DIRECTOR    JORGE CASTILHO




| Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia |
Autorizado a circular em invólucro
de plástico fechado (DE53742006MPC)
                                                           Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA             Telef.: 309 801 277


               ANO IV                       N.º 69 (II série)                           29 de Maio de 2009                                1 euro (iva incluído)

   CELEBRA-SE NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA, 1 DE JUNHO


   Dia Mundial da Criança




   As crianças são o futuro de cada País, são o futuro da Humanidade. Em Portugal o número de crianças está a diminuir de forma muito preocupante,
   sobretudo no interior do País. Em contrapartida em São Tomé (imagem) o elevado número de crianças faz ter esperança no porvir                      PÁG. 12 a 13

       EM COIMBRA                                               NOVA “LINGUAGEM”                       FOI HÁ 40 ANOS                  HOJE É DIA MUNDIAL


   Romaria                                                      Diário                                 Imagens                         Renováveis
   do Espírito                                                  de Torga                               evocam                          são aposta
   Santo                                                        “traduzido”                            Crise                           no sector
   renovada                                                     para sms                               Académica                       da energia
                                                  PÁG. 5                                 PÁG. 22                        PÁG. 11                        PÁG. 23 e 24
2 EDITORIAL                                                                                                                          29 DE MAIO DE 2009




                                                         A energia e as crianças
                       Jorge Castilho             o trabalho escravo até à prostituição for-   çada, pois isso acarretará terríveis       padas amigas do ambiente; a aquisi-
                       jorge.castilho@gmail.com
                                                  çada, da venda como mercadoria até ao        efeitos para o futuro do País.             ção de aparelhos eléctricos com me-
                                                  tráfico para utilização de órgãos!                                                      nores consumos; desligar todos os apa-
  Celebra-se hoje, 29 de Maio, o Dia                                                              Graves consequências, não só para       relhos (televisores, videos, computa-
Mundial da Energia.                                  Importa, por isso, denunciar as si-       o País mas para todo o Mundo, terá         dores, etc.) em vez de os deixar no
  E na próxima segunda-feira, 1 de                tuações abusivas, diligenciar no sen-        também a forma desregrada como             modo “stand by”; desligar os carre-
Junho, o Dia Mundial da Criança.                  tido de formação dos pais, criar es-         continuam a consumir-se, em todo o         gadores de telemóveis e outros das to-
  Esta coisa dos “dias disto e daqui-             truturas de apoio à infância.                Mundo, os combustíveis fósseis, exau-      madas, quando não estão a ser utili-
lo” tem um efeito positivo, que é o de               Mas exige-se, de igual modo, que          rindo as reservas que a Natureza foi       zados; fechar as torneiras enquanto se
ser pretexto para iniciativas diversas            aumentem os apoios sociais para quem         gerando ao longo de milhões de anos.       escovam os dentes ou, no duche, en-
para celebração das datas, muitas das             tem filhos, de molde a tornar a mater-                                                  quanto se ensaboa o corpo; utilizar as
quais se destinam a chamar a aten-                nidade e a paternidade menos proble-            Neste domínio, é justo referir que      escadas em vez dos elevadores, sem-
ção do público para realidades e pro-             máticas, com menores custos para os          em Portugal se tem vindo a fazer um        pre que possível (porque até faz bem
blemas que, nos restantes 364 dias do             progenitores e até com estímulos para        meritório esforço no sentido de esti-      à saúde, pois é um bom exercício para
ano, quase sempre são ignorados.                  que os jovens adultos se decidam a           mular o recurso às energias renová-        quem leva uma vida sedentária); não
                                                  ter mais filhos e a tê-los mais cedo.        veis, desde a solar à eólica, passando     usar o automóvel para pequenos per-
   Também os órgãos de comunicação                                                             pela hídrica.                              cursos ou quando existem transportes
social – alguns deles, pelo menos –                  Porque o que está a suceder, desde           Aliás, recentemente surgiram alician-   públicos eficientes; apagar as luzes
dedicam espaço e tempo a estas efe-               há vários anos, é que o índice de na-        tes apoios do Estado (benefícios fis-      sempre que elas não são necessárias
mérides, assim contribuindo para lan-             talidade tem vindo a baixar de forma         cais, subsídios e linhas de crédito bo-    e acendê-las apenas quando tal se jus-
çar alertas, apontar exemplos, denun-             drástica, os casais têm menos filhos e       nificado) a quem queira optar por este     tifica; não abusar dos aparelhos de ar
ciar situações anómalas.                          de cada vez os têm numa idade mais           tipo de energias alternativas.             condicionado e de outros equipamen-
   O “Centro” é um dos que tenta as-              avançada. A população portuguesa só                                                     tos para aquecer ou arrefecer as re-
sumir esse papel de serviço público,              não está ainda mais reduzida porque             Deve reconhecer-se, repito, que nes-    sidências e os locais de trabalho; ins-
divulgando trabalhos sobra os temas               as pessoas estão a viver mais tempo.         ta área Portugal está na linha da fren-    talar painéis solares para o aquecimen-
em apreço, fazendo-se eco de aspec-                                                            te, até mesmo a nível mundial.             to de água; aproveitar os apoios para
tos que reputa importantes e/ou inte-                Ora a gravíssima situação em que             Mas tal não deve ser razão para         a instalação, em residências e outros
ressantes.                                        o País está mergulhado só deverá             descurar esta matéria. Porque ainda        edifícios, de painéis fotovoltaicos e
   Ora a verdade é que estas duas efe-            agravar ainda mais este problema da          há muito a fazer, quer em medidas de       mini-eólicas para produzir energia.
mérides bem merecem destaque, ta-                 natalidade. Caso não sejam criados           fundo, a tomar pelas diversas entida-
manha é a sua importância no presente             mais e melhores apoios, é natural (e é       des públicas e privadas, quer nos pe-         Continuemos a aproveitar, cada vez
e para o futuro.                                  compreensível!) que os jovens casais         quenos gestos do dia-a-dia, que cada       mais e cada vez melhor, os recursos
                                                  adiem o seu desejo de ter filhos, por        um de nós deve adoptar no seu com-         naturais com que o nosso País foi ba-
   Invertendo a ordem cronológica,                estarem receosos de não disporem de          portamento, transformando em rotina        fejado – o sol luminoso durante grande
deve falar-se primeiro das Crianças,              condições para lhes proporcionar tudo        generalizada o que hoje é quase uma        parte do ano, o vento que sopra por todo
porque tantos problemas existem com               aquilo de que eles carecem.                  excepção.                                  o País, os cursos de água que correm
elas relacionados e porque são elas o                                                                                                     ao longo do nosso território, as ondas
futuro da Humanidade.                                E até mesmo a rectaguarda familiar,          Dou a seguir apenas alguns exemplos     do mar na nossa extensa costa.
   E há tantas, na maior parte dos paí-           até há pouco constituída, sobretudo,         fáceis de adoptar, e que, para além de
ses do Mundo, a sofrer precocemen-                pelos avós, que davam uma preciosa           beneficiarem não só a nós próprios, mas       E sensibilizemos as nossas crianças,
te, a ser tratadas com negligência pe-            ajuda nos mais diversos domínios, está       o porvir de toda a Humanidade, têm ain-    em casa e nas escolas, para a neces-
los próprios pais – em alguns casos               também profundamente afectada pela           da a vantagem de representar uma sig-      sidade de poupar água e energia.
por ignorância, noutros por delibera-             crise, não podendo prestar o auxílio         nificativa poupança, numa altura em que       Assim estaremos a zelar pelo futu-
da incúria.                                       que desejaria.                               o Mundo tenta enfrentar uma das maio-      ro das gerações vindouras – e essa é
   Para já não falar de situações verda-             Esta uma realidade que não pode           res crises de sempre.                      uma responsabilidade comum, de que
deiramente criminosas, que vão desde              ser escamoteada, ignorada ou disfar-            Eis as sugestões: a adopção de lâm-     ninguém deve alhear-se!




                                                    Aos Assinantes do “Centro”
 Director: Jorge Castilho                           Como tem sido bem evidente nas notícias vindas a público, o sector da comunicação social
     (Carteira Profissional n.º 99)
                                                    é um dos mais afectados pela crise que se abateu sobre toda a sociedade, sobretudo pelo brutal
 Editor/Propriedade: Audimprensa                    decréscimo nos investimentos publicitários.
    NIF: 501 863 109                                Perante isto, até os grandes grupos de comunicação social estão a fazer despedimentos
 Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho            em massa, para além de haver muitos jornais regionais que se viram já obrigados
                                                    a suspender a publicação.
 ISSN: 1647-0540
                                                    Aqui no “Centro” estamos a fazer um enorme esforço para superar as dificuldades.
 Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930                 Mas esse esforço só será bem sucedido se conseguirmos receitas de publicidade e se os nossos
 Composição e montagem: Audimprensa
                                                    Assinantes tiverem a gentileza de proceder ao pagamento da respectiva assinatura anual
 Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra     - que se mantém em 20 euros desde o início do jornal.
                                                    Se quer que esta tribuna livre possa manter-se, muito agradecemos que nos envie o pagamento
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 Impressão: CORAZE                                  Outra forma de ajudar este projecto independente é conseguir-nos novos Assinantes,
    Oliveira de Azeméis                             por exemplo entre os seus familiares e amigos (veja a página ao lado).
 Depósito legal n.º 250930/06

 Tiragem média: 5.000 exemplares
                                                    Contamos consigo!
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                       COIMBRA                 3
AROMAS, SABORES E MÚSICA MISTURAM-SE AMANHÃ NA BAIXA DA CIDADE

Mercado de Flores e Plantas anima ruas de Coimbra
   A Baixa de Coimbra vai surgir ama-                                                                                              diferente à Baixa, através dos arranjos
nhã (sábado, dia 30) muito animada e                                                                                               florais e plantas (ornamentais, odorífe-
colorida.                                                                                                                          ras, de várias formas e texturas, medici-
   Trata-se do “Mercado de Flores e                                                                                                nais), da mostra de produtos biológicos
Plantas”, que decorre pelo terceiro ano                                                                                            que estarão espalhados desde a Praça 8
consecutivo, e que se espera atinja êxito                                                                                          de Maio à Rua Visconde da Luz, fruto
ainda maior do que nas anteriores edi-                                                                                             da participação de dezenas de floristas a
ções, atendendo ao Uma iniciativa do                                                                                               que também se associam mais de uma
Departamento de Cultura da Câmara                                                                                                  dezena de grupos folclóricos da Região,
Municipal de Coimbra, que se espera                                                                                                que enriquecem a festa não só com ar-
constitua uma boa surpresa não só para                                                                                             ranjos florais, mas com a gastronomia
os conimbricenses, mas também para os                                                                                              tradicional de Coimbra.
muitos turistas que nesta altura do ano                                                                                               A programação integra ainda momen-
visitam a cidade.                                                                                                                  tos de animação ao longo de todo o dia.
   Flores e plantas vão aliar-se à doçaria                                                                                         Assim, entre as 10h30 e as 12h30, desfila-
tradicional, estabelecendo-se, assim, um                                                                                           rá a Fanfarra dos Bombeiros Voluntários
feliz casamento entre sabores e aromas,                                                                                            de Brasfemes; às 13h30, o Grupo de Con-
num espectáculo de cor que será ainda                                                                                              certinas da Lousã; às 15h30 o Grupo Ei-
valorizado pela música.                                                                                                            ranças fará uma intervenção, com música
   A vertente gastronómica da Região                                                                                               e cantares, em torno das tradições ligadas
será apresentada por vários grupos fol-                                                                                            às flores – “Maias” – com a recriação do
clóricos e etnográficos da região de Co-                                                                                           tradicional Baile da Rosa e da Espiga.
imbra, contando ainda com a colabora-                                                                                                 A iniciativa – que engloba também o
ção dos Associação dos Orizicultores.                                                                                              Concurso “Melhor Arranjo Floral”, en-
   Entre as 10h00 e as 17h30 o Mercado        Imagem da anterior edição do “Mercado de Flores e Plantas”                           cerrará com nova actuação do Grupo de
de Flores e Plantas, trará um colorido        que amanhã voltará a animar a Baixa de Coimbra                                       Concertinas da Lousã, a partir das 17h00.


 ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS                                                                                                  AUDIMPRENSA
                                                                                                                                         Jornal “Centro”
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                                                                                                                                        3000–390 COIMBRA

 e ganhe valiosa obra de arte                                                                                                         Poderá também dirigir-nos o seu pe-
                                                                                                                                   dido de assinatura através de:
                                                                                                                                        telefone 309 801 277
     Temos uma excelente sugestão            ma tão original, está a desabrochar,        sua casa (ou no local que nos indicar),        fax 309 819 913
  para uma oferta a um Amigo, a um           simbolizando o crescente desenvolvi-        o jornal “Centro”, que o manterá               ou para o seguinte endereço
  Familiar ou mesmo para si próprio:         mento desta Região Centro de Portu-         sempre bem informado sobre o que de            de e-mail:
  uma assinatura anual do jornal             gal, tão rica de potencialidades, de His-   mais importante vai acontecendo nes-         centro.jornal@gmail.com
  “Centro”                                   tória, de Cultura, de património arqui-     ta Região, no País e no Mundo.
                                                                                                                                      Para além da obra de arte que des-
     Custa apenas 20 euros e ainda re-       tectónico, de deslumbrantes paisagens          Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo,
                                                                                                                                   de já lhe oferecemos, estamos a pre-
  cebe de imediato, completamente            (desde as praias magníficas até às ser-     por APENAS 20 EUROS!
                                                                                                                                   parar muitas outras regalias para os
  grátis, uma valiosa obra de arte.          ras imponentes) e, ainda, de gente hos-        Não perca esta campanha promo-
                                                                                                                                   nossos assinantes, pelo que os 20 eu-
     Trata-se de um belíssimo trabalho       pitaleira e trabalhadora.                   cional e ASSINE JÁ o “Centro”.
                                                                                                                                   ros da assinatura serão um excelente
  da autoria de Zé Penicheiro, expres-          Não perca, pois, a oportunidade de          Para tanto, basta cortar e preen-
                                                                                                                                   investimento.
  samente concebido para o jornal            receber já, GRATUITAMENTE,                  cher o cupão que abaixo publicamos,
                                                                                                                                      O seu apoio é imprescindível para
  “Centro”, com o cunho bem carac-           esta magnífica obra de arte (cujas di-      e enviá-lo, acompanhado do valor de
                                                                                                                                   que o “Centro” cresça e se desen-
  terístico deste artista plástico – um      mensões são 50 cm x 34 cm).                 20 euros (de preferência em cheque
                                                                                                                                   volva, dando voz a esta Região.
  dos mais prestigiados pintores portu-         Para além desta oferta, o beneficiá-     passado em nome de AUDIMPREN-
  gueses, com reconhecimento mesmo           rio passará a receber directamente em       SA), para a seguinte morada:                CONTAMOS CONSIGO!
  a nível internacional, estando repre-
  sentado em colecções espalhadas por
  vários pontos do Mundo.
     Neste trabalho, Zé Penicheiro,                Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO
  com o seu traço peculiar e a incon-
  fundível utilização de uma invulgar
  paleta de cores, criou uma obra que
  alia grande qualidade artística a um
  profundo simbolismo.
     De facto, o artista, para represen-
  tar a Região Centro, concebeu uma
  flor, composta pelos seis distritos que
  integram esta zona do País: Aveiro,
  Castelo Branco, Coimbra, Guarda,
  Leiria e Viseu.
     Cada um destes distritos é repre-
  sentado por um elemento (remeten-
  do para o respectivo património his-
  tórico, arquitectónico ou natural).
     A flor, assim composta desta for-
4 INTERNACIONAL                                                                                                                   29 DE MAIO DE 2009




                                                     Um Mundo desnuclearizado
                                             ton, em Dezembro de 2007, e o segundo         sia considera as armas nucleares como           Entre os primeiros, por muito estra-
                   Fiodor Lukyanov *         em Roma, no passado mês de Abril.             a principal garantia nas condições de uma    nho que possa parecer, encontra-se a
                                                O assunto tem criado muita animação        gigantesca supremacia dos EUA nas ar-        Rússia. Quanto ao arsenal nuclear, Mos-
   A política mundial acaba de fazer uma     e entusiasmo na Europa e na América           mas convencionais.                           covo está no topo acessível apenas aos
espiral e muitos políticos de novo falam     do Norte, mas passa quase despercebi-            Moscovo aceita as conversações com        EUA. A arma nuclear é a única esfera
sobre um total desarmamento nuclear. O       do na Rússia. Mais ainda, vários políti-      Washington como mais um acto da mes-         em que Moscovo e Washington se en-
Presidente dos EUA, Barack Obama, em         cos russos fazem declarações cépticas         ma interminável peça. Por um lado, as-       contram em pé de igualdade. Mas, psi-
quem é costume agora depositar todas         quanto à possibilidade de redução radi-       sim é. Por outro, as decorações globais      cologicamente, e não só, a Rússia não
as esperanças do planeta, pretende per-      cal das armas nucleares.                      da peça têm mudado radicalmente des-         tem o estatuto elitista da ex-URSS.
suadir o Congresso a ratificar o Tratado        As iniciativas visando a um desarma-       de os tempos em que a peça atraía mui-          As reduções radicais dos arsenais
sobre proibição de testes nucleares, dar     mento nuclear são jogadas invencíveis         ta atenção do público.                       nucleares, que Barack Obama pretende
muita atenção ao regime de não prolife-      dos que as propõem. É difícil objectar           Para os EUA recomeçar o diálogo           propor, não convêm à Rússia e um pro-
ração, proceder a uma redução dos ar-        contra uma recusa de usar a arma mais         com a Rússia é importante no plano bi-       gresso neste campo só pode ser gradu-
senais e, em perspectiva, aspira a ver o     destructiva inventada pelo homem.             lateral, e também para demonstrar a          al. Por outras palavras, quanto maior for
nosso mundo livre de armas nucleares.           Os apoiantes do «zero global» repor-       sua boa vontade e tentar salvar o Tra-       a iniciativa, tanto menor será o grau de
                                                                  tam-se à cimeira         tado de não proliferação das armas nu-       probabilidade da sua realização.
                                                                  URSS-EUA realiza-        cleares, que, aliás,
                                                                  da em Reiquejavique      ameaça a ruir.
                                                                  (Islândia) em Outu-         A morte deste Tra-
                                                                  bro de 1986, onde        tado significa não
                                                                  Mikhail Gorbatchev       apenas maiores ame-
                                                                  e Ronald Reagan          aças aos EUA, como
                                                                  quase acordaram um       também um sério gol-
                                                                  prazo (1996) para        pe na liderança nor-
                                                                  uma completa des-        te-americana no
                                                                  truição das armas        mundo. Como é sa-
                                                                  nucleares. De facto,     bido, o reforço
                                                                  Moscovo e Wa-            desta liderança
                                                                  shington estavam         continua a consti-
                                                                  muito perto de um        tuir o principal ob-
                                                                  tratado que inicial-     jectivo da Adminis-
                                                                  mente parecia im-        tração de Barack
                                                                  possível. Mas surgiu     Obama. Pois é nas
                                                                  um obstáculo – o         condições de proli-
                                                                  desejo categórico de     feração das armas
                                                                  Ronald Reagan de         nucleares        (por
                                                                  não desistir da Inici-   exemplo, um even-
                                                                  ativa de Defesa Es-      tual teste de bomba
                                                                  tratégica (o escudo      nuclear iraniana), se
                                                                  anti-míssil norte-       torna ainda mais
                                                                  americano).              ineficaz a supervi-
                                                                     Há 23 anos, as ini-   são global norte-
                                                                  ciativas partiam do      americana.
                                                                  Kremlin, enquanto a         A lógica dos parti-
                                                                  Casa Branca estava       dários de um total
                                                                  toda incrédula, sus-     desarmamento é a
    Mikhail Gorbatchev                                                                                                 Barack Obama
                                                                  peitando sempre de       seguinte: as duas po-
                                                                  uma armadilha nas        tências nucleares
   A ideia de um mundo desnucleariza-        propostas e compromissos do dirigente         vão dar um exemplo e os restantes paí-          A arma nuclear tem sido um dos
do, proclamada há muitos anos por Ro-        soviético. Hoje em dia, os impulsos ema-      ses nucleares seguirão o mesmo cami-         mais temíveis símbolos do sec. XX-
nald Reagan, e proposta como um ob-          nam de Washington, e Moscovo é a par-         nho. Mas, na prática, nada, absolutamen-     XXI, mas, como é reconhecido por
jectivo político concreto por Mikhail Gor-   te que desconfia. Mas essa inversão dos       te nada, obriga a Índia, o Paquistão e Is-   muitos, ajudou, até agora, a prevenir
batchev, com o fim da «guerra fria» de-      papéis não altera a essência do proble-       rael a fazerem o mesmo! Ou o Irão a          grandes guerras.
sapareceu da agenda mundial. Muitos          ma. Não é por acaso que as condições          rever as suas ambições!                         Hoje em dia, constata-se uma certa
acreditavam que o tema ficou definitiva-     de desarmamento nuclear, apresentadas            Hoje em dia muitos países aspiram a       diminuição do medo perante a arma de
mente no passado, assim como a con-          há dias pelo Presidente Dmitri Medve-         ter armas nucleares por razões aliás muito   destruição em massa. A possibilidade
frontação ideológica e o frente-a-frente     dev, se assemelham aos «escolhos» sur-        diversas. Para alguns é importante ter       do seu uso não parece muito grande,
entre as duas superpotências.                gidos na cimeira de Reiquejavique.            garantias da sua soberania. A História       embora não seja excluída de modo tão
   Mas em Janeiro de 2007 quatro ex-            Trata-se, antes de tudo, da questão de     recente demonstra: se um regime possui       categiórico como há uns trinta anos.
políticos – os secretários de Estado Ge-     não colocação das armas nucleares no          arma nuclear, então ninguém o ataca (a       Por outro lado, na medida da sua proli-
orge Schultz e Henry Kissinger, o secre-     Espaço e proibição de criar unilateral-       Coreia do Norte). Não ter arma nuclear       feração, a arma nuclear deixará de ser
tário da Defesa William Perry e o sena-      mente sistemas anti-mísseis. No entan-        significa não ter garantias contra uma       um meio de garantia da estabilidade
dor William Nann – avançaram com uma         to, tal como antes, os EUA não querem         invasão armada (o Iraque).                   estratégica.
iniciativa, secundada por Barack Oba-        ter as mãos atadas.                              Muitos países têm receio dos vizinhos        Contudo, é preciso sempre ter em
ma. E, naturalmente, Mikhail Gorbatchev         Mais uma circunstância que complica        pouco amistosos. E estes receios não são     mente que na História da Humanidade
foi o primeiro a dar-lhe todo o seu apoio.   tudo: o desequilíbrio nas armas conven-       relacionados com o comportamento do          ainda não existiram armas, que uma vez
Sob a presidência do ex-presidente sovi-     cionais inverteu-se. Antes, a NATO teve       Kremlin e da Casa Branca. Situações          inventadas, nunca eram usadas contra o
ético já se realizaram dois foruns «Supe-    medo da supremacia soviética em tro-          assim existem na Ásia Meridional e Ori-      homem.
rar a Ameaça Nuclear» – um em Bos-           pas blindadas, artilharia, etc. Hoje a Rús-   ental, assim como no Médio Oriente.                * in revista A Rússia na Política Global
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                                    COIMBRA                  5
UMA TRADIÇÃO RENOVADA NO LARGO DOS OLIVAIS


Romaria do “Espírito Santo”
atrai população de Coimbra
   A tradição da Romaria do Espírito Santo,
em Coimbra, tem já alguns séculos. Exis-                                                         SALVAGUARDA                                     ESTREIA DO CORO
tem mesmo referências a que até o próprio                                                        DOS MONUMENTOS                                  DOS OLIVAIS
Luís de Camões por ela terá passado, en-                                                                                                         NO PROGRAMA
volvendo-se em escaramuças suscitadas                                                               Deve ainda referir-se a preocupação, este    DO FIM-DE-SEMANA
pelo seu ardor de conquistar donzelas. Ob-                                                       ano ainda maior, de não “abafar” os monu-
viamente que poderá ser especulação po-                                                          mentos existentes no local.                        Como aciam se refere, a Romaria tem
pular, uma vez que não há consistentes ele-                                                         Assim, o acesso à escadaria da Igreja        sido valorizada com um diversificado progr-
mentos históricos que sustentem este epi-                                                        ficou este ano sem tendas ou expositores,       ma cultural e recreativo.
sódio.                                                                                           para lhe não roubar a beleza que tanto im-         Para este fim-de-semana, destacam-se
   A verdade é que ele surge narrado no                                                          pressiona os milhares de turistas nacionais     as seguintes iniciativas:
célebre filme com o nome do épico, realiza-                                                      e estrangeiros (entre estes últimos o maior
do por Leitão de Barros com argumento de                                                         número é de italianos) que ali acorrem para        Sábado (dia 30) - 21h00 – Música ao vivo
Afonso Lopes Vieira (e que foi o primeiro                                                        conhecer o local onde Santo António (de         para dançar. Uma inovação curiosa, tanto
filme português a concorrer ao Festival de                                                       Lisbos, de Pádua, mas também de Coim-           mais que haverá prémios para os melhores
Cannes, em 1946).                                                                                bra) estudou e iniciou a sua actividade reli-   dançarinos na modalidade de tango e valsa.
   Mas deixemos os aspectos cinéfilos e                                                          giosa (recorde-se, a propósito, que há pou-        Domingo (dia 31), 21h00 – Actuação do
voltemos à realidade. A Romaria do Espíri-                                                       cos anos foi mesmo descoberta a que terá        Coro Misto da Freguesia de Santo António
to Santo é a mais popular de Coimbra, sen-                                                       sido a cela habitada pelo santo padroeiro de    dos Olivais. Trata-se da apresentação pú-
do ponto de passagem obrigatória da popu-                                                        Lisboa).                                        blica deste Coro, constituído por meia cen-
lação da cidade.                                                                                    Também a capelinha existente no meio         tena de cantores de várias idades e ambos
   Até há algumas décadas, a Romaria es-       respectivo número.                                do Largo tem em volta um espaço livre, de       os sexos, que tem sido muito acarinhado pela
praiava-se por uma vasta área de terra ba-        Fez também maiores exigências relati-          forma a poder ser devidamente apreciada         Junta de Freguesia.
tida, junto à Igreja de Santo António dos      vamente à forma como as estruturas ali fo-        pelos visitantes.
Olivais.                                       ram montadas.
   Era famosa, sobretudo, pelas tendas onde       E tentou atrair maior número de produ-
se vendiam objectos de barro – desde as        tos artesanais portugueses, incluindo os da
bilhas para a água fresca até às assadeiras    Região Centro, de molde a valorizar um sec-
e aos vasos para plantas, passando pelos       tor que, em edições anteriores, quase fora
pífaros e campaínhas de barro que faziam       “engolido” pela quantidade de artigos vin-
as delícias da miudagem (e davam cabo dos      dos de outros países.
ouvidos a que mestivesse perto...).               Neste último aspecto, contudo, o Presi-
   Com as obras que ali foram sendo feitas     dente da Junta de Freguesia admite que não
(nomeadamente a abertura da avenida An-        foi tão bem sucedido como desejaria, pois a
tónio Portugal e o arranjo do próprio Largo    resposta dos artesãos nacionais não foi tão
dos Olivais), a área disponível para a Ro-     substancial como ele desejava.
maria ficou substancialmente reduzida.            Isto apesar do convite aos artesãos por-
   Por outro lado, também a evolução dos       tugueses estar a ser anunciado há um ano.
hábitos de consumo veio mudar o tipo de
objectos ali comercializados, tal a como a     CULTURA E LAZER
aglobalização.                                 MAS TAMBÉM GASTRONOMIA
   Deste modo, e embora ainda haja as ten-
das onde se vendem objectos de barro (quase
                                                  Outra das preocupações do autarca tem
todos produzidos nas tradicionais olarias do
                                               sido a de que a Romaria do Espírito Santo
Minho), a verdade é que a Romaria tem um
                                               associe a cultura ao lazer, sem esquecer a
carácter verdadeiramente internacional,
                                               gastronomia tradicional.
onde se vêem comerciantes e produtos ori-
                                                  Assim, ali podem ser encontradas as fa-
ginários de vários continentes – de África à
                                               mosas “farturas”, produzidas por dois fabri-
Ásia, passando pela América do Sul.
                                               cantes à vista de todos, e servidas em ou-
                                               tras tantas esplanadas, onde é muito agra-
PRESIDENTE DA JUNTA                            dável passar uns momentos de descontrac-
DOS OLIVAIS                                    ção, acompanhando aquela especialidade
TENTA FAZER “MILAGRES”                         com uma bebida agrdável.
                                                  Igualmente a bela sardinha assada mar-
   De forma a aproveitar o espaço disponí-     ca presença num restaurante instalado jun-
vel, o Presidente da Junta de Freguesia dos    to ao Largo, que proporciona outras opções
Olivais, Francisco Andrade, vem fazendo,       da gastronomia tradicional portuguesa.
ano após ano, verdadeiros “milagres” para         Para a miudagem, as diversões mecâni-
que a Romaria ganhe diversidade e, simul-      cas que tanto as atraem.
taneamente, dignidade.                            E para todos alguns espectáculos de
   Assim, na edição deste ano Francisco        música e folcore, com um programa cuida-
Andrade reduziu o espaço de cada um dos        do que, por si só, justifica uma visita ao Lar-
“stands” e tendas, de molde a aumentar o       go dos Olivais.
6 CRÓNICA                                                                                                                         29 DE MAIO DE 2009



                         A OUTRA FACE
                          DO ESPELHO
                                                                      Receitas magistrais
                        José Henrique Dias*
                          jhrdias@gmail.com

    Começou por dizer estou tão preocupada, logo sal-
tou no seu habitual galope de palavras para assuntos do
dia a dia, coisas de somenos, das que passam obrigato-
riamente pela sensibilidade feminina, do exercício prag-
mático da maternidade, como o ir às compras e carre-
gar pesos. Aquela dor que a vinha incomodando e lhe
retirava o prazer de uma conversa que adivinhara es-
fusiante, quero eu dizer, a que evidentemente me ape-
tecia, neste egoísmo másculo de contornar dificuldades
para instaurar mecanismos de sedução, instalou-se ra-
pidamente na mesa do chá de jasmim que partilháva-
mos, nota disfórica das suas preocupações e temores
exponencializados.
    Costumava brincar e chamava-lhe provocatoriamen-
te hipocondríaca, tiritava o medo de acentuar a incon-
veniência, mas não resultava, muito pelo contrário acei-
tava com ar gaiato um, pois sou e depois?, para logo
recompor um ar grave, quase sisudo, ia mesmo a dizer
ameaçador, vincar de seguida meio sorriso e eu, a par-
tir dele, desse quase sorriso, apenas esboço, eu ficava
preso nos jardins floridos que sublinhavam as promes-
sas dos seus lábios, que eram de tudo, a par com a
luminosidade do seu olhar enternecido, o vínculo de so-
noridade carminada de projectos de fim de tarde que
às vezes aconteciam.
    Era um eterno fascínio, marca indelével que vinha
do fundo das remotas recordações, de um outro tempo,
quando nos conhecemos, sei eu já lá bem quando, só se
me puser a fazer contas e atar factos, talvez então con-   social, com apetites de uma vez por outra, fixadas as         to, encontrámo-nos por acaso numa esplanada de Vila-
siga saber de nós o que fomos esquecendo, depois que       bulas dobradas no interior das caixinhas dos medica-          moura, foi uma festa, estás óptimo, gritava excitadíssi-
ela num fim de tarde, sempre fins de tarde, como este      mentos, sentenciar umas nótulas à margem das pres-            ma, tu sempre linda, fui dizendo, até porque era verda-
de agora, me avisou, com a solenidade possível, a partir   crições, como fazem com toda a segurança os chama-            de, parecia que queríamos engolir o tempo perdido e
de agora, ficas a saber, estou aberta ao que possa acon-   dos técnicos, marçanos tirocinados no abrir e fechar          acabámos a noite em sua casa, pé ante pé, bico calado,
tecer. Acabou por acontecer. Outro.                        gavetas de rodinhas de etiquetagem alfabeticamente            para não acordarmos os netos que estavam de férias
    Também, verdade seja aqui notificada, não seria di-    organizadas.                                                  com ela e a empregada que os organizava e lhe poupa-
fícil. Uma mulher como ela não teria nunca de esperar         Foi isto que há dias me disse um amigo magistrado,         va um ror de trabalhos.
muito para interessar um candidato a marido. Isto é, a     na companhia de um pediatra, depois de uma jornada               Foi então, recuperada alguma fantasia das ambiva-
companheiro. Ou talvez nem isso. Sempre me explicou        domingueira de footing ou talvez melhor de futing, se         lências e do desempenho possível, ultrapassada a casa
que não estava disposta a uma vida a dois. Ter alguém      não optarmos por corrida em circuito predeterminado.          dos sessenta ia já uns anitos, que me falou das suas
para partilhar a recusa da solidão, isso sim, uma com-     Uma vez discutimos isso, e logo o meu amigo dos tribu-        preocupações. Estávamos deitados lado a lado, de mão
panhia para uns cinemas, uns espectáculos, mesmo o         nais, zelador do património linguístico, argumentava          dada, como se não houvesse tempo, quando notei que
ocasional de uma tagarelice de amigos num bar arra-        furibundo, também não escrevemos futebol?                     um demorado silêncio fez deslizar um cristal de lágrima
baldino, mas o dia a dia, a ocupação do seu espaço,           Voltando ao que vinha a contar. Quando acabámos            que logo tentou secar com o indicador rápido.
para isso, dizia como agora é uso, já dei. Para esse       o curso, logo a convidaram para assistente e não de-             A dor, aquela dor de que me falara vagamente no
peditório já dei, acentuava.                               morou estava no topo da carreira, passado uns dois ou         início, que encontrarão quando comecei a registar da
    Dito de outra maneira, vacinara-se contra o viver a    três anos na Suiça, num centro de investigação, en-           memória o que me escorreu das palavras murmuradas
dois em permanência, como antigamente se dizia de          quanto eu me contentei com o destino de boticário de          no cá dentro de mim, era a sua grande frustração por
casa e pucarinho.                                          bairro periférico. De bata branca e tabuleta, atrás de        um amor impossível, não realizado, que traduziu numa
    Conhecemo-nos na faculdade. Uma vez, ao cair da        um balcão por conta de uma velha senhora que ador-            frase dolorida, amor que não posso ter…
noite, depois de uma aula de… já não sei, vai lá tanto     mecia sentada à secretária do armazém, também es-                Ouvi agora soar ao longe, no sino da velha torre, a
tempo, como podia saber?, apenas retalhos alinhava-        critório, a conferir as receitas e organizar as listas para   eternidade de doze badaladas. A noite cansa-se nos
dos na memória como aqueles tapetes artesanais de          recuperação das comparticipações.                             meus joelhos. Está frio. Este frio que ficou sempre em
feira de apresentações, estivemos no laboratório e dis-       Não obstante o tempo e a distância, nunca nos per-         mim e não sei como aquecê-lo, depois que a perdi no
cutimos depois alguns problemas de manipulação de          demos. Fui sabendo do que fazia em jantares combina-          tempo, sei lá eu bem quando, se acaso é verdade que
produtos, o FSA, faça segunda arte do tempo das re-        dos e cada vez mais difíceis, assisti aos conflitos que       alguma vez nos encontrámos.
ceitas magistrais, ou talvez tenha sido, deixem lá ver,    levaram ao fim do seu casamento com um economista                Estou incorrigível. Foi isso que me disse o meu neto
problemas de farmacognosia.                                que dirigiu um departamento bancário e teve uma pas-          quando veio aqui ao lar, no domingo, ao fim da tarde, e
    Discutimos, isto é, transformámos em álacre taga-      sagem conturbada por um governo durante uma legis-            me surpreendeu a escrever bilhetinhos para uma se-
relice a nossa paixão pelos estudos farmacêuticos, ou-     latura que não chegou ao fim, acompanhei o desvelo            nhora do andar de baixo, sempre muito cuidada, muito
sávamos então lutar contra alguma mediocridade ins-        que votava à educação da filha, solidarizei-me activa-        digna e elegante nos gestos e palavras, que à hora do
talada e aspirávamos a ser mais do que meros vende-        mente em momentos trágicos como o daquele dia em              almoço sorriu para mim e baixou depois os olhos, ao
dores de produtos industriais de bata branca atrás de      que perdeu os pais num acidente de viação, tornei-me          passar pela minha mesa.
um balcão, com o nome estampado em tabuleta de di-         definitivamente melhor confidente do que amante.                 Quem me dera poder passear com ela em Vilamou-
rector técnico, se a vida nos corresse bem, e não esti-       É evidente, julgo que é evidente, que se percebe que       ra. Há quanto tempo que não me levam lá. Pensando
véssemos condenados a trabalho nominal por conta de        houve entre nós muito mais do que as palavras parece          melhor, acho mesmo que nunca fui a Vilamoura.
outrem, com salário fixo e descontos para a segurança      quererem dizer. Houve de facto. Um dia, finais de Agos-                                       * Professor universitário
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                         NACIONAL                 7
D. Afonso Henriques nasceu há 900 anos
   O Presidente da Câmara de Coimbra         Portucalense, pelo número dos seus ha-     depositados os seus restos mortais.          frades crúzios, nos aspectos religioso, cul-
defendeu ue a escolha da cidade para         bitantes, pela importância económica,         Monsenhor Leal Pedrosa, represen-         tural, artístico e até no aspecto político”,
sede do reino português por D. Afonso        social e militar, e pelo seu dinamismo     tando do Bispo de Coimbra na cerimó-         sublinhou.
Henriques visou contornar as disputas        cultural”.                                 nia, realçou que existem uns “laços pro-        Para Leal Pedrosa, o Mosteiro de San-
entre os homens do norte e do sul do ter-       Segundo Carlos Encarnação, igual-       fundos” entre D. Afonso Henriques, a         ta Cruz “foi durante muito tempo a gran-
ritório.                                     mente a Coimbra ficaram ligados os “fac-   cidade e o Mosteiro de Santa Cruz, em        de escola do país, e também como que o
   “A escolha é feita com a clara inten-     tos mais simbólicos do seu caminho”.       cuja igreja decorreu a cerimónia.            berço da Universidade de Coimbra”,
ção de superar a oposição cultural entre        É a Coimbra – acrescenta - que re-         Se D. Afonso Henriques foi o funda-       dada a ligação que houve nos primórdios
o Norte e o Sul, e porque deste modo se      gressa em cortejo triunfal depois da Ba-   dor e protector do Mosteiro de Santa Cruz,   desta instituição de ensino.
consegue a unidade política capaz de         talha de Ourique, que é considerado o      também os monges crúzios muito o apoi-          As comemorações dos 900 anos do
aglutinar, na diferença e no respeito por    momento do “alçamento do rei pelos         aram e desenvolveram um importante           nascimento de D. Afonso Henriques, que
ela, regiões de características várias”,     seus”.                                     papel na sociedade de então, em Coim-           decorreram em Coimbra no passado
sublinhou Carlos Encarnação, na cerimó-         “Antes de Coimbra, era o sonho, a       bra, na região centro e no país, realçou.    dia 23, compreenderam uma cerimónia de
nia evocativa dos 900 anos do nascimento     sede e o desejo. Em Coimbra nasceu o          “Foi notável o apoio e a protecção que    investidura dos novos membros da Ordem
do primeiro rei de Portugal.                 Estado Português”, afirmou Carlos En-      o primeiro rei deu a este mosteiro, mas      dos Templários e uma homenagem no tú-
   Na sua opinião, “todas as razões o im-    carnação, recordando que foi em Coim-      também notável foi o apoio e a ajuda que     mulo do Rei, com a deposição de flores
punham”, também pelo facto de ser a          bra, no Mosteiro de Santa Cruz, que D.     os monges lhe deram. Não é fácil imagi-      perante Guarda de Honra de militares da
“cidade mais importante do Condado           Afonso Henriques quis que ficassem         nar e avaliar a importância da acção dos     Brigada Ligeira de Intervenção.


 ponto . por . ponto
                                                     Pergunto ao vento que passa
Por Sertório Pinho Martins
                                             destino português que as continuará a      diram.                                       canções que ecoem no vento do silêncio
   … notícias do meu país à deriva, num      perseguir. E só persiste o silêncio das       E pergunto ao trevo de quatro folhas,     e da esperança adiada? Mesmo numa
fim-de-linha adivinhado de tantos sonhos     mágoas por sarar. Não há nada de novo      que foi esperança de tantos amores de-       noite mais triste que o nosso tempo de
desfeitos à flor das águas mornas de um      para dizer, nem notícias que me abram      sunidos, a saber notícias do meu país à      solidão, será que a gente resiste e chega
destino português que nos persegue, e                                                                                                ao lado de lá do rio que corre sempre
só deixa mágoas por sarar. A política tor-                                                                                           para o mesmo mar?
nou-se de repente um sítio onde não es-
tar e um registo gordo de cumplicidades          A política é cada vez mais                                                             Era bonito que o amanhã fosse um
                                                                                                                                     acordar sem deriva, sem ventos de si-
podres e de caminhos bloqueados no es-
paço ressequido de uma pátria à flor-das-
                                                 um sítio onde não estar,                                                            lêncio e sem o rio triste que leva na tor-
                                                                                                                                     rente as minhas mágoas por sarar. Mas
águas que não sabemos para onde vai!
Pergunto à gente que passa porque vai
                                                 nesta pátria ressequida                                                             não basta haver alguém que diz ‘não’:
                                                                                                                                     porque em volta tudo continua entregue
de olhos no chão – e a resposta lê-se em         e exausta de ser terra de ninguém                                                   aos chefes de clã que controlam a mi-
cada rosto assustado com o dia de ama-                                                                                               nha pátria à flor-das-águas, baloiçando
nhã: só ouço silêncio, que é tudo o que a        e baldio de todos                                                                   numa modorra de destino português que
gente que passa tem para me dar, mais                                                                                                me persegue na noite dos trevos que não
angustiada com o vazio de dias incertos                                                                                              sabem notícias do meu país.
e com medo de errar nas escolhas dos         uma nesga de esperança, nem uma luzi-      deriva. Desfolho, uma vez, mil vezes,           A política é cada vez mais um sítio
chefes de clã que controlam a sua pátria     nha que alumie o destino português que     digo-lhe que morro nesta terra de nin-       onde não estar, nesta pátria ressequida e
baloiçando à flor de águas mornas e ba-      me persegue.                               guém – e o trevo nada me diz! Nem o          exausta de ser terra de ninguém e baldio
tidas pelo vento do silêncio e da espe-         E a noite continua a crescer por den-   vento, nem o trevo, nem a pátria à flor-     de todos. O vento cala a desgraça, nada
rança adiada.                                tro dos homens deste país à deriva, em-    das-águas, sabem do meu país perdido         me diz do meu país perdido no seu negro
   E o vento não me diz nada, nem tem        brenhados em disputas mortais para rou-    na margem do rio triste que corre sem-       destino português – e não basta haver
nada de novo para mim. Fico entre as         bar um pouco de sombra aos que conti-      pre para o mesmo mar.                        alguém que resiste : a memória é curta,
gentes que estão na margem da vida a         nuam a sonhar na margem do rio triste.        Mas poderá o sonho de uma luzinha e       a culpa é solteira e a alma humana não
olhar um rio triste que corre sempre para    E cresce a mancha escura de gentes         de uma nesga de esperança, sair de uma       passa de um velho catavento a ranger
o mesmo mar, e que gostariam de ser          conformadas e que vão vivendo em pas-      candeia nascida da própria desgraça do       por cima de uma pátria que continuamos
barco dessa viagem – mas que têm sem-        so forçado, olhando por cima do ombro      meu país à deriva? E se o sonho quiser       a não saber para onde vai, com tanta
pre de ficar, pregadas na cruz de um         para não errar nas escolhas que não pe-    ser realidade, quem o semeia e dele faz      gente a passar de olhos no chão.




