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CAPÍTULO UM 
INTRODUÇÃO 
uu 
1 
O tratamento cuidadoso requerido 
... que também vos dá o seu Espírito Santo (1Ts 4.8). 
A necessidade de direção divina nunca é mais profundamente sentida do 
que quando uma pessoa assume a tarefa de dar instrução sobre a obra do Es-pírito 
Santo — o assunto é tão indizivelmente delicado que toca os segredos 
mais íntimos de Deus e os mistérios mais profundos da alma. 
Nós instintivamente protegemos a intimidade de nossos parentes e amigos do 
escrutínio inoportuno, e nada fere mais o coração sensível do que a exposição 
impertinente daquilo que não é para ser revelado, sendo bonito apenas no 
círculo familiar. Muito maior delicadeza condiz com nossa aproximação ao 
santo mistério da intimidade de nossa alma com o Deus vivo. Na verdade, 
nós difi cilmente podemos encontrar palavras para expressá-la, pois ela toca 
um domínio muito além da vida social onde a linguagem é formada e o uso 
determina o signifi cado das palavras. 
Lampejos dessa vida foram revelados, mas a maior parte está oculta. É como a 
vida daquele que não clamou, nem gritou nem fez ouvir sua voz na praça. E o que 
se ouviu foi sussurrado, mais do que propriamente falado — um sopro da alma, 
suave, mas silente, ou mais uma irradiação do calor da própria alma. Algumas 
vezes a quietude foi quebrada por um brado ou um grito extasiado, mas houve 
principalmente um trabalho silencioso, uma ministração de repreensão severa ou 
A Obra do Espírito Santo_2010.indd   43 7/12/2010   10:48:44
44 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO 
de um doce conforto por aquele maravilhoso Ser da Santa Trindade que, com 
língua balbuciante, nós adoramos como o Espírito Santo. 
A experiência espiritual não pode fornecer nenhuma base para instrução, 
pois tal experiência repousa sobre o que se passou em nossa própria alma. 
Certamente que isso tem valor, infl uência, voz no assunto. Mas o que garante 
a precisão e a fi delidade ao interpretarmos tal experiência? E, novamente, 
como podemos distinguir suas várias fontes — de nós mesmos, de fora ou do 
Espírito Santo? A dupla questão será sempre pertinente: Nossa experiência é 
compartilhada por outras pessoas? Ela pode ser adulterada pelo que é em nós 
pecaminoso e espiritualmente anormal? 
Embora não haja nenhum assunto em cujo tratamento a alma se incline mais 
para extrair sua própria experiência, não há nenhum que demande mais que nossa 
única fonte de conhecimento seja a Palavra dada a nós pelo Espírito Santo. Em 
decorrência disso, a experiência humana pode ser ouvida, atestando o que os lábios 
confessaram, até mesmo dando uma passada de olhos nos abençoados mistérios 
do Espírito, que são indizíveis, e dos quais as Escrituras, portanto, não falam. Mas 
não podemos nos basear nela para dar instrução a outros. 
A Igreja de Cristo certamente apresenta abundante pronunciamento espiritual 
em hinos e cânticos espirituais; em homílias exortatórias e consoladoras; em 
confi ssão sóbria ou explosões de almas quase submersas pelas enchentes de 
perseguição e martírio. Mas nem mesmo isso pode ser a base do conhecimento 
da obra do Espírito Santo. 
As seguintes razões tornarão clara a questão: 
Primeira, a difi culdade de discriminar entre os homens e as mulheres cuja 
experiência nós consideramos pura e saudável, e aqueles cujo testemunho nós 
colocamos de lado como forçado e doentio. Lutero frequentemnte falou de sua 
experiência como também o fez Caspar Schwenkfeld, o perigoso fanático. Mas qual 
é nossa base para aprovar as declarações do grande reformador e advertir contra as 
declarações daquele aristocrata silesiano? Pois evidentemente o testemunho dos 
dois homens não pode ser igualmente verdadeiro. Lutero condenou como uma 
mentira o que Schwenkfeld aprovou como uma consecução altamente espiritual. 
