Universidade Federal de Minas Gerais
Escola de Belas Artes – Departamento de Fotografia,
Teatro e Cinema
Curso Graduação Licenciatura em Dança
Aluno: Elvis Carlos de Oliveira
Belo Horizonte, Julho de 2015.
Nesse semestre, ao refletir sobre como iria construir meu Portfólio, optei
por apenas compor pequenos textos, que contivessem as principais questões sobre
as minhas vivências em cada disciplina. Poderia também expôr algumas imagens
que são registros de algumas dessas vivências, mas por causa do tempo destinado a
produção desse Portfólio, julgo que não daria conta de trabalhar com o devido rigor
essas imagens. Daí, para não correr o riscos de cometer equívocos, no tratamento
dessas imagens, resolvi priorizar mesmo somente a escrita dos textos.
“Se por um lado o fato de o Brasil ser um país onde a dança é de domínio público torna-o um país
democrático, peculiar, vibrante e corporal, por outro, tem excluído a possibilidade de estudarmos
dança com maior profundidade, amplitude e clareza no ambiente escolar.” (Marques, 2012, p.21)
Em vários momentos da Licenciatura em Dança, tive a oportunidade de me deparar com algum texto da
autoria da Prfª. Isabel Marques e, penso que ela contribuiu muito para as reflexões sobre as minhas experiências
nessa disciplina. Portanto, escolhi como epígrafe, um excerto dela porque creio que essa breve citação dá conta de
algo que me marcou muito nesse período: a potência da dança no ambiente escolar.
A disciplina de Análise da Prática de Estágio Supervisionado II foi uma experiência muito importante no
meu percurso acadêmico nesse semestre. Pela primeira vez durante essa Graduação Licenciatura em Dança, tive a
oportunidade de vivenciar o ensino/aprendizagem da dança na Educação Básica.
Tive, portatno, a felicidade de realizar meu estágio supervisionado nas aulas de dança da Profª. Marlaina Roriz, no
Centro Pedagógico – Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Sem dúvidas, essa experiência favoreceu
muito para o meu aprendizado no curso.
Foram muitas dezenas de horas vividas na prática e dessa considerável carga horária, tenho o registro de
muitas experiências que me assustaram, pois a realidade da docência é um desafio diário e, também, diversas
memórias de momentos, nos quais me senti feliz por escolher essa formação como possibilidade de profissão.
Ter uma experiência prática em uma aula de dança, no contexto da Educação Básica, colaborou para o
entendimento de muitas disciplinas cursada no curso de Graduação Licenciatura em Dança. Portanto, dentre várias
questões que, felizmente, emergiram, duas considero serem de demasiada importância.
Viver a dança nesse contexto fez emergir em mim, um enorme desejo de pesquisar mais acerca da dança
em outros contextos, em especial, o contexto da dança cênica. Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, percebi
que a dança pode ser uma potente área do saber escolar, capaz de promover debates, discussões diversas, construção
de conhecimentos que resultem em uma enriquecedora experiência formativa para os alunos da Educação Básica e,
também, para os docentes em contínua formação.
A primeira vez que apreciei uma aula de Técnica Limón, ministrada pelo Prof. Paulo Baeta, foi no ano
de 2012. Era uma aula aberta da primeira turma da Graduação Licenciatura em Dança. Achei muito lindo e
desafiador ao mesmo tempo. Lembro-me do Prof. Baeta relatar que, no semestre seguinte, haveria a possibilidade
da segunda turma também fazer aquela mesma ementa.
Todavia, me ocorreu a oportunidade do Programa de Licenciaturas Internacionais. Daí, fui viver em
Lisboa outras fabulosas experiências. Como aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pesquisei o
universo teórico da Arte. Como discente da Escola Superior de Dança, experimentei inúmeras práticas de dança:
Balé Clássico, Martha Graham, Dança Contemporânea, Método Cunningham, Contato e Improvisação. Como ser
humano curioso que sou, apreciei inúmeras obras de dança [espetáculos] nos mais diversos espaços imagináveis,
desde um lago na Culturgest até a Ópera de Paris.
Nesse semestre, portanto, tive a sorte de poder me matricular nessa cadeira de Técnica de Limón.
Seria dois dias da semana, mas acabei tendo que optar por um único dia. Penso que foi uma experiência surreal.
Num primeiro momento, muita angústia por não conseguir perceber bem as dinâmicas da técnica. Braços, pernas,
cabeça, queda e recuperação etc. Muita informação para um corpo processar. Confesso que, no princípio, estava
difícil de levar, mas esse panorama alterou a partir do momento que o Prof. Baeta, numa generosa conversa, me
sugeriu uma possibilidade de experiência que me abriu um novo horizonte de vivência daquelas aulas.
