Paulo Moniz aproximadamente 33000 palavras
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UM NOVO HORIZONTE
Paulo Vargas Moniz
Moniz/Um novo horizonte/2
Índice
Um novo horizonte ....................................................................................................................1
Algures ......................................................................................................................................4
Diagnóstico................................................................................................................................9
Sociedade e desenvolvimento ............................................................................................11
Encargos e Dificuldades ....................................................................................................14
Crise ....................................................................................................................................17
Causas .................................................................................................................................22
Disrupção............................................................................................................................30
Filantropia ..............................................................................................................................45
Consórcios...............................................................................................................................55
Orgulhosamente, sinergia! ................................................................................................59
‘Receita orgânica’ ..............................................................................................................64
Cinismo e mesquinhez versus acreditar e positivo..........................................................72
Inteligência Artificial.............................................................................................................81
‘Os invasores do espaço’…................................................................................................84
Ensino: excitar a criatividade ...........................................................................................87
Carreiras. No futuro ..........................................................................................................94
Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ
‫צ‬ֻ‫)ח‬...................................................................................................................100
Mudança cultural.............................................................................................................114
Confiabilidade ..................................................................................................................121
E….........................................................................................................................................126
Bibliografia...........................................................................................................................142
Post-Scriptum:.......................................................................................................................145
Moniz/Um novo horizonte/3
“Comecemos com o que é correto em vez do que é aceitável”, Franz Kafka
No âmbito de Institutos Politécnicos e Universidades poder-se-ia considerar analisar e discutir
o seguinte. Quais são os problemas que enfrentam para concretizar a estratégia que foi
delineada? Quais são, especificamente, os obstáculos principais que impedem que se alcance
esses objetivos? E que utensílios são precisos para limitar (ou eliminar) os riscos relacionados
com os desafios? Qual é o enquadramento cronológico, geográfico? E como definir, explicar o
que será ‘sucesso’ para se determinar (sem ambiguidades ou dúvidas) que é alcançado?
Moniz/Um novo horizonte/4
Algures
Tomemos o caso de uma região (hipotética, claro), onde os invernos são demorados, por
vezes agradáveis, um facto da vida sazonal. Infelizmente, (pode ser desde há 10 ou mais anos
para cá) tem-se presenciado uma cadência, nem sempre regular, traduzida num
descontentamento, num (outro) inverno, mas agora demográfico.
Vamos ser mais específicos. Tem havido uma redução, por vezes gradual e significativa,
no número de alunos das escolas básicas e secundárias, que se pode manter por algum tempo
no futuro. A análise estatística aponta também para que se considere essa região hipotética
com uma população de 2 milhões, por exemplo e associada a uma baixa densidade territorial.
Mais ainda, a média de idade estaria nos 50 anos enquanto que 35 seria a média nacional
correspondente. Acresce ser uma zona em que há uma fertilidade muito pequena e a população
imigrante é ainda muitíssimo pouco relevante. E assim, a candidatura e a admissão de alunos
ao ensino superior dessa região têm vindo a decrescer; apenas o recurso a estudantes de fora
dessa região (e sobretudo estrangeiros!) tem possibilitado manter alguns cursos a funcionar por
entre os limites permitidos. Isto é, a ‘importar’ daí uma contribuição, por aplicação de propinas
e outras ‘despesas imprescindíveis’, para o orçamento de uma instituição de ensino superior
(IES) o qual garanta (por modos diretos e indiretos; a concretizar mais à frente neste ensaio /
texto) a sua manutenção. E por vezes (não poucas) esse auxílio fica um pouco abaixo do que a
IES necessita, verificando-se então, nessa angústia, um esforço por vezes desumano para
salvaguardar a sua sobrevivência. Alguém é capaz de considerar (hipoteticamente, claro) uma
situação e características assim?
Moniz/Um novo horizonte/5
O problema é (no mínimo) duplamente grave. A região (hipotética) só sobrevive e se
mantém funcional (numa escala de várias décadas ou, dito de outra forma, daqui até 30 ou mais
anos(!)) se houver mais gente nova, mais graduados (jovens) e mais emprego qualificado. E
que este ímpeto restaurador de vida social e económica gere um ciclo, que a médio, mas mais
certamente a longo prazo, vá recolhendo bem-estar e qualidade, i.e., legítima riqueza social.
Como fazer? Temos que explorar, discutir abertamente, arriscar ideias com atrevimento,
arrojo e audácia. Para isso, aqui apresento de forma algo genérica uma reflexão sobre o tema
do Ensino Superior em Portugal, concretamente acerca de como construir um novo (e melhor)
horizonte. Não pretendo ser exaustivo nem investigativo. Trata-se de um ensaio de opinião
exposto a subjetividade. Mas vazio de ‘imagens’ e retórica. Um discurso construído numa
linguagem simples e uma forma de pensar unitária. Tento ser lógico, temperado no tom das
ideias, mas procurando a convicção que anime o seio da academia Portuguesa. Seguem-se
ideias, críticas e reflexões sem formalidade, utilizando um estilo livre e sem comprovações
explícitas1
. Reconhecendo que por entre os participantes do Ensino Superior em Portugal, há
que ser-se firme no dever, sem receios, de forma colegial e efetiva.
Nota prévia. É impossível fazer corresponder a totalidade dos problemas aqui descritos a
qualquer IES. A algumas, uma parte das hipóteses aplicar-se-ão e o destino será irreversível,
1
O (in)sucesso em função de dados relativos a oferta e procura, preenchimentos e vagas precisa sempre de ser
analisado com prudência, bem temperada com a experiência. O escritor Graham Greene descreve no livro ‘The
Comedians’ uma ilha da América central, gerida por grupos (para)militares conhecidos como ‘tontons macoutes’.
Nessa ilha, um dos personagens comenta que a iliteracia diminuiu de forma muito significativa numa certa região
costeira da ilha. A conclusão, servida com superior ironia, é que não foi nenhum programa de ensino-
aprendizagem, mas antes que um furacão assassino e destruidor terá afetado de forma terminal a população frágil,
pobre e sem qualquer habitação condigna e segura…
Moniz/Um novo horizonte/6
caso nada seja feito para que se evite. Por isso mesmo, não devemos permitir que os receios
que esse cenário sugere se transfigurem num obstáculo impeditivo. Muitos problemas abrem
também linhas de esperança e o que há de mais certo e imutável, é que devemos abraçar a
incerteza, podemos mudar. Essa esperança pode emergir e crescer, é preciso ser-se firme nos
princípios que guiam, mudar e melhorar, estender essa expectativa numa corrente que vença a
resistência da tormenta. Por isso, levantam-se neste ensaio hipóteses, com iconoclastia e
idiossincrasia, para uma análise que implique um alerta, para corrigir trajetórias.
Prossigamos. Qualquer IES precisa de um plano estratégico, o qual tem que assentar numa
visão. Uma visão de médio a longo prazo, perspetivada a partir do presente e para o futuro
esperado para a sociedade. Sendo mais concreto, o plano tem que ser exequível de forma a
garantir estabilidade, e tem que ter amplo potencial para a IES evoluir. A visão deve, pois,
assim possuir simplicidade (sem ser simplista), ser mobilizadora e transcrever três linhas
mestras: identidade; qualidade e uberdade.
No âmbito das linhas mestras referidas, a identidade e a uberdade devem orientar-se no
âmbito da qualidade. Designadamente, o que se fizer, que realize a identidade, tem que ser
visto como algo único, singular e, principalmente, imprescindível. Ou seja, algo de imenso
valor e gradualmente mais valorizável. Por outro lado, tem de ser um ‘produto’, uma ‘obra’
que é cultivada e colhida em intensa uberdade, com o mais elevado empenho e dedicação, por
toda uma equipa (a saber, toda a instituição). Essa progressão tem de revelar uma integração,
académica e inclusiva, onde toda a instituição abraça um ‘esprit de corps’, garantindo a
comunhão desse objetivo. Isso é o garante da estabilidade. O sucesso é assim simplesmente
Moniz/Um novo horizonte/7
confirmar essa (i) identidade, em todo e qualquer dia, afirmá-la com a (ii) qualidade que é
traduzida no reconhecimento de quem a procura e desafia a colaborar, como (iii) fonte e garante
do desenvolvimento, abundante e fértil.
No contexto dos parágrafos anteriores, o conteúdo deste ensaio está distribuído e
organizado da seguinte forma:
O próximo capítulo é um diagnóstico do estado do ensino superior em Portugal. O foco
escolhido (e por isso dominante) apontará sobre os custos, hipóteses e causas, consequências.
De seguida apresento quatro áreas, que no meu entender merecem apreciação legítima,
como opções, alternativas na construção, de retoma e (re)conquista do ‘positivo’. É por aqui
que se deve defender um ideal académico, para melhorar as IES em Portugal.
É sempre a economia e por isso começo por descrever como modalidades, inclusive de
filantropia (ou similares), podem permitir manter uma dinâmica de investimento, apesar de
rigores impostos por orçamentos de estado (OE).
Ainda na economia, apontamos em outro capítulo como ações de sinergia, de esticar o
braço e alcançar mais distância, podem constituir o passo no sentido de uma estrutura maior e
melhor para continuar a enfrentar e ultrapassar o referido ‘inverno’.
E em mais um passo, em forma de algo (quase completamente diferente e) ‘ortogonal’,
pois não basta conquistar distâncias, há que assegurar mais espaço, apresento uma súmula
Moniz/Um novo horizonte/8
(muito já há para consulta) de como a ‘inteligência artificial’ vai revolucionar a sociedade,
designadamente a do conhecimento, ao longo do século XXI. E ao fazer isso irá implicar uma
alteração significativa dos métodos de ensino-aprendizagem. Não, não se trata de ensino a
distância ou dito online. Ou mesmo ‘robotização’ ou similar. Isso é trivial e simples. Ou pior,
seria maçador de ler e óbvio. Trata-se de apontar para o referido (novo) horizonte que se vai
vislumbrar para as IES, o que está mais além, mas já aqui muito perto. Um caminho a ‘integrar’
já neste século (XXI!). E construí-lo. Por isso, acrescento algo novo neste capítulo, ainda não
procurado, mas cada vez mais crucial. Requer abraçar a diferença, o risco, a inovação. Um
salto (epistemológico, cognitivo, funcional) na condução das IES.
E em proatividade aponto, em quarto lugar, a uma sugestão para que se altere de forma
profunda a cultura (incluindo a política!) do seio académico. Sermos, mormente, muitíssimo
mais ousados, menos no ‘desenrasca’, mais no atrevimento, mais iconoclastia nas perguntas,
mais criatividade nas respostas. É o Chutzpah2
(‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫צ‬ֻ‫)ח‬. Para um sucesso ainda maior.
E? Bem, e depois, antes do ‘adeus’, terminamos.
Entretanto, avancemos3
.
2
Se está curioso(a), ‘salte’ até à página 114-5. Mas retorne aqui depois…
3
Duas notas breves. 1. Uma bibliografia (não comentada) é igualmente anexada neste ensaio. Os elementos nela
elencados são fortemente recomendados e sugeridos para consulta e posterior análise, discussão e estudo; são as
fontes originais do conteúdo deste ensaio, súmula, síntese de recolha dessas ideias, transferidas aqui para
‘agitações’. E por entre alguns dos (sub)capítulos subsequentes, indicarei alguns dos textos que aí foram mais
empregues, para agitar (ainda mais), para organizar (espera-se), para mudar (a metodologia educacional nas IES
Portuguesas). 2. Por entre as linhas deste ensaio, notar-se-á ‘aqui e ali’, que se ‘repete, reitera, (re)salienta’; é
deliberado: o diagnóstico que se segue justifica essa ação.
Moniz/Um novo horizonte/9
“Discursar também é uma forma de ação’’, Hannah Arendt
Diagnóstico
Muitas, demasiadas vezes uma escolha em Portugal é apenas sim ou não, uma proposta
é (bestialmente) boa ou é (pessimamente) má, decide-se (inflamadamente) a favor ou
(visceralmente) contra. É impossível um compromisso, um consenso ponderado, uma
negociação gerada numa coligação de esforços diversos: se no meio, ser-se-á sempre
considerado como inviável, pois uma alternativa aos extremos é sempre fraca. No próprio
ensino superior em Portugal, as soluções complexas, que são precisas para problemas
complexos, são muitas vezes ignoradas, desprezadas e pior ainda, nem sequer abordadas4
. Uma
percentagem da opinião pública mal (in)formada é uma força constrangedora, que determina,
por vezes quer de forma direta, quer indireta, aquilo que se faz (mal).
Factos e uma análise cuidada são muitas vezes desconsiderados, mesmo por
especialistas com historial e uma boa capacidade de modelação (e moderação). Muitas decisões
são bloqueadas e ficamos tão desmoralizados que (quase) se abandona o esforço. O debate
4
É sempre mais ‘consensual’ adiar…
Moniz/Um novo horizonte/10
sobre o ensino superior não é exceção. Por um lado, a educação é vista como demasiado cara
ou pior, um completo desperdício de fundos e um mau ‘investimento’. Por outro lado, há quem
defenda que tem que se manter o Ensino Superior em Portugal como está ou então, a fazer
alterações, estas devem ser mínimas de forma a não modificar a sua organização atual: ‘venha,
mas é (mais) dinheiro’. I.e., manter a estrutura organizativa e muitos dos regulamentos que
existem. Não se debate nem se procura estimar cenários para 20, 30 ou 50 (ou mais) anos à
frente, sobre o que se precisará de adaptar, corrigir, modificar. Também há muito ‘protetorado’
e não existe ninguém (por entre a ‘elite’ política com atividade ‘comunicativa’) que tenha a
coragem de trazer para a opinião pública a análise dos princípios de fundo: são sempre
pequenas linhas de modestas consequências. Parece o proverbial ‘if it works, don’t fix it…’ mas
quando não funciona ou parece não funcionar… . E só em política séria é que o que parece, é;
não sendo esse o contexto (i.e., ao ‘progredir’ de política para politiquice), então o que não
parece ser, mesmo nada, é aquilo que depois, é (de forma inusitada e amargamente brutal).
Entretanto, por vezes surge uma oportunidade de adquirir ‘aquela’ vantagem, que
permitirá sobreviver e não só: sobretudo afirmar-se, revitalizar-se face ao medianismo
tradicional, em particular associada com uma disrupção do ensino superior. Essencial para a
implementar é considerar (i) quais vão ser as necessidades, quer da sociedade quer do estudante
do século XXI (!) e (ii) as forças e as fraquezas, as limitações do modelo tradicional
universitário, particularmente à luz das novas tecnologias (e também da missão universitária).
Tudo junto, implicará que vai ser preciso fazer uma seleção por entre escolhas pouco usuais,
estabelecer escalas de tempo (mais amplas) acerca do alcance pretendido e redefinir a
diversidade dos estudantes e dos cursos que devem ser ensinados. Temos que elaborar também
Moniz/Um novo horizonte/11
sobre o objetivo ‘sucesso escolar’, mormente de uma forma mais lata. A verdade é que as IES
que muito cresceram, algumas centenárias, ‘vetustas’, hoje não serão talvez o modelo mais
prático para estabelecer ou guiar uma universidade ou um instituto politécnico (mais jovem).
Apesar de o terem sido no passado recente para os legisladores, que, com a melhor das
intenções (é sempre assim…) as propuseram, mas com a falta de modelos ou a sua
(in)experiência académica, as tomaram demasiado prima facie. No entanto, nenhuma delas é
hoje, uma situação pragmática5
.
Sociedade e desenvolvimento
E, no entanto, o valor de uma IES não pode ser desprezado, em particular nos últimos
séculos ou décadas, consoante o caso em análise. O contributo do ensino superior em Portugal
para o sucesso económico e social é inequívoco. A evolução no último século, designadamente
na sua segunda metade foi impressionante: induzindo mais poder industrial, criando emprego,
promovendo a diversidade, progressão e harmonização social. A transição para uma economia
com segmentos muito mais largos, relacionados com a tecnologia avançada de informação,
cuidados de saúde, serviços de governação e finanças. Dito de outra forma, uma elevada
produção através de aplicação de conhecimento e da tecnologia. Como consequência, há uma
melhor cidadania, mais instruída (mas ainda não o suficiente) e com melhor capacidade
5
As IES tal como os estudantes devem ser mais adaptáveis à realidade da sociedade que se altera cada vez mais
rapidamente.
Moniz/Um novo horizonte/12
(poderia e deveria ter mais) para a prosperidade económica e força social. Mas estará apta para
o século XXI?
A função mais importante numa democracia contemporânea é o da cidadania. Nesse
âmbito, há que, primeiro, ser-se capaz de recolher informação, conhecimento em forma crua;
segundo, saber avaliar os argumentos relacionados com essa informação, e, por fim, participar,
debater, discursar (!) de forma envolvida e racional, em função dessa informação. Uma
cidadania devidamente educada concretiza-se na elaboração de opiniões, apoiada na evidência
de factos. Assim, estará mais bem informada para tomar decisões e efetuar as escolhas políticas
difíceis que se precisa. Produzir cidadania instruída é a responsabilidade primária da
comunidade e do ensino superior.
Não obstante, essa tarefa fundamental é hercúlea. Qualquer sociedade, em qualquer período, é
uma estrutura com procedimentos complexos tendo por base a análise de informação. E é por
isso que o ensino superior tem sido, é e será cada vez mais importante. Requer-se uma
participação ativa, informada e desafiadora, pensando criticamente, de forma atrevida,
inovadora e inesperada, acerca dos problemas e das oportunidades que surgem no dia-a-dia.
Mas esse sucesso dependerá da forma como o ensino superior for liderado e ministrado no
século XXI.
Esse empreendimento social, uma ‘empresa’, no sentido (etimológico) de uma ação de
tomar, agarrar, de todos, por todos e para todos, pretende-se muito bem formada e informada,
com o propósito de ser eficazmente gerida. Empregando as novas tecnologias que irão emergir
Moniz/Um novo horizonte/13
ao longo do século XXI, algumas ainda por regulamentar. Mas incontornáveis, irrecusáveis,
inadiáveis a longo (ou médio? curto?!) prazo. Nos dias de hoje, e os já vindouros (repete-se;
nunca é demais), tem que haver uma cidadania, educada, instruída, envolvida e sobretudo
pensante, com as aptidões, as capacidades de uma força de trabalho que irá coliderar a nossa
economia. O progresso, mas sobretudo a sobrevivência estável, requer que todos nós, como
comunidade asseguremos o seguinte: por um lado, um amplo acesso a todos aqueles, qualquer
que seja a sua proveniência, que procurem uma IES para adquirir uma instrução técnico-
científica6
e uma formação cívica-ética da melhor qualidade; por outro lado, alcançarmos
sucesso, cujo traço identificativo, no que nos concerne, será fornecermos o melhor apoio a(o)s
nosso(a)s estudantes e que os mesmos finalizem os seus estudos, alcançando os respetivos
graus académicos. Mas num tempo útil, justo e minimamente satisfatório!
Em suma, é por isso que o ensino superior em Portugal importa. Haverá crescimento se
e só se uma sociedade for instruída: por isso, devemos contribuir, em coliderança, para que as
novas gerações sejam excecionalmente bem instruídas no mundo do conhecimento, com
melhor capacidade cognitiva, com uma superior aptidão para inventar, empreender e produzir
bens e serviços, em integração com tecnologia avançada e para benefício de todos. A narrativa
acerca dessa IES será de enaltecimento por parte dos profundamente beneficiados por uma
6
Por exemplo, cursos, quer fossem de engenharia, literatura ou medicina, deveriam ter módulos opcionais de
ensino-aprendizagem sobre ética, como também sobre análise e lógica, formulação de modelos matemáticos e
desenvolver pensamento crítico. A criatividade não é um atributo exclusivo de uma área do conhecimento.
Estudantes de física com frequência de unidades de crédito sobre cultura chinesa ou latim/grego, por exemplo, e
estudantes de sociologia obter frequência em laboratórios específicos de diversas ciências naturais.
Moniz/Um novo horizonte/14
visão científica de ampla uberdade académica. Daí a suprema importância nas escolhas
políticas que se fazem e que vão influenciar a trajetória do próprio ensino superior.
O ensino superior tem que voltar a ser importante, retornar a uma ‘paixão’ educativa,
um elevado desígnio de Estado. Mas, não tem sido assim (ultimamente). E isso lamenta-se com
tristeza7
.
Encargos e Dificuldades
Apesar de aumentos (?) no financiamento total para o Ensino Superior (por via do OE),
na forma de contratos de legislatura quinquenais, as famílias sentem-se estiradas ao enviar e
colocar as suas filhas, os seus filhos numa IES. É economicamente árduo e penoso, ao que
acresce ansiedade sobre o futuro.
Recebe-se por vezes informação que causa preocupação, por meio de relatórios em
processos de acreditação e avaliação de ensino (via disponibilização por agências da tutela,
e.g., a A3ES8
) e de centros de investigação (nem sempre devidamente) associados a cursos. A
análise dos relatórios dessas agências deveria ser consultada, não somente no mero termo
classificativo, mas no conteúdo descritivo e por vezes crítico da funcionalidade, por exemplo,
entre vários parâmetros de aferição. Também se recolhem outras notícias referentes a IES,
7
Mas há propostas, este ensaio, mormente. Para agitar por entre a turvação, contribuindo para uma eventual
limpidez, uma (re)organização educativa; um novo horizonte.
8
A3ES i.e., Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior; cf. https://www.a3es.pt/
Moniz/Um novo horizonte/15
mormente sobre aconselhamento e apoio académico, que não é o que seria desejável por essas
famílias: professores e ensino que são severamente criticados pelos estudantes, o progresso
para a graduação é dolorosamente lento, o dobro ou mais, do que seria desejável ou salutar;
idem situações de abandono, retenção escolar no ensino superior. Têm, pois, sido anotadas
queixas assim como comentários deste âmbito, mas sobretudo acerca dos elevados custos do
ensino superior para algumas famílias. Professores e funcionários recebem reclamações que a
sua instituição dá menos atenção ao ensino. Especificamente, a ‘missão’ transfigura-se mais
em obter verba para projetos, investigação ‘medida’ em patentes. Ou numa multiplicidade de
cursos para ‘captar’ mais e mais estudantes9
, eventualmente estrangeiros e obter a sua presença
a quase qualquer custo.
Também há que ter em conta que as IES são constrangidas por custos causados (direta
ou indiretamente) por fatores externos (por exemplo, aumento de preços de consumíveis ou
produtos alimentares, taxas incluindo portagens rodoviárias). Isso causará a instabilidade
económica das IES. Mais ainda, sendo ‘cru’, mas frontal, para as famílias a qualidade desce
apesar que “está tudo bem, vai ficar tudo bem”. No ‘fim do dia’, para essas famílias é a sensação
de haver um puxar e empurrar, as IES terem mais e mais verba, mas pouco ou nada ‘reporem’
de qualidade de oferta formativa ‘a quem paga’, seja por via direta (propinas) ou indireta (por
exemplo, IRS). Comentário injusto? Impreciso? Bem, há margem para incluir esta provocação.
9
Captar mais alunos, porque é esse o objetivo, mas ‘adicionam’ alguma exigência na seleção dos candidatos,
oferecendo cursos com requisitos à entrada que assim irão mensurar à partida a qualidade dos estudantes aceites.
Tudo para conseguirem ‘posicionar- se’ entre si, relativamente.
Moniz/Um novo horizonte/16
Pior, ‘aquilo’ que era um emprego, que se poderia antever no início do curso, poderá já
não haver nesse campo de estudo. Um(a) estudante dedicou-se durante anos, mas a atividade
pode ter deixado de estar disponível, pelo menos de forma tão ampla ou tão especifica no
mercado10
de trabalho11
. A sociedade é complexa, as necessidades variam em oferta e procura,
a inovação tecnológica pode trazer alterações súbitas…e profundamente drásticas.
Os ‘rankings’ não são inúteis12
, se bem estruturados e operacionalizados. Em particular,
podem permitir apontar a importância de, por exemplo, o quociente entre número de estudantes
e docentes, ou as taxas de graduação, i.e., quanto tempo demora um curso a ser completado;
índices de satisfação e daí uma ou outra ‘nota’ qualitativa para reputação académica.
Mencione-se o potencial de aferimento salarial para aqueles que se graduam numa dada IES,
ponderado em termos do investimento das famílias e do Estado: merece ser discutido, pois
esses salários poderão trazer mais (ou menos) contributos, posteriores e subsequentes, ao longo
da vida laboral, por via de taxas e impostos. Acrescente-se nessa discussão a despesa (direta)
da propina, assim como as (in)diretas da possível deslocação do seu local de vida e/ou trabalho
10
Alguma prudência: cursos versus oferta no mercado de trabalho, é uma relação que passa por diferentes ciclos
e pode ser ‘campo-dependente’. Duas situações, dois exemplos: a engenharia informática atualmente tem uma
grande procura; e no início deste século também se observava um excesso de docentes (ensino básico, secundário,
superior), ‘acrescentando’ que iriamos depois ter falta (!) de docentes no futuro, dado o corpo docente ser (muito!)
envelhecido … mas se a maioria dos jovens não escolherem a docência...
11
Também é pertinente apontar que algumas formações não oferecem remunerações consentâneas com o grau
obtido, o que também leva algumas famílias a pensar se vale a pena enviar os filhos para a IES…
12
Os ‘rankings’, goste-se ou não, podem induzir como diferentes agentes tutelares e empresas (parceiras?)
‘avaliam’ as IES, assim como estudantes e suas famílias farão as suas escolhas deste ou daquele curso para
frequentar. São já uma ‘bitola’ (!) que se vai considerando e, sim, os ‘rankings’ são variados e carregam influência.
Por isso não são, pragmaticamente, todos inúteis. ‘Medir’ (?) a qualidade de uma IES é um problema
multidimensional e nunca poderá ser baseado de forma estéril em apenas um ‘ranking’ (ou até numa sumula de
todos). Qualquer ‘ranking’ é uma medida muito limitada, falível e pode ser incluída numa ferramenta mais ampla,
entre várias operações de análise de qualidade.
Moniz/Um novo horizonte/17
para o campus da IES. Estes custos, em particular na última década, têm aumentado quando
recessões financeiras surgem13
.
Crise
Mencionada atrás, há a despesa de frequência do curso. A imediata e óbvia está definida
na forma da propina, mas há outras decorrentes do usufruto dos campi (e.g., há que pagar
investimentos em instalações e aquisições, nem sempre totalmente cobertos em OE…). A
propina é uma forma directa de obter alguma receita, mas as verbas daí provenientes podem
aumentar, descer… . De forma indirecta, também pode ser disponibilizada verba para as IES,
obtida no entanto através da execução fiscal, por exemplo IRS, IRC, IVA (e outras taxas).
‘Engenharia’ de OE, por onde outros custos cabem ao Estado, os quais têm que ser também
assegurados: saúde, transportes (aéreos, ferroviários), ‘administração interna’, muita outra
‘coisa’… .
A argumentação simplista mas falaciosa, é de apresentar ao ‘consumidor’ (que pague
as propinas, diretamente, ou, indiretamente, contribua no IRS ou o aumento de portagens ou
de transportes ou combustíveis), os custos crescentes das IES como unicamente decorrentes
13
Uma consequência tem sido o aumento de popularidade do ensino online, e.g. no Brasil; o ‘vento’ está a passar
de favor para desfavor nas instituições de ensino superior, ditas de tradicionais, mas melhorou para algumas
estruturas educacionais alternativas, quiçá disruptivas… . Acresce referir a formação on-line em grandes
empresas. Por exemplo, na ex-Portugal Telecom, permitindo um elevado número de formandos, com custos
mínimos pois nem precisavam de deslocação para fora do local de trabalho. Ou o grupo ‘42’ em modo hibrido
i.e., ‘blended’ (cf. https://www.42lisboa.com/), recente e … gratuito! Por que então procurar frequentar um 1º
ciclo numa dada IES para se obter um bom emprego, com um bom salário? E até pode depois fazer uma pós-
graduação online (2º ciclo) numa outra IES, tudo devidamente acreditado e ‘abraçado’ [pelas entidades
empregadoras (muito competitivas)]. Nb. Eu declarei que seria atrevido na provocação.
Moniz/Um novo horizonte/18
de aumentos salariais obrigatórios no ‘produtor’, se indexados ao quociente entre número de
estudantes e docentes. No entanto, não são os salários que forçam o ensino superior em Portugal
a ser cada vez mais dispendioso: os salários aumentam, mas lentamente, em comparação com
muitos outros custos (e despesas institucionais). E serão estes últimos em larga medida, devido
a uma opção (em casos, uma obsessão?) de atrair mais e mais estudantes, sem base sustentada
para uma ‘estratégia’ de custo-investimento e incerteza de resultados, que provocam [direta e
indiretamente (!)] um aumento do custo (existencial…) da IES. Não é o ‘preço’ de
administração e do corpo docente, mas… é o custo que muitas vezes advém de uma IES se
‘dotar’ com algumas ‘bolsas de estudo’ ou necessidades ‘assalariadas’, construções e estruturas
físicas na forma de edifícios, melhorias de acesso, incluindo as redes sociais, sem ser por
programas sensatos de financiamento. Ou criar núcleos associativos para estudantes, desde
teatro a desporto, como muitas outras atividades, que legitimamente interessam aos estudantes
que uma instituição providencie. E junte-se muitos gastos que são obrigatórios (e.g.,
acreditação14
via A3ES), aquisição de equipamentos obrigatórios à investigação para ser
concorrencial (a nível da União Europeia) em termos de projetos para financiar, consumíveis
muito (!!) dispendiosos, mobiliário, consultadoria, pareceres, manutenção, reparação ou
mesmo a substituição de equipamento singular.
As IES recebem, pois, com imenso e intenso agrado o(a)s estudantes que as escolhem
ao invés de outras. Um diploma outorgado em certas instituições pode assim tornar-se bem
14
Os procedimentos que eventualmente conduzem à acreditação dos cursos são cada vez mais dispendiosos.
Concretamente, em funcionário (não-docente ou docente) /hora de trabalho, como também em pagamento (!) à
agência de acreditação.
Moniz/Um novo horizonte/19
mais dispendioso (no fim, paga-se!), como resultado de atrair os candidatos mais exigentes.
Ter um grau de um curso numa determinada universidade pode ainda ajudar em certos meios
empresariais e industriais, a atingir um determinado emprego com algumas regalias, benefícios
profissionais e vantagens financeiras. Mas esse dispêndio não provém tanto, repita-se, porque
as IES tentam acomodar normas ditadas pela tutela sobre a progressão salarial do corpo
docente. Diretamente, por meio de propinas, designadamente as que são muitas vezes cobradas
em 2º ou 3º ciclo, extrai-se uma ‘compensação’ que contribui para o pagamento dos salários.
Ou as que se ‘capitalizam’ por via dos estudantes internacionais.
Há, pois, um paradoxo, como se expõe, com mais detalhe, no seguinte.
Por um lado, são as IES que têm respondido aos problemas económicos que se lhes
deparam. Designadamente com o aumento de preços em alguns bens e serviços (num mercado
competitivo), desde propinas (quando e ‘onde’ podem), alojamento, manutenção e aquisição
de equipamento, assalariados (e sem ser via OE direta), podendo ser com ‘despesas de
administração’. Mas é como se algumas IES não se interessassem pelo que está em seu redor e
como elas estão a ser a percecionadas nessa envolvência. Haverá IES, pela sua tradição e sendo
por isso referência (ou pretendendo ser em grupo corporativo), que irão (ou já estão) a cobrar
mais e diferente, sem qualquer perceção, gerando custo de forma lenta, mas contabilizada,
sobre as famílias. E muito pior ainda, promovendo cursos com muito poucas das aptidões e
competências necessárias para os estudantes, futuros graduados, terem sucesso no mercado
global do século XXI. Seguem uma rota, um destino onde os estudantes, as suas famílias (e
Moniz/Um novo horizonte/20
também os ‘fazedores de política’), são naturalmente arrastados para um vórtice algo
ameaçador e preocupante15
.
E por outro lado, todos os anos as IES precisam de mais e mais apoio financeiro, pois
algumas encetaram despesa, desde, repita-se, aquisição de instrumentos e equipamento,
construção, recuperação ou manutenção de edifícios e instalações. Modernização de soalhos,
tetos, paredes e janelas. Novas ‘modalidades’ de aquecimento, ar condicionado. Mobiliário.
Meios de transporte. É possível continuar… . E o/a contribuinte, tem de custear isto tudo, via
impostos, sobretudo de forma indireta, pois o OE seguinte não pode deixar cair esta lista de
instituições de ensino superior publico. A lista (ou qualquer dos elementos que a constituírem)
é ‘too big to fail’. Coesão. Sacrifício. Tem de ser. O flagelo social… .
Alternativas e de acesso imediato existem: os cursos de banda larga a distância, mas
não transmitindo ainda segurança, salvo muito poucas exceções devidamente certificadas (i.e.,
Universidade Aberta). Exige-se cada vez mais qualidade, mas não tendo na sua essência ainda
uma componente disruptiva de base tecnológica e personalizada no utente. Ainda não existe de
forma generalizada, i.e., ‘plug & play’. Mas poderá de algum modo (deveria ser regulamentado
para aferir padrões de ética, equidade, utilidade social) vir a surgir. Ironicamente, onde poderá
(deverá?) haver alguma obtenção de lucro.
15
Graduados sem emprego não conseguem retribuir o investimento, por via de um IRS ou equivalente. A riqueza
(também) social de um Estado dependerá da percentagem de cidadãos (incluindo esses graduados) que contribuam
subsequentemente para as receitas (também sociais) do Estado. Em particular, numa Républica… . Graduados
sem emprego é mau, é péssimo. É mesmo pior que mau…
Moniz/Um novo horizonte/21
Há também o ponto de vista dos empregadores, que vão ter uma voz cada vez mais
influente sobre as áreas em que precisam que alguns estudantes se graduem, conforme
requerido pelo mercado de trabalho. Isso não pode ser desprezado. E embora podendo um
ensino mais remoto ou menos próximo, orientado para o lucro económico, ser ‘apenas hoje’
mais dispendioso nos vários ciclos de estudos (comparativamente a instituições hoje totalmente
públicas e de custos mais baixos), alguns casos têm sido objeto de análises de qualidade, através
de várias (outras) agências de certificação. E essas alternativas podem vir a ser mais
convenientes e ser mais fácil e rapidamente orientadas para os propósitos dos estudantes,
especialmente obter capacidades e aptidões urgentes para o mercado de trabalho, muito
necessitado, que evoluirá (nos próximos anos, décadas) de forma estonteante. A rede pública
de instituições de ensino superior (ainda) não oferece alternativa dessa índole por que não quer,
acha-se, repito, ‘too big to fail’. Mas o(a)s contribuintes (de impostos) e legisladores, tenderão
gradualmente a colocar de forma direta e sobretudo indireta, uma redução de taxas em fundos
financeiros para benefício destas novas operações de ensino. A manutenção (obrigatória?) de
todas as IES atuais em Portugal, na sua distribuição, forma e conteúdo, pode deixar de ser
realidade.
Dadas estas alternativas graduais que vão emergir, ano após ano, e serão colocadas à
disposição das famílias, as IES que as quiserem desprezar, quer por teimosia, incapacidade,
estreiteza mental, poder-se-á dizer que vão merecer aquilo que irão recolher. Não terão mais
apoio nem simpatia que muitas das indústrias antigas, outrora pujantes, as quais não souberam
adequar-se, modernizar-se. Basta olhar, diria, o fantasma da falência de fábricas, abandonadas
e totalmente destruídas: é aquilo que efetivamente pode acontecer gradualmente às salas de
aula, até a todo um departamento ou uma faculdade. Dizer que isso jamais acontecerá?
Moniz/Um novo horizonte/22
Jamais?! As pessoas envelhecem, os departamentos são ‘ajuntados’, alguns poderão
‘desaparecer’.
Dito de outra forma, aos encargos onde as famílias sentem dificuldades, emerge
também uma situação de crise financeira, diferenciada, (des)apercebida em maior ou menor
intensidade, em (algumas) IES…. Elaboremos então de forma mais cuidada.
Causas
Há sem dúvida alguns aspetos de crise financeira (e consequências decorrentes…) nas
IES. São sobretudo causas intrínsecas, próprias de uma tradição: alguns Institutos
Politécnicos ou Universidades têm mantido práticas, importadas quer de outras IES ou dos seus
próprios passados, mas ao ponto de agora colocar em perigo o seu futuro. As IES Portuguesas
têm sido assim forçadas a reduzir o orçamento, diminuem custos, eliminam outros, mas
raramente conseguem daí tirar melhorias relevantes. Não conseguem reinventar,
significativamente, o conteúdo dos seus cursos, para preparar, melhor e diferente, os estudantes
para as novas necessidades cognitivas. E acima de tudo, para as exigências de interface
tecnológica, cada vez mais fortes, de um novo mercado de trabalho.
Uma analogia é tomar uma empresa que pretende ter uma vantagem num dado mercado:
‘entra’ e oferece novas particularidades, tal como uma rapidez ‘fulminante’ no carregamento
da bateria num telemóvel ou adicionar vitaminas ‘pujantes’ aos iogurtes. São vistos como
Moniz/Um novo horizonte/23
inovações e não como reinvenção, o produto transforma-se em melhor e no entanto, o ‘design’
permanece o mesmo, seja uma caixa ou um pacote, os preços aumentam e o(a) consumidor(a)
genérico(a) começa a pagar mais por aquilo que não precisa realmente… . Dito de outra forma,
a nova empresa procura oferecer o mesmo utensilio que outro(s) competidor(es) oferece(m), a
menos ou mais de umas ‘cores’. Designadamente, face à competição que está num patamar
por ‘tempo’ de presença ou da experiência que já possui, alcançado junto dos ‘consumidores’.
Numa IES, o preço acrescido a pagar é o custo daquilo que é ‘novo’. A IES vai
auferindo (mais algum) capital por meio de atividades extracurriculares, cursos e programas
de graduação. Pode argumentar-se que a frequência afinal até não é muito onerosa junto dos
estudantes e das famílias. Ou que tudo resultou de assumir o pagamento de custos,
consequentes sobretudo de outras decisões de ‘compra’ e mercado, marca e produto(s). O
‘consumidor’ é que optou por uma ‘inovação’ que afinal será só uma reapresentação
empacotada, para essa ‘compra’; quis ir para ‘esta’ IES ao invés daquela(s) outra(s), por causa
do diploma com ‘regalias’…
Metáfora com alguma (mais uma) provocação: o ensino superior, empregando
linguagem de gestão e economia, é o que se pode chamar de uma empresa amadurecida. É
avessa a tomar riscos, muito autossatisfeita e por isso, por vezes (muito!) dispendiosa em
alguns setores. Mas terá que promover o debate sobre assuntos fundamentais, sobre os seus
programas académicos e terá que se transformar em algo, tomando em braços esta nova
economia emergente com tecnologias de inteligência artificial. Esta irá dominar com o impacto
da globalização, tecnologias rapidamente em evolução, uma população e uma demografia cada
Moniz/Um novo horizonte/24
vez mais diversa. E se com uma faixa cada vez mais envelhecida, também terá novos
consumidores caracterizados com novas necessidades, novos objetivos, novos hábitos, novos
paradigmas e novas ferramentas. E agilidade e motivações intrínsecas, muito, muito diferentes.
Um substancial salto geracional. Mind the gap!...
A história está preenchida com exemplos de algumas indústrias (por exemplo, de
natureza têxtil em várias regiões!), que por sua própria escolha desafiaram, mas falharam pois
não quiseram responder ou sequer pior, não quiseram sequer tomar nota das mudanças no
mundo à sua volta. Uma analogia ‘académica’ poderá ser a obra16
de Hermann Hesse, onde se
discute ‘uma’ Universidade.
No que concerne as IES Portuguesas, a sua organização atual, genericamente emergida
no final do século XIX e no início do século XX, não tem até recentemente sido desafiada e
por isso, não foi alterada de forma significativa na sua estrutura e operacionalidade. Muitas IES
tentam um comportamento padrão em termos de gestão, melhorar o produto, dar aos
‘consumidores’ aquilo que eles querem (ou devem querer ou pior, têm de querer…) e observar
alguma da competição. Idem se fossem produções de iogurte ou baterias de telemóvel. E aí
surge o problema. Isso leva a que muitas instituições possam falhar inevitavelmente, enquanto
líderes ou pretendendo (!) ser líderes ou ascender em alguma forma e operação, em
classificação ou designação operacional. Irão, repita-se, focar em servir mais e melhor, indo
16
Cf. https://www.goodreads.com/book/show/16634.The_Glass_Bead_Game.
Moniz/Um novo horizonte/25
ao encontro de necessidades ou talvez apenas pretensões de necessidades, observando o que
fazem os ‘competidores’. E isso pode ser a raiz de um grave problema.
Uma IES não é uma indústria ‘tout court’. Mas, salva a distância contextual e
‘orgânica’, refira-se o seguinte: sejam computadores ou motocicletas, quem entra na base do
‘mercado’, tem que ‘vender’ produtos simples aos ‘consumidores’, aos que são menos
exigentes. E a partir daí, ir melhorando, passo a passo, de forma a ‘empurrar’ os anteriores
líderes. E de certa forma é também algo, em termos sociais, que devemos considerar poder
existir, de forma implícita ou não declarada, não necessariamente promovida de forma oficial
mas emergindo assim, no setor da educação superior pública: IES ‘recém-chegadas’ na rede de
oferta de cursos, principiam nos primeiros degraus da ‘escada’ e disponibilizam logo de início
cursos base (sempre devidamente acreditados…); gradualmente irão tentar (!) apresentar mais
e mais áreas formativas17
. Essa ação pode ser descrita em termos de ‘competição18
’ e vista
como saudável e vital: instituições maiores e mais antigas, experientes, (re)conhecidas, irão
ser desafiadas por outras mais criativas e mais pequenas, potencialmente mais flexíveis. Por
via de uma inovação, ‘contra’ aquelas que estão ‘entrincheiradas’, disponibilizar melhores
serviços através dessa forma. O problema é quando todas se entrincheiram, mesmo as mais
‘jovens’ que, entretanto, adotaram os vícios das mais ‘vetustas’, arcaicas e reconhecidas. Vão
17
A distinção entre ensino politécnico/universitário tem-se esvanecido com o tempo: algumas ofertas formativas
de uns ‘passaram’ a estar em outros, também. Deveria haver uma distinção operacional (atualizada!) sobre o que
se pode encontrar em cada um. Entretanto, os politécnicos ambicionam ser como as universidades e as
universidades, por sua vez ambicionam algumas das ofertas formativas dos politécnicos.
18
Idem intra-IES, pois mais alunos numa dada área pode significar mais vagas (e progressões) na carreira
docente. Saliente-se que ao crescer, uma IES promove mais criatividade, proatividade e qualidade. E assim
competir com as outras IES, mais avantajadas (em termos de cronologia e geografia). Assim se espera. Só que...
Moniz/Um novo horizonte/26
querer abraçar (ou de uma forma gritante e ansiosa, agarrando com alguma brutalidade) o tão
desejado apanágio de … ‘tradicionais’.
É por aí que em muitos casos as estratégias de algumas novas universidades e institutos
politécnicos têm sido tomadas. Só que o fizeram em esmagadora forma e ação, por meio de
uma insipida imitação e não de inovação singular. Na sua defesa, essas instituições estão
apenas a fazer o que a lógica e a tradição tem ditado. Inicialmente providenciar em modo básico
e simples aquilo que pedem os possíveis (!) interessados. Designadamente o que já
disponibilizam as IES maiores, mais antigas, mais abrangentes: oas estudantes procuram estar
nessas universidades ou institutos politécnicos (pelas razões que se entenda etiquetar) e as
‘novas’ querem um pouco do ‘mesmo’. Algumas dessas vetustas IES têm orçamentos anuais
na ordem de muitas dezenas a centena (mais?) de milhões de euros e a verdade é que também
possuem um conjunto de fundos e financiamento complementar, que lhes permitem manter ou
terão permitido manter durante algum tempo essa situação de domínio19
. Apesar de algumas
tormentas ou ‘balanços’ por causa de algum incómodo no canal. No entanto essa situação pode
ser muito perigosa.
Em universidades e institutos politécnicos às quais ainda não há uma etiqueta de
idêntico orçamento, arcaísmo, marca e nomeação (por entre a opinião pública), ao tentarem
imitar as tradicionais e ‘antigas’ em especificidades, vão (ter de) incorrer em (mais!) despesa.
Por exemplo: adicionar mais e novos estudantes, por via de novos cursos, e mais ainda, tentam
19
Valores que são depois ‘multiplicados’ para com (uma aplicação n)a economia das regiões.
Moniz/Um novo horizonte/27
encontrar mais docentes, com algumas responsabilidades de investigação (se puderem). E esses
docentes querem laboratórios, equipamento, edifícios, mobiliário, parques de estacionamento,
‘modalidades’ de aquecimento… . Em suma, novos custos. Tudo fica pior se depois…faltarem
alunos, mesmo os internacionais. E há que cobrir despesas entretanto assumidas ou se já
feitas… . E tudo ficou pior com a construção de mais edifícios, ou sua manutenção,
recuperação, reconversão ou mesmo substituição. E mais equipamento laboratorial. E mais
recursos materiais para suporte à administração. Emprego para os recursos humanos que vão
assegurar essa administração. O sustento de famílias... . A bem de uma coesão, de uma região
que precisa de reduzir o flagelo do desemprego.
Como então cobrir esses custos? Aumentando as propinas? Por impostos (in)diretos
(e.g., IRS ou portagens rodoviárias ou nas bebidas) através da tutela (governo)? Pode, mas …
não chega. E por vezes (muitas, acontece…) não há os alunos suficientes em todos (ou nesses
novos) cursos. As despesas de operação, desde vulgo consumível até subsídios e apoio
académico associativo, aumentam (o dobro? Apenas metade? De uma terça parte ou o triplo?).
E poderá haver abandono escolar e … a despesa aumentará, inapelável, podendo divergir. Mas
isso não deveria ter sido possível: assim, não permite ter ‘vantagem’ para se começar uma
universidade ou um instituto politécnico, a estar em competitividade. Economicamente,
financeiramente, poderá ter sido tolerado, até incentivado ‘a bem de uma região’, coesa
territorialmente, aceitado o dogma ou crença dessa necessidade, mas isso torna-se, de forma
gradual, totalmente insustentável. Manter tudo como está, sem qualquer alteração, manter a
possível estagnação? Afinal, existe (ou não) o pântano do ‘status quo’ de décadas no ensino
superior? Muitas IES agora ou ‘amanhã’ não vão ter a capacidade de sustentar, de oferecer
Moniz/Um novo horizonte/28
tantos (!) cursos, tão diversos para tantos estudantes ou requerer também que os seus
professores compitam no mundo cada vez mais exigente de financiamento para investigação.
Tem que ser assim?
A despesa do financiamento disponível para as IES ‘jovens’ transformou-se, é cada vez
mais limitada e mais competitiva. O resultado da ‘imitação’ com as universidades e institutos
politécnicos arcaico-tradicionais, já presentes no sistema, é que, porventura, ironicamente, até
poderá tornar estas últimas mais robustas e apenas um pouco mais dispendiosas. Mas, todas
as outras, as mais ‘novas’, podem não se tornar melhores alternativas de um ponto de vista
educacional e vão-se arrastando financeiramente, na dependência ‘mórbida’ de ‘agremiações’
parlamentares que as auxiliem ou promovam auxílio ao apelo ‘não podem falhar’, igual ao já
citado ‘espectro de flagelo social’. Entre as mais jovens, algumas já não têm os recursos
financeiros necessários, perderam-nos no mundo cada vez mais exigente, mais vulnerável.
Uma conclusão possível é que o ensino superior em Portugal é uma atividade (em
termos de economia e finanças públicas) extremamente perigosa, quando é o caso de algumas
IES que estão num campo médio (ou pior), quando não têm nem a robustez, ou a qualidade; a
despesa aumenta. E mesmo a equipa de barco a remos, a mais forte pode afundar se houver
ondulação inesperada… E ganha a outra equipa, que, ou afunda mais tarde ou rema para junto
da margem, vai devagarinho, formosa e, sim, segura, fluctuat nec mergitur. Mas ‘triunfa’,
‘aguentou-se’ por (muito) mais tempo, leva o prémio e benefícios mais vantagens decorrentes.
Vae victis.
Moniz/Um novo horizonte/29
Saliente-se, no entanto, que foi com sucesso amplo, lentamente, mas gradualmente, que
a comunidade académica e as regiões associadas, se faziam conhecer por meio das IES: estas
asseguravam um ensino para cada vez mais estudantes e sem dúvida que contribuíram para o
avanço do conhecimento e a melhoria económica e social da região. Quem contribuísse por via
de impostos e taxas, sem hesitação abraçava ‘essa causa’, satisfeito pelo crescimento
institucional e de todos os benefícios que daí vieram para a região e o país. Casos de sucesso,
repita-se. Mas, no entanto, este modelo padrão, agora torna-se insustentável. Ao invés, as IES
têm pois que desenvolver novas estratégias e ir para além da simples imitação; têm de se tornar
mestres numa excelência singular. Estrategicamente esse deve ser o caminho.
Para a maioria das IES na década que começa, terá que haver ‘a mudança’ e é
inevitável; a grande questão é quando é que ela acontece , na próxima semana, no mês que
vem ou no final do semestre e quais são as forças, a pressão que será trazida com ela; será
extremamente infeliz que haja um atraso causado por alguma rejeição interna, induzida por
arrogância ou menosprezo. Permita-se adicionar que quando surgem problemas económicos,
nomeadamente orçamentais na tutela (e eles surgem muitas vezes porque aquilo que era
pretendido a nível internacional não corre bem ou pela lei de Murphy…), temos de ter
orçamentos de crise. E são sempre particularmente afetadas as IES ‘jovens’ que se ‘modelaram’
nas arcaicas20
e vetustas. Não tenham ilusões, vem aí, sem qualquer piedade, uma …
20
Deve ser salientado que não apenas a ‘idade’ mas também a localização geográfica é importante (e muito) face
aos desafios, particularmente os económicos. Repercute-se na captação de alunos, relacionamento com o meio
empresarial e fontes de mecenato académico. E sobre o fator ‘localização’ [localização (de forma direta),
localização (de forma indireta)], cf. a provocação no último capítulo, concretamente o último dos quatro próximos:
o conformismo, sobretudo ao nível de ‘isso não nos vai afetar’, ‘somos de rija tempera’, pode induzir um excesso
de falsa (!) segurança e depois, o diagnóstico já não será mau; é grave, será muito pior.
Moniz/Um novo horizonte/30
Disrupção
A teoria da inovação disruptiva baseia-se (já referi aqui, mas não explicitamente, nesta
sequência introdutória) no facto de empresas, que entram no início ou na base do mercado,
terem de vender produtos simples aos consumidores menos exigentes. E a partir daí, ir
melhorando, passo a passo, de forma a ‘empurrar’ os anteriores líderes para uma situação
irrecusável de disrupção. E de certa forma é também algo que deveríamos esperar também
ocorrer no setor da educação superior pública, a inovação disruptiva.
Mas nas IES há uma anomalia que não lhes permitem preencher este enquadramento
de disrupção. Elaboremos. Algumas que ‘entram’ no ensino superior, entram na base como
novos concorrentes e oferecem logo de início cursos simples21
, que gradualmente ficam mais
‘complexos’. Só que o enfraquecimento das que já lá estão, em etapas tardias da disrupção, é
algo que raramente acontece no ensino superior. Temos ‘entradas’, mas não temos saídas (ou
‘quedas’ ou abandonos22
) quer entre as que ‘já lá estão’ ou nas que entraram… . Por um lado,
no ensino superior é difícil ter alguma disrupção porque as qualidades humanas de um centro
de investigação ou faculdade não podem ser facilmente repetíveis23
(em âmbitos ‘cronológicos’
e/ou ‘geográficos’). E acresce o seguinte.
21
Por exemplo, os cursos preparatórios da década de 80 e inícios dos 90 que conduzia depois os alunos para as
outras IES, nos seus 2 últimos anos da licenciatura (pré-Bolonha).
22
Excetuando a extinção de algumas IES privadas quer por questões empresariais/económicas quer por via da
regulação do Estado.
23
Mas, no entanto, o ensino poderá ter um fator de disrupção através da tecnologia online, que iria melhorando e
poderia desviar, assim enfraquecendo (mas nunca anular) o foco competitivo das credenciais dos professores ou
Moniz/Um novo horizonte/31
Tomemos dois grupos distintos de estudantes, que já estão ou apontam vir a estar, em
diversos empregos ou situações laborais. Num grupo, o prestígio da IES é primordial e
determina uma vivência académica; para membros deste grupo, a experiência de vida na
instituição é algo difícil de ser alvo de disrupção, pela valorização que ou pela família ou pelas
responsabilidades de trabalho (futuro), lhe alocam. Contudo, o(a)s estudantes no outro grupo
(muito menor ainda, em elementos) não querem despender tanto tempo no campus para obter
um grau; ele(a)s apenas querem aprender aquilo para que têm tempo muitas vezes depois de
um longo e cansativo dia trabalho; este novo público, que entra no sistema educativo são
disruptore(a)s mas ainda em muito pequeno número. Por enquanto… .
Em suma, num processo de disrupção que pode ou não ocorrer, o(a)s alumni e o(a)s
‘legisladore(a)s’, os quais foram ‘consumidores’contribuintes das suas instituições, atribuem
o seu apoio motivado por uma relação pessoal forte com as IES. Alumni e o apoio estatal ainda
dão às instituições tradicionais e com vantagens ‘geográficas’ um poder único no ensino
superior em Portugal, estas recebendo a verba e ajuda financeira. Por isso, têm tido um longo
percurso livre de qualquer disrupção, inclusive a tecnológica. Instituições públicas que recebam
ao longo do tempo o compromisso dos contribuintes de impostos, com a combinação do
prestígio (que é sempre algo difícil de definir) associada ao apoio leal de alumni e legislador,
de forças políticas, tudo isso tem permitido a essas IES atravessar sem grande dolo e problema
do prestígio da instituição, para ‘aquilo que os estudantes realmente precisam’ (pois é assim que poderá vir a ser
promovido…) e, quiçá, de forma quase, quase ‘gratuita’…
Moniz/Um novo horizonte/32
as tempestades financeiras. Em tempos de crise económica, vêm chamadas de atenção, alarmes
para acorrer, proceder a uma reforma… . Mas as IES, arcaicas e/ou ‘bem situadas’, etiquetadas
pelos décadas e até séculos de longa existência, pelo montante dotado nos seus orçamentos via
OE, pela quantidade dos seus cursos, de faculdades, de alunos, (quase) nada sentem. Ou então
um pouco de aperto de financiamento, interno, mas é coisa ligeira e são autossuficientes para
se manterem competitivas até que os mercados financeiros ou o OE recuperem e haja um novo
reforço do financiamento (por parte da tutela) para com elas. A procura dessas IES permitirá
cobrir custos através de pequenas campanhas, emolumentos, que, entretanto, surjam para
manter essa crise longe.
Uma outra razão para a falta de disrupção no ensino superior em Portugal é a forma
com que a ausência da disrupção tecnológica se tem sentido, desde que nas instituições
juntaram alunos em salas de aula em configuração de ‘anfiteatro’ e já vão séculos: os livros
de texto e exames orais e escritos têm permanecido (salvo exceções que deveriam ser louvadas)
na mesma forma, mesmo quando os computadores são introduzidos (como ‘adereço
promocional’) na mesa da sala de aula de qualquer estudante: ainda são usados para reforçar a
instrução existente; as aulas são melhoradas com a presença de gráficos computacionais; a aula
ainda permanece na sua forma original.
Mas eis que agora surge uma inovação que é disruptiva e vai ou já está a alterar isso.
Existe um novo meio, tecnologicamente acessível, para instruir (complementarmente, na
proporção que for sensata, caso a caso, curso a curso) os estudantes: o ensino mas também a
aprendizagem têm uma componente online, através de meios tecnológicos que estão cada vez
Moniz/Um novo horizonte/33
mais (embora nem sempre de forma fácil e generalizada) disponíveis. Resta saber se capaz e
benéfico como alguns dizem. Há imensas dúvidas, hesitações, até rejeições na totalidade e sem
apelo ou discussão que seja, ‘extermine-se’ dirão alguns. Mas, atenção, existe alguma
acreditação, mesmo para cursos-padrão em IES tradicionais, cada vez mais orientada para a
comparticipação (e.g., ‘blended’, híbridos…), explícita na informação disponibilizada nos
seus sítios da internet. Sobretudo para alguns cursos de pós-graduação, que providenciam essa
comunicação no mundo cada vez mais competitivo. Cada vez menos se dá como importante a
evidência e a capacidade da mera existência da instituição em ‘cimento e tijolo’ versus o
‘treino’ que uma faculdade demonstrará no ensino dos seus estudantes, por meio de uma
composição de aprendizagem in situ e ‘em rede’. Dito de outra forma, a qualidade dos cursos,
para aquilo que eles servem, importará mais do que necessariamente ter no topo dos critérios
de escolha e seleção de um curso (e IES) as paredes e os tijolos. Junto com o ‘nível’ dos
investigadores da IES que vão apoiar o ensino universitário ou politécnico.
A combinação de tecnologia disruptiva junto de um aumento do foco educacional
presencial, na graduação dos estudantes, abre a porta a novas formas de competição. É
indispensável. A IES tem que mudar rapidamente e de forma fundamental tudo (ou quase)
aquilo que tem feito; a verdade é que o modo como tem operado tem sido particularmente
dispendioso.
Nas IES é forçoso dominar os desafios, as oportunidades oferecidas por uma sociedade
de mudança rápida e global. Precisa-se mais do que apenas uma capacidade técnica e uma
competência cognitiva. Os estudantes, em particular, precisam de um enquadramento
Moniz/Um novo horizonte/34
educativo no qual, não só possam estudar, mas também alargar os seus horizontes e
simplesmente crescer. Isto é,
(i) a IES com a sua composição de diversidade intelectual, com a vida num campus social.
Como algo para onde crescer, evoluir e de facto poder estar junto com professores, que podem
pela sua presença mudar o rumo de vida. Mas é agora cada vez mais necessário tomar a
oportunidade de uma autoavaliação e uma reforma urgente: arriscamos cair na armadilha de
nos podermos tornar obsoletos ou parcialmente obsoletos no ‘mercado’ de ensino superior do
séc. XXI.
E (ii) o processo de aprendizagem é melhorado quando envolve uma mistura de ensino
presencial e enriquecida com disponibilidade online (i.e., acesso a vastos repositórios24
). A
experiência tradicional de vida na instituição e no campus, a presença de membros de faculdade
a tempo inteiro em universidades tradicionais, em particular as que abracem ferramentas
modernas, para sustentar a inovação e tecnologia; cf. o capitulo sobre inteligência artificial
neste ensaio.
Considere-se a situação [diferente (?)] da confrontada por jornais em suporte de papel,
que sofreram com a vinda da tecnologia digital, que lhes fecharam (algumas das) portas… .
Se a disrupção é competitiva, há também aversão à mudança. Com o poder do prestígio no
ensino superior, onde a qualidade do produto é difícil de ‘medir’ (se é que se pode medir de
24
Um exemplo notável, excecional e de qualidade superior, que alguns podem tomar de paradigmático, é o caso
da Universidade de São Paulo, Brasil.
Moniz/Um novo horizonte/35
alguma forma), quando não se tem a devida comparação entre universidades e institutos
politécnicos, daquilo que elas ‘produzem’ para os seus estudantes, sucede pois que as IES
mais antigas, com melhor ‘conforto geográfico, mais respeitadas, têm uma vantagem natural.
São também aquelas que são presumidas (em promoção de produto e opções de ‘consumidor’)
de ser as melhores escolhas para o futuro. Isso é uma força estabilizadora (que se faz mal em
desprezar e depois, pior, ignorar), reforçada pela acreditação e relatórios apensos, um
processo onde sobretudo representantes dessas IES tradicionais, periodicamente participam (e
dominam!), julgando do rigor e da qualidade de todas as instituições estabelecidas e … as
recém chegadas. Ao fazerem isso tendem a aplicar os seus próprios padrões de prática a outras
instituições. Por outras palavras: esta conformidade para com a tradição torna-se o preço da
continuidade por meio da acreditação e de entrada na ‘indústria’. É uma outra (espécie) de
“câmara corporativa”. Era preciso, em ‘género’, diversificar25
a governação (de forma
intrínseca e extrínseca) em cada agência de acreditação.
Agora, reiterando em termos generalistas de economia (e mercado).
Temos diversos modelos de inovação e esta poderá ter que ser ‘considerada’, para
revelar ameaças potenciais, mas também as oportunidades que as IES têm pela frente. Poderá
estar num cruzamento, numa bifurcação: por um percurso, estará face a uma disrupção
competitiva (e ‘ríspida’) e por outro, colocada numa outra forma de ressurgimento mais
apoiado e gradual.
25
Será difícil clarificar por entre estas ‘águas’ turvas mas algo novo e límpido, precisa-se!
Moniz/Um novo horizonte/36
Porque há dois tipos principais de inovação.
O primeiro tipo é inovação sustentada, com a qual se faz algo melhor ou maior.
