Prof. Ms. Luis Henrique de Souza
APRESENTAÇÃO GERAL DO PENSAMENTO DE KANT.
Principais influências: racionalismo e empirismo (especialmente Hume).
Confesso francamente: a lembrança de David Hume foi justamente o
que há muitos anos interrompeu pela primeira vez meu sono
dogmático e deu às minhas pesquisas no campo da filosofia
especulativa uma direção completamente nova. Eu estava bem longe
de dar ouvidos a suas conclusões, que resultavam simplesmente do
fato de ele não se ter proposto sua tarefa em toda a sua amplitude,
mas de ter visto apenas uma de suas partes, sem levar em
consideração o todo, não pode dar informação alguma. Quando se
parte de um pensamento já fundamentado, apesar de não mais ter
sido desenvolvido, que um outro nos deixou, pode-se esperar ser
possível levá-lo, através da reflexão, mais além do que o perspicaz
homem, a quem se deu a primeira centelha desta luz, o levou (KANT,
I. Prolegômenos, p. 10).
Correntes de pensamento às quais pertence: Iluminismo e Idealismo Transcendental
lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio
é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do
entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por
culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento,
mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a
guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu
próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo. A
preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte,
após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio
(naturaliter maiorennes), continuarem, todavia, de bom grado
menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil
assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um
livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em
vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da
dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é
forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros
empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa
maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem
à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom
grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de
terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado
cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo
para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida
o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo
não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a
andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante
todas as tentativas ulteriores (KANT, I. Resposta à pergunta: “O que é
o iluminismo?”).
O idealismo consiste apenas na afirmação de que não existe outro ser
senão o pensante; as demais coisas, que acreditamos perceber na
intuição, seriam apenas representações nos seres pensantes, às quais
não corresponderia, de fato, nenhum objeto fora deles. Eu afirmo, ao
contrário: são nos dadas coisas como objetos de nossos sentidos,
existentes fora de nós, só que nada sabemos do que eles possam ser
em si mesmos, mas conhecemos apenas seus fenômenos, isto é, as
representações que produzem em nós ao afetarem nossos sentidos.
Com isto admito, portanto, existirem fora de nós corpos, isto é, coisas
que, embora sem dúvida nos sejam de todo desconhecidas no tocante
ao que em si mesmas possam ser, são-nos conhecidas pelas
representações suscitadas em nós por sua influência sobre nossa
sensibilidade, e às quais denominamos corpos, termo este que designa
apenas o fenômeno do objeto que nos é desconhecido, mas que nem
por isso é menos real. Poderá isto ser chamado idealismo? Trata-se
exatamente do contrário disto (KANT, I. Prolegômenos, p. 31).
Principais obras:
 Crítica da razão pura (1781). Para muitos, sua obra fundamental.
Schopenhauer considera a parte sobre a Estética transcendental uma das
mais importantes descobertas filosóficas de todos os tempos (a distinção
entre fenômeno e coisa-em-si), mas, no restante da obra, Kant não só estaria
equivocado como também se torna prolixo e enfadonho. A obra discute a
questão dos limites do conhecimento humano. Descobre que o mundo
fenomênico (o modo como o mundo aparece para nós) está submetido às
nossas condições de sensibilidade (espaço-tempo). Uma vez que podemos
conhecer essas condições a priori (antes mesmo da experiência), somos
capazes de emitir juízos universalmente válidos sobre acontecimentos
fenomênicos antes mesmo que eles ocorram, ou seja, podemos emitir juízos
científicos apenas sobre os fenômenos que estão no espaço e no tempo.
Deus, por exemplo, não está no espaço-tempo e, portanto, não pode ser
conhecido de forma rigorosa, sobre ele não podemos emitir juízos
científicos. No entanto, todos os objetos da nossa experiência sensível, por
estarem submetidos às nossas condições de sensibilidade, enquanto objetos
da nossa sensibilidade, podem ser conhecidos de forma rigorosa. O mundo
da experiência física é o reino da necessidade, está submetido ao princípio
de razão suficiente (nada acontece sem uma razão). A razão determina a
priori o ordenamento do mundo fenomênico (aquilo que chamamos de
mundo físico).
 Crítica da razão prática (1788). Discute a questão dos limites da ação
humana no campo da moralidade. A determinação do mundo moral
depende da boa-vontade. Cada um de nós deve escolher livremente
respeitar os imperativos racionais e agir em conformidade com estes
imperativos. Mas é preciso boa-vontade para com estes imperativos. O
mundo da moral é o reino da liberdade e da responsabilidade, somos livres
para escolher agir de acordo com a razão (a razão nos mostra como agir) e
somos responsáveis por esta escolha que fazemos (depende de nós agir de
acordo com a razão). Devemos agir de acordo com a razão, mas ela não nos
obriga a tal.
 Crítica do juízo ou Crítica da faculdade de julgar (1790). Discute a questão do
consenso estético e do gosto; as questões ligadas à apreciação e produção
das obras de arte. A obra de arte (obra do gênio) é necessária e livre ao
mesmo tempo. Toda obra deixa transparecer que é fruto de uma
subjetividade livre, porém necessária. A obra deve o seu processo de vir-a-
ser às técnicas do artista, mas nunca se esgota na técnica. É o gênio quem dá
a regra da arte: livremente produz regras a priori para a sua obra. O mundo
da arte aproxima o mundo das coisas-em-si-mesmas e o mundo dos
fenômenos (a liberdade e a necessidade se tocam). Para Schopenhauer, por
exemplo, a música é capaz de nos colocar em contato direto com o mundo
como ele é em-si-mesmo para além das aparências fenomênicas. Muitos
autores (Schelling o mais destacado) enxergaram na Crítica do juízo o elo
entre a Crítica da razão pura e a Crítica da razão prática. Trata-se do reino
da necessidade livre, o mundo da arte é produto de uma liberdade
necessária.
Introdução ao pensamento de Kant
Revolução copernicana e a Estética transcendental.
A novidade filosófica do pensamento kantiano pretende ser para a filosofia aquilo que
o modelo geocêntrico de Copérnico-Galileu-Kepler representou para a física, ou seja,
um novo paradigma. Retirado de sua pretensa centralidade no universo, uma vez que a
Terra não é mais o seu centro e nem está imóvel, o homem teve de readaptar seu modo
de conhecer o mundo promovendo uma profunda revolução científica. Kant quer, em
parâmetros semelhantes, operar uma "revolução copernicana" em filosofia.
Até Kant, o nosso conhecimento do mundo era regulado pelos objetos (procuramos
fazer ciência a partir dos dados fornecidos pelos objetos) e Kant propõem fazer com que
os objetos se regulem de acordo com o nosso modo de conhecer. Não é o nosso
conhecimento que deve se adaptar aos objetos, estes devem responder ao nosso modo
de conhecer. Essa revolução no pensamento filosófico tira a conclusão de que o espaço
e o tempo condições subjetivas que nós impomos aos objetos e não entes (coisas
objetivas) do mundo externo à nossa percepção, também tem uma outra consequência
mais profunda: a de que nós apenas temos acesso ao modo pelo qual os objetos
aparecem na nossa mente e nunca podemos conhecer as coisas como elas são em-si-
mesmas. Em termos kantianos:
1. Conhecemos apenas fenômenos (aparências).
2. Não temos acesso às coisas como elas seriam em si mesmas (essências).
Como Kant chega a essa conclusão?
Fazendo uma análise dos juízos que nós emitimos sobre o mundo. No que diz respeito
ao conhecimento, emitimos 3 tipos de juízos:
Juízo sintético a posteriori
Exemplos: "A maçã é verde" ou "o carro é azul".
