História da Comunicação
                                            Professor: Cau Preto


Filme: AMISTAD
Produzido em 1997, nos Estados Unidos.
Diretor: Steven Spilberg.
Elenco: Morgan Freeman,
         Anthony Hopkins,
         Matthew McConaughey,
         Nigel Hawthorne,
         Djmon Housou,
         David Paymer,
         Anna Paquin.

Análise Crítica por: JURAY NASCIMENTO DE CASTRO



TEMÁTICA


      “O filme remonta ao ano de 1839, e retrata a saga de 53 negros africanos, que
embora feridos na sua dignidade posto que lhes tirassem o bem maior de um homem, ‘o
direito à liberdade’ lutam desesperadamente por reconquistá-la. A tentativa de fuga culmina
na morte da maior parte da tripulação do navio negreiro ‘La Amistad’ obrigando os
sobreviventes a levá-los de volta à África. Enganados, desembarcam na costa leste dos
Estados Unidos, onde são acusados de assassinato, e presos, enfrentando um longo e
polêmico processo, infligido pela sociedade burguesa Americana num período onde as
divergências internas do país entre o norte abolicionista e o sul escravagista,
caracterizavam um processo convulsivo de rompimento com paradigmas sociais.


ENRREDO


      O enredo aborda o processo de julgamento dos negros sobreviventes, pelos
Tribunais Norte Americanos, 22 anos antes do início da Guerra Civil, num contexto
marcado pelos conflitos internos e pelo acirramento das divergências do norte abolicionista,
com o sul escravagista. O relato ocorre na passagem do século XVIII para o XIX, quando
os Estados Unidos, recém-independente e ansioso por tornar-se uma nação forte e
reconhecida perante o mundo capitalista. O norte americano, abastado pelas riquezas
acumuladas durante o período colonial, criou condições favoráveis para o desenvolvimento
calcado na mão-de-obra livre disponibilizada pelo trabalho assalariado.
História da Comunicação
                                            Professor: Cau Preto


Já o sul, permaneceu estagnado com uma economia agro-exportadora de algodão e tabaco
baseada no latifúndio escravista. É neste contexto que se desenrola a historia de
Cinque que junto com seus companheiros são capturados em sua tribo por traficantes de
escravos e vendidos a espanhóis. Durante a viagem a sede pela liberdade levam-nos a um
inevitável motim, onde acabam por dominar a tripulação. No entanto, desconhecedores da
arte da navegação e sem o domínio do idioma dos seus algozes, é inevitável que sejam
enganados, e o ‘Amistad’ acaba sendo interceptado em águas americanas, pela guarda
costeira inglesa, nação que se opunha ao tráfico de escravos, e são assim conduzidos aos
Estados Unidos, onde sãos acusados de assassinato pelos 2 espanhóis sobreviventes.
Inicia-se então uma batalha judicial entre os negros representados por Cinque, defendidos
pelo jovem e então desconhecido advogado branco Sr. Roger Baldwin, contando com o
auxílio de dois abolicionistas. No entanto, esta trama se torna complexa na medida em que
diante dos tribunais se revelam os ambiciosos conflitos de interesses.
       O então Presidente Americano, mais preocupado com o seu “brandy” do que com
um punhado de vidas de negros que lhes são indiferentes, procura agradar os
escravagistas, que lhes renderão votos oportunos e entra nessa batalha com o propósito de
estabelecer uma relação promiscua entre Executivo e Judiciário que lhe permita manter-se
no poder. ‘No tribunal quem conta a melhor história vence’, afirma o ex-presidente
americano e abolicionista John Q. Adams, que mais tarde irá intervir junto à Suprema
Corte, em favor de Cinque e seus companheiros com talentoso discurso argumentativo, que
lhe confere uma brilhante atuação. O Sr. Roger Baldwin intuitivamente sabe disso, e luta
obstinadamente por desvendar o código da comunicação que possa esclarecer os fatos,
elucidar as verdades que forneçam subsídios às suas
argumentações de defesa. É espantoso como descobrimos neste filme, o modo como o
processo de decodificação da comunicação derruba barreiras e desvenda o mundo. E, isto
se revela na atuação de Cinque, que despe-se da aparente imagem de homem tribal,
primitivo, e sob este pretexto é imaginado rude e inferior pelos soberbos lordes da
sociedade escravagista americana. Nem mesmo o Sr. Noliburne, na sua zelosa
interpretação da promotoria, consegue calar a dignidade e o obstinado grito de liberdade,
quando mesmo sem dominar o idioma inglês, Cinque reclama pelo seu povo o direito de se
fazer compreender, bradando perante o tribunal: ‘Deixa nós, nós livre! Deixa nós, nós livre!
Deixa nós, nós livre!’.
História da Comunicação
                                                Professor: Cau Preto


