São Paulo, 2017
Tradução, Notas e Posfácio de Carol Chiovatto
Apresentação Adriana Amaral
4
Orgulho e Preconceito:
canônico até na cultura pop
Adriana Amaral
Oque falar sobre a nova tradução de um clássico que já não
tenha sido debatido por críticos e teóricos da literatura? Depois de
muito pensar decidi falar sobre Orgulho e Preconceito, de Jane Aus-
ten, na condição de ACA-FAN ou, nos termos de Henry Jenkins
– teórico da cultura da convergência –, Acadêmica-Fã. Não sou pes-
quisadora de literatura, tampouco de Jane Austen, sou apenas uma
fã do livro e da autora. Pesquiso fenômenos do cotidiano da cultura
pop, dos fãs e sua relação com as mídias e as tecnologias. Alguns po-
dem estar se perguntando: “mas o que Jane Austen teria a ver com
algo tão contemporâneo? Como um romance considerado canôni-
co se tornou tão importante numa época como a nossa?”.
Vivemos um momento cultural interessante e efervescente no
qual fanfics (estórias escritas por fãs) saem da internet e são publi-
cadas em livros, em que universos dos quadrinhos se desdobram
em séries de TV, entre outros exemplos. Percebemos então que a
longevidade de Orgulho e Preconceito reside em muitos fatores que
hoje são pensados a respeito de produtos midiáticos da assim cha-
5
mada cultura pop transnacional. O primeiro deles é a vasta gama de
adaptações, que incluem cinema, TV, teatro, outras obras literárias,
formatos para web, quadrinhos e múltiplas plataformas. Em 2015,
o filme Orgulho e Preconceito e Zumbis (adaptado do livro homô-
nimo) gerou muitas discussões entre fãs de Jane Austen, dividindo
opiniões sobre o quanto esse desdobramento poderia ou não com-
prometer a “obra original”.
Convenções e encontros de fãs, action figures de Mr. Darcy, mu-
seus, souvenires, cosplays e festivais em Bath, adesivos e bolsas I
love Darcy, livros e filmes como Austenland, que celebram a autora
e a obra Orgulho e Preconceito, também são parte desse aparato,
estrategicamente focado na audiência do livro como parte de um
fandom e não apenas como leitores(as) comuns. É um conjunto de
produtos midiáticos que complementam ou dão continuidade ao
livro, extrapolando a questão literária em si mesma, mas que entram
no domínio do colecionismo e da nostalgia.
Para além da obra em si, é como o material dessa paixão dedi-
cada que o livro atravessa gerações e nos faz compreender a vida
das mulheres da família Bennet, através do narrador sob o ponto de
vista de Elizabeth, ou Lizzy, para os íntimos. Compreendemos os
maneirismos e o estilo de vida. Somos apresentadas aos mocinhos e
mocinhas e aos vilões, que no mundo austeniano estão todos presos
dentro das moralidades e dos códigos de condutas severos da socie-
dade britânica do século XVIII.
Mr. Darcy e seus encontros e desencontros com Liz, bem como
os de Mr. Bingley com Jane Bennet, nos mostram a fragilidade das
relações e emoções humanas em meio às regras sociais. Essa intrica-
da rede social de personagens, que hoje poderiam estar postando fo-
tos no Instagram e tecendo comentários no Facebook, tornaram-se,
bem mais adiante, estereótipos. Esses estereótipos foram reforçados
e revisitados em diversas comédias românticas dos anos 80 e 90, por
exemplo, e isso não é necessariamente ruim. É essa “potência dos
clichês”, como argumenta o pesquisador Thiago Soares (2015), que
desvela o imaginário da cultura pop em uma de suas fontes mais ori-
ginais. Nesse fluxo, podemos observar como uma obra hoje clássica
6
da literatura inglesa saiu do território clássico e avançou em direção
à cultura midiática. É desse aparente embate e dessa contradição
que ela talvez extraia sua força, sua longevidade e a universalida-
de que pode ser vista hoje nos mais diversos contextos e ambientes
transculturais, como musicais no Brasil ou doramas coreanos.
Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen dominou a arte do ro-
mance e criou um cânone que viralizou aos milhões muito antes da
internet. Ela deu voz às mulheres da época e retratou as sutilezas
dos amantes dos livros através da protagonista Liz Bennet. Seria ele
então um cânone da cultura pop ou teríamos de pensar um novo
termo para dar conta dessa transmidialidade ao longo dos tempos,
quase avant la lettre, da romancista britânica? São questões a serem
pensadas.
