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Manual de
   Sobrevivência na Selva




Manual de Sobrevivência na Selva.sxw   Página 1 de 26
Índice:

Conservação da Saúde e Primeiros Socorros .............................................................. Pag.:03
Áreas de Selva ............................................................................................................. Pag.:04
Animais Peçonhentos e Venenosos ............................................................................. Pag.:06
Deslocamento na Selva ................................................................................................ Pag.:08
Proteção na Selva ........................................................................................................ Pag.:09
Trato com Indígenas ..................................................................................................... Pag.:1 2
Doenças Tropicais......................................................................................................... Pag.:17




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Conservação da Saúde e Primeiros Socorros
Generalidades
a. A capacidade de sobrevivência residirá basicamente numa atitude mental adequada para
enfrentar situações de emergência e na posse de estabilidade emocional, a despeito de
sofrimentos físicos decorrentes da fadiga, da fome, da sede e de ferimentos, por vezes,
graves.
b. Se o indivíduo ou o grupo de indivíduos não estiver preparado psicologicamente para
vencer todos os obstáculos e aceitar os piores reveses, as possibilidades de sobreviver
estarão sensivelmente reduzidas.
c. Em casos de operações militares, essa preparação avultará então de valor. Daí porque o
conhecimento das técnicas e dos processos de sobrevivência constituirá um requisito
essencial na formação do indivíduo destinado a viver na selva, quer em operações militares,
quer por outra circunstância qualquer.
d. Conservar a saúde em bom estado será requisito de especial importância, quando alguém
se encontrar em situação de só poder contar consigo mesmo para salvar-se ou para auxiliar
um companheiro. Da saúde dependerão, fundamentalmente, as condições físicas
individuais.
e. Na selva, saber defender-se contra o calor e o frio, saber encontrar água e alimento, saber
prestar os primeiros socorros, em proveito próprio ou alheio, serão tarefas de grande
importância para a preservação da saúde.




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Áreas de Selva

Considerações Gerais, Localização

                                                             As áreas geográficas com
                                                      características de selva situam-se, em
                                                      sua quase totalidade, na zona
                                                      tropical,limitada pelos paralelos de
                                                      CÂNCER e de CAPRICÓRNIO. ssim
                                                      é que, no continente americano,
                                                      encontram-se a Selva AMAZÔNICA ,
                                                      a mais vasta do mundo, abrangendo
                                                      porções territoriais do BRASIL,
                                                      GUIANA FRANCESA, SURINAME,
                                                      GUIANA, VENEZUELA, COLÔMBIA,

PERU, EQUADOR e BOLÍVIA, e a Selva da AMÉRICA CENTRAL. Na ÁFRICA, encontram-
se as grandes florestas das bacias dos Rios NÍGER, CONGO e ZAMBEZE, a da costa
oriental e a da ilha MADAGÁSCAR. Na ÁSIA, as florestas do sul da ÍNDIA e do sudeste do
continente. Na OCEANIA, as ilhas em geral são cobertas por vegetação com características
de selva.
Selvas Tropicais
a. Não há tipo de selva que se possa chamar de padrão comum. A sua vegetação depende
do clima e, até certo ponto, da influência exercida pelo homem através dos séculos.
b. As árvores tropicais levam mais de 100 anos para atingir a sua maturidade e somente nas
florestas primitivas, virgens, não tocadas pelo homem, encontram-se em completo
crescimento.
c. Essa selva primitiva, por sua abundância de árvores gigantescas, torna-se facilmente
identificável. Apresenta uma cobertura densa, formada pelas copas de árvores que, por
vezes, atingem mais de 30 metros de altura, e sob as quais há
muito pouca luz e uma vegetação suja, o que não impede a progressão através da mesma.
d. A vegetação, nas florestas primitivas, tem sido destruída para permitir o cultivo em
algumas áreas. Estas áreas, mais tarde, deixando de ser cultivadas, propiciam o
crescimento de uma vegetação densa, cheia de enredadeiras, constituindo a selva
secundária, muito mais difícil de atravessar do que a selva primitiva.
e. Em qualquer desses tipos de selva, são encontradas plantas e frutas nativas diversas,
pássaros, animais e abundante variedade de insetos.




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Áreas de Selva no Brasil
a. No BRASIL, encontram-se áreas cobertas com vegetação característica das grandes
florestas. A principal e a maior do mundo é a Floresta AMAZÔNICA ou Selva AMAZÔNICA,
como já é conhecida internacionalmente. As outras, bastante limitadas, quer pelas extensões
que ocupam, quer pelas condições de povoamento e conseqüente existência de núcleos
populacionais e de estradas, quer ainda pelas diferentes condições climáticas, topográficas e
de vegetação, são encontradas formando os conjuntos florestais que se desenvolvem a
sudoeste do Estado do PARANÁ, a noroeste do Estado de SANTA CATARINA e próximo ao
litoral, sendo conhecida por MATA ATLÂNTICA.
b. Outras áreas de florestas existem, embora possam ser consideradas pequeninas
manchas se comparadas com as mencionadas; entretanto, dentro da finalidade a que se
propõe este manual, não serão consideradas, porquanto não justificam apreciações
especiais relacionadas quer com sobrevivência, quer com operações militares na selva.
c. As próprias áreas florestais PARANÁ - SANTA CATARINA e a MATA ATLÂNTICA não
serão apreciadas em particular, uma vez que aquilo que for dito para a Selva AMAZÔNICA
terá aplicação, feitos os ajustamentos relativos, para essas áreas. Entretanto, sobreviver e
operar militarmente nelas será menos difícil do que na Selva AMAZÔNICA, não só porque as
condições de clima, de topografia e de vegetação são diferentes, como também pelo
progresso decorrente da ação do homem sobre a área.




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Animais peçonhentos e venenosos

Peçonha
Generalidades
      Na selva há inúmeros animais que poderão atuar como inimigo do homem, se este
não estiver capacitado a evitá-los ou a debelar os malefícios que poderão decorrer da sua
peçonha ou do seu veneno.
a. Animal Peçonhento - É aquele que segrega substâncias tóxicas com o fim especial de
serem utilizadas como arma de caça ou de defesa. Apresentam órgãos especiais para a sua
inoculação. Portanto, para que haja uma vítima de peçonhamento, é necessário que a
peçonha seja introduzida por este órgão especializado, dentro do organismo da vítima.
b. Animal Venenoso - É aquele que, para produzir efeitos prejudiciais ou letais, exige contato
físico externo com o homem ou que seja por este digerido. Como exemplos de animais
venenosos existem o sapo-cururu (Fig 3-1), os sapi-nhos venenosos (Fig 3-21) e o peixe
baiacu.
Função da peçonha
      Possui uma dupla ação: paralisante e digestiva. Em virtude da reduzida mobilidade
das serpentes, elas necessitam de um meio para deter os movimentos da sua vítima, de
modo a poder ingeri-la. Daí a função paralisante da peçonha. A digestão nos ofídios, como
nos demais animais, faz-se por decomposição dos alimentos que é facilitada pela inoculação
da peçonha, anterior à ingestão da vítima.




                                        Sapo cururu.




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Ação patogênica da peçonha
       Vários fatores interferem na ação patogênica da peçonha. Será de acordo com estes
fatores que haverá maior ou menor gravidade para uma vítima de empeçonhamento.
a. Local da Picada
       No caso dos gêneros "Crotalus" (cascavel) e "Micrurus" (coral), cujas peçonhas têm
ação neurotóxica, quanto mais próxima dos centros nervosos a picada, maior a gravidade
para a vítima. E, também, no caso da picada de qualquer ofídio peçonhento, se a região
atingida for muito vascularizada maior será a velocidade de absorção e os efeitos serão mais
precoces.
b. Agressividade
      A surucucu-pico-de-jaca e a urutu, além do grande porte e, conseqüentemente,
glândula da peçonha também avantajada, são as mais agressivas, trazendo maior perigo
para a vítima.
c. Quantidade Inoculada
      Estará na dependência do período entre uma picada e outra, bem como da primeira e
das subseqüentes picadas, quando realizadas no mesmo momento. As glândulas da
peçonha levam 15 dias para se completarem.
d. Toxidez da Peçonha
A peçonha crotálica é mais tóxica do que a botrópica e ambas, menos que a elapídica.
e. Receptividade do Animal Picado
       A receptividade à peçonha ofídica depende do animal haver sido picado
anteriormente, desenvolvendo imunidade, ou não. Estudos recentes comprovaram que o
gambá não é exceção à regra, existindo dúvidas com relação ao urubu. Contudo os animais
que foram tratados com soro antiofídico ao receberem nova dosagem possuem maior
probabilidade de apresentar uma reação anafilática, que pode levar ao choque, pois o
organismo conta com uma memória imunológica contra a proteína eqüina contida no
medicamento.
f. Peso do Animal Picado
      A gravidade do caso será proporcional a uma maior ou menor diluição da peçonha no
sangue. Quanto maior o animal, mais diluída estará a peçonha e menos grave será a sua
ação.




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Deslocamentos na Selva

Introdução
Generalidades
       O indivíduo ou grupo de indivíduos, tomando parte ou não em operações militares, ao
ver-se isolado na selva e tendo necessidade de sobreviver, tenderá naturalmente a
movimentar-se em uma direção qualquer, em busca de salvação. Será normal esta
precipitação, mas totalmente errada, pois muitos já perderam a vida por se terem deixado
dominar pela ânsia de salvar-se, andando a esmo e entrando, fatalmente, em pânico.
Regra Geral
a. Será aconselhável, em tal emergência, que sejam observadas rigorosamente as seguintes
regras, mnemonicamente expressas pela palavra E-S-A-O-N:
- E: - ESTACIONE - fique parado, não ande à toa.
- S: - SENTE-SE - para descansar e pensar.
- A: - ALIMENTE-SE - saciando a fome e a sede, qualquer um terá melhores condições para
raciocinar.
- O: - ORIENTE-SE - procure saber onde está, de onde veio, por onde veio ou para onde
quer ir, utilizando-se do processo que melhor se aplique à situação.
- N: - NAVEGUE - agora sim, desloque-se na direção selecionada.
b. O "estacionar" e "sentar-se" independerão de maiores conhecimentos; o "alimentar-se"
exigirá, na falta de víveres e água, a aplicação de recursos de emergência para obtê-los da
própria selva, o que será apresentado em capítulo mais adiante. Quanto ao "orientar-se" e
"navegar", serão a seguir abordados os seus diferentes processos, bem como noções sobre
sinalização terra-ar e de transposição de obstáculos.
Orientação
Generalidades
        A densidade da vegetação torna a selva "toda igual"; nela não haverá pontos de
referência nítidos. Mesmo aqueles que já possuem alguma experiência não confiam muito
em possíveis referências, porque tudo se confunde devido à repetição contínua e monótona
da floresta fechada; os incontáveis obstáculos constantemente causarão desequilíbrio e
quedas, tornando difícil a visada permanente sobre determinado ponto; a necessidade de
saber onde pisar ou colocar as mãos desviará, por certo, a direção do raio visual; e,
finalmente, a própria densidade da vegetação só permitirá que se veja entre a distância de
10 a 30 metros à frente, quando muito. À noite nada se vê, nem a própria mão a um palmo
dos olhos. O luar, quando houver, poderá atenuar um pouco essa escuridão, sem contudo
entusiasmar o deslocamento noturno. O copado fechado das árvores não permitirá que se
observe o sol ou o céu, a não ser que se esteja em uma clareira, o que, ainda assim, não
significará que se possa efetivamente observá-los, de dia ou de noite, para efeito de
orientação, pois haverá constantemente a possibilidade do céu nublado. Por tudo isso, os
processos de orientação na selva sofrerão severas restrições e, por já constarem de outros
manuais, serão aqui apresentados de modo muito geral. Serão, também, feitas referências
ao hemisfério norte tendo em vista que parte da Selva AMAZÔNICA pertence àquela parte
do globo terrestre.

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Proteção na Selva

Abrigos
Generalidades
       Um homem na selva, em regime de sobrevivência, necessita de algum conforto, de
condições psicológicas as mais favoráveis possíveis e de proteção contra o meio adverso.
Ele necessita de um abrigo eficiente, limpo e de bom aspecto. As operações na selva podem
ser sinteticamente conceituadas como sendo o emprego da inteligência, do vigor físico e da
adaptabilidade do combatente à selva. O combate, então, mais que qualquer outro, exige
homens com ótimas condições físicas e psicológicas, de sorte a poderem suportar, com o
mínimo desgaste, as influências mesológicas e, assim, apresentar um rendimento máximo
nas ações. Um dos meios de conseguir isto é construir um bom abrigo, sempre que possível.
Definição
       Abrigos são construções preparadas pelo combatente, com os meios que a selva e o
próprio equipamento lhe oferecem, para a proteção contra as intempéries e os animais
selvagens.

  Alimentação na Selva

Generalidades
       Como sobreviver significa RESISTIR, ESCAPAR, a sobrevivência em plena selva
estará em íntima ligação com o tempo em que nela se permanecer. Para tanto o homem
deverá estar altamente capacitado para dosar suas energias e lançar mão de todos os meios
ao seu alcance, a fim de não pôr em risco a sua vida. Esta capacidade envolve
conhecimentos especializados, invulgares ao homem comum, onde o uso da imaginação, o
empenho, o bom senso e o moral elevado, além do intrínseco instinto de conservação, são
fatores preponderantes. Quem pensar que é tarefa fácil sobreviver em plena selva, à custa
exclusiva dos recursos naturais, equivoca-se. Pequenos grupos, quando devidamente
preparados, poderão, entretanto, fazê-lo. Boa comida e água são encontradas, desde que o
homem esteja apto a saber onde, como e quando procurá-las. Assim, em qualquer situação,
deverá considerar como condições primordiais para uma sobrevivência as necessidades de:
ÁGUA - FOGO – ALIMENTOS.




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Água

Necessidade
a. Apesar do enorme caudal hidrográfico representado pela abundância de cursos de água e
do alto índice pluviométrico da AMAZÔNIA, haverá situações em que não será fácil a
obtenção de água. Sendo a primeira das necessidades para a sobrevivência do homem,
abastecer-se dela deve constituir uma preocupação constante.
b. O ser humano pode resistir vários dias sem alimento, estando, entretanto, com menores
possibilidades de sobreviver se lhe falta a água. Esta resistência estará condicionada à
capacidade orgânica e às condições físicas do indivíduo, as quais, na selva, estarão,
contudo, sempre aquém das possibilidades normais deste mesmo indivíduo. É o tributo
cobrado pela própria selva.
c. Na selva equatorial, o que mais ressalta de importância e a necessidade constante da
água, por sofrer o organismo sudação excessiva com eliminação de sais minerais, que,
quando demasiada e constante, poderá acarretar a exaustão. Torna-se vital a manutenção
do equilíbrio hídrico do organismo.
d. De modo algum deverá o sobrevivente lançar mão de outros líquidos, como álcool,
gasolina, urina, à falta absoluta da água. Tal procedimento, além de trazer conseqüências
funestas, diminuirá as possibilidades de sobreviver, revelando indícios da proximidade do
pânico que, quando não dominado, será fatal. Portanto, saber onde há água e estar sempre
abastecido dela é importantíssimo e fundamental.