Neste tipo de juízo, o predicado (verde) não está contido no sujeito (maçã). A maçã pode
ser vermelha. É um juízo sintético porque ele opera uma síntese entre coisas diferentes
(maça + verde). É um juízo sintético a posteriori porque sua validade só pode ser
comprovada depois da experiência. Só posso dizer com certeza se a maçã é verde depois
de ver a maçã.
Juízo analítico a priori
Exemplos: "Deus é perfeito" ou "penso, logo existo".
Neste tipo de juízo, o predicado (perfeito) já está contido no sujeito (Deus). Deus não
pode não ser perfeito. É um juízo analítico porque opera uma análise entre coisas
idênticas (Deus = Perfeição). É um juízo analítico a priori porque sua validade é absoluta.
Se é Deus, então certamente é perfeito. Se eu penso, certamente existo. É impossível
pensar sem existir ou ser Deus e não ser perfeito.
Juízo sintético a priori
Exemplos: "a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180º" ou "em um triângulo
retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos" ou "a
velocidade média é igual à distância dividida pelo tempo" ou "1234 + 4321 = 5555".
Neste tipo de juízo, podemos dizer, o predicado não está contido no sujeito, a
hipotenusa é um síntese entre cateto oposto e cateto adjacente, mas não está contida
em nenhum cateto tomado sozinho; a velocidade média não faz parte da noção de
espaço ou da de tempo tomados isoladamente, mas é uma síntese entre os dois; o
número 5555 não está contido no 1234 ou no 4231 tomados isoladamente, mas é uma
síntese dos números. São juízos sintéticos porque operam síntese entre grandezas
quantificáveis. São sintéticos a priori porque são determinados antes mesmo da
experiência. Não preciso contar laranjas para saber que 1234 laranjas + 4321 laranjas
somam 5555 laranjas. Não preciso ir de Aquidauana até Ribeirão Preto para saber que
os 1000 quilômetros não podem ser percorridos em menos de 10 horas sem que em
algum momento o limite de velocidade das rodovias que ligam as duas cidades seja
desrespeitado.
A fim de analisar os três tipos de juízo de conhecimento que emitimos (sintéticos a
posteriori, analíticos a priori e sintéticos a priori), Kant elabora duas perguntas:
1. Este juízo é universalmente válido?
2. Este juízo aumenta meu conhecimento?
Para facilitar, elaboramos a seguinte tabela:
Universal + Conhecimento
Sintético a posteriori NÃO SIM
Analítico a priori SIM NÃO
Sintético a priori SIM SIM
O juízo "A maçã é verde" aumenta meu conhecimento do mundo, mas não é universal.
O juízo "Deus é perfeito" não aumenta meu conhecimento do mundo, mas é universal.
O juízo "1234+4321=5555" aumenta meu conhecimento e é universalmente válido.
Da análise dos juízos emerge a pergunta fundamental da Crítica da razão pura:
Como são possíveis juízos sintéticos a priori?
Em outras palavras:
Como é possível que possamos saber como as coisas irão se comportar antes mesmo
que ocorram? Como podemos saber algo sobre fenômenos que ainda não
experimentamos?
Juízos sintéticos a priori nos permitem antecipar a experiência. Para Kant, apenas estes
são juízos rigorosamente científicos. Mas como são possíveis?
Só podem ser possíveis se a experiência estiver submetida à maneira pela qual a
conhecemos. Tempo e espaço não são objetos extra-mentais, mas condições para que
existam objetos extra-mentais.
Exemplo analógico
Uma vitrola de discos transforma as ranhuras dos discos em música, pois no disco não
há música nenhuma, é a vitrola que interpreta esses arranhados e produz o som. Nossa
mente opera da mesma maneira: o mundo da experiência sensível é produto da nossa
imaginação transcendental tal como a música é produto da vitrola. Só podemos
encontrar no mundo aquilo que nós mesmos produzimos, o mundo é, pela primeira vez
e literalmente, aquilo que fazemos dele.
Recebemos os dados do mundo externo, mas o mundo tal qual ele aparece (mundo
fenomênico) é um produto necessário da minha razão. Não temos acesso às coisas-em-
si ou, no mínimo, não estamos autorizados a pensar sobre elas, nossa autorização para
pensar cientificamente está limitada a um determinado campo de observação: o
fenomênico. Como vimos, espaço e tempo são condições de cognoscibilidade dos
fenômenos.
Daí que minha doutrina da idealidade do espaço e do tempo, bem longe
de considerar todo o mundo sensível simples ilusão, é antes o único meio
de assegurar a objetos reais a aplicação de um conhecimento mais
importante que qualquer outro, ou seja, aquele que expõe a matemática
a priori, e de impedir que ela seja tomada por uma simples ilusão, pois
sem esta observação seria totalmente impossível decidir se as intuições
de espaço e tempo, que não retiramos de nenhuma experiência, e que
além disso estão a priori em nossa representação, não são simples
quimeras por nós feitas, às quais não corresponde nenhum objeto, pelo
menos adequadamente, e com isso mesmo a geometria seria uma ilusão.
Nós, ao contrário, pudemos demonstrar sua indiscutível validade com
relação a todos os objetos do mundo sensível, justamente por serem eles
meros fenômenos (KANT, I. Prolegômenos, p. 33).
Deus, por exemplo, não se submete ao espaço e ao tempo e, portanto, não pode ser
conhecido de maneira rigorosa: não é possível uma metafísica como ciência. Não é
possível dar provas teóricas da existência ou não-existência de Deus.
Daqui sai o resultado de todas as pesquisas precedentes: “Todos os
princípios a priori nada mais são que princípios de experiência possível” e
não podem ser nunca relacionados com coisas em si mesmas, mas
somente com fenômenos como objetos da experiência. Por isso, tanto a
matemática pura como a ciência pura da natureza nunca podem ir além
dos fenômenos e representam apenas aquilo que torna possível uma
experiência em geral ou o que, sendo derivado destes princípios, deve ser
representado, em todo tempo, em qualquer experiência possível (idem,
p. 48).
A ideia de Deus pode apenas ser utilizada, segundo Kant, para regular a ação moral. É
comum ouvir entre os estudantes de filosofia que Kant teria matado Deus na Crítica da
razão pura e o ressuscitado na Crítica da razão prática.
A questão do gosto, da beleza, do sublime e do gênio
Assim como os juízos de conhecimento são subjetivos em última análise, o mesmo se
passa com os relativos ao bom gosto, ou seja, estéticos. Como já salientamos, a Crítica
da faculdade de julgar dever fazer a ponte entre as outras duas, em outras palavras,
instituir um reino que está entre aquilo que acontece por necessidade e aquilo que
acontece por liberdade. Muitos autores viram, como já salientamos também, a
possibilidade de que esta terceira Crítica... pudesse mediar as outras, mas o próprio Kant
proibia, como observa Reale (2017), uma fundamentação teórica desta passagem do
reino da necessidade para o reino da liberdade.
Ora, embora se tenha justamente apurado existir um abismo
insuperável entre o domínio do conceito de natureza, o sensível, e o
domínio do conceito de liberdade, o suprassensível, de sorte que não
é possível nenhuma passagem de um ao outro (portanto, mediante o
uso teorético da razão), exatamente como se fossem dois mundos tão
diferentes a ponto de o primeiro não poder em nada influenciar o
segundo, e este, no entanto, deve influenciar aquele: isto é, o conceito
da realidade deve conferir realidade efetiva para o mundo sensível
para o fim designado pelas suas leis, e consequentemente, a natureza
deve poder ser pensada também de modo que a legalidade da sua
forma concorde pelo menos com a possibilidade dos fins a realizar nela
segundo as leis da liberdade. Mas então deve haver também um
fundamento da unidade daquele suprassensível que serve de
fundamento da natureza, com aquele com aquele que o conceito de
liberdade contém praticamente; um fundamento cujo conceito,
embora não chegue nem teorética nem praticamente a um seu
conhecimento e, portanto, não possua nenhum domínio peculiar,
todavia torna possível a passagem do modo de pensar segundo os
princípios da natureza ao modo de pensar segundo os princípios da
liberdade (KANT apud REALE, 2017, p. 804-805).