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                                              ladrava ao longe eterno, tudo eterno.         monumentos onde foram comprados               por isso, as questões europeias não es-
                                              Ladrava uma espécie de tosse, contra          como “propriedade móvel” quer os mo-          tão a ter o devido peso, enquanto se en-
                                              quem? O pombal por fora verde, por            numentos que foram construir no outro         fatizam questões, mesmo questiúnculas,
                                              dentro poeirento e escuro, a que falta-       lado do Atlântico. (...)                      incidentes, episódios, meramente inter-
                                              vam tábuas. Sinos às vezes, para além                                                       nos e amiúde irrelevantes.
                                              do muro baldios, quintas, um burro a ajo-                  Boaventura Sousa Santos             Creio que isto contribuirá para aumen-
                                              elhar-se. Os comboios eternos também                                         Visão          tar ainda mais a abstenção, não obstante
                                              ou então foi o mundo que parou por falta                                                    os enormes gastos de campanha, que na
                                              de corda. Estive tuberculoso, lembro-me       A CRISE DA JUSTIÇA                            actual situação a generalidade dos por-
                                              de não comer, de atirar para o chão os                                                      tugueses não compreende ou até não
                                              brinquedos que me traziam, não lembro            Custa-me abordar este assunto, pelo        “perdoa”. Gastos, inclusive, em enormes
                                              mais nada acerca disso. Sonhos em que         seu especial melindre. Mas, em consci-        cartazes com “mensagens” que em re-
                                              queria fugir sem conseguir correr, todos      ência, não posso deixar de o fazer. A cri-    gra não querem dizer nada, não conquis-
                                              passavam por mim e eu parado. Se não          se da Justiça está aí, é uma evidência        tarão sequer um voto e em alguns casos
FÉRIAS NA CABINA DE VOTO                      há nem um sopro qual o motivo dos bra-        incontornável. Não pode deixar de preo-       podem ser mesmo caricatos - como o do
                                              ços da trepadeira oscilarem? A maior          cupar os cidadãos responsáveis.               CDS, com uma foto de Nuno Melo, em
   Quando o Presidente da República           parte das coisas não tinha nome nem              A Justiça, em demasiados casos, não        pose de imperador romano ou super-
apelou aos cidadãos para que não fos-         precisava dele. Porque carga de água          funciona, nomeadamente quando envol-          homem, clamando: “Não andamos a brin-
sem de férias no fim-de-semana das elei-      temos nome, nós? No outro lado da rua         ve políticos mediáticos ou desportistas       car aos políticos!” (...)
ções europeias, cheguei a pensar que,         um homem sai de uma porta, some-se            igualmente mediáticos. Os juízes não se
tomado pelo espírito europeu, Cavaco          noutra. Eu a escrever isto e ele a sair de    entendem com os procuradores e estes                       José Carlos Vasconcelos
Silva estivesse a falar na qualidade de       uma porta e a sumir-se noutra: se calhar      não se entendem com os responsáveis                                         Visão
Presidente de outro país da União Euro-       a outra engoliu-o dado que não o vejo         da Polícia Judiciária. Há a sensação de
peia. No nosso, o pedido vai fazendo cada     mais. (...)                                   que disputam, entre si, para aparecerem       MULTILATERALISMO
vez menos sentido: os desempregados,                                                        nas televisões, como vedetas. Não re-
por definição, não têm férias; para os tra-                    António Lobo Antunes         sistem a responder a perguntas dispara-          Os numerosos sectores de responsa-
balhadores da Qimonda e da Auto-Eu-                                           Visão         tadas ou mal intencionadas e nem sem-         bilidade da ONU, que estão desprovidos
ropa, em princípio, a opção de tirar féri-                                                  pre o fazem com o bom senso que seria         de meios para acudir às exigências que
as não será prudente; e os precários, os      MONUMENTOS                                    de esperar.                                   crescem de gravidade, exigem uma con-
temporários e os endividados, provavel-       E COLONIALISMO                                   Assim sendo, perdem a distância - tão      tinuada atenção dos seus funcionários, a
mente, não têm o desafogo financeiro que                                                    necessária à profissão que exercem - e        qual não tem faltado, com recurso a uma
as férias, mais ou menos, requerem. O            A New 7 Wonders Portugal, SA está          desacreditam as magistraturas. Parece         súplica que se multiplica, e se traduz em
mais provável é que não haja assim tan-       a lançar um concurso com vista a eleger       não perceberem que o silêncio é de ouro       implorar a atenção dos governos para a
ta gente de férias no dia 7 de Junho. In-     as “7 Maravilhas de Origem Portuguesa         e a palavra, em certas circunstâncias,        urgência de assumirem uma intervenção
felizmente, também não é provável que         no Mundo”. Os resultados serão conhe-         lhes é bastante inconveniente. O que          partilhada.
haja muita gente a ir votar.                  cidos no próximo dia 10 de Junho. Esta-       contribui, com alguma frequência, para           O secretário-geral, Ban Ki-moon,
   O problema é que os cidadãos, na al-       mos, pois, no mundo dos negócios e do         o descrédito da Justiça, nos espíritos dos    parece ter chegado à formulação da
tura das eleições europeias, costumam         mediatismo, e os critérios por que se pau-    telespectadores, que nas suas casas, num      síntese das preces, agora que a “tur-
fazer férias da democracia. Quase seis        ta este mundo têm pouco a ver com a           contexto diferente, os vêem, escutam,         bulência financeira pode desencadear
milhões de pessoas votaram nas últimas        busca da verdade ou da justiça. Têm           avaliam. E não gostam...                      uma catástrofe humana” ao discursar
legislativas, mas apenas cerca de três        antes a ver, neste caso, com os lucros           Ora, o bom funcionamento da Justiça        na Universidade de Princeton (17 de
milhões foram às urnas nas últimas eu-        que podem ser obtidos com a explora-          é essencial aos Estados de Direito, como      Abril): a conclusão foi que “é neces-
ropeias. Ou as agências de viagens ofe-       ção da história, da obtenção de direitos      o nosso. Sem um Estado de Direito efi-        sário um novo mul- tilateralismo para
recem pacotes menos apelativos nos fins-      de exploração do conceito “7 Maravi-          caz e que mereça o respeito dos cida-         enfrentar a crise económica mundial”.
de-semana das eleições nacionais, ou os       lhas”, da publicidade, da promoção do         dãos não há Democracia. A questão é,          Usando uma fórmula paliativa, afirmou
portugueses não se interessam especial-       turismo, etc. Perante isto, pode estranhar-   portanto, muito séria e não pode ser ig-      que “o reforço das Nações Unidas faz
mente pelas eleições europeias - o que        se o incómodo e o protesto que este con-      norada pelos órgãos de soberania: Pre-        parte da solução”, mas de facto aquilo
não deixa de ser uma atitude estranha.        curso tem vindo a suscitar no espaço de       sidente da República, Governo, Parla-         que a importante mensagem significa
A opinião geral dos cidadãos sobre os         língua oficial portuguesa, envolvendo so-     mento - e, portanto, por todos os parti-      é que poucas, se algumas, das suas
políticos é má, pelo que não se compre-       bretudo investigadores que se dedicam         dos, numa Democracia pluripartidária          estruturas existentes se revelam ade-
ende que desdenhem da oportunidade de         ao estudo do império colonial português       como a nossa.                                 quadas para responder às exigências
mandar 24 deles lá para fora. Quando          ou ao estudo dos países independentes            Há quem reclame novas reformas le-         face às quais se vai afundando a or-
se esperava que houvesse longas filas à       que emergiram do fim do império e edu-        gais. Não penso que seja a solução. A         dem mundial. No que respeita ao eixo
porta das secções de voto, os portugue-       cadores que, neste espaço, procuram           questão não é de lei, mas antes dos com-      essencial de uma ordem efectiva, que
ses preferem ficar em casa. Vá lá uma         passar às novas gerações uma visão com-       portamentos dos juízes, dos procurado-        é a segurança, o multilateralismo foi
pessoa compreender o eleitorado. (...)        plexa da história que, longe de ser pas-      res e dos dirigentes da Polícia Judiciária.   sempre limitado pela distribuição do di-
                                              sada, continua a afectar as suas socie-       E nestas profissões, como em todas, pa-       reito de veto, e a responsabilidade pela
               Ricardo Araújo Pereira         dades e as suas vidas.                        gam os bons pelos transgressores... (...)     paz possível da Carta foi de facto as-
                               Visão             O incómodo e o protesto têm razões                                                       sumida, precariamente, pela Ordem
                                              fortes e a principal é que este concurso                                 Mário Soares       dos Pactos Militares que durou até à
TUDO ETERNO                                   implica não apenas com a História de                                            Visão       queda do Muro de Berlim.
                                              Portugal, mas também com a história dos                                                        Para além do verdadeiro vazio de so-
   Deitava-me na relva dos canteiros e        países que estiveram sujeitos ao coloni-      EUROPEIAS MAS POUCO                           luções, ou pelo menos proposta delas,
ficava horas a olhar o céu entre as árvo-     alismo português, e fá-lo de modo a ocul-                                                   para esta questão essencial, o apelo ao
res. De início parecia imóvel e depois        tar, precisamente, o colonialismo, ou seja,      A campanha para as eleições euro-          multilateralismo tem em vista assegurar
enchia-se de vida, aproximava-se e afas-      o contexto social e político em que esses     peias está na rua e não é expectável nem      a estabilidade económica e financeira
tava-se consoante as folhas tremiam e         monumentos foram erigidos e o uso que         que traga grandes novidades nem que           mundial, lançar uma ofensiva contra a
eu espantado que as folhas tremessem          tiveram durante séculos. O olhar que é        altere muito os previsíveis resultados.       pobreza, restabelecer a paz e a estabili-
por não existir vento. O coração dema-        orientado para ver a beleza da arte e da      Está dito e redito que tais resultados te-    dade, responder às alterações climáticas,
siado rápido dos pássaros assustava-me,       arquitectura dos monumentos é igual-          rão mais a ver com a política interna do      melhorar a saúde no mundo, lutar contra
impedindo-me de lhes tocar. Insectos in-      mente orientado para não ver o sofrimen-      que com as opções específicas quanto à        o terrorismo e garantir o desarmamento
compreensíveis, cheios de patas e ante-       to inenarrável dos milhões de africanos       Europa, com maior penalização do PS           e a não proliferação. (...)
nas, joaninhas que essas sim, entendia, o     que, entre o século XV e o século XIX,        nestas eleições do que nas legislativas,
suspiro de papel de seda das roseiras, eu     sacrificaram a vida para que muitos des-      dado não se pôr a questão da alternativa                           Adriano Moreira
eterno, a China eterna, o cão invisível que   ses monumentos tivessem vida, quer os         de Governo do País. Decerto também                                Diário de Notícias
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                              OPINIÃO                  9
OS MILAGRES                               cido social e garantiu a instauração da   utilização nas aulas de gravadores e         ção devida à Assembleia da República
                                          indiferença, do abandono cívico e, fi-    outros instrumentos similares. Eu es-        (ao recusar-se a facultar documentação
   (...) Por causa dos milagres exigi-    nalmente, da coisificação do medo.        pero e desejo que ninguém cometa             à Comissão de Inquérito).
dos para uma canonização, pergun-            As velhas classificações foram re-     essa injustiça. A criança que gravou            É evidente que algo de muito errado
tam-me frequentemente se acredito         cuperadas do pó dos armários ideoló-      o que estava a acontecer na aula de-         se está a passar com o Banco de Portu-
em milagres. Respondo que só acre-        gicos: populista, esquerdista radical,    via ser louvada, não punida, porque às       gal, nas grandes como nas pequenas coi-
dito nos milagres do amor. Quanto aos     chavezista; e apontado, acriticamen-      vezes não há outra forma de chegar-          sas: não são só as previsões económi-
“milagres” no sentido estrito - aque-                                                                                            cas, nem o brutal falhanço na supervi-
les que Deus faria sobrenaturalmen-                                                                                              são – e o BPN está longe de ser o único
te, suspendendo as leis da natureza -,                                                                                           caso, como é público –, há ainda a muito
mantenho razoável cepticismo. “En-                                                                                               desastrada tentativa de aumento das re-
tão, não acredita que Deus pode                                                                                                  munerações dos seus órgãos dirigentes
tudo?” Não, não acredito, pois a mai-                                                                                            e aqui, com franqueza, não havia mes-
or parte das vezes fala-se da omnipo-                                                                                            mo necessidade. Mas ninguém se inco-
tência divina de modo infantil. Deus                                                                                             moda ou parece incomodado, muito me-
não pode, por exemplo, fazer com que                                                                                             nos os próprios. (...)
dois mais dois sejam cinco nem co-
meter suicídio.                                                                                                                                     Paula Teixeira da Cruz
   A razão do meu cepticismo é, po-                                                                                                                    Correio da Manhã
rém, mais funda. Acredito em Deus
infinitamente bom e poderoso, criador                                                                                            ELOGIO DAS REVOLUÇÕES
dos céus e da terra, como diz o Cre-
do. Se acredito em Deus criador a                                                                                                   Duzentos e vinte anos depois de 1789,
partir do nada - sublinhe-se que a cri-                                                                                          o corpo da Revolução ainda mexe. Ape-
ação não se opõe ao evolucionismo -,                                                                                             sar de François Mitterrand ter convida-
creio nele enquanto continuamente                                                                                                do Margaret Thatcher e Joseph Mobu-
criador. Deus não está fora do mundo                                                                                             tu para confirmarem o seu enterro,
- ele é infinitamente presente ao mun-                                                                                           aquando das cerimónias do bicentená-
do. Ora, os milagres pressupõem que                                                                                              rio. E porque esse ano das comemora-
Deus está fora do mundo e que, de                                                                                                ções foi também o da queda do Muro
vez em quando, de modo arbitrário,                                                                                               de Berlim, Francis Fukuyama anunciou
vem ao mundo, interrompendo as leis                                                                                              o «fim da história», ou seja, a eternida-
da natureza. Porque acredito que                                                                                                 de da dominação liberal exercida sobre
Deus está dentro e não fora, pois é                                                                                              o mundo e o encerramento, a seu ver,
Força criadora infinita, não acredito                                                                                            do parêntesis revolucionário. Mas a cri-
nos tais milagres.                           Marinho Pinto                                                                       se do capitalismo está de novo a abalar
   Porque creio nos milagres do amor,                                                                                            a legitimidade das oligarquias no poder.
pergunto muitas vezes porque é que                                                                                               O ar está agora mais ligeiro, ou mais
ainda não foi canonizado o Padre          te, à execração popular, entre malici-    se à verdade. (...)                          pesado, segundo as preferências. Alu-
Américo, modelo de amor cristão, em       osas meias-frases, silêncios ambíguos                                                  dindo «aos intelectuais e artistas que
generosidade sem limites, inteligente     e sorrisos equívocos. O homem fala                                Emídio Rangel        apelam à revolta», o diário Le Figaro
e eficaz, no quadro de uma pedagogia      alto e grosso, enfrenta situações peri-                       Correio da Manhã         mostrou-se desolado: «François Furet
para a liberdade e autonomia. (...)       gosas porque, nitidamente, está a me-                                                  parece ter-se enganado: a Revolução
                                          xer em áreas historicamente inamo-        A COMISSÃO                                   Francesa não terminou» [1].
                     Anselmo Borges       víveis e diz-nos de uma justiça, na sua                                                   No entanto, como muitos outros, o his-
                   Diário de Notícias     opinião “miserável” e desprovida dos         Algo de muito errado se está a passar     toriador em questão não se poupou a
                                          “valores mais elementares.” (...)         no Banco de Portugal, nas grandes como       esforços para esconjurar a lembrança da
QUEM TEM MEDO                                                                       nas pequenas coisas.                         Revolução e para que as tentações se
                                                                Baptista Bastos        A actuação da Comissão Parlamen-          afastassem dela. Outrora considerada
DE MARINHO PINTO?
                                                             Diário de Notícias     tar de Inquérito ao caso BPN é, a todos      expressão de uma necessidade histórica
                                                                                    os títulos, digna de elogio público. Num     (Marx), de uma «nova era da história»
   Não pode deixar de causar perple-
                                          ESPINHO NA EDUCAÇÃO                       País atávico, a Comissão foi pró-activa;     (Goethe), de uma epopeia encetada pe-
xidade os ataques de que Marinho Pin-
                                                                                    num País de improvisos, fez o seu traba-     los soldados do Ano II cantados por Vic-
to (ou Marinho e Pinto) tem sido alvo.
                                             Não temos nada que “relativizar as     lho de casa, preparou-se; num País em        tor Hugo – «E víamos marchar os so-
Ele não fala baixinho, não sussurra,
                                          coisas”, Senhora Ministra da Educa-       que qualquer dificuldade justifica um adi-   berbos maltrapilhos nesse mundo des-
não vive dos seus próprios venenos, e
                                          ção. O caso da professora da escola       amento, superou os muitos que lhe sur-       lumbrado» –, dela já se mostrava ape-
em nada contribui para garantir a qui-
                                          de Espinho que dava aulas a crianças      giram, incluindo a falta de cooperação       nas o sangue que tinha nas mãos. De
etude das águas palustres. Vai-nos re-
                                          de 12 anos da forma como a grava-         da supervisão.                               Rousseau a Mao, uma utopia igualitária,
velando, com estremecedor vozeirão
                                          ção ilustra não pode ser minimizado,         Esta Comissão Parlamentar restituiu       terrorista e virtuosa, teria espezinhado as
e gestos a condizer, que muitos com-
                                          porque é invulgarmente grave.             aos olhos do cidadão um pouco da confi-      liberdades individuais, parido o gélido
ponentes da sociedade portuguesa,
                                             Dito de maneira mais clara, ou a       ança de que a Assembleia da República        monstro do Estado totalitário. Depois, a
criminais e legais, estão imbricados
                                          professora é desequilibrada e deve        é deficitária e isto num momento em que      «democracia», voltando a sentir-se se-
uns nos outros. E tem exigido que se-
                                          estar longe de crianças e a ser trata-    as Instituições em geral parecem derro-      nhora de si, vencera – jovial, pacífica, de
jam submetidas a controlos reais al-
                                          da em qualquer psiquiatria, ou a pro-     car e as referências se esfumam umas         mercado. Também ela herdeira de revo-
gumas veneráveis instituições e suas
                                          fessora, ano após ano, é considerada      atrás das outras (com poucas excepções,      luções, mas de uma outra espécie, à in-
actividades peculiares.
                                          pronta para o ensino, e então deve ser    que também as há). Vivemos tempos em         glesa ou à americana, mais políticas do
   Não me parece que Marinho Pinto
                                          severamente punida e o conselho exe-      que nenhuma ordem normativa parece           que sociais, «descafeinadas» [2]. (...)
haja sido tocado pela desonestidade,
                                          cutivo da escola igualmente penaliza-     valer para muitos que foram chamados
pela indecência, pela indignidade, ou                                                                                               [1] Le Figaro, Paris, 9 de Abril de 2009.
                                          do, por encobrimento do comporta-         a grandes responsabilidades.
movido por interesses cavilosos. Que-                                                                                               [2] «Em suma, o que a sensibilidade liberal
                                          mento da docente e por incapacidade          Ao contrário, o papel desempenhado        exige é uma revolução descafeinada, uma revolu-
rem-no brunido, direitinho, ajeitado,
                                          para proteger crianças.                   pelo Banco de Portugal não deixa de ser      ção que não tenha o sabor da revolução», resume
dentro da esquadria: um artesão for-                                                                                             Slavoj Zizek em Robespierre: entre vertu et terreur,
                                             Tenho ouvido e lido nos últimos dias   profundamente lamentável: das sempre
mal da aplicação das leis e seu com-                                                                                             Stock, Paris, 2008, p. 10.
                                          a intenção de castigar a criança que      optimistas mas erradas previsões econó-
placente vigilante. Ele é, definitiva-
                                          gravou a arenga sinistra da professo-     micas, ao falhanço enquanto instituição
mente, o contrário dessa banalização                                                                                                                       Serge Halimi
                                          ra, por não ser permitido aos alunos a    de supervisão, até à recusa de coopera-
precaucionista que atingiu todo o te-                                                                                                            Le Monde Diplomatique
10 SEGURANÇA                                                                                         arte em café
                                                                                                                                         29 DE MAIO DE 2009



AFIRMA EM COIMBRA O SECRETÁRIO DE ESTADO JOSÉ MAGALHÃES

Nova Lei das Armas será travão
para “um ciclo infernal desgastante”
   O Secretário de Estado Adjunto e da Administração In-
terna, José Magalhães, presidiu ao encerramento do II Fó-
rum Distrital de Segurança, que decorreu nos dias 26 e 27
de Maio, na Casa da Cultura de Coimbra, numa iniciativa
do Governo Civil de Coimbra.
   Na sua intervenção, o Secretário de Estado considerou
que “vale a pena pensar a segurança a nível distrital”, e
lembrou que “nunca podemos esquecer que a segurança é
vivida à escala onde vivemos e trabalhamos”. Perante uma
plateia onde se encontravam representantes de todas as
forças de segurança do Distrito de Coimbra, José Maga-
lhães destacou a estratégia do Ministério da Administração
Interna assente na “união de esforços”, considerando uma
mais-valia o sistema de coordenação aprovado com a revi-
são da lei de segurança interna, que “passou pela nomea-
ção de um secretário-geral em funções de coordenação
sistémica”. “O caminho da coordenação é possível e dá
resultados concretos”, afirmou.
   O governante revelou que no próximo dia 3 de Junho irá
defender na Assembleia da República a proposta de lei
“para criar a plataforma para o intercâmbio de dados e
informações criminais”. Trata-se de uma ferramenta infor-
mática nova, que vai permitir a partilha de informações, que
m ciclo infernal desgastante” que desafia a autoridade do
Estado de Direito Democrático. A nova versão do diploma,
segundo José Magalhães, é uma resposta do Estado a “um
ciclo infernal de capturas e libertações em ‘porta giratória’
que importa ser parado”.

DOIS DIAS DE DEBATE                                               O Secretário de Estado José Magalhães troca impressões
E TROCA DE EXPERIÊNCIAS                                           com o Governador Civil Henrique Fernandes


   O Governador Civil de Coimbra, Henrique Fernandes,                                                                          em situação de vulnerabilidade.
ao explicar o objectivo do II Fórum Distrital de Segurança,     ticas em matéria de segurança, reforçando a confiança dos         No mesmo dia, da parte da tarde, a Guarda Nacional
disse que este debate, em que participaram especialistas        cidadãos no sistema e fomentando uma ideia de responsa-        Republicana explicou o modo de actuação no âmbito do
diversos, visou “contribuir para o aprofundamento da de-        bilidade colectiva, neste domínio, em que o contexto escolar   Programa Escola Segura e como o contexto escolar pode
mocracia, livre, justa e segura”. “A segurança de pessoas e     é um palco privilegiado.                                       também ser uma fonte de perigos, em que os jovens, mais
bens, que é na essência o motivo deste Fórum, está intima-         Ao longo de dois dias, foram vários os painéis de grande    uma vez, são potenciais vítimas de ameaças externas, nem
mente ligada ao próprio exercício da liberdade, nos diversos    qualidade a que a assistência, composta por elementos das      sempre fáceis de controlar.
domínios da vida social”, afirmou, concretizando que “a         forças de segurança e estudantes, puderam assistir. No dia        Seguiu-se o painel apresentado pelo Serviço de Estran-
partilha de informação entre os organismos e forças de          26, decorreu o painel da Polícia de Segurança Pública que      geiros e Fronteiras, sobre Imigração e Segurança, que rom-
segurança, a sua difusão pela sociedade civil e, muito em       reflectiu sobre a sinistralidade rodoviária do Concelho de     pendo alguns preconceitos, até algumas mistificações da
especial, a afirmação pública do esforço meritório que os       Coimbra e confrontou o público com a ideia de que o perigo     sociedade portuguesa, projectou a assistência para uma
homens e mulheres que fazem, todos os dias, a segurança         não reside nas grandes vias de trânsito nos excessos de        abordagem de face humana do fenómeno da imigração,
empreendem - a publicidade dos bons exemplos! - conduzi-        velocidade nas auto-estradas, mas que as cidades são, elas     para uma filosofia de abertura regulada, de entusiasmo pe-
rão, necessariamente, a um maior sentido de auto-protec-        próprias, uma fonte de riscos, em matéria de sinistralidade    las oportunidades e atenção quanto às eventuais ameaças,
ção e à instituição de uma verdadeira cultura de prevenção      rodoviária, que merece atenção.                                que não são, definitivamente, uma marca distintiva da popu-
e segurança”.                                                      Seguidamente, a Polícia Judiciária apresentou os extra-     lação imigrante.
   Organizado a partir da actividade desenvolvida pelo Ga-      ordinários desafios que o avanço da ciência, em especial no       Já no dia 27, destaque para a Autoridade para a Segu-
binete Coordenador de Segurança Distrital, o encontro, com      domínio da internet, nos impõe. Há um mundo de oportuni-       rança Alimentar e Económica, que explicitou a sua missão,
a participação de todos os organismos e forças de seguran-      dades de desenvolvimento e progresso associado à inter-        que protege os cidadãos e as empresas, todos os dias, ga-
ça que integram aquele gabinete, pretendeu contribuir para      net, mas que se faz acompanhar de riscos, nem sempre           rantindo melhores condições de segurança em muitos com-
o esclarecimento público e para a divulgação de boas prá-       fáceis de calcular e que colocam particularmente os jovens     portamentos da vida quotidiana.
29 DE MAIO DE 2009
                                                                                                                                     REPORTAGEM                       11
Evocação na rua da Crise Académica de 1969
   Há 40 anos a crise académica de 1969 irradiou da
Universidade de Coimbra à cidade e ao país. Agora vol-
tou à rua, numa arrojada mostra por locais onde o con-
fronto com o regime estive mais aceso.
   Até ao final do corrente ano grandes painéis, com
fotografias de figuras humanas em escala real recordam
aquele momento da história estudantil e de Portugal em
18 pontos da cidade, trazendo-o à memória de alguns, ou
dado notícias daquele tempo a outros.
   “Quisemos estender esta exposição até ao final do
ano com o objectivo de ficar aqui uma marca histórica.
Passar a palavra para a sociedade civil, para os turistas,
da importância que este momento teve nas lutas estu-
dantis, e no futuro do nosso país, para que isso não seja
efectivamente esquecido”, explicou à agência Lusa o
presidente da Associação Académica de Coimbra
(AAC), Jorge Serrote.
   Cada local apresenta um painel informativo sobre os
acontecimentos mais marcantes que ali se desenrolaram,
em português e inglês, não descurando os turistas que ele-
gem a universidade como um pólo incontornável da visita.
   “A Crise saiu à rua – Um olhar sobre a Academia de
Coimbra em 1969” é uma mostra organizada pela Associ-
ação Académica de Coimbra (AAC) em colaboração com
a empresa municipal Turismo de Coimbra, que procura
evidenciar os principais momentos dessa luta estudantil.

                                                                                                                    habitantes da cidade.
                                                                                                                       Segundo Jorge Serrote, com esta exposição a geração
                                                                                                                    actual de dirigentes pretendeu evidenciar o ideário que vem
                                                                                                                    marcando a AAC ao longo das décadas, e transmitir a
                                                                                                                    mensagem de que “infelizmente algumas causas ainda são
                                                                                                                    actuais”, como é o caso do Regime Jurídico das Institui-
                                                                                                                    ções de Ensino Superior (RJIES), que representa “um re-
                                                                                                                    trocesso de 40 anos” em termos de autonomia dos estabe-
                                                                                                                    lecimentos e da participação estudantil
                                                                                                                       “Queremos honrar esta centenária instituição, continu-
                                                                                                                    ar a lutar, a transmitir os seus valores no nosso dia-a-dia,
                                                                                                                    apesar de algumas causas serem diferentes, embora ou-
                                                                                                                    tras sejam idênticas, infelizmente. A força, e a garra, para
                                                                                                                    defender os estudantes, é que continua a ser a mesma”,
                                                                                                                    concluiu.
                                                                                                                                                    (Fotos de Paulo Abrantes)




   O objectivo é recriar todo o ambiente vivido na Aca-      Sala 17 de Abril, até ao Largo da Portagem, passando
demia, mas também na cidade, com recurso a figuras e         pela Praça da República, a antiga sede da PIDE/DGS,
fotografias da época à escala humana e diversos ele-         o edifício da Associação Académica de Coimbra, a
mentos sonoros e visuais com uma forte carga drama-          Avenida Sá da Bandeira e a Baixa.
túrgica.                                                        Na antiga sede da PIDE, onde actualmente funcio-
   “O que quisemos foi, não só dar uma noção dos mo-         na um centro de saúde, podem-se ouvir os sons do
mentos marcantes, na universidade, e nos espaços físi-       interrogatório e dos gemidos de um estudante a ser
cos da universidade, mas também na cidade, por onde          torturado.
foram acontecendo episódios marcantes”, explicou o di-          Nas Escadas Monumentais, um antigo jipe das for-
rigente estudantil.                                          ças policiais, e imagens de agentes da autoridade a
   É precisamente no Pátio da Universidade que se en-        cavalo dominam o núcleo expositivo, onde a fotos de
contra o centro interpretativo do movimento mais mar-        grupos de estudantes, com faixas com reivindicações,
cante da academia coimbrã. Nele se dá a conhecer a           impõem a sua força.
Crise Académica e a sua contextualização política, des-         Nas escadas do Quebra-Costas, na descida da
de a fundação da AAC, em 1888, até ao 25 de Abril de         Alta Universitária, para a Baixa, também os agen-
1974.                                                        tes a cavalo se impõem por entre magotes de tu-
   Os restantes 17 núcleos expositivos encontram-se im-      ristas que diariamente as percorrem. Na Baixa não
plantados nos espaços onde mais se fez sentir o movi-        foi esquecido um expositor horizontal em forma de
mento estudantil, desde a Via Latina, Largo D. Dinis e a     flor, alusivo à “Operação Flor”, de mobilização dos
12 DIA MUNDIAL DA CRIANÇA                                                                                                29 DE MAIO DE 2009



UM EM CADA DEZ MUNICÍPIOS TEM MENOS DE 500

Interior de Portugal
está a ficar sem crianças
   Um em cada dez municípios portu-       os pais e professores e comecei a fe-      orgulhoso, lembrando que Ribeira de      lembrou, apontando o interior alente-
gueses tem menos de 500 crianças.         chá-las”, recorda o presidente da Câ-      Pena decidiu também “suportar na to-     jano e as Beiras como os casos mais
Para combater a desertificação, há        mara, Agostinho Pinto.                     talidade” o material escolar das cri-    dramáticos. É na Beira Interior que
autarcas que dão 200 euros mensais           O autarca não sabe de cor quantas       anças do 1.º ciclo. Mas, para o autar-   se encontra o município com menos
por cada bebé que nasce e se ofere-       primárias já encerrou, mas garante         ca, o programa “ainda não surtiu o       crianças: com uma população de pou-
cem para pagar os estudos. Mas as         que há outras três a funcionar que         efeito que esperava”.                    co mais de 3500 pessoas, Vila Velha
escolas continuam a encerrar.             deverão estar vazias no próximo ano           Para o presidente da Associação       de Ródão tem apenas 235 habitantes
   Dados provisórios do Instituto Na-     lectivo. Os meninos de S. Eulália, San-    Nacional dos Municípios Portugueses,     entre os zero e os 14 anos.
cional de Estatística (INE) indicam que   ta Marinha e Canedo vão passar para        Fernando Ruas, a desertificação é um        Mas é no Alentejo que se nota mais
89 dos 308 municípios têm menos de        o Centro Escolar de Cerva.                 “drama” que precisa de políticas na-     esta carência. Dos 28 municípios na-
mil crianças e, deste número, 28 não         De acordo com os dados do INE,          cionais de apoios e não apenas de me-    cionais com menos de 500 crianças,
chegam sequer a ter meio milhar de        relativos a 2007, Ribeira de Pena tem      didas locais, que “são importantes mas   dez são desta zona do país. Alter do
habitantes entre os zero e os 14 anos.    901 crianças entre os zero e os 14 anos.   não conseguem ser determinantes”.        Chão, por exemplo, tem 408 crianças
   Em Ribeira de Pena, um concelho        Agostinho Pinto garante que existem           A discriminação positiva da carga     até aos 14 anos, de acordo com o INE.
com 901 crianças, o presidente da Câ-     mais e lembra que “houve um aumen-         fiscal, a distribuição igualitária dos      O responsável do sector da Acção
mara ficou chocado quando um pro-         to de 20 por cento da natalidade”.         grandes investimentos e a atracção de    Social de Alter do Chão, Fernandino
fessor sugeriu que podia dar as aulas        Em 2005, a autarquia lançou um          empresas para o interior são algumas     Lopes, lembra o caso da freguesia da
em casa. A escola primária de Maci-       programa de incentivo: dar 200 euros       das medidas que Fernando Ruas gos-       Cunheira, com apenas três crianças
eira tinha apenas dois alunos e a au-     mensais por cada filho nascido até         taria de ver tomadas pelo Governo        no pré-escolar: “Aberto das 08:00 às
tarquia decidiu encerrar a escola, as-    fazer dois anos de idade. Neste mo-        central. Tudo para inverter a tendên-    18:00, o Jardim de Infância tem uma
sim como outras cinco da freguesia de     mento, garante, estão a ser apoiadas       cia das aldeias desertas.                educadora e duas auxiliares para to-
Salvador e outras quatro de Cerva.        123 famílias, num projecto que repre-         “Sem crianças, não há escolas, não    mar conta das três crianças”.
   “Havia escolas com três ou quatro      senta um custo de 135 mil euros para       há necessidade de casas para os pro-        O Dia Mundial da Criança assina-
alunos, o que é mau para a socializa-     o município.                               fessores e todos os serviços associa-    la-se no próximo dia 1 de Junho.
ção das crianças e para a motivação          “Não conheço Câmara nenhuma             dos à Educação, como as papelarias,
dos professores. Por isso falei com       com um programa como o nosso”, diz         acabam por sofrer por arrastamento”,                      Sílvia Maia (Lusa)



Em São Tomé o número de crianças
está a aumentar substancialmente




Nos países ditos desenvolvidos o índice demográfico diminui                          É o caso, por exemplo, de São Tomé e Príncipe (onde foi obtida a
de forma preocupante. É o que sucede em Portugal, onde a taxa                        imagem acima).
de natalidade tem diminuído de maneira muito sensível, sobretudo                     Um País onde às espantosas belezas paisagísticas e riqueza
em todo o interior do País.                                                          da luxuriante flora, se alia uma população muito jovem, onde
Em contrapartida, há países que podem, nesse aspecto, encarar o                      predominam as crianças, o que permite aquela antiga colónia
futuro com grande confiança, pois neles esse problema não existe.                    encarar o seu futuro com optimismo.
29 DE MAIO DE 2009
                                                                                                DIA MUNDIAL DA CRIANÇA 13