Exemplos desta inovação são os casos de baterias de telemóvel que duram mais tempo,
televisões com melhores imagens e obviamente IES com ‘melhores’ cursos, acreditados e com
‘melhores’ centros de investigação, ativos na indústria. A sua ‘localização’ (territorial, mas
também cronológica) transpõe-se na captação de alunos, relacionamento com o tecido
empresarial. Algumas, apenas algumas e não todas, quase sempre ganham as batalhas de criar
inovação sustentada. Não apenas por causa dos seus recursos financeiros disponíveis, mas por
causa da sua capacidade, sua expertise, da sua competência, que lhes dá uma significativa
vantagem em criar e tornar as coisas maiores e melhores.
A inovação disruptiva, pelo contrário é trazer para o mercado um conjunto de serviços
e produtos, que não são (ainda) tão bons como os tradicionais mas …são mais fáceis de usar e
é aí que o ensino com mais recursos online é um exemplo, embora ainda na sua infância.
Quando as velocidades da internet são baixas e alguns (mas cada vez menos!) cursos online
são simples sumários das aulas tradicionais, a qualidade do ensino online ainda está muito
(muito, mesmo!) abaixo do que é o ensino presencial. Mas os ‘consumidores’ que não podem
assistir a aulas disponibilizadas num determinado local, tal como adultos que trabalham,
encontram no ensino online uma forma de educação atrativa ou quanto muito tolerável (para
eles): a definição de qualidade tem um significado diferente! É uma aula baseada no
computador, à noite na sua própria casa e por isso consegue vencer o presencial que exigia da
Moniz/Um novo horizonte/37
sua parte uma viagem e um horário muito sacrificado. E depois há a disponibilização a qualquer
momento e de material diverso.
Esta inovação disruptiva é inicialmente para não-‘consumidores’ tradicionais, é um
produto ou serviço que as instituições ‘corporativas’ ignoraram, assumindo de forma arrogante
e errada que na sua vigência, os ‘consumidores’ não estariam jamais (!?) interessados a não
ser no serviço tradicional. Mas à medida que a inovação disruptiva progride, e vai ficando
melhor pela sua forma e conteúdo, paradoxalmente, a inovação sustentada vai tornando-se
uma ameaça para as instituições e para os consumidores que a têm preferido. Por exemplo, os
cursos online vão tendo capacidades e elementos como videoconferência, que transformam o
curso online numa quase sala de aula ou mais próximo ou menos longe, como também criam
tutoriais online e discussões de estudantes, fóruns abertos a qualquer hora e oportunidade, sem
limite local, que o curso estritamente tradicional não providencia. A tecnologia oferece
algumas vantagens em custo (podendo até ser totalmente gratuita!) e uso, as inovações de
qualidade estão gradualmente a melhorar o produto, até ao ponto em que estudantes de IES
‘tradicionais’ poderão considerá-las (mais!) apelativas26
. Será um erro crasso, desprezar esta
complementaridade que pode ser tão rica e diversa de componentes e oportunidades. Irão, as
IES que desprezarem a mudança, reclamar uma vitória, mas pírrica. Como se disse, It’s the
economy e esta dita (em certa medida) a evolução do mundo, seja no mercado de transação
bolsista no centro da capital de um consórcio de nações ou na mercearia da mais pequena
aldeia. Ou como uma vez foi proferido, ‘eppur si muove’… (Galileo Galilei).
26
Mas falta inovar na qualidade da avaliação online e assim esta modalidade ainda não tem este acréscimo de
credibilidade.
Moniz/Um novo horizonte/38
Algumas IES vão, pois, encontrar as inovações disruptivas (que correspondam à sua
escala ou ambição) e serão obrigadas a reexaminar a sua missão, a sua visão, os seus objetivos
e sobretudo a sua operacionalidade. A tempo e horas? Ou demasiado tarde? Se as IES não
souberem ser inovadoras, desafiadoras, atrevidas, inesperadas e iconoclastas, a encontrar meios
com custos reduzidos de oferecer algumas das suas funções com igual qualidade, então estarão
condenadas a um declínio parcial, se não total.
A mudança por inovação está ao seu alcance. Têm pois que se reinventar. E de acordo,
a inovação da IES tem pois que ser baseada em informação cuidada, por um alto
reconhecimento e autoavaliação, supervisionada (sem dolo da autonomia) a nível da tutela
(competente…)
A IES típica só terá sucesso ao adaptar-se onde conveniente, como um grupo de IES
mais exigentes poderá já ter feito…: verificaram o que está a acontecer. Há um aumento do
número de ‘consumidores’ ou prováveis ‘consumidores’, que vão deixar de tomar as ofertas
tradicionais e poderão transformar-se, com a emergência de tecnologias27
. Isso poderá permitir
aos novos competidores, baseados em tecnologias do séc. XXI retirar ‘capital’ às instituições
(incluindo as que meramente e em conformismo de ‘rija têmpera’) imitam a tradição, servir o
grupo de não-ainda-consumidores e ainda não-totalmente-assimilado. E assim o padrão da
inovação sustentada é quebrado (!) pela tecnologia de disrupção: é o caso, por exemplo, dos
27
Por exemplo: ambientais; da saúde; exploração espacial e dos fundos marinhos.
Moniz/Um novo horizonte/39
computadores pessoais e portáteis em comparação com os computadores ‘monstros’ que
dantes, existiam historicamente28
no ensino superior.
Algumas IES consideram gradualmente a aplicação do poder da tecnologia de
aprendizagem online, ou envolver algo online junto ao estudante, muito para além do mero
acessório decorativo na educação tradicional da sala de aula do século passado (ou o que o
antecedeu). Com (outros) custos mais atrativos. Competitivos. Não só pela questão da propina
(1º, 2º e 3º ciclos!) mas também em deslocar-se do seu local de trabalho ou residência e a vinda
para o campus, repita-se. O ensino online tem tido mais procura na última década e sobretudo
aumentado quando as dificuldades financeiras surgem. Os desvios e as mudanças que mudaram
de favor para desfavor nas instituições tradicionais é aquele que melhorou nas ‘velas’ de
algumas estruturas educacionais online. As IES conseguem ter mais fundos e financiamento,
através da ‘frequência’ de mais alunos, quando disponibilizam alguma parte do ensino em
formato online. Mas, talvez o mero e simples recurso a uma disponibilização online, em
moldes de simples ato defletido, repetido e numa versão ‘copiada’ do modo presencial, seja
meramente redundante e não tão avant-garde29
. Ou sequer inovador. Ou disruptivo. E no
entanto, o genuinamente novo é sempre inesperado. Inclusive em conteúdo e operacionalidade.
Pode ser iconoclasta (muitas vezes é!) e com tanto de impressionante como impensável (hoje).
28
E já ‘andam por aí’ computadores quânticos.
29
Nb. Há já opções ‘ibéricas’ onde por exemplo se tem ‘folhas de Excel’ programadas para simulações, junto
com acesso a acompanhamento por tutores. Isto é, alguma organização e sofisticação. Portanto, não são só aulas
gravadas ou um monte de textos em Moodle. É assim…
Moniz/Um novo horizonte/40
Saliente-se também o seguinte. Uma IES incorpora uma economia aberta, ‘importa e
exporta bens e serviços’ que precisa de realizar de forma sustentada, com oferta e procura
atrativa, compatível com a sua missão, com investimento diverso e adequado. E, no entanto,
surge a questão sobre o sistema das IES em Portugal. Como chegou ‘aqui’, como tomar uma
trajetória de crescimento subsequente…
Conforme já mencionado, há uma parte da população que é envelhecida e as taxas de
natalidade decrescem, há abismos de desenvolvimento (cronológico e geográfico) por entre
regiões. Houve progressos tutelares para financiar reforçadamente a investigação, a inovação
tecnológica, mas também ocorreram tombos inesperados, um aumento do défice; custos sociais
de confinamento pandémico causaram retrocessos, piorando. E no entanto, repete-se, tem de
haver pois uma imensa mudança de política para as IES, para a investigação e desenvolvimento
de tecnologia. Um crescimento sustentado por meio da educação, por toda a sociedade
Portuguesa, para criar uma recuperação também do setor económico. Trazer um novo
horizonte, uma nova esperança para os jovens, para dar prosperidade mas também felicidade,
abraçada na resiliência.
Por isso haverá que rever (pretendendo melhorar!) os instrumentos de políticas públicas
para estimular as IES, os modos de financiamento, renovar (!) o tecido acadêmico e
empresarial apoiante, dar atenção (i) aos setores expostos mais diretamente à concorrência
internacional, (ii) o agravamento de desigualdades causado por desemprego e decréscimo de
rendimentos familiares.
Será que para as IES temos em Portugal um sistema sustentável, com boas
infraestruturas, incluindo humanas (ensino)? Será que investimos (e devemos investir mais)
para dotar as IES de mais e melhores meios digitais? Será que podemos atribuir os recursos
Moniz/Um novo horizonte/41
correspondentes aos jovens e suas famílias, eliminar ou atenuar desigualdades? A
aprendizagem é sobretudo uma interação social.
Mas atribuir melhor (cada vez mais!) financiamento às IES deverá vir pela
consensualização de um novo pacto, um novo compromisso30
. Mormente, reformas
educacionais de forte magnitude terão que ser seguidas, como (pré?) condição, uma exigência
para que (subsequentemente?) emerja maior apoio financeiro, junto com percursos ‘quase
gratuitos’ para a frequência de uma IES. Um contrato significativo, mas que tem de ser em
inequívoca seriedade. Tem de ser uma reforma histórica para o século XXI, responsável por e
para todo o encadeamento de intervenientes, na construção de (novas) competências, da e pela
qualidade nas IES Portuguesas. Apenas uma correção desta envergadura fornecerá
eventualmente a citada resiliência, um novo entrelaçar de parcerias colaborativas com as
empresas, por meio de boas (!) políticas públicas para estimular o investimento no sistema das
IES. E prioritariamente, por via da investigação e inovação tecnológica, criar o crescimento
sustentado, aumentando o emprego e a produtividade das estruturas económicas,
desenvolvendo em ciclo o sistema educacional.
Será pois então que podemos, que conseguimos identificar os objetivos de
desenvolvimento futuro, melhorar o nível de competência de toda a sociedade, de toda a
população por meio dessa reforma educacional de forte magnitude? Em particular, com
percursos de aprendizagem continua ao longo da vida?
30
Cf. por exemplo (e não isento de controvérsia e ‘queixas’) o ‘Donahoe Higher Education Act’,
https://web.archive.org/web/20080926010021/http://sunsite.berkeley.edu/~ucalhist/archives_exhibits/masterpla
n/, no estado da Califórnia.
Moniz/Um novo horizonte/42
É inequívoco que vamos enfrentar desafios e obstáculos, os orçamentos não serão
ilimitados. Como então manter as IES sustentadas financeiramente quando há muitas outras
exigências e urgentes, por exemplo na saúde? O progresso das IES depende de investimento
público, mas para ter mais, haverá que fazer diferente e melhor. No âmbito de uma nova visão,
nova missão, novo enquadramento. Haverá também que considerar outras fontes, colaborar
com empresas, a indústria. E considerar que alocar mais verba publica às IES pode implicar
retirar, por exemplo, à agricultura e pescas ou transportes ferroviários. Ter mais financiamento
nas IES implicará por isso a ‘fatura’ de ter muitas mais (amplas) reformas na estrutura das IES.
Antes de prosseguir para os capítulos específicos, uma digressão com alguns veios de
‘economia’. O nosso país tem estado estável, com qualidade de vida (em média) em progresso.
Mas se ‘ameaçado’ (ver o último, quarto capítulo desta série, que se inicia no próximo), se ficar
muito enfraquecido, como é que isso nos afetará, economicamente falando? É difícil (para não
dizer que não se recomenda) evitar debater o problema demográfico. Qualquer retoma e
sustentabilidade depende de um compromisso geracional. Só que uma longevidade (sempre a
precisar de cuidados), junto com uma baixa natalidade, redução de receita contributiva por
empobrecimento, obrigarão a repensar modelos simples: provocar mais despesa (no
contribuinte) associada a impostos para se gerar mais receita, todos (uns mais que outros…) a
pagar? Mas será um esforço justo para benefício solidário, ‘orgânico’? Se num mercado aberto,
num Estado onde a escolha for por via de processos democráticos (como deve e tem que ser),
se se optar por flexibilidade, risco e competição, ao invés de estabilidade solidária… Pode ser
um problema e uma nova realidade: poder-se-á optar por contribuir seletivamente… As
gerações que abraçam novas redes sociais podem já não vir para a rua gritar; ou ‘gritarão’ de
Moniz/Um novo horizonte/43
outra forma, para outros alvos e apelos. Nenhum dictum’ autocrático fará qualquer sentido
para os novos grupos.
E, no entanto, a economia do nosso país precisa de uma retoma vigorosa quanto antes,
pelos próximos anos. Ou seremos ultrapassados em indicadores de competitividade e
desenvolvimento por entre os espaços (e.g., Europeus) onde estamos. E isso depois reflete-se
nas escolhas de quem quiser em nós investir (ou não): sucesso gera sucesso. O desígnio em
décadas anteriores era a … convergência económica apontada para junto de algumas nações
líderes. Mas afinal parece que se divergiu; estamos mais longe? Isto de analisar geodésicas e
congruências… Em qualquer caso, arrisco afirmar que o investimento em ciência e tecnologia
em Portugal é primordial. Sim, outros setores (legitimamente aflitos) estão carentes e em
desespero. Problema complexo, solução complexa. Mas se temos nações que abraçam o dever
de apoiar a ciência e tecnologia, para fazer face a ‘ameaças’, com o triplo da percentagem do
PIB (produto interno bruto) dedicado à investigação e desenvolvimento tecnológico, em
comparação connosco…. E neste âmbito de ameaças31
e riscos, é curioso notar (fonte CE,
EUROSTAT) que temos países em crescimento económico (no espaço Europeu) com fraca
dependência do contributo do turismo no PIB (i.e., o turismo existe, pode ser amplo, mas não
determinante na economia), e o seu investimento percentual do referido PIB nas suas IES é
duas a três vezes superior e… têm um sistema educativo (talvez sem ‘dictum’, talvez com mais
contratos de confiança e ‘orgânicos’, esprit de corps, desígnios de Estado para décadas) com
taxas de graduação bem mais elevadas. E pronto, é assim: têm mais crescimento (económico)
médio anual por década, ‘QED’. Opções? ‘If it works..,’ é uma ‘roda’, deixa andar.
31
Reitera-se: ver último, quarto capítulo desta série, que se inicia com o seguinte.
Moniz/Um novo horizonte/44
Resignação, num ‘embrulho’ conformista. Mas pode (vai!) destruir o crescimento. Ao invés,
haja um debate sincero e com diferenças (ortogonais) de opinião. Conquistar distância, obter
espaço. Esse debate, para estabelecer o equilíbrio, congregando o que é correto e que precisa
de ser consensual, é algo de construção exigente. Determinar de forma rigorosa o que nos
centraliza e revela, tal como nos mantém coesos, é, repita-se, muito exigente. Entre manter
autonomia, mas vencer receios de inovar estruturalmente. É esse debate que nos une e que
muito necessitamos. Realizá-lo de forma colegial, para encontrar uma nova rota, é o desafio.
Moniz/Um novo horizonte/45
“Uma filantropia eficaz exige imenso tempo e criatividade – o mesmo tipo de foco e capacidade
que requer desenvolver com sucesso um empreendimento”, Bill Gates
Filantropia
Por entre o capítulo anterior, alguns parágrafos podem induzir uma perceção de
‘conflito’ aparente. Por um lado, a despesa em algumas universidades ou institutos politécnicos
terá aumentado e bastante, por diversas causas. Por outro lado, realinhar o ensino superior, por
exemplo com novas tecnologias, terá custos (elevados).
Se ‘é (sempre) a economia’, onde pois ir obter (mais e melhor) suporte financeiro?
Assumindo a missão partilhada de um conjunto público de ensino que deve ser devidamente
apoiada com fundos públicos (o OE!), deveríamos complementar essa fonte (e outras) com
outro procedimento, no qual se deveria investir profissionalmente. É a escolha entre o passivo
e o proativo.
Enfatiza-se que só poderá ser empregue e carece sempre de haver uma fórmula de
financiamento publico32
, com regras transparentes, i.e., não se pode substituir à fonte do OE…,
32
Saliente-se o texto (controverso, mas merecedor de mais analise e subsequente melhor estudo…) ‘Modelo de
Financiamento do ES: Fórmulas e Procedimentos’, Julho 2015, da SEES, ISBN-978-972-729-086-4, em
http://id.bnportugal.gov.pt/bib/bibnacional/1915892.
Moniz/Um novo horizonte/46
mas não deveríamos desprezar fontes de filantropia ou crowdfunding, i.e., disruptiva.
Porventura irrealista dirão alguns, mas se for possível, por cada 10€ de OE, obter por esta via
complementar 1€? Ou 2 ou 5? I.e., ‘recuperar’ em mais 10, 20 ou 50% o que viria por OE mas
agora ‘assim’. Ter-se capital inequivocamente próprio para se investir de forma
inequivocamente autónoma33
.
A governação universitária e politécnica precisa inovar nas linhas de apoio financeiro,
é preciso criar relações solidárias com muitos dos investidores (estes num sentido muito lato).
Empregar uma nova forma de comunicar, interna e externa. Tem que ser alterada e tanto entre,
como durante as várias crises que podem surgir, não só de natureza financeira, é pois preciso
estar preparado para agir e gerir.
Embora seja algo que não está muito desenvolvido no nosso país, a filantropia34
, i.e.,
arranjar doadores para fundos académicos é algo que devemos procurar, de forma muito
proativa, inovadora, criativa. Temos que o fazer. De forma elencada, é preciso
- uma nova abordagem, desde o concretizar de uma forma direta em termos da instituição, ter
gabinetes e equipas (profissionais!!!) dedicadas a trabalhar junto com o(a)s doadore(a)s, para
33
“Eu já pago impostos a mais ao Estado, portanto (a IES) não me deve ‘cobrar’ (mais) nada”. Isto acontece
com frequência quando alguém vem pedir por exemplo um serviço à IES. Em geral, não se sabe como
funciona uma IES: e.g., porque só há (?) ‘férias’ em Agosto ou porque é que os docentes não podem mudar de
IES como os do básicosecundário procedem para tentar mudar de escola...
34
Por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. por exemplo as obras ‘Demographics…’, ‘Designing
the new American university…’, ‘Turnaround…’, de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste
ensaio.
Moniz/Um novo horizonte/47
que os potenciais doadores conheçam e que a instituição também entenda o que eles levam no
‘coração e na alma’. De forma a que não sintam qualquer ressentimento quando são abordados
para efetuar um contributo, de várias formas, de vários montantes e para vários destinos.
- que esse(a)s doadores sintam que estão a fazer uma ação que vai fazer uma diferença na vida
dos outros e que os contributos serão devidamente reconhecidos. Saber pois ouvir esses
doadores, saber colocar questões para entender as suas motivações e paixões, sobretudo esta
última sobre a educação. Saber enquadrar e trazê-los no sentido de serem e virem a ser de
direito próprio da instituição e no mecanismo da sua instituição, que tem que ser também a sua
instituição, em programas e equipas. Estabelecer relações com parceiros. É fundamental
investir tempo para criar essas relações diretas, de amizade com doadores.
- transformar (para o(a)s doadore(a)s) a universidade ou instituto politécnico numa causa. De
todos, dele(a)s também, sem ambiguidades.
Não se trata de privatizar, ceder na governação. Nem de permitir a submissão a
influências. Trata-se tão somente de ouvir para depois, dentro do alinhamento do que são a
missão e os objetivos da IES, as suas linhas mestras, estatutariamente aprovadas e sancionadas
intra-academia, ter um diálogo, uma comunicação que é preciso ter, procurando saber o que
é preciso fazer internamente. Identificar onde é que se pode ajudar, como é que é preciso fazer
e depois ir em busca de mais parceiros, para que todos possamos apoiar a governação e a
própria alteração, onde ela é necessária. Temos que ser facilitadores e entender o que é que
os doadores poderão querer criar, qual é o legado que eles querem fazer e para que é que querem
Moniz/Um novo horizonte/48
fazer. Não pode isso ser feito em eventos com um salão repleto. Há que ‘personalizar35
a
atenção no(a) doador(a), de forma a estabelecer relações de confiança e de estima, sentirem
que poderão estar atrás da visão que é necessário implementar, do plano estratégico.
Não é , repete-se, privatizar aquilo que o financiamento público deve dar, mas partidos
políticos e fundações públicas em instituições públicas também recebem doações, que nunca
devem ser vistas como caridade mas sim como contributos construtivos para determinadas
áreas e tarefas, as quais congregam apoiantes e ao que poderão, entre várias hipóteses, atribuir
o que entendem36
. Se em 1000 graduados ao longo de anos cada um dá 1000 € por ano ou cada
cinco anos, temos um milhão de euros distribuídos com algum regularidade. Um milhão de
euros é um contributo fabuloso, excelente, excecional para investir internamente em situações
de bolsas, em aquisição de equipamento E também para ensino, que deverá ser e será sempre
transmitida obviamente de forma transparente .
Os doadores têm pois que ser abraçados, envolvidos na narrativa da instituição, não se
trata apenas de pedir verba, trata-se de (des)envolver para que eles também façam parte da
instituição (ou que, se já tenham feito parte da instituição, que se reforce essa parceria). Por
isso, a instituição tem de saber o que é que eles acham necessário, para a melhoria da IES. Há
que saber ouvir, adaptar, concertar e sobretudo investir com tempo, é preciso deixar claro que
a instituição quer dar-se a conhecer e que sobretudo quer apresentar a sua credibilidade.
35
Possível tarefa de ação ‘diplomática’ para ex-reitores eou ex-vice-reitores…
36
Possíveis obstáculos: não faz parte da nossa tradição e o baixo nível dos salários (médios).
Moniz/Um novo horizonte/49
Importante estabelecer relações de trabalho e de amizade, cooperação acerca de projetos que
possam ser particularmente inovadores e dos quais ambas as partes poderão aprender algo, uma
comunidade com a qual se deve estabelecer laços com alguma pessoalidade.
O ‘realimentado’ acima para destacar o seguinte: nunca esquecer que os alunos estarão
entre os futuros doadores. Esses são os mais importantes: uma doação de 100 € por cada um
de 100 alunos corresponde já uma quantia considerável: não podemos esquecer que são os
alunos hoje que serão os doadores amanhã. Reitera-se: temos que os saber ouvir e temos que
os ouvir. E termos ciente que apesar de os graduados terem apreço, estima e reconhecimento,
valorizarem um curso que os valorizará sempre, também têm dificuldades financeiras próprias
de quem inicia uma vida adulta e de trabalho, por vezes com dívidas ou custos, sacrifícios que
foram realizados. Não estarão imediatamente disponíveis para contribuir em modo filantrópico.
Adicione-se que, se para gerações anteriores a frequência universitária significou uma
progressão social por via do diploma, sendo por isso motivo de gratidão, nas gerações correntes
e vindouras, os hiatos de grupo social estão mais esbatidos, o curso já não é uma ferramenta de
melhoria social, é apenas uma etapa de amadurecimento para a vida adulta. Poderei estar a
exagerar, mas há diferenças geracionais. E sobretudo como veem um curso de ensino superior
e o valor (de mercado) que lhe atribuem. Há, pois, diversas modalidades de doadore(a)s: o(a)s
que tomam a universidade como algo que transforma vidas, e apelar-se à nostalgia, ‘saudade’,
Moniz/Um novo horizonte/50
reconhecimento37
leal. Mas também os que querem ouvir acerca de taxas de graduação, taxas
de retenção…, disponibilização de empregos pelos centros de emprego intra-campus (i.e., se a
universidade ajudou ativamente a encontrar emprego ou passivamente enviou para o IEFP38
).
Estes novos doadores querem saber se a universidade vale e tem, também sob este angulo, boa
qualidade, mas do ponto de vista dele(a)s (!). Uma universidade ou instituto politécnico que
tenha ‘dado’ empregos por entre os vários setores da economia, terá o reconhecimento e
gratidão desses e demais graduados. Para sempre. As IES deveriam, mas deveriam mesmo,
possuir um alinhamento mais estreito, eficiente, produtivo e responsável com os jovens
estudantes e os centros de emprego ou equivalentes.
Mas como operacionalizar?
O investimento a médio-longo prazo implica ter que ligar com uma nova geração de
alunos: os membros dos grupos de trabalho das comissões e centros de trabalho em filantropia
devem estabelecer, em conversas um a um, com todos os futuros graduados, por exemplo de
segundo ciclo, para que ele(a)s possam vir a considerar ser eventualmente mais tarde
doadore(a)s. Estabelecer relações a longo prazo, criar várias formas de aumentar o
envolvimento de jovens graduados. A ser feito de forma centralizada, em conversa ‘tutorial’:
o debate com os doadores deve ser centrado em cada doador(a). Mais ainda, ao enfatizar o
impacto que a instituição tem tido e tem e vai ter, adotar modos de comunicação personalizada,
37
Haverá o(a)s que farão a diferença duradoura e ter o nome associado a um ‘novo’ edifício, cujas doações
podem ser de centenas de milhar ou milhões.
38
IEFP, Instituto do Emprego e Formação Profissional (cf. https://www.iefp.pt/)
Moniz/Um novo horizonte/51
e.g., não enviar mensagens ‘en masse’, anónimas, secas, genéricas mas antes por textos
demonstrando conhecimento adequado, individual, de cada um(a) do(a)s destinatário(a)s.
Não obstante, pode-se por exemplo, criar o ‘dia da doação’. O importante é haver
transparência no gabinete de alumni graduados, serem melhoradas ligações, torná-las mais
próximas, mais correntes, mais eventos, promoção a seguir aos eventos. Por exemplo, os
alunos, os quais beneficiaram de doações, estabelecer vídeos e mensagens, com a sua presença,
onde agradecem e saúdam esse investimento.
Em suma, o crowdfunding ser particularmente importante entre os jovens doadores:
mesmo que 10 doadores deem 10 € cada um, já faz 100 €; e se 100 doadores cada um derem
100 € já faz 10000 € e isso permitiria por exemplo uma bolsa de doutoramento atribuída para
determinada área. Permita-se-me enfatizar mais uma vez. Ajudar a investir em doações,
trabalhar muito mesmo, para que seja arranjado um milhão de euros, significaria 100 000 a
darem 10 € cada ou 10.000 € por via de 100 doadores ou 1000 € por cada mil graduados,
como atrás referido. Com esta taxa, aproximadamente tanto quanto possível, ao longo de
vários anos.
Antes de encerrar este capítulo, permita-se-me enfatizar (repetindo, pois nunca é demais
quando é a economia…) o seguinte.
Serão precisas ações inteligentemente desenvolvidas para envolver graduados e
doadores, sobretudo os que ainda não são mas vão ser. Ter graduados a investir nessas relações
Moniz/Um novo horizonte/52
e notar que os graduados atualmente apontam as suas doações de forma mais estreita, mais
específica e muitas vezes tentando negociar essas doações. Como já aqui se disse, muitas vezes
os graduados terminam os seus estudos ainda com algumas dívidas ou dificuldades. Esperar
que eles possam desde logo contribuir verba, investir, não será exequível. Há que investir nas
relações com os graduados de hoje, parcerias de entendimento, compreensão mútua de trabalho
e relação. Designadamente, muitas vezes pensar no impacto em melhorar taxas de graduação,
em diminuir as taxas de retenção, quais são os números de empregabilidade. Os doadores
querem que se prove que as carreiras são úteis, sobretudo colocar objetivos de participação,
para que cada um(a), ao doar 1000 a 5000 €, estará realmente a fazer uma grande diferença e
adicionar um valioso contributo.
O parágrafo acima aplica-se àqueles que hoje têm 20 a 30 anos, uma comunidade de
alumni vibrante, a qual se identifique com ações universitárias de desporto, cultura e festivais
de música clássica, jazz, cinema, teatro. I.e., uma forma de todos esses graduados estarem
presentes e terem algo a dizer, concretizarem um contributo de muitas outras formas. E
particularmente importante, a melhor forma de ganhar os graduados é, já se disse, repetiu-se e
repete-se: ‘dar’ empregos aos graduados. Porque é que eles deverão apoiar a missão da
universidade, sobretudo se a universidade tiver como missão os alunos? Essa deve ser (em
parte) a estratégia: a universidade ajudar a empregar, contratar por entre o tecido económico,
industrial, de serviços e empresas em geral. Os especialistas de relação de filantropia e de
doação devem ir além sobretudo dos ‘tijolos’. Se o ensino tem que ser centrado no aluno,
também a pesquisa e o trabalho para doação deve ser centrado no ‘aluno’. Temos que pensar
como uma startup, a pequenas ações, grupos pequenos e objetivos de trabalho específicos
Moniz/Um novo horizonte/53
para propósitos concretos de produção. Como se uma startup fosse, em busca de investir e ver
um retorno, não estritamente de capital financeiro, mas um retorno em programa de
cooperação, para um desenvolvimento comum.
É também preciso também definir um objetivo de participação: por exemplo, a
aquisição de um equipamento, que custa muito ou uma bolsa que requere ‘tanto’. Isso é
importante: sermos competitivos. Onde recebemos 1 € de financiamento público precisávamos
de outro, i.e., precisávamos de ter o dobro do nosso financiamento total, que não temos
publicamente. Mas se tivéssemos o dobro do que recebemos via OE, significava entre muitas
outras coisas, poder competir e tentar ir ao encontro em termos de competitividade, em termos
de benefícios aos candidatos a estudantes. E é isso que é preciso dizer: se queremos ser
competitivos, em termos de qualificação, de reconhecimento, de agrado. Por isso temos que ter
essa verba adicional. Precisamos, enfatize-se, de um novo tipo de doadores, de atrair pequenas
doações entre os alumni , entre os novos graduados e adequar os apelos aos seus interesses,
aos jovens doadores que possam fazer pequenas doações mas muitas doações: para objetivos
concretos e bem especificados de aquisição ou investimento, desde o cientifico puro até
atividades culturais e artísticas.
Por último, neste capitulo, as IES deveriam formar equipas especificas para gerir
eventos anuais de doação, incluídos numa campanha durante o ano, de uma forma
extremamente profissional. Repete-se mais uma vez (porventura em demasia e já em ‘agonia’
em quem lê, mas, … é a economia): existe um número possivelmente significativo de doadores
que poderão dar ‘pequenas’ doações. Por exemplo, 2000 doadores a darem 500 € cada um, ou
Moniz/Um novo horizonte/54
5000 doadores, por ano, contribuindo 200€ cada um. Para isso temos que tornar a IES numa
causa para todos, incluindo os que terminam excelentemente bem formados. E esse é o desafio
que temos que fazer, ter as IES a apresentaram-se para os doadores, para atrair graduados. Em
modo de filantropismo, para as causas relacionadas da instituição e ganhar os novos graduados,
relacionar com todos os alunos hoje, doadores de amanhã.
Moniz/Um novo horizonte/55
“Queremos uma sociedade que ofereça mais liberdade e requeira mais partilha de
responsabilidade … Queremos vir a ser … bons vizinhos…”, Willy Brandt
Consórcios
E é sempre a economia. Não interessa o ‘mas porque é que tem de ser?’ Há que ir ao
encontro do como, quanto, quando? ‘Onde’ se pode obter verba? O capítulo anterior é uma
sugestão construtiva. Quiçá já adotada e adaptada por algumas IES Portuguesas. Mas não chega
para os desafios e problemas elencados no capítulo de ‘Diagnóstico’.
Se no passado houve um crescimento da população estudantil, agora há outras mudanças
na diversidade dessa população que deseja o acesso ao ensino superior. E poderá determinar
como as IES terão que tomar esse facto, com diferentes implicações económicas. Por outras
palavras, o número de IES aumentou. E em algumas delas com um número mais diverso de
estudantes. No âmbito da sua evolução e ‘manutenção’, tem-se tentado manter tanta autonomia
quanto possível em termos de liberdade académica, de ensino e investigação; uma marca de
qualidade dessas instituições. No entanto, há um problema.
Moniz/Um novo horizonte/56
Como reconciliar essas ambições e necessidades, aparentemente não limitadas, com os
recursos regularmente atribuídos e (sobretudo) financeiramente disponíveis (e.g., por via do
OE), obviamente limitados? As IES, à medida que ‘crescem’ vão precisando de cada vez mais
ciclos de estudos, de cursos. E isso representa, como já aqui se disse, mais custos. Há de facto
uma aceleração na quantidade a disponibilizar, junto com uma necessidade de qualidade. E é
preciso encontrar o capital para a dotar com recursos operativos39
, para que o trabalho das e
nas IES se mantenha.
Uma das formas de enfrentar este desafio tem sido construir, alterar IES, para algo maior
e mais complexo que previamente, com maiores e mais faculdades, com mais alunos para mais
cursos, mais diversidade, …com mais despesa. E que poderá levar (nalguns casos) a uma falta
de aproximação pessoal e algum anonimato, maior burocracia, edifícios construídos sem
criatividade arquitetónica. ‘Contentores de betão’.
Ao confrontar o exposto no início deste ensaio, a falta de alunos numa região, inverno
demográfico, cenários de crise auto-re-alimentada, como quebrar então esse fluxo destrutivo?
O mais trivial40
e nem sempre exequível, seria ‘simplesmente poder aumentar’ a verba obtida
por fundos públicos. Ou ‘simplesmente poder aumentar’ e reforçar as admissões de estudantes.
Através de, e.g., atrair alunos de fora da região com bolsas especificas. Ou melhorar as
39
Também cresce a complexidade da gestão de recursos humanos e económico-financeira. Será que um
dirigente académico, mesmo que devidamente assessorado, será a melhor opção hoje para o controlo
económico-financeiro? Dar mais autonomia a(o) Administrador(a) será um caminho para o futuro RJIES?
40
Menos trivial é a via filantrópica…
Moniz/Um novo horizonte/57
estratégias de o(a)s manter (por via de ação social (com inequívoca qualidade)). Ou irmos
junto de novos grupos e experimentar considerar ‘novas formas de construir’ candidaturas ao
CNA41
. Especificamente, programas de reforço de aprendizagem, para apoiar (sim, à distância,
há que arriscar!) potenciais candidato(a)s à IES. Designadamente, em modo prévio a uma
entrada no nível da IES, i.e., com alguma capacitação a montante, por forma criativa, através
de programas específicos para interessado(a)s, onde quer que ele(a)s estejam.
Ou podemos oferecer mais e melhor cuidado nos gabinetes de aconselhamento e gestão
profissional, para situações de entrada no emprego e no mercado trabalho42
. Salientar a
possível vantagem de se ter grau de mestre. Mas tudo isto, por instituição, se não já realizado
ou a realizar, é embaraçosamente óbvio. Outra vez. Tem algum arrojo e risco, mas é trivial.
O contexto já aqui mencionado é que a nível nacional os recursos têm sido menores, o
número de alunos também (por vezes). Muitas universidades e politécnicos recuam para um
planeamento e contenção estratégica algo conservadores, infelizmente procedendo para
imagens antigas (!) de sucesso. E em que o que deveria ser um planeamento num futuro
alargado se transforma apenas em soluções (ou remendos) de muito curto prazo.
É pouco provável, para não dizer inverosímil que poderemos voltar demograficamente
aos níveis que tínhamos a meio da segunda metade do século passado: em termos de número
41
Concurso Nacional de Acesso (ao ensino superior)
42
Tanto orientação como reorientação profissional. Se queremos manter a ligação aos ex-alunos, esta pode ser
uma via útil para isso.
Moniz/Um novo horizonte/58
de aluno(a)s e de inscritos no ensino superior, e consequentemente, sobretudo no crescimento
que houve nos fundos e apoios públicos, então disponibilizados financeiramente. A demografia
permitiu a massificação de acesso ao ensino. Mas agora, ou para amanhã, como vai ser? Por
vezes até poderá haver (muito) mais alunos para outros e mais cursos, mas haverá muitíssimo
mais verba para dotar orçamentos institucionais com plena margem, sem43
‘sufocos’?
Uma opção é procurar novas fontes, sobretudo ao nível do OE ou dos Fundos Europeus.
Ou para enfrentar estas e outras dificuldades (que se poderão manter durante anos, senão uma
ou duas décadas para recuperar economicamente), haverá que ‘reforçar a dependência do aluno
internacional’. Mas isso transformar-se-á numa grande dificuldade (acrescida), sobretudo se,
para fazer face a cada vez mais e maiores despesas, tivermos que aumentar o número das
inscrições desse(a)s aluno(a)s e para uma propina (apenas um pouco?) mais elevada: traz o
risco de que nos ‘interessados’ se possa diminuir o ‘interesse’.
E no entanto, a terra ‘move-se’. Por vezes, algo simples, aparentemente óbvio, mas de
exigente construção, emocional e intelectual, pode (sempre dependendo dos casos e
participantes) ser um forte vetor na melhoria.
Os desafios da redução nas admissões e candidaturas de aluno(a)s nos sistemas de IES
públicas deveriam exigir que os membros constituintes dessa rede trabalhassem em paralelo e
43
Cf. aqui neste ensaio, o ‘Diagnóstico’.
Moniz/Um novo horizonte/59
não em sequência de preenchimento (como é no CNA), em competição para angariar ‘fundos’
i.e., estudantes inscritos.
Orgulhosamente, sinergia!
Qualquer tentativa de encorajar uma colaboração mais formal através de instituições
tradicionais irá enfrentar a história44
. E esta muitas vezes carrega conflitos, rivalidades, as
usuais ‘costas voltadas’. Quando o que é preciso é que muitas vezes numa colaboração, por
exemplo um consórcio em modo ‘light’, uma das instituições seja capaz de assegurar os
serviços a uma outra instituição parceira, sem prejudicar qualquer parceiro e cedendo à tentação
de desenvolver algo só para si.
Qualquer IES, se considerar uma qualquer modalidade de parceria com outra, estará
sempre sob uma alçada, coberta pela (tradição da sua) autonomia institucional. Dito de outra
forma, o primeiro elemento contextual a ter em conta é que qualquer instituição envolvida
valorizará imenso (!) a autonomia que até então teve e tem. E quererá manter. E, no entanto,
poderão ocorrer (ou até já terem ocorrido…) desenvolvimentos que poderão levar a considerar
novas configurações estruturais45
.
44
I.e., egoísmos pessoais e institucionais. Uma transformação real terá que ser apoiada pela tutela, de forma
organizada e empenhada, ‘de corpo, de coração e alma’.
45
Por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. por exemplo as obras ‘Strategic mergers…’,
‘Consolidating colleges and mergers…’, ‘Designing the new American university…’. de onde muito se extraiu
para este capítulo (e em outros) deste ensaio.
Moniz/Um novo horizonte/60
E qual é a alternativa? Manter tudo como está por entre as IES Portuguesas?
Os elementos céticos constituintes da academia poderão perguntar ‘Será que isto
funciona?’, ‘Como pode uma fusão ou um consórcio colaborativo participativo, ser ético?’ No
entanto, pode ser preciso ponderar sobre este processo, o qual tem que respeitar todas as
considerações pessoais e profissionais, estratégicas. Há condições especiais sobre o ‘fazer’,
como fazer: a integração, mútuo acordo46
, faculdades, acreditação, governança, unidades de
crédito para estudantes, registos e confidencialidade, associações de alumni. E procedimentos
de alinhar (numa sequência de realimentação) desde ensino pós-secundário, profissional até
ao ensino superior mais avançado, passo a passo.
Os sistemas educacionais do ensino superior deveriam, ao focar nas prioridades
institucionais, prosseguir para um contexto mais alargado. E informar o público, de que existe
(ou poderia vir a existir…) uma organização, uma estrutura de ensino superior muito mais lata
por entre IES públicas. Afigura-se ser difícil, entre os seus objetivos e características de
governança, mas quando há possibilidade de crescimento mútuo, pode ser em conjunto. E
haver uma estratégia de crescimento em parceria. Complexidades maiores podem ser
confrontadas com planeamento, podendo ultrapassar de forma significativa as burocracias;
existirem também formas de crescimento orientado, estruturalmente apoiado pela tutela,
46
Por exemplo, um plano estratégico comum ou articulado.
Moniz/Um novo horizonte/61
obviamente, e de forma … competente (e, sim, incluindo financeiramente!) para implementar
de forma vigorosa, sustentada e credível esse desenvolvimento consorciado.
Apresentemos então ‘consórcios’, conceito que pode ir desde a ‘fusão’, passando por uma
rede simples em que apenas sectorialmente se fazem certas partilhas ou alinhamentos, até à
noção de ‘consórcio’ com alguma atividade ‘orgânica’ de arranque (residual mas não nula,
para o concretizar em plenitude a médio-longo prazo). Termos um consórcio (termo lato e
flexível q.b. para abarcar estruturas, redes, operacionalidades e de permitir ampla progressão)
requer fazer arranjos necessários para expandir o alcance das instituições, mesmo aquelas que
estão afastadas dos centros de decisão.
O objetivo tem de ser humanamente criativo. Será um longo processo, ‘orgânico’, mas
certamente, eventualmente, frutífero. Será potenciador (!) de aumento de receita, de admissões,
se, por entre a nova rede criada, por intermédio de consultas de programas acadêmicos, houver
mobilidade. Como forma de combater o declínio das candidaturas. Por vezes, nos programas
promocionais temos muita procura, depois muito menos e seguindo-se uma estagnação para
depois voltar a ter um maior número de estudantes. Há uma volatilidade (e não estabilidade)
no interesse versus procura, sobretudo em cursos de ou com matemática-física, tecnologia,
engenharia, ciências biológicas.
Para que hajam mais estudantes que venham para essa nova estrutura organizacional, em
rede, do que para a mera soma de cada uma das partes, sem rede….isso requer ser algo distinto
e diferente. Haverá quem sugira, face às flutuações de ‘mercado’ que se aumente a oferta (ou
Moniz/Um novo horizonte/62
a reduza), mas também se poderia considerar outra possibilidade: reforçar em qualidade. I.e.,
manter pelo menos a oferta vigente, agora numa rede, melhorada, como ponto de partida, para
dar base ao crescimento subsequente. Se a qualidade de serviços de um consórcio ‘suplantar’
(como medir?) a mera qualidade de cada participante isolado, anteriormente… já se estará a
ganhar. Essas ações devem ser integradoras num médio-longo prazo. Tentar mitigar (se
possível, eliminar mesmo) o declínio, a redução de candidaturas.
Sem dúvida, este tipo de ações representa um passo muito grande, em que temos que
repensar velhos hábitos, muitas vezes enraizados e que não queremos mudar, de autoridade e
de poder mas sobretudo de autonomia. Termos que alterar tradições e símbolos, muitas vezes
acarinhados mas a serem modificados em nome de um ganho, que poderá vir através da
partilha operacional, de uma amplitude acrescida de recursos que pode ser substancial. Como
já referido, cada vez mais sobretudo em termos de consumíveis faz mais sentido a partilha de
operações de compra, na disponibilização de recursos em muito maior escala, duas, três vezes
mais.
Fusões ou as diversas modalidades de consórcio ao nível do ensino superior, poderão ser
uma das formas criativas e eficientes, se bem planeadas, para alcançar e articular uma visão
institucional mais larga, uma estratégia mais sólida, mais robusta para as várias instituições
integrantes. Calmamente e sobretudo regionalmente. O mais importante é que os motivos para
essa aproximação (e nova criação institucional) sejam para atingir um novo patamar de
excelência académica e nunca (!) justificados por aspetos financeiros.
Moniz/Um novo horizonte/63
E acresce referir o seguinte termo de comparação: seja, hipoteticamente (mais uma vez…),
uma IES com 10000 alunos e um orçamento (via OE) de 30 milhões de euros. E outra com
5000 alunos e 10 milhões de euros por via do OE. Há sobreposição, mas também (forte)
complementaridade de estruturas e programas de ensino entre elas… . E a área ‘coberta’ pode
passar de uma urbe (cada) de 20 km2
e 50000 habitantes (cada uma) a uma grande região,
compreendida e para além de limites urbanos, para potencialmente quase 250,000 habitantes
e sobretudo mais influência política por via de deputado(a)s e autarcas. E se houver outra
instituição nessa sinergia, estes números aumentam reforçadamente no sentido positivo.
Sinergia: ‘1+1’ possibilitando mais que dois. Todos ganham, particularmente em termos de
um lobby político irrecusável. Mas que só a união (se eficiente e eficaz!) dará essa força.
Obviamente precisa de tempo, várias ‘legislaturas’. Mas precisa igualmente de ter um
plano de ação para ser implementado de forma ‘orgânica’ e gradual, para assim desenvolver
objetivos e planeamento académico. E no entanto, deve-se sobretudo perguntar até que ponto
as missões originais das instituições vão ser afetadas pelo novo plano de junção, até que ponto
é que as administrações vão ser capazes. Quais os programas de ensino que se mantêm e quais
são alterados, o que está a funcionar e vai continuar a funcionar, ou não? Quais os elementos
de acreditação de novos cursos que vão precisar de uma associação e apoio regional? Será que
a biblioteca combinada possui um ou dois orçamentos funcionais? Como é que as estruturas,
os edifícios, os laboratórios e as unidades de investigação podem passar a ser funcionais nesta
junção?
Moniz/Um novo horizonte/64
Como já aqui se mencionou, cada vez mais, sobretudo em termos de consumíveis, faz
sentido a partilha de recursos em termos de um consórcio, desde execução de tarefas até
aquisição i.e., melhoradamente a compra de e partilha de bens em grandes quantidades,
provocando uma redução no custo dos itens por unidade. Tal como estratégias e modalidades
de ensino-aprendizagem. Em sinergia: se isolados podemos ir mais céleres, juntos podemos
abraçar mais distância47
. A tal que se deve conquistar e deve ser nossa. Mas precisamos de
mais ‘braços a remar’ (conjuntamente e em coerência!) e o contexto de ‘nossa’, é agora bem
mais lato, não é ‘nós’ contra os outros, tem de ser o coletivo do ‘novo nós, de um novo e maior
nosso’: um novo horizonte.
‘Receita orgânica’
Reitere-se que um consórcio pode permitir, por meio de boa administração, reduzir sem
dolo humano, na despesa, comprando mais e melhor a menor custo, procurando e negociando
com outra voz e representatividade. Mas a vertente da receita, que pode aumentar por via da
existência da rede consórcio, deve reforçar aquilo que o OE nos dá...
Sejamos mais concretos.
A filantropia pode ajudar mas não chegará e ainda não é uma ferramenta corrente. O
problema é sem dúvida o declínio possível das candidaturas, a sua volatilidade (a incerteza ou
instabilidade anual), saber se temos o número suficiente de estudantes para sustentar toda uma
gama de programas académicos, desde o primeiro até ao terceiro ciclo de uma IES. É fulcral
47
Cf. provérbio Africano.
Moniz/Um novo horizonte/65
ter estudantes de vários cursos pré-superior locais e os que confluem de outros cursos
(incluindo não-locais) nesta progressão, mantendo a funcionar toda uma rede com IES. E
assim, nesta base, em rede, desde a manutenção de oferta com mobilidade interna e depois
prosseguir, ampliando a rede, possibilitando-se em flexibilidade mais oferta. Havendo
consenso de parte a parte, poderemos potenciar mais interessados para este ou aquele curso.
Agremiar mais candidatos e ter cursos em pleno: objetivo.
Vamos elaborar mais. Entretanto, duas notas avisadoras.
Por um lado, não deve, nunca deve tomar-se a estrutura de ‘consórcio’, seja em que
modalidade ou variante de intensidade de ‘junção’ for, como algo simplesmente para se somar
alunos. Um ‘consórcio’ é um processo sinergético que ultrapassa e muito essa aritmética
ilusória e perigosa. Em suma, pode ser criar um sistema com vários campi, como é o caso da
universidade da Califórnia ou de São Paulo. Criar consórcios criativos em que por exemplo,
certos campus são especializados em certas áreas, outros são interdisciplinares e de cooperação
geral, em que também se pode possibilitar que cada um dos elementos não perde nenhuma
autonomia. Apenas disponibilizam os seus recursos a cada um dos estudantes de cada um dos
parceiros, para que possam participar livremente em cursos (agora, comuns), em cada uma das
instituições sem qualquer acréscimo no custo. Uma das vantagens é o aumento da oferta e
variedade. Mas uma estratégia de crescimento mútuo requer que entre as respetivas missões
que as instituições possuíam previamente, haja alguma complementaridade, de forma a
enfatizar a visão e a vontade de cada uma delas. Reitera-se: aproximações não se devem fazer
por qualquer motivo financeiro. Ao invés, estas estratégias têm como objetivo apoiar, alavancar
Moniz/Um novo horizonte/66
as IES participantes de forma a moverem-se com audácia para algo maior, mais criativo, que
permita delinear e executar uma estratégia mais ampla e de forma mais segura.
Por outro lado, um problema (e grave) é o cinismo e a imediata recusa de estudar a
possibilidade do consórcio.
Quando muitas IES recentes foram criadas, havia um forte apoio da tutela, sobretudo
através de uma coesão territorial necessária e verba para sustentar esse interesse de forma
responsável. Havia uma enorme procura de quem queria frequentar o ensino superior. A
atividade económica precisava de graduados e também havia fundos que sustentavam esse
investimento na forma de construção de edifícios e aquisição de equipamento para laboratórios
de investigação. Mas agora, nas condições presentes, em qualquer universidade ou instituto
politécnico, temos uma escala (muito!) menor de apoios face às exigências de ‘mercado’. Por
exemplo, meros consumíveis, manutenção e disponibilidade de recursos aos estudantes, desde
preservar residências a manter cantinas e refeições: não há tanta proveniência de verba por via
de programas de financiamento ou OE. Sem mais investimento não se será capaz de continuar
a oferecer todos os benefícios académicos tidos no passado. Mesmo que adaptando-se com
novas proveniências de fonte de receita, que são ter alunos internacionais e que permitem
nalguns casos manter, sustentar (minimamente) alguns cursos. Isso não é necessariamente mau
(até são muitíssimo bem-vindos) mas poderá, se não houver robustez estrutural e institucional,
significar uma dependência por algo que dantes eram (e bem) (i) uma satisfatória fonte de
fundos e (ii) sobretudo, um dístico imensamente agradável e reconfortante de prestígio
académico, de reconhecimento e ‘fama’. E agora estamos na contingência de algo ‘externo’
Moniz/Um novo horizonte/67
que não controlamos e que pode impedir a manutenção do fluxo desses alunos: a
internacionalização é imensamente prestigiante, permite prolongar a médio-longo prazo
colaborações internacionais, concorrer a programas bilaterais e outros. Sinergia realimentada,
todos ganham, é um pilar de afirmação académico. Mas ser o único alicerce…
Como já se afirmou, rede ou consórcio significa colaboração. Isso mesmo, colaborar.
E requer diplomacia, comunicação e confiança, estruturas que permitam (sempre com esforço)
ter funções administrativas em congruência, gradualmente em proximidade assimptótica. Seja
através de consolidação, fusões, redes ou projetos sectoriais, limitados. A nível administrativo,
a operacionalidade integrada, a implementar em rede, numa forma de consórcio, pode ser mais
simples do que colaborações académicas interdepartamentais. Os números são sempre fáceis
de lidar, o problema, parafraseando Sartre, está nas pessoas.
Sensatamente, haverá pois que prosseguir (bem) devagar. De forma serena, por
exemplo por meio de protótipos, experiências-piloto na implementação passo a passo, de redes
e consórcios amplos, sempre numa postura intrínseca e orgânica. Uma forma seria através da
partilha e adaptação de programas informáticos de gestão académica e/ou administrativa. Por
vezes, até diferentes instituições para efeitos de compra e gestão de produtos alimentares
utilizam programa de contabilidade similares, senão o mesmo, só que… estão configurados de
forma bem díspar. E pode impedir uma junção suave e construtiva na mesma rede. E isso já é
um obstáculo, mesmo que técnico, que pode ser um passo complicado a ultrapassar.
Moniz/Um novo horizonte/68
As pessoas muitas vezes receiam programas de integração académica em rede de
instituições. Mas há que estudar como combinar e reforçar os esforços de diferentes disciplinas,
até muitas vezes duplicadas. As pessoas podem sentir que estão a entrar num ‘casamento
forçado’ e não têm uma identificação tangível do que querem, do que é preciso. Como obter
então, em termos de colaboração, a continuidade de esforços? Como continuar uma
conversação e daí a uma negociação, uma coligação de esforços? Como se referiu, há situações
em que o programa informático utilizado é o mesmo, se não semelhante para gerir bases de
dados dos estudantes ou horários escolares (semanais) nos serviços académicos. Mas podem
estar implementados de forma por vezes até muito diferente: é muito difícil assim a partilha
de dados, até internamente isso pode acontecer. E comissões inter-faculdade não estão
capacitadas a não ser que tenham ab initio uma boa vontade para tentar resolver semelhantes
complicações, tanto de natureza operativa como contextual ou ‘ideológica’.
Então, operacionalmente, com mais especificidade.
Em cada passo, deverão estar administradores e o corpo docente das faculdades, das
escolas, desenvolvendo planos conjuntos (!), que a todos sejam compreensivos para iniciar um
debate profícuo. Para tal é preciso um planeamento, como instrumento efetivo, que envolva
sempre de forma inclusiva os elementos da faculdade: individualmente, também de forma
departamental, também através de comissões. E desde o início de qualquer processo de
aproximação a um consórcio, são precisos momentos de discussão, de conversação e
negociação. Fazê-los por meio de uma forma regulatória mútua, que analise a acreditação
termos educacionais. Que discuta o impacto que a instituição emergente poderá ter na cultura
Moniz/Um novo horizonte/69
dos estudantes. E também em complexidades intrínsecas, como e.g., nas coleções das
bibliotecas ou recursos de ensino - aprendizagem, i.e., equipamento laboratorial, partilha de
relações publicas e associações de alumni. A participação neste processo de decisão, para
congregar os alumni, é algo que não pode ser desprezado. E sobretudo considerar formas
inovadoras de governação acadêmica, de como os desafios desses alinhamentos académicos,
podem criar oportunidades em termos de futura liderança.
Contra uma onda de conservadorismo, de voltar para as ‘trincheiras’, algumas IES
deveriam pois considerar modalidades de consórcio, como uma nova forma de enfrentar estes
desafios e dificuldades. É uma nova visão estratégica, onde as academias por meio dos serviços
e recursos, ao invés de apenas individualmente, vão permitir redefinir o sistema. Mais
radicalmente, cada IES serve como um facilitador, negociador de contratos ao longo de um
fluxo. Por onde associar redes computacionais, entidades regionais, faculdades, processos de
catalogação de sistemas de biblioteca. Estes são protótipos, embora pequenos mas de modo a
iniciar e testar, com vista a uma aproximação de crescimento mútuo, ‘orgânico’, para levar a
entrelaçar as instituições. Este cenário é claramente distante e distinto da tradicional fusão, em
que um dos elementos cresce com tudo o que o outro larga, mas largando (também alguma
raiva) no que ‘perdeu’. Tem de ser, ao invés, um ‘win-win’.
Neste novo contexto podemos definir aproximação académica entre IES como uma
oportunidade criativa, para combinar de uma forma poderosa recursos educacionais e culturais,
desde livros a microscópios, equipamento desportivo, ao mesmo tempo que se preserva
(alguma da soberania) ou a autonomia dessas instituições. Procurar desenvolver um processo
de sinergia funcional no referente a bibliotecas poderá ser instrutivo e revelador. Uma forma
Moniz/Um novo horizonte/70
de ter uma rede, um consórcio a funcionar num projeto piloto seria o sector de aquisição,
partilha desses recursos, disponibilização por meios digitais com programas e ferramentas, que
dessem aos funcionários (docentes e não docentes) e alunos de toda a rede, um acesso rápido e
eficaz. Mais ainda, através da aquisição de mais livros e revistas, por meio de plataformas onde
o custo pudesse ser partilhado e até reduzido, por forma a chegar a mais ‘consumidores’.
E no tocante a ensino-aprendizagem, será necessário preparar os elementos
académicos, corpo docente de faculdades e escolas, das mudanças. Há que encorajar iniciativas
individuais e de grupos para resolver problemas. Monitorizar o conforto ou o desconforto nesta
evolução, ter sessões de auscultação apropriadas para este processo. E elaborar conjuntamente
mais serviços, os citados programas piloto, para verificar o progresso. Haverá problemas nas
crises. E agarrar aí as oportunidades, fazer uma avaliação da aceitação (ou não) dos objetivos,
de forma gradual e implementado ao longo do tempo.
Um especto a frisar é o do ‘aconselhamento e acompanhamento’ em termos de
qualidade. Na sequência desta aproximação é preciso desenvolver novos sistemas de
aconselhamento académico aos alunos, para apoio e assistência social, de aprendizagem, de
programas de desporto, aconselhamento profissional e sistemas de colocação de emprego,
códigos de conduta, associações académicas, novas modalidades de comunicação, alojamento,
de governança das próprias estruturas estudantis, programas de voluntariado. Numa rede, mais
e amplos gabinetes de aconselhamento (e pontos de vista), poderão compreender (de forma
mais diversa e por isso mesmo, sobretudo melhorada) como manter o(a)s estudantes, para
evitar abandonos, as saídas do sistema, sobretudo por razões financeiras. Haverem reuniões
Moniz/Um novo horizonte/71
tutoriais de aconselhamento, personalizadas, para verificar as expectativas e os problemas que
estão a surgir. É focar então na ‘garantia da qualidade’ (provar que se está a fazer o que nos
comprometemos a fazer). É preciso identificar os cursos que tenham mais dificuldades com as
‘métricas’ que entenderem adequadas. Como conciliar o ‘acompanhamento’ com a ‘garantia’
da qualidade? Como modificar o apoio académico a alunos com dificuldades, para que estas
sejam eliminadas? E além do citado, criar diversas comissões, para apreciar novos currículos
combinados por entre equipas de departamentos. Criar também novos sistemas integrados de
governança nas faculdades e escolas, planos para consolidar políticas de pessoal i.e., os
sistemas de categorias, por entre o benefício e responsabilidades e deveres, organização e
apresentação de relações públicas da ‘nova’ instituição, desenvolvimento de formação
profissional nas faculdades conjuntas.
Em suma e reitere-se. O mais importante é em cada passo dessa aproximação, ter-se
sempre uma certificação de validade. Para que todos os elementos dessa parceria se
identifiquem no crescimento mútuo, de uma forma ‘orgânica’, acrescida e não por qualquer
argumento de sobrevivência económica. Este não pode ser um objetivo. Os princípios
nucleares orientadores devem apontar o crescimento mútuo e, designadamente, enfatizar
missões complementares. Fortalecer as ofertas académicas e curriculares de forma combinada,
enfatizar programas de graduação, expandir os recursos das faculdades, reforçar a base
financeira e o potencial de ‘lobby’ politico, estabilizar a admissão de novos estudantes,
melhorar a eficiência administrativa e a economia, usar todas as oportunidades de relações
públicas, expandir a base dos alumni, criar novas sinergias institucionais.
Moniz/Um novo horizonte/72
Da junção (sentido lato e flexível, sempre orgânico) dessas instituições, esses esforços
são para ter sucesso. É o desígnio da rede. Claro, é inequívoco que deve haver compromisso e
apoio sem reservas para capacitação prévia, criativa através de programas (sectoriais!) de
entrelaçamento dessas instituições. Esses esforços são para ter sucesso, repita-se. Devem, por
exemplo, enfrentar os desafios da possível redução das admissões e candidaturas. O(a)s
administradore(a)s das IES são (ou deveriam ser!) profissionais e vão trabalhar em colaboração
(profissional!), através dessas instituições. Em rede, há maior diversidade de experiências e
aprendizagem. Desde meios que uns tentaram e não conseguiram: é sempre positivo partilhar
o ‘no-result’ e descobrir (agora na rede ampla, pela diversidade de abordagem) como, de outra
forma, alcançar o funcionamento (e sucesso).
É o ‘consórcio’ a ‘bala de prata’? De jeito nenhum, mas oferece melhor potencial
criativo.
Cinismo e mesquinhez versus acreditar e positivo
A mudança é sempre algo que assusta, preocupa, sobretudo ao nível das IES. E, no
entanto, se a mudança tem risco, mantermo-nos com remedeios passivos na esperança de que
passe o inverno demográfico, poderá trazer mais descontentamento. É igualmente perigoso se
insistirmos em uma única direção, na mesma, para ‘sempre’, na expectativa do OE.
O cenário de rede é, pois, outra expectativa. Outra possibilidade. Panaceia? Nunca.
Alguns aspetos da nossa tradição terão que ser eliminados, outros (re)desenhados. Será triste,
Moniz/Um novo horizonte/73
de facto, ver que algumas coisas que nós fizemos, poderão ter que ser alteradas. Mas temos
que tentar preservar o nuclear, aquilo que são os valores principais e partilhá-los, a envolvência,
mas numa forma que não fizemos anteriormente. A imensa e dura realidade é que já não temos
ou não vamos ter os recursos que tivemos para fazer tudo aquilo que pudemos no passado.
Criar ‘novos’ programas irá sempre enfrentar diferentes formas de fazer, mas hoje nas
faculdades o uso de novas tecnologias, para determinados cursos, podem abrir recursos e
diálogos intelectuais. Para casos específicos, uma possibilidade de partilha e presença, que
surja sempre de forma ‘orgânica’, sem fazer propostas de ‘cima para baixo’, no que seria
sempre vista como uma ameaça à autonomia de faculdades ou escolas, às pessoas.