“Divirta-se!” Jamais pensei que uma simples palavra poderia alterar todo o meu comportamento. Daí,
tudo ficou mais leve, gostoso, fluído. De repente, me deparei fazendo tudo e mais um pouco nas aulas.
Tecnicamente, pode até ser que não sou tão virtuoso como o Clyde Morgan, mas essa é a minha experiência e o
modo como meu corpo da conta da Técnica Limón nesse momento da minha vida. Gostaria que essas aulas
tivessem uma longa duração, porém o programa da disciplina possibilita a vivência de “apenas” sessenta horas.
Logo, o que fica é um enorme desejo de “quero mais”, pois experiências boas sempre deixam uma agradável
sensação de nostalgia.
“Ao construir um teórico com critérios de credibilidade, análise conceitual, análise crítica e
análise inferencial, o pesquisador em ou sobre ensino/aprendizagem de Arte constrói o alicerce
para novas propostas de pesquisa a partir de seu registro, desafinado novos pensamentos e novas
maneiras de investigação na área.”(PIMENTEL, 2014, p.22)
As discussões teóricas propostas pelas Profas
. Gabriela Christófaro e Ana Clara Buratto, ajudaram a
enriquecer o olhar sobre o contexto da pesquisa em Arte. O paradigma pós-positivista, que fundamenta nossa
pesquisa, exige um desafio muito grande para a compreensão de que, a pesquisa em Artes possui outros
pressupostos e, consequentemente, gera como resultados (propostas de pesquisa), outros tipos de contributos
diferentes dos resultados almejados pela área das Ciências Exatas.
No início do semestre, a disciplina de Pesquisa em Dança foi uma experiência muito angustiante.
Construir um projeto de pesquisa demonstrou ser uma árdua tarefa. Sempre tive muita curiosidade. Se pudesse
estudava muito mais do que estudo, pois me alegro em sempre aprender novos saberes. Porém, definir um tema de
pesquisa não foi uma tarefa muito fácil porque me demandou uma escolha (um recorte) de uma temática que,
realmente, pudesse me motivar investir numa pesquisa.
Quanto ao meu tema de pesquisa, optei por problematizar algo que sempre amargurou desde que me
tornei discente da Graduação Licenciatura em Dança: a formação do professor de dança. Pretendo, então, abordar
temáticas que envolvam a formação do professor de dança no contexto acadêmico [artista-docente-pesquisador] e do
professor de dança talhado nos cursos livres com reconhecimento notório.
“Insisto que mais importante do que o desfecho do processo é o processo em si, pois normalmente
somos levados a objetivar nossas ações a ponto de fixarmos metas e finalidades que acabam
impedindo a vivência do próprio processo, do rico caminho a ser percorrido.” VIANNA, 2005,
p.100)
A ementa dessa disciplina foi algo verdadeiramente enriquecedor no meu percurso acadêmico desse
semestre. Vivi nessa prática de dança, dois momentos de muito desafio. O primeiro foi investir na proposta de
entrevistar a artista portuguesa Vera Mantero. A segunda foi criar uma cena dançada e apresentar minha proposta ao
grupo.
A ideia de entrevistar a Vera Mantero surgiu numa conversa com a Maria Emília e a Gisele. Depois de
autorizados pela Profa. Raquel Cavalcanti, fomos nós lá fazer o possível e o impossível para realizar uma entrevista
com essa grande artista. Tínhamos um gigantesco problema que ocasionava uma enorme dificuldade nesse processo.
Havia entre nós e a Vera Mantero o grande Oceano Atlântico, mas, felizmente, tínhamos a nosso favor toda a moderna
tecnologia de informação e comunicação (TICs) que aproxima as pessoas do mundo todo.
Então, foi somente preparar um plano, enfrentar os problemas que emergiram durante o processo e
trabalhar num material que não foi bem, exatamente, como desejamos, uma entrevista, mas um rico material
partilhado com a nossa turma. Ainda tenho dúvidas da aceitação da nossa proposta, apesar do feedback positivo da
Profª. Raquel, todavia, penso que a maior oportunidade desse processo foi para nós, os três alunos envolvidos nesse
projeto e pela docente que acreditou na nossa ideia a apoiou essa insana empreitada.
Quanto a criação da cena/célula coreográfica, esse foi um grande desafio. O que dançar? Como dançar?