UNICEF
apoia crianças
de bairros
problemáticos
   Andam sozinhas nas ruas do bairro ou pela mão dos ir-
mãos mais velhos. São crianças portuguesas que a Unicef
decidiu ajudar na esperança de lhes encontrar um futuro
melhor.
   Não existem estradas no Bairro Seis de Maio, na Ama-
dora. Só becos e ruelas estreitas onde os mais pequenos
descobrem sempre novas brincadeiras. Mas é no Centro
Social Seis de Maio que passam a maior parte do tempo.
   Muitos chegam ali sozinhos, porque os pais tiveram de
sair de casa de madrugada. “Há mães que trabalham em
serviços de limpeza e, por isso, saem de casa às cinco ou
seis da manhã”, explica Rosa Maria Coutinho. Os filhos
ficam entregues aos irmãos mais velhos ou aos avós, mas
também há muitos deixados ao abandono. Têm sorte em
viverem num bairro pequeno onde toda a gente se conhe-
ce. Mas azar por passarem por tantas dificuldades.
   O Centro Social Seis de Maio, criado pela Comunidade
das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, acolhe di-
ariamente mais de 120 crianças na creche, pré-escolar e
actividades de tempos livres.
   A Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) dá
apoio àquela instituição promovendo actividades de forma-
ção familiar, como a prevenção de acidentes domésticos, e
tentando envolver mais os pais na vida dos filhos. “É preci-
so que percebam a importância de estarem presentes na
vida dos filhos”, sublinha.
   No entanto, reconhece Rosa Maria Coutinho, “não é fá-
cil chegar às famílias e aos pais”. E ultimamente as coisas
parecem mais complicadas.
   O desemprego atingiu muitas das famílias do bairro e isso
repercute-se na forma como as crianças são tratadas: “Tem
havido mais casos de negligência”.
   “Há um esforço de todos, mas já começam a aparecer
situações de sobrevivência ao nível da alimentação. A situ-
ação económico-financeira dos pais também tem levado a
casos de abandono de crianças, que são deixadas já no fi-
nal da recta”, lamenta Rosa Maria Coutinho, lembrando
histórias de “instituições que têm de dar banho às crian-
ças” porque os pais se demitiram da tarefa.
   “Quando a família não tem garantidos os recursos que
lhes permitem a sua sobrevivência o desânimo instala-se”,
explica a assistente social, que acredita na boa vontade dos
pais e no desejo de querer dar o melhor aos filhos.
   O outro programa apoiado pela Unicef é no Bairro do
Condado, em Chelas, onde os problemas são semelhantes,
com o desemprego a assombrar a vida de muitos. O Centro
Social e Paroquial São Maximiliano Kolbe recebe actual-
mente 150 crianças e há mais de duas décadas que conta         sos outros pontos de Portugal, incluindo Coimbra e Região Centro, com muitos elementos,
com o apoio da Unicef.                                         sobretudo voluntários, que igualmente desenvolvem muita acções de apoio a crianças mais des-
   Rosa Maria Coutinho já conta histórias de jovens que        protegidas.
por ali passaram e hoje têm um projecto de vida consolida-        Mas não é só a UNICEF. Existem muitas outras instituições que dão um notável apoio a
do. “Uma das animadoras do Centro andou cá quando era          crianças de famílias carenciadas ou que nem sequer têm família.
pequenina”, recorda, sublinhando que “as crianças portu-          Em Coimbra, por exemplo, podemos referir, entre outras, a Comunidade de São Francisco de
guesas têm situações complicadas mas não tem nada a ver        Assis, a Casa de Infância Doutor Elísio de Moura, a Casa do Gaiato, a APPACDM (Associa-
com o que se passa noutros cantos do mundo”.                   ção Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental), a APPC (Associação Portu-
                                                               guesa de Paralisia Cerebral).
HÁ VÁRIAS INSTITUIÇÕES                                            E há obras semelhantes em muitas outras localidades da Região Centro.
DE APOIO ÀS CRIANÇAS                                              Mas todas estas instituições lutam com dificuldades, até porque nos momentos de crise, como
                                                               aqueles que agora se vivem, normalmente diminuem os donativos que são imprescindíveis para
  Refira-se que a UNICEF tem representantes em diver-          apoiar um número de cada vez maior de crianças carenciadas.
14 EDUCAÇÃO/ENSINO                                                                                                               29 DE MAIO DE 2009



PATRIMÓNIO CULTURAL EUROPEU: PRÉMIOS SERÃO DIVULGADOS A 5 DE JUNHO


Via Latina na Universidade de Coimbra
é um dos melhores projectos
   A Via Latina na Universidade de Co-                                                                                                   A finalidade dos prémios é promover
imbra foi seleccionada como um dos 28                                                                                                 competências de alto nível e elevada
melhores projectos de 2009 na área do                                                                                                 qualidade na prática da conservação e
património cultural europeu, anunciou há                                                                                              incrementar os intercâmbios transfron-
dias a Comissão Europeia em Bruxelas.                                                                                                 teiriços na área do património.
   A repartição entre sete “grandes pré-                                                                                                 Os prémios visam igualmente inspirar
mios” e 21 “prémios” será divulgada du-                                                                                               novos esforços e projectos relacionados
rante uma cerimónia oficial de entrega                                                                                                com o património em toda a Europa.
dos galardões no Teatro Antico de Taor-                                                                                                  Os Prémios do Património Cultural da
mina, na Sicília (Itália), em 5 de Junho.                                                                                             União Europeia / Prémios Europa Nostra
   Estes prémios distinguem “realizações                                                                                              foram lançados conjuntamente em 2002
excepcionais” no domínio da conserva-                                                                                                 pela Comissão Europeia e por Europa
ção, da investigação e da educação, bem                                                                                               Nostra para assinalar iniciativas de relevo
como contribuições exemplares no âm-                                                                                                  no sector do património cultural europeu,
bito da preservação do património.                                                                                                    em categorias que incluem restauro de
   Cada um dos vencedores dos gran-                                                                                                   edifícios e respectiva adaptação a novos
des prémios receberá um montante de                                                                                                   usos, recuperação da paisagem urbana e
10.000 euros.                                                                                                                         rural, interpretações de sítios arqueológi-
   A Via Latina, erigida na segunda me-                                                                                               cos e conservação de colecções de arte.
tade do século XVIII, facilita o acesso                                                                                                  São também atribuídos prémios a pro-
entre o Paço Reitoral, a Sala dos Cape-                                                                                               jectos de investigação, educação e sen-
los e o edifício dos Gerais e é, junto com                                                                                            sibilização relacionados com o patrimó-
a Torre da Universidade, uma das refe-                                                                                                nio cultural e a contribuições exempla-
rências monumentais do paço das Esco-                                                                                                 res de indivíduos ou organizações no do-
                                               Aspecto da “Via Latina” e da velha Torre da Universidade de Coimbra
las da Universidade de Coimbra.                                                                                                       mínio da conservação do património.


AFIRMA PRÓ-REITOR ANTÓNIO PIMENTEL

Candidatura da Universidade à UNESCO
não deixará marca inferior à do Estado Novo
                                                                                                                                             nio. É um meio para encontrar fu-
   A candidatura da Universidade                                                                                                             turo para o passado”, afirmou, re-
de Coimbra a património da hu-                                                                                                               alçando que para a reabilitação do
manidade vai deixar uma marca                                                                                                                património é necessário fazer re-
que não será inferior à do Estado                                                                                                            gressar a vida e fruição à zona
Novo na cidade universitária, afir-                                                                                                          da Alta universitária.
mou no passado dia 22 um dos seus                                                                                                               Isso passa por fazer retornar
responsáveis.                                                                                                                                os estudantes à zona e criar no-
    “Há um ‘campus’ universitá-                                                                                                              vos espaços de animação e de
rio informal, novo, a partir do                                                                                                              fruição. Uma das intervenções
casco histórico da cidade. Há                                                                                                                previstas é a instalação de uma
todo um conjunto de edifícios                                                                                                                residência universitária nos pisos
que vão marcar a Alta e a ima-                                                                                                               superiores da actual Faculdade de
gem da cidade”, salientou Antó-                                                                                                              Medicina, após a sua transferên-
nio Filipe Pimentel, Pró-Reitor da                                                                                                           cia para as proximidades dos Hos-
Universidade para as questões do                                                                                                             pitais da Universidade de Coim-
património e coordenador da can-                                                                                                             bra (HUC).
didatura à UNESCO.                                                                                                                               “É uma candidatura à UNES-
   Numa sessão no renovado Mu-                                                                                                               CO que não tem modelo. O que
seu Nacional de Machado de Cas-                                                                                                              se candidata é a instituição, a Uni-
tro, sublinhou que “a marca vai fi-                                                                                                          versidade de Coimbra mas na sua
car generalizada”, realçando que                                                                                                             materialidade. É uma escola, e
“o casco histórico não nasceu de                                                                                                             tem de ser exemplar”, concluiu.
um jacto” mas é o resultado de transfor-     é menor que a do Estado Novo ou a Pom-       hoje em qualquer intervenção uma res-
                                                                                                                                         A candidatura da Universidade de
mações e de incorporações ao longo dos       balina”.                                     ponsabilidade acrescida, “que vem da
                                                                                                                                      Coimbra a Património da Humanidade é
séculos.                                        Quer a do Estado Novo, quer a Pom-        evolução da história, da ciência, da his-
                                                                                                                                      mais abrangente que o actual ‘campus’
   António Filipe Pimentel, igualmente       balina destruíram para apagar o passado      tória da arte” mas “há uma escassa cul-
                                                                                                                                      universitário da Alta, devido à sua “rela-
director do Instituto de História da Arte    mas a de hoje “é anti-autoritária, de par-   tura cívica e o desafio colocado é o do
                                                                                                                                      ção umbilical” com a cidade. O projecto
da Universidade de Coimbra, disse que        ticipação de todos na construção da po-      envolvimento das instituições”.
                                                                                                                                      está em fase de conclusão e a formali-
também nesta intervenção contemporâ-         lis”, considerou.                               “A candidatura à UNESCO é um acto
                                                                                                                                      zação à UNESCO deverá ocorrer no fi-
nea “há uma marca ideológica, que não           No entendimento do especialista, há       contemporâneo em relação ao patrimó-
                                                                                                                                      nal do corrente ano.
29 DE MAIO DE 2009
                                                                                                                                      EDUCAÇÃO/ENSINO   15
Processo de Bolonha:
Europa não cumprirá prazo de 2010
   O Processo de Bolonha, para uniformi-           centando que “ainda há um largo número           vezes participam apenas como observado-
zar o ensino superior na Europa, não estará        de países que estão a começar ou ainda não       res) e falta de implementação do sistema
aplicado até 2010, como assumido por 48            iniciaram a implementação ao nível institu-      de créditos. Apenas uma minoria de países
países da Europa, segundo um relatório apre-       cional [de Bolonha], pelo que a completa         tem sistemas de monitorização do progres-
sentado num encontro de ministros europeus         implementação de uma moldura de qualifi-         so da aplicação de Bolonha.
do sector, realizado recentemente em Lo-           cações nacionais irá levar algum tempo”.            Aos governos, os relatores sugerem que
vaina, na Bélgica.                                    Como razões para este atraso, o relató-       consigam a plena execução dos objectivos
   Os ministros do Ensino Superior dos 48          rio adianta que foram sendo acrescentadas        de Bolonha e que promovam estes princípi-
países que aderiram ao processo de Bolo-           novas acções e actividades às intenções ini-     os como relevantes para o emprego e para
nha reuniram para discutir a aplicação da-         ciais do processo e ainda que os países ini-     o acesso ao nível de ensino seguinte. Pe-
quele sistema, já praticamente concretizado        ciaram o processo de reforma em tempos           dem ainda que adoptem medidas para a
em cinco países, incluindo Portugal.               diferentes, segundo a sua adesão ao com-         transparência das qualificações, um siste-
   O relatório do Grupo de Acompanhamen-           promisso.                                        ma de créditos, a aprendizagem ao longo da
to ao Processo de Bolonha afirma que hou-             O relatório alerta que, apesar de na legis-   vida, maior mobilidade dos estudantes e in-
ve progressos desde a cimeira de Londres,          lação dos países parecer que não existem         dicadores fiáveis para medir o progresso
há dois anos, mas destaca que, contudo,            obstáculos, “num grande número de países         social da aplicação dos programas.
“nem todos os objectivos do processo de            o progresso não é tão significativo como            Às instituições é sugerido uma coopera-
Bolonha serão conseguidos até 2010”.               poderia parecer”.                                ção regional mais dinâmica e criação de
   “O prazo limite para completar a imple-            Na generalidade dos países há falhas re-      áreas de ensino superior que ajudem a re-
mentação do Processo de Bolonha no ensi-           lacionadas com a aprendizagem fora do sis-       gião a adaptar-se a desafios e a um ambi-
no superior em 2010 parece ter sido dema-          tema formal de educação, pouca participa-        ente político, económico, social e tecnológi-
siado ambiciosa”, realça o relatório, acres-       ção de estudantes nos relatórios (muitas         co global em permanente mudança.




                                                     Surrealismo político
                             Isabel Dias *         qual se substituiria às muitas outras insti-     odisseia com o censurado carnaval de
                                                   tuições e medidas que deveriam existir para      Torres Vedras e a nova língua portuguesa,
    Por vezes, o real parece surreal, de tal       suprir a acção das famílias carenciadas e        o magalhanês; e, para acabar em festa,
forma é flagrante a sua falta de racionali-        garantir efectivas condições de conciliação      uma região preocupada com os bolos com
dade ou o seu carácter inverosímil; como           da vida laboral e da vida familiar; a mesma      creme nas escolas, “Nas festas de aniver-
se os que o vão desenhando fossem imbu-            Confap, na voz do seu iluminado presiden-        sário podem levar um bolo com creme, mas
ídos do espírito lúdico que animou os sur-         te, a assegurar que apenas assim será ga-        daquele que se tira facilmente depois de
realistas, inventores dos cadavre exquis,          rantida a sobrevivência da escola pública,       serem apagadas as velas” - não é que não
criações colectivas em que o criador não           com o límpido argumento de que “Esta coisa       entenda as preocupações dietéticas, mas
tinha em conta tudo o que já existia e des-        de despejar a matéria e depois esperar que,      eu, que me arrepio com esta tendência nor-
prezava a causa ou as conclusões dos seus          em casa, os pais tenham literacia suficien-      mativa do pormenor existencial, que sofro
actos, preocupado com o seu elemento               te e computadores para ajudar os filhos a        a vitória do lobby, sim, que só pode ser
parcelar e o seu próprio estilo e privilegi-       perceber as matérias tem que acabar, por-        acção de grupos de pressão, do fiambre
ando os automatismos e as associações              que o mundo mudou e as escolas têm que           (ainda por cima de baixa estirpe) e do queijo
inconscientes.                                     se adaptar” - quando o que parece estar          de batata nas escolas, não consigo deixar
    Essa riqueza estilística e onírica que tanto   em causa não é a tosca imagem que este           de imaginar a desilusão daqueles meninos
enriquece a arte, se aplicada ao governo           senhor tem da docência como acto de              que sopram a vela e vêem o monstro que,
das instituições e das pessoas, rapidamen-         “despejar”, mas sim a falta de tempo e de        de faca em riste, purifica o bolo, rapando-
te se aparenta com a loucura, provocando           disponibilidade que as famílias têm para es-     lhe o creme que se estava a rir para eles.
surpreendentes e, por vezes, grotescas             tar com os filhos; o relatório da OCDE que          Sendo este creme uma triste metáfora
evoluções na história.                             afinal era encomenda do ME aos mesmos            de tudo o que nos vem sendo tirado da
    Muitas das notícias que têm vindo a pú-        estrangeiros que, conjuntamente com a tec-       boca, só nos resta esperar pelas eleições
blico no âmbito da educação fazem pensar           nologia, continuam a fazer de nós provin-        que se aproximam e então, em bom ma-
que se vive num permanente espírito de             cianos pessoanos, pela adoração cega que         galhanês, bamos a procurar os cadáve-
blague, do mais duvidoso gosto, configu-           despertam; o mesmo relatório que sugeria         res que empestãm o ar, tirar-los das
rando um cadavre exquis desmembrado                abolir os chumbos no primeiro ciclo por-         bocas das urnas e dar-lhes um bom xuto
e retorcido.                                       que “Às vezes, a retenção é a desculpa           de vês ou, indo até à DREN, em margari-
    A ocupar a tela temos o concurso de            para quem ensina mal”, o que é um exce-          demoreirês: sendo certo que muitos do-
professores, o qual, entre muitos atrope-          lente exemplo de profunda capacidade de          centes não aceitam o uso dos alunos
los, assenta a fractura dos docentes em            pensar a realidade e de fundamentar as           nesta atitude inaceitável, acompanha-
titulares e professores - os primeiros impe-       decisões - só é pena que não se possa aca-       remos de muito perto a defesa do car-
didos, na prática, de mobilidade e os se-          bar de vez com os professores, já que o          naval, dos bolos amordaçados e do fi-
gundos encurralados num futuro que é um            problema das estatísticas do sucesso fica-       ambre a rir para a população. E quem
beco sem saída e todos cada vez mais des-          ria automaticamente resolvido; a odisseia        não perceber nada, não se aflija, é a isto
protegidos; o voluntariado dos professores         do Magalhães, com a angústia das crian-          que se chama surrealismo político; depois
reformados, uma tentativa, à Chico-esper-          ças e dos pais pelo atraso na sua distribui-     do apogeu da política do cadavre exquis
to, de evitar a contratação; uma proposta          ção e a ausência de debate fundamentado          o morto já não brinca e até cheira mal.
da Confap de permanência, dos alunos do            sobre os seus efeitos ao nível da aprendi-
primeiro ciclo, de doze horas na escola, a         zagem da leitura e da escrita; a mesma                        * Professora e dirigente do SPRC
16 SAÚDE                                                                                                                          29 DE MAIO DE 2009




                                                           Décios Junos Brutos
                    Massano
                    Cardoso

   Realçar a importância da memória é
uma perda de tempo. Todos a conhecem,
a não ser que já não a tenham! De vez
em quando, a minha teima em pregar
partidas ao não permitir que recorde os
nomes das pessoas, sobretudo quando
não as vejo há algum tempo. Ainda por
cima tenho que confessar que, desde que
me conheço, nunca fui dotado para me-
morizar nomes.
   Esta curta reflexão surgiu devido a um
episódio que ocorreu há dias. Estava sen-
tado num restaurante, quando, no canto
oposto, vislumbrei duas pessoas conhe-
cidas. Cumprimentei-as com um sorriso
acompanhado de um aceno de cabeça,
mas fiquei bloqueado quanto aos nomes.         Claro que este episódio obrigou-me a      técnicas que permitem reter ideias, o         livro (“Um Combate e outras históri-
Fiz um esforço terrível e nada! Ao fim      refletir sobre a memória e despertou vá-     modo de as recordar e associá-las. Que        as”), com quatro pequenos ensaios, que
de alguns segundos, graças a associa-       rias ideias. Uma delas tem a ver com a       inveja! Como se não bastasse estas re-        custou 1,5 euros, foi de uma grande aju-
                                            estranha sensação de que lemos, lemos,       cordações, lembrei-me do efeito amné-         da. Um desses ensaios chama-se “Am-
                                            e pouco ou nada fica da leitura. Olho        sico do rio Lethes e, como estava a al-       nésia in Litteris”, os outros já me es-
                                            para trás, e, na grande maioria dos ca-      moçar, associei-me a outro almoço (lem-       queci. Neste ensaio, o autor relata a sua
                                            sos, não consigo recordar dos nomes dos      bro-me, perfeitamente, de ter comido um       experiência, a sua frustração sobre os
                                            autores, dos títulos dos livros, das cores   ótimo arroz de pato!) em que tinha parti-     esquecimentos, as trocas e as baldrocas
                                            das capas, dos seus conteúdos, de algu-      cipado meses antes na cidade de Viana         provocadas pela “falta de memória”. Fi-
                                            mas frases interessantes, chegando ao        do Castelo. No hotel, situado lá no alto, e   quei deliciado com a beleza, a franque-
                                            ponto de os confundir, de os trocar, en-     cujo nome não me recordo, fiquei de boca      za, o humor e a profundidade do autor.
                                            fim, uma terrível “amnésia”. Cheguei         aberta perante a tapeçaria de Almada          Ao mesmo tempo tranquilizou-me, porque,
                                            mesmo a pensar que se conseguisse “re-       Negreiros a retratar a chegada das hos-       afinal, também “sofro” do mesmo fenó-
                                            ter” apenas um por cento do que leio         tes romanas à beira do rio Lima. Diz a        meno ou “doença”. Suskind afirma que,
                                            seria uma vantagem do arco-da-velha.         lenda que a paisagem era de tal modo          quando lemos um livro, a nossa consciên-
                                            Ninguém tivesse pena de mim. Só que-         deslumbrante ao ponto dos soldados se         cia, ao impregnar-se dos seus conteúdos,
                                            ria um por cento, mas nem isso. A outra      terem recusado a passar para a outra          modifica-se de tal ordem que é incapaz
                                            tem a ver com técnicas de estimulação        margem, porque julgavam estar perante         de fazer uma auto crítica, ou seja, sepa-
                                            e de treino da memória, algumas prati-       o famoso rio do esquecimento. À medi-         rar-se dos efeitos, dos conteúdos, da be-
                                            cadas na escola primária, técnicas pri-      da que ia lendo, fiz um esforço dos dia-      leza, da alegria, da tristeza, de todas as
                                            márias que contrastam com técnicas           bos para decorar o nome do comandan-          vivências e pensamentos dos outros. Afi-
 Patrick Suskind                            mais sofisticadas, como a arte da mne-       te. Na altura ainda consegui reter o nome     nal somos o que somos e somos aquilo
                                            mónica desenvolvida desde a antiguida-       mas, passados estes meses, já não con-        que lemos, mesmo que nos esqueçamos
ções, lá consegui recordar o nome da        de. De repente, lembrei-me de duas obras     sigo. Do Almada Negreiros lembro-me,          dos seus conteúdos, dos seus autores, dos
mais nova, mas quanto ao senhor não         a este propósito: o livro “O homem que       assim com da encantadora tapeçaria que        títulos, das frases mais impressionantes,
consegui. Sabia que tinha o nome cá den-    sabia tudo”, cujo autor já não me lem-       relata o episódio em que o comandante         enfim, praticamente de tudo.
tro, mas não o encontrava. Fiz esforços,    bro, que retrata, de forma romanceada,       atravessa o rio e, da outra margem, co-           O mais certo é que daqui a algum tem-
recordei-me de conversas, de certos         a vida e a obra de Giovanni Pico Della       meça a chamar os soldados um por um,          po já não recordar o nome do ensaio de
acontecimentos, de vivências e sei lá que   Mirandola. Fiquei surpreendido com o         através do seu nome, provando que não         Suskind, de o trocar com outro autor, de
mais, mas do nome nada. Onde pararia        pensamento deste humanista, e seduzi-        tinha ficado sem memória. Fui pesquisar       não me lembrar desta pequena crónica,
o raio do nome? Graças às tecnologias,      do com a sua verdadeira memória de ele-      o nome do comandante e disse: Ah! Pois!       mas sinto-me mais confortável pelo fac-
agarrei no telemóvel, liguei-me à inter-    fante, que chegou a memorizar obras in-      Agora já me lembro (depois de ler!) era       to da minha consciência se ter modifica-
net, coloquei palavras-chaves sobre o       teiras, facto que lhe dava particular van-   Décios Junos Brutos!                          do sem ter tido consciência de tal.
senhor e passados uns segundos apare-       tagem nos seus debates. A outra foi o           Para terminar, quero agradecer ao              Claro que nunca serei um, como é que
ceu no écran o seu nome. Uff! Que sen-      “Tratado de Magia”, de Giordano Bru-         escritor alemão Patrick Suskind, o autor      ele se chamava? Deixa-me cá ver já o
sação de alívio! Já pude almoçar mais       no (deste lembro-me perfeitamente),          da célebre obra, que todos já ouviram         escrevi aqui algures: Ah! claro, Décios
tranquilamente.                             onde estão, também, descritas algumas        falar, “O Perfume”, que, num pequeno          Junos Brutos!
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                                       SAÚDE              17
APELO DA DELEGAÇÃO CENTRO DA FUNDAÇÃO PORTUGUESA DE CARDIOLOGIA

“Dê a mão ao coração”
   Decorreram na passada semana as “IX         do este apoio possível sem o auxilio das en-        Parece-nos, igualmente, que nada melhor,      terapêutica farmacológica.
Jornadas da Delegação Centro da Funda-         tidades oficiais, parece-nos pertinente a nos-   para dar a mão ao coração, do que co-               Por entendermos que os Núcleos estão
ção Portuguesa de Cardiologia e VI Reu-        sa Abertura Solene                               meçar por saber como escolher o tipo de          para as Delegações, como estas para a Fun-
nião da Associação Portuguesa de Preven-          Diz-nos a experiência que, numas Jorna-       prevenção até porque de pequenino se tor-        dação mãe, sempre com a ideia de que a
ção e Reabilitação Cardiovascular              das voltadas, principalmente, para o Médi-       ce o pepino, como iremos ver nas quatro          Fundação Portuguesa de Cardiologia é uma
                                                                                                intervenções subordinadas a este tema em         só, embora com os seus braços estendidos
                                                                                                que é realçada a adaptação do coração da         para o resto do país, resolvemos dar a pala-
                                                                                                criança ao desporto.                             vra aos Núcleos, num espaço suficiente para
                                                                                                   E se o colesterol, mais do que um factor      poderem informar-nos do que já fizeram e
                                                                                                de risco, parece ser a causa da aterosclero-     do que pretendem realizar, entregando a pre-
                                                                                                se, será importante saber quais os objecti-      sidência, a moderação e os comentários a
                                                                                                vos a atingir, principalmente quando em pre-     este Painel, a elementos com responsabili-
                                                                                                sença de diabetes e dislipidemia.                dade dentro da Instituição.
                                                                                                   Como é indiscutível que, contrariar a oci-       A comunhão com a APRECOR levou-
                                                                                                osidade, a má alimentação, o hábito de fu-       nos, naturalmente, a ponderar como evitar
                                                                                                mar e, duma maneira geral, o comportamento       a morte súbita de causa coronária, enca-
                                                                                                pouco saudável, é indispensável para dar         rando os factores desencadeantes da doen-
                                                                                                vida aos anos, daí a necessidade de educar       ça coronária, a reperfusão coronária e o uso
                                                                                                para não tratar.                                 dos CDI na presença da MS, bem como os
                                                                                                   Como pretendemos, nestas Jornadas,            desfibrilhadores automáticos externos, na sua
                                                                                                seguir o “continuum” que é a vida humana,        redução.
                                                                                                resolvemos acompanhá-lo desde o diagnós-            Preocupamo-nos, quase a terminar, com
                                                                                                tico pré-natal das cardiopatias congénitas até   a reabilitação cardíaca - programa multidis-
                                                                                                à reabilitação cardíaca do velho; naturalmen-    ciplinar, em que realçamos o interesse do
                                                                                                te que, mesmo dois dias de trabalho, são um      exercício e da componente psíquica, na re-
                                                                                                tempo muito acanhado para tão longo per-         abilitação cardíaca e os dados e experiên-
                                                                                                curso.                                           cia do Hospital Geral de Stº António.
   Na Quinta das Lágrimas, em Coimbra,         co de Família, os casos clínicos, quer de           Na impossibilidade de arranjar espaço            Finalizamos, o que ainda não é muito vul-
no passado dia 21, durante a cerimónia inau-   cuidados primários quer secundários, são
gural deste evento, Polybio Serra e Silva,     sempre um momento alto, permitindo, pela
um dos Presidentes da iniciativa, deu a se-    discussão que levantam, um indiscutível gan-
guinte “Uma vista de olhos pelo Programa”,     ho cientifico, não só para os Clínicos Gerais
nos seguintes termos:                          como para os outros Especialistas, tendo,
   “Não obstante ser cada vez mais rara,       este ano, um valor acrescido pelo facto de,
em eventos deste tipo a Cerimónia Inaugu-      neste evento, termos envolvido, como públi-
ral, entendendo nós que a Promoção da          co -alvo, também Enfermeiros, Especialis-
Saúde deve ser da responsabilidade de cada     tas e Internos de várias outras Especialida-
um, muito embora com o apoio médico, no        des e, até, alunos de Medicina e Enferma-
tocante à prevenção da doença, e não sen-      gem.


    APRESENTADA EM COIMBRA
                                                                                                temporal para Comunicações livres, que po-       gar mas virá a sê-lo num futuro próximo,
                                                                                                deriam solucionar o problema, resolvemos
   Petição em favor                                                                             privilegiar os Posters, se subordinados ao
                                                                                                tema das Jornadas. A selecção dos 25 apre-
                                                                                                                                                 com um caso clínico em directo, por tele-
                                                                                                                                                 consulta em cardiologia, em que teremos
                                                                                                                                                 oportunidade de, em tempo real, comentar
                                                                                                sentados e a discussão dos 10 melhores irá,
   do Serviço Nacional                                                                          não só permitir, naturalmente, complemen-
                                                                                                tar os assuntos versados, como dar oportu-
                                                                                                                                                 e discutir a patologia do coração de uma
                                                                                                                                                 criança do Hospital Agostinho Neto de Cabo
                                                                                                                                                 Verde.
                                                                                                nidade à participação de mais oradores.
   de Saúde                                                                                        Pareceu-nos importante, também, prog-
                                                                                                nosticar a doença cardiovascular global, re-
                                                                                                                                                    Um Jantar surpresa , original, depois do
                                                                                                                                                 encerramento deste Evento, será o ponto
                                                                                                                                                 final destes dois dias de trabalho das IX Jor-
                                                                                                cordando os aspectos da aterosclerose e          nadas da Delegação Centro da Fundação
     A Liga dos Amigos dos Hospitais da Universidade de Coimbra (LAHUC)
                                                                                                inflamação e das arritmias e insuficiência       Portuguesa de Cardiologia e VI Reunião da
   apresentou a 15 de Maio um documento em defesa do Serviço Nacional de
                                                                                                cardíaca, não deixando de chamar a aten-         Associação Portuguesa de Prevenção e Re-
   Saúde numa conferência de imprensa em que também estiveram presentes
                                                                                                ção para o facto de, muitas vezes, em ter-       abilitação Cardiovascular, em que a alta cra-
   António Arnaut, que criou o SNS quando era Ministro dos Assuntos Sociais,
                                                                                                mos de tratamento, se estabelecer uma certa      veira dos Conferencistas é o garante do Es-
   e Dulce Mendes, viúva do Prof. Mário Mendes, então Secretário de Etado
                                                                                                confusão entre suplementos alimentares e         tado da Arte dos temas versados”.
   da Saúde e que teve uma participação muita activa na criação do SNS.
     O documento intitula-se “Declaração de Coimbra” e pode ser assinado
   em papel e na internet até ao próximo dia 15 de Setembro de 2009.
     Em papel encontra-se disponível na LAHUC e na internet pode ser assi-
   nada em:
     www.peticao.com.pt/declaracao-de-coimbra
     A petição começou a ser assinada em suporte papel pelos intervenientes
   na sessão.
     Mais informações em
     www.lahuc.com
www.apaginadomario.blogspot.com
18          A PÁGINA DO MÁRIO                             apaginadomario@gmail.com                                                 29 DE MAIO DE 2009


                                            te este número constitui um símbolo de             Nenhum deles foi, pasme-se de novo,      homem que pediu para ser preso. Já ti-
                                            perfeição, plenitude e unidade. Assim, a        condenado por sentença transitada em        nha feito a experiência e queria regres-
                                            bandeira mantém-se inalterada, indepen-         julgado, e mesmo assim, pasme-se ainda      sar. A polícia recusou. Inconformado,
                                            dentemente dos alargamentos da UE.»             mais, tiraram consequências políticas de    partiu os vidros da esquadra e acabou
                                               Se a afirmação de Ricardo Costa não          alegações fundamentadas que os visa-        detido.
                                            tem como base o desconhecimento, en-            vam. Então e aquela coisa da “presun-          Este caso lembra-me o profissional da
                      Mário Martins         tão a situação é mais grave.                    ção de inocência”? As democracias bel-      política (que gosta de fingir ser outra coi-
                                                       (publicado em 24 de Maio)            ga e inglesa têm que comer muita papa       sa) Manuel Alegre. Em voz trovejante,
SUSAN BOYLE NA FINAL                                                                        Maizena para chegarem aos calcanha-         clama que se sente tolhido porque o PS já
   A escocesa de Blackburn festará na       NÃO VI, PACIÊNCIA...                            res da nossa...                             não é de esquerda. Mas, tal como o ho-
final do programa “Britains Got Talent”.       Toca o telemóvel.                                         (*) Manuel António Pina,       mem que tudo faz para regressar à pri-
   No domingo, Susan Boyle cantou              - Vê depressa a TVI! É cá uma “cena”!            no “Jornal de Notícias” de hoje;        são, Alegre não é capaz de sobreviver fora
“Memories” e foi a primeira a ser apu-         Rodei o botão e... estava mesmo a                         publicado em 21 de Maio        do oxigénio do partido que fez dele gente
rada, pelo voto dos telespectadores.        terminar a entrevista de Manuela Mou-                                                       – quando parece ficar com um pé do lado
   Susan mostrou-se desta vez algo in-      ra Guedes a António Marinho Pinto.              ROTUNDA DA ESTRADA                          de fora, Alegre, afinal, está a tentar me-
segura, talvez mesmo nervosa, mas ra-          Vi para aí uns 20 segundos.                  DE EIRAS NA SIC                             ter-se ainda mais para dentro. Teatralida-
pidamente se recompôs e, mais uma vez,         Volta a tocar o telemóvel.                      A mais famosa (e mais alterada) ro-      des à parte, Alegre está no bolso de Só-
fez levantar o público.                        - Ó pá, nunca tinha acontecido nada          tunda de Coimbra, a Rotunda da Estra-       crates porque não é suficientemente ale-
   A grande final é no sábado, a partir     disto nestes anos todos depois do “25 de        da de Eiras, que eu elegi com a “Obra       grista para as expectativas que procriou.
das 20h00, no ITV1, canal disponível via    Abril”. Foi cá uma coisa!...                    do ano 2008” na cidade, teve hoje hon-          (*) Carlos Abreu Amorim, jurista;
satélite nos 28,2 graus Este (frequência       Tenho pena de não ter visto.                 ras de “directo” na SIC.                                 publicado em 19 de Maio
10 758, vertical).                             Mas são 21h30 (quando escrevo es-               Foi no programa “Nós por cá” e con-
   Tentarei não falhar.                     tas linhas) e estou a trabalhar desde as        tou com depoimentos de diversos utiliza-    JANTARES POLÍTICOS
           (publicado em 26 de Maio)        8h00. Há dias assim.                            dores da famosa rotunda.                       Um deputado socialista tenta explicar,
                                                       (publicado em 22 de Maio)               Engraçado, engraçado, foi ouvir um       na SIC Notícias, que a nova lei de finan-
A PROPAGANDA                                                                                técnico da Câmara Municipal de Coim-        ciamento dos partidos é um texto notá-
E A REALIDADE                               SÓCRATES PELA PORTA                             bra a dizer que a autarquia está aberta a   vel, que ajudará à transparência.
   Encontrei esta frase no “Twitter”:       DAS TRASEIRAS                                   novas alterações na rotunda (que já foi        A politóloga que está presente no pro-
«Choque tecnológico é anunciar bué de          O primeiro-ministro foi hoje vaiado pelos    alterada, pelo menos, quatro vezes!!!) e,   grama não se mostra convencida e ar-
banda super-larga quando para entregar      alunos de uma escola de Artes em Lisboa.        acima de tudo, justificar a construção      gumenta com argúcia.
o IRS a banda é super-lenta».                  No final da visita, Sócrates e comitiva      com a instalação nas imediações do             Ela poderia ter apresentado um
   Aqui ao lado, ao cima da página, o       saíram pela porta das traseiras.                INEM e de uma superfície comercial.         exemplo como este: o partido promo-
contador informa que o meu familiar está       Começa a ser um hábito...                       Sempre me pareceu, aliás, que o “cul-    ve uma festa de angariação de fun-
à espera do cartão de contribuinte há 403              (publicado em 22 de Maio)            pado” da construção da rotunda foi... o     dos, com bilhete de entrada a 10 eu-
dias!!! No país do Simplex.                                                                 “Minipreço”.                                ros (inclui jantar de lombo de porco
   Ou seja: uma coisa são as palavras       “O” LOPES (*)                                              (publicado em 20 de Maio)        assado, vinhos e café). No entanto, um
dos políticos, outra coisa é a realidade.      Há pormenores esclarecedores. Na                                                         promotor lá da terra, apenas por vai-
           (publicado em 26 de Maio)        Quadratura do Círculo, António Costa            FUTURO DOS JORNAIS                          dade pessoal (obviamente...), decide
                                            referiu-se ao procurador Lopes da Mota             Acabei de ler esta frase no Twitter:     pagar, em vez de 10 euros, 5.000 eu-
SIC NA CAMPANHA                             - aquele nosso brilhante presidente do          «Só não vê quem não quer: o futuro dos      ros. É proibido? Não.
DE RANGEL                                   Eurojust - como “o” Lopes da Mota. O            jornais impressos depende da imediata          (De acordo com as palavras do depu-
   Ricardo Costa, director-geral adjunto    artigo definido não constituiu lapso freu-      adaptação aos novos parâmetros da in-       tado socialista, creio que lhe deverá ser
da SIC, acompanhou hoje a campanha          diano. Mota foi secretário de Estado de         formação.»                                  entregue um “talão de caixa”).
de Paulo Rangel (PSD) e disso acaba         um governo de Guterres onde Costa tam-             Concordo.                                   No final, estará tudo certo: a verba do
de dar conta no telejornal das 20h00.       bém pontificava. A mulher de Mota é sua                   (publicado em 20 de Maio)         promotor aparecerá diluída na receita do
   Espanto! Ricardo Costa acaba de afir-    vereadora - imagine-se - da cultura, em                                                     jantar. (Ao mesmo tempo, alguns dos
mar que uma bandeira da Europa com          Lisboa, e dá pelo nome de Rosália Var-          «EU PERCEBO QUE VOCÊ                        comensais poderão comer à borla, que a
12 estrelas está desactualizada, porque     gas (Lopes da Mota). Grande Lopes. O            ANDE ENJOADO...»                            coisa não se notará. E o “tipo das con-
lhe faltam 15 estrelas.                     “nosso” Lopes. “O” Lopes.                          Dois excertos de (mais) um texto bri-    tas” terá até a possibilidade de apresen-
   E terminou mais ou menos assim a                           (*) Sucinto e esclarecedor.   lhante de João Miguel Tavares no “Diá-      tar uma “contabilidade criativa”.)
peça jornalística:                                Texto de João Gonçalves no “Portugal      rio de Notícias”.                              PS - Cada vez mais me apetece sair
   «Tal como esta bandeira está desac-                                 dos Pequeninos”;        «Caro leitor: eu percebo que você ande   daqui. Portugal está mesmo transforma-
tualizada, também a campanha do PSD                            publicado em 22 de Maio      enjoado. Eu próprio, semana após sema-      do num sítio mal frequentado.
está desactualizada...».                                                                    na, sento-me em frente do computador                    (publicado em 14 de Maio)
   Nem queria acreditar!                    ACREDITE SE QUISER (*)                          para escrever mais um texto para esta
   Ricardo Costa tem a obrigação de            Notícias surpreendentes lá de fora: o        página e a mão está sempre a fugir-me       PS ANDA A PINTAR PRÉDIOS
saber que o número de estrelas da ban-      primeiro-ministro belga, Yves Leterme,          para Alcochete. Mas será que a culpa é         «Pintaram os bairros, mas esquece-
deira que identifica a Europa nada tem a    propôs hoje (19/12/08) a demissão de            minha? Por amor de Deus: depois daque-      ram-se de vos dizer que o dinheiro é do
ver com o número de países que fazem        todo o Governo, na sequência de acusa-          le tio, agora sai-nos um primo vestido de   Estado, é do PS»
parte da União Europeia.                    ções de alegadas (alegadas, imagine-se!)        Bruce Lee, a treinar artes marciais no         (Elisa Ferreira, durante visita a um
   A bandeira não está desactualizada.      pressões sobre a justiça. Leterme nega          templo de Shaolin e a chamar pelo nome      bairro social, no “Jornal de Notícias”)
Aquela é que é a bandeira – e ponto fi-     qualquer pressão sobre o poder judiciá-         de Wu Guo, “o guerreiro profundo”? So-         Informo a senhora eurodeputada que
nal.                                        rio e apenas admite ter feito “contactos”;      bre o que é que querem que eu escreva,      o meu prédio, já “velho” de 15 anos, está
   Mas se Ricardo Costa não sabe, bas-      Michael Martin, presidente da Câmara            se nem a família Adams é tão divertida?»    a precisar de pintura. Se o PS ainda ti-
ta ir ao “site” da Europa.                  dos Comuns, anunciou hoje (19/05/09) a             «Lamento muito, mas o caso Freeport      ver dinheiro disponível, a rapaziada do
   O que lá está escrito é esclarecedor:    demissão, após acusações de alegada-            transformou-se numa tragicomédia na-        condomínio agradece.
«Esta é a bandeira da Europa, símbolo       mente (alegadamente, pasme-se) ter              cional, que põe ao léu uma República                   (publicado em 10 de Maio)
não só da União Europeia, mas também        consentido alegados (só alegados) abu-          grotesca, sem princípios, sem carácter e
da unidade e da identidade da Europa em     sos nas despesas de representação de            completamente disfuncional. Sobre o que     SEGUE-SE O PADRE
sentido mais lato. O círculo de estrelas    alguns deputados; dois membros da Câ-           hei-de eu escrever, se a vergonha já se     KROHN...
douradas representa a solidariedade e a     mara dos Lordes foram hoje (20/05/09)           estende desde aqui até à China»               O turco que tentou assassinar o Papa
harmonia entre os povos da Europa. O        suspensos (suspensos, a democracia in-                      (publicado em 19 de Maio)       há 28 anos pediu a nacionalidade portu-
número de estrelas não tem nada a ver       glesa está maluca!) por alegadamente                                                        guesa.
com o número de estados-membros. As         (outra vez só alegadamente) terem acei-         POLÍTICA SEM POESIA (*)                       Só falta o pedido do padre Krohn.
estrelas são doze porque tradicionalmen-    tado dinheiro para votar projectos de lei.        Este fim-de-semana li a notícia de um               (publicado em 14 de Maio)
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                           MÚSICA               19
                                                                                                                                        o artista decida abraçar todos os presen-
Distorções                                                                                                                              tes, como fez o Tricky e eu tive o privilé-
                                                                                                                                        gio de ser um dos presentes.
                                                                                                                                           Por fim, resta destacar a presença
                                                                                                                                        portuguesa neste evento com os Clã, Rita
                                                                                                                                        Redshoes, David Fonseca e The Legen-
                                                                                                                                        dary Tigerman, mas o último foi quem
                                                                                                                                        mais se destacou.
                                                                                                                                           Se tudo correr bem o próximo passo
                  José Miguel Nora                                                                                                      será o Festival de Coachella, que se rea-
                  josemiguelnora@gmail.com                                                                                              liza em Indio, em pleno deserto da Cali-
                                                                                                                                        fornia, aí sim um festival num formato
    No passado mês de Março, concreti-                                                                                                  mais típico de festival de verão e que ri-
zei o desejo de ir ao “South By Sou-                                                                                                    valiza com o festival dinamarquês de
thwest”, para quem não saiba este                                                                                                       Roskilde o rótulo de maior festival do
evento tem lugar em Austin, no estado                                                                                                   mundo.
do Texas e contempla três fases: uma                                                                                                       Para o fim, a sugestão do disco do mês
ligada ao cinema, outra à interactividade                                                                                               que desta vez recai sobre “Wolfgang Ama-
e a música – que foi a parte a que assis-                                                                                               deus Phoenix” dos gauleses Phoenix.
ti. É um festival diferente daquilo que
estamos habitudados a ver num festival
                                              Zé Pedro, Tricky e José Miguel Nora no “South By Southwest”
de música, não há grandes palcos, nem
grandes áreas e em nada tem a ver com        jogo de consola “Guitar Hero Metallica”),       vivida em Austin durante este festival e
um Rock In Rio ou um Sudoeste. O             Echo & The Bunnymen, Devo e os Pri-             que tem um pouco do que se por cá se
SXSW é um festival itinerante a ter lugar    mal Scream. A tudo isto juntam-se muitas        passa numa Queima das Fitas, com gen-
em espaços existentes na cidade, quer        festas em que há concertos, bebidas grá-        te na rua a conversar de copo na mão,
sejam bares, tendas, parques de estacio-     tis e dj-sets, eu fui assíduo na “Fader Fort”   mas com o atractivo adicional de que por
namento, ou, mesmo, igrejas – onde os        patrocinada pela Levi´s.                        ali se passeam algumas da maiores es-
Clã actuaram. Em apenas 5 dias de festi-         Por entre tudo o que vi, não poderia        trelas da música actual. Por exemplo, no
val há cerca de 1800 concertos. As no-       deixar de destacar quatro nomes: os bra-        dia em que fui ver a actuação dos The
vas tendências da música são o prato for-    sileiros The Twelves, Tricky, Primal            Warlocks, vi o vocalista da banda, Bo-     Rita Redshoes e David Fonseca
te deste evento, que é uma grande atrac-     Scream, White Lies (sobre quem vos              bby Hecksher, numa “roulote” de cachor-
ção quer para editoras, quer para promo-     escrevi na última edição). De tudo o que        ros e ainda me cruzei com Jarvis Co-         PARA SABER MAIS:
tores ou, simplesmente, curiosos. Mas não    queria ver só o actual líder do top´s das       cker dos Pulp.
deixa de haver alguns nomes mais sonan-      pistas de dança, Calvin Harris, faltou à           Como os concertos decorrem em es-         http://www.sxsw.com/
tes, como seja o caso dos: Metallica (que    chamada.                                        paços mais reduzidos, dada a atmosfera       Phoenix - “Wolfgang Amadeus
actuaram integrados no lançamento do             Para terem uma ideia da atmosfera           mais intimista, leva a que, por exemplo,     Phoenix” (Ghettoblaster)