Para mim, no entanto, enquanto houver uma fã de seus livros,
enquanto houver leitores e romances, fofocas e grupos sociais, tia
Jane nos conduzirá pelos diálogos intricados e pela subjetividade
de suas personagens. Ela sedimentou com estilo o caminho e as
bases para aquilo que muitos críticos hoje chamam de Young Adult
e as comédias românticas. Orgulho e Preconceito é tão pop quanto
um álbum de Madonna dos anos 80 ou o snapchat de alguma ce-
lebridade atual. Longa vida à Jane Austen! Longa vida à Orgulho e
Preconceito!
Adriana Amaral possui pós-doutorado em Comunicação, Mídia e Cultura
pela University of Surrey, Reino Unido. É professora do PPG em Comunica-
ção da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e pesquisadora
do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa CULTPOP – Comunicação, Tecnolo-
gias e Cultura Pop. É fã de Jane Austen.
8
Capítulo 1
É uma verdade universalmente reconhecida que um ho-
mem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar à procura de
uma esposa.
Por mais que pouco se saiba acerca dos sentimentos e opiniões
de tal homem quando de sua chegada a uma vizinhança, essa ver-
dade está tão fixada nas mentes das famílias residentes no entorno
que ele é logo considerado como a propriedade legítima de alguma
das filhas dessas pessoas.
– Meu querido Sr. Bennet, você já ouviu falar que Netherfield
Park finalmente foi alugada? – perguntou sua esposa um dia.
O Sr. Bennet respondeu que não.
– Mas foi – ela replicou. – A Sra. Long esteve aqui ainda há
pouco e me contou tudo a respeito.
O Sr. Bennet não respondeu.
– Você não quer saber quem alugou? – sua esposa perguntou,
impaciente.
– Você quer me dizer e não tenho objeção em ouvir.
Aquilo bastava como convite.
– Ora, meu querido, você precisa saber que a Sra. Long falou
que Netherfield foi alugada por um jovem de grande fortuna, vindo
9
do norte da Inglaterra, que ele desceu para cá na segunda-feira
num cabriolé puxado por quatro cavalos, e ficou tão satisfeito com
o lugar que fechou com o Sr. Morris imediatamente, que ele vai
tomar posse antes da Festa de São Miguel, e alguns de seus criados
deverão estar na casa até o final da próxima semana.
– Qual é o nome dele?
– Bingley.
– Ele é casado ou solteiro?
– Ah! Solteiro, meu querido, sem dúvida! Um homem solteiro
de grande fortuna, quatro ou cinco mil por ano. Que coisa ótima
para nossas meninas!
– Por quê? Como isso pode afetá-las?
– Meu caro Sr. Bennet, como você pode ser tão maçante? – tor-
nou sua esposa. – Você deve saber que estou pensando que ele pode
se casar com uma delas.
– Foi com esse desígnio que ele fixou residência aqui?
– Desígnio! Que bobagem, como você pode falar assim? Mas é
muito provável que ele possa se apaixonar por uma delas, portanto
você precisa visitá-lo assim que chegar.
– Não vejo motivo para isso. Você e as meninas podem ir, ou
você pode mandá-las sozinhas para lá, o que talvez seja ainda me-
lhor, pois, como você é tão bonita quanto qualquer uma delas, o Sr.
Bingley pode preferir você.
– Meu querido, você está sendo lisonjeiro. Eu com certeza já tive
alguma beleza, mas não alego ser nada extraordinária hoje em dia.
Quando uma mulher já tem cinco filhas crescidas, ela precisa parar
de pensar em sua própria beleza.
– Em tais casos, uma mulher não costuma ter muita beleza em
que pensar.
– Mas, meu querido, você precisa mesmo ir visitar o Sr. Bingley
quando ele chegar à vizinhança.
10
– Isso é mais do que posso prometer, eu lhe asseguro.
– Mas pense nas suas filhas. Pense só no negócio que isso seria
para uma delas. Sir William e Lady Lucas estão determinados a
ir, só por causa disso, já que, você sabe, eles não costumam visitar
recém-chegados. Você deve mesmo ir, pois será impossível nós o
visitarmos se você não o fizer.
– Você está sendo conscienciosa demais. Ouso dizer que o Sr.
Bingley ficará feliz em vê-las. Mandarei por você algumas linhas a
fim de lhe asseverar de meu caloroso consentimento para se casar
com qualquer uma das meninas que escolher, embora eu deva co-
locar algumas palavras favorecendo minha pequena Lizzy.