Porque dançar? Não tinha percebido, mas desde o primeiro instante, já havia iniciado minha proposta. O processo foi
intenso, principalmente, pelo fato de ter focado num produto que nem mesmo tinha a noção exata do que desejaria. O
processo foi rico. Um vazio, uma angústia, pressão, desespero, choro, diálogos, ideia, preparação, apresentação da
proposta final. Felizmente, tudo correu bem. O aprendizado foi imensurável. Os aplausos também foram uma
experiência surreal. Jamais me esquecerei daquela cena, ver um a um se levantar e me aplaudir de pé. Para mim, não
tem explicação, somente muita alegria de poder viver momentos tão intensos.
Há algum tempo, venho percebendo um grande aumento da visibilidade de algumas Organizações Não-
Governamentais [associações comunitárias] que desenvolvem ações na sociais, geralmente, nas comunidades carentes
onde, supostamente, o poder público não de faz presente. Desde então, tive algumas questões em relação a esses
espaços, das quais destaco algumas. Em geral, são potenciais mercados de trabalho para professores de Arte. Também,
há um grande investimento em práticas esportivas e, principalmente, a possibilidade de “acesso” à Arte nesses espaços.
Daí que, quando tive notícias da oferta dessa disciplina, mesmo com um quadro de horários mais
amarrado, despertei o interesse em cursá-la, pois presumi que poderia ser uma boa oportunidade de compreender, um
pouco melhor, esse lugar: o Terceiro Setor. O que é o terceiro setor? Como funciona? Para que serve? Quais são as suas
rotinas de funcionamento? A que se destina tais organizações? Quais são os interesses envolvidos por detrás dessas
estruturas? Qual o perfil do profissional apto a atuar nessas Instituições? Qual o interesse do Estado em “fomentar”
essas iniciativas? Qual seria o verdadeiro contributo social dessas dessas Instituições?
As perguntas eram muitas e não foram totalmente respondidas nessa disciplina, porque o tempo de estudo
foi curto para um assunto de tamanha amplitude. Porém, o pouco tempo de trabalho que tivemos foram muito bem
aproveitados. A Profª. Ana Clara Buratto indicou vários textos para leitura, tivemos muitos debates nas aulas,
discutimos sobre Pedagogia de Projetos, entendemos um pouco sobre a estrutura por detrás desse universo denominado
Terceiro Setor e a sua relação com o Estado, e, também, tivemos quatro momentos incríveis nessa disciplina: uma
visita ao espaço da Quik Cidadania, uma visita à Escola Livre de Artes, Projeto Arena da Cultura da Prefeitura
Municipal de Belo Horizonte, uma intervenção [relato de experiência] do Prof. Arnaldo Alvarenga sobre sua
experiência com Dança e Terceira Idade e uma conversa com a psicóloga Cérise Alvarenga.
Num momento, as nuvens parecem opressivas e sufocantes, no outro são aquilo que nos inspira o
sonho. Quem é que nunca construiu castelos no céu e imaginou um mundo distante das
preocupações da terra firme? (PRETOR-PRINEY, 2006, p.101)
Vimemos rodeados por símbolos e, nem ser quer, damos conta da importância desses elementos na nossa vida. Tampouco,
temos a dimensão da potência desses símbolos, principalmente, no que se refere aos estímulos para criação em dança, ou
mesmo na possibilidade de trabalhar com essa temática no ambiente escolar.
Presumo que, o entendimento dessa temática exige alguns anos de estudos e muita dedicação, porque o tema
envolve muitas possibilidades a serem exploradas. No caso dessa disciplina, o Prof. Paulo Baeta sugeriu algumas temáticas,
que foram discutidas em rodas de conversa, durante algumas aulas, como possíveis elementos para a criação.
Entre os seis temas sugeridos para a discussão: uma música, um conto de fadas, uma imagem, um sonho, um
filme e um mito, o que mais me tocou foi o conto de fadas. Durante a partilha, muitos dos meus colegas propuseram contos
de fadas variados, em geral, temáticas como “Bela adormecida”, “Bela e a Fera”, “Quebra Nozes”, “Rapunzel” [etc], já o
meu conto, foi um texto do escritor português Herberto Herder. O texto intitulado de Teoria das Cores problematiza uma
questão vivida por um pintor que não sabia como representar, de modo fiel, o seu peixe vermelho que era acometido por uma
espécie de doença, que surgiu como um pequeno nó preto que tomava rapidamente toda a cor vermelha encarnada.
Que tipo de conto mais estranho aquele meu, nem sequer tinha uma fada! Não senti o desejo de compartilhar tal
proposta, mas fazê-lo foi muito interessante, pois me possibilitou aprender que do meu modo, posso colaborar muito para a
experiência das pessoas com as quais convivo. Agradeço a essa reflexão ao Prof. Paulo Baeta que, generosamente, me
emprestou uma toalha para enxugar minhas lagrimas de angústia, em meio a essa intensa descoberta.