                                            Fogo

Necessidade
Se bem que não alcance a importância representada pela água, o fogo também é uma
necessidade, para que seja possível prolongar a sobrevivência. Será mais um valioso
recurso para aumentar e melhorar as condições de vida na selva, pois através dele se
conseguirá:
–   purificar a água;
    - cozinhar;
    - secar a roupa;
    - aquecer o corpo;
    - sinalizar;
    - iluminar e fazer uma segurança noturna.




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Alimentos de Origem Vegetal

Introdução
       Cada região possui recursos naturais e os regionais utilizam formas e processos
peculiares para procurá-los e prepará-los. O habitante local, o nativo, será sempre uma fonte
de referência útil. Caso não possa ele próprio fornecer algum recurso alimentar, poderá
informar quanto às possibilidades da região, nesse particular.
Regras Gerais
a. Existem mais de 300 mil espécies vegetais catalogadas no mundo, sendo a maioria delas
comestíveis e pouquíssimas as que matam quando ingeridas em pequenas quantidades.
Não há uma forma absoluta para identificar as venenosas. Seguindo-se a regra abaixo,
poder-se-á utilizar qualquer vegetal, fruto ou tubérculo, sem perigo de intoxicação ou mesmo
envenenamento, NÃO DEVEM SER CONSUMIDOS os vegetais que forem cabeludos e
tenham sabor amargo e seiva leitosa
b. Qualquer fruto comido pelos animais poderá também ser consumido pelo homem.
c. Se uma planta não for identificada, outra regra básica é utilizar exclusivamente os brotos,
de preferência os subterrâneos, pois serão mais tenros e saborosos.
d. Nas regiões onde houver igarapés, seguindo seus cursos, obter-se-ão alimentos vegetais
com maior facilidade.
e. Não há na área amazônica palmitos tóxicos; todos podem ser consumidos: buriti, bacaba,
açaí, patauá. Apresentam-se sempre como prolongamento central do tronco, sendo o seu
tamanho proporcional à idade da palmácea.
f. Os alimentos de origem vegetal estarão sempre na dependência da época do ano e da
distribuição geográfica.
g. Para eliminar a toxidez de alguns vegetais basta fervê-los durante cinco minutos,
realizando a troca de água por duas ou três vezes nesse período. Após isto o vegetal poderá
ser consumido. São exceções a esta regra os cogumelos.
h. Se o sobrevivente consumir exclusivamente vegetais deverá fazê-lo de forma moderada
até que seu organismo se acostume à nova dieta.




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Trato com Indígenas
Introdução
       O sobrevivente ou grupo de sobreviventes na selva não estará livre de um encontro
com indígenas que vivem na Região AMAZÔNICA. Este contato, via de regra, representará a
salvação, desde que se esteja familiarizado com os seus hábitos ou se tenha conhecimento
de certas regras de conduta a serem observadas durante o tratamento recíproco a manter.
Algumas Características dos Silvícolas
a. Os indígenas da Amazônia, em sua maioria, já mantiveram contato com o dito "homem
branco", o que os fizeram assimilar costumes da civilização e aproximar-se das vilas e
cidades. Muitos índios vêm, inclusive, prestando o Serviço Militar, o que se pode observar
nos Pelotões de Fronteira situados nas reservas indígenas ou próximos destas.
b. A estrutura familiar é muito considerada pelos índios. No trabalho, pode-se observar o
seguinte:
- Ao homem cabe combater, caçar, pescar, manufaturar instrumentos de madeira e preparar
o terreno para a roça.
- À mulher cabe o suprimento d'água, os encargos da mãe (normalmente até que os filhos
completem sete anos), o transporte de fardos, o preparo dos alimentos, a manufatura de
utensílios de cerâmica, a tecelagem, os trabalhos na roça e a colheita.
- Os homens tomam banho separados das mulheres.
- O namoro é respeitoso (só há beijos na testa).
- Há casamentos endogâmicos (dentro da aldeia) e exogâmicos (fora da aldeia).
Casamentos de viúvo(a) com cunhada(o) são freqüentes.
- Entre os ianomâmis, o infanticídio é consentido pela mãe, quando esta não possui
condições para criar o filho. É comum o uso de ervas abortivas entre as mulheres
ianomâmis.
- Aos doze anos a criança é considerada adulta.
c. Em termos de habitação, o que mais se observa:
- geralmente os índios vivem em malocas construídas à base de barro, madeira e palha;
- as condições de higiene são precárias;
- essas malocas normalmente englobam várias famílias;
- como curiosidade: os ianomâmis vivem em malocas de até trezentos índios, denominadas
"XABONÔ".
d. O índio, para subsistir, dedica-se à agricultura, à caça, à pesca, à coleta (frutas, raízes,
ovos etc..) e ao escambo (troca, por exemplo, de artesanato por comida e objetos gerais do
dito homem branco - especialmente roupas e aparelhos eletrônicos).




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e. O idioma português é conhecido pela maioria das tribos, como decorrência da televisão,
da ação dos missionários e da própria miscigenação. Algumas famílias possuem escolas
com professores bilíngües que praticam o ensino inclusive com cartilhas da língua nativa. Já
há famílias, como as das tribos macuxi e wapixaras, que possuem até mesmo título de
eleitor.
f. Os ianomâmis, por sua vez, contrariamente a outras tribos que já aceitaram a aculturação,
apresentam um considerável grau de subdesenvolvimento. Eles ignoram os trabalhos em
metais e as técnicas modernas de obtenção de fogo. Outros, como os piranãs, têm
péssimos hábitos de higiene: costumam comer piolhos e micuins.
g. Numa tribo, a figura mais destacada é o tuxaua, responsável pela solução de todas as
pendências. O índio, individualmente, não assume os problemas. A iniciativa para a
resolução destes é do tuxaua.
h. O processo sucessório, na maioria das tribos, é hereditário. Em algumas comunidades
mais avançadas, há um processo de eleição entre os chefes das famílias.
i. Outra figura importante é o pajé, o responsável pela assistência médico-espiritual da tribo.
j. Os principais conflitos existentes entre os índios geralmente envolvem questões de terra e
mulher. Normalmente, as desavenças intertribais são facilmente esquecidas.
  l. É preciso perspicácia e, se possível, contar com assessoramento de um elemento da
  FUNAI ou de um habitante da região, para identificar-se os indícios de que uma tribo está
  se preparando para a guerra, os quais costumam variar muito. Alguns deles: pintura do
  corpo com tinta de urucu (vermelha) e tinta de jenipapo (preta); aproximação de pequenos
  grupos em ações de reconhecimento; ficar arredios; entre outros.




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Caracterização da área
       Fisicamente a Amazônia, ou Região Norte, se caracteriza por extensa depressão de
terras equatoriais formando vasta planície, situada entre o Maciço das Guianas de um lado e
os primeiros degraus do Planalto Central do outro, tendo, a oeste a Cordilheira dos Andes.
       É dividida pelo equador terrestre, que deixa a menor e mais acidentada parte ao
norte, dotando o conjunto de um clima quente-úmido bem regular, com pequena diferença
entre os meses mais quentes e os mais frescos.

                                                          Amazonas, eixo principal da
                                                  Bacia, é o maior rio do mundo, vindo
                                                  depois o Mississipi-Missouri e Nilo; é,
                                                  pois, duas vezes maior que o rio situado
                                                  na América do Norte e duas vezes e
                                                  meia que o africano. Percorrendo 7.025
                                                  Km, desde o Pico Huagro até o
                                                  Atlântico, surge no Peru a partir das
                                                  águas formadas pelo degelo andino;
                                                  encontra-se então a 4.000 metros de
                                                  altitude e, segundo o Instituto
                                                  Amazônico da UNESCO, dista apenas
                                                  120 Km do Pacífico.



      Constitui-se, assim, num quase canal natural bioceânico que, ao entrar no Brasil pela
cidade de Tabatinga já corre numa planície a 82 metros do nível do mar, faltando 3.200 Km
para atingir o Atlântico; até Iquitos no Peru é permanentemente navegável em 3580 Km.
      Recebe mais de 500 afluentes, representando uma via permanente de navegação
com cerca de 19.000 Km, número que se poderá multiplicar várias vezes levando-se em
conta a existência de furos e igarapés, pequenos cursos d'água que, durante as enchentes,
unem entre si os lagos e rios, bem como os paranás, pequenos braços de rios que
contornam ilhas.
      O Amazonas apresenta profundidades que variam dos 20 aos 130 metros e largura
que vai dos 96 Km, na embocadura do Rio Negro, até 1,5 Km no Estreito de Óbidos.
        O volume normal de águas é avaliado em 80.000 m3, dando-lhe a classificação de
primeiro do mundo em caudal, correspondendo sua vazão a de todos os rios do planeta.
Com calha quase paralela ao equador terrestre, recebe afluentes dos dois hemisférios da
Terra, onde as estações se alternam. Daí se envolver com o fenômeno da interferência, que
nada mais é do que a compensação anual que se estabelece entre as enchentes dos
tributários que vêm do Hemisfério Norte e os do Sul. Em contrapartida esses afluentes vêm
de regiões mais altas - Planaltos das Guianas ou Central, formando cachoeiras, até se
conformar à planície; donde seu potencial hidrelétrico ser estimado pelo IBGE conforme o
quadro que se segue:




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Potencial (Energia Firme
Bacias
                                                                em MW/Ano)
Afluentes (Margem Esquerda) ao norte do Amazonas                                     7.770
Afluentes (Margem Direita) ao sul do Amazonas                                      28.393
Amazônia (Total)                                                                   36.163
Rio Xingu                                                                          10.454
Rio Tapajós                                                                          9.610
Rio Madeira                                                                          8.170
Rio Tocantins                                                                      12.660
Recebendo águas dos Andes, dos afluentes e das correntes aéreas úmidas, a rede fluvial
amazônica se enquadra em todas as características para se transformar no caminho natural
de mais alto valor econômico e social.
       A associação climática, topográfica e hidrográfica dota a área de vasto manto florestal
que, além de não envolver todo o complexo amazônico, na descontinuidade se alterna com
matas ciliares, campinas nas várzeas e campos nativos. A floresta cobre 70% da região, isto
é 280 bilhões de hectares, perfazendo 75% das reservas brasileiras e 30% da mundial; nas
encostas das cordilheiras e planaltos se encontram florestas de transição mistas,
representadas por coqueirais, cerrados e savanas. Estimando-se, para o conjunto, a reserva
madeireira em 50 bilhões de m3, com apenas 15 bilhões de m3 comerciáveis, nessa região
onde todas as eras geológicas são representadas em quase todos os seus estágios, embora
na várzea predomine o cenozóico no período mais moderno. Com variedade vegetal em
torno de 200 espécies diferentes de árvores por hectare, 1.400 tipos de peixes, 1.300 tipos
de pássaros e 300 tipos de mamíferos; a composição da biodiversidade, a abundância e
regularidade das chuvas, a elevada umidade relativa do ar e temperatura média uniforme
contribuem para que o ecossistema amazônico seja auto-suficiente e detentor de cerca de
30% do estoque genético do Mundo, constituindo-se, potencialmente, na maior fonte natural
mundial de produtos farmacêuticos, bioquímicos e agronômicos.
       Eis, pois, um resumo desta maior bacia sedimentar do mundo, com a multiplicidade
de fenômenos se refletindo na variedade dos pontos de interesse, despertando paixões
falaciosas com foros aparentemente científicos, com projeção nos apetites internacionais.
Cabendo bem a profecia na frase do discurso que Getúlio Vargas proferiu em Manaus a 10
de Outubro de 1941, afirmando que a Amazônia estava prestes a "encerrar um capítulo na
História da Terra e iniciar um capítulo na História da Civilização". Amazônia, cuja utilização
de recursos se constitui num autêntico desafio, quer por suas condições peculiares, quer
pela heterogeneidade de seus ecossistemas - múltiplos, únicos e diferenciados.




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Therezinha de Castro
      Retirado de Amazônia - Geopolítica do Confronto e Geoestratégia da Integração,
editado pela Fundação Educacional Unificada Campograndense, Faculdade de Filosofia de
Campo Grande
Hidrografia

                                                     O país possui 55.457 km² de águas
                                             internas e uma rede hidrográfica numerosa.
                                             A maioria dos seus rios é perene, ou seja,
                                             não se extingue na estação seca. A única
                                             exceção é no sertão nordestino, onde
                                             existem rios temporários.As bacias
                                             brasileiras podem ser divididas em dois
                                             tipos: planálticas, que permitem
                                             aproveitamento hidrelétrico, e de planície,
                                             de correnteza fraca, utilizadas para
                                             navegação. As principais bacias são a
                                             Amazônica, do Prata, São Francisco e
                                             Tocantins.




       A Bacia Amazônica tem a mais vasta superfície drenada do mundo. É o maior
potencial hidrelétrico total do país, apesar da baixa declividade do seu terreno, que
proporciona 23 mil km de rios navegáveis. Só o seu rio principal, o Amazonas, tem cerca de
7 mil afluentes, sendo os principais o Negro, Trombetas e Jari (margem esquerda); Madeira,
Xingu e Tapajós (direita). O Amazonas é o rio de maior vazão de água (100.000 m³/s) e
também o maior em extensão do planeta, com seus 6.868 km de comprimento.
      Obs: informações e mapas extraídos do Almanaque Abril/98, versão CD-ROM.




