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211
ZKM, Karlsruhe,
Alemanha, 1988.
Fonte das imagens: Tschumi,
Bernard . Architecture and
Disjunction. Cambridge: MIT
Press, 1996
T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I
Em artigo publicado em janeiro de 1991 no
The New York Times, Vincent Scully, res-
peitado crítico e historiador de arquitetura,
afirmou que “o movimento mais importan-
te na arquitetura de hoje é o retorno às tra-
dições vernacular e clássica, e sua reintegra-
ção às principais correntes da arquitetura
moderna em seu aspecto mais fundamental:
a estrutura de comunidades, a construção
de cidades”. As palavras do professor Scully
não podem ser facilmente ignoradas, sobre-
tudo quando, no mesmo artigo, ele mencio-
na que as demais atividades em arquitetura
estão em “momento de extrema futilidade
que desconstrói e autodestrói”.
Muito da arquitetura pós-moderna foi de-
senvolvido em época de reação geral con-
tra aquilo que era percebido como a abstra-
ção modernista: abstração porque os mo-
dernos edifícios comerciais de vidro eram
“sem imagens” e frios como a pintura abs-
trata. Abstração também porque, dizia-se,
arquitetos modernos eram elitistas, distan-
tes ou “abstraídos” da vida cotidiana – das
pessoas e, sobretudo, da comunidade, cuja
participação não era permitida, enquanto
áreas, autoestradas e arranha-céus (para ci-
tar Scully novamente) “destruíam a própria
estrutura de nossos bairros”. Brasília e
Chandigarh eram belas ou feias, sociais ou
antissociais, históricas ou a-históricas?
Essa reação à modernidade, vista como im-
posição da abstração, data de meados dos
anos 60, seja por meio de textos acadêmicos
ou por meio dos primeiros protestos organi-
zados contra a demolição de bairros e edifíci-
os-monumentos em nome do progresso, da
Pennsylvania Station, de Nova York, ao Les
Halles, de Paris. Entre os arquitetos, foi certa-
mente um livro, Complexity and contradiction
in architecture, de Robert Venturi, publicado
pelo Museu de Arte Moderna em 1966, que
disparou ampla e extraordinária reavaliação
dos valores e prioridades na arquitetura, su-
gerindo que ela era mais do que a etérea e
abstrata formulação de um ideal utópico. Re-
cheado de exemplos que iam do trabalho de
Borromini a “justaposições de linhas expres-
sas e construções existentes”, o texto de
Venturi concluía com elogios às “lições vívi-
das da Pop Art”, uma vez que ela envolvia
contradições de escala e de contexto “que
deveriam ter despertado arquitetos de seus
elevados sonhos de pura ordem”.
Seis conceitos
Bernard Tschumi
Trata das questões que envolvem a arquitetura contemporânea e o modo como
pode permanecer meio para exploração de novos territórios e para produção de
novo conhecimento em um mundo estetizado e midiático, sem se limitar a um
problema meramente de aparências. Desenvolve seis conceitos referentes à produ-
ção arquitetônica contemporânea que procura enfrentar esse desafio –
desfamiliarização, choque, desestruturação, sobreposição, cruzamento de progra-
mas e turning point – defendendo o papel da arquitetura de proporcionar condi-
ções capazes de criar uma nova cidade e novas relações entre espaços e eventos.
Arquitetura contemporânea, pós-modernismo, desconstrução.
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Quase simultaneamente, uma nova área do
conhecimento se desenvolvia e se mostra-
ria formidável instrumento nas mãos de ar-
quitetos e críticos que buscavam resgatar o
significado daquilo que atacavam como o
grau zero do modernismo. A semiologia e a
linguística invadiram a cena arquitetônica.
Não raro muito mal compreendidos, os tra-
balhos de Chomsky, Umberto Eco e Roland
Barthes iriam influenciar novas estratégias em
codificação de arquitetura, de modo que
pessoas comuns e também acadêmicos
poderiam finalmente decodificar múltiplos
sentidos aplicados àquilo que, no entanto, per-
manecia sendo abrigos neutros. Ainda em
1968, Barthes, em uma de suas raras incur-
sões ao urbanismo e à arquitetura, concluiu
que significados fixos seriam impossíveis. Ar-
quitetos e críticos pós-modernos desenvol-
veram extravagante concepção de uma arqui-
tetura cheia de significado, na qual as fachadas
de edifícios comunicavam um universo de alu-
sões, citações e precedentes históricos.
Próprio dessas alusões é o fato de todas se
referirem a um setor muito limitado da cultu-
ra arquitetônica: primeiramente, elas lidavam
apenas com a aparência da arquitetura, com
sua superfície ou imagem, nunca com sua es-
trutura ou uso. Em segundo lugar, um con-
junto muito restrito de imagens estava sendo
proposto – palazzi romanos, villas e constru-
ções vernaculares inglesas ou aquilo que po-
deria ser descrito como os sonhos arcadianos
de uma classe média conservadora cuja
homogeneidade de gosto contradizia as pró-
prias teorias de heterogeneidade que Barthes
e Venturi pareciam sugerir. Devemos acres-
centar que, para outros que estavam propon-
do um novo vocabulário formalista, a mesma
situação frequentemente ocorria. Falava-se
quase sempre sobre a imagem, a superfície;
estrutura e uso não eram mencionados. De
fato, a cultura industrial e metropolitana de
nossa sociedade estava notoriamente ausen-
te. Raras eram as alusões às megalópolis, às
fábricas, estações de energia e outros traba-
lhos mecânicos que definiram nossa cultura
por mais de um século. Em contraste com
essas ideias, nos era oferecido um conjunto
constante de imagens de uma sociedade pré-
industrial – pré-aeroportos, pré-supermerca-
do, pré-computador, pré-nuclear.
Obviamente, construtores e empreendedo-
res eram tão facilmente convencidos por
esses arquitetos “clássicos” como pelos
preservacionistas: o mundo da nostalgia, do
conforto, de geborgenheit,1
seria um mun-
do melhor para se viver, e mais casas seriam
vendidas. Apesar do recente interesse em
novas formas de arquitetura contemporânea,
essa Arcádia pré-industrial constitui a princi-
pal corrente da ideologia arquitetônica e
política na maior parte do mundo construído.
Os mais inclinados ideologicamente entre os
apologistas desse retorno argumentam que
no final do século 20, depois de centenas de
anos de desenvolvimento industrial,
tecnológico e social, ainda é possível reto-
mar um estilo de vida anterior, ignorando
carros, computadores e a era nuclear. E, mais
importante, ignorando as mudanças sociais
e históricas específicas que ocorreram du-
rante esse tempo. Esses ideólogos defendem
que as “cidades” arcadianas que são hoje
desenvolvidas no modelo das vilas de fim de
semana irão, graças a sua arquitetura, pro-
mover comunidades ideais em que valores
sociais e respeito mútuo irão substituir as
diferenças, os conflitos e os intercâmbios
urbanos. Esse tipo de sonho comunitário
(também partilhado por cooperativas e po-
líticos) é irônico quando proposto em uma
cidade como Nova York, em que as pessoas
se mudam em média a cada quatro anos.
No entanto, é sintoma de uma fantasia: que
a vila de nossos ancestrais – que nunca co-
nhecemos – possa ser um modelo para as
gerações futuras.
213
Folie P6, Parc de la
Villette Paris, 1985
T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I
Mas será que a questão é mesmo o moder-
no versus o clássico ou o vernacular? Telha-
dos inclinados contra telhados planos? Tra-
ta-se realmente de uma questão-chave? É
claro que não. Defendo que nossa condição
contemporânea afeta igualmente os
historicistas e os modernistas.
Parte I
Sempre fui fascinado pela fase de constru-
ção de dois edifícios em Manhattan que fo-
ram erguidos simultaneamente e lado a lado
na Madison Avenue, entre as ruas 50 e 60.
Esses dois arranha-céus, um projetado para
a IBM, e o outro para a AT&T, são quase
idênticos em sua estrutura de aço, função e
no estilo comercial. A superfície de ambos é
presa a suas estruturas por igual técnica
construtiva. Aqui, porém, terminam as se-
melhanças. A fachada lisa do prédio da IBM
é revestida de mármore polido e vidro, com
detalhamento abstrato e minimalista. Em
contraste, o prédio da AT&T tem tratamen-
to da fachada ligeiramente articulado, com
placas de granito rosa cortadas para lembrar
o trabalho romano e gótico em pedra. O
edifício da IBM tem o teto plano; o da AT&T,
um frontão. Até recentemente, o prédio da
IBM era visto como símbolo de uma era
modernista já superada, e o da AT&T como
a afirmação heróica do novo historicismo
pós-modernista que se tornou o estilo
corporativo dominante dos anos 80. Am-
bos os edifícios são quase idênticos em con-
teúdo, volume e uso. Menos de 10 anos
depois, a situação se repetiu em Times
214 A R T E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0
Square, com a proposta de uma assim cha-
mada superfície desconstrutivista substituin-
do uma clássica pós-moderna. Tais exem-
plos também se aplicam a casas em East
Hampton, Long Island, em que os projetos
de Robert A. M. Stern e Charles Gwathmey
frequentemente servem a programas equi-
valentes e, às vezes, aos mesmos clientes.
Um arquiteto é rotulado como historicista,
o outro, como modernista – ambos fabri-
cantes de imagens elegantes.
Tal trabalho de superfícies também pode ser
visto em reformas de edifícios, como no
Hotel Biltmore em Nova York, cuja fachada
de tijolos de 1913 foi substituída 75 anos
depois por uma parede curtain wall,2
mais
típica de prédios comerciais. Quase simulta-
neamente, a fachada de ladrilhos brancos dos
dormitórios do East Campus da Columbia
University foi substituída por uma imitação
da fachada de tijolos de 1913. Esse comen-
tário não é um juízo de valor: tornou-se uma
condição de nossos tempos. Devemos ob-
servar que a administração da Columbia
University sofreu considerando o que fazer
com o edifício quando se descobriu que os
ladrilhos que caíam não poderiam ser repa-
rados ou substituídos e que a alternativa se-
ria encontrar 70 milhões de dólares para
construir um novo dormitório. Ninguém fi-
cou contente com a decisão que a universi-
dade teve de tomar – mudar a superfície –,
mas, se serve de consolo, podemos pensar
naquela fachada aos pedaços como um sin-
toma da nossa condição contemporânea,
mais do que como resultado de uma cons-
trução imperfeita.
“O triunfo do superficial”, como Stuart Ewen
o chama em seu livro recente sobre as polí-
ticas de estilo, All consuming images, não é
fenômeno novo, mas os arquitetos ainda têm
que compreender as consequências dessa
separação entre estrutura e superfície. Até
o século 19, a arquitetura se valia de pare-
des estruturantes que mantinham o edifício
de pé. Embora fosse comum aplicar decora-
ções de vários estilos a essas superfícies, as
paredes desempenhavam uma função-cha-
ve estruturante. Normalmente havia uma
conexão entre o tipo de imagem usada e a
estrutura da parede. Em torno de 1830, a
conexão entre imagem, estrutura e método
construtivo deixou de existir. Novos méto-
dos construtivos empregavam armação es-
trutural interna que sustentava o edifício. Seja
na forma de estruturas tipo “armação de
balão”, cobertas por uma superfície, ou “ar-
mações estruturais”, cobertas por paredes-
cortina, nessas novas técnicas de construção
as paredes não desempenhavam mais um
papel estruturante: tornaram-se progressiva-
mente ornamentais. Uma grande variedade
de estilos se tornou possível graças ao de-
senvolvimento de painéis pré-fabricados,
prontos para serem moldados, pintados ou
impressos a fim de refletir qualquer imagem,
qualquer período.