Outra experiência incrível nessa disciplina foi o nosso projeto de composição final. Construímos esse projeto
num grupo de cinco pessoas que, colaboraram para essa rica experiência. O resulta, penso que foi muito positivo, pois tenho a
impressão de que as pessoas apreciaram positivamente nossa performance. Quanto a minha sensação em relação a esse
trabalho, posso assegurar que me senti muito realizado por ter participado dessa proposta.
“[...] bem mais importante que mais importante do que conhecer o espírito é saber que o corpo existe, está aí
comigo e dependo dele para viver. Cada um começa a descobrir o próprio corpo, seu ritmo, e somente aí esse corpo
pode começar a dançar, interpretar, expressar-se.” (VIANNA, 2005, p.139)
Nesse semestre tive uma ideia de experimentar como a dança existe nos outros espaços da UFMG, para além da EBA. Diante da
possibilidade de cursar uma disciplina na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, mesmo sem ter acesso à ementa da
disciplina, resolvi me matricular na disciplina de Seminário de Dança e Preparação Corporal, ministrada pela Profª. Elisângela Chaves.
Inicialmente, pensei que a disciplina seria algo de cunho mais prático, em que pudesse ter uma ideia mais pontual do que poderia
ser uma preparação corporal em dança, pensada no campo da Educação Física. Mas, fui surpreendido com uma ementa que propunha seminários,
através da intervenção de diversos profissionais envolvidos com dança e preparação corporal de bailarinos e artistas da cena. Na listagem
previamente disponibilizada, evidenciei que havia alguns professores do curso de Licenciatura em Dança da EBA e outros nomes que jamais havia
ouvido falar. Até então, tudo bem, parecia que seria uma interessante experiência.
A cada aula uma proposta diferente. Os convidados foram se sucedendo e, semana após semana, as questões foram surgindo.
Percebi que os alunos da Escola de Educação Física possuem uma grande dificuldade de viver algumas experiências corporais, em especial,
questões relacionadas ao toque. Também percebi que eles estão ancorados em um modelo de pensamento muito positivista e, se não tiver uma
fundamentação que comprove “cientificamente” os discursos e as experiências práticas, não serve. Daí surgiram questões em relação a Licenciatura
em Dança, pois, para muitos, o modelo adotado na EBA, fundamentado no paradigma pós-positivista, não válida às propostas de vivência em
dança.
Para mim, a experiência foi muito rica, principalmente, pelo fato de ser o único aluno da Licenciatura em Dança presente na sala e,
constantemente, atrair os olhares de muito dos colegas. Também, penso que a Profª. Elisângela Chaves foi muita feliz na opção de ofertar essa
disciplina. Em especial, apreciei o modo como ela conduziu a disciplina, principalmente, mediando os debates em sala de aula. Em muitos
momentos, ela se dispôs a advogar a favor da Licenciatura em Dança e, tal atitude, não agradou a muitos alunos do Curso de Educação Física.
Suponho, também, que eles podem aprender muito com as propostas “pouco científicas”, ou pós-positivistas, praticadas no curso de Graduação
Licenciatura em Dança , mas penso que o desafio maior seria vencer a ideia dicotômica de que há um corpo e uma mente.
Quanto ao que aprendi nessa disciplina, até então, não tenho uma resposta clara para o que seria uma preparação corporal em dança.
Somente sei que, são muitas as possibilidades de se preparar um corpo para a dança. Também percebi que diversos fatores devem ser mensurados,
antes de se planejar uma proposta de preparação corporal, em especial, quais corpos que dançam, com que intensidade, quais tipos de dança, quais
exigências técnicas etc.
Certamente, as variáveis são muitas e requerem um olhar muito cuidadoso, pois seria uma prática pensada para corpos humanos que
dançam e, supostamente, objetivam uma longevidade. Todavia, o mais interessante nesse processo foi perceber que a maior riqueza num processo
de preparação corporal consiste em duas situações: a primeira, pode está relacionada com a minha própria vivência corporal e a segunda, pode se
dar no esforço do diálogo com outras áreas, porque seria uma pretensão muito ousada querer dar conta daquilo que, por excelência, são temáticas
mais bem discutidas pelas outras áreas do saber.
 MARQUES, Isabel A. Dançando na escola. São Paulo: Cortez, 6° edição, 2012.
 PIMENTEL, Lúcia Gouvêa. “Ensino e Aprendizagem de Arte e a sua pesquisa”. In: ROCHA,
Maurílio Andrade; MEDEIROS, José Afonso (orgs.). Fronteiras e alteridade: olhares sobre as
artes na contemporaneidade. Belém: Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA, 2014,
pp. 15-24.
 PRETOR-PRINEY, Gavin. O Mundo das Nuvens. Lisboa: Estrela Polar, 2006.
