Sergio Augusto Machado de Carvalho e Silva – CRM/SP 61235
Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP
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EXMO SR. DR. JUIZ FEDERAL DA 1ª VARADO RABALHO DE CAMPINAS / SP
Processo: nº 00XXX.2004.00X.1X.00.X
RECLAMANTE : XXXXX XXXX Ferreira
RECLAMADA : XXXXXXX S.A. Industria de alimentos
Sergio A. M. de Carvalho e Silva, médico do trabalho, CRM 61235/SP, nomeado
assistente técnico pela Reclamada, apresenta à V. Exa. Seu parecer técnico e
conclusão. Este parecer contém 16 páginas:
Índice
1 - Introdução ......................................................................................................2
2 - Dados pessoais da Reclamante .....................................................................3
3 - Dados ocupacionais da Reclamante ..............................................................3
4 - Histórico de saúde..........................................................................................4
Das atividades desenvolvidas pela reclamante na reclamada..........................4
Da história da doença reclamada como ocupacional .......................................4
5 – Sobre o laudo pericial ....................................................................................5
(2.7) Exame físico ............................................................................................5
(2.8) Exames complementares ........................................................................5
(3.1) Caracteristicas do trabalho ....................................................................6
a) Sobre o cargo exercido ............................................................................6
d) Sobre o local de trabalho..........................................................................6
(4) Sobre a patologia LER/DORT.....................................................................6
(5 e 6) Respostas ao quesitos do Reclamante e da Reclamada ......................7
(7) Conclusões.................................................................................................7
6 - Esclarecimentos da assistência técnica..........................................................7
Anatomia Funcional .........................................................................................7
Quadro Clínico .................................................................................................9
Diagnóstico ......................................................................................................9
Tratamento ......................................................................................................9
Da organização do trabalho ...........................................................................11
Das condições biomecânicas para desenvolvimento de LER/DORT..............11
Da predição da analise ergonômica do posto de trabalho..............................11
Dos cálculos ergonômicos: ............................................................................12
7 - Conclusões...................................................................................................14
9 - Referências bibliográficas.............................................................................15
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1 - Introdução
A Medicina, ciência imprecisa, procura auxiliar a sociedade de acordo
com a evolução da ciência e tecnologia. Desta forma, este parecer técnico está
embasado a luz da ciência atual. Neste contexto, esta perícia deveria associar
o conhecimento médico à ciência da ergonomia. A medicina pura buscando
esclarecer a alegada doença e a ergonomia a análise da presença ou não de
fatores biomecânicos, organizacionais,etc., que poderiam ser causa da lesão.
Isto posto, fica claro que a análise direta das situações, a observação
qualitativa (exame, vistoria ou inspeção); o estudo quantitativo, incluindo
avaliações, medições e cálculos; fatos direcionados para o esclarecimento
das circunstâncias e de relações temporais, de causa-efeito e responsabilidade
e a análise e avaliação de proteções dispensadas pelo empregador ao
trabalhador, se faz necessário.
O nexo entre saúde/doença/trabalho
É importante ressaltar que, para a investigação das relações
saúde/trabalho/doença, é imprescindível considerar o relato dos trabalhadores,
que sabem descrever as condições, circunstâncias e imprevistos que ocorrem
no cotidiano e são capazes de explicar o adoecimento, porém, em trabalhos
periciais, é primordial que se busquem informações da outra parte
envolvida no processo indenizatório, ou seja, a empresa reclamada, para as
devidas validações das informações obtidas com o reclamante, evitando-se
assim a unilateralidade das informações prestadas durante a perícia.
A resolução do Conselho Federal de Medicina n. 1.488/1998 entre os seus
vários artigos, exige:
Art. 2º - Para o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos de saúde
e as atividades do trabalhador, além do exame clínico (físico e mental) e os
exames complementares, quando necessários, deve o médico considerar:
I - a história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico e/ou
investigação de nexo causal;
II - o estudo do local de trabalho;
III - o estudo da organização do trabalho;
IV - os dados epidemiológicos;
V - a literatura atualizada;
VI - a ocorrência de quadro clínico ou subclínico em trabalhador exposto a
condições agressivas;
VII - a identificação de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos,
estressantes e outros;
VIII - o depoimento e a experiência dos trabalhadores;
IX - os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus profissionais,
sejam ou não da área da saúde.
De suma importância também, é buscar classificações literárias que auxiliem no
estabelecimento do nexo de forma categórica. Uma destas, muito aceita e
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utilizada inclusive pelo Ministério do Trabalho, é a Classificação de
Schilling (1984), dividida em 3 grupos:
• GRUPO I: doenças em que o trabalho é causa necessária, tipificadas pelas
doenças profissionais, stricto sensu, e pelas intoxicações agudas de origem
ocupacional. Podemos citar como exemplos a intoxicação por chumbo, silicose e
as doenças profissionais legalmente reconhecidas.
• GRUPO II: doenças em que o trabalho pode ser um fator de risco,
contributivo, mas não necessário, exemplificadas pelas doenças comuns, mais
freqüentes ou mais precoces em determinados grupos ocupacionais e para as
quais o nexo causal é de natureza eminentemente epidemiológica. A
hipertensão arterial, doença coronariana, doenças do aparelho locomotor,
varizes de membros inferiores e as neoplasias malignas (cânceres), em
determinados grupos ocupacionais ou profissões, constituem exemplo típico.
• GRUPO III: doenças em que o trabalho é provocador de um distúrbio latente,
ou agravador de doença já estabelecida ou preexistente, ou seja, concausa,
tipificadas pelas doenças alérgicas de pele e respiratórias e pelos distúrbios
mentais, em determinados grupos ocupacionais ou profissões.Schilling ( apud
MTE; OPAS, 1984).
2 - Dados pessoais da Reclamante
Nome: XXXX XXXX Ferreira;
Endereço: Rua XXXXX XXXXX, 466 – Campinas/SP;
Carteira Profissional – 0006.xxx/000xxx – SP (segunda via);
CPF – xxx.6xxxx09/xx;
RG – 15.xxx.xxxx-7;
Nascida em Três Fronteiras/SP no dia 0x/xx/1961;
Estado civil - separada
3 - Dados ocupacionais da Reclamante
A Sra. XXXXX XXXXX Ferreira declarou ter iniciado sua vida laboral na
“roça” auxiliando os pais em cultura de café, capinagem, etc. .
Verficado pelo Sr. Perito nas carteiras de trabalho apresentadas (primeira e
segunda vias) que trabalhou :
- em fábrica sapatos de 28/12/1976 a 05/12/1977, na função de serviços
gerais. A reclamante relatou que inicialmente apenas colava palmilhas e mais
tarde diversas atividades.
- na empresa “Xxxxxx” admitida em 24/01/1980 como auxiliar de
montagem
- Agencia de empregos de 23/02/1981 a 23/03/1981
- Xxxxxxx indústria e comercio de especiarias de 07/04/1998 a
18/10/1999, como promotora de vendas
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- Xxxx serviços temporários, de 16/03/2000 a 15/09/2000, promotora de
vendas
- Xxxxxxx SA – de 20/11/2000 a 01/02/2002 , como repositora de
mercadorias
- relatou ainda que por 6 anos fez bijuterias em sua casa , em trabalho
autônomo
- desde que saiu da reclamada, refere não ter trabalhado exceto em
afazeres domésticos que consegue executar.
