmagiio negado, ja era muito tarde para isso, pois mais duros e cruiis. A condenaqiio a morte seu pensamento j6 era fruto fora de esta- foi transformada em prisiio perpktua. Sua giio. Descartes dominava entiio a cena inte- prisiio, que durou nada menos que vinte e lectual e as vanguardas estavam com ele. sete anos, inicialmente foi durissima, mas depois tornou-se pouco a pouco toleravel, at6 tornar-se quase formal. Campanella po- dia escrever seus livros, trocar correspon- dEncia e at6 receber visitas. 3 ) Em 1626, o rei da Espanha mandou liberta-lo, mas sua liberdade durou muito e o vepensamento pouco, porque o nuncio apostolico mandou do sensismo telesiano ~rendG-lo novo, transferindo-o para Ro- de ma, nos carceres do Santo Oficio. Mas aqui a sorte de Campanella mudou radicalmen- Campanella comeqou sendo telesiano, te, em virtude da proteqiio de Urbano VIII, mas logo a seu proprio modo. Para ele, a tanto que, em vez do carcere, Campanella mensagem de TelCsio significa, atravis dos teve a sua disposiqiio nada menos que o pa- sentidos, um contato direto com a nature- lacio do Santo Oficio. za, unica fonte de conhecimento, e, portan- Enquanto esteve preso em Nipoles, seus to, ruptura com a cultura livresca. designios politicos se haviam orientado para A Carta a D o m Ant6nio Quarengo, de a Espanha, considerada como a potEncia que 1607, muito bela e justamente famosa, con- teria condigties de realizar a sonhada "refor- tCm como que um manifesto, que nos mos- ma universal" (dai a sua libertaqiio). Mas, tra algumas das idiias programiticas essen- em Roma, Campanella tornou-se filofran- ciais de Campanella. Assim, vamos destacar ces. Por essa raziio, tendo sido descoberta, dois trechos mais importantes. em Napoles, uma conjura contra os espanhois "Eis, portanto, o meu filosofar, diver- em 1634, organizada por um discipulo de so em relaqiio ao de Pico; eu aprendo mais Campanella, o nosso filosofo foi injustamente com a anatomia de uma formiga ou de uma considerado co-responsavel, tendo por isso erva (sem falar na do mundo, admirabilis- de fugir para Paris, sob a proteqiio do em- sima) do que com todos os livros que foram baixador franc&. escritos do principio do sCculo at6 hoje, de- 4 ) A partir de 1634, Campanella viveu pois que aprendi a filosofar e a ler o livro de momentos de gloria em Paris, admirado e Deus, em cujo modelo corrijo os livros hu- reverenciado por muitos doutos e nobres. manos, inabilmente copiados ao bel-prazer 0 rei Luis XI11 concedeu-lhe otima c8ngrua e niio segundo o que esta no universo, livro e ele chegou a gozar dos favores do pode- original. E isso fez-me ler todos os autores rosissimo Richelieu. 0 seu falecimento ocor- com facilidade e guarda-10s na memoria, da reu em 1639, enquanto procurava em viio qua1 grande dom me fez o Altissimo, mas manter a morte distante. com suas artes muito mais ainda ensinando-me a julga-10s magico-astrologicas. com o modelo do seu original". Entre os seus numerosos escritos, re- "Eu o [Pico] consider0 um grande ho- cordamos: Philosophia sensibus demons- mem mais por aquilo que deveria fazer do trata (1591), D o sentido das coisas e da que pel0 que fez. Se bem que creio niio ape- magia (1604),Apologia pro Galileu (1616, nas nele, mas tambim em qualquer outro publicada em 1622), Epilogo magno (1604- g&nioque me seja testemunha daquilo que 1609),A Cidade d o so1 (1602),o Atheismus se aprende na escola da natureza e da arte, triumphatus (1 I),a imponente Metafisica, 63 enquanto harmonizam com a primeira a
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    . . . . . 122 Primeira parte - 0t l ~ r n a n i s r n ~a R e n a s c e n c a e [AD D l VVM Y E T R V M ~ Em suas reflex6es sobre o conhecimento, que se encontram no primeiro livro da Me- ATHEISMVS TRIVMPHATVS tafisica, Campanella apresenta uma refuta- Seu qiio do ceticismo, baseando-se na autocons- REDVCTIO AD RELIGIONEM cicncia, muito considerada postumamente PER S C I E N T I A R V M V E R I T A T E S . pelos intCrpretes, que nela encontraram sur- F. T H O M X C A M P A N E L L d STYLENSIS preendentes analogias com a teoria tornada ORDINIS PRAEDICATORVM. cClebre por Descartes no Discurso sobre o me'todo, que C de 1637, ao passo que a Meta- C O N T R A ANTICHRlSTl ANISMVM ACHITOPHF,LLISTlCVM . fisica de Campanella, como ja dissemos, foi Sexu Tomi Pars Prima. publicada em Paris um ano depois, mas ja havia sido elaborada alguns anos antes. A descoberta cartesiana (de que fala- remos mais longamente adiante) teria sido entiio antecipada por Campanella? As analogias com Descartes existem, mas mostram-se movidas por exigzncias di- ferentes e, sobretudo, se inserem em uma vi- siio metafisica pan-psiquista geral da reali- dade, que chega, inclusive, a se opor i de Descartes. Para Campanella, o conhecimento de si niio 6 prerrogativa do homem enquanto pensamento, mas de todas as coisas, que siio (todas elas, sem exceqiio) vivas e animadas. Frontispicio da primeira edi~ao Com efeito, para ele, todas as coisas siio do theismu us triumphatus, de Toma's Campanella. dotadas de uma "sapientia indita" ou ina- ta, pela qua1 sabem que existem e que estiio ligadas a seu proprio ser ("amam" seu pro- IdCia e o Verbo, da qua1 dependem. Mas, prio ser). Esse autoconhecimento C urn "sen- quando os homens falam como opinantes sus sui ", um auto-sentir-se. das escolas humanas, considero-os iguais e 0 conhecimento que toda coisa tem do sem sequelas, pois santo Agostinho e Lactiin- que C diferente de si C "sapientia illata", isto cio negaram os antipodas com argumentos C, aquela que se adquire no contato com as e por opiniiio, mas um marinheiro os tornou outras coisas. Cada coisa C modificada pela mentirosos ao testemunhar de visu (...)." outra e de certa forma se transforma, "alie- Filosofar, portanto, i aprender a ler "o nando-sen na outra. Quem sente niio sente livro de Deus", a criaqiio, de visu e direta- o calor, mas a si mesmo modificado pelo mente, ou melhor, como ele proprio diz, por calor; niio percebe a cor, mas, por assim di- tactum intrinsecum, tornando-se urn so com zer, a si mesmo colorido. as coisas. A conscihcia "inata" que toda coisa 0 s estudiosos realqaram freqiiente- tem de si C ofuscada pel0 conhecimento que mente o fato de que o novo significado que se acrescenta (superaddita), de mod0 que a au- Campanella confere ao conhecimento, en- toconscihcia (consequentemente) se trans- tendido sensisticamente, C simbolicamente forma quase em um sensus abditus, ou seja, express0 pela interpretaqiio que ele dii da "oculto" dos conhecimentos que sobrevem. palavra "sapihcia", que derivaria de "sa- Nas coisas, o sensus sui permanece predo- born (sapore em italiano) ("dos sabores que minantemente oculto; no homem, pode al- o gosto saboreia"). canqar niveis notiveis de consciCncia; em 0 gosto implica um tornar-se intimo Deus, se desdobra em toda a sua perfeiqiio. das coisas, pois o sabor C a revelaqiio de tudo AlCm da alma-espirito, devemos destacar o que ha de mais intimo na coisa, atraves que Campanella tambCm reconhece no ho- da uniiio com essa coisa. mem a mente incorporea e divina. TelCsio j4
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    123 Capitulo sttimo - V C r t i c e s e r e s u l t a d o s concl~zsivos o p e n s a m e n t o r e n a s c e n t i s t a d o havia feito. Mas Cam~anella confere a men- Obviamente, pode-se falar tambCm de te um papel de importhcia-muitomaior, tan- "primalidades do n5o-ser", que s5o a "im- to que chega atC mesmo, segundo as doutri- potincia", a "insipiincia" e o "odio". Elas nas neoplathicas, a atribuir-lhe a capacidade constituem as coisas finitas, enquanto toda de conhecer, assimilando-se ao inteligivel que coisa finita C potincia, mas n i o de tudo aqui- h i nas coisas, os modos e as formas (as idCias lo que C possivel; conhece, mas n5o conhece eternas) segundo os quais Deus as criou. tudo aquilo que C cognoscivel; ama e, ao Nessa doutrina ha um ponto que, por mesmo tempo, odeia. sua originalidade, merece particular relevo. Deus, por seu turno, C Potincia supre- 0 conhecimento 6, ao mesmo tempo, perda ma, Sapiincia suprema e Amor supremo. e aquisiqio: C aquisi@o precisamente atra- Assim, em diferentes niveis, a cria@o re- vCs da perda. Ser C saber. Sabe-se aquilo que Pete o esquema trinitario. Trata-se de urna dou- se C (e aquilo que se faz): "Quem C tudo sabe trina de ginese agostiniana, que Campanel- tudo; quem C pouco, sabe pouco." Conhe- la amplia em sentido pan-psiquista. cendo, nos nos "alienamos", dilatamos nos- so ser. Eis um dos textos mais simificativos: " "[ ...I todos os cognoscentes s50 alienados do seu proprio ser, como se acabassem na lou- cura e na morte; nos estamos no reino da morte." Este tip0 de morte, porCm, em certo sentido, C como o da sFmente que, justamen- Ainda urna vez partindo de Telisio e te morrendo, cresce. E um crescer no ser. E de sua doutrina da animaq5o universal das Campanella prossegue: "E o aprender e o coisas, Campanella vai muito mais alCm, conhecer. sendo transformar-se na natureza n50 apenas se movendo na diresio concei- do cognoscivel, s5o tambCm urna espCcie de tual dos neoplat6nicos, mas a ela mesclan- morte; so o transformar-se em Deus C vida do visoes nascidas de sua vivida e densa eterna, porque n5o se perde o ser no infinito fantasia, formulando desse mod0 urna mar do ser, mas se magnifica". doutrina animistico-magica levada ao ex- tremo. Segundo Campanella, as coisas falam e se comunicam entre si diretamente. En- P metafisica viando os seus raios, as estrelas comunicam ,I. "seus conhecimentos". Ademais, os metais campanelliana: e as pedras "se nutrem e crescem, mudando a s t r s s " p r i m a l i d a d e s " d o ser o solo onde inicialmente nascem com a aju- da do sol, bem como as ervas em licor, que puxam para si pelas suas veias, onde os dia- Entendido como o entende Campa- mantes crescem em pirsmides e os cristais nella, o conhecimento C revelador da estru- em figura cubica (...)". tura das coisas, de sua "essenciasio", como Para ele, ha plantas cujos frutos tor- diz nosso filosofo. Toda coisa C constituida nam-se passaros. "pela potBncia de ser, pelo saber de ser e Ha urna "gerag50 espontinea" de to- pel0 amor de ser". dos os viventes, inclusive dos superiores, Essas s5o as "primalidades do ser", porque tudo est6 em tudo e, portanto, tudo que, de certo modo, correspondem hquilo pode derivar de tudo. que eram os transcendentais na ontologia No que se refere h arte magica, Cam- medieval. panella nela distingue tris formas: 1)a divi- A medida que pode ser, todo ente 1)C nu; 2) a natural; 3) a demoniaca. "potincia" de ser; 2) alCm disso, tudo aqui- A primeira C a que Deus concede aos lo que pode ser "sabe" tambCm que C 3) e, ; profetas e santos. se sabe que C, "ama" seu proprio ser. Isso A ultima C a que se vale da arte dos prova-se pel0 fato de que, se n i o soubesse espiritos malignos, sendo condenada por que C, n i o fugiria daquilo que o prejudica e Campanella. destroi. A segunda, a natural, "6 arte pratica As tr&s "primalidades" s i o iguais em que se serve das propriedades ativas e passi- dignidade, ordem e origem: urna "imane", vas das coisas naturais para produzir efei- ou seja, esta presente na outra e vice-versa. tos maravilhosos e insolitos, dos quais, no
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    124 Primeira parte - 0t l u m a n i s m ~ a Renascenca e mais das vezes, se ignoram a causa e o mod0 dos no espiritual e no temporal". 0 s princi- de provoca-10s ( ...)". pes que o assistem chamam-se Pon, Sin e Nessa linha, Campanella amplia em Mor, que significam "Potencia, Sapicncia e sentido pan-magistico a magia natural, a Amor" (ou seja, representam as "prima- ponto de nela inserir todas as artes, inven- lidades" do ser), cada qua1 desenvolvendo qdes e descobertas, como a invenqi o da im- funqdes adequadas ao seu nome. prensa e da polvora, entre outras. Todos os circulos de muralhas cont&m 0 s proprios oradores e poetas en- inscriq6es, apresentando representaq6es pre- tram na relaqio dos magos: "sio magos se- cisas tanto no interior como externamente, gundos". de mod0 a fixar todas as imagens-simbolos Mas, conclui Campanella, "a maior aqio de todas as coisas e dos acontecimentos do magica do homem i dar leis aos homens". mundo. Na parte externa do ultimo circulo figuram "todos os inventores das leis, das cihcias e das armas" e, alCm disso, "em lugar de muita honra estavam Jesus Cristo fi "Cidade do Sol'' e os doze apostolos [..Iy'. Nessa cidade, todos os bens siio co- muns (corno na Republics de Platiio). As virtudes, alCm disso, ostentam a vi- Desse modo, estamos agora em condi- t6ria sobre os vicios, tanto que s i o magis- qdes de compreender a "Cidade do Sol" e trados que presidem as virtudes e levam os seu significado: ela representa a soma das seus nomes. aspiraqdes de Campanella e verbaliza seus Por essas caracteristicas, pode-se ver anseios de reforma do mundo e de liberta- que se trata de urna "cidade magican (e os dos males que o afligem, fazendo uso estudiosos apresentaram inclusive um mo- dos poderosos instrumentos da magia e da delo, em urna conhe~idaobra de magia astrologia. Assim, t como que um cadinho intitulada Picatrix). E urna cidade cons- de motivos no aual estio contidas todas as truida de mod0 a captar toda a influencia aspiraqdes da Renascenqa. benifica dos astros em todos os seus parti- Eis, entio, urna breve descriqio da ci- culares. dade do sol. Mas est6 presente tambim todo o cri- A cidade ergue-se sobre um vale que sol sincretista renascentista. Jii falamos so- domina vasta planicie, sendo dividida em bre a influencia de Platio. Mas, alim dis- "sete grandes circulos, denominados com o so, como diz Campanella, os habitantes da nome dos sete planetas, entrando de um para cidade "louvam Ptolomeu e admiram o outro atravks de quatro estradas e quatro Copirnico" e (corno jii sabemos) %O ini- portas, situadas nos quatro respectivos i n - migos de Aristoteles, chamando-o de pe- gulos do mundo". Acima do vale, surge um dante". templo redondo, sem muralhas em torno, A filosofia que eles professam, natu- mas "situado sobre colunas grossas e bas- ralmente, C a de Campanella. Sua expecta- tante belas". A cupula tem urna cupula me- tiva messiinica i muito forte: "Acreditam nor, com urna espiral que "pende sobre o ser verdadeiro aquilo que disse Cristo sobre altar", que esta no centro. os sinais das estrelas, do sol e da lua, que Sobre o altar, "nada mais h i do que niio parecem verdadeiros para os tolos, mas um mapa-mundi bem grande, onde esta pin- que virio, como o ladrio A noite, no fim tad0 todo o c h , alCm de outro, onde est6 a das coisas. Por isso, esperam a renovaq20 terra. No ciu da cupula estiio todas as maio- do se'culo e talvez o fim." res estrelas do cCu. tendo inscritos os seus nomes e as virtudes aue tern sobre as coisas terrenas, com tres versos para cada urna (...), havendo sempre sete liimpadas acesas, com os nomes dos sete planetas". A cidade C dirigida por um principe- sacerdote chamado Sol, que Campanella As avaliaqdes do pensamento de Cam- indica nos manuscritos com o sinal astrol6- panella siio muito contrastantes. N i o se gico, especificando que "em nossa lingua pode dizer que suas obras sejam conhecidas dizemos Metafisico". Ele i o "chefe de to- e estudadas a fundo como mereceriam.
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    AlCm de suatumultuada vida, isso tam- 0 ultimo period0 de sua vida, a fase bCm deriva do fato de que nosso filosofo, parisiense, C emblemitica. Foi homenagea- como j dissemos, representa em parte um i do por aqueles que estavam voltados para fruto que amadurecei fora de Cpoca. o passado e para o presente imediato, mas foi desprezado ou ate mesmo rejeitado por aqueles que olhavam para o futuro. 0 teologo Mersenne (1588-1648), que o encontrou e conversou longamente com ele, escreveu categoricamente: " [ ...I ele n5o pode nos ensinar nada em materia de ciin- cia." Descartes n2o quis receber a visita de Campanella na Holanda, a ele proposta por Mersenne, respondendo que tudo o que sa- bia dele ja era suficiente para fazi-lo dese- jar nada mais saber. Com efeito, Campanella era um sobre- vivente: a ultima das grandes figuras renas- centistas. Um homem que viveu sua vida sob o signo de um destino de miss50 e de total renovagiio, como ele proprio propunha sig- nificativamente neste soneto: "Nasci para debelar tris males extremos: tiranias, sofismas, hipocrisias, pel0 que me conform0 com toda a har- monia Potincia, Sabedoria e Amor que me ensi- nou Timis. Esses principios s5o verdadeiros e supremos da grande filosofia descoberta, remedio contra a trina mentira sob a qual, 6 mundo, chorando tremes.
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    126 Primeira parte - O t l u m o n i s m a e a Renascenca &y&&@qQ*Wt&. :' .. .i i * CAMPANELLA OS FUNDAMENTOS DA METAF~ICA Deus i / ' Ente por esshcia, de mod0 eminentissimo: 1 1. PotBncia suprema / 2. Sabedoria suprema 3. Amor supremo - As trSs Primalidades divinas Da superabundiincia divina emana o Amor que i causa do Bem, e das idiias eternas de Deus deriva assim 1 , _, o ente criado (essenciado), i constituido intrinsecamente de: 1. potincia de ser i 2. saber de ser 3. amor de ser - - - as tr2s primalidades imanentes uma na outra 1 F 0 homem. Toda coisa C animada e. al&mda aha-espirito segundo o pr6prio grau de ser, possui: (substincia corporea sutilissima), a ) conhecimento de si: sapientia indita tambim possui ("inata": sensus mi) a mente incorporea e diuina, capaz de assimilar-se ao inteligivel I b) conhecimento das outras coisas: 1 sapientia illata (addita) que existe nas coisas Com efeito, enquanto nas outras coisas o sensus sui permanece prevalentemente escondido (sensus abditus), o homem pode chegar a conhecer a si mesmo e as outras coisas segundo as idCias mediante as quais Deus criou o universo
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    Capitdo se'timo -V&rtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista riamos dizer multo bem que tal parte & igual a seu todo. E isto se prova com o zero ou nada, isto 6 , a dhcima figura do aritmhtica, pela qua1 se figura um 0 para esse nada; o qual, posto depois da unidade, Ihe far6 dizer dez, e se pu- sera dois depois de tal unidade, dir6 cem, e assim infinitamente crescer6 sempre dez vezes o numero onde ele for acrescentado; e ele em si ndo vale mais que nada, e todos os nadas leonordo foi grondksirno ortista e pen- do universo sdo iguais a um so nada quanto a sodor sm sentido univsrsol. €Is rsprssento sua substBncia e valor. Nenhuma investigagbo portonto, ds modo emblemdtico, o homem humana pods-se dizer verdadeira ci&ncia, se universal do Rsnoscenp ela n6o passar pelas demonstragdes matemn- Como psnsodor, laonordo n60 0 siste- ticas; e se disseres que as cl&ncias,qua princi- mdtico: seus codernos s6o fragmsntdrios s piam e terminam na mente, t&m verdade, isto frsqusntements desorgonizodos, mos con- n60 se concede, mas se nega por muitas ra- t&mpensomentos recorrsntes de notdvsl im- zdes; a0 contr6ri0, em tais discursos mentais portdncio a prC-intuig6esgsniais. ndo ocorre experi&ncia, sem a qua1 nada d6 Ss as carocteri'sticos definitivas do certeza de si. ci8ncio moderno n8o @st60 nala oinda ple- nornente desenvolvidos, C porCm inagd- 2. A utilidade da ci8ncia em geral, vel qus olgumos destos coroctsrktico~ fun- e da pintura em particular dornsntois porspm dslinaor-se oo msnos sm nivel embriondrio e, por vezes, j d de A ci&ncia & mais util quando seu fruto & modo bostonte cloro, como os ssguintes mais comunic6vel e, ao contr6ri0, menos util possagsns mostrom. quando d menos comunic6vel. A pintura tem seu fim comunic6vel a todas as geraq3es do univer- so, porque seu fim 6 sujeito da virtude visiva, e ndo passa pelo ouvido ao sentido comum do mesmo modo como passa pelo ver. Esta, por- Ci&ncia diz-se o discurso mental que tem tanto, ndo tem necessidade de intbrpretes de origem de seus principios Ijltimos, dos quais em diversas linguas, como o t&m as letras, e logo natureza nenhuma outra coisa se pode encon- satisfez a esp&cie humana, de forma ndo dife- trar que seja parte dessa cihncia, como na quan- rente como sdo feitas as coisas produzidas pela tidade continua, isto 6, a cl&ncio de geometria, natureza. En6o openas a esphcia humana, mas a qual, comepndo pela superficie dos corpos, os outros animais, como se manifestou em uma descobre-se como tendo origem na linha, ter- pintura representada por um pai de familia, na mo desta superficie; e com isto ndo permane- qua1 eram acariciados os filhinhos beb&s, que cemos satisfeitos, porque conhecemos que a ainda estavam enfaixados, e da mesma for- linha tem seu termo no ponto, e que o ponto & ma o faziam o c6o e a goto do mesma casa, aqu~lo qua1 nenhuma outra coisa pode ser do um espet6culo tal que era coisa maravilhosa menor. 0 ponto, portanto, & o primeiro princi- de se ver. pio do geometria; e nenhuma outra coisa pode R pintura represento no sentho com mois exlstir na natureza ou na msnte humana que vsrdade s certsza as obras da natureza, do que possa dar inicio ao ponto. Porque se falares as palavras ou as letras, mas as letras repre- qua o contato feito sobre uma superficie por sentam com mais verdade as palavras ao sen- uma ultimo acuidade da ponta da caneta & a tido, do que a p~ntura. Mas dizemos que & mais cria~do ponto, lsto n60 & verdadeiro; dire- do admirClvel a ci&nciaque representa as obras da mos, porhm, que tal contato & uma superficie natureza, do que a que representa as obras do que c~rcunda seu melo, e nesse meio est6 a operodor, isto 8 , as obras dos homens, que sdo resid&ncia do ponto, e tal ponto ndo & do ma- as palavras, como a poesia, e semelhantes, que t&ria dessa superficie, nem de, nem todos os passom pela lingua humana. pontos do universo sdo em pot&ncia ainda que estivessem unidos, nem, dado que se pudes- 3. Ciincias mec6nicas e ci8ncias n60 mec6nicas sem unir, comportariam parte alguma de uma superficie. E dado que imaginasses um todo Dizem ser mecBnica a cognigdo parturida como compost0 de mil pontos, aqui, dividindo pela exper~&ncia, ser cientifica a que nasce e alguma parte dessa quantidade de mil, pode- e termina na mente, e ser sem1mec6nicaa
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    Prirneira parte -0 t l u m a n i s m o e a Renascenca que nasce do ci&ncia e termina na OPGTQ<~O quantidade descontinua e continua. Rqui ndo manual. Todavia, parece-me que sejam vds se arguir6 que duas vezes tr&s seja mais ou e cheias de erros as ci&ncias que ndo nas- menos seis, nem que um tridngulo tenha seus ceram da expsriBncia, mde de toda certeza, e 6ngulos menores do qua dois 6ngulos retos, que ndo terminam em experi6ncia conhecida, mas com eterno sil&ncio permanece eliminada isto 6, que sua origem, ou meio, ou fim, ndo toda argui~do,e com paz sdo fruidas pelos passam por nqnhum dos cinco sentidos. E se seus devotos, o que ndo o podem fazer as duvidamos da certeza de coda coisa que mentirosas ci&ncias mentais. E se disseres que passa pelos sentidos, com muito maior razdo tais ci&ncias verdadeiras e conhecidos s60 devemos duvidar das coisas rebeldes a es- esphcies de mecdnicas, apesar de so pode- ses sentidos, como a aus&ncia de Deus e rem terminar manualmente, direi o mesmo de da alma e coisas semelhantes, pelas quais todas as artes que passam pelas mdos dos sempre se disputa e briga. E verdadeiramen- escritores, que s6o esp6cie de desenho, rnem- te ocorre qua sempre onde falta a razdo su- bro da pintura; e a astrologia e as outras pas- prem os gritos, o que ndo acontece nas coisas sam pelas opsra<bes manuais, mas primeiro certas. sdo mentais como a pintura, que prlmelro exis- Por ISSO, diremos que onde se grita ndo te na mente de seu especulador, e ndo pode h6 verdadeira ci&ncia, porque a verdade tem chegar a sua psrfei~do sem a opera@o ma- um so termo que, ao ser publicado, o litigio nual; essa pintura, do quol seus cientificos e permanece para sempre destruido, e se o li- verdadeiros principios primeiro colocam o que tigio ressurge, ela B ci&ncia mentirosa e con- Q corpo sombrio, e o que Q sombra primitiva e Fusa, e nBo certeza renascida. Mas as ci&n- som6ra derivativa, e o que 6 lume, ~sto , tre- 6 cias verdadeiras sdo as qug a esperanp fez vas, luz, cor, corpo, figura, lugar, rsmo@o, pro- penetrar pelos sentidos e silenciam a lingua ximidade, movimento e repouso, os quais ape- dos litigantes, e que ndo alimentam de so- nas s60 compreendidos pela mente sem nhos seus investigadores, mas sempre pro- operqdo manual; e esta ssr6 a c~&ncia da cedem sucessivamente sobre os primeiros p~ntura, que permanece na mente dos que a verdadeiros e conhecidos principios e com contemplam, da qua1 nasce depois a opera- verdadeiras sequ&ncias at6 o fim, como ve- $10, muito mais digna do que a predita con- mos nas primsiras matem6ticas, isto 6, nu- templa<do ou ci&ncia. mero e msdida, chamodas oritm6tica s geo- Leonardo da V i m . metrla, que tratam com sumo verdade do Trotado do pmtura. I. § 1 , 3. 29. s II. § 77 Leonardo da Vzncr, estudos sohre a durqiio du per~cp+ao vrsud, dtzca, prospectrcu ( d o Cod~cc Atlcint~co). Leonardo se servza habrtuul~nente de ulna escvzturu "rnvcrtrda ", rsto e', da dzreztu para LI esquerdu, e apenas esporadzcamerztc a ein sum notas en~ontravzos escrrtuva "drrc~tiz ". A explzcaCdomurs f i c ~ iest~i fato no de que ele era curzhoto, mas na reulzdude este inodo hrz~2rro L'SC vltuiil d~ correspondla a seu carater esqz4z110e s o h r r o , atento para defender-se de curzosrdudes ~tzdrscrc~tus A o espelho seus textos se lienz, salvo dzficctldades mznrmas, como qualquer outro manuscurto.
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    12 Capitdo se'tirno - Vkrtices do e resultados con~lusivos pensamento renascentista dos quais vemos que o mundo & constituido, atribuiram ndo a grandeza e posi~60, u se q ~ v& que obtiveram, nem a dignidade e as for- Gas, das quais vemos que sdo dotados, mas aquelas das quais teriam devido ser dotados conforme os ditames de sua razdo. Ou seja, nBo era necess6rio que os homens satisfizes- A noturszo sem a si mesmos e ensoberbecessem at6 o dsvs ssr sxplicoda ponto de atribuir (corno que antecipando a na- segundo seus principios tureza e afetando ndo so a sabedoria mas tam- b6m a pot&ncia de Deus) as coisas as pro- priedades qua eles ndo tinham visto qua eram Nests trscho, tirado do Pro&mio do De a elas inerentes, e qua, oo contrbrio, deviam rerum natura iuxta propria principia, Tsldsio ser absolutamente tiradas das coisas. Nos, por- ilustro o "outonomio"do fkico sm relogdo a que nBo tivemos tanta confiansa em nos mes- todo outro pasqu~so ndo se otsnho oos qus mos, s uma vez que somos dotados de um principios peculiores do noturszo, mos pro- engenho mais lento e de um dnimo mais d6- cure ultrapossd-10sporo indwiduor principios bil, e porque somos amantes e cultores de urna tronscendentss. No reol~dods,el@ndo sabedoria completamente humana (a qua1 n a p o sxist&ncio do tronscsndante, mos certamente sempre deve parecer que tenha coloco tudo oquilo que estt, ligodo oo chegado a0 6pice de suas possibilidades,caso tronscendente Fora da pesquisa fis~cado tenha conseguido perceber as coisas que o natureza. sentido manifestou e as que se podem ex- R sstruturo do mundo, e o grondezo e trair do semelhan<acom as coisas percebidas naturszo dos corpos qua els contbm, ndo com o sentido), nos nos propusemos a dsve ssr pssquisodo com o rozdo obstroto, pesquisar apenas o mundo e suas singulares como o Fizsrom os ontigos, mos dsve ser cop- partes e as paixbes, ag3es, opera@es e as- todo com os sentldos s tirodo dos proprios pectos das partes e das coisos nele contidas. coisos. Cada uma delas, com efeito, se corretamente observada, manifastar6 a propria grandeza, e coda uma delas sua propr~a indole, f o r ~ a e Rqueles que antes de nos pesquisoram natureza. a estrutura de nosso mundo a a natureza das Rssim, se parecer que nada de div~no e coisas nele contidas, fizeram-no certamente que seja digno de adm1raq5o que seja tam- e com longas vigilias e grandes fodigas, mas inu- b6m demasiado agudo se encontra em nos- tilmente, como parece. 0 que, com efeito, esta sos escritos, eles por&m ndo contrastardo de natureza pode ter revelado a eles, cujos dis- fato com as coisas ou consigo; isto 6, segui- cursos, sem excluir nenhum, ndo concordam e mos o sentido e a natureza, e nada mais; a contrclstclm com as coisas e tamb6m com si mes- natureza que, concordando sempre consigo, mos? E podemos afirmar que isto assim acon- age e opera sempre as mesmas coisas e do teceu justamente porque, tendo tido talvez de- mesmo modo. Todavia, se 0190 daquilo que masiada conf~anp si mesmos, depois de em afirmamos ndo estivesse de acordo com as ter pesquisado as coisas e suas forqx, ndo sagrodas escrituras ou com os decretos do igre- atribuiram a elas, como era necess6ri0, a gran- ja catolica, afirmamos e dsclaramos formalmen- deza, indole e faculdade de que agora se v& te que ndo deve ser mant~do, mas deve ser que sdo dotadas; mas, quase d~sputando e inteiramente rejeitado. A elas, com efeito, deve competindo com Deus em sabedoria, tendo ou- estar posposto ndo so qualquer raciocinio hu- sado pesquisar com a razBo as causas e prin- mano, mas tamb6m o proprio sentido; e se nBo cipios do propno mundo, e crendo e querendo concorda com elas, at6 o sentido deve ser re- crer que haviam encontrado estas coisas que negado. ndo encontraram, construiram para si um mun- 0. TeI&s~o, do conforme seu arbitrio. Portanto, aos corpos, De rerum natura iuxto propria principia.
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    Prirneira parte -0 t l ~ m a n i s m o a R e n a s ~ e n ~ a e ndo & terminado nern termin6vel. Ndo & forma, porque ndo informa nern figura outro, admitido que 6 tudo, 6 m6ximo. & uno, & universo. Ndo & mensur6vel nem medida. Ndo se compreende, porque ndo 6 maior do que ele mesmo. Ndo & compreendido, porque nd0 & menor do que ele mesmo. Ndo se nivela, porque ndo & outro e Unidode e infinitude outro, mas uno e o mesmo. Sendo o mesmo e do univsrso uno, ndo tem ser e ser; e porque ndo tem ser e ser, ndo tem parte e parte; e pelo fato de ndo Entrs os didlogos itolionos ds Bruno, ter parte e parts, ndo 6 composto. Este & termo os mois lidos e os mois importantss 580 os de mod0 que ndo 6 termo, & talmente forma cinco qua comp6sm o Da causa, principio e que ndo 6 forma, e de talmente mathria que uno ( 1 584).R possogsm oqui rsportodo 6 ndo & matbria, & de tal modo alma que ndo 6 t~racla dldlogo V, sm qus Bruno sxalto o do alma: porque 6 o todo ~ndiferentemente, po-e unidode puro, onds todos os dstsrmina- r6m 6 uno, o universo & uno. <Gas, oo inhnito, psrdsm significodo, por- qua coinc~dsm Uno. Couso, Principio s no 2. A unidade do cosmo em sun infinitude Uno constitusm poro Bruno umo trindods em grandeza a temporalidads meromsnts concsituol, pois o Uno Q princi- Neste certamente ndo & maior a altura do pi0 s couso. que o comprimento e a profundidada; de onde, por certa semelhan<a se chama, mas ndo 6 , esfera. Na esfera o comprimento, a largura e a 1. 0 universo, uno e infinito, profundidade sGo a mama coisa porque t&m o 6 imovel, inalteravel, mesmo termo; mas, no universo, 8 a mesma comp8e e resolve em si colsa a largura, o comprimento e a profundida- todas as dihrencia@es e oposig8es de, porque da mesma forma ndo t&m termo e 0 universo &, portanto, uno, infinito, imo- sdo ~nfinitas. ndo t&m meio, quadrantee e Se vel.' Una, digo, & a possibilidade absoluta, uno outras medidas, se ndo h6 medida, ndo h6 tam- o ato, una a forma ou alma, una a mathria ou b&m parte proportional, nern absolutamente corpo, una a coisa, uno o ente, uno o m6ximo e uma parte que se diferencie do todo. Porque, otimo; o qua1 ndo deve poder ser compreendi- se quiseres d i m parts do infinito, 6 precis0 diz&- do; e por isso & infind6vel e intsrmindvel, e por- la infmito; se 6 infinito, concorre em um ser com tanto infinito e interminado e, por consequ&n- o todo: o universo, portanto, & uno, infinito, im- cia, imovel. Este ndo se move localmente, partivel. E se no infinito ndo se encontra d~fe- porque ndo h6 coisa fora de si para onde se renp, como da todo e parte, e como de outro transportar, admitido que seja o todo. Ndo se e outro, certamente o infinito b uno. Sob a com- gera; porque ndo existe outro ser que ele pos- preens60 do infinito ndo exists parte maior e sa desejar ou esperar, admitido que tenhaQtodo parte menor, porque propor@o do infinito n6o o ser. Ndo se corrompe; porque ndo exlste ou- se coaduna mais uma parte o quanto se queira tra coisa no qua1 se muds, adm~tido que ele maior que outra o quanto se queira menor; po- seja toda coisa. Ndo pode diminuir ou crescer, r&m, na infinita dura~do ndo difere a hora do admitido que 6 infin~to; qua1 como ndo se dia, o dia do ano, o ano do s&culo, o s6culo do ao pode acrescentor, tambhm b aquele do qua1 momento; porque os momentos e as horas ndo ndo se pode subtrair, pelo fato de que o ~nfini- sdo mais que os s6culos. e ndo t&m menor pro- to n60 tam partes proporcion6veis. Ndo 6 alte- por(do aqueles do que estes em rela@o 6 eter- r6vel em outra disposigio, porque ndo tem ex- nidade. Da mesma forma no imenso ndo & di- terior, do qua1 sofra e pelo qua1 venha a ser ferente o palmo do sst6di0, o est6dio3 da afetado. W m de qua, para compreender to- para sang^;^ porque 6 proporgio do imensiddo das as contrariedades em seu ser em unidade ndo se coaduna mais para as parasangas do e conven~&ncia, nenhuma inclina@o possa ter e para outro e novo ser, ou tambhm para outro e outro modo de ser, ndo pode ser sujeito de muta~do segundo qualidode nenhuma, nern 'Tanho-se presenta que, aqul. Bruno ndo Falo do Rbso- porque nele toda coisa est6 de acordo. Ndo & " pode ter contrdrio ou diverso, que o altere, luto, ou seja, da Daus, mos do cosmo como Imagam da Deus. quadronte Q matode do matoda. 3Estad~o med~dn a 185 metros. Q d matbria, porque ndo & figurado nern figur6ve1, 4Pamsango Q med~dode 3.000 metros.
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    Capitdo se'timo -VLrtices e resultados conrlusivos do pensamento renascentista que para os palmos. Portanto, infinitas horas gar, e que a circunfer8ncia ndo @st6 parte em ndo sdo mais qua infinitos s&culos, e infinitos nenhuma por ser diferente do centro, ou entdo palmos ndo sdo de maior nljmero que infinitas que a circunferhcia est6 em todo lugar, mas o parasangas. h proporsdo, semelhansa, unido centro ndo se encontra enquanto & difsrente e identidade do infinito ndo mais te aproximas dela. Cis como ndo & impossivel, mas necess6- pelo fato de ser homem e ndo formiga, uma rio, que o otimo, maxima, incompreensivel & estrela e ndo um homem; porque bquele ser tudo, est6 para tudo, estd em tudo, porque, ndo mais te avizinhas por ser sol, lua, e ndo um como simples s indivisivel, pode ssr tudo, ser homem ou uma formiga; e, todavia, no infinito para tudo, ser em tudo. E assim ndo foi dito de estas coisas sdo indiferentes. E o que digo des- forrna vd qua Jupiter enche todas as coisas, tas, entendo de todas as outras coisas que sub- habita todas as partss do universo, & centro sistem particularmente. daquiio qua tern o ser, uno sm tudo a pel0 qua1 uno & tudo. 0 qual, ssndo todas as coisas e 3. No cosmo uno-infinito compreendendo todo o ssr em si, tambhm faz 1-160se dikrenciam ato e pot8ncia, com que toda coisa esteja em toda coisa. e portanto nern ponto e linha, superficie e corpo 5. 0 cosmo uno-infinito 6 "multimodo multiirnico" Ora, se todas estas coisas particulares no e uno em substencia infinito ndo sdo outro e outro, ndo sdo diferen- tes, ndo 5.60 espbcie, por necessdria consequ- Dir-me-eis, porbm: entdo por que as coi- &ncia ndo sdo nirmero; portanto, o universo 6 sas se mudam, a matbria particular se for~a para ainda uno imovel. E isto porque compreenda outras formas? Raspondo-vosque ndo & muta- tudo, e ndo sofre outro e outro ser, e ndo com- <do que procura outro ser, mas outro modo de porta consigo nem em si muta@o nenhuma; por ser. E esta & a diferenp entre o universo e as conssqij6ncia. 6 tudo aquilo qua pode ser; e coisas do universo: porque aquele compreen- nele (corno eu disse outro dia) o ato ndo & di- de todo o ser e todos os modos de ser, estas ferente do pothcia. Se do pothcia ndo & di- cada uma tem todo o ser, mas ndo todos os ferente o ato, 8 necessdrio que nela o ponto, a modos de ser; e ndo pode atualmente ter to- linha, a superficie e o corpo nbo se diferen- das as circunstdncias e acidentes, porque mui- ciem: porque assim tal linha d superficis, assim tas formas sdo incompossiveis em um mesmo como a linha, movendo-se, pode ssr superfi- sujelto, ou por serem contrdrias ou por perten- cie; assim, aquela superficie movida 6 feita cor- cer a espbcies diversas; assim como ndo pode po, porque a superficie pode mover-se e, com haver um masmo suposto individual sob aciden- < seu fluxo, pode tornar-se corpo. necessdrio, tes de covalo e homem, sob dimensdss de urna portanto, que o ponto no infinito nd0 se difs- planta e um animal. RI&mdisso, ale compreen- rencie do corpo, porque o ponto, desl~zando da todo o ser totalmente, porque extra e alhm do ser ponto, se torna linha; deslizando do ser o infinito ser ndo h coisa que exista, ndo tendo linha, se torna superficie; deslizando do ser su- extra nem al&m; destas, portanto, cada uma perficie, ss torna corpo; o ponto, portanto, por- compreende todo o ser, mas ndo totalmente. que 6 em pothncia o ser corpo, ndo difere do porque al&m de cada uma h6 infinitas outras. ser corpo onde a potencia e o ato sdo urna Entendeis, porbm, que tudo est6 em tudo, mas mesma coisa. n60 totalmente e do mesma forma em cada urn. Entendeis como toda coisa & una, mas ndo do mesma forma. 4. Tudo esta em tudo e neste sentido tudo 6 uno 6. Todas as coisas est6o no universo 0 individuo ndo & diferente, portanto, do e o universo em todas as coisas dividuo, o simplicissimo do infmito, o centro do circunfer6ncia.Dai por qua o infinto & tudo aqui- Ndo Falha, porhm, quem diz ser uno o ente, lo que pode ser, & imovel; porque nele tudo 6 a substdncia e a ess&ncia; o qual, como infini- indiferente, & uno; e porque tem toda a gran- to e ~nterminado, tanto segundo a substdncia deza e perfei~do se possa ter alhm e akm, que quanto segundo a durqdo quanto segundo a & m6ximo e otimo imenso. Se o ponto n6o dife- grandeza quanto segundo o vigor, ndo tem ra- re do corpo, o centro da circunfer&ncia, o finito zdo de principio nern ds principiado; porque, do infinito, o m6ximo do minimo, seguramente concorrendo toda coisa em unidade e identida- podemos afirmar que o universo & todo centro, de, digo mesmo ser, vem a ter razdo absoluta ou que o centro do unlverso est6 em todo lu- e n60 respectiva. No uno infinito, imovel, que &
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    a substdncia, que6 o ente, se ai se encontra a multid60, o numero, qua, por ser modo e d o simbolo do divindods prssants no no- multiformidads do ente, a qua1 vem a denomi- turszo, snquonto Rctton simbolizo o ints- nor coisa por coisa, nem por isso faz que o en- lscto qus sstd sm c o p do vsrdods s do te seja mais que uno, mas multimodo e beleza divino; os mostins e os golgos, por multiforme e multifigurado. Porhm, profunda- fim, s6o simbolos dos voli@es s dos psn- mente considerando com os fil6soFos naturals, somsntos. deixando os Iogicos em suas fantasias, perce- R transforma@io de Rctton em coca bemos que tudo o que F z diferen~a numero a e (noquilo qus procurova), e o foto da ser & puro acidente, & pura figura, & pura complei- dsvorodo por saus c6as (pansomentos s ~ 6 oToda produq30, de qualquer tipo seja, 6 . voli@ss), significa que a vsrdads procu- uma altera@o, permanecendo a substdncia rodo estd em nos mesmos, e quondo dss- sempre a mssma; porque ndo & mais qua una, cobrimos isso tornomo-nos dsssjo ds nos- uno ente divino, imortal. lsto p8da ser entsndi- sos proprios pensomentos, pslo foto de vsrmos tudo s nos ossimilormos o ssse do por Pittigoras, que ndo tame a morte, mas espera a mutac6o. Puderam-noentender todos I tudo os Filosofos, chamados vulgarrnente de fis~cos, que nado dizem gerar-se segundo a substdn- cia nem corromper-se, se n8o quisermos de- TANSCIO. Rssim se descreve o discurso do nominar desse modo a alteraq30. lsto FOI en- amor heroico, por tender ao proprio objeto, que tendido por Salomdo, que diz "ndo hover coisa B o sumo bem, e o heroico intelecto que procu- nova sob o sol, mas aquilo que Q j6 ex~stiu ra unir-se ao proprio objeto, que & o verdadei- antes".Vedes entdo como todas as coisas es- ro primeiro ou a verdade absoluta. Ora, no pri- too no universo, e o universo est6 em todas meiro discurso apresenta toda a soma disso e as coisas; nos nele, ele em nos; e assim tudo a intenc$io, cuja ordem 6 descrita em cinco ou- concorre em perfeita unidade. Cis como n6o tros que seguern. Diz entao: devemos atormentar o espirito, eis como n60 & coisa pela qua1 devamos nos espantar. Por- Rs selvas os mastins e galgos solta que esta unidade 6 unica e estdvel, e sernpre o jovem Actbon, quando o destino perrnanece; este uno & eterno; todo semblan- apresenta-lhe o dljbio e incauto caminho, te, toda face, toda outra coisa & vacuidade, & nos pegadas de Feras selvagens. como nada, o melhor, 6 nada tudo aquilo que w Cis entre as 6guas o mais belo busto e face est6 fora deste uno. que ver possa o mortal e o divino, em purpura, alabastro e our0 fino G. Bruno, Da causo, princbio s uno. v&, e o grande ca~ador torna caGa. se 0cervo, que em espessos lugares dirigia os mais ligeiros passos, C raptado e por sews muitos e grandes c6es devorado. Estendo-lhemeus pensamentos como nobre presa, e ales, voltando-se, devoram-me com ferozes e cruhis mordidas. E Bruno, o "contamplo~do" o m a RctGon significa o intelecto aplicado b cap htnosls, isto t , o tornar-se um corn o Uno do sabedoria divina, 6 apreensho do beleza di- dos Nsoplot6n1cos. tornom-ss "heroico fu- vina. Ele solto os mostins s os golgos. Estes sdo ror'', omor hsroico, qus sign~fico tornar-se o os mois velozes, aqueles, os mais fortes. C m o um com o objeto amado, "sndsusor-ss". efeito, a opercqao do mtelecto precede a ope- Ficino jd denominoro "furor divino" o omor ra<do do vontade; mas esta & mais vigorosa e que leva o homam o sndeusor-se, e Bru- eficaz do que aquela; ao intelecto humano 6 mais no, no obro justomsnts intitulodo Dos heroi- am6vel do que compreensivel a bondade e a cos furores, Isvo to1 idtio as sxtrGmos con- beleza divina, mas o amor & aquilo que move e sequ&ncios. impele o intelecto bquilo que o precede, como R possogem que tronscrsvsmos, e qus lanterns. As selvos, lugares incultos e sol1t6rios. sm carto ssntido contdm o matdforo sm- visitados e perscrutados por pouquissimos e, blamdtico do obro, intsrprsto o mlto ds todavia, onde ndo estao impressas as pegadas Rctton, o copdor qua viu Diono s, como de muitos homens. 0 jovsm, pouco esperto e conssqu&ncio, foi tronsformodo de copdor prbtico, como aquele cuja vida 6 breve e inst6- am cogo s diloc~rado saus c6as. Diono por vel o furor, no dfibio comlnho da incerta e am- C bigua razao e afeto desenhado na letra de
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    Capitulo se'timo -Vcrtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista Pit6goras,' onde se v& rnais espmhoso, inculto e por tanta beleza, torna-se presa, v&-seconver- desert0 o direito e 6rduo carninho, e por onde tido naquilo que procurova; e percebeu que dos este solta os galgos e mastins nos pegodas de cdes de seus pensarnentos ele memo vern a F~ros salvogsns, que sdo as esp&cies ~ntel~gi-ser a desejada presa, porque tendo j6 encon- veis dos conceltos ideals; que sdo ocultas, per- trado a divindade em si rnesmo, ndo era rnais seguidas por poucos, visitadas por rarissimos, e necess6rio procur6-la fora de si. que ndo se oferecern a todos os que as procu- ram. €is entre os dguos, isto 6, espelho das no CICADA.Portanto, bern se diz que o relno semelhangas, nos obras onde reluz a efic6c1a do de Deus est6 em nos,3e que a d~vindade habl- bondade e esplendor divino, cujas obras sBo ta em nos por meio do intelecto e da vontade sign~ficadas pelo sujeito das 6guas superiores transformados. e ~nfer~ores, estdo sob e sobre o firrnamen- que to; v& o mois belo busto e Foce, isto 6,pot&ncia TANSILIO.Exatarnente. Eis, portanto, corno e operagdo externa qus verposso, por h6bito e Rctbon, posto corno presa de seus cdes, per- ato de conternpla<doe aplicqdo de mente mor- seguido por seus proprios pensarnentos, corre tal e d~v~na, algurn homern ou deus. de e dirige os novos possos; renova-se para pro- ceder divinarnente e rnais og~lmente, &, corn isto CICADA. Creio que ndo faga cornparagdo, rnaior facilidade e corn energio rnais eficaz, a mas ponha corno no rnesrno g&nero a apreen- lugores mois espsssos, aos desertos, B regido sdo divina e hurnana quanto ao rnodo de corn- de coisas incornpreensiveis; oquele que era u m preender, que & diversissimo, mas quanto ao hornern vulgar e cornum, torna-se raro e heroi- sujeito, que 6 o rnesrno. co, tern costumes e conceitos roros, e experi- rnenta urna vida extraordin6ria. Rqui o devo- TRNSI~O.Exatamente. DIZ em purpuro, rom seus mutos e grondes c6es: aqul termina olobastro e ouro, porque aqu~lo que na figura sua v~da segundo o rnundo louco, sensual, cego de corporal beleza & vermelho, bronco e louro, e fant6st1c0, cornega a viver intelectualrnente: e na divindade significa a pirrpura do divina po- vive urna vida de deuses, nutre-sede ambrosia t&ncia vigorosa, o our0 da sabedoria div~na, o e ernbriaga-se de n&ctar. alabastro da beleza divina, na contemplagdo G~ordano Bruno, da qua1 os pitagoricos, caldeus, plat6nicos e Dos hero~cos furores. outros, do rnelhor rnodo que podern, procurarn se elevar. V& o gronde cogodor: compreendeu, o quanto B possivel; e se tornou c o p : este ca- p d o r andava para prender e se torna presa. por causa da operagdo do mtelecto corn a qua1 converte em si as coisas apreendidas. CICADA. Entendo, porque ele forrna as es- phciss inteligiveis a seu rnodo e as proporcio- na conforme sua capacidade, porque sdo rece- bidas segundo o rnodo de quern as recebe. A doutrina do conhecimento Tfl~siuo. esta caga E [&I pela operaq3o da vontade, por ato do qua1 ele se converte no R doutrino componelliono do conhsci- objeto. mento & fundomentodo sobre o estruturo prl- mdr~o ente. 0 ponto de portido desto do CICADA. Entendo; porque o arnor transfor- doutrlno & o dirvida, cujo supero@o dd-sa ma e converte na colsa amada. TANSILIO.Bem sabes que o intelecto apre- ende as coisas inteligivelmente, isto 6 ,confor- 'R letrn emblemdt~co Ptdgoros, a quo1 Bruno olude. de i o V, tropdo oss~m.'/,ou ; sap, com o t r q o d~raito olto no me seu r n ~ d oe ~ vontade persegue as COI- ;a quose vert~col portonto, ~ndicondo drdua oscens80, e e, o sas naturalmente, ou seja, segundo a razdo corn com o t r q o esquerdo mu~tolnclinndo a quose plono a. a qua1 estdo em 8 1 .Desse rnodo. Rct&on, com portonto, indicondo o vio fdc~l. aqueles pensamentos, aqueles cdes que pro- "run0 olude oqu~ pr~ncip~o Escoldsticos, segun- oo dos do o quo1 aqu~lo se raceba cognosc~t~vomente, qua Q race- curavam fora de si o bem, o sabedoria, a bele- b~do conformando-se oo receptor: "qu~dquldraclpltur ad za, a fera selvagem, e no rnodo pelo qua1 che- modum recipentls recip~tu?. gou 2.1 presenga dela, raptado para fora de si 3Cf,Lucos 17.21
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    Primeira parte -0 t l ~ m a n i s m o a R e n a s c e n c a e numerosos objetos e, portanto, nos transferi- rodicolmenta palo autoconsci6ncia qua, por mos quase no ser do outro, uma vsz que o ser suo vaz, Q fundomsntodo sobre o astrutu- passivos e ser mudados C tornar-se outro; a rolidode do saber am todo ante. alma, portanto, cai no esquecimento e no 19- R alma tam um conhecimsnto inato de norencia de si porque 6 sempre sacudida pe- si masmo, o notitia indita ("sobedorio ina- las forqx do alto. to'? qua, porQm, Q psrturbado a ofuscoda 0 acrescentamento do ser alheio, mdlti- pelo complaxo ds conhacimentos provenian- plo e veemente, com o proprio e ljnico ser pro- tas do sxtarior (as notitioe superadditae), duz nos entes uma evidente ignor6ncia de si transmutondo-se, ossim, am notitia abdita mesmos e permite apenas um saber escondi- ('kobadorio escondido I>). do sobre si mesmo; [todavia, permanece sem- 0homam, qua pode olconpr olto ni- pre verdadeiro que] toda alma conhece a si vel de outoconsci$ncia, estd am grau de mesma com um conhecimento inato. coptar o verdade dos coisos openas quon- do sa ossimilo o alos poro antend&-los como 580, isto 8, como cousodos pala cihn- 3. Conhecimrnto e vsrdads cia de Daus. 0 conhecar 6, em suo com- R ci6ncia de Deus 6 causa das coisas; a plaxidoda, 'sar", a Q oo masmo tempo con- nossa, ao contrdrio, C causada; 6 causa nos . quisto a perdo. limites clas coisas excogitadas por nos. Como a verdade & dodo pelo conhecimen- to adequado entre as coisas e a alma sen- siente-inteligente, e como tal conhecimento parte das coisas, criadas e existentes e dispos- R alma conhece a si mesma com um co- tas pelo sumo Criador no modo com que devem nhecimento de presencialidade, e ndo com um ser conhecidas, deduzimos que os slgnificados conhecimsnto objetivo, exceto sobre o plano das coisas devem ser assumidos das proprias reflaxo. € certissimo primeiro principio que so- coisas da experi&ncia, e que devem ser deter- mos e podemos, sabemos e queremos; depols, minados como sdo, e de modo nenhum segun- em segundo lugar, C certo que somos alguma do o qua a nossa razdo dita. coisa e ndo tudo, e que podemos conhecer algu- R verdade & a propria entidade da coisa, ma coisa, e ndo tudo e ndo totalmente. Depois, como ela &, e ndo como nos a imaginamos. quando do conhecimento de presencialidade Todas as coisas dizem-severdadeiras enquan- se procede aos particulares por um conhe- to se adequam ao intelecto divino, do qua1 re- cimento objetivo comec;a a incerteza, pelo fato cebem o ser; enquanto no verdada se adequam de que a alma se torna alienada, por causa a nosso intelecto, ndo sdo ditas verdadeiros, dos objetos, do conhecimsnto de si, e os obje- mas produzem em nos a verdade; nos, porbm, tos nd0 se revelam totalmente e distintamente, somos verdadeiros se conhecemos a coisa como mas parcialmente e confusamente. E, na ver- ela 6. dads, nos podemos, sabemos e queremos o 0intelecto humano ndo meda as colsas, outro porque podemos, sabemos e queremos das quais ndo & o autor; mas & medido pelas a nos mesmos. coisas, e & verdadeiro quando se assim~laa A sabedoria inere o nos pelo Autor da elas para entend&-lascomo elas s6o; e ndo de natureza, e & dado como a pot&ncia e o amor outra forrna. de ser; a ci&ncia, ao contrdrio, adquire-se aci- dentalmente atrav&s da sabedoria enquan- 4. Conhecimsnto r srr to olha os entes que exteriormente estdo dian- te de nos. Rfirmamos que a sabedoria pertence ao 0que conhecemos & minima parte diante proprio ser das coisas, e que uma coisa & sen- daquilo que ignoramos, mas saber lsto & sumotida e conhecida porque & a proprla natureza sabedoria para nos, e ela nos convida e nos cognoscente. Uma vez que a sensa(8o 6 assi- impele a aceitar o ensinamento de Deus. rnllqdo e que todo conhecimento ocorre palo fato de que a propr~a natureza cognoscente se torna o proprio conhecldo, conhecer & ser; 2. "Notitia indita" r "notitia abdita" portanto, qualquer ente, se C multas coisas, 0 conhecimento de si mesrno & ~mpedi- conhece muitas coisas; se 6 poucas, conhece do pelo conhecimento do outro; com efeito, poucas. somos gerados entre entes contrdrios, e so- 0 conhecimento sensit~vo,imag~nativo, mos passivos diante do color e do frio e da intelectivo e memorativo consists no fato de
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    Capitdo se'timo -V&rtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista que o cognoscente Q ou se torna o ser do conhecido. Portanto, real e Fundamentalmen- te conhecer 6 ser; Formalmente, por&m, se dis- n estrutura metafisica tinguem, porque o conhecer & o ser enquan- da realidade to julgado. R metofkico ds Torn& Cornpanello sa apresento como s i n t ~ s a pensomen- do 5. Aquisigtio e perda no conhecer to ds sonto Rgostinho e do da sonto To- 0valor do saber pode ser apreciado pelo rn&. Do tradigdo tomisto Componsllo re- fato de qua quanto mais sabernos, tanto mais torno o conceito de "ente" corno concsito somos; portanto, quem C tudo, sabe tudo, e I fundamento1 paro psnsor o reolidode; quem 6 pouco, sobe pouco. rnos, urno vez que prstende fozer srnargir Sabemos apenas poucas coisas, e parci- j d nests conceito iniciol a idhio prima do almente e imperFeitamente.[Todavia] como tor- cristianisrno, isto d, a iddla do Trindods, sle nar-se muitas outras coisas por meio da passi- tambhm ss rernsts b filosofia ogostiniono, vidade da sxperihcia & o mesmo que dilator a quo1individua no hornem o triods posse, o proprio ser, isto &, tornar-se de um muitos, o nosse, vella, corno reflsxo do rnistdrio saber & coisa divina, mesmo no passivtdade trinitdrio. da exneri&ncia. I Carnpansllo sntends, portonto, o con- Conhecer e amar a si mesmo G em todo ceito de ente corno sstruturodo sagundo uma ente um ato ou opera<doprimordial incessan- dioldtica interno ds trhs ospectos: pot&ncia, te. Portanto, quando o objeto move a mente sabedoria, amor, qus constituern as 'pi- rnovendo o espirito corporeo, ao qua1 a msnte malidodes'', isto Q, os ospectos primeirk- estd unida mediante a primariedode, a ope- sirnos, do reol. r a @ ~ mente & modificada; e, enquanto da antes senti0 e amava a SI mesma essencial- mente, agora sente e ama a si acidental- mente. Com efetto, a mente & mudada actden- 1. Ser e existir ern relagiio ao ente talmente pelos objetos, os quais n8o tolhem a operocdo, mas a modiFicam com aquela Dizemos que todas as coisas conv&m no passividade; daqui provCm que a faculdade comunissimo termo de ente. cognoscitiva julga o objeto de modo a conhe- 0ente ndo pode ser definido, mas se pre- c&-lo, conhecendo ndo o objeto em si, mas c i s ~ si como aquilo que tem o ser ou aquilo por conhecendo a si proprto rnudada, por rneio que 6. da faculdade imaginativa, no objeto. A men- 0ante da experi&ncia C aquele que cai te, portanto, sembre conhece a si-mesma,mas por primeiro no conhecer, e & conhecido de nem sempre conhece a si mesma como mu- rnaneira confusa. No verdade, a sabedoria hu- dado. E Deus, portanto, que ndo 6 passivo m mana nbo 6 construtora da realidade, e tam- diante de nenhum objeto exterior nem ocasio- bbm ndo & Interno nas coisas, de modo a po- nalmente nem causdmente, ndo se veriFica dar conhec&-laa priori e do proprio tntarior; uma pausa no conhecer, no ver-se e no amar- & Fato que a real~dade age sobre o sujeito se; ele est6 sempre em ato no conhecimento que conhece, e este, percebendo seu ser, de si mesmo e, por meio de si, do outro. Nos, chega em segu~da saber seu significado. 0 a porbm, embora conhe<amos sempre a nos termo ente 6, portanto, o primeiro indlcs do mesmos otualmente, somos mudados pelos primeiro conhecimento confuso; tomado no- objetos; portanto, parecemos soFrer pausas minalmente, significa a ess&ncia das coisas, no conhecimento de nos mesmos e somos rap- enquanto, tomado verbalmente, indica o ato tados no realidade diferente de nos. de ser. [CISque entdo] todos os cognoscentes Dizemos "existir"a respeito daquelos coi- sdo alienados do proprio ser, como se termi- sas que, Fora da causa, estdo em outras e com nassem no loucura e no rnorte; nos estamos outros, como que sustentados pela For~a de no reino da morte. Estamos de Fato em uma alguma coisa. terra estrangeira, alienados de nos mesrnos; € claro que o ente como tal ndo existe; anelamos uma p6tria e nossa sede 6 junto de ele simplesmente "&", e tal "6"d dele dito Deus. de modo essencial, e ndo existenc~al. Aqui- lo que simplesmente 6, causa de todas as & T. Componsllo. exist6ncias; existir 6 , com efeito, posterior Textos. ao sar.
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    Primeira parte -8t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a 2. A estrutura primalitiiria do ente outra. R sabedoria, que emana da potknc~a, nela imane: do mesma forma, tamb6m o amor R "essencia@o" 6 a constitui~do ente do imane em uma e em outra, das quais procede. intrinseca, simplicissima, primeira, por toticipa- A pothncia, a sabedoria, o amor, enquan- 560' e n6o por participa@o. 0 ente 6 es- to essenciam, n6o sda tr6s coisas nem trhs en- senciado em primeiro lugar pela pothncia de tes, mas trhs momentos ontologicos da mesma ser, pela sabsdoria de ser, pelo amor de ser. realidode. [Portanto,] a sabedoria, a pothncia Estas primalidades esssnciam todo ente. e o amor sdo um principio unltdrio na a@o; Com efeito, todo ente, podendo ser, tem a po- podem d~zer-se unalidades3do uno. thncia de ser. Rquilo que pode ser, sabe ser; [Rs trks primalidades constituem o dina- se n6o percebesse ser, ndo amaria a si mesmo mismo ou] a opera<docomo ato interno Bs COI- e ndo fugiria do inimigo que o destroi, e ndo sas; as opera@es metafisicas sdo o posss, o seguiria o ante que o conserva, como o fazem nosse, e o vella. todos os entes. 0 saber emana do poder: os entes amam aquilo que sabem; portanto, to- T. Campansllo, T~xtos. dos os entes amam ser sempre e em todo lu- gar. 0 amor flui antecipadamente do sabedo- ria e do potkncla. Q "'Tot~c~par" tarmo companallmo para ~nd~carco-a cada uma das primal,dades imaneQa astrvtural~dadedas tr&s pr~mal~dndes ente a do propr~o do ante; ale sa opda a "partic~par", que implco dar~va$io a outra da qua1 procede. Ndo tem precedhncia de tempo, nem de dignidade, nem de ordem, imanenta mas apenas de origem, enquanto uma vem da 3Coracterist~cns const~tut~vas unit~lr~os Erontrspicro da segunda edrp?o da ctlehre obra de Bernardrno Teltszo " D e rerum nutura luxta proprru prrncrpra", irnpressa e m Napoles e m 1587. Retrato de Tomus Campanella, (rncrsao sobre cohre), obra de Nzcolas de I,armess~n, que remonta a 1670. E s t i tza obra Academic des sclences et des arts (Bruxelas, 1682), de I. Bullart.
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    Ggnese Caracteristicas essenciais Desenvolvimento naepoca moderna "Mas, senhor S/inp/cio, v~hde razo"es, vossas com ou de Ansfofe/es, e niTo com texfos e futeis aufon: dades, porgue nossos discursos se d2o acerca do mundo sensivel na"o sobre um mundo de papeL " Galileu Galilei 7 .,] na"o/hventohipofeses. Comefeifo, fudo aqui- e /O que se deduz dos fendmenos deve ser chama- do hipofese. Eas hipoteses, tanto mefahisicas como hisicas, seja de quahdades ocu/tas ou mecdnicas, n20 encontram nenhum /ugar na f7osof/h expen: menfa/ " Isaac Newton ' nafureza e as /e/sda nafureza estavam ocu/fas H na noife. Deus disse: h p s e Newton! E fudo for- nou-se /uz " Alexander Pope
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    Capitulo oitavo Origens etraqos gerais da revoluqiio cientifica Capitulo nono A revoluqiio cientifica e a tradiqiio magico-hermktica Capitulo dtcimo De Capirnico a Kepler Capitulo dtcimo primeiro 0 drama de Galileu e a fundaqiio da citncia moderna Capitulo dCcimo segundo Sistema do mundo, metodologia e filosofia na obra de Isaac Newton Capitulo dtcimo terceiro As citncias da vida, as Academias e as Sociedades cientificas 249
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    Capit~lo oitavo 0 periodo que vai de 1543, ano da publicaglo do De revolutionibus de Nicolau Copernico, ate 1687, ano da publicaglo de Philosophiae naturalis princi- pia mathernatica de Isaac Newton, e geralmente indicado como periodo da "revo- lug80 cientifica". A revolug~o cientifica e um grandioso movi- mento de ideias que, a partir da obra de Copernico e Kepler, A revoluqdo adquire no Seiscentos suas caracteristicas qualificativas na obra cientifica: de Galileu, encontra seus filosofos - em aspectos diferentes - em de Copernico Bacon e Descartes, e exprime sua mais madura configuraglo na a bkwton imagem newtoniana do universo-relogio. Nos anos que inter- correm entre Copernico e Newton muda a imagem do universo, mas mudam tambem a ideias sobre a cihcia, sobre o trabalho cientifico e as s instituig6es cientificas, sobre a relag6es entre ciencia e sociedade e entre saber s cientifico e fe religiosa. Copernico desloca a terra - e com a terra o homem - do ~ l ~ ~ ~ t e r r a centro do Universo. A terra n l o 6 mais o lugar privilegiado da do centre criag%o, lugar designado por Deus a um homem concebido como o do universe o ponto mais nobre e mais elevado da criaglo. + 5 1.2 Muda a imagem do mundo, muda a imagem do homem, muda lentamente a imagem da ciencia. A cigncia n l o sera mais A ciencia a intuiglo privilegiada do mago ou astrologo singular nem o ndo e mais comentario ao filosofo ou ao medico que disse "a verdade"; urn discurso a ciencia n l o sera mais um discurso sobre "o mundo de pa- sobre pel", mas sera um discurso sobre o mundo da natureza; um O discurso dirigido a obtenglo de proposig6es verdadeiras, ex- $ [ ~ ~ 1" perimentalmente e portanto publicamente controlaveis sobre os fatos. 0 trago mais caracteristico da ciencia moderna e a ideia de metodo, e mais especificamente de metodo hipotetico-dedutivo. Tornam-se necessarias hipote- ses como tentativas de solugao de problemas; hipoteses das quais se deduzem conseqiihcias experimentais publicamente contro- Aindependencia Iaveis. 6 a ideia de ciencia metodologicamente controiada e pu- da ciencia blicamente controlavel que, de um lado, exige as novas insti- em relacdo tuiqbes - sedes de discuss6es, confrontos e controles - como as a filosofja academias e os laboratorios, e de outro funda a autonomia da e a fe ciencia em relaglo a fe; dai o desencontro com a lgreja e o "caso + § Galileu". A ciencia A revoluglo cientifica leva a rejeiglo das pretensdes hdaga essencialistas da filosofia aristotelica. A ciencia galileana ndoasubst;incia e pos-galileana n l o indaga sobre a substdncia, e sim sobre fUnq,-, a funqiio. -+ 3 1.5
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    0 pressuposto A rejei@odo essencialismo aristotelico n%o significa que o filosofico: process0 da revolu@ocientifica seja privado de pressupostos fi- o Deus que losoficos. Basta aqui recordar que o tema neoplatiinico de um geometriza Deus que geometriza e que cria um mundo, imprimindo nele -+§ 1.6 uma ordem matematica e geometrical e uma idPia que atravessa a pesquisa de Copernico, a de Kepler e a de Galileu. A tradiq50 Dentro do processo que leva a ci6ncia moderna a histo- mdgica e a hermetica riografia mais atualizada p6s em relevo a importante presenGa 4 2 1.7 da tradic;%omagica e da hermetica. E todo caso, a forma@o de novo tipo de saber - pllblico, controlBvel, m progressivo e fruto de colabora@o-, que para validar-se necessita dg continuo controle da prdxis, isto el da experi@ncia, requer novo tip0 de douto; o novo douto n%o nem o mago, nem o astrologo, nem o professor medieval e Novo tipo comentador de textos antigos; o novo douto e o cientista expe- de saber rimental moderno, que usa instrumentos sempre mais precisos, e nova figura e que consegue fundir a "teoria" com a "tecnica"; e o pesquisa- de "douto" -+ 3 1 .I 1 dor que conwlida teorias com experimentos realizados por meio de operaq6es instrumentais com e sobre objetos. A ciPncia Sustentou-se que a ciCncia moderna teria nascido corn os moderna: artesaos e depois teria sido retomada pelos cientistas. a reaproximaq50 Uma segunda tese afirma, ao contriirio, que a ciCncia foi entre tecnica feita justamente pelos cientistas. e saber A pergunta "quem criou a ciCncia?", a resposta mais plausi- + 3 11.2 vel P a de Koire: foram os cientistas que criararn a cigncia, mas esta s desenvolveu porque encontrou uma base tecnolcjgica de e maquinas e instrumentos. 0 s traqos A ciiincia e obra dos cientistas, e a ciCncia experimental mais salientes encontra confirmar;%o por meio dos experimentos. da ciPncia A revolug%o cientifica e nova forma de saber, diferente do moderna saber religioso, astrol6gico e tecnico-artesanal. 0 "cientista" nao -3 5 11.3 e mais o douto que sabe o latim, mas pertence a uma sociedade cientifica, a uma academia. A fun@o 0 nexo entre teoria e pratica, entre saber e tecnica propi- cognoscitiva cia um feniimeno ulterior que acompanha o nascimento e o de- dos instrurnentos senvolvimento da ciencia moderna, isto el do crescimenta da cientificos instrumentac;%o. -+ § 11.4 No decorrer da revolu@ocientifica os instrumentos entram com fun@o cognoscitiva dentro da cihcia: a revolug;%o cientifi- ca sanciona a legalidade dos instrumentos cientificos.
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    141 Capitulo oztavo - Orige~s tra~os e gerais d a revoluc&o cientifica I. j revoIuG2io cientifica: o que muda com ela C o m o a imagem A transiqiio de um paradigma em crise para um novo [...I 6 uma reconstruqiio do campo do u n i v e r s o m u d a sobre novas bases [...I. 0 pr6prio Cop6rnic0, no prefacio ao De revolutionibus, escrevia que a tradiqiio astron6mica que havia her- 0 periodo de tempo que vai mais ou dado terminara por simplesmente criar um menos da data de publicaqiio do De revolu- monstro. Desde o inicio do sCc. XVI, os tionibus de Nicolau CopCrnico, isto 6, de melhores astr6nomos da Europa em nume- 1543, B obrdde Isaac Newton, Philosopbiae ro sempre crescente reconheciam que o naturalis principia matbematica, publicada paradigma da astronomia niio conseguira pela primeira vez em 1687, hoje C comu- resolver seus problemas tradicionais. Este mente apontado como o periodo da "revo- reconhecimento preparou o terreno sobre o luqiio cientifica". Trata-se de um poderoso qua1 foi possivel a CopCrnico abandonar o movimento de idCias que adquire no sCculo paradigma ptolemaico e elaborar um novo". XVII suas caracteristicas determinantes na Elemento detonador desse process0 de obra de Galileu, que encontra seus filosofos idCias foi certamente a "revoluqiio astron6- - em aspectos diferentes - nas idCias de mica", que teve seus representantes mais Bacon e Descartes e que depois encontrara prestigiosos em Copirnico, Tycho Brahe, a sua expressiio clhssica na imagem newto- Kepler e Galileu, e que iria confluir para a niana do universo concebido como maqui- "fisica classican de Newton. Nesse perio- na, ou seja, como um relogio. do, portanto, muda a imagem do mundo. 0 epistemologo Thomas Kuhn em A Peqa por pega, trabalhosa, mas progressi- estrutura das reuolup5es cientificas escreve: " 0 s exemplos mais evidentes de revoluq6es cientificas s5o os famosos e~is6dios de- do senvolvimento cientifico que ja no passado foram frequentemente indicados como re- voluq6es [...]: reviravoltas fundamentais do desenvolvimento cientifico ligadas aos no- mes de CopCrnico, de Newton, de Lavoisier e de Einstein. Esses etisodios mostram em que consistem todas as revoluq6es cientifi- cas. mais claramente do aue muitos outros episodios, ao menos quanto ao que se refe- re ii historia das cihcias fisicas. Toda revoluqiio tornou necessario o abandon0 por parte da comunidade de uma teoria cientifica uma vez honrada, em favor de outra, incompativel com ela; produziu, consequentemente, uma mudanga dos pro- blemas a propor B pesquisa cientifica e dos critirios segundo os quais a profissiio esta- belecia o que se deveria considerar como problema admissivel ou como sua soluqiio legitima [...I. Quando os paradigmas mu- dam, o proprio mundo toma novas direq6es. Mas o fato ainda mais importante C que, durante as revoluc6es. os cientistas Gem > 2 CracBvia, em uma incis20 tirada coisas novas e diversas tambim quando do Liber Chronicarum (Nuremberg, 149.3). olham com os instrumentos tradicionais nas Cope'rnico estudou na cdebre universidade direq6es em que haviam olhado antes [...I. desta cidade.
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    142 Segunda parte - A revoIus~oc~entifisa Esta imagem que representa o sistemu de Copdrnico d tirada de Andre' Cellari, Harmonia macroc6smica, 1660. A reuolu@o copernicana, de carater ustroncirnico, tomou-se uma espe'cie de emblema da reuolu@o cientifica em geral. vamente, caem por terra os pilares da cos- pio de inircia; Newton, corn sua teoria mologia aristotilico-ptolemaica: assim, por gravitacional, unificaria a fisica de Galileu exemplo, Copirnico coloca o sol no centro com a de Kepler; com efeito, do ponto de do mundo, ao invis da terra; Tycho Brahe, vista da mechica de Newton, pode-se di- mesmo sendo anticopernicano, elimina as zer que as teorias de Galileu e de Kepler esferas materiais que, na velha cosmologia, constituem boas aproximaq6es a certos re- teriam arrastado os planetas com seu movi- sultados particulares obtidos por Newton. mento, e substitui a idiia de orbe (ou esfe- Entretanto, durante os cento e cinqiien- ra) material pela moderna idiia de 6rbita; ta anos que decorrem entre Copirnico e Kepler apresenta uma sistematizaqso mate- Newton, nso 6 apenas a imagem do mundo matica do sistema copernicano e realiza a que se transforma. Vinculada a essa trans- revolucioniria passagem do movimento cir- formagso, esta a mudanga - que tambkm cular ("natural" e "perfeito", na velha cos- foi lenta e tortuosa, mas decisiva -das idti- mologia) para o movimento eliptico dos as sobre o homem, sobre a cidncia, sobre o planetas; Galileu mostra a falsidade da dis- homem de cidncia, sobre o trabalho cienti- tingso entre fisica terrestre e fisica celeste, fico e as institui~6es cientificas, sobre as re- fazendo ver que a lua k da mesma natureza la~oes entre cidncia e sociedade, entre cidn- que a terra e, entre outras coisas, cria novos cia e filosofia e entre saber cientifico e fe' fundamentos corn a formulaqso do princi- religiosa.
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    143 Capi'tulo oitavo - Origens e t r a ~ o s gerais d a revoluc80 cienfif~ca t e r r a n&o & mais explicitar com clareza absoluta -niio C mais a intuiqiio privilegiada do mago ou astrolo- o centro d o universo: go iluminado, individualmente, nem o co- conseqG&ncias filosbficas mentario a um filosofo (Aristoteles) que dis- desta "descoberta" se "a" verdade e toda a verdade, isto C, n5o 6 mais um discurso sobre "o mundo de pa- pel", mas sim investiga~iio discurso sobre e Copernico desloca a terra do centro do o mundo da natureza. universo e, com ela, o homem. A terra niio Essa imagem de ciincia niio surge toda C mais o centro do universo, mas um corpo pronta, de uma vez, mas emerge progres- celeste como os outros; ela, precisamente, sivamente de um tumultuado cadinho de niio C mais aquele centro do universo cria- conceps6es e idiias em que se entrelaqam e do por Deus em fungi50 de um homem con- entrecruzam misticismo, hermetismo, astro- cebido como o ponto mais alto da criaqiio, logia, magia e, sobretudo, tematicas da fi- em funqiio do qua1 estaria todo o universo. losofia neoplat6nica. Trata-se de um pro- E se a terra niio C mais o lugar privile- cesso verdadeiramente complexo, que, como giado da criaqiio e se ela niio C diferente dos diziamos, encontra seu resultado mais cla- outros corpos celestes, entiio niio poderia ro na funda@o galileana d o metodo cienti- haver outros homens tambCm em outros fico e, portanto, na autonomia da ciincia planetas? E, ocorrendo isso, como poderia em relaqiio as proposiq6es de ft e as con- resistir a verdade da narraqiio biblica sobre c e p ~ o e filosoficas. 0 discurso qualifica-se s a descendincia de todos os homens de Adso enquanto tal porque -como disse Galileu e Eva? E como i que Deus, que desceu nesta -procede com base nas "experiincias sen- terra para redimir os homens, poderia ter satas" e nas "demonstraqoes necessarias". redimido outros eventuais homens? AKexperiincia"de Galileu C o "experimen; Essas interrogaqoes ja se haviam pro- to". A ciBncia e' ciincia experimental. E posto com a descoberta dos "selvagens" da atravCs do experiment0 que os cientistas AmCrica, descoberta que, alCm de levar a tendem a obter proposip5es verdadeiras mudanqas politicas e econijmicas, tambim sobre o mundo, ou melhor, proposiqdes proporia inevit5veis questoes religiosas e an- tropoldgicas a cultura ocidental, colocando- a diante da "experiincia da diversidade". E quando Bruno rompe os limites do mundo, tornando o universo infinito, o pensamento ocidental encontrou-se na premtncia de bus- car nova morada para Deus. f cigncia torna-se saber experimental Mudando a imagem do mundo, muda tambCm a imagem do homem. Mas tam- bCm, progressivamente, muda a imagem da citncia. A revoluqiio cientifica niio consiste so- mente em adquirir teorias novas e diferen- tes das anteriores sobre o universo astron6- mico, sobre a dinimica, sobre o corpo Copermco ( 1 473-1 543) humano ou, talvez, sobre a composiqiio da e u m dos representantes ~ U I prestlgtosos S terra. du "reuolu@io ustroizdmrcu": e h afirma que a terra niio d mats o centro d o unwerso, Ao mesmo tempo, a revoluqiio cienti- mas urn corpo celeste como o s outros; fica C revoluqiio da idCia de saber e de citn- cat, portanto, a teorra da terra cia. A cihcia - e esse 5 o resultado da re- consrderadu centro d o unlverso crlado por Deus voluqiio cientifica, resultado que Galileu iria em f u n ~ a odo homem.
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    144 Segunda parte - $ r e v o I u G ~ o cientifica sempre vais verdadeiras, mais amplas e po- mesmo. 0 saber de Aristoteles C "pseudo- derosas, e publicamente controlaveis sobre filosofia" e a Escritura niio tem a funqiio de os fatos. nos informar sobre o mundo, mas C palavra de salvaq5o que apresenta um sentido para a vida dos homens. I f cigncia n60 & saber de ess&ncias 0 traco mais caracteristico desse fen6- meno aue C a cizncia moderna resume-se precisakente no me'todo, que, por um lado, exige imagina~iio criatividade de hipote- e Juntamente com a cosmologia aristo- tClica, a revolu~20 cientifica leva a rejeiq2o ses e, por outro lado, o controle publico das categorias, dos principios e das preten- dessas imaginagdes. Em sua esshcia, a c i h - sdes essencialistas da filosofia aristotilica. cia 6,publica - e o C por questdes de mCto- do. E a idtia de cihcia metodologicamen- 0 antigo saber pretendia ser saber de ess8n- te regulada e publicamente controliivel que cias, ciCncia feita de teorias e conceitos defi- exige as novas instituiqdes cientificas, como nitivos. Mas o processo da revoluq50 cien- tifica confluira para a idCia de Galileu, que as academias, os laboratories, os contatos afirma que buscar as esshcias C empresa internacionais (basta pensar em todos os impossivel e v5. epistolarios importantes). E t com base no mitodo experimen- A cihcia, portanto, assim como ela se configura ao fim do longo processo da re- tal que se funda a autonomia da ci8ncia: voluq5o cientifica, niio estii mais voltada esta encontra suas verdades independente- para a esshcia ou substincia das coisas e dos mente da filosofia e da ft. Mas tal indepen- fenGmenos, mas para a qualidade das coi- dcncia niio tarda a se transformar em con- sas e dos acontecimentos de mod0 objetivo f r o n t ~ que, no "caso Galileu", torna-se , e, portanto, sendo comprovaveis e quan- tragCdia. tificiveis publicamente. N5o C mais o que, Quando CopCrnico tornou publico o mas o como; n5o i mais a substiincia, mas seu De revolutionibus, o teologo luterano sim a fun@io, que a citncia galileana e p6s- Andri Osiander apressou-se em escrever galileana passaria a indagar. um Prefacio sustentando sue a teoria co- pernicaka - contraria a ~ ~ s r n o l o gconti- ia da na Biblia - niio deve ser considerada como descri@o verdadeira do mundo, mas Press~~ostos filosbficos muito mais como instrumento para fazer previs6es. da cizncia moderna Esta seria tambCm a idiia sustentada pel0 cardeal Belarmino em rela~iio defesa a do copernicanismo realizada por Galileu. Se o processo da revoluqiio cientifica C Lutero, Melanchton e Calvino iriam se opor tambCm um processo de rejeiqiio da filoso- duramente 5 concepqiio copernicana. E a fia aristotilica, niio devemos em absoluto Igreja catolica processou duas vezes Galileu, pensar que ele careqa de pressupostos filo- que seria condenado e forqado a abjuraqiio. sdficos. 0 s artifices da revoluq2o cientifica, Entre outras coisas, estamos diante de um de varios modos, tambCm estiveram ligados confront0 entre dois mundos, entre dois ao passado, referindo-se, por exemplo, a modos de ver a realidade, entre duas ma- Arquimedes e Galeno. neiras de conceber a ci2ncia e a verdade. Para A mistica do sol, tanto hermktica como CopCrnico, Kepler e Galileu, a nova teoria neoplat6nica, por exemplo, domina a obra astron6mica n2o e' mera suposi@o mate- de Coptrnico e a de Kepler, podendo ser matica nem simples instrumento de calcu- encontrada na de Harvey. E o grande tema lo, embora util para melhorar a feitura do neoplat6nico do Deus que geometriza e que, calendario, mas sim uma descri@o verda- criando o mundo, cria-o imprimindo nele deira da realidade, obtida atravis de um mi- uma ordem matematica e geomitrica que o todo que niio esmola garantias fora de si pesquisador deve procurar, C um tema que
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    145 Capitulo oitavo - Orisens e tracos gerais d a r e v o l ~ l ~ irientifica io atravessa grande parte da revoluqiio cienti- remos, tinha seus mCritos) niio tanto por fica, como a pesquisa de CopCrnico, de Ke- desertar a experihcia, mas muito mais por pler ou de Galileu. &-la traido, corrompendo as fontes da cicn- cia e despojando a mente dos homens. E, da mesma forma, os astrologos reagiram violentamente ao "novo sistema do mun- do". Com as descobertas de Galileu, o mun- do tornou-se maior, e a quantidade de cor- pos celestes fez-se muito mais numerosa, de mod0 imprevisto e de maneira conside- Assim, podemos dizer com certa cau- ravel. Esse fato convulsionava os funda- tela que o Neoplatonismo constitui a "fi- mentos da astrologia. E os astrologos se re- losofia" da revolu~iiocientifica. De todo belaram. modo. ele r e ~ r e s e n t acertamente o Dres- A proposito do assunto, eis trechos de su~osto metafisico do eixo da revoluciio uma carta d o mecenas napolitano G. B. cientifica, vale dizer, da revoluqiio astro- Manso, amigo de Porta, a Paulo Beni, leitor nBmica. Entretanto, as coisas siio ainda de grego no estudio de Padua, que o pusera mais complexas do que aquilo que expu- a par das incriveis descobertas feitas por semos at6 agora. Com efeito, a historio- Galileu com a luneta: "[ ...I escreverei tam- ~ r a f i arecente e mais atualizada destacou bim de uma aspera querela, que me foi fei- :om abundhcia de dados a relevante me- ta por todos os astrologos e por grande par- senqa da tradiqiio migica e hermitic; no te dos mCdicos, os quais entendem que interior do processo que levou a cicncia mo- foram acrescentados tantos novos planetas derna. aos primeiros ja conhecidos que lhes parece Naturalmente, houve aqueles que, co- que, necessariamente, isso arruine a astro- mo Bacon ou Robert Boyle, criticaram a ma- logia e derrube grande parte da medicina, gia e a alquimia com toda a dureza possi- ja que a distribuiqiio das casas do zodiaco, vel, ou aqueles que, como Pierre Bayle, as dignidades essenciais dos signos, a quali- investiram contra as superstiq6es da astro- dade das naturezas das estrelas fixas, a or- logia. Mas, em todos os casos, a magia, a dem das interpretaqdes, o govern0 da idade alquimia e a astrologia siio ingredientes ati- dos homens, os meses da formaqiio do em- vos do processo que foi a revoluqiio cienti- briiio, as raz6es dos dias criticos, bem como fica. Como tambCm o foi a tradiqiio hermC- centenas e milhares de outras coisas que tica, isto C, aquela tradiqiio que, referindo-se dependem do numero setenario dos plane- a Hermes Trismegisto (recordamos que o tas, seriam todos destruidos desde seus fun- Corpus Hermeticurn fora traduzido por d a m e n t ~ ~ . " realidade, a progressiva Na Marsilio Ficino), tinha como principios fun- afirmaqiio da visiio copernicana do mundo damentais o paralelismo entre o macro- reduzira sempre mais o espaqo da astrolo- cosmo e o microcosmo, a simpatia c6smica gia. Mas ela teve de lutar tambe'rn contra a e a concepqiio do universo como um ser astrologia. vivo. Dizemos tudo isso para mostrar que N o curso da revoluqiio cientifica, al- a cisncia moderna, autBnoma em relaqiio guns temas e ideias magicos e hermtticos, a fe, publica nos controles, regulada por devido ao context0 cultural diferente em clue um mCtodo, corrigivel e em progresso, com vivem ou revivem, se tornariam funcionais uma linguagem especifica e clara e com suas para a ggnese e o desenvolvimento da cisn- instituiqdes tipicas, foi resultado de um cia moderna. Mas isso nem sempre era pos- longo e tortuoso processo em que se entre- sivel ou nem sempre ocorreu. Em suma, a laqam a mistica neoplatBnica, a tradiqiio revoluqiio cientifica avanqou por um mar de hermCtica, a magia, a alquimia e a astro- idCias que nem sempre ou nem sempre com- logia. ~letamente mostraram-se funcionais ao de- Em suma, a revoluqiio cientifica niio senvolvimento da citncia moderna. Assim, foi marcha triunfal. E quando relaciona- por exemplo, enquanto CopCrnico se refe- mos e pesquisamos seus fil6es "racionais", ria i autoridade de Hermes Trismegisto niio devemos deixar de atentar tambem (alCm da autoridade dos neoplat6nicos) para para as eventuais contrapartidas misticas, legitimar seu heliocentrismo, ja Bacon cen- magicas, hermeticas e ocultistas desses sura Paracelso (que, no entanto, como ve- fil6es.
