1
LINGUAGENS,CÓDIGOS
e suas tecnologias
Lucas Limberti, Murilo de Almeida Gonçalves e Pércio Luis Ferreira
Gramática e Literatura
LENTRELETRAS
C
Gramática e Literatura
para vestibular medicina
1ª edição • Rio de Janeiro
2019
© Hexag Sistema de Ensino, 2018
Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2019
Todos os direitos reservados.
Autores
Lucas Limberti
Murilo de Almeida Gonçalves
Pércio Luis Ferreira
Diretor geral
Herlan Fellini
Coordenador geral
Raphael de Souza Motta
Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica
Hexag Sistema de Ensino
Diretor editorial
Pedro Tadeu Batista
Editoração eletrônica
Arthur Tahan Miguel Torres
Claudio Guilherme da Silva
Eder Carlos Bastos de Lima
Fernando Cruz Botelho de Souza
Matheus Franco da Silveira
Raphael de Souza Motta
Raphael Campos Silva
Projeto gráfico e capa
Raphael Campos Silva
Foto da capa
pixabay (http://pixabay.com)
Impressão e acabamento
Meta Solutions
ISBN: 978-85-9542-072-4
Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o
ensino. Caso exista algum texto, a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição
para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre
as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições.
O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não representando qual-
quer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora.
2019
Todos os direitos reservados para Hexag Sistema de Ensino.
Rua Luís Góis, 853 – Mirandópolis – São Paulo – SP
CEP: 04043-300
Telefone: (11) 3259-5005
www.hexag.com.br
contato@hexag.com.br
CARO ALUNO
O Hexag Medicina é referência em preparação pré-vestibular de candidatos à carreira de Medicina. Desde 2010, são centenas de aprovações nos
principais vestibulares de Medicina no Estado de São Paulo, Rio de Janeiro e em todo Brasil. O material didático foi, mais uma vez, aperfeiçoado e seu conteúdo
enriquecido, inclusive com questões recentes dos relevantes vestibulares de 2019.
Esteticamente, houve uma melhora em seu layout, na definição das imagens, criação de novas seções e também na utilização de cores.
No total, são 103 livros, 24 cadernos de Estudo Orientado e 6 cadernos de aula.
O conteúdo dos livros foi organizado por aulas. Cada assunto contém uma rica teoria, que contempla de forma objetiva e clara o que o aluno
realmente necessita assimilar para o seu êxito nos principais vestibulares do Brasil e Enem, dispensando qualquer tipo de material alternativo complementar.
Todo livro é iniciado por um infográfico. Esta seção, de forma simples, resumida e dinâmica, foi desenvolvida para indicação dos assuntos mais abordados nos
principais vestibulares, voltados para o curso de medicina em todo território nacional.
O conteúdo das aulas está dividido da seguinte forma:
TEORIA
Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos, de cada coleção, tem como principal objetivo apoiar o estudante na resolução de questões propos-
tas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, completos e organizados.Além disso, contam com imagens ilustrativas que complementam as explicações
dadas em sala de aula. Quadros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados, e compõem um conjunto abrangente de informações para o
estudante, que vai dedicar-se à rotina intensa de estudos.
TEORIA NA PRÁTICA (EXEMPLOS)
Desenvolvida pensando nas disciplinas que fazem parte das Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias. Nesses
compilados nos deparamos com modelos de exercícios resolvidos e comentados, aquilo que parece abstrato e de difícil compreensão torna-se mais acessível
e de bom entendimento aos olhos do estudante.
Através dessas resoluções é possível rever a qualquer momento as explicações dadas em sala de aula.
INTERATIVIDADE
Trata-se do complemento às aulas abordadas. É desenvolvida uma seção que oferece uma cuidadosa seleção de conteúdos para complementar o
repertório do estudante. É dividido em boxes para facilitar a compreensão, com indicação de vídeos, sites, filmes, músicas e livros para o aprendizado do aluno.
Tudo isso é encontrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos temas estudados. Há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até sugestões
de aplicativos que facilitam os estudos, sendo conteúdos essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica. Tudo é selecionado com finos
critérios para apurar ainda mais o conhecimento do nosso estudante.
INTERDISCIPLINARIDADE
Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é elaborada, a cada aula, a seção interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares de
hoje não exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos conteúdos de cada área, de cada matéria.
Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como biologia e química,
história e geografia, biologia e matemática, entre outros. Neste espaço, o estudante inicia o contato com essa realidade por meio de explicações que relacio-
nam a aula do dia com aulas de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizando temas da atualidade.Assim, o estudante consegue entender
que cada disciplina não existe de forma isolada, mas sim, fazendo parte de uma grande engrenagem no mundo em que ele vive.
APLICAÇÃO NO COTIDIANO
Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu distanciamento da realidade cotidiana no desenvolver do dia a dia, dificultando o
contato daqueles que tentam apreender determinados conceitos e aprofundamento dos assuntos, para além da superficial memorização ou “decorebas” de
fórmulas ou regras. Para evitar bloqueios de aprendizagem com os conteúdos, foi desenvolvida a seção “Aplicação no Cotidiano”. Como o próprio nome já
aponta, há uma preocupação em levar aos nossos estudantes a clareza das relações entre aquilo que eles aprendem e aquilo que eles têm contato em seu
dia a dia.
CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES
Elaborada pensando no Enem, e sabendo que a prova tem o objetivo de avaliar o desempenho ao fim da escolaridade básica, o estudante deve
conhecer as diversas habilidades e competências abordadas nas provas. Os livros da “Coleção vestibulares de Medicina” contêm, a cada aula, algumas dessas
habilidades. No compilado “Construção de Habilidades”, há o modelo de exercício que não é apenas resolvido, mas sim feito uma análise expositiva, descre-
vendo passo a passo e analisado à luz das habilidades estudadas no dia. Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a apurá-las na sua
prática, identificá-las na prova e resolver cada questão com tranquilidade.
ESTRUTURA CONCEITUAL
Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Geramos aos estudantes o máximo de recursos para orientá-los em suas trajetórias. Um deles
é a estrutura conceitual, para aqueles que aprendem visualmente a entender os conteúdos e processos por meio de esquemas cognitivos, mapas mentais e
fluxogramas.Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo da aula. Por meio dele, pode-se fazer uma rápida consulta aos principais conteúdos
ensinados no dia, o que facilita sua organização de estudos e até a resolução dos exercícios.
A edição 2019 foi elaborada com muito empenho e dedicação, oferecendo ao aluno um material moderno e completo, um grande aliado para o seu
sucesso nos vestibulares mais concorridos de Medicina.
Herlan Fellini
SUMÁRIO
ENTRE LETRAS
GRAMÁTICA
LITERATURA
Aula 1: Formação de palavras	 7
Aula 2: Artigos, substantivos e adjetivos	 17
Aula 3: Verbos: noções preliminares e modos indicativo e subjuntivo	 29
Aula 4: Verbos: modo imperativo e vozes verbais	 39
Aula 5: Advérbios	 45
Aula 1: A arte literária e o estudo dos gêneros	 55
Aula 2: Quinhentismo e Barroco	 69
Aula 3: Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno	 87
Aula 4: Padre Antônio Vieira	 97
Aula 5: Arcadismo no Brasil e nativismo épico 	 109
F
A
C
U
LDADE DE MED
I
C
I
N
A
BOTUCATU
1963
Abordagem de GRAMÁTICA nos principais vestibulares.
FUVEST
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Fuvest são a
formação de palavras e os usos de verbos no modo imperativo. Os demais temas são de aplica-
ção esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais e de advérbios.
UNESP
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Unesp são a
formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica,
requerendo atenção o uso de tempos verbais.
UNICAMP
Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no vestibular da Unicamp é a
formação de palavras. Os demais temas são de aplicação esporádica, requerendo atenção o uso
de tempos verbais.
UNIFESP
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Unifesp são a
formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica,
requerendo atenção o uso de tempos verbais e a aplicação geral de classes de palavras em certos
contextos.
ENEM/UFMG/UFRJ
Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no ENEM é o uso de tempos
verbais. Os demais temas são de aplicação bastante esporádica.
UERJ
Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da UERJ são a
formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica,
requerendo atenção o uso de tempos verbais.
CO M O E PA S
PA S S
A S S A
A M A R
G O E S
A R I A
S A S S
S S I N
S S A A
A M E M
T E M O
A M O R
PA R A
A R I A
R E S T
E I N S M E N T
E A M E
e l u z
Q U E A
MEMO
R I A A
F L O R D E M A
MORI ORIA
I M PA
S S I M
D E R A
TA N T OAMA
I S Q U
Formação de palavras
Competências
1 e 8
Habilidades
1, 2, 3, 4, 26 e 27
L
ENTRELETRAS
C
0 1
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
9
Morfologia: formação de palavras
Neste tópico, estudaremos os processos de estruturação e formação de palavras do português.
§
§ Radical (morfema lexical): é a parte da palavra que contém o significado mais geral e é comum às pa-
lavras chamadas de cognatas (também consideradas da mesma família).
Exemplos: terra; terreiro; terrestre; enterrar
§
§ Vogal temática: é a vogal que aparece logo após o radical, “ajudando” as palavras a receber outro signi-
ficado.Aparece nos verbos, definindo se são de 1a
, 2a
ou 3a
conjugação.
Exemplo: amar = am + a + r, onde “am” é o radical, “a” é a vogal temática de 1a
conjugação e “r” é a
desinência de infinitivo.
§
§ Tema: é a junção do radical + vogal temática ou desinência nominal.
§
§ Desinências: indicam gênero e número, para desinência nominal, e indicam tempo e pessoa, para desinên-
cia verbal. As desinências nominais caracterizam as variações de substantivos, adjetivos e certos pronomes
quanto ao gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural).As desinências verbais indicam as va-
riações dos verbos em pessoa (1a
, 2a
ou 3a
), número (singular e plural) e tempo (presente, passado e futuro).
§
§ Afixos: são elementos que se juntam ao radical para formar novas palavras. Podem aparecer antes do
radical (prefixos) ou depois do radical (sufixos).
§
§ Palavras primitivas: são aquelas que não derivam de outras.
Exemplos: pedra; noite
§
§ Palavras derivadas: são aquelas que derivam de outras.
Exemplos: pedreiro; anoitecer
§
§ Palavras simples: são aquelas que possuem apenas um radical.
Exemplos: couve; flor
§
§ Palavras compostas: são aquelas que possuem mais de um radical.
Exemplo: couve-flor
Processos de formação
Basicamente, as palavras da língua portuguesa são formadas pelos processos de derivação e composi-
ção, mas também por outros como onomatopeia, neologismo e hibridismo.
Formação por derivação
No processo de formação por derivação, a palavra primitiva (primeiro radical) sofre acréscimo de afixos. São
seis os tipos de formação por derivação.
§
§ Derivação prefixal: acréscimo de prefixo à palavra primitiva.
Exemplo: in-capaz
§
§ Derivação sufixal: acréscimo de sufixo à palavra primitiva.
Exemplo: papel-aria
10
§
§ Derivação prefixal + sufixal: acrescenta-se
um prefixo e um sufixo a um mesmo radical de
modo sequencial, ou seja, os afixos não são en-
caixados ao mesmo tempo. Percebe-se facilmen-
te, ao remover um dos afixos, a presença de uma
palavra com sentido completo.
Exemplo: in-feliz-mente
§
§ Derivação parassintética: acréscimo simultâ-
neo de um prefixo e de um sufixo a um mesmo
radical ou à palavra primitiva. Em geral, as for-
mações parassintéticas originam-se de substan-
tivos ou adjetivos para formarem verbos.
Exemplo: en-triste-cer
§
§ Derivação regressiva: ocorre redução da pa-
lavra primitiva. Nesse processo, formam-se subs-
tantivos abstratos por derivação regressiva de
formas verbais.
Exemplo: ajuda (substantivo abstrato da deri-
vação regressiva do verbo ajudar)
§
§ Derivação imprópria: ocorre a alteração da
classe gramatical da palavra primitiva.
Exemplos: (o) jantar – de verbo para subs-
tantivo; (um) Judas – de substantivo próprio
para comum
Formação por composição
Nos processos de formação de palavras por
composição, ocorre a junção de dois ou mais radicais.
Palavras com significados distintos formam uma nova
palavra com um novo significado.
Exemplo: guarda (flexão do verbo guardar;
sentinela) + roupa (vestuário) = guarda-roupa
(mobiliário)
São dois os processos de formação por compo-
sição:
§
§ Composição por justaposição: quando não
ocorre a alteração fonética das palavras. A jus-
taposição também pode ocorrer por hifenização.
Exemplos: girassol (gira + sol); guarda-chuva
(guarda + chuva)
§
§ Composição por aglutinação: quando ocor-
re alteração fonética, em decorrência da perda
de elementos das palavras.
Exemplos: aguardente (água + ardente); em-
bora (em + boa + hora)
Outros processos
Hibridismo
No processo de formação por hibridismo, as
palavras compostas ou derivadas são constituídas por
elementos originários de línguas diferentes:
§
§ grego + latim: automóvel e monóculo
§
§ latim + grego: sociologia, bicicleta
§
§ árabe + grego: alcaloide, alcoômetro
§
§ tupi + grego: caiporismo
§
§ africano + latim: bananal
§
§ africano + grego: sambódromo
§
§ francês + grego: burocracia
Neologismo
Neologismo é o nome dado ao processo de
criação de novas palavras ou palavras da própria lín-
gua portuguesa que adquirem um novo significado.
Exemplos:
§
§ Originalmente, a palavra bonde significava
certo veículo utilizado como meio de transpor-
te. Hoje, na variedade linguística utilizada por
falantes inseridos no estilo do funk carioca, foi
dado um novo significado para a palavra bonde:
turma, galera.
§
§ É comum formar verbos a partir de palavras do
meio da informática, como googlar (procurar
no Google), twittar (escrever no Twitter) ou re-
setar (de reset).
11
APLICAÇÃO NO COTIDIANO
A tabela abaixo traz os significados de alguns prefixos e radicais, alguns frequentemente usados no
dia a dia.
Prefixos latinos Significados Exemplos
a–, ab–, abs– afastamento, separação abstenção, abdicar
a–, ad–, ar–, as– aproximação, direção adjunto, advogado, arribar, assentir
ambi– ambiguidade, duplicidade ambivalente, ambíguo
ante– anterioridade anteontem, antepassado
aquém– do lado de cá aquém-mar
bene–, bem– excelência, bem beneficente, benfeitor
bis–, bi– dois, duas vezes, repetição bípede, binário, bienal
com– (con–), co– (cor–) companhia, contiguidade compor, conter, cooperar
contra– oposição controvérsia, contraveneno
cis– posição, aquém de cisandino, cisalpino
de–, des–
separação, privação, negação,
movimento de cima para baixo
deportar, demente, descrer, decair, decrescer, demolir
dis– separação, negação dissidência, disforme
Prefixos gregos Significados Exemplos
acro– alto acrobata, acrópole
aero– casa aerodinâmica
agro– campo agrônomo, agricultura
antropo– homem antropofagia, filantropo
homo– igual homônimo, homógrafo
idio– próprio idioma, idioblasto
macro–, megalo– grande, longo macronúcleo, megalópole
metra– mãe, útero endométrio, metrópole
meso– meio mesóclise, mesoderma
micro– pequeno micróbio, microscópio
mono– um monarquia, monarca
necro– morto necrópole, necrofilia, necropsia
nefro– rim nefrite, nefrologia
odonto– dente odontalgia, odontologia
oftalmo– olho oftalmologia, oftalmoscópio
onto– ser, indivíduo ontologia
orto– correto ortópteros, ortodoxo, ortodontia
pneumo– pulmão pneumonia, dispneia
12
Prefixos latinos Significados Exemplos
e– ,em– ,em– introdução, superposição engarrafar, empilhar
e–, es–, ex– movimento para fora, privação emergir, expelir, escorrer, extrair, exportar, esvaziar, esconder, explodir
extra– posição exterior, excesso extraconjugal, extravagância
intra–, posição interior intrapulmonar, intravenoso
i–, im–, in– negação, mudança ilegal, imberbe, incinerar
infra– abaixo, na parte inferior infravermelho, infraestrutura,
intra–, intro– movimento para dentro imersão, impressão, inalar, intrapulmonar, introduzir
justa– posição ao lado justalinear, justapor
o–, ob– posição em frente, oposição obstáculo, obsceno, opor, ocorrer
per– movimento através de perpassar, pernoite
pos– ação posterior, em seguida pós-datar, póstumo
pre– anterioridade, superioridade pré-natal, predomínio
pro– antes, em frente, intensidade projetar, progresso, prolongar
preter–, pro– além de, mais para frente prosseguir
re– repetição, para trás recomeço, regredir
retro– movimento mais para trás retrospectivo
Radicais gregos Significados Exemplos
–agogo o que conduz demagogo, pedagogo
–alg, –algia sofrimento, dor analgésico, cefalalgia, lombalgia
–arca o que comanda monarca, heresiarca
–arquia comando, governo anarquia, autarquia, monarquia
–cracia autoridade, poder aristocracia, plutocracia, gerontocracia
–doxo que opina paradoxo, heterodoxo
–dromo corrida, pista hipódromo
–fagia ato de comer antropofagia, necrofagia
–fago que come antropófago, necrófago
–filo, –filia amigo, amizade bibliófilo, xenófilo, lusofilia
–fobia inimizade, ódio, temor xenofobia
–fobo aquele que odeia xenófobo, hidrófobo
–gamia casamento monogamia, poligamia
–gene que gera, origem heterogêneo, alienígena
–gênese geração esquizogênese, metagênese
–gine mulher andrógino, ginecóforo
–grafia descrição, escrita caligrafia, geografia
–gono ângulo pentágono, eneágono
–latria que cultiva idolatria
–log, –logia que trata, estudo psicólogo, andrologia
–mancia adivinhação cartomante, quiromancia
–mani loucura, tendência megalomaníaco
–mania loucura, tendência cleptomania
–metro que mede barômetro, termômetro
13
Radicais latinos Significados Exemplos
aristo– melhor aristocracia
arqueo– antigo arqueologia, arqueólogo
anthos– flor antologia, crisântemo, perianto
atmo– ar atmosfera
auto– mesmo, próprio autoajuda, autômato
baro– peso, pressão barômetro, barítono
biblio– livro bibliófilo, biblioteca
bio– vida biologia, anfíbio
caco– mau cacofonia, cacoete
cali– belo caligrafia, calígrafo
carpo– fruto pericarpo
céfalo– cabeça cefalópodes, cefaleia, acéfalo
cito– célula citoplasma, citologia
copro– fezes coprologia, coprófagas
cosmo– mundo microcosmo, cosmonauta
crono– tempo cronômetro, diacrônico
dico– em duas partes dicotomia, dicogamia
eno– vinho enologia, enólogo
entero– intestino enterite, disenteria
etno– povo étnico, etnia, etnografia
filo–, filia– amigo, amizade filósofo, filantropia
fono– som, voz fonética, disfônica
gastro– estômago gastrite, gastronomia
hemo– sangue hemorragia, hemodiálise
hidro– água hidravião, hidratação
Radicais gregos Significados Exemplos
–morfo forma, que tem a forma amorfa, zoomórfico
–onimo nome sinônimo, topônimo
–polis, –pole cidade metrópole
–potamo rio mesopotâmia, hipopótamo
–ptero asa helicóptero
–scopia o que faz ver endoscopia, telescópio
–sofia sabedoria, saber filosofia, teosofia
–soma corpo cromossomo
–stico verso monóstico, dístico
–teca lugar, coleção biblioteca, hemeroteca
–terapia cura, tratamento hidroterapia
–tomia corte, divisão vasectomia, anatomia
–topo lugar topografia, topônimo
–tono tom barítono, monótono
14 14
Radicais latinos Significados Exemplos
higro– úmido higrófito, higrômetro
hipo– cavalo hipódromo, hipopótamo
–ambulo que anda noctâmbulo, sonâmbulo
–cida que mata fraticida, inseticida
–cola que habita arborícola, silvícola
–cultura que cultiva triticultura, vinicultura
–evo idade longeva, longevidade
–fero que contém ou produz mamífero, aurífero
–fico que faz ou produz benéfico, maléfico
–forme que tem a forma cordiforme, uniforme
–fugo que foge vermífugo, centrífugo
–grado grau, passo centígrado
–luquo que fala ventríloquo
–paro que produz ovíparo
–pede pé velocípede, bípede
–sono que soa uníssono
–vago que vaga noctívago
–voro que come carnívoro, herbívoro, onívoro
15
Diversonagens suspersas (Paulo Leminski)
Neste poema, o autor joga com os diferentes sentidos produzidos por morfemas iguais ou semelhantes.
Meu verso, temo, vem do berço.
Não versejo porque eu quero,
versejo quando converso
e converso por conversar.
Pra que sirvo senão pra isto,
pra ser vinte e pra ser visto,
pra ser versa e pra ser vice,
pra ser a super-superfície
onde o verbo vem ser mais?
Não sirvo pra observar.
Verso, persevero e conservo
um susto de quem se perde
no exato lugar onde está.
Onde estará meu verso?
Em algum lugar de um lugar,
onde o avesso do inverso
começa a ver e ficar.
Por mais prosas que eu perverta,
não permita Deus que eu perca
meu jeito de versejar.
(Paulo Leminski, in: Toda Poesia)
POEMA
ESTRUTURA CONCEITUAL
GRAMÁTICA
NORMATIVA
ESTUDO DOS PROCESSOS DE
FORMAÇÃO DE PALAVRAS CLASSES DE
PALAVRAS
ARTIGO
SUBSTANTIVO
ADJETIVO
VERBO
ADVÉRBIO
PRONOME
NUMERAL
PREPOSIÇÃO
CONJUNÇÃO
INTERJEIÇÃO
FORMAÇÃO DE PALAVRAS
FORMAÇÃO DE PALAVRAS
FORMAÇÃO DE
PALAVRAS
A PARTIR DE
UM ÚNICO RADICAL
SUFIXAL
PREFIXAL
IMPRÓPRIA
REGRESSIVA
PARASSINTÉTICA
JUSTAPOSIÇÃO
AGLUTINAÇÃO
FORMAÇÃO DE
PALAVRAS
COM MAIS
DE UM RADICAL
MORFOLOGIA
DERIVAÇÃO COMPOSIÇÃO
16
Artigos, substantivos
e adjetivos
Competências
1 e 8
Habilidades
1, 2, 3, 4, 26 e 27
Geralt/Pixabay
L
ENTRELETRAS
C
0 2
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
19
Artigos
O artigo é a palavra que se antepõe a um substantivo (é um marcador pré-nominal), com a função inicial de
determiná-lo, ou indeterminá-lo. São classificados em dois grupos: definidos e indefinidos.
§
§ Artigos definidos: determinam o substantivo de maneira precisa. São eles: o(s), a(s).
Exemplo: Preciso que você me traga a cadeira branca.
(O artigo definido marca a necessidade de se pegar uma cadeira determinada.)
§
§ Artigos indefinidos: determinam o substantivo de maneira vaga/imprecisa. São eles: um(uns), uma(s).
Exemplo: Preciso que você me traga uma cadeira branca.
(O artigo indefinido marca a necessidade de se pegar uma cadeira qualquer, indeterminada.)
Artigo combinado com preposições
A contração de artigos com preposições é um movimento essencial para demarcação de sentido em cons-
truções textuais. Muitas vezes, fazer ou não fazer a contração do artigo com a preposição pode alterar significativa-
mente o entendimento que se tem de um texto. Esses eventos textuais serão discutidos no próximo tópico (o artigo
aplicado ao texto). Ficaremos aqui com as possibilidades de contração do artigo com a preposição.
Preposições
Artigos
o, os à, às * um, uns uma, umas
a ao, aos à, às * — —
de do, dos da, das dum, duns duma, dumas
em no, nos na, nas num, nuns numa, numas
por pelo, pelos pela, pelas — —
* A junção de “a” preposição + “a” artigo é o que dá origem ao fenômeno da crase, que será discutido em momento oportuno.
Artigo aplicado ao texto
O artigo talvez seja uma das classes gramaticais mais subestimadas da língua portuguesa, e isso ocorre,
principalmente, pelo fato de, em âmbito escolar, ser apresentado apenas em suas características estruturais mais
básicas, sem o devido aprofundamento semântico ou textual que os vestibulares costumam abordar. Por esse mo-
tivo, apresentaremos a seguir as aplicações textuais do artigo.
Artigo como marcador de quantidade
A presença ou ausência do artigo pode servir como quantificador de elementos.
Exemplos:
§
§ Ele trocou o dinheiro em casa de câmbio da Rua do Ouvidor.
(A ausência de artigo indica que há mais de uma casa de câmbio na rua).
§
§ Ele trocou o dinheiro na casa de câmbio da Rua do Ouvidor.
(A presença de artigo indica que há apenas uma casa de câmbio na rua).
20
Artigo como marcador
de convívio/intimidade
A presença ou ausência do artigo pode servir como
algo que marca certos afetos em relação aos indivíduos.
Exemplos:
§
§ A gerência será assumida por Gerson Soares, do
almoxarifado.
(A ausência de artigo indica distanciamento de
Gerson, marcando o fato de que, possivelmente,
nem todos o conhecem.)
§
§ A gerência será assumida pelo Gerson Soares,
do almoxarifado.
(A presença de artigo indica intimidade com Ger-
son, podendo marcar uma conversa entre pesso-
as que conhecem o Gerson.)
Artigo marcando conhecimento ou
desconhecimento de substantivos
Os artigos definido e indefinido podem marcar o
conhecimento ou o desconhecimento de certos assun-
tos conduzidos por substantivos.
Exemplos:
§
§ Foi localizado ontem o jovem serial-killer que
havia fugido da cadeia.
(O artigo definido nos transmite a ideia de que
a notícia da fuga do jovem era de conhecimento
dos leitores;ou seja,o substantivo era conhecido.)
§
§ Foi localizado ontem um jovem serial-killer que
havia fugido da cadeia.
(O artigo indefinido nos transmite a ideia de que
a fuga do jovem era novidade para os leitores;
ou seja, o substantivo era desconhecido.)
Artigo como particularizador
ou generalizador
Exemplos:
§
§ Garfield é um gato.
(O artigo indefinido marca a ideia de que
Garfield é mais um entre os vários gatos no
mundo; ou seja, generaliza o substantivo.)
§
§ Garfield é o gato.
(O artigo definido marca a ideia de que Garfield
é um gato especial em relação a outros gatos; ou
seja, particulariza e destaca o substantivo.)
Artigo como marcador de coerência textual
Para marcarmos coerência textual, muitas vezes
nos valemos das capacidades de determinação e inde-
terminação dos artigos.
Exemplo:
§
§ Um rapaz magrinho apareceu em casa ontem
vendendo umas bíblias. O rapaz era bem simpá-
tico, estava bem vestido, mas me irritou quando...
No exemplo apresentado, constatamos que
quando precisamos introduzir uma informação que
nosso interlocutor desconhece, nos valemos primeiro
de um artigo indefinido, e depois de apresentado o
substantivo (no caso, o rapaz) começamos a demarcá-
-lo a partir do artigo definido. Há também outra possi-
bilidade de organização:
Exemplos:
— Então, como é o sítio?
— Bem, é um sítio antigo, retiramos a água do
poço, mas é bastante tranquilo...
Nesse segundo exemplo, a coerência textual é
definida quando é apresentado um substantivo defini-
do que nosso interlocutor conhece. Para satisfazer a de-
manda de explicação, o interlocutor abre sua explicação
marcando o substantivo com artigo indefinido.
Substantivos
É a classe de palavras variável que dá nome aos
seres, objetos e coisas em geral.
Classificação
§
§ Próprios: nomeiam a totalidade dos seres de
uma espécie (designação genérica) ou o indivíduo
único de determinada designação específica.
Exemplos: Paulo; Pedro; Roma; Folha de S.Paulo.
§
§ Comuns: nomeiam, sem distinção, todo e
qualquer ser de uma espécie.
Exemplos: cadeira; porta; sala.
§
§ Concretos: nomeiam os seres de existência
concreta, real, palpável (a pedra ou a porta, por
exemplo) e também seres dos quais já se cons-
tituiu uma imagem histórica (a bruxa ou a fada,
por exemplo).
§
§ Abstratos: nomeiam sentimentos/sensações,
elementos não palpáveis.
Exemplos: maldade; compaixão; beijo.
21
Flexões de substantivos
Número
Os substantivos podem se flexionar por núme-
ro, indicando quantidades de certos termos/elementos.
Existe, a princípio, uma regra geral, e também algumas
variantes que são apresentadas a seguir:
§
§ Regra geral: o plural dos substantivos termina-
dos em vogal ou ditongo exige o acréscimo do
sufixo marcador de plural “–s”.
Exemplos: cadeira > cadeiras;
mãe > mães; perna > pernas.
§
§ Substantivos terminados em ”–ão”
1.	 Fazem o plural em “–ãos”.
Exemplos: cidadão > cidadãos;
irmão > irmãos; órgão > órgãos.
2.	 Fazem o plural em “–ães”.
Exemplos: escrivão > escrivães;
cão > cães; alemão > alemães.
3.	 Fazem o plural em “–ões”.
Exemplos: canção > canções;
gavião > gaviões; botão > botões.
§
§ Substantivos terminados em consoantes
1.	 “r“, “z“ e “n“ fazem o plural em “–es“.
Exemplos: mar > mares; rapaz > rapazes.
2.	 Substantivos oxítonos terminados em “–s“ e
“–z“ fazem o plural em “–es“.
Exemplos: país > países; raiz > raízes.
3.	 Substantivos paroxítonos terminados em “–s“
são invariáveis.
Exemplos: atlas > atlas; lápis > lápis.
4.	 Substantivos terminados em “–al“,“–el“,“–
ol“ e “–ul“ substituem no plural o “–l“ por
“–is“.
Exemplo: animal > animais.
5.	 Substantivos oxítonos terminados em “–il“
fazem o plural em “–s“.
Exemplos: ardil > ardis; funil > funis.
6.	 Substantivos paroxítonos terminados em “–
il“ fazem o plural em “–eis“.
Exemplos: fóssil > fósseis.
Gênero
Os substantivos podem se flexionar também
por gênero, indicando quantidades de certos termos/
elementos. Também existe uma regra geral e algumas
variantes a serem observadas:
§
§ Regra geral: o feminino dos substantivos é
formado pela substituição da desinência “-o”
(masculino) pela desinência “–a” (feminino).
São conhecidos como substantivos biformes,
pois possuem duas formas diferentes para de-
signação de gênero.
Exemplos: menino > menina; garoto > garota.
Há também substantivos biformes formados por
radicais diferentes.
Exemplos: homem > mulher;cavalheiro > dama.
§
§ Substantivos uniformes: são aqueles que
apresentam uma única forma para marcação de
gênero:
1.	 Epicenos: usados para nomes de animais de
um gênero só que designam ambos os sexo.
Exemplos: a águia; a mosca; o condor;
o gavião.
Observação
Caso haja necessidade de especificar
o sexo do animal, juntam-se aos substanti-
vos os adjetivos macho ou fêmea:
Exemplos:
gavião macho > gavião fêmea;
tatu macho > tatu fêmea.
2.	 Comum de dois: a marcação de gênero é
feita exclusivamente pelos artigos. O substan-
tivo se mantém.
Exemplos: o agente > a agente;
o gerente > a gerente.
3.	 Sobrecomuns: designam ambos os sexos
com forma masculina ou feminina.
Exemplos: a criança; a testemunha; a vítima.
4.	 Flexão de grau: os substantivos se flexio-
nam por grau, e marcam aumento ou dimi-
nuição:
Grau normal: homem; boca.
Grau aumentativo: homenzarrão; bocarra.
Grau diminutivo: homenzinho; boquinha.
22
Grau diminutivo / aumentativo sintéti-
co: chapeuzinho, chapelão; homúnculo, ho-
menzarrão; boquinha, bocarra.
Grau diminutivo / aumentativo analí-
tico (junta-lhe um adjetivo que indique au-
mento ou diminuição): boca grande; homem
pequeno.
Adjetivos
É a palavra que acompanha e modifica o subs-
tantivo, podendo caracterizá-lo ou qualificá-lo.
Nomes substantivos e
nomes adjetivos
No contexto de uma frase, é possível identificar
palavras de outras classes, entre elas os adjetivos, que
se transformam em nomes (substantivos) desde que
precedidas de um artigo. Exemplos: o jovem desem-
pregado; um desempregado jovem.
§
§ Adjetivos pátrios e gentílicos
Derivados de substantivos, os adjetivos que in-
dicam a nacionalidade de pessoas e coisas são
chamados pátrios. Exemplos: brasileiro; minei-
ro; paranaense; paulista; português.
Os que indicam etnias e povos são os adjetivos
gentílicos. Exemplos: israelita; semita; gaúcho;
carioca; potiguar; europeu; africano.
§
§ Adjetivos pátrios compostos
Exemplos: luso-brasileiro; euro-asiático; teuto-
-brasileiro; afro-americano; franco-suíço; hispa-
no-americano; austro-húngaro; indo-europeu,
anglo-americano.
Flexão do adjetivo
§
§ Número: o adjetivo toma a forma singular ou
plural do substantivo que ele determina.
Exemplos: aluno estudioso > alunos estudiosos;
aluna aplicada > alunas aplicadas;
perfume francês > perfumes franceses.
§
§ Plural dos adjetivos compostos: apenas o
último elemento vai para o plural.
Exemplos: clínicas médico-dentárias; institutos
ítalo-brasileiros.
Observação 1
Há uma exceção: surdo-mudo > surdos-mudos.
Observação 2
São invariáveis os adjetivos referentes a cores,
se o último elemento ou ambos forem substanti-
vos: blusas vermelho-sangue; vestidos cor de rosa;
blusas verde-limão.
Grau dos adjetivos
§
§ Comparativo: indica determinada qualidade
em grau igual, superior ou inferior a outra.
Exemplos:
Pedro é tão estudioso como (ou quanto) Rodrigo.
Pedro é mais estudioso que Rodrigo.
Pedro é menos estudioso que Rodrigo.
§
§ Superlativo: pode indicar determinada quali-
dade em grau elevado (superlativo absoluto).
Exemplos:
Pedro é inteligentíssimo.
Rodrigo é muito inteligente.
Pode indicar determinada qualidade em grau
mais ou menos elevado em comparação à totali-
dade dos seres (superlativo relativo).
Exemplos:
João é o aluno mais estudioso da classe. (su-
perlativo relativo de superioridade)
João é o aluno menos estudioso da classe.
(superlativo relativo de inferioridade)
Substantivos e adjetivos
aplicados ao texto
Tanto os substantivos quanto os adjetivos têm im-
portantíssimas aplicações textuais, que serão exploradas
em gêneros textuais variados.Vejamos como funcionam...
Substantivo e texto
A construção de um texto depende essencial-
mente dos substantivos, pois é deles que parte o pro-
cesso de referencialidade. Entende-se por referencia-
lidade a capacidade que os substantivos têm de apontar
23
para os elementos do mundo que compõem sentido, e
também de fazer com que esses sentidos sejam cons-
truídos à medida que novos substantivos apareçam no
texto. O movimento de referencialidade parte de três
pressupostos importantes:
§
§ Introdução/construção: apresenta um subs-
tantivo no texto, não apenas o introduz, como
constitui uma ideia. É a partir desse substantivo
que o texto se constrói.
§
§ Retomada/manutenção: usam-se outros subs-
tantivos muito similares ao primeiro, que permi-
tem retomar a ideia inicialmente apresentada (o
que contribui para a manutenção de sentido)
§
§ Desfocalização: é o momento do texto em que
entram em cena novos substantivos que tomam
o foco para si e ampliam os sentidos do texto.
Adjetivo e texto
Os adjetivos exercem o importante papel de con-
duzir os processos descritivos de um texto. Em termos
mais claros, os adjetivos são responsáveis por compor
sentenças que, por exemplo, caracterizem os persona-
gens de uma narrativa (suas roupas, atitudes) ou que
apresentem detalhes a respeito de uma localização
(detalhes de uma cidade, ou ambiente florestal), entre
outras caracterizações. Em textos literários brasileiros
do período romântico, por exemplo, havia a necessida-
de de se evidenciar características que valorizassem a
nação, por esse motivo encontramos obras em que há
grandes processos de adjetivação, caracterizando o am-
biente brasileiro (o livro Iracema, de José de Alencar, é
um grande exemplo).
INTERATIVI
A
A DADE
LER
No primeiro, o autor trabalha com os sentidos das palavras “autor” e
“defunto” em diferentes classes gramaticais.
Capítulo I - ÓBITO DO AUTOR
Algum tempo hesitei se devia estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto
é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto
o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me leveram
a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um
autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a
segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que
também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença
radical este livro e o Pentateuco.
24
24
INTERDISCIPLINARIDADE
Canção: Esse cara (Caetano Veloso)
A canção, em seu refrão, recorre às propriedades semânti-
cas do emprego dos artigos: “Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher”.
ESSE CARA
Ah! Que esse cara tem me consumido
A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer
Quando vem a madrugada ele some
Ele é quem quer
Ele é o homem
Eu sou apenas uma mulher
Canção: O nome das coisas (Karnak)
A canção é composta por substantivos de diferentes naturezas.
Nomes se dão às coisas
Nomes se dão
Nomes se dão às pessoas
Nomes se dão
Nomes se dão aos deuses na imensidão do céu
Nomes se dão aos barquinhos na imensidão do mar
Nomes se dão às doenças na imensidão da dor
Nomes se dão às crianças na imensidão do amor
You and me
Salame
Batata
Barata
Bigorna
Casa
Comida
Bicho
Paçoca
Tampinha de caneta
Bolinha de sabão
Rabo de galo
Circo
Pão
Conchinha de galinha
Coxinha do mar
Linha
Palito
Terra
Água
Ar
Seriema
Tatu
Merthiolate
Saci
Rocambole de laranja
Revista
Gibi
Pipoca
Margarina
25
Lentilha
Leitão
Carrinho de feira
Terremoto
Furacão
Centopeia
Isqueiro
Cefaleia
Blefarite
Cimento
Colar
Risole
Rinite
Armário
Geladeira
Furadeira
Cobertor
Ladeira
Pedreira
Fogueira
Extintor
Jeton
Bazuca
Suporte
Argamassa
Fio de nylon
Lamparina
Chocolate
Queratina
Juliana
Cadarço
Picareta
Beija-flor
Convidados
Esfiha
Chupeta
Fruta-cor
Trompete
Arame
Hepatite
Fax-símile
Chocalho
Geleia
Biga
Mocreia
Apolo
Nostradamus
Filarmônica
Marisa
Biriba
Pelé
Afrodite
José
Filho
Veleiro
Alá
Deus
Salomão
Peixe
Pão
26
ESTRUTURA CONCEITUAL
GRAMÁTICA
NORMATIVA
MORFOLOGIA
CLASSE DAS
PALAVRAS
ESTUDO DOS PROCESSOS DE
FORMAÇÃO DE PALAVRAS
ARTIGO
PALAVRA VARIÁVEL
QUE SE ANTEPÕE
AO SUBSTANTIVO,
DETERMINANDO-O
ADJETIVO
PALAVRA VARIÁVEL
QUE ESPECIFICA
O SUBSTANTIVO,
CARACTERIZANDO-O
SUBSTANTIVO
PALAVRA VARIÁVEL QUE
DÁ NOME A SERES REAIS,
IMAGINÁRIOS OU IDEIAS
27
Verbos:noçõespreliminarese
modosindicativoesubjuntivo
Competências
1 e 8
Habilidades
1, 2, 3, 4, 26 e 27
RyanMcGuire/Pixabay
L
ENTRELETRAS
C
0 3
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
31
Verbos
Verbo é a classe de palavras que, do ponto de vista semântico (morfológico), contém as noções de ação,
processo, estado, mudança de estado e manifestação de fenômenos da natureza. É variável e suas flexões marcam:
§
§ pessoa: indica o emissor, o destinatário ou o ser do qual se fala. Os pronomes pessoais do caso reto indi-
cam as pessoas do verbo – eu, tu, ele(a), nós, vós, eles(as);
§
§ número: indica se o sujeito gramatical está no singular ou no plural;
§
§ tempo: localiza a ação, o processo ou o estado em relação ao momento do enunciado. Os tempos verbais
são seis – pretérito mais-que-perfeito, pretérito perfeito, pretérito imperfeito, futuro do pretérito, presente
e futuro (do presente);
§
§ modo: indica a atitude do emissor quanto ao fato por ele enunciado, que pode ser de certeza, dúvida,
temor, desejo, ordem etc. Os modos verbais são: indicativo, subjuntivo e imperativo (afirmativo e negativo);
§
§ voz: indica se o sujeito gramatical é agente, paciente ou, ao mesmo tempo, agente e paciente da ação.
Conjugações verbais
Conjugar um verbo compreende adicionar ao seu radical a vogal temática da conjugação ou classe a que
pertence mais os sufixos modo-temporal e número-pessoal que lhe são permitidos. Existem três conjugações ver-
bais na língua portuguesa:
§
§ 1a
conjugação: indicada pela vogal temática –a– (amar, brincar, falar);
§
§ 2a
conjugação: indicada pela vogal temática –e– (nascer, crescer, morrer);
§
§ 3a
conjugação: indicada pela vogal temática –i– (dormir, sorrir, partir).
O verbo pôr e seus derivados são considerados de 2ª conjugação por conta de um processo fonológico que
suprimiu a vogal temática –e–. Em um estágio anterior da língua portuguesa, a sua forma era poer.
Classificação dos verbos
Verbos regulares
Os verbos regulares não sofrem alteração do radical e das desinências nos diferentes tempos, modos e
pessoas. O radical do verbo é obtido pela supressão das terminações do infinitivo (–r):
§
§ mand(ar), vend(er), part(ir);
§
§ mand(o), vend(o), part(o).
Verbos irregulares
Os verbos irregulares sofrem alteração do radical e das desinências nos diferentes tempos, modos e pessoas.
§
§ fazer: faço, faria, fazia;
§
§ estar: estou, estive, estarei;
§
§ saber: sei, soubera, saiba.
Verbos anômalos
Os verbos anômalos possuem diferentes radicais:
§
§ ser: sou, é, fomos;
§
§ ir: vou, fui, ia.
32
Verbos defectivos
Os verbos defectivos não possuem todas as formas:
§
§ reaver (composto de haver, tem apenas as for-
mas em “v“): reavemos, reavia, reaverá;
§
§ precaver: precavenho, precavenha, precavinha;
§
§ latir: lates, late, latimos;
§
§ colorir: colores, colore, colorimos, coloris.
Observação
Entre os verbos defectivos estão incluídos os
chamados verbos impessoais, usados apenas na
terceira pessoa do singular: chover, trovejar, ventar,
haver (existir), fazer (refere-se ao clima: faz frio; ao
tempo: faz dez anos).
Verbos auxiliares
Os verbos auxiliares formam os tempos compos-
tos ou locuções verbais com os verbos principais:
§
§ ser (pago);
§
§ estar (curado);
§
§ ter (estudado);
§
§ haver (prometido).
Verbos abundantes
Os verbos abundantes apresentam mais de uma
forma, especificamente de particípio:
§
§ cozido e cozinhado;
§
§ morto e morrido;
§
§ imprimido e impresso.
Os particípios abundantes são classificados
em regulares e irregulares.
a)	 As formas regulares terminadas em –ado e
–ido, não contraídas, acompanham os ver-
bos auxiliares ter e haver.
Ele já havia pagado a dívida.
Tínhamos aceitado o convite.
b)	 As formas irregulares, contraídas, acompa-
nham os verbos auxiliares ser e estar.
O feijão foi cozido na panela de pressão.
A lâmpada foi acesa.
Formas nominais do verbo
O infinitivo,o particípio (regular e irregular) e o ge-
rúndio são chamados formas nominais do verbo porque
podem funcionar como nomes – substantivo, adjetivo.
§
§ Infinitivo
O comer demais faz mal. (substantivo)
O viver é bom. (substantivo)
§
§ Gerúndio
Ela bebeu chá fervendo. (advérbio)
Fervendo, desligue. (advérbio)
§
§ Particípio
Problema resolvido. (adjetivo)
A feira foi inaugurada. (adjetivo)
O parque foi inaugurado. (adjetivo)
Locução verbal
A locução verbal é a expressão constituída por
verbo (ou verbos auxiliares) seguido do verbo principal.
§
§ A Europa vem sendo desgastada pela crise.
O verbo auxiliar “vem” designa a pessoa e o nú-
mero do sujeito “Europa”, bem como o tempo verbal
designado pelo verbo principal “desgastada” – presen-
te do indicativo. O verbo principal está na voz passiva
(ser desgastada).
§
§ Hei de fazer algo mais legal.
Trata-se de uma locução verbal constituída pelo
auxiliar “hei” e o infinitivo impessoal “fazer”, antecedi-
do da preposição “de”.
§
§ Andam falando que tudo aquilo foi falso.
O gerúndio “falando” ou o infinitivo impessoal,
precedido da preposição “a” confere à locução ideia de
continuidade, de frequência, reiteração de ação.
Modos verbais
Quando lemos, falamos ou escrevemos, posicio-
namo-nos em um determinado tempo. No momento do
enunciado, os verbos ocorrem (presente), ocorreram (pas-
sados) ou ocorrerão (futuro), dependendo no modo verbal.
Tempos do modo indicativo
1.	 Presente
§
§ Indica processo no momento da fala.
Faço minhas escolhas. (atualmente, agora)
33
§
§ Indica processo habitual, constante, fato real,
verdade.
Ela cumpre seus acordos. (ação habitual)
§
§ Indica processo ocorrido até o momento da
declaração.
Moro com meus colegas.
§
§ Em narrativas históricas (presente histórico),
em lugar do pretérito perfeito.
Colombo chega à América e, em 1492, con-
quista o Novo Mundo.
§
§ Em acontecimento próximo no lugar do futuro.
Não posso almoçar contigo amanhã.
§
§ Em expressões condicionais (se...), em lugar
do subjuntivo.
Se tudo corre bem, podemos viajar.
2.	 Pretérito perfeito
§
§ Indica um processo, algo já realizado, concluí-
do, terminado, sem necessidade de referência
à outra ação anterior nem contemporânea.
João saiu ontem.
Fiz as compras.
Cheguei.
§
§ Indica processo ocorrido antes da declaração
expressa pelo verbo.
Em 1939, Hitler invadiu a Polônia.
§
§ É frequente o emprego do pretérito perfeito
composto – presente do indicativo do verbo
auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do ver-
bo principal.
Pode indicar ato habitual:
Eu tenho lido bastante.
Os alunos têm estudado muito.
Também pode indicar fato ocorrido até o mo-
mento da declaração:
Tenho comprado muitos carros iguais a este.
3.	 Pretérito imperfeito
§
§ Indica um processo ocorrido anteriormente
ao momento da declaração, mas contempo-
râneo a outro fato passado.
Eu ouvia samba, quando se deu o estouro.
Ele comia, quando da sua chegada.
§
§ É empregado para indicar processo em desen-
volvimento.
Eu dançava, quando ele entrou.
§
§ Indica processo em continuidade, habitual,
constante, frequente.
Eu residia nesta casa.
§
§ Indica processo idealizado, não realizado.
Pretendíamos ir à Bahia, mas o frio repenti-
no não permitiu.
§
§ Como manifestação de cortesia, de polidez,
em lugar do presente do indicativo ou do im-
perativo.
Queria só um abraço.
§
§ Em lugar do futuro do pretérito do indicativo.
Se ele pagasse, já estávamos (em vez de
“estaríamos“) na França.
4.	 Pretérito mais-que-perfeito
§
§ Indica uma ação passada, um fato concluído
que aconteceu antes de outro fato (ambos
no passado).
O trem partira quando ele enfim chegou.
Ela estivera presente à toda reunião.
Ele dançara muito.
§
§ Em construções exclamativas.
Quem lhe dera tê-la nos braços naquela tarde!
§
§ Em lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo.
Nadou como se estivera (estivesse) à beira
da morte.
§
§ É bastante frequente o emprego do mais-
-que-perfeito composto – imperfeito do ver-
bo auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do
verbo principal.
Eu tinha falado bastante.
Já havia ocorrido o pior.
5.	 Futuro do pretérito
§
§ Exprime ação futura em relação ao passado,
ação que teria ocorrido em relação a um fato
já ocorrido no passado.
Eu iria, se você chegasse a tempo.
§
§ Designa ações posteriores à época em que
se fala.
Ainda ficaria. Esperaria a noite. (Marques
Rabelo)
§
§ Designa incerteza, probabilidade, dúvida, su-
posição sobre fatos passados.
Seriam mais ou menos dez horas quando
chegaram. (Lobato)
34
§
§ Forma polida de presente para denotar um
desejo.
Eu precisaria namorar aquela moça.
§
§ O futuro do pretérito composto expresso –
verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no futuro do
pretérito e particípio do verbo principal.
Eu teria dito (diria) umas verdades a você.
§
§ Indica fato que teria acontecido no passado
mediante certa condição.
Teria sido diferente, se eu a amasse. (Ciro
dos Anjos)
§
§ Indica possibilidade de um fato passado.
Teria sido melhor não escrever nada. (Ruben
Braga)
§
§ Indica incerteza sobre fatos passados em cer-
tas frases interrogativas.
Ele só teria falado ou também...?
6.	 Futuro (do presente)
§
§ Indica a ação ainda não ocorrida, mas já de-
clarada pelo verbo.
Ora (direis) ouvir estrelas!/ (...) E eu vos di-
rei: amai para entendê-las! (Olavo Bilac)
§
§ Empregado para indicar um fato aproximado
ou para enfatizar uma expressão.
Na África, quantos não estarão mortos de
fome!
§
§ Indica incerteza, probabilidade, dúvida, supo-
sição.
Há uma várzea em meu sonho, mas não sei
onde será. (Augusto Meyer)
§
§ Indica fatos de realização provável.
Vem, dizia ele na última carta; se não vieres
depressa, acharás tua mãe morta. (Machado
de Assis)
§
§ Como forma polida, em vez do presente.
Mas como foi que aconteceram? E eu lhe di-
rei:sei lá,aconteceram:eis tudo. (Drummond)
§
§ É frequente o emprego do futuro do presente
composto – futuro do presente do verbo au-
xiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do verbo
principal.
Quando você chegar, eu já terei ido.
§
§ Indica ação futura a ser consumada antes de
outra.
Quando o guarda chegar,já teremos fugido.
§
§ Indica possibilidade de um fato passado.
Terá passado o furacão dentro de oito dias?
§
§ Indica certeza de uma ação futura.
Se não voltarmos em algumas horas, tere-
mos perdido a oportunidade.
Tempos do modo subjuntivo
1.	 Presente
§
§ Expressa hipótese, desejo, suposição, dúvida.