 VIANNA, Klauss. A Dança. São Paulo: Summus Editorial, 6° edição, 2005.

Elvis oliveira portfólio 2015

  • 1.
    Universidade Federal deMinas Gerais Escola de Belas Artes – Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema Curso Graduação Licenciatura em Dança Aluno: Elvis Carlos de Oliveira Belo Horizonte, Julho de 2015. Nesse semestre, ao refletir sobre como iria construir meu Portfólio, optei por apenas compor pequenos textos, que contivessem as principais questões sobre as minhas vivências em cada disciplina. Poderia também expôr algumas imagens que são registros de algumas dessas vivências, mas por causa do tempo destinado a produção desse Portfólio, julgo que não daria conta de trabalhar com o devido rigor essas imagens. Daí, para não correr o riscos de cometer equívocos, no tratamento dessas imagens, resolvi priorizar mesmo somente a escrita dos textos.
  • 2.
    “Se por umlado o fato de o Brasil ser um país onde a dança é de domínio público torna-o um país democrático, peculiar, vibrante e corporal, por outro, tem excluído a possibilidade de estudarmos dança com maior profundidade, amplitude e clareza no ambiente escolar.” (Marques, 2012, p.21) Em vários momentos da Licenciatura em Dança, tive a oportunidade de me deparar com algum texto da autoria da Prfª. Isabel Marques e, penso que ela contribuiu muito para as reflexões sobre as minhas experiências nessa disciplina. Portanto, escolhi como epígrafe, um excerto dela porque creio que essa breve citação dá conta de algo que me marcou muito nesse período: a potência da dança no ambiente escolar. A disciplina de Análise da Prática de Estágio Supervisionado II foi uma experiência muito importante no meu percurso acadêmico nesse semestre. Pela primeira vez durante essa Graduação Licenciatura em Dança, tive a oportunidade de vivenciar o ensino/aprendizagem da dança na Educação Básica. Tive, portatno, a felicidade de realizar meu estágio supervisionado nas aulas de dança da Profª. Marlaina Roriz, no Centro Pedagógico – Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG. Sem dúvidas, essa experiência favoreceu muito para o meu aprendizado no curso. Foram muitas dezenas de horas vividas na prática e dessa considerável carga horária, tenho o registro de muitas experiências que me assustaram, pois a realidade da docência é um desafio diário e, também, diversas memórias de momentos, nos quais me senti feliz por escolher essa formação como possibilidade de profissão. Ter uma experiência prática em uma aula de dança, no contexto da Educação Básica, colaborou para o entendimento de muitas disciplinas cursada no curso de Graduação Licenciatura em Dança. Portanto, dentre várias questões que, felizmente, emergiram, duas considero serem de demasiada importância. Viver a dança nesse contexto fez emergir em mim, um enorme desejo de pesquisar mais acerca da dança em outros contextos, em especial, o contexto da dança cênica. Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, percebi que a dança pode ser uma potente área do saber escolar, capaz de promover debates, discussões diversas, construção de conhecimentos que resultem em uma enriquecedora experiência formativa para os alunos da Educação Básica e, também, para os docentes em contínua formação.
  • 3.
    A primeira vezque apreciei uma aula de Técnica Limón, ministrada pelo Prof. Paulo Baeta, foi no ano de 2012. Era uma aula aberta da primeira turma da Graduação Licenciatura em Dança. Achei muito lindo e desafiador ao mesmo tempo. Lembro-me do Prof. Baeta relatar que, no semestre seguinte, haveria a possibilidade da segunda turma também fazer aquela mesma ementa. Todavia, me ocorreu a oportunidade do Programa de Licenciaturas Internacionais. Daí, fui viver em Lisboa outras fabulosas experiências. Como aluno da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pesquisei o universo teórico da Arte. Como discente da Escola Superior de Dança, experimentei inúmeras práticas de dança: Balé Clássico, Martha Graham, Dança Contemporânea, Método Cunningham, Contato e Improvisação. Como ser humano curioso que sou, apreciei inúmeras obras de dança [espetáculos] nos mais diversos espaços imagináveis, desde um lago na Culturgest até a Ópera de Paris. Nesse semestre, portanto, tive a sorte de poder me matricular nessa cadeira de Técnica de Limón. Seria dois dias da semana, mas acabei tendo que optar por um único dia. Penso que foi uma experiência surreal. Num primeiro momento, muita angústia por não conseguir perceber bem as dinâmicas da técnica. Braços, pernas, cabeça, queda e recuperação etc. Muita informação para um corpo processar. Confesso que, no princípio, estava difícil de levar, mas esse panorama alterou a partir do momento que o Prof. Baeta, numa generosa conversa, me sugeriu uma possibilidade de experiência que me abriu um novo horizonte de vivência daquelas aulas. “Divirta-se!” Jamais pensei que uma simples palavra poderia alterar todo o meu comportamento. Daí, tudo ficou mais leve, gostoso, fluído. De repente, me deparei fazendo tudo e mais um pouco nas aulas. Tecnicamente, pode até ser que não sou tão virtuoso como o Clyde Morgan, mas essa é a minha experiência e o modo como meu corpo da conta da Técnica Limón nesse momento da minha vida. Gostaria que essas aulas tivessem uma longa duração, porém o programa da disciplina possibilita a vivência de “apenas” sessenta horas. Logo, o que fica é um enorme desejo de “quero mais”, pois experiências boas sempre deixam uma agradável sensação de nostalgia.