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    14' Segunda parte - A reuoIui~o iientifica - 11. $ formaG&o de novo tip0 de sabev, - que requev a uni&o de ciSncia e tkcnica fi revoIuC&o c i e n t i f i c a douto freqiientemente opera fora (se n i o at6 mesmo contra) das velhas instituiq6es do c r i a o cientista saber, como as universidades. Antes do period0 de que estamos tra- tando, as artes liberais (o trabalho intelec- tual) eram distintas das artes mechicas. 0 resultado do processo cultural que Estas eram "baixas" e "vis"; implicando o passou a ser denominado "revoluqio cien- trabalho manual e o contato com a mate- tifica" foi uma nova imagem do mundo que, ria, identificavam-se com o trabalho servil. entre outras coisas, prop& problemas reli- As artes meciinicas eram consideradas in- giosos e antropologicos n i o indiferentes. Ao dignas de um homem livre. Mas, no proces- mesmo tempo, representou a proposta de so da revoluqio cientifica, essa separaqio nova imagem da ciincia: aut6noma, publi- foi superada: a experiincia do novo cientis- ca, controlavel e progressiva. ta 6 o experimento - e o experimento exi- Mas a revoluqio cientifica foi, preci- ge uma strie de operaq6es e medidas. samente, um processo: um processo que, Assim, fundem-se numa so coisa o no- para ser compreendido, deve ser dissecado vo saber e a uniio entre teoria e pratica, que em todos os seus comDonentes. inclusive a freqiientemente resulta na cooperaqio en- tradiqiio hermCtica, a alquimia, a astrologia tre cientistas, por um lado, e tCcnicos e ar- ou a magia, posteriormente abandonadas tesios superiores (engenheiros, artistas, hi- pela ciincia moderna, mas que, bem ou mal, draulicos, arquitetos etc.), por outro. Foi a influiram sobre sua ginese ou, pel0 menos, pr6pria idtia do saber experimental, publi- sobre seu desenvolvimento inicial. E preci- camente controlavel, que mudou o status das so, contudo, ir mais alCm, j i que outra ca- artes mechicas. racteristica fundamental da revolucio cien- tifica t a formaciio de um saber -a ciincia. precisamente - que, ao contririo do saber medieval, reune teoria e pratica, ciincia e A revoluG&o c i e n t i f i c a : te'cnica, dando assim origem a um novo tip0 f u s ~ d a t&cvica o COM? o s a b e r de "douto", bem diferente do filosofo me- dieval, do humanista, do mago, do astrolo- go, ou tambtm do artesio ou do artista da Sustentou-se que a ciincia moderna, Renascenca. isto 6, o saber de carater publico, coopera- Esse =nova tip0 de douto gerado pela revoluqio cientifica, precisamente, n i o 6 tivo e progressivo teria nascido primeiro com os artesios superiores (navegantes, en- mais o mago ou o astrologo possuidor de genheiros de fortificaq6es, tCcnicos das ofi- um saber privado ou de iniciados, nem o cinas de artilharia, agrimensores, arquitetos, professor universitario comentador e inter- artistas etc.) para depois influir na transfor- prete dos textos do passado, e sim o cientis- maqio das artes liberais. ta fautor de nova forma de saber, publico, Contra esta tese se disse que a ciincia controliivel e progressivo, isto C, de uma n i o foi feita pelos artesiios e pelos engenhei- forma de saber que, para ser validado, ne- ros, mas justamente pelos cientistas, por cessita do continuo controle da praxis, da Calileu, Kepler, Descartes etc. Esti t a tese experiincia. A revolu@o cientifica cria o do historiador da ciincia A. Koyrt, o qua1 cientista experimental moderno, cuja expe- sustentou que a nova balistica n i o foi in- riincia e' o experimento, tornado sempre ventada por operarios e artilheiros, mas con- mais rigoroso por novos instrumentos de tra eles, e que Calileu n i o aprendeu sua pro- medida, cada vez mais precisos. E o novo fissio das pessoas que trabalhavam nos
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    Capitulo oitavo - Origens e t r a ~ o s gerais d a revoluGdo cientifica arsenais e nos canteiros de obras de Veneza, Mas ela surgiu e se desenvolveu tambe'm mas que, ao contrario, ele a ensinou a eles. porque encontrou toda uma base tecnolo- E. de fato. niio foram os tCcnicos do arsenal gica, toda uma sCrie de maquinas e instru- que criaram o principio de inircia. mentos que constituiam quase que uma ba- Claro, Galileu ia ao arsenal e, como se natural de testes, oferecendo tCcnicas de ele proprio diz, o coloquio com os ticnicos comprovaqiio e talvez at6 propondo novos, do arsenal "muitas vezes ajudou-me na in- profundos e fecundos problemas. Galileu vestigaqiio da raziio de efeitos niio apenas niio aprendeu a dinimica com os ticnicos maravilhosos. mas tambCm r e c h d i t o s e do arsenal, assim corno, mais tarde, Darwin quase imprevistos". As ttcnicas, os acha- niio aprendera a teoria da evoluqiio com os dos e os processos presentes no arsenal aju- criadores de animais. Mas, da mesma for- daram a reflexiio tedrica de Galileu. E pro- ma como Darwin falava com os criadores, puseram novos problemas para ela: "E tambim Galileu visitava o arsenal. E esse verdade que, por vezes, at6 deixou-me con- fato niio C de somenos importincia. 0 tCc- fuso e desesperado de saber como penetrar nico C aquele que sabe que e7 amiude, sabe e seguir aquilo que, longe de toda opiniiio tambCm como. Mas C o cientista que sabe minha, o sentido demonstra-me ser verda- por que. Em nossos dias, um eletricista sabe deiro." muitas coisas sobre as aplicaq6es da corrente Foram os oculistas que descobriram o elCtrica e sabe como implantar um sistema, fato de que duas lentes, dispostas de mod0 mas que eletricista conhece por que a cor- adequado, aproximam as coisas distantes, rente funciona do mod0 como funciona ou mas niio foram os oculistas que descobri- sabe alguma coisa sobre a natureza da luz? ram por que as lentes funcionam assim. E niio foi nem mesmo Galileu. Para isso. foi precis0 Kepler: foi ele quem compreendeu as leis de funcionamento das lentes. Como fi cizncia ~ o d e r n a tambCm niio foram os tCcnicos que escava- r&ne teoria e p k t i c a vam p o ~ o s compreenderam por que a que agua das bombas niio subia alCm dos dez metros e trinta e seis centimetros. Foi ~ r e c i - Em seus Discursos acerca de duas no- so Torricelli para demonstrar que a altura vas cizncias, Galileu escreve: "Parece-me que maxima de trinta e quatro pis (= 10,36 a pratica freqiiente do vosso famoso arsenal, metros) para a coluna d'agua no interior do senhores venezianos, p6e um amplo campo cilindro revela simplesmente a press50 total de filosofar aos intelectos especulativos, da atmosfera sobre a superficie do pr6prio particularmente aquela parte que envolve a POSO. mecinica, B medida que, aqui, toda sorte de E quantos eximios navegantes n i o ti- instrumentos e maquinas C posta em movi- veram de lutar contra as altas e baixas ma- mento por grande numero de artifices, entre rks? E, no entanto, so com Newton chegou- os quais, pelas observaqdes feitas por seus an- se a uma boa teoria das marks (embora tecessores e por aquelas que, por sua propria Kepler ja a houvesse roqado; note-se, po- percepqiio, sem cessar eles proprios conti- rCm, que Galileu dera-lhe explicaqio equi- nuam fazendo, forqosamente encontramos vocada). Eis, portanto, duas teses sobre o alguns muito peritos e de finissirno discur- fato da reaproxima@o entre tLcnica e sa- SO." E entre estes "homens muito peritos e de ber. entre artes5o e intelectual. fen6meno finisismo discurso" devemos lembrar tam- tipico da revoluqiio cientifica. Pois bem, nos bCm Brunelleschi, Ghiberti, Piero della Fran- pensamos que essa aproximagiio, at6 mes- cesca, Leonardo, Cellini; como tambCm Leon mo a fusiio da tCcnica com o saber, consti- Battista Alberti, Valturio de Rimini (autor tuem a propria ciihcia moderna. Uma c i h - de urn livro sobre maquinas militares), Bi- cia que se baseia no experimento, por si ringuccio (autor de uma Pirotecnia) etc. mesma, exige as te'cnicas de comprova@o, A cihcia C obra dos cientistas. A ciEn- as operaq6es manuais e instrumentais que cia experimental convalida-se atravCs dos servem para controlar uma teoria, sendo as- experimentos. Estes se realizam mediante sim saber unido B tecnologia. tCcnicas de teste resultantes de operaq6es Mas, entiio, quem criou a citncia? A res- manuais e instrumentais com e sobre os posta mais plausivel parece-nos a de KoyrC: objetos. A revoluqiio cientifica 6 precisamen- foram os cientistas que criaram a cihcia. te aquele processo historic0 do qua1 decor-
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    14' Segunda parte - A V ~ V O I U cieniificv ~~O re a ciincia experimental, vale dizer, urna cia moderna acom~anham-se subito cres- de nova forma de saber, nova e diferente do cimento da instrumentagiio. "saber" religioso, do "metafisico", do "as- N o principio do Quinhentos a instru- trologico e magico" e tambtm do "ticnico mentagio reduzia-se a n i o muitas coisas li- e artesanal". gadas i observagio astron6mica e ao le- A ciincia moderna, assim como se con- vantamento topografico; em meciinica, figurou a o fim da revolugio cientifica, n i o usavam-se alavancas e polias. No entanto, C mais o saber das universidades, mas tam- logo depois, no curso de poucas dCcadas, bCm niio pode ser reduzida tampouco 2 surgem o telescopio de Galileu (1610),o mi- pratica dos artesiios. Trata-se precisamen- croscopio de Malpighi (16601, de Hooke te de um novo saber que, reunindo teoria e (1665) e de van Leeuwenhoek; o pindulo pritica, por um lado leva as teorias a o con- cicloidal de Huygens C de 1673; a descrig2o tat0 com a realidade e as torna publicas, que Castelli fez do term6metro a ar de Ga- controlaveis, progressivas e fruto de cola- lileu t de 1638; o term6metro a agua de Jean boragio, e, por outro lado, leva para den- Rey C de 1632 e Magalotti inventou o ter- tro do saber e d o conhecimento (conce- m6metro a ilcool em 1666; o bar6metro de bendo-os como banco de prova das teorias Torricelli C de 1643; Robert Boyle descre- e como sua aplicagio) muitos achados das veu a bomba pneumatica em 1660. "artes mechicas" e artesanais, conferin- Pois bem, o que interessa em urna his- do a estas um novo status epistemologico toria das idCias n5o C tanto o elenco dos ins- antes at6 do que social. E C obvio que a gi- trumentos (que poderia continuar), mas nese, o desenvolvimento e o sucesso dessa muito mais a compreensgo de que, no curso nova forma de saber anda de bragos dados da revolugio cientifica, os instrumentos com nova figura de douto ou sabio e tam- cientificos tornam-se parte integrante do bCm com novas instituigoes, dedicadas pel0 saber cientifico: n i o existe o saber cientifi- menos a o controle das varias partes desse co separado e, ao seu lado, os instrumen- saber em formagiio. 0 "cientista" n i o C tos: os instrumentos estio dentro da teoria. mais o douto que sabe latim, que leu os li- tornando-se teorias eles proprios. Em urna vros, antigos ou ensina em urna universida- nota manuscrita do acadimico experimen- de. E muito mais aquele que pertence a urna tal Vicente Viviani, encontramos o seguin- sociedade cientifica ou a urna academia, as te: "Perguntar a Gonfia (um habil soprador quais, junto com observatorios, laborato- de vidro): qua1 dos licores esta mais pronto rios e museus, constituem as novas insti- a fervilhar com o calor, isto 6, a receber o tuig6es do saber, fora e por vezes contra as calor do ambiente." E. mais adiante. vere- Universidades. mos a corajosa operagio de Galileu, conse- E, no entanto, apesar dessas rupturas, guindo, atravCs de um mar de obstaculos, n i o devemos nos esquecer dos elementos de levar um instrumento de "vis meciinicos" continuidade que ligam a evolugio cientifi- como a luneta para dentro do saber e usa-lo ca ao passado. Trata-se do retorno a auto- com objetivos cognoscitivos, embora ini- res e textos que podiam contribuir para a cialmente o divulgasse para finalidades pra- nova perspectiva cultural: Euclides, Arqui- ticas, como as militares. E, por seu turno, medes, Vitruvio, Heron e outros. na introdugio 2 primeira edigio dos Princi- pios, Newton se opes 2 distingio entre "me- ciinica racional" e "meciinica prhtica", de- fendida pelos "antigos". 0 s instr~mentos cientificos Mas vamos nos aprofundar um pou- C O ~ O a r t e integrante p co mais na teoria ou nas teorias dos instru- mentos que podem ser detectadas no inte- do s a b e r cientifico rior da revolugio cientifica. A primeira idCia sobre os instrumentos aue aflora nos escritos de alguns grandes expoentes da 0 reencontro do elo entre teoria e pra- revolucio cientifica C a visiio dos instru- tica, isto 6, entre saber e tCcnica, esta vincu- mentos como ajuda e potencializagiio dos lado a (e, em parte, se identifica com) outro sentidos. Galileu afirma que, no uso das ma- fen6meno evidente criado pela revolugio quinas antigas, como a alavanca e o plano cientifica: estamos falando do fen6meno pe- inclinado, "a maior contribuigio que nos lo qua1 o nascimento e a fundagio da ciin- trazem os instrumentos meciinicos C a que
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    149 Capitdo oitavo - Orisens e t r a ~ o gerals s da revolrzc&o c ~ e n t i f i c a diz respeito a o movente (...), como quan- uso de instrumentos oticos como o prisma do nos servimos do curso de um rio para ou as Iiiminas finas acompanha-se de refle- mover moinhos, ou da forla de um cavalo x6es - por exemplo, em Newton - que para criar aquele efeito para o qua1 nZo tendem a considerar o instrumento niio tan- bastaria a forla de quatro ou seis hornens". to como potencializaqiio dos sentidos, mas Portanto, o instrumento aparece aqui como muito mais como um meio em condiq6es de ajuda aos sentidos. N o que se refere a lu- libertar dos enganos dos olhos. Nesse senti- neta, Galileu tambim escreve que "6 coi- do, portanto, o instrumento aparece como sa belissima, que, a l i m de se ver, C atra- meio que, levando-nos ao interior dos obje- ente por se poder admirar o corpo lunar, tos (e nZo somente a mais objetos), garante distante de nos quase sessenta semidiime- maior objetividade contra os sentidos e os tros terrestres, assim tiio de perto, como se seus testemunhos. distasse de nos somente duas dessas me- Mas as coisas niio ficam por ai, ja que, didas". E Hooke dep6e no mesmo sentido, na importante polemica entre Newton e quando afirma que "a primeira coisa a Hooke sobre a teoria das cores e sobre o fazer no que se refere aos sentidos i uma funcionamento do prisma, aparece outro te- tentativa de suprir sua deficihcia com ins- ma da teoria dos instrumentos (um tema trumentos, isto 6, acrescentar orgiios arti- destinado a desempenhar um papel de pri- ficiais aos naturais". meira ordem na fisica contemporinea), isto Falando de instrumentaqiio cientifica, 6, a quest50 do instrumento perturbador niio se pode deixar de lado o fato de que o do objeto de pesquisa, e, conseqiientemen- PHILOSOPWIAE N A T U R A L I S Y R I N C I P I A M A T H E M A T I C A . A U C T O R E I S A A C 0 NEWTONO, E ~ U I TA W R A T ~ B Frontispicio du segunda cdi@o dos Principia mathematics, de Isaac Newton ( 1 71 1).
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    lSo Segunda parte - A rrvoIuc~o sie~tifica te, a temhtica de como poder controlar - que o prisma "analisa" 2 medida que "mo- e o quanto t possivel faze-lo - o instru- dula". mento perturbador. Hooke apreciava os ex- Assim, em conclusio, no curso da re- p e r i m e n t ~ ~ Newton com o prisma por de volu~io cientifica, os instrumentos entram na sua agudeza e elegiincia, mas o que ele con- ciBncia com fun@o cognoscitiva: em suma, testava era a hipotese de que a luz branca a revolu@o cientifica sanciona a legalidade pudesse ter uma natureza composta e, de dos instrumentos cientificos. E se por outro todo modo, que essa pudesse ser a iinica lado alguns instrumentos s i o concebidos hipotese justa. Hooke n i o pensava que a como potencializaq50 dos nossos sentidos, cor fosse uma propriedade original dos rai- por outro lado devemos constatar a emer- 0s. Para ele, a luz branca era produto do gincia de dois outros temas: o do instrumen- movimento das particulas que compoem o to contraposto ao sentido e o do instrumento prisma. E isso significa que a dispersiio das perturbador do objeto sob investiga~io. cores seria o resultado de uma perturba- Dois temas que retornario com freqiiincia qio operada pel0 prisma. Hoje, diriamos no desenvolvimento posterior da fisica.
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    A presenqa datradiqZio neoplatenica e da neopitagorica, do pensamento hermetic0 e da tradiqZio magica no processo da revoluqZio cientifica, e um fato indubitavel. Basta aqui lembrar: o Deus que geometriza do Neoplatonismo; a na- tureza escandida sobre o numero dos Pitagoricos; o culto do sol por parte dos Neoplat8nicos e do hermetismo; a ideia de harmonia das esfe- ras, uma ideia que guiou Kepler em suas pesquisas; a teoria do contagium de Fracastoro; a ideia do corpo humano visto como AS diversas um sistema quimico e a ideia da especificidade da doenqa e dos func6es respectivos remedios, concepqdes retomadas na iatroquimica de da tradi@o Paracelso, e assim por diante. Ora, mesmo que algumas destas mdgico-hermetica ideias resultem funcionais para a criaqiio e os desenvolvimentos ProCeSSO da revolu@o da ciCncia, o processo da revolu@o cientifica progressivamente cientjfica distingue, critica e elimina o pensamento magico, levando a + § maturaqao a forma de saber que e a cibcia moderna: saber pu- blico e controlavel e fruto de cooperaqao. E exatamente a genialidade descontrolada do pensamento magico, da astro- logia e da alquimia Bacon opora a clareza e a publicidade de um saber criado por uma comunidade que trabalha com regras reconhecidas. Por sua vez, Pierre Bayle (1647-1706) escrevera nos Pensamentos diversos sobre o cometa (1682) que as regras da astrologia sao simplesmente "mise- raveis". A estreita uniao entre astrologia e astronomia passa da antiguidade - Ptolomeu e autor do Almagesto, tratado astron8mic0, mas e tambem autor do Tetrabiblos, grande tratado de astrologia - a ldade Media e a reencontramos no period0 do Humanismo e da Renascenqa. Tracos 0 astrologo era aquele que, compilando "efemerides" - isto caracteristicos e, tabuas onde sZio especificadas as posiqdes dos diversos plane- da astrologia tas dia por dia -, presumia estabelecer o influxo positivo ou ne- e da magia gativo dos astros sobre a pessoa. Mais especificamente a astrolo- + § 2-5 gia judiciaria pretendia desvelar o julgamento dos astros sobre a pessoa e ao mesmo tempo sobre os eventos. Nas conjunqdes dos astros o astrolo- go via o destino das pessoas e a sorte dos governantes; ele sabia coisas tao impor- tantes que todo principe ou potentado tinha seu astrologo de corte. Praticas divinatorias ulteriores s aliaram a astrologia, praticas ligadas a e fisiognomonia (onde s presume conhecer o carater de um homem por meio do e exame de seu corpo, e especialmente mediante o exame dos olhos, da fronte, da face), a quiromancia (previsao do futuro da pessoa pelas linhas da mao) e a
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    metoposcopia (previsao dofuturo pelas rugas da fronte). E se a astrologia se apre- senta como o saber que prevC o curso dos eventos - favoraveis ou desfavoraveis que sejam - a magia se apresenta como a ciCncia da intervenqao sobre as coisas e sobre os homens, intervenqao dirigida a dominar e a transformar a realidade em nosso beneficio. Por seu turno. Keder conhecia muito bem o Corpus Hermeticum; muito do seu trabalho consistiu em compilar efemiri- des; quando casou-se pela segunda vez, aconselhou-se com os amigos, mas consul- tou tambkm as estrelas. E. sobretudo. a sua Com base no que dissemos ate agora visio da harmonia das esferas esta ~ r e n h e sobre a magia, n i o se deve pensar que, du- de misticismo neopitagorico. N o Myste- rante o periodo que estamos tratando, a rium Cosmographicum, a proposito de sua magia tenha estado de um lado e a ciincia investigaqiio a respeito "do numero, da de outro. A cicncia moderna - com a ima- extensio e do periodo dos orbes", escreve: gem que dela nos apresentou Galileu e que "A admiravel harmonia das coisas im6- Newton consolidar5 -constitui. como ob- veis - o sol, as estrelas e o espaqo -, servamos anteriormente. o resultado do bro- que correspondem Trindade de Deus cesso da revoluqiio cientifica. Por essa ra- Pai, Deus Filho e o Espirito Santo, me en- zio, no curso desse processo, a medida que corajou nessa tentativa". Tambtm o mes- assume consistincia a nova forma de saber tre de Kepler, isto C, Tycho Brahe, estava que i a ciincia moderna, a outra forma de persuadido da influincia dos astros sobre saber - isto e, a magia - passa a ser com- o andamento das coisas e sobre os aconte- batida como forma de ~seudociincia de e cimentos humanos, chegando a ver paz e saber e s ~ u r i o . riqueza no aparecimento da stella nova de N o entanto, os vinculos entre filosofia 1572. E assim como os horoscopos de Ke- neoplathica, hermetismo, tradiqio cabalis- pler eram muito requisitados, tambim Ga- tica, magia, astrologia e alquimia, por um lileu fazia os seus horoscopos na corte dos lado, e as teorias empiricas e a nova ideia MCdici. de saber que avanqa nesse sentido cultural, William Harvey - o descobridor da por outro lado, siio vinculos cujos elos so se circulaqio do sangue -, no prefacio a sua dissolvem com lentidiio e esforco. Com efei- grande obra De motu cordis, combate com to, deixando de lado o compoiente neopla- muito rigor a idiia dos espiritos que rege- t6nico que constitui o fundamento de toda riam as operaqoes do organism0 ("Normal- a revoluqio astronbmica, ningukm pode mente, acontece que, quando tolos e igno- hoje negar o peso relevante que o pensamen- rantes niio sabem como explicar algum fato, to magico-hermitico exerceu tambkm sobre entio logo recorrem aos espiritos, que s i o os expoentes mais representativos da revo- causa e artifices de tudo, levados ao palco lucio cientifica. na conclusio de estranhas historias. como Alim de astr6nomo. Co~Crnico J L tam- o Deus ex machina dos poetastros."); mas, bim foi midico, tendo praticado sua medi- nas pegadas da concep~iio solar da tradiqiio cina por meio da teoria da influincia dos neoplat6nica e hermetica, escreve que "o astros. E n i o 6 o caso de um Copirnico coraqio pode (...)muito bem ser designa- midico que se comporta como astrologo e do como o principio da vida e o sol do um Copirnico astr6nomo que se comporta microcosmo, corno, analogamente, o sol como cientista puro (assim como nos con- pode muito bem ser designado o coraqiio cebemos o cientista), pois, quando Copir- do mundo". Hermetismo e alauimia tam- nico trata de iustificar a centralidade do sol bim estario presentes no pensamento de no universo, ele se remete tambkm a autori- Newton. dade de Hermes Trismegisto, que chama o Assim, a presenqa da tradiqio p l a t h i - sol de "Deus visivel". ca e da neopitagorica, do pensamento her-
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    153 Capitdo nono - $ revolwGiiocientifica e a tradiciio m6c~ico-hermi.tica metico e da tradiqiio magica no processo da qoes? O u que urna ordem cumprida urna revoluqiio cientifica, 6 um fato indubita- hora apos o estabelecido faz falir certos pro- vel. Todavia, podemos ver que, enquanto al- jetos trabalhosamente elaborados? Ou que gumas dessas ideias tornam-se funcionais a morte de um so homem pode mudar a para a criaqiio da ciincia (basta pensar no face de urna situaqiio e que, as vezes, C por seguinte: o Deus que geometriza o neoplato- urna besteira, a mais fortuita do mundo, nismo; a natureza simbolizada pelo nume- que niio se vencem batalhas cuja perda i ro dos pitagoricos; o culto neoplat6nico e seguida por urna infinidade de males? Co- hermetic0 a o sol; a idkia kepleriana de har- mo se ode re tender que os atomos de um monia das esferas; a idkia do contagium de cometa, revoluteando pelo ar, produzam Fracastoro; a concepqso do corpo humano todos esses efeitos?" Na opiniiio de Bayle, como um sistema quimico ou a idkia da es- as regras da astrologia siio simplesmente pecificidade das doenqas e dos respectivos "miseraveis". remkdios, concepqiio e idCia propostas e Durissima foi a critica de Bacon con- defendidas na iatroquimica de Paracelso, en- tra o pensamento magico. Na opiniiio de tre outras coisas), por outro lado, o proces- Bacon, a cihcia 6 feita de contribuiqoes in- so da revoluqiio cientifica, levando 21 ma- dividuais que, inserindo-se no patrim6nio turaqiio, na praxis e na teoria, aquela forma cognoscitivo da humanidade, servem ao seu unica de saber que 6 a ciincia moderna, pro- sucesso e bem-estar. Por isso, Bacon niio gressivamente distingue, critica e rejeita o condena os "nobres" fins da magia, da as- pensamento magico. Assim, por exemplo, trologia e da alquimia, mas rejeita decidi- Kepler expressa urna Iucida consciincia a damente seu ideal do saber, pertencente a proposito do fato de que, enquanto o pen- um individuo iluminado e, portanto, estra- samento magico revolve-se no redemoinho nho ao controle publico da experiincia e, dos "tenebrosos enigmas das coisas", es- conseqiientemente, arbitririo e obscuro. A creve ele, "eu, ao contrario, esforqo-me por genialidade sem controle, Bacon contrapoe levar a clareza do intelecto as coisas envol- o carater publico do saber; ao individuo ilu- tas em obscuridades". A tenebrosidade, minado, urna comunidade cientifica que alias, para Kepler, 6 a caracteristica do pen- opera com normas reconhecidas; a obscuri- samento dos alquimistas, dos hermkticos e dade, a clareza; a sintese apressada, a cau- dos seguidores de Paracelso, a o passo que tela e o paciente controle. o pensamento dos "matematicos" se carac- teriza por sua clareza. Boyle tambCm se lanqari contra Paracelso. E, embora por dever tivesse de fazer horoscopos, Calileu 2 $ &mi& estveita mostra-se totalmente estranho ao pensamen- entre castvologica, to magico em seus escritos. E o mesmo vale m c l g i c a e cizncicl moderncl para Descartes. Em seus Pensamentos diversos sobre o cometa ( 1682), Pierre Bayle (1647-1706) ataca vigorosamente a astrologia, escreven- N o contexto das ideias do Quinhen- do: "Afirmo que os pressagios especificos tos, C impossivel delimitar urna disciplina dos cometas, niio se apoiando em outra coisa cientifica em relaqiio a outra, como de cer- alCm dos principios da astrologia, niio po- ta forma se tornou possivel em seguida. dem ser sen20 extremamente ridicules ( ...). Na cultura do Quinhentos, nem sempre 6 Sem precisar repetir tudo o que ja disse so- possivel traqar muitas linhas de separaqiio bre a liberdade do homem (e que seria sufi- entre as idkias cientificas de um lado e as ciente para decidir essa questiio), como e teorias filosoficas, magicas e astrologicas do possivel alguem imaginar que um cometa outro. A Renascenqa p6s entre a Idade Me- seja a causa de guerras que explodem no dia e a Cpoca moderna, freqiientemente vin- mundo um ou dois anos depois que ele de- culando-se a o passado, ideias da tradiqiio sapareceu? E como podem os cometas ser a neoplat6nica, ideias derivadas da cabala causa da prodigiosa variedade de aconteci- e da tradiqiio hermetica e ideias magicas e mentos que se registram no curso de urna astrologicas. Trata-se de idkias que a histo- longa guerra? Niio se sabe, talvez, que a riografia mais atualizada reconhece serem interceptaqiio de urna carta pode fazer falir um ingrediente que niio pode ser elimina- todo o plano de urna campanha de opera- do da revoluqiio cientifica: onde vemos que
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    154 Segunda parte - A ~ e v o I u cieniifica ~ ~ o toda disciplina ou conjunto de teorias (em sas que estio sobre a terra". Essa estreita sentido moderno) tem a sua contrapartida uniiio entre astrologia e astronomia que en- ocultista. Naturalmente, um dos resultados contramos na antiguidade atravessa a Ida- mais maduros da revolugio cientifica seria de Media e pode ser encontrada no perio- a progressiva (mas, de todo modo, nunca d o do humanism0 e da Renascenga e, por total e definitiva) expulsio das id6ias ma- vezes, at6 mais tarde. 0 astrdlogo 6 aquele gico-hermitico-astrologicas do iimbito da que, atravis da observagiio dos astros, com- ciincia. Entretanto, ha outro lado da ques- pila as "efemirides", ou seja, os quadros tio: a ciincia moderna teria surgido sem a onde siio especificadas as posigoes que os "ruptura" que essas idtias efetuaram em rela- diversos planetas assumem dia apos dia. gio ao mundo medieval? Mais adiante vere- Com base em tais posigoes e configurag6es mos de que mod0 a revolugio astron6mica dos astros, o astrologo tratava "temas de encontrara sua garantia filosofica no plato- nascimento", isto 6, fixava quais astros es- nismo e no neoplatonismo. E o programa tavam mais proximos de uma pessoa na de Paracelso, que via o corpo humano co- data do seu nascimento, para depois esta- mo sistema quimico, n i o foi util e fecundo belecer sua influincia positiva ou negativa para a ciincia? Nem sempre os principios sobre a pessoa, da qua1 fazia-se assim o ho- niio-cientificos, as fantasias "absurdas" e os roscopo ( o hodierno termo "influEncian sistemas que parecem nascer do ar consti- encontra ai a sua origem). N o Quatrocen- tuem obstaculos para o desenvolvimento tos e no Quinhentos foi grande o sucesso da ciincia. Existem idiias nio-cientificas da astrologia judiciaria, ou seja, da astro- que se revelam fecundas para a ciincia, in- logia voltada para revelar o juizo dos as- fluindo positivamente em seu desenvolvi- tros sobre as pessoas e tamb6m sobre os mento. E, embora uma das caracteristicas acontecimentos. Em suma, o astrologo via da ciincia moderna seja sua linguagem cla- nas conjungoes dos astros as condigoes de ra, especifica e controlavel, niio se exclui saude e o destino das pessoas, mas tam- que idiias confusas possam ser uteis na gi- bim as perspectivas da estagiio, as revoltas nese de algumas teorias cientificas. Mesmo populares, a sorte dos senhores reinantes, em nossos dias, ha quem evidencie os me- das politicas e das religioes, as guerras fu- ritos da confusiio; na realidade, pode ocor- turas. Como era o astr6logo que via e sa- rer, as vezes, que a clareza seja o ultimo bia dessas coisas t i o importantes, niio ha- refugio de quem niio tem nada a dizer. As- via principe ou poderoso que niio tivesse o sim escrevia o filosofo norte-americano seu astrologo na corte. Charles S. Peirce por volta de fins do Oito- centos: "Diem-me um povo cuja medicina originiria niio esteja misturada com a ma- gia e os encantamentos, e eu lhes mostrarei Fisiognomonia, um povo privado de qualquer capacidade quiromancia cientifica." e metoposcopia 3 '4 J " 4 , Caracteristicas Ao lado da astrologia, exerciam-se ou- - , da astrologia tras priticas divinatorias, como a fisiog- nomonia. N o De fato (V, l o ) , Cicero fala do fisiognomonista Zopiro, que afirmava De origem egipcia e caldiia, a astro- poder chegar a conhecer o carater de um logia era uma ciincia, isto 6, um autintico homem atrav6s do exame de seu corpo, es- saber, para os homens do Quatrocentos e pecialmente pelo exame de seus olhos, da do Quinhentos. A astrologia e a astrono- fronte e da face. Durante a Renascenga, essa mia aparecem ligadas entre si desde a anti- arte foi extensamente cultivada, com gran- guidade. Ptolomeu, como sabemos, i au- de sucesso. Em 1580, Giambattista Della tor do famoso e muito influente tratado de Porta publicou o livro Sobre a fisiognomonia astronomia Almagesto, mas tambim escre- humana. A fisiognomonia esteve presente veu um volumoso tratado de astrologia ( o at6 mesmo no Setecentos (basta pensar em Tetrabiblos).Tinha a convicgiio de que " h i Lavater), encontrando-se tragos dela at6 em certa influincia do ciu sobre todas as coi- nossos dias. Outras formas de adivinhagio
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    eram ainda aquiromancia (previsiio do fu- seus efeitos e suas conseqiiCncias. Desse mo- turo de uma pessoa pelas linhas da m i o ) e a do, se a astrologia e a citncia que previ o curso metoposcopia (previsiio do futuro pelas ru- dos eventos, a magia C a ciincia da inter- gas da fronte). venqiio sobre as coisas, os homens e os acon- tecimentos, a fim de dominar, dirigir e trans- formar a realidade segundo nossa vontade. A magia C o conhecimento dos modos pelos quais o homem pode agir para levar as coisas para o sentido por ele desejado. Desse modo, no mais das vezes, ela se con- 0 paralelismo entre macrocosmo e mi- figura como ciincia que envolve o saber as- crocosmo, a simpatia cosmica e a concepqiio trologico: a astrologia indica o curso dos do universo como ser vivo s i o principios acontecimentos (favoraveis e desfavoraveis) fundamentais d o pensamento hermCtico, e a magia apresenta os instrumentos de in- relanqado por Marsilio Ficino con1 a tradu- tervenqiio sobre esse curso. A magia inter- $50 do Corpus Hermeticum. Com base no vem para mudar as coisas que est2o "escri- pensamento hermktico, niio h i qualquer du- tas n o ceu " e que foram lidas pela astrologia. vida a respeito da influhcia dos aconteci- Evidentemente, a intervenqiio sobre o curso mentos celestes sobre os eventos humanos e dos acontecimentos pressupoe o conheci- terrestres. Mas, como o universo C urn ser vivo, mento desse curso. Dai ter-se impost0 e al- em que cada parte depende da outra, toda canqado grande sucesso a figura do astrolo- aqio e intervenqio humana tambCm t t m go-mago, o sabio que domina as estrelas.
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    II. Reuchlim e a tradic~o cabalistica. Reuchlin Johann Reuchlin (1455-1522), professor de grego em e a cabala Tubinga, e autor de um De arte cabalistica. Reuchlin aproximou- +§I s da cabala (que quer dizer tradi@o) talvez sob a influencia de e Pico della Mirandola. Na cabala Reuchlin v@ revelaq$odivina imediata: a cabala e ciencia da divin- a dade; e o cabalista - escreve Reuchlin - e um taumaturgo que, s tem fe intensa, e pode fazer milagres em nome de Jesus. Agripa Medico, astrologo, filosofo e alquimista foi Cornelio Agripa entre de Nettesheim (1486-1535), segundo o qua1 a partes do univer- s magia branca so estao em rela~ao entre si por meio do espirito que anima o e magia negra mundo inteiro. -+§2 E justamente a magia que torna o homem senhor das po- t@ncias escondidas que agem no universo: a magia natural 4 co- nhecimento e controle das forsas que animam os corpos materiais; a magia celes- te e conhecimento e controle das influsncias exercidas pelos astros; a magia reli- giosa ou cerimonial e a que vigia e expulsa a for~as s demoniacas. A magia natural e a magia celeste constituem a que e chamada de magia branca; a magia religiosa ou cerimonial adquiriu o nome de magia negra ou ma- gia negromdntica. sensivel do qual dependem as coisas sensi- veis, coloca-o em condig6es de operar coi- sas milagrosas. Como escreve Reuchlin no A cabala esta ligada a primeira figura Capnion sive de verbo divino, o cabalista C de mago de certo interesse, ou seja, o ale- um taumaturgo que, tendo fC intensa, pode m50 Johann Reuchlin (1455-1522). A ca- fazer milagres em nome de Jesus. bala (que significa "tradiq50n) t a mistica hebraica que, atravks de articulada e com- plexa simbologia, vZ os fen6menos huma- nos como reflex0 dos divinos. fig 4 pa e a magia Pois bem, Reuchlin (ou Capnion, nome grego que adotou) conheceu Pico della Mi- randola na Italia. E talvez tenha sido Pico Para o mCdico, astrologo, filosofo e al- quem o introduziu nos estudos cabalisticos. quimista CornClio Agripa de Nettesheim Professor de grego em Tubinga, Reuchlin foi (nascido em Col6nia em 1486 e morto em autor de um De arte cabalistica. Ele via a Grenoble em 1535), as partes do universo imediata revelaq5o divina na cabala, que est5o em rela@o entre si atraves do espirito seria entio a cihcia da divindade. Afirma que anima o mundo inteiro. Escreve Agripa Reuchlin: "A cabala C uma teologia simbo- em seu De occulta philosophia que, assim lica, na qual n5o somente as letras e os no- como uma corda estendida vibra sempre que mes, mas as proprias coisas, S ~ sinais das O C tocada em algum ponto, da mesma forma coisas." E o conhecimento desses simbolos o universo, sendo tocado em um dos seus C obtido mediante a arte cabalistica, que, extremos, vibra no extremo oposto. 0 ho- elevando quem a pratica ao mundo supra- mem esta situado no centro daqueles tres
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    mundos que, segundoa cabala e como que- ceira C a magia religiosa ou cerimonial, vol- riam tambtm Pico e Reuchlin, siio o mundo tada para manter sob controle e p6r em xe- dos elementos, o mundo celeste e o mundo que todas as formas demoniacas. A magia inteligivel, e, como microcosmo, conhece a natural e a magia celeste eram chamadas de forqa espiritual que perpassa e une o mun- magia branca, enquanto que a magia reli- do, utilizando-se dela para realizar aqoes giosa ou cerimonial era conhecida por ma- miraculosas. gia negra ou magia negrom6ntica. Eis, portanto, a magia, que C "a c i h - Ademais, para Agripa, "o principio e cia mais perfeita", pois, com efeito, torna o a chave de todas as operaqoes da magia" homem senhor das forqas ocultas que agem consistiam na dignificaqio do homem, "dig- no universo. E a citncia do mago diz respei- nificaq50" pela qua1 o homem se afasta da to tanto ao mundo dos elementos como ao carne e dos sentidos e, atravCs de subita ilu- mundo celeste e ao mundo inteligivel. Con- minaqso, eleva-se iquela virtude divina que seqiientemente, Agripa fala de trBs tipos de o faz conhecer as operaqoes secretas. E essa magia. A primeira C a magia natural, que sabedoria revelada deve permanecer secre- realiza aqoes prodigiosas servindo-se do co- ta: o mago tern a obrigaq50 de n5o revelar a nhecimento das forqas ocultas que animam ninguCm 'hem o lugar, nem o tempo, nem a os corpos materiais. A segunda C a magia meta perseguida". 0 s6bio iluminado nHo celeste, que C o conhecimento e o controle deve se confundir com os tolos e, por isso, das influhcias exercidas pelos astros. A ter- escreve Agripa, "usamos urn estilo capaz de CORNELII AGRIP- P A L A 8 N E T T E S H L Y M A' C O N S I L I I S BArchuis Indiciariifacrz c AE- S A R E A E ~airfiatir:l)c OCCVLTA PHI- L OSOPHIA LibriTrcr. k, XENRICVS CORNELIVS ACRIPPA,
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    confundir o tolo,mas que C facilmente com- cos. Trata-se de um ideal de saber diferente preendido pela mente iluminada". e bem distante do ideal da ciincia moderna. 0 ideal do saber de Agripa nHo 6, em Durante os ultimos anos de sua vida, Agripa absoluto, o de um saber publico, claro e condenou o saber e exaltou a fC, no De control~vel. o ideal de um saber privado, E vanitate et incertitudine scientiarum (1527). oculto e que deve ser ocultado, sem um Mas, dois anos antes de sua morte, fez mCtodo e uma linguagem rigorosos e publi- republicar o seu De occulta philosophia. III. 8 programa i a t r o q ~ i m i c o de Paracelso A mais importante figura de mago e certamente a de Paracelso (1493-1541). Theophrast Bombast von Hohenheim, filho de um medico e ele proprio medico, mudou seu nome para o de Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Paracelsus: Paracelso, uma vez que s considerava maior do que o medico romano Celso. E e m 1514 o encontramos em atividade nas minas e nas oficinas metalurgicas de Sigismundo Fugger, banqueiro alemao, tambem alquimista. Paracelso rompeu com a tradisao do ensino medico: "Lutero Paracelso: da quimica", queimou os livros de Galeno e de Avicena; conce- ocorpohurnano beu a alquimia corno citncia da transforma~ao metais brutos de corno sisterna encontriveis na natureza em produtos finitos uteis para a huma- quimico nidade; rejeitou a teoria medica dos humores; e prop& a teoria e a g@nese pela qua1 o corpo humano e um sistema quimico em que desem- daiatroquimica penham papel fundamental os dois principios tradicionais dos +§I alquimistas, o enxofre e o mercurio, aos quais Paracelso acres- centou o sal. Paracelso foi da opiniao de que a doensas s originam do desequilibrio des- s e tes principios quimicos e nao da desarmonia dos humores de que falam os galenicos. Por conseguinte, a saude deve ser restabelecida por meio do auxilio de remedios de natureza mineral. Foi assim que nasceu a iatroquimica, que teve tambem su- cessos - e hoje compreendemos sua razao - corno quando se administraram sais de ferro aos doentes antmicos. Em suma, o corpo corno sistema quimico e as doenps corno processos especi- ficos para os quais funcionam remedios igualmente especificos sao a duas ideias s que no futuro mostrarao toda a sua fecundidade. Paracelso: mudou seu nome para o de Paracelso, ja que se considerava maior do que o medico ro- mano Celso. Em 1514 atuava nas minas e nas oficinas metalurgicas de Sigismundo Fugger, o banqueiro alemHo que tambim era alqui- mista. Estudante de medicina em BasilCia, A mais importante figura de mago 6 depois de formado ai ensinou durante dois certamente a de Paracelso (1493-1541). anos. Theophrast Bombast von Hohenheim, filho A ruptura de Paracelso corn a tradi@o de um mCdico e mCdico ele tambCm, mudou ja se mostrava evidente em suas aulas: mi- seu nome para o de Philippus Aureolus Theo- nistrava os cursos em alemao ao invCs de phrastus Bombastus Paracelsus. Ou seja, usar o latim; convidava os farmaciuticos e
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    Capitulo nono - $ r e v o l ~ ~cientifica e ~lo a tradic&o m69ico-hermCtica os barbeiros-cirurgi6e.s de BasilCia para ou- Na medicina de Paracelso misturam- vir suas liq6es; e, assim como Lutero quei- se elementos teologicos, filosoficos, astro- mara a bula papal, Paracelso inaugurou seu 16gicos e alquimicos, mas o mais importan- curso queimando os livros das duas aucto- te - e importante pel0 que deveria ocorrer ritates no campo mCdico, isto 6, as obras de em seguida -C que do cadinho de idCias de Galeno e de Avicena, sendo por isso cha- Paracelso emergiu o programa de pesquisas mado "o Lutero da quimica". Paracelso centrado na ide'ia de que o corpo humano e' tambim foi grande viajante, e foi grande urn sistema quimico. A passagem de um sis- sua fama e ferozes as pol@micasque favo- tema de idCias para outro n5o C como um receu, procurou ou nas quais se viu envol- tiro de pistola; em geral, C uma passagem vido. lenta e trabalhosa. Uma boa idCia precisa Para Paracelso, a alquimia era a citn- de tempo para crescer e se afirmar. E, no cia da transformag50 dos metais brutos en- fim das contas. as idCias iatroauimicas de contrados na natureza em produtos aca- Paracelso revelaram-se mais fecundas e uteis bados, uteis para a humanidade. Ele nHo para a citncia do que as constituidas pela pensava que a alquimia pudesse produzir teoria dos humores. Paracelso considerava- our0 ou prata; em sua opiniHo, a alquimia se um revolucionario que restaurava a dou- era precisamente cigncia de transforma~6es. trina hipocratica em sua pureza. Para ele, Interessado na magia natural, Paracelso os midicos galtnicos "est5o completamen- reestruturou a medicina. Rejeitando a idCia te na escurid50 em relaqHo aos grandes se- de que a saude ou a doenqa dependessem gredos da natureza, que me foram revela- do equilibrio ou da desordem dos quatro dos do alto nestes dias de graga". humores fundamentais, prop& a teoria pela Outra idiia interessante gerada pel0 qual o corpo humano e' u m sistema qui- programa iatroquimico de Paracelso C a de mico no qual desempenham papel funda- que as doen~as processos muito especi- siio mental os dois tradicionais principios dos ficos, para as quais sd funcionam reme'dios alquimistas, isto C, o enxofre e o mercurio, tambe'm especificos. Essa idiia tambCm rom- aos quais Paracelso acrescentou um tercei- pia com a tradiqiio, que sustentava e pro- ro: o sal. 0 mercurio C o principio comum pugnava remidios considerados bons para a todos os metais; o enxofre C o principio todas as doenqas e contendo muitos elemen- da combustibilidade; o sal representa o tos. Paracelso defendia e praticava a aplica- principio da imutabilidade e da resisttncia $50 de remCdios especificos para doenqas ao fogo. As doenqas surgem do desequili- es~ecificas. TambCm nesse caso. embora a brio desses principios quimicos e n5o da idka da especificidade das doehqas e dos desarmonia dos humores, de que falam os remCdios se revelasse posteriormente uma galinicos. Desse modo, na opini5o de Pa- idiia vencedora, a justificaqiio que Paracelso racelso, a saude pode ser restabelecida pe- deu para ela nHo se mostrou igualmente ven- la ajuda de remidios de natureza mineral e cedora. A doenqa C especifica porque todo niio de natureza orginica. (NHo devemos es- ente e toda coisa aue existem na natureza quecer que, ainda em 1618, a primeira far- G o seres vivos authornos, porque Deus, macopkia londrina listava entre os remC- aue cria as coisas do nada. as cria como se- dios a administrar por via oral a bilis, o mentes nas quais "desde o inicio esta ine- sangue, os piolhos das irvores, as cristas rente a elas o objetivo do seu uso e da sua de frango). funq5o". Toda coisa se desenvolve a partir Foi assim que, com Paracelso, nasceu "daquilo que ela C em si mesma". E Para- e se imp& a iatroquimica. E os iatroquimi- celso chama de arqueu essa forqa que, no COS, em certos casos, chegaram a alcanqar interior das varias sementes. estimula o seu grandes ixitos, muito embora as justifica- crescimento. 0 arqueu C uma espCcie de for- p5es de suas teorias, vistas com os olhos da ma aristotilica materializada, sendo o prin- citncia moderna, apareqam-nos hoje bastan- cipio vital organizador da madria. Paracelso te fantasiosas. Assim, por exemplo, com compara sua aqHo i do verniz: "Nos fomos base na idiia de que o ferro C associado ao entalhados por Deus e colocados nas tris planeta vermelho Marte e a Marte, deus da substincias. Posteriormente, fomos enverni- guerra coberto de sangue e de ferro, admi- zados de vida." nistraram com sucesso sais de ferro a doen- Como se vt. tambCm no caso da idCia tes antmicos - e hoje conhecemos as ra- -que, com o tempo, se revelaria cientifica- z6es cientificas desse sucesso. mente fecunda - da especificidade das
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    160 Segunda parte - A revnIuriio iicntifica doenqas e dos relativos remkdios, a justifi- de bons filhos (teorias controlaveis). Para- caqiio dessa idtia, do ponto de vista da c i h - celso n i o deixou de ser mago. Sua magia, cia moderna, esta bem distante da cisncia. portm, continha projetos cognoscitivos "po- Como acontece freqiientemente na hist6ria sitivos": sua iatroquimica pretende revelar da cicncia, tambtm aqui uma idtia metafi- os processos secretos da natureza, mas tam- sica revela-se como a miie ma (incontrolivel) btm pretende completa-10s artificialmente. IV. T v Z s "magos N italiaoos: Fvacastovo, C a v d a o o e Della P o v t a De familia nobre, Jer6nimo Fracastoro (1478-1553) foi medico, astr6nomo e poeta. Na obra De sympathia et antipathia Fracastoro defende a influencia recipro- ca das coisas; sustenta a atraqao das coisas semelhantes e a rejeiqao das desse- melhantes; e afirma que sao fluxos de atomos que estabelecem as relac8es entre as coisas, motivo pelo qua1 nenhuma asso pode ter lugar sem contato. De 1530 e o poema Syphylis sive morbus Gallicus: aqui Fra- Fracastoro: castor0 6 o primeiro a usar o termo "sifilis", descrevendo a peste a teoria e o tratamento da doensa por meio do mercurio. do contdgio De 1546 e a obra-prima de Fracastoro, o De contagione, e o nascimento onde sao descritos tres modos de infecqao: por contato direto, da por "estimulos" (por exemplo, por meio de roupas), e a distsn- epidemiologia cia (corno no caso da variola e da peste). +§ 1 A obra de Fracastoro e considerada de extraordinaria mo- dernidade. Naquela epoca nao era conhecida a existencia de microorganismos, e Fracastoro falava porem de "seminaria", as sementes da do- en$a que, invisiveis, se multiplicam rapidamente. E por isso que Fracastoro e con- siderado o fundador da epidemiologia. Outro medico mago que nao devemos esquecer e Jerdnimo Cardano (1501- 1576). Foi autor de um tratado de algebra, Ars Magna (1545), onde exp6e o meto- do resolutivo das equaebes de terceiro grau, descoberto na ver- dade por seu rival Tartaglia. Cardano: Ja matematico famoso, treze anos depois de Ars Magna, mtorde Obras Cardano publica um livro sobre metoposcopia, ou seja, sobre a de matematica e de interpretagao das rugas da fronte. Seu De subtilitate constituiu metoposcopia uma especie de "enciclopedia domestica" (da qua1 e possivel vir +§2 a saber como se selecionam os fungos, como se recuperam os navios afundados, como se originam as montanhas, como e feita a junsao universal conhecida como "junta carddnica" etc.). Um documento excepcional e a autobiografia De vita propria liber (1575). Cardano tambem e autor de um livrinho de preceitos para seus filhos, um dos quais sera justieado por assassinio, livrinho chamado: Praeceptorum filiis liber. Della Porta: Experiente em otica, alem da magia, foi o napolitano experiente Giambattista Della Porta (1535-1615). em otica Foi autor do De refractione e de outra afortunada obra: e magia natural Magia naturalis sive de miraculis rerum naturalium (1558), em +§3 que a magia natural e vista como a perfeiqao da sabedoria.
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    A Magia naturalisde Della Porta teve sucesso estrepitoso: basta pensar nas 23 edis8es do original latino e nas tradu@es italiana, francesa, espanhola, holan- desa e tambem Orabe. Eis alguns dos titulos dos 23 livros da obra, verdadeira e pr6pria encicloptidia: Cruzamento dos animais; Metodospara produzir novasplan- tas; As distilagbes; 0s unguentos; 0 tratamento do ferro; A caga; A cosmetics fe- minina. ,=Jer&niwo Fracastoro, descreve tris modos de infecqiio: por con- tat0 direto, por "estimulo" (atravts do ves- f~ndador tuario, por exemplo) e a disthcia (como ocorria, em sua opiniiio, com a variola ou a peste). E dentro de uma visiio filos6fica (substancialmente empedocleana) que Fra- JerBnimo Fracastoro (1478-1553) foi castor0 desenvolve a sua obra, considera- mtdico, astrBnomo e poeta. De familia no- da "de estupenda modernidade, porque, bre, viveu sempre em uma vila de sua pro- embora niio sendo conhecida a existincia priedade em Verona. Estudando em Padua, de microbios naquela tpoca, Fracastoro fa- conheceu Coptrnico, de quem foi amigo. Na lou de 'seminais', as sementes das doenqas, obra De sympathia et antipathia, Fracastoro que se multiplicam e se propagam rapida- defende a influincia reciproca das coisas, mente. Sera o desenvolvimento da ciincia sustenta a atraqiio entre as coisas semelhan- futura que fara com que Fracastoro pudes- tes e a repulsa entre as dessemelhantes e, se ser considerado o fundador da epidemio- em sua opiniiio, siio fluxos de itomos que logia" (D. Guthrie). estabelecem as relaq6es entre as coisas, de mod0 que nenhuma aqiio pode se verificar sem contato. Em 1495. auando Carlos VIII, rei da Franqa, sitiou 'a cidade de ~ i ~ o l emani- s; festou-se nova e terrivel doenqa: a sifilis. Dizia-se que a doenqa fora levada a Espa- nha por Colombo e que os espanhois leva- ram-na depois para Napoles. Em seguida, os espanh6is de Napoles a teriam transmi- tido aos franceses, que chamaram a doen- ga de "napolitana", ao passo que, para os espanh6is, ela era o "ma1 francis". 0 nome "sifilis" foi usado pela primeira vez por Fracastoro, quando, em 1530, publicou o poema Syphylis sive morbus Gallicus. Si- filo, pastor mitologico, tendo provocado a ira dos deuses, foi atacado por uma doen- ga contagiosa e repugnante. 0 poema niio tem uma trama propriamente dita: a fi- gura de Sifilo t apenas um pretext0 util a Fracastoro para descrever a sifilis e o tra- tamento da doenqa por meio de mercurio e guaiaco ou lenho sagrado, um remidio importado da Amirica juntamente com a doenqa. Fracastoro niio se ocupou so com a sifilis; conseguiu identificar tambtm o tifo petequial. E, em 1546, publicou a sua obra-prima midica, o De contagione, que
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    162 Segunda parte - $ revoIuG&o c i e ~ t i f i c a 3ev6nimo Cardano, rece estar ao lado do outro excepcional do- cumento que C a autobiografia de Benvenuto u m m a g o q u e foi m k d i c o Cellini. Para se ter uma idCia, eis alguns tre- chos dessa cClebre autobiografia: "Dedi- quei-me durante muitos anos a ambos os Outro medico-mago que devemos re- jogos: a o xadrez por mais de quarenta, e cordar 6 J e r h i m o Cardano. Nascido em aos dados durante cerca de vinte e cinco Pavia em 1501, professor de medicina em anos. E, durante tantos anos, niio me en- Pidua e Milso, morreu em Roma em 1576. vergonho de dizi-lo, jogava todo dia." E Autor de uma autobiografia (De vita pro- informa ter dedicado um livro a o xadrez, pria), deixou-nos varios escritos, entre eles no qual, declarava ele, "descobri muitos alguns de maior destaque: De subtilitate problemas notaveis". Substancialmente (1547), De rerum varietate (1556) e Arca- misantropo, confessa: "E, se olho para a na aeternitatis. Cardano foi um escritor alma, pergunto-me: que animal C mais muito fecundo, como testernunha a Ope- malvado, enganador e pCrfido do que o ra omnia em dez volumes, publicados um homem?" Depois da e x e c u ~ a o filho, do apos o outro. Em seu tratado de algebra Cardano niio encontra mais paz, v i ini- Ars Magna (1545),ele exp6e o mCtodo de migos e conjuras por toda parte e nso con- resolugio das equaqoes de terceiro grau, segue mais dormir: "Em 1560, la pelo mis na verdade descoberto por seu rival Tar- de maio, em virtude da dor pela morte do taglia. meu filho, pouco a pouco eu vinha per- Matematico famoso, treze anos de- pois da Ars Magna, Cardano publicou um livro de natureza completamente diferente sobre a metoposcopia, isto C, sobre a inter- pretaqio das rugas da fronte. Sua obra De subtilitate foi muito popular, sendo defi- nida por um estudioso contemporiineo (Douglas Guthrie) corno uma espCcie de MEDIOLANENSI S "encicloptdia domistica", onde C possivel PHILOSOPHI A C M t I > I C t encontrar de tudo urn pouco: como mar- CELEBERRlMI car as roupas de casa, como recuperar os O P E R Y M navios afundados, como selecionar os co- TOMVS TEKTIVS, <oxt,xchrtr gumelos, a origem das rnontanhas, a sina- P H Y S I C A lizaqio por meio de tochas e a articulaqZo C O N 7 f h r T O R Y M HI'IYS I.&. T,,.b,U. ' T O M 1 J E R I L Af ,z&, universal conhecida como "junta cards- nica" . Sua autobiografia i um livro que se 16 corn prazer ainda nos dias de hoje. Carda- no apresenta-se a si mesmo como homem excepcional, com poderes sobrenaturais que o colocam acima dos simples mor- tais. E apresenta os acontecimentos de sua vida sempre acompanhados do miraculoso e d o extraordinirio. Para ele, sao impor- tantes os sonhos e outros sinais premoni- LVGDVNI. torios. Sumptttn~sIOANNISN T O N I IV C . V L T A N . A H & MARCI N T O NR I V A V D . A IA A infiincia infeliz e a juventude dificil, at ~c-r .I. I l k a batalha contra a pobreza, a triste experiin- CVhl @ IVlLLLlr) LECll cia de mkdico do interior, o acesso ii univer- sidade, a gloria, as descobertas matemati- cas, a celebridade como rnCdico, a e x e c u ~ i o do filho condenado como assassino, a ve- lhice como protegido do papa em Roma, todas essas coisas Cardano descreve no De vita propria liber (1575), um livro que me-
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    dendo o sono(...).Rezei entHo a Deus para qualificara Paracelso como um monstro que que tivesse misericordia de mim: com efei- acasala fantasmas e Agripa como um bufHo to, corria o risco de que aquele nHo dor- trivial. mir sem interrupqiio me levasse a morte ou a loucura (...).Supliquei-lhe entHo que me fizesse morrer, coisa que C concedida a todos os homens, e fui estender-me sobre C i i a m b a t t i s t a Della P o r t a , o leito". Tendo adormecido, Cardano ou- e n t r e &ica e m a g i a viu uma voz que lhe dizia para levar a boca a esmeralda que carregava a o pescoqo. Ao fazE-lo, logo a dor passou, bem como a 0 napolitano Giambattista Della Por- E penosa recorda~iio. isso acontecia sem- ta (1535-1615)era um cultor de otica, au- pre que levava a esmeralda i boca. Mas, tor de De refractione, obra dedicada preci- relata, "quando comia ou dava aulas, n i o samente A otica, e de um livro que ficou podendo usufruir da ajuda da esmeralda, muito famoso, a Magia naturalis sive de retorcia-me em dores a ponto de suar mor- miraculis rerum naturalium (1558). Nesse talmente." livro ele distingue a magia diabolica (a ma- Cardano conta ainda que aprendeu gia que se serve das aqdes dos espiritos imun- miraculosamente o latim, o grego, o fran- dos) da magia natural, que C a perfeiqzo da c& e o espanhol. Diz que um zumbido nos sabedoria, o ponto mais alto da filosofia ouvidos o advertia se alguCm estivesse natural. tramando contra ele. E escreve ainda: "En- Pode-se ter uma idCia do que era essa tre os acontecimentos naturais de que fui obra - que teve vinte e t r k ediqdes do ori- testemunha, o primeiro e mais excepcio- ginal latino, dez traduqdes italianas, oito nal foi o de ter nascido nesta nossa Cpoca, na francesas e outras traduqoes espanholas, qua1 pela primeira vez se conheceu todo o holandesas e at6 arabes - com base nos ti- mundo." tulos dos seus vinte livros: 1) Causas das CClebre como mkdico, Cardano, em coisas; 2) Cruzamento dos animais; 3 ) Mo- 1552, chegou a ser at6 mesmo chamado para dos de produzir novas plantas; 4 ) A admi- consulta na Escocia, a fim de curar o arce- nistraqiio da casa; 5 ) Transformaqiio dos bispo Hamilton que, apos os tratamentos, metais; 6 ) Adulteraqio das pedras precio- ficou curado. Durante a sua viagem para a sas; 7) As maravilhas do imH; 8) ExperiEn- Escocia, Cardano conheceu em Paris o me- cias mCdicas; 9 ) CosmCtica feminina; 10) As dico Jean Fernel (que seria criticado por destilaqdes; 11) 0 s ungiientos; 12) 0 fogo Harvey por causa de sua teoria dos espiri- artificial; 13) 0 tratamento do ferro; 14) A tos do organismo) e o anatomista Sylvius. culinaria; 15) A caqa; 16) 0 s cifrarios; 17) Em Zurique, encontrou-se com o naturalis- As imagens oticas; 1 8 ) A meciinica; 1 9 ) ta Conrad Genser. Em Londres, conheceu o Aerologia (De pneumaticis); 20) Diversos rei Eduardo VI. (Chaos). Em suma, uma verdadeira enciclo- Cardano tambCm C autor de um livrete pCdia. de preceitos para os seus filhos, um dos Na realidade, Della Porta "preferia quais, como dissemos, seria executado por seguir sua paixiio pelos conhecimentos, assassinio. Nesse Praeceptorum filiis liber mas niio se esquecendo nunca de que es- encontramos conselhos como os seguintes: tava diante de um campo de paixoes e in- "NHo faleis aos outros de vos mesmos, de teresses, advertido que era pela tradiqao, vossos filhos, de vossas mulheres. NHo vos que lhe fornecia estimulos para suas pes- acompanheis de estranhos pelas vias publi- quisas e para a sociedade que o cercava, cas. Se estiverdes falando com um homem bem como pelos consensos, as expectati- mau ou desonesto, niio o olheis na face, mas vas e as desconfianqas que sua obra susci- nas miios." tava (. ..).Certamente, a o fazer cisncia, ele Bacon atacara o ideal de saber defen- tinha em mente muitas coisas: o util e o dido e professado por Cardano (um saber supCrfluo, o absolutamente verdadeiro e de iniciados e cheio de maravilhas e mila- o vagamente provivel, o sucesso de pu- gres). Em nome de um saber publico, claro blico e o tribunal da Inquisiqiio, a tradi- e que cresce por colabora@o, Bacon falari $20 magica e os experimentos de Arqui- de Cardano como de urn esforqado cons- medes (...). Na sintese racional operada trutor de teias de aranha; da mesma forma pela ciincia moderna, niio encontraremos
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    mais muitas dessasreferhcias (...). Della tudo o que aconteceu nesse meio tempo, Porta, portanto, demorou-se no palco da particularmente pel0 que foi a caminhada nossa vida, das nossas paix6es e da nossa da ci2ncia depois dele. 0 que n i o faz com morte. Isso fez com que, durante s6culos, que sua obra n5o possa mais suscitar nos- ele parecesse urn cientista parado no tem- sa curiosidade, tambCm por seus aspectos po. E esse juizo se tornou irreversivel por arcaicos" (L. Muraro).
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    e o movo paradigma da teoria Celioc&mtrica A teoria astron6mica de Copernico comportou autiintica "revolu~%o" no mundo das ideias que o homem tinha ha seculos sobre o universo, sobre sua rela- c;%ocom ele e sobre seu lugar nele. E devemos logo esclarecer que Copernico - diversamente de A ,,revoluciondria,, Osiander e tambem de tudo o que Belarmino sustentara - deu teoria uma intefpfetaq80 reali~ta propria teoria. Com efeito, Co- he/ioc@ntrica da pernico escreve: "Todas as esferas giram em torno do sol como interpretada seu ponto central e portanto o centro do universo esta dentro realisticamente do sol [...I. 0 movimento da terra sozinha e portanto suficiente pelo para explicar todas as desigualdades que aparecem no ceu". "neoplatbnico" E esta interpretaq%o realista da teoria heliocentrica encon- Copernico tra solida base na metafisica de cunho plat6nico e neoplat6nico + 4 que sustenta o empreendimento cientifico de Copernico. De fato, se olharmos os ceus a partir da perspectiva neoplatdnica, os calculos que especifi- cam posi@es e movimentos dos corpos celestes n%o simplesmente apetrechos s%o uteis para fazer previsdes, mas revelam a estruturas imutaveis que o Deus que s geometriza imprimiu no mundo. Nicolau Copernico (1473-1543) nasce em Torun - cidadezi- C o p ~ m i c o ~ nha polonesa as margens do Vistula -, estuda primeiro em vidae ohms Cracovia e sucessivamente em Bolonha, Padua e Ferrara, onde se + tj 2 laureia em direito can6nico (1503). Voltando a Pol6nia, leva a termo - entre compromissos sociais e religiosos - sua obra mais celebre: De revolutionibus orbium coelestium. Desta obra sai, em 1540, com o titulo de Narratio prima, um resumo prepara- do por Georg Joachim Lauschen, dito Rheticus (por causa de sua proveniCncia da antiga provincia chamada Rhetia pelos romanos). Da publica@o do manuscrito de Copernico ocupou-se o teologo protestante Andre Osiander (1498-1552), o qua1 fez pre- Osiander ceder o texto por um prefacio an6nimo em que se propde uma oferece uma interpretaqao instrumentalista e n%orealista da teoria coper- interprefaP0 nicana. A teoria de Copernico, em outras palavras, seria apenas do De um instrumento util para fazer previsdes e n i o uma descri~ao revo,utionibus verdadeira da realidade. de Copernico Copernico morre dia 24 de maio de 1543. Conta-se o fato de que, justamente no dia de sua morte, Copernico tenha recebido , a primeira copia impressa do De revolutionibus.
  • 184.
    Realista e neoplat6nic0,convict0 da novidade revolucionaria da propria teoria, Copernico tinha percebido o contraste que poderia explodir entre certas interpretaqbes de determinadas passagens da Biblia e a teoria heliocCntrica. Ele, todavia, n%o podia aceitar a "monstruosidade" representada pela A teoria teoria ptolomaica. E assim veio a abraqar a ideia de que e a terra helioc@ntrica que se move, ideia ja defendida na antiguidade por lceta de entre tradigso Siracusa (sec. V a.C.), pelo pitagorico Filolau (sec. V a.C.), por e revolu@o Heraclides P6ntico e Ecfanto o pitagorico (sec. IV a.C.). -+ 3 4-6 No primeiro livro do De revolutionibus Copernico defende teses como estas: 1) o mundo deve ser esferico; 2) a terra deve ser esferica; 3) a terra com a agua forma urna unica esfera; 4) o movimento dos corpos celestes e uniforme, circular e perpetuo, ou ent%ocomposto por movimentos cir- culares; 5) a terra se move em um circulo orbital em torno do centro, girando tambkm sobre seu eixo; 6) a dimensso dos ceus, s comparada com a dimensso da e terra, e enorme. S%oestas as ideias que revolucionam o velho sistema do mundo. Copernico assumiu no novo mundo diversas peqas do velho mundo (a forma perfeita e a esferica; o movimento perfeito e natural e o circular; os planetas n%o movemse em orbitas, mas d o transportados por esferas cristalinas que giram e que tCm urna realidade material etc.) el todavia, sua teoria foi revolucionaria, pois rompia com urna tradi~ao mais que milenar; Copernico prop6s um paradigma alternativo que, embora nos inicios parecesse n%o levar muitas vantagens, continha toda urna sPrie de previsbes (semelhanqa entre os planetas e a terra, as fases de VCnus, um universo maior etc.) que sucessivamente foram confirmadas por Galileu. tituindo-as pelas orbitas planetarias elip- ticas. E as novidades sucediam-se rapida- mente urna a outra: a abertura do mundo fechado, embora vasto, de CopCrnico em um universo infinito; a identificaqao de "Enquanto a terra esteve parada, tam- um elemento din2mico no movimento dos bem a astronomia esteve parada" - assim corpos celestes, niio mais considerados falou Georg Lichtenberg (1749-1799)a pro- copernicamente imoveis, em virtude de sua posito de CopCrnico. Na realidade, tendo propria forma esfkrica. N o curso de um sC- situado o sol ao invis da terra no centro culo e meio, o sistema de Newton, que con- do mundo, e tendo afirmado que C a terra clui urna etapa daquela caminhada que que gira ao redor do sol e nao o contrario, CopCrnico fez a astronomia retomar, ja tem CopCrnico recolocou em movimento a pes- muito pouco do sistema copernicano em quisa astron6mica, que adquiriu tal velo- termos de conteudo, talvez nada mais do cidade que, quando Newton, cento e cin- que o heliocentrismo" (F. Barone). Natu- qiienta anos depois da obra de CopCrnico, ralmente, "o primeiro significado da revo- deu a fisica aquela forma que hoje conhe- luqiio copernicana C (...) o de urna reforma cemos como "fisica classica", ja quase nada das concepqoes fundamentais da astrono- restara das concepqi5es de CopCrnico, a mia" (Th. S. Kuhn), mas o alcance do De exceqiio da idCia de que o sol C o centro d o revolutionibus de CopCrnico vai muito mais universo. Com efeito, quando Kepler - alCm de urna reforma tCcnica da astrono- que, no entanto, proclamava-se coperni- mia. Deslocando a terra do centro do uni- can0 - publicou, em 1609, a Astronomia verso, Copirnico mudou tambCm o lugar nova, ainda niio haviam passado sessenta do homem no cosmo. A ~evolu@oas- anos da publicaqiio do De revolutionibus tron6mica implicou tambe'm uma revolu- de CopCrnico, "e, no entanto, o avanqo da @o filosofica: "Homens que acreditavam astronomia ja havia deixado na escuridiio que sua morada terrestre fosse apenas um do passado as orbitas circulares de que tra- planeta, girando cegamente em torno de ta a obra de toda a vida de CopCrnico, subs- urna dentre as bilhi5es de estrelas, comeqa-
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    vam a avaliara sua posi@o no esquema nos parece mais distante da nossa c i h c i a cosmico de mod0 bem diferente dos seus que a vis5o de mundo de Nicolau Coptr- antecessores, que viam a terra como o uni- nico". N o entanto, sem a concepq50 de co centro focal da criaqio divina" (Th. S. Coptrnico, "a nossa cigncia nunca teria Kuhn). existido" (A. Koyrt). Como tambim n5o Ao deslocar a posi@o da terra, Co- teria existido, para usar as palavras de An- ptrnico tambtm retirou o homem do cen- t6nio Banfi, "o homem copernicano", isto tro do universo. Em seu conhecido livro 6, o homem "que se libertou da ilus5o de A revolu@o copernicana (1957), escreve estar no centro do universo e, com ela, li- ainda Kuhn: "Sua doutrina planetaria e a bertou-se tambtm de muitos outros mitos concepq5o a ela ligada, de um universo com os quais havia tecido seu saber" (F. centrado no sol, foram instrumentos da Barone). Esse t o sentido pelo qua1 CopCr- passagem da sociedade medieval para a mo- nico, ainda hoje, representa a inovaqio ra- derna sociedade ocidental, enquanto atin- dical e revolucionaria. Com efeito, mesmo giam (...) a rela@o do homem com o uni- nos dias de hoje, ainda t comum usar a verso e com Deus. Desenvolvida com urna express50 "revoluq50 copernicana" para revisio estritamente ttcnica. de alto nivel qualificar urna grande e significativa mu- matematico, da astronomia classica, a teo- d a n ~ aE n i o devemos nos esquecer de que, . ria copernicana tornou-se um centro focal quando Kant avaliava a profunda transfor- das terriveis controvirsias no campo reli- ma@o que ele proprio produziu no Bmbito gioso, filosofico e das doutrinas sociais da teoria do conhecimento, acabou falan- que, nos dois stculos posteriores a desco- do dela como de urna "revoluq5o coper- berta da AmCrica, fixaram a orientaqio do nicana" . pensamento europeu." Em suma, a revo- 1 ~ ~ copernicana foi tambtm urna revo- 5 0 luqio no mundo das idtias, a transforma- $50 de idtias inveteradas que o homem A interpretaq60 tinha d o universo, de sua rela@o com ele e instwmentalista d a o b r a do seu lugar nele. Nos dias de hoje, "nada Nicolau CopCrnico (Niklas Kopper- nigk) nasceu em Torun, urna cidadezinha polonesa as margens do Vistula, em 19 de fevereiro de 1473. Estudou primeiro em Cra- covia (onde aprendeu geometria, trigo- nometria, calculo astron6mico e os funda- mentos teoricos da astronomia) e depois em Bolonha, Padua e Ferrara, onde se laureou em direito can6nico (1503).Passa ainda em Padua de 1503 a 1506 e depois volta para a PolGnia, onde, entre empenhos sociais e re- ligiosos, n5o descura os estudos de astro- nomia e por volta de 1532 sua obra mais ctlebre, as Revolug6es dos corpos celestes (De revolutionibus orbium coelestium), t completada. Nesse meio tempo a fama de CopCrnico ultrapassara as fronteiras da Po- 16nia. Em l o d e novembro de 1536, urna car- ta do arcebispo de Capua, Nicolau Schon- berg (falecido em 1537) solicita a Coptrnico o envio de urna copia de sua obra, acrescen- tando: "Suplico-te calorosamente que dgs a conhecer tua descoberta aos estudiosos." Como se sabe, CopCrnico costumava dizer que guardava seu segredo "como os segui- dores de Pitagoras" e que mantinha seu li-
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    vro "fechado noesconderijo". Entretanto, terra, portanto, C suficiente para explicar em maio de 1538, chegou a Frombork, para todas as desigualdades que aparecem no conhecer CopCrnico e sua obra, o estudioso cCu." CopCrnico morreu em 24 de maio de Georg Joachim Lauschen ( 1516-1574) cha- 1543 "por hemorragia, mas ja ha muito tem- mado Rheticus por ser proveniente da anti- po perdera a memoria e a conscitncia". ga provincia que os romanos denominavam Conta-se que, no dia de sua morte, CopCr- de Rhetia. nico recebeu a primeira copia publicada do Professor da Universidade de Witten- De revolutionibus. 0 s despojos mortais de berg, Rheticus conquistou a confianqa de CopCrnico foram sepultados na catedral de CopCrnico e, entusiasmado com as teorias Frombork. do mestre, logo preparou um resumo delas, que foi publicado em 1540, em Gdansk, e no ano seguinte em BasilCia, sob o titulo de Narratio prima. Rheticus (ou RCtico) con- segue convencer finalmente CopCrnico a publicar o seu De revolutionibus. E quem tratou da impress20 do manuscrito de Co- pCrnico foi o tiologo protestante AndrC Osiander (Andreas Hosemann, 1498-1552), Alguns anos antes da publicaqiio do que, sem o consentimento do autor, prece- De revolutionibus, CopCrnico fizera circu- deu o texto de um prefacio a n h i m o in- lar entre pessoas amigas um breve resumo titulado Ao leitor, sobre as hipoteses desta de sua obra, sob o titulo de Commenta- obra. Nessa premissa, Osiander sustenta riolus. Entretanto, confessa o pr6prio CopCr- uma interpretaqiio niio realista, mas instru- nico na carta dedicatoria a Paulo I11 anexa- mentalista, da teoria de CopCrnico: "E fun- da a o De revolutionibus, "minha longa qiio do astrBnomo (. ..) elaborar, mediante hesitaqiio e tambCm minha resisttncia foram uma observaqiio diligente e habil, a historia vencidas por pessoas amigas (...uma das dos movimentos celestes e, portanto, bus- quais) repetidamente me estimulou e at6 me car suas causas, ou entiio, ja que niio C pos- solicitou a publicar esse livro, que perma- sivel de mod0 algum captar as causas ver- necera em suspenso junto a mim nao ape- dadeiras, imaginar e inventar hipoteses nas por nove anos, mas por mais de trts quaisquer com base nas quais esses movi- vezes nove anos (...).Eles me exortavam a mentos, tanto em relaqiio ao futuro como n i o mais negar ao p a t r i m h i 0 comum dos ao passado, possam ser calculados com exa- estudiosos de matemitica a minha obra, por tidao, em conformidade com os principios causa de meus medos". da geometria. E o autor desta obra cumpriu Pois bem, a primeira coisa que niio egregiamente essas duas funqoes. Com efei- deixaria CopCrnico em paz era a novidade to, niio 6 necessario que essas hipoteses sejam de sua propria teoria helioctntrica, tao nova verdadeiras e nem mesmo verossimeis. Bas- que, para muitos, niio podia deixar de pa- ta apenas o seguinte: que elas apresentem recer absurda. calculos conformes a observaqiio." Como ve- Em segundo lugar, se isso ainda fosse remos nas piginas dedicadas a controversia necessario, deve-se reafirmar que precisa- entre o "realista" Galileu e o "instrumen- mente na carta dedicatoria emerge com cla- talista" cardeal Belarmino, nem Giordano reza a concepqiio realista que CopCrnico ti- Bruno, nem Kepler, nem Galileu aceitaram nha de sua teoria. Afirma ele: "A fungi0 a interpretaqiio instrumentalista da teoria (do filosofo) C a de procurar a verdade em copernicana, segundo a qua1 as teorias de todas as coisas at6 o limite concedido por CopCrnico niio seriam descrigoes verdadei- Deus a raziio humana" e, por isso, "consi- ras da realidade, mas apenas instrumentos (...) d e r ~ que as idCias absolutamente con- uteis para efetuar previs6es e dar explica- trarias a verdade devem ser refutadas". Por q6es das posiqoes dos corpos celestes. E, outro lado, CopCrnico se declara convenci- antes que para os outros, a interpretaqiio de do de que, com a publicaqiio dos seus co- Osiander era equivocada aos olhos do pro- mentarios, "se poderia ver o vCu do absur- prio CopCrnico, que escreve: "Todas as es- do rasgado por clarissimas demonstraq6esn. feras giram em torno do sol como seu pon- Em duas palavras: dada a desastrosa situa- to central. Portanto, o centro do universo qiio em que se encontrava a astronomia de esta em torno do sol (...).0 movimento da sua ipoca, CopCrnico estava em busca de
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    "um sistema querespondesse com seguran- ga aos fen8menosn. da astronornia Um terceiro ponto, que n5o pode ser deixado de lado, C a metafisica de matriz prk-copernicana plat6nica e neoplathica que esti por tras d o empreendimento cientifico de CopCr- nico. Realista e neoplat6nic0, persuadido da Como sabemos, em Bolonha, CopCr- novidade de sua propria teoria, CopCrnico nico foi discipulo de Domingos Maria Nova- n5o ignora o contraste que poderia ex- ra, que era ligado a escola neoplat6nica de plodir entre certas interpretagdes de deter- Florenqa; estudara os neoplat6nicos, entre minadas passagens da Biblia e sua teoria os quais Proclo, e, com este, acreditava na heliocintrica. Mas passava a impress50 que matematica como a chave para a compreen- poderia sair desse problema com poucas mas s5o do universo. Na opinizo dos neoplat6ni- agudas observagdes: "Se porventura surgi- cos, as propriedades matemiticas constituem rem desocupados que, embora totalmente as caracteristicas verdadeiras, imutiveis e ignorantes de matematica, se arroguem o profundas, para alCm das aparincias, das coi- direito de julgar minha obra e, com base em sas reais. Assim, olhando para os cCus nu- algum trecho da Escritura inabilmente in- ma perspectiva neoplat6nica, fica evidente terpretado segundo os seus interesses, ou- que os calculos que determinam posig6es e sarem criticar e combater este meu projeto, movimentos dos corpos celestes n i o s5o pu- eu n5o me ocuparei com eles: pel0 contri- ros e simples instrumentos uteis, mas muito rio, desprezarei o seu juizo como temera- mais elementos reveladores daquelas estru- rio." A proposito, CopCrnico apresentava turas ordenadas e daquelas imutaveis sime- o exemplo de Lactincio: "Com efeito, te- trias impressas no mundo pel0 Deus que nho conhecimento de que Lactincio, escri- geometriza. tor ilustre mas pouco versado em matemi- CopCrnico sustentava que os astr6no- tica, se expressa em termos pueris sobre a mos que o precederam, com os meios teo- forma da terra, ridicularizando aqueles que ricos que tinham sua disposiqio, n5o es- sustentavam que a terra tem a forma de uma tavam em condiq6es de compreender nem esfera. Assim, n i o devem se maravilhar os mesmo a coisa mais importante, "vale di- estudiosos se algum tip0 semelhante fizer zer, a forma do universo e a imutavel si- chacotas tambCm sobre mim. A matemati- metria de suas partes". 0 Deus do plato- ca C feita para os matemiticos. E, se eu n5o nismo e dos neoplat6nicos 6 urn Deus que estiver errado, eles achario que estes meus geometriza: por isso, o universo 6 simples trabalhos trazem alguma contribuiqiio tam- e geometricamente ordenado. Conseqiien- bCm para o governo da Igreja, da qua1 Vos- temente, o pesquisador tem por fungi50 pe- sa Santidade C agora o principe." Nesse pon- netrar nessa ordem e descobri-la, bem co- to, CopCrnico acena para a grande quest50 mo suas estruturas simples e racionais e sua da reforma do calendario. imutavel simetria. E foi isso, na opiniio CopCrnico, portanto, com sua sensibi- de Rheticus, o que fez o mestre CopCrnico. lidade, acena para o eventual dissidio entre "Ora - escreve muito significativamente sua teoria heliochtrica e trechos biblicos. Rheticus -, uma vez que vemos que me- E o contorna com poucas mas penetrantes diante este unico movimento da terra en- considerag6es. Estava longe de imaginar contram explicag5o um numero quase in- que, apenas setenta anos depois de sua mor- finito de fenGrnenos, por que n5o devemos te, um grande furac5o se desencadearia em atribuir a Deus, criador da natureza, a habi- torno de sua teoria, um furacao que atingi- lidade que observamos nos simples fabri- ria seu apogeu com o drama de Galileu. cantes de relogios? Eles pdem todo cuidado Todavia, enquanto isso, CopCrnico em evitar em seus mecanismos rodas inu- narra ao papa (Paulo 111) como C que ele foi teis ou tais que sua funq5o possa ser reali- induzido, contra a tradiqao, "a conceber zada de mod0 melhor por outra roda em alguns movimentos da terra" e "a pensar virtude de uma pequena mudanqa na po- em outro mCtodo de ciilculo para o movi- siqio. E o que podia induzir o meu mes- mento das esferas". Afirma CopCrnico que tre, que era um matemitico, a n5o adotar isso aconteceu pel0 fato de que, para ele, a teoria conveniente do movimento d o glo- tornara-se claro "que os matematicos n i o bo terrestre?" t i m idCias claras em torno desses movimen-
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    tos". E, alemdo fato de que CopCrnico con- da em outro, a teoria do Almagesto ja ha- sidera-os "tiio incertos sobre os movimen- via proliferado em uma dezena de sistemas, tos do sol e da lua que niio conseguem nem todos "ptolemaicos", e o seu numero au- mesmo explicar e observar o comprimento mentava rapidamente com a multiplicaqio constante d o ano estacional", ha ainda um dos astrbnomos tecnicamente competen- fato mais grave, o de que, "ao determinar tes. A situaqio tornara-se desastrosamente o movimento desses planetas e dos outros insuportavel. N o seculo XIII, Afonso X de- cinco, eles niio usam os mesmos principios clarou que, se Deus o houvesse consults- nem as mesmas demonstraqdes adotadas do quando estava criando o universo, ele para as revoluqdes dos movimentos apa- teria podido dar-lhe bons conselhos. E Do- rentes." Assim, enquanto alguns usam o sis- mingos Maria Novara expressou a ideia tema aristottlico das esferas homocEntricas de que um sistema t50 confuso como o pto- (defendido, por exemplo, por Fracastoro e lemaico n i o podia, por natureza, ser ver- seguidores), outros usam excintricos e dadeiro. CopCrnico, por seu turno, viu a epiciclos. Desse modo, havia uma plura- astronomia de sua Cpoca em um estado lidade de teorias que niio deixava ninguim monstruoso. Naturalmente, a crise do sis- tranquilo. tema ptolemaico se tornara mais aguda Mas niio C so isso: enquanto os aristo- por causa de diversos fatores: as criticas tClicos niio acertam em muitas previsdes, dos medievais ii cosmologia aristotelica, "niio alcanqando integralmente seus obje- a afirmaqiio d o Neoplatonismo, a exi- tivos", os outros, os ptolemaicos, alcanqam gcncia de reforma d o calendario. N o en- maior sucesso em suas previsGes, mas pa- tanto, as maiores lacunas estavam nas gando um preqo muitissimo elevado. Com previsoes n i o confirmadas, apesar do ins- efeito, nota CopCrnico, eles "foram (...)for- trumental te6rico crescer cancerosamente qados a acrescentar muitas coisas, que pa- sobre si mesmo, contrastando com as exi- recem violar os principios basilares da uni- gcncias fundamentais e irrecusaveis da formidade do movimento. Niio estiveram metafisica neoplathica do Deus que geo- em condiqoes de descobrir ou entiio dedu- metriza. kc zir de tais meios a coisa mais importante, ou seja, a forma do universo e a imutiivel simetria de suas partes. Entiio aconteceu com eles aquilo que acontece com um pin- tor que toma mios, pCs, cabeqa e os outros 5 fi teoria de Cop&rnico membros de modelos diferentes e os dese- nha de mod0 excelente, mas niio em fun- qao de um corpo singular; de sorte que, Estando a situaciio assim t i o descon- como todas essas partes niio se harmoni- iuntada. Co~Crnico. como ele mesmo escre- zam absolutamente entre si, surge um ser be, "tendo keditadb longamente sobre essa monstruoso a o invis de um homem. As- incerteza da tradiqiio matematica na deter- sim, no curso da demonstraqiio que cha- minaqiio dos movimentos do mundo das es- mam de metodo, vi-se que esqueceram al- feras, comecei a ficar perturbado pel0 fato go de indispensivel ou e n t i o introduziram de que os filosofos niio podiam se fixar em algo de estranho ou irrelevante. 0 que cer- nenhuma teoria segura do movimento do tamente niio lhes teria acontecido se hou- mecanismo de um universo criado Dara nos vessem se uniformizado com base em prin- Dor um Deus aue 6 bondade e ordem su- cipios seguros. Com efeito, se as hipoteses Drema. embora fizessem observasdes t i 0 por eles assumidas niio estivessem erradas, acuradas no que se refere aos minimos de- tudo aquilo que delas deriva encontraria, talhes desse universo". Atormentado por sem qualquer duvida, a sua confirmaqiio." tal problema, Copernico, como ele proprio A metafisica neoplat6nica defende um conta, p6s-se a "reler as obras dos filoso- mundo simples, mas o sistema (ou "0s sis- fos", com a intenqiio de ver "se algum de- temas ptolemaicos") torna-se (ou se tor- les havia pensado alguma vez que as esferas nam) sempre mais complexo (ou comple- se - do universo ~ o d i a m mover senundo mo- xos). E o Neoplatonismo forqa CopCrnico vimentos diferentes daqueles propostos pe- a rejeitar o sistema ptolemaico. 10s professores de matematica nas escolas". A realidade 6 que, retocada aqui ou E descobre que Cicero registra a opiniio ali, mudada em um p o n t o o u modifica- de Iceta de Siracusa (skc. V a.C.) de que
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    era a terraque se movia. E descobre tam- meu, mas ainda C um mundo fechado. A bCm que o pitagorico Filolau (sCc. V a.C.), forma perfeita C a esferica e o movimento Hericlides P6ntico e o pitagorico Ecfanto perfeito e natural 6 o circular. 0 s planetas (sCc. IV a.C.) pensavam que era a terra que niio se movem em orbitas, sendo transpor- girava. tados por esferas cristalinas que giram. As Encorajado pelo fato de que, antes dele, esferas possuem realidade material. Butter- outros ja haviam defendido tal ideia, que field fala do "conservadorismo de Copir- parecia "absurda" para a maioria, Copir- nico". nico comeqou "a pensar na mobilidade da Sem duvida encontramos em CopCr- terra". Sentindo-se seguro da verdade de nico todos os fragmentos do velho mundo suas teorias, CopCrnico decide entio tornar que citamos e tambim traqos da tradiqio publicos seus pensamentos, n i o querendo hermCtica. Quem passa para um novo mun- se subtrair "ao juizo de ninguim" e nem do sempre leva para ele algo mais ou menos duvidar que "0s matemiticos dotados de embaraqoso do velho mundo. Mas o mais engenho e cultura concordem comigo, se importante C que o novo mundo ja foi toca- quiserem conhecer e apreciar, n i o superfi- do e alcanqado. E foi precisamente isso o cialmente, mas em profundidade, j i que C que aconteceu com CopCrnico. exatamente isso o que a filosofia exige, aqui- Sua teoria "nao era mais acurada do lo que eu apresento nesta obra para demons- aue a de Ptolomeu e n i o introduzia nenhu- trar tais coisas" . ma melhoria imediata no calendario". En- E no seu primeiro livro do De revolu- tretanto, foi revolucionaria, rompendo com tionibus, CopCrnico defende as seguintes uma tradiqio mais do que milenar. teses: Copirnico n i o chegou -e tinha meios 1)o mundo deve ser esfirico; para faze-lo - a melhorar ou remendar o 2) a terra deve ser esfCrica; sistema ptolomaico neste ou naquele pon- 3 ) com a agua, a terra forma uma uni- to, pois tal sistema se transformara em um ca esfera: conjunto monstruoso de teorias que nada 4 ) o movimento dos corpos celestes 6 mais prometiam. CopCrnico foi grande por- uniforme, circular e perpituo, ou entio com- que teve a coragem de mudar de caminho: posto de movimentos circulares; prop6s um paradigma ou uma grande teo- 5)a terra se move em um circulo orbital ria alternativa que, embora no principio nZo em torno de seu centro, girando tambim parecesse trazer muitas vantagens e ate mes- sobre seu eixo: mo niio parecesse tampouco muito mais sim- 6) comparada com a dimensio da ter- ples do que a de Ptolomeu (Ptolomeu tinha ra, C enorme a vastidio dos cCus. quarenta circulos ao passo que CopCrnico 0 capitulo 7 discute as razoes pelas por fim foi forlado a propor trinta e seis quais os antigos consideravam que a terra circulos), no entanto n i o tinha mais nada a era im6vel no centro do mundo. A insufi- ver com as eternas e insuperiiveis dificulda- cicncia de tais raz6es C demonstrada no ca- des do velho sistema (embora apresentasse pitulo 8. 0 capitulo 9 discute se e possivel outras - mas eram outras),alCm de conter atribuir mais movimentos a terra e fala do toda uma sirie de previsoes (semelhanqa centro do universo. Por fim, o capitulo 10 C entre os planetas e a terra, as fases de Venus, dedicado ii ordem das esferas celestes. um universo maior etc.), que mais tarde fo- ram clamorosamente confirmadas por Galileu. 0 dado mais importante do traba- lho de Copkrnico i o de ter impost0 a o CoP&rnico mundo das idCias uma nova tradi@ode pen- e a tens60 essential samento. entre tradic60 e r e v o l q h o CopCrnico morreu em 1543, mesmo ano em que apareceu publicado o De revo- lutionibus. E n i o demoraram a aparecer os Copirnico subverteu todo o sistema ataques contra a nova teoria. Mas tambim do mundo. N o entanto, arrastou para o seu houve quem falou de CopCrnico como "o novo mundo muitos pedaqos e diversas es- segundo Ptolomeu". Pouco a pouco, a ideia truturas d o velho mundo. 0 mundo de heliochtrica abria caminho. A Narratio pri- CopCrnico n i o C um universo infinito. Na- ma de Rheticus ja vinha difundindo a teoria turalmente, C bem maior do que o de Ptolo- copernicana antes de 1543. Em 1576, o as-
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    172 Segunda parte - $ r e v o l u ~ 2 0 cientifica tr6nomo ingles Thomas Digges (aproxima- damente 1546-1596) publicou uma popular defesa da teoria copernicana, a qua1 exer- A sorte do De revolutionibus. ceu grande influencia na Inglaterra, difun- "Copernico morreu em 1543, no mes- mo ano em que foi publicado o De dindo a idkia da mobilidade da terra n i o revolutionibus, e a tradiqiio conta que apenas entre os astr6nomos. Tambem foi ele recebeu sobre o leito de morte a copernicano Michael Maestlin (1550- 1631), primeira cdpia impressa da obra que professor de astronomia na Universidade o empenhara a vida inteira. de Tubinga; e teve Kepler como discipulo. 0 livro teve, portanto, de combater Todavia., aDesar desses e de outros suas batalhas sem poder contar com a posterior ajuda do autor. Mas para L adeptos, a teoria copernicana nso ganhou aquelas batalhas Copernico tinha fa- de imediato muitas aprovag6es, nem mes- bricado uma arma quase ideal. Ele mo entre os astr6nomos, que adotaram o com efeito escrevera o livro de mod0 sistema rnatematico copernicano, negando- que resultasse incompreensivel a to- lhe a veracidade fisica; ou seja, basicamente dos com exceq3o dos astrdnomos eru- seguiram o caminho apontado por Osiander. ditos de seu tempo. Fora de seu mun- De todo modo, porCm, CopCrnico n i o foi do, o De revolutionibus produziu rejeitado; a adogio dos cilculos coperni- inicialmente muito pouco fermento. Depois, quando corneqou a desenvol- canos por parte de diversos astr6nomos per- ver-se a maxima oposic;iio leiga e ecle- mitiu precisamente a infiltra@o da teoria sidstica, grande parte dos mais emi- copernicana nas fileiras de seus opositores. nentes artr6nomoseuropeus, aos quais E 6 a essa infiltraggo que se deve a progres- se dirigia o livro, ja admitiam que niio siva modificaqiio da concepgio inicial dos se podia deixar de lado um ou outro astr6nomos, para os quais a ideia do movi- procedimento matematico de Cop&- mento da terra era sim~lesmente absurda. nico. Resultou portanto impossivel suprimir completamente a obra, tan- E entre os astr6nomos, copernicanos nos t o mais que se tratava de um livro ciilculos e anticopernicanos no que se refere impress0 e n3o um manuscrito, como ao sistema fisico, encontrava-se Erasmus fora ao inves o caso da obra de Nico- Reinhold (1511-1S53),que prestou imenso lau Oresme e Buridano. om servigo ao ~o~ernicanismo. efeito, s i o Estivesse ou n%onas intenqges de seu autor, a vitdria final do De revolu- suas as Tabulae Prutenicae (1551)que, com- piladas com base nos calculos de CopCrnico, tionibus foi obtida por infiltra(;iio". Assim escreve Thomas 5. Kuhn em A se transformariam em instrumento cada vez revoluq~o copernicana. mais indispensivel para a cultura astron6- mica.
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    173 Capitdo ddcimo - De CopCruico a Keplev ----- s - ." * ," 1 . trcho 1 Brahe: d- -7 m ..,"w nem "a velha distribmiCZIo ptolemaica" nem "a moderns inova~60 introdmzida p I o C rande CoP&rnico'' J Entre Copernico e Kepler encontramos a figura do dinamarqu@s Tycho Brahe (1546-1601), a grande auctoritas da astronomia da segunda metade do sec. XVI. Protegido inicialmente por Frederico II da Dinamarca, na morte deste Brahe s e transferiu para Praga a serviqo do imperador Rodolfo II. Sucessor de Brahe no cargo de matematico imperial foi, em 1601, Kepler. AutGntico virtuoso da observaqio, Brahe, estudando o movimento dos come- tas, conseguiu demonstrar em 1577 que as esferas cristalinas da cosmologia tradi- cional n i o existem: as esferas materiais - admitidas tambem por T ~ C Brahe: ~ O Copernico - sio substituidas pelas orbitas, entendidas no sentido nern corn atual de trajetorias. Brahe sustenta alem disso a ideia de que o ~tolorneu cometa teria tido uma orbita "oval". nern corn Em todo caso, embora estivesse persuadido de que o siste- Copernico ma ptolomaico "nao era suficientemente coerente", Brahe con- + 5 1-2 trariou tambem "a moderna inovaqao introduzida pelo grande Copernico". N%o verdade que a terra s move: com efeito, ar- e e gumentava Brahe, s fosse verdade que a terra gira do Ocidente para o Oriente, e entao o trajeto de uma bola, disparada para o poente por um canhao, deveria ser mais longo do que o de uma bola disparada pelo mesmo para o levante; porem, como estes diferentes trajetos previstos n i o s verificam na pratica, a terra - assim e concluia Brahe - esta parada. Portanto, nern Ptolomeu nern Copernico. Tycho prop6e seu sistema do mun- do, em que a terra esta no centro do universo; so que ela esta no centro das orbitas do sol, da h a e das estrelas fixas; enquanto o sol esta no centro das orbitas dos cinco planetas. Em outros termos, eis o sistema tychbnico: a terra permanece no centro do universo; o sol e a h a giram ao redor da terra; os outros cinco plane- tas (Mercurio, Venus, Marte, Jupiter, Saturno) giram ao redor do sol. 0 sistema tychbnico n%o convenceu nern Kepler nern Galileu. Galileu, no Dia- logo sobre os dois maximossistemas, confrontara o sistema aristotelico-ptolomaico com o copernicano e nZo levara em consideraqao o "terceiro sistema do mundo", proposto por Tycho Brahe. CopCrnico e Kepler situa-se o trabalho de outra personagem, que muito influenciaria a astronomia: trata-se do dinamarqucs Ty- os germes da revoluc&o cho Brahe. Tycho (latinizagzo do nome dinamar- qucs Tyge) nasceu trts anos depois da morte A grande obra de CopCrnico apareceu de Copernico, isto 6, em 1546, vindo a fale- em 1543. Em 1609 Kepler publicou seu tra- cer em 1601. Se Coptrnico foi o astr6nomo balho sobre Marte, que desferia outro vio- mais importante da primeira metade do sC- lento golpe B cosmologia tradicional: nesta culo XVI, Tycho Brahe foi a auctoritas em obra, com efeito, Kepler demonstrava que astronomia da segunda metade do sCculo. as orbitas dos planetas nZo sao circulares Frederico I1 da Dinamarca foi o gran- mas elipticas. Todavia, entre as obras de de protetor de Brahe, ao qual, alCm de uma
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    Segunda parte -A ~ r . v o I u ~cieetifica ~io "oval". Em todo caso, persuadido de que o sistema ptolemaico "niio era suficientemen- te coerente", e que "era supCrfluo recorrer a tiio numerosos e t50 grandes epiciclos", Brahe tambtm rejeitou o sistema copernica- no e propGs, contra ele, urna argumentaqiio destinada a se tornar urna objeqiio cabal. Se fosse verdade que a terra roda do Ocidente para o Oriente, entiio - objeta Brahe - o trajeto de urna bala, disparada para o po- ente por um canhiio, deveria ser mais longo do que o de urna bala disparada pel0 mes- mo canhiio para o nascente. Todavia, urna vez que estes diversos trajetos previstos niio se verificam na pratica, a terra, concluia Brahe, esta parada. Tycho Brahe, uqur ern unza rrzcrsiio d o shculo XVI, o f o ~ ustrdrzorno I N ~ I Jrm,twrtunte Portanto, nem Ptolomeu nem CopCr- tlil seguntfa tnetude d o shculo XVI. nico. Entiio, sempre nas palavras de Brahe, "havendo compreendido muito bem que ambas essas hipoteses admitiam niio pou- cos absurdos, comecei a meditar profunda- remuneragiio, deu a ilha de Hven, no estrei- mente comigo mesmo se era possivel encon- to de Copenhague. Nessa ilha, Brahe man- trar alguma hipotese que niio estivesse em dou construir um castelo, um observatorio, contraste com a matemiitica nem com a fi- laboratorios e urna griifica privada, ai tra- sica, que niio tivesse que se esconder das cen- balhando de 1576 a 1597, ajudado por nu- suras teologicas e que, ao mesmo tempo, merosos assistentes, recolhendo enorme satisfizesse completamente as aparincias quantidade de observap5es precisas. celestes". E prossegue Brahe: "Por fim, qua- Com a morte de Frederico 11, seu su- se inesperadamente, veio-me a mente o cessor niio continuou se comportando como mod0 pelo qua1 deve ser disposta adequa- mecenas em relagiio a Brahe, que, em 1599, damente a ordem das revoluqdes celestes, transferiu-se para Praga a servigo do impe- de forma a fechar o caminho a todas essas rador Rodolfo 11. Aqui Brahe chamou o jo- incongruincias." E, dessa forma, chegamos vem Kepler, que, com a morte de Brahe (em ao sistema tych6nico. 1601), sucedeu-lhe na funqiio de matemiti- Nesse sistema do mundo, a terra en- co imperial. contra-se no centro do universo. Entretan- Autintico virtuoso da observagiio as- to, ela est4 no centro das orbitas do sol, da tronbmica, em 1577, estudando o movimen- lua e das estrelas fixas, ao passo que o sol to dos cometas, Brahe conseguiu demons- esta no centro das orbitas dos cinco plane- trar que as esferas cristalinas da cosmologia tas. Para se ter urna idCia do sistema de tradicional, concebidas como fisicamente Brahe, basta olhar a fig. 1, onde, entre ou- reais e destinadas a transportar os planetas, tras coisas, pode-se observar que, como as na realidade niio existiam. Desapareciam orbitas apresentam intersecqiio em virios assim do mundo as esferas materiais das pontos, era necessario que as esferas per- quais nem CopCrnico se desligara. E em seu dessem seu cariter material. Na fig. 2, te- lugar entravam as drbitas, entendidas em mos a representaqiio do sistema coperni- nosso sentido de trajetorias. cano, de mod0 que se possam observar AlCm dessa inovagiio muito significa- suas diferengas em relagiio ao sistema tych6- tiva, Brahe abriu outra brecha dentro da nico. cosmologia tradicional, ventilando a opiniiio A terra permanece n o centro d o uni- de que o cometa teria tido urna orbita verso, como argumenta o proprio Brahe: "Pa-
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    175 Capitulo de'cimo - De Cop&vnicoa KePIep ra alCm de qualquer duvida, penso que se Por seu turno, no Dialogo sobre os dois deve estabelecer, com os antigos astr6nomos sistemas maximos, Galileu confrontara o e com os pareceres ja aceitos pelos fisicos, sistema aristotClico-ptolomaico com o sis- com a autenticaqiio posterior das sagradas tema copernicano, sem considerar em ab- Escrituras, que a terra que nos habitamos soluto o "terceiro sistema do mundo", de ocupa o centro do universo e niio se move Tycho Brahe. em circulos por efeito de nenhum movimen- No entanto, o sistema de Brahe conquis- to anual, como quer Copirnico [...I." 0 sol tou relativo sucesso, sendo a b r a ~ a d o pela e a lua giram em torno da terra: "Conside- maior parte dos astr6nomos, n i o coperni- ro que os circuitos celestes siio governados canos, insatisfeitos com o sistema ptolomai- de tal mod0 que somente ambas as lumina- co. Na realidade, seu sistema foi engenho- rias do mundo [o sol e a lua], que presi- samente concebido: mantinha as vantagens dem i discriminaqiio do tempo, e com elas i matematicas do sistema de CopCrnico e, a distante e oitava esfera [das estrelas fi- alCm disso, evitava as criticas de natureza xas] que contim todas as outras, olham fisica e as acusaq6es de ordem teologica. para a terra como o centro de suas revolu- Mas o sucesso do sistema tychbnico e' q6es." 0 s outros cinco planetas giram em o sucesso de um compromisso. E embora torno do sol: "Assevero ademais que os esse compromisso tivesse o aspect0 de uma cinco planetas restantes [Mercurio, Venus, "restauraqiio", ele niio p6de ignorar a revo- Marte, Jupiter e Saturno] desenvolvem seus luqiio que ocorrera; Tycho Brahe tambtm proprios giros em torno do sol, como seu negou o sistema ptolomaico, afirmando que guia e rei, sempre o observando quando se a terra niio era o centro das revoluq6es de situa no espaqo intermediirio de suas revo- todos os planetas. luq6es. " Duas observaq6es ainda. Em Urani- 0 sistema tychBnico niio convenceu borg, na ilha de Hven, alCm do observato- Kepler nem Galileu. Em seu leito de morte, rio, Brahe possuia tambCm um laboratorio Brahe confiou seu sistema a o jovem assis- quimico. E, embora criticasse as praticas tente Kepler, mas este estava muito atraido astrologicas, estava convencido de que exis- pela grande simetria de Copernico, ao pas- tia uma afinidade essencial entre os f e n 6 so que o sistema de Brahe niio era estrutu- menos celestes e os acontecimentos terres- rado simetricamente (assim, por exemplo, tres. Essa crenqa, de origem estoica, na o centro geomktrico do universo niio C mais existencia de uma relaqio entre todas as o centro da maior parte dos movimentos coisas, constituiu fonte de inspiraqiio para celestes). muitos grandes cientistas. 7' , Sistcrrza tvchfirzic-o (de Th. S. Ktihn, st stem^ coprrmc-mo (tic 1'. Kossi, A revolu<,io A rcvoluqrio copernicana, Einaudi). cicntifica d e (:op&nico a Newton, I.orsc/~cv).