Juízo determinante
Todos os juízos da Crítica da razão pura são determinantes porque são
dados tanto o particular (múltiplo sensível) como o universal (as
categorias e os princípios a priori). Kant chama esse juízo
determinante, porque ele determina teoreticamente o objeto (o
constitui como objeto) (REALE, 2017, p. 805).
Juízo reflexivo
(...) se chama “reflexivo” porque “esse universal que se deve
encontrar” não é uma lei a priori do intelecto, mas, diz Kant, deriva de
um “princípio da reflexão sobre os objetos para os quais
objetivamente nos falta uma lei”, Note-se que “reflexão” assume aqui
sentido técnico: “reflexão”, para Kant, significa comparar e unir entre
si representações e colocá-las em relação com as nossas faculdades de
conhecimento.
Esse princípio “universal” da reflexão é, como veremos, diferente do
universal do intelecto e é análogo ao das Ideias da razão: ele consiste
na Ideia de finalidade (REALE, 2017, p. 805).
Com efeito, em cada um dos juízos reflexivos, para poder subir do
particular ao universal que “deve ser encontrado” (ou seja, para
encontrar a unidade sob a qual se reúnem os vários objetos e os vários
casos), precisamos de um princípio-guia a priori. Segundo Kant, esse
princípio não é senão a hipótese da finalidade da natureza nos seus
múltiplos casos e manifestações, ou melhor, na consideração da
natureza e de tudo aquilo que nela foi deixado indeterminado pelo
nosso intelecto segundo uma unidade – precisa Kant – que teria
podido estabelecer um intelecto divino.
É evidente que, considerada deste ponto de vista, ou seja,
como realização do projeto de uma mente divina, toda a realidade da
natureza, especialmente todos os acontecimentos que nos parecem
contingentes, se manifestam em luz totalmente nova, isto é, à luz de
um objetivo e de um fim. Desse modo, o conceito de fim, que havia
sido excluído da Crítica da razão pura, entra na filosofia kantiana nessa
fórmula do “juízo reflexivo”, além disso muito sugestiva. O conceito de
fim não é conceito teorético, mas algo que se enraíza numa
necessidade e numa instância estrutural do sujeito.
Todavia, também nesses limites, o juízo reflexivo “fornece o
conceito intermediário entre o conceito da natureza e o da liberdade”,
porque a finalidade faz a natureza perder a sua rigidez mecanicista e
torna possível o seu acordo com a liberdade.
Mas nós podemos “encontrar” o finalismo na natureza de
dois modos diferentes, embora conjugados:
– refletindo sobre a beleza;
– refletindo sobre o ordenamento da natureza;
Daí a distinção kantiana de dois tipos de “juízo reflexivo”:
– o juízo estético;
– o juízo teológico (REALE, 2017, p. 806).
Os juízos estéticos
Juízo de gosto
Os juízos estéticos estão ligados ao nosso sentimento, com aquilo que sentimos diante
de um determinado objeto: a sensação de prazer que sentimos, é o que se espera,
quando contemplamos algo belo é incomunicável. No entanto, espera-se que aquele a
quem eu comunico meus sentimentos compreenda aquilo que digo sem a necessidade
de uma explicação conceitual.
É preciso que fique claro: eu não comunico meu gosto – meus sentidos
– meus sentidos pertencem-me como coisa particular. Isto é
verdadeiro para o que é agradável: posso julgar bom o vinho das
Canárias (exemplo de Kant!), meu vizinho pode perfeitamente achá-lo
intragável. Isto vale também para o belo: eu não comunico a outro
meu gosto pelas tulipas consideradas belas. Também não transmito o
conceito de belo que possa originar uma demonstração da beleza.
Quando digo: “Este poema e este edifício são belos”, dirijo-me
simplesmente ao senso comum, supondo em cada um a mesma
aptidão para representar a si mesmo o que eu sinto: “É exatamente
esta a razão pela qual aquele que julga com gosto [...] está autorizado
a esperar que cada um sinta satisfação diante do objeto, e a considerar
que seu sentimento é universalmente comunicável e que seja sem a
mediação dos conceitos” (JIMENEZ, O que é estética?, p. 127).
Dizemos: “Isto é belo!” e o que esperamos daquele que nos ouve é que seja capaz de
experimentar, diante do mesmo objeto, quão agradável é o aquilo que sinto e que
compreenda a priori a universalidade do que está sendo afirmado. É um juízo reflexivo,
porque procurar agrupar vários objetos sob o mesmo conceito: as coisas que me
agradam e as que não, as que julgo belas e as que não etc. Este tipo de juízo não pode
fundar uma ciência propriamente dita, pois sua universalidade subjetiva é esperada,
mas não pode ser demonstrada. Algo semelhante acontece com a Ideia de Deus que
pode ser pensada, mas que não prova que exista algo que corresponda a tal ideia.
Podemos supor que há um autor que está por trás da natureza (por trás da rosa, da lua,
do Sol, das estrelas, das montanhas etc.) e até pode ser útil pensar que todas essas
coisas foram produzidas de acordo com uma finalidade pré-estabelecida (na biologia1,
por exemplo).
O belo
1. O belo é objeto de prazer desinteressado (não está associado ao mero prazer
dos sentidos, ao ganho econômico ou ao bem moral).
2. O belo agrada universalmente sem conceito (é um prazer universal, que vale
para todos os homens, mas que não pode ser tomado como universalidade
teórica ou objetiva, porque se trata de sentimento subjetivo).
3. O belo é a forma da finalidade sem nenhum fim determinado (egoísta,
utilitarista, ético ou lógico).
Frente ao belo de natureza, nós percebemos como que a presença de
um fim intencional, pelo qual o objeto belo se nos configura como uma
obra de arte. Ao contrário, diante de uma obra de arte, que executa
um desígnio intencional, nós sentimos que então verdadeiramente é
bela, quando aquela oblitera, e o objeto parece criação espontânea da
natureza. Reunido as duas qualidades, que parecem em contraste,
mas são convergentes, podemos dizer que no belo, de natureza ou de
arte, é preciso que o fim exista e não exista, exista como se não
existisse, isto é, que a intencionalidade e a espontaneidade estejam de
tal forma fundidas que a natureza pareça arte e a arte natureza
(REALE, 2017, p. 807).
1
“Uma das primeiras definições modernas de organismo foi proposta por Kant, estando associada à ideia
de auto-organização (Keller, 2005). Para Kant ([1892] 1914), o organismo é um produto natural
organizado, no qual todas as partes são ao mesmo tempo finalidade e meio, ou seja, ao mesmo tempo
em que as partes contribuem para a organização do todo, também são consequências desse modo de
organização. Este tipo de organização é obtida pela relação estabelecida entre as partes, sem um
organizador externo, isto é, o organismo é auto-organizado. Desta perspectiva, o organismo é
considerado uma entidade capaz de se autorregular, autodirigir e autogerar, apresentando um tipo
especial de arranjo, que é auto-organizado (Keller, 2005, p. 1070)” (MEGLHIORATTI, 2002, p. 8).