Segunda, o testemunho dos crentes apresenta apenas um apagado esboço 
da obra do Espírito Santo. Suas vozes são débeis como vindas de um reino 
desconhecido, e sua fala quebrada é inteligível somente quando nós, iniciados 
pelo Espírito Santo, podemos interpretar nossa própria experiência. De outro 
modo nós ouvimos, mas não entendemos; escutamos, mas não recebemos 
nenhuma informação. Somente quem tem ouvidos pode ouvir o que o Espírito 
falou em secreto a esses fi lhos de Deus. 
Terceira, entre esses heróis cristãos cujo testemunho nós recebemos, alguns 
falam de modo claro, verdadeiro e convincente, já outros falam de maneira 
A Obra do Espírito Santo_2010.indd   44 7/12/2010   10:48:44
O TRATAMENTO CUIDADOSO REQUERIDO 45 
confusa, como se estivessem tateando no escuro. Qual é a diferença? Um exame 
mais acurado mostra que o primeiro extraiu todo o seu discurso da Palavra 
de Deus, enquanto outros tentaram acrescentar a ela alguma coisa nova que 
prometia ser grande, mas acabou por ser apenas bolhas, que prontamente se 
desfi zeram, não deixando traços. 
Por último, quando, por outro lado, nesse tesouro de testemunho cristão 
nós encontramos alguma verdade mais bem desenvolvida, mais claramente 
expressa, mais aptamente ilustrada nas Escrituras, ou, em outras palavras, 
quando o minério das Escrituras Sagradas é fundido no cadinho da angústia 
mortal da Igreja de Deus e moldado em formas mais permanentes, então nós 
sempre descobrimos nelas alguns tipos fi xos. A vida espiritual se expressa de 
maneira diferente entre os sisudos Lapps e Finns e os despreocupados franceses. 
O holandês rude derrama sua alma transbordante de um modo diferente daquele 
do emotivo alemão. 
Sim, mais impressionante ainda, um pregador obteve uma infl uência marcante 
sobre a alma dos homens de uma certa localidade; um exortador dominou o 
coração das pessoas; ou alguma mãe em Israel enviou sua palavra aos seus 
vizinhos; e o que nós descobrimos? Que em toda a região nós não encontramos 
outras expressões de vida espiritual além daquelas impressas por esse pregador, 
esse exortador, essa mãe em Israel. Isso mostra que a linguagem, exatamente 
as palavras e formas nas quais a alma se expressa, são largamente emprestadas 
e raramente emanam da consciência espiritual de cada um e, assim sendo, não 
assegura a precisão de sua interpretação da experiência da alma. 
E quando heróis como Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino e outros 
nos apresentam algo surpreendentemente original, então nós encontramos 
difi culdades em compreender seus testemunhos fortes e impressivos, pois a 
individualidade desses vasos de elite é tão marcada que, a menos que peneirados 
e testados, nós não podemos compreendê-los inteiramente. 
Tudo isso mostra que a provisão do conhecimento relativo à obra do 
Espírito Santo, que, julgando superfi cialmente, devia jorrar abundantemente 
dos profundos poços da experiência cristã, produz apenas umas poucas gotas. 
Consequentemente, para o conhecimento do assunto, nós devemos retornar 
para aquela extraordinária Palavra de Deus, que, como um mistério dos 
mistérios, ainda repousa incompreendida pela igreja, aparentemente inerte como 
pedra, mas uma pedra que faísca fogo. Quem porventura ainda não viu suas 
centelhas cintilantes? Onde está o fi lho de Deus cujo coração não foi infl amado 
pelo fogo dessa Palavra? 
Mas as Escrituras lançam escassa luz sobre a obra do Espírito Santo. 
Como prova, veja-se a abundância de referências que o Antigo Testamento 
faz ao Messias e quão comparativamente pouco ao Espírito Santo. O pequeno 
A Obra do Espírito Santo_2010.indd   45 7/12/2010   10:48:44
46 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO 
círculo de santos, Maria, Simeão, Ana, João, que, de pé no vestíbulo do 
Novo Testamento, puderam esquadrinhar o horizonte da revelação do Antigo 
Testamento com um relance — como eles sabiam da Pessoa do Libertador 
Prometido e quão pouco do Espírito Santo! Mesmo incluindo-se todos os 
ensinamentos do Novo Testamento, quão escassa é a luz lançada sobre a obra 
do Espírito Santo, quando comparada com a luz da obra de Cristo! 
