CULTURA
CULTURALCULTURAL
APROPRIAÇÃOAPROPRIAÇÃO
Apropriação cultural é quan-
do pessoas de uma cultura ado-
tam costumes e acessórios de
outra – geralmente oprimida – de
forma banalizada. Hoje em dia é
muito comum ter acessórios de
cultura africana ou indiana sen-
do vistos nas passarelas da moda,
isso é considerado apropriação
pelo fato de estes objetos estarem
sendo usados de forma desvalo-
rizada e fora do seu contexto ori-
ginal. É importante perceber que
esses itens vão muito além de ser
apenas uma vestimenta ou uma
fantasia, faz parte da essência de
um povo e quando se trata de um
povo silenciado pela sociedade,
essa ofensa se torna gritante.
Essas práticas são considera-
das ofensivas, principalmente,
quando feitas por um indivíduo
privilegiado na sociedade. É co-
mum ver negros usando elemen-
tos de sua cultura e geralmente
estes são marginalizados, vistos
como mendigos, vagabundos e
sujos, mas quando se vê um bran-
co usando, é considerado bonito,
despojado e estiloso. Torna-se
ofensivo quando o seu discurso
é silenciado e um branco aplau-
dido por falar exatamente aquilo
que é dito por negros há décadas.
Texto, diagramação e foto: Camila de Jesus, Beatriz
Lima e Wallas Henrique
TEEN BEATS
O QUE É?
A HISTÓRIA
F
ala-se muito em dívi-
da histórica quando
se trata de discussões
inter-raciais, mas
será que ela exis-
te mesmo? Estuda-se a história
do povo negro durante o Ensino
Fundamental e Médio, mas parece
serem ignoradas as consequências
da escravidão. O racismo é um
problema herdado de séculos pas-
sados e parece que apesar de todo
esclarecimento sobre esse assunto,
as pessoas, principalmente nas mí-
dias sociais, estão cada vez menos
escondendo esse preconceito.
Os negros foram escravizados
por quase quatro séculos e a sua
mão de obra era a base da econo-
mia no período colonial brasilei-
ro. Os primeiros escravos foram
trazidos pelo navio negreiro, eles
eram capturados em suas terras
e submetidos a uma vida sub-
humana, alguns não conseguiam
suportar a viagem até o Brasil,
pois morriam de fome, doenças
e maus tratos. Os que chegavam
vivos, logo eram separados de suas
tribos e eram alvos de humilhações
no seu dia-a-dia.
A classe socialmente dominante
usava como justificativa para es-
cravidão ideias religiosas e racistas
que pregavam superioridade da
raça. As diferenças raciais funcio-
navam como empecilhos sociais.
Em sua jornada diária de
trabalho os negros sofriam os
mais diversos tipos de castigos, o
principal castigo era o açoite que
era feito em praça pública para que
todos vissem. Isso fazia com que
os outros escravos tivessem medo.
Além de estupros, mutilações, cas-
trações, marcas de ferro em brasa.
Após séculos de luta, de dor e
tristeza em 13 de maio de 1888 foi
assinada a Lei Aurea, onde a prin-
cesa Isabel libertou os escravos.
Mesmo essa lei tendo entrado em
vigor, algumas pessoas ainda acre-
ditavam e perpetuavam o discurso
de superioridade racial. Prova dis-
so é que até hoje, no século XXI,
essa ideia ainda existe e é compar-
tilhada também e principalmente
por religiosos brancos, assim como
foi feito há muitos séculos atrás.
É importante frisar que o racis-
mo está tão interno em nossa so-
ciedade que pessoas da raça negra
reproduzem esse próprio discurso
de superioridade da raça branca.
Esse discurso pode ser explícito
quando um negro diz, por exem-
plo, que “negro tem cabelo ruim”
ou esse discurso pode ser também
de forma menos visível quando
seus cabelos são modificados para
que possam parecer mais lisos e
a desculpa para que façam isso é
simples: é questão de gosto.
Diante de todos esses fatos,
é visível a existência da dívida
histórica para com os negros, pois
mesmo após muitos anos eles ain-
da não tiveram as mesmas opor-
tunidades que homens e mulheres
brancos. O discurso racista ainda
persiste, por isso é tão impor-
tante discutir sobre apropriação
de elementos negros, sejam eles
estéticos, musicais ou religiosos.
Quando esses elementos são em-
branquecidos e utilizados por um
povo socialmente e historicamente
dominante, eles perdem todo o
sentido de resistência, coragem e
dor.