4. O belo é reconhecido como objeto de um prazer necessário (não se trata de
necessidade lógica, mas de uma necessidade subjetiva que se impõem aos
homens).
O fundamento do juízo estético é o “livre jogo e a harmonia das nossas
faculdades espirituais” (entre a fantasia e o intelecto), que o objeto
produz no sujeito. O juízo de gosto é, portanto, o efeito desse livre jogo
das faculdades cognoscitivas.
Assim, compreende-se bem as conclusões de Kant: “Esse juízo
puramente subjetivo (estético) do objeto precede o prazer pelo
objeto, é o fundamento desse prazer pela harmonia das faculdades de
conhecer: mas sobre aquela universalidade das condições subjetivas
no juízo dos objetos se funda somente essa validade subjetiva
universal do prazer, que nós unimos à representação do objeto, que
chamamos belo” (REALE, 2017, p. 807).
O sublime
O sublime é afim ao belo, porque também ele agrada “por si
mesmo” e pressupõe um “juízo de reflexão”.
A diferença se encontra no fato de que o belo se refere à
forma do objeto, e a forma é caracterizada pela limitação (de-
terminação), ao passo que o sublime se refere também ao que é
informe e implica a representação do ilimitado.
Além disso, o belo produz um prazer positivo, ao passo que o
sublime produz um prazer negativo: às vezes Kant fala até de um
desprazer.
Por fim, representando-se o sublime, o ânimo tende à
comoção; representando o belo, “deleita-se numa contemplação
calma”.
Mas o sublime não está nas coisas e sim no homem.
Há duas espécies de sublime: o matemático e o dinâmico, o
primeiro é dado pelo infinitamente grande, o segundo pelo
infinitamente poderoso. Frente ao imensamente grande (oceano, céu
etc.) ou ao imensamente poderoso (terremotos, vulcões etc.), o
homem, por um lado, se descobre pequeno e se sente esmagado, mas,
por outro lado, descobre ser superior ao imensamente grande ou
poderoso de caráter físico, pois traz consigo as Ideias da razão, que são
as Ideias da totalidade absoluta e supera aquilo que incialmente
parecia superar o próprio homem.
Assim, a definição mais apropriada de sublime é esta:
“Sublime é aquilo que, pelo fato de unicamente poder pensá-lo, atesta
uma faculdade do ânimo superior a qualquer medida dos sentidos”
(REALE, 2017, p. 808).
O gênio
"§ 46. Bela-arte é arte do gênio
Gênio é o talento (dom natural) que dá à arte a regra. Já que o talento,
como faculdade produtiva inata do artista, pertence, ele mesmo, à
natureza, poderíamos também exprimir-nos assim: gênio é a
disposição natural inata (ingenium), pela qual a natureza dá à arte a
regra.
Seja qual for o caráter dessa definição e sendo ela meramente
arbitrária, ou adequada ao conceito que se costuma vincular com a
palavra gênio, ou não [...], pode-se, entretanto, já de antemão,
demonstrar que, segundo a significação aqui admitida da
palavra, belas-artes têm de ser necessariamente consideradas como
artes do gênio.
Pois toda arte pressupõe regras, somente por cuja fundamentação um
produto, se deve chamar-se artístico, e é representado como possível.
O conceito da bela-arte, porém, não permite que o juízo sobre a beleza
de seu produto seja derivado de qualquer regra, que tenha
um conceito por fundamento-de-determinação, portanto tome por
fundamento um conceito do modo como ele é possível. Portanto, a
bela-arte não pode inventar para si mesma a regra, segundo a qual
deve instituir seu produto. Ora, como, mesmo assim, sem regra prévia
um produto nunca pode chamar-se arte, é preciso que a natureza no
sujeito (e pela disposição das faculdades do mesmo) dê à arte a
regra, isto é, a bela-arte só é possível como produto do gênio.
Vê-se, a partir disso, que o gênio - 1) é um talento, de produzir aquilo
para o qual não se pode dar nenhuma regra determinada: não
disposição de habilidade para aquilo que pode ser aprendido
segundo alguma regra; conseqüentemente que originalidade tem de
ser sua primeira propriedade. 2) Que, como também pode haver
insensatez original, seus produtos têm de ser ao mesmo tempo
modelos, isto é, exemplares; portanto, eles mesmos não provindo de
imitação, têm de servir, no entanto, a outros para isso, isto é, como
justa-medida ou regra do julgamento. 3) Que ele mesmo não pode
descrever ou indicar cientificamente como instituiu seu produto, que
ele deve a seu gênio, não sabe, ele mesmo, como se encontraram
nele as idéias para isso, e também não está em seu poder inventá-las
à vontade ou conforme um plano, e comunicá-las a outros em
prescrições tais que os ponham em situação de criar produtos
equivalentes. (Por isso, também presumivelmente, a palavra gênio é
derivada de genius, o espírito próprio dado a um homem no
nascimento, protetor e guia, de cuja inspiração procederiam aquelas
idéias originais.) 4) Que a natureza, pelo gênio, prescreve, não à
ciência, mas à arte a regra; e também isto somente na medida em
que esta última deve ser bela-arte.
§ 47. Elucidação e confirmação da explicação acima sobre o gênio
Nisto todos concordam: que gênio deve ser inteiramente oposto
ao espírito de imitação. E, como aprender nada é senão imitar, a
máxima aptidão, felicidade de assimilação (capacidade) como tal, não
pode valer como gênio. Mas mesmo quando alguém inventa por si
mesmo, e não meramente aprende o que outros pensaram, e até
mesmo quando descobre algo para a arte ou a ciência, também isso
ainda não é fundamento justo para se denominar uma tal (muitas
vezes poderosa) cabeça um gênio (em oposição àquele que, porque
jamais pôde fazer algo além de imitar, e se denomina um simplório):
porque justamente isso também poderia ter sido aprendido, e
portanto se encontra na via natural da pesquisa e da meditação
segundo regras, e não é especificamente diferente daquilo que pode
ser adquirido por diligência mediante a imitação. Assim, tudo aquilo
que Newton expôs em sua obra imortal sobre os princípios da filosofia
natural, por mais poderosa cabeça que seja requerida para inventar
tais princípios, pode-se perfeitamente aprender; mas não se pode
aprender a fazer poemas com espírito, por mais exaustivas que sejam
todas as prescrições da arte poética e por mais excelentes que sejam
seus modelos. A causa disso é que, todos os passos que Newton teve
de dar, desde os primeiros elementos da geometria até suas grandes
e profundas descobertas, ele poderia tornar inteiramente claros, não
somente para si mesmo, mas a todos os outros, e demonstrá-los
determinadamente para seus sucessores; nenhum Homero, porém,
ou Wieland, pode indicar como suas idéias, ricas em fantasia e no
entanto, ao mesmo tempo, repletas de pensamento, surgem e se
reúnem em sua cabeça, isto porque ele mesmo não o sabe e,
portanto, também não pode ensinar a nenhum outro. Naquilo que é
científico, pois, o grande descobridor se distingue do mais laborioso
imitador e discípulo apenas segundo o grau, enquanto daquele que a
natureza dotou para a bela-arte, ele se distingue especificamente.
Entretanto, não vai nisto nenhuma depreciação daqueles grandes
homens, aos quais o gênero humano tanto deve, em confronto com os
favoritos da natureza quanto a seu talento para a bela-arte.