E isso é bastante natural e não poderia ser diferente, pois Cristo é a Palavra 
feita carne, tendo forma visível, bem defi nida, na qual nós reconhecemos a nossa 
própria, a do homem, cujo perfi l segue a norma do nosso próprio ser. Cristo 
pode ser visto e ouvido, uma vez que as mãos dos homens podem até manusear 
a Palavra da Vida. Mas o Espírito Santo é inteiramente diferente. Dele nada 
aparece em forma visível; ele nunca pisa fora do vazio intangível. Pairando, 
indefi nido, incompreensível, ele permanece um mistério. Ele é como o vento! 
Nós podemos ouvir seu som, mas não podemos dizer de onde vem nem para 
onde vai. Os olhos não podem vê-lo, os ouvidos não podem ouvi-lo, menos 
ainda a mão tocá-lo. Existem de fato sinais e aparições simbólicas: uma pomba, 
línguas de fogo, o som de um vento impetuoso e poderoso, um sopro dos santos 
lábios de Jesus, uma imposição de mãos, um falar em línguas estranhas. Mas 
de tudo isso nada permanece, nada se deixa fi car, nem mesmo os vestígios de 
uma pegada. E, após os sinais desaparecerem, seu ser permanece enigmático, 
misterioso e distante como sempre. Então quase toda a instrução divina relativa 
ao Espírito Santo é igualmente obscura, inteligível apenas até o ponto em que 
ele a torna clara ao olho da alma favorecida. 
Nós sabemos que o mesmo pode ser dito da obra de Cristo, cujo 
signifi cado real é apreendido somente pelo iluminado espiritual que 
olha para as eternas maravilhas da cruz. E, no entanto, que fascinação 
maravilhosa existe mesmo para uma criança pequena na história da 
manjedoura de Belém, da Transfi guração, do Gábata e do Gólgota. Quão 
facilmente nós podemos deixá-la interessada ao dizer-lhe como o Pai 
celeste tem contado o número dos fi os de cabelo de sua cabeça, como veste 
os lírios do campo, alimenta os pardais nos telhados. Mas será possível 
captar a sua atenção pela Pessoa do Espírito Santo? O mesmo é válido para 
o nãoregenerado: eles não têm desejo de falar sobre o Pai celeste; muitos 
falam com sentimento da manjedoura e da cruz. Mas alguma vez eles falam 
do Espírito Santo? Eles não podem. O assunto não tem qualquer infl uência 
sobre eles. O Espírito de Deus é tão santamente sensível que naturalmente 
se retrai da vista irreverente do nãoiniciado. 
Cristo se revelou completamente. Ele revelou seu amor e sua compaixão 
divina. Mas o Espírito Santo não fez assim. Ele está se preservando fi elmente 
para nos encontrar apenas no lugar secreto de seu amor. 
A Obra do Espírito Santo_2010.indd   46 7/12/2010   10:48:44
O TRATAMENTO CUIDADOSO REQUERIDO 47 
Isso nos traz outra difi culdade. Por causa do seu caráter não revelado, a Igreja 
tem ensinado e estudado a obra do Espírito muito menos do que a de Cristo, e 
tem alcançado muito menos clareza em sua discussão teológica. Nós podemos 
dizer, visto que ele deu a Palavra e iluminou a igreja, que ele falou muito mais 
sobre o Pai e sobre o Filho do que sobre si mesmo. Não que tivesse sido egoísta 
ter falado mais de si mesmo — pois egoísmo pecaminoso é inconcebível com 
relação a ele — mas ele tinha de revelar o Pai e o Filho antes que pudesse nos 
conduzir a uma comunhão mais íntima consigo mesmo. 
Essa é a razão pela qual existe tão pouca pregação sobre o assunto; que os 
livros-texto de Teologia Sistemática raramente o tratam separadamente; que o 
Pentecostes (a festa do Espírito Santo) atrai as igrejas e as anima bem menos 
do que o Natal e a Páscoa; que infelizmente muitos ministros, também fi éis, 
adiantam muitos pontos de vista errôneos sobre esse assunto — um fato do 
qual eles e as igrejas parecem não ter consciência. 
Consequentemente, uma discussão especial do tema merece atenção. 
