DIRECTOR    JORGE CASTILHO




| Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia |
Autorizado a circular em invólucro
de plástico fechado (DE53742006MPC)
                                                            Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA             Telef.: 309 801 277


            ANO III                     N.º 66 (II série)                              21 de Janeiro de 2009                                1 euro (iva incluído)


   ESCRITORA E HISTORIADORA ESPANHOLA
   EM ENTREVISTA AO “CENTRO”

   Livro sobre
   a Rainha Santa Isabel
   com nova versão
   sobre o “Milagre
   das Rosas”                                                                                PÁG. 13 e 14



                                                                                              AFIRMA CORREIA DE CAMPOS

                                                                                              Coimbra
                                                                                              é caso único
                                                                                              na Saúde                                                PÁG. 17




                                                                                              a nível mundial
       CASA MIGUEL TORGA                                       AMANHÃ EM COIMBRA                        15.º ANIVERSÁRIO                COM MUNDO A VER


   Alzira Seixo                                               Universidade                              “Saúde em                       Obama
   profere                                                    divulga                                   Português”                      já é
   conferência                                                quem venceu                               lança livro                     Presidente
   no dia 30                                                  o seu Prémio                              de E. Castela                   dos EUA
                                                PÁG. 3                                    PÁG. 11                        PÁG. 16                          PÁG. 4 e 5
2       ANIMAL                                                                                                                          21 DE JANEIRO DE 2009



 CAMPANHA “COIMBRA ADOPCÃO”

A troco de nada ganhe um grande amigo
   O Canil/Gatil Municipal de Coimbra pros-        damente se adaptam aos seus novos             apenas custam uns minutos na deslocação,           Podem também enviar um e-mail para
segue uma campanha intitulada “Adop-               donos (que, para além do mais, os esta-       para escolher um companheiro (ou compa-            aranimal@gmail.com
Cão”, com o seguinte lema: “Adoptem                rão a poupar a um fim muito triste e tre-     nheira) para a vida, que será sempre fiel e de     ou consultar o site
um animal no Canil Municipal”.                     mendamente injusto).                          uma enorme dedicação e em troca apenas             www.cm-coimbra.pt/741.htm
   Trata-se de uma iniciativa muito me-               Um cão ou um gato é sempre um pre-         pede um pouco de atenção e de carinho.             Os dias e horas especificamente desti-
ritória, que permite que pessoas que gos-          sente bem recebido, desde que a pessoa a         O Canil/Gatil Municipal fica no Campo         nados às adopções são os seguintes:
tam de animais ali possam ir buscar um             quem ele se oferece goste de animais, não     do Bolão, Mata do Choupal, onde os ani-            - segundas-feiras, das 14h30 às 16h30;
fiel companheiro, sem nada pagarem                 os encare como um brinquedo ou um ob-         mais esperam, ansiosos, por uma nova casa          - quintas-feiras, das 10 às 12 horas.
por isso.                                          jecto e tenha condições mínimas para deles    e uma nova família.
   São muitos os cães (e também alguns             tratar convenientemente.                         Os interessados em obter mais informa-           Abaixo publicamos imagens de alguns
gatos) que esperam que gente com bom                  Se for o caso, não hesite em ir buscar     ções podem ligar para o telemóvel 927 441        dos bons aamigos de 4 patas que estão à
coração os vá adoptar, tendo como re-              um destes amigos muito valiosos em ter-       888 (a qualquer hora), ou para o Canil/Gatl      espera de que alguém queira aproveitar todo
compensa conquistarem um amigo para                mos materiais (basta ver os preços nas lo-    (das 9 às 17h30 dos dias úteis) através do       o carinho que têm para dar.       e não se
toda a vida, já que estes animais rapi-            jas de animais!...), mas que no Canil/Gatil   telefone 239 493 200.                            arrependerá!




                                                     Aos Assinantes do “Centro”
  Director: Jorge Castilho                           Como tem sido bem evidente nas notícias vindas a público, o sector da comunicação social
      (Carteira Profissional n.º 99)
                                                     é um dos mais afectados pela crise que se abateu sobre toda a sociedade, sobretudo pelo brutal
  Propriedade: Audimprensa                           decréscimo nos investimentos publicitários.
     NIF: 501 863 109                                Perante isto, até os grandes grupos de comunicação social estão a fazer despedimentos
  Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho            em massa, para além de haver muitos jornais reguionais que se viram obrigados
                                                     a suspender a publicação.
  ISSN: 1647-0540
                                                     Aqui no “Centro” estamos a fazer um enorme esforço para superar as dificuldades.
  Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930                 Mas esse esforço só será bem sucedido se conseguirmos receitas de publicidade e se os nossos
  Composição e montagem: Audimprensa
                                                     Assinantes tiverem a gentileza de proceder ao pagamento da respectiva assinatura anual
  Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra     - que se mantém em 20 euros desde o início do jornal.
                                                     Se quer que esta tribuna livre possa manter-se, muito agradecemos que nos envie o pagamento
  Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913
                                                     da sua assinatura - uma verba que representa apenas o equivalente a cerca de 5 cêntimos por dia,
  e-mail:   centro.jornal@gmail.com                  menos de 40 cêntimos por semana!
  Impressão: CORAZE
                                                     Outra forma de ajudar este projecto independente é conseguir-nos novos Assinantes,
     Oliveira de Azeméis                             por exemplo entre os seus fSamiliares e amigos (veja a página ao lado).
  Depósito legal n.º 250930/06

  Tiragem: 10.000 exemplares
                                                     Contamos consigo!
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                       NACIONAL                 3
PROSSEGUE CICLO DE CONFERÊNCIAS NA CASA-MUSEU MIGUEL TORGA

Maria Alzira Seixo no próximo dia 30
vem falar sobre “O Senhor Ventura”
   Prossegue no próximo dia 30 (sexta-                                                    Professora Catedrática da Faculdade de
feira da próxima semana), o Ciclo de                                                      Letras da Universidade de Lisboa, que
                                                                                          se desloca a Coimbra para falar sobre
                                                                                          “O Senhor Ventura”, uma das mais apre-
                                                                                          ciadas obras de Miguel Torga.
                                                                                             A conferência inicia-se às 17 horas,
                                                                                          na Casa-Museu Miguel Torga, e é aber-
                                                                                          ta a todos os interessados.
                                                                                             Recorde-se que a primeira conferên-
                                                                                          cia deste Ciclo foi proferida por Clara
                                                                                          Rocha, Professora Catedrática da Facul-
                                                                                          dade de Letras da Universidade Nova
                                                                                          de Lisboa, e filha do Escritor, que abor-
                                                                                          dou o tema “A Casa de meus Pais”.
                                                                                             Está já confirmada a presença de di-
                                                                                          versos outros conferencistas, entre os
                                                                                          quais Mário Soares, em datas que opor-
                                                                                          tunamente serão divulgadas.

 Miguel Torga                               Maria Alzira Seixo                            EVOCAÇÃO EM LISBOA                          passada sexta-feira, por iniciativa da Es-
Conferências que está a ser promovido                                                                                                 cola Superior de Educação Almeida Gar-
                                           bra, sob o título genérico de “Identidades”.     Entretanto, também em Lisboa a fi-        rett, e com a participação de Maria Bar-
na Casa-Museu Miguel Torga, em Coim-          Desta feita será Maria Alzira Seixo,        gura de Miguel Torga foi evocada na         roso e Carlos Carranca, entre outros.

 ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS                                                                                                     AUDIMPRENSA
                                                                                                                                            Jornal “Centro”
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                                                                                                                                           3000–390 COIMBRA

 e ganhe valiosa obra de arte                                                                                                            Poderá também dirigir-nos o seu pe-
                                                                                                                                      dido de assinatura através de:
                                                                                                                                           telefone 309 801 277
    Temos uma excelente sugestão           ma tão original, está a desabrochar,           sua casa (ou no local que nos indicar),          fax 309 819 913
 para uma oferta a um Amigo, a um          simbolizando o crescente desenvolvi-           o jornal “Centro”, que o manterá                 ou para o seguinte endereço
 Familiar ou mesmo para si próprio:        mento desta Região Centro de Portu-            sempre bem informado sobre o que de              de e-mail:
 uma assinatura anual do jornal            gal, tão rica de potencialidades, de His-      mais importante vai acontecendo nes-           centro.jornal@gmail.com
 “Centro”                                  tória, de Cultura, de património arqui-        ta Região, no País e no Mundo.
                                                                                                                                         Para além da obra de arte que des-
    Custa apenas 20 euros e ainda re-      tectónico, de deslumbrantes paisagens             Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo,
                                                                                                                                      de já lhe oferecemos, estamos a pre-
 cebe de imediato, completamente           (desde as praias magníficas até às ser-        por APENAS 20 EUROS!
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 grátis, uma valiosa obra de arte.         ras imponentes) e, ainda, de gente hos-           Não perca esta campanha promo-
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    Trata-se de um belíssimo trabalho      pitaleira e trabalhadora.                      cional e ASSINE JÁ o “Centro”.
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 da autoria de Zé Penicheiro, expres-         Não perca, pois, a oportunidade de             Para tanto, basta cortar e preen-
                                                                                                                                      investimento.
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 terístico deste artista plástico – um     mensões são 50 cm x 34 cm).                    20 euros (de preferência em cheque
                                                                                                                                      volva, dando voz a esta Região.
 dos mais prestigiados pintores portu-        Para além desta oferta, o beneficiá-        passado em nome de AUDIMPREN-
 gueses, com reconhecimento mesmo          rio passará a receber directamente em          SA), para a seguinte morada:                  CONTAMOS CONSIGO!
 a nível internacional, estando repre-
 sentado em colecções espalhadas por
 vários pontos do Mundo.
    Neste trabalho, Zé Penicheiro,               Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO
 com o seu traço peculiar e a incon-
 fundível utilização de uma invulgar
 paleta de cores, criou uma obra que
 alia grande qualidade artística a um
 profundo simbolismo.
    De facto, o artista, para represen-
 tar a Região Centro, concebeu uma
 flor, composta pelos seis distritos que
 integram esta zona do País: Aveiro,
 Castelo Branco, Coimbra, Guarda,
 Leiria e Viseu.
    Cada um destes distritos é repre-
 sentado por um elemento (remeten-
 do para o respectivo património his-
 tórico, arquitectónico ou natural).
    A flor, assim composta desta for-
4       OBAMA PRESIDENTE                                                                                                     21 DE JANEIRO DE 2009



ACTO DE POSSE PROVOCOU ENTUSIASMO EM TODO O MUNDO

Presidente Obama pede
“nova era de responsabilidade” do país




   O novo presidente dos Estados Uni-       No seu discurso após o juramento como       ponsabilidade por parte de alguns, mas tam-   Estados Unidos a nação que é: o traba-
dos, Barack Obama, pediu ontem (terça-    Presidente dos Estados Unidos, Obama          bém pelo fracasso colectivo em tomar as       lho duro, a honestidade, a coragem, a jus-
feira) “uma nova era de responsabilida-   apelou aos valores fundamentais do seu país   decisões difíceis e preparar a nação para     tiça, a tolerância e o patriotismo.
de” dos norte-americanos nas suas vidas   começar um novo capítulo na sua história.     uma nova era”, disse Obama.                      “O que nos é pedido agora é uma nova
e para o seu país no mundo, como força      “A nossa economia está enfraquecida,          Perante esses erros, Obama instou os        era de responsabilidade, o reconhecimen-
de cooperação e diálogo.                  como consequência da avidez e da irres-       norte-americanos a retomar o que fez dos      to, por parte de cada norte-americano de




Antigos Presidentes Carter, George W. Bush e Clinton na cerimónia de posse
(imagem acima), que foi acompanhada com entusiasmo em todo o Mundo (como é
exemplo a foto ao lado)
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                            OBAMA PRESIDENTE                           5




que temos obrigações face a nós próprios,     amigo de cada nação e de cada homem,       actuais requerem que os Estados Uni-      te pelos problemas nas suas socieda-
à nossa nação e ao mundo”, disse.             mulher e criança que procura um futuro     dos façam um esforço maior para pro-      des - saibam que o vosso povo vos jul-
   No plano internacional, o novo Presiden-   de paz e dignidade e que estamos prontos   mover a cooperação e o entendimento       gará pelo que conseguirem construir e
te quis assinalar uma mudança em relação      para liderar uma vez mais”, afimou.        entre as nações, perante a ameaça nu-     não pelo que destroem. Aos que se
à administração anterior, apesar de ter          Recordou que os Estados Unidos der-     clear e o aquecimento global.             agarram ao poder através da corrup-
agradecido seu antecessor pelo “seu ser-      rotaram o facismo e o comunismo “com          O presidente norte-americano ofe-      ção e do engano e silenciando a dis-
viço” aos Estados Unidos.                     alianças sólidas e convicções fortes”      receu “um novo caminho em direcção        senção, saibam que estão do lado er-
   “A todos os povos e governos que nos          “O nosso poder só não nos pode pro-     ao futuro” ao mundo muçulmano.            rado da história, mas que estendere-
vêem hoje, desde as maiores capitais à        teger, nem nos dá direito a fazer o que       “Aos líderes que procuram semear       mos a mão se estiverem dispostos a
pequena localidade onde nasceu o meu pai:     nos apetece”, disse.                       o conflito ou responsabilizam o Ociden-   abrir o punho”, declarou.
saibam que os Estados Unidos são um              Obama assinalou que os desafios




                                                                                         Bush já passou para segundo plano




Samuel Jackson e Denzel Washington (imagem acima) foram dois dos milhares
de famosos que estiveram presentes na cerimónia de posse
6      INTERNACIONAL                                                                                                            21 DE JANEIRO DE 2009




Cimeira Ibéria amanhã em Zamora
   Os ministros das Finanças de Portu-        orçamental, pelo menos em 2009.               uvas dos dois lados da fronteira.            ta-se de uma forma de colaboração im-
gal e Espanha reuniram ontem (terça-             A Comissão Europeia prevê para 2009           O “Duradero” nasceu em 2005 quan-         portante entre os dois lados da fronteira,
feira), em Bruxelas, para preparar a Ci-      uma contracção da economia portugue-          do se decidiu reunir uvas da Quinta do       potenciando ao mesmo tempo a imagem
meira Ibérica que terá lugar amanhã           sa de 1,6 por cento, o dobro do estimado      Portal (Celeiros do Douro), no lado por-     vitivinícola do Douro.
(quinta-feira, dia22) em Zamora, tendo        por Lisboa (0,8 por cento), e um défice       tuguês do Douro, com uvas das Caves             “É um vinho de auréola negra, com
reafirmado o objectivo de consolidação        orçamental de 4,6 por cento também su-        Liberalia Enológica (Zamora), do lado        aromas a fruta muito madura e com in-
orçamental.                                   perior em 0,7 pontos às estimativas do        espanhol do rio transfronteiriço.            dícios de chocolate. Vinho encorpado
   Segundo fonte governamental, Fernan-       Governo (menos 3,9 por cento).                   Especialmente bem acolhido pelo mer-      com boa persistência. Vale a pena guar-
do Teixeira dos Santos e Pedro Solbes            Bruxelas também prevê que o défice         cado, chegando a merecer 90 valores em       dar umas garrafas para daqui a uns ani-
“trocaram impressões” sobre os planos         público espanhol atinja os 6,2 por cento      algumas das mais prestigiadas publica-       tos. Bom vinho”, lê-se numa critica ao
de recuperação económica que os dois          este ano, reflectindo a aplicação de me-      ções enólogas de Portugal e Espanha, é       Duradero no site WineCellar
países estão a aplicar para contrariar a      didas de combate à crise, valor que cai-      descrito com um vinho “especial” fabri-         Para a revista “Blue Wine” o Dura-
actual crise económica.                       rá para 5,7 por cento do PIB em 2010.         cado com uvas Roriz portuguesa e uvas        dero nasce de um “casamento há muito
   Segundo a mesma fonte, os dois minis-         Teixeira dos Santos e Solbes encon-        ‘toro’ espanhol.                             desejado”, assinado pelos enólogos Paulo
tros “reafirmaram” que a consolidação         traram-se à margem da habitual reunião           O nome do vinho foi retirado de ver-      Coutinho e Sílvia Garcia, e que repre-
orçamental continua a ser uma prioridade      mensal dos ministros das Finanças da          sos do mais famoso poeta zamorano,           senta “uma união transfronteiriça que se
e que, depois de se resolver a actual cri-    União Europeia.                               Claudio Rodríguez, que sempre dedicou        baseia num legado histórico comum, de
se, se retomará a trajectória que levará                                                    especial atenção ao Douro.                   um rio que simbolicamente banha os dois
ao equilíbrio nas contas do Estado.           BRINDE COM VINHO IBÉRICO                         O primeiro encontro entre responsáveis    países e os enlaça.
   Os Estados-membros da União Euro-                                                        das duas produtoras ocorreu no âmbito           “É um vinho que tem um rio a correr
peia decidiram lançar planos nacionais           Os participantes na 24ª Cimeira luso-      do encontro vitivinícola Vinos Duri, que     nas veias. Consegue o nobre feito de
de recuperação económica que implicam         espanhola vão brindar com um vinho ‘ibé-      decorreu na cidade de Zamora em 2005.        casar dois países dentro de uma garrafa
um agravamento geral da sua posição           rico’ que nasceu de um ‘coupage’ de              Para os responsáveis da iniciativa tra-   e galgar fronteiras”, explica a revista.




                                              2009: um ano de problemas globais
                                              obteve, em 1709, a vitória definitiva sobre   UE, em primeiro lugar a Polónia e os         to Europeu. Pensava-se que os novos
                    Fiodor Lukyanov *         o exército sueco do rei Carlos XII e um       Estados Bálticos, aproveitarão a memó-       eurodeputados iriam representar uma
                                              corpo de cavalaria cossaca, comandado         ria do passado para apresentar a sua vi-     nova união, com base no novo Tratado
   O mundo olha com medo para o ano           pelo cabo de guerra ucraniano Mazepa.         são da política europeia contemporânea.      de Lisboa e simbolizando uma maior in-
recém-nascido, receando imprevisíveis         A data será aproveitada para especula-           O segundo evento fará regressar os        tegração. A festa foi estragada pelos ir-
consequências económicas e políticas da       ções políticas, envenenando ainda mais as     debates sobre os vencedores e os venci-      landeses, que declinaram o documento
crise global que deflagrou em 2008.           relações entre Moscovo e Kiev.                dos na «guerra fria». No Ocidente tem        no referendo em 2008. Mesmo em caso
   Em Abril, em foco estará a segunda            Em Abril, na cimeira da NATO (que          surgido um perigoso sentimento de triun-     de vitória do «sim» num novo referendo
cimeira dos «Vinte Grandes». Nos me-          terá lugar na fronteira franco-alemã) fes-    falismo, de absoluta supremacia moral e      a realizar em 2009, durante a presidên-
ses que faltam, os maiores países não         tejar-se-á o 60.º aniversário da Aliança.     política, de um sortido de ideias sem al-    cia checa na UE, o Tratado de Lisboa
serão capazes de implementar a Decla-         Os promotores não querem ofuscar a            ternativa. Na Rússia, acaba de aparecer      vai entrar em vigor apenas em 2010.
ração sobre os Mercados Financeiros e         cimeira com temas capazes de pôr a nu         uma espécie de vontade de «desforra».           O ano de 2009 não verá resolvidos os
a Economia Mundial, aprovada em No-           as divergências entre os países membros,      Naturalmente, será difícil chegar a um       problemas da UE, que continua a enfer-
vembro de 2008 em Washington. O do-           sendo pouco provável que a Geórgia e a        entendimento sobre este assunto.             mar da contradição entre política de alar-
cumento prevê uma série de medidas            Ucrânia constem da agenda.                       Em Outubro, assinala-se o 60º aniver-     gamento ou de maior integração. A crise
colectivas destinadas a «elevar o nível          O evento é também excelente pretexto       sário da proclamação da República Po-        financeira apenas contribuirá para agra-
de transparência e controlo».                 para a primeira viagem do Presidente dos      pular da China, que certamente servirá       var o processo de estratificação iniciado
   Vários analistas e investigadores apon-    EUA à Europa onde será recebido com           para lembrar a todos o papel que este        faz algum tempo. A votação em 2009 é
tam, faz muito, a contradição existente       euforia. O futuro discurso de Barack          país desempenha no mundo de hoje. A          capaz de estabelecer um novo recorde
entre o carácter global dos processos no      Obama sobre a unidade transatlântica          China também terá duas datas menos           de absentismo que não pára de aumen-
nosso planeta e o pensamento político a       pode entrar, de antemão, nos anais de         agradáveis: em Março, o 50º aniversário      tar desde 1979.
fluir por bitolas nacionais, entre a neces-   Arte Oratória.                                da rebelião no Tibete, e em Junho, o 20º        As mais importantes eleições nacionais
sidade de acções colectivas e a impre-           No entanto, os problemas reais da          aniversário da sangrenta repressão das       terão lugar em Setembro, na Alemanha.
paração para tal actuação.                    NATO permanecerão. A Aliança não tem          manifestações estudantis na Praça da         Mais uma campanha eleitoral, prenhe de
   Uma confirmação disso será a Confe-        uma missão bem definida e a situação          Porta da Paz Celeste, em Pequim.             trambolhões à escala europeia, terá lugar
rência da ONU sobre Mudanças Clima-           no Afeganistão continua a piorar.                                                          na Ucrânia, onde decorrerão as presiden-
téricas que abrirá em Novembro em Co-            As relações com a Rússia continuarão       UM ANO DE ELEIÇÕES                           ciais. Nem um possível colapso económi-
penhaga. O seu objectivo consiste em          no centro das atenções da NATO. E pelo                                                     co, nem a perspectiva de choques políti-
acordar um documento em substituição          menos alguns países membros tentarão             As eleições que determinam em gran-       cos são capazes de deter as elites ucrani-
do Protocolo de Quioto que expira em          aprsentar Moscovo como uma ameaça             de parte a política em 2009 realizaram-      anas de uma luta fratricida.
2012. Espera-se uma luta renhida, já que      capaz de consolidar a Organização do Tra-     se nos EUA no fim do ano passado. Em            As eleições gerais terão lugar na Ín-
à ecologia estão estreitamente ligados        tado do Atlântico Norte. A propósito, em      20 de Janeiro (ontem) tomou posse o          dia, onde a oposição nacionalista tem
muitos interesses egoístas, que os princi-    Março completam-se 10 anos sobre a pri-       Presidente Barack Obama. As expecta-         chance de vencer. A população está des-
pais jogadores – os EUA, a UE e a China       meira acção militar da NATO, nomeada-         tivas com ele relacionadas são compa-        contente com a actuação do governo
– tentarão impor sob a capa de preocu-        mente a guerra contra a Jugoslávia.           ráveis apenas com as de representação        durante os recentes ataques terroristas
pação pelo futuro da Humanidade.                 Duas datas – o 70º aniversário do          de prestidigitador ou milagreiro. Barack     em Bombaim. Finalmente, no Irão vão
                                              Pacto Molotov-Ribbentrop e do início da       Obama terá, sem dúvida, um «ano de           escolher presidente. A derrota do actual
UM ANO DE ANIVERSÁRIOS                        II Grande Guerra (Agosto-Setembro), e         mel». Mas é impossível prever como será      chefe de Estado (bem provável devido à
                                              o 20º aniversário da queda do muro de         a «performance» real do 44º presidente       difícil situação económica no país) con-
   Em Julho, assinala-se o 300º aniversá-     Berlim – vão esimular a discussão histó-      norte-americano.                             tribuiria para diminuir a tensão em torno
rio da Batalha de Poltava. Perto daquela      rica que se transforma num factor das            Em Junho, os cidadãos dos 27 países       do problema nuclear iraniano.
cidade ucraniana o czar Pedro, o Grande       relações internacionias. Os neófitos da       da UE vão ter eleições para o Parlamen-            * in revista A Rússia na Política Global
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                          NACIONAL                 7
 ponto . por . ponto
                                                                   a culpa solteira
Por Sertório Pinho Martins
                                            dos actos consonantes de quem privile-         com apenas 1,5% de execução? E de-            ve! – liquidou à partida o interesse da coi-
   Num país onde de repente todas as        gia a estabilidade. Mas a dúvida corroe:       pois de 2013, de que vamos viver quan-        sa, ao pôr em praça apenas jornalistas ‘da
consciências despertaram ao mesmo           e os que ajudaram à queda no abismo,           do o orçamento comunitário estiver nas        casa’. Imagine-se um Miguel Sousa Ta-
tempo para as impunidades que o regi-       mesmo sabendo que estávamos à beiri-           encolhas e com 27 países a sugar a mes-       vares ou uma Constança Cunha e Sá tam-
me tem consentido ao longo de muitos        nha e que um passo a mais era a passa-         ma teta magra e exausta? E quem ali-          bém em palco, a deitar lume pelos olhos e
anos, não podia haver duas sem três:        gem para a outra dimensão? O preço do          menta a vaca senil? Nesse dia, e com          chamas pela língua! Por isso desde o iní-
depois do BPN e do BPP, também o BP         petróleo só disparou para níveis caóticos      um intróito doloroso já em 2010, a ‘dívi-     cio que o desfecho era mais ou menos
caiu na arena das suspeições (e sabe-se     em 2008, enquanto que a nossa dívida           da externa’ vai ser o garrote do nosso        previsível, pese embora a lucidez política
lá o tamanho do laudatório que aí vem).     externa saltou de 7,4% do PIB em 1996,         futuro! E quando um país chega a este         (há que reconhecê-lo) e a preparação que
E só é pena que esta sigla de BP diga       para uns assustadores 90% no fim do ano        limiar de inanição adivinhado, não acon-      o entrevistado demonstrou relativamente
respeito ao Banco Popular e não ao Ban-     passado. Ah, mas o governo já prome-           tece nada? A ninguém?                         ao que o esperava.
co de Portugal, por tão simples quanto      teu à UE que actuará severamente se               Tudo aponta para que, em termos de            E voltando à vaca-fria das culpas sol-
isto: ninguém acusa o seu governador de     os preços dos combustíveis não acom-           recessão mundial, falte apenas um pe-         teiras, recorde-se o que para aí vai nos
actos do foro criminal, mas tanta falha     panharem os do crude no longo prazo            queno passo para algumas economias            sectores da Agricultura (um ministro-fan-
grave de supervisão só tem um rosto e       (???). Alguém decifra esta promessa e          darem o estoiro, com réplicas gigantes-       toche, já questionado por deputados da
esse é o de Vítor Constâncio. E Cadilhe     a sua utilidade “no longo prazo”?              cas no plano social (mais pobreza, aban-      sua própria bancada – e fica tudo como
foi apenas o último a dizer que o rei vai      É que já nesses distantes anos 90, o        dono escolar, desemprego, delinquência        no reino dos anjos), Economia (milhares
nu! Ora se um banqueiro (Tavares Mo-        engº Guterres se via em palpos de ara-         e fuga de quadros), com uma derrocada         de empresas no fio da navalha, 150.000
reira foi exemplo), se um magistrado        nha para fazer contas sobre o PIB – mas        dos modelos jurídico e policial, com a dis-   novos empregos na legislatura por água-
(Fernando Negrão idem), ou outro qual-      lá o castigaram exemplarmente dando-           persão das famílias em busca de melhor        abaixo, grupos-de-referência a despedir
quer alto responsável público ou priva-     lhe por penitência a função de alto-co-        vida (e consequente desmembramento            às centenas, projectos turísticos com bi-
do, foram impedidos durante anos de         missário para os refugiados da ONU. E          da célula-base das sociedades humanas),       liões-UE a ser comidos pela prioridade
exercer funções em actividades onde se      hoje? Alguém assume a paternidade do           e com um clima propício a Estados mus-        de refinarias em território espanhol),
apontavam fortes indícios ou mesmo se       monstrozinho? Quem levanta o dedo? O           culados (Rússia, China, Irão, repúblicas      Educação (eleições, a quantos recuos e
tiraram juridicamente conclusões de         senhor? Ou o senhor? Ou a senhora?!            sul-americanas,…). E – but not the le-        fugas à retaguarda obrigas uma pobre
desempenho gravoso, por que não pode um     Ninguém!                                       ast – pode até estar muito próximo um         ministra, disposta já a dar todos os-ditos-
governador do banco central ou um mem-         E se em 2009 chegarmos aos 100%,            ‘desespero’ global conducente a confron-      por-não-ditos), Obras Públicas (afinal há
bro do governo da República, desatentos     com o endividamento externo debruado           tos militarizados, que começarão nas zo-      dinheiro ou não para Alcochete, TGV,
das suas funções, serem igualmente impe-    com os respectivos juros (o que significa      nas do globo mais atingidas pela ressaca      novas autoestradas, mais o supremo ri-
didos de exercer cargos de responsabili-    um país inteiro hipotecado ao estrangei-       e se alargarão depois na medida dos           dículo de querer saber o calendário de
dade nacional por um período correspon-     ro), alguém põe a corda do Egas Moniz          grandes interesses mundiais: domínio das      inaugurações e lançamento de primeiras-
dente às falhas cometidas? Mudá-los de      ao pescoço? O senhor aí, não?... É que         fontes de energia, negócio de armas, for-     pedras), Finanças (Orçamento, impostos,
cargo ou de pasta, não dignifica o regime   após os 100%, senhor ministro, o passo         necimento alimentar a países emergen-         défice, dívida pública, troca de mãos pe-
nem redime a asneira. E só faltava a As-    seguinte é a escassez galopante daquilo        tes, e tudo o mais que os génios huma-        los pés a cada intervenção pública), Ad-
sembleia da República não deixar Vítor      com que se compram os melões e que             nos sabem inventar para cavalgar a vida       ministração Interna (insegurança nas
Constâncio e Teixeira dos Santos serem      tem alimentado o crédito às famílias (bens,    às costas dos mais desfavorecidos. Por-       ruas, criminalidade exponencial, salada
livremente ouvidos em sede da Comissão      serviços, alguma alimentação), ao inves-       que o fervor dos nacionalismos patrióti-      de polícias). E por muito espírito de bom-
Parlamentar de Economia e Finanças!         timento (PMEs, matérias-primas, imobili-       cos, esse ficou amarrado ao cadáver do        beiro que o primeiro-ministro tenha, e lhe
   Estamos metidos numa camisa de           ário), e por aí fora. E o nosso derrapar ao    século XX!                                    sobre vontade de apagar fogos, nem os
onze varas, que veio para durar. E não é    longo de anos, é filho único da crise finan-      E neste contexto de camisa de onze         rigores polares que nos visitam se lhe
só por causa dos salpicos da crise finan-   ceira externa? Ou é filho bastardo da vis-     varas, a recente entrevista do primeiro-      comparam: a água das boas-intenções
ceira mundial! Sabe-se que assim é, e       ta grossa que campeou à sombra do regi-        ministro na SIC exalou uma evidente pre-      gela à saída das mangueiras do discurso
que a asneira nos entrou pela porta bem     me? Ninguém pergunta? Ninguém respon-          ocupação de não deixar instalar o pânico.     político, por mais sedutor que ele seja! E
mais cedo do que as pitonisas do poder      de? Estamos amordaçados?!                      Que se louva! Mas o pagode está dema-         nem a lenga-lenga da nossa meninice
querem fazer-nos crer. Mas também se           Os tempos em que a França e a Ale-          siado ansioso, para perder tempo a deci-      nortenha se vislumbra no horizonte: “era
sabe que o tempo não é de instalar pâni-    manha sustentavam uma CEE “dos                 frar entrelinhas bem-intencionadas: quer      uma bez um vombeiro boluntário que
cos que podem acabar com multidões          Doze”, já foram: hoje é cada um a sacu-        é saber se vai comer amanhã e quanto          binha da vandas de Velém com o vico
espezinhadas à saída de todos os túneis     dir a chuvada que nos encharcou até aos        lhe toca nos aumentos salariais de 2009.      da vota a vater na varriga do vurro”!
por onde navegaram enganadas com a          ossos, e que apanhou toda a gente a pas-       E nem se apercebeu, durante a entrevis-          E neste país esquecido por Deus, con-
promessa de luzes ao fundo! O momen-        sear de manga curta. Como vai ser até          ta, de eventuais lapsos de memória ou de      tinuará a haver filhos e enteados, en-
to é, antes de mais, de et pluribus unum    ao fim deste QREN, coxo e desperdiça-          perguntas-de-alhos com respostas-de-bu-       quanto as culpas dos homens morrerem
– e, nesse aspecto, partilho da opinião e   do desde o início de 2007, e desde então       galhos. Mas um erro de base – que o hou-      solteiras!