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Doenças tropicais

                                      Febre Amarela
                               Mário Rosas Filho-Cap Med
                       Infectologista do Hospital Geral de Manaus
        É uma doença infecciosa aguda , causada por um vírus RNA, arbovírus do grupo B,
ou seja vírus transmitidos por artrópodes (Arthropod Borne Viruses) do gênero Flavivírus,
família Togaviridae, podendo apresentar ciclo urbano ou silvestre, com transmissão através
de vetores alados. É basicamente uma antropozoonose, isto é, uma doença de animais
silvestres, acometendo o homem acidentalmente, principalmente quando participa de
atividades militares em área de selva, extrativismo vegetal, caça ou desmatamento. Ocorre
no norte do Brasil, abrangendo toda a Amazônia, acometendo cerca de quinhentas
pessoas/ano.
       Diferencia-se em dois padrões epidemiológicos: o urbano e o silvestre. O primeiro
deve-se a ação de um mosquito de hábitos urbanos, o Aedes aegypti, que transmite a
doença de pessoas doentes à uma população sensível, e que apesar de não ocorrerem
casos há mais de cinquenta anos, volta a causar temor pela possibilidade de sua
reemergência, devido intensa proliferação do Aedes aegypti nos grandes centros urbanos do
Brasil no momento atual. O ciclo silvestre, por sua vez, é mantido pelas fêmeas de
mosquitos antropofílicos (especialmente do gênero Haemagogos), as quais necessitam de
sangue para amadurecer seus ovos; têm atividade diurna na copa das árvores, ocorrendo a
infecção acidental do homem ao invadir o ecossistema viral.
       Após um período de incubação médio de três a seis dias surgem os primeiros
sintomas: febre alta, cefaléia, congestão conjuntival, dores musculares e calafrios. Algumas
horas depois podem ocorrer manifestações digestivas, tais como, náuseas, vômitos e
diarréia, correspondendo à fase em que o vírus está circulando no sangue (Período de
Infecção), evoluindo em dois a três dias à cura espontânea (Período de Remissão). Formas
graves da Febre Amarela, podem surgir um ou dois dias, após a cura aparente, observando-
se aumento da febre e dos vômitos, prostração e icterícia (Período de Intoxicação).Em
seguida surgem outros sintomas de gravidade da doença, tais como, hematêmese (vômito
negro), melena (fezes enegrecidas), petéquias (pontos vermelhos) e equimoses (manchas
roxas) em várias regiões da superficie corporal, desidratação, agitação, delírio, parada renal,
torpor, coma e morte (em cerca de 50% dos casos).
       O diagnóstico é essencialmente clínico, sendo que nas formas graves, somente é
obtido post-mortem, através de provas laboratoriais para isolamento do vírus e exame
anátomo-patológico.
       Não existe tratamento específico para o vírus da Febre Amarela. O tratamento
consiste no uso de medicação sintomática, evitando-se os salicilatos (Ácido Acetil Salicílico e
derivados), em função do risco de hemorragias, utilizando-se preferencialmente o
Paracetamol. Pacientes com formas graves da doença necessitam de cuidados de Terapia
Intensiva.




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Na prevenção da Febre Amarela fundamental é a aplicação da vacina Anti-Amarílica,
na dose de 0,5 ml por via subcutânea, com aplicação de reforço a cada dez anos. Não se
recomenda a aplicação em gestantes e portadores de imunodeficiência (inclusive pelo Vírus
da Imunodeficiência Humana). Deve-se ter especial cuidado na conservação (manter sob
refrigeração) e utilizar no máximo por duas horas após abrir o frasco, pois a partir daí há
uma perda de 50% do poder imunogênico da vacina.



                                          Malária
                               Mário Rosas Filho- Cap Med
                        Infectologista - Hospital Geral de Manaus
        É uma doença infecciosa, febril, não contagiosa, sub-aguda, aguda e algumas vezes
crônica, causada por protozoários do gênero Plasmodium, principalmente as espécies vivax
e falciparum, transmitida através da picada das fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles.
Distribui-se por toda a Amazônia, onde tem grande importância, por infectar anualmente um
contingente expressivo de sua população e determinar frequentemente o aparecimento de
formas graves, inclusive com elevada mortalidade.
       Os aspectos eco-epidemiológicos da Amazônia: calor e umidade excessivos e a
grande extensão de seus rios, contribuem para o proliferação dos anofelinos, dificultando o
controle da doença.
       A forma infectante dos plasmódios é o esporozoíta, encontrado nas glândulas
salivares de fêmeas do anopheles infectadas, que inoculada na pele do ser humano,
permanece cerca de uma hora na corrente sangüínea, localizando-se posteriormente nas
células do fígado (hepatócitos), onde sofre multiplicações formando os esquizontes
hepáticos, estes transformam-se em merozoítas, que rompem os hepatócitos e são liberados
na circulação sangüínea, onde invadem os eritrócitos, evoluindo para a forma de trofozoítas,
os quais após sofrerem divisão nuclear originam os esquizontes sangüíneos, ocorrendo em
seguida o rompimento das hemáceas, liberando merozoítas, alguns com capacidade para
parasitar novas hemáceas e reiniciar o ciclo vital do plasmódio, porém parte dos merozoítas
no interior das hemáceas diferencia-se em gametócitos (macho e fêmea), os quais sugados
pelos anofelinos promoverão o ciclo sexuado do plasmódio nos mosquitos, surgindo em uma
a duas semanas esporozoítas, aptos a infectar novos hospedeiros.
       O período de incubação pode variar de nove a quarenta dias, em média quinze dias
para vivax e doze dias para falciparum, sendo os sintomas mais graves nos indivíduos
primo-infectados.
       O quadro clínico caracteriza-se por: cefaléia, mialgias, prostração, perda do apetite,
mal-estar geral e calafrios seguidos de febre de início súbito, elevada ( acima de 40oC) e
intermitente, que ao cessar desencadeia sudorese profusa. Nas formas graves o paciente
apresenta também vômitos, diarréia, cianose de extremidades, pele fria e pegajosa. Pode
haver diminuição do volume urinário nas 24 horas evoluindo para Insuficiência Renal Aguda.
Complicação frequente nos casos graves é o Edema Pulmonar e a Síndrome de Angústia
Respiratória do Adulto, além de sangramentos digestivos, subcutâneos e de outras
localizações, que em geral levam à morte.



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O diagnóstico é clínico-epidemiológico e laboratorial, através da detecção de
plasmódios no sangue periférico (esfregaço ou gota espessa), além da utlização de métodos
imunoenzimáticos ou de radioimunoensaio nos casos de maior dificuldade diagnóstica.
      No tratamento utilizamos drogas antimaláricas como o uso de Cloroquina e
Primaquina para P. vivax e Quinino associado à antimicrobianos e mais recentemente
derivados da Artemisina, no tratamento de malária pelo P. falciparum. Os pacientes graves
necessitam de cuidados em Unidade de Terapia Intensiva.
       Medidas de proteção individual, como uso de repelentes nas áreas expostas do corpo
e a instalação de telas nas portas e janelas das habitações, são inviabilizadas pelas
condições climáticas regionais ( calor e umidade excessivos) e tipo de habitação do
amazônida( casas com paredes incompletas) .No momento não se dispõe de vacinas para
uso clínico.


                           Leishmaniose Tegumentar Americana
                                Mário Rosas Filho - Cap Med
                         Infectologista - Hospital Geral de Manaus
       É uma doença infecciosa, de evolução que tende a cronicidade, não contagiosa,
causada por diferentes espécies de protozoários do gênero Leishmania e transmitida por
insetos hematófagos genericamente designados flebótomos. Trata-se de uma zoonose, pois
tem como reservatórios animais silvestres ( tamanduá, paca, bicho-preguiça, gambá e
algumas espécies de roedores), os quais são picados pelos flebotomíneos e o homem
somente é infectado acidentalmente quando invade o ecossistema do protozoário, em
atividades de extrativismo animal, vegetal ou mineral; quando da implantação de projetos
agrícolas ou habitacionais em áreas recentemente desmatadas ou ainda militares ao
participarem de operações em área de selva.
       Na Região Amazônica é êndemica, com significativa incidência em todos os estados
da região. Atualmente encontram-se identificadas seis espécies do gênero Leishmania,
implicadas no aparecimento da Leishmaniose Tegumentar Americana ou Cutâneo-mucosa,
assim discriminadas: L. (Viannia) braziliensis; L. (Viannia) guyanensis; L. (Viannia) lainsoni;
L. (Viannia) shawi; L. (Viannia) naiffi e L. (Leishmania) amazonensis.
        É caracterizada pelo polimorfismo lesional, comprometendo a pele, comumente
manifestando-se como uma lesão ulcerada, única ou múltipla, medindo entre 3 a 12 cm de
diâmetro, com bordos elevados ,"em moldura de quadro", base granulosa e sangrante,
frequentemente associada à infecção bacteriana secundária. Dependendo da espécie de
Leishmania e de fatores imunogenéticos do hospedeiro podem ocorrer lesões mucosas e
cartilaginosas, que geralmente iniciam-se na mucosa nasal, surgindo coriza e sangramento
nasal, evoluindo para perfuraçào do septo nasal, destruição da fossa nasal, mucosa,
cartilagem e nos casos mais severos comprometendo assoalho da boca, língua, laringe,
traquéia e brônquios, com mutilações graves, podendo afetar as funções vitais levando ao
óbito.




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O diagnóstico é clínico, baseado nas características das lesões cutâneas,
principalmente da lesão ulcerada leishmaniótica e laboratorial através dos seguintes
exames: Raspado da borda da úlcera, isolamento do parasita em cultura, isolamento do
parasita em animais de laboratório ("hamster"), Intradermoreação de Montenegro,
imunofluorescência indireta e exame anátomo-patológico da lesão.
       No tratamento da Leishmaniose Cutâneo-Mucosa as drogas de primeira escolha
continuam sendo os antimoniais pentavalentes, ou seja, meglumina antimoniato e
stibogluconato de sódio. Em caso de insucesso com estas substâncias podemos utilizar
outras drogas, tais como, Anfotericina B e Pentamidina. Todas as drogas empregadas são
de administração injetável, com várias aplicações, dificultando a adesão dos pacientes. Pois
fatores imunogenéticos podem retardar consideravelmente a cicatrização das lesões.
     As condições eco-epidemiológicas da Amazônia não permitem a instituição de
medidas profiláticas adequadas. Não existe vacina disponível para uso clínico.
                          As Grandes Endemias da Amazônia
                              Médico José João Ferraroni
               Extrato do trabalho Política e Estratégia de Saúde para o
                             Desenvolvimeto da Amazônia.
     Protozooses

Malária
       A malária é a mais expressiva de todas as endemias amazônicas e, apesar de muitos
esforços do governo, o número de casos continua aumentando sensivelmente nos últimos
anos. Alguns fatores contribuem decisivamente para sua elevada incidência na região,
incluindo as condições climáticas, bacia hidrográfica acidentada, índice pluviométrico anual
elevado, ocorrendo constantes cheias dos rios formando imensos lagos artificiais, que
proporcionam a formação e manutenção de criadouros de mosquitos. A elevada temperatura
da região e o desconforto, faz com que os habitantes da área habitem em residências
praticamente sem paredes, facilitando a locomoção do vetor para dentro e fora das casas. A
malária tem sido considerada endêmica na Amazônia, especialmente nas últimas décadas.
O número de casos relatados pela SUCAM, tem declinado em algumas áreas e se elevado
em outras, dependendo, ao que parece, do estreito relacionamento com as sociedades
migratórias. Em todo o caso, a população nômade é a mais atingida.
        Dentre todos os anofelinos transmissores de malária (aproximadamente 200
espécies), o Anopheles darlingi destaca-se como a espécie mais importante. Por não exigir
boa qualidade de água para reprodução, esta espécie se desenvolve com incrível
capacidade nos lagos artificiais, formados pelas vazantes dos rios amazônicos, o que
justifica o aumento do número de infecção naquela época do ano.
       Como não foi dado enfoque suficiente à prevenção da doença para a população
migrante, o problema da malária agravou-se seriamente na Amazônia com os núcleos de
colonização implantados na última década.




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A introdução da malária humana, em novas áreas de desmatamento, principalmente
nas regiões tropicais, tende a seguir o desenvolvimento e está intimamente relacionado à
quebra do ecossistema (Hayes & Ferraroni, 1980). Com a implantação de núcleos de
colonização e construção de vias de acesso, como a criação de novas rodovias e estradas,
trazendo, ao mesmo tempo, indivíduos infectados e sadios para as áreas virgens ou
malarígenas (Ferraroni & Speer, 1980) a malária tende aumentar na região. Outro fator
importante é a mobilidade das populações, uma vez que o nativo da área endêmica
apresenta certo grau de resistência natural à infecção malária (Ferraroni & Hayes, 1979;
Hayes & Ferraroni, 1979). Este aspecto deve ser lembrado ante de qualquer plano de
colonização a ser implantado em áreas malarígenas. Exemplificando, a colonização da
Amazônia por indivíduos vindo do Sul do país, encontrará alguns problemas sérios e
certamente grande parte da população irá perecer com malária, a não ser que sérias
medidas profiláticas sejam aplicadas.
        Dentre as medidas para o controle da malária humana incluem-se o uso de
inseticidas, larvicidas, controle biológico, quimioprofilaxia, quimioterapia e principalmente
inseticidas residuais. Mesmo assim, estes métodos de controle não têm encontrado total
sucesso em determinadas áreas do globo, onde as condições climatogeográficas
apresentam características próprias, como nas regiões tropicais, onde as constantes chuvas
estão presentes durante toda época do ano, favorecendo substancialmente o
desenvolvimento de criadouros dos mosquitos transmissores do parasita.
       Ainda que o uso dos inseticidas tenha tido um grande efeito na erradicação da
malária, o futuro uso dos mesmos precisa ser melhor orientado em determinadas áreas,
onde começam a surgir resistência do vetor a determinados inseticidas, bem como os
problemas de poluição ambiental que causam. Uma vez que a ação residual do inseticida é
longa (motivo de sua eficácia), não se pode deixar de lado a idéia de que consequências
poderão advir, com o uso contínuo destas substâncias, especialmente o DDT, Dieldrin e
Malation, pois estes produtos afetam seriamente a balança ecológica. Por outro lado, é
importante que se defenda a utilização destes produtos, pois eles são as únicas armas de
que se dispõe, no momento, para lutar contra os vetores da malária, em certas áreas dos
trópicos como na região amazônica.
       O uso de produtos quimioterápicos e quimioprofiláticos no combate à malária
representa o único método eficaz na eliminação do parasita. Portanto, é um modelo que não
se pode desprezar, mas, ao contrário, procurar desenvolver método de aplicação dos
mesmos de uma maneira controlada para que possam produzir resultados, quando
aplicados em áreas de alta endemicidade. Sabe-se que os plasmódios e em especial o
Plasmodium falciparum, que é o mais letal, está desenvolvendo resistência às drogas
clássicas antimaláricas, num espaço de tempo muito curto. Os primeiros casos de
resistência foram detectados logo no início do uso de medicamentos contra os plasmódios,
como o que ocorreu com o uso de pirimetamina na década de 50 e cloroquina na década de
60 (Mabert, 1960); (Moore & Lanier, 1961). Atualmente existem cepas de P. Falciparum
resistentes praticamente a todas as drogas empregadas na Amazônia (Ferraroni & Hayes,
1979; Ferraroni et al., 1981; Ferraroni et al., 1977; Ferraroni et al., 1983; Ferraroni, 1983).
Sabe-se, a priori, que a resistência dos plasmódios às drogas antimaláricas é, única e
exclusivamente, questão de tempo.




