Departamento de Educação e Ensino a Distância


           Mestrado em Arte e Educação


              Oficina de expressão:

                  Acredita em ti




Um projecto de investigação no âmbito do Mestrado em Arte e
             Educação da Universidade Aberta


                Ana Margarida Mira
                     Lisboa, 2010

                          Trabalho final da disciplina de ADEA
                                 Mestrado em Arte e Educação

                                     Professor: Amílcar Martins
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"... um projecto diferencia-se de uma mera actividade de ensino-aprendizagem não só
pelos domínios do sentido e da intenção que o orientam, mas também pela própria
organização, realização e efeitos que dele se engendram..." (Martins, 2002: 93)
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Índice
Mestrado em Arte e Educação .......................................................................................... 1
Introdução ......................................................................................................................... 4
1. Enquadramento ............................................................................................................. 5
   1.1. A cidade de Almada .............................................................................................. 5
2. A Associação Shams..................................................................................................... 6
3. Contexto da pesquisa .................................................................................................... 8
   3.1 Pedagogia da Situação ............................................................................................ 8
4. Quadro teórico-conceptual da pesquisa: ....................................................................... 9
5. Oficina de expressões: Acredita em ti ........................................................................ 10
   Destinatários ............................................................................................................... 10
   Objectivos da pesquisa: .............................................................................................. 10
   Materiais disponibilizados pela Pousada de Juventude de Almada: .......................... 11
   Meios necessários: ...................................................................................................... 11
   Duração da Oficina: .................................................................................................... 11
   Coordenação da Colónia de férias: ............................................................................. 11
   Coordenação da Oficina: ............................................................................................ 11
   Estratégias:.................................................................................................................. 12
6. A experiência vivida dia-a-dia:................................................................................... 19
   Dia dois (diário de bordo):.......................................................................................... 20
   Dia três (diário de bordo): .......................................................................................... 22
   Dia quatro (diário de bordo): ...................................................................................... 23
7. A interpretação de cada um: ....................................................................................... 24
8. Resultados da experiência: ......................................................................................... 26
9. Referências Bibliográficas:............................................................................................ I
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Introdução

        No âmbito da disciplina de ADEA1, foi pedido como trabalho final, um projecto
de investigação em Arte-Educação. Este trabalho tem como título Oficina de expressão:
Acredita em ti. Este trabalho surgiu, através de um convite muito especial que a
Associação Shams, me fez, no sentido de participar em regime voluntariado numa
colónia de férias com crianças. A maioria das crianças, encontra-se em regime de
internato em diversas instituições sociais, retiradas aos seus pais devido a maus tratos e
outros problemas de cariz social. No inicio, este estudo, era suposto funcionar como
uma antevisão da questão que pretendo investigar e analisar na dissertação de mestrado
em Arte e Educação, na criação de uma oficina/actividade a desenvolver através da
construção de mandalas, com a participação de várias Escolas públicas e privadas do
concelho de Almada. No final, acabou por se reflectir numa ajuda preciosa no
crescimento moral e afectivo destes meninos, que apelam ao coração, sedentos de amor
e atenção. A aprendizagem foi comum, tanto ao nível afectivo, como ao nível educativo
e pedagógico. A finalidade deste estudo2 consistiu em determinar se a representação
visual de mandalas em contexto formal, permitiria a construção de um saber próprio e
significativo para os jovens actuais. A utilização de uma linguagem iconográfica
significante, para um sujeito que procura uma interpretação lógica ao que apreende e o
interioriza. O contexto teórico desta pesquisa, procurou envolver o significado inerente
e o papel desempenhado pelas iconografias mandalianas, a subjectividade da arte no
processo cognitivo de aprendizagem e em especial a vertente artística e iconográfica das
mandalas associada a uma reflexão consciente potenciadora de relações afectivas,
evocando os princípios e conceitos da doutrina budista, da Arte e de uma Aprendizagem
Conjunta.