Tomara que você tenha boas festas!
Bons ventos o levem!
2.	 Pretérito imperfeito
§
§ É empregado nas orações subordinadas da
oração principal, em que o verbo esteja no
pretérito imperfeito do indicativo.
Ela desejava que todos morressem.
Esperei que eles fizessem os trabalhos di-
reito.
Apreciaria que você me beijasse.
3.	 Pretérito mais-que-perfeito (composto)
§
§ Verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no pretérito
imperfeito do subjuntivo seguido do particí-
pio do verbo principal.
Imaginei que ele tivesse trazido a grana.
(Indica fato anterior a outro, ambos no pas-
sado.)
4.	 Futuro simples
§
§ Designa fato provável, eventualidade futura.
Quando ela vier, encontrará uma bagunça.
5.	 Futuro composto
§
§ Verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no futuro
do subjuntivo seguido do particípio do verbo
principal. Designa fato futuro como encerra-
do em relação a outro também no futuro.
Só deixarei esta casa, quando ele tiver tra-
zido todos os meus pertences.
Quando eu tiver encontrado o vestido, avi-
sarei a você.
35
ASSISTIR
INTERATIVI
A
A DADE
Vídeo Jornalista - Veja o uso do futuro do pretérito.
Fonte:Youtube
36
Letra e Música Por Você (Barão vermelho)
Por Você (Barão vermelho)
Por você
Eu dançaria tango no teto
Eu limparia
Os trilhos do metrô
Eu iria a pé
Do Rio a Salvador
Eu aceitaria
A vida como ela é
Viajaria a prazo
Pro inferno
Eu tomaria banho gelado
No inverno
Por você
Eu deixaria de beber
Por você
Eu ficaria rico num mês
Eu dormiria de meia
Pra virar burguês
Eu mudaria
Até o meu nome
Eu viveria
Em greve de fome
Desejaria todo o dia
A mesma mulher
Por você! Por você!
Por você! Por você!
Por você
Conseguiria até ficar alegre
Pintaria todo o céu
De vermelho
Eu teria mais herdeiros
Que um coelho
Eu aceitaria
A vida como ela é
Viajaria a prazo
Pro inferno
Eu tomaria banho gelado
No inverno
Eu mudaria
Até o meu nome
Eu viveria
Em greve de fome
Desejaria todo o dia
A mesma mulher
Por você! Por você!
Por você! Por você!
Eu mudaria
Até o meu nome
Eu viveria
Em greve de fome
Desejaria todo o dia
A mesma mulher
LER E OUVIR
37
REFLETIR
Poema / Poesia Epígrafe
Epígrafe
Sou bem nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.
Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugiu como um furacão,
Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó –
Ah, que dor!
Magoado e só,
– Só! – meu coração ardeu:
Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
– Esta pouca cinza fria...
(Manuel Bandeira, In: A cinza das horas, 1917)
Reflita sobre o emprego dos tempos verbais no poema de Manuel Bandeira. Qual relação semântica eles
estabelecem?
38
Estrutura Conceitual
MORFOLOGIA
VERBOS
VOZES
MODOS
INDICATIVO
TEMPOS
Pretérito
Futuro
Perfeito
Do presente
Do pretérito
Imperfeito
Mais-que-perfeito
SUBJUNTIVO IMPERATIVO
Presente
TEMPOS
Pretérito imperfeito
Futuro
Presente
Verbos: modo imperativo
e vozes verbais
Competências
1 e 8
Habilidades
1, 2, 3 e 27
terimakasih0/Pixabay
L
ENTRELETRAS
C
0 4
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
41
Modo imperativo
O modo imperativo manifesta ordem, conselho, súplica ou exortação do emissor, e pode ser imperativo
afirmativo ou imperativo negativo.
§
§ Se beber, não dirija!
§
§ Dorme, que já está na hora!
FORMAÇÃO DOS IMPERATIVOS
imperativo afirmativo presente do subjuntivo imperativo negativo
Não existe primeira pessoa. que eu ame Não existe primeira pessoa.
ama (tu) que tu ames não ames (tu)
ame (ele/ela/você) que ele/ela/você ame não ame (ele/ela/você)
amemos (nós) que nós amemos não amemos (nós)
amai (vós) que vós ameis não ameis (vós)
amem (eles/elas/vocês) que eles/elas/vocês amem não amem (eles/elas/vocês)
Embora a palavra “imperativo” esteja ligada à ideia de comando, ordem, não é para comandar ou ordenar
que, na maioria das vezes, servimo-nos dele. O imperativo também é empregado para designar pedido, convite,
conselho ou súplica.
§
§ Faça isso agora, amor! (pedido)
§
§ Faça-nos uma visita! (convite)
§
§ Meu filho, faça sempre o melhor! (conselho)
§
§ Senhor, faça-nos esse milagre! (súplica)
Vozes
O fato expresso pelo verbo pode ser representado em três formas, em três vozes.
§
§ João cortou árvores.
O fato (cortou) é praticado pelo sujeito (João). Portanto, o verbo está na voz ativa.
§
§ Árvores foram cortadas por João.
O sujeito (árvores) é alvo, ou seja, sofre a ação de João. Portanto, o verbo está na voz passiva.
§
§ João cortou-se com o machado.
O sujeito (João) é alvo (cortou-se) do machado. Portanto, o verbo está na voz reflexiva.
Voz ativa
§
§ O fato indicado pelo verbo e exercido pelo sujeito (pessoa ou coisa) recai sobre um objeto (pessoa ou coisa).
Os coletores recolhem diariamente toneladas de lixo.
Os caminhões despejam toneladas de lixo.
§
§ As vozes ativa e passiva existem tão somente com verbos transitivos diretos, que necessariamente preveem
sujeito (agente da ação) e objeto (alvo da ação).
Alberto tirou boas notas.
Os pais amam seus filhos.
42
Voz passiva analítica
§
§ A voz passiva dos verbos é formada pelo verbo auxiliar ser, conjugado no tempo e na pessoa desejados, se-
guido do particípio do verbo principal:A árvore foi cortada pelo lenhador./ Muitas mansões foram alugadas
em Brasília./ Muita gente ainda vai ser julgada inocente.
§
§ A voz passiva analítica sempre é formada por tempos compostos – ser + verbo principal transitivo direto –,
bem como com pelos verbos auxiliares ter e haver.
Têm sido (foram) alugadas muitas mansões em Brasília.
Voz passiva sintética
§
§ Formada com o verbo principal transitivo direto na voz ativa, na terceira pessoa do singular ou do plural,
acompanhado da partícula apassivadora “se“.
Aluga-se casa.
Alugam-se casas.
Compra-se apartamento.
Compram-se apartamentos.
Persuadem-se alunos com muito empenho.
Voz reflexiva
§
§ Necessariamente formada pelos verbos pronominais – acompanhados de “me“, “te“, “se“, “nos“, “vos“,
“se“ –, cuja ação designada parte do sujeito e volta-se para ele mesmo.
Eu me feri. (O ato e o efeito do ferimento partem e voltam para o “eu”, que é o sujeito.)
Tu te feriste.
Ele se machucou.
Nós nos prejudicamos.
Eles se feriram com faca.
43
ANALISAR
Imagens Anúncios
O imperativo é usualmente empregado no universo publicitário.Procure identificar em qual pessoa
gramatical os verbos presentes nas imagens abaixo estão empregados.
INTERATIVI
A
A DADE
44
Estrutura Conceitual
MORFOLOGIA
VERBOS
VOZES
MODOS
INDICATIVO SUBJUNTIVO IMPERATIVO
NÃO ARTICULA TEMPO
Afirmativo
Negativo
- Passiva
- Reflexiva
- Ativa
Advérbios
Competências
1 e 8
Habilidades
1, 2, 3 e 27
terimakasih0/Pixabay
L
ENTRELETRAS
C
0 5
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional.
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
47
Advérbios
Advérbio é uma classe de palavras invariável que se associa a verbos, a adjetivos ou a outros advérbios,
cada qual com intenções bastante específicas.
§
§ Associa-se a verbos para indicar com maior precisão as circunstâncias da ação verbal.
Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio “ontem” indica com maior precisão quando Paula viajou.)
§
§ Associa-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já apresentado.
Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. (O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo preocupado.)
§
§ Associa-se a advérbios para intensificar outro advérbio já apresentado.
Exemplo: O jogador do Corinthians está se recuperando muito bem. (O advérbio “muito” intensifica o
outro advérbio “bem”.)
Classificação dos advérbios
Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferentes relações semânticas, que são as seguintes:
§
§ de lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá; atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto;
aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; nenhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; ex-
ternamente; a distância; a distância de; de longe; de perto; em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta.
§
§ de tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outrora; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; an-
tes; doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente;
imediatamente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de
repente; de vez em quando; de quando em quando; a qualquer momento; de tempos em tempos; em breve;
hoje em dia.
§
§ de modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; debalde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa;
à vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse modo; dessa maneira; em geral; frente a frente;
lado a lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que terminam em ”–mente”: calmamente; triste-
mente; propositadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; escandalosamente; bondosamente;
generosamente.
§
§ de afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubi-
tavelmente.
§
§ de negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum.
§
§ de dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavelmente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe.
§
§ de intensidade: muito; demais; pouco; tão; em excesso; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; quão;
tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de todo; de muito; por completo; extremamente; intensamente;
grandemente; bem (aplicado a propriedades graduáveis).
§
§ interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como; por que; empregadas em interrogações diretas ou
indiretas – entende-se por interrogações diretas aquelas em que as palavras em destaque iniciam uma frase
interrogativa. Já as interrogações indiretas são aquelas em que os termos destacados não iniciam a frase.
Interrogação direta Interrogação indireta
Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu.
Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora.
Por que ela não veio? Quero entender por que ela não veio.
Aonde você vai? Quero saber aonde você vai.
Donde vem esse rapaz? Necessito entender donde vem esse rapaz.
Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta.
48
Palavras denotativas que se
assemelham aos advérbios
Existem algumas palavras e locuções que se
assemelham muito a advérbios, recebendo o nome
de advérbios impróprios ou palavras com sentido
denotativo.
§
§ Advérbios de exclusão: apenas; exclusiva-
mente; salvo; senão; somente; simplesmente; só;
unicamente.
Exemplo: Todos se foram pela manhã; somen-
te ele quis partir mais tarde.
§
§ Advérbios de inclusão: ainda; até; mesmo;
inclusivamente; também.
Exemplo: Todos se foram pela manhã, até ele
que queria partir mais tarde.
§
§ Advérbios de ordem: depois; primeiramente;
ultimamente.
Exemplo: Primeiramente, gostaria de agra-
decer a todos os que estiveram presentes.
Locuções adverbiais
Locuções adverbiais são expressões forma-
das a partir de duas ou mais palavras que exercem
função adverbial. Geralmente, são iniciadas por uma
preposição, seguida de outra palavra como substan-
tivo, advérbio ou verbo, e que seja capaz de indicar
a circunstância.
§
§ de lugar: à esquerda; à direita; de longe; de
perto; para dentro; por aqui.
§
§ de afirmação: por certo; sem dúvida.
§
§ de modo: às pressas; passo a passo; de cor; em
vão; em geral; frente a frente.
§
§ de tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à
tarde; hoje em dia; nunca mais.
Grau dos advérbios
Os advérbios são palavras, por definição, invari-
áveis (não sofrem alterações de gênero ou número). No
entanto, há algumas variações de grau.
Grau comparativo
Formado do mesmo modo que o comparativo do
adjetivo:
§
§ de igualdade:
tão + advérbio + quanto (como)
Exemplo: Sara pulou tão alto quanto Patrícia.
§
§ de inferioridade:
menos + advérbio + que (do que)
Exemplo: Ana fala menos alto que João.
§
§ de superioridade:
mais + advérbio + que (do que)
Exemplo: Ana fala mais alto que João.
Grau superlativo
Intensifica a qualidade de uma coisa ou pessoa.
§
§ Superlativo analítico: vem acompanhado de
outro advérbio.
Exemplo:
O rapaz falava muito alto. (”muito” é advérbio
de intensidade; ”alto”, de modo)
§
§ Superlativo sintético: é formado por sufixos.
Exemplo:
O rapaz falava altíssimo. (advérbio de modo
formado pelo acréscimo do sufixo)
Observação: na linguagem afetiva e popular,
certos advérbios são empregados no diminutivo,
com valor de superlativo.
Exemplos:
O homem caminhava devagarinho.
Amanhã precisarei acordar cedinho.
Ela mora pertinho daqui.
O advérbio aplicado ao texto
As principais aplicações dos advérbios ao texto e
que respondem a questões semânticas importantes são
as dos advérbios frásicos versus advérbios extrafrásicos,
além da distribuição de advérbios modais (terminados
em –mente).
§
§ Advérbios frásicos: são aqueles que modifi-
cam um elemento específico da frase. Não apre-
sentam marcas de deslocamento (vírgulas).
Exemplo: O veículo corre muito.
49
§
§ Advérbios extrafrásicos: são aqueles que são exteriores à frase, estão no âmbito da enunciação e, ge-
ralmente, deslocados por vírgula.
Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje.
Observação: os advérbios extrafrásicos funcionam como elementos de avaliação do enunciador acerca do
conteúdo enunciado.
§
§ Distribuição textual de advérbios modais (mais de um advérbio terminado em “–mente”)
Quando temos uma frase que congrega mais de um advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con-
tração dos advérbios centrais (retirar o termo “–mente”) e preservar apenas o último advérbio flexionado.
Errado: Ele saiu calmamente, sorrateiramente e rapidamente.
Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente.
50
INTERATIVI
A
A DADE
LER E OUVIR
REFLETIR
Poema / Poesia Poema só para Jaime Ovalle / Você Só... Mente
Procure encontrar os advérbios no poema e na canção abaixo.
Poema só para Jaime Ovalle
Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
(Manuel Bandeira)
Você Só... Mente
Não espero mais você, pois você não aparece
Creio que você se esquece das promessas que me faz
E depois vem dar desculpas, inocentes e banais
É porque você bem sabe
Que em você desculpo
Muitas coisas mais
O que sei somente
É que você é um ente
Que mente inconscientemente
Mas finalmente
Não sei por que
Eu gosto imensamente
De você
Invariavelmente, sem ter o menor motivo
Em um tom de voz altivo
Você quando fala mente
Mesmo involuntariamente, faço cara de inocente
Pois sua maior mentira, é dizer à gente que você não mente.
(Noel Rosa)
51
51
Estrutura Conceitual
Gramática Normativa
Formação de palavras
Classes de palavras
Advérbio Preposição
Classes
invariáveis
Classe
variável
Interjeição Numeral
FUVEST
A maior parte das questões de literatura da Fuvest refere-se às obras obrigatórias. Neste cader-
no, você encontrará alguns desses exercícios de anos anteriores, bem como questões sobre as
estéticas do QUINHENTISMO, do BARROCO e do ARCADISMO.
UNESP
Como a Unesp não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste vestibular contem-
plam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. Neste
caderno, estão presentes questões sobre QUINHENTISMO, BARROCO e ARCADISMO.
UNICAMP
A maior parte das questões de literatura da Unicamp refere-se às obras obrigatórias.Neste caderno,
você encontrará alguns desses exercícios de anos anteriores,bem como questões sobre as estéticas
do QUINHENTISMO, do BARROCO e do ARCADISMO.
UNIFESP
Como a Unifesp não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste vestibular contem-
plam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. Neste
caderno, estão presentes questões sobre QUINHENTISMO, BARROCO e ARCADISMO.
ENEM/UFMG/UFRJ
Como o Enem não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste exame contemplam
o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes.
UERJ
Neste caderno, você encontrará exercícios da Uerj apenas na aula 1. O vestibular da Uerj não
exige os demais conteúdos contidos neste livro.
F
A
C
U
LDADE DE MED
I
C
I
N
A
BOTUCATU
1963
Abordagem de LITERATURA nos principais vestibulares.
A arte literária e
o estudo dos gêneros
Competência
5
Habilidades
15, 16 e 17
L
ENTRELETRAS
C
0 1
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
57
O que é arte?
Esse é um conceito historicamente muito discutido. Um estudo de Literatura que se pretenda aprofundado
deve levar em consideração os sentidos da arte e notadamente a análise técnica dela. A palavra literatura é
de origem latina e significa “arte de escrever”. Portanto, conjugar essa relação entre arte e escrita é o primeiro
passo para dar corpo à maneira de divulgar os valores culturais que estruturam uma sociedade e uma civilização.
Entender os conhecimentos científicos, filosóficos, religiosos e artísticos de um dado contexto é de fato conhecer o
próprio homem e compreender sua identidade.
O filósofo Aristóteles considerava que a arte era uma maneira de “imitar” (mimesis, do grego) a realidade
do homem, que, em seus vários suportes, cria essa possibilidade de fazê-lo pensar sua própria vida, conhecer a si
próprio, encontrar-se como ser humano, observar criticamente a realidade, divertir-se e sonhar.
Da Antiguidade Clássica às Idades Moderna e Contemporânea, a arte se manifesta em vários suportes de
diversas formas – música, pintura, literatura, dança, escultura e teatro. Funciona como elemento transformador da
consciência humana. O artista, esse criador, cria e recria realidades, expressa valores estéticos com beleza, harmo-
nia e equilíbrio e estrutura-se à luz de um contexto de circulação, de transformação, de um agente e de um público.
No decorrer dos tempos, esses conceitos foram se transformando sem perder sua lógica. Seja na perfeição
e harmonia das formas da Antiguidade Clássica (período greco-latino), seja no teocentrismo medieval, com suas
relações de vassalagem, seja no século XIX, com suas utopias românticas, seja nas vanguardas artísticas do século
XX. Emoções humanas, alegrias e angústias, ideologias, religião, luta social e cultura sempre perpassaram e fre-
quentaram os conceitos estéticos da arte e da literatura.
A Literatura é um mundo aberto ao mesmo tempo às múltiplas reflexões sobre a história do mundo, sobre
as ciências naturais, sobre as ciências sociológicas, sobre a antropologia cultural, sobre os princípios éticos, sobre
política, economia, ecologia (...)
MORIN, Edgar. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
O que nos leva a ir ao cinema, a um show, à biblioteca, ao museu e, principalmente, a ler um livro? A res-
posta está no reflexo da própria condição humana, no processo de identificação do homem com a arte. Essa atitude
transforma só pelo fato de estarmos refletindo, primeira condição da arte. Esse ponto de partida, independente-
mente de sua presumível qualidade, é uma forma de compreender o mundo que nos cerca.
58
É impossível não se identificar com o eu lírico, a
voz do poema, ao lermos versos como estes, de Manuel
Bandeira:
O bicho (Manuel Bandeira)
Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Comunicação e linguagem
A Literatura leva em consideração o emprego de
imagens criadas a partir das palavras.
A palavra está sempre carregada de um conteú-
do ou sentido ideológico ou vivencial.
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem.
São Paulo: Hucitec, 1998.
Essa linguagem artística respeita alguns parâ-
metros, condicionamentos sociais e culturais, que lhe
oferecem a dimensão de suas verdades e o melhor
modo de dizê-las. À análise literária cabe construir um
processo de comunicação segundo o qual “o quê” está
sendo dito tenha estreita relação com o “como” está
sendo dito. É dessa simbiose que se estabelece uma es-
tética específica, atrelada a um contexto específico, e se
nomeia uma dada escola literária específica.
Tudo o que nos rodeia e que foi criado pela mão
do homem, todo o mundo da cultura, diferentemente
do mundo da natureza, tudo isso é produto da imagina-
ção e da criação humana.
VYGOTSKY, Lev S. Pensamento e linguagem.
São Paulo: Martins Fontes, 1987.
O essencial em Literatura é estabelecer uma re-
lação de sentido entre as palavras e os leitores, para
tanto, os escritores se valem de uma série de recursos
técnicos que elevam os textos literários ao conceito de
arte, diferenciando-os, por exemplo, dos textos informa-
tivos ou instrucionais. O texto literário deve explorar o
potencial significativo e sonoro das palavras, bem como
os aspectos ora denotativos, em sua literalidade de di-
cionário, ora conotativos em que as palavras adquirem
novo sentido a fim de produzir efeito artístico.
O poder de explorar os sentidos coloca essas pa-
lavras em situações inusitadas, criando imagens com as
figuras de linguagem com as quais o escritor “desenha”
para o leitor comparações que concretizam as emoções.
Como no uso da metáfora, que aproxima dois elementos
num contexto específico, transferindo de um para outro
suas características. Tal processo fica evidente no exem-
plo a seguir, de Mário Quintana, em que a “inspiração” é
comparada, por metáfora, a “um pássaro que pousa no
livro que lês”.
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 469.
Prosa e poesia
Prosa e poesia são dois elementos constitutivos
desse processo de comunicação literária que ganha for-
mas diferentes. A prosa é mais referencial e se vale do
uso do texto corrido organizado da esquerda para a di-
reita no papel ocidental.
Já o poema está primordialmente preocupado
com a forma e adquire, no decorrer da história, várias
estruturas a partir da lógica do verso, que é a linha do
poema, e de um conjunto deles, denominado estrofe. Es-
tão imersos num trabalho de ritmo e rimas que podem
ou não seguir padrões de tamanho e convenção. O termo
“poesia”, “poética” e “poeta” derivam dos termos dos
grego poíesis, poiêtikê, poiêtês, que significam criar.
59
O que é gênero literário?
Gênero é o modo como se veicula a mensagem
literária, o padrão a ser utilizado na composição artística.
Há grandes diferenças entre o conteúdo e a forma dos
textos. Um poema não se confunde com um conto, e um
romance segue padrões bastante próprios em relação a
uma peça de teatro,por exemplo.Dessa forma,gênero é
a denominação dada a um grupo de textos que comparti-
lham características de forma e de conteúdo.
Na Antiguidade Clássica, Aristóteles conceituou
conteúdo como elemento constitutivo da representação
das paixões, das ações e do comportamento humano. A
forma desse conteúdo, a princípio aplicada apenas à po-
esia, compreende três gêneros: épico, lírico e dramático.
Odisseu e Penélope
O gênero épico
Épico é derivado do grego épos que, entre outras
coisas, significa palavra, verso, discurso. Esse gênero,
também chamado de epopeia, nasceu com a Ilíada e a
Odisseia, de Homero. Oriundo das tradições orais, elas
contam histórias que auxiliam o homem a entender a
trajetória de seus povos. Advindas das tradições orais,
as epopeias contam histórias que auxiliam o homem a
entender a trajetória de seus povos. É característica das
narrativas mais antigas a simbolização dos ideais cole-
tivos de um povo na figura de um herói imerso numa
grande aventura, numa guerra ou num acontecimento
histórico. O eu lírico da epopeia relaciona-se diretamen-
te com a sociedade.A imagem do herói é constituída de
uma representação de seu povo, cujo comportamento
exemplar vai caracterizá-lo como figura predestinada a
cumprir determinada missão.
Narrados de maneira elevada e com vocabulário
grandiloquente e solene, os assuntos históricos sofrem
influência do imaginário e não se privam de recorrer à
imaginação, bem como à mitologia.
Na cena inicial da Odisseia, de Homero, é possí-
vel identificar características primordiais do texto épico,
como o pedido de inspiração do poeta às musas para
contar a história de Odisseu, que passou por terríveis
provações até retornar a sua casa, Ítaca:
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso
que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas sa-
gradas de Troia; muitas cidades dos homens viajou, co-
nheceu seus costumes, como no mar padeceu sofrimen-
tos inúmeros na alma,para que a vida salvasse e a de
seus companheiros a volta.
Homero. Odisseia.Tradução de: Carlos Alberto Nunes.
5. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. Coleção Universidades.
A estrutura do poema épico
É dividido em partes, chamadas cantos, que,
por sua vez, são divididos em:
§
§ Proposição:
O texto apresenta o tema e o herói.
§
§ Invocação:
O texto pede inspiração à musa (divindade
inspiradora da poesia).
§
§ Narração:
Narração das aventuras do herói.
§
§ Conclusão ou Epílogo:
Encerramento das aventuras e conclusão
dos feitos heroicos.
As epopeias são divididas em “clássicas ou pri-
márias” ou de “imitação ou secundárias”.
60
Epopeias clássicas ou primárias
A estrutura dos poemas de Homero serviu de inspi-
ração para outros poetas,como o latinoVirgílio,em Eneida
(19 a.C.), e Camões, em Os Lusíadas (1572).A Odisseia e
a Ilíada, de Homero, são textos clássicos que inspiraram e
sistematizaram regras e estruturas formais para os demais.
Eneias foge em direção à península Itálica.
Nesse tipo de texto, os deuses são apresentados
como seres reais que são tomados por sentimentos hu-
manos e podem tanto prejudicar como ajudar o herói, de-
pendendo do seu estado emocional e da preponderância
do tema narrado. Outro aspecto importante é perceber a
preocupação do poeta em relacionar as ações do herói
com o povo a que pertence a fim de enaltecer a identi-
dade pátria.
Epopeias de imitação ou secundárias
Entre os anos 30 e 19 a.C., o poeta latino Virgí-
lio escreveu a Eneida, considerada a “epopeia nacional
dos romanos”. No classicismo renascentista, o portu-
guês Luís de Camões escreveu Os Lusíadas, um dos
mais conhecidos poemas épicos de imitação. Nele, são
reveladas as aventuras e peripécias do herói Vasco da
Gama, primeiro navegante que cruzou o Cabo da Boa
Esperança, ao sul da África, e levou os portugueses às
Índias, criando uma nova rota comercial.
As transformações do herói
1. Na Ilíada e na Odisseia, o herói é guiado pelas
divindades.
2. Na Eneida e em Os Lusíadas, o herói é represen-
tante de um povo.
3. Em Robson Crusoé e em O conde de Monte Cris-
to, o herói é humano e individual.
O gênero lírico
Esse gênero nasceu na Grécia antiga, cujos po-
emas eram acompanhados musicalmente pela lira. É o
gênero centrado na expressão do “eu poético” ou “eu
poemático” – voz que fala no poema, não necessaria-
mente correspondente à voz do autor.
Menos grandiosos que os da epopeia, seus te-
mas dizem respeito ao mundo interior do eu lírico, aos
sentimentos, ao individualismo, às relações consigo
mesmo. Pronomes e verbos vêm normalmente na pri-
meira pessoa do singular e predominam as emoções,
rimas, ritmo, sonoridade das palavras, metáforas, repeti-
ções, entre outras figuras de linguagem, que trazem aos
versos musicalidade e suavidade.
O gênero lírico é subdividido em: soneto, elegia,
ode, madrigal, écloga etc.
§
§ Soneto – forma lírica bastante conhecida, é
composta de catorze versos, com dois quartetos
e dois tercetos.
Soneto da fidelidade
(Vinicius de Moraes)
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
61
§
§ Elegia – poema em tom triste e fúnebre origi-
nado na Grécia antiga. Caracterizam as digres-
sões moralizantes destinadas a ajudar ouvintes
ou leitores a suportar momentos difíceis da vida,
como a morte de um ente querido ou de uma
personalidade pública.
Elegia na sombra
Fernando Pessoa (2 jun. 1935)
Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia torna-se desgraça.
Pesa em nós o passado e o futuro.
Dorme em nós o presente. E a sonhar
A alma encontra sempre o mesmo muro,
E encontra o mesmo muro ao despertar.
Quem nos roubou a alma? Que bruxedo
De que magia incógnita e suprema
Nos enche as almas de dolência e medo
Nesta hora inútil, apagada e extrema?
Os heróis resplandecem a distância
Num passado impossível de se ver
Com os olhos da fé ou os da ânsia.
Lembramos névoa, sombras a esquecer.
Que crime outrora feito, que pecado
Nos impôs esta estéril provação
Que é indistintamente nosso fado
Como o pressente nosso coração?
(...)
Como – longínquo sopro altivo e humano! –
Essa tarde monótona e serena
Em que, ao morrer, o imperador romano
Disse: Fui tudo, nada vale a pena.
§
§ Ode – poema lírico de exaltação e homenagem,
também originado na Grécia antiga, destina-
do ao canto. Composto de estrofes e de versos
iguais em tom alegre, entusiástico e de louvação.
Ode do gato
(Pablo Neruda)
Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.
Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só ranhura
para jogar as moedas da noite.
Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando, desconfiando
62
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.
Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gato, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.
Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.
§
§ Madrigal – composição poética elegante cujos
temas invocam atos heroicos e pastoris.
Madrigal melancólico
(Manuel Bandeira)
O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
– Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
§
§ Écloga – poema ambientado no campo, pastoril
e bucólico.
Écloga IV (v. 52-59)
(Virgílio)
Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
A última parte desta vida seja-me tão longa,
que para dizer os feitos não me falte alento!
O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
e por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
dar-se-á por vencido o próprio Pã,por juiz aArcádia.
63
Natureza das rimas
§
§ Ricas – entre palavras de classes gramaticais
diferentes:
Cristina e ensina
§
§ Pobres – entre palavras de mesma classe
gramatical:
Precisava esconder sua afeição...
Na Idade Média, uma imortal paixão
§
§ Toantes – coincidem apenas as vogais tônicas:
hora e bola; saltava e mata
§
§ Aliterantes – entre sons consonantais idênti-
cos ou semelhantes:
vozes, veladas, veludosas, vozes/
vagam nos velhos vórtices velozes
§
§ Consoantes – a correspondência dos sons é com-
pleta (compare com a rima toante, na qual coinci-
dem apenas as vogais tônicas):
terra e serra;
amoníaco e zodíaco;
rutilância e infância
§
§ Esdrúxulas – entre palavras proparoxítonas:
É um flamejador, dardânico
uma explosão de rápidas ideias,
que com um mar de estranhas odisseias
saem-lhe do crânio escultural, titânico!...
(Cruz e Sousa)
§
§ Agudas – entre palavras oxítonas:
dó e só; fez e vez; ti e vi
§
§ Preciosas – entre palavras combinadas:
múmia e resume-a; réstea e veste-a;
águia e alague-a; estrela e vê-la
§
§ Versos brancos – verso sem rimas.
Irene no Céu
(Manuel Bandeira)
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
– Licença, meu branco! E São Pedro bonachão:
– Entra, Irene.Você não precisa pedir licença.
Disposição das rimas no poema
§
§ Mistas – sem posição regular:
De uma, eu sei, entretanto 1
,
Que cheguei a estimar 2
Por ser tão desgraçada 3
!
Tive-a hospedada 3
a um canto 1
Do pequeno jardim 4
;
Era toda riscada 3
De um traço cor de mar 2
E um traço carmesim 4
.
(Alberto de Oliveira)
§
§ Emparelhadas (AABB):
No rio caudaloso que a solidão retalha A
,
na funda correnteza na límpida toalha A
,
deslizam mansamente as garças alvejantes B
;
nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes B
...
(Fagundes Varela)
§
§ Interpoladas ou opostas (ABBA):
Mais de mil anos-luz já separado A
,
Naquela hora, do meu pensamento B
.
O filme de uma vida, ínfimo momento B
,
O derradeiro instante havia impregnado A
.
§
§ Alternadas ou cruzadas (ABAB):
Amor, essência da vida A
,
é uma expressão de Deus B
.
Alma, não fique perdida A
!
Ele luz os dias seus B
.
Classificação dos versos
§
§ Monossílabos – uma única sílaba:
Ru/a
tor/ta
Lu/a
mor/ta
Tu/a
por/ta
§
§ Dissílabos – duas sílabas:
Tu,/ on/tem
na/ dan/ça
que/ can/sa
vo/a/vas
com as/ fa/ces
64
em/ ro/sas
for/mo/sas
de/ vi/vo
car/mim/
(Casimiro de Abreu)
§
§ Trissílabos – três sílabas:
Vem/ a au/ro/ra
pre/ssu/ro/sa
cor/ de/ ro/sa
que/ se/co/ra
de/ car/mim/
as/ es/tre/las
que e/ram/ be/las
têm/ des/mai/os
já/ por/ fim/
(Gonçalves Dias)
§
§ Tetrassílabos – quatro sílabas:
O in/ver/no/ bra/da
for/çan/do as/ por/tas
Oh!/ Que/ re/voa/da
de/ fo/lhas/ mor/tas
o/ ven/to es/pa/lha
por/ so/bre o/ chão/...
(Alphonsus de Guimarães)
§
§ Pentassílabos ou redondilha menor – cinco
sílabas:
Meu/ can/to/ de/ mor/te,
Gue/rrei/ros/ ou/vi/
Sou/ fi/lho/ das/ sel/vas
Nas/ sel/vas/ cres/ci/
Gue/rrei/ros/ des/cen/do
Da/ tri/bo/ tu/pi
(Gonçalves Dias)
§
§ Hexassílabos – seis sílabas:
Ou/ de/sse/ mes/mo e/nig/ma
[...]
Pro/pí/cios/ a/ nau/frá/gio
[...]
De/ me in/cli/nar/ a/fli/to
(Carlos Drummond de Andrade)
§
§ Heptassílabos ou redondilha maior – sete
sílabas:
An/tes/ de a/mar,/ eu/ di/zi/a
pa/ra/ cor/tar/ na/ ra/iz/
es/ta/ cons/tan/te a/go/ni/a
pre/ci/so a/mar/ al/gum/ di/a
a/man/do,/ se/rei/ fe/liz./
(Menotti del Picchia)
§
§ Octossílabos – oito sílabas:
No ar/ so/sse/ga/do, um/ si/no/ can/ta
Um/ si/no/ can/ta/ no ar/ som/bri/o
(Olavo Bilac)
§
§ Eneassílabos – nove sílabas:
A/deus,/ ó/ Lu/a,/ Lu/a/ dos/ me/ses,
Lu/a/ dos/ Ma/res,/ o/ra/ por/ nós!.../
(Antônio Nobre)
§
§ Decassílabos ou Medida Nova – dez sílabas:
A/mo/-te, ó/ cruz, /no/ vér/ti/ce/ fir/ma/da
§
§ Hendecassílabos – onze sílabas:
Nas/ ho/ras/ ca/la/das/ das/ noi/tes/ d’es/ti/o
Sen/ta/do/ so/zi/nho/ c’oa/ fa/ce/ na/ mão/,
Eu/ cho/ro e/ so/lu/ço/ por/ quem/ me/ cha/ma/va
— “Oh/ fi/lho/ que/ri/do/ do/ meu/ co/ra/ção/!”
(C. de Abreu)
§
§ Dodecassílabos ou Alexandrinos – doze
sílabas:
A/ ca/sa/ que/ foi/ mi/nha,/ ho/je é/ ca/sa/ de/ Deus.
Traz/ no/ to/po u/ma/ cruz./A/li/ vi/vi/ com os/ meus
(Aberto de Oliveira)
§
§ Bárbaros – mais de doze sílabas:
Nun/ca /co/nhe/ci /quem/ ti/ve/sse/ le/va/do/
po/rra/da.
To/dos os/ meus/ co/nhe/ci/dos/ têm/ si/do/
cam/pe/ões/ em/ tu/do.
(Fernando Pessoa)
O gênero dramático
A característica e a finalidade primordiais do
gênero dramático (do grego drân: agir) é ser levado à
representação, à “ação”.
Compreende o gênero teatral, cuja encenação,
no entanto, escapa à alçada da literatura. O eu poético
relaciona-se com um tu/vós, segunda pessoa do discur-
so, a plateia. O texto dramático pressupõe essa plateia,
que o vivencia e pode	 fruir emoções mediante a
representação do texto.
65
Caracterizam o gênero dramático a ausência de
narrador, o discurso direto – estrutura dialogada – e as
rubricas – indicações cênicas que sinalizam ao diretor e
aos atores a postura no palco, o tom de voz etc.
Ao invés da presença do narrador, o texto dramáti-
co conta a história pretendida mediante diálogos entre os
personagens, que estabelecem com o público uma relação
direta,a fim de comprometê-lo emocionalmente com a his-
tória contada e os personagens dela. O termo teatro deriva
do grego théatron, que significa “ver”,“contemplar”.
Esse gênero subdivide-se em tragédia, comédia,
drama, auto e farsa.
§
§ Tragédia
Conta histórias cujos resultados são destrutivos e
irreversíveis. Em geral baseada em mitos e histó-
rias já conhecidas do público, a tragédia preten-
de causar no espectador terror, piedade, catarse,
ou seja, “descarga de desordens emocionais ou
afetos desmedidos a partir da experiência estética
oferecida pelo teatro, música e poesia”. Persona-
gens lutam contra forças mais poderosas que elas,
que, em princípio, são vencidas regularmente com
a morte. Sugestão: Édipo Rei, de Sófocles.
§
§ Comédia
Enfatiza o comportamento ridículo do ser hu-
mano mediante exposição e crítica de costu-
mes sociais. Exemplos: O doente imaginário, de
Molière; A tempestade, de Shakespeare; e Lisís-
trata, de Aristófanes.
§
§ Drama
A peça funde tragédia e comédia sem, no en-
tanto, que a história caminhe para resultados
irreversíveis. Em geral, trata de fatos do coti-
diano com final feliz ou não, mas com trajetória
intrigante, de difícil solução. Exemplo: Leonor de
Mendonça, de Gonçalves Dias; e Macário, de Ál-
vares de Azevedo.
§
§ Auto
Peça teatral curta regularmente com temática
religiosa e moralizante e com finalidade cate-
quética, que discute conceitos abstratos e sim-
bólicos. Exemplo: O auto da barca do inferno, de
Gil Vicente.
§
§ Farsa
Peça teatral de crítica social que apresenta per-
sonagens e situações caricaturadas sem preocu-
pação com o questionamento de valores.
Exemplo: A farsa de Inês Pereira, de GilVicente.
O gênero narrativo
Oriunda do gênero épico, a narrativa organiza
uma história levando em consideração aspectos primor-
diais de sua estrutura: apresentação, desenvolvimento,
clímax e desfecho.
Os gêneros narrativos apresentam-se como:
66
§
§ Conto
Narrativa curta centrada em um único aconteci-
mento. Apresenta uma ação que se encaminha
para uma tensão (clímax) entre personagens,
delimitados num tempo e espaço reduzidos.
Exemplos: Amor, de Clarice Lispector; O menino
do boné cinzento, de Murilo Rubião; e A causa
secreta, de Machado de Assis.
§
§ Novela
Narrativa situada entre a brevidade do conto e
a longevidade do romance. Exemplos: A hora e
a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa;
e Os crimes da rua Morgue, de Edgar Allan Poe.
§
§ Crônica
Narrativa breve baseada na vida cotidiana, deli-
mitada por tempo cronológico curto, em lingua-
gem coloquial e leve toque de humor e crítica.
Exemplos: Comédias da vida privada – 101 crô-
nicas escolhidas, de Luís Fernando Veríssimo.
§
§ Romance
Narrativalongaquediscorresobreumgrandecon-
flitocentralquedáorigemaoutrossecundários,com
preendendo vários personagens em constante
conflito psicológico, envolvidos pela trama que
caminha para um clímax. Exemplos: Grande ser-
tão: veredas, de Guimarães Rosa; São Bernardo,
de Graciliano Ramos; e O senhor dos anéis, de
J.R.R.Tolkien.
§
§ Anedota
Relato de um acontecimento curioso ou engra-
çado. Como o provérbio, a anedota, além da tra-
dição oral, vem inserida em textos literários.
§
§ Apólogo
Historinha entre objetos inanimados com moral
implícita ou explícita. Um apólogo, de Macha-
do de Assis, trata da conversa entre uma agulha
e uma linha que discutem sobre a importância
delas. Observe o último parágrafo em que está
implícita a moral:
“Parece que a agulha não disse nada; mas um
alfinete, de cabeça grande e não menor experi-
ência, murmurou à pobre agulha:
– Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir ca-
minho para ela e ela é que vai gozar da vida,
enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze
como eu, que não abro caminho para ninguém.
Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melanco-
lia, que me disse, abanando a cabeça:
– Também eu tenho servido de agulha a muita
linha ordinária!”
§
§ Fábula
Difere do apólogo, uma vez que seus persona-
gens são animais. Esse gênero teve ilustres cul-
tores na literatura ocidental, como Esopo, Fedro
e La Fontaine.
tt
Livros
O que é literatura – Marisa Lajolo
Definir o que é, o que não é e o que pode ser literatura depende do
ponto de vista, do sentido que a palavra tem para cada um, da situa-
ção na qual se discute o que é literatura.
Literatura para quê? – Antoine Compagnon
Nesta obra, Antoine Compagnon propõe-se a responder à pergunta
que intitula sua aula inaugural no Collège de France – ‘Literatura
para quê?’. O livro pretende ser uma reflexão sobre os poderes da
literatura que colocam em relevo a convicção de que o texto literário
ainda cumpre uma função no mundo do início do século XXI.
Gêneros Literários – Angélica Soares
As manifestações poéticas mais remotas já mostram a tendência
para classificar as obras literárias conforme a realidade que retratam,
pelo uso de mecanismos de estruturação semelhantes.
INTERATIVI
A
A DADE
LER
67
68
Estrutura Conceitual
Contam histórias que
auxiliam o homem a
compreender sua
trajetória
Oriundo do gênero
épico, organiza uma
história a partir de
características variadas
Conhecido como gênero
teatral, sua produção é
destinada à representação
Gênero centrado na
expressão do “eu
poético” ou “eu lírico”
(Trabalho com sonetos,
elegias, odes...)
(Trabalho com
romance, conto...)
(Trabalho com
textos teatrais)
(Trabalho com
as epopeias)
Gênero Épico Gênero Dramático
Gênero Lírico Gênero Narrativo
Arte Literária
Arte Literária
68
©
Wikimedia
Commons
Quinhentismo e Barroco
Competência
5
Habilidades
15, 16 e 17
LENTRELETRAS
C
0 2
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras
culturas e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da
identidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e
da própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante
a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da
realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
71
Observe, na tabela abaixo, os períodos literários do Brasil Colônia.
Quinhentismo (1500-1601) Barroco (1601-1768) Neoclassicismo (1768-1836)
O primeiro documento escrito foi a Carta de
Pero Vaz de Caminha, destinada a Dom Ma-
nuel, rei de Portugal.
Publicação do poema épico Prosopopeia, de
Bento Teixeira.
Publicação de Obras Poéticas, de Cláudio
Manuel da Costa.
Florescimento da chamada literatura de
informação, cujo objetivo era descrever
para a Corte portuguesa a terra descoberta.
Poesias lírica, religiosa e satírica, de
Gregório de Matos, em Salvador, Bahia.
Atuação do Grupo Mineiro em Vila Rica,
Minas Gerais.
Desenvolvimento da literatura de ca-
tequese, com a finalidade de doutrinar
os indígenas.
Oratória doutrinária do padre Antônio
Vieira, em Salvador, Maranhão, e outras
áreas do Nordeste brasileiro.
Poesia árcade de Cláudio Manuel da Cos-
ta (sonetos).
Textos de teatro com teor catequético. Sermões, do padre Antônio Vieira
Tomás Antônio Gonzaga escreve Marília de
Dirceu.
Produção de poesia religiosa. Conceptismo e cultismo.
Poesia épica indianista: O Uraguai, de
Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa
Rita Durão.
José de Anchieta é o principal expoente da
literatura catequética.
Contexto de reformas religiosas. A natureza é a base temática.
Quinhentismo ou Literatura colonial
A literatura brasileira
floresceu em duas fases
O período é didaticamente chamado de Qui-
nhentismo brasileiro e os documentos produzidos
durante esse tempo não podem ser considerados litera-
tura artística, mas manifestações literárias, uma vez
que não são criações de caráter artístico, e sim produtos
de observações ora objetivas, ora subjetivas.
Esse primeiro período da história da nossa lite-
ratura, chamado Quinhentismo, começou em 1500, ano
em que Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de
Pedro Álvarez Cabral, enviou a Dom Manuel I a famosa
Carta. Ela comunica ao soberano o “achamento” (esse
era o termo usado na época) das terras brasileiras. No
século XVI, os textos produzidos no Brasil ligam-se a
duas necessidades práticas principais da empresa colo-
nizadora portuguesa: fornecer informação sobre a nova
terra e converter os indígenas ao cristianismo. Nessa literatura de valor principalmente documental, encontram-se
elementos importantes para a compreensão das origens históricas e literárias do Brasil.
A primeira fase corresponde ao período do Brasil colonial, durante os séculos XVII e XVIII. Naquela época,
uma da primeiras vozes da literatura brasileira foi a do poeta Gregório de Matos e Guerra, instalado em Salva-
dor, no século XVII. Durante o século XVIII, Minas Gerais acompanhou a produção de poetas sediados em Vila Rica
(atual Ouro Preto), Mariana, São João Del-Rei, cidades vinculadas ao ciclo do ouro e pedras preciosas.
A segunda fase da literatura brasileira nasceu na época do Brasil independente, a partir de 1822.
Descobrimento, de Cândido Portinari (1956).
72
Não se pode falar em uma literatura “do Brasil”,
como característica do país naquele período, mas em
literatura “no Brasil”, uma literatura ligada ao Brasil,
que denota as ambições e as intenções do homem eu-
ropeu. Divide-se em literatura informativa e litera-
tura jesuítica. O Quinhentismo serviu de inspiração
literária para alguns poetas e escritores do Romantismo
– Gonçalves Dias, José de Alencar – e do Modernismo –
Oswald de Andrade, Murilo Mendes.
Literatura de informação
A expansão ultramarina europeia levou inúme-
ros viajantes às terras recém-descobertas ou exploradas
da Ásia, África e América com a missão de produzir re-
latórios informativos sobre essas terras e aspectos exó-
ticos e pitorescos de seus habitantes. Esses relatórios,
denominados “crônicas de viagem”, têm caráter mais
histórico do que literário, e a linguagem é predominan-
temente referencial ou denotativa.
A Carta, de Pero Vaz de Caminha, considerada o
primeiro documento da literatura no Brasil, inaugurou a
chamada literatura informativa: manifestações literárias
de considerável valor histórico e profundo caráter docu-
mental sobre o Brasil, escritas por cronistas e viajantes
estrangeiros. Descrevem e informam sobre a nova co-
lônia portuguesa, salientando a conquista material e a
exaltação da terra nova. Estes relatos visavam a satisfa-
zer a curiosidade e a imaginação dos europeus.
Índio tapuia. Eckhout, A. (1610-1666)
©
Albert
Eckhout/Wikimedia
Commons
Na literatura informativa encontram-se docu-
mentos,cartas e relatórios de navegantes,administrado-
res, missionários e autoridades eclesiásticas. Descrevem
e exaltam a flora, a fauna e os índios do Brasil, bem
como o exotismo e a exuberância de um mundo tropical.
Também predomina o registro referencial da linguagem
que reflete tal louvor à terra com o emprego exagerado
de adjetivos no superlativo, bem como modelos clássi-
cos e renascentistas que tendem à erudição.
Os textos informativos formam um painel da
vida dos anos iniciais do Brasil Colônia, dando notícias
dos primeiros contatos entre os europeus e a realidade
da nova terra. A opulência da flora e da fauna impres-
sionou vivamente o colonizador, enquanto o modo de
vida dos indígenas foi motivo de muita curiosidade e de
incompreensão – os colonizadores nunca abandonaram
sua concepção de que eram donos de uma cultura supe-
rior no interior do próprio sistema colonial. Esses textos
cumpriam, acima de tudo, uma finalidade prática.
§	 Carta, de Pero Vaz da Caminha, escrita em 1500;
§	 Diário de navegação, de Pero Lopes de Souza,
escrito entre 1530 e 1532, durante a expedição
de Martim Afonso de Sousa;
§	 História da Província de Santa Cruz e Tratado da
Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gandavo,
ou Gândavo, publicados, respectivamente, em
1576 e 1826;
§	 Tratado descritivo do Brasil em 1587 ou Notícias
do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, publicado
em 1851.
§	 Diálogos das grandezas do Brasil (1618), atribu-
ídos a Ambrósio Fernandes Brandão, e a História
do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador, pu-
blicados no século XVII.
Para a história da literatura brasileira, a literatura
informativa adquire importância principalmente como
fonte de temas e formas para momentos literários pos-
teriores: o Romantismo e o Modernismo.
Pero Vaz de Caminha
Escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Cami-
nha escreveu a Dom Manuel, rei de Portugal, no dia 1o
de maio de 1500, a Carta – de inestimável valor histó-
rico e de razoável valor literário –, em que comunica o
descobrimento do Brasil.
73
Lendo a Carta
A Carta enviada ao rei Dom Manuel é uma es-
pécie de “certidão de nascimento” do Brasil, pois foi o
primeiro documento escrito nestas terras. É o texto que
marca o princípio da literatura brasileira.
A Carta de Caminha, embora escrita nos primór-
dios da colonização (1500), só veio a ser impressa em
1817, na Corografia Brasílica, pela imprensa Régia do
Rio de Janeiro.
Primeiro trecho
Senhor, posto que o Capitão-mor desta vossa
frota, e assim os outros Capitães escrevam a Vossa Al-
teza a notícia do achamento desta vossa terra nova,
que nesta navegação agora se achou, não deixarei de
também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim
como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar
e falar – o saiba pior que todos faze! [...] Tome Vossa
Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e
creia bem por certo que, para aformosear nem afear,
não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
[...]
Então seguimos nosso caminho por este mar de
longo até terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram
21 dias de abril, quando topamos alguns sinais de
terra [...] a saber: Em primeiro lugar um monte gran-
de, muito alto e redondo e outras serras mais baixas
ao sul dele; e terra rasa, com grandes arvoredos. Ao
mesmo monte alto pôs o Capitão o nome de Monte
Pascoal; e à terra – Terra de Vera Cruz.
©
Tonyjeff/Wikimedia
Commons
Carta original de Pero Vaz de Caminha.
Segundo trecho
Daliavistamoshomensqueandavampelapraia,
obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pe-
quenos, por chegarem primeiro. Então lançamos fora
os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães
das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram
entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel
a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele
começou de ir para lá, acudiram pela praia homens,
quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao
chegar o batel à boca do rio,já ali havia dezoito ou vin-
te homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma
que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam
arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o ba-
tel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os
arcos. E eles os pousaram.
Ali não pôde deles haver fala, nem entendimen-
to de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente
deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de li-
nho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um
deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, com-
pridas, com uma copazinha de penas vermelhas e
pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal
grande de continhas brancas, miúdas, que querem
parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Ca-
pitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às
naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala,
por causa do mar. [...]
Terceiro trecho
A feição deles é serem pardos, maneira de
avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem
feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem
estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e
nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.
Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos
neles seus ossos brancos e verdadeiros, de compri-
mento duma mão travessa, da grossura dum fuso de
algodão, agudos na ponta como um furador. Metem-
nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes
fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de
xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os moles-
ta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.
Os cabelos seus são corredios. E andavam tos-
quiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de
boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E
um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte
74
para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de
ave amarelas, que seria do comprimento de um coto,
mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as
orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena,
com uma confeição branda como cera (mas não o
era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda
e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais
lavagem para a levantar.