4 - Histórico de saúde
Altura:1,59 m, Peso: 62 kg
Pressão arterial – 120x85 mmHg (normal)
Mão predominante – direita (destra)
Ex-fumante – fumou por 12 anos, tendo parado há 7anos.
Teve 2 filhas por parto normal e 1 abortamento
Negou antecedentes de traumas ou fraturas ou outras patologias, exceto
história de dor intermitente na coluna, em região lombar, bem anterior a
sua entrada na reclamada, assim como dor também na região cervical da
coluna onde sente “como se tivesse areia e ouve estalos “.
Das atividades desenvolvidas pela reclamante na reclamada
A reclamante refere que foi admitida em 20/11/2000, com a função de repositora
de mercadorias e dispensada em 01/02/2002, ou seja, em torno de 1 ano e 3
meses apenas.
Suas atividades consistiam em repor mercadorias da reclamada nos
supermercados, de acordo com o consumo. Estas mercadorias consistiam de
leite longa vida, iogurtes,etc.
Nos primeiros 2 meses de trabalho prestou serviços no Supermercado BIG, do
Campinas Shopping. Na sequência foi transferida para o supermercado Extra
Amoreiras onde permaneceu por 8 meses e neste é que se iniciaram os quadros
intermitentes de dor.
Por fim, foi transferida para o supermercado Carrefour/Iguatemi tendo trabalhado
ali até seu desligamento, ou seja aproximadamente mais 5 meses.
Da história da doença reclamada como ocupacional
Refere que enquanto trabalhava no supermercado Extra Amoreiras, por volta de
maio de 2001, começou a sentir dores na região dos músculos trapézios
bilaterais, nos ombros também bilaterais, irradiando-se para as faces anteriores
dos braços e antebraços direito e esquerdo, o que a levou a afastar-se do
trabalho por 15 dias (sic).
Faz relação desta ocorrência com o fato de que neste local tinha que trocar 90
caixas contendo 12 litros de leite cada do palete de madeira por um de plástico,
por este proporcionar melhor aparência aos consumidores. No total eram 15
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pilhas de 6 caixas, contendo 12 litros de leite cada caixa. Neste ínterim, refere
ter entregue à seu supervisor Sr. João, uma solicitação de seu médico para
mudança de setor.
Desde então iniciou tratamento com medicamentos e fisioterapia , sem sucesso
(sic).
Afirma que desde seu desligamento há 7 anos, mantem quadro de dor
intermitente e que faz uso de medicamentos analgésicos e antinflamatórios por
conta própria (automedicação), não tendo mais procurado tratamento com
médico, mesmo que pelo SUS.
5 – Sobre o laudo pericial
(2.7) Exame físico
O exame físico realizado pelo Sr. Perito foi tido como satisfatório de forma que
não houve necessidade de complementação por este assistente. Assim, torna-
se redundante repetir aqui os resultados da avaliação. Entretanto, algumas
considerações sobre suas anotações devem ser destacadas:
Na página 7 do Laudo Pericial:
Linha 6 -“Exame dentro da normalidade dos relevos de contorno da
região que podem revelar hipotrofia muscular na fossa supra e infra-espinhal e
lesão extensa do manguito rotador”.
Linha 13 – “Não há defict de movimentos nas provas funcionais...”
Linha 16 – “Discreta limitação dos movimentos de elevação do membro
superior direito, entretanto consegue realizar todas as manobras exigidas
durante o exame pericial”.
Linha 36 – “Tem receio de movimentar os membros superiores direito e
esquerdo mas realizou todas as manobras e movimentos exigidos. Esta
mesma frase repete-se abaixo das fotografias na página 8.
Considerações do assistente técnico sobre o exame físico descrito no Laudo
Pericial
Entendido como estando normal e que, uma lesão extensa do manguito
rotador geraria hipotrofia muscular por desuso e esta por sua vez, deformidades
anatômicas. Ou seja, não houve deformações concluindo pela normalidade
anatômica. A despeito de citar que não há déficit de movimentos, na sequência
aponta discreta limitação e que a reclamante realizou todas as manobras
exigidas. Neste ponto é importante salientar que o déficit verificado é para
elevação do membro superior direito acima do nível do ombro, como
observado por este assistente.
(2.8) Exames complementares
Apenas anotadas as folhas, no entanto deve-se ressaltar as hipóteses
diagnósticas destes exames contando de bursite e ruptura do supra-
espinhoso em ombro direito , com calcificação.
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(3.1) Características do trabalho
a) Sobre o cargo exercido
Acredito em equívoco do Sr. Perito ao citar que a reclamante atuava como
“moldador”, corrigido aqui para “repositora de mercadorias”.
d) Sobre o local de trabalho
O Sr. Perito julgou desnecessário a visitação do local de trabalho baseando-se
apenas na queixa da reclamante e nas características da doença.
Neste ponto há total discordância por parte deste assistente técnico, assim
como afronta a resolução do Conselho Federal de Medicina n. 1.488/1998 e as
boas práticas de ergonomia. Assim, este assistente esteve no local de
trabalho podendo coletar apenas o dado biomecânico peso da caixa de leite,
uma vez não se tratar de diligência oficial, sem o qual não poderia realizar os
cálculos necessários à verificação do esforço físico da tarefa referida e
apresentados mais à frente.
(4) Sobre a patologia LER/DORT
Tratam-se de esclarecimentos genéricos sobre a fisiopatologia de doenças
osteomusculares relacionadas ao trabalho, apresentando as possíveis causas
as quais se transcritas e relacionadas ao caso em questão, observaremos que
em sua grande maioria não se aplica:
1. posto de trabalho inadequado e ambiente de trabalho
desconfortável;
Não se aplica
2. atividades no trabalho que exijam força excessiva com as
mãos;
Não se aplica
3. posturas inadequadas e desfavoráveis às articulações Aplica-se parcial
4. repetição de um mesmo padrão de movimento Não se aplica
5. tempo insuficiente para realizar determinado trabalho com
as mãos
Não se aplica
6. jornada dupla ocasionada pelos serviços domésticos Provável
7. atividades esportivas que exijam grande esforço dos
membros superiores
Não se aplica
8.compressão mecânica das estruturas dos membros
superiores
Não se aplica
9. (não existente) #
10. ritmo intenso de trabalho Não se aplica
11. Pressão do chefe sobre o empregado Não se aplica
12. metas de produção crescente e preestabelecidas Não se aplica
13. jornada de trabalho prolongada Não se aplica
14. falta de possibilidade de realizar tarefas diferentes Não se aplica
15. falta de orientação de profissional de segurança ou
medicina do trabalho
Prejudicado
16. mobiliário mal projetado e ergonomicamente errado Não se aplica
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17. (não existe) #
18. postura fixa por tempo prolongado Não se aplica
19. tensão excessiva e repetitiva provocada por alguns tipos
de esportes
Não se aplica
20. desconhecimento do trabalhador e/ou empregador sobre
o assunto
Prejudicado
(5 e 6) Respostas ao quesitos do Reclamante e da Reclamada
As respostas as estes quesitos deixam algumas dúvidas seja pela ausência
de uma resposta efetiva ou pela divergência entre as mesmas.