– Desejo que você não faça isso. Lizzy não é nem um pouco
melhor que as outras, e tenho certeza de que não tem nem metade
da beleza de Jane, nem metade do bom humor de Lydia. Mas você
sempre dá preferência a ela.
– Nenhuma delas tem muito para recomendá-las – ele replicou.
– São todas bobas e ignorantes, como outras meninas, mas Lizzy
tem uma perspicácia maior que a das irmãs.
– Sr. Bennet, como você pode insultar suas próprias filhas dessa
maneira? Você tem prazer em me irritar; não tem pena dos meus
pobres nervos.
– Você se engana, minha querida. Eu tenho um grande respeito
pelos seus nervos. Eles são meus velhos amigos. Ouvi você mencio-
ná-los com toda a consideração nos últimos vinte anos, no mínimo.
– Ah, você não sabe o que sofro.
– Mas espero que você supere isso e viva para ver muitos jovens
que ganham quatro mil por ano virem morar na vizinhança.
– Não vai adiantar nada para nós se vierem vinte, já que você não
vai visitá-los.
– Confie que, quando forem vinte, eu visitarei a todos, minha
querida.
O Sr. Bennet era uma mistura tão estranha de fragmentos de
inteligência – humor sarcástico, circunspecção e excentricidade –
11
que nem mesmo a experiência de vinte e três anos fora suficiente
para permitir à sua esposa entender sua personalidade. Era menos
difícil compreender a mente dela. Tratava-se de uma mulher de
entendimento abaixo da média, pouca erudição e temperamento
incerto. Quando estava descontente, julgava estar sofrendo dos ner-
vos. O trabalho de sua vida era fazer suas filhas se casarem; seu
consolo, visitas e novidades.
S
egunda obra publicada de Jane Austen,
Orgulho e Preconceito foi terminado em
1797, quando a escritora ainda não tinha
completado 21 anos. Foi lançado em 1813, e
seguiu o sucesso de seu primeiro livro, Razão e
Sensibilidade.
Em Orgulho e Preconceito, Elizabeth Bennet,
segunda de 5 filhas de um proprietário rural
da cidade fictícia de Meryton, lida com os
problemas relacionados à educação, cultura,
moral e casamento na sociedade aristocrática
do início do século XIX, na Inglaterra. Como
em toda a obra de Austen, o texto utiliza de uma
fina ironia para retratar e criticar a hipocrisia
moral da virada dos séculos XVIII e XIX.

Primeiro capitulo orgulho e preconceito

  • 2.
    São Paulo, 2017 Tradução,Notas e Posfácio de Carol Chiovatto Apresentação Adriana Amaral
  • 3.
    4 Orgulho e Preconceito: canônicoaté na cultura pop Adriana Amaral Oque falar sobre a nova tradução de um clássico que já não tenha sido debatido por críticos e teóricos da literatura? Depois de muito pensar decidi falar sobre Orgulho e Preconceito, de Jane Aus- ten, na condição de ACA-FAN ou, nos termos de Henry Jenkins – teórico da cultura da convergência –, Acadêmica-Fã. Não sou pes- quisadora de literatura, tampouco de Jane Austen, sou apenas uma fã do livro e da autora. Pesquiso fenômenos do cotidiano da cultura pop, dos fãs e sua relação com as mídias e as tecnologias. Alguns po- dem estar se perguntando: “mas o que Jane Austen teria a ver com algo tão contemporâneo? Como um romance considerado canôni- co se tornou tão importante numa época como a nossa?”. Vivemos um momento cultural interessante e efervescente no qual fanfics (estórias escritas por fãs) saem da internet e são publi- cadas em livros, em que universos dos quadrinhos se desdobram em séries de TV, entre outros exemplos. Percebemos então que a longevidade de Orgulho e Preconceito reside em muitos fatores que hoje são pensados a respeito de produtos midiáticos da assim cha-
  • 4.