As IES públicas têm sido tradicionalmente colocadas a competir umas contra (!) as
outras. Por exemplo, uma surge com um curso ou programa de uma determinada disciplina e
outras instituições, próximas ou que têm alguma ‘rivalidade’, querem um programa
semelhante. Mesmo que não tenham a totalidade dos recursos (humanos e materiais) para o
fazer. Mas quem paga depois? O/a contribuinte e depois temos cursos com pouco(a)s aluno(a)s,
em formato ‘clone’, ‘a bem da coesão territorial’. E despesa pública. Quem paga? Onde está
a riqueza valorizada e produzida? Rivalizar e competir no sentido de atacar entre IES, acontece
muitas vezes. Mas temos que passar para além deste ponto. Ou acabamos sem cursos, a médio-
prazo, pois numa instituição, se temos, por exemplo, 5 alunos candidatos, noutra temos 4 e na
outra temos 3, a totalidade pode ser suficiente para que um curso em rede funcione, mas
individualmente, para cada uma, não dá. Como conseguir que um percurso do 1º ao 3º ciclo
seja 'alimentado'? Se houver alunos suficientes numa região para que se insiram, transitem
entre instituições da rede, para que, por exemplo, um 2º ciclo possa ser operacional, ganha a
Moniz/Um novo horizonte/74
região. Ganha a rede. A comunidade económica ganha. Uma tal potencialidade, de um 2º ciclo
funcionar na região e ser operacional numa das instituições parceiras da rede, é bom para toda
a região. E para a rede, o ‘consórcio’. Tem é de haver a cobertura de uma estrutura com
instituições-parceiras, numa única, nova ampla instituição-rede, afirmada no primado de uma
intensa, vibrante intrínseca mobilidade académica.
Idem, abordar de uma forma inicialmente informal, em modo de termos diferentes
instituições e programas a trabalhar. Algo que não teve (tanto) sucesso quanto merecia ter
(mas o seu ‘design’ e alavancagem legal estava corroída por inépcia de legislação) foram
inicialmente os programas doutorais da FCT. Tiveram e alguns têm interesse para alguns
estudantes, para algumas Universidades e Institutos Politécnicos. E são, subtilmente já (uma
espécie de) um consórcio, entre IES.
Poderia essa experiência ser reconduzida, e claro melhorada, adequada em aprovação
aos valores e critérios intrínsecos das instituições. Em que teríamos (mais) aulas de
especialistas, ou seminários online (webinars por entre centros e unidades de investigação),
algo que agora se transformou numa experiência generalizada, corrente, fluente e rotineira,
mundana, sem qualquer tipo de ‘anticorpos’ (!) e em tempo real. As novas e melhores
tecnologias, quer para estudantes quer para as IES, permitem essa colaboração no âmbito da
investigação e graduação de 2º mas sobretudo 3º ciclo (doutoramento). E cada vez mais, de
forma ‘orgânica’, para se criarem cursos únicos, novos e abertos aos estudantes de cada uma
dessas IES, que queiram participar numa tal rede. Os estudantes poderiam inscrever-se nos
Moniz/Um novo horizonte/75
cursos e eventualmente obter certificados ou diplomas, através de exames (de alguma forma a
definir). E em que, por exemplo, essas aulas poderiam estar gravadas, devidamente guardadas
e até referidas para quando os estudantes precisassem de aceder a elas, como é, por exemplo
(e vou mencionar de novo, louvando) o caso paradigmático da Universidade de São Paulo no
Brasil. Oxalá houvessem mais como ela48
.
Uma das leis universais na vida académica é que existe um alinhamento muito forte em
manter o status quo. Ceticismos e cinismos académicos quase sempre impedem o início de uma
discussão sobre a estrutura dos consórcios académicos. Mas é fundamental conversar,
especular, ter atrevimento sobre o que, como, quanto e quando fazer parte da IES do futuro.
As modalidades de consórcio, de estruturação e rede podem e devem diferir, em função da
participação de cada IES.
O cenário de rede, tem de ser concretizado através de um crescimento planeado,
exploração ‘orgânica’, daí progredindo em consolidação gradual mútua de serviços e depois
ensino. Isso não desmerece consideração. Sem ser preciso afastar ninguém. Haveria que
aprender fazendo, de forma controlada, monitorizada. Adquirir experiência e sobretudo da
gestão. Não há outra forma de o dizer mas as IES, sobretudo aquelas que se querem afirmar
numa forma de liderança, sobretudo em função dos números que carregam com elas, do
número de docentes, de faculdades ou escolas, de verba do OE, de verba dos alunos
48
E referir o IMPA no Rio de Janeiro ou o exemplo do MIT, com o pioneiro CourseWare.
Moniz/Um novo horizonte/76
internacionais, deveriam ter a coragem de formular novas propostas de ensino e aprendizagem,
mais amplas e abrangentes, mais arrojadas do que têm sido, muito para além do que a IES têm
até aqui formado. A oportunidade é sobretudo de realizarem através de alianças, uma
comunidade educativa, na já referida aldeia académica global, usando as novas tecnologias.
Claro que isto será mais fácil em determinadas situações49
, cursos e públicos, com uma
clara maturidade, experiência e capacidade. Depois, talvez ser também disponibilizado a outros
níveis. Como o ampliar em arte e museus de ciência, fóruns sobre cultura. Disponibilizar por
diferentes formas criativas, os recursos e os elementos disponíveis nas bibliotecas, como se
mencionou. Uma situação que todos desejamos é reusar os campii, com participantes
presenciais, e onde alguns dos materiais poderiam estar disponíveis, sempre que assim se
entendesse, quando quisessem e também online. Disponibilizar um espaço na internet
dedicado ao conhecimento e aberto para questões, sobretudo em contacto com colaboradores
em diferentes pontos. O novo campus tem que se construir para além das fronteiras estritas do
passado, tem que ser um campus virado para uma comunidade mais alargada, numa nova forma
de IES50
. Tem que se transformar. E será que vamos precisar de novas estruturas?
Designadamente de governação? Talvez não.
49
Por exemplo, com sistemas de reconhecimento de voz e tradução automática, haver quem lecione uma aula
em Mandarim, localmente em Pequim, mas também uma turma em Lisboa, que acompanha em tempo real (nb.
a diferença horária pode ser de 8h…) com tradução automática fiel em Português. Ao mesmo tempo uma outra
turma em Madrid ouve a mesma aula …
50
O novo campus poderia ter uma componente on-line flexível e disponível além do histórico assente na sala de
aula. Sim, é um novo horizonte…
Moniz/Um novo horizonte/77
Há também que saber reconhecer que entre faculdades ou escolas, não somos iguais.
E alguns professores são melhores em aulas ‘magnas’, outros são muito melhores em grupos
pequenos, outros com seminários e tutoriais. E esta escolha do que e como ensinar, quem e
quanto ensinar poderá ser liberada. Concretamente, de forma a que cada um possa contribuir
no grau de maximizador que entenda, que consiga, no âmbito do seu talento. Um novo ensino,
com novas amplitudes e procedimentos, recursos e metodologias, tão diferentes e
diversificadas como os professores disponíveis, irá ao encontro daquilo que um aluno ou uma
aluna também precisa desenvolver.
Há que referir, admitir que esforços houveram, muitas vezes ponderados no sentido de se
reduzir despesa, muitas vezes dominada pela eliminação de empregos administrativos,
incluindo direção de faculdades e departamentos. No entanto, os consórcios (mais
comprometidos i.e., fusão ou então, simples operacionalidade em rede) não fazem sentido (em
quaisquer termos académicos) se com o objetivo de justificar reduzir custos administrativos na
forma de eliminar postos de trabalho. Não há qualquer base que justifique ou até que explique
que isso, com exemplos concretos, realmente permitiu poupar algum dinheiro. Reduzir e
eliminar esses postos, significará que a própria instituição se vai gradualmente apagar.
Eliminando os empregos e os salários de alguns postos administrativos, a verdade é que não é
simplesmente por reduzir essas posições que se resolve algo. Ficará pior: apenas nos deixa com
consequências mais graves ainda. Mormente, depois não temos quem faça esse trabalho: essa
quantidade de trabalho, as tarefas irão ser transmitidas para docentes, que ficarão sem qualquer
margem para poderem fazer mais e melhor investigação, melhor ensino e sobretudo em termos
de apoio na pesquisa. ‘Apagão’…
Moniz/Um novo horizonte/78
Sejam pois três elementos que poderão ser determinantes para enfrentar o ceticismo
quando perguntam ‘O que é que é novo nesta estratégia?’, ‘Será que não se está simplesmente
a juntar ‘vícios’ e pessoas e já está feito?’. A resposta é não. Número um, fazer porque é
primordial, para que surja, por meio de um planeamento, uma missão conjunta. Assegurando
a manutenção e presença, para depois se prosseguir e desenvolver academicamente. Número
dois, é também preciso uma perspetiva de partilha de recursos e entre campus. Número três, é
preciso igualmente um enriquecimento académico através de colaborações formais e informais
na consolidação. Estes três elementos, junto com o envolvimento de novas visões e perspetivas,
são cruciais. Abarcando os serviços de uma forma agora bem mais lata, no tocante à gestão de
pessoal, do planeamento financeiro, a governança das novas faculdades ou escolas, adaptação
a novas modalidades curriculares tendo como objetivo o ensino-aprendizagem de qualidade e
integrar numa estrutura comum as relações públicas. Todas elas têm que ser combinadas num
conjunto de agora maior amplitude, com unidades orgânicas, IES, de forma a formar uma
nova instituição, uma nova identidade estrutural. Elas constituem uma nova estratégia de
gestão académica, que a ser aplicada por várias localidades, dependente do seu tamanho, da
sua missão anterior, serão transferidas em novas exigências, de contabilidade a prestar a novos
estudantes, às associações de alumni, até entidades regionais e nacionais (incluindo de
acreditação) e até da própria tutela.
Vai ser preciso um compromisso. Será uma evolução para um ‘novo campus’, para algo
mais genérico e abrangente, é preciso uma atitude de junção, é preciso uma visão partilhada.
E, finalmente, a decisão de juntar tem que vir de cada uma das instituições, ao entender que o
Moniz/Um novo horizonte/79
seu próprio potencial pode e melhora com outras. É como aquele provérbio Africano,
relembre-se, ‘sozinhos vamos mais rápidos mas juntos, vamos mais longe’. É essa escolha de
ir mais longe51
, para ter mais recursos, mais alunos, mais do que temos individualmente, que
oferece uma oportunidade única e imediata de crescimento e desenvolvimento, que não existe
para cada uma delas isoladamente. E os recursos são (serão? cada vez mais?) restritos, mas
mesmo muito mais restritos.
Antecipando os próximos capítulos, uma pergunta em jeito de ‘ponte’: o ensino secundário
pode ser um bilhete para a oportunidade de aprendizagem subsequente, ‘avançada’; como é
que então a experiência académica de ensino superior faz para assegurar o sucesso, com
abordagens ao ensino e aprendizagem, de forma a trazer conhecimento, ideias, capacidades e
competências? Como será então (sempre para melhor) que o consórcio providenciará esse
sucesso para os estudantes?
Inovação académica, ampla e arrojada, para fazer face aos desafios, irá requerer uma
alteração operacional. Sobretudo de procedimentos, em modo de mentalização. I.e., cultura
institucional. Ou griffe. E também em metodologia. O ensino e a aprendizagem (e
decorrentemente o sucesso dos estudantes) tem que estar na missão da instituição. Assegurar
o sucesso dos estudantes, cuidar de forma ativa, apoiado em tecnologia. Promover o
desenvolvimento de capacidades. Num consórcio, como potenciar para que se concretize em
51
Infelizmente, por vezes é nos ditado para ficarmos ‘centrados’ num ou outro ‘Terreiro’ de qualquer lugar, e
não se vai dobrar o promontório, passar para além. …
Moniz/Um novo horizonte/80
melhor? I.e., como alterar, mudar, melhorar, a operacionalidade? Porque a comunidade
académica é de e para as pessoas, apaixonadamente com e para as pessoas.
E, sobretudo, haver a coragem de redesenhar os cursos, as IES, para que a vivência dos
estudantes possa ser melhorada. Em suma, novas comunidades criativas de ensino, de
aprendizagem e …autoaprendizagem.
Moniz/Um novo horizonte/81
“É muito difícil introduzir regras morais na inteligência artificial”
Arlindo Oliveira.
Inteligência Artificial
Chega de ‘economia’. Ela irá permear, pairar, reemergirá. E, no entanto, temos de
indagar acerca de outras linhas, que complementarmente possam dar uma vantagem, onde
ainda ninguém tenha ido ou se afirmado. Temos de inovar, agarrar a oportunidade. Ela passa e
já será tarde. Já só será a reboque e numa segunda passagem onde outras IES lideram e definem.
E mandam. Pois controlarão.
Não é uma novidade, quando desde exemplos com tons de caricatura (Charlie Chaplin,
‘Tempos Modernos’…), a previsível automação tem sido considerada como uma ameaça ao
trabalho manual, incluindo muitos ofícios hoje, considerados na economia do conhecimento.
Muitos deles estão hoje sob a alçada do risco destas novas máquinas. Se considerarmos funções
que exigem capacidades e habilitações elevadas, tal como hematologia médica, avaliação legal
Moniz/Um novo horizonte/82
e jurídica e até análise de miríades de dados, as máquinas do século XXI avançam, cada vez
mais capazes de decidir acerca de investimentos, produzir diagnósticos e transformar
(traduzindo sem erro?) em qualquer outra língua. É difícil entender e prever os limites (ou os
não-limites) das suas capacidades; aponta-se que o potencial da tecnologia de alterar a nossa
economia e a nossa civilização não terá precedentes.
O alerta aqui fica52
: Em Portugal, a IES que escolher53
‘desde ontem’ investir na IA54
,
para ser uma instituição de referência nesta década e para o século corrente, que a empregue
de forma ativa no ensino-aprendizagem, na execução da sua missão, será aquela que não será
absorvida em processos de uma ‘espécie de layoff’ para impedir ‘insolvência’, numa
aglutinação ou aquisição forçada em outras instituições. A sobrevivência, em termos de
décadas contadas para fim do século (eu sei que vem longe, mas em 2000 faltavam 100 anos,
agora (e foi rápido), faltam 80…), será unicamente possível para aquelas que, entretanto, de
forma próxima, souberem e quiserem (!) participar no futuro de forma credível, coliderando na
navegação desses novos oceanos, por novos cabos a tornear. O problema de tanto se citar D.
João II ou ter quadros com ele representado, é que se adota, de forma acomodada, uma ilusão
52
Alguém se lembra da incidência comercial dos carros elétricos, 30 anos atrás? Ou mesmo 10 anos? E as
previsões para os próximos 10 ou 20 anos? O ‘motor’ dessa mudança foi a preocupação ambiental e climatérica…
. Acham que vai retroceder?
53
Por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. por exemplo as obras ‘Robot-Proof…’, ‘Inteligência
Artificial…’, ‘The second machine age…’, de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste ensaio.
54
IA = Inteligência Artificial = AI (Inglês); Designação coletiva para tecnologias digitais que permitem aos
computadores e às máquinas empreenderem tarefas que só eram possíveis anteriormente por seres humanos. Em
IA, as máquinas ‘descobrem’ padrões nos dados e tarefas, aprendem assim as capacidades e habilitações. Numa
metodologia do ‘por exemplo’. Com IA, podemos dispor de resiliência para tarefas duras, robustez junto com
eficiência em linhas de produção. A Comissão Europeia em Fevereiro de 2020 tomou a IA como uma das linhas
mestras de desenvolvimento para década seguinte… . Porventura de implementação, depois integração,
manutenção, nas décadas subsequentes. Veremos (ou alguém irá ver) no final deste século…
Moniz/Um novo horizonte/83
icónica e não uma atitude de iconoclastia (ou disrupção), ninguém surge para novas venturas e
riscos.
O ensino superior precisa dramaticamente de um realinhamento urgente com esta nova
realidade, da revolução tecnológica neste novo século, conforme descrito. Se rejeitarem, devem
assumir a responsabilidade da oclusão gradual, parcial, mas irreversível. Para além de, se
quiserem ignorar os alertas, continuarem a fornecer aos alunos de ensino superior uma
instrução para empregos que poderão estar ou vir (em breve?) a desaparecer…
À medida que esta onda da nova tecnologia se avizinha em Portugal, as IES do século
XXI deveriam libertar-se de alguns modelos fora de prazo, de carreiras e antes lutar pelos
alunos e alunas, de o(a)s dotarem de alguma capacidade, para este(a)s deterem a propriedade
dos seus próprios futuros. Eles deveriam equipar-se com a melhor capacidade de literacia
científica e humanística, competências e capacidades que o(a)s possibilitem suceder nesta nova
economia, definida por esta nova tecnologia. E ser-lhes providenciado um acesso a um ensino
que cada vez será mais diverso e global. O ensino superior precisa de novos modelos e uma
nova orientação, muito para além do que tem sido. Com o foco no primeiro ciclo e apontando
para o segundo ciclo ou depois 3º ciclo, as IES têm que alargar muito mais do que fizeram,
para se transformarem em motores de uma aprendizagem ao longo da vida. E para isso tem de
haver um desvio educacional55
.
55
Qual será o papel das IES hoje ou amanhã (em breve?) na formação pessoal e humanística dos estudantes,
numa era onde ele(a)s consultam preferencialmente as notícias no Youtube, versus o que era a realidade 30 anos
atrás?
Moniz/Um novo horizonte/84
‘Os invasores do espaço’…
Tivemos a expansão agrícola. A humanidade adotou a enxada e o arado, assim como
motores de força animal. Muito depois seguiu-se a revolução industrial: surgiram as fábricas,
motores de combustão e vieram (deslocaram-se…) os ‘agricultores’. Mais recentemente, houve
uma radicalização tecnológica, na qual as pessoas se transportaram (mais uma vez mas agora)
para novos ofícios, para edifícios de serviços, um ‘cubo’, instaladas em secretárias … . E hoje,
‘amanhã’, porventura, a evolução em que a humanidade exercerá as suas funções de trabalho
irá desfazer algumas certezas anteriores. Poder-se-á dizer, estilhaçadas à medida que evolui,
pela ação de novas tecnologias, e em vez de carvão, aparelhos elétricos, o motor desta
revolução é intrinsecamente digital e porventura muito ‘mais à frente’ que o óbvio ‘robótico’,
num sentido bem mais abrangente56
.
Máquinas com cada vez mais, melhor e sobretudo diferente poder de processamento
continuam a surgir. Duplicando e replicando as capacidades. E sobretudo as próprias máquinas
‘aprendem’: a capacidade que têm de aprender com os dados, em vez de o fazer por intermedio
de uma operação explicita de programação. Estas máquinas progridem a transformar o mundo,
à semelhança da máquina a vapor. Não tem sido negado que muitos dos empregos em alguns
países desenvolvidos correm o risco de automação nas próximas duas ou três décadas, durante
56
Chegará o dia em que o aluno tem um tutor robot devidamente capacitado para instruir o aluno numa área
específica? Algum dia passarão para outro nível, o da autoconsciência, o que as aproximaria, indubitavelmente,
da chamada inteligência humana? Isso é impossível e não existem nem existirão jamais 'máquinas pensantes'?
Moniz/Um novo horizonte/85
o corrente século. I.e., muitos empregos em empresas poderão estar reduzidos (de um terço a
metade), devido ao emprego desta nova tecnologia: poder-se-á antever que cerca de metade do
trabalho que os seres humanos estão habituados a fazer e a ser pagos por isso, poderão ser
desenvolvidos por máquinas automáticas, eliminando a necessidade de pagar a humanos para
essa tarefa… . O que poderá corresponder a vários montantes entre os biliões e os triliões de
euros. ‘É a economia’, já o disse…
Muitos empreendedores, investidores, investigadores e executivos têm dito que o futuro
baseado na tecnologia irá ou já está a chegar muito mais rápido do que alguma vez pensaram.
Isto tem a ver com a inteligência artificial. Não será apenas a criação de campus ligados em
rede, porque depois do 5G, há de chegar o ‘6G’ e assim sucessivamente, mas o conceito de
estruturas inteligentes: é um conceito fundamental das máquinas, de sistemas que podem auto-
aprender, depois reproduzir, repetir tarefas que os humanos faziam por raciocínio. Irá
certamente alterar a relação entre mente (humana) e a máquina ‘humana’.
É prudente declarar que é impossível antecipar hoje o que amanhã será: a rapidez do
desenvolvimento da inteligência artificial é estonteante. Por exemplo, no âmbito de
autoaprendizagem (reforçada), nomeadamente a classificação e identificação de imagem ou
reconhecimento de voz, assim como outras áreas. É todo um novo território57
, um novo
57
Um exemplo é a máquina Deep-Q, construída, por uma empresa (Deep Mind Tech) localizada em Londres,
adquirida pela Google: ensinou-se essa estrutura, essa máquina como jogar os jogos de vídeo Atari,
designadamente ‘os invasores do espaço’. Mas ensinou-se simplesmente apenas olhando para o ecrã; não havia
qualquer outra programação. Ao fim de algumas poucas horas de observar e praticando, a máquina atingiu níveis
de execução supra-humanas. Cf. por exemplo, ArXiv:1908.06040 (F. Moreno-Veja). E sim, é mesma empresa
(https://www.bbc.com/news/technology-55157940) que participou na descoberta citada em
Moniz/Um novo horizonte/86
horizonte, uma nova fronteira, presente já em muitas outras abordagens na inteligência artificial
aplicada, nos motores de busca da internet, nos anúncios online no comércio eletrónico e até
na deteção de fraude, diagnóstico médico, aconselhamento financeiro e de investimento, até
simples serviços para clientes. Muito será profundamente transformado pelas máquinas da
inteligência artificial. Muitas tarefas serão executadas por algo bem mais inesperado que meros
‘robôs’. Há, no entanto, um paradoxo curioso.
É o paradoxo de Moravec58
: crianças pequenas ainda são mais ágeis e têm mais eficácia
do que o mais sofisticado dos robôs. De forma mais concreta, estes estão a ficar cada vez
melhores, mais rápidos e capazes por exemplo, de efetuar sequências genómicas. E a impressão
3D está a ficar cada vez mais rápida. Exemplos de ficção científica em décadas atrás são hoje
uma realidade. É relativamente fácil produzir computadores, que exibem uma capacidade
adulta de execução de tarefas inteligentes, como jogar xadrez ou Go. Mas… é difícil ou
impossível (por enquanto…) dar-lhes tarefas que um garoto ou uma garota de cinco ou seis
anos faria, apenas com a sua motricidade. Este paradoxo afirma que a inteligência artificial,
ao contrário daquilo que é ‘falado na rua’, é excecional eficazeficiente em tarefas lógico-
dedutivas que tenham pouca coordenação, mas tarefas ‘pouco exigentes’ que tenham uma
elevada diversidade de aspetos sensor-motores de coordenação, implicam ter imensos recursos
disponíveis de computação. A mensagem é que a inteligência artificial consegue facilmente
resolver problemas difíceis, mas resolver problemas fáceis é lhe ‘astronomicamente difícil’.
https://www.bbc.com/news/science-environment-55133972 (“One of biology's biggest mysteries 'largely solved'
by AI”). Estamos avisados?
58
H. Moravec, (1988), ‘Mind Children’, MIT Press
Moniz/Um novo horizonte/87
Mas uma nova geração de máquinas inteligentes, para substituir, e.g., analistas do mercado
financeiro e engenheiros petroquímicos, está a caminho. No entanto, tarefas como jardinagem,
rececionista, professores e cozinheiros podem ainda demorar várias décadas até ser
substituídos (?) pelas máquinas. Obviamente que até as máquinas de aspiração (e.g., Roomba)
não fazem tudo o que um servente fará, apenas conseguem limpar o chão e não são capazes de
olhar para as mesas e arrumá-las, mas lá se chegará59
.
Ensino: excitar a criatividade
A emergência destas novas indústrias com estas novas tecnologias, descartando
milhões de empregos, incluindo empregos híbridos, poderá induzir uma capacidade sem
precedentes, de até especialistas de programação ou análise de dados se tornarem supérfluos.
Os novos graduados terão de competir com este cenário, ao mesmo tempo que precisam
de aptidões muito mais latas: têm que ser criadores. A criatividade será a base conjunta de
uma atividade económica, onde esta automação estará presente: máquinas inteligentes e
59
Um outro caso interessante: uma empresa de jarros e copos com uma linha de montagem mecânica, que utilizava
caixas de cartão mas em que a máquina não os segurava corretamente. Isso não tem qualquer problema para uma
pessoa que simplesmente vê os copos, agarra-os (com cuidado…) e põe-nos na montagem. No entanto, o
problema é que muitas vezes, quando chegam, esses copos não estão bem alinhados e se forem ao invés maquinas
a fazer a tarefa, estas não identificam esse (des)alinhamento e não sabem rigorosamente o que fazer no ponto de
partida. Uma empresa tentou criar robôs, que não necessitavam de ser programados por engenheiros (com salário
elevado!) e que essas máquinas aprenderiam por elas próprias ou aprendiam umas com as outras, como fazer a
tarefa. Os robôs eram chamados de Baxter. Pareciam de facto robôs, toscos mas … conseguiu-se treinar o robô.
Simplesmente …levando pelo pulso (!!!) e pelo braço do robô, de forma a aprender os movimentos tal como uma
criança aprende, levando pela mão e pelo braço. O robô soube assim, desta forma ‘humana’, aprender o que teria
mais peso ou menos peso, de forma a trabalhar de uma forma segura, nomeadamente com os frascos… . Cf.
https://robots.ieee.org/robots/baxter/.
Moniz/Um novo horizonte/88
‘conscientes’, irão libertar milhões da rotina laboral, uma grande quantidade de trabalho60
… .
Mas tarefas como curas para a malária, o que limpar no ambiente e acabar com a pobreza, irão
requerer o talento humano. As novas máquinas no novo enquadramento61
do século XXI,
certamente ajudarão a explorar e a melhorar o mundo em que vivemos; os seres humanos têm
que fazer parte dessa descoberta mas de uma forma criativa e com novas capacidades e mais e
melhores habilitações.
E aí é que o ensino superior terá um papel determinante. Mas tão somente entre as IES
Portuguesas que, já e rapidamente e em força, forem desenvolver e empoderar uma nova
geração de criadores, mulheres e homens que saberão empregar estas novas tecnologias. À
medida que a nova tecnologia, a nova sociedade se transforma, com a presença destas máquinas
inteligentes, uma nova educação via ensino superior tem de surgir. E tem mesmo! Sobretudo,
para continuar a atribuir uma aprendizagem ao longo da vida, com uma carreira
correspondente.
O progresso tecnológico não será o único a afetar o fator trabalho, o salário. A
democracia, a demografia também importa. Mas aceitemos que a alteração tecnológica a irá
influenciar profundamente, daí a pergunta: o que é que devemos fazer sobretudo em termos
de academia? Como preservar os benefícios do progresso tecnológico, lidar com as mudanças
60
Para se ser criativo, é necessário dominar os conceitos. Para dominar os conceitos, tem que se abandonar a
memorização de receituários. A disrupção tecnológica está alinhada com o aprender a pensar com criatividade:
é um dos skills a ter em conta no resto do século XXI (e no futuro).
61
I.e., o novo horizonte…
Moniz/Um novo horizonte/89
para a formação, o ensino e a força laboral? Isto é importante para desenvolver futuras
máquinas inteligentes como também a formação que temos de dar aos nossos alunos. Será
realista imaginar que a mera aprendizagem online será ‘capaz’ de resolver ou pelo menos em
parte, as questões do ensino?
Desde há várias décadas tem havido uma tendência para o aumento do custo por aluno,
que pode variar de caso para caso, mas esse aumento dos custos por aluno tem sido mais rápido
que a generalidade dos custos a longo prazo. Esta situação ficou conhecida de certa forma pela
lei de Bowen62
. Quando foi mencionada, ocorreu algum (bastante!) ceticismo. Dito de outra
forma, para um longo intervalo de tempo, a tendência de aumento dos custos por aluno numa
instituição, eram muito mais rápidos do que os aumentos gerais nesse mesmo longo período.
A questão (e desafio) permanece. Mas retornemos à discussão, não consideremos por enquanto
custos versus benefícios. Isto de ‘inteligência artificial’ é pôr tudo online e está feito? Ou não?
Se o online não chega nem tem o ‘q.b.’, o que vai faltar então? O problema é haver estreiteza
mental de se identificar ‘tout court’ inteligência artificial com videoconferências ou robôs de
aspiração… .
A alternativa é planear, juntar as estas novas literacias as capacidades cognitivas
integradas, as quais terão de ajudar os estudantes a adquirir competências de ‘computação’, um
62
Cf. www.amazon.com/costs-high-education-colleges-universities/dp/0875894852.
Moniz/Um novo horizonte/90
poder de adaptar às novas capacidades destas novas máquinas, as quais aprendem per se. Ter
engenho, ter criatividade: apenas desta forma ele(a)s (i.e., estudantes) serão capazes de
colaborar com outras pessoas e… outras máquinas! É o poder que a humanidade tem para este
novo século XXI e no qual as IES (mas apenas aquelas que quiserem e nesse sentido, aquelas
que souberem tomar isto em mãos…) poderão ser chave.
As IES vão ter sobretudo de providenciar uma nova forma de aprendizagem, muito
abrangente, que vai desde aquilo que se possa chamar as artes liberais, educação e
desenvolvimento intelectual até ferramentas de lógica e matemática, para o mundo em
mudança. De forma que o(a)s aluno(a)s de hoje, as mulheres e os homens da manhã, possam
ter sucesso nos seus futuros empregos. Ao lado da revolução da inteligência artificial: novas,
outras pedagogias assentes na aprendizagem efetiva, algo prático usando essa tecnologia de
uma forma radical. Não apenas passiva para levar ao encontro dos alunos seminários em tempo
real e assegurar a sua performance, mas usar toda uma ‘cidade’ como um campus moderno,
uma IES do futuro, cidades inteligentes também Smart Campus, campus inteligentes. Mas não
só. Isso é obvio.
Ferramentas para ensino e aprendizagem, que podem e devem ser usadas para um
mundo em mudança acelerada. E atingir os objetivos, os alvos que possam ser colocados em
termos de natureza criativa, quando a inteligência artificial e as máquinas superinteligentes
forem ‘rotina’. Porquê? Pois, porque um ciclo de inovação-desenvolvimento-inovação
autoalimenta a sociedade humana, que perante problemas comuns, sejam ambientais ou
pandemias, tenderá a alinhar-se mais no futuro.
Moniz/Um novo horizonte/91
Em mais detalhe, com mais elaboração.
Por um lado, existem sistemas, aplicativos para acompanhar o progresso do(a)s
estudantes. Eou identificar áreas ou situações de dificuldade que precisem de análises,
discussão e atenção para resolver problemas de ensino e aprendizagem. Ou atribuir tarefas,
dependentes de progressão, situação pessoal ou até distancia de atendimento. Não se trata de
ensinar muitos alunos a distância; ao invés, um professor presencial consegue isso e melhor,
incluindo por meio de ensino tão-centrado q.b. no aluno quanto possível … . É sim fazer análise
de aprendizagem, com recurso a tecnologia, de 100 ou até 500 alunos. Ou mais. O ensino mas
sobretudo a aprendizagem podem ser mais eficientes e tornarem-se (ainda mais) socialmente
determinantes. Como ter um analista exclusivo per aluno(a), que o(a) acompanha
‘individualmente’, de forma sempre complementar ao trabalho de grupo de uma comissão de
curso, incluindo, claro o(a) docente que ensina. Com o ensino ainda na sala de aula presencial,
a aprendizagem será por uma plataforma mais alargada, mas entrelaçada (entenda-se mais rica
de oportunidades e disponibilidade, democraticamente ao serviço e opção do(a) utilizador(a)),
via a nova tecnologia de IA. Consulte-se o Watson Project, da IBM63
. Ou outros ‘abraçados’
no desígnio paras as décadas seguintes, conforme a Comissão Europeia atribuiu. Em suma,
adaptar o ensino, mas sobretudo a aprendizagem, a cada aluno, às suas necessidades,
características, centrado no próprio aluno mas agora devidamente. Ou pelo menos melhor que
o desenrascanço vigente, onde ‘Bolonha existe’ mas quanto a ser fundamentalmente,
63
Cf. https://www.ibm.com/thought-leadership/smart/ ou
https://researcher.watson.ibm.com/researcher/view_group.php?id=2099
Moniz/Um novo horizonte/92
plenamente, integralmente, amplamente satisfatória… . Talvez e.g., o Watson ajude de forma
significativa a tornar esse processo, declarado e celebrado, um pouco mais real e menos um
tópico de mero preenchimento em debate televisivo.
Por outro lado, o(a)s novo(a)s estudantes irão adquirir aptidões e conhecimentos de uma
forma integrada, ‘holística’, por várias fontes e em diversidade, não apenas tecnologia. Uma
formação que lhes dará uma perspetiva de se adaptar a um mundo em mudança e que irá evoluir
a uma velocidade, com uma aceleração, impensáveis.
O ‘novo’ propósito de ensino deverá ser fornecer aos estudantes as competências
nucleares e sobretudo de pensamento crítico e criativo, uma capacidade de comunicação e
interação efetiva, sobretudo ao nível dos objetivos que devem ser considerados no futuro para
os cursos universitários. Não é o conteúdo dos cursos que deve ser o foco, o currículo deve
ser reestruturado e deve ser sobretudo seminal, de entusiasmar na busca de conhecimento, os
alunos precisam de informação para fazer as melhores escolhas. Estes devem ser os princípios
que guiam as nossas decisões naquilo que incluir, excluir e a forma de estruturar o currículo e
as concentrações daquilo que devem fazer, os cursos e percursos individuais.
É preciso ensinar aos estudantes, nas várias disciplinas que poderão ter e nos
conhecimentos que irão adquirir, como comunicar efetivamente. Como extrair material desde
linguística, retórica, filosofia, história, literatura, psicologia, neurobiologia e teoria de
estratégia e formar teorias. Possuir análise formal, pensamento crítico, habilitar competências
de pensamento crítico: lógica e estatística, desenvolvimento de algoritmos de ciência de
Moniz/Um novo horizonte/93
decisão. Ser capaz de identificar e desmontar falácias lógicas, usar estatística efetivamente e
sobretudo ferramentas matemáticas tal como teoria de jogos para tomar decisões, análise
empírica e pensamento criativo.
Temos que ter módulos, seminários de introduzir o método científico através de
exemplos, através de disciplinas e cursos. Possivelmente, os conteúdos de (algumas?) unidades
curriculares (com todos os seus módulos, seminários) têm de ser totalmente redefinidos. Há
que implementar uma estrutura que os alunos possam extrair como pensar, como se consegue,
como se fazem novas descobertas e como se resolvem problemas64
. Não está em causa não
ensinar isto ou aquilo mas sim a forma e o contexto: para que é que aquilo serve, porque é que
é ensinado? Tem de inculcar mais e melhor a compreensão de como é que a evidência e os
factos são usados. Temos de ser criativos para gerar hipóteses, para as testar, reconhecer
possíveis correlações, que são ou preconceituosas ou desenvolver novas soluções e os
mecanismos para entender as características chave, sobretudo de sistemas complexos. Como é
que podemos extrair possíveis conclusões: sejam sistemas complexos de natureza social ou de
mecânica, os estudantes devem entender como compreender, como abordar esses sistemas,
desde interações sociais ou até problemas de natureza biológica ou física matemática. O
‘ensinar’ tem de ser um ‘outro’ procedimento, muito, mas mesmo muito diferente.
64
…implica mudar o mindset de alguma gente!
Moniz/Um novo horizonte/94
Carreiras. No futuro
A IA é, vai ser a nova revolução por entre a humanidade. Como já aqui se referiu, de
impacto e magnitude como foram a agrícola e a industrial. Hoje mesmo, serviços de saúde,
financeiros e legais já empregam (alguma mas ainda muito pouca) IA. E que vai já
determinando como devem mudar para poder melhor empregar estas novas funcionalidades.
São redes para aprendizagem ao longo da vida, em momentos diferentes para pessoas diferentes
com propostas de vida diferentes. As pessoas têm que ser mais ágeis, adaptáveis, criativas e
sobretudo encontrarem o que realmente irá inspirar o ser humano no século XXI. Talvez, até
depois, ficando-se assim condicionado. São redes de seres humanos e máquinas de IA,
colaborando (!), produzindo comunidades a partir dessas redes, criativas, resilientes e
empreendedoras, nunca marginalizadas, por empregarem a nova tecnologia da IA. À medida
que a nova tecnologia, a nova sociedade se transforma, com a presença destas máquinas
inteligentes, uma nova educação via ensino superior tem de surgir. Sobretudo, para continuar
a atribuir uma aprendizagem ao longo da vida, ao invés de uma carreira em bandeja, como até
agora …
Por isso, o ensino superior com estas novas máquinas que aprendem, não deverá estar
apenas focado em preencher as mentes dos estudantes com muitos e muitos factos, mas calibrar
aulas com criatividade e com elasticidade mental, para inventarem. Caberá aos estudantes
descobrirem e sobretudo produzirem para uma sociedade aquilo que será valioso. Isso poderá
ser qualquer coisa desde uma demonstração científica, uma nova música, uma linguagem nova
(!) para seres humanos e até uma cura para terminar certos tipos de cancro.
Moniz/Um novo horizonte/95
Qualquer que seja a criatividade e a criação, tem que ser original. E original o suficiente
para se evadir da etiqueta de rotineira e assim da ‘ameaça’ da automação. Em vez de termos
trabalhadores treinados em automação, que serão sim as tarefas de alguns robôs, temos que
treinar os novos criadores. O campo da robótica está gradualmente a produzir novas gerações
de máquinas, cada vez mais avançadas, pelo que precisamos por entre as várias áreas de estudo,
de ensino e aprendizagem, que se possa atribuir um acrescido potencial de criatividade aos
seres humanos, por intermédio de um novo ensino superior: dotar os estudantes com mais
habilitações criativas, i.e., incentivar a explorar. Temos de fazer ressurgir a criatividade e
flexibilidade do ensino, preparar os estudantes para competir e criar. Neste novo mercado de
trabalho, as máquinas superiormente inteligentes em comparação com as anteriores, irão
trabalhar com profissionais humanos, estes dotados com esta criatividade mencionada. O
conhecimento factual, por si só, já não é suficiente para o trabalho de amanhã. Esta nova
plataforma laboral, é a ‘humaníca65
’. Não é apenas um conjunto de áreas de saber assimilado,
mas uma nova dinâmica de capacidades cognitivas. Essencialmente, tornar a mente
entusiasmada, desenvolvida, novas formas de pensar o mundo, os sistemas, uma capacidade
de ver a empresa e a máquina. E sobretudo tomar assuntos de forma ‘holística’, mais
abrangente, fazendo conexões entre vários aspetos e várias funções, de uma forma integrada
que até então não seria possível. E agora com a presença destas máquinas poderá ser mesmo
necessário um conjunto também de empreendedorismo adaptado a este novo desenvolvimento
tecnológico.
65
https://www.bbc.com/worklife/article/20190718-humanics
Moniz/Um novo horizonte/96
O ensino e sobretudo a aprendizagem, como já aqui se referiu, serão (apenas um pouco
mais?) assim então personalizados? Ironia, por meio de máquinas em IA? Mas porque não? Se
os objetivos de cada um são pessoais e somos vários biliões à superfície desta ‘esfera’. Ou
vastas centenas num curso de biologia ou química ou matemática geral… . Essencialmente,
Universidades e Institutos Politécnicos têm de tomar o ensino e a aprendizagem (!) além de
percursos tradicionais. Possivelmente arrojado, e se o ensino superior abarcar modalidades,
menos de ‘compra’ por uso anual, mas antes uma subscrição possibilitando, ao longo da vida,
acesso66
a diferentes módulos? Como hoje já se faz, ao invés de canais públicos ou privados de
televisão ou rádio, mas com acesso a produções diretas de programas, filmes, séries, por uma
quota regular? E a tantos quanto se queira por intermédio dessa subscrição. Demasiado
comercial? Vamos trancar o futuro, a oferta e o mercado? A inovação? A sério??!
Sobretudo, vai ser preciso ‘marginalidade’ cultural de ensinar aos estudantes como
operar de forma desafiadora, numa variedade global de ambientes, verificar e dominar,
perceber situações de formas diferentes, muitas vezes aparentemente conflituosas entre elas em
termos de cultura. Mas é preciso trabalhar juntos: uma capacidade de pensar crítica e criativa.
Todas juntas, estas novas literacias e capacidades cognitivas, integradas nas novas máquinas e
nos novos estudantes do novo ensino superior. Alerta: não é uma questão de escolha mas uma
questão de necessidade. De sobrevivência. É o futuro. Amanhã mas ‘hoje’.
66
Até um certo ponto, uma ‘gota’ (por entre o vasto ‘oceano’) acontece (mas num modo ainda tradicional sem
qualquer disrupção) quando um aluno se inscreve numa unidade curricular por extensão.
Moniz/Um novo horizonte/97
E neste contexto todo, cabe integrar o ensino com modelos de situações de conflito
ético, debate de trabalho e negociação. Para que assim se encontrem formas de resolver em
equipa, incluindo os instrumentos de inteligência artificial, esses problemas complexos.
Ensino que desta forma, diria ontológica, é um ensino que dá ao estudante interdisciplinaridade
além da disciplinaridade. O conhecimento é seminal e o ensino não é terminal: é apenas o
começo, o arranque para muitos estudos que depois têm que ser feitos. Repita-se, ao longo da
vida.
Um estudo realizado pela empresa Mckinsey para se encontrar uma melhoria traduzida
num aumento de ‘produtividade’ nas IES e sem (!) aumento da despesa (em teoria e em geral),
salientou terem que ser elas próprias a se definir e não somente tentarem adaptar-se às outras.
E para serem mais sustentáveis, têm que abraçar versões adequadas e um ensino online e ao
mesmo tempo manter (em versões também adequadas…) os seus professores a tempo inteiro e
os seus campi, as suas zonas físicas. No mundo de disrupção tecnológica, de facto os
professores e o espaço de encontro, cara a cara, ainda que possam ser vistos como dispendiosos
(mas não o são!), têm um potencial incalculável, permitem às IES desempenhar determinadas
funções, que outras instituições estritamente online não conseguem. A premissa é instruir para
empregos cruciais, novo conhecimento, preservar as descobertas do passado e sobretudo
assegurar trabalho de mentor para a geração que está a surgir. A IES tem que se adaptar a este
novo ambiente competitivo, em que cada vez mais as tecnologias digitais, designadamente a
IA, irão impor a sua força. Porque assim será o futuro imediato e só assim terão um futuro a
longo prazo.
Moniz/Um novo horizonte/98
As IES estão além do âmbito unicamente económico, pois com elas há que criar
conhecimento e promover o bem-estar social, além do económico. Mas, como se tem referido
desde o início deste ensaio, ainda há adultos que estão fora do ensino superior, ainda há neste
sector uma reduzida taxa de atratividade. E os custos (diretos e indiretos) da frequência em IES
têm aumentado cada vez mais no ensino superior, mais do que a inflação. Nomeadamente,
para as famílias67
. Alguns empregadores declaram que estão a contratar graduados que não
estão totalmente bem preparados para o mercado de trabalho, quando se angustia a ameaça de
uma competição global e tecnológica sem par. E algumas IES continuam com a perspetiva que
‘somos demasiado grandes ou demasiado importantes para falhar’, aqui estamos entre muros
e ‘trincheiras’, protegidos, quase que esquecidos e ‘nada nos acontecerá’. No entanto, eu diria
que basta olhar para além das janelas e verificar entre as fábricas e os edifícios remontantes da
destruição, da falência, da inoperacionalidade, da incapacidade que foi adaptar novas
tecnologias ao mercado global: essa lição está à nossa frente e só não vê ruinas quem não
quiser ver. O que se fez? Bem, alguns souberam fazer em ‘disrupção’, perante a ameaça
‘criativa’, modificar em algum grau, a atividade prévia. Outras comunidades, de forma mais
ampla e corajosa, quiseram e souberam criar novos sectores produtivos de tecnologia, com
formação académica associada, políticas de desenvolvimento focadas em atividades
especificas, como, e.g., saúde, turismo, indústrias eletrotécnicas, ambiente e energia,
alimentação e qualidade, educação e ensino (superior)…
67
Cf. capitulo ‘Diagnóstico’.
Moniz/Um novo horizonte/99
Permita-se nos, no entretanto, apontar à suprema oportunidade que emerge no ensino
superior em Portugal. Aparentemente paradoxal, mas não o é. O advento da inteligência
artificial, de máquinas auto-aprendedoras, pensantes, implica com cada vez mais acuidade, a
importância da aprendizagem cara a cara. I.e., presencial. Só assim, a ‘humânica’, a síntese de
criatividade nos humanos, excitada pelas novas paisagens de execução operativa, se
desenvolve. Claro que haverá vídeo conferências ou similares68
. Já se faziam na(s) década(s)
anterior(es), com mais ou menos qualidade no ecrã e no som. E vai fazer-se69
mais. Mas o
novo ensino tem de ser iconoclasta70
e para isso, nada substitui um mentor ali junto. O que não
se pode fazer é rejeitar, virar as costas às próximas décadas do seculo XXI.
68
Na UCAO (https://ucao.org/), para dar um exemplo porventura sujeito a verificação (declaro), anuncia-se o
recurso a ensino acompanhado de ‘realidade virtual’, num enquadramento (e traduzo do Francês) ‘imersivo,
intuitivo e inclusivo’, junto com laivos de ‘Gettysburgh’, numa ‘aprendizagem acessível a todos, por todos os
lugares e em todos os momentos’…
69
E, entretanto, enquanto a ‘Terra se move’, algumas organizações (que empregam recém-graduados) reinventam-
se. Dito de outra forma, investem de forma inovadora na valorização da carreira dos seus colaboradores.
Concentram mais recursos nas atividades que as sustentam, potenciam recursos para se dotarem de conhecimento
qualificado e critico para terem sucesso: requalificar como investimento junto com melhorias processuais (em
particular, tecnológicas). Tudo aliado (!) para entusiasmar os colaboradores para mais especialização, um
reskilling e/ou upskilling. Tudo e todos são importantes.
70
Será impensável, inadmissível, permitir que qualquer estudante possa criar (por via de opções de disciplinas,
módulos) o seu curso, a sua formação? Em diálogo, aconselhamento de formação e subsequente contratação (i.e.
‘emprego’), porque não? Se hoje se escolhe o que ver na Netflix, onde, como, quando. Ensino Superior em
modo HBO? Sacrilégio!? Bom, tentemos ser iconoclastas. O novo século, em Janeiro de 2020, estava a 80 anos
de ‘distância’. Em inícios de Julho, já só eram 79 anos e meio. Agora, enquanto escrevo, são 79 ou por aí
(menos). ‘Isto’ anda depressa, muito depressa…
Moniz/Um novo horizonte/100
“…(as IES) deveriam tomar nota. Ao invés de se entrincheirarem em modelos decadentes,
deveriam focar em criar novas estruturas de financiamento e melhorar o acesso ao ensino
superior – necessidades que irão certamente ser intensificadas no decurso dos próximos anos”,
Natham Schultz
Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫צ‬ֻ‫)ח‬
Como pode uma região (ou uma nação, se quisermos ser mais específicos) com cerca
de 4/5 da população Portuguesa (e menor território em área disponível), sujeita a crises (algo
específicas, entenda-se), tendo de afirmar a sua competitividade para simplesmente sobreviver,
ter o melhor índice de obtenção de financiamento (por exemplo, bolsas para investigação
avançada) do European Research Council (ERC) per capita por entre muitas (!) áreas do
saber? Porque algumas regiões e instituições possuem melhores indicadores relativos a ciência
e tecnologia do que outras? Ou provocando, como e porque são ‘melhores’ do que outras em
ciência e tecnologia? Ou inovam71
‘mais’ ou ‘melhor’ que outras? Esta questão recebeu (mas
não de forma consensual e o debate progride) uma proposta de resposta na forma da72
lei de
Cardwell.
71
O que é Inovação? Reconhecemos inovação quando a virmos? Como distinguir inovação de ‘não-inovação’?
As respostas não são óbvias. E mesmo que possamos definir inovação, podemos medi-la?
72
Cf. ‘The Politics of Innovation’, M. Taylor; cf. na bibliografia junta. E por entre a bibliografia que se indica
nas páginas finais, cf. também, por exemplo as obras ‘The stategy for Korea’s…’, ‘Designing the new American
university…’, ‘Lost in the meritocracy…’, ‘Pass the chutzpah, please…’, ‘Socrates in the boardroom…’, ‘A
university education…’, de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste ensaio.
Moniz/Um novo horizonte/101
Nela, não tanto se ‘identificam’ os modos de progresso no desenvolvimento
tecnológico, mas antes se descreve ‘o que e quando’. E não importa a nacionalidade ou
localidade, de forma direta. De forma muito concisa, nenhuma nação foi mais criativa do que
por um determinado período (histórico) e havia sempre outra que iria tomar a dianteira. Mas
se tomarmos (de forma apropriada ao objetivo deste capítulo) o conjunto de países e regiões
que (i) outrora dominaram eou (ii) atualmente dominam a criação inovadora por via da
produção em ciência e tecnologia, verifica-se o seguinte. Décadas atrás, alguns nem sequer
existiam. Por outro lado, temos regiões que durante a sua história tiveram riqueza (capital
material), democracia e industrialização, alguma produção científica e tecnológica. Mas hoje
a sua capacidade de inovação é modesta, apesar de possuírem alguma educação e não terem
pobreza. E no século XXI as fronteiras ou distâncias não podem contar tanto: a comunicação
por via tecnológica é muito mais rápida e eficaz. Será (e seria) de esperar que quase todas
tivessem as mesmas capacidades e tecnologias semelhantes. Mas não é assim. Porque é que
algumas têm sucesso e algumas não têm e mesmo tendo sucesso, porque é que não o mantêm?
Segue uma ‘divagação’ em economia… .
Crescimento económico significativo (numa região, com e para benefício de
instituições, empresas, populações, em sinergia ampla), requer empresas reconhecidas,
tecnologias avançadas versus o passado da força laboral de baixo custo e ‘dispendiosa’ na
consequência competitiva. As economias ‘ocidentais’ enfatizam a importância da inovação
para serem competitivas entre os países avançados. Mas se é importante, não é crucial para
Moniz/Um novo horizonte/102
alcançar esses níveis, para alcançar competitividade sustentável: falta uma estratégia de
enquadramento nos países que poderão estar a perder essa competitividade. Pode haver um
‘by-pass’ robusto e exequível. Desde que…mas já lá vamos.
Em mais detalhe, a prosperidade de uma nação ou região, poderá primariamente ser
determinada pela abundância de recursos, população, riquezas naturais. Mas há quem tenha
esse potencial e não ser um dos países mais ricos: têm a dinâmica de comércio, mesmo que
atribuindo força económica à abundância de recursos. No entanto, isso levou à formulação
(embora não isento de contestação) do paradoxo de Leontief73
. Concretamente, afirma que um
país com um capital mais alto por trabalhador tem uma relação capital / trabalho mais baixa
nas exportações do que nas importações: os Estados Unidos - abundante nesse capital -
exportava mercadorias que consumiam mais mão-de-obra. E assim, talvez diferenças
tecnológicas determinem vantagens comparativas. I.e., ter ao invés uma vantagem em mão de
obra altamente qualificada, mais do que capital em simples ‘mão de obra’, uma visão geral do
“capital” e assim incluir o capital (intelectual) humano: exportações intensivas por esse capital
(humano) e não particularmente intensivas em mão-de-obra (não qualificada). Mas a procura,
além da oferta, também desempenha um papel importante, com a vantagem ‘comparativa’ a
não ser ignorada: países que compartilham semelhanças produtivas terão também maior
probabilidade de negociar; i.e., em vez de um país dominar o setor com uma vantagem
comparativa, os dois países ou regiões partilham (de alguma forma).
73
https://en.wikipedia.org/wiki/Leontief_paradox
Moniz/Um novo horizonte/103
Haveria pois que implementar uma outra estratégia, por via de co-conquista de
mercados, em empresas e indústria. Seria ter uma visão estrutural, um ponto de vista onde
havia recursos críticos e capacidades, que eram valiosos, raros. Mas… se não forem estáveis e
reproduzíveis, não substituíveis, isso também manteria essas economias, provisoriamente,
acima da média das outras competidoras, em risco.
Elaboremos: a competitividade, em parte recolhida da vantagem competitiva de uma
região, determinada pela sua capacidade de construir, integrar e reconfigurar interna e
externamente aqueles recursos, de uma forma rápida, seria também, em outra parte, pela
capacidade de reagir num ambiente de mudança rápida. E a competitividade das empresas
ou regiões ainda por desenvolver ou menos desenvolvidas, iria depender (e muito!) de as IES,
que também têm um papel fundamental, influenciarem também os negócios. Há teorias para
explicar o desenvolvimento económico de regiões e empresas, mas, no entanto, baseadas ainda
na identificação tradicional de recursos como a tecnologia ou o mercado sofisticado. Ou então
infraestruturas e sistemas muito avançados. Terá de ser apenas assim e sem exceções? Uma
região que não tiver um mix complexo e equilibrado de recursos materiais únicos, com recursos
de tecnologia, formação avançada e baseada em IES, não pode ascender?
À partida, pode parecer ser irrealizável. O ‘fator de produtividade total’ é um item
controverso, mas é crítico: importante quando se analisa o desenvolvimento económico de
uma região. A produtividade baseada nos recursos humanos, de capitais (num sentido lato),
gera valor adicionado, crescimento económico e prosperidade. É por isso que se enfatizou a
importância do uso eficiente dos recursos acima do aumento simples, em opção de ‘força
Moniz/Um novo horizonte/104
bruta’, dos recursos. Os países e as regiões que utilizam com sabedoria (!) o ‘recurso’ do
capital humano são os mais produtivos, em termos de criação de riqueza social e bem-estar.
Uma explicação para o desenvolvimento económico rápido é de facto o capital humano que
uma região obtém com educação (!), em que uma região proporciona aos seus trabalhadores o
desenvolvimento e prosperidade, saúde e bem-estar social.
O desenvolvimento e a produtividade estão pois diretamente relacionados com a
educação, o treino vocacionado e sobretudo para um capital que se vai acumulando: o capital
social de desenvolvimento cientifico e tecnológico. Melhorando a produtividade económica e
sobretudo a cultura dessa região; uma forma de criar e desenvolver também confiança, com
investimentos subsequentes. E em que podemos envolver economicamente a região e as IES,
através de uma estrutura prática. E assim eventualmente para possuir essa vantagem
competitiva. Por meio da educação…
Mas o bem-estar social não é simplesmente baseado em aumentos quantitativos, fatores
de produção ou outros fatores que têm a ver com o desenvolvimento tecnológico. Há também
aumento de produtividade que não pode ser explicado apenas por medidas, i.e., métricas: há
aspetos que não se medem mas são imensamente valorizáveis (nem tudo que se mede é
valorizável, nem tudo de valor pode ser medido). No entanto, com a tecnologia, inovação e
melhoria organizacional, haverá ou poderá haver eficiência e ganhos. Ou, dito de outra forma,
se não houver progresso tecnológico e social de cultura de aprendizagem, capacidades de
gestão, se o crescimento for pontual e fosse exclusivamente da doação de recursos de
Moniz/Um novo horizonte/105
financiamento, a fundos ‘perdidos’ e não houver investimento cultural, o crescimento irá
abrandar, diminuir e eventualmente cair.
Contudo, há procedimentos que implicam um sucesso tranquilo. Há outros países e
regiões onde se desenvolve crescimento social, qualidade de vida. E económico também,
sobretudo em termos de bem-estar social. Há outros modelos e outras oportunidades de forma
a arrancar e alcançar um patamar de desenvolvimento económico regional e institucional,
sobretudo num período curto. Essas regiões ainda não tiveram um período longo de riqueza,
mas encontram forma, com sucesso, de melhorar o capital humano, a formação e sobretudo
um fator total de produtividade: aumentar, melhorar a competitividade.
Como? Creio que essa abordagem é inteiramente possível ‘por aqui’. Sim, mudança
cultural. Já lá vamos. No entretanto, outro aspeto.
Cada história de sucesso (nacional, regional, institucional) em ciência e tecnologia
parece ser diferente (há sempre algo que ou se distingue ou é mais enfático, e assim potencia)
mas no tocante a falhar, todas onde isso ocorre têm algo em comum. Concretamente, a
ausência (ou quase) de pelo menos um ou todos de entre os seguintes cinco pilares: (i)
legislação robusta, justa dos direitos de propriedade intelectual junto da comunidade académica
e empresarial, (ii) subsídios, global e socialmente amplos, em termos de bolsas e programas
para investigação regulares, (iii) mais e melhor (!!) educação nas IES, (iv) concertação em rede,
em ‘equipa’, de institutos, laboratórios de investigação e (v) políticas comerciais (baseadas na
inovação decorrente) devidamente estruturadas, a nível nacional, regional, local. Saliente-se:
Moniz/Um novo horizonte/106
o simples atributo de aumentar a despesa via OE em investigação e desenvolvimento,
protegendo a propriedade intelectual, ou criar por aqui novas escolas, e.g., universidades e
institutos politécnicos, não resulta sempre numa melhor e maior ‘taxa’ de inovação científica
e tecnológica, como desejada. Não há uma ‘bala de prata’, não há um melhor modelo de
instituição ou política. É uma boa intenção (é sempre assim…), pôr em cima da mesa e dizer
‘vamos copiar74
este’.
Indiquem-se três ‘ferramentas’: as instituições, as políticas e as redes (de trabalho).
Elas podem apoiar a descrição do ‘como’ mas ainda não se associam com o ‘porque’. A política
científica é o motor de desenvolvimento, tal como contribuem as despesas em educação (i.e.,
em universidades ou institutos politécnicos) e um sistema de patentes transparente (e mais
justo). Em suma, a democracia e também (!) uma descentralização podem fazer a diferença.
Se todas (!) presentes e salientes.
Um outro ingrediente será, como já atrás mencionado mas sem enfâse ainda, a
promoção de redes de trabalho cientifico, no sentido amplo de providenciar informação.
Missões estrita e exclusivamente governamentais in situ podem até obter alguns ‘pontos’ mas
a nível de informação útil, é bem mais difícil de a obter. Participações ativas, pelos legítimos
profissionais (e não por ‘turistas’ de nomeação) são eficientes em criar ou otimizar redes de
trabalho internacional em ciência e tecnologia, podem trazer uma grande vantagem. A
presença efetiva e participada (ativa, frutífera) em redes de cooperação ajuda a explicar como
74
É o proverbial simplista ‘não é preciso inventar a roda’. E vai daí, usa-se, tout court. E não se discute, analisa,
estuda se é a roda, aquela, que se precisa. Ou outra. Ou outra ferramenta...
Moniz/Um novo horizonte/107
é que algumas regiões vão inovando. E ‘ficam a inovar’ mais do que outras. Mas existem casos
que deixam de inovar tanto ou ‘de repente75
, i.e., acabam’; ou, ao invés, começam a inovar
imenso, como se um desígnio nacional se tratasse76
. O que ocorreu?
Tem sido proposto que ‘alguma insegurança, criativa’, um equilíbrio (volátil) entre
procedimentos ‘domésticos’ e ‘incerteza’ do externo, em termos de segurança, afeta o arranque
ou reforço na taxa dessa inovação. Em resumo (por ora), as instituições, as políticas e as redes
de trabalho podem ajudar a explicar como é que algumas regiões vão inovando; o equilíbrio
entre a segurança e as preocupações já explicam ‘porque’ se tornam (muito!) determinadas a
inovar77
.
Esse equilíbrio é bastante delicado. O progresso em ciência e tecnologia é por vezes
impedido. Conflitos de interesses, quebras (por vezes inesperadas) do mercado, são algo que
instituições e políticas podem tentar resolver mas são elas também que poderão determinar a
manutenção ou o (in)sucesso. Ou redito de outra forma, são as diferenças entre instituições e
políticas que explicam que algumas regiões são melhores em ciência: regiões onde não há
instituições ou são socialmente corruptas, as políticas não são suficientes, serão até
contraproducentes. Mas se o processo de inovação e desenvolvimento envolve instituições,
75
Poderá ter a ver com cada vez menos recursos alocados para a investigação em ciência e tecnologia. Eou a
formação de trabalhadores, de técnicos cada vez mais especializados em ciência e tecnologia, ser descontinuada.
Dito isto, há um aspeto que é fundamental: as regiões têm que ter instituições e políticas concretas, bem
determinadas ao encontro do desenvolvimento da ciência e tecnologia.
76
Nb. Poderá haver uma relação com a idade da população, i.e. mais jovem mais inovadora… . Precisa-se, pois,
de políticas de juventude e que integrem ciência e tecnologia, disrupção no ensino-aprendizagem. Para onde a
juventude irá. Sempre.
77
Cf. ‘The Politics of Innovation’, M. Taylor; cf. na Bibliografia junta.
Moniz/Um novo horizonte/108
agências governamentais e políticas que funcionam para apoiar, isso tudo faz a diferença face
a algumas (não todas!) adversidades. É importante o apoio de políticas públicas, para
compensar as perdas que os investidores privados tendem a reduzir, por defeito, quando
mercado se contrai. Porque não conseguem beneficiar de imediato do seu investimento. Por
isso, os sistemas nacionais de inovação transformaram-se (e bem!) para colmatar, vieram a
ser os dominantes da investigação para a inovação. E é por isso que a democracia é a política
necessária ao mercado livre: a existência da democracia é a garantia de ter uma economia de
inovação. O problema muitas vezes nas democracias é o obsessivo ‘praxis’ centralista e que
pode levar a uma estagnação.