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                                             A MAIOR RIQUEZA:                                 OBAMA E O MUNDO                                tando suspensos ou adiados os projectos
                                             SEMELHANTES                                                                                     de construção de dez novos hospitais. Só
                                                                                                A lista das nomeações da nova equi-          entre 2006 e 2007, as taxas moderado-
                                                                                              pa da Casa Branca não entusiasmou              ras nas Urgências aumentaram cerca de
                                                 (...) Como recordava recentemente, em
                                                                                              aqueles que, durante o último ano, fize-       23% e os processos de introdução no
                                             Santa Maria da Feira, num debate sobre o
                                                                                              ram de Barack Obama uma espécie de             mercado de medicamentos inovadores
                                             diálogo intercultural, o filósofo Fernando
                                                                                              “bloquista” com talento e ginástica, a         chegam a demorar três anos. O número
                                             Savater, a semelhança entre os seres hu-
                                                                                              vaticinarem uns Estados Unidos trans-          de médicos nos centros de saúde dimi-
                                             manos é que cria a riqueza e funda a huma-
                                                                                              formados numa super-UNESCO ou                  nuiu e o número de hospitais especiali-
                                             nidade. Reconhecemo-nos, porque somos
                                                                                              ONG esquerdista, esgotada nas causas           zados passou de 21 para 15; o número
                                             semelhantes. Só porque o fundamental é a
                                                                                              correctas do luso-utopismo.                    de camas foi reduzido, sendo certo que
                                             nossa semelhança é que há igualdade de
                                                                                                                                             o número de atendimentos aumentou.
                                             direitos e só porque não há diferença de di-
                                                                                                                                                Estou mesmo a falar de Portugal.
                                             reitos fundamentais é que há o direito à di-
                                                                                                                                             Este. Onde a politização férrea de car-
                                             ferença. Afinal, “não há ninguém tão con-
AMÉRICA, AMÉRICA                             vencido da diferença como um racista”.
                                                                                                                                             gos na Saúde e a violação das boas polí-
                                                                                                                                             ticas nos podem comprometer, muitas
                                                 Claro que, no encontro com o outro, nun-
   Não sei se o remorso curva a espinha                                                                                                      vezes, a vida. (...)
                                             ca se pode esquecer que o outro é um ou-
e ensombra o gesto. Nem sei o que pe-        tro eu e ao mesmo tempo um eu outro, de
sou mais nos últimos dias de George W.                                                                                                                     Paula Teixeira da Cruz
                                             tal modo que nunca nenhum de nós saberá
Bush. Se a memória de como planeou                                                                                                                Correio da Manhã 15/Janeiro/09
                                             o que é e como é ser outro enquanto outro,
vingar-se do pai, parecendo querer vin-      eu outro. Mas o que mais nos interessa é a
gar o pai; se o intuito de refazer a apa-    semelhança, pois, nas diferenças, somos                                                         DESAFIOS DE UMA
gada e vil imagem que a primeira meta-       todos humanos, reconhecendo-nos.                                                                ESTRATÉGIA NACIONAL
de da vida lhe traçou; se a pulsão da epo-       Se me perguntam pelo fundamento últi-
peia, às vozes e tambores dos evangéli-      mo da dignidade humana, digo que é a nos-                                                          Para definir uma estratégia nacional
cos; se o ter-se deslumbrado com a sim-      sa comum capacidade de perguntar. O que                                                         realista e consequente, é preciso que te-
ples e prática cupidez de Dick Cheeney.      nos reúne é uma pergunta inconstruível, sem                                                     nhamos consciência da situação de que
Estes são os condimentos principais que,     limites, que tem na raiz o infinito e nele de-                                                  se parte, avaliando os pontos fortes e os
num filme subestimado mas interessan-        semboca, sendo as culturas tentativas de                                                        pontos fracos. Só com esta consciência
te, Oliver Stone nos propõe para dosea-      formulá-la e perspectivar respostas.                                                            se pode potenciar as vantagens dos pri-
mento su misura. Eu não tento o meu. E           Aqui, assenta a convivência fraterna e                                                      meiros e atenuar os inconvenientes dos
não excluo uma abordagem mais singe-         digna da Humanidade, reconhecendo to-               O novo Presidente foi buscar a maio-        segundos. Só assim é possível valorizar
la: o que verga Bush são as sondagens        dos como humanos. Mas, como também               ria dos seus colaboradores à última Ad-        o que é bom e transformar o que está
de aceitação popular, nesse momento          lembrou Savater, inimigos maiores desta          ministração democrática - a de Bill Clin-      mal. Acresce que num tempo de instabi-
sem remédio que é a passagem aos ar-         convivência são a pobreza e a ignorância.        ton. A começar pela secretária de Esta-        lidade e pessimismo generalizados como
quivos da história americana. (...)          Rejeitamos os pobres, porque metem medo:         do, Hillary Clinton, a continuar na equipa     é o nosso, em que todos os dias somos
                                             nada nos dão e obrigam-nos a dar. A igno-        do Tesouro e a acabar no novo director da      surpreendidos por notícias quase sempre
            Nuno Brederode Santos            rância é outra fonte de susto: quando se         CIA, Leon Panetta. Quanto ao Conselho          más e de impacto negativo global, im-
      Diário de Notícias 18/Janeiro/09       não reconhece a semelhança, teme-se o            Nacional de Segurança e ao Pentágono,          porta conciliar os vários tempos de con-
                                             diferente.                                       Obama optou pela continuidade de Robert        cepção e de actuação, o curto e o médio
PSD EM DIFICULDADES                              Aí está, pois, a urgência da solidarie-      Gates e foi buscar o general James, um         prazo que o imprevisto e a emergência
                                             dade, assente no reconhecimento da se-           republicano, ex-comandante dos marines.        exigem, com o longo prazo, no duplo pla-
   Manuela F. Leite parece queimar os        melhança. (...)                                  Um almirante, Denis Blair, ex-responsável      no retrospectivo e prospectivo, que qual-
últimos cartuchos e, se houver engenho,                                                       pelo Comando Militar do Pacífico, com-         quer visão estratégica pressupõe.
será Passos Coelho o senhor que se se-                           Anselmo Borges               pletou o elenco à frente do NDI.                  Por isso, para reflectir sobre os desa-
gue.                                              Diário de Notícias (17/Janeiro/09)             Mas mais que a questão da equipa, é         fios de uma estratégia nacional, precisa-
   Está em marcha o projecto de substi-                                                       importante olhar o mundo que essa equipa       mos também de projectar num horizonte
tuição de Manuela Ferreira Leite à fren-     A POLÍTICA DO MEDO                               vai encontrar. Que como sempre é o mes-        temporal suficientemente lato - de 10 ou
te do PSD. Várias personalidades de                                                           mo de ontem, mas também muito diferen-         15 anos - a ambição que se tem para
topo do partido de Sá Carneiro têm-se           (...) Hoje em dia, quer os magistrados        te: em 2000, George W. Bush herdava a          Portugal. (...)
reunido com bastante frequência para         do Ministério Público, quer os juízes, sen-      continuidade do “momento americano”, no
analisar a situação difícil em que o PSD     tem receio na aplicação da prisão pre-           termo da primeira década do pós-Guerra                               Jorge Sampaio
se encontra e os efeitos negativos que       ventiva.                                         Fria; os Estados Unidos eram a potência,             Diário de Notícias 15/Janeiro/09
daí resultarão caso este partido tenha nas      E tudo acontece porque se trabalha            a Rússia estava de rastos, a China crescia
próximas eleições um resultado catastró-     com meros indícios e não com prova se-           mas não incomodava muito, os europeus          AS “REFLEXÕES”
fico. É consensual no seio do grupo que      gura e porque o governo introduziu uma           entretinham-se a discutir entre si projectos   DE SAMPAIO
se pôs em movimento, há cerca de um          autêntica mudança de paradigma no qua-           confederais e federais para a União. O
mês, a ideia de que Manuela Ferreira         dro da responsabilidade civil dos magis-         Médio Oriente vivia o velho conflito israe-       O documento que Jorge Sampaio fez
Leite não pode nem consegue protago-         trados pelas suas decisões, pretenden-           lo-árabe e a África subsariana continuava      publicar, anteontem, no DN, sob o título
nizar uma candidatura vitoriosa.             do, com esta mudança, utilizar este ins-         marginalizada. (...)                           de “Cinco Reflexões sobre os Desafios
   Essa leitura negativa ganhou cores mais   trumento como uma arma de controlo e                                                            de uma Estratégia Nacional”, comporta
negras após a entrevista de Manuela Fer-     de pressão sobre a actividade judicial.                   Maria José Nogueira Pinto             uma forma de revolta delicada, uma crí-
reira Leite a Judite de Sousa. A insegu-     Sendo este o caminho, cedo chegará o                   Diário de Notícias 15/Janeiro/09         tica mansa, e um pouco melancólica, aos
rança da líder dos social-democratas, a      dia em que nos vão dizer como é que                                                             egoísmos corporativos, e o desejo de que
dificuldade em dar respostas claras e con-   devemos decidir. Já existia um quadro            DA FALTA DE SAÚDE                              as fracturas sociais crescentes não atin-
vincentes sobre áreas fundamentais da        de responsabilidade civil, criminal e dis-                                                      jam zonas irremediáveis. O texto possui
vida nacional, o pouco à-vontade eviden-     ciplinar dos magistrados, semelhante ao             (...) No mais, para além de cerca de        a honestidade intelectual do autor e o
ciado em sucessivas prestações no meio       que existe noutros países europeus. Daí          600 mil doentes em listas de espera na         sentido de um apelo que desemboca em
televisivo, as incongruências do discurso    que a mudança foi para apertar o cerco           rede hospitalar – no 26º lugar numa lista      largas inquietações.
e o ziguezague do seu trajecto foram, em     e fazer crescer o medo em detrimento             de 31 países –, no sistema de cuidados            Como se pode mobilizar um povo, con-
síntese, as conclusões a que chegaram os     da razão, que vai ficando cada vez mais          de saúde, com indicadores equiparáveis         vocá-lo para a causa comum, se a clas-
barões desse grupo. (...)                    paralisada. (...)                                à Roménia e à Bulgária, também conti-          se dirigente tem tripudiado sobre a cul-
                                                                                              nuam os encerramentos dos SAP e a              tura de relação de que se compõe a de-
                    Emídio Rangel                                    Rui Rangel               extinção de serviços de urgência hospi-        mocracia avançada? Nada nesse senti-
      Correio da Manhã 17/Janeiro/09                Correio da Manhã 14/Janeio/09             talar, sem alternativas assistenciais, es-     do tem sido realizado, sequer tentado. O
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                              OPINIÃO              9
próprio Sampaio, quando Presidente, ao         mam-se umas banalidades veementes e          espaço à esperança de que as coisas não        daico, dos neoconservadores e, como
rejeitar Ferro Rodrigues, e abrir as por-      passa-se adiante, quando aquilo que ele      correrão pior no ano novo, não foi ex-         sempre, da corrupção dos líderes políti-
tas a um intermezzo cómico, participou,        constrói é uma máquina do mundo. (...)       cepção encontrar registada a convicção         cos árabes, reféns do petróleo e da aju-
activamente, no retrocesso histórico que                                                    de que a nova Administração americana          da financeira norte-americana. A guerra
fez aumentar a indiferença e o desen-                         António Lobo Antunes          reconhecerá que, sem uma solução jus-          do Iraque foi uma antecipação de Gaza:
canto portugueses. As desproporções                                          Visão          ta do conflito Israel-Palestina, será im-      a lógica é a mesma, as operações são as
obscenas entre os sacrifícios impostos e       O MEDO                                       possível conseguir uma estabilidade em         mesmas, a desproporção da violência é
as regalias generosamente distribuídas                                                      qualquer dos países onde cresce a acti-        a mesma; até as imagens são as mes-
por uma casta de privilegiados não são            O silogismo mais picante das últimas      vidade dos movimentos islamitas. Pas-          mas, sendo também de prever que o re-
de molde a entusiasmar a população. O          semanas é o seguinte: o PS, com os seus      sados tantos anos sobre a criação do           sultado seja o mesmo. E não se foi mais
discurso oficial desloca—se numa falsa         porta-vozes a fazerem imensas vénias         Estado de Israel, os mesmos anos da            longe porque Bush, entretanto, se debili-
euforia e passa para a depressão mais          mui atentas, veneradoras e obrigadas,        Declaração Universal dos Direitos Hu-          tou. Não pediram os israelitas autoriza-
inquietante. Ninguém, de boa fé, acredi-       mostrou-se absolutamente de acordo           manos, parece difícil racionalizar as cau-     ção aos EUA para bombardear as insta-
ta nestes “políticos”, cuja representação      com o severíssimo diagnóstico feito pelo     sas que impedem a paz entre os dois            lações nucleares do Irão? É hoje evidente
é diariamente demolida pelas evidências        Presidente da República na sua mensa-        povos, sendo que as premissas necessá-         que o verdadeiro objectivo de Israel, a
dos factos. E Jorge Sampaio bem o sabe.        gem de Ano Novo; o PR, nos pontos prin-      rias estão definidas. Designadamente,          solução final, é o extermínio do povo pa-
   As “Reflexões” não eliminam o senti-        cipais da sua mensagem, reiterou posi-       poucos observadores duvidam de que o           lestiniano.
do crucial dos problemas, mas também           ções críticas que já tinham sido clara-      quarteto liderado por Tony Blair, envia-          Terão os israelitas a noção de que a
não indicam, ou sugerem, como seria            mente assumidas por Manuela Ferreira         do especial ao Próximo Oriente, esteja         shoah com que o seu vice-ministro da
natural, o combate ideológico contra a         Leite; logo, o PS está de acordo com         consciente de que, sem a intervenção           Defesa ameaçou os palestinianos pode-
ideologia que intimida os governos e os        Manuela Ferreira Leite exactamente           decidida dos Estados Unidos da Améri-          rá vir a vitimá-los também? Não teme-
intima a praticar regras unilaterais. Há,      quanto a uma série de pontos em que          ca, a solução não será encontrada. (...)       rão que muitos dos que defenderam a
em tudo isto, uma perversão moral que          tinha tentado refutá-la com as excitadas                                                    criação do Estado de Israel hoje se per-
condiciona o comportamento ético. O            estridências do costume...                                      Adriano Moreira             guntem se nestas condições e repito:
texto de Sampaio é omisso nestes aspec-           Agora que o Banco de Portugal se viu            Diário de Notícias 13/Janeiro/09         nestas condições o Estado de Israel tem
tos, e percorre-se em generalidades.           forçado a traçar o cenário mais negro                                                       direito de existir?
                                               dos últimos anos e a falar da entrada da     REQUIEM POR ISRAEL?
                     Baptista-Bastos           economia portuguesa em recessão, a                                                                      Boaventura Sousa Santos
      Diário de Notícias 14/Janeiro/08         manobra consistiu em o primeiro-minis-           (...) É PRECISO RECUAR NO TEM-                                           Visão
                                               tro abordar esse tema de véspera, numa       PO. Não ao tempo longínquo da bíblia he-
EDUARDO LOURENÇO                               entrevista à SIC Notícias, em que aca-       breia, o mais violento e sangrento livro al-   A CAIXA
                                               bou por confirmar o que a oposição já        guma vez escrito. Basta recuar 60 anos, à
   (...) Sábado jantei com Eduardo Lou-        tinha dito. Tudo para que as palavras de     data da criação do Estado de Israel. Nas          Ao contrário do que diz o anúncio,
renço. No fim disse que não queria bo-         Constâncio não fossem, como afinal fo-       condições em que foi criado e depois apoi-     banco não é Caixa. Talvez seja o primei-
leia, que o hotel era mesmo ali e vi-o atra-   ram também, um desmentido terrível das       ado pelo Ocidente, o Estado de Israel é o      ro caso de publicidade que peca por de-
vessar a rua em baixo, sozinho, um pouco       afirmações que o chefe do Governo an-        mais recente (certamente não o último) acto    feito a gabar o seu produto. Na verdade,
curvado, no seu passo miúdo e comoveu-         dava por aí a fazer...                       colonial da Europa. De um dia para o ou-       a Caixa é muito mais do que um banco –
me vê-lo caminhar noite fora, de cache-           Depois de umas 150 sessões de des-        tro, 750 mil palestinianos foram expulsos      é uma espécie de mãe de todas as insti-
col ao pescoço, a ferver de vida entre os      pacho com Sócrates à quinta-feira, o PR      das suas terras ancestrais e condenados a      tuições de crédito. Desde que a crise
candeeiros. Eu passo o tempo a delirar,        deve andar perfeitamente estarrecido         uma ocupação sangrenta e racista para          começou, a Caixa tem andado a salvar
dizia ele, mas só deliro para dentro por-      com o PM que nos saiu na rifa.               que a Europa expiasse o crime hediondo         tantos bancos que receio sinceramente
que se delirar para fora internam-me. E                                                     do Holocausto contra o povo judeu.             que, em breve, seja preciso salvar a Cai-
fico a assistir, calado, enquanto fala. Lem-                   Vasco Graça Moura                Uma leitura atenta dos textos dos sio-     xa. Directa ou indirectamente, a Caixa
bro-me que há uns anos, em Bordéus jul-              Diário de Notícias 14/Janeiro/09       nis- tas fundadores do Estado de Israel        contribuiu para ajudar primeiro o BPN e
go eu, falámos a quatro mãos de Litera-                                                     revela tudo aquilo que o Ocidente hipocri-     depois o BPP. O que, sendo preocupan-
tura sem nada preparado, nada pensado,         PRISÕES                                      tamente ainda hoje finge desconhecer: a        te (menos para quem tem o dinheiro no
assim de improviso, nos divertimos imen-                                                    criação de Israel é um acto de ocupação e      BPP), não surpreende. É certo que o BPP
so e deu-me ideia que a assistência tam-          (...) Nos 50 estabelecimentos prisio-     como tal terá de enfrentar para sempre a       é um banco que gere grandes fortunas,
bém. Na altura cochichei-lhe                   nais portugueses (28 regionais, 17 cen-      resistência dos ocupados; não haverá nun-      mas a Caixa é um banco que gera gran-
   – Devíamos dar um curso de Teoria           trais e 4 especiais) estão actualmente       ca paz, qualquer apaziguamento será sem-       des fortunas. Sobretudo nas contas dos
da Literatura a meias                          cerca de 10 800 detidos, sendo cerca de      pre aparente, uma armadilha a ser desar-       seus administradores. A diferença é subtil
       e que o projecto nos fez rir: conver-   2000 preventivos e 7% mulheres. Aqui         mada (daí que a seguir a cada tratado de       mas significativa.
sarmos sem plano, ao sabor do que nos          trabalham perto de 6000 funcionários.        paz se tenha de seguir um acto de violação        De resto, não há dúvida, a Caixa é um
vinha à cabeça. Somos tão diferentes e,        Segundo a drª Clara Albino, directora-       que a desminta); para consolidar a ocupa-      banco tão bom que até promove altos
no entanto, que maravilha de sintonia in-      geral dos Serviços Prisionais, não são       ção, o povo judeu tem de se afirmar como       quadros de outros bancos. Ao que che-
terior. Acho que é das pessoas que me-         fáceis as reformas estruturais para dar      um povo superior condenado a viver rode-       gou a concorrência no mundo das insti-
lhor compreendem o que faço e que com          às prisões instrumentos de reabilitação e    ado de povos racialmente inferiores, mes-      tuições financeiras: o BCP convidou Ar-
mais profundidade disso escreveu.              organizar modos eficazes de reinserção       mo que isso contradiga a evidência de que      mando Vara para um cargo importante;
   E depois a obra dele, inclassificável,      social.                                      árabes e judeus são todos povos semitas;       a Caixa, um mês e meio depois da saída
única: o homem que pensa Portugal, di-            A grande mudança a operar decorre         com raças inferiores só é possível um re-      do seu antigo administrador, promoveu-
zem, o ensaísta, dizem, e para mim o           de um processo interior, que o longo tem-    lacionamento de tipo colonial, pelo que a      o a um cargo ainda maior. A mensagem
Eduardo não é nada disso, ou antes cha-        po de reflexão pode permitir. A dimen-       solução dos dois Estados é impensável; em      é clara: sim, o BCP oferece bons em-
mar-lhe isso é tão redutor. Inventou uma       são espiritual é essencial para dar a vol-   vez dela, a solução é a do apartheid, tanto    pregos aos seus funcionários, mas a Cai-
maneira de imaginar, uma meta-lingua-          ta à vida, partir da verdade, assumir a      na região como no interior de Israel (daí os   xa oferece empregos ainda melhores a
gem irrepetível que nos contém a todos,        responsabilidade do mal, readquirir con-     colonatos e o tratamento dos árabes israe-     funcionários que já não trabalham lá.
criou um universo verbal em perpétua           fiança, reorganizar-se, criar autonomia e    litas como cidadãos de segunda classe); a      Mergulhados numa profunda crise, os
expansão, um continente, antes dele, por       independência, gerar esperança. (...)        guerra é infinita e a solução final poderá     bancos competem para aliciar os profis-
achar. E, de vez em quando, disso nos                                                       implicar o extermínio de uma das partes,       sionais mais qualificados. Eles sabem
dá notícia nos seus livros e quem tiver                   Bispo D. Carlos Azevedo           certamente a mais fraca.                       que só os melhores têm a competência
ouvidos para ouvir que oiça. Sempre me               Correio da Manhã 16/Janeiro/09             O QUE SE PASSOU NOS ÚLTI-                  necessária para mergulhar os bancos que
deu ideia de existirem equívocos sobre                                                      MOS 60 anos confirma tudo isto mas vai         dirigem numa profunda crise. E assim
equívocos na apreciação do que faz e                                                        muito para além disto. Nas duas últimas        sucessivamente. (...)
                                               O SANGUE DOS INOCENTES
erros interpretativos de toda a ordem.                                                      décadas, Israel procurou, com êxito, se-
Parece-me que o admiram sem o enten-                                                        questrar a política norte-americana na                       Ricardo Araújo Pereira
                                                 No balanço do ano que findou, e que
derem, cola-se-lhe uma etiqueta, afir-                                                      região, servindo-se para isso do lóbi ju-                                     Visão
                                               os analistas desejariam elaborar dando
10            CRÓNICA                                                                                  arte em café
                                                                                                                                        21 DE JANEIRO DE 2009



                            A OUTRA FACE
                             DO ESPELHO
                                                                          Para variar, boas entradas…
                           José Henrique Dias*
                             jhrdias@gmail.com


    É tão escuro este poço! Escuro e húmido. Os amigos
mandam cartões de Feliz Ano Novo. Augúrios. Talvez
seja noite. Amanhã irão celebrar o nascer do dia, haverá
crianças a rir a caminho da escola, as mães vão preparar
as merendas e fazer recomendações, nas missas as pes-
soas vão pensar que saem mais limpas porque comunga-
ram, o rapaz do supermercado arrumará caixas nas prate-
leiras, na rádio canções de outras paragens, nas ruas e
nas lojas restos de Silent night, holy night, All is calm, all
is bright.…tudo é paz, tudo é luz, sininhos e sorrisos, cho-
colates e tempestades, uma rapariga dirá sim às palavras
de um colega enamorado, mudam o tempo, como nos ver-
bos, ele fica de olhos cor de manhãs claras e ela sorri, no
hospital acaba de nascer um rapazinho a que vão chamar
Gonçalo, as notas correram bem ao filho do senhor Adal-
berto que sempre sonhou ver o filho advogado, quem sabe           mos nós e por muito que me esforce não consigo aturar           anda coitado num triste desassossego. Fiquemos preo-
ministro, a mulher que passa ao volante de um utilitário          este nós em que nos vamos atolando. E não parece que            cupados porque morreu afogado um rouxinol no Monde-
leva os olhos molhados porque o marido foi de um egoís-           possa haver gente capaz para governar tal gente que diz         go e o passarinho da ribeira que não seja inimigo. O Zeca
mo que ela diz que não perdoa, só até mais logo quando            este país como se fossem doutro e o país são eles e os          e o Adriano não passam. O Goes não se ouve. É tempo
chegar a casa e ele lhe disser não sabes que é tudo por           filhos deles ou os primos, os companheiros de escola ou         de tonis qualquer coisa, marcos isto, mónicas aquilo, con-
amor, tudo vai funcionar, até a panela que ficou esquecida        os vizinhos que começam a viver e transformam definiti-         cursos gordos e morangos com açúcar. É tempo de dizer
sobre o fogão e o arroz esturrado, porque ficaram a amar-         vamente a vida em vidinha, de que falava o O’Neill, eu          que os grandes escritores são insuportáveis. É tempo de
se na carpete, não faz mal, querida, é um bom pretexto            bem gostava de arranjar maneira de não me preocupar             promover a mediocridade e de autismo governativo.
para mandarmos vir uma pizza, a vizinha do sexto andar            mas a verdade é que acredito que é possível mudar muita            O Alfa demora menos de duas horas a chegar a Coim-
parece que tem uma doença esquisita, dizem, se calhar é           coisa, justiça social e ética, liberdade e participação, como   bra. Estação de Coimbra B. O comboio que deu entra-
sida, não têm cuidado, coitado do namorado que se calhar          dizer, as pessoas sentirem-se mais felizes, não terem o ar      da na linha um é o Alfa Pendular proveniente de Lis-
já foi infectado, ou se calhar foi ao contrário, todos os dias,   bisonho e o rosário do queixume sempre que lhes pergun-         boa Santa Apolónia com destino a Braga. Só admite
a todas as horas, sempre igual, uma bica bem quente faz           tam como vai o negócio, vai sempre mal, nunca se ouve           passageiros com bilhete válido para comboios… Rou-
favor, curta, bem sabe que é sempre curta, sem açúcar,            ninguém dizer vai bem, estou bem, isto está a correr bem,       fenhas, as palavras perdem-se. Logo regressam. Na li-
bebo sempre sem açúcar, senhor Flávio, com açúcar é o             sempre o precisamos que o Governo olhe por nós, a culpa         nha “númaro” cinco encontra-se uma composição com
meu irmão gémeo, já viu o que aqui está no jornal?, estes         foi do árbitro, quando muito também do guarda-redes,            destino a Coimbra. De Coimbra para Coimbra. O vento
gajos só lá estão para gamar, e a malta que se lixe, ainda        coitado, paga sempre as favas, ninguém culpa o avança-          cala a desgraça/ o vento nada me diz.
há pouco tempo era o que era e já está rico, já leu, senhor       do que falhou o penalti ou o golo à boca da baliza, foi azar,      Que desolação e desconforto. Há quanto tempo as-
Flávio?, andamos a trabalhar para esta malta se governar          mas no guarda-redes é frango, piu, piu, dizem os comen-         sim? Mas a gente o que quer é ir, estar na sala de
à nossa custa, para mim votar já era.                             tadores que não comentam nada, falam do que estamos a           espera ou caminhar na plataforma, que pena não se
    São oito e meia. Tenho de seguir para Coimbra. De-            ver e até conseguem não ver o que estamos a ver e dizem         conseguir viajar de borla, estudar de borla, ter carro de
moro menos de duas horas a chegar, se tudo correr bem.            outra coisa, as manifestações enchem avenidas da gran-          borla, tudo pela Nação, nada contra a Nação, outra
Estou cansado. Não só destas conversas. Não é que elas            deza de tecer insultos e abrir brechas para os meninos          vez, em tom menor, quem o alheio veste na praça o
não tenham importância. Reflectem, obviamente, não digo           serem insolentes, tomates e ovos e guinchos e cadeados          despe, mas isso era dantes.
o estado do país mas as características do que somos.             nas portas e pistolas de plástico e telemóveis que filmam,         Quem o alheio despe que bem se veste. Figurinos e
Confesso que não tenho muita consideração pelo que so-            quem semeia ventos colhe tempestades, brincadeiras de           figurões. Montras e montes e vales e azevedos exportam-
mos. Não gosto. Tenho mesmo vergonha. Dizem-me com                mau gosto, dizem, irresponsáveis que irresponsabilizam,         se e importam-se, para que se veja, um que seja, para que
azedume que sou elitista, mas qual é o problema? Não é            senhoras professoras de repente na ribalta sabe-se lá por-      se saiba, parar a raiva, afinal a justiça funciona, os reitores
verdade que as pessoas estão ao mesmo tempo bem com               quê, a protestarem em conflito com a Língua Portuguesa,         não servem para gerir as universidades, é preciso gesto-
tudo ou mal com tudo? Paspalham diante das televisões a           sindicalistas sem espaço a quererem sobreviver, engas-          res, como se viu nos bancos, os gestores é que sabem, um
ver umas senhoras apresentadoras que guincham, salti-             gados com dois raciocínios seguidos, diria o Joaquim Na-        ou dois, para exemplo, vão dentro pela imprudência de
tam, insuflam rugas, injectam silicone, publicam livros ile-      morado, um dia destes vem aí uma coisa mais ou menos            roubarem ricos, se roubassem pobres não passava nada,
gíveis que as pessoas compram, pessoas que não sabem              dos subúrbios de Paris ou das ruas gregas e depois onde         de fora outros com direito a excelência e conselhos de
porque é que votam mas votam, só às vezes, naquele par-           está a autoridade, perguntam, a polícia que lhes carregue,      administração. É bom ter espaço para dar conselhos. E
tido, sempre no mesmo, como se paixão ou talvez mais              dizem, mas então o que queremos mesmo é a polícia que           quem seja capaz de os ouvir. Os conselhos valem mais do
agência de futuro, futebol, futebol, futebol, o futebol pre-      carregue? Para o diabo que os carregue. Estão sempre            que os exemplos. Embalados. Como serenatas.
enche a vida dos homens e de algumas mulheres que pre-            de consciência tranquila. Fazem tudo de consciência tran-          Estas guitarras, senhoras e senhores, vêm falar-vos
enchem por sua vez o futebol para uns senhores pouco              quila. Adiam julgamentos com advogados caros. Todos             de amor e de saudade, dum luar que deixa sombras so-
recomendáveis terem protagonismo e serem ouvidos nas              de consciência tranquila. Não há patife bem falante que         bre coisas impossíveis. Toda a Coimbra da lenda, de co-
televisões e nas primeiras páginas dos jornais desportivos        não tenha a consciência tranquila. Não há pedófilo que          ração e de feitiço, Coimbra antiga e íntima, feita de fili-
com fotografia a duas colunas, a minha política é o traba-        não tenha a consciência tranquila. Todos inocentes. As          granas e de poentes, pedaço romântico a recordar boé-
lho, ficou do outro tempo, um milhão de analfabetos não           criancinhas é que são perversas. Transitam em julgado.          mios e poetas.
falando dos milhões dos funcionais, aos domingos e feria-         Ainda hão-de pedir indemnizações aos nossos impostos.              Era mais ou menos assim que eu apresentava as sere-
dos passeios nos centros comerciais a dizerem vamos ao            Por causa da consciência tranquila.                             natas. Palavras minhas e de outros. Há quanto tempo foi?
shopping, ver montras e marcar viagens a prestações para             Farrapos de conversas a caminho da estação em trans-         Se calhar foi ontem, à chegada do Alfa Pendular.
todas as puntascanas que lhes impingem, esta é a ditosa           portes públicos. Eu aqui de pé, todo o dia a trabalhar, diz        Ou quando acordei estremunhado. No fundo do poço.
pátria minha amada, como repetiam com salazares na                uma mulher, para estes velhos andarem sem fazer nada a          Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que
ponta da língua, empresários vão à falência com ferraris à        passear de autocarro e ocuparem os lugares de quem está         diz não. Valham-nos os poetas. Que venham os poetas.
porta da vivenda com santinhos de azulejo na fachada,             cansado de trabalhar. Mau sinal. Os velhos para o ve-           Um poeta em quem possamos depositar a força de lutar.
gritam no fórum da TSF o que é preciso é que venham               lhão, já! Lembram-se como fizeram os Gato Fedorento?            Que promova a Esperança.
dois ou três salazares depressa, endireitar isto, estes so-          O Alfa Pendular está a passar na ponte. O Choupal                                                * Professor universitário
21 DE JANEIRO DE 2009
                                                                                                                                              COIMBRA                  11
PRÉMIO UNIVERSIDADE DE COIMBRA 2009

Nome do vencedor será divulgado amanhã
   O nome do vencedor da edição deste         2005, o Prémio foi atribuído, ex-aequo,     sinalando assim os 100 anos do Mani-        ministra da Cultura), João Pinharanda
ano do Prémio Universidade de Coim-           ao historiador António M. Hespanha e        festo Futurista, os 200 anos do nascimen-   (historiador de arte, crítico de arte e cu-
bra vai ser anunciado amanhã (quinta-         ao actor e encenador Luís Miguel Cin-       to de Charles Darwin e os 40 anos do        rador), José Andrade Campos (docente
feira), em conferência de imprensa, pelo      tra. A reconhecida classicista Maria        movimento estudantil de 1969.               da Universidade de Coimbra), José de
Reitor Fernando Seabra Santos.                Helena da Rocha Pereira foi premiada           O júri da edição deste ano do Prémio     Miranda (ensaísta e docente da Univer-
   O Prémio Universidade de Coimbra,          em 2006 e o matemático luso-brasileiro      Universidade de Coimbra integra, como       sidade Nova de Lisboa), Maria de Fáti-
que vai na sua sexta edição, é um dos         Marcelo Viana em 2007. No ano passa-        tem vindo a ser hábito, 10 nomes de re-     ma Sousa e Silva (docente da Universi-
mais valiosos galardões nacionais nos         do, foi distinguido o investigador e em-    conhecido mérito da cultura e da ciência    dade de Coimbra) e Maria Filomena
campos da cultura e da ciência, tendo já      preendedor José Epifânio da Franca.         portuguesas: Alexandre Alves da Costa       Molder (filósofa e docente da Universi-
distinguido áreas tão distintas como as          O Prémio Universidade de Coimbra         (arquitecto e docente da Universidade de    dade Nova de Lisboa). É presidido pelo
neurociências, a história das instituições,   2009, no valor de 25 000 Euros, será en-    Coimbra), Ana Tostões (arquitecta e do-     Reitor Fernando Seabra Santos e tem
as artes do palco, os estudos clássicos, a    tregue a 1 de Março, durante a Sessão       cente do Instituto Superior Técnico),       como vice-presidentes António V. Mon-
matemática e a engenharia de sistemas.        Solene comemorativa do 719.º aniversá-      Carlos Robalo Cordeiro (docente da          teiro, administrador do Banco Santander-
   Na primeira edição, relativa a 2004,       rio da Universidade de Coimbra. Este        Universidade de Coimbra), Guilherme de      Totta, e José Leite Pereira, director do
foi premiado o neurocientista Fernando        evento integra-se na XI Semana Cultu-       Oliveira (docente da Universidade de        Jornal de Notícias.
Lopes da Silva, considerado um dos 100        ral da Universidade, que será dedicada      Coimbra), Isabel Pires de Lima (docen-
cientistas mais influentes do mundo. Em       ao tema “Velocidade e Movimento”, as-       te da Universidade do Porto e antiga



                 Reitor debate Universidade e Cidade
   A relação entre a Universidade e a ci-                                                 da mudança permanente”.                     ble e no Institut National Polytechnique
dade de Coimbra será o tema da próxima
                                                                                                                                      de Grenoble, onde defendeu a sua dis-
sessão do ciclo “Quintas na Quinta”, orga-                                                SÍNTESE BIOGRÁFICA                          sertação de Doutoramento em Enge-
nizado pela Fundação Inês de Castro. O
                                                                                                                                      nharia Hidráulica.
reitor da Universidade de Coimbra (UC),                                                      Fernando Seabra Santos nasceu em            Foi vice-reitor da UC entre 1998 e
Fernando Seabra Santos, é o convidado do                                                  Coimbra em 1955. Licenciado em En-          2003, ano em que foi eleito reitor da mes-
jantar-conferência, que terá lugar excep-                                                 genharia Civil pela Universidade de Co-     ma universidade. Em 2007, voltou a ser
cionalmente a uma sexta-feira, dia 30 de                                                  imbra (UC), desde logo assumiu fun-         reconduzido no cargo, que desempenha
Janeiro, às 20h, na Quinta das Lágrimas.                                                  ções de docência. Leccionou nas Fa-         a par da presidência do Conselho de
   Fernando Seabra Santos, que é o ac-                                                    culdades de Ciências e Tecnologia da        Reitores das Universidades Portuguesas
tual Presidente do Conselho de Reitores                                                   Universidade de Coimbra (FCTUC) e           (desde Fevereiro de 2007). É ainda pro-
das Universidades Portuguesas (CRUP),                                                     da Universidade de Lisboa, na Univer-       fessor catedrático no Departamento de
fará uma intervenção subordinada ao                                                       sité Scientifique et Médicale de Greno-     Engenharia Civil da FCTUC.
tema “UNIVER(SC)IDADE: o sentido               Fernando Seabra Santos




A morte de Robert Étienne
   Faleceu em Bordéus, no passado dia         urbano” dessa sua pesquisa sobre a His-                                                 em que se incluem, entre outros, o volu-
4 de Janeiro, o Prof. Robert Étienne, que,    tória Antiga peninsular, veio o itinerá-                                                me sobre as inscrições de Lugo (Paris,
a 18, completaria 88 anos de idade.           rio rural, com as campanhas na villa                                                    1979) e a colecção Inscriptions Roma-
   Para a maior parte dos nossos leitores,    romana de São Cucufate (Vidigueira),                                                    ines de Catalogne (I – 1984, V – 2002),
o nome do Prof. Robert Étienne pouco          de que R. Étienne nos legou, com J.                                                     a que lançaram ombros G. Fabre, Marc
significará. Catedrático de História Anti-    Alarcão e F. Mayet, dois volumes so-                                                    Mayer e I. Rodà.
ga e de Arqueologia da Universidade de        bre os trabalhos aí realizados: Les Vi-                                                    Conimbriga esteve sempre, porém,
Bordéus III, foi doutorado honoris cau-       llae Romaines de São Cucufate (Por-                                                     no centro das suas atenções e no livro
sa pela Faculdade de Letras de Coimbra,       tugal), Paris, 1990. E podemos dizer que                                                Histoire et Archéologie de la Pénin-
a 17 de Abril de 1983, tendo sido seu ‘pa-    também essa pesquisa sistemática de                                                     sule Ibérique (Vingt ans de recherches
drinho’ o Prof. Jorge de Alarcão.             uma villa romana, que pela primeira vez                                                 1968-1987) [Paris, 1993] são muitos os
   Na verdade, estavam estreitamente          se levava a efeito entre nós, constituiu                                                textos referentes a esta cidade.
ligados na sua pesquisa estes dois do-        um marco decisivo na investigação da                                                       Entre as inúmeras condecorações re-
centes, pois foi com ambos que, depois        ocupação do solo em tempo de Roma-                                                      cebidas, conta-se a de Comendador da
da actividade aí desenvolvida por João        nos na Lusitânia.                                                                       Ordem do Infante D. Henrique o Nave-
Manuel Bairrão Oleiro, Conimbriga ga-            Se um traço primordial podemos rele-                                                 gador. Ao Instituto de Arqueologia da
nhou jus a um lugar de relevo no panora-      var na personalidade de R. Étienne é a                                                  Faculdade de Letras legara já parte sig-
ma arqueológico internacional, mormen-        sua disponibilidade para ensinar e formar                                               nificativa das obras da sua biblioteca re-
te após a publicação – e foi essa uma         equipa. O Centre Pierre Paris, que criou,    Robert Étienne                             lativas à Península Ibérica.
das primeiras publicações do género no        foi, sem dúvida, uma das primeiras uni-                                                    Na memória de quantos com ele pri-
mundo da investigação arqueológica –          dades de investigação a dedicar a sua       mais de uma dezena de artigos sobre a       varam fica a figura do trabalhador incan-
dos 7 volumes das Fouilles de Conim-          atenção especificamente à Hispânia ro-      Península Ibérica com os seus parceiros     sável, do investigador sagaz, do dirigen-
briga (1974-1979), em que se deu con-         mana e, com a sua rica biblioteca, aco-     de investigação (e, geralmente, orientan-   te que era capaz de mover montanhas
ta dos relevantes aspectos dessa cidade       lheu inúmeros estagiários idos dos mais     dos de doutoramento).                       para levar a água ao seu moinho, mas
romana, postos a descobertos no decor-        diversos países, designadamente de Co-         De realçar, ainda, o seu papel deter-    também do alegre companheiro das ho-
rer das campanhas luso-francesas, que         imbra, muito antes de se ter pensado se-    minante no desenvolvimento dos estudos      ras de convívio.
ambos dirigiram nas décadas de 60 e 70.       quer em programas ERASMUS ou equi-          epigráficos peninsulares, de que conce-
   Depois de Conimbriga, o “itinerário        valentes!... E o Prof. Étienne assinou      beu um plano sistemático de publicações                         José d’Encarnação
12   PUBLICIDADE   21 DE JANEIRO DE 2009
21 DE JANEIRO DE 2009
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MARIA PILAR DEL HIERRO AUTORA DE TRILOGIA SOBRE RAINHAS PORTUGUESAS

Escritora espanhola com nova interpretação
do “Milagre das Rosas” da Rainha Santa
Inês, Leonor, Isabel. Três mulheres que em Espanha nasceram
e em Portugal se fizeram rainhas. Maria Pilar del Hierro, escritora,
fala-nos do que tiveram em comum estas personagens históricas,
as quais lhe inspiraram três obras. A mais recente, “Memórias
da Rainha Santa”, vai ser lançada em Lisboa no início de Fevereiro.
Mas foi na Quinta das Lágrimas, em Coimbra (cidade pela qual
a escritora confessa ter-se enamorado, e de que a Rainha Santa
é Padroeira), que o “Centro” a entrevistou, para que falasse
da sua obra

Texto de Filipa Carmo                       de Castro, um mito que é tanto espa-
Fotos de Gonçalo Ermida                     nhol como português… é um mito uni-
                                            versal. Com ela descobri Coimbra, que
   Onde busca inspiração para as            me levou a descobrir a Rainha Santa.
suas obras?                                 Acima de tudo quis fazer uma trilogia
   Fundamentalmente, no meu amor            daquelas que me pareciam ser as três
pela História. Sou historiadora, é a mi-    mulheres-chave da Idade Média Portu-
nha área de formação… apenas come-          guesa. Inês de Castro, o mito românti-
cei a escrever romances no momento          co; Leonor Teles, a mulher poderosa;
em que percebi que era uma excelente        Rainha Santa, o misticismo e a genero-
forma de ensinar a História aos demais.     sidade.
É uma área do conhecimento que se
pode tornar pesada e dura; assim, o ro-     RAINHA SANTA SOFREU
mance vai-se entranhando pouco a pou-       POR NÃO SER AMADA
co e acaba por agradar muito mais.          PELO REI
Quanto a este meu universo feminino
                                               Três mulheres diferentes mas que
histórico e literário, teve origem no meu
                                            apresentam alguns traços co-                Maria Pilar del Hierro na Quinta das Lágrimas, quando falava
desejo de contar a História do ponto de                                                 para o “Centro” sobra a sua obra literária
                                            muns…
vista das mulheres, pois creio que são
                                               Sim… além da época, a audácia, a
grandes desconhecidas e é necessário
                                            determinação em fazerem o que acham        do da Política, coisa que muitas não ar-   aí andam)… Pessoalmente, parece-me
tirá-las das sombras.
                                            ser seu dever, sacrificando, muitas ve-    riscam fazer actualmente. A Rainha         um elemento pedagógico idóneo para
   Porquê escrever sobre mulheres
                                            zes, a sua popularidade e a aprovação      Santa Isabel é um exemplo de genero-       que cada um possa conhecer o seu pas-
que nascem em Espanha e se nota-
                                            dos outros. Leonor Teles e a Rainha        sidade para com os outros; no mundo        sado. Não temos por que deixar a His-
bilizam em Portugal?
                                            Santa partilham, ainda, o facto de te-     materialista e hedonista em que vive-      tória circunscrita ao meio académico.
   Pela proximidade, interessam-me to-
                                            rem sido grandes figuras maternas, de      mos fazem falta mulheres como ela.         Temos que explicar às pessoas de onde
dos os temas relacionados com Espa-
                                            terem dado extrema importância à re-       Isabel de Aragão, quando fundou o Con-     vimos, para que percebam para onde va-
                                            lação com os seus filhos. Para a Rai-      vento de Santa Clara, fê-lo para que as    mos.
                                            nha Santa, Afonso IV, seu filho, foi a     jovens mulheres pobres pudessem               Como sabe, a Rainha Santa é a
                                            sua vida e obra. Foram três mulheres       aprender um ofício. Para mim a lição       padroeira da cidade de Coimbra.
                                            muito coerentes e firmes.                  está clara… uma mulher tem que ser         Porquê a escolha desta personagem
                                               E o amor, acabou por ser o desti-       auto-suficiente.                           para o seu mais recente livro?
                                            no de todas?                                                                             Em primeiro lugar, porque se enqua-
                                               Sim, claro. Sabemos que a Inês de       REALIDADE E FICÇÃO
                                                                                                                                  dra bem na minha Trilogia Portuguesa
                                            Castro, o amor levou-a à morte… Tam-          Dada a sua formação em História,        enquanto mulher mística. Depois, ape-
                                            bém a Leonor Teles, o amor pelo ho-        é difícil escrever criativamente, li-      sar de já ter ouvido falar da Rainha San-
                                            mem errado, foi a sua tradégia. A Rai-     bertar-se do rigor dos factos?             ta e ter visto um filme dos anos 40 so-
                                            nha Santa, sofreu por não ser amada e         Eu escrevo em três géneros; a fic-      bre ela, foi aqui em Coimbra que co-
                                            respeitada pelo marido… É certo que        ção pura e dura, o romance histórico e     nheci melhor a sua vida. Quando fui con-
                                            os casamentos eram estratégicos e ser-     o ensaio histórico. É verdade que quan-    vidada a fazer parte da Fundação Inês
                                            viam o propósito de firmar alianças, ra-   do escrevo o romance histórico, sobre-     de Castro, sediada na Quinta das Lá-
                                            ramente aconteciam por amor. Contu-        tudo quando há pouca documentação,         grimas, descobri a Rainha Santa. Por
                                            do, D. Dinis, tendo sido um poeta mag-     aproveito para dar asas à criatividade.    isso o livro é também dedicado à cida-
                                            nífico, não terá sido tão bom esposo…      Contudo, quando se trata de um tema        de de Coimbra. Contaram-me que a Isa-
                                            A rainha acabou por criar os filhos bas-   bem documentado, por exemplo perso-        bel de Aragão, com vista ao abasteci-
                                            tardos do rei, uma situação bastante       nagens históricas do séc. XIX em Es-       mento de água so Convento de Santa
 A capa da mais recente obra                dura.                                      panha, a minha especialidade, sinto-me     Clara, comprou aqueles terrenos para
 da escritora espanhola                        A vida destas mulheres faz sentido      atada, não me atrevo a fantasiar. Por      “ir, vir e estar”… Pareceu-me, logo aí,
 editada pela “Esfera dos Livros”                                                      isso escrevo na primeira pessoa, penso
                                            para as de hoje, salvaguardadas as dis-                                               uma mulher muito interessante. Por ou-
                                            tâncias e o contexto histórico?            que me garante uma narração mais sub-      tro lado, estou muito ligada a Saragoça,
nha e Portugal, além de que sempre me
                                               Sem dúvida. Inês de Castro desafiou     jectiva, menos constrangido pela factu-    cidade de origem da Rainha Santa, onde
atraiu e agradou o vosso país. Penso que
                                            as normas estabelecidas, tendo casado      alidade. É verdade que muitos acadé-       já me haviam falado um pouco da sua
acabamos por viver de costas voltados,
                                            em segredo. Enfrentou o mundo, algo        micos e historiadores não vêem com         vida e de como foi uma mulher culta e
quando deveríamos olhar mais uns para
                                            que muitas mulheres deveriam fazer         bons olhos o romance histórico (aquele     preparada.
os outros; se não somos irmãos, no mí-
                                            hoje, de forma a melhorar a sua situa-     que é escrito com uma boa base histó-
nimo somos primos. Comecei com Inês
                                            ção. Leonor Teles imiscuiu-se no mun-      rica e não os “Códigos daVinci” que por                  (continua na página seguinte)
14             CULTURA                                                                                                        21 DE JANEIRO DE 2009