  • 4.
    “Ao construir umteórico com critérios de credibilidade, análise conceitual, análise crítica e análise inferencial, o pesquisador em ou sobre ensino/aprendizagem de Arte constrói o alicerce para novas propostas de pesquisa a partir de seu registro, desafinado novos pensamentos e novas maneiras de investigação na área.”(PIMENTEL, 2014, p.22) As discussões teóricas propostas pelas Profas . Gabriela Christófaro e Ana Clara Buratto, ajudaram a enriquecer o olhar sobre o contexto da pesquisa em Arte. O paradigma pós-positivista, que fundamenta nossa pesquisa, exige um desafio muito grande para a compreensão de que, a pesquisa em Artes possui outros pressupostos e, consequentemente, gera como resultados (propostas de pesquisa), outros tipos de contributos diferentes dos resultados almejados pela área das Ciências Exatas. No início do semestre, a disciplina de Pesquisa em Dança foi uma experiência muito angustiante. Construir um projeto de pesquisa demonstrou ser uma árdua tarefa. Sempre tive muita curiosidade. Se pudesse estudava muito mais do que estudo, pois me alegro em sempre aprender novos saberes. Porém, definir um tema de pesquisa não foi uma tarefa muito fácil porque me demandou uma escolha (um recorte) de uma temática que, realmente, pudesse me motivar investir numa pesquisa. Quanto ao meu tema de pesquisa, optei por problematizar algo que sempre amargurou desde que me tornei discente da Graduação Licenciatura em Dança: a formação do professor de dança. Pretendo, então, abordar temáticas que envolvam a formação do professor de dança no contexto acadêmico [artista-docente-pesquisador] e do professor de dança talhado nos cursos livres com reconhecimento notório.
  • 5.
    “Insisto que maisimportante do que o desfecho do processo é o processo em si, pois normalmente somos levados a objetivar nossas ações a ponto de fixarmos metas e finalidades que acabam impedindo a vivência do próprio processo, do rico caminho a ser percorrido.” VIANNA, 2005, p.100) A ementa dessa disciplina foi algo verdadeiramente enriquecedor no meu percurso acadêmico desse semestre. Vivi nessa prática de dança, dois momentos de muito desafio. O primeiro foi investir na proposta de entrevistar a artista portuguesa Vera Mantero. A segunda foi criar uma cena dançada e apresentar minha proposta ao grupo. A ideia de entrevistar a Vera Mantero surgiu numa conversa com a Maria Emília e a Gisele. Depois de autorizados pela Profa. Raquel Cavalcanti, fomos nós lá fazer o possível e o impossível para realizar uma entrevista com essa grande artista. Tínhamos um gigantesco problema que ocasionava uma enorme dificuldade nesse processo. Havia entre nós e a Vera Mantero o grande Oceano Atlântico, mas, felizmente, tínhamos a nosso favor toda a moderna tecnologia de informação e comunicação (TICs) que aproxima as pessoas do mundo todo. Então, foi somente preparar um plano, enfrentar os problemas que emergiram durante o processo e trabalhar num material que não foi bem, exatamente, como desejamos, uma entrevista, mas um rico material partilhado com a nossa turma. Ainda tenho dúvidas da aceitação da nossa proposta, apesar do feedback positivo da Profª. Raquel, todavia, penso que a maior oportunidade desse processo foi para nós, os três alunos envolvidos nesse projeto e pela docente que acreditou na nossa ideia a apoiou essa insana empreitada. Quanto a criação da cena/célula coreográfica, esse foi um grande desafio. O que dançar? Como dançar? Porque dançar? Não tinha percebido, mas desde o primeiro instante, já havia iniciado minha proposta. O processo foi intenso, principalmente, pelo fato de ter focado num produto que nem mesmo tinha a noção exata do que desejaria. O processo foi rico. Um vazio, uma angústia, pressão, desespero, choro, diálogos, ideia, preparação, apresentação da proposta final. Felizmente, tudo correu bem. O aprendizado foi imensurável. Os aplausos também foram uma experiência surreal. Jamais me esquecerei daquela cena, ver um a um se levantar e me aplaudir de pé. Para mim, não tem explicação, somente muita alegria de poder viver momentos tão intensos.