Que esse assunto requer grande cuidado e tratamento delicado nem precisa 
ser dito. A nossa oração é que a discussão possa demonstrar tão grande cuidado 
e precaução como requerido, e que nossos leitores cristãos possam receber 
nossos insignifi cantes esforços com aquele amor que muito sofreu. 
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  • 1. CAPÍTULO UM INTRODUÇÃO uu 1 O tratamento cuidadoso requerido ... que também vos dá o seu Espírito Santo (1Ts 4.8). A necessidade de direção divina nunca é mais profundamente sentida do que quando uma pessoa assume a tarefa de dar instrução sobre a obra do Es-pírito Santo — o assunto é tão indizivelmente delicado que toca os segredos mais íntimos de Deus e os mistérios mais profundos da alma. Nós instintivamente protegemos a intimidade de nossos parentes e amigos do escrutínio inoportuno, e nada fere mais o coração sensível do que a exposição impertinente daquilo que não é para ser revelado, sendo bonito apenas no círculo familiar. Muito maior delicadeza condiz com nossa aproximação ao santo mistério da intimidade de nossa alma com o Deus vivo. Na verdade, nós difi cilmente podemos encontrar palavras para expressá-la, pois ela toca um domínio muito além da vida social onde a linguagem é formada e o uso determina o signifi cado das palavras. Lampejos dessa vida foram revelados, mas a maior parte está oculta. É como a vida daquele que não clamou, nem gritou nem fez ouvir sua voz na praça. E o que se ouviu foi sussurrado, mais do que propriamente falado — um sopro da alma, suave, mas silente, ou mais uma irradiação do calor da própria alma. Algumas vezes a quietude foi quebrada por um brado ou um grito extasiado, mas houve principalmente um trabalho silencioso, uma ministração de repreensão severa ou A Obra do Espírito Santo_2010.indd 43 7/12/2010 10:48:44
  • 2. 44 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO de um doce conforto por aquele maravilhoso Ser da Santa Trindade que, com língua balbuciante, nós adoramos como o Espírito Santo. A experiência espiritual não pode fornecer nenhuma base para instrução, pois tal experiência repousa sobre o que se passou em nossa própria alma. Certamente que isso tem valor, infl uência, voz no assunto. Mas o que garante a precisão e a fi delidade ao interpretarmos tal experiência? E, novamente, como podemos distinguir suas várias fontes — de nós mesmos, de fora ou do Espírito Santo? A dupla questão será sempre pertinente: Nossa experiência é compartilhada por outras pessoas? Ela pode ser adulterada pelo que é em nós pecaminoso e espiritualmente anormal? Embora não haja nenhum assunto em cujo tratamento a alma se incline mais para extrair sua própria experiência, não há nenhum que demande mais que nossa única fonte de conhecimento seja a Palavra dada a nós pelo Espírito Santo. Em decorrência disso, a experiência humana pode ser ouvida, atestando o que os lábios confessaram, até mesmo dando uma passada de olhos nos abençoados mistérios do Espírito, que são indizíveis, e dos quais as Escrituras, portanto, não falam. Mas não podemos nos basear nela para dar instrução a outros. A Igreja de Cristo certamente apresenta abundante pronunciamento espiritual em hinos e cânticos espirituais; em homílias exortatórias e consoladoras; em confi ssão sóbria ou explosões de almas quase submersas pelas enchentes de perseguição e martírio. Mas nem mesmo isso pode ser a base do conhecimento da obra do Espírito Santo. As seguintes razões tornarão clara a questão: Primeira, a difi culdade de discriminar entre os homens e as mulheres cuja experiência nós consideramos pura e saudável, e aqueles cujo testemunho nós colocamos de lado como forçado e doentio. Lutero frequentemnte falou de sua experiência como também o fez Caspar Schwenkfeld, o perigoso fanático. Mas qual é nossa base para aprovar as declarações do grande reformador e advertir contra as declarações daquele aristocrata silesiano? Pois evidentemente o testemunho dos dois homens não pode ser igualmente verdadeiro. Lutero condenou como uma mentira o