Com as novas superfícies sem corpo, os pa-
péis de engenheiros e arquitetos tornaram-
se cada vez mais separados: o engenheiro
cuidava da estrutura, o arquiteto, da superfí-
cie. A arquitetura tornava-se uma questão de
aparência: a superfície poderia ser românica,
barroca, vitoriana, “vernacular regionalista”,
etc. Essa evolução para a permutabilidade
de superfícies coincidiu com o surgimento
de novas técnicas de representação visual.
A fotografia e a impressão em massa de pa-
péis de parede decorativos democratizaram
a comercialização de tratamentos de super-
fície em arquitetura. E, além disso, a fotogra-
fia aumentou o poder da imagem acima de
qualquer estrutura essencial.
Estamos falando do século 19, mas as coisas
se intensificaram tanto, que a mudança quan-
titativa levou a um salto qualitativo. Com a
fotografia, revistas, televisão e fax, a chama-
da superficialidade tornou-se o sinal de nos-
215T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I
sos tempos. Para citar Jean Beaudrillard em
A transparência do mal, “… as coisas conti-
nuam funcionando quando a sua ideia já
desapareceu há muito tempo. Elas continuam
a funcionar com total indiferença a seu pró-
prio conteúdo. Paradoxalmente, elas funcio-
nam até melhor desse modo.”
Vistos assim, edifícios modernistas tornaram-
se “melhores” nos anos 30, quando os ideais
sociais começaram a mostrar-se ilusórios e
finalmente desapareceram. Por extensão, não
são os edifícios de Richard Meier hoje mais
“estéticos” do que os de Le Corbusier? Uma
forma generalizada de estetização de fato se
deu, trazida pela mídia. Do mesmo modo
que os Bombardeiros Stealth foram
estetizados no pôr do sol televisionado da
Arábia Saudita e que o sexo é estetizado
nas publicidades, também toda cultura – e,
é claro, isso inclui a arquitetura – é agora
estetizada, xeroxada. Além disso, a apresen-
tação simultânea dessas imagens leva a uma
redução da história a imagens simultâneas:
não apenas àquelas da Guerra do Golfo in-
tercaladas com jogos de basquete e comer-
ciais, mas também àquelas de nossas revis-
tas de arquitetura e, finalmente, àquelas de
nossas cidades.
O apetite da mídia pelo consumo de ima-
gens arquitetônicas é enorme. E uma
consequência da mudança de atenção em
direção à superfície foi que muito da história
da arquitetura se tornou imagem impressa,
a palavra impressa e sua disseminação, e não
o edifício em si. Até a redação deste texto,
personalidades influentes na arquitetura –
Daniel Liebeskind, por exemplo, ou Wolf
Prix, Zaha Hadid ou Rem Koolhaas – cons-
truíram relativamente pouco. Nossa geração
de arquitetos é o tema de inúmeros artigos,
mesmo que raramente lhe seja dada a opor-
tunidade de construir. Ela domina, ainda, a
informação na mídia. A intensidade dessa
ofensiva informacional, ou o que podería-
mos chamar de “realidade”, é tal, que uma
realidade objetiva, única, é cada vez mais di-
fícil de se conceber. Estamos familiarizados
com o aforismo de Nietzsche em Crepús-
culo dos ídolos: “O mundo real, finalmente,
se tornará uma ficção”. Inevitavelmente, a
arquitetura e sua percepção se tornarão uma
ficção, tal como outros objetos da realidade
contemporânea.
Classicismo eclético, racionalismo, neomo-
dernismo, desconstrutivismo, regionalismo
crítico, arquitetura verde, ou, no mundo da
arte, neogeo, novo expressionismo, nova
abstração ou figuração – todos coexistem e
cada vez mais nos provocam profunda indi-
ferença: indiferença à diferença. Do New
York Times à Vanity Fair, de P/A e A.D. a
Assemblage, vemos uma realidade múltipla
progressivamente baseada em constante
oscilação de tendências, teorias, escolas,
movimentos e modismos. A questão é: por
que se opor a esse mundo mediado? Nos
deveríamos opor em nome de alguma reali-
dade sólida, unificada? Deveríamos, mais uma
vez, ansiar por uma Gesamtkunstwerk3
coe-
rente? Hoje, porém, o projeto do início do
século 20 parece o desejo de se restaurar
uma sociedade na qual cada elemento está
em relação hierárquica fixa com os demais
– um mundo de ordem, de certezas e de
permanência.
De fato, se a maior parte da arquitetura se
tornou superfície, decoração aplicada, super-
ficialidade, arquitetura de papel (ou, para usar
a celebrada expressão de Venturi “galpão
decorado”), o que distingue arquitetura de
outras formas de design de outdoors? Ou,
mais ambiciosamente, o que distingue arqui-
tetura de edições, layouts, gráficos? Se os
assim chamados contextualismos e
historicismos tipológicos nada são além de
um conjunto de disfarces oportunos aplica-
dos a uma fórmula pronta – em outras pala-
vras, uma superfície em um suporte que res-
216 A R T E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0
peita ou desfaz o volume das construções
adjacentes –, então como a arquitetura pode
permanecer um meio pelo qual a sociedade
explora novos territórios, desenvolve novo
conhecimento?
Parte II
Conceito I: tecnologias de desfamiliarização
Nos últimos anos, pequenos focos de resis-
tência começaram a formar-se quando ar-
quitetos de várias partes do mundo – Ingla-
terra, Áustria, Estados Unidos, Japão (na
maioria das vezes, em culturas pós-industriais
avançadas) – começaram a tirar proveito
dessa condição de fragmentação e su-
perficialidade e a voltá-la contra si mesma.
Se a ideologia predominante era a da familia-
ridade – familiaridade com imagens conhe-
cidas, derivadas do modernismo dos anos
20 ou do classicismo do século 18 –, talvez
o papel do arquiteto fosse desfamiliarizar. Se
o mundo novo, mediado, ecoava e reforça-
va nossa realidade desmantelada, talvez, ape-
nas talvez, se deveria tirar proveito de tal
desmantelamento, celebrar a fragmentação
ao celebrar a cultura de diferenças, ao ace-
lerar e intensificar a perda da certeza, do
centro, da história.
Na cultura, em geral, o mundo da comuni-
cação nos últimos 20 anos certamente aju-
dou na expressão de uma multiplicidade de
novos pontos de vista sobre a história
canônica, dando voz a mulheres, imigrantes,
gays, minorias e várias identidades não oci-
dentais que nunca se estabeleceram confor-
tavelmente na suposta comunidade. Na ar-
quitetura, em particular, a noção de
desfamiliarização era uma ferramenta clara.
Se o projeto de janelas apenas reflete a su-
perficialidade da decoração de superfície,
então deveríamos começar a procurar um
modo de fazê-lo sem janelas. Se o projeto
de pilares reflete a convenção de um supor-
te estruturante, talvez nos devêssemos livrar
completamente dos pilares.
Embora os arquitetos envolvidos pudessem
não professar alguma inclinação em direção
à exploração de novas tecnologias, tais tra-
balhos costumavam tirar proveito das ino-
vações tecnológicas contemporâneas. Curi-
osamente, as tecnologias específicas – ar-
condicionado ou a construção de estruturas
leves, ou modos computadorizados de cál-
culo – ainda têm de ser teorizadas na cultu-
ra arquitetônica. Enfatizo isso porque outros
avanços tecnológicos, tais como a invenção
do elevador ou o desenvolvimento da cons-
trução em aço no século 19, foram tema de
inúmeros estudos de historiadores, mas há
poucos estudos do gênero sobre tecnologias
contemporâneas, uma vez que essas
tecnologias não necessariamente produzem
formas históricas.
Faço esse desvio pela tecnologia porque ela
é inextricavelmente ligada a nossa condição
contemporânea: afirmar que a sociedade ago-
ra diz respeito à mídia e à mediação nos faz
conscientes de que a direção tomada pela
tecnologia é menos a dominação da natureza
do que o desenvolvimento de informação e
construção do mundo como um conjunto de
imagens. Arquitetos devem mais uma vez
entender e tirar partido do uso de tais novas
tecnologias. Nas palavras do escritor, filósofo
e arquiteto francês Paul Virilio, “não estamos
mais lidando com a tecnologia da constru-
ção, mas com a construção de tecnologia”.
Conceito II: o choque “metropolitano”
mediado
A cintilação constante de imagens nos fasci-
na, tanto quanto fascinava Walter Benjamin
em A obra de arte na era de sua reprodutibi-
lidade técnica. Destesto citar um “clássico”
como esse, mas a análise recente de Gianni
Vattimo desse texto indicou aspectos que
217T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I
são ilustrativos de nossa condição contem-
porânea. Quando discutiu a reprodutibilidade
de imagens, Benjamin mostrou que a perda
de seu valor de troca, sua “aura”, tornou-as
intercambiáveis e, em uma era da pura in-
formação, a única coisa que contava era o
“choque” – o choque das imagens, seu fator
surpresa. Esse fator choque foi o que permi-
tiu que uma imagem se destacasse: além dis-
so, era também característico de nossa con-
dição contemporânea e dos perigos da vida
na metrópole moderna. Esses perigos resul-
taram em constante ansiedade por
encontrarmo-nos em um mundo no qual
tudo era insignificante e gratuito. A experiên-
cia de tal ansiedade era uma experiência de
desfamiliarização, de Un-zu-hause-sein, de
Unheimlichkeit, do inquietante.
De muitos modos, a experiência estética, de
acordo com Benjamin, consistia em manter
a desfamiliarização viva, em contraste com
seu oposto – a familiarização, a segurança,
Geborgenheit. Gostaria de destacar que a
análise de Benjamin corresponde exatamente
ao dilema histórico e filosófico da arquitetu-
ra. A experiência da arquitetura é algo pen-
sado para desfamiliarizar – digamos, uma
forma de “arte” – ou, ao contrário, para ser
reconfortante, heimlich, aconchegante – algo
que protege? Aqui, é claro, podemos cons-
tatar a oposição constante entre aqueles que
veem a arquitetura e as cidades como luga-
res de experiência e experimentação, como
reflexões estimulantes sobre a sociedade
contemporânea – aqueles que gostam de
“assombrações”, que desconstroem e
autodestroem – e aqueles que veem o pa-
pel da arquitetura como refamiliarização,
contextualização, inserção, em outras pala-
vras, aqueles que se descrevem como
historicistas, contextualistas e pós-modernis-
tas, uma vez que pós-modernismo em ar-
quitetura hoje tem conotação definitivamen-
te classicista e historicista.