       Este nobre negro africano se revela culto, quando se permite interpretar as gravuras
da Bíblia, e não só demonstrar a compreensão do seu significado, mas também estabelecer
paralelos com a sua própria cultura. Revela-se nobre quando compreendendo a torpeza da
humilhação que lhes atinge ao trilhar pelas ruas acorrentados como animais, a caminho do
tribunal, insiste junto a um dos seus companheiros que mantenha a cabeça
erguida. À sombra destes argumentos, é inevitável que se reconheça no personagem a
pessoa de um homem livre. Mas há valores sociais que nem mesmo o mais profundo
conhecimento de comunicação permitirá decodificá-lo. No mundo de Cinque caciques são
caciques e homens têm palavra, e é inconcebível em sua cultura, que aquele a quem se
confira autoridade para fazer justiça não tenha autoridade para manter a sua palavra. Mas a
inquietude é mensageira da razão, e Cinque só se tranquilizará diante do discernimento
que lhe devolva a paz. É, então, em John Q. Adams que Cinque aposta suas esperanças e
compreende a necessidade de confiar. O que agora está em jogo não é mais o mérito da
sua liberdade, e John sabe disto. O seu argumento de defesa rico e contundente invoca a
mais alta corte Americana a perceber-se que fosse este negro africano um homem branco,
ganharia medalhas e honrarias, escreveriam-se sobre os seus feitos e contaria-se a sua
história nas escolas. Diante de tão densos argumentos mostra-lhes que ao negar a
liberdade só lhes restará por dignidade, rasgar as suas próprias leis. Vence assim a razão
às ignorantes ideologias, vence Cinque e seu povo por não vender sua liberdade e
dignidade ao preço do medo desesperança e humilhação”.

Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/46491104/SINTESE-CRITICA-AMISTAD - acessado em: 10/05/2011




Análise Crítica por: BRUNO SANCHES RANZANI DA SILVA


       A indústria cinematográfica é hoje uma das empreitadas artísticas de maior
amplitude, e suas imagens carregam aos espectadores as maravilhas do avanço técnico e
o entretenimento surreal. As imagens, o texto, as cores, a música, a produção, são
elementos que vão além do mero apelo à atenção consumista, a imagem vendida como
entretenimento carrega consigo a visão de um produtor, de um sistema engajado na
fabricação daquelas imagens e que pretende, através de sua obra prima, dizer-nos algo.
Um filme possui um discurso, uma forma de compreender um acontecimento: a
História da Comunicação
                                            Professor: Cau Preto