Espanhola escreve livro sobre a Rainha Santa Isabel
(continuação da página anterior)
                                                                                                                                       dável… Só por isso já mereceria ser San-
NOVA INTERPRETAÇÃO                                                                                                                     ta. Por outro lado, o mito faz parte da
                                                                                                                                       natureza humana e é transversal à His-
PARA O “MILAGRE
                                                                                                                                       tória da Humanidade; é provável que al-
DAS ROSAS”                                                                                                                             guns milagres sejam fruto da sugestão
   A Rainha Santa foi uma personagem                                                                                                   e outros mitificação de actos que, por si
que ficou nos anais da História pela sua                                                                                               só, já teriam alguma transcendêcnia e
compaixão e devoção a causas nobres.                                                                                                   importância suficiente para que a Rai-
E os milagres, produziu-os?                                                                                                            nha Santa chegasse aos nossos dias com
   Direi o mesmo que digo no livro…                                                                                                    este apelativo.
Há muitos segredos na vida de uma
mulher. Quanto a milagres, a Igreja é
                                                                                                                                       COIMBRA E O SONHO
que está habilitada a decidir se existem                                                                                                  Que explicação encontra para que
ou não. Eu acredito que possam acon-                                                                                                   as vidas de reis e rainhas nos atrai-
tecer milagres porque a mente é muito                                                                                                  am, tendo em conta que os dados
poderosa… Claro que converter pães                                                                                                     históricos atestam que foi um perí-
em rosas, enfim… mas é uma lenda tão                                                                                                   odo de fraca qualidade de vida?
bonita, deixemo-la assim.                                                                                                                 As pessoas gostam de sonhar… No
   Muitos historiadores atribuem                                                                                                       entanto é verdade que as rainhas não
este milagre não à Rainha Santa,                                                                                                       tinham uma vida tão privilegiada quan-
mas à sua tia, Santa Isabel…                                                                                                           to poderíamos pensar, a vida era muito
   O tema dos milagres está muito liga-                                                                                                dura para todos. As mulheres morriam
do à fé dos que querem acreditar ne-                                                                                                   frequentemente de parto e sabemos que
les… Não deixa de ser demasiada co-                                                                                                    o papel das rainhas era gerar descen-
incidência darem o nome de Isabel à Ra-        Maria Pilar Queralt del Hierro é uma escritora espanhola                                dentes para o rei. A vida não era, de
inha Santa, precisamente o nome da sua         licenciada em História Moderna e Contemporânea.                                         todo, maravilhosa…
tia, Santa Isabel de Hungria. Há alguns        Na sua obra conta com vários títulos, incluindo a sua trilogia portuguesa                  Para além de Inês de Castro e da
paralelismos na vida destas mulheres,          na área do romance histórico, dedicada a rainhas coroadas no nosso país.                Rainha Santa, que mais a liga à ci-
nomeadamente as infidelidades dos ma-          Inês de Castro (2003), Eu, Leonor Teles (2006)                                          dade de Coimbra?
ridos e o pretenso milagre de transfor-        e o mais recente, Memórias da Rainha Santa (2009, que vai ser lançado                      Para mim é um local muito intimista…
                                               no início de Fevreiro pela editora “Esfera dos Livros”)
mar pão ou moedas de ouro em rosas.                                                                                                    vim à Quinta das Lágrimas e encontrei
No livro, dou um sentido diferente ao                                                                                                  amizade, reconhecimento e fontes de ins-
milagre; a rosa que a Rainha Santa ti-     cidade.                                      é que foi uma mulher de uma generosi-          piração. Acredito que são três coisas que
nha no regaço era a sua filha, Constan-       Terá sido o milagre uma mitifi-           dade extrema, de inteligência conside-         um escritor não pode ignorar.
ça… E o título do livro em Espanha é       cação de uma mulher, a Rainha San-           rável e bondosa como poucas. Está com-            E no futuro?
“A Rosa de Coimbra”, porque me pa-         ta, pela sua bondade?                        provado que ela própria limpava doen-             Tentarei manter-me com as mulhe-
receu uma homenagem bonita a esta             Creio que sim. O que é indiscutível       tes, leprosos, o que não seria nada agra-      res e com Portugal.

                                           como escritor), pois consegue tomar to-      um filme recomendável, com um
         cinema                            dos os variados elementos (sejam estes
                                           personagens, cenários e eventos impro-
                                                                                        argumento bastante engraçado e um
                                                                                        bom elenco de actores a consoli-
                                           váveis e por vezes comédicos, músicas        dá-lo.
                                           ou locais), baralhá-los e voltar a dar as       Igualmente recomendo um dos
                                           cartas, deixando sempre um ou dois trun-     melhores dramas periódicos dos
                                           fos surpresa para o final. Apesar de não     últimos anos: “A Troca”. O filme
                                           ter muitos dos actores tradicionais de Ri-   retrata a história de Christine Co-
                                           tchie, o filme conta com várias interpre-    llins, que, após o seu filho ter sido
                                           tações de peso, das quais destaco Idris      raptado e supostamente resgatado
                             Pedro Nora    Elba, Toby Kebbell, Jeremy Piven e Mark      pela polícia, reagiu contra tal farsa,
                                           Strong (que volta a provar que está em       afirmando que a criança que lhe foi
   Guy Ritchie, apesar de recentemente     grande forma ultimamente).                   dada não era o seu filho. Clint Eas-
se ter separado da cantora Madonna,           Num registo diferente, recomendo o        twood volta a triunfar como reali-
mostra estar em grande forma cinema-       filme “Como Perder Amigos e Alienar          zador, retratando fielmente a Amé-
tográfica no seu novo filme, intitulado    Outros”, uma comédia divertida que,          rica dos finais da década de 1920, altura      Button”, o último trabalho de David Fin-
“RockNRolla – A Quadrilha”. De facto,      apesar de começar como uma sátira do         em que decorre a trama do filme. Tam-          cher. O filme é uma adaptação de um
o filme não desilude aos fãs dos primei-   jornalismo do “Jet-Set”, para o final aca-   bém é de se prezar o trabalho de Ange-         conto de F. Scott Fitzgerald (com o ar-
ros filmes de Ritchie (“Snatch – Porcos    ba por se virar um pouco para o campo        lina Jolie no papel principal, juntando-se     gumento a cargo de Eric Roth, conheci-
e Diamantes” e “Um Mal Nunca Vem           da comédia romântica. Apesar disso, é        este filme a um curriculum já prestigiado      do pelo seu trabalho em Forrest Gump)
Só”), na medida em que não tenta ser                                                                 com filmes como “Vida Inter-      que retrata a vida de um homem que
mais do que é: um filme sobre crime e as                                                             rompida” e “Um Coração Po-        nasce com um corpo de 80 anos e, à
pessoas que o cometem. Passado em                                                                    deroso”. Porém, o ponto do        medida que o tempo vai avançando, vai
Londres, o filme aborda um negócio que                                                               filme que merece maior des-       rejuvenescendo. Fincher continua a es-
se desenrola entre um dos maiores cri-                                                               taque é o argumento, da au-       pantar os espectadores com mais uma
minosos da cidade e a máfia russa. Por                                                               toria de J. Michael Stra-         grande obra, em que se destaca não só a
sua vez, uma pequena quadrilha, numa                                                                 czynski, que conseguiu pegar      realização, mas também o protagonismo
jogada que pensavam dar lucro fácil,                                                                 numa história verídica e trans-   de Brad Pitt (que, depois de “Seven” e
acaba por se envolver neste negócio...                                                               pô-la para o ecrã com grande      “Clube de Combate”, volta a colaborar
   Assim como em “Snatch”, Ritchie pro-                                                              impacto, sem recorrer a dra-      com Fincher) e, sobretudo, de Cate Blan-
va aqui que, assim como Tarantino, em                                                                matismos exagerados.              chett. Um filme altamente recomendá-
termos narrativos é um excelente joga-                                                                  Também já estreou “O           vel, que abre da melhor maneira a corri-
dor de cartas (ele é tanto argumentista     A Troca                                                  Estranho Caso de Benjamin         da aos prémios de filme do ano.
21 DE JANEIRO DE 2009
                                                                                                                                  EDUCAÇÃO/ENSINO   15
Alliance Française de Coimbra
com oferta de cursos diversos
   Decorreu ontem (terça-feira), na                                                             francofonos – como referiu o Direc-
sede da Alliance Française de Coim-                                                             tor da Alliance Française de Coimbra,
bra, a assinatura de um protocolo de                                                            Paul Zimerlin, acrescentando:
colaboração entre a Associação de                                                                  “É      de      saleintar       que,
Estudantes da Faculdade de Econo-                                                               embora´existindo há vários anos cur-
mia “JEE FEUC” e a referida Allian-                                                             sos de Francês ministrados pela Alli-
ce Française.                                                                                   ance Française na FEUC, na verten-
   O Protocolo fomenta uma colabo-                                                              te das Relações Internacionais (exis-
ração na divulgação das actividades                                                             tindo até um curso franco-português,
da cada entidade, no campo cultural                                                             com o Instituto Superior de Ciencias
ou da formação, e oferece aos mem-                                                              Políticas de Bordéus), esta é a primei-
bros da “JEE FEUC” uma oportuni-                                                                ra vez que a Alliance Française pro-
dade muito interessante, a preços                                                               porciona um curso direccionado aos
muito especiais, de ingressarem numa                                                            estudantes de Economia”.
turma direccionada para o Francês da                                                               Registe-se que a Alliance Françai-
Economia, Gestão e Administração de                                                             se de Coimbra (há 60 anos a desen-
Empresas.                                                                                       volver uma notável actividade nesta
   O percurso pedagógico será nego-                                                             cidade), para além dos cursos gerais,
ciado com os próprios formandos, le-                                                            que habilitam com diplomas reconhe-
vando em conta as suas específicas                                                              cidos pelo Governo francês, tem ain-
                                                 Paul Zimmerlin, Director
necessidades linguísticas.                       da Alliance Française de Coimbra               da uma vasta oferta de outros cursos,
   Outro ponto importante do Proto-                                                             direccionados para necessidades es-
colo é o de proporcionar a passagem              francês, indispensáveis hoje em dia            pecíficas dos interessados e com pre-
de certificações oficiais do Governo             para estudos superiores em países              ços acessíveis.




                                                 Faremos um ponto final.
                                                 las, leccionar, erigindo como actividade no-   aos professores é sentido de humor para
                                                 bre o exercício de cargos administrativos,     perceber que apontar uma pistola a um
                            Isabel Dias *        e resumindo a sete anos os percursos pro-      professor é uma brincadeira de mau gos-
                                                 fissionais; dois mil e oito, o ano que saiu    to, sim, senhora ministra e seus acólitos,
   Há anos que são uma espécie de re-            caro a todos os docentes, os que subiram       hoje sei que quando um aluno me apontar
dacção da guidinha, apenas pontuados por         e os que desceram, porque tão gratuita e       uma arma, devo perguntar-lhe se pode-
vírgulas, nos quais não se consegue res-         ridícula foi a promoção, como o foi a des-     mos também jogar ao berlinde, jogo que
pirar e os acontecimentos se sucedem sem         promoção, e porque todos foram eleitos         aprecio sobremaneira; hoje, todos nos
ponto final, sem nunca se chegar; e assim        como dois gumes da mesma faca – a que          sentimos mais tranquilos e se amanhã, em
foi dois mil e oito, uma travessia do deser-     cortou na despesa, cega aos custos que         vez de nos oferecerem flores, nos aponta-
to para a quase totalidade dos professo-         isso acarretará no futuro, se a desmotiva-     rem uma pistola, vamos todos brincar; se
res, um ano civil que cruzou dois suplici-       ção falar mais alto do que o brio profissi-    for mesmo a sério, não resistimos, entre-
antes anos lectivos, memoráveis pela iné-        onal que vai prevalecendo; dois mil e oito     gamos o Magalhães, que não vale a pena
dita incomunicação com a senhora minis-          foi o ano em que a senhora ministra co-        perder a vida por ele, nem que seja a brin-
tra da educação, pelo absurdo desregra-          meçou a entalar entre a espada e a pare-       car, e em última análise, consola-nos a ideia
mento das horas e da tipologia do serviço        de a casta que criou, sem direito a objec-     de que a senhora ministra da educação
docente, por violações sucessivas da pró-        ção de consciência, porque os titulares da     achou muito tocante aquela criancinha que
pria legislação, pelo anátema público que        senhora ministra não devem dar provas          lhe dizia que depois de receber o fantásti-
se tentou adensar, em determinados dis-          de consciência, mas de absoluta obediên-       co computador estava ansiosamente a con-
cursos oficiais, ressuscitando ódios primá-      cia, cega, surda, muda, acéfala; os titula-    tar os anos para se poder filiar no ps, con-
rios que muito lembram estratégias mile-         res e os professores da senhora ministra       sola-nos que, finalmente, algo toque a se-
nares de dividir para reinar; este foi o ano     só devem existir para cumprir aquilo que       nhora ministra e que a mesma consiga des-
da invenção, não do amor, mas de grelhas         antes de ser já era, i.e., um modelo de        pertar tais vocações, pois todos fomos
avaliativas insofríveis; o ano do sacrifício     avaliação que sempre foi inegociável, de-      aprendendo, ao longo dos anos, que não é
dos titulares, essa casta de eleitos que tanto   pois de um estatuto que foi inegociado,        fácil tocar a senhora ministra; contudo, o
jeito deu à economia, não por ganharem           ambos a transformarem-se em leis, con-         que a tocará mesmo a sério, mas assim a
mais, mas porque simbolizaram o empo-            tra tudo e contra todos, numa política de      bater bem fundo, será encontrar a crianci-
brecimento de todos os outros, e que se          quero, posso e mando; dois mil e oito foi      nha impoluta, a única suficientemente in-
viram promovidos a professores especi-           o ano das reformas, não da educação, mas       génua para dizer quando eu for grande
alíssimos, a motores do absurdo, a únicos        dos professores, porque só não vai quem        quero ser professor; no dia em que a se-
capazes de fazer hoje o que todos faziam         não pode, tamanha é a indignidade em que       nhora ministra a encontrar, vai às lágrimas,
ontem, numa ilusão própria de ópera bufa,        a senhora ministra da educação colocou         não de comoção, mas de raiva, por ainda
não porque se tivesse provado que uns            os professores quando os tratou como se        não ter conseguido acabar completamen-
eram menos habilitados, menos capazes,           fossem a galinha dos ovos de ouro, sem         te com a raça dos professores; felizmente,
mais incompetentes, mas porque se inven-         perceber que nem os ovos eram de ouro,         os anos, tal como os textos e os ministros,
tou o incrível concurso que descredibili-        nem era conveniente matar a galinha; este      acabam sempre por ter um ponto final.
zou essa coisa tão irrisória que é dar au-       foi o ano que nos ensinou que o que falta
                                                                                                             * Professora e dirigente do SPRC
16           SAÚDE                                                                                                              21 DE JANEIRO DE 2009



15.º ANIVERSÁRIO DA ASSOCIAÇÃO “SAÚDE EM PORTUGUÊS”

Lançamento de livro de Eduardo Castela
a anteceder “Jantar Solidário”
– PROGRAMA INCLUI EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E MÚSICA
   A Associação “Saúde em Português”,                                                                                                    MacGuls (no mesmo edifício do Hotel Ave-
com sede em Coimbra, promove amanhã                                                                                                      nida) que reunirá algumas das muitas pes-
(quinta-feira, dia 22) uma série de iniciati-                                                                                            soas que têm oferecido o seu tempo livre
vas para encerramento das Comemorações                                                                                                   com todo o empenho e dedicação às cau-
do seu 15º Aniversário.                                                                                                                  sas desta organização. Seguir-se-á momento
   Segundo os responsáveis desta meritória                                                                                               de animação ‘Música, Tradição e Soli-
Associação, “15 anos depois Saúde em Por-                                                                                                dariedade’, pela Secção de Fado da Asso-
tuguês continua... porque, infelizmente, ain-                                                                                            ciação Académica de Coimbra, e um Lei-
da há demasiadas crianças, mulheres e ho-                                                                                                lão Solidário.
mens que precisam de tudo o que possa-                                                                                                      Ao final da noite, pelas 22.30h, será atri-
mos fazer para tornar as suas vidas mais                                                                                                 buído Tributo de Mérito a cinco persona-
dignas, com direito a todos os direitos há                                                                                               lidades médicas e na área da saúde. A justi-
muito consagrados como tal, indispensáveis                                                                                               ficar esta distinção dizem os responsáveis
à dignidade humana”.                                                                                                                     da Saúde em Português”:
   O programa de amanhã inclui, pelas                                                                                                       “Consideramos de extrema importância
18h30, o lançamento do livro “Coisas que                                                                                                 o reconhecimento do mérito destas perso-
não se esquecem...”, da autoria de Eduar-                                                                                                nalidades, no âmbito das acções desta
do Castela, médico e amigo da Associação.                                                                                                ONGD, nomeadamente na defesa e divul-
O lançamento decorre na sala de conferên-                                                                                                gação da Associação Saúde em Português,
cias da Casa Municipal de Cultura de            Eduardo Castela                                                                          na promoção, divulgação e intervenção na
Coimbra. De registar que os lucros da venda                                                                                              área dos cuidados de saúde primários, na
do livro reverterão para o projecto de Tele-    co Eduardo Castela é pioneiro na utilização   nida, será inaugurada exposição de foto-   cooperação, ajuda humanitária e solidarie-
medicina que ligará o Hospital Pediátrico de    da telemedicina, a ele se devendo a concre-   grafia comemorativa dos 15 anos de exis-   dade, na Comunidade de Países de Língua
Coimbra ao Hospital Dr. Baptista de Sousa,      tização de projectos muito meritórios nesta   tência da “Saúde em Português”.            Portuguesa e outros e na formação e inves-
em Cabo Verde.                                  área).                                           Pelas 20h00h realizar-se-á Jantar So-   tigação no âmbito das acções da Saúde em
   (Recorde-se que o cardiologista pediátri-       Pelas 19h45, no Átrio do Hotel Ave-        lidário, no Restaurante Indopaquistanês    Português”.



                                                Delegados de alimentos, de vinhos
                                                de chás, de sapatos....
                      Massano                   bém corriam riscos de virem a sofrer                                                     medicinais também não irão no mesmo
                      Cardoso                   doenças cardiovasculares. Passado uns                                                    sentido, ensinando, esclarecendo ou mo-
                                                anos nova descida, desta feita para os                                                   tivando os médicos a aconselhar a água
   A medicalização da sociedade é uma           220 mg%. Argumento? O mesmo que já                                                       X ou Y com ou sem aditivos. Mas, já
realidade altamente preocupante que             descrevi para a primeira redução. Com                                                    agora, também não é de excluir a hipó-
poderá acabar, mais tarde ou mais cedo,         o tempo concluiu-se que deveria baixar-                                                  tese de aparecerem delegados de infor-
por rotular cada um de nós como doente          se ainda mais, desta feita para os 200                                                   mação vinícola para “ensinar, esclarecer
ou portador de uma ou mais anomalias.           mg%. Razão? A já citada. Em seguida                                                      ou motivar” os médicos quanto às virtu-
Logo, teremos que nos “submeter”, como          propuseram os 190 mg%, sempre com o                                                      des de um vinho de determinada colhei-
quem diz, em muitos casos, à “ditadura”         mesmo argumento científico que é in-                                                     ta, porque está cientificamente compro-
das terapêuticas e das medidas preven-          questionavelmente correcto. Há de fac-                                                   vado ter efeitos protectores cardiovas-
tivas. Há quem ganhe com isto? Ai não           to um risco acrescido. Pode não ser                                                      culares de forma muito superior a qual-
que não há! E o negócio é mesmo de              muito por aí além, mas existe e não é                                                    quer rival! Claro que as cervejeiras não
muitos e muitos milhões!                        difícil de provar. Tudo leva a pensar que                                                deixariam de treinar pessoal com o mes-
   De tempos a tempos reduz-se o limiar         qualquer dia baixem para os 175 ou 170                                                   mo objectivo, o mesmo acontecendo com
de anormalidade de alguns parâmetros,           mg% invocando sempre os mesmos ar-                                                       os industriais dos tomates, dos lacticíni-
porque se concluiu (cientificamente) que        gumentos. O que é certo é que cada vez                                                   os, dos alhos e até das cebolas!
desta maneira seria possível prevenir com       que baixam o limiar de “anormalidade”                                                       Assim, um dia destes, poderemos ou-
mais alcance certas doenças. Parafra-           apanham catrefadas crescentes de pes-                                                    vir a funcionária do serviço a anunciar
seando um reclame que aparecia há al-           soas com anomalias. E depois? Depois          informação médica a ensinar, a esclare-    que está na sala um senhor delegado. –
gum tempo na televisão com velhinhas a          é só puxar por meia dúzia de neurónios        cer e a motivar os médicos a “prescre-     Ai está? É delegado de quê? Fármacos,
comentar: – “Eu ainda sou do tempo em           para concluirmos que os “rotulados”           ver” ou a aconselhar, como preferirem,     iogurtes, chás, vinhos, cervejas, tomates,
que...”, também eu sou do tempo em que          como hipercolesterolémicos terão que          os nutracêuticos, alimentos que fazem      chocolates ou águas? – Nenhum desses!
o colesterol, por exemplo, só era consi-        fazer terapêuticas farmacológicas, die-       bem à saúde, baixam o colesterol, me-      Não?! – É delegado de sapatos senhor
derado elevado a partir dos 260 mg%.            téticas ou exercício. Terapêuticas não        lhoram o funcionamento digestivo, pro-     doutor. – De sapatos?! – Sim senhor!
Depois, o limiar da anormalidade baixou         faltam.                                       tegem os consumidores disto e daquilo,     Parece que tem uns especiais que evi-
para os 240 mg%, porque se concluiu que            Foi anunciado que em breve podemos         enfim uma interessante área de negócio.    tam calos e não atormentam os joane-
os que estavam naquele intervalo tam-           vir a ter profissionais idênticos aos da         Pergunto, se os industriais das águas   tes. – Mande-o entrar já...
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                                SAÚDE             17
AFIRMOU EX-MINISTRO CORREIA DE CAMPOS
NO ROTARY CLUBE DE COIMBRA / OLIVAIS

Coimbra é caso único no Mundo
em termos de Saúde




Correia de Campo com Helena Goulão e Santos Cabral, na saudação às bandeiras                   O ex- Ministro da Saúde proferindo a sua palestra


   O ex-Ministro da Saúde, Correia de          correr de um jantar-debate em que               ilução verificada no nosso País nas            muitos pensam, hoje há melhores cui-
Campos, afirmou anteonetm (segun-              participou a convite do Rotary Clube            últimas três décadas, depois do 25 de          dados de saúde no interior do que no
da-feira), que Coimbra é um cidade             de Coimbra / Olivais, presidido por             Abril e sobretudo com a criação do             litoral do País.
única no Mundo em termos de Saúde,             Helena Goulão (ela própria médica e             Serviço Naciona l de Saúde.                       Após a palestra segui-se aniamdo
nomeadamente no que respeita à den-            professora da Faculdade de Medici-                 Muito crítico para o “numerus cla-          debate, em que Correia de Campos
sidade de camas hospitalares em hos-           na).                                            usus” que em determinada altura im-            reiterou o acerto das medidas que
pitais públicos relativamente à respec-           O ex-Ministro fez uma interessan-            pediu o ingresso de estudantes em              tomou enquanto responsável pela
tiva população, mas também com um              te exposição sobre o Serviço Nacio-             quantidade adequada nas Faculdades             pasta da Saúde do governo de Só-
pujante sector hospitalar privado.             nal de Saúde, citando dados estatísti-          de Medicina, Correia de Campos re-             crates, onde se manteve durante 3
   Correia de Campos falava no de-             cos que mostram a extraordinária evo-           feriu também que, ao contrário do que          anos.



Recorde de dadores de medula óssea
   O Centro de Histocompatibilidade do         familiares de doentes que, ao “darem o ros-
                                                                                                  A transplantação de medula óssea “é uma        O Centro de Histocompatibilidade do
Centro contribuiu, em 2008, com perto de       to, potenciaram” o surgimento de novos
                                                                                               prática terapêutica reconhecida, que permi-    Centro teve o seu processo de certificação
10.800 novos dadores para o registo do         potenciais dadores de medula óssea.
                                                                                               te muitas vezes a cura de doenças graves e     da qualidade concluído em 2008, de acordo
Centro Nacional de Dadores de Medula              “Fizemos várias iniciativas em Estarreja,
                                                                                               que podem ser frequentemente mortais”, lê-     com a norma ISO 9001:2000.
Óssea (CEDACE), revelou a directora da-        em Viseu, na Faculdade de Medicina de
                                                                                               se no sítio na Internet do CHS.                   Para 2009, Maria Luísa Pais referiu
quela estrutura regional.                      Coimbra”, exemplificou a directora do Cen-
                                                                                                  “O leque de utilização das células proge-   que, apesar de no plano de actividades
   Maria Luísa Pais, directora do Centro de    tro de Histocompatibilidade do Centro, des-
                                                                                               nitoras tem sido cada vez mais alargado        estar inscrita a meta de conseguir oito mil
Histocompatibilidade do Centro, disse à        tacando igualmente a adesão elevada re-
                                                                                               devido à sua capacidade de se diferencia-      novos dadores, é provável que se atinjam
agência Lusa que este organismo angariou,      gistada no âmbito de uma acção que teve o
                                                                                               rem e de renovarem a medula óssea do           os dez mil.
no ano passado, 10.780 novos candidatos a      envolvimento do grupo empresarial Lena,
                                                                                               doente”, disse Maria Luísa Pais, destacan-        Uma projecção dos novos dadores a re-
dadores de medula óssea.                       de Leiria.
                                                                                               do a sua importância nas patologias hema-      gistar este mês aponta para o número de
   Trata-se do maior número de colheitas          No CEDACE, que faz parte do registo
                                                                                               to-oncológicas e hereditárias.                 um milhar, adiantou a médica à Lusa
de sempre feitas pelo Centro de Histocom-      internacional, estão inscritos actualmente
patibilidade do Centro, que acabou por ul-     cerca de 142 mil dadores - adiantou.
trapassar o objectivo de dez mil novos da-        Os três centros de histocompatibilidade,
dores voluntários que se propunha para 2008.   situados em Lisboa (CHS), Porto e Coim-
   “De forma inédita, o Centro abriu um fim-   bra, foram criados por Decreto-Lei datado
de-semana, num sábado, para facilitar a        de 21 de Fevereiro de 1983.
deslocação das pessoas, e, só nesse dia, ti-      Entre outras competências, neles são
vemos perto de 1.500 dadores”, disse a         estudados os candidatos a transplante de
médica à agência Lusa.                         tecidos, órgãos ou células, e os dadores, e é
   Ao explicar esta elevada adesão, Maria      feita a monitorização das terapêuticas e dos
Luísa Pais referiu ainda o envolvimento de     pacientes transplantados.
www.apaginadomario.blogspot.com
18           A PÁGINA DO MÁRIO                               apaginadomario@gmail.com                                            21 DE JANEIRO DE 2009



                                               mação que acolho sem reservas é a do
                                               dirigente comunista.                                              A obra do ano
                                                  A BRIOSA continua, imparável, a
                                               caminhar para o abismo. O clube per-
                                               deu identidade e, como resultado disso,
                        Mário Martins
                                               as bancadas do estádio situado dentro do
                                               ECC (Empreendimento Comercial do
                                               Calhabé) estão cada vez mais vazias.
IMPRESSÕES                                     Esta semana, num jogo para a “Taça da
NA MUDANÇA DE ANO                              Liga”, terão estado 615 espectadores
                                               (números oficiais) ou 287 (contagem da
   JAIME SOARES não concorda com               Rádio Universidade). Ao que isto che-
a decisão de Manuela Ferreira Leite de         gou! Há um amigo meu que está con-
impedir os candidatos autárquicos de           vencido que o sistema de contagem de
concorrerem à Assembleia da Repúbli-           espectadores soma os pés, mas que de-
                                                                                                    Dias depois de construída, as primeiras alterações
ca. Li as declarações no “Público”. Jai-       pois esquece-se de dividir o número por
me Soares diz que os autarcas que fo-          dois... Cá por mim, há cerca de ano e
rem eleitos para a Assembleia só lá po-        meio que decidi deixar de me deslocar
dem estar seis meses; depois terão de          ao estádio, porque não vou a sítios aon-
optar. Para ele é tudo claro. Penso que        de me sinta maltratado. E como me sin-
faltou ao jornalista fazer duas perguntas:     to tratado de forma terceiro-mundista no
se optar pela Assembleia, não estará a         estádio do Calhabé (se quiserem, eu ex-
enganar os eleitores do concelho (que          plico porquê), deixei de lá ir. Mas fui pa-
votaram para que ficasse na Câmara)?           gando as quotas de associado da Briosa.
e se optar pela Câmara, não estará a           Até há pouco.
enganar os eleitores do distrito (que vo-
taram para ficasse na Assembleia)? Cla-           LIXO na cidade é muito. A cidade está
ro que Jaime Soares nem sequer pensa           porca. Sobretudo em algumas zonas. Até
nisso. É por estas e por outras que a cre-     pensei que tinha deixado de haver var-
dibilidade dos políticos está como está.       redores. Mas não, não acabaram. Nou-
Basta ler os comentários no “Público”          tro dia encontrei vários deles, em plena
para perceber como a realidade do dia-         actividade. Até tirei fotos aos homens,                A famosa rotunda nas páginas do “Diário de Coimbra”
a-dia, das pessoas que trabalham e pa-         às vassouras e ao carro de mão. Sabem
gam impostos, é diferente da realidade         onde? Na Solum, nas imediações do
política.                                      “Dolce Vita”. Na minha rua, na fregue-
                                               sia de Eiras, nunca os vi - e já lá moro há
   OS “FOGUETES DE LÁGRIMAS”,                  13 anos. Ou seja, a “Coimbra dos ricos”
como se dizia quando era miúdo, volta-         tem varredores, a “Coimbra dos pobres”
ram a Coimbra na passagem de ano. Vi           não tem. Porca miséria.
à distância, no terraço de um amigo. Fo-
ram 13 minutos a queimar, bem mais (e             CORTEJO DOS REIS voltou às ruas
melhor) fogo do que nas Festas da Rai-         de Coimbra. Li os dois diários, pela ma-
nha Santa, quando dezenas de milhar de         nhã, e fiquei a saber que a cidade se alhe-
pessoas visitavam a cidade. Crise?! Qual       ara da iniciativa. Afinal, as notícias dizi-
crise? (A mesma Câmara que gastou              am uma coisa e a realidade tinha sido                  Os camiões andam para trás e para diante...
milhares de euros com os foguetes veio,        outra... Mais tarde, um amigo que se
dias depois, pedir aos cidadãos para ofe-      deslocara aos Olivais, para assistir à che-         A OBRA DO ANO 2008 em Coimbra, para mim, é indiscutível: a rotunda da
recerem cobertores para distribuir aos         gada dos Reis disse-me que muitas cen-           Estrada de Eiras. Uma beleza! Volto a escrever o que já aqui escrevi: o autor do
sem-abrigo. Parece que andamos a brin-         tenas de pessoas enchiam por completo            projecto deveria ser distinguido e o seu nome conhecido de todos os conimbricen-
car, num “país de malucos”...)                 a escadaria da Igreja de Santo António.          ses. Foi construída, logo alterada e depois novamente alterada. Os acidentes suce-
                                               Afinal, os jornais - pressionados pela hora      dem-se. Os trabalhadores da Câmara estão no local repetidamente para “remen-
   APROXIMAM-SE ELEIÇÕES e o                   tardia do cortejo e a necessidade de “fe-        dar” os estragos. É, por isso, a obra mais acompanhada de sempre em Coimbra.
“Diário As Beiras” foi ouvir os respon-        char” as edições - falavam do início do          Os veículos pesados vêm-se aflitos para a circundar, os camiões de abastecimen-
sáveis concelhios dos partidos. Tenho          cortejo; o meu amigo falou-me do final           to do “Minipreço” não conseguem entrar à primeira. É um óptimo local para reco-
lido os títulos e olhado as fotos. (Prometi    do cortejo. A “vida dos jornais” tem des-        lher jantes, pára-choques e outros adereços automóveis. Basta passar perto das 8
a mim mesmo perder pouco tempo com             tes perigos.                                     da manhã para ver o espólio da rotunda aumentar. Bem sei que é uma simples
as “tricas” da Política: eles dizem uma                                                         rotunda. Mas é nas pequenas obras que, muitas vezes, se alicerçam as grandes
coisa, a malta vota neles e depois eles           O CHEQUE referia 25 euros em al-              políticas. A rotunda da Estrada de Eiras é exemplar.
fazem outra, impunemente. Então, já que        garismos e «trinta e cinco euros» por                                                                      (publicado em 10/01)
não é possível puni-los, pelo menos não        extenso. A instituição bancária onde o
me sinto enganado. Não leio, pronto. E         cheque foi depositado decidiu devolvê-         de e-mails para a Asus e... nada. Por-      nos um país de Empresa na Hora, Car-
quanto a ir votar... estou a reflectir.) Mas   lo e debitar mais de 13 euros ao titular       tanto, se comprarem um Asus, tiverem        tão do Cidadão, Simplex e Magalhães. A
voltemos ao jornal e às entrevistas. Ma-       da conta. A proceder assim, não tenho          um problema como eu tive e ficarem com      realidade, afinal, é bem mais negra. (Ali-
nuel Oliveira: «Encarnação saberá ouvir        dúvidas de que os lucros da Banca vão          uma máquina quase nova inutilizada, não     ás, parece que uma televisão vai contar
Concelhia PSD na escolha dos vereado-          continuar a ser substanciais. O “caso do       se queixem, por favor. Estão avisados.      em breve este caso exemplar...).
res». Henrique Fernandes: «PS vai ga-          cheque” segue agora para o Banco de
nhar as eleições em Coimbra». Francis-         Portugal.                                         «CARTÃO DE CONTRIBUINTE                     CASO DO CONCURSO CAMA-
co Queirós: «Candidato será conhecido                                                         no país do Simplex» bem poderia ser o       RÁ-RIO. O tal que foi aberto durante
a 14 de Fevereiro». Luís Providência:             ASUS é marca de computadores de             tema de um conto. Ou de uma novela. O       três dias em pleno Verão. E que acabou
«CDS garante estabilidade da coligação         que nem quero ouvir falar. O computa-          cidadão que requereu a emissão de um        em finais de Dezembro de forma pouco
na Câmara de Coimbra». Estes foram             dor de secretária, comprado há dois ou         cartão de contribuinte em Fevereiro de      habitual. Prometo e cumpro: não falo
os títulos de 1.ª página. Agora olhem para     três anos, necessita de uma fonte de ali-      2008 ainda continua à espera que as Fi-     nele. Mas penso que alguém deveria in-
as fotos que os acompanham e digam-            mentação nova. Ando há dois meses a            nanças lho enviem. Afinal, só se passa-     vestigar.
me o que acham. Para mim, a única afir-        tentar comprá-la, já enviei uma dezena         ram 11 meses!!! As televisões mostaram-                      (publicado em 10/01)
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                            MÚSICA                19
Distorções

                                                                                                Fred Falke


                    José Miguel Nora
                    josemiguelnora@gmail.com




   Continuando na senda de destacar o
que de melhor aconteceu no ano passa-
do, vamos eleger a Melhor Remistura
de 2008, que, apesar da grande quali-
dade do que ouvimos, “Golden Cage”
da autoria de The Whitest Boy Alive                   MGMT
na remistura de Fred Falke foi, sem dú-
vida, a melhor. Mas há ainda que desta-
car a mistura, ainda que não autorizada         Hot Chip.                                    “Black an Gold” de Sam Sparro, “Love                Por fim, gostaria, ainda de salientar os
pela banda, de “Lights & Music” dos Cut            No que toca ao Melhor Tema In-            is Noise” dos The Verve ou “A-Punk”              30 anos de carreira dos Xutos & Pon-
Copy, produzida por um português radi-          ternacional de 2008 a escolha também         dos Vampire Weekend. Mas, após mui-              tapés, facto que continua a ser assina-
cado em Munique, que assina como                não se afigurava fácil, sobretudo dado       tas indecisões decidi optar por “Time To         lável, visto que a formação actual ainda
Moulinex.                                       que estavam em disputa temas como:           Pretend” dos MGMT.                               é praticamente a mesma, o que, infeliz-
   Quanto ao Remisturador de 2008               “Rock´n´roll Train” dos AC/DC, “Lights          Já quanto ao Melhor Tema do Ano               mente não acontece com outras bandas
a escolha não poderia recair noutro pro-        & Music” dos Cut Copy, “Paris is Bur-        Nacional´08, apesar de gostar bastante           portuguesas que já na altura davam pro-
dutor que não em Fred Falke, que, após          ning” de Ladyhawke, “Viva La Vida” dos       de temas como “On The Radio” dos X-              vas do seu talento. A fim de assinalar o
um interregno nas colaborações com              Coldplay, “Blind” dos Hercules & Love        Wife ou “Cantiga de Amor” dos Rádio              evento da banda de Tim e Zé Pedro, a
Alan Braxe e nos primeiros tempos a             Affair, “Ready For The Floor” dos Hot        Macau, acabei por escolher “Perten-              Antena 3 rodou o novo “single” da ban-
solo, remisturou de tudo um pouco, pas-         Chip, “Never Miss A Beat” dos Kaiser         cer” da autoria dos Xutos & Ponta-               da, “Quem é Quem”, cujo um excerto
sando pelos Pnau, Ladyhawke, The                Chiefs, “Sex On Fire” dos Kings Of           pés e dos Oioai, editado no âmbito da            do “vídeo clip” já tinha sido mostrado pelo
Whitest Boy Alive, Lykke Li, Justice ou         Leon, “Time To Pretend” dos MGMT,            campanha “ UPA – Unidos Para Ajudar”..           “Top +” da Rtp 1.