O público em geral – para quem a arquite-
tura trata de conforto, de abrigo, de tijolos e
de argamassa – ficará quase sempre do lado
dos tradicionalistas. Para quem, no entanto,
a arquitetura não trata necessariamente de
conforto e Geborgenheit, mas também de
impulsionar a sociedade e seu desenvolvi-
mento, o artifício do choque pode ser uma
ferramenta indispensável. Cidades como
Nova York, apesar de – ou talvez por causa
de – seus sem-teto e do índice de dois mil
assassinatos por ano, tornaram-se o equiva-
lente pós-industrial da Grosstadt4
pré-indus-
trial de Georg Simmel, que tanto fascinou e
horrorizou Benjamin. A arquitetura na
megalópole pode-se voltar para soluções não
familiares dos problemas mais do que bus-
car as soluções reconfortantes da comuni-
dade dominante.
Recentemente, vimos novas e importantes
pesquisas sobre cidades nas quais a fragmen-
tação e o deslocamento produzidos pela jus-
taposição fora de escala de autoestradas,
shopping centers, arranha-céus e pequenas
casas são vistos como sinal positivo da vitali-
dade da cultura urbana. Em oposição às ten-
tativas nostálgicas de restaurar uma continui-
dade impossível de ruas e praças, essas pes-
quisas implicam fazer do choque urbano um
evento, que, mediante o conflito e a disjunção,
intensifica e acelera a experiência urbana.
Retornemos à mídia. Em nossa era de re-
produção, vimos como as técnicas para cons-
trução convencionais, de estrutura e reves-
timento, correspondem à superficialidade e
à precariedade da cultura midiática, e como
uma constante expansão da mudança era
necessária para satisfazer às necessidades fre-
quentemente banais da mídia. Vimos tam-
bém que endossar essa lógica significa dizer
que qualquer trabalho é intercambiável com
qualquer outro, tanto quanto o revestimen-
to de um dormitório, que retiramos e subs-
218 A R T E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0
tituímos por outro. Também vimos que o
choque vai contra a nostalgia da permanên-
cia ou da autoridade, seja na cultura em ge-
ral ou na arquitetura em particular. Depois
de mais de 50 anos da publicação do texto
de Benjamin, podemos dizer que o choque
ainda é tudo o que nos resta para nos co-
municarmos em uma época de informação
generalizada. Em um mundo muito influen-
ciado pela mídia, essa necessidade inexorável
de mudança não deve ser necessariamente
entendida como negativa. O aumento em
mudanças e em superficialidade também sig-
nifica um enfraquecimento da arquitetura
como forma de dominação, de poder e de
autoridade, tal como historicamente tem sido
nos últimos seis mil anos.
Conceito III: desestruturação
É interessante examinar esse “enfraquecimen-
to” da arquitetura, essa relação alterada entre
estrutura e imagem, estrutura e superfície, à
luz de um debate que ressurgiu recentemen-
te nos círculos de arquitetura – a saber, es-
trutura versus ornamento. Desde o
Renascimento, a teoria arquitetônica sempre
distinguiu estrutura e ornamento, e demons-
trou a hierarquia desses elementos. Citando
Leon Battista Alberti, “o ornamento caracte-
riza-se por ser um adendo ou um comple-
mento”; é pensado para ser um acréscimo e
não deve desafiar ou enfraquecer a estrutura.
O que significa essa hierarquia hoje, quando
a estrutura frequentemente permanece a
mesma – um grid sem fim, neutro e
repetitivo? Na maioria das construções atuais
neste país,5
a prática estrutural é rigorosa-
mente similar em conceito: armação básica
em madeira, aço ou concreto. Como já apon-
tado, a decisão de se construir a armação
em qualquer um desses materiais costuma
ser deixada para os engenheiros e econo-
mistas, mais do que para os arquitetos. Não
se espera que o arquiteto questione a es-
trutura. Ela deve ser firme – afinal, o que
aconteceria com as apólices de seguros (e
com as reputações) se a construção ruísse?
O resultado é quase sempre uma recusa a
questionar a estrutura – que deve ser está-
vel ou o edifício cai; o edifício, que é ao
mesmo tempo a construção e todo o edifí-
cio do pensamento. Pois em comparação
com a ciência ou a filosofia, a arquitetura
raramente questiona seus fundamentos.
O resultado desses “hábitos de pensamen-
to” na arquitetura é que não se espera que
a estrutura de uma construção seja questio-
nada mais do que o mecanismo de uma pro-
jeção quando se assiste a um filme ou do
que as peças de uma televisão quando se
veem as imagens em sua tela. Críticos em
geral questionam a imagem, embora muito
raramente questionem o aparato, a estrutu-
ra. Ainda que, por mais de um século, e em
especial nos últimos 20 anos, tenhamos vis-
to o início de tal questionamento. A filosofia
contemporânea tocou essa relação entre
moldura6
e imagem – aqui, a moldura é vista
como a estrutura, a armação; e a imagem,
como o ornamento. Jacques Derrida, em
Parergon, faz esse questionamento entre
moldura e imagem como tema. Embora
possamos argumentar que a moldura de uma
pintura não equivale à armação de um edifí-
cio – uma sendo exterior ou hors d’oeuvre,
e a outra interior – eu manteria isso apenas
como uma objeção superficial. Tradicional-
mente, tanto moldura como estrutura de-
sempenham a função de “manter unido”.
Conceito IV: sobreposição
Esse questionamento da estrutura levou a um
aspecto particular do debate contemporâneo
sobre a arquitetura, a saber, a desconstrução.
Desde o início, as polêmicas da desconstrução,
juntamente com muito do pensamento pós-
estruturalista, interessaram a um pequeno
número de arquitetos porque eles pareciam
219T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I
questionar os próprios princípios de
Geborgenheit que a principal corrente pós-
modernista tentava promover. Quando en-
contrei Jacques Derrida pela primeira vez, para
tentar convencê-lo a tratar da arquitetura em
seu trabalho, ele me perguntou: “Mas como
poderia um arquiteto estar interessado em
desconstrução? Afinal, desconstrução é
antiforma, anti-hierarquia, antiestrutura, o
oposto de tudo o que a arquitetura repre-
senta.” “Exatamente por isso”, respondi.
Com o passar dos anos, as diferentes inter-
pretações que os diversos arquitetos deram
à desconstrução tornaram-se mais variadas
do que a teoria da desconstrução, de
diversificadas leituras, jamais poderia espe-
rar. Para um arquiteto, tratava-se de dissi-
mulação; para outro, de fragmentação; para
outro ainda, de deslocamento. Novamente
citando Nietzsche, “não há fatos, apenas uma
infinidade de interpretações”. E, logo, talvez
porque muitos arquitetos compartilhassem
a insatisfação com o Geborgenheit dos
“historicistas pós-modernistas” e igual fasci-
nação pela vanguarda do princípio do sécu-
lo 20, o desconstrutivismo nasceu – e ime-
diatamente foi chamado de “estilo”; precisa-
mente o que esses arquitetos tentavam evi-
tar. Qualquer interesse no pensamento pós-
estruturalista e na desconstrução tem ori-
gem no fato de que eles desafiam a ideia de
conjunto único e uniforme de imagens, a ideia
de certeza e, é claro, a ideia de uma lingua-
gem identificável.
Arquitetos teóricos – como eram chama-
dos – queriam confrontar as oposições bi-
nárias da arquitetura tradicional, a saber, for-
ma versus função ou abstração versus figu-
ração. No entanto, eles também queriam
desafiar as hierarquias implícitas escondidas
nessas dualidades, tais como “a forma segue
a função” e “o ornamento é subordinado à
estrutura”. Esse repúdio à hierarquia levou à
fascinação por imagens complexas que eram
simultaneamente “ambos” e “nem um, nem
outro” – imagens que eram a justaposição e
a sobreposição de muitas outras imagens. A
sobreposição tornou-se um artifício-chave,
o que pode ser visto em meu próprio traba-
lho. Em The Manhattan Transcripts (1981)
ou The Screenplays(1977), os dispositivos
usados nos primeiros episódios eram em-
prestados da teoria do cinema e do nouveau
roman. Em Transcripts, a distinção entre es-
trutura (ou moldura), forma (ou espaço),
evento (ou função), corpo (ou movimento)
e ficção (ou narrativa) era sistematicamente
obscurecida por sobreposição, colisão,
distorção, fragmentação, e assim por diante.
Encontramos a sobreposição usada de modo
bastante notável no trabalho de Peter
Eisenman, em que as camadas sobrepostas
para seu projeto Romeo and Juliet levaram
paralelos literários e filosóficos a extremos.
Essas realidades diferentes desafiaram qual-
quer interpretação única, constantemente
tentando problematizar o objeto
arquitetônico, cruzando as fronteiras entre
cinema, literatura e arquitetura (“Era uma
peça de teatro ou de arquitetura?”).
Muito desse trabalho tirou proveito do am-
biente universitário e da cena artística – suas
galerias e publicações – nos quais o cruza-
mento de diferentes campos permitiu que
arquitetos diluíssem a distinção entre esti-
los, constantemente questionando a disci-
plina da arquitetura e suas hierarquias. Se,
contudo, eu fosse examinar tanto meu tra-
balho dessa época como o de meus cole-
gas, eu diria que ambos se desenvolveram a
partir de uma crítica da arquitetura, da natu-
reza da arquitetura. Ela desmontou concei-
tos e se tornou notável ferramenta
conceitual, mas não poderia atingir aquilo que
justamente faz o trabalho de arquitetos di-
ferente, de modo fundamental, do trabalho
de filósofos: materialidade.
220 A R T E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0
Assim como há uma lógica das palavras ou
dos desenhos, há uma lógica dos materiais,
e elas não são iguais. E não importa o quan-
to elas sejam subvertidas, algo no fim das
contas resiste. Ceci n’est pas un pipe.7
Uma
palavra não é um bloco de concreto. O con-
ceito de cachorro não late. Citando Gilles
Deleuze, “os conceitos do cinema não são
dados no cinema”. Quando metáforas e
catacreses se transformam em edifícios, nor-
malmente se transformam em cenários de
contraplacado ou papel machê: mais uma vez,
o ornamento. Colunas de gesso acartonado
que não tocam o chão não são estruturais,
são ornamento. Sim, ficção e narrativa fasci-
naram muitos arquitetos, talvez porque, di-
riam nossos inimigos, nós entendíamos mais
de livros do que de edifícios.
Não disponho do tempo necessário para
discorrer sobre uma diferença relevante en-
tre as duas interpretações do papel da fic-
ção na arquitetura: as assim chamadas fren-
te historicista pós-modernista e frente
desconstrutivista neo-modernista (os rótu-
los não são meus). Embora ambas tenham
origem em interesses iniciais em linguística e
semiologia, o primeiro grupo considerava a
ficção e a narrativa partes do domínio das
metáforas, de uma nova architecture
parlante, de forma, e o segundo grupo en-
tendia ficção e sinopses como análogas a
programas e função.