proposição é apresentada desde início, os argumentos desenvolvidos, os personagens
jogam seus conflitos e o desfecho conclui a retórica, mas não a discussão. A idéia, se bem
desenvolvida, é capaz de fixar sua preferência na mente da audiência, será levada,
pensada, consumida e, como espera a produção, internalizada no campo das práticas (Hall,
2006). Por mais que esse seja o final de uma transmissão perfeita, sabemos que,
como qualquer discurso, não serão todos que tomarão as imagens como absolutas.
Possivelmente haverá uma reflexão cuidadosa e as idéias transmitidas poderão
simplesmente ser descartadas sem qualquer absorção. Poderão também ser ingeridas,
digeridas e absorvidas parcialmente, transformadas, reduzidas, ampliadas, re-significadas
(Hall, 2006.).
       A argumentação até esse momento, baseada em idéias desenvolvidas por Stuart
Hall e Roland Barthes (Barthes, 1999; Hall, 2006.) observa a produção cinematográfica
como um meio de transmissão de informações e modelos que sofrerão alterações em
diferentes momentos de codificação e decodificação. O cinema deseja transmitir um
conceito e espera que esse seja tomado e dilatado. No entanto o caminho não é tão
simples. De acordo com Stuart Hall, qualquer acontecimento deve ser primeiramente
transformado em narrativa para então se tornar um evento comunicativo. Essa narrativa é o
que ele chama de ‘forma/mensagem’, momento que recobre o evento e cuja mutabilidade é
característica. Em outras palavras, uma vez que o evento é traduzido em narrativa, ele
torna-se um discurso que pode ser, e é moldado. Nessa variação, são ativos o orador e a
audiência.
       Os produtores, de cinema, implicam sua ‘preferência’ no filme e esperam que ela
seja compreendida pela audiência em uma transmissão sem interferências. Mas os códigos
produzidos irão atravessar um filtro/molde ideológico (de pertença social ampla) e diversos
particularismos que transformarão a mensagem recebida. Basicamente, trata-se da ‘beleza
nos olhos de quem vê’. A mensagem será recebida, trabalhada pelo nosso campo cognitivo
e internalizada, ou rejeitada, de acordo com nossa preferência.
       Hall ainda posiciona três possibilidades de decodificação. A primeira seria a
transmissão perfeitamente clara, ou seja, a codificação do produtor chegou à audiência na
mesma forma com que foi produzida, e dessa igualmente reproduzida nas práticas. A
segunda, ‘negociação de significado’, é uma aceitação parcial dos sentidos recebidos. A
comunicação recebe uma resposta crítica do espectador, que legitima o significado
proposto, mas tenta inseri-lo em seus mecanismos. A terceira é a negação. O código
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                                              Professor: Cau Preto


recebido é plenamente compreendido, mas seu receptor se nega a sedimentá-lo, tomando
uma posição oposta à proposição, agindo de acordo com a sua preferência.
      Em sua própria época, o caso do La Amistad provocou comoções, era um evento
que tocava com precisão em questões de acirrado debate na sociedade americana na
primeira metade do século XIX: abolicionismo, humanismo, além dos embates políticos
encarados por um período de (re) eleição e defesa de acordos internacionais posicionam o
governo no centro do conflito. Acatar a Espanha (a imatura Espanha, caracterizada no
filme pela infantilidade da rainha, que insiste na revisão do caso em favor dos fazendeiros
caribenhos) e os interesses econômicos sulistas, ou apoiar as políticas morais que
tomavam força com o crescimento da campanha abolicionista e com a pressão
internacional (principalmente inglesa) pela extinção completa do tráfico atlântico.
      O ‘líder’ da rebelião a bordo, Sengbe Pieh, mas chamado de Cinqué pelos
americanos, foi o foco humano de todas as discussões. Ele dizia ter sido um pacífico
agricultor de arroz antes de ter sido capturado e vendido como escravo; seus inimigos o
diziam ter sido um traficante de escravo. Seja qual for o caso, ele claramente possuia o
coração de um guerreiro e o carisma que atingia a todos que o viam. Na arena da opinião
pública americana, ele ganhou personagem complexas e multifacetadas. Para os donos de
escravos, ele se tornou um ‘bixo-papão’ sedento de sangue. Para euroamericanos
persuadindo-se de que os negros eram racialmente inferiores, ele tornou-se uma besta
selvagem. Para os românticos, um nobre selvagem. Abolicionistas o aclamaram como um
ícone de liberdade. E, para abolicionistas afro-americanos em particular, ele torou-se um
símbolo de virilidade e herança africana”(Dalzell, 1998, p.129). Podemos observar ainda,
como não poderia deixar de faltar na sociologia biológica do século XIX, que o heroísmo e
humanidade do líder negro lhe são naturais.
      A produção de Spielberg joga com as identidades de abolicionistas e africanos,
cenas de impacto, como o grito de Cinqué, e de cooperativismo branco, como a procura por
um falante de mende/inglês. O filme parece querer manter o equilíbrio entre um heroísmo
cru e defensivo e um heroísmo jurídico. O líder dos revoltosos é guarnecido de um status
bruto, mas é suficientemente consciente para entender o sistema jurídico americano,
fazendo uma série de perguntas para John Quincy Adams na tentativa de controlar seu
destino e de seus companheiros. Ao mesmo tempo o jovem advogado Baldwin porta, no
filme, o caráter de um homem que lida com questões de posse, e desenvolve, ao longo da
narrativa, a verdadeira consciência humanista. Da mesma
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                                           Professor: Cau Preto