TAGV quer retomar                                                                            MORTE DE JOÃO AGUARDELA
no próximo ano                                                                               Colegas recordam
Festival Internacional                                                                       importante trabalho
de Blues de Coimbra                                                                          do músico
   O director artístico do Teatro Académi-      presas “não foram bem sucedidos” para
                                                                                                O músico João Aguardela, que morreu
co de Gil Vicente (TAGV) manifestou em-         conseguir um mecenato.
                                                                                             no passado domingo em Lisboa, era “uma
penho em retomar, em 2010, o Festival In-          De acordo com o director artístico do
                                                                                             força muito positiva no meio musical”, disse
ternacional de Blues de Coimbra, que não        Teatro Académico de Gil Vicente, o orga-
                                                                                             Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Ponta-
se realiza este ano por falta de apoios.        nismo “depende, há três anos, exclusiva-
                                                                                             pés, à agência Lusa.
   “O festival é ‘a menina dos nossos olhos’,   mente da UC” e a crise que as universida-
                                                                                                Zé Pedro recorda-se de João Aguardela
tem projecção nacional e internacional. Va-     des atravessam não permitiu aumentar a
                                                                                             dos tempos do Rock Rendez-Vous, ao qual
mos só interromper e, no próximo ano, pro-      sua dotação.
                                                                                             os Sitiados concorreram em finais dos anos
vavelmente, vamos retomá-lo”, disse Fran-          Este responsável espera que a integra-
                                                                                             1980, e da participação do grupo na colec-
cisco Paz à agência Lusa.                       ção do TAGV na nova Fundação Cultural
                                                                                             tânea “XX anos XX bandas”, dedicada aos
   O evento, que começou a ser realizado        da Universidade de Coimbra “crie as con-
                                                                                             Xutos & Pontapés.
em 2003 no âmbito da “Coimbra, Capital          dições” para o evento “ter o apoio da Câ-
                                                                                                Já a cantora Viviane, amiga de João
Nacional da Cultura”, sob a direcção artís-     mara e da Direcção-Geral das Artes”.
                                                                                             Aguardela desde a génese dos Entre As-              O funeral realizou-se ontem (terça-feira)
tica de Paulo Furtado, não se vai realizar         “No nosso entendimento, é um prejuízo
                                                                                             pas, definiu-o à Lusa como “um músico sin-       para o Cemitério do Alto de São João, em
este ano.                                       para Coimbra. Os acontecimentos culturais
                                                                                             gular que teve uma profunda paixão pelas         Lisboa.
   “Este ano não havia condições para o         dão sempre animação e prestígio à cidade”,
                                                                                             raízes da cultura e da música portuguesa e          Distinguido em 1994 com o Prémio Re-
realizar. Estamos com dificuldades em           lamentou o vereador da Cultura da Câma-
                                                                                             isso reflectia-se na música que fazia”.          velação da Sociedade Portuguesa de Auto-
cumprir os nossos compromissos de 2008,         ra, Mário Nunes.
                                                                                                Carlos Moisés, vocalista da Quinta do Bill,   res, João Aguardela liderou os Sitiados, gru-
nomeadamente o pagamento de ordena-                Espectador assíduo do festival desde
                                                                                             conheceu João Aguardela num concurso do          po pop-rock que se inspirava na música tra-
dos”, considerou o director artístico do        2003, também o professor aposentado José
                                                                                             Rock Rendez-Vous e mais tarde convidou-          dicional portuguesa.
TAGV, que não quis comentar declarações         António Franco lamentou o cancelamento
                                                                                             o para participar no álbum “Os filhos da            A busca das raízes e da tradição musical
de Paulo Furtado, segundo as quais há tam-      do evento este ano, considerando que “é
                                                                                             Nação” (1994).                                   portuguesa levou-o também ao projecto
bém “falta de vontade” deste organismo          uma festa que Coimbra perde”.
                                                                                                “Era um critivo à procura de novos rou-       Megafone, no qual recorria a recolhas etno-
da Universidade de Coimbra (UC) para               “Não me quero deixar contaminar pelo
                                                                                             pagens para as nossas raízes da música tra-      gráficas de Giacometti e José Alberto Sar-
levar a cabo o festival.                        pessimismo da crise. Isto tem a ver com
                                                                                             dicional”, disse Carlos Moisés à agência         dinha, adicionando-lhes electrónica.
   Segundo Francisco Paz, as últimas duas       crises que Coimbra sofre há muito tempo
                                                                                             Lusa, recordando o trabalho de Aguardela            Liderou ainda o projecto “Linha da Fren-
edições do Coimbra em Blues realizaram-         e não só com a crise em geral”, disse o
                                                                                             no projecto a solo Megafone.                     te” e desde 2004 integrava A Naifa, junta-
se com o apoio da Direcção-Regional de          docente à agência Lusa, ao adiantar que
                                                                                                João Aguardela, que faria 40 anos em          mente com Mitó e Luís Varatojo, com quem
Cultura do Centro, suporte que era, contu-      o festival proporcionou ao longo dos últi-
                                                                                             Fevereiro, morreu no domingo, em Lisboa,         editou em 2008 o álbum “Uma inocente in-
do, assumido como provisório desde o iní-       mos anos “momentos fantásticos” em ter-
                                                                                             vítima de cancro.                                clinação para o mal”.
cio. Contactos efectuados com várias em-        mos musicais.
20           CRÓNICA                                                                                                                   21 DE JANEIRO DE 2009



AO CORRER DA PENA...
                                                                    “Estranha forma de vida”...
                                                                                                                                                 daqui a pouco, quando esses teus olhos
                                                                                                                                                 lindos acordarem, me vão ler...
                                                                                                                                                     Nunca te quis incomodar, Maria. Sabia-
                                                                                                                                                 te fora do país em trabalho de doutoramen-
                       Maria Pinto*                                                                                                              to. Também senti que tinha de estar sozi-
                      mainha.pinto@gmail.com                                                                                                     nha, fazer o meu luto de Amélia e tentar
                                                                                                                                                 seguir em frente em tonalidades de Amália.
      “Ajuda-me, Maria. Por favor!                                                                                                               Depois de muita revolta, de muito correr à
         Da tua sempre Amiga,                                                                                                                    toa, depois de muito me sentir à beira do
                                Mema”                                                                                                            fundo, respeitei a decisão de PN.
                                                                                                                                                     Habituei-me a viver em solidão e a fazer
    Tão profunda, tão de dentro esta tua car-                                                                                                    dela o meu projecto. Com as fortalezas e as
ta, Mema! Que estado de amargura, de tor-                                                                                                        fragilidades que a solidão implica. Num pro-
por... um misto de abulia e de revolta que                                                                                                       cesso de grande crescimento interior e de
condiz contigo, que te traduz...                                                                                                                 liberdade. Com a visita ocasional de Amé-
    Mema. Mistura de Amélia e de Amália.                                                                                                         lia, em demanda de um ombro protector e
O fruto da amizade e da admiração que sin-                                                                                                       da vontade de partilhar. Enfim, querida
to por ti desde que nos conhecemos naque-                                                                                                        Maria, um percurso que me não tem sido
la tarde em que iniciámos o nosso percurso                                                                                                       nada fácil, até porque me habituei a criar e
pelo ensino superior.                                                                                                                            a povoar espaços e tempos que considero
                                                                                                                                                 muito íntimos, muito meus e que me ajudam
  Foi assim que nasceste. Amélia. Emoti-                                                                                                         a ir em frente, lutando. Lutando sempre. E
va e sensível. Talhada para o sofrimento.                                                                                                        olhando numa outra direcção quando me
Conchinha do mar.                                                                                                                                fazem sentir que estou errada, quando me
  “Ai, Maria, esta angústia sem fim, esta                                                                                                        querem forçar a “vir por aqui”. Quando sur-
minha solidão! Esta tão grande ansiedade, o                                                                                                      gem homens de “falas doces”, como dizia
não ter sossego”...                                                                                                                              Torga de Arlindo no seu conto “A Paga”.
                                                                                                                                                 Lembras-te, Maria, desse texto? E do cole-
    Quando te conheci, sempre te trocava o                                                                                                       ga que tínhamos com o mesmo nome e que
nome. Amália. Era assim que te chamava.                                                                                                          se dava ares de lindo para todas as mulhe-
Era esta a forma como te via, eu que tinha                                                                                                       res? “Rapariga em que pusesse o seu sen-
por hábito pesquisar a raiz e o significado                                                                                                      tido, pronto. Tanto fazia saltar como correr:
dos nomes. Tu sorrias quando te chamava                                                                                                          tinha de ser dele”. Desculpa este breve pa-
Amália e eu sempre te mostrava como eras                                                                                                         rêntesis, querida Amiga, mas por momen-
                                                      “Esferas”, pintura de Salvador Dali
forte, querida Amiga, como agora vais ter                                                                                                        tos tive de sorrir. Porque os Arlindos exis-
de ser, como trabalhavas e lutavas pelos teus   achares que tanto exigia de ti. E era verda-     O quanto eu te entendo à medida que leio        tem mesmo e por aí pululam, cantando de
direitos. Para além de seres exímia canta-      de. Porque só ele sabia onde podias chegar,      este teu texto tão pungente, tão infinitamen-   flor em flor, tentando captar as mais frá-
dora de Amália... lembras-te como anima-        só ele conseguia fazer de ti a “abelha rai-      te sentido! Tão teu.                            geis.
vas os convívios do nosso Curso, as pausas      nha”, quando te cantava Caetano.                                                                     Vem-me à cabeça o poeta Régio. Como
que fazíamos no nosso estudo?                                                                       “Dele me resta um pequenino rolo de          PN o declamava! Inesquecível o Cântico
    E sempre linda, Mema! Tão linda! Pen-          “Tínhamos tanto para dar um ao outro,         papel que aqui tenho enquanto te escrevo.       Negro, com o qual tanto me identifico neste
so até que nem davas conta da tua rara be-      Maria! Era como se o mundo fosse apenas          Que me deixou em forma de dedo, no aro          momento. De facto, a minha vida é um
leza interior e exterior. Nem quando o nosso    nosso e quanto mais nos dávamos, mais tí-        de um anel que eu adorava, oferecido e com-     vendaval que se soltou e uma onda que
querido amigo PN, a quem agora te referes       nhamos para nos dar... tudo estremecia em        prado por ele numa feira de antiguidades.       se alevantou... não sei por onde vou,
com tanta mágoa, te dizia que eras uma peça     nós quando nos murmurávamos, quando nos          Peça única que funcionou para nós como o        Maria. Não sei para onde vou. Sei que
de artesanato. PN. Ainda recordas como          silenciávamos. O magnetismo era total.           selo do nosso amor...                           não vou por aí.
lhe ofereceste estas iniciais e como brincá-    Lembras-te, Maria, quando ele declamou,             ...eu, minha Querida Amélia, minha               Por vezes penso que já gastei as lágri-
mos com elas na nossa primeira aula de Lín-     em pleno Bar da Faculdade de Letras, aque-       princesa, de ti, quero a possibilidade de       mas. As palavras não me saem. Já não se
gua Francesa? Como se chama o sênhorr,          le maravilhoso poema de Eugénio de An-           saber que posso existir o tempo de olhar-       passa absolutamente nada, como diria Eu-
perguntou o professor e ele, olhando-te de      drade?                                           te e o milagre da imortalidade. Tenho-te        génio de Andrade.
forma cúmplice, com aquele sorriso de inte-                                                      falado disto e tu podes não entender to-            Ajuda-me, Maria. Por favor!
                                                               A boca
ligência brilhante, apenas balbuciou: PN.                                                        talmente. Sou, somos imortais porque de             Da tua sempre Amiga,
                                                             Onde o fogo
    Perante o espanto do professor, tu escla-                                                    nós existe algo que se não extingue. Pen-           Mema”
                                                             De um verão
receste: “PN, de plusieurs noms, mon-                    Muito antigo cintila,                   so que se fui a Pessoa, tu, minha adora-
sieur; il n’est pas une seule personne. Il                                                       da Amélia, és mesmo a minha Mulher. Eu             Tentando refazer-me do impacto causa-
                                                            A boca espera
est une personnage de roman…il est                                                               vou partir. Vou mesmo ter de partir. Não        do pela tua carta, Mema, lida, por coinci-
                                                  (que pode uma boca esperar senão
tout…»                                                                                           fiques triste. Há quem tenha vivido mil         dência, quando regressei a casa após o fil-
                                                            outra boca?)
    Foi nesse dia, no intervalo da aula, que                                                     vidas sem saber um instante o amor como         me “Amália”, sinto que ecoa em mim, de
                                                       espera o ardor do vento
entendi o quanto ele te amava. PA, cha-                                                          o que eu tenho em mim e te pertence. Prin-      forma profunda e arrepiante... a “Estranha
                                                        para ser ave e cantar.
mou-te. Peça de artesanato. Peça única.                                                          cesa do mar! Em ti me guardo como um            Forma de Vida”...
Rara. Para guardar, porque não fabricada                                                         náufrago que pode tristemente morrer na            Amália no palco. Amélia na vida. Mema
                                                            Levar-te à boca,
em série, como te dizia. Fazendo jus aos                                                         praia. Dá-me a tua mão e vem comigo.            fundindo estes dois rostos lindíssimos, estas
                                                 Beber a água mais funda do teu ser
acessórios com que te enfeitavas, tu que                                                         Vamos partir num barco sem leme, para           duas vozes arrebatadoras:
                                                Se a luz é tanta, como se pode morrer?
rejeitavas os ouros e não te cansavas de                                                         navegar um mar sem regresso. Não es-                     Coração independente,
vasculhar anéis e colares que mais ninguém         Morrer, Maria, morrer. Esta palavra ecoa      tou preso a ti. Sou tu. Somos. Jangada                Coração que não comando
usasse. Que fossem o teu prolongamento.         em mim e perpassa todos os meus poros,           de pedra se fôssemos Península. Só que                 Vive perdido entre a gente,
    Percebi sempre a importância que este       ainda que já lá vão quase dois anos...que        mais que tudo, para mim és conteúdo e                   Teimosamente sangrando
homem teve na tua vida. A capacidade que        será feito dele, Maria? Ajuda-me, por fa-        não consigo saber o tamanho do conti-                   Coração independente”.
tinha de transformar a Amélia-quando-so-        vor. Não acredito. Ele era imortal... il était   nente. Vou sair, vou ter de sair. Com lá-
fredora na Amália-lutadora. Ao ponto de te      tout...”                                         grimas de emoção. Como agora, neste               Fica tranquila, Mema. Eu estou aqui.
irritares – antes de lhe dares um beijo – por                                                    momento em que te escrevo, sabendo que
                                                   Querida Amélia. Minha querida Amiga.                                                                         * Docente do ensino superior
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                                   OPINIÃO                21
                                                                  Natal nacional                                                                     teima em não sair.
                                                                                                                                                         Esta crise que nos atormenta pela porta da
                                                                                                                                                     economia, que nos aperta os bolsos, jamais se
                                                por quem trabalha.                               plexo sistema das relações sociais.                 curará com pazadas de milhões nas catedrais
                                                   Acreditámos que os conflitos, a existirem,       Falar, hoje, de honra, de seriedade, de          responsáveis pelo fiasco, mas por um aperto,
                      Renato Ávila              se resolveriam com bom senso e clarividên-       palavra, de sobriedade, de autoridade e dis-        um safanão nas consciências de todos, espe-
                                                cia pelo diálogo e por uma justiça democrá-      ciplina, de esforço e perseverança, de pou-         cialmente dos que, nas chancelarias e admi-
    Faltam-nos palavras para expressar a        tica e parcimoniosa.                             pança e previdência, de zelo no trabalho, de        nistraçõe, se banqueteiam sem atenderem às
amarga desilusão que nos vai na alma no            Acreditámos em tudo isto e em muito           respeito e afecto pelos mais velhos e dimi-         dificuldades da grande maioria.
balanço da quadra festiva de Natal.             mais.                                            nuídos, pela integridade física, moral e patri-         Esta quadra natalícia revelou bem a pro-
    Suposto seria que celebrássemos a paz e        Construímos este edifício pautando as         monial de cada um… parece cheirar a re-             fundidade e a singularidade dessa crise.
a solidariedade entre todos, especialmente      nossas cogitações, o nosso comportamen-          trógrado, a obsoleto.                               Enquanto o desemprego com o seu prenún-
os de boa vontade. Afinal, nas sombras das      to pelas sólidas e probas referências das           O laxismo e o facilitismo, o compadrio e         cio de miséria e exclusão batia à porta de
feéricas alegrias e da abundância de alguns,    velhas gerações que nos embalaram, das           tráfico de interesses e influências, os abu-        quase meio milhão de lares portugueses e
muitos sentiram na pele e na alma as agru-      apertadas conjunturas em que nos foi dado        sos de confiança e as falcatruas, o descré-         os governantes profetizavam tempos difíceis
ras do frio e da fome, da miséria, da indife-   viver e dos códigos comportamentais da-          dito da autoridade democrática do estado e          de carência, os hotéis enchiam-se e, pre-
rença, da violência e até do ódio.              queles que nos educaram.                         da justiça, desembocando na impunidade e            nhes, os aviões enxameavam nos céus em
    Aquilo a que temos vindo a assistir nes-       Os desvios eram moral e duramente             na corrupção, vêm minando as respectivas            demanda das cálidas praias do Atlântico Sul.
tes últimos tempos abala profundamente todo     punidos com a reprovação pública e a con-        estruturas.                                         É clamorosa e chocante esta assimetria.
o edifício no qual nos habituámos a viver, a    denação em juízo marcava profundamente              O hedonismo desenfreado aliado ao con-               O novo ano começou cheio de sombras
encontrar as nossas referências, a construir    a credibilidade e o conceito social dos seus     sumismo militante parecem ditar as novas            sadicamente marteladas por alguns respon-
os nossos valores.                              autores.                                         leis do comportamento social onde o suces-          sáveis políticos que entendem ser a crise
    Fizemos âncora do trabalho e da discipli-      Os actos de nobreza e de generosidade         so do “ter” logra submergir a honra do “ser”;       uma factura para os pobres pagarem. Tal-
na, da sobriedade e da poupança, da honra       eram tidos em apreço e constituíam patri-        onde a astúcia e a desvergonha subalterni-          vez se enganem.
e do respeito pela autoridade, pela integri-    mónio da comunidade em que se inseriam           zam o mérito; onde a dignidade e a cultura              É que se não for feito um grande esforço
dade moral, física e patrimonial do nosso       promotores e beneficiários.                      são ofuscadas pela mediocridade; onde o             no sentido de inverter este consumismo de-
próximo, com redobrada veemência quan-             Hoje, tudo parece estar posto em causa.       gozo anatemiza o sacrifício; onde os desfa-         senfreado, de morigerar os insaciáveis ape-
do, pela idade, pela doença ou diminuição       Não propriamente porque sejam preconiza-         vorecidos pela pobreza, velhice, doença e           tites de alguns, de fortalecer e enobrecer a
física e mental e pela precariedade afecti-     das ou difundidas doutrinas contrárias às que    incapacidade profissional parecem estar a           postura do Estado como salvaguarda do
va, económica e cultural se encontram em        a sociedade, durante muitos séculos, consa-      mais; onde as relações familiares e geraci-         bem público, de refazer uma ordem de va-
especial situação de fragilidade.               grou como códigos de civilização; não pro-       onais se destroem pela subversão dos afec-          lores mais humanizados e mais próximos da
    Acreditámos na nobreza, lucidez e efi-      priamente porque se proponha sob forma           tos, do respeito e do espírito de sacrifício.       dignidade humana, do mérito e da justiça
cácia da justiça e no primado e força da lei    concreta e explícita uma outra moral, mas           Assim é que os abandonos afectivos das           social, esta crise poderá desembocar numa
sobre a marginalidade e o crime e na demo-      porque, a pouco e pouco, por omissão ou          crianças, dos velhos e dos diminuídos en-           gigantesca implosão de proporções e efei-
crática abertura no acesso aos tribunais.       por contemporização cívica e jurídica, se        grossa o caudal desse rio imenso e triste           tos incalculáveis e ser causa de muito maior
    Acreditámos, ainda, na idoneidade e na      foram permitindo, por uso e abuso continu-       que corre pelas nossas escolas, pelas azi-          sofrimento para todos.
seriedade dos que, na política, se candidata-   ado, a sedimentação de determinados com-         nhagas e ruelas de certos bairros suburba-              Imperioso se torna que cada cidadão par-
ram ao nosso voto para honrada e sabia-         portamentos e, com ela, a emergência de          nos, pelos “armazéns” da terceira idade,            ticipe na construção dum Natal nacional
mente servir a grei.                            novos conceitos, novas e estranhas atitudes,     pelos corredores de hospitais e hospícios,          onde a humildade do presépio, a messiânica
    Acreditámos nos empresários e banquei-      de novos e polémicos valores os quais, cala-     pelas ruidosas avenidas das nossas cidades          humanidade e a sabedoria dos reis e dos
ros como promotores de riqueza sábia e          mitosamente, estão a corroer, a arruinar as      onde em muitos corações há um deserto e             profetas sejam a estrela a indicar o caminho
solidariamente repartida por quem investe e     estruturas morais em que assenta o com-          em muitas gargantas um grito enovelado que          da dignidade, da solidariedade e da paz.

FILATELICAMENTE                                           1937 – Emissão Comemorativa
                                                          do 1º Centenário da Fundação
                                                                                                                                               POIS...
                                                          das Escolas Médico-Cirurgicas
                                                                de Lisboa e Porto
                     João Paulo
                     Simões                   No Porto, o ensino médico-cirúrgico,           Em 1937 foi feita uma emissão de
                                           vinha do Hospital D. Lopo, fundado em                                                                                         José
                                                                                          selos comemorativa do 1.º Centenário
                                           1605 e substituído pelo Hospital de San-                                                                                      d’Encarnação
                                                                                          da Fundação das Escolas Médico-Ci-
                                           to António, em 1770. Foi neste hospital        rúrgicas de Lisboa e Porto. Desenho
                                           que se instalou, em reduzidas dependên-                                                                    A investigadora decidiu realçar a ex-
                                                                                          alegórico de Álvaro Duarte de Almei-
                                           cias, uma Escola de Cirurgia, anteces-                                                                  cepcional importância que detinha um por-
                                                                                          da, que, ao querer apresentar o símbolo
                                           sora da Escola Régia de Cirurgia fun-                                                                   menor duma tapeçaria patente ao público
                                                                                          da Medicina – vara delgada e lisa, ter-
                                           dada em 1825. Por Decreto de 29 de                                                                      no Museu Nacional de Machado de Cas-
                                                                                          minada em duas asas e rodeada por
                                           Dezembro de 1836, Passos Manuel deu                                                                     tro.
                                                                                          duas serpentes –, recorreu, por enga-
                                           nova organização às Escolas de Cirur-                                                                      Dedicou ao tema largas horas e do re-
                                                                                          no, a uma cobra enroscada no pé de
                                           gia de Lisboa e Porto, que passariam a                                                                  sultado do seu intenso labor apresentou
                                                                                          uma taça, que é o símbolo da Farmá-
                                           denominar-se Escolas Médico-Cirurgi-                                                                    comunicação a um congresso e houve por
                                                                                          cia.
                                           cas de Lisboa e Porto e, mais tarde,                                                                    bem publicar o texto em conceituada re-
                                                                                             Impressos na Imprensa Nacional de
                                           Faculdade de Medicina da nova Univer-                                                                   vista científica. Claro que só ficava bem
                                                                                          Lisboa, zincogravados sobre papel liso,
                                           sidade do Porto, em 1911. Em Lisboa,                                                                    com fotografia a ilustrar.
                                                                                          em folhas de cem selos. A gomagem e
                                           sucede a este curso, a Escola Régia de                                                                     Confidenciou-me:
                                                                                          o denteado 11,5, foram feitos na Casa
                                           Cirurgia (Hospital de São José), criada                                                                    «A imagem teve de ser comprada e
                                                                                          da Moeda. Foram emitidos 4 050 000
                                           no ano de 1825.                                                                                         não foi nada barata: 50 euros! Eu até te-
                                                                                          selos azul claro de vinte cinco centa-
                                              Ambas as Escolas nasceram a par por                                                                  nho fotografias minhas e com melhor qua-
                                                                                          vos, que circularam de 24 de Julho de
                                           iniciativa de Teófilo Ferreira de Aguiar,                                                               lidade, mas… não me é permitido publi-
                                                                                          1937 até 1 de Outubro de 1945.
                                           cirugião-mór.                                                                                           cá-las!».
                                              Com estas duas Escolas, deu-se um                                                                       A entidade detém o exclusivo e pensa
                                                                                                (Baseado em Livros Electrónicos
                                           enorme passo na evolução da Cirurgia                                                                    amealhar uns cobres com essas vendas.
                                                                                                            de Carlos Kulberg)
                                           e da Anatomia em Portugal.                                                                              A quem quer que seja, sem excepção!
22          OPINIÃO                                                                                                           21 DE JANEIRO DE 2009




                                                   A paz devia passar por aqui
                                              proporções dantescas. Os jornalistas e      dos Unidos preparava-se a substituição       dadãos de Coimbra, das estruturas so-
                                              observadores são impedidos de entrar em     do Presidente, havia que aproveitar os       ciais, associativas, políticas.
                          Vasco Paiva         Gaza para não poderem relatar o que         últimos dias de Bush e o à vontade de           Pode-se constatar que em Coimbra
                                              efectivamente acontece.                     Olmert podia já não ser o mesmo. Ape-        não existem organizações “vocaciona-
                                                 O Hamas praticamente não existia         sar de tudo, conforme se vangloriou e a      das” para as questões da luta pela Paz e
                                              quando se iniciou a primeira Intifada       imprensa noticiou, Olmert até por tele-      a solidariedade internacional. Mas será
   A tragédia caiu sobre a Palestina.         Palestiniana em 1988. Já não é segredo      fone dava ordens a Bush e forçava a          bastante? Nem um grupo de cidadãos se
Mortos aos milhares. Só no remexer dos        o papel dos serviços secretos de Israel     alteração do sentido de voto nas Na-         consegue juntar e escrever, subscrever
escombros é que vão poder apurar ao           na criação do Hamas para dividir a re-      ções Unidas.                                 um pequeno manifesto?
certo quantos morreram. Centenas de           sistência palestina então dirigida pela                                                     Será que as preocupações do dia-a-
crianças entre os mortos.                     Organização de Libertação da Palesti-          Por toda a parte, nas principais capi-    -dia nem sequer permitem pensar no que
   As supostas bombas inteligentes do         na (OLP). Mas o feitiço virou-se con-       tais europeias, em todo o mundo, se mul-     se passa pelo mundo? Onde estão os va-
exército israelita não pouparam nada,         tra o feiticeiro! O Hamas cresceu e de-     tiplicaram os protestos contra o massa-      lores, a solidariedade? Onde param os
foram destruídas escolas, hospitais e edi-    senvolveu-se nos sucessivos fracassos       cre sobre as populações indefesas da         jovens? Onde para a nossa capacidade
fícios bem identificados com as Nações        dos chamados processos de Paz.              faixa de Gaza. Inclusive em Israel, com      e dever de indignação?
Unidas.                                                                                   coragem, as forças pela Paz se mani-            Noutros tempos, em situações inter-
   Gaza ficou sem alimentos, água, me-           Em Israel vão-se realizar brevemen-      festaram e jovens recusaram-se a servi-      nas de muito maior dificuldade e com-
dicamentos, agravando-se o cerco huma-        te eleições. Os partidos do governo es-     rem na guerra. Em Portugal houve ma-         plexidade, Coimbra soube honrar os seus
nitário que já dura há mais de 6 meses.       tavam em declínio, com projecções de        nifestações em Lisboa e no Porto.            pergaminhos e levantar a bandeira da
   Gaza: milhão e meio de famintos e de-      votações muito baixa, com esta ofensi-         E Coimbra? Pairou o silêncio, a apa-      indignação e da solidariedade.
sempregados.                                  va melhoraram as sondagens e o seu          tia, a indiferença.                             A luta pela Paz também devia passar
   O massacre e a hipocrisia assumem          previsível resultado eleitoral. Nos Esta-      É chocante a falta de reacção dos ci-     por Coimbra.



 OPINIÃO
               J.A. Alves Ambrósio
                                                           Angola em Saragoça (VI)
   Um dos ingredientes da honrosa, ab-        acção está também na eleição do gran-
soluta, responsabilidade que é escrever                                                                                                tróleo seja um presente de Deus a An-
                                              dioso Obama; declarou-o Martin Luther
para o Público (com maiúscula) traduz-                                                                                                 gola. Dizemo-lo, do fundo da alma, por
                                              King.
se por uma só palavra: “escrúpulo”. Es-                                                                                                mais que uma razão: nenhum progresso
                                                 A questão enuncia-se com uma sur-
crúpulo pela palavra certa na dose cer-                                                                                                pode basear-se num produto cujas cota-
                                              preendente economia de palavra – mas
ta. É da absoluta rectidão do verbo que                                                                                                ções são tudo menos estáveis (apenas
                                              o tema daria infindáveis bibliotecas. O
se trata, da sua altaneira propriedade. O                                                                                              um exemplo); o nosso amor a Angola
                                              eu-em-si não existe, diga-se desde já. O
Governo ou a Economia, v. g., são sem-                                                                                                 assim o determina.
                                              eu, desde logo, é um resultado, um coro-
pre uma questão espiritual; e esta reali-                                                                                                 Mais uma vez parece haver razão para
                                              lário do antanho; ainda por cima intera-
dade do pérfido – porque superficial –                                                                                                 o meu optimismo. Com efeito, o Presi-
                                              ge com os outros, inter-depende, vive na
laicismo em que vivemos é responsável                                                                                                  dente da República criou já uma comis-
                                              sua época, no seu mundo. A alteridade é
pelo hic et nunc a nível mundial. Aliás,                                                                                               são instaladora do FSA (Fundo Sobera-
                                              inerente a tudo o que existe; e pressu-
uma excelente ilustração do que acabo                                                                                                  no de Angola). Preservar e maximizar
                                              põe respeito, humildade. Sucede é que
de dizer está num texto “ridículo” (não é                                                                                              as reservas financeiras do país – ainda
                                              tais sentimentos, como uma cultura mí-
ser-se desprimoroso, mas não encontro                                                                                                  por cima numa época tão insólita, diga-
                                              nima, sine qua non, para a relacionali-
outro adjectivo) que um conjunto de aca-                                                                                               mos – só pode ser visto como a pros-
                                              dade, por limitações das mais diversas,
démicos, há semanas, no “Público”, es-                                                                                                 pectiva atitude de um governante. O pe-
                                              tais sentimentos, dizia, melhor, a ausên-
creveu sobre Economia. Ficámos a sa-                                                                                                   tróleo acautelará o futuro, em vez de
                                              cia de tais sentimentos tem sido a razão
ber o que é a amplidão de horizontes de                                                                                                estontear cabeças. Não se trata de “o
                                              para os mais hediondos conflitos.
alguns que habitam as “torres de mar-                                                                                                  dinheiro mal ganhado, água o deu água o
                                                 Uma luminosa consciência e apreço
fim”… O leitor não pode alienar-se des-                                                                                                levou”, sim de considerar que o dinheiro
                                              pelo outro – nos antípodas da postura do    que fiz à sua letra, em Saragoça,
ta consciência.                                                                                                                        só o é por se tratar de uma emanação
                                              colonizador-tipo (não importa qual ele      deixou-me uma boa impressão, tal qual
   … A intangível propriedade do verbo,                                                                                                espiritual. Diferente interpretação é a
                                              tenha sido) – será o norte da lídima vida   o referi a um casal amigo vindo de An-
disse. É que, no meu último artigo, preci-                                                                                             ruína.
                                              angolana, em Angola. Será a relação         gola.
samente na última linha, a palavra “úni-                                                                                                  A espiritualidade a presidir aos desti-
                                              harmoniosa e fraterna com que Angola           É necessário ter vivido em Angola (eu
ca” está a mais. A sólida garantia de fu-                                                                                              nos de uma grande Nação acautelará
                                              se imporá ao mundo. E se a estrita pers-    fui “apenas” o alferes miliciano) para
turo para Angola é suprimir todo o res-                                                                                                igualmente o património histórico rece-
                                              pectiva do eu domina todas as relações      sentir o que é um paraíso; e o grande
sentimento para com a que foi potência                                                                                                 bido – nem que seja a muito singela ca-
                                              humanas desde sempre, digamos – e a         drama dos nossos compatriotas, compe-
colonial. Só isso é que deve reter-se.                                                                                                 pela de Nambuangongo. O Dundo, dou
                                              todos os níveis – o desafio do acolhimen-   lidos ao abandono na sequência do 25 de
   Não me cansarei de repeti-lo: confio                                                                                                só um exemplo, tinha no seu género, o
                                              to – e o acolhimento do desafio – são o     Abril, traduz-se laconicamente: a inter-
absolutamente em José Eduardo dos                                                                                                      melhor museu de África. Imagino as
                                              que Angola terá como seu programa vi-       rupção do mais belo dos sonhos. Doutro
Santos, porque se converteu à religião                                                                                                 destruições provocadas pelo conflito.
                                              tal e perene. Executá-lo-á, claro. Os de-   modo: a nostalgia que leva a sucessivas
do perdão. E da espiritualidade desta                                                                                                  Mas, Senhor Presidente, faça o obséquio
                                              safios são, alíás, o penhor de progresso    edições de obras sobre o tema é a mais
postura emanará uma directriz para toda                                                                                                – no mais tocante interesse de Angola e
                                              da História.                                insofismável ilustração do que digo.
a vida nacional – que é infinitamente mais                                                                                             da Humanidade (lembre-se do Brasil) –
                                                 É que José Eduardo dos Santos, ade-         Mas mudemos de ângulo. Os mexi-
que política – angolana, a começar, creio                                                                                              de o restaurar no melhor e máximo que
                                              mais, prometeu lutar contra a corrupção.    canos têm um ditado: “o petróleo foi um
bem, pelos ministérios do Interior e da                                                                                                puder. A arte africana tem uma crescente
                                              Acresce a “esmagadora” votação que          presente que o diabo deu ao México”. E
Educação. Como li recentemente, “ou                                                                                                    cotação e alguém que lecciona História
                                              recebeu e o carinho com que uma subs-       os reiterados tumultos e drama nigeria-
aprendemos a viver como irmãos, ou                                                                                                     da Arte sente muito bem o que afirma,
                                              tancial percentagem da população o quer     nos, bem como a trágica e comovente
vamos morrer juntos como idiotas”. De-                                                                                                 tendo toda a autoridade para o pedido.
                                              num mandato a seguir ao actual. A for-      realidade timorense, tudo isso postula que
clarou-o um visionário, o resultado de cuja                                                                                               Por mim rezarei por Angola. Fique
                                              çosamente breve análise grafológica         digamos muito simplesmente: que o pe-        certo disso, Excelência.
21 DE JANEIRO DE 2009                                                                                                       INTERNET              23
                                                                     código postal completo, com os três números que        tos dos seguros. Estão ainda disponíveis links úteis.
IDEIAS DIGITAIS                                                      há uns anos foram introduzidos e que fazem toda a
                                                                     diferença.                                             PORTAL DO CONSUMIDOR

                                                                     CÓDIGOS POSTAIS DE PORTUGAL                            endereço: http://www.consumidor.pt
                                                                                                                            categoria: utilidades
                                                                     endereço: http://www.codigospostais.com
                                                                     categoria: utilidades
                        Inês Amaral                                                                                           TOM TOM ROUTER PLANNER
                        Docente do Instituto Superior Miguel Torga


                                                                       CV TV

  DIPLODOCS




                                                                                                                               A plataforma TomTom Router Planner permi-
                                                                                                                            te aos utilizadores programar viagens. Essa é já uma
                                                                                                                            funcionalidade possível com outros sistemas, mas
                                                                                                                            a vantagem deste é que faculta informação em tem-
                                                                                                                            po real do tráfego.
                                                                                                                               Os utilizadores podem corrigir os dados dos ma-
                                                                        Está online o Ciência Viva Tv, um espaço que
                                                                                                                            pas, o que permite que a cartografia fique sempre
                                                                     promove a troca de experiências e ideias sobre Ci-
                                                                                                                            actualizada. O facto de apresentar informação em
   Os manuais de instruções são geralmente entendi-                  ência e Tecnologia. O site assume uma vertente co-
                                                                                                                            tempo real permite que seja possível planear via-
dos como papel sem utilidade. Até ao dia em que são                  munitária e educativa.
                                                                                                                            gem e estimar quanto tempo esta demora e qual o
precisos e já não estão na gaveta em que pensávamos.                    O Ciência Viva Tv permite que os seus utiliza-
                                                                                                                            melhor caminho a seguir.
Daí a não conseguir utilizar os equipamentos vai pouco               dores façam upload de vídeos, imagens, documen-
tempo... O Diplodocs é a solução, já que se trata de                 tos .doc e .pfd, entre outros. Há um separador de
                                                                     podcasts, o top vídeo, ciência em imagens, vídeos
                                                                                                                            TOMTOM ROUTER PLANNER
um site com manuais de instruções online para imen-
sas marcas.                                                          “Minutos de Ciência”, para além de outros recur-
                                                                                                                            endereço: http://routes.tomtom.com
   Há manuais para tudo: electrodomésticos, televisões,              sos interessantes para os amantes das temáticas.
                                                                                                                            categoria: viagens
carros... Os documentos estão organizados por cate-
gorias e marcas. É possível procurar por palavras-chave              CV TV
se não se souber exactamente o modelo ou a marca do
manual que se procura. Há ainda a possibilidade de                   endereço: http://www.cvtv.pt                             CAPZLES
fazer upload de um manual e ainda um link para um                    categoria: televisão, Ciência
fórum de ajuda.