Eu gostaria de concentrar-me na segunda
visão. Mais do que manipular as proprieda-
des formais da arquitetura, deveríamos in-
vestigar o que de fato acontece dentro de
edifícios e cidades: a função, o programa, a
dimensão propriamente histórica da arqui-
tetura. O livro Análise estrutural da narrati-
va, de Roland Barthes, é fascinante nesse
sentido, já que pode ser diretamente trans-
posto numa sequência tanto espacial como
programática. Isso também se aplica a boa
parte da teoria de Sergei Eisenstein sobre a
montagem do filme.
Conceito V: cruzamento de programas
A arquitetura sempre tratou do evento que
acontece em um espaço tanto como do es-
paço em si. A rotunda da Columbia
University já foi uma biblioteca; já foi usada
como salão de banquetes; é normalmente o
local em que ocorrem as palestras da insti-
tuição; algum dia poderá satisfazer à neces-
sidade de se ter um espaço esportivo na
universidade. Que piscina maravilhosa a
rotunda seria! Podem pensar que estou sen-
do jocoso, mas, nos dias de hoje, em que
estações de trem se tornam museus, e igre-
jas, discotecas, uma posição está sendo to-
mada: a total permutabilidade entre forma e
função, a perda das relações tradicionais,
canônicas, de causa e efeito, tais como fo-
ram santificadas pelo modernismo. A fun-
ção não segue a forma; a forma não segue a
função – ou ficção. No entanto, elas certa-
mente interagem. Mergulhar nessa grande pis-
cina azul da rotunda – uma parte do choque.
Se o choque não pode mais ser produzido
pela sucessão e justaposição de fachadas e
lobbies, talvez ele possa ser produzido pela
justaposição de eventos que ocorrem por
trás dessas fachadas e desses espaços. Se “a
respectiva contaminação de todas as cate-
gorias, as constantes substituições, a confu-
são de estilos” – como descritas igualmente
por críticos de direita e de esquerda, de
Andreas Huyssens a Jean Baudrillard – con-
figuram a nova direção de nossos tempos,
elas podem muito bem ser usadas em nos-
so proveito, em proveito de um rejuvenes-
cimento geral da arquitetura. Se arquitetura
é, ao mesmo tempo, conceito e experiên-
cia, espaço e uso, estrutura e imagem super-
ficial – de modo não hierárquico –, então a
arquitetura deveria parar de separar essas
categorias e, ao contrário, fundi-las em com-
221T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I
binações de programas e espaços sem pre-
cedentes. “Cruzamento de programas”,
“transprogramas”, “desprogramas”: desenvol-
vi esses conceitos em outras ocasiões, suge-
rindo o deslocamento e a mútua contami-
nação dos termos.
Conceito VI: eventos: o turning point
Meu próprio trabalho, nos anos 70, cons-
tantemente reiterava que não havia arquite-
tura sem eventos, sem ação, sem atividades,
sem funções. A arquitetura era vista como a
combinação de espaços, eventos e movimen-
tos, sem nenhuma hierarquia ou precedên-
cia quanto a esses conceitos. A relação hie-
rárquica de causa e efeito entre função e
forma é uma das grandes certezas do pen-
samento sobre arquitetura – aquele que jaz
por trás daquela idée reçue tranquilizadora
de vida em comunidade que nos diz que vi-
vemos em casas “projetadas para satisfazer
a nossas necessidades”, ou em cidades pla-
nejadas como máquinas de morar.
Conotações Geborgenheit dessa noção vão
contra o “prazer” real da arquitetura, nessa
inesperada combinação de termos, e tam-
bém contra a realidade da vida urbana con-
temporânea em suas direções mais estimu-
lantes e inquietantes. Portanto, em trabalhos
como The Manhattan Transcripts, a defini-
ção de arquitetura não poderia ser forma nem
paredes, mas tinha de ser a combinação de
termos heterogêneos e incompatíveis.
A inserção dos termos evento e movimen-
to foi influenciada pelo discurso situacionista
e pela era 68. Les événements, como eram
chamados, não configuravam eventos ape-
nas em ação, mas também em pensamento.
Levantar uma barricada (função) em uma rua
de Paris (forma) não é de modo algum equi-
valente a ser um flaneur (função) nessa mes-
ma rua (forma). Jantar (função) na rotunda
(forma) não equivale a nadar ou ler nesse
mesmo lugar. Aqui todas as relações hierár-
quicas entre forma e função deixam de exis-
tir. Essa combinação improvável de eventos
e espaços era carregada de capacidades sub-
versivas, pois desafiavam tanto a função
como o espaço. Tal confronto é similar ao
encontro surrealista de uma máquina de
costura e um guarda-chuva em uma mesa
de dissecação ou, mais próximo de nós, a
descrição por Rem Koolhaas do Downtown
Athletic Club: “Comer ostras com luvas de
boxe, nu, no enésimo andar.”
Encontramos isso hoje em Tóquio, com di-
versos programas espalhados pelos andares
dos arranha-céus: uma loja de departamen-
tos, um museu, uma academia de ginástica e
uma estação de trem com uma pequena
quadra de golfe no terraço. E encontrare-
mos também nos programas do futuro, em
que aeroportos serão simultaneamente es-
paços de diversão, espaços esportivos, cine-
mas, etc. Independentemente de se tratar
do resultado de combinações do acaso ou
de serem devidas à pressão do aumento
constante do preço dos terrenos, essas re-
lações não causais entre forma e função ou
entre espaço e ação vão além de encontros
poéticos de amantes improváveis. Michel
Foucault, de acordo com citação feita por
John Rajchman, expandiu o uso do termo
evento de tal modo, que foi além da ativida-
de ou ação isolada e mencionou “eventos
do pensamento”. Para Foucault, um evento
não é simplesmente uma sequência lógica
de palavras ou ações, mas “o momento da
erosão, colapso, questionamento ou
problematização das próprias premissas de
um esquema dentro do qual um drama pode
acontecer – ocasionando a chance ou pos-
sibilidade de outro esquema diferente”. O
evento aqui é visto como um turning point
– não uma origem nem um fim –, em oposi-
ção a premissas tais como a forma segue a
função. Quero aqui propor a ideia de que o
futuro da arquitetura está na construção de
tais eventos.
222 A R T E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0
Igualmente importante é a espacialização que
ocorre com o evento. Tal ideia diverge con-
sideravelmente do projeto modernista, que
procurou afirmar certezas em uma utopia
unificada, ao contrário de nosso atual
questionamento, de terrenos múltiplos, frag-
mentados, deslocados.
Alguns anos depois, em ensaio sobre as folies
do Parc de la Villette, Jacques Derrida ex-
pandiu a definição de evento, chamando-o
de “a emergência de uma multiplicidade dis-
crepante”. Eu havia constantemente insisti-
do, em nossas discussões e em outras ocasi-
ões, na ideia de que esses pontos chamados
de folies eram pontos de atividades, de pro-
gramas, de eventos. E Derrida a desenvol-
veu, propondo a possibilidade de uma “ar-
quitetura do evento” que iria “eventualizar”
ou abrir aquilo que, em nossa história ou
tradição, é entendido como fixo, essencial,
monumental. Ele havia também sugerido
antes que a palavra “evento” tinha raízes
iguais às de “invenção”, daí a noção do even-
to, da ‘ação-no-espaço’, do turning point, a
invenção. Quero aqui associá-la à noção de
choque; um choque que, para ser efetivo em
nossa cultura mediada, em nossa cultura de
imagens, deve ir além da definição de Walter
Benjamin e combinar a ideia de função ou
ação com a ideia de imagem. De fato, a ar-
quitetura se encontra em situação singular:
é a única disciplina que, por definição, com-
bina conceito e experiência, imagem e uso,
imagem e estrutura. Filósofos podem escre-
ver, matemáticos podem desenvolver espa-
ços virtuais, mas arquitetos são os únicos
prisioneiros dessa arte híbrida, na qual a ima-
gem quase nunca existe sem alguma ativida-
de a ela combinada.
Meu argumento é que, longe de ser um cam-
po que sofre da incapacidade de questionar
suas estruturas e fundamentos, a arquitetu-
ra é o campo no qual se darão as maiores
descobertas no próximo século. A própria
heterogeneidade da definição de arquitetu-
ra – espaço, ação e movimento – a transfor-
ma nesse evento, nesse lugar de choque ou
no lugar da invenção de nós mesmos. O
evento é o lugar em que a reconsideração e
a reformulação de diferentes elementos da
arquitetura, muitos dos quais provocaram ou
contribuíram para as desigualdades sociais
contemporâneas, podem levar a alguma so-
lução. Por definição, é o lugar da combina-
ção de diferenças.
Isso não acontecerá pela imitação do passa-
do e dos ornamentos do século 18. Tam-
bém não acontecerá por simplesmente se
comentar, por meio do projeto, os vários
deslocamentos e incertezas de nossa condi-
ção contemporânea. Não acredito que seja
possível, nem faz sentido, projetar edifícios
que formalmente tentem dissolver estrutu-
ras tradicionais, ou seja, que disponham for-
mas que estejam em algum lugar entre abs-
tração e figuração, ou entre estrutura e or-
namento, ou que tenham sido cortadas e
deslocadas por razões estéticas. A arquite-
tura não é arte ilustrativa; ela não ilustra
teorias. (Não acredito que se possa proje-
tar a desconstrução.) Não se pode projetar
uma nova definição de cidades e sua arqui-
tetura. Mas podem-se projetar as condições
que tornarão possível que essa sociedade
não hierárquica, não tradicional, aconteça. Ao
compreenderem a natureza de nossas cir-
cunstâncias contemporâneas e os processos
midiáticos que as acompanham, arquitetos
têm a possibilidade de construir as condi-
ções que criarão uma nova cidade e novas
relações entre espaços e eventos.
A arquitetura não trata das condições de
projeto, mas do projeto de condições capa-
zes de deslocar os aspectos mais tradicio-
nais e reacionários de nossa sociedade, e si-
multaneamente reorganizar esses elementos
do modo mais libertador possível. De ma-
223
neira que nossa experiência se torne a ex-
periência de eventos organizados por meio
da arquitetura, e cuja estratégia é pensada
também por seu intermédio. Estratégia é
palavra-chave em arquitetura hoje. Não mais
grandes planos, não mais localizações em
pontos fixos, mas uma nova heterotopia. É
para chegar a isso que nossas cidades de-
vem empenhar-se e é isso o que os arquite-
tos devem ajudá-las a atingir, ao intensificar
a rica colisão entre eventos e espaços. Tó-
quio e Nova York são só aparentemente
caóticas – marcam, no entanto, o apareci-
mento de uma nova estrutura urbana, uma
nova urbanidade. Seus confrontos e combi-
nações de elementos podem proporcionar
o evento, o choque que, espero, faça da ar-
quitetura de nossas cidades o turning point
na cultura e na sociedade.
Tradução: Ana Mannarino
Revisão técnica: Paulo Venancio Filho
Tschumi, Bernard. “Six concepts”. In:
Architecture and disjunction. Cambridge: MIT
press, 1994.