(7) Conclusões
O Sr. Perito conclui pelo diagnóstico de bursite e ruptura total do tendão do
supra-espinhoso, fundamentando-se apenas nos atestados médicos e
exames complementares. Conclui também que “ há como estabelecer nexo
causal “ com as atividades da reclamante, sem contudo ser categórico.
6 - Esclarecimentos da assistência técnica
Anatomia Funcional
O grande número de publicações sobre o assunto tem demonstrado o
reconhecimento da grande complexidade anatômica e funcional do ombro.
O manguito rotador do ombro(MR) é formado por quatro músculos que se
originam na escápula e se inserem nos tubérculos do úmero:
1- supra-espinhoso,
2- infra-espinhoso,
3 - redondo menor e,
4 - subescapular.
Seus tendões tornam-se confluentes entre si e a cápsula articular quando se
aproximam de suas inserções.
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Músculo supra-espinhoso Elevação acima do ombro
Em trabalho publicado na Revista Brasileira de Ortopedia
(Novembro/Dezembro – 2004), os Drs. Ronaldo Percopi de Andrade, Mário
Roberto Chaves Correa Filho, Bruno de Castro Queiroz apontam que “as
lesões deste manguito são muito comuns “ e seguem:.
Loeher e Uhthoff, em 306 ombros de 153 cadáveres, encontraram 32%
de lesões parciais e 19% de totais.
Fukuda, em 249 cadáveres, encontrou 13% de lesões parciais e 7% de
totais; das lesões parciais, 2,4% eram na parte bursal do tendão, 7,2%
intratendinosas e 3,6% na parte articular .
(Fukuda H.: The management of partial-thickness tears of the rotator cuff. J Bone Joint Surg [Br]
85: 3-11, 2003).
Como as lesões podem ser assintomáticas, esta seria uma possibilidade de
erro de avaliação e de estatísticas. Sher et al, utilizando ressonância magnética
em 96 indivíduos assintomáticos, encontraram lesões em 34%; naqueles com
mais de 60 anos esse número subiu para 54%.
(Sher J.S., Uribe J.W., Posada A., et al: Abnormal findings on magnetic resonance images of
asymptomatic shoulders. J Bone Joint Surg [Am] 77: 1015, 1995).
Quando e por que lesões assintomáticas se tornam sintomáticas é outro
desafio também a ser esclarecido.
Lashgari e Yamaguchi estudaram com ultra-sonografia bilateral um grupo
de 45 pacientes com rupturas assintomáticas. Numa revisão feita com
cinco anos, 51% dos pacientes se tornaram sintomáticos; em 39% destes
houve aumento do tamanho da lesão.
(Lashgari C.J.,Yamaguchi K.: “Natural history and nonsurgical treatment of rotator cuff
disorders”. In: Norris T.R.: Orthopaedic knowledge update. Illinois: AAOS Shoulder and Elbow, p.
155-162, 2002).
O inverso também é possível. Estudos de Yamanaka e Matsumoto mostraram
que 10% dos pacientes com dor tiveram os sintomas diminuídos e em outros
10% desapareceram.
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(Yamanaka K., Matsumoto T.: The joint side tear of rotator cuff: a follow-up study by arthrography.
Clin Orthop 304: 68-73, 1994).
Neer classificou as lesões do manguito rotador em três estágios:
I = edema e hemorragia, idade típica < 25 anos;
II = fibrose e tendinite, idade típica entre 25 e 40 anos; e
III = osteófitos e ruptura tendinosa, idade típica > 40 anos
(Neer C.S.: Shoulder Reconstruction. Philadelphia, W.B. Saunders, p. 1-39, 1990).
Quadro Clínico
A dor é o principal sintoma. Habitualmente, ela se localiza na região ântero-
lateral do ombro e face lateral do braço e sua intensidade é variável. A maioria
dos pacientes se queixa de dor noturna e dificuldade ou incapacidade de deitar-
se sobre o lado afetado, sendo este um aspecto muito característico e constante
da doença do manguito rotador
Diagnóstico
A ultra-sonografia é um método barato, não invasivo e eficaz. Tem a
desvantagem de não permitir a avaliação quantitativa fidedigna do manguito
rotador remanescente e de ser operador-dependente.
A ressonância magnética é considerada como método mais acurado para a
detecção das lesões e para a avaliação da sua extensão, da qualidade do tecido
remanescente e da quantificação da degeneração gordurosa dos ventres
musculares do manguito rotador.
Tratamento
Não existe um tratamento uniforme para as lesões sintomáticas do manguito
rotador. A população acometida é muito variável e heterogênea, com faixas
etárias, níveis de atividade, expectativa, intensidade de sintomas e graus
de incapacidade muito diferentes.
Os riscos e benefícios do tratamento cirúrgico e não-cirúrgico devem ser
considerados e discutidos com o paciente. O tratamento conservador oferece a
vantagem de evitar a cirurgia e as suas complicações inerentes (infecção,
lesões nervosas e do deltóide). Suas desvantagens: possibilidade de
recorrência dos sintomas e, mais importante, o agravamento da lesão e
alterações degenerativas crônicas (atrofia, degeneração gordurosa e retração
dos tendões) que poderiam complicar um eventual tratamento cirúrgico futuro e
influenciar negativamente na qualidade de seu resultado final. O tratamento
cirúrgico oferece a possibilidade de alívio da dor e, possivelmente, a
prevenção de alterações crônicas.
As citações da Revista Brasileira de Ortopedia contradizem o Laudo Pericial
quando afirma em resposta ao quesito número 61 da Reclamada que o
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tratamento da patologia apresentada como clinico exclusivamente, como
veremos a seguir, inclusive em imagens ilustrativas.
Calcificação reativa Tratamento cirúrgico da calcificação
Tratamento cirúrgico da ruptura do
tendão supra-espinhoso
(uma das diversas técnicas)
Tratamentos para busrsite vão desde
medicamentos por via oral à cirúgico
(bursectomia)
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Da organização do trabalho
Nota-se nas declarações de ambas as partes que a reclamante fazia o seu
próprio horário, sem fiscalização de seus superiores imediatos, não havendo
pressão produção. Uma vez notando a redução dos produtos expostos poderia
antecipar a demanda. Alternava a reposição com verificação de prazos de
validade, etc. Ou seja, possuía tarefas variadas ao alongo do dia. Portanto,
pode-se descartar problemas como pressão da chefia, esteiras ditando a
velocidade de trabalho,etc.
Das condições biomecânicas para desenvolvimento de LER/DORT
Movimentos repetitivos ou estáticos por tempo prolongado são os principais
fatores para o desenvolvimento ou não de LER/DORT, excetuando-se os
traumas (acidente típico).