    5 mada cultura poptransnacional. O primeiro deles é a vasta gama de adaptações, que incluem cinema, TV, teatro, outras obras literárias, formatos para web, quadrinhos e múltiplas plataformas. Em 2015, o filme Orgulho e Preconceito e Zumbis (adaptado do livro homô- nimo) gerou muitas discussões entre fãs de Jane Austen, dividindo opiniões sobre o quanto esse desdobramento poderia ou não com- prometer a “obra original”. Convenções e encontros de fãs, action figures de Mr. Darcy, mu- seus, souvenires, cosplays e festivais em Bath, adesivos e bolsas I love Darcy, livros e filmes como Austenland, que celebram a autora e a obra Orgulho e Preconceito, também são parte desse aparato, estrategicamente focado na audiência do livro como parte de um fandom e não apenas como leitores(as) comuns. É um conjunto de produtos midiáticos que complementam ou dão continuidade ao livro, extrapolando a questão literária em si mesma, mas que entram no domínio do colecionismo e da nostalgia. Para além da obra em si, é como o material dessa paixão dedi- cada que o livro atravessa gerações e nos faz compreender a vida das mulheres da família Bennet, através do narrador sob o ponto de vista de Elizabeth, ou Lizzy, para os íntimos. Compreendemos os maneirismos e o estilo de vida. Somos apresentadas aos mocinhos e mocinhas e aos vilões, que no mundo austeniano estão todos presos dentro das moralidades e dos códigos de condutas severos da socie- dade britânica do século XVIII. Mr. Darcy e seus encontros e desencontros com Liz, bem como os de Mr. Bingley com Jane Bennet, nos mostram a fragilidade das relações e emoções humanas em meio às regras sociais. Essa intrica- da rede social de personagens, que hoje poderiam estar postando fo- tos no Instagram e tecendo comentários no Facebook, tornaram-se, bem mais adiante, estereótipos. Esses estereótipos foram reforçados e revisitados em diversas comédias românticas dos anos 80 e 90, por exemplo, e isso não é necessariamente ruim. É essa “potência dos clichês”, como argumenta o pesquisador Thiago Soares (2015), que desvela o imaginário da cultura pop em uma de suas fontes mais ori- ginais. Nesse fluxo, podemos observar como uma obra hoje clássica
  • 5.
    6 da literatura inglesasaiu do território clássico e avançou em direção à cultura midiática. É desse aparente embate e dessa contradição que ela talvez extraia sua força, sua longevidade e a universalida- de que pode ser vista hoje nos mais diversos contextos e ambientes transculturais, como musicais no Brasil ou doramas coreanos. Em Orgulho e Preconceito, Jane Austen dominou a arte do ro- mance e criou um cânone que viralizou aos milhões muito antes da internet. Ela deu voz às mulheres da época e retratou as sutilezas dos amantes dos livros através da protagonista Liz Bennet. Seria ele então um cânone da cultura pop ou teríamos de pensar um novo termo para dar conta dessa transmidialidade ao longo dos tempos, quase avant la lettre, da romancista britânica? São questões a serem pensadas. Para mim, no entanto, enquanto houver uma fã de seus livros, enquanto houver leitores e romances, fofocas e grupos sociais, tia Jane nos conduzirá pelos diálogos intricados e pela subjetividade de suas personagens. Ela sedimentou com estilo o caminho e as bases para aquilo que muitos críticos hoje chamam de Young Adult e as comédias românticas. Orgulho e Preconceito é tão pop quanto um álbum de Madonna dos anos 80 ou o snapchat de alguma ce- lebridade atual. Longa vida à Jane Austen! Longa vida à Orgulho e Preconceito! Adriana Amaral possui pós-doutorado em Comunicação, Mídia e Cultura pela University of Surrey, Reino Unido. É professora do PPG em Comunica- ção da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e pesquisadora do CNPq. Líder do Grupo de Pesquisa CULTPOP – Comunicação, Tecnolo- gias e Cultura Pop. É fã de Jane Austen.
  • 7.
    8 Capítulo 1 É umaverdade universalmente reconhecida que um ho- mem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar à procura de uma esposa. Por mais que pouco se saiba acerca dos sentimentos e opiniões de tal homem quando de sua chegada a uma vizinhança, essa ver- dade está tão fixada nas mentes das famílias residentes no entorno que ele é logo considerado como a propriedade legítima de alguma das filhas dessas pessoas. – Meu querido Sr. Bennet, você já ouviu falar que Netherfield Park finalmente foi alugada? – perguntou sua esposa um dia. O Sr. Bennet respondeu que não. – Mas foi – ela replicou. – A Sra. Long esteve aqui ainda há pouco e me contou tudo a respeito. O Sr. Bennet não respondeu. – Você não quer saber quem alugou? – sua esposa perguntou, impaciente. – Você quer me dizer e não tenho objeção em ouvir. Aquilo bastava como convite. – Ora, meu querido, você precisa saber que a Sra. Long falou que Netherfield foi alugada por um jovem de grande fortuna, vindo
  • 8.
