João Alberto Roque (texto), Rute Freire e Alexandre Freire (ilustrações)
Aconselha-se a visualização seguinte:

Em ecrã inteiro - Rectângulo na barra acima à direita.
Há histórias que fazem parte do nosso imaginário

colectivo e que moldaram a nossa percepção da realidade.

A fábula da Lebre e da Tartaruga é uma dessas histórias.

     E se La Fontaine foi induzido em erro ou foi cúmplice

de uma tramóia bem montada?

     Os autores do presente texto, usando de ironia e

humor, vêm apresentar o resultado de uma aturada

investigação, onde demonstram que houve fraude e que,

afinal, a fábula da Lebre e da Tartaruga foi…




     Uma história mal contada.
Dedico esta história – a verdadeira –

A todas as crianças que gostam de ler

E aos adultos com sentido de humor refinado.

La Fontaine, desculpa lá a brincadeira:

Adulterei a tua fábula, que é bonita a valer

E não tens culpa, porque foste enganado…




         Agradeço às minhas fontes de inspiração:

         Às socialites e a quem vai atrás do foguetório,

         E, claro, aos jornalistas, juízes e advogados,

         Aos políticos pouco sérios (felizmente excepção)

         E aos homens do desporto que têm no repertório

         Muitos modos diferentes de falsear resultados…
O caso que vos vou descrever

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso que nunca poderia acontecer

No mundo tão certo dos humanos

Onde ninguém engana os demais.
Tudo começou numa entrevista:

A Tartaruga, mediática e famosa,

Contava, ao pormenor, a sua vida.

Além da foto, na capa da revista,

Havia uma frase curta e poderosa

«Desafio a Lebre para uma corrida».




A Tartaruga, que tinha fama de ser lenta,

Queria mudar esse aspecto negativo:

Nada melhor do que desafiar a Lebre

O animal mais rápido da floresta

Mas um bicho assustadiço e esquivo

Que raramente saía do seu casebre.
A Lebre viu ali uma boa oportunidade

Por isso, como se sabe, aceitou o desafio

E declarou ao Papagaio jornalista:

«Ninguém me vence em velocidade».

Aprazaram a corrida, que seria junto ao rio,

Um local aprazível para servir de pista.

A Lebre viu ali uma boa oportunidade

Por isso aceitou o desafio, como se sabe,
No dia previsto e à hora combinada,

Manhã cedo, já a Lebre aquecia

Os músculos das pernas e das costas.

Para ver a celebridade, a bicharada

Juntara-se onde a Tartaruga chegaria

E cada um fazia as suas apostas.




Como a sua especialidade é dar nas vistas

A Tartaruga nunca da pompa prescinde:

Pegou em dois copos que ela mesma encheu

- Há que evitar situações imprevistas -,

Deu um copo à Lebre e propôs um brinde:

«E que ganhe a melhor, ou seja… eu».
Após uma curta sessão de autógrafos,

O canto do galo deu o sinal de partida

- Sabem que os tiros assustam os animais.

Acompanhadas por jornalistas e fotógrafos,

Largaram. Claro que a Lebre saiu rápida

E a outra lenta – os seus estilos habituais.




A bicharada ansiosa esperava as velocistas

- Àquele ritmo, a Lebre já devia ter chegado -

De olhos na meta, estranhavam a demora.

Deveras admirados estavam os jornalistas

E conjecturavam o que se teria passado,

Que a partida fora há mais de uma hora.
Para a história ficou a fotografia

- Uma cena estranha e caricata -

Divulgada em revistas e jornais:

À sombra duma árvore, a Lebre dormia

E a Tartaruga passava rumo à meta

(E fotografias não mentem, são reais).
A multidão já aplaudia a bicha célebre.

Sob a algazarra, a outra despertou

E, ainda tonta, correu como uma seta.

Mas chegou demasiado tarde, a Lebre

- A bicharada toda em coro a assobiou -

Que a Tartaruga já tinha passado a meta.




A façanha, a lenda, a bela história

Da Tartaruga correu mundo e encantou.

E ela - com um sorriso de orelha a orelha

Pois ficara muito bem na fotografia -

Sim, só ela sabia que a Lebre falhou

Sob o efeito da poção da amiga Abelha.
Fraude perfeita? Não! Algo correu mal.

Um Ratito viu tudo e – finório – percebeu:

A Abelha a vender a poção para dormir;

A Tartaruga a deitá-la no copo da rival.

Esta bebeu e, durante a prova, adormeceu

E a outra, vagarosa, passou por ela a sorrir.
O Ratito, pensativo, até roía as unhas:

Para repor a justiça teria que acusar

Uma personagem com grande influência,

Sem quaisquer provas nem testemunhas.

Para divulgar o que vira, teria que usar

Toda a sua perspicácia e prudência.