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    III. Sohanne~Kepler: a passagem do c ~ r c d o para a elipse" N / /I " do sistema copernicano Johannes Kepler (1571-1630), discipulo em Tubinga de Michael Maestlin - 0 qua1 o convenceu da validade do sistema copernicano -, foi assistente e sucessor de Tycho Brahe em Praga. Eis os titulos de suas obras de maior peso: Prodromus ou Mysterium cosmographicum (1596); A d Vitellionem parali- Keplec pomena (1604); Astronomia nova (1609); Nova stereometria copernicano doliorum vinariorium (1613); entre 1618 e 1621, aparece em Linz, e neoplat6nico em sete livros, o tratado de astronomia Epitome astronomiae -+§ 1 copernicanae; em 1619 aparece a obra Harmonices mundi libri V ; de 1627 sao as Tabuas rodolfinas. Copernicano e neoplat6nic0, Kepler acreditava que a natureza fosse ordenada por regras matematicas que o cientista tem a tarefa de descobrir. No Mysterium cosmographicum a fe no sistema copernicano se liga com a fe neoplat8nica de que uma Raz%omatematica divina presidiu a criaqao do mundo. Deus e matematico. E o trabalho de Kepler consistiu justamente na busca das harmonias matematicas e geometricas do mundo, como as que ele proprio conse- guiu captar e expor nas famosas tr& "leis de Kepler". Por dez anos Kepler estuda com grande empenho o irregular "movimento de Marte", e no fim chega a conclusao de que o problema era insoluvel com quais- quer combinaqbes de circulos, enquanto teoria e observaqbes estavam de acordo quando se concebia o movimento dos planetas em orbitas elipti- A grande cas. Eis, entso, as tr@sleis de Kepler: passagem - primeira lei: as orbitas dos planetas sdo elipses das quais o do "circulo" so1 ocupa um dos focos; a "elipse" - segunda lei: a velocidade orbital de cada planeta varia de +§3 mod0 tal que a linha que liga o sol com o planeta cobre, em iguais intervalos de tempo, iguais porg6es de superficies de elipse; - terceira lei: os quadrados dos periodos de revolugdo dos planetas estdo na mesma relaPo dos cubos das respectivas dist5ncias do sol. Misticismo, matematica, astronomia e fisica estao indissoluvelmente liga- dos no pensamento de Kepler. E e nas Harmonias do mundo que Kepler deixa transparecer mais do que em outro lugar sua fe nas harmonias, na ordem mate- matica da natureza: e nesta harmonia do universo o sol desempenha um papel fundamental. No pensamento de Kepler estamos na presenqa de verdadeira e propria metafisica do sol. 0 s planetas se movem em elipses; e s%o Uma metafisica movidos por uma forga motriz como a magnetica, f o r ~ a que emana do sol do sol. Logo, os planetas percorrem suas orbitas impulsionados +§4 pelos raios de uma anima motrix que brotam do sol. Kepler esbo- qa uma especie de teoria magnetica do universo. Discute sobre a forqa com que a terra atrai um corpo, e na introduqao a Astronomia nova fala tambem de reciproca atraqao. Nas notas ao seu Somnium (escrito entre 1620 e 1630) ele atribui as mares "aos corpos do sol e da lua que atraem as aguas do mar com uma forqa semelhante a magnetica". Alguem quis ver nestas ideias a anteci- paq%o teoria gravitational de Newton. Talvez as coisas n%osejam assim, mas e da certo que Newton, reunindo os resultados obtidos por Kepler e por Galileu, deve ter-se consolidado com os problemas que eles deixaram em aberto, dando assim a fisica a configura@o conhecida com o nome de "fisica classics".
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    Kepler: vida e obras Kepler nasceu em 2 7 de dezembro de 1571, em Weil, nas proximidades de Estu- garda. Filho de Henrique, funcionirio lute- ran0 a serviqo do Duque de Brunswick, e de Catarina Guldenmann, filha de um alberguei- ro, Kepler veio ao mundo prematuramente iL'sebtemmestris sum". escreveu de si mes- , mo), sendo muito enfermiqo. Quando pe- queno, teve variola, que lhe deixou as miios contraidas e a vista enfraquecida. Seu pai tambCm foi soldado mercenario. Deixando o filho com os avos, Henrique, juntamente com a mulher, foi combater nas fileiras do duque de Alba contra os belgas. Voltando da guerra em 1575, os genitores de Kepler instalaram uma hospedaria em Ellmendin- gen, na regiio de Baden. E o pequeno Kepler, logo que esteve em condiq6es para tanto, tinha de lavar os copos na hospedaria do pai, alCm de ajudar na cantina e tambCm no campo. Em 1577 comeGou a freqiientar a - escola em L e o n b e r ~ .Tendo-se mostrado muito capaz e interessado, seus pais decidi- ram envia-lo em 1584 para o seminario de Adelberg. Dai passou para o seminario de Maulbronn, de onde saiu quatro anos de- inverno, sobre as agitaqdes camponesas etc. pois para ingressar na Universidade de Tu- Em 1596 Kepler publicou o Prodromus ou binga, onde teve por mestre o astr8nomo e Mysterium cosmographicum no qual, como matematico Michael Maestlin. aue o con- 2 1 veremos melhor adiante. ele relacionava os venceu da justeza do sistema copernicano. "cinco solidos regulares" (o cubo, o tetrae- Nesse periodo, agravava-se a luta entre ca- dro, o dodecaedro, o octaedro e o icosaedro) tolicos e protestantes. Embora protestante, com o numero e as distiincias dos planetas Kepler via essa luta como coisa absurda. E, ent5o conhecidos. Publicado com um pre- permanecendo naquela situaqiio de "liber- facio de Maestlin, o livro foi logo enviado a dade" em que Deus o fizera nascer, imputa- Tvcho Brahe e a Galileu Galilei. Brahe res- va " i s tolices deste mundo (...)as persegui- pondeu a Kepler convidando-o a ver a even- ~ 6 e que dominavam os partidos religiosos, s tual relagiio entre as descobertas do Pro- a presunq5o de que os seus problemas eram dromus e o sistema tych8nico. E em 4 de tambCm os de Deus, a arrogincia dos teolo- agosto de 1597, de Pidua, Galileu enviou gos a o considerarem que se deve crer cega- uma resposta a Kepler, na qual, entre ou- mente neles e, por fim, a intransighcia com tras coisas, lemos: " [ ...I Agradeqo-te tam- que eles condenavam aqueles que fazem uso bem, de mod0 muito particular, por teres te da liberdade evangdica" (G. Abetti). dignado a dar-me tal prova de tua amizade. Aos vinte e dois anos. K e ~ l e r abando- Por enquanto, so tive a vis5o do prefacio de nou a teologia e, com ela,' a i&ia de dedi- tua obra, com base na qual compreendi tua car-se i carreira eclesiastica. Aceitou uma intenqiio. E posso verdadeiramente estar oferta para ensinar matematica e moral no satisfeito por ter tal aliado na indag?gZo da ginisio de Graz. Entre suas funqdes estava verdade e tal amigo dessa verdade. E deplo- tambtm a de preparar o calendirio para a rive1 que sejam t5o raros aqueles que com- regiiio da Estiria, para o ano de 1594. E a batem pela verdade e n i o seguem um cami- preparaqiio do calendario implicava tambCm nho errado no filosofar. PorCm. este niio C o um trabalho de urevis6es. como., uor exem- A lugar para lamentar a misCria de nosso sC- plo, sobre o rigor mais ou menos intenso do culo, e sim para congratular-me contigo pe-
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    las belas idtiasexpostas em comprovagiio - luminoso chegar at6 a retina, reconhecen- da verdade [...I. Muito escrevi para apre- do-se que a figura assim projetada na retina sentar as provas que aniquilam os argumen- fica de cabega para baixo, mas sem reputar tos contrarios a hipotese copernicana, mas esse fato como danoso, porque, a medida at6 agora n5o ousei publicar nada, aterrori- que a localizag5o das imagens fora do olho zado pel0 que sucedeu a Copirnico, nosso i uma fung5o realizada pelo prciprio olho, mestre, que, se conquistou fama imortal jun- o problema esta em determinar a regra com to a alguns, na verdade, junto a infinitos base na qua1 deve proceder o olho para co- outros i desmoralizado e apupado, tiio gran- locar a imagem, quando recebe certos esti- de t o numero dos tolos. Eu ousaria desfral- mulos. Assim, a regra agora i a seguinte: dar abertamente meus pensamentos se hou- quando o estimulo sobre o fundo do olho vesse muitas pessoas como tu, mas, como esta embaixo, a figura vista fora do olho niio existem, devo me conter." deve estar em cima e vice-versa; da mesma forma. auando o estimulo sobre a retina esta a direit;, a figura vista fora do olho deve Kepler, m a f r m & t i r o imperial estar a esquerda e vice-versa" (V. Ronchi). em Praga Alim disso, no capitulo primeiro, Kepler dava uma definiqiio da luz completamente Em 1597, Kepler casou-se com Barba- nova: ra Miiller von Muhlek, rica viuva de vinte e 1) "a luz compete a propriedade de trts anos. Nesse meio tempo, depois da vi- afluir ou ser lancada de sua fonte em dire- sita do arquiduque Ferdinand0 ao papa Cle- ga0 a um lugar distante"; mente VIII, todos os n5o-catolicos foram 2 ) "de um ponto qualquer, o afluxo da expulsos da Estiria. Kepler mobilizou-se ra- luz ocorre segundo um numero infinito de pidamente junto a seu velho mestre Maestlin retas"; para obter um lugar na Universidade de 3) "por si mesma, a luz i capaz de avan- Tubinga, mas niio o conseguiu. Entiio, apre- gar at6 o infinito"; sentou-se inesperada solug50: Brahe convi- 4 ) "as linhas dessas emissdes siio retas dou Kepler a visita-lo no castelo de Benatek, e se chamam raios". nas proximidades de Praga. Em 1" de agos- Vasco Ronchi comenta que, nessas qua- to de 1600, mais de um milhar de cidadios tro proposig6es, esta a definigiio do raio lu- foram expulsos da Estiria. Kepler escreve a minoso, que depois seria definitivamente Maestlin, dizendo que nunca teria acredita- adotada pela otica geomttrica. do que deveriam suportar tanto sofrimen- Em 1609, publica-se a Nova astrono- to, abandonar a casa e os amigos e perder mia, que Kepler enviou ao imperador Ro- os proprios bens por motivos religiosos e dolfo I1 com uma carta dedicatoria datada em nome de Cristo. Em Praga, Tycho Brahe de 29 de margo. Essa i a obra mais memo- assume Kepler como sell assistente. Pouco ravel de Kepler, estabelecendo dois princi- depois, porim, em 24 de outubro de 1601, pios fundamentais da astronomia moderna com apenas cinqiienta e cinco anos de ida- (as primeiras duas leis de Kepler, sobre as de, Brahe morre. E o imperador Rodolfo I1 quais falaremos adiante). Nessa obra, Kepler nomeia Kepler "matematico imperial", com estuda o movimento de Marte, podendo fi- um salario que era a metade do de Brahe, e nalmente declarar-se vitorioso sobre o deus com a tarefa de concluir as Tabuas rodol- da guerra - e assim entregava o planeta, finas. feito prisioneiro, aos pis do imperador. Mas Em 1604, Kepler publica a obra Ad Marte tem muitos parentes - Jupiter, Vitellionem paralipomena. Trata-se de uma Saturno, Vtnus, Merciirio etc. - que ainda obra de otica geomitrica, que marca um mo- era precis0 combater e vencer. E, para pros- mento relevante da historia da citncia. A seguir a batalha, necessita-se de recursos. E obra compde-se de onze capitulos, aperfei- Kepler pede-os ao imperador. goando conceitos ja expressos por Alhazen Em margo de 1610, Galileu publicou e Vittlio, alim de apresentar concepgdes que o seu Sideveus Nuncius, que, com todas as muito se assemelham as de Francisco Mau- descobertas astron6micas w e continha. des- rolico (1494-1577). 0 capitulo V da obra pertou o mais alto interesse no mundo cien- reveste-se de grande importiincia: "Nele, tifico. Galileu enviou uma copia para Kepler, pela primeira vez depois de dois mil anos de por intermidio de Juliano de Midici, que estudo, niio se hesita em fazer o estimulo era embaixador da Toscana em Praga. Em
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    179 Capitulo decimo - Dr Cop6vnico n Keplrr resposta a Galileu, Kepler escreveu a sua metes a intelighcia humana os limites ce- Dissertatio cum Nuncio Sidereo, em que lestes e o caminho dos astros." Pode-se afir- apresenta suas duvidas. Sobretudo em rela- mar com certeza que a Didtrica constituiu q i o i existhcia dos satelites de Jupiter. 0 "o inicio e o fundamento de uma cicncia i mistico neoplatBnico Kepler, para quem "o otica capaz de explicar o funcionamento das sol C o corpo mais belo" e "o olho do mun- lentes e de suas varias combinaqoes, como do", niio podia admitir que Jupiter possuis- as usadas na luneta 'galileana' ou na luneta se satklites e pudesse assim reivindicar uma 'kepleriana', tambkm chamada 'astron6mi- dignidade analoga ii do sol. Ademais, "niio ca' " (G. Abetti). se compreende bem por que (tais satilites) existiriam, quando sobre esse planeta n i o ha ninguCm para admirar tal espetaculo". Mais tarde, de posse de uma boa luneta - aquela que Galileu enviara a Ernesto de Baviera, principe eleitor do Sacro ImpCrio Romano em ColBnia, e que este havia pas- Em 1611, o imperador Rodolfo I1 teve sado para Kepler -, ele se convenceu da de abdicar em favor do irmio Matias. Ke- opiniiio de Galileu, publicando entiio a pler, que ja lutava em viio para obter sua Narratio de observatis a se quattuor Jovis remuneraqio, compreendeu que n5o era sa- satellitibus erronibus. Nesse meio tempo, bio continuar em Praga. Ass!m, p&-se a ser- Martin Horky de Lochovic - que assistira viqo dos governadores da Austria superior i s demonstraq6es com a luneta que Galileu e transferiu-se para Linz, a fim de comple- realizara em Bolonha, por volta de fins de tar as Tabuas rodolfinas e dedicar-se aos abril de 1610, na casa de AntBnio Magini, estudos de matematica e filosofia. professor de matematica em Bolonha e ad- Em 1613, Kepler publicou a Nova ste- versario de Galileu -escreveu a Kepler uma reometria doliorum vinariorum, que resol- carta sobre a ineficacia da luneta: "In infe- ve um problema pritico n i o irrelevante para rioribus facit mirabilia; in coelo fallit quia aquela tpoca: como determinar o conteudo aliae stellae fixae duplicatae videntur. Habeo dos barris. A questiio niio deixava de ser testes excellentissimos viros et nobilissimos importante, pois entiio o conteiido dos bar- doctores (...) omnes instrumentum fallere ris era medido com a introduqio de um bas- sunt confessi. At Galileus obmutuit, et die tiio: devidamente inclinado, ele deveria in- 26 (...) tristis ab Illustrissimo D. Magino dicar o numero de "baldes" de que o barril discessit." Horky escreveu tambtm um li- era capaz. Tratava-se, obviamente, de uma belo contra as recentes descobertas de Ga- mensuraqio rudimentar. E o interessante C lileu: Brevissima peregrinatio contra Nun- que Kepler resolve tal problema atraves de cium Sidereum. E, em 30 de junho (1610), procedimentos que se aproximam dos rea- enviou-o a Kepler. Mas este, embora com lizados no calculo infinitesimal. Em 1616, urn pouco de atraso, renegou as opinioes de porkm, tem inicio a desgraqada aventura da Horky. Galileu, como veremos nas paginas pobre m5e de Kepler, que foi acusada de fei- a ele dedicadas, levou para dentro da ciin- tiqaria e submetida a interminavel proces- cia a luneta, um instrumento que entiio era so, no qual se envolve tambCm a faculdade visto como objeto tipico dos "vis mecini- juridica de Tubinga. Kepler empenhou-se cos" e indigno dos "filhsofos". E Kepler, por profundamente na defesa da mie. E, final- seu turno, era a pessoa matematicamente mente, saiu vencedor. Em 1621, a miie de melhor aparelhada para estuda-lo e desen- Kepler foi inocentada da acusaqio. Mas, volver sua teoria. E, com efeito, na prima- tanto pela idade avanqada como em funqio Vera de 161l, apareceu em Augusta a Diotri- de seu encarceramento e do processo, a atri- ca ou "demonstraq50 daquelas coisas, nunca bulada m i e morreu em abril de 1622. Nes- antes vistas por ninguim, que se podem se entretempo, entre 1618 e 1621, Kepler observar com a luneta". Diz Kepler que a havia publicado em Linz, em sete livros, seu Diotrica C importante porque amplia os tratado de astronomia: Epitome astronomiae horizontes da filosofia. E, sobre a luneta, copernicanae.Ja nos primeiros meses de 1619, diz ele: "0 sabio tub0 optico C precioso em Augusta, aparecia sua obra Harmonices como um cetro; quem observa com ele tor- mundi libri V , sobre a qual falaremos adian- na-se um rei e pode compreender a obra de te: trata-se do "at0 conclusivo da fecunda Deus. Por isso, valem estas palavras: tu sub- vida de Kepler" (J.L.E. Dreyer). Em 1627,
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    Segunda parte -A reuoIus,io iientificn aparecem finalmente as Tabuas rodolfinas, suma, Kepler acreditava que a natureza era onde se encontram as tabuas dos logaritmos, ordenada por regras matematicas, que C fun- as tabuas para calcular a refragao, e um cath- $50 do cientista descobrir. Uma fungzo que logo das 777 estrelas observadas por Tycho Kepler acreditou ter cumprido, pelo menos Brahe, cujo numero Kepler eleva para 1005. em parte, quando publicou o Mysterium cos- Com essas tabuas, "por mais de um skculo, mographicum, em 1596. Nessa obra, preci- os astr6nomos puderam calcular com exa- samente, a f no sistema copernicano vin- C tidao suficiente, jamais alcangada antes de cula-se f C p l a t h i c a de que uma Razao Kepler, as posigdes da terra e dos virios pla- matematica divina presidiu B criagao do netas em relag20 ao sol" (G. Abetti). Em mundo. E, depois de ter desenvolvido ex- 1628, Kepler estava novamente em Praga, tensamente -usando at6 desenhos detalha- de onde foi para Sagan, pequena cidade da dos - as argumentagdes em favor do siste- Silisia, entre Dresden e Breslavia, colocan- ma copernicano, ele afirma que o numero do-se a servigo do duque de Friedland, Al- de planetas e a dimensso de suas orbitas brecht Wallenstein. Este prometeu pagar a podiam ser compreendidos a medida que se Kepler os doze mil florins de atrasados a compreendesse a relagso entre as esferas que tinha direito pel0 trabalho passado. planetarias e os cinco s6lidos regulares, "pla- Kepler, de sua parte, publicaria as efemCrides tbnicos" ou "cosmicos". Esses s6lidos. como at6 1626. Entretanto, desmoronando os bens ja mostramos anteriormente, Go: o cubo, o de Wallenstein, Kepler decidiu ir a Ratisbona tetraedro. o dodecaedro. o icosaedro e o para obter da Dieta o pagamento de sua re- octaedro. Como C facil perceber, examinan- muneraggo atrasada. Feita no lombo de um do a fig. 1,esses solidos se caracterizam por velho burro - do qual Kepler se desemba- terem as faces todas identicas e constituidas ragou por dois florins tao logo chegou -, a apenas de figuras eqiiilhteras. Desde a anti- viagem foi desastrosa. Acometido de febre, guidade, sabia-se que somente cinco solidos Kepler foi submetido a sangrias. Mas de ~ o s s u i a m caracteristicas: os cinco indi- tais nada adiantou. Morreu no dia 1 5 de no- Lados na figura. Pois bem, em seu trabalho, vembro de 1630, distante de casa e dos que Kepler sustenta que, se a esfera de Saturno Ihe eram caros. Estava com cinqiienta e nove fosse circunscrita ao cubo no qual estivesse anos de idade. Foi sepultado fora das mu- inscrita a esfera de Jupiter e se o tetraedro ralhas da cidade, no cemitCrio de Sao Pedro, fosse inscrito na esfera de Jupiter com a es- ja que niio era costume sepultar os luteranos fera de Marte inscrita nele. e assim sucessi- dentro da cidade. Entretanto, os funerais fo- vamente com os outros tres solidos e as ou- ram solenes. E o discurso funebre desenvol- tras t r e ~esferas (cf. a fig. 2), entso se poderia veu-se em torno de um versiculo de Lucas demonstrar as dimensdes relativas de todas (LC 11,28): "Felizes os que ouvem a pala- as esferas, compreendendo-se tambCm por vra de Deus e a observam." que existem apenas seis planetas. Eis o que diz o pr6prio Kepler: " 0 orbe da terra C a medida de todos os outros orbes. Circuns- creve-se a ele um dodecaedro, e a esfera por ele circunscrita C a de Marte. A esfera de Marte circunscreve um tetraedro, que con- tCm a esfera de Jupiter. A esfera de Jupiter em busca d a divina circunscreve um cubo, sendo que a esfera olrdem matembtica dos C&S por ele encerrada C a esfera de Saturno. No orbe da terra, inscrevi um icosaedro, sendo a esfera nele inscrita a de V h u s . Em VEnus Se Tycho Brahe sempre foi anticoper- inscrevi um octaedro. onde esta inscrita a nicano, Kepler sempre foi copernicano: "Du- esfera de Mercurio. E ai encontras a raziio rante toda a sua vida, ele se referiu a per- do numero dos planetas." Deus e' matema- tinencia do papel que CopCrnico atribuira tico. E o trabalho de Kepler consistiu preci- ao sol com os tons entusiasticos do neo- samente em buscar as harmonias matema- platonismo renascentista" (Th. S. Kuhn). ticas e geome'tricas do mundo. Ele acreditou Kepler foi um neoplatBnico matematico ou ter encontrado muitas, embora aquelas des- um neopitagorico que acreditava na harmo- tinadas a ter futuro fossem sobretudo as suas nia do mundo. Por isso, niio podia apreciar famosas trEs leis para os planetas. De todo o pouco harmbnico sistema de Brahe. Em modo, "a convicgao de uma estrutura do
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    Th. 5. Kuhn, (11~1 Arevolu~ao copernicana, cit.). Satumo cubo Jlipiter tetraedro Marte dodecaedro Terra ~cosaedro V&us octaedro (lie Th. S. Kuhn, A revoluc;?io copernicana, cit.). mundo matematicamente definivel, que en- 3,. Do " c i r c ~ l o lh "elipsell. ' contrava a sua formulaqiio teologica na cren- -i Y qa de que, na criaqiio do mundo, Deus havia fs "tvgs leis d e Kepler" sido guiado por consideraq6es matematicas; a irremovivel certeza de que a simplicidade A ciincia tem necessidade de mentes tambim i um sinal de veracidade e de que a criativas (de hipoteses e teorias), ou seja, pre- simplicidade matemitica se identifica com cisa de imaginaqgo e, simultaneamente, de a harmonia e a beleza; por fim, a utilizaqgo rigor no controle dessas hipoteses. Pois bem, da sur~reendente circunstiincia de que exis- na historia do pensamento cientifico, talvez tem exatamente cinco poliedros que satis- niio tenha existido outro cientista com tan- fazem as mais altas exighcias de regulari- ta forqa de imaginaqgo quanto Kepler, e que, dade e que, portanto, devem ter alguma ao mesmo tempo, assumisse como ele uma coisa a ver com a estrutura do universo - atitude tiio critica em relaqgo i s suas pro- todos esses dados S ~ sintomas inequivocos O prias hipoteses. A idiia da relaqiio entre os da concepqiio do mundo pitagorico-platti- planetas e os solidos logo se mostraria in- nico, que aqui aparece mais viva do que sustentavel. Mas o que ela expressava era o nunca. Esse era o estilo de pensamento do sintoma de um programa de pesquisa, que Timeu, que, depois de ter desafiado o pre- ainda mostraria toda a sua fecundidade. dominio do aristotelismo durante toda a Ptolomeu niio havia sido capaz de explicar Idade Midia, em uma tradiqgo continua, o movimento "irregular" de Marte. E Co- embora por vezes invisivel, agora punha-se pirnico tambim ngo o conseguira. Tycho novamente de pi" (E.J. Dijksterhuis). Brahe havia realizado numerosas observa-
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    Segunda parte - f rrvoIuG~o cientificu gdes sobre Marte, mas tambCm tivera de - segunda lei: a velocidade orbital de ceder as dificuldades. Depois da morte de cada planeta varia de tal modo que a linha Brahe, foi Kepler quem teve de se defrontar que liga o sol e o planeta cobre, em iguais com o problema, nele trabalhando durante intervalos de tempo, iguais por~oesde su- cerca de dez anos. E o proprio Kepler quem perficie da elipse (cf. a fig. 4). nos informa sobre esse seu extenuante tra- A substituiq50 das orbitas circulares de balho, do qua1 deixou uma apaixonante e Ptolomeu, de CopCrnico e tambCm de detalhada descriqiio. As tentativas seguiam- Galileu pelas elipses ( l a e a substituiq50 lei), se urna 2 outra, mas todas caiam no vazio. 1 do movimento uniforme em torno de um Entretanto, com base nessa longa sCrie de centro com a lei das superficies iguais (2" tentativas falidas, Kepler chegou 2 conch- lei), s i o suficientes para eliminar toda a s5o de que era impossivel resolver o proble- caterva dos exctntricos e dos epiciclos. ma com qualquer combinaqiio de circulos, Em 1 6 18, no Epitome astronomiae pois todas as combinaqdes possiveis niio copernicanae, Kepler estendeu essas suas leis correspondiam aos dados observiveis e as aos outros planetas, a h a e aos quatro sat& orbitas propostas, portanto, deviam ser eli- lites de Jupiter, que haviam sido descober- minadas. Assim, alCm dos circulos, experi- tos h i poucos anos. Em 1619, nas Harmo- mentou tambCm as figuras ovais. Mas, no- nias d o mundo, Kepler anuncia sua vamente, as observagdes desmentiram as - terceira lei: os quadrados dos perio- propostas teoricas. Por fim, percebeu que a dos de revolu@o dos planetas estiio na mes- teoria e as observaqdes se harmonizavam ma rela@o que os cubos das respectivas dis- quando fazia os planetas moverem-se em t2ncias d o sol. Ou seja: se T 1 e T2 s5o os orbitas elipticas, com velocidades variaveis, periodos necessarios a dois planetas para determinaveis segundo urna lei simples. que eles completem urna volta em suas or- Foi urna descoberta sensational: esta- bitas e se R1 e R2 s5o as res~ectivas distin- va definitivamente rompido o dogma antigo cias mCdias entre os planetas e o sol, entio e ja venerivel da naturalidade e perfeigiio a relag50 entre os quadrados dos periodos do movimento circular. E um procedimento orbitais C igual a relagiio existente entre os matematico muito simples estava em con- cubos das disthcias mCdias em relaqiio ao digdes de dominar, em u m universo coper- sol. Ou seja: (T1/T2)2= (Rl/R2)3. nicano, urna quantidade interminavel de Trata-se. conforme foi dito. de "urna observagdes e permitia fazer previsoes (e lei fascinante, porque estabelece urna regra pos-visdes) seguras e acuradas. nunca antes observada no sistema planeta- E eis as duas leis que conttm a soluq5o rio". Mas o fundamental era que os princi- final do problema, solugiio que e vilida tam- pios da cosmologia aristotClica haviam-se bCm para nos, hoje: despeda~ado.Com efeito, a esse ponto, o - primeira lei: as orbitas dos planetas sistema solar encontrava-se ~lenamente des- (Marte) s2o elipses das quais o sol ocupa velado em toda urna rede de relacdes mate- u m dos focos (cf. a fig. 3.); maticas limpidas e simples. Fig. 3 A primeira lei de Kepler A segumia lei de Kepler (de Th. S. Kuhn, A revolu@o copernicana, cit.). (de Th. S. Kuhn, A revoluqZo copernicana, cit.).
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    0sol C O~ O a u s a c nar-se a morada do proprio Deus, para niio dizer o primeiro motor". E, no Epitome dos m o v i m e n t o s p I a n e t 6 v i o s astronomiae copernicanae, tambem pode- mos ler: "0sol C o corpo mais belo; de cer- ta forma, C o olho do mundo. Enquanto fon- Como observa Dijksterhuis, misticis- te de luz ou lanterna resplandecente, adorna, mo, matematica, astronomia e fisica estiio pinta e embeleza os outros corpos do mun- estreita e at6 inextricavelmente associados do [...I. N o que se refere ao calor, o sol C o na mente de Kepler. Nas Harmonias d o fogareiro do mundo, que esquenta os glo- mundo, ele fala de um "frenesi divino" e de bos no espaqo intermediario [...I. N o que um "arrebatamento inefavel" na contempla- se refere a o movimento. o sol C a causa mi- qiio das harmonias celestes. E precisamente meira do movimento dos planetas, o pri- nesse livro Kepler mostra mais que em qual- meiro motor do universo, a causa do seu quer outro lugar sua fC nas harmonias que proprio corpo [...I." Ha em Kepler urna se expressam na ordem matematica da na- metafisica do sol. 0 s planetas niio se mo- tureza: e o sol desempenha um papel fun- vem mais com um movimento circular na- damental nessa harmonia. tural; eles percorrem elipses. Entiio, qual a 0 mod0 como Kepler descreve ter che- forqa que os move? Pois bem, eles siio mo- gado a elaboraqiio de sua primeira lei C exal- vidos por urna f o r ~ a motriz como a forqa tad0 em nossos dias como exemplo perfeito magnktica, urna forqa que emana do sol. de procedimento cientifico: ha um proble- Estamos diante de urna intuiqiio metafisica ma (a irregularidade do movimento de Mar- relacionada com o mundo fisico, segundo a te); elabora-se toda urna sGie de conjecturas qual os planetas percorrem suas orbitas im- como tentativas de soluqiio do problema; pelidos pelos raios de urna anima motrix que desencadeia-se o mecanismo da prova sele- brotam do sol. Kepler considerava que es- tiva sobre essa gama de conjecturas; descar- ses raios agem sobre o planeta; mas a 6rbita tam-se todas as hipoteses que niio se susten- do planeta i eliptica; por isso, os raios da tam ao crivo das observaq6es; finalmente, anima motrix que caem sobre urn planeta a chega-se teoria justa. E niio i apenas o pro- urna distdncia dupla d o sol estariio pela cedimento que C considerado como modelo metade; conseqiientemente, a velocidade do de pesquisa cientifica, exalta-se tambCm o ~laneta sera a metade da velocidade orbital relato com o qual Kepler narra o mod0 que apresenta quando esta mais proximo do como chegou a essa lei. Vemos toda a pai- sol. Em suma, Kepler sup6s que "houvesse xiio por um problema que perseguiu Kepler no sol um intelecto motor capaz de mover a o longo de dez anos; com ele percorremos todas as coisas em torno de si, mas sobretu- as expectativas alegres e as amargas desilu- do as mais proximas, enfraquecendo-se po- Ges, os reiterados assaltos e os sucessivos r i m no caso das mais distantes. em virtude fracassos, os becos sem saida em que se da atenuaqiio de sua influincia, dado que mete, a tenacidade com que empreende o aumentam as distdncias". A fig. 5 esclarece desenvolvimento de cilculos dificeis, a graficamente a idCia de ~ e ~ l e r . P o r t a n tfoi o, constdncia e perseveranqa na busca de urna a " f i n neoplat6nica que conduziu Kepler a ordem que deve existir porque Deus a criou; sua segunda lei: ele acreditava em urna es- vemos urna verdadeira luta de Kepler com trutura matematica e simples do universo e o Anjo, que no fim niio lhe nega sua bin- que o sol fosse causa de todos os fenbme- qiio. Encontramo-nos diante da descriqiio nos fisicos. E Kepler esboqou precisamente de urna pesquisa em que a retorica das con- urna teoria magnttica do sistema planeti- clus6es C substituida pel0 pathos da mais rio, com base nessa sua ultima convicqiio, nobre aventura: o pathos da pesquisa da ver- alem de influenciado pela leitura do De Mag- dade. nete, que o mCdico inglis William Gilbert Mas niio menos interessante e instruti- (1540-1603) publicara em 1600. Ele fala da va C a maneira pela qual Kepler chega a sua forqa com que a terra atrai um corpo, e na segunda lei, da qual, alias, depende a pri- introduqao a Nova astronomia fala tambCm meira. N o quarto capitulo da Nova astro- de urna atraqiio reciproca. E, nas notas ao seu nomia, Kepler descreve o sol como o corpo Somnium (elaborado entre 1620 e 1630), "que aparece, em virtude de sua dignidade atribui as marks "aos corpos do sol e da h a , e potcncia, como o unico capaz (de mover que atraem as aguas do mar com urna forqa os planetas em suas orbitas) e digno de tor- semelhante magnCtican.
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    184.. --- Segunda parte - $ revoIuGiio c~entifica isso. Mas o certo k que a sistematizaqio matematica do sistema~o~ernicano pas- ea saeem do movimento circular ("natural" e " "perfeito") ao movimento eliitico propu- nham problemas que Kepler percebeu, iden- tificou e tentou resolver. Trata-se de proble- mas que, juntamente com os resultados obtidos, Kepler deixava de heranqa igera- @ o seguinte. Kepler desapareceu em 1630, Galileu morreu no principio de 1642. E pre- Kepler sufids que "houvesse no sol um intelecto cisamente neste ano nascia em Woolsthor~e. motor capaz de mover todas as coisas no condado de Lincoln, na Inglaterra, ao redor de si, mas sobretudo as mais prciximas" homem chamado Isaac Newton, que, re- (de Th. S. Kuhn, A revolu$o copernicana, cit.). colhendo os resultados obtidos por Kepler e Galileu, estava destinado a resolver os problemas que eles deixaram em aberto, Alguns chegaram a ver nessas idkias a dando assim a fisica a condicao aue hoie > 1 antecipaqio da teoria gravitacional de New- nos conhecemos com o nome de "fisica clas- ton. Ao que tudo indica, n i o chega a ser sica".
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    185 '"ij# Capitulo de'cirno - De CopCwico a Kepler - por aqueles que, embora impelidos pelas exor- taqks e pelo exemplo de outros aos estudos liberais da filosofia, todavia, por causa do ob- tus~dade seu engenho, movem-seentre os de f~losofos como os zangdes entre as obelhas. Enquanto, porGm, avaliava comlgo mesmo es- tas coisas, o desprezo, qua devia temer pela A novidade novidade e absurdidade desta opinido, por do concep#o copernicana pouco nao me impeliu a abandonar completa- mente a obra realizada. Mas os amigos me dissuadiram, embora 0trecho que segue d o corto dedico- hes~tasse muito e tambhm relutasse; e entre torm o Poulo 111 (Rlessondro Fornese, 1468- estes o prlmelro ~ ON~colau I Schonberg, cardeal 1549); corto que Copdrnico ontepae oo De de Cdpua, chlebre em todo campo do saber; revolutionibus orb~um coelest~um(1543), o junto com ele aquele ins~gne personagem que texto c l d s s ~ o teorio helioc&ntrico: 'I...] do me ama tanto, Tiedemann Giese, b~spo de tombhm eu comacei o pensor no mobilida- Culm, tdo assiduo nos sagradas letras e em de do terro". todas as boas letras. Este, corn efeito, fre- quentemente ms exortou e com censuras vez por outra a mim dirigidas me incitou a publicar Santissimo Padre, com sufic~ente seguran- este livro e a permitir que fosse finalmente <a posso pensar que logo qua alguns soube- dado 6 luz uma obra que teimava em permane- rem que nestes meus l~vros escritos sobre as cer oculta comlgo ndo apenas por nove anos. revolu~des das esferas do mundo atribuo ao mas j6 por quatro vezes nove anos. globo terrestre alguns movmentos, imediata- 0 memo fizeram junto de mim ndo pou- mente proclamardo em aka voz que devo ser cos outros personagens eminentissirnos e dou- descartado junto com tal opinido. Nem, na ver- tissimos, os quais me exortaram a ndo recusar dade, minhas coisas me agradam a ponto de por mais tempo - pelo medo concebido - co- au n60 querer ponderar aquilo que outros jul- municar minha obra para utilldade dos estudio- gardo sobre elas. E embora saiba que as re- sos de matem6tica.Talvez por mais absurda que flexaes do filosofo estdo longe do julgamento aparep agora 6 malor parte deles minha dou- do vulgo, porque & seu trabalho procurar a ver- trina sobre o movlmento do terra, maior admi- dade em todas as coisas, 6 med~da que isso rag30 e gratiddo receber6 depois qua, com a permite-se6 razdo humana por Deus, nem por ed~<do meus coment6rios, eles verdo dis- de isso penso que se devam abandonar as opi- solvidas as n&voas da absurdidade corn cla- nides de fato estranhas a retiddo. nss~m, quan- rissimas demonstra@es. Impelido, portanto, por do eu pensava comigo mesmo qudo absurdo estes persuasores e por tal esperanp, final- teriam avaliado este ochroomo [discurso] aque- mente permit^ aos amigos que providencrassem les que sabem ter sido confirmada pelo julga- a edi@o do obra, por tanto tempo aguardada. mento ds muitos s&culos a oplnido de que a Todavia, talvez Sua Santidade ndo se terra est6 imovel no meio do cGu, como que maravilhar6 tanto de que eu anseie dar b luz posta no centro dele, se ao contr6rio eu tives- minhas reflexdes, depo~s que assumi elabor6- se af~rmadoque a terra se move, por muito las com tanto trabalho que ndo duvide~ confiar tempo hesitei se devia expor meus comenthri- tambbm por carta meus pansamentos sobre o os escritos para demonstrar tal movimento, ou movimento da terra, mas, ao contr6ri0, espera- entdo se ndo seria melhor seguir o exemplo r6 sobretudo ouvir de mim como me veio em dos pitagoricos e de alguns outros que costu- mente ousar imaginar - contra a opinido uni- mavam tradicionar os misthr~osda filosof~a versalmente aceito pelos matem6ticos, e qua- apenas a membros e amlgos, ndo por escrito, se contra o senso comum - algum movlmento mas oralmente, como atesta a carta de Cisides da terra. Rss~m, quero esconder a Sua San- ndo a Hiparco. E parece-me no verdade que isso tidade que nada mais me levou a pensar em era fsito ndo tanto - como pensa algubm - outro modo de calcular os movimentos das es- por certo ciums do saber que deveria ter sido feras do mundo, a ndo ser que compreendi que comunicado, mas para que as belissimas coi- os matem6ticos ndo estdo eles proprios con- sas, pesqu~sadas com muito estudo por gran- cordes no pesquisa deles. des homsns, ndo fossem desprest~giadas por Com efe~to, primeiro lugar estdo t60 em aqueles a quem & molesto dedicar algum es- incertos sobre o movimento do sol e da lua que forso 6s letras, quando ndo sdo lucrativas, ou nao podem demonstrar e observar a grandeza
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    constants do anoque passa. Depois, ao fixar surda que aparecesse tal opini60, todavia, uma os movimentos tanto destas corno das outras vez que eu sabla que a outros antes de mim cinco estrelas errantes [os planetas], n6o recor- tivesse sido concedida a liberdade de imagi- rem aos mesmos principios, nem aos mesmos nor alguns circulos para indicar os fenBmenos assuntos, nem ds mesmas demonstra@es das dos astros, pensel que tambhm a mim teria sido revolu@es e dos movimentos que aparecem. facilmente permitido experimentar se, posto Rlguns, com efeito, recorrem apenas a circulos certo mov~mento terra, se pudessem encon- da homoc&ntricos,outros a exc6ntricos e a ep~c~clos, trar demonstra~6es mas f~rmes das deles, no com os quais, porhm, n6o conseguem absolu- revolugio dos orbes celestes. tamente aquilo que buscam... Portanto, supostos os movimentos qua Por lsso assumi o trabalho de reunir os mais adiante em minha obra atribuo d tsrra, livros de todos os filosofos, que pudesse ter, encontrei finalmente, depois de muitas e lon- com o fito de indagar se acaso algum tivesse gas observa(6es, que se se relacionavam com opinado que os movimentos das esferas do a circula@o da terra os movimentos das outras mundo fossem diversos daqueles que s6o ad- estrelas e se calculavam para a revolu$6o de mitidos por aqueles que ensinam matemdtica toda estrela, n6o apenas descobriram os fen6 nas escolas. E sncontre~ asslm primeiro em Ci- menos delas, mas tambhm as ordens e as gran- cero que Niceto pensara que a terra se moves- dezas das estrelas e de todos os orbes, e o se. Depois tambhm em Plutarco encontrei que proprio c&u assim se conecta que em nenhuma outros ainda eram da mesma opini6o e, para parte dele pode transpor-se qualquer coisa sem tornar suas palavras acessiveis a todos, pen- que disso derive confusao nos outras partes e sei transcrev&-lasaqul: na sua totalidade. Por isso, ad~ante obra. no "Outros pensam qua a tsrra esteja para- segui esta ordem, e no primeiro hvro descrevo do, mas Filolau o Pitagor~co admits que ela se todas as posl@es dos orbes com os movimen- mova glrando em torno ao foco com um circulo tos qua atribuo d tsrra, a fim de que este livro obliquo, corno o sol e a lua. Herdcl~des PBntico contenha quase que a toda a constitui$do ge- e Ecfanto o Pitagorico tambhm fazem a terra se ral do universo. Nos outros livros, depois, relacio- mover, mas nao atravhs do espaSo, e sim como no os movimentos das outras estrelas e de to- roda, do Ocidente para o Oriente, ao redor de dos os orbes com a mobil~dade terra, a fim da seu proprio centro". de que ai se possa deduzir em que medida h A partir daqui, portanto, deparando-me possivel salvar os movimentos e as aparhcias corn esta oportunidade, tambhm eu comecei a das outras estrelas e dos orbes, quando estdo pansar no mobil~dade terra. E, por mas ab- relacionados com o movimento da terra. E n6o da Representa~iio d o sistema copernicano. Como escreue o pr6prio Copkrnico: "Todas as esferas giram ao redor do sol como seu ponto central, e portanto o centro d o uniuerso esta dentro d o sol [...I. 0 mouimento da terra e'. portanto, suficiente para explicar todas as desigualdades yue aparecem n o cku".
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    duv~do que os engenhosos e doutos matem6t1- cos me aprovardo se, conforme a filosof~a re- quer em prlmelro lugar, quiserem conhecer e ponderar ndo superficialmante, mas a fundo, aquilo que trago nesta obra para a demonstra- <do destas colsas. E a fim de que os doutos e tambbm os ignorantes vejam que de minha parte ndo me subtra~o fato a0 julgamento de de ningubm, preferi dedlcar estas m~nhas refle- x6es a Sua Santidade, mais qus a qualquer Tycho Brohe Iongo o hipotese de urn sis- outro, porque tambbm neste 6ngulo remotissimo terno do rnundo diferante tonto do de da terra, em que vivo, 6s julgado o persona- Ptolorneu corno do de Coptrnico "Poro oltm gem mals em~nente tanto pela d~gnidade de de quolquer duvido penso que se devo es- grau como de amor por todas as letras e tam- tobslecar corn os ontigos ostr6nornos s os bbm das matem6tlcas; assim, poderdis fac~lmen- poreceres dorovonte ocaitos palos Fisicos, te, com tua autoridode e teu julgamento, con- corn o ulterior otestogdo dos Sogrodos Escri- ter a mordida dos caluniadores, embora o turos, que o t a m que hobitornos ocupo o provbrbio diga que ndo existe rembdio para a centro do universo s que ndo 6 rnoviclo em mordida dos delatores. circulo por nenhum rnovirnanto onuol, corno o Se porventura houver rnozoiologoi [linguo- quer Coptrnico [ 1" rudos] que, embora ~gnorando completamente No sisterno tych8nico o t w o sa encon- as matem6tms, memo assim se arrogam o jul- tro, portonto, no centro do universo, elo esM gamento sobre elas, e em base a alguma pas- no centro do orbito do sol, do luo e clos es- sagem da Escritura, pessimamente d~storcida a trslos fixos, enquonto o sol estd no centro seu favor, ousarem tro<ar ou d~famar esta em- do orbito dos cinco plonetos (Mercljrio, press, ndo me preocupo de modo nenhum com Vhnus, Morte, Jfipitsr, Soturno) eles, pois desprszo o julgamento deles corno temer6rio. € bem sab~do, com efeito, qua LactGn- c~o, escrtor ali6s famoso, mas matem6tico supe- rado. falou de modo completamente pueril do Do momento em que me d e ~ conto de que forma da terra, cacoando daqueles que haviam a velha distr~bu~<do ptoloma~ca dos orbes ce- mostrado que a terra tem forma de globo. Por- lestes ndo era suficientemente coerente e que tanto, ndo deve parecer estranho aos sstud~o- era supbrfluo o recurso a tdo numerosos e gram sos se alguns tambbm rirem de mim. Fl matem6- des ep~c~clos melo dos quals se justificam por t~ca escreve-se para os matem6ticos, aos quals os comportamentos dos planetas em rela$do - se ndo me engano - tambbm estes meus tra- ao sol, suas retrograda<bese suas paradas com balhos aparecerdo de algum modo vantajosos alguma parte de sua aparente desigualdade; para a propria republica eclesi6stica, da qua1 Sua logo que me dei conta de que estas hipoteses Santidade detbm agora o princ~pado. Com efei- contradizem os primsiros prmcipios da propria to, h6 ndo muito tempo, sob Ledo X, quando se teoria, uma vez que admitem a uniform~dade debatia no concilio lateranense a questdo de do movimento circular ndo em torno cle seu pro- emendar o calsnd6rio ecles16st1c0, perma- essa prlo centro, corno seria necess6r10, mas ao re- necsu entdo ~ndecisa apenas pela razdo ds que dor de outro, isto &, ao redor do centro de ou- as grandezas dos anos e dos msses e os movi- tro exc&ntr~co (qua por este motivo chamam de mentos do sol e da lua ndo eram ainda conside- equante); tendo considerado ao mesmo tem- rados suficientemente medidos: e desde aquele po a inovagdo moderna ~ntroduzida pelo gran- tempo pus-me a observar lsso mais acurada- de Copbrn~co ..], e tendo compreend~do [. como mente, inc~tado pelo iluminado blspo de Fossom- ela sab~amente evta tudo aqu~lo que no d~s- brone, Paulo, que presid~a tais quest6es. a posi$do ptolomaica resulta supbrfluo e in- 0qus, portanto, demonstrei nestas coisas, coerente, sem contradizer os principios da ma- deixo ao julgamento de Sua Santidade, em pri- tembtica, mas, a partir do momento que meiro lugor, e ao de todos os outros doutores estabelece que o corpo da terra, grande, lento E, matem6t1cos. para qus ndo parep a Sua s in6bil para se mover b mov~do um movi- por Sant~dade que sobre a utilidade da obra pro- mento ndo mas fragment6rio (ou melhor, um meto mais do que posso oferecer, passo agora tripl~cemovimento) do qua o dos outros astros ao meu proposito. etbreos, chocava-se ndo so com os principios N. Copbrn~co. da fis~ca,mas tambbm contra a autor~dade das D revolutionibus orbium coelestium e Sagradas Escr~turas que conhrmam em v6rias
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    Segunda parte - $ revoIuC2iociefitificn passagens a estabilidade do terra, para ndo para Cophrnico devia-se ao movimento anual falar depois do espago vastisslrno interposto da terra, justifica-se de modo rnuito convenien- entre o orbe de Saturno e a oitava esfera que te mediante tais concomit6ncias do centro da esta doutrina torna vazio at& as estrelas, e de orblta dos proprios planetas junto corn a revo- outros inconvenientes que acompanham esta lug60 anual do sol. Deste modo, encontrarnos especulagbo, entdo, sigo, tendo cornpreendi- expllca@o suficiente para as paradas ou retro- do bem corno arnbas assas hipoteses adrnitis- grada~des planetas, para aproxirnagdes e dos sem ndo pequenas absurdidades, comecei a distanciarnentos da terra, para a var1aq3oda meditar cornigo mesrno profundarnente se se- aparente grandeza e para todos os outros fe- ria possivel encontrar uma hipotese qualquer n6rnenos de tal monta, originados ou com o pre- que ndo estivesse em contraste nem corn a rna- texto dos epiciclos ou pela aceita@o do rnovi- tern6tica nern corn a fisica, e que ndo devesse rnento da terra. [. . .] E corn isso se torna evidente fugir ocultarnentedas censuras teologicas e que, a razbo pela qua1 o rnovimento simples do sol ao mesrno tempo, satisfizesse de modo corn- se mistura necessariamente corn os movirnen- pleto as apar&ncias celestes. Por firn, quase tos de todos os cinco planetas com peculiar e inesperadarnente, vaio-me 2.1 mente de qua1 certo andarnento; de forrna que todos os fen6 rnaneira deva ser disposta oportunarnente a rnenos celestes se referern ao sol corno sua ordern das revolu~des celestes, de rnodo que rnedida e norrna e ele governa toda a harrno- ficasse excluida toda ocasibo para todas estas nia do fila dos planetas corno Rpolo (norne do incongru&nc~as. agora comunicarei esta d ~ s - E qua1 era datado pelos antigos) no rneio das posiqdo dos orbes, j6 brevemente acenada, aos Musas. cultores da filosofia celeste. T. Or~hs, Para alhrn de qualquer dirvda, penso que De mundi oathsrsl rscent~onbus phasnomenls, se dsvo estabelecer corn os antigos astrdno- liber secundus qui est de illustr~stello coudoto rnos e os pareceresj6 aceltos pelos fisicos, com em l o rivoluzione scientihco do Copernico o Newton, a atesta~bo ulterior das Sagradas Escrituras, edtada por P. Ross~, loeschsr. que a terra que habitarnos ocupa o centro do universo e que nbo h movida ern circulo por nenhum rnovimento anual, como o cluer Cophrnico. Todavia, ndo ouso confirmar, cbmo crerarn Ptolorneu e os velhos astr6nornos, que junto da terra sa situern os centros de todos os orbes do segundo rnovel; mas penso que os circuitos celestes sejam de tal forma governa- dos que apenas arnbos os luminares do rnun- do [o sol e a lua], que presidern a d~scrirnina- $10 do tempo, e corn slesa muitissimo d~stante oitava esfera [das estrelas fixas], continente de todas as outras, olhem para a terra corno para o centro de suas revolu@es. Albrn disso, asse- vero que os cinco planetas restantes [Mercljrio, V&nus. Marte, Jljp~ter,Saturno] desenvolvem seus proprios glros ao redor do sol corno pro- prio guia e rei, e que sempre o observarn quan- do se situa no espqo intermedi6rio de suas revolu@es. De rnodo que, em relagdo ao circui- to dele tarnbhrn os centros das orbitas que clr- cularn a seu redor realizam urn giro anual. En- contrei, de fato, que isso nBo ocorria apenas em V&nus e Mercljrio para as menores digres- sdes de tais planetas em relacdo ao sol, mas tarnbhrn nos tr&s planetas superiores. E desse modo nestes tr&s rnais distantes planetas que, corn a amplitude de suas revolug6es ao redor do sol, incluern a terra e todo o rnundo elernen- tar juntamente corn a lua que com el@confina, toda aparente dssigualdade de movirnento que pelos antigos era axplicada corn os epic~clos, Instrumento astrondmico de 7: Brahe.
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    0drama de Cialile~ e a f ~ n d a ~ & o &&cia cnoderna da Galileu Galilei (1564-1642) estuda em Pisa como aluno de Ostilio Ricci, disci- pulo d o algebrista Nicolau Tartaglia. Chamado para ensinar em Padua, ai pronun- cia a lis%oinaugural dia 7 de dezembro de 1592. Em Padua Galileu permanece dezoito anos, ate 1610. A 1610 remonta o Sidereus Nuncius; e, sempre nesse ano, obtem da parte d o grao-duque Cosme II o rendoso posto de "matematico extraordinario d o estudio de Pisa". Entre 1613 e OensinO 1615 Galileu escreve as famosas quatro cartas copernicanas so- ~ ~ ~ ~ $ bre as relasees entre ciencia e fe: uma a seu discipulo, o beneditino Benedetto Castelli, duas a dom Piero Dini; e uma a senhora , ,gundo Cristina de Lorena, gra-duquesa de Toscana. a solidao Denunciado ao Santo Oficio, Galileu e processado em Roma de Arcetri em 1616 e e proibido de ensinar o u defender com ; palavra o u + 5 I. I , com os escritos a teoria copernicana. 0 Saggiatore 6 de 1623.0 Dialogo sobre os dois maximos sistemas d o mundo aparece em 1632. Processado pela segunda vez em 1633, Galileu e condenado e forqado a abjuraqao. A prisao perpetua Ihe e logo comutada em confinamento, primeiro junto a seu amigo Ascdnio Piccolomini, arcebispo de Siena, o qua1 o tra- t o u com grande e benevola atenqao; e depois em sua casa em Arcetri. Na solid20 de Arcetri escreve os Discursos e demonstrag6es matemdticas so- bre duas novas ci&cias, que aparecerao em Leiden em 1638. Assistido por seus discipulos Vicente Viviani e Evangelista Torricelli, Galileu morre n o dia 8 de janeiro de 1642. Na primavera de 1609 Galileu vem a saber que "certo flamengo havia fabri- cad0 uma lente mediante a qua1 os objetos visiveis, por mais distantes que estives- sem dos olhos d o observador, eram vistos distintamente como se estivessem proximos". A mesma noticia Ihe 6 confirmada por seu ~ ~ l i l ~ ~ ex-discipulo Jacques Badouere. Justamente com base nestas no- I,, a luneta ticias Galileu construiu a luneta. E a coisa realmente interessante para "dentro" e que ele a tenha levado para dentro da ciencia, como instru- da ciencia mento cientifico a ser utilizado como potencializa@o de nossos + § 11.1 sentidos. Dia 12 de marqo de 1610 Galileu publica em Veneza o Sidereus Nuncius, obra que inicia com estas palavras: "Grandes na verdade sao as coisas que neste breve tratado proponho a visao e contemplaqiio dos estudiosos da natureza. Grandes, digo, tanto pela excelencia da materia em o "Sidereus si mesma, como pela novidade delas jamais ouvida em todos os Nuncius" tempos passados, como tambem pelo instrumento em virtude corrobora d o qua1 as proprias coisas se tornaram manifestas a nosso senti- osistema do". Mediante a luneta, se podem ver, alem das estrelas fixas, copernicano "outras inumeraveis estrelas jamais divisadas antes de agora"; o e desmente , sistema universe, em suma, torna-se maior; constata-se que a lua n l o e ptolomaico u m corpo perfeitamente esferico, como ate entao se acreditava, mas e escabrosa e desigual como a terra (este e u m resultado ,
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    190 Segunda parfe - A revaluFdo cientifico que destroi uma coluna da cosmologia aristotelico-ptolomaica, isto e, a ideia da clara distinqao entre a terra e os outros corpos celestes); v@-se a Galaxia n%o que e "nada mais que um monte de inumeraveis estrelas, disseminadas em amontoa- dos"; observa-se que as nebulosas sao "rebanhos de pequenas estrelas"; v@em-se os satelites de Jupiter (e esta descoberta oferecia a Galileu a inesperada visa0 no ceu de um modelo menor do que o modelo copernicano). Com tudo isso o Sidereus Nuncius corroborava o sistema copernicano e disparava decisivos golpes contra- rios ao sistema ptolomaico. Daqui as raizes do desencontro entre Galileu e a Igreja. Copernico afirmara que "todas as esferas giram em torno do sol como seu ponto central e portanto o centro do universo esta dentro do sol". E ele pensava que sua propria teoria fosse uma representaqao verdadeira do pressuposto universo. Deste parecer era tambem Galileu: a teoria copernicana do desencontro descreve 0 sistema do mundo. entre Galileu Tal tese realista devia necessariamente aparecer perigosa a e a lgreja todos - catolicos e protestantes- pois pensavam que a Biblia em 4 3 IV: 7-2 sua verdo literal nao podia errar. No Eclesiastes (1,4-5) lemos que "a terra permanece sempre em seu lugar" e que "o sol surge e se pde voltando ao lugar de onde surgiu"; e por Josue (10,13) somos informados de que Josue ordena ao sol que pare. Com base nestas passagens da Escritura Lutero, Calvino e Melanchton s opuseram ferrenhamente a teoria copernicana. e Lutero dira que Copernico e "um astrologo de quatro vintens". De sua parte, o cardeal Roberto Belarmino apresenta uma interpretaqao instrumentalistada teo- ria copernicana, no sentido de que ela seria um instrumento capaz de fazer predi- ~;des, mas n%oe propriamente uma descriq%overdadeira do mundo: esta e en- contravel na Biblia, que nao pode errar. Galileu teoriza a incomensurabilidade entre saber cientifico e fe religiosa: os conhecimentos cientificos sao aut6nomos em relaqao a fe, pois pretendem des- crever o mundo; os dogmas da fe, as proposiqdes religiosas, de ~ ; 6 fe: ~ ; ~ ~ sua parte, nao sao e nao querem ser um tratado de astronomia, e-e, mas uma mensagem de salvaqao. e nso ou-ou Galileu fixa o principio da distinqao entre ciencia e fe nas +3 ~ 7 - 3 palavras que ele diz ter ouvido do cardeal BarBnio, segundo o qua1 "a intenqao do Espirito Santo seria ensinar-nos como s vai e ao ceu e nao como vai o ceu". Para Galileu, portanto, ci@ncia fe silo compativeis e porque incomensuraveis: nao se trata de um ou-ou, e sim de um e-e; o discurso cientifico e um discurso factualmente controlavel, destinado a fazer-nos ver como funciona o mundo; o discurso religioso e um discurso de "salva@o" que n%o se ocupa de descrever o mundo, e sim do "sentido" do universo, da vida dos indivi- duos e de toda a humanidade. Dia 19 de fevereiro de 1616 o Santo Oficio passou a seus teologos as duas proposiqdes que resumiam o nucleo da questao: a) "Que o sol esteja no centro do mundo, e por conseguinte 0 primeiro imovel de movimento local". process0 b) "Que a terra nao esta no centro do mundo nem 4 imovel, + 3 VI. 1 mas se move segundo si mesma inteira, tambem com movimento diurno". Cinco dias depois, dia 24 de fevereiro, todos os teologos do Santo Oficio con- denaram as duas proposiq6es. A sentenqa do Santo Oficio e transmitida a Congre- gaqao do index, que no dia 3 de marqo de 1616 emana a condenaqao do Coperni- canismo. Entrementes, dia 26 de fevereiro, Belarmino, sob ordem do papa, tinha admoestado Galileu a abandonar a ideia copernicana e Ihe ordenava, sob pena de prido, "nao ensina-la e nao defend@-la nenhum modo, nem com as palavras de nem com os escritos". Galileu concordou e prometeu obedecer.
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    Em 1623 sobeao trono pontificio, com o nome de Urbano VIII, o cardeal Maffeo Barberini, amigo e admirador de Galileu. Encorajado por este evento, Galileu retoma sua batalha cultural; e em 1632 publica o Dialogo de Galileu Galilei Linceu, onde nos congresses de quatro jornadas se discorre sobre os dois maximos sistemas do mundo ptolomaico e copernicano. 0 s interlocutores do Dialogo s%otr&: Simplicio, que representa o filosofo aristo- 0 n ~ ; a ~ o g o telico, defensor do saber tradicional; Salviati, o cientista coper- sobre nicano paciente e resoluto; Sagredo, que representa o pljblico osdoismaximos aberto a novidade e que deseja conhecer as razdes de uma e de sistemas"; outra parte. 0 Dialogo se abre com uma declara@o favoravel a eose9undo validez da condenaqao do Copernicanismo; obviamente, trata- proceS0 va-se de um truque n%odificil de descobrir: o Dialogo e uma + 3 VII.1-3 defesa cerrada do sistema copernicano. Urbano Vlll foi convencido pelos adversarios de Galileu de que o Dialogo constituia um descredito da autoridade e talvez tambem do prestigio do papa, o qua1 estaria sendo ridicularizado na figura de Simplicio. Foi assim que iniciou o segundo processo contra Galileu. Dia 12 de abril de 1633 Galileu esta diante do Santo Oficio; dia 22 de junho os inquisidores emitem a sentenqa de condenaqao e, no mesmo dia, Galileu pronuncia a abjuraqso. Depois do segundo processo e da abjuraqao Galileu escre- contribute ve os Discursos e demonstraq6es matematicas a respeito de duas de novas ciencias, que silo a estatica e a din2mica. Tais discursos s%o para a histdria propostos em forma de dialogo: discute-se sobre a resisthcia das id@jas dos materiais, sobre sistemas de alavanca, e esta presente a cele- cientifjcas bre experihcia sobre pianos inclinados. Nesta obra apresenta-se -+ 3 VIII. 1-2 o contributo mais original de Galileu a historia das ideias cienti- f icas. Querendo agora explicitar mais detalhadamente a imagem galileana da ciencia e preciso salientar que, para Galileu, a ci6ncia n%o mais um saber a servi- e $0da fe, n%o depende da fe, tem um escopo diferente do da fe, aceita-se e encon- tra fundamentos diferentes dos da fe. Aut6noma em relaqao a fe, a ciGncia est6 desvinculada tambem do autoritarismo da tradiqao aristotelica que bloqueia a pesquisa cientifica. E contra os aristotelicos Galileu: dogmaticos e livrescos, Galileu recorre justamente a Aristoteles, platbnico o qua1 "antepde [...I as experiencias sensatas a todos os discur- em filosofia, sos"; de mod0 que "n%oduvido nada de que s Aristoteles vives- arisfot@lico e se em nosso tempo, mudaria de opiniio". Com isso Galileu faz : -' $ $ "o funeral [...I da pseudofilosofia", mas n%o funeral da tradi- o $30 enquanto tal. Com as devidas cautelas se pode dizer que Galileu e platdnico em filosofia ("0 livro da natureza esta escrito em linguagem matematica") e aristotelico no mCtodo (Aristoteles "teria [...I anteposto, como convem, a sensata experiencia ao discurso natural"). A ciencia de Galileu e a c i h c i a de um realista, ou seja, a ci@ncia um de cientista convict0 de que as teorias cientificas alcancem e descrevam a realidade; a cihcia e descriq%o verdadeira da realidade, e nos diz "como vai o ceu"; e e obje- tiva porque descreve as qualidades objetivas e mensuraveis (qualidades primarias) e n%o qualidades subjetivas (qualidades secundarias) dos cor- as pos. E esta ciCncia, descritiva de realidadesobjetivas e mensuraveis, ''0 mundO e possivel porque e o proprio livro da natureza que "esta escrito estd escrito em linguagem matematica". A ciencia, portanto, e objetiva por- em linguagem matemdtica,, que n%o embrenha nas qualidadessubjetivas e secundarias nem se se propde a busca das "essencias". Do que foi dito segue-se que a , x,
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    pesquisa qualitativa esuplantada pela quantitativa, e sso eliminadas as causas finais em favor total das mecEinicas. 0 universo de Galileu e um universo determi- nista e mecanicista; ngo e mais o universo antropoc@ntrico Aristoteles e da de tradisiio, n%oC mais hierarquizado, ordenado e finalizado em fun@o do homem. E perdem todo valor os discursos vazios e os ensinamentos de certa tradi@o filo- s6fica privada de contato com a experiencia. Enquanto sobre o mundo nos dao informac;6esas teorias construidas sobre "sensatas experiencias" e "necessarias demonstrac;6es".A experiencia cientifica de Galileu e o experimento, que se faz para ver se uma suposi$lo corresponde ou nso a realidade. a vida e As eta pas wais iwpo~tantes Convidado a ensinar em Pidua, Galileu da sua aula inaugural em 7 de dezembro de na vida de G a l i l e ~ 1592. Ele permanecerii durante dezoito anos (at6 1610) em Pidua, os anos mais belos de Galileu Galilei nasceu em Pisa, em 15 sua vida. Professor de matemiitica, comen- de fevereiro de 1564, filho de Vincenzo, ta o Almagesto de Ptolomeu e os Elementos musico e comerciante, e de Giulia Amman- de Euclides. Entre 1592 e 1593 elabora sua nati de Pescia. Em 1581, ja estava inscrito Breve instru@o de arquitetura militar, o entre os "alunos artistas" do Estudio de Pisa. Tratado das fortifica~6es as Mecdnicas. 0 e Deveria tornar-se mCdico, mas dedicou-se Tratado da esfera ou Cosmografia C de aos estudos de matemitica, sob a oriental50 1597, obra em que Galileu ainda exp6e o de Ostilio Ricci, discipulo d o algebrista sistema geomttrico de Ptolomeu. Entretan- Nicolau Tartaglia, a quem devemos a f6r- to, duas cartas dessa Cpoca (a primeira para mula de resolus50 das equag6es de terceiro Jacopo Mazzoni, em 30 de maio de 1597; a grau. Em 1585, Galileu escreve os Teore- segunda para Kepler, de 4 de agosto do mes- mas sobre o centro de grauidade dos soli- mo ano) indicam que ele j i abragara a teo- dos, em latim. Em 1586, publica a Bilan- ria copernicana. Freqiienta os ambientes cetta, onde se mostra evidente a influcncia culturais paduanos e venezianos, tendo es- do "divino Arquimedes" e onde - e esse treitado amizade com Giovanfrancesco Sa- C o dado importante - mais do que inda- gredo (nobre veneziano e estudioso de 6ti- gar sobre a natureza dos corpos, procura- ca), com frei Paulo Sarpi e com frei Fulgincio se determinar seu peso especifico. Para Micincio. Galileu, a Bilancetta constitui "sua estrkia Ainda em Veneza, relaciona-se com na produs50 cientifica". Entrementes, po- Marina Gamba, da qua1 teri trCs filhos: rCm, ele tambCm cuidava de seus interesses Virginia, Livia e Vincenzo. Em Padua, esta- humanisticos, como mostram as duas au- belece amizade com o aristotilico CCsar las que ministrou na Academia Florentina, Cremonini. Em 1606, publica As opera~Ges em 1588, Sobre a figura, o local e a grande- do compasso geome'trico militar. za do inferno de Dante e as Considera~Ges Em 1609, tendo recebido a noticia so- sobre Tasso, que remontam aproximada- bre a luneta, a reconstrbi por sua conta e a mente ao ano de 1590. Nomeado profes- aperfeigoa. Depois, ousa a~onta-la supe- in sor de matematica em Pisa em 1589, com o rioribus e faz as rumorosas descobertas as- apoio do cardeal Francisco del Monte, em tron6micas expostas no Sidereus Nuncius, 1590 Galileu escreveu o De Motu, cuja te- de 1610. Ainda em 1610, jii famoso, C agra- oria central, embora modificada, ainda C a ciado pel0 gr5o-duque Cosme 11, dos MCdici, teoria do impetus. com o cargo (muito rentivel) de "matemfi-
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    193 Capitdo de'cimo primeiro - O drama de Galileu e a f ~ . t n d a da cisncia modevna ~~o tic0 extraordinario do Estudio de Pisa", sem Galileu quem a batizou [...I. Ele deu o pri- ter obrigagiio de residincia local nem de meiro passo importante, abrindo desse ministrar ligoes, bem como o posto de "fi- mod0 o caminho, novo e imenso, que leva- losofo d o Serenissimo Duque". ria a mecBnica a progredir enquanto ciin- Em Florenga, prossegue suas pesquisas cia". Em Arcetri, Galileu teve o consolo de, astron6micas, mas sua ades5o ao coperni- por algum tempo, ser assistido pela irm5 canismo comega a criar-lhe as primeiras di- Maria Celeste (sua filha Virginia), que, no ficuldades. Entre 1613 e 1615, escreve as entanto, morreu em 2 de abril de 1643, aos famosas quatro cartas copernicanas sobre trinta e trEs anos. Para Galileu, essa morte as relaq6es entre ciincia e f i : urna ao seu foi "matiria de inconsoliivel pranto". Pou- discipulo, o beneditino Benedetto Castelli; cos dias depois, em urna carta ao irmiio de duas a dom Piero Dini e urna ii senhora sua nora, Geri Bocchineri, que era empre- Cristina de Lorena, grii-duquesa da Toscana. gado nos escritorios do govern0 griio-ducal, Acusado de heresia devido a o seu coper- Galileu escreverii estas palavras: " [Sinto] tris- nicanismo, e depois denunciado ao Santo teza e melancolia imensas, inapetencia ex- Oficio, foi processado em Roma em 1616, trema, tornei-me odioso para mim mesmo. sendo-lhe impost0 niio ensinar nem defen- E sinto que sou continuamente chamado der com a palavra e com escritos as teorias pela minha querida filhinha." incriminadas. Da polcmica com o jesuita Para compreender as relag6es entre Horacio Grassi sobre a natureza dos come- Galileu e sua filha predileta, que foi mulher tas nasceu o Saggiatore, publicado em 1623. de finissimos sentimentos e de "elevado in- Essa obra defende urna teoria dos cometas telecto", basta acenar a algumas cartas por que depois se revelaria equivocada (Galileu ela enviadas a o pai, em Roma, depois da sustentava que os cometas seriam aparin- condenagiio de 1633. Galileu n5o queria que cias produzidas pela luz refletida sobre os a noticia de sua condenagiio chegasse aos vapores de origem terrestre). Entretanto, ouvidos de sua filha, freira e pessoa de gran- como veremos adiante, nela ja siio propos- de sensibilidade religiosa. Mas tratava-se de tos alguns dos elementos basicos da concep- um fato que n5o podia ficar oculto. Tiio lo- giio filosofica e metodologica de Galileu. go a irmii Maria Celeste soube da condena- Em 1623 subiu a o trono pontificio, $50 do pai, enviou-lhe urna carta (em 30 de com o nome de Urbano VIII, o cardeal Maf- abril): "Carissimo senhor pai, quis escre- feo Barberini, amigo de Galileu, que ja lhe ver-lhe agora, de mod0 que saiba que estou havia sido favorivel e que chegara a prote- a par de suas vicissitudes, o que Ihe deve ger o proprio Campanella. Retomando co- servir como lenitivo. E deixei de escrever ragem e esperanga, Galileu escreve o Dialo- qualquer outra carta, desejando que essas g o sobre os dois maximos sistemas d o coisas desgostosas sejam so minhas [...I." mundo (1632). Apesar das precaug6es to- Nos primeiros dias de julho, escreve-lhe no- madas, niio foi dificil compreender que a vamente: "Carissimo senhor pai: agora i o nova obra representava a mais firme defesa momento de, mais do que nunca, langar miio do copernicanismo. Novamente processa- daquela prudincia que Deus nosso Senhor d o em 1633, Galileu foi condenado e obri- lhe concedeu, suportando esses golpes com gado a abjurar. Logo a prisiio perpitua foi a fortaleza de espirito que a profissiio, reli- comutada com a pena de confinamento, pri- giiio e idade exigem. E corno, pela muita meiro junto ao seu amigo Ascsnio Piccolo- experiincia, o senhor pode ter plena cons- mini, arcebispo de Siena, que o tratou com ciincia da falicia e instabilidade de todas muita atengiio, e depois em sua casa de as coisas deste pobre mundo, niio devera Arcetri, onde niio podia encontrar ninguim fazer muito caso dessas borrascas; alias, nem podia escrever nada sem autorizagiio pode a t i esperar que logo se aquietem, trans- privia. formando-se em satisfagiio para o senhor." Foi precisamente na solid50 de Arcetri E em 16 de julho: "Quando V. Sa.estava em que Galileu escreveu sua obra mais original Roma, dizia-me em meus pensamentos: se e de maior relevo: os Discursos e demons- eu tiver a graqa que ele parta de la e venha t r a ~ o e matematicas sobre duas novas ci8n- s para Siena, isso me bastara, pois poderei cias, que foram publicados em Leiden, em quase dizer que estara em sua casa. E agora 1638. Mais tarde, escreveria Lagrange: "A n5o me contento, pois morro de vontade diniimica C urna ciincia devida inteiramen- de ti-lo aqui mais proximo". Tendo, por- te aos cientistas da ipoca moderna. Mas foi tanto, a irmii Maria Celeste morrido em
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    1634, Galileu ficouinconsolavel. Depois, co de Viviani, Galileu "com filosofica e cris- portm, pouco a pouco se recuperou, re- tii consciencia entregou a alma a seu Cria- tornou B c i h c i a e escreveu seus grandes dor, saindo desta vida - e nos alegramos Discursos. N o ultimo periodo de sua vida, em crer nisso - para desfrutar e ver mais Galileu perdeu a visiio e foi acometido de de perto aquelas maravilhas eternas e imu- muitos e graves sofrimentos. Na noite de 8 tiveis que, por meio de fragil artificio, mas de janeiro de 1642, assistido por seus dis- com t a n t a avidez e impaciincia, ele ha- cipulos Vincenzo Viviani e Evangelista Tor- via procurado aproximar de nossos olhos ricelli, como podemos ler no Relato histori- mortais".
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    195 Capitulo decimo primeiro - O drama cle L i a l i l r ~ a fundnc&o da ciGncia modevna e 3 f Iuneta o ceu, Galileu comesou a acumular toda uma sCrie de provas que, por um lado, asses- c o w 0 instvuwento cientifico tavam golpes decisivos ?i veneravel imagem aristotilico-ptolomaica do mundo, enquan- Em 1597, em uma carta a Kepler, Gali- to, por outro lado, afastavam do caminho leu afirma ter aderido "ja ha muitos anos os obstaculos que se interpunham ?i aceita- [...] a doutrina de CopCrnico". E acrescen- @o do sistema copernicano, oferecendo a ta: "Partindo dessa posiqiio, descobri as cau- este uma forte cadeia de suportes. sas de muitos efeitos naturais, que, sem du- Na primavera de 1609, Galileu teve a vida alguma, siio inexplicaveis com base na informaqiio de que "certo flamengo fabri- hipotese corrente. J i escrevi muitas argu- cara uma lente atravCs da qua1 os objetos mentaq6es e muitas refutaq6es dos argumen- visiveis, mesmo muito distantes do olho do tos contrarios, mas ate agora n5o ousei observador, podiam ser vistos distintamen- publica-las, apavorado com o destino do te como se estivessem proximos". A noticia proprio CopCrnico, nosso mestre". Poucos foi-lhe confirmada logo depois, de Paris, por anos depois, portm, essas preocupaq6es e um ex-discipulo, Tiago Badoukre, "o que esses temores desvaneceram-se totalmente, constituiu por fim o motivo que me impeliu cpando, em 1609, apontando a luneta para a dedicar-me totalmente a procurar as ra-
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    z6es e cogitaros meios pelos quais eu pode- Della Porta que, com sua Magia natural ria chegar i invenqiio de um instrumento i (1589), arrancou as lentes do mundo dos semelhante". Entiio Galileu preparou um tu- artesiios para engloba-las na filosofia. E tan- bo de chumbo, a cujas extremidades apli- to Della Porta como Kepler (nos Paralipo- cou duas lentes, "ambas planas de um lado, menu ad Vitellionem, 1604) "chegaram bem ao passo que, do outro, uma era convexa e perto da luneta, quase que raspando-a a outra c6ncava; aproximando o olho da c6n- ponto de escrever frases que podiam fazer cava, vi os objetos bastante grandes e pro- crer que a haviam encontrado, mas niio con- x i m o ~ja que apareciam trzs vezes mais pro- , seguiram concretizh-la". Niio havia con- ximos e nove vezes maiores do que quando fianqa nas lentes, pensava-se que elas "en- eram vistos apenas com a visiio natural. De- ganavam", havia a idCia de que os olhos que pois, preparei outro, mais exato, que repre- o born Deus nos deu eram suficientes para sentava os objetos mais de sessenta vezes ver as coisas que existem, niio necessitando maiores". E por fim, diz ainda Galileu, "sem de "aperfeiqoamentos". AlCm disso e acima poupar esforqo nem despesa alguma, che- de tudo, havia arraigados preconceitos por guei a ponto de construir um instrumento parte da cultura acadzmica e eclesiastica em tiio excelente que as coisas vistas por meio relaqiio A artes meciinicas. Mesmo depois, s dele aparecem quase mil vezes maiores e a express50 "vil meciinico" seria tomada mais de trinta vezes mais proximas do que como ofensa. E o proprio Della Porta, em quando olhadas apenas com a faculdade 28 de agosto de 1609, ou seja, quatro dias natural. Seria inteiramente suptrfluo enu- depois que Galileu escreveu ao doge Leo- merar quantas e quais siio as vantagens desse nardo Donato apresentando-lhe a luneta, instrumento, tanto na terra como no mar". enviaria de N b o l e s uma carta a Federico Em 25 de agosto de 1609, Galileu apresen- Cesi, fundadorLda Academia dos Linceus, tou a o governo de Veneza aquele aparelho, na qua1 li-se: "Vi o segredo da lente: C uma como invenqiio sua. 0 entusiasmo foi gran- burla, que examinei em meu livro De refuac- de, tanto que a renda anual de Galileu foi tione. E a escreverei, pois que, querendo-a aumentada de quinhentos para mil florins, fazer, apesar de tudo, V.E. se comprazera sendo-lhe tambkm feita a proposta de reno- nisso." vaqiio vitalicia do contrato de ensino, cujo Em substiincia, a importiincia de Gali- prazo se encerraria no ano seguinte. leu em relaqiio a luneta esta no fato de que Ora, como observou Vasco Ronchi, a ele superou toda uma sCrie de obstaculos invenqiio da luneta por obra de holandeses epistemologicos, ou seja, idCias que proi- ou at6 mesmo, um pouco antes, por miios biam outras idCias e posteriores pesquisas. de italianos, ou a redescoberta e reconstru- 0 s militares niio se desconcertaram diante qiio da luneta por parte de Galileu niio C um da novidade e o ~ u b l i c o culto niio manifes- episodio que possa causar grande admira- tou nenhuma confianca na luneta. Dizia-se. $50. 0 fato realmente importante C que por exemplo, que ela niio proporcionava Galileu levou a luneta para dentro da cicn- imagens veridicas, mas Galileu confessa a cia, usando-a como instrumento cientifico Matteo Carozio que experimentou seu te- e concebendo-a como potencializa@o dos lescopio "cem mil vezes em cem mil estrelas nossos sentidos. e objetos diversos". Diz Geymonat que a A filosofia da Idade Midia havia igno- observaqiio desses "objetos diversos tinha a rado as lentes de oculos, coisa para doen- funciio de fornecer-lhe Drovas da veridici- tes, para velhos ou para fazer truques du- dad; do aparelho, ao pisso que a observa- rante as feiras. Elas foram estudadas por qiio das estrelas visava a dar-lhe provas de Francisco Maurolico, mas foi Giambattista sua importiincia". "'m
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    197 Capitulo de'cimo primeiro - 6 drama de Galileu e n fundnG60 d n c l j n c l n vnodrrnn 111. 0S i d e v e u s f l u m c i u s e as confirmaG6es do sisteena copernicano 5 ) Mas o argument0 mais importante do Sidereus Nuncius, para Galileu, k a des- coberta dos satklites de Jupiter (que, em homenagem a Cosme 11, dos Mkdici, ele Em 12 de marqo de 1610 Galileu publi- chamou de "estrelas mediceanas"), pois ca em Veneza o Sidereus Nuncius. assim es- dava a possibilidade de "revelar e divulgar crevendo no comeqo da obra: " ~ i i o verda- quatro planetas, nunca vistos desde as ori- deiramente grandes as coisas que proponho gens do mundo atk nossos dias, dando oca- neste tratado A visiio e A contemplaqiio dos siio de descobri-10s e estuda-los, alem de estudiosos da natureza. Grandes, digo eu, tan- sua posiqiio e das observaq6es feitas duran- to pela excelincia da matkria em si mesma te os dois ultimos meses sobre seus movi- como por sua novidade, jamais ouvida nos mentos e suas transformaq6esn. Essa des- tempos passados, como ainda pelo instru- coberta oferecia a Galileu a inesperada visiio, mento em virtude do qua1 essas coisas se tor- no ciu, de um modelo menor que o univer- naram manifestas ao nosso sentido". so copernicano. Eis as grandes coisas que Galileu pro- p6e h visiio e h contemplaqiio dos estudio- sos da natureza: 1)0 acrkscimo h multidiio das estrelas 1 0clroque fixas, bisiveis tambkm a olho nu, de "ou- e n t r e os w & i m o s sistemas tras inumeraveis estrelas jamais vistas an- tes". 0 universo, portanto, torna-se maior. 2) "Com a certeza que k dada pela ex- periincia sensivel", i possivel apreender que A medida que se obtinham confirma- "a lua n2o 6, em absoluto, feita de uma su- q6es da teoria copernicana, ao mesmo tem- perficie lisa e polida, mas escalavrada e de- po caia aos pedaqos a concepqiio do mundo sigual e, da mesma forma que a face da ter- aristotilico-ptolomaica. Antes de mais nada, ra, apresenta-se em grande parte coberta de contra Aristoteles e Ptolomeu, Galileu pode grandes proeminincias, profundos vales e sustentar que niio ha diferenqa de natureza sinuosidades". Esse resultado i de grande entre a terra e a h a : portanto, entre os as- relevsncia, pois destroi a distinqiio entre tros, pelo menos a lua niio possui as carac- corpos terrestres e corpos celestes, uma dis- teristicas de "absoluta perfeiqiio" que a tra- tinqiio que era um verdadeiro pilar de sus- diqiio a ela atribuia; ademais, embora sendo tentaqiio da cosmologia aristotilico-ptolo- como a terra, a lua se move e, sendo assim, maica. por que niio deveria mover-se tambCm a ter- 3) 0 dado de que a galaxia "nada mais ra, que, precisamente, niio i de natureza di- k do que um amontoado de inumeraveis ferente da h a ? Assim, a imagem do universo estrelas, disseminadas aos punhados; para niio somente se amplia, atravis da observa- qualquer regiiio dela que se dirija a luneta, qiio das galaxias, das nebulosas e de outras logo grande multidiio de estrelas apresenta- estrelas fixas, mas tambim muda: o mundo se A vista [...In. Atravis dessa observaqiio, sublunar niio C diferente do lunar. E muda Galileu sustenta ficarem resolvidas. "com a tambim pelo fato de que a observaqiio das certeza que k dada pelos olhos, tod& as dis- estrelas fixas nos p6e em condiq6es de dizer putas que por tantos skculos atormentaram que elas estiio muito mais distantes dos pla- os filosofos, libertando-nos de discuss6es netas e niio apenas por detras do ciu de Sa- verbosas". turno, como exigia a tradiqiio. E, como dis- 4) "Ademais (maravilha ainda maior), semos, com seus satilites Jupiter oferecia um as estrelas chamadas atk hole pelos astr6- modelo em escala reduzida do sistema co- nomos individualmente como nebulosas sao pernicano. amontoados de pequenas estrelas, dissemi- Assim, est2o em competiqiio duas gran- nadas de modo admiravel". des teorias. Trata-se de dois sistemas: o
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    ptolomaico (com aterra fixa no centro e o sol girando) e o copernicano (no qua1 6 a terra que gira em torno do sol). Com o Side- reus Nuncius, Galileu apresenta argumen- tos contra o primeiro e em favor do segun- do: cada argument0 que corrobora a teoria copernicana C mais um golpe que atinge a concepqiio ptolomaica. Mas as coisas n3o ficam nisso. Com efeito, pouco antes de partir de Padua, transferindo-se para Florenqa, e logo no inicio do seu period0 florentino (11 de setembro de 1611), Galileu efetua outras observaq6es de importincia capital para o fortalecimento da doutrina de Copernico e que, a o mesmo tempo, iriam acabar de de- molir o sistema de Ptolomeu. Antes de mais nada, ele nota o aspect0 tricorporeo de Sa- turno (trata-se do anel de Saturno, que n3o podia ser distinguido pela luneta de Galileu), mas sobretudo descobre as fases de Vinus e as manchas do sol. Vgnus mostra fases como a lua: essa e uma "sensata experiincia", explicavel na teoria copernicana, mas n5o na de Aristoteles e Ptolomeu. Desse modo, "temos [. ..] fatos certos de que todos os pla- netas recebem a luz do sol, sendo por sua natureza escuros". Ademais, Galileu esta certo "de que as estrelas fixas G O por si mesmas muito luminosas. n3o tendo neces- sidade da irradiaqio do sol, que s6 Deus sabe se chega a tanta distincia". A proposito das manchas solares, escrevendo a Federico Cesi em 1 2 de maio de 1612, Galileu afirma que tal novidade C "o funeral ou, mais, o extre- mo e ultimo juizo sobre a pseudofilosofia". Ao contrario do que sustenta a concepqiio aristotklica. tambkm no sol ocorrem muta- q6es e alter&ies. Chegado a esse ponto, Galileu ja n3o sabe imaginar como C que os peripateticos vio (Crist6vio Klau), professor de matema- poderiam salvar e manter a "imutabilidade tica no ColCgio Romano, a fim de salvar a dos cCus". Na realidade, os peripatCticos co- "perfeiq30n da h a , cogitou a hipotese de gitariio "imaginaq6esn (hoje, diriamos "hi- que as montanhas e os vales observados por poteses ad hoc") em favor do sistema ptolo- Galileu sobre a face da lua seriam recobertos maico em perigo. Assim, por exemplo, o Dor uma substincia cristalina transuarente jesuita Cristovio Scheiner interpretara as e perfeitamente esfkrica. Assim, diante dos manchas solares como "enxames" de astros ataques "factuais" realizados por Galileu girantes diante do sol. Essa hipotese visava contra a teoria ptolomaica, Clavio efetuava levar a causa das manchas para fora do sol, um contra-ataque "teorico" (logicamente restabelecendo assim a imutabilidade e a possivel, mas metodologicamente incorre- "perfeita" constituiqiio do sol. Mas Galileu to, porque, impedindo a descoberta de er- .. fez notar que as manchas eram irregulares em sua formaqiio e desenvolvimento, alkm . ros em uma teoria., i m ~ e d i a avanco no o sentido de teorias melhores e., uortanto. o L de serem disformes, n30 apresentando por- progress0 do saber), um contra-ataque vol- tanto, em absoluto, as caracteristicas de um tad0 para o restabelecimento da velha teo- sistema de astros. Outro jesuita, o padre Cla- ria. E Galileu respondeu a Clavio:
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    199 Capitulo de'cimo primeiro - O d m m a d r Galileu r a fundac&o d a cizncia modevna "Verdadeiramente, a imaginaqao e bela mente a favor do primeiro. Como escreve (...);so peca por niio ser demonstrada nem Thomas S. Kunh: "A teoria de Copirnico demonstriivel." Naquela ipoca, a hipotese [...I sugeria que os planetas deviam ser se- de Clavio, com efeito, niio podia ser verifi- melhantes a terra, que VEnus devia apresen- cada empiricamente (mas hoje o seria): como tar fases e que o universo devia ser muito podia Clavio provar a existhcia de uma mais amplo do que se supusera anteriormen- esfera cristalina circundando a lua? E se fos- te. Conseqiientemente, quando, sessenta se dito que ha uma substhcia cristalina so- anos depois de sua morte, o telescopio reve- bre a lua, mas disposta em forma de vales e lou repentinamente a existhcia de monta- montanhas, de que mod0 Clavio poderia nhas sobre a lua, as fases de VCnus e um demonstrar a falsidade dessa hipotese? A numero imenso de estrelas, de cuja existh- realidade i que a "revoluqao cientifica ope- cia niio se suspeitava antes, essas observa- rada por Galileu niio se baseia somente nas q6es converteram a nova teoria numerosos novidades contidas em (suas) descobertas, cientistas, particularmente entre os que nao mas tambim e sobretudo na nova maturi- eram astrbnomos". Mas, com isso, Galileu dade metodologica por elas revelada" (L. havia estabelecido todas as condiq6es que o Geymonat). Em todo caso, por meio de suas levariam ao choque com a Igreja. descobertas astronbmicas, Galileu resolveu E pouquissimos o defenderam aberta- a disputa entre o sistema copernicano e o mente: entre os que o defenderam, estava sistema aristotilico-ptolomaico completa- Campanella. IV. ClalileM: as raizes do choqMe cow a Jgreja ,,, A origern dos dissidios somente instrumentos capazes de fazer previ- s6es sobre os movimentos celestes com maior entre Cialilem e a Jgreja rapidez. Em sua A ceia das cinzas, Giordano Bru- no voltou-se contra a interpretaqiio instru- Copirnico havia afirmado que "todas mentalista das teorias de Copirnico dada as esferas giram em torno do sol como ao por Osiander, afirmando que tudo o que Co- seu ponto central e, portanto, o centro do pirnico escreve na carta dedicatoria a Pau- universo esta em torno do sol". Ele pensava lo 111, introdutoria ao De revolutionibus, que se tratasse de uma representa@o ver- mostra claramente que ele niio i apenas um dadeira do universo. "matemiitico que sup6en, mas tambim um Mas, como sabemos, no prefacio ao De "fisico que demonstra o movimento da ter- revolutionibus, o luterano Andreas Osiander ra". E acrescentava que o prefacio anbni- (1498-1552) afirmou que "nao 6 necessa- mo (de Osiander) foi "grudado" B obra de rio que essas hipoteses sejam verdadeiras e Copirnico "niio sei por qua1 asno ignoran- nem mesmo verossimeis; basta apenas que te e presunqoso". E tambtm para Kepler "as elas ofereqam c ~ l c u l o sem conformidade hip6teses de Copirnico niio apenas nao es- com a observa~iio". Ptolomeu, cujas teorias tao erradas em relaqiio a natureza, mas es- entravam em colisiio com a fisica de Aristo- tiio ate em maior conson2ncia com ela. Com teles, tambem sustentara que suas hipoteses efeito, a natureza ama a simplicidade e a fossem "calculos matematicos" em condi- unidade [. ..I" e Copirnico conseguiu "niio q6es de "salvar as aparcncias" e niio descri- apenas [. ..] demonstrar os movimentos trans- ~ 6 e verdadeiras dos movimentos reais. Para s corridos, que remontavam a distante anti- Osiander, portanto, como ja ocorrera com guidade, mas tambim os movimentos futu' Ptolomeu, as teorias astronbmicas eram ros, se niio de mod0 certissimo, pel0 menos
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    200 Segunda parte - A cientifica revoIui~o de modo mais seguro d o que o faziam Ptolomeu. Afonso e outros". ~ ~ o iporCm, a defesa da tese realista a , Anticopernicanos. (a tese segundo a qual o sistema copernicano seria uma descriqao verdadeira da realida- Jean Bodin: "Nenhum homem em de e n i o um conjunto de instrumentos de plena posse de suas faculdades men- calculo para fazer previs6es ou possibilitar tais, ou entgo dotado das mais ele- um calendario melhor) n5o podia deixar mentares noq6es de fisica, jamais po- de parecer perigosa para todos aqueles dera crer que a terra, pesada e lenta que, catolicos ou protestantes, pensavam por seu proprio peso e pela sua mas- sa, se agite para cima e para baixo em que, em sua versiio literal, a Bibl~a niio po- redor de seu centro e do sol, pois, ao dia errar. 0 Eclesiastes (1,4-5) diz que "a minimo abalo da terra, veriamos des- terra permanece para sempre (em seu lugar)" moronar as cidades e fortalezas, al- e que "o sol se levanta, o sol se deita, apres- deias e montanhas". sando-se a voltar ao seu lugar". J i em JosuC Martinho Lutero: "As pessoas deram (10,13), pode-se ler que JosuC ordenou ao ouvidos a um astrologo de quatro vin- sol que se detivesse. Pois bem, foi com base tens, que se empenhou em demons- nesses trechos da Escritura que Lutero, Cal- trar que e a terra que gira, e nao os v i n ~ Melanchton opuseram-se duramente e ceus e o firmamento, o sol e a lua [...I. B teoria copernicana. Este louco pretende abalar toda a Se o copernicanismo parecia perigoso ci6ncia astron6mica; mas a Sagrada para os protestantes, fautores do contato Escritura nos diz (Josue 10,13) que imediato de cada crente com as fontes tes- Josue ordenou ao sol e n%oa terra que parasse". tamentirias, muito mais perigoso devia ser para os catolicos, segundo os quais a inter- Filipe Melanchton: " 0 s olhos nos mos- pretaqao da Sagrada Escritura depende do tram corn toda evid6ncia que os ceus magistirio eclesiastico. A Contra-reforma realizam uma revoluq;?~ espaqo de no n i o poderia admitir que um crente qualquer vinte e quatro horas. Todavia, alguns, por causa de novidades ou para dar - mesmo aue fosse um Galileu - estabe- prova de engenho, sustentaram que lecesse os principios hermeneuticos de in- a terra se move [...I. E falta de hones- terpretaqao da Biblia e propusesse inter- tidade e de dignidade sustentar pu- pretaqoes deste ou daquele trecho. Ai reside blicamente tais conceitos, e o exem- a raiz do choque entre Galileu e a Igreja. E plo e perigoso". ai residem as raz6es da interpretaqao ins- J O ~ Calvino: "Quem tera a ousadia O trumentalista do copernicanismo proposta de antepor a autoridade de Coper- por Belarmino e rejeitada pelo realista nico a do Espirito Santo?". Galileu. Roberto Belarmino: "Digo que [...I o Concilio proibe expor as escrituras contra o consenso comum dos san- tos Padres; e se VSa. quiser ler n%o dig0 apenas os santos Padres, mas os comentarios modernos sobre o Genesis, sobre os Salmos, sobre o Ecle- siastes, sobre Josue, encontrara que Em 1615, em Napoles, onde ensinava todos conv6m em expor ad litteram que o sol esta no ceu e gira ao redor filosofia e teologia, o matematico e teologo da terra com suma velocidade, e que carmelita Ant6nio Foscarini (1565-1616)pu- a terra encontra-se afastadissima do blicou uma Carta sobre a opiniiio dos pita- cCu e esta no centro do mundo, imo- goricos e de Cope'rnico, na qual se harmoni- vel. Considere entgo o senhor, com zam e se apaziguam as passagens da Sagrada sua prudencia, se a lgreja pode su- Escritura e as proposigoes teologicas, que portar que se d6 as Escrituras um jamais se poderiam apresentar contra tal sentido contrario aos santos Padres opiniiio. Foscarini enviou seu pequeno tra- e a todos os expositores gregos e la- tado a Belarmino, pedindo ao cardeal um tinos". parecer sobre ele. E Belarmino responde com breve carta, "porque o senhor agora tem pouco tempo para ler e eu para escrever".