que Schwenkfeld aprovou como uma consecução altamente espiritual. Segunda, o testemunho dos crentes apresenta apenas um apagado esboço da obra do Espírito Santo. Suas vozes são débeis como vindas de um reino desconhecido, e sua fala quebrada é inteligível somente quando nós, iniciados pelo Espírito Santo, podemos interpretar nossa própria experiência. De outro modo nós ouvimos, mas não entendemos; escutamos, mas não recebemos nenhuma informação. Somente quem tem ouvidos pode ouvir o que o Espírito falou em secreto a esses fi lhos de Deus. Terceira, entre esses heróis cristãos cujo testemunho nós recebemos, alguns falam de modo claro, verdadeiro e convincente, já outros falam de maneira A Obra do Espírito Santo_2010.indd 44 7/12/2010 10:48:44
  • 3. O TRATAMENTO CUIDADOSO REQUERIDO 45 confusa, como se estivessem tateando no escuro. Qual é a diferença? Um exame mais acurado mostra que o primeiro extraiu todo o seu discurso da Palavra de Deus, enquanto outros tentaram acrescentar a ela alguma coisa nova que prometia ser grande, mas acabou por ser apenas bolhas, que prontamente se desfi zeram, não deixando traços. Por último, quando, por outro lado, nesse tesouro de testemunho cristão nós encontramos alguma verdade mais bem desenvolvida, mais claramente expressa, mais aptamente ilustrada nas Escrituras, ou, em outras palavras, quando o minério das Escrituras Sagradas é fundido no cadinho da angústia mortal da Igreja de Deus e moldado em formas mais permanentes, então nós sempre descobrimos nelas alguns tipos fi xos. A vida espiritual se expressa de maneira diferente entre os sisudos Lapps e Finns e os despreocupados franceses. O holandês rude derrama sua alma transbordante de um modo diferente daquele do emotivo alemão. Sim, mais impressionante ainda, um pregador obteve uma infl uência marcante sobre a alma dos homens de uma certa localidade; um exortador dominou o coração das pessoas; ou alguma mãe em Israel enviou sua palavra aos seus vizinhos; e o que nós descobrimos? Que em toda a região nós não encontramos outras expressões de vida espiritual além daquelas impressas por esse pregador, esse exortador, essa mãe em Israel. Isso mostra que a linguagem, exatamente as palavras e formas nas quais a alma se expressa, são largamente emprestadas e raramente emanam da consciência espiritual de cada um e, assim sendo, não assegura a precisão de sua interpretação da experiência da alma. E quando heróis como Agostinho, Aquino, Lutero, Calvino e outros nos apresentam algo surpreendentemente original, então nós encontramos difi culdades em compreender seus testemunhos fortes e impressivos, pois a individualidade desses vasos de elite é tão marcada que, a menos que peneirados e testados, nós não podemos compreendê-los inteiramente. Tudo isso mostra que a provisão do conhecimento relativo à obra do Espírito Santo, que, julgando superfi cialmente, devia jorrar abundantemente dos profundos poços da experiência cristã, produz apenas umas poucas gotas. Consequentemente, para o conhecimento do assunto, nós devemos retornar para aquela extraordinária Palavra de Deus, que, como um mistério dos mistérios, ainda repousa incompreendida pela igreja, aparentemente inerte como pedra, mas uma pedra que faísca fogo. Quem porventura ainda não viu suas centelhas cintilantes? Onde está o fi lho de Deus cujo coração não foi infl amado pelo fogo dessa Palavra? Mas as Escrituras lançam escassa luz sobre a obra do Espírito Santo. Como prova, veja-se a abundância de referências que o Antigo Testamento faz ao Messias e quão comparativamente pouco ao Espírito Santo. O pequeno A Obra do Espírito Santo_2010.indd 45 7/12/2010 10:48:44