ESPECTÁCULOS SEMANAIS ATÉ SETEMBRO

“Noites da Canção de Coimbra 2009”
   Inicia-se amanã (sábado, dia 30), no Café Santa Cruz,
o ciclo “Noites da Canção de Coimbra 2009”, com a                                                                        PROGRAMA PARA JUNHO
primeira actuação a cargo do Quarteto de Guitarras de
Coimbra Æminium, a partir das 21h30.                                                                                       Para o próximo mês de Junho, o programa é o se-
   Trata-se de uma iniciativa do Departamento de Cul-                                                                    guinte:
tura do Município de Coimbra, que desde 2002 tem vin-                                                                      Dia 2 (terça-feira), no Café Santa Cruz – Grupo
do a promover as Noites da Canção de Coimbra “para                                                                       de Fado Æminium
divulgar a Canção Tradicional Urbana (popular e aca-
démica), de influências regionais e locais, cuja expres-                                                                  Dia 6 (sábado), na Galeria Almedina – Grupo Alma
são mais genuína é a Serenata de rua” – como refere o                                                                    Mater
Vereador da Cultura, Mário Nunes.                                                                                          Dia 9 (terça-feira), na Galeria Almedina – Grupo
   A desenvolver entre os meses de Maio a Setembro,                                                                      Velha Cabra
em algumas terças-feiras e alguns sábados, as actua-
ções incluídas neste projecto iniciam-se sempre às                                                                         Dia 13 (sábado), no Pátio da Inquisição – Grupo
21h30, “promovendo vários grupos de Fado que inte-                                                                       Coimbra de Sempre
gram a nova geração e que, assim, têm oportunidade
de divulgar um repertório exclusivamente de raiz coim-                                                                     Dia 16 (terça-feira), no Adro da Igreja de Santa
brã, através de uma linguagem musical que tem levado                                                                     Cruz – Grupos Minerva e Verdes Anos
o nome da Cidade aos quatro cantos do mundo”.                                                                              Dia 20 (sábado), nas escadas do Quebra-Costas –
   São, nesta edição, dezasseis os grupos participantes,     de Santo António dos Olivais e as Escadas de S. Tiago.      Grupo Torre d’Anto
numa iniciativa que, há muito, ultrapassou as fronteiras        Como sublinha o vereador, “trata-se de um projecto
da Galeria Almedina (local que, originalmente, acolhia       que se socorre da beleza e do enquadramento arqui-            Dia 23 (terça-feira), na Rua D. João III (ou
as, inicialmente designadas “Noites de Fado de Coim-         tectónico e patrimonial dos espaços onde decorrem os        Centro Comercial Dolce Vita) – Grupo Canção
bra”), percorrendo, assim, outros espaços da cidade,         espectáculos, até porque as ‘Noites da Canção de Co-        de Coimbra
como sejam: além da referida Galeria Almedina, o Café        imbra’ se dirigem, maioritariamente, aos turistas que         Dia 27 (sábado), noTerreiro de Santa Clara-a-
Santa Cruz, o Pátio da Inquisição, o Adro da Igreja de       visitam a cidade nesta época”.                              Nova – Grupo Etnográfico do Brinca e Grupo
Santa Cruz, o Quebra-Costas, a Rua D. João III (ou o            Além dos grupos de Fado participam, ainda, dois gru-     Alma Mater
Dolce Vita, nos casos em que as condições atmosféri-         pos de etnografia e folclore – Grupo Etnográfico do
                                                             Brinca, Eiras e o Grupo Folclórico da Casa do Pessoal         Dia 30 (terça-feira), noPátio da Inquisição – Gru-
cas não permitam aos grupos actuar no exterior), o
                                                             da Universidade de Coimbra.                                 pos Minerva e Verdes Anos
Terreiro de Santa Clara-a-Nova, a escadaria da Igreja
20 OPINIÃO                                                                                                                                           29 DE MAIO DE 2009


                                                                                                                                                          jectou sobre nós toda a sua força.
                                                                                                                                                             Por isso, quando ontem nas Escadas
                                                                                                                                                          Monumentais apreciei, com nostalgia e
                                                                                                                                                          esperança, uma reconstituição simbóli-
                                                                                                                                                          ca de episódios da crise universitária de
                                                                                                                                                          Coimbra de 1969, deparei com as ima-
                                                                                                                                                          gens que vos mostro. Eis uma reivindi-
                           Rui Namorado                                                                                                                   cação de há quarenta anos, que o Minis-
                     (professor universitário)                                                                                                            tro M. Gago conseguiu tornar actual.
        http://ograndezoo.blogspot.com
                                                                                                                                                          PONTO DE VISTA
A UNIVERSIDADE EM OBRAS                                                                                                                                      Por um inusitado impulso do seu pen-
                                                                                                                                                          samento enquanto dormia, o sábio, sem
   Por uma infeliz conjunção de circuns-                                                                                                                  que disso se apercebesse, foi arrasta-
tâncias,                                                                                                                                                  do para uma caverna onde a luz não
   - talvez encandeado por um exces-                                                                                                                      entrava.
so de confiança no seu próprio brilhan-                                                                                                                      De manhã, ao acordar, com a sua pro-
tismo,                                                                                                                                                    verbial lucidez e aguda inteligência, com
   - ou demasiado absorvido pela som-                                                                                                                     objectividade e realismo, afirmou: “Hoje,
bra simplificadora do seu Técnico,                                                                                                                        o sol não nasceu”.
   - ou demasiado marcado pelo impera-                                                                                                                       No entanto, inesperadamente, cá fora,
tivo dos cortes orçamentais,                           pela infeliz circunstância de o terem fei-       Universidades até limites tão modestos,           a manhã percorria com frescura o seu
   - talvez demasiado apressado na de-                 to emigrar para o inóspito ónus da tutela        que teriam sido admissíveis para um               caminho.
glutição acrítica das alegadas iguarias                das Universidades,                               marcelismo que tivesse sobrevivido, mas              Moralidade: se o teu pensamen-
bolonhesas,                                               o ministro M. Gago fez regredir a par-        em que ninguém teria sequer pensado               to estiver dentro de um buraco, os
   - ou, quem sabe, apenas entediado,                  ticipação dos estudantes na vida das             durante os anos em que Abril ainda pro-           teus olhos nada verão.



  OPINIÃO
                  J.A. Alves Ambrósio
                                                       Angola em Saragoça (à guisa de balanço)
                                                       espetadas na ponta de estacas que se le-         Paris no “Le Fígaro”).                            natureza das coisas. A força que as liga-
    A visita ao pavilhão de Angola em Sara-            vantavam bem alto perante os nativos. Su-            A Europa revelou uma profunda incom-          ções económicas, comerciais, industriais, fi-
goça foi, portanto, uma experiência. Uma               cede é que estes conseguiram o seu objecti-      preensão pelo que se passara entre 1914 -         nanceiras, afectivas... possuem deve ser tida
daquelas experiências que percute, fica gra-           vo, a independência, porque, desde os preli-     1918 e estatelou-se de novo, ignominiosa-         muito bem em conta; e uma comunidade
vada no mais fundo da consciência, é ponto             minares, transferiram a resolução do proble-     mente, entre 39 e 45 (o que se tem passado        baseada em laços de sangue não carece de
de partida para todo o ser interior: emoção,           ma para o Sagrado. E, perante o Sagrado,         de então para cá mostra que, aos europeus,        invenção – é vigorosa de séculos.
memória, sentimento, intelecção, prognose...           nenhuma vitória é possível, tudo soçobra.        não foi fácil aprenderem a lição – mas apren-         Passados os conturbados tempos do pós
É a minha boa estrela, altaneira, a lembrar a              Nunca cheguei a saber quem era o pro-        deram algo de muito substancial). Muito para      25 de Abril é hoje o momento de, v.g., cons-
sua privilegiada, indomável, existência.               prietário da Maria da Luz, mas, em Ango-         além de terem logrado o maior período de          tituir uma associação de amizade Portugal-
    Numa das primeiras operações que me                la, os nossos compatriotas deixaram uma          paz da História europeia, o que é verdadei-       Angola. Serei o primeiro a fazer parte dela.
foi destinada, mal acabado de instalar-me              realização absolutamente soberba. Aquela         ramente emocionante para mim é que, nes-              Angola sempre integrou a minha ontolo-
na ZIN                                                 era para eles, uma terra de “sonho” – e o        te momento, um batalhão alemão, em tem-           gia desde que lá desembarquei em Setem-
    (Zona de Intervenção Norte), o objecti-            sonho apenas pede que o realizem.                po de paz, esteja aquartelado em solo fran-       bro de 1963 e a visita a Saragoça fez explo-
vo era “reconhecer” a zona da Fazenda                      Naquele território sentiam que poderiam      cês. Soberbo além de todas as palavras –          dir esse potencial, entre-mentes em letar-
Maria da Luz, área entre a estrada Luan-               ser tudo quanto o quisessem. Liberto das         tanto mais que as idiossincrasias dos dois        gia. Hoje dou-me conta da quantidade de
da, Caxito, Carmona (Uíge) e o rio Úcua.               Iimitações de uma metrópole, acanhada e          países nada, digamos, têm que ver uma com         obras que sobre Angola se publicam – ven-
O nível sócio-cultural do emigrante portu-             sonolenta, sem letras ou títulos com os quais,   a outra.                                          dem. Algumas pouco mais são que fotos a
guês para aquelas paragens era, na genera-             de algum modo pudesse triunfar, o colono             Assim como os europeus caminham de            recordar – prestando em qualquer dos ca-
lidade, baixo (no Pango Aluquém um médi-               vivia agora noutro mundo                         mãos dadas e cada vez mais terão de fazê-         sos um serviço notável –, outras romancei-
co com vagar para ler sobre agronomia de                   e aquela era a “sua terra”.                  lo lúcida e energicamente, assim também           am. Uma universidade que, na área do Hu-
café conseguia, como “passatempo”, tripli-                 Todavia, em Luanda, encontrei uma boa        os nossos dois países.                            manismo, tem carências gritantes devia pôr
car ou quadriplicar a produção de “ouro                livraria, a Lello. Outra faceta da existência        É por isso que tanto tenho insistido na       aqui os seus olhos. A Imprensa, quotidiana-
negro”, relativamente ao colono indiferen-             do branco era, porém, hedionda: vivia como       superação do ressentimento por parte de           mente, menciona ligações e outros aspec-
ciado). Mas a Maria da Luz foi uma emo-                se apenas a sua comunidade existisse. O          Angola e no carinho pelo património aí dei-       tos da realidade; e que um visto para Ango-
ção tão forte que, não raro, a revejo – e não          negro era uma coisa, res nullius – excepto       xado, a fortiori património artístico é espiri-   la demore tanto tempo a obter mostra bem
porque esse muito belo nome era também o               para o trabalho, no qual era atrozmente ex-      tual. Não ter muçulmanos é uma bênção             a que nível de afecto e grandeza devem ser
da minha “madrinha de guerra”, uma aris-               plorado.                                         para Angola, porque se sabe, pelo menos           as relações.
tocrata das mais antigas famílias nobres de                As posições antagónicas e irredutíveis       desde o século XVI, o que são confrontos              O leitor que faz o obséquio de ler-me,
Portugal, de uma elegância                             conduziram ao que todos sabem – mas agora        religiosos.                                       que é pessoa inteligente e se sente insepa-
    (interior e exterior, claro), inteligência, iro-   estamos já no pós-guerra. E o pós-guerra             Mas se Angola não deve ter ressentimen-       rável da sua comunidade, já reflectiu bem
nia, presença... admiráveis.                           só pode ser um tempo de amor. Antes da           tos, os portugueses que agora para lá se di-      nisso? Já lhe mediu o alcance? Não quer
    Breve: a Maria da Luz foi para mim a               eclosão da primeira conflagração mundial,        rigem a fazer negócio devem ter muito bem         juntar-se a mim e a outras pessoas de in-
identidade da guerra, uma dor d’alma que               em 1914, ir para a guerra era... uma alegria.    presente a consideração devida a quem             questionável dignidade e responsabilidade,
se sente in locco não passível de ser apre-            Do lado francês havia quem considerasse          matou a fome a tanto compatriota e o que          a fim de avançarmos para uma concreção
endida por jornais, livros ou qualquer outro           que ia para umas férias – as primeiras da        aquela abençoada terra representou/a para         de grandeza, de fraternidade?
meio. Guerra                                           vida. Do lado alemão foram numerosos os          Portugal. Sentimentos de trafulhice e displi-         A perenidade das pátrias custa apenas a
    é guerra, dizem os que por ela passaram.           artistas que pereceram no conflito – e essa      cência são absolutamente inadmissíveis e          nossa dignidade, a nossa elevação. Vamos
As construções da fazenda estavam todas                sensação de incómodo é, agora, bem forte         Angola não deve tolerá-los.                       fundar a Associação de Amizade Portugal-
esventradas.                                           no museu Franz Marc, em Kochel-am-See                Uma vigorosa comunidade de sentimen-          Angola? Seremos os primeiros com a gran-
    À horrenda chacina dos nossos compa-               ali mesmo no sul da Baviera. Em Itália, em       tos está já constituída e isso – precisamente     deza da nossa tranquilidade, e a tranquilida-
triotas, após Fevereiro de 1961, seguiram-             Fevereiro de 1909, no “Manifesto Futuris-        – deve ser ponto de partida para um apro-         de da nossa grandeza.
se represálias que nada lhe ficaram a dever,           ta”, Marinetti apresenta a guerra como uma       fundamento cada vez maior.                            Os nossos dois países e nós bem mere-
com cabeças cortadas e, posteriormente,                higiene (o “Manifesto” seria publicado em            Tudo o que não seja assim é contra a          cemos isso.
29 DE MAIO DE 2009                                                                                                             OPINIÃO              21

                                                                Fome de política
                                                em “bunker’s”, super equipados, auto            no concreto sentido da solução dos mag-     flectissem sobre as reformas que, por
                      Renato Ávila              suficientes, assépticos, soturnos e inex-       nos problemas que nos afligem.              incapacidade ou por táctica omissão,
                                                pugnáveis.                                         As oratórias, prodigamente semeadas      deixaram de fazer?
   Há fome de política.                            Nenhum raio de sol nelas entrará para        por tudo o quanto soa a auditório, têm-se      Esta crise em que estamos mergulha-
   Em muitas gargantas as palavras quei-        as iluminar, aquecer, humanizar.                resumido a um farto e insensato deitar      dos, mais do que económica, é, na sua
mam como brasas, em muitos corações                Em alienado e alienante paroxismo, ex-       abaixo sem a séria contrapartida de qual-   essência, uma crise de valores. Vemo-la
os sentimentos fervem em cachão.                primem-se enviesados argumentos, for-           quer alternativa de reconstrução.           aflorar clamorosamente na vacuidade e
   Tanto que foi calado, acumulado nes-         çam-se deslocadas contradições, inven-             Será que as candidaturas em presen-      demagogia do discurso, no veneno e na
tes anos mornos de defeso eleitoral, de         tam-se soluções já inventadas, ideias já        ça ainda não se aperceberam do lasti-       ligeireza irresponsável dos constantes li-
pasmadas e pasmantes pasmaceiras par-           concebidas, disparates já denunciados,          mável estado do poder? Do poder judi-       belos acusatórios, nas subserviências e
lamentares, de desencontradas e empo-           numa despiqueirosa azáfama cada vez             cial, do poder legislativo, do poder re-    arrogâncias, na incoerência e facciosis-
ladas façanhas, de burlescos e intrigan-        mais pobre, cada vez mais entrincheirada.       gulador e fiscalizador do estado, do po-    mo das análises da generalidade dos pro-
tes episódios de arrufos e falcatruas, de          A criatividade não mora, certamente,         der da sua autoridade quanto ao cum-        tagonistas.
gritantes inépcias e escandalosas injusti-      por aqui.                                       primento da lei e à promoção da segu-          Esta espécie de política soa a falso
ças e subserviências.                              E o poder, alucinado e tonto de tanto        rança dos cidadãos?                         quando se baseia numa estéril dialéctica
   E a crise foi alastrando qual gota de        chavão, de tanto baldão, surge-nos en-             Será que, ao esgrimirem argumentos e     acusatória. Perante os olhos dos cida-
óleo em cartão, empurrando para a boca          fezado e triste qual Cristo na mão dos          condenações, estão na plena consciência     dãos perpassa, isso sim, um sôfrego e
o verbo e as emoções.                           algozes.                                        das reais disponibilidades económicas do    obsceno apetite de poder.
   Seria mister que se tratasse da Euro-           Vem daí o grande dilema dos cidadãos.        país para cumprir anseios e honrar pro-        Estamos todos com muita fome: de
pa. Todavia, algo de mais forte, de mais           Depositar-lho-ão nas mãos à mesa do          messas demagogicamente empolados?           justiça, de segurança, de seriedade, de
apelativo há muito que se desenhava nas         voto e, angustiados, não saberão a quem            Será que nestes quatro anos de Go-       responsabilidade.
mentes. – as atribulações da ilustre e          entrega-lo se todos lhe deram tratos de polé.   verno nada houve de aproveitável na            Delas resulta, inevitavelmente, uma
sempre indigente casa lusitana.                    A política está na rua à conquista do        educação, na saúde, na protecção so-        imensa fome de política. Não dessa polí-
   A política está na rua. Palpitante. Trepi-   voto supostamente legimitador do poder          cial, na modernização dos serviços e        tica mesquinha niilista e arrasadora feita
dante. A censurar. A exorcizar os males que     dito democrático.                               das infraestruturas…?                       por gente pequenina, mas duma política a
nos apoquentam. A condenar, ad limine, os          Ninguém ainda disse e, pelos vistos, dirá       Será que a crise que enfrentamos só      sério – positiva, agregadora, construtiva,
seus supostos e forjados responsáveis.          jamais, com a necessária consistência e         encontra culpados naqueles que exercem      motivadora, feita por gente grande dispos-
   A culpa será sempre do outro, por isso       clareza, o que com ele pretende fazer.          actualmente o poder executivo? Não          ta, sobretudo, a servir o país e a grei.
mesmo morrerá solteira.                            Ninguém ainda clarificou qualquer pro-       seria muito mais justo que todos quantos       Os portugueses merecem-na. Exi-
   As consciências transformaram-se             jecto coerente minimamente sustentado           o usaram nestes trinta e quatro anos, re-   gem-na.


FILATELICAMENTE
                                                  1940                                                                            POIS...
                                                  – Legião
                     João Paulo
                     Simões
                                                  Portuguesa                                                                                            José
                                                                                                                                                        d’Encarnação
   Milícia criada pelo Estado Novo em 1936,
tinha por objectivo “organizar a resistência                                                                                          Teresa foi uma das minhas alunas mais dis-
moral da Nação e cooperar na sua defesa                                                                                            tintas. Chegámos a pôr a hipótese de ela se-
contra os inimigos da pátria e da ordem so-                                                                                        guir a carreira universitária, que para isso ti-
cial”, devendo, para isso, “repudiar e com-                                                                                        nha méritos de sobejo. Ficou-se, afinal, pelo
bater, em todos os campos, as doutrinas sub-                                                                                       Ensino Secundário, onde é docente de raro
versivas, nomeadamente o comunismo e o                                                                                             mérito, muito querida por todos os seus estu-
anarquismo”. Foi criada e sustentada pelo                                                                                          dantes.
governo de Salazar e dirigida por uma Jun-                                                                                            Em jeito de provocação, enviei-lhe a ane-
ta Central , directamente nomeada pelo Mi-                                                                                         dota que certamente os nossos leitores já re-
nistro do Interior.                                                                                                                ceberam: preparava-se o piquenique e havia
   Não era obrigatório pertencer-se à Le-                                                                                          enorme quantidade de sacos com um produto
gião Portuguesa. Era voluntário. Mas um                                                                                            esbranquiçado dentro... É que o responsável
voluntário quase obrigatório, pois quem não                                                                                        escrevera no papel que comprassem, para o
passasse por ela, tinha dificuldades em ar-                                                                                        churrasco, “1ô2 sacos de cal”. E ali esta-
ranjar empregos sobretudo no Funcionalis-                                                                                          vam… 102 sacos de cal! Esquecera-se da
mo Público.                                                                                                                        cedilha, justificou ele: o que queria escrever
   Durante o período salazarista e do Esta-                   O bloco aqui apresentado, faz parte da série de                      era… çal!
do Novo, foram muito estreitas as relações                 oito valores desenhados por António Lima e grava-                          E a Teresa retorquiu-me:
entre a Legião Portuguesa e a polícia polí-                dos por Gujstavo de Almeida Araújo. Impressos na                           «O grave...é que isto começa a ser mais
tica. Uma maneira de vigiar o Povo e con-                  Imprensa Nacional Casa da Moeda em folhas de 100                        que anedota. É o real!!! Em Agosto vou ten-
trolá-lo. Foi extinta com a Revolução de                   selos, circularam de 27 de Janeiro a 19 de Abril de                     tar ver se consigo reforma antecipada. Já não
Abril de 1974.                                             1940 e o bloco até Setembro de 1945.                                    aguento mais!!! […] O clima está insuportá-
                                                              O objectivo era fazer propaganda à Legião Portu-                     vel. Indescritível... Quem é digno e
           (Baseado na Nova Enciclopédia                   guesa e também à Mocidade Portuguesa, por inicia-                       pode......sai. Tivesse eu uns anitos a menos.....
               Larousse, volume 14 de 2002                 tiva dos CTT. Mas a palavra “Mocidade” foi rejeita-                     e saía para bem longe, não me perguntes para
           editada pelo Círculo de Leitores)               da do selo, ficando só “Legião”.                                        onde.... que também não sei.»
22 REPORTAGEM                                                                                                                                          29 DE MAIO DE 2009



PROJECTO DESENVOLVIDO NO INSTITUTO SUPERIOR MIGUEL TORGA

“DIÁRIO XII” de Miguel Torga em versão integral
para telemóvel ou Messenger
   São 27.882 palavras, 114.796 caracteres que     comunicação escrita entre os mais jovens. Es-
pretendem provocar a discussão em torno do         creve-se mais, mas escreve-se pior?                                                                      tremoz, Bofinho (Alvaiázere), Gerês, Falperra,
                                                                                                        PROJECTO COMPOSTO
futuro da Língua Portuguesa, numa época em             “(…) Aquilo que vira do avesso a forma de                                                            Albufeira, Alte, Monterrey (Verin), Serraquinhos,
                                                                                                        POR QUATRO BLOGS
que os jovens escrevem cada vez mais, mas tal-     expressão tradicional é a legitimação da fala pro-                                                       Pulo do Lobo (Serpa), Vila Real, Bragança, Mi-
vez estejam a escrever cada vez pior               jectada na escrita. A escrita (tradicional) é um                                                         randa do Douro, Sítio da Nazaré, Castro Labo-
                                                                                                           Ao blog continente da versão integral do
                                                   trabalho miudinho, requer tempo para a ponde-                                                            reiro, Barragem de Vilarinho da Furna, Sagres,
                                                                                                        “Diário XII” em “linguagem SMS”, juntam-se
    O “Diário XII”, de Miguel Torga, foi integral- ração sobre o material linguístico a seleccionar,                                                        Borba, Juromenha, Portalegre, Elvas, La Alberca
                                                                                                        outros três. Em http://torgaemsms.blogspot.com
mente convertido para “linguagem SMS”. A           ordenação frásica, estabelecimento de elos en-                                                           (Espanha), Mesio, S. Leonardo da Galafura, Por-
                                                                                                        disponibilizam-se dezenas de notícias sobre o
“proeza” tem a autoria de duas alunas da Licen-    tre tópicos, a que se vem juntar uma competên-                                                           to, Bruxelas, Bruges e Londres.
                                                                                                        tema, do mixuguês à taquigrafia, dos etnolets às
ciatura em Comunicação Social do                                                                                                                                            O Diário XII começa e termina em
Instituto Superior Miguel Torga                                                                                                                                         Coimbra, cidade que regista o maior
(ISMT), de Coimbra.~                                                                                                                                                    número de entradas (122), o que equi-
    Micaela Andreia Neves e Márcia                                                                                                                                      vale a 48,6% do total. Segue-se a terra
Arzileiro, entretanto já licenciadas, não                                                                                                                               natal do escritor, com 20 entradas
chegaram a converter a totalidade da                                                                                                                                    (8%). Albufeira, com 11, e Gerês, com
obra, tendo a parte sobrante sido en-                                                                                                                                   10 entradas, são os restantes sítios
tregue a duas jovens de 14 anos,                                                                                                                                        com entradas na casa das dezenas.
Mariana Alves e Laura Sobral, ao tem-                                                                                                                                   Vêm depois Chaves e Luanda, com 5;
po frequentando o 8.º ano da Escola                                                                                                                                     Bruxelas e Carvoeiro, com 4; Lisboa,
EB 2 3 Eugénio de Castro.                                                                                                                                               Londres, Sá da Bandeira (actual Huí-
    A conversão foi efectuada da 3.ª                                                                                                                                    la, Angola) e Sto. António do Zaire
edição revista do Diário XII, compos-                                                                                                                                   (actual Soyo, Angola), registam três
                                              Micaela Neves, Márcia Arzileiro, Mariana Alves e Laura Sobral                                                             entradas cada. Com duas encontra-
to e impresso nas oficinas da Gráfica
de Coimbra em Julho de 1986. O Diá-                                                                                                                                     mos Aveiro, Coja (Arganil), Estremoz,
rio XII, com 204 páginas, inclui 251 entradas, de cia gráfica muito regrada (disposição de linhas, palavras em vias de extinção.                            Gorongosa (Moçambique), Ilha de Moçambi-
17 de Maio de 1973 a 22 de Junho de 1977. 46 marcação de parágrafos, pontuação, etc). Mas o                                                                 que, Lourenço Marques (actual Maputo, Mo-
                                                                                                        Este blog agrega ainda mais de uma dezena
dessas entradas são constituídas por poemas.        que temos no chat e no e-mail informal é o uso de vídeos reportando o tema. Isto para além da           çambique), Moçâmedes (actual Namibe, Ango-
    A versão em sms compreende 27.882 pala- oral da língua que, em vez de ter suporte áudio, divulgação de sítios cuja consulta se recomen-                 la), Torrão, Verin (Espanha) e Vila Real.
vras, 114.796 caracteres (sem espaços), encon- tem suporte gráfico. Daqui resulta um texto cheio da, do incontornável Ciberdúvidas da Língua                    Uma entrada apenas para as seguintes loca-
trando-se disponível, na íntegra, em http:// de hesitações, repetições, incongruências, sus- Portuguesa (http://ciberduvidas.sapo.pt/) aos                  lidades/sítios: Alte, Barragem de Vilarinho da
diarioxii.blogspot.com                              pensões, enriquecido com a indicação do esta- programas “Cuidado com a Língua! (RTP), e                 Furna, Beira (Moçambique), Bofinho (Alvaiáze-
    A decisão de avançar com o projecto radicou do de espírito e do semblante dos interlocuto- “Páginas de Português” (Antena 2).                           re), Borba, Boticas, Bragança, Bruges (Bélgica),
na detecção, cada vez mais frequente, de incor- res, através do constante recurso aos smileys [:-                                                           Cabora Bassa (Moçambique), Carrazedo do Al-
                                                                                                        Outros 38 vídeos surgem publicados no blog
recções em textos escritos pelos alunos, erros ) :-( ]e às onomatopeias (“chuacsss”, “grrrr”, “to- “Diário XII”, agregando-se aqui praticamente             vão, Castro Laboreiro, Cela (Angola), Curral de
que muitos dos jovens atribuem aos hábitos da ing”), por exemplo.” – sublinha Ana Martins, todos os vídeos sobre o escritor disponíveis na                  Vacas (Chaves), Elvas, Évora, Falperra, Figueira
escrita compulsiva de mensagens via telemóvel, doutorada em Linguística Portuguesa pela Fa- web, em páginas diversas. 20 desses vídeos re-                  da Foz, Folgozinho (Serra da Estrela), Jurome-
Messenger ou outros programas similares, como culdade de Letras da Universidade do Porto, portam à iniciativa “Café Entre Torgas”, coorde-                  nha, La Alberca (Espanha), Lobito (Angola),
o Twitter.                                          investigadora do Centro de Linguística daquela nada por Sansão Coelho numa parceria entre o             Mesio, Miranda do Douro, Monterrey (Verin,
    Problema que vai ganhando contornos alar- instituição de ensino.                                                                                        Espanha), Nova Lisboa (actual Huambo, Ango-
                                                                                                     Instituto Superior Miguel Torga e a Câmara
mantes e que é transversal aos vários ciclos de                                                                                                             la), Pala Pinta (Carlão), Portalegre, Porto, Pulo do
                                                                                                     Municipal de Miranda do Corvo. Entre os vári-
ensino. Com efeito, são cada vez mais os docen- PROFESSORES QUEIXAM-SE                                                                                      Lobo (Serpa), S. Leonardo da Galafura, Sagres,
                                                                                                     os testemunhos divulgados nesses vídeos, re-
tes que se queixam das dificuldades sentidas na DOS ERROS RESULTANTES                                                                                       Serraquinhos, Sítio da Nazaré, Sousel e Tete
                                                                                                     alce para a comunicação do Padre Dr. Valentim
decifração dos textos escritos pelos alunos.        DA “NOVA GRAFIA”                                                                                        (Moçambique).
                                                                                                     Marques, editor de grande parte da obra de Mi-
    O problema não é, naturalmente, exclusivo                                                                                                                   De registar ainda três textos escritos no avião
                                                                                                     guel Torga e seu amigo pessoal. Valentim Mar-
de Portugal, com alertas surgindo mundo fora.          “O problema não são as abreviaturas” – con- ques acompanhou Miguel Torga na viagem a                 – “a voar para Luanda”, “a voar para Moçambi-
Ao mesmo tempo, já há quem, como Phil Marso, sidera Carmen Gouveia. “Não me choca nada Angola e Moçambique, périplo que o poeta de-                         que”, “a voar para Lisboa”. Miguel Torga selec-
pretenda transformar a “linguagem SMS” em colocar “mm” por “mesmo”, “mto” por “muito”, talha no “Diário XII” (18 de Maio a 12 de Junho                      cionou, para a décima segunda edição do seu
género literário. Isto enquanto se multiplicam as ou “bjs” por “beijos”... O que “assusta” são as de 1973).                                                 diário 16 textos escritos em Angola, 9 em Mo-
experiências de conversão de clássicos. Um jo- alterações estranhas e não lógicas a estas abre-                                                             çambique, cinco na Bélgica, três em Inglaterra e
vem brasileiro decidiu publicar as “Memórias viaturas, como “ke” ou “k” por “que” (qual é a BLOG “SÍTIOS” GEOREFERENCIA                                     outros três em Espanha.
Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de As- diferença de usar “q” na mesma situação?) ou (o O ITINERÁRIO DO ESCRITOR                                             A maior parte dos textos seleccionados por
sis, em “ddonês”. Em 2005 o serviço de telemó- que é pior) por “c” (“kasa” em vez de “casa”!!!),                                                            Miguel Torga para o Diário XII foram escritos
veis dot.mobile anunciava ter procedido à tra- totalmente ridículas e que deturpam a língua como                                                            aos sábados e às quartas-feiras (42 entradas para
                                                                                                        Por seu turno, o blog “Sítios” (http://
dução para linguagem SMS das principais obras “xe” por “se” ou “ixo” por “isso”... Já para não mapastorga.blogspot.com/) georeferencia o iti-               cada um destes dias da semana). As sextas-fei-
da literatura britânica. Projecto que contou com falar que o k nem sequer faz parte do alfabeto nerário do escritor na edição XII do seu “Diá-              ras registam o menor número de textos (29). Quan-
a colaboração de John Sutherland (University usado em Portugal (salvo para nomes estrangei- rio”. São ao todo 62 mapas e fotos, publicação                  to aos restantes dias da semana, temos as se-
College London). O académico considerou o ros, claro, como Kant e kantiano, etc)” – acres- com recurso ao “Google Maps”.                                    gundas-feiras com 30 textos, as terças com 34,
projecto como “uma forma de ajudar os estu- centa a linguista e docente na Universidade de                                                                  as quintas com 41 e os domingos com 33.
                                                                                                        Miguel Torga indicava sempre o local onde
dantes do Reino Unido a rever a matéria para os Coimbra.                                             escrevia os textos seleccionados para o diário.
exames”.                                               “O problema”, conclui a investigadora, “é que Eis a lista dessas localidades por ordem de in-        COMENTÁRIOS DE ESPECIALISTAS
    Há outros casos, em Itália, no Japão, na Ín- vários professores já se queixam (e com razão) clusão no livro (para cada localidade indicamos
dia.                                                de que os alunos começam a dar erros de tal apenas a primeira entrada): Coimbra, Luanda                    Por último, referência para o blog “TORGA
                                                   modo estão ‘viciados’ nessa ‘nova grafia”.           (Angola), Cela (Angola), Santo António do Zai-      EM SMS – OPINIÕES QUE CONTAM” (http://
JOVENS PREFEREM SMS                                                                                                                                         torgaemsms2.blogspot.com/). A coordenação do
                                                      O Projecto “TORGA EM SMS”, coordenado             re (Angola), Lobito (Angola), Moçâmedes (An-
À FALA COM OS COLEGAS                                                                                                                                       projecto solicitou a vários especialistas opinião
                                                   por Dinis Manuel Alves, doutorado em Ciênci-         gola), Sá da Bandeira (Angola), Nova Lisboa
    Em Fevereiro deste ano, estudo do Instituto    as da Comunicação e docente no ISMT, surge           (Angola), Beira (Moçambique), Gorongosa             sobre a iniciativa, pedindo-lhes também que se
Allensbach revelava que 52% dos adolescen-         enquadrado na realidade acima descrita. Preten-      (Moçambique), Tete (Moçambique), Cabora             pronunciem sobre os desafios que se colocam à
tes alemães preferem SMS a conversas com co-       de-se provocador da discussão em torno de tema       Bassa (Moçambique), Ilha de Moçambique (Mo-         Língua Portuguesa, tendo por base a generali-
legas. A caneta foi trocada pelo teclado, daí a    assaz candente e controverso. O cotejo entre as      çambique), Lourenço Marques (Moçambique),           zação da “linguagem SMS” entre os jovens.
necessidade sentida por responsáveis de esco-      páginas convertidas em SMS e os escritos origi-      Carvoeiro, Aveiro, Figueira da Foz, Boticas, Pala      Os contributos recebidos serão publicados
las australianas de avançarem com aulas de cali-   nais de Miguel Torga são impressivos, porven-        Pinta (Carlão), Torrão, Folgosinho (Serra da Es-    neste blog.
grafia destinadas aos adolescentes.                tura um exercício salutar para levar os jovens a     trela), Coja (Arganil), S. Martinho de Anta, Cur-      O primeiro volume do “Diário” foi publicado
    O aparente paradoxo reside no facto de ter     perceberem melhor o encanto e os pergaminhos         ral de Vacas (Chaves), Carrazedo do Alvão, Cha-     em 1941, o último (XVI) em 1993, dois anos antes
sido a internet a potenciar o “renascimento” da    da língua portuguesa.                                ves, Verin (Espanha), Sousel, Évora, Lisboa, Es-    do escritor falecer (17.01.1995).
29 DE MAIO DE 2009                                                              DIA MUNDIAL DA ENERGIA                                   23
DEFENDE GOMES CANOTILHO