  • 6.
    Há algum tempo,venho percebendo um grande aumento da visibilidade de algumas Organizações Não- Governamentais [associações comunitárias] que desenvolvem ações na sociais, geralmente, nas comunidades carentes onde, supostamente, o poder público não de faz presente. Desde então, tive algumas questões em relação a esses espaços, das quais destaco algumas. Em geral, são potenciais mercados de trabalho para professores de Arte. Também, há um grande investimento em práticas esportivas e, principalmente, a possibilidade de “acesso” à Arte nesses espaços. Daí que, quando tive notícias da oferta dessa disciplina, mesmo com um quadro de horários mais amarrado, despertei o interesse em cursá-la, pois presumi que poderia ser uma boa oportunidade de compreender, um pouco melhor, esse lugar: o Terceiro Setor. O que é o terceiro setor? Como funciona? Para que serve? Quais são as suas rotinas de funcionamento? A que se destina tais organizações? Quais são os interesses envolvidos por detrás dessas estruturas? Qual o perfil do profissional apto a atuar nessas Instituições? Qual o interesse do Estado em “fomentar” essas iniciativas? Qual seria o verdadeiro contributo social dessas dessas Instituições? As perguntas eram muitas e não foram totalmente respondidas nessa disciplina, porque o tempo de estudo foi curto para um assunto de tamanha amplitude. Porém, o pouco tempo de trabalho que tivemos foram muito bem aproveitados. A Profª. Ana Clara Buratto indicou vários textos para leitura, tivemos muitos debates nas aulas, discutimos sobre Pedagogia de Projetos, entendemos um pouco sobre a estrutura por detrás desse universo denominado Terceiro Setor e a sua relação com o Estado, e, também, tivemos quatro momentos incríveis nessa disciplina: uma visita ao espaço da Quik Cidadania, uma visita à Escola Livre de Artes, Projeto Arena da Cultura da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, uma intervenção [relato de experiência] do Prof. Arnaldo Alvarenga sobre sua experiência com Dança e Terceira Idade e uma conversa com a psicóloga Cérise Alvarenga.
  • 7.
    Num momento, asnuvens parecem opressivas e sufocantes, no outro são aquilo que nos inspira o sonho. Quem é que nunca construiu castelos no céu e imaginou um mundo distante das preocupações da terra firme? (PRETOR-PRINEY, 2006, p.101) Vimemos rodeados por símbolos e, nem ser quer, damos conta da importância desses elementos na nossa vida. Tampouco, temos a dimensão da potência desses símbolos, principalmente, no que se refere aos estímulos para criação em dança, ou mesmo na possibilidade de trabalhar com essa temática no ambiente escolar. Presumo que, o entendimento dessa temática exige alguns anos de estudos e muita dedicação, porque o tema envolve muitas possibilidades a serem exploradas. No caso dessa disciplina, o Prof. Paulo Baeta sugeriu algumas temáticas, que foram discutidas em rodas de conversa, durante algumas aulas, como possíveis elementos para a criação. Entre os seis temas sugeridos para a discussão: uma música, um conto de fadas, uma imagem, um sonho, um filme e um mito, o que mais me tocou foi o conto de fadas. Durante a partilha, muitos dos meus colegas propuseram contos de fadas variados, em geral, temáticas como “Bela adormecida”, “Bela e a Fera”, “Quebra Nozes”, “Rapunzel” [etc], já o meu conto, foi um texto do escritor português Herberto Herder. O texto intitulado de Teoria das Cores problematiza uma questão vivida por um pintor que não sabia como representar, de modo fiel, o seu peixe vermelho que era acometido por uma espécie de doença, que surgiu como um pequeno nó preto que tomava rapidamente toda a cor vermelha encarnada. Que tipo de conto mais estranho aquele meu, nem sequer tinha uma fada! Não senti o desejo de compartilhar tal proposta, mas fazê-lo foi muito interessante, pois me possibilitou aprender que do meu modo, posso colaborar muito para a experiência das pessoas com as quais convivo. Agradeço a essa reflexão ao Prof. Paulo Baeta que, generosamente, me emprestou uma toalha para enxugar minhas lagrimas de angústia, em meio a essa intensa descoberta. Outra experiência incrível nessa disciplina foi o nosso projeto de composição final. Construímos esse projeto num grupo de cinco pessoas que, colaboraram para essa rica experiência. O resulta, penso que foi muito positivo, pois tenho a impressão de que as pessoas apreciaram positivamente nossa performance. Quanto a minha sensação em relação a esse trabalho, posso assegurar que me senti muito realizado por ter participado dessa proposta.