Por outras palavras, uma política de descentralização transforma-se também numa
aplicação de apoio nacional, para a melhoria. Governos descentralizados são vistos como mais
ágeis, motivados e mais bem estruturados, para se adaptarem aos desvios e saltos bruscos de
mudança. Organizações (incluindo IES!) demasiado centralizadas (em várias formas e feitios)
tornam-se demasiado rígidas e falham nos ‘testes ao risco78
’ (ao custo e às mudanças associadas
com nova ciência e tecnologia). Mas não esqueçamos aquele ‘equilíbrio’…
Há países e regiões, alguns com boas, bastantes instituições e políticas mas que não
conseguem extrair tanto (ou extrair mais, ou, ao invés, simplesmente ‘estagnaram’ num
pântano (é sempre assim…) constituído de alguns académicos…) do investimento em ciência
e tecnologia. E apesar das redes de trabalho, tudo isso não é suficiente, mesmo ao entrelaçar.
78
Talvez fosse interessante e pertinente que em Portugal, alguma Agência ou Direção Geral, à semelhança de
um banco central, fiscalizasse e submetesse as IES a testes de resistência e a risco…
Moniz/Um novo horizonte/109
Mas há, repita-se, países e regiões, com poucas IES e políticas governamentais minimalistas,
mas que conseguem inovar de uma forma estonteante. Talvez haja pois o entrelaçar por
convicção versus o fazer-se porque nos mandam, a diferença entre o das ‘9 às 5’ ou o retomar
de uma economia… . E uma (mais uma!) outra provocação. O processo de Bolonha
corresponde a uma harmonização (sectorial) no ensino e processos (diretamente) decorrentes.
Mas as formas organizacionais das IES variam; muitas questões colocadas por agências e
empresas (e.g., U-multiranking) pressupõe (ou parecem pressupor) que temos uma dada
organização que … não temos. Será que Bolonha só será ‘mais e melhor’ implementada se e
só se ‘pensar fora da caixa’ i.e., não só harmonização em processos de ensino mas também
administrativos?!
E porque é talvez aí que entra noção de ‘insegurança criativa’.
Alguns países, regiões, localidades adotam as IES certas, estruturas corretas, as
políticas adequadas mas depois não há uma ‘descolagem’ em conforto, segurança e eficiência.
Mesmo que empregadas ao longo de algum tempo. Enquanto outras não fazem (quase nada)
disso, simplesmente despoletam na inovação e riqueza tecnológica, por diversas outras razões,
até intrínsecas da cultura do grupo. Talvez porque há uma ‘insegurança criativa’: uma
condição de que estamos ‘ameaçados’ por ocorrências que não podemos controlar totalmente.
Essa insegurança motiva um apoio crescente e gradual, constante, da população para a ciência
e tecnologia. Quanto maior é a insegurança ou quanto mais tempo o enfrenta, mais a população
compreende e abraça o risco, subscreve sem reservas (ou muito poucas) que haja uma política,
um capital de apoio económico para a ciência e tecnologia.
Moniz/Um novo horizonte/110
Mas como já se referiu, envolve um equilíbrio muito delicado, entre tensões ‘internas’
e entre as ameaças ‘externas’. Na constatação serena desse equilíbrio, por meio de uma
população instruída (dai o valor do ensino superior!), é preciso encontrar políticas de
desenvolvimento e inovação. As regiões falham em ciência e tecnologia quando as rivalidades
‘domésticas’, de politiquice em jeito de descrição ‘paroquial e bairrista’ (cf. Eça de Queirós)
dominam: os receios ‘domésticos’ aumentam face a fazer cedências e controlam sobre o
‘alarme’ potencial das ameaças ‘externas’. Há um desgaste (que pode ser letal) no apoio à
ciência e tecnologia. A inovação é sempre dispendiosa. Mas, por favor, não devemos ver o
aspeto da ‘ameaça’ apenas militarmente. Isso é demasiado ridículo.
A inovação tecnológica pode criar uma economia que é mais competitiva e robusta nos
mercados internacionais, face a muitas ‘ameaças’. É um processo (como outros aqui citados,
de ‘win-win’) onde se cria e recria uma força de trabalho altamente qualificada, com
conhecimento tecnológico. É necessário um investimento de capital e até capacidade de
mercado. E no entanto, nenhuma destas condições é suficiente. É importante ter presente a
referida motivação por via das ameaças e riscos ‘externos’: podem ser ridiculamente apontadas
a trivialidades em cenários de militarização. Isso, repete-se, é errado: considerem-se antes as
ameaças e exigências cada vez maiores para energia, sua partilha, alterações climáticas, a
degradação do ambiente, o envelhecimento da sociedade e ameaças de doença…! Saliente-se,
embora associar-lhe uma tonalidade de ameaça poderá ser exagerado, que uma competição
internacional poderá também constituir uma forma de ameaça externa. Designadamente à
economia, em sectores desde o agrícola, turismo, microprocessadores, têxtil, baterias de
Moniz/Um novo horizonte/111
telemóveis, iogurtes… . I.e., a economia e a segurança económica de uma região ou de um
país. A inovação tem de abrandar estas ameaças externas (num sentido mais lato do termo).
Há, pois, que manter adequadamente, melhorar a inovação. Não o fazer, implicaria ao invés
que essas regiões correriam o risco de ser negligenciadas ou mesmo as IES ameaçadas. Em
suma, é precisamente o referido equilíbrio, entre as rivalidades ‘domésticas’ e as ameaças
‘externas’ que definem o (in)sucesso em ciência e tecnologia, daí influenciando como as
políticas e instituições (de ensino superior) poderão ser eficientes (ou não). A tal ‘insegurança
criativa’ pela qual é preciso promover um comportamento inovador, mesmo entre regiões
industrializadas, democráticas. Há também fatores de liderança pessoal, mas não são
suficientes. Não é isso que dá a taxa de crescimento de inovação, o acesso aos mercados.
A todos é preciso encontrar qual é a melhor política, para os diferentes intervenientes e
contextos da região. Alguns indivíduos são capazes de inovar de qualquer forma que seja. E
no entanto a inovação por via de pesquisa, investigação e desenvolvimento (que resulta num
claro benefício a nível nacional em produtividade), com novas indústrias, isso muitas vezes
vem de grupos menos altruístas mas que conseguem trabalhar conjuntamente, como numa
orquestra. Não se pode restringir a ação que decorre para a inovação com apenas a força laboral
em ciência, tecnologia, engenharia ou medicina. Há empreendedores, especialistas em
finanças, em mercados, em distribuição de bens, contribuintes e pagadores de impostos,
consumidores, funcionários governativos assim como burocratas, cidadãs e cidadãos em geral.
Todos têm que se sentir motivados para inovar ou apoiar a inovação; a inovação tem que ser
inclusiva de grupo.
Moniz/Um novo horizonte/112
Toda a cidadania, tem de ser uma cidadania em ciência. Todo o cidadão tem de
participar, envolver-se em ciência e tecnologia. É ter a ciência em todos os dias, apenas 3 ou 5
minutos, durante, logo após o início de alguns noticiários.
Conscientes dos mercados, das redes de trabalho, internamente e internacionalmente
temos que ir além dos preconceitos. E não se trata de visualizar ameaças falsas. É preciso sim
considerar as ameaças reais, repita-se, desde as mudanças de ambiente, do clima, secas, cheias,
os níveis do mar que podem aumentar, inovar em termos de energias alternativas, de fusão ao
solar, não dependentes do carbono e do petróleo, cada vez usar mais as energias alternativas
para que a nossa economia seja mais robusta e menos dependente de ações externas e muitas
vezes de efeitos devastadores e muito custosos. E essas, sim levam à questão da guerra e dos
acidentes ambientais com os custos que isso pode levar para perdas de empregos, em pescas,
miséria social, pobreza. O envelhecimento demográfico, doenças de coração, cancro, diabetes,
Alzheimer, problemas pulmonares e cerebrovasculares, hipertensão, debilidade, drogas,
epidemias… .
O traço comum dos países, das regiões com elevado desenvolvimento e sucesso em
ciência e tecnologia, decorrente de tudo o atrás mencionado, é pois a sua dedicação. Não há
uma instituição em particular ou alguma política, mas sim um compromisso permanente e
crescente. Por aí se conjugam, em ‘coligação’ (!) para resolver as situações de mercado em
quebra, criar (ou recriar) um sistema de apoio à inovação. E onde a ação do governo passa a
ser associada, correlacionada com a inovação nas IES. Assim, as políticas podem influenciar
os resultados mas não são as forças causais do ‘porque’, mas sim do ‘como é que estes
resultados vão ser obtidos’. Boas ferramentas não fazem alguém um especialista; boas
Moniz/Um novo horizonte/113
instituições e políticas não fazem com que uma sociedade (em desígnio nacional, regional,
interiorizado, intrínseco) só por si inove em muitos e variados aspetos. A inovação não é apenas
uma questão de ‘dictum’ governativo: as redes de trabalho providenciam a informação, que é
vital. Os agentes dos governos podem obter mas somente uma parte desse ‘capital’. As
informações de ciência, tecnologia, engenharia, matemática em termos de força de trabalho, as
oportunidades de investimento num meio altamente especializado, em indústrias baseadas em
ciência e tecnologia, muito especificas mas também muito díspares, apenas se produzem e
seletivamente nas redes de trabalho profissionais. Os seus ‘trabalhadores efetivos’ podem-se
encontrar uns com os outros e partilhar conhecimento adequado e concreto, com saber real, e
assim aumentar a sua flexibilidade de rápida mudança e adaptação. Desta forma, as redes de
trabalho profissionais reduzem os elevados custos, riscos de uma inovação, ao invés da
determinada em mero decreto, com ‘aplauso e júbilo’ num governo ou assembleia, por meio
de um relatório de ‘turistas’ subvencionados por agências intergovernamentais mas sem
qualquer ‘know-how’ profissional...
É preciso que todo um país e uma região, todos os seus empresários, escolas, cidadãos
e cidadãs cooperem e aceitem o risco, estimem a inovação. Muitas vezes isso poderá traduzir-
se também em mudanças, restruturação das instituições. E daí também para os seus modelos
económicos. Ou dito de outra forma, sobreviver a uma crise e alterar modos de operação, de
forma drástica, traz dor e sacrifício. Regiões onde o desemprego começou a grassar, fábricas
fechadas, votadas ao abandono, fome e miséria, ruina(s) e desemprego, foi preciso mudar,
alterar a estrutura social, económica e política. E até em termos sociais, o que hoje é visto como
um sucesso, também tem que ser pesado e contrastado com as regiões que não quiseram, não
Moniz/Um novo horizonte/114
souberam, desprezaram inovar: enfrenta(ra)m uma penalidade ainda muito maior. Inovar é
necessário.
E é preciso pois ter a coragem, a frontalidade de dizer que a oportunidade existe mas
não espera. Não é de ficar de braços cruzados à espera que tudo se vai resolver e vai ficar bem.
Não vai. Não é dizer ‘venha mas é mais verba do OE (ou fundos de coesão)’. Desta forma
passiva, não vai. As IES têm que ser consideradas como ferramentas e não tanto como força,
numa ampla mudança estrutural. É a política científica de ciência e tecnologia que tem que
liderar: não se trata de ter uma ‘bala de prata’ mas é preciso melhorar as ‘taxas’ de inovação,
é preciso ‘sentir’ os riscos dessas ameaças ‘externas’, muito para além do ridiculamente trivial,
que aqui já mencionei. Sobretudo evitar rivalidades ‘domésticas’, intra- e inter-regionais entre
diferentes grupos, entre diferentes classes económicas, de forma a dotar as regiões, as
localidades de boas políticas de ciência e tecnologia.
E é tudo?
Mudança cultural
‘Parâmetros de medida’ para aferir academias é um assunto controverso, mas alguns
instrumentos, desde que discutidos séria e severamente, podem ajudar a revelar casos
potenciais de (in)capacidade. Uma IES poderá permitir afirmar que já se progrediu e alcançou
muito (e até mais ou algo que o impensável), mas nada impede (nem deve), que não se deva e
possa já ter e fazer melhor. A região que mencionei no inicio deste capitulo, acerca de um
Moniz/Um novo horizonte/115
parâmetro especifico e ‘pessoal’, designadamente os financiamentos ERC, é Israel e um amigo
sugeriu-me que procurasse a resposta num termo de língua Hebraica: Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫צ‬ֻ‫ח‬).
Pode ser traduzido como uma audácia premeditada, uma traquinice com alguma
racionalidade, no sentido de obter uma vantagem competitiva relativamente aos parceiros ou
competidores. Uma atitude em termos de inovação, sobretudo capacidade de concretização
dessa inovação. Mas não basta inovar, há que a concretizar de uma forma atrevida, quase que
diria provocatória. O índice de sucesso referido (inteiramente conjetural e que me ocorreu),
não é sequer oficial, mas é uma ‘métrica’ apreciável, repartida em quase equipartição desde
áreas de artes e letras até matemática pura. A questão que se me colocou é ‘porquê’. E ‘como’?
Como é que um país ou uma região tem a capacidade para ser capaz de progredir, se afirmar e
é, neste aspeto da Chutzpah, singular e reconhecido? Cogito, ergo identidade, qualidade e
uberdade.
Não basta uma alteração de tinta em papel, um documento estatutário ou um despacho
coordenativo: isso será escrever no vazio e não se pode escrever dessa forma, muito menos
liderar em Chutzpah. É que são precisas alterações táticas, operacionais para implementar.
Não é algo para um ano ou para uma geração (talvez), pois é algo que constitui uma
transformação cultural transgeracional. A qual é preciso começar por implementar. Minha
opinião. Desde ‘ontem’.
Estimular uma cultura Chutzpah teria que ser suportado, através de apoios concretos
ao trabalho académico, desde publicação de obras e trabalhos, mormente de investigação no
Moniz/Um novo horizonte/116
âmbito da dita produtividade. Mas teria essa laboração que abarcar também o ensino, desde o
1º ao 3º ciclo em IES, ao longo da vida, alinhado e concertado com as três linhas mestras
introduzidas no inicio deste ensaio. Por exemplo (e apenas um exemplo) de forma que a
investigação, a criação, a busca e descoberta, a escrita e produção, emergisse como desígnio
logo nas primeiros semanas dos primeiros meses do primeiro ano do 1º ciclo e assim
devidamente, culturalmente integrado, vivido, respirado na IES.
Uma forma desse apoio seria instituir a regularidade de palestras, de seminários, no
sentido de estimulado, para que todos participem em (i) encontros uma vez por dia, a meio da
manhã ou da tarde, por exemplo, em que será oferecido um café ou chá, fruta por via da
cooperativa local, (ii) em que todos os docentes de várias áreas de vários departamentos até se
possam juntar para trocar impressões no intermezzo do trabalho. Idem, (iii) durante seminários
tomar a refeição uma vez por semana durante esse evento, para aproveitar o tempo. Chutzpah,
pois. E sim, alteração cultural. É apenas um exemplo de sugestão.
Sei também que é uma alteração que vai contra os hábitos e as particularidades culturais
‘tugas’. Mas os pilares de qualidade, identidade e produtividade têm que ser transpostos para
potenciais de estabilidade e de uma competitividade elevada, numa forma a que não só a
sobrevivência mas também um sucesso amplo seja alcançado. É, pois, preciso alterar (não
apenas a tinta que está no papel em termos de texto, mas também) a operacionalidade diária.
Moniz/Um novo horizonte/117
Eu atrevo-me pois em perfeito modo iconoclasta a alertar do seguinte. Se as IES em
Portugal se desinteressarem da competitividade, da singularidade de reconhecimento na
identidade, na qualidade, na elaboração de saber académico (para que o sucesso revelado na
afirmação dessas linhas seja alcançado), não podem render-se a uma forma passiva, na
dependência de um financiamento (reforçado) que virá sempre à custa de queixa(s) à tutela
para ser dotada de algo mais em verba de OE. Há que ir ‘lá’ e produzir, uma nova distância e
nossa; obviamente, conquista-se79
. E isso é também Chutzpah. Requerendo-se uma nova
cultura de desempenho docente e não-docente. Um novo horizonte.
As IES, para competirem nesta(s) nova(s) década(s), têm de colaborar e desenvolver
formas de (i) encontrar, identificar e desenvolver novas fontes de financiamento, além de (ii)
‘adquirir e manter’ os estudantes que têm. Isso implicará, por exemplo, um esforço interno de
melhorar as taxas de graduação e da qualidade do ensino, traduzida numa maior amplitude de
apreciação pelos graduados. O qual, por sua vez, poderá necessitar da expansão e da adoção de
diferentes ofertas, da melhoria e modernização, inovação dos programas académicos, além
também do que será a continuação da redução de custos (óbvio!). Isso poderá necessitar de
programas claros e profundamente inovadores, de melhorias e tomadas de novas tecnologias,
de modelos de negócio e de gestão informática e financeira. E acima de tudo também não
esquecer os funcionários não-docentes da instituição. Tudo isto a ser subsequentemente
promovido, uma imagem de marca, da qualidade, da distinção, da IES, que se diferencia e
cresce, progride, afirma-se: identidade, qualidade, uberdade; mas em ‘modo’ de Chutzpah.
79
D. João II tinha chutzpah ou teve junto a ele boa gente com boa chutzpah…
Moniz/Um novo horizonte/118
Uma das principais frustrações, (repetida e repetida neste ensaio), é que nunca há
dinheiro suficiente e por isso prefere-se uma resistência natural a qualquer mudança. Muitas
vezes, juntam-se argumentos de haver pouco tempo e pouca disponibilidade para discutir e
analisar os passos que são necessários dar. Mais vale evoluir na continuidade, manter tudo na
mesma ou parecido, if it works, don’t fix it. Mas vai deixar de funcionar, da forma que tem sido
até aqui.
É, pois, necessário incluir a potencialidade, quiçá necessária, de mudança em toda a
narrativa, na missão. Na cultura. E essa narrativa da missão é aquela que deveria incluir
explicitamente capacidade de transformação e de adaptação. E essa transformação e adaptação
tem de ser excitante. E nesse âmbito, dir-se-ia que um conceito como Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫חֻֻצ‬) está na
génese e nos momentos diferenciadores e determinantes da história, da narrativa de uma IES,
dos desafios e das suas conquistas. Como também um grande desafio futuro é o rápido
desenvolvimento tecnológico, junto com a rapidez de transição demográfica, desde a idade dos
estudantes e a sua gama, como também as suas proveniências. Só que para sobreviver ou
mesmo competir, afirmar-se e estar sem problemas por entre esta volatilidade, muitas vezes as
IES estão ‘paradas’, para responder apenas a mudanças pontuais no momento e não para
transformações profundas que é preciso implementar.
Universidades e institutos politécnicos em Portugal têm modelos de gestão dos mais
intransigentes, é de facto difícil de alterar pois qualquer mudança pode ameaçar a própria
segurança dos membros das suas faculdades ou escolas. Por isso é que é necessário envolver a
Moniz/Um novo horizonte/119
comunidade, para desenhar, delinear o que há a alterar. Sobretudo nas condições correntes ter
que enfrentar o processo criativo, se e como vai envolver e comprometer com o que vão alterar
e como vão alterar. Essa inovação, essa alteração tem que ser encorajada. E premiada! Temos
que aceitar o reconhecimento daqueles que se atrevem a propor novas ideias e novas estruturas,
modelos de rutura. Muitas vezes o resultado deste processo faz emergir problemas que podem
barrar em crise. Muitas vezes o que resulta nesse processo é fadiga nessa discussão sobre
mudança e emerge um cinismo entre o corpo docente das faculdades ou escolas.
Haverá pois então que criar incentivos para premiar essa inovação, as propostas
disruptivas, o movimento que se tem de ter com um plano estratégico. Ter uma abordagem
mais pragmática e na forma de pequenas equipas, para desenvolver novas ideias que devem
ser devidamente acarinhadas, exploradas e premiadas. E a IES terá que colocar uma
percentagem dos seus rendimentos em forma de capital de investimento, para experiências de
natureza pedagógica e também científicas, apoiar novas obras e novos projetos criativos e
culturais. Investir agrega um fator de risco. É preciso coragem mas vamos ter que investir no
futuro, apostando internamente com fundos internos (mormente por via da filantropia, além
do OE e de outros fundos por projetos) para essas experiências. É preciso criar novas relações
com as faculdades ou escolas, sobretudo também com potenciais doadores, os alunos, i.e. os
parceiros, de forma a ter um diálogo e uma comunicação com os vários constituintes da
governação e do aconselhamento. O novo horizonte.
É preciso também ter presente e perguntar também sobre uma visão de gestão do setor
público do ensino superior. Importa muito nas IES aferir e saber enfrentar a necessidade de
Moniz/Um novo horizonte/120
uma mudança ao nível da sua estrutura governativa e da sua metodologia. E junto com uma
inovação para mudar, construir níveis de confiança para uma abordagem financeira arrojada
que permita, como se referiu, investimentos internos para poder competir e não estar tão
estritamente dependente de apenas e todo, somente e qualquer fundo público. A equipa com a
visão e missão institucional tem que estar definida para apoiar a IES, em tornar esta sustentável
financeiramente e não apenas numa dependência estrita do erário público. Tem de saber
procurar com criatividade (!) e competitividade muitas outras formas de financiamento, para
os seus programas de investigação, ou educacionais e arriscar internamente em programas de
apoio pedagógico, programas de construção e melhoramento cultural e artístico.
É pois necessário encontrar equipas executivas que sejam capazes de ser credíveis,
acarinhar o espaço académico E também para levar a IES para um futuro que vai ser muito
competitivo e muito exigente. Inculcar uma equipa com especificidades e capacidades de
gestão pública, sobretudo de orçamento para investir. Assim como também ter alinhamento
com a missão da IES, de prever situações de risco. Uma instituição pública dedicada a
princípios públicos, um estímulo à credibilidade e ao alinhamento com os princípios
académicos. E apta para a mudança. E para isso, há que criar confiança. De forma interna,
para sermos atrevidos e tentar. Externa, para demonstrar a quem nos procura que somos avant-
garde mas eficientes, com resultados comprovados. Uma ‘re(s) publica’.
Moniz/Um novo horizonte/121
Confiabilidade
Há modelos de forma a arrancar e alcançar o patamar de um desenvolvimento
económico regional e institucional, sobretudo num período curto, em dadas regiões. Que ainda
não tiveram um período longo de riqueza. Encontram forma em como melhorar o capital
humano, a formação e sobretudo um fator total de produtividade: aumentar a competitividade.
Como? Creio que essa abordagem é inteiramente possível ‘por aqui’. Sim, por um lado,
acima e atrás, a mudança cultural. Sim, a tal outra palavra Hebraica. Sim, possuir-se uma
oportunidade numa dada região, ampla q.b., com um ajuizado consórcio, rede de ensino
superior. Com outra atitude, griffe e audácia. De, por meio de uma intrínseca singularidade, se
ascender a uma qualidade e desenvolvimento excepcionais, primum inter pares.
Mas operacionalmente, em ‘praxis’, uma proposta concreta é incorporar (no sentido
mais estreito!) o modelo abcd80, um modelo que se baseia em:
- agilidade, i.e., como fruto de ‘velocidade’ e ‘precisão’. Velocidade combinada com precisão
para aumentar a produtividade. Atenção: não basta apenas a ‘velocidade’. É crucial possuir-se
‘precisão’. Ser competitivo numa determinada tarefa é uma combinação de ‘velocidade’ e
‘precisão’. I.e., dotar a região de capacidade competitiva, recursos que não são inatos à própria
região mas criando-os e ter competitividade dessa forma.
80
Cf. https://www.amazon.com/Strategy-Koreas-Economic-Success/dp/0190228792
Moniz/Um novo horizonte/122
- bitola (benchmarking) na aprendizagem e as melhores práticas. Para melhorar a eficiência e
saber o que é preciso para ser eficaz, na aprendizagem e instrução.
- convergência em termos de sinergias criativas entre os diferentes recursos. Com novos
valores acrescentados.
- dedicação, compromisso de diligência e orientação de objetivos para termos competitividade.
Na forma de objetivos, positivo na orientação, com diligência para com compromissos. Uma
devoção intensa.
E o abcd, juntos com a importância sobretudo também da (i) internacionalização, para
aumentar a competitividade e (ii) ligações próximas ao meio empresarial. A
internacionalização, como significando, transmitindo prestigio e reconhecimento, combinada
com abcd, é uma proposta de operacionalizar a execução e a gestão académica (e a
empresarial), que permite aumentar e melhorar a competitividade das regiões e das IES.
A metodologia abcd, se devidamente praticada e demonstrada, poderia trazer,
reforçadamente, a realidade laboral aos currículos de ensino-aprendizagem. Neste âmbito,
corremos o risco de ficar completamente obsoletos. O referido reforço poderia ser através do
conceito81
de ‘learning factory’, que sirva o ensino, a investigação, a prestação de serviços.
81
Cf. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2351978917301403.
Moniz/Um novo horizonte/123
Trazer, ‘colocar’ as empresas82
nas IES, para apresentarem problemas que os centros de
investigação e desenvolvimento tecnológico, com as faculdades, poderiam contribuir para
uma solução, desenvolver novos métodos de trabalho, de formação, de orientação de ensino-
aprendizagem. E assim, investir, de outra forma, em potenciais alumni, filantropia, por uma
escala inicial ‘pequena’ mas de imenso valor83
: identidade, qualidade, uberdade! Obviamente,
a ser gerida de uma forma séria, estratégica, honesta, transparente e profissional. E assim uma
ligação ao meio empresarial mais ‘personalizada’, as IES como ‘pivots’ de ligação, numa base
temática para trabalho de ciência e tecnologia, investigação e inovação.
A vantagem do modelo abcd é que dá uma importância muito grande a implicações
potenciais em certas regiões, às suas estruturas, analítica e compreensivamente. Se têm
‘agilidade’ (que tem que ser baseada em ‘velocidade’ de execução), sendo extremamente
precisos neste equilíbrio, para se ser eficiente nas tarefas. A bitola seria regularmente
implementada através de perseguir, apontar para aprender as melhores práticas sem qualquer
problema, sem qualquer embaraço, sem qualquer preconceito ou desdém. Como melhorias
82
Sendo provocador e iconoclasta: porque não são (algumas) IES como a BMW? Heresia, dir-se-á. Mas leia-se o
artigo em HBR, March 2010 de C. Loch, F. Sting, N. Bauer e H. Mauermann. Pensar em 2007 para 2017, e por
20 mil dólares de investimento em qualidade e segurança laboral, para ‘lucrar’ (poupando!) milhões… O ensino
ao longo da vida será fundamental, estamos a avançar em termos tecnológicos muito rapidamente, a vida ativa
será prolongada. E sim, por isso a força de trabalho está a envelhecer, e temos de ter capacidade para a manter a
trabalhar produtivamente. A experiência dessas pessoas é um capital precioso para as empresas, não podem ser
descartáveis. Um modelo de ensino à distância combinado com ‘on the job training’ pode resultar, assim como
a criação de equipas com funcionários (docentes e não-docentes) mais velhos junto com jovens no início da
carreira. Seria uma forma de garantir a manutenção do conhecimento dentro da IES. De outro modo, as áreas em
que desenvolviam trabalho (ensino e investigação) podem ficar perdidas para sempre. E para a ‘indústria 4.0’, é
preciso preparar os alunos, capacidade de tomar decisões, trabalhar em equipa, comunicação interpessoal,
apresentação de ideias. Uma cultura (!) de partilha e ‘esprit de corps’. Chutzpah: algumas empresas já fazem isso
há tempo, com ações de ‘team building’. E em Chutzpah há que ir às empresas mostrar o que fazemos e o que
temos para oferecer. Ao invés da indolência de ficarmos à espera que nos mandem uma carta…É o ‘problema da
roda’: comodamente, corrosivamente, ficar à espera…
83
Liberdade! Igualdade! Fraternidade!...
Moniz/Um novo horizonte/124
incrementais de inovação, através de processos graduais de interação, de aprendizagem para a
melhoria. A convergência de trazer diferentes, melhores recursos adequados, para maximizar
as energias de diferentes linhas. E a convergência, assumindo o valor da diversificação como
dominante e como importante; ser o objetivo de maximizar sinergicamente. E por último uma
dedicação intensa, de vestir a camisola que obriga a ter uma diligência e também um objetivo,
uma missão, uma visão, um plano estratégico muito bem delineado84
.
Sim, eu sei, falar (ou escrever) é fácil. Mas se não se propuser…
Por isso, haverá seguramente um grupo de IES que inicia ou já iniciou programas de
transformação estratégica para alcançar uma mudança na eficiência institucional, para dar
resposta a novas exigências de politicas de financiamento do ensino superior e/ou melhorar a
sua vantagem competitiva. E, no entanto, muitas sabem que outras também tentaram e não
conseguiram. O problema é, pois, cultural. Apenas a mudança e a sua condução podem
transformar o modo como as IES se organizam, e implementam a sua missão. Mas a mudança,
tal como as IES ao progredirem, torna-se mais complexa, mais rápida e difusa: autonomia,
hierarquias direcionais variadas, colegialidade versus liberdade (académica).
Como honrar melhor o contributo do erário publico, sobretudo se dotado com sacrifício
e outros setores em aflição legitima? Como avançar os processo de digitalização integral,
84
Por vezes, soluções de implementação rápida e ‘inteligentemente construídas’ falham em face de uma crise
porque a tendência é procurar essa otimização de solução (como ‘tirar do bolso’ uma roda e não, não se explica
nem se analisa), ao invés de discutir, analisar, esmiuçar, resolver primeira crise e otimizar depois, quando já não
houver crise e pressão.
Moniz/Um novo horizonte/125
também as necessidades de ensino-aprendizagem, a qualidade e sua garantia, tal como
prestação de contas (sentido lato…)? Um entrelaçar complexo. Onde está o profissionalismo
quando se ‘transpôs o Rubicão’ para um enquadramento competitivo profissional (mesmo que
‘familiar’ na colegialidade)? Onde se tem os peritos ‘externos’ para dotar novas ideias, em
mérito e compromisso, implementar de forma orgânica, inclusiva, institucional, … de forma
entrelaçada? Onde estão os líderes gerados e apoiados, preparados para o arranque da segunda
metade deste século? Muito cedo? Olhe que não, olhe que não… A IES que quiser estar em
pleno, a progredir para o final do século tem de ser mais estratégica, mais ágil nesse
procedimento, eficiente face a pressões. Será mais exigente incluindo na governança, nos
serviços que providenciar. O entretecimento de eficiência e eficácia irá envolver a congruência
inteligente e experiente de políticas de ciência e ensino, parcerias, consórcios e ‘consórcios’
com a sociedade em geral: um responsabilidade coletiva, politica, de todos direta e
indiretamente integrados no ensino (superior). E isso precisa de diálogo, continuo e sincero.
Moniz/Um novo horizonte/126
“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!”
Miguel de Cervantes
E…
Porque estamos ‘aqui’? Está é a questão essencial se queremos manter uma IES em
‘esprit de corps’, focada em tempos de incerteza e necessitando de mudança. Mas que
mudança? Como obter respostas, como sequência a uma motivação? Qual é então, neste
âmbito, a nova visão a nova missão? O que é preciso, agora? O que será o sucesso? Ou o
fracasso? Vamos manter planos antigos? Ou vamos galvanizar a IES e discutir novos
propósitos, com novas metodologias? É precisa uma abordagem colaborativa, mais legítima,
mais motivadora e mais capaz de subverter a mediana do status quo conformista, a
mediocridade de uma ‘paz podre’. E assim construir uma trajetória inclusiva e integradora.
Moniz/Um novo horizonte/127
Podemos (e devemos) continuar questionando. Porque não há mais casos de produção
liderante em ciência e tecnologia, sugerida na forma de ‘taxas’ elevadas de inovação e beneficio
industrial? É o citado equilíbrio, o tal desígnio, entre ‘insegurança’ e as escolhas? E com a
ciência e tecnologia de permeio, há que destrinçar entre ‘politiquice’ e política. As melhores
histórias de sucesso regional são aquelas que decidiram tomar o desenvolvimento em modos
radicalmente diferentes para atingir essa competitividade. As regiões fizeram escolhas e
puderam definir as ferramentas que eram precisas para tornar e tomar o processo ‘orgânico’.
Mas também isso poderá passar por entre um perigo intrínseco (e enorme).
Concretizemos.
Em muitas situações, há participantes com poder de veto (ou ‘veto’, ou parecido). E
quando aplicado à inovação, esses participantes podem bloquear toda e qualquer rota de
progresso publico. Organizações com poucos participantes com ‘veto’, podem de forma mais
eficaz e por consenso ultrapassar resistências internas à mudança tecnológica. Mas se o número
de participantes com veto for elevado, é mais difícil construir plataformas abrangentes, entre
os numerosos participantes com ‘veto’. Assim, os governos dessas organizações tornam-se
menos solícitos a escutar acerca do que decidir sobre ciência e tecnologia. A inovação tem
custos…
Moniz/Um novo horizonte/128
Junto com a possibilidade de o dito veto ser empregue (ou não, funcionalmente), há
também situações i.e., organizações com mais ou menos participantes decisórios. Por
exemplo, numa democracia com uma boa descentralização, a necessidade e o respeito publico
fazem com que rapidamente se convirja para um apoio ao progresso em ciência e tecnologia.
Mas a democracia, tentar que seja eficiente, no seu funcionamento, face a situações de
ansiedade, é algo complexo.
Isso pode (por vezes) verificar-se nas decisões, que determinam a liderança de uma
organização. Mormente, estabelecer o número de indivíduos que têm o direito de selecionar
essa liderança executiva. E, face a esse número, determinar qual a fração de pessoas necessárias
que o produz, i.e., para essa liderança ser realizada. Tal como são importantes identificar se
pode haver uma coligação ganhadora e sobretudo a dimensão dessa coligação ganhadora.
Detalhes, mas nos detalhes é que está: se esses números, se essa dimensão, face à ‘população’
total, são satisfatoriamente grandes, isto é, se existe democracia efectivamente (!)
participativa, pode até ter que haver uma coligação ampla e robusta. Isso pode ser bom: o(a)s
líderes ficam instruídos de providenciar benefícios públicos (para construir o abrangente
número de apoios necessários e poder exercer) em coligação. Pode ser o caso de uma dada
democracia (semi)‘Presidencial’, com todo um conjunto de boas decisões (públicas), e assim
pouca ou nenhuma corrupção e ineficiência (ou protecionismo).
Moniz/Um novo horizonte/129
Mas se e quando for uma coligação (se houver…), e esta é pequena, por exemplo
numa ‘monarquia’, estão presentes os riscos de um governo motivado apenas para benefícios
a ‘privados’. E pior, corrupção e subsídios por contratos em protecionismo para aqueles
poucos (apenas os necessários, q.b.) apoiantes que vão ajudar a manter o poder em ‘dinastia’.
Pequenas (ou nem sequer) coligações: é também o caso de …alguma ‘junta militar’. Poucos
(muito poucos) benefícios públicos, elevados níveis de corrupção, ‘crime’, e ineficiência
económica.
A educação em ciência e tecnologia precisa de subsídios, atribuídos de forma
transparente, para a investigação, na forma de programas e bolsas, apoios às IES, às suas
faculdades e laboratórios. É imperativo impedir-se que alguma vez ocorram procedimentos em
modo vulgo ‘toucinho cientifico’ (ou académico); os vencedores podem dirigir os seus apoios
para aqueles que os apoiaram, premiando através de ‘subsídios diversos’ para apenas alguns
grupos de investigação e para alguns programas de aquisição de infraestruturas e não para
todos85
.
O estado tem que contribuir no subsídio da oferta e procura, mas o estado não pode ser
a oferta ou a procura. Modalidade86
Hobbesiana87
para o ‘estado’ ou outras organizações no
85
Cf. https://cup.columbia.edu/book/pork-barrel-politics/9780231193597
86
‘Hobbesianamente’ escrevendo, o Estado poderia (e deveria!) simplificar (preferencialmente eliminar) muitos
(se não todos) dos passos ‘exterminadores’ de processos regulatórios: a burocracia (ou boa parte dela) na
submissão, avaliação, execução (incluindo financeira) em ciência e tecnologia. Recolher dados e monitorizar tem
aspetos positivos, mas repetir o mesmo para diferentes organizações e agências?
87
Cf. https://www.jstor.org/stable/41220796?seq=1.
Moniz/Um novo horizonte/130
respeitante a um contrato ‘social’ e definir, entenda-se ditar88
sem mais, a politica89
de ciência
e tecnologia?
É pelo exposto nos parágrafos acima que cientistas políticos e políticos de ciência,
cientistas no geral, deveriam participar mais e melhor . E essa crítica deve ser feita no debate
da inovação. Os académicos mais diversos e ‘inesperados’ deveriam ser chamados a participar:
partidos políticos, com cientistas, deveriam colaborar cada vez mais conjuntamente, porque a
pouca presença da investigação e do valor da ciência no saber político, na determinação de
política de ciência está a impedir o progresso, o desenvolvimentos económico; este depende da
mudança tecnológica. Se continuarmos a ignorar, não seremos capazes de alterar para melhor
a produtividade e riqueza extraída do investimento em ciência e tecnologia, vamos continuar
a ver mensagens e títulos em jeito ‘não ir mais longe do que poderia se tivesse esse apoio’; no
fim do dia, é (quase) uma perda de recursos e de finanças.
88
Quem paga, manda…
89
Poder-se-á retorquir que o que vou indicar ‘já existe’ na forma de contratos de financiamento plurianuais,
seguindo o ‘dictum’ da avaliação de centros (de investigação) por painéis. Mas, numa perspetiva de gerar tanto
eficácia como eficiência do financiamento, de forma mais orgânica, não se poderia ter para (algumas) redes desses
centros um ‘contrato de confiança’, para desenvolvimento? Com o envolvimento de vários ministérios (não só a
tutela direta), em desígnio de Estado, mobilizando recursos, criado condições para a execução sem interposições
de burocracia, com mais autonomia e também a subsequente (aumentada!) responsabilidade (e melhor
transparência)? Para objetivos bem definidos e contratualizados, com especificidades. Eventualmente,
promovendo (novas) redes regionais e nacionais, articuladas pelo contrato. Designadamente, onde se ‘A e B
solicitam 1€ cada um’, poder-se-ia até disponibilizar ‘2+0.3… para A+B’ se e só se em sinergia…contratualizada.
Uma visão ‘holística’ e de Estado para uma (nova) rede desses centros e não uma competição para o (muito pouco)
disponível nas ‘prateleiras’ do mercado …. Quiçá, também nesse enquadramento termos uma ‘outra’, diferente,
instruída, também mais eficaz e eficiente, FCT (www.fct.pt)...
Moniz/Um novo horizonte/131
Seja-me permitido, ao aproximar-me do final deste ensaio, relembrar do início, estas
questões que as IES Portuguesas poderiam considerar nesta transição entre décadas. Quais são
os problemas que enfrentam para concretizar a estratégia que foi delineada? Quais são,
especificamente, os obstáculos principais que impedem que se alcance esses objetivos? E que
utensílios são precisos para limitar (ou eliminar) os riscos relacionados com os desafios? Qual
é o enquadramento cronológico, geográfico? E como definir, explicar o que será ‘sucesso’ para
se determinar (sem ambiguidades ou dúvidas) que é alcançado?
E no âmbito dessa ‘permissão’, diria que qualquer IES em Portugal quer providenciar
um ensino de muito boa qualidade, tal como divulgar resultados de investigação científica e
‘produtividade’, na forma de transferência de conhecimento, por forma salientar as áreas que
ministra. Isso significará, possivelmente, atrair mais e mais estudantes, de forma a que, e.g.,
em 10 anos (a próxima década) o número de graduações em 1º, 2º e 3º ciclo tenham duplicado
(ou até triplicado). Em suma, a IES demonstrar que é eficaz e eficiente90
para com o apoio
financeiro publico (e outrem) que receber. Dito de outra forma, uma IES afirmar que incorpora
de forma intrínseca e genuína o século XXI, de conhecimento e transferência do mesmo.
Apoiada e instruída por direções e objetivos de ciência e tecnologia, economia e
desenvolvimento, infraestruturas.
90
Eficiência, significando benefícios, melhorias obtidas de um melhor uso de recursos e otimização de processos;
eficácia como a capacidade da IES alcançar os objetivos e implementar a sua estratégia delineada. Porventura,
mais e melhor autonomia das IES poderá impactar positivamente na eficiência e/ou eficácia. Ou não. Terá de
haver o compromisso da melhor e maior transparência, da prestação de ‘contas’ (sentido lato): mais autonomia se
e só se com mais (e muito melhor) transparência (prestação de ‘contas’).
Moniz/Um novo horizonte/132
Falar (ou escrever) é fácil, dir-se-á (e estou a repetir-me). Haverá obstáculos e alguns
poderão prejudicar ou até aniquilar o sucesso dessa implementação. Como ultrapassar, como
os analisar? Que recursos são necessários, são sobretudo financeiros? Há constrangimentos e
regulamentos internos e externos que são determinantes? Ou talvez não? Em alguns casos,
algures, poder-se-á apontar que seria importante, útil, potencializar os centros de investigação
para que subsequentemente sejam reconhecidos a uma grande escala (mundial?) como do que
muito bom se faz. Esse ‘sucesso’ gera eventualmente mais outros ‘sucessos’, de forma direta e
também indireta por entre o ‘corpo e alma’ da IES. Mas fatores como idade, i.e., ‘juventude’,
necessidade de corrigir segmentos de trajetória ou simplesmente alheamento geográfico (duro
e isso sim um tremendo e impiedoso obstáculo) são de outra magnitude. São ‘mostrengos’.
Idem o conformismo (ou comodismo) de manter o status quo, ‘venha, mas é verba, não façam
nada, vai ficar tudo bem’.
É preciso melhorar ‘as coisas’? Como ultrapassar os promontórios? Alguém tem um
manual de velejar os Alísios? A mudança é perigosa: ninguém quer apresentar uma lista de
danos e perdas. São precisos mais e melhores (!) aliados, apoiantes competentes, com
experiência. Não basta saber correr muito, é preciso ser-se bom a correr. E possuir a humildade
de ponderar sobre um ‘top-down’ (externo) instruído para se fazer a ponte em completa
continuidade com uma manifestação (interna) em ‘bottom-up’. De forma a que assim, de forma
‘orgânica’, as IES sejam positivamente guiadas para encontrarem soluções. Usualmente
complexas, para problemas complexos. Serão precisos vários ‘módulos’ de governança, por
Moniz/Um novo horizonte/133
entre décadas, por meio de um pacto para a sustentabilidade e crescimento. Ou, dito de outra
forma, para a sobrevivência em competição.
Arriscaria enfatizar, repetindo, que ouvir-se-á reclamar por ‘mais e melhor’ autonomia.
Mas igualmente diria, que num cenário de mais necessidade de investimento, mas com outras
áreas da sociedade em ‘aflição’, haverá (repito e repito!) que construir um pacto que inclua
uma substancial melhoria na transparência das IES em Portugal. I.e., no referente à prestação
de contas (num sentido lato) acerca das decisões e da governança correspondente. Uma
muitíssima mais rigorosa responsabilização: muitas IES ‘fazem’, integram uma ‘res publica’.
Uma retoma económica, sempre dependente do que causou o abrandamento e
retrocesso, pode demorar (muitos) anos. O setor de ensino superior é sempre afetado, por razões
próximas de OE ou até pela exigência que cai sobre estruturas de medicina, biologias e afins
para corresponderem a emergências. Desde suportarem custos de funcionáriohoras de trabalho
nessa urgência pública (além do serviço usual na IES) até à despesa de laboratório
complementar, em alinhamento com a contenção de surtos e enfermidades. Quando há menos
projetos (de investigação) financiados, mas mais são submetidos, quando se vislumbra que a
metodologia será escolher entre apoiar menos (candidatos escolhidos) com mais verba
selecionada para cada um ou apoiar mais escolhidos mas com menos dotação por cada seleção,
a resposta, é, mais uma vez, ‘it's the economy’... . Sempre. No fim do dia, se houver aflição
para com a verba do OE, o setor das IES Portuguesas tem de carregar (também) o sacrifício;
Moniz/Um novo horizonte/134
vide ‘Diagnostico’, algures. E se for preciso ter uma percentagem de PIB na ciência e
tecnologia da ordem de 5%, então apelar a entidades privadas para serem os contribuintes a 30
a 40% dos fundos para as IES, é quase dizer que essas entidades não foram afetadas no
mencionado retrocesso. Daí as sugestões, construtivas, possíveis de análise, surpreendente se
rejeitadas ‘tout court’, onde desde filantropia (vai demorar mas há que criar raízes!) e conversar
sobre consórcios: há que criar raízes também, pontes, começar. Por exemplo, progredir de
unidades de investigação ‘isoladas’ para consórcios, em projeto-piloto para eventuais
laboratórios associados, entre IES. Tudo racional e sensato, onde se puder, onde for viável. A
inteligência artificial é o presente, hoje, alinhada com o futuro. Mas ficar à espera do
‘comboio’, que pare e possamos entrar, sem participar no desenvolvimento da ‘locomotiva’
e/ou criar as ‘carruagens’… depois quem souber manejar, tem e deterá aquela vantagem. Pois.
É isso. A tal mudança cultural, Chutzpah, IES Portuguesas do século XXI. Eu espero que
aqueles que nascera(e)m no século XXI apontem a uma navegação valorosa, que não se cinja
ao ‘há de chegar’. Desta vez não será como tem sido. Quem começar ‘ontem’, onde o hoje já
é a consequência do amanhã, estará a ser socialmente útil.
A questão é como dotar as IES com mais verba; ou então fazer, de várias formas,
congruentes, mudanças, alterações que possam trazer melhor fluência de execução, eficiência,
agrado e procura, desde alunos até empresas para colaborar. Como demonstrar credibilidade?
O OE é a ‘base’, mas não chega e não chegará, se a estratégia em fundos de coesão for dar mais
montante por entre os (menos!) aplicantes selecionados, para se ter melhor garantia de
resultado. Socialmente, parece um neo-Malthusianismo (?) com esses fundos. Mas em 2030 já
Moniz/Um novo horizonte/135
não serão os fundos. Serão as ‘derivadas’ desse investimento, quem tiver adquirido no
entretanto o potencial acumulado de expertise. Há sempre uma fatura ao sacrifício.
É, pois, crucial que as IES em Portugal façam previsões quanto ao futuro, por entre as
suas estratégias, missões, investimentos, objetivos. Não poderão continuar como até aqui, sem
capitalizar mais e melhor os seus recursos. São necessárias reformas que implicam disrupção.
Há que romper. Mas a cultura, no geral, que permeia e que impera, é ainda do receio, de não
arriscar. Só que agora, a estrutura das IES não pode ser mais temerária, algumas IES têm de
ser mais competitivas, agressivas, corajosas: têm de ser maiores do que esses medos o têm
permitido. Precisam de uma visão nova, serena, mas também agitada, para estar à altura do
exigido. E não é fácil, admito e recolho: apontar a algo maior do que qualquer uma ou do seu
conjunto até este ponto, enraizadas na realidade, arriscando sem desvarios.
Vou encerrar.
Algures no início da década de 60 (século passado!) um Presidente dos EUA terá
afirmado que (e adapto, traduzindo para a Língua Portuguesa) que “cada um de nós pode fazer
a diferença e por isso deve tentar”. Nesse contexto e sentido, escrevi estes parágrafos, após
longa recolha de ideias e opiniões, aqui reunidas em capítulos. Neste ensaio.
Moniz/Um novo horizonte/136
Creio (palavra extremamente perigosa de empregar em certos eventos ou reuniões
académicas) que posso e por isso devo contribuir. Não encontrei uma súmula, na forma de
coletânea entretecida de ideias e sugestões como estas em parte alguma. Sectorialmente,
isoladamente, constituem apontamentos lidos, relembrados, filtrados após extração e
comparação por entre os elementos elencados na bibliografia: a informação original está muito
mais coerente, muito melhor, em detalhe, quantidade e sobretudo qualidade. Recomendo
fortemente: vão à fonte, consultar por entre a bibliografia. A tentativa de súmula e síntese por
meio deste ensaio em modo de ‘compactação’ (parcial, reduzida, quiçá até deformada…, por
isso peço desculpa), procurando uma justaposição coerente e congruente, é da minha
responsabilidade, é a minha contribuição.
Subscrevo (obviamente!) as propostas para análise e discussão que aqui apresento. No
início da segunda década deste novo século, o ensino superior, as universidades e institutos
politécnicos em particular, tal como outras (modalidades de) IES, i.e., pós-ensino secundário,
têm mesmo muito que recuperar. Ou construir, criando. De forma a corrigir onde necessário
ou até oportuno, adotando e adaptando em novas praxis. Manter estritamente todos os
procedimentos e linhas orientadoras do(s) século(s) passado(s), presentes no arranque deste
século, irá levar algumas, em parte, ao seu declínio gradual, eventualmente à sua extinção.
Moniz/Um novo horizonte/137
Poderão alguns (!) leitores constatar isso no final do corrente século. Ou nem tanto91
.
Ruina(s)…
Há que ser atrevido, inesperado, permitir receptivamente audácia e iconoclastia, ser
provocador e inovador. Não me preocupa que haja quem discorde, incomodar-me-ia se eu não
tivesse opinião e depois não a partilhasse. Uma nota antes de prosseguir: o conteúdo que aqui
partilhei é de aplicação possível em quaisquer tipos de instituições de ensino pós-liceal ou
secundário.
Igualmente não encontrei suficientes artigos ou escritos de opinião, ensaios ou livros
maiores, ou até programas de partidos políticos, cimeiras ou convenções, quaisquer
provocações sobre se, como, porquê, com o quê, quanto e quanto mudar uma IES (em
Portugal). Por entre o que me entusiasmou, saliento aqui92
. E, no entanto, algumas
universidades e institutos politécnicos vão sofrer, podendo ser reduzidas (ou até eliminadas,
até ao final do corrente século). Ou quanto muito, apenas simplesmente ‘eliminadas’ apesar de
toleradas (por algum tempo) numa manutenção forçada. Outras poderão permanecer, mas com
o mencionado sofrimento. O cenário assimptótico estará lançado.
91
As IES Portuguesas têm que ser (mais) ágeis, têm que mudar, evoluir, fortalecerem-se. Tudo o que funcionou
no passado poderá não as sustentar no futuro. As IES em Portugal deveriam ‘mover-se’ à mesma velocidade que
a ciência e a tecnologia evolui.
92
https://www.publico.pt/2020/09/25/opiniao/opiniao/universidade-2030-1932825.
E http://maissuperior.blogspot.com/: a riqueza das análises e da diversidade de elementos disponibilizados é
irrecusável; mesmo que se não concorde com ‘isto ou aquilo’, deve ser estudado (eu não subscrevo, por vezes,
‘aquilo ou aqueloutro’, mas reconheço e louvo o material).
Moniz/Um novo horizonte/138
Não trouxe para este ensaio (e repito, de novo) qualquer ‘bala de prata’, uma solução
simples, sem qualquer custo, única e válida para a globalidade. Pouco ou nada mesmo se
conseguirá em termos de melhoria (significativa, que não seja um remedeio curto e transiente)
na rede do ensino superior enquanto houver mais ‘politiquice’ ego-(sobre)valorizada, do que
política para bem da população académica e das regiões que as envolvem. Não obstante os
‘arreios’ à conformidade e o conforto do ‘deixa ver’ e ‘não passa nada’ e ‘deixe-se estar, vai
ficar tudo bem’, este é, no entanto, um problema muito complexo. Pior, se em contração ou
lenta retoma económica por anos ou até uma(s) década(s). Faltam neste ensaio alguns
parágrafos (reunidos em capítulo(s)?) sobre IES, autonomia, modalidades de financiamento e
‘confiabilidade social’. Estão em produção (conceptual!) mas já possuindo os necessários
‘valores e vetores próprios93
’. À suivre, por favor.
E, sim, algumas das linhas nos capítulos anteriores podem e devem merecer crítica para se
produzir algo ainda mais robusto e satisfatório a mais partes e participantes. O objetivo é ser
iconoclasta e gerar uma busca por navegação em ‘modo Alísios’, fora da caixa, sem costa à
vista. Temos que passar os mostrengos. A mando de nós próprios.
Na base do problema atual do nosso ensino superior está uma boa intenção (é sempre
assim…) que se transformou em dogma imutável de politica e administração académica, pois
mudar é arriscar perder o ‘controle’ sobre quem dirige as IES. I.e., quem forma quem no futuro
93
‘Arriscando’… cf. https://www.maa.org/press/periodicals/convergence/math-origins-eigenvectors-and-
eigenvalues
Moniz/Um novo horizonte/139
vai (‘continuar’ a) dirigir o país. Desperdiçar apoios, perder controle na formação de quadros
alinhados num dado diktat politico, mesmo que fraternal, social, progressista, para bem de
todos (sem dúvida e é sempre assim…), sem ‘coação’, mas assim sendo, algo redutor e estéril
para com as IES Portuguesas.
Deveria haver (muito) mais e melhor esforço para resolver os problemas concretos das IES
em Portugal. E estas são as pessoas. Polis (πόλις) significa uma forma assumida e escolhida de
viver, definindo a base de uma cultura, onde ‘residem’ homens e mulheres. Fazer boa política94
,
é procurar o bem dessa forma de viver, neste caso (das IES) de vida académica.
Infelizmente, se em Portugal é ‘sim ou não’, isso significa que não há negociação,
coligação, governação partilhada, concertada, compromissos, ‘give and take’, ceder para algo
manter. Não há cultura para fazer convergir objetivos diferentes, mas que, de forma congruente,
deveriam conjuntamente alcançar o bem da polis. E, no entanto, o que se constata é que o bem
da polis é subjugado ao domínio de uma fação, que por controle ‘adquirido’ ignorará
alternativas, nem sequer as tentará consensualizar. Temos tido e não poucas vezes, uma
94
No início deste ensaio, mencionou-se que endossar um melhor exercício de cidadania é uma das missões
primordiais das IES. Exercer cidadania apoia-se em direitos, liberdade e igualdade, assim como deveres e
compromissos em sociedade. A cidadania da polis precisa da participação na vida pública, no geral de uma ‘res
publica’ ou no específico de uma IES. Estimular a discussão, como exemplo do acervo de uma faculdade ou
escola, de participação na política académica. Só assim se terá o interesse individual pelo coletivo e pelo governo.
E a democracia requer esse compromisso cívico também nas IES Portuguesas.
Moniz/Um novo horizonte/140
governança em modo de ‘feixe’, mesmo que ‘colorido’, mas carregado de autocracia e menos
uma congruência construtiva, de composição inclusiva, diversa, gradual e positiva.
Como então construir o futuro da academia? Neste dogma sufocante e escurecedor?
Acabamos pior do que na caverna, nem sombras teremos. Uma academia que se quer construir
assim não funcionará e não irá dar um litro e meio, a tal ‘diferença’ que uma retoma económica
precisa. Há o risco de um poder autocrático, ergo, de não haver envolvimento cívico. Haveria
que criar um outro dinamismo em que as próprias pessoas tivessem a possibilidade de ser
protagonistas do próprio desenvolvimento, da própria academia. Uma (outra) ‘alma’ ou
essência.
Este novo horizonte, podemos recolhê-lo de forma informada e livre. É fulcral
notar que ele avançou para junto de nós. É dinâmico, rodeou-nos: sem nos apercebermos, sem
o procurarmos, sem o buscarmos.
O futuro, ‘ontem’, contém os desafios e os problemas elencados ao longo deste ensaio.
São áreas (algumas…) ainda por cartografar, problemas de conflito e consenso por resolver,
perguntas (ainda) sem resposta. Como foi apontado, em face deste novo horizonte, o mais fácil
é nada fazer, nada dizer, ou pior, nada pensar. Entrincheirarmo-nos num conservadorismo de
mediania, numa tranquilidade medíocre, numa paz podre de ‘conforto’: sermos mesmerizados
pelas ‘boas intenções’ (é sempre assim…), pela simbologia indigesta que por vezes emerge
num mercado comunicacional ‘anestesiante’. Quem assim seguir, quem assim professar, então
este ensaio ser-lhe-á indiferente, nulo. E eu não vou por aí.
Moniz/Um novo horizonte/141
O futuro, ‘ontem’, exige, com este novo horizonte, que hajam novas decisões95
. Mais
inovação e que, se necessário, se inventem soluções novas.
O novo horizonte precisa de uma mentalidade jovem, atrevida, iconoclasta, ousada.
Precisa de contributos com robustez, com coragem, sem receios e sem desânimos. E ao
concluir, referir o seguinte. Os elementos que aqui apresentei são, em boa parte, conhecidos e
familiares; não constituem algo de novo96
na forma genérica que os empreguei. Se alguma
novidade houver, é na forma de apresentação desses elementos e nas suas interligações, aqui
propostas. Coloquei por entre este ensaio várias questões. As respostas, se as quiserem, devem
ser construídas na academia, na rede de IES Portuguesas. É primordial que não ocorram
distrações por entre artifícios, como subjugando, enfraquecendo o que é correto, para proteger
o que é errado, cobrindo.
Haverá que não ter receio de ameaças e errar.
Haverá indubitavelmente que corrigir e recomeçar.
Haverá que acreditar que ao procurarmos o que é correto, faremos o que é melhor.
E agora? Resta-me terminar e ir beber a minha chávena de chá.
95
“Sub pondere crescit palma”: as palmeiras (árvores) crescem sob pressão. Uma trajetória de risco… Mas se
há cansaço, há (também) que acreditar que vamos ultrapassar (est)a ansiedade. Ter confiança. Iremos recordar,
evocar os esforços que vamos empreender para alcançar o sucesso.
96
Cf. https://en.wikiquote.org/wiki/Ecclesiastes (1:9).
Moniz/Um novo horizonte/142
Bibliografia
Este ensaio constitui uma reunião, uma súmula, ponderada pelas minhas opiniões, por
entre diversas consultas e leituras. Não é sequencial e o conteúdo adapta e adota por entre
vários textos (designadamente, as fontes originais) que indico. E os quais (em parte) subscrevo
e transcrevo a informação. Para qualquer dos capítulos, recomenda-se, se houver interesse por
mais detalhe, por uma descrição completa dos desafios e problemas, por propostas (de
resposta), por um enquadramento mais lato e mais rigoroso, que então se consultem e se leiam
os livros que a seguir se apontam. Não são ensaios (aligeirados de principiante, como este que
aqui vos coloco à consideração…), são obras (académicas) de referência que merecem ser
estudadas. E que aqui foram consultadas, lidas com imensa atenção e interesse, depois
sectorialmente extraídas e justapostas, enlaçadas e entrelaçadas por meio de passadiços frágeis,
atrevidos e toscos, que por mim foram propostos. Assim, essas obras foram desajeitadamente
‘temperadas’, empregues e seguidas; mea culpa:
• Robot-Proof, Aoun, Joseph E.; https://www.bookdepository.com/Robot-Proof-
Joseph-E-Aoun/9780262037280
• The strategy for Korea’s economic success, Moon Hwy-Chang;
https://www.bookdepository.com/Strategy-for-Koreas-Economic-Success-Hwy-
Chang-Moon/9780190228798?ref=grid-view&qid=1602259664527&sr=1-1
• The politics of innovation, Taylor, Mark Z.;
https://www.bookdepository.com/The-Politics-of-Innovation/9780190464134
Moniz/Um novo horizonte/143
• Demographics …, Grawe, Nathan D.;
https://www.bookdepository.com/Demographics-Demand-for-Higher-Education-
Nathan-D-Grawe/9781421424132?ref=grid-view&qid=1602259727523&sr=1-1
• Inteligência Artificial, Oliveira, Arlindo; https://www.wook.pt/livro/inteligencia-
artificial-arlindo-oliveira/22773679
• Strategic Mergers in Higher Education, Aziz, Ricardo;
https://www.bookdepository.com/Strategic-Mergers-Higher-Education-Ricardo-
Azziz/9781421432601?ref=grid-view&qid=1602259827130&sr=1-1
• Consolidating Colleges and Merging, Martin, James;
https://www.bookdepository.com/Consolidating-Colleges-and-Merging-
Universities-James-Martin-James-E-Samels/9781421421674
• The second machine age…, Brynjolfsson, Erik,;
https://www.bookdepository.com/Second-Machine-Age-Erik-
Brynjolfsson/9780393350647?ref=grid-view&qid=1602259887791&sr=1-1
• Designing the new American university, Crow, Michael;
https://www.bookdepository.com/Designing-New-American-University-Michael-
M-Crow/9781421427027?ref=grid-view&qid=1602259914125&sr=1-2
• Lost in the meritocracy, Kirn, Walter; https://www.bookdepository.com/Lost-
Meritocracy-Walter-Kirn/9780307279453?ref=grid-
view&qid=1602259945709&sr=1-1
Moniz/Um novo horizonte/144
• Pass the Chutzpah please…, Yarkoni, Itzik;
https://www.goodreads.com/book/show/34812301-pass-the-chutzpah-
please?from_search=true&from_srp=true&qid=tJj6KuTY5x&rank=1
• Socrates in the boardroom…, Goodall, Amanda;
https://www.bookdepository.com/Socrates-in-the-Boardroom-Amanda-H-
Goodall/9780691138008
• Turnaround…, Martin, James; https://www.bookdepository.com/Turnaround-
James-Martin/9781421409542?ref=grid-view&qid=1602260087079&sr=1-1
• A university education, Willets, David;
https://www.bookdepository.com/University-Education-David-
Willetts/9780198767268?ref=grid-view&qid=1602260112767&sr=1-1
Moniz/Um novo horizonte/145
Post-Scriptum:
… Não pretendo auferir qualquer proveito financeiro com este ensaio, o qual disponibilizo
de forma gratuita neste ‘endereço’ https://www.escrytos.com/.
