Estado de Direito BRASIL • N° 35 • ANO VI • ISSN 2236-2584 
Prestação Jurisdicional 
O Jornal Estado de Direito tem a missão 
de criar, promover e divulgar a cultura 
jurídica popular como instrumento de 
cidadania. Para tanto, potencializa a 
palavra, o resgate de “sentir” o direito, 
a fi m de gerar novos comportamentos, 
emoções e signifi cados e vivenciá-lo 
como fenômeno cultural, evitando 
quando possível a judicialização da 
vida. Nesta 35ª edição o destaque é o 
artigo de Eduardo Arruda Alvim, que 
aborda a questão do efeito suspensivo 
do recurso de apelação e da efi cácia 
das decisões, com garantias de acesso 
efetivo ao Poder Judiciário e a razoável 
duração do processo no projeto de Lei 
do novo Código de Processo Civil. Leia 
na página 14. 
América Latina 
Bruno Espiñeira Lemos critica a injustiça 
em virtude da corrupção por omissão 
de políticos coniventes com o sistema, 
concorrendo para perpetuar o ciclo de 
desigualdades econômicas e sociais em 
nome de benefícios próprios. 
Página 04 
Saúde Pública 
Álvaro Nagib Atallah assevera a 
importância da pesquisa científica 
na transmissão de conhecimento 
preventivo para racionalizar o 
problema do Direito e da Saúde em prol 
da dignidade da pessoa. 
Página 06 
Xenofobia 
europeia 
Gustavo Oliveira de Lima Pereira 
comenta a Diretiva de Retorno da União 
Europeia, que criminaliza os imigrantes, 
e as expectativas do cenário político com 
o novo governo francês. 
Página 08 
A efetividade do 
acesso à justiça pela 
conciliação 
Susana Bruno põe em discussão a 
efetividade de direitos, através da 
utilização das ADRs e a necessidade 
de desenvolver outras bases teóricas 
com as demais ciências, entre as quais 
a psicologia, a comunicação social, a 
sociologia, a estatística para o aumento 
da satisfação do jurisdicionado. 
Página 15 
Veja também 
Página 12 
Quebra do sigilo bancário 
Rafael Eduardo de 
Andrade Soto adverte 
sobre a relativização 
criada pela ausência do 
devido processo legal e 
o desrespeito às normas 
legais e constitucionais 
Página 20 
Privilégio e foro 
privilegiado 
Djalma Pinto aponta 
falha na legislação que 
leva à impunidade e à 
ausência de julgamento 
dos ocupantes de cargos 
políticos no Brasil 
Página 20 
Revisitando os Três Poderes 
Samuel Mânica Radaelli 
aborda a separação dos 
Poderes e o risco da 
cassação das decisões do 
Supremo pelo Congresso 
Nacional 
O professor Eduardo Arruda Alvim destaca a subtração 
do efeito suspensivo à apelação no projeto do novo CPC 
AP 
Página 14 
A mediação no novo CPC 
Humberto Dalla 
Bernardina de Pinho 
explica as diferenças entre 
mediação e conciliação, 
práticas a serem utilizadas 
pelos magistrados antes do 
julgamento, conforme a 
sistemática do novo CPC 
Relações de 
Consumo 
Marcos Dessaune discute a proteção dos 
direitos dos consumidores, desprezada 
diante da lesão temporal indesejada, que 
impacta a vida diária negativamente, 
fruto de atos ilícitos de fornecedores. 
Página 10 
Eventos Gratuitos 
Agenda Cultural 
Estado de Direito 
19/06, Palestra “As consequências da 
participação das entidades do terceiro 
setor”, em Porto Alegre/RS. 
21/06, Palestra “Quando o tamborim 
ajuda entender Direito e Política”, em 
Fortaleza/CE. 
26/06, Palestra “O Direito Alternativo 
como Alternativa ao Direito”, em São 
Paulo/SP: +Informações em 
www.estadodedireito.com.br 
Página 29 
Direito constitucional à 
convivência familiar 
Maria Berenice Dias 
ressalta o caráter de 
prioridade do afeto, o qual 
merece ser preservado 
como princípio para 
a adoção, ao invés do 
equivocado prestígio ao 
elo biológico
2 Estado de Direito n. 35 
Estado de Direito 
Apoio 
*Os artigos publicados são de responsabilidade dos autores e não re-fl 
etem necessariamente a opinião desse Jornal. Os autores são os únicos 
responsáveis pela original criação literária. 
Tempos de Desapego 
ISSN 2236-2584 CCCaaarrrmmmeeelllaaa GGGrrrüünnee* 
Edição 35 • VI • Ano 2012 
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Carmela Grüne 
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da realidade social! 
Vivenciamos uma cultura que valoriza o ter, pelo 
ser. É uma enxurrada de informação dizendo o 
que, quando e porque devemos consumir. São 
padrões que acabam ferindo a nossa dignidade. O ser 
diferente caminha ao isolamento, à exclusão espon-tânea 
por não fazer parte de um tipo social aceitável 
como politicamente correto. 
Nessa onda, acabamos sendo levados a guardar 
bens, os quais usamos uma, duas, no máximo, três 
vezes, naquela prateleira cheia de pó que só é limpa 
quando alguém resolve organizar as coisas. Colecio-namos 
produtos como roupas, instrumentos, calçados, 
eletrodomésticos que deixam de ter utilidade pelos 
novos objetos de desejo, pela tecnologia que a cada 
dia apresenta uma novidade. Em parte, esse aparato 
surge para facilitar a vida, aproximar pessoas, melhorar 
a comunicação, mas temos que saber separar o joio do 
trigo, perceber o que realmente surge para o beneficio 
da humanidade e aquilo que é um produto descartável, 
com prazo de validade contado. Porque o resultado 
da nossa escolha pode gerar males que vão desde a 
degradação ambiental ao trabalho escravo. 
Ler o rótulo do produto, saber como e por quem 
é feito, dando prioridade para aqueles que respeitam 
a nossa dignidade. Sim, porque a partir do momento 
que consumimos um produto difícil de descartar, a 
natureza vai processar e responder de tal maneira que 
a gente nem imagina, colocando em risco a nossa vida 
e das futuras gerações. De outro lado, quando vimos 
aquelas belas vitrines de roupas, com um preço tenta-dor, 
temos que desconfiar daquilo que é oferecido, não 
apenas pela sua qualidade, mas principalmente pela 
procedência. Que mãos tiveram o trabalho de fazer, 
a que preço pessoas estavam trabalhando para viver 
ou sobreviver? Os jornais denunciam as grandes lojas 
de roupas oferecendo produtos oriundos do trabalho 
escravo. Escravidão existe sim. Revestida na falsa 
expectativa e promessa de uma vida melhor na cidade 
grande. Não podemos ser coniventes. A informação é 
o caminho para escolhermos o destino que daremos 
para a nossa vida e da coletividade. 
O consumo também está associado à busca do pra-zer 
imediato. Curar dores e feridas pela rejeição, falta 
de diálogo, “promessas de vida”. É mais fácil sair por aí 
preenchendo o vazio do coração com uma casa cheia de 
bens, os quais estão lá, como troféus. Resgatar o sentido 
da solidariedade, compartilhando aquilo que podemos 
é também uma maneira de gerar novos sentimentos e 
fortalecer um em especial: a alteridade. 
Satisfação pessoal não pode ser sinônimo de capa-cidade 
de adquirir coisas, mas sim na quantidade de 
ações positivas que conseguimos realizar para reduzir 
as diferenças sociais ao nosso redor. 
O prazer é algo tão profundo e merece cada vez 
mais estudo, porque é a partir dele que resultam 
comportamentos: de ódio, de posse, de exclusão, de 
conflito, de poder. Estudar a relação da neurociência 
com o direito é um caminho que estou trilhando para 
descobrir formas de significar o direito de modo di-ferente, 
vivenciando novas experiências de apreensão 
do conhecimento jurídico, menos dor e conflito, mais 
prazer, solidariedade e justiça. 
Comprei recentemente o livro “E o cérebro criou 
o homem”, de António R. Damásio e uma das ideias é 
como a homeostase sociocultural pode ajudar o homem 
a modificar o cérebro e gerar novos comportamentos, 
emoções e significados para viver com mais harmonia, 
alteridade e prazer. Apego às pessoas e desapego aos 
bens materiais. 
Se Damásio afirma que “a elaboração de leis e regras 
morais e o desenvolvimento de sistemas de justiça 
constituem uma resposta à detecção de desequilíbrios 
causados por comportamentos sociais”, que políticas 
públicas precisamos desenvolver para estimular com-portamentos 
que gerem maior emancipação, desen-volvimento 
de negócios que respeitem a condição do 
outro, e a nossa própria sustentabilidade? 
Convido vocês a estarem atentos ao que acontece 
com seus sentidos e lanço o desafio de criar espaço 
nas nossas vidas para receber amor e gratidão. Aqueles 
livros, CDs, sapatos, tênis, roupas que você já curtiu, 
vai ser a alegria de pessoas que precisam para viver com 
um pouco mais de dignidade. O Projeto Direito no Cár-cere, 
realizado na Galeria Luz no Cárcere, do Presídio 
Central de Porto Alegre, está recebendo doações, acesse 
o vídeo “Tempos de Desapego: Campanha Inverno Che-gando”, 
http://youtu.be/x7SawrXo1uQ, comece pelas 
pequenas ações, cotidianas e tão importantes quanto às 
grandes. Seguimos nessa evolução, na busca constante 
de conhecimento. “Afinal, se coisas boas se vão é para 
que coisas melhores possam vir. Esqueça o passado, 
desapego é o segredo!” Fernando Pessoa 
* Diretora do Jornal Estado de Direito. Advogada. Jornalista. 
Radialista. Mestre em Direito pela UNISC. Autora dos livros 
Participação Cidadã na Gestão Pública: a experiência da Escola 
de Samba de Mangueira e Samba no Pé & Direito na Cabeça, 
pela Editora Saraiva. www.carmelagrune.com.br
Estado de Direito n. 35 3 
Os 
cartórios de São Paulo 
e Rio de Janeiro agora 
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Os novos Códigos de Normas da Corregedoria 
Geral de Justiça de São Paulo e Rio de Janeiro 
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CÓDIGO DE NORMAS 
DA CORREGEDORIA 
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a lavratura de escrituras públicas 
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Imóveis e Imposto Predial e Territorial Urbano 
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4 Estado de Direito n. 35 
O despertar da América Latina e do Brasil 
Bruno Espiñeira Lemos* 
Existe no Brasil uma “elite pensante” que 
insiste em tentar “obnubilar” a percepção 
evidente das qualidades do governo do 
primeiro presidente da República, efetivamente 
oriundo das camadas mais populares do País e 
que segue com a primeira presidenta da história 
brasileira atuando de maneira digna de uma 
estadista, aliás, como fora o seu antecessor. Essa 
“elite” que carrega doses incômodas de rancor 
e inveja que beira à patologia e é capitaneada 
por um ex-presidente da República do Brasil e 
ex-sociólogo por renúncia expressa e convicta 
do pensar crítico de outrora, não se cansa de 
destacar um momento que entende ser de 
apatia social diante da corrupção reinante nos 
referidos governos. 
Corrupção 
A cada leitura ou oitiva de tamanhas 
distorções deliberadas, surge-me de ime-diato 
em mente, um pequeno artigo, porém 
intenso e fundado em dados estatísticos que 
publiquei nos idos de 1998, intitulado: “O 
cenário global e uma análise crítica acerca 
do processo de desestatização brasileiro”. 
Choca-me permanentemente a desfaçatez de 
um “rei nu” falando de corrupção. Chego a 
recordar-me também de um vestal Senador 
da República que até pouco tempo atrás 
era tido como um candidato à beatificação, 
tamanha a sua virulência contra a tal da 
corrupção e que hoje aguarda em processo 
degradante a sua ida sem volta ao inferno 
de Dante. 
Carlos Cachoeira 
Sigamos com o tema da “corrupção” tão 
em voga na grande mídia depois do caso 
“Charles Waterfall” como fi cou conhecido em 
terras estrangeiras o famoso Carlos Cachoeira. 
Os tais fenômenos de corrupção propalados 
com grande destaque existem, existiram e 
seguirão existindo. No Brasil, completamos 
512 anos, no mundo seguem os milênios 
a contemplar-nos. Este fenômeno humano 
e demasiadamente humano por excelência 
encontra e encontrará níveis de reprovação 
proporcionais aos avanços civilizatórios. 
Mais relevante do que as práticas aperfei-çoadas 
dos desviantes-desviados, nenhuma 
delas menos nefastas, embora haja quem 
entenda haver gradações, é a questão dos 
métodos de controle e combate à corrupção, 
cuja proporcional transparência que hoje 
encontramos na sociedade, no caso, o Brasil 
é inegável. 
Celso Furtado 
Não posso aqui deixar de recordar o grande 
brasileiro Celso Furtado, quando em sua obra 
“Criatividade e dependência na civilização 
industrial”, ao destacar a revolta de Nietzsche 
contra Kant, aponta para os julgamentos sintéti-cos 
a priori do mundo moral deste último, que, 
inobstante destruíssem as bases do autoritaris-mo, 
ao mesmo tempo sancionava as forças que 
levariam à “mediocrização” da sabedoria e ao 
empobrecimento da vida ao mesmo tempo em 
que exacerbariam o interesse pela explicação 
do comportamento das coisas. 
O Governo Lula e agora o de Dilma não 
encontram precedente no que diz respeito ao 
controle, à transparência e ao efetivo combate 
à corrupção, o que não se pode esquecer é 
que a política possui uma “ética” distinta da 
moral comum, tema, aliás, que se pode tratar 
em outro momento; lembremos ainda que 
esse sonhado combate é obra de um trabalho 
coletivo, que envolve cada cidadão, desde as 
mais simples práticas diárias com o guarda da 
esquina, na mesa de jantar com os fi lhos, no 
“Iluminado ao sol do novo mundo” 
votar e em todas as demais práticas sociais e 
profi ssionais. 
Corrupção não acaba nunca, nem no 
Brasil, nem na Finlândia ou quiçá no Japão, 
a maneira de tratar o assunto muda e o passo 
mais importante foi dado nesses governos que 
aqui menciono, com a criação e/ou fortaleci-mento 
de órgãos e instituições (vide a CGU, 
por exemplo), sem falar do Ministério Público 
e do Judiciário que tem amadurecido com a 
fl orescente democracia brasileira. 
Futuro 
Há futuro e esperança para a América Lati-na, 
pois, quanto ao Brasil, a Argentina mesmo 
com todos os seus problemas internos, o Uru-guai, 
a Venezuela ou o Equador - efetivamente 
também há críticas a serem feitas - esses países, 
fi nalmente, com seus atuais governos leram 
Rousseau em especial sua obra “A origem 
da desigualdade entre os homens”, quando 
assevera que a desigualdade reina em todos 
os povos civilizados, embora contrarie todas 
as leis da natureza de qualquer modo que se 
a defi na (desigualdade), do mesmo modo que 
contraria as leis da natureza que um menino 
mande em um velho, que um punhado de 
pessoas goze de coisas supérfl uas, enquanto a 
multidão faminta carece do necessário. 
* Advogado, procurador do Estado da Bahia, Mestre 
em Direito, ex-procurador federal, membro da 
Comissão Nacional de Acesso à Justiça do Conselho 
Federal da OAB. 
O Governo Lula e 
agora o de Dilma 
não encontram 
precedente no 
que diz respeito 
ao controle, à 
transparência e ao 
efetivo combate à 
corrupção 
RENAN VIANA
Estado de Direito n. 35 5 
Coronelismo ontem e hoje 
Lucas de Laurentiis* 
Falar em coronelismo pode soar anti-quado. 
Mas não é. O coronelismo não 
foi um acidente de nossa história. É 
simples entender o porquê disso. A legislação 
republicana ampliou as bases da representa-ção 
popular e comprimiu o poder político 
e econômico dos municípios. Endividados, 
falidos, mas ainda com grande prestígio pe-rante 
o eleitorado local, os coronéis tiveram 
uma única saída: trocar favores políticos 
pela subvenção econômica da União. Por 
isso, o coronelismo foi “a maneira pelas 
quais as relações de poder se desenvolviam 
na primeira república a partir do município” 
(Victor Nunes Leal, Coronelismo enxada e 
voto: o município e o regime representativo 
no Brasil, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 
1978, p. 13). 
Poder Político 
Uma das decorrências dessa difusão do 
poder político foi que o conflito político 
assumia características de uma simples 
disputa política entre coronéis. Era um dos 
primeiros indícios de um fenômeno comum 
da vida política de nosso país. As questões 
e os conflitos políticos deixaram de ser ma-téria 
de interesse da população. E a causa 
desse distanciamento é evidente. Como as 
demandas e problemas políticos eram, e 
ainda são, resolvidos com fundamento em 
critérios puramente pessoais, não havia 
razão para que a população se interessasse 
pela política. A apatia política da sociedade 
brasileira surgiu nesse contexto. Como a 
disputa política cinge-se simplesmente em 
saber quem, dentre os detentores de poder 
local, ganhará o maior apoio do governo 
central, a população não tem espaço para 
se manifestar ou se interessar. Os coronéis 
de ontem e os lideres do poder regional de 
hoje tem isso em comum: para eles o voto 
de seus agregados é a única possibilidade de 
fundamentar seu poder pessoal. 
Poder Local 
No sistema político do coronelismo, só o 
município que tivesse como líder um coronel 
simpático ao Governo teria verbas suficientes 
para a sua sobrevivência. Com isso, todos os 
coronéis tinham “carta branca” para conso-lidar 
o seu poder nos municípios seja pela 
indicação de qualquer funcionário pública, 
seja pela condução arbitrária de todo e qual-quer 
procedimento. Ao suportar e incentivar 
tal clientelismo, a União recebia o apoio 
eleitoral das bases controladas pelo coronel. 
Não é muito diferente do que ocorre hoje. 
Pressionado por lideranças locais que dão 
suporte eleitoral às candidaturas nacionais, o 
Governo central tem de conceder favores os 
mais diversos. Dentre eles, é fácil lembrar da 
nomeação de parentes, amigos e apadrinha-dos 
políticos dos líderes do poder regional. 
Não podemos esquecer também da aprovação 
de emendas parlamentares que direcionam 
gastos e benesses para os redutos eleitorais 
dos detentores do poder eleitoral. 
O compromisso entre coronéis e nova 
ordem estatal se mostrou, assim, como 
uma via de mão dupla, na qual os coronéis 
cedem seu prestigio político local em troca 
de poderes administrativos e políticos, no 
município. Na contramão disso, o Estado 
ganha base política e representatividade local, 
estendendo seu poder aos municípios através 
dos coronéis a ele vinculados. Em um quadro 
como esse, a realização plena do ideal demo-crático 
é comprometido pelos mandonismos, 
e coerções dos donos do poder. Além disso 
a própria estrutura da República se degrada, 
pois a sobrevivência desse sistema de trocas 
e favores pressupõe a exclusão, e porque não 
dizer alienação, dos cidadãos. A correlação 
do poder local eminentemente decadente e 
o poder central cria a principal distorção do 
regime representativo brasileiro. Com base 
uma influência pessoal, fundada no poder 
dos coronéis, o sistema coronelista foi uma 
máquina extremamente eficiente de captação 
de votos e potencialização do poder central. 
Mais do que isso, o coronelismo foi o germe 
fundador da organização política e institu-cional 
de um país onde o que vale é ainda a 
relação de amigos e o apadrinhamento, não o 
mérito. Apesar disso, esse país ainda pretende 
ser uma autêntica República. 
* Mestre em Direito Constitucional pela Universidade 
de São Paulo. Advogado e consultor jurídico. 
RENAN VIANA 
É fácil lembrar da 
nomeação de parentes, 
amigos e apadrinhados 
políticos dos líderes do 
poder regional
6 Estado de Direito n. 35 
Direito e judicialização da saúde 
Álvaro Nagib Atallah* 
Preliminarmente cabe destacarmos o 
básico estabelecido no texto consti-tucional 
vigente: “Art.196 - A saúde é 
direito de todos e dever do Estado, garantido 
mediante políticas sociais e econômicas, que 
visem à redução do risco de doença e de outros 
agravos e ao acesso universal e igualitário às 
ações e serviços para sua promoção, proteção 
e recuperação”. 
Para a maioria das pessoas, por um viés 
natural, de seu suposto interesse, em geral 
apenas lê e cita a primeira parte do referido 
artigo, destacando exclusivamente que a saúde 
vem a ser um direito de todos os cidadãos e 
um dever imposto ao Estado. Todavia, acabam 
não interpretando a totalidade desse impor-tante 
artigo. Façamos, portanto, uma análise 
sistemática mais completa. 
Efetividade 
A determinação constitucional obriga o 
Estado a assegurar o direito à saúde por inter-médio 
de políticas públicas de caráter social e 
econômico. Qual seja, impõe-se ao Estado que 
a saúde seja promovida em benefício de toda 
sociedade, levando-se em conta os seus an-seios, 
as suas necessidades e considerando os 
recursos econômicos existentes para tanto. 
E o citado artigo vai além ao estabelecer 
que compete ao Estado diminuir os eventuais 
riscos à saúde, sendo previdente em relação a 
possíveis agravos. Ademais, também incumbe 
ao Estado promover um tratamento a todos 
os cidadãos e em condições de igualdade, 
através de ações e serviços diversos, objeti-vando 
promover, proteger e recuperar aqueles 
que estejam com algum tipo de problema de 
saúde. 
Um detalhe por vezes esquecido é a análise 
isenta sobre a efetividade e segurança de tais 
ações e serviços relacionados à saúde. Ou 
seja, ao cumprir o dever de oferecer saúde, é 
necessário saber se uma determinada medida 
trará mais benefícios do que malefícios aos 
cidadãos. 
Não podemos nos esquecer do princípio 
da Arte Hipocrática que norteia toda a Medici-na 
há milênios: “Primum non nocere”, ou seja, 
antes de tudo não lesar o paciente. 
Oferecer tratamento cuja efetividade e se-gurança 
não estão adequadamente estudados 
contraria os dizeres da própria Constituição 
Federal de 1988. Assegurar o direito à saúde 
é agir com responsabilidade e com espírito 
público. 
Tratamentos 
Promover potenciais agravos à saúde e 
desperdiçar recursos econômicos restritos 
com tratamentos caros e inefi cazes reduzem 
o acesso universal àquilo que deve ser efetivo 
e seguro a todos. 
Seja ressaltado o juramento hipocrático, 
que obriga os médicos a práticas de não ma-lefi 
cência, mas, sim, de benefi cência, ajudar 
os doentes com o melhor de suas habilidades 
e seu poder de julgamento, bem como, abs-tendo- 
se de causar danos ou enganar qualquer 
um que necessite de seus préstimos. 
Como o poder, a emoção e os interesses 
econômicos e fi nanceiros embotam as visões, 
é fundamental que o direito à saúde, seja de 
fato baseado em evidências científi cas que, no 
mínimo, reduzam as probabilidades de malefí-cios 
e garantam mais benefícios a todos. 
Para tanto, as inúmeras questões de saúde 
que chegam ao Poder Judiciário devem ser 
abordadas exclusivamente sob a ótica da Me-dicina 
baseada em evidências. É inconcebível 
imaginar que todos aqueles envolvidos com a 
justiça ignorem ou resistam ao conhecimento 
científi co de ponta da área médica. Faz-se 
necessário mapear o conhecimento existen-te 
sobre cada processo decisório relativo à 
saúde. 
Nesse sentido, vale destacar a atuação da 
Colaboração Cochrane em Oxford, criada em 
1992, com o objetivo de mapear de maneira 
isenta o que funciona e o que não funciona 
e que novas pesquisas são necessárias para 
reduzir as incertezas nas decisões médicas. 
Em publicações denominadas de Revisões 
Sistemáticas Cochrane, formula-se perguntas 
estruturadas, pesquisa-se na literatura as 
melhores evidências científicas existentes, 
separa-se o joio do trigo, faz-se uma somatória 
estatística rigorosa dos resultados e conclui-se 
com grau de certeza o que se pode prescrever 
com segurança e efi ciência. 
Todos os resultados dessas revisões siste-máticas 
são publicados na Cochrane Library, 
que já é considerada uma das 10 principais re-vistas 
médicas do mundo e qualquer brasileiro 
pode acessá-la gratuitamente, incluindo-se, 
por óbvio, os profi ssionais do Direito. 
Colaboração Cochrane 
Para reforçar ainda mais sua importân-cia, 
a Colaboração Cochrane tem assento 
na Assembléia Mundial da Saúde e colabora 
como consultora da Organização Mundial da 
Saúde. 
No Brasil, existem ramifi cações desse tra-balho. 
Trata-se do Centro Cochrane do Brasil 
e da Disciplina de Medicina Baseada em Evi-dências 
lecionada da Universidade Federal de 
São Paulo – UNIFESP, que apresenta atividades 
formais na graduação, pós-graduação e pós-doutorado. 
A relevância social do Direito à Saúde e o Poder Público 
É mister mencionar que o Centro 
Cochrane do Brasil colabora ativamente com 
o Ministério da Saúde do Brasil, mapeando e 
realizando avaliações tecnológicas para saber 
se as novidades são mais efi cientes e seguras 
do que o não tratamento ou do que os trata-mentos 
já existentes. 
Por fi m, outra pioneira iniciativa científi ca 
importante merece igual destaque. O Instituto 
de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês 
– IEP tem organizado e transmitido cursos, 
como forma de contribuir para racionalizar o 
problema nas áreas do Direito e da Saúde no 
País, auxiliando no processo de transmissão do 
melhor conhecimento científi co da Medicina 
baseada em evidências que deverá servir de 
base de solução à Judicialização da saúde. 
A Medicina Baseada em Evidências veio 
para clarear o pensamento e o raciocínio 
Médico e para fornecer a eles, aos pacientes e 
aos profi ssionais do Direito e aos gestores, co-nhecimentos 
isentos de confl itos de interesse, 
que reduzam as incertezas ao mínimo. 
Cursos de Medicina baseada em evidências 
devem ser potencializados em prol da saúde. 
Seus conhecimentos devem conter funda-mentos 
do que são essas evidências dignas de 
respeito para tomadas de decisão. 
E para um aprimoramento maior, devem 
ser promovidos debates e painéis que analisem 
situações e casos concretos que envolvam de 
problemas ligados ao direito à saúde, contando 
com a participação obrigatória de toda a socie-dade, 
mas especialmente de Juízes, Promotores, 
Advogados e Médicos. Todos, embasados pelas 
melhores evidências científi cas da Medicina, 
poderão motivar seus atos e suas decisões de 
maneira mais fundamentada e inconteste, evi-tando 
demoras e delongas processuais. 
* Médico. Professor titular e Chefe da Disciplina 
de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em 
Evidências da Universidade Federal de São Paulo — 
Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). Diretor 
do Centro Cochrane do Brasil e Diretor Científi co 
da Associação Paulista de Medicina (APM). 
A Medicina Baseada em 
Evidências veio para 
clarear o pensamento 
e o raciocínio Médico 
e para fornecer a 
eles, aos pacientes e 
aos profi ssionais do 
Direito e aos gestores, 
conhecimentos 
isentos de confl itos de 
interesse, que reduzam 
as incertezas ao 
mínimo 
RENAN VIANA
Estado de Direito n. 35 7
8 Estado de Direito n. 35 
As eleições francesas e a xenofobia européia 
Gustavo Oliveira de Lima Pereira* 
O dia 6 de maio de 2012 trouxe novas ex-pectativas 
ao cenário político europeu. 
A eleição de François Hollande como novo presidente da França, com 51,6 % dos vo-tos, 
signifi ca a retomada da esquerda ao governo 
francês, após 17 anos de hegemonia direitista. 
O resultado demonstrou o descontentamento 
público com a política de Sarkozy, apesar da 
apertada diferença de votos. Em meio a crise 
econômica vivenciada pela Europa, o povo fran-cês 
optou pela mudança; mas a o que seduziu 
os eleitores do novo presidente guarda relação 
com as propostas de fl exibilização da política 
imigratória francesa por ele proposta? 
Nicolas Sarkozy fi cou conhecido pelas suas 
políticas de repressão extrema aos imigrantes 
ilegais na França chegando a prometer, em cam-panha 
presidencial, o corte de novos imigrantes 
em território francês pela metade. François 
Hollande, em sua plataforma, acentuou e pro-meteu 
manter restrições na política imigratória 
do país, porém enfatizou que em seu governo 
haverá uma fl exibilização nesta guerra de força 
contra os estrangeiros. 
Imigração 
É sabido que o recrudescimento da política 
imigratória no país conta com o apoio popular 
há tempos. “Eles roubam nossos espaço de 
empregos, hospitais e escolas!”. Essa frase é dis-seminada 
pelos arredores de Paris. O que não é 
sabido ainda é o alcance da fl exibilização dessa 
política no novo governo. De fato ocorrerá ou 
entrará para os anais do falatório político eu-ropeu 
sobre a questão da imigração? Atenuará 
a forte hostilidade destinada aos estrangeiros 
desenvolvida, principalmente, após a criação 
da diretiva de retorno européia? Essas questões 
são de suprema importância para o horizonte 
dos direitos humanos. 
A diretiva de retorno foi desenvolvida na 
Europa para obstacularizar o trânsito de estran-geiros, 
facilitar a sua exclusão das nações euro-péias 
e até criminalizar imigrantes, bem como 
aqueles que os auxiliam. Essa criminalização, a 
título exemplifi cativo, é prevista no artigo 318 
do código penal espanhol, que prevê uma pena 
de até 8 anos de prisão para aqueles que confe-rem 
assistência para algum imigrante ilegal ou 
clandestino (circunstância que fi cou conhecida 
como crime de hospitalidade). 
Prisão 
A diretiva de retorno representa o posicio-namento 
adotado pela comunidade européia em 
relação ao imigrante, a exemplo da proposta do 
governo Berlusconi, aprovada pelo parlamento 
italiano, segundo a qual a entrada e permanência 
ilegal na Itália seria punível como crime com pena 
de até 3 anos, obrigando, ainda, os funcionários 
públicos a denunciarem imigrantes ilegais. 
Os Estados europeus contam com plena 
discricionariedade para aplicarem a cláusula de 
retorno, restando previsto, no ordenamento da 
diretiva, um Centro de internamento de estran-geiros. 
O artigo 12 da diretiva prevê a possibi-lidade 
de prisão normal em casos excepcionais, 
caso o país não detenha esse centro de interna-mento. 
A prisão, segundo a diretiva, será de 6 
meses podendo ser renovada por mais 12. 
Ouso afi rmar, sem reticências, que a diretiva 
de retorno representa o símbolo da xenofobia 
européia em detrimento da diversidade inter-cultural 
e do reconhecimento e acolhimento 
do outro; - tido como inimigo -, ganhando, 
em algum sentido, a tonalidade totalitária que 
tornou a Europa um barril de pólvora durante 
as guerras mundiais. 
Aos países da União Européia não é per-mitido 
a não aplicação da diretiva de retorno, 
porém nada obsta a confecção de leis mais 
benéfi cas aos estrangeiros do que aquelas pre-vistas 
na diretiva. Portugal, por exemplo, pode 
aplicar a sua legislação sobre o tema, que traz 
consideráveis benefícios aos imigrantes ilegais 
em comparação com a diretiva de retorno. 
Não creio que, no caso francês, o governo de 
Hollande promoverá signifi cativas modifi cações 
FRANCISCO JESÚS GIL NAVARRO | FLICKR FCOJESUS 
políticas para abalar as estruturas xenofóbicas 
da comunidade francesa em geral. Mas talvez, 
em alguma medida, seja possível sonhar. 
Cabe a nós, entusiastas dos direitos huma-nos, 
esperar! 
* Doutorando em fi losofi a Mestre em Direito. Professor 
de direitos humanos. 
A crise económico-fi nanceira europeia 
Paulo Ferreira da Cunha* 
A pior forma para tentar saber o que se 
passa no Mundo é acreditar nos clichés 
da comunicação social convencional. 
O que se diz hoje de alguns países euro-peus 
é fruto de uma desinformação global que 
redunda em denegrir imagens, benefi ciando a 
especulação fi nanceira. 
Há uma guerra fi nanceira contra os países do 
sul da Europa, tendo como arma o preconceito, 
que visa fazer passar Gregos, Espanhóis, Italia-nos 
e Portugueses por caloteiros, incompetentes, 
preguiçosos, etc. 
Clube de Iguais 
Idealistas e sentimentais, todos estes Povos 
começaram por acreditar piamente que a União 
Europeia (UE) iria ser clube de iguais, caminho 
para federação, ou via original em que todos 
pudessem ter voz e, em caso de necessidade, 
onde imperaria a entreajuda. Esta ingenuidade 
foi advertida apenas por poucos, imediatamente 
estigmatizados como antieuropeístas. 
Os alertas isolados acabariam por receber 
tranquilizações de fi guras de vulto e de forças 
políticas credíveis. Muitos converteram-se ao 
caminho tomado. 
Mas havia um potencial negativo inscrito na 
génese, na forma não democrática de construção 
constitucional da UE: a Convenção Europeia 
não foi diretamente eleita, nem fez nenhuma 
votação para o projeto de tratado constitucional 
que, depois de muitas peripécias, acabaria por 
desaguar no Tratado de Lisboa, que é na verdade 
uma Constituição Europeia. 
Federação ou Diretório? 
Quando comandada por governos neoli-berais, 
como tem ocorrido, a União Europeia 
não tem sido uma autêntica união de estados 
livres e iguais, mas, na prática, uma fórmula 
diretorial ao serviço do neoliberalismo e do que 
ele representa. 
Ao primeiro abalo da economia de casino, os 
ricos da Europa começaram a cobrar dos demais. 
A forma como a Grécia, mãe da nossa Civilização, 
tem sido tratada, é humilhante. Não só para ela, 
mas para todos os que não vêm na Europa um 
negócio de milhões, mas uma questão de Espírito. 
É insultuosa a forma como os gregos são tratados: 
alguns querem confi scar-lhes as ilhas ou os mo-numentos; 
outros sugeriram que nas instituições 
europeias as bandeiras dos devedores fossem 
colocadas a meia haste. Pasma-se com tanta falta 
de bom senso e de bom gosto. Indigna até. 
Infelizmente, há miseráveis que rejubilam 
com a desgraça alheia e aprovam a penalização 
dos alegados caloteiros. É não perceber nada do 
que se passa. Não entender a atual Economia, 
serva das Finanças, em que nada parece ser 
tangível e tudo artifi cial, como numa enorme 
bolsa e num enorme bluff. Grande parte das 
dívidas são artifi cialmente empoladas, fruto de 
altíssimos juros, que antigamente se considera-riam 
usurários. 
Bertrand Russel lembrava que quem tecnica-mente 
domina a Finança não costuma ser muito 
amigo do Povo. Daí a difi culdade numa resposta? 
Apesar do Manifesto dos Economistas Aterrados, 
honra de uma classe que alguns poderiam iden-tifi 
car apenas com um dos lados. 
Não nos espantemos que a Hélade possa 
reagir com ainda mais extremismo. O que é 
preocupante. O líder da Aurora Dourada (nazi) 
querer salvar a Grécia do estrangeiro submeten-do- 
a a uma ideologia... estrangeira! 
Apesar do preconceito e da propaganda, 
veiculada até por agentes inocentes, é preciso 
que se veja que não é por esbanjamento popular 
que certas economias estão mal. É pelo garrote fi - 
nanceiro, a pressão dos mercados que as querem 
levar à bancarrota, e, em alguns casos, porque o 
Estado decidiu cobrir a má ou temerária gestão 
de bancos privados. 
Em Portugal, já se vai dizendo que o Serviço 
Nacional de Saúde (reconhecidamente dos me-lhores 
do Mundo, e naturalmente caro) teria o 
seu fi nanciamento coberto por vários anos se não 
se tivesse tido que cobrir os “buracos negros” de 
apenas um dos bancos privados em apuros. 
Não são os Povos que são preguiçosos e 
gastadores, são os governos que acodem aos 
banqueiros, preferindo cortar salários, saúde, 
educação, e até feriados, deixando aumentar o 
desemprego. Opção neoliberal: socialismo para 
ricos e capitalismo desumano para pobres. Não 
culpem os Povos. 
* Catedrático e Diretor do Instituto Jurídico 
Interdisciplinar da Faculdade de Direito da 
Universidade do Porto.
Estado de Direito n. 35 9 
O Direito Privado acaba 
ddee ggaannhhaarr mmaaiiss vvoolluummee.. 
Chegaram os novos volumes da 
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Privado, de Pontes de Miranda. 
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10 Estado de Direito n. 35 
Terceirização dos convênios 
Não resolve o problema da União 
Desvio produtivo do consumidor 
Marcos Dessaune* 
Vivemos num sistema socioeconômico VVVeemm qquuee vviiggoorraamm aa eessppeecciiaalliizzaaççããoo pprroofifi ss-- sional, a interdependência das pessoas Ve 
as necessárias relações de consumo. Nele, a 
missão implícita de qualquer fornecedor é – ou 
deveria ser – liberar os recursos produtivos do 
consumidor. Isto é, dar ao consumidor, por 
intermédio de produtos e serviços de quali-dade, 
condições para que ele possa empregar 
seu tempo e competências nas atividades de 
sua preferência. 
Práticas Abusivas 
Entretanto é notório que inúmeros profi s-sionais, 
empresas e o próprio Estado, em vez de 
atender ao cidadão-consumidor em observância 
à sua missão, acabam lhe fornecendo coti-dianamente 
produtos e serviços defeituosos, 
ou exercendo práticas abusivas no mercado, 
contrariando a lei. 
Para evitar prejuízo maior, o consumidor se 
vê então compelido a desperdiçar seu valioso 
tempo e a desviar suas custosas competências 
– de atividades como trabalho, estudo, descan-so, 
lazer – para tentar resolver esses problemas 
de consumo, que o fornecedor tem o dever de 
não causar. 
Situações corriqueiras como esperar dema-siadamente 
por atendimento médico, telefonar 
repetidamente para o SAC de uma empresa con-tando 
a mesma história, enfrentar fi la demorada 
no banco em que só há três guichês abertos, 
bem como ter que exigir, por intermédio das 
autoridades, obrigação da qual o fornecedor se 
esquiva de cumprir, curiosamente, ainda não 
haviam merecido a devida atenção do Direito 
brasileiro. Trata-se de fatos nocivos que não se 
enquadram nos conceitos tradicionais de “dano 
material”, de “dano moral” e de “perda de uma 
chance”. Tampouco podem eles ser juridica-mente 
banalizados como “meros dissabores ou 
percalços” na vida do consumidor, como vêm 
entendendo muitos juristas e tribunais. 
Mau atendimento 
Diante dessa lesão temporal indesejada 
que o consumidor vem sofrendo, fruto de atos 
ilícitos dos fornecedores, cheguei à conclusão 
de que se está diante de um novo e relevante 
dano até agora desprezado no Direito: o des-vio 
produtivo do consumidor, que impacta 
diária e negativamente a vida dele. Note que 
não empreguei, na nova expressão, o adjetivo 
“produtivo” para qualifi car o desvio do con-sumidor 
como sendo um ato “producente” ou 
“improducente”. Diferentemente, utilizei-o em 
sua acepção de “relativo à produção”, indicando 
que em situações de mau atendimento o con-sumidor 
desvia recursos “que produzem”: seu 
tempo e competências. 
Fornecedor 
Pode-se então conceituar que o desvio 
produtivo evidencia-se quando o consumidor, 
diante de uma situação de mau atendimento 
(lato sensu), precisa desperdiçar o seu tempo e 
desviar as suas competências – de uma ativida-de 
necessária ou por ele preferida – para tentar 
resolver um problema criado pelo fornecedor, 
a um custo de oportunidade indesejado, de 
natureza irrecuperável. Em outra perspectiva, 
o desvio produtivo caracteriza-se quando o 
fornecedor, ao descumprir sua missão e praticar 
ato ilícito, independentemente de culpa, impõe 
ao consumidor um relevante ônus produtivo, 
indesejado pelo último. 
Já há doutrina e jurisprudência que apon-tam 
a “perda do tempo livre” do consumidor 
como um novo fundamento de dano moral in-denizável. 
Todavia entendo que, muito embora 
as situações de desvio produtivo possam ser 
consideradas um novo dano injusto, um dano 
moral ampliado em seu conceito tradicional, o 
tempo – por sua escassez, inacumulabilidade 
e irrecuperabilidade – merece tratamento jurí-dico 
especial que o destaque, fora da mencio-nada 
cláusula geral de tutela da personalidade 
– a qual provavelmente aprisionaria o desvio 
produtivo a um mero novo fato gerador de 
dano moral. 
Por tais motivos, penso que o tempo 
pessoal, útil ou produtivo da pessoa deveria 
ter regulamentação jurídica própria, à altura 
do seu valor que reputo supremo, que conse-quentemente 
o guindasse do atual ostracismo 
à plena consciência de suas características e 
importância singulares em nossas breves vidas 
– assim, acredito, prevenindo-se seu desper-dício 
temerário. 