Universidade
de Coimbra
deve produzir
a energia
que consome
   Uma Universidade de Coimbra ecológica, que
produza a energia que consome, e que adopte as
boas práticas de sustentabilidade, dando um exem-
plo ao mundo, é o desafio que o constitucionalista
Gomes Canotilho lança à instituição.
    “Não é um projecto utópico. Se um dos proble-
mas é esse, penso que hoje uma universidade não é
uma verdadeira universidade se não tiver essas pre-
ocupações. Afirmar-se como uma universidade mo-
derna mesmo do ponto de vista do funcionamento”,
declarou à agência Lusa.
   Na sua perspectiva, Coimbra tem condições para
se lançar num projecto desta natureza, dada a esca-
la dos seus edifícios, as transformações de moderni-   onde se formou e onde lecciona caminhar no senti-          prios universitários relativamente ao problema, al-
zação a que está a ser sujeita, e ao conhecimento e    do de uma ideia ecológica, Gomes Canotilho sali-           guma coisa tem de estar mal. Seria uma grande
projectos dos seus centros de investigação.            enta que essa ideia “deveria ser levada a sério”,          mensagem da Universidade de Coimbra, agora que
   Reportando-se ao Pólo I da Universidade, na zona    porque as pessoas esperam que sejam os académi-            se está a renovar”, sustenta.
histórica da Alta, Gomes Canotilho salienta que mes-   cos, os universitários, os que têm responsabilida-            Uma universidade que é amiga do ambiente, aca-
mo que não seja possível instalar painéis solares na   des, os primeiros a responder aos desafios.                ba por chamar outras invenções, outras inovações,
cobertura dos edifícios, “o Jardim Botânico poderá       “Quando a gente vê um grande desprezo dos pró-           conclui.
ter um quilómetro de baterias fotovoltaicas”.
   Os novos Pólo II, onde se localizam os edifícios
da faculdade de Ciências e Tecnologia, e o Pólo
III, da Saúde, com as faculdades de Medicina e
Farmácia, e os hospitais da universidade, são gran-       Empreendimentos
des consumidores, mas oferecem condições para a
produção de energias alternativas.
   Se no âmbito das energias alternativas considera
                                                          hidroeléctricos:
haver condições para a sua produção, ao nível da
investigação em curso destaca um, de veículos eléc-
tricos sem condutor, que poderiam fazer o trans-
                                                          600 pedidos só na Região Norte
porte das pessoas para a zona universitária e liber-
tar o seu interior dos automóveis.                            A Administração da Região Hidrográfica (ARH)        aproveitamentos hidroeléctricos.
   A intensificação dos meios electrónicos para di-        do Norte está a analisar 600 pedidos de constru-          “É um processo complexo que estamos a resol-
minuir o uso de papel, nomeadamente através da             ção de empreendimentos hidroeléctricos nas regi-       ver”, salientou o responsável.
realização de provas escritas em computador por-           ões hidrográficas do Douro, Minho e Lima, Ave/            O presidente da ARH garantiu que todos os pro-
tátil, é outra das ideias que preconiza.                   Cávado e Leça, revelou recentemente o presiden-        jectos vão ser alvo de uma discussão pública e de
    “Esta era uma boa mensagem para Portugal,              te do organismo, António Guerreiro e Brito.            avaliação da sua viabilidade.
para o mundo, do próprio mundo universitário”, e              “Seiscentos é claramente um número incompor-           No âmbito do Programa Nacional de Barragens
uma forma de evidenciar que esta universidade,             tável para aquilo que são as disponibilidades fisio-   com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH),
criada em 1290, “está à frente dos grandes desafi-         cráticas destas três regiões”, sustentou António       o Governo já seleccionou 10 aproveitamentos a
os do século XXI, que são a inovação, o conheci-           Guerreiro e Brito.                                     construir no continente.
mento e a sustentabilidade”.                                  O presidente da ARH falava no decorrer de              À Região Hidrográfica do Douro correspondem
   Uma universidade – salienta – “aberta à evolu-          um encontro luso-espanhol sobre as “Questões           os aproveitamentos hidroelectreicos de Foz Tua,
ção da economia, das necessidades, e agora à pró-          Significativas da Gestão da Água na Região Hi-         Fridão, Padroselos, Gouvães, Daivões e Alto Tâ-
pria ideia de sustentabilidade. Uma universidade de        drográfica do Douro”, que decorreu no Peso da          mega.
Coimbra que deve ser também uma universidade               Régua.                                                    O investigador da Universidade de Trás-os-Mon-
sustentável”.                                                 Segundo o responsável, a maior parte dos pro-       tes e Alto Douro (UTAD), Rui Cortes, afirmou que
    “O que não podemos deixar é de ser é ambicio-          jectos hidroeléctricos em análise são privados e       estes novos empreendimentos, já aprovados, “vão
sos. Se o que está em causa é o princípio da sus-          dizem respeito a empreendimentos inferiores a 10       ter um impacto mais significativo na degradação da
tentabilidade, de construção de esquemas organi-           Megawatts (MW).                                        qualidade da água”.
zativos saudáveis do ponto de vista ecológico, en-            Uma “parte significativa” dos projectos está tam-      Como aspecto positivo, Rui Cortes referiu que a
tão devemos fazer esse esforço. Gasta-se mais um           bém relacionada com a reconstrução de infraes-         barragem do Sabor, já em construção, poderá aju-
milhão de euros? Então devemos gastá-lo, porque            truturas que já existiam, como por exemplo moi-        dar a “diminuir os efeitos de cheia na Régua ou na
os poupamos imediatamente”, considera.                     nhos, e que agora se pretende sejam adaptados a        zona ribeirinha do Porto”.
   Confessando que gostaria de ver a instituição
24 DIA MUNDIAL DA ENERGIA                                                                               29 DE MAIO DE 2009



Energia Eólica deverá
satisfazer 15%
das necessidades
de electricidade em 2010
   Segundo informação da Direcção Geral de         lada são Viseu (478 MW), Castelo Branco
Energia e Geologia (DGEG), a produção de           (409), Viana do Castelo (302), Coimbra (277),
energia eléctrica de origem eólica representa      Lisboa (225), Vila Real (171), Santarém (152),
cerca de 4% do consumo final de electricidade      Leiria (151) e Braga (144).
e é expectável que até 2010 represente 15%.            Os distritos de Lisboa, Leiria e Castelo Bran-
   O continente português possuía 1427 aero-       co apresentam uma forte componente eólica,
geradores no final de Agosto de 2008, repre-       superior a 50 por cento da potência renovável
sentando uma potência eólica instalada de 2672     desses distritos.
megawatts (MW) distribuída por 164 parques             A DGEG refere ainda que, de Janeiro a
eólicos que começaram a ser instalados em          Agosto de 2008, foram licenciados 384 MW de
meados de 1996.                                    potência eólica.
   Os dados da DGEG referentes ao final do             O total da potência licenciada renovável está
mês de Agosto de 2008 revelavam que Portu-         concentrado no norte do país, principalmente
gal Continental possuía uma potência eólica de     devido à localização das grandes hídricas e de
2672 MW espalhada por 164 parques.                 um número significativo de parques eólicos.
   Entre Janeiro e Agosto, a produção de ener-         Segundo os dados da DGEG, até Agosto fo-
gia foi de 3561 gigawatts-hora (GWh), que equi-    ram licenciados 9653 MW de instalações elec-
valeram a 1999 horas de produção. Em 2001, a       troprodutoras a partir de fontes de energia re-
potência eólica instalada era de 114 MW, distri-   nováveis, representando mais 21 por cento re-
buída por 16 parques com um total de 173 ae-       lativamente à potência instalada até àquele mês.
rogeradores. Em 2004, já existiam 441 ventoi-          Até esse período, Portugal tinha 7984 MW
nhas espalhadas por 71 parques, que represen-      de capacidade instalada para produção de ener-
tavam uma potência de 537 MW.                      gia eléctrica a partir de fontes de energia reno-
   Os distritos com maior potência eólica insta-   váveis.