Permita-se-me sugerir, caso seja o ensaio do seu agrado e entenda ser por si elegível, que
atribua um donativo (por exemplo €1 ou outra quantia maior (!)), a uma (ou todas!) destas
instituições (apenas uma seleção de 6 entre as várias que eu estimo):
• Instinto: https://instinto1.wixsite.com/associacaoinstinto
• IPO: https://www.ipolisboa.min-saude.pt/
• União Zoófila: http://www.uniaozoofila.org/
• Animais de Rua: https://animaisderua.org/
• Centro de Apoio ao Sem Abrigo: https://casa-apoioaosemabrigo.org/
• Alzheimer Portugal: https://alzheimerportugal.org/pt/
Basta usar o ‘link’ e empregar97
um dos meios ‘digitais’ neles sugeridos.
Obrigado e Bem Haja!
97
E se me permite sugerir, empregar o ‘search engine’ ecosia, https://www.ecosia.org/, que apoia, promove e
custeia a plantação de árvores, ajuda o planeta (o nosso!), que bem precisa.
Moniz/Um novo horizonte/146
Nb-1. Imagem de capa: É um quadro, em modo mosaico, que adquiri no Vaticano (creio,
pois foi numa travessa direta à Basílica e ali, com um pé na praça e com a cara na basílica…),
obra da Irmã Genoveva (acho…), da Antica Scuola di Arte Musiva.
Nb-2. Agradeço e MUITO a todo(a)s o(a)s que imenso me auxiliaram, com críticas,
sugestões, correções, ideias e propostas, sobretudo incentivo e apoio. Vário(a)s me solicitaram
para não o(a)s citar explicitamente (por vários motivos e razões), pelo que tomando o
anonimato solicitado por algumas boas e cuidadosas ‘almas’, o generalizei a todos; e desta
forma, agradeço e MUITO a todo(a)s vós. Obrigado pela boa compreensão, mais uma vez.
Bem hajam!!!

Livro horizont u-v7

  • 1.
    Paulo Moniz aproximadamente33000 palavras pmoniz@ubi.pt UM NOVO HORIZONTE Paulo Vargas Moniz
  • 2.
    Moniz/Um novo horizonte/2 Índice Umnovo horizonte ....................................................................................................................1 Algures ......................................................................................................................................4 Diagnóstico................................................................................................................................9 Sociedade e desenvolvimento ............................................................................................11 Encargos e Dificuldades ....................................................................................................14 Crise ....................................................................................................................................17 Causas .................................................................................................................................22 Disrupção............................................................................................................................30 Filantropia ..............................................................................................................................45 Consórcios...............................................................................................................................55 Orgulhosamente, sinergia! ................................................................................................59 ‘Receita orgânica’ ..............................................................................................................64 Cinismo e mesquinhez versus acreditar e positivo..........................................................72 Inteligência Artificial.............................................................................................................81 ‘Os invasores do espaço’…................................................................................................84 Ensino: excitar a criatividade ...........................................................................................87 Carreiras. No futuro ..........................................................................................................94 Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ ‫צ‬ֻ‫)ח‬...................................................................................................................100 Mudança cultural.............................................................................................................114 Confiabilidade ..................................................................................................................121 E….........................................................................................................................................126 Bibliografia...........................................................................................................................142 Post-Scriptum:.......................................................................................................................145
  • 3.
    Moniz/Um novo horizonte/3 “Comecemoscom o que é correto em vez do que é aceitável”, Franz Kafka No âmbito de Institutos Politécnicos e Universidades poder-se-ia considerar analisar e discutir o seguinte. Quais são os problemas que enfrentam para concretizar a estratégia que foi delineada? Quais são, especificamente, os obstáculos principais que impedem que se alcance esses objetivos? E que utensílios são precisos para limitar (ou eliminar) os riscos relacionados com os desafios? Qual é o enquadramento cronológico, geográfico? E como definir, explicar o que será ‘sucesso’ para se determinar (sem ambiguidades ou dúvidas) que é alcançado?
  • 4.
    Moniz/Um novo horizonte/4 Algures Tomemoso caso de uma região (hipotética, claro), onde os invernos são demorados, por vezes agradáveis, um facto da vida sazonal. Infelizmente, (pode ser desde há 10 ou mais anos para cá) tem-se presenciado uma cadência, nem sempre regular, traduzida num descontentamento, num (outro) inverno, mas agora demográfico. Vamos ser mais específicos. Tem havido uma redução, por vezes gradual e significativa, no número de alunos das escolas básicas e secundárias, que se pode manter por algum tempo no futuro. A análise estatística aponta também para que se considere essa região hipotética com uma população de 2 milhões, por exemplo e associada a uma baixa densidade territorial. Mais ainda, a média de idade estaria nos 50 anos enquanto que 35 seria a média nacional correspondente. Acresce ser uma zona em que há uma fertilidade muito pequena e a população imigrante é ainda muitíssimo pouco relevante. E assim, a candidatura e a admissão de alunos ao ensino superior dessa região têm vindo a decrescer; apenas o recurso a estudantes de fora dessa região (e sobretudo estrangeiros!) tem possibilitado manter alguns cursos a funcionar por entre os limites permitidos. Isto é, a ‘importar’ daí uma contribuição, por aplicação de propinas e outras ‘despesas imprescindíveis’, para o orçamento de uma instituição de ensino superior (IES) o qual garanta (por modos diretos e indiretos; a concretizar mais à frente neste ensaio / texto) a sua manutenção. E por vezes (não poucas) esse auxílio fica um pouco abaixo do que a IES necessita, verificando-se então, nessa angústia, um esforço por vezes desumano para salvaguardar a sua sobrevivência. Alguém é capaz de considerar (hipoteticamente, claro) uma situação e características assim?
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    Moniz/Um novo horizonte/5 Oproblema é (no mínimo) duplamente grave. A região (hipotética) só sobrevive e se mantém funcional (numa escala de várias décadas ou, dito de outra forma, daqui até 30 ou mais anos(!)) se houver mais gente nova, mais graduados (jovens) e mais emprego qualificado. E que este ímpeto restaurador de vida social e económica gere um ciclo, que a médio, mas mais certamente a longo prazo, vá recolhendo bem-estar e qualidade, i.e., legítima riqueza social. Como fazer? Temos que explorar, discutir abertamente, arriscar ideias com atrevimento, arrojo e audácia. Para isso, aqui apresento de forma algo genérica uma reflexão sobre o tema do Ensino Superior em Portugal, concretamente acerca de como construir um novo (e melhor) horizonte. Não pretendo ser exaustivo nem investigativo. Trata-se de um ensaio de opinião exposto a subjetividade. Mas vazio de ‘imagens’ e retórica. Um discurso construído numa linguagem simples e uma forma de pensar unitária. Tento ser lógico, temperado no tom das ideias, mas procurando a convicção que anime o seio da academia Portuguesa. Seguem-se ideias, críticas e reflexões sem formalidade, utilizando um estilo livre e sem comprovações explícitas1 . Reconhecendo que por entre os participantes do Ensino Superior em Portugal, há que ser-se firme no dever, sem receios, de forma colegial e efetiva. Nota prévia. É impossível fazer corresponder a totalidade dos problemas aqui descritos a qualquer IES. A algumas, uma parte das hipóteses aplicar-se-ão e o destino será irreversível, 1 O (in)sucesso em função de dados relativos a oferta e procura, preenchimentos e vagas precisa sempre de ser analisado com prudência, bem temperada com a experiência. O escritor Graham Greene descreve no livro ‘The Comedians’ uma ilha da América central, gerida por grupos (para)militares conhecidos como ‘tontons macoutes’. Nessa ilha, um dos personagens comenta que a iliteracia diminuiu de forma muito significativa numa certa região costeira da ilha. A conclusão, servida com superior ironia, é que não foi nenhum programa de ensino- aprendizagem, mas antes que um furacão assassino e destruidor terá afetado de forma terminal a população frágil, pobre e sem qualquer habitação condigna e segura…
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    Moniz/Um novo horizonte/6 casonada seja feito para que se evite. Por isso mesmo, não devemos permitir que os receios que esse cenário sugere se transfigurem num obstáculo impeditivo. Muitos problemas abrem também linhas de esperança e o que há de mais certo e imutável, é que devemos abraçar a incerteza, podemos mudar. Essa esperança pode emergir e crescer, é preciso ser-se firme nos princípios que guiam, mudar e melhorar, estender essa expectativa numa corrente que vença a resistência da tormenta. Por isso, levantam-se neste ensaio hipóteses, com iconoclastia e idiossincrasia, para uma análise que implique um alerta, para corrigir trajetórias. Prossigamos. Qualquer IES precisa de um plano estratégico, o qual tem que assentar numa visão. Uma visão de médio a longo prazo, perspetivada a partir do presente e para o futuro esperado para a sociedade. Sendo mais concreto, o plano tem que ser exequível de forma a garantir estabilidade, e tem que ter amplo potencial para a IES evoluir. A visão deve, pois, assim possuir simplicidade (sem ser simplista), ser mobilizadora e transcrever três linhas mestras: identidade; qualidade e uberdade. No âmbito das linhas mestras referidas, a identidade e a uberdade devem orientar-se no âmbito da qualidade. Designadamente, o que se fizer, que realize a identidade, tem que ser visto como algo único, singular e, principalmente, imprescindível. Ou seja, algo de imenso valor e gradualmente mais valorizável. Por outro lado, tem de ser um ‘produto’, uma ‘obra’ que é cultivada e colhida em intensa uberdade, com o mais elevado empenho e dedicação, por toda uma equipa (a saber, toda a instituição). Essa progressão tem de revelar uma integração, académica e inclusiva, onde toda a instituição abraça um ‘esprit de corps’, garantindo a comunhão desse objetivo. Isso é o garante da estabilidade. O sucesso é assim simplesmente
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    Moniz/Um novo horizonte/7 confirmaressa (i) identidade, em todo e qualquer dia, afirmá-la com a (ii) qualidade que é traduzida no reconhecimento de quem a procura e desafia a colaborar, como (iii) fonte e garante do desenvolvimento, abundante e fértil. No contexto dos parágrafos anteriores, o conteúdo deste ensaio está distribuído e organizado da seguinte forma: O próximo capítulo é um diagnóstico do estado do ensino superior em Portugal. O foco escolhido (e por isso dominante) apontará sobre os custos, hipóteses e causas, consequências. De seguida apresento quatro áreas, que no meu entender merecem apreciação legítima, como opções, alternativas na construção, de retoma e (re)conquista do ‘positivo’. É por aqui que se deve defender um ideal académico, para melhorar as IES em Portugal. É sempre a economia e por isso começo por descrever como modalidades, inclusive de filantropia (ou similares), podem permitir manter uma dinâmica de investimento, apesar de rigores impostos por orçamentos de estado (OE). Ainda na economia, apontamos em outro capítulo como ações de sinergia, de esticar o braço e alcançar mais distância, podem constituir o passo no sentido de uma estrutura maior e melhor para continuar a enfrentar e ultrapassar o referido ‘inverno’. E em mais um passo, em forma de algo (quase completamente diferente e) ‘ortogonal’, pois não basta conquistar distâncias, há que assegurar mais espaço, apresento uma súmula
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    Moniz/Um novo horizonte/8 (muitojá há para consulta) de como a ‘inteligência artificial’ vai revolucionar a sociedade, designadamente a do conhecimento, ao longo do século XXI. E ao fazer isso irá implicar uma alteração significativa dos métodos de ensino-aprendizagem. Não, não se trata de ensino a distância ou dito online. Ou mesmo ‘robotização’ ou similar. Isso é trivial e simples. Ou pior, seria maçador de ler e óbvio. Trata-se de apontar para o referido (novo) horizonte que se vai vislumbrar para as IES, o que está mais além, mas já aqui muito perto. Um caminho a ‘integrar’ já neste século (XXI!). E construí-lo. Por isso, acrescento algo novo neste capítulo, ainda não procurado, mas cada vez mais crucial. Requer abraçar a diferença, o risco, a inovação. Um salto (epistemológico, cognitivo, funcional) na condução das IES. E em proatividade aponto, em quarto lugar, a uma sugestão para que se altere de forma profunda a cultura (incluindo a política!) do seio académico. Sermos, mormente, muitíssimo mais ousados, menos no ‘desenrasca’, mais no atrevimento, mais iconoclastia nas perguntas, mais criatividade nas respostas. É o Chutzpah2 (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫צ‬ֻ‫)ח‬. Para um sucesso ainda maior. E? Bem, e depois, antes do ‘adeus’, terminamos. Entretanto, avancemos3 . 2 Se está curioso(a), ‘salte’ até à página 114-5. Mas retorne aqui depois… 3 Duas notas breves. 1. Uma bibliografia (não comentada) é igualmente anexada neste ensaio. Os elementos nela elencados são fortemente recomendados e sugeridos para consulta e posterior análise, discussão e estudo; são as fontes originais do conteúdo deste ensaio, súmula, síntese de recolha dessas ideias, transferidas aqui para ‘agitações’. E por entre alguns dos (sub)capítulos subsequentes, indicarei alguns dos textos que aí foram mais empregues, para agitar (ainda mais), para organizar (espera-se), para mudar (a metodologia educacional nas IES Portuguesas). 2. Por entre as linhas deste ensaio, notar-se-á ‘aqui e ali’, que se ‘repete, reitera, (re)salienta’; é deliberado: o diagnóstico que se segue justifica essa ação.
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    Moniz/Um novo horizonte/9 “Discursartambém é uma forma de ação’’, Hannah Arendt Diagnóstico Muitas, demasiadas vezes uma escolha em Portugal é apenas sim ou não, uma proposta é (bestialmente) boa ou é (pessimamente) má, decide-se (inflamadamente) a favor ou (visceralmente) contra. É impossível um compromisso, um consenso ponderado, uma negociação gerada numa coligação de esforços diversos: se no meio, ser-se-á sempre considerado como inviável, pois uma alternativa aos extremos é sempre fraca. No próprio ensino superior em Portugal, as soluções complexas, que são precisas para problemas complexos, são muitas vezes ignoradas, desprezadas e pior ainda, nem sequer abordadas4 . Uma percentagem da opinião pública mal (in)formada é uma força constrangedora, que determina, por vezes quer de forma direta, quer indireta, aquilo que se faz (mal). Factos e uma análise cuidada são muitas vezes desconsiderados, mesmo por especialistas com historial e uma boa capacidade de modelação (e moderação). Muitas decisões são bloqueadas e ficamos tão desmoralizados que (quase) se abandona o esforço. O debate 4 É sempre mais ‘consensual’ adiar…
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    Moniz/Um novo horizonte/10 sobreo ensino superior não é exceção. Por um lado, a educação é vista como demasiado cara ou pior, um completo desperdício de fundos e um mau ‘investimento’. Por outro lado, há quem defenda que tem que se manter o Ensino Superior em Portugal como está ou então, a fazer alterações, estas devem ser mínimas de forma a não modificar a sua organização atual: ‘venha, mas é (mais) dinheiro’. I.e., manter a estrutura organizativa e muitos dos regulamentos que existem. Não se debate nem se procura estimar cenários para 20, 30 ou 50 (ou mais) anos à frente, sobre o que se precisará de adaptar, corrigir, modificar. Também há muito ‘protetorado’ e não existe ninguém (por entre a ‘elite’ política com atividade ‘comunicativa’) que tenha a coragem de trazer para a opinião pública a análise dos princípios de fundo: são sempre pequenas linhas de modestas consequências. Parece o proverbial ‘if it works, don’t fix it…’ mas quando não funciona ou parece não funcionar… . E só em política séria é que o que parece, é; não sendo esse o contexto (i.e., ao ‘progredir’ de política para politiquice), então o que não parece ser, mesmo nada, é aquilo que depois, é (de forma inusitada e amargamente brutal). Entretanto, por vezes surge uma oportunidade de adquirir ‘aquela’ vantagem, que permitirá sobreviver e não só: sobretudo afirmar-se, revitalizar-se face ao medianismo tradicional, em particular associada com uma disrupção do ensino superior. Essencial para a implementar é considerar (i) quais vão ser as necessidades, quer da sociedade quer do estudante do século XXI (!) e (ii) as forças e as fraquezas, as limitações do modelo tradicional universitário, particularmente à luz das novas tecnologias (e também da missão universitária). Tudo junto, implicará que vai ser preciso fazer uma seleção por entre escolhas pouco usuais, estabelecer escalas de tempo (mais amplas) acerca do alcance pretendido e redefinir a diversidade dos estudantes e dos cursos que devem ser ensinados. Temos que elaborar também
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    Moniz/Um novo horizonte/11 sobreo objetivo ‘sucesso escolar’, mormente de uma forma mais lata. A verdade é que as IES que muito cresceram, algumas centenárias, ‘vetustas’, hoje não serão talvez o modelo mais prático para estabelecer ou guiar uma universidade ou um instituto politécnico (mais jovem). Apesar de o terem sido no passado recente para os legisladores, que, com a melhor das intenções (é sempre assim…) as propuseram, mas com a falta de modelos ou a sua (in)experiência académica, as tomaram demasiado prima facie. No entanto, nenhuma delas é hoje, uma situação pragmática5 . Sociedade e desenvolvimento E, no entanto, o valor de uma IES não pode ser desprezado, em particular nos últimos séculos ou décadas, consoante o caso em análise. O contributo do ensino superior em Portugal para o sucesso económico e social é inequívoco. A evolução no último século, designadamente na sua segunda metade foi impressionante: induzindo mais poder industrial, criando emprego, promovendo a diversidade, progressão e harmonização social. A transição para uma economia com segmentos muito mais largos, relacionados com a tecnologia avançada de informação, cuidados de saúde, serviços de governação e finanças. Dito de outra forma, uma elevada produção através de aplicação de conhecimento e da tecnologia. Como consequência, há uma melhor cidadania, mais instruída (mas ainda não o suficiente) e com melhor capacidade 5 As IES tal como os estudantes devem ser mais adaptáveis à realidade da sociedade que se altera cada vez mais rapidamente.
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    Moniz/Um novo horizonte/12 (poderiae deveria ter mais) para a prosperidade económica e força social. Mas estará apta para o século XXI? A função mais importante numa democracia contemporânea é o da cidadania. Nesse âmbito, há que, primeiro, ser-se capaz de recolher informação, conhecimento em forma crua; segundo, saber avaliar os argumentos relacionados com essa informação, e, por fim, participar, debater, discursar (!) de forma envolvida e racional, em função dessa informação. Uma cidadania devidamente educada concretiza-se na elaboração de opiniões, apoiada na evidência de factos. Assim, estará mais bem informada para tomar decisões e efetuar as escolhas políticas difíceis que se precisa. Produzir cidadania instruída é a responsabilidade primária da comunidade e do ensino superior. Não obstante, essa tarefa fundamental é hercúlea. Qualquer sociedade, em qualquer período, é uma estrutura com procedimentos complexos tendo por base a análise de informação. E é por isso que o ensino superior tem sido, é e será cada vez mais importante. Requer-se uma participação ativa, informada e desafiadora, pensando criticamente, de forma atrevida, inovadora e inesperada, acerca dos problemas e das oportunidades que surgem no dia-a-dia. Mas esse sucesso dependerá da forma como o ensino superior for liderado e ministrado no século XXI. Esse empreendimento social, uma ‘empresa’, no sentido (etimológico) de uma ação de tomar, agarrar, de todos, por todos e para todos, pretende-se muito bem formada e informada, com o propósito de ser eficazmente gerida. Empregando as novas tecnologias que irão emergir
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    Moniz/Um novo horizonte/13 aolongo do século XXI, algumas ainda por regulamentar. Mas incontornáveis, irrecusáveis, inadiáveis a longo (ou médio? curto?!) prazo. Nos dias de hoje, e os já vindouros (repete-se; nunca é demais), tem que haver uma cidadania, educada, instruída, envolvida e sobretudo pensante, com as aptidões, as capacidades de uma força de trabalho que irá coliderar a nossa economia. O progresso, mas sobretudo a sobrevivência estável, requer que todos nós, como comunidade asseguremos o seguinte: por um lado, um amplo acesso a todos aqueles, qualquer que seja a sua proveniência, que procurem uma IES para adquirir uma instrução técnico- científica6 e uma formação cívica-ética da melhor qualidade; por outro lado, alcançarmos sucesso, cujo traço identificativo, no que nos concerne, será fornecermos o melhor apoio a(o)s nosso(a)s estudantes e que os mesmos finalizem os seus estudos, alcançando os respetivos graus académicos. Mas num tempo útil, justo e minimamente satisfatório! Em suma, é por isso que o ensino superior em Portugal importa. Haverá crescimento se e só se uma sociedade for instruída: por isso, devemos contribuir, em coliderança, para que as novas gerações sejam excecionalmente bem instruídas no mundo do conhecimento, com melhor capacidade cognitiva, com uma superior aptidão para inventar, empreender e produzir bens e serviços, em integração com tecnologia avançada e para benefício de todos. A narrativa acerca dessa IES será de enaltecimento por parte dos profundamente beneficiados por uma 6 Por exemplo, cursos, quer fossem de engenharia, literatura ou medicina, deveriam ter módulos opcionais de ensino-aprendizagem sobre ética, como também sobre análise e lógica, formulação de modelos matemáticos e desenvolver pensamento crítico. A criatividade não é um atributo exclusivo de uma área do conhecimento. Estudantes de física com frequência de unidades de crédito sobre cultura chinesa ou latim/grego, por exemplo, e estudantes de sociologia obter frequência em laboratórios específicos de diversas ciências naturais.
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    Moniz/Um novo horizonte/14 visãocientífica de ampla uberdade académica. Daí a suprema importância nas escolhas políticas que se fazem e que vão influenciar a trajetória do próprio ensino superior. O ensino superior tem que voltar a ser importante, retornar a uma ‘paixão’ educativa, um elevado desígnio de Estado. Mas, não tem sido assim (ultimamente). E isso lamenta-se com tristeza7 . Encargos e Dificuldades Apesar de aumentos (?) no financiamento total para o Ensino Superior (por via do OE), na forma de contratos de legislatura quinquenais, as famílias sentem-se estiradas ao enviar e colocar as suas filhas, os seus filhos numa IES. É economicamente árduo e penoso, ao que acresce ansiedade sobre o futuro. Recebe-se por vezes informação que causa preocupação, por meio de relatórios em processos de acreditação e avaliação de ensino (via disponibilização por agências da tutela, e.g., a A3ES8 ) e de centros de investigação (nem sempre devidamente) associados a cursos. A análise dos relatórios dessas agências deveria ser consultada, não somente no mero termo classificativo, mas no conteúdo descritivo e por vezes crítico da funcionalidade, por exemplo, entre vários parâmetros de aferição. Também se recolhem outras notícias referentes a IES, 7 Mas há propostas, este ensaio, mormente. Para agitar por entre a turvação, contribuindo para uma eventual limpidez, uma (re)organização educativa; um novo horizonte. 8 A3ES i.e., Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior; cf. https://www.a3es.pt/
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    Moniz/Um novo horizonte/15 mormentesobre aconselhamento e apoio académico, que não é o que seria desejável por essas famílias: professores e ensino que são severamente criticados pelos estudantes, o progresso para a graduação é dolorosamente lento, o dobro ou mais, do que seria desejável ou salutar; idem situações de abandono, retenção escolar no ensino superior. Têm, pois, sido anotadas queixas assim como comentários deste âmbito, mas sobretudo acerca dos elevados custos do ensino superior para algumas famílias. Professores e funcionários recebem reclamações que a sua instituição dá menos atenção ao ensino. Especificamente, a ‘missão’ transfigura-se mais em obter verba para projetos, investigação ‘medida’ em patentes. Ou numa multiplicidade de cursos para ‘captar’ mais e mais estudantes9 , eventualmente estrangeiros e obter a sua presença a quase qualquer custo. Também há que ter em conta que as IES são constrangidas por custos causados (direta ou indiretamente) por fatores externos (por exemplo, aumento de preços de consumíveis ou produtos alimentares, taxas incluindo portagens rodoviárias). Isso causará a instabilidade económica das IES. Mais ainda, sendo ‘cru’, mas frontal, para as famílias a qualidade desce apesar que “está tudo bem, vai ficar tudo bem”. No ‘fim do dia’, para essas famílias é a sensação de haver um puxar e empurrar, as IES terem mais e mais verba, mas pouco ou nada ‘reporem’ de qualidade de oferta formativa ‘a quem paga’, seja por via direta (propinas) ou indireta (por exemplo, IRS). Comentário injusto? Impreciso? Bem, há margem para incluir esta provocação. 9 Captar mais alunos, porque é esse o objetivo, mas ‘adicionam’ alguma exigência na seleção dos candidatos, oferecendo cursos com requisitos à entrada que assim irão mensurar à partida a qualidade dos estudantes aceites. Tudo para conseguirem ‘posicionar- se’ entre si, relativamente.
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    Moniz/Um novo horizonte/16 Pior,‘aquilo’ que era um emprego, que se poderia antever no início do curso, poderá já não haver nesse campo de estudo. Um(a) estudante dedicou-se durante anos, mas a atividade pode ter deixado de estar disponível, pelo menos de forma tão ampla ou tão especifica no mercado10 de trabalho11 . A sociedade é complexa, as necessidades variam em oferta e procura, a inovação tecnológica pode trazer alterações súbitas…e profundamente drásticas. Os ‘rankings’ não são inúteis12 , se bem estruturados e operacionalizados. Em particular, podem permitir apontar a importância de, por exemplo, o quociente entre número de estudantes e docentes, ou as taxas de graduação, i.e., quanto tempo demora um curso a ser completado; índices de satisfação e daí uma ou outra ‘nota’ qualitativa para reputação académica. Mencione-se o potencial de aferimento salarial para aqueles que se graduam numa dada IES, ponderado em termos do investimento das famílias e do Estado: merece ser discutido, pois esses salários poderão trazer mais (ou menos) contributos, posteriores e subsequentes, ao longo da vida laboral, por via de taxas e impostos. Acrescente-se nessa discussão a despesa (direta) da propina, assim como as (in)diretas da possível deslocação do seu local de vida e/ou trabalho 10 Alguma prudência: cursos versus oferta no mercado de trabalho, é uma relação que passa por diferentes ciclos e pode ser ‘campo-dependente’. Duas situações, dois exemplos: a engenharia informática atualmente tem uma grande procura; e no início deste século também se observava um excesso de docentes (ensino básico, secundário, superior), ‘acrescentando’ que iriamos depois ter falta (!) de docentes no futuro, dado o corpo docente ser (muito!) envelhecido … mas se a maioria dos jovens não escolherem a docência... 11 Também é pertinente apontar que algumas formações não oferecem remunerações consentâneas com o grau obtido, o que também leva algumas famílias a pensar se vale a pena enviar os filhos para a IES… 12 Os ‘rankings’, goste-se ou não, podem induzir como diferentes agentes tutelares e empresas (parceiras?) ‘avaliam’ as IES, assim como estudantes e suas famílias farão as suas escolhas deste ou daquele curso para frequentar. São já uma ‘bitola’ (!) que se vai considerando e, sim, os ‘rankings’ são variados e carregam influência. Por isso não são, pragmaticamente, todos inúteis. ‘Medir’ (?) a qualidade de uma IES é um problema multidimensional e nunca poderá ser baseado de forma estéril em apenas um ‘ranking’ (ou até numa sumula de todos). Qualquer ‘ranking’ é uma medida muito limitada, falível e pode ser incluída numa ferramenta mais ampla, entre várias operações de análise de qualidade.
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    Moniz/Um novo horizonte/17 parao campus da IES. Estes custos, em particular na última década, têm aumentado quando recessões financeiras surgem13 . Crise Mencionada atrás, há a despesa de frequência do curso. A imediata e óbvia está definida na forma da propina, mas há outras decorrentes do usufruto dos campi (e.g., há que pagar investimentos em instalações e aquisições, nem sempre totalmente cobertos em OE…). A propina é uma forma directa de obter alguma receita, mas as verbas daí provenientes podem aumentar, descer… . De forma indirecta, também pode ser disponibilizada verba para as IES, obtida no entanto através da execução fiscal, por exemplo IRS, IRC, IVA (e outras taxas). ‘Engenharia’ de OE, por onde outros custos cabem ao Estado, os quais têm que ser também assegurados: saúde, transportes (aéreos, ferroviários), ‘administração interna’, muita outra ‘coisa’… . A argumentação simplista mas falaciosa, é de apresentar ao ‘consumidor’ (que pague as propinas, diretamente, ou, indiretamente, contribua no IRS ou o aumento de portagens ou de transportes ou combustíveis), os custos crescentes das IES como unicamente decorrentes 13 Uma consequência tem sido o aumento de popularidade do ensino online, e.g. no Brasil; o ‘vento’ está a passar de favor para desfavor nas instituições de ensino superior, ditas de tradicionais, mas melhorou para algumas estruturas educacionais alternativas, quiçá disruptivas… . Acresce referir a formação on-line em grandes empresas. Por exemplo, na ex-Portugal Telecom, permitindo um elevado número de formandos, com custos mínimos pois nem precisavam de deslocação para fora do local de trabalho. Ou o grupo ‘42’ em modo hibrido i.e., ‘blended’ (cf. https://www.42lisboa.com/), recente e … gratuito! Por que então procurar frequentar um 1º ciclo numa dada IES para se obter um bom emprego, com um bom salário? E até pode depois fazer uma pós- graduação online (2º ciclo) numa outra IES, tudo devidamente acreditado e ‘abraçado’ [pelas entidades empregadoras (muito competitivas)]. Nb. Eu declarei que seria atrevido na provocação.
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    Moniz/Um novo horizonte/18 deaumentos salariais obrigatórios no ‘produtor’, se indexados ao quociente entre número de estudantes e docentes. No entanto, não são os salários que forçam o ensino superior em Portugal a ser cada vez mais dispendioso: os salários aumentam, mas lentamente, em comparação com muitos outros custos (e despesas institucionais). E serão estes últimos em larga medida, devido a uma opção (em casos, uma obsessão?) de atrair mais e mais estudantes, sem base sustentada para uma ‘estratégia’ de custo-investimento e incerteza de resultados, que provocam [direta e indiretamente (!)] um aumento do custo (existencial…) da IES. Não é o ‘preço’ de administração e do corpo docente, mas… é o custo que muitas vezes advém de uma IES se ‘dotar’ com algumas ‘bolsas de estudo’ ou necessidades ‘assalariadas’, construções e estruturas físicas na forma de edifícios, melhorias de acesso, incluindo as redes sociais, sem ser por programas sensatos de financiamento. Ou criar núcleos associativos para estudantes, desde teatro a desporto, como muitas outras atividades, que legitimamente interessam aos estudantes que uma instituição providencie. E junte-se muitos gastos que são obrigatórios (e.g., acreditação14 via A3ES), aquisição de equipamentos obrigatórios à investigação para ser concorrencial (a nível da União Europeia) em termos de projetos para financiar, consumíveis muito (!!) dispendiosos, mobiliário, consultadoria, pareceres, manutenção, reparação ou mesmo a substituição de equipamento singular. As IES recebem, pois, com imenso e intenso agrado o(a)s estudantes que as escolhem ao invés de outras. Um diploma outorgado em certas instituições pode assim tornar-se bem 14 Os procedimentos que eventualmente conduzem à acreditação dos cursos são cada vez mais dispendiosos. Concretamente, em funcionário (não-docente ou docente) /hora de trabalho, como também em pagamento (!) à agência de acreditação.
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    Moniz/Um novo horizonte/19 maisdispendioso (no fim, paga-se!), como resultado de atrair os candidatos mais exigentes. Ter um grau de um curso numa determinada universidade pode ainda ajudar em certos meios empresariais e industriais, a atingir um determinado emprego com algumas regalias, benefícios profissionais e vantagens financeiras. Mas esse dispêndio não provém tanto, repita-se, porque as IES tentam acomodar normas ditadas pela tutela sobre a progressão salarial do corpo docente. Diretamente, por meio de propinas, designadamente as que são muitas vezes cobradas em 2º ou 3º ciclo, extrai-se uma ‘compensação’ que contribui para o pagamento dos salários. Ou as que se ‘capitalizam’ por via dos estudantes internacionais. Há, pois, um paradoxo, como se expõe, com mais detalhe, no seguinte. Por um lado, são as IES que têm respondido aos problemas económicos que se lhes deparam. Designadamente com o aumento de preços em alguns bens e serviços (num mercado competitivo), desde propinas (quando e ‘onde’ podem), alojamento, manutenção e aquisição de equipamento, assalariados (e sem ser via OE direta), podendo ser com ‘despesas de administração’. Mas é como se algumas IES não se interessassem pelo que está em seu redor e como elas estão a ser a percecionadas nessa envolvência. Haverá IES, pela sua tradição e sendo por isso referência (ou pretendendo ser em grupo corporativo), que irão (ou já estão) a cobrar mais e diferente, sem qualquer perceção, gerando custo de forma lenta, mas contabilizada, sobre as famílias. E muito pior ainda, promovendo cursos com muito poucas das aptidões e competências necessárias para os estudantes, futuros graduados, terem sucesso no mercado global do século XXI. Seguem uma rota, um destino onde os estudantes, as suas famílias (e
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    Moniz/Um novo horizonte/20 tambémos ‘fazedores de política’), são naturalmente arrastados para um vórtice algo ameaçador e preocupante15 . E por outro lado, todos os anos as IES precisam de mais e mais apoio financeiro, pois algumas encetaram despesa, desde, repita-se, aquisição de instrumentos e equipamento, construção, recuperação ou manutenção de edifícios e instalações. Modernização de soalhos, tetos, paredes e janelas. Novas ‘modalidades’ de aquecimento, ar condicionado. Mobiliário. Meios de transporte. É possível continuar… . E o/a contribuinte, tem de custear isto tudo, via impostos, sobretudo de forma indireta, pois o OE seguinte não pode deixar cair esta lista de instituições de ensino superior publico. A lista (ou qualquer dos elementos que a constituírem) é ‘too big to fail’. Coesão. Sacrifício. Tem de ser. O flagelo social… . Alternativas e de acesso imediato existem: os cursos de banda larga a distância, mas não transmitindo ainda segurança, salvo muito poucas exceções devidamente certificadas (i.e., Universidade Aberta). Exige-se cada vez mais qualidade, mas não tendo na sua essência ainda uma componente disruptiva de base tecnológica e personalizada no utente. Ainda não existe de forma generalizada, i.e., ‘plug & play’. Mas poderá de algum modo (deveria ser regulamentado para aferir padrões de ética, equidade, utilidade social) vir a surgir. Ironicamente, onde poderá (deverá?) haver alguma obtenção de lucro. 15 Graduados sem emprego não conseguem retribuir o investimento, por via de um IRS ou equivalente. A riqueza (também) social de um Estado dependerá da percentagem de cidadãos (incluindo esses graduados) que contribuam subsequentemente para as receitas (também sociais) do Estado. Em particular, numa Républica… . Graduados sem emprego é mau, é péssimo. É mesmo pior que mau…
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    Moniz/Um novo horizonte/21 Hátambém o ponto de vista dos empregadores, que vão ter uma voz cada vez mais influente sobre as áreas em que precisam que alguns estudantes se graduem, conforme requerido pelo mercado de trabalho. Isso não pode ser desprezado. E embora podendo um ensino mais remoto ou menos próximo, orientado para o lucro económico, ser ‘apenas hoje’ mais dispendioso nos vários ciclos de estudos (comparativamente a instituições hoje totalmente públicas e de custos mais baixos), alguns casos têm sido objeto de análises de qualidade, através de várias (outras) agências de certificação. E essas alternativas podem vir a ser mais convenientes e ser mais fácil e rapidamente orientadas para os propósitos dos estudantes, especialmente obter capacidades e aptidões urgentes para o mercado de trabalho, muito necessitado, que evoluirá (nos próximos anos, décadas) de forma estonteante. A rede pública de instituições de ensino superior (ainda) não oferece alternativa dessa índole por que não quer, acha-se, repito, ‘too big to fail’. Mas o(a)s contribuintes (de impostos) e legisladores, tenderão gradualmente a colocar de forma direta e sobretudo indireta, uma redução de taxas em fundos financeiros para benefício destas novas operações de ensino. A manutenção (obrigatória?) de todas as IES atuais em Portugal, na sua distribuição, forma e conteúdo, pode deixar de ser realidade. Dadas estas alternativas graduais que vão emergir, ano após ano, e serão colocadas à disposição das famílias, as IES que as quiserem desprezar, quer por teimosia, incapacidade, estreiteza mental, poder-se-á dizer que vão merecer aquilo que irão recolher. Não terão mais apoio nem simpatia que muitas das indústrias antigas, outrora pujantes, as quais não souberam adequar-se, modernizar-se. Basta olhar, diria, o fantasma da falência de fábricas, abandonadas e totalmente destruídas: é aquilo que efetivamente pode acontecer gradualmente às salas de aula, até a todo um departamento ou uma faculdade. Dizer que isso jamais acontecerá?
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    Moniz/Um novo horizonte/22 Jamais?!As pessoas envelhecem, os departamentos são ‘ajuntados’, alguns poderão ‘desaparecer’. Dito de outra forma, aos encargos onde as famílias sentem dificuldades, emerge também uma situação de crise financeira, diferenciada, (des)apercebida em maior ou menor intensidade, em (algumas) IES…. Elaboremos então de forma mais cuidada. Causas Há sem dúvida alguns aspetos de crise financeira (e consequências decorrentes…) nas IES. São sobretudo causas intrínsecas, próprias de uma tradição: alguns Institutos Politécnicos ou Universidades têm mantido práticas, importadas quer de outras IES ou dos seus próprios passados, mas ao ponto de agora colocar em perigo o seu futuro. As IES Portuguesas têm sido assim forçadas a reduzir o orçamento, diminuem custos, eliminam outros, mas raramente conseguem daí tirar melhorias relevantes. Não conseguem reinventar, significativamente, o conteúdo dos seus cursos, para preparar, melhor e diferente, os estudantes para as novas necessidades cognitivas. E acima de tudo, para as exigências de interface tecnológica, cada vez mais fortes, de um novo mercado de trabalho. Uma analogia é tomar uma empresa que pretende ter uma vantagem num dado mercado: ‘entra’ e oferece novas particularidades, tal como uma rapidez ‘fulminante’ no carregamento da bateria num telemóvel ou adicionar vitaminas ‘pujantes’ aos iogurtes. São vistos como
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    Moniz/Um novo horizonte/23 inovaçõese não como reinvenção, o produto transforma-se em melhor e no entanto, o ‘design’ permanece o mesmo, seja uma caixa ou um pacote, os preços aumentam e o(a) consumidor(a) genérico(a) começa a pagar mais por aquilo que não precisa realmente… . Dito de outra forma, a nova empresa procura oferecer o mesmo utensilio que outro(s) competidor(es) oferece(m), a menos ou mais de umas ‘cores’. Designadamente, face à competição que está num patamar por ‘tempo’ de presença ou da experiência que já possui, alcançado junto dos ‘consumidores’. Numa IES, o preço acrescido a pagar é o custo daquilo que é ‘novo’. A IES vai auferindo (mais algum) capital por meio de atividades extracurriculares, cursos e programas de graduação. Pode argumentar-se que a frequência afinal até não é muito onerosa junto dos estudantes e das famílias. Ou que tudo resultou de assumir o pagamento de custos, consequentes sobretudo de outras decisões de ‘compra’ e mercado, marca e produto(s). O ‘consumidor’ é que optou por uma ‘inovação’ que afinal será só uma reapresentação empacotada, para essa ‘compra’; quis ir para ‘esta’ IES ao invés daquela(s) outra(s), por causa do diploma com ‘regalias’… Metáfora com alguma (mais uma) provocação: o ensino superior, empregando linguagem de gestão e economia, é o que se pode chamar de uma empresa amadurecida. É avessa a tomar riscos, muito autossatisfeita e por isso, por vezes (muito!) dispendiosa em alguns setores. Mas terá que promover o debate sobre assuntos fundamentais, sobre os seus programas académicos e terá que se transformar em algo, tomando em braços esta nova economia emergente com tecnologias de inteligência artificial. Esta irá dominar com o impacto da globalização, tecnologias rapidamente em evolução, uma população e uma demografia cada
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    Moniz/Um novo horizonte/24 vezmais diversa. E se com uma faixa cada vez mais envelhecida, também terá novos consumidores caracterizados com novas necessidades, novos objetivos, novos hábitos, novos paradigmas e novas ferramentas. E agilidade e motivações intrínsecas, muito, muito diferentes. Um substancial salto geracional. Mind the gap!... A história está preenchida com exemplos de algumas indústrias (por exemplo, de natureza têxtil em várias regiões!), que por sua própria escolha desafiaram, mas falharam pois não quiseram responder ou sequer pior, não quiseram sequer tomar nota das mudanças no mundo à sua volta. Uma analogia ‘académica’ poderá ser a obra16 de Hermann Hesse, onde se discute ‘uma’ Universidade. No que concerne as IES Portuguesas, a sua organização atual, genericamente emergida no final do século XIX e no início do século XX, não tem até recentemente sido desafiada e por isso, não foi alterada de forma significativa na sua estrutura e operacionalidade. Muitas IES tentam um comportamento padrão em termos de gestão, melhorar o produto, dar aos ‘consumidores’ aquilo que eles querem (ou devem querer ou pior, têm de querer…) e observar alguma da competição. Idem se fossem produções de iogurte ou baterias de telemóvel. E aí surge o problema. Isso leva a que muitas instituições possam falhar inevitavelmente, enquanto líderes ou pretendendo (!) ser líderes ou ascender em alguma forma e operação, em classificação ou designação operacional. Irão, repita-se, focar em servir mais e melhor, indo 16 Cf. https://www.goodreads.com/book/show/16634.The_Glass_Bead_Game.
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    Moniz/Um novo horizonte/25 aoencontro de necessidades ou talvez apenas pretensões de necessidades, observando o que fazem os ‘competidores’. E isso pode ser a raiz de um grave problema. Uma IES não é uma indústria ‘tout court’. Mas, salva a distância contextual e ‘orgânica’, refira-se o seguinte: sejam computadores ou motocicletas, quem entra na base do ‘mercado’, tem que ‘vender’ produtos simples aos ‘consumidores’, aos que são menos exigentes. E a partir daí, ir melhorando, passo a passo, de forma a ‘empurrar’ os anteriores líderes. E de certa forma é também algo, em termos sociais, que devemos considerar poder existir, de forma implícita ou não declarada, não necessariamente promovida de forma oficial mas emergindo assim, no setor da educação superior pública: IES ‘recém-chegadas’ na rede de oferta de cursos, principiam nos primeiros degraus da ‘escada’ e disponibilizam logo de início cursos base (sempre devidamente acreditados…); gradualmente irão tentar (!) apresentar mais e mais áreas formativas17 . Essa ação pode ser descrita em termos de ‘competição18 ’ e vista como saudável e vital: instituições maiores e mais antigas, experientes, (re)conhecidas, irão ser desafiadas por outras mais criativas e mais pequenas, potencialmente mais flexíveis. Por via de uma inovação, ‘contra’ aquelas que estão ‘entrincheiradas’, disponibilizar melhores serviços através dessa forma. O problema é quando todas se entrincheiram, mesmo as mais ‘jovens’ que, entretanto, adotaram os vícios das mais ‘vetustas’, arcaicas e reconhecidas. Vão 17 A distinção entre ensino politécnico/universitário tem-se esvanecido com o tempo: algumas ofertas formativas de uns ‘passaram’ a estar em outros, também. Deveria haver uma distinção operacional (atualizada!) sobre o que se pode encontrar em cada um. Entretanto, os politécnicos ambicionam ser como as universidades e as universidades, por sua vez ambicionam algumas das ofertas formativas dos politécnicos. 18 Idem intra-IES, pois mais alunos numa dada área pode significar mais vagas (e progressões) na carreira docente. Saliente-se que ao crescer, uma IES promove mais criatividade, proatividade e qualidade. E assim competir com as outras IES, mais avantajadas (em termos de cronologia e geografia). Assim se espera. Só que...
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    Moniz/Um novo horizonte/26 quererabraçar (ou de uma forma gritante e ansiosa, agarrando com alguma brutalidade) o tão desejado apanágio de … ‘tradicionais’. É por aí que em muitos casos as estratégias de algumas novas universidades e institutos politécnicos têm sido tomadas. Só que o fizeram em esmagadora forma e ação, por meio de uma insipida imitação e não de inovação singular. Na sua defesa, essas instituições estão apenas a fazer o que a lógica e a tradição tem ditado. Inicialmente providenciar em modo básico e simples aquilo que pedem os possíveis (!) interessados. Designadamente o que já disponibilizam as IES maiores, mais antigas, mais abrangentes: oas estudantes procuram estar nessas universidades ou institutos politécnicos (pelas razões que se entenda etiquetar) e as ‘novas’ querem um pouco do ‘mesmo’. Algumas dessas vetustas IES têm orçamentos anuais na ordem de muitas dezenas a centena (mais?) de milhões de euros e a verdade é que também possuem um conjunto de fundos e financiamento complementar, que lhes permitem manter ou terão permitido manter durante algum tempo essa situação de domínio19 . Apesar de algumas tormentas ou ‘balanços’ por causa de algum incómodo no canal. No entanto essa situação pode ser muito perigosa. Em universidades e institutos politécnicos às quais ainda não há uma etiqueta de idêntico orçamento, arcaísmo, marca e nomeação (por entre a opinião pública), ao tentarem imitar as tradicionais e ‘antigas’ em especificidades, vão (ter de) incorrer em (mais!) despesa. Por exemplo: adicionar mais e novos estudantes, por via de novos cursos, e mais ainda, tentam 19 Valores que são depois ‘multiplicados’ para com (uma aplicação n)a economia das regiões.
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    Moniz/Um novo horizonte/27 encontrarmais docentes, com algumas responsabilidades de investigação (se puderem). E esses docentes querem laboratórios, equipamento, edifícios, mobiliário, parques de estacionamento, ‘modalidades’ de aquecimento… . Em suma, novos custos. Tudo fica pior se depois…faltarem alunos, mesmo os internacionais. E há que cobrir despesas entretanto assumidas ou se já feitas… . E tudo ficou pior com a construção de mais edifícios, ou sua manutenção, recuperação, reconversão ou mesmo substituição. E mais equipamento laboratorial. E mais recursos materiais para suporte à administração. Emprego para os recursos humanos que vão assegurar essa administração. O sustento de famílias... . A bem de uma coesão, de uma região que precisa de reduzir o flagelo do desemprego. Como então cobrir esses custos? Aumentando as propinas? Por impostos (in)diretos (e.g., IRS ou portagens rodoviárias ou nas bebidas) através da tutela (governo)? Pode, mas … não chega. E por vezes (muitas, acontece…) não há os alunos suficientes em todos (ou nesses novos) cursos. As despesas de operação, desde vulgo consumível até subsídios e apoio académico associativo, aumentam (o dobro? Apenas metade? De uma terça parte ou o triplo?). E poderá haver abandono escolar e … a despesa aumentará, inapelável, podendo divergir. Mas isso não deveria ter sido possível: assim, não permite ter ‘vantagem’ para se começar uma universidade ou um instituto politécnico, a estar em competitividade. Economicamente, financeiramente, poderá ter sido tolerado, até incentivado ‘a bem de uma região’, coesa territorialmente, aceitado o dogma ou crença dessa necessidade, mas isso torna-se, de forma gradual, totalmente insustentável. Manter tudo como está, sem qualquer alteração, manter a possível estagnação? Afinal, existe (ou não) o pântano do ‘status quo’ de décadas no ensino superior? Muitas IES agora ou ‘amanhã’ não vão ter a capacidade de sustentar, de oferecer
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    Moniz/Um novo horizonte/28 tantos(!) cursos, tão diversos para tantos estudantes ou requerer também que os seus professores compitam no mundo cada vez mais exigente de financiamento para investigação. Tem que ser assim? A despesa do financiamento disponível para as IES ‘jovens’ transformou-se, é cada vez mais limitada e mais competitiva. O resultado da ‘imitação’ com as universidades e institutos politécnicos arcaico-tradicionais, já presentes no sistema, é que, porventura, ironicamente, até poderá tornar estas últimas mais robustas e apenas um pouco mais dispendiosas. Mas, todas as outras, as mais ‘novas’, podem não se tornar melhores alternativas de um ponto de vista educacional e vão-se arrastando financeiramente, na dependência ‘mórbida’ de ‘agremiações’ parlamentares que as auxiliem ou promovam auxílio ao apelo ‘não podem falhar’, igual ao já citado ‘espectro de flagelo social’. Entre as mais jovens, algumas já não têm os recursos financeiros necessários, perderam-nos no mundo cada vez mais exigente, mais vulnerável. Uma conclusão possível é que o ensino superior em Portugal é uma atividade (em termos de economia e finanças públicas) extremamente perigosa, quando é o caso de algumas IES que estão num campo médio (ou pior), quando não têm nem a robustez, ou a qualidade; a despesa aumenta. E mesmo a equipa de barco a remos, a mais forte pode afundar se houver ondulação inesperada… E ganha a outra equipa, que, ou afunda mais tarde ou rema para junto da margem, vai devagarinho, formosa e, sim, segura, fluctuat nec mergitur. Mas ‘triunfa’, ‘aguentou-se’ por (muito) mais tempo, leva o prémio e benefícios mais vantagens decorrentes. Vae victis.
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    Moniz/Um novo horizonte/29 Saliente-se,no entanto, que foi com sucesso amplo, lentamente, mas gradualmente, que a comunidade académica e as regiões associadas, se faziam conhecer por meio das IES: estas asseguravam um ensino para cada vez mais estudantes e sem dúvida que contribuíram para o avanço do conhecimento e a melhoria económica e social da região. Quem contribuísse por via de impostos e taxas, sem hesitação abraçava ‘essa causa’, satisfeito pelo crescimento institucional e de todos os benefícios que daí vieram para a região e o país. Casos de sucesso, repita-se. Mas, no entanto, este modelo padrão, agora torna-se insustentável. Ao invés, as IES têm pois que desenvolver novas estratégias e ir para além da simples imitação; têm de se tornar mestres numa excelência singular. Estrategicamente esse deve ser o caminho. Para a maioria das IES na década que começa, terá que haver ‘a mudança’ e é inevitável; a grande questão é quando é que ela acontece , na próxima semana, no mês que vem ou no final do semestre e quais são as forças, a pressão que será trazida com ela; será extremamente infeliz que haja um atraso causado por alguma rejeição interna, induzida por arrogância ou menosprezo. Permita-se adicionar que quando surgem problemas económicos, nomeadamente orçamentais na tutela (e eles surgem muitas vezes porque aquilo que era pretendido a nível internacional não corre bem ou pela lei de Murphy…), temos de ter orçamentos de crise. E são sempre particularmente afetadas as IES ‘jovens’ que se ‘modelaram’ nas arcaicas20 e vetustas. Não tenham ilusões, vem aí, sem qualquer piedade, uma … 20 Deve ser salientado que não apenas a ‘idade’ mas também a localização geográfica é importante (e muito) face aos desafios, particularmente os económicos. Repercute-se na captação de alunos, relacionamento com o meio empresarial e fontes de mecenato académico. E sobre o fator ‘localização’ [localização (de forma direta), localização (de forma indireta)], cf. a provocação no último capítulo, concretamente o último dos quatro próximos: o conformismo, sobretudo ao nível de ‘isso não nos vai afetar’, ‘somos de rija tempera’, pode induzir um excesso de falsa (!) segurança e depois, o diagnóstico já não será mau; é grave, será muito pior.
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    Moniz/Um novo horizonte/30 Disrupção Ateoria da inovação disruptiva baseia-se (já referi aqui, mas não explicitamente, nesta sequência introdutória) no facto de empresas, que entram no início ou na base do mercado, terem de vender produtos simples aos consumidores menos exigentes. E a partir daí, ir melhorando, passo a passo, de forma a ‘empurrar’ os anteriores líderes para uma situação irrecusável de disrupção. E de certa forma é também algo que deveríamos esperar também ocorrer no setor da educação superior pública, a inovação disruptiva. Mas nas IES há uma anomalia que não lhes permitem preencher este enquadramento de disrupção. Elaboremos. Algumas que ‘entram’ no ensino superior, entram na base como novos concorrentes e oferecem logo de início cursos simples21 , que gradualmente ficam mais ‘complexos’. Só que o enfraquecimento das que já lá estão, em etapas tardias da disrupção, é algo que raramente acontece no ensino superior. Temos ‘entradas’, mas não temos saídas (ou ‘quedas’ ou abandonos22 ) quer entre as que ‘já lá estão’ ou nas que entraram… . Por um lado, no ensino superior é difícil ter alguma disrupção porque as qualidades humanas de um centro de investigação ou faculdade não podem ser facilmente repetíveis23 (em âmbitos ‘cronológicos’ e/ou ‘geográficos’). E acresce o seguinte. 21 Por exemplo, os cursos preparatórios da década de 80 e inícios dos 90 que conduzia depois os alunos para as outras IES, nos seus 2 últimos anos da licenciatura (pré-Bolonha). 22 Excetuando a extinção de algumas IES privadas quer por questões empresariais/económicas quer por via da regulação do Estado. 23 Mas, no entanto, o ensino poderá ter um fator de disrupção através da tecnologia online, que iria melhorando e poderia desviar, assim enfraquecendo (mas nunca anular) o foco competitivo das credenciais dos professores ou
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    Moniz/Um novo horizonte/31 Tomemosdois grupos distintos de estudantes, que já estão ou apontam vir a estar, em diversos empregos ou situações laborais. Num grupo, o prestígio da IES é primordial e determina uma vivência académica; para membros deste grupo, a experiência de vida na instituição é algo difícil de ser alvo de disrupção, pela valorização que ou pela família ou pelas responsabilidades de trabalho (futuro), lhe alocam. Contudo, o(a)s estudantes no outro grupo (muito menor ainda, em elementos) não querem despender tanto tempo no campus para obter um grau; ele(a)s apenas querem aprender aquilo para que têm tempo muitas vezes depois de um longo e cansativo dia trabalho; este novo público, que entra no sistema educativo são disruptore(a)s mas ainda em muito pequeno número. Por enquanto… . Em suma, num processo de disrupção que pode ou não ocorrer, o(a)s alumni e o(a)s ‘legisladore(a)s’, os quais foram ‘consumidores’contribuintes das suas instituições, atribuem o seu apoio motivado por uma relação pessoal forte com as IES. Alumni e o apoio estatal ainda dão às instituições tradicionais e com vantagens ‘geográficas’ um poder único no ensino superior em Portugal, estas recebendo a verba e ajuda financeira. Por isso, têm tido um longo percurso livre de qualquer disrupção, inclusive a tecnológica. Instituições públicas que recebam ao longo do tempo o compromisso dos contribuintes de impostos, com a combinação do prestígio (que é sempre algo difícil de definir) associada ao apoio leal de alumni e legislador, de forças políticas, tudo isso tem permitido a essas IES atravessar sem grande dolo e problema do prestígio da instituição, para ‘aquilo que os estudantes realmente precisam’ (pois é assim que poderá vir a ser promovido…) e, quiçá, de forma quase, quase ‘gratuita’…
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    Moniz/Um novo horizonte/32 astempestades financeiras. Em tempos de crise económica, vêm chamadas de atenção, alarmes para acorrer, proceder a uma reforma… . Mas as IES, arcaicas e/ou ‘bem situadas’, etiquetadas pelos décadas e até séculos de longa existência, pelo montante dotado nos seus orçamentos via OE, pela quantidade dos seus cursos, de faculdades, de alunos, (quase) nada sentem. Ou então um pouco de aperto de financiamento, interno, mas é coisa ligeira e são autossuficientes para se manterem competitivas até que os mercados financeiros ou o OE recuperem e haja um novo reforço do financiamento (por parte da tutela) para com elas. A procura dessas IES permitirá cobrir custos através de pequenas campanhas, emolumentos, que, entretanto, surjam para manter essa crise longe. Uma outra razão para a falta de disrupção no ensino superior em Portugal é a forma com que a ausência da disrupção tecnológica se tem sentido, desde que nas instituições juntaram alunos em salas de aula em configuração de ‘anfiteatro’ e já vão séculos: os livros de texto e exames orais e escritos têm permanecido (salvo exceções que deveriam ser louvadas) na mesma forma, mesmo quando os computadores são introduzidos (como ‘adereço promocional’) na mesa da sala de aula de qualquer estudante: ainda são usados para reforçar a instrução existente; as aulas são melhoradas com a presença de gráficos computacionais; a aula ainda permanece na sua forma original. Mas eis que agora surge uma inovação que é disruptiva e vai ou já está a alterar isso. Existe um novo meio, tecnologicamente acessível, para instruir (complementarmente, na proporção que for sensata, caso a caso, curso a curso) os estudantes: o ensino mas também a aprendizagem têm uma componente online, através de meios tecnológicos que estão cada vez
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    Moniz/Um novo horizonte/33 mais(embora nem sempre de forma fácil e generalizada) disponíveis. Resta saber se capaz e benéfico como alguns dizem. Há imensas dúvidas, hesitações, até rejeições na totalidade e sem apelo ou discussão que seja, ‘extermine-se’ dirão alguns. Mas, atenção, existe alguma acreditação, mesmo para cursos-padrão em IES tradicionais, cada vez mais orientada para a comparticipação (e.g., ‘blended’, híbridos…), explícita na informação disponibilizada nos seus sítios da internet. Sobretudo para alguns cursos de pós-graduação, que providenciam essa comunicação no mundo cada vez mais competitivo. Cada vez menos se dá como importante a evidência e a capacidade da mera existência da instituição em ‘cimento e tijolo’ versus o ‘treino’ que uma faculdade demonstrará no ensino dos seus estudantes, por meio de uma composição de aprendizagem in situ e ‘em rede’. Dito de outra forma, a qualidade dos cursos, para aquilo que eles servem, importará mais do que necessariamente ter no topo dos critérios de escolha e seleção de um curso (e IES) as paredes e os tijolos. Junto com o ‘nível’ dos investigadores da IES que vão apoiar o ensino universitário ou politécnico. A combinação de tecnologia disruptiva junto de um aumento do foco educacional presencial, na graduação dos estudantes, abre a porta a novas formas de competição. É indispensável. A IES tem que mudar rapidamente e de forma fundamental tudo (ou quase) aquilo que tem feito; a verdade é que o modo como tem operado tem sido particularmente dispendioso. Nas IES é forçoso dominar os desafios, as oportunidades oferecidas por uma sociedade de mudança rápida e global. Precisa-se mais do que apenas uma capacidade técnica e uma competência cognitiva. Os estudantes, em particular, precisam de um enquadramento
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    Moniz/Um novo horizonte/34 educativono qual, não só possam estudar, mas também alargar os seus horizontes e simplesmente crescer. Isto é, (i) a IES com a sua composição de diversidade intelectual, com a vida num campus social. Como algo para onde crescer, evoluir e de facto poder estar junto com professores, que podem pela sua presença mudar o rumo de vida. Mas é agora cada vez mais necessário tomar a oportunidade de uma autoavaliação e uma reforma urgente: arriscamos cair na armadilha de nos podermos tornar obsoletos ou parcialmente obsoletos no ‘mercado’ de ensino superior do séc. XXI. E (ii) o processo de aprendizagem é melhorado quando envolve uma mistura de ensino presencial e enriquecida com disponibilidade online (i.e., acesso a vastos repositórios24 ). A experiência tradicional de vida na instituição e no campus, a presença de membros de faculdade a tempo inteiro em universidades tradicionais, em particular as que abracem ferramentas modernas, para sustentar a inovação e tecnologia; cf. o capitulo sobre inteligência artificial neste ensaio. Considere-se a situação [diferente (?)] da confrontada por jornais em suporte de papel, que sofreram com a vinda da tecnologia digital, que lhes fecharam (algumas das) portas… . Se a disrupção é competitiva, há também aversão à mudança. Com o poder do prestígio no ensino superior, onde a qualidade do produto é difícil de ‘medir’ (se é que se pode medir de 24 Um exemplo notável, excecional e de qualidade superior, que alguns podem tomar de paradigmático, é o caso da Universidade de São Paulo, Brasil.