Prejuízo Temporal 
Mas deve-se distinguir um “prejuízo tem-poral 
indenizável” de um “mero contratempo”, 
analisando-se 1) se o ato do fornecedor foi 
ilícito; 2) se o desvio do consumidor foi inde-sejado, 
independentemente de ter sido um ato 
necessário; e 3) a quantidade de tempo que 
o consumidor precisou desperdiçar no caso 
concreto. 
*Advogado, mediador, palestrante e autor da Editora 
RT na área de relações de consumo. 
Rui Magalhães Piscitelli* 
Nesta nossa coluna, discorreremos 
sobre as principais alterações na 
legislação convenial brasileira, qual 
seja, a Portaria Interministerial nº 507, de 
24 de novembro de 2011, a qual revoga, com 
aplicação a partir de 02 de janeiro de 2012, a 
Portaria Interministerial nº 127, de 2008. 
Pois bem, inicialmente, temos a necessi-dade 
de, mais uma vez, deixar explícita nossa 
recomendação de que a matéria convenial 
deve receber tratamento legislativo, por lei, 
e não somente de Decreto (6.170, de 2007) 
e Portarias. Os critérios e definições sobre 
convênios merecem uma segurança jurídica 
e um debate social que somente uma lei, no 
nosso entender, podem suprir. Veja-se que 
a doutrina sobre convênios também é muito 
escassa, em comparação com a pletora de dou-trinadores 
a tratar sobre licitações e contratos 
adminsitrativos, por exemplo. 
Servidores 
Bom, em relação às fases de um convênio, 
quais sejam, proposição pelo que almeja rece-ber 
recursos federais (entes públicos estaduais 
e municipais, bem como entidades privadas 
sem fins lucrativos, visto recursos entre órgãos 
e entidades públicos federais deverem ser 
feitos mediante o instrumento próprio dos 
termos de cooperação), celebração, execução 
e prestação de contas, esta do convenente 
(o que recebe os recursos) ao concedente (o 
órgão ou entidade repassador dos recursos 
federais), não houve alteração. 
Conceitos novos, sim, são introduzidos, 
como o contrato de prestação de serviços 
(pelo qual a União pode delegar funções na 
celebração, execução e análise da prestação de 
contas dos convênios – vide o art, 5º, inciso II 
da novel Portaria) e o contrato administrativo 
de execução ou fornecimento (previsto no 
inciso VIII do § 2º de seu art. 1º, mediante o 
qual o convenente poderá contratar empresas 
para a realização do objeto do convênio). 
Entendemos a delegação da União mediante o 
contrato de prestação de serviços, o qual deve 
ser a instituição fi nanceira ofi cial, uma forma 
da União perder o controle na celebração e 
execução dos convênios. Ao invés desse ins-trumento, 
deveria a União capacitar e gratifi car 
os servidores que trabalham com a celebração, 
execução e análise das prestações de contas 
dos convênios federais. Ademais, entendemos 
que essa é uma atividade fi nalística, que não 
poderia sofrer delegação, nos termos do con-tido 
na Súmula nº 97, do TCU. Repetimos, 
essa terceirização dos convênios, mormente 
com os institutos criados pela Portaria do 
contrato de prestação de serviços e contrato 
administrativo de execução ou fornecimento 
representam uma terceirização nos convênios, 
a qual não podemos admitir. Ademais, a 
contratação com instituição fi nanceira ofi cial 
dependerá de licitação ? Não há outro cami-nho, 
mas a Portaria não trata da matéria. A 
via verdadeira é a capacitação e incentivo dos 
servidores públicos que trabalhem com con-vênios 
federais. Ainda, a criação do contrato 
administrativo de execução e fornecimento, 
pelo convenente, parece-nos corroborar o 
que já manifestamos diversas vezes, de que os 
convênios, por muitos, são entendidos como 
“crédito rotativo”. Isto é, na medida em que 
damos condições de delegar as atividades do 
convenente, constatamos que, na verdade, os 
convenentes não têm habilitação técnica para 
a execução do objeto. Mas, afi nal, por que a 
União faria um convênio com um convenente, 
para, este último, contratar uma empresa para 
realizar a integralidade do objeto? Por que, en-tão, 
a própria União não faz essa contratação? 
Parece-nos que, infelizmente, mais uma vez, os 
convênios são tencionados a servir de imagem 
política para dirigentes políticos locais, posto a 
população reconhecer nos convenentes locais 
a realização do objeto do convênio. 
Fiscalização 
Ainda, na novel Portaria, o chamamento pú-blico, 
conforme recentes alterações do Decreto 
6.170, é tornado obrigatório para convenentes 
entidades privadas sem fi ns lucrativos, e, ain-da, 
indicado, como faculdade, para selecionar 
convenentes entes públicos; (art. 7º); o valor 
para vedação de realização de convênios com 
entes públicos é alterado (art. 10); o cálculo 
e demonstração da planilha de custos a ser 
apresentada pelo convenente são reforçados, 
incluindo necessidade de indicação do BDI (art. 
27); é criado o prazo de 45 dias para inclusão 
da não-conformidade na prestação de contas do 
convenente (art. 72); é criado o procedimento 
simplifi cado de acompanhamento e fi scalização 
de obras e serviços de engenharia de pequeno 
valor (arts. 77 e 78, estes já vigentes a partir de 
24 de novembro de 2011, diferentemente do 
restante dos dispositivos da Portaria, vigente 
somente a partir de 01 de janeiro de 2012), 
dentre outros itens. 
Esperamos, assim, ter trazido alguns dos 
aspectos mais importantes da alteração na 
legislação convenial, com a edição da Portaria 
Interministerial nº 507, de 24 de novembro 
de 2011, revogando a Portaria interministerial 
nº 127, de 2008, mas com um grande recado: 
Autoridades Públicas, a retirada de atividades 
dos servidores públicos não é nem nunca será 
a resolução dos problemas da Administração 
Pública; ao contrário, devemos é fortalecer o 
quadro permanente e efetivo da Administração 
Pública, pois, essas pessoas, é que têm um 
verdadeiro elo de compromisso com o Estado 
brasileiro ! Não podemos utilizar o sistema atu-al, 
frágil na celebração, execução e análise das 
prestações de contas, por falta de treinamento 
e incentivo para os servidores públicos que 
atuam em convênios, como motivo para tercei-rizar 
essas atividades para os bancos, tampouco 
permitir que convênios sejam feitos com con-venentes 
que não possuam habilitação técnica 
para a realização do objeto, sendo, nós, assim, 
contrários à criação dos institutos do contrato 
de prestação de serviços (pelo concedente) e 
do contrato administrativo de execução ou 
fornecimento (pelo convenente). 
* Vice-Presidente Administrativo e Financeiro da 
Associação Nacional dos Procuradores Federais. 
Professor de graduação e pós-graduação em 
Direito. 
O prejuízo do tempo desperdiçado
Estado de Direito n. 35 11 
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12 Estado de Direito n. 35 
Investigação e quebra do sigilo bancário 
A partir da segunda metade do século XX, 
com o fenômeno da globalização e da 
expansão do Direito Penal, este passou a 
proteger não só valores individuais, mas também 
supraindividuais. Dessa maneira, fl exibilizou-se 
uma série de garantias fundamentais individuais 
e houve um consequente aumento do controle 
punitivo. 
Direito à Intimidade 
Um dos exemplos dessa fl exibilização é a 
violação do direito ao sigilo bancário e fi scal, 
que é considerado no viés constitucional, pela 
maioria, como um direito à intimidade pessoal. 
Juarez Tavares considera que o sigilo bancário 
está compreendido no círculo mais restrito da 
intimidade, na esfera de segredo, cuidando-se 
de direito fundamental que só pode ser restrin-gido 
mediante o devido processo legal, o que 
pressupõe ordem fundamentada de autoridade 
judicial. 
O âmbito de proteção desse sigilo, segundo 
Sérgio Covello, abrange todas as informações 
que os bancos venham a obter em virtude de sua 
atividade profi ssional, os serviços prestados, os 
dados pessoais e patrimoniais relacionados ao 
negócio realizado, e aquelas informações que 
chegam ao seu conhecimento em virtude da ope-ração 
realizada ou que se pretendeu realizar. 
Em que pese a CF/88 prever o resguardo 
dos dados bancários com a proteção do sigilo, 
a jurisprudência não considera este direito 
absoluto. Ou seja, a abertura do sigilo poderá 
ocorrer para auxiliar no desvendamento de 
crimes de difícil apuração, como lavagem de 
dinheiro ou crimes fi nanceiros, desde que 
cumpridos os pressupostos legais dispostos 
na Lei Complementar n° 105/01, que dispõe 
sobre o sigilo das operações de instituições 
fi nanceiras. Para Fausto de Sanctis, não mais 
se fala em sigilo como preceito sagrado, mas 
de relativização do dever legal de confi den-cialidade 
bancária e fi scal. 
Mecanismo de Controle 
É de extrema importância, não obstante, 
a análise restrita dos requisitos exigidos, a 
fi m de que não haja interferência indevida 
dos órgãos de controle formal nas esferas 
privadas e na intimidade do sujeito. A norma 
apresenta o limite de atuação e de interposição 
de mecanismo de controle, que jamais pode 
ser arbitrário. A simples invocação do inte-resse 
público, por exemplo, não comprovado 
objetivamente, pode acarretar em coação ilegal 
passível de anulação da “prova”. 
Infelizmente, em grande parte dos casos 
os requisitos não são observados e a quebra 
do sigilo é utilizada como um dos principais 
mecanismos de busca de prova para se tentar 
demonstrar eventual crime, interpretando-se 
erroneamente o artigo 1º, §4º, da LC 105/01. Na 
leitura deste, percebe-se que há o pressuposto 
da existência de materialidade do crime antes da 
quebra do sigilo e o requisito da demonstração 
de impossibilidade de profundidade da prova 
de outro modo. 
Prova da Materialidade 
A interpretação do referido dispositivo deve 
ser feita de forma análoga, de acordo com a lei 
das interceptações telefônicas (Lei nº 9.296/96), 
ou seja, já deve haver a existência de indícios 
razoáveis de autoria e prova da materialidade 
do ilícito e a demonstração de impossibilidade 
de obtenção da prova desejada por outros meios 
já tentados, comprovando-se que não há outro 
meio a se chegar no objetivo. A LC expõe a 
faculdade da quebra e não sua obrigatoriedade 
e o termo “necessária” remete à imperativa e 
restrita necessidade (o que não pode não ser) de 
demonstração da imprescindibilidade (como na 
lei das interceptações) da medida excepcional. 
Em não aplicando o dispositivo da forma 
exposta, desobedecendo-se os requisitos de apli-cabilidade, 
a quebra do sigilo poderá constituir 
prova ilícita pelo desrespeito às normas legais 
e constitucionais, bem como pela ofensa direta 
à proibição de excesso da intervenção estatal 
característica dos direitos fundamentais. 
É certo que todo direito é relativo, mas a 
relativização criada pela ausência do devido 
processo legal é ilícita, não podendo ser utili-zada. 
Não há como permitir uma “quebra” de 
sigilo sem qualquer indício da materialidade 
do fato e de sua autoria, sendo a demonstração 
da imprescindibilidade do mecanismo o ponto 
primordial da questão. 
Advogado Criminalista. Mestrando em Ciências 
Criminais (PUCRS). Especialista em Direito Penal 
Econômico (UCLM/Espanha) e em Direito Penal 
(UFRGS). 
A simples invocação do 
interesse público, por 
exemplo, não comprovado 
objetivamente, pode 
acarretar em coação ilegal 
passível de anulação da 
“prova” 
Rafael Eduardo de Andrade Soto* 
Questões de Direito Eleitoral para Concursos 
Maria Carolina Fugagnoli Filizola Friedheim* 
Boa remuneração, adicional de qualifi - 
cação, programa permanente de capa-citação, 
benefícios da Lei nº 8.112/90, 
concurso nacional de remoção e ainda possi-bilidade 
de gozar folgas como recompensa das 
horas extras prestadas no trabalho intensifi cado 
de dois em dois anos! O Tribunal Eleitoral é, 
realmente, um excelente órgão e o sonho de 
muitos concurseiros. 
Porém, ao se depararem com os editais para 
os certames desses órgãos, os candidatos enfren-tam 
a primeira difi culdade: o Direito Eleitoral, 
especialidade da casa. 
Direito Eleitoral 
O Direito Eleitoral é um ramo do Direito 
Público ao qual poucos dedicam estudo. Nas 
faculdades, a matéria, geralmente, é oferecida 
como disciplina eletiva. Logo, como constará 
nas provas tal conhecimento específi co, com 
peso maior, que repercutirá na nota fi nal, os 
candidatos podem ter seu primeiro contato com 
ela, o que os deixa desorientados sobre como 
deverão se preparar. 
Especialistas na área de concursos recomendam 
a realização de muitos exercícios como uma das 
estratégias essenciais para a obtenção do sucesso. 
Consciente da gama de assuntos a ser enfrentada 
para obter êxito em um concurso público, o 
livro Direito Eleitoral – Questões Comentadas tem 
como propósito nortear e otimizar os estudos 
do Direito Eleitoral. É uma coleção de questões 
com gabaritos e comentários que indicam os 
principais pontos e dispositivos legais cobrados 
nas provas, o que contribui para valorizar ainda 
mais as preciosas horas dedicadas à busca e à 
fi xação da disciplina. 
O livro foi prefaciado pelo ex-Presidente 
do TRE-PE, Dr. Roberto Ferreira Lins, que 
elucidou: 
“Dentre esses vastos temas que compõem o 
Direito Eleitoral, a autora identifi cou os pontos 
mais cobrados pelas bancas examinadoras e os 
dispôs em 15 capítulos por meio de questões 
comentadas. 
Compreensão de Matérias 
Procurando orientar os estudos e amenizar 
os problemas de compreensão e assimilação 
das matérias, buscou a autora sintetizar seus 
conhecimentos, legando a todos nós um trabalho 
bastante útil, didático e interessante, sobretudo 
para aquelas pessoas que desejam encontrar, em 
um só livro, os necessários conhecimentos para 
encarar concursos realizados pelos Tribunais 
Eleitorais.” 
Além disso, na área do Direito Eleitoral, 
Os candidatos vão constatar também que há 
uma pequena quantidade de obras disponí-veis 
nas livrarias, na área do Direito Eleitoral, 
contendo exercícios voltados ao estudo desse 
assunto. Portanto, se você ainda não começou 
a resolver questões, não perca tempo. Comece 
agora mesmo! 
Questão 1 - Dentre os requisitos para o funcio-namento 
da Justiça Eleitoral, deve ser observado 
o de que: 
a) haverá, no máximo 2 (dois) Tribunais 
Regionais Eleitorais em cada Estado da Fede-ração; 
b) resolução do Tribunal Eleitoral disporá 
sobre a competência dos juízes eleitorais; 
c) os juízes do Tribunal Eleitoral servirão por 
2 (dois) anos improrrogáveis; 
d) lei complementar disporá sobre a organi-zação 
e competência das juntas eleitorais; 
e) em cada região funcionará 1 (um) Tribunal 
Superior Eleitoral. 
Resposta: letra D. 
COMENTÁRIOS 
Item A – Art. 120 da Constituição Federal. 
Haverá um Tribunal Regional Eleitoral na capital 
de cada Estado e no Distrito Federal. 
Itens B e D – Art. 121 da Constituição 
Federal. Lei complementar disporá sobre a 
organização e competência dos tribunais, dos 
juízes de direito e das juntas eleitorais. 
Item C – § 2º do art. 121 da Constituição 
Federal. Os juízes dos Tribunais Eleitorais, sal-vo 
motivo justifi cado, servirão por dois anos, 
no mínimo, e nunca por mais de dois biênios 
consecutivos, sendo os substitutos escolhidos 
na mesma ocasião e pelo mesmo processo, em 
número igual para cada categoria. 
Item E – Art. 12 do Código Eleitoral. São 
órgãos da Justiça Eleitoral: 
I – O Tribunal Superior Eleitoral, com sede 
na capital da República e jurisdição em todo 
o país. 
Usei essa questão do livro para ilustrar. Tinha 
o propósito de lembrar aos amigos concurseiros 
o texto do art. 120 da CF que é, realmente, um 
estímulo: 
“Art. 120. Haverá um Tribunal Regional 
Eleitoral na capital de cada Estado e no Distrito 
Federal.” 
Portanto, existem muitos Tribunais Eleitorais no 
nosso país e em um deles pode estar a sua vaga. 
* Autora da Editora Impetus. Bacharela em Direito 
pela Unicap, pós-graduada em Direito Público 
lato sensu pela Esmape e Assessora de Gabinete do 
Desembargador Eleitoral Virgínio Carneiro Leão. 
Especialistas na área de 
concursos recomendam 
a realização de muitos 
exercícios como uma das 
estratégias essenciais para a 
obtenção do sucesso
Estado de Direito n. 35 13
14 Estado de Direito n. 35 
Subtração do efeito suspensivo à apelação 
Eduardo Arruda Alvim* 
Encontra-se pendente de aprovação na 
Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 
n.º 8.046/2010, que visa instituir no or-denamento 
jurídico brasileiro o “Novo Código 
de Processo Civil”. Antes de ser encaminhado à 
Câmara dos Deputados, referido Projeto havia 
sido aprovado com alterações no Senado Fede-ral, 
onde tramitava sob o n.º 166/2010. 
Dentre as inúmeras modifi cações a serem 
operadas em nosso sistema processual, se apro-vado 
o Projeto como está, temos a subtração do 
efeito suspensivo do recurso de apelação. 
O efeito suspensivo é aquele apto a coarc-tar 
a efi cácia da decisão recorrida. Representa, 
em outras palavras, uma efi cácia obstativa de 
que a decisão produza os seus efeitos. 
Sujeição da Decisão 
Basta a mera sujeição da decisão a recurso 
dotado de efeito suspensivo para que aquela 
não produza efeitos. Ou, por outras palavras, 
desde a intimação da decisão até que decorra 
o prazo para interposição do recurso que seja 
dotado de efeito suspensivo (no mínimo), esta 
não produz efeitos. Nesse sentido, pode-se 
dizer que a interposição do recurso dotado de 
efeito suspensivo apenas prolonga a suspensão 
dos efeitos, que já era consequência da mera 
sujeição da decisão ao recurso. 
Sabe-se que no sistema vigente, o recurso 
de apelação é dotado de efeito suspensivo 
como regra, nos termos do caput do art. 520 
do CPC/73. As hipóteses em que a apelação é 
recebida sem efeito suspensivo encontram-se 
elencadas nos incisos I a VII do art. 520, bem 
como na legislação extravagante. 
Muito embora a regra em nosso direito 
processual seja a apelação recebida no efeito 
suspensivo, isso não fi cou imune a críticas 
doutrinárias. Com efeito, não há razões 
plausíveis para se manter o efeito suspensivo 
da apelação como regra, na medida em que 
isso conduz, inegavelmente, ao descrédito da 
atividade jurisdicional, notadamente daquela 
decorrente dos juízes de primeiro grau. 
No atual sistema, a grande maioria das 
sentenças de primeiro grau não surtem 
quaisquer efeitos, visto que sujeitas a recurso 
de apelação dotado de efeito suspensivo. A 
partir dessa sistemática, o primeiro grau de 
jurisdição é visto apenas como mera corte de 
passagem para se chegar ao tribunal, pois, 
no Projeto de Lei do Novo Código de Processo Civil 
somente após a revisão desse último, é que 
a sentença produzirá efeitos, o que se revela 
altamente reprovável. 
Além disso, não há certeza absoluta de que 
o julgamento feito pelo tribunal seja sempre 
melhor que aquele efetuado pelo juízo de pri-meiro 
grau, não existindo razão alguma para 
condicionar a produção de efeitos da sentença 
à revisão daquele. 
A partir dessas premissas, ainda mais 
diante da garantia de acesso efetivo ao Poder 
Judiciário, consagrada no art. 5.º, XXXV, da 
Constituição Federal, aliada à garantia da ra-zoável 
duração do processo (art. 5.º, LXXVIII), 
quer nos parecer que o Projeto de Lei do Novo 
Código de Processo Civil, se aprovado como 
está, implicará em grande medida, à efetivação 
de aludidas garantias, eis que permitirá ao ven-cedor 
em primeiro grau executar o provimento 
de primeiro grau provisoriamente, ainda que 
sujeito a recurso de apelação. 
O art. 949 de referido Projeto de Lei esta-belece 
que os recursos, salvo disposição legal 
em sentido diverso, não impedem a efi cácia da 
decisão. Isso não implica em dizer, todavia, que 
o efeito suspensivo ao recurso de apelação não 
poderá vir a ser concedido. Muito pelo contrário. 
O Projeto de Lei em apreço, inclusive, facilitará a 
atribuição desse efeito, na medida em que estatui 
que tal objetivo poderá ser alcançado a partir de 
petição simples dirigida ao tribunal (art. 949, 
§ 2.º, do Projeto), sendo que bastará o mero 
protocolo dessa petição para que a sentença não 
produza efeitos (art. 949, § 3.º, do Projeto). 
*Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia 
Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. 
Professor da PUC/SP (doutorado, mestrado, 
especialização e graduação) e da FADISP – Faculdade 
Autônoma de Direito de São Paulo (doutorado e 
mestrado). Co-autor do livro “Comentários ao Código 
de Processo Civil” publicado pela Editora GZ. 
A mediação e o novo CPC 
Humberto Dalla Bernardina de Pinho* 
Está sendo examinado na Câmara 
dos Deputados o Projeto de Lei n° 
8.046/10, que pretende instituir o 
novo Código de Processo Civil no Brasil. 
Dentre algumas novidades e instrumentos 
que prometem oferecer um maior grau de 
efetividade na prestação jurisdicional está o 
instituto da mediação. 
O art. 145 do Projeto trata da mediação 
e da conciliação como formas de solução 
consensual do litígio e que podem ser utili-zadas 
pelo magistrado antes do julgamento 
da demanda. 
Na nova sistemática, o magistrado ao 
receber a petição inicial, não sendo caso de 
improcedência liminar da demanda, deverá 
intimar as partes para uma audiência de con-ciliação 
ou uma sessão de mediação. 
O conciliador pode 
sugerir soluções para 
o litígio, ao passo que 
o mediador auxilia as 
pessoas em confl ito a 
identifi carem, por si 
mesmas, alternativas 
de benefício mútuo 
O primeiro grau de 
jurisdição é visto 
apenas como mera 
corte de passagem 
para se chegar ao 
tribunal 
ROBSON MAGALHÃES 
ROBSON MAGALHÃES
Estado de Direito n. 35 15 
A mediação será 
indicada para questões 
mais complexas, 
nas quais existe, 
além do componente 
jurídico, um elemento 
metajurídico 
RROOBBSSOONN MMAAGGAALLHHÃÃEESS|| FFLLIICCKKRR MMEECCAATTRROONN 
A efetividade do acesso à justiça pela conciliação 
Susana Bruno* 
Éatravés do acesso à justiça, o mais basilar 
dos direitos humanos que se busca a 
efetividade de direitos que deveriam ser 
respeitados e, na sua inviabilidade, pleiteados 
junto ao Poder Judiciário. Depois do abando-no 
da autotutela e da autodefesa vê-se que o 
Estado brasileiro objetiva retornar à autocom-posição, 
sem perder o controle jurisdicional 
que lhe é assegurado constitucionalmente. A 
Justiça Pública pretende que o particular, dian-te 
de um confl ito suportado, utilize meios não 
adversariais de confl itos (ADRs - Alternative 
Dispute Resolution), mas de uma forma bastante 
peculiar, posto que, a princípio, deverá buscá-los 
em suas dependências e/ou com processo 
judicial já instaurado. 
CNJ 
Há que se verifi car se as propostas apre-sentadas 
pelo Estado, pelo Conselho Nacional 
de Justiça, são realmente efi cazes, posto que, 
num primeiro momento, as mesmas mostram 
uma preocupação precípua em retirar o fardo 
pesado do Poder Judiciário do julgamento das 
demandas. 
Processo 
In regra, os operadores do direito reclamam 
do processo. Logo, surgem indagações: Será 
que o jurisdicionado realmente quer ver o seu 
caso resolvido pelo Estado? Para quem serve 
o processo? Para o próprio Estado. Este pre-cisa 
autoafi rmar a sua supremacia, talvez pela 
prática cada vez mais comum de atos adminis-trativos, 
legislativos e até mesmo judiciais que 
levem ao seu enfraquecimento perante o corpo 
social. É como se, no Brasil, tivéssemos dois 
Estados: um que exige o voto, o pagamento dos 
tributos, que estabelece regras de comporta-mento 
– e não quer abandonar isso -, e outro 
que quer se desvencilhar do processo, porque o 
Judiciário está assoberbado de processo. Tudo 
aumenta: a população, a economia, o consu-mo, 
a violência. Logo, é natural que cresça o 
número de confl itos e, por conseguinte, de 
processos. Importante lembrar que com o ad-vento 
da carta constitucional de 1988, deram-se 
mais direitos ao jurisdicionado, mas sequer 
houve uma política estatal capaz de esclarecer 
a população sobre os direitos conquistados, de 
meios para implementá-los. 
Pluralismo Jurídico 
A disparidade entre os anseios sociais e 
o Estado pode ter uma consequência social 
muito grave, pois abre-se espaço para a atua-ção 
de composições de confl itos que o Estado 
sequer tem ciência da sua existência, como já 
ocorre há muito. Onde o Estado se omite, surge 
espaço para o fortalecimento de organizações 
não estatais, reafi rmando o pluralismo jurídico, 
aqui entendido como a coexistência de mais de 
uma ordem jurídica em determinado espaço, 
onde uma ordem é de fato e a outra de direito. 
Lembre-se que a ausência da efetividade do 
acesso à justiça no Brasil se traduz na exclusão 
da maioria da população. 
Acesso à justiça 
O Estado deve melhorar a resposta juris-dicional 
vendo, primeiramente, vantagens 
reais para a população, sendo as suas, meras 
consequências, e não o inverso, como vem 
fazendo. É forçoso concluir que, por reco-nhecer 
a sua falha na prestação jurisdicional, 
o Judiciário está empurrando a população para 
uma nova forma de composição, livrando-se 
dos processos, como se fossem uma chaga 
incurável e transmissível. Pensamos que o 
acesso à justiça não deve ser um direito a 
ser promovido pelo Estado exclusivamente, 
devendo-se viabilizar a implantação das ADRs. 
Mas, certamente, deve-se repensar a forma de 
sua implantação. 
Adversidades 
Se o Estado quer incentivar a utilização 
das ADRs, o faça, mas não usando isso para 
acomodar-se em sua falência jurisdicional. 
Ainda que, num caso concreto, não se alcance 
um consenso capaz de integrar o belo mapa de 
acordos celebrados em programas gerenciais 
da Justiça Pública, certamente é o Judiciário 
um local propício para se promover a cons-cientização 
de respeito às adversidades. E para 
o aumento da satisfação do jurisdicionado, 
há que se analisar os contributos das demais 
ciências, como a psicologia, a administração, a 
comunicação social, a sociologia, a estatística, 
dentre outras. 
*Mestre em Direito pela Faculdade de Direito de 
Campos/RJ. Especialista em Direito Processual Civil 
e Direito Civil pela Universidade Estácio de Sá/RJ. 
Graduada em Direito pela Universidade Cândido 
Mendes/RJ. Professora universitária e advogada. 
In regra, os operadores 
do direito reclamam do 
processo. Logo, surgem 
indagações: Será 
que o jurisdicionado 
realmente quer ver o 
seu caso resolvido pelo 
Estado? Para quem 
serve o processo? 
Para o próprio Estado 
Situação de Risco 
Excepcionalmente, poderá o juiz dispensar 
tal audiência, quando os direitos não admitirem 
qualquer forma de acordo, ou, por outro lado, 
realizá-la pessoalmente, notadamente em casos 
graves, envolvendo incapazes ou hipossufi cien-tes 
em situação de risco, embora tal providência 
não seja recomendada diante do risco de con-taminação 
da convicção do julgador ante os 
elementos que, invariavelmente, acabam sendo 
revelados em tais momentos, sobretudo na ten-tativa 
de se eliminar as barreiras ao confl ito. 
Contudo, na maioria dos casos, teremos ou 
uma audiência de conciliação ou uma sessão 
de mediação. Faz-se mister, então, estabelecer 
uma distinção clara e objetiva entre as duas 
atividades. 
No art. 145 do Projeto, a Comissão de 
Juristas estabelece como critério para tal dife-renciação 
a postura do terceiro encarregado de 
compor o confl ito. 
Litígio 
Assim, o conciliador pode sugerir soluções 
para o litígio, ao passo que o mediador auxilia 
as pessoas em confl ito a identifi carem, por si 
mesmas, alternativas de benefício mútuo. Essa 
diferença é para nós muito importante. 
Diante do sistema que se vislumbra, parece 
que o NCPC exigirá do magistrado a capacidade 
de examinar a natureza do confl ito e determinar 
o mecanismo mais adequado para enfrenta-lo. 
Se o magistrado, ao ler a petição inicial, 
se convence que entre aquelas partes há um 
relacionamento prévio, continuado e que, 
apesar do confl ito, terá que ser gerido por 
algum tempo (ex: vizinhos, que moram no 
mesmo prédio e não se suportam, mas que 
têm que resolver em conjunto questões ad-ministrativas 
do condomínio; ex-cônjuges, 
com fi lhos em comum, que precisam regular 
questões de visita e guarda) e ainda que por 
força deste relacionamento diversas questões 
foram surgindo com o passar do tempo e não 
foram adequadamente compreendidas e resol-vidas 
por elas, deverá cogitar e recomendar 
o uso da mediação, pois esta talvez seja não 
apenas a mais adequada, mas possivelmente 
a única capaz de evitar a procrastinação do 
ciclo vicioso do litígio. 
Concialiação 
Por outro lado, se se trata de uma relação 
descartável, ou seja, se nunca houve e nem se 
pretenda que exista no futuro qualquer vín-culo, 
seja de natureza pessoal ou social, não 
há necessidade de se recorrer à mediação. Da 
mesma forma, questões com viés puramente 
patrimonial, questões consumeristas, ações 
indenizatórias em geral podem ser bem geridas 
com o uso da conciliação, que via de regra se 
apresenta como uma solução mais rápida e 
simples, eis que não há a necessidade de se 
ingressar em assuntos com viés psicológico. 
Percebe-se, com isto, que a mediação será 
indicada para questões mais complexas, nas 
quais existe, além do componente jurídico, um 
elemento metajurídico, de ordem emocional e 
psicológica. Nesse passo, de nada adianta, nessas 
hipóteses uma sentença impositiva, eis que a 
solução será superfi cial e incapaz de atingir o 
âmago da questão, a fonte do problema. 
Pensamos que este momento processual, ou 
seja, o despacho liminar de conteúdo positivo e 
a determinação da providência mais adequada 
para tratar o litígio é de suma importância, e, 
não se precisa dizer, tem natureza personalís-sima, 
não podendo ser objeto de delegação a 
assessores e servidores. 
Aqui se materializa de forma clara a função 
gerencial do magistrado e isto deve ser incenti-vado 
pelos Tribunais e pelo próprio CNJ. 
*Promotor de Justiça no RJ e Professor da UERJ 
Autor da obra Direito Processual Civil Contemporâneo, 
pela Ed. Saraiva.
16 Estado de Direito n. 35 
Quando os animais ocupavam o 
banco dos réus 
Geraldo Miniuci* 
Num dia qualquer, em 1522, na comuna 
francesa de Autun, região da Borgonha, 
ratos invadiram silo e comeram parte da 
colheita de cevada que ali se guardava. Os preju-dicados 
pela ação daqueles animais dirigiram-se 
ao tribunal eclesiástico e formalizaram reclama-ção 
contra “alguns ratos da diocese”, acusando-os 
de haverem cometido delito de alta gravidade. 
A ação foi recebida, a intimação, expedida, e um 
defensor, nomeado para defendê-los. No dia da 
audiência, diante do não comparecimento dos 
ratos em juízo, seu advogado, lançando mão de 
argumentos processuais e invocando a noção de 
justo processo, alegou que aqueles animais não 
foram corretamente intimados: afi nal, conside-rando 
que ratos viviam dispersos pelos campos 
afora ou, senão, em vilas e vilarejos, uma única 
convocação não seria sufi ciente para alcançá-los. 
Além disso, a intimação fora dirigida apenas a 
alguns ratos e não a todos, sendo necessário 
especifi car, então, quais deles estavam sendo 
acusados. 
Sujeitos de Direito 
O tribunal aceitou os argumentos da defesa 
e determinou nova convocação, desta vez a ser 
lida nos púlpitos de todas as igrejas da região e 
dirigida a todos os ratos. Novamente, eles deixa-ram 
de comparecer; o defensor requisitou, então, 
prorrogação do prazo, alegando que, dada a sua 
dispersão pelos campos, os ratos não poderiam 
preparar-se para uma grande migração sem que 
lhes fosse concedido algum tempo adicional. O 
pedido foi aceito, mas, apesar de prorrogado 
o prazo, os animais, como da outra vez, não 
compareceram na data prevista. 
O defensor procura, então, justificar a 
ausência dos acusados não mais recorrendo 
a argumentos de natureza processual, e sim 
tratando os ratos como sujeitos de direito, em 
igualdade de condições com os seres humanos. 
Nesse sentido, partindo do pressuposto que 
pessoas e animais são criaturas divinas e iguais, o 
defensor alegou que deveria ser reconhecido aos 
ratos o mesmo direito que então se reconhecia 
às pessoas de não cumprir convocação feita para 
comparecer a local ao qual não poderiam che-gar 
em segurança. Nesse sentido, argumentou 
que, sendo notoriamente detestados por toda a 
gente, os ratos estariam sujeitos a diversos tipos 
de perigos por onde passassem em seu trajeto 
rumo ao tribunal. Não bastassem as pessoas que 
os temiam e odiavam, havia também os gatos 
que, além de inimigos naturais, eram aliados dos 
reclamantes, razão pela qual o defensor exigiu 
medidas de proteção para os acusados, reque-rendo 
que os autores da ação fossem obrigados, 
sob penas severas, a conter seus gatos. Embora 
tenha indeferido o pedido, o tribunal, não sendo 
capaz de estabelecer o período dentro do qual os 
ratos deveriam comparecer em juízo, extinguiu 
o processo. 
Julgamento 
Relatada por William Ewald, no artigo 
Comparative Jurisprudence: What Was It Like to 
Try a Rat? (In: University of Pennsylvania Law 
Review, Vol. 143:1995, pp. 1889-2087), essa 
história estimula uma série de refl exões sobre os 
valores e crenças hoje encontrados no mundo. 
Afi nal, no que nos diferenciamos nós, do ano de 
2012, das pessoas que viveram em Autun, nos 
idos de 1522, ou mesmo antes, na Idade Média? 
Desde o Iluminismo, orientamo-nos sobretudo, 
porém não exclusivamente, pelos cânones da 
ciência e por uma fi losofi a antropocêntrica e 
naturalista, sem interferências de ideias apoia-das 
no sobrenatural. Em nossa concepção, os 
animais são instrumentalizados e jamais serão 
levados a uma corte para serem condenados ou 
absolvidos por um dano; ao contrário, poderão 
ser eliminados, sem julgamento. Agir de outra 
forma em relação a eles, a ponto de reconhecer-lhes 
direitos, como se fazia na Idade Média e 
no Renascimento, isso seria estranho. 
Mas o que pensaria de nós um observador 
medieval, ao deparar-se com uma sociedade 
organizada não em torno da religião, como a 
dele, mas sob a forma de Estado, tendo como 
referência a Nação, uma ideologia inexistente 
na Idade Média, que, no entanto, naturalizou-se 
entre nós, tornando-se ponto de partida para 
uma série de novos fatos ou eventos? Soberania, 
interesse nacional, estatizações, nazismo, copa 
do mundo, hinos nacionais, arte ufanista são 
alguns dos fenômenos que surgem tendo-se 
como premissa a Nação. Nenhum deles existiria 
na realidade medieval. 
Hoje, Deus e Nação podem conviver, mas 
são duas entidades independentes uma da outra. 
A Nação, mediante aqueles que agem em seu 
nome, pode soberanamente proclamar-se laica 
ou ateia e fundamentar seus atos não mais em 
Deus, mas em si mesma. Será legítimo aquilo 
que for feito em seu nome, no nome da Nação, 
seja, por exemplo, uma estatização de empresa 
estrangeira, uma convocação para o serviço mili-tar, 
uma declaração de guerra ou um fuzilamento 
por traição. Aqueles que agem em nome da 
Nação podem ter uma ética distinta daqueles que 
representam Deus, mas podem também, os re-presentantes 
da Nação, associar-se aos prepostos 
do Todo-Poderoso e proclamarem-se soberanos 
entre as nações e tementes ao divino: o binô-mio 
Deus 
e Pátria, 
inexisten-te 
na Ida-de 
Média, 
tornou-se 
c o r r e n t e 
e m p l a - 
t a f o r m a s 
p o l í t i c a s 
da era mo-derna. 
P a r a 
um obser-vador 
RENAN VIANA 
medieval, o conceito de Nação seria 
incompreensível. Talvez ele a percebesse como 
uma entidade misteriosa que desafi ou Deus: em 
alguns casos, colocou-se ao seu lado; em outros, 
porém, afrontou-o abertamente e, limitando 
a incidência das leis divinas, restringiu sua 
aplicação ao plano privado. No que consiste 
essa entidade, porém, isso permanecerá um 
mistério, não fazendo sentido para o nosso 
observador. Nos dias que correm, vemos com 
naturalidade o nacionalismo, o orgulho de 
fazer parte de uma nação e também de ter 
outra nação como rival. Não julgamos ridículo 
o patriotismo. Já um observador da Idade Mé-dia 
talvez considerasse a disposição existente 
hoje de viver, matar ou morrer por uma ideia 
abstrata como Nação tão peculiar e difícil de 
compreender, quanto é para nós peculiar e difí-cil 
de compreender a época em que os animais 
ocupavam o banco dos réus. 
*Professor Associado da Faculdade de Direito da 
USP. Não bastassem as 
pessoas que os temiam 
e odiavam, havia 
também os gatos 
que, além de inimigos 
naturais, eram aliados 
dos reclamantes
Estado de Direito n. 35 17
18 Estado de Direito n. 35 
A ambiguidade do sujeito do direito na arte 
Rosa Maria Blanca* 
O objetivo do presente artigo é mostrar 
como o artista Del Lagrace Volcano, 
no momento em que apresenta uma 
imagem ambígua de gênero homem / mulher, 
nos leva a refl etir sobre a relação que existe entre 
visualidade e sujeito do direito. A problematiza-ção 
que encontramos é que o sistema de dois-sexos 
contemplado no direito não abrange a todos os 
sujeitos da nossa sociedade. 
Transdisciplinariedade 
Um estudo transdisciplinar proporciona 
outras aproximações e olhares sobre um 
mesmo objeto, contrariamente aos alcances 
de uma disciplina isolada. A transdisciplina-ridade 
opera com conceitos que atravessam 
distintas áreas do conhecimento ajudando à 
tradução de questões que de alguma forma ou 
outra subsistem na nossa contemporaneidade. 
Mediante o trabalho de Del Lagrace Volcano, 
intitulado Torso Hermafrodita (1999), podemos 
estudar o papel do visual e do corpo, como 
uma dimensão que interfere na produção de 
identidades sexuais e de gênero. Denomina-mos 
regime epistemológico visual ao sistema de 
conhecimento constituído politicamente em 
uma linguagem visual. Determinando o corpo 
como imagem, o regime parte de códigos de 
classifi cação para a identifi cação de corpos 
falantes. O que quer dizer que a classifi cação 
das identidades inclui também a construção 
de tipos de visualidades. Isto tem como con-sequência 
que tanto o indivíduo denominado 
como mulher quanto o indivíduo categorizado 
como homem se constroem como realidades 
visuais naturais e imodifi cáveis. 
Gênero 
O regime epistemolóóóggiiccoo vviissuuaall se ativa a partir 
da mídia como cinema, TV e arte, assim como 
através de distintos discursos como o discurso do 
direito, onde somente cabem o sujeito homem e 
o sujeito mulher. O artista Del Lagrace Volcano 
propõe a categoria intersexual para questionar 
o gênero binário. A intervenção cirúrgica e /ou 
de tratamento hormonal em intersexuais nos 
ajuda a entender a função da tecnologia dentro 
do regime epistemolóóóggiiccoo vviissuuaall. A intersexualidade 
desestabiliza essa invenção chamada “natureza”, 
questionando a matriz ocidental de sexo e gê-nero 
(e sexualidade). A designação do gênero, a 
partir da ambiguidade do nascimento de bebês 
intersexuais é mais social do que médica, onde 
o principal critério é a performance adequada a 
seu sexo. Por exemplo, se a genitália apresenta 
um pênis pequeno, isso desperta dúvidas sobre 
as expectativas de um efetivo desempenho viril. 
Sabe-se que 90% das atribuições sexuais são 
“femininas”, dadas as limitações técnicas. Parece 
ser mais fácil determinar corpos femininos do 
que masculinos, quando se guia pelos papeis 
construídos pela cultura ocidental. Um clitóris 
grande representa uma ameaça para as expectati-vas 
de uma conduta sexual heterossexual, dentro 
de um sistema heteronormativo. Na década 
de 1960’s, esse tipo de cirurgia era conhecida 
como “cliteroctomia” , porque é semelhante às 
práticas realizadas em crianças em países como 
Guiné, Burkina e Somália. Vemos como o sujeito 
do direito corresponde a uma diferença sexual 
construída tecnológica e visualmente. 