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    201 Capitulo de'cimo primeiro - 8dmmn de G ~ I I I c u r n funr)aG80 dn clsncin modema Essa breve carta C um texto classico do ins- que seja para proibir, mas crt que o pior trumentalism~. Belarmino recorda a Fosca- que possa acontecer-lhe seria fazer-lhe uma rini que, "como sabe o senhor, o Concilio advertencia de que sua doutrina teria sido proibe que se exponham as Escrituras con- introduzida para salvar as apartncias, ou tra o comum consenso dos santos Padres. E coisa semelhante, dirigida aqueles que in- se V. Sa. quiser ler, nzo digo somente os san- troduziram os epiciclos e depois n5o acre- tos Padres, mas tambCm os comentadores ditaram mais [. ..] ". modernos, sobre o Gtnesis, sobre os Sal- Pois bem, respondendo de Florenqa a mos, sobre o Eclesiastes e sobre Josuk, vera Dini, em 23 de marqo, Galileu reafirmou a que todos convergem em expor ad litteram veracidade do sistema copernicano. Na opi- que o sol esta no ciu e gira em torno da niio de Galileu, CopCrnico falou da cons- terra com suma velocidade, bem como que tituigiio do universo e descreveu aquilo que a terra esta muito distante do cCu e esta no existe realmente in rerum natura, "de mod0 centro do mundo, imovel. E considere ago- que querer persuadir que CopCrnico n5o ra o senhor, com sua prudtncia, se a Igreja considerava verdadeira a mobilidade da pode suportar que se d t as Escrituras um terra, a o meu ver, niio poderia encontrar sentido contrario aos santos Padres e a to- concordiincia, sengo, talvez, junto a quem dos os expositores gregos e latinos". Mas niio o tenha lido, visto que todos os seus logo afirma: "Quanto a o sol e a terra, ne- seis livros estio plenos de doutrina que de- nhum sabio tem necessidade de corrigir o pende da mobilidade da terra, explicando- erro, porque experimenta claramente que a a e confirmando-a. E se, em sua dedicato- terra esta firme e que o olho n i o se engana ria, ele muito bem entende e confessa que quando julga que a lua e as estrelas se mo- a posiqiio da mobilidade da terra o levaria vem". Sendo assim, e considerando que o a ser considerado tolo universalmente, jui- Concilio tridentino proibiu interpretar as Es- zo que ele afirma n3o levar em conta, mui- crituras "contra o comum consenso dos san- to mais tolo teria sido ele deixar-se repu- tos Padres", Belarmino afirma: "Parece- tar por uma opiniiio por ele introduzida, me que V.Sa. e o senhor Galileu seriam mas n i o inteira e verdadeiramente acre- prudentes em contentar-se de falar ex suppo- ditada". sitione e niio em absoluto, como sempre Em suma, CopCrnico n5o C um "mate- acreditei que Copirnico tenha feito. Pois matico" que apronta hipoteses como puros dizer que a suposiqio de que a terra se move instrumentos de calculo, mas sim um fisico, e o sol esta firme salva as apartncias melhor que pretende dizer como realmente siio as que os exchtricos e epiciclos esta muito coisas. Em conseqiitncia disso, prossegue bem dito, niio havendo perigo algum - Galileu, CopCrnico "nio C capaz de mode- e isso basta para o matematico. Mas que- raggo, constituindo a mobilidade da terra e rer afirmar que realmente o sol esta no a estabilidade do sol o ponto principal de centro do mundo e s6 gira sobre si mes- toda a sua doutrina e o seu fundamento mo, sem correr do Oriente para o Ociden- universal: por isso, C preciso condena-lo in- te, e que a terra esta n o terceiro cCu e gi- teiramente ou deixa-lo em seu ser". ra com suma velocidade em torno do sol C Realista C Coptrnico e realista C Gali- coisa perigosa, capaz n i o somente de irri- leu. Mas se, como fazia Belarmino e, com tar todos os filosofos e teologos escolasti- ele, a Igreja, se sup6e que as passagens da cos, mas tambCm arriscado de incomodar Biblia relativas a o sistema do mundo, in- a Santa S por tornar falsas as Escrituras Sa- C terpretadas literalmente pela tradiqio, s5o gradas." efetivamente verdadeiras e intocaveis, en- Galileu, porCm, n5o era da opiniao de tZo o choque frontal entre a Igreja e Gali- Belarmino. Para ele, as "sensatas experitn- leu tornava-se inevitavel, dada a interpre- cias" e as "demonstraq6es certas" estavam taqiio galileana realista da doutrina de ali, proclamando a veracidade d o sistema Copirnico, doutrina que contrastava com copernicano. Em 7 de marqo de 1615, dom as passagens biblicas referidas e interpreta- Piero Dini, que era ent5o referendario apos- das ao pC da letra. E foi sobre esse aspect0 tolic~ junto i corte pontificia, enviou uma importante que acabou ocorrendo o cho- carta a Galileu, informando ter mantido que entre Galileu e a Igreja. Galileu teve de longo coloquio com o cardeal Belarmino e ceder. Mas primeiro vejamos de que mod0 comunica-lhe o seguinte: "Quanto a Co- Galileu concebia as relaqoes entre citncia pCrnico, diz S.S. Ilma. ngo poder acreditar e fC.
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    Em suma: niioi intenqiio da Sagrada Escritura "nos ensinar se o ciu se move ou esta firme, nem se sua figura C em forma de esfera, de disco ou estendida num plano, nem se a terra esta contida em seu centro ou de um lado". Por isso, "tambim niio tera Por um lado, Galileu teoriza a demar- tido nem mesmo a intenqiio de nos tornar caqiio entre proposiqdes cientificas e propo- certos de outras conclusdes do mesmo gi- siqdes de fC, reclamando a autonomia dos nero, relacionadas com as que agora referi- conhecimentos cientificos, que siio compro- mos, sem cuja determinaqiio niio se pode vados e avaliados por meio da aparelhagem asseverar esta ou aquela posiqiio, como seja constituida pelas regras do mitodo experi- a determinaqiio do movimento ou da quie- mental ("sensatas experiincias" e "demons- tude da terra e do sol". traq6es certas"). Mas, por outro lado, essa autonomia das ciincias em relaqiio as Sa- gradas Escrituras encontra sua justificaqiio no principio (que, em sua carta a senhora Cristina de Lorena, em 1615, Galileu diz ter ouvido do cardeal BarBnio) de que "a in- tenqiio do Espirito Santo i a de nos ensinar como se vai ao cCu e niio como uai o cCu". Conseqiientemente, niio sendo funqiio Apoiando-se em s a n t o Agostinho ( I n da Escritura determinar "a constituiqiio e Genesim ad litteram, lib. 1 , c. 9), Galileu 1 os movimentos dos cCus e das estrelas", Ga- afirma que "niio somente os autores das lileu chega a afirmar: "Parece-me que, nas Sagradas Escrituras niio pretenderam nos dis~utas sobre problemas naturais, niio se ensinar a constituiqiio e os movimentos dos deveria comeqar pela autoridade de passa- cCus e das estrelas, com suas figuras, gran- gens das Escrituras, mas sim pelas sensatas dezas e disthcias, mas tambim, estudan- experiincias e pelas demonstraqdes neces- do-se bem, embora todas essas coisas fos- sarias: pois, procedendo do verbo divino a sem conhecidissimas deles, vi-se que eles se Escritura sagrada e igualmente a natureza, abstiveram disso". Diz Galileu que Deus nos aquela como ditada pelo Espirito Santo e deu sentidos, discurso e intelecto: C por meio esta como observantissima executora das deles que podemos chegar aquelas "conclu- ordens de Deus; e mais, convindo as Escri- sdes naturais" que podem ser obtidas "pe- turas, para acomodar-se a o entendimen- las sensatas experiCncias ou pelas necessa- to universal, dizer muitas coisas diversas da rias demonstraqdes". verdade absoluta, em aspecto e quanto ao A Escritura niio 6 u m tratado de astro- cru sipificado das palavras; mas, ao con- nomia, tanto que, "se os escritores sagra- trario, sendo a natureza inexoravel e imu- dos houvessem pensado em persuadir o tivel e nunca niio-transcendente aos termos povo das disposiqdes e dos movimentos dos das leis que Ihe 60 impostas, como a de que corpos celestes e se, conseqiientemente, nos suas rec6nditas razdes e modos de operar devZssemos ainda ter essa informaqiio das estiio ou niio expostos capacidade dos Sagradas Escrituras, entiio, a meu ver, eles homens; parece entiio que a quest30 dos efei- niio teriam tratado tiio pouco do assunto, tos naturais que a sensata expericncia nos quase nada em comparaqiio com as infini- coloca diante dos olhos ou as demonstra- tas e admiraveis conclusdes contidas e de- qdes necessarias concluem, niio deva ser, por monstradas em tal ciincia". Com efeito, nas nenhuma raziio, posta em duvida, menos Escrituras niio encontramos nem mesmo ainda condenada, por passagens da Escri- nomeados os planetas, exceto o sol e a h a , tura que apresentassem aparincia diversa e somente uma ou duas vezes, sob o nome nas palavras, pois nem toda palavra da Es- de Lucifer, o planeta VCnus". critura esta ligada a obrigaqdes tiio severas
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    203 Capitulo de'cimo primeiro - 6 drama d r Galileu r a fundaG80 dn cii?ncia modrrna como todo efeito da natureza, nem se des- cobre Deus com menos excelencia nos efei- tos da natureza do que nas palavras sagra- Fe religiosa (finalidade da fe). das das Escrituras." "N%otendo desejado o Espirito San- Fica, portanto, reivindicada a autono- t o ensinar-nos s o ceu se move ou se e mia da ciencia: tudo aquilo de que podemos esta parado, nem se sua forma seja a ter informaqiio atravCs das "experiincias de esfera ou de disco ou estendida no sensatas" e das "necessarias demonstraq6es7' plano, nem se a terra esteja contida fica subtraido a autoridade das Escrituras. no centro dele ou de um lado, n%o tera tido nem mesmo a intengso de tor- nar-nos certos de outras conclusbes do mesmo gsnero, e ligadas de algum mod0 com as agora citadas, que sem a determinagao delas n%ose pode asserir esta ou aquela parte; corno, por exemplo, determinar o movimen- t o e o repouso de uma terra e do sol. N o entanto, se as Escrituras n i o s i o E se o proprio Espirito Santo pruden- um tratado de astronomia, qua1 C entio seu temente omitiu ensinar-nos tais pro- objetivo? De que nos falam? Qua1 C o sm- posigbes, como nada atinentes a sua bito das "verdades" que, n i o sendo englo- intengao, ou seja, para nossa salvag%o, como se podera agora afirmar, que biveis na cicncia, elas podem propor e es- manter delas esta parte, e n%o aque- tabelecer? A essas interrogaqoes, Galileu la, seja t%onecesdrio que uma seja responde o seguinte: "Eu consideraria [. ..] de fide, e a outra errbnea? Podera, que a autoridade das Sagradas Escrituras entao, haver uma opiniao heretica. e tenha o objetivo de persuadir os homens em nada referente a salvag%o das al- principalmente daqueles artigos e proposi- mas? Ou poderemos dizer que o Es- q6es que, superando todo discurso huma- pirito Santo tenha desejado n%oen- no, niio poderiam fazer-se criveis por outra sinar-nos uma coisa que s refere a e salvag$o?Eu diria aqui algo que,ouvi cihcia nem por outro meio senio pela boca de uma pessoa eclesiastica em emi- do proprio Espirito Santo". nentissimo grau [cardeal BarBnio], As proposiq6es de fide dizem respeito a isto e, a inteng8o do Espirito Santo 6 nossa salvaqiio ("corno se vai a o cCu7'),sen- nos ensinar como se vai ao ceu, e n%o do "decretos de absoluta e inviolivel vera- como vai o ceu [...Im. cidade". Em outros termos, a Escritura e Assim escrevia Galileu, em 1615, a se- uma mensagern de salvapio que deixa intacta nhora Cristina de Lorena. a autonomia da investiga@o cientifica. Mas n i o C so isso, pois Galileu se em- penha em outras importantes consideraq6es: 1) Erram aqueles que pretendem se deter sempre no "puro significado das pa- lavras", pois, caso se fizesse isso, escreve 3) A Escritura "niio apenas C capaz, Galileu numa carta de 1613 a dom Bene- mas necessariamente carente de exposiq6es detto Castelli, entio na Escritura "apare- diversas do aparente significado das pala- ceriam n i o somente diversas contradiqGes, vras", pois os escritores sacros dirigem-se "a mas tambCm graves heresias e blasfimias, povos rudes e indisciplinados" . ja que seria necessario ver em Deus pCs, 4) "Ademais, sendo manifesto que duas mios e olhos, bem como efeitos corporais e verdades n i o podem se contrariar nunca, C humanos, como os de ira, de arrependimen- funqio dos sabios expositores esforqarem- to, de odio e ate, por vezes, de esquecimen- se por encontrar o sentido das passagens to das coisas passadas e de ignorsncia das sacras, harmonizando-as com aquelas con- futuras". clus6es naturais que se tornaram certas e 2) Dai deriva que, tendo a Escritura seguras pelo sentido manifesto ou pelas de- sido obrigada a se "acomodar a incapaci- monstraq6es necessarias." dade do vulgo", entiio "os sabios exposito- 5 ) Desse modo, a cikncia torna-se um res produzem os virios sentidos e acrescen- dos instrumentos a serem usados para se tam as raz6es particulares pelas quais foram interpretar alguns trechos da Escritura. proferidas tais palavras". Com efeito, "tendo adquirido a certeza de
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    204 Segunda parte - A revaIu+a cientificn algumas proposiq6es naturais, devemos nos 3) devido i s suas finalidades. a Escri- servir delas como meios adequadissimos tura n i o tem nenhuma autoridade no aue ii verdadeira exposiqio das Escrituras e a se refere a todos aaueles conhecimentos investigaqio dos sentidos que necessaria- que podem ser estabelecidos por meio de mente estio contidos nelas, como verdadei- "sensatas experiincias e necessirias demons- ros e conformes com as verdades demons- traq6esn; tradas". 4) quando fala sobre aquilo que C ne- 6) Por outro lado, na carta a dom Piero cessario para a nossa salvaqio (ou sobre Dini, em 1615, Galileu afirma que C preciso coisas n i o cognosciveis por outro meio ou ter muita circunspecqiio "no que se refere por outra cihcia), a Escritura n i o pode ser iiquelas conclus6es naturais que n i o s i o de desmentida; fide, mas as quais podem chegar a expe- 5 ) entretanto, dado que escritores sa- rihcia e as demonstraq6es necessarias", e cros dirigiam-se ao "vulgo rude e indis- diz que "seria pernicioso asseverar como ciplinado", em muitas passagens a Escritu- doutrina resolvida nas Sagradas Escrituras ra necessita de interpretaqio; alguma proposiqzo da qual, alguma vez, 6) a citncia pode constituir um meio se pudesse ter demonstraqio em contrario". para interpretaqoes corretas; Com efeito, "quem quer p6r um termo ao 7) nem todos os intkrpretes da Escritu- gf nio humano? E quem podera afirmar que ra siio infaliveis; ja se sabe tudo aquilo que 6 sabivel no 8) n i o se pode comprometer a Escri- mundo?". tura em coisas que o homem pode conhecer 7) Em suma, a Escritura n i o deve ser com sua razio; comprometida por intkrpretes faliveis e n i o 9 ) a cicncia C aut6noma: suas verdades inspirados no que se refere a quest6es que s i o estabelecidas com sensatas ex~eriincias podem ser resolvidas pela razio humana. e demonstraq6es certas e n i o com base na Como a ciincia progride, C pernicioso pre- autoridade da Escritura; tender comprometer a Escritura em propo- 10) nas quest6es naturais, a Escritura siq6es (corno, por exemplo, as posiq6es de vem em ultimo lugar. Ptolomeu) que posteriormente poderzo ser Portanto, na opini2o de Galileu, ci8n- refutadas. Desse modo, "alCm dos artigos cia e fe' siio incomensuraveis. E. sendo inco- referentes a salvaqio e ao estabelecimento mensuraveis, s2o compativeis. Ou seja, n i o da fC, contra a firmeza dos quais n i o ha se trata tanto de um ou-ou, mas muito mais qualquer perigo de que possa se insurgir de um e-e. 0 discurso cientifico C um dis- nunca alguma doutrina valida e eficaz, tal- curso empiricamente control6ve1, que visa vez fosse um 6timo conselho n i o acrescenta- a nos fazer compreender como funciona este 10s outros sem necessidade. E, sendo assim, mundo, ao passo que o discurso religioso C quanto maior n i o seria a desordem o acres- discurso de salvaqio, que n i o se preocupa centi-10s a pedido de pessoas que, alCm de com "o que", ma? sim com o "sentido" das ignorarmos, se dizem inspiradas por virtu- coisas e da nossa vida. A citncia 6 cega para de celeste e vemos claramente que sso de o mundo dos valores e do sentido da vida; a todo despidas daquela intelighcia que se- fC C incompetente sobre quest6es factuais. ria necessaria, n i o digo para retrucar, mas CiEncia e fC tratam cada qual de suas ques- mesmo para compreender, as demonstra- t6es pr6prias: C essa a razio pela qual se q6es com as quais as agudas cihcias proce- harmonizam. Elas n i o se contradizem e nem ~ ~ dem na confirmaqio de algumas de suas con- podem se contradizer, ja que s i o incomen- clus6es?" suraveis: a cicncia nos diz "corno vai o ciu" Portanto: e a f6 nos diz "corno se vai ao cCu". 1)a Escritura C necessiria para a sal- Assim, quando emergem coisas que vaqio do homem; parecem contradiqijes, deve-se logo suspei- 2) os "artigos relativos i salvaqao e ao tar que o cientista transformou-se em meta- estabelecimento da f i n s i o t i o firmes que fisico ou entio que o homem religioso trans- contra eles "nio ha qualquer perigo de que formou o texto sagrado em um tratado de possa se insurgir um dia alguma doutrina fisica ou biologia (ou em algum capitulo de vilida e eficaz"; tais tratados).
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    Capitdo de'cimo primeiro- 8 drama de Galileu e a funda+o da c i h c i a moderna VI. O pvimeivo pvocesso marqo de 1616, tal Congregaqiio emitiu a condenaqiio do copernicanismo. Nesse meio tempo, em 26 de fevereiro, por ordem do p a r a n2io s u s t e n t a r papa, o cardeal Belarmino advertia Galileu a teoria copernicana para que abandonasse a idCia copernicana e o instava, sob pena de prisiio, "a niio en- sina-la e niio defend&-lade nenhum modo, nern com a palavra nern com os escritos". No dia de finados de 1612, em um ser- Galileu aquiesceu (acquieuit), prometendo miio pronunciado em Florenqa, na Igreja de obedecer. (Aqui, deve-se observar que mui- Siio Mateus, o dominicano Nicolau Lorini to se discutiu sobre a autenticidade da ata acusou os copernicanos de heresia. Dois dessa sessiio, ata que seria importante para anos depois, em 1614, outro dominicano, o segundo processo. Santillana sustenta que Tomas Caccini, em sermiio pronunciado no isso seja uma falsidade, posta na ata pelo quarto doming0 de Advento, na Igreja de comissirio, padre Seguri, particularmente Santa Maria Novella, empreendeu outro hostil em relaqiio a Galileu.) ataque contra os defensores da teoria co- Depois da advertcncia, Galileu perma- pernicana. Em 7 de fevereiro de 1615, o neceu em Roma por mais tr&smeses. Como mesmo Nicolau Lorini denunciou Galileu ao se havia difundido o boato de que ele abju- Santo Oficio, enviando c6pia da carta de rara suas proprias teorias diante do cardeal Galileu a dom Benedetto Castelli e chaman- Belarmino, Galileu pediu-lhe uma declara- do a atenqiio sobre algumas proposiqoes 150, que o cardeal emitiu, para poder des- "perigosas", como as que asseveravam "que mentlr as acusaq8es e calunias que circula- certos modos de dizer da santa Escritura niio vam sobre a sua posiqiio. Pode-se ler nessa siio validos; que, nas coisas naturais, as Es- declaraqiio: "N6s, Roberto cardeal Belar- crituras tim o ultimo lugar; que os inttrpre- mino, tendo sabido que o senhor Galileu tes freqiientemente erram; que as Escrituras Galilei esta sendo caluniado ou acusado de s6 dizem respeito h fC; que, nas coisas natu- ter abjurado em nossa miio, e tambCm de rais, a argumentaqiio matematico-filosofica ter sido por isso penitenciado com penitin- i superior". cias salutares, e interessados na busca da ver- Em 19 de fevereiro de 1616, o Santo dade, declaramos que o referido senhor Oficio passou a seus teologos as duas pro- Galileu niio abjurou em nossa miio nern de posiqoes que resumiam o nucleo da questiio outros aqui em Roma, nern mesmo em ou- para que fossem examinadas. As duas pro- tro lugar que nos saibamos, de alguma sua posiq8es eram as seguintes: a ) "Que o sol 6 opiniio ou doutrina, nern que tenha recebi- o centro do mundo, sendo conseqiientemen- do penitencias salutares ou de outra ordem, te imovel de movimento local." b ) "Que a mas somente lhe foi anunciada a declara- terra niio esta no centro do mundo nern i qiio [...I cujo conteudo C o de que a doutri- imovel, mas move-se por si mesma, tambe'm na atribuida a Copirnico, de que a terra se de movimento diario". Cinco dias depois, move em torno do sol e que o sol esti fir- em 24 de fevereiro, todos os teologos, de me no centro do mundo, sem mover-se do acordo, sentenciaram que a primeira pro- Oriente para o Ocidente, i contraria hs sa- posiqiio era tola e absurda em filosofia e gradas Escrituras, niio podendo por isso ser formalmente here'tica, enquanto contrasta- defendida nern mantida. E para dar fC dis- va com as sentenqas da sagrada Escritura SO, escrevemos e assinamos a presente de em seu significado literal e segundo a expo- proprio punho." sigiio comum dos santos Padres e dos dou- Com essa declarac;iioem miios, Galileu tores em teologia. E acrescentaram que a partiu de Roma para Florenqa em 4 de ju- segunda proposiqiio merecia a mesma cen- nho de 1616. Niio somente Belarmino, mas sura em filosofia e que, teologicamente, era tambCm os cardeais Alexandre Orsini e pelo menos err6nea em relaqiio h fC. Francisco Maria del Monte expressaram 0 Santo Oficio transmitiu a sua sen- sentimentos de "elevada reputaqiio" em re- tenqa h Congregaqiio do Index. Em 3 de laqiio a Galileu. Entretanto, este se defron-
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    206 Segunda parte - A reualus~acientifica tara com sua primeira derrota. Bem perce- Entre outras coisas, escrevia o embaixador: bera o embaixador da Toscana em Roma, "Sei bem que alguns frades de Siio Domin- Pedro Guicciardini, que, quando soube que gos, que tCm grande participaqio no Santo Galileu iria a Roma para se defender, es- Oficio, e outros nutrem ma vontade para creveu uma carta ao ministro dos MCdici, com ele. E este n i o C um lugar para se vir Curcio Picchena, na qual observava que discutir sobre a lua, nem, no sCculo que Galileu iludia-se ao pretender levar idCias corre, querer defender ou trazer doutrinas novas para a capital da Contra-reforma. novas". VII. derrocada da cosmoIogia aristotAica e o segundo processo Mma sb fisica basta Dialogo de Galileu Galilei Linceu, no qual, nos congressos de quatro jornadas, se dis- para o WMM~Oceleste corre sobre os dois maximos sistemas d o e o terrestre mundo, ptolomaico e copernicano, de 1632. No preiimbulo da obra, Galileu escreve que considera a teoria de CopCrnico como "pura Em polCmica com o jesuita Horacio hipotese matematica" e acrescenta que o Grassi a prop6sito da natureza dos come- trabalho pretende mostrar aos protestantes tas, Galileu publicou o Saggiatore em 1623, e a todos os outros que a condenaqio do obra A qual voltaremos quando tratarmos copernicanismo estabelecida pela Igreja em da questgo do mitodo, ja que ela contCm 1616 fora uma coisa sCria, fundada em precisamente importantissimas doutrinas motivos derivados da piedade, da religiio, filos6fico-metodol6gicas. Entretanto, ainda do reconhecimento da onipotincia divina e em 1623, mais precisamente em 6 de agos- da consciCncia do quanto C dCbil o conheci- to, foi eleito papa, com o nome de Urbano mento humano. Obviamente, o truque era VIII, o cardeal Maffeo Barberini, amigo e facilmente desmascaravel. sincero admirador de Galileu, e Galileu ti- 0 s interlocutores do Dialogo s i o tris: Vera provas da estima de Barberini quando Simplicio, Salviati e Sagredo. Simplicio re- do processo de 1616. presenta o filosofo aristotklico, defensor do Assim, retemperado por esse fato, Ga- saber constituido da tradiqio; Salviati k o lileu retomou sua batalha cultural. Para co- cientista copernicano, cauteloso mas reso- meqar, respondeu A pretensa refutaqio do luto, paciente e tenaz; Sagredo representa o sistema copernicano feita por Francisco publico, aberto para a novidade, mas que Ingoli, de Ravena, secretario da Congrega- quer conhecer as razdes de ambas as partes. $50 de Propaganda Fide. E voltou ao pro- Historicamente, Filipe Salviati (1 583-1614) blema das m a r k (Dialogo sobre o fluxo e o era um nobre florentino, amigo de Galileu; refluxo d o mar), persuadido de que tinha Giovanfrancesco Sagredo (1 571-1620) era em mios uma prova arrasadora, de ordem um nobre veneziano muito ligado a Galileu; fisica, do movimento da terra e, portanto, Simplicio talvez recorde um comentador de do copernicanismo. Com efeito, Galileu Aristoteles que viveu no stculo IV. 0 dido- apresentava as marks como resultado do mo- go foi escrito propositadamente em lingua- vimento de rotaqio diario da terra e do mo- gem popular, j6 que "o publico que Galileu vimento de revoluqio anual. Sua interpre- quer convencer 6 o das cortes, das novas ca- taqio estava errada: o problema das marks madas intelectuais, da burguesia e do clero". seria resolvido mais tarde por Newton com E s i o quatro as jornadas "nos congres- a teoria da gravitaqio. sos" em que se desenvolve o Dialogo. A pri- Em todo caso, Galileu discute sobre meira jornada dedica-se a demonstrar a fal- esses assuntos na quarta jornada do seu ta de fundamento da distin@o aristotklica
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    207 Capitdo de'cimo primeiro - 0d r a m a d e Galileu e a fundac&o d a cigncia m o d e r n a entre o mundo celeste, que seria incor- te, coisa que n i o deveria se verificar se a ruptivel, e o mundo terrestre dos elementos terra se movesse; as coisas que "se mandm que, ao contririo, seria mutivel e alterivel. longamente no ar", como o caso das nu- N f o existe tal distinqio: isso C atestado pe- vens, deveriam nos aparecer em movimen- 10s sentidos, potencializados pela luneta. E to veloz se a terra verdadeiramente se mo- como tambCm para Aristoteles aquilo que vesse; ao se disparar dois projiteis iguais dizem os sentidos esta no fundamento do de um mesmo canhio, um em diregfo ao discurso, entio, como Salviati recorda a Sim- oriente e outro em direqfo ao ocidente, en- plicio, "estaras filosofando mais aristote- tf o o alcance deste ultimo deveria ser muito licamente dizendo que o cCu C alteravel por- maior que o do outro, ja que, enquanto o que assim mostram os sentidos d o que projttil se desloca em diregio ao ocidente, o dizendo que o cCu C inalteravel porque as- canhio tambCm deveria se deslocar, seguin- sim discursou Aristoteles". As montanhas do o movimento da terra. em direciio ao sobre a lua, as manchas lunares e o movi- oriente. Mas, como isso n i o ocorre, entfo mento da terra atestam que existe uma so a terra nfo esta em movimento, diz Sim- fisica e n i o duas fisicas, uma valida para o plicio. Ademais, continua argumentando mundo celeste e outra para o terrestre. E na Sirnplicio, se, em um navio parado, faz-se "perfeigfo" dos movimentos circulares que cair uma pedra de cima do mastro, ela cai Aristoteles fundamenta a "perfeiqio" dos perpendicularmente na base do proprio corpos celestes; depois, com base nesta ulti- mastro; mas, sendo em um navio em movi- ma, afirma a veracidade da primeira. Na mento, entfo a pedra que se deixa cair do realidade, o movimento circular pertence alto do mastro cai longe da base do mas- niio so aos corpos celestes, mas tambtm tro, desviando-se em diregio A popa. En- terra. Conseqiientemente, na segunda jor- tiio, o mesmo deveria ocorrer com uma nada, o Dialogo volta-se para a critica dos pedra que se deixa cair de cima de uma tor- argumentos observados e tipicos da obser- re, supondo-se que a terra esteja em movi- vaqio comum que eram propostos contra a mento. Mas isso n i o se d6; portanto, a terra teoria copernicana. Entretanto, antes de esti parada. passar para a segunda jornada (e depois a Pois bem, nesse ponto, partindo da terceira, ambas dedicadas a analise e a so- experihcia que Sirnplicio afirma verificar- lugio das dificuldades contra o movimento se sobre o navio, Galileu, pela boca de Sal- diario e anual da terra), Galileu realiza in- viati e Sagredo, estabelece o principio da teressantes consideraq6es sobre a linguagem, relatividade dos movimentos. destruindo que ele vi! como "o selo de todas as admira- com isso de um s6 golpe todas aquelas "ex- veis invengdes humanas". E escreve: "Mas, perihcias" do senso comum que eram ar- acima de todas as estupendas invenq6es, que gumentadas contra a teoria do movimento mente eminente foi aquela de quem imagi- da terra. Em suma, por meio de suas teo- nou encontrar os modos de comunicar seus rias, consegue varrer todo o conjunto de "fa- rec6nditos pensamentos a qualquer outra tos" contrarios a Copkrnico e favoraveis a pessoa, mesmo que distante por longuissimo Ptolomeu. substituindo-os Dor outros "fa- interval0 de tempo e,de lugar? falar com tos", outras "experihcias" e outras "evi- aqueles que estio na India ou com aqueles dhcias". Com efeito, quem quer que faqa a que ainda n i o nasceram nem nascerio se- experihcia da pedra sobre o navio, vera que nfo daqui a mil ou dez mil anos? e com tal ela "mostra todo o contrario daquilo que C facilidade? com as vhrias junqoes de vinte escrito". sinaizinhos sobre um papel! " Diz Salviati: "Encerra-te com algum amigo no maior c6modo que exista sob a coberta de algum grande navio. Cuida de que haja moscas, borboletas e semelhantes 0 principio de relatividade animaizinhos voadores. Que exista tambCm um grande vaso com Bgua, com peixinhos galileano dentro. Suspenda-se tambCm no alto algu- ma jarra, que gota a gota v6 derramando 6gua em outro vaso, de boca estreita, que Portanto, existem argumentos antigos esteja colocado embaixo. Estando o navio e atuais contra o movimento da terra. Eis parado, observa com atenqfo como os ani- alguns: os graves caem perpendicularmen- maizinhos voadores, com igual velocidade,
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    Segunda parte - revoIuG~o cientifica v5o em direq5o a todas as partes do c6mo- TambCm niio se deve esquecer que, pel0 do; veras os peixes nadando indiferentemen- principio da relatividade, Galileu consegue te em todas as diregoes; as gotas que caem neutralizar todo um conjunto de experiCn- entrario todas no vaso que esta embaixo; ao cias que apontavam contra o sistema coper- jogar alguma coisa para teu amigo, n5o de- nicano, construindo outros fatos e interpre- veriis lanqa-la com mais forqa para esta par- tando diversamente os antigos. te do que para aquela, quando as distiincias E, mais ainda, o fato de que todo mo- forem iguais; e, ao saltar, como se diz, com vimento C relativo significa que o movimento os pCs juntos, percorreras espaqos iguais em n5o 6 atribuivel a um corpo em si mesmo: e qualquer direg5o. Oserva que teris diligen- isto k o fim da doutrina aristotilica e medie- temente todas essas coisas, embora niio haja val do impetus, ou seja, de um movimento nenhuma duvida de que assim devem ocor- que necessita de um motor para produzi-lo rer quando o navio esti parado. Entiio, faz e conservi-lo. Repouso e movimento siio com que a nave se mova com qualquer ve- dois estados persistentes dos corpos. E as- locidade que queiras (desde que o movimen- sim Galileu abre o caminho para a formu- to seja uniforme e n50 flutuante daqui para laq5o do principio de inircia. ali) e veris que n5o reconheceras nem mini- ma mudanqa em todos os efeitos citados, nem por qualquer dos efeitos poderas per- ceber se o navio esta andando ou parado: continuark percorrendo os mesmos espa- qos que antes no chiio; por mais que a nave se mova velozmente, nem por isso dar6s saltos maiores em direqiio h popa do que h proa, muito embora, no tempo em que es- tiveres no ar, o ch5o esteja se deslocando Urbano VIII foi convencido pelos ad- em direqiio h parte contraria h do teu sal- versiirios de Galileu de que o Dialogo so- to; ao jogar alguma coisa para teu compa- bre os dois maximos sistemas d o m u n d o nheiro, n5o precisaras atir4-la, para atin- constituia uma afronta, desacreditando gi-lo, com maior forqa se ele estiver na a autoridade e a t i o prestigio do papa, que direqao da proa do que da popa, estando teria sido ridicularizado na figura de Sim- situado tu no ponto oposto; as gotas d'agua plicio, defensor daquela "admiravel e ver- continuariio caindo como antes no vaso que dadeiramente angClica doutrina", h qual "6 esta embaixo, sem que uma sequer caia em forqoso acomodar-se", de que se fala na direqiio h popa, muito embora, enquanto a ultima pigina do Dialogo. Logo depois de gota esth no ar, a nave ande muitos palmos." sua publicaqao, o inquisidor de Florenqa Tudo isso nos mostra que, com base ordenou que sua difusio fosse suspensa. em observag6es meciinicas realizadas no in- Em outubro de 1632, ordenou-se a Galileu terior de determinado sistema, i impossi- que fosse a Roma, para ficar idisposiq50 vel estabelecer se tal sistema esta parado do Santo Oficio. Galileu tentou atrasar sua ou em movimento retilineo uniforme: "Se- viagem para Roma, alegando motivos de ja, pyrtanto, o principio de nossa contem- saude, mas a reaqiio da Inquisiqiio foi du- plaqao o considerar que, seja qual for o rissima. Em 12 de abril de 1633 Galileu movimento que se atribua h terra, 6 neces- estava diante do Santo Oficio, sendo acu- shrio que a n6s, como habitantes dela e, sado de ter enganado o padre Riccardi, que conseqiientemente, participes desse movi- dera o imprimatur ao Dialogo, porque n50 mento, apresente-se inteiramente impercep- lhe havia comunicado o preceito que lhe tivel, sendo como se n5o existisse enquanto fora imposto em 1616, segundo o qual estivermos olhando somente para as coi- Galileu niio podia "ensinar ou defender de sas terrestres." mod0 algum" a teoria de Copirnico. Ga- A importiincia desse principio de rela- lileu defendeu-se afirmando que o Dialogo tividade (galileana) salta logo aos olhos se fora escrito para mostrar a niio-validade recordarmos que a relatividade estrita de do copernicanismo e que niio se recordava Einstein outra coisa niio C do que uma am- de nenhum preceito que lhe houvesse sido pliaqio da relatividade galileana a todos os imposto em presenqa de testemunhas. E fen6menos naturais, inclusive os da eletrodi- mostrou a declaraqiio que lhe havia sido da- niimica e da 6tica". da por Belarmino em 3 616.
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    209 Capit~10 de'cimo primeiro - 8 d r a m a d e Galileu e a f u n d a c & o d a ciEncia m o d e r n a Persuadidos de que Galileu quisesse solutes, mais que antes, com coraq5o since- engana-los, visto que o Dialogo era forte ro e fC niio fingida, diante de nos, abjures, defesa da idCia copernicana, realizada ade- maldigas e detestes os referidos erros e he- mais com "argumentos novos, nunca pro- resias, bem como qualquer outro err0 e he- postos antes por nenhum ultramontano"; resia contraries h Igreja catolica e apostoli- irritados por ter Galileu escrito a obra niio ca, do mod0 e na forma que por nos te seriio em latim, mas em linguagem popular, "para dados [. ..] " . arrastar A sua parte o vulgo ignorante, que E eis as partes inicial e final do texto C facil presa do err0 [...I"; atentando para o com o qua1 Galileu abjurou: "Eu, Galileu, fato de que "o autor sustenta ter discutido filho daquele Vincenzo Galileu de Florenqa, uma hip6tese matemitica, mas confere-lhe nesta minha idade de setenta anos, consti- uma realidade fisica, coisa que os matema- tuido pessoalmente em juizo e ajoelhado ticos nunca fazem" - com base em tudo diante de vos, Eminentissimos e Reveren- isso, depois de outro interrogatorio, os in- dissimos Cardeais, Inquisidores gerais em quisidores emitiram sua condenaqiio em 22 toda a Republics Crist5 contra a herCtica de junho. E nesse mesmo dia, de joelhos, maldade, e tendo diante de meus olhos os Galileu abjurou. "Dizemos, pronunciamos, sacrossantos Evangelhos, que toco com as sentenciamos e declaramos -assim termi- proprias miios, juro que sempre acreditei, na o texto da condenaqiio - que tu, o refe- acredito agora e, com a ajuda de Deus, acre- rid0 Galileu, pelas coisas aduzidas em pro- ditarei tambtm no futuro em tudo aquilo cesso e por ti confessadas como referidas que a santa Igreja catolica e apostolica man- acima, te tornaste para este Santo Oficio tCm, prega e ensina [. ..]. Portanto, queren- veementemente suspeito de heresia, isto C, do eu retirar da mente das Eminincias de haver mantido e crido em doutrina falsa Reverendissimas e de todo fie1 crist5o essa e contraria i s sagradas e divinas Escrituras, veemente suspei~iio, justamente concebida que o sol seja o centro da terra e que niio se em relaqiio a mim, com coraqio sincero e fC mova do oriente para o ocidente, e que a n5o fingida, abjuro, maldigo e detest0 os terra se mova e niio esteja no centro do referidos erros e heresias e, em geral, todo e mundo, e que se possa manter e defender qualquer outro erro, heresia e seita contra- como provavel uma opiniiio depois de ela ria a santa Igreja. E juro que, para o futuro, ter sido declarada e definida como contra- nunca mais direi nem afirmarei, por voz ou ria A sagrada Escritura. Conseqiientemente, por escrito, coisas tais pelas quais se possa incorreste em todas as censuras e penas dos ter de mim semelhante suspeita. E, se co- cinones sagrados e outras constitui~oes ge- nhecer algum heretic0 ou suspeito de here- rais e particulares impostas e promulgadas sia, o denunciarei a este Santo Oficio, ao contra semelhantes delinqiientes. E pelas Inquisidor ou Ordinirio do local onde me quais nos contentaremos se, em termos ab- encontrar [. ..] ". os Discursos e d e m o n s t ~ a ~ d e s matem6ticas em torno de d u a s novas c i i b c i a s &itrutura da matkria sobre duas novas citncias, atinentes a me- cdnica e aos movimentos locais. e est6tica A analise da quest50 do movimento era uma constante no trabalho de Galileu, des- de a Cpoca do juvenil De Motu (1590). Depois de ter sofrido seu segundo pro- 0 s Discursos tambtm s5o redigidos em cesso e abjurado, Galileu escreveu ainda os forma de dialog0 e nele encontramos os Discursos e demonstra~6es matematicas mesmos protagonistas do Dialogo sobre os
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    dois maximos sistemas:Salviati, Sagredo e fesse ser a virtude da geometria um instru- Simplicio. Tambim os Discursos se desen- mento mais potente que qualquer outro volvem em quatro jornadas. Nas primeiras para aguqar o engenho e disp6-lo a o per- duas jornadas discute-se a citncia que se feito discorrer e especular? E que com muita ocupa da resisttncia dos materiais. Eis a raziio queria Plat50 seus estudantes bem questiio: quando se constroem maquinas de fundamentados nas matematicas? Eu ha- proporqdes diversas, "a maquina maior, via compreendido muito bem a faculdade fabricada com a mesma matiria e com as da alavanca e como, crescendo ou reduzin- mesmas proporq6es que a menor, em todas do o seu comprimento, crescia ou desapa- as outras condiqdes responder4 com justa recia o momento da f o r ~ a da resistincia. e simetria em relaq5o a menor, a niio ser na Apesar de tudo isso, estava enganado na robustez e na resisttncia 2s invasdes violen- determinaqiio do presente problema: e n5o tas; mas, quanto maior, for ela, proporcio- de pouco, mas a o infinito." E Simplicio nalmente sera mais fraca". acrescenta: "Comeqo verdadeiramente a Em outros termos: em todos os corpos compreender que a logica, embora instru- solidos encontra-se uma "resisttncia a ser mento poderosissimo para regular o nosso quebrada". E a quest50 que Galileu quer discurso, niio alcanga a agudeza da geome- resolver i a de identificar as relagoes mate- tria quanto a preparar a mente para a in- maticas entre tal resisttncia e "o comprimen- venqiio" . to e a espessura" de tais corpos. Pois bem, na primeira jornada vt-se lo- go que a coisa que esta antes de qualquer outra necessidade 6 a investigaqiio sobre a estrutura da matiria: trata-se da "continui- dade", do "vacuo" e do "itomo". Sao ana- lisadas as analogias e as diferenqas entre a subdivisiio do matematico e do fisico. A pro- A terceira e a quarta jornadas siio de- posito do vacuo, Galileu polemiza contra a dicadas a segunda nova citncia, isto 6, a di- idiia aristotilica de que o movimento seria d m i c a . Salviati 1 em latim um tratado so- 6 impossivel no vicuo. E tambim s5o cri- bre o movimento que diz ter sido elaborado ticadas as idiias de Aristoteles sobre a que- por seu amigo Acadtmio (ou seja, Galileu). da dos pesados, segundo as quais haveria E, i medida que Salviati li, os outros dois proporcionalidade entre o peso dos diver- interlocutores, Sagredo e Simplicio, pouco sos pesados e a velocidade de sua queda. a pouco viio pedindo esclarecimentos e os Galileu, porim, reafirma a opiniiio de que, recebendo. Mais especificamente, na tercei- "caso se retirasse totalmente a resisttncia ra jornada S ~ demonstradas as leis classi- O do meio, todas as matGias desceriam com cas sobre o movimento uniforme, sobre o igual velocidade". Depois, passa-se ao exa- movimento naturalmente acelerado ou re- me das oscilaq6es do ptndulo e de suas leis: tardado. isocronismo e proporcionalidade entre o Galileu parte de defini~6es"concebi- period0 de oscilaq50 e a raiz quadrada do das e admitidas em abstrato" dos movimen- comprimento do ptndulo. Discutem-se ques- tos e, depois, delas deduz rigorosamente as tdes de acustica, propondo aplicaqdes dos caracteristicas do movimento. Diante das resultados obtidos a proposito das oscila- objeqdes de Sagredo e Simplicio, segundo qdes pendulares. as quais siio necessarias experiincias para Na segunda jornada, a resisttncia dos se ter confirmaqiio de que as leis dos movi- corpos solidos C reconduzida aos sistemas e mentos correspondem a realidade, Galileu combinaq6es de alavancas. Assim, a nova (pela boca de Salviati) narra a cilebre expe- ciincia (que remonta a o "sobre-humano ritncia dos planos inclinados, que C mais do Arquimedes, que nunca nomeio sem admi- que oportuno conhecer: "Em uma rCgua - raqiio"), isto 6, a estatica, permite a Galileu ou, se quiserem, uma vigota - de madeira, mostrar a "virtude", ou seja, a eficacia, da com doze braqas de comprimento e com lar- geometria no estudo da natureza fisica (e gura de meia braqa por um lado e trts de- tambim biologics: a natureza dos ossos dos pelo outro, escavou-se nesta menor lar- cavos, a proporqao dos membros dos gi- gura uma canaleta pouco mais larga que um gantes etc.). Diz Sagredo: "0 que diremos, dedo. Estirava-se em linha reta, limpava-se senhor Simplicio? N5o convCm que ele con- e alisava-se, colocava-se dentro da canaleta
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    21 1 Capitulo de'czmo primeiro - 6 drama de Galileu e a fundaC80 da cisncia moderna um pergaminho bem polido e lustrado e, pois, as particulas de agua recolhidas de tal depois, fazia-se descer por ela urna bola de mod0 eram pesadas a cada vez com urna bronze durissimo, bem arredondada e poli- balanqa exatissima, dando-nos as diferen- da. Fazendo-se a regua ficar pendente, o que qas e proporq6es dos pesos em relaqio as se conseguia elevando acima do plano hori- diferenqas e proporqoes dos tempos. E isso zontal urna de suas extremidadas, por urna com tal exatidio que, como disse, tais ope- ou duas braqas, a vontade, deixava-se en- raq6es, repetidas muitas vezes, nunca dife- tio, (como dizia), a bola descer pela cana- riam nem mesmo de um momento". leta. Entio anotava-se, no mod0 que logo Como se v6, essa experiencia n i o con- direi, o tempo que a bola levava para correr siste em urna observaqio isenta de teoria, a toda a canaleta, repetindo o mesmo ato experiincia n5o t dada, mas constrdi-se, t muitas vezes para se assegurar bem da quan- feita. E C feita e construida porque a teoria tidade de tempo, no qual nunca se encon- o exige. A experiencia n i o 6, antes de mais trava diferenqa, nem mesmo da dCcima nada, pura e simples observaqio: a expe- parte de urna batida de pulso. Feita e esta- ricncia C experimento. E o experimento se belecida precisamente tal operaqio, fazia- faz e se constroi. 0 "fato" do experimento mos descer a mesma bola somente pela quar- i um dado so depois que foi feito. Assim, o ta parte do comprimento dessa canaleta. E, experimento C perpassado pela teoria de medido o tempo de sua descida, desco- cima abaixo. TambCm C notavel, nas discus- briamos sempre ser exatamente a metade s6es da terceira jornada, o aparecimento, do outro. Depois, fazendo as experiencias ainda em estado confuso, dos conceitos de das outras partes, examinando ora o tempo infinito e infinitesimal. Esses conceitos ou, de todo o comprimento com o tempo da me- mais exatamente, o conceit0 de limite, s i o tade, ora com o tempo de dois terqos, ora essenciais para as ideias de velocidade ins- com o tempo de tres quartos, ou, em con- tantsnea e de aceleraqio. Hoje, para nos, as clusio, com qualquer outra divisio, por coisas s i o simples. Mas Galileu n i o conhe- meio de experiencias repetidas por bem cem cia o calculo (infinitesimal), que so seria des- vezes, sempre concluiamos que os espaqos coberto mais tarde por Newton e Leibniz (e necessarios eram entre si como os quadra- ao qua1 Boaventura Cavalieri tanto desejou, dos dos tempos, e isso em todas as inclina- em vio, que seu mestre Galileu se houvesse q6es do plano, isto 6, da canaleta por onde dedicado). De todo modo, Galileu fala de se fazia descer a bola. Observamos ainda "infinitos graus de atraso". que os tempos das descidas nas diversas in- E esta tambim C urna gloria que per- clinaqoes mantinham tipicamente entre si tence a ele. aquela proporqio que mais adiante veremos Na quarta jornada se discute, com mui- ter sido assinalada e demonstrada pel0 au- ta amplitude e profundidade, a trajetoria dos tor. N o que se refere medida do tempo, projCteis (trajetoria que possui forma para- mantinha-se um grande vaso cheio de igua bolica). E essa anilise se fundamenta na lei amarrado no alto, o qual, atravCs de um da composiqio dos movimentos. can0 muito fino, que Ihe estava soldado ao 0 s Discursos foram impressos na Ho- fundo, derramava um fino fio d'agua, que landa, aonde chegaram clandestinamente. era recolhido por um pequeno cop0 duran- Eles representam a contribuiqio mais te todo o tempo ao longo do qual a bola madura e original dada por Galileu a histo- descia pela canaleta e em suas partes; de- ria das idCias cientificas.
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    Segunda parte -$ revoIuCzo cientificcr IX. iwmgem gaIiIeana da ci2ncia , , cig~cia nos diz como a fC em Aristoteles e o apego cego as suas palavras - impedem sua realizagiio. coma vai o c&uN Diz Salviati no Dialogo sobre os dois ea f& "como s r vai ao cku" maximos sisternas do mundo: "Havera algo mais vergonhoso do que, nas discussdes pu- blicas, quando se trata de conclusdes demons- Na explicitaqiio dos pressupostos, na traveis, ver alguim aparecer de travts com delimitaqiio de sua autonomia, na identifi- um texto, muito amiude escrito com propo- caqiio das normas do metodo, em tudo isso sito inteiramente diferente, e com ele fechar a cihcia moderna e a citncia de Galileu. a boca do adversario? [.. .] Por isso, senhor Entretanto, qua1 era exatamente a imagem Simplicio, venha com razdes e demonstra- que Galileu tinha da ciencia? Ou, melhor gdes, suas ou de Aristoteles, e n5o com tex- ainda, quais siio as caracteristicas da ciin- tos e cruas autoridades, porque nossos dis- cia que se podem extrair tanto das pesqui- cursos devem ser em torno do mundo sensivel sas efetivas de Galileu quanto das reflex6es e niio sobre um mundo de papel". filosoficas e metodologicas sobre a cizncia feitas pel0 proprio Galileu? A interrogagiio e premente. E, depois de tudo o que temos dito at6 aqui, estamos agora em condiqdes de expor toda uma sCrie de traqos distinti- vos capazes de nos reconstruir a "imagem galileana" da cihcia. Antes de mais nada, a cihcia de Galileu Portanto, a ciikcia C aut6noma em re- niio C mais um saber a s e r v i ~ o fe'; n i o da lag20 A fC, mas tambCm C algo bem diferen- depende da fC; tem um objetivo diferente do te daquele saber dogmatico representado da f i ; se alicerqa e se fundamenta em razdespels tradiqio aristotklica. Isso, porCm, niio diversas das da ft. A Escritura contim a significa para Galileu que a tradigiio C da- mensagem da salvaqiio, niio sendo sua a fun- nosa enquanto tradig5o. Ela C danosa quan- $20 de determinar "a constituig50 dos cCus do se erige em dogma, dogma incontrolAve1 e das estrelas". As proposigdes de fide nos que pretende ser intocavel. "Nem por isso dizem "como se vai a o cCu"; as proposiqdes digo que n5o se deve ouvir Aristoteles; ao cientificas, obtidas atravCs de "sensatas ex- contrhrio, louvo que seja visto e diligente- perihcias" e "demonstraqdes necessarias", mente estudado. Censuro apenas que al- atestam "como vai o cCu". Em suma, com guCm se entregue a ele de mod0 tal que subs- base em suas diferentes finalidades (salva- creva cegamente toda palavra sua e, sem @o para a f6; conhecimento para a cihcia) buscar outra raziio, a tenha, por 'decreto, e com base nas modalidades diversas de inviolavel, o que C um abuso que arrasta alicergamento e fundamentaqiio (na fe, a atras pe si outra desordem extrema, isto autoridade da Escritura e a resposta do ho- 6, que ninguCm mais se aplica a procurar mem a mensagem revelada; na cicncia, as entender a forqa de suas demonstragdes." sensatas experiincias e as necessarias pro- Como foi o caso daquele aristotClico que posiq6es da fC. E "parece-me que, nas dis- (sustentando, com base nos textos de Aris- putas naturais, ela (a Escritura) deveria sertoteles, que os nervos partem do coragiio), reservada para o ultimo lugar". diante de uma dissecagiio anat6mica que desmentia essa teoria, afirmou: "Vos me fizestes ver esta coisa de tal forma aberta e sensata que, se o texto de Aristoteles niio a contrariasse, pois abertamente diz que os nervos nascem do coraqiio, por forqa seria precisp reconheci-la como verdadeira." Sendo aut6noma em relagiio a fe, a ciEn- E contra o dogmatismo e o "puro ipse cia deve ser muito mais aut6noma ainda em dixit" que Galileu se choca, contra a "crua relaqiio a todos os vinculos humanos que - autoridade", mas niio contra as razoes que
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    Capitulo de'cimo primeiro - O drama de Galileu r a fundnGuo d a ciZncia modrrna ainda hoje poderiam ser encontradas, por ja encontra sua raiz mais profunda precisa- exemplo, em Aristoteles: "No entanto, se- mente na concepqao realista e profunda que nhor Sirnplicio, venha com razdes e de- Galileu tinha da cigncia. monstraqdes, suas ou de Aristoteles [. ..] ". N5o se pede certidzo de nascimento para a verdade: em toda parte podem-se encon- trar "razdes" e "demonstraqdes". 0 im- A cigncia Q objetiva, portante C fazer ver que S ~ validas e n50 O p o r q u e descreve que estiio escritas nos livros de Aristoteles. a s qualidades mensurClveis E contra os aristotklicos dogmaticos e livrescos, Galileu se refere precisamente a dos ~ o r p o s Aristoteles: C "o proprio Aristoteles" que "an- tepde [...] as experitncias sensatas a todos os discursos", de mod0 que "niio duvido em A cihcia pode nos dar uma descri@io absoluto de que, se Aristoteles vivesse em verdadeira da realidade, alcanqando os ob- nossa Cpoca, mudaria de opiniio. Isso pode jetos e, assim, sendo objetiva. Mas so pode ser recolhido manifestamente do seu proprio $10 se estiver em condiqdes de traqar uma mod0 de filosofar: assim, quando ele escreve distinqao fundamental entre as qualidades considerar os cCus inalteriveis etc., porque objetivas e as qualidades subjetivas dos cor- n5o se viu nenhuma coisa nova se gerar das pos, ou seja, somente na condiqao de que a velhas ou nelas se dissolver, d i a entender cicncia descreva as qualidades objetivas dos implicitamente que, se houvesse visto um corpos, quantitativas e mensuraveis (publi- desses acidentes, teria considerado o con- camente verificaveis), e exclua o homem de trario, antepondo a sensata expericncia ao si mesma, ou seja, as qualidades subjetivas. discurso natural, como convCm [. ..] ". No Saggiatore, podemos ler: "Portanto, digo Portanto, o que Galileu pretende C li- que me sinto bem arrastado pela necessida- bertar o caminho da ciincia de um verdadei- de, t50 logo concebo uma matiria ou subs- ro obst5culo epistemologico, o autoritaris- tincia corporea, concebendo tudo ao mes- mo de uma tradiqiio sufocante que bloqueia mo tempo que ela C acabada e figurada por a citncia. Em suma, Galileu promove "o fu- esta ou aquela figura, que 6 pequena ou neral [. ..] da pseudofilosofia", mas n50 o fu- grande em relaq5o a outras, que esta neste neral da tradiq5o enquanto tal. E isso i t5o ou naquele lugar, neste ou naquele tempo, verdadeiro que, mesmo com as devidas cau- que ela se move ou esta parada, que toca ou telas, pode-se dizer que ele 6 plat6nico na fi- niio toca outro corpo, que ela C uma, pou- losofia e aristote'lico n o me'todo. i";': cas ou muitas - e por nenhuma imagina- q5o posso separa-la dessas condiq6es. Mas niio me sinto forqado pela mente a ter de saber se ela C branca ou vermelha, amarga ou doce, surda ou muda, de bom ou mau cheiro, necessariamente acompanhada de tais condiq6es: ao contrario, se os sentidos como k feito o mundo n5o a houvessem percebido, talvez o discur- so ou a imaginaq50, por si mesma, n5o a alcanqasse jamais (...)". A u t h o m a em relaq5o f C e contraria Em suma: cores, odores, sabores etc., as pretens6es do saber dogmatico, a cicncia G Oqualidades subjetivas, ou seja, n5o exis- de Galileu C a ciBncia de u m realista. Realis- tem no objeto, mas somente no sujeito que ta C CopCrnico, realista C Galileu. Este n5o sente, assim como as cocegas n5o estiio na raciocina como "puro matematico", mas pluma, mas sim no sujeito que as sente. A como fisico, considerando-se mais "fil6so- citncia e objetiva porque niio se interessa fo" (isto C, fisico) do que matematico. Em pelas qualidades subjetivas, que variam de outros termos, na opini5o de Galileu, a citn- homem para homem, mas sim por aqueles cia niio 6 um conjunto de instrumentos (de aspectos dos corpos que, sendo quantifi- calculos) uteis (para fazer previsdes), mas caveis e mensuraveis, s5o iguais para todos. muito mais a descriqao verdadeira da reali- E nem a cihcia quer "buscar a esshcia ver- dade, dizendo-nos "como vai o cCu". E, dadeira e intrinseca das substincias natu- como vimos, o choque entre Galileu e a Igre- rais". Alias, escreve Galileu, "considero o
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    214 Segunda parte - $ cientiflco revoIuG~o E n o Saggatore, puhlrcr~doe m 162 3 , que encontramos u rdira galdeana fundavnentul de que " o unwerso esta escnto e m hnguagetn mutemutrcu, e os caracteves siio tndngulos, circulos, c outrus figuras geomktncas ". buscar a esstncia como empresa n5o menos produqao e a dissoluqio, que podem ser impossivel e como esforqo n3o menos v3o apreendidas por nos [. ..] ". A cigncia, por- tanto nas substincias elementares proximas tanto, 6 conhecimento objetivo, conhecimen- quanto nas remotissimas e celestes. E pare- to das qualidades objetivas dos corpos - e ce-me ser igualmente ignaro da substincia essas qualidades s3o quantitativamente de- da terra e da substiincia da lua, das nuvens terminiveis, ou seja, s3o mensuraveis. elementares das manchas do sol [...In. As- sim, nem as qualidades subjetivas nem a es- stncia das coisas constituem o objeto da citncia. Esta deve se contentar "em tomar conhecimento de algumas de suas sensa- q6esn, corno, por exemplo: "Por mais que se empreenda a investigaq5o da substincia das manchas solares, n i o restariam nada A citncia descreve a realidade, sendo mais d o que algumas de suas sensaqGes, conhecimento e n i o "pseudofilosofia", pel0 como o lugar, o movimento, a figura, a fato de que descreve as qualidades objeti- grandeza, a opacidade, a mutabilidade, a vas (isto 6, primirias) e niio as subjetivas
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    215 Capitdo de'cimo primeiro - 6 drama d e Gc1111e~( f u n d a C ~d a clgncia modevna e a o (secundirias) dos corpos. Mas - e, aqui, infinidade C como zero; mas, d o ponto de chegamos a um ponto central do pensamen- vista intensivo, enquanto tal termo impor- to de Galileu - essa ciincia descritiva da ta intensivamente, isto C perfeitamente, al- , realidade objetiva e mensuravel so i possi- guma proposiqiio, digo que o intelecto hu- vel porque o proprio livro da natureza "esta mano entende algumas t i o perfeitamente escrito em linguagem matematica". Ainda que delas tern certeza t i o absoluta quanto no Saggiatore encontramos: "A filosofia esta a tenha a propria natureza. E tais s i o as escrita neste imenso h r o que continuamente ciincias matemiticas puras, isto i, a geo- permanece aberto diante de nossos olhos (es- metria e a aritmCtica, das quais o intelecto tou falando do universo), mas que n i o se divino sabe infinitas proposiq6e.s a mais, pode entender se primeiro n i o se aprende a porque sabe-as todas, mas, daquelas pou- entender sua lingua e conhecer os caracteres cas entendidas pel0 intelecto humano, creio em que esta escrito. Ele esta escrito em lin- que sua cogniqio iguale a divina em certe- guagem matematica e seus caracteres s i o za objetiva, ja que consegue entender sua circulos, triiingulos e outras figuras geomC- necessidade, sobre a qua1 niio pode haver tricas, meios sem os quais C impossivel en- seguranqa maior". Ora, se os conhecimen- tender humanamente suas palavras: sem tais tos geometricos e matematicos S ~ defini- O meios, vagamos inutilmente por labirinto tivos, necessaries e seguros, se a natureza escuro" . esta escrita em linguagem geomitrica e matematica e se o conhecimento i a redes- coberta da linguagem da natureza, entiio qualquer um pode ver o grau de confianqa que Galileu alimentava na razio e no co- nco busca as essencias, nhecimento cientifico. Assim, o conheci- mento cientifico C muito mais do que um e todavia o homem p o s s ~ i conjunto de instrumentos mais ou menos alguns conhecimentos uteis. definitivos e M&O revisiveis A ciincia C o conhecimento objetivo 4; C3 universo deterministic0 das "afecq6esn ou qualidades quantificaveis d e Galileu e mensuriiveis dos corpos. Trata-se da re- descoberta da linguagem d o livro da natu- reza, "escrito em linguagem matematica". A ciincia C objetiva porque n i o se emara- nha nas qualidades subjetivas ou secunda- rias e porque n i o se prop6e a "buscar as essincias". Entretanto, embora para Gali- Evidentemente, basear-se nas qualida- leu "o buscar a essincia" seja empresa im- des objetivas ou primarias dos corpos e nas possivel e vi, certo essencialismo faz parte qualidades geomitricas e mensuraveis dos da filosofia galileana da ciincia. 0 homem corpos comporta toda uma sirie de conse- n i o conhece tudo. E, das "substbcias na- qiiincias: turais" que conhece, niio conhece sua "es- a ) exclui o homem do universo de in- sincia verdadeira e intrinseca". Entretanto, vestigaqio da fisica; o homem possui alguns conhecimentos de- b) excluindo o homem, exclui urn cos- finitivos, que n i o S ~ mais passiveis de re- O mo inteiro de coisas e objetos ordenados e visio (e nisso consiste o essencialismo de hierarquizados em funqio do homem; Galileu): c) exclui a investigaqio qualitativa em "[ . .I ConvCm recorrer a uma distinqiio beneficio da quantitativa; filosofica, dizendo que o entender pode se d) elimina as causas finais em favor das dar de dois modos. isto 6. intensivamente causas mecdnicas e eficientes. o u extensivamente: d o ponto de vista ex- Em poucas palavras: o mundo descri- tensivo, isto 6, quanto a multidio dos inte- to pela fisica de Galileu niio i mais o mun- ligiveis, que sf o infinitos, o entender huma- do de que fala a fisica de Aristoteles. no C como nada, por mais que entendesse E eis alguns exemplos que iluminam o mil proposiq6es, porque mil em relaqiio i i contraste entre o "mundo" de Galileu e o
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    S e pn d a parte - $ r e v o I ~ l ~ a o cirntifica de Aristoteles. N o Dialogo, Simplicio afir- satez das teorias e dos conceitos do saber ma que "nenhuma coisa foi criada em v5o e aristotklico. Assim ocorre, por exemplo, com esta ociosa no universo", tanto que nos ve- a idCia de "perfeiqio" de alguns movimen- mos "esta bela ordem de planetas, dispos- tos e de algumas formas dos corpos. tos em torno da terra em distsncias propor- Na opini5o dos aristotClicos, a lua n5o cionadas para produzir sobre ela os seus podia ter vales e montanhas, j6 que eles a efeitos, em nosso beneficio". Assim, como teriam privado daquela forma esfkrica e per- se podera, sem desconhecer o plano de Deus feita que cabe aos corpos celestes. Galileu, em favor do homem, "interpor [. ..] entre o porkm, observa: "Esse discurso ja esta bas- orbe supremo de Saturno e a esfera estrela- tante gasto nas escolas peripatkticas, mas da um espaqo vastissimo, sem qualquer es- suspeito que sua maior eficicia consista so- trela, supCrfluo e v5o? Com que fim? Em mente no ter-se tornado habitual nas mentes beneficio e para a utilidade de quem?". Mas dos homens e n5o no fato de que suas pro- logo Salviati responde a Sirnplicio: "Quan- posiq6es sejam demonstradas ou necessirias; do me C dito que seria inutil e v5o um espa- ao contrario, creio que S ~ muito titubean- O qo imenso interposto entre os orbes dos pla- tes e incertas. Em primeiro lugar, n5o vejo netas e a esfera estrelada, privado de estrelas como se possa afirmar em absoluto que a fi- e ocioso, como tambkm seria supkrflua tan- gura esfCrica C mais ou menos perfeita que as ta imensidade, em relag50 as estrelas fixas, outras, mas apenas com algumas reservas. a ponto de superar toda nossa capacidade Por exemplo: para o corpo que necessita po- de apreensso, digo que C temeridade querer der virar-se para todos os lados, a figura es- transformar o nosso fraquissimo discurso fCrica C perfeitissima, raz5o pela qua1 os olhos em juiz das obras de Deus, chamando de v5o e as extremidades superiores dos ossos das ou supCrfluo tudo aquilo que, no universo, coxas foram feitos pela natureza perfeitamen- n5o serve para nos." te esfkricos. Mas, ao contrario, para um cor- Assim, o universo determinista e me- po que necessitasse permanecer estavel, tal canicista de Galileu n5o 6 mais o universo figura seria de todas a mais imperfeita, raz5o antropocEntrico de Aristoteles e da tradiq50. pela qual, na construq50 de muralhas, esta- Ele n5o C mais hierarquizado, ordenado e ria agindo pessimamente quem se servisse finalizado em funq5o do homem. de pedras esfkricas, pois para este caso per- feitiss?mas S ~ as pedras angulares [. ..] ". O E assim que Galileu mostra a vacuida- de de um conceito proposto "em absoluto", 9, C o n t r a o v a z i o , ao mesmo tempo em que mostra a eficacia de um conceito ao leva-lo para o plano em- e a insensate2 pirico e relativizando-o: a idkia de "perfei- q5o" so funciona quando se fala dela "a res- teovias t r a d i c i o n a i s peito de algo", ou seja, do ponto de vista de algum fim. Assim, uma coisa C mais ou me- nos perfeita enquanto for mais ou menos Outra conseqiiCncia da concepq50 ga- adequada a um fim prefixado ou, de todo lileana do conhecimento cientifico C a de- modo, dado. E essa "perfeiq20" 6 um atri- monstraq5o da vacuidade ou at6 da insen- buto controlivel.
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    Capitdo de'cimo primeiro- 8 drama de Galilru e a fundaclo d a ciGncia modrvna X. $ q ~ e s t 6 o w&todo: do // ex peri2ncias sensatas" e/oM "demo~stra~~es necess6rias"? 'aa expeviCncia cientifica A A cias do discurso. orientando-o e adestran- do-o para bem silogizar e deduzir das pre- k o expevirnento missas [. ..] a necessaria conclusiio" . E Ga- lileu ainda faz Salviati dizer: "A logica [.. .] t o orgiio da filosofia". Na carta a senhora Cristina de Lorena, Portanto, por um lado, ha o chamado Galileu escreve: "Parece-me que, nas discus- as observaqdes, aos fatos, i s "experitncias sdes sobre problemas naturais, niio se deveria sensatas" e, por outro, a acentuaqio do pa- comeqar pela autoridade de passagens da pel das "hipoteses matemiticas" e da forqa Escritura, e sim pelas experiincias sensatas logics, que delas extrai as conseqiiincias. e pelas demonstraqoes necessarias". E ain- Mas eis o problema com que se defronta- da: "Parece-me entiio que a questiio dos efei- ram os estudiosos: qua1 C a relaqio existen- tos naturais que a experitncia sensata nos te entre as "experiikcias sensatas" e as "ne- poe diante dos olhos ou as demonstraqdes cessarias demonstraqdes"? Esse problema necessarias concluem, n i o deve ser, por ne- niio apenas C tipico da filosofia da citncia nhuma raziio, posta em duvida, quando niio contemporsnea, mas tambCm C uma ques- condenada, por passagens da Escritura que tiio existente em Galileu. emeraindo com apresentassem apartncia diversa nas palavras". toda a clareza de suas obias. ~fGivamente, Pois bem, nessas frases encerra-se o esti fora de qualquer duvida que Galileu nucleo essential do me'todo cientifico segun- baseia a ciincia nu experiincia. E por isso do Galileu. A citncia C aquilo que 6, ou seja, que ele se refere a Aristoteles, que "antepde conhecimento objetivo, com todos os tra- [. ..] as experihcias sensatas a todos os dis- qos especificos que ja analisamos, precisa- cursos". E n i o ha lugar para equivocos mente porque procede segundo um mCtodo quando Galileu afirma que "aquilo que a preciso e exatamente porque determina e experitncia e o senso nos demonstram deve fundamenta suas teorias atravis das regras se antepor a qualquer discurso, mesmo que que constituem o mCtodo cientifico. E, se- niio nos parecesse muito bem fundamenta- gundo Galileu, esse mitodo consiste intei- do". Entretanto, niio obstante essas limpidas ramente nas "experitncias sensatas" e nas declaraqoes n i o s i o raros os casos em que "demonstraq6es necessarias" . As primeiras, Galileu parece exatamente antepor o discur- ou seja, as "experitncias sensatas", siio as so a experitncia, acentuando a importincia experiincias efetuadas mediante nossos sen- das "suposiq6esn em prejuizo das observa- tidos, isto C, as observaqoes, especialmente qoes. Assim, por exemplo, em carta de 7 de as feitas com nossos olhos; as segundas, ou janeiro de 1639 a J o i o Batista Baliani, ele seja, as "demonstraqdes necessarias", s i o as escreve: "Mas, voltando ao meu tratado so- argumentaqoes nas quais, partindo-se de bre o movimento, nele eu argument0 ex uma hipotese (ex suppositione; por exem- suppositione sobre o movimento, definido plo, de uma definiqiio fisico-matemitica de daquela maneira. De modo que, quando as movimento uniforme), se deduzem rigoro- conseqiitncias n i o correspondessem aos samente as conseqiitncias ("eu demonstro acidentes do movimento natural, pouco me concludentemente muitos acidentes") que importaria, da mesma forma que o fato de depois deveriam se dar na realidade. niio se encontrar na natureza nenhum mo- E da mesma forma como, mediante a vel que se mova por linhas espirais nada luneta, Galileu procurou potencializar e aper- anula das demonstraqdes de Arquimedes". feiqoar a vista natural, tambim, sobretudo Eis, portanto, a questio: por um lado, Gali- em idade mais avanqada, reconheceu que leu baseia a citncia na experizncia, mas por Aristoteles, em sua Diale'tica, nos ensina a outro lado parece precisamente condenar a sermos "cautelosos para escapar das fala- experitncia em nome d o "discurso".
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    218 Segunda parte - f r e v o l u G ~ o cie~tifica tos a experi2ncia cientifica. A experiencia cientifica n i o C pura e simples observaqio Experihcia (papel da experih- comum. Entre outras coisas, as observaqdes cia na pesquisa cientifica). "Entre comuns podem ser erradas. E Galileu bem as maneiras seguras para chegar a ver- o sabia; com efeito, ele teve de combater dade esta antepor a experihcia a durante toda a sua vida contra os fatos e qualquer discurso, permanecendo observaq6es efetuados a luz (das teorias) seguros de que neste, ao menos dis- daquilo que ja era senso comum. fargadamente, estara contida a fala- cia, n l o sendo possivel que urna ex- Mas, da mesma forma, a experiEncia periencia sensata seja contraria ao cientifica n i o pode ser reduzida a urna teo- verdadeiro; e este C tambem um pre- ria ou a um conjunto de suposiqdes priva- ceito estimadissimo por Aristoteles e das de qualquer contato com a realidade: ha muito tempo anteposto ao valor Galileu pretendia ser mais fisico que mate- e a forsa da autoridade de todos os mitico. Com efeito, i assim que ele escreve homens do mundo, a qua1 VSa. mes- a Belisario Vinta em 7 de maio de 1610, em ma admite que n l o devamos credi- carta em que procura fixar as condiqdes da tar as autoridades de outros, mas de- sua transferincia para Florenqa: "Finalmen- vemos neg6-la a nos mesmos, todas as vezes que descobrimos que o sen- te, quanto ao titulo e pretext0 do meu ser- tido nos mostra o contrario". viqo, eu desejaria que, al6m do nome de Assim escrevia, entre outras coisas, Matematico, Sua Alteza acrescentasse o de Galileu em 15 de setembro de 1640 a Filosofo, professando eu ter usado mais anos Fortunio Liceti em Padua. em filosofia do que meses em matematica pura" . Portanto, "experihcias sensatas" e "demonstraqdes necessarias" e niio umas ou as outras. Umas e outras, integrando-se e corrigindo-se mutuamente, diio origem 5 ex- perizncia cientifica, que n i o consiste nem Ora, diante dessa situaqio, os interpre- na nua e passiva observaqio nem na teoria tes e estudiosos do metodo cientifico toma- vazia. A experitncia cientifica e' o experi- ram os caminhos mais diversos. Ha quem mento. g tenha visto nas "experihcias sensatas" e nas "demonstraqdes necessarias" urna espCcie de antitese entre expericncia e razio. Ha aque- les que, sem afirmar tal antitese, sustentam mente constr6i mais sabiamente que, dessa forma, Galileu a e x p e r i Z n c i a cientifica expressa "a plena consciikcia [...I da im- possibilidade de confusio entre deduqio matematica e demonstraqio fisica". Ja ou- A experihcia cientifica, portanto, e tros, enfatizando o papel da observaqio, experimento cientifico. E, no experimento, pretenderam dizer que Galileu era indutivis- a mente n i o 6 de mod0 nenhum passiva. ta. Ha quem tenha sustentado que Galileu, Ao contrario, a mente C ativa: faz suposi- ao contrario, era um racionalista dedutivista p5es, extrai rigorosamente suas conseqiign- que confiava mais nos poderes da razio do cias e depois vai comprovar se elas se d i o que nos da observaqio. E n i o falta quem ou n i o na realidade. A mente n i o sofre urna diga que Galileu, segundo lhe seja mais c6- experi2ncia cientifica: ela a faz, projetando- modo, usa sem preconceitos ora o metodo a. E a efetua para ver se urna experigncia indut-o, ora o metodo dedutivo. sua 6 verdadeira ou falsa. E impossivel nos determos aqui nas Portanto, a experihcia cientifica i fei- discussdes sobre a idCia galileana de meto- ta de teorias que instituem fatos e de fatos do cientifico a o longo da ipoca moderna e que controlam teorias. Existe ai urna inte- nas controvirsias epistemologicas contem- graqio reciproca e urna relaqio mutua de poriineas. Mas, para os autores destas pa- correqio e aperfeiqoamento. Na opiniio de ginas, parece legitimo sustentar que as Galileu, Aristoteles teria mudado de opiniiio "experi2ncias sensatas" e as "necessarias de- se houvesse visto fatos contrarios as suas monstraq6es" que se desenvolvem a partir proprias idkias. De resto, as teorias (ou su- de "suposiqdes" s i o dois elementos que se posiqoes) podem muito bem servir para implicam reciprocamente, constituindo jun- mudar ou corrigir teorias cristalizadas, que
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    Capitdo de'cimo primeiro- 0drama de G a l i l e ~ GI fundaczo da cidncia lnoderna e ninguim ousa p6r em discuss20, mas que que, A primeira vista, parecia mostrar uma encapsularam a observag20 em interpreta- coisa, quando mais bem considerada nos as- ~ 6 einadequadas, criando as$m muitos "fa- s segura do contririo". Naturalmente, "aqui- tos" obstinados mas falsos. E o caso do sis- lo que a experiincia e o senso nos demons- tema aristotilico-ptolomaico: antes de tram" deve ser anteposto "a todo discurso, Copirnico, ao alvorecer, todos viam o sol por mais que nos parecesse bem fundamen- que surgia; depois de Copirnico, ao alvore- tado". Mas a expericncia sensata i fruto de cer, a teoria heliochtrica nos faz ver a terra experiment0 programado, i tentativa de que se abaixa. forgar a natureza a responder i s nossas per- guntas. derende dcls teoricls Eis, sucintamente, outro exemplo de como uma teoria ode fazer mudar a inter- ~retac2o observadora dos fatos. Nos Dis- cursos, respondendo as objeq6es de nature- za empirica a lei pela qua1 a velocidade do movimento naturalmente acelerado deve crescer proporcionalmente ao tempo, Sa- gredo afirma: "Essa i uma dificuldade que, no principio, tambCm me deu o que pensar, mas n5o muito depois a removi; e o que a removeu foi o resultado da pr6pria experi- h c i a que presentemente essa dificuldade suscita para vos. Dizeis parecer-vos que a experihcia mostra que, t20 logo parte da quietude, o pesado entra em uma velocida- de muito notivel. E eu digo que essa mesma experihcia nos esclarece que os primeiros impetos do objeto cadente, por mais pesa- do que seja, s2o lentissimos e retardadis- simos". E a discuss20 se conclui do seguinte modo: "Vede agora quanto C grande a for- $a da verdade, pois a mesma experihcia
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    Segunda parte - revoI~.r~do ciefltifica Mas o aue em muito sunera toda maravl- Iha, e que prkpalmente no; Ievou a informar todos os astr6nomos e hlosofos, h a nossa des- coberta de quatro estrelas errantes, ndo conhe- cidas nem observadas nor nenhum outro antes de nos, as quais, corno V&nus e Mercljrio ao 0 0 telesc6pio redor do sol, efetuam suas rota@es per~odicas ao redor de um dos maiores planetasj6 conhe- na revolu~Bocrstron6mica cidos; e a este ora precedem, ora seguem, sem iama~s afastar dele para alhm de determi- se nados limites. Tais coisak foram por mim desco- Sidereus Nuncius: Golilsu onuncio com bertas e observadas recentemente, mediante ssfo obra, publicoda em Vsnszo sm 16 10, uma luneta que excogitei, depo~s ter sido de suas rsvoluciontrrios dsscobartas astronbmi- iluminado pela gra<a divina. cas; dsscobsrtas sf~tuodos maio ds urn por No futuro, com o emprego de tal instru- novo instrumanto, o tslssc6pio. mento, por mim ou por outros serdo realizadas ulteriores descobertas, talvez tambhm de Nesta breve tratagdo apresento coisas im- maior importdnc~a; sua forma e estrutura, de portantes, que devem ser consideradas e aten- como tambhm de sua ~nvengdo, falarei agora tamenta avaliadas por todos os que estudam brevemente, antes de passar ao relato de mi- a natureza.Coisas importantes, repito tanto pela nhas observagdes. superioridadeda propria mathria, como por sua H6 cerca de dez meses chegou a nossos efetiva novidade, como por fim pelo instruman- ouvldos noticia de que um flamengo havia cons- to com qua se manifestararn a nossos sentidos. truido uma lente, com a qua1 os objetos visi- Sem dljvida 6 importante conseguir acres- veis, mesmo que um tanto distantes do olho do centar inumeraveis outros astros b grandiosa observador, se percebiam distintamente como multiddo das estrelas fixas, que at6 hoje pu- se estivessem proximos; e deste foto, verda- derarn ser percebidas com as faculdades natu- deiramente admir6veI, c~rculavam diversos tes- rais, e tornb-10s claros aos olhos, enquanto an- temunhos, aos quais alguns davam fi: e outros tes nunca tinham sido vistos, salientando por ndo. R mesma coisa me foi conf~rmado poucos outro lado que seu nljmero 6 mais de dez ve- dias depois pel0 gent11franc&s Jacques Ba- zes maior do que o das estrelas j6 conhecidas. doudre, o que me impeliu a me dedicar inteira- Bela e interessante & tambhm a superfi- mente ao exame clas causas e ao estudo dos cie lunar, distante de nos cerca de sessenta raios meios para chegar 6 inven~do tal instrumen- de terrestres, e que pode ser observada tdo da to. Rtingi este fim pouco depois, baseando-me perto, como se distasse apenas duas de tais sobre a doutrina das refra@es. E primer0 lu- m distdncias; onde o didmetro do propria lua apa- gar, providenciei um tubo de chumbo, aplican- rece aumentado cerca de 30 vezes, sua super- do em suas extremidades duas lentes de vidro ficie cerca de 900, e seu volume aproxlmativa- de ooculos, ambas com uma face plana e com mente 27.000 vezes, em rsla<do a quanto se a outra esfericamente c6ncava na pr~me~ra Ien- vi: com o mero auxilio do capacidade visual: do te e convexa no segunda; entdo, encostando o que, dapois, coda urn est6 em grou de apurar, olho no lente c6ncava, percebi as objetos bas- com a certeza dos proprios sentidos, que a lua tante grandes e proximos, pois apareciam tr&s ndo 6 de fato revestida de uma superficie lisa vezes mais pr6ximos e nove vezes maiores do e Iljcida, mas aparece rugosa e desigual, sen- que se apresentavam olhados apenas com a do, como a terra, recoberta em toda parte de visdo natural. E seguida apronte~ m outro mais not6veis relevos, ab~smos profundos e anfrac- precis0 e que aumentava os objetos mais de tuosidadas. sessenta vezes. No fim, ndo poupando fad~ga Ndo parece, al8m disso, coisa de pouca nem despesa, consegul construir um instrumen- monta ter resolv~doas controvhrsias sobre a to tdo extraordin6rio que as coisas vistas por Gol6xia ou Via-16ctea e ter mostrado sua ver- meio dele pareclam quase mil vezes maiores e dadeira natureza a nossos sentidos, alhm de trinta vezes mais proximas do que se observa- para o intelecto; como ser6 colsa interessan- das apenas a olho nu. Totalmente sup&rfluo te e beliss~matambhm mostrar diretamente seria dizer qudo mumerosas e conspicuas se- que os corpos estelares, denominados at6 jam as vantagens deste instrumento, tanto no hoje por todos os astr6nomos Nebulosas, sdo terra como no mar. Mas eu, dsixando as coisas bastante diversos do que foram comumente con- terrenas, me dirigi 6 contemplagdo das celes- s~derados. tes; e, em primeiro lugar, olhei a lua t60 de
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    Capitdo de'cimo prirneiro- O drama de Galileu e a fi.tnda+o da ciEncia moderna perto, como se distasse apenas do~s raos ter- temos mais apenas um planeta que giro ao re- restres. Depois, com incrivel alegria do espirito, dor de outro, enquanto ambos percorrem o gran- observei repetidamente as estrelas, tanto as de orbe ao redor do sol; mas nossos sentidos f~xas, como as errantes; e, percebendo-as tdo nos mostram bem quatro estrelas que, como a densas, comecel a pensar o modo de poder lua ao redor da terra, giram ao redor de Jljp~ter, medir suas distbncias, o que por fim descobri. enquanto todos juntos com Jljpiter percorrem o Todos aquelss que pretendem proceder a ob- grande orbe ao redor do sol no espqo de doze serva~6ss tal tipo, convbm que sejam previ- de anos. Por fim, ndo deve ser transcurado o fato amente advertidos dlsto. E prlmelro lugar, com m por qua1 motivo aconteca que os Astros Medi- efeito, ales devem providenciar uma otima lu- ceus, enquanto sfetuam rota~des muito proxi- neta, que mostre os objetos bem claros, distin- mas ao redor de Jljpiter, parscem por vezes tos e em nada embacados, mas os engrande- maiores do que o dobro. Ndo se pode absolu- <a ao menos quatrocentas vezss. fazsndo-os tamante procurar a causa disso nos vapores aparecer vinte vezes mais proximos; se o instru- celestes, dado que eles resultam maores ou mento ndo for tal, em vdo se procuror6 descor- menores sem que as dimensdes de Jljpiter s tlnar todas as coisas por nos percebldas no c&u. das fixas proximas aparepm contempora- das quais em breve falaremos. neamente em nada alteradas. Nem parece cri- Tais 560 as observa~6es sobre os quatro vel qua tal mudan~a dependa de suas diversas Planetas Mediceus, por mim recentemente e em distbnc~as terra no perigeu e no apogeu das da primeiro lugar descobertos; e, embora ndo seja rotaq3es por eles realizadas, ndo podendo uma ainda possivel deles conseguir a dura@o de rota<do circular estrita produzir qualquer efeito seus periodos, podemos todav~a tornar conhe- do g&nero;e nem mesmo um mov~mento eliptico cidas algumas coisas dignas de atencdo. E m (que neste caso seria quase reto) parece con- prime~ro lugar, pelo fato de ora seguir e ora cebivel, mas at& contrario 6s apar&ncias [...]. preceder Jljpiter com tais intervalos s uma vez 0 s limites de tempo me impedem de proceder que se afastam deste tanto para orients como al6m; mas destas coisas o sereno leitor espere para ocidente com reduzidissimos alongamen- em breve uma trata~do mais longa. tos, acompanhando-o tanto no mov~mento re- G. Galilei, trogrado, quanto, igualmente, no d~rig~do, nln- S i d ~ r ~ Nuncius. us gu&m pode duvidar que eles girem a0 redor de Jupiter, enquanto todos juntos realizam seus periodos de doze anos ao redor do centro do mundo. RI&mdisso, giram sobre circulos de ralo diferente, isto 6 , que facilmente se deduz do fato de que aos mchmos alongamsntos de Jljp~ter jamais se puderam ver dois planetas Nssto corto enviodo srn 2 1 ds dszsrn- unidos juntos, enquanto, ao contrbrio, em pro- bro ds 16 13 o seu discl;oulo dorn Bsnedstto ximidade de Jupiter foram perceb~dos bem pro- Costslli - Isitor ds motorndtica no EstOdio ds ximos dois, tr&s s por vezes todos os quatro. P~so, Golileu ssclorsca o rslogdo que els - Igualmente, salientamos que as rota@es dos v& sntrs ci&ncio s Fd. "Eu creria qua o outorL planetas que descrevem circulos menores ao dode dos Sogrodos lstros tivssse tido om redor de Jupiter sdo os mais velozes: com efei- rnira sornsnts persuodir os hornens doqus- to, as estrelas mais proximas de Jljpiter 560 Iss ortigos a proposig6ss. qua, sando neces- percebidas bastante frequentemente a onen- sdrios para suo solvogdo s suparondo todo te, tendo no dia anterior aparecido a ocidente, discurso hurnano, ndo podiorn por outro ci&n- e vice-versa, enquanto o planeta que procede c/o nsrn por outro rnsio so tornar cri'vsis, o ao longo do orbe mais amplo, contanto qua se ndo ser palo boco do intsiro Espi'rito Sonto". atente para suas voltas, p a r a s ter um ciclo de Mais tarde, srn 16 15, srn urno iguol- meio m&s. Temos igualmente um excelente e rnsnts fornoso corto d ssnhora Cristino ds clarissimo argumento para aliviar de qualquer lorsno, Golileu sustsntard quo "6a intsngdo dljvida a todos os que, embora admitindo sem do Espirito Sonto [. . .] snsinor como se voi oo dificuldade no sistema copernicano a rotasdo cdu, s ndo corno voi o cdu [...I". dos planetas ao redor do sol, ficam totalmente perplexes a respeito da ljnica rotacdo lunar ao redor da terra, enquanto esta e a lua percor- Mui Reverend0 Padre e Senhor meu rem o orbe anual ao redor do sol, de modo a Observantissimo, concluir que tal estrutura do cosmo deva ser Ontem veio a meu encontro o Sr. Nicolau reje~tada como impossivel: ora, com efeito, ndo Rrnghett~,que me trouxs informa@es de V.
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    Segunda parte -P r e v o I u G ~ o cieotificn Revma.,em que tive infinito prazer ao ouvir aqui- pendimento, o odio, e por vezes at& o esqueci- lo de que eu de modo nenhum duvidava, isto mento das coisas passadas e a ignor6ncia das 6, do g r a d e satisfqdo que V. Revma. dava a futuras. De onde, assim como na Escritura se todo este Estudio, tanto para seus superinten- encontram multas proposigdas que, quanto a0 dentes quanto para os proprios leitores e aos sentido nu das palavras, t&m aspecto diverso estudiosos de todas as na@ss; o aplauso de- do verdade~ro mas sdo postas desse modo b Ies ndo tinha contra o senhor acrescido o nir- guisa de se acornodor 2.1 incapacidads do vul- mero dos &mulos, como costuma acontecer en- go, tambQm para os poucos que merecam ser tre aqueles que sdo de pr6t1ca semelhante, mas separados da plebe & necessdrio qua os s6bi- bem depressa o restringira a pouquissimos; e os expositores produzam os verdadeiros senti- estes poucos deverdo a~nda aquietar, se ndo se dos, e acrescentem a isso as razdes particula- quiserem que tal emula@o, que costuma ainda res pslas quais tenham s~do proferidas sob tais por vezes merecer o titulo de virtude, degenere palavras. e muds o nome para afeto censur6vel e preju- Portanto, sendo que a Escritura em multos dicial finalmente mais aos que com ele se ves- lugares & ndo somente capaz, mas necessarla- tem do que a nenhum outro. mente carente de exposi~des diversas do apa- Mas o selo de todo o meu gosto foi o de rente significado das palavras, parece-me que ouvi-lo contar os raciocinios que V Revma. teve . nas disputas naturais ela dsveria ser resew- ocasido, merc& da sumo benignidode destas do para o irltimo lugar: porque procedendo Rltezas Serenissimas, de promover b mesa de- igualmente do Verbo divino a Escritura Sagrada Ies e de continuar depois no aposento da se- e a natureza, aquela como ditada pelo Espir~to nhora Serenissima, presentes tamb6m o Grdo- Santo, e esta como fideliss~ma executora das Duque e a Serenissima Rrquiduquesa, e os ordens de Deus; e sendo, mais a~nda, conve- ilustrissimos e excalentissimos Senhores D. Rn- n i e n t ~ Escrituras, para acomodar-seao en- nos t8nio e D. Paulo Giordano e alguns dos mui tendimento do universal, dizer muitas colsas di- excelentes Filosofos. E que maior favor pods V . versos, no aspecto e quanto ao s~gn~ficado dos Revma. desejar, sendo o ver Suas Altezas mes- palavras, do verdadeiro absoluto; mas, a0 con- mas experimentarem satisfqdo de d~scorrer con- trbrio, sendo a natureza inexor6vel e imut6vel sigo, de promover-lhedljvidas, de ouvir sum so- e de nada cuidando a n6o ser de suas rec6ndi- lu@es, e finalmente de permanecer sastifeitas tas razdes e modos de operar por bem ou por com as respostas de Vossa Paternidode? mal, expostos b capacidade dos homens, pelo 0 s particulares que V. Revma. disse, refe- fato de ela jamais transgred~r termos das os ridos a mim pelo Sr. Arrighetti, deram-me oca- le~s eta impostas; parece que o que diz res- a sido de voltar a consideror algumas coisas em peito 00s efeitos naturais que a sensata expe- geral a respeito de Ievar a Escritura Sagrada ri&ncia nos pde diante dos olhos ou as ne- em disputas de conclus6es naturais, e algumas cess6rias demonstra@es nos concluem, n6o outras, em particular sobre o lugar de JosuC, deve de modo algum ser revogado como duvi- que Ihe foi proposto, em contradi<do da mobi- doso por passagens do Escritura que tivessem lidade da terra e estabilidade do sol, pela Grd- nas palavras semblante diverso, pois nem todo Duquesa Mde, corn alguma r6plica do Sere- dito da Escritura est6 ligado a obrigaq3es t60 nissima Rrquiduquesa. severas corno todo efeito de natureza. Quanto b primeira pergunta gen6rica da Ro contr6ri0, se apenas por este respei- senhora Serenissima, parece-me que pruden- to, de acomodar-se 2.1 capacidade dos povos tlssimamente fosse proposto por ela e conce- rudes e ind~sciplinados, Escritura ndo se abs- a dido e estabelecido por V. Revma., ndo poder teve de sombrear seus dogmas fundamenta~s, jamais a Escritura Sagrada mentir ou error, mas at& atribuindo ao proprio Deus condi@es afas- serem seus decretos de absoluta e invioldvel tadissimas e contr6rias b sua ess&ncia, quem verdade. Eu apenas teria acrescentado que, ir6 querer sustentar de modo asseverativo que embora a Escritura ndo possa error, por vezes ela, ao falar ainda que incidentalmente de ter- poderia errar algum de seus intbrpretes e ex- ra ou de sol ou de outra criatura, tenha escolhi- p o s i t o r ~de v6rios modos: entre eles um se- ~, do conter-se com todo rlgor dentro dos limita- ria gravissimo e freqijentissimo, quando quises- dos e restritos significados das palavras? E sem parar sempre no puro significado das principalmente pronunciando destas criaturas palavras, porque assim apareceriam ndo so di- coisas muitissimo distantes do instituto prim6 versas contradi@es, mas tamb6m graves here- rio destas Sagradas letras, ou melhor, corsas sias s at6 blasf&mias; pois seria necessario dar tais que, ditas e Ievadas com verdade nua e a Deus pbs e mdos e olhos, sem falar dos afe- crua, teriam mais depressa danificado a inten- tos corporais e humanos, como a ira, o arre- 560 primeira, tornando o vulgo mais contumaz
  • 241.