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    Moniz/Um novo horizonte/35 algumaforma), quando não se tem a devida comparação entre universidades e institutos politécnicos, daquilo que elas ‘produzem’ para os seus estudantes, sucede pois que as IES mais antigas, com melhor ‘conforto geográfico, mais respeitadas, têm uma vantagem natural. São também aquelas que são presumidas (em promoção de produto e opções de ‘consumidor’) de ser as melhores escolhas para o futuro. Isso é uma força estabilizadora (que se faz mal em desprezar e depois, pior, ignorar), reforçada pela acreditação e relatórios apensos, um processo onde sobretudo representantes dessas IES tradicionais, periodicamente participam (e dominam!), julgando do rigor e da qualidade de todas as instituições estabelecidas e … as recém chegadas. Ao fazerem isso tendem a aplicar os seus próprios padrões de prática a outras instituições. Por outras palavras: esta conformidade para com a tradição torna-se o preço da continuidade por meio da acreditação e de entrada na ‘indústria’. É uma outra (espécie) de “câmara corporativa”. Era preciso, em ‘género’, diversificar25 a governação (de forma intrínseca e extrínseca) em cada agência de acreditação. Agora, reiterando em termos generalistas de economia (e mercado). Temos diversos modelos de inovação e esta poderá ter que ser ‘considerada’, para revelar ameaças potenciais, mas também as oportunidades que as IES têm pela frente. Poderá estar num cruzamento, numa bifurcação: por um percurso, estará face a uma disrupção competitiva (e ‘ríspida’) e por outro, colocada numa outra forma de ressurgimento mais apoiado e gradual. 25 Será difícil clarificar por entre estas ‘águas’ turvas mas algo novo e límpido, precisa-se!
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    Moniz/Um novo horizonte/36 Porquehá dois tipos principais de inovação. O primeiro tipo é inovação sustentada, com a qual se faz algo melhor ou maior. Exemplos desta inovação são os casos de baterias de telemóvel que duram mais tempo, televisões com melhores imagens e obviamente IES com ‘melhores’ cursos, acreditados e com ‘melhores’ centros de investigação, ativos na indústria. A sua ‘localização’ (territorial, mas também cronológica) transpõe-se na captação de alunos, relacionamento com o tecido empresarial. Algumas, apenas algumas e não todas, quase sempre ganham as batalhas de criar inovação sustentada. Não apenas por causa dos seus recursos financeiros disponíveis, mas por causa da sua capacidade, sua expertise, da sua competência, que lhes dá uma significativa vantagem em criar e tornar as coisas maiores e melhores. A inovação disruptiva, pelo contrário é trazer para o mercado um conjunto de serviços e produtos, que não são (ainda) tão bons como os tradicionais mas …são mais fáceis de usar e é aí que o ensino com mais recursos online é um exemplo, embora ainda na sua infância. Quando as velocidades da internet são baixas e alguns (mas cada vez menos!) cursos online são simples sumários das aulas tradicionais, a qualidade do ensino online ainda está muito (muito, mesmo!) abaixo do que é o ensino presencial. Mas os ‘consumidores’ que não podem assistir a aulas disponibilizadas num determinado local, tal como adultos que trabalham, encontram no ensino online uma forma de educação atrativa ou quanto muito tolerável (para eles): a definição de qualidade tem um significado diferente! É uma aula baseada no computador, à noite na sua própria casa e por isso consegue vencer o presencial que exigia da
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    Moniz/Um novo horizonte/37 suaparte uma viagem e um horário muito sacrificado. E depois há a disponibilização a qualquer momento e de material diverso. Esta inovação disruptiva é inicialmente para não-‘consumidores’ tradicionais, é um produto ou serviço que as instituições ‘corporativas’ ignoraram, assumindo de forma arrogante e errada que na sua vigência, os ‘consumidores’ não estariam jamais (!?) interessados a não ser no serviço tradicional. Mas à medida que a inovação disruptiva progride, e vai ficando melhor pela sua forma e conteúdo, paradoxalmente, a inovação sustentada vai tornando-se uma ameaça para as instituições e para os consumidores que a têm preferido. Por exemplo, os cursos online vão tendo capacidades e elementos como videoconferência, que transformam o curso online numa quase sala de aula ou mais próximo ou menos longe, como também criam tutoriais online e discussões de estudantes, fóruns abertos a qualquer hora e oportunidade, sem limite local, que o curso estritamente tradicional não providencia. A tecnologia oferece algumas vantagens em custo (podendo até ser totalmente gratuita!) e uso, as inovações de qualidade estão gradualmente a melhorar o produto, até ao ponto em que estudantes de IES ‘tradicionais’ poderão considerá-las (mais!) apelativas26 . Será um erro crasso, desprezar esta complementaridade que pode ser tão rica e diversa de componentes e oportunidades. Irão, as IES que desprezarem a mudança, reclamar uma vitória, mas pírrica. Como se disse, It’s the economy e esta dita (em certa medida) a evolução do mundo, seja no mercado de transação bolsista no centro da capital de um consórcio de nações ou na mercearia da mais pequena aldeia. Ou como uma vez foi proferido, ‘eppur si muove’… (Galileo Galilei). 26 Mas falta inovar na qualidade da avaliação online e assim esta modalidade ainda não tem este acréscimo de credibilidade.
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    Moniz/Um novo horizonte/38 AlgumasIES vão, pois, encontrar as inovações disruptivas (que correspondam à sua escala ou ambição) e serão obrigadas a reexaminar a sua missão, a sua visão, os seus objetivos e sobretudo a sua operacionalidade. A tempo e horas? Ou demasiado tarde? Se as IES não souberem ser inovadoras, desafiadoras, atrevidas, inesperadas e iconoclastas, a encontrar meios com custos reduzidos de oferecer algumas das suas funções com igual qualidade, então estarão condenadas a um declínio parcial, se não total. A mudança por inovação está ao seu alcance. Têm pois que se reinventar. E de acordo, a inovação da IES tem pois que ser baseada em informação cuidada, por um alto reconhecimento e autoavaliação, supervisionada (sem dolo da autonomia) a nível da tutela (competente…) A IES típica só terá sucesso ao adaptar-se onde conveniente, como um grupo de IES mais exigentes poderá já ter feito…: verificaram o que está a acontecer. Há um aumento do número de ‘consumidores’ ou prováveis ‘consumidores’, que vão deixar de tomar as ofertas tradicionais e poderão transformar-se, com a emergência de tecnologias27 . Isso poderá permitir aos novos competidores, baseados em tecnologias do séc. XXI retirar ‘capital’ às instituições (incluindo as que meramente e em conformismo de ‘rija têmpera’) imitam a tradição, servir o grupo de não-ainda-consumidores e ainda não-totalmente-assimilado. E assim o padrão da inovação sustentada é quebrado (!) pela tecnologia de disrupção: é o caso, por exemplo, dos 27 Por exemplo: ambientais; da saúde; exploração espacial e dos fundos marinhos.
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    Moniz/Um novo horizonte/39 computadorespessoais e portáteis em comparação com os computadores ‘monstros’ que dantes, existiam historicamente28 no ensino superior. Algumas IES consideram gradualmente a aplicação do poder da tecnologia de aprendizagem online, ou envolver algo online junto ao estudante, muito para além do mero acessório decorativo na educação tradicional da sala de aula do século passado (ou o que o antecedeu). Com (outros) custos mais atrativos. Competitivos. Não só pela questão da propina (1º, 2º e 3º ciclos!) mas também em deslocar-se do seu local de trabalho ou residência e a vinda para o campus, repita-se. O ensino online tem tido mais procura na última década e sobretudo aumentado quando as dificuldades financeiras surgem. Os desvios e as mudanças que mudaram de favor para desfavor nas instituições tradicionais é aquele que melhorou nas ‘velas’ de algumas estruturas educacionais online. As IES conseguem ter mais fundos e financiamento, através da ‘frequência’ de mais alunos, quando disponibilizam alguma parte do ensino em formato online. Mas, talvez o mero e simples recurso a uma disponibilização online, em moldes de simples ato defletido, repetido e numa versão ‘copiada’ do modo presencial, seja meramente redundante e não tão avant-garde29 . Ou sequer inovador. Ou disruptivo. E no entanto, o genuinamente novo é sempre inesperado. Inclusive em conteúdo e operacionalidade. Pode ser iconoclasta (muitas vezes é!) e com tanto de impressionante como impensável (hoje). 28 E já ‘andam por aí’ computadores quânticos. 29 Nb. Há já opções ‘ibéricas’ onde por exemplo se tem ‘folhas de Excel’ programadas para simulações, junto com acesso a acompanhamento por tutores. Isto é, alguma organização e sofisticação. Portanto, não são só aulas gravadas ou um monte de textos em Moodle. É assim…
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    Moniz/Um novo horizonte/40 Saliente-setambém o seguinte. Uma IES incorpora uma economia aberta, ‘importa e exporta bens e serviços’ que precisa de realizar de forma sustentada, com oferta e procura atrativa, compatível com a sua missão, com investimento diverso e adequado. E, no entanto, surge a questão sobre o sistema das IES em Portugal. Como chegou ‘aqui’, como tomar uma trajetória de crescimento subsequente… Conforme já mencionado, há uma parte da população que é envelhecida e as taxas de natalidade decrescem, há abismos de desenvolvimento (cronológico e geográfico) por entre regiões. Houve progressos tutelares para financiar reforçadamente a investigação, a inovação tecnológica, mas também ocorreram tombos inesperados, um aumento do défice; custos sociais de confinamento pandémico causaram retrocessos, piorando. E no entanto, repete-se, tem de haver pois uma imensa mudança de política para as IES, para a investigação e desenvolvimento de tecnologia. Um crescimento sustentado por meio da educação, por toda a sociedade Portuguesa, para criar uma recuperação também do setor económico. Trazer um novo horizonte, uma nova esperança para os jovens, para dar prosperidade mas também felicidade, abraçada na resiliência. Por isso haverá que rever (pretendendo melhorar!) os instrumentos de políticas públicas para estimular as IES, os modos de financiamento, renovar (!) o tecido acadêmico e empresarial apoiante, dar atenção (i) aos setores expostos mais diretamente à concorrência internacional, (ii) o agravamento de desigualdades causado por desemprego e decréscimo de rendimentos familiares. Será que para as IES temos em Portugal um sistema sustentável, com boas infraestruturas, incluindo humanas (ensino)? Será que investimos (e devemos investir mais) para dotar as IES de mais e melhores meios digitais? Será que podemos atribuir os recursos
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    Moniz/Um novo horizonte/41 correspondentesaos jovens e suas famílias, eliminar ou atenuar desigualdades? A aprendizagem é sobretudo uma interação social. Mas atribuir melhor (cada vez mais!) financiamento às IES deverá vir pela consensualização de um novo pacto, um novo compromisso30 . Mormente, reformas educacionais de forte magnitude terão que ser seguidas, como (pré?) condição, uma exigência para que (subsequentemente?) emerja maior apoio financeiro, junto com percursos ‘quase gratuitos’ para a frequência de uma IES. Um contrato significativo, mas que tem de ser em inequívoca seriedade. Tem de ser uma reforma histórica para o século XXI, responsável por e para todo o encadeamento de intervenientes, na construção de (novas) competências, da e pela qualidade nas IES Portuguesas. Apenas uma correção desta envergadura fornecerá eventualmente a citada resiliência, um novo entrelaçar de parcerias colaborativas com as empresas, por meio de boas (!) políticas públicas para estimular o investimento no sistema das IES. E prioritariamente, por via da investigação e inovação tecnológica, criar o crescimento sustentado, aumentando o emprego e a produtividade das estruturas económicas, desenvolvendo em ciclo o sistema educacional. Será pois então que podemos, que conseguimos identificar os objetivos de desenvolvimento futuro, melhorar o nível de competência de toda a sociedade, de toda a população por meio dessa reforma educacional de forte magnitude? Em particular, com percursos de aprendizagem continua ao longo da vida? 30 Cf. por exemplo (e não isento de controvérsia e ‘queixas’) o ‘Donahoe Higher Education Act’, https://web.archive.org/web/20080926010021/http://sunsite.berkeley.edu/~ucalhist/archives_exhibits/masterpla n/, no estado da Califórnia.
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    Moniz/Um novo horizonte/42 Éinequívoco que vamos enfrentar desafios e obstáculos, os orçamentos não serão ilimitados. Como então manter as IES sustentadas financeiramente quando há muitas outras exigências e urgentes, por exemplo na saúde? O progresso das IES depende de investimento público, mas para ter mais, haverá que fazer diferente e melhor. No âmbito de uma nova visão, nova missão, novo enquadramento. Haverá também que considerar outras fontes, colaborar com empresas, a indústria. E considerar que alocar mais verba publica às IES pode implicar retirar, por exemplo, à agricultura e pescas ou transportes ferroviários. Ter mais financiamento nas IES implicará por isso a ‘fatura’ de ter muitas mais (amplas) reformas na estrutura das IES. Antes de prosseguir para os capítulos específicos, uma digressão com alguns veios de ‘economia’. O nosso país tem estado estável, com qualidade de vida (em média) em progresso. Mas se ‘ameaçado’ (ver o último, quarto capítulo desta série, que se inicia no próximo), se ficar muito enfraquecido, como é que isso nos afetará, economicamente falando? É difícil (para não dizer que não se recomenda) evitar debater o problema demográfico. Qualquer retoma e sustentabilidade depende de um compromisso geracional. Só que uma longevidade (sempre a precisar de cuidados), junto com uma baixa natalidade, redução de receita contributiva por empobrecimento, obrigarão a repensar modelos simples: provocar mais despesa (no contribuinte) associada a impostos para se gerar mais receita, todos (uns mais que outros…) a pagar? Mas será um esforço justo para benefício solidário, ‘orgânico’? Se num mercado aberto, num Estado onde a escolha for por via de processos democráticos (como deve e tem que ser), se se optar por flexibilidade, risco e competição, ao invés de estabilidade solidária… Pode ser um problema e uma nova realidade: poder-se-á optar por contribuir seletivamente… As gerações que abraçam novas redes sociais podem já não vir para a rua gritar; ou ‘gritarão’ de
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    Moniz/Um novo horizonte/43 outraforma, para outros alvos e apelos. Nenhum dictum’ autocrático fará qualquer sentido para os novos grupos. E, no entanto, a economia do nosso país precisa de uma retoma vigorosa quanto antes, pelos próximos anos. Ou seremos ultrapassados em indicadores de competitividade e desenvolvimento por entre os espaços (e.g., Europeus) onde estamos. E isso depois reflete-se nas escolhas de quem quiser em nós investir (ou não): sucesso gera sucesso. O desígnio em décadas anteriores era a … convergência económica apontada para junto de algumas nações líderes. Mas afinal parece que se divergiu; estamos mais longe? Isto de analisar geodésicas e congruências… Em qualquer caso, arrisco afirmar que o investimento em ciência e tecnologia em Portugal é primordial. Sim, outros setores (legitimamente aflitos) estão carentes e em desespero. Problema complexo, solução complexa. Mas se temos nações que abraçam o dever de apoiar a ciência e tecnologia, para fazer face a ‘ameaças’, com o triplo da percentagem do PIB (produto interno bruto) dedicado à investigação e desenvolvimento tecnológico, em comparação connosco…. E neste âmbito de ameaças31 e riscos, é curioso notar (fonte CE, EUROSTAT) que temos países em crescimento económico (no espaço Europeu) com fraca dependência do contributo do turismo no PIB (i.e., o turismo existe, pode ser amplo, mas não determinante na economia), e o seu investimento percentual do referido PIB nas suas IES é duas a três vezes superior e… têm um sistema educativo (talvez sem ‘dictum’, talvez com mais contratos de confiança e ‘orgânicos’, esprit de corps, desígnios de Estado para décadas) com taxas de graduação bem mais elevadas. E pronto, é assim: têm mais crescimento (económico) médio anual por década, ‘QED’. Opções? ‘If it works..,’ é uma ‘roda’, deixa andar. 31 Reitera-se: ver último, quarto capítulo desta série, que se inicia com o seguinte.
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    Moniz/Um novo horizonte/44 Resignação,num ‘embrulho’ conformista. Mas pode (vai!) destruir o crescimento. Ao invés, haja um debate sincero e com diferenças (ortogonais) de opinião. Conquistar distância, obter espaço. Esse debate, para estabelecer o equilíbrio, congregando o que é correto e que precisa de ser consensual, é algo de construção exigente. Determinar de forma rigorosa o que nos centraliza e revela, tal como nos mantém coesos, é, repita-se, muito exigente. Entre manter autonomia, mas vencer receios de inovar estruturalmente. É esse debate que nos une e que muito necessitamos. Realizá-lo de forma colegial, para encontrar uma nova rota, é o desafio.
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    Moniz/Um novo horizonte/45 “Umafilantropia eficaz exige imenso tempo e criatividade – o mesmo tipo de foco e capacidade que requer desenvolver com sucesso um empreendimento”, Bill Gates Filantropia Por entre o capítulo anterior, alguns parágrafos podem induzir uma perceção de ‘conflito’ aparente. Por um lado, a despesa em algumas universidades ou institutos politécnicos terá aumentado e bastante, por diversas causas. Por outro lado, realinhar o ensino superior, por exemplo com novas tecnologias, terá custos (elevados). Se ‘é (sempre) a economia’, onde pois ir obter (mais e melhor) suporte financeiro? Assumindo a missão partilhada de um conjunto público de ensino que deve ser devidamente apoiada com fundos públicos (o OE!), deveríamos complementar essa fonte (e outras) com outro procedimento, no qual se deveria investir profissionalmente. É a escolha entre o passivo e o proativo. Enfatiza-se que só poderá ser empregue e carece sempre de haver uma fórmula de financiamento publico32 , com regras transparentes, i.e., não se pode substituir à fonte do OE…, 32 Saliente-se o texto (controverso, mas merecedor de mais analise e subsequente melhor estudo…) ‘Modelo de Financiamento do ES: Fórmulas e Procedimentos’, Julho 2015, da SEES, ISBN-978-972-729-086-4, em http://id.bnportugal.gov.pt/bib/bibnacional/1915892.
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    Moniz/Um novo horizonte/46 masnão deveríamos desprezar fontes de filantropia ou crowdfunding, i.e., disruptiva. Porventura irrealista dirão alguns, mas se for possível, por cada 10€ de OE, obter por esta via complementar 1€? Ou 2 ou 5? I.e., ‘recuperar’ em mais 10, 20 ou 50% o que viria por OE mas agora ‘assim’. Ter-se capital inequivocamente próprio para se investir de forma inequivocamente autónoma33 . A governação universitária e politécnica precisa inovar nas linhas de apoio financeiro, é preciso criar relações solidárias com muitos dos investidores (estes num sentido muito lato). Empregar uma nova forma de comunicar, interna e externa. Tem que ser alterada e tanto entre, como durante as várias crises que podem surgir, não só de natureza financeira, é pois preciso estar preparado para agir e gerir. Embora seja algo que não está muito desenvolvido no nosso país, a filantropia34 , i.e., arranjar doadores para fundos académicos é algo que devemos procurar, de forma muito proativa, inovadora, criativa. Temos que o fazer. De forma elencada, é preciso - uma nova abordagem, desde o concretizar de uma forma direta em termos da instituição, ter gabinetes e equipas (profissionais!!!) dedicadas a trabalhar junto com o(a)s doadore(a)s, para 33 “Eu já pago impostos a mais ao Estado, portanto (a IES) não me deve ‘cobrar’ (mais) nada”. Isto acontece com frequência quando alguém vem pedir por exemplo um serviço à IES. Em geral, não se sabe como funciona uma IES: e.g., porque só há (?) ‘férias’ em Agosto ou porque é que os docentes não podem mudar de IES como os do básicosecundário procedem para tentar mudar de escola... 34 Por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. por exemplo as obras ‘Demographics…’, ‘Designing the new American university…’, ‘Turnaround…’, de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste ensaio.
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    Moniz/Um novo horizonte/47 queos potenciais doadores conheçam e que a instituição também entenda o que eles levam no ‘coração e na alma’. De forma a que não sintam qualquer ressentimento quando são abordados para efetuar um contributo, de várias formas, de vários montantes e para vários destinos. - que esse(a)s doadores sintam que estão a fazer uma ação que vai fazer uma diferença na vida dos outros e que os contributos serão devidamente reconhecidos. Saber pois ouvir esses doadores, saber colocar questões para entender as suas motivações e paixões, sobretudo esta última sobre a educação. Saber enquadrar e trazê-los no sentido de serem e virem a ser de direito próprio da instituição e no mecanismo da sua instituição, que tem que ser também a sua instituição, em programas e equipas. Estabelecer relações com parceiros. É fundamental investir tempo para criar essas relações diretas, de amizade com doadores. - transformar (para o(a)s doadore(a)s) a universidade ou instituto politécnico numa causa. De todos, dele(a)s também, sem ambiguidades. Não se trata de privatizar, ceder na governação. Nem de permitir a submissão a influências. Trata-se tão somente de ouvir para depois, dentro do alinhamento do que são a missão e os objetivos da IES, as suas linhas mestras, estatutariamente aprovadas e sancionadas intra-academia, ter um diálogo, uma comunicação que é preciso ter, procurando saber o que é preciso fazer internamente. Identificar onde é que se pode ajudar, como é que é preciso fazer e depois ir em busca de mais parceiros, para que todos possamos apoiar a governação e a própria alteração, onde ela é necessária. Temos que ser facilitadores e entender o que é que os doadores poderão querer criar, qual é o legado que eles querem fazer e para que é que querem
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    Moniz/Um novo horizonte/48 fazer.Não pode isso ser feito em eventos com um salão repleto. Há que ‘personalizar35 a atenção no(a) doador(a), de forma a estabelecer relações de confiança e de estima, sentirem que poderão estar atrás da visão que é necessário implementar, do plano estratégico. Não é , repete-se, privatizar aquilo que o financiamento público deve dar, mas partidos políticos e fundações públicas em instituições públicas também recebem doações, que nunca devem ser vistas como caridade mas sim como contributos construtivos para determinadas áreas e tarefas, as quais congregam apoiantes e ao que poderão, entre várias hipóteses, atribuir o que entendem36 . Se em 1000 graduados ao longo de anos cada um dá 1000 € por ano ou cada cinco anos, temos um milhão de euros distribuídos com algum regularidade. Um milhão de euros é um contributo fabuloso, excelente, excecional para investir internamente em situações de bolsas, em aquisição de equipamento E também para ensino, que deverá ser e será sempre transmitida obviamente de forma transparente . Os doadores têm pois que ser abraçados, envolvidos na narrativa da instituição, não se trata apenas de pedir verba, trata-se de (des)envolver para que eles também façam parte da instituição (ou que, se já tenham feito parte da instituição, que se reforce essa parceria). Por isso, a instituição tem de saber o que é que eles acham necessário, para a melhoria da IES. Há que saber ouvir, adaptar, concertar e sobretudo investir com tempo, é preciso deixar claro que a instituição quer dar-se a conhecer e que sobretudo quer apresentar a sua credibilidade. 35 Possível tarefa de ação ‘diplomática’ para ex-reitores eou ex-vice-reitores… 36 Possíveis obstáculos: não faz parte da nossa tradição e o baixo nível dos salários (médios).
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    Moniz/Um novo horizonte/49 Importanteestabelecer relações de trabalho e de amizade, cooperação acerca de projetos que possam ser particularmente inovadores e dos quais ambas as partes poderão aprender algo, uma comunidade com a qual se deve estabelecer laços com alguma pessoalidade. O ‘realimentado’ acima para destacar o seguinte: nunca esquecer que os alunos estarão entre os futuros doadores. Esses são os mais importantes: uma doação de 100 € por cada um de 100 alunos corresponde já uma quantia considerável: não podemos esquecer que são os alunos hoje que serão os doadores amanhã. Reitera-se: temos que os saber ouvir e temos que os ouvir. E termos ciente que apesar de os graduados terem apreço, estima e reconhecimento, valorizarem um curso que os valorizará sempre, também têm dificuldades financeiras próprias de quem inicia uma vida adulta e de trabalho, por vezes com dívidas ou custos, sacrifícios que foram realizados. Não estarão imediatamente disponíveis para contribuir em modo filantrópico. Adicione-se que, se para gerações anteriores a frequência universitária significou uma progressão social por via do diploma, sendo por isso motivo de gratidão, nas gerações correntes e vindouras, os hiatos de grupo social estão mais esbatidos, o curso já não é uma ferramenta de melhoria social, é apenas uma etapa de amadurecimento para a vida adulta. Poderei estar a exagerar, mas há diferenças geracionais. E sobretudo como veem um curso de ensino superior e o valor (de mercado) que lhe atribuem. Há, pois, diversas modalidades de doadore(a)s: o(a)s que tomam a universidade como algo que transforma vidas, e apelar-se à nostalgia, ‘saudade’,
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    Moniz/Um novo horizonte/50 reconhecimento37 leal.Mas também os que querem ouvir acerca de taxas de graduação, taxas de retenção…, disponibilização de empregos pelos centros de emprego intra-campus (i.e., se a universidade ajudou ativamente a encontrar emprego ou passivamente enviou para o IEFP38 ). Estes novos doadores querem saber se a universidade vale e tem, também sob este angulo, boa qualidade, mas do ponto de vista dele(a)s (!). Uma universidade ou instituto politécnico que tenha ‘dado’ empregos por entre os vários setores da economia, terá o reconhecimento e gratidão desses e demais graduados. Para sempre. As IES deveriam, mas deveriam mesmo, possuir um alinhamento mais estreito, eficiente, produtivo e responsável com os jovens estudantes e os centros de emprego ou equivalentes. Mas como operacionalizar? O investimento a médio-longo prazo implica ter que ligar com uma nova geração de alunos: os membros dos grupos de trabalho das comissões e centros de trabalho em filantropia devem estabelecer, em conversas um a um, com todos os futuros graduados, por exemplo de segundo ciclo, para que ele(a)s possam vir a considerar ser eventualmente mais tarde doadore(a)s. Estabelecer relações a longo prazo, criar várias formas de aumentar o envolvimento de jovens graduados. A ser feito de forma centralizada, em conversa ‘tutorial’: o debate com os doadores deve ser centrado em cada doador(a). Mais ainda, ao enfatizar o impacto que a instituição tem tido e tem e vai ter, adotar modos de comunicação personalizada, 37 Haverá o(a)s que farão a diferença duradoura e ter o nome associado a um ‘novo’ edifício, cujas doações podem ser de centenas de milhar ou milhões. 38 IEFP, Instituto do Emprego e Formação Profissional (cf. https://www.iefp.pt/)
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    Moniz/Um novo horizonte/51 e.g.,não enviar mensagens ‘en masse’, anónimas, secas, genéricas mas antes por textos demonstrando conhecimento adequado, individual, de cada um(a) do(a)s destinatário(a)s. Não obstante, pode-se por exemplo, criar o ‘dia da doação’. O importante é haver transparência no gabinete de alumni graduados, serem melhoradas ligações, torná-las mais próximas, mais correntes, mais eventos, promoção a seguir aos eventos. Por exemplo, os alunos, os quais beneficiaram de doações, estabelecer vídeos e mensagens, com a sua presença, onde agradecem e saúdam esse investimento. Em suma, o crowdfunding ser particularmente importante entre os jovens doadores: mesmo que 10 doadores deem 10 € cada um, já faz 100 €; e se 100 doadores cada um derem 100 € já faz 10000 € e isso permitiria por exemplo uma bolsa de doutoramento atribuída para determinada área. Permita-se-me enfatizar mais uma vez. Ajudar a investir em doações, trabalhar muito mesmo, para que seja arranjado um milhão de euros, significaria 100 000 a darem 10 € cada ou 10.000 € por via de 100 doadores ou 1000 € por cada mil graduados, como atrás referido. Com esta taxa, aproximadamente tanto quanto possível, ao longo de vários anos. Antes de encerrar este capítulo, permita-se-me enfatizar (repetindo, pois nunca é demais quando é a economia…) o seguinte. Serão precisas ações inteligentemente desenvolvidas para envolver graduados e doadores, sobretudo os que ainda não são mas vão ser. Ter graduados a investir nessas relações
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    Moniz/Um novo horizonte/52 enotar que os graduados atualmente apontam as suas doações de forma mais estreita, mais específica e muitas vezes tentando negociar essas doações. Como já aqui se disse, muitas vezes os graduados terminam os seus estudos ainda com algumas dívidas ou dificuldades. Esperar que eles possam desde logo contribuir verba, investir, não será exequível. Há que investir nas relações com os graduados de hoje, parcerias de entendimento, compreensão mútua de trabalho e relação. Designadamente, muitas vezes pensar no impacto em melhorar taxas de graduação, em diminuir as taxas de retenção, quais são os números de empregabilidade. Os doadores querem que se prove que as carreiras são úteis, sobretudo colocar objetivos de participação, para que cada um(a), ao doar 1000 a 5000 €, estará realmente a fazer uma grande diferença e adicionar um valioso contributo. O parágrafo acima aplica-se àqueles que hoje têm 20 a 30 anos, uma comunidade de alumni vibrante, a qual se identifique com ações universitárias de desporto, cultura e festivais de música clássica, jazz, cinema, teatro. I.e., uma forma de todos esses graduados estarem presentes e terem algo a dizer, concretizarem um contributo de muitas outras formas. E particularmente importante, a melhor forma de ganhar os graduados é, já se disse, repetiu-se e repete-se: ‘dar’ empregos aos graduados. Porque é que eles deverão apoiar a missão da universidade, sobretudo se a universidade tiver como missão os alunos? Essa deve ser (em parte) a estratégia: a universidade ajudar a empregar, contratar por entre o tecido económico, industrial, de serviços e empresas em geral. Os especialistas de relação de filantropia e de doação devem ir além sobretudo dos ‘tijolos’. Se o ensino tem que ser centrado no aluno, também a pesquisa e o trabalho para doação deve ser centrado no ‘aluno’. Temos que pensar como uma startup, a pequenas ações, grupos pequenos e objetivos de trabalho específicos
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    Moniz/Um novo horizonte/53 parapropósitos concretos de produção. Como se uma startup fosse, em busca de investir e ver um retorno, não estritamente de capital financeiro, mas um retorno em programa de cooperação, para um desenvolvimento comum. É também preciso também definir um objetivo de participação: por exemplo, a aquisição de um equipamento, que custa muito ou uma bolsa que requere ‘tanto’. Isso é importante: sermos competitivos. Onde recebemos 1 € de financiamento público precisávamos de outro, i.e., precisávamos de ter o dobro do nosso financiamento total, que não temos publicamente. Mas se tivéssemos o dobro do que recebemos via OE, significava entre muitas outras coisas, poder competir e tentar ir ao encontro em termos de competitividade, em termos de benefícios aos candidatos a estudantes. E é isso que é preciso dizer: se queremos ser competitivos, em termos de qualificação, de reconhecimento, de agrado. Por isso temos que ter essa verba adicional. Precisamos, enfatize-se, de um novo tipo de doadores, de atrair pequenas doações entre os alumni , entre os novos graduados e adequar os apelos aos seus interesses, aos jovens doadores que possam fazer pequenas doações mas muitas doações: para objetivos concretos e bem especificados de aquisição ou investimento, desde o cientifico puro até atividades culturais e artísticas. Por último, neste capitulo, as IES deveriam formar equipas especificas para gerir eventos anuais de doação, incluídos numa campanha durante o ano, de uma forma extremamente profissional. Repete-se mais uma vez (porventura em demasia e já em ‘agonia’ em quem lê, mas, … é a economia): existe um número possivelmente significativo de doadores que poderão dar ‘pequenas’ doações. Por exemplo, 2000 doadores a darem 500 € cada um, ou
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    Moniz/Um novo horizonte/54 5000doadores, por ano, contribuindo 200€ cada um. Para isso temos que tornar a IES numa causa para todos, incluindo os que terminam excelentemente bem formados. E esse é o desafio que temos que fazer, ter as IES a apresentaram-se para os doadores, para atrair graduados. Em modo de filantropismo, para as causas relacionadas da instituição e ganhar os novos graduados, relacionar com todos os alunos hoje, doadores de amanhã.
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    Moniz/Um novo horizonte/55 “Queremosuma sociedade que ofereça mais liberdade e requeira mais partilha de responsabilidade … Queremos vir a ser … bons vizinhos…”, Willy Brandt Consórcios E é sempre a economia. Não interessa o ‘mas porque é que tem de ser?’ Há que ir ao encontro do como, quanto, quando? ‘Onde’ se pode obter verba? O capítulo anterior é uma sugestão construtiva. Quiçá já adotada e adaptada por algumas IES Portuguesas. Mas não chega para os desafios e problemas elencados no capítulo de ‘Diagnóstico’. Se no passado houve um crescimento da população estudantil, agora há outras mudanças na diversidade dessa população que deseja o acesso ao ensino superior. E poderá determinar como as IES terão que tomar esse facto, com diferentes implicações económicas. Por outras palavras, o número de IES aumentou. E em algumas delas com um número mais diverso de estudantes. No âmbito da sua evolução e ‘manutenção’, tem-se tentado manter tanta autonomia quanto possível em termos de liberdade académica, de ensino e investigação; uma marca de qualidade dessas instituições. No entanto, há um problema.
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    Moniz/Um novo horizonte/56 Comoreconciliar essas ambições e necessidades, aparentemente não limitadas, com os recursos regularmente atribuídos e (sobretudo) financeiramente disponíveis (e.g., por via do OE), obviamente limitados? As IES, à medida que ‘crescem’ vão precisando de cada vez mais ciclos de estudos, de cursos. E isso representa, como já aqui se disse, mais custos. Há de facto uma aceleração na quantidade a disponibilizar, junto com uma necessidade de qualidade. E é preciso encontrar o capital para a dotar com recursos operativos39 , para que o trabalho das e nas IES se mantenha. Uma das formas de enfrentar este desafio tem sido construir, alterar IES, para algo maior e mais complexo que previamente, com maiores e mais faculdades, com mais alunos para mais cursos, mais diversidade, …com mais despesa. E que poderá levar (nalguns casos) a uma falta de aproximação pessoal e algum anonimato, maior burocracia, edifícios construídos sem criatividade arquitetónica. ‘Contentores de betão’. Ao confrontar o exposto no início deste ensaio, a falta de alunos numa região, inverno demográfico, cenários de crise auto-re-alimentada, como quebrar então esse fluxo destrutivo? O mais trivial40 e nem sempre exequível, seria ‘simplesmente poder aumentar’ a verba obtida por fundos públicos. Ou ‘simplesmente poder aumentar’ e reforçar as admissões de estudantes. Através de, e.g., atrair alunos de fora da região com bolsas especificas. Ou melhorar as 39 Também cresce a complexidade da gestão de recursos humanos e económico-financeira. Será que um dirigente académico, mesmo que devidamente assessorado, será a melhor opção hoje para o controlo económico-financeiro? Dar mais autonomia a(o) Administrador(a) será um caminho para o futuro RJIES? 40 Menos trivial é a via filantrópica…
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    Moniz/Um novo horizonte/57 estratégiasde o(a)s manter (por via de ação social (com inequívoca qualidade)). Ou irmos junto de novos grupos e experimentar considerar ‘novas formas de construir’ candidaturas ao CNA41 . Especificamente, programas de reforço de aprendizagem, para apoiar (sim, à distância, há que arriscar!) potenciais candidato(a)s à IES. Designadamente, em modo prévio a uma entrada no nível da IES, i.e., com alguma capacitação a montante, por forma criativa, através de programas específicos para interessado(a)s, onde quer que ele(a)s estejam. Ou podemos oferecer mais e melhor cuidado nos gabinetes de aconselhamento e gestão profissional, para situações de entrada no emprego e no mercado trabalho42 . Salientar a possível vantagem de se ter grau de mestre. Mas tudo isto, por instituição, se não já realizado ou a realizar, é embaraçosamente óbvio. Outra vez. Tem algum arrojo e risco, mas é trivial. O contexto já aqui mencionado é que a nível nacional os recursos têm sido menores, o número de alunos também (por vezes). Muitas universidades e politécnicos recuam para um planeamento e contenção estratégica algo conservadores, infelizmente procedendo para imagens antigas (!) de sucesso. E em que o que deveria ser um planeamento num futuro alargado se transforma apenas em soluções (ou remendos) de muito curto prazo. É pouco provável, para não dizer inverosímil que poderemos voltar demograficamente aos níveis que tínhamos a meio da segunda metade do século passado: em termos de número 41 Concurso Nacional de Acesso (ao ensino superior) 42 Tanto orientação como reorientação profissional. Se queremos manter a ligação aos ex-alunos, esta pode ser uma via útil para isso.
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    Moniz/Um novo horizonte/58 dealuno(a)s e de inscritos no ensino superior, e consequentemente, sobretudo no crescimento que houve nos fundos e apoios públicos, então disponibilizados financeiramente. A demografia permitiu a massificação de acesso ao ensino. Mas agora, ou para amanhã, como vai ser? Por vezes até poderá haver (muito) mais alunos para outros e mais cursos, mas haverá muitíssimo mais verba para dotar orçamentos institucionais com plena margem, sem43 ‘sufocos’? Uma opção é procurar novas fontes, sobretudo ao nível do OE ou dos Fundos Europeus. Ou para enfrentar estas e outras dificuldades (que se poderão manter durante anos, senão uma ou duas décadas para recuperar economicamente), haverá que ‘reforçar a dependência do aluno internacional’. Mas isso transformar-se-á numa grande dificuldade (acrescida), sobretudo se, para fazer face a cada vez mais e maiores despesas, tivermos que aumentar o número das inscrições desse(a)s aluno(a)s e para uma propina (apenas um pouco?) mais elevada: traz o risco de que nos ‘interessados’ se possa diminuir o ‘interesse’. E no entanto, a terra ‘move-se’. Por vezes, algo simples, aparentemente óbvio, mas de exigente construção, emocional e intelectual, pode (sempre dependendo dos casos e participantes) ser um forte vetor na melhoria. Os desafios da redução nas admissões e candidaturas de aluno(a)s nos sistemas de IES públicas deveriam exigir que os membros constituintes dessa rede trabalhassem em paralelo e 43 Cf. aqui neste ensaio, o ‘Diagnóstico’.
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    Moniz/Um novo horizonte/59 nãoem sequência de preenchimento (como é no CNA), em competição para angariar ‘fundos’ i.e., estudantes inscritos. Orgulhosamente, sinergia! Qualquer tentativa de encorajar uma colaboração mais formal através de instituições tradicionais irá enfrentar a história44 . E esta muitas vezes carrega conflitos, rivalidades, as usuais ‘costas voltadas’. Quando o que é preciso é que muitas vezes numa colaboração, por exemplo um consórcio em modo ‘light’, uma das instituições seja capaz de assegurar os serviços a uma outra instituição parceira, sem prejudicar qualquer parceiro e cedendo à tentação de desenvolver algo só para si. Qualquer IES, se considerar uma qualquer modalidade de parceria com outra, estará sempre sob uma alçada, coberta pela (tradição da sua) autonomia institucional. Dito de outra forma, o primeiro elemento contextual a ter em conta é que qualquer instituição envolvida valorizará imenso (!) a autonomia que até então teve e tem. E quererá manter. E, no entanto, poderão ocorrer (ou até já terem ocorrido…) desenvolvimentos que poderão levar a considerar novas configurações estruturais45 . 44 I.e., egoísmos pessoais e institucionais. Uma transformação real terá que ser apoiada pela tutela, de forma organizada e empenhada, ‘de corpo, de coração e alma’. 45 Por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. por exemplo as obras ‘Strategic mergers…’, ‘Consolidating colleges and mergers…’, ‘Designing the new American university…’. de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste ensaio.
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    Moniz/Um novo horizonte/60 Equal é a alternativa? Manter tudo como está por entre as IES Portuguesas? Os elementos céticos constituintes da academia poderão perguntar ‘Será que isto funciona?’, ‘Como pode uma fusão ou um consórcio colaborativo participativo, ser ético?’ No entanto, pode ser preciso ponderar sobre este processo, o qual tem que respeitar todas as considerações pessoais e profissionais, estratégicas. Há condições especiais sobre o ‘fazer’, como fazer: a integração, mútuo acordo46 , faculdades, acreditação, governança, unidades de crédito para estudantes, registos e confidencialidade, associações de alumni. E procedimentos de alinhar (numa sequência de realimentação) desde ensino pós-secundário, profissional até ao ensino superior mais avançado, passo a passo. Os sistemas educacionais do ensino superior deveriam, ao focar nas prioridades institucionais, prosseguir para um contexto mais alargado. E informar o público, de que existe (ou poderia vir a existir…) uma organização, uma estrutura de ensino superior muito mais lata por entre IES públicas. Afigura-se ser difícil, entre os seus objetivos e características de governança, mas quando há possibilidade de crescimento mútuo, pode ser em conjunto. E haver uma estratégia de crescimento em parceria. Complexidades maiores podem ser confrontadas com planeamento, podendo ultrapassar de forma significativa as burocracias; existirem também formas de crescimento orientado, estruturalmente apoiado pela tutela, 46 Por exemplo, um plano estratégico comum ou articulado.
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    Moniz/Um novo horizonte/61 obviamente,e de forma … competente (e, sim, incluindo financeiramente!) para implementar de forma vigorosa, sustentada e credível esse desenvolvimento consorciado. Apresentemos então ‘consórcios’, conceito que pode ir desde a ‘fusão’, passando por uma rede simples em que apenas sectorialmente se fazem certas partilhas ou alinhamentos, até à noção de ‘consórcio’ com alguma atividade ‘orgânica’ de arranque (residual mas não nula, para o concretizar em plenitude a médio-longo prazo). Termos um consórcio (termo lato e flexível q.b. para abarcar estruturas, redes, operacionalidades e de permitir ampla progressão) requer fazer arranjos necessários para expandir o alcance das instituições, mesmo aquelas que estão afastadas dos centros de decisão. O objetivo tem de ser humanamente criativo. Será um longo processo, ‘orgânico’, mas certamente, eventualmente, frutífero. Será potenciador (!) de aumento de receita, de admissões, se, por entre a nova rede criada, por intermédio de consultas de programas acadêmicos, houver mobilidade. Como forma de combater o declínio das candidaturas. Por vezes, nos programas promocionais temos muita procura, depois muito menos e seguindo-se uma estagnação para depois voltar a ter um maior número de estudantes. Há uma volatilidade (e não estabilidade) no interesse versus procura, sobretudo em cursos de ou com matemática-física, tecnologia, engenharia, ciências biológicas. Para que hajam mais estudantes que venham para essa nova estrutura organizacional, em rede, do que para a mera soma de cada uma das partes, sem rede….isso requer ser algo distinto e diferente. Haverá quem sugira, face às flutuações de ‘mercado’ que se aumente a oferta (ou
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    Moniz/Um novo horizonte/62 areduza), mas também se poderia considerar outra possibilidade: reforçar em qualidade. I.e., manter pelo menos a oferta vigente, agora numa rede, melhorada, como ponto de partida, para dar base ao crescimento subsequente. Se a qualidade de serviços de um consórcio ‘suplantar’ (como medir?) a mera qualidade de cada participante isolado, anteriormente… já se estará a ganhar. Essas ações devem ser integradoras num médio-longo prazo. Tentar mitigar (se possível, eliminar mesmo) o declínio, a redução de candidaturas. Sem dúvida, este tipo de ações representa um passo muito grande, em que temos que repensar velhos hábitos, muitas vezes enraizados e que não queremos mudar, de autoridade e de poder mas sobretudo de autonomia. Termos que alterar tradições e símbolos, muitas vezes acarinhados mas a serem modificados em nome de um ganho, que poderá vir através da partilha operacional, de uma amplitude acrescida de recursos que pode ser substancial. Como já referido, cada vez mais sobretudo em termos de consumíveis faz mais sentido a partilha de operações de compra, na disponibilização de recursos em muito maior escala, duas, três vezes mais. Fusões ou as diversas modalidades de consórcio ao nível do ensino superior, poderão ser uma das formas criativas e eficientes, se bem planeadas, para alcançar e articular uma visão institucional mais larga, uma estratégia mais sólida, mais robusta para as várias instituições integrantes. Calmamente e sobretudo regionalmente. O mais importante é que os motivos para essa aproximação (e nova criação institucional) sejam para atingir um novo patamar de excelência académica e nunca (!) justificados por aspetos financeiros.
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    Moniz/Um novo horizonte/63 Eacresce referir o seguinte termo de comparação: seja, hipoteticamente (mais uma vez…), uma IES com 10000 alunos e um orçamento (via OE) de 30 milhões de euros. E outra com 5000 alunos e 10 milhões de euros por via do OE. Há sobreposição, mas também (forte) complementaridade de estruturas e programas de ensino entre elas… . E a área ‘coberta’ pode passar de uma urbe (cada) de 20 km2 e 50000 habitantes (cada uma) a uma grande região, compreendida e para além de limites urbanos, para potencialmente quase 250,000 habitantes e sobretudo mais influência política por via de deputado(a)s e autarcas. E se houver outra instituição nessa sinergia, estes números aumentam reforçadamente no sentido positivo. Sinergia: ‘1+1’ possibilitando mais que dois. Todos ganham, particularmente em termos de um lobby político irrecusável. Mas que só a união (se eficiente e eficaz!) dará essa força. Obviamente precisa de tempo, várias ‘legislaturas’. Mas precisa igualmente de ter um plano de ação para ser implementado de forma ‘orgânica’ e gradual, para assim desenvolver objetivos e planeamento académico. E no entanto, deve-se sobretudo perguntar até que ponto as missões originais das instituições vão ser afetadas pelo novo plano de junção, até que ponto é que as administrações vão ser capazes. Quais os programas de ensino que se mantêm e quais são alterados, o que está a funcionar e vai continuar a funcionar, ou não? Quais os elementos de acreditação de novos cursos que vão precisar de uma associação e apoio regional? Será que a biblioteca combinada possui um ou dois orçamentos funcionais? Como é que as estruturas, os edifícios, os laboratórios e as unidades de investigação podem passar a ser funcionais nesta junção?
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    Moniz/Um novo horizonte/64 Comojá aqui se mencionou, cada vez mais, sobretudo em termos de consumíveis, faz sentido a partilha de recursos em termos de um consórcio, desde execução de tarefas até aquisição i.e., melhoradamente a compra de e partilha de bens em grandes quantidades, provocando uma redução no custo dos itens por unidade. Tal como estratégias e modalidades de ensino-aprendizagem. Em sinergia: se isolados podemos ir mais céleres, juntos podemos abraçar mais distância47 . A tal que se deve conquistar e deve ser nossa. Mas precisamos de mais ‘braços a remar’ (conjuntamente e em coerência!) e o contexto de ‘nossa’, é agora bem mais lato, não é ‘nós’ contra os outros, tem de ser o coletivo do ‘novo nós, de um novo e maior nosso’: um novo horizonte. ‘Receita orgânica’ Reitere-se que um consórcio pode permitir, por meio de boa administração, reduzir sem dolo humano, na despesa, comprando mais e melhor a menor custo, procurando e negociando com outra voz e representatividade. Mas a vertente da receita, que pode aumentar por via da existência da rede consórcio, deve reforçar aquilo que o OE nos dá... Sejamos mais concretos. A filantropia pode ajudar mas não chegará e ainda não é uma ferramenta corrente. O problema é sem dúvida o declínio possível das candidaturas, a sua volatilidade (a incerteza ou instabilidade anual), saber se temos o número suficiente de estudantes para sustentar toda uma gama de programas académicos, desde o primeiro até ao terceiro ciclo de uma IES. É fulcral 47 Cf. provérbio Africano.
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    Moniz/Um novo horizonte/65 terestudantes de vários cursos pré-superior locais e os que confluem de outros cursos (incluindo não-locais) nesta progressão, mantendo a funcionar toda uma rede com IES. E assim, nesta base, em rede, desde a manutenção de oferta com mobilidade interna e depois prosseguir, ampliando a rede, possibilitando-se em flexibilidade mais oferta. Havendo consenso de parte a parte, poderemos potenciar mais interessados para este ou aquele curso. Agremiar mais candidatos e ter cursos em pleno: objetivo. Vamos elaborar mais. Entretanto, duas notas avisadoras. Por um lado, não deve, nunca deve tomar-se a estrutura de ‘consórcio’, seja em que modalidade ou variante de intensidade de ‘junção’ for, como algo simplesmente para se somar alunos. Um ‘consórcio’ é um processo sinergético que ultrapassa e muito essa aritmética ilusória e perigosa. Em suma, pode ser criar um sistema com vários campi, como é o caso da universidade da Califórnia ou de São Paulo. Criar consórcios criativos em que por exemplo, certos campus são especializados em certas áreas, outros são interdisciplinares e de cooperação geral, em que também se pode possibilitar que cada um dos elementos não perde nenhuma autonomia. Apenas disponibilizam os seus recursos a cada um dos estudantes de cada um dos parceiros, para que possam participar livremente em cursos (agora, comuns), em cada uma das instituições sem qualquer acréscimo no custo. Uma das vantagens é o aumento da oferta e variedade. Mas uma estratégia de crescimento mútuo requer que entre as respetivas missões que as instituições possuíam previamente, haja alguma complementaridade, de forma a enfatizar a visão e a vontade de cada uma delas. Reitera-se: aproximações não se devem fazer por qualquer motivo financeiro. Ao invés, estas estratégias têm como objetivo apoiar, alavancar
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    Moniz/Um novo horizonte/66 asIES participantes de forma a moverem-se com audácia para algo maior, mais criativo, que permita delinear e executar uma estratégia mais ampla e de forma mais segura. Por outro lado, um problema (e grave) é o cinismo e a imediata recusa de estudar a possibilidade do consórcio. Quando muitas IES recentes foram criadas, havia um forte apoio da tutela, sobretudo através de uma coesão territorial necessária e verba para sustentar esse interesse de forma responsável. Havia uma enorme procura de quem queria frequentar o ensino superior. A atividade económica precisava de graduados e também havia fundos que sustentavam esse investimento na forma de construção de edifícios e aquisição de equipamento para laboratórios de investigação. Mas agora, nas condições presentes, em qualquer universidade ou instituto politécnico, temos uma escala (muito!) menor de apoios face às exigências de ‘mercado’. Por exemplo, meros consumíveis, manutenção e disponibilidade de recursos aos estudantes, desde preservar residências a manter cantinas e refeições: não há tanta proveniência de verba por via de programas de financiamento ou OE. Sem mais investimento não se será capaz de continuar a oferecer todos os benefícios académicos tidos no passado. Mesmo que adaptando-se com novas proveniências de fonte de receita, que são ter alunos internacionais e que permitem nalguns casos manter, sustentar (minimamente) alguns cursos. Isso não é necessariamente mau (até são muitíssimo bem-vindos) mas poderá, se não houver robustez estrutural e institucional, significar uma dependência por algo que dantes eram (e bem) (i) uma satisfatória fonte de fundos e (ii) sobretudo, um dístico imensamente agradável e reconfortante de prestígio académico, de reconhecimento e ‘fama’. E agora estamos na contingência de algo ‘externo’
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    Moniz/Um novo horizonte/67 quenão controlamos e que pode impedir a manutenção do fluxo desses alunos: a internacionalização é imensamente prestigiante, permite prolongar a médio-longo prazo colaborações internacionais, concorrer a programas bilaterais e outros. Sinergia realimentada, todos ganham, é um pilar de afirmação académico. Mas ser o único alicerce… Como já se afirmou, rede ou consórcio significa colaboração. Isso mesmo, colaborar. E requer diplomacia, comunicação e confiança, estruturas que permitam (sempre com esforço) ter funções administrativas em congruência, gradualmente em proximidade assimptótica. Seja através de consolidação, fusões, redes ou projetos sectoriais, limitados. A nível administrativo, a operacionalidade integrada, a implementar em rede, numa forma de consórcio, pode ser mais simples do que colaborações académicas interdepartamentais. Os números são sempre fáceis de lidar, o problema, parafraseando Sartre, está nas pessoas. Sensatamente, haverá pois que prosseguir (bem) devagar. De forma serena, por exemplo por meio de protótipos, experiências-piloto na implementação passo a passo, de redes e consórcios amplos, sempre numa postura intrínseca e orgânica. Uma forma seria através da partilha e adaptação de programas informáticos de gestão académica e/ou administrativa. Por vezes, até diferentes instituições para efeitos de compra e gestão de produtos alimentares utilizam programa de contabilidade similares, senão o mesmo, só que… estão configurados de forma bem díspar. E pode impedir uma junção suave e construtiva na mesma rede. E isso já é um obstáculo, mesmo que técnico, que pode ser um passo complicado a ultrapassar.
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    Moniz/Um novo horizonte/68 Aspessoas muitas vezes receiam programas de integração académica em rede de instituições. Mas há que estudar como combinar e reforçar os esforços de diferentes disciplinas, até muitas vezes duplicadas. As pessoas podem sentir que estão a entrar num ‘casamento forçado’ e não têm uma identificação tangível do que querem, do que é preciso. Como obter então, em termos de colaboração, a continuidade de esforços? Como continuar uma conversação e daí a uma negociação, uma coligação de esforços? Como se referiu, há situações em que o programa informático utilizado é o mesmo, se não semelhante para gerir bases de dados dos estudantes ou horários escolares (semanais) nos serviços académicos. Mas podem estar implementados de forma por vezes até muito diferente: é muito difícil assim a partilha de dados, até internamente isso pode acontecer. E comissões inter-faculdade não estão capacitadas a não ser que tenham ab initio uma boa vontade para tentar resolver semelhantes complicações, tanto de natureza operativa como contextual ou ‘ideológica’. Então, operacionalmente, com mais especificidade. Em cada passo, deverão estar administradores e o corpo docente das faculdades, das escolas, desenvolvendo planos conjuntos (!), que a todos sejam compreensivos para iniciar um debate profícuo. Para tal é preciso um planeamento, como instrumento efetivo, que envolva sempre de forma inclusiva os elementos da faculdade: individualmente, também de forma departamental, também através de comissões. E desde o início de qualquer processo de aproximação a um consórcio, são precisos momentos de discussão, de conversação e negociação. Fazê-los por meio de uma forma regulatória mútua, que analise a acreditação termos educacionais. Que discuta o impacto que a instituição emergente poderá ter na cultura
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    Moniz/Um novo horizonte/69 dosestudantes. E também em complexidades intrínsecas, como e.g., nas coleções das bibliotecas ou recursos de ensino - aprendizagem, i.e., equipamento laboratorial, partilha de relações publicas e associações de alumni. A participação neste processo de decisão, para congregar os alumni, é algo que não pode ser desprezado. E sobretudo considerar formas inovadoras de governação acadêmica, de como os desafios desses alinhamentos académicos, podem criar oportunidades em termos de futura liderança. Contra uma onda de conservadorismo, de voltar para as ‘trincheiras’, algumas IES deveriam pois considerar modalidades de consórcio, como uma nova forma de enfrentar estes desafios e dificuldades. É uma nova visão estratégica, onde as academias por meio dos serviços e recursos, ao invés de apenas individualmente, vão permitir redefinir o sistema. Mais radicalmente, cada IES serve como um facilitador, negociador de contratos ao longo de um fluxo. Por onde associar redes computacionais, entidades regionais, faculdades, processos de catalogação de sistemas de biblioteca. Estes são protótipos, embora pequenos mas de modo a iniciar e testar, com vista a uma aproximação de crescimento mútuo, ‘orgânico’, para levar a entrelaçar as instituições. Este cenário é claramente distante e distinto da tradicional fusão, em que um dos elementos cresce com tudo o que o outro larga, mas largando (também alguma raiva) no que ‘perdeu’. Tem de ser, ao invés, um ‘win-win’. Neste novo contexto podemos definir aproximação académica entre IES como uma oportunidade criativa, para combinar de uma forma poderosa recursos educacionais e culturais, desde livros a microscópios, equipamento desportivo, ao mesmo tempo que se preserva (alguma da soberania) ou a autonomia dessas instituições. Procurar desenvolver um processo de sinergia funcional no referente a bibliotecas poderá ser instrutivo e revelador. Uma forma
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    Moniz/Um novo horizonte/70 deter uma rede, um consórcio a funcionar num projeto piloto seria o sector de aquisição, partilha desses recursos, disponibilização por meios digitais com programas e ferramentas, que dessem aos funcionários (docentes e não docentes) e alunos de toda a rede, um acesso rápido e eficaz. Mais ainda, através da aquisição de mais livros e revistas, por meio de plataformas onde o custo pudesse ser partilhado e até reduzido, por forma a chegar a mais ‘consumidores’. E no tocante a ensino-aprendizagem, será necessário preparar os elementos académicos, corpo docente de faculdades e escolas, das mudanças. Há que encorajar iniciativas individuais e de grupos para resolver problemas. Monitorizar o conforto ou o desconforto nesta evolução, ter sessões de auscultação apropriadas para este processo. E elaborar conjuntamente mais serviços, os citados programas piloto, para verificar o progresso. Haverá problemas nas crises. E agarrar aí as oportunidades, fazer uma avaliação da aceitação (ou não) dos objetivos, de forma gradual e implementado ao longo do tempo. Um especto a frisar é o do ‘aconselhamento e acompanhamento’ em termos de qualidade. Na sequência desta aproximação é preciso desenvolver novos sistemas de aconselhamento académico aos alunos, para apoio e assistência social, de aprendizagem, de programas de desporto, aconselhamento profissional e sistemas de colocação de emprego, códigos de conduta, associações académicas, novas modalidades de comunicação, alojamento, de governança das próprias estruturas estudantis, programas de voluntariado. Numa rede, mais e amplos gabinetes de aconselhamento (e pontos de vista), poderão compreender (de forma mais diversa e por isso mesmo, sobretudo melhorada) como manter o(a)s estudantes, para evitar abandonos, as saídas do sistema, sobretudo por razões financeiras. Haverem reuniões
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    Moniz/Um novo horizonte/71 tutoriaisde aconselhamento, personalizadas, para verificar as expectativas e os problemas que estão a surgir. É focar então na ‘garantia da qualidade’ (provar que se está a fazer o que nos comprometemos a fazer). É preciso identificar os cursos que tenham mais dificuldades com as ‘métricas’ que entenderem adequadas. Como conciliar o ‘acompanhamento’ com a ‘garantia’ da qualidade? Como modificar o apoio académico a alunos com dificuldades, para que estas sejam eliminadas? E além do citado, criar diversas comissões, para apreciar novos currículos combinados por entre equipas de departamentos. Criar também novos sistemas integrados de governança nas faculdades e escolas, planos para consolidar políticas de pessoal i.e., os sistemas de categorias, por entre o benefício e responsabilidades e deveres, organização e apresentação de relações públicas da ‘nova’ instituição, desenvolvimento de formação profissional nas faculdades conjuntas. Em suma e reitere-se. O mais importante é em cada passo dessa aproximação, ter-se sempre uma certificação de validade. Para que todos os elementos dessa parceria se identifiquem no crescimento mútuo, de uma forma ‘orgânica’, acrescida e não por qualquer argumento de sobrevivência económica. Este não pode ser um objetivo. Os princípios nucleares orientadores devem apontar o crescimento mútuo e, designadamente, enfatizar missões complementares. Fortalecer as ofertas académicas e curriculares de forma combinada, enfatizar programas de graduação, expandir os recursos das faculdades, reforçar a base financeira e o potencial de ‘lobby’ politico, estabilizar a admissão de novos estudantes, melhorar a eficiência administrativa e a economia, usar todas as oportunidades de relações públicas, expandir a base dos alumni, criar novas sinergias institucionais.