Recartografar o Social 
Del LaGrace Volcano é um artista que 
desafia as “normas” de gênero. Através de 
tecnologias de gênero Volcano tem como 
um de seus objetivos recartografar o social, 
criando novas geografias de gênero que 
tenham o potencial de constituir-se como 
fonte de evidência de diferenças que afetam 
a avaliação do social (VOLCANO, 2005). 
No trabalho de Volcano, a configuração 
genital aparentemente sugere a existência 
de um pênis, mas também pode sugerir um 
clitóris. Assim também e dialogando com 
outras imagens dentro da história da arte, 
a exposição do torso nos remete à Venus de 
Milo (Séc. 130-100 a.C). Simultaneamente, 
a delicadeza do gesto corporal nos evoca o 
Hermes, de Praxíteles (Séc. IV a.C). 
A partir da produção de práticas visuais 
como as artísticas é possível apresentar al-ternativas 
do sujeito do direito. A exposição 
deste tipo de imagens (en)codificam nossa(s) 
cultura(s). Por isso é importante o seu es-tudo, 
porque dessa forma o imaginário é 
ativado, projetando novas formas de pensar 
o direito. 
* Artista e Doutora em Ciências Humanas (UFSC) 
com a tese: Arte a partir de uma Perspectiva Queer, 
Mestre em Artes Visuis (UFRGS), Professora 
do Curso de Artes Visuais, na Graduação e Pós- 
Graduação; Coordenadora da Pinacoteca Feevale 
e do Curso de Especialização em Design de 
Superfície, Universidade Feevale; 
A designação do 
gênero, a partir 
da ambiguidade 
do nascimento de 
bebês intersexuais 
é mais social do 
que médica, onde o 
principal critério é a 
performance adequada 
a seu sexo 
RENAN VIANA 
RENAN VIANA
Estado de Direito n. 35 19 
A confi guração físico-cênica 
dos nossos Tribunais 
Fábio Feliciano Barbosa* 
A CF/88 optou pela separação dos pode-res 
de Montesquieu. Nela, os poderes 
– o executivo, o legislativo e o judiciário 
– são independentes e harmônicos entre si; e 
só podem assumir funções estranhas a da sua 
natureza, quando autorizados pela Carta. Isso 
é o que acontece quando o Senado julga os 
crimes de responsabilidade do Presidente da 
República. 
O Brasil já adotou, na Carta de 1824, a 
separação quadripartite de poderes, por infl u-ência 
das teorias de Benjamin Constant, cuja 
chefi a cabia ao Imperador – chefe também do 
Executivo. A partir de 1891, com a criação da 
nossa primeira Carta Republicana, a separação 
dos poderes passou a ser tripartite e, assim, tem 
sido até os dias atuais. 
Separação dos Poderes 
Desde então, como sempre ensinei aos meus 
alunos de História do Direito, a tripartição dos 
poderes é um dos principais dogmas do nosso 
direito. O nosso grande problema disse-lhes, ao 
longo da república, nunca foi dividir os poderes, 
mas fazer com que eles fossem capazes de frear 
uns aos outros, de forma efi caz e rápida, quando 
há uso ou confi guração do poder que não se 
adéquam ao que as nossas Constituições deter-minam. 
Nesse sentido, a CF/88, em relação às 
anteriores, avançou, mas ainda precisa avançar 
mais em matéria de interpretação e aplicação da 
separação dos poderes. Por essa razão, é preciso 
rever o que está instituído em matéria de uso e 
de confi guração do poder que, embora a CF/88 
não diga expressamente, não combina com o 
seu “espírito” e determinações, já que nem toda 
inconstitucionalidade reluz feito o dia, ou é 
escura como a noite. 
Essa é grande questão que o CNJ enfrentará 
quando decidir se a atual confi guração cênica 
dos tribunais brasileiros, na qual o ministério 
público tem assento imediato ao lado direito do 
juiz, é compatível (ou não) com a CF/88. Desde 
já defendo que a atual confi guração é incons-titucional 
porque não institui uma verdadeira 
eqüidistância física entre as partes que atuam 
nos processos judiciais. 
Lembro que o princípio da separação dos 
poderes é um dos topos da cultura jurídica con-temporânea, 
que se aplica a várias atividades e 
confi gurações cênicas necessárias à criação/apli-cação 
do direito e a distribuição/administração 
da justiça. No que diz respeito à criação do di-reito, 
o chefe do executivo tem o poder de vetar 
as leis quando contrariam a Constituição, ou os 
interesses da nação. Ao vetá-las, ele interfere no 
trabalho do legislativo, mas essa interferência é 
autorizada pela CF/88. 
Já quanto à distribuição/administração da 
justiça, a CF/88 instituiu que ela contará com 
a atuação de um juiz de direito (judiciário), 
um promotor de justiça (poder executivo) e 
um advogado, que representará quem é réu ou 
acionou a jurisdição. 
Processo Brasileiro 
Refl etindo sobre a aplicação e signifi cação da 
teoria da separação de poderes, de Montesquieu, 
a mais apta para garantir a democracia e os direi-tos 
fundamentais, deduz se que a confi guração 
cênica dos nossos tribunais deve ser, mas não 
ainda é semelhante a um triângulo equilátero, 
no qual as mediatrizes sempre se encontram 
com as bissetrizes, no mesmo ponto “O”. Esse 
ponto representa o lugar ideal no qual todos 
estão protegidos de quem usa o poder para 
julgar ou acusar. Mas não é isso que acontece 
porque a posição do parquet e dos demais agen-tes 
necessários a distribuição/administração da 
justiça – juízes e advogados – forma um triân-gulo, 
mas sempre escaleno ou isóscele. Nesses 
dois tipos de triângulos é impossível haver o 
encontro das bissetrizes com as mediatrizes, 
sempre no mesmo ponto. Portanto, o ponto 
“O”, que acabamos de descrever, não existirá. 
Isso signifi ca que, metaforicamente, quem está 
esperando uma decisão de quem julga ou acusa, 
está mais vulnerável, porque está numa posição 
física (da relação processual) que não obedece 
ao principio da equidistância entre as partes. O 
que contraria a CF/88. 
Por força da nossa tradição processual 
brasileira, muito ligada a regimes autoritários, 
o parquet tem acento imediato à direita do juiz, 
fi cando o advogado da parte mais distante dele 
– o que constitui uma grande desvantagem. No 
Brasil, ao contrário dos USA, a confi guração 
cênica do tribunal e do processo brasileiro não 
é eqüilátera porque as partes não estão eqüi-distantes 
uma das outras. Mas, isso nunca foi 
motivo para se questionar a constitucionalidade 
da posição do parquet nos tribunais. Agora é e 
tem suscitado debates em todo o Brasil. 
É preciso estabelecer que tipo de confi gu-ração 
cênica dos tribunais se adéqua a CF/88, 
já que a atual tem relações com os tempos em 
que o parquet era um simples braço escravo do 
poder executivo. Basta ler a CF/88 para saber 
que esse tempo passou, mas o seu legado não. 
O recomendável, então, seria (é) criar uma con-fi 
guração cênica que instituísse uma verdadeira 
equidistância física entre as partes, nos tribu-nais; 
cuja representação ideal é um triangulo 
eqüilátero, conforme descrevi anteriormente. 
Nada justifi ca a permanência do parquet em 
uma posição física mais próxima do juiz. Essa 
(im)posição inconstitucional – um verdadeiro 
privilégio – tem muito mais relações com os re-gimes 
autoritários e os seus legados, coisas bem 
conhecidas no Brasil, do que com construção de 
uma verdadeira democracia, a grande promessa 
da CF/88. 
É preciso que o princípio da equidistância 
física entre as partes de um processo ganhe mais 
força entre os profi ssionais do direito, que atuam 
na distribuição/administração da justiça, para 
que a confi guração cênica dos nossos tribunais 
se ajuste a CF/88. Como ele já está inscrito na 
Carta de 88, confl ita com a atual disposição cê-nica 
dos nossos tribunais na qual o parquet tem 
o privilégio de se sentar ao lado direito do juiz. 
Retirar o parquet dessa posição privilegiada só vai 
servir ao bem da democracia, dos direitos e da 
justiça. Se isso acontecer, e espero que aconteça, 
ninguém perderá nada. Todos ganharão mais 
segurança e igualdade no acesso à justiça. Esse 
novo princípio não é uma grande novidade. 
Novidade mesmo, será o seu reconhecimento 
e aplicação. 
*Advogado (UFRJ), especialista em direito público 
(UCAM/centro) e mestre em políticas públicas e 
formação humana (UERJ). Já lecionou as seguintes 
disciplinas: Direito Constitucional, História do Direito, 
História do Direito Brasileiro e História dos Grandes 
Crimes e Julgamentos. 
O Direito Alternativo não é um movimento! 
José Manuel de Sacadura Rocha* 
O recomendável, 
então, seria (é) criar 
uma confi guração 
cênica que instituísse 
uma verdadeira 
equidistância física 
entre as partes, 
nos tribunais; cuja 
representação ideal é 
um triangulo eqüilátero 
O Direito Alternativo não é um movimen-to! 
Se o foi em determinado momento 
histórico é porque havia a necessidade 
de se enfrentar com coragem a injustiça de um 
golpe sangrento. Mas os que hoje usam a expres-são 
‘movimento’ do Direito Alternativo deveriam 
abandonar esse jargão. O Direito Alternativo é 
um conjunto de princípios e valores que procura 
apenas, e tão-somente, aplicar a lei com justiça 
social, resgatar a dignidade humana, a proporcio-nalidade, 
equidistância, razoabilidade, e mesmo 
a ergonomia para o bolso do contribuinte. 
Chamá-lo de ‘movimento’ pode incutir 
nesses princípios e valores distorções que estão 
muito perto do sistema e ordenamento jurídico 
brasileiros, que por sua natureza histórica e força 
de elites, sempre tende a se separar dos que mais 
precisam deles. Daí que não é de estranhar que 
se dê em alguns lugares o nome de Direito da 
Rua. Sim, para esses, da rua, o Direito Alterna-tivo 
talvez seja o único momento de justiça e 
esperança. Eu prefi ro a espressão que retirei de 
José Saramago: Direito Pedestre. 
Se ele aparece muitas vezes como ‘movi-mento’, 
é porque uma parte importante dos 
doutrinadores e operadores do Direito percebem 
o fundamental no mundo jurídico: o Direito é 
Gente trabalhando para Gente, ele tem cheiro 
de povo, de plebe, de reinvidicação: nas Leis de 
Sólon, menos punitivas e mais cidadãs, na revo-lução 
plebeia quando da confecção da Lei das 
XII Tábuas, no Corpus Juris Civilis de Justiniano, 
na Súmula Teológica de Sto. Tomás de Aquino, 
na concepção jusnaturalista de Pufendorf e Jean 
Domat, na ética do espírito de Kant, no espírito 
absoluto de Hegel, na luta de classes de Marx, na 
justiça restaurativa de Durkheim, no subjetivis-mo 
normativo de Weber, na intersubjetividade 
de Cossio, no existencialismo de Sartre, na cura 
pela presença do outro de Heidegger, no aboli-cionismo 
de Hulsman, no projeto educacional 
de Paulo Freire, apenas para citar alguns. Muitas 
vezes me pergunto o que os que nos discriminam 
leram e ainda lêem?! 
O que o Direito que defendo não é? Não é 
orgulho, não é dono de verdades, usa os universa-lismos 
enquanto instrumentos de harmonia e paz, 
não é anti-ético, não prevarica, não tem intenções 
de ser mais do que um prestador sensato a ser-viço 
de justiça para o povo. Defende a soberania 
popular e a autonomia do Brasil, não é violência, 
não usa o semelhante como bode expiatório, não é 
omisso, não é desumano, não é dogmático, enfi m, 
não habita os lugares comuns do poder. 
Ao contrário, o que esse Direito Pedestre 
pode fazer é comprazer-se em frequentar os 
lugares mais humildes e simples, os lugares de 
‘signifi cação jurídica não linear’. Por isso tudo 
parece tão incompreensível para uns e tão natural 
para outros! Sócrates dizia que ‘quem não perdoa 
não pode julgar’! O Direito que eu defendo, esse 
das ruas, é um Direito de perdão, de amor, de 
convivência, de restauração e reinserção, não de 
ódio e ressentimento taliônico. O Estado e suas 
instituições do Direito não têm mais direito de 
serem truculentas e omissas só porque têm o 
poder de seu lado! 
* Professor na graduação e pós-graduação de Filosofi a, 
Ética, Sociologia. Mestre em Administração pelo 
Centro Universitário Ibero-americano. Autor de 
diversas obras, entre as quais, Ética Jurídica – Para 
uma Filosofi a Ética do Direito, pela Editora Campus 
Elsevier e Fundamentos de Filosofi a do Direito: o 
Jurídico e o Político da Antiguidade a nossos dias, 
pela Editora Atlas.
20 Estado de Direito n. 35 
Privilégio e foro privilegiado 
Djalma Pinto* 
O Brasil confunde foro privilegiado com 
“privilégio”, sem aval do Direito, consta-tado 
no fato de um infrator ocupante do 
poder político não ser julgado em lugar algum, 
ainda que formalizado o respectivo processo em 
que comprovada a prática do seu crime. 
A impunidade é fruto exclusivamente dessa 
ausência de julgamento. Não decorre da previsão 
na Constituição de foro diferente para tramitação 
de processos em que denunciadas determinadas 
autoridades. A Folha de São Paulo, em um levan-tamento 
pioneiro na História da República, fez um 
diagnóstico preciso do problema: “STF demora até 
6 anos para decidir se senador deve ser investigado” 
( 26/02/2012, caderno especial, p.2). Existindo ou 
não a fi gura do foro especial, sem efetivo julgamen-to, 
a impunidade acaba consagrada. 
Decisões Condenatórias 
Esta constatação precisa ser amplamente dis-cutida: 
não há muita disposição para julgamento, 
na esfera criminal, de quem ocupa o poder polí-tico. 
Basta examinar o número insignifi cante de 
condenações de deputados e senadores de 1889 
até 2012. Para agravar o quadro, a Súmula 394 
foi revogada. Lia-se no seu verbete: “cometido o 
crime durante o exercício funcional, prevalece a 
competência especial por prerrogativa de função, 
ainda que o inquérito ou a ação penal sejam inicia-dos 
após a cessação daquele exercício”. A consagra-ção 
desse entendimento, provocou a anulação de 
muitos processos que até então tramitavam sem sua 
observância. Com a revogação, muitos outros dei-xaram 
de ser julgados para serem encaminhados a 
outros foros. O resultado fi nal é que são poucas 
as notícias do trânsito em julgado de decisões 
condenatórias de políticos, impondo penalidades 
por crimes contra a Administração. 
Com a revogação da referida Súmula, fi cou 
ainda mais difícil o julgamento e a condenação 
de senadores e deputados denunciados pela prá-tica 
de crimes. Fácil constatar. Após a publicação 
da pauta de julgamento no STF, renunciam ao 
mandato, sendo então o processo encaminhado 
para a primeira instância para tramitação no 
lugar da infração. Se, na Suprema Corte, como 
atestou o Jornal Folha de São Paulo, leva-se até 
seis anos apenas para decidir se um político 
pode ser investigado, imagine-se o tempo a ser 
consumido para seu julgamento na jurisdição 
ordinária! Em síntese, muito provavelmente 
ocorrerá a prescrição, antes do retorno dos autos 
para o exame do recurso na última instância. 
Impunidade 
Para reverter esse quadro, que incomoda a 
cidadania pela recorrente sensação de impuni-dade, 
não é necessário abolir o foro privilegia-do, 
mas mantê-lo após o término da função. 
Mais importante, porém, é exigir a sociedade 
prioridade absoluta no julgamento daqueles 
que, investidos no poder político deram maus 
exemplos, cometendo crimes e estimulando 
com suas ações deletérias a violência no grupo 
social. Afi nal, quem exerce o poder atua como 
um educador. Serve de paradigma para crianças 
e jovens na República. Se alguém, no exercício 
de função pública, pratica crime deve ser ime-diatamente 
punido depois de assegurada a ampla 
defesa, sob pena de ser imitada a sua atuação 
delituosa na base do grupo social. Todos nas 
periferias também passam a reivindicar o direito 
à impunidade. Na falta de sanção a deputados e 
senadores que violam o Código Penal, portanto, 
uma das causas do crescimento da criminalidade 
na sociedade brasileira. 
* Ex-procurador-geral do Estado do Ceará. Autor 
dos livros Distorções do poder, Direito eleitoral, 
Improbidade administrativa e Responsabilidade 
fi scal, Elegibilidade no direito brasileiro, A cidade da 
juventude e “Marketing”, política e sociedade. 
São poucas as notícias 
do trânsito em 
julgado de decisões 
condenatórias de 
políticos 
RENAN VIANA 
Revisitando os Três Poderes 
Samuel Mânica Radaelli* 
A CCJ considerou constitucional o projeto 
que permite que o Congresso casse de-cisões 
do STF: trata-se da PEC 3/11, do 
deputado Nazareno Fonteles (PT-PI). O projeto 
impressiona primeiro porque não é de autoria 
do deputado Tiririca, pois talvez ele tenha 
ouvido falar das ideais de Montesquieu sobre a 
separação dos Poderes. 
Freios e Contrapesos 
A proposta é tão descabida que a partir dela 
os Três Poderes, que até aqui representam três 
funções típicas, terão sua confi guração alterada, o 
legislador terá duas atribuições - além de legislar 
passará a revisar a atividade judicante. Tal fato gera 
a seguinte situação: o legislativo emite uma lei, o 
Judiciário fi scaliza sua constitucionalidade e, vejam 
só, o Legislativo, por fi m, fi scalizará a fi scalização 
feita pelo Judiciário. Ou seja, ele próprio passará 
a fi scalizar ele próprio, o que representa um abalo 
tremendo ao princípio dos freios e contrapesos, 
o qual foi desenvolvido para evitar o acúmulo de 
poder ou a sobreposição de poderes. 
A idéia é de um meta-controle de constitu-cionalidade, 
um controle do controle de cons-titucionalidade, 
feito pelo controlado. 
As escusas para este despautério vêm da 
chamada “crise institucional do Judiciário”, o 
qual de fato necessita rever muitas das suas 
posturas. Mesmo sendo inegável a sua inefi cá-cia 
estrutural para tratar de grandes temas que 
transcendem os confl itos individuais, e para qual 
os congressistas, nem mesmo o Tirirrica, tem 
qualquer sugestão a dar. Quem se arvora apoiar 
a PEC 03/11, em geral são descontentes com o 
STF ou com Judiciário de um modo geral, em 
relação à repressão das pretensões eleitorais de 
políticos corruptos e aqueles descontentes com 
certas decisões que vão de encontro a alguns 
preceitos religiosos, defendidos por bancadas 
crentes, não apenas evangélicos, mas também 
católicos carismáticos. 
Em nome de combater a “ditadura do 
Judiciário”, os protagonistas desta proposta 
pretendem instituir a “ditadura do legislativo”. 
Cumpre indagar porque as propostas que pro-põem 
o controle popular de toda a atividade 
estatal, inclusive o Judiciário e o legislativo não 
Os riscos da anulação de decisões do STF pelo Congresso 
ganham corpo. O legislativo se auto proclama 
mais democrático por ser representante do 
povo, no entanto, é sabido que um dos graves 
problemas do Legislativo é o seu déficit de 
representatividade. 
Legislativo 
O STF excede nos seus limites constitucio-nais? 
Passou a Legislar? Mesmo se isto tivesse 
acontecido, o Legislativo, se efi ciente fosse, 
teria como combater tal questão pelo seguinte 
fato: se o Judiciário trata da interpretação da 
lei e o Legislativo entende que há excesso de 
interpretação, pode mudar a lei de forma a não 
deixar margem para a interpretação dada pelo 
Judiciário. Exemplo disso é o caso da verticali-zação 
das candidaturas estabelecida em 2002 
pelo TSE e referendada pelo STF. 
Naquela ocasião o Judiciário interpretou o 
artigo 17 § 1º da CF, entendendo que os parti-dos 
que coligassem na esfera federal deveriam 
coligar nas demais esferas. O Congresso não 
concordando com os rumos do processo eleitoral 
decorrentes deste posicionamento e reformou a 
Constituição através da Emenda nº 52/2006, a 
qual possuía um texto que expressava literal-mente 
a possibilidade de coligações diferentes 
em todos os níveis da federação. 
O Legislativo, exceto na hipótese de clausula 
pétrea, pode, sempre que discordar de uma 
interpretação dada a uma lei, modifi cá-la. Tal 
modo de proceder resguarda a independência, 
a autonomia e a harmonia do poderes, mas 
depende da efi ciência do processo legislativo. 
Além do mais, Judiciário e Legislativo padecem 
de alguns males comuns como a vinculação 
elitista, por exemplo. Deste modo, o Legislativo 
não é capaz de redimir o Judiciário, mas sim 
pervertê-lo ainda mais. 
O Judiciário precisa ser reformulado jus-tamente 
nos defeitos que comunga com o 
Legislativo, as tentativas de submeter um ao 
outro tendem a corroer ainda mais nossa insti-tucionalidade 
política. 
* Coordenador Curso de Direito do IFPR- campus 
Palmas-PR. Membro do Gupo Gedis http://grupogedis. 
blogspot.com.br/
Estado de Direito n. 35 21
22 Estado de Direito n. 35 
Sistema Oceânico 
Paulo Magalhães* 
Os sistemas oceânico e climático, são 
os sistemas naturais que nos unem a 
todos. O projeto Condomínio da Terra 
da Quercus, em parceria com várias Universi-dades 
Portuguesas, Brasileiras e Espanholas, 
propõe reconhecimento dos Sistemas Climático 
e Oceânico como Património Natural Intangível 
da Humanidade. Um alicerce estrutural para se 
construir a confi ança e reciprocidade necessárias 
a uma economia verde e humana. 
Confl ito Sistémico 
O funcionamento global dos oceanos, é uma 
realidade que desde muito cedo tem desafi do o 
conceito de soberania clássico. Quando falamos 
em atmosfera ou oceanos, inevitavelmente, 
estamos a incluir dentro destes conceitos os 
sistemas naturais e as “funcões” da natureza. 
As descobertas que revelaram o funcionamento 
global do Sistema Natural Terrestre, são ainda re-centes 
e a operação mental de separar os sistemas 
naturais globais dos territórios das soberanias, é 
uma atividade que exige uma reestruturação do 
raciocínio. Certo é que não possuímos nenhum 
objeto jurídico, capaz de explicar a realidade 
ecossistémica do oceano global, e que potencie 
a harmonização do confl ito sistémico entre o 
global e o interesse de cada Estado. 
Na sequência das alterações da composição 
química da atmosfera surgem alterações na com-posição 
dos oceanos. Da interacção entre estes 
sistemas surgem mudanças nas dinâmicas de 
distribuição e transmissão de energia, e em toda 
a complexa teia de componentes que se transfor-mam 
e interagem no tempo, e que contribuem 
de forma diferenciada para o estabelecimento de 
estados de equilíbrio dinâmico a que chamamos 
clima. É no interior deste processo global que 
nos tornamos vizinhos globais. 
Quando analisamos a alteração da compo-sição 
química e biológica dos oceanos, estamos 
a trabalhar num plano em que se pretende aferir 
a “qualidade” deste bem e a sua aptidão para 
desempenhar a função de suporte biológico 
para condições de vida humanas. Neste plano 
de análise, estamos a trabalhar com “sistemas 
” que desempenham determinadas funções e 
que se caracterizam por um movimento global 
constante, e de forma simultãnea no interior e 
exterior dos territórios dos Estados 
Governança Integrada 
A utilização de uma aproximação jurídico-formal 
da noção de Património Comum da 
Humanidade ao sistema climático, proposta por 
Sobrino1, pode ser aproveitada para ultrapassar 
o confl ito entre a unidade ecossistémica do 
oceano global, e as diferentes soberanias que se 
exercem sobre as áreas sob jurisdição nacional. A 
confi guração deste novo conceito de património 
natural pode potenciar a resolução de uma série 
de problemas estruturais e operacionais comple-xos, 
como sejam a dispersão dos benefícios e dos 
encargos por todo o Oceano, a partilha e gestão 
dos benefícios de forma equitativa e justa, e a 
institucionalização de uma governança integrada 
dos oceanos. 
A assimilação desta realidade intangível, 
inapropriável e indivisível da natureza, pode 
ainda constituir uma ferramenta estrutural para 
ultrapassar o “buraco negro” que estes sistemas 
naturais globais representam para a economia, 
internalizando num património comum, factores 
vitais para a nossa existência que continuam a 
ser considerados “externalidades”. 
Esta abordagem que captura juridicamente a 
noção de sistema, permite a desterritorialização 
das funções ecossistêmicas relativamente aos 
Estados, individualizando e delimitando os ser-viços 
ambientais relativamente às infraestruturas 
físicas dos ecossistemas que os disponibilizam. 
Esta desmaterialização da natureza, pode 
abrir as portas para a criação de um sistema de 
contabilidade de contributos positivos e negati-vos 
para a manutenção dos oceanos e do clima, 
o EcoSaldo, e contribuir de forma decisiva para 
que se ultrapassar o problema da governança do 
ecossistema global dos oceanos. 
Esta contabilidade é uma condição estrutural 
para ultrapassarmos o dilema da acção coletiva 
global. 
Para todos os efeitos, será a concretização da 
“necessidade de considerar os oceanos como um 
todo”, já prevista no preâmbulo da UNCLOS. 
Esta natureza intangível, porque nos une a 
todos, é a essência e o verdadeiro Património 
Comum da Humanidade. 
* Coordenador Condomínio da Terra/Quercus. 
Investigador Cesnova/FCSH. Universidade Nova. 
O direito ambiental 
Wellington Pacheco Barros* 
O direito ambiental é um direito univer-sal 
por excelência. 
Isso porque a conscientização de 
que o meio ambiente que ele trata é um bem de 
todos e precisa ser protegido está lastreada na 
própria sobrevivência do homem na terra. 
Este apelo é de aceitação instantânea e tem 
foro de legitimidade absoluta em todos os povos 
por se tratar de uma questão inerente à própria 
natureza humana. Assim, sua trans-internacio-nalização 
e consequente importação e adapta-ção 
aos países é uma decorrência natural. 
Princípio da Precaução 
A discussão fundamental sobre o novo 
direito reside na dimensão que se deve dar ao 
meio ambiente: se deve ser protegido incon-dicionalmente, 
segundo a pauta de conduta 
ditada pelo princíííppiioo ddaa pprreeccaauução ou se ele 
deve ser conjugado com o desenvolvimento 
como sustenta o princíííppiioo ddoo ddeesseennvvoollvviimmeennttoo 
sustentável. 
Apesar disso, o estudo do direito ambiental 
no Brasil é recente, bem mais do que o estu-do 
perpetrado na Europa sobre esse mesmo 
direito, de onde, inclusive, é originário. De 
um lado, isso retrata a aceitação do fenômeno 
da globalização do direito pelo Brasil ou da 
internacionalização da ciência jurídica muito 
em voga nos últimos anos, porém, do outro 
lado, isso pode contribuir para refrear o as-pecto 
desenvolvimentista tópico existente em 
todo direito. 
O temor é o de que, importar regras ju-rídicas 
de um país e aplicá-las em outro, só 
porque foram boas na origem é atentar contra 
a aculturação predisposta no direito como ci-ência 
social de um povo. Numa visão própria 
do direito ambiental, é agredir o meio ambiente 
cultural de um país. 
No entanto, não se pode impedir o pro-gresso, 
mesmo porque ele é um fator essencial 
na vida do homem e da sociedade, base de 
sustentação de todo direito. Portanto, importar 
princípios jurídicos é importante, desde que 
tais princípios sejam adaptados à realidade 
nacional. No campo do direito ambiental isso 
é salutar porque o meio ambiente brasileiro, 
seja ele natural, artifi cial, cultural ou do traba-lho, 
possui pressupostos específi cos. Assim, 
apreender o direito estrangeiro e adaptá-lo à 
realidade ambiental brasileira é atitude racional 
do jurista pátrio. 
Mas, não é isso o que se observa na vida 
jurídica ambiental brasileira. 
Ação Política Educativa 
É perceptível certo maniqueísmo político 
ou ideológico na defesa de um meio ambiente 
utópico ou ideal, ufanado através de uma base 
aleatória e midiática do politicamente correto 
muitas vezes propalado sem o devido lastro 
de razoabilidade. 
Como ação política educativa implementa-da 
pelo Poder Público para difusão da essencia-lidade 
do meio ambiente é até admissível. 
O preocupante é que essa defesa intran-sigente 
possa contaminar os estudiosos desse 
novo direito levando de roldão princípios jurí-dicos 
fundamentais e instituidores do próprio 
País que, no campo do meio ambiente, optou 
pelo desenvolvimento sustentável. 
Ou seja, o meio ambiente na visão jurídica 
deve ser respeitado na perspectiva do ssseeerrr ddoo 
direito positivo e não do dddeeevvveeerrr ssseeerrr ddoo ddiirreeiittoo 
natural 
E a base constitucional dessa conclusão é a 
natureza jurídica que lhe outorga o art. 225 da 
Constituição Federal, que o delimita como bem 
público de uso comum do povo. Logo, meio 
ambiente não é o que o ambientalista defi ne, 
mas o que o direito conceitua. 
Recursos Naturais 
Ocorre que o meio ambiente e, por con-seqüência, 
o direito ambiental no Brasil vai 
sofrer modifi cações com a Reforma do Código 
Florestal, o que fi ca demonstrado que meio 
ambiente no Brasil não é algo abstrato. Ele é 
concreto e decorre de disposição legal. 
E com esta característica de patrimônio ou 
bem público juridicamente defi nido tem-se 
os outrora chamados recursos naturais, como 
a água, o solo, o ar, a fl ora e à fauna. Assim, 
num exemplo bem simples e leigo, a água da 
chuva, a areia do mar, a brisa da tarde, a macela 
da semana santa e o sabiá das manhãs, todos, 
são bens públicos sob a nomenclatura de meio 
ambiente. 
Como a praça e a rua, o meio ambiente por 
força constitucional passou a se constituir em 
bem de uso comum do povo, ou aquele bem 
que é público porque pertence a todo povo, 
mas é administrado pelo Estado através dos 
órgãos ambientais. 
Esse bem é diferente dos outros bens pú-blicos, 
como, por exemplo, o Palácio Piratini, 
chamado bem público dominial porque é usado 
pelo Estado para moradia do Chefe do Poder 
Executivo, ou.o Palácio Farroupilha, que é um 
bem público especial, porque serve de local 
de trabalho dos deputados, mas está aberto 
ao público. 
Nesse diapasão, o Código Florestal de 1965, 
visando proteger basicamente as fl orestas e os 
recursos naturais que as circundam, especial-mente 
a água dos rios e fauna e a fl ora dos 
morros e várzeas, criou as APPs, ou Áreas de 
Preservação Permanente. Ou seja, afetou com 
o domínio publico áreas contíguas ao meio 
ambiente e com isso estendeu a elas o mesmo 
status do bem originário 
E estes bens públicos sofrerão alterações 
para mais ou para menos. 
O meio ambiente nacional, ou o patrimônio 
ambiental brasileiro, será maior ou menor nos 
termos do que fi car estabelecido na nova versão 
do Código Florestal. 
Portanto, a afetação ou desafetação do meio 
ambiente como bem público é uma questão 
de direito e não uma questão científi ca ou 
ideológica. 
* Desembargador aposentado do TJ/RS; professor 
de pós graduação nas cadeiras de direito ambiental, 
agrário e administrativo; advogado do escritório 
WELLINGTON BARROS Advogados Associados; 
autor de 51 livros de direito, palestrante em mais de 
150 eventos nacionais e internacionais. 
Um Património Natural Intangível para a Humanidade 
Importar princípios 
jurídicos é importante, 
desde que tais 
princípios sejam 
adaptados à realidade 
E a reforma do Código Florestal
Estado de Direito n. 35 23 
Dicas certeiras para o seu 
sucesso no Exame de Ordem 
Conteúdo essencial em forma de dicas 
extraídas das últimas provas da OAB, 
abrangendo as 16 disciplinas da primeira 
fase do Exame de Ordem, divididas 
por temas e destacadas em forma 
de “etiquetas”. 
Coordenação Marcelo Hugo da Rocha
24 Estado de Direito n. 35 
Convite à voz 
Rita Fucci-Amato* 
Avoz nos manifesta para o mundo. Regis-tro 
indelével da nossa personalidade, é 
também um braço pelo qual atingimos 
os outros mesmo sem tocá-los, repelindo-os com 
um grito, afagando-os com uma fala doce, con-fessando- 
nos em sussurro. Além de possuirmos, 
cada um, uma voz única e inconfundível, se ti-vermos 
integridade vocal somos capazes de pro-duzir 
inúmeras nuances vocais, utilizando uma 
verdadeira aquarela de cores sonoras ao longo 
de nossa vida. A voz é única e assim permanece 
em sua riqueza expressiva, que pode múltipla. 
Marca registrada de nossa personalidade e de 
suas variações ao longo do dia e da vida, a voz 
é assim protegida como direito fundamental e 
como direito da personalidade pela Constituição 
brasileira de 1988 (art. 5º, XXVIII, a). 
Cidadania 
Poderoso meio de expressão artística, 
capaz de aguçar os sentimentos de um ser 
humano pelo outro apenas fazendo vibrar o 
ar, a voz é também símbolo da cidadania – “a 
gente quer ter voz ativa, no nosso destino 
mandar”, cantou Chico Buarque – e expressão 
da soberania popular – Vox populi, Vox Dei, 
consagrou o ditado. Revoluções políticas, ca-tástrofes 
ecológicas ou desastres econômicos, 
os momentos históricos fi cam patenteados em 
nossa memória pelas diferentes vozes que os 
anunciam, com pesar ou euforia. 
Os grandes líderes, aliás, souberam im-primir 
na sua fala a harmonia que sustentava 
seus discursos: da voz metálica e da articulação 
precisa e meticulosa dos discursos militaristas 
de Hitler à fala cantada do pastor protestante 
Martin Luther King e à voz tranquila e mini-malista 
de Gandhi, a expressar sua fragilidade 
física e a força de sua liderança pacifista. 
Nascido Mohandas, Gandhi ganhou o nome 
de Mahatma, magnânimo, “grande alma” – a 
relembrar a história bíblica da Criação como 
sopro do Criador gerando a vida na criatura, ao 
lhe infundir a alma. O mesmo sopro que se sus-tenta 
no mistério da voz é que marca também 
cada vida, da primeira inspiração do recém-nascido 
ao último suspiro do que se vai. 
Ensino-aprendizagem 
A voz é instrumento da liderança, da política, 
dos negócios, da educação, da arte... Enfi m, é um 
fenômeno econômico. Estima-se que hoje um 
terço da população economicamente ativa seja 
composta por profi ssionais da voz, pessoas que 
tem na voz ferramenta primordial de seu trabalho. 
A voz é determinante, por exemplo, na atividade 
docente. Os processos de ensino-aprendizagem 
são mediados pela comunicação verbal, mas o 
domínio da voz, como instrumento de trabalho 
do professor, ainda é pouco enfatizado. Assim 
também, as condições de trabalho – a acústica 
dos ambientes, sua condição térmica, seus equi-pamentos 
e sua limpeza – prejudicam a atividade 
de qualquer profi ssional, inclusive sua voz. 
Pujante veículo de expressividade artística é 
também a voz, enquanto canto – seja na drama-ticidade 
de uma cena de ópera, seja na riqueza 
vocal impressa em um repertório variado no canto 
coral. Os coros amadores, aliás, são representes 
superlativos do poder de socialização e inclusão 
musical pela voz. Em um coro, aprende-se que 
todos podem cantar, que os talentos apenas 
estão adormecidos e que é preciso acordá-los. 
Aprende-se que a excelência vocal é uma questão 
de técnica e saúde – treinos e exercícios, mas 
também hábitos de cuidado com corpo e mente, 
na interseção dos quais se tem a voz. São inúme-ros 
os exemplos da mudança que o canto pode 
provocar na vida das pessoas. Coros em empresas, 
em hospitais, asilos e prisões, de crianças, adultos 
e idosos, multiplicam-se por sua virtude de unir as 
pessoas em um empreendimento de cooperação e 
solidariedade e fazê-las felizes enquanto desem-penham 
um trabalho árduo – a criação musical 
–, mas que compensa pela alegria da descoberta 
de sua voz e de seu corpo, pelo prazer estético, 
pela convivência e pelos aplausos. 
Por toda essa infl uência que a voz tem em 
nossas vidas e pelos cuidados que requer, um 
dia especial foi instituído em seu nome: 16 de 
abril é, há dez anos, o Dia Mundial da Voz. A 
consagração dessa data é resultado de um lon-go 
percurso. O Dia Nacional da Voz foi criado 
pela Sociedade Brasileira de Laringologia e Voz 
em 1999, fruto da preocupação com o elevado 
índice de ocorrência de câncer de laringe, que 
acometia 15 mil brasileiros anualmente. Em 
2002, foi criado o Dia Mundial da Voz. Em 
2008, o Dia Nacional da Voz foi instituído no 
Brasil por lei federal (Lei nº. 11.704, de 18 de 
junho de 2008), justamente “com o objetivo 
de conscientizar a população brasileira sobre a 
importância dos cuidados com a voz”. 
A voz é nossa companheira de todos os 
dias e dos diversos momentos – inclusive 
quando, pela sua ausência, faz-se o silêncio. 
Cuidar da voz é cuidar de nós mesmos. Usá-la 
em suas múltiplas funções é expandirmos nos-sas 
potencialidades e atingirmos os outros com 
nossa atividade. A essência das refl exões aqui 
elaboradas encontra-se no profundo desejo 
de convidar todos os leitores a fazerem uso 
de suas vozes, desfrutando plenamente deste 
admirável instrumento que possuímos. 
*Maestrina, especialista em Fonoadiologia pela Unifesp 
e pós-doutora pela USP. Autora dos livros Manual 
de Saúde Vocal: teoria e prática da voz falada para 
professores e comunicadores (Editora Atlas). 
O mesmo sopro que se 
sustenta no mistério 
da voz é que marca 
também cada vida, da 
primeira inspiração 
do recém-nascido ao 
último suspiro do que 
se vai 
ROBERTO ROCCO | FLICKR ROBERTOROCCO
Estado de Direito n. 35 25 
A tetradimensionalidade do Direito – síntese 
Paulo Lopo Saraiva* 
A idéia da existência de uma Quarta 
parte do Direito advém da análise das 
estruturas da Física. 
De fato, há na Física duas dimensões 
distintas: a estática e a dinâmica. 
Na Teoria Pura do Direito, Hans Kelsen 
aborda profundamente essas duas partes. 
Com efeito, uma coisa é a vigência da 
Norma posta e outra coisa é sua eficácia. 
No caso da estrutura jurídica, encontramos 
em primeiro lugar o Fato que passa a ser Ato, 
quando promanado da vontade humana. 
Neste caso, impõe-se a análise interdisci-plinar 
da conduta humana, em face de suas 
reações psicológicas, sociológicas, antropo-lógicas 
e até religiosas. 
De outro bordo, o Valor é o elemento 
essencial para discernimento da prática 
humana. 
Sem valorar o Fato e o Ato, certamente, 
poder-se-á cometer injustiça. 
A valoração é a representação herme-nêutica 
dos princípios constitucionais. Não 
se pode nem se deve aplicar a Norma, sem a 
prévia valoração dos seus efeitos. 
Na terceira posição, encontra-se a Norma 
Jurídica, que pode ser produto da atividade 
Legislativa ou resultado da ação da autorida-de 
Executiva. É o caso das Medidas Provisó-rias, 
no Brasil. 
Admite-se, hodiernamente, o Ativismo 
do Poder Judiciário. Quando não se faz a lei 
pelo órgão competente, impõe-se que outro 
órgão concretize o Texto Constitucional. É 
o caso do STF, no processo constitucional 
Brasileiro. 
Por fim, surge a Quarta parte do Direito: 
a JUSTIÇA. 
Com efeito, a Justiça é a finalidade do Di-reito, 
sua dimensão final. Direito sem Justiça 
é arbítro, é ato ditatorial. 
Muitos tentaram conceituar a Justiça: Aris-tóteles, 
Cícero, Tomás de Aquino, Kant, Hegel, 
Kelsen, Paulo Bonavides, Friedrich Muller. 
A nosso ver, é quase impossível concei-tuar 
a Justiça, pois Justiça vive-se, sente-se, 
realiza-se. Não se define a Justiça, pratica-se. 
A maior definição da Justiça é sua prática. 
Que pede o povo na televisão, diariamen-te? 
JUSTIÇA. 
De conseguinte, faz-se mister que a Aca-demia 
se dedique à análise de suas estratégias 
e sua eficacialização. 
Neste sentido, é que nós, no final dos 
anos 90, começamos a examinar o sentido 
de Justiça e sua relação com o Direito, pois 
entendemos que a Justiça é a dimensão Te-leológica 
do Direito. 