CULTURA
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SER PRETO NÃO É MODA
P
or muito tempo
as pessoas negras
modificaram seus
cabelos. Alisaram,
puxaram, aplica-
ram químicas e outros produtos
para fugir da dificuldade que é
ser negro e se adaptar à sociedade
cada vez mais fechada para esse
povo. Em um mundo onde pesso-
as brancas são consideradas mais
bonitas, mais inteligentes, mais
limpas, sofisticadas e melhores; ser
negro e se assumir é ter coragem.
Aos poucos se tem visto cada
vez mais mulheres e homens –
sobretudo mulheres – assumindo
seus cabelos, não só por estética,
mas pela luta. Junto a isso, muitos
acessórios de origem africana estão
sendo vistos pelas pessoas como
objetos pertencentes à moda, como
por exemplo, o turbante. É então
que entra a questão da apropriação
cultural.
Mulheres brancas e de cabelos
lisos usando turbante, um elemento
negro que fez parte de uma luta,
apenas por tendência e estética
acaba se tornando ofensivo para al-
gumas pessoas que fazem parte do
movimento negro e tanto lutaram
por visibilidade. Outro elemento
da cultura africana que é constan-
temente apropriado pelas pessoas
são os dreadlocks. O dreadlock é
uma forma de usar os cabelos que
ficou conhecida por causa do mo-
vimento rastafari. Os dreads têm o
seu conceito totalmente ideológico
e religioso por trás, entretanto in-
divíduos que não seguem o movi-
mento parecem vê-los de uma for-
ma meramente estética e midiática,
pois usam para parecerem estilosos
e se sentirem diferentes.
Muitos se perguntam até que
ponto o uso de um objeto vin-
do de outra cultura não se torna
apropriação, entretanto essa linha
é tênue e quase inexistente. Mes-
mo que o indivíduo utilize esses
objetos com certa consciência de
que aquilo vem de outra cultura e
ainda entender o valor que aquela
figura tem para a construção de tal,
não há como definir com exatidão
o que é ou não apropriação, mas
ela começa quando o protagonista
daquela cultura se sente ofendido.
Deve-se ter em mente que o uso
fashion daqueles objetos é também
apropriação e, dependendo do seu
uso, pode ser uma ofensa cruel,
não importa o quão esclarecido
seja aquele indivíduo. Há séculos é
imposto um padrão de vida euro-
peu na sociedade, por isso quando
esses símbolos são utilizados,
geralmente são “embranqueci-
dos”, altamente comercializados e
excluídos de todos os seus valores
históricos.
Estes são reflexos de um mundo
globalizado, onde as culturas se
relacionam e se misturam entre
si. Porém, assim, o preconceito se
torna cada vez mais escancarado,
as pessoas não têm mais medo de
serem racistas em público e não
se importam em usar, de forma
banal, elementos de um povo
invisibilizado e ainda sofrido. Pois
é tendência, está na moda, se vê
nas passarelas e as celebridades
estão usando. Não se dá os devidos
créditos àquela cultura e não reco-
nhecem que essas figuras foram – e
ainda são – importantes na cons-
trução histórica de um povo.
3
TEEN BEATS
O
utrossim, é importan-
te frisar o incessante
movimento da mis-
cigenação cultural,
em sua totalidade, como o ápice da
apropriação cultural. No Marxismo,
questões etnocêntricas são levanta-
das sob uma ideologia intolerante
ao capitalismo e gritante na procla-
mação de uma humanidade igua-
litária e sem classes. Então, seria
o superficialismo da miscigenação
de várias raças numa única forma
de bios? Para o antropólogo Wilton
Valença, a antropofagia de culturas,
proposta por Oswald de Andrade,
é nada mais que explicitar o inver-
so do Marxismo. Digerir culturas
e transformá-las habitualmente
numa cultura própria é um dogma
ao movimento.
A escravidão fora deixada de
lado, o preto fora oprimido, a mú-
sica foi silenciada, a arte foi inter-
rompida em sua aura. É como diz
o mestre Chacrinha: nada se cria,
tudo se copia. O capitalismo chega
como uma nova necessidade de ser
e se apropria descaradamente de
elementos culturais distintos, num
único sentido: vender. A indústria
cultural, nas tônicas de Adorno e
Horkheimer, frisam bastante no
sentido do valor de culto e expo-
sição. Mas ora, a apropriação de
uma segunda cultura não é pros-
pecção de suas raízes pelo mundo?