  • 4. 46 A OBRA DO ESPÍRITO SANTO círculo de santos, Maria, Simeão, Ana, João, que, de pé no vestíbulo do Novo Testamento, puderam esquadrinhar o horizonte da revelação do Antigo Testamento com um relance — como eles sabiam da Pessoa do Libertador Prometido e quão pouco do Espírito Santo! Mesmo incluindo-se todos os ensinamentos do Novo Testamento, quão escassa é a luz lançada sobre a obra do Espírito Santo, quando comparada com a luz da obra de Cristo! E isso é bastante natural e não poderia ser diferente, pois Cristo é a Palavra feita carne, tendo forma visível, bem defi nida, na qual nós reconhecemos a nossa própria, a do homem, cujo perfi l segue a norma do nosso próprio ser. Cristo pode ser visto e ouvido, uma vez que as mãos dos homens podem até manusear a Palavra da Vida. Mas o Espírito Santo é inteiramente diferente. Dele nada aparece em forma visível; ele nunca pisa fora do vazio intangível. Pairando, indefi nido, incompreensível, ele permanece um mistério. Ele é como o vento! Nós podemos ouvir seu som, mas não podemos dizer de onde vem nem para onde vai. Os olhos não podem vê-lo, os ouvidos não podem ouvi-lo, menos ainda a mão tocá-lo. Existem de fato sinais e aparições simbólicas: uma pomba, línguas de fogo, o som de um vento impetuoso e poderoso, um sopro dos santos lábios de Jesus, uma imposição de mãos, um falar em línguas estranhas. Mas de tudo isso nada permanece, nada se deixa fi car, nem mesmo os vestígios de uma pegada. E, após os sinais desaparecerem, seu ser permanece enigmático, misterioso e distante como sempre. Então quase toda a instrução divina relativa ao Espírito Santo é igualmente obscura, inteligível apenas até o ponto em que ele a torna clara ao olho da alma favorecida. Nós sabemos que o mesmo pode ser dito da obra de Cristo, cujo signifi cado real é apreendido somente pelo iluminado espiritual que olha para as eternas maravilhas da cruz. E, no entanto, que fascinação maravilhosa existe mesmo para uma criança pequena na história da manjedoura de Belém, da Transfi guração, do Gábata e do Gólgota. Quão facilmente nós podemos deixá-la interessada ao dizer-lhe como o Pai celeste tem contado o número dos fi os de cabelo de sua cabeça, como veste os lírios do campo, alimenta os pardais nos telhados. Mas será possível captar a sua atenção pela Pessoa do Espírito Santo? O mesmo é válido para o nãoregenerado: eles não têm desejo de falar sobre o Pai celeste; muitos falam com sentimento da manjedoura e da cruz. Mas alguma vez eles falam do Espírito Santo? Eles não podem. O assunto não tem qualquer infl uência sobre eles. O Espírito de Deus é tão santamente sensível que naturalmente se retrai da vista irreverente do nãoiniciado. Cristo se revelou completamente. Ele revelou seu amor e sua compaixão divina. Mas o Espírito Santo não fez assim. Ele está se preservando fi elmente para nos encontrar apenas no lugar secreto de seu amor. A Obra do Espírito Santo_2010.indd 46 7/12/2010 10:48:44
  • 5. O TRATAMENTO CUIDADOSO REQUERIDO 47 Isso nos traz outra difi culdade. Por causa do seu caráter não revelado, a Igreja tem ensinado e estudado a obra do Espírito muito menos do que a de Cristo, e tem alcançado muito menos clareza em sua discussão teológica. Nós podemos dizer, visto que ele deu a Palavra e iluminou a igreja, que ele falou muito mais sobre o Pai e sobre o Filho do que sobre si mesmo. Não que tivesse sido egoísta ter falado mais de si mesmo — pois egoísmo pecaminoso é inconcebível com relação a ele — mas ele tinha de revelar o Pai e o Filho antes que pudesse nos conduzir a uma comunhão mais íntima consigo mesmo. Essa é a razão pela qual existe tão pouca pregação sobre o assunto; que os livros-texto de Teologia Sistemática raramente o tratam separadamente; que o Pentecostes (a festa do Espírito Santo) atrai as igrejas e as anima bem menos do que o Natal e a Páscoa; que infelizmente muitos ministros, também fi éis, adiantam muitos pontos de vista errôneos sobre esse assunto — um fato do qual eles e as igrejas parecem não ter consciência. Consequentemente, uma discussão especial do tema merece atenção. Que esse assunto requer grande cuidado e tratamento delicado nem precisa ser dito. A nossa oração é que a discussão possa demonstrar tão grande cuidado e precaução como requerido, e que nossos leitores cristãos possam receber nossos insignifi cantes esforços com aquele amor que muito sofreu. A Obra do Espírito Santo_2010.indd 47 7/12/2010 10:48:44