O nosso último livro: “A Tetradimen-sionalidade 
do Direito. Coleção Jurística do 
Semi-árido Nordestino, 1ª edição, Pau dos 
Ferros/RN, 2011, trata desta matéria. 
Com certeza, faremos uma nova publi-cação, 
desta feita, a nível nacional, para que 
todos os interessados tomem conhecimento 
da novel Teoria. 
*Advogado e Professor; Pós-Doutor em Direito 
Constitucional ; pela Universidade de Coimbra.; 
Doutor e Mestre em Direito Constitucional pela 
PUC/SP; Mestre em Ciências Políticas e Sociais 
pela Universidade Técnica de Lisboa. 
Telhados do mundo 
João Caetano* 
A liberdade, a alegria e o dom de si deve-riam 
ser temas de ensino obrigatório nas 
nossas escolas. Basta de nos olharmos de 
soslaio, como diz Santa Teresinha do Menino 
Jesus. A escola serve para nos ensinar a forma 
de nos olharmos mutuamente como membros 
com igual dignidade da mesma comunidade 
política, assim como a forma de olharmos para 
quem nos é ou parece estranho. A escola serve 
para sabermos que é bom o convívio humano, 
que o mesmo até pode ser fraterno, apesar das 
desilusões. A escola serve para abrir portas, na 
variedade dos professores, colegas e métodos de 
ensino, permitindo-nos, no futuro, reconhecer 
muitos dos que conhecemos. Vem isto a propó-sito 
de saber se é possível o amor em sociedade 
e qual é a sua infl uência, bem como qual é a 
sociedade que queremos construir. 
Jorge Amado 
Jorge Amado escreveu um conto belíssimo 
intitulado “O Gato Malhado e a Andorinha Si-nhá 
– uma história de amor”, que relata o amor 
impossível entre uma andorinha e um gato. 
A Andorinha acabou por casar com outro e o 
Gato, desesperado, foi enfi ar-se na boca da Co-bra 
Cascavel. Todos nós conhecemos episódios 
destes, infelizmente. E a mudança nos costumes 
não tornou as pessoas mais felizes. A liberdade 
não consiste em fazer o que se quer, mas o que 
se ama. A liberdade está na busca do encontro 
com a pessoa amada, assim como na leitura de 
um livro ou numa viagem. Não proibamos a 
imaginação (andei pelo mundo inteiro antes de 
lá ter estado e sei que a imaginação é preciosa). O 
último capítulo (duas belas páginas) do livro de 
Jorge Amado intitula-se “A noite sem estrelas”. 
Não há maior falta de senso do que um amor 
verdadeiro ser impossível por defi nição. Na nos-sa 
visão naturalista das coisas, somos inferiores à 
natureza quando abusamos dela ou a utilizamos 
arbitrariamente. A natureza não é uma matéria 
inerte, mas uma obra admirável. A moral da 
história de Jorge Amado está no princípio do 
livro, quando cita o poeta popular da Bahia Es-têvão 
da Escuna: “O mundo só vai prestar / Para 
nele se viver / No dia em que a gente ver / Um 
gato maltês casar / Com uma alegre andorinha / 
Saindo os dois a voar / O noivo e sua noivinha 
/ Dom Gato e dona Andorinha”. 
Medo 
É preciso que deixemos de ter medo de fazer 
escolhas e que permitamos que os outros as 
façam. A liberdade aprende-se falando, que é o 
fundamento da sã convivência entre os homens. 
As pessoas são dignas umas das outras quando, 
além de se conhecerem, se falam. E no entanto 
hoje falta-nos tempo para falar. Somos muitas 
vezes apenas conhecidos uns dos outros. Parece 
que tudo é fugaz e que a realidade não passa, 
numa afi rmação de Álvaro de Campos, de uma 
“concubina fogosa do universo disperso”. 
Conta Jorge Amado que o Gato Malhado disse 
à Andorinha que, se não fosse um gato, a pediria 
em casamento. As palavras foram gratas ao cora-ção 
da Andorinha, mas esta, apesar de estar apai-xonada 
pelo Gato, teve medo dele, porque ouviu 
dizer que os gatos eram inimigos irreconciliáveis 
das andorinhas. A liberdade não é uma amálgama 
de sensações, mas uma escolha que responsabiliza 
quem a faz. No plano político e social é necessário 
que as pessoas vivam bem e não tenham medo. 
Como diz o Papa Bento XVI, na Carta Encíclica 
“Caridade na Verdade”, a natureza é expressão de 
um desígnio de amor e de verdade. É missão da 
escola ajudar os alunos a reconhecerem esta rea-lidade, 
se não quiser fi car pela mera formação de 
seres mecânicos e competitivos, alheios à beleza 
do mundo e à sorte das suas andorinhas sinhás e 
dos seus gatos malhados. 
* Pró-Reitor para os Assuntos Jurídicos da Universidade 
Aberta - https://www.uab.pt. 
TÉCNICA DE SENTENÇA CÍVEL 
Noções aplicadas de processo civil, prática da redação 
de sentenças cíveis e exemplos de sentenças 
Marcelo Andrade Campos Silva 
1ª edição 2012 
METODOLOGIA DO DIREITO 
Francesco Carnelutti 
TTrraadduuççããoo:: WWiillssoonn ddoo PPrraaddoo 
1a edição 2012 
PROCESSO DE EXECUÇÃO E 
CUMPRIMENTO DA SENTENÇA 
Humberto Theodoro Júnior 
27a edição 2012 
PERÍCIAS EM ARBITRAGEM 
Flavio Fernando de Figueiredo 
Francisco Maia Neto 
Organizadores 
1a edição 2012 
Rua Santo Amaro, 586 – Bela Vista – São Paulo – SP 
www.editoraleud.com.br e-mail: leud@leud.com.br 
www.editorapillares.com.br e-mail: editorapillares@ig.com.br
26 Estado de Direito n. 35 
Adolescentes: da invisibilidade 
ao reconhecimento 
Ana Paula Motta Costa* 
Reconhecer cada um no contexto social é RRRddaarr vviissiibbiilliiddaaddee àà ssuuaa ccoonnddiiççããoo ddee ppeessssooaa,, com possibilidade de manifestação da identidade. Concretiza-se na convivência com 
a diferença, em interação e condição de igual-dade. 
Materializa-se por meio da indiferença às 
diferenças sociais que impedem a identifi cação 
de uns com os outros em um mesmo patamar 
de igualdade. Corresponde à busca pelo deslo-camento 
constante, pelo diálogo, pelo respeito 
às diferentes manifestações culturais, linguagens 
e expressões de racionalidade. 
Justiça 
Na contemporaneidade, as pessoas encon-tram 
difi culdades de ver-se reconhecidas. Tarefa 
que é atribuída ao sujeito individualmente, 
quando a luta por justiça e por reconhecimen-to 
não é um problema individual, é coletivo e 
importa ao conjunto da sociedade. 
As dificuldades de reconhecimento dos 
adolescentes, em sua especifi cidade e peculiari-dade, 
podem ser observadas a partir de distintas 
dimensões: enquanto etapa de vida com caracte-rísticas 
socioculturais próprias, considerando a 
ordem social predominantemente adultocêntri-ca; 
o reconhecimento dos adolescentes vivendo 
em condição especialmente difícil, pertencendo 
às classes sociais de maior vulnerabilidade, sobre 
os quais há maior preconceito; o reconheci-mento 
desde a perspectiva jurídico cultural, 
cuja origem está na ausência da possibilidade 
de diálogo intercultural; e, ainda, os limites 
de reconhecimento desde o ponto de vista do 
Estado, enquanto ausência de reconhecimento 
de seus direitos. 
Mortalidade 
A situação de falta de reconhecimento 
expressa-se nos números alarmantes de morta-lidade 
do público adolescente nos últimos anos 
no Brasil. Segundo o Núcleo de Estudos da Vio-lência 
(NEV) da Universidade de São Paulo, que 
analisou um intervalo de 22 anos e comparou 
estados e capitais brasileiras, jovens entre 15 e 
19 anos são as maiores vítimas de homicídios 
no País: 87,6% dos casos. Essas mortes ocorrem 
essencialmente onde há uma superposição de 
carências e de violação de direitos. Na mesma 
direção apontam os dados do Ministério da 
Saúde, que afi rmam que na faixa etária de 10 
a 19 anos as violências têm sido as principais 
causas de óbito (52,9%). Entre os adolescentes, 
entre 15 a 19 anos, 58,7% dos óbitos, no perí-odo 
analisado, foram por violências (DATA SUS 
-2006-2010). 
A violência é um processo complexo, mas 
relaciona-se com as difi culdades de reconheci-mento 
deste público na sociedade atual. O fato 
é que a visibilidade dos adolescentes requer 
a superação do lugar estereotipado social. Se 
o reconhecimento do sujeito em sua indivi-dualidade 
ocorre desde a perspectiva social, a 
desconsideração de suas especifi cidades dá-se 
em decorrência do desvalor social atribuído. 
Realidade que gera humilhação, opressão e 
violência, infl uindo na construção de identidade 
do sujeito. 
Dignidade 
Nesse contexto, é importante considerar o 
princípio da autodeterrminação progressiva, 
cujo fundamento está no necessário reconhe-cimento 
da dignidade do sujeito, como Pessoa 
Humana, capaz de fazer escolhas, de participar 
dos processos sociais como protagonista, de 
conviver em família e contribuir com sua indi-vidualidade 
para a coletividade. 
É imperiosa a abertura ao diálogo. Dispo-sição 
que exige desprendimento do lugar de 
superioridade adulta e institucional. Ser adulto 
não é ser superior, é exercer papeis sociais 
de responsabilidade em relação às crianças e 
adolescentes em desenvolvimento. O reco-nhecimento 
da especifi cidade e da diferença é 
condição para o respeito ao outro. Entretanto, 
tal diferença deve ser intermediária em relação 
ao ponto onde se deseja chegar: o respeito do 
outro em condição de igualdade, indiferente a 
ideias preconceituosas. 
As pessoas encontram 
difi culdades de ver-se 
reconhecidas. 
Tarefa que é 
atribuída ao sujeito 
individualmente, quando 
a luta por justiça e 
por reconhecimento 
não é um problema e 
individual, é coletiva e 
importa ao conjunto da 
sociedade 
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* Doutora em Direito pela PUC/RS, com estágio 
Doutoral na Universidade Pablo de Olavide/Espanha. 
Mestre em Ciência Criminais pela PUC/RS; Advogada; 
Socióloga; Professora dos Cursos de Direito do IPA e 
da UFRGS; Pesquisadora IMED/Passo Fundo. atendimentoaocliente@1001.com.br 
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RENAN VIANA
Estado de Direito n. 35 27 
Solidariedade para além da tolerância 
Ricardo Timm de Souza* 
Não há dúvida que uma das grandes 
conquistas da modernidade foi o 
estabelecimento na pauta da fi losofi a 
política do conceito de “tolerância”. De fato, 
consubstanciando-se como reação inicialmen-te 
à intolerância religiosa e desdobrando-se 
posteriormente como baluarte contra a arbi-trariedade 
em todos os níveis, essa categoria 
se constitui em preciosa herança, confi gurando 
boa parte das teorias ético-políticas que têm 
ainda hoje vigência. 
Alteridade 
Porém, novos tempos são novos desafi os. 
Como categoria “moderna”, afi nada a anseios 
de uma época específi ca, a tolerância cumpriu 
papel central. Não obstante, a crescente com-plexidade 
sociocultural da contemporaneidade, 
não comparável, evidentemente, às condições 
vigentes no auge do otimismo da modernidade 
ocidental, lançam a essa categoria questões 
que ela, por razões civilizacionais evidentes, é 
incapaz de responder. De fato, quando cons-tato 
que “só tolero aquele ou aquilo que, em 
princípio, eu não toleraria”, percebo que o que 
na modernidade se revestiu de sentido inequí-voco 
de positividade é insufi ciente para lidar 
com questões ético-políticas agudas no mundo 
contemporâneo, tal como a da Alteridade. Hoje 
assume a “tolerância” feição de uma categoria 
limitadora, negativa, e o fato de que em inú-meros 
locais ainda não se tenha estabelecido 
como mínimo desejável não atenua essa crítica, 
já que os argumentos, aqui, fi liam-se à critica 
da categoria em si, e não da sua aplicação ou 
não-aplicação. 
Tecido Social 
Desse modo, através da crítica do conceito, 
desvela-se o tecido histórico-político subjacente 
ao estabelecimento da categoria da “tolerância” 
como máxima de organização social desejável. 
Em uma confi guração real ou ideal de mundo 
habitado por mônadas perfeitamente isoladas 
umas das outras, livres para se relacionarem 
ou contratar, a “tolerância” funciona como 
limitador do poder invasivo do espaço de cada 
mônada – leia-se: indivíduo moderno – por 
cada outra. A “tolerância” pressupõe, assim, 
ao contrário do que parece à primeira vista, 
um mundo profundamente egoísta, onde cada 
um, a rigor e em termos de coesão do tecido 
social, não tem nada a ver com cada outro, e 
cujo único anelo social que os liga pode chegar 
a ser simplesmente – tolerar. Essa é a idéia de 
mundo que a gestou e cuja herança é a nossa: 
um mundo no qual a ética como relação inter-humana 
foi substituída pela ética como impe-ditivo. 
Tal permitiu a crescente substituição da 
qualidade pela quantidade, da singularidade 
pela pluralidade de pretensos “iguais” ampa-rada 
por categorias abstratas. Num universo 
como esse, da liberdade formal, sempre e 
necessariamente haverá os que, realmente, são 
“mais iguais” que outros. 
Tal enseja uma refl exão que nos permita 
escapar à sedução da armadilha racional que 
signifi ca formalizar o mundo social e suas 
relações. Pois o que transparece a qualquer 
leitor inteligente numa parábola como, por 
exemplo, “o bom samaritano”, é o fato de que o 
samaritano subverteu não apenas a separação 
entre os povos, mas a própria idéia de que 
a “tolerância” possa ser, em si mesma, uma 
categoria “positiva” – houvesse o samaritano 
tolerado simplesmente o homem caído à beira 
da estrada e essa parábola não faria sentido 
algum. Esse é o nosso mundo na sua cotidiani-dade: 
tendemos a julgar ser a “tolerância” uma 
virtude moral exemplar, quando não passa do 
negativo de uma virtude moral – pois tolerar 
derrapa, rapidamente, na indiferença que 
caracteriza nosso tempo frente ao sofrimento 
e à morte do Outro. 
É nesse sentido que os fi lósofos Levinas e 
Derrida, entre outros, propugnam a necessi-dade 
cabal de uma categoria ética para além 
da tolerância: a solidariedade/hospitalidade. 
Afi nal, passar da defi nição escolar de liberdade 
– “minha liberdade acaba onde começa a do ou-tro” 
– a uma defi nição ética – “minha liberdade 
inicia onde começa a do outro” – é aventura ex-tremamente 
arriscada. Trata-se, simplesmente, 
da tarefa pedagógica por excelência. 
* Professor dos Programas de Pós-Graduação em 
Filosofi a, Letras e Ciências Criminais, e Coordenador 
do Escritório de Ética em Pesquisa da PRPPG/PUCRS. 
Membro-fundador do Centro Brasileiro de Estudos 
sobre o Pensamento de E. Levinas, da Sociedade 
Brasileira de Fenomenologia e da Internationale- 
Rosenzweig-Gesellschaft. 
Tendemos a julgar ser 
a “tolerância” uma 
virtude moral exemplar, 
quando não passa do 
negativo de uma virtude 
moral – pois tolerar 
derrapa, rapidamente, 
na indiferença que 
caracteriza nosso 
tempo frente ao 
sofrimento e à morte 
do Outro
28 Estado de Direito n. 35 
Os Direitos Humanos dos Povos Indígenas 
Ricardo Strauch Aveline* 
Existem hoje no mundo entre 300 e 500 
milhões de indígenas, os quais habitam 
cerca de 20% da superfície terrestre 
do globo. Os indígenas recebem diferentes 
nomenclaturas de acordo com o país em que 
se encontram, destacando-se termos como 
nativos, aborígenes e bugres. 
Independentemente do país em que se 
encontrem, os povos indígenas possuem em 
comum o fato de terem sido vítimas históricas 
de massacres, genocídio e discriminações. 
Além disso, nos diversos países, sua partici-pação 
política é reduzida. 
A Convenção n.º 107 da Organização In-ternacional 
do Trabalho (OIT), defi ne povos 
indígenas como os descendentes das popu-lações 
que habitavam determinado país na 
época da conquista e que levam uma vida mais 
conforme às instituições sociais, econômicas e 
culturais daquela época do que às instituições 
peculiares à nação a que pertencem. 
Aos indígenas aplicam-se tratados interna-cionais 
que estabelecem uma série de direitos 
especiais. Tais documentos internacionais 
foram ratifi cados pelo Brasil de forma que o 
país deverá cumprir e efetivar os direitos dos 
povos indígenas sob pena de obter condenação 
em órgãos internacionais como a Corte Intera-mericana 
de Direitos Humanos (OEA) e a Corte 
Internacional de Justiça (ONU). 
Dentre os direitos previstos para os indígenas, 
destacam-se aqueles contidos nas Convenções 
da OIT de números 107 e 169 e na Declaração 
da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas 
de 2007. Aplicam-se aos indígenas também os 
dispositivos contidos na Carta das Nações Uni-das 
(1945) e na Declaração Universal de Direitos 
Humanos (ONU – 1948), entre outros. 
Assim, os povos indígenas possuem os mesmos 
direitos humanos de todas as pessoas, não podendo 
ser objeto de discriminações negativas, porém pos-suem 
direitos especiais, os quais visam compensar 
prejuízos históricos sofridos pelos indígenas, com-pondo 
a chamada discriminação positiva. 
Dentre os direitos especiais dos povos 
indígenas, destacam-se o direito de autodeter-minação 
e autogoverno, os quais estabelecem a 
possibilidade jurídica de os indígenas regularem 
internamente suas tribos de forma condizente 
com os seus costumes tradicionais e sem inter-venção 
signifi cativa do Estado. 
Em observação de campo realizada em aldeia 
indígena KKKaaaiiigggaaannnggg nnaa cciiddaaddee ddee SSããoo LLeeooppoollddoo nnooss 
anos de 2011 e 2012, foi possível identifi car 
que o Estado brasileiro respeita o direito de 
autodeterminação, o qual se manifesta por meio 
de festas tradicionais, gastronomia típica e pela 
forma de organização política. 
Propriedade Intelectual 
O direito à autodeterminação é um mecanis-mo 
utilizado para estimular o ressurgimento ou 
fortalecimento da cultura indígena nas diversas 
sociedades. Ainda assim, ele sofre restrições. A 
Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos 
Indígenas estabelece que o direito à autodetermi-nação 
não pode ser interpretado no sentido de au-torizar 
a violação dos direitos previstos no ordena-mento 
jurídico interno de cada Estado. Também 
não poderá ser utilizado como argumento para 
autorizar o desmembramento ou independência 
dos territórios indígenas em relação ao território 
E a Justiça Internacional 
do Estado em que se encontrem. 
Outro direito previsto na Declaração que 
merece destaque é o direito dos indígenas sobre 
a sua propriedade intelectual. Assim, o Estado 
deverá garantir, por exemplo, a proteção dos 
conhecimentos medicinais e terapêuticos indíge-nas 
em face de terceiros. A Declaração introduz 
também limites sobre a forma como a imagem 
dos indígenas pode ser veiculada pela mídia, 
devendo o Estado signatário punir os respon-sáveis 
por eventuais divulgações pejorativas ou 
discriminatórias contra os indígenas. 
As proteções jurídicas internacionais, junta-mente 
com outros fatores, têm contribuído para 
o ressurgimento e fortalecimento da cultura indí-gena. 
Ainda assim, a realidade social demonstra 
que os indígenas brasileiros continuam entre os 
grupos menos favorecidos da sociedade brasileira, 
exigindo políticas públicas específi cas do Estado 
e a participação da sociedade civil. 
*Professor de Direito Internacional na Universidade 
Feevale; Doutor em Ciências Sociais e Mestre em 
Direito. 
Estado y Derecho: Crisis y Autoritarismo 
Daniel Nina* 
¿
Cómo transcurre nuestra vida diaria? 
¿Cómo se comporta el policía que tene-mos 
de frente, y que interviene con uno 
como omo ciudadano? Realmente pensamos como pasa ese proceso. Tal vez para el abogado y 
abogada promedio, esto sea materia de c 
con-tinua 
¿reflexión. Pero para el ciudadano de a 
pie, el que vive y existe fuera de las penurias 
del derecho, ¿cómo se define esta relación de 
estado, derecho y la persona? 
Por un lado hay que hablar del estado. Se 
hace inevitable para pensar en la figura del 
derecho. En esta medida, en países como 
Puerto Rico (el estado nacional – colonial), 
adscritos bajo una relación territorial/colonial 
con los EE.UU. (el estado metropolitano), el 
estado inevitablemente cada vez más se hace 
represivo y autoritario. Esto quiere decir, en 
la práctica, que los espacios de libertad del 
ciudadano, cada vez más se ven restringidos 
y coartados por el estado supra-presencial. 
Cada instancia, cada momento de la vida 
diaria está regulado por el estado (metropo-litano, 
nacional o municipal) el cual restringe 
y penaliza de forma retributiva (castigo de 
forma ordinaria por la cárcel o multas seve-ras) 
al ciudadano. 
Para esto, de ordinario el estado se vale 
del uso asertivo y a veces desmedido de la ley. 
Toda intervención se va desarrollando por 
vía de intervenciones que se justifican en un 
estado de derecho, que sea en su aserción do-minante 
uno de mano dura (represión), o en 
su aserción de estado administrador, es cada 
vez más punitivo (el estado regulador). 
Ahora bien, esto sería más fácil si el es-tado 
lograse transmitir a sus ciudadanos un 
sentido de responsabilidad y deber, el cual 
redujese la conversación a los “buenos” y 
‘malos”. Es decir al ciudadano o ciudadana 
que cumple siempre con la ley; versus, el 
ciudadano o ciudadana que no cumple con 
la ley. Este momento del diálogo es impor-tantísimo 
– pues todo el montaje del estado 
represivo se torna más costoso, en la medida 
que el/la ciudadano/ciudadana promedio no 
cumple con sus obligaciones y deberes. Este 
es tal vez el momento más importante de la 
crisis – el incumplimiento del deber ciuda-dano/ 
a vis a vis la incapacidad del estado de 
intervenir sobre toda la población y mantener 
un régimen en apariencia de sistema demo-crático 
de poder 
Tomemos un ejemplo ocurrente que to-dos 
y todas comprendemos hoy en América 
Latina. Me refiero al asunto del narcotráfico. 
Es curioso pero ha emergido un consenso 
frágil aunque hegemónico (es decir con gran 
apoyo) de que las drogas/narco se deben le-galizar. 
Sin entrar en las diferencias morales 
sobre el tema, la mirada que han impulsado 
muchos estados es que les resulta más fácil 
administrar las drogas legalizadas, que repri-mirlas 
en su ilegalidad. 
No me parece que el estado/latinoameri-cano 
se ha convertido en ser irracional (con-trario 
a los postulados de la modernidad). Por 
el contrario, lo que me parece es que se hace 
un reconocimiento que no se puede luchar 
contra la población que mantiene dobles 
discursos en torno a las drogas/narco, por un 
lado de paz y no violencia, y por otro lado 
participa en la economía que genera este ru-bro. 
En esta medida, hay un reconocimiento 
que la ciudadanía coopera con la industria 
del narcotráfico, y más allá de asesinar/ser 
asesinado, confiscar o destruir sembradíos y 
capturas de drogas ilegales, será más fácil la 
intervención estatal por vía de la regulación. 
La derrota del estado, en apariencia y de for-ma 
momentánea, es una derrota sobre el de-recho. 
Es decir, la población ha modificado 
al estado y a su instrumento de comunicación 
principal: el derecho/la ley. 
En el país que vivo, Puerto Rico, se re-produce 
la misma lógica antes descrita. Un 
28% de cada dólar que transita en nuestra 
economía, viene de ilegalidades. De ahí 
entre un 5 a un 8 porciento de dicho dine-ro 
proviene del narcotráfico. Las cárceles 
(metropolitanas y estatales) están llenas de 
convictos por casos de drogas (algunos de 
violencia otros de tráfico). La población 
joven/varón entre 20 a 24 años muere en 
guerras de narcotráfico y asuntos de violencia 
asociadas a un ritmo estadístico de 200 por 
cada 100 mil habitantes. Al día de hoy el 
estado solo reprime. Los jóvenes y nosotros, 
seguimos muriendo. 
En fi n, que el derecho no es panacea. Es sólo 
un instrumento para hacer el bien social, el bien 
común. Cuando en su aplicación no funciona, 
pues no da los resultados necesarios para dicho 
bien común, se hace necesario re-pensarlo. En 
América Latina, con todas sus contradicciones 
coloniales y post-coloniales, ¿no estaremos en 
un momento de re-pensar al derecho? 
* Abogado, profesor y escritor, de ciencias sociales 
y de derecho. Vive y trabaja en Puerto Rico. 
ADVOCACIA CRIMINAL E EMPRESARIAL 
Rua México, 90 - Sala 310/313 
Centro - Rio de Janeiro / RJ 
Telefones: (21)7895 4100 (21) 2220 14 05
Estado de Direito n. 35 29 
Direitos Autorais 
Renata Soltanovitch* 
Ao longo dos anos, tenho buscado mate-rial 
jurídico para embasar a tese sobre os 
direitos autorais das obras psicografadas 
e sua respectiva proteção, principalmente quan-do 
a família do psicografado pretende evitar 
a circulação da obra por alegação de infração 
aos direitos autorais, plágio ou uso indevido de 
nome ou imagem do falecido. 
Muito pouco foi encontrado, principal-mente 
sobre o reconhecimento da psicografia 
e sua utilização como prova judicial. 
Constituição Federal 
Porém, não podemos deixar de citar 
alguns indicativos constitucionais, sendo os 
dois primeiros os incisos IV e IX do artigo 5º 
da Constituição Federal que protege a livre 
manifestação do pensamento e a livre expres-são 
da atividade intelectual e posteriormente 
o inciso VI do mesmo preceito constitucional 
que trata sobre a “inviolabilidade da liberdade 
de crença, sendo assegurado o livro exercício 
do culto religioso”. 
Doutrina 
Esta proteção constitucional será melhor 
entendida quando se perceber que o Magistra-do, 
ao julgar processos que envolvem direitos 
autorais de obras psicografadas, não puder se 
amparar pelo aspecto religioso, qualquer que 
seja sua religião, mesmo sendo espírita. 
Há poucos casos citados pela doutrina sobre 
ações envolvendo a psicografi a e direitos auto-rais. 
O mais famoso é da família de Humberto 
Campos que processou Chico Xavier e a Edito-ra, 
contado com clareza no livro “A psicografi a 
antes dos Tribunais” de Miguel Timponi. 
É importante destacar que, normalmente 
são as editoras especializadas em espiritismo 
que publica obras psicografadas, daí por-que 
E a tutela de urgência na proteção da obra psicografada 
o leitor – diga-se consumidor - que irá 
adquiri-lo, não se sentiria enganado com a 
obra comprada. 
No mais, normalmente o nome de quem 
psicografou acaba sendo destacado e o es-pírito 
que ditou ou inspirou a obra aparece 
também com tais indicações, ou seja, com a 
informação de que a obra foi ditada por um 
desencarnado. 
Assim, não se pode dizer que o livro 
psicografado deixa margem de dúvidas de 
quem seja efetivamente seu (suposto) autor, 
enganando o consumidor e esbarrando nas 
infrações do Código de Defesa do Consu-midor. 
Haverá sempre a indicação do escritor e 
do espírito que ditou a obra. 
Criação Intelectual 
Em linhas gerais, a obra psicografada terá 
sua proteção autoral como qualquer outro 
livro, quadro ou música, justamente por se 
tratar de uma criação intelectual. 
Portanto, seu autor – leia-se pessoa huma-na 
capaz de direitos e obrigações – terá sua 
obra protegida seja ela mediúnica ou não, 
ainda que tenha sido ditada, inspirada ou 
escrita por um espírito. 
E não poderia ser diferente, na medida 
em que nem o legislador e muito menos o 
Julgador poderá reconhecer a existência de 
uma fé – no contexto religioso - em detri-mento 
de outra. 
*Advogada civilista, mestre pela PUC-SP, especialista 
em Direito de Entretenimento pela ESA/SP, autora 
dos Livros “Responsabilidade Processual e Direito 
Autoral: A tutela de urgência na proteção das obras 
psicografadas” e “Direitos Autorais e a proteção das 
obras psicografadas” pela editora Leud. 
Ninguém duvida que é necessário fazer 
algo diante de um dos maiores pro-blemas 
sociais brasileiro: as milhares 
crianças e adolescentes que se encontram em 
abrigos, à espera de um lar. 
Quando os pais não assumem ou foram 
afastados dos encargos decorrentes do poder fa-miliar, 
a responsabilidade para com este enorme 
contingente de cidadãos do amanhã precisa ser 
assumido por todos. Daí o número crescente 
de programas tanto do Conselho Nacional de 
Justiça – CNJ, como da Associação Brasileira 
de Magistrados – AMB incentivando a adoção. 
Afi nal não existe outra forma de dar efetividade 
ao comando constitucional que assegura a crian-ças 
e adolescentes, com prioridade absoluta, o 
direito à convivência familiar. 
No entanto, sucessivas alterações no Estatuto 
da Criança e do Adolescente e a falta de sensi-bilidade 
de alguns juízes e promotores acabam 
praticamente por inviabilizar a adoção. O intuito 
de proteger acaba por burocratizar de tal forma 
os sucessivos e morosos procedimentos, que a 
adoção se torne um verdadeiro calvário, não só 
para quem quer adotar, mas principalmente para 
quem anseia por uma família. 
Abandono 
É absolutamente equivocado o prestígio que 
se empresta à família natural, quando se busca 
manter, a qualquer preço, o vínculo biológico, na 
vã tentativa de manter os fi lhos sob a guarda dos 
pais ou dos parentes que constituem a chamada 
família estendida. 
Essas infrutíferas tentativas fazem com 
que as crianças, ao serem rejeitados por seus 
pais e parentes, acumulem sucessivas perdas e 
terrível sentimento de abandono que trazem 
severas sequelas psicológicas. Somente depois 
de vencida esta etapa é que tem início a ação 
de destituição do poder familiar. Finalizado 
o processo, que por vezes demora anos, é 
que fi nalmente ocorre a inscrição no cadastro 
da adoção, permanecendo a criança institu-cionalizada 
às vezes por muitos anos. Neste 
percurso ela perde a sua infância, período mais 
signifi cativo para o sadio desenvolvimento e a 
construção da própria identidade. 
Crianças Pequenas 
Ela cresce e geralmente perde a possibili-dade 
de ser adotada, pois o interesse dos can-didatos 
à adoção é por crianças pequenas. 
Por isso é necessário que se priorize 
o interesse de quem tem o constitucional 
direito de ser protegido e amado, e não o 
pretenso direito de pais e familiares que 
não souberam ou não quiseram assumir os 
deveres parentais. 
Afi nal, não é o elo biológico que merece 
ser preservado. São os vínculos afetivos que 
precisam ser assegurados a quem tem o direito 
de ser amado como fi lho. 
*Advogada especializada em Direito das Famílias, 
Sucessões e Direito Homoafetivo. Ex-Desembargadora 
do Tribunal de Justiça-RS. Vice-Presidenta Nacional 
do IBDFAM. www.mbdias.com.br 
Adoção 
Maria Berenice Dias* 
E o direito constitucional à convivência familiar
30 Estado de Direito n. 35 
Direito no Cárcere recebe a Cocada Preta 
Oprojeto Direito no Cárcere recebeu 
no dia 27 de abril, na Galeria Luz no 
Cárcere, Presídio Central de Porto 
Alegre (PCPA), a presença da banda Cocada 
Preta Música Brasileira. Nos orgulha muito em 
poder oportunizar esse encontro - com apoio 
da Brigada Militar, Susepe, Vara de Execuções 
Criminais, Ministério Público do RS e Jornal 
Estado de Direito estamos apresentando à socie-dade 
um olhar do sistema carcerário de dentro 
para fora. Sabemos das complexidades existentes 
no PCPA. Estamos fazendo a nossa parte para 
mudar essa história. 
Todos nós somos responsáveis com o atual 
cenário do PCPA - temos que participar mais, in-centivar 
medidas diferentes para que a crimina-lidade 
diminua e a inclusão aumente. Obrigada 
a todos que colaboram com o Projeto. Especial 
a Gustavo Nunes por acreditar e me ajudar a 
levar a Banda pra lá! Veja alguns depoimentos 
dos detentos integrantes: 
Eduardo Fadin Estevez 
Foi um evento inédito. Acredito que tenha 
sido a primeira vez na história do Central. Além 
de ter um ritmo bem bacana, achei divertido e 
motivante! 
Nelson Raupp 
Para a gurizada do Cocada Preta um abração, 
valeu pela visita, esperamos outra. Até Breve! 
Heber Luis Trindade Moreira 
Achei uma atitude bem bacana por parte 
deles, além de ter uma música que lembra a 
nossa realidade, nos mostra que tem como 
melhorarmos e nos tornarmos pessoas melhores 
através da música. 
Hermes Fernando Silva Mentes 
Gostei muito de conhecer a banda de vocês, 
me senti feliz, pois me fi zeram lembrar dos 
momentos de quando eu tinha uma banda. Um 
abraço pra vocês todos e que Deus ilumine os 
caminhos de vocês e os orixás também. Axé... 
Chocolate de Canto! 
Gerson Ben-Hur 
E aí manos do Cocada Preta, espero que 
vocês venham a trazer mais esses minutos de 
liberdade e alegria com a música. Quero agra-decer 
pelos minutos que vocês trouxeram para 
nós, detentos do Central que, de repente, foi 
uma experiência muito boa! Que continuem 
com esse trabalho que é muito bom. A Carmela 
sempre diz que a música traz a alegria e para 
mim é verdade. Tudo de bom para vocês! 
Encerro esse texto com a mensagem da 
Banda Cocada Preta: 
Gustavo Nunes 
Foi um grande prazer poder participar 
do projeto Direito no Cárcere, que através 
da música e artes em geral, visa a reintegra-ção 
dos apenados a sociedade. Para a banda 
vlogliberdade 
Cocada Preta foi uma experiência riquíssima, 
pois tivemos a oportunidade de conhecê-los 
e saber um pouco mais da realidade prisio-nal. 
Quando começamos a tocar houve uma 
troca de energia muito positiva entre nós e 
os presos, pois o objetivo era esse mesmo, 
trocar idéias, experiências, vivências e pro-porcionar 
a eles uma tarde repleta de música 
e pensamentos positivos. 
Carmela Grune* 
CARMELA GRUNE 
Populismo Penal 
Augusto Jobim do Amaral* 
Enorme gama de confl itos ainda hoje é 
pensada prioritariamente sob a ótica da 
solução penal. O fenômeno populista 
também permeia grupos sociais dispostos a 
veicular suas justas demandas, estendendo a 
reação punitiva a estratos que tradicionalmente 
passam imunes à intervenção do sistema penal, 
esquecendo-se da funcionalidade repressora, 
estigmatizante e, sobretudo, seletiva, de qualquer 
atuação neste sentido. Assusta quando, de 1989 
até 2006, foram aprovadas mais de 84 leis sobre 
“justiça criminal e segurança pública” no Brasil 
pautadas pela tríade lei punitiva, tramitação 
rápida e restrição de garantias fundamentais. 
Ademais, entre 2003 a 2006, independente do 
quadro político-partidário, foram trazidas ao 
Congresso Nacional 646 propostas de alterações 
de dispositivos penais, em que apenas 20 não 
tiveram alguma preocupação repressivista. 
Soluções Penais 
Afi nal: por que os governos recorrem tão 
rapidamente às soluções penais? Claramente 
porque as ditas panacéias são imediatas, fáceis de 
implementar legislativamente, possuem poucos 
opositores políticos, vão ao encontro das ideias 
do senso comum acerca da atribuição de culpas 
pela desordem social e, sobremaneira, sempre 
se poderá alegar que “funcionam” com respeito 
ao fi m punitivo, senão em toda a extensão, é 
porque deveriam ter sido mais radicais. Refl etir 
sobre isto passa pelo exame radical daquilo que 
poderíamos chamar de ostensão penal (aclamação 
securitário-populista em matéria penal), levan-do- 
se a aprofundar o panorama do populismo 
punitivo para além da própria vontade de punir 
e impulsionando todos a inquirir profunda-mente 
a “razão” mesma do desejo punitivo que 
pode mover estas práticas generalizadamente. 
Visualizar o populismo como um modo de cons-truir 
o político traz a perspectiva do estudo da 
formação de identidades coletivas: não os gru-pos, 
mas as demandas. O afeto como constante 
central da ação política faz não menosprezar a 
vagueza e imprecisão conceituais encontradas 
no populismo. Nesta indeterminação há um ato 
performativo dotado de racionalidade própria, 
que permite a associação de demandas hetero-gêneas 
e o dota de coesão interna. No tocante a 
estes jogos de diferenças que ganham centralidade 
hegemônica, a ilustração das diversas iniciati-vas 
penalizantes nas mais diversas áreas são 
catapultadas a signifi cantes vazios (porque não 
dizer, “bens jurídicos”?) que atam fi rmemente 
a cadeia do discurso punitivo. Nesta vertente, 
as demandas sociais, quando insatisfeitas, por 
uma incapacidade institucional de resolvê-las 
diferencialmente, acabam por potencializar uma 
certa carga equivalencial “simplifi cadora” entre 
elas, facilmente, unifi cando as demandas em 
torno da questão punitiva. 
Fronteiras Antagônicas 
Em sendo a construção do povo não só o ato 
político por excelência (momento de formação 
de fronteiras antagônicas dentro do social, con-vocante 
de novos sujeitos e de signifi cantes vazios 
com o fi m de unifi car, em cadeias equivalenciais, 
um conjunto de demandas heterogêneas), mas 
o rasgo defi nidor do populismo, diretamente 
à questão: e se para esta constituição certa 
contingência conduzir à simplifi cação penal? 
Não será o valor da Democracia, dentro deste 
cenário de ostensão punitiva, um signifi cante vazio 
pronto a defi nir uma política penal repressiva? 
Tamanha é a centralidade do poder punitivo no 
atual esquema democrático constitucional que 
não é temerário ver o palco das atuais relações 
de força e suas tendências populistas aportarem 
cada vez mais identidades políticas prontas a 
demandar a hegemonia do discurso punitivo. 
Se, nas sociedades modernas democráticas, o 
maior perigo não é o delito em si, mas que a luta 
contra ele conduza aos piores totalitarismos, 
a resignação e o pessimismo não poderão ter 
acento fi rme. Em tempos sombrios, é capital 
não ceder no discurso de resistência, escapando 
do “espírito do tempo” que tantas vezes ensaiou 
desculpas às piores atrocidades. Certamente, 
esta é a prova a ser cumprida reiteradamente 
pelo Estado Democrático de Direito. 
*Doutor em Altos Estudos Contemporâneos pela 
Universidade de Coimbra (Portugal); Mestre e 
Especialista em Ciências Criminais pela PUCRS e 
Professor de Direito da PUCRS.
Estado de Direito n. 35 31 
No Programa de TV Orientando Direito, apresentado por Waldir de Pinho Veloso, no Canal 20, de Montes 
Claros/MG, divulgando a par ticipação do projeto “Samba no Pé  Direito na Cabeça” no IX Congresso 
Brasileiro de Direito e Teoria do Estado. Na foto Misael Tirado Acero, Florestino Nascimento, 
Roberto de Oliveira, Luiz Carlos da Silva, Carmela Grune, Richardson Xavier Brant, 
Waldir de Pinho Veloso e Equipe de Produção. 
Lançamento dos livros “Samba no Pé  Direito na Cabeça” e “Par ticipação Cidadã na Gestão Pública: a experiência 
da Escola de Samba de Mangueira“, publicados pela Editora Saraiva, sob coordenação de Carmela Grüne, na Livraria 
Saraiva do Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre. Foto Gustavo Pinheiro 
Projeto “Samba no Pé  Direito na Cabeça” realizado na Celer Faculdades, em Xaxim/SC, debateu 
“Futuro dos Direitos Humanos, Ensino Jurídico e Sensibilidade Democrática” com a participação 
dos professores Marcio Soares Berclaz, Samuel Mânica Radaelli e Vinicius Mozetic. 
Assista pela internet http://youtu.be/Ntk-eVSyj4s. 
Camila Breitenbach palestra no projeto Desmitificando o Direito, com o tema “Desmitificando os Direitos dos Idosos”, na Livraria 
Saraiva do Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre. Assista pela internet http://youtu.be/sWQZLFJhavw 
Jorge Terra palestra no Projeto Desmitificando o Direito com o tema “Sambando em direção à diversidade étnico-racial”, 
na Livraria Saraiva do Moinhos Shopping, em Porto Alegre. Foto Anderson Cruz. 
Assista pela internet http://youtu.be/oh56FTziuRI 
Ana Paula Motta Costa palestra no Projeto Desmitificando o Direito, realizada em Porto Alegre, na Livraria Saraiva do Praia de 
Belas Shopping, com o tema “Os Direitos Fundamentais dos Adolescentes: da invisibilidade à indiferença”. 