    Capitdo de'cimo prirneiro- O d r a m a d e Galileu e a funda+o da ci&ncia moderna 6s psrsuasaes a respato dos artlgos referen- tas. Todavia, se os primeiros escritores sacros tes b salva~6o. tivessem como pemamento proprio persuadir lsto posto, e sendo ainda manifesto que o povo das disposi$3es e mov~mentos cor-dos duas verdades jamais podem se contradizer, b pos celestes, ndo teriam tratado tdo pouco dis- oHcio dos s6b1os expositores afadigar-se para so, que 6 como nada em compara~do cam as encontrar os verdadeiros sentidos dos textos infinitas conclusdes altissimas e admir6veis que sagrados, de acordo com as conclusdes naturais estdo contidas em tal ci&ncia. das quais antes o sentido manifesto ou as de- Veja, portanto, V Revma. o quanto, se n6o . monstrag6es necess6rias nos tivessem tornado estou errado, desordenadamente procedem os certos e saguros. Ou rnelhor, sendo, como eu clue nos disputas naturais, e que diretarnente disse, que as Escr~turas, embora ditadas pelo ndo sBo de Fide, na primeira frente constituem Espirito Santo, pelos aduzidas razdes admitem passagens da Escriturcl, e com frequ&ncia pes- em muitos lugares exposi~aes distantes do tom simamente entendidas por eles. Contudo, se literal e, albm do mais, n6o podendo nQ com cer- esses tas verdadeiramente cr6em ter o verda- teza asserir que todos os intbrpretes falem ins- deiro sentido daquela particular passagem da pirados divinamente, eu creio que fosse pru- Escritura, e por conseguinte se mant&m segu- dentemente feito que n6o se permit~sse algubm a ros de ter em mdo a absoluta verdade do ques- empenhar os lugares da Escritura e obrig6-10s tdo que pretendem disputar, digam-me em se- de certo modo a tar de sustentar como verda- guida ingenuamente, se consideram grand@ deiras algumas conclus6es naturais, das quais vantagem ter aquele que em uma disputa no- o sentido e as razdes demonstrativas e neces- tural acha-se a sustentar o verdadeiro, vanta- s6rias nos pudessem manifestor o contr6rio. gem, digo, sobre o outro a quem toca sustentar E quem quer p6r termo aos engenhos hu- o falso? Sei que me responder60 que sim, e manos? Quem desejar6 asserir que j6 & sabi- que aquele que sustsnta a parte vsrdadelra do tudo o que d cognoscivel no mundo? E, por poder6 ter mil experi&ncias e mil demonstra- isso, albm dos artigos referentes B salva<6oe @as necess6rias para a sua parte, e qua o outro ao estabelecimento da fb, contra a firmeza dos ndo pode ter sen60 sofismas, paralogismos e quais ndo h6 perigo nenhum de que jama~s fal6cias. Mas, se ales, mantendo-sedentro de possa insurgir alguma doutrina v6lida e eficaz, termos naturals nem produzindo outras armas seria otimo talvez ndo acrescentar outros sem a n6o ser as filosoficas, sabem ser tdo superio- necessidade: e, se assim 6, quanto maior de- res ao advers6ri0, por que, ao vir depois ao sordem serla acrsscentd-los a pedido de pes- congresso, trazem na mdo uma arma inevtthvel soas que, albm do fato de ignorarmos se falam e tremenda, que so ao v&-laaterroriza todo mais insp~radas virtude celeste, claramente ve- por h6bil e esperto campedo? Todavia, se devo di- mos que sdo inte~raments desprovidas daque- zer a verdade, creio que eles sejam os primei- la intelig6ncia que seria necess6ria n6o direi ros apavorados, e qua, sentindo-se in6bsis a para redarguir, mas para compreender as de- poder estar fortes contra os assaltos do adver- monstragdes com as quais as agudissimas cl&n- s6ri0, tentem encontrar um modo de n6o o dei- cias procedem para confirmar algumas conclu- xar se aproximar. Mas visto que, como acabei sass suas? de dizer, aquele que tem de seu lado a parte Eu creria que a autoridade das Sagradas verdadeira, tem grande vantagem, ou melhor, letras twesse tido apenas a intengdo de per- grandissima, sobre o advers6ri0, e porque b suadir sobre os homens os artigos e proposi- impossivel que duas verdades se contradigam, g6es que, sendo necess6rios para sua salvo- porbm n6o devemos temer assaltos que sejam g6o s superando todo discurso humano, n6o fertos por quem quer que seja, contanto qua podiam por outra ci6ncia nem por outro meio nos d&em oportunidade para falar e ser ouvi- tornar-se criveis, a n6o ser pel0 boca do pro- dos por pessoas compreenslvas e n6o opressi- prlo Espirito Santo. Mas que aquele mesmo vamente alteradas pelas proprias paixaes e Deus que nos dotou de sentidos, de discurso e interesses. de ~ntelecto, tenha desejado, pospondo o uso Como confirmagdo disso, vou agora con- destes, dar-nos com outro meio as noticias que siderar o lugar particular de Josub, pelo qua1 V. podemos conseguir por aqueles, n6o penso ser Revma. fez a suas Rltezas Serenissimas tr&s necess6rio crer nisso, e principalmente naque- declarac$%s; e tomo a terceira, que V. Revma. las ci&nc~as quais apenas minima particula das fez como minha, como verdadeiramente 6, e a e em conclusdes divrdidas podemos I&-las na ela acrescento alguma cons~dsra@o mats, que a Escrrtura: corno, justamente, a astronomia, da n6o creio tar-lhe dito outra vez. qua1 h6 tdo pequena parte, que ai ndo se en- Posto e concedido por enquanto a0 ad- contram denominados nem mesmo os plane- vers6rio que as palavras do texto sagrado ds-
  • 242.
    Segunda parte -j revolm+o cientffica vam ser tomadas exatamente no sentido com Sendo, portanto, absolutamente ~rnpossi- que soam, isto 6, que Dews a pedido de Josu& vel no constitui$dode Ptolomeu e de Rristoteles fizesse parar o sol e prolongasseo dia, de modo parar o movimento do sol e alongar o dia, assim que ele conseguiu a vitbria; mas, requerendo como afirma a Escritura ter acontec~do, sntdo 6 eu ainda que a mesma coisa valha para mim, preciso que os movimentos ndo sejam ordena- de mod0 que o advers6rio ndo presuma pren- dos como quer Ptolomeu, ou 6 preciso alterar o der-me e deixar-se livre quanto a poder alte- sentido das palavras, e dizer qua quando a rclr ou mudar os significados das palavras; digo Escritura diz qua Dews parou o sol, queria dizer que esta passagem nos mostra manifestamen- que parou o primelro movel, masque, para aco- te a falsidade e impossibilidade do mundano modar-seb capacidade daqueles qua sdo com sistema aristot&lico e ptolemaico, e, ao con- fadiga id6neos a entender o nascer e o par- tr6ri0, se acomoda muito bem com o coper- do-sol, ela dissesse ao contrbrio daquilo que nicano. teria dito falando a hornens sensatos. Em primeiro lugar, pergunto ao advers6- Rcrsscentemosa isso que ndo 6 crivel que rio se ele sabe corn quais movlmentos o sol se Deus parasse apenas o sol, deixando correr as move? Se eel o sobs, & preciso que responda outras esferas; porque sem necessidade nenhu- o mover-secom dois movimentos, ou seja, o mo- ma teria alterado e permutodo toda a ordem, vimento anual do poente para o levante, e do os aspectos e as disposi@es das outras estre- diurno 00 oposto, do Ievante para o poente. las em relagdo ao sol, e grandemente pertur- Rgora, em segundo lugar, Ihe pergunto se bado todo o curso da natureza: mas 6 crivel estes dois movimentos, tdo diversos e quase que ele parasse todo o sistema das esferas contrdrios entre si, compstem ao sol e 560 igual- celestes, as quais, depols daquele tempo do mente seus propnos? E preciso responder que repouso Interposto, retornassem concordemente ndo, mas que um so & proprio e particular dele, a suas opsra$bes sem qualquer confusdo ou isto 6, anual, e o outro ndo & de fato seu, o alteragdo. mas do c&u altissimo, digo, do primeiro mdvel, Mas, uma vez que j concordamos que 6 o qua1 rapta consigo o sol e os outros planetas ndo se deve alterar o sentido das palavras do sainda a esfera estrelada, obrigando-os a fa- texto, & necess6rio recorrer a outra constituigdo zer uma conversdo ao redor da terra em 24 das partes do mundo, e ver se conforme a ela horas, com movimento, conforme disse, quase o sentimento nu das palavras caminha reta- contrdrio ao seu natural e proprio. mente e sem tropeso, como verdadeiramente Vou para a terceira interrogagdo, e Ihe se percebe ocorrer. pergunto com qua1 desses dois movimentos o Tendo eu portanto descoberto, e neces- sol produz o dia e a noite, isto 6, se com o sev sariamente demonstrado, o globo do sol revol- proprio ou entdo com o do primelro movel? E ver-se em si mssmo, fazendo uma inteira con- preciso responder que o dia e a noite sdo efel- versdo em aproximadamenteum m&s lunar, para tos do movimento do primeiro movel, e que aquele lado justamente que se fazam todas as do movimento proprio do sol dependem ndo outras conversbes celestes; e sendo, albm dis- o dia e a noite, mas as estagbes dlversas e o so, muito prov6vel e razo6vel que o sol, corno proprio ano. instrumento e ministro mdximo da natureza, Ora, se o dia dspende ndo do movimen- como que o coragdo do mundo, d& ndo somen- to do sol, mas do do primeiro movel, quem ndo te, como claramente d6, luz, mas ainda o movl- v& que para prolongar o dia & preciso parar o mento a todos os planetas que giram ao redor primeiro m6vel, e ndo o sol? Ou melhor, quem de si; se, conformed posi@o de Cop&rnico, atri- haverd que entenda estes primeiros elementos buirmos a terra principalmente a conversBo diur- de astronomia e ndo saiba que, se Deus tives- no; quem ndo v& que para parar todo o siste- se parado o movimento do sol, em vez de pro- ma, e portanto, sem alterar o restante das longar o dia ele o teria reduzido e tornado mais mut6veis relagbes dos planetas, apenas se pro- breve? Pois, sendo o movimento do sol ao con- longassem o espago e o tempo da iluminagdo tr6rio da conversdo diurna, quanto mais o sol diurna, bastou que fosse parado o sol, como se movesse para o oriente, tanto mais serla justamente soam as palovras do texto sagra- retardado seu percurso para o oc~dente, di- e do? Eis, entdo, o movimento segundo o qual, minuindo-se ou anulando-se o movimento do sem introduzir confusdo alguma entre as partes sol, em mais breve tempo alcangarla o ocaso: do mundo e sem altera<Bo das palavras da tal acidente sensatamente se v& na lua, que Escritura, se pode, com o parar do sol, olongar faz suas conversdes diurnas tanto mais tarda o dia no terra. do que as do sol, quanto seu movimento pro- Escrevi multo mais do que comportam mi- prio & mais veloz que o do sol. nhas indlsposigbes: termino, porbm, oferecen-
  • 243.
    229 :+51i Capitdo dbcimo primeiro - 8drama de Galileu e a fundaG2ioda cigncia moderna do-me como servidor, e Ihe beijo as mbos, de- riam; contudo, sua singular cortesia ndo me per- sejando-lheas boas festas de Nosso Senhor e mitiu podsr usar maiores. toda felic~dada. Estou grato de ouvir que V. So. Exma.,junto G. Galilei, corn muitos outros, asslm como me diz a carta, Corto o dom Bened~tto ell^ cost tenha-me como avesso 21 filosofia peripat6tica. (escrita de Fl o r ~ n p porque isto me dd ocasido cle libertar-me de no dia 21 de dezembro de 1613) tal conotacdo (pois assim a considero) e de mostrar como eu internamente sou admirador de urn homem do ports de Arist6tsles. Conten- tar-me-ei bem nesta estreiteza de tempo de acenar com brevidade aquilo qus penso, com mais tempo, poder mais largo e manifestamen- te declarar e confirmar. 0rnCtodo cientifico: "Entre os seguros Considero (e creio que V. So. ainda consi- rnonairosporo olconpr o verdode esM o on- dere) que ser verdadeiramente peripathtico, isto tepor o experi6ncio o quolquer discurso, es- 6, filosofo aristot&ltco, consista principalmente tondo seguros de que nele, oo rnenos de em filosofar conforme os ensinamentos aristo- rnodo encoberto, esM cont~do Foldcio, ndo o thl~cos, procedsndo com os m6todos e as ver- sendo possivel qua urno sensoto axps- dade~ras suposi@es e principios sobre os quais ri&nciosejo contririo oo verdodairo [. ..]. Es- se fundamenta o discurso cientifico, supondo as tou saguro de que, se Rristoteles voltosse noticias gerais cujo desvio seria grandissimo oo rnundo, ele me raceberio antre seus se- defeito. Entre essas suposi@es est6 tudo aquilo .I. guidores [. . E quondo Rristoteles visa os que Aristoteles nos ensina em sua Dialhtica, novidodes descobertos otuolrnsnte no cCu, atinente a nos tornar cautos em fugir das fa16 que GIG ofirrnou ser ~nolterivel irnutivel, e cias do discurso, enderecando-o e adsstrando- porqua nenhurno alterogio Foro otC entdo o a bem silogizar e deduzir das concessbes pre- visto, indubitovelrnente ale, rnudando de missas a necessdria conclusdo; e tal doutrina opinido, dirio ogoro o contrdrio; pois bern se se refere 21 forma do retamente argumentar. deduz qua, enquonto nos diz que o ctu C Quanto a esta parte, creio ter aprendido pelos inoltardvel, 6 porque ndo Foro visto oltero- inumerdveis progressos matem6ticos puros, ja- @o, rnos ogoro dlrio que Q olter6ve1, porqua mais falozes, to1 seguranco no demonstrar, que, o i se percebern olterogbss". sendo jamais, ao menos rarisslmas vezes eu tenha em minha argumentacbo caido em equi- vocos. Rt6 aqui, portanto, sou peripat6tico. Entre as mansiras seguras para alcanpr A Fortljnio l~ceti Pddua em a verdade estb o antepor a experi&ncia a qual- quer discurso, estando seguros de que nele, Mui llustre e Excelentissimo Senhor ao menos de modo encoberto, estd contida a A gratiss~ma carta da V. Sa. mui llustre e falbcia, ndo sendo possivel que urna ssnsata Exma. do 7 ljltimo, cheia de termos corteses e experi6ncia seja contrdria ao verdadeiro: este afetuosissimos, foi-me entregue hoje; e ndo 6 tambhm um preceito muito apreciado por tendo eu outro tempo para responder-lhemais Aristoteles e cons~deravelmsnte anteposto ao que poucas horas que restam at6 a noite, para valor e 21 forca da autoridade de todos os ho- ndo diferir a resposta uma semana a mais, pro- mens do mundo, a qua1 V. Sa. masma admite cur0 satisfazer esta obriga~do, embora sucinta- que nbo so nbo devemos ceder 2s autoridadss1 mente, por6m com palavras puros e simples. de outros, mas devemos negd-la a nos mes- Ro que V. Sa. Exma.junto comigo grande- mos, todas as vezes virmos que o sentido nos mente deseja, isto 6, que em disputas de ci&n- mostre o contrdrio. Ora, aqui, Exmo. Sr., seja cia sejam observados os mais corteses e mo- dito com boa poz para V. Sa., parace-me ser destos termos que em mathria tdo veneranda, julgado contrariamente ao filosofar peripathtico como a sagrada filosofia, conv&m, dou-lhe a por aqueles que sinistramente se servem do palavra de que n6o me separo sequer um dedo suprad~to preceito, purissimo e segurissimo, isto de seu ing&nuo e honroso estilo: motivo pelo 6, que querem que o bem filosofar seja rece- qua1 usarei os mesmos titulos, atributos e enc6- ber e sustentar toda proposi~do dita a escrita mios de honra para com sua pessoa, qua V. Sa. por Rristoteles, a cuja autoridade absoluta se empregou humanomentepara comigo, embora submetem, e para cuja manutenc60 se induzem [convenham] muito mats a0 senhor do que a a negar experi&ncias sensatas ou a dar estra- mim, e de modo muito mais excelente convi- nhas Intsrpretac6es aos textos de Rristoteles,
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    Segunda parte -A revoIu+o cientifica por declara<do e limitqdo dos quais mui fre- nha, a ndo ser enquanto com menor t&dio do qijantemente fariam com que o mesmo f~losofo leitor eu poderia exprimir rneus sentidos; po- dissesse outras coisas n60 menos extravagan- r&m, minha dureza natural ao manifestar-mefaz tes e seguramente distantes de sua imagina- qua por vezes permito-metransbordar onde ndo $60. Ndo repugna qua um grande artifice tenha desejaria: al6m do mais, seja por nossa con- segurissimos e perfeitissimos preceitos em sua corde filosofia e amig6vel liberdade licito agra- arts, e que por vezes ao operar erre em algum davelmente d~zer, quando o senhor comparas- particular; corno, por exemplo, que um music0 se a multiplicidade e sxtensdo das oposi(6es ou pintor, possuindo os verdadeiros preceitos qus o senhor faz 6 minho h i c a proposi<dodo do arts, cometa na pratica alguma dissondncia, candor lunar, trqada em pouquissimos versos, ou inadvertidamente algum erro na perspecti- comparasse digo, com a extensdo de minhas va. Eu, portanto, por saber que tais artifices n60 respostas, talvez o senhor ndo encontraria a so possuiam os verdadeiros preceitos, mas eles propor<do de seus ditos com os meus rnenor proprios foram seus inventores, vendo olguma que a propor<dodos versos de minha carta com falta em alguma de suas obras, devo aceitar os versos que suas inst6ncias contern. Mas es- isso como bem feito e digno de ser sustentado tas sdo questiunculas que nao devem ser to- e imitado, em virtude da autoridads deles? Rqui madas ssndo como brincadeira. de fato ndo prestarei meu assentimento. Que- Muito me agrada que V. So. aplauda meu ro acrescentar por ora apenas isto: qua eu me pensamento de reduzir em outra textura minhas sinto seguro de que, se Rristoteles voltasse ao respostas, enviando-as a V. So. mesmo; antdo mundo, ele me receberia entre seus seguido- terei ocasido de ndo me deixar vencer no uso res, por causa de minhas poucas contradi@es, de termos de rever&nciaao seu nome, ernbora mas bem concludentes, muito mais que muitis- eu esteja certo de dever ter s~do muito su- em simos outros qua, para sustentar tudo o que perado na doutrina pelo seu elevado engenho. dizem como verdadeiro, vdo respigandode seus Poderia bem ocorrer que meu inforthio, de ter textos conceitos que jamais Ihe ter~om ocorrw de servir-me dos olhos e da pena de outros, do. E quando Rristoteles visse as novidades com demasndo tBdio do escritor, prolongasse descobertas atualmente no c&u, que ele afir- algum dia a mais aquilo que em outros tempos mou sar inalterdvel e ~mutdvel, porque nenhu- por mim mesmo teria exped~do poucos dias, em ma altera~dofora at6 entdo vista, indubita- e V. Sa., pela prontiddo e v~vacidade seu de velmente, mudando de opinido, ele diria agora engenho, em poucas horas. Viva feliz e conti- o contrdrio; pois bem se deduz que, enquanto nue tendo comigo sua boa grap, por mim estl- nos diz que o c&u 6 inalter6vel, 6 porque ndo mada e apreciada como favor6vel fortuna; e fora vista altera<do,mas agora d~ria que B al- qua o Senhor a f q a prosperar. ter6vel, porque ai se percebem altera<bes. fl G. Galllel, hora avan<a,e eu entraria em um mar vastissimo Corta a FortGnio liceti se quisesse contar tudo o que em tal ocasido (escr~ta Rrcetr~ dia 15 ds setembro ds 1640) de no me passou mais vezes pela mente; reservar- me-ei, porbm, para outra ocasido. Quanto a V. So. tar-me atribuido op~nides que ndo sdo minhas, pode ter acontec~do que V. So. tenha tomado algumas opiniaes atribui- das a mim por outros, mas ndo escritas por mim: como, por exemplo, qua, segundo o filosofo La- galla, eu considere a luz como corporea, en- R importdncia do ci&ncioporo o tCcnico quanto no mesmo autor e no mesmo lugar se C o tsma do primeiro trscho, tirodo ds umo escreve que sempre ingenuamente confessei corta ds Golilsi o Belisdrio Vinto; snquonto ndo saber o que seja a luz; e assim consideror no segundo tr~cho, tirodo de Discursos e de- como resolutamente primdr~os meus pensamen- monstra@es matemdticas sobre duos novas tos, alguns reportados pelo Sr. M6rio Guiducci, ci&ncias (primeira jornada), chomo o otsnq3o poderia ser que eu n60 os tivesse falado, em- paro os ~sti'mulosqus a tCcnico ofsrscs a bora eu me repute como honra que s~ creia reFl~x6o cienti'fico. que tais conceitos sejam meus, considerando- os verdadeiros e nobres. R respeito de parecer porventura prolix0 Gostaria que meus livros, dirigidos sem- ao responder a suas obje<6es,ndo o subscre- pre a0 vener6vel nome de meu Senhor. fossem vo de nenhum modo, nem como sombra de in- os que me ganhassem o pdo; ndo restando, no dignqdo em V. Sa. nem ainda como falta mi- entanto, sendo conferir a Sua Rlteza tantas e
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    227 Capitdo de'cimo primeiro - 8 drama de Gialileu e a fundacdo da &&cia moderna tais invengdes, que talvez nenhum outro princl- do rnsu Cornposso Gaorndtrico, dedicado a Sua pe as tenha maiores, das quais eu ndo so te- Rltaza, pois ndo h6 mais exemplares; esse ins- nho rnuitas com efeito, mas posso estar seguro trurnento foi de tal modo abragado pelo mun- de encontrar muitas delas ainda durante o dia, do, que agora verdadeiramente ndo se fazem conforme as ocasides que se apresentarem: outros instrumentos deste g&nero, e ssi que at& alhm de que, das invengdes que dependem de hoje foram fabricados alguns m~lhares [...I. minha profissdo, poderia estar Sua Rlteza se- F~nalments, quanto a0 titulo e pretext0 de gura de ndo ter de empregar em alguma delas rneu servlgo, desejaria que, al&mdo nome de Ma- seu dinhe~roinutilmente, como porventura ou- tem6tico. Sua Rlteza acrescentasse o de F~losofo, tra vez foi felto e em vultosas somas, nem ain- pois eu confess0 ter estudado mas anos de fi- do para deixar fugir das mbos qualquer desco- losofia do que meses de matemdt~ca pura [...I. berta que Ihe fosse proposta por outros, que G. Galilei, Corto o Bal~sdr~o am Norang. Vinto verdadelramente fosse Gtil e bela. (escrita de PCldua no dm 7 de maio de 1610) Tenho um nurnero tdo grande de segre- dos particulares, tanto uteis quanto curiosos e SRLVIATI- Senhores Venezianos, parece-me adrnirClveis, que somente a dernasiada abunddn- que a pr6tica frequente ds vosso famoso arse- cia me prejudica e sempre prejudicou; porque. nal, sobretudo na parts denorninada mecdnl- se eu tivesse apenas urn, eu o teria estimado ca, proporciona vasto campo ao filosofar dos muito, e com ele em mdos poderia ter encontrado intslectos especulativos; dado que, aqul, todo junto de algum grands principe aqusla ventura tipo de instrumento e de m6quina & operado que at& agora ndo encontrei nsm procurei. continuamente por grande numero de artifices, Mogno longsqua odrnirobilio opud ma hobso: entre os quais, seja pelas observagdes feitas mas ndo podem servir, ou, melhor dizendo, ser por seus predecessores, seja por aquelas qua, colocadas em q d o a ndo ser por principes, por reflexdo pessoal, eles proprios fazem con- porque eles fazem e sustentam guerras, fabri- tinuamente, & natural que existam muitos peri- cam e defendem fortalezas, e por seus rels de- tos inslgnes. portados fazern enormes despesas, e ndo eu - V. SAGREDO So. de fato ndo se engana: ou hornens part~culares. eu, curioso por natureza, frequento esss am- Rs obras que tenho de levar a cabo sdo bient~, ouvindo aqueles que, devido a certa principalmente dois l ivros Ds sisternote sau superiorldade sobre outros professores, nos constitutions univsrsl, conceit0 imenso e cheio chamamos chefes; a prelegdo deles rnu~tas ve- de filosofia, astronomia s geometria; tr&s livros zes ajudou-me a descobr~r, pela pesqulsa ra- De rnotu locoli, ci&ncia inteiramente nova, ndo cional, efei tos ndo apenas maravilhosos, mas havsndo nenhum outro, antlgo ou moderno, ainda rec6nditos e quase irnpens6veis. descoberto algurn dos muitissimos sintomas G. Gali h , Discursos a damonstrogBes adrnir6ve1s dernonstro exlstir nos rnovimen- que motamdticos sobre duos novas ci&nclos tos naturais e nos violentos, que posso de modo rnuito razo6vel chamar de cikncia nova e en- contrada por rnim desde seus primeiros princi- pios: tr&s l~vros das mecdnicas, dois referentes 6s demonstragdes dos principios a fundamen- tos, e um dos problemas; e, embora outros te- nham escrito a mesrna mathria, todavia o qua dsla at& aqui foi escrito, nern em quantldade nem em outras colsas & um quarto daquilo que escrevo. Tenho a~nda diversos opljsculos sobre questdes naturais, como Ds sono s t vocs, De visu at coloribus, Ds mans sstu, Da cornpositions instrumentcrlista continui, Ds onirnoliurn rnotibus, e outros. Pen- do Copernicanismo so al&m disso escrever alguns livros referentes ao soldado, formando-o nbo so em id&ia, mas ensinando com regras muito especiais tudo Corn ssto corto d a 12 d s obril d s 16 IS aquilo que Ihe cabe saber e que depende das o cordsol Robsrto Bslorrnlno ohrrno qus matern6ticas, corno o conhecimento de castra- Gollleu pods sustsntor o tsono copernlcono, metaq%s, disposigdes, fortifica@es, expugna- rnos opsnos corn o condlg60 d s qua o Intsr- @as, fazer plantas, medir com a vista, conheci- prsts em urno parspsct~vo diri'ornos hojs - - mentos referentes 6s artilharias, usos de v6r1os ~nstrurnentol~sto 'Porsca-rns que V So s o lnstrurnentos etc. Preciso tarnbhm reed~tar Uso o
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    228 Segunda parte - A vrvoIuc~osientificn todos os expositores gregos e latinos. Nem se senhor Golilsu seriom prud~ntes conten- em pode responder que esta ndo seja mathria de tor-se d~ folor ex suppositione e nbo obso- f&, porque se ndo & mat&ria de f t ex port@ lutomante, como sempre acreditsi que tsnho obiecti, h mathria de f6 GX pate d~csntis; e, folodo CopCrnico. " assim, seria herege quem dissesse que Rbrado n60 tenha tido dois filhos e Jaco doze, como quem dlssesse que Cristo ndo nasceu de uma virgem, porque uma e outra coisa t dita pelo Ro mui Reverendo Prior Paulo RntBnio Espirito Santo por boca dos Profetas e dos Rpos- Foscarini, Provincial dos Carmelitas da Provincia tolos. de Cal6bria [em Roma]. 3) Dig0 que quando houvesse verdadei- ra demonstra<do de que o sol est6 no centro Mui Reverendo Padre, do mundo e a terra no terceiro chu, e que o sol Li com prazer a epistola em italiano e o nbo circunda a terra, mas a terra circunda o sol, escrito em latim queV. Revma. me envlou; agra- entdo seria necess6rio andar com multa cons+ dqo-lhe uma e outro, e confesso que estdo deraq3o ao explicar as Escrituras que parecem todos che~os engenho e de doutrina. Mas. de contr6rias, e mais ainda dizer que apenas pre- como o Sr. pede meu parecer, eu o farei com tendemos afirmar que seja falso aquilo que se muita brevidade, porque agora o Sr. tem pou- demonstra. Mas eu ndo crerei que exista tal co tempo para ler e eu pouco tempo para es- dsmonstrqdo, 0th que ndo me seja mostrada: crever. nem 6 o mesmo demonstrar que suposto que o 1 ) Digo que parece-me que V. Revma. e sol esteja no centro e a terra no cCu, se salvem o Sr. Galileu prudentemente se contentem em as aparhncias, e demonstrar qua na verdade o falar ex supposit~ons ndo absolutamente, e sol est6 no centro e a terra no chu; porque a como sempre acred~tei que Cop&rnico falas- primeira demonstra@o creio que possa hover, se. Porque quando dizemos que se supde que mas sobre a segunda tsnho grande duvida, e a terra se mova e o sol esteja parado ficam em caso de duvida ndo se deve de~xar Escri- a salvas todas as apar&ncias melhor que com o tura Santa exposta pelos Santos Padres. Rcres- colocar os exchtricos e epic~clos; muito bem & canto que quem escreveu Oritur sol st occid~t, colocado, e ndo tem perigo nenhum: e isto bas- et od locum suum rsvertitur etc. foi Salomdo, o ta para o matem6tico. Mas querer afirmar que qua1 ndo so falou inspirado por Deus, mas foi realmente o sol esteja no centro do mundo, e homem sobre todos os outros sapientissimo e apenas se revolva em si mesmo sem correr doutissimo nos ci$ncias humanas e no conheci- do oriente para o ocidente, e que a terra es- mento das coisas criadas, e toda esta sabedo- teja no terceiro ctu e gire com sumo veloci- ria a teve de Deus; dai nd0 ser verossimil que dade ao redor do sol, & coisa muito perlgosa ahrmasse uma coisa que fosse contr6ria b ver- ndo so de irritar os filosofos e teologos esco- dade demonstrada ou que se pudesse demons- 16sticos, mas ainda de ferir a Santa F&, tor- trar. E se alguhm me disser que Salomdo fala nando falsas as Escrituras Santas; porque V. segundo a aparhcia, parecendo a nos que o Revma. bem demonstrou muitos modos de sol gire, enquanto a terra giro, como a quem expor as Santas Escrituras, mas ndo os apli- quando parte da praia Ihe parece que a praia cou em particular, pois sem dljvida haveria de parta do navio, responderei que quem quan- encontrar grandes d~f~culdades tivessese do parte do praia, embora Ihe parep que a querido expor todas aquelas partes que o Sr. prala parte dele, tamb&m sabe que isto & erro mesmo citou. e o corrige, vendo claramente que o navio se 2) Digo que, como o Sr. sabe, o Concilio move e nbo a praia; todavia, quanto ao sol e proibe expor as Escrituras contra o consenso co- b terra, nenhum s6bio tem necessidade de mum dos Santos Padres; e se V. Revma. quiser corrigir o erro, porque claramente experimsnta Ier ndo digo apenas os Santos Padres, mas os que a terra est6 parada e que o olho ndo se coment6rios modernos sobre o G&nesis, sobre engana quando julga que o sol se move, como os Salmos, sobre o Eclesiastes, sobre Josut, tambhm ndo se engana quando julga que a ver6 que todos concordam em expor od litterom lua e as estrelas se movem. E isto baste por que o sol est6 no c&u e giro ao redor da terra agora. com sumo velocidade, e que a terra est6 muito Com isto saudo claramente V. Revma., e longe do chu e est6 no centro do mundo, imo- Ihe p q o de Deus todo contentamento. vel. Considere agora o Sr., com sua prud&ncia, R. Oslarrn~no. se a Igreja pode suportar que se d& bs Escrltu- Carta a Poulo Rnt6n1o Foscorini ras um sentido contr6rio aos Santos Padres e a (de Rorna, dia 12 ds abr~l 1615) ds
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    do m~ndo, Sistema metodologia e filosofia S nao compreendermos o pensamento de Newton sera Sem Newton e impossivel compreender a fundo tanto o Empirismo inglCs, como e impossivel o lluminismo (sobretudo o franc&) e tambem a filosofia de Kant. compreender Com efeito, a "razao" dos empiristas ingleses - razao limitada o Empirismo, e controlada pela "experi@ncia"- e a razao de Newton; a "ra- o lluminismo zao" dos iluministas e a de Locke, isto e, a razao que encontra e o pensamen- seu paradigma na ciencia de Boyle e na fisica de Newton. E, por t o de Kant outro lado, e precis0 estar lembrado de que a "ci@nciaN que + § / . I de fala Kant e a ci@ncia Newton e que a como@o kantiana di- de ante dos "ceus estrelados" e a comoqao diante da ordem do unh Newton. lsaac Newton (1642-1727) estuda no Trinity College de Cambridge, e B aqui que seu grande g@nio compreendido e estimulado pelo matematico Isaac Barrow e (1630-1677). Em 1665-1666, por causa da peste, Newton deixa Cambridge e volta para o campo, em Woolsthorpe, sua terra natal. E foi justamente em Woolsthorpe que ele teve pela primeira vez a ideia da gravitacao universal. Quando, em 1669, Barrow comecou a ensinar teologia, Newton foi chamado a catedra de matemati- ca, que ja fora de Barrow. Tr@s anos depois, em 1672, Newton apresenta a Royal Society um memorandum com o titulo Nova teoria a respeito da luz e das cores, em que encontramos a teoria da natureza corpuscular da luz, teoria que contrastava com a teoria ondulatoria da luz formulada pelo fisico holand@s,o Newton cartesiano Christian Huygens (1629-1695). em polemica Newton tera outra disputa com Leibniz a proposito da prio- corn Hooke ridade na descoberta do calculo infinitesimal. e Leibniz Alem disso, foi durissima a controversia que Newton teve + 5 11.2; v111.3 com Robert Hooke (1635-1703), o qua1 desejava fosse reconhe- cida a propria prioridade na descoberta da lei da forca inversamente proporcio- nal ao quadrado da distdncia. Primeiro Newton se ofendeu terrivelmente; de- pois a briga se aplacou e Newton inseriu nos Principia uma nota em que se regis- trava que a lei do inverso do quadrado ja fora proposta por Wren, Hooke e Halley. 0 s Philosophiae naturalis principia rnathematica apareceram em 1687. Em 1689 Newton foi nomeado deputado na representaqao da Universidade de Cambridge. Neste period0 estreitou amizade com John Locke; continuou seus es- tudos sobre o cdlculo infinitesimal. Entrementes fora nomeado diretor da Zecca, da qua1 se tornara governador tr@s anos mais tarde. Em 1703 e eleito presidente da Royal Society. Em 1704 aparece a dtica; em 1713 publica-se a segunda edi@o dos Principia. No inicio do terceiro livro dos Principia Newton fixa'as quatro "regras do raciocinio filosofico". 580 certamente regras metodoldgicas, mas pressup8em assuntos de ordem metafisica sobre a natureza e sobre a estrutura do uni- verso.
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    Regra I: "Nao devemos admitir mais causas das coisas natu- AS "regras rais do que aquelas que sdo tanto verdadeiras como suficientes do filosofar" para explicar was apar$nciasn. + 5 111.1 Regra II: "Por isso aos mesmos efeitos devemos, o quanto possivel, atribuir as mesmas causas". Regra Ill: "As qualidades dos corpos, que ndo admitem nem aumento nem diminui@o de grau, e que se percebem pertencer a todos os corpos dentro do dmbito de nossos experimentos, devem ser consideradas qualidades universais de todos 0s corpos". Regra IV: "Na filosofia experimental as regras inferidas por induggo geral a partir dos fendmenos devem ser consideradas como estritamente verdadeiras o u como muito proximas da verdade, apesar das hipoteses contrarias que possam ser imaginadas, ate quando se verifiquem fendmenos a respeito dos quais elas se tornam mais exatas o u enta"o se tornam sujeitas a excegdes". ~odos E por meio dos sentidos que chegamos a estabelecer as 0 s corpos qualidades fundamentais dos corpos, os quais s2o formados por sdo formados partes menores tambem elas "extensas, duras, impenetraveis, de partes moveis e dotadas de sua propria inercia". Esta e a teoria do menores corpuscularismo. + 2 111.2 E, por outro lado, e a experiencia que nos leva a "admitir universalmente que todos os corpos s2o dotados de um principio de gravitasao reciproca". E a gravidade dos corpos "diminui em relac20 a seu afastamento da terra". A lei Com a leide gravidade Newton propunha um unico princi- de gravidade pio em grau de dar conta de uma quantidade ilimitada de fenb- + 5 111.3 menos: a forsa que faz cair uma pedra ou uma ma@ e da mesma natureza da forsa que explica o fenbmeno das mares como efei- t o da a t r a ~ 2 o sol ou da lua sobre a massa da agua dos mares. do E a grande maquina do mundo, a ordem dos ceus estrela- A prova dos, e a base sobre a qua1 Newton fundamenta a demonstra@o da de Deus da exist@ncia Deus. "Este extremamente maravilhoso sistema de +5 IVI do sol, dos planetas e dos cometas so pbde se originar do projeto e da potencia de um Ser inteligente e poderoso". Hypotheses non fingo: e a celebre sentensa metodologica de Newton a qua1 se reportam todos os indutivistas. Todavia, Newton e conhecido, e sua gran- deza e ilimitada, nao porque viu uma ma@ cair; ele e conhecido e grande porque formulou hipoteses e as provou, hipoteses que explicam por que a maq2 cai por terra e por que a lua n2o despenca sobre a terra, por que os cometas gravitam em torno do sol e por que ocorrem as mares. Todavia, o que entendia Newton com "hipoteses", quando A sentenga dizia para "nso inventar hipoteses"? "Hypotheses Eis a sua resposta: "[ ...I e nao invento hipoteses; com efeito, non fingo" tudo aquilo que n2o se deduz dos fenbmenos, deve-se chamar +g V I de hipoteses; e as hipoteses, tanto metafisicas como fisicas, tanto de qualidades ocultas como mecdnicas, n2o tem nenhum lugar na filosofia experimental. Em tal filosofia proposis6es particulares s2o deduzidas dos fenbmenos, e sucessivamente tornadas gerais por induq2o. Foi assim que se descobriram a impenetrabilidade, a mobilidade e a forca dos corpos, as leis do movimento e de gravita@o. E para nos e suficiente que a gravidade exista de fato e aja conforme as leis que expusemos, e esteja em grau de amplamente dar conta dos movimentos dos corpos celestes e de nosso mar". A gravidade existe de fato; ela explica os movimentos dos corpos; serve para prever suas posisdes futuras. lsto e o que basta ao fisico. Qual seja a causa da gravidade e uma quest20 cuja respos- ta sai do dmbito da observaq20 e da experimentaqao e que, portanto, foge a "fi-
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    23 1 Capitulo de'cimosegundo - Sistema do mundo, mrtodologia r filosofia na oLra d r Newtoo losofia experimental". E Newton niio quer se perder em conjecturas metafisicas n%ocontrolaveis. Este e o sentido de sua expressao Hypotheses non fingo. A natureza e simples e uniforme. E eis, a seguir, as tres leis newtonianas que descrevem os ordenados e rigorosos movimentos do universo e que permitem prever orbitas e posiq6es futuras dos corpos celestes. A primeira lei e a lei de inercia, sobre a qua1 Galileu tinha As tr6s leis trabalhado e que Descartes havia formulado com muita preci- do movimento sio. Newton escreve: "Todo corpo persevera em seu estado de e as nog8es repouso o u de movimento retilineo uniforme, a menos que n2io de espaqo dirigidas sobre ele" . e tempo seja forqado a mudar tal estado p o r f o r ~ a s A segunda lei, ja formulada por Galileu, diz: "A mudanqa absolutes de movimento e proporcional a forqa motriz aplicada; e ocorre + S V1.l sob a direqao da linha reta segundo a qua1a forca f o i aplicada". A terceira lei, formulada por Newton, afirma que "A toda aqdo se opde sem- pre urna igual reaqdo: o u seja, as aqBes reciprocas de dois corpos sdo sempre iguais e dirigidas em direq6es contrarias" . E claro que os estados de repouso e de movimento retilineo uniforme po- dem-se determinar apenas em relac20 a outros corpos que estejam em repouso ou em movimento. E, urna vez que a remitencia a sempre ulteriores sistemas de referencia n2o pode chegar ao infinito, Newton introduz as duas nogaes de tem- p o absoluto e de espaqo absoluto: duas noq6es que serio objeto de sucessivas e devastadoras criticas, como conceitos privados de significado operativo e em- piricamente nao controlaveis (Ernst Mach dira que o tempo absoluto e o espaco absoluto de Newton sao "monstruosidades intelectuais"). Eis como Newton define os dois conceitos: - "o tempo absoluto verdadeiro e matematico, em si e por sua natureza, flui uniformemente sem relaq2o com algo interno, e com outro nome chama-se dura- $20; o tempo relativo aparente e comum e a medida sensivel e externa [...I da duraqio atraves do meio do movimento, e ele e comumente usado em lugar do tempo verdadeiro, ele e a hora, o dia, o m@s,o ano"; - "o espaqo absoluto, por sua natureza privado de relagio com algo de exter- no, permanece sempre semelhante a si mesmo e imovel". Justamente dentro deste espaqo absoluto - que Newton chama tambem de sensorium Dei- o maravilhoso e elegantissimo A leide g,vidade conjunto dos corpos mantem-se junto pela lei de gravidade, que encontramos no terceiro livro dos Principia. A lei de gravidade , diz que a forqa de gravitaqio com a qua1 dois corpos se atraem e diretamente proporcional ao produto de suas massas e inversamente proporcio- nal ao quadrado de sua distdncia. Tal lei e expressa pela conhecida formula: onde F e a forqa de atraqao, m l e m2 s3o as duas massas, D e a distdncia entre as duas massas e G e urna constante que vale em todos os casos: na reciproca atraqao entre a terra e a lua, entre a terra e urna ma@ etc. A mecdnica de Newton foi um dos mais fecundos pro- oprograma gramas de pesquisa da historia da cihcia. Tal programa ira a depesquisa frente por muito tempo ate urna revoluqio das ideias funda- ne,toniana: mentais da ci6ncia newtoniana. A fisica newtoniana, alem disso, a mecdnica admite urna razao limitada que nao tem a tarefa de descobrir 4 5 vll.7 substdncias.
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    232 Segunda parte - A revoIui~a i i c n i i f i o Newton ocupou-se com matematica em seus primeiros anos de estudo, len- d o os Elementos d e Euclides e a Geometria de Descartes; bem depressa a matriz fisica se far6 sentir de mod0 determinante em suas pesquisas o cdlculo matematicas, dado que ao mesmo tempo estudava a acustica e a infinitesimal otica. Em 1687 publica a primeira sintese sobre o calculo infini- e a controversia tesimal na obra Philosophiae naturalisprincipia mathematica em Leibniz que aparece a teoria "dos fluentes e das flux6es". No dmbito dos -3 3 VIII. 1-3 estudos sobre o calculo dos infinitesimos deve ser inserida a dis- puta entre Newton e Leibniz sobre a prioridade da descoberta. 1 teoria met0dol6~ica de n e w t o n Galileu morreu em 8 de janeiro de 1642. No mesmo ano, no dia de Natal, nascia em Woolsthorpe, nas proximidades da aldeia de Colsterworth, em Lincolnshire, Isaac New- ton. Newton foi o cientista que levou a re- voluqiio cientifica ao seu termo. E foi com o seu sistema do mundo que se configurou a fisionomia da fisica classica. Mas n i o fo- ram apenas suas descobertas astron6micas, oticas ou, talvez, matematicas (independen- temente de Leibniz, ele inventou o c ~ l c u l o diferencial e integral) que fizeram com que merecesse um lugar na historia das idCias filosoficas. Com efeito, Newton preocupou- se com prementes questoes teologicas e for- mulou uma teoria metodologica precisa. Mas a coisa mais importante, em nosso caso, C que, sem adequada compreensiio do pensa- mento de Newton, estariamos nos proibin- do de compreender a fundo grande parte do empirismo inglzs, o iluminismo (sobretudo o francts) e o proprio Kant. Na realidade, como veremos melhor adiante, a "raziio" dos empiristas ingleses, limitada e controla- da pela "experitncia", motivo pel0 qua1 niio C mais livre para mover-se a seu bel-prazer no mundo das esstncias, C precisamente a "razio" de Newton. A "razio" dos ilumi- nistas C a do empirista Locke, "raziio" que encontra seu paradigma na citncia de Boyle e na fisica de Newton: esta n i o se perde em controlada pela experitncia, procura e pro- hipoteses sobre a natureza intima ou a es- va as leis do seu funcionamento. Por fim, sincia dos fedmenos, mas, continuamente n i o devemos nos esquecer de que a "citn-
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    233 Capitulo decimo segundo- Sistema do mundo, metodologia e filosofia na oLra defiewton cia" de que fala Kant i a ciincia de Newton, preender a din2mica do universo, os princi- e que a comoqiio kantiana diante dos "cius pios da forga e o movimento e a fisica dos estrelados" i a comogiio diante da ordem corpos em movimento em meios diversos" do universo-rel6gio de Newton. Kant, com (I. B. Cohen). E, "a medida que a continui- efeito, acreditava que a funq5o do filosofo dade do desenvolvimento do pensamento fosse a de explicar a unicidade e a veracida- nos permite falar de uma conclus5o e de um de da teoria de Newton. Assim, sem a com- novo ponto de partida, podemos dizer que, preens50 da imagem da ciincia newtoniana, com Isaac Newton, acabava um periodo da i verdadeiramente impossivel compreender atitude dos filosofos em relaq5o a natureza a Critica da raziio pura de Kant. e comeqava outro, inteiramente novo. Em 0 livro mais famoso de Newton 6 Phi- sua obra, a cihcia classica [...I alcanqou losophiae naturalis principia mathematica existincia independente e, dai em diante, (Principios matematicos da filosofia natu- comeqou a exercer toda a sua influgncia so- ral), publicado em primeira edigso em 1687. bre a sociedade humana. Se alguem devesse Pois bem, "a publicaq5o dos Principia [...I assumir a funq5o de descrever essa influin- foi um dos acontecimentos mais importan- cia em suas numerosas ramificaqoes [. ..], tes de toda a historia da fisica. Esse livro Newton poderia constituir o ponto de par- pode ser considerado o ponto culminante tida: tudo aquilo que foi feito antes era ape- de milhares de anos de esforgos para com- nas uma introdugiio" (E. J. Dijksterhuis). 11. f vidn e as *bras de, apesar das extraordinarias realiza~oes dos anos posteriores, esse foi talvez o perio- do mais fecundo da vida de Newton, que, em sua velhice, assim recordava seu extra- ordinario trabalho em Woolsthorpe: "Tudo isso ocorria nos dois anos da peste, em 1665 Isaac Newton, portanto, nasceu em e 1666, j i que naquela ipoca eu estava em 1642. Em 1661, depois de uma adolescin- plena idade criativa e me dedicava a mate- cia normal, entrou no Trinity College de matica e filosofia muito mais do que pos- Cambridge. Ai passou a ser encorajado pelo sa ter feito posteriormente." (A "filosofia" seu professor de matematica, Isaac Barrow ou "filosofia natural" de Newton 6 o que (1630-1677), que, por seu turno, foi o au- hoje nos chamamos de "fisica".) Com efei- tor de influentes Lectiones mathematicae e to, foi em Woolsthorpe que Newton teve de outros escritos sobre a matematica gre- pela primeira vez a idiia da gravitaf5o uni- ga. Barrow havia percebido a intelighcia versa!. do discipulo, que, em um periodo de tempo E conhecido o relato (que a neta de bastante curto, ja se assenhoreara de todas Newton contou a Voltaire, que depois o di- as partes essenciais da matemitica da Cpo- fundiu) segundo o qua1 tal ideia lhe teria ca. N o periodo que marca o fim dos seus ocorrido quando meditava sobre a queda estudos, Newton ja chegara ao "calculo das de uma mag5 de uma arvore sob a qua1 es- flux6esn, ou seja, o calculo infinitesimal, tava descansando. Nesse periodo, tambim usando-o na soluqiio de alguns problemas aprofundou alguns problemas de otica, pros- de geometria analitica. Passou o caderno dos seguindo nesses estudos mesmo depois do seus apontamentos a Barrow e a poucos seu retorno a Cambridge. Tendo adquirido outros amigos, para que o lessem. Entretan- grande habilidade no polimento de espelhos to, em 1665-1666, em virtude da peste, metalicos e sabendo dos defeitos d o teles- Newton, a exemplo de muitos estudantes e copio de Galileu, Newton construiu um te- professores, deixou Cambridge. Voltou para lescopio por reflexiio. Woolsthorpe, dedicando-se a meditar na Em 1669, Barrow assumiu a catedra pequena casa de pedra, isolada em uma vas- de teologia, cedendo sua catedra de mate- ta planicie. Como escreve Da Costa Andra- mitica ao jovem Newton. Tendo concluido
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    seus experimentos sobrea decomposiqiio da misso. Entiio, no mgs de agosto, Halley foi luz branca atravCs de um prisma, Newton a Cambridge para ouvir a opiniiio de New- apresentou um relatorio a Royal Society em ton. A pergunta de Halley sobre qual seria 1672. Intitulado Nova teoria acerca da luz a 6rbita de um planeta atraido pelo sol com e das cores, o relatorio foi publicado nas Phi- uma forqa gravitacional inversamente pro- losophical transactions da propria Royal porcional ao quadrado da distincia, New- Society. Nesse trabalho, como tambCm em ton respondeu: "Uma elipse!" Cheio de ale- outro trabalho posterior, em 1675, Newton gria, Halley perguntou a Newton como fazia formulava a ousada teoria da natureza cor- para saber isso. E Newton replicou que o puscular da luz, segundo a qual os fen6me- sabia porque ja fizera os calculos relativos nos luminosos encontravam sua explicaqiio a questiio. Halley pediu entiio para ver es- na emissiio de particulas de diferentes gran- ses calculos, mas Newton, niio conseguin- dezas: as particulas menores davam origem do encontri-los, prometeu que os manda- ao violeta e as maiores ao vermelho. A teo- ria a ele. E assim fez. ria corpuscular da luz entrava em competi- E mais: escreveu um livrete, o De motu qiio com a teoria ondulatoria proposta pelo corporum, que tambCm enviou a Halley. fisico holandis cartesiano Christian Huygens Este logo se deu conta da grandeza do tra- (1629-1695)em seu Traite de la lumiere. Ir- balho de Newton e o convenceu a escrever ritado e desgostoso com,tais polimicas, New- um tratado que tornasse publicas suas des- ton so publicaria sua Otica em 1704. Con- cobertas. Foi assim que nasceu aquela que C tudo, seu trabalho no campo da otica ja Ihe considerada a maior obra-prima da histo- havia propiciado a nomeaqiio para membro ria da ciincia, isto 6, a Philosophiae naturalis da Royal Society (1672). principia mathematica. Em 1671, o francis Jean Picard (1620- Newton comeqou a trabalhar em 1685. 1682) havia efetuado otimas medidas das Em abril de 1686, o manuscrito do primei- dimens6es da terra. Em 1679, Newton toma ro livro foi enviado a Royal Society, em cujos conhecimento da medida do diimetro da registros encontramos a seguinte anotaqiio, terra calculado por Picard. Retomou suas no- com data de 28 de abril: "0doutor Vincent tas sobre a gravitaqiio, refez os calculos (que, apresentou a Sociedade o manuscrito de um em Woolsthorpe niio fechavam) e, desta vez, tratado intitulado Philosophiae naturalis com a nova medida de Picard, os calculos principia mathematica, que o sr. Isaac New- fecharam, fazendo com que a idiia da gra- ton dedica i Sociedade e no qual apresenta vital30 se tornasse entiio uma teoria cienti- uma demonstraqiio matematica da hipotese fica. Entretanto, ainda sob a impressiio das copernicana como foi proposta por Kepler, asperas polimicas anteriores, ele niio publi- explicando todos os fen6menos dos movi- cou os resultados alcanqados. Enquanto isso, mentos celestes por meio da unica hipotese prosseguia em suas liqoes de otica, publica- de uma gravitaqiio em direqiio ao centro do das em 1729 sob o titulo de Lectiones opti- sol, decrescente segundo o inverso dos qua- cue, bem como as de algebra, que apareceram drados das distincias em relaqiio a ele". E, em 1707 sob o titulo Arithmetica universalis. posteriormente, foram redigidos o segundo e o terceiro livros. 0 proprio Halley se en- carregou da publicaqiio do trabalho. Nesse meio tempo, porCm, explodiu grande controvirsia com Hooke, que recla- mava a prioridade da descoberta da lei da forqa inversamente proporcional ao quadra- No inicio de 1684, o grande astr6no- do da distincia. Newton ofendeu-se terri- mo Edmond Halley (1656-1742)encontrou- velmente, ameaqando ati deixar de publicar se com Sir Christopher Wren (1632-1723) o terceiro livro da obra, relativo ao sistema e com Robert Hooke (1635-1703) para dis- do mundo. Depois, a disputa se aplacou e cutir a quest50 dos movimentos planeta- Newton inseriu em seu trabalho uma nota rios. Hooke afirmou que as leis dos movi- registrando que a lei do inverso do quadrado mentos dos corpos celestes seguiam a lei da ja fora proposta por Wren, Hooke e Halley. forqa inversamente proporcional ao quadra- 0 s Principia apareceram em 1687. Dois do da distincia. Wren deu a Hooke dois me- anos depois, Newton foi nomeado deputa- ses de tempo para formular a demonstraqiio do, representando a Universidade de Cam- da lei. Mas Hooke niio cumpriu o compro- bridge. Nesse periodo, conheceu John Lo-
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    235 Capitulo de'cimo segundo- Sistema do mundo, metodologia e ftlosofia M a oLva d r Newton cke, com quem estreitou sincera e solida ami- Em fevereiro de 1727, Newton partiu de zade. Prosseguindo seus estudos sobre o cil- Kensington (onde residia e que era ent5o culo infinitesimal, publicou parte deles em uma aldeia proxima de Londres, ao passo 1692. E manifestou intenso interesse pela qui- que e hoje parte integrante do aglomerado mica. urbano) para Londres, a fim de presidir uma Mas, a o mesmo tempo, iniciava sua sessiio da Royal Society. Voltando a Ken- prestigiosa carreira publica. Em 1696, foi sington, sentiu-se muito mal. N5o conse- nomeado diretor da Casa da Moeda; tris guindo superar a crise, morreu em 20 de anos depois, tornou-se governador. Desen- margo de 1727. Foi sepultado na Abadia volveu seu trabalho com grande empenho, de Westminster. E Voltaire estava presente granjeando com isso verdadeira benemeren- aos seus funerais, o mesmo Voltaire que, cia national. Em 1703, foi eleito presidente como veremos quando falarmos do Ilumi- da Royal Society. Em 1704 publicou a Oti- nismo, contribuiu de mod0 relevante para ca, em 1713 a segunda edigiio dos Pyinci- fazer conhecer o pensamento de Newton na pia, em 1717 a segunda edigio da Otica. Franga. OPTICE: S I V E D E OR, A II R e f l z x i o n i b u s , Refkaltionibus, TREATISE OP THE (1 Inflexionibus & C o l o r i b u s REFLEXIONS, REFRACTIONS, INFLEXIONS and COLOURS L U C I S L I B R L TKES. 0 P -- Author~I s A A c o N E w TON,E/quite Auraco. ALSO Latine reddidit S a w Clarke, A. M. Two T R E A T I S E S R O rrendo admodum Patri ac P J 0A N N I OF THE M O O R E Epifcopo N O R V I C E NaS I Sacris Domeiticis. SPECIES MAGNITUDE 1 aod 0 I Accedunt T r a h t u s duo ejufdan A u ,r H o R I s Curvilinear Figures. de Speciebus €k Magnitdine F i p r u m Curvilinearum, Latine fcripti. Frontispicio da primeira edi@o do Opticks de Newton (Londres, 1704). do ophcks de ~ e & o n(Londres, 1706).
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    III. As do filosofar" "regras e a "omtoIosiar' aue eIas pressupbem TrGs regras metodolbgicas sobre os planetas; mas, com base no fato de que a natureza se comporta uniformemente tanto na terra como nos planetas, nos C pos- sivel dizer como a luz se comporta tambCm No inicio do livro I11 dos Principia, sobre os planetas. Newton estabelece quatro "regras do racio- E eis a terceira regra: cinio filosofico". "Regra 111: As qualidades dos corpos Trata-se certamente de regras meto- que niio admitem aumento nem diminui- dologicas, mas, como veremos, elas pressu- @O de grau, e que se descobre pertencerem poem e se entrelaqam com questoes de or- a todos os corpos no interior do ambit0 dos dem metafisica sobre a natureza e sobre a nossos experimentos, devem ser considera- estrutura do universo, corno, alias, ocorre das qualidades universais de todos os corpos". com qualquer metodologia, ja que as regras Tambem essa regra pressupoe o prin- que explicitam o como devemos investigar cipio ontologico da uniformidade da natu- pressupoem o que devemos procurar. reza. Escreve Newton: "Como nos s6 co- "Regra I: Niio devemos admitir mais nhecemos as qualidades dos corpos atravCs causas para as coisas naturais d o que ague- dos experimentos, devemos considerar uni- las que siio tanto verdadeiras como sufi- versais todas as qualidades que universal- cientes para explicar suas apar8ncias ". mente revelam-se concordantes nos experi- Esta primeira regra C urn principio de mentos e que nso podem ser diminuidas nem parcim6nia no uso das hipoteses, uma es- retiradas. Certamente, n5o devemos aban- pCcie de navalha de Ockham referente as donar a evidcncia dos experimentos por teorias explicativas. amor aos sonhos e as vss fantasias da nossa Mas por que devemos nos circunscre- especulaqiio, mas tambCm niio devemos ver a obtenqiio de teorias simples; ou seja, abandonar a analogia da natureza, que e por que nso devemos complicar a aparelha- simples e conforme consigo mesma". gem hipotitica de nossas explicaqoes? Pois bem, a resposta de Newton a tais interrogaqijes C que "a natureza niio faz nada em vso, ao passo que, com muitas coisas, faz-se em viio aquilo que se pode fazer com poucas. Com efeito, a natureza ama a sim- plicidade e n5o superabunda em causas su- A natureza, portanto, e simples e uni- pirfluas" . forme. Sso esses os dois pilares metafisicos Este, precisamente, C o postulado onto- que sustentam a metodologia de Newton. logico - o postulado da simplicidade da E, uma vez fixados tais pressupostos, natureza - subjacente a primeira regra Newton passa a estabelecer algumas quali- metodologica de Newton. dades fundamentais dos corpos, como a Estreitamente relacionada com a pri- extensiio, a dureza, a impenetrabilidade e o meira regra, vem entso a segunda: movimento. E 6 por meio dos nossos senti- "Regra 11: Por isso, tanto quanto pos- dos que conseguimos estabelecer essas qua- sivel, aos mesmos efeitos devemos atribuir lidades. "Extensiio, dureza, impenetrabili- as mesmas causas. Como na questiio da res- dade, mobilidade e forga de intrcia do todo piraqso no homem e no animal, no caso da decorrem da extensso, dureza, impenetra- queda das pedras na Europa e na AmCrica, bilidade, mobilidade e forqa de inCrcia das no problema da luz do nosso fogo de cozi- partes. Dai, concluimos que as menores par- nha e do sol ou no fato da reflex50 da luz tes de todos os corpos tambCm devem ser sobre a terra e sobre os planetas". extensas, duras, impenetraveis, moveis e Essa regra expressa outro postulado dotadas de sua propria inkcia. E esse C o ontologico: o da uniformidade da natureza. fundamento de toda a filosofia". Trata-se NinguCm pode controlar a reflex50 da luz do corpuscularismo.
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    237 Capitdo de'cimo segundo- Sistelna do mundo, metodologia e filosofia na obrcl de Newton Entretanto, Newton n5o podia evitar larmente; que, de mod0 semelhante, a lua urna grande questio ligada a essa: os cor- gravita na diregio da terra, em proporq50 pusculos de que sao feitos os corpos mate- quantidade da sua matkria; que, por outro riais s i o ou n i o ulteriormente divisiveis? lado, o nosso mar gravita em direg5o i lua; i Matematicamente, urna parte C sempre di- que todos os planetas gravitam uns em di- visivel, mas o mesmo valeri tambCm fisica- reg50 aos outros e que, de igual modo, os mente? cometas gravitam em dire@o ao sol, entiio, Eis a argumentagao de Newton a esse em conseqiiincia dessa regra, devemos ad- proposito: "0fato de que as particulas dos mitir universalmente que todos os corpos corpos, divididas, mas contiguas, podem ser siio dotados de um principio de gravitagio separadas umas das outras C uma quest50 reciproca. Por isso, o argument0 extraido de observagio. E, nas particulas que perma- dos fen6menos conclui com maior forqa em necem indivisas, nossas mentes estiio em favor da gravitag50 universal do que em fa- condig6es de distinguir partes ainda meno- vor de sua impenetrabilidade, sobre a qual res, como pode ser demonstrado em mate- n5o temos nenhum experimento e nenhu- mitica. Mas n5o nos C ~ossivel determinar ma forma de observagao que possam ser com certeza se as partes assim distintas e efetuados sobre os corpos celestes. E eu n5o n i o ainda divididas podem ser efetivamen- afirmo que a gravidade 6 essencial aos cor- te divididas e separadas urna da outra por pos: pelo termo vis insita entendo unicamen- meio dos poderes da natureza. Entretanto, te a sua forga de intrcia. Esta C imutivel. se mesmo com um unico experimento tivCs- Mas a sua gravidade diminui em relag50 semos a prova de que urna particula qual- com o seu afastamento da terra". quer indivisa, rompendo um corpo solido e A natureza, portanto, 6 simples e uni- duro, sofre urna divisio, nos poderemos forme. E, a partir dos sentidos, isto C, das concluir, em virtude dessa regra, que as par- observag6es e dos experimentos, podemos ticulas indivisas, como as divisas, podem ser estabelecer algumas das propriedades fun- divididas e efetivamente separadas ao infi- damentais dos corpos: extensio, dureza, im- nito". penetrabilidade, mobilidade, forga de ink- cia do todo e a gravitagio universal. E essas qualidades sio estabelecidas pre- cisamente a partir dos sentidos, vale dizer, indutivamente, isto C, ainda atravCs daquele que, para Newton, C o unico procedimento vilido para alcangar e fundamentar as pro- Assim, no que se refere a divisibilidade posig6es da ciincia: o mitodo indutivo. das particulas ao infinito, a urna seguranga E, com isso, chegamos quarta regra: matemitica corresponde urna incerteza fac- "Regra IV N a filosofia experimental, tual. Uma incerteza, porCm, que n5o ocorre as proposi@es inferidas por indu@o geral no que se refere a forga de gravitagso. dos fen6menos devem ser consideradas como Com efeito, "se C universalmente evi- estritamente verdadeiras ou como muito pro- dente, a partir dos experimentos e das ob- ximas da verdade, apesar das hipoteses con- servag6es astronBmicas, que todos os cor- t~arias possam ser imaginadas, ate' quan- que pos em torno da terra gravitam em sua d o se verifiquem outros fendmenos, pelos diregso, proporcionalmente a quantidade de quais se tornem mais exatas ou ent2o sejam matCria que cada um deles contCm singu- submetidas a exceg6es ".
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    IV. fi ordemdo mundo de e a e~istgncia Deus 0sistema do mundo estrelas fixas, em virtude de sua gravidade, n i o caiam uns sobre os outros, ele p6s esses k uma grande mbquina sistemas a uma imensa distiincia entre si." A ordem do mundo mostra com toda evidtncia a existtncia de um Deus sumamen- As "regras do filosofar" encontram-se te inteligente e poderoso. Mas, alCm de sua no inicio do livro terceiro dos Principia. E existtncia, o que mais podemos afirmar so- no fim desse mesmo livro encontramos o bre Deus? "Assim como o cego niio tem Scholium generale, em que Newton liga os nenhuma idCia das cores, nos tambCm niio resultados de suas investigag6es cientificas temos nenhuma idCia do mod0 como Deus a considerag6es de ordem filosofico-teolo- sapientissimo percebe e compreende todas gica. 0 sistema d o mundo e' urna grande as coisas. Ele C completamente privado de maquina. E as leis de funcionamento das corpo e de figura corporea, raziio pela qua1 varias partes dessa m6quina podem ser de- niio pode ser visto, nem ouvido, nem toca- tectadas indutivamente atraves da observa- do; nem deve ser adorado sob a representa- giio e do experimento. giio de algo corporal." Diz Newton que, das Mas eis um ulterior e importante quesi- coisas naturais, nos so conhecemos aquilo to de natureza filosofica: de onde se origina que podemos constatar com os nossos sen- esse sistema do mundo, esse mundo orde- tidos: figuras e cores, superficies, cheiros, nado e regulado? "Esse sistema extrema- sabores etc. Entretanto, nenhum de nos co- mente maravilhoso do sol, dos planetas e nhece "o que seja a substiincia de uma coi- dos cometas so pode ter-se originado do sa". E se isso vale para o mundo natural, projeto e da potkncia de um Ser inteligente vale muito mais quando queremos falar de e poderoso. E se as estrelas fixas siio cen- Deus: "Muito menos ainda temos idCia da tros de outros sistemas aniilogos, tudo isso, substiincia de Deus." 0 que podemos dizer dado que foi formado pel0 idtntico proje- de Deus C que ele existe, 6 sumamente inte- to, deve estar sujeito ao dominio do Uno, ligente e 6 perfeito. E podemos dizi-lo a sobretudo visto que a luz das estrelas fixas partir da constatagio da ordem do mundo, C da mesma natureza que a luz do sol e que j6 que, no que se refere a Deus, "C fungiio a luz passa de cada sistema a todos os ou- da filosofia natural falar dele partindo dos tros sistemas; e, para que os sistemas das fen6menosV. O mktodo de flewton: a existcncia de um Deus ordenador, conscien- te e onipotente. Pois bem, como escreve formula' rrovb-las Newton no final do Scholium generale, "ate agora explicamos os fenhmenos do cCu e do nosso mar pel0 recurso 21 forqa de gravida- 0 mundo C ordenado. E, "pela sapien- de, mas ainda niio estabelecemos a causa da tissima e otima estrutura das coisas e pelas gravidade. E certo que ela se origina de uma causas finais", estamos autorizados a afirmar causa que penetra at6 o centro do sol e dos
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    239 Capitulo de'cimo segundo- Sistewa do wundo, m e t ~ d o l o ~e a i filosofia na obra deflewton planetas, sem sofrer a minima redugiio de sua e conhecido porque formulou hipoteses e as forga, que niio opera em relaqiio i quantida- prouou, hip6teses que explicam por que a de de superficie das particulas sobre as quais mag5 cai no chiio e por que a lua niio se age (corno costuma ocorrer com as causas choca com a terra, por que os cometas mecfnicas), mas em relaciio i quantidade gravitam em dire~iio sol e por que ocor- ao de matCria s6lida que elas contCm, e sua agiio rem as marks. se estende por toda parte, a distfncias imen- Mas, sendo assim, o que entendia New- sas, decrescendo sempre em raziio inversa ao ton por "hipoteses" quando dizia que "niio quadrado das dist8ncias. A gravitagiio em di- inventava hipoteses"? Eis a resposta de r e @ ~ sol C composta pela gravita~iio ao em Newton: "[ ...I e niio invento hipoteses. Com diregiio i s particulas singulares de que C fei- efeito, tudo aquilo que niio C deduzido dos to o corpo do sol. E, afastando-se do sol, fenbmenos deve ser chamado de hipdtese. decresce exatamente em razHo inversa do E as hipoteses, tanto metafisicas como fisi- quadrado das distfncias at6 a orbita de cas, tanto de qualidades ocultas como me- Saturno, como C mostrado claramente pela cf nicas, niio tern nenhum lugar na filosofia quietude do afClio dos planetas e at6 os ulti- experimental. Em tal filosofia, as proposi- mos afClios dos cometas, se C que esses afClios gBes particulares siio deduzidas dos fen& estiio em quietude". menos e, posteriormente, tornadas gerais A forga de gravidade, portanto, existe. por induggo. Foi assim que se descobriu a E C a observagiio que a atesta. Mas, se qui- impenetrabilidade, a mobilidade e a forga sermos nos aprofundar mais, h i uma per- dos corpos, bem como as leis do movimen- gunta que niio pode ser evitada: qua1 6 a to e da gravitagiio. Para nos, C suficiente que raziio, a causa ou, se preferirmos, a esshcia a gravidade exista de fato e atue segundo as da gravidade? Responde Newton: "Na ver- leis que expusemos, estando em condigBes dade, ainda niio consegui deduzir dos fen& de explicar amplamente todos os movimen- menos as razBes dessas propriedades da gra- tos dos corpos celestes e do nosso mar." A vidade. E niio invento hipoteses". gravidade existe de fato; ela explica os movi- Hypotheses non fingo: essa C a famosa mentos dos corpos e serve para prever as e conhecida sentenga metodologica de New- suas futuras posigBes. Isso C o que basta ton, tradicionalmente citada como irrevo- para o fisico. Ja a causa da gravidade C uma gavel chamado aos fatos e como condena- questgo cuja resposta extrapola o fmbito $20 decidida e motivada das hipoteses ou da observagiio e do experimento, escapan- conjecturas. do portanto do campo da "filosofia experi- Entretanto, esta claro para todos que mental". Newton tambCm formulou hipoteses. Ele E Newton niio quer se perder em ficou conhecido e sua grandeza C ilimitada conjecturas metafisicas que nHo sejam pas- niio porque tenha visto uma ma@ cair ou siveis de verificagiio. Esse C o sentido de sua porque tenha observado a h a , ele e' grande expressiio "hypotheses non fingo". As tr& leis do movimento rente a heranga de Descartes e Galileu e, ao mesmo tempo, a de Bacon e Boyle. Com efei- to, tanto para Boyle como para Newton, "o Tanto no que se refere ao mitodo como livro da natureza esta escrito em caracteres quanto aos conteudos, os Principia repre- e termos corpusculares; entretanto, exata- sentam a realizagiio completa daquela re- mente como para Galileu e Descartes, i uma volugiio cientifica que, iniciada por CopCr- sintaxe puramente matematica o elemento nico, havia encontrado em Kepler e Galileu que liga esses corpusculos, dando assim sig- os dois representantes mais geniais e presti- nificado ao texto do livro da natureza". Es- giosos. Como sugere KoyrC, Newton reco- sencialmente, as letras do alfabeto em que lhe e plasma em um todo orgfnico e coe- est6 escrito o livro da natureza siio um nu-
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    240 Segunda parte - A r e u o l u s ~ oc i e n t p i a mero infinito de particulas, cujos movimen- dois corpos siio sempre iguais e dirigidas e m tos siio regulados por urna sintaxe constitui- dire~oes contrarias". da pelas leis do movimento e pela lei da gra- Esse principio de igualdade entre aqiio vitaqiio universal. e reaqiio 6 ilustrado por Newton do seguinte Eis, entiio, as tres leis newtonianas do modo: "Qualquer coisa que exerqa press20 movimento, leis que representam a enun- sobre outra coisa ou puxe outra coisa sofre cia~iio clissica dos principios da dinimica. essa pressiio em igual medida ou C puxada A primeira lei C a lei da ine'rcia, na qual tambCm por essa outra coisa. Se tu apertas trabalhara Galileu e que Descartes formu- urna pedra com o dedo, teu dedo tambCm 6 lara com toda a exatidiio. Assim, Newton apertado pela pedra. Se um cavalo puxa urna escreve: "Todo corpo persevera e m seu es- pedra ligada por urna corda, o cavalo tam- tad0 de quietude ou de movimento retilineo bim C (se assim posso dize-lo)puxado igual- uniforme, a menos que seja for~adoa mu- mente para tris em direqiio a pedra [...I". dar esse e s t a d o por f o r ~ a ssobre ele Siio essas, portanto, as leis d o movi- exercidas ". mento. Entretanto, os estados de quietude e Newton exemplifica esse principio fun- de movimento retilineo uniforme s6 podem damental do seguinte modo: " 0 s projCteis ser determinados em relaqio aos outros cor- perseveram em seus movimentos enquanto pos, que estejam em quietude ou em movi- niio forem retardados pela resistencia do ar mento. Mas, como niio se pode estender ao ou niio sejam puxados para baixo pela for- infinito o reenvio a sistemas ulteriores de qa da gravidade. Um piiio (. ..) niio cessa de referencia, Newton introduz as noqBes (que rodar seniio pel0 motivo de ser retardado se tornariam objeto de grandes debates e fir- pela resistencia do ar. 0 s corpos maiores dos mes contestaqdes) de tempo absoluto e de planetas e dos cometas, estando em espaqos espaGo absoluto: "0 tempo absoluto, ver- mais livres e com menos resistencia, pre- dadeiro e matemitico, em si e por sua natu- servam seus movimentos progressives e ao reza, flui uniformemente, sem relaqiio com mesmo tempo circulares por um tempo qualquer coisa de externo e, corn outro muito mais longo." nome, chama-se duraqio. 0 tempo relati- A segunda lei, j i formulada por Gali- vo, aparente e comum, C a medida sensivel leu, diz: " A m u d a n ~ a movimento e' pro- de e externa [...I da duraqiio do movimento porcional a f o r ~ amotriz exercida e ocor- atravCs do meio, sendo comumente usado re nu dire~iio linha reta segundo a qual a da em lugar do tempo verdadeiro: C a hora, o f o r ~ a exercida". foi dia, o mes, o ano." "0espaqo absoluto, por A formulaqiio da lei, Newton faz se- natureza privado de relaqiio com qualquer guirem-se observaqdes como estas: "Se de- coisa de exterior, permanece sempre seme- terminada forqa gera um movimento, urna lhante a si mesmo e im6velm. forqa dupla gerari movimento duplo, urna Esses dois conceitos, de tempo absolu- forqa tripla um movimento triplo, seja quan- to e de espaGo absoluto, niio tern significa- do a forqa for exercida ao mesmo tempo e do operativo e siio conceitos empiricamente de um so golpe, seja quando for gradual e niio verificiveis. Entre outras criticas con- sucessivamente. E esse movimento (dirigin- tra eles, ficou cklebre a de Ernst Mach, que, do-se sempre na mesma direqiio da forqa em seu livro A mecinica e m seu desenvolvi- geradora), quando o corpo j i estava em mo- mento historico-critico, afirmara que o es- vimento, C acrescentado ou subtraido do paqo e o tempo absolutos de Newton s50 primeiro movimento, conforme se conju- "monstruosidades conceituais". guem diretamente ou sejam diretamente contririos um ao outro, ou entiio se acres- centam obliquamente, se eles forem obli- quos, de mod0 a produzir novo movimen- A lei de gvavitaq2io universal to, composto pela determinaqiio de ambos". Essas duas leis, juntamente com a terceira, que exporemos a seguir, constituem ele- Entretanto, no interior do espaqo ab- mentos centrais da mecincia clissica que se soluto - que Newton chama tambCm de aprende na escola. sensorium Dei -, a maravilhosa e elegan- A terceira lei, formulada por Newton, tissima conexiio dos corpos C sustentada por afirma que "a toda a@o se op6e sempre uma aquela lei da gravidade que Newton expde igual rea~iio, seja, as a ~ 6 e reciprocas de ou s no terceiro livro dos Principia.
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    24 1 Capitulo de'cimosegundo - Sistema do mundo, m e t o d ~ l o ~ei a filosofia na obra de Newton Tal lei de gravidade diz que a forqa de em todos os casos, tanto da atraqiio reci- gravitagiio com que dois corpos se atraem C proca entre terra e h a como entre a terra e diretamente proporcional ao produto de urna ma@ etc. suas massas e inversamente proporcional ao Com a lei da gravidade, Newton che- quadrado de sua distiincia. Em simbolos, gava a unico principio capaz de explicar urna essa lei se expressa na conhecida formula: quantidade ilimitada de fen6menos. Com efeito, a forqa que faz cair urna pedra ou urna ma@ ao chiio tem a mesma natureza que a forqa que mantCm a lua vin- culada a terra e a terra vinculada ao sol. E essa forga 6 a mesma que explica o fen6me- onde F C a forga de atraqiio, m, e m, siio as no das maris (corno efeito combinado da duas massas, D C a distiincia que separa as atraqiio do sol e da lua sobre a massa de duas massas e G 6 urna constante que vale hgua dos mares). VII. mecznica de N e w t o n nvotlvama C O ~ O de p e s q ~ i s a Ih i m p o r t & n c i a base fundamental de sua meciinica, com o tempo, conseguiria fornecer a chave para a d a fisica n e w t o n i a n a compreensiio de todos os fen6menos. Assim pensaram seus seguidores, com maior certe- za que ele, e assim tambCm pensaram os seus sucessores, at6 o fim do siculo XVIII". No final do Scholium generale, Newton A meciinica de Newton foi um dos mais prop8e um claro "programa de pesquisa", poderosos e fecundos paradigmas ou pro- pel0 qual a forqa de gravidade n i o esth ape- gramas de pesquisa da hist6ria da cihcia: nas em condig8es de explicar fen6menos depois de Newton, para a comunidade cien- fisicos como a queda dos graves, as orbitas tifica, "todos os fen6menos de ordem fisica dos corpos celestes ou as maris, mas tam- deviam se referir i s massas, que obedecem bCm, como ele sustenta, poderh ainda, no a lei do movimento de Newton" (A. Eins- futuro, explicar fen6menos elCtricos, fen& tein). A realizagiio do programa de Newton menos oticos e atC fatos fisiologicos. Muito ainda caminharia por muito tempo at6 se embora, como acrescentava Newton, "niio confrontar com problemas que, para serem C possivel expor essas coisas em poucas pa- resolvidos, demandariam verdadeira revo- lavras e n6s n i o dispomos dos experimen- lugiio cientifica, vale dizer, urna reviravolta tos suficientes para urna acurada determi- radical nas idiias fundamentais da cihcia nag50 e demonstraqio das leis com as quais newtoniana. opera esse espirito elCtrico e elhstico". A fisica newtoniana admite urna raziio 0 pr6prio Newton procurou realizar limitada: a cihcia niio tem a fungiio de des- esse programa atravCs de suas pesquisas no cobrir substiincias, esshcias ou causas es- campo da otica "quando sup6s que a luz senciais. A ci@ncianiio busca substiincias, fosse composta de corpusculos inertes" (A. mas funq8es; niio busca a esshcia da gravi- Einstein). A verdade C que, como escreve dade, mas contenta-se em saber que ela exis- ainda Einstein, "Newton foi o primeiro que te de fato e explica os movimentos dos cor- conseguiu encontrar urna base claramente pos celestes e do nosso mar. Entretanto, formulada a partir da qual podia deduzir como escreve Newton na Otica,"a causa grande numero de fen6menos mediante o primeira certamente n i o e meciinica". E tan- raciocinio matemhtico, logico, quantitativo to a raziio limitada e verificada pela expe- e em harmonia com a experiincia. Na ver- ricncia como o deismo seriam duas heran- dade, ele podia justamente esperar que a qas centrais que o Iluminismo receberia de
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    242 Segunda parte - A r r v ~ I ~ + cieniifica o Newton, ao passo que os materialistas do ele n i o o 6, pois entre os corpos atua uma siculo XVIII encontrario sua base teorica "aqiio a disthcia". Por isso, tanto os carte- sobretudo no mecanicismo cartesiano. E, ja sianos como Leibniz veriam nessas misterio- que falamos do mecanicismo cartesiano, sas forqas que agem a distincias ilimitadas devemos recordar que, enquanto para os nada mais que um retorno 5s "qualidades cartesianos o mundo i pleno, para Newton ocultas" do passado. VIII. descobevta do c6IcuIo infinitesimaI corn Leibniz bim foram-lhe de validade os estudos de Franqois Viite (1540-1603),particularmente a Isagoge in artem analyticam, que teorizava sobre a aplicaqio da algebra ii geometria pela introduqio de rudimentos do cdculo Em seus primeiros anos de estudo no literal, com a relativa e oportuna escritura Trinity College de Cambridge, Newton ocu- simbolica. E Newton encontrou ainda ou- pou-se predominantemente de matematica: tras fontes para as suas pesquisas matema- aritmitica, trigonometria e, sobretudo, geo- ticas na Clavis mathematicae de William metria. Estudou-as com base nos Elemen- Oughtred (1574-1660), e em varios escri- tos de Euclides, que leu com grande facili- tos de John Wallis (1616-1703). dade, e na Geometria de Descartes, lida com Com efeito, os estudos sobre os infi- alguma dificuldade, pel0 menos no princi- nitesimais foram muito impulsionados pelos pio. Como ja sabemos, em Cambridge, Bar- problemas geomitricos, mais precisamente row logo percebeu as grandes qualidades do pelos problemas de medida das figuras soli- discipulo, apreciando especialmente as suas das, isto 6, pela estereometria. A figura cen- novas idiias no camDo da matematica. E tral nesse campo de estudo i constituida por quando, em 1669, recebeu o escrito Analysis Boaventura Cavalieri (1 598 aproximada- per aequationes numero terminorum infini- mente - 1647), que, na Geometria indivisi- tas, elaborado nos tres anos anteriores, ce- bilibus continuorum nova quadam ratione deu-lhe a sua citedra na propria universi- promota (trabalho publicado em 1635, de- dade. Na realidade (e isso 6 importante no pois de muitos anos de preparaqio), estabe- aue se refere 2 sua historica controvirsia lece aquele principio que at6 hoje porta o com Leibniz, sobre a qual falaremos), os seu nome: o principio de que a relagio en- ~rimeiros escritos de matemitica de Newton tre as ireas ou os volumes de duas figuras s i o ainda anteriores. 0 pequeno tratado geomitricas t igual a relaqiio entre as suas Methodus firuxionum et seriarum infinita- partes indivisiveis, obtidas com mitodos rum, no qual registra os resultados de suas adequados. Outras contribuiqees prelimina- primeiras pesquisas, i presumivelmente qua- res para o estudo dos infinitesimais provim tro anos posterior ao trabalho de 1669. Tra- de Kepler, com sua Nova stereometria do- ta-se de estudos sobre os infinitesimais. isto liorum vinariorum (1 5); grande difusor 61 6, sobre pequenas variaqi5es de certas gran- e aplicador do mitodo de Cavalieri foi Evan- dezas, sobre as suas relasees, que depois gelista Torricelli (1608-1647);Pierre Fermat serio chamadas de derivadas, e sobre as suas (1601-1665) deu a esse mitodo melhor e somas, que seriam denominadas integrais. mais rigorosa formulaqio matematica. Para tanto, representou para ele um Pois bem, Newton trabalhou com es- instrumento precioso a geometria analitica sas bases, mas introduzindo desde o inicio de Descartes, ou seja, a traduq5o de curvas tambim algumas refercncias precisas iacus- e superficies em equaq6es algibricas. Tam- tica e A otica, ou seja, ramos da fisica que
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    243 Capitulo de'czmo segundo- S i s t e m a d o mundo, metodologm e filosofia n a obva d e Newton - - - - tambim estava estudando na epoca. E logo para indicar a velocidade de um ponto nas a matriz fisica se fara sentir de mod0 deter- tr2s diregoes coordenadas. Dai derivam va- minante em suas pesquisas matematicas. rios problemas, mas fundamentalmente dois: calcular as relaqdes entre fluentes, sen- do conhecidas as relaqoes entre fluxdes, e vice-versa. N o caso particular da mecinica, sen- do conhecido o espaqo em funqiio do tem- po, calcular a velocidade; e, vice-versa, co- nhecendo-se a velocidade em f u n ~ i i odo Newton so publicaria a primeira sin- tempo, calcular o espaqo percorrido. Em tese sobre o calculo infinitesimal mais tar- termos contemporineos, respectivamente, de, em 1687, no inicio de sua obra mais derivar o espaqo em relaqiio ao tempo e in- importante, as Philosophiae naturalis prin- tegrar a velocidade no tempo. Sem nos cipia mathematica. A publicaqiio impressa aprofundarmos muito nos particulares de de suas obras principais sobre o tema sera tip0 ticnico, devemos dizer que Newton ainda posterior: em 1711, saiu um escrito conseguiu demonstrar muitas das mais im- de 1669, intitulado De analysis per aequa- portantes regras de derivaqiio e integraqiio. tiones numero terminorum infinitas; em Ademais, introduziu os conceitos de deri- 1704 foi publicado, como ap2ndice a o tra- vada segunda (derivada da derivada; no caso tad0 de Otica, o seu Tractatus de qua- mecsnico, a aceleraqiio) e de derivada de dratura curvarum, que havia escrito em urna ordem qualquer. Tambim teorizou ri- 1676; o ja mencionado tratado Methodus gorosamente as ligaqdes entre derivaqiio e fluxionurn et seriarum infinitorum, escrito integraqiio, alCm de introduzir e resolver as em latim no ano de 1673, so sairia em edi- primeiras equaqoes diferenciais (isto 6, com q5o inglesa em 1736, ou seja, postuma- urna funqiio incognita, consistindo em urna mente. igualdade entre expressdes contendo a fun- Mas vejamos a teoria, denominada pe- 180 incognita e suas derivadas). lo proprio Newton de teoria "dos fluentes e Com tudo isso, fica clara a poderosa das fluxdes". Nos primeiros escritos, ele se contribuiqiio conceitual que a mecinica lhe limita a ampliar e desenvolver o estudo "al- forneceu na elaboraqiio de sua nova teoria gibrico" do problema, especialmente com matematica. Com efeito, Newton possuia base nos trabalhos de Fermat e Wallis. Lo- urna concepqiio instrumental da matemati- go, porim, sera urna intuiqiio de tip0 fisi- ca: para ele, ela nada mais era do que urna co, mais precisamente de tip0 mecinico, que linguagem a utilizar para descrever aconte- lhe indicara o caminho correto para resol- cimentos naturais. Nisso, alinhava-se com ver o problema. o pensamento de Thomas Hobbes, ao pas- Graqas 2 contribuiqiio conceitual des- so que, como veremos, em 1734, George se ram0 fundamental da fisica, ele supe- Berkeley, na obra 0 analista ou discurso a ra a idiia de que as linhas sejam somente urn matematico incre'dulo, o acusara de pou- agregados de pontos, considerando-as co- co rigoroso. Talvez niio seja casual que a m o trajetorias d o movimento de um pon- notaqiio newtoniana (o ponto sobre a va- to. Conseqiientemente, as superficies tor- riavel, para indicar a sua derivada em rela- nam-se movimentos de linhas e os solidos q5o ao tempo) s6 tenha permanecido em uso transformam-se em movimentos de su- at6 nossos dias nos campos da mecsnica perficies. Por exemplo, as superficies siio racional, da fisica matematica e em outras descritas por movimentos proporcionais i areas afins - e, assim mesmo, s6 raramen- ordenada, a o passo que a abscissa cresce te, tendendo a desaparecer. com o transcorrer do tempo: dai o nome Desse modo, a teoria newtoniana res- de "momento" para o acriscimo infini- sente-se claramente de sua particular origem. tesimal, de "fluente" para a area e de Ademais, a sua represeniaqiio formal (x, y, =fluxiion para a ordenada, em um dado z.. . para os fluentes; g, jr, z.. . para as fluxoes; instaqte. xo, yo, zo.. . para os momentos ou diferen- E com base nisso que ele introduz a ciais) i certamente preciosa para o estudio- notaq5o so de mecinica, na qua1 so se deriva em re- laqiio a o tempo e as derivadas possuem um significado previamente fixado (precisamen-
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    244 Segunda parte - $ cientffica revolu~80 te, a derivada primeira C a velocidade e a para a derivada de y em relag50 a x. Ade- derivada segunda C a aceleraqso),mas mostra- mais, Leibniz introduziu um grande S maius- se pouco flexivel e substancialmente esttril culo para denotar a integral, notaqiio que para outros setores. Ademais, na represen- tambim se tornou de uso comum. Quanto taqiio formal newtoniana falta um simbolo ao resto, sua teoria nHo difere muito da de para o integral. Em esshcia, siio essas as Newton. E seus pontos de chegada na elabo- criticas que Ihe s50 dirigidas pel0 outro gran- raqiio posterior sHo mais ou menos analogos. de fundador do calculo infinitesimal: Gott- Entretanto, falta-lhe tambCm o rigor fried Wilhelm Leibniz (1646-1716). matematico de fundo -e isso faz falta por- que ainda niio se consolidara e teorizara a noqiio necessiria de "limite". Na realidade, as bases conceituais des- if A ro lewica A sa noqso fundamental ja estavam presentes entre n e w t o n e Leibniz na Aritbmetica infinitorum do ja citado John Wallis. E, se quisermos remontar as origens, a idCia ja esta presente no mCtodo da exaus- A aproximaqiio que levou Leibniz ao tiio de Eud6xio (408-355 a.C.), aplicado problema era fundamentalmente diferente com sucesso a varios problemas geomitri- e, em alguns aspectos, complementar. Ele cos por Euclides e Arquimedes. Entretanto, partiu de notiveis contribuiqdes, at6 inCdi- so se encontra tratamento rigoroso dessa tas, de Blaise Pascal, sobretudo da geome- nogiio e sua posiqiio como base da analise tria analitica. Foi sobre essa base - mate- infinitesimal no skulo X I X , com Bernhard matica, portanto, e nHo fisica -que Leibniz Bolzano (1781-1848) e com Augustin-Louis teorizou a derivada de um ponto de uma Cauchy (1789-1857). curva como o coeficienteangular da reta tan- A obra de Leibniz data aproximada- gente no ponto (isto C, aquilo que n6s hoje mente do period0 1672-1673, sendo portanto chamamos de tangente trigonomktrica do posterior ou, quando muito, contemporiinea iingulo que ela forma com o eixo das abscis- ide Newton. Entretanto, a publicaqiio im- sas), entendendo tal reta tangente como uma pressa do seu trabalho fundamental, Nova secante ideal naquele ponto e em outro pon- metbodus pro maximis et minimis itemque to infinitamente pr6ximo do ponto dado. tangentibus, t de 1684, portanto tris anos Em virtude dessas consideraqijes, formulou antes a dos newtonianos Pbilosophiae natu- a conhecida, mais difundida e hoje comum ralis principia rnathematica. Por isso, alimen- notaqiio tada tambCm por equivocos, explodiu feroz dx dy disputa entre Newton e Leibniz sobre a prio- ridade da descoberta: disputa muito pouco para as diferenciais das variiveis x e y e cavalheiresca, dominada pela animosidade, por acusaqdes e tambCm permeada pel0 or- gulho nacionalista. Mas nHo C o caso de nos alongarmos muito sobre essa controvirsia. V ~ s t de I orztlres no sec14lo XVIII. ~r 0 balrro dr Kensrngton. on& Newton se transferlu ern 172 T, nu r;,im-a era apenus unz v r h r q o cumpestre.