maneira, a descoberta da Bíblia por um dos africanos, tenta aproximar África e América na
comunhão (sentido até mais que literal) de uma mesma fé na salvação humana, e no direito
sagrado à vida. Apesar das diferenças, ambas as raças são frutos da mesma essência.
      A cena da conversa entre Cinqué e Adams (John Quincy Adams, ex-presidente que
se engaja na defesa abolicionista e participa do processo do Amistad no final), com várias
cenas em primeiro plano, coloca as duas esferas do heroísmo histórico em acordo. Se
trata de buscar uma intimidade maior entre dois líderes sociais. No fundo, ambos evocam a
ancestralidade como força de consciência para defender uma justiça comum a todos os
homens (que são, em suas raízes, todos iguais).
             Esses artigos permitiram analisar a construção imagética de um evento
histórico de intensa e diferentes rememorações. O acontecimento gira ente seus
observadores tanto no passado como no presente. A produção fílmica moderna é resultante
de um desses giros, produzido por indivíduos conhecedores do evento e que pretendem
retorná-lo ao domínio público imprimindo nele, conscientemente ou não (isso no momento
não nos cabe julgar), suas interpretações. Uma vez transmitida a imagem que contem
pontos comuns relativos à um momento histórico socialmente conhecido, teremos novas
interpretações, tanto às que já haviam sido feitas da fonte primária (evento) quanto de sua
reprodução (filme). Os heróis, concepções, apreços foram refeitos pelo cinema e serão
mais uma vez refeitos pelo público. O fluxo semiológico que percorre os meios de
comunicações atuais e atinge um número gigantesco de pessoas (a mass media) não é
uma simples via de ida e volta: produção, codificação, delivery e consumo; tal modelo seria
subestimar um corpo social múltiplo e diversificado, massificações a parte. O filme e sua
história, um novo documento-monumento, é talvez, antes de uma objetividade histórica,
uma perseverança da memória coletiva em suas diversas formas.
      Por fim, a construção de um caráter ou de um modelo sancionado pelos eventos do
passado amplia seus horizontes quando feito material. A cultura material (compreendida
como todos os vestígios físicos de produção humana (Funari, 2003)) ganha importância por
ser o resquício da tradição. As edificações em ruínas, os artefatos desenterrados, os
originais comprados, os escombros visitados e as embarcações mergulhadas todos são
remanescentes de uma era, quando não fantástica, essencial. Segurar um objeto de
algumas centenas de anos nos envolve na retrospectiva de uma época que não vivemos,
mas com a qual nos identificamos. Possuir uma pedra de Gizé, uma ânfora do Lácio, uma
História da Comunicação
                                                  Professor: Cau Preto
porcelana da China ou uma cruz do Atocha é possuir a evidência física de uma imagem
remota. Afinal, nas palavras de Mortimer Wheeler, a arqueologia não escava coisas, mas
pessoas (Wheeler, 1961).


Conclusão
        As apropriações do passado como instrumento étnico do presente é uma relação
conflituosa entre medidas e poderes da própria contemporaneidade. O valor que atribuímos
à existência de uma anterioridade é somente relevante quanto útil for essa anterioridade,
seja por saciar o curioso ou, como no caso, por significar a vida de uma verdade. Não nos
coube, nesse trabalho, julgar as apropriações, embora reconheça a subjetividade de
nossas próprias “críticas analíticas”. Buscamos uma projeção do que foi o tráfico, e
observamos as respostas daqueles que assistiam o mover das sombras no fundo da
caverna, tentando descobrir quem era quem. O que podemos averiguar não foi apenas a
multiplicidade interpretativa de um evento histórico-social, mas que o absolutismo só
importa quando importa sua hipótese, e cada defesa será tão ferrenha quanto for pesada a
dependência na imagem.