1
  ADEA: Animação e Didáctica das Expressões Artísticas, coordenada pelo professor Amílcar Martins
2
  Este artigo baseia-se num estudo de investigação da procura da individualidade transcendental e
iconográfica de cada um, associando-o a um significado mnemónico.
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1. Enquadramento
1.1. A cidade de Almada

A cidade de Almada, sempre foi ponto de apoio e de auxilio no desenvolvimento da
cidade de Lisboa, pela sua proximidade, factor este determinante, para a fixação da
população junto às suas margens, utilizando o Tejo como meio de subsistência. A
cidade de Almada, contém vestígios humanos, que datam desde a pré-história. No final
do séc. XIX, a indústria existente em Almada proliferou devido ao aumento do sector
corticeiro e das pequenas indústrias de moagem, expandindo-se e crescendo enquanto
cidade própria.
Em 19973, Almada aderiu ao Movimento das Cidades Educadoras4, assumindo assim "
um paradigma de desenvolvimento local, assente no compromisso do diálogo, da
transversalidade das acções, da relação entre administrações (local, regional e central)
e a sociedade civil", (retirado da página oficial da Câmara Municipal de Almada). Em
2004, Almada voltou a subscrever a revisão da Carta das Cidades Educadoras, em
Génova. Actualmente, encontra-se a desenvolver um site destinado à construção da
Cidade Educadora, com vista à implementação das novas tecnologias, como forma de
divulgação da(s) oferta(s) educativa(s) de todas as instituições almadenses. A
participação de todos, proporciona "igualdade, de cidadania inclusiva, de participação,
de coesão" (retirado da página oficial da Câmara Municipal de Almada), por parte de
toda a população e em prol dela.
"... A cidade educadora deverá encorajar o diálogo entre gerações, não somente
enquanto fórmula de coexistência pacífica, mas como procura de projectos comuns e
partilhados entre grupos de pessoas de idades diferentes. Estes projectos, deverão ser
orientados para a realização de iniciativas e acções cívicas, cujo valor consistirá
precisamente no carácter intergeracional e na exploração das respectivas capacidades
e valores próprios de cada idade..." (retirado da Carta das Cidades Educadoras, 2004).




3
  Década do Desenvolvimento Integrado, com a implementação de novas estruturas viárias, de
equipamentos sócio-culturais, educativos e desportivos, implementação de novos espaços verdes e apoio
na construção social.
4
  A Carta das Cidades Educadoras, baseia-se na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), no
Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966), na Declaração Mundial da
Educação para Todos (1990), na Convenção nascida da Cimeira Mundial para a Infância (1990) e na
Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2001).
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Palco de diversas actividades em prol dos habitantes, diversas associações, esforçam-se
por chegar a todos (crianças e adultos), amor, atenção e principalmente auxílio, numa
época em que o egoísmo é uma constante na vida das pessoas. É através destas
Associações, que o nosso olhar deve repousar, deve sentir e guardar por estes meninos
que precisam do nosso apoio. É através do Seu olhar, que sentimos que um simples
gesto pode significar tanto na vida de alguém.


2. A Associação Shams5


                                 A Associação Shams sediada em Almada, promove
                                 actualmente,     consultas    de    Apoio     Psicológico     e
                                 Psicopedagógico, de Orientação Escolar e Vocacional, e
                                 de Avaliação Psicológica em parceria com a Santa Casa
da Misericórdia de Almada. Este ano, elaborou uma colónia de férias com crianças
compreendidas entre os 9 e os 18 anos de várias instituições sociais, na grande maioria
retiradas aos pais por mal tratos.




          Ilustração 1 - Actividades desenvolvidas na pousada da Juventude de Almada


A colónia de férias proporcionou alojamento e alimentação na Pousada de Juventude de
Almada e promoveu inúmeras actividades e passeios por Lisboa, Almada, Trafaria e
Costa da Caparica. Todos os monitores que acompanharam estas crianças, foram em
regime de voluntariado, abdicando das suas férias em prol delas. A sua extrema


5
 Sediada na Rua D. Maria da Silva, nº 8, 1º Dto. Sala D – Almada (Praça Gil Vicente), no Conselho
de Almada, Setúbal. Contactos: Telefones: 960050044 / 934403872 / 919399109 Email:
associacao.shams@gmail.com
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dedicação e carinho para com eles, proporcionou ambientes de elevado companheirismo
e cumplicidade. Numa destas actividades, tive a felicidade de poder participar e acabei
por ficar durante quatro dias a acompanhar estas crianças que muito marcaram a minha
vida e que me fizeram olhar de uma forma diferente, estes pequenos mundos tão
fechados à nossa sociedade.