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Apesar de não se ter conhecimento ao certo do mecanismo de resistência dos
plasmódios às drogas antimaláricas, sabe-se que a seleção espontânea deverá ocorrer. Por
este motivo é importante restringir-se o uso maciço das drogas dando-se preferência a
combinações prévias das mesmas, a fim de retardar os fenômenos mutativos naturais.
        O ressurgimento da malária vem ocorrendo em áreas onde a doença era considerada
sob controle. As razões para este fato permanecem obscuras, mas podem ser parcialmente
explicadas pelo desenvolvimento de resistência dos mosquitos transmissores de malária aos
inseticidas, pela resistência dos parasitas às drogas clássicas antimaláricas e também por
problemas administrativos e operacionais, associados à instabilidade política em algumas
regiões e á falta de pessoal técnico para atuar nestas áreas.
       Assim sendo, a substituição dos inseticidas e dos quimioterápicos por outros métodos
de erradiação da malária é uma necessidade imperativa, dando-se, desta maneira, ênfase
aos métodos alternativos de seu controle. Na tentativa de descobrir uma vacina, o primeiro
passo já foi dado, pois já se cultivou o P. falciparum "in vitro" no Brasil, pela primeira vez em
1977 (Ferraroni, 1982). É lógico que será necessário a descoberta de um método que
obtenha extrato do parasita em larga escala, para que se possa conseguir antígeno
suficiente na aplicação em massa da população. Haveria também a necessidade de que
este antígeno fosse imunogênico, sem contaminação viral, microbiana ou de material do
hospedeiro.
      As características ecológicas próprias da região amazônica, associadas a fatores
ambientais implícitos nos grandes projetos de colonização e desenvolvimento exigem
esquemas preventivos de considerável complexidade que impeçam a transmissão da
malária. A falta de tal planejamento tem resultado num sensível aumento de casos de
malária na região.
       Existem fatores epidemiológicos de difícil entendimento quando a balança ecológica
da área é atingida. Parece que esses fatores, na região amazônica pelo menos, favorecem
ao aumento do número de casos de malária, os quais têm apresentado aspectos
semelhantes nas diversas áreas de colonização da bacia amazônica (Ferraroni et al., 1977).
É necessário, portanto, a melhoria da efetividade dos métodos de controle, através de
atividades especiais de pesquisa básica e aplicada.
        Estudos realizados em camundongos atímicos (destituídos de imunidade celular), têm
demonstrado satisfatória proteção contra casos de malária de roedores (Ferraroni et al.,
1985). O soro de camundongos curados de altas infecções maláricas e inoculado em
roedores, protegem estes animais de infecções maláricas mortais (Ferraroni et al., 1982). O
uso de adjuvantes, estimuladores inespecíficos da resposta imune, tem demonstrado
aumentar a resistência de roedores quando infectados com parasitas da malária (Ferraroni
et al, 1986). Estes estudos demonstram que uma vacina contra malária não será difícil num
futuro próximo, principalmente com o avanço tecnológico atual.
      A quebra da harmonia ecológica com os programas de colonização, promovidos pelo
governo através de projetos de assentamento dirigido, tem apresentado grande
complexidade que é consideravelmente aumentada quando neles é introduzido o homem do
Sul do país. Não aculturado à região inóspita, mas de brilhante futuro, não tem ele
conhecimento suficiente das endemias próprias desta área, lançando-se ele e sua família
numa luta, em que nem mesmo o adversário conhecem.



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Leishmaniose
       A Leishmaniose Tegumentar Americana é endêmica na Amazônia desde longa data.
Acredita-se mesmo que a sua existência venha desde a época das civilizações antigas. É
comumente designada de "ferida brava" e constitui o segundo maior problema parasitária da
Amazônia. É uma infecção que tende a ser mais regional e focal, devido estar intimamente
relacionada com a quebra do meio ecológico.
       Em todos os projetos de assentamento dirigido, implantados pelo governo nas regiões
onde existem vetores do parasita, que são conhecidos como "mosquito palha" ou "catuqui" ,
a protozoose está presente. Normalmente aparecendo em surtos epidêmicos e de difícil
controle devido a dificuldades do combate ao transmissor. Existe um número muito grande
de espécies de flebotomíneos transmissores de leishmaniose como também grande número
de espécies de Leishmaniose, principalmente dependendo da localidade da Amazônia. Por
exemplo: no Estado do Maranhão a espécie predominante é a Leishmania braziliensis, que
pode acometer inclusive a mucosa. Já no norte do Estado do Amazonas é comum a
leishmaniose causada pela Leishmania guyanensis.
      Pelos estudos realizados na região nota-se que praticamente mais da metade da
população (51,8%) já teve contato com o parasita (Fonseca et al., 1973). O aparecimento
dos focos da doença tende a seguir os núcleos de colonização, as construções das estradas
e grupamentos isolados, como a prática da garimpagem.
A leishmaniose é uma zoonose. Portanto, de difícil erradicação, porque apresenta
reservatórios disseminados por toda a região, e também por estar seu vetor em toda a
Amazônia. O gambá (Didelphys marsupialis) é um dos mais comuns reservatórios do
parasita, assim como a preguiça-real (Choteopus didactylus) que é um animal muito comum
na Amazônia.
      A leishmaniose cutânea-mucosa é o tipo mais preocupante, uma vez que causa lesão
deformante no hospedeiro. Atualmente o número de casos tem apresentado um
considerável aumento da prevalência. Isolaram-se recentemente parasitas da mucosa de
pacientes portadores de lesão muco-cutânea causadas por Leishmania guyanensis, do que
não se tinha conhecimento até o ano passado (Naiff et al., 1988).
      Quanto à leishmaniose visceral (Kalazar), ela é pouco frequente e alguns casos
esporádicos têm sido verificados na zona rural da Amazônia.
        Não existindo vacina preventiva para a leishmaniose, a profilaxia está única e
exclusivamente ligada à prevenção do contato com o transmissor. A quase totalidade dos
casos pode ser tratada com drogas disponíveis no mercado. No entanto, há relatos de
parasitas resistentes às drogas convencionais, o que poderá ser problema sério para o
futuro.
Toxoplasmose
       A infecção por Toxoplasma gondii é muito frequente na Amazônia. Contudo, a doença
passa, na maioria das vezes, despercebida e confundida com crises de resfriado comum.
Dos inquéritos realizados na região nota-se alta prevalência, inclusive na população isolada
e indígena, em média, 70% (Ferraroni et al., 1979). Sabendo-se que os felídeos são os
únicos animais em que se realiza o ciclo completo deste protozoário, e existindo muitos
felídeos na região, a prevalência da toxoplasmose deverá continuar alta por muito tempo
ainda na Amazônia.

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Amebíase
       A amebíase intestinal é muito comum na Amazônia. A Entamoeba histolytica
apresenta prevalência considerada elevada na região, tanto na área urbana como rural e
mesmo nas populações indígenas isoladas, ficando com cifras de 27,3% (Ferraroni et al.,
1979) e 36,7% (Genaro & Ferraroni, 1984), respectivamente. A faixa etária mais acometida é
a infantil com índice de alta mortalidade no primeiro ano de vida. Muitos casos de
gastroenterites estão associados a esta infecção. As drogas utilizadas para o tratamento da
amebíase geralmente apresentam altos graus de toxicidade.
Giardíase
       A Giardíase lamblia é uma protozoose de prevalência alta nas populações jovens da
Amazônia. Este parasita, além de causar distúrbios gastrointestinais, é responsável pela má
absorção pelo hospedeiro das vitaminas liposolúveis. De acordo com os trabalhos de
Ferraroni et al., 1979, a prevalência está em torno de 28%. A infecção é mais prevalente nas
crianças devido aos cistos, que são as formas contaminantes, ficarem no solo por longo
período de tempo.
Tricomoníase
       Apesar de ser uma protozoose endêmica na área, não preocupa muito, em termos de
saúde pública, uma vez que sua mortalidade é praticamente nula. A prevalência de infecção
por Trichomonas vaginalis em mulheres na cidade de Manaus é de 63,9% (Ferraroni et al.,
1978). Esta taxa é considerada altíssima, correspondendo aos índices encontrados nas
clínicas de venereologia dos países desenvolvidos do primeiro mundo.
     Bactrioses

Hanseníase
       Pode-se dizer que a hanseníase é uma doença infecciosa crônica, frequente da
Amazônia, com um total de aproximadamente 30.000 casos. Este número é considerado um
dos índices mais elevados do mundo. Nota-se que a prevalência aumentou nos últimos anos
(Talhari & Neiva, 1984). Este aumento pode ter sido devido às maiores facilidades no
diagnósticos. No entanto, por ser a lepra uma doença ainda não aceita pela sociedade, tem
sido difícil a identificação de novos casos para tratamento inicial e mesmo profilaxia familiar.
       Há um centro de referência de hanseníase da Organização Mundial de Saúde (OMS)
em Manaus. Estudos e acompanhamentos da doença realizados têm apresentado
resultados favoráveis dignos de nota.
Tuberculose
         No ano de 1980 foram registrados na Região Norte 6.700 casos de tuberculose,
lembrando ainda que a maioria dos casos não é detectada, devido às dificuldades de
diagnósticos. Uma das grandes preocupações com a doença é a alta prevalência na
população de faixa etária jovem. Estudos realizados na década de 70 evidenciaram um
índice de 16,9% nas crianças com idade escolar, onde o maior índice aceita o fato de que a
infecção está espalhada por toda Amazônia, inclusive nas tribos indígenas, nas quais é uma
das grandes causas de óbitos. O tratamento da tuberculose está se tornando cada vez mais
difícil, devido à resistência do parasita às drogas clássicas e ao aparecimento de espécies
atípicas do parasita. É necessário um trabalho muito sério nesta área.


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Meningite
      A meningite meningocócita, apesar de ser endêmica na Amazônia, tem surgido como
focos epidêmicos isolados. A mortalidade é alta e acomete preferencialmente a faixa etária
jovem. Ainda não houve um trabalho sério sobre a sorotipagem das bactérias na região.
Portanto, não se sabe ainda qual o sorotipo mais prevalente. Isto nos parece muito
preocupante.
Verminoses
       As parasitoses intestinais causam implicações sócio-econômicas, comportando-se
através de inúmeros aspectos e que culminam na chamada "Síndrome anêmico-parasitária".
Este quadro clínico é um somatório de sintomas e sinais, tais como anemia, carência de
vitaminas e proteínas, e claro, o poliparasitismo intestinal. Apesar de se conhecer a
prevalência das parasitoses, em determinados pontos da região não se conhece, na
realidade, a magnitude do problema. Contudo, estima-se que 90% da população estejam
parasitadas por, pelo menos, uma espécie de parasita.
       A ascaridíase é a parasitose mais prevalente na Amazônia com 88,3%, seguindo-se a
tricocefalíase com 62%, ancilostomíase com 47,4%, estrongiloidíase com 7,5% e a
enterobiose com 1,5% (Fraiaha, 1984). Um fato importante é os indivíduos aparecerem, na
maioria das vezes, poliparasitados. A obstrução intestinal por Ascaris lumbricoides é
frequente na região, principalmente na faixa etária de 3 a 6 anos de idade. Há relatos de alta
frequência de apendicecopatia parasitária.
      Das parasitoses causadoras de microfilaremia, a bancroftose está mais focalizada no
Pará, especialmente em Belém e arredores. Com o intenso combate ao vetor o índice de
prevalência da doença tem diminuído razoavelmente nos últimos anos.
       A mansonelose está bem difundida na região, inclusive na população indígena, onde
certas tribos apresentam índices de até 50% de positividade. Todavia não é patologia
preocupante devido sua baixa patogenicidade e mesmo sintomatologia discreta.
        A oncocercose é a filariose humana mais preocupante na região, uma vez seu vetor
ser um simulídeo abundante, fazendo com que a parasitose se alastre rapidamente. Sendo a
patologia (cegueira) irreversível, cuidados profiláticos precisam ser adotados com urgência.
Até o momento, a prevalência está mais focalizada na área fronteiriça do Brasil com a
Venezuela e nas regiões do Auaris, Toototobi, Surucucus e Mucajaí (Moraes et al., 1979). A
dificuldade na detecção dos casos, principalmente na população indígena, é a necessidade
de se realizar biópsia cutânea. Este problema talvez possa ser resolvido com a introdução
de testes cutâneos de hipersensibilidade imediata. Trabalhos realizados neste sentido
parecem demonstrar que isso será possível num futuro próximo (Ferraroni & Moraes, 1982).
A parasitose ainda está localizada em focos isolados, devendo por isso ter o cuidado de não
se construírem estradas nestas áreas, o que, certamente, seria uma catástrofe em termos
de disseminação da doença.
      A doença de Chagas e esquistosomose, apesar de serem endêmicas em outras
regiões do país, ainda não são problemas para a Amazônia.




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Viroses

Hepatites
        As hepatites causadas por vírus constituem patologia marcante na Amazônia,
principalmente a hepatite B (antigamente denominada de hepatite por soro-homólogo). Esta
doença é a endemia mais importante após a malária e a leishmaniose, mesmo porque sua
letalidade é alta, chegando atingir até 10% da população no Estado do Pará. A prevalência
de sorologia positiva da população humana na Amazônia está entre 20% (Benzabath &
Maroja, 1977) em regiões urbanas e 36% em comunidades isoladas do interior (Ferraroni et
al., 1983). Devido à alta endemicidade a praticamente todas as hepatites viróticas, uma
grande percentagem da população torna-se imune a elas. Assim, os surtos epidêmicos
ocorrem com mais frequência nas populações migratórias de outras regiões do país.
Poliomielite
      A faixa etária até dois anos de idade é o grupo mais atingido pela doença na
Amazônia. Ultimamente o número de casos tem declinado, talvez devido ao uso da vacina
Sabin. Contudo, em trabalhos realizados nas diversas comunidades do interior, inclusive
populações isoladas e tribos indígenas, evidenciaram que 70% dos indivíduos examinados
apresentam anticorpos protetores contra o vírus (Ferraroni & Ferraroni, 1981). Estando
assim 30% da população desprovidos de proteção.
Raiva
     A raiva humana continua representando um sério problema de saúde pública na
Amazônia, apesar dos esforços do governo no controle e vacinação dos cães.
     Micose

Micoses Profundas
       Dentre as micoses profundas, a esporotricose é a mais comum. Contudo casos de
criptocose, paracoccidioidomicose e histoplasmose têm sido descritos. A lobomicose é
característica e exclusiva da Amazônia. Mesmo com todos os recursos da farmacologia
moderna não se encontrou uma droga para o seu tratamento. Têm havido alguns surtos
esporádicos de histoplasmose.
Micoses Superficiais
       As dermatomicoses apresentam distribuição universal, correspondendo em cada
região do globo a uma flora particular de dermatófitos, caracterizada pela predominância ou
exigência de certas espécies. Acredita-se que 30% da população amazônica estejam
acometidos de pelo menos a um tipo de dermatomicose. A Pityriasis versicolor é a micose
superficial predominante. As tinhas, principalmente a tinha cruris é muito comum, assim
como as onicomicoses. As micoses são frequentes devido ao clima ser quente e úmido,
favorecendo substancialmente o desenvolvimento da flora fúngica. Os fungos anemófilos
são causadores frequentes de síndromes alérgicas e muito constantes em ambientes
fechados na Amazônia (Furtado & Ferraroni, 1982).