DIPLODOCS
                                                                       PORTAL DO CONSUMIDOR
endereço: http://manual-de-instrucoes.com
categoria: Internet



  CÓDIGOS POSTAIS DE PORTUGAL




                                                                                                                               Não exactamente uma novidade, mas é uma fer-
                                                                                                                            ramenta interessante. O Capzles permite compilar
                                                                                                                            fotografias e vídeos, fazendo linhas de tempo inte-
                                                                                                                            ractivas. Também é possível adicionar som.
                                                                                                                               O resultado pode ser uma espécie de scrapbo-
                                                                        Os tempos de crise exigem um consumo respon-        oking, mas em formato digital e interactivo. É pos-
                                                                     sável. O Portal do Consumidor fornece aos utili-       sível deixar aberto ao público os seus conteúdos ou
                                                                     zadores todas as informações necessárias para con-     limitar a conhecidos. A utilização desta ferramenta
   A ideia não é nova, até porque os próprios CTT                    sumir de forma consciente.
fornecem a informação. Mas como o site dos Cor-                                                                             implica um registo.
                                                                        Os utilizadores do site podem ter acesso à legis-
reios é confuso, fica a sugestão. Para ter a certeza                 lação, publicações, reclamações e dicas para pou-
de que a correspondência vai parar aio sítio certo,                                                                         CAPZLES
                                                                     par. Há também notícias de que os consumidores
o site Códigos Postais de Portugal é a solução.                      devem estar a par, como novas directivas para brin-
   Basta inserir uma morada e o site apresenta o                                                                            endereço: http://capzles.com
                                                                     quedos ou o fim das “letras pequenas” nos contra-      categoria: Internet
24         TELEVISÃO                                                                                                          21 DE JANEIRO DE 2009


                                                                                          trar não estar ali para “fazer fretes” ao
PÚBLICA FRACÇÃO                                                                           chefe do governo. Não precisava mos-
                                                                                                                                           “A Escola do Cerco voltou à RTP -
                                                                                                                                       Jornal da Tarde (4 JAN) nos mesmíssi-
                                                                                          trar. Apenas se exigia que não o fizesse.    mos moldes em que por lá já havia an-
                                                                                             As suas prestações no programa “Ex-       dado. Voltaram a ser ouvidos alunos,
                                                                                          presso da Meia-Noite”, na SIC- Notícias,     pais e o representante dos pais veio
                                                                                          são muitas vezes uma enorme confusão         mesmo em repetição... E voltou-se a não
                 Francisco Amaral                                                         entre quem troca impressões com os convi-
                 franciscoamaral@gmail.com
                                                                                                                                       fazer jornalismo, mas antes grave mis-
                                                                                          dados e a postura de jornalista/moderador.   tificação.
                                                                                             Com estes apontamentos apenas pre-            Da mesma maneira que Daniel
SIC-NOTÍCIAS – OITO ANOS                                                                  tendo dizer algo muito simples: Ricardo      Sampaio se referiu ao tema na Pú-
                                                                                          Costa pode ser um excelente jornalista       blica - Escola: mais do mesmo, tam-
   A SIC-Notícias completou 8 anos.                                                       (e é), mas não é jornalista para ecrã. In-   bém em relação ao tratamento da
Não é apenas mais uma data. É um mo-                                                                                                   RTP1 é isso – “mais do mesmo”. O
mento importante para lembrar que o           Francisco Pinto Balsemão                                                                 que é profundamente lamentável da
primeiro canal de notícias da televisão                                                                                                parte de um serviço público de tele-
portuguesa se tem conseguido manter                                                                                                    visão. Daniel Sampaio seria justa-
num plano muito consistente. Desde sem-      referência no panorama nacional. Para-                                                    mente um dos especialistas que a RTP
pre líder na televisão por cabo, este é      béns ao eterno empresário de Comuni-                                                      deveria ouvir com toda a atenção
                                                              cação Social que é Pin-                                                  sobre este assunto, que deveria ter
                                                              to Balsemão, mas tam-                                                    merecido um tratamento tecnicamen-
                                                              bém ao seu actual di-                                                    te rigoroso por parte da RTP.” Fran-
                                                              rector, António José                                                     cisco Rui Cádima – IrrealTV, 5-1-09
                                                              Teixeira, jornalista de
                                                              grande ponderação que        Ricardo Costa
                                                                                                                                           Fernando Sobral, Serviço público vs.
                                                              foi deixado cair da TSF                                                  audiências (CM, 2/1): “O serviço público
                                                              aquando da sua “refor-      felizmente parece ter uma enorme atrac-      precisa de um trabalho sério de reanáli-
                                                              mulação” em 2003, mas       ção pela pequena janela e faz mal.           se. Mas ninguém está interessado nisso.
                                                              também ex-director do                                                    (...) E por isso a RTP navega à bolina.”
                                                              Diário de Notícias, e       SERVIÇO PÚBLICO
                                                              “ex” precisamente por-      CONTINUA                                        Situações a serem urgentemente consi-
                                                              que não terá estado         ALVO DE CRÍTICAS                             deradas. Já nem digo discutidas, pois elas
                                                              aberto à postura algo                                                    são por demais evidentes. O grande proble-
um facto muito importante. Os canais de                       simpática para com o           Aqui vos deixo algumas opiniões, pro-     ma da RTP é não conseguir libertar-se do
notícias, em quase todo o mundo, ape-        poder, tal como o DN agora parece estar.     venientes de diversos quadrantes, que,       peso de quem está por trás. E, claro, não é
nas conseguem a liderança das audiên-                                                     mais uma vez, colocam em causa o Ser-        de agora. Enquanto forem os governos a
                                                                RICARDO                   viço Público de Televisão:                   nomear as Administrações e, por sua vez,
                                                                COSTA                                                                  estas a indicarem os directores de informa-
                                                                                             “Gostaria que a RTP examinasse se-        ção e de programas, dificilmente se sairá
                                                                   É, para mim, uma       riamente o seu papel, a sua função cul-      disto.
                                                                grande incógnita o        tural e a sua missão informativa, sacu-         No entanto, não sejamos inocentes: não
                                                                facto do jornalista Ri-   dindo a dependência estreita do Gover-       são estes factos que devem conduzir a idei-
                                                                cardo Costa, agora        no em que se colocou voluntariamente,        as de privatização da RTP. Um serviço pú-
                                                                com um enorme peso        pensando na nobreza do serviço que po-       blico de televisão é necessário e desejável.
                                                                no grupo Impresa, se      deria prestar ao país, produzindo pro-       Há que corrigir o funcionamento destas, apa-
                                                                ter tornado uma figu-     gramas que não nos envergonhem e cul-        rentemente, eternas e perigosas ligações
                                                                ra omnipresente na        tivando aquelas que poderiam ser as          entre o poder político e o poder dentro da
                                                                antena da SIC. Da         suas mais relevantes qualidades, a inde-     empresa pública. Como cidadãos e espec-
                                                                SIC generalista e da      pendência e a seriedade.” (António           tadores não podemos aceitar que isto seja
                                                                SIC-Notícias. Não         Barreto, “Gostaria”, Público, 28/12/08).     impossível.
                                                                que coloque em dúvi-
                                                                da o seu profissiona-
                                                                lismo, as suas quali-
                                                                dades, mas sim a sua
                                                                                            Faça
                                                                postura em antena.
                                                                   Ricardo Costa
                                                                                            uma
                                                                quase nunca está
                                                                bem em antena. Par          assinatura
                                                                além de dizer “treu-
                                                                ze” (imperdoável            do
                                                                para um director), a
                                                                sua atitude é normal-
                                                                mente quase displi-
                                                                                            “Centro”
                                                                cente (não o é verda-
                                                                deiramente, mas pas-
                                                                                            e ganhe
                                                                sa por isso). Com fre-
                                                                quência deixa no ar         valiosa
                                                                algumas “piadolas”
 António José Teixeira
                                                                que não fazem senti-        obra
cias nos momentos de crise, para depois      do em programas de informação e muito
regressarem a uma posição secundária.
A SIC-Notícias conseguiu, desde o iní-
                                             menos ditas por alguém com as suas res-
                                             ponsabilidades.
                                                                                            de arte
                                                                                                                            Esta é a reprodução da valiosa obra original
cio, uma dinâmica própria que a carac-          Na última grande entrevista ao primei-                                      de Zé Penicheiro, alusiva aos 6 distritos da Região
terizou de imediato.                         ro-ministro José Sócrates, desta vez em        APENAS                          Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda,
   Um pouco como a TSF dos seus bons         dupla com José Gomes Ferreira, teve            20 euros POR ANO                Leiria e Viseu) que receberá, gratuitamente,
tempos, a SIC-Notícias passou a ser uma      momentos em que se esforçou por mos-           - LEIA NA PÁG. 3                quando fizer a assinatura do jornal CENTRO