Disponível em: http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=alunos&id=113 - acessado em: 10/05/2011

Amistad analise do filme

  • 1.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto Filme: AMISTAD Produzido em 1997, nos Estados Unidos. Diretor: Steven Spilberg. Elenco: Morgan Freeman, Anthony Hopkins, Matthew McConaughey, Nigel Hawthorne, Djmon Housou, David Paymer, Anna Paquin. Análise Crítica por: JURAY NASCIMENTO DE CASTRO TEMÁTICA “O filme remonta ao ano de 1839, e retrata a saga de 53 negros africanos, que embora feridos na sua dignidade posto que lhes tirassem o bem maior de um homem, ‘o direito à liberdade’ lutam desesperadamente por reconquistá-la. A tentativa de fuga culmina na morte da maior parte da tripulação do navio negreiro ‘La Amistad’ obrigando os sobreviventes a levá-los de volta à África. Enganados, desembarcam na costa leste dos Estados Unidos, onde são acusados de assassinato, e presos, enfrentando um longo e polêmico processo, infligido pela sociedade burguesa Americana num período onde as divergências internas do país entre o norte abolicionista e o sul escravagista, caracterizavam um processo convulsivo de rompimento com paradigmas sociais. ENRREDO O enredo aborda o processo de julgamento dos negros sobreviventes, pelos Tribunais Norte Americanos, 22 anos antes do início da Guerra Civil, num contexto marcado pelos conflitos internos e pelo acirramento das divergências do norte abolicionista, com o sul escravagista. O relato ocorre na passagem do século XVIII para o XIX, quando os Estados Unidos, recém-independente e ansioso por tornar-se uma nação forte e reconhecida perante o mundo capitalista. O norte americano, abastado pelas riquezas acumuladas durante o período colonial, criou condições favoráveis para o desenvolvimento calcado na mão-de-obra livre disponibilizada pelo trabalho assalariado.
  • 2.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto Já o sul, permaneceu estagnado com uma economia agro-exportadora de algodão e tabaco baseada no latifúndio escravista. É neste contexto que se desenrola a historia de Cinque que junto com seus companheiros são capturados em sua tribo por traficantes de escravos e vendidos a espanhóis. Durante a viagem a sede pela liberdade levam-nos a um inevitável motim, onde acabam por dominar a tripulação. No entanto, desconhecedores da arte da navegação e sem o domínio do idioma dos seus algozes, é inevitável que sejam enganados, e o ‘Amistad’ acaba sendo interceptado em águas americanas, pela guarda costeira inglesa, nação que se opunha ao tráfico de escravos, e são assim conduzidos aos Estados Unidos, onde sãos acusados de assassinato pelos 2 espanhóis sobreviventes. Inicia-se então uma batalha judicial entre os negros representados por Cinque, defendidos pelo jovem e então desconhecido advogado branco Sr. Roger Baldwin, contando com o auxílio de dois abolicionistas. No entanto, esta trama se torna complexa na medida em que diante dos tribunais se revelam os ambiciosos conflitos de interesses. O então Presidente Americano, mais preocupado com o seu “brandy” do que com um punhado de vidas de negros que lhes são indiferentes, procura agradar os escravagistas, que lhes renderão votos oportunos e entra nessa batalha com o propósito de estabelecer uma relação promiscua entre Executivo e Judiciário que lhe permita manter-se no poder. ‘No tribunal quem conta a melhor história vence’, afirma o ex-presidente americano e abolicionista John Q. Adams, que mais tarde irá intervir junto à Suprema Corte, em favor de Cinque e seus companheiros com talentoso discurso argumentativo, que lhe confere uma brilhante atuação. O Sr. Roger Baldwin intuitivamente sabe disso, e luta obstinadamente por desvendar o código da comunicação que possa esclarecer os fatos, elucidar as verdades que forneçam subsídios às suas argumentações de defesa. É espantoso como descobrimos neste filme, o modo como o processo de decodificação da comunicação derruba barreiras e desvenda o mundo. E, isto se revela na atuação de Cinque, que despe-se da aparente imagem de homem tribal, primitivo, e sob este pretexto é imaginado rude e inferior pelos soberbos lordes da sociedade escravagista americana. Nem mesmo o Sr. Noliburne, na sua zelosa interpretação da promotoria, consegue calar a dignidade e o obstinado grito de liberdade, quando mesmo sem dominar o idioma inglês, Cinque reclama pelo seu povo o direito de se fazer compreender, bradando perante o tribunal: ‘Deixa nós, nós livre! Deixa nós, nós livre! Deixa nós, nós livre!’.