Baseado nestas premissas, foi aplicado o checklist do Dr. Hudson de Araújo
Couto para verificar os fatores biomecânicos no risco para distúrbios músculo-
esqueléticos de membros superiores relacionados ao trabalho , disponível no
anexo I . Esta ferramenta resultou em : Ausência de risco
Da predição da analise ergonômica do posto de trabalho
A reclamante alega em sua inicial que carregava “90 caixas com 12 litros de leite
cada. Há de se esclarecer que isso era feito de forma eventual e intermitente, de
acordo com a demanda de vendas, ou seja, não se caracteriza repetitividade.
Este carregamento era realizado do depósito até o posto de vendas com o
auxílio de carrinhos hidráulicos conhecidos como paletizadores, desenhados
para reduzir o esforço humano ao puxar ou empurrar produtos sobre paletes.
Referiu que quando a mercadoria chegava em palete de madeira, fazia
transbordo do produto, caixas contendo 12 litros, para um palete de plástico
pelo fato deste ter uma aparência melhor ao consumidor.
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Foto ilustrativa de um paletizador, equipamento disponível
à Reclamante.
Foto ilustrativa – palete de madeira
Foto ilustrativa – palete de plástico
Dos cálculos ergonômicos:
- 1 litro de leite da marca Parmalat –
UTH integral, adquirido no
supermercado Carrefour/Eldorado em
16/05/2009, pesou 1,06 Kg.
A caixa de leite possui as seguintes
medidas:
Altura: 16,5 cm
Largura: 9,5 cm
Profundidade: 6 cm
Daí conclui-se que uma caixa contendo 12 litros deste leite deve pesar em
torno de 12,7 kg. Ressalta-se que bem menos do que um balde de 20 litros,
utilizado em serviços domésticos.
Uma caixa contendo 12 litros pareados teria as seguintes medidas:
Altura: 16,5 cm
Largura: 72 cm
Profundidade:19cm
A superfície de apoio dos paletes costumam ter uma altura media de 15 cm do
solo.
Apresenta-se no anexo II, aplicação da ferramenta de análise ergonômica do
correspondente Ministério do Trabalho do Estado de Washington (WISHA - USA)
no que seria a pior situação de carregamento de peso, ou seja,
carregamento a partir do ponto mais próximo ao solo, considerando-se ainda o
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levantamento de 2 caixas por minuto, por até 2 horas contínuas no dia (tratando-
se de exagero), e mais rotação do tronco de pelo menos 45 graus, teremos
como resultado que não se trata de uma atividade de alto risco, apontando
como permissível para esta situação até 51 libras, ou seja 23,1 kg.
Notar que a medida na ferramenta encontra-se em libras. A conversão de 12,7
Kg resulta em 27,9 libras. Foi considerado para o cálculo 28 libras pois a
ferramenta não permite casas decimais.
Miniatura do Anexo II
ferramenta disponível em:
http://drsergio.com.br/ergonomia/curso/Wishas/ergo_worksheetIE.htm
(site mantido por este assistente técnico)
ou no site original em:
http://www.lni.wa.gov/Safety/Topics/Ergonomics/ServicesResources/Tools/Lifting
Calculator3/ergo_worksheetIE.htm
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7 - Conclusões
- A referencia pela Reclamante de problemas também em coluna lombar, mas
aqui referindo início anterior ao trabalho na Reclamada, remete
provavelmente à esforços físicos realizados anteriormente ao pacto laboral
sob reclamação, No entanto, não foram explorados por não fazer parte do objeto.
- Cabe ressaltar também que o músculo supra-espinhoso é solicitado nos
esforços que exigem elevação dos membros superiores acima do nível do
ombro, não sendo este tipo de movimento detectado na descrição de atividades
da reclamante, mas é comum na colheita de café, uso de enxadas ou
atividades domésticas como pendurar roupas em varais, etc.
- A aplicação de 2 ferramentas de análise ergonômica apontam não haver
risco eminente de desenvolvimento de LER/DORT.
- Lesões do ombro podem ser adquiridas em traumas, surgindo de forma
abrupta, ou ser crônica degenerativa levando às vezes anos para se
desenvolver. Como nos estudos de Sher et al, Lashgari e Yamaguchi
apresentados anteriormente, estas lesões podem permanecer assintomáticas,
mostram também que em 5 anos, 50% destes assintomáticos passam a
apresentar sintomas. Isto mostra a diversidade evolutiva desta doença, fato que,
se não inviabiliza, dificulta muito afirmar categoricamente o nexo com as
atividades laborais, assim como a contemporaneidade da patologia alegada
pela Reclamante, baseado apenas no início dos sintomas ou atestados
médicos juntados como faz o laudo pericial.
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8 - Referências bibliográficas
1. Coventry M.B.: Problem of painful shoulder. Jama; 151: 177, 1953.
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Parecer assistente Técnico Aaaa x Bbbb

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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 1 EXMO SR. DR. JUIZ FEDERAL DA 1ª VARADO RABALHO DE CAMPINAS / SP Processo: nº 00XXX.2004.00X.1X.00.X RECLAMANTE : XXXXX XXXX Ferreira RECLAMADA : XXXXXXX S.A. Industria de alimentos Sergio A. M. de Carvalho e Silva, médico do trabalho, CRM 61235/SP, nomeado assistente técnico pela Reclamada, apresenta à V. Exa. Seu parecer técnico e conclusão. Este parecer contém 16 páginas: Índice 1 - Introdução ......................................................................................................2 2 - Dados pessoais da Reclamante .....................................................................3 3 - Dados ocupacionais da Reclamante ..............................................................3 4 - Histórico de saúde..........................................................................................4 Das atividades desenvolvidas pela reclamante na reclamada..........................4 Da história da doença reclamada como ocupacional .......................................4 5 – Sobre o laudo pericial ....................................................................................5 (2.7) Exame físico ............................................................................................5 (2.8) Exames complementares ........................................................................5 (3.1) Caracteristicas do trabalho ....................................................................6 a) Sobre o cargo exercido ............................................................................6 d) Sobre o local de trabalho..........................................................................6 (4) Sobre a patologia LER/DORT.....................................................................6 (5 e 6) Respostas ao quesitos do Reclamante e da Reclamada ......................7 (7) Conclusões.................................................................................................7 6 - Esclarecimentos da assistência técnica..........................................................7 Anatomia Funcional .........................................................................................7 Quadro Clínico .................................................................................................9 Diagnóstico ......................................................................................................9 Tratamento ......................................................................................................9 Da organização do trabalho ...........................................................................11 Das condições biomecânicas para desenvolvimento de LER/DORT..............11 Da predição da analise ergonômica do posto de trabalho..............................11 Dos cálculos ergonômicos: ............................................................................12 7 - Conclusões...................................................................................................14 9 - Referências bibliográficas.............................................................................15