Escrever uma carta anónima foi a solução…

Dirigida ao empenhado jornalista

A relatar o que vira, de forma precisa.

Este achou que, se não era só imaginação,

Havia ali assunto a não perder de vista

E começou a preparar a sua pesquisa.
O jornalista confrontou, com tais questões,

A Tartaruga que o olhava de soslaio.

A ilustre visada, ofendida, negou o facto.

Achando-se intocável, imune a suspeições,

Cometeu o erro de humilhar o Papagaio,

Chamando-lhe incompetente, fala-barato.




A notícia não tardou a vir a público

- a bicharada sedenta de emoções -

E descobriu-se uma vida escandalosa.

Desde que o credível Papagaio abriu o bico

Sucederam-se, em catadupa, as revelações.

Para começar houve uma ajuda preciosa:
Séria e tendo que manter a reputação

    De especialista em doces e venenos,

    A doutora Abelha, envolvida por abuso,

    Revelou que a tartaruga pedira a poção

    Porque andava a dormir bastante menos

    E afirmara ser para seu próprio uso.




Tal como a Tartaruga corpulenta,

A mentira tem pernas curtas e baixo nível

E foi no tribunal que o caso foi disputado,

Mas, como a ré, a justiça é muito lenta

E tem uma carapaça quase intransponível

Se há alguém rico e poderoso implicado.
A Tartaruga sempre foi um animal

- não se esqueçam - muito influente,

Dá-se com bestas capazes do pior

E, claro, o caso prescreveu no tribunal.

A Tartaruga continua, indiferente

Na sua carapaça, a achar-se a maior.




                       É esta a única e verdadeira história,

                       Contada com todo o rigor e boa-fé

                       Sem quaisquer enfeites nem fantasias.

                       Conseguir contá-la é já uma vitória…

                       Estranhamente, quão diferente é

                       A versão que chegou aos nossos dias.
O caso que hoje vos descrevi

Passou-se há muitos e muitos anos

No estranho mundo dos animais…

Caso semelhante nunca eu vi

No mundo tão certo dos humanos,

Onde ninguém engana os demais.
A imprescindível Moral da História:

Cuidado! Que as aparências enganam.