Assista pela internet http://youtu.be/ZUxIZqWt5s8. 
www.ceunsp.edu.br • 0800 10 95 35 
Paulo Lopo Saraiva palestra no Projeto Desmitificando o Direito, com o tema “A Tetradimensionalidade do Direito: 
a justiça como quarta dimensão jurídica”, na Livraria Saraiva do Pátio Paulista, em São Paulo. 
Assista pela internet http://youtu.be/eagpl9jOVAs.
EEssttaaddoo ddee EEExxxccceeeçççãããooo BRASIL • N° 08 • ANO II • 2012 
Recartografi a Social 
O Jornal Estado de Exceção atento 
às contribuições da neurociência, 
decodifi ca as sensorialidades do direito, 
para melhorar a consciência refl exiva 
coletiva. Temos a capacidade humana 
de modifi car a realidade, precisamos 
é gerar novos comportamentos, 
emoções e signifi cados para vivenciar 
experiências jurídicas diferentes das 
tradicionais. Com mais expressão e 
liberdade, identifi cação e alteridade, 
a cidadania é potencializada. Nesta 
edição, Rosa Maria Blanca através 
da obra ambígua de gênero de Del 
Lagrace Volcano destaca a necessidade 
de uma recartografi a social, face ao 
sistema de dois-sexos contemplado no 
direito. Leia na página 18. 
Telhados do 
mundo 
João Caetano, pela fábula O Gato 
Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge 
Amado, faz uma leitura crítica sobre a 
liberdade e a alegria que deveriam ser 
temas de ensino obrigatório nas escolas. 
Página 25 
Adolescentes 
Ana Paula Motta Costa analisa da 
invisibilidade ao reconhecimento dos 
direitos fundamentais dos adolescentes, 
previstos no ordenamento jurídico 
brasileiro e internacional. 
Página 26 
Solidariedade 
Ricardo Timm de Souza levanta 
aspectos sobre o conceito de tolerância 
com o intuito de aprofundar e evoluir 
o conhecimento em relação ao tema 
solidariedade no mundo contemporâneo. 
Página 27 
Quando os 
animais ocupavam 
o banco dos réus 
Geraldo Miniuci relata história 
escrita em 1522, por William Ewald, 
quando os animais eram considerados 
responsáveis por seus atos, assim como 
os humanos, e estimula a reflexões 
sobre os valores e crenças encontrados 
na atualidade. 
Página 16 
Veja também 
Página 05 
Coronelismo ontem e hoje 
Lucas de Laurentiis fala 
sobre as práticas políticas 
de trocas e favores, onde 
vale a relação de amigos 
e o apadrinhamento, não 
o mérito, historicamente 
na estrutura da República 
Brasileira 
Página 19 
Confi guração físico-cênica 
dos nossos tribunais 
Fábio Feliciano Barbosa 
reconhece a necessidade 
da aplicação do princípio 
da equidistância física 
entre as partes, para que a 
confi guração se ajuste pelo 
bem da democracia 
Página 22 
Sistema Oceânico 
Paulo Magalhães apresenta 
proposta de governança 
integrada de utilização 
e aproximação jurídica 
para ultrapassar a 
desterritorialização das 
funções ecossistêmicas 
relativamente aos Estados 
Página 24 
Convite à voz 
Rita Fucci-Amato disserta 
sobre a importância da voz 
e recomenda o cuidado 
no uso desse admirável 
instrumento de cidadania 
que possuímos 
Rosa Maria Blanca propõe recartografar o social como 
alternativa para o sujeito de Direitos 
RENAN VIANA 
Página 19 
Direito Alternativo 
José Manuel Sacadura 
Rocha defende o direito 
alternativo, não como 
um movimento, mas um 
conjunto de princípios 
e valores garantidores 
da aplicação da lei com 
justiça social 
Populismo Penal 
Augusto Jobim do Amaral examina 
a cultura penal punitiva na 
contemporaneidade, face às demandas 
sociais e a incapacidade institucional de 
resolvê-las diferencialmente. 
Página 30 
Agenda 
Cultural Estado 
de Exceção 
15 e 16/06, XVIIª edição da 
Jornada Internacional de Direito, 
em Gramado/RS. 
20 a 22/06, I Semana de Estudos 
Jurídicos, na Faculdade de 
Ciências Humanas do Sertão 
Central, em Salgueiro/PE. 
25/06, Lançamento dos livros 
“Participação Cidadã na Gestão 
Pública” e “Samba no Pé  Direito 
na Cabeça”, na Livraria Saraiva 
em Recife/PE. 
27/06, VIII Colóquio Internacional 
do IJI, em Portugal +Informações 
em www.estadodedireito.com.br

ESTADO DE DIREITO - 35 EDIÇÃO

  • 1.
    Estado de DireitoBRASIL • N° 35 • ANO VI • ISSN 2236-2584 Prestação Jurisdicional O Jornal Estado de Direito tem a missão de criar, promover e divulgar a cultura jurídica popular como instrumento de cidadania. Para tanto, potencializa a palavra, o resgate de “sentir” o direito, a fi m de gerar novos comportamentos, emoções e signifi cados e vivenciá-lo como fenômeno cultural, evitando quando possível a judicialização da vida. Nesta 35ª edição o destaque é o artigo de Eduardo Arruda Alvim, que aborda a questão do efeito suspensivo do recurso de apelação e da efi cácia das decisões, com garantias de acesso efetivo ao Poder Judiciário e a razoável duração do processo no projeto de Lei do novo Código de Processo Civil. Leia na página 14. América Latina Bruno Espiñeira Lemos critica a injustiça em virtude da corrupção por omissão de políticos coniventes com o sistema, concorrendo para perpetuar o ciclo de desigualdades econômicas e sociais em nome de benefícios próprios. Página 04 Saúde Pública Álvaro Nagib Atallah assevera a importância da pesquisa científica na transmissão de conhecimento preventivo para racionalizar o problema do Direito e da Saúde em prol da dignidade da pessoa. Página 06 Xenofobia europeia Gustavo Oliveira de Lima Pereira comenta a Diretiva de Retorno da União Europeia, que criminaliza os imigrantes, e as expectativas do cenário político com o novo governo francês. Página 08 A efetividade do acesso à justiça pela conciliação Susana Bruno põe em discussão a efetividade de direitos, através da utilização das ADRs e a necessidade de desenvolver outras bases teóricas com as demais ciências, entre as quais a psicologia, a comunicação social, a sociologia, a estatística para o aumento da satisfação do jurisdicionado. Página 15 Veja também Página 12 Quebra do sigilo bancário Rafael Eduardo de Andrade Soto adverte sobre a relativização criada pela ausência do devido processo legal e o desrespeito às normas legais e constitucionais Página 20 Privilégio e foro privilegiado Djalma Pinto aponta falha na legislação que leva à impunidade e à ausência de julgamento dos ocupantes de cargos políticos no Brasil Página 20 Revisitando os Três Poderes Samuel Mânica Radaelli aborda a separação dos Poderes e o risco da cassação das decisões do Supremo pelo Congresso Nacional O professor Eduardo Arruda Alvim destaca a subtração do efeito suspensivo à apelação no projeto do novo CPC AP Página 14 A mediação no novo CPC Humberto Dalla Bernardina de Pinho explica as diferenças entre mediação e conciliação, práticas a serem utilizadas pelos magistrados antes do julgamento, conforme a sistemática do novo CPC Relações de Consumo Marcos Dessaune discute a proteção dos direitos dos consumidores, desprezada diante da lesão temporal indesejada, que impacta a vida diária negativamente, fruto de atos ilícitos de fornecedores. Página 10 Eventos Gratuitos Agenda Cultural Estado de Direito 19/06, Palestra “As consequências da participação das entidades do terceiro setor”, em Porto Alegre/RS. 21/06, Palestra “Quando o tamborim ajuda entender Direito e Política”, em Fortaleza/CE. 26/06, Palestra “O Direito Alternativo como Alternativa ao Direito”, em São Paulo/SP: +Informações em www.estadodedireito.com.br Página 29 Direito constitucional à convivência familiar Maria Berenice Dias ressalta o caráter de prioridade do afeto, o qual merece ser preservado como princípio para a adoção, ao invés do equivocado prestígio ao elo biológico
  • 2.
    2 Estado deDireito n. 35 Estado de Direito Apoio *Os artigos publicados são de responsabilidade dos autores e não re-fl etem necessariamente a opinião desse Jornal. Os autores são os únicos responsáveis pela original criação literária. Tempos de Desapego ISSN 2236-2584 CCCaaarrrmmmeeelllaaa GGGrrrüünnee* Edição 35 • VI • Ano 2012 Estado de Direito Comunicação Social Ltda. CNPJ 08.583.884/0001-66 Porto Alegre - RS - Brasil Rua Conselheiro Xavier da Costa, 3004 CEP: 91760-030 - fone: (51) 3246.0242 e 3246.3477 skype: estadodedireito e-mail: contato@estadodedireito.com.br site: www.estadodedireito.com.br siga-nos::: wwwwwwwww...tttwwwiiitttttteeerrr...cccooommm////eessttaaddooddeedireito Diretora Presidente Carmela Grüne Jornalista Responsável Cármen Salete Souza MTb 15.028 Consultoria Jurídica Renato de Oliveira Grüne OAB/RS 62.234 Colaboraram na 35ª Edição Renata Guadagnin, Maurício Vitória, Diego Marques, Ilani Nunes Anúncios teleanuncios (51) 3246.0242 (51) 9985-7340 comercial@estadodedireito.com.br Organização de Eventos (51) 9985-7340 contato@estadodedireito.com.br Diagramação Jornal Estado de Direito Fotografi a Renan Viana (91) 8203-6860 http://www.fl ickr.com/people/renan_viana Tiragem: 50.000 exemplares Pontos de Distribuição em 15 Estados brasileiros Acesse http://www.estadodedireito.com.br/distribuicao PORTO ALEGRE 1001 Produtos e Serviços de Informática: Rua São Luís, 316 Renato de Oliveira Grüne: Rua dos Andradas, 1270, sala 21 Livraria Saraiva: Porto Alegre Rua dos Andradas, 1276 - Centro Av. Praia de Belas, 1181 - 2º Piso - Loja 05 Rua Olavo Barreto, 36 - 3º Piso - Loja 318 e 319 Av. João Wallig, 1800 - 2º Piso - Loja 2249 Av. Diário de Notícias, 300 - loja 1022 Caxias do Sul: Rodovia RSC, 453 - Km 3,5 - nº 2780 - Térreo Curitiba: Av. Candido de Abreu, 127 - Centro Florianópolis: Rua Bocaiuva, 2468 - Piso Sambaqui L1 Suc 146, 147 e 148 Acesse www.livrariasaraiva.com.br confi ra os demais endereços das lojas em que você poderá encontrar o Jornal Estado de Direito. Livraria Revista dos Tribunais Acesse o sitewww.rt.com.br confi ra os endereços das mais de 64 lojas da Editora RT em que o Jornal Estado de Direito é distribuído gratuitamente. PAÍSES Através de Organismos Internacionais, professores e colaboradores o Jornal Estado de Direito chega a Portugal, Itália, México, Venezuela, Alemanha, Argentina, Ucrânia e Uruguai São mais de 600 pontos de distribuição. Contate-nos carmensalete@estadodedireito.com.br, distribua conhecimento e seja um transformador da realidade social! Vivenciamos uma cultura que valoriza o ter, pelo ser. É uma enxurrada de informação dizendo o que, quando e porque devemos consumir. São padrões que acabam ferindo a nossa dignidade. O ser diferente caminha ao isolamento, à exclusão espon-tânea por não fazer parte de um tipo social aceitável como politicamente correto. Nessa onda, acabamos sendo levados a guardar bens, os quais usamos uma, duas, no máximo, três vezes, naquela prateleira cheia de pó que só é limpa quando alguém resolve organizar as coisas. Colecio-namos produtos como roupas, instrumentos, calçados, eletrodomésticos que deixam de ter utilidade pelos novos objetos de desejo, pela tecnologia que a cada dia apresenta uma novidade. Em parte, esse aparato surge para facilitar a vida, aproximar pessoas, melhorar a comunicação, mas temos que saber separar o joio do trigo, perceber o que realmente surge para o beneficio da humanidade e aquilo que é um produto descartável, com prazo de validade contado. Porque o resultado da nossa escolha pode gerar males que vão desde a degradação ambiental ao trabalho escravo. Ler o rótulo do produto, saber como e por quem é feito, dando prioridade para aqueles que respeitam a nossa dignidade. Sim, porque a partir do momento que consumimos um produto difícil de descartar, a natureza vai processar e responder de tal maneira que a gente nem imagina, colocando em risco a nossa vida e das futuras gerações. De outro lado, quando vimos aquelas belas vitrines de roupas, com um preço tenta-dor, temos que desconfiar daquilo que é oferecido, não apenas pela sua qualidade, mas principalmente pela procedência. Que mãos tiveram o trabalho de fazer, a que preço pessoas estavam trabalhando para viver ou sobreviver? Os jornais denunciam as grandes lojas de roupas oferecendo produtos oriundos do trabalho escravo. Escravidão existe sim. Revestida na falsa expectativa e promessa de uma vida melhor na cidade grande. Não podemos ser coniventes. A informação é o caminho para escolhermos o destino que daremos para a nossa vida e da coletividade. O consumo também está associado à busca do pra-zer imediato. Curar dores e feridas pela rejeição, falta de diálogo, “promessas de vida”. É mais fácil sair por aí preenchendo o vazio do coração com uma casa cheia de bens, os quais estão lá, como troféus. Resgatar o sentido da solidariedade, compartilhando aquilo que podemos é também uma maneira de gerar novos sentimentos e fortalecer um em especial: a alteridade. Satisfação pessoal não pode ser sinônimo de capa-cidade de adquirir coisas, mas sim na quantidade de ações positivas que conseguimos realizar para reduzir as diferenças sociais ao nosso redor. O prazer é algo tão profundo e merece cada vez mais estudo, porque é a partir dele que resultam comportamentos: de ódio, de posse, de exclusão, de conflito, de poder. Estudar a relação da neurociência com o direito é um caminho que estou trilhando para descobrir formas de significar o direito de modo di-ferente, vivenciando novas experiências de apreensão do conhecimento jurídico, menos dor e conflito, mais prazer, solidariedade e justiça. Comprei recentemente o livro “E o cérebro criou o homem”, de António R. Damásio e uma das ideias é como a homeostase sociocultural pode ajudar o homem a modificar o cérebro e gerar novos comportamentos, emoções e significados para viver com mais harmonia, alteridade e prazer. Apego às pessoas e desapego aos bens materiais. Se Damásio afirma que “a elaboração de leis e regras morais e o desenvolvimento de sistemas de justiça constituem uma resposta à detecção de desequilíbrios causados por comportamentos sociais”, que políticas públicas precisamos desenvolver para estimular com-portamentos que gerem maior emancipação, desen-volvimento de negócios que respeitem a condição do outro, e a nossa própria sustentabilidade? Convido vocês a estarem atentos ao que acontece com seus sentidos e lanço o desafio de criar espaço nas nossas vidas para receber amor e gratidão. Aqueles livros, CDs, sapatos, tênis, roupas que você já curtiu, vai ser a alegria de pessoas que precisam para viver com um pouco mais de dignidade. O Projeto Direito no Cár-cere, realizado na Galeria Luz no Cárcere, do Presídio Central de Porto Alegre, está recebendo doações, acesse o vídeo “Tempos de Desapego: Campanha Inverno Che-gando”, http://youtu.be/x7SawrXo1uQ, comece pelas pequenas ações, cotidianas e tão importantes quanto às grandes. Seguimos nessa evolução, na busca constante de conhecimento. “Afinal, se coisas boas se vão é para que coisas melhores possam vir. Esqueça o passado, desapego é o segredo!” Fernando Pessoa * Diretora do Jornal Estado de Direito. Advogada. Jornalista. Radialista. Mestre em Direito pela UNISC. Autora dos livros Participação Cidadã na Gestão Pública: a experiência da Escola de Samba de Mangueira e Samba no Pé & Direito na Cabeça, pela Editora Saraiva. www.carmelagrune.com.br
  • 3.
    Estado de Direiton. 35 3 Os cartórios de São Paulo e Rio de Janeiro agora contam com obras únicas em sua categoria Os novos Códigos de Normas da Corregedoria Geral de Justiça de São Paulo e Rio de Janeiro representam obras únicas recomendadas para notários, registradores, escreventes e advogados que militam no Direito Imobiliário, juízes e promotores. de notários e registradores VADE MECUM RRRRRRRRR$$$$$$$$$63,20 DE: R$ 79,00 PPPPPPOOOOOORRRRRR:::::: 552 páginas CÓDIGO DE NORMAS DA CORREGEDORIA GERAL DE JUSTIÇA DO RIO DE JANEIRO R$777777777777777777888888888888888888,40 DE: R$ 98,00 PPPPPPOOOOOORRRRRR:::::: 720 páginas CÓDIGO DE NORMAS DA CORREGEDORIA GERAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO - Normas vigentes nos estados de SP e RJ - Leitura complementar para os estudantes de Direito - Versão impressa das normas a serem utilizadas em cartórios - Indicado para quem deseja prestar concurso em SP ou RJ - Leis federais que dispõem dos requisitos para a lavratura de escrituras públicas - Leis tributárias que regulamentam o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis - Normas do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis e Imposto Predial e Territorial Urbano - Consolidação da Legislação Tributária do Município de SP e RJ Adquira agora e aproveite a promoção especial que preparamos! de desconto % + frete grátis! Conheça também! DIREITO AGRÁRIO Uma ferramenta útil a quem busca um primeiro contato com o Direito Agrário. RRRRRRRRR$$$$$$$$$333333333333333333555555555555555555,222222000000 DE: R$ 44,00 PPPPPPOOOOOORRRRRR:::::: 240 páginas Oferta válida até 15/08/2012 Compre pelo: wwwwww..EEddiittoorraaAAttllaass..ccoomm..bbrr 0800 17 1944 ou em uma de nossas filiais
  • 4.
    4 Estado deDireito n. 35 O despertar da América Latina e do Brasil Bruno Espiñeira Lemos* Existe no Brasil uma “elite pensante” que insiste em tentar “obnubilar” a percepção evidente das qualidades do governo do primeiro presidente da República, efetivamente oriundo das camadas mais populares do País e que segue com a primeira presidenta da história brasileira atuando de maneira digna de uma estadista, aliás, como fora o seu antecessor. Essa “elite” que carrega doses incômodas de rancor e inveja que beira à patologia e é capitaneada por um ex-presidente da República do Brasil e ex-sociólogo por renúncia expressa e convicta do pensar crítico de outrora, não se cansa de destacar um momento que entende ser de apatia social diante da corrupção reinante nos referidos governos. Corrupção A cada leitura ou oitiva de tamanhas distorções deliberadas, surge-me de ime-diato em mente, um pequeno artigo, porém intenso e fundado em dados estatísticos que publiquei nos idos de 1998, intitulado: “O cenário global e uma análise crítica acerca do processo de desestatização brasileiro”. Choca-me permanentemente a desfaçatez de um “rei nu” falando de corrupção. Chego a recordar-me também de um vestal Senador da República que até pouco tempo atrás era tido como um candidato à beatificação, tamanha a sua virulência contra a tal da corrupção e que hoje aguarda em processo degradante a sua ida sem volta ao inferno de Dante. Carlos Cachoeira Sigamos com o tema da “corrupção” tão em voga na grande mídia depois do caso “Charles Waterfall” como fi cou conhecido em terras estrangeiras o famoso Carlos Cachoeira. Os tais fenômenos de corrupção propalados com grande destaque existem, existiram e seguirão existindo. No Brasil, completamos 512 anos, no mundo seguem os milênios a contemplar-nos. Este fenômeno humano e demasiadamente humano por excelência encontra e encontrará níveis de reprovação proporcionais aos avanços civilizatórios. Mais relevante do que as práticas aperfei-çoadas dos desviantes-desviados, nenhuma delas menos nefastas, embora haja quem entenda haver gradações, é a questão dos métodos de controle e combate à corrupção, cuja proporcional transparência que hoje encontramos na sociedade, no caso, o Brasil é inegável. Celso Furtado Não posso aqui deixar de recordar o grande brasileiro Celso Furtado, quando em sua obra “Criatividade e dependência na civilização industrial”, ao destacar a revolta de Nietzsche contra Kant, aponta para os julgamentos sintéti-cos a priori do mundo moral deste último, que, inobstante destruíssem as bases do autoritaris-mo, ao mesmo tempo sancionava as forças que levariam à “mediocrização” da sabedoria e ao empobrecimento da vida ao mesmo tempo em que exacerbariam o interesse pela explicação do comportamento das coisas. O Governo Lula e agora o de Dilma não encontram precedente no que diz respeito ao controle, à transparência e ao efetivo combate à corrupção, o que não se pode esquecer é que a política possui uma “ética” distinta da moral comum, tema, aliás, que se pode tratar em outro momento; lembremos ainda que esse sonhado combate é obra de um trabalho coletivo, que envolve cada cidadão, desde as mais simples práticas diárias com o guarda da esquina, na mesa de jantar com os fi lhos, no “Iluminado ao sol do novo mundo” votar e em todas as demais práticas sociais e profi ssionais. Corrupção não acaba nunca, nem no Brasil, nem na Finlândia ou quiçá no Japão, a maneira de tratar o assunto muda e o passo mais importante foi dado nesses governos que aqui menciono, com a criação e/ou fortaleci-mento de órgãos e instituições (vide a CGU, por exemplo), sem falar do Ministério Público e do Judiciário que tem amadurecido com a fl orescente democracia brasileira. Futuro Há futuro e esperança para a América Lati-na, pois, quanto ao Brasil, a Argentina mesmo com todos os seus problemas internos, o Uru-guai, a Venezuela ou o Equador - efetivamente também há críticas a serem feitas - esses países, fi nalmente, com seus atuais governos leram Rousseau em especial sua obra “A origem da desigualdade entre os homens”, quando assevera que a desigualdade reina em todos os povos civilizados, embora contrarie todas as leis da natureza de qualquer modo que se a defi na (desigualdade), do mesmo modo que contraria as leis da natureza que um menino mande em um velho, que um punhado de pessoas goze de coisas supérfl uas, enquanto a multidão faminta carece do necessário. * Advogado, procurador do Estado da Bahia, Mestre em Direito, ex-procurador federal, membro da Comissão Nacional de Acesso à Justiça do Conselho Federal da OAB. O Governo Lula e agora o de Dilma não encontram precedente no que diz respeito ao controle, à transparência e ao efetivo combate à corrupção RENAN VIANA
  • 5.
    Estado de Direiton. 35 5 Coronelismo ontem e hoje Lucas de Laurentiis* Falar em coronelismo pode soar anti-quado. Mas não é. O coronelismo não foi um acidente de nossa história. É simples entender o porquê disso. A legislação republicana ampliou as bases da representa-ção popular e comprimiu o poder político e econômico dos municípios. Endividados, falidos, mas ainda com grande prestígio pe-rante o eleitorado local, os coronéis tiveram uma única saída: trocar favores políticos pela subvenção econômica da União. Por isso, o coronelismo foi “a maneira pelas quais as relações de poder se desenvolviam na primeira república a partir do município” (Victor Nunes Leal, Coronelismo enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978, p. 13). Poder Político Uma das decorrências dessa difusão do poder político foi que o conflito político assumia características de uma simples disputa política entre coronéis. Era um dos primeiros indícios de um fenômeno comum da vida política de nosso país. As questões e os conflitos políticos deixaram de ser ma-téria de interesse da população. E a causa desse distanciamento é evidente. Como as demandas e problemas políticos eram, e ainda são, resolvidos com fundamento em critérios puramente pessoais, não havia razão para que a população se interessasse pela política. A apatia política da sociedade brasileira surgiu nesse contexto. Como a disputa política cinge-se simplesmente em saber quem, dentre os detentores de poder local, ganhará o maior apoio do governo central, a população não tem espaço para se manifestar ou se interessar. Os coronéis de ontem e os lideres do poder regional de hoje tem isso em comum: para eles o voto de seus agregados é a única possibilidade de fundamentar seu poder pessoal. Poder Local No sistema político do coronelismo, só o município que tivesse como líder um coronel simpático ao Governo teria verbas suficientes para a sua sobrevivência. Com isso, todos os coronéis tinham “carta branca” para conso-lidar o seu poder nos municípios seja pela indicação de qualquer funcionário pública, seja pela condução arbitrária de todo e qual-quer procedimento. Ao suportar e incentivar tal clientelismo, a União recebia o apoio eleitoral das bases controladas pelo coronel. Não é muito diferente do que ocorre hoje. Pressionado por lideranças locais que dão suporte eleitoral às candidaturas nacionais, o Governo central tem de conceder favores os mais diversos. Dentre eles, é fácil lembrar da nomeação de parentes, amigos e apadrinha-dos políticos dos líderes do poder regional. Não podemos esquecer também da aprovação de emendas parlamentares que direcionam gastos e benesses para os redutos eleitorais dos detentores do poder eleitoral. O compromisso entre coronéis e nova ordem estatal se mostrou, assim, como uma via de mão dupla, na qual os coronéis cedem seu prestigio político local em troca de poderes administrativos e políticos, no município. Na contramão disso, o Estado ganha base política e representatividade local, estendendo seu poder aos municípios através dos coronéis a ele vinculados. Em um quadro como esse, a realização plena do ideal demo-crático é comprometido pelos mandonismos, e coerções dos donos do poder. Além disso a própria estrutura da República se degrada, pois a sobrevivência desse sistema de trocas e favores pressupõe a exclusão, e porque não dizer alienação, dos cidadãos. A correlação do poder local eminentemente decadente e o poder central cria a principal distorção do regime representativo brasileiro. Com base uma influência pessoal, fundada no poder dos coronéis, o sistema coronelista foi uma máquina extremamente eficiente de captação de votos e potencialização do poder central. Mais do que isso, o coronelismo foi o germe fundador da organização política e institu-cional de um país onde o que vale é ainda a relação de amigos e o apadrinhamento, não o mérito. Apesar disso, esse país ainda pretende ser uma autêntica República. * Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo. Advogado e consultor jurídico. RENAN VIANA É fácil lembrar da nomeação de parentes, amigos e apadrinhados políticos dos líderes do poder regional
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    6 Estado deDireito n. 35 Direito e judicialização da saúde Álvaro Nagib Atallah* Preliminarmente cabe destacarmos o básico estabelecido no texto consti-tucional vigente: “Art.196 - A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas, que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”. Para a maioria das pessoas, por um viés natural, de seu suposto interesse, em geral apenas lê e cita a primeira parte do referido artigo, destacando exclusivamente que a saúde vem a ser um direito de todos os cidadãos e um dever imposto ao Estado. Todavia, acabam não interpretando a totalidade desse impor-tante artigo. Façamos, portanto, uma análise sistemática mais completa. Efetividade A determinação constitucional obriga o Estado a assegurar o direito à saúde por inter-médio de políticas públicas de caráter social e econômico. Qual seja, impõe-se ao Estado que a saúde seja promovida em benefício de toda sociedade, levando-se em conta os seus an-seios, as suas necessidades e considerando os recursos econômicos existentes para tanto. E o citado artigo vai além ao estabelecer que compete ao Estado diminuir os eventuais riscos à saúde, sendo previdente em relação a possíveis agravos. Ademais, também incumbe ao Estado promover um tratamento a todos os cidadãos e em condições de igualdade, através de ações e serviços diversos, objeti-vando promover, proteger e recuperar aqueles que estejam com algum tipo de problema de saúde. Um detalhe por vezes esquecido é a análise isenta sobre a efetividade e segurança de tais ações e serviços relacionados à saúde. Ou seja, ao cumprir o dever de oferecer saúde, é necessário saber se uma determinada medida trará mais benefícios do que malefícios aos cidadãos. Não podemos nos esquecer do princípio da Arte Hipocrática que norteia toda a Medici-na há milênios: “Primum non nocere”, ou seja, antes de tudo não lesar o paciente. Oferecer tratamento cuja efetividade e se-gurança não estão adequadamente estudados contraria os dizeres da própria Constituição Federal de 1988. Assegurar o direito à saúde é agir com responsabilidade e com espírito público. Tratamentos Promover potenciais agravos à saúde e desperdiçar recursos econômicos restritos com tratamentos caros e inefi cazes reduzem o acesso universal àquilo que deve ser efetivo e seguro a todos. Seja ressaltado o juramento hipocrático, que obriga os médicos a práticas de não ma-lefi cência, mas, sim, de benefi cência, ajudar os doentes com o melhor de suas habilidades e seu poder de julgamento, bem como, abs-tendo- se de causar danos ou enganar qualquer um que necessite de seus préstimos. Como o poder, a emoção e os interesses econômicos e fi nanceiros embotam as visões, é fundamental que o direito à saúde, seja de fato baseado em evidências científi cas que, no mínimo, reduzam as probabilidades de malefí-cios e garantam mais benefícios a todos. Para tanto, as inúmeras questões de saúde que chegam ao Poder Judiciário devem ser abordadas exclusivamente sob a ótica da Me-dicina baseada em evidências. É inconcebível imaginar que todos aqueles envolvidos com a justiça ignorem ou resistam ao conhecimento científi co de ponta da área médica. Faz-se necessário mapear o conhecimento existen-te sobre cada processo decisório relativo à saúde. Nesse sentido, vale destacar a atuação da Colaboração Cochrane em Oxford, criada em 1992, com o objetivo de mapear de maneira isenta o que funciona e o que não funciona e que novas pesquisas são necessárias para reduzir as incertezas nas decisões médicas. Em publicações denominadas de Revisões Sistemáticas Cochrane, formula-se perguntas estruturadas, pesquisa-se na literatura as melhores evidências científicas existentes, separa-se o joio do trigo, faz-se uma somatória estatística rigorosa dos resultados e conclui-se com grau de certeza o que se pode prescrever com segurança e efi ciência. Todos os resultados dessas revisões siste-máticas são publicados na Cochrane Library, que já é considerada uma das 10 principais re-vistas médicas do mundo e qualquer brasileiro pode acessá-la gratuitamente, incluindo-se, por óbvio, os profi ssionais do Direito. Colaboração Cochrane Para reforçar ainda mais sua importân-cia, a Colaboração Cochrane tem assento na Assembléia Mundial da Saúde e colabora como consultora da Organização Mundial da Saúde. No Brasil, existem ramifi cações desse tra-balho. Trata-se do Centro Cochrane do Brasil e da Disciplina de Medicina Baseada em Evi-dências lecionada da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, que apresenta atividades formais na graduação, pós-graduação e pós-doutorado. A relevância social do Direito à Saúde e o Poder Público É mister mencionar que o Centro Cochrane do Brasil colabora ativamente com o Ministério da Saúde do Brasil, mapeando e realizando avaliações tecnológicas para saber se as novidades são mais efi cientes e seguras do que o não tratamento ou do que os trata-mentos já existentes. Por fi m, outra pioneira iniciativa científi ca importante merece igual destaque. O Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês – IEP tem organizado e transmitido cursos, como forma de contribuir para racionalizar o problema nas áreas do Direito e da Saúde no País, auxiliando no processo de transmissão do melhor conhecimento científi co da Medicina baseada em evidências que deverá servir de base de solução à Judicialização da saúde. A Medicina Baseada em Evidências veio para clarear o pensamento e o raciocínio Médico e para fornecer a eles, aos pacientes e aos profi ssionais do Direito e aos gestores, co-nhecimentos isentos de confl itos de interesse, que reduzam as incertezas ao mínimo. Cursos de Medicina baseada em evidências devem ser potencializados em prol da saúde. Seus conhecimentos devem conter funda-mentos do que são essas evidências dignas de respeito para tomadas de decisão. E para um aprimoramento maior, devem ser promovidos debates e painéis que analisem situações e casos concretos que envolvam de problemas ligados ao direito à saúde, contando com a participação obrigatória de toda a socie-dade, mas especialmente de Juízes, Promotores, Advogados e Médicos. Todos, embasados pelas melhores evidências científi cas da Medicina, poderão motivar seus atos e suas decisões de maneira mais fundamentada e inconteste, evi-tando demoras e delongas processuais. * Médico. Professor titular e Chefe da Disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências da Universidade Federal de São Paulo — Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM). Diretor do Centro Cochrane do Brasil e Diretor Científi co da Associação Paulista de Medicina (APM). A Medicina Baseada em Evidências veio para clarear o pensamento e o raciocínio Médico e para fornecer a eles, aos pacientes e aos profi ssionais do Direito e aos gestores, conhecimentos isentos de confl itos de interesse, que reduzam as incertezas ao mínimo RENAN VIANA
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    8 Estado deDireito n. 35 As eleições francesas e a xenofobia européia Gustavo Oliveira de Lima Pereira* O dia 6 de maio de 2012 trouxe novas ex-pectativas ao cenário político europeu. A eleição de François Hollande como novo presidente da França, com 51,6 % dos vo-tos, signifi ca a retomada da esquerda ao governo francês, após 17 anos de hegemonia direitista. O resultado demonstrou o descontentamento público com a política de Sarkozy, apesar da apertada diferença de votos. Em meio a crise econômica vivenciada pela Europa, o povo fran-cês optou pela mudança; mas a o que seduziu os eleitores do novo presidente guarda relação com as propostas de fl exibilização da política imigratória francesa por ele proposta? Nicolas Sarkozy fi cou conhecido pelas suas políticas de repressão extrema aos imigrantes ilegais na França chegando a prometer, em cam-panha presidencial, o corte de novos imigrantes em território francês pela metade. François Hollande, em sua plataforma, acentuou e pro-meteu manter restrições na política imigratória do país, porém enfatizou que em seu governo haverá uma fl exibilização nesta guerra de força contra os estrangeiros. Imigração É sabido que o recrudescimento da política imigratória no país conta com o apoio popular há tempos. “Eles roubam nossos espaço de empregos, hospitais e escolas!”. Essa frase é dis-seminada pelos arredores de Paris. O que não é sabido ainda é o alcance da fl exibilização dessa política no novo governo. De fato ocorrerá ou entrará para os anais do falatório político eu-ropeu sobre a questão da imigração? Atenuará a forte hostilidade destinada aos estrangeiros desenvolvida, principalmente, após a criação da diretiva de retorno européia? Essas questões são de suprema importância para o horizonte dos direitos humanos. A diretiva de retorno foi desenvolvida na Europa para obstacularizar o trânsito de estran-geiros, facilitar a sua exclusão das nações euro-péias e até criminalizar imigrantes, bem como aqueles que os auxiliam. Essa criminalização, a título exemplifi cativo, é prevista no artigo 318 do código penal espanhol, que prevê uma pena de até 8 anos de prisão para aqueles que confe-rem assistência para algum imigrante ilegal ou clandestino (circunstância que fi cou conhecida como crime de hospitalidade). Prisão A diretiva de retorno representa o posicio-namento adotado pela comunidade européia em relação ao imigrante, a exemplo da proposta do governo Berlusconi, aprovada pelo parlamento italiano, segundo a qual a entrada e permanência ilegal na Itália seria punível como crime com pena de até 3 anos, obrigando, ainda, os funcionários públicos a denunciarem imigrantes ilegais. Os Estados europeus contam com plena discricionariedade para aplicarem a cláusula de retorno, restando previsto, no ordenamento da diretiva, um Centro de internamento de estran-geiros. O artigo 12 da diretiva prevê a possibi-lidade de prisão normal em casos excepcionais, caso o país não detenha esse centro de interna-mento. A prisão, segundo a diretiva, será de 6 meses podendo ser renovada por mais 12. Ouso afi rmar, sem reticências, que a diretiva de retorno representa o símbolo da xenofobia européia em detrimento da diversidade inter-cultural e do reconhecimento e acolhimento do outro; - tido como inimigo -, ganhando, em algum sentido, a tonalidade totalitária que tornou a Europa um barril de pólvora durante as guerras mundiais. Aos países da União Européia não é per-mitido a não aplicação da diretiva de retorno, porém nada obsta a confecção de leis mais benéfi cas aos estrangeiros do que aquelas pre-vistas na diretiva. Portugal, por exemplo, pode aplicar a sua legislação sobre o tema, que traz consideráveis benefícios aos imigrantes ilegais em comparação com a diretiva de retorno. Não creio que, no caso francês, o governo de Hollande promoverá signifi cativas modifi cações FRANCISCO JESÚS GIL NAVARRO | FLICKR FCOJESUS políticas para abalar as estruturas xenofóbicas da comunidade francesa em geral. Mas talvez, em alguma medida, seja possível sonhar. Cabe a nós, entusiastas dos direitos huma-nos, esperar! * Doutorando em fi losofi a Mestre em Direito. Professor de direitos humanos. A crise económico-fi nanceira europeia Paulo Ferreira da Cunha* A pior forma para tentar saber o que se passa no Mundo é acreditar nos clichés da comunicação social convencional. O que se diz hoje de alguns países euro-peus é fruto de uma desinformação global que redunda em denegrir imagens, benefi ciando a especulação fi nanceira. Há uma guerra fi nanceira contra os países do sul da Europa, tendo como arma o preconceito, que visa fazer passar Gregos, Espanhóis, Italia-nos e Portugueses por caloteiros, incompetentes, preguiçosos, etc. Clube de Iguais Idealistas e sentimentais, todos estes Povos começaram por acreditar piamente que a União Europeia (UE) iria ser clube de iguais, caminho para federação, ou via original em que todos pudessem ter voz e, em caso de necessidade, onde imperaria a entreajuda. Esta ingenuidade foi advertida apenas por poucos, imediatamente estigmatizados como antieuropeístas. Os alertas isolados acabariam por receber tranquilizações de fi guras de vulto e de forças políticas credíveis. Muitos converteram-se ao caminho tomado. Mas havia um potencial negativo inscrito na génese, na forma não democrática de construção constitucional da UE: a Convenção Europeia não foi diretamente eleita, nem fez nenhuma votação para o projeto de tratado constitucional que, depois de muitas peripécias, acabaria por desaguar no Tratado de Lisboa, que é na verdade uma Constituição Europeia. Federação ou Diretório? Quando comandada por governos neoli-berais, como tem ocorrido, a União Europeia não tem sido uma autêntica união de estados livres e iguais, mas, na prática, uma fórmula diretorial ao serviço do neoliberalismo e do que ele representa. Ao primeiro abalo da economia de casino, os ricos da Europa começaram a cobrar dos demais. A forma como a Grécia, mãe da nossa Civilização, tem sido tratada, é humilhante. Não só para ela, mas para todos os que não vêm na Europa um negócio de milhões, mas uma questão de Espírito. É insultuosa a forma como os gregos são tratados: alguns querem confi scar-lhes as ilhas ou os mo-numentos; outros sugeriram que nas instituições europeias as bandeiras dos devedores fossem colocadas a meia haste. Pasma-se com tanta falta de bom senso e de bom gosto. Indigna até. Infelizmente, há miseráveis que rejubilam com a desgraça alheia e aprovam a penalização dos alegados caloteiros. É não perceber nada do que se passa. Não entender a atual Economia, serva das Finanças, em que nada parece ser tangível e tudo artifi cial, como numa enorme bolsa e num enorme bluff. Grande parte das dívidas são artifi cialmente empoladas, fruto de altíssimos juros, que antigamente se considera-riam usurários. Bertrand Russel lembrava que quem tecnica-mente domina a Finança não costuma ser muito amigo do Povo. Daí a difi culdade numa resposta? Apesar do Manifesto dos Economistas Aterrados, honra de uma classe que alguns poderiam iden-tifi car apenas com um dos lados. Não nos espantemos que a Hélade possa reagir com ainda mais extremismo. O que é preocupante. O líder da Aurora Dourada (nazi) querer salvar a Grécia do estrangeiro submeten-do- a a uma ideologia... estrangeira! Apesar do preconceito e da propaganda, veiculada até por agentes inocentes, é preciso que se veja que não é por esbanjamento popular que certas economias estão mal. É pelo garrote fi - nanceiro, a pressão dos mercados que as querem levar à bancarrota, e, em alguns casos, porque o Estado decidiu cobrir a má ou temerária gestão de bancos privados. Em Portugal, já se vai dizendo que o Serviço Nacional de Saúde (reconhecidamente dos me-lhores do Mundo, e naturalmente caro) teria o seu fi nanciamento coberto por vários anos se não se tivesse tido que cobrir os “buracos negros” de apenas um dos bancos privados em apuros. Não são os Povos que são preguiçosos e gastadores, são os governos que acodem aos banqueiros, preferindo cortar salários, saúde, educação, e até feriados, deixando aumentar o desemprego. Opção neoliberal: socialismo para ricos e capitalismo desumano para pobres. Não culpem os Povos. * Catedrático e Diretor do Instituto Jurídico Interdisciplinar da Faculdade de Direito da Universidade do Porto.