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Manual de Sobrevivência na Selva

  • 1. Manual de Sobrevivência na Selva Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 1 de 26
  • 2. Índice: Conservação da Saúde e Primeiros Socorros .............................................................. Pag.:03 Áreas de Selva ............................................................................................................. Pag.:04 Animais Peçonhentos e Venenosos ............................................................................. Pag.:06 Deslocamento na Selva ................................................................................................ Pag.:08 Proteção na Selva ........................................................................................................ Pag.:09 Trato com Indígenas ..................................................................................................... Pag.:1 2 Doenças Tropicais......................................................................................................... Pag.:17 Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 2 de 26
  • 3. Conservação da Saúde e Primeiros Socorros Generalidades a. A capacidade de sobrevivência residirá basicamente numa atitude mental adequada para enfrentar situações de emergência e na posse de estabilidade emocional, a despeito de sofrimentos físicos decorrentes da fadiga, da fome, da sede e de ferimentos, por vezes, graves. b. Se o indivíduo ou o grupo de indivíduos não estiver preparado psicologicamente para vencer todos os obstáculos e aceitar os piores reveses, as possibilidades de sobreviver estarão sensivelmente reduzidas. c. Em casos de operações militares, essa preparação avultará então de valor. Daí porque o conhecimento das técnicas e dos processos de sobrevivência constituirá um requisito essencial na formação do indivíduo destinado a viver na selva, quer em operações militares, quer por outra circunstância qualquer. d. Conservar a saúde em bom estado será requisito de especial importância, quando alguém se encontrar em situação de só poder contar consigo mesmo para salvar-se ou para auxiliar um companheiro. Da saúde dependerão, fundamentalmente, as condições físicas individuais. e. Na selva, saber defender-se contra o calor e o frio, saber encontrar água e alimento, saber prestar os primeiros socorros, em proveito próprio ou alheio, serão tarefas de grande importância para a preservação da saúde. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 3 de 26
  • 4. Áreas de Selva Considerações Gerais, Localização As áreas geográficas com características de selva situam-se, em sua quase totalidade, na zona tropical,limitada pelos paralelos de CÂNCER e de CAPRICÓRNIO. ssim é que, no continente americano, encontram-se a Selva AMAZÔNICA , a mais vasta do mundo, abrangendo porções territoriais do BRASIL, GUIANA FRANCESA, SURINAME, GUIANA, VENEZUELA, COLÔMBIA, PERU, EQUADOR e BOLÍVIA, e a Selva da AMÉRICA CENTRAL. Na ÁFRICA, encontram- se as grandes florestas das bacias dos Rios NÍGER, CONGO e ZAMBEZE, a da costa oriental e a da ilha MADAGÁSCAR. Na ÁSIA, as florestas do sul da ÍNDIA e do sudeste do continente. Na OCEANIA, as ilhas em geral são cobertas por vegetação com características de selva. Selvas Tropicais a. Não há tipo de selva que se possa chamar de padrão comum. A sua vegetação depende do clima e, até certo ponto, da influência exercida pelo homem através dos séculos. b. As árvores tropicais levam mais de 100 anos para atingir a sua maturidade e somente nas florestas primitivas, virgens, não tocadas pelo homem, encontram-se em completo crescimento. c. Essa selva primitiva, por sua abundância de árvores gigantescas, torna-se facilmente identificável. Apresenta uma cobertura densa, formada pelas copas de árvores que, por vezes, atingem mais de 30 metros de altura, e sob as quais há muito pouca luz e uma vegetação suja, o que não impede a progressão através da mesma. d. A vegetação, nas florestas primitivas, tem sido destruída para permitir o cultivo em algumas áreas. Estas áreas, mais tarde, deixando de ser cultivadas, propiciam o crescimento de uma vegetação densa, cheia de enredadeiras, constituindo a selva secundária, muito mais difícil de atravessar do que a selva primitiva. e. Em qualquer desses tipos de selva, são encontradas plantas e frutas nativas diversas, pássaros, animais e abundante variedade de insetos. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 4 de 26
  • 5. Áreas de Selva no Brasil a. No BRASIL, encontram-se áreas cobertas com vegetação característica das grandes florestas. A principal e a maior do mundo é a Floresta AMAZÔNICA ou Selva AMAZÔNICA, como já é conhecida internacionalmente. As outras, bastante limitadas, quer pelas extensões que ocupam, quer pelas condições de povoamento e conseqüente existência de núcleos populacionais e de estradas, quer ainda pelas diferentes condições climáticas, topográficas e de vegetação, são encontradas formando os conjuntos florestais que se desenvolvem a sudoeste do Estado do PARANÁ, a noroeste do Estado de SANTA CATARINA e próximo ao litoral, sendo conhecida por MATA ATLÂNTICA. b. Outras áreas de florestas existem, embora possam ser consideradas pequeninas manchas se comparadas com as mencionadas; entretanto, dentro da finalidade a que se propõe este manual, não serão consideradas, porquanto não justificam apreciações especiais relacionadas quer com sobrevivência, quer com operações militares na selva. c. As próprias áreas florestais PARANÁ - SANTA CATARINA e a MATA ATLÂNTICA não serão apreciadas em particular, uma vez que aquilo que for dito para a Selva AMAZÔNICA terá aplicação, feitos os ajustamentos relativos, para essas áreas. Entretanto, sobreviver e operar militarmente nelas será menos difícil do que na Selva AMAZÔNICA, não só porque as condições de clima, de topografia e de vegetação são diferentes, como também pelo progresso decorrente da ação do homem sobre a área. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 5 de 26
  • 6. Animais peçonhentos e venenosos Peçonha Generalidades Na selva há inúmeros animais que poderão atuar como inimigo do homem, se este não estiver capacitado a evitá-los ou a debelar os malefícios que poderão decorrer da sua peçonha ou do seu veneno. a. Animal Peçonhento - É aquele que segrega substâncias tóxicas com o fim especial de serem utilizadas como arma de caça ou de defesa. Apresentam órgãos especiais para a sua inoculação. Portanto, para que haja uma vítima de peçonhamento, é necessário que a peçonha seja introduzida por este órgão especializado, dentro do organismo da vítima. b. Animal Venenoso - É aquele que, para produzir efeitos prejudiciais ou letais, exige contato físico externo com o homem ou que seja por este digerido. Como exemplos de animais venenosos existem o sapo-cururu (Fig 3-1), os sapi-nhos venenosos (Fig 3-21) e o peixe baiacu. Função da peçonha Possui uma dupla ação: paralisante e digestiva. Em virtude da reduzida mobilidade das serpentes, elas necessitam de um meio para deter os movimentos da sua vítima, de modo a poder ingeri-la. Daí a função paralisante da peçonha. A digestão nos ofídios, como nos demais animais, faz-se por decomposição dos alimentos que é facilitada pela inoculação da peçonha, anterior à ingestão da vítima. Sapo cururu. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 6 de 26
  • 7. Ação patogênica da peçonha Vários fatores interferem na ação patogênica da peçonha. Será de acordo com estes fatores que haverá maior ou menor gravidade para uma vítima de empeçonhamento. a. Local da Picada No caso dos gêneros "Crotalus" (cascavel) e "Micrurus" (coral), cujas peçonhas têm ação neurotóxica, quanto mais próxima dos centros nervosos a picada, maior a gravidade para a vítima. E, também, no caso da picada de qualquer ofídio peçonhento, se a região atingida for muito vascularizada maior será a velocidade de absorção e os efeitos serão mais precoces. b. Agressividade A surucucu-pico-de-jaca e a urutu, além do grande porte e, conseqüentemente, glândula da peçonha também avantajada, são as mais agressivas, trazendo maior perigo para a vítima. c. Quantidade Inoculada Estará na dependência do período entre uma picada e outra, bem como da primeira e das subseqüentes picadas, quando realizadas no mesmo momento. As glândulas da peçonha levam 15 dias para se completarem. d. Toxidez da Peçonha A peçonha crotálica é mais tóxica do que a botrópica e ambas, menos que a elapídica. e. Receptividade do Animal Picado A receptividade à peçonha ofídica depende do animal haver sido picado anteriormente, desenvolvendo imunidade, ou não. Estudos recentes comprovaram que o gambá não é exceção à regra, existindo dúvidas com relação ao urubu. Contudo os animais que foram tratados com soro antiofídico ao receberem nova dosagem possuem maior probabilidade de apresentar uma reação anafilática, que pode levar ao choque, pois o organismo conta com uma memória imunológica contra a proteína eqüina contida no medicamento. f. Peso do Animal Picado A gravidade do caso será proporcional a uma maior ou menor diluição da peçonha no sangue. Quanto maior o animal, mais diluída estará a peçonha e menos grave será a sua ação. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 7 de 26
  • 8. Deslocamentos na Selva Introdução Generalidades O indivíduo ou grupo de indivíduos, tomando parte ou não em operações militares, ao ver-se isolado na selva e tendo necessidade de sobreviver, tenderá naturalmente a movimentar-se em uma direção qualquer, em busca de salvação. Será normal esta precipitação, mas totalmente errada, pois muitos já perderam a vida por se terem deixado dominar pela ânsia de salvar-se, andando a esmo e entrando, fatalmente, em pânico. Regra Geral a. Será aconselhável, em tal emergência, que sejam observadas rigorosamente as seguintes regras, mnemonicamente expressas pela palavra E-S-A-O-N: - E: - ESTACIONE - fique parado, não ande à toa. - S: - SENTE-SE - para descansar e pensar. - A: - ALIMENTE-SE - saciando a fome e a sede, qualquer um terá melhores condições para raciocinar. - O: - ORIENTE-SE - procure saber onde está, de onde veio, por onde veio ou para onde quer ir, utilizando-se do processo que melhor se aplique à situação. - N: - NAVEGUE - agora sim, desloque-se na direção selecionada. b. O "estacionar" e "sentar-se" independerão de maiores conhecimentos; o "alimentar-se" exigirá, na falta de víveres e água, a aplicação de recursos de emergência para obtê-los da própria selva, o que será apresentado em capítulo mais adiante. Quanto ao "orientar-se" e "navegar", serão a seguir abordados os seus diferentes processos, bem como noções sobre sinalização terra-ar e de transposição de obstáculos. Orientação Generalidades A densidade da vegetação torna a selva "toda igual"; nela não haverá pontos de referência nítidos. Mesmo aqueles que já possuem alguma experiência não confiam muito em possíveis referências, porque tudo se confunde devido à repetição contínua e monótona da floresta fechada; os incontáveis obstáculos constantemente causarão desequilíbrio e quedas, tornando difícil a visada permanente sobre determinado ponto; a necessidade de saber onde pisar ou colocar as mãos desviará, por certo, a direção do raio visual; e, finalmente, a própria densidade da vegetação só permitirá que se veja entre a distância de 10 a 30 metros à frente, quando muito. À noite nada se vê, nem a própria mão a um palmo dos olhos. O luar, quando houver, poderá atenuar um pouco essa escuridão, sem contudo entusiasmar o deslocamento noturno. O copado fechado das árvores não permitirá que se observe o sol ou o céu, a não ser que se esteja em uma clareira, o que, ainda assim, não significará que se possa efetivamente observá-los, de dia ou de noite, para efeito de orientação, pois haverá constantemente a possibilidade do céu nublado. Por tudo isso, os processos de orientação na selva sofrerão severas restrições e, por já constarem de outros manuais, serão aqui apresentados de modo muito geral. Serão, também, feitas referências ao hemisfério norte tendo em vista que parte da Selva AMAZÔNICA pertence àquela parte do globo terrestre. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 8 de 26
  • 9. Proteção na Selva Abrigos Generalidades Um homem na selva, em regime de sobrevivência, necessita de algum conforto, de condições psicológicas as mais favoráveis possíveis e de proteção contra o meio adverso. Ele necessita de um abrigo eficiente, limpo e de bom aspecto. As operações na selva podem ser sinteticamente conceituadas como sendo o emprego da inteligência, do vigor físico e da adaptabilidade do combatente à selva. O combate, então, mais que qualquer outro, exige homens com ótimas condições físicas e psicológicas, de sorte a poderem suportar, com o mínimo desgaste, as influências mesológicas e, assim, apresentar um rendimento máximo nas ações. Um dos meios de conseguir isto é construir um bom abrigo, sempre que possível. Definição Abrigos são construções preparadas pelo combatente, com os meios que a selva e o próprio equipamento lhe oferecem, para a proteção contra as intempéries e os animais selvagens. Alimentação na Selva Generalidades Como sobreviver significa RESISTIR, ESCAPAR, a sobrevivência em plena selva estará em íntima ligação com o tempo em que nela se permanecer. Para tanto o homem deverá estar altamente capacitado para dosar suas energias e lançar mão de todos os meios ao seu alcance, a fim de não pôr em risco a sua vida. Esta capacidade envolve conhecimentos especializados, invulgares ao homem comum, onde o uso da imaginação, o empenho, o bom senso e o moral elevado, além do intrínseco instinto de conservação, são fatores preponderantes. Quem pensar que é tarefa fácil sobreviver em plena selva, à custa exclusiva dos recursos naturais, equivoca-se. Pequenos grupos, quando devidamente preparados, poderão, entretanto, fazê-lo. Boa comida e água são encontradas, desde que o homem esteja apto a saber onde, como e quando procurá-las. Assim, em qualquer situação, deverá considerar como condições primordiais para uma sobrevivência as necessidades de: ÁGUA - FOGO – ALIMENTOS. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 9 de 26