O Centro - n.º 66 – 21.01.2009

  • 1.
    DIRECTOR JORGE CASTILHO | Taxa Paga | Devesas – 4400 V. N. Gaia | Autorizado a circular em invólucro de plástico fechado (DE53742006MPC) Rua da Sofia, 95 - 3.º - 3000-390 COIMBRA Telef.: 309 801 277 ANO III N.º 66 (II série) 21 de Janeiro de 2009 1 euro (iva incluído) ESCRITORA E HISTORIADORA ESPANHOLA EM ENTREVISTA AO “CENTRO” Livro sobre a Rainha Santa Isabel com nova versão sobre o “Milagre das Rosas” PÁG. 13 e 14 AFIRMA CORREIA DE CAMPOS Coimbra é caso único na Saúde PÁG. 17 a nível mundial CASA MIGUEL TORGA AMANHÃ EM COIMBRA 15.º ANIVERSÁRIO COM MUNDO A VER Alzira Seixo Universidade “Saúde em Obama profere divulga Português” já é conferência quem venceu lança livro Presidente no dia 30 o seu Prémio de E. Castela dos EUA PÁG. 3 PÁG. 11 PÁG. 16 PÁG. 4 e 5
  • 2.
    2 ANIMAL 21 DE JANEIRO DE 2009 CAMPANHA “COIMBRA ADOPCÃO” A troco de nada ganhe um grande amigo O Canil/Gatil Municipal de Coimbra pros- damente se adaptam aos seus novos apenas custam uns minutos na deslocação, Podem também enviar um e-mail para segue uma campanha intitulada “Adop- donos (que, para além do mais, os esta- para escolher um companheiro (ou compa- aranimal@gmail.com Cão”, com o seguinte lema: “Adoptem rão a poupar a um fim muito triste e tre- nheira) para a vida, que será sempre fiel e de ou consultar o site um animal no Canil Municipal”. mendamente injusto). uma enorme dedicação e em troca apenas www.cm-coimbra.pt/741.htm Trata-se de uma iniciativa muito me- Um cão ou um gato é sempre um pre- pede um pouco de atenção e de carinho. Os dias e horas especificamente desti- ritória, que permite que pessoas que gos- sente bem recebido, desde que a pessoa a O Canil/Gatil Municipal fica no Campo nados às adopções são os seguintes: tam de animais ali possam ir buscar um quem ele se oferece goste de animais, não do Bolão, Mata do Choupal, onde os ani- - segundas-feiras, das 14h30 às 16h30; fiel companheiro, sem nada pagarem os encare como um brinquedo ou um ob- mais esperam, ansiosos, por uma nova casa - quintas-feiras, das 10 às 12 horas. por isso. jecto e tenha condições mínimas para deles e uma nova família. São muitos os cães (e também alguns tratar convenientemente. Os interessados em obter mais informa- Abaixo publicamos imagens de alguns gatos) que esperam que gente com bom Se for o caso, não hesite em ir buscar ções podem ligar para o telemóvel 927 441 dos bons aamigos de 4 patas que estão à coração os vá adoptar, tendo como re- um destes amigos muito valiosos em ter- 888 (a qualquer hora), ou para o Canil/Gatl espera de que alguém queira aproveitar todo compensa conquistarem um amigo para mos materiais (basta ver os preços nas lo- (das 9 às 17h30 dos dias úteis) através do o carinho que têm para dar. e não se toda a vida, já que estes animais rapi- jas de animais!...), mas que no Canil/Gatil telefone 239 493 200. arrependerá! Aos Assinantes do “Centro” Director: Jorge Castilho Como tem sido bem evidente nas notícias vindas a público, o sector da comunicação social (Carteira Profissional n.º 99) é um dos mais afectados pela crise que se abateu sobre toda a sociedade, sobretudo pelo brutal Propriedade: Audimprensa decréscimo nos investimentos publicitários. NIF: 501 863 109 Perante isto, até os grandes grupos de comunicação social estão a fazer despedimentos Sócios: Jorge Castilho e Irene Castilho em massa, para além de haver muitos jornais reguionais que se viram obrigados a suspender a publicação. ISSN: 1647-0540 Aqui no “Centro” estamos a fazer um enorme esforço para superar as dificuldades. Inscrito na DGCS sob o n.º 120 930 Mas esse esforço só será bem sucedido se conseguirmos receitas de publicidade e se os nossos Composição e montagem: Audimprensa Assinantes tiverem a gentileza de proceder ao pagamento da respectiva assinatura anual Rua da Sofia, 95, 2.º e 3.º - 3000-390 Coimbra - que se mantém em 20 euros desde o início do jornal. Se quer que esta tribuna livre possa manter-se, muito agradecemos que nos envie o pagamento Telefone: 309 801 277 - Fax: 309 819 913 da sua assinatura - uma verba que representa apenas o equivalente a cerca de 5 cêntimos por dia, e-mail: centro.jornal@gmail.com menos de 40 cêntimos por semana! Impressão: CORAZE Outra forma de ajudar este projecto independente é conseguir-nos novos Assinantes, Oliveira de Azeméis por exemplo entre os seus fSamiliares e amigos (veja a página ao lado). Depósito legal n.º 250930/06 Tiragem: 10.000 exemplares Contamos consigo!
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    21 DE JANEIRODE 2009 NACIONAL 3 PROSSEGUE CICLO DE CONFERÊNCIAS NA CASA-MUSEU MIGUEL TORGA Maria Alzira Seixo no próximo dia 30 vem falar sobre “O Senhor Ventura” Prossegue no próximo dia 30 (sexta- Professora Catedrática da Faculdade de feira da próxima semana), o Ciclo de Letras da Universidade de Lisboa, que se desloca a Coimbra para falar sobre “O Senhor Ventura”, uma das mais apre- ciadas obras de Miguel Torga. A conferência inicia-se às 17 horas, na Casa-Museu Miguel Torga, e é aber- ta a todos os interessados. Recorde-se que a primeira conferên- cia deste Ciclo foi proferida por Clara Rocha, Professora Catedrática da Facul- dade de Letras da Universidade Nova de Lisboa, e filha do Escritor, que abor- dou o tema “A Casa de meus Pais”. Está já confirmada a presença de di- versos outros conferencistas, entre os quais Mário Soares, em datas que opor- tunamente serão divulgadas. Miguel Torga Maria Alzira Seixo EVOCAÇÃO EM LISBOA passada sexta-feira, por iniciativa da Es- Conferências que está a ser promovido cola Superior de Educação Almeida Gar- bra, sob o título genérico de “Identidades”. Entretanto, também em Lisboa a fi- rett, e com a participação de Maria Bar- na Casa-Museu Miguel Torga, em Coim- Desta feita será Maria Alzira Seixo, gura de Miguel Torga foi evocada na roso e Carlos Carranca, entre outros. ORIGINAL PRESENTE POR APENAS 20 EUROS AUDIMPRENSA Jornal “Centro” Ofereça uma assinatura do “Centro” Rua da Sofia. 95 - 3.º 3000–390 COIMBRA e ganhe valiosa obra de arte Poderá também dirigir-nos o seu pe- dido de assinatura através de: telefone 309 801 277 Temos uma excelente sugestão ma tão original, está a desabrochar, sua casa (ou no local que nos indicar), fax 309 819 913 para uma oferta a um Amigo, a um simbolizando o crescente desenvolvi- o jornal “Centro”, que o manterá ou para o seguinte endereço Familiar ou mesmo para si próprio: mento desta Região Centro de Portu- sempre bem informado sobre o que de de e-mail: uma assinatura anual do jornal gal, tão rica de potencialidades, de His- mais importante vai acontecendo nes- centro.jornal@gmail.com “Centro” tória, de Cultura, de património arqui- ta Região, no País e no Mundo. Para além da obra de arte que des- Custa apenas 20 euros e ainda re- tectónico, de deslumbrantes paisagens Tudo isto, voltamos a sublinhá-lo, de já lhe oferecemos, estamos a pre- cebe de imediato, completamente (desde as praias magníficas até às ser- por APENAS 20 EUROS! parar muitas outras regalias para os grátis, uma valiosa obra de arte. ras imponentes) e, ainda, de gente hos- Não perca esta campanha promo- nossos assinantes, pelo que os 20 eu- Trata-se de um belíssimo trabalho pitaleira e trabalhadora. cional e ASSINE JÁ o “Centro”. ros da assinatura serão um excelente da autoria de Zé Penicheiro, expres- Não perca, pois, a oportunidade de Para tanto, basta cortar e preen- investimento. samente concebido para o jornal receber já, GRATUITAMENTE, cher o cupão que abaixo publicamos, O seu apoio é imprescindível para “Centro”, com o cunho bem carac- esta magnífica obra de arte (cujas di- e enviá-lo, acompanhado do valor de que o “Centro” cresça e se desen- terístico deste artista plástico – um mensões são 50 cm x 34 cm). 20 euros (de preferência em cheque volva, dando voz a esta Região. dos mais prestigiados pintores portu- Para além desta oferta, o beneficiá- passado em nome de AUDIMPREN- gueses, com reconhecimento mesmo rio passará a receber directamente em SA), para a seguinte morada: CONTAMOS CONSIGO! a nível internacional, estando repre- sentado em colecções espalhadas por vários pontos do Mundo. Neste trabalho, Zé Penicheiro, Desejo oferecer/subscrever uma assinatura anual do CENTRO com o seu traço peculiar e a incon- fundível utilização de uma invulgar paleta de cores, criou uma obra que alia grande qualidade artística a um profundo simbolismo. De facto, o artista, para represen- tar a Região Centro, concebeu uma flor, composta pelos seis distritos que integram esta zona do País: Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu. Cada um destes distritos é repre- sentado por um elemento (remeten- do para o respectivo património his- tórico, arquitectónico ou natural). A flor, assim composta desta for-
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    4 OBAMA PRESIDENTE 21 DE JANEIRO DE 2009 ACTO DE POSSE PROVOCOU ENTUSIASMO EM TODO O MUNDO Presidente Obama pede “nova era de responsabilidade” do país O novo presidente dos Estados Uni- No seu discurso após o juramento como ponsabilidade por parte de alguns, mas tam- Estados Unidos a nação que é: o traba- dos, Barack Obama, pediu ontem (terça- Presidente dos Estados Unidos, Obama bém pelo fracasso colectivo em tomar as lho duro, a honestidade, a coragem, a jus- feira) “uma nova era de responsabilida- apelou aos valores fundamentais do seu país decisões difíceis e preparar a nação para tiça, a tolerância e o patriotismo. de” dos norte-americanos nas suas vidas começar um novo capítulo na sua história. uma nova era”, disse Obama. “O que nos é pedido agora é uma nova e para o seu país no mundo, como força “A nossa economia está enfraquecida, Perante esses erros, Obama instou os era de responsabilidade, o reconhecimen- de cooperação e diálogo. como consequência da avidez e da irres- norte-americanos a retomar o que fez dos to, por parte de cada norte-americano de Antigos Presidentes Carter, George W. Bush e Clinton na cerimónia de posse (imagem acima), que foi acompanhada com entusiasmo em todo o Mundo (como é exemplo a foto ao lado)
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    21 DE JANEIRODE 2009 OBAMA PRESIDENTE 5 que temos obrigações face a nós próprios, amigo de cada nação e de cada homem, actuais requerem que os Estados Uni- te pelos problemas nas suas socieda- à nossa nação e ao mundo”, disse. mulher e criança que procura um futuro dos façam um esforço maior para pro- des - saibam que o vosso povo vos jul- No plano internacional, o novo Presiden- de paz e dignidade e que estamos prontos mover a cooperação e o entendimento gará pelo que conseguirem construir e te quis assinalar uma mudança em relação para liderar uma vez mais”, afimou. entre as nações, perante a ameaça nu- não pelo que destroem. Aos que se à administração anterior, apesar de ter Recordou que os Estados Unidos der- clear e o aquecimento global. agarram ao poder através da corrup- agradecido seu antecessor pelo “seu ser- rotaram o facismo e o comunismo “com O presidente norte-americano ofe- ção e do engano e silenciando a dis- viço” aos Estados Unidos. alianças sólidas e convicções fortes” receu “um novo caminho em direcção senção, saibam que estão do lado er- “A todos os povos e governos que nos “O nosso poder só não nos pode pro- ao futuro” ao mundo muçulmano. rado da história, mas que estendere- vêem hoje, desde as maiores capitais à teger, nem nos dá direito a fazer o que “Aos líderes que procuram semear mos a mão se estiverem dispostos a pequena localidade onde nasceu o meu pai: nos apetece”, disse. o conflito ou responsabilizam o Ociden- abrir o punho”, declarou. saibam que os Estados Unidos são um Obama assinalou que os desafios Bush já passou para segundo plano Samuel Jackson e Denzel Washington (imagem acima) foram dois dos milhares de famosos que estiveram presentes na cerimónia de posse
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    6 INTERNACIONAL 21 DE JANEIRO DE 2009 Cimeira Ibéria amanhã em Zamora Os ministros das Finanças de Portu- orçamental, pelo menos em 2009. uvas dos dois lados da fronteira. ta-se de uma forma de colaboração im- gal e Espanha reuniram ontem (terça- A Comissão Europeia prevê para 2009 O “Duradero” nasceu em 2005 quan- portante entre os dois lados da fronteira, feira), em Bruxelas, para preparar a Ci- uma contracção da economia portugue- do se decidiu reunir uvas da Quinta do potenciando ao mesmo tempo a imagem meira Ibérica que terá lugar amanhã sa de 1,6 por cento, o dobro do estimado Portal (Celeiros do Douro), no lado por- vitivinícola do Douro. (quinta-feira, dia22) em Zamora, tendo por Lisboa (0,8 por cento), e um défice tuguês do Douro, com uvas das Caves “É um vinho de auréola negra, com reafirmado o objectivo de consolidação orçamental de 4,6 por cento também su- Liberalia Enológica (Zamora), do lado aromas a fruta muito madura e com in- orçamental. perior em 0,7 pontos às estimativas do espanhol do rio transfronteiriço. dícios de chocolate. Vinho encorpado Segundo fonte governamental, Fernan- Governo (menos 3,9 por cento). Especialmente bem acolhido pelo mer- com boa persistência. Vale a pena guar- do Teixeira dos Santos e Pedro Solbes Bruxelas também prevê que o défice cado, chegando a merecer 90 valores em dar umas garrafas para daqui a uns ani- “trocaram impressões” sobre os planos público espanhol atinja os 6,2 por cento algumas das mais prestigiadas publica- tos. Bom vinho”, lê-se numa critica ao de recuperação económica que os dois este ano, reflectindo a aplicação de me- ções enólogas de Portugal e Espanha, é Duradero no site WineCellar países estão a aplicar para contrariar a didas de combate à crise, valor que cai- descrito com um vinho “especial” fabri- Para a revista “Blue Wine” o Dura- actual crise económica. rá para 5,7 por cento do PIB em 2010. cado com uvas Roriz portuguesa e uvas dero nasce de um “casamento há muito Segundo a mesma fonte, os dois minis- Teixeira dos Santos e Solbes encon- ‘toro’ espanhol. desejado”, assinado pelos enólogos Paulo tros “reafirmaram” que a consolidação traram-se à margem da habitual reunião O nome do vinho foi retirado de ver- Coutinho e Sílvia Garcia, e que repre- orçamental continua a ser uma prioridade mensal dos ministros das Finanças da sos do mais famoso poeta zamorano, senta “uma união transfronteiriça que se e que, depois de se resolver a actual cri- União Europeia. Claudio Rodríguez, que sempre dedicou baseia num legado histórico comum, de se, se retomará a trajectória que levará especial atenção ao Douro. um rio que simbolicamente banha os dois ao equilíbrio nas contas do Estado. BRINDE COM VINHO IBÉRICO O primeiro encontro entre responsáveis países e os enlaça. Os Estados-membros da União Euro- das duas produtoras ocorreu no âmbito “É um vinho que tem um rio a correr peia decidiram lançar planos nacionais Os participantes na 24ª Cimeira luso- do encontro vitivinícola Vinos Duri, que nas veias. Consegue o nobre feito de de recuperação económica que implicam espanhola vão brindar com um vinho ‘ibé- decorreu na cidade de Zamora em 2005. casar dois países dentro de uma garrafa um agravamento geral da sua posição rico’ que nasceu de um ‘coupage’ de Para os responsáveis da iniciativa tra- e galgar fronteiras”, explica a revista. 2009: um ano de problemas globais obteve, em 1709, a vitória definitiva sobre UE, em primeiro lugar a Polónia e os to Europeu. Pensava-se que os novos Fiodor Lukyanov * o exército sueco do rei Carlos XII e um Estados Bálticos, aproveitarão a memó- eurodeputados iriam representar uma corpo de cavalaria cossaca, comandado ria do passado para apresentar a sua vi- nova união, com base no novo Tratado O mundo olha com medo para o ano pelo cabo de guerra ucraniano Mazepa. são da política europeia contemporânea. de Lisboa e simbolizando uma maior in- recém-nascido, receando imprevisíveis A data será aproveitada para especula- O segundo evento fará regressar os tegração. A festa foi estragada pelos ir- consequências económicas e políticas da ções políticas, envenenando ainda mais as debates sobre os vencedores e os venci- landeses, que declinaram o documento crise global que deflagrou em 2008. relações entre Moscovo e Kiev. dos na «guerra fria». No Ocidente tem no referendo em 2008. Mesmo em caso Em Abril, em foco estará a segunda Em Abril, na cimeira da NATO (que surgido um perigoso sentimento de triun- de vitória do «sim» num novo referendo cimeira dos «Vinte Grandes». Nos me- terá lugar na fronteira franco-alemã) fes- falismo, de absoluta supremacia moral e a realizar em 2009, durante a presidên- ses que faltam, os maiores países não tejar-se-á o 60.º aniversário da Aliança. política, de um sortido de ideias sem al- cia checa na UE, o Tratado de Lisboa serão capazes de implementar a Decla- Os promotores não querem ofuscar a ternativa. Na Rússia, acaba de aparecer vai entrar em vigor apenas em 2010. ração sobre os Mercados Financeiros e cimeira com temas capazes de pôr a nu uma espécie de vontade de «desforra». O ano de 2009 não verá resolvidos os a Economia Mundial, aprovada em No- as divergências entre os países membros, Naturalmente, será difícil chegar a um problemas da UE, que continua a enfer- vembro de 2008 em Washington. O do- sendo pouco provável que a Geórgia e a entendimento sobre este assunto. mar da contradição entre política de alar- cumento prevê uma série de medidas Ucrânia constem da agenda. Em Outubro, assinala-se o 60º aniver- gamento ou de maior integração. A crise colectivas destinadas a «elevar o nível O evento é também excelente pretexto sário da proclamação da República Po- financeira apenas contribuirá para agra- de transparência e controlo». para a primeira viagem do Presidente dos pular da China, que certamente servirá var o processo de estratificação iniciado Vários analistas e investigadores apon- EUA à Europa onde será recebido com para lembrar a todos o papel que este faz algum tempo. A votação em 2009 é tam, faz muito, a contradição existente euforia. O futuro discurso de Barack país desempenha no mundo de hoje. A capaz de estabelecer um novo recorde entre o carácter global dos processos no Obama sobre a unidade transatlântica China também terá duas datas menos de absentismo que não pára de aumen- nosso planeta e o pensamento político a pode entrar, de antemão, nos anais de agradáveis: em Março, o 50º aniversário tar desde 1979. fluir por bitolas nacionais, entre a neces- Arte Oratória. da rebelião no Tibete, e em Junho, o 20º As mais importantes eleições nacionais sidade de acções colectivas e a impre- No entanto, os problemas reais da aniversário da sangrenta repressão das terão lugar em Setembro, na Alemanha. paração para tal actuação. NATO permanecerão. A Aliança não tem manifestações estudantis na Praça da Mais uma campanha eleitoral, prenhe de Uma confirmação disso será a Confe- uma missão bem definida e a situação Porta da Paz Celeste, em Pequim. trambolhões à escala europeia, terá lugar rência da ONU sobre Mudanças Clima- no Afeganistão continua a piorar. na Ucrânia, onde decorrerão as presiden- téricas que abrirá em Novembro em Co- As relações com a Rússia continuarão UM ANO DE ELEIÇÕES ciais. Nem um possível colapso económi- penhaga. O seu objectivo consiste em no centro das atenções da NATO. E pelo co, nem a perspectiva de choques políti- acordar um documento em substituição menos alguns países membros tentarão As eleições que determinam em gran- cos são capazes de deter as elites ucrani- do Protocolo de Quioto que expira em aprsentar Moscovo como uma ameaça de parte a política em 2009 realizaram- anas de uma luta fratricida. 2012. Espera-se uma luta renhida, já que capaz de consolidar a Organização do Tra- se nos EUA no fim do ano passado. Em As eleições gerais terão lugar na Ín- à ecologia estão estreitamente ligados tado do Atlântico Norte. A propósito, em 20 de Janeiro (ontem) tomou posse o dia, onde a oposição nacionalista tem muitos interesses egoístas, que os princi- Março completam-se 10 anos sobre a pri- Presidente Barack Obama. As expecta- chance de vencer. A população está des- pais jogadores – os EUA, a UE e a China meira acção militar da NATO, nomeada- tivas com ele relacionadas são compa- contente com a actuação do governo – tentarão impor sob a capa de preocu- mente a guerra contra a Jugoslávia. ráveis apenas com as de representação durante os recentes ataques terroristas pação pelo futuro da Humanidade. Duas datas – o 70º aniversário do de prestidigitador ou milagreiro. Barack em Bombaim. Finalmente, no Irão vão Pacto Molotov-Ribbentrop e do início da Obama terá, sem dúvida, um «ano de escolher presidente. A derrota do actual UM ANO DE ANIVERSÁRIOS II Grande Guerra (Agosto-Setembro), e mel». Mas é impossível prever como será chefe de Estado (bem provável devido à o 20º aniversário da queda do muro de a «performance» real do 44º presidente difícil situação económica no país) con- Em Julho, assinala-se o 300º aniversá- Berlim – vão esimular a discussão histó- norte-americano. tribuiria para diminuir a tensão em torno rio da Batalha de Poltava. Perto daquela rica que se transforma num factor das Em Junho, os cidadãos dos 27 países do problema nuclear iraniano. cidade ucraniana o czar Pedro, o Grande relações internacionias. Os neófitos da da UE vão ter eleições para o Parlamen- * in revista A Rússia na Política Global
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    21 DE JANEIRODE 2009 NACIONAL 7 ponto . por . ponto a culpa solteira Por Sertório Pinho Martins dos actos consonantes de quem privile- com apenas 1,5% de execução? E de- ve! – liquidou à partida o interesse da coi- Num país onde de repente todas as gia a estabilidade. Mas a dúvida corroe: pois de 2013, de que vamos viver quan- sa, ao pôr em praça apenas jornalistas ‘da consciências despertaram ao mesmo e os que ajudaram à queda no abismo, do o orçamento comunitário estiver nas casa’. Imagine-se um Miguel Sousa Ta- tempo para as impunidades que o regi- mesmo sabendo que estávamos à beiri- encolhas e com 27 países a sugar a mes- vares ou uma Constança Cunha e Sá tam- me tem consentido ao longo de muitos nha e que um passo a mais era a passa- ma teta magra e exausta? E quem ali- bém em palco, a deitar lume pelos olhos e anos, não podia haver duas sem três: gem para a outra dimensão? O preço do menta a vaca senil? Nesse dia, e com chamas pela língua! Por isso desde o iní- depois do BPN e do BPP, também o BP petróleo só disparou para níveis caóticos um intróito doloroso já em 2010, a ‘dívi- cio que o desfecho era mais ou menos caiu na arena das suspeições (e sabe-se em 2008, enquanto que a nossa dívida da externa’ vai ser o garrote do nosso previsível, pese embora a lucidez política lá o tamanho do laudatório que aí vem). externa saltou de 7,4% do PIB em 1996, futuro! E quando um país chega a este (há que reconhecê-lo) e a preparação que E só é pena que esta sigla de BP diga para uns assustadores 90% no fim do ano limiar de inanição adivinhado, não acon- o entrevistado demonstrou relativamente respeito ao Banco Popular e não ao Ban- passado. Ah, mas o governo já prome- tece nada? A ninguém? ao que o esperava. co de Portugal, por tão simples quanto teu à UE que actuará severamente se Tudo aponta para que, em termos de E voltando à vaca-fria das culpas sol- isto: ninguém acusa o seu governador de os preços dos combustíveis não acom- recessão mundial, falte apenas um pe- teiras, recorde-se o que para aí vai nos actos do foro criminal, mas tanta falha panharem os do crude no longo prazo queno passo para algumas economias sectores da Agricultura (um ministro-fan- grave de supervisão só tem um rosto e (???). Alguém decifra esta promessa e darem o estoiro, com réplicas gigantes- toche, já questionado por deputados da esse é o de Vítor Constâncio. E Cadilhe a sua utilidade “no longo prazo”? cas no plano social (mais pobreza, aban- sua própria bancada – e fica tudo como foi apenas o último a dizer que o rei vai É que já nesses distantes anos 90, o dono escolar, desemprego, delinquência no reino dos anjos), Economia (milhares nu! Ora se um banqueiro (Tavares Mo- engº Guterres se via em palpos de ara- e fuga de quadros), com uma derrocada de empresas no fio da navalha, 150.000 reira foi exemplo), se um magistrado nha para fazer contas sobre o PIB – mas dos modelos jurídico e policial, com a dis- novos empregos na legislatura por água- (Fernando Negrão idem), ou outro qual- lá o castigaram exemplarmente dando- persão das famílias em busca de melhor abaixo, grupos-de-referência a despedir quer alto responsável público ou priva- lhe por penitência a função de alto-co- vida (e consequente desmembramento às centenas, projectos turísticos com bi- do, foram impedidos durante anos de missário para os refugiados da ONU. E da célula-base das sociedades humanas), liões-UE a ser comidos pela prioridade exercer funções em actividades onde se hoje? Alguém assume a paternidade do e com um clima propício a Estados mus- de refinarias em território espanhol), apontavam fortes indícios ou mesmo se monstrozinho? Quem levanta o dedo? O culados (Rússia, China, Irão, repúblicas Educação (eleições, a quantos recuos e tiraram juridicamente conclusões de senhor? Ou o senhor? Ou a senhora?! sul-americanas,…). E – but not the le- fugas à retaguarda obrigas uma pobre desempenho gravoso, por que não pode um Ninguém! ast – pode até estar muito próximo um ministra, disposta já a dar todos os-ditos- governador do banco central ou um mem- E se em 2009 chegarmos aos 100%, ‘desespero’ global conducente a confron- por-não-ditos), Obras Públicas (afinal há bro do governo da República, desatentos com o endividamento externo debruado tos militarizados, que começarão nas zo- dinheiro ou não para Alcochete, TGV, das suas funções, serem igualmente impe- com os respectivos juros (o que significa nas do globo mais atingidas pela ressaca novas autoestradas, mais o supremo ri- didos de exercer cargos de responsabili- um país inteiro hipotecado ao estrangei- e se alargarão depois na medida dos dículo de querer saber o calendário de dade nacional por um período correspon- ro), alguém põe a corda do Egas Moniz grandes interesses mundiais: domínio das inaugurações e lançamento de primeiras- dente às falhas cometidas? Mudá-los de ao pescoço? O senhor aí, não?... É que fontes de energia, negócio de armas, for- pedras), Finanças (Orçamento, impostos, cargo ou de pasta, não dignifica o regime após os 100%, senhor ministro, o passo necimento alimentar a países emergen- défice, dívida pública, troca de mãos pe- nem redime a asneira. E só faltava a As- seguinte é a escassez galopante daquilo tes, e tudo o mais que os génios huma- los pés a cada intervenção pública), Ad- sembleia da República não deixar Vítor com que se compram os melões e que nos sabem inventar para cavalgar a vida ministração Interna (insegurança nas Constâncio e Teixeira dos Santos serem tem alimentado o crédito às famílias (bens, às costas dos mais desfavorecidos. Por- ruas, criminalidade exponencial, salada livremente ouvidos em sede da Comissão serviços, alguma alimentação), ao inves- que o fervor dos nacionalismos patrióti- de polícias). E por muito espírito de bom- Parlamentar de Economia e Finanças! timento (PMEs, matérias-primas, imobili- cos, esse ficou amarrado ao cadáver do beiro que o primeiro-ministro tenha, e lhe Estamos metidos numa camisa de ário), e por aí fora. E o nosso derrapar ao século XX! sobre vontade de apagar fogos, nem os onze varas, que veio para durar. E não é longo de anos, é filho único da crise finan- E neste contexto de camisa de onze rigores polares que nos visitam se lhe só por causa dos salpicos da crise finan- ceira externa? Ou é filho bastardo da vis- varas, a recente entrevista do primeiro- comparam: a água das boas-intenções ceira mundial! Sabe-se que assim é, e ta grossa que campeou à sombra do regi- ministro na SIC exalou uma evidente pre- gela à saída das mangueiras do discurso que a asneira nos entrou pela porta bem me? Ninguém pergunta? Ninguém respon- ocupação de não deixar instalar o pânico. político, por mais sedutor que ele seja! E mais cedo do que as pitonisas do poder de? Estamos amordaçados?! Que se louva! Mas o pagode está dema- nem a lenga-lenga da nossa meninice querem fazer-nos crer. Mas também se Os tempos em que a França e a Ale- siado ansioso, para perder tempo a deci- nortenha se vislumbra no horizonte: “era sabe que o tempo não é de instalar pâni- manha sustentavam uma CEE “dos frar entrelinhas bem-intencionadas: quer uma bez um vombeiro boluntário que cos que podem acabar com multidões Doze”, já foram: hoje é cada um a sacu- é saber se vai comer amanhã e quanto binha da vandas de Velém com o vico espezinhadas à saída de todos os túneis dir a chuvada que nos encharcou até aos lhe toca nos aumentos salariais de 2009. da vota a vater na varriga do vurro”! por onde navegaram enganadas com a ossos, e que apanhou toda a gente a pas- E nem se apercebeu, durante a entrevis- E neste país esquecido por Deus, con- promessa de luzes ao fundo! O momen- sear de manga curta. Como vai ser até ta, de eventuais lapsos de memória ou de tinuará a haver filhos e enteados, en- to é, antes de mais, de et pluribus unum ao fim deste QREN, coxo e desperdiça- perguntas-de-alhos com respostas-de-bu- quanto as culpas dos homens morrerem – e, nesse aspecto, partilho da opinião e do desde o início de 2007, e desde então galhos. Mas um erro de base – que o hou- solteiras! VENDE-SE Casa com 3 pisos grande quintal e anexos num dos melhores locais de Coimbra (Rua Pinheiro Chagas, junto à Avenida Afonso Henriques) Informa telemóvel 919 447 780
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    8 OPINIÃO 21 DE JANEIRO DE 2009 A MAIOR RIQUEZA: OBAMA E O MUNDO tando suspensos ou adiados os projectos SEMELHANTES de construção de dez novos hospitais. Só A lista das nomeações da nova equi- entre 2006 e 2007, as taxas moderado- pa da Casa Branca não entusiasmou ras nas Urgências aumentaram cerca de (...) Como recordava recentemente, em aqueles que, durante o último ano, fize- 23% e os processos de introdução no Santa Maria da Feira, num debate sobre o ram de Barack Obama uma espécie de mercado de medicamentos inovadores diálogo intercultural, o filósofo Fernando “bloquista” com talento e ginástica, a chegam a demorar três anos. O número Savater, a semelhança entre os seres hu- vaticinarem uns Estados Unidos trans- de médicos nos centros de saúde dimi- manos é que cria a riqueza e funda a huma- formados numa super-UNESCO ou nuiu e o número de hospitais especiali- nidade. Reconhecemo-nos, porque somos ONG esquerdista, esgotada nas causas zados passou de 21 para 15; o número semelhantes. Só porque o fundamental é a correctas do luso-utopismo. de camas foi reduzido, sendo certo que nossa semelhança é que há igualdade de o número de atendimentos aumentou. direitos e só porque não há diferença de di- Estou mesmo a falar de Portugal. reitos fundamentais é que há o direito à di- Este. Onde a politização férrea de car- ferença. Afinal, “não há ninguém tão con- AMÉRICA, AMÉRICA vencido da diferença como um racista”. gos na Saúde e a violação das boas polí- ticas nos podem comprometer, muitas Claro que, no encontro com o outro, nun- Não sei se o remorso curva a espinha vezes, a vida. (...) ca se pode esquecer que o outro é um ou- e ensombra o gesto. Nem sei o que pe- tro eu e ao mesmo tempo um eu outro, de sou mais nos últimos dias de George W. Paula Teixeira da Cruz tal modo que nunca nenhum de nós saberá Bush. Se a memória de como planeou Correio da Manhã 15/Janeiro/09 o que é e como é ser outro enquanto outro, vingar-se do pai, parecendo querer vin- eu outro. Mas o que mais nos interessa é a gar o pai; se o intuito de refazer a apa- semelhança, pois, nas diferenças, somos DESAFIOS DE UMA gada e vil imagem que a primeira meta- todos humanos, reconhecendo-nos. ESTRATÉGIA NACIONAL de da vida lhe traçou; se a pulsão da epo- Se me perguntam pelo fundamento últi- peia, às vozes e tambores dos evangéli- mo da dignidade humana, digo que é a nos- Para definir uma estratégia nacional cos; se o ter-se deslumbrado com a sim- sa comum capacidade de perguntar. O que realista e consequente, é preciso que te- ples e prática cupidez de Dick Cheeney. nos reúne é uma pergunta inconstruível, sem nhamos consciência da situação de que Estes são os condimentos principais que, limites, que tem na raiz o infinito e nele de- se parte, avaliando os pontos fortes e os num filme subestimado mas interessan- semboca, sendo as culturas tentativas de pontos fracos. Só com esta consciência te, Oliver Stone nos propõe para dosea- formulá-la e perspectivar respostas. se pode potenciar as vantagens dos pri- mento su misura. Eu não tento o meu. E Aqui, assenta a convivência fraterna e meiros e atenuar os inconvenientes dos não excluo uma abordagem mais singe- digna da Humanidade, reconhecendo to- O novo Presidente foi buscar a maio- segundos. Só assim é possível valorizar la: o que verga Bush são as sondagens dos como humanos. Mas, como também ria dos seus colaboradores à última Ad- o que é bom e transformar o que está de aceitação popular, nesse momento lembrou Savater, inimigos maiores desta ministração democrática - a de Bill Clin- mal. Acresce que num tempo de instabi- sem remédio que é a passagem aos ar- convivência são a pobreza e a ignorância. ton. A começar pela secretária de Esta- lidade e pessimismo generalizados como quivos da história americana. (...) Rejeitamos os pobres, porque metem medo: do, Hillary Clinton, a continuar na equipa é o nosso, em que todos os dias somos nada nos dão e obrigam-nos a dar. A igno- do Tesouro e a acabar no novo director da surpreendidos por notícias quase sempre Nuno Brederode Santos rância é outra fonte de susto: quando se CIA, Leon Panetta. Quanto ao Conselho más e de impacto negativo global, im- Diário de Notícias 18/Janeiro/09 não reconhece a semelhança, teme-se o Nacional de Segurança e ao Pentágono, porta conciliar os vários tempos de con- diferente. Obama optou pela continuidade de Robert cepção e de actuação, o curto e o médio PSD EM DIFICULDADES Aí está, pois, a urgência da solidarie- Gates e foi buscar o general James, um prazo que o imprevisto e a emergência dade, assente no reconhecimento da se- republicano, ex-comandante dos marines. exigem, com o longo prazo, no duplo pla- Manuela F. Leite parece queimar os melhança. (...) Um almirante, Denis Blair, ex-responsável no retrospectivo e prospectivo, que qual- últimos cartuchos e, se houver engenho, pelo Comando Militar do Pacífico, com- quer visão estratégica pressupõe. será Passos Coelho o senhor que se se- Anselmo Borges pletou o elenco à frente do NDI. Por isso, para reflectir sobre os desa- gue. Diário de Notícias (17/Janeiro/09) Mas mais que a questão da equipa, é fios de uma estratégia nacional, precisa- Está em marcha o projecto de substi- importante olhar o mundo que essa equipa mos também de projectar num horizonte tuição de Manuela Ferreira Leite à fren- A POLÍTICA DO MEDO vai encontrar. Que como sempre é o mes- temporal suficientemente lato - de 10 ou te do PSD. Várias personalidades de mo de ontem, mas também muito diferen- 15 anos - a ambição que se tem para topo do partido de Sá Carneiro têm-se (...) Hoje em dia, quer os magistrados te: em 2000, George W. Bush herdava a Portugal. (...) reunido com bastante frequência para do Ministério Público, quer os juízes, sen- continuidade do “momento americano”, no analisar a situação difícil em que o PSD tem receio na aplicação da prisão pre- termo da primeira década do pós-Guerra Jorge Sampaio se encontra e os efeitos negativos que ventiva. Fria; os Estados Unidos eram a potência, Diário de Notícias 15/Janeiro/09 daí resultarão caso este partido tenha nas E tudo acontece porque se trabalha a Rússia estava de rastos, a China crescia próximas eleições um resultado catastró- com meros indícios e não com prova se- mas não incomodava muito, os europeus AS “REFLEXÕES” fico. É consensual no seio do grupo que gura e porque o governo introduziu uma entretinham-se a discutir entre si projectos DE SAMPAIO se pôs em movimento, há cerca de um autêntica mudança de paradigma no qua- confederais e federais para a União. O mês, a ideia de que Manuela Ferreira dro da responsabilidade civil dos magis- Médio Oriente vivia o velho conflito israe- O documento que Jorge Sampaio fez Leite não pode nem consegue protago- trados pelas suas decisões, pretenden- lo-árabe e a África subsariana continuava publicar, anteontem, no DN, sob o título nizar uma candidatura vitoriosa. do, com esta mudança, utilizar este ins- marginalizada. (...) de “Cinco Reflexões sobre os Desafios Essa leitura negativa ganhou cores mais trumento como uma arma de controlo e de uma Estratégia Nacional”, comporta negras após a entrevista de Manuela Fer- de pressão sobre a actividade judicial. Maria José Nogueira Pinto uma forma de revolta delicada, uma crí- reira Leite a Judite de Sousa. A insegu- Sendo este o caminho, cedo chegará o Diário de Notícias 15/Janeiro/09 tica mansa, e um pouco melancólica, aos rança da líder dos social-democratas, a dia em que nos vão dizer como é que egoísmos corporativos, e o desejo de que dificuldade em dar respostas claras e con- devemos decidir. Já existia um quadro DA FALTA DE SAÚDE as fracturas sociais crescentes não atin- vincentes sobre áreas fundamentais da de responsabilidade civil, criminal e dis- jam zonas irremediáveis. O texto possui vida nacional, o pouco à-vontade eviden- ciplinar dos magistrados, semelhante ao (...) No mais, para além de cerca de a honestidade intelectual do autor e o ciado em sucessivas prestações no meio que existe noutros países europeus. Daí 600 mil doentes em listas de espera na sentido de um apelo que desemboca em televisivo, as incongruências do discurso que a mudança foi para apertar o cerco rede hospitalar – no 26º lugar numa lista largas inquietações. e o ziguezague do seu trajecto foram, em e fazer crescer o medo em detrimento de 31 países –, no sistema de cuidados Como se pode mobilizar um povo, con- síntese, as conclusões a que chegaram os da razão, que vai ficando cada vez mais de saúde, com indicadores equiparáveis vocá-lo para a causa comum, se a clas- barões desse grupo. (...) paralisada. (...) à Roménia e à Bulgária, também conti- se dirigente tem tripudiado sobre a cul- nuam os encerramentos dos SAP e a tura de relação de que se compõe a de- Emídio Rangel Rui Rangel extinção de serviços de urgência hospi- mocracia avançada? Nada nesse senti- Correio da Manhã 17/Janeiro/09 Correio da Manhã 14/Janeio/09 talar, sem alternativas assistenciais, es- do tem sido realizado, sequer tentado. O
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    21 DE JANEIRODE 2009 OPINIÃO 9 próprio Sampaio, quando Presidente, ao mam-se umas banalidades veementes e espaço à esperança de que as coisas não daico, dos neoconservadores e, como rejeitar Ferro Rodrigues, e abrir as por- passa-se adiante, quando aquilo que ele correrão pior no ano novo, não foi ex- sempre, da corrupção dos líderes políti- tas a um intermezzo cómico, participou, constrói é uma máquina do mundo. (...) cepção encontrar registada a convicção cos árabes, reféns do petróleo e da aju- activamente, no retrocesso histórico que de que a nova Administração americana da financeira norte-americana. A guerra fez aumentar a indiferença e o desen- António Lobo Antunes reconhecerá que, sem uma solução jus- do Iraque foi uma antecipação de Gaza: canto portugueses. As desproporções Visão ta do conflito Israel-Palestina, será im- a lógica é a mesma, as operações são as obscenas entre os sacrifícios impostos e O MEDO possível conseguir uma estabilidade em mesmas, a desproporção da violência é as regalias generosamente distribuídas qualquer dos países onde cresce a acti- a mesma; até as imagens são as mes- por uma casta de privilegiados não são O silogismo mais picante das últimas vidade dos movimentos islamitas. Pas- mas, sendo também de prever que o re- de molde a entusiasmar a população. O semanas é o seguinte: o PS, com os seus sados tantos anos sobre a criação do sultado seja o mesmo. E não se foi mais discurso oficial desloca—se numa falsa porta-vozes a fazerem imensas vénias Estado de Israel, os mesmos anos da longe porque Bush, entretanto, se debili- euforia e passa para a depressão mais mui atentas, veneradoras e obrigadas, Declaração Universal dos Direitos Hu- tou. Não pediram os israelitas autoriza- inquietante. Ninguém, de boa fé, acredi- mostrou-se absolutamente de acordo manos, parece difícil racionalizar as cau- ção aos EUA para bombardear as insta- ta nestes “políticos”, cuja representação com o severíssimo diagnóstico feito pelo sas que impedem a paz entre os dois lações nucleares do Irão? É hoje evidente é diariamente demolida pelas evidências Presidente da República na sua mensa- povos, sendo que as premissas necessá- que o verdadeiro objectivo de Israel, a dos factos. E Jorge Sampaio bem o sabe. gem de Ano Novo; o PR, nos pontos prin- rias estão definidas. Designadamente, solução final, é o extermínio do povo pa- As “Reflexões” não eliminam o senti- cipais da sua mensagem, reiterou posi- poucos observadores duvidam de que o lestiniano. do crucial dos problemas, mas também ções críticas que já tinham sido clara- quarteto liderado por Tony Blair, envia- Terão os israelitas a noção de que a não indicam, ou sugerem, como seria mente assumidas por Manuela Ferreira do especial ao Próximo Oriente, esteja shoah com que o seu vice-ministro da natural, o combate ideológico contra a Leite; logo, o PS está de acordo com consciente de que, sem a intervenção Defesa ameaçou os palestinianos pode- ideologia que intimida os governos e os Manuela Ferreira Leite exactamente decidida dos Estados Unidos da Améri- rá vir a vitimá-los também? Não teme- intima a praticar regras unilaterais. Há, quanto a uma série de pontos em que ca, a solução não será encontrada. (...) rão que muitos dos que defenderam a em tudo isto, uma perversão moral que tinha tentado refutá-la com as excitadas criação do Estado de Israel hoje se per- condiciona o comportamento ético. O estridências do costume... Adriano Moreira guntem se nestas condições e repito: texto de Sampaio é omisso nestes aspec- Agora que o Banco de Portugal se viu Diário de Notícias 13/Janeiro/09 nestas condições o Estado de Israel tem tos, e percorre-se em generalidades. forçado a traçar o cenário mais negro direito de existir? dos últimos anos e a falar da entrada da REQUIEM POR ISRAEL? Baptista-Bastos economia portuguesa em recessão, a Boaventura Sousa Santos Diário de Notícias 14/Janeiro/08 manobra consistiu em o primeiro-minis- (...) É PRECISO RECUAR NO TEM- Visão tro abordar esse tema de véspera, numa PO. Não ao tempo longínquo da bíblia he- EDUARDO LOURENÇO entrevista à SIC Notícias, em que aca- breia, o mais violento e sangrento livro al- A CAIXA bou por confirmar o que a oposição já guma vez escrito. Basta recuar 60 anos, à (...) Sábado jantei com Eduardo Lou- tinha dito. Tudo para que as palavras de data da criação do Estado de Israel. Nas Ao contrário do que diz o anúncio, renço. No fim disse que não queria bo- Constâncio não fossem, como afinal fo- condições em que foi criado e depois apoi- banco não é Caixa. Talvez seja o primei- leia, que o hotel era mesmo ali e vi-o atra- ram também, um desmentido terrível das ado pelo Ocidente, o Estado de Israel é o ro caso de publicidade que peca por de- vessar a rua em baixo, sozinho, um pouco afirmações que o chefe do Governo an- mais recente (certamente não o último) acto feito a gabar o seu produto. Na verdade, curvado, no seu passo miúdo e comoveu- dava por aí a fazer... colonial da Europa. De um dia para o ou- a Caixa é muito mais do que um banco – me vê-lo caminhar noite fora, de cache- Depois de umas 150 sessões de des- tro, 750 mil palestinianos foram expulsos é uma espécie de mãe de todas as insti- col ao pescoço, a ferver de vida entre os pacho com Sócrates à quinta-feira, o PR das suas terras ancestrais e condenados a tuições de crédito. Desde que a crise candeeiros. Eu passo o tempo a delirar, deve andar perfeitamente estarrecido uma ocupação sangrenta e racista para começou, a Caixa tem andado a salvar dizia ele, mas só deliro para dentro por- com o PM que nos saiu na rifa. que a Europa expiasse o crime hediondo tantos bancos que receio sinceramente que se delirar para fora internam-me. E do Holocausto contra o povo judeu. que, em breve, seja preciso salvar a Cai- fico a assistir, calado, enquanto fala. Lem- Vasco Graça Moura Uma leitura atenta dos textos dos sio- xa. Directa ou indirectamente, a Caixa bro-me que há uns anos, em Bordéus jul- Diário de Notícias 14/Janeiro/09 nis- tas fundadores do Estado de Israel contribuiu para ajudar primeiro o BPN e go eu, falámos a quatro mãos de Litera- revela tudo aquilo que o Ocidente hipocri- depois o BPP. O que, sendo preocupan- tura sem nada preparado, nada pensado, PRISÕES tamente ainda hoje finge desconhecer: a te (menos para quem tem o dinheiro no assim de improviso, nos divertimos imen- criação de Israel é um acto de ocupação e BPP), não surpreende. É certo que o BPP so e deu-me ideia que a assistência tam- (...) Nos 50 estabelecimentos prisio- como tal terá de enfrentar para sempre a é um banco que gere grandes fortunas, bém. Na altura cochichei-lhe nais portugueses (28 regionais, 17 cen- resistência dos ocupados; não haverá nun- mas a Caixa é um banco que gera gran- – Devíamos dar um curso de Teoria trais e 4 especiais) estão actualmente ca paz, qualquer apaziguamento será sem- des fortunas. Sobretudo nas contas dos da Literatura a meias cerca de 10 800 detidos, sendo cerca de pre aparente, uma armadilha a ser desar- seus administradores. A diferença é subtil e que o projecto nos fez rir: conver- 2000 preventivos e 7% mulheres. Aqui mada (daí que a seguir a cada tratado de mas significativa. sarmos sem plano, ao sabor do que nos trabalham perto de 6000 funcionários. paz se tenha de seguir um acto de violação De resto, não há dúvida, a Caixa é um vinha à cabeça. Somos tão diferentes e, Segundo a drª Clara Albino, directora- que a desminta); para consolidar a ocupa- banco tão bom que até promove altos no entanto, que maravilha de sintonia in- geral dos Serviços Prisionais, não são ção, o povo judeu tem de se afirmar como quadros de outros bancos. Ao que che- terior. Acho que é das pessoas que me- fáceis as reformas estruturais para dar um povo superior condenado a viver rode- gou a concorrência no mundo das insti- lhor compreendem o que faço e que com às prisões instrumentos de reabilitação e ado de povos racialmente inferiores, mes- tuições financeiras: o BCP convidou Ar- mais profundidade disso escreveu. organizar modos eficazes de reinserção mo que isso contradiga a evidência de que mando Vara para um cargo importante; E depois a obra dele, inclassificável, social. árabes e judeus são todos povos semitas; a Caixa, um mês e meio depois da saída única: o homem que pensa Portugal, di- A grande mudança a operar decorre com raças inferiores só é possível um re- do seu antigo administrador, promoveu- zem, o ensaísta, dizem, e para mim o de um processo interior, que o longo tem- lacionamento de tipo colonial, pelo que a o a um cargo ainda maior. A mensagem Eduardo não é nada disso, ou antes cha- po de reflexão pode permitir. A dimen- solução dos dois Estados é impensável; em é clara: sim, o BCP oferece bons em- mar-lhe isso é tão redutor. Inventou uma são espiritual é essencial para dar a vol- vez dela, a solução é a do apartheid, tanto pregos aos seus funcionários, mas a Cai- maneira de imaginar, uma meta-lingua- ta à vida, partir da verdade, assumir a na região como no interior de Israel (daí os xa oferece empregos ainda melhores a gem irrepetível que nos contém a todos, responsabilidade do mal, readquirir con- colonatos e o tratamento dos árabes israe- funcionários que já não trabalham lá. criou um universo verbal em perpétua fiança, reorganizar-se, criar autonomia e litas como cidadãos de segunda classe); a Mergulhados numa profunda crise, os expansão, um continente, antes dele, por independência, gerar esperança. (...) guerra é infinita e a solução final poderá bancos competem para aliciar os profis- achar. E, de vez em quando, disso nos implicar o extermínio de uma das partes, sionais mais qualificados. Eles sabem dá notícia nos seus livros e quem tiver Bispo D. Carlos Azevedo certamente a mais fraca. que só os melhores têm a competência ouvidos para ouvir que oiça. Sempre me Correio da Manhã 16/Janeiro/09 O QUE SE PASSOU NOS ÚLTI- necessária para mergulhar os bancos que deu ideia de existirem equívocos sobre MOS 60 anos confirma tudo isto mas vai dirigem numa profunda crise. E assim equívocos na apreciação do que faz e muito para além disto. Nas duas últimas sucessivamente. (...) O SANGUE DOS INOCENTES erros interpretativos de toda a ordem. décadas, Israel procurou, com êxito, se- Parece-me que o admiram sem o enten- questrar a política norte-americana na Ricardo Araújo Pereira No balanço do ano que findou, e que derem, cola-se-lhe uma etiqueta, afir- região, servindo-se para isso do lóbi ju- Visão os analistas desejariam elaborar dando