O Capitão, quando eles vieram, estava sentado
em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro
mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por
estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nico-
lau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na
nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa.
Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram si-
nal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a nin-
guém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão,
e começou de acenar com a mão para a terra e de-
pois para o colar, como que nos dizendo que ali havia
ouro. Também olhou para um castiçal de prata e as-
sim mesmo acenava para a terra e novamente para o
castiçal como se lá também houvesse prata.
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta ao rei D. Manuel.
In: VOGT, Carlos; LEMOS, J.A. Guimarães de. Ironistas e viajantes.
São Paulo: Abril Educação, s.d. (Coleção Literatura Comentada.)
Pero de Magalhães Gândavo
Autor de O Tratado da Terra do Brasil e da His-
tória da Província de Santa Cruz, compostas em louvor
ao clima, à terra e à paisagem, e que estimulam a imi-
gração do leitor.
Uma planta se dá também nesta Província, que
da ilha de São Tomé, com a fruita da qual se ajudam
muitas pessoas a sustentar a terra. Esta planta é mui
tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas fo-
lhas que serão seis ou sete palmos de comprido.A fruita
dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepi-
nos, criam-se em cachos. Esta fruita é mui saborosa, e
das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo
(ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora quando a
querem comer: mas faz dano à saúde e causa febre a
quem se desmanda nela.
GÂNDAVO, Pero de Magalhães.
História da Província de Santa Cruz.
Leia também este trecho da História da Província
Santa Cruz, e observe que Gândavo traz aqui uma inver-
tida noção sobre a língua dos indígenas, além de fazer
uma descrição minuciosa sobre o tipo físico do nativo.
História da Província
Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm
o rosto amassado,e algumas feições dele à maneira de
chinês. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de
boa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco
morrer,temerária na guerra,e de muito pouca conside-
ração: são desagradecidos em grande maneira, e mui
desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos
por extremo.
Vivem todos mui descansados sem terem outros
pensamentos senão comer, beber, e matar gente, e por
isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo
conseguinte tornam a emagrecer, e muitas vezes pode
deles tanto a imaginação que se algum deseja a morte,
ou alguém lhe mete em cabeça que há de morrer tal dia
ou tal noite não passa daquele termo que não morra.
São mui inconstantes e mudáveis: creem de ligei-
ro tudo aquilo que lhes persuadem por dificultoso e im-
possível que seja,e com qualquer dissuasão facilmente
o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à
sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se
neles não houvera razão de homens:ainda que todavia
em seu ajuntamento os machos e fêmeas têm o devido
resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha.
Ilustração que retrata Pero Magalhães de Gândavo
descrevendo animais novos.
75
A língua de que usam,toda pela costa,é uma:ain-
da que em certos vocábulos difere n’algumas partes;
mas não de maneira que se deixem uns aos outros de
entender: e isto até a altura de vinte e sete graus, que
daí por diante há outra gentilidade, de que nós não te-
mos tanta notícia, que falam já outra língua diferente.
Esta de que trato, que é geral pela costa, é mui branda,
e a qualquer nação fácil de tomar.Alguns vocábulos há
nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que
não servem senão para os machos: carece de três le-
tras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R,
coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem
Lei, nem Rei e desta maneira vivem desordenadamen-
te sem terem além disto conta nem peso, nem medida.
GÂNDAVO, Pero de Magalhães.
In: VOGT, Carlos; LEMOS. J. A. Guimarães de, Op. Cit.
Literatura de formação ou jesuítica
Ao lado da prosa informativa, ocorreram mani-
festações em poesia e teatro escritas por jesuítas, com
a finalidade de catequizar os índios. A essa produção
chamamos de literatura de formação, em decorrência
do aspecto didático que apresenta.
Padre José de Anchieta (1534-1597)
©
Benedito
Calixto/Wikimedia
Commons
Padre José de Anchieta
Nessa categoria, merece destaque o padre je-
suíta que veio ao Brasil para desenvolver o trabalho
missionário de converter os índios ao Cristianismo. Em
1554, fundou a cidade de São Paulo. Escreveu poemas,
crônicas, sermões e textos teatrais, ora didáticos, ora
lírico-religiosos.
Anchieta dominava bem latim, espanhol, portu-
guês e tupi. Sua linguagem era simples e direta. Escre-
veu a primeira gramática tupi-guarani: Arte de gramáti-
ca da língua mais usada na costa brasileira.
Dentresuasobras,sobressaemosautosQuandono
EspíritoSanto,serecebeuumarelíquiadasonzemilVirgens;
Na Vila de Vitória; Auto de São Lourenço; e o poema De
Beata Virgine Dei Madre Maria (À beata Virgem Maria
Mãe de Deus).
Veio ao Brasil com a segunda leva de jesuítas
na esquadra de Duarte da Costa, segundo Governador-
-Geral do Brasil. Em 1554, participou da fundação do
colégio, onde também foi professor, na Vila de São Pau-
lo de Piratininga, núcleo da futura cidade que receberia
o nome de São Paulo. Exerceu o cargo de provincial dos
jesuítas, entre os anos de 1577 e 1587. Escreveu cartas,
sermões, poesias, a gramática da língua mais falada na
costa brasileira (o tupi) e peças de teatro, tornando-se
representante do Teatro Jesuítico no Brasil.
Sua obra é considerada a primeira manifesta-
ção literária em terras brasileiras. A coleção das obras
completas do padre José de Anchieta é dividida em
três gêneros: poesia, prosa e obras sobre Anchieta,
que somam um total de dezessete volumes.
Leia abaixo A Santa Inês, um dos poemas
mais conhecidos de José de Anchieta.
Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
Vossa santa vinda
o diabo espanta
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pola fé cortada
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
76
Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinha,
de Iesu formoso,
mas o vosso esposo
já vos fez rainha,
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo.
PORTELA, Eduardo (Org.).
José de Anchieta: poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1959.
Bosques
Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque
e não se vê em todo o ano árvores nem erva seca. Os
arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e gros-
sura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e
o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos
de grande formosura e variedade e em seu canto não
dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos, e
canários de Portugal e fazem uma harmonia quando
um homem vai por este caminho, que é para louvar
ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos
e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Há mui-
tas árvores de cedro, áquila, sândalos e outros paus de
bom olor e várias cores e tantas diferenças de folhas e
flores que para a vista é grande recreação e pela muita
variedade não se cansa de ver
José de Anchieta. Cartas, informações, fragmentos históricos e
sermões. Informação da Província do Brasil para nosso padre –
1585. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 430-431.
Disponível
em
http://warburg.chaa-unicamp.com.br.
Padre Anchieta, óleo sobre tela, de Cândido Portinari (1954).
O texto revela uma visão exuberante da natureza
do Brasil, semelhante à manifestada na Carta, de Pero
Vaz de Caminha. Os aspectos enfatizados contemplam
a flora e a fauna, a grandeza e a variedade do arvo-
redo e o encantamento pelos pássaros. A riqueza e a
vitalidade do Brasil contrastam com as paisagens de
Portugal. Entre as riquezas do Brasil arroladas no tex-
to, apenas o sândalo, originário da Índia, provavelmen-
te não existia aqui. O deslumbramento pela natureza
do Novo Mundo marcou época tanto no período Brasil
Colônia até o período pós-Independência.
O poema manifesta o confronto entre o bem e
o mal com bastante simplicidade. A chegada de Santa
Inês espanta o diabo e, graças a ela, o povo revigora sua
fé. Os versos de cinco sílabas (redondilha menor) dão
ritmo ligeiro ao texto, retomando a métrica das cantigas
medievais.A linguagem é clara, as ideias são facilmente
compreensíveis e o ritmo traz musicalidade ao poema, o
que contribui para envolver o leitor/ouvinte, bem como
sensibilizá-lo para a mensagem religiosa.
Padre Manuel de Nóbrega
A pedido de Dom João III, integrou a escala de
Tomé de Sousa, primeiro Governador Geral do Brasil, o
padre Manuel da Nóbrega, que chefiou o primeiro gru-
po de jesuítas vindos ao Brasil, em 1549.
Ferrenho defensor da liberdade dos índios, fa-
voreceu os aldeamentos, cultivou a música como auxi-
liar da evangelização, promoveu o ensino primário nas
escolas de ler e escrever e fundou, pessoalmente, os
colégios de Salvador, Pernambuco e São Paulo, origem
da futura cidade, e do Rio de Janeiro, onde exerceu o
cargo de reitor. Depois de colaborar com a expulsão dos
estrangeiros da baía de Guanabara, contribuiu para a
valorização do poder central e para a unificação política
do território nacional.
Seus pensamentos estão expressos nas Cartas,
nos Apontamentos e, sobretudo, no Diálogo sobre a
conversão do Gentio, de sua autoria.
77
Barroco ou Seiscentismo
©
Michelangelo
Merisi
da
Caravaggio/Wikimedia
Commons
A dúvida de São Tomé, de Caravaggio.
Contexto
Os embates religiosos
O movimento denominado Barroco ou Seis-
centismo aconteceu no segundo período clássico e de-
signou genericamente todas as manifestações artísticas
produzidas no século XVII até meados do século XVIII.
O estilo barroco sucede o movimento religioso conheci-
do como Reforma Protestante, liderado pelo teólogo
alemão Martinho Lutero (1483-1546).
A Reforma Protestante foi um movimento
reformista cristão iniciado em 1517 por Martinho
Lutero. Ele apresentou 95 teses, mediante as quais
protestava contra a Igreja Católica.À luz delas, pro-
pôs uma reforma baseada em cinco princípios:
1.	 somente a fé;
2.	 somente a Escritura;
3.	 somente Cristo;
4.	 somente a graça; e
5.	 somente a glória de Deus.
Lutero denunciou os abusos e equívocos do
catolicismo da época, entre eles atos de corrupção,
como venda de indulgências a troco do perdão dos
pecados e da salvação eterna.O protestantismo nas-
ceu em decorrência da resistência à Igreja Católica
A proposta de reformar ensinos teológicos e com-
portamentos morais da Igreja, baseados exclusivamente
no ensino bíblico, provocou a reação da Igreja católica,
que teve seu espaço e poder contestados. A Reforma di-
vidiu os cristãos. Na tentativa de evitar a perda de fiéis,
a Igreja fortaleceu o Tribunal da Inquisição, que passou a
investigar crimes contra a fé católica e deu início à Con-
trarreforma, com a fundação da Companhia de Jesus, a
ordem dos jesuítas, pelo espanhol Inácio de Loyola.
Nas artes, à luz e sob inspiração dos valores
terrenos e humanistas da Antiguidade greco-romana,
triunfou o Barroco, que se opôs ao Humanismo Renas-
centista em busca do elo perdido da tradição cristã.
O contexto português:
a união da península Ibérica
Em 1580, Portugal foi anexado à Espanha,
em razão do desaparecimento do rei português
Dom Sebastião – que não deixou descendentes di-
retos –, na batalha de Alcácer-Quibir, na África, em
1578. O rei espanhol Felipe II, um dos parentes mais
próximos de Dom Sebastião, foi proclamado mo-
narca dos lusitanos e deu início à dinastia Filipina
em Portugal, que se estendeu até 1640.
Sucessivamente, três reis espanhóis adotaram
o nome Felipe (I, II e III). Foi em dezembro de 1640,
que Portugal retomou sua independência, quando
o duque de Bragança foi coroado rei, com o nome
de Dom João IV, e cujo reinado durou até 1656.
Na Europa seiscentista,Portugal e Espanha confi-
guraram o modelo de absolutismo católico, que patroci-
nou a Contrarreforma,recrudesceu a perseguição aos in-
fiéispelaInquisiçãoeexigiuobediênciaaoIndexLibrorum
Prohibitorum, uma relação de livros proibidos publicada
pela Igreja Católica.
Sob dominação filipina, o Barroco português foi
significativamente influenciado pelo espanhol, principal
foco irradiador dessa estética que expressa a espirituali-
dade e o teocentrismo medievais misturados ao raciona-
lismo e ao antropocentrismo herdados do Renascimento.
78
A arte barroca
©
Michelangelo
Merisi
da
Caravaggio/Wikimedia
Commons
A ceia em Emaús, de Caravaggio.
O barroco português ocorre em uma Europa im-
pactada pelas grandes navegações dos anos 1500, pelas
grandes conquistas, pela explosão da Reforma Protes-
tante e pelo poder monárquico absolutista. Ele traduz o
drama do homem “entre o céu e a Terra”, atormentado
pela fé, pela existência após a morte, pelo julgamento de
atos praticados durante o “trânsito terreno”.
No final dos anos quinhentos e início dos anos
seiscentos, convivem dois modos de ver o mundo: a vi-
são clássica Renascentista em decadência e a religiosi-
dade barroca emergente. A expressão plástica barroca
caracteriza-se pela exacerbação dos tons mais altos e
mais coloridos e das texturas mais ricas: mais decora-
ção, mais luz e sombra em busca deliberada de efeitos.
Duas tendências de estilo, no entanto, mani-
festam-se no Barroco: o cultismo e o conceptismo.
Aquele, mais próprio da poesia, e este, da prosa, sem,
no entanto, excluírem-se no conjunto da criação lite-
rária. Uma mesma obra tanto pode pender para uma
delas quanto apresentar traços de ambas as tendências.
Cultismo
É a preferência pelo rebuscamento formal da lin-
guagem em jogos de palavras, figuras de linguagem,
vocabulário preciosista, efeitos sensoriais – cor, som,
forma, volume, sonoridade, imagens eloquentes e fan-
tasiosas. Conhecer é descrever mediante sensações
nada econômicas. Metáforas, antíteses, sinestesias,
trocadilhos, dicotomias e hipérbatos povoam os textos
barrocos.A realidade é retratada de forma indireta, cen-
trada na habilidade verbal do escritor.
A tendência do Barroco cultista também recebeu
o nome de gongorismo, cujo escritor mais eloquente
foi o poeta espanhol Luis de Gôngora.
O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte sendo todo.
Em todo sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em parte todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.
Conceptismo (do espanhol concepto, ideia)
Linguagem pautada no raciocínio e no pensa-
mento lógico, em analogias, histórias ilustrativas etc.
Argumentos centrados na inteligência e na razão em
busca da concisão e da coesão, sempre disciplinados
pela lógica e seus mecanismos oferecidos pelos silogis-
mos e sofismas. Tal tendência também recebeu o nome
de quevedismo, graças ao estilo marcante do poeta
espanhol Francisco Gómez de Quevedo.
[...]
Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda
que passe dos setes anos [...] nunca chega à idade
de uso da razão. Usar de razão e amar são duas
coisas que não se juntam. A alma de um menino
que vem a ser? Uma vontade com afetos e um
entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo
conquista o amor, quando conquista uma alma; po-
rém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém
teve a vontade, febricitante, que não tivesse o en-
tendimento frenético. O amor deixara de variar, se
for firme, mas não deixara de tresvariar, se é amor.
Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não
cegasse o entendimento. Nunca houve enfermida-
de no coração, que não houvesse fraqueza no juízo.
Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato
79
Características do Barroco literário
O Barroco se traduz como uma arte tensa que
oscila entre opostos, marcada pela crise de valores,
contradições entre o espírito cristão, antiterreno e te-
ocêntrico, e o espírito renascentista, antropocêntrico,
racionalista e mundano.
Conflitos e descontentamentos existenciais
A indefinição entre o divino e o terreno traduz-se
em conflito e descontentamento existencial humano.
São comuns os temas pessimistas, as advertências so-
bre a brevidade da vida, a ênfase na dor e na vergonha
de permanecer em pecado.A relação com a vida terrena
é pessimista, só minorada com a crença na vida celeste.
O tema da penitência é constantemente enfatizado pelo
martírio da dor.
Ideias em confronto
No Barroco predomina o gosto pela aproxima-
ção de realidades em oposição; a submissão e a vida
recatada propostas pela Igreja contrarreformista em
contraposição aos desejos humanos e materiais. À pos-
sibilidade de ascensão social, propiciada pelo momento
histórico, contrapõe-se a impossibilidade da estrutura
social fechada. Temas constantemente contraditórios,
oscilantes entre matéria e amor, carne e espírito, amor
ideal e amor humano.
©
Divulgação
Cristo bailarino. Madeira com vestígios de policromia.
Aleijadinho (1781-1790).
Tendência ao dualismo e ao
culto do contraste
No intuito de aproximar opostos, a visão do uni-
verso dualista é, ao mesmo tempo, mística e sensual,
religiosa e erótica, espiritual e humana. O homem vive
em conflito com o mundo. Para traduzi-lo, abundam an-
títeses, metáforas, sinestesias e hipérboles.
Disponível
em
http://interata.squarespace.com
Detalhe preciosista de igreja barroca.
O estilo barroco europeu do século XVII recebeu
denominações particulares em cada país:
§	 Espanha – gongorismo, originado do nome do
poeta Luis de Gôngora (1561-1627).
§	 Inglaterra – eufuísmo, derivado do nome da
obra Euphues, or the anatomy of wit, do escritor
John Lyly (1554-1606).
§	 Itália – marinismo, derivado do nome de Gian-
battista Marino (1569-1625).
§	 França – preciosismo, em razão do exagero
da forma preciosista, afetada e extremamente
rebuscada na corte do rei Luis XIV.
§	 Alemanha – silesianismo, estilo característico
dos escritores da região da Silésia.
O Barroco em Portugal
O Barroco português conviveu com um país que vi-
via uma crise de identidade,uma vez que estava sob o do-
mínio político da Espanha. Dois aspectos ressaltam a pro-
dução literária desse período: o esforço dos portugueses
de preservar sua cultura e língua e a Contrarreforma, que
deu à produção literária amplo caráter religioso,como,por
exemplo as obras do padre Antônio Vieira, principal escri-
tor português do século XVII.
Em 1580,dois fatos significativos marcaram a vida
cultural e política de Portugal:a morte de Camões e a pas-
sagem do país para o domínio espanhol (1580-1640).
80
A literatura e as artes portuguesas foram in-
fluenciadas pelas manifestações culturais espanholas,
que conheceram nesse período o “século de ouro” –
Cervantes, Gôngora, Quevedo, Lope de Vega e Calderón
de La Barca são importantes escritores desse período. O
florescimento do Barroco em Portugal não se deu com
a mesma intensidade que na Espanha. Como forma de
resistência política ao domínio espanhol, os escritores
portugueses procuraram preservar a língua e a cultu-
ra lusitanas. Assumiram uma postura saudosista, valo-
rizando personagens e escritores do passado heroico
recente:Vasco da Gama, Dom Sebastião, Camões.
Influenciado pela Contrarreforma, o Barroco
português também ganhou fortes matizes religiosos,
bem como em todos os países ibéricos. A atuação da
Companhia de Jesus e do Tribunal da Inquisição, ins-
taurado em Portugal em meados do século XVI, com-
pletaram o quadro cultural lusitano daquele período
religioso e austero.
O Barroco no Brasil
O marco inicial do Barroco brasileiro data de
1601, quando Bento Teixeira publicou o poema épico
Prosopopeia, com estrofes em oitava rima e versos de-
cassílabos, tal qual Os Lusíadas, de Camões, cujo mode-
lo ele seguiu de perto.
Embora naquela época não houvesse um público
leitor significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou
impulso com a fundação de várias academias literárias
entre os anos de 1720 e 1750.Vicejaram por todo o sé-
culo XVII e início do século XVIII, mas foram sufocadas
pela fundação da academia chamada Arcádia Ultra-
marina, em 1768, e pela ascensão da poesia árcade.
Peculiaridades do Barroco brasileiro
Embora o Barroco brasileiro esteja ligado aos
modelos lusitano e espanhol, peculiaridades diferen-
ciam-no destes.
Durante todo o século XVII, sob o domínio es-
panhol, continuavam a chegar ao Brasil imigrantes
atraídos pela riqueza, portugueses e demais euro-
peus, e interessados na exploração da terra. Foi o caso
dos franceses, que tentaram dominar o Maranhão no
começo do século XVII.
A presença estrangeira mais marcante, no entan-
to, foi a dos holandeses. Enviado pela Companhia das
Índias Ocidentais com o fim de controlar o comércio do
açúcar nordestino, o general de origem alemã Johann
Maurits, conhecido como conde Maurício de Nassau,
desembarcou no Brasil, em Recife, em 1637, quando já
se estabilizara o domínio holandês nas colônias portu-
guesas, iniciado em 1624.
Nassau trouxe consigo uma equipe cultural com
pintores, arquitetos, escritores, naturistas, médicos, as-
trônomos etc., com o objetivo de documentar as terras
ocupadas pela Holanda e angariar investimentos euro-
peus para a produção açucareira.
Com Nassau, Recife sofreu uma verdadeira re-
formulação urbana: jardins, lagos, palácio para sua aco-
modação na ilha de Antônio Vaz, uma cidade inteira foi
modelada a seu gosto. A cidade Maurícia, ao lado de
Recife, entre a foz do rio Capibaribe e Beberibe, emergiu
sob sua administração.
As marcas desse tempo ficaram registradas em
pinturas e desenhos de Frans Post, encarregado das pai-
sagens e feitos do Governador-Geral, e Albert Eckout,
responsável pelo registro dos tipos humanos, da fauna
e flora da “Nova Holanda”, nome de Pernambuco na-
quela época.
Frans Post tinha apenas 24 anos quando che-
gou ao Brasil. Morador de Recife entre 1637 e 1644,
acompanhou a movimentada campanha do governador,
documentando a paisagem e registrando portos e forti-
ficações do Maranhão à Bahia.
©
Divulgação
Aleijadinho
81
Um Barroco miscigenado
O mundo colonial brasileiro do século XVII não foi influenciado apenas pelo Barroco português, mas, sobre-
tudo, foi pressionado economicamente, graças à imensa exploração de riquezas naturais, de ouro, principalmente.
Em razão disso, o Barroco brasileiro tornou-se uma manifestação miscigenada das culturas europeia, negra e
nativa. Os espaços do Brasil colonial que lhe serviram de cenário foram principalmente o Nordeste e o estado de
Minas Gerais.
Ligado ao ciclo da cana-de-açúcar, o Barroco nordestino aproximou-se da aristocracia rural, exuberante e
pomposa, e refletiu-se na riqueza das construções eclesiásticas e nas amplas acomodações das casas-grandes.
A cidade de Salvador, na Bahia, ainda conta com cerca de 80 igrejas e vários solares e casarões inspirados
no Barroco.
No século XVIII, o Barroco mineiro sobrepujou o da metrópole portuguesa, notadamente nas cidades au-
ríferas de Minas Gerais. Naquela região, sobressaíram as notáveis obras do escultor e arquiteto Antonio Francisco
Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho, cujo trabalho pautou-se pela experiência com materiais locais – pedra-sabão e
madeira. O pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830) deixou mostras de seu talento em pinturas e afrescos nos
tetos e laterais de igrejas mineiras.
Filme
ASSISTIR
INTERATIVI
A
A DADE
O Brasil de Pero Vaz caminha – Direção: Bruno Laet - 2011
Filme Caravaggio – Direção: Derek Jarman - 1986
Vencedor do Prêmio SESC Rio de Fomento à Cultura, em
2010 – na categoria Novos Talentos, Cinema Documen-
tário –, O Brasil de Pero Vaz caminha se baseia naquele
que é considerado o primeiro documento histórico e
literário do Brasil: a carta de Pero Vaz de Caminha.
Filme 1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO
Vinte anos da vida de Colombo, desde quando se convenceu de que o
mundo era redondo, passando pelo empenho em conseguir apoio financei-
ro da Coroa espanhola para sua expedição, o descobrimento em si da Amé-
rica, o desastroso comportamento que os europeus tiveram com os habi-
tantes do Novo Mundo e a luta de Colombo para colonizar um continente
que ele descobriu por acaso, além de sua decadência na velhice.
A curta vida do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (Nigel
Terry) desde a infância e decepções do início da carreira até os últimos
sucessos, a amizade com um cardeal e a relação destrutiva com um
lutador (Sean Bean) e sua namorada (Tilda Swinton).
82
LER
tt
Livros
Dialética da colonização – Alfredo Bosi
Em capítulos que vão de Anchieta à indústria cultural, Alfredo Bosi, o
conceituado autor da clássica História concisa da Literatura Brasileira,
persegue com sensibilidade as formas históricas que enlaçaram coloniza-
ção, culto e cultura. Dialética da colonização é o resultado deste percurso
sui generis na história do pensamento brasileiro.
O barroco – Victor Lucien Tapié
Dividido em duas seções, Concepções Barrocas e Experiências Barro-
cas, o volume examina esse fenômeno de arte notadamente nos séculos
XVII e XVIII, sem esconder do leitor observações realmente novas e suges-
tivas concernentes ao estilo, que muitos reputam ser de glória, outros
digno dos períodos de decadência, mas que, todavia, emprestou às
cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar sempiterno que ressumam.
83
ARTES PLÁSTICAS
84
Retábulodacapela-mordaIgrejadeSãoFrancisco,emSãoJoãodel-Rei(Aleijadinho)
Projeto para a fachada da Igreja de São Francisco, em São João del-Rei (Aleijadinho)
Estrutura Conceitual
Idade Média Idade Moderna
Trovadorismo Humanismo Classicismo
Barroco
Quinhentismo
Cultismo e conceptismo
Movimento vinculado a
conflitos de cunho religioso
Pero Vaz de Caminha e
José de Anchieta
Literatura de informação
e literatura jesuítica
Uso de antíteses
e paradoxos
85
©
Wikimedia
Commons
Gregório de Matos Guerra,
o Boca do Inferno
Competência
5
Habilidades
15, 16 e 17
LENTRELETRAS
C
0 3
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas
e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da iden-
tidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da
própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a
natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali-
dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
89
O primeiro poeta brasileiro: adequação e irreverência
Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta barroco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica
e satírica no Brasil. Nasceu em Salvador, estudou no Colégio dos Jesuítas e depois em Coimbra (Portugal), onde
cursou Direito, tornou-se juiz e ensaiou seus primeiros poemas satíricos. De volta ao Brasil, em 1681, exerceu os
cargos de tesoureiro-mor e de vigário-geral, apesar de sempre ter se recusado a vestir-se como clérigo.
Disponível
em:
http://imirante.globo.com
Graças às suas sátiras, foi perseguido pelo governador baiano Antônio de Souza Menezes, o “Braço de
Prata”. Depois de se casar com Maria dos Povos e exercer a advocacia, saiu pelo Recôncavo baiano como cantor
itinerante, dedicando-se às sátiras e aos poemas erótico-irônicos, o que lhe custou alguns anos de exílio emAngola.
Voltou doente ao Brasil e, impedido de entrar na Bahia, morreu em Recife.
Ao contrário do padre Antônio Vieira, Gregório foi de encontro a uma tendência generalizadora da época,
alastrando-se e acolhendo a poesia religiosa, os costumes e a reflexão moral.
Em relação aos temas, convivem em seus poemas um desenfreado sentimento de sensualismo, erotismo e
paixão idealizada. Seus poemas são dados ao gosto pelo jogo de palavras e das brincadeiras.
Cronologia biográfica
Gregório de Matos viveu durante o ciclo da cana-de-açúcar e fez parte da elite, à qual ele mesmo se contra-
pôs, ao se indignar com o atraso da sociedade patriarcal brasileira depois de voltar de Portugal.
Ele nada publicou em vida. Depois de sua morte, seus manuscritos foram reunidos em um códice, cuja capa
trazia o brasão da Coroa portuguesa com a seguinte insígnia: Inéditas poezias do doutor Gregório de Mattos Guerra.
§
§ 1636 – Em 20 de dezembro, Gregório de Matos Guerra nasce em Salvador, Bahia.
§
§ 1650 – Viaja para Lisboa aos 14 anos.
§
§ 1652 – Incentivado pelo pai, matricula-se na Universidade de Lisboa.
§
§ 1661 – Forma-se na universidade e casa-se com dona Michaela de Andrade.
§
§ 1662 – Conclui o bacharelado em Coimbra.
§
§ 1663 – Nomeado juiz de fora em Alcácer do Sal, no Alentejo.
§
§ 1672 – Nomeado procurador da cidade da Bahia.
§
§ 1674 – Deixa o cargo de procurador.
§
§ 1678 – Fica viúvo.
§
§ 1691 – Casa-se, pela segunda vez, com Maria dos Povos.
§
§ 1694 – Degredado para Angola.
§
§ 1696 – Morre no estado de Pernambuco, porque foi proibido de voltar a Salvador.
90
Disponível
em:
http://imirante.globo.com
Ilustração de Carybé para o livro Bahia: imagens da terra e do povo.
O “língua de trapo”
Gregório de Matos primou pela irreverência ao
afrontar os valores e a falsa moral da sociedade baiana
de seu tempo, cujo comportamento era considerado in-
decoroso. Irreverente como poeta lírico, seguiu e rompeu
ao mesmo com os modelos barrocos europeus. Como
poeta satírico, denunciou as contradições da sociedade
baiana de século XVII, alvejando os grupos sociais – go-
vernantes, fidalgos, comerciantes, escravos, mulatos etc.
A linguagem empregada agrega ao código da
língua portuguesa vocábulos indígenas e africanos, bem
como palavras de baixo calão.
Pelo fato de não ter publicado nenhuma obra em
vida, seus poemas foram transmitidos oralmente, até
meados do século XIX, quando então foram reunidos
em livro por Varnhagen.
Esse trabalho enfrentou alguns problemas de
natureza autoral. Os copistas não necessariamente obe-
deceram a critérios científicos para tal. Há controvérsias
sobre a autoria de alguns poemas atribuídos a ele e é co-
mum que um mesmo texto apresente variações de voca-
bulário ou de sintaxe,dependendo da edição consultada.
Apesar disso, a obra de Gregório de Matos vem
sendo reconhecida como a que iniciou uma tradição en-
tre nós, bem como superou os limites do próprio Barro-
co. Em pleno século XVII, o poeta chegou a ser um dos
precursores da poesia moderna brasileira do século XX.
Exemplo desse pioneirismo é a semelhança do poema
“Ao mesmo desembargador Belchior da Cunha Brocha-
do” com o poema “Rosa tumultuada”, de Manuel Ban-
deira (poeta do século XX).
1. Erobo: mitologia, nome das trevas infernais, “onde nunca chega o dia”.
Entenda-se: já que tanto garbo tanta energia são gentil glória desta terra,
que sejam também alegria da terra mais remota (isso é, o Erebo).
Poemas escolhidos de Gregório de Matos. Seleção e prefácio de José
Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 205.
Manuel Bandeira. Estrela da tarde. 3. ed.
São Paulo: Global, 2012, p. 139.
Foi apelidado de Boca do Inferno, graças à
sua poesia satírica, dirigida aos governantes corruptos,
a religiosos licenciosos e às hipocrisias da sociedade.
Seus mais de 700 poemas de todos os gêneros e estilos
poéticos (exceto o épico) permaneceram inéditos até o
século XX. Entre os anos de 1923 e 1933, a Academia
Brasileira de Letras organizou e publicou seis volumes
deles: I. Poesia sacra; II. Poesia lírica; III. Poesia graciosa;
IV e V. Poesia satírica; e VI. Últimas.
91
“Para a tropa do trapo vazo a tripa é uma ex-
pressão idiomática que se aproxima de não quero
mais dar importância a esse bando de miseráveis”.
WISNIK, José Miguel. Poemas escolhidos de Gregório de Matos.
São Paulo: Cultrix, 1976.
No poema a seguir, há uma crítica impiedosa à
incompetência, à promiscuidade e à desonestidade. O
poema vem precedido da seguinte explicação:
“Torna a definir o poeta os maus modos de
obrar na governança da Bahia, principalmente naquela
universal fome, que padecia a cidade.”
Epílogo
Que falta nesta cidade?...Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?...Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Nesta cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.
[...]
E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?...Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justa na praça
Bastarda, vendida, injusta.
[...]
O açúcar já se acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.
À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece,
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, morreu.
A câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o governo a convence?... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, na vence.
DIMAS, Antônio. Gregório de Matos.
São Paulo: Abril Educação, 1981.
Poesia satírica
Não poupa aspecto algum do sistema e do po-
der, o que faz dele um poeta maldito. Provoca os políti-
cos e ridiculariza os que viviam para bajular e louvar os
poderosos, traços que contribuíram para o “abrasileira-
mento” do Barroco importado da Europa.
Crítico social mordaz, vive em uma sociedade de
competição,na qual vence quem for mais esperto ou deso-
nesto. Este soneto vem precedido da seguinte explicação:
“Contemplando nas coisas do mundo desde o
seu retiro, lhe atira com seu ápage, como quem a nado
escapou da tormenta.”
Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.
Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.
A flor baixa se inculca por tulipa:
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra o que mais chupa.
Para a tropa do Trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.
Disponível
em:
http://www.cella.com.br
Caricatura de Gregório de Matos
ápage: desaprovação, raiva; carepa: caspa, sujeita; vil: reles,
ordinário; decepa: destrói; increpa: censura; inculca: finge, insinua; gar-
lopa: trabalhador braçal
92
Poesia lírica: sacra e amorosa
A poesia lírica de Gregório de Matos é idealis-
ta, às vezes emocional, às vezes conceitual, mas fre-
quentemente preocupada em entender contradições,
como ensina o professor Antonio Candido. A lírica sacra
ressalta o senso do pecado ao lado do desejo do perdão.
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentinho
Vos deu, como afirmais na Sacra História:
Eu sou, senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e a não queirais, Pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
despido: despeço; delinquido: cometido delito;
empenhado: comprometido
WISNIK, José Miguel. Poemas escolhidos de Gregório de Matos.
São Paulo: Cultrix, 1976.
O lirismo amoroso é contraditório, marcado pela
ambiguidade da mulher, vista como uma dualidade
entre matéria e espírito. No soneto abaixo, dedicado à
dona Ângela de Souza Paredes, o eu lírico está diante
do dilema: qual a finalidade da beleza, se ela leva à per-
dição? Que papel tem o anjo (a mulher admirada), se
causa a desventura?
Não vira em minha vida a formosura,
Ouvia falar dela a cada dia
E ouvida, me incitava e me movia
A querer ver tão bela arquitetura:
Ontem a vi, por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma mulher, que em Anjo se mentia
De um Sol, que se trajava em criatura:
Matem-me, disse eu vendo abrasar-me,
Se esta a coisa não é, que encarecer-me
Sabia o mundo e tanto exagerar-me:
Olhos meus, disse então por defender-me,
Se a beleza heis de ver para matar-me,
Antes olhos cegueis, do que eu perder-me
Poesia lírica filosófica
A lírica filosófica de Gregório de Matos revela um
poeta que, tal qual os clássicos, transmite um forte senso
do “desconcerto do mundo”, ocupa-se com a transito-
riedade da vida, o escoamento do tempo e a fragilidade
do homem.
À instabilidade das coisas no mundo
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
MATOS, Gregório de. Obra completa. São Paulo: Cultura, 1943.
O tema desse soneto detém-se no estado transi-
tório da condição humana. A antítese repete-se na ten-
tativa de aproximação entre duas ideias naturalmente
opostas.
Na segunda estrofe, todos os versos interrogam
o eu poético, bem como o deixam perplexo diante do
mistério do universo.
Essa é uma visão de mundo que corresponde à
arte barroca: o homem é um ser instável em face da
realidade que lhe faz apelos dirigidos aos sentidos, diri-
gidos ao espírito.
93
Filme GREGÓRIO DE MATTOS
Em pleno século XVII, surge na Bahia o poeta Gregório de Mattos (Waly
Salomão), que com sua obra e vida trágicas anuncia o perfil tenso e
dividido do povo brasileiro. Com sua produção literária, o poeta cria
situações desconfortáveis aos poderosos da época, que passam a
combatê-lo até transformar sua vida em um verdadeiro inferno.
ASSISTIR
OBRAS
Pinturas Engenho com capela. Frans Post, 1667.
INTERATIVIDADE
94
LER
Livros
O lúdico e as projeções do mundo barroco - Affonso Ávila,
Perspectiva, 1971
Numa interpretação totalizadora dos múltiplos aspectos que se
conjugam estética e historicamente no fenômeno do Barroco e
sobretudo de sua manifestação brasileira, O lúdico e as projeções do
mundo barroco, de Affonso Ávila, procura não só especificar o papel
do Barroco na formação da singularidade nacional, como iluminar
criticamente a nossa faixa na aldeia de McLuhan e, a partir daí, aferir
a dimensão da nossa presença na galáxia da modernidade.
A sátira e o engenho - Gregório de Matos e a Bahia do
século XVII
Aborda os poemas satíricos de Gregório de Matos, tratados retóricos
da época e documentos históricos, como as delações de pecados e
heresias ao Santo Ofício e as atas da Câmara de Salvador. Analisa a
sátira de Gregório de Matos a partir da tradição retórica do século
XVII, em que a obscenidade e a maledicência estão previstas por
regras precisas. Convida o leitor a um fascinante mergulho na poética
clássica deAristóteles e Quintiliano e na barroca de Gracián eTesauro.
Boca do Inferno - Ana Miranda
Salvador, final do século XVII. Nessa cidade de desmandos e
devassidão, desenrola-se a trama do Boca do Inferno, recriação de
uma época turbulenta centrada na feroz luta pelo poder que opôs o
governador Antonio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, à
facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o
padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos.
95
CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES
Habilidade 15 - Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção,
situando aspectos do contexto histórico, social e político.
Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade
analítica básica a arte literária (contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a
história e as relações sociais e políticas nela impressas. Esta relação entre o texto literário
e o contexto político requer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso:
“política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para re-
solução das questões de Literatura.
Modelo
(Enem)
Quando Deus redimiu da tirania
Da mão do Faraó endurecido
O Povo Hebreu amado, e esclarecido,
Páscoa ficou da redenção o dia.
Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.
Pois mandado pela Alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.
Quem pode ser senão um verdadeiro
Deus, que veio estirpar desta cidade
o Faraó do povo brasileiro.
(DAMASCENO, D. Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: 2006)
Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o
soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por
a)	 visão cética sobre as relações sociais.
b)	 preocupação com a identidade brasileira.
c)	 crítica velada à forma de governo vigente.
d)	 reflexão sobre dogmas do Cristianismo.
e)	 questionamento das práticas pagãs na Bahia.
96
Análise Expositiva
Habilidade 15
O poema de Gregório de Matos estabelece uma intertextualidade com as Sagradas Escrituras:
“Quando Deus redimiu da tirania/Da mão do Faraó endurecido”.
Entender as características do escritor é premissa básica para a resolução da questão. Gre-
gório de Matos, conhecido como o “Boca do Inferno” utilizava sua literatura como meio de
criticar a sociedade de sua época, ainda que o fizesse por meio de metáforas, como ocorre no
texto acima: “Deus, que veio estirpar desta cidade/o Faraó do povo brasileiro.”
Alternativa C
Estrutura Conceitual
Gregório de Matos ganhou o apelido
de “boca do Inferno” por conta de
suas poesias satíricas e sua
crítica ao governo baiano.
O BOCA DO INFERNO
GREGÓRIO
DE MATOS
GREGÓRIO
DE MATOS
De família rica, Gregório de Matos
Guerra nasceu na Bahia no ano 1633.
Estudou no Colégio dos Jesuítas e
seguiu para Coimbra, onde se formou
em Direito em 1661.
O Barroco é também conhecido
como Seiscentismo
Os poemas de Gregório de Matos
podem ser classificados como
Lírico - filosóficos, Religiosos e
Satíricos.
Por conta de sua personalidade
satírica e de sua vida boêmia,
Gregório foi deportado para
Angola. Algum tempo depois voltou ao Brasil com o apoio do
governador, mas foi proibido de voltar à Bahia desembarcando em
Pernambuco. Morreu obscuramente no Recife no ano 1696 e foi
enterrado na capela do hospício de Nossa Senhora da Penha.
Pouco tempo depois a capela foi demolida e não existem
vestígios de seus restos mortais.
1
2
3
4 5
©
Wikimedia
Commons
Padre Antônio Vieira
Competência
5
Habilidades
15, 16 e 17
LENTRELETRAS
C
0 4
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas
e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da iden-
tidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da
própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a
natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali-
dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
99
Padre Antônio Vieira e o convencimento da fé cristã
Disponível
em:
http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br
Antônio Vieira (1608-1697) é a principal expressão do Barroco em Portugal. Sua obra pertence tanto
à literatura portuguesa quanto à brasileira. Compreende um vasto campo temático que vai da religião à política,
passando pela diplomacia num desfile de sua mais interessante capacidade: a de orador e pregador da fé cristã.
Português de origem,Vieira tinha sete anos quando veio com a família para o Brasil. Na Bahia, estudou com
os jesuítas e espontaneamente ingressou na Companhia de Jesus, iniciando seu noviciado com apenas 15 anos.A
maior parte de sua obra foi escrita no Brasil. Desempenhou várias atividades como religioso, conselheiro de Dom
João IV, rei de Portugal, e como mediador de Portugal em conflitos econômicos e políticos com outros países.
O homem de ação e lábia
Embora religioso, Vieira nunca restringiu sua
atuação à pregação religiosa. Seus sermões estiveram
a serviço das causas políticas que abraçava e defendia,
o que o levou a se indispor com muita gente: pequenos
comerciantes que escravizavam índios e até com a In-
quisição.Atacava os senhores de escravos, bem como
cobrava de Lisboa as determinações que tolhiam a li-
berdade dos índios; questionava os capitães-mor pela
desobediência às determinações religiosas. Isso e mui-
to mais foram fatores determinantes para sua expulsão,
bem como a de outros jesuítas do Brasil.
Valendo-se do púlpito – único meio de propa-
gação de ideias às multidões no Nordeste brasileiro do
século XVII –, Vieira pregou a índios, brancos, negros,
brasileiros, africanos, portugueses, dominadores e do-
minados. Suas ideias políticas impregnavam a cateque-
se jesuíta em defesa do índio e do domínio português
sobre a colônia por ocasião da invasão holandesa.
Disponível
em:
http://www.colegioweb.com.br
Pregação de Vieira
100
©
Divulgação
Medalha do Padre Antônio Vieira, esculpida por Dorita Castelo Branco.
Embora Vieira defendesse os índios da escravi-
dão, seus sermões eram reticentes em relação à escravi-
zação dos negros. Limitavam-se a descrever a situação a
que eram submetidos os negros e a apontar a perspecti-
va de uma pós-morte que compensasse os sofrimentos
em vida. “A realidade na qual Vieira procura interferir
não é diretamente a exterior, mas a interior, tentando
mudar as convicções tanto dos negros como dos bran-
cos. Por isso, nestes sermões ele se dirige aos dois, ora a
um, ora a outro, sabendo que o ouvem continuamente”
comenta o historiador Luiz Roncari (Literatura brasileira
– dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed.
São Paulo: Edusp/FDE, 1995. p. 167).
Observe tal postura neste fragmento do “Ser-
mão Vigésimo Sétimo”.
Disponível
em:
http://www.spelltraducoes.com.br
“Umas religiões são de descalços, outras de calçados; a
vossa é de descalços e despidos.O vosso hábito é da mesma cor;
porque não vos vestem as peles das ovelhas e camelos, como a
Elias, mas aquelas com que vos cobriu ou descobriu a natureza,
expostos aos calores do sol e frios das chuvas.A vossa pobreza é
mais pobre que a dos menores, e a vossa obediência mais sujei-
ta dos que nós chamamos mínimos.As vossas abstinências mais
merecem nome de fome, que de jejum, e as vossas vigílias não
são de uma hora à meia-noite, mas de toda a noite sem meio.A
vossa regra é uma ou muitas, porque é a vontade e vontades de
vosso senhores. Vós estais obrigados a eles, porque não podeis
deixar o seu cativeiro, e eles não estão obrigados a vós, porque
vos podem vender a outro, quando quiserem. Em uma só reli-
gião se acha este contrato, para que também a vossa seja nisto
singular. Nos nomes do vosso tratamento não falo, porque não
são de reverência nem de caridade, mas de desprezo e afronta.
Enfim, toda a religião tem fim e vocação, graça particular.A gra-
ça da vossa são açoutes e castigos” [...].
Padre visionário
Vieira também foi sonhador e profeta, chegou
a escrever três obras nesse sentido: História do futuro,
Esperança de Portugal e Clavis Prophetarum.
Baseado em textos bíblicos e nos textos proféticos
do poeta português Bandarra,ele acreditava na ressurrei-
ção do rei Dom João IV, seu protetor, morto em 1656. Es-
sas ideias constam em Esperança de Portugal. Em razão
delas, entre 1665 e 1667, foi processado e preso pela In-
quisição e teve cassado seu direito à palavra em Portugal.
Disponível
em:
http://redememoria.bn.br
Vieira na redução das tribos de Marajó, 1657. Theodoro Braga (1917).
Constam desse processo também acusações de
envolvimento com cristãos-novos – judeus convertidos
ao cristianismo por medo de perseguição. Em vez de
101
atacar os judeus, como se fazia nos países católicos
pressionados pela Inquisição, Vieira defendia a perma-
nência e a entrada deles em Portugal como forma de
estimular o comércio naquele país. Paralelamente, pre-
vendo um “Terceiro Estado” da Igreja, tinha interesse
em fazer um acordo teológico secreto com os judeus.
©
Divulgação
Caricatura de Vieira
O orador
As qualidades de Vieira como orador são incom-
paráveis. Dotado de boa formação jesuítica à estética
barroca em voga, pronunciou sermões que se tornaram
ao mesmo tempo a expressão máxima do Barroco em
prosa sacra e uma das principais expressões ideológicas
e literárias da Contrarreforma. Pregou no Brasil, em Por-
tugal e na Itália, sempre com grande repercussão.
Entre sua vasta produção de mais de duzentos
sermões e quinhentas cartas, destacam-se:
§
§ Sermão da sexagésima, proferido na Capela Real
de Lisboa, em 1655, cujo tema é a arte de pregar.
§
§ Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal
contra as de Holanda, proferido na Bahia, em
1640, posiciona-se contra à invasão holandesa.
§
§ Sermão de Santo Antônio (aos peixes), pro-
ferido no Maranhão, em 1654, ataca a es-
cravização de índios.
§
§ Sermão do mandato, proferido na Capela Real de
Lisboa,em1645,desenvolveotemadoamormístico.
Disponível
em:
http://www.bahia-turismo.com
Púlpito da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador (BA), de onde
Vieira pregou.
Sermão da sexagésima
Metalinguagem
Proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, é
também conhecido como Sermão da Palavra de Deus.
A arte de pregar é seu tema. Com o objetivo de analisar
“por que não frutifica a Palavra de Deus na Terra?”,
propõe-se a demonstrar que os verdadeiros culpados
são os pregadores que usam da palavra apenas com um
objetivo ornamental, sem desenvolver eficazmente uma
argumentação capaz de frutificar nos ouvintes.
“Ora, suposto que a conversão das almas por
meio da pregação depende destes três concursos: de
Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos
entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do
pregador, ou por parte de Deus?”.
Excluindo a culpa de Deus e inocentando os ou-
vintes, a culpa recai nos pregadores, conforme se perce-
be no desenrolar da argumentação:
“Primeiramente, por parte de Deus, não falta e
nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definidas no
Concílio Tridentino e no nosso Evangelho a temos.” [...]
“Os pregadores deitam a culpa nos ouvintes,
mas não é assim. Se for por parte dos ouvintes, não
fizera a Palavra de Deus muito grande fruto, mas não
fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte
dos ouvintes. Provo.” [...]
“Sabeis,cristãos,por que não faz fruto a Palavra de
102
Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por
que não faz fruto a Palavra de Deus? Por culpa nossa.”
Leia com atenção alguns trechos do “Sermão da
sexagésima”.
Trecho I
Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos?
Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um es-
tilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e
a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há
de ser muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao
semear: [...] Compara Cristo o pregar ao semear, porque o
semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte.
Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por
compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na arit-
mética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz
por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte;
caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do
Evangelho. ‘Caía o trigo nos espinhos e nascia’ [...] ‘Caía o
trigo nas pedras e nascia’ [...] ‘Caía o trigo na terra boa e
nasci’. Ia o trigo caindo e ia nascendo.
Trecho II
[...] o pregar há de ser como quem semeia, e não
como quem ladrinha ou azuleja. Não fez Deus o céu em
xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão
em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de
outra há de estar negro; se de uma parte está dia, de outra
há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão
de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra
hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num
sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre
em fronteira com o seu contrário? [...]
Trecho III
Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de
ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da
mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo
isto com os olhos? Ora vede.Uma árvore tem raízes,tem tron-
co, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos.
Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas,
porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco,
porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria;deste
tronco hão de nascer diversos ramos, que soa diversos discur-
sos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; es-
tes ramos hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque
os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. [...]
Trecho IV
Mas dir-me-eis: padre, os pregadores de hoje não pre-
gam do Evangelho,não pregam das Sagradas Escrituras? Pois
como não pregam a palavra de Deus? – esse é o mal.Pregam
palavras de Deus, mas não pregam a Palavra de Deus.
O Sermão da sexagésima é a peça maior da ora-
tória do padre Vieira, mas outros também se destacaram.
Sermão pelo bom sucesso das armas
de Portugal contra as de Holanda
OSermão pelo bom sucesso das armas de Portugal
contra as de Holanda foi proferido na Bahia, na igreja
de Nossa Senhora da Ajuda, em 1640. O orador chama
o povo ao combate contra os holandeses, desenhando
a figura dos flamengos, protestantes, como hereges. A
Bahia estava para cair sob o jugo dos holandeses.
Disponível
em:
http://www.bahia-turismo.com
Interior da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador (BA), onde o
padre Vieira proferiu o sermão contra os holandeses.
103
Trecho I
(...) Pequei,que maisVos posso fazer? E que fizestes vós,
Job,a Deus em pecar? Não Lhe fiz pouco;porque Lhe dei oca-
sião a me perdoar, e perdoando-me, ganhar muita glória. Eu
dever-Lhe-ei a Ele, como a causa, a graça que me fizer; e Ele
dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar. (...).
Em castigar,vencei-nos a nós,que somos criaturas fracas;mas
em perdoar, vencei-Vos aVós mesmo, que sois todo-poderoso
e infinito. Só esta vitória é digna de Vós, porque só vossa jus-
tiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia;
e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor.
Trecho II
Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os
homens,mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas
vozes:a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão.
Sermão de Santo Antônio
(aos peixes)
Sermão de Santo Antônio, também chamado
de Sermão aos peixes, foi pregado em São Luís do
Maranhão, em 1654, e refere-se a colonos que aprisio-
navam indígenas.