  • 3.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto Este nobre negro africano se revela culto, quando se permite interpretar as gravuras da Bíblia, e não só demonstrar a compreensão do seu significado, mas também estabelecer paralelos com a sua própria cultura. Revela-se nobre quando compreendendo a torpeza da humilhação que lhes atinge ao trilhar pelas ruas acorrentados como animais, a caminho do tribunal, insiste junto a um dos seus companheiros que mantenha a cabeça erguida. À sombra destes argumentos, é inevitável que se reconheça no personagem a pessoa de um homem livre. Mas há valores sociais que nem mesmo o mais profundo conhecimento de comunicação permitirá decodificá-lo. No mundo de Cinque caciques são caciques e homens têm palavra, e é inconcebível em sua cultura, que aquele a quem se confira autoridade para fazer justiça não tenha autoridade para manter a sua palavra. Mas a inquietude é mensageira da razão, e Cinque só se tranquilizará diante do discernimento que lhe devolva a paz. É, então, em John Q. Adams que Cinque aposta suas esperanças e compreende a necessidade de confiar. O que agora está em jogo não é mais o mérito da sua liberdade, e John sabe disto. O seu argumento de defesa rico e contundente invoca a mais alta corte Americana a perceber-se que fosse este negro africano um homem branco, ganharia medalhas e honrarias, escreveriam-se sobre os seus feitos e contaria-se a sua história nas escolas. Diante de tão densos argumentos mostra-lhes que ao negar a liberdade só lhes restará por dignidade, rasgar as suas próprias leis. Vence assim a razão às ignorantes ideologias, vence Cinque e seu povo por não vender sua liberdade e dignidade ao preço do medo desesperança e humilhação”. Disponível em: http://pt.scribd.com/doc/46491104/SINTESE-CRITICA-AMISTAD - acessado em: 10/05/2011 Análise Crítica por: BRUNO SANCHES RANZANI DA SILVA A indústria cinematográfica é hoje uma das empreitadas artísticas de maior amplitude, e suas imagens carregam aos espectadores as maravilhas do avanço técnico e o entretenimento surreal. As imagens, o texto, as cores, a música, a produção, são elementos que vão além do mero apelo à atenção consumista, a imagem vendida como entretenimento carrega consigo a visão de um produtor, de um sistema engajado na fabricação daquelas imagens e que pretende, através de sua obra prima, dizer-nos algo. Um filme possui um discurso, uma forma de compreender um acontecimento: a
  • 4.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto proposição é apresentada desde início, os argumentos desenvolvidos, os personagens jogam seus conflitos e o desfecho conclui a retórica, mas não a discussão. A idéia, se bem desenvolvida, é capaz de fixar sua preferência na mente da audiência, será levada, pensada, consumida e, como espera a produção, internalizada no campo das práticas (Hall, 2006). Por mais que esse seja o final de uma transmissão perfeita, sabemos que, como qualquer discurso, não serão todos que tomarão as imagens como absolutas. Possivelmente haverá uma reflexão cuidadosa e as idéias transmitidas poderão simplesmente ser descartadas sem qualquer absorção. Poderão também ser ingeridas, digeridas e absorvidas parcialmente, transformadas, reduzidas, ampliadas, re-significadas (Hall, 2006.). A argumentação até esse momento, baseada em idéias desenvolvidas por Stuart Hall e Roland Barthes (Barthes, 1999; Hall, 2006.) observa a produção cinematográfica como um meio de transmissão de informações e modelos que sofrerão alterações em diferentes momentos de codificação e decodificação. O cinema deseja transmitir um conceito e espera que esse seja tomado e dilatado. No entanto