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    Estado de Direiton. 35 9 O Direito Privado acaba ddee ggaannhhaarr mmaaiiss vvoolluummee.. Chegaram os novos volumes da coleção Tratado de Direito Privado, de Pontes de Miranda. São mais 6 tomos dos 60 que compõem esta edição, lançada em comemoração aos 100 anos da Editora Revista dos Tribunais Temas e Atualizadores t50.0%*3*50%'.¶-* %*3*5013/5- 3PTB.BSJBEFOESBEF/FSZ t50.0%*3*50%4$0*44 1044 -VJ[ETPO'BDIJO t50.0%*3*50%4$0*44 13013*%% -VJ[ETPO'BDIJO 60Volumes 1e índice eletrônico t50.0%*3*50%40#3*(±¿4 %.*/*453±°0%'-³/$* .BOPFM+VTUJOP#F[FSSB'JMIP t50.0%*3*50%40#3*(±¿4 5¶56-0401035%03 MDJEFT5PNBTFUUJ+VOJPS 3BGBFM%PNJOHPT'BJBSEP7BO[FMMB t50.0%*3*50%40#3*(±¿4 --00$$±±°°00%%443377**±±0044 $0/5350%53#-)0 1FESP1BVMP5FJYFJSB.BOVT $BSMB5FSFTB.BSUJOT3PNBS Mais de 550000 ddoouuttrriinnaass selecionadas COLEÇÃO DOUTRINAS ESSENCIAIS PROCESSO PENAL Doutrinas Clássicas, Enfoque Atual ORGANIZADORES: GUILHERME DE SOUZA NUCCI MARIA THEREZA ROCHA DE ASSIS MOURA Representantes de Vendas: www.rt.com.br/representantes www.livrariart.com.br Televendas 0800-702-2433 LANÇAMENTOS 4°016-0t4ÍP1BVMPt*UVtRIO DE JANEIROt3JPEF+BOFJSPt/JUFSØJt$BNQPTEPT(PZUBDB[FTt1FUSØQPMJTt#BSSB.BOTBt/PWB'SJCVSHPtMINAS GERAISt#FMP)PSJ[POUFt 13/«t$VSJUJCBtQVDBSBOBt$BNQP.PVSÍPt$BTDBWFMt'P[EP*HVBÎVt'ØSVNTUBEVBMt'SBODJTDP#FMUSÍPt-POESJOBt.BSJOHÈt1BSBOBWBÓt1BUP#SBODPt1POUB(SPTTB t6NVBSBNBtSSSAAANNNTTTAAA CCCAAATTTAAARRRIIINNNAAAtt'MPSJBOØQPMJTt$IBQFDØt$SJDJÞNBt+PJOWJMMFt%*453*50'%3-t#SBTÓMJBtGOIASt(PJÉOJBtOÈQPMJTt3JP7FSEFt13/.#6$0t 3FDJGFtALAGOASt.BDFJØ ENDEREÇOS COMPLETOS EM: www.rt.com.br/lojas ou www.livrariart.com.br/lojas Foto ilustrativa Elaborada por consagrados juristas e com rigor científi co, a obra reúne os mais preciosos artigos e estudos jurídicos da área, acerca de variados institutos, sempre com o fi to de proporcionar a refl exão crítica do leitor. MANUAL DE PROCESSO PENAL E EXECUÇÃO PENAL 9.a edição Guilherme de Souza Nucci COMENTÁRIOS À LEI DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA 2.a edição Fernando da Fonseca Gajardoni Luana Pedrosa de Figueiredo Cruz Luís Otávio Sequeira de Cerqueira Luiz Manoel Gomes Junior Rogério Favreto COMENTÁRIOS À LEI DO MANDADO DE SEGURANÇA 3.a edição Luiz Manoel Gomes Junior Luana Pedrosa de Figueiredo Cruz Luís Otávio Sequeira de Cerqueira 3FOBUP.BSD¢Pȕ3PH¨SJP'BWSFUP Sidney Palharini Júnior EMBARGOS DE DECLARAÇÃO 3.a edição Luís Eduardo Simardi Fernandes DIREITO PENAL 3.a edição Antonio García-Pablos de Molina Luiz Flávio Gomes MANDADO DE SEGURANÇA 6.a edição José da Silva Pacheco ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 3.a edição 3PTTBUPȕ-¨QPSFȕ4BODIFT REPERCUSSÃO GERAL 3.a edição Bruno Dantas CURSO DE DIREITO TRIBUTÁRIO E PROCESSO TRIBUTÁRIO Vinícius Casalino COMPROMISSO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA 2.a edição Ana Luiza de Andrade Nery Tratado de Direito Privado de Pontes de Miranda atualizado por renomados juristas. Uma obra grandiosa Aproximadamente 40.000páginas Volume de índices
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    10 Estado deDireito n. 35 Terceirização dos convênios Não resolve o problema da União Desvio produtivo do consumidor Marcos Dessaune* Vivemos num sistema socioeconômico VVVeemm qquuee vviiggoorraamm aa eessppeecciiaalliizzaaççããoo pprroofifi ss-- sional, a interdependência das pessoas Ve as necessárias relações de consumo. Nele, a missão implícita de qualquer fornecedor é – ou deveria ser – liberar os recursos produtivos do consumidor. Isto é, dar ao consumidor, por intermédio de produtos e serviços de quali-dade, condições para que ele possa empregar seu tempo e competências nas atividades de sua preferência. Práticas Abusivas Entretanto é notório que inúmeros profi s-sionais, empresas e o próprio Estado, em vez de atender ao cidadão-consumidor em observância à sua missão, acabam lhe fornecendo coti-dianamente produtos e serviços defeituosos, ou exercendo práticas abusivas no mercado, contrariando a lei. Para evitar prejuízo maior, o consumidor se vê então compelido a desperdiçar seu valioso tempo e a desviar suas custosas competências – de atividades como trabalho, estudo, descan-so, lazer – para tentar resolver esses problemas de consumo, que o fornecedor tem o dever de não causar. Situações corriqueiras como esperar dema-siadamente por atendimento médico, telefonar repetidamente para o SAC de uma empresa con-tando a mesma história, enfrentar fi la demorada no banco em que só há três guichês abertos, bem como ter que exigir, por intermédio das autoridades, obrigação da qual o fornecedor se esquiva de cumprir, curiosamente, ainda não haviam merecido a devida atenção do Direito brasileiro. Trata-se de fatos nocivos que não se enquadram nos conceitos tradicionais de “dano material”, de “dano moral” e de “perda de uma chance”. Tampouco podem eles ser juridica-mente banalizados como “meros dissabores ou percalços” na vida do consumidor, como vêm entendendo muitos juristas e tribunais. Mau atendimento Diante dessa lesão temporal indesejada que o consumidor vem sofrendo, fruto de atos ilícitos dos fornecedores, cheguei à conclusão de que se está diante de um novo e relevante dano até agora desprezado no Direito: o des-vio produtivo do consumidor, que impacta diária e negativamente a vida dele. Note que não empreguei, na nova expressão, o adjetivo “produtivo” para qualifi car o desvio do con-sumidor como sendo um ato “producente” ou “improducente”. Diferentemente, utilizei-o em sua acepção de “relativo à produção”, indicando que em situações de mau atendimento o con-sumidor desvia recursos “que produzem”: seu tempo e competências. Fornecedor Pode-se então conceituar que o desvio produtivo evidencia-se quando o consumidor, diante de uma situação de mau atendimento (lato sensu), precisa desperdiçar o seu tempo e desviar as suas competências – de uma ativida-de necessária ou por ele preferida – para tentar resolver um problema criado pelo fornecedor, a um custo de oportunidade indesejado, de natureza irrecuperável. Em outra perspectiva, o desvio produtivo caracteriza-se quando o fornecedor, ao descumprir sua missão e praticar ato ilícito, independentemente de culpa, impõe ao consumidor um relevante ônus produtivo, indesejado pelo último. Já há doutrina e jurisprudência que apon-tam a “perda do tempo livre” do consumidor como um novo fundamento de dano moral in-denizável. Todavia entendo que, muito embora as situações de desvio produtivo possam ser consideradas um novo dano injusto, um dano moral ampliado em seu conceito tradicional, o tempo – por sua escassez, inacumulabilidade e irrecuperabilidade – merece tratamento jurí-dico especial que o destaque, fora da mencio-nada cláusula geral de tutela da personalidade – a qual provavelmente aprisionaria o desvio produtivo a um mero novo fato gerador de dano moral. Por tais motivos, penso que o tempo pessoal, útil ou produtivo da pessoa deveria ter regulamentação jurídica própria, à altura do seu valor que reputo supremo, que conse-quentemente o guindasse do atual ostracismo à plena consciência de suas características e importância singulares em nossas breves vidas – assim, acredito, prevenindo-se seu desper-dício temerário. Prejuízo Temporal Mas deve-se distinguir um “prejuízo tem-poral indenizável” de um “mero contratempo”, analisando-se 1) se o ato do fornecedor foi ilícito; 2) se o desvio do consumidor foi inde-sejado, independentemente de ter sido um ato necessário; e 3) a quantidade de tempo que o consumidor precisou desperdiçar no caso concreto. *Advogado, mediador, palestrante e autor da Editora RT na área de relações de consumo. Rui Magalhães Piscitelli* Nesta nossa coluna, discorreremos sobre as principais alterações na legislação convenial brasileira, qual seja, a Portaria Interministerial nº 507, de 24 de novembro de 2011, a qual revoga, com aplicação a partir de 02 de janeiro de 2012, a Portaria Interministerial nº 127, de 2008. Pois bem, inicialmente, temos a necessi-dade de, mais uma vez, deixar explícita nossa recomendação de que a matéria convenial deve receber tratamento legislativo, por lei, e não somente de Decreto (6.170, de 2007) e Portarias. Os critérios e definições sobre convênios merecem uma segurança jurídica e um debate social que somente uma lei, no nosso entender, podem suprir. Veja-se que a doutrina sobre convênios também é muito escassa, em comparação com a pletora de dou-trinadores a tratar sobre licitações e contratos adminsitrativos, por exemplo. Servidores Bom, em relação às fases de um convênio, quais sejam, proposição pelo que almeja rece-ber recursos federais (entes públicos estaduais e municipais, bem como entidades privadas sem fins lucrativos, visto recursos entre órgãos e entidades públicos federais deverem ser feitos mediante o instrumento próprio dos termos de cooperação), celebração, execução e prestação de contas, esta do convenente (o que recebe os recursos) ao concedente (o órgão ou entidade repassador dos recursos federais), não houve alteração. Conceitos novos, sim, são introduzidos, como o contrato de prestação de serviços (pelo qual a União pode delegar funções na celebração, execução e análise da prestação de contas dos convênios – vide o art, 5º, inciso II da novel Portaria) e o contrato administrativo de execução ou fornecimento (previsto no inciso VIII do § 2º de seu art. 1º, mediante o qual o convenente poderá contratar empresas para a realização do objeto do convênio). Entendemos a delegação da União mediante o contrato de prestação de serviços, o qual deve ser a instituição fi nanceira ofi cial, uma forma da União perder o controle na celebração e execução dos convênios. Ao invés desse ins-trumento, deveria a União capacitar e gratifi car os servidores que trabalham com a celebração, execução e análise das prestações de contas dos convênios federais. Ademais, entendemos que essa é uma atividade fi nalística, que não poderia sofrer delegação, nos termos do con-tido na Súmula nº 97, do TCU. Repetimos, essa terceirização dos convênios, mormente com os institutos criados pela Portaria do contrato de prestação de serviços e contrato administrativo de execução ou fornecimento representam uma terceirização nos convênios, a qual não podemos admitir. Ademais, a contratação com instituição fi nanceira ofi cial dependerá de licitação ? Não há outro cami-nho, mas a Portaria não trata da matéria. A via verdadeira é a capacitação e incentivo dos servidores públicos que trabalhem com con-vênios federais. Ainda, a criação do contrato administrativo de execução e fornecimento, pelo convenente, parece-nos corroborar o que já manifestamos diversas vezes, de que os convênios, por muitos, são entendidos como “crédito rotativo”. Isto é, na medida em que damos condições de delegar as atividades do convenente, constatamos que, na verdade, os convenentes não têm habilitação técnica para a execução do objeto. Mas, afi nal, por que a União faria um convênio com um convenente, para, este último, contratar uma empresa para realizar a integralidade do objeto? Por que, en-tão, a própria União não faz essa contratação? Parece-nos que, infelizmente, mais uma vez, os convênios são tencionados a servir de imagem política para dirigentes políticos locais, posto a população reconhecer nos convenentes locais a realização do objeto do convênio. Fiscalização Ainda, na novel Portaria, o chamamento pú-blico, conforme recentes alterações do Decreto 6.170, é tornado obrigatório para convenentes entidades privadas sem fi ns lucrativos, e, ain-da, indicado, como faculdade, para selecionar convenentes entes públicos; (art. 7º); o valor para vedação de realização de convênios com entes públicos é alterado (art. 10); o cálculo e demonstração da planilha de custos a ser apresentada pelo convenente são reforçados, incluindo necessidade de indicação do BDI (art. 27); é criado o prazo de 45 dias para inclusão da não-conformidade na prestação de contas do convenente (art. 72); é criado o procedimento simplifi cado de acompanhamento e fi scalização de obras e serviços de engenharia de pequeno valor (arts. 77 e 78, estes já vigentes a partir de 24 de novembro de 2011, diferentemente do restante dos dispositivos da Portaria, vigente somente a partir de 01 de janeiro de 2012), dentre outros itens. Esperamos, assim, ter trazido alguns dos aspectos mais importantes da alteração na legislação convenial, com a edição da Portaria Interministerial nº 507, de 24 de novembro de 2011, revogando a Portaria interministerial nº 127, de 2008, mas com um grande recado: Autoridades Públicas, a retirada de atividades dos servidores públicos não é nem nunca será a resolução dos problemas da Administração Pública; ao contrário, devemos é fortalecer o quadro permanente e efetivo da Administração Pública, pois, essas pessoas, é que têm um verdadeiro elo de compromisso com o Estado brasileiro ! Não podemos utilizar o sistema atu-al, frágil na celebração, execução e análise das prestações de contas, por falta de treinamento e incentivo para os servidores públicos que atuam em convênios, como motivo para tercei-rizar essas atividades para os bancos, tampouco permitir que convênios sejam feitos com con-venentes que não possuam habilitação técnica para a realização do objeto, sendo, nós, assim, contrários à criação dos institutos do contrato de prestação de serviços (pelo concedente) e do contrato administrativo de execução ou fornecimento (pelo convenente). * Vice-Presidente Administrativo e Financeiro da Associação Nacional dos Procuradores Federais. Professor de graduação e pós-graduação em Direito. O prejuízo do tempo desperdiçado
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    Estado de Direiton. 35 11 DIREITO À SAÚDE BASEADA EM EVIDÊNCIAS MARÇO A DEZEMBRO DE 2012 INSCRIÇÕES ATÉ DIA 27 DE MAIO VOCÊ PROFISSIONAL DO DIREITO, Mais Informações acesse o site: http://www.hospitalsiriolibanes.org.br/Ensino/Paginas/cursos-de-atualizacao.aspx Rua Cel. Nicolau dos Santos, 69 Bela Vista – São Paulo – SP – CEP 01308-060 Tel.: 55 11 3155-8800 Participe do curso Direito à Saúde Baseada em Evidências. Não perca esta Oportunidade. iep@hsl.org.br - www.hospitalsiriolibanes.org.br/ensino
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    12 Estado deDireito n. 35 Investigação e quebra do sigilo bancário A partir da segunda metade do século XX, com o fenômeno da globalização e da expansão do Direito Penal, este passou a proteger não só valores individuais, mas também supraindividuais. Dessa maneira, fl exibilizou-se uma série de garantias fundamentais individuais e houve um consequente aumento do controle punitivo. Direito à Intimidade Um dos exemplos dessa fl exibilização é a violação do direito ao sigilo bancário e fi scal, que é considerado no viés constitucional, pela maioria, como um direito à intimidade pessoal. Juarez Tavares considera que o sigilo bancário está compreendido no círculo mais restrito da intimidade, na esfera de segredo, cuidando-se de direito fundamental que só pode ser restrin-gido mediante o devido processo legal, o que pressupõe ordem fundamentada de autoridade judicial. O âmbito de proteção desse sigilo, segundo Sérgio Covello, abrange todas as informações que os bancos venham a obter em virtude de sua atividade profi ssional, os serviços prestados, os dados pessoais e patrimoniais relacionados ao negócio realizado, e aquelas informações que chegam ao seu conhecimento em virtude da ope-ração realizada ou que se pretendeu realizar. Em que pese a CF/88 prever o resguardo dos dados bancários com a proteção do sigilo, a jurisprudência não considera este direito absoluto. Ou seja, a abertura do sigilo poderá ocorrer para auxiliar no desvendamento de crimes de difícil apuração, como lavagem de dinheiro ou crimes fi nanceiros, desde que cumpridos os pressupostos legais dispostos na Lei Complementar n° 105/01, que dispõe sobre o sigilo das operações de instituições fi nanceiras. Para Fausto de Sanctis, não mais se fala em sigilo como preceito sagrado, mas de relativização do dever legal de confi den-cialidade bancária e fi scal. Mecanismo de Controle É de extrema importância, não obstante, a análise restrita dos requisitos exigidos, a fi m de que não haja interferência indevida dos órgãos de controle formal nas esferas privadas e na intimidade do sujeito. A norma apresenta o limite de atuação e de interposição de mecanismo de controle, que jamais pode ser arbitrário. A simples invocação do inte-resse público, por exemplo, não comprovado objetivamente, pode acarretar em coação ilegal passível de anulação da “prova”. Infelizmente, em grande parte dos casos os requisitos não são observados e a quebra do sigilo é utilizada como um dos principais mecanismos de busca de prova para se tentar demonstrar eventual crime, interpretando-se erroneamente o artigo 1º, §4º, da LC 105/01. Na leitura deste, percebe-se que há o pressuposto da existência de materialidade do crime antes da quebra do sigilo e o requisito da demonstração de impossibilidade de profundidade da prova de outro modo. Prova da Materialidade A interpretação do referido dispositivo deve ser feita de forma análoga, de acordo com a lei das interceptações telefônicas (Lei nº 9.296/96), ou seja, já deve haver a existência de indícios razoáveis de autoria e prova da materialidade do ilícito e a demonstração de impossibilidade de obtenção da prova desejada por outros meios já tentados, comprovando-se que não há outro meio a se chegar no objetivo. A LC expõe a faculdade da quebra e não sua obrigatoriedade e o termo “necessária” remete à imperativa e restrita necessidade (o que não pode não ser) de demonstração da imprescindibilidade (como na lei das interceptações) da medida excepcional. Em não aplicando o dispositivo da forma exposta, desobedecendo-se os requisitos de apli-cabilidade, a quebra do sigilo poderá constituir prova ilícita pelo desrespeito às normas legais e constitucionais, bem como pela ofensa direta à proibição de excesso da intervenção estatal característica dos direitos fundamentais. É certo que todo direito é relativo, mas a relativização criada pela ausência do devido processo legal é ilícita, não podendo ser utili-zada. Não há como permitir uma “quebra” de sigilo sem qualquer indício da materialidade do fato e de sua autoria, sendo a demonstração da imprescindibilidade do mecanismo o ponto primordial da questão. Advogado Criminalista. Mestrando em Ciências Criminais (PUCRS). Especialista em Direito Penal Econômico (UCLM/Espanha) e em Direito Penal (UFRGS). A simples invocação do interesse público, por exemplo, não comprovado objetivamente, pode acarretar em coação ilegal passível de anulação da “prova” Rafael Eduardo de Andrade Soto* Questões de Direito Eleitoral para Concursos Maria Carolina Fugagnoli Filizola Friedheim* Boa remuneração, adicional de qualifi - cação, programa permanente de capa-citação, benefícios da Lei nº 8.112/90, concurso nacional de remoção e ainda possi-bilidade de gozar folgas como recompensa das horas extras prestadas no trabalho intensifi cado de dois em dois anos! O Tribunal Eleitoral é, realmente, um excelente órgão e o sonho de muitos concurseiros. Porém, ao se depararem com os editais para os certames desses órgãos, os candidatos enfren-tam a primeira difi culdade: o Direito Eleitoral, especialidade da casa. Direito Eleitoral O Direito Eleitoral é um ramo do Direito Público ao qual poucos dedicam estudo. Nas faculdades, a matéria, geralmente, é oferecida como disciplina eletiva. Logo, como constará nas provas tal conhecimento específi co, com peso maior, que repercutirá na nota fi nal, os candidatos podem ter seu primeiro contato com ela, o que os deixa desorientados sobre como deverão se preparar. Especialistas na área de concursos recomendam a realização de muitos exercícios como uma das estratégias essenciais para a obtenção do sucesso. Consciente da gama de assuntos a ser enfrentada para obter êxito em um concurso público, o livro Direito Eleitoral – Questões Comentadas tem como propósito nortear e otimizar os estudos do Direito Eleitoral. É uma coleção de questões com gabaritos e comentários que indicam os principais pontos e dispositivos legais cobrados nas provas, o que contribui para valorizar ainda mais as preciosas horas dedicadas à busca e à fi xação da disciplina. O livro foi prefaciado pelo ex-Presidente do TRE-PE, Dr. Roberto Ferreira Lins, que elucidou: “Dentre esses vastos temas que compõem o Direito Eleitoral, a autora identifi cou os pontos mais cobrados pelas bancas examinadoras e os dispôs em 15 capítulos por meio de questões comentadas. Compreensão de Matérias Procurando orientar os estudos e amenizar os problemas de compreensão e assimilação das matérias, buscou a autora sintetizar seus conhecimentos, legando a todos nós um trabalho bastante útil, didático e interessante, sobretudo para aquelas pessoas que desejam encontrar, em um só livro, os necessários conhecimentos para encarar concursos realizados pelos Tribunais Eleitorais.” Além disso, na área do Direito Eleitoral, Os candidatos vão constatar também que há uma pequena quantidade de obras disponí-veis nas livrarias, na área do Direito Eleitoral, contendo exercícios voltados ao estudo desse assunto. Portanto, se você ainda não começou a resolver questões, não perca tempo. Comece agora mesmo! Questão 1 - Dentre os requisitos para o funcio-namento da Justiça Eleitoral, deve ser observado o de que: a) haverá, no máximo 2 (dois) Tribunais Regionais Eleitorais em cada Estado da Fede-ração; b) resolução do Tribunal Eleitoral disporá sobre a competência dos juízes eleitorais; c) os juízes do Tribunal Eleitoral servirão por 2 (dois) anos improrrogáveis; d) lei complementar disporá sobre a organi-zação e competência das juntas eleitorais; e) em cada região funcionará 1 (um) Tribunal Superior Eleitoral. Resposta: letra D. COMENTÁRIOS Item A – Art. 120 da Constituição Federal. Haverá um Tribunal Regional Eleitoral na capital de cada Estado e no Distrito Federal. Itens B e D – Art. 121 da Constituição Federal. Lei complementar disporá sobre a organização e competência dos tribunais, dos juízes de direito e das juntas eleitorais. Item C – § 2º do art. 121 da Constituição Federal. Os juízes dos Tribunais Eleitorais, sal-vo motivo justifi cado, servirão por dois anos, no mínimo, e nunca por mais de dois biênios consecutivos, sendo os substitutos escolhidos na mesma ocasião e pelo mesmo processo, em número igual para cada categoria. Item E – Art. 12 do Código Eleitoral. São órgãos da Justiça Eleitoral: I – O Tribunal Superior Eleitoral, com sede na capital da República e jurisdição em todo o país. Usei essa questão do livro para ilustrar. Tinha o propósito de lembrar aos amigos concurseiros o texto do art. 120 da CF que é, realmente, um estímulo: “Art. 120. Haverá um Tribunal Regional Eleitoral na capital de cada Estado e no Distrito Federal.” Portanto, existem muitos Tribunais Eleitorais no nosso país e em um deles pode estar a sua vaga. * Autora da Editora Impetus. Bacharela em Direito pela Unicap, pós-graduada em Direito Público lato sensu pela Esmape e Assessora de Gabinete do Desembargador Eleitoral Virgínio Carneiro Leão. Especialistas na área de concursos recomendam a realização de muitos exercícios como uma das estratégias essenciais para a obtenção do sucesso
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    14 Estado deDireito n. 35 Subtração do efeito suspensivo à apelação Eduardo Arruda Alvim* Encontra-se pendente de aprovação na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n.º 8.046/2010, que visa instituir no or-denamento jurídico brasileiro o “Novo Código de Processo Civil”. Antes de ser encaminhado à Câmara dos Deputados, referido Projeto havia sido aprovado com alterações no Senado Fede-ral, onde tramitava sob o n.º 166/2010. Dentre as inúmeras modifi cações a serem operadas em nosso sistema processual, se apro-vado o Projeto como está, temos a subtração do efeito suspensivo do recurso de apelação. O efeito suspensivo é aquele apto a coarc-tar a efi cácia da decisão recorrida. Representa, em outras palavras, uma efi cácia obstativa de que a decisão produza os seus efeitos. Sujeição da Decisão Basta a mera sujeição da decisão a recurso dotado de efeito suspensivo para que aquela não produza efeitos. Ou, por outras palavras, desde a intimação da decisão até que decorra o prazo para interposição do recurso que seja dotado de efeito suspensivo (no mínimo), esta não produz efeitos. Nesse sentido, pode-se dizer que a interposição do recurso dotado de efeito suspensivo apenas prolonga a suspensão dos efeitos, que já era consequência da mera sujeição da decisão ao recurso. Sabe-se que no sistema vigente, o recurso de apelação é dotado de efeito suspensivo como regra, nos termos do caput do art. 520 do CPC/73. As hipóteses em que a apelação é recebida sem efeito suspensivo encontram-se elencadas nos incisos I a VII do art. 520, bem como na legislação extravagante. Muito embora a regra em nosso direito processual seja a apelação recebida no efeito suspensivo, isso não fi cou imune a críticas doutrinárias. Com efeito, não há razões plausíveis para se manter o efeito suspensivo da apelação como regra, na medida em que isso conduz, inegavelmente, ao descrédito da atividade jurisdicional, notadamente daquela decorrente dos juízes de primeiro grau. No atual sistema, a grande maioria das sentenças de primeiro grau não surtem quaisquer efeitos, visto que sujeitas a recurso de apelação dotado de efeito suspensivo. A partir dessa sistemática, o primeiro grau de jurisdição é visto apenas como mera corte de passagem para se chegar ao tribunal, pois, no Projeto de Lei do Novo Código de Processo Civil somente após a revisão desse último, é que a sentença produzirá efeitos, o que se revela altamente reprovável. Além disso, não há certeza absoluta de que o julgamento feito pelo tribunal seja sempre melhor que aquele efetuado pelo juízo de pri-meiro grau, não existindo razão alguma para condicionar a produção de efeitos da sentença à revisão daquele. A partir dessas premissas, ainda mais diante da garantia de acesso efetivo ao Poder Judiciário, consagrada no art. 5.º, XXXV, da Constituição Federal, aliada à garantia da ra-zoável duração do processo (art. 5.º, LXXVIII), quer nos parecer que o Projeto de Lei do Novo Código de Processo Civil, se aprovado como está, implicará em grande medida, à efetivação de aludidas garantias, eis que permitirá ao ven-cedor em primeiro grau executar o provimento de primeiro grau provisoriamente, ainda que sujeito a recurso de apelação. O art. 949 de referido Projeto de Lei esta-belece que os recursos, salvo disposição legal em sentido diverso, não impedem a efi cácia da decisão. Isso não implica em dizer, todavia, que o efeito suspensivo ao recurso de apelação não poderá vir a ser concedido. Muito pelo contrário. O Projeto de Lei em apreço, inclusive, facilitará a atribuição desse efeito, na medida em que estatui que tal objetivo poderá ser alcançado a partir de petição simples dirigida ao tribunal (art. 949, § 2.º, do Projeto), sendo que bastará o mero protocolo dessa petição para que a sentença não produza efeitos (art. 949, § 3.º, do Projeto). *Doutor e Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Professor da PUC/SP (doutorado, mestrado, especialização e graduação) e da FADISP – Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo (doutorado e mestrado). Co-autor do livro “Comentários ao Código de Processo Civil” publicado pela Editora GZ. A mediação e o novo CPC Humberto Dalla Bernardina de Pinho* Está sendo examinado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei n° 8.046/10, que pretende instituir o novo Código de Processo Civil no Brasil. Dentre algumas novidades e instrumentos que prometem oferecer um maior grau de efetividade na prestação jurisdicional está o instituto da mediação. O art. 145 do Projeto trata da mediação e da conciliação como formas de solução consensual do litígio e que podem ser utili-zadas pelo magistrado antes do julgamento da demanda. Na nova sistemática, o magistrado ao receber a petição inicial, não sendo caso de improcedência liminar da demanda, deverá intimar as partes para uma audiência de con-ciliação ou uma sessão de mediação. O conciliador pode sugerir soluções para o litígio, ao passo que o mediador auxilia as pessoas em confl ito a identifi carem, por si mesmas, alternativas de benefício mútuo O primeiro grau de jurisdição é visto apenas como mera corte de passagem para se chegar ao tribunal ROBSON MAGALHÃES ROBSON MAGALHÃES
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    Estado de Direiton. 35 15 A mediação será indicada para questões mais complexas, nas quais existe, além do componente jurídico, um elemento metajurídico RROOBBSSOONN MMAAGGAALLHHÃÃEESS|| FFLLIICCKKRR MMEECCAATTRROONN A efetividade do acesso à justiça pela conciliação Susana Bruno* Éatravés do acesso à justiça, o mais basilar dos direitos humanos que se busca a efetividade de direitos que deveriam ser respeitados e, na sua inviabilidade, pleiteados junto ao Poder Judiciário. Depois do abando-no da autotutela e da autodefesa vê-se que o Estado brasileiro objetiva retornar à autocom-posição, sem perder o controle jurisdicional que lhe é assegurado constitucionalmente. A Justiça Pública pretende que o particular, dian-te de um confl ito suportado, utilize meios não adversariais de confl itos (ADRs - Alternative Dispute Resolution), mas de uma forma bastante peculiar, posto que, a princípio, deverá buscá-los em suas dependências e/ou com processo judicial já instaurado. CNJ Há que se verifi car se as propostas apre-sentadas pelo Estado, pelo Conselho Nacional de Justiça, são realmente efi cazes, posto que, num primeiro momento, as mesmas mostram uma preocupação precípua em retirar o fardo pesado do Poder Judiciário do julgamento das demandas. Processo In regra, os operadores do direito reclamam do processo. Logo, surgem indagações: Será que o jurisdicionado realmente quer ver o seu caso resolvido pelo Estado? Para quem serve o processo? Para o próprio Estado. Este pre-cisa autoafi rmar a sua supremacia, talvez pela prática cada vez mais comum de atos adminis-trativos, legislativos e até mesmo judiciais que levem ao seu enfraquecimento perante o corpo social. É como se, no Brasil, tivéssemos dois Estados: um que exige o voto, o pagamento dos tributos, que estabelece regras de comporta-mento – e não quer abandonar isso -, e outro que quer se desvencilhar do processo, porque o Judiciário está assoberbado de processo. Tudo aumenta: a população, a economia, o consu-mo, a violência. Logo, é natural que cresça o número de confl itos e, por conseguinte, de processos. Importante lembrar que com o ad-vento da carta constitucional de 1988, deram-se mais direitos ao jurisdicionado, mas sequer houve uma política estatal capaz de esclarecer a população sobre os direitos conquistados, de meios para implementá-los. Pluralismo Jurídico A disparidade entre os anseios sociais e o Estado pode ter uma consequência social muito grave, pois abre-se espaço para a atua-ção de composições de confl itos que o Estado sequer tem ciência da sua existência, como já ocorre há muito. Onde o Estado se omite, surge espaço para o fortalecimento de organizações não estatais, reafi rmando o pluralismo jurídico, aqui entendido como a coexistência de mais de uma ordem jurídica em determinado espaço, onde uma ordem é de fato e a outra de direito. Lembre-se que a ausência da efetividade do acesso à justiça no Brasil se traduz na exclusão da maioria da população. Acesso à justiça O Estado deve melhorar a resposta juris-dicional vendo, primeiramente, vantagens reais para a população, sendo as suas, meras consequências, e não o inverso, como vem fazendo. É forçoso concluir que, por reco-nhecer a sua falha na prestação jurisdicional, o Judiciário está empurrando a população para uma nova forma de composição, livrando-se dos processos, como se fossem uma chaga incurável e transmissível. Pensamos que o acesso à justiça não deve ser um direito a ser promovido pelo Estado exclusivamente, devendo-se viabilizar a implantação das ADRs. Mas, certamente, deve-se repensar a forma de sua implantação. Adversidades Se o Estado quer incentivar a utilização das ADRs, o faça, mas não usando isso para acomodar-se em sua falência jurisdicional. Ainda que, num caso concreto, não se alcance um consenso capaz de integrar o belo mapa de acordos celebrados em programas gerenciais da Justiça Pública, certamente é o Judiciário um local propício para se promover a cons-cientização de respeito às adversidades. E para o aumento da satisfação do jurisdicionado, há que se analisar os contributos das demais ciências, como a psicologia, a administração, a comunicação social, a sociologia, a estatística, dentre outras. *Mestre em Direito pela Faculdade de Direito de Campos/RJ. Especialista em Direito Processual Civil e Direito Civil pela Universidade Estácio de Sá/RJ. Graduada em Direito pela Universidade Cândido Mendes/RJ. Professora universitária e advogada. In regra, os operadores do direito reclamam do processo. Logo, surgem indagações: Será que o jurisdicionado realmente quer ver o seu caso resolvido pelo Estado? Para quem serve o processo? Para o próprio Estado Situação de Risco Excepcionalmente, poderá o juiz dispensar tal audiência, quando os direitos não admitirem qualquer forma de acordo, ou, por outro lado, realizá-la pessoalmente, notadamente em casos graves, envolvendo incapazes ou hipossufi cien-tes em situação de risco, embora tal providência não seja recomendada diante do risco de con-taminação da convicção do julgador ante os elementos que, invariavelmente, acabam sendo revelados em tais momentos, sobretudo na ten-tativa de se eliminar as barreiras ao confl ito. Contudo, na maioria dos casos, teremos ou uma audiência de conciliação ou uma sessão de mediação. Faz-se mister, então, estabelecer uma distinção clara e objetiva entre as duas atividades. No art. 145 do Projeto, a Comissão de Juristas estabelece como critério para tal dife-renciação a postura do terceiro encarregado de compor o confl ito. Litígio Assim, o conciliador pode sugerir soluções para o litígio, ao passo que o mediador auxilia as pessoas em confl ito a identifi carem, por si mesmas, alternativas de benefício mútuo. Essa diferença é para nós muito importante. Diante do sistema que se vislumbra, parece que o NCPC exigirá do magistrado a capacidade de examinar a natureza do confl ito e determinar o mecanismo mais adequado para enfrenta-lo. Se o magistrado, ao ler a petição inicial, se convence que entre aquelas partes há um relacionamento prévio, continuado e que, apesar do confl ito, terá que ser gerido por algum tempo (ex: vizinhos, que moram no mesmo prédio e não se suportam, mas que têm que resolver em conjunto questões ad-ministrativas do condomínio; ex-cônjuges, com fi lhos em comum, que precisam regular questões de visita e guarda) e ainda que por força deste relacionamento diversas questões foram surgindo com o passar do tempo e não foram adequadamente compreendidas e resol-vidas por elas, deverá cogitar e recomendar o uso da mediação, pois esta talvez seja não apenas a mais adequada, mas possivelmente a única capaz de evitar a procrastinação do ciclo vicioso do litígio. Concialiação Por outro lado, se se trata de uma relação descartável, ou seja, se nunca houve e nem se pretenda que exista no futuro qualquer vín-culo, seja de natureza pessoal ou social, não há necessidade de se recorrer à mediação. Da mesma forma, questões com viés puramente patrimonial, questões consumeristas, ações indenizatórias em geral podem ser bem geridas com o uso da conciliação, que via de regra se apresenta como uma solução mais rápida e simples, eis que não há a necessidade de se ingressar em assuntos com viés psicológico. Percebe-se, com isto, que a mediação será indicada para questões mais complexas, nas quais existe, além do componente jurídico, um elemento metajurídico, de ordem emocional e psicológica. Nesse passo, de nada adianta, nessas hipóteses uma sentença impositiva, eis que a solução será superfi cial e incapaz de atingir o âmago da questão, a fonte do problema. Pensamos que este momento processual, ou seja, o despacho liminar de conteúdo positivo e a determinação da providência mais adequada para tratar o litígio é de suma importância, e, não se precisa dizer, tem natureza personalís-sima, não podendo ser objeto de delegação a assessores e servidores. Aqui se materializa de forma clara a função gerencial do magistrado e isto deve ser incenti-vado pelos Tribunais e pelo próprio CNJ. *Promotor de Justiça no RJ e Professor da UERJ Autor da obra Direito Processual Civil Contemporâneo, pela Ed. Saraiva.