Três dias antes do embarque escondido para Lis-
boa, na festa de Santo Antônio – 13 de junho de 1654
–, em São Luís do Maranhão,Vieira causou surpresa: em
vez de tematizar os milagres de SantoAntônio, detona a
situação que estava vivendo, a pressão contra sua pes-
soa e alerta aos ouvintes que se não quisessem ouvi-lo
que fossem como Santo Antônio, pregaria aos peixes,
que estavam ali a poucos passos. Os vícios e as virtudes
dos homens são elencados na busca por uma legislação
mais justa aos índios.
O sermão exalta as qualidades dos peixes, como
a obediência, e critica a soberba e o oportunismo. O
principal defeito que ele aponta é a intensidade e a
voracidade, uma vez que os peixes devoram uns aos
outros, especialmente os maiores, que devoram os me-
nores.Vieira exalta os peixes que, por sua natureza, não
podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrificam-se en-
tão, em respeito e reverência.
Trecho I
Vos estis sal terrae. Haveis de saber,irmãos peixes,que
o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais
em vós mesmos se experimentam:conservar o são e preservá-
lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades
tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como
também as devem ter as de todos os pregadores.Uma é louvar
o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar
e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto
pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu
lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non
carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt
in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: ’Não só há que
notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão tam-
bém que imitar e louvar.’ Quando Cristo comparou a sua Igreja
à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pesca-
dores ‘recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus’:
Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde
há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto,
para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso
sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas
virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E des-
ta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos
está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.
Trecho II
Este é, peixes, em comum o natural que em todos
vós louvo, e a felicidade de que vos dou o parabém, não
sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora
se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da
natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós. De
alguns somente farei menção. E o que tem o primeiro lu-
gar entre todos, como tão celebrado na Escritura, é aquele
santo peixe deTobias a quem o texto sagrado não dá outro
nome que de grande, como verdadeiramente o foi nas vir-
tudes interiores, em que só consiste a verdadeira grandeza.
Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acom-
panhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas
margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com
a boca aberta em ação de que o queria tragar. Gritou Tobi-
as assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe
pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e
lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam
de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que vir-
tude tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara
guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para sarar da
cegueira e o coração para lançar fora os demônios:
104
Cordis eius particulam, si super carbones ponas, fumus
eius extricat omne genus daemoniorum: et fel valet ad ungen-
dos oculos,in quibus fuerit albugo,et sanabuntur.Assim o disse
o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque, sendo o
pai deTobias cego,aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno
do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demônio,
chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou com ela
o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu
dali o Demônio e nunca mais tornou.De sorte que o fel daquele
peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demônios
decasaaTobias,omoço.Umpeixedetãobomcoraçãoedetão
proveitoso fel, quem o não louvará mais? Certo que se a este
peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia
um retrato marítimo de SantoAntónio.
Trecho III
Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural
irregularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas
mãos, que tomá-lo indignamente! Em tudo o que vos excedo,
peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é
melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o
meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as
palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com
a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o
entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a
vontade.Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e
conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para
o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou.
Vós não haveis de ver a Deus,e podereis aparecer diante
dele muito confiadamente,porque o não ofendestes;eu espe-
ro que o hei de ver; mas com que rosto hei de aparecer dian-
te do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah
que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós,
pois de um homaem que tinha as mesmas obrigações, disse
a Suma Verdade, que ‘melhor lhe fora não nascer homem‘: Si
natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens,
respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento,
contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso.
©
Wikimedia
Commons
105
Filme
Filme
Sermões - a história de Antônio Vieira
Palavra e Utopia
História do padre Antônio Vieira, nascido em Portugal, em 1608,
e que morreu em Salvador, Bahia, em 1697. Considerado um dos
maiores escritores portugueses, mestre na retórica, ele foi perseguido
e executado pela Inquisição por sua posição contra a escravidão e o
colonialismo, assim como por sua simpatia aos judeus.
Em 1663,o padreAntônioVieira é chamado a Coimbra para comparecer
diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da
corte e uma desgraça passageira enfraquecem a sua posição de célebre
pregador jesuíta e amigo íntimo do falecido rei D. João VI.
INTERATIVIDADE
ASSISTIR
106
Livros
Livros
Padre Antônio Vieira - 400 Anos Depois - Lelia Parreira
Duarte e Maria Thereza Abelha Alves
Neste volume, estão reunidas reflexões de especialistas na obra de
padre Antônio Vieira, orador sacro do Barroco português/brasileiro, às
quais se juntam estudos de mestrandos e doutorandos, apresentados
em evento comemorativo realizado pelo Centro de Estudos
Luso-afro-brasileiros da PUC-Minas.
Padre Antônio Vieira – O tempo e seus hemisférios
Entre 13 de março e 18 de outubro de 2008, o Instituto de Estudos
Portugueses (IdEP) (agora Grupo de Investigação Interdisciplinar de
Estudos Portugueses, do Centro de História da Cultura) organizou
um conjunto de atividades que decorreram na Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas, para comemorar o IV Centenário do Nascimento
do Padre Antônio Vieira.
Gravura Padre Antônio Vieira
Em obra do século XVIII, o padre Antônio Vieira aparece sendo expulso por revoltosos no Maranhão.
(Fundação Biblioteca Nacional)
OBRAS
LER
107
CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES
Habilidade 15 - Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção,
situando aspectos do contexto histórico, social e político.
Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica
básica: a arte literária (contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as rela-
ções sociais e políticas nela impressas. Esta relação entre o texto literário e o contexto político re-
quer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso:“política não se discute”, pois
no Enem não só se discute, como serve de base para resolução das questões de Literatura.
Modelo
(Enem) Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito
semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi
composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas,
porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para
a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de
dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo
sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as
prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que,
se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio.
VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello  Irmão, 1951 (adaptado).
O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e
a)	 a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.
b)	 a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana.
c)	 o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios.
d)	 o papel dos senhores na administração dos engenhos.
e)	 o trabalho dos escravos na produção de açúcar.
108
Análise Expositiva
Habilidade 15
O consagrado sermão apresentado por Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre o
sofrimento de cristo crucificados e as condições de maus tratos sofridos pelos escravos nos
engenhos de açúcar. Este pressuposto embasa a habilidade 15 cobrada pelo Enem que deseja
que o estudante entenda sua denúncia para com o martírio vivido pelos cativos na sociedade
colonial. Um trecho do texto que confirma esta proposição é: “Em um engenho sois imita-
dores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo
Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”.
Alternativa E
Estrutura Conceitual
O padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608.
Veio para o Brasil com sua família humilde, desembarcando na Bahia
com seis anos de idade. Seu pai foi nomeado escrivão dos Agravos e
Apelações da Relação da Bahia. Fez seus primeiros estudos com sua
mãe, e depois no Colégio dos Jesuítas.
1
Vieira fez seu primeiro sermão
em Portugal no dia 1º de janeiro
de 1642.
2
“Os homens são como os olhos:
vendo tudo não se veem a si próprios”.
Padre Antônio Vieira
3
PADRE ANTÔNIO VIEIRA
PADRE ANTÔNIO VIEIRA
©
Wikimedia
Commons
©
©
Wiki
k
e
medi
d
a
Co
Comm
m
on
ons
s
Arcadismo no Brasil e
nativismo épico
Competência
5
Habilidades
15, 16 e 17
LENTRELETRAS
C
0 5
Competência 1 – Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para
sua vida.
H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação.
H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais.
H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas.
H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação.
Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas
e grupos sociais.
H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.
H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.
H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.
H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.
Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da iden-
tidade.
H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social.
H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas.
H11
Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para
diferentes indivíduos.
Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da
própria identidade.
H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais.
H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos.
H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos.
Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a
natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção.
H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político.
H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário.
H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional.
Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali-
dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação.
H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos.
H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução.
H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional
Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas.
H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
H24
Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção,
chantagem, entre outras.
Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização
do mundo e da própria identidade.
H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro.
H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social.
H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação.
Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida
pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte,
às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar.
H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação.
H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação.
H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
111
Minas Gerais e o ciclo do ouro
O Arcadismo brasileiro teve origem e expressão principalmente em Vila Rica (hoje Ouro Preto), em Minas
Gerais, cuja manifestação se relaciona diretamente com o grande crescimento urbano no século XVIII nas cidades
mineiras e a expansão econômica graças à extração de ouro.
Em cidades maiores, cresciam a divulgação de ideias políticas e o florescimento da literatura. Jovens brasilei-
ros das camadas mais privilegiadas da sociedade costumavam ser mandados a Coimbra, em Portugal, para estudar.
Aqui, na Colônia, não havia cursos superiores. Ao retornarem de Portugal, traziam ideias que faziam fermentar a
vida cultural portuguesa à época das inovações políticas e culturais do ministro marquês de Pombal, adepto de
algumas ideias iluministas.
Em Vila Rica, essas ideias levaram vários intelectuais e escritores a sonhar com a independência do Brasil,
principalmente após a repercussão do movimento de independência dos Estados Unidos das América (1776), so-
nhos esses que culminaram na frustrada Inconfidência Mineira (1789).
Arcadismo na Colônia: entre o local e o universal
Os escritores brasileiros do século XVIII tinham
uma postura bastante peculiar em relação aoArcadismo
importado de Portugal. Por um lado, procuravam obede-
cer aos princípios estabelecidos pelas academias literá-
rias portuguesas, bem como se inspiravam em escritores
clássicos consagrados, como Camões, Petrarca e Horá-
cio. Paralelamente, com vistas a elevarem a literatura
da Colônia ao mesmo grau das literaturas europeias e
a conferir a ela mais universalidade, tentavam eliminar
vestígios pessoais ou locais.
Por fim, acabaram por apresentar em suas obras
aspectos diferentes dos prescritos pelo modelo impor-
tado. A natureza, por exemplo, aparece na poesia de
Cláudio Manuel da Costa como mais bruta e selvagem
do que na poesia europeia; o mito do “homem natural”
culminou, entre nós, na figura do índio, personagem
112
das obras de Basílio da Gama e Santa Rita Durão; a
expressão dos sentimentos, emTomásAntônio Gonzaga
e Silva Alvarenga, é mais espontânea e menos conven-
cional. Esses aspectos característicos da poesia árcade
nacional foram mais tarde recuperados e aprofundados
pelo Romantismo, movimento que buscou definir uma
identidade nacional à nossa literatura.
Além dessa espécie de adaptação do modelo eu-
ropeu a das peculiaridades locais, não se pode esquecer
da forte influência barroca exercida no Brasil ainda du-
rante o século XVIII. As igrejas de Ouro Preto de então
só tiveram sua construção concluída quando o Arcadis-
mo já vigorava na literatura.
Entre os autores árcades brasileiros, destacam-se:
§
§ líricos: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antô-
nio Gonzaga e Silva Alvarenga.
§
§ épicos: Basílio da Gama, Santa Rita Durão e
Cláudio Manuel da Costa.
§
§ satíricos: Tomás Antônio Gonzaga.
§
§ encomiásticos: Silva Alvarenga e Alvarenga
Peixoto.
A poesia laudatória ou encomiástica, gênero poéti-
co de exaltação,foi muito praticada no século XVIII e serviu
de veículo para ideias políticas relacionadas ao Iluminismo.
A primeira obra árcade publicada no Brasil foi
Obras poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, em 1768.
Peculiaridades do
Arcadismo brasileiro
§
§ Apego aos valores da terra. Esse apego era
oferecido pela localização geográfica do “grupo
mineiro”, em quem brotou um nativismo que se
incorporou ao ideário da estética bucólica,em voga
noArcadismo. Emergido da natureza brasileira, ser-
viu de pano de fundo para a poesia dos“pastores”.
§
§ Sátira à corrupção. Em Cartas chilenas, Tomás
Antonio Gonzaga fez circular a sátira política em
manuscritos anônimos, criticando a exploração
portuguesa e a corrupção dos governos coloniais,
o que revela significativa consciência política doAr-
cadismo brasileiro graças à consciência política do
“grupo mineiro”.
§
§ Incorporação do indígena. Os poemas épi-
cos,O Uraguai,de Basílio da Gama,narram a luta
contra indígenas e jesuítas e são protagonizados
por portugueses e espanhóis, e o Caramuru, de
Santa Rita Durão, narra as aventuras do portu-
guês Diogo Álvares Correia, que aprisionado
pelo tupinambás na costa brasileira, viveu entre
os selvagens e casou-se com uma indígena.
Os árcades e a Inconfidência
Os escritores árcades mineiros Tomás Antonio
Gonzaga,Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa
participaram diretamente do movimento da Inconfidên-
cia Mineira. Chegados de Coimbra com ideias enciclo-
pedistas e influenciados pela independência dos EUA,
eles não apenas se somaram aos revoltosos contra a
exploração pelo erário régio, que confiscava a maior
parte do ouro extraído da Colônia, mas também ajuda-
ram a divulgar os sonhos de um Brasil independente e
contribuíram para a organização do grupo inconfidente.
Desse grupo, apenas um homem não tinha a
mesma formação intelectual dos demais nem era escri-
tor, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, oTiradentes –
alcunha que recebeu por ser dentista prático –, maçom
e simpatizante dos ideais iluministas.
Traídos por Joaquim Silvério dos Reis, que devia vul-
tosas somas ao governo português, os inconfidentes foram
presos.ÀexceçãodeTiradentes,todosnegaramterparticipa-
ção do movimento. Segundo versão oficial, Cláudio Manuel
da Costa teria se suicidado na prisão antes do julgamento.
113
Tiradentes, que assumiu para si a responsabilidade
da liderança do grupo, e Alvarenga Peixoto foram conde-
nados à morte por enforcamento.TomásAntônio Gonzaga
e outros, condenados ao exílio temporário ou perpétuo.
No dia 20 de abril de 1792, foi comutada a pena
de todos os participantes do movimento, menos a de
Tiradentes, enforcado no dia seguinte. Seu corpo foi es-
quartejado e as partes expostas por Vila Rica. Os bens
foram confiscados, a família, amaldiçoada por quatro
gerações e o chão de sua casa foi salgado para que nele
nenhuma planta voltasse a nascer.
Cláudio Manuel da Costa:
a consciência árcade
O pai do Arcadismo brasileiro
Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), também
conhecido pelo pseudônimo de Glauceste Satúrnio, nas-
ceu em Mariana, Minas Gerais. Depois de estudar no
Brasil com os jesuítas, completou os estudos em Coim-
bra, onde se formou advogado. Tomou contato com as
renovações da cultura portuguesa empreendidas por
Pombal e Verney, bem como com os novos procedimen-
tos literários adotados pela Arcádia Lusitana.
De volta ao Brasil, o jovem trabalhou em Vila Rica
como advogado e administrador. Sua carreira de escritor
teve início com a publicação de Obras poéticas. Em 1789,
foi acusado de envolvimento na Inconfidência Mineira e
preso. Pouco tempo depois, foi encontrado morto na pri-
são.A alegação oficial para sua morte foi a de suicídio.
Com ampla formação cultural, Cláudio liderou o
grupo de escritores árcades mineiros e soube dar con-
tinuidade, apesar das limitações da Colônia, à tradição
de poetas clássicos. Seus sonetos apresentam notável
afinidade com a lírica de Camões.
Em virtude dessas ligações com a tradição clássica,
sua obra é a que melhor se ajustou aos padrões do Arca-
dismo europeu. Há nela também influências do Barroco:
Já rompe, Nise, a matutina aurora
O negro manto, com que a noite escura,
Sufocando do Sol a face pura,
Tinha escondido a chama brilhadora.
O poema apresenta inversões na ordem dos ter-
mos da frase (Nise, a matutina aurora, já rompe o negro
manto com que a noite escura tinha escondido a chama
brilhadora, sufocando a face pura do Sol) e figuração
(“negro manto”, para noite, e “chama brilhadora”,
para Sol) tipicamente barrocas.
Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio (pseudônimo)
Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci: oh quem cuidara.
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza.
Quando cheios de gostos, e de alegria
Estes campos diviso florescentes,
Então me vêm as lágrimas ardentes
Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.
Aquele mesmo objeto, que desvia
Do humano peito as mágoas inclementes,
Esse mesmo em imagens diferentes
Toda a minha tristeza desafia.
Se das flores a bela contextura
Esmalta o campo na melhor fragrância,
Para dar uma ideia de ventura;
Como, ó Céus, para os ver terei constância,
Se cada flor me lembra a formosura
a bela causadora de minha ânsia?
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Org.).
Poema de Cláudio Manuel da Costa.
São Paulo: Cultrix, 1976, p. 72.
constância: firmeza, ânimo
contextura: ligação, firmeza
divisar: avistar
inclementes: severas, rigorosas
ventura: sorte, felicidade
114
O autor cultivou a poesia lírica e épica. Na lírica, des-
taca-se o tema da desilusão amorosa.A situação mais comum
observada em seus sonetos é a de Glauceste,o eu lírico pastor,
que se lamenta em razão de não ser correspondido por sua
musa inspiradora,Nise,ou de encontrar-se num lugar de gran-
de beleza natural sem a companhia da mulher amada.
Nise é uma personagem fictícia incorpórea, pre-
sente apenas pela citação nominal. Não se manifesta
na relação amorosa, não há nenhuma demonstração de
correspondência às invocações do eu lírico.Apenas repre-
senta o ideal da mulher amada inalcançável – nítido tra-
ço de reaproveitamento do neoplatonismo renascentista.
Na poesia épica, o poema Vila Rica é inspirado
nas epopeias clássicas, que trata da penetração ban-
deirante, da descoberta das minas, da fundação de Vila
Rica e das revoltas locais. Hoje, no conjunto da obra do
autor sobrepõe-se a lírica:
Enfim serás cantada,Vila Rica,
Teu nome alegre notícia,e já clamava;
Viva o senado! viva! repetia
Itamonte, que ao longe o eco ouvia.
A poesia de Cláudio Manuel da Costa também
contempla elementos da paisagem local: o ribeirão do
Carmo, rio que corta a região; os vaqueiros, em lugar de
pastores gregos; as montanhas e os vales; e as constan-
tes referências às penhas, pedras que sugerem o am-
biente agreste e rústico de Minas Gerais.
Ouro Preto, de Guignard.
Tomás Antônio Gonzaga:
a renovação árcade
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) é o mais
popular dos poetas árcades mineiros, e sua obra ainda
hoje é lida com interesse. Nascido no Porto, em Portugal,
veio ainda menino com a família para a Bahia, onde vi-
veu e estudou até a juventude. Posteriormente, fez o cur-
so de Direito, em Coimbra, e, como Cláudio Manuel da
Costa, lá estabeleceu contato com as ideias iluministas e
árcades. Escreve uma obra filosófica em homenagem ao
marquês de Pombal: Tratado de Direito Natural.
De volta ao Brasil, passou a viver em Vila Rica,
onde exerceu a função de ouvidor. Iniciou ali sua ativi-
dade literária e sua relação amorosa com Maria Doro-
teia de Seixas, uma jovem então com 16 anos, cantada
em seus versos com o pseudônimo de Marília.
Em 1789, acusado de participar da Inconfidência,
Gonzaga foi preso e mandado ao Rio de Janeiro,onde ficou
encarcerado até 1792, quando foi exilado para Moçambi-
que. Apesar dos sofrimentos passados na prisão, Gonzaga
levou naÁfrica uma vida relativamente tranquila. Lá, casou-
-se,enriqueceu e ainda se envolveu com a política local.
A arte e a vida
Comparada a dos demais poetas árcades brasi-
leiros, a poesia de Tomás Antônio Gonzaga apresenta
inovações que apontam para uma transição doArcadis-
mo para o Romantismo.
Incorporando muito de sua experiência pessoal à
poesia, escrita antes e durante a prisão, Gonzaga con-
seguiu quebrar a rigidez dos princípios árcades. Em con-
traposição à contenção dos sentimentos, sua poesia é
mais emotiva e espontânea. Em vez de apresentar uma
115
mulher irreal, como a Nise, de Cláudio Manuel da Costa,
sua Marília se mostra mais humana, próxima e real:
Na sua face mimosa,
Marília, estão misturadas
Purpúreas folhas de rosa,
Brancas folhas de jasmim.
Dos rubis mais preciosos
Os seus beiços são formados;
Os seus dentes delicados
São pedaços de marfim.
Os temas árcades do distanciamento da mulher
amada e do sofrimento dele decorrente não são, em
Gonzaga, meros temas clássicos convencionais, mas
assumem feição de pura verdade, poemas escritos en-
quanto o poeta se encontrava preso:
Estou no inferno, estou, Marília bela;
e numa coisa só é mais humana
a minha dura estrela;
uns não podem mover do inferno os passos;
eu pretendo voar e voar cedo
à glória dos teus braços.
Essas experiências dão à obra de Gonzaga mais
subjetividade, espontaneidade e emotividade – traços apro-
fundados pelo Romantismo. Suas obras reúnem Marília de
Dirceu (poesia lírica) e Cartas chilenas (poesia satírica).
Fonte de suspiros, Ouro Preto, MG
A poesia lírica: Marília de Dirceu
A poesia lírica é a parte mais conhecida da produ-
ção literária deTomásAntônio Gonzaga. São popularmen-
te conhecidos, principalmente na região de Minas Gerais,
e até explorados pela literatura de cordel os amores entre
Marília e Dirceu (pseudônimo pastoral de Gonzaga).
Lira 77
Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro
fui honrado pastor da tua aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho a que me encoste um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.
Se o rio levantado me causava,
Levando a sementeira, prejuízo,
Eu alegre ficava, apenas via
Na tua breve boca um ar de riso.
Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
de ver-te ao menos compassivo o rosto.
Ah! Minha bela, se a fortuna volta.
Se o bem, que já perdi, alcanço e provo
Por essas brancas mãos, por essas faces
Te juro renascer um homem novo,
Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
Amar no céu a Jove e a ti na terra!
Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas
116
as peles dos cordeiros mal curtidas,
e os panos feitos com lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
Por mãos de amor, por minhas mãos cosido.
Nas noites de serão nos sentaremos
cos filhos, se os tivermos, à fogueira:
entre as falsas historias, que contares,
lhes contarás a minha, verdadeira.
Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto.
A poesia satírica: Cartas chilenas
O poema satírico, incompleto, Cartas chilenas,
circulou em partes pela cidade de Vila Rica, entre 1787-
1788.Depois da Inconfidência Mineira,essas cartas desa-
pareceram,o que fez supor que seus autores ou seu autor
fosse um dos poetas árcades presos, Cláudio Manuel da
Costa,TomásAntônio Gonzaga ouAlvarenga Peixoto. Es-
tudos estilísticos do português Rodrigues Lapa atribuem
a autoria delas a Tomás Antônio Gonzaga.
A omissão da autoria nas Cartas chilenas decorre
do risco resultante de seu conteúdo.Elas satirizavam os des-
mandosadministrativosemoraisdeLuizdaCunhaMeneses,
que governou a capitania de Minas entre 1783 e 1788.
A obra é um jogo de disfarces. Fanfarrão Minésio
é o pseudônimo do governo; chilenas equivale a minei-
ras; Santiago, de onde são assinadas, equivale a Vila
Rica. O autor das cartas é identificado como Critilo, e
seu destinatário, Doroteu.
As Cartas chilenas são a principal expressão sa-
tírica da literatura colonial do século XVIII. Trilhando os
caminhos abertos por Gregório de Matos, Gonzaga dá
continuidade à irregular tradição satírica de nossa lite-
ratura, ao mesmo tempo que oferece à historiografia
um rico painel social e político daqueles dois anos que
precederam a Inconfidência Mineira.
Embora a crítica do poema tenha como alvo apenas
o governador e seus assessores, não o colonialismo portu-
guês propriamente, fica clara a fragilidade da estrutura po-
lítica colonial e os abusos de poder praticados pela Coroa.
Apesar da suposição de que o poema tenha sido
escrito para ser distribuído em Vila Rica em forma de
panfleto, sua qualidade apresenta certa regularidade. Ra-
ramente cai no panfletário. O poema mantém certa atu-
alidade, acostumados que estamos a muitos fanfarrões.
O texto a seguir, de Tomás Antônio Gonzaga, é
constituído por fragmentos da “Carta 2a
”, na qual Cri-
tilo narra a seu amigo Doroteu o comportamento de
Fanfarrão Minésio na cidade de Santiago.
Não cuides, Doroteu, que brandas penas
me formam o colchão macio e fofo;
não cuides que é de paina a minha fronha
e que tenho lençóis de fina holanda,
com largas rendas sobre os crespos folhos;
custosos pavilhões, dourados leitos
e colchas matizadas não se encontram
na casa mal provida de um poeta,
aonde há dias o rapaz que serve
nem na suja cozinha acende o fogo.
Mas nesta mesma cama tosca e dura,
descanso mais contente do que dorme
aquele só põe o seu cuidado
em deixar a seus filhos o tesouro
que ajunta, Doroteu, com mão avara,
furtando ao rico e não pagando ao pobre.
Aqui... mas onde vou, prezado amigo?
Deixemos episódios que não servem,
e vamos prosseguindo a nossa história.
Apenas, Doroteu, o nosso chefe
as rédeas manejou do seu governo,
fingir nos intentou que tinha uma alma
amante da virtude.Assim foi Nero.
Governou aos romanos pelas regras
da formosa justiça, porém logo
trocou o cetro de ouro em mão de ferro.
Manda, pois, aos ministros lhe deem listas
de quantos presos as cadeias guardam:
faz a muitos soltar e aos mais alenta
de vivas, bem fundadas esperanças.
Estranha ao subalterno, que se arroga
o poder castigar ao delinquente
com troncos e galés, enfim, ordena
que aos presos, que em três dias não tiveram
assentos declarados, se abram logo
em nome dele, chefe, os seus assentos.
Aquele, Doroteu, que não é santo,
mas quer fingir-se santo aos outros homens,
pratica muito mais do que pratica
quem segue os sãos caminhos da verdade.
Mal se põe nas igrejas, de joelhos,
abre os braços em cruz, a terra beija,
entorta o seu pescoço, fecha os olhos,
117
faz que chora, suspira, fere o peito
e executa outras muitas macaquices,
estanho em parte onde o mundo as veja.
Assim o nosso chefe, que procura
mostra-se compassivo, não descansa
com estas poucas obras: passa a dar-nos
da sua compaixão maiores provas.
O povo, Doroteu, é como as moscas
que correm ao lugar, aonde sentem
o derramado mel; é semelhante
aos corvos e aos abutres, que se ajuntam
nos ermos, onde fede a carne podre.
À vista, pois, dos fatos, que executa
o nosso grande chefe, decisivos
da piedade que finge, a louca gente
de toda a parte corre a ver se encontra
algum pequeno alívio à sombra dele.
(In: Tomás Antônio Gonzaga. São Paulo: Abril Educação, 1980. p.
66-70. Literatura Comentada.
Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, MG
Basílio da Gama e o
nativismo indianista
Basílio da Gama (1741-1795) nasceu na cida-
de que hoje é chamada Tiradentes, em Minas Gerais.
Estudou em colégio jesuíta, no Rio de Janeiro, e tinha
intenção de ingressar na carreira eclesiástica. Comple-
tou seus estudos em Portugal e na Itália, no período
em que os jesuítas foram expulsos dos domínios portu-
gueses. Na Itália, Basílio construiu uma carreira literária
e conseguiu uma façanha única entre os brasileiros da
época: ingressar na Arcádia Romana, na qual assumiu o
pseudônimo de Termindo Sipílio.
Em 1767, voltou ao Rio de Janeiro, onde foi
preso no ano seguinte acusado de ter ligação com os
jesuítas. Um decreto de então condenava ao exílio em
Angola quem mantivesse comunicação oral ou escrita
com os jesuítas.
Preso,Basílio da Gama foi levado a Lisboa.Livrou-
-se da prisão graças a um poema em homenagem à filha
do conde de Oeiras, futuro marquês de Pombal.A amiza-
de lhe rendeu novos contatos com os árcades portugue-
ses e permitiu-lhe escrever sua obra máxima, O Uraguai.
O Uraguai
Publicado em 1769, O Uraguai é tematiza a luta
de portugueses e espanhóis contra índios e jesuítas que,
instalados nas missões jesuíticas do atual Rio Grande do
Sul, não queriam aceitar as decisões doTratado de Madri.
A quebra do modelo clássico
A luta travada por portugueses e espanhóis
contra índios e jesuítas é narrada por Basílio da Gama,
desde os preparativos até a conclusão. Os cantos apre-
sentam a seguinte sequência de fatos:
118
§
§ Canto I: as tropas aliadas reúnem-se para com-
bater os índios e os jesuítas.
§
§ Canto II: o exército avança e há uma tentativa de
negociação com os chefes indígenas Sepé e Ca-
cambo. Sem acordo, trava-se a luta, que termina
com a derrota e a retirada dos índios.
§
§ Canto III: Cacambo ateia fogo à vegetação em
volta do acampamento aliado e foge para sua
aldeia. O padre Balde, vilão da história, faz pren-
der e matar Cacambo para que seu filho sacrílego
Baldeta possa casar-se com Lindoia, esposa de
Cacambo, e tomar a posição do chefe indígena
morto. Em uma visão, Lindoia prevê o terremoto
de Lisboa e a expulsão dos jesuítas por Pombal.
§
§ Canto IV: no mais bonito dos cinco cantos são re-
tratados os preparativos do casamento de Baldeta
com Lindoia. Chorando a morte do marido, não
quer casar-se. Entra num bosque e deixa-se picar
por uma cobra venenosa. Chegam os brancos,
que cercam a aldeia. Todos fogem. Antes, porém,
os padres mandam queimar as casas e a igreja.
§
§ Canto V: o líder português Gomes Freire de An-
drada prende os inimigos na aldeia próxima. Há
referências ao domínio universal da Companhia
de Jesus e a seus crimes.
Escrito em apenas cinco cantos em versos bran-
cos (sem rima) e sem estrofação, O Uraguai não segue a
estrutura camoniana de Os Lusíadas. Embora apresente
as cinco partes tradicionais das epopeias – proposição,
invocação, dedicatória, narração e epílogo – o poema
inicia com a ação em pleno desenvolvimento:
Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros
Em que ondeiam cadáveres despidos.
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilheria.
O fato de o autor tratar de um episódio histórico
recente – na época ocorrido havia pouco mais de dez
anos – revela outro aspecto que diferencia O Uraguai
dos poemas épicos tradicionais.
Quem é o verdadeiro herói da história?
Pelo fato de O Uraguai ser uma obra de intenções
épicas, seria de esperar que em nada tivessem destaque os
movimentos de guerra e os atos de heroísmo. Contudo, não
é o que se verifica.Ao contrário,a própria guerra chega a ser
questionada como meio de atuação política, o que revela
uma postura tipicamente iluminista do autor, cujas ideias
coincidem com as de seu amigo Marquês de Pombal.
Vinha logo de guardas rodeado,
Fonte de crimes, militar tesouro,
Por quem deixa no rego o curto arado
O lavrador, que não conhece a glória:
E vencendo a vil preço o sangue e a vida
Move, e nem sabe por que move a guerra.
O herói português Gomes Freire de Andrade, líder das
tropas luso-espanholas, também não mostra o
entusiasmo dos heróis épicos tradicionais:
...Descontente e triste
Marchava o General: não sofre o peito
Compadecido e generosa a vista
Daqueles frios e sangrados corpos,
Vitimas da ambição de injusto império
O genocídio de Sete Povos das Missões
O Tratado de Madri (1750) determinava uma
troca de territórios: os portugueses que viviam na colô-
nia de Sacramento – hoje parte do Uruguai – deveriam
desocupar a região e instalar-se nos sete povoados,
chamados Sete Povos, pertencentes a Portugal e ocu-
pados por índios. Em troca, a Espanha teria soberania
sobre as Tordesilhas. Provavelmente influenciados pelos
jesuítas, os indígenas que ocupavam aqueles povoados
não queriam passar ao domínio português. Diante do
impasse, os governos português e espanhol se uniram
para intervir militarmente na região. Foram necessárias
duas investidas para que conseguissem seu objetivo – a
segunda narrada em O Uraguai. Essas lutas ocasiona-
ram a morte de alguns milhares de índios e constituem
um dos principais genocídios do país.
119
Apesar da postura critica à guerra manifesta pelo
autor, o fato histórico narrado não é alterado. Espanhóis
e portugueses saem vencedores da guerra. Do lado ini-
migo, apenas os jesuítas são tratados no poema como
verdadeiros vilões – outro traço da obra que satisfaz os
interesses do marquês de Pombal. Os índios derrotados
são vistos com simpatia, talvez até como vítimas da ação
jesuítica na região e dos conflitos que dela resultaram.
Destacadas a força e a coragem do indígena, a derrota
se deve apenas à desigualdade de armas.O índio seria uma es-
pécie de herói moral da luta, dadas suas qualidades de caráter:
Fez proezas Sepé naquele dia.
Conhecido de todos, no perigo
Mostrava descoberto o rosto e o peito
Forçando os seus co exemplos e coas palavras.
Lindoia. José Maria de Medeiros, 1882.
O poema não enfatiza a guerra em si, nem as
ações dos vencedores, nem os vilões jesuítas – tratados
caricaturalmente. Ganham destaque a descrição física
e moral do índio, o choque de culturas e a paisagem
nacional. Há passagens de forte lirismo, como a do epi-
sódio da morte de Lindoia:
Que alegre cena para os olhos! Podem
Daquela altura, por espaço imenso,
Ver as longas campinas retalhadas
De trêmulos ribeiros, claras fontes,
E lagos cristalinos, onde molha
As leves asas o lascivo vento.
Engraçados outeiros, fundos vales,
Verde teatro, onde se admira quanto
Produziu a supérflua Natureza.
Ruínas da igreja de São Miguel das Missões, RS, palco das lutas
narradas em O Uraguai.
A valorização do índio e da natureza selvagem do
Brasil corresponde ao ideal de vida primitiva e natural cultiva-
do pelos iluministas e pelos árcades.Esses aspectos nativistas
prenunciam as tendências do Romantismo, no século XIX.
José Santa Rita Durão:
retomada do modelo clássico
O frei Santa Rita Durão (1722-1784) nasceu em
Mariana, Minas Gerais. Como Basílio da Gama, estu-
dou no colégio dos jesuítas e completou seus estudos
em Portugal. Lá, ingressou na vida religiosa e tornou-se
professor de Teologia.
120
Afirmando que a razão do poema Caramuru era
“o amor à pátria”, Santa Rita, embora tenha passado
a maior parte de sua vida em Portugal, confirma a ten-
dência nativista de seu poema.
Moema. Vitor Meireles, 1832.
(Inspirada na personagem de Santa Rita Durão.)
Caramuru: um retrocesso?
Publicado em 1781, doze anos depois de O Ura-
guai, é provável que Santa Rita tenha sido estimulado
pela publicação de Basílio da Gama, ainda que haja di-
ferenças fundamentais entre os dois poemas.
Religioso, Santa Rita não é antijesuíta como o
colega. Valoriza a ação catequética de natureza inteira-
mente cristã dos jesuítas junto aos índios.
As liberdades formais e líricas de que Basílio da
Gama se serve são ignoradas por Santa Rita. Caramuru
obedece rigidamente ao modelo camoniano: são dez
cantos, com estrofes em oitava-rima, versos decassíla-
bos e estrutura convencional. Como em Camões, recor-
re às mitologias cristã e pagã – representada por deu-
ses indígenas, em vez de deuses greco-latinos.
Apesar de distante do Brasil desde os nove anos,
o autor procura retratar a natureza brasileira, ao descre-
ver o clima, a fertilidade da terra, as riquezas naturais.
Alia-se à tradição dos cronistas e viajantes que descreve-
ram a colônia no século XVI. Interessa-se particularmen-
te pelo indígena, descreve seus costumes e instituições e
ressalta sua catequese. Contudo, seu poema revela certo
artificialismo próprio de quem leu sobre o país, mas não
vivenciou o que descreve. Caramuru é considerado um
poema inferior a O Uraguai e, de certa forma, um retro-
cesso sob o ponto de vista temático e estilístico.
O tema de Caramuru
O poema narra as aventuras, em parte históri-
cas, em parte lendárias, do náufrago português Diogo
Álvares Correia, o Caramuru. Em meio às aventuras do
protagonista, o autor aproveita para fazer uma longa
descrição das qualidades da terra:
Não são menos que as outras saborosas
As várias frutas do Brasil campestres;
Com gala de ouro e púrpura vistosas
Brilha a mangaba e os mocujés silvestres.
Costumes indígenas enfocados pela óptica cristã:
Que horror da humanidade! ver tragada
Da própria espécie a carne já corruta!
Quando não deve a Europa abençoada
A fé do Redentor, que humilde escuta!
Caramuru, como O Uraguai, apresenta, em meio
à narrativa épica, momentos líricos de significativa be-
leza, nos quais, ao lado de aspectos próprios da cultura
indígena, aparece o tema universal da morte por amor.
Caramuru: o “homem de fogo”
121
Ao naufragar na costa brasileira em 1510, Diogo
Álvares Correia foi aprisionado pelos tupinambás. Certa
vez, pegou num mosquete e atirou num pássaro, ma-
tando-o. Os índios, que não conheciam armas de fogo,
ficaram impressionados com a detonação e gritaram
“Caramuru! Caramuru!”, vocábulo que significa “ho-
mem de fogo” ou “dragão saído do mar”. Diogo viveu
entre os índios tupinambás, na Bahia, no século XVI,
e desposou Paraguaçu, ambos personagens do poema
Caramuru. De acordo com a lenda, confirmada pela ver-
são de Santa Rita, Diogo foi resgatado por uma nau
francesa e, em companhia de Paraguaçu, levado à Corte
francesa, de onde, posteriormente, partiu para Portugal.
Aseguir,vejatrechosretiradosdeOUraguai,deBasílio
da Gama (Texto I),e Caramuru,de Santa Rita Durão (Texto II).
Texto I
Canto IV - Morte de Lindoia
Entram enfim na mais remota e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes (...)
(...) Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindoia, e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo côa ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindoia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia.
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.
E por todas as partes respeito
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste.
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
In: CÂNDIDO, Antonio; CASTELLO, José A.
Ob. cit., p. 150-151, v.1.
Texto II
Os chefes indígenas oferecem as filhas a
Diogo Álvares para se honrarem com seu paren-
tesco. O lusitano aceita o parentesco, mas não as
donzelas, por fidelidade a Paraguaçu. Tomado por
saudades da Europa, embarca numa nau france-
sa. Moema, uma Índia apaixonada pelo português,
desesperada de ver partir com Paraguaçu, tenta
acompanhá-lo, nadando.
– “Bárbaro (a bela diz) tigre e não homem...
Porém o tigre, por cruel que brame,
Acha forças amor, que enfim o domem; (...)
(...) Só a ti não domou, por mais que eu te ame.
Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem,
Como não consumis aquele infame?
Mas pagar tanto amor com tédio e asco...
Ah! Que corisco és tu... raio... penhasco!
Tão jura ingratidão menos sentira
E esse fado cruel doce me fora.
Se o meu despeito triunfar não vira
122
Essa indígena, essa infame, essa traidora.
Por serva, por escrava, te seguira.
Se não temera de chamar senhora
A vil Paraguaçu, que, sem que o creia,
Sobre ser-me inferior, é néscia e feia.
Enfim, tens coração de ver-me aflita,
Flutuar, moribunda, entre estas ondas;
Nem o passado amor teu peito incita
A um ai somente, com que aos meus respondas.
Bárbaro, se esta fé teu peito irrita,
(Disse, vendo-o fugir) ah! Não te escondas
Dispara sobre mim teu cruel raio...”
E indo a dizer o mais, cai num desmaio.
Perde o lume dos olhos, pasma e treme,
Pálida a cor, o aspecto moribundo;
Com mão já sem vigor, soltando o leme,
Entre as salsas escumas desce ao fundo.
Mas na onda do mar, que, irado, freme,
Tornando a aparecer desde o profundo,
– Ah! Diogo cruel! – disse com mágoa, – e sem
mais vista ser, sorveu-se na água.”
In: CIDADE, Hernâni. Santa Rita Durão.
Rio de Janeiro: Agir, 1957. p. 87-88.
Alvarenga Peixoto:
o pombalismo e a colonização
Autor de poemas líricos e laudatórios – em ho-
menagem a alguém –, estes talvez sejam o melhor da
produção de Alvarenga Peixoto. Veiculam ideias filo-
sóficas e políticas em discussão na época. Abordou o
pombalismo, a exploração colonialista, o nativo, a paz,
a importância do saber e da razão.
Ode ao marquês de Pombal
Não os heróis, que o gume ensanguentado
da cortadora espada,
em alto pelo mundo levantado,
trazem por estandarte
dos furores de Marte;
Ensanguentados rios, quantas vezes
vistes os férteis vales
semeados de laças e de arneses?
Que importam os exércitos armados,
no campo com respeito conservados,
se lá do gabinete a guerra fazes
e a teu arbítrio dás o tom às pazes?
que, sendo por mão destra manejada,
a política vence mais que a espada.
Que importam tribunais e magistrados,
asilos da inocência,
se pudessem temer-se declarados
patronos da insolência?
De que servirão tantas
tão saudáveis leis, sábias e santas,
se, em vez de executadas,
forem por mãos sacrílegas frustradas?
Mas vives tu, que para o bem do mundo
sobre tudo vigias,
cansado teu espírito profundo,
as noites e os dias.
Ah! quantas vezes, sem descanso uma hora,
vês recostar-se o sol, erguer-se a aurora,
enquanto volves com cansado estudo
as leis e a guerra, e o negócio, e tudo?
Vale mais do que um reino um tal vassalo:
graças ao grande rei que soube achá-lo.
CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A.
Ob. cit., p. 172-174.
Silva Alvarenga:
a poesia nativista e sensual
Silva Alvarenga (1749-1814), autor de Glaura, des-
tacou-se pelo cultivo de rondós e madrigais em que há forte
musicalidade e elementos da fauna e flora nacionais: beija-
-flor, pomba, cobra, onça, mangueiras, cajueiros, jambeiros.
Em razão desses traços, sua poesia é considerada nativista
com fortes indícios de transição para o Romantismo.
123
O beija-flor
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Neste bosque alegre e rindo
Sou amante afortunado,
E desejo ser mudado
No mais lindo Beija-flor.
Todo o corpo num instante
Se atenua, exala e perde:
É já de oiro, prata e verde
A brilhante e nova cor.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe negar o teu vigor.
Vejo as penas e a figura,
Provo as asas, dando giros;
Acompanham-me os suspiros,
e a ternura do Pastor.
E num voo feliz ave
Chego intrépido até onde
Riso e pérolas esconde
O suave e puro Amor.
Deixou, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Toco o néctar preciso,
Que a mortais não se permite;
É o insulto sem limite,
Mas ditoso o meu ardor;
Já me chamas atrevido,
Já me prendes no regaço;
Não me assusta o terno laço,
É fingido o meu temor.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
Se disfarças os meus erros,
E me soltas por piedade;
Não estimo a liberdade,
Busco os ferros por favor.
Não me julgues inocente,
Nem abrandes meu castigo;
Que sou bárbaro inimigo,
Insolente e roubador.
Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce alma;
E a minha alma bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.
CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A.
Ob. cit., p. 179-180.
124
INTERATIVI
A
A DADE
Filme
Filme
Os Inconfidentes
Tiradentes
O filme retrata a Inconfidência Mineira, movimento político do século
18 do Estado de Minas Gerais. Faziam parte do grupo de conspiradores
contra o domínio colonial português poetas e nobres, incluindo o padre
e o coronel da guarnição.
O dentistaTiradentes é o escolhido para dar exemplo aos rebeldes que
se levantavam contra a Coroa portuguesa. Seus cúmplices, apesar de
terem confessado, não assumem responsabilidades. O único a fazer
isso é Tiradentes, que acaba sendo condenado à morte. (76 min.)
A trajetória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (Humberto
Martins), líder da Inconfidência Mineira, um movimento surgido em
Vila Rica (Ouro Preto) em 1789. Tiradentes sonhou junto com amigos
e intelectuais ver o Brasil independente do domínio português, mas
esbarrou na traição de Joaquim Silvério dos Reis (Rodolfo Bottino).
ASSISTIR
Filme Caramuru - A invenção do Brasil
Em 1º de janeiro de 1500,um novo mundo é descoberto pelos europeus,
graças a grandes avanços técnicos na arte náutica e na elaboração de
mapas. É neste contexto que vive em Portugual o jovem Diogo (Selton
Mello), pintor que é contratado para ilustrar um mapa e, por ser
enganado pela sedutora Isabelle (Débora Bloch), acaba sendo punido
com a deportação na caravela comandada por Vasco de Athayde (Luís
Mello). Mas a caravela onde Diogo está acaba naufragando ele, por
milagre, consegue chegar ao litoral brasileiro. Lá ele conhece a bela
índia Paraguaçu (Camila Pitanga) com quem logo inicia um romance
temperado posteriormente pela inclusão de uma terceira pessoa: a índia
Moema (Déborah Secco), irmã de Paraguaçu.
125
LER
Livros
Arcadismo - Col. Roteiro da Poesia Brasileira
O Arcadismo, estilo dominante no século XVIII, vincula traços do Iluminismo
à convenção pastoril que evoca. Configura em Portugal a atitude geral
neoclássica, mas com divergências em relação ao padrão geral, como a
ausência de anticlericalismo. Associam-se nas manifestações da poesia, o
árcade bucolismo, o culto das normas ditadas pela antiguidade clássica,
presentes nas artes e nos manuais da época, que preconizam o retorno ao
equilíbrio e à simplicidade dos modelos greco-romanos, diretamente ou a
partir do renascimento. No Brasil, evidenciou-se, nas manifestações poéticas,
de forma peculiar: sem o rococó, pré-romantismo e dimensões nativistas.
Cláudio Manuel da Costa - Laura de Mello e Souza
O mineiro Cláudio Manuel da Costa, consagrado pelos versos de Vila Rica,
poema dedicado à fundação da capital “das Minas Gerais”, é revisitado de
maneira inovadora nesse perfil biográfico escrito por Laura de Mello e Souza,
que lança uma nova perspectiva sobre a vida, a obra e o destino do poeta
brasileiro.
O leitor é transportado à Minas Gerais do século XVIII, onde Cláudio
Manuel da Costa exerceu a carreira de advogado paralelamente à de poeta,
engajando-se também no movimento da Inconfidência Mineira. Um dos
temas mais polêmicos de sua biografia,sua morte,cujas circunstâncias nunca
foram totalmente esclarecidas, que continua a motivar muita especulação.
126
OBRAS
Pinturas Tiradentes esquartejado / A prisão de Tiradentes
Tiradentes esquartejado. Por Pedro Américo, 1893.
A prisão de Tiradentes. Por Antônio Diogo da Silva Parreiras, 1914.
127
CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES
Habilidade 16 - Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de cons-
trução do texto literário.
Esta habilidade pressupõe que o aluno tenha conhecimento das concepções artísticas, no caso
o conceito de uma escola literária específica. A construção dos procedimentos literários estão
ligados aos fatores estéticos que podem levar em consideração a forma e/ou conteúdo do texto
em relação à concepção artística do contexto.
Modelo
(Enem)
Soneto VII
Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quando pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era;
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera.
(COSTA, C.M. Poemas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 jul 2012.)
No soneto de Claudio Manuel da Costa, a contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma
reflexão em que transparece uma
a)	 angústia provocada pela sensação de solidão.
b)	 resignação diante das mudanças do meio ambiente.
c)	 dúvida existencial em face do espaço desconhecido.
d)	 intenção de recriar o passado por meio da paisagem.
e)	 empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.
128
Análise Expositiva
Habilidade 16
Esta questão, como acenado na habilidade e competência específica, constitui-se um pres-
suposto de que o estudante deva conhecer o contexto (escola literária do Arcadismo), em
função do autor e de sua concepção de escrita (no caso os tradicionais sonetos de Cláudio
Manuel da Costa). O soneto deste poeta é representativo de algumas características árcades:
o fugere urbem, o bucolismo e locus amoenus, presentes no retorno ao campo e no desejo de
vida tranquila que em outro momento o eu-lírico vislumbrara, como se vê em: “Uma fonte
aqui houve”/ (...) “Árvores aqui vi florescentes”. A busca por tranquilidade se contrapõe à
realidade, uma vez que o eu lírico revela ter encontrado um lugar diverso daquele presente
em sua memória: “Eu me engano: a região esta não era; / Mas que venho a estranhar, se estão
presentes /Meus males, com que tudo degenera.”.
Alternativa E
Estrutura Conceitual
Os poetas árcades encontram inspiração
nas terras mineiras, principalmente Vila
Rica-Ouro Preto, cenário de suas poesias.
O estilo literário árcade no Brasil tem
início com a publicação das Obras poéticas
de Cláudio Manuel da Costa, em 1768.
1
2
Os principais escritores brasileiros desse
período são: Cláudio Manuel da Costa,
Santa Rita Durão, Basílio da Gama e
Tomás Antônio Gonzaga
Autor do poema épico Caramuru
(1781), Freire Santa Rita Durão foi
poeta e orador, considerado um dos
precursores do indianismo no Brasil.
Basílio da Gama é autor do poema épico
O Uraguai (1769), nesse texto, aborda
as disputas entre os europeus, os
jesuítas e os índios. (Tratado de
Madrid).
Apesar de Tomás Antônio Gonzaga ter
nascido em Portugal, a cidade de
Marília – no Paraná –, recebe esse
nome em homenagem à obra “Marília
de Dirceu” do escritor.
ARCADISMO BRASIL
NATIVISMO ÉPICO
ARCADISMO BRASIL
NATIVISMO ÉPICO
3
4
5
6

Livro l c_e_letras_lit_br (1)

  • 1.
    1 LINGUAGENS,CÓDIGOS e suas tecnologias LucasLimberti, Murilo de Almeida Gonçalves e Pércio Luis Ferreira Gramática e Literatura LENTRELETRAS C Gramática e Literatura para vestibular medicina 1ª edição • Rio de Janeiro 2019
  • 2.
    © Hexag Sistemade Ensino, 2018 Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2019 Todos os direitos reservados. Autores Lucas Limberti Murilo de Almeida Gonçalves Pércio Luis Ferreira Diretor geral Herlan Fellini Coordenador geral Raphael de Souza Motta Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica Hexag Sistema de Ensino Diretor editorial Pedro Tadeu Batista Editoração eletrônica Arthur Tahan Miguel Torres Claudio Guilherme da Silva Eder Carlos Bastos de Lima Fernando Cruz Botelho de Souza Matheus Franco da Silveira Raphael de Souza Motta Raphael Campos Silva Projeto gráfico e capa Raphael Campos Silva Foto da capa pixabay (http://pixabay.com) Impressão e acabamento Meta Solutions ISBN: 978-85-9542-072-4 Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o ensino. Caso exista algum texto, a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições. O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não representando qual- quer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora. 2019 Todos os direitos reservados para Hexag Sistema de Ensino. Rua Luís Góis, 853 – Mirandópolis – São Paulo – SP CEP: 04043-300 Telefone: (11) 3259-5005 www.hexag.com.br contato@hexag.com.br
  • 3.