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 2 1 - Introdução A Medicina, ciência imprecisa, procura auxiliar a sociedade de acordo com a evolução da ciência e tecnologia. Desta forma, este parecer técnico está embasado a luz da ciência atual. Neste contexto, esta perícia deveria associar o conhecimento médico à ciência da ergonomia. A medicina pura buscando esclarecer a alegada doença e a ergonomia a análise da presença ou não de fatores biomecânicos, organizacionais,etc., que poderiam ser causa da lesão. Isto posto, fica claro que a análise direta das situações, a observação qualitativa (exame, vistoria ou inspeção); o estudo quantitativo, incluindo avaliações, medições e cálculos; fatos direcionados para o esclarecimento das circunstâncias e de relações temporais, de causa-efeito e responsabilidade e a análise e avaliação de proteções dispensadas pelo empregador ao trabalhador, se faz necessário. O nexo entre saúde/doença/trabalho É importante ressaltar que, para a investigação das relações saúde/trabalho/doença, é imprescindível considerar o relato dos trabalhadores, que sabem descrever as condições, circunstâncias e imprevistos que ocorrem no cotidiano e são capazes de explicar o adoecimento, porém, em trabalhos periciais, é primordial que se busquem informações da outra parte envolvida no processo indenizatório, ou seja, a empresa reclamada, para as devidas validações das informações obtidas com o reclamante, evitando-se assim a unilateralidade das informações prestadas durante a perícia. A resolução do Conselho Federal de Medicina n. 1.488/1998 entre os seus vários artigos, exige: Art. 2º - Para o estabelecimento do nexo causal entre os transtornos de saúde e as atividades do trabalhador, além do exame clínico (físico e mental) e os exames complementares, quando necessários, deve o médico considerar: I - a história clínica e ocupacional, decisiva em qualquer diagnóstico e/ou investigação de nexo causal; II - o estudo do local de trabalho; III - o estudo da organização do trabalho; IV - os dados epidemiológicos; V - a literatura atualizada; VI - a ocorrência de quadro clínico ou subclínico em trabalhador exposto a condições agressivas; VII - a identificação de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos, estressantes e outros; VIII - o depoimento e a experiência dos trabalhadores; IX - os conhecimentos e as práticas de outras disciplinas e de seus profissionais, sejam ou não da área da saúde. De suma importância também, é buscar classificações literárias que auxiliem no estabelecimento do nexo de forma categórica. Uma destas, muito aceita e
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 3 utilizada inclusive pelo Ministério do Trabalho, é a Classificação de Schilling (1984), dividida em 3 grupos: • GRUPO I: doenças em que o trabalho é causa necessária, tipificadas pelas doenças profissionais, stricto sensu, e pelas intoxicações agudas de origem ocupacional. Podemos citar como exemplos a intoxicação por chumbo, silicose e as doenças profissionais legalmente reconhecidas. • GRUPO II: doenças em que o trabalho pode ser um fator de risco, contributivo, mas não necessário, exemplificadas pelas doenças comuns, mais freqüentes ou mais precoces em determinados grupos ocupacionais e para as quais o nexo causal é de natureza eminentemente epidemiológica. A hipertensão arterial, doença coronariana, doenças do aparelho locomotor, varizes de membros inferiores e as neoplasias malignas (cânceres), em determinados grupos ocupacionais ou profissões, constituem exemplo típico. • GRUPO III: doenças em que o trabalho é provocador de um distúrbio latente, ou agravador de doença já estabelecida ou preexistente, ou seja, concausa, tipificadas pelas doenças alérgicas de pele e respiratórias e pelos distúrbios mentais, em determinados grupos ocupacionais ou profissões.Schilling ( apud MTE; OPAS, 1984). 2 - Dados pessoais da Reclamante Nome: XXXX XXXX Ferreira; Endereço: Rua XXXXX XXXXX, 466 – Campinas/SP; Carteira Profissional – 0006.xxx/000xxx – SP (segunda via); CPF – xxx.6xxxx09/xx; RG – 15.xxx.xxxx-7; Nascida em Três Fronteiras/SP no dia 0x/xx/1961; Estado civil - separada 3 - Dados ocupacionais da Reclamante A Sra. XXXXX XXXXX Ferreira declarou ter iniciado sua vida laboral na “roça” auxiliando os pais em cultura de café, capinagem, etc. . Verficado pelo Sr. Perito nas carteiras de trabalho apresentadas (primeira e segunda vias) que trabalhou : - em fábrica sapatos de 28/12/1976 a 05/12/1977, na função de serviços gerais. A reclamante relatou que inicialmente apenas colava palmilhas e mais tarde diversas atividades. - na empresa “Xxxxxx” admitida em 24/01/1980 como auxiliar de montagem - Agencia de empregos de 23/02/1981 a 23/03/1981 - Xxxxxxx indústria e comercio de especiarias de 07/04/1998 a 18/10/1999, como promotora de vendas
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 4 - Xxxx serviços temporários, de 16/03/2000 a 15/09/2000, promotora de vendas - Xxxxxxx SA – de 20/11/2000 a 01/02/2002 , como repositora de mercadorias - relatou ainda que por 6 anos fez bijuterias em sua casa , em trabalho autônomo - desde que saiu da reclamada, refere não ter trabalhado exceto em afazeres domésticos que consegue executar. 4 - Histórico de saúde Altura:1,59 m, Peso: 62 kg Pressão arterial – 120x85 mmHg (normal) Mão predominante – direita (destra) Ex-fumante – fumou por 12 anos, tendo parado há 7anos. Teve 2 filhas por parto normal e 1 abortamento Negou antecedentes de traumas ou fraturas ou outras patologias, exceto história de dor intermitente na coluna, em região lombar, bem anterior a sua entrada na reclamada, assim como dor também na região cervical da coluna onde sente “como se tivesse areia e ouve estalos “. Das atividades desenvolvidas pela reclamante na reclamada A reclamante refere que foi admitida em 20/11/2000, com a função de repositora de mercadorias e dispensada em 01/02/2002, ou seja, em torno de 1 ano e 3 meses apenas. Suas atividades consistiam em repor mercadorias da reclamada nos supermercados, de acordo com o consumo. Estas mercadorias consistiam de leite longa vida, iogurtes,etc. Nos primeiros 2 meses de trabalho prestou serviços no Supermercado BIG, do Campinas Shopping. Na sequência foi transferida para o supermercado Extra Amoreiras onde permaneceu por 8 meses e neste é que se iniciaram os quadros intermitentes de dor. Por fim, foi transferida para o supermercado Carrefour/Iguatemi tendo trabalhado ali até seu desligamento, ou seja aproximadamente mais 5 meses. Da história da doença reclamada como ocupacional Refere que enquanto trabalhava no supermercado Extra Amoreiras, por volta de maio de 2001, começou a sentir dores na região dos músculos trapézios bilaterais, nos ombros também bilaterais, irradiando-se para as faces anteriores dos braços e antebraços direito e esquerdo, o que a levou a afastar-se do trabalho por 15 dias (sic). Faz relação desta ocorrência com o fato de que neste local tinha que trocar 90 caixas contendo 12 litros de leite cada do palete de madeira por um de plástico, por este proporcionar melhor aparência aos consumidores. No total eram 15
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 5 pilhas de 6 caixas, contendo 12 litros de leite cada caixa. Neste ínterim, refere ter entregue à seu supervisor Sr. João, uma solicitação de seu médico para mudança de setor. Desde então iniciou tratamento com medicamentos e fisioterapia , sem sucesso (sic). Afirma que desde seu desligamento há 7 anos, mantem quadro de dor intermitente e que faz uso de medicamentos analgésicos e antinflamatórios por conta própria (automedicação), não tendo mais procurado tratamento com médico, mesmo que pelo SUS. 5 – Sobre o laudo pericial (2.7) Exame físico O exame físico realizado pelo Sr. Perito foi tido como satisfatório de forma que não houve necessidade de complementação por este assistente. Assim, torna- se redundante repetir aqui os resultados da avaliação. Entretanto, algumas considerações sobre suas anotações devem ser destacadas: Na página 7 do Laudo Pericial: Linha 6 -“Exame dentro da normalidade dos relevos de contorno da região que podem revelar hipotrofia muscular na fossa supra e infra-espinhal e lesão extensa do manguito rotador”. Linha 13 – “Não há defict de movimentos nas provas funcionais...” Linha 16 – “Discreta limitação dos movimentos de elevação do membro superior direito, entretanto consegue realizar todas as manobras exigidas durante o exame pericial”. Linha 36 – “Tem receio de movimentar os membros superiores direito e esquerdo mas realizou todas as manobras e movimentos exigidos. Esta mesma frase repete-se abaixo das fotografias na página 8. Considerações do assistente técnico sobre o exame físico descrito no Laudo Pericial Entendido como estando normal e que, uma lesão extensa do manguito rotador geraria hipotrofia muscular por desuso e esta por sua vez, deformidades anatômicas. Ou seja, não houve deformações concluindo pela normalidade anatômica. A despeito de citar que não há déficit de movimentos, na sequência aponta discreta limitação e que a reclamante realizou todas as manobras exigidas. Neste ponto é importante salientar que o déficit verificado é para elevação do membro superior direito acima do nível do ombro, como observado por este assistente. (2.8) Exames complementares Apenas anotadas as folhas, no entanto deve-se ressaltar as hipóteses diagnósticas destes exames contando de bursite e ruptura do supra- espinhoso em ombro direito , com calcificação.