Justamente em ser aquele talento feito para a maior perfeição,
sempre em progresso, do conhecimento e de toda utilidade que
depende deste, assim como para a instrução de outros nos mesmos
conhecimentos, consiste um grande privilégio deles diante daqueles
que merecem a honra de chamar-se gênios; porque para estes a arte
em alguma parte se detêm, na medida em que lhe é posto um limite,
além do qual ela não pode ir e que também, presumivelmente, já há
muito está alcançado e não pode mais ser ampliado; e, além
disso, uma tal habilidade também não se deixa comunicar, mas quer
ser concedida a cada um imediatamente pela mão da natureza,
portanto morre com ele, até que a natureza alguma vez dote
novamente do mesmo modo um outro, que de nada mais precisa do
que de seu exemplo para deixar atuar o talento, de que tem
consciência, de modo semelhante" (KANT, 1980, p. 46-48).

Kant (1) copia

  • 1.
    Prof. Ms. LuisHenrique de Souza APRESENTAÇÃO GERAL DO PENSAMENTO DE KANT. Principais influências: racionalismo e empirismo (especialmente Hume). Confesso francamente: a lembrança de David Hume foi justamente o que há muitos anos interrompeu pela primeira vez meu sono dogmático e deu às minhas pesquisas no campo da filosofia especulativa uma direção completamente nova. Eu estava bem longe de dar ouvidos a suas conclusões, que resultavam simplesmente do fato de ele não se ter proposto sua tarefa em toda a sua amplitude, mas de ter visto apenas uma de suas partes, sem levar em consideração o todo, não pode dar informação alguma. Quando se parte de um pensamento já fundamentado, apesar de não mais ter sido desenvolvido, que um outro nos deixou, pode-se esperar ser possível levá-lo, através da reflexão, mais além do que o perspicaz homem, a quem se deu a primeira centelha desta luz, o levou (KANT, I. Prolegômenos, p. 10). Correntes de pensamento às quais pertence: Iluminismo e Idealismo Transcendental lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo. A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que em vez de mim tem consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor perante todas as tentativas ulteriores (KANT, I. Resposta à pergunta: “O que é o iluminismo?”). O idealismo consiste apenas na afirmação de que não existe outro ser senão o pensante; as demais coisas, que acreditamos perceber na intuição, seriam apenas representações nos seres pensantes, às quais não corresponderia, de fato, nenhum objeto fora deles. Eu afirmo, ao contrário: são nos dadas coisas como objetos de nossos sentidos, existentes fora de nós, só que nada sabemos do que eles possam ser em si mesmos, mas conhecemos apenas seus fenômenos, isto é, as
  • 2.
    representações que produzemem nós ao afetarem nossos sentidos. Com isto admito, portanto, existirem fora de nós corpos, isto é, coisas que, embora sem dúvida nos sejam de todo desconhecidas no tocante ao que em si mesmas possam ser, são-nos conhecidas pelas representações suscitadas em nós por sua influência sobre nossa sensibilidade, e às quais denominamos corpos, termo este que designa apenas o fenômeno do objeto que nos é desconhecido, mas que nem por isso é menos real. Poderá isto ser chamado idealismo? Trata-se exatamente do contrário disto (KANT, I. Prolegômenos, p. 31). Principais obras:  Crítica da razão pura (1781). Para muitos, sua obra fundamental. Schopenhauer considera a parte sobre a Estética transcendental uma das mais importantes descobertas filosóficas de todos os tempos (a distinção entre fenômeno e coisa-em-si), mas, no restante da obra, Kant não só estaria equivocado como também se torna prolixo e enfadonho. A obra discute a questão dos limites do conhecimento humano. Descobre que o mundo fenomênico (o modo como o mundo aparece para nós) está submetido às nossas condições de sensibilidade (espaço-tempo). Uma vez que podemos conhecer essas condições a priori (antes mesmo da experiência), somos capazes de emitir juízos universalmente válidos sobre acontecimentos fenomênicos antes mesmo que eles ocorram, ou seja, podemos emitir juízos científicos apenas sobre os fenômenos que estão no espaço e no tempo. Deus, por exemplo, não está no espaço-tempo e, portanto, não pode ser conhecido de forma rigorosa, sobre ele não podemos emitir juízos científicos. No entanto, todos os objetos da nossa experiência sensível, por estarem submetidos às nossas condições de sensibilidade, enquanto objetos da nossa sensibilidade, podem ser conhecidos de forma rigorosa. O mundo da experiência física é o reino da necessidade, está submetido ao princípio de razão suficiente (nada acontece sem uma razão). A razão determina a priori o ordenamento do mundo fenomênico (aquilo que chamamos de mundo físico).  Crítica da razão prática (1788). Discute a questão dos limites da ação humana no campo da moralidade. A determinação do mundo moral depende da boa-vontade. Cada um de nós deve escolher livremente respeitar os imperativos racionais e agir em conformidade com estes imperativos. Mas é preciso boa-vontade para com estes imperativos. O mundo da moral é o reino da liberdade e da responsabilidade, somos livres para escolher agir de acordo com a razão (a razão nos mostra como agir) e somos responsáveis por esta escolha que fazemos (depende de nós agir de acordo com a razão). Devemos agir de acordo com a razão, mas ela não nos obriga a tal.  Crítica do juízo ou Crítica da faculdade de julgar (1790). Discute a questão do consenso estético e do gosto; as questões ligadas à apreciação e produção das obras de arte. A obra de arte (obra do gênio) é necessária e livre ao mesmo tempo. Toda obra deixa transparecer que é fruto de uma subjetividade livre, porém necessária. A obra deve o seu processo de vir-a-
  • 3.
    ser às técnicasdo artista, mas nunca se esgota na técnica. É o gênio quem dá a regra da arte: livremente produz regras a priori para a sua obra. O mundo da arte aproxima o mundo das coisas-em-si-mesmas e o mundo dos fenômenos (a liberdade e a necessidade se tocam). Para Schopenhauer, por exemplo, a música é capaz de nos colocar em contato direto com o mundo como ele é em-si-mesmo para além das aparências fenomênicas. Muitos autores (Schelling o mais destacado) enxergaram na Crítica do juízo o elo entre a Crítica da razão pura e a Crítica da razão prática. Trata-se do reino da necessidade livre, o mundo da arte é produto de uma liberdade necessária. Introdução ao pensamento de Kant Revolução copernicana e a Estética transcendental. A novidade filosófica do pensamento kantiano pretende ser para a filosofia aquilo que o modelo geocêntrico de Copérnico-Galileu-Kepler representou para a física, ou seja, um novo paradigma. Retirado de sua pretensa centralidade no universo, uma vez que a Terra não é mais o seu centro e nem está imóvel, o homem teve de readaptar seu modo de conhecer o mundo promovendo uma profunda revolução científica. Kant quer, em parâmetros semelhantes, operar uma "revolução copernicana" em filosofia. Até Kant, o nosso conhecimento do mundo era regulado pelos objetos (procuramos fazer ciência a partir dos dados fornecidos pelos objetos) e Kant propõem fazer com que os objetos se regulem de acordo com o nosso modo de conhecer. Não é o nosso conhecimento que deve se adaptar aos objetos, estes devem responder ao nosso modo de conhecer. Essa revolução no pensamento filosófico tira a conclusão de que o espaço e o tempo condições subjetivas que nós impomos aos objetos e não entes (coisas objetivas) do mundo externo à nossa percepção, também tem uma outra consequência mais profunda: a de que nós apenas temos acesso ao modo pelo qual os objetos aparecem na nossa mente e nunca podemos conhecer as coisas como elas são em-si- mesmas. Em termos kantianos: 1. Conhecemos apenas fenômenos (aparências). 2. Não temos acesso às coisas como elas seriam em si mesmas (essências). Como Kant chega a essa conclusão? Fazendo uma análise dos juízos que nós emitimos sobre o mundo. No que diz respeito ao conhecimento, emitimos 3 tipos de juízos: Juízo sintético a posteriori Exemplos: "A maçã é verde" ou "o carro é azul". Neste tipo de juízo, o predicado (verde) não está contido no sujeito (maçã). A maçã pode ser vermelha. É um juízo sintético porque ele opera uma síntese entre coisas diferentes (maça + verde). É um juízo sintético a posteriori porque sua validade só pode ser comprovada depois da experiência. Só posso dizer com certeza se a maçã é verde depois de ver a maçã. Juízo analítico a priori
  • 4.