  • 10. Água Necessidade a. Apesar do enorme caudal hidrográfico representado pela abundância de cursos de água e do alto índice pluviométrico da AMAZÔNIA, haverá situações em que não será fácil a obtenção de água. Sendo a primeira das necessidades para a sobrevivência do homem, abastecer-se dela deve constituir uma preocupação constante. b. O ser humano pode resistir vários dias sem alimento, estando, entretanto, com menores possibilidades de sobreviver se lhe falta a água. Esta resistência estará condicionada à capacidade orgânica e às condições físicas do indivíduo, as quais, na selva, estarão, contudo, sempre aquém das possibilidades normais deste mesmo indivíduo. É o tributo cobrado pela própria selva. c. Na selva equatorial, o que mais ressalta de importância e a necessidade constante da água, por sofrer o organismo sudação excessiva com eliminação de sais minerais, que, quando demasiada e constante, poderá acarretar a exaustão. Torna-se vital a manutenção do equilíbrio hídrico do organismo. d. De modo algum deverá o sobrevivente lançar mão de outros líquidos, como álcool, gasolina, urina, à falta absoluta da água. Tal procedimento, além de trazer conseqüências funestas, diminuirá as possibilidades de sobreviver, revelando indícios da proximidade do pânico que, quando não dominado, será fatal. Portanto, saber onde há água e estar sempre abastecido dela é importantíssimo e fundamental. Fogo Necessidade Se bem que não alcance a importância representada pela água, o fogo também é uma necessidade, para que seja possível prolongar a sobrevivência. Será mais um valioso recurso para aumentar e melhorar as condições de vida na selva, pois através dele se conseguirá: – purificar a água; - cozinhar; - secar a roupa; - aquecer o corpo; - sinalizar; - iluminar e fazer uma segurança noturna. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 10 de 26
  • 11. Alimentos de Origem Vegetal Introdução Cada região possui recursos naturais e os regionais utilizam formas e processos peculiares para procurá-los e prepará-los. O habitante local, o nativo, será sempre uma fonte de referência útil. Caso não possa ele próprio fornecer algum recurso alimentar, poderá informar quanto às possibilidades da região, nesse particular. Regras Gerais a. Existem mais de 300 mil espécies vegetais catalogadas no mundo, sendo a maioria delas comestíveis e pouquíssimas as que matam quando ingeridas em pequenas quantidades. Não há uma forma absoluta para identificar as venenosas. Seguindo-se a regra abaixo, poder-se-á utilizar qualquer vegetal, fruto ou tubérculo, sem perigo de intoxicação ou mesmo envenenamento, NÃO DEVEM SER CONSUMIDOS os vegetais que forem cabeludos e tenham sabor amargo e seiva leitosa b. Qualquer fruto comido pelos animais poderá também ser consumido pelo homem. c. Se uma planta não for identificada, outra regra básica é utilizar exclusivamente os brotos, de preferência os subterrâneos, pois serão mais tenros e saborosos. d. Nas regiões onde houver igarapés, seguindo seus cursos, obter-se-ão alimentos vegetais com maior facilidade. e. Não há na área amazônica palmitos tóxicos; todos podem ser consumidos: buriti, bacaba, açaí, patauá. Apresentam-se sempre como prolongamento central do tronco, sendo o seu tamanho proporcional à idade da palmácea. f. Os alimentos de origem vegetal estarão sempre na dependência da época do ano e da distribuição geográfica. g. Para eliminar a toxidez de alguns vegetais basta fervê-los durante cinco minutos, realizando a troca de água por duas ou três vezes nesse período. Após isto o vegetal poderá ser consumido. São exceções a esta regra os cogumelos. h. Se o sobrevivente consumir exclusivamente vegetais deverá fazê-lo de forma moderada até que seu organismo se acostume à nova dieta. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 11 de 26
  • 12. Trato com Indígenas Introdução O sobrevivente ou grupo de sobreviventes na selva não estará livre de um encontro com indígenas que vivem na Região AMAZÔNICA. Este contato, via de regra, representará a salvação, desde que se esteja familiarizado com os seus hábitos ou se tenha conhecimento de certas regras de conduta a serem observadas durante o tratamento recíproco a manter. Algumas Características dos Silvícolas a. Os indígenas da Amazônia, em sua maioria, já mantiveram contato com o dito "homem branco", o que os fizeram assimilar costumes da civilização e aproximar-se das vilas e cidades. Muitos índios vêm, inclusive, prestando o Serviço Militar, o que se pode observar nos Pelotões de Fronteira situados nas reservas indígenas ou próximos destas. b. A estrutura familiar é muito considerada pelos índios. No trabalho, pode-se observar o seguinte: - Ao homem cabe combater, caçar, pescar, manufaturar instrumentos de madeira e preparar o terreno para a roça. - À mulher cabe o suprimento d'água, os encargos da mãe (normalmente até que os filhos completem sete anos), o transporte de fardos, o preparo dos alimentos, a manufatura de utensílios de cerâmica, a tecelagem, os trabalhos na roça e a colheita. - Os homens tomam banho separados das mulheres. - O namoro é respeitoso (só há beijos na testa). - Há casamentos endogâmicos (dentro da aldeia) e exogâmicos (fora da aldeia). Casamentos de viúvo(a) com cunhada(o) são freqüentes. - Entre os ianomâmis, o infanticídio é consentido pela mãe, quando esta não possui condições para criar o filho. É comum o uso de ervas abortivas entre as mulheres ianomâmis. - Aos doze anos a criança é considerada adulta. c. Em termos de habitação, o que mais se observa: - geralmente os índios vivem em malocas construídas à base de barro, madeira e palha; - as condições de higiene são precárias; - essas malocas normalmente englobam várias famílias; - como curiosidade: os ianomâmis vivem em malocas de até trezentos índios, denominadas "XABONÔ". d. O índio, para subsistir, dedica-se à agricultura, à caça, à pesca, à coleta (frutas, raízes, ovos etc..) e ao escambo (troca, por exemplo, de artesanato por comida e objetos gerais do dito homem branco - especialmente roupas e aparelhos eletrônicos). Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 12 de 26
  • 13. e. O idioma português é conhecido pela maioria das tribos, como decorrência da televisão, da ação dos missionários e da própria miscigenação. Algumas famílias possuem escolas com professores bilíngües que praticam o ensino inclusive com cartilhas da língua nativa. Já há famílias, como as das tribos macuxi e wapixaras, que possuem até mesmo título de eleitor. f. Os ianomâmis, por sua vez, contrariamente a outras tribos que já aceitaram a aculturação, apresentam um considerável grau de subdesenvolvimento. Eles ignoram os trabalhos em metais e as técnicas modernas de obtenção de fogo. Outros, como os piranãs, têm péssimos hábitos de higiene: costumam comer piolhos e micuins. g. Numa tribo, a figura mais destacada é o tuxaua, responsável pela solução de todas as pendências. O índio, individualmente, não assume os problemas. A iniciativa para a resolução destes é do tuxaua. h. O processo sucessório, na maioria das tribos, é hereditário. Em algumas comunidades mais avançadas, há um processo de eleição entre os chefes das famílias. i. Outra figura importante é o pajé, o responsável pela assistência médico-espiritual da tribo. j. Os principais conflitos existentes entre os índios geralmente envolvem questões de terra e mulher. Normalmente, as desavenças intertribais são facilmente esquecidas. l. É preciso perspicácia e, se possível, contar com assessoramento de um elemento da FUNAI ou de um habitante da região, para identificar-se os indícios de que uma tribo está se preparando para a guerra, os quais costumam variar muito. Alguns deles: pintura do corpo com tinta de urucu (vermelha) e tinta de jenipapo (preta); aproximação de pequenos grupos em ações de reconhecimento; ficar arredios; entre outros. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 13 de 26
  • 14. Caracterização da área Fisicamente a Amazônia, ou Região Norte, se caracteriza por extensa depressão de terras equatoriais formando vasta planície, situada entre o Maciço das Guianas de um lado e os primeiros degraus do Planalto Central do outro, tendo, a oeste a Cordilheira dos Andes. É dividida pelo equador terrestre, que deixa a menor e mais acidentada parte ao norte, dotando o conjunto de um clima quente-úmido bem regular, com pequena diferença entre os meses mais quentes e os mais frescos. Amazonas, eixo principal da Bacia, é o maior rio do mundo, vindo depois o Mississipi-Missouri e Nilo; é, pois, duas vezes maior que o rio situado na América do Norte e duas vezes e meia que o africano. Percorrendo 7.025 Km, desde o Pico Huagro até o Atlântico, surge no Peru a partir das águas formadas pelo degelo andino; encontra-se então a 4.000 metros de altitude e, segundo o Instituto Amazônico da UNESCO, dista apenas 120 Km do Pacífico. Constitui-se, assim, num quase canal natural bioceânico que, ao entrar no Brasil pela cidade de Tabatinga já corre numa planície a 82 metros do nível do mar, faltando 3.200 Km para atingir o Atlântico; até Iquitos no Peru é permanentemente navegável em 3580 Km. Recebe mais de 500 afluentes, representando uma via permanente de navegação com cerca de 19.000 Km, número que se poderá multiplicar várias vezes levando-se em conta a existência de furos e igarapés, pequenos cursos d'água que, durante as enchentes, unem entre si os lagos e rios, bem como os paranás, pequenos braços de rios que contornam ilhas. O Amazonas apresenta profundidades que variam dos 20 aos 130 metros e largura que vai dos 96 Km, na embocadura do Rio Negro, até 1,5 Km no Estreito de Óbidos. O volume normal de águas é avaliado em 80.000 m3, dando-lhe a classificação de primeiro do mundo em caudal, correspondendo sua vazão a de todos os rios do planeta. Com calha quase paralela ao equador terrestre, recebe afluentes dos dois hemisférios da Terra, onde as estações se alternam. Daí se envolver com o fenômeno da interferência, que nada mais é do que a compensação anual que se estabelece entre as enchentes dos tributários que vêm do Hemisfério Norte e os do Sul. Em contrapartida esses afluentes vêm de regiões mais altas - Planaltos das Guianas ou Central, formando cachoeiras, até se conformar à planície; donde seu potencial hidrelétrico ser estimado pelo IBGE conforme o quadro que se segue: Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 14 de 26
  • 15. Potencial (Energia Firme Bacias em MW/Ano) Afluentes (Margem Esquerda) ao norte do Amazonas 7.770 Afluentes (Margem Direita) ao sul do Amazonas 28.393 Amazônia (Total) 36.163 Rio Xingu 10.454 Rio Tapajós 9.610 Rio Madeira 8.170 Rio Tocantins 12.660 Recebendo águas dos Andes, dos afluentes e das correntes aéreas úmidas, a rede fluvial amazônica se enquadra em todas as características para se transformar no caminho natural de mais alto valor econômico e social. A associação climática, topográfica e hidrográfica dota a área de vasto manto florestal que, além de não envolver todo o complexo amazônico, na descontinuidade se alterna com matas ciliares, campinas nas várzeas e campos nativos. A floresta cobre 70% da região, isto é 280 bilhões de hectares, perfazendo 75% das reservas brasileiras e 30% da mundial; nas encostas das cordilheiras e planaltos se encontram florestas de transição mistas, representadas por coqueirais, cerrados e savanas. Estimando-se, para o conjunto, a reserva madeireira em 50 bilhões de m3, com apenas 15 bilhões de m3 comerciáveis, nessa região onde todas as eras geológicas são representadas em quase todos os seus estágios, embora na várzea predomine o cenozóico no período mais moderno. Com variedade vegetal em torno de 200 espécies diferentes de árvores por hectare, 1.400 tipos de peixes, 1.300 tipos de pássaros e 300 tipos de mamíferos; a composição da biodiversidade, a abundância e regularidade das chuvas, a elevada umidade relativa do ar e temperatura média uniforme contribuem para que o ecossistema amazônico seja auto-suficiente e detentor de cerca de 30% do estoque genético do Mundo, constituindo-se, potencialmente, na maior fonte natural mundial de produtos farmacêuticos, bioquímicos e agronômicos. Eis, pois, um resumo desta maior bacia sedimentar do mundo, com a multiplicidade de fenômenos se refletindo na variedade dos pontos de interesse, despertando paixões falaciosas com foros aparentemente científicos, com projeção nos apetites internacionais. Cabendo bem a profecia na frase do discurso que Getúlio Vargas proferiu em Manaus a 10 de Outubro de 1941, afirmando que a Amazônia estava prestes a "encerrar um capítulo na História da Terra e iniciar um capítulo na História da Civilização". Amazônia, cuja utilização de recursos se constitui num autêntico desafio, quer por suas condições peculiares, quer pela heterogeneidade de seus ecossistemas - múltiplos, únicos e diferenciados. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 15 de 26
  • 16. Therezinha de Castro Retirado de Amazônia - Geopolítica do Confronto e Geoestratégia da Integração, editado pela Fundação Educacional Unificada Campograndense, Faculdade de Filosofia de Campo Grande Hidrografia O país possui 55.457 km² de águas internas e uma rede hidrográfica numerosa. A maioria dos seus rios é perene, ou seja, não se extingue na estação seca. A única exceção é no sertão nordestino, onde existem rios temporários.As bacias brasileiras podem ser divididas em dois tipos: planálticas, que permitem aproveitamento hidrelétrico, e de planície, de correnteza fraca, utilizadas para navegação. As principais bacias são a Amazônica, do Prata, São Francisco e Tocantins. A Bacia Amazônica tem a mais vasta superfície drenada do mundo. É o maior potencial hidrelétrico total do país, apesar da baixa declividade do seu terreno, que proporciona 23 mil km de rios navegáveis. Só o seu rio principal, o Amazonas, tem cerca de 7 mil afluentes, sendo os principais o Negro, Trombetas e Jari (margem esquerda); Madeira, Xingu e Tapajós (direita). O Amazonas é o rio de maior vazão de água (100.000 m³/s) e também o maior em extensão do planeta, com seus 6.868 km de comprimento. Obs: informações e mapas extraídos do Almanaque Abril/98, versão CD-ROM. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 16 de 26