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 6 (3.1) Características do trabalho a) Sobre o cargo exercido Acredito em equívoco do Sr. Perito ao citar que a reclamante atuava como “moldador”, corrigido aqui para “repositora de mercadorias”. d) Sobre o local de trabalho O Sr. Perito julgou desnecessário a visitação do local de trabalho baseando-se apenas na queixa da reclamante e nas características da doença. Neste ponto há total discordância por parte deste assistente técnico, assim como afronta a resolução do Conselho Federal de Medicina n. 1.488/1998 e as boas práticas de ergonomia. Assim, este assistente esteve no local de trabalho podendo coletar apenas o dado biomecânico peso da caixa de leite, uma vez não se tratar de diligência oficial, sem o qual não poderia realizar os cálculos necessários à verificação do esforço físico da tarefa referida e apresentados mais à frente. (4) Sobre a patologia LER/DORT Tratam-se de esclarecimentos genéricos sobre a fisiopatologia de doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho, apresentando as possíveis causas as quais se transcritas e relacionadas ao caso em questão, observaremos que em sua grande maioria não se aplica: 1. posto de trabalho inadequado e ambiente de trabalho desconfortável; Não se aplica 2. atividades no trabalho que exijam força excessiva com as mãos; Não se aplica 3. posturas inadequadas e desfavoráveis às articulações Aplica-se parcial 4. repetição de um mesmo padrão de movimento Não se aplica 5. tempo insuficiente para realizar determinado trabalho com as mãos Não se aplica 6. jornada dupla ocasionada pelos serviços domésticos Provável 7. atividades esportivas que exijam grande esforço dos membros superiores Não se aplica 8.compressão mecânica das estruturas dos membros superiores Não se aplica 9. (não existente) # 10. ritmo intenso de trabalho Não se aplica 11. Pressão do chefe sobre o empregado Não se aplica 12. metas de produção crescente e preestabelecidas Não se aplica 13. jornada de trabalho prolongada Não se aplica 14. falta de possibilidade de realizar tarefas diferentes Não se aplica 15. falta de orientação de profissional de segurança ou medicina do trabalho Prejudicado 16. mobiliário mal projetado e ergonomicamente errado Não se aplica
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 7 17. (não existe) # 18. postura fixa por tempo prolongado Não se aplica 19. tensão excessiva e repetitiva provocada por alguns tipos de esportes Não se aplica 20. desconhecimento do trabalhador e/ou empregador sobre o assunto Prejudicado (5 e 6) Respostas ao quesitos do Reclamante e da Reclamada As respostas as estes quesitos deixam algumas dúvidas seja pela ausência de uma resposta efetiva ou pela divergência entre as mesmas. (7) Conclusões O Sr. Perito conclui pelo diagnóstico de bursite e ruptura total do tendão do supra-espinhoso, fundamentando-se apenas nos atestados médicos e exames complementares. Conclui também que “ há como estabelecer nexo causal “ com as atividades da reclamante, sem contudo ser categórico. 6 - Esclarecimentos da assistência técnica Anatomia Funcional O grande número de publicações sobre o assunto tem demonstrado o reconhecimento da grande complexidade anatômica e funcional do ombro. O manguito rotador do ombro(MR) é formado por quatro músculos que se originam na escápula e se inserem nos tubérculos do úmero: 1- supra-espinhoso, 2- infra-espinhoso, 3 - redondo menor e, 4 - subescapular. Seus tendões tornam-se confluentes entre si e a cápsula articular quando se aproximam de suas inserções.
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 8 Músculo supra-espinhoso Elevação acima do ombro Em trabalho publicado na Revista Brasileira de Ortopedia (Novembro/Dezembro – 2004), os Drs. Ronaldo Percopi de Andrade, Mário Roberto Chaves Correa Filho, Bruno de Castro Queiroz apontam que “as lesões deste manguito são muito comuns “ e seguem:. Loeher e Uhthoff, em 306 ombros de 153 cadáveres, encontraram 32% de lesões parciais e 19% de totais. Fukuda, em 249 cadáveres, encontrou 13% de lesões parciais e 7% de totais; das lesões parciais, 2,4% eram na parte bursal do tendão, 7,2% intratendinosas e 3,6% na parte articular . (Fukuda H.: The management of partial-thickness tears of the rotator cuff. J Bone Joint Surg [Br] 85: 3-11, 2003). Como as lesões podem ser assintomáticas, esta seria uma possibilidade de erro de avaliação e de estatísticas. Sher et al, utilizando ressonância magnética em 96 indivíduos assintomáticos, encontraram lesões em 34%; naqueles com mais de 60 anos esse número subiu para 54%. (Sher J.S., Uribe J.W., Posada A., et al: Abnormal findings on magnetic resonance images of asymptomatic shoulders. J Bone Joint Surg [Am] 77: 1015, 1995). Quando e por que lesões assintomáticas se tornam sintomáticas é outro desafio também a ser esclarecido. Lashgari e Yamaguchi estudaram com ultra-sonografia bilateral um grupo de 45 pacientes com rupturas assintomáticas. Numa revisão feita com cinco anos, 51% dos pacientes se tornaram sintomáticos; em 39% destes houve aumento do tamanho da lesão. (Lashgari C.J.,Yamaguchi K.: “Natural history and nonsurgical treatment of rotator cuff disorders”. In: Norris T.R.: Orthopaedic knowledge update. Illinois: AAOS Shoulder and Elbow, p. 155-162, 2002). O inverso também é possível. Estudos de Yamanaka e Matsumoto mostraram que 10% dos pacientes com dor tiveram os sintomas diminuídos e em outros 10% desapareceram.