    CARO ALUNO O HexagMedicina é referência em preparação pré-vestibular de candidatos à carreira de Medicina. Desde 2010, são centenas de aprovações nos principais vestibulares de Medicina no Estado de São Paulo, Rio de Janeiro e em todo Brasil. O material didático foi, mais uma vez, aperfeiçoado e seu conteúdo enriquecido, inclusive com questões recentes dos relevantes vestibulares de 2019. Esteticamente, houve uma melhora em seu layout, na definição das imagens, criação de novas seções e também na utilização de cores. No total, são 103 livros, 24 cadernos de Estudo Orientado e 6 cadernos de aula. O conteúdo dos livros foi organizado por aulas. Cada assunto contém uma rica teoria, que contempla de forma objetiva e clara o que o aluno realmente necessita assimilar para o seu êxito nos principais vestibulares do Brasil e Enem, dispensando qualquer tipo de material alternativo complementar. Todo livro é iniciado por um infográfico. Esta seção, de forma simples, resumida e dinâmica, foi desenvolvida para indicação dos assuntos mais abordados nos principais vestibulares, voltados para o curso de medicina em todo território nacional. O conteúdo das aulas está dividido da seguinte forma: TEORIA Todo o desenvolvimento dos conteúdos teóricos, de cada coleção, tem como principal objetivo apoiar o estudante na resolução de questões propos- tas. Os textos dos livros são de fácil compreensão, completos e organizados.Além disso, contam com imagens ilustrativas que complementam as explicações dadas em sala de aula. Quadros, mapas e organogramas, em cores nítidas, também são usados, e compõem um conjunto abrangente de informações para o estudante, que vai dedicar-se à rotina intensa de estudos. TEORIA NA PRÁTICA (EXEMPLOS) Desenvolvida pensando nas disciplinas que fazem parte das Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias. Nesses compilados nos deparamos com modelos de exercícios resolvidos e comentados, aquilo que parece abstrato e de difícil compreensão torna-se mais acessível e de bom entendimento aos olhos do estudante. Através dessas resoluções é possível rever a qualquer momento as explicações dadas em sala de aula. INTERATIVIDADE Trata-se do complemento às aulas abordadas. É desenvolvida uma seção que oferece uma cuidadosa seleção de conteúdos para complementar o repertório do estudante. É dividido em boxes para facilitar a compreensão, com indicação de vídeos, sites, filmes, músicas e livros para o aprendizado do aluno. Tudo isso é encontrado em subcategorias que facilitam o aprofundamento nos temas estudados. Há obras de arte, poemas, imagens, artigos e até sugestões de aplicativos que facilitam os estudos, sendo conteúdos essenciais para ampliar as habilidades de análise e reflexão crítica. Tudo é selecionado com finos critérios para apurar ainda mais o conhecimento do nosso estudante. INTERDISCIPLINARIDADE Atento às constantes mudanças dos grandes vestibulares, é elaborada, a cada aula, a seção interdisciplinaridade. As questões dos vestibulares de hoje não exigem mais dos candidatos apenas o puro conhecimento dos conteúdos de cada área, de cada matéria. Atualmente há muitas perguntas interdisciplinares que abrangem conteúdos de diferentes áreas em uma mesma questão, como biologia e química, história e geografia, biologia e matemática, entre outros. Neste espaço, o estudante inicia o contato com essa realidade por meio de explicações que relacio- nam a aula do dia com aulas de outras disciplinas e conteúdos de outros livros, sempre utilizando temas da atualidade.Assim, o estudante consegue entender que cada disciplina não existe de forma isolada, mas sim, fazendo parte de uma grande engrenagem no mundo em que ele vive. APLICAÇÃO NO COTIDIANO Um dos grandes problemas do conhecimento acadêmico é o seu distanciamento da realidade cotidiana no desenvolver do dia a dia, dificultando o contato daqueles que tentam apreender determinados conceitos e aprofundamento dos assuntos, para além da superficial memorização ou “decorebas” de fórmulas ou regras. Para evitar bloqueios de aprendizagem com os conteúdos, foi desenvolvida a seção “Aplicação no Cotidiano”. Como o próprio nome já aponta, há uma preocupação em levar aos nossos estudantes a clareza das relações entre aquilo que eles aprendem e aquilo que eles têm contato em seu dia a dia. CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES Elaborada pensando no Enem, e sabendo que a prova tem o objetivo de avaliar o desempenho ao fim da escolaridade básica, o estudante deve conhecer as diversas habilidades e competências abordadas nas provas. Os livros da “Coleção vestibulares de Medicina” contêm, a cada aula, algumas dessas habilidades. No compilado “Construção de Habilidades”, há o modelo de exercício que não é apenas resolvido, mas sim feito uma análise expositiva, descre- vendo passo a passo e analisado à luz das habilidades estudadas no dia. Esse recurso constrói para o estudante um roteiro para ajudá-lo a apurá-las na sua prática, identificá-las na prova e resolver cada questão com tranquilidade. ESTRUTURA CONCEITUAL Cada pessoa tem sua própria forma de aprendizado. Geramos aos estudantes o máximo de recursos para orientá-los em suas trajetórias. Um deles é a estrutura conceitual, para aqueles que aprendem visualmente a entender os conteúdos e processos por meio de esquemas cognitivos, mapas mentais e fluxogramas.Além disso, esse compilado é um resumo de todo o conteúdo da aula. Por meio dele, pode-se fazer uma rápida consulta aos principais conteúdos ensinados no dia, o que facilita sua organização de estudos e até a resolução dos exercícios. A edição 2019 foi elaborada com muito empenho e dedicação, oferecendo ao aluno um material moderno e completo, um grande aliado para o seu sucesso nos vestibulares mais concorridos de Medicina. Herlan Fellini
  • 4.
    SUMÁRIO ENTRE LETRAS GRAMÁTICA LITERATURA Aula 1:Formação de palavras 7 Aula 2: Artigos, substantivos e adjetivos 17 Aula 3: Verbos: noções preliminares e modos indicativo e subjuntivo 29 Aula 4: Verbos: modo imperativo e vozes verbais 39 Aula 5: Advérbios 45 Aula 1: A arte literária e o estudo dos gêneros 55 Aula 2: Quinhentismo e Barroco 69 Aula 3: Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno 87 Aula 4: Padre Antônio Vieira 97 Aula 5: Arcadismo no Brasil e nativismo épico 109
  • 5.
    F A C U LDADE DE MED I C I N A BOTUCATU 1963 Abordagemde GRAMÁTICA nos principais vestibulares. FUVEST Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Fuvest são a formação de palavras e os usos de verbos no modo imperativo. Os demais temas são de aplica- ção esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais e de advérbios. UNESP Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Unesp são a formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais. UNICAMP Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no vestibular da Unicamp é a formação de palavras. Os demais temas são de aplicação esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais. UNIFESP Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da Unifesp são a formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais e a aplicação geral de classes de palavras em certos contextos. ENEM/UFMG/UFRJ Dentre os temas abordados neste caderno, o de maior incidência no ENEM é o uso de tempos verbais. Os demais temas são de aplicação bastante esporádica. UERJ Dentre os temas abordados neste caderno, os de maior incidência no vestibular da UERJ são a formação de palavras e os usos de vozes verbais. Os demais temas são de aplicação esporádica, requerendo atenção o uso de tempos verbais.
  • 7.
    CO M OE PA S PA S S A S S A A M A R G O E S A R I A S A S S S S I N S S A A A M E M T E M O A M O R PA R A A R I A R E S T E I N S M E N T E A M E e l u z Q U E A MEMO R I A A F L O R D E M A MORI ORIA I M PA S S I M D E R A TA N T OAMA I S Q U Formação de palavras Competências 1 e 8 Habilidades 1, 2, 3, 4, 26 e 27 L ENTRELETRAS C 0 1
  • 8.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 9.
    9 Morfologia: formação depalavras Neste tópico, estudaremos os processos de estruturação e formação de palavras do português. § § Radical (morfema lexical): é a parte da palavra que contém o significado mais geral e é comum às pa- lavras chamadas de cognatas (também consideradas da mesma família). Exemplos: terra; terreiro; terrestre; enterrar § § Vogal temática: é a vogal que aparece logo após o radical, “ajudando” as palavras a receber outro signi- ficado.Aparece nos verbos, definindo se são de 1a , 2a ou 3a conjugação. Exemplo: amar = am + a + r, onde “am” é o radical, “a” é a vogal temática de 1a conjugação e “r” é a desinência de infinitivo. § § Tema: é a junção do radical + vogal temática ou desinência nominal. § § Desinências: indicam gênero e número, para desinência nominal, e indicam tempo e pessoa, para desinên- cia verbal. As desinências nominais caracterizam as variações de substantivos, adjetivos e certos pronomes quanto ao gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural).As desinências verbais indicam as va- riações dos verbos em pessoa (1a , 2a ou 3a ), número (singular e plural) e tempo (presente, passado e futuro). § § Afixos: são elementos que se juntam ao radical para formar novas palavras. Podem aparecer antes do radical (prefixos) ou depois do radical (sufixos). § § Palavras primitivas: são aquelas que não derivam de outras. Exemplos: pedra; noite § § Palavras derivadas: são aquelas que derivam de outras. Exemplos: pedreiro; anoitecer § § Palavras simples: são aquelas que possuem apenas um radical. Exemplos: couve; flor § § Palavras compostas: são aquelas que possuem mais de um radical. Exemplo: couve-flor Processos de formação Basicamente, as palavras da língua portuguesa são formadas pelos processos de derivação e composi- ção, mas também por outros como onomatopeia, neologismo e hibridismo. Formação por derivação No processo de formação por derivação, a palavra primitiva (primeiro radical) sofre acréscimo de afixos. São seis os tipos de formação por derivação. § § Derivação prefixal: acréscimo de prefixo à palavra primitiva. Exemplo: in-capaz § § Derivação sufixal: acréscimo de sufixo à palavra primitiva. Exemplo: papel-aria
  • 10.
    10 § § Derivação prefixal+ sufixal: acrescenta-se um prefixo e um sufixo a um mesmo radical de modo sequencial, ou seja, os afixos não são en- caixados ao mesmo tempo. Percebe-se facilmen- te, ao remover um dos afixos, a presença de uma palavra com sentido completo. Exemplo: in-feliz-mente § § Derivação parassintética: acréscimo simultâ- neo de um prefixo e de um sufixo a um mesmo radical ou à palavra primitiva. Em geral, as for- mações parassintéticas originam-se de substan- tivos ou adjetivos para formarem verbos. Exemplo: en-triste-cer § § Derivação regressiva: ocorre redução da pa- lavra primitiva. Nesse processo, formam-se subs- tantivos abstratos por derivação regressiva de formas verbais. Exemplo: ajuda (substantivo abstrato da deri- vação regressiva do verbo ajudar) § § Derivação imprópria: ocorre a alteração da classe gramatical da palavra primitiva. Exemplos: (o) jantar – de verbo para subs- tantivo; (um) Judas – de substantivo próprio para comum Formação por composição Nos processos de formação de palavras por composição, ocorre a junção de dois ou mais radicais. Palavras com significados distintos formam uma nova palavra com um novo significado. Exemplo: guarda (flexão do verbo guardar; sentinela) + roupa (vestuário) = guarda-roupa (mobiliário) São dois os processos de formação por compo- sição: § § Composição por justaposição: quando não ocorre a alteração fonética das palavras. A jus- taposição também pode ocorrer por hifenização. Exemplos: girassol (gira + sol); guarda-chuva (guarda + chuva) § § Composição por aglutinação: quando ocor- re alteração fonética, em decorrência da perda de elementos das palavras. Exemplos: aguardente (água + ardente); em- bora (em + boa + hora) Outros processos Hibridismo No processo de formação por hibridismo, as palavras compostas ou derivadas são constituídas por elementos originários de línguas diferentes: § § grego + latim: automóvel e monóculo § § latim + grego: sociologia, bicicleta § § árabe + grego: alcaloide, alcoômetro § § tupi + grego: caiporismo § § africano + latim: bananal § § africano + grego: sambódromo § § francês + grego: burocracia Neologismo Neologismo é o nome dado ao processo de criação de novas palavras ou palavras da própria lín- gua portuguesa que adquirem um novo significado. Exemplos: § § Originalmente, a palavra bonde significava certo veículo utilizado como meio de transpor- te. Hoje, na variedade linguística utilizada por falantes inseridos no estilo do funk carioca, foi dado um novo significado para a palavra bonde: turma, galera. § § É comum formar verbos a partir de palavras do meio da informática, como googlar (procurar no Google), twittar (escrever no Twitter) ou re- setar (de reset).
  • 11.
    11 APLICAÇÃO NO COTIDIANO Atabela abaixo traz os significados de alguns prefixos e radicais, alguns frequentemente usados no dia a dia. Prefixos latinos Significados Exemplos a–, ab–, abs– afastamento, separação abstenção, abdicar a–, ad–, ar–, as– aproximação, direção adjunto, advogado, arribar, assentir ambi– ambiguidade, duplicidade ambivalente, ambíguo ante– anterioridade anteontem, antepassado aquém– do lado de cá aquém-mar bene–, bem– excelência, bem beneficente, benfeitor bis–, bi– dois, duas vezes, repetição bípede, binário, bienal com– (con–), co– (cor–) companhia, contiguidade compor, conter, cooperar contra– oposição controvérsia, contraveneno cis– posição, aquém de cisandino, cisalpino de–, des– separação, privação, negação, movimento de cima para baixo deportar, demente, descrer, decair, decrescer, demolir dis– separação, negação dissidência, disforme Prefixos gregos Significados Exemplos acro– alto acrobata, acrópole aero– casa aerodinâmica agro– campo agrônomo, agricultura antropo– homem antropofagia, filantropo homo– igual homônimo, homógrafo idio– próprio idioma, idioblasto macro–, megalo– grande, longo macronúcleo, megalópole metra– mãe, útero endométrio, metrópole meso– meio mesóclise, mesoderma micro– pequeno micróbio, microscópio mono– um monarquia, monarca necro– morto necrópole, necrofilia, necropsia nefro– rim nefrite, nefrologia odonto– dente odontalgia, odontologia oftalmo– olho oftalmologia, oftalmoscópio onto– ser, indivíduo ontologia orto– correto ortópteros, ortodoxo, ortodontia pneumo– pulmão pneumonia, dispneia
  • 12.
    12 Prefixos latinos SignificadosExemplos e– ,em– ,em– introdução, superposição engarrafar, empilhar e–, es–, ex– movimento para fora, privação emergir, expelir, escorrer, extrair, exportar, esvaziar, esconder, explodir extra– posição exterior, excesso extraconjugal, extravagância intra–, posição interior intrapulmonar, intravenoso i–, im–, in– negação, mudança ilegal, imberbe, incinerar infra– abaixo, na parte inferior infravermelho, infraestrutura, intra–, intro– movimento para dentro imersão, impressão, inalar, intrapulmonar, introduzir justa– posição ao lado justalinear, justapor o–, ob– posição em frente, oposição obstáculo, obsceno, opor, ocorrer per– movimento através de perpassar, pernoite pos– ação posterior, em seguida pós-datar, póstumo pre– anterioridade, superioridade pré-natal, predomínio pro– antes, em frente, intensidade projetar, progresso, prolongar preter–, pro– além de, mais para frente prosseguir re– repetição, para trás recomeço, regredir retro– movimento mais para trás retrospectivo Radicais gregos Significados Exemplos –agogo o que conduz demagogo, pedagogo –alg, –algia sofrimento, dor analgésico, cefalalgia, lombalgia –arca o que comanda monarca, heresiarca –arquia comando, governo anarquia, autarquia, monarquia –cracia autoridade, poder aristocracia, plutocracia, gerontocracia –doxo que opina paradoxo, heterodoxo –dromo corrida, pista hipódromo –fagia ato de comer antropofagia, necrofagia –fago que come antropófago, necrófago –filo, –filia amigo, amizade bibliófilo, xenófilo, lusofilia –fobia inimizade, ódio, temor xenofobia –fobo aquele que odeia xenófobo, hidrófobo –gamia casamento monogamia, poligamia –gene que gera, origem heterogêneo, alienígena –gênese geração esquizogênese, metagênese –gine mulher andrógino, ginecóforo –grafia descrição, escrita caligrafia, geografia –gono ângulo pentágono, eneágono –latria que cultiva idolatria –log, –logia que trata, estudo psicólogo, andrologia –mancia adivinhação cartomante, quiromancia –mani loucura, tendência megalomaníaco –mania loucura, tendência cleptomania –metro que mede barômetro, termômetro
  • 13.
    13 Radicais latinos SignificadosExemplos aristo– melhor aristocracia arqueo– antigo arqueologia, arqueólogo anthos– flor antologia, crisântemo, perianto atmo– ar atmosfera auto– mesmo, próprio autoajuda, autômato baro– peso, pressão barômetro, barítono biblio– livro bibliófilo, biblioteca bio– vida biologia, anfíbio caco– mau cacofonia, cacoete cali– belo caligrafia, calígrafo carpo– fruto pericarpo céfalo– cabeça cefalópodes, cefaleia, acéfalo cito– célula citoplasma, citologia copro– fezes coprologia, coprófagas cosmo– mundo microcosmo, cosmonauta crono– tempo cronômetro, diacrônico dico– em duas partes dicotomia, dicogamia eno– vinho enologia, enólogo entero– intestino enterite, disenteria etno– povo étnico, etnia, etnografia filo–, filia– amigo, amizade filósofo, filantropia fono– som, voz fonética, disfônica gastro– estômago gastrite, gastronomia hemo– sangue hemorragia, hemodiálise hidro– água hidravião, hidratação Radicais gregos Significados Exemplos –morfo forma, que tem a forma amorfa, zoomórfico –onimo nome sinônimo, topônimo –polis, –pole cidade metrópole –potamo rio mesopotâmia, hipopótamo –ptero asa helicóptero –scopia o que faz ver endoscopia, telescópio –sofia sabedoria, saber filosofia, teosofia –soma corpo cromossomo –stico verso monóstico, dístico –teca lugar, coleção biblioteca, hemeroteca –terapia cura, tratamento hidroterapia –tomia corte, divisão vasectomia, anatomia –topo lugar topografia, topônimo –tono tom barítono, monótono
  • 14.
    14 14 Radicais latinosSignificados Exemplos higro– úmido higrófito, higrômetro hipo– cavalo hipódromo, hipopótamo –ambulo que anda noctâmbulo, sonâmbulo –cida que mata fraticida, inseticida –cola que habita arborícola, silvícola –cultura que cultiva triticultura, vinicultura –evo idade longeva, longevidade –fero que contém ou produz mamífero, aurífero –fico que faz ou produz benéfico, maléfico –forme que tem a forma cordiforme, uniforme –fugo que foge vermífugo, centrífugo –grado grau, passo centígrado –luquo que fala ventríloquo –paro que produz ovíparo –pede pé velocípede, bípede –sono que soa uníssono –vago que vaga noctívago –voro que come carnívoro, herbívoro, onívoro
  • 15.
    15 Diversonagens suspersas (PauloLeminski) Neste poema, o autor joga com os diferentes sentidos produzidos por morfemas iguais ou semelhantes. Meu verso, temo, vem do berço. Não versejo porque eu quero, versejo quando converso e converso por conversar. Pra que sirvo senão pra isto, pra ser vinte e pra ser visto, pra ser versa e pra ser vice, pra ser a super-superfície onde o verbo vem ser mais? Não sirvo pra observar. Verso, persevero e conservo um susto de quem se perde no exato lugar onde está. Onde estará meu verso? Em algum lugar de um lugar, onde o avesso do inverso começa a ver e ficar. Por mais prosas que eu perverta, não permita Deus que eu perca meu jeito de versejar. (Paulo Leminski, in: Toda Poesia) POEMA
  • 16.
    ESTRUTURA CONCEITUAL GRAMÁTICA NORMATIVA ESTUDO DOSPROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS CLASSES DE PALAVRAS ARTIGO SUBSTANTIVO ADJETIVO VERBO ADVÉRBIO PRONOME NUMERAL PREPOSIÇÃO CONJUNÇÃO INTERJEIÇÃO FORMAÇÃO DE PALAVRAS FORMAÇÃO DE PALAVRAS FORMAÇÃO DE PALAVRAS A PARTIR DE UM ÚNICO RADICAL SUFIXAL PREFIXAL IMPRÓPRIA REGRESSIVA PARASSINTÉTICA JUSTAPOSIÇÃO AGLUTINAÇÃO FORMAÇÃO DE PALAVRAS COM MAIS DE UM RADICAL MORFOLOGIA DERIVAÇÃO COMPOSIÇÃO 16
  • 17.
    Artigos, substantivos e adjetivos Competências 1e 8 Habilidades 1, 2, 3, 4, 26 e 27 Geralt/Pixabay L ENTRELETRAS C 0 2
  • 18.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 19.
    19 Artigos O artigo éa palavra que se antepõe a um substantivo (é um marcador pré-nominal), com a função inicial de determiná-lo, ou indeterminá-lo. São classificados em dois grupos: definidos e indefinidos. § § Artigos definidos: determinam o substantivo de maneira precisa. São eles: o(s), a(s). Exemplo: Preciso que você me traga a cadeira branca. (O artigo definido marca a necessidade de se pegar uma cadeira determinada.) § § Artigos indefinidos: determinam o substantivo de maneira vaga/imprecisa. São eles: um(uns), uma(s). Exemplo: Preciso que você me traga uma cadeira branca. (O artigo indefinido marca a necessidade de se pegar uma cadeira qualquer, indeterminada.) Artigo combinado com preposições A contração de artigos com preposições é um movimento essencial para demarcação de sentido em cons- truções textuais. Muitas vezes, fazer ou não fazer a contração do artigo com a preposição pode alterar significativa- mente o entendimento que se tem de um texto. Esses eventos textuais serão discutidos no próximo tópico (o artigo aplicado ao texto). Ficaremos aqui com as possibilidades de contração do artigo com a preposição. Preposições Artigos o, os à, às * um, uns uma, umas a ao, aos à, às * — — de do, dos da, das dum, duns duma, dumas em no, nos na, nas num, nuns numa, numas por pelo, pelos pela, pelas — — * A junção de “a” preposição + “a” artigo é o que dá origem ao fenômeno da crase, que será discutido em momento oportuno. Artigo aplicado ao texto O artigo talvez seja uma das classes gramaticais mais subestimadas da língua portuguesa, e isso ocorre, principalmente, pelo fato de, em âmbito escolar, ser apresentado apenas em suas características estruturais mais básicas, sem o devido aprofundamento semântico ou textual que os vestibulares costumam abordar. Por esse mo- tivo, apresentaremos a seguir as aplicações textuais do artigo. Artigo como marcador de quantidade A presença ou ausência do artigo pode servir como quantificador de elementos. Exemplos: § § Ele trocou o dinheiro em casa de câmbio da Rua do Ouvidor. (A ausência de artigo indica que há mais de uma casa de câmbio na rua). § § Ele trocou o dinheiro na casa de câmbio da Rua do Ouvidor. (A presença de artigo indica que há apenas uma casa de câmbio na rua).
  • 20.
    20 Artigo como marcador deconvívio/intimidade A presença ou ausência do artigo pode servir como algo que marca certos afetos em relação aos indivíduos. Exemplos: § § A gerência será assumida por Gerson Soares, do almoxarifado. (A ausência de artigo indica distanciamento de Gerson, marcando o fato de que, possivelmente, nem todos o conhecem.) § § A gerência será assumida pelo Gerson Soares, do almoxarifado. (A presença de artigo indica intimidade com Ger- son, podendo marcar uma conversa entre pesso- as que conhecem o Gerson.) Artigo marcando conhecimento ou desconhecimento de substantivos Os artigos definido e indefinido podem marcar o conhecimento ou o desconhecimento de certos assun- tos conduzidos por substantivos. Exemplos: § § Foi localizado ontem o jovem serial-killer que havia fugido da cadeia. (O artigo definido nos transmite a ideia de que a notícia da fuga do jovem era de conhecimento dos leitores;ou seja,o substantivo era conhecido.) § § Foi localizado ontem um jovem serial-killer que havia fugido da cadeia. (O artigo indefinido nos transmite a ideia de que a fuga do jovem era novidade para os leitores; ou seja, o substantivo era desconhecido.) Artigo como particularizador ou generalizador Exemplos: § § Garfield é um gato. (O artigo indefinido marca a ideia de que Garfield é mais um entre os vários gatos no mundo; ou seja, generaliza o substantivo.) § § Garfield é o gato. (O artigo definido marca a ideia de que Garfield é um gato especial em relação a outros gatos; ou seja, particulariza e destaca o substantivo.) Artigo como marcador de coerência textual Para marcarmos coerência textual, muitas vezes nos valemos das capacidades de determinação e inde- terminação dos artigos. Exemplo: § § Um rapaz magrinho apareceu em casa ontem vendendo umas bíblias. O rapaz era bem simpá- tico, estava bem vestido, mas me irritou quando... No exemplo apresentado, constatamos que quando precisamos introduzir uma informação que nosso interlocutor desconhece, nos valemos primeiro de um artigo indefinido, e depois de apresentado o substantivo (no caso, o rapaz) começamos a demarcá- -lo a partir do artigo definido. Há também outra possi- bilidade de organização: Exemplos: — Então, como é o sítio? — Bem, é um sítio antigo, retiramos a água do poço, mas é bastante tranquilo... Nesse segundo exemplo, a coerência textual é definida quando é apresentado um substantivo defini- do que nosso interlocutor conhece. Para satisfazer a de- manda de explicação, o interlocutor abre sua explicação marcando o substantivo com artigo indefinido. Substantivos É a classe de palavras variável que dá nome aos seres, objetos e coisas em geral. Classificação § § Próprios: nomeiam a totalidade dos seres de uma espécie (designação genérica) ou o indivíduo único de determinada designação específica. Exemplos: Paulo; Pedro; Roma; Folha de S.Paulo. § § Comuns: nomeiam, sem distinção, todo e qualquer ser de uma espécie. Exemplos: cadeira; porta; sala. § § Concretos: nomeiam os seres de existência concreta, real, palpável (a pedra ou a porta, por exemplo) e também seres dos quais já se cons- tituiu uma imagem histórica (a bruxa ou a fada, por exemplo). § § Abstratos: nomeiam sentimentos/sensações, elementos não palpáveis. Exemplos: maldade; compaixão; beijo.
  • 21.
    21 Flexões de substantivos Número Ossubstantivos podem se flexionar por núme- ro, indicando quantidades de certos termos/elementos. Existe, a princípio, uma regra geral, e também algumas variantes que são apresentadas a seguir: § § Regra geral: o plural dos substantivos termina- dos em vogal ou ditongo exige o acréscimo do sufixo marcador de plural “–s”. Exemplos: cadeira > cadeiras; mãe > mães; perna > pernas. § § Substantivos terminados em ”–ão” 1. Fazem o plural em “–ãos”. Exemplos: cidadão > cidadãos; irmão > irmãos; órgão > órgãos. 2. Fazem o plural em “–ães”. Exemplos: escrivão > escrivães; cão > cães; alemão > alemães. 3. Fazem o plural em “–ões”. Exemplos: canção > canções; gavião > gaviões; botão > botões. § § Substantivos terminados em consoantes 1. “r“, “z“ e “n“ fazem o plural em “–es“. Exemplos: mar > mares; rapaz > rapazes. 2. Substantivos oxítonos terminados em “–s“ e “–z“ fazem o plural em “–es“. Exemplos: país > países; raiz > raízes. 3. Substantivos paroxítonos terminados em “–s“ são invariáveis. Exemplos: atlas > atlas; lápis > lápis. 4. Substantivos terminados em “–al“,“–el“,“– ol“ e “–ul“ substituem no plural o “–l“ por “–is“. Exemplo: animal > animais. 5. Substantivos oxítonos terminados em “–il“ fazem o plural em “–s“. Exemplos: ardil > ardis; funil > funis. 6. Substantivos paroxítonos terminados em “– il“ fazem o plural em “–eis“. Exemplos: fóssil > fósseis. Gênero Os substantivos podem se flexionar também por gênero, indicando quantidades de certos termos/ elementos. Também existe uma regra geral e algumas variantes a serem observadas: § § Regra geral: o feminino dos substantivos é formado pela substituição da desinência “-o” (masculino) pela desinência “–a” (feminino). São conhecidos como substantivos biformes, pois possuem duas formas diferentes para de- signação de gênero. Exemplos: menino > menina; garoto > garota. Há também substantivos biformes formados por radicais diferentes. Exemplos: homem > mulher;cavalheiro > dama. § § Substantivos uniformes: são aqueles que apresentam uma única forma para marcação de gênero: 1. Epicenos: usados para nomes de animais de um gênero só que designam ambos os sexo. Exemplos: a águia; a mosca; o condor; o gavião. Observação Caso haja necessidade de especificar o sexo do animal, juntam-se aos substanti- vos os adjetivos macho ou fêmea: Exemplos: gavião macho > gavião fêmea; tatu macho > tatu fêmea. 2. Comum de dois: a marcação de gênero é feita exclusivamente pelos artigos. O substan- tivo se mantém. Exemplos: o agente > a agente; o gerente > a gerente. 3. Sobrecomuns: designam ambos os sexos com forma masculina ou feminina. Exemplos: a criança; a testemunha; a vítima. 4. Flexão de grau: os substantivos se flexio- nam por grau, e marcam aumento ou dimi- nuição: Grau normal: homem; boca. Grau aumentativo: homenzarrão; bocarra. Grau diminutivo: homenzinho; boquinha.
  • 22.
    22 Grau diminutivo /aumentativo sintéti- co: chapeuzinho, chapelão; homúnculo, ho- menzarrão; boquinha, bocarra. Grau diminutivo / aumentativo analí- tico (junta-lhe um adjetivo que indique au- mento ou diminuição): boca grande; homem pequeno. Adjetivos É a palavra que acompanha e modifica o subs- tantivo, podendo caracterizá-lo ou qualificá-lo. Nomes substantivos e nomes adjetivos No contexto de uma frase, é possível identificar palavras de outras classes, entre elas os adjetivos, que se transformam em nomes (substantivos) desde que precedidas de um artigo. Exemplos: o jovem desem- pregado; um desempregado jovem. § § Adjetivos pátrios e gentílicos Derivados de substantivos, os adjetivos que in- dicam a nacionalidade de pessoas e coisas são chamados pátrios. Exemplos: brasileiro; minei- ro; paranaense; paulista; português. Os que indicam etnias e povos são os adjetivos gentílicos. Exemplos: israelita; semita; gaúcho; carioca; potiguar; europeu; africano. § § Adjetivos pátrios compostos Exemplos: luso-brasileiro; euro-asiático; teuto- -brasileiro; afro-americano; franco-suíço; hispa- no-americano; austro-húngaro; indo-europeu, anglo-americano. Flexão do adjetivo § § Número: o adjetivo toma a forma singular ou plural do substantivo que ele determina. Exemplos: aluno estudioso > alunos estudiosos; aluna aplicada > alunas aplicadas; perfume francês > perfumes franceses. § § Plural dos adjetivos compostos: apenas o último elemento vai para o plural. Exemplos: clínicas médico-dentárias; institutos ítalo-brasileiros. Observação 1 Há uma exceção: surdo-mudo > surdos-mudos. Observação 2 São invariáveis os adjetivos referentes a cores, se o último elemento ou ambos forem substanti- vos: blusas vermelho-sangue; vestidos cor de rosa; blusas verde-limão. Grau dos adjetivos § § Comparativo: indica determinada qualidade em grau igual, superior ou inferior a outra. Exemplos: Pedro é tão estudioso como (ou quanto) Rodrigo. Pedro é mais estudioso que Rodrigo. Pedro é menos estudioso que Rodrigo. § § Superlativo: pode indicar determinada quali- dade em grau elevado (superlativo absoluto). Exemplos: Pedro é inteligentíssimo. Rodrigo é muito inteligente. Pode indicar determinada qualidade em grau mais ou menos elevado em comparação à totali- dade dos seres (superlativo relativo). Exemplos: João é o aluno mais estudioso da classe. (su- perlativo relativo de superioridade) João é o aluno menos estudioso da classe. (superlativo relativo de inferioridade) Substantivos e adjetivos aplicados ao texto Tanto os substantivos quanto os adjetivos têm im- portantíssimas aplicações textuais, que serão exploradas em gêneros textuais variados.Vejamos como funcionam... Substantivo e texto A construção de um texto depende essencial- mente dos substantivos, pois é deles que parte o pro- cesso de referencialidade. Entende-se por referencia- lidade a capacidade que os substantivos têm de apontar
  • 23.
    23 para os elementosdo mundo que compõem sentido, e também de fazer com que esses sentidos sejam cons- truídos à medida que novos substantivos apareçam no texto. O movimento de referencialidade parte de três pressupostos importantes: § § Introdução/construção: apresenta um subs- tantivo no texto, não apenas o introduz, como constitui uma ideia. É a partir desse substantivo que o texto se constrói. § § Retomada/manutenção: usam-se outros subs- tantivos muito similares ao primeiro, que permi- tem retomar a ideia inicialmente apresentada (o que contribui para a manutenção de sentido) § § Desfocalização: é o momento do texto em que entram em cena novos substantivos que tomam o foco para si e ampliam os sentidos do texto. Adjetivo e texto Os adjetivos exercem o importante papel de con- duzir os processos descritivos de um texto. Em termos mais claros, os adjetivos são responsáveis por compor sentenças que, por exemplo, caracterizem os persona- gens de uma narrativa (suas roupas, atitudes) ou que apresentem detalhes a respeito de uma localização (detalhes de uma cidade, ou ambiente florestal), entre outras caracterizações. Em textos literários brasileiros do período romântico, por exemplo, havia a necessida- de de se evidenciar características que valorizassem a nação, por esse motivo encontramos obras em que há grandes processos de adjetivação, caracterizando o am- biente brasileiro (o livro Iracema, de José de Alencar, é um grande exemplo).
  • 24.
    INTERATIVI A A DADE LER No primeiro,o autor trabalha com os sentidos das palavras “autor” e “defunto” em diferentes classes gramaticais. Capítulo I - ÓBITO DO AUTOR Algum tempo hesitei se devia estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me leveram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no introito, mas no cabo: diferença radical este livro e o Pentateuco. 24 24
  • 25.
    INTERDISCIPLINARIDADE Canção: Esse cara(Caetano Veloso) A canção, em seu refrão, recorre às propriedades semânti- cas do emprego dos artigos: “Ele é o homem Eu sou apenas uma mulher”. ESSE CARA Ah! Que esse cara tem me consumido A mim e a tudo que eu quis Com seus olhinhos infantis Como os olhos de um bandido Ele está na minha vida porque quer Eu estou pra o que der e vier Ele chega ao anoitecer Quando vem a madrugada ele some Ele é quem quer Ele é o homem Eu sou apenas uma mulher Canção: O nome das coisas (Karnak) A canção é composta por substantivos de diferentes naturezas. Nomes se dão às coisas Nomes se dão Nomes se dão às pessoas Nomes se dão Nomes se dão aos deuses na imensidão do céu Nomes se dão aos barquinhos na imensidão do mar Nomes se dão às doenças na imensidão da dor Nomes se dão às crianças na imensidão do amor You and me Salame Batata Barata Bigorna Casa Comida Bicho Paçoca Tampinha de caneta Bolinha de sabão Rabo de galo Circo Pão Conchinha de galinha Coxinha do mar Linha Palito Terra Água Ar Seriema Tatu Merthiolate Saci Rocambole de laranja Revista Gibi Pipoca Margarina 25
  • 26.
    Lentilha Leitão Carrinho de feira Terremoto Furacão Centopeia Isqueiro Cefaleia Blefarite Cimento Colar Risole Rinite Armário Geladeira Furadeira Cobertor Ladeira Pedreira Fogueira Extintor Jeton Bazuca Suporte Argamassa Fiode nylon Lamparina Chocolate Queratina Juliana Cadarço Picareta Beija-flor Convidados Esfiha Chupeta Fruta-cor Trompete Arame Hepatite Fax-símile Chocalho Geleia Biga Mocreia Apolo Nostradamus Filarmônica Marisa Biriba Pelé Afrodite José Filho Veleiro Alá Deus Salomão Peixe Pão 26
  • 27.
    ESTRUTURA CONCEITUAL GRAMÁTICA NORMATIVA MORFOLOGIA CLASSE DAS PALAVRAS ESTUDODOS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PALAVRAS ARTIGO PALAVRA VARIÁVEL QUE SE ANTEPÕE AO SUBSTANTIVO, DETERMINANDO-O ADJETIVO PALAVRA VARIÁVEL QUE ESPECIFICA O SUBSTANTIVO, CARACTERIZANDO-O SUBSTANTIVO PALAVRA VARIÁVEL QUE DÁ NOME A SERES REAIS, IMAGINÁRIOS OU IDEIAS 27
  • 29.
  • 30.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 31.
    31 Verbos Verbo é aclasse de palavras que, do ponto de vista semântico (morfológico), contém as noções de ação, processo, estado, mudança de estado e manifestação de fenômenos da natureza. É variável e suas flexões marcam: § § pessoa: indica o emissor, o destinatário ou o ser do qual se fala. Os pronomes pessoais do caso reto indi- cam as pessoas do verbo – eu, tu, ele(a), nós, vós, eles(as); § § número: indica se o sujeito gramatical está no singular ou no plural; § § tempo: localiza a ação, o processo ou o estado em relação ao momento do enunciado. Os tempos verbais são seis – pretérito mais-que-perfeito, pretérito perfeito, pretérito imperfeito, futuro do pretérito, presente e futuro (do presente); § § modo: indica a atitude do emissor quanto ao fato por ele enunciado, que pode ser de certeza, dúvida, temor, desejo, ordem etc. Os modos verbais são: indicativo, subjuntivo e imperativo (afirmativo e negativo); § § voz: indica se o sujeito gramatical é agente, paciente ou, ao mesmo tempo, agente e paciente da ação. Conjugações verbais Conjugar um verbo compreende adicionar ao seu radical a vogal temática da conjugação ou classe a que pertence mais os sufixos modo-temporal e número-pessoal que lhe são permitidos. Existem três conjugações ver- bais na língua portuguesa: § § 1a conjugação: indicada pela vogal temática –a– (amar, brincar, falar); § § 2a conjugação: indicada pela vogal temática –e– (nascer, crescer, morrer); § § 3a conjugação: indicada pela vogal temática –i– (dormir, sorrir, partir). O verbo pôr e seus derivados são considerados de 2ª conjugação por conta de um processo fonológico que suprimiu a vogal temática –e–. Em um estágio anterior da língua portuguesa, a sua forma era poer. Classificação dos verbos Verbos regulares Os verbos regulares não sofrem alteração do radical e das desinências nos diferentes tempos, modos e pessoas. O radical do verbo é obtido pela supressão das terminações do infinitivo (–r): § § mand(ar), vend(er), part(ir); § § mand(o), vend(o), part(o). Verbos irregulares Os verbos irregulares sofrem alteração do radical e das desinências nos diferentes tempos, modos e pessoas. § § fazer: faço, faria, fazia; § § estar: estou, estive, estarei; § § saber: sei, soubera, saiba. Verbos anômalos Os verbos anômalos possuem diferentes radicais: § § ser: sou, é, fomos; § § ir: vou, fui, ia.
  • 32.
    32 Verbos defectivos Os verbosdefectivos não possuem todas as formas: § § reaver (composto de haver, tem apenas as for- mas em “v“): reavemos, reavia, reaverá; § § precaver: precavenho, precavenha, precavinha; § § latir: lates, late, latimos; § § colorir: colores, colore, colorimos, coloris. Observação Entre os verbos defectivos estão incluídos os chamados verbos impessoais, usados apenas na terceira pessoa do singular: chover, trovejar, ventar, haver (existir), fazer (refere-se ao clima: faz frio; ao tempo: faz dez anos). Verbos auxiliares Os verbos auxiliares formam os tempos compos- tos ou locuções verbais com os verbos principais: § § ser (pago); § § estar (curado); § § ter (estudado); § § haver (prometido). Verbos abundantes Os verbos abundantes apresentam mais de uma forma, especificamente de particípio: § § cozido e cozinhado; § § morto e morrido; § § imprimido e impresso. Os particípios abundantes são classificados em regulares e irregulares. a) As formas regulares terminadas em –ado e –ido, não contraídas, acompanham os ver- bos auxiliares ter e haver. Ele já havia pagado a dívida. Tínhamos aceitado o convite. b) As formas irregulares, contraídas, acompa- nham os verbos auxiliares ser e estar. O feijão foi cozido na panela de pressão. A lâmpada foi acesa. Formas nominais do verbo O infinitivo,o particípio (regular e irregular) e o ge- rúndio são chamados formas nominais do verbo porque podem funcionar como nomes – substantivo, adjetivo. § § Infinitivo O comer demais faz mal. (substantivo) O viver é bom. (substantivo) § § Gerúndio Ela bebeu chá fervendo. (advérbio) Fervendo, desligue. (advérbio) § § Particípio Problema resolvido. (adjetivo) A feira foi inaugurada. (adjetivo) O parque foi inaugurado. (adjetivo) Locução verbal A locução verbal é a expressão constituída por verbo (ou verbos auxiliares) seguido do verbo principal. § § A Europa vem sendo desgastada pela crise. O verbo auxiliar “vem” designa a pessoa e o nú- mero do sujeito “Europa”, bem como o tempo verbal designado pelo verbo principal “desgastada” – presen- te do indicativo. O verbo principal está na voz passiva (ser desgastada). § § Hei de fazer algo mais legal. Trata-se de uma locução verbal constituída pelo auxiliar “hei” e o infinitivo impessoal “fazer”, antecedi- do da preposição “de”. § § Andam falando que tudo aquilo foi falso. O gerúndio “falando” ou o infinitivo impessoal, precedido da preposição “a” confere à locução ideia de continuidade, de frequência, reiteração de ação. Modos verbais Quando lemos, falamos ou escrevemos, posicio- namo-nos em um determinado tempo. No momento do enunciado, os verbos ocorrem (presente), ocorreram (pas- sados) ou ocorrerão (futuro), dependendo no modo verbal. Tempos do modo indicativo 1. Presente § § Indica processo no momento da fala. Faço minhas escolhas. (atualmente, agora)
  • 33.
    33 § § Indica processohabitual, constante, fato real, verdade. Ela cumpre seus acordos. (ação habitual) § § Indica processo ocorrido até o momento da declaração. Moro com meus colegas. § § Em narrativas históricas (presente histórico), em lugar do pretérito perfeito. Colombo chega à América e, em 1492, con- quista o Novo Mundo. § § Em acontecimento próximo no lugar do futuro. Não posso almoçar contigo amanhã. § § Em expressões condicionais (se...), em lugar do subjuntivo. Se tudo corre bem, podemos viajar. 2. Pretérito perfeito § § Indica um processo, algo já realizado, concluí- do, terminado, sem necessidade de referência à outra ação anterior nem contemporânea. João saiu ontem. Fiz as compras. Cheguei. § § Indica processo ocorrido antes da declaração expressa pelo verbo. Em 1939, Hitler invadiu a Polônia. § § É frequente o emprego do pretérito perfeito composto – presente do indicativo do verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do ver- bo principal. Pode indicar ato habitual: Eu tenho lido bastante. Os alunos têm estudado muito. Também pode indicar fato ocorrido até o mo- mento da declaração: Tenho comprado muitos carros iguais a este. 3. Pretérito imperfeito § § Indica um processo ocorrido anteriormente ao momento da declaração, mas contempo- râneo a outro fato passado. Eu ouvia samba, quando se deu o estouro. Ele comia, quando da sua chegada. § § É empregado para indicar processo em desen- volvimento. Eu dançava, quando ele entrou. § § Indica processo em continuidade, habitual, constante, frequente. Eu residia nesta casa. § § Indica processo idealizado, não realizado. Pretendíamos ir à Bahia, mas o frio repenti- no não permitiu. § § Como manifestação de cortesia, de polidez, em lugar do presente do indicativo ou do im- perativo. Queria só um abraço. § § Em lugar do futuro do pretérito do indicativo. Se ele pagasse, já estávamos (em vez de “estaríamos“) na França. 4. Pretérito mais-que-perfeito § § Indica uma ação passada, um fato concluído que aconteceu antes de outro fato (ambos no passado). O trem partira quando ele enfim chegou. Ela estivera presente à toda reunião. Ele dançara muito. § § Em construções exclamativas. Quem lhe dera tê-la nos braços naquela tarde! § § Em lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo. Nadou como se estivera (estivesse) à beira da morte. § § É bastante frequente o emprego do mais- -que-perfeito composto – imperfeito do ver- bo auxiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do verbo principal. Eu tinha falado bastante. Já havia ocorrido o pior. 5. Futuro do pretérito § § Exprime ação futura em relação ao passado, ação que teria ocorrido em relação a um fato já ocorrido no passado. Eu iria, se você chegasse a tempo. § § Designa ações posteriores à época em que se fala. Ainda ficaria. Esperaria a noite. (Marques Rabelo) § § Designa incerteza, probabilidade, dúvida, su- posição sobre fatos passados. Seriam mais ou menos dez horas quando chegaram. (Lobato)
  • 34.
    34 § § Forma polidade presente para denotar um desejo. Eu precisaria namorar aquela moça. § § O futuro do pretérito composto expresso – verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no futuro do pretérito e particípio do verbo principal. Eu teria dito (diria) umas verdades a você. § § Indica fato que teria acontecido no passado mediante certa condição. Teria sido diferente, se eu a amasse. (Ciro dos Anjos) § § Indica possibilidade de um fato passado. Teria sido melhor não escrever nada. (Ruben Braga) § § Indica incerteza sobre fatos passados em cer- tas frases interrogativas. Ele só teria falado ou também...? 6. Futuro (do presente) § § Indica a ação ainda não ocorrida, mas já de- clarada pelo verbo. Ora (direis) ouvir estrelas!/ (...) E eu vos di- rei: amai para entendê-las! (Olavo Bilac) § § Empregado para indicar um fato aproximado ou para enfatizar uma expressão. Na África, quantos não estarão mortos de fome! § § Indica incerteza, probabilidade, dúvida, supo- sição. Há uma várzea em meu sonho, mas não sei onde será. (Augusto Meyer) § § Indica fatos de realização provável. Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depressa, acharás tua mãe morta. (Machado de Assis) § § Como forma polida, em vez do presente. Mas como foi que aconteceram? E eu lhe di- rei:sei lá,aconteceram:eis tudo. (Drummond) § § É frequente o emprego do futuro do presente composto – futuro do presente do verbo au- xiliar “ter“ ou “haver“ e particípio do verbo principal. Quando você chegar, eu já terei ido. § § Indica ação futura a ser consumada antes de outra. Quando o guarda chegar,já teremos fugido. § § Indica possibilidade de um fato passado. Terá passado o furacão dentro de oito dias? § § Indica certeza de uma ação futura. Se não voltarmos em algumas horas, tere- mos perdido a oportunidade. Tempos do modo subjuntivo 1. Presente § § Expressa hipótese, desejo, suposição, dúvida. Tomara que você tenha boas festas! Bons ventos o levem! 2. Pretérito imperfeito § § É empregado nas orações subordinadas da oração principal, em que o verbo esteja no pretérito imperfeito do indicativo. Ela desejava que todos morressem. Esperei que eles fizessem os trabalhos di- reito. Apreciaria que você me beijasse. 3. Pretérito mais-que-perfeito (composto) § § Verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no pretérito imperfeito do subjuntivo seguido do particí- pio do verbo principal. Imaginei que ele tivesse trazido a grana. (Indica fato anterior a outro, ambos no pas- sado.) 4. Futuro simples § § Designa fato provável, eventualidade futura. Quando ela vier, encontrará uma bagunça. 5. Futuro composto § § Verbo auxiliar “ter“ ou “haver“ no futuro do subjuntivo seguido do particípio do verbo principal. Designa fato futuro como encerra- do em relação a outro também no futuro. Só deixarei esta casa, quando ele tiver tra- zido todos os meus pertences. Quando eu tiver encontrado o vestido, avi- sarei a você.
  • 35.
    35 ASSISTIR INTERATIVI A A DADE Vídeo Jornalista- Veja o uso do futuro do pretérito. Fonte:Youtube
  • 36.
    36 Letra e MúsicaPor Você (Barão vermelho) Por Você (Barão vermelho) Por você Eu dançaria tango no teto Eu limparia Os trilhos do metrô Eu iria a pé Do Rio a Salvador Eu aceitaria A vida como ela é Viajaria a prazo Pro inferno Eu tomaria banho gelado No inverno Por você Eu deixaria de beber Por você Eu ficaria rico num mês Eu dormiria de meia Pra virar burguês Eu mudaria Até o meu nome Eu viveria Em greve de fome Desejaria todo o dia A mesma mulher Por você! Por você! Por você! Por você! Por você Conseguiria até ficar alegre Pintaria todo o céu De vermelho Eu teria mais herdeiros Que um coelho Eu aceitaria A vida como ela é Viajaria a prazo Pro inferno Eu tomaria banho gelado No inverno Eu mudaria Até o meu nome Eu viveria Em greve de fome Desejaria todo o dia A mesma mulher Por você! Por você! Por você! Por você! Eu mudaria Até o meu nome Eu viveria Em greve de fome Desejaria todo o dia A mesma mulher LER E OUVIR
  • 37.
    37 REFLETIR Poema / PoesiaEpígrafe Epígrafe Sou bem nascido. Menino, Fui, como os demais, feliz. Depois, veio o mau destino E fez de mim o que quis. Veio o mau gênio da vida, Rompeu em meu coração, Levou tudo de vencida, Rugiu como um furacão, Turbou, partiu, abateu, Queimou sem razão nem dó – Ah, que dor! Magoado e só, – Só! – meu coração ardeu: Ardeu em gritos dementes Na sua paixão sombria... E dessas horas ardentes Ficou esta cinza fria. – Esta pouca cinza fria... (Manuel Bandeira, In: A cinza das horas, 1917) Reflita sobre o emprego dos tempos verbais no poema de Manuel Bandeira. Qual relação semântica eles estabelecem?
  • 38.
    38 Estrutura Conceitual MORFOLOGIA VERBOS VOZES MODOS INDICATIVO TEMPOS Pretérito Futuro Perfeito Do presente Dopretérito Imperfeito Mais-que-perfeito SUBJUNTIVO IMPERATIVO Presente TEMPOS Pretérito imperfeito Futuro Presente
  • 39.
    Verbos: modo imperativo evozes verbais Competências 1 e 8 Habilidades 1, 2, 3 e 27 terimakasih0/Pixabay L ENTRELETRAS C 0 4
  • 40.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 41.