    Exemplos: "Deus éperfeito" ou "penso, logo existo". Neste tipo de juízo, o predicado (perfeito) já está contido no sujeito (Deus). Deus não pode não ser perfeito. É um juízo analítico porque opera uma análise entre coisas idênticas (Deus = Perfeição). É um juízo analítico a priori porque sua validade é absoluta. Se é Deus, então certamente é perfeito. Se eu penso, certamente existo. É impossível pensar sem existir ou ser Deus e não ser perfeito. Juízo sintético a priori Exemplos: "a soma dos ângulos internos de um triângulo é 180º" ou "em um triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos" ou "a velocidade média é igual à distância dividida pelo tempo" ou "1234 + 4321 = 5555". Neste tipo de juízo, podemos dizer, o predicado não está contido no sujeito, a hipotenusa é um síntese entre cateto oposto e cateto adjacente, mas não está contida em nenhum cateto tomado sozinho; a velocidade média não faz parte da noção de espaço ou da de tempo tomados isoladamente, mas é uma síntese entre os dois; o número 5555 não está contido no 1234 ou no 4231 tomados isoladamente, mas é uma síntese dos números. São juízos sintéticos porque operam síntese entre grandezas quantificáveis. São sintéticos a priori porque são determinados antes mesmo da experiência. Não preciso contar laranjas para saber que 1234 laranjas + 4321 laranjas somam 5555 laranjas. Não preciso ir de Aquidauana até Ribeirão Preto para saber que os 1000 quilômetros não podem ser percorridos em menos de 10 horas sem que em algum momento o limite de velocidade das rodovias que ligam as duas cidades seja desrespeitado. A fim de analisar os três tipos de juízo de conhecimento que emitimos (sintéticos a posteriori, analíticos a priori e sintéticos a priori), Kant elabora duas perguntas: 1. Este juízo é universalmente válido? 2. Este juízo aumenta meu conhecimento? Para facilitar, elaboramos a seguinte tabela: Universal + Conhecimento Sintético a posteriori NÃO SIM Analítico a priori SIM NÃO Sintético a priori SIM SIM O juízo "A maçã é verde" aumenta meu conhecimento do mundo, mas não é universal. O juízo "Deus é perfeito" não aumenta meu conhecimento do mundo, mas é universal. O juízo "1234+4321=5555" aumenta meu conhecimento e é universalmente válido. Da análise dos juízos emerge a pergunta fundamental da Crítica da razão pura: Como são possíveis juízos sintéticos a priori? Em outras palavras:
  • 5.
    Como é possívelque possamos saber como as coisas irão se comportar antes mesmo que ocorram? Como podemos saber algo sobre fenômenos que ainda não experimentamos? Juízos sintéticos a priori nos permitem antecipar a experiência. Para Kant, apenas estes são juízos rigorosamente científicos. Mas como são possíveis? Só podem ser possíveis se a experiência estiver submetida à maneira pela qual a conhecemos. Tempo e espaço não são objetos extra-mentais, mas condições para que existam objetos extra-mentais. Exemplo analógico Uma vitrola de discos transforma as ranhuras dos discos em música, pois no disco não há música nenhuma, é a vitrola que interpreta esses arranhados e produz o som. Nossa mente opera da mesma maneira: o mundo da experiência sensível é produto da nossa imaginação transcendental tal como a música é produto da vitrola. Só podemos encontrar no mundo aquilo que nós mesmos produzimos, o mundo é, pela primeira vez e literalmente, aquilo que fazemos dele. Recebemos os dados do mundo externo, mas o mundo tal qual ele aparece (mundo fenomênico) é um produto necessário da minha razão. Não temos acesso às coisas-em- si ou, no mínimo, não estamos autorizados a pensar sobre elas, nossa autorização para pensar cientificamente está limitada a um determinado campo de observação: o fenomênico. Como vimos, espaço e tempo são condições de cognoscibilidade dos fenômenos. Daí que minha doutrina da idealidade do espaço e do tempo, bem longe de considerar todo o mundo sensível simples ilusão, é antes o único meio de assegurar a objetos reais a aplicação de um conhecimento mais importante que qualquer outro, ou seja, aquele que expõe a matemática a priori, e de impedir que ela seja tomada por uma simples ilusão, pois sem esta observação seria totalmente impossível decidir se as intuições de espaço e tempo, que não retiramos de nenhuma experiência, e que além disso estão a priori em nossa representação, não são simples quimeras por nós feitas, às quais não corresponde nenhum objeto, pelo menos adequadamente, e com isso mesmo a geometria seria uma ilusão. Nós, ao contrário, pudemos demonstrar sua indiscutível validade com relação a todos os objetos do mundo sensível, justamente por serem eles meros fenômenos (KANT, I. Prolegômenos, p. 33). Deus, por exemplo, não se submete ao espaço e ao tempo e, portanto, não pode ser conhecido de maneira rigorosa: não é possível uma metafísica como ciência. Não é possível dar provas teóricas da existência ou não-existência de Deus. Daqui sai o resultado de todas as pesquisas precedentes: “Todos os princípios a priori nada mais são que princípios de experiência possível” e não podem ser nunca relacionados com coisas em si mesmas, mas somente com fenômenos como objetos da experiência. Por isso, tanto a matemática pura como a ciência pura da natureza nunca podem ir além dos fenômenos e representam apenas aquilo que torna possível uma experiência em geral ou o que, sendo derivado destes princípios, deve ser representado, em todo tempo, em qualquer experiência possível (idem, p. 48).
  • 6.
    A ideia deDeus pode apenas ser utilizada, segundo Kant, para regular a ação moral. É comum ouvir entre os estudantes de filosofia que Kant teria matado Deus na Crítica da razão pura e o ressuscitado na Crítica da razão prática. A questão do gosto, da beleza, do sublime e do gênio Assim como os juízos de conhecimento são subjetivos em última análise, o mesmo se passa com os relativos ao bom gosto, ou seja, estéticos. Como já salientamos, a Crítica da faculdade de julgar dever fazer a ponte entre as outras duas, em outras palavras, instituir um reino que está entre aquilo que acontece por necessidade e aquilo que acontece por liberdade. Muitos autores viram, como já salientamos também, a possibilidade de que esta terceira Crítica... pudesse mediar as outras, mas o próprio Kant proibia, como observa Reale (2017), uma fundamentação teórica desta passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade. Ora, embora se tenha justamente apurado existir um abismo insuperável entre o domínio do conceito de natureza, o sensível, e o domínio do conceito de liberdade, o suprassensível, de sorte que não é possível nenhuma passagem de um ao outro (portanto, mediante o uso teorético da razão), exatamente como se fossem dois mundos tão diferentes a ponto de o primeiro não poder em nada influenciar o segundo, e este, no entanto, deve influenciar aquele: isto é, o conceito da realidade deve conferir realidade efetiva para o mundo sensível para o fim designado pelas suas leis, e consequentemente, a natureza deve poder ser pensada também de modo que a legalidade da sua forma concorde pelo menos com a possibilidade dos fins a realizar nela segundo as leis da liberdade. Mas então deve haver também um fundamento da unidade daquele suprassensível que serve de fundamento da natureza, com aquele com aquele que o conceito de liberdade contém praticamente; um fundamento cujo conceito, embora não chegue nem teorética nem praticamente a um seu conhecimento e, portanto, não possua nenhum domínio peculiar, todavia torna possível a passagem do modo de pensar segundo os princípios da natureza ao modo de pensar segundo os princípios da liberdade (KANT apud REALE, 2017, p. 804-805). Juízo determinante Todos os juízos da Crítica da razão pura são determinantes porque são dados tanto o particular (múltiplo sensível) como o universal (as categorias e os princípios a priori). Kant chama esse juízo determinante, porque ele determina teoreticamente o objeto (o constitui como objeto) (REALE, 2017, p. 805). Juízo reflexivo (...) se chama “reflexivo” porque “esse universal que se deve encontrar” não é uma lei a priori do intelecto, mas, diz Kant, deriva de um “princípio da reflexão sobre os objetos para os quais objetivamente nos falta uma lei”, Note-se que “reflexão” assume aqui sentido técnico: “reflexão”, para Kant, significa comparar e unir entre si representações e colocá-las em relação com as nossas faculdades de conhecimento.