Bernard Tschumi é arquiteto e teórico. Foi professor na
Architectural Association in London, na Princeton
University e na Cooper Union em Nova York e atual-
mente leciona na Columbia University. Alguns de seus
projetos mais conhecidos são o Parc de La Villette, em
Paris, e o Novo Museu da Acrópole, em Atenas. Publi-
cou diversos livros com textos teóricos e a respeito de
sua prática, como Architecture and Disjunction (MIT
Press, 1994), The Manhattan Transcripts (Academy
Editions e St. Martin’s Press, 1981 e 1994) e a série Event-
Cities (MIT Press, 1994, 2000, 2005).
Notas
1 Em alemão, sentimento de proteção e segurança. (N.R.)
2 Termo inglês que significa a fachada de vidro dos prédios
modernos. (N.R.)
3 Obra de arte total. (N.T.)
4 Em alemão, metrópole. (N.R.)
5 Estados Unidos. (N.T.)
6 Frame no original, podendo ser tanto armação, estrutura,
como moldura. (N.T.).
7 Título de quadro de René Magritte sobre o qual Michel
Foucault escreveu um ensaio. (R.R.)
T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I

Bernard Tschumi

  • 1.
    210 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0
  • 2.
    211 ZKM, Karlsruhe, Alemanha, 1988. Fontedas imagens: Tschumi, Bernard . Architecture and Disjunction. Cambridge: MIT Press, 1996 T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I Em artigo publicado em janeiro de 1991 no The New York Times, Vincent Scully, res- peitado crítico e historiador de arquitetura, afirmou que “o movimento mais importan- te na arquitetura de hoje é o retorno às tra- dições vernacular e clássica, e sua reintegra- ção às principais correntes da arquitetura moderna em seu aspecto mais fundamental: a estrutura de comunidades, a construção de cidades”. As palavras do professor Scully não podem ser facilmente ignoradas, sobre- tudo quando, no mesmo artigo, ele mencio- na que as demais atividades em arquitetura estão em “momento de extrema futilidade que desconstrói e autodestrói”. Muito da arquitetura pós-moderna foi de- senvolvido em época de reação geral con- tra aquilo que era percebido como a abstra- ção modernista: abstração porque os mo- dernos edifícios comerciais de vidro eram “sem imagens” e frios como a pintura abs- trata. Abstração também porque, dizia-se, arquitetos modernos eram elitistas, distan- tes ou “abstraídos” da vida cotidiana – das pessoas e, sobretudo, da comunidade, cuja participação não era permitida, enquanto áreas, autoestradas e arranha-céus (para ci- tar Scully novamente) “destruíam a própria estrutura de nossos bairros”. Brasília e Chandigarh eram belas ou feias, sociais ou antissociais, históricas ou a-históricas? Essa reação à modernidade, vista como im- posição da abstração, data de meados dos anos 60, seja por meio de textos acadêmicos ou por meio dos primeiros protestos organi- zados contra a demolição de bairros e edifíci- os-monumentos em nome do progresso, da Pennsylvania Station, de Nova York, ao Les Halles, de Paris. Entre os arquitetos, foi certa- mente um livro, Complexity and contradiction in architecture, de Robert Venturi, publicado pelo Museu de Arte Moderna em 1966, que disparou ampla e extraordinária reavaliação dos valores e prioridades na arquitetura, su- gerindo que ela era mais do que a etérea e abstrata formulação de um ideal utópico. Re- cheado de exemplos que iam do trabalho de Borromini a “justaposições de linhas expres- sas e construções existentes”, o texto de Venturi concluía com elogios às “lições vívi- das da Pop Art”, uma vez que ela envolvia contradições de escala e de contexto “que deveriam ter despertado arquitetos de seus elevados sonhos de pura ordem”. Seis conceitos Bernard Tschumi Trata das questões que envolvem a arquitetura contemporânea e o modo como pode permanecer meio para exploração de novos territórios e para produção de novo conhecimento em um mundo estetizado e midiático, sem se limitar a um problema meramente de aparências. Desenvolve seis conceitos referentes à produ- ção arquitetônica contemporânea que procura enfrentar esse desafio – desfamiliarização, choque, desestruturação, sobreposição, cruzamento de progra- mas e turning point – defendendo o papel da arquitetura de proporcionar condi- ções capazes de criar uma nova cidade e novas relações entre espaços e eventos. Arquitetura contemporânea, pós-modernismo, desconstrução.
  • 3.
    212 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0 Quase simultaneamente, uma nova área do conhecimento se desenvolvia e se mostra- ria formidável instrumento nas mãos de ar- quitetos e críticos que buscavam resgatar o significado daquilo que atacavam como o grau zero do modernismo. A semiologia e a linguística invadiram a cena arquitetônica. Não raro muito mal compreendidos, os tra- balhos de Chomsky, Umberto Eco e Roland Barthes iriam influenciar novas estratégias em codificação de arquitetura, de modo que pessoas comuns e também acadêmicos poderiam finalmente decodificar múltiplos sentidos aplicados àquilo que, no entanto, per- manecia sendo abrigos neutros. Ainda em 1968, Barthes, em uma de suas raras incur- sões ao urbanismo e à arquitetura, concluiu que significados fixos seriam impossíveis. Ar- quitetos e críticos pós-modernos desenvol- veram extravagante concepção de uma arqui- tetura cheia de significado, na qual as fachadas de edifícios comunicavam um universo de alu- sões, citações e precedentes históricos. Próprio dessas alusões é o fato de todas se referirem a um setor muito limitado da cultu- ra arquitetônica: primeiramente, elas lidavam apenas com a aparência da arquitetura, com sua superfície ou imagem, nunca com sua es- trutura ou uso. Em segundo lugar, um con- junto muito restrito de imagens estava sendo proposto – palazzi romanos, villas e constru- ções vernaculares inglesas ou aquilo que po- deria ser descrito como os sonhos arcadianos de uma classe média conservadora cuja homogeneidade de gosto contradizia as pró- prias teorias de heterogeneidade que Barthes e Venturi pareciam sugerir. Devemos acres- centar que, para outros que estavam propon- do um novo vocabulário formalista, a mesma situação frequentemente ocorria. Falava-se quase sempre sobre a imagem, a superfície; estrutura e uso não eram mencionados. De fato, a cultura industrial e metropolitana de nossa sociedade estava notoriamente ausen- te. Raras eram as alusões às megalópolis, às fábricas, estações de energia e outros traba- lhos mecânicos que definiram nossa cultura por mais de um século. Em contraste com essas ideias, nos era oferecido um conjunto constante de imagens de uma sociedade pré- industrial – pré-aeroportos, pré-supermerca- do, pré-computador, pré-nuclear. Obviamente, construtores e empreendedo- res eram tão facilmente convencidos por esses arquitetos “clássicos” como pelos preservacionistas: o mundo da nostalgia, do conforto, de geborgenheit,1 seria um mun- do melhor para se viver, e mais casas seriam vendidas. Apesar do recente interesse em novas formas de arquitetura contemporânea, essa Arcádia pré-industrial constitui a princi- pal corrente da ideologia arquitetônica e política na maior parte do mundo construído. Os mais inclinados ideologicamente entre os apologistas desse retorno argumentam que no final do século 20, depois de centenas de anos de desenvolvimento industrial, tecnológico e social, ainda é possível reto- mar um estilo de vida anterior, ignorando carros, computadores e a era nuclear. E, mais importante, ignorando as mudanças sociais e históricas específicas que ocorreram du- rante esse tempo. Esses ideólogos defendem que as “cidades” arcadianas que são hoje desenvolvidas no modelo das vilas de fim de semana irão, graças a sua arquitetura, pro- mover comunidades ideais em que valores sociais e respeito mútuo irão substituir as diferenças, os conflitos e os intercâmbios urbanos. Esse tipo de sonho comunitário (também partilhado por cooperativas e po- líticos) é irônico quando proposto em uma cidade como Nova York, em que as pessoas se mudam em média a cada quatro anos. No entanto, é sintoma de uma fantasia: que a vila de nossos ancestrais – que nunca co- nhecemos – possa ser um modelo para as gerações futuras.
  • 4.
    213 Folie P6, Parcde la Villette Paris, 1985 T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I Mas será que a questão é mesmo o moder- no versus o clássico ou o vernacular? Telha- dos inclinados contra telhados planos? Tra- ta-se realmente de uma questão-chave? É claro que não. Defendo que nossa condição contemporânea afeta igualmente os historicistas e os modernistas. Parte I Sempre fui fascinado pela fase de constru- ção de dois edifícios em Manhattan que fo- ram erguidos simultaneamente e lado a lado na Madison Avenue, entre as ruas 50 e 60. Esses dois arranha-céus, um projetado para a IBM, e o outro para a AT&T, são quase idênticos em sua estrutura de aço, função e no estilo comercial. A superfície de ambos é presa a suas estruturas por igual técnica construtiva. Aqui, porém, terminam as se- melhanças. A fachada lisa do prédio da IBM é revestida de mármore polido e vidro, com detalhamento abstrato e minimalista. Em contraste, o prédio da AT&T tem tratamen- to da fachada ligeiramente articulado, com placas de granito rosa cortadas para lembrar o trabalho romano e gótico em pedra. O edifício da IBM tem o teto plano; o da AT&T, um frontão. Até recentemente, o prédio da IBM era visto como símbolo de uma era modernista já superada, e o da AT&T como a afirmação heróica do novo historicismo pós-modernista que se tornou o estilo corporativo dominante dos anos 80. Am- bos os edifícios são quase idênticos em con- teúdo, volume e uso. Menos de 10 anos depois, a situação se repetiu em Times
  • 5.