O Centro - n.º 69 – 05.06.2009

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    DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 309 801 277 ANO IV N.º 69 (II série) 29 de Maio de 2009 1 euro (iva incluído) CELEBRA-SE NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA, 1 DE JUNHO Dia Mundial da Criança As crianças são o futuro de cada País, são o futuro da Humanidade. Em Portugal o número de crianças está a diminuir de forma muito preocupante, sobretudo no interior do País. Em contrapartida em São Tomé (imagem) o elevado número de crianças faz ter esperança no porvir PÁG. 12 a 13 EM COIMBRA NOVA “LINGUAGEM” FOI HÁ 40 ANOS HOJE É DIA MUNDIAL Romaria Diário Imagens Renováveis do Espírito de Torga evocam são aposta Santo “traduzido” Crise no sector renovada para sms Académica da energia PÁG. 5 PÁG. 22 PÁG. 11 PÁG. 23 e 24
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    2 EDITORIAL 29 DE MAIO DE 2009 A energia e as crianças Jorge Castilho o trabalho escravo até à prostituição for- çada, pois isso acarretará terríveis padas amigas do ambiente; a aquisi- jorge.castilho@gmail.com çada, da venda como mercadoria até ao efeitos para o futuro do País. ção de aparelhos eléctricos com me- tráfico para utilização de órgãos! nores consumos; desligar todos os apa- Celebra-se hoje, 29 de Maio, o Dia Graves consequências, não só para relhos (televisores, videos, computa- Mundial da Energia. Importa, por isso, denunciar as si- o País mas para todo o Mundo, terá dores, etc.) em vez de os deixar no E na próxima segunda-feira, 1 de tuações abusivas, diligenciar no sen- também a forma desregrada como modo “stand by”; desligar os carre- Junho, o Dia Mundial da Criança. tido de formação dos pais, criar es- continuam a consumir-se, em todo o gadores de telemóveis e outros das to- Esta coisa dos “dias disto e daqui- truturas de apoio à infância. Mundo, os combustíveis fósseis, exau- madas, quando não estão a ser utili- lo” tem um efeito positivo, que é o de Mas exige-se, de igual modo, que rindo as reservas que a Natureza foi zados; fechar as torneiras enquanto se ser pretexto para iniciativas diversas aumentem os apoios sociais para quem gerando ao longo de milhões de anos. escovam os dentes ou, no duche, en- para celebração das datas, muitas das tem filhos, de molde a tornar a mater- quanto se ensaboa o corpo; utilizar as quais se destinam a chamar a aten- nidade e a paternidade menos proble- Neste domínio, é justo referir que escadas em vez dos elevadores, sem- ção do público para realidades e pro- máticas, com menores custos para os em Portugal se tem vindo a fazer um pre que possível (porque até faz bem blemas que, nos restantes 364 dias do progenitores e até com estímulos para meritório esforço no sentido de esti- à saúde, pois é um bom exercício para ano, quase sempre são ignorados. que os jovens adultos se decidam a mular o recurso às energias renová- quem leva uma vida sedentária); não ter mais filhos e a tê-los mais cedo. veis, desde a solar à eólica, passando usar o automóvel para pequenos per- Também os órgãos de comunicação pela hídrica. cursos ou quando existem transportes social – alguns deles, pelo menos – Porque o que está a suceder, desde Aliás, recentemente surgiram alician- públicos eficientes; apagar as luzes dedicam espaço e tempo a estas efe- há vários anos, é que o índice de na- tes apoios do Estado (benefícios fis- sempre que elas não são necessárias mérides, assim contribuindo para lan- talidade tem vindo a baixar de forma cais, subsídios e linhas de crédito bo- e acendê-las apenas quando tal se jus- çar alertas, apontar exemplos, denun- drástica, os casais têm menos filhos e nificado) a quem queira optar por este tifica; não abusar dos aparelhos de ar ciar situações anómalas. de cada vez os têm numa idade mais tipo de energias alternativas. condicionado e de outros equipamen- O “Centro” é um dos que tenta as- avançada. A população portuguesa só tos para aquecer ou arrefecer as re- sumir esse papel de serviço público, não está ainda mais reduzida porque Deve reconhecer-se, repito, que nes- sidências e os locais de trabalho; ins- divulgando trabalhos sobra os temas as pessoas estão a viver mais tempo. ta área Portugal está na linha da fren- talar painéis solares para o aquecimen- em apreço, fazendo-se eco de aspec- te, até mesmo a nível mundial. to de água; aproveitar os apoios para tos que reputa importantes e/ou inte- Ora a gravíssima situação em que Mas tal não deve ser razão para a instalação, em residências e outros ressantes. o País está mergulhado só deverá descurar esta matéria. Porque ainda edifícios, de painéis fotovoltaicos e Ora a verdade é que estas duas efe- agravar ainda mais este problema da há muito a fazer, quer em medidas de mini-eólicas para produzir energia. mérides bem merecem destaque, ta- natalidade. Caso não sejam criados fundo, a tomar pelas diversas entida- manha é a sua importância no presente mais e melhores apoios, é natural (e é des públicas e privadas, quer nos pe- Continuemos a aproveitar, cada vez e para o futuro. compreensível!) que os jovens casais quenos gestos do dia-a-dia, que cada mais e cada vez melhor, os recursos adiem o seu desejo de ter filhos, por um de nós deve adoptar no seu com- naturais com que o nosso País foi ba- Invertendo a ordem cronológica, estarem receosos de não disporem de portamento, transformando em rotina fejado – o sol luminoso durante grande deve falar-se primeiro das Crianças, condições para lhes proporcionar tudo generalizada o que hoje é quase uma parte do ano, o vento que sopra por todo porque tantos problemas existem com aquilo de que eles carecem. excepção. o País, os cursos de água que correm elas relacionados e porque são elas o ao longo do nosso território, as ondas futuro da Humanidade. E até mesmo a rectaguarda familiar, Dou a seguir apenas alguns exemplos do mar na nossa extensa costa. E há tantas, na maior parte dos paí- até há pouco constituída, sobretudo, fáceis de adoptar, e que, para além de ses do Mundo, a sofrer precocemen- pelos avós, que davam uma preciosa beneficiarem não só a nós próprios, mas E sensibilizemos as nossas crianças, te, a ser tratadas com negligência pe- ajuda nos mais diversos domínios, está o porvir de toda a Humanidade, têm ain- em casa e nas escolas, para a neces- los próprios pais – em alguns casos também profundamente afectada pela da a vantagem de representar uma sig- sidade de poupar água e energia. por ignorância, noutros por delibera- crise, não podendo prestar o auxílio nificativa poupança, numa altura em que Assim estaremos a zelar pelo futu- da incúria. que desejaria. o Mundo tenta enfrentar uma das maio- ro das gerações vindouras – e essa é Para já não falar de situações verda- Esta uma realidade que não pode res crises de sempre. uma responsabilidade comum, de que deiramente criminosas, que vão desde ser escamoteada, ignorada ou disfar- Eis as sugestões: a adopção de lâm- ninguém deve alhear-se! Aos Assinantes do “Centro” Director: Jorge Castilho Como tem sido bem evidente nas notícias vindas a público, o sector da comunicação social (Carteira Profissional n.º 99) é um dos mais afectados pela crise que se abateu sobre toda a sociedade, sobretudo pelo brutal Editor/Propriedade: Audimprensa decréscimo nos investimentos publicitários. NIF: 501 863 109 Perante isto, até os grandes grupos de comunicação social estão a fazer despedimentos Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho em massa, para além de haver muitos jornais regionais que se viram já obrigados a suspender a publicação. ISSN: 1647-0540 Aqui no “Centro” estamos a fazer um enorme esforço para superar as dificuldades. Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 Mas esse esforço só será bem sucedido se conseguirmos receitas de publicidade e se os nossos Composição e montagem: Audimprensa Assinantes tiverem a gentileza de proceder ao pagamento da respectiva assinatura anual Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra - que se mantém em 20 euros desde o início do jornal. Se quer que esta tribuna livre possa manter-se, muito agradecemos que nos envie o pagamento Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 da sua assinatura - uma verba que representa apenas o equivalente a cerca de 5 cêntimos por dia, e-mail: centro.jornal@gmail.com menos de 40 cêntimos por semana! Impressão: CORAZE Outra forma de ajudar este projecto independente é conseguir-nos novos Assinantes, Oliveira de Azeméis por exemplo entre os seus familiares e amigos (veja a página ao lado). Depósito legal n.º 250930/06 Tiragem média: 5.000 exemplares Contamos consigo!
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    29 DE MAIODE 2009 COIMBRA 3 AROMAS, SABORES E MÚSICA MISTURAM-SE AMANHÃ NA BAIXA DA CIDADE Mercado de Flores e Plantas anima ruas de Coimbra A Baixa de Coimbra vai surgir ama- diferente à Baixa, através dos arranjos nhã (sábado, dia 30) muito animada e florais e plantas (ornamentais, odorífe- colorida. ras, de várias formas e texturas, medici- Trata-se do “Mercado de Flores e nais), da mostra de produtos biológicos Plantas”, que decorre pelo terceiro ano que estarão espalhados desde a Praça 8 consecutivo, e que se espera atinja êxito de Maio à Rua Visconde da Luz, fruto ainda maior do que nas anteriores edi- da participação de dezenas de floristas a ções, atendendo ao Uma iniciativa do que também se associam mais de uma Departamento de Cultura da Câmara dezena de grupos folclóricos da Região, Municipal de Coimbra, que se espera que enriquecem a festa não só com ar- constitua uma boa surpresa não só para ranjos florais, mas com a gastronomia os conimbricenses, mas também para os tradicional de Coimbra. muitos turistas que nesta altura do ano A programação integra ainda momen- visitam a cidade. tos de animação ao longo de todo o dia. Flores e plantas vão aliar-se à doçaria Assim, entre as 10h30 e as 12h30, desfila- tradicional, estabelecendo-se, assim, um rá a Fanfarra dos Bombeiros Voluntários feliz casamento entre sabores e aromas, de Brasfemes; às 13h30, o Grupo de Con- num espectáculo de cor que será ainda certinas da Lousã; às 15h30 o Grupo Ei- valorizado pela música. ranças fará uma intervenção, com música A vertente gastronómica da Região e cantares, em torno das tradições ligadas será apresentada por vários grupos fol- às flores – “Maias” – com a recriação do clóricos e etnográficos da região de Co- tradicional Baile da Rosa e da Espiga. imbra, contando ainda com a colabora- A iniciativa – que engloba também o ção dos Associação dos Orizicultores. Concurso “Melhor Arranjo Floral”, en- Entre as 10h00 e as 17h30 o Mercado Imagem da anterior edição do “Mercado de Flores e Plantas” cerrará com nova actuação do Grupo de de Flores e Plantas, trará um colorido que amanhã voltará a animar a Baixa de Coimbra Concertinas da Lousã, a partir das 17h00. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 309 801 277 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 309 819 913 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
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    4 INTERNACIONAL 29 DE MAIO DE 2009 Um Mundo desnuclearizado ton, em Dezembro de 2007, e o segundo sia considera as armas nucleares como Entre os primeiros, por muito estra- Fiodor Lukyanov * em Roma, no passado mês de Abril. a principal garantia nas condições de uma nho que possa parecer, encontra-se a O assunto tem criado muita animação gigantesca supremacia dos EUA nas ar- Rússia. Quanto ao arsenal nuclear, Mos- A política mundial acaba de fazer uma e entusiasmo na Europa e na América mas convencionais. covo está no topo acessível apenas aos espiral e muitos políticos de novo falam do Norte, mas passa quase despercebi- Moscovo aceita as conversações com EUA. A arma nuclear é a única esfera sobre um total desarmamento nuclear. O do na Rússia. Mais ainda, vários políti- Washington como mais um acto da mes- em que Moscovo e Washington se en- Presidente dos EUA, Barack Obama, em cos russos fazem declarações cépticas ma interminável peça. Por um lado, as- contram em pé de igualdade. Mas, psi- quem é costume agora depositar todas quanto à possibilidade de redução radi- sim é. Por outro, as decorações globais cologicamente, e não só, a Rússia não as esperanças do planeta, pretende per- cal das armas nucleares. da peça têm mudado radicalmente des- tem o estatuto elitista da ex-URSS. suadir o Congresso a ratificar o Tratado As iniciativas visando a um desarma- de os tempos em que a peça atraía mui- As reduções radicais dos arsenais sobre proibição de testes nucleares, dar mento nuclear são jogadas invencíveis ta atenção do público. nucleares, que Barack Obama pretende muita atenção ao regime de não prolife- dos que as propõem. É difícil objectar Para os EUA recomeçar o diálogo propor, não convêm à Rússia e um pro- ração, proceder a uma redução dos ar- contra uma recusa de usar a arma mais com a Rússia é importante no plano bi- gresso neste campo só pode ser gradu- senais e, em perspectiva, aspira a ver o destructiva inventada pelo homem. lateral, e também para demonstrar a al. Por outras palavras, quanto maior for nosso mundo livre de armas nucleares. Os apoiantes do «zero global» repor- sua boa vontade e tentar salvar o Tra- a iniciativa, tanto menor será o grau de tam-se à cimeira tado de não proliferação das armas nu- probabilidade da sua realização. URSS-EUA realiza- cleares, que, aliás, da em Reiquejavique ameaça a ruir. (Islândia) em Outu- A morte deste Tra- bro de 1986, onde tado significa não Mikhail Gorbatchev apenas maiores ame- e Ronald Reagan aças aos EUA, como quase acordaram um também um sério gol- prazo (1996) para pe na liderança nor- uma completa des- te-americana no truição das armas mundo. Como é sa- nucleares. De facto, bido, o reforço Moscovo e Wa- desta liderança shington estavam continua a consti- muito perto de um tuir o principal ob- tratado que inicial- jectivo da Adminis- mente parecia im- tração de Barack possível. Mas surgiu Obama. Pois é nas um obstáculo – o condições de proli- desejo categórico de feração das armas Ronald Reagan de nucleares (por não desistir da Inici- exemplo, um even- ativa de Defesa Es- tual teste de bomba tratégica (o escudo nuclear iraniana), se anti-míssil norte- torna ainda mais americano). ineficaz a supervi- Há 23 anos, as ini- são global norte- ciativas partiam do americana. Kremlin, enquanto a A lógica dos parti- Casa Branca estava dários de um total toda incrédula, sus- desarmamento é a Mikhail Gorbatchev Barack Obama peitando sempre de seguinte: as duas po- uma armadilha nas tências nucleares A ideia de um mundo desnucleariza- propostas e compromissos do dirigente vão dar um exemplo e os restantes paí- A arma nuclear tem sido um dos do, proclamada há muitos anos por Ro- soviético. Hoje em dia, os impulsos ema- ses nucleares seguirão o mesmo cami- mais temíveis símbolos do sec. XX- nald Reagan, e proposta como um ob- nam de Washington, e Moscovo é a par- nho. Mas, na prática, nada, absolutamen- XXI, mas, como é reconhecido por jectivo político concreto por Mikhail Gor- te que desconfia. Mas essa inversão dos te nada, obriga a Índia, o Paquistão e Is- muitos, ajudou, até agora, a prevenir batchev, com o fim da «guerra fria» de- papéis não altera a essência do proble- rael a fazerem o mesmo! Ou o Irão a grandes guerras. sapareceu da agenda mundial. Muitos ma. Não é por acaso que as condições rever as suas ambições! Hoje em dia, constata-se uma certa acreditavam que o tema ficou definitiva- de desarmamento nuclear, apresentadas Hoje em dia muitos países aspiram a diminuição do medo perante a arma de mente no passado, assim como a con- há dias pelo Presidente Dmitri Medve- ter armas nucleares por razões aliás muito destruição em massa. A possibilidade frontação ideológica e o frente-a-frente dev, se assemelham aos «escolhos» sur- diversas. Para alguns é importante ter do seu uso não parece muito grande, entre as duas superpotências. gidos na cimeira de Reiquejavique. garantias da sua soberania. A História embora não seja excluída de modo tão Mas em Janeiro de 2007 quatro ex- Trata-se, antes de tudo, da questão de recente demonstra: se um regime possui categiórico como há uns trinta anos. políticos – os secretários de Estado Ge- não colocação das armas nucleares no arma nuclear, então ninguém o ataca (a Por outro lado, na medida da sua proli- orge Schultz e Henry Kissinger, o secre- Espaço e proibição de criar unilateral- Coreia do Norte). Não ter arma nuclear feração, a arma nuclear deixará de ser tário da Defesa William Perry e o sena- mente sistemas anti-mísseis. No entan- significa não ter garantias contra uma um meio de garantia da estabilidade dor William Nann – avançaram com uma to, tal como antes, os EUA não querem invasão armada (o Iraque). estratégica. iniciativa, secundada por Barack Oba- ter as mãos atadas. Muitos países têm receio dos vizinhos Contudo, é preciso sempre ter em ma. E, naturalmente, Mikhail Gorbatchev Mais uma circunstância que complica pouco amistosos. E estes receios não são mente que na História da Humanidade foi o primeiro a dar-lhe todo o seu apoio. tudo: o desequilíbrio nas armas conven- relacionados com o comportamento do ainda não existiram armas, que uma vez Sob a presidência do ex-presidente sovi- cionais inverteu-se. Antes, a NATO teve Kremlin e da Casa Branca. Situações inventadas, nunca eram usadas contra o ético já se realizaram dois foruns «Supe- medo da supremacia soviética em tro- assim existem na Ásia Meridional e Ori- homem. rar a Ameaça Nuclear» – um em Bos- pas blindadas, artilharia, etc. Hoje a Rús- ental, assim como no Médio Oriente. * in revista A Rússia na Política Global
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    29 DE MAIODE 2009 COIMBRA 5 UMA TRADIÇÃO RENOVADA NO LARGO DOS OLIVAIS Romaria do “Espírito Santo” atrai população de Coimbra A tradição da Romaria do Espírito Santo, em Coimbra, tem já alguns séculos. Exis- SALVAGUARDA ESTREIA DO CORO tem mesmo referências a que até o próprio DOS MONUMENTOS DOS OLIVAIS Luís de Camões por ela terá passado, en- NO PROGRAMA volvendo-se em escaramuças suscitadas Deve ainda referir-se a preocupação, este DO FIM-DE-SEMANA pelo seu ardor de conquistar donzelas. Ob- ano ainda maior, de não “abafar” os monu- viamente que poderá ser especulação po- mentos existentes no local. Como aciam se refere, a Romaria tem pular, uma vez que não há consistentes ele- Assim, o acesso à escadaria da Igreja sido valorizada com um diversificado progr- mentos históricos que sustentem este epi- ficou este ano sem tendas ou expositores, ma cultural e recreativo. sódio. para lhe não roubar a beleza que tanto im- Para este fim-de-semana, destacam-se A verdade é que ele surge narrado no pressiona os milhares de turistas nacionais as seguintes iniciativas: célebre filme com o nome do épico, realiza- e estrangeiros (entre estes últimos o maior do por Leitão de Barros com argumento de número é de italianos) que ali acorrem para Sábado (dia 30) - 21h00 – Música ao vivo Afonso Lopes Vieira (e que foi o primeiro conhecer o local onde Santo António (de para dançar. Uma inovação curiosa, tanto filme português a concorrer ao Festival de Lisbos, de Pádua, mas também de Coim- mais que haverá prémios para os melhores Cannes, em 1946). bra) estudou e iniciou a sua actividade reli- dançarinos na modalidade de tango e valsa. Mas deixemos os aspectos cinéfilos e giosa (recorde-se, a propósito, que há pou- Domingo (dia 31), 21h00 – Actuação do voltemos à realidade. A Romaria do Espíri- cos anos foi mesmo descoberta a que terá Coro Misto da Freguesia de Santo António to Santo é a mais popular de Coimbra, sen- sido a cela habitada pelo santo padroeiro de dos Olivais. Trata-se da apresentação pú- do ponto de passagem obrigatória da popu- Lisboa). blica deste Coro, constituído por meia cen- lação da cidade. Também a capelinha existente no meio tena de cantores de várias idades e ambos Até há algumas décadas, a Romaria es- respectivo número. do Largo tem em volta um espaço livre, de os sexos, que tem sido muito acarinhado pela praiava-se por uma vasta área de terra ba- Fez também maiores exigências relati- forma a poder ser devidamente apreciada Junta de Freguesia. tida, junto à Igreja de Santo António dos vamente à forma como as estruturas ali fo- pelos visitantes. Olivais. ram montadas. Era famosa, sobretudo, pelas tendas onde E tentou atrair maior número de produ- se vendiam objectos de barro – desde as tos artesanais portugueses, incluindo os da bilhas para a água fresca até às assadeiras Região Centro, de molde a valorizar um sec- e aos vasos para plantas, passando pelos tor que, em edições anteriores, quase fora pífaros e campaínhas de barro que faziam “engolido” pela quantidade de artigos vin- as delícias da miudagem (e davam cabo dos dos de outros países. ouvidos a que mestivesse perto...). Neste último aspecto, contudo, o Presi- Com as obras que ali foram sendo feitas dente da Junta de Freguesia admite que não (nomeadamente a abertura da avenida An- foi tão bem sucedido como desejaria, pois a tónio Portugal e o arranjo do próprio Largo resposta dos artesãos nacionais não foi tão dos Olivais), a área disponível para a Ro- substancial como ele desejava. maria ficou substancialmente reduzida. Isto apesar do convite aos artesãos por- Por outro lado, também a evolução dos tugueses estar a ser anunciado há um ano. hábitos de consumo veio mudar o tipo de objectos ali comercializados, tal a como a CULTURA E LAZER aglobalização. MAS TAMBÉM GASTRONOMIA Deste modo, e embora ainda haja as ten- das onde se vendem objectos de barro (quase Outra das preocupações do autarca tem todos produzidos nas tradicionais olarias do sido a de que a Romaria do Espírito Santo Minho), a verdade é que a Romaria tem um associe a cultura ao lazer, sem esquecer a carácter verdadeiramente internacional, gastronomia tradicional. onde se vêem comerciantes e produtos ori- Assim, ali podem ser encontradas as fa- ginários de vários continentes – de África à mosas “farturas”, produzidas por dois fabri- Ásia, passando pela América do Sul. cantes à vista de todos, e servidas em ou- tras tantas esplanadas, onde é muito agra- PRESIDENTE DA JUNTA dável passar uns momentos de descontrac- DOS OLIVAIS ção, acompanhando aquela especialidade TENTA FAZER “MILAGRES” com uma bebida agrdável. Igualmente a bela sardinha assada mar- De forma a aproveitar o espaço disponí- ca presença num restaurante instalado jun- vel, o Presidente da Junta de Freguesia dos to ao Largo, que proporciona outras opções Olivais, Francisco Andrade, vem fazendo, da gastronomia tradicional portuguesa. ano após ano, verdadeiros “milagres” para Para a miudagem, as diversões mecâni- que a Romaria ganhe diversidade e, simul- cas que tanto as atraem. taneamente, dignidade. E para todos alguns espectáculos de Assim, na edição deste ano Francisco música e folcore, com um programa cuida- Andrade reduziu o espaço de cada um dos do que, por si só, justifica uma visita ao Lar- “stands” e tendas, de molde a aumentar o go dos Olivais.
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    6 CRÓNICA 29 DE MAIO DE 2009 A OUTRA FACE DO ESPELHO Receitas magistrais José Henrique Dias* jhrdias@gmail.com Começou por dizer estou tão preocupada, logo sal- tou no seu habitual galope de palavras para assuntos do dia a dia, coisas de somenos, das que passam obrigato- riamente pela sensibilidade feminina, do exercício prag- mático da maternidade, como o ir às compras e carre- gar pesos. Aquela dor que a vinha incomodando e lhe retirava o prazer de uma conversa que adivinhara es- fusiante, quero eu dizer, a que evidentemente me ape- tecia, neste egoísmo másculo de contornar dificuldades para instaurar mecanismos de sedução, instalou-se ra- pidamente na mesa do chá de jasmim que partilháva- mos, nota disfórica das suas preocupações e temores exponencializados. Costumava brincar e chamava-lhe provocatoriamen- te hipocondríaca, tiritava o medo de acentuar a incon- veniência, mas não resultava, muito pelo contrário acei- tava com ar gaiato um, pois sou e depois?, para logo recompor um ar grave, quase sisudo, ia mesmo a dizer ameaçador, vincar de seguida meio sorriso e eu, a par- tir dele, desse quase sorriso, apenas esboço, eu ficava preso nos jardins floridos que sublinhavam as promes- sas dos seus lábios, que eram de tudo, a par com a luminosidade do seu olhar enternecido, o vínculo de so- noridade carminada de projectos de fim de tarde que às vezes aconteciam. Era um eterno fascínio, marca indelével que vinha do fundo das remotas recordações, de um outro tempo, quando nos conhecemos, sei eu já lá bem quando, só se me puser a fazer contas e atar factos, talvez então con- social, com apetites de uma vez por outra, fixadas as to, encontrámo-nos por acaso numa esplanada de Vila- siga saber de nós o que fomos esquecendo, depois que bulas dobradas no interior das caixinhas dos medica- moura, foi uma festa, estás óptimo, gritava excitadíssi- ela num fim de tarde, sempre fins de tarde, como este mentos, sentenciar umas nótulas à margem das pres- ma, tu sempre linda, fui dizendo, até porque era verda- de agora, me avisou, com a solenidade possível, a partir crições, como fazem com toda a segurança os chama- de, parecia que queríamos engolir o tempo perdido e de agora, ficas a saber, estou aberta ao que possa acon- dos técnicos, marçanos tirocinados no abrir e fechar acabámos a noite em sua casa, pé ante pé, bico calado, tecer. Acabou por acontecer. Outro. gavetas de rodinhas de etiquetagem alfabeticamente para não acordarmos os netos que estavam de férias Também, verdade seja aqui notificada, não seria di- organizadas. com ela e a empregada que os organizava e lhe poupa- fícil. Uma mulher como ela não teria nunca de esperar Foi isto que há dias me disse um amigo magistrado, va um ror de trabalhos. muito para interessar um candidato a marido. Isto é, a na companhia de um pediatra, depois de uma jornada Foi então, recuperada alguma fantasia das ambiva- companheiro. Ou talvez nem isso. Sempre me explicou domingueira de footing ou talvez melhor de futing, se lências e do desempenho possível, ultrapassada a casa que não estava disposta a uma vida a dois. Ter alguém não optarmos por corrida em circuito predeterminado. dos sessenta ia já uns anitos, que me falou das suas para partilhar a recusa da solidão, isso sim, uma com- Uma vez discutimos isso, e logo o meu amigo dos tribu- preocupações. Estávamos deitados lado a lado, de mão panhia para uns cinemas, uns espectáculos, mesmo o nais, zelador do património linguístico, argumentava dada, como se não houvesse tempo, quando notei que ocasional de uma tagarelice de amigos num bar arra- furibundo, também não escrevemos futebol? um demorado silêncio fez deslizar um cristal de lágrima baldino, mas o dia a dia, a ocupação do seu espaço, Voltando ao que vinha a contar. Quando acabámos que logo tentou secar com o indicador rápido. para isso, dizia como agora é uso, já dei. Para esse o curso, logo a convidaram para assistente e não de- A dor, aquela dor de que me falara vagamente no peditório já dei, acentuava. morou estava no topo da carreira, passado uns dois ou início, que encontrarão quando comecei a registar da Dito de outra maneira, vacinara-se contra o viver a três anos na Suiça, num centro de investigação, en- memória o que me escorreu das palavras murmuradas dois em permanência, como antigamente se dizia de quanto eu me contentei com o destino de boticário de no cá dentro de mim, era a sua grande frustração por casa e pucarinho. bairro periférico. De bata branca e tabuleta, atrás de um amor impossível, não realizado, que traduziu numa Conhecemo-nos na faculdade. Uma vez, ao cair da um balcão por conta de uma velha senhora que ador- frase dolorida, amor que não posso ter… noite, depois de uma aula de… já não sei, vai lá tanto mecia sentada à secretária do armazém, também es- Ouvi agora soar ao longe, no sino da velha torre, a tempo, como podia saber?, apenas retalhos alinhava- critório, a conferir as receitas e organizar as listas para eternidade de doze badaladas. A noite cansa-se nos dos na memória como aqueles tapetes artesanais de recuperação das comparticipações. meus joelhos. Está frio. Este frio que ficou sempre em feira de apresentações, estivemos no laboratório e dis- Não obstante o tempo e a distância, nunca nos per- mim e não sei como aquecê-lo, depois que a perdi no cutimos depois alguns problemas de manipulação de demos. Fui sabendo do que fazia em jantares combina- tempo, sei lá eu bem quando, se acaso é verdade que produtos, o FSA, faça segunda arte do tempo das re- dos e cada vez mais difíceis, assisti aos conflitos que alguma vez nos encontrámos. ceitas magistrais, ou talvez tenha sido, deixem lá ver, levaram ao fim do seu casamento com um economista Estou incorrigível. Foi isso que me disse o meu neto problemas de farmacognosia. que dirigiu um departamento bancário e teve uma pas- quando veio aqui ao lar, no domingo, ao fim da tarde, e Discutimos, isto é, transformámos em álacre taga- sagem conturbada por um governo durante uma legis- me surpreendeu a escrever bilhetinhos para uma se- relice a nossa paixão pelos estudos farmacêuticos, ou- latura que não chegou ao fim, acompanhei o desvelo nhora do andar de baixo, sempre muito cuidada, muito sávamos então lutar contra alguma mediocridade ins- que votava à educação da filha, solidarizei-me activa- digna e elegante nos gestos e palavras, que à hora do talada e aspirávamos a ser mais do que meros vende- mente em momentos trágicos como o daquele dia em almoço sorriu para mim e baixou depois os olhos, ao dores de produtos industriais de bata branca atrás de que perdeu os pais num acidente de viação, tornei-me passar pela minha mesa. um balcão, com o nome estampado em tabuleta de di- definitivamente melhor confidente do que amante. Quem me dera poder passear com ela em Vilamou- rector técnico, se a vida nos corresse bem, e não esti- É evidente, julgo que é evidente, que se percebe que ra. Há quanto tempo que não me levam lá. Pensando véssemos condenados a trabalho nominal por conta de houve entre nós muito mais do que as palavras parece melhor, acho mesmo que nunca fui a Vilamoura. outrem, com salário fixo e descontos para a segurança quererem dizer. Houve de facto. Um dia, finais de Agos- * Professor universitário
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    29 DE MAIODE 2009 NACIONAL 7 D. Afonso Henriques nasceu há 900 anos O Presidente da Câmara de Coimbra Portucalense, pelo número dos seus ha- depositados os seus restos mortais. frades crúzios, nos aspectos religioso, cul- defendeu ue a escolha da cidade para bitantes, pela importância económica, Monsenhor Leal Pedrosa, represen- tural, artístico e até no aspecto político”, sede do reino português por D. Afonso social e militar, e pelo seu dinamismo tando do Bispo de Coimbra na cerimó- sublinhou. Henriques visou contornar as disputas cultural”. nia, realçou que existem uns “laços pro- Para Leal Pedrosa, o Mosteiro de San- entre os homens do norte e do sul do ter- Segundo Carlos Encarnação, igual- fundos” entre D. Afonso Henriques, a ta Cruz “foi durante muito tempo a gran- ritório. mente a Coimbra ficaram ligados os “fac- cidade e o Mosteiro de Santa Cruz, em de escola do país, e também como que o “A escolha é feita com a clara inten- tos mais simbólicos do seu caminho”. cuja igreja decorreu a cerimónia. berço da Universidade de Coimbra”, ção de superar a oposição cultural entre É a Coimbra – acrescenta - que re- Se D. Afonso Henriques foi o funda- dada a ligação que houve nos primórdios o Norte e o Sul, e porque deste modo se gressa em cortejo triunfal depois da Ba- dor e protector do Mosteiro de Santa Cruz, desta instituição de ensino. consegue a unidade política capaz de talha de Ourique, que é considerado o também os monges crúzios muito o apoi- As comemorações dos 900 anos do aglutinar, na diferença e no respeito por momento do “alçamento do rei pelos aram e desenvolveram um importante nascimento de D. Afonso Henriques, que ela, regiões de características várias”, seus”. papel na sociedade de então, em Coim- decorreram em Coimbra no passado sublinhou Carlos Encarnação, na cerimó- “Antes de Coimbra, era o sonho, a bra, na região centro e no país, realçou. dia 23, compreenderam uma cerimónia de nia evocativa dos 900 anos do nascimento sede e o desejo. Em Coimbra nasceu o “Foi notável o apoio e a protecção que investidura dos novos membros da Ordem do primeiro rei de Portugal. Estado Português”, afirmou Carlos En- o primeiro rei deu a este mosteiro, mas dos Templários e uma homenagem no tú- Na sua opinião, “todas as razões o im- carnação, recordando que foi em Coim- também notável foi o apoio e a ajuda que mulo do Rei, com a deposição de flores punham”, também pelo facto de ser a bra, no Mosteiro de Santa Cruz, que D. os monges lhe deram. Não é fácil imagi- perante Guarda de Honra de militares da “cidade mais importante do Condado Afonso Henriques quis que ficassem nar e avaliar a importância da acção dos Brigada Ligeira de Intervenção. ponto . por . ponto Pergunto ao vento que passa Por Sertório Pinho Martins destino português que as continuará a diram. canções que ecoem no vento do silêncio … notícias do meu país à deriva, num perseguir. E só persiste o silêncio das E pergunto ao trevo de quatro folhas, e da esperança adiada? Mesmo numa fim-de-linha adivinhado de tantos sonhos mágoas por sarar. Não há nada de novo que foi esperança de tantos amores de- noite mais triste que o nosso tempo de desfeitos à flor das águas mornas de um para dizer, nem notícias que me abram sunidos, a saber notícias do meu país à solidão, será que a gente resiste e chega destino português que nos persegue, e ao lado de lá do rio que corre sempre só deixa mágoas por sarar. A política tor- para o mesmo mar? nou-se de repente um sítio onde não es- tar e um registo gordo de cumplicidades A política é cada vez mais Era bonito que o amanhã fosse um acordar sem deriva, sem ventos de si- podres e de caminhos bloqueados no es- paço ressequido de uma pátria à flor-das- um sítio onde não estar, lêncio e sem o rio triste que leva na tor- rente as minhas mágoas por sarar. Mas águas que não sabemos para onde vai! Pergunto à gente que passa porque vai nesta pátria ressequida não basta haver alguém que diz ‘não’: porque em volta tudo continua entregue de olhos no chão – e a resposta lê-se em e exausta de ser terra de ninguém aos chefes de clã que controlam a mi- cada rosto assustado com o dia de ama- nha pátria à flor-das-águas, baloiçando nhã: só ouço silêncio, que é tudo o que a e baldio de todos numa modorra de destino português que gente que passa tem para me dar, mais me persegue na noite dos trevos que não angustiada com o vazio de dias incertos sabem notícias do meu país. e com medo de errar nas escolhas dos uma nesga de esperança, nem uma luzi- deriva. Desfolho, uma vez, mil vezes, A política é cada vez mais um sítio chefes de clã que controlam a sua pátria nha que alumie o destino português que digo-lhe que morro nesta terra de nin- onde não estar, nesta pátria ressequida e baloiçando à flor de águas mornas e ba- me persegue. guém – e o trevo nada me diz! Nem o exausta de ser terra de ninguém e baldio tidas pelo vento do silêncio e da espe- E a noite continua a crescer por den- vento, nem o trevo, nem a pátria à flor- de todos. O vento cala a desgraça, nada rança adiada. tro dos homens deste país à deriva, em- das-águas, sabem do meu país perdido me diz do meu país perdido no seu negro E o vento não me diz nada, nem tem brenhados em disputas mortais para rou- na margem do rio triste que corre sem- destino português – e não basta haver nada de novo para mim. Fico entre as bar um pouco de sombra aos que conti- pre para o mesmo mar. alguém que resiste : a memória é curta, gentes que estão na margem da vida a nuam a sonhar na margem do rio triste. Mas poderá o sonho de uma luzinha e a culpa é solteira e a alma humana não olhar um rio triste que corre sempre para E cresce a mancha escura de gentes de uma nesga de esperança, sair de uma passa de um velho catavento a ranger o mesmo mar, e que gostariam de ser conformadas e que vão vivendo em pas- candeia nascida da própria desgraça do por cima de uma pátria que continuamos barco dessa viagem – mas que têm sem- so forçado, olhando por cima do ombro meu país à deriva? E se o sonho quiser a não saber para onde vai, com tanta pre de ficar, pregadas na cruz de um para não errar nas escolhas que não pe- ser realidade, quem o semeia e dele faz gente a passar de olhos no chão. VENDE-SE Casa com 3 pisos grande quintal e anexos num dos melhores locais de Coimbra (Rua Pinheiro Chagas, junto à Avenida Afonso Henriques) Informa telemóvel 919 447 780
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    8 OPINIÃO 29 DE MAIO DE 2009 ladrava ao longe eterno, tudo eterno. monumentos onde foram comprados por isso, as questões europeias não es- Ladrava uma espécie de tosse, contra como “propriedade móvel” quer os mo- tão a ter o devido peso, enquanto se en- quem? O pombal por fora verde, por numentos que foram construir no outro fatizam questões, mesmo questiúnculas, dentro poeirento e escuro, a que falta- lado do Atlântico. (...) incidentes, episódios, meramente inter- vam tábuas. Sinos às vezes, para além nos e amiúde irrelevantes. do muro baldios, quintas, um burro a ajo- Boaventura Sousa Santos Creio que isto contribuirá para aumen- elhar-se. Os comboios eternos também Visão tar ainda mais a abstenção, não obstante ou então foi o mundo que parou por falta os enormes gastos de campanha, que na de corda. Estive tuberculoso, lembro-me A CRISE DA JUSTIÇA actual situação a generalidade dos por- de não comer, de atirar para o chão os tugueses não compreende ou até não brinquedos que me traziam, não lembro Custa-me abordar este assunto, pelo “perdoa”. Gastos, inclusive, em enormes mais nada acerca disso. Sonhos em que seu especial melindre. Mas, em consci- cartazes com “mensagens” que em re- queria fugir sem conseguir correr, todos ência, não posso deixar de o fazer. A cri- gra não querem dizer nada, não conquis- passavam por mim e eu parado. Se não se da Justiça está aí, é uma evidência tarão sequer um voto e em alguns casos FÉRIAS NA CABINA DE VOTO há nem um sopro qual o motivo dos bra- incontornável. Não pode deixar de preo- podem ser mesmo caricatos - como o do ços da trepadeira oscilarem? A maior cupar os cidadãos responsáveis. CDS, com uma foto de Nuno Melo, em Quando o Presidente da República parte das coisas não tinha nome nem A Justiça, em demasiados casos, não pose de imperador romano ou super- apelou aos cidadãos para que não fos- precisava dele. Porque carga de água funciona, nomeadamente quando envol- homem, clamando: “Não andamos a brin- sem de férias no fim-de-semana das elei- temos nome, nós? No outro lado da rua ve políticos mediáticos ou desportistas car aos políticos!” (...) ções europeias, cheguei a pensar que, um homem sai de uma porta, some-se igualmente mediáticos. Os juízes não se tomado pelo espírito europeu, Cavaco noutra. Eu a escrever isto e ele a sair de entendem com os procuradores e estes José Carlos Vasconcelos Silva estivesse a falar na qualidade de uma porta e a sumir-se noutra: se calhar não se entendem com os responsáveis Visão Presidente de outro país da União Euro- a outra engoliu-o dado que não o vejo da Polícia Judiciária. Há a sensação de peia. No nosso, o pedido vai fazendo cada mais. (...) que disputam, entre si, para aparecerem MULTILATERALISMO vez menos sentido: os desempregados, nas televisões, como vedetas. Não re- por definição, não têm férias; para os tra- António Lobo Antunes sistem a responder a perguntas dispara- Os numerosos sectores de responsa- balhadores da Qimonda e da Auto-Eu- Visão tadas ou mal intencionadas e nem sem- bilidade da ONU, que estão desprovidos ropa, em princípio, a opção de tirar féri- pre o fazem com o bom senso que seria de meios para acudir às exigências que as não será prudente; e os precários, os MONUMENTOS de esperar. crescem de gravidade, exigem uma con- temporários e os endividados, provavel- E COLONIALISMO Assim sendo, perdem a distância - tão tinuada atenção dos seus funcionários, a mente, não têm o desafogo financeiro que necessária à profissão que exercem - e qual não tem faltado, com recurso a uma as férias, mais ou menos, requerem. O A New 7 Wonders Portugal, SA está desacreditam as magistraturas. Parece súplica que se multiplica, e se traduz em mais provável é que não haja assim tan- a lançar um concurso com vista a eleger não perceberem que o silêncio é de ouro implorar a atenção dos governos para a ta gente de férias no dia 7 de Junho. In- as “7 Maravilhas de Origem Portuguesa e a palavra, em certas circunstâncias, urgência de assumirem uma intervenção felizmente, também não é provável que no Mundo”. Os resultados serão conhe- lhes é bastante inconveniente. O que partilhada. haja muita gente a ir votar. cidos no próximo dia 10 de Junho. Esta- contribui, com alguma frequência, para O secretário-geral, Ban Ki-moon, O problema é que os cidadãos, na al- mos, pois, no mundo dos negócios e do o descrédito da Justiça, nos espíritos dos parece ter chegado à formulação da tura das eleições europeias, costumam mediatismo, e os critérios por que se pau- telespectadores, que nas suas casas, num síntese das preces, agora que a “tur- fazer férias da democracia. Quase seis ta este mundo têm pouco a ver com a contexto diferente, os vêem, escutam, bulência financeira pode desencadear milhões de pessoas votaram nas últimas busca da verdade ou da justiça. Têm avaliam. E não gostam... uma catástrofe humana” ao discursar legislativas, mas apenas cerca de três antes a ver, neste caso, com os lucros Ora, o bom funcionamento da Justiça na Universidade de Princeton (17 de milhões foram às urnas nas últimas eu- que podem ser obtidos com a explora- é essencial aos Estados de Direito, como Abril): a conclusão foi que “é neces- ropeias. Ou as agências de viagens ofe- ção da história, da obtenção de direitos o nosso. Sem um Estado de Direito efi- sário um novo mul- tilateralismo para recem pacotes menos apelativos nos fins- de exploração do conceito “7 Maravi- caz e que mereça o respeito dos cida- enfrentar a crise económica mundial”. de-semana das eleições nacionais, ou os lhas”, da publicidade, da promoção do dãos não há Democracia. A questão é, Usando uma fórmula paliativa, afirmou portugueses não se interessam especial- turismo, etc. Perante isto, pode estranhar- portanto, muito séria e não pode ser ig- que “o reforço das Nações Unidas faz mente pelas eleições europeias - o que se o incómodo e o protesto que este con- norada pelos órgãos de soberania: Pre- parte da solução”, mas de facto aquilo não deixa de ser uma atitude estranha. curso tem vindo a suscitar no espaço de sidente da República, Governo, Parla- que a importante mensagem significa A opinião geral dos cidadãos sobre os língua oficial portuguesa, envolvendo so- mento - e, portanto, por todos os parti- é que poucas, se algumas, das suas políticos é má, pelo que não se compre- bretudo investigadores que se dedicam dos, numa Democracia pluripartidária estruturas existentes se revelam ade- ende que desdenhem da oportunidade de ao estudo do império colonial português como a nossa. quadas para responder às exigências mandar 24 deles lá para fora. Quando ou ao estudo dos países independentes Há quem reclame novas reformas le- face às quais se vai afundando a or- se esperava que houvesse longas filas à que emergiram do fim do império e edu- gais. Não penso que seja a solução. A dem mundial. No que respeita ao eixo porta das secções de voto, os portugue- cadores que, neste espaço, procuram questão não é de lei, mas antes dos com- essencial de uma ordem efectiva, que ses preferem ficar em casa. Vá lá uma passar às novas gerações uma visão com- portamentos dos juízes, dos procurado- é a segurança, o multilateralismo foi pessoa compreender o eleitorado. (...) plexa da história que, longe de ser pas- res e dos dirigentes da Polícia Judiciária. sempre limitado pela distribuição do di- sada, continua a afectar as suas socie- E nestas profissões, como em todas, pa- reito de veto, e a responsabilidade pela Ricardo Araújo Pereira dades e as suas vidas. gam os bons pelos transgressores... (...) paz possível da Carta foi de facto as- Visão O incómodo e o protesto têm razões sumida, precariamente, pela Ordem fortes e a principal é que este concurso Mário Soares dos Pactos Militares que durou até à TUDO ETERNO implica não apenas com a História de Visão queda do Muro de Berlim. Portugal, mas também com a história dos Para além do verdadeiro vazio de so- Deitava-me na relva dos canteiros e países que estiveram sujeitos ao coloni- EUROPEIAS MAS POUCO luções, ou pelo menos proposta delas, ficava horas a olhar o céu entre as árvo- alismo português, e fá-lo de modo a ocul- para esta questão essencial, o apelo ao res. De início parecia imóvel e depois tar, precisamente, o colonialismo, ou seja, A campanha para as eleições euro- multilateralismo tem em vista assegurar enchia-se de vida, aproximava-se e afas- o contexto social e político em que esses peias está na rua e não é expectável nem a estabilidade económica e financeira tava-se consoante as folhas tremiam e monumentos foram erigidos e o uso que que traga grandes novidades nem que mundial, lançar uma ofensiva contra a eu espantado que as folhas tremessem tiveram durante séculos. O olhar que é altere muito os previsíveis resultados. pobreza, restabelecer a paz e a estabili- por não existir vento. O coração dema- orientado para ver a beleza da arte e da Está dito e redito que tais resultados te- dade, responder às alterações climáticas, siado rápido dos pássaros assustava-me, arquitectura dos monumentos é igual- rão mais a ver com a política interna do melhorar a saúde no mundo, lutar contra impedindo-me de lhes tocar. Insectos in- mente orientado para não ver o sofrimen- que com as opções específicas quanto à o terrorismo e garantir o desarmamento compreensíveis, cheios de patas e ante- to inenarrável dos milhões de africanos Europa, com maior penalização do PS e a não proliferação. (...) nas, joaninhas que essas sim, entendia, o que, entre o século XV e o século XIX, nestas eleições do que nas legislativas, suspiro de papel de seda das roseiras, eu sacrificaram a vida para que muitos des- dado não se pôr a questão da alternativa Adriano Moreira eterno, a China eterna, o cão invisível que ses monumentos tivessem vida, quer os de Governo do País. Decerto também Diário de Notícias