o caminho não é tão simples. De acordo com Stuart Hall, qualquer acontecimento deve ser primeiramente transformado em narrativa para então se tornar um evento comunicativo. Essa narrativa é o que ele chama de ‘forma/mensagem’, momento que recobre o evento e cuja mutabilidade é característica. Em outras palavras, uma vez que o evento é traduzido em narrativa, ele torna-se um discurso que pode ser, e é moldado. Nessa variação, são ativos o orador e a audiência. Os produtores, de cinema, implicam sua ‘preferência’ no filme e esperam que ela seja compreendida pela audiência em uma transmissão sem interferências. Mas os códigos produzidos irão atravessar um filtro/molde ideológico (de pertença social ampla) e diversos particularismos que transformarão a mensagem recebida. Basicamente, trata-se da ‘beleza nos olhos de quem vê’. A mensagem será recebida, trabalhada pelo nosso campo cognitivo e internalizada, ou rejeitada, de acordo com nossa preferência. Hall ainda posiciona três possibilidades de decodificação. A primeira seria a transmissão perfeitamente clara, ou seja, a codificação do produtor chegou à audiência na mesma forma com que foi produzida, e dessa igualmente reproduzida nas práticas. A segunda, ‘negociação de significado’, é uma aceitação parcial dos sentidos recebidos. A comunicação recebe uma resposta crítica do espectador, que legitima o significado proposto, mas tenta inseri-lo em seus mecanismos. A terceira é a negação. O código
  • 5.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto recebido é plenamente compreendido, mas seu receptor se nega a sedimentá-lo, tomando uma posição oposta à proposição, agindo de acordo com a sua preferência. Em sua própria época, o caso do La Amistad provocou comoções, era um evento que tocava com precisão em questões de acirrado debate na sociedade americana na primeira metade do século XIX: abolicionismo, humanismo, além dos embates políticos encarados por um período de (re) eleição e defesa de acordos internacionais posicionam o governo no centro do conflito. Acatar a Espanha (a imatura Espanha, caracterizada no filme pela infantilidade da rainha, que insiste na revisão do caso em favor dos fazendeiros caribenhos) e os interesses econômicos sulistas, ou apoiar as políticas morais que tomavam força com o crescimento da campanha abolicionista e com a pressão internacional (principalmente inglesa) pela extinção completa do tráfico atlântico. O ‘líder’ da rebelião a bordo, Sengbe Pieh, mas chamado de Cinqué pelos americanos, foi o foco humano de todas as discussões. Ele dizia ter sido um pacífico agricultor de arroz antes de ter sido capturado e vendido como escravo; seus inimigos o diziam ter sido um traficante de escravo. Seja qual for o caso, ele claramente possuia o coração de um guerreiro e o carisma que atingia a todos que o viam. Na arena da opinião pública americana, ele ganhou personagem complexas e multifacetadas. Para os donos de escravos, ele se tornou um ‘bixo-papão’ sedento de sangue. Para euroamericanos persuadindo-se de que os negros eram racialmente inferiores, ele tornou-se uma besta selvagem. Para os românticos, um nobre selvagem. Abolicionistas o aclamaram como um ícone de liberdade. E, para abolicionistas afro-americanos em particular, ele torou-se um símbolo de virilidade e herança africana”(Dalzell, 1998, p.129). Podemos observar ainda, como não poderia deixar de faltar na sociologia biológica do século XIX, que o heroísmo e humanidade do líder negro lhe são naturais. A produção de Spielberg joga com as identidades de abolicionistas e africanos, cenas de impacto, como o grito de Cinqué, e de cooperativismo branco, como a procura por um falante de mende/inglês. O filme parece querer manter o equilíbrio entre um heroísmo cru e defensivo e um heroísmo jurídico. O líder dos revoltosos é guarnecido de um status bruto, mas é suficientemente consciente para entender o sistema jurídico americano, fazendo uma série de perguntas para John Quincy Adams na tentativa de controlar seu destino e de seus companheiros. Ao mesmo tempo o jovem advogado Baldwin porta, no filme, o caráter de um homem que lida com questões de posse, e desenvolve, ao longo da narrativa, a verdadeira consciência humanista. Da mesma