    214 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0 Square, com a proposta de uma assim cha- mada superfície desconstrutivista substituin- do uma clássica pós-moderna. Tais exem- plos também se aplicam a casas em East Hampton, Long Island, em que os projetos de Robert A. M. Stern e Charles Gwathmey frequentemente servem a programas equi- valentes e, às vezes, aos mesmos clientes. Um arquiteto é rotulado como historicista, o outro, como modernista – ambos fabri- cantes de imagens elegantes. Tal trabalho de superfícies também pode ser visto em reformas de edifícios, como no Hotel Biltmore em Nova York, cuja fachada de tijolos de 1913 foi substituída 75 anos depois por uma parede curtain wall,2 mais típica de prédios comerciais. Quase simulta- neamente, a fachada de ladrilhos brancos dos dormitórios do East Campus da Columbia University foi substituída por uma imitação da fachada de tijolos de 1913. Esse comen- tário não é um juízo de valor: tornou-se uma condição de nossos tempos. Devemos ob- servar que a administração da Columbia University sofreu considerando o que fazer com o edifício quando se descobriu que os ladrilhos que caíam não poderiam ser repa- rados ou substituídos e que a alternativa se- ria encontrar 70 milhões de dólares para construir um novo dormitório. Ninguém fi- cou contente com a decisão que a universi- dade teve de tomar – mudar a superfície –, mas, se serve de consolo, podemos pensar naquela fachada aos pedaços como um sin- toma da nossa condição contemporânea, mais do que como resultado de uma cons- trução imperfeita. “O triunfo do superficial”, como Stuart Ewen o chama em seu livro recente sobre as polí- ticas de estilo, All consuming images, não é fenômeno novo, mas os arquitetos ainda têm que compreender as consequências dessa separação entre estrutura e superfície. Até o século 19, a arquitetura se valia de pare- des estruturantes que mantinham o edifício de pé. Embora fosse comum aplicar decora- ções de vários estilos a essas superfícies, as paredes desempenhavam uma função-cha- ve estruturante. Normalmente havia uma conexão entre o tipo de imagem usada e a estrutura da parede. Em torno de 1830, a conexão entre imagem, estrutura e método construtivo deixou de existir. Novos méto- dos construtivos empregavam armação es- trutural interna que sustentava o edifício. Seja na forma de estruturas tipo “armação de balão”, cobertas por uma superfície, ou “ar- mações estruturais”, cobertas por paredes- cortina, nessas novas técnicas de construção as paredes não desempenhavam mais um papel estruturante: tornaram-se progressiva- mente ornamentais. Uma grande variedade de estilos se tornou possível graças ao de- senvolvimento de painéis pré-fabricados, prontos para serem moldados, pintados ou impressos a fim de refletir qualquer imagem, qualquer período. Com as novas superfícies sem corpo, os pa- péis de engenheiros e arquitetos tornaram- se cada vez mais separados: o engenheiro cuidava da estrutura, o arquiteto, da superfí- cie. A arquitetura tornava-se uma questão de aparência: a superfície poderia ser românica, barroca, vitoriana, “vernacular regionalista”, etc. Essa evolução para a permutabilidade de superfícies coincidiu com o surgimento de novas técnicas de representação visual. A fotografia e a impressão em massa de pa- péis de parede decorativos democratizaram a comercialização de tratamentos de super- fície em arquitetura. E, além disso, a fotogra- fia aumentou o poder da imagem acima de qualquer estrutura essencial. Estamos falando do século 19, mas as coisas se intensificaram tanto, que a mudança quan- titativa levou a um salto qualitativo. Com a fotografia, revistas, televisão e fax, a chama- da superficialidade tornou-se o sinal de nos-
  • 6.
    215T E MÁ T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I sos tempos. Para citar Jean Beaudrillard em A transparência do mal, “… as coisas conti- nuam funcionando quando a sua ideia já desapareceu há muito tempo. Elas continuam a funcionar com total indiferença a seu pró- prio conteúdo. Paradoxalmente, elas funcio- nam até melhor desse modo.” Vistos assim, edifícios modernistas tornaram- se “melhores” nos anos 30, quando os ideais sociais começaram a mostrar-se ilusórios e finalmente desapareceram. Por extensão, não são os edifícios de Richard Meier hoje mais “estéticos” do que os de Le Corbusier? Uma forma generalizada de estetização de fato se deu, trazida pela mídia. Do mesmo modo que os Bombardeiros Stealth foram estetizados no pôr do sol televisionado da Arábia Saudita e que o sexo é estetizado nas publicidades, também toda cultura – e, é claro, isso inclui a arquitetura – é agora estetizada, xeroxada. Além disso, a apresen- tação simultânea dessas imagens leva a uma redução da história a imagens simultâneas: não apenas àquelas da Guerra do Golfo in- tercaladas com jogos de basquete e comer- ciais, mas também àquelas de nossas revis- tas de arquitetura e, finalmente, àquelas de nossas cidades. O apetite da mídia pelo consumo de ima- gens arquitetônicas é enorme. E uma consequência da mudança de atenção em direção à superfície foi que muito da história da arquitetura se tornou imagem impressa, a palavra impressa e sua disseminação, e não o edifício em si. Até a redação deste texto, personalidades influentes na arquitetura – Daniel Liebeskind, por exemplo, ou Wolf Prix, Zaha Hadid ou Rem Koolhaas – cons- truíram relativamente pouco. Nossa geração de arquitetos é o tema de inúmeros artigos, mesmo que raramente lhe seja dada a opor- tunidade de construir. Ela domina, ainda, a informação na mídia. A intensidade dessa ofensiva informacional, ou o que podería- mos chamar de “realidade”, é tal, que uma realidade objetiva, única, é cada vez mais di- fícil de se conceber. Estamos familiarizados com o aforismo de Nietzsche em Crepús- culo dos ídolos: “O mundo real, finalmente, se tornará uma ficção”. Inevitavelmente, a arquitetura e sua percepção se tornarão uma ficção, tal como outros objetos da realidade contemporânea. Classicismo eclético, racionalismo, neomo- dernismo, desconstrutivismo, regionalismo crítico, arquitetura verde, ou, no mundo da arte, neogeo, novo expressionismo, nova abstração ou figuração – todos coexistem e cada vez mais nos provocam profunda indi- ferença: indiferença à diferença. Do New York Times à Vanity Fair, de P/A e A.D. a Assemblage, vemos uma realidade múltipla progressivamente baseada em constante oscilação de tendências, teorias, escolas, movimentos e modismos. A questão é: por que se opor a esse mundo mediado? Nos deveríamos opor em nome de alguma reali- dade sólida, unificada? Deveríamos, mais uma vez, ansiar por uma Gesamtkunstwerk3 coe- rente? Hoje, porém, o projeto do início do século 20 parece o desejo de se restaurar uma sociedade na qual cada elemento está em relação hierárquica fixa com os demais – um mundo de ordem, de certezas e de permanência. De fato, se a maior parte da arquitetura se tornou superfície, decoração aplicada, super- ficialidade, arquitetura de papel (ou, para usar a celebrada expressão de Venturi “galpão decorado”), o que distingue arquitetura de outras formas de design de outdoors? Ou, mais ambiciosamente, o que distingue arqui- tetura de edições, layouts, gráficos? Se os assim chamados contextualismos e historicismos tipológicos nada são além de um conjunto de disfarces oportunos aplica- dos a uma fórmula pronta – em outras pala- vras, uma superfície em um suporte que res-
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    216 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0 peita ou desfaz o volume das construções adjacentes –, então como a arquitetura pode permanecer um meio pelo qual a sociedade explora novos territórios, desenvolve novo conhecimento? Parte II Conceito I: tecnologias de desfamiliarização Nos últimos anos, pequenos focos de resis- tência começaram a formar-se quando ar- quitetos de várias partes do mundo – Ingla- terra, Áustria, Estados Unidos, Japão (na maioria das vezes, em culturas pós-industriais avançadas) – começaram a tirar proveito dessa condição de fragmentação e su- perficialidade e a voltá-la contra si mesma. Se a ideologia predominante era a da familia- ridade – familiaridade com imagens conhe- cidas, derivadas do modernismo dos anos 20 ou do classicismo do século 18 –, talvez o papel do arquiteto fosse desfamiliarizar. Se o mundo novo, mediado, ecoava e reforça- va nossa realidade desmantelada, talvez, ape- nas talvez, se deveria tirar proveito de tal desmantelamento, celebrar a fragmentação ao celebrar a cultura de diferenças, ao ace- lerar e intensificar a perda da certeza, do centro, da história. Na cultura, em geral, o mundo da comuni- cação nos últimos 20 anos certamente aju- dou na expressão de uma multiplicidade de novos pontos de vista sobre a história canônica, dando voz a mulheres, imigrantes, gays, minorias e várias identidades não oci- dentais que nunca se estabeleceram confor- tavelmente na suposta comunidade. Na ar- quitetura, em particular, a noção de desfamiliarização era uma ferramenta clara. Se o projeto de janelas apenas reflete a su- perficialidade da decoração de superfície, então deveríamos começar a procurar um modo de fazê-lo sem janelas. Se o projeto de pilares reflete a convenção de um supor- te estruturante, talvez nos devêssemos livrar completamente dos pilares. Embora os arquitetos envolvidos pudessem não professar alguma inclinação em direção à exploração de novas tecnologias, tais tra- balhos costumavam tirar proveito das ino- vações tecnológicas contemporâneas. Curi- osamente, as tecnologias específicas – ar- condicionado ou a construção de estruturas leves, ou modos computadorizados de cál- culo – ainda têm de ser teorizadas na cultu- ra arquitetônica. Enfatizo isso porque outros avanços tecnológicos, tais como a invenção do elevador ou o desenvolvimento da cons- trução em aço no século 19, foram tema de inúmeros estudos de historiadores, mas há poucos estudos do gênero sobre tecnologias contemporâneas, uma vez que essas tecnologias não necessariamente produzem formas históricas. Faço esse desvio pela tecnologia porque ela é inextricavelmente ligada a nossa condição contemporânea: afirmar que a sociedade ago- ra diz respeito à mídia e à mediação nos faz conscientes de que a direção tomada pela tecnologia é menos a dominação da natureza do que o desenvolvimento de informação e construção do mundo como um conjunto de imagens. Arquitetos devem mais uma vez entender e tirar partido do uso de tais novas tecnologias. Nas palavras do escritor, filósofo e arquiteto francês Paul Virilio, “não estamos mais lidando com a tecnologia da constru- ção, mas com a construção de tecnologia”. Conceito II: o choque “metropolitano” mediado A cintilação constante de imagens nos fasci- na, tanto quanto fascinava Walter Benjamin em A obra de arte na era de sua reprodutibi- lidade técnica. Destesto citar um “clássico” como esse, mas a análise recente de Gianni Vattimo desse texto indicou aspectos que