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    16 Estado deDireito n. 35 Quando os animais ocupavam o banco dos réus Geraldo Miniuci* Num dia qualquer, em 1522, na comuna francesa de Autun, região da Borgonha, ratos invadiram silo e comeram parte da colheita de cevada que ali se guardava. Os preju-dicados pela ação daqueles animais dirigiram-se ao tribunal eclesiástico e formalizaram reclama-ção contra “alguns ratos da diocese”, acusando-os de haverem cometido delito de alta gravidade. A ação foi recebida, a intimação, expedida, e um defensor, nomeado para defendê-los. No dia da audiência, diante do não comparecimento dos ratos em juízo, seu advogado, lançando mão de argumentos processuais e invocando a noção de justo processo, alegou que aqueles animais não foram corretamente intimados: afi nal, conside-rando que ratos viviam dispersos pelos campos afora ou, senão, em vilas e vilarejos, uma única convocação não seria sufi ciente para alcançá-los. Além disso, a intimação fora dirigida apenas a alguns ratos e não a todos, sendo necessário especifi car, então, quais deles estavam sendo acusados. Sujeitos de Direito O tribunal aceitou os argumentos da defesa e determinou nova convocação, desta vez a ser lida nos púlpitos de todas as igrejas da região e dirigida a todos os ratos. Novamente, eles deixa-ram de comparecer; o defensor requisitou, então, prorrogação do prazo, alegando que, dada a sua dispersão pelos campos, os ratos não poderiam preparar-se para uma grande migração sem que lhes fosse concedido algum tempo adicional. O pedido foi aceito, mas, apesar de prorrogado o prazo, os animais, como da outra vez, não compareceram na data prevista. O defensor procura, então, justificar a ausência dos acusados não mais recorrendo a argumentos de natureza processual, e sim tratando os ratos como sujeitos de direito, em igualdade de condições com os seres humanos. Nesse sentido, partindo do pressuposto que pessoas e animais são criaturas divinas e iguais, o defensor alegou que deveria ser reconhecido aos ratos o mesmo direito que então se reconhecia às pessoas de não cumprir convocação feita para comparecer a local ao qual não poderiam che-gar em segurança. Nesse sentido, argumentou que, sendo notoriamente detestados por toda a gente, os ratos estariam sujeitos a diversos tipos de perigos por onde passassem em seu trajeto rumo ao tribunal. Não bastassem as pessoas que os temiam e odiavam, havia também os gatos que, além de inimigos naturais, eram aliados dos reclamantes, razão pela qual o defensor exigiu medidas de proteção para os acusados, reque-rendo que os autores da ação fossem obrigados, sob penas severas, a conter seus gatos. Embora tenha indeferido o pedido, o tribunal, não sendo capaz de estabelecer o período dentro do qual os ratos deveriam comparecer em juízo, extinguiu o processo. Julgamento Relatada por William Ewald, no artigo Comparative Jurisprudence: What Was It Like to Try a Rat? (In: University of Pennsylvania Law Review, Vol. 143:1995, pp. 1889-2087), essa história estimula uma série de refl exões sobre os valores e crenças hoje encontrados no mundo. Afi nal, no que nos diferenciamos nós, do ano de 2012, das pessoas que viveram em Autun, nos idos de 1522, ou mesmo antes, na Idade Média? Desde o Iluminismo, orientamo-nos sobretudo, porém não exclusivamente, pelos cânones da ciência e por uma fi losofi a antropocêntrica e naturalista, sem interferências de ideias apoia-das no sobrenatural. Em nossa concepção, os animais são instrumentalizados e jamais serão levados a uma corte para serem condenados ou absolvidos por um dano; ao contrário, poderão ser eliminados, sem julgamento. Agir de outra forma em relação a eles, a ponto de reconhecer-lhes direitos, como se fazia na Idade Média e no Renascimento, isso seria estranho. Mas o que pensaria de nós um observador medieval, ao deparar-se com uma sociedade organizada não em torno da religião, como a dele, mas sob a forma de Estado, tendo como referência a Nação, uma ideologia inexistente na Idade Média, que, no entanto, naturalizou-se entre nós, tornando-se ponto de partida para uma série de novos fatos ou eventos? Soberania, interesse nacional, estatizações, nazismo, copa do mundo, hinos nacionais, arte ufanista são alguns dos fenômenos que surgem tendo-se como premissa a Nação. Nenhum deles existiria na realidade medieval. Hoje, Deus e Nação podem conviver, mas são duas entidades independentes uma da outra. A Nação, mediante aqueles que agem em seu nome, pode soberanamente proclamar-se laica ou ateia e fundamentar seus atos não mais em Deus, mas em si mesma. Será legítimo aquilo que for feito em seu nome, no nome da Nação, seja, por exemplo, uma estatização de empresa estrangeira, uma convocação para o serviço mili-tar, uma declaração de guerra ou um fuzilamento por traição. Aqueles que agem em nome da Nação podem ter uma ética distinta daqueles que representam Deus, mas podem também, os re-presentantes da Nação, associar-se aos prepostos do Todo-Poderoso e proclamarem-se soberanos entre as nações e tementes ao divino: o binô-mio Deus e Pátria, inexisten-te na Ida-de Média, tornou-se c o r r e n t e e m p l a - t a f o r m a s p o l í t i c a s da era mo-derna. P a r a um obser-vador RENAN VIANA medieval, o conceito de Nação seria incompreensível. Talvez ele a percebesse como uma entidade misteriosa que desafi ou Deus: em alguns casos, colocou-se ao seu lado; em outros, porém, afrontou-o abertamente e, limitando a incidência das leis divinas, restringiu sua aplicação ao plano privado. No que consiste essa entidade, porém, isso permanecerá um mistério, não fazendo sentido para o nosso observador. Nos dias que correm, vemos com naturalidade o nacionalismo, o orgulho de fazer parte de uma nação e também de ter outra nação como rival. Não julgamos ridículo o patriotismo. Já um observador da Idade Mé-dia talvez considerasse a disposição existente hoje de viver, matar ou morrer por uma ideia abstrata como Nação tão peculiar e difícil de compreender, quanto é para nós peculiar e difí-cil de compreender a época em que os animais ocupavam o banco dos réus. *Professor Associado da Faculdade de Direito da USP. Não bastassem as pessoas que os temiam e odiavam, havia também os gatos que, além de inimigos naturais, eram aliados dos reclamantes
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    18 Estado deDireito n. 35 A ambiguidade do sujeito do direito na arte Rosa Maria Blanca* O objetivo do presente artigo é mostrar como o artista Del Lagrace Volcano, no momento em que apresenta uma imagem ambígua de gênero homem / mulher, nos leva a refl etir sobre a relação que existe entre visualidade e sujeito do direito. A problematiza-ção que encontramos é que o sistema de dois-sexos contemplado no direito não abrange a todos os sujeitos da nossa sociedade. Transdisciplinariedade Um estudo transdisciplinar proporciona outras aproximações e olhares sobre um mesmo objeto, contrariamente aos alcances de uma disciplina isolada. A transdisciplina-ridade opera com conceitos que atravessam distintas áreas do conhecimento ajudando à tradução de questões que de alguma forma ou outra subsistem na nossa contemporaneidade. Mediante o trabalho de Del Lagrace Volcano, intitulado Torso Hermafrodita (1999), podemos estudar o papel do visual e do corpo, como uma dimensão que interfere na produção de identidades sexuais e de gênero. Denomina-mos regime epistemológico visual ao sistema de conhecimento constituído politicamente em uma linguagem visual. Determinando o corpo como imagem, o regime parte de códigos de classifi cação para a identifi cação de corpos falantes. O que quer dizer que a classifi cação das identidades inclui também a construção de tipos de visualidades. Isto tem como con-sequência que tanto o indivíduo denominado como mulher quanto o indivíduo categorizado como homem se constroem como realidades visuais naturais e imodifi cáveis. Gênero O regime epistemolóóóggiiccoo vviissuuaall se ativa a partir da mídia como cinema, TV e arte, assim como através de distintos discursos como o discurso do direito, onde somente cabem o sujeito homem e o sujeito mulher. O artista Del Lagrace Volcano propõe a categoria intersexual para questionar o gênero binário. A intervenção cirúrgica e /ou de tratamento hormonal em intersexuais nos ajuda a entender a função da tecnologia dentro do regime epistemolóóóggiiccoo vviissuuaall. A intersexualidade desestabiliza essa invenção chamada “natureza”, questionando a matriz ocidental de sexo e gê-nero (e sexualidade). A designação do gênero, a partir da ambiguidade do nascimento de bebês intersexuais é mais social do que médica, onde o principal critério é a performance adequada a seu sexo. Por exemplo, se a genitália apresenta um pênis pequeno, isso desperta dúvidas sobre as expectativas de um efetivo desempenho viril. Sabe-se que 90% das atribuições sexuais são “femininas”, dadas as limitações técnicas. Parece ser mais fácil determinar corpos femininos do que masculinos, quando se guia pelos papeis construídos pela cultura ocidental. Um clitóris grande representa uma ameaça para as expectati-vas de uma conduta sexual heterossexual, dentro de um sistema heteronormativo. Na década de 1960’s, esse tipo de cirurgia era conhecida como “cliteroctomia” , porque é semelhante às práticas realizadas em crianças em países como Guiné, Burkina e Somália. Vemos como o sujeito do direito corresponde a uma diferença sexual construída tecnológica e visualmente. Recartografar o Social Del LaGrace Volcano é um artista que desafia as “normas” de gênero. Através de tecnologias de gênero Volcano tem como um de seus objetivos recartografar o social, criando novas geografias de gênero que tenham o potencial de constituir-se como fonte de evidência de diferenças que afetam a avaliação do social (VOLCANO, 2005). No trabalho de Volcano, a configuração genital aparentemente sugere a existência de um pênis, mas também pode sugerir um clitóris. Assim também e dialogando com outras imagens dentro da história da arte, a exposição do torso nos remete à Venus de Milo (Séc. 130-100 a.C). Simultaneamente, a delicadeza do gesto corporal nos evoca o Hermes, de Praxíteles (Séc. IV a.C). A partir da produção de práticas visuais como as artísticas é possível apresentar al-ternativas do sujeito do direito. A exposição deste tipo de imagens (en)codificam nossa(s) cultura(s). Por isso é importante o seu es-tudo, porque dessa forma o imaginário é ativado, projetando novas formas de pensar o direito. * Artista e Doutora em Ciências Humanas (UFSC) com a tese: Arte a partir de uma Perspectiva Queer, Mestre em Artes Visuis (UFRGS), Professora do Curso de Artes Visuais, na Graduação e Pós- Graduação; Coordenadora da Pinacoteca Feevale e do Curso de Especialização em Design de Superfície, Universidade Feevale; A designação do gênero, a partir da ambiguidade do nascimento de bebês intersexuais é mais social do que médica, onde o principal critério é a performance adequada a seu sexo RENAN VIANA RENAN VIANA
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    Estado de Direiton. 35 19 A confi guração físico-cênica dos nossos Tribunais Fábio Feliciano Barbosa* A CF/88 optou pela separação dos pode-res de Montesquieu. Nela, os poderes – o executivo, o legislativo e o judiciário – são independentes e harmônicos entre si; e só podem assumir funções estranhas a da sua natureza, quando autorizados pela Carta. Isso é o que acontece quando o Senado julga os crimes de responsabilidade do Presidente da República. O Brasil já adotou, na Carta de 1824, a separação quadripartite de poderes, por infl u-ência das teorias de Benjamin Constant, cuja chefi a cabia ao Imperador – chefe também do Executivo. A partir de 1891, com a criação da nossa primeira Carta Republicana, a separação dos poderes passou a ser tripartite e, assim, tem sido até os dias atuais. Separação dos Poderes Desde então, como sempre ensinei aos meus alunos de História do Direito, a tripartição dos poderes é um dos principais dogmas do nosso direito. O nosso grande problema disse-lhes, ao longo da república, nunca foi dividir os poderes, mas fazer com que eles fossem capazes de frear uns aos outros, de forma efi caz e rápida, quando há uso ou confi guração do poder que não se adéquam ao que as nossas Constituições deter-minam. Nesse sentido, a CF/88, em relação às anteriores, avançou, mas ainda precisa avançar mais em matéria de interpretação e aplicação da separação dos poderes. Por essa razão, é preciso rever o que está instituído em matéria de uso e de confi guração do poder que, embora a CF/88 não diga expressamente, não combina com o seu “espírito” e determinações, já que nem toda inconstitucionalidade reluz feito o dia, ou é escura como a noite. Essa é grande questão que o CNJ enfrentará quando decidir se a atual confi guração cênica dos tribunais brasileiros, na qual o ministério público tem assento imediato ao lado direito do juiz, é compatível (ou não) com a CF/88. Desde já defendo que a atual confi guração é incons-titucional porque não institui uma verdadeira eqüidistância física entre as partes que atuam nos processos judiciais. Lembro que o princípio da separação dos poderes é um dos topos da cultura jurídica con-temporânea, que se aplica a várias atividades e confi gurações cênicas necessárias à criação/apli-cação do direito e a distribuição/administração da justiça. No que diz respeito à criação do di-reito, o chefe do executivo tem o poder de vetar as leis quando contrariam a Constituição, ou os interesses da nação. Ao vetá-las, ele interfere no trabalho do legislativo, mas essa interferência é autorizada pela CF/88. Já quanto à distribuição/administração da justiça, a CF/88 instituiu que ela contará com a atuação de um juiz de direito (judiciário), um promotor de justiça (poder executivo) e um advogado, que representará quem é réu ou acionou a jurisdição. Processo Brasileiro Refl etindo sobre a aplicação e signifi cação da teoria da separação de poderes, de Montesquieu, a mais apta para garantir a democracia e os direi-tos fundamentais, deduz se que a confi guração cênica dos nossos tribunais deve ser, mas não ainda é semelhante a um triângulo equilátero, no qual as mediatrizes sempre se encontram com as bissetrizes, no mesmo ponto “O”. Esse ponto representa o lugar ideal no qual todos estão protegidos de quem usa o poder para julgar ou acusar. Mas não é isso que acontece porque a posição do parquet e dos demais agen-tes necessários a distribuição/administração da justiça – juízes e advogados – forma um triân-gulo, mas sempre escaleno ou isóscele. Nesses dois tipos de triângulos é impossível haver o encontro das bissetrizes com as mediatrizes, sempre no mesmo ponto. Portanto, o ponto “O”, que acabamos de descrever, não existirá. Isso signifi ca que, metaforicamente, quem está esperando uma decisão de quem julga ou acusa, está mais vulnerável, porque está numa posição física (da relação processual) que não obedece ao principio da equidistância entre as partes. O que contraria a CF/88. Por força da nossa tradição processual brasileira, muito ligada a regimes autoritários, o parquet tem acento imediato à direita do juiz, fi cando o advogado da parte mais distante dele – o que constitui uma grande desvantagem. No Brasil, ao contrário dos USA, a confi guração cênica do tribunal e do processo brasileiro não é eqüilátera porque as partes não estão eqüi-distantes uma das outras. Mas, isso nunca foi motivo para se questionar a constitucionalidade da posição do parquet nos tribunais. Agora é e tem suscitado debates em todo o Brasil. É preciso estabelecer que tipo de confi gu-ração cênica dos tribunais se adéqua a CF/88, já que a atual tem relações com os tempos em que o parquet era um simples braço escravo do poder executivo. Basta ler a CF/88 para saber que esse tempo passou, mas o seu legado não. O recomendável, então, seria (é) criar uma con-fi guração cênica que instituísse uma verdadeira equidistância física entre as partes, nos tribu-nais; cuja representação ideal é um triangulo eqüilátero, conforme descrevi anteriormente. Nada justifi ca a permanência do parquet em uma posição física mais próxima do juiz. Essa (im)posição inconstitucional – um verdadeiro privilégio – tem muito mais relações com os re-gimes autoritários e os seus legados, coisas bem conhecidas no Brasil, do que com construção de uma verdadeira democracia, a grande promessa da CF/88. É preciso que o princípio da equidistância física entre as partes de um processo ganhe mais força entre os profi ssionais do direito, que atuam na distribuição/administração da justiça, para que a confi guração cênica dos nossos tribunais se ajuste a CF/88. Como ele já está inscrito na Carta de 88, confl ita com a atual disposição cê-nica dos nossos tribunais na qual o parquet tem o privilégio de se sentar ao lado direito do juiz. Retirar o parquet dessa posição privilegiada só vai servir ao bem da democracia, dos direitos e da justiça. Se isso acontecer, e espero que aconteça, ninguém perderá nada. Todos ganharão mais segurança e igualdade no acesso à justiça. Esse novo princípio não é uma grande novidade. Novidade mesmo, será o seu reconhecimento e aplicação. *Advogado (UFRJ), especialista em direito público (UCAM/centro) e mestre em políticas públicas e formação humana (UERJ). Já lecionou as seguintes disciplinas: Direito Constitucional, História do Direito, História do Direito Brasileiro e História dos Grandes Crimes e Julgamentos. O Direito Alternativo não é um movimento! José Manuel de Sacadura Rocha* O recomendável, então, seria (é) criar uma confi guração cênica que instituísse uma verdadeira equidistância física entre as partes, nos tribunais; cuja representação ideal é um triangulo eqüilátero O Direito Alternativo não é um movimen-to! Se o foi em determinado momento histórico é porque havia a necessidade de se enfrentar com coragem a injustiça de um golpe sangrento. Mas os que hoje usam a expres-são ‘movimento’ do Direito Alternativo deveriam abandonar esse jargão. O Direito Alternativo é um conjunto de princípios e valores que procura apenas, e tão-somente, aplicar a lei com justiça social, resgatar a dignidade humana, a proporcio-nalidade, equidistância, razoabilidade, e mesmo a ergonomia para o bolso do contribuinte. Chamá-lo de ‘movimento’ pode incutir nesses princípios e valores distorções que estão muito perto do sistema e ordenamento jurídico brasileiros, que por sua natureza histórica e força de elites, sempre tende a se separar dos que mais precisam deles. Daí que não é de estranhar que se dê em alguns lugares o nome de Direito da Rua. Sim, para esses, da rua, o Direito Alterna-tivo talvez seja o único momento de justiça e esperança. Eu prefi ro a espressão que retirei de José Saramago: Direito Pedestre. Se ele aparece muitas vezes como ‘movi-mento’, é porque uma parte importante dos doutrinadores e operadores do Direito percebem o fundamental no mundo jurídico: o Direito é Gente trabalhando para Gente, ele tem cheiro de povo, de plebe, de reinvidicação: nas Leis de Sólon, menos punitivas e mais cidadãs, na revo-lução plebeia quando da confecção da Lei das XII Tábuas, no Corpus Juris Civilis de Justiniano, na Súmula Teológica de Sto. Tomás de Aquino, na concepção jusnaturalista de Pufendorf e Jean Domat, na ética do espírito de Kant, no espírito absoluto de Hegel, na luta de classes de Marx, na justiça restaurativa de Durkheim, no subjetivis-mo normativo de Weber, na intersubjetividade de Cossio, no existencialismo de Sartre, na cura pela presença do outro de Heidegger, no aboli-cionismo de Hulsman, no projeto educacional de Paulo Freire, apenas para citar alguns. Muitas vezes me pergunto o que os que nos discriminam leram e ainda lêem?! O que o Direito que defendo não é? Não é orgulho, não é dono de verdades, usa os universa-lismos enquanto instrumentos de harmonia e paz, não é anti-ético, não prevarica, não tem intenções de ser mais do que um prestador sensato a ser-viço de justiça para o povo. Defende a soberania popular e a autonomia do Brasil, não é violência, não usa o semelhante como bode expiatório, não é omisso, não é desumano, não é dogmático, enfi m, não habita os lugares comuns do poder. Ao contrário, o que esse Direito Pedestre pode fazer é comprazer-se em frequentar os lugares mais humildes e simples, os lugares de ‘signifi cação jurídica não linear’. Por isso tudo parece tão incompreensível para uns e tão natural para outros! Sócrates dizia que ‘quem não perdoa não pode julgar’! O Direito que eu defendo, esse das ruas, é um Direito de perdão, de amor, de convivência, de restauração e reinserção, não de ódio e ressentimento taliônico. O Estado e suas instituições do Direito não têm mais direito de serem truculentas e omissas só porque têm o poder de seu lado! * Professor na graduação e pós-graduação de Filosofi a, Ética, Sociologia. Mestre em Administração pelo Centro Universitário Ibero-americano. Autor de diversas obras, entre as quais, Ética Jurídica – Para uma Filosofi a Ética do Direito, pela Editora Campus Elsevier e Fundamentos de Filosofi a do Direito: o Jurídico e o Político da Antiguidade a nossos dias, pela Editora Atlas.
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    20 Estado deDireito n. 35 Privilégio e foro privilegiado Djalma Pinto* O Brasil confunde foro privilegiado com “privilégio”, sem aval do Direito, consta-tado no fato de um infrator ocupante do poder político não ser julgado em lugar algum, ainda que formalizado o respectivo processo em que comprovada a prática do seu crime. A impunidade é fruto exclusivamente dessa ausência de julgamento. Não decorre da previsão na Constituição de foro diferente para tramitação de processos em que denunciadas determinadas autoridades. A Folha de São Paulo, em um levan-tamento pioneiro na História da República, fez um diagnóstico preciso do problema: “STF demora até 6 anos para decidir se senador deve ser investigado” ( 26/02/2012, caderno especial, p.2). Existindo ou não a fi gura do foro especial, sem efetivo julgamen-to, a impunidade acaba consagrada. Decisões Condenatórias Esta constatação precisa ser amplamente dis-cutida: não há muita disposição para julgamento, na esfera criminal, de quem ocupa o poder polí-tico. Basta examinar o número insignifi cante de condenações de deputados e senadores de 1889 até 2012. Para agravar o quadro, a Súmula 394 foi revogada. Lia-se no seu verbete: “cometido o crime durante o exercício funcional, prevalece a competência especial por prerrogativa de função, ainda que o inquérito ou a ação penal sejam inicia-dos após a cessação daquele exercício”. A consagra-ção desse entendimento, provocou a anulação de muitos processos que até então tramitavam sem sua observância. Com a revogação, muitos outros dei-xaram de ser julgados para serem encaminhados a outros foros. O resultado fi nal é que são poucas as notícias do trânsito em julgado de decisões condenatórias de políticos, impondo penalidades por crimes contra a Administração. Com a revogação da referida Súmula, fi cou ainda mais difícil o julgamento e a condenação de senadores e deputados denunciados pela prá-tica de crimes. Fácil constatar. Após a publicação da pauta de julgamento no STF, renunciam ao mandato, sendo então o processo encaminhado para a primeira instância para tramitação no lugar da infração. Se, na Suprema Corte, como atestou o Jornal Folha de São Paulo, leva-se até seis anos apenas para decidir se um político pode ser investigado, imagine-se o tempo a ser consumido para seu julgamento na jurisdição ordinária! Em síntese, muito provavelmente ocorrerá a prescrição, antes do retorno dos autos para o exame do recurso na última instância. Impunidade Para reverter esse quadro, que incomoda a cidadania pela recorrente sensação de impuni-dade, não é necessário abolir o foro privilegia-do, mas mantê-lo após o término da função. Mais importante, porém, é exigir a sociedade prioridade absoluta no julgamento daqueles que, investidos no poder político deram maus exemplos, cometendo crimes e estimulando com suas ações deletérias a violência no grupo social. Afi nal, quem exerce o poder atua como um educador. Serve de paradigma para crianças e jovens na República. Se alguém, no exercício de função pública, pratica crime deve ser ime-diatamente punido depois de assegurada a ampla defesa, sob pena de ser imitada a sua atuação delituosa na base do grupo social. Todos nas periferias também passam a reivindicar o direito à impunidade. Na falta de sanção a deputados e senadores que violam o Código Penal, portanto, uma das causas do crescimento da criminalidade na sociedade brasileira. * Ex-procurador-geral do Estado do Ceará. Autor dos livros Distorções do poder, Direito eleitoral, Improbidade administrativa e Responsabilidade fi scal, Elegibilidade no direito brasileiro, A cidade da juventude e “Marketing”, política e sociedade. São poucas as notícias do trânsito em julgado de decisões condenatórias de políticos RENAN VIANA Revisitando os Três Poderes Samuel Mânica Radaelli* A CCJ considerou constitucional o projeto que permite que o Congresso casse de-cisões do STF: trata-se da PEC 3/11, do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI). O projeto impressiona primeiro porque não é de autoria do deputado Tiririca, pois talvez ele tenha ouvido falar das ideais de Montesquieu sobre a separação dos Poderes. Freios e Contrapesos A proposta é tão descabida que a partir dela os Três Poderes, que até aqui representam três funções típicas, terão sua confi guração alterada, o legislador terá duas atribuições - além de legislar passará a revisar a atividade judicante. Tal fato gera a seguinte situação: o legislativo emite uma lei, o Judiciário fi scaliza sua constitucionalidade e, vejam só, o Legislativo, por fi m, fi scalizará a fi scalização feita pelo Judiciário. Ou seja, ele próprio passará a fi scalizar ele próprio, o que representa um abalo tremendo ao princípio dos freios e contrapesos, o qual foi desenvolvido para evitar o acúmulo de poder ou a sobreposição de poderes. A idéia é de um meta-controle de constitu-cionalidade, um controle do controle de cons-titucionalidade, feito pelo controlado. As escusas para este despautério vêm da chamada “crise institucional do Judiciário”, o qual de fato necessita rever muitas das suas posturas. Mesmo sendo inegável a sua inefi cá-cia estrutural para tratar de grandes temas que transcendem os confl itos individuais, e para qual os congressistas, nem mesmo o Tirirrica, tem qualquer sugestão a dar. Quem se arvora apoiar a PEC 03/11, em geral são descontentes com o STF ou com Judiciário de um modo geral, em relação à repressão das pretensões eleitorais de políticos corruptos e aqueles descontentes com certas decisões que vão de encontro a alguns preceitos religiosos, defendidos por bancadas crentes, não apenas evangélicos, mas também católicos carismáticos. Em nome de combater a “ditadura do Judiciário”, os protagonistas desta proposta pretendem instituir a “ditadura do legislativo”. Cumpre indagar porque as propostas que pro-põem o controle popular de toda a atividade estatal, inclusive o Judiciário e o legislativo não Os riscos da anulação de decisões do STF pelo Congresso ganham corpo. O legislativo se auto proclama mais democrático por ser representante do povo, no entanto, é sabido que um dos graves problemas do Legislativo é o seu déficit de representatividade. Legislativo O STF excede nos seus limites constitucio-nais? Passou a Legislar? Mesmo se isto tivesse acontecido, o Legislativo, se efi ciente fosse, teria como combater tal questão pelo seguinte fato: se o Judiciário trata da interpretação da lei e o Legislativo entende que há excesso de interpretação, pode mudar a lei de forma a não deixar margem para a interpretação dada pelo Judiciário. Exemplo disso é o caso da verticali-zação das candidaturas estabelecida em 2002 pelo TSE e referendada pelo STF. Naquela ocasião o Judiciário interpretou o artigo 17 § 1º da CF, entendendo que os parti-dos que coligassem na esfera federal deveriam coligar nas demais esferas. O Congresso não concordando com os rumos do processo eleitoral decorrentes deste posicionamento e reformou a Constituição através da Emenda nº 52/2006, a qual possuía um texto que expressava literal-mente a possibilidade de coligações diferentes em todos os níveis da federação. O Legislativo, exceto na hipótese de clausula pétrea, pode, sempre que discordar de uma interpretação dada a uma lei, modifi cá-la. Tal modo de proceder resguarda a independência, a autonomia e a harmonia do poderes, mas depende da efi ciência do processo legislativo. Além do mais, Judiciário e Legislativo padecem de alguns males comuns como a vinculação elitista, por exemplo. Deste modo, o Legislativo não é capaz de redimir o Judiciário, mas sim pervertê-lo ainda mais. O Judiciário precisa ser reformulado jus-tamente nos defeitos que comunga com o Legislativo, as tentativas de submeter um ao outro tendem a corroer ainda mais nossa insti-tucionalidade política. * Coordenador Curso de Direito do IFPR- campus Palmas-PR. Membro do Gupo Gedis http://grupogedis. blogspot.com.br/
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    22 Estado deDireito n. 35 Sistema Oceânico Paulo Magalhães* Os sistemas oceânico e climático, são os sistemas naturais que nos unem a todos. O projeto Condomínio da Terra da Quercus, em parceria com várias Universi-dades Portuguesas, Brasileiras e Espanholas, propõe reconhecimento dos Sistemas Climático e Oceânico como Património Natural Intangível da Humanidade. Um alicerce estrutural para se construir a confi ança e reciprocidade necessárias a uma economia verde e humana. Confl ito Sistémico O funcionamento global dos oceanos, é uma realidade que desde muito cedo tem desafi do o conceito de soberania clássico. Quando falamos em atmosfera ou oceanos, inevitavelmente, estamos a incluir dentro destes conceitos os sistemas naturais e as “funcões” da natureza. As descobertas que revelaram o funcionamento global do Sistema Natural Terrestre, são ainda re-centes e a operação mental de separar os sistemas naturais globais dos territórios das soberanias, é uma atividade que exige uma reestruturação do raciocínio. Certo é que não possuímos nenhum objeto jurídico, capaz de explicar a realidade ecossistémica do oceano global, e que potencie a harmonização do confl ito sistémico entre o global e o interesse de cada Estado. Na sequência das alterações da composição química da atmosfera surgem alterações na com-posição dos oceanos. Da interacção entre estes sistemas surgem mudanças nas dinâmicas de distribuição e transmissão de energia, e em toda a complexa teia de componentes que se transfor-mam e interagem no tempo, e que contribuem de forma diferenciada para o estabelecimento de estados de equilíbrio dinâmico a que chamamos clima. É no interior deste processo global que nos tornamos vizinhos globais. Quando analisamos a alteração da compo-sição química e biológica dos oceanos, estamos a trabalhar num plano em que se pretende aferir a “qualidade” deste bem e a sua aptidão para desempenhar a função de suporte biológico para condições de vida humanas. Neste plano de análise, estamos a trabalhar com “sistemas ” que desempenham determinadas funções e que se caracterizam por um movimento global constante, e de forma simultãnea no interior e exterior dos territórios dos Estados Governança Integrada A utilização de uma aproximação jurídico-formal da noção de Património Comum da Humanidade ao sistema climático, proposta por Sobrino1, pode ser aproveitada para ultrapassar o confl ito entre a unidade ecossistémica do oceano global, e as diferentes soberanias que se exercem sobre as áreas sob jurisdição nacional. A confi guração deste novo conceito de património natural pode potenciar a resolução de uma série de problemas estruturais e operacionais comple-xos, como sejam a dispersão dos benefícios e dos encargos por todo o Oceano, a partilha e gestão dos benefícios de forma equitativa e justa, e a institucionalização de uma governança integrada dos oceanos. A assimilação desta realidade intangível, inapropriável e indivisível da natureza, pode ainda constituir uma ferramenta estrutural para ultrapassar o “buraco negro” que estes sistemas naturais globais representam para a economia, internalizando num património comum, factores vitais para a nossa existência que continuam a ser considerados “externalidades”. Esta abordagem que captura juridicamente a noção de sistema, permite a desterritorialização das funções ecossistêmicas relativamente aos Estados, individualizando e delimitando os ser-viços ambientais relativamente às infraestruturas físicas dos ecossistemas que os disponibilizam. Esta desmaterialização da natureza, pode abrir as portas para a criação de um sistema de contabilidade de contributos positivos e negati-vos para a manutenção dos oceanos e do clima, o EcoSaldo, e contribuir de forma decisiva para que se ultrapassar o problema da governança do ecossistema global dos oceanos. Esta contabilidade é uma condição estrutural para ultrapassarmos o dilema da acção coletiva global. Para todos os efeitos, será a concretização da “necessidade de considerar os oceanos como um todo”, já prevista no preâmbulo da UNCLOS. Esta natureza intangível, porque nos une a todos, é a essência e o verdadeiro Património Comum da Humanidade. * Coordenador Condomínio da Terra/Quercus. Investigador Cesnova/FCSH. Universidade Nova. O direito ambiental Wellington Pacheco Barros* O direito ambiental é um direito univer-sal por excelência. Isso porque a conscientização de que o meio ambiente que ele trata é um bem de todos e precisa ser protegido está lastreada na própria sobrevivência do homem na terra. Este apelo é de aceitação instantânea e tem foro de legitimidade absoluta em todos os povos por se tratar de uma questão inerente à própria natureza humana. Assim, sua trans-internacio-nalização e consequente importação e adapta-ção aos países é uma decorrência natural. Princípio da Precaução A discussão fundamental sobre o novo direito reside na dimensão que se deve dar ao meio ambiente: se deve ser protegido incon-dicionalmente, segundo a pauta de conduta ditada pelo princíííppiioo ddaa pprreeccaauução ou se ele deve ser conjugado com o desenvolvimento como sustenta o princíííppiioo ddoo ddeesseennvvoollvviimmeennttoo sustentável. Apesar disso, o estudo do direito ambiental no Brasil é recente, bem mais do que o estu-do perpetrado na Europa sobre esse mesmo direito, de onde, inclusive, é originário. De um lado, isso retrata a aceitação do fenômeno da globalização do direito pelo Brasil ou da internacionalização da ciência jurídica muito em voga nos últimos anos, porém, do outro lado, isso pode contribuir para refrear o as-pecto desenvolvimentista tópico existente em todo direito. O temor é o de que, importar regras ju-rídicas de um país e aplicá-las em outro, só porque foram boas na origem é atentar contra a aculturação predisposta no direito como ci-ência social de um povo. Numa visão própria do direito ambiental, é agredir o meio ambiente cultural de um país. No entanto, não se pode impedir o pro-gresso, mesmo porque ele é um fator essencial na vida do homem e da sociedade, base de sustentação de todo direito. Portanto, importar princípios jurídicos é importante, desde que tais princípios sejam adaptados à realidade nacional. No campo do direito ambiental isso é salutar porque o meio ambiente brasileiro, seja ele natural, artifi cial, cultural ou do traba-lho, possui pressupostos específi cos. Assim, apreender o direito estrangeiro e adaptá-lo à realidade ambiental brasileira é atitude racional do jurista pátrio. Mas, não é isso o que se observa na vida jurídica ambiental brasileira. Ação Política Educativa É perceptível certo maniqueísmo político ou ideológico na defesa de um meio ambiente utópico ou ideal, ufanado através de uma base aleatória e midiática do politicamente correto muitas vezes propalado sem o devido lastro de razoabilidade. Como ação política educativa implementa-da pelo Poder Público para difusão da essencia-lidade do meio ambiente é até admissível. O preocupante é que essa defesa intran-sigente possa contaminar os estudiosos desse novo direito levando de roldão princípios jurí-dicos fundamentais e instituidores do próprio País que, no campo do meio ambiente, optou pelo desenvolvimento sustentável. Ou seja, o meio ambiente na visão jurídica deve ser respeitado na perspectiva do ssseeerrr ddoo direito positivo e não do dddeeevvveeerrr ssseeerrr ddoo ddiirreeiittoo natural E a base constitucional dessa conclusão é a natureza jurídica que lhe outorga o art. 225 da Constituição Federal, que o delimita como bem público de uso comum do povo. Logo, meio ambiente não é o que o ambientalista defi ne, mas o que o direito conceitua. Recursos Naturais Ocorre que o meio ambiente e, por con-seqüência, o direito ambiental no Brasil vai sofrer modifi cações com a Reforma do Código Florestal, o que fi ca demonstrado que meio ambiente no Brasil não é algo abstrato. Ele é concreto e decorre de disposição legal. E com esta característica de patrimônio ou bem público juridicamente defi nido tem-se os outrora chamados recursos naturais, como a água, o solo, o ar, a fl ora e à fauna. Assim, num exemplo bem simples e leigo, a água da chuva, a areia do mar, a brisa da tarde, a macela da semana santa e o sabiá das manhãs, todos, são bens públicos sob a nomenclatura de meio ambiente. Como a praça e a rua, o meio ambiente por força constitucional passou a se constituir em bem de uso comum do povo, ou aquele bem que é público porque pertence a todo povo, mas é administrado pelo Estado através dos órgãos ambientais. Esse bem é diferente dos outros bens pú-blicos, como, por exemplo, o Palácio Piratini, chamado bem público dominial porque é usado pelo Estado para moradia do Chefe do Poder Executivo, ou.o Palácio Farroupilha, que é um bem público especial, porque serve de local de trabalho dos deputados, mas está aberto ao público. Nesse diapasão, o Código Florestal de 1965, visando proteger basicamente as fl orestas e os recursos naturais que as circundam, especial-mente a água dos rios e fauna e a fl ora dos morros e várzeas, criou as APPs, ou Áreas de Preservação Permanente. Ou seja, afetou com o domínio publico áreas contíguas ao meio ambiente e com isso estendeu a elas o mesmo status do bem originário E estes bens públicos sofrerão alterações para mais ou para menos. O meio ambiente nacional, ou o patrimônio ambiental brasileiro, será maior ou menor nos termos do que fi car estabelecido na nova versão do Código Florestal. Portanto, a afetação ou desafetação do meio ambiente como bem público é uma questão de direito e não uma questão científi ca ou ideológica. * Desembargador aposentado do TJ/RS; professor de pós graduação nas cadeiras de direito ambiental, agrário e administrativo; advogado do escritório WELLINGTON BARROS Advogados Associados; autor de 51 livros de direito, palestrante em mais de 150 eventos nacionais e internacionais. Um Património Natural Intangível para a Humanidade Importar princípios jurídicos é importante, desde que tais princípios sejam adaptados à realidade E a reforma do Código Florestal
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    Estado de Direiton. 35 23 Dicas certeiras para o seu sucesso no Exame de Ordem Conteúdo essencial em forma de dicas extraídas das últimas provas da OAB, abrangendo as 16 disciplinas da primeira fase do Exame de Ordem, divididas por temas e destacadas em forma de “etiquetas”. Coordenação Marcelo Hugo da Rocha
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    24 Estado deDireito n. 35 Convite à voz Rita Fucci-Amato* Avoz nos manifesta para o mundo. Regis-tro indelével da nossa personalidade, é também um braço pelo qual atingimos os outros mesmo sem tocá-los, repelindo-os com um grito, afagando-os com uma fala doce, con-fessando- nos em sussurro. Além de possuirmos, cada um, uma voz única e inconfundível, se ti-vermos integridade vocal somos capazes de pro-duzir inúmeras nuances vocais, utilizando uma verdadeira aquarela de cores sonoras ao longo de nossa vida. A voz é única e assim permanece em sua riqueza expressiva, que pode múltipla. Marca registrada de nossa personalidade e de suas variações ao longo do dia e da vida, a voz é assim protegida como direito fundamental e como direito da personalidade pela Constituição brasileira de 1988 (art. 5º, XXVIII, a). Cidadania Poderoso meio de expressão artística, capaz de aguçar os sentimentos de um ser humano pelo outro apenas fazendo vibrar o ar, a voz é também símbolo da cidadania – “a gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar”, cantou Chico Buarque – e expressão da soberania popular – Vox populi, Vox Dei, consagrou o ditado. Revoluções políticas, ca-tástrofes ecológicas ou desastres econômicos, os momentos históricos fi cam patenteados em nossa memória pelas diferentes vozes que os anunciam, com pesar ou euforia. Os grandes líderes, aliás, souberam im-primir na sua fala a harmonia que sustentava seus discursos: da voz metálica e da articulação precisa e meticulosa dos discursos militaristas de Hitler à fala cantada do pastor protestante Martin Luther King e à voz tranquila e mini-malista de Gandhi, a expressar sua fragilidade física e a força de sua liderança pacifista. Nascido Mohandas, Gandhi ganhou o nome de Mahatma, magnânimo, “grande alma” – a relembrar a história bíblica da Criação como sopro do Criador gerando a vida na criatura, ao lhe infundir a alma. O mesmo sopro que se sus-tenta no mistério da voz é que marca também cada vida, da primeira inspiração do recém-nascido ao último suspiro do que se vai. Ensino-aprendizagem A voz é instrumento da liderança, da política, dos negócios, da educação, da arte... Enfi m, é um fenômeno econômico. Estima-se que hoje um terço da população economicamente ativa seja composta por profi ssionais da voz, pessoas que tem na voz ferramenta primordial de seu trabalho. A voz é determinante, por exemplo, na atividade docente. Os processos de ensino-aprendizagem são mediados pela comunicação verbal, mas o domínio da voz, como instrumento de trabalho do professor, ainda é pouco enfatizado. Assim também, as condições de trabalho – a acústica dos ambientes, sua condição térmica, seus equi-pamentos e sua limpeza – prejudicam a atividade de qualquer profi ssional, inclusive sua voz. Pujante veículo de expressividade artística é também a voz, enquanto canto – seja na drama-ticidade de uma cena de ópera, seja na riqueza vocal impressa em um repertório variado no canto coral. Os coros amadores, aliás, são representes superlativos do poder de socialização e inclusão musical pela voz. Em um coro, aprende-se que todos podem cantar, que os talentos apenas estão adormecidos e que é preciso acordá-los. Aprende-se que a excelência vocal é uma questão de técnica e saúde – treinos e exercícios, mas também hábitos de cuidado com corpo e mente, na interseção dos quais se tem a voz. São inúme-ros os exemplos da mudança que o canto pode provocar na vida das pessoas. Coros em empresas, em hospitais, asilos e prisões, de crianças, adultos e idosos, multiplicam-se por sua virtude de unir as pessoas em um empreendimento de cooperação e solidariedade e fazê-las felizes enquanto desem-penham um trabalho árduo – a criação musical –, mas que compensa pela alegria da descoberta de sua voz e de seu corpo, pelo prazer estético, pela convivência e pelos aplausos. Por toda essa infl uência que a voz tem em nossas vidas e pelos cuidados que requer, um dia especial foi instituído em seu nome: 16 de abril é, há dez anos, o Dia Mundial da Voz. A consagração dessa data é resultado de um lon-go percurso. O Dia Nacional da Voz foi criado pela Sociedade Brasileira de Laringologia e Voz em 1999, fruto da preocupação com o elevado índice de ocorrência de câncer de laringe, que acometia 15 mil brasileiros anualmente. Em 2002, foi criado o Dia Mundial da Voz. Em 2008, o Dia Nacional da Voz foi instituído no Brasil por lei federal (Lei nº. 11.704, de 18 de junho de 2008), justamente “com o objetivo de conscientizar a população brasileira sobre a importância dos cuidados com a voz”. A voz é nossa companheira de todos os dias e dos diversos momentos – inclusive quando, pela sua ausência, faz-se o silêncio. Cuidar da voz é cuidar de nós mesmos. Usá-la em suas múltiplas funções é expandirmos nos-sas potencialidades e atingirmos os outros com nossa atividade. A essência das refl exões aqui elaboradas encontra-se no profundo desejo de convidar todos os leitores a fazerem uso de suas vozes, desfrutando plenamente deste admirável instrumento que possuímos. *Maestrina, especialista em Fonoadiologia pela Unifesp e pós-doutora pela USP. Autora dos livros Manual de Saúde Vocal: teoria e prática da voz falada para professores e comunicadores (Editora Atlas). O mesmo sopro que se sustenta no mistério da voz é que marca também cada vida, da primeira inspiração do recém-nascido ao último suspiro do que se vai ROBERTO ROCCO | FLICKR ROBERTOROCCO