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    10 CRÓNICA arte em café 21 DE JANEIRO DE 2009 A OUTRA FACE DO ESPELHO Para variar, boas entradas… José Henrique Dias* jhrdias@gmail.com É tão escuro este poço! Escuro e húmido. Os amigos mandam cartões de Feliz Ano Novo. Augúrios. Talvez seja noite. Amanhã irão celebrar o nascer do dia, haverá crianças a rir a caminho da escola, as mães vão preparar as merendas e fazer recomendações, nas missas as pes- soas vão pensar que saem mais limpas porque comunga- ram, o rapaz do supermercado arrumará caixas nas prate- leiras, na rádio canções de outras paragens, nas ruas e nas lojas restos de Silent night, holy night, All is calm, all is bright.…tudo é paz, tudo é luz, sininhos e sorrisos, cho- colates e tempestades, uma rapariga dirá sim às palavras de um colega enamorado, mudam o tempo, como nos ver- bos, ele fica de olhos cor de manhãs claras e ela sorri, no hospital acaba de nascer um rapazinho a que vão chamar Gonçalo, as notas correram bem ao filho do senhor Adal- berto que sempre sonhou ver o filho advogado, quem sabe mos nós e por muito que me esforce não consigo aturar anda coitado num triste desassossego. Fiquemos preo- ministro, a mulher que passa ao volante de um utilitário este nós em que nos vamos atolando. E não parece que cupados porque morreu afogado um rouxinol no Monde- leva os olhos molhados porque o marido foi de um egoís- possa haver gente capaz para governar tal gente que diz go e o passarinho da ribeira que não seja inimigo. O Zeca mo que ela diz que não perdoa, só até mais logo quando este país como se fossem doutro e o país são eles e os e o Adriano não passam. O Goes não se ouve. É tempo chegar a casa e ele lhe disser não sabes que é tudo por filhos deles ou os primos, os companheiros de escola ou de tonis qualquer coisa, marcos isto, mónicas aquilo, con- amor, tudo vai funcionar, até a panela que ficou esquecida os vizinhos que começam a viver e transformam definiti- cursos gordos e morangos com açúcar. É tempo de dizer sobre o fogão e o arroz esturrado, porque ficaram a amar- vamente a vida em vidinha, de que falava o O’Neill, eu que os grandes escritores são insuportáveis. É tempo de se na carpete, não faz mal, querida, é um bom pretexto bem gostava de arranjar maneira de não me preocupar promover a mediocridade e de autismo governativo. para mandarmos vir uma pizza, a vizinha do sexto andar mas a verdade é que acredito que é possível mudar muita O Alfa demora menos de duas horas a chegar a Coim- parece que tem uma doença esquisita, dizem, se calhar é coisa, justiça social e ética, liberdade e participação, como bra. Estação de Coimbra B. O comboio que deu entra- sida, não têm cuidado, coitado do namorado que se calhar dizer, as pessoas sentirem-se mais felizes, não terem o ar da na linha um é o Alfa Pendular proveniente de Lis- já foi infectado, ou se calhar foi ao contrário, todos os dias, bisonho e o rosário do queixume sempre que lhes pergun- boa Santa Apolónia com destino a Braga. Só admite a todas as horas, sempre igual, uma bica bem quente faz tam como vai o negócio, vai sempre mal, nunca se ouve passageiros com bilhete válido para comboios… Rou- favor, curta, bem sabe que é sempre curta, sem açúcar, ninguém dizer vai bem, estou bem, isto está a correr bem, fenhas, as palavras perdem-se. Logo regressam. Na li- bebo sempre sem açúcar, senhor Flávio, com açúcar é o sempre o precisamos que o Governo olhe por nós, a culpa nha “númaro” cinco encontra-se uma composição com meu irmão gémeo, já viu o que aqui está no jornal?, estes foi do árbitro, quando muito também do guarda-redes, destino a Coimbra. De Coimbra para Coimbra. O vento gajos só lá estão para gamar, e a malta que se lixe, ainda coitado, paga sempre as favas, ninguém culpa o avança- cala a desgraça/ o vento nada me diz. há pouco tempo era o que era e já está rico, já leu, senhor do que falhou o penalti ou o golo à boca da baliza, foi azar, Que desolação e desconforto. Há quanto tempo as- Flávio?, andamos a trabalhar para esta malta se governar mas no guarda-redes é frango, piu, piu, dizem os comen- sim? Mas a gente o que quer é ir, estar na sala de à nossa custa, para mim votar já era. tadores que não comentam nada, falam do que estamos a espera ou caminhar na plataforma, que pena não se São oito e meia. Tenho de seguir para Coimbra. De- ver e até conseguem não ver o que estamos a ver e dizem conseguir viajar de borla, estudar de borla, ter carro de moro menos de duas horas a chegar, se tudo correr bem. outra coisa, as manifestações enchem avenidas da gran- borla, tudo pela Nação, nada contra a Nação, outra Estou cansado. Não só destas conversas. Não é que elas deza de tecer insultos e abrir brechas para os meninos vez, em tom menor, quem o alheio veste na praça o não tenham importância. Reflectem, obviamente, não digo serem insolentes, tomates e ovos e guinchos e cadeados despe, mas isso era dantes. o estado do país mas as características do que somos. nas portas e pistolas de plástico e telemóveis que filmam, Quem o alheio despe que bem se veste. Figurinos e Confesso que não tenho muita consideração pelo que so- quem semeia ventos colhe tempestades, brincadeiras de figurões. Montras e montes e vales e azevedos exportam- mos. Não gosto. Tenho mesmo vergonha. Dizem-me com mau gosto, dizem, irresponsáveis que irresponsabilizam, se e importam-se, para que se veja, um que seja, para que azedume que sou elitista, mas qual é o problema? Não é senhoras professoras de repente na ribalta sabe-se lá por- se saiba, parar a raiva, afinal a justiça funciona, os reitores verdade que as pessoas estão ao mesmo tempo bem com quê, a protestarem em conflito com a Língua Portuguesa, não servem para gerir as universidades, é preciso gesto- tudo ou mal com tudo? Paspalham diante das televisões a sindicalistas sem espaço a quererem sobreviver, engas- res, como se viu nos bancos, os gestores é que sabem, um ver umas senhoras apresentadoras que guincham, salti- gados com dois raciocínios seguidos, diria o Joaquim Na- ou dois, para exemplo, vão dentro pela imprudência de tam, insuflam rugas, injectam silicone, publicam livros ile- morado, um dia destes vem aí uma coisa mais ou menos roubarem ricos, se roubassem pobres não passava nada, gíveis que as pessoas compram, pessoas que não sabem dos subúrbios de Paris ou das ruas gregas e depois onde de fora outros com direito a excelência e conselhos de porque é que votam mas votam, só às vezes, naquele par- está a autoridade, perguntam, a polícia que lhes carregue, administração. É bom ter espaço para dar conselhos. E tido, sempre no mesmo, como se paixão ou talvez mais dizem, mas então o que queremos mesmo é a polícia que quem seja capaz de os ouvir. Os conselhos valem mais do agência de futuro, futebol, futebol, futebol, o futebol pre- carregue? Para o diabo que os carregue. Estão sempre que os exemplos. Embalados. Como serenatas. enche a vida dos homens e de algumas mulheres que pre- de consciência tranquila. Fazem tudo de consciência tran- Estas guitarras, senhoras e senhores, vêm falar-vos enchem por sua vez o futebol para uns senhores pouco quila. Adiam julgamentos com advogados caros. Todos de amor e de saudade, dum luar que deixa sombras so- recomendáveis terem protagonismo e serem ouvidos nas de consciência tranquila. Não há patife bem falante que bre coisas impossíveis. Toda a Coimbra da lenda, de co- televisões e nas primeiras páginas dos jornais desportivos não tenha a consciência tranquila. Não há pedófilo que ração e de feitiço, Coimbra antiga e íntima, feita de fili- com fotografia a duas colunas, a minha política é o traba- não tenha a consciência tranquila. Todos inocentes. As granas e de poentes, pedaço romântico a recordar boé- lho, ficou do outro tempo, um milhão de analfabetos não criancinhas é que são perversas. Transitam em julgado. mios e poetas. falando dos milhões dos funcionais, aos domingos e feria- Ainda hão-de pedir indemnizações aos nossos impostos. Era mais ou menos assim que eu apresentava as sere- dos passeios nos centros comerciais a dizerem vamos ao Por causa da consciência tranquila. natas. Palavras minhas e de outros. Há quanto tempo foi? shopping, ver montras e marcar viagens a prestações para Farrapos de conversas a caminho da estação em trans- Se calhar foi ontem, à chegada do Alfa Pendular. todas as puntascanas que lhes impingem, esta é a ditosa portes públicos. Eu aqui de pé, todo o dia a trabalhar, diz Ou quando acordei estremunhado. No fundo do poço. pátria minha amada, como repetiam com salazares na uma mulher, para estes velhos andarem sem fazer nada a Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que ponta da língua, empresários vão à falência com ferraris à passear de autocarro e ocuparem os lugares de quem está diz não. Valham-nos os poetas. Que venham os poetas. porta da vivenda com santinhos de azulejo na fachada, cansado de trabalhar. Mau sinal. Os velhos para o ve- Um poeta em quem possamos depositar a força de lutar. gritam no fórum da TSF o que é preciso é que venham lhão, já! Lembram-se como fizeram os Gato Fedorento? Que promova a Esperança. dois ou três salazares depressa, endireitar isto, estes so- O Alfa Pendular está a passar na ponte. O Choupal * Professor universitário
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    21 DE JANEIRODE 2009 COIMBRA 11 PRÉMIO UNIVERSIDADE DE COIMBRA 2009 Nome do vencedor será divulgado amanhã O nome do vencedor da edição deste 2005, o Prémio foi atribuído, ex-aequo, sinalando assim os 100 anos do Mani- ministra da Cultura), João Pinharanda ano do Prémio Universidade de Coim- ao historiador António M. Hespanha e festo Futurista, os 200 anos do nascimen- (historiador de arte, crítico de arte e cu- bra vai ser anunciado amanhã (quinta- ao actor e encenador Luís Miguel Cin- to de Charles Darwin e os 40 anos do rador), José Andrade Campos (docente feira), em conferência de imprensa, pelo tra. A reconhecida classicista Maria movimento estudantil de 1969. da Universidade de Coimbra), José de Reitor Fernando Seabra Santos. Helena da Rocha Pereira foi premiada O júri da edição deste ano do Prémio Miranda (ensaísta e docente da Univer- O Prémio Universidade de Coimbra, em 2006 e o matemático luso-brasileiro Universidade de Coimbra integra, como sidade Nova de Lisboa), Maria de Fáti- que vai na sua sexta edição, é um dos Marcelo Viana em 2007. No ano passa- tem vindo a ser hábito, 10 nomes de re- ma Sousa e Silva (docente da Universi- mais valiosos galardões nacionais nos do, foi distinguido o investigador e em- conhecido mérito da cultura e da ciência dade de Coimbra) e Maria Filomena campos da cultura e da ciência, tendo já preendedor José Epifânio da Franca. portuguesas: Alexandre Alves da Costa Molder (filósofa e docente da Universi- distinguido áreas tão distintas como as O Prémio Universidade de Coimbra (arquitecto e docente da Universidade de dade Nova de Lisboa). É presidido pelo neurociências, a história das instituições, 2009, no valor de 25 000 Euros, será en- Coimbra), Ana Tostões (arquitecta e do- Reitor Fernando Seabra Santos e tem as artes do palco, os estudos clássicos, a tregue a 1 de Março, durante a Sessão cente do Instituto Superior Técnico), como vice-presidentes António V. Mon- matemática e a engenharia de sistemas. Solene comemorativa do 719.º aniversá- Carlos Robalo Cordeiro (docente da teiro, administrador do Banco Santander- Na primeira edição, relativa a 2004, rio da Universidade de Coimbra. Este Universidade de Coimbra), Guilherme de Totta, e José Leite Pereira, director do foi premiado o neurocientista Fernando evento integra-se na XI Semana Cultu- Oliveira (docente da Universidade de Jornal de Notícias. Lopes da Silva, considerado um dos 100 ral da Universidade, que será dedicada Coimbra), Isabel Pires de Lima (docen- cientistas mais influentes do mundo. Em ao tema “Velocidade e Movimento”, as- te da Universidade do Porto e antiga Reitor debate Universidade e Cidade A relação entre a Universidade e a ci- da mudança permanente”. ble e no Institut National Polytechnique dade de Coimbra será o tema da próxima de Grenoble, onde defendeu a sua dis- sessão do ciclo “Quintas na Quinta”, orga- SÍNTESE BIOGRÁFICA sertação de Doutoramento em Enge- nizado pela Fundação Inês de Castro. O nharia Hidráulica. reitor da Universidade de Coimbra (UC), Fernando Seabra Santos nasceu em Foi vice-reitor da UC entre 1998 e Fernando Seabra Santos, é o convidado do Coimbra em 1955. Licenciado em En- 2003, ano em que foi eleito reitor da mes- jantar-conferência, que terá lugar excep- genharia Civil pela Universidade de Co- ma universidade. Em 2007, voltou a ser cionalmente a uma sexta-feira, dia 30 de imbra (UC), desde logo assumiu fun- reconduzido no cargo, que desempenha Janeiro, às 20h, na Quinta das Lágrimas. ções de docência. Leccionou nas Fa- a par da presidência do Conselho de Fernando Seabra Santos, que é o ac- culdades de Ciências e Tecnologia da Reitores das Universidades Portuguesas tual Presidente do Conselho de Reitores Universidade de Coimbra (FCTUC) e (desde Fevereiro de 2007). É ainda pro- das Universidades Portuguesas (CRUP), da Universidade de Lisboa, na Univer- fessor catedrático no Departamento de fará uma intervenção subordinada ao sité Scientifique et Médicale de Greno- Engenharia Civil da FCTUC. tema “UNIVER(SC)IDADE: o sentido Fernando Seabra Santos A morte de Robert Étienne Faleceu em Bordéus, no passado dia urbano” dessa sua pesquisa sobre a His- em que se incluem, entre outros, o volu- 4 de Janeiro, o Prof. Robert Étienne, que, tória Antiga peninsular, veio o itinerá- me sobre as inscrições de Lugo (Paris, a 18, completaria 88 anos de idade. rio rural, com as campanhas na villa 1979) e a colecção Inscriptions Roma- Para a maior parte dos nossos leitores, romana de São Cucufate (Vidigueira), ines de Catalogne (I – 1984, V – 2002), o nome do Prof. Robert Étienne pouco de que R. Étienne nos legou, com J. a que lançaram ombros G. Fabre, Marc significará. Catedrático de História Anti- Alarcão e F. Mayet, dois volumes so- Mayer e I. Rodà. ga e de Arqueologia da Universidade de bre os trabalhos aí realizados: Les Vi- Conimbriga esteve sempre, porém, Bordéus III, foi doutorado honoris cau- llae Romaines de São Cucufate (Por- no centro das suas atenções e no livro sa pela Faculdade de Letras de Coimbra, tugal), Paris, 1990. E podemos dizer que Histoire et Archéologie de la Pénin- a 17 de Abril de 1983, tendo sido seu ‘pa- também essa pesquisa sistemática de sule Ibérique (Vingt ans de recherches drinho’ o Prof. Jorge de Alarcão. uma villa romana, que pela primeira vez 1968-1987) [Paris, 1993] são muitos os Na verdade, estavam estreitamente se levava a efeito entre nós, constituiu textos referentes a esta cidade. ligados na sua pesquisa estes dois do- um marco decisivo na investigação da Entre as inúmeras condecorações re- centes, pois foi com ambos que, depois ocupação do solo em tempo de Roma- cebidas, conta-se a de Comendador da da actividade aí desenvolvida por João nos na Lusitânia. Ordem do Infante D. Henrique o Nave- Manuel Bairrão Oleiro, Conimbriga ga- Se um traço primordial podemos rele- gador. Ao Instituto de Arqueologia da nhou jus a um lugar de relevo no panora- var na personalidade de R. Étienne é a Faculdade de Letras legara já parte sig- ma arqueológico internacional, mormen- sua disponibilidade para ensinar e formar nificativa das obras da sua biblioteca re- te após a publicação – e foi essa uma equipa. O Centre Pierre Paris, que criou, Robert Étienne lativas à Península Ibérica. das primeiras publicações do género no foi, sem dúvida, uma das primeiras uni- Na memória de quantos com ele pri- mundo da investigação arqueológica – dades de investigação a dedicar a sua mais de uma dezena de artigos sobre a varam fica a figura do trabalhador incan- dos 7 volumes das Fouilles de Conim- atenção especificamente à Hispânia ro- Península Ibérica com os seus parceiros sável, do investigador sagaz, do dirigen- briga (1974-1979), em que se deu con- mana e, com a sua rica biblioteca, aco- de investigação (e, geralmente, orientan- te que era capaz de mover montanhas ta dos relevantes aspectos dessa cidade lheu inúmeros estagiários idos dos mais dos de doutoramento). para levar a água ao seu moinho, mas romana, postos a descobertos no decor- diversos países, designadamente de Co- De realçar, ainda, o seu papel deter- também do alegre companheiro das ho- rer das campanhas luso-francesas, que imbra, muito antes de se ter pensado se- minante no desenvolvimento dos estudos ras de convívio. ambos dirigiram nas décadas de 60 e 70. quer em programas ERASMUS ou equi- epigráficos peninsulares, de que conce- Depois de Conimbriga, o “itinerário valentes!... E o Prof. Étienne assinou beu um plano sistemático de publicações José d’Encarnação
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    21 DE JANEIRODE 2009 ENTREVISTA 13 MARIA PILAR DEL HIERRO AUTORA DE TRILOGIA SOBRE RAINHAS PORTUGUESAS Escritora espanhola com nova interpretação do “Milagre das Rosas” da Rainha Santa Inês, Leonor, Isabel. Três mulheres que em Espanha nasceram e em Portugal se fizeram rainhas. Maria Pilar del Hierro, escritora, fala-nos do que tiveram em comum estas personagens históricas, as quais lhe inspiraram três obras. A mais recente, “Memórias da Rainha Santa”, vai ser lançada em Lisboa no início de Fevereiro. Mas foi na Quinta das Lágrimas, em Coimbra (cidade pela qual a escritora confessa ter-se enamorado, e de que a Rainha Santa é Padroeira), que o “Centro” a entrevistou, para que falasse da sua obra Texto de Filipa Carmo de Castro, um mito que é tanto espa- Fotos de Gonçalo Ermida nhol como português… é um mito uni- versal. Com ela descobri Coimbra, que Onde busca inspiração para as me levou a descobrir a Rainha Santa. suas obras? Acima de tudo quis fazer uma trilogia Fundamentalmente, no meu amor daquelas que me pareciam ser as três pela História. Sou historiadora, é a mi- mulheres-chave da Idade Média Portu- nha área de formação… apenas come- guesa. Inês de Castro, o mito românti- cei a escrever romances no momento co; Leonor Teles, a mulher poderosa; em que percebi que era uma excelente Rainha Santa, o misticismo e a genero- forma de ensinar a História aos demais. sidade. É uma área do conhecimento que se pode tornar pesada e dura; assim, o ro- RAINHA SANTA SOFREU mance vai-se entranhando pouco a pou- POR NÃO SER AMADA co e acaba por agradar muito mais. PELO REI Quanto a este meu universo feminino Três mulheres diferentes mas que histórico e literário, teve origem no meu apresentam alguns traços co- Maria Pilar del Hierro na Quinta das Lágrimas, quando falava desejo de contar a História do ponto de para o “Centro” sobra a sua obra literária muns… vista das mulheres, pois creio que são Sim… além da época, a audácia, a grandes desconhecidas e é necessário determinação em fazerem o que acham do da Política, coisa que muitas não ar- aí andam)… Pessoalmente, parece-me tirá-las das sombras. ser seu dever, sacrificando, muitas ve- riscam fazer actualmente. A Rainha um elemento pedagógico idóneo para Porquê escrever sobre mulheres zes, a sua popularidade e a aprovação Santa Isabel é um exemplo de genero- que cada um possa conhecer o seu pas- que nascem em Espanha e se nota- dos outros. Leonor Teles e a Rainha sidade para com os outros; no mundo sado. Não temos por que deixar a His- bilizam em Portugal? Santa partilham, ainda, o facto de te- materialista e hedonista em que vive- tória circunscrita ao meio académico. Pela proximidade, interessam-me to- rem sido grandes figuras maternas, de mos fazem falta mulheres como ela. Temos que explicar às pessoas de onde dos os temas relacionados com Espa- terem dado extrema importância à re- Isabel de Aragão, quando fundou o Con- vimos, para que percebam para onde va- lação com os seus filhos. Para a Rai- vento de Santa Clara, fê-lo para que as mos. nha Santa, Afonso IV, seu filho, foi a jovens mulheres pobres pudessem Como sabe, a Rainha Santa é a sua vida e obra. Foram três mulheres aprender um ofício. Para mim a lição padroeira da cidade de Coimbra. muito coerentes e firmes. está clara… uma mulher tem que ser Porquê a escolha desta personagem E o amor, acabou por ser o desti- auto-suficiente. para o seu mais recente livro? no de todas? Em primeiro lugar, porque se enqua- Sim, claro. Sabemos que a Inês de REALIDADE E FICÇÃO dra bem na minha Trilogia Portuguesa Castro, o amor levou-a à morte… Tam- Dada a sua formação em História, enquanto mulher mística. Depois, ape- bém a Leonor Teles, o amor pelo ho- é difícil escrever criativamente, li- sar de já ter ouvido falar da Rainha San- mem errado, foi a sua tradégia. A Rai- bertar-se do rigor dos factos? ta e ter visto um filme dos anos 40 so- nha Santa, sofreu por não ser amada e Eu escrevo em três géneros; a fic- bre ela, foi aqui em Coimbra que co- respeitada pelo marido… É certo que ção pura e dura, o romance histórico e nheci melhor a sua vida. Quando fui con- os casamentos eram estratégicos e ser- o ensaio histórico. É verdade que quan- vidada a fazer parte da Fundação Inês viam o propósito de firmar alianças, ra- do escrevo o romance histórico, sobre- de Castro, sediada na Quinta das Lá- ramente aconteciam por amor. Contu- tudo quando há pouca documentação, grimas, descobri a Rainha Santa. Por do, D. Dinis, tendo sido um poeta mag- aproveito para dar asas à criatividade. isso o livro é também dedicado à cida- nífico, não terá sido tão bom esposo… Contudo, quando se trata de um tema de de Coimbra. Contaram-me que a Isa- A rainha acabou por criar os filhos bas- bem documentado, por exemplo perso- bel de Aragão, com vista ao abasteci- tardos do rei, uma situação bastante nagens históricas do séc. XIX em Es- mento de água so Convento de Santa A capa da mais recente obra dura. panha, a minha especialidade, sinto-me Clara, comprou aqueles terrenos para da escritora espanhola A vida destas mulheres faz sentido atada, não me atrevo a fantasiar. Por “ir, vir e estar”… Pareceu-me, logo aí, editada pela “Esfera dos Livros” isso escrevo na primeira pessoa, penso para as de hoje, salvaguardadas as dis- uma mulher muito interessante. Por ou- tâncias e o contexto histórico? que me garante uma narração mais sub- tro lado, estou muito ligada a Saragoça, nha e Portugal, além de que sempre me Sem dúvida. Inês de Castro desafiou jectiva, menos constrangido pela factu- cidade de origem da Rainha Santa, onde atraiu e agradou o vosso país. Penso que as normas estabelecidas, tendo casado alidade. É verdade que muitos acadé- já me haviam falado um pouco da sua acabamos por viver de costas voltados, em segredo. Enfrentou o mundo, algo micos e historiadores não vêem com vida e de como foi uma mulher culta e quando deveríamos olhar mais uns para que muitas mulheres deveriam fazer bons olhos o romance histórico (aquele preparada. os outros; se não somos irmãos, no mí- hoje, de forma a melhorar a sua situa- que é escrito com uma boa base histó- nimo somos primos. Comecei com Inês ção. Leonor Teles imiscuiu-se no mun- rica e não os “Códigos daVinci” que por (continua na página seguinte)
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    14 CULTURA 21 DE JANEIRO DE 2009 Espanhola escreve livro sobre a Rainha Santa Isabel (continuação da página anterior) dável… Só por isso já mereceria ser San- NOVA INTERPRETAÇÃO ta. Por outro lado, o mito faz parte da natureza humana e é transversal à His- PARA O “MILAGRE tória da Humanidade; é provável que al- DAS ROSAS” guns milagres sejam fruto da sugestão A Rainha Santa foi uma personagem e outros mitificação de actos que, por si que ficou nos anais da História pela sua só, já teriam alguma transcendêcnia e compaixão e devoção a causas nobres. importância suficiente para que a Rai- E os milagres, produziu-os? nha Santa chegasse aos nossos dias com Direi o mesmo que digo no livro… este apelativo. Há muitos segredos na vida de uma mulher. Quanto a milagres, a Igreja é COIMBRA E O SONHO que está habilitada a decidir se existem Que explicação encontra para que ou não. Eu acredito que possam acon- as vidas de reis e rainhas nos atrai- tecer milagres porque a mente é muito am, tendo em conta que os dados poderosa… Claro que converter pães históricos atestam que foi um perí- em rosas, enfim… mas é uma lenda tão odo de fraca qualidade de vida? bonita, deixemo-la assim. As pessoas gostam de sonhar… No Muitos historiadores atribuem entanto é verdade que as rainhas não este milagre não à Rainha Santa, tinham uma vida tão privilegiada quan- mas à sua tia, Santa Isabel… to poderíamos pensar, a vida era muito O tema dos milagres está muito liga- dura para todos. As mulheres morriam do à fé dos que querem acreditar ne- frequentemente de parto e sabemos que les… Não deixa de ser demasiada co- o papel das rainhas era gerar descen- incidência darem o nome de Isabel à Ra- Maria Pilar Queralt del Hierro é uma escritora espanhola dentes para o rei. A vida não era, de inha Santa, precisamente o nome da sua licenciada em História Moderna e Contemporânea. todo, maravilhosa… tia, Santa Isabel de Hungria. Há alguns Na sua obra conta com vários títulos, incluindo a sua trilogia portuguesa Para além de Inês de Castro e da paralelismos na vida destas mulheres, na área do romance histórico, dedicada a rainhas coroadas no nosso país. Rainha Santa, que mais a liga à ci- nomeadamente as infidelidades dos ma- Inês de Castro (2003), Eu, Leonor Teles (2006) dade de Coimbra? ridos e o pretenso milagre de transfor- e o mais recente, Memórias da Rainha Santa (2009, que vai ser lançado Para mim é um local muito intimista… no início de Fevreiro pela editora “Esfera dos Livros”) mar pão ou moedas de ouro em rosas. vim à Quinta das Lágrimas e encontrei No livro, dou um sentido diferente ao amizade, reconhecimento e fontes de ins- milagre; a rosa que a Rainha Santa ti- cidade. é que foi uma mulher de uma generosi- piração. Acredito que são três coisas que nha no regaço era a sua filha, Constan- Terá sido o milagre uma mitifi- dade extrema, de inteligência conside- um escritor não pode ignorar. ça… E o título do livro em Espanha é cação de uma mulher, a Rainha San- rável e bondosa como poucas. Está com- E no futuro? “A Rosa de Coimbra”, porque me pa- ta, pela sua bondade? provado que ela própria limpava doen- Tentarei manter-me com as mulhe- receu uma homenagem bonita a esta Creio que sim. O que é indiscutível tes, leprosos, o que não seria nada agra- res e com Portugal. como escritor), pois consegue tomar to- um filme recomendável, com um cinema dos os variados elementos (sejam estes personagens, cenários e eventos impro- argumento bastante engraçado e um bom elenco de actores a consoli- váveis e por vezes comédicos, músicas dá-lo. ou locais), baralhá-los e voltar a dar as Igualmente recomendo um dos cartas, deixando sempre um ou dois trun- melhores dramas periódicos dos fos surpresa para o final. Apesar de não últimos anos: “A Troca”. O filme ter muitos dos actores tradicionais de Ri- retrata a história de Christine Co- tchie, o filme conta com várias interpre- llins, que, após o seu filho ter sido tações de peso, das quais destaco Idris raptado e supostamente resgatado Pedro Nora Elba, Toby Kebbell, Jeremy Piven e Mark pela polícia, reagiu contra tal farsa, Strong (que volta a provar que está em afirmando que a criança que lhe foi Guy Ritchie, apesar de recentemente grande forma ultimamente). dada não era o seu filho. Clint Eas- se ter separado da cantora Madonna, Num registo diferente, recomendo o twood volta a triunfar como reali- mostra estar em grande forma cinema- filme “Como Perder Amigos e Alienar zador, retratando fielmente a Amé- tográfica no seu novo filme, intitulado Outros”, uma comédia divertida que, rica dos finais da década de 1920, altura Button”, o último trabalho de David Fin- “RockNRolla – A Quadrilha”. De facto, apesar de começar como uma sátira do em que decorre a trama do filme. Tam- cher. O filme é uma adaptação de um o filme não desilude aos fãs dos primei- jornalismo do “Jet-Set”, para o final aca- bém é de se prezar o trabalho de Ange- conto de F. Scott Fitzgerald (com o ar- ros filmes de Ritchie (“Snatch – Porcos ba por se virar um pouco para o campo lina Jolie no papel principal, juntando-se gumento a cargo de Eric Roth, conheci- e Diamantes” e “Um Mal Nunca Vem da comédia romântica. Apesar disso, é este filme a um curriculum já prestigiado do pelo seu trabalho em Forrest Gump) Só”), na medida em que não tenta ser com filmes como “Vida Inter- que retrata a vida de um homem que mais do que é: um filme sobre crime e as rompida” e “Um Coração Po- nasce com um corpo de 80 anos e, à pessoas que o cometem. Passado em deroso”. Porém, o ponto do medida que o tempo vai avançando, vai Londres, o filme aborda um negócio que filme que merece maior des- rejuvenescendo. Fincher continua a es- se desenrola entre um dos maiores cri- taque é o argumento, da au- pantar os espectadores com mais uma minosos da cidade e a máfia russa. Por toria de J. Michael Stra- grande obra, em que se destaca não só a sua vez, uma pequena quadrilha, numa czynski, que conseguiu pegar realização, mas também o protagonismo jogada que pensavam dar lucro fácil, numa história verídica e trans- de Brad Pitt (que, depois de “Seven” e acaba por se envolver neste negócio... pô-la para o ecrã com grande “Clube de Combate”, volta a colaborar Assim como em “Snatch”, Ritchie pro- impacto, sem recorrer a dra- com Fincher) e, sobretudo, de Cate Blan- va aqui que, assim como Tarantino, em matismos exagerados. chett. Um filme altamente recomendá- termos narrativos é um excelente joga- Também já estreou “O vel, que abre da melhor maneira a corri- dor de cartas (ele é tanto argumentista A Troca Estranho Caso de Benjamin da aos prémios de filme do ano.
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    21 DE JANEIRODE 2009 EDUCAÇÃO/ENSINO 15 Alliance Française de Coimbra com oferta de cursos diversos Decorreu ontem (terça-feira), na francofonos – como referiu o Direc- sede da Alliance Française de Coim- tor da Alliance Française de Coimbra, bra, a assinatura de um protocolo de Paul Zimerlin, acrescentando: colaboração entre a Associação de “É de saleintar que, Estudantes da Faculdade de Econo- embora´existindo há vários anos cur- mia “JEE FEUC” e a referida Allian- sos de Francês ministrados pela Alli- ce Française. ance Française na FEUC, na verten- O Protocolo fomenta uma colabo- te das Relações Internacionais (exis- ração na divulgação das actividades tindo até um curso franco-português, da cada entidade, no campo cultural com o Instituto Superior de Ciencias ou da formação, e oferece aos mem- Políticas de Bordéus), esta é a primei- bros da “JEE FEUC” uma oportuni- ra vez que a Alliance Française pro- dade muito interessante, a preços porciona um curso direccionado aos muito especiais, de ingressarem numa estudantes de Economia”. turma direccionada para o Francês da Registe-se que a Alliance Françai- Economia, Gestão e Administração de se de Coimbra (há 60 anos a desen- Empresas. volver uma notável actividade nesta O percurso pedagógico será nego- cidade), para além dos cursos gerais, ciado com os próprios formandos, le- que habilitam com diplomas reconhe- vando em conta as suas específicas cidos pelo Governo francês, tem ain- Paul Zimmerlin, Director necessidades linguísticas. da Alliance Française de Coimbra da uma vasta oferta de outros cursos, Outro ponto importante do Proto- direccionados para necessidades es- colo é o de proporcionar a passagem francês, indispensáveis hoje em dia pecíficas dos interessados e com pre- de certificações oficiais do Governo para estudos superiores em países ços acessíveis. Faremos um ponto final. las, leccionar, erigindo como actividade no- aos professores é sentido de humor para bre o exercício de cargos administrativos, perceber que apontar uma pistola a um Isabel Dias * e resumindo a sete anos os percursos pro- professor é uma brincadeira de mau gos- fissionais; dois mil e oito, o ano que saiu to, sim, senhora ministra e seus acólitos, Há anos que são uma espécie de re- caro a todos os docentes, os que subiram hoje sei que quando um aluno me apontar dacção da guidinha, apenas pontuados por e os que desceram, porque tão gratuita e uma arma, devo perguntar-lhe se pode- vírgulas, nos quais não se consegue res- ridícula foi a promoção, como o foi a des- mos também jogar ao berlinde, jogo que pirar e os acontecimentos se sucedem sem promoção, e porque todos foram eleitos aprecio sobremaneira; hoje, todos nos ponto final, sem nunca se chegar; e assim como dois gumes da mesma faca – a que sentimos mais tranquilos e se amanhã, em foi dois mil e oito, uma travessia do deser- cortou na despesa, cega aos custos que vez de nos oferecerem flores, nos aponta- to para a quase totalidade dos professo- isso acarretará no futuro, se a desmotiva- rem uma pistola, vamos todos brincar; se res, um ano civil que cruzou dois suplici- ção falar mais alto do que o brio profissi- for mesmo a sério, não resistimos, entre- antes anos lectivos, memoráveis pela iné- onal que vai prevalecendo; dois mil e oito gamos o Magalhães, que não vale a pena dita incomunicação com a senhora minis- foi o ano em que a senhora ministra co- perder a vida por ele, nem que seja a brin- tra da educação, pelo absurdo desregra- meçou a entalar entre a espada e a pare- car, e em última análise, consola-nos a ideia mento das horas e da tipologia do serviço de a casta que criou, sem direito a objec- de que a senhora ministra da educação docente, por violações sucessivas da pró- ção de consciência, porque os titulares da achou muito tocante aquela criancinha que pria legislação, pelo anátema público que senhora ministra não devem dar provas lhe dizia que depois de receber o fantásti- se tentou adensar, em determinados dis- de consciência, mas de absoluta obediên- co computador estava ansiosamente a con- cursos oficiais, ressuscitando ódios primá- cia, cega, surda, muda, acéfala; os titula- tar os anos para se poder filiar no ps, con- rios que muito lembram estratégias mile- res e os professores da senhora ministra sola-nos que, finalmente, algo toque a se- nares de dividir para reinar; este foi o ano só devem existir para cumprir aquilo que nhora ministra e que a mesma consiga des- da invenção, não do amor, mas de grelhas antes de ser já era, i.e., um modelo de pertar tais vocações, pois todos fomos avaliativas insofríveis; o ano do sacrifício avaliação que sempre foi inegociável, de- aprendendo, ao longo dos anos, que não é dos titulares, essa casta de eleitos que tanto pois de um estatuto que foi inegociado, fácil tocar a senhora ministra; contudo, o jeito deu à economia, não por ganharem ambos a transformarem-se em leis, con- que a tocará mesmo a sério, mas assim a mais, mas porque simbolizaram o empo- tra tudo e contra todos, numa política de bater bem fundo, será encontrar a crianci- brecimento de todos os outros, e que se quero, posso e mando; dois mil e oito foi nha impoluta, a única suficientemente in- viram promovidos a professores especi- o ano das reformas, não da educação, mas génua para dizer quando eu for grande alíssimos, a motores do absurdo, a únicos dos professores, porque só não vai quem quero ser professor; no dia em que a se- capazes de fazer hoje o que todos faziam não pode, tamanha é a indignidade em que nhora ministra a encontrar, vai às lágrimas, ontem, numa ilusão própria de ópera bufa, a senhora ministra da educação colocou não de comoção, mas de raiva, por ainda não porque se tivesse provado que uns os professores quando os tratou como se não ter conseguido acabar completamen- eram menos habilitados, menos capazes, fossem a galinha dos ovos de ouro, sem te com a raça dos professores; felizmente, mais incompetentes, mas porque se inven- perceber que nem os ovos eram de ouro, os anos, tal como os textos e os ministros, tou o incrível concurso que descredibili- nem era conveniente matar a galinha; este acabam sempre por ter um ponto final. zou essa coisa tão irrisória que é dar au- foi o ano que nos ensinou que o que falta * Professora e dirigente do SPRC
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    16 SAÚDE 21 DE JANEIRO DE 2009 15.º ANIVERSÁRIO DA ASSOCIAÇÃO “SAÚDE EM PORTUGUÊS” Lançamento de livro de Eduardo Castela a anteceder “Jantar Solidário” – PROGRAMA INCLUI EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E MÚSICA A Associação “Saúde em Português”, MacGuls (no mesmo edifício do Hotel Ave- com sede em Coimbra, promove amanhã nida) que reunirá algumas das muitas pes- (quinta-feira, dia 22) uma série de iniciati- soas que têm oferecido o seu tempo livre vas para encerramento das Comemorações com todo o empenho e dedicação às cau- do seu 15º Aniversário. sas desta organização. Seguir-se-á momento Segundo os responsáveis desta meritória de animação ‘Música, Tradição e Soli- Associação, “15 anos depois Saúde em Por- dariedade’, pela Secção de Fado da Asso- tuguês continua... porque, infelizmente, ain- ciação Académica de Coimbra, e um Lei- da há demasiadas crianças, mulheres e ho- lão Solidário. mens que precisam de tudo o que possa- Ao final da noite, pelas 22.30h, será atri- mos fazer para tornar as suas vidas mais buído Tributo de Mérito a cinco persona- dignas, com direito a todos os direitos há lidades médicas e na área da saúde. A justi- muito consagrados como tal, indispensáveis ficar esta distinção dizem os responsáveis à dignidade humana”. da Saúde em Português”: O programa de amanhã inclui, pelas “Consideramos de extrema importância 18h30, o lançamento do livro “Coisas que o reconhecimento do mérito destas perso- não se esquecem...”, da autoria de Eduar- nalidades, no âmbito das acções desta do Castela, médico e amigo da Associação. ONGD, nomeadamente na defesa e divul- O lançamento decorre na sala de conferên- gação da Associação Saúde em Português, cias da Casa Municipal de Cultura de Eduardo Castela na promoção, divulgação e intervenção na Coimbra. De registar que os lucros da venda área dos cuidados de saúde primários, na do livro reverterão para o projecto de Tele- co Eduardo Castela é pioneiro na utilização nida, será inaugurada exposição de foto- cooperação, ajuda humanitária e solidarie- medicina que ligará o Hospital Pediátrico de da telemedicina, a ele se devendo a concre- grafia comemorativa dos 15 anos de exis- dade, na Comunidade de Países de Língua Coimbra ao Hospital Dr. Baptista de Sousa, tização de projectos muito meritórios nesta tência da “Saúde em Português”. Portuguesa e outros e na formação e inves- em Cabo Verde. área). Pelas 20h00h realizar-se-á Jantar So- tigação no âmbito das acções da Saúde em (Recorde-se que o cardiologista pediátri- Pelas 19h45, no Átrio do Hotel Ave- lidário, no Restaurante Indopaquistanês Português”. Delegados de alimentos, de vinhos de chás, de sapatos.... Massano bém corriam riscos de virem a sofrer medicinais também não irão no mesmo Cardoso doenças cardiovasculares. Passado uns sentido, ensinando, esclarecendo ou mo- anos nova descida, desta feita para os tivando os médicos a aconselhar a água A medicalização da sociedade é uma 220 mg%. Argumento? O mesmo que já X ou Y com ou sem aditivos. Mas, já realidade altamente preocupante que descrevi para a primeira redução. Com agora, também não é de excluir a hipó- poderá acabar, mais tarde ou mais cedo, o tempo concluiu-se que deveria baixar- tese de aparecerem delegados de infor- por rotular cada um de nós como doente se ainda mais, desta feita para os 200 mação vinícola para “ensinar, esclarecer ou portador de uma ou mais anomalias. mg%. Razão? A já citada. Em seguida ou motivar” os médicos quanto às virtu- Logo, teremos que nos “submeter”, como propuseram os 190 mg%, sempre com o des de um vinho de determinada colhei- quem diz, em muitos casos, à “ditadura” mesmo argumento científico que é in- ta, porque está cientificamente compro- das terapêuticas e das medidas preven- questionavelmente correcto. Há de fac- vado ter efeitos protectores cardiovas- tivas. Há quem ganhe com isto? Ai não to um risco acrescido. Pode não ser culares de forma muito superior a qual- que não há! E o negócio é mesmo de muito por aí além, mas existe e não é quer rival! Claro que as cervejeiras não muitos e muitos milhões! difícil de provar. Tudo leva a pensar que deixariam de treinar pessoal com o mes- De tempos a tempos reduz-se o limiar qualquer dia baixem para os 175 ou 170 mo objectivo, o mesmo acontecendo com de anormalidade de alguns parâmetros, mg% invocando sempre os mesmos ar- os industriais dos tomates, dos lacticíni- porque se concluiu (cientificamente) que gumentos. O que é certo é que cada vez os, dos alhos e até das cebolas! desta maneira seria possível prevenir com que baixam o limiar de “anormalidade” Assim, um dia destes, poderemos ou- mais alcance certas doenças. Parafra- apanham catrefadas crescentes de pes- vir a funcionária do serviço a anunciar seando um reclame que aparecia há al- soas com anomalias. E depois? Depois informação médica a ensinar, a esclare- que está na sala um senhor delegado. – gum tempo na televisão com velhinhas a é só puxar por meia dúzia de neurónios cer e a motivar os médicos a “prescre- Ai está? É delegado de quê? Fármacos, comentar: – “Eu ainda sou do tempo em para concluirmos que os “rotulados” ver” ou a aconselhar, como preferirem, iogurtes, chás, vinhos, cervejas, tomates, que...”, também eu sou do tempo em que como hipercolesterolémicos terão que os nutracêuticos, alimentos que fazem chocolates ou águas? – Nenhum desses! o colesterol, por exemplo, só era consi- fazer terapêuticas farmacológicas, die- bem à saúde, baixam o colesterol, me- Não?! – É delegado de sapatos senhor derado elevado a partir dos 260 mg%. téticas ou exercício. Terapêuticas não lhoram o funcionamento digestivo, pro- doutor. – De sapatos?! – Sim senhor! Depois, o limiar da anormalidade baixou faltam. tegem os consumidores disto e daquilo, Parece que tem uns especiais que evi- para os 240 mg%, porque se concluiu que Foi anunciado que em breve podemos enfim uma interessante área de negócio. tam calos e não atormentam os joane- os que estavam naquele intervalo tam- vir a ter profissionais idênticos aos da Pergunto, se os industriais das águas tes. – Mande-o entrar já...
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    21 DE JANEIRODE 2009 SAÚDE 17 AFIRMOU EX-MINISTRO CORREIA DE CAMPOS NO ROTARY CLUBE DE COIMBRA / OLIVAIS Coimbra é caso único no Mundo em termos de Saúde Correia de Campo com Helena Goulão e Santos Cabral, na saudação às bandeiras O ex- Ministro da Saúde proferindo a sua palestra O ex-Ministro da Saúde, Correia de correr de um jantar-debate em que ilução verificada no nosso País nas muitos pensam, hoje há melhores cui- Campos, afirmou anteonetm (segun- participou a convite do Rotary Clube últimas três décadas, depois do 25 de dados de saúde no interior do que no da-feira), que Coimbra é um cidade de Coimbra / Olivais, presidido por Abril e sobretudo com a criação do litoral do País. única no Mundo em termos de Saúde, Helena Goulão (ela própria médica e Serviço Naciona l de Saúde. Após a palestra segui-se aniamdo nomeadamente no que respeita à den- professora da Faculdade de Medici- Muito crítico para o “numerus cla- debate, em que Correia de Campos sidade de camas hospitalares em hos- na). usus” que em determinada altura im- reiterou o acerto das medidas que pitais públicos relativamente à respec- O ex-Ministro fez uma interessan- pediu o ingresso de estudantes em tomou enquanto responsável pela tiva população, mas também com um te exposição sobre o Serviço Nacio- quantidade adequada nas Faculdades pasta da Saúde do governo de Só- pujante sector hospitalar privado. nal de Saúde, citando dados estatísti- de Medicina, Correia de Campos re- crates, onde se manteve durante 3 Correia de Campos falava no de- cos que mostram a extraordinária evo- feriu também que, ao contrário do que anos. Recorde de dadores de medula óssea O Centro de Histocompatibilidade do familiares de doentes que, ao “darem o ros- A transplantação de medula óssea “é uma O Centro de Histocompatibilidade do Centro contribuiu, em 2008, com perto de to, potenciaram” o surgimento de novos prática terapêutica reconhecida, que permi- Centro teve o seu processo de certificação 10.800 novos dadores para o registo do potenciais dadores de medula óssea. te muitas vezes a cura de doenças graves e da qualidade concluído em 2008, de acordo Centro Nacional de Dadores de Medula “Fizemos várias iniciativas em Estarreja, que podem ser frequentemente mortais”, lê- com a norma ISO 9001:2000. Óssea (CEDACE), revelou a directora da- em Viseu, na Faculdade de Medicina de se no sítio na Internet do CHS. Para 2009, Maria Luísa Pais referiu quela estrutura regional. Coimbra”, exemplificou a directora do Cen- “O leque de utilização das células proge- que, apesar de no plano de actividades Maria Luísa Pais, directora do Centro de tro de Histocompatibilidade do Centro, des- nitoras tem sido cada vez mais alargado estar inscrita a meta de conseguir oito mil Histocompatibilidade do Centro, disse à tacando igualmente a adesão elevada re- devido à sua capacidade de se diferencia- novos dadores, é provável que se atinjam agência Lusa que este organismo angariou, gistada no âmbito de uma acção que teve o rem e de renovarem a medula óssea do os dez mil. no ano passado, 10.780 novos candidatos a envolvimento do grupo empresarial Lena, doente”, disse Maria Luísa Pais, destacan- Uma projecção dos novos dadores a re- dadores de medula óssea. de Leiria. do a sua importância nas patologias hema- gistar este mês aponta para o número de Trata-se do maior número de colheitas No CEDACE, que faz parte do registo to-oncológicas e hereditárias. um milhar, adiantou a médica à Lusa de sempre feitas pelo Centro de Histocom- internacional, estão inscritos actualmente patibilidade do Centro, que acabou por ul- cerca de 142 mil dadores - adiantou. trapassar o objectivo de dez mil novos da- Os três centros de histocompatibilidade, dores voluntários que se propunha para 2008. situados em Lisboa (CHS), Porto e Coim- “De forma inédita, o Centro abriu um fim- bra, foram criados por Decreto-Lei datado de-semana, num sábado, para facilitar a de 21 de Fevereiro de 1983. deslocação das pessoas, e, só nesse dia, ti- Entre outras competências, neles são vemos perto de 1.500 dadores”, disse a estudados os candidatos a transplante de médica à agência Lusa. tecidos, órgãos ou células, e os dadores, e é Ao explicar esta elevada adesão, Maria feita a monitorização das terapêuticas e dos Luísa Pais referiu ainda o envolvimento de pacientes transplantados.