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 9 (Yamanaka K., Matsumoto T.: The joint side tear of rotator cuff: a follow-up study by arthrography. Clin Orthop 304: 68-73, 1994). Neer classificou as lesões do manguito rotador em três estágios: I = edema e hemorragia, idade típica < 25 anos; II = fibrose e tendinite, idade típica entre 25 e 40 anos; e III = osteófitos e ruptura tendinosa, idade típica > 40 anos (Neer C.S.: Shoulder Reconstruction. Philadelphia, W.B. Saunders, p. 1-39, 1990). Quadro Clínico A dor é o principal sintoma. Habitualmente, ela se localiza na região ântero- lateral do ombro e face lateral do braço e sua intensidade é variável. A maioria dos pacientes se queixa de dor noturna e dificuldade ou incapacidade de deitar- se sobre o lado afetado, sendo este um aspecto muito característico e constante da doença do manguito rotador Diagnóstico A ultra-sonografia é um método barato, não invasivo e eficaz. Tem a desvantagem de não permitir a avaliação quantitativa fidedigna do manguito rotador remanescente e de ser operador-dependente. A ressonância magnética é considerada como método mais acurado para a detecção das lesões e para a avaliação da sua extensão, da qualidade do tecido remanescente e da quantificação da degeneração gordurosa dos ventres musculares do manguito rotador. Tratamento Não existe um tratamento uniforme para as lesões sintomáticas do manguito rotador. A população acometida é muito variável e heterogênea, com faixas etárias, níveis de atividade, expectativa, intensidade de sintomas e graus de incapacidade muito diferentes. Os riscos e benefícios do tratamento cirúrgico e não-cirúrgico devem ser considerados e discutidos com o paciente. O tratamento conservador oferece a vantagem de evitar a cirurgia e as suas complicações inerentes (infecção, lesões nervosas e do deltóide). Suas desvantagens: possibilidade de recorrência dos sintomas e, mais importante, o agravamento da lesão e alterações degenerativas crônicas (atrofia, degeneração gordurosa e retração dos tendões) que poderiam complicar um eventual tratamento cirúrgico futuro e influenciar negativamente na qualidade de seu resultado final. O tratamento cirúrgico oferece a possibilidade de alívio da dor e, possivelmente, a prevenção de alterações crônicas. As citações da Revista Brasileira de Ortopedia contradizem o Laudo Pericial quando afirma em resposta ao quesito número 61 da Reclamada que o
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 10 tratamento da patologia apresentada como clinico exclusivamente, como veremos a seguir, inclusive em imagens ilustrativas. Calcificação reativa Tratamento cirúrgico da calcificação Tratamento cirúrgico da ruptura do tendão supra-espinhoso (uma das diversas técnicas) Tratamentos para busrsite vão desde medicamentos por via oral à cirúgico (bursectomia)
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 11 Da organização do trabalho Nota-se nas declarações de ambas as partes que a reclamante fazia o seu próprio horário, sem fiscalização de seus superiores imediatos, não havendo pressão produção. Uma vez notando a redução dos produtos expostos poderia antecipar a demanda. Alternava a reposição com verificação de prazos de validade, etc. Ou seja, possuía tarefas variadas ao alongo do dia. Portanto, pode-se descartar problemas como pressão da chefia, esteiras ditando a velocidade de trabalho,etc. Das condições biomecânicas para desenvolvimento de LER/DORT Movimentos repetitivos ou estáticos por tempo prolongado são os principais fatores para o desenvolvimento ou não de LER/DORT, excetuando-se os traumas (acidente típico). Baseado nestas premissas, foi aplicado o checklist do Dr. Hudson de Araújo Couto para verificar os fatores biomecânicos no risco para distúrbios músculo- esqueléticos de membros superiores relacionados ao trabalho , disponível no anexo I . Esta ferramenta resultou em : Ausência de risco Da predição da analise ergonômica do posto de trabalho A reclamante alega em sua inicial que carregava “90 caixas com 12 litros de leite cada. Há de se esclarecer que isso era feito de forma eventual e intermitente, de acordo com a demanda de vendas, ou seja, não se caracteriza repetitividade. Este carregamento era realizado do depósito até o posto de vendas com o auxílio de carrinhos hidráulicos conhecidos como paletizadores, desenhados para reduzir o esforço humano ao puxar ou empurrar produtos sobre paletes. Referiu que quando a mercadoria chegava em palete de madeira, fazia transbordo do produto, caixas contendo 12 litros, para um palete de plástico pelo fato deste ter uma aparência melhor ao consumidor.
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 12 Foto ilustrativa de um paletizador, equipamento disponível à Reclamante. Foto ilustrativa – palete de madeira Foto ilustrativa – palete de plástico Dos cálculos ergonômicos: - 1 litro de leite da marca Parmalat – UTH integral, adquirido no supermercado Carrefour/Eldorado em 16/05/2009, pesou 1,06 Kg. A caixa de leite possui as seguintes medidas: Altura: 16,5 cm Largura: 9,5 cm Profundidade: 6 cm Daí conclui-se que uma caixa contendo 12 litros deste leite deve pesar em torno de 12,7 kg. Ressalta-se que bem menos do que um balde de 20 litros, utilizado em serviços domésticos. Uma caixa contendo 12 litros pareados teria as seguintes medidas: Altura: 16,5 cm Largura: 72 cm Profundidade:19cm A superfície de apoio dos paletes costumam ter uma altura media de 15 cm do solo. Apresenta-se no anexo II, aplicação da ferramenta de análise ergonômica do correspondente Ministério do Trabalho do Estado de Washington (WISHA - USA) no que seria a pior situação de carregamento de peso, ou seja, carregamento a partir do ponto mais próximo ao solo, considerando-se ainda o
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 13 levantamento de 2 caixas por minuto, por até 2 horas contínuas no dia (tratando- se de exagero), e mais rotação do tronco de pelo menos 45 graus, teremos como resultado que não se trata de uma atividade de alto risco, apontando como permissível para esta situação até 51 libras, ou seja 23,1 kg. Notar que a medida na ferramenta encontra-se em libras. A conversão de 12,7 Kg resulta em 27,9 libras. Foi considerado para o cálculo 28 libras pois a ferramenta não permite casas decimais. Miniatura do Anexo II ferramenta disponível em: http://drsergio.com.br/ergonomia/curso/Wishas/ergo_worksheetIE.htm (site mantido por este assistente técnico) ou no site original em: http://www.lni.wa.gov/Safety/Topics/Ergonomics/ServicesResources/Tools/Lifting Calculator3/ergo_worksheetIE.htm