Óbvio que não. Todo o contexto
histórico está sendo destruído, des-
respeitado, por um simples e único
motivo: o egocêntrismo. A única
solução é que cada qual se ponha
em seu devido lugar, comece agir
de forma responsável e respeitosa
para com as influências culturais
do próximo e, principalmente, não
se deixar levar pelo mundo fas-
cista, induzente aos tantos outros
movimentos que acabam virando
muito mais moda do que, propria-
mente, o objeto de apropriação em
questão.
CULTURA
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Apropriação Cultural

  • 1.
    CULTURA CULTURALCULTURAL APROPRIAÇÃOAPROPRIAÇÃO Apropriação cultural équan- do pessoas de uma cultura ado- tam costumes e acessórios de outra – geralmente oprimida – de forma banalizada. Hoje em dia é muito comum ter acessórios de cultura africana ou indiana sen- do vistos nas passarelas da moda, isso é considerado apropriação pelo fato de estes objetos estarem sendo usados de forma desvalo- rizada e fora do seu contexto ori- ginal. É importante perceber que esses itens vão muito além de ser apenas uma vestimenta ou uma fantasia, faz parte da essência de um povo e quando se trata de um povo silenciado pela sociedade, essa ofensa se torna gritante. Essas práticas são considera- das ofensivas, principalmente, quando feitas por um indivíduo privilegiado na sociedade. É co- mum ver negros usando elemen- tos de sua cultura e geralmente estes são marginalizados, vistos como mendigos, vagabundos e sujos, mas quando se vê um bran- co usando, é considerado bonito, despojado e estiloso. Torna-se ofensivo quando o seu discurso é silenciado e um branco aplau- dido por falar exatamente aquilo que é dito por negros há décadas. Texto, diagramação e foto: Camila de Jesus, Beatriz Lima e Wallas Henrique TEEN BEATS O QUE É?
  • 2.
    A HISTÓRIA F ala-se muitoem dívi- da histórica quando se trata de discussões inter-raciais, mas será que ela exis- te mesmo? Estuda-se a história do povo negro durante o Ensino Fundamental e Médio, mas parece serem ignoradas as consequências da escravidão. O racismo é um problema herdado de séculos pas- sados e parece que apesar de todo esclarecimento sobre esse assunto, as pessoas, principalmente nas mí- dias sociais, estão cada vez menos escondendo esse preconceito. Os negros foram escravizados por quase quatro séculos e a sua mão de obra era a base da econo- mia no período colonial brasilei- ro. Os primeiros escravos foram trazidos pelo navio negreiro, eles eram capturados em suas terras e submetidos a uma vida sub- humana, alguns não conseguiam suportar a viagem até o Brasil, pois morriam de fome, doenças e maus tratos. Os que chegavam vivos, logo eram separados de suas tribos e eram alvos de humilhações no seu dia-a-dia. A classe socialmente dominante usava como justificativa para es- cravidão ideias religiosas e racistas que pregavam superioridade da raça. As diferenças raciais funcio- navam como empecilhos sociais. Em sua jornada diária de trabalho os negros sofriam os mais diversos tipos de castigos, o principal castigo era o açoite que era feito em praça pública para que todos vissem. Isso fazia com que os outros escravos tivessem medo. Além de estupros, mutilações, cas- trações, marcas de ferro em brasa. Após séculos de luta, de dor e tristeza em 13 de maio de 1888 foi assinada a Lei Aurea, onde a prin- cesa Isabel libertou os escravos. Mesmo essa lei tendo entrado em vigor, algumas pessoas ainda acre- ditavam e perpetuavam o discurso de superioridade racial. Prova dis- so é que até hoje, no século XXI, essa ideia ainda existe e é compar- tilhada também e principalmente por religiosos brancos, assim como foi feito há muitos séculos atrás. É importante frisar que o racis- mo está tão interno em nossa so- ciedade que pessoas da raça negra reproduzem esse próprio discurso de superioridade da raça branca. Esse discurso pode ser explícito quando um negro diz, por exem- plo, que “negro tem cabelo ruim” ou esse discurso pode ser também de forma menos visível quando seus cabelos são modificados para que possam parecer mais lisos e a desculpa para que façam isso é simples: é questão de gosto. Diante de todos esses fatos, é visível a existência da dívida histórica para com os negros, pois mesmo após muitos anos eles ain- da não tiveram as mesmas opor- tunidades que homens e mulheres brancos. O discurso racista ainda persiste, por isso é tão impor- tante discutir sobre apropriação de elementos negros, sejam eles estéticos, musicais ou religiosos. Quando esses elementos são em- branquecidos e utilizados por um povo socialmente e historicamente dominante, eles perdem todo o sentido de resistência, coragem e dor. CULTURA 2
  • 3.