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    217T E MÁ T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I são ilustrativos de nossa condição contem- porânea. Quando discutiu a reprodutibilidade de imagens, Benjamin mostrou que a perda de seu valor de troca, sua “aura”, tornou-as intercambiáveis e, em uma era da pura in- formação, a única coisa que contava era o “choque” – o choque das imagens, seu fator surpresa. Esse fator choque foi o que permi- tiu que uma imagem se destacasse: além dis- so, era também característico de nossa con- dição contemporânea e dos perigos da vida na metrópole moderna. Esses perigos resul- taram em constante ansiedade por encontrarmo-nos em um mundo no qual tudo era insignificante e gratuito. A experiên- cia de tal ansiedade era uma experiência de desfamiliarização, de Un-zu-hause-sein, de Unheimlichkeit, do inquietante. De muitos modos, a experiência estética, de acordo com Benjamin, consistia em manter a desfamiliarização viva, em contraste com seu oposto – a familiarização, a segurança, Geborgenheit. Gostaria de destacar que a análise de Benjamin corresponde exatamente ao dilema histórico e filosófico da arquitetu- ra. A experiência da arquitetura é algo pen- sado para desfamiliarizar – digamos, uma forma de “arte” – ou, ao contrário, para ser reconfortante, heimlich, aconchegante – algo que protege? Aqui, é claro, podemos cons- tatar a oposição constante entre aqueles que veem a arquitetura e as cidades como luga- res de experiência e experimentação, como reflexões estimulantes sobre a sociedade contemporânea – aqueles que gostam de “assombrações”, que desconstroem e autodestroem – e aqueles que veem o pa- pel da arquitetura como refamiliarização, contextualização, inserção, em outras pala- vras, aqueles que se descrevem como historicistas, contextualistas e pós-modernis- tas, uma vez que pós-modernismo em ar- quitetura hoje tem conotação definitivamen- te classicista e historicista. O público em geral – para quem a arquite- tura trata de conforto, de abrigo, de tijolos e de argamassa – ficará quase sempre do lado dos tradicionalistas. Para quem, no entanto, a arquitetura não trata necessariamente de conforto e Geborgenheit, mas também de impulsionar a sociedade e seu desenvolvi- mento, o artifício do choque pode ser uma ferramenta indispensável. Cidades como Nova York, apesar de – ou talvez por causa de – seus sem-teto e do índice de dois mil assassinatos por ano, tornaram-se o equiva- lente pós-industrial da Grosstadt4 pré-indus- trial de Georg Simmel, que tanto fascinou e horrorizou Benjamin. A arquitetura na megalópole pode-se voltar para soluções não familiares dos problemas mais do que bus- car as soluções reconfortantes da comuni- dade dominante. Recentemente, vimos novas e importantes pesquisas sobre cidades nas quais a fragmen- tação e o deslocamento produzidos pela jus- taposição fora de escala de autoestradas, shopping centers, arranha-céus e pequenas casas são vistos como sinal positivo da vitali- dade da cultura urbana. Em oposição às ten- tativas nostálgicas de restaurar uma continui- dade impossível de ruas e praças, essas pes- quisas implicam fazer do choque urbano um evento, que, mediante o conflito e a disjunção, intensifica e acelera a experiência urbana. Retornemos à mídia. Em nossa era de re- produção, vimos como as técnicas para cons- trução convencionais, de estrutura e reves- timento, correspondem à superficialidade e à precariedade da cultura midiática, e como uma constante expansão da mudança era necessária para satisfazer às necessidades fre- quentemente banais da mídia. Vimos tam- bém que endossar essa lógica significa dizer que qualquer trabalho é intercambiável com qualquer outro, tanto quanto o revestimen- to de um dormitório, que retiramos e subs-
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    218 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0 tituímos por outro. Também vimos que o choque vai contra a nostalgia da permanên- cia ou da autoridade, seja na cultura em ge- ral ou na arquitetura em particular. Depois de mais de 50 anos da publicação do texto de Benjamin, podemos dizer que o choque ainda é tudo o que nos resta para nos co- municarmos em uma época de informação generalizada. Em um mundo muito influen- ciado pela mídia, essa necessidade inexorável de mudança não deve ser necessariamente entendida como negativa. O aumento em mudanças e em superficialidade também sig- nifica um enfraquecimento da arquitetura como forma de dominação, de poder e de autoridade, tal como historicamente tem sido nos últimos seis mil anos. Conceito III: desestruturação É interessante examinar esse “enfraquecimen- to” da arquitetura, essa relação alterada entre estrutura e imagem, estrutura e superfície, à luz de um debate que ressurgiu recentemen- te nos círculos de arquitetura – a saber, es- trutura versus ornamento. Desde o Renascimento, a teoria arquitetônica sempre distinguiu estrutura e ornamento, e demons- trou a hierarquia desses elementos. Citando Leon Battista Alberti, “o ornamento caracte- riza-se por ser um adendo ou um comple- mento”; é pensado para ser um acréscimo e não deve desafiar ou enfraquecer a estrutura. O que significa essa hierarquia hoje, quando a estrutura frequentemente permanece a mesma – um grid sem fim, neutro e repetitivo? Na maioria das construções atuais neste país,5 a prática estrutural é rigorosa- mente similar em conceito: armação básica em madeira, aço ou concreto. Como já apon- tado, a decisão de se construir a armação em qualquer um desses materiais costuma ser deixada para os engenheiros e econo- mistas, mais do que para os arquitetos. Não se espera que o arquiteto questione a es- trutura. Ela deve ser firme – afinal, o que aconteceria com as apólices de seguros (e com as reputações) se a construção ruísse? O resultado é quase sempre uma recusa a questionar a estrutura – que deve ser está- vel ou o edifício cai; o edifício, que é ao mesmo tempo a construção e todo o edifí- cio do pensamento. Pois em comparação com a ciência ou a filosofia, a arquitetura raramente questiona seus fundamentos. O resultado desses “hábitos de pensamen- to” na arquitetura é que não se espera que a estrutura de uma construção seja questio- nada mais do que o mecanismo de uma pro- jeção quando se assiste a um filme ou do que as peças de uma televisão quando se veem as imagens em sua tela. Críticos em geral questionam a imagem, embora muito raramente questionem o aparato, a estrutu- ra. Ainda que, por mais de um século, e em especial nos últimos 20 anos, tenhamos vis- to o início de tal questionamento. A filosofia contemporânea tocou essa relação entre moldura6 e imagem – aqui, a moldura é vista como a estrutura, a armação; e a imagem, como o ornamento. Jacques Derrida, em Parergon, faz esse questionamento entre moldura e imagem como tema. Embora possamos argumentar que a moldura de uma pintura não equivale à armação de um edifí- cio – uma sendo exterior ou hors d’oeuvre, e a outra interior – eu manteria isso apenas como uma objeção superficial. Tradicional- mente, tanto moldura como estrutura de- sempenham a função de “manter unido”. Conceito IV: sobreposição Esse questionamento da estrutura levou a um aspecto particular do debate contemporâneo sobre a arquitetura, a saber, a desconstrução. Desde o início, as polêmicas da desconstrução, juntamente com muito do pensamento pós- estruturalista, interessaram a um pequeno número de arquitetos porque eles pareciam
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    219T E MÁ T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I questionar os próprios princípios de Geborgenheit que a principal corrente pós- modernista tentava promover. Quando en- contrei Jacques Derrida pela primeira vez, para tentar convencê-lo a tratar da arquitetura em seu trabalho, ele me perguntou: “Mas como poderia um arquiteto estar interessado em desconstrução? Afinal, desconstrução é antiforma, anti-hierarquia, antiestrutura, o oposto de tudo o que a arquitetura repre- senta.” “Exatamente por isso”, respondi. Com o passar dos anos, as diferentes inter- pretações que os diversos arquitetos deram à desconstrução tornaram-se mais variadas do que a teoria da desconstrução, de diversificadas leituras, jamais poderia espe- rar. Para um arquiteto, tratava-se de dissi- mulação; para outro, de fragmentação; para outro ainda, de deslocamento. Novamente citando Nietzsche, “não há fatos, apenas uma infinidade de interpretações”. E, logo, talvez porque muitos arquitetos compartilhassem a insatisfação com o Geborgenheit dos “historicistas pós-modernistas” e igual fasci- nação pela vanguarda do princípio do sécu- lo 20, o desconstrutivismo nasceu – e ime- diatamente foi chamado de “estilo”; precisa- mente o que esses arquitetos tentavam evi- tar. Qualquer interesse no pensamento pós- estruturalista e na desconstrução tem ori- gem no fato de que eles desafiam a ideia de conjunto único e uniforme de imagens, a ideia de certeza e, é claro, a ideia de uma lingua- gem identificável. Arquitetos teóricos – como eram chama- dos – queriam confrontar as oposições bi- nárias da arquitetura tradicional, a saber, for- ma versus função ou abstração versus figu- ração. No entanto, eles também queriam desafiar as hierarquias implícitas escondidas nessas dualidades, tais como “a forma segue a função” e “o ornamento é subordinado à estrutura”. Esse repúdio à hierarquia levou à fascinação por imagens complexas que eram simultaneamente “ambos” e “nem um, nem outro” – imagens que eram a justaposição e a sobreposição de muitas outras imagens. A sobreposição tornou-se um artifício-chave, o que pode ser visto em meu próprio traba- lho. Em The Manhattan Transcripts (1981) ou The Screenplays(1977), os dispositivos usados nos primeiros episódios eram em- prestados da teoria do cinema e do nouveau roman. Em Transcripts, a distinção entre es- trutura (ou moldura), forma (ou espaço), evento (ou função), corpo (ou movimento) e ficção (ou narrativa) era sistematicamente obscurecida por sobreposição, colisão, distorção, fragmentação, e assim por diante. Encontramos a sobreposição usada de modo bastante notável no trabalho de Peter Eisenman, em que as camadas sobrepostas para seu projeto Romeo and Juliet levaram paralelos literários e filosóficos a extremos. Essas realidades diferentes desafiaram qual- quer interpretação única, constantemente tentando problematizar o objeto arquitetônico, cruzando as fronteiras entre cinema, literatura e arquitetura (“Era uma peça de teatro ou de arquitetura?”). Muito desse trabalho tirou proveito do am- biente universitário e da cena artística – suas galerias e publicações – nos quais o cruza- mento de diferentes campos permitiu que arquitetos diluíssem a distinção entre esti- los, constantemente questionando a disci- plina da arquitetura e suas hierarquias. Se, contudo, eu fosse examinar tanto meu tra- balho dessa época como o de meus cole- gas, eu diria que ambos se desenvolveram a partir de uma crítica da arquitetura, da natu- reza da arquitetura. Ela desmontou concei- tos e se tornou notável ferramenta conceitual, mas não poderia atingir aquilo que justamente faz o trabalho de arquitetos di- ferente, de modo fundamental, do trabalho de filósofos: materialidade.