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 14 7 - Conclusões - A referencia pela Reclamante de problemas também em coluna lombar, mas aqui referindo início anterior ao trabalho na Reclamada, remete provavelmente à esforços físicos realizados anteriormente ao pacto laboral sob reclamação, No entanto, não foram explorados por não fazer parte do objeto. - Cabe ressaltar também que o músculo supra-espinhoso é solicitado nos esforços que exigem elevação dos membros superiores acima do nível do ombro, não sendo este tipo de movimento detectado na descrição de atividades da reclamante, mas é comum na colheita de café, uso de enxadas ou atividades domésticas como pendurar roupas em varais, etc. - A aplicação de 2 ferramentas de análise ergonômica apontam não haver risco eminente de desenvolvimento de LER/DORT. - Lesões do ombro podem ser adquiridas em traumas, surgindo de forma abrupta, ou ser crônica degenerativa levando às vezes anos para se desenvolver. Como nos estudos de Sher et al, Lashgari e Yamaguchi apresentados anteriormente, estas lesões podem permanecer assintomáticas, mostram também que em 5 anos, 50% destes assintomáticos passam a apresentar sintomas. Isto mostra a diversidade evolutiva desta doença, fato que, se não inviabiliza, dificulta muito afirmar categoricamente o nexo com as atividades laborais, assim como a contemporaneidade da patologia alegada pela Reclamante, baseado apenas no início dos sintomas ou atestados médicos juntados como faz o laudo pericial. --------------------------------------------Fim do parecer----------------------------------------- ____________________________________ Sergio Augusto Machado de Carvalho e Silva Médico do trabalho
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 15 8 - Referências bibliográficas 1. Coventry M.B.: Problem of painful shoulder. Jama; 151: 177, 1953. 2. Gonçalves G.W. Periartrite do Ombro - Tratamento. Revista Brasileira de Reumatologia; 4:33, 1960. 3. Gonçalves G.W.: Via posterior para injeção da bolsa subacromial. Revista Bras. Reum.; 6: 29,1965. 4. Gonçalves G.W. Tratamento das Periartrites de Ombro. Revista Bras. Reum.; 12:27, 1968 5. Rotes-Querol R. Lience E., Escofer D.R.: Semiologia de los Reumatismos. Editorial Espaxs, Barcelona, 1965. 6. Steinbrocker O. et. al: Shoulder-hand Syndrome: Sympathetic block compared with corticotropin and cortisone therapy. Jama; 153: 788. 1953. 7. Vischer, Thomas L. Atlas of Clinical Rheumatology - 20.2 Non-Articular Rheumatism, 1968. 8. Fellet, A. e col. - Conduta terapêutica na periartrite de ombro. Clínica Geral; vol. 3, 1971. 9. Bateman J. E. - The shoulder and Neck 2nd ed. Philadelphia W.B. Saunders, 1978. 10. Armstrong. J. R. Excision of the acromion in the treatment of the supraspinatus syndrome. J. Bone Joint Surg.; 31B: 436, 1949. 11. Neviaser. J. S. - Adhesive capsulitis of the shoulder. Med. Times. 90: 783, 1962. 12. Katz. G. A. Peter J. B.: Pearson C. M. & Adams. W.S. - The shoulder pad sign: a diagnostic feature of amyloid arthrograpy. N. Engl. J. Med.; 288:354, 1973. 13. Fernandes S.R.M. & Samara, A. M. Síndrome de Parsonage-Turner e artrose de ombros. Revista Bras. Reum.; 22(1): 1. 1982. 14. Gonçalves G. W. - Ombro Doloroso Reumatologia - Hilton Seda 2ª edição - pag. 1473 vol. II - 1982. 15. Dalton S.E. The Shoulder Rheumatology; Klippel. J. H. & Dieppe P.A. 1ª edition, Mosby. 16. Godinho G.G. Ombro Noções práticas de reumatologia; Moreira, C. & Carvalho, M.A.P. 1ª edição, Health, 1996. 17. Lashgari C.J.,Yamaguchi K.: “Natural history and nonsurgical treatment of rotator cuff disorders”. In: Norris T.R.: Orthopaedic knowledge update. Illinois: AAOS Shoulder and Elbow, p. 155-162, 2002. 18.. Jobe C.M.: “Rotator cuff disorders: anatomy, function, pathogenesis, and natural history”. In: Norris T.R.: Orthopaedic Knowledge Update. Illinois, AAOS Shoulder and Elbow, p. 143-154, 2002. 19. Mileski R.A., Snyder S.J.: Superior labral lesions in the shoulder: pathoanatomy and surgical management. J Am Acad Ortop Surg 6: 121-131, 1998. 20. Neer C.S.: Shoulder Reconstruction. Philadelphia, W.B. Saunders, p. 1-39, 1990. 21. Morrey B.F., Itoi E., An K.N.: “Biomechanics of the shoulder”. In: Rock-wood C.A., Matsen F.A.: The shoulder. 2nd ed. Philadelphia, W.B. Saunders, p. 233-276, 1998. 22. Fukuda H.: The management of partial-thickness tears of the rotator cuff. J Bone Joint Surg [Br] 85: 3-11, 2003. 23. Sher J.S., Uribe J.W., Posada A., et al: Abnormal findings on magnetic resonance images of asymptomatic shoulders. J Bone Joint Surg [Am] 77: 1015, 1995. 24. Yamanaka K., Matsumoto T.: The joint side tear of rotator cuff: a follow-up study by arthrography. Clin Orthop 304: 68-73, 1994. 25. Fukuda H.: Partial-thickness rotator cuff tears: a modern view on Codman’s classic. J Shoulder Elbow Surg 9: 163-168, 2000. 26. Yamaguchi K., Ball C.M., Galatz L.M.: Arthrocospic rotator cuff repair. Clin Orthop 390: 83-94, 2001. 27. Esch J., Bynum C.K.: Arthroscopic repair of subscapularis tendon ruptures. Sports Med Arthroscopy Rev 12: 99-103, 2004. 28. Manual de aplicação da Norma Regulamentadora nº 17. – 2 ed. Brasília : MTE, SIT, 2002. 29. Pontos de verificação ergonômica, Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho – 1ª edição – 2001. 30. Mendes, R (1995) Patologia do Trabalho.São Paulo, p: 41- Ed Ateneu
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    Sergio Augusto Machadode Carvalho e Silva – CRM/SP 61235 Médico do trabalho pela Universidade de São Paulo - USP Campinas /SP F: (19) 97314312 e-mail:sergio2@ig.com.br www.drsergio.com.br 16 31. Karhu, O.; KANSI,P. & KUORINKA,I. (1977) Correcting working postures in industry: a practical method for analysis. J. Applied Ergonomics,v.8.4:199-201. 32. Chafin,D.B (2001) Biomecânica ocupacional,p277-353. Ed Ergo Ltda. 33. Couto,Hudson Araújo (1995) Ergonomia aplicada ao trabalho,vol I e II. Ed Ergo Ltda 34. Couto,Hudson Araújo, (2002) Como implantar ergonomia nas empresas.Ed. Ergo 35. Ergonomic Checkpoints, Practical and Easy-to-Implement Solutions for Improving Safety,Health and Working Conditions. Geneva. International Labour Office, 1996. www.ilo.org/public/english/support/publ/books.htm. Softwares: 1. WISHA - Washington State Ergonomics Rule Lifting Calculator (2000). http://www.lni.wa.gov/Safety/Topics/Ergonomics/ServicesResources/Tools/LiftingCalculator3/Bro wserSniffer.htm