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    Moniz/Um novo horizonte/72 Dajunção (sentido lato e flexível, sempre orgânico) dessas instituições, esses esforços são para ter sucesso. É o desígnio da rede. Claro, é inequívoco que deve haver compromisso e apoio sem reservas para capacitação prévia, criativa através de programas (sectoriais!) de entrelaçamento dessas instituições. Esses esforços são para ter sucesso, repita-se. Devem, por exemplo, enfrentar os desafios da possível redução das admissões e candidaturas. O(a)s administradore(a)s das IES são (ou deveriam ser!) profissionais e vão trabalhar em colaboração (profissional!), através dessas instituições. Em rede, há maior diversidade de experiências e aprendizagem. Desde meios que uns tentaram e não conseguiram: é sempre positivo partilhar o ‘no-result’ e descobrir (agora na rede ampla, pela diversidade de abordagem) como, de outra forma, alcançar o funcionamento (e sucesso). É o ‘consórcio’ a ‘bala de prata’? De jeito nenhum, mas oferece melhor potencial criativo. Cinismo e mesquinhez versus acreditar e positivo A mudança é sempre algo que assusta, preocupa, sobretudo ao nível das IES. E, no entanto, se a mudança tem risco, mantermo-nos com remedeios passivos na esperança de que passe o inverno demográfico, poderá trazer mais descontentamento. É igualmente perigoso se insistirmos em uma única direção, na mesma, para ‘sempre’, na expectativa do OE. O cenário de rede é, pois, outra expectativa. Outra possibilidade. Panaceia? Nunca. Alguns aspetos da nossa tradição terão que ser eliminados, outros (re)desenhados. Será triste,
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    Moniz/Um novo horizonte/73 defacto, ver que algumas coisas que nós fizemos, poderão ter que ser alteradas. Mas temos que tentar preservar o nuclear, aquilo que são os valores principais e partilhá-los, a envolvência, mas numa forma que não fizemos anteriormente. A imensa e dura realidade é que já não temos ou não vamos ter os recursos que tivemos para fazer tudo aquilo que pudemos no passado. Criar ‘novos’ programas irá sempre enfrentar diferentes formas de fazer, mas hoje nas faculdades o uso de novas tecnologias, para determinados cursos, podem abrir recursos e diálogos intelectuais. Para casos específicos, uma possibilidade de partilha e presença, que surja sempre de forma ‘orgânica’, sem fazer propostas de ‘cima para baixo’, no que seria sempre vista como uma ameaça à autonomia de faculdades ou escolas, às pessoas. As IES públicas têm sido tradicionalmente colocadas a competir umas contra (!) as outras. Por exemplo, uma surge com um curso ou programa de uma determinada disciplina e outras instituições, próximas ou que têm alguma ‘rivalidade’, querem um programa semelhante. Mesmo que não tenham a totalidade dos recursos (humanos e materiais) para o fazer. Mas quem paga depois? O/a contribuinte e depois temos cursos com pouco(a)s aluno(a)s, em formato ‘clone’, ‘a bem da coesão territorial’. E despesa pública. Quem paga? Onde está a riqueza valorizada e produzida? Rivalizar e competir no sentido de atacar entre IES, acontece muitas vezes. Mas temos que passar para além deste ponto. Ou acabamos sem cursos, a médio- prazo, pois numa instituição, se temos, por exemplo, 5 alunos candidatos, noutra temos 4 e na outra temos 3, a totalidade pode ser suficiente para que um curso em rede funcione, mas individualmente, para cada uma, não dá. Como conseguir que um percurso do 1º ao 3º ciclo seja 'alimentado'? Se houver alunos suficientes numa região para que se insiram, transitem entre instituições da rede, para que, por exemplo, um 2º ciclo possa ser operacional, ganha a
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    Moniz/Um novo horizonte/74 região.Ganha a rede. A comunidade económica ganha. Uma tal potencialidade, de um 2º ciclo funcionar na região e ser operacional numa das instituições parceiras da rede, é bom para toda a região. E para a rede, o ‘consórcio’. Tem é de haver a cobertura de uma estrutura com instituições-parceiras, numa única, nova ampla instituição-rede, afirmada no primado de uma intensa, vibrante intrínseca mobilidade académica. Idem, abordar de uma forma inicialmente informal, em modo de termos diferentes instituições e programas a trabalhar. Algo que não teve (tanto) sucesso quanto merecia ter (mas o seu ‘design’ e alavancagem legal estava corroída por inépcia de legislação) foram inicialmente os programas doutorais da FCT. Tiveram e alguns têm interesse para alguns estudantes, para algumas Universidades e Institutos Politécnicos. E são, subtilmente já (uma espécie de) um consórcio, entre IES. Poderia essa experiência ser reconduzida, e claro melhorada, adequada em aprovação aos valores e critérios intrínsecos das instituições. Em que teríamos (mais) aulas de especialistas, ou seminários online (webinars por entre centros e unidades de investigação), algo que agora se transformou numa experiência generalizada, corrente, fluente e rotineira, mundana, sem qualquer tipo de ‘anticorpos’ (!) e em tempo real. As novas e melhores tecnologias, quer para estudantes quer para as IES, permitem essa colaboração no âmbito da investigação e graduação de 2º mas sobretudo 3º ciclo (doutoramento). E cada vez mais, de forma ‘orgânica’, para se criarem cursos únicos, novos e abertos aos estudantes de cada uma dessas IES, que queiram participar numa tal rede. Os estudantes poderiam inscrever-se nos
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    Moniz/Um novo horizonte/75 cursose eventualmente obter certificados ou diplomas, através de exames (de alguma forma a definir). E em que, por exemplo, essas aulas poderiam estar gravadas, devidamente guardadas e até referidas para quando os estudantes precisassem de aceder a elas, como é, por exemplo (e vou mencionar de novo, louvando) o caso paradigmático da Universidade de São Paulo no Brasil. Oxalá houvessem mais como ela48 . Uma das leis universais na vida académica é que existe um alinhamento muito forte em manter o status quo. Ceticismos e cinismos académicos quase sempre impedem o início de uma discussão sobre a estrutura dos consórcios académicos. Mas é fundamental conversar, especular, ter atrevimento sobre o que, como, quanto e quando fazer parte da IES do futuro. As modalidades de consórcio, de estruturação e rede podem e devem diferir, em função da participação de cada IES. O cenário de rede, tem de ser concretizado através de um crescimento planeado, exploração ‘orgânica’, daí progredindo em consolidação gradual mútua de serviços e depois ensino. Isso não desmerece consideração. Sem ser preciso afastar ninguém. Haveria que aprender fazendo, de forma controlada, monitorizada. Adquirir experiência e sobretudo da gestão. Não há outra forma de o dizer mas as IES, sobretudo aquelas que se querem afirmar numa forma de liderança, sobretudo em função dos números que carregam com elas, do número de docentes, de faculdades ou escolas, de verba do OE, de verba dos alunos 48 E referir o IMPA no Rio de Janeiro ou o exemplo do MIT, com o pioneiro CourseWare.
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    Moniz/Um novo horizonte/76 internacionais,deveriam ter a coragem de formular novas propostas de ensino e aprendizagem, mais amplas e abrangentes, mais arrojadas do que têm sido, muito para além do que a IES têm até aqui formado. A oportunidade é sobretudo de realizarem através de alianças, uma comunidade educativa, na já referida aldeia académica global, usando as novas tecnologias. Claro que isto será mais fácil em determinadas situações49 , cursos e públicos, com uma clara maturidade, experiência e capacidade. Depois, talvez ser também disponibilizado a outros níveis. Como o ampliar em arte e museus de ciência, fóruns sobre cultura. Disponibilizar por diferentes formas criativas, os recursos e os elementos disponíveis nas bibliotecas, como se mencionou. Uma situação que todos desejamos é reusar os campii, com participantes presenciais, e onde alguns dos materiais poderiam estar disponíveis, sempre que assim se entendesse, quando quisessem e também online. Disponibilizar um espaço na internet dedicado ao conhecimento e aberto para questões, sobretudo em contacto com colaboradores em diferentes pontos. O novo campus tem que se construir para além das fronteiras estritas do passado, tem que ser um campus virado para uma comunidade mais alargada, numa nova forma de IES50 . Tem que se transformar. E será que vamos precisar de novas estruturas? Designadamente de governação? Talvez não. 49 Por exemplo, com sistemas de reconhecimento de voz e tradução automática, haver quem lecione uma aula em Mandarim, localmente em Pequim, mas também uma turma em Lisboa, que acompanha em tempo real (nb. a diferença horária pode ser de 8h…) com tradução automática fiel em Português. Ao mesmo tempo uma outra turma em Madrid ouve a mesma aula … 50 O novo campus poderia ter uma componente on-line flexível e disponível além do histórico assente na sala de aula. Sim, é um novo horizonte…
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    Moniz/Um novo horizonte/77 Hátambém que saber reconhecer que entre faculdades ou escolas, não somos iguais. E alguns professores são melhores em aulas ‘magnas’, outros são muito melhores em grupos pequenos, outros com seminários e tutoriais. E esta escolha do que e como ensinar, quem e quanto ensinar poderá ser liberada. Concretamente, de forma a que cada um possa contribuir no grau de maximizador que entenda, que consiga, no âmbito do seu talento. Um novo ensino, com novas amplitudes e procedimentos, recursos e metodologias, tão diferentes e diversificadas como os professores disponíveis, irá ao encontro daquilo que um aluno ou uma aluna também precisa desenvolver. Há que referir, admitir que esforços houveram, muitas vezes ponderados no sentido de se reduzir despesa, muitas vezes dominada pela eliminação de empregos administrativos, incluindo direção de faculdades e departamentos. No entanto, os consórcios (mais comprometidos i.e., fusão ou então, simples operacionalidade em rede) não fazem sentido (em quaisquer termos académicos) se com o objetivo de justificar reduzir custos administrativos na forma de eliminar postos de trabalho. Não há qualquer base que justifique ou até que explique que isso, com exemplos concretos, realmente permitiu poupar algum dinheiro. Reduzir e eliminar esses postos, significará que a própria instituição se vai gradualmente apagar. Eliminando os empregos e os salários de alguns postos administrativos, a verdade é que não é simplesmente por reduzir essas posições que se resolve algo. Ficará pior: apenas nos deixa com consequências mais graves ainda. Mormente, depois não temos quem faça esse trabalho: essa quantidade de trabalho, as tarefas irão ser transmitidas para docentes, que ficarão sem qualquer margem para poderem fazer mais e melhor investigação, melhor ensino e sobretudo em termos de apoio na pesquisa. ‘Apagão’…
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    Moniz/Um novo horizonte/78 Sejampois três elementos que poderão ser determinantes para enfrentar o ceticismo quando perguntam ‘O que é que é novo nesta estratégia?’, ‘Será que não se está simplesmente a juntar ‘vícios’ e pessoas e já está feito?’. A resposta é não. Número um, fazer porque é primordial, para que surja, por meio de um planeamento, uma missão conjunta. Assegurando a manutenção e presença, para depois se prosseguir e desenvolver academicamente. Número dois, é também preciso uma perspetiva de partilha de recursos e entre campus. Número três, é preciso igualmente um enriquecimento académico através de colaborações formais e informais na consolidação. Estes três elementos, junto com o envolvimento de novas visões e perspetivas, são cruciais. Abarcando os serviços de uma forma agora bem mais lata, no tocante à gestão de pessoal, do planeamento financeiro, a governança das novas faculdades ou escolas, adaptação a novas modalidades curriculares tendo como objetivo o ensino-aprendizagem de qualidade e integrar numa estrutura comum as relações públicas. Todas elas têm que ser combinadas num conjunto de agora maior amplitude, com unidades orgânicas, IES, de forma a formar uma nova instituição, uma nova identidade estrutural. Elas constituem uma nova estratégia de gestão académica, que a ser aplicada por várias localidades, dependente do seu tamanho, da sua missão anterior, serão transferidas em novas exigências, de contabilidade a prestar a novos estudantes, às associações de alumni, até entidades regionais e nacionais (incluindo de acreditação) e até da própria tutela. Vai ser preciso um compromisso. Será uma evolução para um ‘novo campus’, para algo mais genérico e abrangente, é preciso uma atitude de junção, é preciso uma visão partilhada. E, finalmente, a decisão de juntar tem que vir de cada uma das instituições, ao entender que o
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    Moniz/Um novo horizonte/79 seupróprio potencial pode e melhora com outras. É como aquele provérbio Africano, relembre-se, ‘sozinhos vamos mais rápidos mas juntos, vamos mais longe’. É essa escolha de ir mais longe51 , para ter mais recursos, mais alunos, mais do que temos individualmente, que oferece uma oportunidade única e imediata de crescimento e desenvolvimento, que não existe para cada uma delas isoladamente. E os recursos são (serão? cada vez mais?) restritos, mas mesmo muito mais restritos. Antecipando os próximos capítulos, uma pergunta em jeito de ‘ponte’: o ensino secundário pode ser um bilhete para a oportunidade de aprendizagem subsequente, ‘avançada’; como é que então a experiência académica de ensino superior faz para assegurar o sucesso, com abordagens ao ensino e aprendizagem, de forma a trazer conhecimento, ideias, capacidades e competências? Como será então (sempre para melhor) que o consórcio providenciará esse sucesso para os estudantes? Inovação académica, ampla e arrojada, para fazer face aos desafios, irá requerer uma alteração operacional. Sobretudo de procedimentos, em modo de mentalização. I.e., cultura institucional. Ou griffe. E também em metodologia. O ensino e a aprendizagem (e decorrentemente o sucesso dos estudantes) tem que estar na missão da instituição. Assegurar o sucesso dos estudantes, cuidar de forma ativa, apoiado em tecnologia. Promover o desenvolvimento de capacidades. Num consórcio, como potenciar para que se concretize em 51 Infelizmente, por vezes é nos ditado para ficarmos ‘centrados’ num ou outro ‘Terreiro’ de qualquer lugar, e não se vai dobrar o promontório, passar para além. …
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    Moniz/Um novo horizonte/80 melhor?I.e., como alterar, mudar, melhorar, a operacionalidade? Porque a comunidade académica é de e para as pessoas, apaixonadamente com e para as pessoas. E, sobretudo, haver a coragem de redesenhar os cursos, as IES, para que a vivência dos estudantes possa ser melhorada. Em suma, novas comunidades criativas de ensino, de aprendizagem e …autoaprendizagem.
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    Moniz/Um novo horizonte/81 “Émuito difícil introduzir regras morais na inteligência artificial” Arlindo Oliveira. Inteligência Artificial Chega de ‘economia’. Ela irá permear, pairar, reemergirá. E, no entanto, temos de indagar acerca de outras linhas, que complementarmente possam dar uma vantagem, onde ainda ninguém tenha ido ou se afirmado. Temos de inovar, agarrar a oportunidade. Ela passa e já será tarde. Já só será a reboque e numa segunda passagem onde outras IES lideram e definem. E mandam. Pois controlarão. Não é uma novidade, quando desde exemplos com tons de caricatura (Charlie Chaplin, ‘Tempos Modernos’…), a previsível automação tem sido considerada como uma ameaça ao trabalho manual, incluindo muitos ofícios hoje, considerados na economia do conhecimento. Muitos deles estão hoje sob a alçada do risco destas novas máquinas. Se considerarmos funções que exigem capacidades e habilitações elevadas, tal como hematologia médica, avaliação legal
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    Moniz/Um novo horizonte/82 ejurídica e até análise de miríades de dados, as máquinas do século XXI avançam, cada vez mais capazes de decidir acerca de investimentos, produzir diagnósticos e transformar (traduzindo sem erro?) em qualquer outra língua. É difícil entender e prever os limites (ou os não-limites) das suas capacidades; aponta-se que o potencial da tecnologia de alterar a nossa economia e a nossa civilização não terá precedentes. O alerta aqui fica52 : Em Portugal, a IES que escolher53 ‘desde ontem’ investir na IA54 , para ser uma instituição de referência nesta década e para o século corrente, que a empregue de forma ativa no ensino-aprendizagem, na execução da sua missão, será aquela que não será absorvida em processos de uma ‘espécie de layoff’ para impedir ‘insolvência’, numa aglutinação ou aquisição forçada em outras instituições. A sobrevivência, em termos de décadas contadas para fim do século (eu sei que vem longe, mas em 2000 faltavam 100 anos, agora (e foi rápido), faltam 80…), será unicamente possível para aquelas que, entretanto, de forma próxima, souberem e quiserem (!) participar no futuro de forma credível, coliderando na navegação desses novos oceanos, por novos cabos a tornear. O problema de tanto se citar D. João II ou ter quadros com ele representado, é que se adota, de forma acomodada, uma ilusão 52 Alguém se lembra da incidência comercial dos carros elétricos, 30 anos atrás? Ou mesmo 10 anos? E as previsões para os próximos 10 ou 20 anos? O ‘motor’ dessa mudança foi a preocupação ambiental e climatérica… . Acham que vai retroceder? 53 Por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. por exemplo as obras ‘Robot-Proof…’, ‘Inteligência Artificial…’, ‘The second machine age…’, de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste ensaio. 54 IA = Inteligência Artificial = AI (Inglês); Designação coletiva para tecnologias digitais que permitem aos computadores e às máquinas empreenderem tarefas que só eram possíveis anteriormente por seres humanos. Em IA, as máquinas ‘descobrem’ padrões nos dados e tarefas, aprendem assim as capacidades e habilitações. Numa metodologia do ‘por exemplo’. Com IA, podemos dispor de resiliência para tarefas duras, robustez junto com eficiência em linhas de produção. A Comissão Europeia em Fevereiro de 2020 tomou a IA como uma das linhas mestras de desenvolvimento para década seguinte… . Porventura de implementação, depois integração, manutenção, nas décadas subsequentes. Veremos (ou alguém irá ver) no final deste século…
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    Moniz/Um novo horizonte/83 icónicae não uma atitude de iconoclastia (ou disrupção), ninguém surge para novas venturas e riscos. O ensino superior precisa dramaticamente de um realinhamento urgente com esta nova realidade, da revolução tecnológica neste novo século, conforme descrito. Se rejeitarem, devem assumir a responsabilidade da oclusão gradual, parcial, mas irreversível. Para além de, se quiserem ignorar os alertas, continuarem a fornecer aos alunos de ensino superior uma instrução para empregos que poderão estar ou vir (em breve?) a desaparecer… À medida que esta onda da nova tecnologia se avizinha em Portugal, as IES do século XXI deveriam libertar-se de alguns modelos fora de prazo, de carreiras e antes lutar pelos alunos e alunas, de o(a)s dotarem de alguma capacidade, para este(a)s deterem a propriedade dos seus próprios futuros. Eles deveriam equipar-se com a melhor capacidade de literacia científica e humanística, competências e capacidades que o(a)s possibilitem suceder nesta nova economia, definida por esta nova tecnologia. E ser-lhes providenciado um acesso a um ensino que cada vez será mais diverso e global. O ensino superior precisa de novos modelos e uma nova orientação, muito para além do que tem sido. Com o foco no primeiro ciclo e apontando para o segundo ciclo ou depois 3º ciclo, as IES têm que alargar muito mais do que fizeram, para se transformarem em motores de uma aprendizagem ao longo da vida. E para isso tem de haver um desvio educacional55 . 55 Qual será o papel das IES hoje ou amanhã (em breve?) na formação pessoal e humanística dos estudantes, numa era onde ele(a)s consultam preferencialmente as notícias no Youtube, versus o que era a realidade 30 anos atrás?
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    Moniz/Um novo horizonte/84 ‘Osinvasores do espaço’… Tivemos a expansão agrícola. A humanidade adotou a enxada e o arado, assim como motores de força animal. Muito depois seguiu-se a revolução industrial: surgiram as fábricas, motores de combustão e vieram (deslocaram-se…) os ‘agricultores’. Mais recentemente, houve uma radicalização tecnológica, na qual as pessoas se transportaram (mais uma vez mas agora) para novos ofícios, para edifícios de serviços, um ‘cubo’, instaladas em secretárias … . E hoje, ‘amanhã’, porventura, a evolução em que a humanidade exercerá as suas funções de trabalho irá desfazer algumas certezas anteriores. Poder-se-á dizer, estilhaçadas à medida que evolui, pela ação de novas tecnologias, e em vez de carvão, aparelhos elétricos, o motor desta revolução é intrinsecamente digital e porventura muito ‘mais à frente’ que o óbvio ‘robótico’, num sentido bem mais abrangente56 . Máquinas com cada vez mais, melhor e sobretudo diferente poder de processamento continuam a surgir. Duplicando e replicando as capacidades. E sobretudo as próprias máquinas ‘aprendem’: a capacidade que têm de aprender com os dados, em vez de o fazer por intermedio de uma operação explicita de programação. Estas máquinas progridem a transformar o mundo, à semelhança da máquina a vapor. Não tem sido negado que muitos dos empregos em alguns países desenvolvidos correm o risco de automação nas próximas duas ou três décadas, durante 56 Chegará o dia em que o aluno tem um tutor robot devidamente capacitado para instruir o aluno numa área específica? Algum dia passarão para outro nível, o da autoconsciência, o que as aproximaria, indubitavelmente, da chamada inteligência humana? Isso é impossível e não existem nem existirão jamais 'máquinas pensantes'?
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    Moniz/Um novo horizonte/85 ocorrente século. I.e., muitos empregos em empresas poderão estar reduzidos (de um terço a metade), devido ao emprego desta nova tecnologia: poder-se-á antever que cerca de metade do trabalho que os seres humanos estão habituados a fazer e a ser pagos por isso, poderão ser desenvolvidos por máquinas automáticas, eliminando a necessidade de pagar a humanos para essa tarefa… . O que poderá corresponder a vários montantes entre os biliões e os triliões de euros. ‘É a economia’, já o disse… Muitos empreendedores, investidores, investigadores e executivos têm dito que o futuro baseado na tecnologia irá ou já está a chegar muito mais rápido do que alguma vez pensaram. Isto tem a ver com a inteligência artificial. Não será apenas a criação de campus ligados em rede, porque depois do 5G, há de chegar o ‘6G’ e assim sucessivamente, mas o conceito de estruturas inteligentes: é um conceito fundamental das máquinas, de sistemas que podem auto- aprender, depois reproduzir, repetir tarefas que os humanos faziam por raciocínio. Irá certamente alterar a relação entre mente (humana) e a máquina ‘humana’. É prudente declarar que é impossível antecipar hoje o que amanhã será: a rapidez do desenvolvimento da inteligência artificial é estonteante. Por exemplo, no âmbito de autoaprendizagem (reforçada), nomeadamente a classificação e identificação de imagem ou reconhecimento de voz, assim como outras áreas. É todo um novo território57 , um novo 57 Um exemplo é a máquina Deep-Q, construída, por uma empresa (Deep Mind Tech) localizada em Londres, adquirida pela Google: ensinou-se essa estrutura, essa máquina como jogar os jogos de vídeo Atari, designadamente ‘os invasores do espaço’. Mas ensinou-se simplesmente apenas olhando para o ecrã; não havia qualquer outra programação. Ao fim de algumas poucas horas de observar e praticando, a máquina atingiu níveis de execução supra-humanas. Cf. por exemplo, ArXiv:1908.06040 (F. Moreno-Veja). E sim, é mesma empresa (https://www.bbc.com/news/technology-55157940) que participou na descoberta citada em
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    Moniz/Um novo horizonte/86 horizonte,uma nova fronteira, presente já em muitas outras abordagens na inteligência artificial aplicada, nos motores de busca da internet, nos anúncios online no comércio eletrónico e até na deteção de fraude, diagnóstico médico, aconselhamento financeiro e de investimento, até simples serviços para clientes. Muito será profundamente transformado pelas máquinas da inteligência artificial. Muitas tarefas serão executadas por algo bem mais inesperado que meros ‘robôs’. Há, no entanto, um paradoxo curioso. É o paradoxo de Moravec58 : crianças pequenas ainda são mais ágeis e têm mais eficácia do que o mais sofisticado dos robôs. De forma mais concreta, estes estão a ficar cada vez melhores, mais rápidos e capazes por exemplo, de efetuar sequências genómicas. E a impressão 3D está a ficar cada vez mais rápida. Exemplos de ficção científica em décadas atrás são hoje uma realidade. É relativamente fácil produzir computadores, que exibem uma capacidade adulta de execução de tarefas inteligentes, como jogar xadrez ou Go. Mas… é difícil ou impossível (por enquanto…) dar-lhes tarefas que um garoto ou uma garota de cinco ou seis anos faria, apenas com a sua motricidade. Este paradoxo afirma que a inteligência artificial, ao contrário daquilo que é ‘falado na rua’, é excecional eficazeficiente em tarefas lógico- dedutivas que tenham pouca coordenação, mas tarefas ‘pouco exigentes’ que tenham uma elevada diversidade de aspetos sensor-motores de coordenação, implicam ter imensos recursos disponíveis de computação. A mensagem é que a inteligência artificial consegue facilmente resolver problemas difíceis, mas resolver problemas fáceis é lhe ‘astronomicamente difícil’. https://www.bbc.com/news/science-environment-55133972 (“One of biology's biggest mysteries 'largely solved' by AI”). Estamos avisados? 58 H. Moravec, (1988), ‘Mind Children’, MIT Press
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    Moniz/Um novo horizonte/87 Masuma nova geração de máquinas inteligentes, para substituir, e.g., analistas do mercado financeiro e engenheiros petroquímicos, está a caminho. No entanto, tarefas como jardinagem, rececionista, professores e cozinheiros podem ainda demorar várias décadas até ser substituídos (?) pelas máquinas. Obviamente que até as máquinas de aspiração (e.g., Roomba) não fazem tudo o que um servente fará, apenas conseguem limpar o chão e não são capazes de olhar para as mesas e arrumá-las, mas lá se chegará59 . Ensino: excitar a criatividade A emergência destas novas indústrias com estas novas tecnologias, descartando milhões de empregos, incluindo empregos híbridos, poderá induzir uma capacidade sem precedentes, de até especialistas de programação ou análise de dados se tornarem supérfluos. Os novos graduados terão de competir com este cenário, ao mesmo tempo que precisam de aptidões muito mais latas: têm que ser criadores. A criatividade será a base conjunta de uma atividade económica, onde esta automação estará presente: máquinas inteligentes e 59 Um outro caso interessante: uma empresa de jarros e copos com uma linha de montagem mecânica, que utilizava caixas de cartão mas em que a máquina não os segurava corretamente. Isso não tem qualquer problema para uma pessoa que simplesmente vê os copos, agarra-os (com cuidado…) e põe-nos na montagem. No entanto, o problema é que muitas vezes, quando chegam, esses copos não estão bem alinhados e se forem ao invés maquinas a fazer a tarefa, estas não identificam esse (des)alinhamento e não sabem rigorosamente o que fazer no ponto de partida. Uma empresa tentou criar robôs, que não necessitavam de ser programados por engenheiros (com salário elevado!) e que essas máquinas aprenderiam por elas próprias ou aprendiam umas com as outras, como fazer a tarefa. Os robôs eram chamados de Baxter. Pareciam de facto robôs, toscos mas … conseguiu-se treinar o robô. Simplesmente …levando pelo pulso (!!!) e pelo braço do robô, de forma a aprender os movimentos tal como uma criança aprende, levando pela mão e pelo braço. O robô soube assim, desta forma ‘humana’, aprender o que teria mais peso ou menos peso, de forma a trabalhar de uma forma segura, nomeadamente com os frascos… . Cf. https://robots.ieee.org/robots/baxter/.
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    Moniz/Um novo horizonte/88 ‘conscientes’,irão libertar milhões da rotina laboral, uma grande quantidade de trabalho60 … . Mas tarefas como curas para a malária, o que limpar no ambiente e acabar com a pobreza, irão requerer o talento humano. As novas máquinas no novo enquadramento61 do século XXI, certamente ajudarão a explorar e a melhorar o mundo em que vivemos; os seres humanos têm que fazer parte dessa descoberta mas de uma forma criativa e com novas capacidades e mais e melhores habilitações. E aí é que o ensino superior terá um papel determinante. Mas tão somente entre as IES Portuguesas que, já e rapidamente e em força, forem desenvolver e empoderar uma nova geração de criadores, mulheres e homens que saberão empregar estas novas tecnologias. À medida que a nova tecnologia, a nova sociedade se transforma, com a presença destas máquinas inteligentes, uma nova educação via ensino superior tem de surgir. E tem mesmo! Sobretudo, para continuar a atribuir uma aprendizagem ao longo da vida, com uma carreira correspondente. O progresso tecnológico não será o único a afetar o fator trabalho, o salário. A democracia, a demografia também importa. Mas aceitemos que a alteração tecnológica a irá influenciar profundamente, daí a pergunta: o que é que devemos fazer sobretudo em termos de academia? Como preservar os benefícios do progresso tecnológico, lidar com as mudanças 60 Para se ser criativo, é necessário dominar os conceitos. Para dominar os conceitos, tem que se abandonar a memorização de receituários. A disrupção tecnológica está alinhada com o aprender a pensar com criatividade: é um dos skills a ter em conta no resto do século XXI (e no futuro). 61 I.e., o novo horizonte…
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    Moniz/Um novo horizonte/89 paraa formação, o ensino e a força laboral? Isto é importante para desenvolver futuras máquinas inteligentes como também a formação que temos de dar aos nossos alunos. Será realista imaginar que a mera aprendizagem online será ‘capaz’ de resolver ou pelo menos em parte, as questões do ensino? Desde há várias décadas tem havido uma tendência para o aumento do custo por aluno, que pode variar de caso para caso, mas esse aumento dos custos por aluno tem sido mais rápido que a generalidade dos custos a longo prazo. Esta situação ficou conhecida de certa forma pela lei de Bowen62 . Quando foi mencionada, ocorreu algum (bastante!) ceticismo. Dito de outra forma, para um longo intervalo de tempo, a tendência de aumento dos custos por aluno numa instituição, eram muito mais rápidos do que os aumentos gerais nesse mesmo longo período. A questão (e desafio) permanece. Mas retornemos à discussão, não consideremos por enquanto custos versus benefícios. Isto de ‘inteligência artificial’ é pôr tudo online e está feito? Ou não? Se o online não chega nem tem o ‘q.b.’, o que vai faltar então? O problema é haver estreiteza mental de se identificar ‘tout court’ inteligência artificial com videoconferências ou robôs de aspiração… . A alternativa é planear, juntar as estas novas literacias as capacidades cognitivas integradas, as quais terão de ajudar os estudantes a adquirir competências de ‘computação’, um 62 Cf. www.amazon.com/costs-high-education-colleges-universities/dp/0875894852.
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    Moniz/Um novo horizonte/90 poderde adaptar às novas capacidades destas novas máquinas, as quais aprendem per se. Ter engenho, ter criatividade: apenas desta forma ele(a)s (i.e., estudantes) serão capazes de colaborar com outras pessoas e… outras máquinas! É o poder que a humanidade tem para este novo século XXI e no qual as IES (mas apenas aquelas que quiserem e nesse sentido, aquelas que souberem tomar isto em mãos…) poderão ser chave. As IES vão ter sobretudo de providenciar uma nova forma de aprendizagem, muito abrangente, que vai desde aquilo que se possa chamar as artes liberais, educação e desenvolvimento intelectual até ferramentas de lógica e matemática, para o mundo em mudança. De forma que o(a)s aluno(a)s de hoje, as mulheres e os homens da manhã, possam ter sucesso nos seus futuros empregos. Ao lado da revolução da inteligência artificial: novas, outras pedagogias assentes na aprendizagem efetiva, algo prático usando essa tecnologia de uma forma radical. Não apenas passiva para levar ao encontro dos alunos seminários em tempo real e assegurar a sua performance, mas usar toda uma ‘cidade’ como um campus moderno, uma IES do futuro, cidades inteligentes também Smart Campus, campus inteligentes. Mas não só. Isso é obvio. Ferramentas para ensino e aprendizagem, que podem e devem ser usadas para um mundo em mudança acelerada. E atingir os objetivos, os alvos que possam ser colocados em termos de natureza criativa, quando a inteligência artificial e as máquinas superinteligentes forem ‘rotina’. Porquê? Pois, porque um ciclo de inovação-desenvolvimento-inovação autoalimenta a sociedade humana, que perante problemas comuns, sejam ambientais ou pandemias, tenderá a alinhar-se mais no futuro.
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    Moniz/Um novo horizonte/91 Emmais detalhe, com mais elaboração. Por um lado, existem sistemas, aplicativos para acompanhar o progresso do(a)s estudantes. Eou identificar áreas ou situações de dificuldade que precisem de análises, discussão e atenção para resolver problemas de ensino e aprendizagem. Ou atribuir tarefas, dependentes de progressão, situação pessoal ou até distancia de atendimento. Não se trata de ensinar muitos alunos a distância; ao invés, um professor presencial consegue isso e melhor, incluindo por meio de ensino tão-centrado q.b. no aluno quanto possível … . É sim fazer análise de aprendizagem, com recurso a tecnologia, de 100 ou até 500 alunos. Ou mais. O ensino mas sobretudo a aprendizagem podem ser mais eficientes e tornarem-se (ainda mais) socialmente determinantes. Como ter um analista exclusivo per aluno(a), que o(a) acompanha ‘individualmente’, de forma sempre complementar ao trabalho de grupo de uma comissão de curso, incluindo, claro o(a) docente que ensina. Com o ensino ainda na sala de aula presencial, a aprendizagem será por uma plataforma mais alargada, mas entrelaçada (entenda-se mais rica de oportunidades e disponibilidade, democraticamente ao serviço e opção do(a) utilizador(a)), via a nova tecnologia de IA. Consulte-se o Watson Project, da IBM63 . Ou outros ‘abraçados’ no desígnio paras as décadas seguintes, conforme a Comissão Europeia atribuiu. Em suma, adaptar o ensino, mas sobretudo a aprendizagem, a cada aluno, às suas necessidades, características, centrado no próprio aluno mas agora devidamente. Ou pelo menos melhor que o desenrascanço vigente, onde ‘Bolonha existe’ mas quanto a ser fundamentalmente, 63 Cf. https://www.ibm.com/thought-leadership/smart/ ou https://researcher.watson.ibm.com/researcher/view_group.php?id=2099
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    Moniz/Um novo horizonte/92 plenamente,integralmente, amplamente satisfatória… . Talvez e.g., o Watson ajude de forma significativa a tornar esse processo, declarado e celebrado, um pouco mais real e menos um tópico de mero preenchimento em debate televisivo. Por outro lado, o(a)s novo(a)s estudantes irão adquirir aptidões e conhecimentos de uma forma integrada, ‘holística’, por várias fontes e em diversidade, não apenas tecnologia. Uma formação que lhes dará uma perspetiva de se adaptar a um mundo em mudança e que irá evoluir a uma velocidade, com uma aceleração, impensáveis. O ‘novo’ propósito de ensino deverá ser fornecer aos estudantes as competências nucleares e sobretudo de pensamento crítico e criativo, uma capacidade de comunicação e interação efetiva, sobretudo ao nível dos objetivos que devem ser considerados no futuro para os cursos universitários. Não é o conteúdo dos cursos que deve ser o foco, o currículo deve ser reestruturado e deve ser sobretudo seminal, de entusiasmar na busca de conhecimento, os alunos precisam de informação para fazer as melhores escolhas. Estes devem ser os princípios que guiam as nossas decisões naquilo que incluir, excluir e a forma de estruturar o currículo e as concentrações daquilo que devem fazer, os cursos e percursos individuais. É preciso ensinar aos estudantes, nas várias disciplinas que poderão ter e nos conhecimentos que irão adquirir, como comunicar efetivamente. Como extrair material desde linguística, retórica, filosofia, história, literatura, psicologia, neurobiologia e teoria de estratégia e formar teorias. Possuir análise formal, pensamento crítico, habilitar competências de pensamento crítico: lógica e estatística, desenvolvimento de algoritmos de ciência de
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    Moniz/Um novo horizonte/93 decisão.Ser capaz de identificar e desmontar falácias lógicas, usar estatística efetivamente e sobretudo ferramentas matemáticas tal como teoria de jogos para tomar decisões, análise empírica e pensamento criativo. Temos que ter módulos, seminários de introduzir o método científico através de exemplos, através de disciplinas e cursos. Possivelmente, os conteúdos de (algumas?) unidades curriculares (com todos os seus módulos, seminários) têm de ser totalmente redefinidos. Há que implementar uma estrutura que os alunos possam extrair como pensar, como se consegue, como se fazem novas descobertas e como se resolvem problemas64 . Não está em causa não ensinar isto ou aquilo mas sim a forma e o contexto: para que é que aquilo serve, porque é que é ensinado? Tem de inculcar mais e melhor a compreensão de como é que a evidência e os factos são usados. Temos de ser criativos para gerar hipóteses, para as testar, reconhecer possíveis correlações, que são ou preconceituosas ou desenvolver novas soluções e os mecanismos para entender as características chave, sobretudo de sistemas complexos. Como é que podemos extrair possíveis conclusões: sejam sistemas complexos de natureza social ou de mecânica, os estudantes devem entender como compreender, como abordar esses sistemas, desde interações sociais ou até problemas de natureza biológica ou física matemática. O ‘ensinar’ tem de ser um ‘outro’ procedimento, muito, mas mesmo muito diferente. 64 …implica mudar o mindset de alguma gente!
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    Moniz/Um novo horizonte/94 Carreiras.No futuro A IA é, vai ser a nova revolução por entre a humanidade. Como já aqui se referiu, de impacto e magnitude como foram a agrícola e a industrial. Hoje mesmo, serviços de saúde, financeiros e legais já empregam (alguma mas ainda muito pouca) IA. E que vai já determinando como devem mudar para poder melhor empregar estas novas funcionalidades. São redes para aprendizagem ao longo da vida, em momentos diferentes para pessoas diferentes com propostas de vida diferentes. As pessoas têm que ser mais ágeis, adaptáveis, criativas e sobretudo encontrarem o que realmente irá inspirar o ser humano no século XXI. Talvez, até depois, ficando-se assim condicionado. São redes de seres humanos e máquinas de IA, colaborando (!), produzindo comunidades a partir dessas redes, criativas, resilientes e empreendedoras, nunca marginalizadas, por empregarem a nova tecnologia da IA. À medida que a nova tecnologia, a nova sociedade se transforma, com a presença destas máquinas inteligentes, uma nova educação via ensino superior tem de surgir. Sobretudo, para continuar a atribuir uma aprendizagem ao longo da vida, ao invés de uma carreira em bandeja, como até agora … Por isso, o ensino superior com estas novas máquinas que aprendem, não deverá estar apenas focado em preencher as mentes dos estudantes com muitos e muitos factos, mas calibrar aulas com criatividade e com elasticidade mental, para inventarem. Caberá aos estudantes descobrirem e sobretudo produzirem para uma sociedade aquilo que será valioso. Isso poderá ser qualquer coisa desde uma demonstração científica, uma nova música, uma linguagem nova (!) para seres humanos e até uma cura para terminar certos tipos de cancro.
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    Moniz/Um novo horizonte/95 Qualquerque seja a criatividade e a criação, tem que ser original. E original o suficiente para se evadir da etiqueta de rotineira e assim da ‘ameaça’ da automação. Em vez de termos trabalhadores treinados em automação, que serão sim as tarefas de alguns robôs, temos que treinar os novos criadores. O campo da robótica está gradualmente a produzir novas gerações de máquinas, cada vez mais avançadas, pelo que precisamos por entre as várias áreas de estudo, de ensino e aprendizagem, que se possa atribuir um acrescido potencial de criatividade aos seres humanos, por intermédio de um novo ensino superior: dotar os estudantes com mais habilitações criativas, i.e., incentivar a explorar. Temos de fazer ressurgir a criatividade e flexibilidade do ensino, preparar os estudantes para competir e criar. Neste novo mercado de trabalho, as máquinas superiormente inteligentes em comparação com as anteriores, irão trabalhar com profissionais humanos, estes dotados com esta criatividade mencionada. O conhecimento factual, por si só, já não é suficiente para o trabalho de amanhã. Esta nova plataforma laboral, é a ‘humaníca65 ’. Não é apenas um conjunto de áreas de saber assimilado, mas uma nova dinâmica de capacidades cognitivas. Essencialmente, tornar a mente entusiasmada, desenvolvida, novas formas de pensar o mundo, os sistemas, uma capacidade de ver a empresa e a máquina. E sobretudo tomar assuntos de forma ‘holística’, mais abrangente, fazendo conexões entre vários aspetos e várias funções, de uma forma integrada que até então não seria possível. E agora com a presença destas máquinas poderá ser mesmo necessário um conjunto também de empreendedorismo adaptado a este novo desenvolvimento tecnológico. 65 https://www.bbc.com/worklife/article/20190718-humanics
  • 96.
    Moniz/Um novo horizonte/96 Oensino e sobretudo a aprendizagem, como já aqui se referiu, serão (apenas um pouco mais?) assim então personalizados? Ironia, por meio de máquinas em IA? Mas porque não? Se os objetivos de cada um são pessoais e somos vários biliões à superfície desta ‘esfera’. Ou vastas centenas num curso de biologia ou química ou matemática geral… . Essencialmente, Universidades e Institutos Politécnicos têm de tomar o ensino e a aprendizagem (!) além de percursos tradicionais. Possivelmente arrojado, e se o ensino superior abarcar modalidades, menos de ‘compra’ por uso anual, mas antes uma subscrição possibilitando, ao longo da vida, acesso66 a diferentes módulos? Como hoje já se faz, ao invés de canais públicos ou privados de televisão ou rádio, mas com acesso a produções diretas de programas, filmes, séries, por uma quota regular? E a tantos quanto se queira por intermédio dessa subscrição. Demasiado comercial? Vamos trancar o futuro, a oferta e o mercado? A inovação? A sério??! Sobretudo, vai ser preciso ‘marginalidade’ cultural de ensinar aos estudantes como operar de forma desafiadora, numa variedade global de ambientes, verificar e dominar, perceber situações de formas diferentes, muitas vezes aparentemente conflituosas entre elas em termos de cultura. Mas é preciso trabalhar juntos: uma capacidade de pensar crítica e criativa. Todas juntas, estas novas literacias e capacidades cognitivas, integradas nas novas máquinas e nos novos estudantes do novo ensino superior. Alerta: não é uma questão de escolha mas uma questão de necessidade. De sobrevivência. É o futuro. Amanhã mas ‘hoje’. 66 Até um certo ponto, uma ‘gota’ (por entre o vasto ‘oceano’) acontece (mas num modo ainda tradicional sem qualquer disrupção) quando um aluno se inscreve numa unidade curricular por extensão.
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    Moniz/Um novo horizonte/97 Eneste contexto todo, cabe integrar o ensino com modelos de situações de conflito ético, debate de trabalho e negociação. Para que assim se encontrem formas de resolver em equipa, incluindo os instrumentos de inteligência artificial, esses problemas complexos. Ensino que desta forma, diria ontológica, é um ensino que dá ao estudante interdisciplinaridade além da disciplinaridade. O conhecimento é seminal e o ensino não é terminal: é apenas o começo, o arranque para muitos estudos que depois têm que ser feitos. Repita-se, ao longo da vida. Um estudo realizado pela empresa Mckinsey para se encontrar uma melhoria traduzida num aumento de ‘produtividade’ nas IES e sem (!) aumento da despesa (em teoria e em geral), salientou terem que ser elas próprias a se definir e não somente tentarem adaptar-se às outras. E para serem mais sustentáveis, têm que abraçar versões adequadas e um ensino online e ao mesmo tempo manter (em versões também adequadas…) os seus professores a tempo inteiro e os seus campi, as suas zonas físicas. No mundo de disrupção tecnológica, de facto os professores e o espaço de encontro, cara a cara, ainda que possam ser vistos como dispendiosos (mas não o são!), têm um potencial incalculável, permitem às IES desempenhar determinadas funções, que outras instituições estritamente online não conseguem. A premissa é instruir para empregos cruciais, novo conhecimento, preservar as descobertas do passado e sobretudo assegurar trabalho de mentor para a geração que está a surgir. A IES tem que se adaptar a este novo ambiente competitivo, em que cada vez mais as tecnologias digitais, designadamente a IA, irão impor a sua força. Porque assim será o futuro imediato e só assim terão um futuro a longo prazo.
  • 98.
    Moniz/Um novo horizonte/98 AsIES estão além do âmbito unicamente económico, pois com elas há que criar conhecimento e promover o bem-estar social, além do económico. Mas, como se tem referido desde o início deste ensaio, ainda há adultos que estão fora do ensino superior, ainda há neste sector uma reduzida taxa de atratividade. E os custos (diretos e indiretos) da frequência em IES têm aumentado cada vez mais no ensino superior, mais do que a inflação. Nomeadamente, para as famílias67 . Alguns empregadores declaram que estão a contratar graduados que não estão totalmente bem preparados para o mercado de trabalho, quando se angustia a ameaça de uma competição global e tecnológica sem par. E algumas IES continuam com a perspetiva que ‘somos demasiado grandes ou demasiado importantes para falhar’, aqui estamos entre muros e ‘trincheiras’, protegidos, quase que esquecidos e ‘nada nos acontecerá’. No entanto, eu diria que basta olhar para além das janelas e verificar entre as fábricas e os edifícios remontantes da destruição, da falência, da inoperacionalidade, da incapacidade que foi adaptar novas tecnologias ao mercado global: essa lição está à nossa frente e só não vê ruinas quem não quiser ver. O que se fez? Bem, alguns souberam fazer em ‘disrupção’, perante a ameaça ‘criativa’, modificar em algum grau, a atividade prévia. Outras comunidades, de forma mais ampla e corajosa, quiseram e souberam criar novos sectores produtivos de tecnologia, com formação académica associada, políticas de desenvolvimento focadas em atividades especificas, como, e.g., saúde, turismo, indústrias eletrotécnicas, ambiente e energia, alimentação e qualidade, educação e ensino (superior)… 67 Cf. capitulo ‘Diagnóstico’.
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    Moniz/Um novo horizonte/99 Permita-senos, no entretanto, apontar à suprema oportunidade que emerge no ensino superior em Portugal. Aparentemente paradoxal, mas não o é. O advento da inteligência artificial, de máquinas auto-aprendedoras, pensantes, implica com cada vez mais acuidade, a importância da aprendizagem cara a cara. I.e., presencial. Só assim, a ‘humânica’, a síntese de criatividade nos humanos, excitada pelas novas paisagens de execução operativa, se desenvolve. Claro que haverá vídeo conferências ou similares68 . Já se faziam na(s) década(s) anterior(es), com mais ou menos qualidade no ecrã e no som. E vai fazer-se69 mais. Mas o novo ensino tem de ser iconoclasta70 e para isso, nada substitui um mentor ali junto. O que não se pode fazer é rejeitar, virar as costas às próximas décadas do seculo XXI. 68 Na UCAO (https://ucao.org/), para dar um exemplo porventura sujeito a verificação (declaro), anuncia-se o recurso a ensino acompanhado de ‘realidade virtual’, num enquadramento (e traduzo do Francês) ‘imersivo, intuitivo e inclusivo’, junto com laivos de ‘Gettysburgh’, numa ‘aprendizagem acessível a todos, por todos os lugares e em todos os momentos’… 69 E, entretanto, enquanto a ‘Terra se move’, algumas organizações (que empregam recém-graduados) reinventam- se. Dito de outra forma, investem de forma inovadora na valorização da carreira dos seus colaboradores. Concentram mais recursos nas atividades que as sustentam, potenciam recursos para se dotarem de conhecimento qualificado e critico para terem sucesso: requalificar como investimento junto com melhorias processuais (em particular, tecnológicas). Tudo aliado (!) para entusiasmar os colaboradores para mais especialização, um reskilling e/ou upskilling. Tudo e todos são importantes. 70 Será impensável, inadmissível, permitir que qualquer estudante possa criar (por via de opções de disciplinas, módulos) o seu curso, a sua formação? Em diálogo, aconselhamento de formação e subsequente contratação (i.e. ‘emprego’), porque não? Se hoje se escolhe o que ver na Netflix, onde, como, quando. Ensino Superior em modo HBO? Sacrilégio!? Bom, tentemos ser iconoclastas. O novo século, em Janeiro de 2020, estava a 80 anos de ‘distância’. Em inícios de Julho, já só eram 79 anos e meio. Agora, enquanto escrevo, são 79 ou por aí (menos). ‘Isto’ anda depressa, muito depressa…
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    Moniz/Um novo horizonte/100 “…(asIES) deveriam tomar nota. Ao invés de se entrincheirarem em modelos decadentes, deveriam focar em criar novas estruturas de financiamento e melhorar o acesso ao ensino superior – necessidades que irão certamente ser intensificadas no decurso dos próximos anos”, Natham Schultz Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫צ‬ֻ‫)ח‬ Como pode uma região (ou uma nação, se quisermos ser mais específicos) com cerca de 4/5 da população Portuguesa (e menor território em área disponível), sujeita a crises (algo específicas, entenda-se), tendo de afirmar a sua competitividade para simplesmente sobreviver, ter o melhor índice de obtenção de financiamento (por exemplo, bolsas para investigação avançada) do European Research Council (ERC) per capita por entre muitas (!) áreas do saber? Porque algumas regiões e instituições possuem melhores indicadores relativos a ciência e tecnologia do que outras? Ou provocando, como e porque são ‘melhores’ do que outras em ciência e tecnologia? Ou inovam71 ‘mais’ ou ‘melhor’ que outras? Esta questão recebeu (mas não de forma consensual e o debate progride) uma proposta de resposta na forma da72 lei de Cardwell. 71 O que é Inovação? Reconhecemos inovação quando a virmos? Como distinguir inovação de ‘não-inovação’? As respostas não são óbvias. E mesmo que possamos definir inovação, podemos medi-la? 72 Cf. ‘The Politics of Innovation’, M. Taylor; cf. na bibliografia junta. E por entre a bibliografia que se indica nas páginas finais, cf. também, por exemplo as obras ‘The stategy for Korea’s…’, ‘Designing the new American university…’, ‘Lost in the meritocracy…’, ‘Pass the chutzpah, please…’, ‘Socrates in the boardroom…’, ‘A university education…’, de onde muito se extraiu para este capítulo (e em outros) deste ensaio.
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    Moniz/Um novo horizonte/101 Nela,não tanto se ‘identificam’ os modos de progresso no desenvolvimento tecnológico, mas antes se descreve ‘o que e quando’. E não importa a nacionalidade ou localidade, de forma direta. De forma muito concisa, nenhuma nação foi mais criativa do que por um determinado período (histórico) e havia sempre outra que iria tomar a dianteira. Mas se tomarmos (de forma apropriada ao objetivo deste capítulo) o conjunto de países e regiões que (i) outrora dominaram eou (ii) atualmente dominam a criação inovadora por via da produção em ciência e tecnologia, verifica-se o seguinte. Décadas atrás, alguns nem sequer existiam. Por outro lado, temos regiões que durante a sua história tiveram riqueza (capital material), democracia e industrialização, alguma produção científica e tecnológica. Mas hoje a sua capacidade de inovação é modesta, apesar de possuírem alguma educação e não terem pobreza. E no século XXI as fronteiras ou distâncias não podem contar tanto: a comunicação por via tecnológica é muito mais rápida e eficaz. Será (e seria) de esperar que quase todas tivessem as mesmas capacidades e tecnologias semelhantes. Mas não é assim. Porque é que algumas têm sucesso e algumas não têm e mesmo tendo sucesso, porque é que não o mantêm? Segue uma ‘divagação’ em economia… . Crescimento económico significativo (numa região, com e para benefício de instituições, empresas, populações, em sinergia ampla), requer empresas reconhecidas, tecnologias avançadas versus o passado da força laboral de baixo custo e ‘dispendiosa’ na consequência competitiva. As economias ‘ocidentais’ enfatizam a importância da inovação para serem competitivas entre os países avançados. Mas se é importante, não é crucial para
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    Moniz/Um novo horizonte/102 alcançaresses níveis, para alcançar competitividade sustentável: falta uma estratégia de enquadramento nos países que poderão estar a perder essa competitividade. Pode haver um ‘by-pass’ robusto e exequível. Desde que…mas já lá vamos. Em mais detalhe, a prosperidade de uma nação ou região, poderá primariamente ser determinada pela abundância de recursos, população, riquezas naturais. Mas há quem tenha esse potencial e não ser um dos países mais ricos: têm a dinâmica de comércio, mesmo que atribuindo força económica à abundância de recursos. No entanto, isso levou à formulação (embora não isento de contestação) do paradoxo de Leontief73 . Concretamente, afirma que um país com um capital mais alto por trabalhador tem uma relação capital / trabalho mais baixa nas exportações do que nas importações: os Estados Unidos - abundante nesse capital - exportava mercadorias que consumiam mais mão-de-obra. E assim, talvez diferenças tecnológicas determinem vantagens comparativas. I.e., ter ao invés uma vantagem em mão de obra altamente qualificada, mais do que capital em simples ‘mão de obra’, uma visão geral do “capital” e assim incluir o capital (intelectual) humano: exportações intensivas por esse capital (humano) e não particularmente intensivas em mão-de-obra (não qualificada). Mas a procura, além da oferta, também desempenha um papel importante, com a vantagem ‘comparativa’ a não ser ignorada: países que compartilham semelhanças produtivas terão também maior probabilidade de negociar; i.e., em vez de um país dominar o setor com uma vantagem comparativa, os dois países ou regiões partilham (de alguma forma). 73 https://en.wikipedia.org/wiki/Leontief_paradox
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    Moniz/Um novo horizonte/103 Haveriapois que implementar uma outra estratégia, por via de co-conquista de mercados, em empresas e indústria. Seria ter uma visão estrutural, um ponto de vista onde havia recursos críticos e capacidades, que eram valiosos, raros. Mas… se não forem estáveis e reproduzíveis, não substituíveis, isso também manteria essas economias, provisoriamente, acima da média das outras competidoras, em risco. Elaboremos: a competitividade, em parte recolhida da vantagem competitiva de uma região, determinada pela sua capacidade de construir, integrar e reconfigurar interna e externamente aqueles recursos, de uma forma rápida, seria também, em outra parte, pela capacidade de reagir num ambiente de mudança rápida. E a competitividade das empresas ou regiões ainda por desenvolver ou menos desenvolvidas, iria depender (e muito!) de as IES, que também têm um papel fundamental, influenciarem também os negócios. Há teorias para explicar o desenvolvimento económico de regiões e empresas, mas, no entanto, baseadas ainda na identificação tradicional de recursos como a tecnologia ou o mercado sofisticado. Ou então infraestruturas e sistemas muito avançados. Terá de ser apenas assim e sem exceções? Uma região que não tiver um mix complexo e equilibrado de recursos materiais únicos, com recursos de tecnologia, formação avançada e baseada em IES, não pode ascender? À partida, pode parecer ser irrealizável. O ‘fator de produtividade total’ é um item controverso, mas é crítico: importante quando se analisa o desenvolvimento económico de uma região. A produtividade baseada nos recursos humanos, de capitais (num sentido lato), gera valor adicionado, crescimento económico e prosperidade. É por isso que se enfatizou a importância do uso eficiente dos recursos acima do aumento simples, em opção de ‘força
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    Moniz/Um novo horizonte/104 bruta’,dos recursos. Os países e as regiões que utilizam com sabedoria (!) o ‘recurso’ do capital humano são os mais produtivos, em termos de criação de riqueza social e bem-estar. Uma explicação para o desenvolvimento económico rápido é de facto o capital humano que uma região obtém com educação (!), em que uma região proporciona aos seus trabalhadores o desenvolvimento e prosperidade, saúde e bem-estar social. O desenvolvimento e a produtividade estão pois diretamente relacionados com a educação, o treino vocacionado e sobretudo para um capital que se vai acumulando: o capital social de desenvolvimento cientifico e tecnológico. Melhorando a produtividade económica e sobretudo a cultura dessa região; uma forma de criar e desenvolver também confiança, com investimentos subsequentes. E em que podemos envolver economicamente a região e as IES, através de uma estrutura prática. E assim eventualmente para possuir essa vantagem competitiva. Por meio da educação… Mas o bem-estar social não é simplesmente baseado em aumentos quantitativos, fatores de produção ou outros fatores que têm a ver com o desenvolvimento tecnológico. Há também aumento de produtividade que não pode ser explicado apenas por medidas, i.e., métricas: há aspetos que não se medem mas são imensamente valorizáveis (nem tudo que se mede é valorizável, nem tudo de valor pode ser medido). No entanto, com a tecnologia, inovação e melhoria organizacional, haverá ou poderá haver eficiência e ganhos. Ou, dito de outra forma, se não houver progresso tecnológico e social de cultura de aprendizagem, capacidades de gestão, se o crescimento for pontual e fosse exclusivamente da doação de recursos de
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    Moniz/Um novo horizonte/105 financiamento,a fundos ‘perdidos’ e não houver investimento cultural, o crescimento irá abrandar, diminuir e eventualmente cair. Contudo, há procedimentos que implicam um sucesso tranquilo. Há outros países e regiões onde se desenvolve crescimento social, qualidade de vida. E económico também, sobretudo em termos de bem-estar social. Há outros modelos e outras oportunidades de forma a arrancar e alcançar um patamar de desenvolvimento económico regional e institucional, sobretudo num período curto. Essas regiões ainda não tiveram um período longo de riqueza, mas encontram forma, com sucesso, de melhorar o capital humano, a formação e sobretudo um fator total de produtividade: aumentar, melhorar a competitividade. Como? Creio que essa abordagem é inteiramente possível ‘por aqui’. Sim, mudança cultural. Já lá vamos. No entretanto, outro aspeto. Cada história de sucesso (nacional, regional, institucional) em ciência e tecnologia parece ser diferente (há sempre algo que ou se distingue ou é mais enfático, e assim potencia) mas no tocante a falhar, todas onde isso ocorre têm algo em comum. Concretamente, a ausência (ou quase) de pelo menos um ou todos de entre os seguintes cinco pilares: (i) legislação robusta, justa dos direitos de propriedade intelectual junto da comunidade académica e empresarial, (ii) subsídios, global e socialmente amplos, em termos de bolsas e programas para investigação regulares, (iii) mais e melhor (!!) educação nas IES, (iv) concertação em rede, em ‘equipa’, de institutos, laboratórios de investigação e (v) políticas comerciais (baseadas na inovação decorrente) devidamente estruturadas, a nível nacional, regional, local. Saliente-se:
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    Moniz/Um novo horizonte/106 osimples atributo de aumentar a despesa via OE em investigação e desenvolvimento, protegendo a propriedade intelectual, ou criar por aqui novas escolas, e.g., universidades e institutos politécnicos, não resulta sempre numa melhor e maior ‘taxa’ de inovação científica e tecnológica, como desejada. Não há uma ‘bala de prata’, não há um melhor modelo de instituição ou política. É uma boa intenção (é sempre assim…), pôr em cima da mesa e dizer ‘vamos copiar74 este’. Indiquem-se três ‘ferramentas’: as instituições, as políticas e as redes (de trabalho). Elas podem apoiar a descrição do ‘como’ mas ainda não se associam com o ‘porque’. A política científica é o motor de desenvolvimento, tal como contribuem as despesas em educação (i.e., em universidades ou institutos politécnicos) e um sistema de patentes transparente (e mais justo). Em suma, a democracia e também (!) uma descentralização podem fazer a diferença. Se todas (!) presentes e salientes. Um outro ingrediente será, como já atrás mencionado mas sem enfâse ainda, a promoção de redes de trabalho cientifico, no sentido amplo de providenciar informação. Missões estrita e exclusivamente governamentais in situ podem até obter alguns ‘pontos’ mas a nível de informação útil, é bem mais difícil de a obter. Participações ativas, pelos legítimos profissionais (e não por ‘turistas’ de nomeação) são eficientes em criar ou otimizar redes de trabalho internacional em ciência e tecnologia, podem trazer uma grande vantagem. A presença efetiva e participada (ativa, frutífera) em redes de cooperação ajuda a explicar como 74 É o proverbial simplista ‘não é preciso inventar a roda’. E vai daí, usa-se, tout court. E não se discute, analisa, estuda se é a roda, aquela, que se precisa. Ou outra. Ou outra ferramenta...
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    Moniz/Um novo horizonte/107 éque algumas regiões vão inovando. E ‘ficam a inovar’ mais do que outras. Mas existem casos que deixam de inovar tanto ou ‘de repente75 , i.e., acabam’; ou, ao invés, começam a inovar imenso, como se um desígnio nacional se tratasse76 . O que ocorreu? Tem sido proposto que ‘alguma insegurança, criativa’, um equilíbrio (volátil) entre procedimentos ‘domésticos’ e ‘incerteza’ do externo, em termos de segurança, afeta o arranque ou reforço na taxa dessa inovação. Em resumo (por ora), as instituições, as políticas e as redes de trabalho podem ajudar a explicar como é que algumas regiões vão inovando; o equilíbrio entre a segurança e as preocupações já explicam ‘porque’ se tornam (muito!) determinadas a inovar77 . Esse equilíbrio é bastante delicado. O progresso em ciência e tecnologia é por vezes impedido. Conflitos de interesses, quebras (por vezes inesperadas) do mercado, são algo que instituições e políticas podem tentar resolver mas são elas também que poderão determinar a manutenção ou o (in)sucesso. Ou redito de outra forma, são as diferenças entre instituições e políticas que explicam que algumas regiões são melhores em ciência: regiões onde não há instituições ou são socialmente corruptas, as políticas não são suficientes, serão até contraproducentes. Mas se o processo de inovação e desenvolvimento envolve instituições, 75 Poderá ter a ver com cada vez menos recursos alocados para a investigação em ciência e tecnologia. Eou a formação de trabalhadores, de técnicos cada vez mais especializados em ciência e tecnologia, ser descontinuada. Dito isto, há um aspeto que é fundamental: as regiões têm que ter instituições e políticas concretas, bem determinadas ao encontro do desenvolvimento da ciência e tecnologia. 76 Nb. Poderá haver uma relação com a idade da população, i.e. mais jovem mais inovadora… . Precisa-se, pois, de políticas de juventude e que integrem ciência e tecnologia, disrupção no ensino-aprendizagem. Para onde a juventude irá. Sempre. 77 Cf. ‘The Politics of Innovation’, M. Taylor; cf. na Bibliografia junta.
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    Moniz/Um novo horizonte/108 agênciasgovernamentais e políticas que funcionam para apoiar, isso tudo faz a diferença face a algumas (não todas!) adversidades. É importante o apoio de políticas públicas, para compensar as perdas que os investidores privados tendem a reduzir, por defeito, quando mercado se contrai. Porque não conseguem beneficiar de imediato do seu investimento. Por isso, os sistemas nacionais de inovação transformaram-se (e bem!) para colmatar, vieram a ser os dominantes da investigação para a inovação. E é por isso que a democracia é a política necessária ao mercado livre: a existência da democracia é a garantia de ter uma economia de inovação. O problema muitas vezes nas democracias é o obsessivo ‘praxis’ centralista e que pode levar a uma estagnação. Por outras palavras, uma política de descentralização transforma-se também numa aplicação de apoio nacional, para a melhoria. Governos descentralizados são vistos como mais ágeis, motivados e mais bem estruturados, para se adaptarem aos desvios e saltos bruscos de mudança. Organizações (incluindo IES!) demasiado centralizadas (em várias formas e feitios) tornam-se demasiado rígidas e falham nos ‘testes ao risco78 ’ (ao custo e às mudanças associadas com nova ciência e tecnologia). Mas não esqueçamos aquele ‘equilíbrio’… Há países e regiões, alguns com boas, bastantes instituições e políticas mas que não conseguem extrair tanto (ou extrair mais, ou, ao invés, simplesmente ‘estagnaram’ num pântano (é sempre assim…) constituído de alguns académicos…) do investimento em ciência e tecnologia. E apesar das redes de trabalho, tudo isso não é suficiente, mesmo ao entrelaçar. 78 Talvez fosse interessante e pertinente que em Portugal, alguma Agência ou Direção Geral, à semelhança de um banco central, fiscalizasse e submetesse as IES a testes de resistência e a risco…
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    Moniz/Um novo horizonte/109 Mashá, repita-se, países e regiões, com poucas IES e políticas governamentais minimalistas, mas que conseguem inovar de uma forma estonteante. Talvez haja pois o entrelaçar por convicção versus o fazer-se porque nos mandam, a diferença entre o das ‘9 às 5’ ou o retomar de uma economia… . E uma (mais uma!) outra provocação. O processo de Bolonha corresponde a uma harmonização (sectorial) no ensino e processos (diretamente) decorrentes. Mas as formas organizacionais das IES variam; muitas questões colocadas por agências e empresas (e.g., U-multiranking) pressupõe (ou parecem pressupor) que temos uma dada organização que … não temos. Será que Bolonha só será ‘mais e melhor’ implementada se e só se ‘pensar fora da caixa’ i.e., não só harmonização em processos de ensino mas também administrativos?! E porque é talvez aí que entra noção de ‘insegurança criativa’. Alguns países, regiões, localidades adotam as IES certas, estruturas corretas, as políticas adequadas mas depois não há uma ‘descolagem’ em conforto, segurança e eficiência. Mesmo que empregadas ao longo de algum tempo. Enquanto outras não fazem (quase nada) disso, simplesmente despoletam na inovação e riqueza tecnológica, por diversas outras razões, até intrínsecas da cultura do grupo. Talvez porque há uma ‘insegurança criativa’: uma condição de que estamos ‘ameaçados’ por ocorrências que não podemos controlar totalmente. Essa insegurança motiva um apoio crescente e gradual, constante, da população para a ciência e tecnologia. Quanto maior é a insegurança ou quanto mais tempo o enfrenta, mais a população compreende e abraça o risco, subscreve sem reservas (ou muito poucas) que haja uma política, um capital de apoio económico para a ciência e tecnologia.