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    245 1: Capitulo de'cimo segundo - Sistema do mundo, ~ e t o d o l o ~ i a e filosofia na obra deNewton resulta da dureza das partes, dai deduzimos corretamente que 860 duras as particulas ndo so dos corpos que tocamos, mas de todos os outros. Que todos os corpos sdo impenetrd- veis nos o aprendemos ndo pela razdo, mas pela sensa<do. Achamos impenatrdveis os corpos que rnanipulamos, e dai concluimos AS quatro regrcrs que a impenetrabilidade b propriedade uni- do rn6todo versal ds todos os corpos. Qua todos os cor- experimental pos sdo moveis e dotados de certos poderes (qua definirnos inbrcia) de parseverar em seu estado de movimento ou de repouso, nos o Rs regros rnetodologicos enunciados deduzimos apenas de propriedades and- por Newton no inicio do livro Ildos Principia l logas que observamos nos corpos que ve- recjnern tornbQrn os ossuntos de tipo meto- rnos. R extensdo, dureza, impenetrabilidade, flsico por sle reconhscidos. rnobilidade e inBrcia do conjunto resultam da extensdo, dureza, impenetrab~lidade, mobili- dade e inhrcia das partes; e dai concluimos I. N6o devernos odrnitir rnois causos dos que as particulas rninirnas de todos os cor- coisas noturois, do qus os verdodeiros e sufi- pos sdo tarnbBm extensas, duras, irnpenetr6- cientes poro explicar suas opor6ncias. Neste veis, rnoveis e dotadas de uma inBrcia pro- sentido os filosofos dizern que a notureza nada pria. E este b o fundarnento de toda a faz em vdo, e o mais B vdo quando o rnenos filosofia. RlBrn disso, que as particulas divi- basta; porque a natureza se cornpraz corn a sirn- didas mas contiguas dos corpos sdo separd- plicidade e ndo ostenta a pornpa das causas veis urnas das outras 6 urn dado da observa- sup&rfluas. <do; e, nos particulas que perrnanecern II. Por isso, oos rnesrnos efeitos noturois indivisas, nossa rnente b capaz de distinguir devernos, o quanto possi'vel, otribuir as mas- outras partes rnenores, corno se dernonstra mos cousos. Rssirn, por examplo, a respira<do rnaternaticamente. Mas, se as partes assim no hornem e no animal; a queda de uma pedra distintas e ndo clinda divididas podem, me- na Europa e na Rrnbrica; a luz de nosso fogo diante as forps do natureza, ser realmente de cozinha e do sol; a reflexdo da luz sobre a divididas e separadas urnas das outras, ndo terra e sobre os planetas. o podernos deterrninar com certeza. Todavia, 111. Rs quolidodes dos corpos que ndo se tivBssemos a prova, mesmo com urn s6 ex- admitern incrernsnto ou decrernento de grau, perirnento, que uma particula indivisa sofre a que resultern psrtinentes a todos os corpos uma divisdo quando se quebra um corpo duro dentro do esfero de nossos experirnentos, de- e solido, podernos concluir dai, em virtude vern ser considerodos quolidodes universois desta regra, que as particulas divisas ou de todos os corpos. Urna vez que as qualida- indivisas podem ser divididas e realrnents des dos corpos nos sdo conhecidas apenas separadas ao infinito. grqas aos experirnentos, devernos conside- Por firn, urna vez que resulta universal- rar unrversais todas as que concordam uni- rnente dos experimentos e das observo@es versalrnente corn os experimentos; e as que astronhicas que todos os corpos circumter- ndo s60 passiveis de decrernentos ndo po- restres gravitam em dire~do terra, propor- 6 dem jarnais ser excec;des.Ndo devemos sern cionalmente b quantidade de rnatbria que duvida deixar a evid&ncia dos experirnentos coda urn deles contBrn: que analogarnente para correr atr6s de sonhos e de vds fic<des a lua, segundo sua quantidade de rnatbria, forjadas por nos rnesrnos; nem devernos afas- gravita em dire560 6 terra; que, por outro tar-nos da analogia do natureza, que B sirn- lado, nosso mar gravita em d~regao lua; e 6 ples e sempre conforme a si mesrna. Ndo todos os planetas urn para o outro; e os co- podernos conhecer a extensdo dos corpos de rnetas do rnesrno modo para o sol; devemos, outra forrna que mediante nossos sentidos, em base a esta regra, admitir universalrnente nern estes sentidos a captarn em todos os que todos os corpos sdo dotados de um prin- corpos; mas, urna vez que colhemos a exten- cip~o gravitqdo reciproca. lsso porque a de sdo em todos os que sdo sensiveis, nos a prova fenornhica demonstra com mais forp atribuimos tambbm a todos os outros. Rpren- a gravita$do universal de todos as corpos e demos da experihcia que urna quantidade ndo sua impenetrabilidade; do qual, em re- de corpos B dura; e corno a dureza do inteiro la560 aos corpos celestes, ndo temos experi-
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    Segunda parte - revoIuC~o cientifica mentos nem outra observq2lo qualquer. N6o afirmo qua a gravidode 6 essential aos cor- Deus pos: falando de sua vis insita design0 nada e a ordem do mundo mais qua sua inbrcia. Esta & imut6vel. Sua gra- vidade decresce 2.1 med~da que ss afastam do terra. lsoac Neu~ton: ordem do mundo oo do IV. E filosofio experimental devemos m Deus ordenodor. "Estoelegantissimo conjun- consideror os proposi$bes extroidos por $80 do sol, dos plonetos e dos cometas n8o indugdo gerol dos fen6menos como precisas p6de surgir sem o projeto s o poder de um ou rnuito oproximados, opesor de todo hipo- snte inteligente e poderoso". tese contr6ria que se posso imoginor, 0th qua se opresentem outros fen6menos qua as pos- sarn tornor mais precisos ou os exponham a exceg6es. Devemos seguir esta regra at& que 0 s seis principais planetas giram em tor- a prova indutiva n6o seja eludida mediante no do sol em circulos conc&ntricos ao sol com hip6tese. movimento orientado na mesma dirq2lo e I. N ~ w t o n , aproximadamente sobre o mesmo plano. Dez Philosophioe naturolis luas giram em torno da terra, de Jirpiter e de principio mothemotico. Saturno em circulos conc&ntricos com movimen- NATURALIS PRINCIPIA NATHEMATICA, A U cro R E ISAAC0 NE WTONO. Ha Au* Editio tertis &a Rr emudrrp LONDINI: Isaac Newton (aqui retratado nu margem do frontispicio de sua obra mais famosa Philosophiae naturalis principia mathernatica), foi o cientista que leuou a cabo a reuolupio cientifica. Com seu "sistema do mundo" toma uulto a "fisica classica".
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    247 l;s#j# Capitdo de'cimosegundo - S i s t e ~ a o undo, d m e t ~ d o l o ~ea i filosofia na obra derlewton to orientado na mesma dirqbo e aproximati- versos orgbos de sentido e nos movimentos. vamente sobre planos dos orbitas dos pla- Na dura~bo estbo presentes partes sucessi- netas. E todos estes movimentos regularas vas, no espa<opartes coexistentes: mas nern nbo tiram sua origem de causas mecdn~cas; os umas nern as outras estbo presentes no pes- cometas, com efeito, sbo transportados livre- soa do homem, no seu principio pensante, e mente em todas as partes do c&u conforme muito menos na substbncia pensante de Deus. orbitas fortemente exc&ntricas.E por este mo- Todo homem, enquanto senciente, & um so vimento os cometas passam muito rapidamen- id&ntico homem em todos os orgbos de senti- te e facilmente atrav&s das orbitas dos plane- do singulares. Deus & um so e identico Deus tas; s nos proprios af&lios onde sdo mais sempre e em todo lugar. Deus nZlo & lentas e retardam mais tempo, estbo tambbm onipresente apenas pela virtude, mas tambbm tdo distantes umas das outras qua se atraam pela substdncia, j6 que ndo pode subsistir vir- reciprocamente em minima medida. Esta ele- tude sem substdncia. Nele os universos estdo gantissima conjun~do sol, dos planetas e do contidos e movidos, mas sem nenhuma pertur- dos cometas nbo p8de surgir sem o projeto ba~bo reciproca. Deus nbo sofre nada por cau- e o poder de um ente inteligente e podero- sa dos movimentos dos corpos que ndo ofere- so. E se as estrelas fixas 5.60 por sua vez cen- cem nenhuma resist&ncia por causa da tros de sistemas an61ogos, todos estes, sen- < onipresenp de Deus. manifesto qua o sumo do construidos com id&ntico designio, estarbo Deus deve existir necessariamente, e sm vir- sujeitos ao poder do Uno: sobretudo enquan- tude do mesma necessidade est6 sampre e to a luz das estrelas fixas & do mesma nature- em todo lugar. Por este motivo, ele & tambhm za qua a luz do sol e todos os slstemas en- inteiramente semelhante a si mesmo, todo viam a luz reciprocamente para todos os outros. olho, todo ouvido, todo c&rebro, todo braso, E, a fim de qua os sistemas das estrelas fixas todo forp sensorial, intelectiva e ativa, mas nbo caiam um sobre o outro, por causa da gra- de nenhum modo humano, de nenhum modo vidade, ele colocou uma distdncia imensa en- corporeo, em um mod0 para nos inteiramente tre eles. desconhecido. Rssim como o cego ndo tem Ele regs todas as coisas ndo como alma id&ia das cores, tambbm nos nbo temos id&ia do mundo, mas como senhor de todos os uni- dos modos com que Deus sapientissimo sente versos e pelo seu dominio costuma ser cha- e entende todas as coisas. Ele & completa- mado de Senhor Deus Pantochrator [dominador mente privado de corpo e de figura corporea universal].Deus, com efeito, 8 uma palavra re- e por isso ndo pode ser visto nern ouvido, nern lativa e se refers aos servos: a divindade, po- tocado, nern deve ser venerado sob a ssp&- r&m, & o dominio ds Dkus, nbo sobre o pro- cis de algo corporeo. Temos idbias dos atri- prio corpo, como afirmam aqueles para os butos, mas ndo conhecemos por nada o que quais Deus & a alma do mundo, mas sobre os seja a substdncia de uma coisa. Dos corpos servos. 0sumo Deus & o ante eterno, ~nfinito, vemos apenas as figuras e as cores, ouvimos absolutamente perfeito: mas um ente, embo- apenas 0s sons, tocamos apenas as superfici- ra perfeito, mas que ndo tenha dominio, ndo es externas, sentimos o cheiro apenas dos 6 o Senhor Deus [...I. Da verdadeira denomi- odores e degustamos os sabores, mas nBo nacdo segue-se que o verdadeiro Deus & conhecemos as substdncias intimas com ne- < sumo, isto 6 , sumamente perfeito. eterno e nhum sentido, com nenhuma atividade reflexi- infinito, onipotente e onisciente, dura do eter- va; e muito menos temos uma id&ia do subs- nidade para a eternidade, e est6 presente no tdncia de Deus. Nos o conhecemos apenas infinito pela infinidade. Regs tudo e conhece mediante suas propriedades e atributos e pela tudo, tanto as coisas que acontecem, como sapientissima e otima estrutura das coisas e aquelas que podem acontecer. Nbo & eterni- pelas causas finais; e o admiramos em virtude dade e infinidade, mas & eterno e infinito; n60 da perfei~do, mas, na verdade, nos o venera- & dura~do espqo, mas dura e est6 presen- e mos e o adoramos por causa de seu dominio. te. Durci sempre e est6 presente em todo lu- Nos adoramos, com efeito, como servos, e gore, por existir sempra e em todo lugar, cons- Deus sem dominio, provid&ncia e causas finals titui a duraQ3o e o espaso, a infinidade e a nbo 6 mais qua fato e natureza. Mas, a partir eternidade. Toda particula do espqo est6 de uma cega necessidade metafisica que 6 sempre, todo momento indivisivel do dura<bo perfe~tamente id&ntica sempre e em todo lu- est6 em todo lugor: o Autor e Senhor de todas gar ndo surge nenhuma variedade das coisas. as coisas ndo poderia jamais estclr e em ne- A total diversidads por lugares e por tempos nhum lugar. Toda alma senciente 6 a propria das coisas criadas pBde surgir apenas das id&- pessoa indivisivel nos diversos tempos, nos di- as e do vontade de um Ente necessariamente
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    existente. E sentidoals90ric0, com efeito, se m ta, mas todav~a semslhanta. E tudo ~sso res- a diz que Dsus v&, ouve, fala, ri, ama, odeia, peito de Dsus: a respeito do qual 6 tarefa do dessja, d6, toma, ira-se,combate, fabrica. fun- filosofia natural falar partindo dos FsnBmsnos. damsnta, constroi, pois todo discus0 em torno I. Newton, ds Dws dsriva inteiramente das coisas huma- Philosophioe naturalis nas por ssmslhanqx sem dljvida n8o perfei- principia rnathernat~ca.
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    Capitulo dkcimo terceiro fscigncias da vida, I. Desenvolvi~?entos das ciZncias da vida
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    go), podemos ler:" 0 sangue C transporta- do das artirias pulmonares para as veias pulmonares mediante prolongada passagem pelos pulm6es, durante a qual ele se torna N o sCculo XVI, assiste-se a grande de cor carmesim" e "purifica-se pelos va- florescimento da pesquisa anatGmica, cujos pores fuliginosos com o ato de expiraqiio". representantes mais conhecidos siio AndrC Ja Realdo Colombo, em seu De re anato- Vesalio (1514-1564), Miguel Servet (1509- mica, escreve o seguinte: " 0 sangue chega 1553), Gabriel Falopio (1523-1562),Realdo aos ~ u l m 8 e s atravCs da veia arterial; depois, Colombo (aprox. 15l6-1559), Andre Cesal- misturado com ar, passa para o coraqio es- pino (1529-1603) e Fabricio de Acquapen- querdo, atravCs da artiria venosa". dente (1533-1619). Anatomista, botiinico e mineralogists, N o mesmo ano em que Nicolau Co- AndrC Cesalpino, professor de anatomia em pCrnico publicou o seu De revolutionibus, Pisa e Padua, chegou a afirmar, contra a teo- Vesalio, flamengo de origem e professor em ria galinica, que os vasos sanguineos tim Phdua, publicava tambtm o De corporis hu- origem no coraqiio e nao no figado, susten- mani fabrica. Feito com base em observa- tando tambCm que o sangue chega a todas q6es realizadas pel0 autor, esse livro "foi o as partes do corpo. primeiro texto acurado de anatomia apre- Fabricio de Acquapendente, anatomis- sentado a o mundo" (I. Asimov). Como ja ta e embriologo, que tambCm trabalhou em havia sido inventada a impressiio, ele foi Padua, estudou as valvulas venosas, sem difundido em milhares de c6pias por toda a contudo conseguir chegar i circula~iio do Europa. E continha ilustraqoes verdadeira- sangue. mente belas, algumas das quais feitas por Nesse meio tempo, continuando a tra- Jan Stevenzoon van Calcar, discipulo de diqiio de Vesalio, Falopio descreveu os ca- Ticiano. nais que V ~ do ovario ao utero e que ainda O Galeno afirmara que o sangue fluia do hoje se chamam "trompas de Falopio". ventriculo direito do coraqio para o esquer- Finalmente, Bartolomeu Eustaquio (apro- do, atravessando a parede de separaqio cha- ximadamente 1500-1574),contrario a Vesa- mado septo. Ao contriirio de Galeno, Vesalio lio e seguidor de Galeno, estudou, entre observou que o septo do coral50 C de natu- outras coisas, o conduto que leva do ouvi- reza muscular e espesso. E, na segunda edi- d o $ garganta, que ainda hoje se chama qiio de sua obra (1555), negou com toda cla- "trompa de Eustaquio". reza que o sangue pudesse atravessi-lo: "At6 algum tempo, eu niio teria ousado afastar- me nem mesmo por um fio de cabelo da opiniiio de Galeno. Mas o septo n2o i me- nos denso, espesso e compact0 do que o res- a descoberta to do coraqiio. Niio vejo, portanto, como a menor particula que seja possa passar do ventriculo direito para o ventriculo esquer- d o d o coraqiio". Entretanto, Vesalio niio conseguiu explicar o movimento do sangue. Miguel Servet, o reformador religioso Tudo isso serve para dar uma idCia do que em 1553 Calvino mandara executar, e avanqo da anatomia no s k u l o XVI. Entre- que havia conhecido Vesalio em Paris, su- tanto, as pesquisas anat6micas mudaram de p6s que o sangue circulava do receptaculo rum0 quando William Harvey (1 578-1657), direito para o esquerdo atravCs dos pulmoes. em 1628, publicou o seu De motu cordis, Depois de Servet, foi Realdo Colombo expondo a teoria da circula@o do sangue. -tambCm professor de anatomia em Pidua Trata-se de uma descoberta ~~~~~~~~~~~~ia, - quem apresentou a idtia de que a respi- pelo menos por tris raz6es: em primeiro lu- raqiio era um processo de purificaqiio do gar, representou mais um golpe - e golpe sangue e niio um processo de resfriamento. decisivo - na tradiqiio galinica; em segun- Na Restitutio christianismi (obra que foi do lugar, fixou um ponto cardeal da fisiolo- queimada juntamente com o autor, Servet, gia experimental; em terceiro lugar, a teoria e da qual so sobraram tris copias: uma em da circulaq20 do sangue - acolhida por Paris, uma em Viena e a outra em Edimbur- Descartes e Hobbes - tornou-se uma das
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    Capitulo de'cimo terceiro- ASciihcias da vida, a s Academias e a s Sociedades cientificas bases mais solidas do paradigma mecanicista (1497-1559),que, examinando cadiveres e em biologia. Com efeito, embora Harvey vendo que as artirias e o ventriculo esquer- afirme que "o coraq5o pode muito bem [. ..I do do coraqgo estavam vazios, havia afir- ser designado como o principio da vida e o mado, em sua Universa medicina (1542), sol do microcosmo", ele sistematiza os re- que um "corpo etireo" ou "espirito" vital sultados da pesquisa anat6mica anterior preenchia esses lugares enquanto o homem dentro de um modelo claramente mecani- estava vivo, desaparecendo com a morte. cista: "E o seguinte [. ..I o verdadeiro movi- Diz Harvey: "Fernel - e n i o somente mento do sangue: [...I o sangue [...I, sob a Fernel - sustenta que esses espiritos s i o a@o do ventriculo esquerdo, i impelido para substgncias invisiveis [...I. Mas basta di- fora do coraqio e distribuido atravis das ar- zer que, ao longo das investigaqoes anat6- tirias para o interior do organismo e para micas, nunca encontramos nenhuma forma cada uma de suas partes - assim corno, de espirito, nem nas veias, nem nos ner- pelas pulsaq6es do ventriculo direito, ele i vos, nem em qualquer outra parte do orga- impelido e distribuido aos pulmties, atravis n i s m ~". da veia arterial - e [...I, recomeqando do A teoria de Harvey, portanto, represen- inicio, atravis das veias, o sangue reflui para ta uma contribuiqao de primeira ordem pa- a veia cava at6 o auriculo direito -da mes- ra a filosofia mecanicista. Descartes es- ma forma corno, pela artiria denominada tendera para todos os animais a idiia (ja venosa, ele reflui dos pulmoes para o ven- explicitada por Leonardo da Vinci e presente triculo esquerdo, do mod0 como indicamos em Galileu) de que o organismo vivo i uma acima". 0 coraqao e visto como uma bom- maquina. ba, as veias e artirias como tubos, o sangue E essa idiia sera a base das pesquisas como um liquid0 em movimento sob pres- de Afonso Borelli (1608-1679), acadEmico s50 e as vilvulas das veias cumprem a mes- do Cimento*, professor de matematica em ma funqso das valvulas mecbicas. Arma- Pisa e autor da grande obra De motu ani- do com esse modelo mecanicista, Harvey malium, publicada postumamente em 1680. lanqa-se contra o midico franc& Jean Fernel Borelli, que Newton recordara em sua obra maior, estudou a estitica e a dinimica do corpo calculando a forqa desenvolvida pe- 10s musculos ao caminhar, ao correr, ao sal- tar, ao levantar pesos e nos movimentos in- ternos do coraqiio. Assim, mediu a forqa muscular do coraqso e a velocidade do san- gue nas artirias e nas veias. Para Borelli, o coraqzo funciona como o pistso de um ci- lindro e os pulm6es como dois foles. Corn os mesmos objetivos, Borelli tambCm anali- sou o v60 dos passaros, o nado dos peixes e o arrastar dos vermes. Francisco Redi contra a teovia Outro acadEmico do Cimento que con- tribuiu para o desenvolvimento das cihcias midico-biologicas foi o aretense Francisco Redi (1626-1698), que, com um experimen- * Academia do Cimento: das experhcias cientifi- cas, instituida em Floren~a 1657. Durou 10 anos. em
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    Segunda parte - revoIuG~o cientifira to que, com justiqa, ficou famoso na histo- cidas. E tanto mais se confirmavam minhas ria da biologia, fez, naquela Cpoca, urna cri- suspeitas quando via que, em todas as gera- tics decisiva contra a teoria da geraqiio es- q6es por mim feitas nascer, eu sempre havia pontiinea. Em suas ExperiBncias acerca da visto sobre as carnes, antes que se enches- gera@o dos insetos, escreve Redi: "Portan- sem de vermes, pousarem moscas da mes- to, segundo o que eu vos disse e segundo o ma espCcie daquelas que depois nasciam. que os antigos e novos escritores e a opi- Mas vii teria sido a duvida se a experiincia niiio comum do povo querem dizer, toda niio a houvesse confirmado. Desse modo, em podridiio de cadaver corrompido e toda su- meados do m2s de julho, coloquei em qua- jeira de qualquer outra coisa putrefata gera tro frascos de boca larga urna serpente, al- os vermes e os produz. De mod0 que, queren- guns peixes de rio, quatro enguias do Arno do eu buscar a verdade, desde o principio e um naco de vitela; depois, fechei muito do mi% de junho mandei matar tris daque- bem as bocas com papel e as selei muito bem las serpentes chamadas 'cobras de Escula- com cera. Em outros tantos frascos, coloquei pio'. THO logo morreram, coloquei-as em as mesmas coisas, mas deixei-os abertos. urna caixa aberta, para que ali ficassem. Niio N i o passou muito tempo para que os pei- foi precis0 muito tempo para que as visse xes e as carnes desses segundos frascos se todas cobertas de vermes, que tinham a for- tornassem verminosos; e via-se que as mos- ma de cones, sem perna alguma mas com o cas entravam e saiam ao bel-prazer nesses olho aparecendo. Enquanto devoravam aque- frascos. Mas, nos frascos fechados, nunca la carne, os vermes a cada momento cres- vi nascer sequer um verme, mesmo depois ciam Fm tamanho [. ..] ". de terem transcorrido virios meses a partir E assim, portanto, que Redi apresenta do dia em que os cadaveres foram fecha- a teoria da geraqiio espontiinea, ja venerada dos dentro deles. As vezes, porCm, encon- em sua Cpoca. Entretanto, repetindo os ex- trava-se pel0 lado de fora do papel algu- p e r i m e n t ~ escreve ele, "quase sempre eu ma larva ou vermezinho, que [...] procurava ~, vi, sobre aquelas carnes e aqueles peixes, encontrar alguma brecha por onde en- bem como nas laterais das caixas onde es- trar para poder se nutrir dentro daqueles tavam depositados, niio apenas os vermes, frascos. " mas tambCm os ovos dos quais, como disse Mas voltemos agora a Harvey. A teo- acima, nascem os vermes. Esses ovos fize- ria da circulaqiio do sangue por ele propos- ram-me lembrar daqueles ovos que as mos- ta e provada constituiu um resultado de cas deixam sobre o peixe ou sobre a carne e importiincia enorme. Mas, como sempre, ao que, depois, tornam-se larvas, o que ja foi resolver um problema, urna teoria levanta observado muito bem pelos compiladores outros. A teoria de Harvey postulava a exis- do vocabulirio de nossa Academia e que tincia de vasos capilares entre as artCrias e tambem C observado pelos caqadores nas as veias, mas Harvey nunca os vira. E nem feras por eles mortas nos dias quentes, bem podia vi-los, jh que para tanto seria neces- como pelos aqougueiros e pelas donas-de- sario o microscopio. E foi Marcelo Malpighi casa, que, para salvar a carne dessa imundi- (1628-1694),o grande microscopista do sC- cie no veriio, colocam-na em alguidares e a culo XVII, que, em 1661, observaria o san- recobrem com panos brancos. Dai que, com gue nos capilares dos pulmoes de urna rii. muita raziio, no dCcimo nono livro da Iliada Malpighi foi pesquisador incansivel e ge- o grande Homero fez com que Aquiles te- nial. Em 1669, foi nomeado membro da messe que as moscas cobrissem com vermes Royal Society. Muito hibil nas tCcnicas ex- as feridas do morto Patroclo no momento perimentais, estudou os pulmoes, a lingua, em que ele rumava para realizar sua vin- o cCrebro, a formaqiio do embriio no ovo da ganqa contra Heitor [...]. E por isso a pie- galinha etc. Em 1663, Robert Boyle (1627- dosa miie prometeu-lhe que, com sua divi- 1691) conseguiu observar a direqzo dos na forqa, manteria longe daquele cadaver capilares, mediante a injeqiio de fluidos as imundas fileiras de moscas e que, contra coloridos e de cera derretida. E Antony van a ordem da natureza, o conservaria incor- Leeuwenhoek (1623-1723), que foi o pai rupto e inteiro at6 mesmo pel0 espaqo de da microscopia (construiu microsc6pios de um ano [. ..] ". E prossegue Redi: "Dai, co- at6 duzentos por um de aumento), viu a mecei a duvidar se, por acaso, todos os ver- propria circulaqio do sangue nos capilares mes niio derivariam apenas dos ovulos das da cauda de um girino e da perna de urna moscas e niio das pr6prias carnes apodre- ra. ad";L:X$m
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    253 Capitdo decimo terceiro- As cigncias da vida, a s Pcademias e a s Sociedades cientlficas 11. As Fcademias e as Sociedades cientificas A ciencia e um fato social em sua genese, em suas aplica- ~ 6 e e sobretudo no metodo, pois o conhecimento cientifico, para 7603: s controlavel por todos. Ora, justamente com a finalidade de satis- fazer esta caracteristica essential da ciencia moderna, o jovem '::::z ser tall deve ser controlavel: publicamente controlavel, em teoria Cesi funds principe Federico Cesi (1585-1630) fundou em 1603 em Roma a Academia dos Linceus, provida de biblioteca, de laboratorio de historia natural e com jardim botdnico anexo. Galileu foi membro da Academia dos Linceus. Tal instituisao encerrou sua atividade em 1651 e tornou a funcionar em 1847. Em 1657 o principe Leopoldo de Toscana quis a instituisiiio da Academia d o Cimento. Foram academicos, entre outros, 1657: Vincenzo Viviani, Afonso Borelli e Francisco Redi. Entre os socios Leopo/do estrangeiros correspondentes devemos recordar Stenon. As pes- de Toscana quisas dos acadCmicos do Cimento contemplaram todo o ieque fund, das ciencias naturais: fisiologia, farmacologia, mecdnica, otica etc. a Academia 0 lema da Academia f o i "provando e reprovando". Devemos do Cimento salientar a grande atensiiio que os acad@micos deram a constru- +3 2 @o e ao uso de instrumentos sempre mais exatos: termbmetros, microsc~pios,pdndulos etc. A Sociedade real de Londres para a promogao dos conhecimentos naturais (Royal Society for the Promotion o f Natural Knowledge) teve seu estatuto em 1662, tlor Carlos 11. Tal estatuto estabelece que a finalidade da Sociedade e o de redigi; com linguagem clara, proxima da "dos artesaos, dos cam- poneses, dos mercadores" mais que da "dos filosofos". Nullius in ,662: verba foi e 4 o lema da Royal society. "Contra os fatos e os expe- carlos 11 rimentos - disse Newton, que f o i primeiro membro e depois pre- dd o ~statuto sidente da Academia - nao se pode discutir". da Royal De 1662 a 1677, ano em que morreu, o secretario da Socie- society dade f o i Henry Oldenburg, que em 1665 iniciou a publicac;iiio das + 3 3 Atas da Sociedade (as "Philosophical Transactions", que saem ain- da hoje), Na inten@o de Oldenburg as "Transactions" eram um convite aos estu- diosos "a pesquisar, experimentar e descobrir coisas novas, a comunicar-se mutua- mente os pr6prios conhecimentos". Isso, obviamente, com o fito de contribuir com o crescimento d o conhecimento humano. * Em 1666, sob o reinado d o Luis XIV, e instituida e por - 1666: reinado - interesse d o ministro Colbert a Academia real das ciGncias de LuisXIV ( A c a d h i e royale des sciences). E no Memorandum de Christian funda-se Huygens ao ministro Colbert afirma-se que "a ocupa@o fun- a~cad~mie damentai e mais util" dos membros da Academia e a de "tra- royale balhar para a historia natural conforme o plano trasado por dessciences Bacon". +3 4
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    254 Segunda parte - A reuolui~a cicntificn 1 A Academia dos L i n c e ~ s dim botinico anexo. Em seu Do natural desejo de saber e da institui@o dos Linceus para realiza@o do mesmo (1616), Cesi es- creve que, "faltando uma instituiqiio orde- "Organizar e coordenar as pesquisas, nada, uma milicia filos6fica para uma em- tornar estaveis e fecundas as relagdes entre a presa tZo digna, tiio grande e tZo propria cultura dos mecinicos e dos ticnicos e a dos do homem como a aquisiqiio da sapiincia, te6ricos e cientistas; transmitir a um public0 particularmente com os meios das princi- o mais amplo possivel os resultados dos ex- pais disciplinas, com esse fim e intento foi e p e r i m e n t ~ ~das pesquisas; abrir possibili- erguida a Academia ou congress0 dos Lin- dades sempre mais amplas de colaboraqiio ceus, que, proporcionando a unizo das pes- e verificagiio - foi com base nessas exigin- soas aptas e preparadas para tal obra, pro- cias, que siio comuns a Descartes e Mersenne, cure, bem regulada, suprir a todas as faltas a Boyle e Leibniz, que nasceram na Europa e carincias, remover todos os obstaculos e as primeiras sociedades e academias cientifi- impedimentos e cumprir esse bom desejo, cas. Separadas das universidades, que eram propondo-se o agugadissimo Linceu como tradicionalmente controladas pel0 poder ecle- estimulo e lembranga para habilitar-se com siastico, nasceram ao longo do siculo XVII a agudeza e a penetragiio dos olhos da men- novas sedes para a discussiio e a pesquisa. te, necesshrias para a informagiio das coi- 0 s grandes epistolarios do siculo XVII, de sas, e para resguardar minuciosa e diligen- sua parte, documentam como era fortemen- temente, por dentro e por fora, no que for te sentida a exigincia de ampla colaboraqiio possivel, todos os objetos que se apresen- intelectual, capaz de superar as fronteiras dos tam neste grande teatro da natureza". Estados e a particularidade das culturas na- Galileu foi membro da Academia dos cionais" (Paulo Rossi). Linceus. Tendo encerrado suas atividades em A ciincia i fato social. E o i porque sur- 1651, a Academia, depois de algumas reto- ge sempre no interior de uma tradigiio cultu- madas niio muito significativas, voltou a ral (com problemas especificos, sua lingua- funcionar em 1847. gem etc.). Ela i social nas suas aplicaqdes, mas o t sobretudo n o seu m t t o d o de legitimaqgo enquanto cicncia, ja que, para ser tal, o conhecimento cientifico deve ser A Academia do C i m e n t o verificavel - e a verificabilidade e' quest20 publica. A teoria cientifica pretende valer para todos. E essa sua pretenszo so se v i satisfeita Niio mais que dez anos foi o que du- com a condigiio de que as conseqiiincias rou a Academia do Cimento, idealizada em operativas e experimentais da teoria obri- 1657 pel0 principe Leopoldo de Toscana, guem todos a aceita-la. E isso enquanto, por amigo e discipulo de Galileu. Lourenqo Ma- outro lado, o saber filosofico (como era pra- galotti (1637-1712), que foi membro dessa ticado nas universidades, nos seminaries e Academia, deixou escrito que "era objeti- nos colCgios eclesiasticos)se configurara e era vo de nossa Academia, alCm daquele, que entendido mais como fidelidade a uma esco- tambim ocorreu conosco, de experimentar la ou idoutrina de um mestre do que como aquelas coisas por proveitosa curiosidade ou fie1 aplicaqiio de um mitodo que exponha as por confronto, coisas que tenham sido fei- teorias, as tCcnicas de prova e os resultados tas ou escritas por outros, muito embora da pesquisa a critica publica. sabendo que, sob esse nome de 'experiin- Pois bem, precisamente em contrapo- cia', muitas vezes nos enganamos e acredi- siqiio ao ensino universitario eclesiastico ("e tamos em erros. E foi justamente isso que confessam comumente os ouvintes e at6 moveu inicialmente a perspicaz e infatiga- mesmo leitores que, nos estudios, nada mais vel mente do Serenissimo Principe Leopoldo se aprende alCm dos primeiros termos e re- de Toscana, que, para descansar das assi- g a s , alias, o caminho e o mod0 de estudar duas atividades e das solicitas ateng6es que e abrir os livros ..."), o jovem principe Fe- lhe acarreta o grau de sua alta condiqso, pde- derico Cesi fundou em Roma, no ano de se a cansar o intelecto pel0 irduo caminho 1603, arcando com as despesas, a Acade- das mais nobres cogniqdes. Portanto, foi bas- mia dos Linceus, provida de biblioteca, de tante facil para o sublime entendimento de gabinete de historia natural e com um jar- Sua Alteza Serenissima compreender que o
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    255 Capitdo de'cimo terceiro- fs cigncias da vida, a s Acadrmias r a s Sociedadrs cientif~cas cridito de que gozam os grandes Autores mento em termos de instrumentos, que so- move muitas vezes os engenhos - que, por breviveu ate nossos dias, esti conservado no suma confianqa ou por reverhcia ao seu Museu de Hist6ria da Citncia de Florenqa, nome, niio ousam p8r em duvida aquilo que sendo constituido por 223 peqas, algumas eles abalizadamente pressup6em - julgou das quais danificadas. Por ocasiiio da mor- dever ser obra de seu grande espirito con- te de Leopoldo (1675),parece que existiam frontar o valor de suas afirmagdes com mais 1282 peqas de vidro. E muitos desses ins- exatas e mais sensatas experihcias e, con- trumentos ainda se conservavam em 1740, seguida a comprovag50 ou alcanqado o de- como testemunha Targioni-Tozzetti, que os sengano, fazer disso t50 desejavel e precio- viu em um c6modo contiguo a Biblioteca so dom a quem quer que muito anseie pelas do Palicio Pitti. descobertas da verdade". Diz ainda Maga- G. Targioni-Tozzetti escreve, em suas lotti que "esses prudentes ditames do nosso Informap5es sobre o crescimento das cidnci- Serenissimo Protetor" n5o visavam a trans- as fiicas ocorrido nu Toscana ao longo da formar os acadCmicos em "censores indis- de'cada de 60 do se'culo XVII: "Alias, os ins- cretos dos doutos esforqos alheios ou pre- trumentos eram infinitos, por assim dizer, ou sunqosos dispensadores de desenganos; na seja, todos aqueles publicados nas placas de verdade, o principal entendimento foi o de cobre dos Ensaios e quase o dobro ou ate dar a outros oportunidade de se confronta- mais ainda n5o publicados. A maior parte rem com suma severidade com as mesmas deles eu ainda vi, em 1740, colocados, den- experihcias, de mod0 que entiio tivemos tro dos magnificos armarios, em um saliio ao a ousadia de fazer nos mesmos as coisas lado da Biblioteca do Real Palacio dos Pitti, alheias [..Iy'. A cihcia t fato social: exige a que era o mesmo em que se realizavam regu- prova publica, a "sinceridade" de "desapai- larmente as sess6es da Academia do Cimento xonados e respeitosos sentimentos" e o con- [...I. Outros desses instrumentos foram deixa- curso de muitas forqas ("e de outras forqas dos aqui e ali, dispersos, ou passaram para que para tal empresa forem exigidas"). outras mzos. E outra parte consideravel o Com base no Diario original dos anais senhor Vayringe, maquinista da S.M.C., le- da Academia, pode-se constatar que os aca- vou para a sua casa, sem que a conhecesse dcmicos do Cimento teriam sido somente anteriormente. A proposito disso, recordo- os seguintes: Vicente Viviani, Cindido e me que, indo uma vez ao encontro desse Paulo del Buono, Alessandro Marsili, An- Vayringe, como de quando em quando cos- t8nio Uliva, Carlos Rinaldini, Jo5o e Afon- tumava fazer, agradando-me muito a conver- so Borelli, e o conde Lourenqo Magalotti, saqiio com aquele bravo mecinico e homem secretario. honradissimo, ele me fez ver quantidade Entretanto, alCm destes citados no ma- imensa e confusa de instrumentos do Cimen- nuscrito, sabe-se que tambim foram acads- to, de cristal, de metal, de madeira etc., per- micos Alessandro Segni (que foi secretario guntando-me se eu sabia para que podiam da Academia ate 20 de maio de 1660, data ter servido. Eu, que logo os reconhecera, dis- em que assumiu Lourenqo Magalotti), Fran- se-lhe o que eram. Como o nome da Acade- cisco Redi e Carlos Roberto Dati. mia do Cimento soou completamente novo Entre os socios estrangeiros correspon- para ele, tive uma idtia: na manhii seguinte, dentes, devemos recordar Stenon e, de cer- levei-lhe os Ensaios, mostrei-lhe as figuras e to modo, tambkm Huygens, que mantinha expliquei-lhe as descriqoes, que ele ainda n5o correspondhcia astron6mica com o princi- entendia muito bem. Depois da morte de pe Leopoldo. Vayringe, dos instrumentos do Cimento e dos 0 lema distintivo da Academia era a instrumentos proprios de Vayringe, uma par- express50 "provando e reprovando". E as te foi encaixotada e enviada a Viena, por or- pesquisas cientificas dos acadCmicos do Ci- dem do Augustissimo Imperador Francisco, mento abarcaram todo o arc0 das citncias dizendo-se que foi presenteada ao Grande naturais: fisiologia, botinica, farmacologia, ColCgio Teresiano, e todos os outros foram zoologia, mecinica, otica, meteorologia etc. depositados no referido saliio do Palacio dos E niio devemos esquecer a grande atengiio Pitti e em um c6modo contiguo. Quanto as que os acadEmicos dedicaram a construq5o placas de cobre, tanto as publicadas nos En- de instrumentos sempre mais exatos: term8- saios quanto algumas outras, ainda niio metros, higrGmetros, microsc6pios, pcndu- publicadas, mas aparentemente destinadas 10s etc. 0 patrim8nio da Academia do Ci- a uma entiio idealizada continuaq50 dos En-
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    256 Segunda parte - A revoIu+o cientificn saios, conservam-se no guarda-roupa real [. ..I. Natural Knowledge) nasceu dos encontros que urn grupo de seguidores da nova filoso- Ademais, deve-se acreditar que os instrumen- tos feitos por conta do principe Leopoldo fia ou filosofia experimental realizou desde 1645. fossem rnuitissimos, ja que era grande o nu- mero dos que me foram mostrados pelo Sr. Em 1662, Carlos I1 concedeu o Esta- Vayringe, muitos outros se haviam quebra- tuto (Charter) que estabelecia os direitos e as prerrogativas da Royal Society. 0 objeti- do ou sido levados antes, e muitos o proprio cardeal Leopoldo enviara de presente ao papa vo da sociedade era o de redigir "relatorios Alexandre VII, corn uma instrug50 sobre o fi6is de todas as obras da natureza", fazen- mod0 de opera-los, redigida elegantemente do-o mediante linguagem enxuta e natural, pel0 conde Lourengo Magalotti". isto 6, uma linguagem de "express6es posi- tivas" e com "significados claros": a socie- dade queria uma linguagem que se aproxi- masse da "dos artesgos, dos camponeses, i; A 'XoyaI Society" de Londves i dos comerciantes" mais do que a linguagem "dos filosofos". E tal linguagem, naturalmente, 6 a lin- A Sociedade Real de Londres para a guagem das ciCncias: da anatomia, do mag- Promo@o dos Conhecimentos Naturais (Ro- 'netisrno, da rnecinica ou da fisiologia. 0 yal Society of London for the Promotion of lema da Sociedade Real de Londres foi e
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    Capitulo dicimo terceiro- As cigncias da vida, a s Academias e a s Sociedades cientificas continua sendo Nullius in verba, ou seja: Academia Real Niio se deve jurar sobre as palavras de nin- gue'm. A cisncia niio encontra seu fundamen- d a s Ci&cias n a FranCa to na autoridade de algum pensador, mas somente nas provas dos fatos. Como disse Na Franqa, graqas ao interesse do mi- Newton, que foi membro e depois presidente nistro Colbert, foi constituida em 1666, no da Sociedade Real, "contra os fatos e expe- reinado de Luis XIV, a Academia Real das rimentos, niio se pode discutir". CiBncias (Acadkmie Royale des Sciences).E De 1662 a 1677 (an0 em que morreu), de Christian Huygens um famoso memoran- secretirio da sociedade foi Henry Olden- do enviado ao ministro Colbert, afirmando burg, que, em 1665, deu inicio A publicaqiio que "a ocupaqiio fundamental e mais util" dos Anais da sociedade (as "Philosophical dos membros da academia seria a de "tra- Transactions", que siio publicadas at6 hoje). balhar na historia natural segundo o plano As Transactions da Royal Society cons- traqado por Bacon". tituem o primeiro exemplo europeu de re- Eis, em suas linhas essenciais, o proje- vista periodica dedicada a questoes de na- to de Huygens: realizar experihcias sobre tureza cientifica. E Oldenburg iniciou sua o vacuo por intermkdio de bombas e deter- publicaqiio por estar convencido de que dar minar o peso do ar; analisar a forqa explo- a conhecer aos outros as descobertas cienti- siva da p6lvora fechada em um recipiente ficas era algo necessario ao progress0 do co- de ferro ou de cobre suficientemente espes- nhecimento cientifico. so; examinar a forqa do vapor; examinar a Em projeto inicial, as Transactions cons- forqa e a velocidade dos ventos e estudar os tituiam um convite e um encorajamento para seus usos para a navegaqiio e as miquinas; os estudiosos, a fim de leva-10s "a pesquisar, analisar "a forqa (...) do movimento me- a experimentar e descobrir novas coisas, a diante percussiio" . transmitir uns aos outros seus proprios co- Como ainda escrevia Huygens, h i nhecimentos e, assim, dentro do possivel, muitas coisas que, de util conhecimento, contribuir para o grande projeto que consis- siio-nos completamente ou quase desconhe- te no enriquecimento do conhecimento da cidas: a natureza do peso, do calor, do frio, natureza e no aperfeiqoamento de todas as da luz, da atraqiio magnktica, a respiraqiio artes e cihcias filosoficas". E tudo isso "pela animal, a composiqiio da atmosfera, o mo- gloria de Deus, a honra e o beneficio deste do de crescimento das plantas e assim por Reino e o bem universal da Humanidade". diante.
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    Segunda parte -14 revoIh+o cientifica veis; dai, engelhando-se em si mesmos, insen- sivelmente tomaram uma forma semelhante b de um ovo; no dia vinte e um todos haviam se transformado naquela forma de ovo de cor bran- ca no pr~ncipio, depois dourada, que pouco a pouco se tornou avermelhada; e assim se con- servou em alguns ovos, mas em outros, conti- Contrcr cr tsoria nuando sempre a escurecer, por fim tornou-se como que negra; e os ovos, tanto negros como vermelhos, chegando a este ponto, de moles e tenros que eram, tornaram-se de casca dura e 0trscho qus segue constitui um rnarco quebradip; de onde se poderia dizer que te- no historio do psnsomento biologico: Fron- nham alguma semelhanp com as cris6lidas ou cisco Rsdi dssmente, corn urn sxperirnsnto aurblias ou ninfas, como quer que sejam cha- "cldssico", o teorio do garoqdo espontdnsa. madas, nos quais por algum tempo se transfor- mom as larvas, os bichos-da-sedae outros in- setos semelhantes. Rssim sendo, tornando-me Portanto, segundo vos disse, e qua os mas curioso observador, vi que entre os ovos antigos e os novos escrtores e a opinido publi- vermslhos e os negros havia alguma diFeren<a ca comum querem d~zer, toda podridbo de ca- de forma, pois, embora parecesse que todos dClver corrompido e toda sujeira de qualquer indiferentemente Fossem compostos como que outra coisa putrefota gera os vermes e os pro- de tantos aneiz~nhos ligados, apesar de tudo duz; de modo qua, querendo eu rastrear a ver- estes an& eram mais esculpidos e mais visto- dade, no principio do m&s de junho mandei sos nos negros do que nos vermelhos, os quais, esmagar tr&s daquelas serpentes qua se cha- b primeira vista, pareciam como que lisos, e em mom serpentes de EsculClpio e, logo que Foram uma das extremidades ndo tinham, como os mortas, as coloquei em uma caixa aberta de negros, certa pequena concav~dade n6o muito modo que ai se deteriorassem; nbo muito tem- diferente da dos limdes ou de outros frutos po depois as vi inte~ramente cobertas de ver- quando s6o destacados do galho. Coloquei es- mas que tinham Forma de cone e sem nenhu- tes ovos separados e diferentes em alguns va- ma perna, pelo que apareciam a olho nu, como sos de vidro bem fechados com papel, e ao vermes, esperando para devorar aquelas car- cabo de oito dias de coda ovo de cor aver- nes, iam por momentos crescendo ds tamanho; melhada, rompendo a casca, escapava para e, de um dia para o outro, conforme pude ob- fora uma mosca acinzentada, turva, estonteada servar, ainda cresceram em numero; dai, em- e, por assim d i m , esbo~ada ainda n6o bem e bora tivessem todos a mesma Forma de um acabada, cam as asas ainda n6o abertas que cone, ndo tinham o mesmo tamanho, pois nas- depois, no espaSo de meio quarto de hora, ceram em mais e d~versos dim, mas os meno- come<ando a desdobrar-se, se dilatavam no res de acordo com os maiores, depois de ter justa propor~do daquele pequeno corpo, que consumido a carne e deixado intactos apenas nesse tempo tambbm reduz~ra-se convenlen- b os ossos nus, por um pequeno Furo do caixa te e natural simetria das partes e, como que qua eu tinha fechado, fugiram todos sem que totalmente rsfeito, tendo deixado aquela eu pudesse jamais encontrar o lugar onde se esmaecida cor de cinza, vestira-se de um verde esconderam; pelo que, mais curioso de ver qua1 v~vissimo maravilhosamente brilhante; e o e Fm pudessem ter t~do, novo no dia onze de corpo inteiro t~nha-se i de assim dilatado e cresci- junho coloquei em obra outras tr&s das mes- do, que parecia impossivel poder crer como na- mas serpentes; sabre as quais, passados tr&s quela pequena casca tivesse podido cabar. dias, vi vermezinhos que pouco a pouco Foram Todav~a, estas moscas verdes nasceram de- se crescendo em numero e tamanho; todos, po- pols de oito dias daqueles ovos avermelhados, rQm, com a mesma Forma, embora n60 todos dos outros ovos de cor negra penaram quatorze do mesma cor, a qua1 nos maiores do lado de d ~ a spara nascer certos grandes e negros Fora era branca e nos menores tendia 2.1 cor de moscdes listados de branco e com o ventre pelu- carne. Ro terminar de comer as carnes, procu- do e vermelho no Fundo, daquela mesma raGa ravam ansiosamente um caminho para poder que vemos diariamente rodear nos aGougues e fugir; mas, tendo eu fechado bem todas as fres- nos casas ao redor das carnes mortas; quando tas, observei que no dia dezenove do mesmo nasceram eram malfeitos e precyi<osissimos m&s alguns dos grandes e dos pequenos co- para o movimento e com as asas n6o abertas, meqxam, quase adormecidos, a tornar-se 1m6- como acontmera as pnmsiras verdes, que acima
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    259 Capitdo ddcimo terceiro- Ss ci>~cias vida, da as fcadrmias r as Socieclarles cirntificas - menconei. Todavia, nem todos aqueles ovos ne- sem ou nbo das propr~as carnes apodrec~das, e gros nasceram depois dos quatorze d~as; con-ao tanto mas me conf~rmava m~nhaem duv~da, pols trdr~o,boa parte sa atrasou para nascer at& o em todas as geragbes por mlm feitas nascer eu v~g&s~mo primelro dia, quando entdo escaparam sempre t~nha v~sto sobre carnes, antes de cria- fora certas moscas blzarras completamente di- rem vermes, pousar moscas da mesma esp&cie ferentes das duas prlmelras gera~bes tanto no das que depo~s nasceram: mas teria sido v6 dai tamanho como no forma, que nenhum histo- m~nha diivida se a experi&ncian6o a tivesse con- r~ador, que eu saiba, tinha descr~to; s60, por&m, firmado. Por ISSO, na metade do m&s de julho. multo menores que as moscas ord1n6rias que fre- em quatro frascos de boca largo coloque~uma quentam e lnfestam nossas mesas; voam com serpente, alguns peixes de rio, quatro enguia- duos asas como que de prata, cujo tamanho n6o zinhas do rio Rrno, e um talho de vitela de Ielte; excede o do corpo, que 6 todo negro da cor do depo~s, fechando mu~to bem as bocas com pa- ferro polldo e lustroso no ventre inferlor, que pel e barbante, e muito bem lacradas, em ou- relembra na forma o das formlgas aladas, tom tros frascos coloquel outras tantas das coisas algum pQlo curto mostrado pelo microscopio. DOIS ditas aclma e deixei as bocas abertas; n6o pas- longos ch~fres antenas (assim as chamam os ou sou muito tempo, e os peixes e as carnes des- escrltores da historia natural) se Ievantam sobre tas segundos hascos se tornaram vermlnosos; e a cabega; as prlmelras quatro pernas n6o saem nesses frascos V I entrar e sair as moscas 2.1 von- ~ do lugar ordindr~o das outras moscas, mas as tade, mas nos frascos Fechados nunca vi nascer duos est~cadass6o muito mals longas e gran- um verme, embora tenham passado mu~tos me- des do que as que pareceriam convenlentes a ses desde o d ~ a que nestes foram fechados t6o pequeno corpo, a s60 feitas justamente de aqueles caddveres: encontrava-se, porkm, algu- mat6r1acrustada como a das pernas da lagosta ma vez do lado de fora, sobre o papel, alguma mar~nha; t&m a mesma cor, ou talvez mas vlva, larva ou verme que com todo esfor~o sol~citu- e e t6o avermelhada que d e ~ x a r ~ a az~nhavre o de tentava encontrar alguma grata para poder envergonhado e, todas pont~lhadas bran- de entrar e alimentar-se nos frascos, dentro dos co, parecem um trabalho de f~niss~mo esmalte. quais todas as coisas colocadas j6 estavam f&ti- Essas gerag6es t6o d~ferentes moscas de das, umidas e corrompidas: os pelxes fluv~a~s, saidas de um so caddver n6o me apagaram o exceto os I~sos, hav~am se todos convertido em intelacto, mas me estimularam a facer novas ex- uma dgua espessa e turva que pouco a pouco. per16ncias;e para este firn aparelhando seis no fundo, se tornou clara e Iimpida, com algum caixas sem tampa, na pr~meira coloquei duos das t r q o de gordura liquefeita nadando na superf- mencionadas serpentes, na segunda um gran- cle; da serpente brotou a~nda muita dgua, po- de pombo, na tercelra duas libras de vitala, na r&m seu cad6ver n6o se desfez, al16s conser- se quarto um grande p e d q o de carne de cavalo. vou a~nda quase s6o e lntelro com as mesmas na qu~nta capdo, na sexta um cora<6o de um cores, como se t~vesse sldo fechado I6 no d ~ a castrado; e todas, em pouco mas de vlnte e anterior; ao contr6r10,as enguias soltaram muto quatro horas, crlaram vermes; e os vermes, de- pouca 6gua, mas, inchando e fervilhando e pou- pols de clnco ou seis dlas de seu nascimento, se co a pouco perdendo a forma, tornaram-sacomo transformaram como de costume em ovos; e dos que uma massa de cola ou de v~sco bastante das serpentes, todos vermelhos e sem cavida- tenaz e grudento; mas a v~tela, depo~s mul- de de, nasceram ao cabo de doze d ~ a s alguns tas e rnuitas semanas, permaneceu dr~da seca.e moscdes de cor turquesa e alguns outros de cor Todav~a, 060 me aeontentel apenas corn estas v~oleta. do grande pombo, dos quais alguns Dos experi&nc~as; contrdrio, f~z ao ~nfinitasoutras em eram vermelhos e outros negros, nasceram dos diversos tempos e em diversos vasos; e para vermelhos ao cabo de oito d ~ a s moscas verdes, n6o de~xarnada n6o tentado, por fim mande~ e dos negros, no d&c~mo quarto d ~ a rompendo , que fossem colocados sob a terra alguns peda- a casca na ponta onde n6o h6 cavidade, esca- <os de carne, que, recobertos multo bem com a param para fora outros moscbes negros l~stados propria terra, embora tlvessem f~cado multas por de branco; e tais moscdes listados da branco semanas sepultados, jama~sgeraram vermes, tamb6m sairam ao mesmo tempo da todos os como produziram todos os outros tipos de car- outros ovos das carnes da v~tela, cavalo, do do nes sobre os quais havlam pousado as moscas: cap60 e do coraq3o de castrado; com a diferen- e de n60 pouca considera@o & que no m&s de <a, porbm, que do cora~6o castrado, al6m de junho, tendo colocado em uma garrafa de v~dro dos mosc8es negros l~stados branco, nasce- de de gargalo bastante longo e aberto as visceras ram anda outros de cor turquesa e v~oleta. [...I de trks capbes, 12.1 dentro criaram vermes; e n8o Comecei a duvidar se todos os vermes das podendo todos aqueles varmes salr pela gran- carnes da semente apenas das moscas der~vas- da altura do gargalo, caiam de novo no fundo
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    da garrafa eai, morrendo, serviam de pasto e de ninho para as moscas, que continuarama fazer ai vermes ndo so durante todo o verdo, mas ain- da at&os irltimos dias do m&sde outubro. Entdo certo d n mandei esmagar boa quantidade de vermes nascidos na came de bufalo e, coloca- dos parte em vaso fechado e parte em vaso aberto, nos primeiros dias nada foi gerado, mas depois nasceram os vermes que, transforman- do-se em ovos, tornaram-se por fim moscas or- dindr~as: o mesmo justamente aconteceu com e grande numero dos referidas moscas ordin6rias esmagadas e colocadas em semelhantes vasos abertos e fechados: nada se viu nascer no vaso fechado; mas no aberto nasceram os vermes dos quals, depois de se tornarem ovos, nasce- ram moscas do mesma espbcie daquelas sobre as quais tlnham nascido os vermes; do que eu poderia t~lvez conjeturar que o doutissimo pa- dre Rtan6s1o Kircher, homem digno de qualquer elogio maior, tomasse, ndo sei corno, um equi- voco, no hvro dhcimo segundo do Mundo sub- terr6ne0, onde prop& o experimento de fazer nascer as moscas da seus cad6veres. Molhem- se, diz este bom virtuoso, os cad6veres das moscas e se ensopem com 6gua doce; dai, so- bre uma placa ds cobre se exponham ao t&pido calor das cinzas, e vejam-se insensivelmente ESPERIENZE nascer deles alguns vermiculos, visiveis ape- nos por meio do m~croscopio; pouco a pouco, despegando as asas do dorso, tomam a forma de pequenissimas moscas, as quais tamb&m, crescendo pouco a pouco, tornam-se moscas grandes e de estatura perfeita. Eu, porbm, creio que a 6gua doce ndo serve para outra colsa senao para convidar mais facilmente as mos- cas vivas a alimentor-se dos cad6veres e a ne- Ies deixar suas sementes; e pouco, ou mesmo nada, tenho que merep experi6ncia em vaso de CAKLO DATI. cobre e no thpido calor das cinzas, pois sempre e em todo lugar dos cad6vsres nascerdo os ver- mas, e do8 vermes as moscas, contanto que so- bre os cad6veres das proprias moscas tenham sido parturidos os vermes ou as sementes dos vermes. Mas ndo entendo como aqueles su- tiliss~mosvermes descritos por Kircher se trans- formem em pequenas moscas sem antes, pelo espqo de alguns dias, terem sido transforma- dos em ovos; e tambhm ndo entendo, inge- nuaments confessando minha ignorcincia, como aquelas moscas possam nascer tdo pequenas e depois v8o crescendo, pois todas as moscas, mosquitinhos, mosquitos e borboletas, como vi milhares de vezes, saem de seu ovo 1 com o 6 mesmO tamonhO clue cons@rvamdurante todo N o alto, Francisco Redi e m u m a incisiio de L. Pelli; tempo de sua vida. acima, frontispicio da primeira e d i p o F. Rsdl, das Experigncias ao redor da geraqlo dos insetos €xpen&nciosem torno cb gorog6o dos insetos. (Florenga, 1668).
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    BACON E DESCARTES A reviravoltasocial e teorica impressa no pensamento filosofico pela revolu@o cientifica 'Fsfas tr@s coisas (a arfe da /inpress20, a po/vora e a busso/a) mudaram a sifua@o do mundo todo, a pr/ine//i-anas /etras, a segunda na arfe m/;lfac a ferceira na navegaMo; pro vocaram mudangas f20 extraord/ha'rias que nenhum /inpe/b, nem seita, nem esfre/aparece fer exercido maior ~hf/u@nc//b e eficdcia sobre a humanidade do que essas tris in veng6es." Francis Bacon 'Se me absfenho de dar meuju/zosobre uma coi- sa, quando nao a concebo com suficienfe c/areza e disf1hg20, e ewdenfe que fago otho uso doju~zo e n20 me de/xo enganaI;' mas, se me deferm~ho a nega-/a ou a af/i-ma-/',enf2o n2o esfou mais me sen//ido como devo de meu ivre-arbAr/o. " Rene Descartes
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    Capitulo dCcimo quarto FrancisBacon: filosofo da era industrial Capitulo dCcimo quinto Descartes: "o fundador da filosofia moderna"
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    filbsofo da era industrial I. F V ~ M a c o nS BC ~ a vida e o projeto c ~ l t u r a l Nascido em Londres em 1561, filho de Sir Nicholas Bacon, lorde tabeliio da rainha Elisabeth, Francis Bacon gozou do privilegio de ser introduzido na corte desde pequeno. E 1584 foi eleito para a Cdmara dos Comuns, onde permaneceu m cerca de vinte anos; sua carreira politica tornou-se em todo caso rapida e brilhante a partir de 1603, ou seja, com a ascendo ao Bacon: trono de Jaime I culminando na nomea~io , como lorde chanceler a vida e a forrnula@o de novas teorias que, nas intenqbes do autor, deveria substituir o organon-aristo- para a pesquisa telico; a obra era apresentada como a segunda parte de um pro- cientifica jeto enciclopedico, a Instauratio Magna, da qua1 no mesmo ano - 3 1 foram publicadas a introduqio e o plano geral. E 1621, porem, m Bacon foi acusado de corrupqio e condenado e, embora a culpa Ihe fosse logo perdoada pelo rei, sua carreira politica estava acabada para sempre. Em 1624 rev6 o texto da Nova Atldntida, onde prefigurava uma ativa comunidade dos doutos e dos cientistas. Morreu no dia de Pascoa, em 9 de abril de 1626. Com Bacon tem inicio na historia do Ocidente uma "nova atmosfera intelec- tual". Ele indagou e escreveu sobre a funqio da ci6ncia na vida e na hist6ria hu- mana; formulou uma etica da pesquisa cientifica que s contrapunha de mod0 e ciarissimo a mentalidade de tip0 magico que, ainda em seus tempos, era iarga- mente dominante; tentou teorizar nova tecnica de pesquisa da realidade natural; lanqou as bases da moderna enciclopedia das ciencias, que s tornar6 um dos e empreendimentos mais importantes da filosofia europeia. Bacon: efeito, essas trEs coisas mudaram a situaqiio do mundo todo, a primeira nas letras, a se- o fiksofo d a e r a indmstrial gunda na arte militar, a terceira na navega- @o; provocaram mudanqas t5o extraordi- N o Novum Organum, que 6 sua obra narias que nenhum impirio, nem seita, nem mais conhecida, escreve Francis Bacon: "E estrela parece ter exercido maior influincia precis0 considerar ainda a forqa, a virtude e e eficicia sobre a humanidade do que essas os efeitos das coisas descobertas, que niio trEs invenq6es." se apresentam t5o claramente em outras Se Galileu, entre outras coisas, teorizou coisas como nestas trcs invenqties, que eram a natureza do mktodo cientifico; se Descar- desconhecidas para os antigos e cuja origem, tes, entre outras coisas, propora uma meta- embora recente, i obscura e ingloria: a arte fisica que influenciou extremamente a ciin- da impressiio, a polvora e a bussola. Com cia; Bacon, por seu turno, foi o fildsofo da
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    264 Terceira parte - Bacon e Descartes era industrial, pois expressou de mod0 mui- sido eleito para a Cimara dos Comuns, onde to eficaz e penetrante a influincia das des- ficou cerca de vinte anos. cobertas cientificas sobre o delineamento da Ao ~ e r i o d o entre 1592 e 1601 remon- vida do homem, com as conseqiiincias que ta sua amizade com Robert Devereux, se- delas derivam. gundo conde de Essex, que protegeu Bacon Francis Bacon nasceu em Londres, em nessa Cpoca. Tal amizade terminou tragica- 22 de janeiro de 1561, em York House no mente, ja que o conde de Essex foi acusado Strand. Seu pai, Sir Nicholas Bacon, era ta- de traigio e insurreigio e, como consultor beliio da rainha Elisabeth, e assim Francis legal da Coroa, Bacon teve de sustentar es- teve o privilkgio de ser introduzido na corte sas acusac6es. Antes favorito da rainha. o desde garoto. conde foi condenado 2 morte c dcca~itado. Entrando na Universidade de Cam- Nesse meio tempo, em 1603, &bia ao bridge quando tinha doze anos, ficou no trono inglis Jaime I, homem amante da cul- Trinity College at6 1575. William Rawley, tura e protetor de intelectuais. Sob Jaime I, que foi secretario particular e que escreveu a carreira de Bacon foi rapida e brilhante: conhecida biografia de Bacon, falando do advogado geral em 1607, procurador-geral period0 transcorrido por seu "senhor" na da Coroa em 1613. lorde tabeliio em 1617 universidade, nos diz que, "quando ainda e lorde chanceler em 1618. Nesse mesmo estava na universidade, por volta dos dezes- ano, Bacon recebeu do rei o titulo de bar50 seis anos de idade, sentiu pela primeira vez de Verolme e, tris anos mais tarde, o de vis- que se estava 'desapaixonando' -como sua conde de Santo Albano. Senhoria mesmo expressou-se para mim - Apesar de seu trabalho, suas ocupag6es da filosofia de Aristoteles: n i o por despre- e preocupag6es politicas, Bacon n i o descu- zo pel0 autor, ao qual sempre tributou altos rou de seu trabalho intelectual, tanto que, louvores, mas sim pela inutilidade do mkto- em 1620, publicou sua obra mais famosa, o do, sendo a filosofia aristotklica uma filoso- Novum Organum, que, na intengio do au- fia (corno sua Senhoria sempre gostava de tor, deveria substituir o Organum aristotk- dizer) boa somente para as disputas e as con- lico. A obra era apresentada como a segun- trovkrsias, mas estkril em obras vantajosas da parte de um projeto enciclopidico muito para a vida do homem; e ele manteve esse mais amplo e ambicioso: a Instauratio Mag- mod0 de pensar at6 o dia de sua morte". na, da qual ainda em 1620, alkm do Novum Com efeito, para Bacon, Aristoteles foi o Organum, eram publicados a introdugio e simbolo de uma filosofia "estiril no que se o plano geral. refere a produgio de obras vantajosas para Nesse entretempo, porkm, isto 6, em a vida humana". 1621, a carreira de Bacon foi bruscamente Como os estudos juridicos eram neces- interrompida e sua fama ficou decididamen- sarios para empreender a carreira politica, te comprometida. Com efeito, na primavera em junho de 1575 Bacon ingressou no Gray's de 1621, Bacon foi acusado de corrupgio Inn de Londres, uma escola de jurisprudin- diante da Cimara dos Lordes. Bacon, que cia onde eram formados jurisconsultos e sempre teve muita necessidade de dinheiro advogados. durante toda a vida, havia aceitado presen- Logo depois, porkm, partia para a Fran- tes de uma parte contendora antes de, na qua- ga, seguindo o embaixador inglis Sir Amias lidade de juiz, emitir a sentenga. Assim, foi Paulet. Teve pkssima impress50 da Franga acusado de corrupgio e condenado. Entretan- ( o rei era homem desregrado e o pais era cor- to, apesar do rigor da sentenga, a prisio na rupto, ma1 administrado e pobre). Torre de Londres durou apenas poucos dias, Em 1579 voltou a Londres, em virtude e a multa foi perdoada pel0 rei. Assim, Bacon da morte do pai. Durante o reinado de Eli- p8de continuar seus estudos, mas sua carrei- sabeth, embora despendesse muito esforgo ra politica estava encerrada para sempre. nesse sentido, n i o conseguiu deslanchar na Morreu no dia de Pascoa, em 9 de abril carreira politica, ainda que, em 1584, tenha de 1626.
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    265 Capitulo de'cimo quarto - Francis BCICOM: da fil6sofo era industrial II. Os escritos d e Bacon , *I 1 A filosofia baconiana e)cpressa n a s o b ~ a s A primeira obra de Bacon foram os Ensaios. Publicados pela primeira vez em 1597, consistem de analises eruditas sobre a vida moral e politica. Tendo-se tornado um classico da literatura inglesa, foram tra- duzidos para o latim sob o titulo Sermones fideles sive interiora rerum. Em 1603 publica-se o De interpre- tatione naturae proemium. Como 1603 i o ano da ascensso de Jaime I ao trono, Bacon se estende em observaq6es de cariter auto- biografico em seu escrito, considerando suas proprias qualidades como adequadas para o projeto de reforma da cultura. Escreve ele: "A raziio desta minha pu- blicaqiio 6 a seguinte: quero que tudo aqui- lo que visa a estabelecer relaqoes intelec- tuais e libertar as mentes se difunda entre as multid6es e passe de boca em boca [...I. Na verdade, ponho em movimento uma reali- dade que outros experimentariio [...I. Bas- ta-me a conscihcia do serviqo bem presta- do e a realizaqiio de uma obra na qua1 a propria sorte niio poderia interferir." J i no anto anterior (1602), porkm, Bacon tinha escrito o Temporis partus masculus. 0 parto masculino do tempo e um escrito muito pol~mico contra os filoso- fos, tanto antigos (Platso, Aristoteles, Ga- leno, Cicero) como medievais (Tomas, Es- coto) e renascentistas (Cardano, Paracelso). Na opiniso de Bacon, todos esses filo- sofos S ~ moralmente culpados de nso te- O rem dado a devida atengiio a natureza e o respeito necessario para com essa obra do
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    266 Terceira parte - Bacon e Drscavies Criador, que deve ser ouvida com humilda- Desta obra Bacon considerou o Novum de e interpretada com a necessiria cautela e Organum como a segunda parte e o De dig- pacitncia. Para ele, a filosofia do passado k nitate et augmentis scientiarum (1623)como estkril e verbosa. a primeira. Este ultimo escrito k a traduqiio Semelhante critica a cultura tradicio- latina ampliada do O f Proficience and Advan- nal voltara a tona diversas vezes nas suces- cement of Learning, Human and Divine. A sivas obras de Bacon, corno, entre outras, o terceira parte da Instauratio 6 representada Valerius terminus (1603), os Cogitata et visa pela Historia naturalis et experimentalis ad (1607-1609),a Redargutio philosophiarum condendam philosophiam sive phenomena (1608) e a Descriptio globi intellectualis universi, publicada em 1622 e 1623, em dois (1612). volumes, que continham, respectivamente, 0 trabalho intitulado O f Proficience Historia ventorum e Historia vitae et mortis. and Advancement of Learning, Human and Em 1624, Bacon fez uma revis50 do Divine (ou seja, "Sobre a dignidade e o pro- texto de N e w Atlantis (a Nova Atldntida), gresso do saber humano e divino") 6 de onde prefigura sociedades e instituiqi5es 1605. Esse trabalho, que seria ampliado em cientificas, e uma efetiva e proficua comu- 1623, e uma espkcie de defesa e elogio do nidade dos doutos e dos cientistas. saber. 0 segundo livro da obra analisa o Na primeira historia da Royal Society, estado de decadtncia do saber e projeta uma escrita pel0 bispo de Rochester, Thomas enciclopkdia do saber, dividido em historia Sprat, podemos ler: "Recordarei somente (fundada na faculdade da memoria), poesia um grande homem, que teve clara vis5o de (baseada na fantasia) e citncia (alicer~ada todas as possibilidades dessa nova institui- na raz20). ~ a otal como ela C agora: estou falando de , 0 s Cogitata et visa s5o de 1607. Em lorde Bacon. Em seus livros est5o esparsos 1609, Bacon publicou o De sapientia vete- por toda parte os mais validos argumentos rum, onde, mediante a interpretasso de al- que se podem produzir em favor da filoso- guns mitos da antiguidade, o autor apresenta fia experimental e as melhores diretrizes ao publico douto as doutrinas da nova filo- capazes de promovi-la, argumentos que ele sofia. adornou com tanta arte que, se meus dese- Ao que tudo indica, foi em 1608 que jos houvessem prevalecido sobre os de al- Bacon iniciou o N o v u m Organum, no qual guns de meus 6timos amigos, que me indu- retoma tambkm os conceitos elaborados nas ziram a escrever esta obra, nenhum escrito obras anteriores que ainda n50 haviam sido seria mais adequado para servir de prefa- publicadas. Nessa obra, publicada em 1620, cio a historia da Royal Society do que qual- Bacon trabalhou quase dez anos, apresen- quer de suas obras." Pode-se afirmar, sem tando-a como a segunda parte da Instauratio sombra de duvida, comenta Benjamin magna, um projeto n5o realizado, cujo pla- Farrington, que "a Royal Society representa no geral era o seguinte: o maior monument0 comemorativo a Fran- 1)divisao das ciincias; cis Bacon". 2 ) novo 6rg5o ou indicios para a inter- E se a Nova Atlintida prefigura aquilo pretagiio da natureza; que seriio as sociedades cientificas, o proje- 3) fentimenos do universo ou historia to enciclopkdico da Instauratio magna ins- natural e experimental para a c o n s t r u ~ i o da pira Diderot e d'Alembert na idealiza~iio da filosofia; Enciclopedia iluminista. 4) escala do intelecto; Com Bacon, portanto, como os estu- 5 ) prodromos o u antecipaq6es da filo- diosos de comum acordo reconhecem, inau- sofia segunda; gura-se nova atmosfera intelectual e novo 6 ) filosofia segunda ou citncia ativa. mod0 moral e social de entender a citncia.
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    267 Capitulo de'cimo quarto - F r a n c i s Bacoh: filbsofo dn e r a i o c i u s t v i a l III. "fintecipaG6es d a natureza" 1 2 ~ ~ 2 . e "interpretaG~es natureza" da Conforme Bacon, ciencia e poder coincidem, no sentido de que se pode agir sobre fen6menos apenas quando se conhecem suas causas. Para remediar os de- feitos do saber de seu tempo, tecido de axiomas abstratos e de Iogica silogistica, Bacon prop6e a importante distinqao entre: a) as antecipagdes da natureza, que s%onoq6es tomadas de A impomnte poucos dados habituais e sobre as quais a opiniao comum facil- distinqzoentre mente dd seu prciprio consentimento; as antecipaqdes 6)asinterpretag6esdanatureza, quederivamaocontrario d a n a t u r e ~ a e de uma pesquisa que se desenvolve a partir das proprias coisas asinterpretaqdes conforme os modos adequados. da natureza Ora, s%oas interpretag6es da natureza, e n%oas antecipa- 4 § 1 gcjes, que constituem o verdadeiro saber, obtido com o verdadei- ro metodo, o qua1 e um novum organum, um instrumento novo e eficaz para alcan~ar verdade. Trata-se, portanto, de seguir propriamente duas fases: a 1) a primeira (a pars destruens) consiste em limpar a mente de falsas no@es (idola) que invadiram o intelecto humano; 2) a segunda (a pars construens) consiste na exposiqSo e justifica@o das re- gras do novo metodo. 1 O m&todo pov meio "corn energia limitada e escasso sucesso". Por isso, i tolo e contraditorio pensar que do q ~ ase alcampa l aquilo que n5o se conseguiu fazer a t i agora o vevdadeiro sabeu. possa ser feito no futuro sem recorrer a me'todos novos e ainda n5o tentados. 0 fato t? que admiramos as forqas da mente huma- Escreve Bacon no inicio do primeiro livro do Novum Organum: "Ministro e in- tirprete da natureza, o homem faz e enten- de o que observa da ordem da natureza, corn a observaqiio das coisas ou com a obra da W AntecipaqSea do naturera. E 0 mente - ele nao sabe nem pode nada mais process0 "temerario e prematuro" da que isso." raz80, de que o homem comumente Em conseqiiikcia, prossegue Bacon, "a faz uso em relac80 a natureza. cicncia e a potencia humana coincidem, Trata-se de um procedimento muito porque a ignorincia da causa impede o efei- util para induzir ao consenso, porque to, e so se comanda a natureza obedecendo suas no~ijes tipicas d o tiradas de pou- a ela: aquilo que C causa na teoria torna-se cos exemplos muito familiares e "ime- diatamente agarram o intelecto e regra na operaqao pratica". preenchem a fantasia"; porem, justa- Assim, podemos agir sobre os fen6me- mente por isso, suas noqijes s80 em nos, ou seja, i possivel intervir eficazmente primeiro lugar "falsas", e chegam a sobre eles, mas apenas com a condiqiio de constituir os idolos, os preconceitos conhecermos suas causas. errados dos quais todo intelecto que Ora, C bem verdade que "o mecinico, queira ser cientifico deve absoluta- o matematico, o alquimista e o mago" se mente se libertar. Mediante as ante- ocupam da natureza e procuram entender cipaqdes, n3o se pode obter nenhum progress0 nas cihcias. seus fen6menos, mas tambim i verdade, observa Bacon, que "todos eles, pelo me- nos ate agora", ocuparam-se da natureza
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    268 Terceira parte - Bacon e Descavies qam facil concordincia, "porque, extraidas de poucos dados, sobretudo daqueles que se repetem habitualmente, logo ocupam o intelecto e preenchem a fantasia; em suma, sio no~des produzidas com mitodo equi- vocado" . b) As interpreta~oesda natureza, ao contrario, s i o resultado "daquele outro mod0 de indagar, que se desenvolve a partir das proprias coisas, segundo os modos de- vidos": "recolhidas de dados diversos e muito distantes entre si, elas n i o podem logo atingir o intelecto; por isso, parecem difi- ceis e estranhas a opiniio comum, quase semelhantes aos mistCrios da fC". Entretanto, szo as interpretap5es da natureza e nzo suas antecipa~ties cons-que tituem o verdadeiro saber: o saber obtido com o verdadeiro me'todo. As antecipaqdes subjugam a concor- dincia, mas n i o levam "a novos particula- res"; as interpretas6es subjugam a realida- de e, precisamente por isso, s i o fecundas. E na, mas n i o procuramos fornecer verdadei- subjugam a realidade e s i o fecundas exata- ra ajuda ao engenho humano. E a mente mente porque existe um mitodo - do qua1 necessita de tal ajuda, pois "a natureza su- falaremos adiante - que C um "nouum pera infinitamente o sentido e o intelecto organum", u m instrumento nouo e uerda- pela fineza de suas operaqdes". deiramente eficaz para alcan~ar uerdade. a Bacon via o saber de sua Cpoca como Se o que foi dito C verdadeiro, entio entretecido de axiomas que, sendo produzi- fica claro que, pondo junto o saber do pas- dos precipitadamente a partir de poucos e sado - saber feito de antecipaq6es -, n i o insuficientes exemplos, sequer arranham a se estaria contribuindo de mod0 algum para realidade, servindo apenas para alimentar o progress0 das cihcias. disputas estkreis. E a 16gica silogistica, pres- A primeira urghcia, portanto, C a da supondo tais axiomas t i o pouco fundamen- instauraqio do saber, "comeqando pelos tados, C "mais danosa que util", dado que proprios fundamentos da cihcia". serve somente "para estabelecer e fixar os E essa premente e radical tarefa tem erros que derivam da cognigio vulgar, mais duas fases: do que servir a busca da verdade". a) a primeira (a pars destruens) consis- Pois bem, sendo assim, Bacon propde- te em limpar a mente dos idolos (idola)ou se "reconduzir os homens aos proprios par- falsas noqdes que invadiram o intelecto hu- ticulares, respeitando sua sucesszo e sua mano; ordem, de mod0 que eles se obriguem a re- 6 ) a segunda (a pars construens) con- negar por algum tempo as nogdes e come- siste na exposiqio e na justificagio das re- cem a se habituar com as proprias coisas". gras do unico mCtodo que, sozinho, pode E, com tal objetivo, ele logo distingue entre: levar a mente humana ao contato com a re- a) antecipap5es da natureza e b) interpreta- alidade e que, sozinho, pode estabelecer um @es da natureza. nouum commercium mentis et rei. a) As antecipa~6esda natureza s i o Examinemos estas duas fases em seus noq6es construidas e obtidas "de mod0 pre- nucleos e em suas articulaq6e.s essenciais. maturo e temerario": s i o nogdes que alcan-
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    Capitulo de'cimo quarto- Francis Bacon: fil6sofo da era industrial IV. teoria dos "idola" A primeira fun@o da teoria dos idolos C a de tornar os homens conscientes das falsas noq8es que obscurecem sua mente e barram o caminho para a verdade. 0 s gCneros de idolos que assediam a mente d o quatro: 1) os idolos da tribo, fundados sobre a prdpria natureza hu- A mana e dependentes do fato de que o intelecto humano mistura do, idolos sempre a prdpria natureza com a das coisas, deformando-a e tornaoshomens transfigurando-a; conscientes 2) os idolos da caverna, que derivam do individuo sin uiar, e de suas falsas 3 precisamente da natureza especifica da alma e do corpo o indi- n o ~ B e s viduo singular, ou entiio de sua educaqao e de seus hiibitos, ou -) 7-5 ainda de outros casos fortuitos; 3) os idolos do for0 ou do mercado, dependentes dos contatos reciprocos do gCnero humano, que s insinuam no intelecto por via das combinq6es impr6- e prias das palavras e dos nomes; 4) os idolos do teatro, que penetram na alma humana por obra das diversas doutrinas filos6ficas e das pCssimas regras de demonstraq80. Sigmificado da teoria da qua1 falaremos. Todavia, uma identifica- qiio preliminar deles constitui grande van- dos "idola" tagem para sua eliminagiio. " 0 s idolos e as falsas noq6es que inva- diram o intelecto humano, nele lanqando raizes profundas, niio s6 sitiam a mente hu- 0 s "idola tribus" mana, a ponto de tornar-lhe dificil o acesso h verdade, mas tambtm (mesmo quando dado e concedido tal acesso) continuam a 0 s idolos da tribo se fundamentam so- nos incomodar durante o process0 de ins- bre a propria natureza, e sobre a propria tauraqiio das ciincias, quando os homens, familia humana ou "tribo". avisados disso, n i o se disp6em em condi- 0 intelecto humano mistura sua pro- q6es de combati-10s h medida do possivel." pria natureza com a das coisas, deforman- A primeira funqgo da teoria dos ido- do-a e desfigurando-a. los, portanto, 6 a de tornar os homens cons- Assim, por exem~lo, intelecto huma- o cientes das falsas noq6es que congestionam no C levado por sua natureza a supor nas sua mente e barram-lhe o caminho para a coisas "uma ordem maior" do que aquela verdade. que efetivamente nelas se encontra, ou seja, Desse modo, a identificaqiio dos ido- paralelismos, correspondincias e relag6es 10s t o primeiro passo que se deve realizar que na realidade niio existem. para tornar ~ossivel libertar-se deles. Ou ainda: "Quando encontra alguma Todavia, quais G o esses idolos? Pois noqiio que o satisfaz, porque a considera bem, Bacon responde a essa pergunta dizen- verdadeira ou porque convincente e agra- do que eles siio de quatro gineros e os cha- divel, o intelecto humano leva todo o resto ma, com belas imagens didhticas: a valida-la e coincidir com ela. E mesmo que 1)idolos da tribo; a forqa ou o n6mero das instfncias contra- 2) idolos da caverna; rias seja maior, no entanto, ou niio d o leva- 3) idolos do foro; das em conta por desprezo ou sf o confun- 4) idolos do teatro. didas com distinq6es e rejeitadas, niio sem Tais "idolos" siio eliminados aprenden- grave e danoso prejuizo, desde que isso con- do conceitos adequados, alcanqados com serve im~erturbavel autoridade das suas a mttodo justo, ou seja, mediante a indu~rio, afirmaq6es primeiras."
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    270 Terceira parte - Bacon e Descartes Em suma. um vicio do intelecto huma- dos livros que 1 i e da autoridade daqueles no C o que hoje chamariamos de equivoca- que admira e honra ou por causa da di- da tendincia verificacionista, contriria a versidade de impressoes, i medida que elas i justa atitude falsificacionista, com base na encontrem o espirito jii ocupado por pre- qual, se queremos o progress0 da ciincia, conceitos ou entiio descongestionado e tran- devemos estar Drontos a descartar uma hi- q u i l ~ " .0 espirito dos individuos singula- potese, conjectura ou teoria quando obser- res "C variado e muthvel, quase fortuito". vamos fatos contririos a ela. Por isso, escreve Bacon, Heraclito estava Mas as tendincias perniciosas do inte- com a raziio quando disse: " 0 s homens pro- lecto niio siio somente as que sup6em or- curam as cisncias em seus pequenos mun- dens e relagoes que um mundo complexo dos, niio no mundo maior, que C idintico niio tem ou entiio as que niio levam em con- para todos." ta os casos contririos. 0 intelecto, de fato, 0 s idolos da caverna, portanto, "tsm tambCm tende a atribuir com facilidade as [...I sua origem na natureza especifica da qualidades de algo que o impressionou a alma e do corpo do individuo, em sua edu- outros objetos que, no entanto, nso tirn es- cagiio e seus habitos ou entiio em outros sas qualidades. Em suma, "o intelecto hu- casos fortuitos". Assim, por exemplo, pode mano niio C apenas luz intelectual, mas tam- ocorrer que alguns se afeigoem A suas es- s bCm sofre a influincia da vontade e dos peculag6es particulares "porque se acredi- afetos, o que faz com que as ciincias sejam tam seus autores e descobridores ou porque como se quer. Isso ocorre porque o homem a elas dedicaram todo o seu engenho e a elas cri que C verdadeiro aquilo que ele prefere, se habituaram". Ou entiio, baseando-se em rejeitando por isso as coisas dificeis, pela alguma parcela de saber por eles construida, impaciincia de pesquisar; a realidade pura os individuos a extrapolam, propondo sis- e simples, porque deprime as suas esperan- temas filosoficos inteiramente fantasticos. E gas; as verdades supremas da natureza, por h6 ainda aqueles que se deixam tomar de superstigiio; a luz da experiincia, por sober- admiragiio pela antiguidade, enquanto ou- ba e presungiio [...]; os paradoxos, para fi- tros, pela atraqiio da novidade; "poucos siio car com a opiniiio do vulgo; e o sentimento aqueles que conseguem manter-se num cami- ainda penetra no intelecto e o corrompe por nho intermediirio, ou seja, sem desprezar muitos outros modos, frequentemente im- aquilo que C justo na doutrina dos antigos e perceptiveis". sem condenar aquilo que foi corretamente E h i tambCm os obst6culos dos senti- descoberto pelos modernos". dos enganosos, que s5o obstaculo porque amiude "a especulaqiio se limita [. ..] ao as- pecto visivel das coisas, deixando de lado ou reduzindo a muito pouco a observaqiio 0 s "idola fori" daquilo que nelas h i de invisivel [.. I ". AlCm disso, "por sua propria nature- za, o intelecto humano tende para as abstra- 0 s idolos do for0 ou do mercado deri- q6es e imagina como estivel aquilo que, no vam da comunhiio e das relagoes que os entanto. C mutivel". homens tim entre si. Na realidade, escreve S& esses, portanto, os idolos da tribo. Bacon, "a relagiio entre os homens ocorre por meio da fala, mas os nomes siio impostos as coisas segundo a compreensiio do vulgo. E basta essa informe e inadequada atribui- 0 s "idola specusl' $20 de nomes para perturbar extraordina- riamente o intelecto. E, naturalmente, para retomar a relagiio natural entre o intelecto e 0 s idolos da caverna "derivam do in- as coisas, tambim n5o tim valor todas aque- dividuo singular. AlCm das aberrag6es co- las definiqoes e explicag6es das quais fre- muns ao ginero humano, cada um de nos qiientemente os doutos se servem para se tem uma caverna ou gruta particular na qual precaver e se defender em certos casos". a luz da natureza se perde e se corrompe, Em outros termos, Bacon parece ex- por causa da natureza propria e singular cluir exatamente aquilo que hoje nos cha- de cada um, por causa de sua educagiio e mamos hipoteses ad hoc, isto 0, hipoteses das conversagoes com os outros, por causa cogitadas e introduzidas nas teorias em pe-
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    271 Capitulo de'cimo quarto - Francis Bacofi: fil6sofo da era industrial rigo com o zinico objetivo de salva-las da (corno, por exemplo, a "sorte", o "primei- critica e da refutagiio. ro m6veln etc.), ou s i o nomes de coisas que Entretanto, diz Bacon, "as palavras fa- existem, mas confusos, indeterminados e zem grande violihcia ao intelecto e perturbam impropriamente abstraidos das coisas. os raciocinios, arrastando os homens a inu- meraveis controvksias e viis consideraq6es". Na opiniiio da Bacon, os idolos do for0 siio os mais incBmodos de todos, "justamen- te porque estio ligados a linguagem". 0 s homens "acreditam que sua raziio domina as palavras; mas ocorre tambim que as pa- 0 s idolos do teatro "penetraram no lavras retrucam e refletem sua forga sobre o espirito humano por meio das diversas dou- intelecto, o que torna a filosofia e as citncias trinas filosoficas e por causa das pissimas sofisticas e inativas". regras de demonstraqiio" . 0 s idolos que, por intermtdio das pa- Bacon os chama de idolos do teatro lavras, penetram no intelecto, siio de duas porque considera "todos os sistemas filos6- espicies: siio nomes de coisas inexistentes ficos que foram acatados ou cogitados como f6bulas preparadas para serem representa- das no palco, boas para construir mundos de ficciio e de teatro". Encontramos fabu- las niio somente nas filosofias atuais ou nas "seitas filosoficas antigas", mas tambim em "muitos axiomas e principios das cihcias que se afirmaram por tradiqiio, f i cega e desleixo". Bacon particularmente classifica tres tipos de idolos do teatro, que estio na ori- gem da falsa filosofia: a ) idolos sofistas, baseados sobre experihcias comuns niio suficientemente provadas, e depois integra- das artificiosamente pela inteligcncia; b) ido- 10s empiricos, baseados sobre poucos expe- rimentos acurados, mas com a pretensiio de sobre eles construir sistemas filosoficos:, c) r idolos subersticiosos. baseados sobre uma mistura acritica da filosofia coni a teologia e com as tradiqoes. Bacon n i o pretende com isso menos- prezar os antigos nem atingir sua respeita- bilidade. Nos, diz ele, nos ocupamos de novo mitodo, um mitodo desconhecido dos an- tigos, que permite a gsnios menos fortes que os antigos ir bastante alim dos seus resulta- dos: "Diz-se que at6 um manco, se coloca- do no caminho certo, pode ultrapassar urn corredor que esteja fora do caminho; por- que 6 verdade que, quanto mais veloz cor- re, quem esta fora do caminho mais se per- de e erra." E assim chegamos ao ponto em que podemos tratar daquilo que, para Bacon, constitui a ) o verdadeiro objetivo da ciin- cia e b) o verdadeiro me'todo da pesquisa.
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    272 Terceira parte - Bacon e Descartes V. 8 escopo da cizncia: a descoberta das "formas" L m ponto cardeal 4 ou inquebrivel; um projeto para conservar os lim6es, as laranjas e as cidras durante o do pensamento de Bacon veriio; um projeto para fazer amadurecer mais rapidamente as ervilhas, os morangos Descongestionada a mente dos "ido- ou as cerejas. Outro projeto seu consistia los", isto 6 , libertado o espirito das apressa- em procurar obter - usando o ferro unido das "antecipag6es da natureza", na opini5o h silica ou a qualquer outra pedra - um de Bacon, o homem pode entiio encaminhar- metal mais leve que o ferro e imune h ferru- se para o estudo da natureza. Pois bem, "a gem. Para esse composto ( o nosso aqo), Ba- obra e o fim da f o r ~ ahumana esth em gerar con via os seguintes usos: " E m primeiro lu- e introduzir em um dado corpo uma nova gar, para os utensilios de cozinha, como natureza ou mais naturezas diversas. A obra espetos, fornos, assadores, panelas etc.; em e o fim da ciBncia humana est5o na desco- segundo lugar, para os instrumentos bdicos, berta da forma de uma natureza dada, isto como peqas de artilharia, comportas, gri- 6 , de sua verdadeira diferenqa, natureza IhGes, correntes etc." naturante ou fonte de emanaqiio". Esses exemplos nos permitem com- preender o que significa "introduzir em um corpo dado uma nova natureza". E tambCm nos permitem compreender o que Bacon quer 0poder do homem dizer quando afirma que "a obra e o firn da esth e produzir e u corpo m m m for~a humana est5o em gerar e introduzir em novas naturezas um corpo dado uma nova natureza ou mais naturezas diversas". Isso esclarece a primei- ra parte do trecho citado de Bacon. Esse elemento central do pensamento de Bacon necessita de alguns esclarecimen- tos. Antes do mais, o que pretendia dizer cigncia est6 na descoberta Bacon com a express50 "gerar e introduzir das "formas" em um corpo dado uma nova natureza"? Eis alguns "projetos" que exemplificam a idCia de Bacon: um projeto para fazer li- Vejamos entiio a segunda parte, onde gas de metais para fins diversos; outro pro- ele escreve que "a obra e o fim da ciBncia jet0 para tornar o vidro mais transparente humana est5o na descoberta da forma de
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    273 Capitdo dtcimo quarto - Francis Bacon: filbsofo da era industrial uma natureza dada, isto 6, de sua verdadei- f idkia baconiana ra diferenga, natureza naturante ou fonte de emanaqiio". de "fo~wm", Bacon encontra em Arist6teles a dou- o l l r v ~ ~ e ~ ~ ~ Iatente" trina das auatro causas necessarias i com- e o "esquematismo Iatente" preens50 de uma coisa qualquer. Siio elas: a causa material; a causa eficiente; a causa formal; a causa final. Assim, por exemplo, Mas o que siio essas formas? De que se considerarmos uma estatua, n6s a com- mod0 Bacon as concebe? preenderemos se entendermos de que C fei- Pois bem, para compreender a idCia de ;a (causa material: por exemplo, o-mirmo- forma, t necessirio falar de dois novos con- re); quem a fez (causa eficiente: por exemplo, ceitos introduzidos por Bacon: o de "proces- o escultor): sua forma (causa formal: a idCia ., SO latente" e o de "esquematismo latente". que o escultor impri;ne nd marmore); o a ) 0 processo latente niio C o processo motivo pel0 qua1 foi feita (causa final: por que se ve atravis da observagiio dos fen& exemplo, a raziio que impeliu o escultor a menos: "Com efeito, niio pretendemos fa- faze-la). lar de medidas, sinais ou escalas do processo Pois bem. Bacon esta de acordo com visivel nos corpos, mas de processo conti- Arist6teles sobre o fato de aue "o verdadei- nuado, que em sua maior parte escapa aos ro saber i saber por causas". Mas, entre es- sentidos." sas causas, acrescenta ele, a causa final so b) Quanto ao esquematismo latente, pode valer para o estudo das ag6es huma- Bacon escreve que "nenhum corpo pode ser nas. Por outro lado, a causa eficiente e a ma- dotado de nova natureza, nem se pode trans- terial siio de pouca importiincia para a c i h - form6-lo oportunamente e com sucesso em cia verdadeira e ativa. novo corpo, se niio se conhece com perfei- 0 que resta, portanto, C a causa for- giio a natureza do corpo a alterar ou a trans- mal. E esta que n6s devemos conhecer se formar". quisermos introduzir "novas naturezas" em Na opiniiio da Bacon, a anatomia dos determinado corpo: "Um homem que co- corpos orgiinicos, ainda que insuficiente- nhega as formas pode descobrir e obter efei- mente, dii de alguma forma a idiia de es- tos nunca antes obtidos, efeitos que nem as quematismo latente. Brevemente, pode-se mudangas naturais, nem o acaso, nem a ex- dizer que o esquematismo latente C a estru- periincia, nem a industriosidade humana tura de uma natureza, a essencia de um fe- jamais produziram, efeitos que, de outra n8meno natural, ao passo que o processo forma, a mente humana jamais teria podi- latente pode ser visto como a lei que regula do prever." a geraqiio e a produqiio do fen8meno. Em suma, conhecer as formas das va- Assim, compreender a forma significa rias coisas ou "naturezas" significa pe- compreender a estrutura de um fen6meno e netrar nos segredos profundos da natureza a lei que regula o seu processo. 0 s eventos e tornar o homem poderoso em relagiio a se produzem segundo uma lei. E "nas cien- ela. E Bacon era de opini5o que esses se- cias i essa propria lei e a pesquisa, desco- gredos da natureza niio deviam ser muitos berta e explicagiio da mesma, que constitu- em comparagiio com a grande variedade e em o fundamento do saber e do operar. Sob riqueza dos fenGmenos, aparentemente tiio o nome de forma, n6s entendemos essa lei e d'iversos. seus artigos [...In."quem conhece a for- E No fundo, Bacon pretendia assenho- ma, abrange a unidade da natureza, att nas rear-se daquele alfabeto da natureza que po- matirias mais dessemelhantes [. ..I. Por isso, deria permitir compreender as express6es da da descoberta das formas derivam a veraci- linguagem, isto 6, seus fen8menos variados. dade na especulaqiio e a liberdade na ope- Em outros termos: as palavras da lin- ragiio". guagem da natureza seriam os fedmenos, Poder-se-ia quase dizer que, com essas e as letras do alfabeto seriam as poucas e especulaqoes, Bacon, de certa forma, sonhou simples formas. a realidade do bioquimico ou a t i a aventu- ra dos fisicos at6micos contemporiineos.