  • 7.
    Esse princípio “universal”da reflexão é, como veremos, diferente do universal do intelecto e é análogo ao das Ideias da razão: ele consiste na Ideia de finalidade (REALE, 2017, p. 805). Com efeito, em cada um dos juízos reflexivos, para poder subir do particular ao universal que “deve ser encontrado” (ou seja, para encontrar a unidade sob a qual se reúnem os vários objetos e os vários casos), precisamos de um princípio-guia a priori. Segundo Kant, esse princípio não é senão a hipótese da finalidade da natureza nos seus múltiplos casos e manifestações, ou melhor, na consideração da natureza e de tudo aquilo que nela foi deixado indeterminado pelo nosso intelecto segundo uma unidade – precisa Kant – que teria podido estabelecer um intelecto divino. É evidente que, considerada deste ponto de vista, ou seja, como realização do projeto de uma mente divina, toda a realidade da natureza, especialmente todos os acontecimentos que nos parecem contingentes, se manifestam em luz totalmente nova, isto é, à luz de um objetivo e de um fim. Desse modo, o conceito de fim, que havia sido excluído da Crítica da razão pura, entra na filosofia kantiana nessa fórmula do “juízo reflexivo”, além disso muito sugestiva. O conceito de fim não é conceito teorético, mas algo que se enraíza numa necessidade e numa instância estrutural do sujeito. Todavia, também nesses limites, o juízo reflexivo “fornece o conceito intermediário entre o conceito da natureza e o da liberdade”, porque a finalidade faz a natureza perder a sua rigidez mecanicista e torna possível o seu acordo com a liberdade. Mas nós podemos “encontrar” o finalismo na natureza de dois modos diferentes, embora conjugados: – refletindo sobre a beleza; – refletindo sobre o ordenamento da natureza; Daí a distinção kantiana de dois tipos de “juízo reflexivo”: – o juízo estético; – o juízo teológico (REALE, 2017, p. 806). Os juízos estéticos Juízo de gosto Os juízos estéticos estão ligados ao nosso sentimento, com aquilo que sentimos diante de um determinado objeto: a sensação de prazer que sentimos, é o que se espera, quando contemplamos algo belo é incomunicável. No entanto, espera-se que aquele a quem eu comunico meus sentimentos compreenda aquilo que digo sem a necessidade de uma explicação conceitual. É preciso que fique claro: eu não comunico meu gosto – meus sentidos – meus sentidos pertencem-me como coisa particular. Isto é verdadeiro para o que é agradável: posso julgar bom o vinho das Canárias (exemplo de Kant!), meu vizinho pode perfeitamente achá-lo intragável. Isto vale também para o belo: eu não comunico a outro meu gosto pelas tulipas consideradas belas. Também não transmito o conceito de belo que possa originar uma demonstração da beleza. Quando digo: “Este poema e este edifício são belos”, dirijo-me
  • 8.
    simplesmente ao sensocomum, supondo em cada um a mesma aptidão para representar a si mesmo o que eu sinto: “É exatamente esta a razão pela qual aquele que julga com gosto [...] está autorizado a esperar que cada um sinta satisfação diante do objeto, e a considerar que seu sentimento é universalmente comunicável e que seja sem a mediação dos conceitos” (JIMENEZ, O que é estética?, p. 127). Dizemos: “Isto é belo!” e o que esperamos daquele que nos ouve é que seja capaz de experimentar, diante do mesmo objeto, quão agradável é o aquilo que sinto e que compreenda a priori a universalidade do que está sendo afirmado. É um juízo reflexivo, porque procurar agrupar vários objetos sob o mesmo conceito: as coisas que me agradam e as que não, as que julgo belas e as que não etc. Este tipo de juízo não pode fundar uma ciência propriamente dita, pois sua universalidade subjetiva é esperada, mas não pode ser demonstrada. Algo semelhante acontece com a Ideia de Deus que pode ser pensada, mas que não prova que exista algo que corresponda a tal ideia. Podemos supor que há um autor que está por trás da natureza (por trás da rosa, da lua, do Sol, das estrelas, das montanhas etc.) e até pode ser útil pensar que todas essas coisas foram produzidas de acordo com uma finalidade pré-estabelecida (na biologia1, por exemplo). O belo 1. O belo é objeto de prazer desinteressado (não está associado ao mero prazer dos sentidos, ao ganho econômico ou ao bem moral). 2. O belo agrada universalmente sem conceito (é um prazer universal, que vale para todos os homens, mas que não pode ser tomado como universalidade teórica ou objetiva, porque se trata de sentimento subjetivo). 3. O belo é a forma da finalidade sem nenhum fim determinado (egoísta, utilitarista, ético ou lógico). Frente ao belo de natureza, nós percebemos como que a presença de um fim intencional, pelo qual o objeto belo se nos configura como uma obra de arte. Ao contrário, diante de uma obra de arte, que executa um desígnio intencional, nós sentimos que então verdadeiramente é bela, quando aquela oblitera, e o objeto parece criação espontânea da natureza. Reunido as duas qualidades, que parecem em contraste, mas são convergentes, podemos dizer que no belo, de natureza ou de arte, é preciso que o fim exista e não exista, exista como se não existisse, isto é, que a intencionalidade e a espontaneidade estejam de tal forma fundidas que a natureza pareça arte e a arte natureza (REALE, 2017, p. 807). 1 “Uma das primeiras definições modernas de organismo foi proposta por Kant, estando associada à ideia de auto-organização (Keller, 2005). Para Kant ([1892] 1914), o organismo é um produto natural organizado, no qual todas as partes são ao mesmo tempo finalidade e meio, ou seja, ao mesmo tempo em que as partes contribuem para a organização do todo, também são consequências desse modo de organização. Este tipo de organização é obtida pela relação estabelecida entre as partes, sem um organizador externo, isto é, o organismo é auto-organizado. Desta perspectiva, o organismo é considerado uma entidade capaz de se autorregular, autodirigir e autogerar, apresentando um tipo especial de arranjo, que é auto-organizado (Keller, 2005, p. 1070)” (MEGLHIORATTI, 2002, p. 8).
  • 9.