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    220 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0 Assim como há uma lógica das palavras ou dos desenhos, há uma lógica dos materiais, e elas não são iguais. E não importa o quan- to elas sejam subvertidas, algo no fim das contas resiste. Ceci n’est pas un pipe.7 Uma palavra não é um bloco de concreto. O con- ceito de cachorro não late. Citando Gilles Deleuze, “os conceitos do cinema não são dados no cinema”. Quando metáforas e catacreses se transformam em edifícios, nor- malmente se transformam em cenários de contraplacado ou papel machê: mais uma vez, o ornamento. Colunas de gesso acartonado que não tocam o chão não são estruturais, são ornamento. Sim, ficção e narrativa fasci- naram muitos arquitetos, talvez porque, di- riam nossos inimigos, nós entendíamos mais de livros do que de edifícios. Não disponho do tempo necessário para discorrer sobre uma diferença relevante en- tre as duas interpretações do papel da fic- ção na arquitetura: as assim chamadas fren- te historicista pós-modernista e frente desconstrutivista neo-modernista (os rótu- los não são meus). Embora ambas tenham origem em interesses iniciais em linguística e semiologia, o primeiro grupo considerava a ficção e a narrativa partes do domínio das metáforas, de uma nova architecture parlante, de forma, e o segundo grupo en- tendia ficção e sinopses como análogas a programas e função. Eu gostaria de concentrar-me na segunda visão. Mais do que manipular as proprieda- des formais da arquitetura, deveríamos in- vestigar o que de fato acontece dentro de edifícios e cidades: a função, o programa, a dimensão propriamente histórica da arqui- tetura. O livro Análise estrutural da narrati- va, de Roland Barthes, é fascinante nesse sentido, já que pode ser diretamente trans- posto numa sequência tanto espacial como programática. Isso também se aplica a boa parte da teoria de Sergei Eisenstein sobre a montagem do filme. Conceito V: cruzamento de programas A arquitetura sempre tratou do evento que acontece em um espaço tanto como do es- paço em si. A rotunda da Columbia University já foi uma biblioteca; já foi usada como salão de banquetes; é normalmente o local em que ocorrem as palestras da insti- tuição; algum dia poderá satisfazer à neces- sidade de se ter um espaço esportivo na universidade. Que piscina maravilhosa a rotunda seria! Podem pensar que estou sen- do jocoso, mas, nos dias de hoje, em que estações de trem se tornam museus, e igre- jas, discotecas, uma posição está sendo to- mada: a total permutabilidade entre forma e função, a perda das relações tradicionais, canônicas, de causa e efeito, tais como fo- ram santificadas pelo modernismo. A fun- ção não segue a forma; a forma não segue a função – ou ficção. No entanto, elas certa- mente interagem. Mergulhar nessa grande pis- cina azul da rotunda – uma parte do choque. Se o choque não pode mais ser produzido pela sucessão e justaposição de fachadas e lobbies, talvez ele possa ser produzido pela justaposição de eventos que ocorrem por trás dessas fachadas e desses espaços. Se “a respectiva contaminação de todas as cate- gorias, as constantes substituições, a confu- são de estilos” – como descritas igualmente por críticos de direita e de esquerda, de Andreas Huyssens a Jean Baudrillard – con- figuram a nova direção de nossos tempos, elas podem muito bem ser usadas em nos- so proveito, em proveito de um rejuvenes- cimento geral da arquitetura. Se arquitetura é, ao mesmo tempo, conceito e experiên- cia, espaço e uso, estrutura e imagem super- ficial – de modo não hierárquico –, então a arquitetura deveria parar de separar essas categorias e, ao contrário, fundi-las em com-
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    221T E MÁ T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I binações de programas e espaços sem pre- cedentes. “Cruzamento de programas”, “transprogramas”, “desprogramas”: desenvol- vi esses conceitos em outras ocasiões, suge- rindo o deslocamento e a mútua contami- nação dos termos. Conceito VI: eventos: o turning point Meu próprio trabalho, nos anos 70, cons- tantemente reiterava que não havia arquite- tura sem eventos, sem ação, sem atividades, sem funções. A arquitetura era vista como a combinação de espaços, eventos e movimen- tos, sem nenhuma hierarquia ou precedên- cia quanto a esses conceitos. A relação hie- rárquica de causa e efeito entre função e forma é uma das grandes certezas do pen- samento sobre arquitetura – aquele que jaz por trás daquela idée reçue tranquilizadora de vida em comunidade que nos diz que vi- vemos em casas “projetadas para satisfazer a nossas necessidades”, ou em cidades pla- nejadas como máquinas de morar. Conotações Geborgenheit dessa noção vão contra o “prazer” real da arquitetura, nessa inesperada combinação de termos, e tam- bém contra a realidade da vida urbana con- temporânea em suas direções mais estimu- lantes e inquietantes. Portanto, em trabalhos como The Manhattan Transcripts, a defini- ção de arquitetura não poderia ser forma nem paredes, mas tinha de ser a combinação de termos heterogêneos e incompatíveis. A inserção dos termos evento e movimen- to foi influenciada pelo discurso situacionista e pela era 68. Les événements, como eram chamados, não configuravam eventos ape- nas em ação, mas também em pensamento. Levantar uma barricada (função) em uma rua de Paris (forma) não é de modo algum equi- valente a ser um flaneur (função) nessa mes- ma rua (forma). Jantar (função) na rotunda (forma) não equivale a nadar ou ler nesse mesmo lugar. Aqui todas as relações hierár- quicas entre forma e função deixam de exis- tir. Essa combinação improvável de eventos e espaços era carregada de capacidades sub- versivas, pois desafiavam tanto a função como o espaço. Tal confronto é similar ao encontro surrealista de uma máquina de costura e um guarda-chuva em uma mesa de dissecação ou, mais próximo de nós, a descrição por Rem Koolhaas do Downtown Athletic Club: “Comer ostras com luvas de boxe, nu, no enésimo andar.” Encontramos isso hoje em Tóquio, com di- versos programas espalhados pelos andares dos arranha-céus: uma loja de departamen- tos, um museu, uma academia de ginástica e uma estação de trem com uma pequena quadra de golfe no terraço. E encontrare- mos também nos programas do futuro, em que aeroportos serão simultaneamente es- paços de diversão, espaços esportivos, cine- mas, etc. Independentemente de se tratar do resultado de combinações do acaso ou de serem devidas à pressão do aumento constante do preço dos terrenos, essas re- lações não causais entre forma e função ou entre espaço e ação vão além de encontros poéticos de amantes improváveis. Michel Foucault, de acordo com citação feita por John Rajchman, expandiu o uso do termo evento de tal modo, que foi além da ativida- de ou ação isolada e mencionou “eventos do pensamento”. Para Foucault, um evento não é simplesmente uma sequência lógica de palavras ou ações, mas “o momento da erosão, colapso, questionamento ou problematização das próprias premissas de um esquema dentro do qual um drama pode acontecer – ocasionando a chance ou pos- sibilidade de outro esquema diferente”. O evento aqui é visto como um turning point – não uma origem nem um fim –, em oposi- ção a premissas tais como a forma segue a função. Quero aqui propor a ideia de que o futuro da arquitetura está na construção de tais eventos.
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    222 A RT E & E N S A I O S - N. 2 0 - J U L H O D E 2 0 1 0 Igualmente importante é a espacialização que ocorre com o evento. Tal ideia diverge con- sideravelmente do projeto modernista, que procurou afirmar certezas em uma utopia unificada, ao contrário de nosso atual questionamento, de terrenos múltiplos, frag- mentados, deslocados. Alguns anos depois, em ensaio sobre as folies do Parc de la Villette, Jacques Derrida ex- pandiu a definição de evento, chamando-o de “a emergência de uma multiplicidade dis- crepante”. Eu havia constantemente insisti- do, em nossas discussões e em outras ocasi- ões, na ideia de que esses pontos chamados de folies eram pontos de atividades, de pro- gramas, de eventos. E Derrida a desenvol- veu, propondo a possibilidade de uma “ar- quitetura do evento” que iria “eventualizar” ou abrir aquilo que, em nossa história ou tradição, é entendido como fixo, essencial, monumental. Ele havia também sugerido antes que a palavra “evento” tinha raízes iguais às de “invenção”, daí a noção do even- to, da ‘ação-no-espaço’, do turning point, a invenção. Quero aqui associá-la à noção de choque; um choque que, para ser efetivo em nossa cultura mediada, em nossa cultura de imagens, deve ir além da definição de Walter Benjamin e combinar a ideia de função ou ação com a ideia de imagem. De fato, a ar- quitetura se encontra em situação singular: é a única disciplina que, por definição, com- bina conceito e experiência, imagem e uso, imagem e estrutura. Filósofos podem escre- ver, matemáticos podem desenvolver espa- ços virtuais, mas arquitetos são os únicos prisioneiros dessa arte híbrida, na qual a ima- gem quase nunca existe sem alguma ativida- de a ela combinada. Meu argumento é que, longe de ser um cam- po que sofre da incapacidade de questionar suas estruturas e fundamentos, a arquitetu- ra é o campo no qual se darão as maiores descobertas no próximo século. A própria heterogeneidade da definição de arquitetu- ra – espaço, ação e movimento – a transfor- ma nesse evento, nesse lugar de choque ou no lugar da invenção de nós mesmos. O evento é o lugar em que a reconsideração e a reformulação de diferentes elementos da arquitetura, muitos dos quais provocaram ou contribuíram para as desigualdades sociais contemporâneas, podem levar a alguma so- lução. Por definição, é o lugar da combina- ção de diferenças. Isso não acontecerá pela imitação do passa- do e dos ornamentos do século 18. Tam- bém não acontecerá por simplesmente se comentar, por meio do projeto, os vários deslocamentos e incertezas de nossa condi- ção contemporânea. Não acredito que seja possível, nem faz sentido, projetar edifícios que formalmente tentem dissolver estrutu- ras tradicionais, ou seja, que disponham for- mas que estejam em algum lugar entre abs- tração e figuração, ou entre estrutura e or- namento, ou que tenham sido cortadas e deslocadas por razões estéticas. A arquite- tura não é arte ilustrativa; ela não ilustra teorias. (Não acredito que se possa proje- tar a desconstrução.) Não se pode projetar uma nova definição de cidades e sua arqui- tetura. Mas podem-se projetar as condições que tornarão possível que essa sociedade não hierárquica, não tradicional, aconteça. Ao compreenderem a natureza de nossas cir- cunstâncias contemporâneas e os processos midiáticos que as acompanham, arquitetos têm a possibilidade de construir as condi- ções que criarão uma nova cidade e novas relações entre espaços e eventos. A arquitetura não trata das condições de projeto, mas do projeto de condições capa- zes de deslocar os aspectos mais tradicio- nais e reacionários de nossa sociedade, e si- multaneamente reorganizar esses elementos do modo mais libertador possível. De ma-
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    223 neira que nossaexperiência se torne a ex- periência de eventos organizados por meio da arquitetura, e cuja estratégia é pensada também por seu intermédio. Estratégia é palavra-chave em arquitetura hoje. Não mais grandes planos, não mais localizações em pontos fixos, mas uma nova heterotopia. É para chegar a isso que nossas cidades de- vem empenhar-se e é isso o que os arquite- tos devem ajudá-las a atingir, ao intensificar a rica colisão entre eventos e espaços. Tó- quio e Nova York são só aparentemente caóticas – marcam, no entanto, o apareci- mento de uma nova estrutura urbana, uma nova urbanidade. Seus confrontos e combi- nações de elementos podem proporcionar o evento, o choque que, espero, faça da ar- quitetura de nossas cidades o turning point na cultura e na sociedade. Tradução: Ana Mannarino Revisão técnica: Paulo Venancio Filho Tschumi, Bernard. “Six concepts”. In: Architecture and disjunction. Cambridge: MIT press, 1994. Bernard Tschumi é arquiteto e teórico. Foi professor na Architectural Association in London, na Princeton University e na Cooper Union em Nova York e atual- mente leciona na Columbia University. Alguns de seus projetos mais conhecidos são o Parc de La Villette, em Paris, e o Novo Museu da Acrópole, em Atenas. Publi- cou diversos livros com textos teóricos e a respeito de sua prática, como Architecture and Disjunction (MIT Press, 1994), The Manhattan Transcripts (Academy Editions e St. Martin’s Press, 1981 e 1994) e a série Event- Cities (MIT Press, 1994, 2000, 2005). Notas 1 Em alemão, sentimento de proteção e segurança. (N.R.) 2 Termo inglês que significa a fachada de vidro dos prédios modernos. (N.R.) 3 Obra de arte total. (N.T.) 4 Em alemão, metrópole. (N.R.) 5 Estados Unidos. (N.T.) 6 Frame no original, podendo ser tanto armação, estrutura, como moldura. (N.T.). 7 Título de quadro de René Magritte sobre o qual Michel Foucault escreveu um ensaio. (R.R.) T E M Á T I C A S • B E R N A R D T S C H U M I