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    2 74 Terceira parte - B a c o ~ D e s c n r t e s r VI. j indmG&o por eliminaG&o 0 s dois Uma vez purificada a mente dos idolos e fixado o verda- procedimen tos deiro escopo d o saber no conhecimento das formas da natureza, que compeem o metodo para alcanqar tal escopo se compZie de dois procedi- o metodo para tTIentos: o conhecimento 1) extrair os axiomas da experiencia; das formas 2) derivar experimentos novos dos axiomas. da na tureza 0 s axiomas sao assim tirados da experi@nciamediante a 4 3 1-2 indu(;a"o p o r elimina(;a"o da hipotese falsa, que suplanta a indu(;a"o tradicional de t i p 0 aristotelico, conduzida por simples enurnera- gao de casos particulares. A induqao por eliminaqao e precedida de uma impor- tante classificag30 que registra: a) nas tabuas de presenga, todos os caos em que o fen6meno indagado se apresenta; 6) nas tabuas da ausencia, os casos afins aos precedentes em que, porem, o fen6meno nao se apresenta; C) nas tabuas dos graus, todos os casos em que o fen6meno se apresenta segundo maior o u menor intensidade. Depois da compilaq~o tr@sdas tabuas, comega a operaqao de verdadeira e propria exclusao o u eliminaqao das hipoteses falsas de explicaqao d o fenbmeno, ate que se chegue a uma primeira vindima, isto e, a uma primeira hip6tese coe- rente com os dados expostos nas tr@s tabuas e avaliados por meio 0 conceit0 d o processo seletivo de exclusao. A primeira vindima e assumida da primeira depois como hipotese-guia para a pesquisa posterior, isto 4, dela vindima deduzindo os fatos que ela implica e preve, e experimentando se 4 3 3-5 tais fatos se verificam tambem em condigdes tecnicas experimen- tais (ou instrincias prerrogativas), entre as quais assumem parti- cular relevo as instrincias da cruz. De tal modo, Bacon iniciava u m caminho dirigi- d o a unir de mod0 sempre mais firme a faculdade experimental e a faculdade rational. Para Bacon, o caminho a seguir C o da indu@o, mas a "indu@o legitima e verda- deira, que 6 a propria chave da interpreta- @o", e niio a indu@o aristote'lica. Purificada a mente dos "idolos" e fi- Conforme diz Bacon, a induqiio aristo- xado no conhecimento das formas da natu- tClica C uma induqiio por simples enumera- reza o verdadeiro objetivo do saber, C preci- @o de casos particulares, "passando muito so ver agora atravCs de qua1 mitodo tal rapidamente sobre a experitncia e sobre os objetivo pode ser alcanqado. particulares". A partir de poucos particula- Bacon afirma que o objetivo C alcan- res, secundando a m i tendencia da mente a qavel realizando-se um procedimento de subir imediatamente de escassas experiin- pesquisa compost0 de duas partes: "A pri- cias aos principios mais abstratos, ela "cons- meira consiste em extrair e fazer surgir os titui logo de inicio conceitos tiio gerais quan- axiomas da experihcia, a segunda em de- to inuteis". duzir e derivar novos experimentos dos axio- Em poucas palavras: a induqiio de Aris- mas." Mas que fazer para extrair e fazer sur- toteles deslizaria sobre os fatos, ao passo que gir os axiomas da experigncia? a induqiio proposta por Bacon, que C uma
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    275 Capitulo de'cirno quarto - Francis Bacon: filbsofo da ern industrial Assim, se pesquisamos a natureza do calor, devemos inicialmente compilar urna "ta- bua de presenqa" (tabula praesentiae), onde Induqtio por eliminas3o.O me- registrarnos todos os casos ou instiincias em todo indutivo tradicional, que re- que se apresenta o calor: "1) os raios do sol, monta a Aristoteles, caracteriza-se sobretudo no veriio e ao meio-dia; 2) os raios segundo Bacon pela simples enume- do sol refletidos e reunidos em pequeno espa- ra@o dos fencimenos, razao pela qual $0, como entre montes, entre muros ou, mais se julga com base a um nlimero de ainda, nos espelhos ustorios; 3) os meteoros fencimenos inferior ao necessario e incandescentes; 4) os reliimpagos ardentes; 5 ) apenas em base aos que se tern ao alcance da m%o: este metodo, que erupqoes de chamas das crateras dos montes procede silogisticamente do mais par- etc.; 6) toda chama; 7) solidos em fogo; 8) as ticular ao mais universal, saltando os aguas quentes naturais; (...); 18) a cal viva, aneis intermediarios, leva a conclu- borrifada de agua (...); 20) os animais, so- s6es precarias e constantemente ex- bretudo e sempre nas entranhas etc." postas ao perigo de teses contradi- Compilada a "tabua da presenqa", pro- torias. cede-se 2 compilaqio da "tibua das ausin- A verdadeira induqso cientifica, que cia" (tabula declinationis sive absentiae in faz "uso de muitas coisas as quais ate o momento nenhum mortal jamais proximo), na qual siio registrados os casos pensou", deve ao contrario analisar proximos, isto 6, afins, aos anteriores, nos os fenbmenos da natureza a partir quais, porim, o fen6men0, em nosso caso o dos experimentos, mediante as de- calor, n i o se apresenta: 6 o caso dos raios vidas elimina@es e exclusBes dos da lua (que S ~ luminosos como os do sol, O casos em que o fendmeno em ques- mas n i o s i o quentes), dos fogos-fatuos, do ti30 esta ausente ou n%oesta presen- fogo-de-santelmo (que C fen8meno de fosfo- t e de mod0 pleno, para chegar a s rescincia marinha) e assim por diante. causas e aos axiomas sempre mais gerais que expressamente a ele se Concluida a tibua da ausincia, pas- referem. sa-se a compilaqiio da "tabua dos graus" A induq%opor eliminaq%o e "a pro- (tabula graduum), na qual s i o registrados pria chave da interpreta@o", e nela todos os casos ou instiincias em que o fen& "sem duvida e depositada a maior es- meno se apresenta segundo urna intensida- peranqa". de maior ou menor. Em nosso caso, deve-se atentar para a variaqiio do calor no mesmo corpo, colocado em ambientes diversos ou em condiqoes particulares. indu~iio por elimina@o, estaria em condi- 3 Como das tr2s t6buas q6es de captar a natureza, a forma ou a es- se extrai a "primeira vindima" sincia dos fenemenos. Armado com essas tabuas, Bacon pro- cede entiio a operaqiio de induqiio propria- 2 A s tr& "t6buas" mente dita, seguindo o procedimento da sobre as quais se deve exclusio ou eliminaqiio. Escreve ele: "0 basear a nova induC&o objetivo e a funqao dessas tris tabuas s i o o de fazer urna citagiio de inst2ncias diante do intelecto [...I. Feita a citaqiio, C preciso p6r Pois bem, na opiniiio de Bacon, a pes- em a@o a propria indupio." quisa das formas procede do mod0 que des- Deus, "criador e introdutor das for- creveremos. mas", e "talvez tambem os anjos e as inteli- Antes do mais, ao se indagar sobre urna gincias celestes" tim "a faculdade de captar natureza, como, por exemplo, o calor, C pre- imediatamente as formas por via afirmativa ciso "fazer urna cita@o, diante do intelecto, e desde o inicio da especulaqiio". 0 homem, de todas as instiincias conhecidas que coin- porkm, n i o possui essa faculdade, sendo- cidem em urna mesma natureza, ainda que lhe "concedido somente proceder primeiro se encontrem em matirias muito diversas". por via negativa e apenas por ultimo, de-
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    276 Terceira parte - Bncan r Del-cn~+es pois de um processo completo de exclusiio, Ele proprio escreve: "At6 agora, aqueles que passar a afirmaqiio". A natureza, portanto, trataram das cihcias eram empiricos ou deve ser analisada e decomposta com o fogo dogmaticos. 0 s empiricos, como as formi- da mente, "que i quase um fogo divino". gas, acumulam e consomem. 0 s racionalis- Mais especificamente, porim, em que tas, como as aranhas, extraem de si mes- consiste o procedimento por exclusiio ou mos sua teia. 0 caminho intermediario e' o eliminaqiio? Pois bem, por "exclusiio" ou das abelhas, que extraem sua mat6ria-pri- "eliminaqiio" Bacon entende exatamente a ma das flores do jardim e do campo, trans- exclusiio ou eliminaqiio da hipotese falsa. formando-a e digerindo-a em virtude de urna Retomemos o exemplo da pesquisa da capacidade que lhes C pr6pria. N5o muito natureza do calor. Considerando as tibua diferente i o trabalho da verdadeira filoso- de presenqa, aushcia e graus, o pesquisa- fia, que niio deve se servir somente ou prin- dor deve excluir ou eliminar como proprias cipalmente das forgas da mente, pois a ma- da forma ou natureza naturante do calor tCria-prima que ela extrai da historia natural todas aquelas qualidades niio possuidas por e dos experimentos mecinicos niio deve ser algum corpo quente, as qualidades possui- conservada intacta na memoria, mas sim das por algum corpo frio e as que permane- transformada e trabalhada ~ e l o intelecto. cem invariiveis sob o aumento do calor. Assim, a nossa esperanqa se deposita na Para ficar ainda mais claro, a proposito uniiio sempre mais estreita e s6lida entre da pesquisa da natureza do calor, o procedi- essas duas faculdades, a experimental e a mento por exclusiio poderia assumir o seguin- racional, uniiio que ate agora ainda n i o se te processo de argumentaqiio: o calor 6 ape- realizou. " nas um fen6meno celeste?Niio, pois tambim os fogos terrenos siio quentes. Ele i, entiio, apenas um fenBmeno terrestre? Niio, pois o sol i quente. Todos os corpos celestes siio quentes? Niio, porque a lua i fria. Sera que o calor depende da presenqa de alguma parte constitutiva no corpo quente, como poderia Chegando a "primeira colheita", Ba- ser o antigo elemento chamado "fogo"? Niio, con toma essa primeira hipotese como guia pela raziio de que qualquer corpo pode ser para a pesquisa posterior, que consiste na tornado quente pel0 atrito. Sera que depen- dedu~iio no experimento, no sentido de e de entiio da composiqiio particular dos cor- que, da hipotese obtida, devem-se deduzir pos? Niio, ja que podem ser esquentados os os fatos por ela implicados e previstos, ex- corpos de qualquer composiqiio. perimentando em condiq6es diversas se tais E assim por diante, at6 se chegar a urna fatos implicados e previstos pela hipotese "primeira colheita" (vindeminatio prima), se verificam. isto 6, a uma primeira hipotese coerente com Desse mod0 se constroi urna espicie de os dados expostos nus tris tabuas e criva- rede de investigaqao, da qua1 parte toda urna dos atrave's do procedimento seletivo de eli- s6rie de "interrogag6esn a que a natureza C mina@o e exclusiio. No que se refere ao forqada a responder. exemplo do calor, Bacon chega a urna con- Com tal objetivo, Bacon cogita um clusiio como esta: "0calor i um movimen- conjunto rico de ticnicas experimentais (ou to expansivo e forqado, que se desenvolve de instiincias prerrogativas), por ele indica- segundo as partes menores." das com nomes muito fantasiosos (instin- cias solitarias; instincias migrantes; instin- cias ostensivas; instincias clandestinas; instincias constitutivas; instincias confor- ,t4L"#" " f nova induC&o mes ou proporcionais; instincias monidicas; "via C O ~ O mediana" instincias desviadoras etc.), entre as quais entre as seguidas destacam-se particularmente as "instiincias por empiristas e racionalistas da cruz", assim chamadas "por methfora extraida das cruzes colocadas nos caminhos para indicar urna bifurcaqiio". Procedendo desse mod0 na busca da A estratigia do experimentum crucis verdade, Bacon trilhava um caminho dife- se da "quando, durante a pesquisa de urna rente do dos empiristas e dos racionalistas. natureza, o intelecto esta incerto e como que
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    277 Capitdo de'czmo quarto - Franc~s Bacon: fil6sof0 da era industrial em equilibrio no decidir sobre a qua1 de duas pre o mesmo peso, ao passo que, sendo ver- naturezas, ou mais de duas, deve ser atribui- dadeira a segunda hipotese, deveria seguir- da a causa da natureza examinada; pel0 con- se que "quanto mais os graves se aproxi- curso freqiiente e ordinario de varias natu- mam da terra, tanto maiores siio a forqa e o rezas, as instincias cruciais mostram que o impeto com que siio impelidos em sua dire- vinculo de uma dessas naturezas com a na- $30, ao passo que, quanto mais se afastam tureza dada C constante e indissoluvel, ao dela, mais lenta e fraca se torna aquela for- passo que o das outras C variavel e separa- qa [...]". vel. Assim, a questiio resolve-se, e C acolhi- Pois bem, sendo assim, eis a instiincia da como causa a primeira natureza, enquan- da cruz: "Tomam-se dois relbgios, um da- to a outra C rejeitada e repudiada". E Bacon queles que se movem por contrapesos de comenta: "Tais instincias trazem portanto chumbo, outro daqueles que se movem por muita luz e apresentam uma como que for- contragiio de uma mola de ferro. Experimen- te autoridade, de mod0 que, algumas vezes, te-se se um C mais veloz ou mais lento que o chegando a elas, nelas se dettm o process0 outro. Depois, coloque-se o primeiro na de interpretaqiio". extremidade de um templo altissimo, apos N o segundo livro d o Novum Orga- te-lo regulado de acordo com o outro, de num, niio faltam exemplos de pesquisas que mod0 a que marquem o mesmo tempo, dei- necessitam de experimenta crucis para se- xando-se entiio o outro aqui embaixo. E rem resolvidas. Detenhamo-nos sobre o isso para observar diligentemente se o re- exemplo da solugiio da quest50 da forma logio colocado no alto move-se mais lenta- d o peso. mente do que antes, em virtude da menor Para alguns, o peso dos corpos devia- forga de gravidade. 0 experiment0 deve ser se a uma propriedade intrinseca dos corpos, repetido, levando-se o relogio para a pro- a o passo que, para outros, devia-se B gravi- fundidade de alguma mina, situada muito dade. abaixo da superficie da terra, para ver se ele Eis, portanto, para exemplificar, a bifur- se move mais velozmente que antes, em ra- ca@o: "1) Ou os corpos pesados e graves ziio do aumento da forqa de atraqiio. E so- tendem para o centro da terra por sua pro- mente no caso de se concluir que efetiva- pria natureza, isto C, segundo o seu esquema- mente o peso dos corpos diminui quando se tismo, 2) ou entiio S ~ atraidos e aprisiona- O elevam ou aumenta quando se abaixam em dos pela propria forga da massa terrestre." diregiio ao centro da terra, C que se determi- Ora, se a primeira hipotese fosse ver- n a r i que a causa do peso C a atraqiio da dadeira, entiio todo objeto deveria ter sem- massa terrestre."
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    278 Terceira parte - Bnscn e Desco~+es BACON NTERPRETAC~O NATUREZA DA , / 0 NOVO ORGANUM DA "GRANDE RESTAURACAO DAS CIENCIAS E DAS ARTES" ou "PRINC~PIOS INTERPRETACAO DA NATUREZA" DA 1. idolos da tribo i Refuta~iio das 2. idolos da caverna -.. -I antecipa~oes natureza, da 3. idolos do for0 otr do mercado DE PARTIDA I w 4. idolos do teatro isto e, dos 7- A) CLASSIFICAQ~O: a. tibuas da presenga b. tibuas da aushcia Primeira parte: c. tibuas dos graus I 1 @ deriva~do axiomas dos - - a partir da experigncia B) METODO: indu~do elimina@o por - -- 7 da hip6tese falsa na explicaqIo do fedmeno C) OBJETIVO: I /" Segunda parte: primeira vindima deriva~do novos fendmenos de (ou interpretagIo inicial), da primeira vindima isto 6 , primeira hipotese por meio de te'cnicas experimentais coerente corn os dados (insthcias prerrogativas, experimentados retificaq6es da induqiio etc.) COGNOSCITIVO: descoberta da forma de uma natureza dada (interpreta~ao final completa dos fenhmenos), isto 6, compreens50 da estrutura (esquematismo latente) v de um fen6meno e da lei (processo latente) que regula seu processo - A OPERATIVO: geragiio de uma ou mais novas naturezas em um corpo dado, isto 6, transforma@o dos corpos materiais por meio da introduqiio neles de uma ou rnais qualidades sensiveis
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    2 Capitulo dtcimo quarto - Francis Bacon: filbsofo da era industrial corpos naturais: o resto 6 obra do natureza, que opera a partir de dentro. 2. lnsufici&nciadas ciQnciasatuais e da 16gica traditional 1 . Costumam ocupar-se da natureza, no A necessidade que se refere bs obras, o rnec6nic0, o matern6- de u novo m8todo m tico, o rnhdico, o alquimista e o rnago; todos. nas ci9ncias e nas arks porhm, no atual estado das coisas, com I e v ~ empenho e escasso resultado. -- 2. Seria loucura e contraditorio em si crer No opinido da Bocon, as c/&ncias da que aquilo qua at& ac~ora jomais foi feito, pos- sua Qpocondo sdo capozes da novos das- sa ser feito sem recorrer a rn&todos ainda ja- cobartas, e o prdprio Iogica trodiclonal Q mci- mais tentados. ti1 poro os pesquisas ciantificos. 3. Nos livros e nos oficinas parecern de- 0 s conceltos qua Figurom nos silogis- rnasiadamente numerosos os produtos da man- mos do filosofia trodicionol 580, no raalida- te e da mBo. Mas toda essa variedade est6 de, no@s Fontdsticos, ndo axtraidas dos fundarnentada sobre urna extraordin6ria sutile- objatos com mhtodo; a o masmo discurso za e sobre uma s&rie de consequ&nciasextrai- vole poro os oxiomos, qua am garal sdo in- das de poucos conhecirnentos j6 adquiridos, e davidomente extroi'dos por maio de uma ndo @st6fundarnentada sobre o nljrnero dos passogem precipitodo a ilagitima de poucos axiomas. cosos particularas oo univarsol. 4. Tamb6rn as invenq3es jd realizadas se /7 aste procedimanto, que h o falsa devem ao acaso e b empiria rnais do qua bs indusdo, Aocon op6e a verdadeira indu~bo, ci&ncias. Corn efeito, as cihcias que hoje te- qua avonqo para os princ@ios madianta os mos, ndo sdo mais que combinagies de coisas oxiomos mddios a procada com cautalo e j6 encontrodas, ndo mQtodos para a inven@o paci&ncio, continuamanta controlodo palos ou indicqdes de novas obras. cosos do axpari&ncio. 5. R causa e a raiz de quase todos os Nessa p ~ p a c t i v odeva-sa antandar a males nos ci&ncias & apenas esta: enquanto chlabra distin~do baconiano entra antecipa- erronearnente admiramos e exaltarnos as for- @es da natureza e interpretag%s da natureza. <as da mente hurnana, nBo procuramos verda- deiros auxilios para ela. 6. A sutileza do natureza supera em muito a sutileza do sentido e do intelecto, tanto que 1. A natureza pode ser vencida todas as boas msdita<bes,especula@es e con- apenas obedecendo a ela trovCrsias hurnanas sdo coisas sern sentido; 1 . 0 homern, rninistro e inthrprete da na- apenas ndo existe algu&m que perceba ISSO. tureza, opera e entende apenas pelo que, com 7. Como as ci&ncias,que agora temos, sdo a pr6tica ou corn a teoria, tiver aprendido da totalrnente inljteis para a inven~do obras, de ordern da natureza: al&m disso nada sabe nem tarnbbm a logics, como & atualmente, & ~nljtil pode. para a inven~do das ci&ncias. 2. Nem a mdo nua, nem o intelecto aban- 8. R logica hoje em uso vale rnais para con- donado a si mesmo t&m poder. 0 s resultados firmar e para fixar erros que se apoiam sobre sbo alcanpdos corn instrumentos e corn auxi- no~bes vulgares do que para a busca da verda- lios e destes tern necessidade ndo rnenos o de: por isso, ela d rnais danosa do que util. intelecto do que a rndo. Como os instrurnentos 9. 0 siloglsrno, sendo totalrnente inade- ampliam e regsrn o rnovimento da rndo, tam- quado para a sutileza da natureza, ndo se apli- bQrn os instrurnentos da rnente guiarn ou man- ca aos principios das ci&ncias e i; aplicado em t&m o intelecto. vdo aos axiornas rn&d~os. Obriga ao assenti- 3. R ci&ncia e o poder humano coincidem, rnento, ndo obriga as coisas. porque a ignor6ncia do causa faz corn que fake 10. 0 silogismo consta de proposiq%s, o efeito. fl natureza, com efeito, nBo se vence a as proposi@es de palavras, as palavros sBo ndo ser obedecendo a ela, e o que na teoria tem as etiquetas das no@es. Portanto, se as pro- valor de causa, na opera@o tern valor de regra. prias no@es, que estdo na base de tudo, sdo 4. E relaq3o 6s obras o hornem nBo tern m confusas e arbitrariamente abstraidas das coi- outro poder que o de aproxirnar ou afastar os sas, ser6 totalrnente privado de sol~dez aquilo
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    e"; ds2%0 Terceira parte - Bacon e Descartes qua se constroi sobre sua base Rsslm, a ljnlca 3. 0 intelecto abandonado a si mesmo, esperanca reside na verdadslra ~ndugdo em uma mente sobria, paciente, severa (sobre- 1 1 Ndo h6 nada de incorrupto nos no- tudo se ndo for impedido pelas doutrinas tradi- @es, nam nos Iog~cas nem nos fislcas As no- cionais), tenta por vezes tamb6m o segundo cdes de substdnaa, quo lid ad^, agdo, paix60, caminho, que 6 o justo, mas com escasso pro- e as propnos no$% de ssr nbo sbo v6l idas e veito. 0 intelecto, com efeito, se ndo for guia- muto menos o sdo as de pesodo, Isva demo do e sustentado, procede irregularmente e 6 tgnus, cjrnldo, ssco, gsrogdo, corrupgdo, otra- completamente incapaz de vencer a obscunda- <do, r~pulsdo, sl~rnsnto,rnattr~a, Forma s se- de das coisas. melhantes Todas essas n o p i x sdo fant6sti- 4. Rmbos os caminhos sa movem do sen- cas e ma1 dehnrdas tido e dos particulares e terminam nos principios 12 Rs no<desdas espbcles inflmas, como mais gsrais, mas diferem enormemente entrs hornsm, cdo, pornba, e das percep<dessensi- si: um toca apenas de passagem a exper~hncia vsis ~msd~atas, como qusnta frio, bronco, pre- e os fatos particulares, o outro oi se demor~ to, nbo sdo multo falazes Elas, porhm, por ve- com m6todo e com ordem; um estabelece des- zes sbo confusas pelo fluir do mat6r1ae pela de o inicio principios gerais abstratos e inljteis: m~stura colsas Todas as outras nocdes, que das o outro sobe gradativamente as coisas mais os homens usaram at6 agora, sbo aberra<des conhecidas por natureza. abstraidas ou extraidas das coisas com modos 5. N8o 6 pequena a diferenp entre os nbo apropriados idolos do mente humana s as idhias da mente 13 0 arbitno e a absrra~do constru- na divina, isto 8, entre opinides falazes e os ver- sbo dos axiomas ndo sdo menores do que no dadeiros selos e marcas impressos por Deus abstrqdo das nocdes, e lsso tamb6m nos pro- sobre as criaturas assim como se encontram. prlos principios que dependem do indugio co- 6. De nenhum mod0 pods ocorrer que os mum Muto maior 6 o arbitr~o nos axlomas e axiomas estabelecidos mediante a argumenta- nas propos~c;des conseguidas por melo do <do sirvam para a inven<do de novas obras, silogismo porque a sutileza da natureza supera grande- 14 Aqu~lo at6 agora foi produz~do que nos mente a da argumenta<bo. Mas os axiomas cihncias 8 de tat monta que depende quase extraidos com m6todo e com ordem dos parti- sempre das no~des vulgares Para penetrar nos culares facilmente por sua vez indicam e desig- recessos escondidos do natureza 6 necess6r1o nam particulares novos, e desse modo tornam que tanto 0s concsltos quanto os axiomas se- ativas as cihncias. jam abstraidos das colsas por uma via mais certa 7. 0 s axiomas agora em uso sdo extrai- e segura e que nos hab~tuemos usar o Inte- a dos de uma limitada e superficial experihncia e lecto de modo melhor e mals seguro dos poucos particulares que mais frequents- mente se apresentam; sdo de tal modo feitos b medida e segundo a extensdo destes; ndo h6, 3. Antecipa~6es natureza da portanto, nada de estranho se nbo conduzem e interpretag6es da natureza a novos particulares. E se por acaso se apre- 1 . Sdo e podem ser dois os caminhos para senta uma inst6ncia qualquer antes n6o perce- a pesquisa e a descoberta da verdade. 0pri- bida ou conhecida, cuida-se de salvar o axio- meiro, do sentido e dos fatos particulares voa ma com alguma Frivola distinsdo, quando ssria para os axiomas mais gerais e, sobre a base mais justo emend6-lo. destes principios e de sua imut6vel verdade, 8. Para fazermo-nos sntender melhor, es- julga e descobre os axiomas mhdios: sste 6 o tabelecemos chamar de ant~~/pag%s notu- do caminho agora em uso. 0segundo, do sentido rsza os temer6rios e prematuros procedimen- s dos fatos particulares extrai os axiomas, su- tos da razbo dos quais fazemos uso comumsnts bindo corn medida e gradativamente ds modo nas rela<descom a natureza. Chamaremos ao a alcan~ar apenas no fim os axiomas mais ge- contr6rio de int~rpretogdo noturszo a raz8o da rais: este 6 o caminho verdadeiro, mas ainda que se desenvolve a partir das coisas confor- ndo tentado. me os modos devidos. 2. 0 intelecto abandonado a si mesmo se 9. As antecipa@es sbo bastante firmes pde no primeiro caminho e o percorre ssgundo relativamenteao consenso; com efeito, se tam- as regras do dial6tica. R mente tende, com efei- b6m os homens enlouquecessem de modo uni- to, a subir aos principios mais gerais e ai parar; co e conforms, poderiam mu~to bem encontrar- enfastia-sa logo com a experihncia. A dial6tica. se todos de acordo. por causa de sua complac&ncia com as dispu- 10. Ou melhor, as antecipa<dss servem tas, torna estes deFeitos ainda mais pesados. muito mais que as ~ntarpreta(des para provo-
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    281 ,, , Capitdo de'cimo quarto - Francis Bacon: filbsofo da era industrial car o consenso porque, extraidas de poucos suas ordens, de modo que elss, por algum tem- exsmplos e justamente dos qus parecsm mais po, se imponham renunciar 6s no@es s come- familiares. logo prendem o intelecto e preen- cem a familiarizar-se com as proprias coisas. chem a fantasia; ao contrario, as interpretaq3es. F. Bacon, extraidas esparsamente de exemplos bastante Novum organum (Novo orc$o) variados e muito distantes entre si, ndo podem atingir imsdiatamente o intel~cto parecsm s necessariamente, para a opinido comum, dificeis e estranhas, quase como os mistbrios da f6. 1 1 . Nas ciisncias fundamentadas sobre opiniaes e sobre principios prov6vais & oportu- As linhas gerais no o uso das antecipaQ3es e da dialhtica: nes- do novo m6todo tes casos trata-se de f o r p o assentimento, e ndo de obrigar as coisas. 12. TambBm se todos os engenhos da 0caminho sminants para a d~scobar- todas as eras colaborasssmjuntos e reunissem to da vsrdada 6, portanto, o q u do santido ~ e transmitissem suas fadigas, nenhum grands s dos particularss sxtroi os axiomas, rsmon- progresso poderia ser obtido nas ciisncias me- tando por graus a ascola da genaralizo@o, diante as antecipa@ss, porque os erros enrai- at6 chsgar aos axiomas gsnsralissimos. Tal zados na mente e que remontam a suas primei- cominho Q a indu~do elimina<do, no qua1 por ras slabora<desndo podem ser corrigidos pela 'ispbs-ss a ssperanga maior". excelisncia das fun@es e dos remhdios suces- sivos. 1. Ndo se trata apenas de procurar s pro- 1 3. E vdo se espera um grands progres- m videnciar maior quantidade ds experimentos de so nas ci&ncias pela superposi<do s pelo en- gisnero diverso dos at& agora em uso; deve-se xerto do novo sobre o velho. A instaura@o deve tamb&m introduzir um m&todo complatamente investir os primeiros fundamentos, se ndo qui- diverso e um procedimento diferente para con- sarmos girar perpetuamente em um circulo com duzir s fazsr avanpr a experiisncia.Como j6 foi progresso escasso e quase insignificante. dito, uma experi&ncia vaga s que segue ape- 14. 0 s autores antigos e todos os outros nas a si mesma & a190 semelhante a um andar conservam sua honra, porque aqui ndo ss insti- as apalpadelas, que confunde os homens em tui um confront0 sntre os engenhos e as capaci- vez de informa-10s.Mas onde a experi&nciapro- dades, mas entre diversos caminhos e mbtodos. cede squndo uma lei certa, regularmentes sem Ndo pretendemos ssr juizes, mas indicadores. interrup~aes, entdo se pode esperar a190 de 15. € precis0 dizer com clareza que sobre melhor das ciisncias. a base das antecipa~aes(isto 6, do mbtodo 2. Depois qua todo o abundante material agora em uso) ndo se pode formular nenhum da historia natural a da experihcia tiver sido reto juizo a respeito de nosso mQtodo ou em aprontado e preparado assim como requer a torno das descobertas a que ele conduz. Ndo obra do intelecto, ou seja, da filosofia, nem por s~ pode, com efeito, pretender que nos sub- isso o intelecto est6 em grau de agir esponta- metamos ao julgamento de quem deve ser ele neaments e confiante na memor~a sobre aqua- proprio chamado em julgamento. le material: seria como s@algu&m esperasse 16. E ndo 6 fdcil sxpor ou explicar aquilo poder tar de memoria e dominar os c6lculos de que aqui se propas, porque coisas novas em si um livro de efem6rides.' At& agora, nos inven- serdo entendidas apenas por analogia corn as @as, preferiu-semeditar a escrever e, portan- antigas. to, ainda ndo existe a experi&ncia Istrada. Ndo 17. Da expedi(do dos franceses na IMlia, pode ser aprovada nenhuma inven~do ndo qua Rorgia disse que eles vieram trazendo no mdo o se sirva do escrito. Quando isso tiver entrado giz para marcar os alojamentos, e ndo as armas no uso e a experiisncia tiver ss tornado letrada, para combater. Do mesmo modo, nosso m&todo poder-ss-donutrir maiores esperanps. deve penetrar em espiritos capazes e adqua- 3. 0 numero dos particulares, que sdo dos a recebis-lo. Ndo podem ser utilizadas as quass um ex6rcito. & grandissimo, e estss par- refuta@es, dado que ndo sstamos de acordo ticulares estdo tBo esparsos e difundidos que sobre principios, nem sobre conceitos, e nsm confundem e desorientam o intelecto. Ndo se sequer sobre a forma das demonstra@es. 18. Resta-nosapenas um cinico e simples mod0 de exposic;do: conduzir os homens para 'Tabuos nurnQr~cas reg~strorn coordenodas dos que as diante de fatos particulares, para suas s&rias e astros.
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    282 Terceira parte - B a c o ~ Descavtes e deve, portanto, esperar algo de bom das es- n6o sejam abstratos, mas sejam verdadeira- caramucas, dos movimentos Ievianose dos sus- mente limitados pelos axiomas mbdios. piros do intelecto, at6 qua todo o material que Ao intelecto dos homens, portanto, ndo se refers ao orgumento que & objeto do pes- devemos acrescentar asas, mas chumbo e pe- quisa ndo tiver sido preparado e coordenado sos a fim de impedi-lode saltar evoar. lsso at& medianta t6buas de pesquisa id8neas, orde- agora ndo foi feito; quando isso for feito se nadamente dispostas e quase vivas, e at& qua poder6o nutrir mais altos esperanps sobre o a mente ndo se aplique a trabalhar sobre os destino das ci&ncias. auxilios devidamente dispostos e preparados 6. Para estabelecer os axiomas, devemos que estas t6buas fornecern. alhm disso excogitar uma forma de indu@o di- 4. Na verdade, depois que tivermos sob ferente da qua at& agora ssta em uso, que ndo os olhos a grande quantidade dos partlculares deve apenas encontrar e provar os assim cha- bem ordenados, ndo 6 preciso colocar-se ime- mados principios; mas tambbm os axiomas me- diatamente a pesquisar e a inventar novos par- nores e mhdios e todos os outros. R inducdo ticulares e novas obras: e, em todo caso, se qua procede por enumera<do simples &, com isso acontecer, ndo ser6 preciso parar nestes. efeito, uma coisa pueril: suas conclusdes sdo De fato, quando todos os experimentos de to- prec6rias; ela & exposta ao perigo de uma ins- das as artes tivessem sido recolhidos e reuni- tdncia contraditoria; julga com base em um nir- dos, e submetidos ao conhecimento e ao jul- mero de fatos inferior ao necess6r10, apenas e gamento de um so homem, este - limitando-se em base aos que tem ao alcance do mdo. A a transferir estes experimentos de uma arte para indu~do que sera 6til para a inven@o e a de- outra e mediante a experi6ncia que chamamos monstrqdo das cihcias e das artes deve QO letrada - estaria em grau de descobrir muitas contrbrio analisar a natureza medlante as devi- coisas novas, irteis b vida e 6 condi@o huma- das elimina$%s e exclusdes; e finalmente, de- na. Ndo negamos isso, mesmo que as maiores pois de um nirmero suf~ciente negativas,de ssperanps n6o devam ser postas no expe- pode concluir em base as afirmativas. lsso at& ri&ncia Ietrada, mas no nova luz dos axiomas, agora jamais foi feito e nem tentado, a n60 ser que sdo extraidos dos particulares segundo talvez por Platdo, que em algum caso faz uso regras certas e que, por sua vez, indicam e de- desta forma de indu<dopara ~sxtrair defini@es signam particulares novos. 0 caminho n percor- e idbias. Todavia, para fazer que esta forma de rer, com efeito, ndo & plano, mas em subida e indugm ou de demonstra@o possa operar de em descida: primeiro se sobe at& os axiomas, modo bom e legitimo, & preciso fazer uso de depois se desce as obras. muitas coisas bs quais, at& agora, nenhum mor- 5. Todavia, n60 devemos permitir qua o tal jamais pensou. Deveremos, portanto, trabo- intelecto sake e voe dos particulares para axio- lhar sobre ela mais do que at& agora ndo se mas mais distantes e gerais (tais sdo os assim trabalhou em torno do silogismo. Com o auxilio chamados principios das artes e das CO~SOS), dessa indu~do dever6 proceder nd0 so para se para depois provar e verificar os axiomas m&- descobrir os axiomas, mas tamb&m para definir dios b luz de sua verdade imovel. Rt& agora se as no<des. Nessa indu~do sem duvida pde-se procedeu assim, em parte porque o intelecto a esperanca maior. seguia este caminho por impulso natural, em 7. Ao constituir os axiomas mediante esta parte porque a isso o tinham habituado as de- indu~do, preciso tambhm consideror e exami- & monstra@es de tipo silogistico. Poderemos es- nar se o axioma que se const~tui adequado e & peror bem das ci&ncias apenas quando, por quase construido sobre medida em rela@o aos meio de uma escala verdadeira, em graus con- particulares dos quais se extrai, ou se ao contr6- tinuos, sem saltos ou interrup~des, podera rio & mais amplo e mais vasto. Se for mais am- se subir dos particulares at& os axiomas menores, plo ou mais vasto, & preciso ver se esta sua destes aos mbdios, depois aos outros superio- amplitude e vastid60 560 justificadas pela de- res e, finalmente, aos axiomas mais gerais. 0 s signa<do de novos particulares, como por uma axiomas mais baixos, com efeito, ndo diferem fidejussoria: a fim de que n60 ocontqa ou de muito da pura experi6ncia. 0 s mais altos ou fixar-seapenas sobre particularesj6 conhecidos, mais gerais (falo daqueles de que dispomos ou entdo de prender, em um abrqo confuso. atualmente) s6o conceituais e abstratos, priva- apenas sombras ou formas abstratos, e ndo coi- dos de qualquer solidez. 0 s axiomas m&dios, sas solidas e determinodas na mathria. Quando ao contr6ri0, sdo verdadeiros, solidos e vivos: tudo isso tiver entrado no uso, entdo veremos a eles estdo confiadas as esperantos e as sor- nascer com raz6o esperanps bem fundadas. tes dos homens. Sobre eles, enf~m, funda- se F. Bacon, mentam os axiomas mais gerais, por&mtais que Novum organum.
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    Capitulo dkcimo q~ i n t o Desca "O fw~dadov filosofia wodevna" da I. vida e as obras Rene Descartes (latinizado Cartesius) nasceu em La Haye em 1596. Enviado ao colegio jesuita de La F&che, em Anjou, teve depois a licenciatura em direito pela Universidade de Poitiers. De I618 a 1620 se arrolou em varios ext5rcitos que participavam da Guerra dos Trinta Anos; em novembro de 1619 teve uma "revela- ~%o intelectual" a respeito dos fundamentos de nova ciCncia: a intuigao foi desenvolvida mais frente sobretudo nas incomple- As ,patas tas Regras para a guia do intelecto (1627-1628). De 1629 a 1649 principais viveu na Holanda, onde publicou suas obras mais importantes: o da vida Discurso sqbre o metodo (1637), as Medita~des metafisicas (jun- 3 § 1 t o com as Respostas A objegdes, 1641), os Principios de filosofia s (1644) e As paixaes da alma (1649). Em I649 aceitou o convite da rainha Cristina da SuCcia e deixou definitivamente a Holanda, mas em fevereiro de 1650 foi aco- metido de uma pneumonia que em uma semana o levou a morte. Seus despojos, transladados para a Franga em 1667, repousam na igreja de Saint-Germain-des- Prl?s, em Paris. b h novo tip0 filosofo, que da a medida exata da personali- dade de Descartes, com toda razso chama- de saber centrado do precisamente de pai da filosofia moder- na. Com efeito, ele assinalou uma reviravolta e sobre a racionalidade radical no campo do pensamento pela criti- ca a que submeteu a heranqa cultural, filo- sofica e cientifica da tradiqiio e pelos novos principios sobre os quais edificou um tip0 Leibniz afirma: "Costumo chamar os de saber, niio mais centrado no ser ou em escritos de Descartes de vestibulo da verda- Deus, mas no homem e na racionalidade hu- deira filosofia, ja que, embora ele niio te- mana. nha a l c a n ~ a d o nucleo intimo, foi quem seu Rent Descartes (Cartesius) nasceu em dele se aproximou mais do que qualquer La Haye, na Touraine, em 31 de marqo de outro antes dele, com a unica exceqiio de 1596, ano da publicaqiio d o Mysterium Galileu, do qua1 oxala tivCssemos todas as cosmographicum de Kepler. De familia no- meditaq6es sobre os diversos temas, que o bre - seu pai Joaquim era conselheiro no destino adverso reduziu a o silcncio. Quem Parlamento da Bretanha -, foi logo envia- ler Galileu e Descartes se encontrara em me- do para o coltgio jesuita de La Flkche, no lhores condiqees de descobrir a verdade do Anjou, uma das mais cClebres escolas da que se houvesse explorado todo o gcnero Cpoca, onde recebeu solida formaqiio filo- dos autores comuns". Um juizo ponderado s6fica e cientifica, segundo a ratio studiovum de um grande filosofo sobre outro grande daquele tempo, ratio que abarcava seis anos
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    284 Terceira parte - Bacon r D e s i n r i r s de estudos humanisticos e tris anos de ma- veria depois no Studium bonae mentis, de tematica e teologia. Inspirado nos principios 1623, e nas Regulae ad directionem ingenii da filosofia Escol6stica, considerada a mais (Regraspara a guia d o intelecto),que escre- valida defesa da religi5o catolica contra os veu entre 1627 e 1628. sempre renascentes germes da heresia, aque- Tendo-se estabelecido na Holanda, ter- le tip0 de ensino, embora sensivel A novi- s ra de tolersncia e liberdade, Descartes, por dades cientificas e aberto para o estudo da sugest5o do padre Marino Mersenne, con- matematica, deixou Descartes insatisfeito e siderado o "secretario da Europa douta", e confuso. Ele logo se deu conta do abismo do cardeal Pierre de Btrulle, comeqou a ela- enorme entre aquela orienta@o cultural e borar um tratado de metafisica, que, portm, os novos fermentos cientificos e filosoficos logo interrompeu para dedicar-se a uma que brotavam por toda parte. Em especial, grande obra fisica, o Traite' de physique (Tra- percebeu logo a austncia de uma &ria meto- tad0 de fisica), dividido em duas partes: a dologia, capaz de instituir, controlar e or- primeira sobre tematica cosmologica, Le denar as idtias existentes e guiar a busca da monde ou traite'de la l u m i k e ( 0mundo ou verdade. tratado da luz), e a segunda de carater an- 0 ensino de filosofia, ministrado se- tropologico, C h o m m e ( 0homem). Em 22 gundo a codificaq50 de Suarez, levava os de julho de 1633, de Deventer, na Holanda, espiritos para o passado, para as intermina- anunciou a Mersenne que o Tratado sobre veis controvCrsias dos tratadistas escolas- o m u n d o e sobre o homem estava quase ticos, reservando pouco espaqo para os pro- pronto ("so me resta corrigi-lo e copia-lo"), blemas do presente. e que esperava envia-lo no fim do ano. En- Embora criticando a filosofia aprendi- tretanto, tomando conhecimento da conde- da naqueles anos, Descartes certamente n50 nag50 de Galileu por causa da tese coperni- esquece o espaqo reservado aos problemas cana, que ele compartilhava e cujas razi5es cientificos e ao estudo da matematica. Mas expusera no Tratado em quest50, Descartes at6 no que se refere a essas disciplinas, ao tCrmino de seus estudos ele sentiu-se pro- damentos de "&a citncia admir6veln. Por Descartes (1 596- 1650) causa dessa "reve1aq90"7 Descartes fez a foi o furrdidor da filusofia m a d e r w , promessa de ir em peregrinaqlo Santa Ca- tgnto no p0ntf) de t ~ s t a tefn&iiYs (ids sa de Loreto- Em um pequenO diario7 em como d o ponto de vista dd eexpos~ tnetodoltigccr. jdo que anotava suss reflex% Descartes fala Reproduzrmos urn + d r ~ ) d s , de h H de urn" inventum mirabile", que desenvol- conservacio ern Pans rm Museu d o 1 ouvre.
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    285 Capitulo de'cimo quinto - D ~ S C Q P ~ ~ S : d a filosofm fundadov "O I Y o ~ ~ P Y ~ " apressou-se a escrever novamente para o E desse period0 o seu amor por Helene mesmo Mersenne: "Estou quase decidido a Jans, da qual teve Francine, a filhinha que queimar todas as minhas apostilas ou, pel0 amou ternamente e que perdeu com apenas menos, n2o mostra-las a ningukm." A lem- cinco anos. A dor pela perda da menina branqa da morte de Giordano Bruno na fo- incidiu profundamente sobre o seu espirito gueira e da prisao de Campanella, que a e talvez, pelo menos em parte, sobre seu condenaqao de Galileu avivava em sua men- pensamento, apesar de seus escritos conti- te, agiram com forqa sobre seu espirito es- nuarem sempre severos e rigorosos. Reto- quivo, inimigo das vicissitudes que prejudi- mou a elaboraqiio do Tratado de metafisica, cam a paz de espirito, t2o necessaria para o mas agora sob a forma de Medita~ijes,es- estudo. critas em latim porque reservadas aos Superada a grave perturbaqao, Descar- doutos, obra na qua1 os acenos "a enfermi- tes sentiu a necessidade urgente de enfren- dade e a fraqueza da natureza humana" tes- tar o problema da objetividade da razao e temunham um espirito cheio de angustia. da autonomia da ciencia em relaq2o ao Deus Enviadas a Mersenne para que as levasse ao onipotente. E motivou-se nesse sentido tam- conhecimento dos doutos e recolhesse as bCm pel0 fato de que Urbano VIII havia con- suas objeqoes - ficaram famosas as obje- denado a tese galileana como contraria a Es- qoes de Hobbes, de Gassendi, de Arnauld e critura. Assim, de 1633 a 1637, fundindo do proprio Mersenne -, as Meditationes os estudos de metafisica que iniciara e de- de prima philosophia ser2o finalmente publi- pois interrompera com suas pesquisas cien- cadas, juntamente com as Respostas de Des- tificas, escreveu o famoso Discurso sobre o cartes em 1641, sob o titulo Meditationes me'todo, que introduzia trcs ensaios cienti- de prima philosophia in qua Dei existentia ficos nos quais compendiava os resultados et animae immortalitas demonstrantur (Me- alcanqados: a Dioptrique, o Me'te'ores e a dita~6es metafisicas onde se demonstra a Ge'ome'trie. Diferentemente de Galileu, que existBncia de Deus e a imortalidade da al- nao havia elaborado nenhum tratado expli- ma). Atacado pel0 teologo protestante Gis- cit~ sobre o mCtodo, Descartes considerou bert Voet, replicou com a Epistola Renati importante demonstrar o carater objetivo da Des Cartes ad celeberrimum uirum Gisber- raz2o e indicar as regras em que devemos t u m Voetium, na qual procurou demonstrar nos inspirar para alcanqar tal objetividade. a pobreza e a inconsistihcia das concepqoes Nascido em context0 polCmico e em defesa filosoficas e teologicas do adversario. da nova cicncia, o Discurso sobre o me'todo Apesar das muitas pokmicas que seus tornou-se a "magna carta" da nova filosofia. escritos de metafisica e ciencia suscitavam,
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    286 Terceira parte - B a c o ~ Descartes e Descartes dedicou-se com empenho a ela- obscuros de sua doutrina, particularmente boragiio dos Principia philosophiae (Prin- das relag6es entre alma e corpo, do proble- cipios de filosofia), obra em quatro livros ma moral e do livre-arbitrio. compostos de artigos breves, conforme o Na corte sueca, para festejar o fim da modelo dos manuais escolasticos da tpo- Guerra dos Trinta Anos e a paz de Vestfa- ca. Trata-se de uma exposig5o compilada lia, Descartes escreveu La naissance de la e sistematica de sua filosofia e de sua fisi- paix ( 0 nascimento da paz). Mas foi bem ca, com particular destaque para os vin- curto o tempo transcorrido na corte sueca, culos entre filosofia e cihcia. A obra foi pu- porque a rainha Cristina, devido ao habit0 blicada em Amsterdam, sendo dedicada a de ter suas conversa@es as cinco horas da princesa Isabel, filha de Frederico V do Pa- manhii, obrigava Descartes a levantar-se latinato. muito cedo, apesar do clima rigoroso e da Amargurado com as polEmicas com os n5o muito robusta constituigiio fisica do fi- professores da Universidade de Leida, que 16sofo. Assim, ao deixar a corte, em 2 de chegaram a proibir o estudo de suas obras, fevereiro de 1650, o fil6sofo pegou uma pneu- mas sem qualquer desejo de voltar para a monia que, depois de uma semana de sofri- F r a n ~ a em virtude da situag5o caotica em , mentos, o levou a morte. Transportados que havia caido seu pais, em 1649 Descar- para a Franga em 1667, seus despojos re- tes aceitou o convite da rainha Cristina da pousam na Igreja de Saint-Germain des PrCs, SuCcia e, depois de entregar para impress50 em Paris. os manuscritos de seu ultimo trabalho, Les Postumamente, foram publicados os passions de l'rime (As paix8es da alma), dei- seguintes escritos de Descartes: o Compen- xou definitivamente a Holanda, niio mais dium musicae (1650), o Trait&de l'hom- hospitaleira e agora cheia de contrastes. Ape- me (1664), Le Monde ou Traite de la sar de suas graves preocupag?ies, Descartes lumiere (1664),as Lettres (1657-1667),as continuou mantendo relagiio epistolar com Regulae a d directionem ingenii (1701) e a a princesa Isabel, de grande import2ncia Inquisitio veritatis per lumen naturale para o esclarecimento de muitos pontos (1701). 11. A e ~ p e r i Z o c i a derrocada da da cuItura da kpoca Necessidade Em um tempo em que haviam s afirmado e se desenvolvi- e denovomCtodo am com vigor novas perspectivas cientificas e se abriam novos como inicio horizontes filosoficos, Descartes percebe a falta de um metodo de nova saber ordenador e seja tambhm instrumento fundacional verdadeira- -+ 3 1-3 mente eficaz. 0 novo mtitodo deve se apresentar como o inicio de novo saber, e do fundamento deste saber depende a amplitu- de e a solidez do edificio que 6 precis0 construir em contraposi~rfo edificio ao aristot6lic0, sobre o qua1 toda a tradi~rfo apdia. se Criticas A filosofia tes acena para o estado de profunda incer- teza em que se encontrou ao tCrmino de seus e A I6c~icatradicionais estudos: "Encontrei-me tiio perdido entre tantas duvidas e erros que me parecia que, Em um trecho autobiogr6fic0, depois ao procurar me instruir, niio alcangara ou- de reconhecer ter sido "aluno de uma das tro proveito que o de ter descoberto cada vez mais cClebres escolas da Europa", Descar- mais a minha ignoriincia."
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    287 Capitulo de'cimo quinto - Descavtes: "o f~zndadord a filosofia moderna , , Vejamos, em pormenor, algumas ra- mos com novos problemas, a raziio disso z6es da sua insatisfaqio e perplexidade. No deriva da falta de um guia capaz de nos que se refere a filosofia, repetindo urna frase acompanhar na soluqfo dos novos proble- de Cicero, escreve ele: "Seria dificil imagi- mas. Com efeito, falando da geometria e da nar algo t5o estranho e incrivel que n i o algebra, ele recorda que estas "se referem a tenha sido dito por algum filosofo". E em- matirias muito abstratas e aparentemente bora a filosofia "tenha sido cultivada pe- de nenhuma utilidade": a primeira, a geo- 10s espiritos mais excelentes que ja viveram", metria, "porque ligada a consideraqio das continua Descartes no Discurso sobre o figuras"; a segunda, a aritmttica, porque me'todo, n50 conta ainda "com coisa algu- "confusa e obscura" a ponto de "embara- ma da qual niio se discuta e que niio seja gar o espirito". duvidosa". No que se refere a logics, que Dai seu proposito de dar vida a urna ele reduz i silogistica tradicional, pel0 espicie de matematica universal, isto 6, li- menos mostra-se disposto a conceder-lhe vre dos numeros ou das figuras, para poder valor didatico-pedagogic0 mas i logica servir de modelo para todo saber. dos dialkticos, para a qual era conduzida Descartes niio ode adotar a matema- a silogistica, nega qualquer forga de fun- damentagiio e qualquer capacidade heu- tica tradicional como modelo do saber. Dor- , que ela niio possui mitodo unitirio. Para . ristica. teorizar esse modelo, ele cr@ necessario de- Portanto, at6 no melhor do seu desem- monstrar que as diferenqas entre aritmitica penho, a 16gica tradicional nada mais faz e geometria n i o s i o relevantes, porque do que ajudar a expor a verdade, mas ado a ambas se inspiram, ainda que implicitamen- conquista-la. te. no mesmo rne'todo. Assim, se i severo o seu juizo sobre a E, com tal objetivo, traduz os pro- filosofia tradicional, ainda mais drastic0 i blemas geomCtricos em problemas algibri- o juizo sobre a 16gica. E C por causa dessas cos, mostrando sua substancial homoge- profundas insatisfaq6es e de tais pontos de neidade. vista que a filosofia aprendida no colCgio Como i que isso lhe foi possivel? Atra- de La F k h e parece-lhe extremamente cheia vCs daquilo que se chama geometria ana- de lacunas. Em urna Cpoca em que se ha- litica. e com a aual Descartes tornou a viam afirmado e se desenvolviam com vigor matematica mais limpida em seus princi- novas perspectivas cientificas e se abriam pios e em seus procedimentos, aplicando novos horizontes filosoficos, Descartes per- a ilgebra geometria, isto 6, estudando cebia a falta de urn rne'todo que ordenasse o determinadas figuras com determinadas pensamento e, ao mesmo tempo, fosse ins- equag6es. trumento heuristic0 e de fundamentagio ver- E este, no fundo, era o objetivo que dadeiramente eficaz. ele se propunha, e C nesse contexto de cri- tics e de recuperag50 das ci&nciasmatema- ticas que devemos ler o trecho no qual Des- cartes, ainda no Discurso sobre o me'todo, Criticas afirma querer inspirar o mitodo do novo a o saber mafem6tico saber na clareza e no rigor tipicos dos pro- cedimentos geomitricos: "Aquela longa cadeia de raciocinios, todos simples e fa- Alim disso, mesmo admirando o rigor ceis, de que os gebmetras t i m o habit0 de do saber matemitico, ele critica tanto a arit- se servir para chegar as suas dificeis de- mCtica como a geometria tradicionais, por- monstraq6es, me havia possibilitado ima- que elaboradas com procedimentos que, ginar que todas as coisas de que o homem embora lineares, niio se sustentavam em urna pode ter conhecimento derivam do mesmo clara orientagio metodologica. 0 fato de mod0 e que, desde que se abstenha de acei- suas passagens serem rigorosas e coerentes tar como verdadeira urna coisa aue n i o o i n5o significa que a aritmitica e a geometria e respeite sempre a ordem necessaria para foram elaboradas no contexto de um bom deduzir urna coisa da outra, ndo havera mitodo, nunca teorizado. Se permanecemos nada de tdo distante que niio se possa al- quase como que desarmados e induzidos a caqar, nem de tdo oculto que se ndo possa recomegar do inicio quando nos defronta- descobrir. "
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    288 Terceira parte - Bacon e Descartes 0problems g e ~ a l busca da verdade, e urn mCtodo universal e fecundo. do fMndamento do saber Niio se trata, portanto, de lanqar idis- cuss50 este ou aquele ram0 do saber, e sim o fundamento do proprio saber. Por isso, Se toda a casa est6 desmoronando, isto mesmo admirando Galileu, Descartes o cri- C, se caem por terra a velha metafisica e a tics, precisamente por n5o ter apresentado velha cihcia, entiio o nouo me'todo deve se um mCtodo em condiq9es de ir as raizes da apresentar como o inicio de novo saber, em filosofia e da cihcia. (E de 1619 sua desco- condiq6es de impedir que nos dispersernos berta da formula que hoje leva o nome de em urna sCrie desarticulada de observaqijes Euler, u + f = s + 2, onde u f , s estiio, respec- , ou caiamos em forrnas novas e mais refina- tivamente, para o numero dos vertices, das das de ceticismo. faces e dos ringulos de um poliedro con- Esses, com efeito, siio dois resultados vex~.) conseqiientes ao ruir de antigas concepqijes E para o fundamento que Descartes sob a pressiio de novas aquisiq6es cientifi- chama a atenqiio, ji que C do alicerce que cas e de novas insthcias filos6ficas. Se es- dependem a amplitude e a solidez do edifi- tava difundida a confianqa no homem e no cio que C preciso construir para se contra- seu poder racional, tambim estava bastan- por ao edificio aristotilico, no qua1 se ap6ia te difundida a incerteza sobre o caminho a toda a tradiqiio. Descartes niio separa a filo- tomar para garantir urna coisa e superar a sofia da cicncia. outra. Niio podia mais se sustentar a filoso- 0 que urge evidenciar C o fundamen- fia tradicional, muito estranha aquele con- to que permita um nouo tip0 de conheci- junto de novas teorizaq6es e descobertas, mento da totalidade do real, pelo menos tornadas possiveis tambCm por instrumen- em suas linhas essenciais. Necessita-se de tos tkcnicos que, potencializando ou corri- novos principios, niio importando que eles gindo nossos sentidos, nos introduziam em sejam depois explorados mais em urna do reinos at6 entiio inexplorados. Era urgente que em outra direqiio. Principios que, des- urna filosofia que justificasse a confianqa locando os principios aristotClicos, aos comum na raz5o. S6 era possivel opor ao quais a cultura academics ainda C ciumen- ceticismo desagregador urna raziio metafisi- tamente fiel, contribuam para a edificaqiio camente fundada, capaz de se sustentar na da nova casa. * Descartes quer primeiramente oferecer regras certas e faceis que, corretq- rnente obsewadas, levarilo ao conhecimento verdadeiro de tudo aquilo que se pode conhecer. No Discurso sobre o metodo, estas regras sZio quatro: 1) a evidE3ncia racional, que se alcansa mediante um ato in- t u i t / que se autofundamenta; ~~ AS quatro 2) a andlise, uma vez que para a intui@o b necessdria a sim- normas plicidade, que se alcanqa mediante a decomposic;ilodo complexo que c0n5tituem em partes elementares; o metodo 3) a sintese, que deve partir de elementos absolutos ou n l o cartesiano 3 1-6 dependentes de outros, e proceder em dire~ilo elementos aos relativos ou dependentes, dando lugar a urna cadeia de nexos coerentes; 4) o controle, efetuado mediante a enurnerasilo completa dos elementos analisados e a redsilo das operas6es sintbticas. Em suma, para proceder com reti- em d%o quaique~ pesquisa, 4 preciso r'epetir o movimento de simplificac;Zio e rigo- rosa concatena@o, tipico do procedimento geometrico.
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    Capitulo de'cimo quznto- D e s c a r t r s : "o fundador d a f i l o ~ o f m moderna , , 289 & , Conceitos e 4 m e r o das vegvas do mktodo EvidGncia. o principio metodico fundamental, a primeira regra do Como escreve nas Regulae ad directio- mt5todo cartesiano. nem ingenii, Descartes queria apresentar A evidsncia consiste na clareza e na "regras certas e ficeis que, sendo observa- distingdo, as quais sao os sinais da das exatamente por quem quer que seja, tor- verdade das coisas, e deriva do nem impossivel tomar o falso por verdadei- lumen naturale que existe em todo ro e, sem qualquer esforqo mental inutil, mas homem; mais precisamente, a evi- detncia ti alcan~adamediante um aumentando sempre gradualmente a ciin- ato intuitivo, que t5 "urn conceito cia, levem ao conhecimento verdadeiro de nZio ddbio da mente pura e atenta tudo o que se i capaz de conhecer". que narce apenas da luz da raz%o Entretanto, se, na obra citada, ele ha- e 6 mais certo que a propria de- via chegado a enumerar vinte e uma regras du@o". e interrompera a elaboragiio da obra para Em tal sentido, a evidetncia se evitar sua prolixidade, ja no Discurso sobre autofundamenta e se autojustifica, o me'todo reduz essas regras a quatro. porque sua garantia deposita-se nZio em uma base argumentativa qual- A raziio dessa simplificagiio i dada pel0 quer, e sim unicamente na mutua proprio Descartes: "Como grande numero transparCnria entre razao e conteu- de leis amiude so serve para fornecer pre- do do ato intuitivo. texto i ignorsncia e ao vicio, raziio pela qual uma naqiio regula-se tanto melhor quanto menos leis tem, desde que as observe de mod0 rigoroso, entiio eu pensei que, ao in- vSs da multidgo de leis da logica, me basta- riam as quatro seguintes, corn a condiqiio captagiio de "um conceito nHo dubio da men- de que se decidisse firme e constantemente te pura e atenta que nasce apenas da luz da observi-las, sem qualquer exceqiio. " razHo e i mais certo que a propria deduqHo". Trata-se, portanto, de ato que se auto- fundamenta e se autojustifica, porque sua garantia nHo repousa sobre uma base qual- 2.. f pvimeira v e g r a do mktodo ".t, quer de argumentagiio, mas somente sobre a transparincia mutua entre raziio e con- teudo do ato intuitivo. Trata-se daquela idCia clara e distinta que reflete "unicamente a A primeira regra, mas que tambim 6 a luz da raziio", niio ainda conjugada com ultima, enquanto i o ponto de chegada, alim outras idiias, mas considerada em si mes- de ser o ponto de partida, i a regra da evi- ma, intuida e niio argumentada. Trata-se da dincia, que ele assim enuncia: "NHo se deve idiia presente na mente e da mente aberta acatar nunca como verdadeiro aquilo que para a idtia sem qualquer mediaqiio. niio se reconhece ser tal pela evidincia, ou 0 objetivo das outras tris regras i che- seja, evitar acuradamente a precipitaqiio e a gar a essa transparincia mutua. prevenqiio, assim como nunca se deve abran- ger entre nossos juizos aquilo que niio se apresente tao clara e distintamente i nossa inteligincia a ponto de excluir qualquer pos- f segMnda vegra do mktodo sibilidade de duvida." Mais que uma regra, trata-se de um principio normativo fundamental, exata- A segunda regra 6 a de "dividir cada mente porque tudo deve convergir para a problema que se estuda em tantas partes me- clareza e a distin~zo, quais, precisamen- nas nores, quantas for possivel e necessirio para te, se da a evidincia. Falar de idiias claras e melhor resolvBlo". distintas e falar de idiias evidentes 6 a mes- E a defesa do me'todo analitico, unico ma coisa. que ode levar a evidhcia, porque, desarti- Mas qual e o ato int~lectual com o qual culando o complexo no simples, permite i se alcanqa a evidcncia? E o ato intuitivo ou luz do intelecto dissipar as ambigiiidades.
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    290 Terceira parre - Bacon e Descartes Este C um momento preparatorio es- sencial, ja que, se a evidtncia C necessaria ,A. A q ~ a r t a e g r a d o m & t o d o I lJ r para a certeza e a intuiqio C necessaria para a evidtncia, ja para a intuiqiio C necessaria a simplicidade, que se alcanqa atravCs da de- Por fim, para impedir qualquer pre- composiqio do conjunto "em partes elemen- cipitaqio, que C a m i e de todos os er- tares at6 o limite do possivel". ros, C preciso verificar cada urna das pas- Chega-se as grandes conquistas etapa sagens. ap6s etapa, parte apos parte. Esse C o cami- Por isso, Descartes conclui dizendo: "A nho que permite escapar i s presunqosas ge- ultima regra C a de fazer sempre enumera- neralizaqdes. E como toda dificuldade o C qdes t i o completas e revisdes t i o gerais a porque o verdadeiro esta misturado com o ponto de se ficar seguro de n i o ter omitido falso, o procedimento analitico deveria per- nada." mitir libertar o primeiro das escorias do se- Portanto, enumeraqiio e revisio: a pri- gundo. meira verifica se a analise i completa; a se- gunda verifica se a sintese 6 correta. I: A terceira regra do m&todo As q~catro egras r t o m o modelo d o saber A decomposiqiio do conjunto em seus elementos simples n i o basta, porque apre- senta um conjunto desarticulado de ele- S i o regras simples, que destacam a ne- mentos, mas n i o o nexo de coesio que de- cessidade de se ter ~ l e n a consci@nciados les faz um todo complexo e real. Por isso, momentos em que se articula qualquer pes- i analise deve-se seguir a sintese, o objeti- quisa rigorosa. Elas constituem o modelo vo da terceira regra, que Descartes, ainda do saber, precisamente porque a clareza e no Discurso sobre o me'todo, enuncia com a distin~iio garantem contra possiveis equi- as seguintes palavras: "A terceira regra C a vocos ou generalizaqdes apressadas. Com de conduzir com ordem meus pensamen- tal objetivo, diante de problemas comple- tos, comeqando pelos objetos mais simples xos como de fenemenos confusos. e ~ r e c i - r L e mais faceis de conhecer, para elevar-se, so chegar aos elementos simples, que n i o pouco a pouco, como por degraus, at6 o sejam mais decomponiveis, para que pos- conhecimento dos mais complexos, supon- sam ser totalmente invadidos pela luz da do urna ordem tambim entre aqueles nos raziio. quais uns n i o precedem naturalmente aos Em suma, para proceder com correqio outros." C preciso repetir, a proposito de qualquer Assim, C necessario recompor os ele- pesquisa, aquele movimento de simplifica- mentos em que foi decomposta urna rea- $20 e rigorosa concatenaqio constituido lidade complexa. Trata-se de urna sintese que pelas operaqdes tipicas do procedimento deve partir de elementos absolutos (ab-so- geomCtrico. lutus) ou n i o dependentes de outros, e di- Entretanto, o que comporta a adoqiio recionar-se para os elementos relativos ou de tal modelo? dependentes, dando lugar assim a um enca- Pois bem, antes de mais nada e de deamento que ilumina os nexos do conjunto. forma geral, comporta a rejeiqiio de todas Trata-se de recompor a ordem ou criar aquelas noqdes aproximativas, imper- urna cadeia de raciocinios que se desenvol- feitas, fantasticas ou apenas verossimeis, vam do simples a o composto, o que n i o que escapam a operaqio simplificadora pode deixar de ter urna correspondhcia na considerada indispensavel. 0 "simples" realidade. Quando essa ordem n i o existe, i de Descartes niio C o universal da filoso- preciso sup6-la como a hip6tese mais con- fia tradicional, assim como a "intuic;iio" veniente para interpretar e expressar a rea- n i o C a abstraciio. 0 universal e a a b s - lidade efetiva. Se a evidincia 6 necessiria tracBo. dois momentos fundamentais da 3 2 para se ter a intuiqio, o process0 do simples filosofia aristotClico-escolastica, s i o su- ao complexo C necessario para o ato dedu- plantados pelas naturezas simples e pela tivo. intuiqio. " ", a
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    29 1 Capitulo de'cimo quinto - Descartes: "o fundador d a filosofia modernaN IV. A dhvida vnetbdica e a certeza fundamental: // cogito, ergo sum'' r Estabelecidas as regras metodicas, Descartes passa a aplica-las aos principios sobre os quais o saber tradicional se fundamentou, e como condit$o da aplicaqZio exige nao aceitar como verdadeira nenhuma assergao que esteja poluida pela dcivida. Ora, neste sentido nZio h6 setor do saber que se sustente, porque nada resiste B forqa corrosiva da dOvida, exceto a proposl~80 "penso, log0 existo", que C uma verdade imediata, intui$%o pura, graqas A dcjvida deve B qua1 percebo minha existbncia como ser pensante, e esta exis- levar a certeza tbncia C uma res cogitans, uma substdncia pensante. que e dada A aplicaqZio das regras do mktodo leva assim B descoberta pels verdade de uma verdade que, retroagindo, confirma a validez das mes- mas regrar para qualquer saber. 0 banco de prova do novo sa- ~ ~ f - ~ m ' ' ber, filoslfrfico e cientffico 4, portanto, o sujeito humano, a cons- ciencia racional, e em todos os ramos do conhecimento o homem deve proceder na cadeia das dedusbes a partir de verdades claras e distintas ou de principios auto-evidentes. A filosofia nao C mais, portanto, a cibncia do ser, e sim a doutrina d o conhecimento, gnosiologia. Esta e a reviravolta que Descartes im- prime na filosofia. I ,dLvida : nenhuma certeza e a nenhuma verdade que tenham as caracteristicas da clareza e da dis- C O ~ O passagem obri9at6ria, tingio, entio sera preciso rejeitar semelhante mas provis6ria, saber e admitir a sua esterilidade. Se, ao p a r a chegar h verdade contrario, a aplicagio de tal regra nos leva a uma verdade indubitdvel, entio deve-se assumi-la como o inicio da longa cadeia de Estabelecidas as regras do mitodo, C raciocinios ou como fundamento do saber. preciso justifica-las, ou melhor, explicar sua A condiqio que se precisa respeitar universalidade e fecundidade. nessa operagio C que n i o C licito aceitar E verdade que a matematica sempre se como verdadeira a afirmagio que esteja ateve a essas regras. Mas quem nos autoriza maculada pela duvida ou por qualquer pos- a estendt-las para fora desse iimbito, delas sivel perplexidade. E, para chegar a isso, fazendo um modelo de saber universal? Qua1 basta examinar os principios sobre os quais C seu fundamento? Existe uma verdade n i o se fundamentou o saber tradicional. Cain- matematica que reflita em si as caracte- do os principios, as conseqii&nciasn5o po- risticas da evidtncia e da distingiio e que, derio mais se manter. n i o sujeita duvida de mod0 algum, possa a ) Em primeiro lugar, observamos que justificar tais regras e ser adotada como fon- boa parte do saber tradicional pretende ter te de todas as outras possiveis verdades? base na experi&cia sensivel. Entretanto, Para responder a essa sCrie de pergun- como i possivel considerar certo e indubi- tas, Descartes aplica as suas regras a o saber tavel um saber que tem sua origem nos sen- tradicional, para ver se ele contCm alguma tidos, se C verdade que estes por vezes se verdade de tal forma clara e distinta que se revelam enganadores? subtraia a qualquer razio de duvida. Se o b ) Ademais, se boa parte do saber tra- resultado for negativo, no sentido de que, dicional se baseia nos sentidos, parte n i o com essas regras, n i o C possivel chegar a irrelevante do saber se funda sobre a raziio
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    292 Terceira parte - B a c o n e Descartes e sobre seu poder discursivo. Ora, tambim em duvida sem nada oferecer em troca. E, em esse principio niio parece imune a obscuri- Descartes, i evidente o anseio pela verdade. dade e incerteza. A negaqiio aqui remete a afirmaqiio, a c) Por fim, ha o saber matematico, que duvida leva icerteza. parece indubitavel, porque valido em todas as circunst8ncias. 0 fato de 2 + 2 = 4 i ver- dadeiro em qualquer circunst8ncia e em A b s o l u t e z veritativa qualquer condiqiio. E, no entanto, quem me impede de pensar que exista "um gtnio da proposi~6o maligno, astuto e enganador", que, brincan- do comigo, me faz considerar evidentes coi- sas que n i o o siio? E aqui a duvida torna-se hiperbdica, no sentido de que se estende at6 Como relata Descartes no Discurso so- a setores que se presumiam fora de qual- bre o me'todo, depois de ter posto tudo em quer suspeita. 0 saber matematico niio po- duvida, "somente depois tive de constatar deria ser uma construqiio grandiosa, baseada que, embora eu quisesse pensar que tudo era em equivoco ou em colossal mistificaqiio? falso, era preciso necessariamente que eu, Portanto, niio ha setor do saber que se que assim pensava, fosse alguma coisa. E mantenha. A casa desmorona porque seus observando que essa verdade - "penso, alicerces estiio minados. Nada resiste a for- logo sou" - era t i o firme e s6lida que ne- qa corrosiva da duvida. nhuma das mais extravagantes hipoteses dos E evidente que n i o nos encontramos ckticos seria capaz de abala-la, julguei que aqui diante da duvida dos cCticos. Neste podia aceita-la sem reservas como o princi- caso, a duvida quer levar a verdade. Por isso pio primeiro da filosofia que procurava". C chamada duvida metodica, enquanto C Esta certeza n i o pode ser minada de passagem obrigatdria, ainda que provisoria, nenhum mod0 pel0 gtnio maligno, porque, para chegar verdade. ainda que exista um gtnio maligno que me Descartes quer p6r em crise o dog- engana, eu, em todo caso, devo existir para m a t i s m ~ filosofos tradicionais, ao mes- dos ser enganado. mo tempo que tambim quer combater a ati- Portanto, a proposiqio "eu penso, logo tude cktica, que se comprazia em p8r tudo existo" C absolutamente verdadeira, porque a t i a duvida, mesmo a mais extremada e radicalizada, a confirma. Mas o que entende Descartes por "pen- samento"? Afirma ele nas Respostas: "Com "Cogito, ergo sum". 6 o princi- o termo 'pensamento' eu abranjo tudo aqui- pio teorico primeiro da filosofia car- lo que existe em nos de t50 factual que so- tesiana, originado da duvida radical: mos imediatamente conscientes dele, como, "Do proprio fato de duvidar das ou- por exemplo, todas as operaq6es da vonta- tras coisas", diz Descartes, "segue-se de, do intelecto, da imaginaqio e dos senti- do mod0 mais evidente e certo que dos siio 'pensamentos'. E acrescentei 'imedi- eu existo", porque "se v@ claramente atamente' para excluir tudo aquilo que delas que para pensar e preciso existir". deriva; assim, por exemplo, um movimento A proposiqao "Eu sou, eu existo" e uma verdade sem nenhuma media- voluntario tem como seu ponto inicial o pen- @o; embora seja formulada como samento, mas ele proprio niio t pensamento." um silogismo qualquer, a proposi- @o "penso, logo existo" nao e um raciocinio, mas intuiqao pura, ato intuitivo graqas ao qua1 percebo mi- , A proposi~60 "eu penso, nha existencia como ser pensante. logo existo" Esta existencia e uma res cogitans, sem nenhuma ruptura entre pensa- n60 & um raciocinio dedutivo, mento e ser: a substincia pensante mas uma intuiq6o e o pensamento em ato, e o pensa- mento em ato e uma realidade pen- sante. Estamos, portanto, diante de uma ver- dade sem qualquer mediaqiio. A transparh- cia do eu a si mesmo e, portanto, o pensa-
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    Capitulo dicimo quinto- Descartes: "0 fundador d n filosofin moclerna" mento em ato, escapa a qualquer duvida, indicando por que a clareza C a regra fun- damental do conhecimento e por que a in- "Res cogitans" e "res extensa". tuiqio i seu ato fundamental. Com efeito, Para Descartes existem apenas dois nesse caso a existencia ou o meu ser s6 i tipos de substhncias, claramente dis- admitido enquanto se torna presente ao meu tintas e irredutiveis urna a outra: a substdncia pensante (res cogitans) e eu, sem qualquer passagem argumentativa. a substsncia extensa (res extensa). Efetivamente, apesar de ser formulada A res cogitans e a existBncia espiritual como qualquer silogismo, "penso, logo exis- d o homem sem nenhuma ruptura to", tal proposiqio n2o 6 um raciocinio, mas entre pensar e ser, e a alma humana uma intui@o pura. como realidade pensante que e pen- N5o se trata da abreviaqzo de urna ar- samento em ato, e como pensamen- gumentag20 como a seguinte: "Tudo aquilo t o em ato que e realidade pensante. A res extensa e o mundo material que pensa existe; eu penso, logo, existo." (compreendendo obviamente o cor- Trata-se simplesmente de um ato intuitivo po humano), do qual, justamente, se graqas a o qual percebo minha existencia pode predicar como essential apenas enquanto 6 pensante. a propriedade da extendo. Com efeito, procurando definir a na- tureza de sua propria existincia, Descartes afirma que ela C urna res cogitans, urna rea- lidade pensante, sem qualquer corte entre pensamento e ser. A substiincia pensante 6 o pensamento em ato, e o pensamento em ato dade, como no caso da filosofia tradicio- i urna realidade pensante. nal? N5o. Tais regras se fundamentam na Assim, Descartes chegou a um ponto certeza adquirida de que o nosso "eu" ou a firme, que nada pode p6r em discussio. Ele consciencia de si mesmo como realidade sabe que o homem i urna realidade pensante pensante se apresenta com as caracteristi- e est4 bem consciente do fato fundamental cas da clareza e da distinpio. representado pela logica da clareza e da dis- A partir dai, a atividade cognoscitiva, tinqio. Desse modo, ele conquistou urna mais do que se preocupar em fundamentar certeza inabalavel, primeira e irrenunciivel, suas conquistas em sentido metafisico, deve porque relativa A propria existencia, que, procurar a clareza e a distinqio, que s i o os enquanto pensante, revela-se clara e distin- traqos tipicos da primeira verdade que se ta. Assim, a aplicaqio das regras do mCtodo imp6s nossa raz5o e que devem ser a mar- levou a descoberta de urna verdade que, ca de qualquer outra verdade. Como a nos- retroagindo, confirma a validade daquelas sa existencia enquanto res cogitans foi acei- regras que se encontram fundamentadas e, ta como indubitavel com base na clareza e portanto, assumidas como norma de qual- na distinqiio e niio com base em outros fun- quer saber. damentos, entio toda outra verdade so po- derii ser acatada se exibir os traqos da :la- reza e da distinqio. E, para alcanqa-los, C preciso seguir o itinerario da anilise, da sin- 0eixo d a filosofia tese e da verificaqio, sabendo-se que uma & ,,, & MaiS a ,-i&,-ia do ser; afirmaqio com tais caracteristicas n i o esta- r5 mais sujeita i duvida. i mas a do~trina Desse modo, a filosofia n i o C mais a do conlecimento cicncia do ser, mas sim a doutrina do co- nhecimento. Assim, antes de mais nada, a filosofia se torna gnosiologia. Aquilo que deve ser destacado 6 que, E essa a reviravolta que Descartes im- como regras do mitodo de pesquisa, a clareza prime a filosofia, que passa a se orientar no e a distin@o jh estio bem fundamentadas. sentido de encontrar ou fazer emergir, a pro- Mas fundamentadas em quE? posito de qualquer proposiqio, os dados da Talvez no ser, finito ou infinito? Ou nos clareza e da distinq20, que, alcanqados, tor- principios logicos gerais, que S ~ tambCm O nam desnecessarios outros suportes ou ou- principios ontologicos, como o principio de tras garantias. Assim como a certeza de mi- nio-contradiq20 ou o principio de identi- nha existhcia enquanto res cogitans s6
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    294 Terieira parte - Bacon e Descartes necessita da clareza e da distingio, da mes- ma forma qualquer outra verdade n i o tera necessidade de outras garantias fora da cla- reza e da distingio, imediata (intuiqio) ou derivada (deduqio). 0centro do novo s a b e r k o s~jeito M M ? C I ~ O ~ 0 banco de provas do novo saber, filo- s6fico e cientifico, portanto, C o sujeito hu- mano, a consciencia racional. Qualquer tip0 de pesquisa devera se preocupar somente em perseguir o grau maximo de clareza e distin~iio, i o se preo- n cupando com outras justificaqoes quando alcanqii-lo. 0 homem C feito assim, so de- vendo admitir verdades que reflitam tais exiaikcias. L, Estamos diante da humaniza~iio radi- cal do conhecimento, reconduzido a sua fon- te primiggnia. Em todos os ramos do conhe- cimento, na cadeia das deduqoes, o homem deve proceder de verdades claras e distintas ou de principios auto-evidentes. Quando esses principios n i o siio facil- mente identificiveis, C precis0 hipotetiza-los, seja para ordenar a mente humana, seja para apresentam somente um setor do saber, que fazer emergir a ordem da realidade - con- sempre se inspirou em um me'todo que, ao fianqa na racionalidade do real -, i s vezes contrario, tem dimensiio universal. De agora coberta por elementos secundirios ou pela em diante, qualquer saber devera se inspirar sobreposiqio de elementos subjetivos, acri- nesse mitodo, porque nio se trata de mCtodo ticamente projetados fora de nos. fundado pela matematica, mas que funda a matemiitica, como toda outra ciincia. Aquilo a que esse metodo conduz e no qua1 se fundamenta C a "raziio humana" ou aquela reta raziio (bona mens) que pertence a todos os homens e que, como diz Descar- tes no Discurso sobre o me'todo, "C a coisa Descartes, portanto, aplicando as re- mais bem distribuida no mundo". gras do mCtodo, defronta-se com a primei- 0 que C tal reta razio? "A faculdade de ra certeza fundamental, a do cogito. Esta, julgar bem e distinguir o verdadeiro do fal- porCm, n i o 6 apenas uma das muitas verda- so C propriamente aquilo que se chama bom des que se alcanqa atravCs daquelas regras, senso ou razio, [e que] C naturalmente igual mas sim a verdade que, uma vez alcanqada, em todos os homens." fundamenta tais regras, porque revela a na- E a unidade dos homens 6 representa- tureza da conscihcia humana que, como res da pela raziio bem guiada e desenvolvida. cogitans, C transparhcia de si para si mes- Descartes ja explicita isso no ensaio ju- ma. Qualquer outra verdade so sera acolhi- venil Regulae ad directionem ingenii, onde da h medida que se adequar ou aproximar escreve: "Todas as diversas cihcias nada mais de tal evidhcia. s i o do que a sabedoria humana, que per- Tendo-se ins~irado inicialmente na cla- manece sempre una e idhtica, por mais que reza e na evidincia da matematica, agora Des- se aplique a diferentes objetos, n i o receben- cartes destaca que as citncias matemiiticas do destes maior distingio do que possa re-
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    Capitulo de'cirno quinto- Descartes: "o fundador , , d a filosofia moderns 295 ceber a luz do sol da diversidade das coisas Se a raz5o C uma res cogitans, que que ilumina." Mais do que sobre as coisas emerge atravis da duvida universal, a pon- iluminadas - cada uma das ciincias - t to de nenhum ginio malign0 poder sitii- precis0 p6r o acento sobre o sol, a raz50, que la e nenhum engano dos sentidos obscu- deve emergir e impor sua logica e fazer res- reci-la, entfo o saber deve basear-se nela e peitar suas exigtncias. A unidade das ci&n- repetir sua clareza e distingao, que sfo os cias remete a unidade da raz5o. E a unidade unicos postulados irrenuncihveis do novo da razfo remete unidade do mttodo. saber. 0 Eu, como ser pensante, revela-se o lugar de uma multiplicidade de ideias (atos mentais dos quais se tem percepc;Sioimediata), que a filosofia deve rigorosa- mente examinar. Para Descartes ha particularmente trQ classes de ideias: 1) as ideias inatas, que encontro em mim, nascidas junto com A existencia minha consciCncia; de tres classes 2) as ideias adventicias, que prov@m mim de fora e me re- a de ideias metem a coisas totalmente diferentes de mim; e a ideia inata 3) as ideias facticias, construidas por mim mesmo. de Deus Ora, entre as muitas ideias de que a conscibncia e deposith- + 3 1-5 ria, ha a id6ia inata de Deus, isto e, a ideia de uma substancia infinita, eterna, imutavel, independente, onisciente, e da qua1 eu mesmo e todas as outras coisas existentes fomos criados e produzidos. A ideia de Deus 6 subjetiva e objetiva ao mesmo tempo, e atesta ser inata em nbs porque produzida pelo proprio Deus. Desse modo, o problema da fundamenta@o do mittodo de pesquisa se en- contra definitivamente resolvido, porque a evidbncia proposta de mod0 hipothti- co 6 confirmada pelo cogito, e este se torna por sua ues reforcado pela presenqa de Deus que garante sua objetividade. Deus e garante tambem de todas as verda- des claras e distintas, "eternas", que devem constituir a ossatura do novo saber; mas estas verdades, criadas livremente por Deus, sSio contingentes, e sc?ochama- das "eternas" apenas porque Deus e imutavel; elas nSio participam da essbncia de Deus, e por isso ninguem, mesmo conhecendo-as, pode afirmar conhecer os desig- nios imperscrutaveis de Deus. 0problems da relacGo dadeiramente para o mundo e s5o adequa- das para fazer-me conhecer o mundo? E o entre nossas idkias, mundo estara aberto a essas regras? Minhas que sGo formas mentais, faculdades cognoscitivas S ~ adequadas pa- O e a realidade objetiva ra fazer-me conhecer efetivamente o que nio t identificavel com a minha conscihcia? Trata-se de perguntas que postulam A primeira certeza fundamental alcan- maior fundamentag50 da atividade cognos- qada pela aplicaq50 das regras do mCtodo, citiva do homem. portanto, C a conscihcia de si mesmos como Como ser pensante, o "eu" revela-se o seres pensantes. lugar de multiplicidade de ide'ias, que a filo- A reflex50 de Descartes concentra-se sofia deve considerar com rigor. agora no cogito e no seu conteudo, acossa- Se o cogito i a primeira verdade auto- da por algumas perguntas fundamentais: evidente, que outras idiias se apresentam sera que as regras do mttodo abrem-se ver- com o carater da auto-evidincia do cogito?
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    296 Terceira parte - Bacon e Drscnv+es Partindo dele e com idtias que, como o co- certos da objetividade das faculdades sensi- gito, siio claras e distintas, t possivel recons- veis e imaginativas atravts das quais as idCias truir o edifico do saber? facticias chegam at6 nos, abrindo-nos para E mais: dado que o fundamento do o mundo? Aquilo de que estou certo, at6 na saber esta na consciincia, como sera possi- duvida universal, t de minha existincia em vel sair dela e reafirmar o mundo externo? sua atividade cogitativa. Mas quem me ga- Em suma, as idCias que Descartes n5o rante que ela permanece valida mesmo quan- considera no sentido tradicional de essin- do seus resultados passam da percepg5o em cias ou arquktipos do real, mas como pre- ato para o reino da memoria? Estara a me- senGus reais na consciincia, t i m carater ob- moria em grau de conserva-10s intactos, com jetivo, no sentido de representarem um a clareza e a distingzo originais? objeto, uma realidade? Para enfrentar essa strie de dificulda- E, por fim, se elas s5o indubitaveis des e para fundamentar definitivamente o como formas mentais, porque tenho a ime- cariter objetivo de nossas faculdades cog- diata percepgso delas, la como formas re- noscitivas, Descartes proptie e resolve o pro- presentativas de realidades diversas de rnim blema da existincia e do papel de Deus. sera0 elas verdadeiras, ou seja, representa- r5o uma realidade objetiva ou seriam puras fungoes mentais? f idkia inata de D e u s e sua objetividade 3 "Jdkias inatas", Com tal objetivo, entre as muitas idCias "id&ias adventiciasN de que a consciincia C depositaria, Descar- e "idkias facticias" tes depara com a idCia inata de Deus que, como lemos nas Meditagoes metafisicas, C a idCia de "urna substiincia infinita, eterna, Antes de responder a essas questties, imutavel, independente e onisciente, da qua1 deve-se recordar que Descartes divide as idtias eu proprio e todas as outras coisas que exis- em: tem (se C verdade que h i coisas existentes) 1)ide'ias inatas, isto 6, as que encontro fomos criados e produzidos". E, a proposi- em rnim mesmo, nascidas junto com a mi- to de tal idCia, ele se pergunta se 6 pura- nha consciencia; mente subjetiva ou se niio deve ser conside- 2) ide'ias adventicias, isto e, as que vim rada ao mesmo tempo subjetiva e objetiva. de fora de rnim e me remetem a coisas intei- Trata-se do problema da existincia de Deus, ramente diferentes de mim; nao mais proposto a partir do mundo ex- 3) ide'ias facticias ou construidas por terno ao homem, mas a partir do proprio rnim mesmo. homem, ou melhor, de sua consciincia. Descartando estas ultimas como iluso- Pois bem, falando dessa idcia com tais rias, porque quimkricas ou construidas ar- caracteristicas, diz Descartes: "E uma coisa bitrariamente por rnim mesmo, o problema manifesta, por luz natural, que deve haver se restringe ent5o a objetividade das idCias pelo menos tanta realidade na causa eficien- inatas e das adventicias. Embora as tris clas- te e total quanto no seu efeito: porque, de ses de idCias n50 sejam diferentes do ponto onde o efeito ode ria extrair a sua realida- de vista de sua realidade subjetiva - todas de sen50 de sua propria causa, e como essa as tris S ~ atos mentais dos quais tenho per- O causa poderia transmiti-la ao efeito se n5o cepqiio imediata -, do ponto de vista de seu a tivesse em si mesma?" Ora, proposto tal conteudo elas s5o profundamente diversas. principio, fica evidente que o autor dessa Com efeito, se as idCias facticias ou ar- idCia que esta em rnim niio sou eu, imperfei- bitrarias niio constituem nenhum problema, to e finito, nem qualquer outro ser, da mes- ser5o verdadeiramente objetivas as idtias ad- ma forma limitado. Tal idCia, que est5 em venticias, que me remetem a um mundo ex- mim, mas n i o t de mim, so pode ter por terno? Quem garante tal objetividade? causa adequada um ser infinito, isto e, Deus. Poderiamos responder: a clareza e a A propria idtia inata de Deus pode pro- distingiio. E se as faculdades sensiveis fos- piciar uma segunda reflexiio, que compro- sem enganadoras? Estamos verdadeiramente va o resultado da primeira argumentagzo.
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    297 Capitulo de'cimo quinto - Descartes: rla "o f ~ t n d a d o ~ f~losofia m o d r r n a " Se a idiia de um ser infinito que esta em mim fosse minha, niio me teria eu feito per- feito e ilimitado e niio, ao contrario, um ser imperfeito, como resulta da duvida e da as- Ideia. Descartes da o nome de piraqiio nunca satisfeita $ felicidade e a "ideias" propriamente as imagens das perfeiqiio? Com efeito, quem nega o Deus coisas, e as distingue das "afeiqbes" criador por esse proprio fato esta se consi- (que se fundamentam sobre necessi- derando um autoproduto. Ora, nesse caso, dades, desejos, temores, esperangas tendo a idCia do ser perfeito, entiio nos te- etc.) e dos "juizos" (que pbem dis- riamos dado todas as perfeiqoes que encon- cursivamente em confront0 duas ou tramos na idkia de Deus. E isso C desmenti- mais ideias entre si e a partir daqui movem para afirmar ou negar). do pela realidade. Alem disso, ele distingue as ideias em Por fim, detendo-se nas implicaq6es des- tr& categorias: sa idCia, Descartes formula um terceiro ar- 1) ideiasadventicias, isto e, estranhas gumento, conhecido como prova ontologica. e vindas de fora, "corno a ideia que A existencia C parte integrante da essencia, vulgarmente se tem do sol"; de mod0 que niio 6 possivel ter a ideia (a es- 2) ideias facticias, isto e, ideias fei- sencia) de Deus sem simultaneamente admi- tas e inventadas pelo homem, "en- tir sua existencia, da mesma forma que niio e tre as quais se pode pbr a que os as- possivel conceber um triBngulo sem pensa-lo trbnomos fazem do sol com seus raciocinios"; com a soma dos Sngulos internos igual a dois 3) ideias inatas, que nascem com o retos, ou como niio C concebivel uma mon- homem, inerentes a sua consciGncia, tanha sem vale. So que, enquanto do fato de "como a ideia de Deus, da mente, do niio poder "conceber uma montanha sem vale corpo, do tridngulo e, em geral, as niio deriva que existam no mundo monta- ideias que representam as essbcias nhas e vales, mas somente que a montanha e verdadeiras, imutaveis e eternas". A o vale, existindo ou niio existindo, niio po- ideia inata de Deus, em particular, e dem de mod0 algum ser separados um do a mais evidente e contem em si mais outro, (...) j i do simples fato de que niio realidade objetiva que qualquer ou- tra: ela garante a objetividade de to- posso conceber Deus sem existincia deriva das as outras ideias inatas e das ad- que a existencia C inseparavel dele e, portan- venticias. to, que ele existe verdadeiramente". Esta C a prova ontologica de Anselmo, que Descartes retoma e a torna sua. D e ~ cowo gcarantia s Ora, se isso C verdadeiro e se C verdade 18 que Deus, porque sumamente perfeito, 6 tam- d a ~ M M ~ Z ;veritativa c O bem sumamente veraz e imutavel, niio deve- d e nossas fac~ldades mos entiio ter imensa confianqa em nos e em cognoscitivas nossas faculdades, que siio todas obras suas? Assim, a dependincia do homem em relaqiio a Deus niio leva Descartes A con- s Mas por que Descartes se detem com clus6es a que haviam chegado a metafisica tanta insistincia no problema da existencia e a teologia tradicional, isto C, ao primado de Deus, a niio ser para evidenciar a riqueza de Deus e ao valor normativo de seus pre- de nossa consciencia? Com efeito, nas Medi- ceitos e de tudo o que C revelado na Escritu- tag6es metafisicas, ele escreve que a idCia de ra. A idtia de Deus em nos, como a marca Dew C "corno a marca do artesiio impressa do artesiio na sua obra, C utilizada para de- sobre sua obra, niio sendo sequer necessirio fender a positividade da realiza@o humana que essa marca seja algo diferente da pro- e, do ponto de vista do poder cognoscitivo, pria obra". Assim, analisando a conscihcia, sua natural capacidade de conhecer o ver- Descartes se defronta com uma ideia que esta dadeiro; e, no que se refere ao mundo, a em nos, mas niio C nossa, a qual, todavia, imutabilidade de suas leis. nos permeia profundamente, como o selo do E ai que encontra derrota radical a ideia artifice sobre seu manufaturado. do g h i o malign0 ou de uma forqa corrosi-
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    298 Terceira parte - Bacon e Descartes va que pode enganar ou burlar o homem. E duvidas sobre o que lhe C sugerido por suas isso porque, sob a forqa protetora de Deus, faculdades cognoscitivas, ja que n i o reco- as faculdades cognoscitivas n i o podem nos nhece que tais faculdades sejam criadas por enganar, ja que, nesse caso, o proprio Deus, Deus, suma bondade e verdade. que C o seu criador, seria responsavel por tal engano. E Deus, sendo sumamente per- feito, n5o pode ser mentiroso. Desse modo, aquele Deus em cujo 5 ASverdades etevmas nome se tentava bloquear a expansio do novo pensamento cientifico aparece aqui como aquele que, garantindo a capacidade Desse modo, o problema da fundamen- cognoscitiva de nossas faculdades, estimula taqio do mitodo de pesquisa encontra-se tal empresa. conclusivamente resolvido, porque aquela Assim, a duvida C derrotada e o critC- evidincia proposta por via hipotCtica 15 rio da evidencia C conclusivamente justifi- comprovada pela primeira certeza relativa cado. 0 Deus criador impede que se consi- ao nosso cogito, e este, com as faculdades dere que a criatura seja portadora de um cognoscitivas, C ainda mais reforqado pela principio dissolutivo dentro de si, ou que presenqa de Deus, que garante o seu carater suas faculdades n i o estejam em condiqoes objetivo. de cumprir suas funqoes. Somente para o AlCm do poder cognoscitivo das facul- ateu a duvida n i o C debelada conclusiva- dades, Deus garante tambCm todas aquelas mente, porque pode continuar alimentando verdades, claras e distintas, que o homem estiver em condiq6es de alcanqar. Expressando a essencia dos varios se- tores do real, s i o as verdades eternas que compoem a ossatura do novo saber. Tais verdades s i o eternas n i o porque sejam vinculadas a o proprio Deus ou in- dependentes dele. Claro, Deus C criador ab- METAPHYSI QVE5 soluto e, portanto, responsive1 tambCm pe- las verdades ou idCias sob cuja luz criou o mundo. Mas entio por que s i o chamadas "eter- nas", essas verdades criadas livremente por Deus? Porque Deus C imutavel. Assim, aque- II 'exObF&bom fa~crr contrc c n Mcdtraoonc par dturtrc~ ptrlonnn trcs-d&n,aucc Icr dponfn dc I Aucrur. le voluntarismo de ascendencia escotista, Tr&m p M' C.L.R. que levava os metafisicos a falarem de um contingentismo radical do mundo e, portan- to, a considerar impossivel um saber uni- versal, C usado por Descartes para garantir a imutabilidade de certas verdades e, por- tanto, defender o desenvolvimento da cien- cia e garantir sua objetividade. Ademais, como essas verdades contin- A I'ARIS, gentes e, ao mesmo tempo, eternas n i o cons- ,'lrcz I., Vc*lur 1 E A N C A M V 5 A i ' tituem participaqio na essencia de Deus, ET ninguCm pode considerar que, corn o conhe- p E R R E LE PETIT,h p r t m c i ~ r c'rJtst ttrc rlt, il,?) cimento dessas verdades, conhece os impers- ruc S.lxqoes,i la T o ~ l o 4 t ) t - ~ h- " - bl I?(.. XlYll crutaveis designios de Deus. 0 homem co- ,J bmfc RIL 11 k G L r ) r - l f nhece e isso ja basta, sem qualquer pretensio de emulaqio com Deus. E, com isso, defende-se ao mesmo tem- po o sentido da finitude da razio e o senti- do de sua objetividade. A razio do homem C especificamente humana, n i o divina, mas e garantida em sua atividade por aquele Deus que a criou.