    4. O beloé reconhecido como objeto de um prazer necessário (não se trata de necessidade lógica, mas de uma necessidade subjetiva que se impõem aos homens). O fundamento do juízo estético é o “livre jogo e a harmonia das nossas faculdades espirituais” (entre a fantasia e o intelecto), que o objeto produz no sujeito. O juízo de gosto é, portanto, o efeito desse livre jogo das faculdades cognoscitivas. Assim, compreende-se bem as conclusões de Kant: “Esse juízo puramente subjetivo (estético) do objeto precede o prazer pelo objeto, é o fundamento desse prazer pela harmonia das faculdades de conhecer: mas sobre aquela universalidade das condições subjetivas no juízo dos objetos se funda somente essa validade subjetiva universal do prazer, que nós unimos à representação do objeto, que chamamos belo” (REALE, 2017, p. 807). O sublime O sublime é afim ao belo, porque também ele agrada “por si mesmo” e pressupõe um “juízo de reflexão”. A diferença se encontra no fato de que o belo se refere à forma do objeto, e a forma é caracterizada pela limitação (de- terminação), ao passo que o sublime se refere também ao que é informe e implica a representação do ilimitado. Além disso, o belo produz um prazer positivo, ao passo que o sublime produz um prazer negativo: às vezes Kant fala até de um desprazer. Por fim, representando-se o sublime, o ânimo tende à comoção; representando o belo, “deleita-se numa contemplação calma”. Mas o sublime não está nas coisas e sim no homem. Há duas espécies de sublime: o matemático e o dinâmico, o primeiro é dado pelo infinitamente grande, o segundo pelo infinitamente poderoso. Frente ao imensamente grande (oceano, céu etc.) ou ao imensamente poderoso (terremotos, vulcões etc.), o homem, por um lado, se descobre pequeno e se sente esmagado, mas, por outro lado, descobre ser superior ao imensamente grande ou poderoso de caráter físico, pois traz consigo as Ideias da razão, que são as Ideias da totalidade absoluta e supera aquilo que incialmente parecia superar o próprio homem. Assim, a definição mais apropriada de sublime é esta: “Sublime é aquilo que, pelo fato de unicamente poder pensá-lo, atesta uma faculdade do ânimo superior a qualquer medida dos sentidos” (REALE, 2017, p. 808). O gênio "§ 46. Bela-arte é arte do gênio Gênio é o talento (dom natural) que dá à arte a regra. Já que o talento, como faculdade produtiva inata do artista, pertence, ele mesmo, à natureza, poderíamos também exprimir-nos assim: gênio é a disposição natural inata (ingenium), pela qual a natureza dá à arte a regra.
  • 10.
    Seja qual foro caráter dessa definição e sendo ela meramente arbitrária, ou adequada ao conceito que se costuma vincular com a palavra gênio, ou não [...], pode-se, entretanto, já de antemão, demonstrar que, segundo a significação aqui admitida da palavra, belas-artes têm de ser necessariamente consideradas como artes do gênio. Pois toda arte pressupõe regras, somente por cuja fundamentação um produto, se deve chamar-se artístico, e é representado como possível. O conceito da bela-arte, porém, não permite que o juízo sobre a beleza de seu produto seja derivado de qualquer regra, que tenha um conceito por fundamento-de-determinação, portanto tome por fundamento um conceito do modo como ele é possível. Portanto, a bela-arte não pode inventar para si mesma a regra, segundo a qual deve instituir seu produto. Ora, como, mesmo assim, sem regra prévia um produto nunca pode chamar-se arte, é preciso que a natureza no sujeito (e pela disposição das faculdades do mesmo) dê à arte a regra, isto é, a bela-arte só é possível como produto do gênio. Vê-se, a partir disso, que o gênio - 1) é um talento, de produzir aquilo para o qual não se pode dar nenhuma regra determinada: não disposição de habilidade para aquilo que pode ser aprendido segundo alguma regra; conseqüentemente que originalidade tem de ser sua primeira propriedade. 2) Que, como também pode haver insensatez original, seus produtos têm de ser ao mesmo tempo modelos, isto é, exemplares; portanto, eles mesmos não provindo de imitação, têm de servir, no entanto, a outros para isso, isto é, como justa-medida ou regra do julgamento. 3) Que ele mesmo não pode descrever ou indicar cientificamente como instituiu seu produto, que ele deve a seu gênio, não sabe, ele mesmo, como se encontraram nele as idéias para isso, e também não está em seu poder inventá-las à vontade ou conforme um plano, e comunicá-las a outros em prescrições tais que os ponham em situação de criar produtos equivalentes. (Por isso, também presumivelmente, a palavra gênio é derivada de genius, o espírito próprio dado a um homem no nascimento, protetor e guia, de cuja inspiração procederiam aquelas idéias originais.) 4) Que a natureza, pelo gênio, prescreve, não à ciência, mas à arte a regra; e também isto somente na medida em que esta última deve ser bela-arte. § 47. Elucidação e confirmação da explicação acima sobre o gênio Nisto todos concordam: que gênio deve ser inteiramente oposto ao espírito de imitação. E, como aprender nada é senão imitar, a máxima aptidão, felicidade de assimilação (capacidade) como tal, não pode valer como gênio. Mas mesmo quando alguém inventa por si mesmo, e não meramente aprende o que outros pensaram, e até mesmo quando descobre algo para a arte ou a ciência, também isso ainda não é fundamento justo para se denominar uma tal (muitas vezes poderosa) cabeça um gênio (em oposição àquele que, porque jamais pôde fazer algo além de imitar, e se denomina um simplório): porque justamente isso também poderia ter sido aprendido, e portanto se encontra na via natural da pesquisa e da meditação segundo regras, e não é especificamente diferente daquilo que pode ser adquirido por diligência mediante a imitação. Assim, tudo aquilo que Newton expôs em sua obra imortal sobre os princípios da filosofia natural, por mais poderosa cabeça que seja requerida para inventar tais princípios, pode-se perfeitamente aprender; mas não se pode
  • 11.
    aprender a fazerpoemas com espírito, por mais exaustivas que sejam todas as prescrições da arte poética e por mais excelentes que sejam seus modelos. A causa disso é que, todos os passos que Newton teve de dar, desde os primeiros elementos da geometria até suas grandes e profundas descobertas, ele poderia tornar inteiramente claros, não somente para si mesmo, mas a todos os outros, e demonstrá-los determinadamente para seus sucessores; nenhum Homero, porém, ou Wieland, pode indicar como suas idéias, ricas em fantasia e no entanto, ao mesmo tempo, repletas de pensamento, surgem e se reúnem em sua cabeça, isto porque ele mesmo não o sabe e, portanto, também não pode ensinar a nenhum outro. Naquilo que é científico, pois, o grande descobridor se distingue do mais laborioso imitador e discípulo apenas segundo o grau, enquanto daquele que a natureza dotou para a bela-arte, ele se distingue especificamente. Entretanto, não vai nisto nenhuma depreciação daqueles grandes homens, aos quais o gênero humano tanto deve, em confronto com os favoritos da natureza quanto a seu talento para a bela-arte. Justamente em ser aquele talento feito para a maior perfeição, sempre em progresso, do conhecimento e de toda utilidade que depende deste, assim como para a instrução de outros nos mesmos conhecimentos, consiste um grande privilégio deles diante daqueles que merecem a honra de chamar-se gênios; porque para estes a arte em alguma parte se detêm, na medida em que lhe é posto um limite, além do qual ela não pode ir e que também, presumivelmente, já há muito está alcançado e não pode mais ser ampliado; e, além disso, uma tal habilidade também não se deixa comunicar, mas quer ser concedida a cada um imediatamente pela mão da natureza, portanto morre com ele, até que a natureza alguma vez dote novamente do mesmo modo um outro, que de nada mais precisa do que de seu exemplo para deixar atuar o talento, de que tem consciência, de modo semelhante" (KANT, 1980, p. 46-48).