    41 Modo imperativo O modoimperativo manifesta ordem, conselho, súplica ou exortação do emissor, e pode ser imperativo afirmativo ou imperativo negativo. § § Se beber, não dirija! § § Dorme, que já está na hora! FORMAÇÃO DOS IMPERATIVOS imperativo afirmativo presente do subjuntivo imperativo negativo Não existe primeira pessoa. que eu ame Não existe primeira pessoa. ama (tu) que tu ames não ames (tu) ame (ele/ela/você) que ele/ela/você ame não ame (ele/ela/você) amemos (nós) que nós amemos não amemos (nós) amai (vós) que vós ameis não ameis (vós) amem (eles/elas/vocês) que eles/elas/vocês amem não amem (eles/elas/vocês) Embora a palavra “imperativo” esteja ligada à ideia de comando, ordem, não é para comandar ou ordenar que, na maioria das vezes, servimo-nos dele. O imperativo também é empregado para designar pedido, convite, conselho ou súplica. § § Faça isso agora, amor! (pedido) § § Faça-nos uma visita! (convite) § § Meu filho, faça sempre o melhor! (conselho) § § Senhor, faça-nos esse milagre! (súplica) Vozes O fato expresso pelo verbo pode ser representado em três formas, em três vozes. § § João cortou árvores. O fato (cortou) é praticado pelo sujeito (João). Portanto, o verbo está na voz ativa. § § Árvores foram cortadas por João. O sujeito (árvores) é alvo, ou seja, sofre a ação de João. Portanto, o verbo está na voz passiva. § § João cortou-se com o machado. O sujeito (João) é alvo (cortou-se) do machado. Portanto, o verbo está na voz reflexiva. Voz ativa § § O fato indicado pelo verbo e exercido pelo sujeito (pessoa ou coisa) recai sobre um objeto (pessoa ou coisa). Os coletores recolhem diariamente toneladas de lixo. Os caminhões despejam toneladas de lixo. § § As vozes ativa e passiva existem tão somente com verbos transitivos diretos, que necessariamente preveem sujeito (agente da ação) e objeto (alvo da ação). Alberto tirou boas notas. Os pais amam seus filhos.
  • 42.
    42 Voz passiva analítica § §A voz passiva dos verbos é formada pelo verbo auxiliar ser, conjugado no tempo e na pessoa desejados, se- guido do particípio do verbo principal:A árvore foi cortada pelo lenhador./ Muitas mansões foram alugadas em Brasília./ Muita gente ainda vai ser julgada inocente. § § A voz passiva analítica sempre é formada por tempos compostos – ser + verbo principal transitivo direto –, bem como com pelos verbos auxiliares ter e haver. Têm sido (foram) alugadas muitas mansões em Brasília. Voz passiva sintética § § Formada com o verbo principal transitivo direto na voz ativa, na terceira pessoa do singular ou do plural, acompanhado da partícula apassivadora “se“. Aluga-se casa. Alugam-se casas. Compra-se apartamento. Compram-se apartamentos. Persuadem-se alunos com muito empenho. Voz reflexiva § § Necessariamente formada pelos verbos pronominais – acompanhados de “me“, “te“, “se“, “nos“, “vos“, “se“ –, cuja ação designada parte do sujeito e volta-se para ele mesmo. Eu me feri. (O ato e o efeito do ferimento partem e voltam para o “eu”, que é o sujeito.) Tu te feriste. Ele se machucou. Nós nos prejudicamos. Eles se feriram com faca.
  • 43.
    43 ANALISAR Imagens Anúncios O imperativoé usualmente empregado no universo publicitário.Procure identificar em qual pessoa gramatical os verbos presentes nas imagens abaixo estão empregados. INTERATIVI A A DADE
  • 44.
    44 Estrutura Conceitual MORFOLOGIA VERBOS VOZES MODOS INDICATIVO SUBJUNTIVOIMPERATIVO NÃO ARTICULA TEMPO Afirmativo Negativo - Passiva - Reflexiva - Ativa
  • 45.
    Advérbios Competências 1 e 8 Habilidades 1,2, 3 e 27 terimakasih0/Pixabay L ENTRELETRAS C 0 5
  • 46.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional. Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 47.
    47 Advérbios Advérbio é umaclasse de palavras invariável que se associa a verbos, a adjetivos ou a outros advérbios, cada qual com intenções bastante específicas. § § Associa-se a verbos para indicar com maior precisão as circunstâncias da ação verbal. Exemplo: Paula viajou ontem. (O advérbio “ontem” indica com maior precisão quando Paula viajou.) § § Associa-se a adjetivos para intensificar o adjetivo já apresentado. Exemplo: Roberto ficou bastante preocupado. (O advérbio “bastante” intensifica o adjetivo preocupado.) § § Associa-se a advérbios para intensificar outro advérbio já apresentado. Exemplo: O jogador do Corinthians está se recuperando muito bem. (O advérbio “muito” intensifica o outro advérbio “bem”.) Classificação dos advérbios Os advérbios e as locuções adverbiais estabelecem diferentes relações semânticas, que são as seguintes: § § de lugar: aqui; antes; dentro; ali; adiante; fora; acolá; atrás; além; lá; detrás; aquém; cá; acima; onde; perto; aí; abaixo; aonde; longe; debaixo; algures; defronte; nenhures; adentro; afora; alhures; aquém; embaixo; ex- ternamente; a distância; a distância de; de longe; de perto; em cima; à direita; à esquerda; ao lado; em volta. § § de tempo: hoje; logo; primeiro; ontem; tarde; outrora; amanhã; cedo; depois; ainda; antigamente; an- tes; doravante; nunca; então; ora; jamais; agora; sempre; já; enfim; afinal; amiúde; breve; constantemente; imediatamente; primeiramente; provisoriamente; sucessivamente; às vezes; à tarde; à noite; de manhã; de repente; de vez em quando; de quando em quando; a qualquer momento; de tempos em tempos; em breve; hoje em dia. § § de modo: bem; mal; assim; melhor; pior; depressa; debalde; devagar; às pressas; às claras; às cegas; à toa; à vontade; às escondidas; aos poucos; desse jeito; desse modo; dessa maneira; em geral; frente a frente; lado a lado; a pé; de cor; em vão; e a maior parte dos que terminam em ”–mente”: calmamente; triste- mente; propositadamente; pacientemente; amorosamente; docemente; escandalosamente; bondosamente; generosamente. § § de afirmação: sim; certamente; realmente; decerto; efetivamente; certo; decididamente; deveras; indubi- tavelmente. § § de negação: não; nem; nunca; jamais; de modo algum; de forma alguma; tampouco; de jeito nenhum. § § de dúvida: acaso; porventura; possivelmente; provavelmente; talvez; casualmente; por certo; quem sabe. § § de intensidade: muito; demais; pouco; tão; em excesso; bastante; mais; menos; demasiado; quanto; quão; tanto; que (quão); tudo; nada; todo; quase; de todo; de muito; por completo; extremamente; intensamente; grandemente; bem (aplicado a propriedades graduáveis). § § interrogativos: onde; aonde; donde; quando; como; por que; empregadas em interrogações diretas ou indiretas – entende-se por interrogações diretas aquelas em que as palavras em destaque iniciam uma frase interrogativa. Já as interrogações indiretas são aquelas em que os termos destacados não iniciam a frase. Interrogação direta Interrogação indireta Como isso aconteceu? Queria saber como isso aconteceu. Onde ela mora? Precisava saber onde ela mora. Por que ela não veio? Quero entender por que ela não veio. Aonde você vai? Quero saber aonde você vai. Donde vem esse rapaz? Necessito entender donde vem esse rapaz. Quando que chega a carta? Quero saber quando chega a carta.
  • 48.
    48 Palavras denotativas quese assemelham aos advérbios Existem algumas palavras e locuções que se assemelham muito a advérbios, recebendo o nome de advérbios impróprios ou palavras com sentido denotativo. § § Advérbios de exclusão: apenas; exclusiva- mente; salvo; senão; somente; simplesmente; só; unicamente. Exemplo: Todos se foram pela manhã; somen- te ele quis partir mais tarde. § § Advérbios de inclusão: ainda; até; mesmo; inclusivamente; também. Exemplo: Todos se foram pela manhã, até ele que queria partir mais tarde. § § Advérbios de ordem: depois; primeiramente; ultimamente. Exemplo: Primeiramente, gostaria de agra- decer a todos os que estiveram presentes. Locuções adverbiais Locuções adverbiais são expressões forma- das a partir de duas ou mais palavras que exercem função adverbial. Geralmente, são iniciadas por uma preposição, seguida de outra palavra como substan- tivo, advérbio ou verbo, e que seja capaz de indicar a circunstância. § § de lugar: à esquerda; à direita; de longe; de perto; para dentro; por aqui. § § de afirmação: por certo; sem dúvida. § § de modo: às pressas; passo a passo; de cor; em vão; em geral; frente a frente. § § de tempo: à noite; de dia; de vez em quando; à tarde; hoje em dia; nunca mais. Grau dos advérbios Os advérbios são palavras, por definição, invari- áveis (não sofrem alterações de gênero ou número). No entanto, há algumas variações de grau. Grau comparativo Formado do mesmo modo que o comparativo do adjetivo: § § de igualdade: tão + advérbio + quanto (como) Exemplo: Sara pulou tão alto quanto Patrícia. § § de inferioridade: menos + advérbio + que (do que) Exemplo: Ana fala menos alto que João. § § de superioridade: mais + advérbio + que (do que) Exemplo: Ana fala mais alto que João. Grau superlativo Intensifica a qualidade de uma coisa ou pessoa. § § Superlativo analítico: vem acompanhado de outro advérbio. Exemplo: O rapaz falava muito alto. (”muito” é advérbio de intensidade; ”alto”, de modo) § § Superlativo sintético: é formado por sufixos. Exemplo: O rapaz falava altíssimo. (advérbio de modo formado pelo acréscimo do sufixo) Observação: na linguagem afetiva e popular, certos advérbios são empregados no diminutivo, com valor de superlativo. Exemplos: O homem caminhava devagarinho. Amanhã precisarei acordar cedinho. Ela mora pertinho daqui. O advérbio aplicado ao texto As principais aplicações dos advérbios ao texto e que respondem a questões semânticas importantes são as dos advérbios frásicos versus advérbios extrafrásicos, além da distribuição de advérbios modais (terminados em –mente). § § Advérbios frásicos: são aqueles que modifi- cam um elemento específico da frase. Não apre- sentam marcas de deslocamento (vírgulas). Exemplo: O veículo corre muito.
  • 49.
    49 § § Advérbios extrafrásicos:são aqueles que são exteriores à frase, estão no âmbito da enunciação e, ge- ralmente, deslocados por vírgula. Exemplo: Ele, infelizmente, não jogou bem hoje. Observação: os advérbios extrafrásicos funcionam como elementos de avaliação do enunciador acerca do conteúdo enunciado. § § Distribuição textual de advérbios modais (mais de um advérbio terminado em “–mente”) Quando temos uma frase que congrega mais de um advérbio terminado em “–mente”, deve-se fazer a con- tração dos advérbios centrais (retirar o termo “–mente”) e preservar apenas o último advérbio flexionado. Errado: Ele saiu calmamente, sorrateiramente e rapidamente. Certo: Ele saiu calma, sorrateira e rapidamente.
  • 50.
    50 INTERATIVI A A DADE LER EOUVIR REFLETIR Poema / Poesia Poema só para Jaime Ovalle / Você Só... Mente Procure encontrar os advérbios no poema e na canção abaixo. Poema só para Jaime Ovalle Quando hoje acordei, ainda fazia escuro (Embora a manhã já estivesse avançada). Chovia. Chovia uma triste chuva de resignação Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite. Então me levantei, Bebi o café que eu mesmo preparei, Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando... – Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. (Manuel Bandeira) Você Só... Mente Não espero mais você, pois você não aparece Creio que você se esquece das promessas que me faz E depois vem dar desculpas, inocentes e banais É porque você bem sabe Que em você desculpo Muitas coisas mais O que sei somente É que você é um ente Que mente inconscientemente Mas finalmente Não sei por que Eu gosto imensamente De você Invariavelmente, sem ter o menor motivo Em um tom de voz altivo Você quando fala mente Mesmo involuntariamente, faço cara de inocente Pois sua maior mentira, é dizer à gente que você não mente. (Noel Rosa)
  • 51.
    51 51 Estrutura Conceitual Gramática Normativa Formaçãode palavras Classes de palavras Advérbio Preposição Classes invariáveis Classe variável Interjeição Numeral
  • 53.
    FUVEST A maior partedas questões de literatura da Fuvest refere-se às obras obrigatórias. Neste cader- no, você encontrará alguns desses exercícios de anos anteriores, bem como questões sobre as estéticas do QUINHENTISMO, do BARROCO e do ARCADISMO. UNESP Como a Unesp não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste vestibular contem- plam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. Neste caderno, estão presentes questões sobre QUINHENTISMO, BARROCO e ARCADISMO. UNICAMP A maior parte das questões de literatura da Unicamp refere-se às obras obrigatórias.Neste caderno, você encontrará alguns desses exercícios de anos anteriores,bem como questões sobre as estéticas do QUINHENTISMO, do BARROCO e do ARCADISMO. UNIFESP Como a Unifesp não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste vestibular contem- plam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. Neste caderno, estão presentes questões sobre QUINHENTISMO, BARROCO e ARCADISMO. ENEM/UFMG/UFRJ Como o Enem não possui uma lista obrigatória de livros, os exercícios deste exame contemplam o conhecimentos das escolas literárias, bem como de seus principais representantes. UERJ Neste caderno, você encontrará exercícios da Uerj apenas na aula 1. O vestibular da Uerj não exige os demais conteúdos contidos neste livro. F A C U LDADE DE MED I C I N A BOTUCATU 1963 Abordagem de LITERATURA nos principais vestibulares.
  • 55.
    A arte literáriae o estudo dos gêneros Competência 5 Habilidades 15, 16 e 17 L ENTRELETRAS C 0 1
  • 56.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 57.
    57 O que éarte? Esse é um conceito historicamente muito discutido. Um estudo de Literatura que se pretenda aprofundado deve levar em consideração os sentidos da arte e notadamente a análise técnica dela. A palavra literatura é de origem latina e significa “arte de escrever”. Portanto, conjugar essa relação entre arte e escrita é o primeiro passo para dar corpo à maneira de divulgar os valores culturais que estruturam uma sociedade e uma civilização. Entender os conhecimentos científicos, filosóficos, religiosos e artísticos de um dado contexto é de fato conhecer o próprio homem e compreender sua identidade. O filósofo Aristóteles considerava que a arte era uma maneira de “imitar” (mimesis, do grego) a realidade do homem, que, em seus vários suportes, cria essa possibilidade de fazê-lo pensar sua própria vida, conhecer a si próprio, encontrar-se como ser humano, observar criticamente a realidade, divertir-se e sonhar. Da Antiguidade Clássica às Idades Moderna e Contemporânea, a arte se manifesta em vários suportes de diversas formas – música, pintura, literatura, dança, escultura e teatro. Funciona como elemento transformador da consciência humana. O artista, esse criador, cria e recria realidades, expressa valores estéticos com beleza, harmo- nia e equilíbrio e estrutura-se à luz de um contexto de circulação, de transformação, de um agente e de um público. No decorrer dos tempos, esses conceitos foram se transformando sem perder sua lógica. Seja na perfeição e harmonia das formas da Antiguidade Clássica (período greco-latino), seja no teocentrismo medieval, com suas relações de vassalagem, seja no século XIX, com suas utopias românticas, seja nas vanguardas artísticas do século XX. Emoções humanas, alegrias e angústias, ideologias, religião, luta social e cultura sempre perpassaram e fre- quentaram os conceitos estéticos da arte e da literatura. A Literatura é um mundo aberto ao mesmo tempo às múltiplas reflexões sobre a história do mundo, sobre as ciências naturais, sobre as ciências sociológicas, sobre a antropologia cultural, sobre os princípios éticos, sobre política, economia, ecologia (...) MORIN, Edgar. Meus demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. O que nos leva a ir ao cinema, a um show, à biblioteca, ao museu e, principalmente, a ler um livro? A res- posta está no reflexo da própria condição humana, no processo de identificação do homem com a arte. Essa atitude transforma só pelo fato de estarmos refletindo, primeira condição da arte. Esse ponto de partida, independente- mente de sua presumível qualidade, é uma forma de compreender o mundo que nos cerca.
  • 58.
    58 É impossível nãose identificar com o eu lírico, a voz do poema, ao lermos versos como estes, de Manuel Bandeira: O bicho (Manuel Bandeira) Vi ontem um bicho Na imundice do pátio Catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Comunicação e linguagem A Literatura leva em consideração o emprego de imagens criadas a partir das palavras. A palavra está sempre carregada de um conteú- do ou sentido ideológico ou vivencial. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1998. Essa linguagem artística respeita alguns parâ- metros, condicionamentos sociais e culturais, que lhe oferecem a dimensão de suas verdades e o melhor modo de dizê-las. À análise literária cabe construir um processo de comunicação segundo o qual “o quê” está sendo dito tenha estreita relação com o “como” está sendo dito. É dessa simbiose que se estabelece uma es- tética específica, atrelada a um contexto específico, e se nomeia uma dada escola literária específica. Tudo o que nos rodeia e que foi criado pela mão do homem, todo o mundo da cultura, diferentemente do mundo da natureza, tudo isso é produto da imagina- ção e da criação humana. VYGOTSKY, Lev S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987. O essencial em Literatura é estabelecer uma re- lação de sentido entre as palavras e os leitores, para tanto, os escritores se valem de uma série de recursos técnicos que elevam os textos literários ao conceito de arte, diferenciando-os, por exemplo, dos textos informa- tivos ou instrucionais. O texto literário deve explorar o potencial significativo e sonoro das palavras, bem como os aspectos ora denotativos, em sua literalidade de di- cionário, ora conotativos em que as palavras adquirem novo sentido a fim de produzir efeito artístico. O poder de explorar os sentidos coloca essas pa- lavras em situações inusitadas, criando imagens com as figuras de linguagem com as quais o escritor “desenha” para o leitor comparações que concretizam as emoções. Como no uso da metáfora, que aproxima dois elementos num contexto específico, transferindo de um para outro suas características. Tal processo fica evidente no exem- plo a seguir, de Mário Quintana, em que a “inspiração” é comparada, por metáfora, a “um pássaro que pousa no livro que lês”. Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam voo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto; alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti... Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 469. Prosa e poesia Prosa e poesia são dois elementos constitutivos desse processo de comunicação literária que ganha for- mas diferentes. A prosa é mais referencial e se vale do uso do texto corrido organizado da esquerda para a di- reita no papel ocidental. Já o poema está primordialmente preocupado com a forma e adquire, no decorrer da história, várias estruturas a partir da lógica do verso, que é a linha do poema, e de um conjunto deles, denominado estrofe. Es- tão imersos num trabalho de ritmo e rimas que podem ou não seguir padrões de tamanho e convenção. O termo “poesia”, “poética” e “poeta” derivam dos termos dos grego poíesis, poiêtikê, poiêtês, que significam criar.
  • 59.
    59 O que égênero literário? Gênero é o modo como se veicula a mensagem literária, o padrão a ser utilizado na composição artística. Há grandes diferenças entre o conteúdo e a forma dos textos. Um poema não se confunde com um conto, e um romance segue padrões bastante próprios em relação a uma peça de teatro,por exemplo.Dessa forma,gênero é a denominação dada a um grupo de textos que comparti- lham características de forma e de conteúdo. Na Antiguidade Clássica, Aristóteles conceituou conteúdo como elemento constitutivo da representação das paixões, das ações e do comportamento humano. A forma desse conteúdo, a princípio aplicada apenas à po- esia, compreende três gêneros: épico, lírico e dramático. Odisseu e Penélope O gênero épico Épico é derivado do grego épos que, entre outras coisas, significa palavra, verso, discurso. Esse gênero, também chamado de epopeia, nasceu com a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Oriundo das tradições orais, elas contam histórias que auxiliam o homem a entender a trajetória de seus povos. Advindas das tradições orais, as epopeias contam histórias que auxiliam o homem a entender a trajetória de seus povos. É característica das narrativas mais antigas a simbolização dos ideais cole- tivos de um povo na figura de um herói imerso numa grande aventura, numa guerra ou num acontecimento histórico. O eu lírico da epopeia relaciona-se diretamen- te com a sociedade.A imagem do herói é constituída de uma representação de seu povo, cujo comportamento exemplar vai caracterizá-lo como figura predestinada a cumprir determinada missão. Narrados de maneira elevada e com vocabulário grandiloquente e solene, os assuntos históricos sofrem influência do imaginário e não se privam de recorrer à imaginação, bem como à mitologia. Na cena inicial da Odisseia, de Homero, é possí- vel identificar características primordiais do texto épico, como o pedido de inspiração do poeta às musas para contar a história de Odisseu, que passou por terríveis provações até retornar a sua casa, Ítaca: Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas sa- gradas de Troia; muitas cidades dos homens viajou, co- nheceu seus costumes, como no mar padeceu sofrimen- tos inúmeros na alma,para que a vida salvasse e a de seus companheiros a volta. Homero. Odisseia.Tradução de: Carlos Alberto Nunes. 5. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. Coleção Universidades. A estrutura do poema épico É dividido em partes, chamadas cantos, que, por sua vez, são divididos em: § § Proposição: O texto apresenta o tema e o herói. § § Invocação: O texto pede inspiração à musa (divindade inspiradora da poesia). § § Narração: Narração das aventuras do herói. § § Conclusão ou Epílogo: Encerramento das aventuras e conclusão dos feitos heroicos. As epopeias são divididas em “clássicas ou pri- márias” ou de “imitação ou secundárias”.
  • 60.
    60 Epopeias clássicas ouprimárias A estrutura dos poemas de Homero serviu de inspi- ração para outros poetas,como o latinoVirgílio,em Eneida (19 a.C.), e Camões, em Os Lusíadas (1572).A Odisseia e a Ilíada, de Homero, são textos clássicos que inspiraram e sistematizaram regras e estruturas formais para os demais. Eneias foge em direção à península Itálica. Nesse tipo de texto, os deuses são apresentados como seres reais que são tomados por sentimentos hu- manos e podem tanto prejudicar como ajudar o herói, de- pendendo do seu estado emocional e da preponderância do tema narrado. Outro aspecto importante é perceber a preocupação do poeta em relacionar as ações do herói com o povo a que pertence a fim de enaltecer a identi- dade pátria. Epopeias de imitação ou secundárias Entre os anos 30 e 19 a.C., o poeta latino Virgí- lio escreveu a Eneida, considerada a “epopeia nacional dos romanos”. No classicismo renascentista, o portu- guês Luís de Camões escreveu Os Lusíadas, um dos mais conhecidos poemas épicos de imitação. Nele, são reveladas as aventuras e peripécias do herói Vasco da Gama, primeiro navegante que cruzou o Cabo da Boa Esperança, ao sul da África, e levou os portugueses às Índias, criando uma nova rota comercial. As transformações do herói 1. Na Ilíada e na Odisseia, o herói é guiado pelas divindades. 2. Na Eneida e em Os Lusíadas, o herói é represen- tante de um povo. 3. Em Robson Crusoé e em O conde de Monte Cris- to, o herói é humano e individual. O gênero lírico Esse gênero nasceu na Grécia antiga, cujos po- emas eram acompanhados musicalmente pela lira. É o gênero centrado na expressão do “eu poético” ou “eu poemático” – voz que fala no poema, não necessaria- mente correspondente à voz do autor. Menos grandiosos que os da epopeia, seus te- mas dizem respeito ao mundo interior do eu lírico, aos sentimentos, ao individualismo, às relações consigo mesmo. Pronomes e verbos vêm normalmente na pri- meira pessoa do singular e predominam as emoções, rimas, ritmo, sonoridade das palavras, metáforas, repeti- ções, entre outras figuras de linguagem, que trazem aos versos musicalidade e suavidade. O gênero lírico é subdividido em: soneto, elegia, ode, madrigal, écloga etc. § § Soneto – forma lírica bastante conhecida, é composta de catorze versos, com dois quartetos e dois tercetos. Soneto da fidelidade (Vinicius de Moraes) De tudo ao meu amor serei atento Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento. Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento E assim, quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.
  • 61.
    61 § § Elegia –poema em tom triste e fúnebre origi- nado na Grécia antiga. Caracterizam as digres- sões moralizantes destinadas a ajudar ouvintes ou leitores a suportar momentos difíceis da vida, como a morte de um ente querido ou de uma personalidade pública. Elegia na sombra Fernando Pessoa (2 jun. 1935) Lenta, a raça esmorece, e a alegria É como uma memória de outrem. Passa Um vento frio na nossa nostalgia E a nostalgia torna-se desgraça. Pesa em nós o passado e o futuro. Dorme em nós o presente. E a sonhar A alma encontra sempre o mesmo muro, E encontra o mesmo muro ao despertar. Quem nos roubou a alma? Que bruxedo De que magia incógnita e suprema Nos enche as almas de dolência e medo Nesta hora inútil, apagada e extrema? Os heróis resplandecem a distância Num passado impossível de se ver Com os olhos da fé ou os da ânsia. Lembramos névoa, sombras a esquecer. Que crime outrora feito, que pecado Nos impôs esta estéril provação Que é indistintamente nosso fado Como o pressente nosso coração? (...) Como – longínquo sopro altivo e humano! – Essa tarde monótona e serena Em que, ao morrer, o imperador romano Disse: Fui tudo, nada vale a pena. § § Ode – poema lírico de exaltação e homenagem, também originado na Grécia antiga, destina- do ao canto. Composto de estrofes e de versos iguais em tom alegre, entusiástico e de louvação. Ode do gato (Pablo Neruda) Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça. Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem, adquirindo pintas, graça, voo. O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso: nasceu completamente terminado, anda sozinho e sabe o que quer. O homem quer ser peixe e pássaro, a serpente quisera ter asas, o cachorro é um leão desorientado, o engenheiro quer ser poeta, a mosca estuda para andorinha, o poeta trata de imitar a mosca, mas o gato quer ser só gato e todo gato é gato do bigode ao rabo, do pressentimento à ratazana viva, da noite até os seus olhos de ouro. Não há unidade como ele, não tem a lua nem a flor tal contextura: é uma coisa só como o sol ou o topázio, e a elástica linha em seu contorno firme e sutil é como a linha da proa de uma nave. Os seus olhos amarelos deixaram uma só ranhura para jogar as moedas da noite. Oh pequeno imperador sem orbe, conquistador sem pátria, mínimo tigre de salão, nupcial sultão do céu das telhas eróticas, o vento do amor na intempérie reclamas quando passas e pousas quatro pés delicados no solo, cheirando, desconfiando
  • 62.
    62 de todo oterrestre, porque tudo é imundo para o imaculado pé do gato. Oh fera independente da casa, arrogante vestígio da noite, preguiçoso, ginástico e alheio, profundíssimo gato, polícia secreta dos quartos, insígnia de um desaparecido veludo, certamente não há enigma na tua maneira, talvez não sejas mistério, todo o mundo sabe de ti e pertences ao habitante menos misterioso talvez todos o acreditem, todos se acreditem donos, proprietários, tios de gato, companheiros, colegas, discípulos ou amigos do seu gato. Eu não. Eu não subscrevo. Eu não conheço o gato. Tudo sei, a vida e o seu arquipélago, o mar e a cidade incalculável, a botânica o gineceu com os seus extravios, o pôr e o menos da matemática, os funis vulcânicos do mundo, a casca irreal do crocodilo, a bondade ignorada do bombeiro, o atavismo azul do sacerdote, mas não posso decifrar um gato. Minha razão resvalou na sua indiferença, os seus olhos têm números de ouro. § § Madrigal – composição poética elegante cujos temas invocam atos heroicos e pastoris. Madrigal melancólico (Manuel Bandeira) O que eu adoro em ti, Não é a tua beleza. A beleza, é em nós que ela existe. A beleza é um conceito. E a beleza é triste. Não é triste em si, Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza. O que eu adoro em ti, Não é a tua inteligência. Não é o teu espírito sutil, Tão ágil, tão luminoso, – Ave solta no céu matinal da montanha. Nem é a tua ciência Do coração dos homens e das coisas. O que eu adoro em ti, Não é a tua graça musical, Sucessiva e renovada a cada momento, Graça aérea como o teu próprio pensamento. Graça que perturba e que satisfaz. O que eu adoro em ti, Não é a mãe que já perdi. Não é a irmã que já perdi. E meu pai. O que eu adoro em tua natureza, Não é o profundo instinto maternal Em teu flanco aberto como uma ferida. Nem a tua pureza. Nem a tua impureza. O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me! O que eu adoro em ti, é a vida. § § Écloga – poema ambientado no campo, pastoril e bucólico. Écloga IV (v. 52-59) (Virgílio) Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra. A última parte desta vida seja-me tão longa, que para dizer os feitos não me falte alento! O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos, nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra e por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo. Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia, dar-se-á por vencido o próprio Pã,por juiz aArcádia.
  • 63.
    63 Natureza das rimas § §Ricas – entre palavras de classes gramaticais diferentes: Cristina e ensina § § Pobres – entre palavras de mesma classe gramatical: Precisava esconder sua afeição... Na Idade Média, uma imortal paixão § § Toantes – coincidem apenas as vogais tônicas: hora e bola; saltava e mata § § Aliterantes – entre sons consonantais idênti- cos ou semelhantes: vozes, veladas, veludosas, vozes/ vagam nos velhos vórtices velozes § § Consoantes – a correspondência dos sons é com- pleta (compare com a rima toante, na qual coinci- dem apenas as vogais tônicas): terra e serra; amoníaco e zodíaco; rutilância e infância § § Esdrúxulas – entre palavras proparoxítonas: É um flamejador, dardânico uma explosão de rápidas ideias, que com um mar de estranhas odisseias saem-lhe do crânio escultural, titânico!... (Cruz e Sousa) § § Agudas – entre palavras oxítonas: dó e só; fez e vez; ti e vi § § Preciosas – entre palavras combinadas: múmia e resume-a; réstea e veste-a; águia e alague-a; estrela e vê-la § § Versos brancos – verso sem rimas. Irene no Céu (Manuel Bandeira) Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no céu: – Licença, meu branco! E São Pedro bonachão: – Entra, Irene.Você não precisa pedir licença. Disposição das rimas no poema § § Mistas – sem posição regular: De uma, eu sei, entretanto 1 , Que cheguei a estimar 2 Por ser tão desgraçada 3 ! Tive-a hospedada 3 a um canto 1 Do pequeno jardim 4 ; Era toda riscada 3 De um traço cor de mar 2 E um traço carmesim 4 . (Alberto de Oliveira) § § Emparelhadas (AABB): No rio caudaloso que a solidão retalha A , na funda correnteza na límpida toalha A , deslizam mansamente as garças alvejantes B ; nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes B ... (Fagundes Varela) § § Interpoladas ou opostas (ABBA): Mais de mil anos-luz já separado A , Naquela hora, do meu pensamento B . O filme de uma vida, ínfimo momento B , O derradeiro instante havia impregnado A . § § Alternadas ou cruzadas (ABAB): Amor, essência da vida A , é uma expressão de Deus B . Alma, não fique perdida A ! Ele luz os dias seus B . Classificação dos versos § § Monossílabos – uma única sílaba: Ru/a tor/ta Lu/a mor/ta Tu/a por/ta § § Dissílabos – duas sílabas: Tu,/ on/tem na/ dan/ça que/ can/sa vo/a/vas com as/ fa/ces
  • 64.
    64 em/ ro/sas for/mo/sas de/ vi/vo car/mim/ (Casimirode Abreu) § § Trissílabos – três sílabas: Vem/ a au/ro/ra pre/ssu/ro/sa cor/ de/ ro/sa que/ se/co/ra de/ car/mim/ as/ es/tre/las que e/ram/ be/las têm/ des/mai/os já/ por/ fim/ (Gonçalves Dias) § § Tetrassílabos – quatro sílabas: O in/ver/no/ bra/da for/çan/do as/ por/tas Oh!/ Que/ re/voa/da de/ fo/lhas/ mor/tas o/ ven/to es/pa/lha por/ so/bre o/ chão/... (Alphonsus de Guimarães) § § Pentassílabos ou redondilha menor – cinco sílabas: Meu/ can/to/ de/ mor/te, Gue/rrei/ros/ ou/vi/ Sou/ fi/lho/ das/ sel/vas Nas/ sel/vas/ cres/ci/ Gue/rrei/ros/ des/cen/do Da/ tri/bo/ tu/pi (Gonçalves Dias) § § Hexassílabos – seis sílabas: Ou/ de/sse/ mes/mo e/nig/ma [...] Pro/pí/cios/ a/ nau/frá/gio [...] De/ me in/cli/nar/ a/fli/to (Carlos Drummond de Andrade) § § Heptassílabos ou redondilha maior – sete sílabas: An/tes/ de a/mar,/ eu/ di/zi/a pa/ra/ cor/tar/ na/ ra/iz/ es/ta/ cons/tan/te a/go/ni/a pre/ci/so a/mar/ al/gum/ di/a a/man/do,/ se/rei/ fe/liz./ (Menotti del Picchia) § § Octossílabos – oito sílabas: No ar/ so/sse/ga/do, um/ si/no/ can/ta Um/ si/no/ can/ta/ no ar/ som/bri/o (Olavo Bilac) § § Eneassílabos – nove sílabas: A/deus,/ ó/ Lu/a,/ Lu/a/ dos/ me/ses, Lu/a/ dos/ Ma/res,/ o/ra/ por/ nós!.../ (Antônio Nobre) § § Decassílabos ou Medida Nova – dez sílabas: A/mo/-te, ó/ cruz, /no/ vér/ti/ce/ fir/ma/da § § Hendecassílabos – onze sílabas: Nas/ ho/ras/ ca/la/das/ das/ noi/tes/ d’es/ti/o Sen/ta/do/ so/zi/nho/ c’oa/ fa/ce/ na/ mão/, Eu/ cho/ro e/ so/lu/ço/ por/ quem/ me/ cha/ma/va — “Oh/ fi/lho/ que/ri/do/ do/ meu/ co/ra/ção/!” (C. de Abreu) § § Dodecassílabos ou Alexandrinos – doze sílabas: A/ ca/sa/ que/ foi/ mi/nha,/ ho/je é/ ca/sa/ de/ Deus. Traz/ no/ to/po u/ma/ cruz./A/li/ vi/vi/ com os/ meus (Aberto de Oliveira) § § Bárbaros – mais de doze sílabas: Nun/ca /co/nhe/ci /quem/ ti/ve/sse/ le/va/do/ po/rra/da. To/dos os/ meus/ co/nhe/ci/dos/ têm/ si/do/ cam/pe/ões/ em/ tu/do. (Fernando Pessoa) O gênero dramático A característica e a finalidade primordiais do gênero dramático (do grego drân: agir) é ser levado à representação, à “ação”. Compreende o gênero teatral, cuja encenação, no entanto, escapa à alçada da literatura. O eu poético relaciona-se com um tu/vós, segunda pessoa do discur- so, a plateia. O texto dramático pressupõe essa plateia, que o vivencia e pode fruir emoções mediante a representação do texto.
  • 65.
    65 Caracterizam o gênerodramático a ausência de narrador, o discurso direto – estrutura dialogada – e as rubricas – indicações cênicas que sinalizam ao diretor e aos atores a postura no palco, o tom de voz etc. Ao invés da presença do narrador, o texto dramáti- co conta a história pretendida mediante diálogos entre os personagens, que estabelecem com o público uma relação direta,a fim de comprometê-lo emocionalmente com a his- tória contada e os personagens dela. O termo teatro deriva do grego théatron, que significa “ver”,“contemplar”. Esse gênero subdivide-se em tragédia, comédia, drama, auto e farsa. § § Tragédia Conta histórias cujos resultados são destrutivos e irreversíveis. Em geral baseada em mitos e histó- rias já conhecidas do público, a tragédia preten- de causar no espectador terror, piedade, catarse, ou seja, “descarga de desordens emocionais ou afetos desmedidos a partir da experiência estética oferecida pelo teatro, música e poesia”. Persona- gens lutam contra forças mais poderosas que elas, que, em princípio, são vencidas regularmente com a morte. Sugestão: Édipo Rei, de Sófocles. § § Comédia Enfatiza o comportamento ridículo do ser hu- mano mediante exposição e crítica de costu- mes sociais. Exemplos: O doente imaginário, de Molière; A tempestade, de Shakespeare; e Lisís- trata, de Aristófanes. § § Drama A peça funde tragédia e comédia sem, no en- tanto, que a história caminhe para resultados irreversíveis. Em geral, trata de fatos do coti- diano com final feliz ou não, mas com trajetória intrigante, de difícil solução. Exemplo: Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias; e Macário, de Ál- vares de Azevedo. § § Auto Peça teatral curta regularmente com temática religiosa e moralizante e com finalidade cate- quética, que discute conceitos abstratos e sim- bólicos. Exemplo: O auto da barca do inferno, de Gil Vicente. § § Farsa Peça teatral de crítica social que apresenta per- sonagens e situações caricaturadas sem preocu- pação com o questionamento de valores. Exemplo: A farsa de Inês Pereira, de GilVicente. O gênero narrativo Oriunda do gênero épico, a narrativa organiza uma história levando em consideração aspectos primor- diais de sua estrutura: apresentação, desenvolvimento, clímax e desfecho. Os gêneros narrativos apresentam-se como:
  • 66.
    66 § § Conto Narrativa curtacentrada em um único aconteci- mento. Apresenta uma ação que se encaminha para uma tensão (clímax) entre personagens, delimitados num tempo e espaço reduzidos. Exemplos: Amor, de Clarice Lispector; O menino do boné cinzento, de Murilo Rubião; e A causa secreta, de Machado de Assis. § § Novela Narrativa situada entre a brevidade do conto e a longevidade do romance. Exemplos: A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa; e Os crimes da rua Morgue, de Edgar Allan Poe. § § Crônica Narrativa breve baseada na vida cotidiana, deli- mitada por tempo cronológico curto, em lingua- gem coloquial e leve toque de humor e crítica. Exemplos: Comédias da vida privada – 101 crô- nicas escolhidas, de Luís Fernando Veríssimo. § § Romance Narrativalongaquediscorresobreumgrandecon- flitocentralquedáorigemaoutrossecundários,com preendendo vários personagens em constante conflito psicológico, envolvidos pela trama que caminha para um clímax. Exemplos: Grande ser- tão: veredas, de Guimarães Rosa; São Bernardo, de Graciliano Ramos; e O senhor dos anéis, de J.R.R.Tolkien. § § Anedota Relato de um acontecimento curioso ou engra- çado. Como o provérbio, a anedota, além da tra- dição oral, vem inserida em textos literários. § § Apólogo Historinha entre objetos inanimados com moral implícita ou explícita. Um apólogo, de Macha- do de Assis, trata da conversa entre uma agulha e uma linha que discutem sobre a importância delas. Observe o último parágrafo em que está implícita a moral: “Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experi- ência, murmurou à pobre agulha: – Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir ca- minho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. Contei esta história a um professor de melanco- lia, que me disse, abanando a cabeça: – Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!” § § Fábula Difere do apólogo, uma vez que seus persona- gens são animais. Esse gênero teve ilustres cul- tores na literatura ocidental, como Esopo, Fedro e La Fontaine.
  • 67.
    tt Livros O que éliteratura – Marisa Lajolo Definir o que é, o que não é e o que pode ser literatura depende do ponto de vista, do sentido que a palavra tem para cada um, da situa- ção na qual se discute o que é literatura. Literatura para quê? – Antoine Compagnon Nesta obra, Antoine Compagnon propõe-se a responder à pergunta que intitula sua aula inaugural no Collège de France – ‘Literatura para quê?’. O livro pretende ser uma reflexão sobre os poderes da literatura que colocam em relevo a convicção de que o texto literário ainda cumpre uma função no mundo do início do século XXI. Gêneros Literários – Angélica Soares As manifestações poéticas mais remotas já mostram a tendência para classificar as obras literárias conforme a realidade que retratam, pelo uso de mecanismos de estruturação semelhantes. INTERATIVI A A DADE LER 67
  • 68.
    68 Estrutura Conceitual Contam históriasque auxiliam o homem a compreender sua trajetória Oriundo do gênero épico, organiza uma história a partir de características variadas Conhecido como gênero teatral, sua produção é destinada à representação Gênero centrado na expressão do “eu poético” ou “eu lírico” (Trabalho com sonetos, elegias, odes...) (Trabalho com romance, conto...) (Trabalho com textos teatrais) (Trabalho com as epopeias) Gênero Épico Gênero Dramático Gênero Lírico Gênero Narrativo Arte Literária Arte Literária 68
  • 69.
  • 70.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da identidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da realidade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 71.
    71 Observe, na tabelaabaixo, os períodos literários do Brasil Colônia. Quinhentismo (1500-1601) Barroco (1601-1768) Neoclassicismo (1768-1836) O primeiro documento escrito foi a Carta de Pero Vaz de Caminha, destinada a Dom Ma- nuel, rei de Portugal. Publicação do poema épico Prosopopeia, de Bento Teixeira. Publicação de Obras Poéticas, de Cláudio Manuel da Costa. Florescimento da chamada literatura de informação, cujo objetivo era descrever para a Corte portuguesa a terra descoberta. Poesias lírica, religiosa e satírica, de Gregório de Matos, em Salvador, Bahia. Atuação do Grupo Mineiro em Vila Rica, Minas Gerais. Desenvolvimento da literatura de ca- tequese, com a finalidade de doutrinar os indígenas. Oratória doutrinária do padre Antônio Vieira, em Salvador, Maranhão, e outras áreas do Nordeste brasileiro. Poesia árcade de Cláudio Manuel da Cos- ta (sonetos). Textos de teatro com teor catequético. Sermões, do padre Antônio Vieira Tomás Antônio Gonzaga escreve Marília de Dirceu. Produção de poesia religiosa. Conceptismo e cultismo. Poesia épica indianista: O Uraguai, de Basílio da Gama, e Caramuru, de Santa Rita Durão. José de Anchieta é o principal expoente da literatura catequética. Contexto de reformas religiosas. A natureza é a base temática. Quinhentismo ou Literatura colonial A literatura brasileira floresceu em duas fases O período é didaticamente chamado de Qui- nhentismo brasileiro e os documentos produzidos durante esse tempo não podem ser considerados litera- tura artística, mas manifestações literárias, uma vez que não são criações de caráter artístico, e sim produtos de observações ora objetivas, ora subjetivas. Esse primeiro período da história da nossa lite- ratura, chamado Quinhentismo, começou em 1500, ano em que Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Pedro Álvarez Cabral, enviou a Dom Manuel I a famosa Carta. Ela comunica ao soberano o “achamento” (esse era o termo usado na época) das terras brasileiras. No século XVI, os textos produzidos no Brasil ligam-se a duas necessidades práticas principais da empresa colo- nizadora portuguesa: fornecer informação sobre a nova terra e converter os indígenas ao cristianismo. Nessa literatura de valor principalmente documental, encontram-se elementos importantes para a compreensão das origens históricas e literárias do Brasil. A primeira fase corresponde ao período do Brasil colonial, durante os séculos XVII e XVIII. Naquela época, uma da primeiras vozes da literatura brasileira foi a do poeta Gregório de Matos e Guerra, instalado em Salva- dor, no século XVII. Durante o século XVIII, Minas Gerais acompanhou a produção de poetas sediados em Vila Rica (atual Ouro Preto), Mariana, São João Del-Rei, cidades vinculadas ao ciclo do ouro e pedras preciosas. A segunda fase da literatura brasileira nasceu na época do Brasil independente, a partir de 1822. Descobrimento, de Cândido Portinari (1956).
  • 72.
    72 Não se podefalar em uma literatura “do Brasil”, como característica do país naquele período, mas em literatura “no Brasil”, uma literatura ligada ao Brasil, que denota as ambições e as intenções do homem eu- ropeu. Divide-se em literatura informativa e litera- tura jesuítica. O Quinhentismo serviu de inspiração literária para alguns poetas e escritores do Romantismo – Gonçalves Dias, José de Alencar – e do Modernismo – Oswald de Andrade, Murilo Mendes. Literatura de informação A expansão ultramarina europeia levou inúme- ros viajantes às terras recém-descobertas ou exploradas da Ásia, África e América com a missão de produzir re- latórios informativos sobre essas terras e aspectos exó- ticos e pitorescos de seus habitantes. Esses relatórios, denominados “crônicas de viagem”, têm caráter mais histórico do que literário, e a linguagem é predominan- temente referencial ou denotativa. A Carta, de Pero Vaz de Caminha, considerada o primeiro documento da literatura no Brasil, inaugurou a chamada literatura informativa: manifestações literárias de considerável valor histórico e profundo caráter docu- mental sobre o Brasil, escritas por cronistas e viajantes estrangeiros. Descrevem e informam sobre a nova co- lônia portuguesa, salientando a conquista material e a exaltação da terra nova. Estes relatos visavam a satisfa- zer a curiosidade e a imaginação dos europeus. Índio tapuia. Eckhout, A. (1610-1666) © Albert Eckhout/Wikimedia Commons Na literatura informativa encontram-se docu- mentos,cartas e relatórios de navegantes,administrado- res, missionários e autoridades eclesiásticas. Descrevem e exaltam a flora, a fauna e os índios do Brasil, bem como o exotismo e a exuberância de um mundo tropical. Também predomina o registro referencial da linguagem que reflete tal louvor à terra com o emprego exagerado de adjetivos no superlativo, bem como modelos clássi- cos e renascentistas que tendem à erudição. Os textos informativos formam um painel da vida dos anos iniciais do Brasil Colônia, dando notícias dos primeiros contatos entre os europeus e a realidade da nova terra. A opulência da flora e da fauna impres- sionou vivamente o colonizador, enquanto o modo de vida dos indígenas foi motivo de muita curiosidade e de incompreensão – os colonizadores nunca abandonaram sua concepção de que eram donos de uma cultura supe- rior no interior do próprio sistema colonial. Esses textos cumpriam, acima de tudo, uma finalidade prática. § Carta, de Pero Vaz da Caminha, escrita em 1500; § Diário de navegação, de Pero Lopes de Souza, escrito entre 1530 e 1532, durante a expedição de Martim Afonso de Sousa; § História da Província de Santa Cruz e Tratado da Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gandavo, ou Gândavo, publicados, respectivamente, em 1576 e 1826; § Tratado descritivo do Brasil em 1587 ou Notícias do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa, publicado em 1851. § Diálogos das grandezas do Brasil (1618), atribu- ídos a Ambrósio Fernandes Brandão, e a História do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador, pu- blicados no século XVII. Para a história da literatura brasileira, a literatura informativa adquire importância principalmente como fonte de temas e formas para momentos literários pos- teriores: o Romantismo e o Modernismo. Pero Vaz de Caminha Escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Cami- nha escreveu a Dom Manuel, rei de Portugal, no dia 1o de maio de 1500, a Carta – de inestimável valor histó- rico e de razoável valor literário –, em que comunica o descobrimento do Brasil.
  • 73.
    73 Lendo a Carta ACarta enviada ao rei Dom Manuel é uma es- pécie de “certidão de nascimento” do Brasil, pois foi o primeiro documento escrito nestas terras. É o texto que marca o princípio da literatura brasileira. A Carta de Caminha, embora escrita nos primór- dios da colonização (1500), só veio a ser impressa em 1817, na Corografia Brasílica, pela imprensa Régia do Rio de Janeiro. Primeiro trecho Senhor, posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros Capitães escrevam a Vossa Al- teza a notícia do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e falar – o saiba pior que todos faze! [...] Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu. [...] Então seguimos nosso caminho por este mar de longo até terça-feira de Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, quando topamos alguns sinais de terra [...] a saber: Em primeiro lugar um monte gran- de, muito alto e redondo e outras serras mais baixas ao sul dele; e terra rasa, com grandes arvoredos. Ao mesmo monte alto pôs o Capitão o nome de Monte Pascoal; e à terra – Terra de Vera Cruz. © Tonyjeff/Wikimedia Commons Carta original de Pero Vaz de Caminha. Segundo trecho Daliavistamoshomensqueandavampelapraia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pe- quenos, por chegarem primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes, e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor, onde falaram entre si. E o Capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou de ir para lá, acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel à boca do rio,já ali havia dezoito ou vin- te homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijos sobre o ba- tel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram. Ali não pôde deles haver fala, nem entendimen- to de proveito, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de li- nho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave, com- pridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira, as quais peças creio que o Ca- pitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. [...] Terceiro trecho A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de compri- mento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. Metem- nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os moles- ta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tos- quiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte
  • 74.
    74 para detrás, umaespécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nico- lau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram si- nal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a nin- guém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e de- pois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e as- sim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata. CAMINHA, Pero Vaz de. Carta ao rei D. Manuel. In: VOGT, Carlos; LEMOS, J.A. Guimarães de. Ironistas e viajantes. São Paulo: Abril Educação, s.d. (Coleção Literatura Comentada.) Pero de Magalhães Gândavo Autor de O Tratado da Terra do Brasil e da His- tória da Província de Santa Cruz, compostas em louvor ao clima, à terra e à paisagem, e que estimulam a imi- gração do leitor. Uma planta se dá também nesta Província, que da ilha de São Tomé, com a fruita da qual se ajudam muitas pessoas a sustentar a terra. Esta planta é mui tenra e não muito alta, não tem ramos senão umas fo- lhas que serão seis ou sete palmos de comprido.A fruita dela se chama banana. Parecem-se na feição com pepi- nos, criam-se em cachos. Esta fruita é mui saborosa, e das boas, que há na terra: tem uma pele como de figo (ainda que mais dura) a qual lhe lançam fora quando a querem comer: mas faz dano à saúde e causa febre a quem se desmanda nela. GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província de Santa Cruz. Leia também este trecho da História da Província Santa Cruz, e observe que Gândavo traz aqui uma inver- tida noção sobre a língua dos indígenas, além de fazer uma descrição minuciosa sobre o tipo físico do nativo. História da Província Estes índios são de cor baça, e cabelo corredio; têm o rosto amassado,e algumas feições dele à maneira de chinês. Pela maior parte são bem dispostos, rijos e de boa estatura; gente mui esforçada, e que estima pouco morrer,temerária na guerra,e de muito pouca conside- ração: são desagradecidos em grande maneira, e mui desumanos e cruéis, inclinados a pelejar, e vingativos por extremo. Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamentos senão comer, beber, e matar gente, e por isso engordam muito, mas com qualquer desgosto pelo conseguinte tornam a emagrecer, e muitas vezes pode deles tanto a imaginação que se algum deseja a morte, ou alguém lhe mete em cabeça que há de morrer tal dia ou tal noite não passa daquele termo que não morra. São mui inconstantes e mudáveis: creem de ligei- ro tudo aquilo que lhes persuadem por dificultoso e im- possível que seja,e com qualquer dissuasão facilmente o tornam logo a negar. São mui desonestos e dados à sensualidade, e assim se entregam aos vícios como se neles não houvera razão de homens:ainda que todavia em seu ajuntamento os machos e fêmeas têm o devido resguardo, e nisto mostram ter alguma vergonha. Ilustração que retrata Pero Magalhães de Gândavo descrevendo animais novos.