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    Moniz/Um novo horizonte/110 Mascomo já se referiu, envolve um equilíbrio muito delicado, entre tensões ‘internas’ e entre as ameaças ‘externas’. Na constatação serena desse equilíbrio, por meio de uma população instruída (dai o valor do ensino superior!), é preciso encontrar políticas de desenvolvimento e inovação. As regiões falham em ciência e tecnologia quando as rivalidades ‘domésticas’, de politiquice em jeito de descrição ‘paroquial e bairrista’ (cf. Eça de Queirós) dominam: os receios ‘domésticos’ aumentam face a fazer cedências e controlam sobre o ‘alarme’ potencial das ameaças ‘externas’. Há um desgaste (que pode ser letal) no apoio à ciência e tecnologia. A inovação é sempre dispendiosa. Mas, por favor, não devemos ver o aspeto da ‘ameaça’ apenas militarmente. Isso é demasiado ridículo. A inovação tecnológica pode criar uma economia que é mais competitiva e robusta nos mercados internacionais, face a muitas ‘ameaças’. É um processo (como outros aqui citados, de ‘win-win’) onde se cria e recria uma força de trabalho altamente qualificada, com conhecimento tecnológico. É necessário um investimento de capital e até capacidade de mercado. E no entanto, nenhuma destas condições é suficiente. É importante ter presente a referida motivação por via das ameaças e riscos ‘externos’: podem ser ridiculamente apontadas a trivialidades em cenários de militarização. Isso, repete-se, é errado: considerem-se antes as ameaças e exigências cada vez maiores para energia, sua partilha, alterações climáticas, a degradação do ambiente, o envelhecimento da sociedade e ameaças de doença…! Saliente-se, embora associar-lhe uma tonalidade de ameaça poderá ser exagerado, que uma competição internacional poderá também constituir uma forma de ameaça externa. Designadamente à economia, em sectores desde o agrícola, turismo, microprocessadores, têxtil, baterias de
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    Moniz/Um novo horizonte/111 telemóveis,iogurtes… . I.e., a economia e a segurança económica de uma região ou de um país. A inovação tem de abrandar estas ameaças externas (num sentido mais lato do termo). Há, pois, que manter adequadamente, melhorar a inovação. Não o fazer, implicaria ao invés que essas regiões correriam o risco de ser negligenciadas ou mesmo as IES ameaçadas. Em suma, é precisamente o referido equilíbrio, entre as rivalidades ‘domésticas’ e as ameaças ‘externas’ que definem o (in)sucesso em ciência e tecnologia, daí influenciando como as políticas e instituições (de ensino superior) poderão ser eficientes (ou não). A tal ‘insegurança criativa’ pela qual é preciso promover um comportamento inovador, mesmo entre regiões industrializadas, democráticas. Há também fatores de liderança pessoal, mas não são suficientes. Não é isso que dá a taxa de crescimento de inovação, o acesso aos mercados. A todos é preciso encontrar qual é a melhor política, para os diferentes intervenientes e contextos da região. Alguns indivíduos são capazes de inovar de qualquer forma que seja. E no entanto a inovação por via de pesquisa, investigação e desenvolvimento (que resulta num claro benefício a nível nacional em produtividade), com novas indústrias, isso muitas vezes vem de grupos menos altruístas mas que conseguem trabalhar conjuntamente, como numa orquestra. Não se pode restringir a ação que decorre para a inovação com apenas a força laboral em ciência, tecnologia, engenharia ou medicina. Há empreendedores, especialistas em finanças, em mercados, em distribuição de bens, contribuintes e pagadores de impostos, consumidores, funcionários governativos assim como burocratas, cidadãs e cidadãos em geral. Todos têm que se sentir motivados para inovar ou apoiar a inovação; a inovação tem que ser inclusiva de grupo.
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    Moniz/Um novo horizonte/112 Todaa cidadania, tem de ser uma cidadania em ciência. Todo o cidadão tem de participar, envolver-se em ciência e tecnologia. É ter a ciência em todos os dias, apenas 3 ou 5 minutos, durante, logo após o início de alguns noticiários. Conscientes dos mercados, das redes de trabalho, internamente e internacionalmente temos que ir além dos preconceitos. E não se trata de visualizar ameaças falsas. É preciso sim considerar as ameaças reais, repita-se, desde as mudanças de ambiente, do clima, secas, cheias, os níveis do mar que podem aumentar, inovar em termos de energias alternativas, de fusão ao solar, não dependentes do carbono e do petróleo, cada vez usar mais as energias alternativas para que a nossa economia seja mais robusta e menos dependente de ações externas e muitas vezes de efeitos devastadores e muito custosos. E essas, sim levam à questão da guerra e dos acidentes ambientais com os custos que isso pode levar para perdas de empregos, em pescas, miséria social, pobreza. O envelhecimento demográfico, doenças de coração, cancro, diabetes, Alzheimer, problemas pulmonares e cerebrovasculares, hipertensão, debilidade, drogas, epidemias… . O traço comum dos países, das regiões com elevado desenvolvimento e sucesso em ciência e tecnologia, decorrente de tudo o atrás mencionado, é pois a sua dedicação. Não há uma instituição em particular ou alguma política, mas sim um compromisso permanente e crescente. Por aí se conjugam, em ‘coligação’ (!) para resolver as situações de mercado em quebra, criar (ou recriar) um sistema de apoio à inovação. E onde a ação do governo passa a ser associada, correlacionada com a inovação nas IES. Assim, as políticas podem influenciar os resultados mas não são as forças causais do ‘porque’, mas sim do ‘como é que estes resultados vão ser obtidos’. Boas ferramentas não fazem alguém um especialista; boas
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    Moniz/Um novo horizonte/113 instituiçõese políticas não fazem com que uma sociedade (em desígnio nacional, regional, interiorizado, intrínseco) só por si inove em muitos e variados aspetos. A inovação não é apenas uma questão de ‘dictum’ governativo: as redes de trabalho providenciam a informação, que é vital. Os agentes dos governos podem obter mas somente uma parte desse ‘capital’. As informações de ciência, tecnologia, engenharia, matemática em termos de força de trabalho, as oportunidades de investimento num meio altamente especializado, em indústrias baseadas em ciência e tecnologia, muito especificas mas também muito díspares, apenas se produzem e seletivamente nas redes de trabalho profissionais. Os seus ‘trabalhadores efetivos’ podem-se encontrar uns com os outros e partilhar conhecimento adequado e concreto, com saber real, e assim aumentar a sua flexibilidade de rápida mudança e adaptação. Desta forma, as redes de trabalho profissionais reduzem os elevados custos, riscos de uma inovação, ao invés da determinada em mero decreto, com ‘aplauso e júbilo’ num governo ou assembleia, por meio de um relatório de ‘turistas’ subvencionados por agências intergovernamentais mas sem qualquer ‘know-how’ profissional... É preciso que todo um país e uma região, todos os seus empresários, escolas, cidadãos e cidadãs cooperem e aceitem o risco, estimem a inovação. Muitas vezes isso poderá traduzir- se também em mudanças, restruturação das instituições. E daí também para os seus modelos económicos. Ou dito de outra forma, sobreviver a uma crise e alterar modos de operação, de forma drástica, traz dor e sacrifício. Regiões onde o desemprego começou a grassar, fábricas fechadas, votadas ao abandono, fome e miséria, ruina(s) e desemprego, foi preciso mudar, alterar a estrutura social, económica e política. E até em termos sociais, o que hoje é visto como um sucesso, também tem que ser pesado e contrastado com as regiões que não quiseram, não
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    Moniz/Um novo horizonte/114 souberam,desprezaram inovar: enfrenta(ra)m uma penalidade ainda muito maior. Inovar é necessário. E é preciso pois ter a coragem, a frontalidade de dizer que a oportunidade existe mas não espera. Não é de ficar de braços cruzados à espera que tudo se vai resolver e vai ficar bem. Não vai. Não é dizer ‘venha mas é mais verba do OE (ou fundos de coesão)’. Desta forma passiva, não vai. As IES têm que ser consideradas como ferramentas e não tanto como força, numa ampla mudança estrutural. É a política científica de ciência e tecnologia que tem que liderar: não se trata de ter uma ‘bala de prata’ mas é preciso melhorar as ‘taxas’ de inovação, é preciso ‘sentir’ os riscos dessas ameaças ‘externas’, muito para além do ridiculamente trivial, que aqui já mencionei. Sobretudo evitar rivalidades ‘domésticas’, intra- e inter-regionais entre diferentes grupos, entre diferentes classes económicas, de forma a dotar as regiões, as localidades de boas políticas de ciência e tecnologia. E é tudo? Mudança cultural ‘Parâmetros de medida’ para aferir academias é um assunto controverso, mas alguns instrumentos, desde que discutidos séria e severamente, podem ajudar a revelar casos potenciais de (in)capacidade. Uma IES poderá permitir afirmar que já se progrediu e alcançou muito (e até mais ou algo que o impensável), mas nada impede (nem deve), que não se deva e possa já ter e fazer melhor. A região que mencionei no inicio deste capitulo, acerca de um
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    Moniz/Um novo horizonte/115 parâmetroespecifico e ‘pessoal’, designadamente os financiamentos ERC, é Israel e um amigo sugeriu-me que procurasse a resposta num termo de língua Hebraica: Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫צ‬ֻ‫ח‬). Pode ser traduzido como uma audácia premeditada, uma traquinice com alguma racionalidade, no sentido de obter uma vantagem competitiva relativamente aos parceiros ou competidores. Uma atitude em termos de inovação, sobretudo capacidade de concretização dessa inovação. Mas não basta inovar, há que a concretizar de uma forma atrevida, quase que diria provocatória. O índice de sucesso referido (inteiramente conjetural e que me ocorreu), não é sequer oficial, mas é uma ‘métrica’ apreciável, repartida em quase equipartição desde áreas de artes e letras até matemática pura. A questão que se me colocou é ‘porquê’. E ‘como’? Como é que um país ou uma região tem a capacidade para ser capaz de progredir, se afirmar e é, neste aspeto da Chutzpah, singular e reconhecido? Cogito, ergo identidade, qualidade e uberdade. Não basta uma alteração de tinta em papel, um documento estatutário ou um despacho coordenativo: isso será escrever no vazio e não se pode escrever dessa forma, muito menos liderar em Chutzpah. É que são precisas alterações táticas, operacionais para implementar. Não é algo para um ano ou para uma geração (talvez), pois é algo que constitui uma transformação cultural transgeracional. A qual é preciso começar por implementar. Minha opinião. Desde ‘ontem’. Estimular uma cultura Chutzpah teria que ser suportado, através de apoios concretos ao trabalho académico, desde publicação de obras e trabalhos, mormente de investigação no
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    Moniz/Um novo horizonte/116 âmbitoda dita produtividade. Mas teria essa laboração que abarcar também o ensino, desde o 1º ao 3º ciclo em IES, ao longo da vida, alinhado e concertado com as três linhas mestras introduzidas no inicio deste ensaio. Por exemplo (e apenas um exemplo) de forma que a investigação, a criação, a busca e descoberta, a escrita e produção, emergisse como desígnio logo nas primeiros semanas dos primeiros meses do primeiro ano do 1º ciclo e assim devidamente, culturalmente integrado, vivido, respirado na IES. Uma forma desse apoio seria instituir a regularidade de palestras, de seminários, no sentido de estimulado, para que todos participem em (i) encontros uma vez por dia, a meio da manhã ou da tarde, por exemplo, em que será oferecido um café ou chá, fruta por via da cooperativa local, (ii) em que todos os docentes de várias áreas de vários departamentos até se possam juntar para trocar impressões no intermezzo do trabalho. Idem, (iii) durante seminários tomar a refeição uma vez por semana durante esse evento, para aproveitar o tempo. Chutzpah, pois. E sim, alteração cultural. É apenas um exemplo de sugestão. Sei também que é uma alteração que vai contra os hábitos e as particularidades culturais ‘tugas’. Mas os pilares de qualidade, identidade e produtividade têm que ser transpostos para potenciais de estabilidade e de uma competitividade elevada, numa forma a que não só a sobrevivência mas também um sucesso amplo seja alcançado. É, pois, preciso alterar (não apenas a tinta que está no papel em termos de texto, mas também) a operacionalidade diária.
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    Moniz/Um novo horizonte/117 Euatrevo-me pois em perfeito modo iconoclasta a alertar do seguinte. Se as IES em Portugal se desinteressarem da competitividade, da singularidade de reconhecimento na identidade, na qualidade, na elaboração de saber académico (para que o sucesso revelado na afirmação dessas linhas seja alcançado), não podem render-se a uma forma passiva, na dependência de um financiamento (reforçado) que virá sempre à custa de queixa(s) à tutela para ser dotada de algo mais em verba de OE. Há que ir ‘lá’ e produzir, uma nova distância e nossa; obviamente, conquista-se79 . E isso é também Chutzpah. Requerendo-se uma nova cultura de desempenho docente e não-docente. Um novo horizonte. As IES, para competirem nesta(s) nova(s) década(s), têm de colaborar e desenvolver formas de (i) encontrar, identificar e desenvolver novas fontes de financiamento, além de (ii) ‘adquirir e manter’ os estudantes que têm. Isso implicará, por exemplo, um esforço interno de melhorar as taxas de graduação e da qualidade do ensino, traduzida numa maior amplitude de apreciação pelos graduados. O qual, por sua vez, poderá necessitar da expansão e da adoção de diferentes ofertas, da melhoria e modernização, inovação dos programas académicos, além também do que será a continuação da redução de custos (óbvio!). Isso poderá necessitar de programas claros e profundamente inovadores, de melhorias e tomadas de novas tecnologias, de modelos de negócio e de gestão informática e financeira. E acima de tudo também não esquecer os funcionários não-docentes da instituição. Tudo isto a ser subsequentemente promovido, uma imagem de marca, da qualidade, da distinção, da IES, que se diferencia e cresce, progride, afirma-se: identidade, qualidade, uberdade; mas em ‘modo’ de Chutzpah. 79 D. João II tinha chutzpah ou teve junto a ele boa gente com boa chutzpah…
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    Moniz/Um novo horizonte/118 Umadas principais frustrações, (repetida e repetida neste ensaio), é que nunca há dinheiro suficiente e por isso prefere-se uma resistência natural a qualquer mudança. Muitas vezes, juntam-se argumentos de haver pouco tempo e pouca disponibilidade para discutir e analisar os passos que são necessários dar. Mais vale evoluir na continuidade, manter tudo na mesma ou parecido, if it works, don’t fix it. Mas vai deixar de funcionar, da forma que tem sido até aqui. É, pois, necessário incluir a potencialidade, quiçá necessária, de mudança em toda a narrativa, na missão. Na cultura. E essa narrativa da missão é aquela que deveria incluir explicitamente capacidade de transformação e de adaptação. E essa transformação e adaptação tem de ser excitante. E nesse âmbito, dir-se-ia que um conceito como Chutzpah (‫ה‬ָּ‫פ‬ ְ‫חֻֻצ‬) está na génese e nos momentos diferenciadores e determinantes da história, da narrativa de uma IES, dos desafios e das suas conquistas. Como também um grande desafio futuro é o rápido desenvolvimento tecnológico, junto com a rapidez de transição demográfica, desde a idade dos estudantes e a sua gama, como também as suas proveniências. Só que para sobreviver ou mesmo competir, afirmar-se e estar sem problemas por entre esta volatilidade, muitas vezes as IES estão ‘paradas’, para responder apenas a mudanças pontuais no momento e não para transformações profundas que é preciso implementar. Universidades e institutos politécnicos em Portugal têm modelos de gestão dos mais intransigentes, é de facto difícil de alterar pois qualquer mudança pode ameaçar a própria segurança dos membros das suas faculdades ou escolas. Por isso é que é necessário envolver a
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    Moniz/Um novo horizonte/119 comunidade,para desenhar, delinear o que há a alterar. Sobretudo nas condições correntes ter que enfrentar o processo criativo, se e como vai envolver e comprometer com o que vão alterar e como vão alterar. Essa inovação, essa alteração tem que ser encorajada. E premiada! Temos que aceitar o reconhecimento daqueles que se atrevem a propor novas ideias e novas estruturas, modelos de rutura. Muitas vezes o resultado deste processo faz emergir problemas que podem barrar em crise. Muitas vezes o que resulta nesse processo é fadiga nessa discussão sobre mudança e emerge um cinismo entre o corpo docente das faculdades ou escolas. Haverá pois então que criar incentivos para premiar essa inovação, as propostas disruptivas, o movimento que se tem de ter com um plano estratégico. Ter uma abordagem mais pragmática e na forma de pequenas equipas, para desenvolver novas ideias que devem ser devidamente acarinhadas, exploradas e premiadas. E a IES terá que colocar uma percentagem dos seus rendimentos em forma de capital de investimento, para experiências de natureza pedagógica e também científicas, apoiar novas obras e novos projetos criativos e culturais. Investir agrega um fator de risco. É preciso coragem mas vamos ter que investir no futuro, apostando internamente com fundos internos (mormente por via da filantropia, além do OE e de outros fundos por projetos) para essas experiências. É preciso criar novas relações com as faculdades ou escolas, sobretudo também com potenciais doadores, os alunos, i.e. os parceiros, de forma a ter um diálogo e uma comunicação com os vários constituintes da governação e do aconselhamento. O novo horizonte. É preciso também ter presente e perguntar também sobre uma visão de gestão do setor público do ensino superior. Importa muito nas IES aferir e saber enfrentar a necessidade de
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    Moniz/Um novo horizonte/120 umamudança ao nível da sua estrutura governativa e da sua metodologia. E junto com uma inovação para mudar, construir níveis de confiança para uma abordagem financeira arrojada que permita, como se referiu, investimentos internos para poder competir e não estar tão estritamente dependente de apenas e todo, somente e qualquer fundo público. A equipa com a visão e missão institucional tem que estar definida para apoiar a IES, em tornar esta sustentável financeiramente e não apenas numa dependência estrita do erário público. Tem de saber procurar com criatividade (!) e competitividade muitas outras formas de financiamento, para os seus programas de investigação, ou educacionais e arriscar internamente em programas de apoio pedagógico, programas de construção e melhoramento cultural e artístico. É pois necessário encontrar equipas executivas que sejam capazes de ser credíveis, acarinhar o espaço académico E também para levar a IES para um futuro que vai ser muito competitivo e muito exigente. Inculcar uma equipa com especificidades e capacidades de gestão pública, sobretudo de orçamento para investir. Assim como também ter alinhamento com a missão da IES, de prever situações de risco. Uma instituição pública dedicada a princípios públicos, um estímulo à credibilidade e ao alinhamento com os princípios académicos. E apta para a mudança. E para isso, há que criar confiança. De forma interna, para sermos atrevidos e tentar. Externa, para demonstrar a quem nos procura que somos avant- garde mas eficientes, com resultados comprovados. Uma ‘re(s) publica’.
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    Moniz/Um novo horizonte/121 Confiabilidade Hámodelos de forma a arrancar e alcançar o patamar de um desenvolvimento económico regional e institucional, sobretudo num período curto, em dadas regiões. Que ainda não tiveram um período longo de riqueza. Encontram forma em como melhorar o capital humano, a formação e sobretudo um fator total de produtividade: aumentar a competitividade. Como? Creio que essa abordagem é inteiramente possível ‘por aqui’. Sim, por um lado, acima e atrás, a mudança cultural. Sim, a tal outra palavra Hebraica. Sim, possuir-se uma oportunidade numa dada região, ampla q.b., com um ajuizado consórcio, rede de ensino superior. Com outra atitude, griffe e audácia. De, por meio de uma intrínseca singularidade, se ascender a uma qualidade e desenvolvimento excepcionais, primum inter pares. Mas operacionalmente, em ‘praxis’, uma proposta concreta é incorporar (no sentido mais estreito!) o modelo abcd80, um modelo que se baseia em: - agilidade, i.e., como fruto de ‘velocidade’ e ‘precisão’. Velocidade combinada com precisão para aumentar a produtividade. Atenção: não basta apenas a ‘velocidade’. É crucial possuir-se ‘precisão’. Ser competitivo numa determinada tarefa é uma combinação de ‘velocidade’ e ‘precisão’. I.e., dotar a região de capacidade competitiva, recursos que não são inatos à própria região mas criando-os e ter competitividade dessa forma. 80 Cf. https://www.amazon.com/Strategy-Koreas-Economic-Success/dp/0190228792
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    Moniz/Um novo horizonte/122 -bitola (benchmarking) na aprendizagem e as melhores práticas. Para melhorar a eficiência e saber o que é preciso para ser eficaz, na aprendizagem e instrução. - convergência em termos de sinergias criativas entre os diferentes recursos. Com novos valores acrescentados. - dedicação, compromisso de diligência e orientação de objetivos para termos competitividade. Na forma de objetivos, positivo na orientação, com diligência para com compromissos. Uma devoção intensa. E o abcd, juntos com a importância sobretudo também da (i) internacionalização, para aumentar a competitividade e (ii) ligações próximas ao meio empresarial. A internacionalização, como significando, transmitindo prestigio e reconhecimento, combinada com abcd, é uma proposta de operacionalizar a execução e a gestão académica (e a empresarial), que permite aumentar e melhorar a competitividade das regiões e das IES. A metodologia abcd, se devidamente praticada e demonstrada, poderia trazer, reforçadamente, a realidade laboral aos currículos de ensino-aprendizagem. Neste âmbito, corremos o risco de ficar completamente obsoletos. O referido reforço poderia ser através do conceito81 de ‘learning factory’, que sirva o ensino, a investigação, a prestação de serviços. 81 Cf. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2351978917301403.
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    Moniz/Um novo horizonte/123 Trazer,‘colocar’ as empresas82 nas IES, para apresentarem problemas que os centros de investigação e desenvolvimento tecnológico, com as faculdades, poderiam contribuir para uma solução, desenvolver novos métodos de trabalho, de formação, de orientação de ensino- aprendizagem. E assim, investir, de outra forma, em potenciais alumni, filantropia, por uma escala inicial ‘pequena’ mas de imenso valor83 : identidade, qualidade, uberdade! Obviamente, a ser gerida de uma forma séria, estratégica, honesta, transparente e profissional. E assim uma ligação ao meio empresarial mais ‘personalizada’, as IES como ‘pivots’ de ligação, numa base temática para trabalho de ciência e tecnologia, investigação e inovação. A vantagem do modelo abcd é que dá uma importância muito grande a implicações potenciais em certas regiões, às suas estruturas, analítica e compreensivamente. Se têm ‘agilidade’ (que tem que ser baseada em ‘velocidade’ de execução), sendo extremamente precisos neste equilíbrio, para se ser eficiente nas tarefas. A bitola seria regularmente implementada através de perseguir, apontar para aprender as melhores práticas sem qualquer problema, sem qualquer embaraço, sem qualquer preconceito ou desdém. Como melhorias 82 Sendo provocador e iconoclasta: porque não são (algumas) IES como a BMW? Heresia, dir-se-á. Mas leia-se o artigo em HBR, March 2010 de C. Loch, F. Sting, N. Bauer e H. Mauermann. Pensar em 2007 para 2017, e por 20 mil dólares de investimento em qualidade e segurança laboral, para ‘lucrar’ (poupando!) milhões… O ensino ao longo da vida será fundamental, estamos a avançar em termos tecnológicos muito rapidamente, a vida ativa será prolongada. E sim, por isso a força de trabalho está a envelhecer, e temos de ter capacidade para a manter a trabalhar produtivamente. A experiência dessas pessoas é um capital precioso para as empresas, não podem ser descartáveis. Um modelo de ensino à distância combinado com ‘on the job training’ pode resultar, assim como a criação de equipas com funcionários (docentes e não-docentes) mais velhos junto com jovens no início da carreira. Seria uma forma de garantir a manutenção do conhecimento dentro da IES. De outro modo, as áreas em que desenvolviam trabalho (ensino e investigação) podem ficar perdidas para sempre. E para a ‘indústria 4.0’, é preciso preparar os alunos, capacidade de tomar decisões, trabalhar em equipa, comunicação interpessoal, apresentação de ideias. Uma cultura (!) de partilha e ‘esprit de corps’. Chutzpah: algumas empresas já fazem isso há tempo, com ações de ‘team building’. E em Chutzpah há que ir às empresas mostrar o que fazemos e o que temos para oferecer. Ao invés da indolência de ficarmos à espera que nos mandem uma carta…É o ‘problema da roda’: comodamente, corrosivamente, ficar à espera… 83 Liberdade! Igualdade! Fraternidade!...
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    Moniz/Um novo horizonte/124 incrementaisde inovação, através de processos graduais de interação, de aprendizagem para a melhoria. A convergência de trazer diferentes, melhores recursos adequados, para maximizar as energias de diferentes linhas. E a convergência, assumindo o valor da diversificação como dominante e como importante; ser o objetivo de maximizar sinergicamente. E por último uma dedicação intensa, de vestir a camisola que obriga a ter uma diligência e também um objetivo, uma missão, uma visão, um plano estratégico muito bem delineado84 . Sim, eu sei, falar (ou escrever) é fácil. Mas se não se propuser… Por isso, haverá seguramente um grupo de IES que inicia ou já iniciou programas de transformação estratégica para alcançar uma mudança na eficiência institucional, para dar resposta a novas exigências de politicas de financiamento do ensino superior e/ou melhorar a sua vantagem competitiva. E, no entanto, muitas sabem que outras também tentaram e não conseguiram. O problema é, pois, cultural. Apenas a mudança e a sua condução podem transformar o modo como as IES se organizam, e implementam a sua missão. Mas a mudança, tal como as IES ao progredirem, torna-se mais complexa, mais rápida e difusa: autonomia, hierarquias direcionais variadas, colegialidade versus liberdade (académica). Como honrar melhor o contributo do erário publico, sobretudo se dotado com sacrifício e outros setores em aflição legitima? Como avançar os processo de digitalização integral, 84 Por vezes, soluções de implementação rápida e ‘inteligentemente construídas’ falham em face de uma crise porque a tendência é procurar essa otimização de solução (como ‘tirar do bolso’ uma roda e não, não se explica nem se analisa), ao invés de discutir, analisar, esmiuçar, resolver primeira crise e otimizar depois, quando já não houver crise e pressão.
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    Moniz/Um novo horizonte/125 tambémas necessidades de ensino-aprendizagem, a qualidade e sua garantia, tal como prestação de contas (sentido lato…)? Um entrelaçar complexo. Onde está o profissionalismo quando se ‘transpôs o Rubicão’ para um enquadramento competitivo profissional (mesmo que ‘familiar’ na colegialidade)? Onde se tem os peritos ‘externos’ para dotar novas ideias, em mérito e compromisso, implementar de forma orgânica, inclusiva, institucional, … de forma entrelaçada? Onde estão os líderes gerados e apoiados, preparados para o arranque da segunda metade deste século? Muito cedo? Olhe que não, olhe que não… A IES que quiser estar em pleno, a progredir para o final do século tem de ser mais estratégica, mais ágil nesse procedimento, eficiente face a pressões. Será mais exigente incluindo na governança, nos serviços que providenciar. O entretecimento de eficiência e eficácia irá envolver a congruência inteligente e experiente de políticas de ciência e ensino, parcerias, consórcios e ‘consórcios’ com a sociedade em geral: um responsabilidade coletiva, politica, de todos direta e indiretamente integrados no ensino (superior). E isso precisa de diálogo, continuo e sincero.
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    Moniz/Um novo horizonte/126 “Mudaro mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!” Miguel de Cervantes E… Porque estamos ‘aqui’? Está é a questão essencial se queremos manter uma IES em ‘esprit de corps’, focada em tempos de incerteza e necessitando de mudança. Mas que mudança? Como obter respostas, como sequência a uma motivação? Qual é então, neste âmbito, a nova visão a nova missão? O que é preciso, agora? O que será o sucesso? Ou o fracasso? Vamos manter planos antigos? Ou vamos galvanizar a IES e discutir novos propósitos, com novas metodologias? É precisa uma abordagem colaborativa, mais legítima, mais motivadora e mais capaz de subverter a mediana do status quo conformista, a mediocridade de uma ‘paz podre’. E assim construir uma trajetória inclusiva e integradora.
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    Moniz/Um novo horizonte/127 Podemos(e devemos) continuar questionando. Porque não há mais casos de produção liderante em ciência e tecnologia, sugerida na forma de ‘taxas’ elevadas de inovação e beneficio industrial? É o citado equilíbrio, o tal desígnio, entre ‘insegurança’ e as escolhas? E com a ciência e tecnologia de permeio, há que destrinçar entre ‘politiquice’ e política. As melhores histórias de sucesso regional são aquelas que decidiram tomar o desenvolvimento em modos radicalmente diferentes para atingir essa competitividade. As regiões fizeram escolhas e puderam definir as ferramentas que eram precisas para tornar e tomar o processo ‘orgânico’. Mas também isso poderá passar por entre um perigo intrínseco (e enorme). Concretizemos. Em muitas situações, há participantes com poder de veto (ou ‘veto’, ou parecido). E quando aplicado à inovação, esses participantes podem bloquear toda e qualquer rota de progresso publico. Organizações com poucos participantes com ‘veto’, podem de forma mais eficaz e por consenso ultrapassar resistências internas à mudança tecnológica. Mas se o número de participantes com veto for elevado, é mais difícil construir plataformas abrangentes, entre os numerosos participantes com ‘veto’. Assim, os governos dessas organizações tornam-se menos solícitos a escutar acerca do que decidir sobre ciência e tecnologia. A inovação tem custos…
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    Moniz/Um novo horizonte/128 Juntocom a possibilidade de o dito veto ser empregue (ou não, funcionalmente), há também situações i.e., organizações com mais ou menos participantes decisórios. Por exemplo, numa democracia com uma boa descentralização, a necessidade e o respeito publico fazem com que rapidamente se convirja para um apoio ao progresso em ciência e tecnologia. Mas a democracia, tentar que seja eficiente, no seu funcionamento, face a situações de ansiedade, é algo complexo. Isso pode (por vezes) verificar-se nas decisões, que determinam a liderança de uma organização. Mormente, estabelecer o número de indivíduos que têm o direito de selecionar essa liderança executiva. E, face a esse número, determinar qual a fração de pessoas necessárias que o produz, i.e., para essa liderança ser realizada. Tal como são importantes identificar se pode haver uma coligação ganhadora e sobretudo a dimensão dessa coligação ganhadora. Detalhes, mas nos detalhes é que está: se esses números, se essa dimensão, face à ‘população’ total, são satisfatoriamente grandes, isto é, se existe democracia efectivamente (!) participativa, pode até ter que haver uma coligação ampla e robusta. Isso pode ser bom: o(a)s líderes ficam instruídos de providenciar benefícios públicos (para construir o abrangente número de apoios necessários e poder exercer) em coligação. Pode ser o caso de uma dada democracia (semi)‘Presidencial’, com todo um conjunto de boas decisões (públicas), e assim pouca ou nenhuma corrupção e ineficiência (ou protecionismo).
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    Moniz/Um novo horizonte/129 Masse e quando for uma coligação (se houver…), e esta é pequena, por exemplo numa ‘monarquia’, estão presentes os riscos de um governo motivado apenas para benefícios a ‘privados’. E pior, corrupção e subsídios por contratos em protecionismo para aqueles poucos (apenas os necessários, q.b.) apoiantes que vão ajudar a manter o poder em ‘dinastia’. Pequenas (ou nem sequer) coligações: é também o caso de …alguma ‘junta militar’. Poucos (muito poucos) benefícios públicos, elevados níveis de corrupção, ‘crime’, e ineficiência económica. A educação em ciência e tecnologia precisa de subsídios, atribuídos de forma transparente, para a investigação, na forma de programas e bolsas, apoios às IES, às suas faculdades e laboratórios. É imperativo impedir-se que alguma vez ocorram procedimentos em modo vulgo ‘toucinho cientifico’ (ou académico); os vencedores podem dirigir os seus apoios para aqueles que os apoiaram, premiando através de ‘subsídios diversos’ para apenas alguns grupos de investigação e para alguns programas de aquisição de infraestruturas e não para todos85 . O estado tem que contribuir no subsídio da oferta e procura, mas o estado não pode ser a oferta ou a procura. Modalidade86 Hobbesiana87 para o ‘estado’ ou outras organizações no 85 Cf. https://cup.columbia.edu/book/pork-barrel-politics/9780231193597 86 ‘Hobbesianamente’ escrevendo, o Estado poderia (e deveria!) simplificar (preferencialmente eliminar) muitos (se não todos) dos passos ‘exterminadores’ de processos regulatórios: a burocracia (ou boa parte dela) na submissão, avaliação, execução (incluindo financeira) em ciência e tecnologia. Recolher dados e monitorizar tem aspetos positivos, mas repetir o mesmo para diferentes organizações e agências? 87 Cf. https://www.jstor.org/stable/41220796?seq=1.
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    Moniz/Um novo horizonte/130 respeitantea um contrato ‘social’ e definir, entenda-se ditar88 sem mais, a politica89 de ciência e tecnologia? É pelo exposto nos parágrafos acima que cientistas políticos e políticos de ciência, cientistas no geral, deveriam participar mais e melhor . E essa crítica deve ser feita no debate da inovação. Os académicos mais diversos e ‘inesperados’ deveriam ser chamados a participar: partidos políticos, com cientistas, deveriam colaborar cada vez mais conjuntamente, porque a pouca presença da investigação e do valor da ciência no saber político, na determinação de política de ciência está a impedir o progresso, o desenvolvimentos económico; este depende da mudança tecnológica. Se continuarmos a ignorar, não seremos capazes de alterar para melhor a produtividade e riqueza extraída do investimento em ciência e tecnologia, vamos continuar a ver mensagens e títulos em jeito ‘não ir mais longe do que poderia se tivesse esse apoio’; no fim do dia, é (quase) uma perda de recursos e de finanças. 88 Quem paga, manda… 89 Poder-se-á retorquir que o que vou indicar ‘já existe’ na forma de contratos de financiamento plurianuais, seguindo o ‘dictum’ da avaliação de centros (de investigação) por painéis. Mas, numa perspetiva de gerar tanto eficácia como eficiência do financiamento, de forma mais orgânica, não se poderia ter para (algumas) redes desses centros um ‘contrato de confiança’, para desenvolvimento? Com o envolvimento de vários ministérios (não só a tutela direta), em desígnio de Estado, mobilizando recursos, criado condições para a execução sem interposições de burocracia, com mais autonomia e também a subsequente (aumentada!) responsabilidade (e melhor transparência)? Para objetivos bem definidos e contratualizados, com especificidades. Eventualmente, promovendo (novas) redes regionais e nacionais, articuladas pelo contrato. Designadamente, onde se ‘A e B solicitam 1€ cada um’, poder-se-ia até disponibilizar ‘2+0.3… para A+B’ se e só se em sinergia…contratualizada. Uma visão ‘holística’ e de Estado para uma (nova) rede desses centros e não uma competição para o (muito pouco) disponível nas ‘prateleiras’ do mercado …. Quiçá, também nesse enquadramento termos uma ‘outra’, diferente, instruída, também mais eficaz e eficiente, FCT (www.fct.pt)...
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    Moniz/Um novo horizonte/131 Seja-mepermitido, ao aproximar-me do final deste ensaio, relembrar do início, estas questões que as IES Portuguesas poderiam considerar nesta transição entre décadas. Quais são os problemas que enfrentam para concretizar a estratégia que foi delineada? Quais são, especificamente, os obstáculos principais que impedem que se alcance esses objetivos? E que utensílios são precisos para limitar (ou eliminar) os riscos relacionados com os desafios? Qual é o enquadramento cronológico, geográfico? E como definir, explicar o que será ‘sucesso’ para se determinar (sem ambiguidades ou dúvidas) que é alcançado? E no âmbito dessa ‘permissão’, diria que qualquer IES em Portugal quer providenciar um ensino de muito boa qualidade, tal como divulgar resultados de investigação científica e ‘produtividade’, na forma de transferência de conhecimento, por forma salientar as áreas que ministra. Isso significará, possivelmente, atrair mais e mais estudantes, de forma a que, e.g., em 10 anos (a próxima década) o número de graduações em 1º, 2º e 3º ciclo tenham duplicado (ou até triplicado). Em suma, a IES demonstrar que é eficaz e eficiente90 para com o apoio financeiro publico (e outrem) que receber. Dito de outra forma, uma IES afirmar que incorpora de forma intrínseca e genuína o século XXI, de conhecimento e transferência do mesmo. Apoiada e instruída por direções e objetivos de ciência e tecnologia, economia e desenvolvimento, infraestruturas. 90 Eficiência, significando benefícios, melhorias obtidas de um melhor uso de recursos e otimização de processos; eficácia como a capacidade da IES alcançar os objetivos e implementar a sua estratégia delineada. Porventura, mais e melhor autonomia das IES poderá impactar positivamente na eficiência e/ou eficácia. Ou não. Terá de haver o compromisso da melhor e maior transparência, da prestação de ‘contas’ (sentido lato): mais autonomia se e só se com mais (e muito melhor) transparência (prestação de ‘contas’).
  • 132.
    Moniz/Um novo horizonte/132 Falar(ou escrever) é fácil, dir-se-á (e estou a repetir-me). Haverá obstáculos e alguns poderão prejudicar ou até aniquilar o sucesso dessa implementação. Como ultrapassar, como os analisar? Que recursos são necessários, são sobretudo financeiros? Há constrangimentos e regulamentos internos e externos que são determinantes? Ou talvez não? Em alguns casos, algures, poder-se-á apontar que seria importante, útil, potencializar os centros de investigação para que subsequentemente sejam reconhecidos a uma grande escala (mundial?) como do que muito bom se faz. Esse ‘sucesso’ gera eventualmente mais outros ‘sucessos’, de forma direta e também indireta por entre o ‘corpo e alma’ da IES. Mas fatores como idade, i.e., ‘juventude’, necessidade de corrigir segmentos de trajetória ou simplesmente alheamento geográfico (duro e isso sim um tremendo e impiedoso obstáculo) são de outra magnitude. São ‘mostrengos’. Idem o conformismo (ou comodismo) de manter o status quo, ‘venha, mas é verba, não façam nada, vai ficar tudo bem’. É preciso melhorar ‘as coisas’? Como ultrapassar os promontórios? Alguém tem um manual de velejar os Alísios? A mudança é perigosa: ninguém quer apresentar uma lista de danos e perdas. São precisos mais e melhores (!) aliados, apoiantes competentes, com experiência. Não basta saber correr muito, é preciso ser-se bom a correr. E possuir a humildade de ponderar sobre um ‘top-down’ (externo) instruído para se fazer a ponte em completa continuidade com uma manifestação (interna) em ‘bottom-up’. De forma a que assim, de forma ‘orgânica’, as IES sejam positivamente guiadas para encontrarem soluções. Usualmente complexas, para problemas complexos. Serão precisos vários ‘módulos’ de governança, por
  • 133.
    Moniz/Um novo horizonte/133 entredécadas, por meio de um pacto para a sustentabilidade e crescimento. Ou, dito de outra forma, para a sobrevivência em competição. Arriscaria enfatizar, repetindo, que ouvir-se-á reclamar por ‘mais e melhor’ autonomia. Mas igualmente diria, que num cenário de mais necessidade de investimento, mas com outras áreas da sociedade em ‘aflição’, haverá (repito e repito!) que construir um pacto que inclua uma substancial melhoria na transparência das IES em Portugal. I.e., no referente à prestação de contas (num sentido lato) acerca das decisões e da governança correspondente. Uma muitíssima mais rigorosa responsabilização: muitas IES ‘fazem’, integram uma ‘res publica’. Uma retoma económica, sempre dependente do que causou o abrandamento e retrocesso, pode demorar (muitos) anos. O setor de ensino superior é sempre afetado, por razões próximas de OE ou até pela exigência que cai sobre estruturas de medicina, biologias e afins para corresponderem a emergências. Desde suportarem custos de funcionáriohoras de trabalho nessa urgência pública (além do serviço usual na IES) até à despesa de laboratório complementar, em alinhamento com a contenção de surtos e enfermidades. Quando há menos projetos (de investigação) financiados, mas mais são submetidos, quando se vislumbra que a metodologia será escolher entre apoiar menos (candidatos escolhidos) com mais verba selecionada para cada um ou apoiar mais escolhidos mas com menos dotação por cada seleção, a resposta, é, mais uma vez, ‘it's the economy’... . Sempre. No fim do dia, se houver aflição para com a verba do OE, o setor das IES Portuguesas tem de carregar (também) o sacrifício;
  • 134.
    Moniz/Um novo horizonte/134 vide‘Diagnostico’, algures. E se for preciso ter uma percentagem de PIB na ciência e tecnologia da ordem de 5%, então apelar a entidades privadas para serem os contribuintes a 30 a 40% dos fundos para as IES, é quase dizer que essas entidades não foram afetadas no mencionado retrocesso. Daí as sugestões, construtivas, possíveis de análise, surpreendente se rejeitadas ‘tout court’, onde desde filantropia (vai demorar mas há que criar raízes!) e conversar sobre consórcios: há que criar raízes também, pontes, começar. Por exemplo, progredir de unidades de investigação ‘isoladas’ para consórcios, em projeto-piloto para eventuais laboratórios associados, entre IES. Tudo racional e sensato, onde se puder, onde for viável. A inteligência artificial é o presente, hoje, alinhada com o futuro. Mas ficar à espera do ‘comboio’, que pare e possamos entrar, sem participar no desenvolvimento da ‘locomotiva’ e/ou criar as ‘carruagens’… depois quem souber manejar, tem e deterá aquela vantagem. Pois. É isso. A tal mudança cultural, Chutzpah, IES Portuguesas do século XXI. Eu espero que aqueles que nascera(e)m no século XXI apontem a uma navegação valorosa, que não se cinja ao ‘há de chegar’. Desta vez não será como tem sido. Quem começar ‘ontem’, onde o hoje já é a consequência do amanhã, estará a ser socialmente útil. A questão é como dotar as IES com mais verba; ou então fazer, de várias formas, congruentes, mudanças, alterações que possam trazer melhor fluência de execução, eficiência, agrado e procura, desde alunos até empresas para colaborar. Como demonstrar credibilidade? O OE é a ‘base’, mas não chega e não chegará, se a estratégia em fundos de coesão for dar mais montante por entre os (menos!) aplicantes selecionados, para se ter melhor garantia de resultado. Socialmente, parece um neo-Malthusianismo (?) com esses fundos. Mas em 2030 já
  • 135.
    Moniz/Um novo horizonte/135 nãoserão os fundos. Serão as ‘derivadas’ desse investimento, quem tiver adquirido no entretanto o potencial acumulado de expertise. Há sempre uma fatura ao sacrifício. É, pois, crucial que as IES em Portugal façam previsões quanto ao futuro, por entre as suas estratégias, missões, investimentos, objetivos. Não poderão continuar como até aqui, sem capitalizar mais e melhor os seus recursos. São necessárias reformas que implicam disrupção. Há que romper. Mas a cultura, no geral, que permeia e que impera, é ainda do receio, de não arriscar. Só que agora, a estrutura das IES não pode ser mais temerária, algumas IES têm de ser mais competitivas, agressivas, corajosas: têm de ser maiores do que esses medos o têm permitido. Precisam de uma visão nova, serena, mas também agitada, para estar à altura do exigido. E não é fácil, admito e recolho: apontar a algo maior do que qualquer uma ou do seu conjunto até este ponto, enraizadas na realidade, arriscando sem desvarios. Vou encerrar. Algures no início da década de 60 (século passado!) um Presidente dos EUA terá afirmado que (e adapto, traduzindo para a Língua Portuguesa) que “cada um de nós pode fazer a diferença e por isso deve tentar”. Nesse contexto e sentido, escrevi estes parágrafos, após longa recolha de ideias e opiniões, aqui reunidas em capítulos. Neste ensaio.
  • 136.
    Moniz/Um novo horizonte/136 Creio(palavra extremamente perigosa de empregar em certos eventos ou reuniões académicas) que posso e por isso devo contribuir. Não encontrei uma súmula, na forma de coletânea entretecida de ideias e sugestões como estas em parte alguma. Sectorialmente, isoladamente, constituem apontamentos lidos, relembrados, filtrados após extração e comparação por entre os elementos elencados na bibliografia: a informação original está muito mais coerente, muito melhor, em detalhe, quantidade e sobretudo qualidade. Recomendo fortemente: vão à fonte, consultar por entre a bibliografia. A tentativa de súmula e síntese por meio deste ensaio em modo de ‘compactação’ (parcial, reduzida, quiçá até deformada…, por isso peço desculpa), procurando uma justaposição coerente e congruente, é da minha responsabilidade, é a minha contribuição. Subscrevo (obviamente!) as propostas para análise e discussão que aqui apresento. No início da segunda década deste novo século, o ensino superior, as universidades e institutos politécnicos em particular, tal como outras (modalidades de) IES, i.e., pós-ensino secundário, têm mesmo muito que recuperar. Ou construir, criando. De forma a corrigir onde necessário ou até oportuno, adotando e adaptando em novas praxis. Manter estritamente todos os procedimentos e linhas orientadoras do(s) século(s) passado(s), presentes no arranque deste século, irá levar algumas, em parte, ao seu declínio gradual, eventualmente à sua extinção.
  • 137.
    Moniz/Um novo horizonte/137 Poderãoalguns (!) leitores constatar isso no final do corrente século. Ou nem tanto91 . Ruina(s)… Há que ser atrevido, inesperado, permitir receptivamente audácia e iconoclastia, ser provocador e inovador. Não me preocupa que haja quem discorde, incomodar-me-ia se eu não tivesse opinião e depois não a partilhasse. Uma nota antes de prosseguir: o conteúdo que aqui partilhei é de aplicação possível em quaisquer tipos de instituições de ensino pós-liceal ou secundário. Igualmente não encontrei suficientes artigos ou escritos de opinião, ensaios ou livros maiores, ou até programas de partidos políticos, cimeiras ou convenções, quaisquer provocações sobre se, como, porquê, com o quê, quanto e quanto mudar uma IES (em Portugal). Por entre o que me entusiasmou, saliento aqui92 . E, no entanto, algumas universidades e institutos politécnicos vão sofrer, podendo ser reduzidas (ou até eliminadas, até ao final do corrente século). Ou quanto muito, apenas simplesmente ‘eliminadas’ apesar de toleradas (por algum tempo) numa manutenção forçada. Outras poderão permanecer, mas com o mencionado sofrimento. O cenário assimptótico estará lançado. 91 As IES Portuguesas têm que ser (mais) ágeis, têm que mudar, evoluir, fortalecerem-se. Tudo o que funcionou no passado poderá não as sustentar no futuro. As IES em Portugal deveriam ‘mover-se’ à mesma velocidade que a ciência e a tecnologia evolui. 92 https://www.publico.pt/2020/09/25/opiniao/opiniao/universidade-2030-1932825. E http://maissuperior.blogspot.com/: a riqueza das análises e da diversidade de elementos disponibilizados é irrecusável; mesmo que se não concorde com ‘isto ou aquilo’, deve ser estudado (eu não subscrevo, por vezes, ‘aquilo ou aqueloutro’, mas reconheço e louvo o material).
  • 138.
    Moniz/Um novo horizonte/138 Nãotrouxe para este ensaio (e repito, de novo) qualquer ‘bala de prata’, uma solução simples, sem qualquer custo, única e válida para a globalidade. Pouco ou nada mesmo se conseguirá em termos de melhoria (significativa, que não seja um remedeio curto e transiente) na rede do ensino superior enquanto houver mais ‘politiquice’ ego-(sobre)valorizada, do que política para bem da população académica e das regiões que as envolvem. Não obstante os ‘arreios’ à conformidade e o conforto do ‘deixa ver’ e ‘não passa nada’ e ‘deixe-se estar, vai ficar tudo bem’, este é, no entanto, um problema muito complexo. Pior, se em contração ou lenta retoma económica por anos ou até uma(s) década(s). Faltam neste ensaio alguns parágrafos (reunidos em capítulo(s)?) sobre IES, autonomia, modalidades de financiamento e ‘confiabilidade social’. Estão em produção (conceptual!) mas já possuindo os necessários ‘valores e vetores próprios93 ’. À suivre, por favor. E, sim, algumas das linhas nos capítulos anteriores podem e devem merecer crítica para se produzir algo ainda mais robusto e satisfatório a mais partes e participantes. O objetivo é ser iconoclasta e gerar uma busca por navegação em ‘modo Alísios’, fora da caixa, sem costa à vista. Temos que passar os mostrengos. A mando de nós próprios. Na base do problema atual do nosso ensino superior está uma boa intenção (é sempre assim…) que se transformou em dogma imutável de politica e administração académica, pois mudar é arriscar perder o ‘controle’ sobre quem dirige as IES. I.e., quem forma quem no futuro 93 ‘Arriscando’… cf. https://www.maa.org/press/periodicals/convergence/math-origins-eigenvectors-and- eigenvalues
  • 139.
    Moniz/Um novo horizonte/139 vai(‘continuar’ a) dirigir o país. Desperdiçar apoios, perder controle na formação de quadros alinhados num dado diktat politico, mesmo que fraternal, social, progressista, para bem de todos (sem dúvida e é sempre assim…), sem ‘coação’, mas assim sendo, algo redutor e estéril para com as IES Portuguesas. Deveria haver (muito) mais e melhor esforço para resolver os problemas concretos das IES em Portugal. E estas são as pessoas. Polis (πόλις) significa uma forma assumida e escolhida de viver, definindo a base de uma cultura, onde ‘residem’ homens e mulheres. Fazer boa política94 , é procurar o bem dessa forma de viver, neste caso (das IES) de vida académica. Infelizmente, se em Portugal é ‘sim ou não’, isso significa que não há negociação, coligação, governação partilhada, concertada, compromissos, ‘give and take’, ceder para algo manter. Não há cultura para fazer convergir objetivos diferentes, mas que, de forma congruente, deveriam conjuntamente alcançar o bem da polis. E, no entanto, o que se constata é que o bem da polis é subjugado ao domínio de uma fação, que por controle ‘adquirido’ ignorará alternativas, nem sequer as tentará consensualizar. Temos tido e não poucas vezes, uma 94 No início deste ensaio, mencionou-se que endossar um melhor exercício de cidadania é uma das missões primordiais das IES. Exercer cidadania apoia-se em direitos, liberdade e igualdade, assim como deveres e compromissos em sociedade. A cidadania da polis precisa da participação na vida pública, no geral de uma ‘res publica’ ou no específico de uma IES. Estimular a discussão, como exemplo do acervo de uma faculdade ou escola, de participação na política académica. Só assim se terá o interesse individual pelo coletivo e pelo governo. E a democracia requer esse compromisso cívico também nas IES Portuguesas.
  • 140.
    Moniz/Um novo horizonte/140 governançaem modo de ‘feixe’, mesmo que ‘colorido’, mas carregado de autocracia e menos uma congruência construtiva, de composição inclusiva, diversa, gradual e positiva. Como então construir o futuro da academia? Neste dogma sufocante e escurecedor? Acabamos pior do que na caverna, nem sombras teremos. Uma academia que se quer construir assim não funcionará e não irá dar um litro e meio, a tal ‘diferença’ que uma retoma económica precisa. Há o risco de um poder autocrático, ergo, de não haver envolvimento cívico. Haveria que criar um outro dinamismo em que as próprias pessoas tivessem a possibilidade de ser protagonistas do próprio desenvolvimento, da própria academia. Uma (outra) ‘alma’ ou essência. Este novo horizonte, podemos recolhê-lo de forma informada e livre. É fulcral notar que ele avançou para junto de nós. É dinâmico, rodeou-nos: sem nos apercebermos, sem o procurarmos, sem o buscarmos. O futuro, ‘ontem’, contém os desafios e os problemas elencados ao longo deste ensaio. São áreas (algumas…) ainda por cartografar, problemas de conflito e consenso por resolver, perguntas (ainda) sem resposta. Como foi apontado, em face deste novo horizonte, o mais fácil é nada fazer, nada dizer, ou pior, nada pensar. Entrincheirarmo-nos num conservadorismo de mediania, numa tranquilidade medíocre, numa paz podre de ‘conforto’: sermos mesmerizados pelas ‘boas intenções’ (é sempre assim…), pela simbologia indigesta que por vezes emerge num mercado comunicacional ‘anestesiante’. Quem assim seguir, quem assim professar, então este ensaio ser-lhe-á indiferente, nulo. E eu não vou por aí.
  • 141.
    Moniz/Um novo horizonte/141 Ofuturo, ‘ontem’, exige, com este novo horizonte, que hajam novas decisões95 . Mais inovação e que, se necessário, se inventem soluções novas. O novo horizonte precisa de uma mentalidade jovem, atrevida, iconoclasta, ousada. Precisa de contributos com robustez, com coragem, sem receios e sem desânimos. E ao concluir, referir o seguinte. Os elementos que aqui apresentei são, em boa parte, conhecidos e familiares; não constituem algo de novo96 na forma genérica que os empreguei. Se alguma novidade houver, é na forma de apresentação desses elementos e nas suas interligações, aqui propostas. Coloquei por entre este ensaio várias questões. As respostas, se as quiserem, devem ser construídas na academia, na rede de IES Portuguesas. É primordial que não ocorram distrações por entre artifícios, como subjugando, enfraquecendo o que é correto, para proteger o que é errado, cobrindo. Haverá que não ter receio de ameaças e errar. Haverá indubitavelmente que corrigir e recomeçar. Haverá que acreditar que ao procurarmos o que é correto, faremos o que é melhor. E agora? Resta-me terminar e ir beber a minha chávena de chá. 95 “Sub pondere crescit palma”: as palmeiras (árvores) crescem sob pressão. Uma trajetória de risco… Mas se há cansaço, há (também) que acreditar que vamos ultrapassar (est)a ansiedade. Ter confiança. Iremos recordar, evocar os esforços que vamos empreender para alcançar o sucesso. 96 Cf. https://en.wikiquote.org/wiki/Ecclesiastes (1:9).
  • 142.
    Moniz/Um novo horizonte/142 Bibliografia Esteensaio constitui uma reunião, uma súmula, ponderada pelas minhas opiniões, por entre diversas consultas e leituras. Não é sequencial e o conteúdo adapta e adota por entre vários textos (designadamente, as fontes originais) que indico. E os quais (em parte) subscrevo e transcrevo a informação. Para qualquer dos capítulos, recomenda-se, se houver interesse por mais detalhe, por uma descrição completa dos desafios e problemas, por propostas (de resposta), por um enquadramento mais lato e mais rigoroso, que então se consultem e se leiam os livros que a seguir se apontam. Não são ensaios (aligeirados de principiante, como este que aqui vos coloco à consideração…), são obras (académicas) de referência que merecem ser estudadas. E que aqui foram consultadas, lidas com imensa atenção e interesse, depois sectorialmente extraídas e justapostas, enlaçadas e entrelaçadas por meio de passadiços frágeis, atrevidos e toscos, que por mim foram propostos. Assim, essas obras foram desajeitadamente ‘temperadas’, empregues e seguidas; mea culpa: • Robot-Proof, Aoun, Joseph E.; https://www.bookdepository.com/Robot-Proof- Joseph-E-Aoun/9780262037280 • The strategy for Korea’s economic success, Moon Hwy-Chang; https://www.bookdepository.com/Strategy-for-Koreas-Economic-Success-Hwy- Chang-Moon/9780190228798?ref=grid-view&qid=1602259664527&sr=1-1 • The politics of innovation, Taylor, Mark Z.; https://www.bookdepository.com/The-Politics-of-Innovation/9780190464134
  • 143.
    Moniz/Um novo horizonte/143 •Demographics …, Grawe, Nathan D.; https://www.bookdepository.com/Demographics-Demand-for-Higher-Education- Nathan-D-Grawe/9781421424132?ref=grid-view&qid=1602259727523&sr=1-1 • Inteligência Artificial, Oliveira, Arlindo; https://www.wook.pt/livro/inteligencia- artificial-arlindo-oliveira/22773679 • Strategic Mergers in Higher Education, Aziz, Ricardo; https://www.bookdepository.com/Strategic-Mergers-Higher-Education-Ricardo- Azziz/9781421432601?ref=grid-view&qid=1602259827130&sr=1-1 • Consolidating Colleges and Merging, Martin, James; https://www.bookdepository.com/Consolidating-Colleges-and-Merging- Universities-James-Martin-James-E-Samels/9781421421674 • The second machine age…, Brynjolfsson, Erik,; https://www.bookdepository.com/Second-Machine-Age-Erik- Brynjolfsson/9780393350647?ref=grid-view&qid=1602259887791&sr=1-1 • Designing the new American university, Crow, Michael; https://www.bookdepository.com/Designing-New-American-University-Michael- M-Crow/9781421427027?ref=grid-view&qid=1602259914125&sr=1-2 • Lost in the meritocracy, Kirn, Walter; https://www.bookdepository.com/Lost- Meritocracy-Walter-Kirn/9780307279453?ref=grid- view&qid=1602259945709&sr=1-1
  • 144.
    Moniz/Um novo horizonte/144 •Pass the Chutzpah please…, Yarkoni, Itzik; https://www.goodreads.com/book/show/34812301-pass-the-chutzpah- please?from_search=true&from_srp=true&qid=tJj6KuTY5x&rank=1 • Socrates in the boardroom…, Goodall, Amanda; https://www.bookdepository.com/Socrates-in-the-Boardroom-Amanda-H- Goodall/9780691138008 • Turnaround…, Martin, James; https://www.bookdepository.com/Turnaround- James-Martin/9781421409542?ref=grid-view&qid=1602260087079&sr=1-1 • A university education, Willets, David; https://www.bookdepository.com/University-Education-David- Willetts/9780198767268?ref=grid-view&qid=1602260112767&sr=1-1
  • 145.
    Moniz/Um novo horizonte/145 Post-Scriptum: …Não pretendo auferir qualquer proveito financeiro com este ensaio, o qual disponibilizo de forma gratuita neste ‘endereço’ https://www.escrytos.com/. Permita-se-me sugerir, caso seja o ensaio do seu agrado e entenda ser por si elegível, que atribua um donativo (por exemplo €1 ou outra quantia maior (!)), a uma (ou todas!) destas instituições (apenas uma seleção de 6 entre as várias que eu estimo): • Instinto: https://instinto1.wixsite.com/associacaoinstinto • IPO: https://www.ipolisboa.min-saude.pt/ • União Zoófila: http://www.uniaozoofila.org/ • Animais de Rua: https://animaisderua.org/ • Centro de Apoio ao Sem Abrigo: https://casa-apoioaosemabrigo.org/ • Alzheimer Portugal: https://alzheimerportugal.org/pt/ Basta usar o ‘link’ e empregar97 um dos meios ‘digitais’ neles sugeridos. Obrigado e Bem Haja! 97 E se me permite sugerir, empregar o ‘search engine’ ecosia, https://www.ecosia.org/, que apoia, promove e custeia a plantação de árvores, ajuda o planeta (o nosso!), que bem precisa.
  • 146.
    Moniz/Um novo horizonte/146 Nb-1.Imagem de capa: É um quadro, em modo mosaico, que adquiri no Vaticano (creio, pois foi numa travessa direta à Basílica e ali, com um pé na praça e com a cara na basílica…), obra da Irmã Genoveva (acho…), da Antica Scuola di Arte Musiva. Nb-2. Agradeço e MUITO a todo(a)s o(a)s que imenso me auxiliaram, com críticas, sugestões, correções, ideias e propostas, sobretudo incentivo e apoio. Vário(a)s me solicitaram para não o(a)s citar explicitamente (por vários motivos e razões), pelo que tomando o anonimato solicitado por algumas boas e cuidadosas ‘almas’, o generalizei a todos; e desta forma, agradeço e MUITO a todo(a)s vós. Obrigado pela boa compreensão, mais uma vez. Bem hajam!!!