Pensem por vós, sem ingenuidade,

E mesmo que pareça luta inglória,

- Mesmo quando muitos vos abandonam -

Escolham sempre o lado da verdade.
Agradece-se feedback para

   jafroque@gmail.com

Fábula da lebre e da tartaruga, uma história mal contada

  • 1.
    João Alberto Roque(texto), Rute Freire e Alexandre Freire (ilustrações)
  • 2.
    Aconselha-se a visualizaçãoseguinte: Em ecrã inteiro - Rectângulo na barra acima à direita.
  • 3.
    Há histórias quefazem parte do nosso imaginário colectivo e que moldaram a nossa percepção da realidade. A fábula da Lebre e da Tartaruga é uma dessas histórias. E se La Fontaine foi induzido em erro ou foi cúmplice de uma tramóia bem montada? Os autores do presente texto, usando de ironia e humor, vêm apresentar o resultado de uma aturada investigação, onde demonstram que houve fraude e que, afinal, a fábula da Lebre e da Tartaruga foi… Uma história mal contada.
  • 5.
    Dedico esta história– a verdadeira – A todas as crianças que gostam de ler E aos adultos com sentido de humor refinado. La Fontaine, desculpa lá a brincadeira: Adulterei a tua fábula, que é bonita a valer E não tens culpa, porque foste enganado… Agradeço às minhas fontes de inspiração: Às socialites e a quem vai atrás do foguetório, E, claro, aos jornalistas, juízes e advogados, Aos políticos pouco sérios (felizmente excepção) E aos homens do desporto que têm no repertório Muitos modos diferentes de falsear resultados…
  • 7.
    O caso quevos vou descrever Passou-se há muitos e muitos anos No estranho mundo dos animais… Caso que nunca poderia acontecer No mundo tão certo dos humanos Onde ninguém engana os demais.
  • 8.
    Tudo começou numaentrevista: A Tartaruga, mediática e famosa, Contava, ao pormenor, a sua vida. Além da foto, na capa da revista, Havia uma frase curta e poderosa «Desafio a Lebre para uma corrida». A Tartaruga, que tinha fama de ser lenta, Queria mudar esse aspecto negativo: Nada melhor do que desafiar a Lebre O animal mais rápido da floresta Mas um bicho assustadiço e esquivo Que raramente saía do seu casebre.
  • 11.
    A Lebre viuali uma boa oportunidade Por isso, como se sabe, aceitou o desafio E declarou ao Papagaio jornalista: «Ninguém me vence em velocidade». Aprazaram a corrida, que seria junto ao rio, Um local aprazível para servir de pista. A Lebre viu ali uma boa oportunidade Por isso aceitou o desafio, como se sabe,
  • 12.
    No dia previstoe à hora combinada, Manhã cedo, já a Lebre aquecia Os músculos das pernas e das costas. Para ver a celebridade, a bicharada Juntara-se onde a Tartaruga chegaria E cada um fazia as suas apostas. Como a sua especialidade é dar nas vistas A Tartaruga nunca da pompa prescinde: Pegou em dois copos que ela mesma encheu - Há que evitar situações imprevistas -, Deu um copo à Lebre e propôs um brinde: «E que ganhe a melhor, ou seja… eu».
  • 15.
    Após uma curtasessão de autógrafos, O canto do galo deu o sinal de partida - Sabem que os tiros assustam os animais. Acompanhadas por jornalistas e fotógrafos, Largaram. Claro que a Lebre saiu rápida E a outra lenta – os seus estilos habituais. A bicharada ansiosa esperava as velocistas - Àquele ritmo, a Lebre já devia ter chegado - De olhos na meta, estranhavam a demora. Deveras admirados estavam os jornalistas E conjecturavam o que se teria passado, Que a partida fora há mais de uma hora.
  • 16.
    Para a históriaficou a fotografia - Uma cena estranha e caricata - Divulgada em revistas e jornais: À sombra duma árvore, a Lebre dormia E a Tartaruga passava rumo à meta (E fotografias não mentem, são reais).
  • 18.
    A multidão jáaplaudia a bicha célebre. Sob a algazarra, a outra despertou E, ainda tonta, correu como uma seta. Mas chegou demasiado tarde, a Lebre - A bicharada toda em coro a assobiou - Que a Tartaruga já tinha passado a meta. A façanha, a lenda, a bela história Da Tartaruga correu mundo e encantou. E ela - com um sorriso de orelha a orelha Pois ficara muito bem na fotografia - Sim, só ela sabia que a Lebre falhou Sob o efeito da poção da amiga Abelha.
  • 21.
    Fraude perfeita? Não!Algo correu mal. Um Ratito viu tudo e – finório – percebeu: A Abelha a vender a poção para dormir; A Tartaruga a deitá-la no copo da rival. Esta bebeu e, durante a prova, adormeceu E a outra, vagarosa, passou por ela a sorrir.
  • 23.
    O Ratito, pensativo,até roía as unhas: Para repor a justiça teria que acusar Uma personagem com grande influência, Sem quaisquer provas nem testemunhas. Para divulgar o que vira, teria que usar Toda a sua perspicácia e prudência. Escrever uma carta anónima foi a solução… Dirigida ao empenhado jornalista A relatar o que vira, de forma precisa. Este achou que, se não era só imaginação, Havia ali assunto a não perder de vista E começou a preparar a sua pesquisa.
  • 24.
    O jornalista confrontou,com tais questões, A Tartaruga que o olhava de soslaio. A ilustre visada, ofendida, negou o facto. Achando-se intocável, imune a suspeições, Cometeu o erro de humilhar o Papagaio, Chamando-lhe incompetente, fala-barato. A notícia não tardou a vir a público - a bicharada sedenta de emoções - E descobriu-se uma vida escandalosa. Desde que o credível Papagaio abriu o bico Sucederam-se, em catadupa, as revelações. Para começar houve uma ajuda preciosa:
  • 27.
    Séria e tendoque manter a reputação De especialista em doces e venenos, A doutora Abelha, envolvida por abuso, Revelou que a tartaruga pedira a poção Porque andava a dormir bastante menos E afirmara ser para seu próprio uso. Tal como a Tartaruga corpulenta, A mentira tem pernas curtas e baixo nível E foi no tribunal que o caso foi disputado, Mas, como a ré, a justiça é muito lenta E tem uma carapaça quase intransponível Se há alguém rico e poderoso implicado.
  • 29.
    A Tartaruga semprefoi um animal - não se esqueçam - muito influente, Dá-se com bestas capazes do pior E, claro, o caso prescreveu no tribunal. A Tartaruga continua, indiferente Na sua carapaça, a achar-se a maior. É esta a única e verdadeira história, Contada com todo o rigor e boa-fé Sem quaisquer enfeites nem fantasias. Conseguir contá-la é já uma vitória… Estranhamente, quão diferente é A versão que chegou aos nossos dias.
  • 31.
    O caso quehoje vos descrevi Passou-se há muitos e muitos anos No estranho mundo dos animais… Caso semelhante nunca eu vi No mundo tão certo dos humanos, Onde ninguém engana os demais.
  • 32.
    A imprescindível Moralda História: Cuidado! Que as aparências enganam. Pensem por vós, sem ingenuidade, E mesmo que pareça luta inglória, - Mesmo quando muitos vos abandonam - Escolham sempre o lado da verdade.
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    Agradece-se feedback para jafroque@gmail.com