    SER PRETO NÃOÉ MODA P or muito tempo as pessoas negras modificaram seus cabelos. Alisaram, puxaram, aplica- ram químicas e outros produtos para fugir da dificuldade que é ser negro e se adaptar à sociedade cada vez mais fechada para esse povo. Em um mundo onde pesso- as brancas são consideradas mais bonitas, mais inteligentes, mais limpas, sofisticadas e melhores; ser negro e se assumir é ter coragem. Aos poucos se tem visto cada vez mais mulheres e homens – sobretudo mulheres – assumindo seus cabelos, não só por estética, mas pela luta. Junto a isso, muitos acessórios de origem africana estão sendo vistos pelas pessoas como objetos pertencentes à moda, como por exemplo, o turbante. É então que entra a questão da apropriação cultural. Mulheres brancas e de cabelos lisos usando turbante, um elemento negro que fez parte de uma luta, apenas por tendência e estética acaba se tornando ofensivo para al- gumas pessoas que fazem parte do movimento negro e tanto lutaram por visibilidade. Outro elemento da cultura africana que é constan- temente apropriado pelas pessoas são os dreadlocks. O dreadlock é uma forma de usar os cabelos que ficou conhecida por causa do mo- vimento rastafari. Os dreads têm o seu conceito totalmente ideológico e religioso por trás, entretanto in- divíduos que não seguem o movi- mento parecem vê-los de uma for- ma meramente estética e midiática, pois usam para parecerem estilosos e se sentirem diferentes. Muitos se perguntam até que ponto o uso de um objeto vin- do de outra cultura não se torna apropriação, entretanto essa linha é tênue e quase inexistente. Mes- mo que o indivíduo utilize esses objetos com certa consciência de que aquilo vem de outra cultura e ainda entender o valor que aquela figura tem para a construção de tal, não há como definir com exatidão o que é ou não apropriação, mas ela começa quando o protagonista daquela cultura se sente ofendido. Deve-se ter em mente que o uso fashion daqueles objetos é também apropriação e, dependendo do seu uso, pode ser uma ofensa cruel, não importa o quão esclarecido seja aquele indivíduo. Há séculos é imposto um padrão de vida euro- peu na sociedade, por isso quando esses símbolos são utilizados, geralmente são “embranqueci- dos”, altamente comercializados e excluídos de todos os seus valores históricos. Estes são reflexos de um mundo globalizado, onde as culturas se relacionam e se misturam entre si. Porém, assim, o preconceito se torna cada vez mais escancarado, as pessoas não têm mais medo de serem racistas em público e não se importam em usar, de forma banal, elementos de um povo invisibilizado e ainda sofrido. Pois é tendência, está na moda, se vê nas passarelas e as celebridades estão usando. Não se dá os devidos créditos àquela cultura e não reco- nhecem que essas figuras foram – e ainda são – importantes na cons- trução histórica de um povo. 3 TEEN BEATS
  • 4.
    O utrossim, é importan- tefrisar o incessante movimento da mis- cigenação cultural, em sua totalidade, como o ápice da apropriação cultural. No Marxismo, questões etnocêntricas são levanta- das sob uma ideologia intolerante ao capitalismo e gritante na procla- mação de uma humanidade igua- litária e sem classes. Então, seria o superficialismo da miscigenação de várias raças numa única forma de bios? Para o antropólogo Wilton Valença, a antropofagia de culturas, proposta por Oswald de Andrade, é nada mais que explicitar o inver- so do Marxismo. Digerir culturas e transformá-las habitualmente numa cultura própria é um dogma ao movimento. A escravidão fora deixada de lado, o preto fora oprimido, a mú- sica foi silenciada, a arte foi inter- rompida em sua aura. É como diz o mestre Chacrinha: nada se cria, tudo se copia. O capitalismo chega como uma nova necessidade de ser e se apropria descaradamente de elementos culturais distintos, num único sentido: vender. A indústria cultural, nas tônicas de Adorno e Horkheimer, frisam bastante no sentido do valor de culto e expo- sição. Mas ora, a apropriação de uma segunda cultura não é pros- pecção de suas raízes pelo mundo? Óbvio que não. Todo o contexto histórico está sendo destruído, des- respeitado, por um simples e único motivo: o egocêntrismo. A única solução é que cada qual se ponha em seu devido lugar, comece agir de forma responsável e respeitosa para com as influências culturais do próximo e, principalmente, não se deixar levar pelo mundo fas- cista, induzente aos tantos outros movimentos que acabam virando muito mais moda do que, propria- mente, o objeto de apropriação em questão. CULTURA 4