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    29 DE MAIODE 2009 OPINIÃO 9 OS MILAGRES cido social e garantiu a instauração da utilização nas aulas de gravadores e ção devida à Assembleia da República indiferença, do abandono cívico e, fi- outros instrumentos similares. Eu es- (ao recusar-se a facultar documentação (...) Por causa dos milagres exigi- nalmente, da coisificação do medo. pero e desejo que ninguém cometa à Comissão de Inquérito). dos para uma canonização, pergun- As velhas classificações foram re- essa injustiça. A criança que gravou É evidente que algo de muito errado tam-me frequentemente se acredito cuperadas do pó dos armários ideoló- o que estava a acontecer na aula de- se está a passar com o Banco de Portu- em milagres. Respondo que só acre- gicos: populista, esquerdista radical, via ser louvada, não punida, porque às gal, nas grandes como nas pequenas coi- dito nos milagres do amor. Quanto aos chavezista; e apontado, acriticamen- vezes não há outra forma de chegar- sas: não são só as previsões económi- “milagres” no sentido estrito - aque- cas, nem o brutal falhanço na supervi- les que Deus faria sobrenaturalmen- são – e o BPN está longe de ser o único te, suspendendo as leis da natureza -, caso, como é público –, há ainda a muito mantenho razoável cepticismo. “En- desastrada tentativa de aumento das re- tão, não acredita que Deus pode munerações dos seus órgãos dirigentes tudo?” Não, não acredito, pois a mai- e aqui, com franqueza, não havia mes- or parte das vezes fala-se da omnipo- mo necessidade. Mas ninguém se inco- tência divina de modo infantil. Deus moda ou parece incomodado, muito me- não pode, por exemplo, fazer com que nos os próprios. (...) dois mais dois sejam cinco nem co- meter suicídio. Paula Teixeira da Cruz A razão do meu cepticismo é, po- Correio da Manhã rém, mais funda. Acredito em Deus infinitamente bom e poderoso, criador ELOGIO DAS REVOLUÇÕES dos céus e da terra, como diz o Cre- do. Se acredito em Deus criador a Duzentos e vinte anos depois de 1789, partir do nada - sublinhe-se que a cri- o corpo da Revolução ainda mexe. Ape- ação não se opõe ao evolucionismo -, sar de François Mitterrand ter convida- creio nele enquanto continuamente do Margaret Thatcher e Joseph Mobu- criador. Deus não está fora do mundo tu para confirmarem o seu enterro, - ele é infinitamente presente ao mun- aquando das cerimónias do bicentená- do. Ora, os milagres pressupõem que rio. E porque esse ano das comemora- Deus está fora do mundo e que, de ções foi também o da queda do Muro vez em quando, de modo arbitrário, de Berlim, Francis Fukuyama anunciou vem ao mundo, interrompendo as leis o «fim da história», ou seja, a eternida- da natureza. Porque acredito que de da dominação liberal exercida sobre Deus está dentro e não fora, pois é o mundo e o encerramento, a seu ver, Força criadora infinita, não acredito do parêntesis revolucionário. Mas a cri- nos tais milagres. Marinho Pinto se do capitalismo está de novo a abalar Porque creio nos milagres do amor, a legitimidade das oligarquias no poder. pergunto muitas vezes porque é que O ar está agora mais ligeiro, ou mais ainda não foi canonizado o Padre te, à execração popular, entre malici- se à verdade. (...) pesado, segundo as preferências. Alu- Américo, modelo de amor cristão, em osas meias-frases, silêncios ambíguos dindo «aos intelectuais e artistas que generosidade sem limites, inteligente e sorrisos equívocos. O homem fala Emídio Rangel apelam à revolta», o diário Le Figaro e eficaz, no quadro de uma pedagogia alto e grosso, enfrenta situações peri- Correio da Manhã mostrou-se desolado: «François Furet para a liberdade e autonomia. (...) gosas porque, nitidamente, está a me- parece ter-se enganado: a Revolução xer em áreas historicamente inamo- A COMISSÃO Francesa não terminou» [1]. Anselmo Borges víveis e diz-nos de uma justiça, na sua No entanto, como muitos outros, o his- Diário de Notícias opinião “miserável” e desprovida dos Algo de muito errado se está a passar toriador em questão não se poupou a “valores mais elementares.” (...) no Banco de Portugal, nas grandes como esforços para esconjurar a lembrança da QUEM TEM MEDO nas pequenas coisas. Revolução e para que as tentações se Baptista Bastos A actuação da Comissão Parlamen- afastassem dela. Outrora considerada DE MARINHO PINTO? Diário de Notícias tar de Inquérito ao caso BPN é, a todos expressão de uma necessidade histórica os títulos, digna de elogio público. Num (Marx), de uma «nova era da história» Não pode deixar de causar perple- ESPINHO NA EDUCAÇÃO País atávico, a Comissão foi pró-activa; (Goethe), de uma epopeia encetada pe- xidade os ataques de que Marinho Pin- num País de improvisos, fez o seu traba- los soldados do Ano II cantados por Vic- to (ou Marinho e Pinto) tem sido alvo. Não temos nada que “relativizar as lho de casa, preparou-se; num País em tor Hugo – «E víamos marchar os so- Ele não fala baixinho, não sussurra, coisas”, Senhora Ministra da Educa- que qualquer dificuldade justifica um adi- berbos maltrapilhos nesse mundo des- não vive dos seus próprios venenos, e ção. O caso da professora da escola amento, superou os muitos que lhe sur- lumbrado» –, dela já se mostrava ape- em nada contribui para garantir a qui- de Espinho que dava aulas a crianças giram, incluindo a falta de cooperação nas o sangue que tinha nas mãos. De etude das águas palustres. Vai-nos re- de 12 anos da forma como a grava- da supervisão. Rousseau a Mao, uma utopia igualitária, velando, com estremecedor vozeirão ção ilustra não pode ser minimizado, Esta Comissão Parlamentar restituiu terrorista e virtuosa, teria espezinhado as e gestos a condizer, que muitos com- porque é invulgarmente grave. aos olhos do cidadão um pouco da confi- liberdades individuais, parido o gélido ponentes da sociedade portuguesa, Dito de maneira mais clara, ou a ança de que a Assembleia da República monstro do Estado totalitário. Depois, a criminais e legais, estão imbricados professora é desequilibrada e deve é deficitária e isto num momento em que «democracia», voltando a sentir-se se- uns nos outros. E tem exigido que se- estar longe de crianças e a ser trata- as Instituições em geral parecem derro- nhora de si, vencera – jovial, pacífica, de jam submetidas a controlos reais al- da em qualquer psiquiatria, ou a pro- car e as referências se esfumam umas mercado. Também ela herdeira de revo- gumas veneráveis instituições e suas fessora, ano após ano, é considerada atrás das outras (com poucas excepções, luções, mas de uma outra espécie, à in- actividades peculiares. pronta para o ensino, e então deve ser que também as há). Vivemos tempos em glesa ou à americana, mais políticas do Não me parece que Marinho Pinto severamente punida e o conselho exe- que nenhuma ordem normativa parece que sociais, «descafeinadas» [2]. (...) haja sido tocado pela desonestidade, cutivo da escola igualmente penaliza- valer para muitos que foram chamados pela indecência, pela indignidade, ou [1] Le Figaro, Paris, 9 de Abril de 2009. do, por encobrimento do comporta- a grandes responsabilidades. movido por interesses cavilosos. Que- [2] «Em suma, o que a sensibilidade liberal mento da docente e por incapacidade Ao contrário, o papel desempenhado exige é uma revolução descafeinada, uma revolu- rem-no brunido, direitinho, ajeitado, para proteger crianças. pelo Banco de Portugal não deixa de ser ção que não tenha o sabor da revolução», resume dentro da esquadria: um artesão for- Slavoj Zizek em Robespierre: entre vertu et terreur, Tenho ouvido e lido nos últimos dias profundamente lamentável: das sempre mal da aplicação das leis e seu com- Stock, Paris, 2008, p. 10. a intenção de castigar a criança que optimistas mas erradas previsões econó- placente vigilante. Ele é, definitiva- gravou a arenga sinistra da professo- micas, ao falhanço enquanto instituição mente, o contrário dessa banalização Serge Halimi ra, por não ser permitido aos alunos a de supervisão, até à recusa de coopera- precaucionista que atingiu todo o te- Le Monde Diplomatique
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    10 SEGURANÇA arte em café 29 DE MAIO DE 2009 AFIRMA EM COIMBRA O SECRETÁRIO DE ESTADO JOSÉ MAGALHÃES Nova Lei das Armas será travão para “um ciclo infernal desgastante” O Secretário de Estado Adjunto e da Administração In- terna, José Magalhães, presidiu ao encerramento do II Fó- rum Distrital de Segurança, que decorreu nos dias 26 e 27 de Maio, na Casa da Cultura de Coimbra, numa iniciativa do Governo Civil de Coimbra. Na sua intervenção, o Secretário de Estado considerou que “vale a pena pensar a segurança a nível distrital”, e lembrou que “nunca podemos esquecer que a segurança é vivida à escala onde vivemos e trabalhamos”. Perante uma plateia onde se encontravam representantes de todas as forças de segurança do Distrito de Coimbra, José Maga- lhães destacou a estratégia do Ministério da Administração Interna assente na “união de esforços”, considerando uma mais-valia o sistema de coordenação aprovado com a revi- são da lei de segurança interna, que “passou pela nomea- ção de um secretário-geral em funções de coordenação sistémica”. “O caminho da coordenação é possível e dá resultados concretos”, afirmou. O governante revelou que no próximo dia 3 de Junho irá defender na Assembleia da República a proposta de lei “para criar a plataforma para o intercâmbio de dados e informações criminais”. Trata-se de uma ferramenta infor- mática nova, que vai permitir a partilha de informações, que m ciclo infernal desgastante” que desafia a autoridade do Estado de Direito Democrático. A nova versão do diploma, segundo José Magalhães, é uma resposta do Estado a “um ciclo infernal de capturas e libertações em ‘porta giratória’ que importa ser parado”. DOIS DIAS DE DEBATE O Secretário de Estado José Magalhães troca impressões E TROCA DE EXPERIÊNCIAS com o Governador Civil Henrique Fernandes O Governador Civil de Coimbra, Henrique Fernandes, em situação de vulnerabilidade. ao explicar o objectivo do II Fórum Distrital de Segurança, ticas em matéria de segurança, reforçando a confiança dos No mesmo dia, da parte da tarde, a Guarda Nacional disse que este debate, em que participaram especialistas cidadãos no sistema e fomentando uma ideia de responsa- Republicana explicou o modo de actuação no âmbito do diversos, visou “contribuir para o aprofundamento da de- bilidade colectiva, neste domínio, em que o contexto escolar Programa Escola Segura e como o contexto escolar pode mocracia, livre, justa e segura”. “A segurança de pessoas e é um palco privilegiado. também ser uma fonte de perigos, em que os jovens, mais bens, que é na essência o motivo deste Fórum, está intima- Ao longo de dois dias, foram vários os painéis de grande uma vez, são potenciais vítimas de ameaças externas, nem mente ligada ao próprio exercício da liberdade, nos diversos qualidade a que a assistência, composta por elementos das sempre fáceis de controlar. domínios da vida social”, afirmou, concretizando que “a forças de segurança e estudantes, puderam assistir. No dia Seguiu-se o painel apresentado pelo Serviço de Estran- partilha de informação entre os organismos e forças de 26, decorreu o painel da Polícia de Segurança Pública que geiros e Fronteiras, sobre Imigração e Segurança, que rom- segurança, a sua difusão pela sociedade civil e, muito em reflectiu sobre a sinistralidade rodoviária do Concelho de pendo alguns preconceitos, até algumas mistificações da especial, a afirmação pública do esforço meritório que os Coimbra e confrontou o público com a ideia de que o perigo sociedade portuguesa, projectou a assistência para uma homens e mulheres que fazem, todos os dias, a segurança não reside nas grandes vias de trânsito nos excessos de abordagem de face humana do fenómeno da imigração, empreendem - a publicidade dos bons exemplos! - conduzi- velocidade nas auto-estradas, mas que as cidades são, elas para uma filosofia de abertura regulada, de entusiasmo pe- rão, necessariamente, a um maior sentido de auto-protec- próprias, uma fonte de riscos, em matéria de sinistralidade las oportunidades e atenção quanto às eventuais ameaças, ção e à instituição de uma verdadeira cultura de prevenção rodoviária, que merece atenção. que não são, definitivamente, uma marca distintiva da popu- e segurança”. Seguidamente, a Polícia Judiciária apresentou os extra- lação imigrante. Organizado a partir da actividade desenvolvida pelo Ga- ordinários desafios que o avanço da ciência, em especial no Já no dia 27, destaque para a Autoridade para a Segu- binete Coordenador de Segurança Distrital, o encontro, com domínio da internet, nos impõe. Há um mundo de oportuni- rança Alimentar e Económica, que explicitou a sua missão, a participação de todos os organismos e forças de seguran- dades de desenvolvimento e progresso associado à inter- que protege os cidadãos e as empresas, todos os dias, ga- ça que integram aquele gabinete, pretendeu contribuir para net, mas que se faz acompanhar de riscos, nem sempre rantindo melhores condições de segurança em muitos com- o esclarecimento público e para a divulgação de boas prá- fáceis de calcular e que colocam particularmente os jovens portamentos da vida quotidiana.
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    29 DE MAIODE 2009 REPORTAGEM 11 Evocação na rua da Crise Académica de 1969 Há 40 anos a crise académica de 1969 irradiou da Universidade de Coimbra à cidade e ao país. Agora vol- tou à rua, numa arrojada mostra por locais onde o con- fronto com o regime estive mais aceso. Até ao final do corrente ano grandes painéis, com fotografias de figuras humanas em escala real recordam aquele momento da história estudantil e de Portugal em 18 pontos da cidade, trazendo-o à memória de alguns, ou dado notícias daquele tempo a outros. “Quisemos estender esta exposição até ao final do ano com o objectivo de ficar aqui uma marca histórica. Passar a palavra para a sociedade civil, para os turistas, da importância que este momento teve nas lutas estu- dantis, e no futuro do nosso país, para que isso não seja efectivamente esquecido”, explicou à agência Lusa o presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC), Jorge Serrote. Cada local apresenta um painel informativo sobre os acontecimentos mais marcantes que ali se desenrolaram, em português e inglês, não descurando os turistas que ele- gem a universidade como um pólo incontornável da visita. “A Crise saiu à rua – Um olhar sobre a Academia de Coimbra em 1969” é uma mostra organizada pela Associ- ação Académica de Coimbra (AAC) em colaboração com a empresa municipal Turismo de Coimbra, que procura evidenciar os principais momentos dessa luta estudantil. habitantes da cidade. Segundo Jorge Serrote, com esta exposição a geração actual de dirigentes pretendeu evidenciar o ideário que vem marcando a AAC ao longo das décadas, e transmitir a mensagem de que “infelizmente algumas causas ainda são actuais”, como é o caso do Regime Jurídico das Institui- ções de Ensino Superior (RJIES), que representa “um re- trocesso de 40 anos” em termos de autonomia dos estabe- lecimentos e da participação estudantil “Queremos honrar esta centenária instituição, continu- ar a lutar, a transmitir os seus valores no nosso dia-a-dia, apesar de algumas causas serem diferentes, embora ou- tras sejam idênticas, infelizmente. A força, e a garra, para defender os estudantes, é que continua a ser a mesma”, concluiu. (Fotos de Paulo Abrantes) O objectivo é recriar todo o ambiente vivido na Aca- Sala 17 de Abril, até ao Largo da Portagem, passando demia, mas também na cidade, com recurso a figuras e pela Praça da República, a antiga sede da PIDE/DGS, fotografias da época à escala humana e diversos ele- o edifício da Associação Académica de Coimbra, a mentos sonoros e visuais com uma forte carga drama- Avenida Sá da Bandeira e a Baixa. túrgica. Na antiga sede da PIDE, onde actualmente funcio- “O que quisemos foi, não só dar uma noção dos mo- na um centro de saúde, podem-se ouvir os sons do mentos marcantes, na universidade, e nos espaços físi- interrogatório e dos gemidos de um estudante a ser cos da universidade, mas também na cidade, por onde torturado. foram acontecendo episódios marcantes”, explicou o di- Nas Escadas Monumentais, um antigo jipe das for- rigente estudantil. ças policiais, e imagens de agentes da autoridade a É precisamente no Pátio da Universidade que se en- cavalo dominam o núcleo expositivo, onde a fotos de contra o centro interpretativo do movimento mais mar- grupos de estudantes, com faixas com reivindicações, cante da academia coimbrã. Nele se dá a conhecer a impõem a sua força. Crise Académica e a sua contextualização política, des- Nas escadas do Quebra-Costas, na descida da de a fundação da AAC, em 1888, até ao 25 de Abril de Alta Universitária, para a Baixa, também os agen- 1974. tes a cavalo se impõem por entre magotes de tu- Os restantes 17 núcleos expositivos encontram-se im- ristas que diariamente as percorrem. Na Baixa não plantados nos espaços onde mais se fez sentir o movi- foi esquecido um expositor horizontal em forma de mento estudantil, desde a Via Latina, Largo D. Dinis e a flor, alusivo à “Operação Flor”, de mobilização dos
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    12 DIA MUNDIALDA CRIANÇA 29 DE MAIO DE 2009 UM EM CADA DEZ MUNICÍPIOS TEM MENOS DE 500 Interior de Portugal está a ficar sem crianças Um em cada dez municípios portu- os pais e professores e comecei a fe- orgulhoso, lembrando que Ribeira de lembrou, apontando o interior alente- gueses tem menos de 500 crianças. chá-las”, recorda o presidente da Câ- Pena decidiu também “suportar na to- jano e as Beiras como os casos mais Para combater a desertificação, há mara, Agostinho Pinto. talidade” o material escolar das cri- dramáticos. É na Beira Interior que autarcas que dão 200 euros mensais O autarca não sabe de cor quantas anças do 1.º ciclo. Mas, para o autar- se encontra o município com menos por cada bebé que nasce e se ofere- primárias já encerrou, mas garante ca, o programa “ainda não surtiu o crianças: com uma população de pou- cem para pagar os estudos. Mas as que há outras três a funcionar que efeito que esperava”. co mais de 3500 pessoas, Vila Velha escolas continuam a encerrar. deverão estar vazias no próximo ano Para o presidente da Associação de Ródão tem apenas 235 habitantes Dados provisórios do Instituto Na- lectivo. Os meninos de S. Eulália, San- Nacional dos Municípios Portugueses, entre os zero e os 14 anos. cional de Estatística (INE) indicam que ta Marinha e Canedo vão passar para Fernando Ruas, a desertificação é um Mas é no Alentejo que se nota mais 89 dos 308 municípios têm menos de o Centro Escolar de Cerva. “drama” que precisa de políticas na- esta carência. Dos 28 municípios na- mil crianças e, deste número, 28 não De acordo com os dados do INE, cionais de apoios e não apenas de me- cionais com menos de 500 crianças, chegam sequer a ter meio milhar de relativos a 2007, Ribeira de Pena tem didas locais, que “são importantes mas dez são desta zona do país. Alter do habitantes entre os zero e os 14 anos. 901 crianças entre os zero e os 14 anos. não conseguem ser determinantes”. Chão, por exemplo, tem 408 crianças Em Ribeira de Pena, um concelho Agostinho Pinto garante que existem A discriminação positiva da carga até aos 14 anos, de acordo com o INE. com 901 crianças, o presidente da Câ- mais e lembra que “houve um aumen- fiscal, a distribuição igualitária dos O responsável do sector da Acção mara ficou chocado quando um pro- to de 20 por cento da natalidade”. grandes investimentos e a atracção de Social de Alter do Chão, Fernandino fessor sugeriu que podia dar as aulas Em 2005, a autarquia lançou um empresas para o interior são algumas Lopes, lembra o caso da freguesia da em casa. A escola primária de Maci- programa de incentivo: dar 200 euros das medidas que Fernando Ruas gos- Cunheira, com apenas três crianças eira tinha apenas dois alunos e a au- mensais por cada filho nascido até taria de ver tomadas pelo Governo no pré-escolar: “Aberto das 08:00 às tarquia decidiu encerrar a escola, as- fazer dois anos de idade. Neste mo- central. Tudo para inverter a tendên- 18:00, o Jardim de Infância tem uma sim como outras cinco da freguesia de mento, garante, estão a ser apoiadas cia das aldeias desertas. educadora e duas auxiliares para to- Salvador e outras quatro de Cerva. 123 famílias, num projecto que repre- “Sem crianças, não há escolas, não mar conta das três crianças”. “Havia escolas com três ou quatro senta um custo de 135 mil euros para há necessidade de casas para os pro- O Dia Mundial da Criança assina- alunos, o que é mau para a socializa- o município. fessores e todos os serviços associa- la-se no próximo dia 1 de Junho. ção das crianças e para a motivação “Não conheço Câmara nenhuma dos à Educação, como as papelarias, dos professores. Por isso falei com com um programa como o nosso”, diz acabam por sofrer por arrastamento”, Sílvia Maia (Lusa) Em São Tomé o número de crianças está a aumentar substancialmente Nos países ditos desenvolvidos o índice demográfico diminui É o caso, por exemplo, de São Tomé e Príncipe (onde foi obtida a de forma preocupante. É o que sucede em Portugal, onde a taxa imagem acima). de natalidade tem diminuído de maneira muito sensível, sobretudo Um País onde às espantosas belezas paisagísticas e riqueza em todo o interior do País. da luxuriante flora, se alia uma população muito jovem, onde Em contrapartida, há países que podem, nesse aspecto, encarar o predominam as crianças, o que permite aquela antiga colónia futuro com grande confiança, pois neles esse problema não existe. encarar o seu futuro com optimismo.
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    29 DE MAIODE 2009 DIA MUNDIAL DA CRIANÇA 13 UNICEF apoia crianças de bairros problemáticos Andam sozinhas nas ruas do bairro ou pela mão dos ir- mãos mais velhos. São crianças portuguesas que a Unicef decidiu ajudar na esperança de lhes encontrar um futuro melhor. Não existem estradas no Bairro Seis de Maio, na Ama- dora. Só becos e ruelas estreitas onde os mais pequenos descobrem sempre novas brincadeiras. Mas é no Centro Social Seis de Maio que passam a maior parte do tempo. Muitos chegam ali sozinhos, porque os pais tiveram de sair de casa de madrugada. “Há mães que trabalham em serviços de limpeza e, por isso, saem de casa às cinco ou seis da manhã”, explica Rosa Maria Coutinho. Os filhos ficam entregues aos irmãos mais velhos ou aos avós, mas também há muitos deixados ao abandono. Têm sorte em viverem num bairro pequeno onde toda a gente se conhe- ce. Mas azar por passarem por tantas dificuldades. O Centro Social Seis de Maio, criado pela Comunidade das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, acolhe di- ariamente mais de 120 crianças na creche, pré-escolar e actividades de tempos livres. A Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) dá apoio àquela instituição promovendo actividades de forma- ção familiar, como a prevenção de acidentes domésticos, e tentando envolver mais os pais na vida dos filhos. “É preci- so que percebam a importância de estarem presentes na vida dos filhos”, sublinha. No entanto, reconhece Rosa Maria Coutinho, “não é fá- cil chegar às famílias e aos pais”. E ultimamente as coisas parecem mais complicadas. O desemprego atingiu muitas das famílias do bairro e isso repercute-se na forma como as crianças são tratadas: “Tem havido mais casos de negligência”. “Há um esforço de todos, mas já começam a aparecer situações de sobrevivência ao nível da alimentação. A situ- ação económico-financeira dos pais também tem levado a casos de abandono de crianças, que são deixadas já no fi- nal da recta”, lamenta Rosa Maria Coutinho, lembrando histórias de “instituições que têm de dar banho às crian- ças” porque os pais se demitiram da tarefa. “Quando a família não tem garantidos os recursos que lhes permitem a sua sobrevivência o desânimo instala-se”, explica a assistente social, que acredita na boa vontade dos pais e no desejo de querer dar o melhor aos filhos. O outro programa apoiado pela Unicef é no Bairro do Condado, em Chelas, onde os problemas são semelhantes, com o desemprego a assombrar a vida de muitos. O Centro Social e Paroquial São Maximiliano Kolbe recebe actual- mente 150 crianças e há mais de duas décadas que conta sos outros pontos de Portugal, incluindo Coimbra e Região Centro, com muitos elementos, com o apoio da Unicef. sobretudo voluntários, que igualmente desenvolvem muita acções de apoio a crianças mais des- Rosa Maria Coutinho já conta histórias de jovens que protegidas. por ali passaram e hoje têm um projecto de vida consolida- Mas não é só a UNICEF. Existem muitas outras instituições que dão um notável apoio a do. “Uma das animadoras do Centro andou cá quando era crianças de famílias carenciadas ou que nem sequer têm família. pequenina”, recorda, sublinhando que “as crianças portu- Em Coimbra, por exemplo, podemos referir, entre outras, a Comunidade de São Francisco de guesas têm situações complicadas mas não tem nada a ver Assis, a Casa de Infância Doutor Elísio de Moura, a Casa do Gaiato, a APPACDM (Associa- com o que se passa noutros cantos do mundo”. ção Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental), a APPC (Associação Portu- guesa de Paralisia Cerebral). HÁ VÁRIAS INSTITUIÇÕES E há obras semelhantes em muitas outras localidades da Região Centro. DE APOIO ÀS CRIANÇAS Mas todas estas instituições lutam com dificuldades, até porque nos momentos de crise, como aqueles que agora se vivem, normalmente diminuem os donativos que são imprescindíveis para Refira-se que a UNICEF tem representantes em diver- apoiar um número de cada vez maior de crianças carenciadas.
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    14 EDUCAÇÃO/ENSINO 29 DE MAIO DE 2009 PATRIMÓNIO CULTURAL EUROPEU: PRÉMIOS SERÃO DIVULGADOS A 5 DE JUNHO Via Latina na Universidade de Coimbra é um dos melhores projectos A Via Latina na Universidade de Co- A finalidade dos prémios é promover imbra foi seleccionada como um dos 28 competências de alto nível e elevada melhores projectos de 2009 na área do qualidade na prática da conservação e património cultural europeu, anunciou há incrementar os intercâmbios transfron- dias a Comissão Europeia em Bruxelas. teiriços na área do património. A repartição entre sete “grandes pré- Os prémios visam igualmente inspirar mios” e 21 “prémios” será divulgada du- novos esforços e projectos relacionados rante uma cerimónia oficial de entrega com o património em toda a Europa. dos galardões no Teatro Antico de Taor- Os Prémios do Património Cultural da mina, na Sicília (Itália), em 5 de Junho. União Europeia / Prémios Europa Nostra Estes prémios distinguem “realizações foram lançados conjuntamente em 2002 excepcionais” no domínio da conserva- pela Comissão Europeia e por Europa ção, da investigação e da educação, bem Nostra para assinalar iniciativas de relevo como contribuições exemplares no âm- no sector do património cultural europeu, bito da preservação do património. em categorias que incluem restauro de Cada um dos vencedores dos gran- edifícios e respectiva adaptação a novos des prémios receberá um montante de usos, recuperação da paisagem urbana e 10.000 euros. rural, interpretações de sítios arqueológi- A Via Latina, erigida na segunda me- cos e conservação de colecções de arte. tade do século XVIII, facilita o acesso São também atribuídos prémios a pro- entre o Paço Reitoral, a Sala dos Cape- jectos de investigação, educação e sen- los e o edifício dos Gerais e é, junto com sibilização relacionados com o patrimó- a Torre da Universidade, uma das refe- nio cultural e a contribuições exempla- rências monumentais do paço das Esco- res de indivíduos ou organizações no do- Aspecto da “Via Latina” e da velha Torre da Universidade de Coimbra las da Universidade de Coimbra. mínio da conservação do património. AFIRMA PRÓ-REITOR ANTÓNIO PIMENTEL Candidatura da Universidade à UNESCO não deixará marca inferior à do Estado Novo nio. É um meio para encontrar fu- A candidatura da Universidade turo para o passado”, afirmou, re- de Coimbra a património da hu- alçando que para a reabilitação do manidade vai deixar uma marca património é necessário fazer re- que não será inferior à do Estado gressar a vida e fruição à zona Novo na cidade universitária, afir- da Alta universitária. mou no passado dia 22 um dos seus Isso passa por fazer retornar responsáveis. os estudantes à zona e criar no- “Há um ‘campus’ universitá- vos espaços de animação e de rio informal, novo, a partir do fruição. Uma das intervenções casco histórico da cidade. Há previstas é a instalação de uma todo um conjunto de edifícios residência universitária nos pisos que vão marcar a Alta e a ima- superiores da actual Faculdade de gem da cidade”, salientou Antó- Medicina, após a sua transferên- nio Filipe Pimentel, Pró-Reitor da cia para as proximidades dos Hos- Universidade para as questões do pitais da Universidade de Coim- património e coordenador da can- bra (HUC). didatura à UNESCO. “É uma candidatura à UNES- Numa sessão no renovado Mu- CO que não tem modelo. O que seu Nacional de Machado de Cas- se candidata é a instituição, a Uni- tro, sublinhou que “a marca vai fi- versidade de Coimbra mas na sua car generalizada”, realçando que materialidade. É uma escola, e “o casco histórico não nasceu de tem de ser exemplar”, concluiu. um jacto” mas é o resultado de transfor- é menor que a do Estado Novo ou a Pom- hoje em qualquer intervenção uma res- A candidatura da Universidade de mações e de incorporações ao longo dos balina”. ponsabilidade acrescida, “que vem da Coimbra a Património da Humanidade é séculos. Quer a do Estado Novo, quer a Pom- evolução da história, da ciência, da his- mais abrangente que o actual ‘campus’ António Filipe Pimentel, igualmente balina destruíram para apagar o passado tória da arte” mas “há uma escassa cul- universitário da Alta, devido à sua “rela- director do Instituto de História da Arte mas a de hoje “é anti-autoritária, de par- tura cívica e o desafio colocado é o do ção umbilical” com a cidade. O projecto da Universidade de Coimbra, disse que ticipação de todos na construção da po- envolvimento das instituições”. está em fase de conclusão e a formali- também nesta intervenção contemporâ- lis”, considerou. “A candidatura à UNESCO é um acto zação à UNESCO deverá ocorrer no fi- nea “há uma marca ideológica, que não No entendimento do especialista, há contemporâneo em relação ao patrimó- nal do corrente ano.
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    29 DE MAIODE 2009 EDUCAÇÃO/ENSINO 15 Processo de Bolonha: Europa não cumprirá prazo de 2010 O Processo de Bolonha, para uniformi- centando que “ainda há um largo número vezes participam apenas como observado- zar o ensino superior na Europa, não estará de países que estão a começar ou ainda não res) e falta de implementação do sistema aplicado até 2010, como assumido por 48 iniciaram a implementação ao nível institu- de créditos. Apenas uma minoria de países países da Europa, segundo um relatório apre- cional [de Bolonha], pelo que a completa tem sistemas de monitorização do progres- sentado num encontro de ministros europeus implementação de uma moldura de qualifi- so da aplicação de Bolonha. do sector, realizado recentemente em Lo- cações nacionais irá levar algum tempo”. Aos governos, os relatores sugerem que vaina, na Bélgica. Como razões para este atraso, o relató- consigam a plena execução dos objectivos Os ministros do Ensino Superior dos 48 rio adianta que foram sendo acrescentadas de Bolonha e que promovam estes princípi- países que aderiram ao processo de Bolo- novas acções e actividades às intenções ini- os como relevantes para o emprego e para nha reuniram para discutir a aplicação da- ciais do processo e ainda que os países ini- o acesso ao nível de ensino seguinte. Pe- quele sistema, já praticamente concretizado ciaram o processo de reforma em tempos dem ainda que adoptem medidas para a em cinco países, incluindo Portugal. diferentes, segundo a sua adesão ao com- transparência das qualificações, um siste- O relatório do Grupo de Acompanhamen- promisso. ma de créditos, a aprendizagem ao longo da to ao Processo de Bolonha afirma que hou- O relatório alerta que, apesar de na legis- vida, maior mobilidade dos estudantes e in- ve progressos desde a cimeira de Londres, lação dos países parecer que não existem dicadores fiáveis para medir o progresso há dois anos, mas destaca que, contudo, obstáculos, “num grande número de países social da aplicação dos programas. “nem todos os objectivos do processo de o progresso não é tão significativo como Às instituições é sugerido uma coopera- Bolonha serão conseguidos até 2010”. poderia parecer”. ção regional mais dinâmica e criação de “O prazo limite para completar a imple- Na generalidade dos países há falhas re- áreas de ensino superior que ajudem a re- mentação do Processo de Bolonha no ensi- lacionadas com a aprendizagem fora do sis- gião a adaptar-se a desafios e a um ambi- no superior em 2010 parece ter sido dema- tema formal de educação, pouca participa- ente político, económico, social e tecnológi- siado ambiciosa”, realça o relatório, acres- ção de estudantes nos relatórios (muitas co global em permanente mudança. Surrealismo político Isabel Dias * qual se substituiria às muitas outras insti- odisseia com o censurado carnaval de tuições e medidas que deveriam existir para Torres Vedras e a nova língua portuguesa, Por vezes, o real parece surreal, de tal suprir a acção das famílias carenciadas e o magalhanês; e, para acabar em festa, forma é flagrante a sua falta de racionali- garantir efectivas condições de conciliação uma região preocupada com os bolos com dade ou o seu carácter inverosímil; como da vida laboral e da vida familiar; a mesma creme nas escolas, “Nas festas de aniver- se os que o vão desenhando fossem imbu- Confap, na voz do seu iluminado presiden- sário podem levar um bolo com creme, mas ídos do espírito lúdico que animou os sur- te, a assegurar que apenas assim será ga- daquele que se tira facilmente depois de realistas, inventores dos cadavre exquis, rantida a sobrevivência da escola pública, serem apagadas as velas” - não é que não criações colectivas em que o criador não com o límpido argumento de que “Esta coisa entenda as preocupações dietéticas, mas tinha em conta tudo o que já existia e des- de despejar a matéria e depois esperar que, eu, que me arrepio com esta tendência nor- prezava a causa ou as conclusões dos seus em casa, os pais tenham literacia suficien- mativa do pormenor existencial, que sofro actos, preocupado com o seu elemento te e computadores para ajudar os filhos a a vitória do lobby, sim, que só pode ser parcelar e o seu próprio estilo e privilegi- perceber as matérias tem que acabar, por- acção de grupos de pressão, do fiambre ando os automatismos e as associações que o mundo mudou e as escolas têm que (ainda por cima de baixa estirpe) e do queijo inconscientes. se adaptar” - quando o que parece estar de batata nas escolas, não consigo deixar Essa riqueza estilística e onírica que tanto em causa não é a tosca imagem que este de imaginar a desilusão daqueles meninos enriquece a arte, se aplicada ao governo senhor tem da docência como acto de que sopram a vela e vêem o monstro que, das instituições e das pessoas, rapidamen- “despejar”, mas sim a falta de tempo e de de faca em riste, purifica o bolo, rapando- te se aparenta com a loucura, provocando disponibilidade que as famílias têm para es- lhe o creme que se estava a rir para eles. surpreendentes e, por vezes, grotescas tar com os filhos; o relatório da OCDE que Sendo este creme uma triste metáfora evoluções na história. afinal era encomenda do ME aos mesmos de tudo o que nos vem sendo tirado da Muitas das notícias que têm vindo a pú- estrangeiros que, conjuntamente com a tec- boca, só nos resta esperar pelas eleições blico no âmbito da educação fazem pensar nologia, continuam a fazer de nós provin- que se aproximam e então, em bom ma- que se vive num permanente espírito de cianos pessoanos, pela adoração cega que galhanês, bamos a procurar os cadáve- blague, do mais duvidoso gosto, configu- despertam; o mesmo relatório que sugeria res que empestãm o ar, tirar-los das rando um cadavre exquis desmembrado abolir os chumbos no primeiro ciclo por- bocas das urnas e dar-lhes um bom xuto e retorcido. que “Às vezes, a retenção é a desculpa de vês ou, indo até à DREN, em margari- A ocupar a tela temos o concurso de para quem ensina mal”, o que é um exce- demoreirês: sendo certo que muitos do- professores, o qual, entre muitos atrope- lente exemplo de profunda capacidade de centes não aceitam o uso dos alunos los, assenta a fractura dos docentes em pensar a realidade e de fundamentar as nesta atitude inaceitável, acompanha- titulares e professores - os primeiros impe- decisões - só é pena que não se possa aca- remos de muito perto a defesa do car- didos, na prática, de mobilidade e os se- bar de vez com os professores, já que o naval, dos bolos amordaçados e do fi- gundos encurralados num futuro que é um problema das estatísticas do sucesso fica- ambre a rir para a população. E quem beco sem saída e todos cada vez mais des- ria automaticamente resolvido; a odisseia não perceber nada, não se aflija, é a isto protegidos; o voluntariado dos professores do Magalhães, com a angústia das crian- que se chama surrealismo político; depois reformados, uma tentativa, à Chico-esper- ças e dos pais pelo atraso na sua distribui- do apogeu da política do cadavre exquis to, de evitar a contratação; uma proposta ção e a ausência de debate fundamentado o morto já não brinca e até cheira mal. da Confap de permanência, dos alunos do sobre os seus efeitos ao nível da aprendi- primeiro ciclo, de doze horas na escola, a zagem da leitura e da escrita; a mesma * Professora e dirigente do SPRC
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    16 SAÚDE 29 DE MAIO DE 2009 Décios Junos Brutos Massano Cardoso Realçar a importância da memória é uma perda de tempo. Todos a conhecem, a não ser que já não a tenham! De vez em quando, a minha teima em pregar partidas ao não permitir que recorde os nomes das pessoas, sobretudo quando não as vejo há algum tempo. Ainda por cima tenho que confessar que, desde que me conheço, nunca fui dotado para me- morizar nomes. Esta curta reflexão surgiu devido a um episódio que ocorreu há dias. Estava sen- tado num restaurante, quando, no canto oposto, vislumbrei duas pessoas conhe- cidas. Cumprimentei-as com um sorriso acompanhado de um aceno de cabeça, mas fiquei bloqueado quanto aos nomes. Claro que este episódio obrigou-me a técnicas que permitem reter ideias, o livro (“Um Combate e outras históri- Fiz um esforço terrível e nada! Ao fim refletir sobre a memória e despertou vá- modo de as recordar e associá-las. Que as”), com quatro pequenos ensaios, que de alguns segundos, graças a associa- rias ideias. Uma delas tem a ver com a inveja! Como se não bastasse estas re- custou 1,5 euros, foi de uma grande aju- estranha sensação de que lemos, lemos, cordações, lembrei-me do efeito amné- da. Um desses ensaios chama-se “Am- e pouco ou nada fica da leitura. Olho sico do rio Lethes e, como estava a al- nésia in Litteris”, os outros já me es- para trás, e, na grande maioria dos ca- moçar, associei-me a outro almoço (lem- queci. Neste ensaio, o autor relata a sua sos, não consigo recordar dos nomes dos bro-me, perfeitamente, de ter comido um experiência, a sua frustração sobre os autores, dos títulos dos livros, das cores ótimo arroz de pato!) em que tinha parti- esquecimentos, as trocas e as baldrocas das capas, dos seus conteúdos, de algu- cipado meses antes na cidade de Viana provocadas pela “falta de memória”. Fi- mas frases interessantes, chegando ao do Castelo. No hotel, situado lá no alto, e quei deliciado com a beleza, a franque- ponto de os confundir, de os trocar, en- cujo nome não me recordo, fiquei de boca za, o humor e a profundidade do autor. fim, uma terrível “amnésia”. Cheguei aberta perante a tapeçaria de Almada Ao mesmo tempo tranquilizou-me, porque, mesmo a pensar que se conseguisse “re- Negreiros a retratar a chegada das hos- afinal, também “sofro” do mesmo fenó- ter” apenas um por cento do que leio tes romanas à beira do rio Lima. Diz a meno ou “doença”. Suskind afirma que, seria uma vantagem do arco-da-velha. lenda que a paisagem era de tal modo quando lemos um livro, a nossa consciên- Ninguém tivesse pena de mim. Só que- deslumbrante ao ponto dos soldados se cia, ao impregnar-se dos seus conteúdos, ria um por cento, mas nem isso. A outra terem recusado a passar para a outra modifica-se de tal ordem que é incapaz tem a ver com técnicas de estimulação margem, porque julgavam estar perante de fazer uma auto crítica, ou seja, sepa- e de treino da memória, algumas prati- o famoso rio do esquecimento. À medi- rar-se dos efeitos, dos conteúdos, da be- cadas na escola primária, técnicas pri- da que ia lendo, fiz um esforço dos dia- leza, da alegria, da tristeza, de todas as márias que contrastam com técnicas bos para decorar o nome do comandan- vivências e pensamentos dos outros. Afi- Patrick Suskind mais sofisticadas, como a arte da mne- te. Na altura ainda consegui reter o nome nal somos o que somos e somos aquilo mónica desenvolvida desde a antiguida- mas, passados estes meses, já não con- que lemos, mesmo que nos esqueçamos ções, lá consegui recordar o nome da de. De repente, lembrei-me de duas obras sigo. Do Almada Negreiros lembro-me, dos seus conteúdos, dos seus autores, dos mais nova, mas quanto ao senhor não a este propósito: o livro “O homem que assim com da encantadora tapeçaria que títulos, das frases mais impressionantes, consegui. Sabia que tinha o nome cá den- sabia tudo”, cujo autor já não me lem- relata o episódio em que o comandante enfim, praticamente de tudo. tro, mas não o encontrava. Fiz esforços, bro, que retrata, de forma romanceada, atravessa o rio e, da outra margem, co- O mais certo é que daqui a algum tem- recordei-me de conversas, de certos a vida e a obra de Giovanni Pico Della meça a chamar os soldados um por um, po já não recordar o nome do ensaio de acontecimentos, de vivências e sei lá que Mirandola. Fiquei surpreendido com o através do seu nome, provando que não Suskind, de o trocar com outro autor, de mais, mas do nome nada. Onde pararia pensamento deste humanista, e seduzi- tinha ficado sem memória. Fui pesquisar não me lembrar desta pequena crónica, o raio do nome? Graças às tecnologias, do com a sua verdadeira memória de ele- o nome do comandante e disse: Ah! Pois! mas sinto-me mais confortável pelo fac- agarrei no telemóvel, liguei-me à inter- fante, que chegou a memorizar obras in- Agora já me lembro (depois de ler!) era to da minha consciência se ter modifica- net, coloquei palavras-chaves sobre o teiras, facto que lhe dava particular van- Décios Junos Brutos! do sem ter tido consciência de tal. senhor e passados uns segundos apare- tagem nos seus debates. A outra foi o Para terminar, quero agradecer ao Claro que nunca serei um, como é que ceu no écran o seu nome. Uff! Que sen- “Tratado de Magia”, de Giordano Bru- escritor alemão Patrick Suskind, o autor ele se chamava? Deixa-me cá ver já o sação de alívio! Já pude almoçar mais no (deste lembro-me perfeitamente), da célebre obra, que todos já ouviram escrevi aqui algures: Ah! claro, Décios tranquilamente. onde estão, também, descritas algumas falar, “O Perfume”, que, num pequeno Junos Brutos!
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    29 DE MAIODE 2009 SAÚDE 17 APELO DA DELEGAÇÃO CENTRO DA FUNDAÇÃO PORTUGUESA DE CARDIOLOGIA “Dê a mão ao coração” Decorreram na passada semana as “IX do este apoio possível sem o auxilio das en- Parece-nos, igualmente, que nada melhor, terapêutica farmacológica. Jornadas da Delegação Centro da Funda- tidades oficiais, parece-nos pertinente a nos- para dar a mão ao coração, do que co- Por entendermos que os Núcleos estão ção Portuguesa de Cardiologia e VI Reu- sa Abertura Solene meçar por saber como escolher o tipo de para as Delegações, como estas para a Fun- nião da Associação Portuguesa de Preven- Diz-nos a experiência que, numas Jorna- prevenção até porque de pequenino se tor- dação mãe, sempre com a ideia de que a ção e Reabilitação Cardiovascular das voltadas, principalmente, para o Médi- ce o pepino, como iremos ver nas quatro Fundação Portuguesa de Cardiologia é uma intervenções subordinadas a este tema em só, embora com os seus braços estendidos que é realçada a adaptação do coração da para o resto do país, resolvemos dar a pala- criança ao desporto. vra aos Núcleos, num espaço suficiente para E se o colesterol, mais do que um factor poderem informar-nos do que já fizeram e de risco, parece ser a causa da aterosclero- do que pretendem realizar, entregando a pre- se, será importante saber quais os objecti- sidência, a moderação e os comentários a vos a atingir, principalmente quando em pre- este Painel, a elementos com responsabili- sença de diabetes e dislipidemia. dade dentro da Instituição. Como é indiscutível que, contrariar a oci- A comunhão com a APRECOR levou- osidade, a má alimentação, o hábito de fu- nos, naturalmente, a ponderar como evitar mar e, duma maneira geral, o comportamento a morte súbita de causa coronária, enca- pouco saudável, é indispensável para dar rando os factores desencadeantes da doen- vida aos anos, daí a necessidade de educar ça coronária, a reperfusão coronária e o uso para não tratar. dos CDI na presença da MS, bem como os Como pretendemos, nestas Jornadas, desfibrilhadores automáticos externos, na sua seguir o “continuum” que é a vida humana, redução. resolvemos acompanhá-lo desde o diagnós- Preocupamo-nos, quase a terminar, com tico pré-natal das cardiopatias congénitas até a reabilitação cardíaca - programa multidis- à reabilitação cardíaca do velho; naturalmen- ciplinar, em que realçamos o interesse do te que, mesmo dois dias de trabalho, são um exercício e da componente psíquica, na re- tempo muito acanhado para tão longo per- abilitação cardíaca e os dados e experiên- curso. cia do Hospital Geral de Stº António. Na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, co de Família, os casos clínicos, quer de Na impossibilidade de arranjar espaço Finalizamos, o que ainda não é muito vul- no passado dia 21, durante a cerimónia inau- cuidados primários quer secundários, são gural deste evento, Polybio Serra e Silva, sempre um momento alto, permitindo, pela um dos Presidentes da iniciativa, deu a se- discussão que levantam, um indiscutível gan- guinte “Uma vista de olhos pelo Programa”, ho cientifico, não só para os Clínicos Gerais nos seguintes termos: como para os outros Especialistas, tendo, “Não obstante ser cada vez mais rara, este ano, um valor acrescido pelo facto de, em eventos deste tipo a Cerimónia Inaugu- neste evento, termos envolvido, como públi- ral, entendendo nós que a Promoção da co -alvo, também Enfermeiros, Especialis- Saúde deve ser da responsabilidade de cada tas e Internos de várias outras Especialida- um, muito embora com o apoio médico, no des e, até, alunos de Medicina e Enferma- tocante à prevenção da doença, e não sen- gem. APRESENTADA EM COIMBRA temporal para Comunicações livres, que po- gar mas virá a sê-lo num futuro próximo, deriam solucionar o problema, resolvemos Petição em favor privilegiar os Posters, se subordinados ao tema das Jornadas. A selecção dos 25 apre- com um caso clínico em directo, por tele- consulta em cardiologia, em que teremos oportunidade de, em tempo real, comentar sentados e a discussão dos 10 melhores irá, do Serviço Nacional não só permitir, naturalmente, complemen- tar os assuntos versados, como dar oportu- e discutir a patologia do coração de uma criança do Hospital Agostinho Neto de Cabo Verde. nidade à participação de mais oradores. de Saúde Pareceu-nos importante, também, prog- nosticar a doença cardiovascular global, re- Um Jantar surpresa , original, depois do encerramento deste Evento, será o ponto final destes dois dias de trabalho das IX Jor- cordando os aspectos da aterosclerose e nadas da Delegação Centro da Fundação A Liga dos Amigos dos Hospitais da Universidade de Coimbra (LAHUC) inflamação e das arritmias e insuficiência Portuguesa de Cardiologia e VI Reunião da apresentou a 15 de Maio um documento em defesa do Serviço Nacional de cardíaca, não deixando de chamar a aten- Associação Portuguesa de Prevenção e Re- Saúde numa conferência de imprensa em que também estiveram presentes ção para o facto de, muitas vezes, em ter- abilitação Cardiovascular, em que a alta cra- António Arnaut, que criou o SNS quando era Ministro dos Assuntos Sociais, mos de tratamento, se estabelecer uma certa veira dos Conferencistas é o garante do Es- e Dulce Mendes, viúva do Prof. Mário Mendes, então Secretário de Etado confusão entre suplementos alimentares e tado da Arte dos temas versados”. da Saúde e que teve uma participação muita activa na criação do SNS. O documento intitula-se “Declaração de Coimbra” e pode ser assinado em papel e na internet até ao próximo dia 15 de Setembro de 2009. Em papel encontra-se disponível na LAHUC e na internet pode ser assi- nada em: www.peticao.com.pt/declaracao-de-coimbra A petição começou a ser assinada em suporte papel pelos intervenientes na sessão. Mais informações em www.lahuc.com