  • 75.
    75 A língua deque usam,toda pela costa,é uma:ain- da que em certos vocábulos difere n’algumas partes; mas não de maneira que se deixem uns aos outros de entender: e isto até a altura de vinte e sete graus, que daí por diante há outra gentilidade, de que nós não te- mos tanta notícia, que falam já outra língua diferente. Esta de que trato, que é geral pela costa, é mui branda, e a qualquer nação fácil de tomar.Alguns vocábulos há nela de que não usam senão as fêmeas, e outros que não servem senão para os machos: carece de três le- tras, convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto porque assim não tem Fé, nem Lei, nem Rei e desta maneira vivem desordenadamen- te sem terem além disto conta nem peso, nem medida. GÂNDAVO, Pero de Magalhães. In: VOGT, Carlos; LEMOS. J. A. Guimarães de, Op. Cit. Literatura de formação ou jesuítica Ao lado da prosa informativa, ocorreram mani- festações em poesia e teatro escritas por jesuítas, com a finalidade de catequizar os índios. A essa produção chamamos de literatura de formação, em decorrência do aspecto didático que apresenta. Padre José de Anchieta (1534-1597) © Benedito Calixto/Wikimedia Commons Padre José de Anchieta Nessa categoria, merece destaque o padre je- suíta que veio ao Brasil para desenvolver o trabalho missionário de converter os índios ao Cristianismo. Em 1554, fundou a cidade de São Paulo. Escreveu poemas, crônicas, sermões e textos teatrais, ora didáticos, ora lírico-religiosos. Anchieta dominava bem latim, espanhol, portu- guês e tupi. Sua linguagem era simples e direta. Escre- veu a primeira gramática tupi-guarani: Arte de gramáti- ca da língua mais usada na costa brasileira. Dentresuasobras,sobressaemosautosQuandono EspíritoSanto,serecebeuumarelíquiadasonzemilVirgens; Na Vila de Vitória; Auto de São Lourenço; e o poema De Beata Virgine Dei Madre Maria (À beata Virgem Maria Mãe de Deus). Veio ao Brasil com a segunda leva de jesuítas na esquadra de Duarte da Costa, segundo Governador- -Geral do Brasil. Em 1554, participou da fundação do colégio, onde também foi professor, na Vila de São Pau- lo de Piratininga, núcleo da futura cidade que receberia o nome de São Paulo. Exerceu o cargo de provincial dos jesuítas, entre os anos de 1577 e 1587. Escreveu cartas, sermões, poesias, a gramática da língua mais falada na costa brasileira (o tupi) e peças de teatro, tornando-se representante do Teatro Jesuítico no Brasil. Sua obra é considerada a primeira manifesta- ção literária em terras brasileiras. A coleção das obras completas do padre José de Anchieta é dividida em três gêneros: poesia, prosa e obras sobre Anchieta, que somam um total de dezessete volumes. Leia abaixo A Santa Inês, um dos poemas mais conhecidos de José de Anchieta. Cordeirinha linda, como folga o povo porque vossa vinda lhe dá lume novo! Cordeirinha santa, de Iesu querida, Vossa santa vinda o diabo espanta Por isso vos canta, com prazer, o povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo. Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão pura. Vossa formosura honra é do povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo. Virginal cabeça pola fé cortada com vossa chegada, já ninguém pereça.
  • 76.
    76 Vinde mui depressa ajudaro povo, pois com vossa vinda lhe dais lume novo. Vós sois, cordeirinha, de Iesu formoso, mas o vosso esposo já vos fez rainha, Também padeirinha sois de nosso povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo. PORTELA, Eduardo (Org.). José de Anchieta: poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1959. Bosques Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvores nem erva seca. Os arvoredos se vão às nuvens de admirável altura e gros- sura e variedade de espécies. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos rouxinóis, pintassilgos, colorinos, e canários de Portugal e fazem uma harmonia quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo. Há mui- tas árvores de cedro, áquila, sândalos e outros paus de bom olor e várias cores e tantas diferenças de folhas e flores que para a vista é grande recreação e pela muita variedade não se cansa de ver José de Anchieta. Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões. Informação da Província do Brasil para nosso padre – 1585. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 430-431. Disponível em http://warburg.chaa-unicamp.com.br. Padre Anchieta, óleo sobre tela, de Cândido Portinari (1954). O texto revela uma visão exuberante da natureza do Brasil, semelhante à manifestada na Carta, de Pero Vaz de Caminha. Os aspectos enfatizados contemplam a flora e a fauna, a grandeza e a variedade do arvo- redo e o encantamento pelos pássaros. A riqueza e a vitalidade do Brasil contrastam com as paisagens de Portugal. Entre as riquezas do Brasil arroladas no tex- to, apenas o sândalo, originário da Índia, provavelmen- te não existia aqui. O deslumbramento pela natureza do Novo Mundo marcou época tanto no período Brasil Colônia até o período pós-Independência. O poema manifesta o confronto entre o bem e o mal com bastante simplicidade. A chegada de Santa Inês espanta o diabo e, graças a ela, o povo revigora sua fé. Os versos de cinco sílabas (redondilha menor) dão ritmo ligeiro ao texto, retomando a métrica das cantigas medievais.A linguagem é clara, as ideias são facilmente compreensíveis e o ritmo traz musicalidade ao poema, o que contribui para envolver o leitor/ouvinte, bem como sensibilizá-lo para a mensagem religiosa. Padre Manuel de Nóbrega A pedido de Dom João III, integrou a escala de Tomé de Sousa, primeiro Governador Geral do Brasil, o padre Manuel da Nóbrega, que chefiou o primeiro gru- po de jesuítas vindos ao Brasil, em 1549. Ferrenho defensor da liberdade dos índios, fa- voreceu os aldeamentos, cultivou a música como auxi- liar da evangelização, promoveu o ensino primário nas escolas de ler e escrever e fundou, pessoalmente, os colégios de Salvador, Pernambuco e São Paulo, origem da futura cidade, e do Rio de Janeiro, onde exerceu o cargo de reitor. Depois de colaborar com a expulsão dos estrangeiros da baía de Guanabara, contribuiu para a valorização do poder central e para a unificação política do território nacional. Seus pensamentos estão expressos nas Cartas, nos Apontamentos e, sobretudo, no Diálogo sobre a conversão do Gentio, de sua autoria.
  • 77.
    77 Barroco ou Seiscentismo © Michelangelo Merisi da Caravaggio/Wikimedia Commons Adúvida de São Tomé, de Caravaggio. Contexto Os embates religiosos O movimento denominado Barroco ou Seis- centismo aconteceu no segundo período clássico e de- signou genericamente todas as manifestações artísticas produzidas no século XVII até meados do século XVIII. O estilo barroco sucede o movimento religioso conheci- do como Reforma Protestante, liderado pelo teólogo alemão Martinho Lutero (1483-1546). A Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão iniciado em 1517 por Martinho Lutero. Ele apresentou 95 teses, mediante as quais protestava contra a Igreja Católica.À luz delas, pro- pôs uma reforma baseada em cinco princípios: 1. somente a fé; 2. somente a Escritura; 3. somente Cristo; 4. somente a graça; e 5. somente a glória de Deus. Lutero denunciou os abusos e equívocos do catolicismo da época, entre eles atos de corrupção, como venda de indulgências a troco do perdão dos pecados e da salvação eterna.O protestantismo nas- ceu em decorrência da resistência à Igreja Católica A proposta de reformar ensinos teológicos e com- portamentos morais da Igreja, baseados exclusivamente no ensino bíblico, provocou a reação da Igreja católica, que teve seu espaço e poder contestados. A Reforma di- vidiu os cristãos. Na tentativa de evitar a perda de fiéis, a Igreja fortaleceu o Tribunal da Inquisição, que passou a investigar crimes contra a fé católica e deu início à Con- trarreforma, com a fundação da Companhia de Jesus, a ordem dos jesuítas, pelo espanhol Inácio de Loyola. Nas artes, à luz e sob inspiração dos valores terrenos e humanistas da Antiguidade greco-romana, triunfou o Barroco, que se opôs ao Humanismo Renas- centista em busca do elo perdido da tradição cristã. O contexto português: a união da península Ibérica Em 1580, Portugal foi anexado à Espanha, em razão do desaparecimento do rei português Dom Sebastião – que não deixou descendentes di- retos –, na batalha de Alcácer-Quibir, na África, em 1578. O rei espanhol Felipe II, um dos parentes mais próximos de Dom Sebastião, foi proclamado mo- narca dos lusitanos e deu início à dinastia Filipina em Portugal, que se estendeu até 1640. Sucessivamente, três reis espanhóis adotaram o nome Felipe (I, II e III). Foi em dezembro de 1640, que Portugal retomou sua independência, quando o duque de Bragança foi coroado rei, com o nome de Dom João IV, e cujo reinado durou até 1656. Na Europa seiscentista,Portugal e Espanha confi- guraram o modelo de absolutismo católico, que patroci- nou a Contrarreforma,recrudesceu a perseguição aos in- fiéispelaInquisiçãoeexigiuobediênciaaoIndexLibrorum Prohibitorum, uma relação de livros proibidos publicada pela Igreja Católica. Sob dominação filipina, o Barroco português foi significativamente influenciado pelo espanhol, principal foco irradiador dessa estética que expressa a espirituali- dade e o teocentrismo medievais misturados ao raciona- lismo e ao antropocentrismo herdados do Renascimento.
  • 78.
    78 A arte barroca © Michelangelo Merisi da Caravaggio/Wikimedia Commons Aceia em Emaús, de Caravaggio. O barroco português ocorre em uma Europa im- pactada pelas grandes navegações dos anos 1500, pelas grandes conquistas, pela explosão da Reforma Protes- tante e pelo poder monárquico absolutista. Ele traduz o drama do homem “entre o céu e a Terra”, atormentado pela fé, pela existência após a morte, pelo julgamento de atos praticados durante o “trânsito terreno”. No final dos anos quinhentos e início dos anos seiscentos, convivem dois modos de ver o mundo: a vi- são clássica Renascentista em decadência e a religiosi- dade barroca emergente. A expressão plástica barroca caracteriza-se pela exacerbação dos tons mais altos e mais coloridos e das texturas mais ricas: mais decora- ção, mais luz e sombra em busca deliberada de efeitos. Duas tendências de estilo, no entanto, mani- festam-se no Barroco: o cultismo e o conceptismo. Aquele, mais próprio da poesia, e este, da prosa, sem, no entanto, excluírem-se no conjunto da criação lite- rária. Uma mesma obra tanto pode pender para uma delas quanto apresentar traços de ambas as tendências. Cultismo É a preferência pelo rebuscamento formal da lin- guagem em jogos de palavras, figuras de linguagem, vocabulário preciosista, efeitos sensoriais – cor, som, forma, volume, sonoridade, imagens eloquentes e fan- tasiosas. Conhecer é descrever mediante sensações nada econômicas. Metáforas, antíteses, sinestesias, trocadilhos, dicotomias e hipérbatos povoam os textos barrocos.A realidade é retratada de forma indireta, cen- trada na habilidade verbal do escritor. A tendência do Barroco cultista também recebeu o nome de gongorismo, cujo escritor mais eloquente foi o poeta espanhol Luis de Gôngora. O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga que é parte sendo todo. Em todo sacramento está Deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em parte todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo. Conceptismo (do espanhol concepto, ideia) Linguagem pautada no raciocínio e no pensa- mento lógico, em analogias, histórias ilustrativas etc. Argumentos centrados na inteligência e na razão em busca da concisão e da coesão, sempre disciplinados pela lógica e seus mecanismos oferecidos pelos silogis- mos e sofismas. Tal tendência também recebeu o nome de quevedismo, graças ao estilo marcante do poeta espanhol Francisco Gómez de Quevedo. [...] Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos setes anos [...] nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar são duas coisas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; po- rém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade, febricitante, que não tivesse o en- tendimento frenético. O amor deixara de variar, se for firme, mas não deixara de tresvariar, se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermida- de no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Padre Antonio Vieira. Sermão do Mandato
  • 79.
    79 Características do Barrocoliterário O Barroco se traduz como uma arte tensa que oscila entre opostos, marcada pela crise de valores, contradições entre o espírito cristão, antiterreno e te- ocêntrico, e o espírito renascentista, antropocêntrico, racionalista e mundano. Conflitos e descontentamentos existenciais A indefinição entre o divino e o terreno traduz-se em conflito e descontentamento existencial humano. São comuns os temas pessimistas, as advertências so- bre a brevidade da vida, a ênfase na dor e na vergonha de permanecer em pecado.A relação com a vida terrena é pessimista, só minorada com a crença na vida celeste. O tema da penitência é constantemente enfatizado pelo martírio da dor. Ideias em confronto No Barroco predomina o gosto pela aproxima- ção de realidades em oposição; a submissão e a vida recatada propostas pela Igreja contrarreformista em contraposição aos desejos humanos e materiais. À pos- sibilidade de ascensão social, propiciada pelo momento histórico, contrapõe-se a impossibilidade da estrutura social fechada. Temas constantemente contraditórios, oscilantes entre matéria e amor, carne e espírito, amor ideal e amor humano. © Divulgação Cristo bailarino. Madeira com vestígios de policromia. Aleijadinho (1781-1790). Tendência ao dualismo e ao culto do contraste No intuito de aproximar opostos, a visão do uni- verso dualista é, ao mesmo tempo, mística e sensual, religiosa e erótica, espiritual e humana. O homem vive em conflito com o mundo. Para traduzi-lo, abundam an- títeses, metáforas, sinestesias e hipérboles. Disponível em http://interata.squarespace.com Detalhe preciosista de igreja barroca. O estilo barroco europeu do século XVII recebeu denominações particulares em cada país: § Espanha – gongorismo, originado do nome do poeta Luis de Gôngora (1561-1627). § Inglaterra – eufuísmo, derivado do nome da obra Euphues, or the anatomy of wit, do escritor John Lyly (1554-1606). § Itália – marinismo, derivado do nome de Gian- battista Marino (1569-1625). § França – preciosismo, em razão do exagero da forma preciosista, afetada e extremamente rebuscada na corte do rei Luis XIV. § Alemanha – silesianismo, estilo característico dos escritores da região da Silésia. O Barroco em Portugal O Barroco português conviveu com um país que vi- via uma crise de identidade,uma vez que estava sob o do- mínio político da Espanha. Dois aspectos ressaltam a pro- dução literária desse período: o esforço dos portugueses de preservar sua cultura e língua e a Contrarreforma, que deu à produção literária amplo caráter religioso,como,por exemplo as obras do padre Antônio Vieira, principal escri- tor português do século XVII. Em 1580,dois fatos significativos marcaram a vida cultural e política de Portugal:a morte de Camões e a pas- sagem do país para o domínio espanhol (1580-1640).
  • 80.
    80 A literatura eas artes portuguesas foram in- fluenciadas pelas manifestações culturais espanholas, que conheceram nesse período o “século de ouro” – Cervantes, Gôngora, Quevedo, Lope de Vega e Calderón de La Barca são importantes escritores desse período. O florescimento do Barroco em Portugal não se deu com a mesma intensidade que na Espanha. Como forma de resistência política ao domínio espanhol, os escritores portugueses procuraram preservar a língua e a cultu- ra lusitanas. Assumiram uma postura saudosista, valo- rizando personagens e escritores do passado heroico recente:Vasco da Gama, Dom Sebastião, Camões. Influenciado pela Contrarreforma, o Barroco português também ganhou fortes matizes religiosos, bem como em todos os países ibéricos. A atuação da Companhia de Jesus e do Tribunal da Inquisição, ins- taurado em Portugal em meados do século XVI, com- pletaram o quadro cultural lusitano daquele período religioso e austero. O Barroco no Brasil O marco inicial do Barroco brasileiro data de 1601, quando Bento Teixeira publicou o poema épico Prosopopeia, com estrofes em oitava rima e versos de- cassílabos, tal qual Os Lusíadas, de Camões, cujo mode- lo ele seguiu de perto. Embora naquela época não houvesse um público leitor significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou impulso com a fundação de várias academias literárias entre os anos de 1720 e 1750.Vicejaram por todo o sé- culo XVII e início do século XVIII, mas foram sufocadas pela fundação da academia chamada Arcádia Ultra- marina, em 1768, e pela ascensão da poesia árcade. Peculiaridades do Barroco brasileiro Embora o Barroco brasileiro esteja ligado aos modelos lusitano e espanhol, peculiaridades diferen- ciam-no destes. Durante todo o século XVII, sob o domínio es- panhol, continuavam a chegar ao Brasil imigrantes atraídos pela riqueza, portugueses e demais euro- peus, e interessados na exploração da terra. Foi o caso dos franceses, que tentaram dominar o Maranhão no começo do século XVII. A presença estrangeira mais marcante, no entan- to, foi a dos holandeses. Enviado pela Companhia das Índias Ocidentais com o fim de controlar o comércio do açúcar nordestino, o general de origem alemã Johann Maurits, conhecido como conde Maurício de Nassau, desembarcou no Brasil, em Recife, em 1637, quando já se estabilizara o domínio holandês nas colônias portu- guesas, iniciado em 1624. Nassau trouxe consigo uma equipe cultural com pintores, arquitetos, escritores, naturistas, médicos, as- trônomos etc., com o objetivo de documentar as terras ocupadas pela Holanda e angariar investimentos euro- peus para a produção açucareira. Com Nassau, Recife sofreu uma verdadeira re- formulação urbana: jardins, lagos, palácio para sua aco- modação na ilha de Antônio Vaz, uma cidade inteira foi modelada a seu gosto. A cidade Maurícia, ao lado de Recife, entre a foz do rio Capibaribe e Beberibe, emergiu sob sua administração. As marcas desse tempo ficaram registradas em pinturas e desenhos de Frans Post, encarregado das pai- sagens e feitos do Governador-Geral, e Albert Eckout, responsável pelo registro dos tipos humanos, da fauna e flora da “Nova Holanda”, nome de Pernambuco na- quela época. Frans Post tinha apenas 24 anos quando che- gou ao Brasil. Morador de Recife entre 1637 e 1644, acompanhou a movimentada campanha do governador, documentando a paisagem e registrando portos e forti- ficações do Maranhão à Bahia. © Divulgação Aleijadinho
  • 81.
    81 Um Barroco miscigenado Omundo colonial brasileiro do século XVII não foi influenciado apenas pelo Barroco português, mas, sobre- tudo, foi pressionado economicamente, graças à imensa exploração de riquezas naturais, de ouro, principalmente. Em razão disso, o Barroco brasileiro tornou-se uma manifestação miscigenada das culturas europeia, negra e nativa. Os espaços do Brasil colonial que lhe serviram de cenário foram principalmente o Nordeste e o estado de Minas Gerais. Ligado ao ciclo da cana-de-açúcar, o Barroco nordestino aproximou-se da aristocracia rural, exuberante e pomposa, e refletiu-se na riqueza das construções eclesiásticas e nas amplas acomodações das casas-grandes. A cidade de Salvador, na Bahia, ainda conta com cerca de 80 igrejas e vários solares e casarões inspirados no Barroco. No século XVIII, o Barroco mineiro sobrepujou o da metrópole portuguesa, notadamente nas cidades au- ríferas de Minas Gerais. Naquela região, sobressaíram as notáveis obras do escultor e arquiteto Antonio Francisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho, cujo trabalho pautou-se pela experiência com materiais locais – pedra-sabão e madeira. O pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830) deixou mostras de seu talento em pinturas e afrescos nos tetos e laterais de igrejas mineiras.
  • 82.
    Filme ASSISTIR INTERATIVI A A DADE O Brasilde Pero Vaz caminha – Direção: Bruno Laet - 2011 Filme Caravaggio – Direção: Derek Jarman - 1986 Vencedor do Prêmio SESC Rio de Fomento à Cultura, em 2010 – na categoria Novos Talentos, Cinema Documen- tário –, O Brasil de Pero Vaz caminha se baseia naquele que é considerado o primeiro documento histórico e literário do Brasil: a carta de Pero Vaz de Caminha. Filme 1492 - A CONQUISTA DO PARAÍSO Vinte anos da vida de Colombo, desde quando se convenceu de que o mundo era redondo, passando pelo empenho em conseguir apoio financei- ro da Coroa espanhola para sua expedição, o descobrimento em si da Amé- rica, o desastroso comportamento que os europeus tiveram com os habi- tantes do Novo Mundo e a luta de Colombo para colonizar um continente que ele descobriu por acaso, além de sua decadência na velhice. A curta vida do pintor italiano Michelangelo Merisi da Caravaggio (Nigel Terry) desde a infância e decepções do início da carreira até os últimos sucessos, a amizade com um cardeal e a relação destrutiva com um lutador (Sean Bean) e sua namorada (Tilda Swinton). 82
  • 83.
    LER tt Livros Dialética da colonização– Alfredo Bosi Em capítulos que vão de Anchieta à indústria cultural, Alfredo Bosi, o conceituado autor da clássica História concisa da Literatura Brasileira, persegue com sensibilidade as formas históricas que enlaçaram coloniza- ção, culto e cultura. Dialética da colonização é o resultado deste percurso sui generis na história do pensamento brasileiro. O barroco – Victor Lucien Tapié Dividido em duas seções, Concepções Barrocas e Experiências Barro- cas, o volume examina esse fenômeno de arte notadamente nos séculos XVII e XVIII, sem esconder do leitor observações realmente novas e suges- tivas concernentes ao estilo, que muitos reputam ser de glória, outros digno dos períodos de decadência, mas que, todavia, emprestou às cidades históricas de Minas o seu fausto e o ar sempiterno que ressumam. 83
  • 84.
    ARTES PLÁSTICAS 84 Retábulodacapela-mordaIgrejadeSãoFrancisco,emSãoJoãodel-Rei(Aleijadinho) Projeto paraa fachada da Igreja de São Francisco, em São João del-Rei (Aleijadinho)
  • 85.
    Estrutura Conceitual Idade MédiaIdade Moderna Trovadorismo Humanismo Classicismo Barroco Quinhentismo Cultismo e conceptismo Movimento vinculado a conflitos de cunho religioso Pero Vaz de Caminha e José de Anchieta Literatura de informação e literatura jesuítica Uso de antíteses e paradoxos 85
  • 87.
    © Wikimedia Commons Gregório de MatosGuerra, o Boca do Inferno Competência 5 Habilidades 15, 16 e 17 LENTRELETRAS C 0 3
  • 88.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da iden- tidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali- dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 89.
    89 O primeiro poetabrasileiro: adequação e irreverência Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta barroco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e satírica no Brasil. Nasceu em Salvador, estudou no Colégio dos Jesuítas e depois em Coimbra (Portugal), onde cursou Direito, tornou-se juiz e ensaiou seus primeiros poemas satíricos. De volta ao Brasil, em 1681, exerceu os cargos de tesoureiro-mor e de vigário-geral, apesar de sempre ter se recusado a vestir-se como clérigo. Disponível em: http://imirante.globo.com Graças às suas sátiras, foi perseguido pelo governador baiano Antônio de Souza Menezes, o “Braço de Prata”. Depois de se casar com Maria dos Povos e exercer a advocacia, saiu pelo Recôncavo baiano como cantor itinerante, dedicando-se às sátiras e aos poemas erótico-irônicos, o que lhe custou alguns anos de exílio emAngola. Voltou doente ao Brasil e, impedido de entrar na Bahia, morreu em Recife. Ao contrário do padre Antônio Vieira, Gregório foi de encontro a uma tendência generalizadora da época, alastrando-se e acolhendo a poesia religiosa, os costumes e a reflexão moral. Em relação aos temas, convivem em seus poemas um desenfreado sentimento de sensualismo, erotismo e paixão idealizada. Seus poemas são dados ao gosto pelo jogo de palavras e das brincadeiras. Cronologia biográfica Gregório de Matos viveu durante o ciclo da cana-de-açúcar e fez parte da elite, à qual ele mesmo se contra- pôs, ao se indignar com o atraso da sociedade patriarcal brasileira depois de voltar de Portugal. Ele nada publicou em vida. Depois de sua morte, seus manuscritos foram reunidos em um códice, cuja capa trazia o brasão da Coroa portuguesa com a seguinte insígnia: Inéditas poezias do doutor Gregório de Mattos Guerra. § § 1636 – Em 20 de dezembro, Gregório de Matos Guerra nasce em Salvador, Bahia. § § 1650 – Viaja para Lisboa aos 14 anos. § § 1652 – Incentivado pelo pai, matricula-se na Universidade de Lisboa. § § 1661 – Forma-se na universidade e casa-se com dona Michaela de Andrade. § § 1662 – Conclui o bacharelado em Coimbra. § § 1663 – Nomeado juiz de fora em Alcácer do Sal, no Alentejo. § § 1672 – Nomeado procurador da cidade da Bahia. § § 1674 – Deixa o cargo de procurador. § § 1678 – Fica viúvo. § § 1691 – Casa-se, pela segunda vez, com Maria dos Povos. § § 1694 – Degredado para Angola. § § 1696 – Morre no estado de Pernambuco, porque foi proibido de voltar a Salvador.
  • 90.
    90 Disponível em: http://imirante.globo.com Ilustração de Carybépara o livro Bahia: imagens da terra e do povo. O “língua de trapo” Gregório de Matos primou pela irreverência ao afrontar os valores e a falsa moral da sociedade baiana de seu tempo, cujo comportamento era considerado in- decoroso. Irreverente como poeta lírico, seguiu e rompeu ao mesmo com os modelos barrocos europeus. Como poeta satírico, denunciou as contradições da sociedade baiana de século XVII, alvejando os grupos sociais – go- vernantes, fidalgos, comerciantes, escravos, mulatos etc. A linguagem empregada agrega ao código da língua portuguesa vocábulos indígenas e africanos, bem como palavras de baixo calão. Pelo fato de não ter publicado nenhuma obra em vida, seus poemas foram transmitidos oralmente, até meados do século XIX, quando então foram reunidos em livro por Varnhagen. Esse trabalho enfrentou alguns problemas de natureza autoral. Os copistas não necessariamente obe- deceram a critérios científicos para tal. Há controvérsias sobre a autoria de alguns poemas atribuídos a ele e é co- mum que um mesmo texto apresente variações de voca- bulário ou de sintaxe,dependendo da edição consultada. Apesar disso, a obra de Gregório de Matos vem sendo reconhecida como a que iniciou uma tradição en- tre nós, bem como superou os limites do próprio Barro- co. Em pleno século XVII, o poeta chegou a ser um dos precursores da poesia moderna brasileira do século XX. Exemplo desse pioneirismo é a semelhança do poema “Ao mesmo desembargador Belchior da Cunha Brocha- do” com o poema “Rosa tumultuada”, de Manuel Ban- deira (poeta do século XX). 1. Erobo: mitologia, nome das trevas infernais, “onde nunca chega o dia”. Entenda-se: já que tanto garbo tanta energia são gentil glória desta terra, que sejam também alegria da terra mais remota (isso é, o Erebo). Poemas escolhidos de Gregório de Matos. Seleção e prefácio de José Miguel Wisnik. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 205. Manuel Bandeira. Estrela da tarde. 3. ed. São Paulo: Global, 2012, p. 139. Foi apelidado de Boca do Inferno, graças à sua poesia satírica, dirigida aos governantes corruptos, a religiosos licenciosos e às hipocrisias da sociedade. Seus mais de 700 poemas de todos os gêneros e estilos poéticos (exceto o épico) permaneceram inéditos até o século XX. Entre os anos de 1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras organizou e publicou seis volumes deles: I. Poesia sacra; II. Poesia lírica; III. Poesia graciosa; IV e V. Poesia satírica; e VI. Últimas.
  • 91.
    91 “Para a tropado trapo vazo a tripa é uma ex- pressão idiomática que se aproxima de não quero mais dar importância a esse bando de miseráveis”. WISNIK, José Miguel. Poemas escolhidos de Gregório de Matos. São Paulo: Cultrix, 1976. No poema a seguir, há uma crítica impiedosa à incompetência, à promiscuidade e à desonestidade. O poema vem precedido da seguinte explicação: “Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na governança da Bahia, principalmente naquela universal fome, que padecia a cidade.” Epílogo Que falta nesta cidade?...Verdade. Que mais por sua desonra?... Honra. Falta mais que se lhe ponha?...Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Nesta cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. [...] E que justiça a resguarda?... Bastarda. É grátis distribuída?...Vendida. Que tem, que a todos assusta?... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa O que El-Rei nos dá de graça, Que anda a justa na praça Bastarda, vendida, injusta. [...] O açúcar já se acabou?... Baixou. E o dinheiro se extinguiu?... Subiu. Logo já convalesceu?... Morreu. À Bahia aconteceu O que a um doente acontece, Cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, subiu, morreu. A câmara não acode?... Não pode. Pois não tem todo o poder?... Não quer. É que o governo a convence?... Não vence. Quem haverá que tal pense, Que uma câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, na vence. DIMAS, Antônio. Gregório de Matos. São Paulo: Abril Educação, 1981. Poesia satírica Não poupa aspecto algum do sistema e do po- der, o que faz dele um poeta maldito. Provoca os políti- cos e ridiculariza os que viviam para bajular e louvar os poderosos, traços que contribuíram para o “abrasileira- mento” do Barroco importado da Europa. Crítico social mordaz, vive em uma sociedade de competição,na qual vence quem for mais esperto ou deso- nesto. Este soneto vem precedido da seguinte explicação: “Contemplando nas coisas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta.” Neste mundo é mais rico o que mais rapa: Quem mais limpo se faz, tem mais carepa Com sua língua, ao nobre o vil decepa: O velhaco maior sempre tem capa. Mostra o patife da nobreza o mapa: Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa: Quem menos falar pode, mais increpa: Quem dinheiro tiver, pode ser Papa. A flor baixa se inculca por tulipa: Bengala hoje na mão, ontem garlopa: Mais isento se mostra o que mais chupa. Para a tropa do Trapo vazo a tripa, E mais não digo, porque a Musa topa Em apa, epa, ipa, opa, upa. Disponível em: http://www.cella.com.br Caricatura de Gregório de Matos ápage: desaprovação, raiva; carepa: caspa, sujeita; vil: reles, ordinário; decepa: destrói; increpa: censura; inculca: finge, insinua; gar- lopa: trabalhador braçal
  • 92.
    92 Poesia lírica: sacrae amorosa A poesia lírica de Gregório de Matos é idealis- ta, às vezes emocional, às vezes conceitual, mas fre- quentemente preocupada em entender contradições, como ensina o professor Antonio Candido. A lírica sacra ressalta o senso do pecado ao lado do desejo do perdão. A Jesus Cristo Nosso Senhor Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque, quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida e já cobrada Glória tal e prazer tão repentinho Vos deu, como afirmais na Sacra História: Eu sou, senhor, a ovelha desgarrada, Cobrai-a; e a não queirais, Pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glória. despido: despeço; delinquido: cometido delito; empenhado: comprometido WISNIK, José Miguel. Poemas escolhidos de Gregório de Matos. São Paulo: Cultrix, 1976. O lirismo amoroso é contraditório, marcado pela ambiguidade da mulher, vista como uma dualidade entre matéria e espírito. No soneto abaixo, dedicado à dona Ângela de Souza Paredes, o eu lírico está diante do dilema: qual a finalidade da beleza, se ela leva à per- dição? Que papel tem o anjo (a mulher admirada), se causa a desventura? Não vira em minha vida a formosura, Ouvia falar dela a cada dia E ouvida, me incitava e me movia A querer ver tão bela arquitetura: Ontem a vi, por minha desventura Na cara, no bom ar, na galhardia De uma mulher, que em Anjo se mentia De um Sol, que se trajava em criatura: Matem-me, disse eu vendo abrasar-me, Se esta a coisa não é, que encarecer-me Sabia o mundo e tanto exagerar-me: Olhos meus, disse então por defender-me, Se a beleza heis de ver para matar-me, Antes olhos cegueis, do que eu perder-me Poesia lírica filosófica A lírica filosófica de Gregório de Matos revela um poeta que, tal qual os clássicos, transmite um forte senso do “desconcerto do mundo”, ocupa-se com a transito- riedade da vida, o escoamento do tempo e a fragilidade do homem. À instabilidade das coisas no mundo Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se é tão formosa a Luz, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza, Na formosura não se dê constância, E na alegria sinta-se tristeza. Começa o mundo enfim pela ignorância, E tem qualquer dos bens por natureza A firmeza somente na inconstância. MATOS, Gregório de. Obra completa. São Paulo: Cultura, 1943. O tema desse soneto detém-se no estado transi- tório da condição humana. A antítese repete-se na ten- tativa de aproximação entre duas ideias naturalmente opostas. Na segunda estrofe, todos os versos interrogam o eu poético, bem como o deixam perplexo diante do mistério do universo. Essa é uma visão de mundo que corresponde à arte barroca: o homem é um ser instável em face da realidade que lhe faz apelos dirigidos aos sentidos, diri- gidos ao espírito.
  • 93.
    93 Filme GREGÓRIO DEMATTOS Em pleno século XVII, surge na Bahia o poeta Gregório de Mattos (Waly Salomão), que com sua obra e vida trágicas anuncia o perfil tenso e dividido do povo brasileiro. Com sua produção literária, o poeta cria situações desconfortáveis aos poderosos da época, que passam a combatê-lo até transformar sua vida em um verdadeiro inferno. ASSISTIR OBRAS Pinturas Engenho com capela. Frans Post, 1667. INTERATIVIDADE
  • 94.
    94 LER Livros O lúdico eas projeções do mundo barroco - Affonso Ávila, Perspectiva, 1971 Numa interpretação totalizadora dos múltiplos aspectos que se conjugam estética e historicamente no fenômeno do Barroco e sobretudo de sua manifestação brasileira, O lúdico e as projeções do mundo barroco, de Affonso Ávila, procura não só especificar o papel do Barroco na formação da singularidade nacional, como iluminar criticamente a nossa faixa na aldeia de McLuhan e, a partir daí, aferir a dimensão da nossa presença na galáxia da modernidade. A sátira e o engenho - Gregório de Matos e a Bahia do século XVII Aborda os poemas satíricos de Gregório de Matos, tratados retóricos da época e documentos históricos, como as delações de pecados e heresias ao Santo Ofício e as atas da Câmara de Salvador. Analisa a sátira de Gregório de Matos a partir da tradição retórica do século XVII, em que a obscenidade e a maledicência estão previstas por regras precisas. Convida o leitor a um fascinante mergulho na poética clássica deAristóteles e Quintiliano e na barroca de Gracián eTesauro. Boca do Inferno - Ana Miranda Salvador, final do século XVII. Nessa cidade de desmandos e devassidão, desenrola-se a trama do Boca do Inferno, recriação de uma época turbulenta centrada na feroz luta pelo poder que opôs o governador Antonio de Souza Menezes, o temível Braço de Prata, à facção liderada por Bernardo Vieira Ravasco, da qual faziam parte o padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Matos.
  • 95.
    95 CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES Habilidade15 - Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica básica a arte literária (contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as relações sociais e políticas nela impressas. Esta relação entre o texto literário e o contexto político requer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso: “política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para re- solução das questões de Literatura. Modelo (Enem) Quando Deus redimiu da tirania Da mão do Faraó endurecido O Povo Hebreu amado, e esclarecido, Páscoa ficou da redenção o dia. Páscoa de flores, dia de alegria Àquele povo foi tão afligido O dia, em que por Deus foi redimido; Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia. Pois mandado pela Alta Majestade Nos remiu de tão triste cativeiro, Nos livrou de tão vil calamidade. Quem pode ser senão um verdadeiro Deus, que veio estirpar desta cidade o Faraó do povo brasileiro. (DAMASCENO, D. Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: 2006) Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por a) visão cética sobre as relações sociais. b) preocupação com a identidade brasileira. c) crítica velada à forma de governo vigente. d) reflexão sobre dogmas do Cristianismo. e) questionamento das práticas pagãs na Bahia.
  • 96.
    96 Análise Expositiva Habilidade 15 Opoema de Gregório de Matos estabelece uma intertextualidade com as Sagradas Escrituras: “Quando Deus redimiu da tirania/Da mão do Faraó endurecido”. Entender as características do escritor é premissa básica para a resolução da questão. Gre- gório de Matos, conhecido como o “Boca do Inferno” utilizava sua literatura como meio de criticar a sociedade de sua época, ainda que o fizesse por meio de metáforas, como ocorre no texto acima: “Deus, que veio estirpar desta cidade/o Faraó do povo brasileiro.” Alternativa C Estrutura Conceitual Gregório de Matos ganhou o apelido de “boca do Inferno” por conta de suas poesias satíricas e sua crítica ao governo baiano. O BOCA DO INFERNO GREGÓRIO DE MATOS GREGÓRIO DE MATOS De família rica, Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia no ano 1633. Estudou no Colégio dos Jesuítas e seguiu para Coimbra, onde se formou em Direito em 1661. O Barroco é também conhecido como Seiscentismo Os poemas de Gregório de Matos podem ser classificados como Lírico - filosóficos, Religiosos e Satíricos. Por conta de sua personalidade satírica e de sua vida boêmia, Gregório foi deportado para Angola. Algum tempo depois voltou ao Brasil com o apoio do governador, mas foi proibido de voltar à Bahia desembarcando em Pernambuco. Morreu obscuramente no Recife no ano 1696 e foi enterrado na capela do hospício de Nossa Senhora da Penha. Pouco tempo depois a capela foi demolida e não existem vestígios de seus restos mortais. 1 2 3 4 5
  • 97.
  • 98.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da iden- tidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali- dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 99.
    99 Padre Antônio Vieirae o convencimento da fé cristã Disponível em: http://estoriasdahistoria12.blogspot.com.br Antônio Vieira (1608-1697) é a principal expressão do Barroco em Portugal. Sua obra pertence tanto à literatura portuguesa quanto à brasileira. Compreende um vasto campo temático que vai da religião à política, passando pela diplomacia num desfile de sua mais interessante capacidade: a de orador e pregador da fé cristã. Português de origem,Vieira tinha sete anos quando veio com a família para o Brasil. Na Bahia, estudou com os jesuítas e espontaneamente ingressou na Companhia de Jesus, iniciando seu noviciado com apenas 15 anos.A maior parte de sua obra foi escrita no Brasil. Desempenhou várias atividades como religioso, conselheiro de Dom João IV, rei de Portugal, e como mediador de Portugal em conflitos econômicos e políticos com outros países. O homem de ação e lábia Embora religioso, Vieira nunca restringiu sua atuação à pregação religiosa. Seus sermões estiveram a serviço das causas políticas que abraçava e defendia, o que o levou a se indispor com muita gente: pequenos comerciantes que escravizavam índios e até com a In- quisição.Atacava os senhores de escravos, bem como cobrava de Lisboa as determinações que tolhiam a li- berdade dos índios; questionava os capitães-mor pela desobediência às determinações religiosas. Isso e mui- to mais foram fatores determinantes para sua expulsão, bem como a de outros jesuítas do Brasil. Valendo-se do púlpito – único meio de propa- gação de ideias às multidões no Nordeste brasileiro do século XVII –, Vieira pregou a índios, brancos, negros, brasileiros, africanos, portugueses, dominadores e do- minados. Suas ideias políticas impregnavam a cateque- se jesuíta em defesa do índio e do domínio português sobre a colônia por ocasião da invasão holandesa. Disponível em: http://www.colegioweb.com.br Pregação de Vieira
  • 100.
    100 © Divulgação Medalha do PadreAntônio Vieira, esculpida por Dorita Castelo Branco. Embora Vieira defendesse os índios da escravi- dão, seus sermões eram reticentes em relação à escravi- zação dos negros. Limitavam-se a descrever a situação a que eram submetidos os negros e a apontar a perspecti- va de uma pós-morte que compensasse os sofrimentos em vida. “A realidade na qual Vieira procura interferir não é diretamente a exterior, mas a interior, tentando mudar as convicções tanto dos negros como dos bran- cos. Por isso, nestes sermões ele se dirige aos dois, ora a um, ora a outro, sabendo que o ouvem continuamente” comenta o historiador Luiz Roncari (Literatura brasileira – dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp/FDE, 1995. p. 167). Observe tal postura neste fragmento do “Ser- mão Vigésimo Sétimo”. Disponível em: http://www.spelltraducoes.com.br “Umas religiões são de descalços, outras de calçados; a vossa é de descalços e despidos.O vosso hábito é da mesma cor; porque não vos vestem as peles das ovelhas e camelos, como a Elias, mas aquelas com que vos cobriu ou descobriu a natureza, expostos aos calores do sol e frios das chuvas.A vossa pobreza é mais pobre que a dos menores, e a vossa obediência mais sujei- ta dos que nós chamamos mínimos.As vossas abstinências mais merecem nome de fome, que de jejum, e as vossas vigílias não são de uma hora à meia-noite, mas de toda a noite sem meio.A vossa regra é uma ou muitas, porque é a vontade e vontades de vosso senhores. Vós estais obrigados a eles, porque não podeis deixar o seu cativeiro, e eles não estão obrigados a vós, porque vos podem vender a outro, quando quiserem. Em uma só reli- gião se acha este contrato, para que também a vossa seja nisto singular. Nos nomes do vosso tratamento não falo, porque não são de reverência nem de caridade, mas de desprezo e afronta. Enfim, toda a religião tem fim e vocação, graça particular.A gra- ça da vossa são açoutes e castigos” [...]. Padre visionário Vieira também foi sonhador e profeta, chegou a escrever três obras nesse sentido: História do futuro, Esperança de Portugal e Clavis Prophetarum. Baseado em textos bíblicos e nos textos proféticos do poeta português Bandarra,ele acreditava na ressurrei- ção do rei Dom João IV, seu protetor, morto em 1656. Es- sas ideias constam em Esperança de Portugal. Em razão delas, entre 1665 e 1667, foi processado e preso pela In- quisição e teve cassado seu direito à palavra em Portugal. Disponível em: http://redememoria.bn.br Vieira na redução das tribos de Marajó, 1657. Theodoro Braga (1917). Constam desse processo também acusações de envolvimento com cristãos-novos – judeus convertidos ao cristianismo por medo de perseguição. Em vez de
  • 101.
    101 atacar os judeus,como se fazia nos países católicos pressionados pela Inquisição, Vieira defendia a perma- nência e a entrada deles em Portugal como forma de estimular o comércio naquele país. Paralelamente, pre- vendo um “Terceiro Estado” da Igreja, tinha interesse em fazer um acordo teológico secreto com os judeus. © Divulgação Caricatura de Vieira O orador As qualidades de Vieira como orador são incom- paráveis. Dotado de boa formação jesuítica à estética barroca em voga, pronunciou sermões que se tornaram ao mesmo tempo a expressão máxima do Barroco em prosa sacra e uma das principais expressões ideológicas e literárias da Contrarreforma. Pregou no Brasil, em Por- tugal e na Itália, sempre com grande repercussão. Entre sua vasta produção de mais de duzentos sermões e quinhentas cartas, destacam-se: § § Sermão da sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, cujo tema é a arte de pregar. § § Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, proferido na Bahia, em 1640, posiciona-se contra à invasão holandesa. § § Sermão de Santo Antônio (aos peixes), pro- ferido no Maranhão, em 1654, ataca a es- cravização de índios. § § Sermão do mandato, proferido na Capela Real de Lisboa,em1645,desenvolveotemadoamormístico. Disponível em: http://www.bahia-turismo.com Púlpito da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador (BA), de onde Vieira pregou. Sermão da sexagésima Metalinguagem Proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, é também conhecido como Sermão da Palavra de Deus. A arte de pregar é seu tema. Com o objetivo de analisar “por que não frutifica a Palavra de Deus na Terra?”, propõe-se a demonstrar que os verdadeiros culpados são os pregadores que usam da palavra apenas com um objetivo ornamental, sem desenvolver eficazmente uma argumentação capaz de frutificar nos ouvintes. “Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?”. Excluindo a culpa de Deus e inocentando os ou- vintes, a culpa recai nos pregadores, conforme se perce- be no desenrolar da argumentação: “Primeiramente, por parte de Deus, não falta e nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definidas no Concílio Tridentino e no nosso Evangelho a temos.” [...] “Os pregadores deitam a culpa nos ouvintes, mas não é assim. Se for por parte dos ouvintes, não fizera a Palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo.” [...] “Sabeis,cristãos,por que não faz fruto a Palavra de
  • 102.
    102 Deus? Por culpados pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a Palavra de Deus? Por culpa nossa.” Leia com atenção alguns trechos do “Sermão da sexagésima”. Trecho I Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um es- tilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também esta. O estilo há de ser muito natural. Por isso, Cristo comparou o pregar ao semear: [...] Compara Cristo o pregar ao semear, porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte. Nas outras artes tudo é arte: na música tudo se faz por compasso, na arquitetura tudo se faz por regra, na arit- mética tudo se faz por conta, na geometria tudo se faz por medida. O semear não é assim. É uma arte sem arte; caia onde cair. Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho. ‘Caía o trigo nos espinhos e nascia’ [...] ‘Caía o trigo nas pedras e nascia’ [...] ‘Caía o trigo na terra boa e nasci’. Ia o trigo caindo e ia nascendo. Trecho II [...] o pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrinha ou azuleja. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, de outra há de estar negro; se de uma parte está dia, de outra há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? [...] Trecho III Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. Quereis ver tudo isto com os olhos? Ora vede.Uma árvore tem raízes,tem tron- co, tem ramos, tem folhas, tem varas, tem flores, tem frutos. Assim há de ser o sermão: há de ter raízes fortes e sólidas, porque há de ser fundado no Evangelho; há de ter um tronco, porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria;deste tronco hão de nascer diversos ramos, que soa diversos discur- sos, mas nascidos da mesma matéria e continuados nela; es- tes ramos hão de ser secos, senão cobertos de folhas, porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras. [...] Trecho IV Mas dir-me-eis: padre, os pregadores de hoje não pre- gam do Evangelho,não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? – esse é o mal.Pregam palavras de Deus, mas não pregam a Palavra de Deus. O Sermão da sexagésima é a peça maior da ora- tória do padre Vieira, mas outros também se destacaram. Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda OSermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda foi proferido na Bahia, na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em 1640. O orador chama o povo ao combate contra os holandeses, desenhando a figura dos flamengos, protestantes, como hereges. A Bahia estava para cair sob o jugo dos holandeses. Disponível em: http://www.bahia-turismo.com Interior da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Salvador (BA), onde o padre Vieira proferiu o sermão contra os holandeses.
  • 103.
    103 Trecho I (...) Pequei,quemaisVos posso fazer? E que fizestes vós, Job,a Deus em pecar? Não Lhe fiz pouco;porque Lhe dei oca- sião a me perdoar, e perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-Lhe-ei a Ele, como a causa, a graça que me fizer; e Ele dever-me-á a mim, como a ocasião, a glória que alcançar. (...). Em castigar,vencei-nos a nós,que somos criaturas fracas;mas em perdoar, vencei-Vos aVós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de Vós, porque só vossa jus- tiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Trecho II Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens,mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes:a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. Sermão de Santo Antônio (aos peixes) Sermão de Santo Antônio, também chamado de Sermão aos peixes, foi pregado em São Luís do Maranhão, em 1654, e refere-se a colonos que aprisio- navam indígenas. Três dias antes do embarque escondido para Lis- boa, na festa de Santo Antônio – 13 de junho de 1654 –, em São Luís do Maranhão,Vieira causou surpresa: em vez de tematizar os milagres de SantoAntônio, detona a situação que estava vivendo, a pressão contra sua pes- soa e alerta aos ouvintes que se não quisessem ouvi-lo que fossem como Santo Antônio, pregaria aos peixes, que estavam ali a poucos passos. Os vícios e as virtudes dos homens são elencados na busca por uma legislação mais justa aos índios. O sermão exalta as qualidades dos peixes, como a obediência, e critica a soberba e o oportunismo. O principal defeito que ele aponta é a intensidade e a voracidade, uma vez que os peixes devoram uns aos outros, especialmente os maiores, que devoram os me- nores.Vieira exalta os peixes que, por sua natureza, não podem ser sacrificados vivos a Deus e sacrificam-se en- tão, em respeito e reverência. Trecho I Vos estis sal terrae. Haveis de saber,irmãos peixes,que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam:conservar o são e preservá- lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores.Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: ’Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão tam- bém que imitar e louvar.’ Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pesca- dores ‘recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus’: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E des- ta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos. Trecho II Este é, peixes, em comum o natural que em todos vós louvo, e a felicidade de que vos dou o parabém, não sem inveja. Descendo ao particular, infinita matéria fora se houvera de discorrer pelas virtudes de que o Autor da natureza a dotou e fez admirável em cada um de vós. De alguns somente farei menção. E o que tem o primeiro lu- gar entre todos, como tão celebrado na Escritura, é aquele santo peixe deTobias a quem o texto sagrado não dá outro nome que de grande, como verdadeiramente o foi nas vir- tudes interiores, em que só consiste a verdadeira grandeza. Ia Tobias caminhando com o anjo S. Rafael, que o acom- panhava, e descendo a lavar os pés do pó do caminho nas margens de um rio, eis que o investe um grande peixe com a boca aberta em ação de que o queria tragar. Gritou Tobi- as assombrado, mas o anjo lhe disse que pegasse no peixe pela barbatana e o arrastasse para terra; que o abrisse e lhe tirasse as entranhas e as guardasse, porque lhe haviam de servir muito. Fê-lo assim Tobias, e perguntando que vir- tude tinham as entranhas daquele peixe que lhe mandara guardar, respondeu o anjo que o fel era bom para sarar da cegueira e o coração para lançar fora os demônios:
  • 104.
    104 Cordis eius particulam,si super carbones ponas, fumus eius extricat omne genus daemoniorum: et fel valet ad ungen- dos oculos,in quibus fuerit albugo,et sanabuntur.Assim o disse o anjo, e assim o mostrou logo a experiência, porque, sendo o pai deTobias cego,aplicando-lhe o filho aos olhos um pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista; e tendo um demônio, chamado Asmodeu, morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu dali o Demônio e nunca mais tornou.De sorte que o fel daquele peixe tirou a cegueira a Tobias, o velho, e lançou os demônios decasaaTobias,omoço.Umpeixedetãobomcoraçãoedetão proveitoso fel, quem o não louvará mais? Certo que se a este peixe o vestiram de burel e o ataram com uma corda, parecia um retrato marítimo de SantoAntónio. Trecho III Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade! Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que tomá-lo indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio. Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras; eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória; eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento; eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade.Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a ele, e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não haveis de ver a Deus,e podereis aparecer diante dele muito confiadamente,porque o não ofendestes;eu espe- ro que o hei de ver; mas com que rosto hei de aparecer dian- te do seu divino acatamento, se não cesso de o ofender? Ah que quase estou por dizer que me fora melhor ser como vós, pois de um homaem que tinha as mesmas obrigações, disse a Suma Verdade, que ‘melhor lhe fora não nascer homem‘: Si natus non fuisset homo ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso. © Wikimedia Commons
  • 105.