  • 17. Doenças tropicais Febre Amarela Mário Rosas Filho-Cap Med Infectologista do Hospital Geral de Manaus É uma doença infecciosa aguda , causada por um vírus RNA, arbovírus do grupo B, ou seja vírus transmitidos por artrópodes (Arthropod Borne Viruses) do gênero Flavivírus, família Togaviridae, podendo apresentar ciclo urbano ou silvestre, com transmissão através de vetores alados. É basicamente uma antropozoonose, isto é, uma doença de animais silvestres, acometendo o homem acidentalmente, principalmente quando participa de atividades militares em área de selva, extrativismo vegetal, caça ou desmatamento. Ocorre no norte do Brasil, abrangendo toda a Amazônia, acometendo cerca de quinhentas pessoas/ano. Diferencia-se em dois padrões epidemiológicos: o urbano e o silvestre. O primeiro deve-se a ação de um mosquito de hábitos urbanos, o Aedes aegypti, que transmite a doença de pessoas doentes à uma população sensível, e que apesar de não ocorrerem casos há mais de cinquenta anos, volta a causar temor pela possibilidade de sua reemergência, devido intensa proliferação do Aedes aegypti nos grandes centros urbanos do Brasil no momento atual. O ciclo silvestre, por sua vez, é mantido pelas fêmeas de mosquitos antropofílicos (especialmente do gênero Haemagogos), as quais necessitam de sangue para amadurecer seus ovos; têm atividade diurna na copa das árvores, ocorrendo a infecção acidental do homem ao invadir o ecossistema viral. Após um período de incubação médio de três a seis dias surgem os primeiros sintomas: febre alta, cefaléia, congestão conjuntival, dores musculares e calafrios. Algumas horas depois podem ocorrer manifestações digestivas, tais como, náuseas, vômitos e diarréia, correspondendo à fase em que o vírus está circulando no sangue (Período de Infecção), evoluindo em dois a três dias à cura espontânea (Período de Remissão). Formas graves da Febre Amarela, podem surgir um ou dois dias, após a cura aparente, observando- se aumento da febre e dos vômitos, prostração e icterícia (Período de Intoxicação).Em seguida surgem outros sintomas de gravidade da doença, tais como, hematêmese (vômito negro), melena (fezes enegrecidas), petéquias (pontos vermelhos) e equimoses (manchas roxas) em várias regiões da superficie corporal, desidratação, agitação, delírio, parada renal, torpor, coma e morte (em cerca de 50% dos casos). O diagnóstico é essencialmente clínico, sendo que nas formas graves, somente é obtido post-mortem, através de provas laboratoriais para isolamento do vírus e exame anátomo-patológico. Não existe tratamento específico para o vírus da Febre Amarela. O tratamento consiste no uso de medicação sintomática, evitando-se os salicilatos (Ácido Acetil Salicílico e derivados), em função do risco de hemorragias, utilizando-se preferencialmente o Paracetamol. Pacientes com formas graves da doença necessitam de cuidados de Terapia Intensiva. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 17 de 26
  • 18. Na prevenção da Febre Amarela fundamental é a aplicação da vacina Anti-Amarílica, na dose de 0,5 ml por via subcutânea, com aplicação de reforço a cada dez anos. Não se recomenda a aplicação em gestantes e portadores de imunodeficiência (inclusive pelo Vírus da Imunodeficiência Humana). Deve-se ter especial cuidado na conservação (manter sob refrigeração) e utilizar no máximo por duas horas após abrir o frasco, pois a partir daí há uma perda de 50% do poder imunogênico da vacina. Malária Mário Rosas Filho- Cap Med Infectologista - Hospital Geral de Manaus É uma doença infecciosa, febril, não contagiosa, sub-aguda, aguda e algumas vezes crônica, causada por protozoários do gênero Plasmodium, principalmente as espécies vivax e falciparum, transmitida através da picada das fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles. Distribui-se por toda a Amazônia, onde tem grande importância, por infectar anualmente um contingente expressivo de sua população e determinar frequentemente o aparecimento de formas graves, inclusive com elevada mortalidade. Os aspectos eco-epidemiológicos da Amazônia: calor e umidade excessivos e a grande extensão de seus rios, contribuem para o proliferação dos anofelinos, dificultando o controle da doença. A forma infectante dos plasmódios é o esporozoíta, encontrado nas glândulas salivares de fêmeas do anopheles infectadas, que inoculada na pele do ser humano, permanece cerca de uma hora na corrente sangüínea, localizando-se posteriormente nas células do fígado (hepatócitos), onde sofre multiplicações formando os esquizontes hepáticos, estes transformam-se em merozoítas, que rompem os hepatócitos e são liberados na circulação sangüínea, onde invadem os eritrócitos, evoluindo para a forma de trofozoítas, os quais após sofrerem divisão nuclear originam os esquizontes sangüíneos, ocorrendo em seguida o rompimento das hemáceas, liberando merozoítas, alguns com capacidade para parasitar novas hemáceas e reiniciar o ciclo vital do plasmódio, porém parte dos merozoítas no interior das hemáceas diferencia-se em gametócitos (macho e fêmea), os quais sugados pelos anofelinos promoverão o ciclo sexuado do plasmódio nos mosquitos, surgindo em uma a duas semanas esporozoítas, aptos a infectar novos hospedeiros. O período de incubação pode variar de nove a quarenta dias, em média quinze dias para vivax e doze dias para falciparum, sendo os sintomas mais graves nos indivíduos primo-infectados. O quadro clínico caracteriza-se por: cefaléia, mialgias, prostração, perda do apetite, mal-estar geral e calafrios seguidos de febre de início súbito, elevada ( acima de 40oC) e intermitente, que ao cessar desencadeia sudorese profusa. Nas formas graves o paciente apresenta também vômitos, diarréia, cianose de extremidades, pele fria e pegajosa. Pode haver diminuição do volume urinário nas 24 horas evoluindo para Insuficiência Renal Aguda. Complicação frequente nos casos graves é o Edema Pulmonar e a Síndrome de Angústia Respiratória do Adulto, além de sangramentos digestivos, subcutâneos e de outras localizações, que em geral levam à morte. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 18 de 26
  • 19. O diagnóstico é clínico-epidemiológico e laboratorial, através da detecção de plasmódios no sangue periférico (esfregaço ou gota espessa), além da utlização de métodos imunoenzimáticos ou de radioimunoensaio nos casos de maior dificuldade diagnóstica. No tratamento utilizamos drogas antimaláricas como o uso de Cloroquina e Primaquina para P. vivax e Quinino associado à antimicrobianos e mais recentemente derivados da Artemisina, no tratamento de malária pelo P. falciparum. Os pacientes graves necessitam de cuidados em Unidade de Terapia Intensiva. Medidas de proteção individual, como uso de repelentes nas áreas expostas do corpo e a instalação de telas nas portas e janelas das habitações, são inviabilizadas pelas condições climáticas regionais ( calor e umidade excessivos) e tipo de habitação do amazônida( casas com paredes incompletas) .No momento não se dispõe de vacinas para uso clínico. Leishmaniose Tegumentar Americana Mário Rosas Filho - Cap Med Infectologista - Hospital Geral de Manaus É uma doença infecciosa, de evolução que tende a cronicidade, não contagiosa, causada por diferentes espécies de protozoários do gênero Leishmania e transmitida por insetos hematófagos genericamente designados flebótomos. Trata-se de uma zoonose, pois tem como reservatórios animais silvestres ( tamanduá, paca, bicho-preguiça, gambá e algumas espécies de roedores), os quais são picados pelos flebotomíneos e o homem somente é infectado acidentalmente quando invade o ecossistema do protozoário, em atividades de extrativismo animal, vegetal ou mineral; quando da implantação de projetos agrícolas ou habitacionais em áreas recentemente desmatadas ou ainda militares ao participarem de operações em área de selva. Na Região Amazônica é êndemica, com significativa incidência em todos os estados da região. Atualmente encontram-se identificadas seis espécies do gênero Leishmania, implicadas no aparecimento da Leishmaniose Tegumentar Americana ou Cutâneo-mucosa, assim discriminadas: L. (Viannia) braziliensis; L. (Viannia) guyanensis; L. (Viannia) lainsoni; L. (Viannia) shawi; L. (Viannia) naiffi e L. (Leishmania) amazonensis. É caracterizada pelo polimorfismo lesional, comprometendo a pele, comumente manifestando-se como uma lesão ulcerada, única ou múltipla, medindo entre 3 a 12 cm de diâmetro, com bordos elevados ,"em moldura de quadro", base granulosa e sangrante, frequentemente associada à infecção bacteriana secundária. Dependendo da espécie de Leishmania e de fatores imunogenéticos do hospedeiro podem ocorrer lesões mucosas e cartilaginosas, que geralmente iniciam-se na mucosa nasal, surgindo coriza e sangramento nasal, evoluindo para perfuraçào do septo nasal, destruição da fossa nasal, mucosa, cartilagem e nos casos mais severos comprometendo assoalho da boca, língua, laringe, traquéia e brônquios, com mutilações graves, podendo afetar as funções vitais levando ao óbito. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 19 de 26
  • 20. O diagnóstico é clínico, baseado nas características das lesões cutâneas, principalmente da lesão ulcerada leishmaniótica e laboratorial através dos seguintes exames: Raspado da borda da úlcera, isolamento do parasita em cultura, isolamento do parasita em animais de laboratório ("hamster"), Intradermoreação de Montenegro, imunofluorescência indireta e exame anátomo-patológico da lesão. No tratamento da Leishmaniose Cutâneo-Mucosa as drogas de primeira escolha continuam sendo os antimoniais pentavalentes, ou seja, meglumina antimoniato e stibogluconato de sódio. Em caso de insucesso com estas substâncias podemos utilizar outras drogas, tais como, Anfotericina B e Pentamidina. Todas as drogas empregadas são de administração injetável, com várias aplicações, dificultando a adesão dos pacientes. Pois fatores imunogenéticos podem retardar consideravelmente a cicatrização das lesões. As condições eco-epidemiológicas da Amazônia não permitem a instituição de medidas profiláticas adequadas. Não existe vacina disponível para uso clínico. As Grandes Endemias da Amazônia Médico José João Ferraroni Extrato do trabalho Política e Estratégia de Saúde para o Desenvolvimeto da Amazônia. Protozooses Malária A malária é a mais expressiva de todas as endemias amazônicas e, apesar de muitos esforços do governo, o número de casos continua aumentando sensivelmente nos últimos anos. Alguns fatores contribuem decisivamente para sua elevada incidência na região, incluindo as condições climáticas, bacia hidrográfica acidentada, índice pluviométrico anual elevado, ocorrendo constantes cheias dos rios formando imensos lagos artificiais, que proporcionam a formação e manutenção de criadouros de mosquitos. A elevada temperatura da região e o desconforto, faz com que os habitantes da área habitem em residências praticamente sem paredes, facilitando a locomoção do vetor para dentro e fora das casas. A malária tem sido considerada endêmica na Amazônia, especialmente nas últimas décadas. O número de casos relatados pela SUCAM, tem declinado em algumas áreas e se elevado em outras, dependendo, ao que parece, do estreito relacionamento com as sociedades migratórias. Em todo o caso, a população nômade é a mais atingida. Dentre todos os anofelinos transmissores de malária (aproximadamente 200 espécies), o Anopheles darlingi destaca-se como a espécie mais importante. Por não exigir boa qualidade de água para reprodução, esta espécie se desenvolve com incrível capacidade nos lagos artificiais, formados pelas vazantes dos rios amazônicos, o que justifica o aumento do número de infecção naquela época do ano. Como não foi dado enfoque suficiente à prevenção da doença para a população migrante, o problema da malária agravou-se seriamente na Amazônia com os núcleos de colonização implantados na última década. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 20 de 26
  • 21. A introdução da malária humana, em novas áreas de desmatamento, principalmente nas regiões tropicais, tende a seguir o desenvolvimento e está intimamente relacionado à quebra do ecossistema (Hayes & Ferraroni, 1980). Com a implantação de núcleos de colonização e construção de vias de acesso, como a criação de novas rodovias e estradas, trazendo, ao mesmo tempo, indivíduos infectados e sadios para as áreas virgens ou malarígenas (Ferraroni & Speer, 1980) a malária tende aumentar na região. Outro fator importante é a mobilidade das populações, uma vez que o nativo da área endêmica apresenta certo grau de resistência natural à infecção malária (Ferraroni & Hayes, 1979; Hayes & Ferraroni, 1979). Este aspecto deve ser lembrado ante de qualquer plano de colonização a ser implantado em áreas malarígenas. Exemplificando, a colonização da Amazônia por indivíduos vindo do Sul do país, encontrará alguns problemas sérios e certamente grande parte da população irá perecer com malária, a não ser que sérias medidas profiláticas sejam aplicadas. Dentre as medidas para o controle da malária humana incluem-se o uso de inseticidas, larvicidas, controle biológico, quimioprofilaxia, quimioterapia e principalmente inseticidas residuais. Mesmo assim, estes métodos de controle não têm encontrado total sucesso em determinadas áreas do globo, onde as condições climatogeográficas apresentam características próprias, como nas regiões tropicais, onde as constantes chuvas estão presentes durante toda época do ano, favorecendo substancialmente o desenvolvimento de criadouros dos mosquitos transmissores do parasita. Ainda que o uso dos inseticidas tenha tido um grande efeito na erradicação da malária, o futuro uso dos mesmos precisa ser melhor orientado em determinadas áreas, onde começam a surgir resistência do vetor a determinados inseticidas, bem como os problemas de poluição ambiental que causam. Uma vez que a ação residual do inseticida é longa (motivo de sua eficácia), não se pode deixar de lado a idéia de que consequências poderão advir, com o uso contínuo destas substâncias, especialmente o DDT, Dieldrin e Malation, pois estes produtos afetam seriamente a balança ecológica. Por outro lado, é importante que se defenda a utilização destes produtos, pois eles são as únicas armas de que se dispõe, no momento, para lutar contra os vetores da malária, em certas áreas dos trópicos como na região amazônica. O uso de produtos quimioterápicos e quimioprofiláticos no combate à malária representa o único método eficaz na eliminação do parasita. Portanto, é um modelo que não se pode desprezar, mas, ao contrário, procurar desenvolver método de aplicação dos mesmos de uma maneira controlada para que possam produzir resultados, quando aplicados em áreas de alta endemicidade. Sabe-se que os plasmódios e em especial o Plasmodium falciparum, que é o mais letal, está desenvolvendo resistência às drogas clássicas antimaláricas, num espaço de tempo muito curto. Os primeiros casos de resistência foram detectados logo no início do uso de medicamentos contra os plasmódios, como o que ocorreu com o uso de pirimetamina na década de 50 e cloroquina na década de 60 (Mabert, 1960); (Moore & Lanier, 1961). Atualmente existem cepas de P. Falciparum resistentes praticamente a todas as drogas empregadas na Amazônia (Ferraroni & Hayes, 1979; Ferraroni et al., 1981; Ferraroni et al., 1977; Ferraroni et al., 1983; Ferraroni, 1983). Sabe-se, a priori, que a resistência dos plasmódios às drogas antimaláricas é, única e exclusivamente, questão de tempo. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 21 de 26