  • 6.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto maneira, a descoberta da Bíblia por um dos africanos, tenta aproximar África e América na comunhão (sentido até mais que literal) de uma mesma fé na salvação humana, e no direito sagrado à vida. Apesar das diferenças, ambas as raças são frutos da mesma essência. A cena da conversa entre Cinqué e Adams (John Quincy Adams, ex-presidente que se engaja na defesa abolicionista e participa do processo do Amistad no final), com várias cenas em primeiro plano, coloca as duas esferas do heroísmo histórico em acordo. Se trata de buscar uma intimidade maior entre dois líderes sociais. No fundo, ambos evocam a ancestralidade como força de consciência para defender uma justiça comum a todos os homens (que são, em suas raízes, todos iguais). Esses artigos permitiram analisar a construção imagética de um evento histórico de intensa e diferentes rememorações. O acontecimento gira ente seus observadores tanto no passado como no presente. A produção fílmica moderna é resultante de um desses giros, produzido por indivíduos conhecedores do evento e que pretendem retorná-lo ao domínio público imprimindo nele, conscientemente ou não (isso no momento não nos cabe julgar), suas interpretações. Uma vez transmitida a imagem que contem pontos comuns relativos à um momento histórico socialmente conhecido, teremos novas interpretações, tanto às que já haviam sido feitas da fonte primária (evento) quanto de sua reprodução (filme). Os heróis, concepções, apreços foram refeitos pelo cinema e serão mais uma vez refeitos pelo público. O fluxo semiológico que percorre os meios de comunicações atuais e atinge um número gigantesco de pessoas (a mass media) não é uma simples via de ida e volta: produção, codificação, delivery e consumo; tal modelo seria subestimar um corpo social múltiplo e diversificado, massificações a parte. O filme e sua história, um novo documento-monumento, é talvez, antes de uma objetividade histórica, uma perseverança da memória coletiva em suas diversas formas. Por fim, a construção de um caráter ou de um modelo sancionado pelos eventos do passado amplia seus horizontes quando feito material. A cultura material (compreendida como todos os vestígios físicos de produção humana (Funari, 2003)) ganha importância por ser o resquício da tradição. As edificações em ruínas, os artefatos desenterrados, os originais comprados, os escombros visitados e as embarcações mergulhadas todos são remanescentes de uma era, quando não fantástica, essencial. Segurar um objeto de algumas centenas de anos nos envolve na retrospectiva de uma época que não vivemos, mas com a qual nos identificamos. Possuir uma pedra de Gizé, uma ânfora do Lácio, uma
  • 7.
    História da Comunicação Professor: Cau Preto porcelana da China ou uma cruz do Atocha é possuir a evidência física de uma imagem remota. Afinal, nas palavras de Mortimer Wheeler, a arqueologia não escava coisas, mas pessoas (Wheeler, 1961). Conclusão As apropriações do passado como instrumento étnico do presente é uma relação conflituosa entre medidas e poderes da própria contemporaneidade. O valor que atribuímos à existência de uma anterioridade é somente relevante quanto útil for essa anterioridade, seja por saciar o curioso ou, como no caso, por significar a vida de uma verdade. Não nos coube, nesse trabalho, julgar as apropriações, embora reconheça a subjetividade de nossas próprias “críticas analíticas”. Buscamos uma projeção do que foi o tráfico, e observamos as respostas daqueles que assistiam o mover das sombras no fundo da caverna, tentando descobrir quem era quem. O que podemos averiguar não foi apenas a multiplicidade interpretativa de um evento histórico-social, mas que o absolutismo só importa quando importa sua hipótese, e cada defesa será tão ferrenha quanto for pesada a dependência na imagem. Disponível em: http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=alunos&id=113 - acessado em: 10/05/2011