    9 do norte daInglaterra, que ele desceu para cá na segunda-feira num cabriolé puxado por quatro cavalos, e ficou tão satisfeito com o lugar que fechou com o Sr. Morris imediatamente, que ele vai tomar posse antes da Festa de São Miguel, e alguns de seus criados deverão estar na casa até o final da próxima semana. – Qual é o nome dele? – Bingley. – Ele é casado ou solteiro? – Ah! Solteiro, meu querido, sem dúvida! Um homem solteiro de grande fortuna, quatro ou cinco mil por ano. Que coisa ótima para nossas meninas! – Por quê? Como isso pode afetá-las? – Meu caro Sr. Bennet, como você pode ser tão maçante? – tor- nou sua esposa. – Você deve saber que estou pensando que ele pode se casar com uma delas. – Foi com esse desígnio que ele fixou residência aqui? – Desígnio! Que bobagem, como você pode falar assim? Mas é muito provável que ele possa se apaixonar por uma delas, portanto você precisa visitá-lo assim que chegar. – Não vejo motivo para isso. Você e as meninas podem ir, ou você pode mandá-las sozinhas para lá, o que talvez seja ainda me- lhor, pois, como você é tão bonita quanto qualquer uma delas, o Sr. Bingley pode preferir você. – Meu querido, você está sendo lisonjeiro. Eu com certeza já tive alguma beleza, mas não alego ser nada extraordinária hoje em dia. Quando uma mulher já tem cinco filhas crescidas, ela precisa parar de pensar em sua própria beleza. – Em tais casos, uma mulher não costuma ter muita beleza em que pensar. – Mas, meu querido, você precisa mesmo ir visitar o Sr. Bingley quando ele chegar à vizinhança.
  • 9.
    10 – Isso émais do que posso prometer, eu lhe asseguro. – Mas pense nas suas filhas. Pense só no negócio que isso seria para uma delas. Sir William e Lady Lucas estão determinados a ir, só por causa disso, já que, você sabe, eles não costumam visitar recém-chegados. Você deve mesmo ir, pois será impossível nós o visitarmos se você não o fizer. – Você está sendo conscienciosa demais. Ouso dizer que o Sr. Bingley ficará feliz em vê-las. Mandarei por você algumas linhas a fim de lhe asseverar de meu caloroso consentimento para se casar com qualquer uma das meninas que escolher, embora eu deva co- locar algumas palavras favorecendo minha pequena Lizzy. – Desejo que você não faça isso. Lizzy não é nem um pouco melhor que as outras, e tenho certeza de que não tem nem metade da beleza de Jane, nem metade do bom humor de Lydia. Mas você sempre dá preferência a ela. – Nenhuma delas tem muito para recomendá-las – ele replicou. – São todas bobas e ignorantes, como outras meninas, mas Lizzy tem uma perspicácia maior que a das irmãs. – Sr. Bennet, como você pode insultar suas próprias filhas dessa maneira? Você tem prazer em me irritar; não tem pena dos meus pobres nervos. – Você se engana, minha querida. Eu tenho um grande respeito pelos seus nervos. Eles são meus velhos amigos. Ouvi você mencio- ná-los com toda a consideração nos últimos vinte anos, no mínimo. – Ah, você não sabe o que sofro. – Mas espero que você supere isso e viva para ver muitos jovens que ganham quatro mil por ano virem morar na vizinhança. – Não vai adiantar nada para nós se vierem vinte, já que você não vai visitá-los. – Confie que, quando forem vinte, eu visitarei a todos, minha querida. O Sr. Bennet era uma mistura tão estranha de fragmentos de inteligência – humor sarcástico, circunspecção e excentricidade –
  • 10.
    11 que nem mesmoa experiência de vinte e três anos fora suficiente para permitir à sua esposa entender sua personalidade. Era menos difícil compreender a mente dela. Tratava-se de uma mulher de entendimento abaixo da média, pouca erudição e temperamento incerto. Quando estava descontente, julgava estar sofrendo dos ner- vos. O trabalho de sua vida era fazer suas filhas se casarem; seu consolo, visitas e novidades.
  • 11.
    S egunda obra publicadade Jane Austen, Orgulho e Preconceito foi terminado em 1797, quando a escritora ainda não tinha completado 21 anos. Foi lançado em 1813, e seguiu o sucesso de seu primeiro livro, Razão e Sensibilidade. Em Orgulho e Preconceito, Elizabeth Bennet, segunda de 5 filhas de um proprietário rural da cidade fictícia de Meryton, lida com os problemas relacionados à educação, cultura, moral e casamento na sociedade aristocrática do início do século XIX, na Inglaterra. Como em toda a obra de Austen, o texto utiliza de uma fina ironia para retratar e criticar a hipocrisia moral da virada dos séculos XVIII e XIX.