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    www.apaginadomario.blogspot.com 18 A PÁGINA DO MÁRIO apaginadomario@gmail.com 29 DE MAIO DE 2009 te este número constitui um símbolo de Nenhum deles foi, pasme-se de novo, homem que pediu para ser preso. Já ti- perfeição, plenitude e unidade. Assim, a condenado por sentença transitada em nha feito a experiência e queria regres- bandeira mantém-se inalterada, indepen- julgado, e mesmo assim, pasme-se ainda sar. A polícia recusou. Inconformado, dentemente dos alargamentos da UE.» mais, tiraram consequências políticas de partiu os vidros da esquadra e acabou Se a afirmação de Ricardo Costa não alegações fundamentadas que os visa- detido. tem como base o desconhecimento, en- vam. Então e aquela coisa da “presun- Este caso lembra-me o profissional da Mário Martins tão a situação é mais grave. ção de inocência”? As democracias bel- política (que gosta de fingir ser outra coi- (publicado em 24 de Maio) ga e inglesa têm que comer muita papa sa) Manuel Alegre. Em voz trovejante, SUSAN BOYLE NA FINAL Maizena para chegarem aos calcanha- clama que se sente tolhido porque o PS já A escocesa de Blackburn festará na NÃO VI, PACIÊNCIA... res da nossa... não é de esquerda. Mas, tal como o ho- final do programa “Britains Got Talent”. Toca o telemóvel. (*) Manuel António Pina, mem que tudo faz para regressar à pri- No domingo, Susan Boyle cantou - Vê depressa a TVI! É cá uma “cena”! no “Jornal de Notícias” de hoje; são, Alegre não é capaz de sobreviver fora “Memories” e foi a primeira a ser apu- Rodei o botão e... estava mesmo a publicado em 21 de Maio do oxigénio do partido que fez dele gente rada, pelo voto dos telespectadores. terminar a entrevista de Manuela Mou- – quando parece ficar com um pé do lado Susan mostrou-se desta vez algo in- ra Guedes a António Marinho Pinto. ROTUNDA DA ESTRADA de fora, Alegre, afinal, está a tentar me- segura, talvez mesmo nervosa, mas ra- Vi para aí uns 20 segundos. DE EIRAS NA SIC ter-se ainda mais para dentro. Teatralida- pidamente se recompôs e, mais uma vez, Volta a tocar o telemóvel. A mais famosa (e mais alterada) ro- des à parte, Alegre está no bolso de Só- fez levantar o público. - Ó pá, nunca tinha acontecido nada tunda de Coimbra, a Rotunda da Estra- crates porque não é suficientemente ale- A grande final é no sábado, a partir disto nestes anos todos depois do “25 de da de Eiras, que eu elegi com a “Obra grista para as expectativas que procriou. das 20h00, no ITV1, canal disponível via Abril”. Foi cá uma coisa!... do ano 2008” na cidade, teve hoje hon- (*) Carlos Abreu Amorim, jurista; satélite nos 28,2 graus Este (frequência Tenho pena de não ter visto. ras de “directo” na SIC. publicado em 19 de Maio 10 758, vertical). Mas são 21h30 (quando escrevo es- Foi no programa “Nós por cá” e con- Tentarei não falhar. tas linhas) e estou a trabalhar desde as tou com depoimentos de diversos utiliza- JANTARES POLÍTICOS (publicado em 26 de Maio) 8h00. Há dias assim. dores da famosa rotunda. Um deputado socialista tenta explicar, (publicado em 22 de Maio) Engraçado, engraçado, foi ouvir um na SIC Notícias, que a nova lei de finan- A PROPAGANDA técnico da Câmara Municipal de Coim- ciamento dos partidos é um texto notá- E A REALIDADE SÓCRATES PELA PORTA bra a dizer que a autarquia está aberta a vel, que ajudará à transparência. Encontrei esta frase no “Twitter”: DAS TRASEIRAS novas alterações na rotunda (que já foi A politóloga que está presente no pro- «Choque tecnológico é anunciar bué de O primeiro-ministro foi hoje vaiado pelos alterada, pelo menos, quatro vezes!!!) e, grama não se mostra convencida e ar- banda super-larga quando para entregar alunos de uma escola de Artes em Lisboa. acima de tudo, justificar a construção gumenta com argúcia. o IRS a banda é super-lenta». No final da visita, Sócrates e comitiva com a instalação nas imediações do Ela poderia ter apresentado um Aqui ao lado, ao cima da página, o saíram pela porta das traseiras. INEM e de uma superfície comercial. exemplo como este: o partido promo- contador informa que o meu familiar está Começa a ser um hábito... Sempre me pareceu, aliás, que o “cul- ve uma festa de angariação de fun- à espera do cartão de contribuinte há 403 (publicado em 22 de Maio) pado” da construção da rotunda foi... o dos, com bilhete de entrada a 10 eu- dias!!! No país do Simplex. “Minipreço”. ros (inclui jantar de lombo de porco Ou seja: uma coisa são as palavras “O” LOPES (*) (publicado em 20 de Maio) assado, vinhos e café). No entanto, um dos políticos, outra coisa é a realidade. Há pormenores esclarecedores. Na promotor lá da terra, apenas por vai- (publicado em 26 de Maio) Quadratura do Círculo, António Costa FUTURO DOS JORNAIS dade pessoal (obviamente...), decide referiu-se ao procurador Lopes da Mota Acabei de ler esta frase no Twitter: pagar, em vez de 10 euros, 5.000 eu- SIC NA CAMPANHA - aquele nosso brilhante presidente do «Só não vê quem não quer: o futuro dos ros. É proibido? Não. DE RANGEL Eurojust - como “o” Lopes da Mota. O jornais impressos depende da imediata (De acordo com as palavras do depu- Ricardo Costa, director-geral adjunto artigo definido não constituiu lapso freu- adaptação aos novos parâmetros da in- tado socialista, creio que lhe deverá ser da SIC, acompanhou hoje a campanha diano. Mota foi secretário de Estado de formação.» entregue um “talão de caixa”). de Paulo Rangel (PSD) e disso acaba um governo de Guterres onde Costa tam- Concordo. No final, estará tudo certo: a verba do de dar conta no telejornal das 20h00. bém pontificava. A mulher de Mota é sua (publicado em 20 de Maio) promotor aparecerá diluída na receita do Espanto! Ricardo Costa acaba de afir- vereadora - imagine-se - da cultura, em jantar. (Ao mesmo tempo, alguns dos mar que uma bandeira da Europa com Lisboa, e dá pelo nome de Rosália Var- «EU PERCEBO QUE VOCÊ comensais poderão comer à borla, que a 12 estrelas está desactualizada, porque gas (Lopes da Mota). Grande Lopes. O ANDE ENJOADO...» coisa não se notará. E o “tipo das con- lhe faltam 15 estrelas. “nosso” Lopes. “O” Lopes. Dois excertos de (mais) um texto bri- tas” terá até a possibilidade de apresen- E terminou mais ou menos assim a (*) Sucinto e esclarecedor. lhante de João Miguel Tavares no “Diá- tar uma “contabilidade criativa”.) peça jornalística: Texto de João Gonçalves no “Portugal rio de Notícias”. PS - Cada vez mais me apetece sair «Tal como esta bandeira está desac- dos Pequeninos”; «Caro leitor: eu percebo que você ande daqui. Portugal está mesmo transforma- tualizada, também a campanha do PSD publicado em 22 de Maio enjoado. Eu próprio, semana após sema- do num sítio mal frequentado. está desactualizada...». na, sento-me em frente do computador (publicado em 14 de Maio) Nem queria acreditar! ACREDITE SE QUISER (*) para escrever mais um texto para esta Ricardo Costa tem a obrigação de Notícias surpreendentes lá de fora: o página e a mão está sempre a fugir-me PS ANDA A PINTAR PRÉDIOS saber que o número de estrelas da ban- primeiro-ministro belga, Yves Leterme, para Alcochete. Mas será que a culpa é «Pintaram os bairros, mas esquece- deira que identifica a Europa nada tem a propôs hoje (19/12/08) a demissão de minha? Por amor de Deus: depois daque- ram-se de vos dizer que o dinheiro é do ver com o número de países que fazem todo o Governo, na sequência de acusa- le tio, agora sai-nos um primo vestido de Estado, é do PS» parte da União Europeia. ções de alegadas (alegadas, imagine-se!) Bruce Lee, a treinar artes marciais no (Elisa Ferreira, durante visita a um A bandeira não está desactualizada. pressões sobre a justiça. Leterme nega templo de Shaolin e a chamar pelo nome bairro social, no “Jornal de Notícias”) Aquela é que é a bandeira – e ponto fi- qualquer pressão sobre o poder judiciá- de Wu Guo, “o guerreiro profundo”? So- Informo a senhora eurodeputada que nal. rio e apenas admite ter feito “contactos”; bre o que é que querem que eu escreva, o meu prédio, já “velho” de 15 anos, está Mas se Ricardo Costa não sabe, bas- Michael Martin, presidente da Câmara se nem a família Adams é tão divertida?» a precisar de pintura. Se o PS ainda ti- ta ir ao “site” da Europa. dos Comuns, anunciou hoje (19/05/09) a «Lamento muito, mas o caso Freeport ver dinheiro disponível, a rapaziada do O que lá está escrito é esclarecedor: demissão, após acusações de alegada- transformou-se numa tragicomédia na- condomínio agradece. «Esta é a bandeira da Europa, símbolo mente (alegadamente, pasme-se) ter cional, que põe ao léu uma República (publicado em 10 de Maio) não só da União Europeia, mas também consentido alegados (só alegados) abu- grotesca, sem princípios, sem carácter e da unidade e da identidade da Europa em sos nas despesas de representação de completamente disfuncional. Sobre o que SEGUE-SE O PADRE sentido mais lato. O círculo de estrelas alguns deputados; dois membros da Câ- hei-de eu escrever, se a vergonha já se KROHN... douradas representa a solidariedade e a mara dos Lordes foram hoje (20/05/09) estende desde aqui até à China» O turco que tentou assassinar o Papa harmonia entre os povos da Europa. O suspensos (suspensos, a democracia in- (publicado em 19 de Maio) há 28 anos pediu a nacionalidade portu- número de estrelas não tem nada a ver glesa está maluca!) por alegadamente guesa. com o número de estados-membros. As (outra vez só alegadamente) terem acei- POLÍTICA SEM POESIA (*) Só falta o pedido do padre Krohn. estrelas são doze porque tradicionalmen- tado dinheiro para votar projectos de lei. Este fim-de-semana li a notícia de um (publicado em 14 de Maio)
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    29 DE MAIODE 2009 MÚSICA 19 o artista decida abraçar todos os presen- Distorções tes, como fez o Tricky e eu tive o privilé- gio de ser um dos presentes. Por fim, resta destacar a presença portuguesa neste evento com os Clã, Rita Redshoes, David Fonseca e The Legen- dary Tigerman, mas o último foi quem mais se destacou. Se tudo correr bem o próximo passo José Miguel Nora será o Festival de Coachella, que se rea- josemiguelnora@gmail.com liza em Indio, em pleno deserto da Cali- fornia, aí sim um festival num formato No passado mês de Março, concreti- mais típico de festival de verão e que ri- zei o desejo de ir ao “South By Sou- valiza com o festival dinamarquês de thwest”, para quem não saiba este Roskilde o rótulo de maior festival do evento tem lugar em Austin, no estado mundo. do Texas e contempla três fases: uma Para o fim, a sugestão do disco do mês ligada ao cinema, outra à interactividade que desta vez recai sobre “Wolfgang Ama- e a música – que foi a parte a que assis- deus Phoenix” dos gauleses Phoenix. ti. É um festival diferente daquilo que estamos habitudados a ver num festival Zé Pedro, Tricky e José Miguel Nora no “South By Southwest” de música, não há grandes palcos, nem grandes áreas e em nada tem a ver com jogo de consola “Guitar Hero Metallica”), vivida em Austin durante este festival e um Rock In Rio ou um Sudoeste. O Echo & The Bunnymen, Devo e os Pri- que tem um pouco do que se por cá se SXSW é um festival itinerante a ter lugar mal Scream. A tudo isto juntam-se muitas passa numa Queima das Fitas, com gen- em espaços existentes na cidade, quer festas em que há concertos, bebidas grá- te na rua a conversar de copo na mão, sejam bares, tendas, parques de estacio- tis e dj-sets, eu fui assíduo na “Fader Fort” mas com o atractivo adicional de que por namento, ou, mesmo, igrejas – onde os patrocinada pela Levi´s. ali se passeam algumas da maiores es- Clã actuaram. Em apenas 5 dias de festi- Por entre tudo o que vi, não poderia trelas da música actual. Por exemplo, no val há cerca de 1800 concertos. As no- deixar de destacar quatro nomes: os bra- dia em que fui ver a actuação dos The vas tendências da música são o prato for- sileiros The Twelves, Tricky, Primal Warlocks, vi o vocalista da banda, Bo- Rita Redshoes e David Fonseca te deste evento, que é uma grande atrac- Scream, White Lies (sobre quem vos bby Hecksher, numa “roulote” de cachor- ção quer para editoras, quer para promo- escrevi na última edição). De tudo o que ros e ainda me cruzei com Jarvis Co- PARA SABER MAIS: tores ou, simplesmente, curiosos. Mas não queria ver só o actual líder do top´s das cker dos Pulp. deixa de haver alguns nomes mais sonan- pistas de dança, Calvin Harris, faltou à Como os concertos decorrem em es- http://www.sxsw.com/ tes, como seja o caso dos: Metallica (que chamada. paços mais reduzidos, dada a atmosfera Phoenix - “Wolfgang Amadeus actuaram integrados no lançamento do Para terem uma ideia da atmosfera mais intimista, leva a que, por exemplo, Phoenix” (Ghettoblaster) ESPECTÁCULOS SEMANAIS ATÉ SETEMBRO “Noites da Canção de Coimbra 2009” Inicia-se amanã (sábado, dia 30), no Café Santa Cruz, o ciclo “Noites da Canção de Coimbra 2009”, com a PROGRAMA PARA JUNHO primeira actuação a cargo do Quarteto de Guitarras de Coimbra Æminium, a partir das 21h30. Para o próximo mês de Junho, o programa é o se- Trata-se de uma iniciativa do Departamento de Cul- guinte: tura do Município de Coimbra, que desde 2002 tem vin- Dia 2 (terça-feira), no Café Santa Cruz – Grupo do a promover as Noites da Canção de Coimbra “para de Fado Æminium divulgar a Canção Tradicional Urbana (popular e aca- démica), de influências regionais e locais, cuja expres- Dia 6 (sábado), na Galeria Almedina – Grupo Alma são mais genuína é a Serenata de rua” – como refere o Mater Vereador da Cultura, Mário Nunes. Dia 9 (terça-feira), na Galeria Almedina – Grupo A desenvolver entre os meses de Maio a Setembro, Velha Cabra em algumas terças-feiras e alguns sábados, as actua- ções incluídas neste projecto iniciam-se sempre às Dia 13 (sábado), no Pátio da Inquisição – Grupo 21h30, “promovendo vários grupos de Fado que inte- Coimbra de Sempre gram a nova geração e que, assim, têm oportunidade de divulgar um repertório exclusivamente de raiz coim- Dia 16 (terça-feira), no Adro da Igreja de Santa brã, através de uma linguagem musical que tem levado Cruz – Grupos Minerva e Verdes Anos o nome da Cidade aos quatro cantos do mundo”. Dia 20 (sábado), nas escadas do Quebra-Costas – São, nesta edição, dezasseis os grupos participantes, de Santo António dos Olivais e as Escadas de S. Tiago. Grupo Torre d’Anto numa iniciativa que, há muito, ultrapassou as fronteiras Como sublinha o vereador, “trata-se de um projecto da Galeria Almedina (local que, originalmente, acolhia que se socorre da beleza e do enquadramento arqui- Dia 23 (terça-feira), na Rua D. João III (ou as, inicialmente designadas “Noites de Fado de Coim- tectónico e patrimonial dos espaços onde decorrem os Centro Comercial Dolce Vita) – Grupo Canção bra”), percorrendo, assim, outros espaços da cidade, espectáculos, até porque as ‘Noites da Canção de Co- de Coimbra como sejam: além da referida Galeria Almedina, o Café imbra’ se dirigem, maioritariamente, aos turistas que Dia 27 (sábado), noTerreiro de Santa Clara-a- Santa Cruz, o Pátio da Inquisição, o Adro da Igreja de visitam a cidade nesta época”. Nova – Grupo Etnográfico do Brinca e Grupo Santa Cruz, o Quebra-Costas, a Rua D. João III (ou o Além dos grupos de Fado participam, ainda, dois gru- Alma Mater Dolce Vita, nos casos em que as condições atmosféri- pos de etnografia e folclore – Grupo Etnográfico do Brinca, Eiras e o Grupo Folclórico da Casa do Pessoal Dia 30 (terça-feira), noPátio da Inquisição – Gru- cas não permitam aos grupos actuar no exterior), o da Universidade de Coimbra. pos Minerva e Verdes Anos Terreiro de Santa Clara-a-Nova, a escadaria da Igreja
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    20 OPINIÃO 29 DE MAIO DE 2009 jectou sobre nós toda a sua força. Por isso, quando ontem nas Escadas Monumentais apreciei, com nostalgia e esperança, uma reconstituição simbóli- ca de episódios da crise universitária de Coimbra de 1969, deparei com as ima- gens que vos mostro. Eis uma reivindi- Rui Namorado cação de há quarenta anos, que o Minis- (professor universitário) tro M. Gago conseguiu tornar actual. http://ograndezoo.blogspot.com PONTO DE VISTA A UNIVERSIDADE EM OBRAS Por um inusitado impulso do seu pen- samento enquanto dormia, o sábio, sem Por uma infeliz conjunção de circuns- que disso se apercebesse, foi arrasta- tâncias, do para uma caverna onde a luz não - talvez encandeado por um exces- entrava. so de confiança no seu próprio brilhan- De manhã, ao acordar, com a sua pro- tismo, verbial lucidez e aguda inteligência, com - ou demasiado absorvido pela som- objectividade e realismo, afirmou: “Hoje, bra simplificadora do seu Técnico, o sol não nasceu”. - ou demasiado marcado pelo impera- No entanto, inesperadamente, cá fora, tivo dos cortes orçamentais, pela infeliz circunstância de o terem fei- Universidades até limites tão modestos, a manhã percorria com frescura o seu - talvez demasiado apressado na de- to emigrar para o inóspito ónus da tutela que teriam sido admissíveis para um caminho. glutição acrítica das alegadas iguarias das Universidades, marcelismo que tivesse sobrevivido, mas Moralidade: se o teu pensamen- bolonhesas, o ministro M. Gago fez regredir a par- em que ninguém teria sequer pensado to estiver dentro de um buraco, os - ou, quem sabe, apenas entediado, ticipação dos estudantes na vida das durante os anos em que Abril ainda pro- teus olhos nada verão. OPINIÃO J.A. Alves Ambrósio Angola em Saragoça (à guisa de balanço) espetadas na ponta de estacas que se le- Paris no “Le Fígaro”). natureza das coisas. A força que as liga- A visita ao pavilhão de Angola em Sara- vantavam bem alto perante os nativos. Su- A Europa revelou uma profunda incom- ções económicas, comerciais, industriais, fi- goça foi, portanto, uma experiência. Uma cede é que estes conseguiram o seu objecti- preensão pelo que se passara entre 1914 - nanceiras, afectivas... possuem deve ser tida daquelas experiências que percute, fica gra- vo, a independência, porque, desde os preli- 1918 e estatelou-se de novo, ignominiosa- muito bem em conta; e uma comunidade vada no mais fundo da consciência, é ponto minares, transferiram a resolução do proble- mente, entre 39 e 45 (o que se tem passado baseada em laços de sangue não carece de de partida para todo o ser interior: emoção, ma para o Sagrado. E, perante o Sagrado, de então para cá mostra que, aos europeus, invenção – é vigorosa de séculos. memória, sentimento, intelecção, prognose... nenhuma vitória é possível, tudo soçobra. não foi fácil aprenderem a lição – mas apren- Passados os conturbados tempos do pós É a minha boa estrela, altaneira, a lembrar a Nunca cheguei a saber quem era o pro- deram algo de muito substancial). Muito para 25 de Abril é hoje o momento de, v.g., cons- sua privilegiada, indomável, existência. prietário da Maria da Luz, mas, em Ango- além de terem logrado o maior período de tituir uma associação de amizade Portugal- Numa das primeiras operações que me la, os nossos compatriotas deixaram uma paz da História europeia, o que é verdadei- Angola. Serei o primeiro a fazer parte dela. foi destinada, mal acabado de instalar-me realização absolutamente soberba. Aquela ramente emocionante para mim é que, nes- Angola sempre integrou a minha ontolo- na ZIN era para eles, uma terra de “sonho” – e o te momento, um batalhão alemão, em tem- gia desde que lá desembarquei em Setem- (Zona de Intervenção Norte), o objecti- sonho apenas pede que o realizem. po de paz, esteja aquartelado em solo fran- bro de 1963 e a visita a Saragoça fez explo- vo era “reconhecer” a zona da Fazenda Naquele território sentiam que poderiam cês. Soberbo além de todas as palavras – dir esse potencial, entre-mentes em letar- Maria da Luz, área entre a estrada Luan- ser tudo quanto o quisessem. Liberto das tanto mais que as idiossincrasias dos dois gia. Hoje dou-me conta da quantidade de da, Caxito, Carmona (Uíge) e o rio Úcua. Iimitações de uma metrópole, acanhada e países nada, digamos, têm que ver uma com obras que sobre Angola se publicam – ven- O nível sócio-cultural do emigrante portu- sonolenta, sem letras ou títulos com os quais, a outra. dem. Algumas pouco mais são que fotos a guês para aquelas paragens era, na genera- de algum modo pudesse triunfar, o colono Assim como os europeus caminham de recordar – prestando em qualquer dos ca- lidade, baixo (no Pango Aluquém um médi- vivia agora noutro mundo mãos dadas e cada vez mais terão de fazê- sos um serviço notável –, outras romancei- co com vagar para ler sobre agronomia de e aquela era a “sua terra”. lo lúcida e energicamente, assim também am. Uma universidade que, na área do Hu- café conseguia, como “passatempo”, tripli- Todavia, em Luanda, encontrei uma boa os nossos dois países. manismo, tem carências gritantes devia pôr car ou quadriplicar a produção de “ouro livraria, a Lello. Outra faceta da existência É por isso que tanto tenho insistido na aqui os seus olhos. A Imprensa, quotidiana- negro”, relativamente ao colono indiferen- do branco era, porém, hedionda: vivia como superação do ressentimento por parte de mente, menciona ligações e outros aspec- ciado). Mas a Maria da Luz foi uma emo- se apenas a sua comunidade existisse. O Angola e no carinho pelo património aí dei- tos da realidade; e que um visto para Ango- ção tão forte que, não raro, a revejo – e não negro era uma coisa, res nullius – excepto xado, a fortiori património artístico é espiri- la demore tanto tempo a obter mostra bem porque esse muito belo nome era também o para o trabalho, no qual era atrozmente ex- tual. Não ter muçulmanos é uma bênção a que nível de afecto e grandeza devem ser da minha “madrinha de guerra”, uma aris- plorado. para Angola, porque se sabe, pelo menos as relações. tocrata das mais antigas famílias nobres de As posições antagónicas e irredutíveis desde o século XVI, o que são confrontos O leitor que faz o obséquio de ler-me, Portugal, de uma elegância conduziram ao que todos sabem – mas agora religiosos. que é pessoa inteligente e se sente insepa- (interior e exterior, claro), inteligência, iro- estamos já no pós-guerra. E o pós-guerra Mas se Angola não deve ter ressentimen- rável da sua comunidade, já reflectiu bem nia, presença... admiráveis. só pode ser um tempo de amor. Antes da tos, os portugueses que agora para lá se di- nisso? Já lhe mediu o alcance? Não quer Breve: a Maria da Luz foi para mim a eclosão da primeira conflagração mundial, rigem a fazer negócio devem ter muito bem juntar-se a mim e a outras pessoas de in- identidade da guerra, uma dor d’alma que em 1914, ir para a guerra era... uma alegria. presente a consideração devida a quem questionável dignidade e responsabilidade, se sente in locco não passível de ser apre- Do lado francês havia quem considerasse matou a fome a tanto compatriota e o que a fim de avançarmos para uma concreção endida por jornais, livros ou qualquer outro que ia para umas férias – as primeiras da aquela abençoada terra representou/a para de grandeza, de fraternidade? meio. Guerra vida. Do lado alemão foram numerosos os Portugal. Sentimentos de trafulhice e displi- A perenidade das pátrias custa apenas a é guerra, dizem os que por ela passaram. artistas que pereceram no conflito – e essa cência são absolutamente inadmissíveis e nossa dignidade, a nossa elevação. Vamos As construções da fazenda estavam todas sensação de incómodo é, agora, bem forte Angola não deve tolerá-los. fundar a Associação de Amizade Portugal- esventradas. no museu Franz Marc, em Kochel-am-See Uma vigorosa comunidade de sentimen- Angola? Seremos os primeiros com a gran- À horrenda chacina dos nossos compa- ali mesmo no sul da Baviera. Em Itália, em tos está já constituída e isso – precisamente deza da nossa tranquilidade, e a tranquilida- triotas, após Fevereiro de 1961, seguiram- Fevereiro de 1909, no “Manifesto Futuris- – deve ser ponto de partida para um apro- de da nossa grandeza. se represálias que nada lhe ficaram a dever, ta”, Marinetti apresenta a guerra como uma fundamento cada vez maior. Os nossos dois países e nós bem mere- com cabeças cortadas e, posteriormente, higiene (o “Manifesto” seria publicado em Tudo o que não seja assim é contra a cemos isso.
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    29 DE MAIODE 2009 OPINIÃO 21 Fome de política em “bunker’s”, super equipados, auto no concreto sentido da solução dos mag- flectissem sobre as reformas que, por Renato Ávila suficientes, assépticos, soturnos e inex- nos problemas que nos afligem. incapacidade ou por táctica omissão, pugnáveis. As oratórias, prodigamente semeadas deixaram de fazer? Há fome de política. Nenhum raio de sol nelas entrará para por tudo o quanto soa a auditório, têm-se Esta crise em que estamos mergulha- Em muitas gargantas as palavras quei- as iluminar, aquecer, humanizar. resumido a um farto e insensato deitar dos, mais do que económica, é, na sua mam como brasas, em muitos corações Em alienado e alienante paroxismo, ex- abaixo sem a séria contrapartida de qual- essência, uma crise de valores. Vemo-la os sentimentos fervem em cachão. primem-se enviesados argumentos, for- quer alternativa de reconstrução. aflorar clamorosamente na vacuidade e Tanto que foi calado, acumulado nes- çam-se deslocadas contradições, inven- Será que as candidaturas em presen- demagogia do discurso, no veneno e na tes anos mornos de defeso eleitoral, de tam-se soluções já inventadas, ideias já ça ainda não se aperceberam do lasti- ligeireza irresponsável dos constantes li- pasmadas e pasmantes pasmaceiras par- concebidas, disparates já denunciados, mável estado do poder? Do poder judi- belos acusatórios, nas subserviências e lamentares, de desencontradas e empo- numa despiqueirosa azáfama cada vez cial, do poder legislativo, do poder re- arrogâncias, na incoerência e facciosis- ladas façanhas, de burlescos e intrigan- mais pobre, cada vez mais entrincheirada. gulador e fiscalizador do estado, do po- mo das análises da generalidade dos pro- tes episódios de arrufos e falcatruas, de A criatividade não mora, certamente, der da sua autoridade quanto ao cum- tagonistas. gritantes inépcias e escandalosas injusti- por aqui. primento da lei e à promoção da segu- Esta espécie de política soa a falso ças e subserviências. E o poder, alucinado e tonto de tanto rança dos cidadãos? quando se baseia numa estéril dialéctica E a crise foi alastrando qual gota de chavão, de tanto baldão, surge-nos en- Será que, ao esgrimirem argumentos e acusatória. Perante os olhos dos cida- óleo em cartão, empurrando para a boca fezado e triste qual Cristo na mão dos condenações, estão na plena consciência dãos perpassa, isso sim, um sôfrego e o verbo e as emoções. algozes. das reais disponibilidades económicas do obsceno apetite de poder. Seria mister que se tratasse da Euro- Vem daí o grande dilema dos cidadãos. país para cumprir anseios e honrar pro- Estamos todos com muita fome: de pa. Todavia, algo de mais forte, de mais Depositar-lho-ão nas mãos à mesa do messas demagogicamente empolados? justiça, de segurança, de seriedade, de apelativo há muito que se desenhava nas voto e, angustiados, não saberão a quem Será que nestes quatro anos de Go- responsabilidade. mentes. – as atribulações da ilustre e entrega-lo se todos lhe deram tratos de polé. verno nada houve de aproveitável na Delas resulta, inevitavelmente, uma sempre indigente casa lusitana. A política está na rua à conquista do educação, na saúde, na protecção so- imensa fome de política. Não dessa polí- A política está na rua. Palpitante. Trepi- voto supostamente legimitador do poder cial, na modernização dos serviços e tica mesquinha niilista e arrasadora feita dante. A censurar. A exorcizar os males que dito democrático. das infraestruturas…? por gente pequenina, mas duma política a nos apoquentam. A condenar, ad limine, os Ninguém ainda disse e, pelos vistos, dirá Será que a crise que enfrentamos só sério – positiva, agregadora, construtiva, seus supostos e forjados responsáveis. jamais, com a necessária consistência e encontra culpados naqueles que exercem motivadora, feita por gente grande dispos- A culpa será sempre do outro, por isso clareza, o que com ele pretende fazer. actualmente o poder executivo? Não ta, sobretudo, a servir o país e a grei. mesmo morrerá solteira. Ninguém ainda clarificou qualquer pro- seria muito mais justo que todos quantos Os portugueses merecem-na. Exi- As consciências transformaram-se jecto coerente minimamente sustentado o usaram nestes trinta e quatro anos, re- gem-na. FILATELICAMENTE 1940 POIS... – Legião João Paulo Simões Portuguesa José d’Encarnação Milícia criada pelo Estado Novo em 1936, tinha por objectivo “organizar a resistência Teresa foi uma das minhas alunas mais dis- moral da Nação e cooperar na sua defesa tintas. Chegámos a pôr a hipótese de ela se- contra os inimigos da pátria e da ordem so- guir a carreira universitária, que para isso ti- cial”, devendo, para isso, “repudiar e com- nha méritos de sobejo. Ficou-se, afinal, pelo bater, em todos os campos, as doutrinas sub- Ensino Secundário, onde é docente de raro versivas, nomeadamente o comunismo e o mérito, muito querida por todos os seus estu- anarquismo”. Foi criada e sustentada pelo dantes. governo de Salazar e dirigida por uma Jun- Em jeito de provocação, enviei-lhe a ane- ta Central , directamente nomeada pelo Mi- dota que certamente os nossos leitores já re- nistro do Interior. ceberam: preparava-se o piquenique e havia Não era obrigatório pertencer-se à Le- enorme quantidade de sacos com um produto gião Portuguesa. Era voluntário. Mas um esbranquiçado dentro... É que o responsável voluntário quase obrigatório, pois quem não escrevera no papel que comprassem, para o passasse por ela, tinha dificuldades em ar- churrasco, “1ô2 sacos de cal”. E ali esta- ranjar empregos sobretudo no Funcionalis- vam… 102 sacos de cal! Esquecera-se da mo Público. cedilha, justificou ele: o que queria escrever Durante o período salazarista e do Esta- O bloco aqui apresentado, faz parte da série de era… çal! do Novo, foram muito estreitas as relações oito valores desenhados por António Lima e grava- E a Teresa retorquiu-me: entre a Legião Portuguesa e a polícia polí- dos por Gujstavo de Almeida Araújo. Impressos na «O grave...é que isto começa a ser mais tica. Uma maneira de vigiar o Povo e con- Imprensa Nacional Casa da Moeda em folhas de 100 que anedota. É o real!!! Em Agosto vou ten- trolá-lo. Foi extinta com a Revolução de selos, circularam de 27 de Janeiro a 19 de Abril de tar ver se consigo reforma antecipada. Já não Abril de 1974. 1940 e o bloco até Setembro de 1945. aguento mais!!! […] O clima está insuportá- O objectivo era fazer propaganda à Legião Portu- vel. Indescritível... Quem é digno e (Baseado na Nova Enciclopédia guesa e também à Mocidade Portuguesa, por inicia- pode......sai. Tivesse eu uns anitos a menos..... Larousse, volume 14 de 2002 tiva dos CTT. Mas a palavra “Mocidade” foi rejeita- e saía para bem longe, não me perguntes para editada pelo Círculo de Leitores) da do selo, ficando só “Legião”. onde.... que também não sei.»
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    22 REPORTAGEM 29 DE MAIO DE 2009 PROJECTO DESENVOLVIDO NO INSTITUTO SUPERIOR MIGUEL TORGA “DIÁRIO XII” de Miguel Torga em versão integral para telemóvel ou Messenger São 27.882 palavras, 114.796 caracteres que comunicação escrita entre os mais jovens. Es- pretendem provocar a discussão em torno do creve-se mais, mas escreve-se pior? tremoz, Bofinho (Alvaiázere), Gerês, Falperra, PROJECTO COMPOSTO futuro da Língua Portuguesa, numa época em “(…) Aquilo que vira do avesso a forma de Albufeira, Alte, Monterrey (Verin), Serraquinhos, POR QUATRO BLOGS que os jovens escrevem cada vez mais, mas tal- expressão tradicional é a legitimação da fala pro- Pulo do Lobo (Serpa), Vila Real, Bragança, Mi- vez estejam a escrever cada vez pior jectada na escrita. A escrita (tradicional) é um randa do Douro, Sítio da Nazaré, Castro Labo- Ao blog continente da versão integral do trabalho miudinho, requer tempo para a ponde- reiro, Barragem de Vilarinho da Furna, Sagres, “Diário XII” em “linguagem SMS”, juntam-se O “Diário XII”, de Miguel Torga, foi integral- ração sobre o material linguístico a seleccionar, Borba, Juromenha, Portalegre, Elvas, La Alberca outros três. Em http://torgaemsms.blogspot.com mente convertido para “linguagem SMS”. A ordenação frásica, estabelecimento de elos en- (Espanha), Mesio, S. Leonardo da Galafura, Por- disponibilizam-se dezenas de notícias sobre o “proeza” tem a autoria de duas alunas da Licen- tre tópicos, a que se vem juntar uma competên- to, Bruxelas, Bruges e Londres. tema, do mixuguês à taquigrafia, dos etnolets às ciatura em Comunicação Social do O Diário XII começa e termina em Instituto Superior Miguel Torga Coimbra, cidade que regista o maior (ISMT), de Coimbra.~ número de entradas (122), o que equi- Micaela Andreia Neves e Márcia vale a 48,6% do total. Segue-se a terra Arzileiro, entretanto já licenciadas, não natal do escritor, com 20 entradas chegaram a converter a totalidade da (8%). Albufeira, com 11, e Gerês, com obra, tendo a parte sobrante sido en- 10 entradas, são os restantes sítios tregue a duas jovens de 14 anos, com entradas na casa das dezenas. Mariana Alves e Laura Sobral, ao tem- Vêm depois Chaves e Luanda, com 5; po frequentando o 8.º ano da Escola Bruxelas e Carvoeiro, com 4; Lisboa, EB 2 3 Eugénio de Castro. Londres, Sá da Bandeira (actual Huí- A conversão foi efectuada da 3.ª la, Angola) e Sto. António do Zaire edição revista do Diário XII, compos- (actual Soyo, Angola), registam três Micaela Neves, Márcia Arzileiro, Mariana Alves e Laura Sobral entradas cada. Com duas encontra- to e impresso nas oficinas da Gráfica de Coimbra em Julho de 1986. O Diá- mos Aveiro, Coja (Arganil), Estremoz, rio XII, com 204 páginas, inclui 251 entradas, de cia gráfica muito regrada (disposição de linhas, palavras em vias de extinção. Gorongosa (Moçambique), Ilha de Moçambi- 17 de Maio de 1973 a 22 de Junho de 1977. 46 marcação de parágrafos, pontuação, etc). Mas o que, Lourenço Marques (actual Maputo, Mo- Este blog agrega ainda mais de uma dezena dessas entradas são constituídas por poemas. que temos no chat e no e-mail informal é o uso de vídeos reportando o tema. Isto para além da çambique), Moçâmedes (actual Namibe, Ango- A versão em sms compreende 27.882 pala- oral da língua que, em vez de ter suporte áudio, divulgação de sítios cuja consulta se recomen- la), Torrão, Verin (Espanha) e Vila Real. vras, 114.796 caracteres (sem espaços), encon- tem suporte gráfico. Daqui resulta um texto cheio da, do incontornável Ciberdúvidas da Língua Uma entrada apenas para as seguintes loca- trando-se disponível, na íntegra, em http:// de hesitações, repetições, incongruências, sus- Portuguesa (http://ciberduvidas.sapo.pt/) aos lidades/sítios: Alte, Barragem de Vilarinho da diarioxii.blogspot.com pensões, enriquecido com a indicação do esta- programas “Cuidado com a Língua! (RTP), e Furna, Beira (Moçambique), Bofinho (Alvaiáze- A decisão de avançar com o projecto radicou do de espírito e do semblante dos interlocuto- “Páginas de Português” (Antena 2). re), Borba, Boticas, Bragança, Bruges (Bélgica), na detecção, cada vez mais frequente, de incor- res, através do constante recurso aos smileys [:- Cabora Bassa (Moçambique), Carrazedo do Al- Outros 38 vídeos surgem publicados no blog recções em textos escritos pelos alunos, erros ) :-( ]e às onomatopeias (“chuacsss”, “grrrr”, “to- “Diário XII”, agregando-se aqui praticamente vão, Castro Laboreiro, Cela (Angola), Curral de que muitos dos jovens atribuem aos hábitos da ing”), por exemplo.” – sublinha Ana Martins, todos os vídeos sobre o escritor disponíveis na Vacas (Chaves), Elvas, Évora, Falperra, Figueira escrita compulsiva de mensagens via telemóvel, doutorada em Linguística Portuguesa pela Fa- web, em páginas diversas. 20 desses vídeos re- da Foz, Folgozinho (Serra da Estrela), Jurome- Messenger ou outros programas similares, como culdade de Letras da Universidade do Porto, portam à iniciativa “Café Entre Torgas”, coorde- nha, La Alberca (Espanha), Lobito (Angola), o Twitter. investigadora do Centro de Linguística daquela nada por Sansão Coelho numa parceria entre o Mesio, Miranda do Douro, Monterrey (Verin, Problema que vai ganhando contornos alar- instituição de ensino. Espanha), Nova Lisboa (actual Huambo, Ango- Instituto Superior Miguel Torga e a Câmara mantes e que é transversal aos vários ciclos de la), Pala Pinta (Carlão), Portalegre, Porto, Pulo do Municipal de Miranda do Corvo. Entre os vári- ensino. Com efeito, são cada vez mais os docen- PROFESSORES QUEIXAM-SE Lobo (Serpa), S. Leonardo da Galafura, Sagres, os testemunhos divulgados nesses vídeos, re- tes que se queixam das dificuldades sentidas na DOS ERROS RESULTANTES Serraquinhos, Sítio da Nazaré, Sousel e Tete alce para a comunicação do Padre Dr. Valentim decifração dos textos escritos pelos alunos. DA “NOVA GRAFIA” (Moçambique). Marques, editor de grande parte da obra de Mi- O problema não é, naturalmente, exclusivo De registar ainda três textos escritos no avião guel Torga e seu amigo pessoal. Valentim Mar- de Portugal, com alertas surgindo mundo fora. “O problema não são as abreviaturas” – con- ques acompanhou Miguel Torga na viagem a – “a voar para Luanda”, “a voar para Moçambi- Ao mesmo tempo, já há quem, como Phil Marso, sidera Carmen Gouveia. “Não me choca nada Angola e Moçambique, périplo que o poeta de- que”, “a voar para Lisboa”. Miguel Torga selec- pretenda transformar a “linguagem SMS” em colocar “mm” por “mesmo”, “mto” por “muito”, talha no “Diário XII” (18 de Maio a 12 de Junho cionou, para a décima segunda edição do seu género literário. Isto enquanto se multiplicam as ou “bjs” por “beijos”... O que “assusta” são as de 1973). diário 16 textos escritos em Angola, 9 em Mo- experiências de conversão de clássicos. Um jo- alterações estranhas e não lógicas a estas abre- çambique, cinco na Bélgica, três em Inglaterra e vem brasileiro decidiu publicar as “Memórias viaturas, como “ke” ou “k” por “que” (qual é a BLOG “SÍTIOS” GEOREFERENCIA outros três em Espanha. Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de As- diferença de usar “q” na mesma situação?) ou (o O ITINERÁRIO DO ESCRITOR A maior parte dos textos seleccionados por sis, em “ddonês”. Em 2005 o serviço de telemó- que é pior) por “c” (“kasa” em vez de “casa”!!!), Miguel Torga para o Diário XII foram escritos veis dot.mobile anunciava ter procedido à tra- totalmente ridículas e que deturpam a língua como aos sábados e às quartas-feiras (42 entradas para Por seu turno, o blog “Sítios” (http:// dução para linguagem SMS das principais obras “xe” por “se” ou “ixo” por “isso”... Já para não mapastorga.blogspot.com/) georeferencia o iti- cada um destes dias da semana). As sextas-fei- da literatura britânica. Projecto que contou com falar que o k nem sequer faz parte do alfabeto nerário do escritor na edição XII do seu “Diá- ras registam o menor número de textos (29). Quan- a colaboração de John Sutherland (University usado em Portugal (salvo para nomes estrangei- rio”. São ao todo 62 mapas e fotos, publicação to aos restantes dias da semana, temos as se- College London). O académico considerou o ros, claro, como Kant e kantiano, etc)” – acres- com recurso ao “Google Maps”. gundas-feiras com 30 textos, as terças com 34, projecto como “uma forma de ajudar os estu- centa a linguista e docente na Universidade de as quintas com 41 e os domingos com 33. Miguel Torga indicava sempre o local onde dantes do Reino Unido a rever a matéria para os Coimbra. escrevia os textos seleccionados para o diário. exames”. “O problema”, conclui a investigadora, “é que Eis a lista dessas localidades por ordem de in- COMENTÁRIOS DE ESPECIALISTAS Há outros casos, em Itália, no Japão, na Ín- vários professores já se queixam (e com razão) clusão no livro (para cada localidade indicamos dia. de que os alunos começam a dar erros de tal apenas a primeira entrada): Coimbra, Luanda Por último, referência para o blog “TORGA modo estão ‘viciados’ nessa ‘nova grafia”. (Angola), Cela (Angola), Santo António do Zai- EM SMS – OPINIÕES QUE CONTAM” (http:// JOVENS PREFEREM SMS torgaemsms2.blogspot.com/). A coordenação do O Projecto “TORGA EM SMS”, coordenado re (Angola), Lobito (Angola), Moçâmedes (An- À FALA COM OS COLEGAS projecto solicitou a vários especialistas opinião por Dinis Manuel Alves, doutorado em Ciênci- gola), Sá da Bandeira (Angola), Nova Lisboa Em Fevereiro deste ano, estudo do Instituto as da Comunicação e docente no ISMT, surge (Angola), Beira (Moçambique), Gorongosa sobre a iniciativa, pedindo-lhes também que se Allensbach revelava que 52% dos adolescen- enquadrado na realidade acima descrita. Preten- (Moçambique), Tete (Moçambique), Cabora pronunciem sobre os desafios que se colocam à tes alemães preferem SMS a conversas com co- de-se provocador da discussão em torno de tema Bassa (Moçambique), Ilha de Moçambique (Mo- Língua Portuguesa, tendo por base a generali- legas. A caneta foi trocada pelo teclado, daí a assaz candente e controverso. O cotejo entre as çambique), Lourenço Marques (Moçambique), zação da “linguagem SMS” entre os jovens. necessidade sentida por responsáveis de esco- páginas convertidas em SMS e os escritos origi- Carvoeiro, Aveiro, Figueira da Foz, Boticas, Pala Os contributos recebidos serão publicados las australianas de avançarem com aulas de cali- nais de Miguel Torga são impressivos, porven- Pinta (Carlão), Torrão, Folgosinho (Serra da Es- neste blog. grafia destinadas aos adolescentes. tura um exercício salutar para levar os jovens a trela), Coja (Arganil), S. Martinho de Anta, Cur- O primeiro volume do “Diário” foi publicado O aparente paradoxo reside no facto de ter perceberem melhor o encanto e os pergaminhos ral de Vacas (Chaves), Carrazedo do Alvão, Cha- em 1941, o último (XVI) em 1993, dois anos antes sido a internet a potenciar o “renascimento” da da língua portuguesa. ves, Verin (Espanha), Sousel, Évora, Lisboa, Es- do escritor falecer (17.01.1995).
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    29 DE MAIODE 2009 DIA MUNDIAL DA ENERGIA 23 DEFENDE GOMES CANOTILHO Universidade de Coimbra deve produzir a energia que consome Uma Universidade de Coimbra ecológica, que produza a energia que consome, e que adopte as boas práticas de sustentabilidade, dando um exem- plo ao mundo, é o desafio que o constitucionalista Gomes Canotilho lança à instituição. “Não é um projecto utópico. Se um dos proble- mas é esse, penso que hoje uma universidade não é uma verdadeira universidade se não tiver essas pre- ocupações. Afirmar-se como uma universidade mo- derna mesmo do ponto de vista do funcionamento”, declarou à agência Lusa. Na sua perspectiva, Coimbra tem condições para se lançar num projecto desta natureza, dada a esca- la dos seus edifícios, as transformações de moderni- onde se formou e onde lecciona caminhar no senti- prios universitários relativamente ao problema, al- zação a que está a ser sujeita, e ao conhecimento e do de uma ideia ecológica, Gomes Canotilho sali- guma coisa tem de estar mal. Seria uma grande projectos dos seus centros de investigação. enta que essa ideia “deveria ser levada a sério”, mensagem da Universidade de Coimbra, agora que Reportando-se ao Pólo I da Universidade, na zona porque as pessoas esperam que sejam os académi- se está a renovar”, sustenta. histórica da Alta, Gomes Canotilho salienta que mes- cos, os universitários, os que têm responsabilida- Uma universidade que é amiga do ambiente, aca- mo que não seja possível instalar painéis solares na des, os primeiros a responder aos desafios. ba por chamar outras invenções, outras inovações, cobertura dos edifícios, “o Jardim Botânico poderá “Quando a gente vê um grande desprezo dos pró- conclui. ter um quilómetro de baterias fotovoltaicas”. Os novos Pólo II, onde se localizam os edifícios da faculdade de Ciências e Tecnologia, e o Pólo III, da Saúde, com as faculdades de Medicina e Farmácia, e os hospitais da universidade, são gran- Empreendimentos des consumidores, mas oferecem condições para a produção de energias alternativas. Se no âmbito das energias alternativas considera hidroeléctricos: haver condições para a sua produção, ao nível da investigação em curso destaca um, de veículos eléc- tricos sem condutor, que poderiam fazer o trans- 600 pedidos só na Região Norte porte das pessoas para a zona universitária e liber- tar o seu interior dos automóveis. A Administração da Região Hidrográfica (ARH) aproveitamentos hidroeléctricos. A intensificação dos meios electrónicos para di- do Norte está a analisar 600 pedidos de constru- “É um processo complexo que estamos a resol- minuir o uso de papel, nomeadamente através da ção de empreendimentos hidroeléctricos nas regi- ver”, salientou o responsável. realização de provas escritas em computador por- ões hidrográficas do Douro, Minho e Lima, Ave/ O presidente da ARH garantiu que todos os pro- tátil, é outra das ideias que preconiza. Cávado e Leça, revelou recentemente o presiden- jectos vão ser alvo de uma discussão pública e de “Esta era uma boa mensagem para Portugal, te do organismo, António Guerreiro e Brito. avaliação da sua viabilidade. para o mundo, do próprio mundo universitário”, e “Seiscentos é claramente um número incompor- No âmbito do Programa Nacional de Barragens uma forma de evidenciar que esta universidade, tável para aquilo que são as disponibilidades fisio- com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH), criada em 1290, “está à frente dos grandes desafi- cráticas destas três regiões”, sustentou António o Governo já seleccionou 10 aproveitamentos a os do século XXI, que são a inovação, o conheci- Guerreiro e Brito. construir no continente. mento e a sustentabilidade”. O presidente da ARH falava no decorrer de À Região Hidrográfica do Douro correspondem Uma universidade – salienta – “aberta à evolu- um encontro luso-espanhol sobre as “Questões os aproveitamentos hidroelectreicos de Foz Tua, ção da economia, das necessidades, e agora à pró- Significativas da Gestão da Água na Região Hi- Fridão, Padroselos, Gouvães, Daivões e Alto Tâ- pria ideia de sustentabilidade. Uma universidade de drográfica do Douro”, que decorreu no Peso da mega. Coimbra que deve ser também uma universidade Régua. O investigador da Universidade de Trás-os-Mon- sustentável”. Segundo o responsável, a maior parte dos pro- tes e Alto Douro (UTAD), Rui Cortes, afirmou que “O que não podemos deixar é de ser é ambicio- jectos hidroeléctricos em análise são privados e estes novos empreendimentos, já aprovados, “vão sos. Se o que está em causa é o princípio da sus- dizem respeito a empreendimentos inferiores a 10 ter um impacto mais significativo na degradação da tentabilidade, de construção de esquemas organi- Megawatts (MW). qualidade da água”. zativos saudáveis do ponto de vista ecológico, en- Uma “parte significativa” dos projectos está tam- Como aspecto positivo, Rui Cortes referiu que a tão devemos fazer esse esforço. Gasta-se mais um bém relacionada com a reconstrução de infraes- barragem do Sabor, já em construção, poderá aju- milhão de euros? Então devemos gastá-lo, porque truturas que já existiam, como por exemplo moi- dar a “diminuir os efeitos de cheia na Régua ou na os poupamos imediatamente”, considera. nhos, e que agora se pretende sejam adaptados a zona ribeirinha do Porto”. Confessando que gostaria de ver a instituição
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    24 DIA MUNDIALDA ENERGIA 29 DE MAIO DE 2009 Energia Eólica deverá satisfazer 15% das necessidades de electricidade em 2010 Segundo informação da Direcção Geral de lada são Viseu (478 MW), Castelo Branco Energia e Geologia (DGEG), a produção de (409), Viana do Castelo (302), Coimbra (277), energia eléctrica de origem eólica representa Lisboa (225), Vila Real (171), Santarém (152), cerca de 4% do consumo final de electricidade Leiria (151) e Braga (144). e é expectável que até 2010 represente 15%. Os distritos de Lisboa, Leiria e Castelo Bran- O continente português possuía 1427 aero- co apresentam uma forte componente eólica, geradores no final de Agosto de 2008, repre- superior a 50 por cento da potência renovável sentando uma potência eólica instalada de 2672 desses distritos. megawatts (MW) distribuída por 164 parques A DGEG refere ainda que, de Janeiro a eólicos que começaram a ser instalados em Agosto de 2008, foram licenciados 384 MW de meados de 1996. potência eólica. Os dados da DGEG referentes ao final do O total da potência licenciada renovável está mês de Agosto de 2008 revelavam que Portu- concentrado no norte do país, principalmente gal Continental possuía uma potência eólica de devido à localização das grandes hídricas e de 2672 MW espalhada por 164 parques. um número significativo de parques eólicos. Entre Janeiro e Agosto, a produção de ener- Segundo os dados da DGEG, até Agosto fo- gia foi de 3561 gigawatts-hora (GWh), que equi- ram licenciados 9653 MW de instalações elec- valeram a 1999 horas de produção. Em 2001, a troprodutoras a partir de fontes de energia re- potência eólica instalada era de 114 MW, distri- nováveis, representando mais 21 por cento re- buída por 16 parques com um total de 173 ae- lativamente à potência instalada até àquele mês. rogeradores. Em 2004, já existiam 441 ventoi- Até esse período, Portugal tinha 7984 MW nhas espalhadas por 71 parques, que represen- de capacidade instalada para produção de ener- tavam uma potência de 537 MW. gia eléctrica a partir de fontes de energia reno- Os distritos com maior potência eólica insta- váveis.