Pobre Lugo,
pobre Paraguai,
pobre democracia

              José Fogaça
O ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, construiu sua
formação política a partir de vertentes da esquerda latino-americana
que tiveram sua vigência nos anos 60 e 70. A corrente política da qual
ele é originário, embora sincera, ignorou cruciais mudanças ocorridas
no mundo nas últimas décadas. Quando uma ideia ou um método estão
fora de seu tempo e lugar, ao invés de produzir soluções, acabam
produzindo apenas crise, impasse, imobilidade e, quase sempre, o
pior: efeitos contrários aos seus objetivos.
          O discurso político sustentado por Lugo, no entanto, mesmo
envelhecido e incapaz de garantir na prática avanços reais àqueles a
quem pretendeu defender, foi inegavelmente o discurso que o elegeu.
Diferentemente do que aconteceu em outros lugares, Lugo não pode
ser acusado de ter vencido com um discurso e governado com outro.
Não. Lugo foi rigorosamente coerente com o sucesso político de seus
dogmas e de seu anacronismo. Colocou em prática o seu discurso: o
mesmo que o levou ao epicentro do poder também o levou ao abismo.
Nunca é demasiado reafirmar: o mundo mudou, mas a
transformação social continua uma necessidade urgente e
absolutamente inadiável. As diferenças, os dramáticos desníveis de
acesso aos meios de produção e à renda não desapareceram. A miséria
e a injustiça constituem ainda a amarga realidade de imensas parcelas
desta América Latina.
           Hoje, no entanto, a ruptura com esse estado de coisas passa
por outras formas de luta. Há muito mais avanço, há muito mais
mudança e transformação social em políticas públicas lastreadas na
cooperação do que nas ações engendradas a partir do conflito e da
ruptura. A governabilidade hoje é essencial à defesa dos excluídos.
Destruir a governabilidade é destruir os instrumentos de luta dos
menos favorecidos. A erradicação da pobreza depende hoje da
capacidade de se produzir consenso em torno de um projeto comum e
socialmente solidário, que se construa em um ambiente de diálogo,
confiança e soluções negociadas, um ambiente favorável aos
investimentos, ao crescimento econômico, à geração de empregos, à
legitimação e viabilização da pequena propriedade agrícola.
Ou seja: em uma democracia de mercado na qual o Estado não
abra mão de seu necessário papel de iniciativa e coordenação em
defesa do bem comum.
      Diante do desfecho surpreendente da crise política do Paraguai,
acho importante deixar algo muito claro: Lugo tem uma visão política
extemporânea, superada - equivocada, talvez – mas não criminosa.
Mesmo que os movimentos políticos de Lugo tenham sido vacilantes,
erráticos e contraditórios, a decisão-relâmpago de subtraí-lo do
poder não deixou de causar estranheza e mal-estar. Mesmo que tenha
sido por meios constitucionais e pela maioria das duas casas do
Congresso. O instrumento que a democracia inventou para combater
seus equívocos são outros: a organização política, a liberdade, o
debate, o diálogo e o voto.
       Se vivesse no Paraguai, provavelmente não teria votado em
Fernando Lugo. Mas também não apoiaria de modo nenhum a sua
destituição.

Pobre Lugo, pobre Paraguai, pobre democracia

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    Pobre Lugo, pobre Paraguai, pobredemocracia José Fogaça
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    O ex-presidente doParaguai, Fernando Lugo, construiu sua formação política a partir de vertentes da esquerda latino-americana que tiveram sua vigência nos anos 60 e 70. A corrente política da qual ele é originário, embora sincera, ignorou cruciais mudanças ocorridas no mundo nas últimas décadas. Quando uma ideia ou um método estão fora de seu tempo e lugar, ao invés de produzir soluções, acabam produzindo apenas crise, impasse, imobilidade e, quase sempre, o pior: efeitos contrários aos seus objetivos. O discurso político sustentado por Lugo, no entanto, mesmo envelhecido e incapaz de garantir na prática avanços reais àqueles a quem pretendeu defender, foi inegavelmente o discurso que o elegeu. Diferentemente do que aconteceu em outros lugares, Lugo não pode ser acusado de ter vencido com um discurso e governado com outro. Não. Lugo foi rigorosamente coerente com o sucesso político de seus dogmas e de seu anacronismo. Colocou em prática o seu discurso: o mesmo que o levou ao epicentro do poder também o levou ao abismo.
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    Nunca é demasiadoreafirmar: o mundo mudou, mas a transformação social continua uma necessidade urgente e absolutamente inadiável. As diferenças, os dramáticos desníveis de acesso aos meios de produção e à renda não desapareceram. A miséria e a injustiça constituem ainda a amarga realidade de imensas parcelas desta América Latina. Hoje, no entanto, a ruptura com esse estado de coisas passa por outras formas de luta. Há muito mais avanço, há muito mais mudança e transformação social em políticas públicas lastreadas na cooperação do que nas ações engendradas a partir do conflito e da ruptura. A governabilidade hoje é essencial à defesa dos excluídos. Destruir a governabilidade é destruir os instrumentos de luta dos menos favorecidos. A erradicação da pobreza depende hoje da capacidade de se produzir consenso em torno de um projeto comum e socialmente solidário, que se construa em um ambiente de diálogo, confiança e soluções negociadas, um ambiente favorável aos investimentos, ao crescimento econômico, à geração de empregos, à legitimação e viabilização da pequena propriedade agrícola.
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    Ou seja: emuma democracia de mercado na qual o Estado não abra mão de seu necessário papel de iniciativa e coordenação em defesa do bem comum. Diante do desfecho surpreendente da crise política do Paraguai, acho importante deixar algo muito claro: Lugo tem uma visão política extemporânea, superada - equivocada, talvez – mas não criminosa. Mesmo que os movimentos políticos de Lugo tenham sido vacilantes, erráticos e contraditórios, a decisão-relâmpago de subtraí-lo do poder não deixou de causar estranheza e mal-estar. Mesmo que tenha sido por meios constitucionais e pela maioria das duas casas do Congresso. O instrumento que a democracia inventou para combater seus equívocos são outros: a organização política, a liberdade, o debate, o diálogo e o voto. Se vivesse no Paraguai, provavelmente não teria votado em Fernando Lugo. Mas também não apoiaria de modo nenhum a sua destituição.