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    Estado de Direiton. 35 25 A tetradimensionalidade do Direito – síntese Paulo Lopo Saraiva* A idéia da existência de uma Quarta parte do Direito advém da análise das estruturas da Física. De fato, há na Física duas dimensões distintas: a estática e a dinâmica. Na Teoria Pura do Direito, Hans Kelsen aborda profundamente essas duas partes. Com efeito, uma coisa é a vigência da Norma posta e outra coisa é sua eficácia. No caso da estrutura jurídica, encontramos em primeiro lugar o Fato que passa a ser Ato, quando promanado da vontade humana. Neste caso, impõe-se a análise interdisci-plinar da conduta humana, em face de suas reações psicológicas, sociológicas, antropo-lógicas e até religiosas. De outro bordo, o Valor é o elemento essencial para discernimento da prática humana. Sem valorar o Fato e o Ato, certamente, poder-se-á cometer injustiça. A valoração é a representação herme-nêutica dos princípios constitucionais. Não se pode nem se deve aplicar a Norma, sem a prévia valoração dos seus efeitos. Na terceira posição, encontra-se a Norma Jurídica, que pode ser produto da atividade Legislativa ou resultado da ação da autorida-de Executiva. É o caso das Medidas Provisó-rias, no Brasil. Admite-se, hodiernamente, o Ativismo do Poder Judiciário. Quando não se faz a lei pelo órgão competente, impõe-se que outro órgão concretize o Texto Constitucional. É o caso do STF, no processo constitucional Brasileiro. Por fim, surge a Quarta parte do Direito: a JUSTIÇA. Com efeito, a Justiça é a finalidade do Di-reito, sua dimensão final. Direito sem Justiça é arbítro, é ato ditatorial. Muitos tentaram conceituar a Justiça: Aris-tóteles, Cícero, Tomás de Aquino, Kant, Hegel, Kelsen, Paulo Bonavides, Friedrich Muller. A nosso ver, é quase impossível concei-tuar a Justiça, pois Justiça vive-se, sente-se, realiza-se. Não se define a Justiça, pratica-se. A maior definição da Justiça é sua prática. Que pede o povo na televisão, diariamen-te? JUSTIÇA. De conseguinte, faz-se mister que a Aca-demia se dedique à análise de suas estratégias e sua eficacialização. Neste sentido, é que nós, no final dos anos 90, começamos a examinar o sentido de Justiça e sua relação com o Direito, pois entendemos que a Justiça é a dimensão Te-leológica do Direito. O nosso último livro: “A Tetradimen-sionalidade do Direito. Coleção Jurística do Semi-árido Nordestino, 1ª edição, Pau dos Ferros/RN, 2011, trata desta matéria. Com certeza, faremos uma nova publi-cação, desta feita, a nível nacional, para que todos os interessados tomem conhecimento da novel Teoria. *Advogado e Professor; Pós-Doutor em Direito Constitucional ; pela Universidade de Coimbra.; Doutor e Mestre em Direito Constitucional pela PUC/SP; Mestre em Ciências Políticas e Sociais pela Universidade Técnica de Lisboa. Telhados do mundo João Caetano* A liberdade, a alegria e o dom de si deve-riam ser temas de ensino obrigatório nas nossas escolas. Basta de nos olharmos de soslaio, como diz Santa Teresinha do Menino Jesus. A escola serve para nos ensinar a forma de nos olharmos mutuamente como membros com igual dignidade da mesma comunidade política, assim como a forma de olharmos para quem nos é ou parece estranho. A escola serve para sabermos que é bom o convívio humano, que o mesmo até pode ser fraterno, apesar das desilusões. A escola serve para abrir portas, na variedade dos professores, colegas e métodos de ensino, permitindo-nos, no futuro, reconhecer muitos dos que conhecemos. Vem isto a propó-sito de saber se é possível o amor em sociedade e qual é a sua infl uência, bem como qual é a sociedade que queremos construir. Jorge Amado Jorge Amado escreveu um conto belíssimo intitulado “O Gato Malhado e a Andorinha Si-nhá – uma história de amor”, que relata o amor impossível entre uma andorinha e um gato. A Andorinha acabou por casar com outro e o Gato, desesperado, foi enfi ar-se na boca da Co-bra Cascavel. Todos nós conhecemos episódios destes, infelizmente. E a mudança nos costumes não tornou as pessoas mais felizes. A liberdade não consiste em fazer o que se quer, mas o que se ama. A liberdade está na busca do encontro com a pessoa amada, assim como na leitura de um livro ou numa viagem. Não proibamos a imaginação (andei pelo mundo inteiro antes de lá ter estado e sei que a imaginação é preciosa). O último capítulo (duas belas páginas) do livro de Jorge Amado intitula-se “A noite sem estrelas”. Não há maior falta de senso do que um amor verdadeiro ser impossível por defi nição. Na nos-sa visão naturalista das coisas, somos inferiores à natureza quando abusamos dela ou a utilizamos arbitrariamente. A natureza não é uma matéria inerte, mas uma obra admirável. A moral da história de Jorge Amado está no princípio do livro, quando cita o poeta popular da Bahia Es-têvão da Escuna: “O mundo só vai prestar / Para nele se viver / No dia em que a gente ver / Um gato maltês casar / Com uma alegre andorinha / Saindo os dois a voar / O noivo e sua noivinha / Dom Gato e dona Andorinha”. Medo É preciso que deixemos de ter medo de fazer escolhas e que permitamos que os outros as façam. A liberdade aprende-se falando, que é o fundamento da sã convivência entre os homens. As pessoas são dignas umas das outras quando, além de se conhecerem, se falam. E no entanto hoje falta-nos tempo para falar. Somos muitas vezes apenas conhecidos uns dos outros. Parece que tudo é fugaz e que a realidade não passa, numa afi rmação de Álvaro de Campos, de uma “concubina fogosa do universo disperso”. Conta Jorge Amado que o Gato Malhado disse à Andorinha que, se não fosse um gato, a pediria em casamento. As palavras foram gratas ao cora-ção da Andorinha, mas esta, apesar de estar apai-xonada pelo Gato, teve medo dele, porque ouviu dizer que os gatos eram inimigos irreconciliáveis das andorinhas. A liberdade não é uma amálgama de sensações, mas uma escolha que responsabiliza quem a faz. No plano político e social é necessário que as pessoas vivam bem e não tenham medo. Como diz o Papa Bento XVI, na Carta Encíclica “Caridade na Verdade”, a natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade. É missão da escola ajudar os alunos a reconhecerem esta rea-lidade, se não quiser fi car pela mera formação de seres mecânicos e competitivos, alheios à beleza do mundo e à sorte das suas andorinhas sinhás e dos seus gatos malhados. * Pró-Reitor para os Assuntos Jurídicos da Universidade Aberta - https://www.uab.pt. TÉCNICA DE SENTENÇA CÍVEL Noções aplicadas de processo civil, prática da redação de sentenças cíveis e exemplos de sentenças Marcelo Andrade Campos Silva 1ª edição 2012 METODOLOGIA DO DIREITO Francesco Carnelutti TTrraadduuççããoo:: WWiillssoonn ddoo PPrraaddoo 1a edição 2012 PROCESSO DE EXECUÇÃO E CUMPRIMENTO DA SENTENÇA Humberto Theodoro Júnior 27a edição 2012 PERÍCIAS EM ARBITRAGEM Flavio Fernando de Figueiredo Francisco Maia Neto Organizadores 1a edição 2012 Rua Santo Amaro, 586 – Bela Vista – São Paulo – SP www.editoraleud.com.br e-mail: leud@leud.com.br www.editorapillares.com.br e-mail: editorapillares@ig.com.br
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    26 Estado deDireito n. 35 Adolescentes: da invisibilidade ao reconhecimento Ana Paula Motta Costa* Reconhecer cada um no contexto social é RRRddaarr vviissiibbiilliiddaaddee àà ssuuaa ccoonnddiiççããoo ddee ppeessssooaa,, com possibilidade de manifestação da identidade. Concretiza-se na convivência com a diferença, em interação e condição de igual-dade. Materializa-se por meio da indiferença às diferenças sociais que impedem a identifi cação de uns com os outros em um mesmo patamar de igualdade. Corresponde à busca pelo deslo-camento constante, pelo diálogo, pelo respeito às diferentes manifestações culturais, linguagens e expressões de racionalidade. Justiça Na contemporaneidade, as pessoas encon-tram difi culdades de ver-se reconhecidas. Tarefa que é atribuída ao sujeito individualmente, quando a luta por justiça e por reconhecimen-to não é um problema individual, é coletivo e importa ao conjunto da sociedade. As dificuldades de reconhecimento dos adolescentes, em sua especifi cidade e peculiari-dade, podem ser observadas a partir de distintas dimensões: enquanto etapa de vida com caracte-rísticas socioculturais próprias, considerando a ordem social predominantemente adultocêntri-ca; o reconhecimento dos adolescentes vivendo em condição especialmente difícil, pertencendo às classes sociais de maior vulnerabilidade, sobre os quais há maior preconceito; o reconheci-mento desde a perspectiva jurídico cultural, cuja origem está na ausência da possibilidade de diálogo intercultural; e, ainda, os limites de reconhecimento desde o ponto de vista do Estado, enquanto ausência de reconhecimento de seus direitos. Mortalidade A situação de falta de reconhecimento expressa-se nos números alarmantes de morta-lidade do público adolescente nos últimos anos no Brasil. Segundo o Núcleo de Estudos da Vio-lência (NEV) da Universidade de São Paulo, que analisou um intervalo de 22 anos e comparou estados e capitais brasileiras, jovens entre 15 e 19 anos são as maiores vítimas de homicídios no País: 87,6% dos casos. Essas mortes ocorrem essencialmente onde há uma superposição de carências e de violação de direitos. Na mesma direção apontam os dados do Ministério da Saúde, que afi rmam que na faixa etária de 10 a 19 anos as violências têm sido as principais causas de óbito (52,9%). Entre os adolescentes, entre 15 a 19 anos, 58,7% dos óbitos, no perí-odo analisado, foram por violências (DATA SUS -2006-2010). A violência é um processo complexo, mas relaciona-se com as difi culdades de reconheci-mento deste público na sociedade atual. O fato é que a visibilidade dos adolescentes requer a superação do lugar estereotipado social. Se o reconhecimento do sujeito em sua indivi-dualidade ocorre desde a perspectiva social, a desconsideração de suas especifi cidades dá-se em decorrência do desvalor social atribuído. Realidade que gera humilhação, opressão e violência, infl uindo na construção de identidade do sujeito. Dignidade Nesse contexto, é importante considerar o princípio da autodeterrminação progressiva, cujo fundamento está no necessário reconhe-cimento da dignidade do sujeito, como Pessoa Humana, capaz de fazer escolhas, de participar dos processos sociais como protagonista, de conviver em família e contribuir com sua indi-vidualidade para a coletividade. É imperiosa a abertura ao diálogo. Dispo-sição que exige desprendimento do lugar de superioridade adulta e institucional. Ser adulto não é ser superior, é exercer papeis sociais de responsabilidade em relação às crianças e adolescentes em desenvolvimento. O reco-nhecimento da especifi cidade e da diferença é condição para o respeito ao outro. Entretanto, tal diferença deve ser intermediária em relação ao ponto onde se deseja chegar: o respeito do outro em condição de igualdade, indiferente a ideias preconceituosas. As pessoas encontram difi culdades de ver-se reconhecidas. Tarefa que é atribuída ao sujeito individualmente, quando a luta por justiça e por reconhecimento não é um problema e individual, é coletiva e importa ao conjunto da sociedade ComodatodeImpressoras LaserparaProfissionais daÁreaJurídica RecargasemCartuchos Tintae Tonerp/impressoras NBRISO9001 ManutençãodeImpressoras Laser,Jatode Tinta, Multifuncionais * Doutora em Direito pela PUC/RS, com estágio Doutoral na Universidade Pablo de Olavide/Espanha. Mestre em Ciência Criminais pela PUC/RS; Advogada; Socióloga; Professora dos Cursos de Direito do IPA e da UFRGS; Pesquisadora IMED/Passo Fundo. atendimentoaocliente@1001.com.br Tele-entrega (51) 3219-1001 A melhortaxadeentregadomercado RENAN VIANA
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    Estado de Direiton. 35 27 Solidariedade para além da tolerância Ricardo Timm de Souza* Não há dúvida que uma das grandes conquistas da modernidade foi o estabelecimento na pauta da fi losofi a política do conceito de “tolerância”. De fato, consubstanciando-se como reação inicialmen-te à intolerância religiosa e desdobrando-se posteriormente como baluarte contra a arbi-trariedade em todos os níveis, essa categoria se constitui em preciosa herança, confi gurando boa parte das teorias ético-políticas que têm ainda hoje vigência. Alteridade Porém, novos tempos são novos desafi os. Como categoria “moderna”, afi nada a anseios de uma época específi ca, a tolerância cumpriu papel central. Não obstante, a crescente com-plexidade sociocultural da contemporaneidade, não comparável, evidentemente, às condições vigentes no auge do otimismo da modernidade ocidental, lançam a essa categoria questões que ela, por razões civilizacionais evidentes, é incapaz de responder. De fato, quando cons-tato que “só tolero aquele ou aquilo que, em princípio, eu não toleraria”, percebo que o que na modernidade se revestiu de sentido inequí-voco de positividade é insufi ciente para lidar com questões ético-políticas agudas no mundo contemporâneo, tal como a da Alteridade. Hoje assume a “tolerância” feição de uma categoria limitadora, negativa, e o fato de que em inú-meros locais ainda não se tenha estabelecido como mínimo desejável não atenua essa crítica, já que os argumentos, aqui, fi liam-se à critica da categoria em si, e não da sua aplicação ou não-aplicação. Tecido Social Desse modo, através da crítica do conceito, desvela-se o tecido histórico-político subjacente ao estabelecimento da categoria da “tolerância” como máxima de organização social desejável. Em uma confi guração real ou ideal de mundo habitado por mônadas perfeitamente isoladas umas das outras, livres para se relacionarem ou contratar, a “tolerância” funciona como limitador do poder invasivo do espaço de cada mônada – leia-se: indivíduo moderno – por cada outra. A “tolerância” pressupõe, assim, ao contrário do que parece à primeira vista, um mundo profundamente egoísta, onde cada um, a rigor e em termos de coesão do tecido social, não tem nada a ver com cada outro, e cujo único anelo social que os liga pode chegar a ser simplesmente – tolerar. Essa é a idéia de mundo que a gestou e cuja herança é a nossa: um mundo no qual a ética como relação inter-humana foi substituída pela ética como impe-ditivo. Tal permitiu a crescente substituição da qualidade pela quantidade, da singularidade pela pluralidade de pretensos “iguais” ampa-rada por categorias abstratas. Num universo como esse, da liberdade formal, sempre e necessariamente haverá os que, realmente, são “mais iguais” que outros. Tal enseja uma refl exão que nos permita escapar à sedução da armadilha racional que signifi ca formalizar o mundo social e suas relações. Pois o que transparece a qualquer leitor inteligente numa parábola como, por exemplo, “o bom samaritano”, é o fato de que o samaritano subverteu não apenas a separação entre os povos, mas a própria idéia de que a “tolerância” possa ser, em si mesma, uma categoria “positiva” – houvesse o samaritano tolerado simplesmente o homem caído à beira da estrada e essa parábola não faria sentido algum. Esse é o nosso mundo na sua cotidiani-dade: tendemos a julgar ser a “tolerância” uma virtude moral exemplar, quando não passa do negativo de uma virtude moral – pois tolerar derrapa, rapidamente, na indiferença que caracteriza nosso tempo frente ao sofrimento e à morte do Outro. É nesse sentido que os fi lósofos Levinas e Derrida, entre outros, propugnam a necessi-dade cabal de uma categoria ética para além da tolerância: a solidariedade/hospitalidade. Afi nal, passar da defi nição escolar de liberdade – “minha liberdade acaba onde começa a do ou-tro” – a uma defi nição ética – “minha liberdade inicia onde começa a do outro” – é aventura ex-tremamente arriscada. Trata-se, simplesmente, da tarefa pedagógica por excelência. * Professor dos Programas de Pós-Graduação em Filosofi a, Letras e Ciências Criminais, e Coordenador do Escritório de Ética em Pesquisa da PRPPG/PUCRS. Membro-fundador do Centro Brasileiro de Estudos sobre o Pensamento de E. Levinas, da Sociedade Brasileira de Fenomenologia e da Internationale- Rosenzweig-Gesellschaft. Tendemos a julgar ser a “tolerância” uma virtude moral exemplar, quando não passa do negativo de uma virtude moral – pois tolerar derrapa, rapidamente, na indiferença que caracteriza nosso tempo frente ao sofrimento e à morte do Outro
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    28 Estado deDireito n. 35 Os Direitos Humanos dos Povos Indígenas Ricardo Strauch Aveline* Existem hoje no mundo entre 300 e 500 milhões de indígenas, os quais habitam cerca de 20% da superfície terrestre do globo. Os indígenas recebem diferentes nomenclaturas de acordo com o país em que se encontram, destacando-se termos como nativos, aborígenes e bugres. Independentemente do país em que se encontrem, os povos indígenas possuem em comum o fato de terem sido vítimas históricas de massacres, genocídio e discriminações. Além disso, nos diversos países, sua partici-pação política é reduzida. A Convenção n.º 107 da Organização In-ternacional do Trabalho (OIT), defi ne povos indígenas como os descendentes das popu-lações que habitavam determinado país na época da conquista e que levam uma vida mais conforme às instituições sociais, econômicas e culturais daquela época do que às instituições peculiares à nação a que pertencem. Aos indígenas aplicam-se tratados interna-cionais que estabelecem uma série de direitos especiais. Tais documentos internacionais foram ratifi cados pelo Brasil de forma que o país deverá cumprir e efetivar os direitos dos povos indígenas sob pena de obter condenação em órgãos internacionais como a Corte Intera-mericana de Direitos Humanos (OEA) e a Corte Internacional de Justiça (ONU). Dentre os direitos previstos para os indígenas, destacam-se aqueles contidos nas Convenções da OIT de números 107 e 169 e na Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2007. Aplicam-se aos indígenas também os dispositivos contidos na Carta das Nações Uni-das (1945) e na Declaração Universal de Direitos Humanos (ONU – 1948), entre outros. Assim, os povos indígenas possuem os mesmos direitos humanos de todas as pessoas, não podendo ser objeto de discriminações negativas, porém pos-suem direitos especiais, os quais visam compensar prejuízos históricos sofridos pelos indígenas, com-pondo a chamada discriminação positiva. Dentre os direitos especiais dos povos indígenas, destacam-se o direito de autodeter-minação e autogoverno, os quais estabelecem a possibilidade jurídica de os indígenas regularem internamente suas tribos de forma condizente com os seus costumes tradicionais e sem inter-venção signifi cativa do Estado. Em observação de campo realizada em aldeia indígena KKKaaaiiigggaaannnggg nnaa cciiddaaddee ddee SSããoo LLeeooppoollddoo nnooss anos de 2011 e 2012, foi possível identifi car que o Estado brasileiro respeita o direito de autodeterminação, o qual se manifesta por meio de festas tradicionais, gastronomia típica e pela forma de organização política. Propriedade Intelectual O direito à autodeterminação é um mecanis-mo utilizado para estimular o ressurgimento ou fortalecimento da cultura indígena nas diversas sociedades. Ainda assim, ele sofre restrições. A Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas estabelece que o direito à autodetermi-nação não pode ser interpretado no sentido de au-torizar a violação dos direitos previstos no ordena-mento jurídico interno de cada Estado. Também não poderá ser utilizado como argumento para autorizar o desmembramento ou independência dos territórios indígenas em relação ao território E a Justiça Internacional do Estado em que se encontrem. Outro direito previsto na Declaração que merece destaque é o direito dos indígenas sobre a sua propriedade intelectual. Assim, o Estado deverá garantir, por exemplo, a proteção dos conhecimentos medicinais e terapêuticos indíge-nas em face de terceiros. A Declaração introduz também limites sobre a forma como a imagem dos indígenas pode ser veiculada pela mídia, devendo o Estado signatário punir os respon-sáveis por eventuais divulgações pejorativas ou discriminatórias contra os indígenas. As proteções jurídicas internacionais, junta-mente com outros fatores, têm contribuído para o ressurgimento e fortalecimento da cultura indí-gena. Ainda assim, a realidade social demonstra que os indígenas brasileiros continuam entre os grupos menos favorecidos da sociedade brasileira, exigindo políticas públicas específi cas do Estado e a participação da sociedade civil. *Professor de Direito Internacional na Universidade Feevale; Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Direito. Estado y Derecho: Crisis y Autoritarismo Daniel Nina* ¿ Cómo transcurre nuestra vida diaria? ¿Cómo se comporta el policía que tene-mos de frente, y que interviene con uno como omo ciudadano? Realmente pensamos como pasa ese proceso. Tal vez para el abogado y abogada promedio, esto sea materia de c con-tinua ¿reflexión. Pero para el ciudadano de a pie, el que vive y existe fuera de las penurias del derecho, ¿cómo se define esta relación de estado, derecho y la persona? Por un lado hay que hablar del estado. Se hace inevitable para pensar en la figura del derecho. En esta medida, en países como Puerto Rico (el estado nacional – colonial), adscritos bajo una relación territorial/colonial con los EE.UU. (el estado metropolitano), el estado inevitablemente cada vez más se hace represivo y autoritario. Esto quiere decir, en la práctica, que los espacios de libertad del ciudadano, cada vez más se ven restringidos y coartados por el estado supra-presencial. Cada instancia, cada momento de la vida diaria está regulado por el estado (metropo-litano, nacional o municipal) el cual restringe y penaliza de forma retributiva (castigo de forma ordinaria por la cárcel o multas seve-ras) al ciudadano. Para esto, de ordinario el estado se vale del uso asertivo y a veces desmedido de la ley. Toda intervención se va desarrollando por vía de intervenciones que se justifican en un estado de derecho, que sea en su aserción do-minante uno de mano dura (represión), o en su aserción de estado administrador, es cada vez más punitivo (el estado regulador). Ahora bien, esto sería más fácil si el es-tado lograse transmitir a sus ciudadanos un sentido de responsabilidad y deber, el cual redujese la conversación a los “buenos” y ‘malos”. Es decir al ciudadano o ciudadana que cumple siempre con la ley; versus, el ciudadano o ciudadana que no cumple con la ley. Este momento del diálogo es impor-tantísimo – pues todo el montaje del estado represivo se torna más costoso, en la medida que el/la ciudadano/ciudadana promedio no cumple con sus obligaciones y deberes. Este es tal vez el momento más importante de la crisis – el incumplimiento del deber ciuda-dano/ a vis a vis la incapacidad del estado de intervenir sobre toda la población y mantener un régimen en apariencia de sistema demo-crático de poder Tomemos un ejemplo ocurrente que to-dos y todas comprendemos hoy en América Latina. Me refiero al asunto del narcotráfico. Es curioso pero ha emergido un consenso frágil aunque hegemónico (es decir con gran apoyo) de que las drogas/narco se deben le-galizar. Sin entrar en las diferencias morales sobre el tema, la mirada que han impulsado muchos estados es que les resulta más fácil administrar las drogas legalizadas, que repri-mirlas en su ilegalidad. No me parece que el estado/latinoameri-cano se ha convertido en ser irracional (con-trario a los postulados de la modernidad). Por el contrario, lo que me parece es que se hace un reconocimiento que no se puede luchar contra la población que mantiene dobles discursos en torno a las drogas/narco, por un lado de paz y no violencia, y por otro lado participa en la economía que genera este ru-bro. En esta medida, hay un reconocimiento que la ciudadanía coopera con la industria del narcotráfico, y más allá de asesinar/ser asesinado, confiscar o destruir sembradíos y capturas de drogas ilegales, será más fácil la intervención estatal por vía de la regulación. La derrota del estado, en apariencia y de for-ma momentánea, es una derrota sobre el de-recho. Es decir, la población ha modificado al estado y a su instrumento de comunicación principal: el derecho/la ley. En el país que vivo, Puerto Rico, se re-produce la misma lógica antes descrita. Un 28% de cada dólar que transita en nuestra economía, viene de ilegalidades. De ahí entre un 5 a un 8 porciento de dicho dine-ro proviene del narcotráfico. Las cárceles (metropolitanas y estatales) están llenas de convictos por casos de drogas (algunos de violencia otros de tráfico). La población joven/varón entre 20 a 24 años muere en guerras de narcotráfico y asuntos de violencia asociadas a un ritmo estadístico de 200 por cada 100 mil habitantes. Al día de hoy el estado solo reprime. Los jóvenes y nosotros, seguimos muriendo. En fi n, que el derecho no es panacea. Es sólo un instrumento para hacer el bien social, el bien común. Cuando en su aplicación no funciona, pues no da los resultados necesarios para dicho bien común, se hace necesario re-pensarlo. En América Latina, con todas sus contradicciones coloniales y post-coloniales, ¿no estaremos en un momento de re-pensar al derecho? * Abogado, profesor y escritor, de ciencias sociales y de derecho. Vive y trabaja en Puerto Rico. ADVOCACIA CRIMINAL E EMPRESARIAL Rua México, 90 - Sala 310/313 Centro - Rio de Janeiro / RJ Telefones: (21)7895 4100 (21) 2220 14 05
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    Estado de Direiton. 35 29 Direitos Autorais Renata Soltanovitch* Ao longo dos anos, tenho buscado mate-rial jurídico para embasar a tese sobre os direitos autorais das obras psicografadas e sua respectiva proteção, principalmente quan-do a família do psicografado pretende evitar a circulação da obra por alegação de infração aos direitos autorais, plágio ou uso indevido de nome ou imagem do falecido. Muito pouco foi encontrado, principal-mente sobre o reconhecimento da psicografia e sua utilização como prova judicial. Constituição Federal Porém, não podemos deixar de citar alguns indicativos constitucionais, sendo os dois primeiros os incisos IV e IX do artigo 5º da Constituição Federal que protege a livre manifestação do pensamento e a livre expres-são da atividade intelectual e posteriormente o inciso VI do mesmo preceito constitucional que trata sobre a “inviolabilidade da liberdade de crença, sendo assegurado o livro exercício do culto religioso”. Doutrina Esta proteção constitucional será melhor entendida quando se perceber que o Magistra-do, ao julgar processos que envolvem direitos autorais de obras psicografadas, não puder se amparar pelo aspecto religioso, qualquer que seja sua religião, mesmo sendo espírita. Há poucos casos citados pela doutrina sobre ações envolvendo a psicografi a e direitos auto-rais. O mais famoso é da família de Humberto Campos que processou Chico Xavier e a Edito-ra, contado com clareza no livro “A psicografi a antes dos Tribunais” de Miguel Timponi. É importante destacar que, normalmente são as editoras especializadas em espiritismo que publica obras psicografadas, daí por-que E a tutela de urgência na proteção da obra psicografada o leitor – diga-se consumidor - que irá adquiri-lo, não se sentiria enganado com a obra comprada. No mais, normalmente o nome de quem psicografou acaba sendo destacado e o es-pírito que ditou ou inspirou a obra aparece também com tais indicações, ou seja, com a informação de que a obra foi ditada por um desencarnado. Assim, não se pode dizer que o livro psicografado deixa margem de dúvidas de quem seja efetivamente seu (suposto) autor, enganando o consumidor e esbarrando nas infrações do Código de Defesa do Consu-midor. Haverá sempre a indicação do escritor e do espírito que ditou a obra. Criação Intelectual Em linhas gerais, a obra psicografada terá sua proteção autoral como qualquer outro livro, quadro ou música, justamente por se tratar de uma criação intelectual. Portanto, seu autor – leia-se pessoa huma-na capaz de direitos e obrigações – terá sua obra protegida seja ela mediúnica ou não, ainda que tenha sido ditada, inspirada ou escrita por um espírito. E não poderia ser diferente, na medida em que nem o legislador e muito menos o Julgador poderá reconhecer a existência de uma fé – no contexto religioso - em detri-mento de outra. *Advogada civilista, mestre pela PUC-SP, especialista em Direito de Entretenimento pela ESA/SP, autora dos Livros “Responsabilidade Processual e Direito Autoral: A tutela de urgência na proteção das obras psicografadas” e “Direitos Autorais e a proteção das obras psicografadas” pela editora Leud. Ninguém duvida que é necessário fazer algo diante de um dos maiores pro-blemas sociais brasileiro: as milhares crianças e adolescentes que se encontram em abrigos, à espera de um lar. Quando os pais não assumem ou foram afastados dos encargos decorrentes do poder fa-miliar, a responsabilidade para com este enorme contingente de cidadãos do amanhã precisa ser assumido por todos. Daí o número crescente de programas tanto do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, como da Associação Brasileira de Magistrados – AMB incentivando a adoção. Afi nal não existe outra forma de dar efetividade ao comando constitucional que assegura a crian-ças e adolescentes, com prioridade absoluta, o direito à convivência familiar. No entanto, sucessivas alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente e a falta de sensi-bilidade de alguns juízes e promotores acabam praticamente por inviabilizar a adoção. O intuito de proteger acaba por burocratizar de tal forma os sucessivos e morosos procedimentos, que a adoção se torne um verdadeiro calvário, não só para quem quer adotar, mas principalmente para quem anseia por uma família. Abandono É absolutamente equivocado o prestígio que se empresta à família natural, quando se busca manter, a qualquer preço, o vínculo biológico, na vã tentativa de manter os fi lhos sob a guarda dos pais ou dos parentes que constituem a chamada família estendida. Essas infrutíferas tentativas fazem com que as crianças, ao serem rejeitados por seus pais e parentes, acumulem sucessivas perdas e terrível sentimento de abandono que trazem severas sequelas psicológicas. Somente depois de vencida esta etapa é que tem início a ação de destituição do poder familiar. Finalizado o processo, que por vezes demora anos, é que fi nalmente ocorre a inscrição no cadastro da adoção, permanecendo a criança institu-cionalizada às vezes por muitos anos. Neste percurso ela perde a sua infância, período mais signifi cativo para o sadio desenvolvimento e a construção da própria identidade. Crianças Pequenas Ela cresce e geralmente perde a possibili-dade de ser adotada, pois o interesse dos can-didatos à adoção é por crianças pequenas. Por isso é necessário que se priorize o interesse de quem tem o constitucional direito de ser protegido e amado, e não o pretenso direito de pais e familiares que não souberam ou não quiseram assumir os deveres parentais. Afi nal, não é o elo biológico que merece ser preservado. São os vínculos afetivos que precisam ser assegurados a quem tem o direito de ser amado como fi lho. *Advogada especializada em Direito das Famílias, Sucessões e Direito Homoafetivo. Ex-Desembargadora do Tribunal de Justiça-RS. Vice-Presidenta Nacional do IBDFAM. www.mbdias.com.br Adoção Maria Berenice Dias* E o direito constitucional à convivência familiar
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    30 Estado deDireito n. 35 Direito no Cárcere recebe a Cocada Preta Oprojeto Direito no Cárcere recebeu no dia 27 de abril, na Galeria Luz no Cárcere, Presídio Central de Porto Alegre (PCPA), a presença da banda Cocada Preta Música Brasileira. Nos orgulha muito em poder oportunizar esse encontro - com apoio da Brigada Militar, Susepe, Vara de Execuções Criminais, Ministério Público do RS e Jornal Estado de Direito estamos apresentando à socie-dade um olhar do sistema carcerário de dentro para fora. Sabemos das complexidades existentes no PCPA. Estamos fazendo a nossa parte para mudar essa história. Todos nós somos responsáveis com o atual cenário do PCPA - temos que participar mais, in-centivar medidas diferentes para que a crimina-lidade diminua e a inclusão aumente. Obrigada a todos que colaboram com o Projeto. Especial a Gustavo Nunes por acreditar e me ajudar a levar a Banda pra lá! Veja alguns depoimentos dos detentos integrantes: Eduardo Fadin Estevez Foi um evento inédito. Acredito que tenha sido a primeira vez na história do Central. Além de ter um ritmo bem bacana, achei divertido e motivante! Nelson Raupp Para a gurizada do Cocada Preta um abração, valeu pela visita, esperamos outra. Até Breve! Heber Luis Trindade Moreira Achei uma atitude bem bacana por parte deles, além de ter uma música que lembra a nossa realidade, nos mostra que tem como melhorarmos e nos tornarmos pessoas melhores através da música. Hermes Fernando Silva Mentes Gostei muito de conhecer a banda de vocês, me senti feliz, pois me fi zeram lembrar dos momentos de quando eu tinha uma banda. Um abraço pra vocês todos e que Deus ilumine os caminhos de vocês e os orixás também. Axé... Chocolate de Canto! Gerson Ben-Hur E aí manos do Cocada Preta, espero que vocês venham a trazer mais esses minutos de liberdade e alegria com a música. Quero agra-decer pelos minutos que vocês trouxeram para nós, detentos do Central que, de repente, foi uma experiência muito boa! Que continuem com esse trabalho que é muito bom. A Carmela sempre diz que a música traz a alegria e para mim é verdade. Tudo de bom para vocês! Encerro esse texto com a mensagem da Banda Cocada Preta: Gustavo Nunes Foi um grande prazer poder participar do projeto Direito no Cárcere, que através da música e artes em geral, visa a reintegra-ção dos apenados a sociedade. Para a banda vlogliberdade Cocada Preta foi uma experiência riquíssima, pois tivemos a oportunidade de conhecê-los e saber um pouco mais da realidade prisio-nal. Quando começamos a tocar houve uma troca de energia muito positiva entre nós e os presos, pois o objetivo era esse mesmo, trocar idéias, experiências, vivências e pro-porcionar a eles uma tarde repleta de música e pensamentos positivos. Carmela Grune* CARMELA GRUNE Populismo Penal Augusto Jobim do Amaral* Enorme gama de confl itos ainda hoje é pensada prioritariamente sob a ótica da solução penal. O fenômeno populista também permeia grupos sociais dispostos a veicular suas justas demandas, estendendo a reação punitiva a estratos que tradicionalmente passam imunes à intervenção do sistema penal, esquecendo-se da funcionalidade repressora, estigmatizante e, sobretudo, seletiva, de qualquer atuação neste sentido. Assusta quando, de 1989 até 2006, foram aprovadas mais de 84 leis sobre “justiça criminal e segurança pública” no Brasil pautadas pela tríade lei punitiva, tramitação rápida e restrição de garantias fundamentais. Ademais, entre 2003 a 2006, independente do quadro político-partidário, foram trazidas ao Congresso Nacional 646 propostas de alterações de dispositivos penais, em que apenas 20 não tiveram alguma preocupação repressivista. Soluções Penais Afi nal: por que os governos recorrem tão rapidamente às soluções penais? Claramente porque as ditas panacéias são imediatas, fáceis de implementar legislativamente, possuem poucos opositores políticos, vão ao encontro das ideias do senso comum acerca da atribuição de culpas pela desordem social e, sobremaneira, sempre se poderá alegar que “funcionam” com respeito ao fi m punitivo, senão em toda a extensão, é porque deveriam ter sido mais radicais. Refl etir sobre isto passa pelo exame radical daquilo que poderíamos chamar de ostensão penal (aclamação securitário-populista em matéria penal), levan-do- se a aprofundar o panorama do populismo punitivo para além da própria vontade de punir e impulsionando todos a inquirir profunda-mente a “razão” mesma do desejo punitivo que pode mover estas práticas generalizadamente. Visualizar o populismo como um modo de cons-truir o político traz a perspectiva do estudo da formação de identidades coletivas: não os gru-pos, mas as demandas. O afeto como constante central da ação política faz não menosprezar a vagueza e imprecisão conceituais encontradas no populismo. Nesta indeterminação há um ato performativo dotado de racionalidade própria, que permite a associação de demandas hetero-gêneas e o dota de coesão interna. No tocante a estes jogos de diferenças que ganham centralidade hegemônica, a ilustração das diversas iniciati-vas penalizantes nas mais diversas áreas são catapultadas a signifi cantes vazios (porque não dizer, “bens jurídicos”?) que atam fi rmemente a cadeia do discurso punitivo. Nesta vertente, as demandas sociais, quando insatisfeitas, por uma incapacidade institucional de resolvê-las diferencialmente, acabam por potencializar uma certa carga equivalencial “simplifi cadora” entre elas, facilmente, unifi cando as demandas em torno da questão punitiva. Fronteiras Antagônicas Em sendo a construção do povo não só o ato político por excelência (momento de formação de fronteiras antagônicas dentro do social, con-vocante de novos sujeitos e de signifi cantes vazios com o fi m de unifi car, em cadeias equivalenciais, um conjunto de demandas heterogêneas), mas o rasgo defi nidor do populismo, diretamente à questão: e se para esta constituição certa contingência conduzir à simplifi cação penal? Não será o valor da Democracia, dentro deste cenário de ostensão punitiva, um signifi cante vazio pronto a defi nir uma política penal repressiva? Tamanha é a centralidade do poder punitivo no atual esquema democrático constitucional que não é temerário ver o palco das atuais relações de força e suas tendências populistas aportarem cada vez mais identidades políticas prontas a demandar a hegemonia do discurso punitivo. Se, nas sociedades modernas democráticas, o maior perigo não é o delito em si, mas que a luta contra ele conduza aos piores totalitarismos, a resignação e o pessimismo não poderão ter acento fi rme. Em tempos sombrios, é capital não ceder no discurso de resistência, escapando do “espírito do tempo” que tantas vezes ensaiou desculpas às piores atrocidades. Certamente, esta é a prova a ser cumprida reiteradamente pelo Estado Democrático de Direito. *Doutor em Altos Estudos Contemporâneos pela Universidade de Coimbra (Portugal); Mestre e Especialista em Ciências Criminais pela PUCRS e Professor de Direito da PUCRS.
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    Estado de Direiton. 35 31 No Programa de TV Orientando Direito, apresentado por Waldir de Pinho Veloso, no Canal 20, de Montes Claros/MG, divulgando a par ticipação do projeto “Samba no Pé Direito na Cabeça” no IX Congresso Brasileiro de Direito e Teoria do Estado. Na foto Misael Tirado Acero, Florestino Nascimento, Roberto de Oliveira, Luiz Carlos da Silva, Carmela Grune, Richardson Xavier Brant, Waldir de Pinho Veloso e Equipe de Produção. Lançamento dos livros “Samba no Pé Direito na Cabeça” e “Par ticipação Cidadã na Gestão Pública: a experiência da Escola de Samba de Mangueira“, publicados pela Editora Saraiva, sob coordenação de Carmela Grüne, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre. Foto Gustavo Pinheiro Projeto “Samba no Pé Direito na Cabeça” realizado na Celer Faculdades, em Xaxim/SC, debateu “Futuro dos Direitos Humanos, Ensino Jurídico e Sensibilidade Democrática” com a participação dos professores Marcio Soares Berclaz, Samuel Mânica Radaelli e Vinicius Mozetic. Assista pela internet http://youtu.be/Ntk-eVSyj4s. Camila Breitenbach palestra no projeto Desmitificando o Direito, com o tema “Desmitificando os Direitos dos Idosos”, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, em Porto Alegre. Assista pela internet http://youtu.be/sWQZLFJhavw Jorge Terra palestra no Projeto Desmitificando o Direito com o tema “Sambando em direção à diversidade étnico-racial”, na Livraria Saraiva do Moinhos Shopping, em Porto Alegre. Foto Anderson Cruz. Assista pela internet http://youtu.be/oh56FTziuRI Ana Paula Motta Costa palestra no Projeto Desmitificando o Direito, realizada em Porto Alegre, na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, com o tema “Os Direitos Fundamentais dos Adolescentes: da invisibilidade à indiferença”. Assista pela internet http://youtu.be/ZUxIZqWt5s8. www.ceunsp.edu.br • 0800 10 95 35 Paulo Lopo Saraiva palestra no Projeto Desmitificando o Direito, com o tema “A Tetradimensionalidade do Direito: a justiça como quarta dimensão jurídica”, na Livraria Saraiva do Pátio Paulista, em São Paulo. Assista pela internet http://youtu.be/eagpl9jOVAs.
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    EEssttaaddoo ddee EEExxxccceeeçççãããoooBRASIL • N° 08 • ANO II • 2012 Recartografi a Social O Jornal Estado de Exceção atento às contribuições da neurociência, decodifi ca as sensorialidades do direito, para melhorar a consciência refl exiva coletiva. Temos a capacidade humana de modifi car a realidade, precisamos é gerar novos comportamentos, emoções e signifi cados para vivenciar experiências jurídicas diferentes das tradicionais. Com mais expressão e liberdade, identifi cação e alteridade, a cidadania é potencializada. Nesta edição, Rosa Maria Blanca através da obra ambígua de gênero de Del Lagrace Volcano destaca a necessidade de uma recartografi a social, face ao sistema de dois-sexos contemplado no direito. Leia na página 18. Telhados do mundo João Caetano, pela fábula O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá de Jorge Amado, faz uma leitura crítica sobre a liberdade e a alegria que deveriam ser temas de ensino obrigatório nas escolas. Página 25 Adolescentes Ana Paula Motta Costa analisa da invisibilidade ao reconhecimento dos direitos fundamentais dos adolescentes, previstos no ordenamento jurídico brasileiro e internacional. Página 26 Solidariedade Ricardo Timm de Souza levanta aspectos sobre o conceito de tolerância com o intuito de aprofundar e evoluir o conhecimento em relação ao tema solidariedade no mundo contemporâneo. Página 27 Quando os animais ocupavam o banco dos réus Geraldo Miniuci relata história escrita em 1522, por William Ewald, quando os animais eram considerados responsáveis por seus atos, assim como os humanos, e estimula a reflexões sobre os valores e crenças encontrados na atualidade. Página 16 Veja também Página 05 Coronelismo ontem e hoje Lucas de Laurentiis fala sobre as práticas políticas de trocas e favores, onde vale a relação de amigos e o apadrinhamento, não o mérito, historicamente na estrutura da República Brasileira Página 19 Confi guração físico-cênica dos nossos tribunais Fábio Feliciano Barbosa reconhece a necessidade da aplicação do princípio da equidistância física entre as partes, para que a confi guração se ajuste pelo bem da democracia Página 22 Sistema Oceânico Paulo Magalhães apresenta proposta de governança integrada de utilização e aproximação jurídica para ultrapassar a desterritorialização das funções ecossistêmicas relativamente aos Estados Página 24 Convite à voz Rita Fucci-Amato disserta sobre a importância da voz e recomenda o cuidado no uso desse admirável instrumento de cidadania que possuímos Rosa Maria Blanca propõe recartografar o social como alternativa para o sujeito de Direitos RENAN VIANA Página 19 Direito Alternativo José Manuel Sacadura Rocha defende o direito alternativo, não como um movimento, mas um conjunto de princípios e valores garantidores da aplicação da lei com justiça social Populismo Penal Augusto Jobim do Amaral examina a cultura penal punitiva na contemporaneidade, face às demandas sociais e a incapacidade institucional de resolvê-las diferencialmente. Página 30 Agenda Cultural Estado de Exceção 15 e 16/06, XVIIª edição da Jornada Internacional de Direito, em Gramado/RS. 20 a 22/06, I Semana de Estudos Jurídicos, na Faculdade de Ciências Humanas do Sertão Central, em Salgueiro/PE. 25/06, Lançamento dos livros “Participação Cidadã na Gestão Pública” e “Samba no Pé Direito na Cabeça”, na Livraria Saraiva em Recife/PE. 27/06, VIII Colóquio Internacional do IJI, em Portugal +Informações em www.estadodedireito.com.br