  • 22. Apesar de não se ter conhecimento ao certo do mecanismo de resistência dos plasmódios às drogas antimaláricas, sabe-se que a seleção espontânea deverá ocorrer. Por este motivo é importante restringir-se o uso maciço das drogas dando-se preferência a combinações prévias das mesmas, a fim de retardar os fenômenos mutativos naturais. O ressurgimento da malária vem ocorrendo em áreas onde a doença era considerada sob controle. As razões para este fato permanecem obscuras, mas podem ser parcialmente explicadas pelo desenvolvimento de resistência dos mosquitos transmissores de malária aos inseticidas, pela resistência dos parasitas às drogas clássicas antimaláricas e também por problemas administrativos e operacionais, associados à instabilidade política em algumas regiões e á falta de pessoal técnico para atuar nestas áreas. Assim sendo, a substituição dos inseticidas e dos quimioterápicos por outros métodos de erradiação da malária é uma necessidade imperativa, dando-se, desta maneira, ênfase aos métodos alternativos de seu controle. Na tentativa de descobrir uma vacina, o primeiro passo já foi dado, pois já se cultivou o P. falciparum "in vitro" no Brasil, pela primeira vez em 1977 (Ferraroni, 1982). É lógico que será necessário a descoberta de um método que obtenha extrato do parasita em larga escala, para que se possa conseguir antígeno suficiente na aplicação em massa da população. Haveria também a necessidade de que este antígeno fosse imunogênico, sem contaminação viral, microbiana ou de material do hospedeiro. As características ecológicas próprias da região amazônica, associadas a fatores ambientais implícitos nos grandes projetos de colonização e desenvolvimento exigem esquemas preventivos de considerável complexidade que impeçam a transmissão da malária. A falta de tal planejamento tem resultado num sensível aumento de casos de malária na região. Existem fatores epidemiológicos de difícil entendimento quando a balança ecológica da área é atingida. Parece que esses fatores, na região amazônica pelo menos, favorecem ao aumento do número de casos de malária, os quais têm apresentado aspectos semelhantes nas diversas áreas de colonização da bacia amazônica (Ferraroni et al., 1977). É necessário, portanto, a melhoria da efetividade dos métodos de controle, através de atividades especiais de pesquisa básica e aplicada. Estudos realizados em camundongos atímicos (destituídos de imunidade celular), têm demonstrado satisfatória proteção contra casos de malária de roedores (Ferraroni et al., 1985). O soro de camundongos curados de altas infecções maláricas e inoculado em roedores, protegem estes animais de infecções maláricas mortais (Ferraroni et al., 1982). O uso de adjuvantes, estimuladores inespecíficos da resposta imune, tem demonstrado aumentar a resistência de roedores quando infectados com parasitas da malária (Ferraroni et al, 1986). Estes estudos demonstram que uma vacina contra malária não será difícil num futuro próximo, principalmente com o avanço tecnológico atual. A quebra da harmonia ecológica com os programas de colonização, promovidos pelo governo através de projetos de assentamento dirigido, tem apresentado grande complexidade que é consideravelmente aumentada quando neles é introduzido o homem do Sul do país. Não aculturado à região inóspita, mas de brilhante futuro, não tem ele conhecimento suficiente das endemias próprias desta área, lançando-se ele e sua família numa luta, em que nem mesmo o adversário conhecem. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 22 de 26
  • 23. Leishmaniose A Leishmaniose Tegumentar Americana é endêmica na Amazônia desde longa data. Acredita-se mesmo que a sua existência venha desde a época das civilizações antigas. É comumente designada de "ferida brava" e constitui o segundo maior problema parasitária da Amazônia. É uma infecção que tende a ser mais regional e focal, devido estar intimamente relacionada com a quebra do meio ecológico. Em todos os projetos de assentamento dirigido, implantados pelo governo nas regiões onde existem vetores do parasita, que são conhecidos como "mosquito palha" ou "catuqui" , a protozoose está presente. Normalmente aparecendo em surtos epidêmicos e de difícil controle devido a dificuldades do combate ao transmissor. Existe um número muito grande de espécies de flebotomíneos transmissores de leishmaniose como também grande número de espécies de Leishmaniose, principalmente dependendo da localidade da Amazônia. Por exemplo: no Estado do Maranhão a espécie predominante é a Leishmania braziliensis, que pode acometer inclusive a mucosa. Já no norte do Estado do Amazonas é comum a leishmaniose causada pela Leishmania guyanensis. Pelos estudos realizados na região nota-se que praticamente mais da metade da população (51,8%) já teve contato com o parasita (Fonseca et al., 1973). O aparecimento dos focos da doença tende a seguir os núcleos de colonização, as construções das estradas e grupamentos isolados, como a prática da garimpagem. A leishmaniose é uma zoonose. Portanto, de difícil erradicação, porque apresenta reservatórios disseminados por toda a região, e também por estar seu vetor em toda a Amazônia. O gambá (Didelphys marsupialis) é um dos mais comuns reservatórios do parasita, assim como a preguiça-real (Choteopus didactylus) que é um animal muito comum na Amazônia. A leishmaniose cutânea-mucosa é o tipo mais preocupante, uma vez que causa lesão deformante no hospedeiro. Atualmente o número de casos tem apresentado um considerável aumento da prevalência. Isolaram-se recentemente parasitas da mucosa de pacientes portadores de lesão muco-cutânea causadas por Leishmania guyanensis, do que não se tinha conhecimento até o ano passado (Naiff et al., 1988). Quanto à leishmaniose visceral (Kalazar), ela é pouco frequente e alguns casos esporádicos têm sido verificados na zona rural da Amazônia. Não existindo vacina preventiva para a leishmaniose, a profilaxia está única e exclusivamente ligada à prevenção do contato com o transmissor. A quase totalidade dos casos pode ser tratada com drogas disponíveis no mercado. No entanto, há relatos de parasitas resistentes às drogas convencionais, o que poderá ser problema sério para o futuro. Toxoplasmose A infecção por Toxoplasma gondii é muito frequente na Amazônia. Contudo, a doença passa, na maioria das vezes, despercebida e confundida com crises de resfriado comum. Dos inquéritos realizados na região nota-se alta prevalência, inclusive na população isolada e indígena, em média, 70% (Ferraroni et al., 1979). Sabendo-se que os felídeos são os únicos animais em que se realiza o ciclo completo deste protozoário, e existindo muitos felídeos na região, a prevalência da toxoplasmose deverá continuar alta por muito tempo ainda na Amazônia. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 23 de 26
  • 24. Amebíase A amebíase intestinal é muito comum na Amazônia. A Entamoeba histolytica apresenta prevalência considerada elevada na região, tanto na área urbana como rural e mesmo nas populações indígenas isoladas, ficando com cifras de 27,3% (Ferraroni et al., 1979) e 36,7% (Genaro & Ferraroni, 1984), respectivamente. A faixa etária mais acometida é a infantil com índice de alta mortalidade no primeiro ano de vida. Muitos casos de gastroenterites estão associados a esta infecção. As drogas utilizadas para o tratamento da amebíase geralmente apresentam altos graus de toxicidade. Giardíase A Giardíase lamblia é uma protozoose de prevalência alta nas populações jovens da Amazônia. Este parasita, além de causar distúrbios gastrointestinais, é responsável pela má absorção pelo hospedeiro das vitaminas liposolúveis. De acordo com os trabalhos de Ferraroni et al., 1979, a prevalência está em torno de 28%. A infecção é mais prevalente nas crianças devido aos cistos, que são as formas contaminantes, ficarem no solo por longo período de tempo. Tricomoníase Apesar de ser uma protozoose endêmica na área, não preocupa muito, em termos de saúde pública, uma vez que sua mortalidade é praticamente nula. A prevalência de infecção por Trichomonas vaginalis em mulheres na cidade de Manaus é de 63,9% (Ferraroni et al., 1978). Esta taxa é considerada altíssima, correspondendo aos índices encontrados nas clínicas de venereologia dos países desenvolvidos do primeiro mundo. Bactrioses Hanseníase Pode-se dizer que a hanseníase é uma doença infecciosa crônica, frequente da Amazônia, com um total de aproximadamente 30.000 casos. Este número é considerado um dos índices mais elevados do mundo. Nota-se que a prevalência aumentou nos últimos anos (Talhari & Neiva, 1984). Este aumento pode ter sido devido às maiores facilidades no diagnósticos. No entanto, por ser a lepra uma doença ainda não aceita pela sociedade, tem sido difícil a identificação de novos casos para tratamento inicial e mesmo profilaxia familiar. Há um centro de referência de hanseníase da Organização Mundial de Saúde (OMS) em Manaus. Estudos e acompanhamentos da doença realizados têm apresentado resultados favoráveis dignos de nota. Tuberculose No ano de 1980 foram registrados na Região Norte 6.700 casos de tuberculose, lembrando ainda que a maioria dos casos não é detectada, devido às dificuldades de diagnósticos. Uma das grandes preocupações com a doença é a alta prevalência na população de faixa etária jovem. Estudos realizados na década de 70 evidenciaram um índice de 16,9% nas crianças com idade escolar, onde o maior índice aceita o fato de que a infecção está espalhada por toda Amazônia, inclusive nas tribos indígenas, nas quais é uma das grandes causas de óbitos. O tratamento da tuberculose está se tornando cada vez mais difícil, devido à resistência do parasita às drogas clássicas e ao aparecimento de espécies atípicas do parasita. É necessário um trabalho muito sério nesta área. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 24 de 26
  • 25. Meningite A meningite meningocócita, apesar de ser endêmica na Amazônia, tem surgido como focos epidêmicos isolados. A mortalidade é alta e acomete preferencialmente a faixa etária jovem. Ainda não houve um trabalho sério sobre a sorotipagem das bactérias na região. Portanto, não se sabe ainda qual o sorotipo mais prevalente. Isto nos parece muito preocupante. Verminoses As parasitoses intestinais causam implicações sócio-econômicas, comportando-se através de inúmeros aspectos e que culminam na chamada "Síndrome anêmico-parasitária". Este quadro clínico é um somatório de sintomas e sinais, tais como anemia, carência de vitaminas e proteínas, e claro, o poliparasitismo intestinal. Apesar de se conhecer a prevalência das parasitoses, em determinados pontos da região não se conhece, na realidade, a magnitude do problema. Contudo, estima-se que 90% da população estejam parasitadas por, pelo menos, uma espécie de parasita. A ascaridíase é a parasitose mais prevalente na Amazônia com 88,3%, seguindo-se a tricocefalíase com 62%, ancilostomíase com 47,4%, estrongiloidíase com 7,5% e a enterobiose com 1,5% (Fraiaha, 1984). Um fato importante é os indivíduos aparecerem, na maioria das vezes, poliparasitados. A obstrução intestinal por Ascaris lumbricoides é frequente na região, principalmente na faixa etária de 3 a 6 anos de idade. Há relatos de alta frequência de apendicecopatia parasitária. Das parasitoses causadoras de microfilaremia, a bancroftose está mais focalizada no Pará, especialmente em Belém e arredores. Com o intenso combate ao vetor o índice de prevalência da doença tem diminuído razoavelmente nos últimos anos. A mansonelose está bem difundida na região, inclusive na população indígena, onde certas tribos apresentam índices de até 50% de positividade. Todavia não é patologia preocupante devido sua baixa patogenicidade e mesmo sintomatologia discreta. A oncocercose é a filariose humana mais preocupante na região, uma vez seu vetor ser um simulídeo abundante, fazendo com que a parasitose se alastre rapidamente. Sendo a patologia (cegueira) irreversível, cuidados profiláticos precisam ser adotados com urgência. Até o momento, a prevalência está mais focalizada na área fronteiriça do Brasil com a Venezuela e nas regiões do Auaris, Toototobi, Surucucus e Mucajaí (Moraes et al., 1979). A dificuldade na detecção dos casos, principalmente na população indígena, é a necessidade de se realizar biópsia cutânea. Este problema talvez possa ser resolvido com a introdução de testes cutâneos de hipersensibilidade imediata. Trabalhos realizados neste sentido parecem demonstrar que isso será possível num futuro próximo (Ferraroni & Moraes, 1982). A parasitose ainda está localizada em focos isolados, devendo por isso ter o cuidado de não se construírem estradas nestas áreas, o que, certamente, seria uma catástrofe em termos de disseminação da doença. A doença de Chagas e esquistosomose, apesar de serem endêmicas em outras regiões do país, ainda não são problemas para a Amazônia. Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 25 de 26
  • 26. Viroses Hepatites As hepatites causadas por vírus constituem patologia marcante na Amazônia, principalmente a hepatite B (antigamente denominada de hepatite por soro-homólogo). Esta doença é a endemia mais importante após a malária e a leishmaniose, mesmo porque sua letalidade é alta, chegando atingir até 10% da população no Estado do Pará. A prevalência de sorologia positiva da população humana na Amazônia está entre 20% (Benzabath & Maroja, 1977) em regiões urbanas e 36% em comunidades isoladas do interior (Ferraroni et al., 1983). Devido à alta endemicidade a praticamente todas as hepatites viróticas, uma grande percentagem da população torna-se imune a elas. Assim, os surtos epidêmicos ocorrem com mais frequência nas populações migratórias de outras regiões do país. Poliomielite A faixa etária até dois anos de idade é o grupo mais atingido pela doença na Amazônia. Ultimamente o número de casos tem declinado, talvez devido ao uso da vacina Sabin. Contudo, em trabalhos realizados nas diversas comunidades do interior, inclusive populações isoladas e tribos indígenas, evidenciaram que 70% dos indivíduos examinados apresentam anticorpos protetores contra o vírus (Ferraroni & Ferraroni, 1981). Estando assim 30% da população desprovidos de proteção. Raiva A raiva humana continua representando um sério problema de saúde pública na Amazônia, apesar dos esforços do governo no controle e vacinação dos cães. Micose Micoses Profundas Dentre as micoses profundas, a esporotricose é a mais comum. Contudo casos de criptocose, paracoccidioidomicose e histoplasmose têm sido descritos. A lobomicose é característica e exclusiva da Amazônia. Mesmo com todos os recursos da farmacologia moderna não se encontrou uma droga para o seu tratamento. Têm havido alguns surtos esporádicos de histoplasmose. Micoses Superficiais As dermatomicoses apresentam distribuição universal, correspondendo em cada região do globo a uma flora particular de dermatófitos, caracterizada pela predominância ou exigência de certas espécies. Acredita-se que 30% da população amazônica estejam acometidos de pelo menos a um tipo de dermatomicose. A Pityriasis versicolor é a micose superficial predominante. As tinhas, principalmente a tinha cruris é muito comum, assim como as onicomicoses. As micoses são frequentes devido ao clima ser quente e úmido, favorecendo substancialmente o desenvolvimento da flora fúngica. Os fungos anemófilos são causadores frequentes de síndromes alérgicas e muito constantes em ambientes fechados na Amazônia (Furtado & Ferraroni, 1982). Manual de Sobrevivência na Selva.sxw Página 26 de 26