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    299 Capitulo de'cimo quinto - Descartes: "o fhndador d a filosofia m o d e ~ n,, a 6 0ewo n ~ depende d e Deus, o do n5o a concebo com suficiente clareza e distinqao, C evidente que estou fazendo 6ti- mas do h o m e m mo uso do juizo e nZo estou sendo engana- do; mas, se me determino a nega-la ou afir- Mas, se 6 verdade que Deus C verda- ma-la, e n d o niio estou mais me servindo deiro e nao enganoso, tambCm C verdade que como devo do meu livre-arbitrio; e se afir- o homem erra. mo aquilo que n i o C verdadeiro, C evidente Qua1 6, entao, a origem do erro? que estou me enganando; [. ..] porque a luz Naturalmente, o err0 n i o e imputavel natural nos ensina que o conhecimento do a Deus, mas sim ao homem, porque nem intelecto deve preceder sempre a determi- sempre ele se demonstra fie1 a clareza e a naqiio da vontade. E precisamente nesse mau distingzo. uso do livre-arbitrio 6 que se encontra a pri- As faculdades do homem funcionam. vaqiio que constitui a forma do erro". Mas cabe ao homem fazer bom uso delas, Com essa imensa confianqa no homem niio confundindo com claras e distintas as e em suas faculdades cognoscitivas, e depois idCias que siio aproximativas e confusas. 0 de indicar as causas e implicaq6es do erro, err0 se da no juizo. E, para Descartes, dife- Descartes pode agora tratar do conheci- rentemente do que pensaria Kant, pensar mento do mundo e de si enquanto existe niio C julgar, porque no juizo intervcm tan- no mundo. 0 mCtodo esta justificado, a cla- to o intelecto como a vontade. 0 intelecto, reza e a distinqso fundamentadas, e a uni- que elabora as ideias claras e distintas, nao dade do saber reconduzida a sua fonte. a erra. 0 err0 brota da pressiio indevida da razz0 humana. sustentada e iluminada vontade sobre o intelecto: "Se me abstenho pela garantia da suma veracidade do seu de dar meu juizo sobre alguma coisa, quan- Cr iador. VI. O m u n d o C u m a m6quina Deus 4 arante do fato de que a faculdade imaginativa e a sensivel atestam a existencia of tjetiva do mundo corporeo, e entre todas as coisas que do mundo externo chegam a consci4ncia C possivel conceber como clara e distinta apenas a extensiio. N%oha, pottanto, mais que uma mesma materia em o universo todo o universo, e n6s a conhecemos apenas porque ela C exten- 6 uma srande S em comprimento, largura e profundidade. Este e um ponto de a "mdquina", imensa importhcia revolucioniiria, ja proposto em pauta por cujose/ementos Galileu, que Descartes retoma porque dele depende a possibili- essenciais dade de aviar um discurso cientifico rigoroso e novo. O universo materia e uma grande "mSquinan, cujos elementos essenciais s%omate- e rnovimento ria e movimento. Tambem o corpo humano e os organismos ani- -+ 3 1-5 mais sao mSquinas e, portanto, funcionam em base a princfpios mecanicos que regulam seus movimentos e relat$3es; isso que cha- mamos "vida" C3 redutivel a uma entidade material, isto e, a elementos sutilissimos que, veiculados pelo sangue, se difundem por todo o corpo e presidem as princi- pais fun~bes organismo. do 3 A idkia d e e x t e n s 6 0 dade externa para a conscihcia, que n i o C t; artifice delas, mas so depositaria. e S M import&ncia essential ~ Antes de mais nada, a existincia do mundo corporeo 6 possivel por causa do fato Descartes chega a existhcia do mun- de que ele C objeto das demonstraqoes geo- do corporeo aprofundando as ideias adven- metricas, que se baseiam na ide'ia de exten- ticias, isto 6, as idCias que V ~ de uma reali- O Go. Ademais, ha em nos uma faculdade dis-
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    300 Terceira parte - Bacon e Dessartes tinta do intelecto e niio redutivel a ele, isto mundo espiritual C yes cogitans, o mundo C, a capacidade de imaginar e sentir. Com material 6-res extensa. efeito, o intelecto C "uma coisa pensante ou Descartes considera "secund6rias" to- urna substincia, cuja esshcia ou natureza das as outras propriedades, como a cor, o toda C apenas a de pensar", essencialmente sabor, o peso ou o som, porque n i o C possi- ativa. Jii a faculdade de imaginar C essen- vel ter delas urna idiia clara e distinta. Atri- cialmente representativa de entidades mate- bui-las ao mundo material como componen- riais ou corporeas, razio pela qua1 "estou tes constitutivas simificaria abandonar as " inclinado a considerar que C intimamente regras do mitodo. " ligada ou dependente do corpo". Desse A tendencia a considera-las obietivas 6 modo, o intelecto pode considerar o mun- muito mais fruto de exoeriencias infantis. do corporeo valendo-se da imaginaqiio e das niio avaliadas criticamente, porque niio nos faculdades sensorias, que se revelam passi- demos conta de que se trata mais de urna vas ou receptivas de estimulos e sensaq6es. sirie de respostas do sistema nervoso aos Ora, se esse poder de ligaqio com o estimulos do mundo fisico. mundo material, operado pela faculdade de Esse C um Donto de imenso alcance re- imaginaqiio e pelas faculdades sensorias, volucion6ri0, j6 enfocado por Galileu e que fosse enganoso, dever-se-ia concluir entiio Descartes retoma porque sabe que dele de- que Deus, que me criou assim, n i o i veraz. pende a possibilidade de encaminhar um Mas isso C falso, como ja dissemos. Desse discurso cientifico rigoroso e novo. A ajuda modo, se as faculdades imaginativas e sen- dos sentidos pode significar fonte de esti- siveis atestam a existencia do mundo corpo- mulos, mas niio C a sede da ciencia. Esta reo, niio h i raziio para p6-lo em discussiio. pertence ao mundo das idCias claras e dis- Isso, porCm, niio deve me induzir a tintas. "admitir temerariamente todas as coisas que Chegando a esse ponto, reduzida a os sentidos parecem me ensinar". Como materia a extensiio, Descartes encontra-se tambCm nao deve me induzir a "revogar pela diante de urna realidade global dividida em d h i d a todas elas em geral". duas vertentes claramente distintas e irre- Mas como operar tal seleqio? Isso pode dutiveis urna a outra: a yes cogitans no que ser feito aplicando o mitodo das idiias cla- se refere ao mundo esoiritual e a res extensa ras e distintas, isto C, s6 admitindo como no aue concerne ao mundo material. N i o reais aquelas propriedades que consigo con- exisiem realidades intermedihrias. ceber de mod0 distinto. A forqa dessa colocaqio C devastado- Pois bem, dentre todas as coisas que me ra, sobretudo em relagio i s concepq6es chegam do mundo externo atravis das fa- renascentistas de matriz animista, segundo culdades sensiveis, s6 consigo conceber como as quais tudo era permeado de espirito e clara e distinta a extensiio, que, conseqiiente- vida, e com as quais eram explicadas as co- mente, podemos considerar como consti- nex6es entre os fen6menos e sua natureza tutiva ou essencial. "Com efeito, toda outra mais rec6ndita. N i o ha graus intermedii- coisa que se pode atribuir ao corpo pressup6e rios entre a res cogitans e a res extensa. A a extensiio, sendo apenas algum mod0 da exemplo do mundo fisico em geral, tanto o propria coisa extensa, como tambCm todas corpo humano como o reino animal devem as coisas que encontramos na mente siio encontrar explicaqio suficiente no mundo somente modos diversos de pensar". da mecinica, fora e contra qualquer doutri- na magico-ocultista. Arenas a extens60 i. propriedade essencial . como principios Assim, aplicando as regras da clareza e da distinqiio, Descartes chega a conclusio de que s6 se pode atribuir como essencial ao mundo material a propriedade da exten- A doutrina que atribui um carater pu- siio, porque s6 ela C concebivel de mod0 cla- ramente subjetivo ao reino das qualidades C ro e completamente distinto das outras. 0 o primeiro resultado dessa nova filosofia. E
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    301 Capitdo de'cimo quinto - Descartes: "o fundador d a filosofia moderna" sua importincia reside na capacidade de eli- Mais do que na variabilidade dos fe- minar todos os obsticulos que haviam im- nGmenos, Descartes estava interessado em pedido a afirmaqiio da nova ciincia. sua unificagiio, mediante modelos mecini- Mas quais siio entiio os elementos es- cos de inspiraqiio geomCtrica. senciais para se explicar o mundo fisico? 0 universo cartesiano C constituido por poucos elementos e principios: matCria (en- tendida no sentido geomitrico de extensiio) Reduc&o e movimento. d e todos os o r g a n i s m o s A matCria como pura extensiio, priva- da de qualquer profundidade, leva a rejei- qio do vicuo. 0 mundo C como um ovo pleno. 0 vicuo dos atomistas C inconcebivel com a continuidade da matiria extensa. Como explicar entio a multiplicidade dos fen6menos e seu carater dinimico? Atra- ao qual niio se subtraem sequer aquelas re- vCs do movimento ou daquela "quantida- alidades tradicionalmente reservadas a ou- de de movimento" que Deus injetou no tras ciincias, como a vida e os organismos mundo quando o criou e que permanece animais. constante, porque niio cresce nem diminui. Tanto o corpo como os organismos ani- mais siio maquinas e, portanto, funcionam com base em principios mecinicos que regu- lam seus movimentos e suas relaq8es. Em con- traste com a teoria aristotilica das almas, ex- 0 s principios f u n d a m e n t a i s clui-se todo principio vital (vegetativo e q u e r e g e m o universo sens6rio) do mundo vegetal e animal. Tam- bCm nesse caso o que importa C a mudanqa do quadro sistemitico, porque dai em dian- Quais as leis fundamentais? te tambCm o corpo e qualquer outro orga- Antes de mais nada, o principio de con- nismo seriio objeto de anilise cientifica no serva@o, segundo o qual a quantidade de mo- quadro dos principios do mecanicismo. vimento permanece constante, contra qual- 0 s animais e o corpo humano nada quer possivel degradaqiio de energia ou mais s i o do que miquinas, "autbmatos", entropia. 0 segundo C o principio de ine'rcia. como os define Descartes, ou "miquinas Tendo excluido todas as qualidades da semoventes" mais ou menos complicadas, matCria, s6 pode haver alguma mudanqa de semelhantes a "rel6gios, compostos simples- diregio mediante a impulsiio de outros cor- mente de rodas e molas. aue podem contar pos. 0 corpo n i o se detCm nem diminui seu as horas e medir o tempoi'. proprio movimento, a menos que o ceda a E as numerosissimas operaq6es dos outro. Em si, uma vez iniciado, o movimen- animais? Aquilo que chamamos de "vida" to tende a prosseguir na mesma diregio. C redutivel a uma esptcie de entidade mate- Portanto, o principio de conservaqiio e, rial, isto C, a elementos sutilissimos e pu- conseqiientemente, o principio de inCrcia sio rissimos, que, levados do coraqiio ao &re- principios basilares que regem o universo. bro por meio do sangue, se difundem por A eles deve-se acrescentar outro prin- todo o corpo e presidem A principais fun- s cipio, segundo o qual toda coisa tende a q6es do organismo. Dai a exaltaqio da teo- mover-se em linha reta. 0 movimento ori- ria da circulaqiio do sangue proposta por ginirio C o movimento retilineo, do qual os Harvey, seu contemporineo, que publicou outros derivam. Essa extrema simplificaqiio seu famoso ensaio sobre o Movimento d o da natureza esti em funqiio de uma raziio cora@o em 1627. que, atravCs de modelos tebricos, quer co- Descartes, portanto, nega aos organis- nhecer e dominar o mundo. mos qualquer principio vital autbnomo, tan- Trata-se de uma tentativa relevante de to vegetativo como sens6rio. convencido de " unificar a realidade, a primeira vista multi- que, se eles possuissem alma, a teriam reve- la e variivel, atravCs de uma espkcie de lado pela palavra, que "C o unico sinal e a modelo mecBnico facilmente dominivel pel0 unica prova segura do pensamento oculto e homem. encerrado no corpo" .
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    302 Terceira parte - B a c o n c Drscartrs VII. A l m a ("res cogitansr') e corpo ("res extensa") No hornern Entre o mundo espiritual, a res cogitans, e o mundo mate- as duas rial, a res extensa, n8o ha grandes intermediiirios: trata-se de subst&xias, duas vertentes claramente distintas e irredutiveis uma outra. a/ma e C O ~ ~ O ,Ora, no homem, diferentemente de todos os serest as duas subs- estso juntas tancias est80 juntas. Com efeito, a alma C! pensamento, n8o vida, -+§ 1 e sua separa~lio corpo n%o do provoca a morte; a alma tem pro- priamente sede em urna pequena glsndula, chamada pineal, si- tuada no centro doxtirebro, onde se reunem ramificados todos os tecidos das arterias que veiculam o sangue para o ctirebro. 0contato perimentar sentimentos e apetites seme- lhantes aos nossos, compondo assim um entre "res cogitansN verdadeiro homem." Mas, por qua1 raziio e de que mod0 a alma move o corpo e age sobre ele? Foi para enfrentar essas dificuldades que Descartes escreveu o Tratado d o ho- Ao contrario de todos os outros se- m e m , no qua1 tenta urna explicaqio dos res, no homem encontram-se juntas duas processos fisicos e orgsnicos, em urna es- substsncias claramente distintas entre si: a pCcie de ousada antecipaqio da fisiologia res cogitans e a res extensa. Ele C urna es- moderna. pCcie de ponto de encontro entre dois mun- Ele imagina que Deus tenha formado dos ou, em termos tradicionais, entre alma urna estatua de terra semelhante a nosso cor- e corpo. A heterogeneidade da res cogitans po, com os mesmos orgios e as mesmas fun- em relaqio a res extensa significa antes de qdes. E urna espkcie de modelo ou de hi- mais nada que a alma n i o deve ser conce- potese, com que tenta a explicaqio de nossa bida em relacio com a vida. como se hou- realidade biologica, com especial atenqiio vesse varios tipos de vida, da vegetativa h para a circulaqiio do sangue, para a res- sensitiva e dai a racional. A alma C Densa- piraqio e para o movimento dos espiritos mento e n i o vida. E sua separaqio do cor- animais. po niio provoca a morte, que C determina- Sem abandonar a hipotese, ele explica da por causas fisiologicas. A alma C urna o calor do sangue por urna espkcie de fogo realidade inextensa, a o passo que o corpo sem luz que, penetrando nas cavidades do C extenso. Trata-se de duas realidades que coraqiio, contribui para conserva-lo inflado nada t&mem comum. e elistico. Do coraqio, o sangue passa para E, no entanto, a experiincia nos ates- os pulmdes, onde a respiraqiio, introduzin- ta urna interferhcia constante entre essas do o ar, o refresca. 0 s vapores do sangue da duas vertentes, como o comprova o fato cavidade direita do coraqio alcanqam os de que nossos atos voluntaries movem o pulmdes atravis da veia arterial, e caem len- corpo e as sensaqdes, provenientes do mun- tamente na cavidade esquerda, provocando do externo, se refletem sobre a alma, mo- o movimento do coraqio, do qua1 depen- dificando-a. Escreve Descartes: " N i o bas- dem todos os outros movimentos do or- ta que ela [a alma] seja inserida no corpo g a n i s m ~ Afluindo a o cCrebro, o sangue . como um piloto em.seu navio, senio, tal- n i o apenas nutre a substsncia cerebral, mas vez, para mover seus membros, mas e ne- tambCm produz "certo vento, muito sutil, cessario que ela seja conjugada e unida mais ou antes urna chama muito viva e muito estreitamente com ele, para, ademais, ex- pura, a o que se d4 o nome de 'espiritos ani-
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    Capi'tulo de'cirno quinto- D e s r a r t r s : "o fundador d a filosofia m o c l r r ~ , , a 303 mais' ". As artirias que veiculam o sangue no tratado Les passions de l'ime, mas no cerebra ramificam-se em inumeros teci- com preocupaqdes e contornos claramente dos, que se reunem depois em torno de pe- iticos. quena glindula, chamada pineal, situada no Nele Descartes oferece um quadro centro do cirebro, que constitui a sede da bastante complexo e subtil de analise das alma. aqdes, movidas pela vontade, e das alteraqdes, Com tal objetivo, escreve Descartes, "i que s i o percepqdes, sentimentos ou emo- preciso saber que, por mais que a alma este- q6es provocadas pelo corpo e captadas pela ja conjugada com todo o corpo, entretanto alma. ha no corpo algumas partes em que ela exer- 0 objetivo moral desse estudo t o ce suas funqdes de modo mais especifico que de demonstrar que a alma pode vencer em todas as outras. [...I A parte do corpo as emoqdes ou, pelo menos, frear as soli- em aue a alma exerce imediatamente suas citaqdes sensiveis que a distraem da ati- funqdes n i o i em absoluto o coraqio e nem vidade intelectual, projetando-a para as mesmo todo o cirebro, mas somente a parte amarras das paixdes. Para tanto, dois sen- interna dele, que t certa glindula muito pe- timentos s i o importantes, a tristeza e a quena, situada em meio a sua substincia e alegria: a primeira esta em condiqdes de suspensa sobre o conduto pelo qua1 os espi- mostrar as coisas das quais devemos es- ritos das cavidades anteriores se comunicam capar; a segunda, as coisas que devemos com os espiritos das cavidades posteriores, cultivar. de modo aue os seus mais leves movimentos 0 guia do homem, porim, n i o s i o podem mudar muito o curso dos espiritos, as emoqdes ou os sentimentos em geral, ao passo que, inversamente, as minimas mu- mas sim a razso, a unica que pode avaliar danqas no curso dos espiritos podem levar e, portanto, induzir a acolher ou rejeitar a grandes mudanqas nos movimentos dessa certas emoqdes. glindula". A sabedoria consiste precisamente 0 tema d o dualismo cartesiano e d o na adoqio d o pensamento claro e distin- possivel contato entre a yes cogitans e a to como norma, tanto do pensar como do res extensa foi aprofundado ainda mais viver. VIII. $s vegvas Para favorecer o dominio da razao sobre a tirania das paixiies, no Discurso sobre o mCtodo Descartes propde como "moral provisoria" quatro normas que depois s revelaram vdlidas e, para ele, definitivas: e 1) obedecer as leis, aos costumes e a religiao do proprio pais, acolhendo as opinides comuns mais moderadas; 2) perseverar nas aciies com a maior firmeza e resoluc;$o possivel; 3) vencer de preferencia a si mesmos do que o destino, e A etica mudar preferentemente os proprios desejos do que a ordem do cartesiana mundo; e a subrnissdo 4) cultivar a razao e o conhecimento da verdade. da vontade a razzo, Do conjunto torna-se evidente a diresilo da etica cartesiana, as norrnas isto e, a submissa"~ lenta e fatigante da vontade B raztio, como a seguir forca-guia de todo o homem: a liberdade da vontade s realiza e + 3 1-5 apenas pela submisdo a logica da ordem que o inteledo e cha- mado a descobrir, fora e dentro de si.
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    304 Terceira parte - Bacon e Desca~trs Descartes C inimigo da falta de decisiio. Para superar isso, ele prop6e o remkdio "de habituar-se a formular juizos certos e deter- minados sobre as coisas que se apresentam, Foi exatamente para favorecer o do- convencendo-se de que se cumpriu o proprio minio da raziio sobre a tirania das paix6es dever quando se fez aquilo que se julgava o que, desde o Discurso sobre o me'todo, Des- melhor, ainda que seja julgado muito mal". ;artes enunciou e prop8s como "moral pro- A vontade se retifica refinando o intelecto. visoria" algumas normas que depois, tanto no intercimbio e~istolar como no Tratado sobre as paixoes, revelaram-se para ele va- lidas e definitivas. A terceira regra Trata-se de normas simples, que C opor- tun0 recordar sempre: "A primeira [regra] era a de obedecer i s leis e aos costumes do meu ~ a i sobservando constantemente a re- . Nesse contexto, ele prop6e a "terceira 1 , ligiiio em que Deus me deu a graqa de ser maxima", que i a de "esforqar-me sempre instruido desde a infincia, e norteando-me para vencer muito mais a mim mesmo do em todas as outras coisas segundo as opi- que ao destino e para mudar muito mais ni6es mais moderadas e mais distantes de meus desejos do que a ordem do mundo. E, todo excesso, que fossem comumente acolhi- em geral, acostumar-me a crer que niio h i das e praticadas pelas mais sensatas dentre nada que esteja inteiramente em nosso po- as pessoas com quem me coubesse viver." der, exceto nossos pensamentos" . Distinguindo entre a contemplaqio e a 0 tema de Descartes, portanto, C a re- busca da verdade, por um lado, e as exigtn- forma de si mesmo, reforma que i possivel cias cotidianas da vida, por outro, Descar- fazer, refinando a razao mediante o habi- tes, para a verdade, exige a evidtncia e a tuar-se i s regras da clareza e da distinqio. distin~iio,que, se alcanqadas, nos dao o juizo; j i para as segundas considera sufi- ciente o bom senso, express0 pelos costu- mes do povo junto ao qua1 se vive. No pri- meiro caso, i necessaria a evidtncia da verdade; no'segundo, C suficiente a proba- bilidade. Nos retificamos a vontade reforman- 0 respeito as leis do pais C ditado pela do a vida do pensamento. E C com esse ob- necessidade de tranqiiilidade, sem a qua1 niio jetivo que ele destaca na quarta maxima que C possivel a busca da verdade. sua funqio mais importante foi a de "dedi- car toda a minha vida a cultivar minha ra- ziio e progredir o mais possivel no conheci- mento do verdadeiro, seguindo o mitodo que me havia prescrito". 0 fato de ser esse o sentido das primei- ras tris maximas, bastante conformistas, i "A segunda maxima era a de perseve- indicado com exatidio pel0 pr6prio Descar- rar o mais firme e resolutamente possivel em tes, que acrescenta: "As trts maximas ante- minhas aq6es, n i o deixando de seguir com riores fundamentavam-se precisamente no menos constsncia as opini6es mais duvido- meu proposito de continuar a me instruir." sas, quando alguma vez a elas me determi- nasse, como se elas fossem as mais seguras". Trata-se de norma muito pragmatica, que conclama a romper as protelaq6es e superar a ra2~0 o e verdadeiro incerteza e a indecisio, porque a vida nio pode C O ~ fundamento da moral O esperar, sendo premente, mas sem esquecer que permanece a obrigaqiio de examinar a veraci- dade e a bondade dessas opiniijes, ja que a 0 conjunto torna evidente a orienta- veracidade e a bondade permanecem como os $50 da Ctica cartesiana, isto 6, a lenta e tra- ideais que regulam a vida humana. balhosa submissiio da vontade a raziio,
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    305 Capitulo de'cimo quinto - Descavtes: fundador d a filo~ofia moderna" como forqa-guia de todo o homem. Identi- se impde com a forqa da raziio. Apenas sob ficando a virtude com a raziio nessa pers- o peso da verdade C que o homem h ode se pectiva, Descartes se propde a "seguir tudo considerar livre, no sentido de que obedece aquilo que a raziio me aconselhar, sem que a si mesmo e niio a forqas exteriores. as paixdes e os apetites me afastem disso". Se o "eu" define-se como res cogitans, Com tal objetivo, o estudo das paixdes seguir a verdade significa seguir no fundo a e do seu entrelagamento na alma visa a tor- si mesmo, na maxima unidade interior e no nar mais facil a consecugiio do primado da pleno respeito i realidade objetiva. 0 pri- raziio sobre a vontade e sobre as paixdes. mado da raziio deve impor-se tanto no cam- A liberdade da vontade so se realiza po do pensamento como no da aqiio. pela submiss50 16gica da ordem que o in- A virtude, iqual, em ultima anhlise, a telecto C chamado a descobrir, dentro e fora "moral provisoria" conduz, identifica-se de si. com a vontade do bem e esta com a vonta- Em Descartes predomina o amor do de de pensar o verdadeiro que, enquanto tal, verdadeiro, cuja logica, uma vez alcangada, tambCm C bem.
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    306 Terceira parfe - B a c o n e Drscavtes 0 "COGITO" 0 METODO PARA A DESCOBERTA DA VERDADE - -- - -- -- - -- - ? No exame dos principios do saber tradicional ( REGRA APLICATIVA C precis~ rejeitar como falso tudo aquilo de que se possa duvidar, -- 1 I - para chegar a algo absolutamente indubitavel - I _, - -- - -- - / +-- PRINCIPIO PRIMEIRO - - - - ~ O G I T O , ERGO SUM" (existCncia da alma): 1 ( DA NOVA PILOsOPIA , do prdprio fato de duvidar (= pensar), segue-se do m o d ~ mais evidente e certo T- que eu sou, isto i, exzsto ,, ' I .. -- , , I I / -- - t - - - 1 Faculdades da alma -- - i / / p ,Y Eletiva: 1 Cognoscitivas: /. ' I sens~bilidade imagina~iio intelecto (ou raziio) I (OU vontade llvre-arbitrio) - , ' , 4 I [ Idiias ) 1 ( Afeiq6es v 1 . -- I -- Y - - 1 I -- - znatas [(lnerenfes desde sempre - adventiaas - -- - factiaas - - Deus , / (Ser perferto, Substiincra rnfinrta e eterna): - - ' a 1d6ia inatn de substBncia inflnita pode ter sido posta na alma (FUNDAMENTO ULTIMO ) ~i (que C substBncia f ~ n i t a ) L -- ' -- apenas por uma substBncia verdadeiramente infin~ta. i a e a verdade de toda crdncra dependem , do conhecrmento do verdaderro Deus , - -
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    Capitulo dkimo quinto- Descartes: "o fundador da filosofia moderna" culpas para os vicios, de mod0 que um Estado & muito melhor regulado quando, tsndo pou- quissimas, etas ai sdo mui rigorosoments ob- servadas; assim, em vez do grande nirmero de preceitos de que Iogica & composta, acreditei ter o suficiante deles com os quatro seguintes, com a condi~do que tomasse firme e constants resolu$do de ndo descurar uma s6 vez de observa-10s. 0Discurso sobre o mhtodo, publicado 0 primeiro ero ndo aceitar jamais nada ern 1637, B a obra corn qua se inougura o como verdadeiro, que ndo conhecesse eviden- esto@o do filosofio rnoderno. temente ser tal; ou seja, v i t a r acuradamente a Troto-ss de brevs sxposigio, de ports prscipitqdo e a preven~do; ndo compreen- e outobiografico, dos Fundornsntos mstodo- der em meus juizos nada mais al6m do que se log icos do originol rnetofisico cortesiano. apresentasse tdo clara e distintamente a mi- nha mente, que eu ndo tivesse alguma possi- bilidode de p6-lo em dljvida. 0 segundo, dividir coda uma das dificul- 1. A insuficiQnciada Iogica r da matrmatica dades que examinasse, em tantas partes quantas fosse possivel, e quantas fossem Quando eu era mais jovem,' havia estu- requeridas para melhor resolver as proprias di- dado um pouco, sntre as partes do filosofia, a ficuldades. Iogica, e entre as matem6ticas, a an6lise dos 0terceiro, conduzir com ordem meus pen- ge6metras e a 61gebra, tr& artes ou cihncias samentos, comqando pelos objetos mais sim- qua pareciam dever contribuir em alguma coi- plss e mais Mceis de conhecer, para subir pou- sa para meu projsto. Contudo, examinando, co a pouco, como por graus, at6 o conhecimento percebi qua, quanto 6 Iogica, seus silogismos dos mais compostos; e supondo tamb6m uma e a maior parts de suas outras instru@es ser- ordem entre aquelss que ndo se precedem vam mais pora explicar a outros as coisas que naturalmente um ao outro. ja sdo sabidas ou entdo, como a arte de Wlio,' E, em ljltimo lugar, fazer em tudo enume- a falar, ssm discernimento, das que se igno- ra@es tdo completas, e resenhas tdo gerais, ram, e ndo para aprend&-las. E embora ela que estivesse seguro de nada omitir. contenha, com efeito, muitos preceitos verissimos e otimos, h6 todavia tantos outros, misturados com aqueles, qua sdo nocivos ou 3. A nova matrmatica, modrlo do saber sup6rfluos, que 6 quase tdo dificil separ6-los quanto extrair uma Diana ou urna Minerva para Rs longas cadeias de rozbes, todas sim- fora de um bloco de marmore que ainda ndo ples e fdceis, das quais os ge6metras costu- foi esbo~ado. Depois, quanto a an6lise dos mom se ssrvir para chegar a suas mais dificeis antigos e a Cllgebra dos modernos, al6m do demonstra@es, deram-me ocasido de imagi- fato que elas se reFsrem apenas a mothrias nor que todas as coisas, qua podem cair sob abstratissimas, e que parecem de nenhum uso, o conhecimento dos homens, se sucedam en- a primeira @st6sempre tdo ligada b conside- tre si no mesmo modo, e qua, embora apenas ra@o das figuras, que ndo pods exercitar o nos abstenhamos de acolher alguma delas intelecto sem cansar muito a imagina<do: e o como verdadeira e ndo o seja, e qua se ob- individuo fica de tal forma submetido, na irlti- serve sempre a ordem nscessdria para dedu- ma, a certas regras e a certas cifras, que dela zi-las umas das outras, ndo podem existir coi- se F z urna arte confusa e obscura que embo- e sas tdo distantes as quais ndo se possa r q a a mente, em vez de uma ci&ncla que a chegar, nem tdo escondidas que ndo se pos- cultive. sam descobrir. E ndo pensei muito par0 buscar de onde prscisava comecar: com efaito, eu j6 sabia que 2. As rrgras do novo mOtodo Este foi o motivo pelo qua1 pensei que era - precis0 buscar algum outro m6todo que, reu- 'Ou sejo, quando estnvo no coldg~o La FlBche de 2 ~ a ~ m u n d o (Ramon Lhull) (1 932-131 6) mange 16110 nindo as vantagens daqueles tr&s, estivesse franc~scano, autor de urn0 cdlebre Rrs magna que "dev~a issnto de saus defsitos. E como o sxcessivo perrn~t~rprovar a verdade do cr~st~ontsrno os lnhhs e para nljmero das leis fornece freqijentemente dss- convertb-10s'
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    Terceira parte -B a r o ~ Descartes e devia partir das mais simples e das mais fdceisdeles que outra vez julgara dificilimos, mas de conhecer; e considerando que entre todos pareceu-metamb&m, no fim, que podia deter- aqusles que j6 buscaram a verdade nos cihn- minor, naqueles mesmos qua eu ignorava, com cias, ndo houve outros al&m dos matem6ticos quais meios, e at& onde. fosse possivel resol- que puderam encontrar demonstra~des, 6, istov&-10s. Motivo pelo qua1 ndo vos parecerel razdes certas e evidentes, eu ndo duvidava ab- talvez muito vaidoso se considerardes que, ndo soluramente que devesse comqar por aque- havendo mais que uma verdade de toda coi- las mesmas verdades que eles examlnaram, sa, quem a encontra sobe tanto dela quanto 6 embora ndo esperasse nenhuma outra utilida- possivel dela saber; e que, por exemplo, um de, a ndo ser que elas habituariam minha men- rapaz instruido no aritm&tica, tendo feito uma te a apascentar-se de verdade, e a ndo con- soma conforme as regras dela, pode estar tentar-se com razdes falsas. seguro de ter encontrado, em rela@o b soma Todavia, nem por isso decidi procurar que procurava, tudo aquilo qua o espirito hu- aprender todas as ci&ncias particular+, que se mono poderia encontrar. Por fim, porque o chamam comumente matem6ticas; e vendo mhtodo que enslna a seguir a verdadeira or- qua, embora seus objetos fossem diferentes, dem, e a enumerar exatamente todas as cir- elas ndo deixam de concordor todas num pon- cunst6ncias daquilo que se procura, cont6m to, o de n6o considerar outra coisa al6m das tudo aquilo qua d6 certeza bs regras do arit- diversas rela<desou das propor~des se en- que mbtica. Mas aquilo que me satisfazia mais em contram, pensei que fosse melhor examinar tal m&todo era que, por meio dale, eu estava apenas estas propor@es em geral, e sem su- seguro de servir-me em tudo da minha razdo, se ndo perfeitamente,ao menos o melhor qua p6-las em outro lugar fora dos sujeitos que ser- viriam para tornar seu conhacimento mais f6cil;estivesse em meu poder; al6m de que sentia, ou melhor, sem for~6-las nenhum modo, para de ao empreg6-lo, que minha mente se habitua- depois pod&-lasaplicar melhor a todos os ou- va pouco a pouco a conceber mais clara e dis- tros aos quais conviessem. tintamente seus objetos, e que, ndo tendo-o Depois, tendo percebido que, para co- absolutamente submetido a nenhuma ma- nhec&-las, teria necessidade alguma vez de t&ria particular, eu me comprometia a apl1c6- considera-lascoda uma em particular, e algu- lo tambBm utilmente bs dif~culdades das ou- ma vez apanas record6-las ou compreender tras ci&ncias, como tinha feito com as do diversas delas ao mesmo tempo, pensei que, 6lgebra. para considerd-las melhor em particular, de- N6o qua, por isso, ousasse empreender veria sup6-las na forma de linhas, porque eu sem mais o exame de todas as qua se apre- n60 encontrava nada mais simples, nem que sentassem; isto de fato teria sido contr6rio 2.1 pudesse mais distintamente representar ci mi- ordem que tal mdtodo prescreva. Mas, tendo nha imagina(do e a meus sentidos: mas qua, notado que seus principios deviam ser todos para reth-las, e para compreender diversas atinentes b filosofia, na quo ainda ndo se en- delas ao mesmo tempo, ero precis0 que as contram principios certos, pensei que fosse ne- expressasse mediante cifras, as mais breves cessdrio, antes de tudo, que eu procurasse possiveis; e que, com este meio, teria tornado estabelec&-10s;e que, sendo esta a coisa mais todo o melhor da an6lise geom6trica e da 61- importante do mundo, e onde a precipita@o e gebra, e teria corrigido os defeitos de uma pora preven~do eram o que mais se devia temer, meio do outra. eu de fato n6o devia empreender at6 o fim. antes de ter chegado a uma idade bastante 4. A aplicngtio do mOtodo a filosofia mais madura do que a de vinte e tr&s anos, que era entdo minha idade; e antes de ter em- E, com efeito, ouso afirmar que a obser- pregado muito tempo para preparar-mea isso, vdncia exata daqueles poucos preceitos que tanto desenra~zando meu espirito todas as de eu ascolhera deu-me tal facilidade de resol- m6s opinidas que acolhera antes daquele tem- ver todos os problemas aos quais se esten- po, como reunindo muitas experi&ncias que dem aquelas duos cihncias, que nos dois ou constituissem depois a matbrio de meus racio- tr&s meses que empreguei para examin6-10s. cinios, e tamb&m me exercitando sempre no tando comeqdo pelos mais simples e gerals, m&todo que eu me h w ~ a prescrito, para nele e coda verdade qua encontrava sendo uma sempre mais me reforpr. regra que me servia depois para encontrar R . Descortss, outras, ndo somante cheguei ao fim de muitos D~scurso o h @o matodo. s
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    Capitdo de'cimo quinto- Descartes: "o +dador da filosofia moderna" notando que esta verdade: supsnso, logo sxis- to, ero tdo f~rme tdo segura que todas as mais e extravagantes suposisdes dos c&ticosndo Gram capazes de abala-la,julguei que podia aceit6- Dspois ds sstabelecidos as rsgras la sem escrljpulo como o principio da filosofia '~rov~sorias" novo mhtodo, Descartss as do que eu procurava. pde imsdiotamsnts 2, prova, aplicando-as a todas as convic@es s pini id^^, tanto co- muns como cianti'ficos. E o primsiro rssulta- 2. A alma a o corpo do indubittrval dsssa aplica@o sertr o co- Depois, examinando com atensdo aquilo gito, ergo sum, o princ@iofundamsntol do que eu era, e vendo que podia fingir que ndo cartssionismo. possuia nenhum corpo, e que ndo existia ne- nhum mundo nem nenhum lugar em que eu exis- tisse; mas que nem por isso podia fingir ndo existir; e que, ao contrcirio, do proprio fato de 1 . 0 engano dos sentidos que eu pensava em duvidar do verdade das e o "eu psnso, logo existo" outras coisas, seguia-se,evidentissimamentee Ndo sei se devo ocupar-vos com as pri- certissimamente, que eu existia; quando, se ti- meiras medita<desque vos' Rz; porque 5.60 tdo vesse apenas deixado de pensar, ainda que metafisicasee tdo pouco comuns, qua talvez ndo todo o resto daquilo que tinha imaginado ti- sejam do gosto de to do^.^ Todavia, para que vessa sido verdadeiro, eu ndo teria tido nenhu- se possa julgar se os fundamentos que tomei ma razdo de crer que eu existia: a partir disso sdo bastante Rrmes, acho-me, de algum modo, percebi que eu era uma substdncia da qua1 toda constrangido a falar disso. a ess&ncia ou natureza ndo & mais que pensar H6 longo tempo notara que, pelos cos- e qua, para ser, n60 tem necessidade ds ns- tumes, & alguma vez necess6rio seguir opini- nhum lugar e ndo depende de nsnhumacoisa " des, que sabemos ser muito incertas, como se material. De mod0 que este eu, ou seja, a alrna, fossem indubit6veis, segundo j6 falei ~ c i m a ; ~pala qua1 eu sou o que sou, & inteiramenta dis- mas, uma vez que entdo eu desejava dedicar- tinta do corpo e, mais ainda, & mais facil de me unicamente 6 pesquisa da verdade, pen- conhecer do que ale, e, mesmo que ele ndo sei que era preciso fazer tudo o contrario e existisse, ela ndo deixaria de ser tudo aquilo que rejeitasse como absolutamente falso tudo que 6. aquilo em que pudesse imaginar a minima dhvida, com o escopo de ver se depois disso 3 . 0 crithrio da verdade e da certeza me restaria alguma coisa que fosse inteiramen- te indubitavel. Depois disso considerei em geral o que & Assim, corno nossos sentidos alguma vez necess6rio para que uma proposi@o seja ver- nos enganam, quis supor que ndo houvesse dadsiro e carta; porque, do momsnto qus ho- nsnhuma coisa que fosse tal como no-la fa- via encontrado uma que sabia ser tal, pensei zem imaginar. € uma vez qua h6 homens que que deveria igualmente saber em que consists se enganam raciocinando, tamb&m a respei- tal certeza. to das mais simples matbrias de geometria, E tendo notado que nada existe neste su e Fazem para lo gismo^,^ julgando que eu es- penso, logo sxisto, que me assegure que digo tava sujeito a falir como qualquer outro, re- a verdads, a ndo ser que vsjo clarissimomenta jeitei como falsas todas as razdes qua, an- que, para pensar, & preciso ser, julguei poder tes, havia tomado como demonstra@es. €, tomar como regra geral que as coisas que con- finalmente, considerando que todos os mes- cebemos bem claramente e bem distintamente mos pensamentos, que temos quando desper- sdo todas verdadeiras, mas que apenas h6 al- tos, podem vir a nos tambhm quando dormi- guma dificuldade em bem discernir quais sejam mos, sem que haja entdo nenhum que seja as qua concel.xmos distintamente. verdadeiro, resolvi fingir que todas as coisas que jamais haviam entrado em minha mente ndo fossem mais verdadeiras do que as ilusdes de 'Entre outubro de 1628 a julho de 1629. quando esta- meus sonhos. vo no Holanda. Todavia, logo depois, percebi que, en- 'Ou sap, abstratos. 'Isto 6: tSIo difarentes doqu~lo cornurnante se pnsa. qua quanto desse modo eu queria pensar qua tudo 4Quandose deteve a expor a moral pravisor~a. fosse falso, era preciso necessariamente que 5Paralog~srno: grqo: para a logos: contra a rozbo) (do eu, qua pensava isso, fosse alguma coisa. €, raciocin~o errado que a prirne~ra vlsta parece certo.
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    Terceira parte -B a c o ~ Descartes e Rqui Descortes se move ern urn plono bern diferente do "outobiogrdfico"do Discur- E segulda, refletindosobre o fato de que m so, ao passo qua o dialQtico sntre clcjviclo eu duvidavo e que, por conseguinte, meu ser rodical s certezo obsoluta 6 posto sobre urn ndo sra todo perfeito, porque via claramente nivel verdodeiramsnte universal. qua sra perFei<domaior conhecer do que duvi- Nos pdginos saguintes propornos quo- dar, propus-me a buscar onde tivesse aprendi- sa integrolrnente o terceiro meditogtio, sm do a pensar em alguma coisa de mais perfeito que Descortes, a partir do absoluto certezo qua ndo fosse eu, e percebi com evid&ncia que do id&o do eu, demonstro a exist&ncio de devia ser de alguma natureza que no realida- Dsus como Ser perfeito s infinito. de fosse mais perfeita. No que se refere aos pensamentos que eu tinha de muitas outras coisas fora de mim, como do cCu, do terra, do luz, do calor e de mil 1. A regra geral: outras, ndo era muito dificil saber de onde vi- 6 verdadeiro apenas aquilo essem, pelo fato de que, ndo vendo nelas nada que i concebido muito clararnente que me parecesse torn6-las superiores a mim. e distintamento eu podia crer que, se eram verdadeiras, eram Rgora fecharei os olhos, taparei os ouvi- depend6ncias de minha natureza, enquanto ela dos, distrairei todos os meus sentidos, cance- possuia alguma parfei<do;e que se ndo o eram, larei tamb8m de meu pensamento todas as ima- eu as repetia a partir do nada, ou seja, elas gens das coisas corporeas, ou ao menos, uma estavam em mim por aquele tanto que eu era vez que ~sso pods dificilmente ser feito, as con- imperfeito. siderarei vBs e falsas; e assim, entretendo ape- Todavia, ndo podia ser o mesmo a res- nas a mim mesmo e considerando meu interior, peito da idbig de um ser mais perfeito do que procurarei tornar-me pouco a pouco mais co- o meu; porque, que viesse do nada, era coisa nhecido e mais familiar a mim mesmo. Sou urna manifestamsnte impossivel. E uma vez que n6o coisa que pensa, isto 8, que duvida, que afir- h6 menos repugndncia entre que o mais parfei- ma, que nega, que conhece poucas coisas, que to seja uma conseqij&ncia e uma depend&ncia ignora muitas debs, que ama, que odeia, que do menos perfeito, e que do nada proceda al- quer, que ndo quer, que tamb8m imagina, e guma coisa, eu ndo podia sequar t&-la recebi- qua sente. Uma vez que, como notei antes, em- do de mim mesmo: de modo que restava que bora as coisas que sinto e imagino ndo sejam ela tivesse sido posto em mim por urna nature- talvez nada al8m de mim e em si mesmas, eu za que fosse verdadeiramente mais perfeita da- todavia estou seguro de que os modos de pen- quilo que eu n6o fosse e que oli6s tivesss em sar, que chamo de sensa~des imagina<6es, e si todas as perfei@es das quais eu podia ter pel0 Onico fato de qua sdo modos de pensar alguma idbia, ou seja, para explicar-meem uma residem e se encontram certamente em mim. E palavra, que fosse Deus. naquele pouco que eu disse, creio tar reporta- R. Descartes, do tudo aquilo que verdadeiramente sei ou, ao Discurso sobre o m6todo. menos, tudo aquilo que at8 aqui notei saber. Agora considerarei mais exatamente se, talvez, ndo se encontrem em mim outros conhe- cimentos, que eu n6o tenha ainda percebido. Estou certo de ser uma coisa que pensa; mas A "terceira medita@iorr sei eu talvez tamb8m aquilo qua se requer para em torno de Deus tornar-me certo de alguma coisa? Neste primei- ro conhec~mento se encontra nada mais que ndo e de sua exist6ncio uma clara e distinta percep@o do fato de que eu conhqo; percep~do que, para dizer a ver- Pouco depois do publicagGo do Discur- dade, nBo seria suficiente para assegurar-me so sobre o m8tod0, Descartes comsgou a de que ela 8 verdadeira caso pudesse ocorrer escrever sua metofkico de Formo mais om- que se achasse que uma coisa 8 falsa, que eu plo: em 1640 os Meditationes de prima concebesse tdo claramente e distintamente. philosophia em lotim forom completodas, a Portanto, parece-meque j6 possa estabelecer em 164 1 forom publicadas com sais grupos como regra geral, que todas as CO~SOS que con- de objeg6es e respostos. cebemos muito claramente e muito distintamen- te sdo verdadeiras.
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    Capi'tulo de'cimo quinto- Descartes: "o fumdador d a filosofia moderna" - Contudo, aceitei e admiti anteriormente tafisica. Mas, para poder elimina-la inteiramen- como realmente certas e manifestos diversas te, devo examinar se existe um Deus, logo que coisas que, todavia, reconheci depois que eram se apresentar a ocasido; e se acho que exists dljbias e incertas. Quais eram, portanto, essas um, devo tambbm examinar se els pode ser coisas? Cram a terra, o cbu, os astros e todas enganador, uma vez qua, sem o conhecimento as outras coisas que eu percebia por meio de dessas duos verdadss. ndo vejo como eu pos- meus sentidos. Ora, o que eu concebia clara- sa jamais estar certo de alguma coisa. E, a fim mente e distintamente nelas? Nada mais que de que possa tar ocasido de examinar isso, sern isto: que as idbias ou os pensamentos dessas interromper a ordem de meditar que me pro- coisas se apr8sentavam ao meu espirito. E tam- pus, que Q a ds passar por graus das no@es bbm agora ndo nego que tais idbias se encon- que encontrei em primeiro lugar em meu espiri- trem em mim. Mas outra coisa ainda eu afirma- to, para aquelas que podarei encontrar em se- va, que, por causa do h6bito que tinha de nela guida, 6 preciso aqui que eu divida todos os crer, eu pensava perceber muito claramente, meus pensamentos em certos gbneros, e que embora, na verdade, de fato ndo a percebes- considere em quais dessas gbneros se sncon- se, lsto 6, que ex~stiam coisas fora de mim, de tre propriamente verdade ou erro. onde procediam tais idbias, e 6s quais elas eram em tudo semelhantes. E era nisso que eu me enganava; ou, se tambbm julgava segundo 2. As tr& espbcies dr idbias: a verdade, nenhum conhecimento era causa do inatas, adventicias, Facticias verdade de meu julgamento. Entre meus pensamentos, alguns sdo co- Todavia, quando eu considerava alguma mo as imagens das coisas, e a elas apenas coisa como bastante simples e f6cil a respaito convbm propriamente o nome de id&ia: como da aritmbtica e da geometria, por exemplo, que quando me represento um homem, ou uma qui- dois e trgs, somados, produzem o nljmero cinco, mera, ou o cbu, ou um anjo, ou o proprio Deus. e outras coisas semelhantes, ndo as conceb~a Outros t&m tambbm outras formas: assim, quan- eu ao menos bastante claramente para afirmar do quero, temo, afirmo ou nego, concebo 0190 que eram verdadeiras? De fato, se depois jul- como objeto do ato de meu pensamento, mas guei que se podia duvidar destas coisas, ndo acrescento tambbm outro, por meio desta asdo, foi por outra razdo, sendo porque me vinha em d idbia daquela coisa; e deste g&nero de pen- mente que, talvez, algum Deus tinha podido dar- samentos, uns sdo chamados vontade ou afei- me uma natureza tal que me enganasse tam- ~ d e se os outros, julgamentos. , bbm sobre as coisas que me parecem as mais Ora, quanto ao que concerne 6s idbias, manifestas. Mas, todas as vezes que esta opi- se n6s as consideramos apenas em si mesmas, nido, acima concebida, da soberana pot&nc~a de sem report6-lasa outra coisa, elas ndo podem, um Deus, se apresenta ao meu pensamento,sou falando propriamente, ser falsas; uma vez que, forqxJoa confessor que Ihe 6 fbc~l, o desejar, se mesmo que imaginando uma cobra ou urna qui- fazer a seu capricho com que eu me engane tam- mera, imagino uma ndo menos que a outra. bbm sobra coisas que crelo conhecer com Igualmente, n6o 6 preciso temer falsida- grandissima evid&ncia.E, ao contrbrio, todas as de nas afeisbes ou vontade; porque embora vezes que me volto para as coisas que penso eu possa desejar coisas m6s, ou tambbm coi- conceber multo claramente, estou de tal forma sas que jamais existiram, todavia nem por isso persuadido delas que por mim mesmo me deixo 6 menos verdade que eu as desejo. arrastar a estas palavras: "Engane-me quem Restam assim apenas os julgamentos, nos puder: jamais poder6 fazer que eu ndo seja quais devo atentar acuradamente para ndo me nada, enquanto eu pensar ser alguma coisa; ou enganar. Ora, o erro principal e mclis ordinbrio que um dia seja verdadeiro que eu jamais tenha que se possa encontrar consiste nisso, que eu existido, sendo verdadeiro agora de que existo; julgo que as idbias, que est6o em mim, sejam ou ant60 que do~s tr&s, somados, d&em mais e semelhantes ou conformes a coisas que estdo ou menos do que cinco, ou coisas semelhantes, fora de mim; uma vez que certamente, se consi- que vejo claramente ndo poder ser de outro derasse as idbias somente como modos ou modo de como as concebo". maneiras de meu pensamento, sem quer&-las De fato, uma vez que ndo tenho nenhuma reportar a outra coisa, bem dificilmente pode- razdo de crer que exista um Deus enganador, riam dar-me ocas~do errar. de ou melhor, urna vez que ainda ndo considerei Ora, destas idbias, algumas me parecem as razdes que provam existir um Deus, a razdo nascidas comigo [innotos],outras estranhas e de duv~dar depende apenas desta opinido que vindas de fora [odvsntitios],outras ainda fei- b muito inconsistents e, por assim dizer, me- tas e inventadas por mlm mesmo [Foctitios].Com
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    j2 Terceira parte - Bacon e Descartes efeito, a faculdade de conceber uma coisa, uma virtudes e os vicios, que elas me Ievaram ndo verdade, ou um pensamento, parece ndo provir menos ao ma1 do que ao bem; e eis por que de outra coisa do que de minha natureza; mas ndo tenho razdo de segui-las nem mesmo na- se ouso agora algum rumor, se vejo o sol, se qu~lo que se refere ao verdadeiro e ao falso. sinto calor, at6 agora julguei que estas sensa- E quanto b outra razdo, isto 6, que estas (;des proviessem de coisas existentes fora de idbias devem vir de outro lugar, uma vez qua mim; a, por rim, parece-me que as sereias, os n60 dependem de minha vontade, nem mesmo hipogrifos a todas as outras quimeras semelhan- esta julgo convincente. Porque, como as incli- tes sejam fiqdes e inven@es de meu espirito. na~des, que falava justamente agora, se de Mas igualmente, talvez, poderia persuadir-mede encontram em mim, embora ndo concordem que todas estas idbias sejam do g$nero das que sempre com minha vontade, assim pode ser que chamo de estranhas, e que v6m de fora, ou en- em rnim haja alguma faculdade ou pot&nc~a, tdo que tenham todas nascido comigo, ou ainda adsquado a produzir estas idbias sem o auxi- que tanham sido todas feitas por mim, uma vez lio de coisas exteriores, mesmo que ela ainda que ainda ndo descobri claramente sua verda- ndo me seja conhecida; como, com efeito, sem- deira origem. E o que tenho principalmente a pre me pareceu at6 agora que, quando eu dur- facer neste lugar 6 consideror,em rela~do id& as mo, elas se formem em mim, sem o auxilio dos as que me parecem vir de objetos postos fora objetos que representam. E, finalmente, mes- de mim, quais sdo as razdes que me obrigam a mo que concordasse que elas sdo produzidas cr&-lassemelhantes a estes objetos. por estes objetos, n60 6 uma consequ6ncia necessdria que etas devam ser semelhantes a eles. Ro contrdrio, frequentemente notei, em 3. Exame das idbias que parecem adventicias muitos exemplos, que havia grande diferen~a R primeira dessas razdes 6 que parece- entre o objeto e sua id6ia. Como, por exemplo, me que isso me seja ensinado pela natureza; e encontro em meu espirito duos idbias do sol de a segunda, que experimento em rnim mesmo, fato d~versas: uma tem sua origem a partir dos que estas idbias ndo dependem de minha von- sentidos, e deve ser posta no g&nero daque- tade; porque frequentemente elas se apresen- las que acima eu disse virem de fora (e em tal tam a rnim malgrado eu mesmo, como agora, id6ia o sol me parece extremamente peque- quer eu queira ou ndo, sinto calor, e por esta no); a outra 6 tomada das razdes do astrono- razdo me conven5o de que esta sensa@o, ou mia, ou seja, de certas no~des que nasceram entdo esta id6ia do calor, 6 produzida em mlm comigo, ou, por fim, 6 formada por rnim mesmo, por urna coisa deferente de mim, lsto 6, pelo de qualquer modo que isso possa ser: e por calor do fog0 junto ao qua1 me encontro. E ndo esta id6ia ele me parece diversas vezes maior vejo nada que me parqa mais razodvel que o do que toda a terra. De fato, estas duos id6las julgar que esta coisa estranha envia e lmprime que concebo do sol ndo podem ser ambas se- em mim, mais que outra coisa, uma imagem melhantes ao mesmo sol; e a razdo me mostra semelhante a si. que a que pareca derivar imediatamente dele Ora, 6 necessdrio que eu veja se estas 6 a que Ihe 6 mais dessemelhante. razdes sdo bastante fortes e convincentas. Tudo isso me faz conhecer com sufici6ncia Quando digo que me parece que isso me seja que at6 agora, nZlo por u juizo certo e preme- m ensinado pela natureza, entendo apenas, com ditado, mas apenas por cego e temerdrio im- esta palavra natureza, certa inclina@50que me pulse, acreditei hover coisas fora de mim e di- leva a crer esta coisa, e ndo urna luz natural ferentes de meu ser, que, para os orgdos de que me f a ~ a conhecer que ela 6 verdadeira. meus sentidos, ou por qualquer outro meio, Ora, estas duos coisas diferem muito entre si. enviavam em mim suas idbias ou imagens, e ai porque eu ndo saberia p6r em duvida nada imprimiam suas semelhanqs daquilo que a luz natural me faz ver que 6 ver- dadeiro, assim como eta me fez ver que, pelo fato de eu duvidar, podia concluir que existia. E 4. Aquilo que 6 mais perfeito eu ndo tenho em mim nenhuma outra faculda- n60 pode ser consequ8ncia de ou pothcia, para distinguir o verdadeiro do do menos perfdto falso, que me possa snslnar que aquilo que Contudo, apresenta-se ainda outro cami- esta luz me mostra comoverdadeiro ndo 6 tal, e nho para pesquisar se, entre as coisas cujas da qua1 possa me fiar tanto como desta. Mas, idhias tenho em mim, haja algumas que exis- por aquilo que se refere B inclina@as, que me p- s tam fora de mim. lsto 6 , se estas idhias sdo recem ser naturais tamb6m etas, frequentemente consideradas apenas enquanto sdo certas ma- notei, quando se tratou de escolher entre as neiras de pensar, eu ndo reconhe~o entre elas
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    Capitulo de'cimo quinto- Descavtes: "o fundador d a filosofia moderna" nenhuma diferen~a desigualdade, e todas ou Mas, enfim, o que concluirei de tudo isso? 0 parecem proceder de mim de um mesmo modo; seguinte: que, se a realidade objetiva de algu- mas, considerando-ascomo imagens, das quais ma de minhas idhias & tal que eu conhesa cla- umas representam urna coisa e as outras uma ramente que ela nbo @st6em mim, nem for- outra, & ev~dente que elas sdo diferentissimasmalmente, nem eminentemente, s qua, por umas das outras. Porque, com efeito, as qua me consaqu&ncia, eu memo ndo posso ser sua representam substdncias sdo sem duv~da algu- causa, dlsso segue necessariamente que eu ma coisa a mais, e cont&m em si (por asslm ndo estou sozinho no mundo, mas que ha ain- dizer) maior realidade objetiva, isto 6, partici- da alguma outra coisa que existe, e que & a pam por representa<dode um nljmero maior de causa desta idQia; enquonto que, ss em mim graus de ser ou de perfei~do, que aquelas do tal idBia n60 se encontra, nbo tere~ argumen- que me representam apenas modos ou aciden- tos que possam me convencer e tornar certo da tes. RI&m disso, aquala pela qua1 eu concsbo existgncia de alguma outra coisa albm ds rnim um Deus soberano, eterno, infinito, imut6vel. mesmo; porque procurei acuradamente todos onlsciente, onipotente e criador universal de eles, e at6 agora ndo pude encontrar nenhum todas as coisas que estdo fora de si, tal id&ia, outro deles. digo. tem certamente em si mais realidade ob- Ora, entre estas idbias, al6m da que me jetiva do qua aquelas de que me sdo repre- represento a mim mesmo, da qua1 nbo pode sentadas as subst8ncias flnitas. exist~rnenhuma dljvida, h6 outra, que me repre- senta um Deus; outras, coisas corporeas e ina- Ora, & coisa manifesta por luz natural que deve hover palo menos tanto de rmlidade no nimadas; outras, anjos; outras, an~mais; ou- e causa ef~c~ente tras, enfim, que me representam homans e total, quanto em seu efeito: por- qua, de onde o efeito pode tirar sua realidade, semelhantss a mirn. Mas para aquilo que se sendo da propria causa? E como esta causa pode- refere bs idhias que me representam outros ria comunica-la, se ndo a tivesse em si mesma? homens, ou animais, ou anjos, eu concebo fa- E disso segue ndo somente que o nada cilmente que elas podem ser formadas pela ndo poderia produzir nenhuma coisa, mas tam- mistura e composi@o das outras idbias, que bbm qua aquilo que 6 mais perfeito, isto 6, que tenho das coisas corporeas e de Deus, embora conthm em si maior realidade, ndo pode ser fora da mim ndo existam outros homsns no consequ$ncia e depend&ncia do menos perfei- mundo, nem animais, nem anjos. E por aquilo to. E esta verdade ndo & somente clara e evi- que se refere 6s idhias das coisas corpbreas, dente nos efeitos, que t&m aquela realidade ndo reconhqo nelas nada de tdo grande, nem que os filosofos chamam atual ou formal, mas de tdo excelente, que n8o me parep poder vir tamb&m nos idbias, onde se considera somen- de mim mesmo; porque, se as consider0 mais te a realidade que ales chamam de objetiva de perto, e as examino do mesmo modo com [. . .]. E, embora possa ocorrer que uma id6ia d& que examinei ontem a idhia da csra, descubro nascimento a outra idbia, isso ndo pode, toda- que ai ndo se encontram sendo pouquissimas vla, ir at& o infinito, mas & precis0 no fim chegarcoisas, que eu conceba claramente e distinta- a uma primeira id&ia, da qua1 a causa seja como mente; isto &, a grandeza, ou seja, a extansdo um modelo ou um original, no qua1 esteja conti- em comprimento, largura e profundidade; a fi- do formalmente e de fato toda a realidade ou gura, que 6 formada pelos termos s pelos limi- perfei~do, se sncontra apenas objetivamen- que tes dessa extensbo; a situa@o, que os corpos te ou por representa@onestas idbias. De modo diversamente flgurados conservam entre si; e o que a luz natural me faz conhecer evidentemente movimento ou a mudanp dessa situa<do; bs que as idbias sdo em mirn como quadros, ou quais se podem acrescentar a substdncia, a imagens, que podem, na verdade, facilmente dura@o e o n6mero. [...I decair do perfei@o das coisas de onde foram Quanto 6s idhias claras e distintas que t~radas, mas que n60 podem conterjamais nada tenho das coisas corporeas, h6 algumas qus de maior ou de mais perfeito. parece que eu tenha podido tirar da id&ia de mlm mesmo, como a id6ia da substdncia, do duraq50, do nljmero, e de outras coisas seme- 5. I3 realidade objetiva de algumas idiias Ihantes. [...] pode ser garantida Por aquilo que se refers bs outras quali- apenas por uma causa diferente dades, das quais s6o compostas as idbias das do sujeito pensante coisas corporeas, isto &, a extensdo, a figura, a E quanto mais longa e acuradamente exa- sltua<do e o movimento local, & verdade que mino todas essas coisas, tanto mais clara e d ~ s - elas ndo estdo formalmente em mim, urna vez tintamente conhqo que elas sdo verdadeiras. que su sou apenas urna coisa que psnsa; mas,
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    Terceira parte -Bacon e Descartes uma vez que sdo somente modos da substdn- quer outra, ndo ha nenhuma qua por si seja cia, e como que as vestes sob as quais a subs- mais verdade~ra, nern que possa ser menos tdncia corporea nos aparece, e eu mesmo sou suspeita de erro e de falsidade. urna subst6ncia, parece que possam estar con- R id&ia, digo, deste ser soberanamente tidas am mim de modo eminente. perfeito e infinito & inteiramenteverdadeira; uma vez que, embora, talvez, se possa fingir que tal ser ndo exista, ndo se pode fingir, todavia, que 6. Deus, enquanto substencia infinita, exists, sua idbia ndo me represente nada de real, como e a id6ia de Deus como Ser perkito j6 disse a respeito da id&~a frio. do 6 inteiramente verdadrira Esta mesma id&ia & tambhm surnamente Resta, portanto, apenas a id&ia de Deus, clara e distinta, uma vez que tudo aquilo que na qua1 & preciso considerar se haja 0190 que meu espirito concebe claramente e distintamen- ndo tenha podido vir de mim mesmo. Com o te de real e de verdadeiro, e que contbm em si nome de Deus entendo uma substdncia infini- alguma perfei~do, @st6 contido e encerrado in- to, eterna, imut6ve1, independente, onisciente, teiramente nesta idQia. onipotente, e da qua1 eu masmo, e todas as E isto ndo deixa de ser verdadeiro, em- outras coisas que existem (se & verdade que bora eu ndo compreenda o infinito, e ainda que haja de existentes), fomos criados e produzi- se encontre em Deus uma infinidads de coisas dos. Ora, estas prerrogativas sdo tdo grandes que ndo posso compreender, e talvez nern mes- e tdo eminentes, que quanto mais atentamen- mo atingir de algum mod0 com o pensamento: te as considero, menos me persuado de que a porque & do natureza do ~nfinito minha na- que id&ia que disso tenho possa tirar sua origem tureza, qua& finita e limitada, ndo o possa com- apenas de mim. E, por consequhncia, & preciso preender; e basta que eu compreenda isto, e necessariamente concluir, de tudo aquilo que que julgue que todas as coisas que concebo eu disse antes, qua Deus existe; uma vez qua, claramente, e nos quais sei que h6 alguma per- embora a id& da substdncia esteja em mim fei<do, e talvez tamb&m uma infinidade de ou- pelo proprio fato de que sou uma substdncia, tras que ignoro, existem em Deus formalmente eu nZlo teria, todavia, a id&ia de uma substdn- ou eminentemente, para que a idhia que dele cia infinita, eu que sou um ser finito, se ela ndo tenho seja a mais verdadeira, a mais clara e a tivesse sido posta em mim por alguma subs- mais distinta de todas aquelas que existem em tdncia verdadeiramente infinita. meu espirito. Nem devo supor conceber o infinito, ndo Mas & possivel tamb6m que eu seja algu- por meio da urna verdadeira id&ia, mas ape- ma coisa a mais que ndo imagino, e qua todas as nas por meio da nsga~do daquilo que & finito, perfei@es que atribuo d natureza de um Deus assim como compreendo o repouso e as trevas estejam de algum modo em mim em potancia, por meio da nega~do movimento e da luz: do embora ndo se produzam ainda, e ndo se tor- uma vez qua, ao contrario, vejo manifestamen- nern manifestas por meio de suas agies. [...] te que se encontra mais realidads na substdn- cia infinita do que na substdncia finita, e por- tanto que, de certo modo, tenho em mim 7. As consequ6ncias absurdas primeiro a no@o do infinito do que do finito, que derivam da hipotese isto 6 , primeiro a noc;do de Deus do que a no- de que Deus n60 exista <do de mim mesmo. Porque, como poderia co- Cis por que quero aqui [. .Iconsiderar se nhecer que duvido e que desejo, isto 6 , que eu mesmo, que tenho esta idQiade Deus, po- me falta alguma coisa, e que n6o sou total- deria existir, caso Deus ndo existisse. E pergun- mente perfeito, se ndo tivesse em mim nenhu- to: de onde tiraria minha existhncia?Talvez de ma id&iade um ser mais perfeitodo que o meu, mim mesmo, ou de meus genitores, ou entdo de cuja compara@5oiria reconhecer os defeitos de outras causas menos perfeitas do que Deus, de minha natureza? porque nada se pode imaginar de mais perfei- Nem se pode dizer qua, talvez, esta id&ia to, e nern mesmo igual a ele. de Deus 6 materialmente falsa, e que, por con- Ora, se eu fosse independente de qual- seguinte, eu a posso tirar do nada, isto &, que quer outro, e fosse eu mesmo o autor de meu ela pode se encontrar em mlm porque me falta ser, certamente ndo duvidaria de coisa nenhu- alguma coisa, como disse acima a respeito das ma, n6o conceberia mais desejos, e por fim ndo idhias do quente e do frio, e de outras coisas me faltaria nenhuma perfei@o; porque ter- semelhantas: porque, ao contrdrio, sendo esta me-la dado eu mesmo todas aquelas de que id&ia suficientemente clara e distinta, e conten- tenho em mim alguma idbia, e assim eu seria do em si mais realidade objetiva do que qual- Deus.
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    32$ Capitdo de'cimo quinto - Descartes: "0 fr*rdador d a filosofia vnoderna" E eu ndo devo imaginar que as coisas que virtude de ser e de existir por si, deve tambCm me faltam sejam mais dificeis de adquirir do que ter, sem dljvida, a pothncia de possuir atual- aquelas de que j6 estou em posse: porque, a0 mente todas as perfeiqks das quais concebe contr6rio. & certissimo que foi rnuito mais-dificil as idbias, isto &, todas as que eu concebo ha- que eu, isto 8, urna coisa ou subst6ncia ver em Deus. Pois, se ela tira sua exist&ncia de pensante, tenha saido do nada, daquilo que alguma coisa diferente de si, perguntar-se-6de ndo me seria o adquirir os lumes e os conheci- ~nicio,pela mesma razdo, desta segunda causa, mentos de diversas coisas que Ignoro, e que se existe por si ou por obra de outros, at& qua, sdo apenas acidentes desta subst6ncia. E as- de grau em grau, se chegue a uma ljltima causa, sim, sem dificuldade, se me tivesse dado eu que se descobrir6 ser Deus. E 6 muitissimo claro mesmo aquele mais do qua1 falei, isto 6, se que nisso ndo pode haver progress0 at& o in- fosse o autor de meu nascimento e de m~nha finito, visto que ndo se trata tanto, aqui, da ex~st&ncia, me teria privado a0 menos das ndo causa que me produziu outra vez, quanto da coisas que sdo de mais f6cil aquisi~do, isto 6, que me conserva presentemente. [. . .] de muitos conhecimentos de qua minha nature- No que se refere a meus genitores, dos za est6 privada; n6o me teria privado sequer quais parece que eu tire rneu nascimento, m a - de nenhuma das coisas que estdo contidas na mo se tudo aquilo qua jamais pude crer seja id&ia de Deus, porque ndo h6 nenhuma que verdadeiro, isso, todavia, n6o faz com que se- me parqa de mais dificil aquisi~do; se hou- e jam eles que me conservem, e que me tenham vesse alguma, certamente ela me pareceria tal feito e produzido enquanto coisa que pensa, pois (suposto que eu tivesse por mim todas as ou- eles apenas colocaram algumas disposi@es tras coisas que possuo), porque experimenta- naquela mathria, na qua1 julgo que eu, isto 6. ria que minha pot&nc~a nela teria sau termo, e meu espirito, que so tom0 agora por mim mes- ndo seria capaz de ai chegar. mo, se encontre encerrado; s, portanto, ndo pode E embora eu possa supor que talvez te- haver aqui a respeito deles alguma dificuldade; nha sempre existido como existo agora, nem mas & preciso necessariamente concluir que, por isso saberia evitar a for~a deste raciocinio, pelo ljnico fato de que eu existo, e qua a id6ia deixar da crer necessario que Deus seja o au- de um ser soberanamente perfeito (isto &, de tor de minha exist&ncia. Uma vez que todo o Deus) est6 em mim, a exist&ncia de Deus fica, tempo de minha vida pode ser dividido em urna de modo multo evidente, demonstrada. infinidads de partes, coda uma das quais ndo depende de modo nenhum das outras; mas do 8. A idiia ds Deus 6 inata no homsm fato de que um pouco antes eu tenha exlstido ndo se segue que eu deva existir agora, a me- Resta-meapenas examinar de que modo nos que neste momento alguma causa me pro- eu tenha adquirido esta id&ia, pois n6o a rece- duza e me crie, por assim dizer, desde o inicio, b~por meio dos sentidos, e jamais ela se ofe- isto &, me conserve. [...I receu a mim contra minha expectativa, como Ora, n6o poderia ocorrer que aquele ser, ocorre com as idbias das coisas sensiveis, quan- do qua1 eu dependo, ndo seja aquilo que cha- do estas se apresentam, ou parecem apresen- mo Deus, e qua eu seja produzido, ou pelos tar-se, aos orgdos exteriores de meus sentidos. meus genitores, ou por outras causas menos €la ndo & sequer pura produ@o ou fic~do de perfeitas do que Deus? Bem longs disso, a coi- meu espirito, porque ndo est6 em meu poder sa ndo pode ser assim. Porque, como j6 d~sse tirar ou acrescantar alguma coisa a ela. E, por antes, 8 evidentissimo que deve haver ao me- conseguinte, ndo resta outra coisa a dizer, a nos tanta realidode no causa quonto no seu ndo ser que, como a idbia de mim mesmo, ela efeito. Portanto, urna vez qua sou uma coisa nasceu e foi produzida comigo, desde quando que pensa, e tenho em mim alguma id&ia de fui criado. Deus, seja qua1 for enfim a causa que se atri- E, sem dljvida, ndo se deve achar estra- bua b minha natureza, 8 preciso necessariamen- nho que Deus, criando-me, tenha posto em mim te confessar que ela deve igualmente ser uma esta idbia, para que fosse como a marca do coisa que pensa, e deve possuir em si a id&ia oper6rio impressa em sua obra; e ndo 6 se- de todas as perfeiq3es que atribuo 2.1 natureza quer necess6rio que esta marca seja 0190 de divina. Depois, pode-se desde o inicio procurar diferente dessa mesma obra. Mas do fato ape- se esta causa deriva sua origem e sua exist&- nos que Deus me criou, & bastante crivel que cia de si mesma ou de alguma outra coisa. Uma ele me tenha de algum modo produzido 2.1 sua vez que, se @laderiva de si mesma, disto se- imagem e semelhanp, e que eu conceba esta gue-se, pelas razdes que aclma aleguei, que semelhanp (na qual a id6ia de Deus se acha ela propria deve ser Deus; com efeito, tendo a contida) por meio da mesrna faculdade com a
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    ' j6 Terceira parte - Bacon e Descartes qua1 concebo a mim mesmo: isto C, que quan- De onde resulta com evid&ncla suficiente do eu reflito sobre mim, ndo somente conheso que ele ndo pode ser enganador, pois a luz ser uma coisa ~mperfeita, mcompleta e depen- natural nos ensina que o engano depende ne- dents de outros, que tende e que aspira sem cessariamente de algum defelto. parar a qualquer coisa melhor e maior do que Mas, antes que eu examine isto mais acu- eu seja, mas conhe~o tambbm, ao mesmo tem- radamente, e que passe a considera<do das po, que aquele, do qua1 dependo, possui em outras verdades que se possam reunlr, parece- si todas as grandes coisas 6s quais aspiro, e me muito a proposito parar algum tempo na das quais encontro em mim as idbias; e que as contempla@odeste Deus perfeltissirno,ponde- possui, ndo indefinidamente e apenas em po- rar 6 vontade seus marovilhosos atrlbutos, con- tcncia, mas as g o em efeitos, atualmente e ~ ~ siderar, admirar e adorar a incompardvel be- infinitamente e, portanto, que C Deus. E toda a leza desta imensa luz, ao menos tanto quanto for~a argumento, do qua1 aqui usei para pro- do puder permiti-lo a forp de meu espirlto, que var a exist&nciads Deus, consiste nisso, que eu com isso permanece de certo modo deslum- reconheg.~ que ndo seria possivel que mlnha brado. natureza fosse tal qual6, isto 6 , que tivesse em Uma vez que, como nos ensina a fC, a mim a idCia de um Deus, se Deus verdadeira- soberana felicidade da outra vida consiste tdo- mente ndo existisse; aquele mssmo Deus, digo, somente nesta contempla@o do divina Majes- a idbia do qua1 est6 em mim: isto C, que possui tade, assim experimentamos desde agora que todas as altas perfei@es, das quais nosso espi- tal medita@o,embora incomparavelmente me- rto pode bem ter alguma idCia, ssm todavio nos perfeita, nos f ~ gozar a maior alegr~a z de compreend&-lastodas; que ndo est6 sujelto e que somos capazes nesta vida. ndo tem nenhum defeito; que ndo tem nenhuma R. Dsscartss. das coisas que indicam alguma imperfei@o. Msdito@es metoffsicas, I II.
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    Bibliog&fia do vbdLcne111* Obrasde carater geral -- .- Cap. 1. 0 pensamento humanista renascentista E. Garin, Storia della filosofia italiana, 3 vols., - - . . Einaudi, Turirn 1966; F. Copleston, Storia della filo- Elencarnos aqui uma sCrie de obras de carater geral sofia, 9 vols., Paideia, Brescia 1966-1984; G. De sobre o Hurnanismo e a Renascenqa que contCm, Ruggiero, Storia della filosofia, 13 vols., Laterza, Bari frequenternente, tambCm estudos especificos sobre 1967-1968; L. Geymonat (e colaboradores), Storia autores particulares, e que por este motivo seri bom del pensiero filosofico e scientifico, 6 vols., Garzanti, ter presentes tambCm para os capitulos seguintes, Miliio 1970-1972 (citada a seguir como Geymonat, onde niio seriio, obviamente, repetidas: Storia);E. Cassirer, Storia della filosofia moderna, 4 K. Burdach, Riforma, Rinascimento, Umanesimo, vols., Einaudi, Turim 1971; M. Dal Pra (diretor), Sansoni, Florenga 1935; J. Burckhardt, La ciuilta Storia della filosofia, vols. VII-VIII, Vallardi, Millo del Rinascimento in Italia, introd. de E. Garin, 1975-1976;S. Vanni Rovighi (ecolaboradores),Sto- Sansoni, Florenga 1962;J. Huizinga, L'autunno del ria della filosofia modema dalla riuoluzione scientifica Medioeuo, Sansoni, Florenga 1966; F. Chabod, Studi a Hegel, La Scuola, Brescia 1976; N. Abbagnano, sul rinascimento, Einaudi, Turim 1967; G. Gentile, Storia della filosofia, 4 vols., Utet, Turim 1991 ( oIV I1 pensiero italiano del Rinascimento, Sansoni, Flo- vol. C de G. Fornero e colaboradores). renqa 1968; C. Vasoli, La dialettica e la retorica De particular interesse siio tambCm: nell'Umanesimo, Feltrinelli, Miliio 1968;E. Cassirer, a ) Grande Antologia Filosofica, dirigida por U. Indiuiduo e cosmo nella filosofia del Rinascimento, Padovani e M. F. Sciacca, vols. VI-XVI, Marzorati, La Nuova Italia, Florenqa 1974; W. Dilthey, L'analisi Millo 1988: as introduqbes Qs seg6es antokgicas dell'uomo e l'intuizione della natura. Dal Rinas- cimento a1 secolo XVIII, La Nuova Italia, Florenga particulares s5o cuidadas por especialistas no as- 1974 ( 2 vols.); C. Vasoli, Umanesimo e Rinasci- sunto; as bibliografias slo muito amplas, e a elas mento, Palurnbo, Palermo 1977;A. G. Debus, L'uo- remetemos aqui de urna vez por todas; mo e la natura nel Rinascimento, Jaca Book, Mil50 6 ) Questioni di storiografia filosofica. La storia della 1982; G. B. Schrnitt, Problemi dell'aristotelismo filosofia attrauerso i suoi interpreti, La Scuola, Bres- rinascimentale,Bibliopolis, Nipoles 1985; C. Vasoli, cia 1974-1976, em 6 vols. (aqui interessa-nos o se- Filosofia e religione nella cultura del Rinascimento, gundo, sob a organizaqiio de V . Mathieu, Dall'uma- Guida, Nipoles 1988; L. M. Batkin, Gli umanisti nesimo a Rousseau, citado de agora em diante italiani. Stile di vita e di pensiero, Laterza, Roma-Bari simplesmente como Questioni). 1990; P. Zambelli, L'ambigua natura della magia, Instrumentos uteis para consulta G o , por fim: En- I1 Saggiatore, Miliio 1991. Para a historia das inter- ciclopedia filosofica, sob a direqiio do Centro di pretaqbes: W. K. Ferguson, I1 Rinascimento nella Studi Filosoficidi Gallarate, Sansoni, Florenqa 1967- critica storica, I1 Mulino, Bolonha 1969, e F. Ador- 1969; e a agil Enciclopedia Garzanti di filosofia (e no, Umanesimo e Rinascimento, in Questioni, cit., logica, linguistica, epistemologia, pedagogia, psico- pp. 9-57. logia, psicoanalisi, sociologia, antropologia c u h - D6-se particular atenqlo, neste volume, as teses de rule, religioni, teologia), sob a direqiio das Redazioni Kristeller e de Garin. Do primeiro vejam-se: P. 0. Garzanti, com a consultoria geral de G. Vattimo Kristeller, La tradizione aristotelica nel Rinasci- em colaboraqiio com M. Ferraris e D. Marconi, mento, Antenore, Pidua 1962;La tradizione classica Garzanti. Miliio 1994. nel pensiero del Rinascimento, La Nuova Italia, Flo- renqa 1965; Otto pensatori del Rinascimento, Ricciardi, Miliio-Nipoles 1970; Concetti rinasci- 'Para a presente bibliografia nHo nos propusemos, ob- mentali dell'uomo e altri saggi, La Nuova Italia, viamente, nenhuma pretensao de ser completes, mas pro- Florenqa 1978. Do segundo: E. Garin, La cultura curamos fornecer uma plataforma de partida suficiente- mente ampla para qualquer aprofundamento posterior filosofia del Rinascimento italiano, Sansoni, Floren- sirio. ga 1961; Ritratti di umanisti, Sansoni, Florenqa Foram excluidas, de proposito, citagbes de revistas. 1967, e, todos editados por Laterza, Bari: L'educa- 0 s volumes elencados estHo todos exclusivamente em lin- zione in Europa (1400-1600), 1976; Rinascite e gua italiana: C por isso que nunca indicamos, para os au- riuoluzioni. Mouimenti culturali dal XIV a1 XVIIl tores estrangeiros, que se trata de tradu@5es. secolo, 1976; Medioeuo e Rinascimento, 1980;
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    318 B ~ L l i o ~ r a f d a t e r c c i r a volume io L'Umanesimo italiano, 1981; Scienza e vita civile direqiio de), Marsilio Ficino e il ritorno di Platone. nel Rinascimento italiano, 1980; La cultura del Studi e documenti, Florenqa 1986. Rinascimento. Profilo storico, 1981; Lo zodiaco Para Pico: E. Garin, G. Pico della Mirandola, Le della vita. La polemica sull'astrologia dal Trecento Monnier, Florenqa 1937; G. Di Napoli, G. Pico della a1 Cinquecento, 1982; L'uomo del Rinascimento, Mirandola e la problematica dottrinale del suo tem- 1988 (deste ultimo volume Garin n5o C autor, mas po, DesclCe, Roma 1965; P. Zambelli, L'apprendista organizador). stregone. Astrologia, cabala e arte lulliana in Pico della Mirandola e seguaci, Marsilio, Veneza 1995. Cap. 2. 0 s debates sobre problemas morais e o Neo-epicurismo Cap. 4. 0 Aristotelismo renascentista Para os autores que slio tambCm, ou sobretudo, li- - - e a revivescincia do Ceticismo - --- - teratos, remetemos a uma boa historia da literatura Textos italiana. Aqui nos ocuparemos dos pensadores de Pomponazzi: Tractatus de immortalitate animae, interesse mais especificamente filos6fico. texto latino em paralelo, sob a direqao de Morra, Textos Manni e Fiammenghi, Bolonha 1954; De fato, de Valla: Scritti filosofici e religiosi, sob a direq5o de libero arbitrio et de praedestinatione, sob a direqzo de R. Lemay, Antenore, Padua 1957. NZo facilmente G. Radetti, Sansoni, Florenqa 1953; Opera omnia, localizivel C P. Pomponazzi, Trattato sull'immor- sob a direqio de E. Garin, Turim 1962. talita dell'anima. I1 libro degli incantesimi, preficio Literatura de R. Ardigo, introduqlo, traduqLo e notas de I. S. I. Camporeale, L. Valla. Umanesimo e filologia, Toscani, Editoriale G. Galilei, Roma 1914. Le Monnier, Florenqa 1972. Montaigne: Saggi, 3 vols., sob a direq5o de V. Enrico, Mondadori, Mil50 1986; Saggi, 2 vols., sob a dire- qZo de F. Garavini, Adelphi, Mil50 1992. Cap. 3. 0 Neoplatonismo renascentista Literatura Textos Para Pomponazzi: B. Nardi, Studi su Pietro Pom- Nicolau de Cusa: Scritti filosofici (com texto latino ponazzi, Le Monnier, Florenqa 1965; A. Poppi, Saggi em paralelo), sob a direq5o de G. Santinello, sul pensiero inedito di P. Pomponazzi, Antenore, Zanichelli, Bolonha (vol. I, 1965; vol. 11, 1980); Pidua 1970; L. Olivieri, Certezza e gerarchia del Opere religiose, sob a direqlo de P. Gaia, Utet, Tu- sapere. Crisi dell'idea di scientificita nell'aris- rim 1971; Opere filosofiche, sob a direqiio de G. totelismo del secolo XVI, Antenore, Pidua 1983. Federici Vescovini, Utet, Turim 1972; La dotta igno- Para Montaigne: A. M. Battista, Alle origini del ranza. Le congetture, sob a direqgo de G. Santinello, pensiero politico libertino: Montaigne e Charron, Rusconi, Mil50 1988; La pace della fede e altri testi, Giuffrk, Mil50 1966; J. Starobinski, Montaigne e il sob a direqiio de G. Federici Vescovini, Cultura della paradosso dell'apparenza, I1 Mulino, Bolonha 1984. pace, Florenqa 1992. Ficino: Teologia platonica (com texto latino em Cap. 5. A Renascenqa e a ReligiBo - paralelo), sob a direqiio de M. Schiavone, 2 vols., - - - - - - Zanichelli, Bolonha 1965. Textos G. Pico della Mirandola: De hominis dignitate, Erasmo de Rotterdam: Elogio della pazzia, sob a di- Heptaplus, De ente et uno, e scritti vari, texto e tradu- req5o de C. Annarratone, Rizzoli, Mil50 1963; Elo- qlo sob a direqgo de E. Garin, Vallecchi, Florenqa gio della pazzia, trad. de T. Fiore, Einaudi, Turim 1942 (nova ed. La Scuola, Brescia 1987); Dis- 1964; I colloqui, sob a direqlo de G. P. Brega, Fel- putationes adversus astrologiam diuinatricem, tex- trinelli, Milao 1967; 1 lamento della pace, sob a di- 1 to e traduqiio sob a direqao de E. Garin, 2 vols., Vallec- reqlo de L. Firpo, Utet, Turim 1967; La formazione chi, Florenqa 1946-1952; Discorso sulla dignita cristiana dell'uomo, sob a direqdo de F. Orlandini dell'uomo, sob a direqiio de A. Tognon, La Scuola, Traverso, Rusconi, Millo 1989; Elogio della follia, Brescia 1987; Opere scelte, sob a direqiio de V. Del sob a direq5o de E. Garin, Mondadori, Mil20 1992. Nero, Theorema, Mil50 1993. Lutero: Scritti politici, tr. de G. Panzeri Saija, intr. e bibl. di L. Firpo, Utet, Turim 1959; Scritti religiosi, Literatura sob a direqlo de V. Vinay, Utet, Turim 1967; Dalla Para Nicolau de Cusa: W. AA., Niccolo Cusano payola alla vita. Scritti spirituali, sob a direqlo de agli inizi del mondo moderno, sob a direq5o de G. U. Brelime e M. Deveno, Citta Nuova, Roma 1984. Santinello, Sansoni, Florenqa 1970; G. Santinello, Calvino: lstituzione de11a religione cristiana, 2 vols., Introduzione a Cusano, Laterza, Roma-Bari 1987; sob a direqso de G. Tourn, Utet, Turim 1971. Id., N. Cusano, em Questioni, cit., pp. 59-96. Para Ficino: P. 0. Kristeller, I pensiero filosofico di 1 Literatura Marsilio Ficino, Sansoni, Florenqa 1953; M. Sobre a Reforma em geral s5o muito boas as sinte- Schiavone, Problemi filosofici in Marsilio Ficino, ses de R. H. Bainton, La Riforma protestante, Marzorati, Mil50 1957; G. C. Genfragnini (sob a Einaudi, Turim 1958, e de J. Lortz-E. Iserloh, Storia
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    Bibliografia do terceiro volume 319 della Riforma (ambas, a primeira protestante e a machiauellismo, La Nuova Italia, Florenp 1980; segunda catdica, com bibliografia). De valor cien- E. Garin, Machiauelli fra politica e storia, Einaudi, tifico bastante notivel C o vol. VI da Storia della Turim 1993. chiesa, dirigida por H. Jedin, a cujas amplas e deta- Para Guicciardini: alCm do volume cit. de U. Spirito, lhadas bibliografias sem duvida remetemos: E. Iser- pode-se ver F. Gilbert, Machiauelli e Guicciardini. loh-J. Glazik-H. Jedin, Riforma e Controriforma Pensiero politico e storiografia a Firenze nel Cin- (XVI-XVII secolo), Jaca Book, Milfo 1975. Ou- quecento, Einaudi, Turim 1970. tras boas sinteses sfo as de M. Bendiscioli: La Rifor- ma protestante, Studium, Roma 1967, e La Riforma Para T. Morus: F. Battaglia, Saggi sull'utopia di T. cattolica, Studium, Roma 1973; e as de H. Strohl, Moro, Zuffi, Bolonha 1949; J. H. Hexter, L'utopia 11pensiero della Riforma, I1 Mulino, Bolonha 1971; di iT: Moro, Guida, Nipoles 1975. G. Martina: La Chiesa nell'eta della riforma, Para Bodin: V. I. Comparato, Bodin, I1 Mulino, Morcelliana, Brescia 1978; M. G. Reardon, I1 pen- Bolonha 1981 (com antologia de textos e biblio- siero religioso della Riforma, Laterza, Roma-Bari grafia); VV. AA., La "Ripublique" di J. Bodin, 1984; J. Delumeau, La riforma. Origini e afferma- Olschki, Florenga 1981. zione, Mursia, Mil50 1988. Para todos esses autores vejam-se, por fim: P. Mes- Sobre a Contra-reforma e a Reforma catdica: H. nard, 11 pensiero politico rinascimentale, 2 vols., Jedin, Riforma cattolica o Controriforma?, Laterza, Bari 1963-1964; G. Fassb, Storia della fi- Morcelliana, Brescia 1974. Fundamental 6 a j i clas- losofia del diritto, 3 vols., I1 Mulino, Bolonha 1968 sics obra, em cinco volumes: H. Jedin, 11 Concilio (vol. 11);G. H. Sabine, Storia delle dottrine politiche, di Trento, Morcelliana, Brescia 1973-1982; mas do 2 vols., Etas Libri, Milfo 1978 (vol. I). Estas duas m e m o autor se pode ver tambCm a mais sintetica ultimas obras devem ser mantidas presentes tam- Breve storia dei Concili, Morcelliana, Brescia 1979. bCm para o pensamento juridic0 e politico dos au- Para a documenta@o se pode ver: Decisioni dei tores tratados nos capitulos sucessivos. Concili Ecumenici, sob a direc;Ho de G. Alberigo, Utet, Turim 1978. Cap. 7. Leonardo, Telbio, Bruno e Campanella Cap. 6. A Renascenca e a Politica ---- - - . Textos Textos Leonardo da Vinci: Scritti letterari, sob a dire@o Maquiavel: Opere, 8 vols., sob a direpiio de S. de A. Marinoni, Rizzoli, Milfo 1974; L'uomo e la Bertelli e F. Gaeta, Feltrinelli, MiHo 1960-1962. natura, sob a d i r e ~ f o M. De Micheli, Mil50 1982; de Guicciardini: Ricordi, sob a direqfo de R. Spongano, Trattato della pittura, sob a direqfo de M. Tabarrini Sansoni, Florenp 1951. e G. Milanesi, Melita, Roma 1984 (restauraqHo anastatica da ediqso de 1890). (Tanto do Principe de Maquiavel como dos Ricordi de Guicciardini existem diversas edicbes escolisticas, Telesio: De rerum natura iuxta propria principia, freqiientemente com bons comentarios). livros I-IV, com texto latino em paralelo, sob a di- T. Morus: Utopia, sob a d i r e ~ f o L. Firpo, Guida, de replo de L. De Franco, 2 vols., Casa del libro Nipoles 1979; Utopia, sob a dire@o de T. Fiore, Editrice, Cosenza 1965-1974; De rerum natura, li- Laterza, Roma-Bari 1982; Thomas More, antolo- vros VII-IX, sob a direqfo de L. De Franco, La gia de textos, sob a direffo de C. Quarta, Cultura Nuova Italia, Florenqa 1976. della pace, Floren~a 1988. Bruno: Dialoghi italiani, com notas de G. Gentile, Bodin: I sei libri dello Stato, sob a d i r e ~ f o M. de sob a direqiio de G. Aquilecchia, Sansoni, Florenp Isnardi Parente, Utet, Turim 1964 (com ampla bi- 1985; Opere latine, sob a direqfo de C. Monti, Utet, bliografia). Turim 1980; De causa, principio et uno, sob a dire- ~ f de A. Guzzo, Mursia, Mil50 1985; Spaccio de o Grotius: Prolegomeni a1 diritto della guerra e della la bestia trionfante, sob a dire@o de M. Ciliberto, pace, sob a direqfo de G. Fasso, Zanichelli, Bolo- Rizzoli, Mil50 1985. nha 1949; Della uera religione cristiana, sob a dire- $50 de F. Pintacuda De Michelis, Laterza, Roma- Bruno e Campanella: Opere, sob a dire~Ho A. de Bari 1973. Guzzo e R. Amerio, Ricciardi, MilLo-Nipoles 1956. Campanella: Del senso delle cose e della magia, sob Literatura a direqfo de A. Bruers, Laterza, Bari 1925; La citta Para Maquiavel: L. Russo, N. Machiauelli, Laterza, del Sole, sob a dire~5o N. Bobbio, Einaudi, Tu- de Bari 1957; G. Sasso, N. Machiauelli. Storia del suo rim 1941; Metafisica, com texto latino em parale- pensiero politico, Istituto Italiano per gli Studi lo, sob a d i r e ~ a o G. Di Napoli, 3 vols., Zanichelli, de Storici, Nipoles 1958 (nova ed. I1 Mulino, Bolo- Bolonha 1967; Apologia per Galileo, com texto la- nha 1980); F. Chabod, Scritti su Machiavelli, tino em paralelo, sob a direqiio de S. Femiano, Einaudi, Turim 1964; G. Sasso, Studi su Machiauelli, Marzorati, Milfo 1971. Morano, Nipoles 1967; U. Spirito, Machiauelli e Guicciardini, Sansoni, Florensa 1968; F. Gilbert, Literatura Machiavelli e la vita culturale del suo tempo, I1 Sobre Leonardo: C. Luporini, La mente di Leonar- Mulino, Bolonha 1974; J. Macek, Machiauelli e il do, Sansoni, Floren~a1953; B. Gille, Leonardo e
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    Bibliografia do terceirovolwwe 321 Cap. 14. Bacon Roma-Bari 1986. S5o numerosas as e d i ~ b e comen- s tadas d o Discurso sobre o me'todo. Textos Literatura Bacon: Opere filosofiche, sob a direggo de E. De Mas, 2 vols., Laterza, Bari 1965; Scritti politici, A. Del Noce, Riforma cattolica e filosofia moder- giuridici e storici, sob a direqiio de E. De Mas, 2 na, vol. I: Cartesio, I1 Mulino, Bolonha 1965; K . vols., Utet, Turim 1971; Scritti filosofici, sob a di- Lowith, Dio, u o m o e mondo da Cartesio a Nietzs- reglo de P. Rossi, Utet, Turim 1975. che, Morano, Napoles 1966; G. Bontadini, Studi di filosofia moderna, La Scuola, Brescia 1966 (a ter pre- Literatura sente at6 Kant); E. Garin, Introduzione a Cartesio, E. De Mas, Francesco Bacone da Verulamio. La fi- Opere, cit.; L. Verga, L'etica di Cartesio, Celuc, losofia dell'uomo, Edizioni di "Filosofia", Turim MilPo 1974; S. Blasucci, La sapienza di Socrate e la 1964; Id., Francis Bacon, La Nuova Italia, Floren- saggezza di Cartesio, Adriatica Editrice, Bari 1974; qa 1978; B. Farrington, E Bacone filosofo dell'eta A . Pavan, All'origine del progetto borghese. 11 industriale, Einaudi, Turim 1967; P. Rossi, Francesco giouane Descartes, Morcelliana, Brescia 1979; An- Bacone. Dalla magia alla scienza, Einaudi, Turim tonio Negri, Descartes politico o della ragionevole 1974; Id., Bacone, e m Questioni, cit., pp. 183-206. ideologia, Feltrinelli, M i l l o 1980; G . Canziani, Fi- losofia e scienza nella morale di Descartes, La Nuova Italia, Florenqa 1980; E. Garin, Vita e ope- Cap. 15. Descartes re d i Cartesio, Laterza, Roma-Bari 1984; C . Crapulli, Introduzione a Descartes, Laterza, Roma- Textos Bari 1988; G. Brianese ( s o b a direqlo d e ) , 11 "Dis- Descartes: Opere, sob a direglo de E. Garin, 2 vols., corso sul metodo" d i Cartesio e il problema del Laterza, Bari 1967; Opere filosofiche, sob a dire- metodo nel X V l l secolo, Paravia, Turim 1988; W. giio de B. Widmar, Utet, Turim 1969; 11 mondo. AA., Descartes: il metodo e i Saggi, 2 vols., Istituto L'uomo, sob a diregiio de M . e E. Garin, Laterza, della Enciclopedia Italiana, R o m a 1990; J . Bari 1969; 1 principi della filosofia, sob a direqzo Cottingham, Cartesio, I1 Mulino, Bolonha 1991. An- de P. Cristofolini, Boringhieri, Turim 1967; Opere tologia da critica: A. Deregibus, Cartesio, e m Que- filosofiche, sob a diregPo de E. Garin, Laterza, stioni, cit., pp. 207-271.