  • 8.
    “[...] bem maisimportante que mais importante do que conhecer o espírito é saber que o corpo existe, está aí comigo e dependo dele para viver. Cada um começa a descobrir o próprio corpo, seu ritmo, e somente aí esse corpo pode começar a dançar, interpretar, expressar-se.” (VIANNA, 2005, p.139) Nesse semestre tive uma ideia de experimentar como a dança existe nos outros espaços da UFMG, para além da EBA. Diante da possibilidade de cursar uma disciplina na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, mesmo sem ter acesso à ementa da disciplina, resolvi me matricular na disciplina de Seminário de Dança e Preparação Corporal, ministrada pela Profª. Elisângela Chaves. Inicialmente, pensei que a disciplina seria algo de cunho mais prático, em que pudesse ter uma ideia mais pontual do que poderia ser uma preparação corporal em dança, pensada no campo da Educação Física. Mas, fui surpreendido com uma ementa que propunha seminários, através da intervenção de diversos profissionais envolvidos com dança e preparação corporal de bailarinos e artistas da cena. Na listagem previamente disponibilizada, evidenciei que havia alguns professores do curso de Licenciatura em Dança da EBA e outros nomes que jamais havia ouvido falar. Até então, tudo bem, parecia que seria uma interessante experiência. A cada aula uma proposta diferente. Os convidados foram se sucedendo e, semana após semana, as questões foram surgindo. Percebi que os alunos da Escola de Educação Física possuem uma grande dificuldade de viver algumas experiências corporais, em especial, questões relacionadas ao toque. Também percebi que eles estão ancorados em um modelo de pensamento muito positivista e, se não tiver uma fundamentação que comprove “cientificamente” os discursos e as experiências práticas, não serve. Daí surgiram questões em relação a Licenciatura em Dança, pois, para muitos, o modelo adotado na EBA, fundamentado no paradigma pós-positivista, não válida às propostas de vivência em dança. Para mim, a experiência foi muito rica, principalmente, pelo fato de ser o único aluno da Licenciatura em Dança presente na sala e, constantemente, atrair os olhares de muito dos colegas. Também, penso que a Profª. Elisângela Chaves foi muita feliz na opção de ofertar essa disciplina. Em especial, apreciei o modo como ela conduziu a disciplina, principalmente, mediando os debates em sala de aula. Em muitos momentos, ela se dispôs a advogar a favor da Licenciatura em Dança e, tal atitude, não agradou a muitos alunos do Curso de Educação Física. Suponho, também, que eles podem aprender muito com as propostas “pouco científicas”, ou pós-positivistas, praticadas no curso de Graduação Licenciatura em Dança , mas penso que o desafio maior seria vencer a ideia dicotômica de que há um corpo e uma mente. Quanto ao que aprendi nessa disciplina, até então, não tenho uma resposta clara para o que seria uma preparação corporal em dança. Somente sei que, são muitas as possibilidades de se preparar um corpo para a dança. Também percebi que diversos fatores devem ser mensurados, antes de se planejar uma proposta de preparação corporal, em especial, quais corpos que dançam, com que intensidade, quais tipos de dança, quais exigências técnicas etc. Certamente, as variáveis são muitas e requerem um olhar muito cuidadoso, pois seria uma prática pensada para corpos humanos que dançam e, supostamente, objetivam uma longevidade. Todavia, o mais interessante nesse processo foi perceber que a maior riqueza num processo de preparação corporal consiste em duas situações: a primeira, pode está relacionada com a minha própria vivência corporal e a segunda, pode se dar no esforço do diálogo com outras áreas, porque seria uma pretensão muito ousada querer dar conta daquilo que, por excelência, são temáticas mais bem discutidas pelas outras áreas do saber.
  • 9.
     MARQUES, IsabelA. Dançando na escola. São Paulo: Cortez, 6° edição, 2012.  PIMENTEL, Lúcia Gouvêa. “Ensino e Aprendizagem de Arte e a sua pesquisa”. In: ROCHA, Maurílio Andrade; MEDEIROS, José Afonso (orgs.). Fronteiras e alteridade: olhares sobre as artes na contemporaneidade. Belém: Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA, 2014, pp. 15-24.  PRETOR-PRINEY, Gavin. O Mundo das Nuvens. Lisboa: Estrela Polar, 2006.  VIANNA, Klauss. A Dança. São Paulo: Summus Editorial, 6° edição, 2005.