    105 Filme Filme Sermões - ahistória de Antônio Vieira Palavra e Utopia História do padre Antônio Vieira, nascido em Portugal, em 1608, e que morreu em Salvador, Bahia, em 1697. Considerado um dos maiores escritores portugueses, mestre na retórica, ele foi perseguido e executado pela Inquisição por sua posição contra a escravidão e o colonialismo, assim como por sua simpatia aos judeus. Em 1663,o padreAntônioVieira é chamado a Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da corte e uma desgraça passageira enfraquecem a sua posição de célebre pregador jesuíta e amigo íntimo do falecido rei D. João VI. INTERATIVIDADE ASSISTIR
  • 106.
    106 Livros Livros Padre Antônio Vieira- 400 Anos Depois - Lelia Parreira Duarte e Maria Thereza Abelha Alves Neste volume, estão reunidas reflexões de especialistas na obra de padre Antônio Vieira, orador sacro do Barroco português/brasileiro, às quais se juntam estudos de mestrandos e doutorandos, apresentados em evento comemorativo realizado pelo Centro de Estudos Luso-afro-brasileiros da PUC-Minas. Padre Antônio Vieira – O tempo e seus hemisférios Entre 13 de março e 18 de outubro de 2008, o Instituto de Estudos Portugueses (IdEP) (agora Grupo de Investigação Interdisciplinar de Estudos Portugueses, do Centro de História da Cultura) organizou um conjunto de atividades que decorreram na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, para comemorar o IV Centenário do Nascimento do Padre Antônio Vieira. Gravura Padre Antônio Vieira Em obra do século XVIII, o padre Antônio Vieira aparece sendo expulso por revoltosos no Maranhão. (Fundação Biblioteca Nacional) OBRAS LER
  • 107.
    107 CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES Habilidade15 - Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. Esta habilidade demanda que o estudante saiba lidar com o primeiro aspecto da tríade analítica básica: a arte literária (contexto / autor / obra). Conhecer o contexto, ou seja, a história e as rela- ções sociais e políticas nela impressas. Esta relação entre o texto literário e o contexto político re- quer que o estudante abandone aquele senso comum do discurso:“política não se discute”, pois no Enem não só se discute, como serve de base para resolução das questões de Literatura. Modelo (Enem) Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello Irmão, 1951 (adaptado). O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e a) a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros. b) a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana. c) o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios. d) o papel dos senhores na administração dos engenhos. e) o trabalho dos escravos na produção de açúcar.
  • 108.
    108 Análise Expositiva Habilidade 15 Oconsagrado sermão apresentado por Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre o sofrimento de cristo crucificados e as condições de maus tratos sofridos pelos escravos nos engenhos de açúcar. Este pressuposto embasa a habilidade 15 cobrada pelo Enem que deseja que o estudante entenda sua denúncia para com o martírio vivido pelos cativos na sociedade colonial. Um trecho do texto que confirma esta proposição é: “Em um engenho sois imita- dores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão”. Alternativa E Estrutura Conceitual O padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608. Veio para o Brasil com sua família humilde, desembarcando na Bahia com seis anos de idade. Seu pai foi nomeado escrivão dos Agravos e Apelações da Relação da Bahia. Fez seus primeiros estudos com sua mãe, e depois no Colégio dos Jesuítas. 1 Vieira fez seu primeiro sermão em Portugal no dia 1º de janeiro de 1642. 2 “Os homens são como os olhos: vendo tudo não se veem a si próprios”. Padre Antônio Vieira 3 PADRE ANTÔNIO VIEIRA PADRE ANTÔNIO VIEIRA
  • 109.
    © Wikimedia Commons © © Wiki k e medi d a Co Comm m on ons s Arcadismo no Brasile nativismo épico Competência 5 Habilidades 15, 16 e 17 LENTRELETRAS C 0 5
  • 110.
    Competência 1 –Aplicar as tecnologias da comunicação e da informação na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida. H1 Identificar as diferentes linguagens e seus recursos expressivos como elementos de caracterização dos sistemas de comunicação. H2 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação e informação para resolver problemas sociais. H3 Relacionar informações geradas nos sistemas de comunicação e informação, considerando a função social desses sistemas. H4 Reconhecer posições críticas aos usos sociais que são feitos das linguagens e dos sistemas de comunicação e informação. Competência 2 – Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) (LEM) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais. H5 Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema. H6 Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas. H7 Relacionar um texto em LEM, as estruturas linguísticas, sua função e seu uso social. H8 Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística. Competência 3 – Compreender e usar a linguagem corporal como relevante para a própria vida, integradora social e formadora da iden- tidade. H9 Reconhecer as manifestações corporais de movimento como originárias de necessidades cotidianas de um grupo social. H10 Reconhecer a necessidade de transformação de hábitos corporais em função das necessidades cinestésicas. H11 Reconhecer a linguagem corporal como meio de interação social, considerando os limites de desempenho e as alternativas de adaptação para diferentes indivíduos. Competência 4 – Compreender a arte como saber cultural e estético gerador de significação e integrador da organização do mundo e da própria identidade. H12 Reconhecer diferentes funções da arte, do trabalho da produção dos artistas em seus meios culturais. H13 Analisar as diversas produções artísticas como meio de explicar diferentes culturas, padrões de beleza e preconceitos. H14 Reconhecer o valor da diversidade artística e das inter-relações de elementos que se apresentam nas manifestações de vários grupos sociais e étnicos. Competência 5 – Analisar, interpretar e aplicar recursos expressivos das linguagens, relacionando textos com seus contextos, mediante a natureza, função, organização, estrutura das manifestações, de acordo com as condições de produção e recepção. H15 Estabelecer relações entre o texto literário e o momento de sua produção, situando aspectos do contexto histórico, social e político. H16 Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário. H17 Reconhecer a presença de valores sociais e humanos atualizáveis e permanentes no patrimônio literário nacional. Competência 6 – Compreender e usar os sistemas simbólicos das diferentes linguagens como meios de organização cognitiva da reali- dade pela constituição de significados, expressão, comunicação e informação. H18 Identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros e tipos. H19 Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução. H20 Reconhecer a importância do patrimônio linguístico para a preservação da memória e da identidade nacional Competência 7 – Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas. H21 Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não-verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. H22 Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. H23 Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. H24 Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. Competência 8 – Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna, geradora de significação e integradora da organização do mundo e da própria identidade. H25 Identificar, em textos de diferentes gêneros, as marcas linguísticas que singularizam as variedades linguísticas sociais, regionais e de registro. H26 Relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social. H27 Reconhecer os usos da norma padrão da língua portuguesa nas diferentes situações de comunicação. Competência 9 – Entender os princípios, a natureza, a função e o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na sua vida pessoal e social, no desenvolvimento do conhecimento, associando-o aos conhecimentos científicos, às linguagens que lhes dão suporte, às demais tecnologias, aos processos de produção e aos problemas que se propõem solucionar. H28 Reconhecer a função e o impacto social das diferentes tecnologias da comunicação e informação. H29 Identificar pela análise de suas linguagens, as tecnologias da comunicação e informação. H30 Relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem
  • 111.
    111 Minas Gerais eo ciclo do ouro O Arcadismo brasileiro teve origem e expressão principalmente em Vila Rica (hoje Ouro Preto), em Minas Gerais, cuja manifestação se relaciona diretamente com o grande crescimento urbano no século XVIII nas cidades mineiras e a expansão econômica graças à extração de ouro. Em cidades maiores, cresciam a divulgação de ideias políticas e o florescimento da literatura. Jovens brasilei- ros das camadas mais privilegiadas da sociedade costumavam ser mandados a Coimbra, em Portugal, para estudar. Aqui, na Colônia, não havia cursos superiores. Ao retornarem de Portugal, traziam ideias que faziam fermentar a vida cultural portuguesa à época das inovações políticas e culturais do ministro marquês de Pombal, adepto de algumas ideias iluministas. Em Vila Rica, essas ideias levaram vários intelectuais e escritores a sonhar com a independência do Brasil, principalmente após a repercussão do movimento de independência dos Estados Unidos das América (1776), so- nhos esses que culminaram na frustrada Inconfidência Mineira (1789). Arcadismo na Colônia: entre o local e o universal Os escritores brasileiros do século XVIII tinham uma postura bastante peculiar em relação aoArcadismo importado de Portugal. Por um lado, procuravam obede- cer aos princípios estabelecidos pelas academias literá- rias portuguesas, bem como se inspiravam em escritores clássicos consagrados, como Camões, Petrarca e Horá- cio. Paralelamente, com vistas a elevarem a literatura da Colônia ao mesmo grau das literaturas europeias e a conferir a ela mais universalidade, tentavam eliminar vestígios pessoais ou locais. Por fim, acabaram por apresentar em suas obras aspectos diferentes dos prescritos pelo modelo impor- tado. A natureza, por exemplo, aparece na poesia de Cláudio Manuel da Costa como mais bruta e selvagem do que na poesia europeia; o mito do “homem natural” culminou, entre nós, na figura do índio, personagem
  • 112.
    112 das obras deBasílio da Gama e Santa Rita Durão; a expressão dos sentimentos, emTomásAntônio Gonzaga e Silva Alvarenga, é mais espontânea e menos conven- cional. Esses aspectos característicos da poesia árcade nacional foram mais tarde recuperados e aprofundados pelo Romantismo, movimento que buscou definir uma identidade nacional à nossa literatura. Além dessa espécie de adaptação do modelo eu- ropeu a das peculiaridades locais, não se pode esquecer da forte influência barroca exercida no Brasil ainda du- rante o século XVIII. As igrejas de Ouro Preto de então só tiveram sua construção concluída quando o Arcadis- mo já vigorava na literatura. Entre os autores árcades brasileiros, destacam-se: § § líricos: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antô- nio Gonzaga e Silva Alvarenga. § § épicos: Basílio da Gama, Santa Rita Durão e Cláudio Manuel da Costa. § § satíricos: Tomás Antônio Gonzaga. § § encomiásticos: Silva Alvarenga e Alvarenga Peixoto. A poesia laudatória ou encomiástica, gênero poéti- co de exaltação,foi muito praticada no século XVIII e serviu de veículo para ideias políticas relacionadas ao Iluminismo. A primeira obra árcade publicada no Brasil foi Obras poéticas, de Cláudio Manuel da Costa, em 1768. Peculiaridades do Arcadismo brasileiro § § Apego aos valores da terra. Esse apego era oferecido pela localização geográfica do “grupo mineiro”, em quem brotou um nativismo que se incorporou ao ideário da estética bucólica,em voga noArcadismo. Emergido da natureza brasileira, ser- viu de pano de fundo para a poesia dos“pastores”. § § Sátira à corrupção. Em Cartas chilenas, Tomás Antonio Gonzaga fez circular a sátira política em manuscritos anônimos, criticando a exploração portuguesa e a corrupção dos governos coloniais, o que revela significativa consciência política doAr- cadismo brasileiro graças à consciência política do “grupo mineiro”. § § Incorporação do indígena. Os poemas épi- cos,O Uraguai,de Basílio da Gama,narram a luta contra indígenas e jesuítas e são protagonizados por portugueses e espanhóis, e o Caramuru, de Santa Rita Durão, narra as aventuras do portu- guês Diogo Álvares Correia, que aprisionado pelo tupinambás na costa brasileira, viveu entre os selvagens e casou-se com uma indígena. Os árcades e a Inconfidência Os escritores árcades mineiros Tomás Antonio Gonzaga,Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa participaram diretamente do movimento da Inconfidên- cia Mineira. Chegados de Coimbra com ideias enciclo- pedistas e influenciados pela independência dos EUA, eles não apenas se somaram aos revoltosos contra a exploração pelo erário régio, que confiscava a maior parte do ouro extraído da Colônia, mas também ajuda- ram a divulgar os sonhos de um Brasil independente e contribuíram para a organização do grupo inconfidente. Desse grupo, apenas um homem não tinha a mesma formação intelectual dos demais nem era escri- tor, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, oTiradentes – alcunha que recebeu por ser dentista prático –, maçom e simpatizante dos ideais iluministas. Traídos por Joaquim Silvério dos Reis, que devia vul- tosas somas ao governo português, os inconfidentes foram presos.ÀexceçãodeTiradentes,todosnegaramterparticipa- ção do movimento. Segundo versão oficial, Cláudio Manuel da Costa teria se suicidado na prisão antes do julgamento.
  • 113.
    113 Tiradentes, que assumiupara si a responsabilidade da liderança do grupo, e Alvarenga Peixoto foram conde- nados à morte por enforcamento.TomásAntônio Gonzaga e outros, condenados ao exílio temporário ou perpétuo. No dia 20 de abril de 1792, foi comutada a pena de todos os participantes do movimento, menos a de Tiradentes, enforcado no dia seguinte. Seu corpo foi es- quartejado e as partes expostas por Vila Rica. Os bens foram confiscados, a família, amaldiçoada por quatro gerações e o chão de sua casa foi salgado para que nele nenhuma planta voltasse a nascer. Cláudio Manuel da Costa: a consciência árcade O pai do Arcadismo brasileiro Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), também conhecido pelo pseudônimo de Glauceste Satúrnio, nas- ceu em Mariana, Minas Gerais. Depois de estudar no Brasil com os jesuítas, completou os estudos em Coim- bra, onde se formou advogado. Tomou contato com as renovações da cultura portuguesa empreendidas por Pombal e Verney, bem como com os novos procedimen- tos literários adotados pela Arcádia Lusitana. De volta ao Brasil, o jovem trabalhou em Vila Rica como advogado e administrador. Sua carreira de escritor teve início com a publicação de Obras poéticas. Em 1789, foi acusado de envolvimento na Inconfidência Mineira e preso. Pouco tempo depois, foi encontrado morto na pri- são.A alegação oficial para sua morte foi a de suicídio. Com ampla formação cultural, Cláudio liderou o grupo de escritores árcades mineiros e soube dar con- tinuidade, apesar das limitações da Colônia, à tradição de poetas clássicos. Seus sonetos apresentam notável afinidade com a lírica de Camões. Em virtude dessas ligações com a tradição clássica, sua obra é a que melhor se ajustou aos padrões do Arca- dismo europeu. Há nela também influências do Barroco: Já rompe, Nise, a matutina aurora O negro manto, com que a noite escura, Sufocando do Sol a face pura, Tinha escondido a chama brilhadora. O poema apresenta inversões na ordem dos ter- mos da frase (Nise, a matutina aurora, já rompe o negro manto com que a noite escura tinha escondido a chama brilhadora, sufocando a face pura do Sol) e figuração (“negro manto”, para noite, e “chama brilhadora”, para Sol) tipicamente barrocas. Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio (pseudônimo) Destes penhascos fez a natureza O berço, em que nasci: oh quem cuidara. Que entre penhas tão duras se criara Uma alma terna, um peito sem dureza. Quando cheios de gostos, e de alegria Estes campos diviso florescentes, Então me vêm as lágrimas ardentes Com mais ânsia, mais dor, mais agonia. Aquele mesmo objeto, que desvia Do humano peito as mágoas inclementes, Esse mesmo em imagens diferentes Toda a minha tristeza desafia. Se das flores a bela contextura Esmalta o campo na melhor fragrância, Para dar uma ideia de ventura; Como, ó Céus, para os ver terei constância, Se cada flor me lembra a formosura a bela causadora de minha ânsia? RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Org.). Poema de Cláudio Manuel da Costa. São Paulo: Cultrix, 1976, p. 72. constância: firmeza, ânimo contextura: ligação, firmeza divisar: avistar inclementes: severas, rigorosas ventura: sorte, felicidade
  • 114.
    114 O autor cultivoua poesia lírica e épica. Na lírica, des- taca-se o tema da desilusão amorosa.A situação mais comum observada em seus sonetos é a de Glauceste,o eu lírico pastor, que se lamenta em razão de não ser correspondido por sua musa inspiradora,Nise,ou de encontrar-se num lugar de gran- de beleza natural sem a companhia da mulher amada. Nise é uma personagem fictícia incorpórea, pre- sente apenas pela citação nominal. Não se manifesta na relação amorosa, não há nenhuma demonstração de correspondência às invocações do eu lírico.Apenas repre- senta o ideal da mulher amada inalcançável – nítido tra- ço de reaproveitamento do neoplatonismo renascentista. Na poesia épica, o poema Vila Rica é inspirado nas epopeias clássicas, que trata da penetração ban- deirante, da descoberta das minas, da fundação de Vila Rica e das revoltas locais. Hoje, no conjunto da obra do autor sobrepõe-se a lírica: Enfim serás cantada,Vila Rica, Teu nome alegre notícia,e já clamava; Viva o senado! viva! repetia Itamonte, que ao longe o eco ouvia. A poesia de Cláudio Manuel da Costa também contempla elementos da paisagem local: o ribeirão do Carmo, rio que corta a região; os vaqueiros, em lugar de pastores gregos; as montanhas e os vales; e as constan- tes referências às penhas, pedras que sugerem o am- biente agreste e rústico de Minas Gerais. Ouro Preto, de Guignard. Tomás Antônio Gonzaga: a renovação árcade Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) é o mais popular dos poetas árcades mineiros, e sua obra ainda hoje é lida com interesse. Nascido no Porto, em Portugal, veio ainda menino com a família para a Bahia, onde vi- veu e estudou até a juventude. Posteriormente, fez o cur- so de Direito, em Coimbra, e, como Cláudio Manuel da Costa, lá estabeleceu contato com as ideias iluministas e árcades. Escreve uma obra filosófica em homenagem ao marquês de Pombal: Tratado de Direito Natural. De volta ao Brasil, passou a viver em Vila Rica, onde exerceu a função de ouvidor. Iniciou ali sua ativi- dade literária e sua relação amorosa com Maria Doro- teia de Seixas, uma jovem então com 16 anos, cantada em seus versos com o pseudônimo de Marília. Em 1789, acusado de participar da Inconfidência, Gonzaga foi preso e mandado ao Rio de Janeiro,onde ficou encarcerado até 1792, quando foi exilado para Moçambi- que. Apesar dos sofrimentos passados na prisão, Gonzaga levou naÁfrica uma vida relativamente tranquila. Lá, casou- -se,enriqueceu e ainda se envolveu com a política local. A arte e a vida Comparada a dos demais poetas árcades brasi- leiros, a poesia de Tomás Antônio Gonzaga apresenta inovações que apontam para uma transição doArcadis- mo para o Romantismo. Incorporando muito de sua experiência pessoal à poesia, escrita antes e durante a prisão, Gonzaga con- seguiu quebrar a rigidez dos princípios árcades. Em con- traposição à contenção dos sentimentos, sua poesia é mais emotiva e espontânea. Em vez de apresentar uma
  • 115.
    115 mulher irreal, comoa Nise, de Cláudio Manuel da Costa, sua Marília se mostra mais humana, próxima e real: Na sua face mimosa, Marília, estão misturadas Purpúreas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim. Dos rubis mais preciosos Os seus beiços são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim. Os temas árcades do distanciamento da mulher amada e do sofrimento dele decorrente não são, em Gonzaga, meros temas clássicos convencionais, mas assumem feição de pura verdade, poemas escritos en- quanto o poeta se encontrava preso: Estou no inferno, estou, Marília bela; e numa coisa só é mais humana a minha dura estrela; uns não podem mover do inferno os passos; eu pretendo voar e voar cedo à glória dos teus braços. Essas experiências dão à obra de Gonzaga mais subjetividade, espontaneidade e emotividade – traços apro- fundados pelo Romantismo. Suas obras reúnem Marília de Dirceu (poesia lírica) e Cartas chilenas (poesia satírica). Fonte de suspiros, Ouro Preto, MG A poesia lírica: Marília de Dirceu A poesia lírica é a parte mais conhecida da produ- ção literária deTomásAntônio Gonzaga. São popularmen- te conhecidos, principalmente na região de Minas Gerais, e até explorados pela literatura de cordel os amores entre Marília e Dirceu (pseudônimo pastoral de Gonzaga). Lira 77 Eu, Marília, não fui nenhum vaqueiro fui honrado pastor da tua aldeia; vestia finas lãs e tinha sempre a minha choça do preciso cheia. Tiraram-me o casal e o manso gado, nem tenho a que me encoste um só cajado. Para ter que te dar, é que eu queria de mor rebanho ainda ser o dono; prezava o teu semblante, os teus cabelos ainda muito mais que um grande trono. Agora que te oferte já não vejo, além de um puro amor, de um são desejo. Se o rio levantado me causava, Levando a sementeira, prejuízo, Eu alegre ficava, apenas via Na tua breve boca um ar de riso. Tudo agora perdi; nem tenho o gosto de ver-te ao menos compassivo o rosto. Ah! Minha bela, se a fortuna volta. Se o bem, que já perdi, alcanço e provo Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer um homem novo, Romper a nuvem que os meus olhos cerra, Amar no céu a Jove e a ti na terra! Se não tivermos lãs e peles finas, podem mui bem cobrir as carnes nossas
  • 116.
    116 as peles doscordeiros mal curtidas, e os panos feitos com lãs mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido Por mãos de amor, por minhas mãos cosido. Nas noites de serão nos sentaremos cos filhos, se os tivermos, à fogueira: entre as falsas historias, que contares, lhes contarás a minha, verdadeira. Pasmados te ouvirão; eu, entretanto, ainda o rosto banharei de pranto. A poesia satírica: Cartas chilenas O poema satírico, incompleto, Cartas chilenas, circulou em partes pela cidade de Vila Rica, entre 1787- 1788.Depois da Inconfidência Mineira,essas cartas desa- pareceram,o que fez supor que seus autores ou seu autor fosse um dos poetas árcades presos, Cláudio Manuel da Costa,TomásAntônio Gonzaga ouAlvarenga Peixoto. Es- tudos estilísticos do português Rodrigues Lapa atribuem a autoria delas a Tomás Antônio Gonzaga. A omissão da autoria nas Cartas chilenas decorre do risco resultante de seu conteúdo.Elas satirizavam os des- mandosadministrativosemoraisdeLuizdaCunhaMeneses, que governou a capitania de Minas entre 1783 e 1788. A obra é um jogo de disfarces. Fanfarrão Minésio é o pseudônimo do governo; chilenas equivale a minei- ras; Santiago, de onde são assinadas, equivale a Vila Rica. O autor das cartas é identificado como Critilo, e seu destinatário, Doroteu. As Cartas chilenas são a principal expressão sa- tírica da literatura colonial do século XVIII. Trilhando os caminhos abertos por Gregório de Matos, Gonzaga dá continuidade à irregular tradição satírica de nossa lite- ratura, ao mesmo tempo que oferece à historiografia um rico painel social e político daqueles dois anos que precederam a Inconfidência Mineira. Embora a crítica do poema tenha como alvo apenas o governador e seus assessores, não o colonialismo portu- guês propriamente, fica clara a fragilidade da estrutura po- lítica colonial e os abusos de poder praticados pela Coroa. Apesar da suposição de que o poema tenha sido escrito para ser distribuído em Vila Rica em forma de panfleto, sua qualidade apresenta certa regularidade. Ra- ramente cai no panfletário. O poema mantém certa atu- alidade, acostumados que estamos a muitos fanfarrões. O texto a seguir, de Tomás Antônio Gonzaga, é constituído por fragmentos da “Carta 2a ”, na qual Cri- tilo narra a seu amigo Doroteu o comportamento de Fanfarrão Minésio na cidade de Santiago. Não cuides, Doroteu, que brandas penas me formam o colchão macio e fofo; não cuides que é de paina a minha fronha e que tenho lençóis de fina holanda, com largas rendas sobre os crespos folhos; custosos pavilhões, dourados leitos e colchas matizadas não se encontram na casa mal provida de um poeta, aonde há dias o rapaz que serve nem na suja cozinha acende o fogo. Mas nesta mesma cama tosca e dura, descanso mais contente do que dorme aquele só põe o seu cuidado em deixar a seus filhos o tesouro que ajunta, Doroteu, com mão avara, furtando ao rico e não pagando ao pobre. Aqui... mas onde vou, prezado amigo? Deixemos episódios que não servem, e vamos prosseguindo a nossa história. Apenas, Doroteu, o nosso chefe as rédeas manejou do seu governo, fingir nos intentou que tinha uma alma amante da virtude.Assim foi Nero. Governou aos romanos pelas regras da formosa justiça, porém logo trocou o cetro de ouro em mão de ferro. Manda, pois, aos ministros lhe deem listas de quantos presos as cadeias guardam: faz a muitos soltar e aos mais alenta de vivas, bem fundadas esperanças. Estranha ao subalterno, que se arroga o poder castigar ao delinquente com troncos e galés, enfim, ordena que aos presos, que em três dias não tiveram assentos declarados, se abram logo em nome dele, chefe, os seus assentos. Aquele, Doroteu, que não é santo, mas quer fingir-se santo aos outros homens, pratica muito mais do que pratica quem segue os sãos caminhos da verdade. Mal se põe nas igrejas, de joelhos, abre os braços em cruz, a terra beija, entorta o seu pescoço, fecha os olhos,
  • 117.
    117 faz que chora,suspira, fere o peito e executa outras muitas macaquices, estanho em parte onde o mundo as veja. Assim o nosso chefe, que procura mostra-se compassivo, não descansa com estas poucas obras: passa a dar-nos da sua compaixão maiores provas. O povo, Doroteu, é como as moscas que correm ao lugar, aonde sentem o derramado mel; é semelhante aos corvos e aos abutres, que se ajuntam nos ermos, onde fede a carne podre. À vista, pois, dos fatos, que executa o nosso grande chefe, decisivos da piedade que finge, a louca gente de toda a parte corre a ver se encontra algum pequeno alívio à sombra dele. (In: Tomás Antônio Gonzaga. São Paulo: Abril Educação, 1980. p. 66-70. Literatura Comentada. Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, MG Basílio da Gama e o nativismo indianista Basílio da Gama (1741-1795) nasceu na cida- de que hoje é chamada Tiradentes, em Minas Gerais. Estudou em colégio jesuíta, no Rio de Janeiro, e tinha intenção de ingressar na carreira eclesiástica. Comple- tou seus estudos em Portugal e na Itália, no período em que os jesuítas foram expulsos dos domínios portu- gueses. Na Itália, Basílio construiu uma carreira literária e conseguiu uma façanha única entre os brasileiros da época: ingressar na Arcádia Romana, na qual assumiu o pseudônimo de Termindo Sipílio. Em 1767, voltou ao Rio de Janeiro, onde foi preso no ano seguinte acusado de ter ligação com os jesuítas. Um decreto de então condenava ao exílio em Angola quem mantivesse comunicação oral ou escrita com os jesuítas. Preso,Basílio da Gama foi levado a Lisboa.Livrou- -se da prisão graças a um poema em homenagem à filha do conde de Oeiras, futuro marquês de Pombal.A amiza- de lhe rendeu novos contatos com os árcades portugue- ses e permitiu-lhe escrever sua obra máxima, O Uraguai. O Uraguai Publicado em 1769, O Uraguai é tematiza a luta de portugueses e espanhóis contra índios e jesuítas que, instalados nas missões jesuíticas do atual Rio Grande do Sul, não queriam aceitar as decisões doTratado de Madri. A quebra do modelo clássico A luta travada por portugueses e espanhóis contra índios e jesuítas é narrada por Basílio da Gama, desde os preparativos até a conclusão. Os cantos apre- sentam a seguinte sequência de fatos:
  • 118.
    118 § § Canto I:as tropas aliadas reúnem-se para com- bater os índios e os jesuítas. § § Canto II: o exército avança e há uma tentativa de negociação com os chefes indígenas Sepé e Ca- cambo. Sem acordo, trava-se a luta, que termina com a derrota e a retirada dos índios. § § Canto III: Cacambo ateia fogo à vegetação em volta do acampamento aliado e foge para sua aldeia. O padre Balde, vilão da história, faz pren- der e matar Cacambo para que seu filho sacrílego Baldeta possa casar-se com Lindoia, esposa de Cacambo, e tomar a posição do chefe indígena morto. Em uma visão, Lindoia prevê o terremoto de Lisboa e a expulsão dos jesuítas por Pombal. § § Canto IV: no mais bonito dos cinco cantos são re- tratados os preparativos do casamento de Baldeta com Lindoia. Chorando a morte do marido, não quer casar-se. Entra num bosque e deixa-se picar por uma cobra venenosa. Chegam os brancos, que cercam a aldeia. Todos fogem. Antes, porém, os padres mandam queimar as casas e a igreja. § § Canto V: o líder português Gomes Freire de An- drada prende os inimigos na aldeia próxima. Há referências ao domínio universal da Companhia de Jesus e a seus crimes. Escrito em apenas cinco cantos em versos bran- cos (sem rima) e sem estrofação, O Uraguai não segue a estrutura camoniana de Os Lusíadas. Embora apresente as cinco partes tradicionais das epopeias – proposição, invocação, dedicatória, narração e epílogo – o poema inicia com a ação em pleno desenvolvimento: Fumam ainda nas desertas praias Lagos de sangue tépidos e impuros Em que ondeiam cadáveres despidos. Pasto de corvos. Dura inda nos vales O rouco som da irada artilheria. O fato de o autor tratar de um episódio histórico recente – na época ocorrido havia pouco mais de dez anos – revela outro aspecto que diferencia O Uraguai dos poemas épicos tradicionais. Quem é o verdadeiro herói da história? Pelo fato de O Uraguai ser uma obra de intenções épicas, seria de esperar que em nada tivessem destaque os movimentos de guerra e os atos de heroísmo. Contudo, não é o que se verifica.Ao contrário,a própria guerra chega a ser questionada como meio de atuação política, o que revela uma postura tipicamente iluminista do autor, cujas ideias coincidem com as de seu amigo Marquês de Pombal. Vinha logo de guardas rodeado, Fonte de crimes, militar tesouro, Por quem deixa no rego o curto arado O lavrador, que não conhece a glória: E vencendo a vil preço o sangue e a vida Move, e nem sabe por que move a guerra. O herói português Gomes Freire de Andrade, líder das tropas luso-espanholas, também não mostra o entusiasmo dos heróis épicos tradicionais: ...Descontente e triste Marchava o General: não sofre o peito Compadecido e generosa a vista Daqueles frios e sangrados corpos, Vitimas da ambição de injusto império O genocídio de Sete Povos das Missões O Tratado de Madri (1750) determinava uma troca de territórios: os portugueses que viviam na colô- nia de Sacramento – hoje parte do Uruguai – deveriam desocupar a região e instalar-se nos sete povoados, chamados Sete Povos, pertencentes a Portugal e ocu- pados por índios. Em troca, a Espanha teria soberania sobre as Tordesilhas. Provavelmente influenciados pelos jesuítas, os indígenas que ocupavam aqueles povoados não queriam passar ao domínio português. Diante do impasse, os governos português e espanhol se uniram para intervir militarmente na região. Foram necessárias duas investidas para que conseguissem seu objetivo – a segunda narrada em O Uraguai. Essas lutas ocasiona- ram a morte de alguns milhares de índios e constituem um dos principais genocídios do país.
  • 119.
    119 Apesar da posturacritica à guerra manifesta pelo autor, o fato histórico narrado não é alterado. Espanhóis e portugueses saem vencedores da guerra. Do lado ini- migo, apenas os jesuítas são tratados no poema como verdadeiros vilões – outro traço da obra que satisfaz os interesses do marquês de Pombal. Os índios derrotados são vistos com simpatia, talvez até como vítimas da ação jesuítica na região e dos conflitos que dela resultaram. Destacadas a força e a coragem do indígena, a derrota se deve apenas à desigualdade de armas.O índio seria uma es- pécie de herói moral da luta, dadas suas qualidades de caráter: Fez proezas Sepé naquele dia. Conhecido de todos, no perigo Mostrava descoberto o rosto e o peito Forçando os seus co exemplos e coas palavras. Lindoia. José Maria de Medeiros, 1882. O poema não enfatiza a guerra em si, nem as ações dos vencedores, nem os vilões jesuítas – tratados caricaturalmente. Ganham destaque a descrição física e moral do índio, o choque de culturas e a paisagem nacional. Há passagens de forte lirismo, como a do epi- sódio da morte de Lindoia: Que alegre cena para os olhos! Podem Daquela altura, por espaço imenso, Ver as longas campinas retalhadas De trêmulos ribeiros, claras fontes, E lagos cristalinos, onde molha As leves asas o lascivo vento. Engraçados outeiros, fundos vales, Verde teatro, onde se admira quanto Produziu a supérflua Natureza. Ruínas da igreja de São Miguel das Missões, RS, palco das lutas narradas em O Uraguai. A valorização do índio e da natureza selvagem do Brasil corresponde ao ideal de vida primitiva e natural cultiva- do pelos iluministas e pelos árcades.Esses aspectos nativistas prenunciam as tendências do Romantismo, no século XIX. José Santa Rita Durão: retomada do modelo clássico O frei Santa Rita Durão (1722-1784) nasceu em Mariana, Minas Gerais. Como Basílio da Gama, estu- dou no colégio dos jesuítas e completou seus estudos em Portugal. Lá, ingressou na vida religiosa e tornou-se professor de Teologia.
  • 120.
    120 Afirmando que arazão do poema Caramuru era “o amor à pátria”, Santa Rita, embora tenha passado a maior parte de sua vida em Portugal, confirma a ten- dência nativista de seu poema. Moema. Vitor Meireles, 1832. (Inspirada na personagem de Santa Rita Durão.) Caramuru: um retrocesso? Publicado em 1781, doze anos depois de O Ura- guai, é provável que Santa Rita tenha sido estimulado pela publicação de Basílio da Gama, ainda que haja di- ferenças fundamentais entre os dois poemas. Religioso, Santa Rita não é antijesuíta como o colega. Valoriza a ação catequética de natureza inteira- mente cristã dos jesuítas junto aos índios. As liberdades formais e líricas de que Basílio da Gama se serve são ignoradas por Santa Rita. Caramuru obedece rigidamente ao modelo camoniano: são dez cantos, com estrofes em oitava-rima, versos decassíla- bos e estrutura convencional. Como em Camões, recor- re às mitologias cristã e pagã – representada por deu- ses indígenas, em vez de deuses greco-latinos. Apesar de distante do Brasil desde os nove anos, o autor procura retratar a natureza brasileira, ao descre- ver o clima, a fertilidade da terra, as riquezas naturais. Alia-se à tradição dos cronistas e viajantes que descreve- ram a colônia no século XVI. Interessa-se particularmen- te pelo indígena, descreve seus costumes e instituições e ressalta sua catequese. Contudo, seu poema revela certo artificialismo próprio de quem leu sobre o país, mas não vivenciou o que descreve. Caramuru é considerado um poema inferior a O Uraguai e, de certa forma, um retro- cesso sob o ponto de vista temático e estilístico. O tema de Caramuru O poema narra as aventuras, em parte históri- cas, em parte lendárias, do náufrago português Diogo Álvares Correia, o Caramuru. Em meio às aventuras do protagonista, o autor aproveita para fazer uma longa descrição das qualidades da terra: Não são menos que as outras saborosas As várias frutas do Brasil campestres; Com gala de ouro e púrpura vistosas Brilha a mangaba e os mocujés silvestres. Costumes indígenas enfocados pela óptica cristã: Que horror da humanidade! ver tragada Da própria espécie a carne já corruta! Quando não deve a Europa abençoada A fé do Redentor, que humilde escuta! Caramuru, como O Uraguai, apresenta, em meio à narrativa épica, momentos líricos de significativa be- leza, nos quais, ao lado de aspectos próprios da cultura indígena, aparece o tema universal da morte por amor. Caramuru: o “homem de fogo”
  • 121.
    121 Ao naufragar nacosta brasileira em 1510, Diogo Álvares Correia foi aprisionado pelos tupinambás. Certa vez, pegou num mosquete e atirou num pássaro, ma- tando-o. Os índios, que não conheciam armas de fogo, ficaram impressionados com a detonação e gritaram “Caramuru! Caramuru!”, vocábulo que significa “ho- mem de fogo” ou “dragão saído do mar”. Diogo viveu entre os índios tupinambás, na Bahia, no século XVI, e desposou Paraguaçu, ambos personagens do poema Caramuru. De acordo com a lenda, confirmada pela ver- são de Santa Rita, Diogo foi resgatado por uma nau francesa e, em companhia de Paraguaçu, levado à Corte francesa, de onde, posteriormente, partiu para Portugal. Aseguir,vejatrechosretiradosdeOUraguai,deBasílio da Gama (Texto I),e Caramuru,de Santa Rita Durão (Texto II). Texto I Canto IV - Morte de Lindoia Entram enfim na mais remota e interna Parte de antigo bosque, escuro e negro, Onde ao pé de uma lapa cavernosa Cobre uma rouca fonte, que murmura, Curva latada de jasmins e rosas. Este lugar delicioso e triste, Cansada de viver, tinha escolhido Para morrer a mísera Lindóia. Lá reclinada, como que dormia, Na branda relva e nas mimosas flores, Tinha a face na mão e a mão no tronco De um fúnebre cipreste, que espalhava Melancólica sombra. Mais de perto Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente, e lhe passeia, e cinge Pescoço e braços, e lhe lambe o seio. Porém o destro Caitutu, que treme Do perigo da irmã, sem mais demora Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes (...) (...) Soltar o tiro, e vacilou três vezes Entre a ira e o temor. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta, Que toca o peito de Lindoia, e fere A serpente na testa, e a boca e os dentes Deixou cravados no vizinho tronco. Açouta o campo côa ligeira cauda O irado monstro, e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste, e verte envolto Em negro sangue o lívido veneno. Leva nos braços a infeliz Lindoia O desgraçado irmão, que ao despertá-la Conhece, com que dor! no frio rosto Os sinais do veneno, e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. Os olhos, em que Amor reinava, um dia. Cheios de morte; e muda aquela língua Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. Nos olhos Caitutu não sofre o pranto, E rompe em profundíssimos suspiros, Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. E por todas as partes respeito O suspirado nome de Cacambo. Inda conserva o pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste. Que os corações mais duros enternece. Tanto era bela no seu rosto a morte! In: CÂNDIDO, Antonio; CASTELLO, José A. Ob. cit., p. 150-151, v.1. Texto II Os chefes indígenas oferecem as filhas a Diogo Álvares para se honrarem com seu paren- tesco. O lusitano aceita o parentesco, mas não as donzelas, por fidelidade a Paraguaçu. Tomado por saudades da Europa, embarca numa nau france- sa. Moema, uma Índia apaixonada pelo português, desesperada de ver partir com Paraguaçu, tenta acompanhá-lo, nadando. – “Bárbaro (a bela diz) tigre e não homem... Porém o tigre, por cruel que brame, Acha forças amor, que enfim o domem; (...) (...) Só a ti não domou, por mais que eu te ame. Fúrias, raios, coriscos, que o ar consomem, Como não consumis aquele infame? Mas pagar tanto amor com tédio e asco... Ah! Que corisco és tu... raio... penhasco! Tão jura ingratidão menos sentira E esse fado cruel doce me fora. Se o meu despeito triunfar não vira
  • 122.
    122 Essa indígena, essainfame, essa traidora. Por serva, por escrava, te seguira. Se não temera de chamar senhora A vil Paraguaçu, que, sem que o creia, Sobre ser-me inferior, é néscia e feia. Enfim, tens coração de ver-me aflita, Flutuar, moribunda, entre estas ondas; Nem o passado amor teu peito incita A um ai somente, com que aos meus respondas. Bárbaro, se esta fé teu peito irrita, (Disse, vendo-o fugir) ah! Não te escondas Dispara sobre mim teu cruel raio...” E indo a dizer o mais, cai num desmaio. Perde o lume dos olhos, pasma e treme, Pálida a cor, o aspecto moribundo; Com mão já sem vigor, soltando o leme, Entre as salsas escumas desce ao fundo. Mas na onda do mar, que, irado, freme, Tornando a aparecer desde o profundo, – Ah! Diogo cruel! – disse com mágoa, – e sem mais vista ser, sorveu-se na água.” In: CIDADE, Hernâni. Santa Rita Durão. Rio de Janeiro: Agir, 1957. p. 87-88. Alvarenga Peixoto: o pombalismo e a colonização Autor de poemas líricos e laudatórios – em ho- menagem a alguém –, estes talvez sejam o melhor da produção de Alvarenga Peixoto. Veiculam ideias filo- sóficas e políticas em discussão na época. Abordou o pombalismo, a exploração colonialista, o nativo, a paz, a importância do saber e da razão. Ode ao marquês de Pombal Não os heróis, que o gume ensanguentado da cortadora espada, em alto pelo mundo levantado, trazem por estandarte dos furores de Marte; Ensanguentados rios, quantas vezes vistes os férteis vales semeados de laças e de arneses? Que importam os exércitos armados, no campo com respeito conservados, se lá do gabinete a guerra fazes e a teu arbítrio dás o tom às pazes? que, sendo por mão destra manejada, a política vence mais que a espada. Que importam tribunais e magistrados, asilos da inocência, se pudessem temer-se declarados patronos da insolência? De que servirão tantas tão saudáveis leis, sábias e santas, se, em vez de executadas, forem por mãos sacrílegas frustradas? Mas vives tu, que para o bem do mundo sobre tudo vigias, cansado teu espírito profundo, as noites e os dias. Ah! quantas vezes, sem descanso uma hora, vês recostar-se o sol, erguer-se a aurora, enquanto volves com cansado estudo as leis e a guerra, e o negócio, e tudo? Vale mais do que um reino um tal vassalo: graças ao grande rei que soube achá-lo. CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A. Ob. cit., p. 172-174. Silva Alvarenga: a poesia nativista e sensual Silva Alvarenga (1749-1814), autor de Glaura, des- tacou-se pelo cultivo de rondós e madrigais em que há forte musicalidade e elementos da fauna e flora nacionais: beija- -flor, pomba, cobra, onça, mangueiras, cajueiros, jambeiros. Em razão desses traços, sua poesia é considerada nativista com fortes indícios de transição para o Romantismo.
  • 123.
    123 O beija-flor Deixo, óGlaura, a triste lida Submergida em doce calma; E a minha alma ao bem se entrega, Que lhe nega o teu rigor. Neste bosque alegre e rindo Sou amante afortunado, E desejo ser mudado No mais lindo Beija-flor. Todo o corpo num instante Se atenua, exala e perde: É já de oiro, prata e verde A brilhante e nova cor. Deixo, ó Glaura, a triste lida Submergida em doce calma; E a minha alma ao bem se entrega, Que lhe negar o teu vigor. Vejo as penas e a figura, Provo as asas, dando giros; Acompanham-me os suspiros, e a ternura do Pastor. E num voo feliz ave Chego intrépido até onde Riso e pérolas esconde O suave e puro Amor. Deixou, ó Glaura, a triste lida Submergida em doce calma; E a minha alma ao bem se entrega, Que lhe nega o teu rigor. Toco o néctar preciso, Que a mortais não se permite; É o insulto sem limite, Mas ditoso o meu ardor; Já me chamas atrevido, Já me prendes no regaço; Não me assusta o terno laço, É fingido o meu temor. Deixo, ó Glaura, a triste lida Submergida em doce calma; E a minha alma ao bem se entrega, Que lhe nega o teu rigor. Se disfarças os meus erros, E me soltas por piedade; Não estimo a liberdade, Busco os ferros por favor. Não me julgues inocente, Nem abrandes meu castigo; Que sou bárbaro inimigo, Insolente e roubador. Deixo, ó Glaura, a triste lida Submergida em doce alma; E a minha alma bem se entrega, Que lhe nega o teu rigor. CANDIDO, Antonio; CASTELLO, José A. Ob. cit., p. 179-180.
  • 124.
    124 INTERATIVI A A DADE Filme Filme Os Inconfidentes Tiradentes Ofilme retrata a Inconfidência Mineira, movimento político do século 18 do Estado de Minas Gerais. Faziam parte do grupo de conspiradores contra o domínio colonial português poetas e nobres, incluindo o padre e o coronel da guarnição. O dentistaTiradentes é o escolhido para dar exemplo aos rebeldes que se levantavam contra a Coroa portuguesa. Seus cúmplices, apesar de terem confessado, não assumem responsabilidades. O único a fazer isso é Tiradentes, que acaba sendo condenado à morte. (76 min.) A trajetória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (Humberto Martins), líder da Inconfidência Mineira, um movimento surgido em Vila Rica (Ouro Preto) em 1789. Tiradentes sonhou junto com amigos e intelectuais ver o Brasil independente do domínio português, mas esbarrou na traição de Joaquim Silvério dos Reis (Rodolfo Bottino). ASSISTIR Filme Caramuru - A invenção do Brasil Em 1º de janeiro de 1500,um novo mundo é descoberto pelos europeus, graças a grandes avanços técnicos na arte náutica e na elaboração de mapas. É neste contexto que vive em Portugual o jovem Diogo (Selton Mello), pintor que é contratado para ilustrar um mapa e, por ser enganado pela sedutora Isabelle (Débora Bloch), acaba sendo punido com a deportação na caravela comandada por Vasco de Athayde (Luís Mello). Mas a caravela onde Diogo está acaba naufragando ele, por milagre, consegue chegar ao litoral brasileiro. Lá ele conhece a bela índia Paraguaçu (Camila Pitanga) com quem logo inicia um romance temperado posteriormente pela inclusão de uma terceira pessoa: a índia Moema (Déborah Secco), irmã de Paraguaçu.
  • 125.
    125 LER Livros Arcadismo - Col.Roteiro da Poesia Brasileira O Arcadismo, estilo dominante no século XVIII, vincula traços do Iluminismo à convenção pastoril que evoca. Configura em Portugal a atitude geral neoclássica, mas com divergências em relação ao padrão geral, como a ausência de anticlericalismo. Associam-se nas manifestações da poesia, o árcade bucolismo, o culto das normas ditadas pela antiguidade clássica, presentes nas artes e nos manuais da época, que preconizam o retorno ao equilíbrio e à simplicidade dos modelos greco-romanos, diretamente ou a partir do renascimento. No Brasil, evidenciou-se, nas manifestações poéticas, de forma peculiar: sem o rococó, pré-romantismo e dimensões nativistas. Cláudio Manuel da Costa - Laura de Mello e Souza O mineiro Cláudio Manuel da Costa, consagrado pelos versos de Vila Rica, poema dedicado à fundação da capital “das Minas Gerais”, é revisitado de maneira inovadora nesse perfil biográfico escrito por Laura de Mello e Souza, que lança uma nova perspectiva sobre a vida, a obra e o destino do poeta brasileiro. O leitor é transportado à Minas Gerais do século XVIII, onde Cláudio Manuel da Costa exerceu a carreira de advogado paralelamente à de poeta, engajando-se também no movimento da Inconfidência Mineira. Um dos temas mais polêmicos de sua biografia,sua morte,cujas circunstâncias nunca foram totalmente esclarecidas, que continua a motivar muita especulação.
  • 126.
    126 OBRAS Pinturas Tiradentes esquartejado/ A prisão de Tiradentes Tiradentes esquartejado. Por Pedro Américo, 1893. A prisão de Tiradentes. Por Antônio Diogo da Silva Parreiras, 1914.
  • 127.
    127 CONSTRUÇÃO DE HABILIDADES Habilidade16 - Relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de cons- trução do texto literário. Esta habilidade pressupõe que o aluno tenha conhecimento das concepções artísticas, no caso o conceito de uma escola literária específica. A construção dos procedimentos literários estão ligados aos fatores estéticos que podem levar em consideração a forma e/ou conteúdo do texto em relação à concepção artística do contexto. Modelo (Enem) Soneto VII Onde estou? Este sítio desconheço: Quem fez tão diferente aquele prado? Tudo outra natureza tem tomado; E em contemplá-lo tímido esmoreço. Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado: Ali em vale um monte está mudado: Quando pode dos anos o progresso! Árvores aqui vi tão florescentes Que faziam perpétua a primavera: Nem troncos vejo agora decadentes. Eu me engano: a região esta não era; Mas que venho a estranhar, se estão presentes Meus males, com que tudo degenera. (COSTA, C.M. Poemas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 jul 2012.) No soneto de Claudio Manuel da Costa, a contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma reflexão em que transparece uma a) angústia provocada pela sensação de solidão. b) resignação diante das mudanças do meio ambiente. c) dúvida existencial em face do espaço desconhecido. d) intenção de recriar o passado por meio da paisagem. e) empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.
  • 128.
    128 Análise Expositiva Habilidade 16 Estaquestão, como acenado na habilidade e competência específica, constitui-se um pres- suposto de que o estudante deva conhecer o contexto (escola literária do Arcadismo), em função do autor e de sua concepção de escrita (no caso os tradicionais sonetos de Cláudio Manuel da Costa). O soneto deste poeta é representativo de algumas características árcades: o fugere urbem, o bucolismo e locus amoenus, presentes no retorno ao campo e no desejo de vida tranquila que em outro momento o eu-lírico vislumbrara, como se vê em: “Uma fonte aqui houve”/ (...) “Árvores aqui vi florescentes”. A busca por tranquilidade se contrapõe à realidade, uma vez que o eu lírico revela ter encontrado um lugar diverso daquele presente em sua memória: “Eu me engano: a região esta não era; / Mas que venho a estranhar, se estão presentes /Meus males, com que tudo degenera.”. Alternativa E Estrutura Conceitual Os poetas árcades encontram inspiração nas terras mineiras, principalmente Vila Rica-Ouro Preto, cenário de suas poesias. O estilo literário árcade no Brasil tem início com a publicação das Obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa, em 1768. 1 2 Os principais escritores brasileiros desse período são: Cláudio Manuel da Costa, Santa Rita Durão, Basílio da Gama e Tomás Antônio Gonzaga Autor do poema épico Caramuru (1781), Freire Santa Rita Durão foi poeta e orador, considerado um dos precursores do indianismo no Brasil. Basílio da Gama é autor do poema épico O Uraguai (1769), nesse texto, aborda as disputas entre os europeus, os jesuítas e os índios. (Tratado de Madrid). Apesar de Tomás Antônio Gonzaga ter nascido em Portugal, a cidade de Marília – no Paraná –, recebe esse nome em homenagem à obra “Marília de Dirceu” do escritor. ARCADISMO BRASIL NATIVISMO ÉPICO ARCADISMO BRASIL NATIVISMO ÉPICO 3 4 5 6