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    www.apaginadomario.blogspot.com 18 A PÁGINA DO MÁRIO apaginadomario@gmail.com 21 DE JANEIRO DE 2009 mação que acolho sem reservas é a do dirigente comunista. A obra do ano A BRIOSA continua, imparável, a caminhar para o abismo. O clube per- deu identidade e, como resultado disso, Mário Martins as bancadas do estádio situado dentro do ECC (Empreendimento Comercial do Calhabé) estão cada vez mais vazias. IMPRESSÕES Esta semana, num jogo para a “Taça da NA MUDANÇA DE ANO Liga”, terão estado 615 espectadores (números oficiais) ou 287 (contagem da JAIME SOARES não concorda com Rádio Universidade). Ao que isto che- a decisão de Manuela Ferreira Leite de gou! Há um amigo meu que está con- impedir os candidatos autárquicos de vencido que o sistema de contagem de concorrerem à Assembleia da Repúbli- espectadores soma os pés, mas que de- Dias depois de construída, as primeiras alterações ca. Li as declarações no “Público”. Jai- pois esquece-se de dividir o número por me Soares diz que os autarcas que fo- dois... Cá por mim, há cerca de ano e rem eleitos para a Assembleia só lá po- meio que decidi deixar de me deslocar dem estar seis meses; depois terão de ao estádio, porque não vou a sítios aon- optar. Para ele é tudo claro. Penso que de me sinta maltratado. E como me sin- faltou ao jornalista fazer duas perguntas: to tratado de forma terceiro-mundista no se optar pela Assembleia, não estará a estádio do Calhabé (se quiserem, eu ex- enganar os eleitores do concelho (que plico porquê), deixei de lá ir. Mas fui pa- votaram para que ficasse na Câmara)? gando as quotas de associado da Briosa. e se optar pela Câmara, não estará a Até há pouco. enganar os eleitores do distrito (que vo- taram para ficasse na Assembleia)? Cla- LIXO na cidade é muito. A cidade está ro que Jaime Soares nem sequer pensa porca. Sobretudo em algumas zonas. Até nisso. É por estas e por outras que a cre- pensei que tinha deixado de haver var- dibilidade dos políticos está como está. redores. Mas não, não acabaram. Nou- Basta ler os comentários no “Público” tro dia encontrei vários deles, em plena para perceber como a realidade do dia- actividade. Até tirei fotos aos homens, A famosa rotunda nas páginas do “Diário de Coimbra” a-dia, das pessoas que trabalham e pa- às vassouras e ao carro de mão. Sabem gam impostos, é diferente da realidade onde? Na Solum, nas imediações do política. “Dolce Vita”. Na minha rua, na fregue- sia de Eiras, nunca os vi - e já lá moro há OS “FOGUETES DE LÁGRIMAS”, 13 anos. Ou seja, a “Coimbra dos ricos” como se dizia quando era miúdo, volta- tem varredores, a “Coimbra dos pobres” ram a Coimbra na passagem de ano. Vi não tem. Porca miséria. à distância, no terraço de um amigo. Fo- ram 13 minutos a queimar, bem mais (e CORTEJO DOS REIS voltou às ruas melhor) fogo do que nas Festas da Rai- de Coimbra. Li os dois diários, pela ma- nha Santa, quando dezenas de milhar de nhã, e fiquei a saber que a cidade se alhe- pessoas visitavam a cidade. Crise?! Qual ara da iniciativa. Afinal, as notícias dizi- crise? (A mesma Câmara que gastou am uma coisa e a realidade tinha sido Os camiões andam para trás e para diante... milhares de euros com os foguetes veio, outra... Mais tarde, um amigo que se dias depois, pedir aos cidadãos para ofe- deslocara aos Olivais, para assistir à che- A OBRA DO ANO 2008 em Coimbra, para mim, é indiscutível: a rotunda da recerem cobertores para distribuir aos gada dos Reis disse-me que muitas cen- Estrada de Eiras. Uma beleza! Volto a escrever o que já aqui escrevi: o autor do sem-abrigo. Parece que andamos a brin- tenas de pessoas enchiam por completo projecto deveria ser distinguido e o seu nome conhecido de todos os conimbricen- car, num “país de malucos”...) a escadaria da Igreja de Santo António. ses. Foi construída, logo alterada e depois novamente alterada. Os acidentes suce- Afinal, os jornais - pressionados pela hora dem-se. Os trabalhadores da Câmara estão no local repetidamente para “remen- APROXIMAM-SE ELEIÇÕES e o tardia do cortejo e a necessidade de “fe- dar” os estragos. É, por isso, a obra mais acompanhada de sempre em Coimbra. “Diário As Beiras” foi ouvir os respon- char” as edições - falavam do início do Os veículos pesados vêm-se aflitos para a circundar, os camiões de abastecimen- sáveis concelhios dos partidos. Tenho cortejo; o meu amigo falou-me do final to do “Minipreço” não conseguem entrar à primeira. É um óptimo local para reco- lido os títulos e olhado as fotos. (Prometi do cortejo. A “vida dos jornais” tem des- lher jantes, pára-choques e outros adereços automóveis. Basta passar perto das 8 a mim mesmo perder pouco tempo com tes perigos. da manhã para ver o espólio da rotunda aumentar. Bem sei que é uma simples as “tricas” da Política: eles dizem uma rotunda. Mas é nas pequenas obras que, muitas vezes, se alicerçam as grandes coisa, a malta vota neles e depois eles O CHEQUE referia 25 euros em al- políticas. A rotunda da Estrada de Eiras é exemplar. fazem outra, impunemente. Então, já que garismos e «trinta e cinco euros» por (publicado em 10/01) não é possível puni-los, pelo menos não extenso. A instituição bancária onde o me sinto enganado. Não leio, pronto. E cheque foi depositado decidiu devolvê- de e-mails para a Asus e... nada. Por- nos um país de Empresa na Hora, Car- quanto a ir votar... estou a reflectir.) Mas lo e debitar mais de 13 euros ao titular tanto, se comprarem um Asus, tiverem tão do Cidadão, Simplex e Magalhães. A voltemos ao jornal e às entrevistas. Ma- da conta. A proceder assim, não tenho um problema como eu tive e ficarem com realidade, afinal, é bem mais negra. (Ali- nuel Oliveira: «Encarnação saberá ouvir dúvidas de que os lucros da Banca vão uma máquina quase nova inutilizada, não ás, parece que uma televisão vai contar Concelhia PSD na escolha dos vereado- continuar a ser substanciais. O “caso do se queixem, por favor. Estão avisados. em breve este caso exemplar...). res». Henrique Fernandes: «PS vai ga- cheque” segue agora para o Banco de nhar as eleições em Coimbra». Francis- Portugal. «CARTÃO DE CONTRIBUINTE CASO DO CONCURSO CAMA- co Queirós: «Candidato será conhecido no país do Simplex» bem poderia ser o RÁ-RIO. O tal que foi aberto durante a 14 de Fevereiro». Luís Providência: ASUS é marca de computadores de tema de um conto. Ou de uma novela. O três dias em pleno Verão. E que acabou «CDS garante estabilidade da coligação que nem quero ouvir falar. O computa- cidadão que requereu a emissão de um em finais de Dezembro de forma pouco na Câmara de Coimbra». Estes foram dor de secretária, comprado há dois ou cartão de contribuinte em Fevereiro de habitual. Prometo e cumpro: não falo os títulos de 1.ª página. Agora olhem para três anos, necessita de uma fonte de ali- 2008 ainda continua à espera que as Fi- nele. Mas penso que alguém deveria in- as fotos que os acompanham e digam- mentação nova. Ando há dois meses a nanças lho enviem. Afinal, só se passa- vestigar. me o que acham. Para mim, a única afir- tentar comprá-la, já enviei uma dezena ram 11 meses!!! As televisões mostaram- (publicado em 10/01)
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    21 DE JANEIRODE 2009 MÚSICA 19 Distorções Fred Falke José Miguel Nora josemiguelnora@gmail.com Continuando na senda de destacar o que de melhor aconteceu no ano passa- do, vamos eleger a Melhor Remistura de 2008, que, apesar da grande quali- dade do que ouvimos, “Golden Cage” da autoria de The Whitest Boy Alive MGMT na remistura de Fred Falke foi, sem dú- vida, a melhor. Mas há ainda que desta- car a mistura, ainda que não autorizada Hot Chip. “Black an Gold” de Sam Sparro, “Love Por fim, gostaria, ainda de salientar os pela banda, de “Lights & Music” dos Cut No que toca ao Melhor Tema In- is Noise” dos The Verve ou “A-Punk” 30 anos de carreira dos Xutos & Pon- Copy, produzida por um português radi- ternacional de 2008 a escolha também dos Vampire Weekend. Mas, após mui- tapés, facto que continua a ser assina- cado em Munique, que assina como não se afigurava fácil, sobretudo dado tas indecisões decidi optar por “Time To lável, visto que a formação actual ainda Moulinex. que estavam em disputa temas como: Pretend” dos MGMT. é praticamente a mesma, o que, infeliz- Quanto ao Remisturador de 2008 “Rock´n´roll Train” dos AC/DC, “Lights Já quanto ao Melhor Tema do Ano mente não acontece com outras bandas a escolha não poderia recair noutro pro- & Music” dos Cut Copy, “Paris is Bur- Nacional´08, apesar de gostar bastante portuguesas que já na altura davam pro- dutor que não em Fred Falke, que, após ning” de Ladyhawke, “Viva La Vida” dos de temas como “On The Radio” dos X- vas do seu talento. A fim de assinalar o um interregno nas colaborações com Coldplay, “Blind” dos Hercules & Love Wife ou “Cantiga de Amor” dos Rádio evento da banda de Tim e Zé Pedro, a Alan Braxe e nos primeiros tempos a Affair, “Ready For The Floor” dos Hot Macau, acabei por escolher “Perten- Antena 3 rodou o novo “single” da ban- solo, remisturou de tudo um pouco, pas- Chip, “Never Miss A Beat” dos Kaiser cer” da autoria dos Xutos & Ponta- da, “Quem é Quem”, cujo um excerto sando pelos Pnau, Ladyhawke, The Chiefs, “Sex On Fire” dos Kings Of pés e dos Oioai, editado no âmbito da do “vídeo clip” já tinha sido mostrado pelo Whitest Boy Alive, Lykke Li, Justice ou Leon, “Time To Pretend” dos MGMT, campanha “ UPA – Unidos Para Ajudar”.. “Top +” da Rtp 1. TAGV quer retomar MORTE DE JOÃO AGUARDELA no próximo ano Colegas recordam Festival Internacional importante trabalho de Blues de Coimbra do músico O director artístico do Teatro Académi- presas “não foram bem sucedidos” para O músico João Aguardela, que morreu co de Gil Vicente (TAGV) manifestou em- conseguir um mecenato. no passado domingo em Lisboa, era “uma penho em retomar, em 2010, o Festival In- De acordo com o director artístico do força muito positiva no meio musical”, disse ternacional de Blues de Coimbra, que não Teatro Académico de Gil Vicente, o orga- Zé Pedro, guitarrista dos Xutos & Ponta- se realiza este ano por falta de apoios. nismo “depende, há três anos, exclusiva- pés, à agência Lusa. “O festival é ‘a menina dos nossos olhos’, mente da UC” e a crise que as universida- Zé Pedro recorda-se de João Aguardela tem projecção nacional e internacional. Va- des atravessam não permitiu aumentar a dos tempos do Rock Rendez-Vous, ao qual mos só interromper e, no próximo ano, pro- sua dotação. os Sitiados concorreram em finais dos anos vavelmente, vamos retomá-lo”, disse Fran- Este responsável espera que a integra- 1980, e da participação do grupo na colec- cisco Paz à agência Lusa. ção do TAGV na nova Fundação Cultural tânea “XX anos XX bandas”, dedicada aos O evento, que começou a ser realizado da Universidade de Coimbra “crie as con- Xutos & Pontapés. em 2003 no âmbito da “Coimbra, Capital dições” para o evento “ter o apoio da Câ- Já a cantora Viviane, amiga de João Nacional da Cultura”, sob a direcção artís- mara e da Direcção-Geral das Artes”. Aguardela desde a génese dos Entre As- O funeral realizou-se ontem (terça-feira) tica de Paulo Furtado, não se vai realizar “No nosso entendimento, é um prejuízo pas, definiu-o à Lusa como “um músico sin- para o Cemitério do Alto de São João, em este ano. para Coimbra. Os acontecimentos culturais gular que teve uma profunda paixão pelas Lisboa. “Este ano não havia condições para o dão sempre animação e prestígio à cidade”, raízes da cultura e da música portuguesa e Distinguido em 1994 com o Prémio Re- realizar. Estamos com dificuldades em lamentou o vereador da Cultura da Câma- isso reflectia-se na música que fazia”. velação da Sociedade Portuguesa de Auto- cumprir os nossos compromissos de 2008, ra, Mário Nunes. Carlos Moisés, vocalista da Quinta do Bill, res, João Aguardela liderou os Sitiados, gru- nomeadamente o pagamento de ordena- Espectador assíduo do festival desde conheceu João Aguardela num concurso do po pop-rock que se inspirava na música tra- dos”, considerou o director artístico do 2003, também o professor aposentado José Rock Rendez-Vous e mais tarde convidou- dicional portuguesa. TAGV, que não quis comentar declarações António Franco lamentou o cancelamento o para participar no álbum “Os filhos da A busca das raízes e da tradição musical de Paulo Furtado, segundo as quais há tam- do evento este ano, considerando que “é Nação” (1994). portuguesa levou-o também ao projecto bém “falta de vontade” deste organismo uma festa que Coimbra perde”. “Era um critivo à procura de novos rou- Megafone, no qual recorria a recolhas etno- da Universidade de Coimbra (UC) para “Não me quero deixar contaminar pelo pagens para as nossas raízes da música tra- gráficas de Giacometti e José Alberto Sar- levar a cabo o festival. pessimismo da crise. Isto tem a ver com dicional”, disse Carlos Moisés à agência dinha, adicionando-lhes electrónica. Segundo Francisco Paz, as últimas duas crises que Coimbra sofre há muito tempo Lusa, recordando o trabalho de Aguardela Liderou ainda o projecto “Linha da Fren- edições do Coimbra em Blues realizaram- e não só com a crise em geral”, disse o no projecto a solo Megafone. te” e desde 2004 integrava A Naifa, junta- se com o apoio da Direcção-Regional de docente à agência Lusa, ao adiantar que João Aguardela, que faria 40 anos em mente com Mitó e Luís Varatojo, com quem Cultura do Centro, suporte que era, contu- o festival proporcionou ao longo dos últi- Fevereiro, morreu no domingo, em Lisboa, editou em 2008 o álbum “Uma inocente in- do, assumido como provisório desde o iní- mos anos “momentos fantásticos” em ter- vítima de cancro. clinação para o mal”. cio. Contactos efectuados com várias em- mos musicais.
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    20 CRÓNICA 21 DE JANEIRO DE 2009 AO CORRER DA PENA... “Estranha forma de vida”... daqui a pouco, quando esses teus olhos lindos acordarem, me vão ler... Nunca te quis incomodar, Maria. Sabia- te fora do país em trabalho de doutoramen- Maria Pinto* to. Também senti que tinha de estar sozi- mainha.pinto@gmail.com nha, fazer o meu luto de Amélia e tentar seguir em frente em tonalidades de Amália. “Ajuda-me, Maria. Por favor! Depois de muita revolta, de muito correr à Da tua sempre Amiga, toa, depois de muito me sentir à beira do Mema” fundo, respeitei a decisão de PN. Habituei-me a viver em solidão e a fazer Tão profunda, tão de dentro esta tua car- dela o meu projecto. Com as fortalezas e as ta, Mema! Que estado de amargura, de tor- fragilidades que a solidão implica. Num pro- por... um misto de abulia e de revolta que cesso de grande crescimento interior e de condiz contigo, que te traduz... liberdade. Com a visita ocasional de Amé- Mema. Mistura de Amélia e de Amália. lia, em demanda de um ombro protector e O fruto da amizade e da admiração que sin- da vontade de partilhar. Enfim, querida to por ti desde que nos conhecemos naque- Maria, um percurso que me não tem sido la tarde em que iniciámos o nosso percurso nada fácil, até porque me habituei a criar e pelo ensino superior. a povoar espaços e tempos que considero muito íntimos, muito meus e que me ajudam Foi assim que nasceste. Amélia. Emoti- a ir em frente, lutando. Lutando sempre. E va e sensível. Talhada para o sofrimento. olhando numa outra direcção quando me Conchinha do mar. fazem sentir que estou errada, quando me “Ai, Maria, esta angústia sem fim, esta querem forçar a “vir por aqui”. Quando sur- minha solidão! Esta tão grande ansiedade, o gem homens de “falas doces”, como dizia não ter sossego”... Torga de Arlindo no seu conto “A Paga”. Lembras-te, Maria, desse texto? E do cole- Quando te conheci, sempre te trocava o ga que tínhamos com o mesmo nome e que nome. Amália. Era assim que te chamava. se dava ares de lindo para todas as mulhe- Era esta a forma como te via, eu que tinha res? “Rapariga em que pusesse o seu sen- por hábito pesquisar a raiz e o significado tido, pronto. Tanto fazia saltar como correr: dos nomes. Tu sorrias quando te chamava tinha de ser dele”. Desculpa este breve pa- Amália e eu sempre te mostrava como eras rêntesis, querida Amiga, mas por momen- “Esferas”, pintura de Salvador Dali forte, querida Amiga, como agora vais ter tos tive de sorrir. Porque os Arlindos exis- de ser, como trabalhavas e lutavas pelos teus achares que tanto exigia de ti. E era verda- O quanto eu te entendo à medida que leio tem mesmo e por aí pululam, cantando de direitos. Para além de seres exímia canta- de. Porque só ele sabia onde podias chegar, este teu texto tão pungente, tão infinitamen- flor em flor, tentando captar as mais frá- dora de Amália... lembras-te como anima- só ele conseguia fazer de ti a “abelha rai- te sentido! Tão teu. geis. vas os convívios do nosso Curso, as pausas nha”, quando te cantava Caetano. Vem-me à cabeça o poeta Régio. Como que fazíamos no nosso estudo? “Dele me resta um pequenino rolo de PN o declamava! Inesquecível o Cântico E sempre linda, Mema! Tão linda! Pen- “Tínhamos tanto para dar um ao outro, papel que aqui tenho enquanto te escrevo. Negro, com o qual tanto me identifico neste so até que nem davas conta da tua rara be- Maria! Era como se o mundo fosse apenas Que me deixou em forma de dedo, no aro momento. De facto, a minha vida é um leza interior e exterior. Nem quando o nosso nosso e quanto mais nos dávamos, mais tí- de um anel que eu adorava, oferecido e com- vendaval que se soltou e uma onda que querido amigo PN, a quem agora te referes nhamos para nos dar... tudo estremecia em prado por ele numa feira de antiguidades. se alevantou... não sei por onde vou, com tanta mágoa, te dizia que eras uma peça nós quando nos murmurávamos, quando nos Peça única que funcionou para nós como o Maria. Não sei para onde vou. Sei que de artesanato. PN. Ainda recordas como silenciávamos. O magnetismo era total. selo do nosso amor... não vou por aí. lhe ofereceste estas iniciais e como brincá- Lembras-te, Maria, quando ele declamou, ...eu, minha Querida Amélia, minha Por vezes penso que já gastei as lágri- mos com elas na nossa primeira aula de Lín- em pleno Bar da Faculdade de Letras, aque- princesa, de ti, quero a possibilidade de mas. As palavras não me saem. Já não se gua Francesa? Como se chama o sênhorr, le maravilhoso poema de Eugénio de An- saber que posso existir o tempo de olhar- passa absolutamente nada, como diria Eu- perguntou o professor e ele, olhando-te de drade? te e o milagre da imortalidade. Tenho-te génio de Andrade. forma cúmplice, com aquele sorriso de inte- falado disto e tu podes não entender to- Ajuda-me, Maria. Por favor! A boca ligência brilhante, apenas balbuciou: PN. talmente. Sou, somos imortais porque de Da tua sempre Amiga, Onde o fogo Perante o espanto do professor, tu escla- nós existe algo que se não extingue. Pen- Mema” De um verão receste: “PN, de plusieurs noms, mon- Muito antigo cintila, so que se fui a Pessoa, tu, minha adora- sieur; il n’est pas une seule personne. Il da Amélia, és mesmo a minha Mulher. Eu Tentando refazer-me do impacto causa- A boca espera est une personnage de roman…il est vou partir. Vou mesmo ter de partir. Não do pela tua carta, Mema, lida, por coinci- (que pode uma boca esperar senão tout…» fiques triste. Há quem tenha vivido mil dência, quando regressei a casa após o fil- outra boca?) Foi nesse dia, no intervalo da aula, que vidas sem saber um instante o amor como me “Amália”, sinto que ecoa em mim, de espera o ardor do vento entendi o quanto ele te amava. PA, cha- o que eu tenho em mim e te pertence. Prin- forma profunda e arrepiante... a “Estranha para ser ave e cantar. mou-te. Peça de artesanato. Peça única. cesa do mar! Em ti me guardo como um Forma de Vida”... Rara. Para guardar, porque não fabricada náufrago que pode tristemente morrer na Amália no palco. Amélia na vida. Mema Levar-te à boca, em série, como te dizia. Fazendo jus aos praia. Dá-me a tua mão e vem comigo. fundindo estes dois rostos lindíssimos, estas Beber a água mais funda do teu ser acessórios com que te enfeitavas, tu que Vamos partir num barco sem leme, para duas vozes arrebatadoras: Se a luz é tanta, como se pode morrer? rejeitavas os ouros e não te cansavas de navegar um mar sem regresso. Não es- Coração independente, vasculhar anéis e colares que mais ninguém Morrer, Maria, morrer. Esta palavra ecoa tou preso a ti. Sou tu. Somos. Jangada Coração que não comando usasse. Que fossem o teu prolongamento. em mim e perpassa todos os meus poros, de pedra se fôssemos Península. Só que Vive perdido entre a gente, Percebi sempre a importância que este ainda que já lá vão quase dois anos...que mais que tudo, para mim és conteúdo e Teimosamente sangrando homem teve na tua vida. A capacidade que será feito dele, Maria? Ajuda-me, por fa- não consigo saber o tamanho do conti- Coração independente”. tinha de transformar a Amélia-quando-so- vor. Não acredito. Ele era imortal... il était nente. Vou sair, vou ter de sair. Com lá- fredora na Amália-lutadora. Ao ponto de te tout...” grimas de emoção. Como agora, neste Fica tranquila, Mema. Eu estou aqui. irritares – antes de lhe dares um beijo – por momento em que te escrevo, sabendo que Querida Amélia. Minha querida Amiga. * Docente do ensino superior
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    21 DE JANEIRODE 2009 OPINIÃO 21 Natal nacional teima em não sair. Esta crise que nos atormenta pela porta da economia, que nos aperta os bolsos, jamais se por quem trabalha. plexo sistema das relações sociais. curará com pazadas de milhões nas catedrais Acreditámos que os conflitos, a existirem, Falar, hoje, de honra, de seriedade, de responsáveis pelo fiasco, mas por um aperto, Renato Ávila se resolveriam com bom senso e clarividên- palavra, de sobriedade, de autoridade e dis- um safanão nas consciências de todos, espe- cia pelo diálogo e por uma justiça democrá- ciplina, de esforço e perseverança, de pou- cialmente dos que, nas chancelarias e admi- Faltam-nos palavras para expressar a tica e parcimoniosa. pança e previdência, de zelo no trabalho, de nistraçõe, se banqueteiam sem atenderem às amarga desilusão que nos vai na alma no Acreditámos em tudo isto e em muito respeito e afecto pelos mais velhos e dimi- dificuldades da grande maioria. balanço da quadra festiva de Natal. mais. nuídos, pela integridade física, moral e patri- Esta quadra natalícia revelou bem a pro- Suposto seria que celebrássemos a paz e Construímos este edifício pautando as monial de cada um… parece cheirar a re- fundidade e a singularidade dessa crise. a solidariedade entre todos, especialmente nossas cogitações, o nosso comportamen- trógrado, a obsoleto. Enquanto o desemprego com o seu prenún- os de boa vontade. Afinal, nas sombras das to pelas sólidas e probas referências das O laxismo e o facilitismo, o compadrio e cio de miséria e exclusão batia à porta de feéricas alegrias e da abundância de alguns, velhas gerações que nos embalaram, das tráfico de interesses e influências, os abu- quase meio milhão de lares portugueses e muitos sentiram na pele e na alma as agru- apertadas conjunturas em que nos foi dado sos de confiança e as falcatruas, o descré- os governantes profetizavam tempos difíceis ras do frio e da fome, da miséria, da indife- viver e dos códigos comportamentais da- dito da autoridade democrática do estado e de carência, os hotéis enchiam-se e, pre- rença, da violência e até do ódio. queles que nos educaram. da justiça, desembocando na impunidade e nhes, os aviões enxameavam nos céus em Aquilo a que temos vindo a assistir nes- Os desvios eram moral e duramente na corrupção, vêm minando as respectivas demanda das cálidas praias do Atlântico Sul. tes últimos tempos abala profundamente todo punidos com a reprovação pública e a con- estruturas. É clamorosa e chocante esta assimetria. o edifício no qual nos habituámos a viver, a denação em juízo marcava profundamente O hedonismo desenfreado aliado ao con- O novo ano começou cheio de sombras encontrar as nossas referências, a construir a credibilidade e o conceito social dos seus sumismo militante parecem ditar as novas sadicamente marteladas por alguns respon- os nossos valores. autores. leis do comportamento social onde o suces- sáveis políticos que entendem ser a crise Fizemos âncora do trabalho e da discipli- Os actos de nobreza e de generosidade so do “ter” logra submergir a honra do “ser”; uma factura para os pobres pagarem. Tal- na, da sobriedade e da poupança, da honra eram tidos em apreço e constituíam patri- onde a astúcia e a desvergonha subalterni- vez se enganem. e do respeito pela autoridade, pela integri- mónio da comunidade em que se inseriam zam o mérito; onde a dignidade e a cultura É que se não for feito um grande esforço dade moral, física e patrimonial do nosso promotores e beneficiários. são ofuscadas pela mediocridade; onde o no sentido de inverter este consumismo de- próximo, com redobrada veemência quan- Hoje, tudo parece estar posto em causa. gozo anatemiza o sacrifício; onde os desfa- senfreado, de morigerar os insaciáveis ape- do, pela idade, pela doença ou diminuição Não propriamente porque sejam preconiza- vorecidos pela pobreza, velhice, doença e tites de alguns, de fortalecer e enobrecer a física e mental e pela precariedade afecti- das ou difundidas doutrinas contrárias às que incapacidade profissional parecem estar a postura do Estado como salvaguarda do va, económica e cultural se encontram em a sociedade, durante muitos séculos, consa- mais; onde as relações familiares e geraci- bem público, de refazer uma ordem de va- especial situação de fragilidade. grou como códigos de civilização; não pro- onais se destroem pela subversão dos afec- lores mais humanizados e mais próximos da Acreditámos na nobreza, lucidez e efi- priamente porque se proponha sob forma tos, do respeito e do espírito de sacrifício. dignidade humana, do mérito e da justiça cácia da justiça e no primado e força da lei concreta e explícita uma outra moral, mas Assim é que os abandonos afectivos das social, esta crise poderá desembocar numa sobre a marginalidade e o crime e na demo- porque, a pouco e pouco, por omissão ou crianças, dos velhos e dos diminuídos en- gigantesca implosão de proporções e efei- crática abertura no acesso aos tribunais. por contemporização cívica e jurídica, se grossa o caudal desse rio imenso e triste tos incalculáveis e ser causa de muito maior Acreditámos, ainda, na idoneidade e na foram permitindo, por uso e abuso continu- que corre pelas nossas escolas, pelas azi- sofrimento para todos. seriedade dos que, na política, se candidata- ado, a sedimentação de determinados com- nhagas e ruelas de certos bairros suburba- Imperioso se torna que cada cidadão par- ram ao nosso voto para honrada e sabia- portamentos e, com ela, a emergência de nos, pelos “armazéns” da terceira idade, ticipe na construção dum Natal nacional mente servir a grei. novos conceitos, novas e estranhas atitudes, pelos corredores de hospitais e hospícios, onde a humildade do presépio, a messiânica Acreditámos nos empresários e banquei- de novos e polémicos valores os quais, cala- pelas ruidosas avenidas das nossas cidades humanidade e a sabedoria dos reis e dos ros como promotores de riqueza sábia e mitosamente, estão a corroer, a arruinar as onde em muitos corações há um deserto e profetas sejam a estrela a indicar o caminho solidariamente repartida por quem investe e estruturas morais em que assenta o com- em muitas gargantas um grito enovelado que da dignidade, da solidariedade e da paz. FILATELICAMENTE 1937 – Emissão Comemorativa do 1º Centenário da Fundação POIS... das Escolas Médico-Cirurgicas de Lisboa e Porto João Paulo Simões No Porto, o ensino médico-cirúrgico, Em 1937 foi feita uma emissão de vinha do Hospital D. Lopo, fundado em José selos comemorativa do 1.º Centenário 1605 e substituído pelo Hospital de San- d’Encarnação da Fundação das Escolas Médico-Ci- to António, em 1770. Foi neste hospital rúrgicas de Lisboa e Porto. Desenho que se instalou, em reduzidas dependên- A investigadora decidiu realçar a ex- alegórico de Álvaro Duarte de Almei- cias, uma Escola de Cirurgia, anteces- cepcional importância que detinha um por- da, que, ao querer apresentar o símbolo sora da Escola Régia de Cirurgia fun- menor duma tapeçaria patente ao público da Medicina – vara delgada e lisa, ter- dada em 1825. Por Decreto de 29 de no Museu Nacional de Machado de Cas- minada em duas asas e rodeada por Dezembro de 1836, Passos Manuel deu tro. duas serpentes –, recorreu, por enga- nova organização às Escolas de Cirur- Dedicou ao tema largas horas e do re- no, a uma cobra enroscada no pé de gia de Lisboa e Porto, que passariam a sultado do seu intenso labor apresentou uma taça, que é o símbolo da Farmá- denominar-se Escolas Médico-Cirurgi- comunicação a um congresso e houve por cia. cas de Lisboa e Porto e, mais tarde, bem publicar o texto em conceituada re- Impressos na Imprensa Nacional de Faculdade de Medicina da nova Univer- vista científica. Claro que só ficava bem Lisboa, zincogravados sobre papel liso, sidade do Porto, em 1911. Em Lisboa, com fotografia a ilustrar. em folhas de cem selos. A gomagem e sucede a este curso, a Escola Régia de Confidenciou-me: o denteado 11,5, foram feitos na Casa Cirurgia (Hospital de São José), criada «A imagem teve de ser comprada e da Moeda. Foram emitidos 4 050 000 no ano de 1825. não foi nada barata: 50 euros! Eu até te- selos azul claro de vinte cinco centa- Ambas as Escolas nasceram a par por nho fotografias minhas e com melhor qua- vos, que circularam de 24 de Julho de iniciativa de Teófilo Ferreira de Aguiar, lidade, mas… não me é permitido publi- 1937 até 1 de Outubro de 1945. cirugião-mór. cá-las!». Com estas duas Escolas, deu-se um A entidade detém o exclusivo e pensa (Baseado em Livros Electrónicos enorme passo na evolução da Cirurgia amealhar uns cobres com essas vendas. de Carlos Kulberg) e da Anatomia em Portugal. A quem quer que seja, sem excepção!
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    22 OPINIÃO 21 DE JANEIRO DE 2009 A paz devia passar por aqui proporções dantescas. Os jornalistas e dos Unidos preparava-se a substituição dadãos de Coimbra, das estruturas so- observadores são impedidos de entrar em do Presidente, havia que aproveitar os ciais, associativas, políticas. Vasco Paiva Gaza para não poderem relatar o que últimos dias de Bush e o à vontade de Pode-se constatar que em Coimbra efectivamente acontece. Olmert podia já não ser o mesmo. Ape- não existem organizações “vocaciona- O Hamas praticamente não existia sar de tudo, conforme se vangloriou e a das” para as questões da luta pela Paz e quando se iniciou a primeira Intifada imprensa noticiou, Olmert até por tele- a solidariedade internacional. Mas será A tragédia caiu sobre a Palestina. Palestiniana em 1988. Já não é segredo fone dava ordens a Bush e forçava a bastante? Nem um grupo de cidadãos se Mortos aos milhares. Só no remexer dos o papel dos serviços secretos de Israel alteração do sentido de voto nas Na- consegue juntar e escrever, subscrever escombros é que vão poder apurar ao na criação do Hamas para dividir a re- ções Unidas. um pequeno manifesto? certo quantos morreram. Centenas de sistência palestina então dirigida pela Será que as preocupações do dia-a- crianças entre os mortos. Organização de Libertação da Palesti- Por toda a parte, nas principais capi- -dia nem sequer permitem pensar no que As supostas bombas inteligentes do na (OLP). Mas o feitiço virou-se con- tais europeias, em todo o mundo, se mul- se passa pelo mundo? Onde estão os va- exército israelita não pouparam nada, tra o feiticeiro! O Hamas cresceu e de- tiplicaram os protestos contra o massa- lores, a solidariedade? Onde param os foram destruídas escolas, hospitais e edi- senvolveu-se nos sucessivos fracassos cre sobre as populações indefesas da jovens? Onde para a nossa capacidade fícios bem identificados com as Nações dos chamados processos de Paz. faixa de Gaza. Inclusive em Israel, com e dever de indignação? Unidas. coragem, as forças pela Paz se mani- Noutros tempos, em situações inter- Gaza ficou sem alimentos, água, me- Em Israel vão-se realizar brevemen- festaram e jovens recusaram-se a servi- nas de muito maior dificuldade e com- dicamentos, agravando-se o cerco huma- te eleições. Os partidos do governo es- rem na guerra. Em Portugal houve ma- plexidade, Coimbra soube honrar os seus nitário que já dura há mais de 6 meses. tavam em declínio, com projecções de nifestações em Lisboa e no Porto. pergaminhos e levantar a bandeira da Gaza: milhão e meio de famintos e de- votações muito baixa, com esta ofensi- E Coimbra? Pairou o silêncio, a apa- indignação e da solidariedade. sempregados. va melhoraram as sondagens e o seu tia, a indiferença. A luta pela Paz também devia passar O massacre e a hipocrisia assumem previsível resultado eleitoral. Nos Esta- É chocante a falta de reacção dos ci- por Coimbra. OPINIÃO J.A. Alves Ambrósio Angola em Saragoça (VI) Um dos ingredientes da honrosa, ab- acção está também na eleição do gran- soluta, responsabilidade que é escrever tróleo seja um presente de Deus a An- dioso Obama; declarou-o Martin Luther para o Público (com maiúscula) traduz- gola. Dizemo-lo, do fundo da alma, por King. se por uma só palavra: “escrúpulo”. Es- mais que uma razão: nenhum progresso A questão enuncia-se com uma sur- crúpulo pela palavra certa na dose cer- pode basear-se num produto cujas cota- preendente economia de palavra – mas ta. É da absoluta rectidão do verbo que ções são tudo menos estáveis (apenas o tema daria infindáveis bibliotecas. O se trata, da sua altaneira propriedade. O um exemplo); o nosso amor a Angola eu-em-si não existe, diga-se desde já. O Governo ou a Economia, v. g., são sem- assim o determina. eu, desde logo, é um resultado, um coro- pre uma questão espiritual; e esta reali- Mais uma vez parece haver razão para lário do antanho; ainda por cima intera- dade do pérfido – porque superficial – o meu optimismo. Com efeito, o Presi- ge com os outros, inter-depende, vive na laicismo em que vivemos é responsável dente da República criou já uma comis- sua época, no seu mundo. A alteridade é pelo hic et nunc a nível mundial. Aliás, são instaladora do FSA (Fundo Sobera- inerente a tudo o que existe; e pressu- uma excelente ilustração do que acabo no de Angola). Preservar e maximizar põe respeito, humildade. Sucede é que de dizer está num texto “ridículo” (não é as reservas financeiras do país – ainda tais sentimentos, como uma cultura mí- ser-se desprimoroso, mas não encontro por cima numa época tão insólita, diga- nima, sine qua non, para a relacionali- outro adjectivo) que um conjunto de aca- mos – só pode ser visto como a pros- dade, por limitações das mais diversas, démicos, há semanas, no “Público”, es- pectiva atitude de um governante. O pe- tais sentimentos, dizia, melhor, a ausên- creveu sobre Economia. Ficámos a sa- tróleo acautelará o futuro, em vez de cia de tais sentimentos tem sido a razão ber o que é a amplidão de horizontes de estontear cabeças. Não se trata de “o para os mais hediondos conflitos. alguns que habitam as “torres de mar- dinheiro mal ganhado, água o deu água o Uma luminosa consciência e apreço fim”… O leitor não pode alienar-se des- levou”, sim de considerar que o dinheiro pelo outro – nos antípodas da postura do que fiz à sua letra, em Saragoça, ta consciência. só o é por se tratar de uma emanação colonizador-tipo (não importa qual ele deixou-me uma boa impressão, tal qual … A intangível propriedade do verbo, espiritual. Diferente interpretação é a tenha sido) – será o norte da lídima vida o referi a um casal amigo vindo de An- disse. É que, no meu último artigo, preci- ruína. angolana, em Angola. Será a relação gola. samente na última linha, a palavra “úni- A espiritualidade a presidir aos desti- harmoniosa e fraterna com que Angola É necessário ter vivido em Angola (eu ca” está a mais. A sólida garantia de fu- nos de uma grande Nação acautelará se imporá ao mundo. E se a estrita pers- fui “apenas” o alferes miliciano) para turo para Angola é suprimir todo o res- igualmente o património histórico rece- pectiva do eu domina todas as relações sentir o que é um paraíso; e o grande sentimento para com a que foi potência bido – nem que seja a muito singela ca- humanas desde sempre, digamos – e a drama dos nossos compatriotas, compe- colonial. Só isso é que deve reter-se. pela de Nambuangongo. O Dundo, dou todos os níveis – o desafio do acolhimen- lidos ao abandono na sequência do 25 de Não me cansarei de repeti-lo: confio só um exemplo, tinha no seu género, o to – e o acolhimento do desafio – são o Abril, traduz-se laconicamente: a inter- absolutamente em José Eduardo dos melhor museu de África. Imagino as que Angola terá como seu programa vi- rupção do mais belo dos sonhos. Doutro Santos, porque se converteu à religião destruições provocadas pelo conflito. tal e perene. Executá-lo-á, claro. Os de- modo: a nostalgia que leva a sucessivas do perdão. E da espiritualidade desta Mas, Senhor Presidente, faça o obséquio safios são, alíás, o penhor de progresso edições de obras sobre o tema é a mais postura emanará uma directriz para toda – no mais tocante interesse de Angola e da História. insofismável ilustração do que digo. a vida nacional – que é infinitamente mais da Humanidade (lembre-se do Brasil) – É que José Eduardo dos Santos, ade- Mas mudemos de ângulo. Os mexi- que política – angolana, a começar, creio de o restaurar no melhor e máximo que mais, prometeu lutar contra a corrupção. canos têm um ditado: “o petróleo foi um bem, pelos ministérios do Interior e da puder. A arte africana tem uma crescente Acresce a “esmagadora” votação que presente que o diabo deu ao México”. E Educação. Como li recentemente, “ou cotação e alguém que lecciona História recebeu e o carinho com que uma subs- os reiterados tumultos e drama nigeria- aprendemos a viver como irmãos, ou da Arte sente muito bem o que afirma, tancial percentagem da população o quer nos, bem como a trágica e comovente vamos morrer juntos como idiotas”. De- tendo toda a autoridade para o pedido. num mandato a seguir ao actual. A for- realidade timorense, tudo isso postula que clarou-o um visionário, o resultado de cuja Por mim rezarei por Angola. Fique çosamente breve análise grafológica digamos muito simplesmente: que o pe- certo disso, Excelência.
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    21 DE JANEIRODE 2009 INTERNET 23 código postal completo, com os três números que tos dos seguros. Estão ainda disponíveis links úteis. IDEIAS DIGITAIS há uns anos foram introduzidos e que fazem toda a diferença. PORTAL DO CONSUMIDOR CÓDIGOS POSTAIS DE PORTUGAL endereço: http://www.consumidor.pt categoria: utilidades endereço: http://www.codigospostais.com categoria: utilidades Inês Amaral TOM TOM ROUTER PLANNER Docente do Instituto Superior Miguel Torga CV TV DIPLODOCS A plataforma TomTom Router Planner permi- te aos utilizadores programar viagens. Essa é já uma funcionalidade possível com outros sistemas, mas a vantagem deste é que faculta informação em tem- po real do tráfego. Os utilizadores podem corrigir os dados dos ma- Está online o Ciência Viva Tv, um espaço que pas, o que permite que a cartografia fique sempre promove a troca de experiências e ideias sobre Ci- actualizada. O facto de apresentar informação em Os manuais de instruções são geralmente entendi- ência e Tecnologia. O site assume uma vertente co- tempo real permite que seja possível planear via- dos como papel sem utilidade. Até ao dia em que são munitária e educativa. gem e estimar quanto tempo esta demora e qual o precisos e já não estão na gaveta em que pensávamos. O Ciência Viva Tv permite que os seus utiliza- melhor caminho a seguir. Daí a não conseguir utilizar os equipamentos vai pouco dores façam upload de vídeos, imagens, documen- tempo... O Diplodocs é a solução, já que se trata de tos .doc e .pfd, entre outros. Há um separador de podcasts, o top vídeo, ciência em imagens, vídeos TOMTOM ROUTER PLANNER um site com manuais de instruções online para imen- sas marcas. “Minutos de Ciência”, para além de outros recur- endereço: http://routes.tomtom.com Há manuais para tudo: electrodomésticos, televisões, sos interessantes para os amantes das temáticas. categoria: viagens carros... Os documentos estão organizados por cate- gorias e marcas. É possível procurar por palavras-chave CV TV se não se souber exactamente o modelo ou a marca do manual que se procura. Há ainda a possibilidade de endereço: http://www.cvtv.pt CAPZLES fazer upload de um manual e ainda um link para um categoria: televisão, Ciência fórum de ajuda. DIPLODOCS PORTAL DO CONSUMIDOR endereço: http://manual-de-instrucoes.com categoria: Internet CÓDIGOS POSTAIS DE PORTUGAL Não exactamente uma novidade, mas é uma fer- ramenta interessante. O Capzles permite compilar fotografias e vídeos, fazendo linhas de tempo inte- ractivas. Também é possível adicionar som. O resultado pode ser uma espécie de scrapbo- Os tempos de crise exigem um consumo respon- oking, mas em formato digital e interactivo. É pos- sável. O Portal do Consumidor fornece aos utili- sível deixar aberto ao público os seus conteúdos ou zadores todas as informações necessárias para con- limitar a conhecidos. A utilização desta ferramenta A ideia não é nova, até porque os próprios CTT sumir de forma consciente. fornecem a informação. Mas como o site dos Cor- implica um registo. Os utilizadores do site podem ter acesso à legis- reios é confuso, fica a sugestão. Para ter a certeza lação, publicações, reclamações e dicas para pou- de que a correspondência vai parar aio sítio certo, CAPZLES par. Há também notícias de que os consumidores o site Códigos Postais de Portugal é a solução. devem estar a par, como novas directivas para brin- Basta inserir uma morada e o site apresenta o endereço: http://capzles.com quedos ou o fim das “letras pequenas” nos contra- categoria: Internet
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    24 TELEVISÃO 21 DE JANEIRO DE 2009 trar não estar ali para “fazer fretes” ao PÚBLICA FRACÇÃO chefe do governo. Não precisava mos- “A Escola do Cerco voltou à RTP - Jornal da Tarde (4 JAN) nos mesmíssi- trar. Apenas se exigia que não o fizesse. mos moldes em que por lá já havia an- As suas prestações no programa “Ex- dado. Voltaram a ser ouvidos alunos, presso da Meia-Noite”, na SIC- Notícias, pais e o representante dos pais veio são muitas vezes uma enorme confusão mesmo em repetição... E voltou-se a não Francisco Amaral entre quem troca impressões com os convi- franciscoamaral@gmail.com fazer jornalismo, mas antes grave mis- dados e a postura de jornalista/moderador. tificação. Com estes apontamentos apenas pre- Da mesma maneira que Daniel SIC-NOTÍCIAS – OITO ANOS tendo dizer algo muito simples: Ricardo Sampaio se referiu ao tema na Pú- Costa pode ser um excelente jornalista blica - Escola: mais do mesmo, tam- A SIC-Notícias completou 8 anos. (e é), mas não é jornalista para ecrã. In- bém em relação ao tratamento da Não é apenas mais uma data. É um mo- RTP1 é isso – “mais do mesmo”. O mento importante para lembrar que o Francisco Pinto Balsemão que é profundamente lamentável da primeiro canal de notícias da televisão parte de um serviço público de tele- portuguesa se tem conseguido manter visão. Daniel Sampaio seria justa- num plano muito consistente. Desde sem- referência no panorama nacional. Para- mente um dos especialistas que a RTP pre líder na televisão por cabo, este é béns ao eterno empresário de Comuni- deveria ouvir com toda a atenção cação Social que é Pin- sobre este assunto, que deveria ter to Balsemão, mas tam- merecido um tratamento tecnicamen- bém ao seu actual di- te rigoroso por parte da RTP.” Fran- rector, António José cisco Rui Cádima – IrrealTV, 5-1-09 Teixeira, jornalista de grande ponderação que Ricardo Costa Fernando Sobral, Serviço público vs. foi deixado cair da TSF audiências (CM, 2/1): “O serviço público aquando da sua “refor- felizmente parece ter uma enorme atrac- precisa de um trabalho sério de reanáli- mulação” em 2003, mas ção pela pequena janela e faz mal. se. Mas ninguém está interessado nisso. também ex-director do (...) E por isso a RTP navega à bolina.” Diário de Notícias, e SERVIÇO PÚBLICO “ex” precisamente por- CONTINUA Situações a serem urgentemente consi- que não terá estado ALVO DE CRÍTICAS deradas. Já nem digo discutidas, pois elas aberto à postura algo são por demais evidentes. O grande proble- um facto muito importante. Os canais de simpática para com o Aqui vos deixo algumas opiniões, pro- ma da RTP é não conseguir libertar-se do notícias, em quase todo o mundo, ape- poder, tal como o DN agora parece estar. venientes de diversos quadrantes, que, peso de quem está por trás. E, claro, não é nas conseguem a liderança das audiên- mais uma vez, colocam em causa o Ser- de agora. Enquanto forem os governos a RICARDO viço Público de Televisão: nomear as Administrações e, por sua vez, COSTA estas a indicarem os directores de informa- “Gostaria que a RTP examinasse se- ção e de programas, dificilmente se sairá É, para mim, uma riamente o seu papel, a sua função cul- disto. grande incógnita o tural e a sua missão informativa, sacu- No entanto, não sejamos inocentes: não facto do jornalista Ri- dindo a dependência estreita do Gover- são estes factos que devem conduzir a idei- cardo Costa, agora no em que se colocou voluntariamente, as de privatização da RTP. Um serviço pú- com um enorme peso pensando na nobreza do serviço que po- blico de televisão é necessário e desejável. no grupo Impresa, se deria prestar ao país, produzindo pro- Há que corrigir o funcionamento destas, apa- ter tornado uma figu- gramas que não nos envergonhem e cul- rentemente, eternas e perigosas ligações ra omnipresente na tivando aquelas que poderiam ser as entre o poder político e o poder dentro da antena da SIC. Da suas mais relevantes qualidades, a inde- empresa pública. Como cidadãos e espec- SIC generalista e da pendência e a seriedade.” (António tadores não podemos aceitar que isto seja SIC-Notícias. Não Barreto, “Gostaria”, Público, 28/12/08). impossível. que coloque em dúvi- da o seu profissiona- lismo, as suas quali- dades, mas sim a sua Faça postura em antena. Ricardo Costa uma quase nunca está bem em antena. Par assinatura além de dizer “treu- ze” (imperdoável do para um director), a sua atitude é normal- mente quase displi- “Centro” cente (não o é verda- deiramente, mas pas- e ganhe sa por isso). Com fre- quência deixa no ar valiosa algumas “piadolas” António José Teixeira que não fazem senti- obra cias nos momentos de crise, para depois do em programas de informação e muito regressarem a uma posição secundária. A SIC-Notícias conseguiu, desde o iní- menos ditas por alguém com as suas res- ponsabilidades. de arte Esta é a reprodução da valiosa obra original cio, uma dinâmica própria que a carac- Na última grande entrevista ao primei- de Zé Penicheiro, alusiva aos 6 distritos da Região terizou de imediato. ro-ministro José Sócrates, desta vez em APENAS Centro (Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Um pouco como a TSF dos seus bons dupla com José Gomes Ferreira, teve 20 euros POR ANO Leiria e Viseu) que receberá, gratuitamente, tempos, a SIC-Notícias passou a ser uma momentos em que se esforçou por mos- - LEIA NA PÁG. 3 quando fizer a assinatura do jornal CENTRO