                   Ilustração 2- Vista da Pousada da Juventude de Almada




            Ilustração 3 - vistan para Lisboa da Pousada da Juventude de Almada
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3. Contexto da pesquisa


3.1 Pedagogia da Situação


Segundo Gisèle Barret, a espontaneidade e o imprevisto de situações que surgem no
desenvolvimento de uma actividade, são como degraus que nós, enquanto Educadores
pela arte, subimos, na construção e enriquecimento de uma visão pedagógica e afectiva
entre alunos e pedagogos. A vivência e a cumplicidade criadas pela proximidade
"privilegia o vivido individual e colectivo no aqui e agora" (Martins, 2006: 117).
Através desta experiência, realizada em contexto educativo-afectivo, a visão de um
Educador poderá ser matriz para uma nova construção de proximidade em fazer
acreditar mais no potencial expressivo que cada jovem tem dentro de si. A
intencionalidade deste estudo é abordar um conceito doutrinal e iconográfico milenar na
comunidade educativa, possível de suscitar objecto de reflexão para a personagem que
educa e a personagem criativa, que aprende, partilha e constrói o seu próprio
conhecimento. Na observação de várias pesquisas feitas por diversos investigadores,
especificamente Carl Jung, tenciono analisar imagens e ícones específicos, utilizados
por cada jovem, na construção de mandalas, como processo de aprendizagem.
                 “ (…) Only gradually did I discover what the mandala really is: Formation, Eternal
                 Mind’s eternal recreation (…)” (JUNG: 1973: V)
Avaliar a importância das mandalas como iconografia artística num contexto de
comunicação pela Arte. A mandala, permite assim, alcançar um estágio de consciência
superior, na procura interior de um caminho mais próximo da transcendência. Na
implementação do estudo, considera-se a mandala da Pedagogia da Situação6. Esta
análise pedagógica permite que o Espaço, ou seja, o lugar físico da actividade, numa
relação directa com a variável Tempo, predisponha uma análise reflexiva entre a
aprendizagem de construção de mandalas num contexto educativo. Além do seu
conhecimento científico e da correcta aplicação dos conteúdos programáticos, um
pedagogo, deve ter atenção na sua atitude, postura e sensibilidade perante cada um dos
seus alunos, para que através da motivação, incentivo, auto-estima, partilha,
colaboração e cooperação, cada aluno possa chegar ao seu próprio auto-conhecimento.



6
 A pedagogia da Situação foi apresentada por Gisèle Barret, em “Essai sur la pédagogie de la situation
en expression dramatique et en éducation” em 1986
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4. Quadro teórico-conceptual da pesquisa:

No enquadramento teórico será analisada a mandala como arquétipo e significado
cultural de povos orientais, numa perspectiva histórica da filosofia budista, como "pura
filosofia moral, assim como um sistema de ética e metafísica transcendental".7 Na
fundamentação teórica das investigações existentes, serão observados alguns autores,
entre os quais Carl Jung, como contextualização das teorias ocidentais e metodologias
utilizadas em processos cognitivos. Segundo Jung, o inconsciente pessoal contém todas
as informações adquiridas ao longo da vida, mas que são esquecidas, enquanto, que o
inconsciente colectivo, é composto por arquétipos e símbolos que representam as
situações de formas diferentes. No Budismo Tibetano a mandala é usada como ritual de
auxílio à concentração e à meditação (yantra). A mandala como matriz iconográfica e
potenciadora da criação e representação de mnemónicas como instrumentos de estudo,
funciona como retroacção dos conhecimentos adquiridos nas aulas e serve como meio
de reflexão e análise para o pedagogo do processo de entendimento de cada um dos seus
alunos. Assim, a expressão plástica, como instrumento mnemónico e auxiliar de
memória, nesta situação pedagógica, proporciona a utilização de experiências vividas
por cada um, tanto na sala de aula, como das diferentes variáveis aleatórias ou
imprevisíveis que possam ocorrer no exterior. As indicações e principais directrizes das
expressões artísticas na educação, determinadas pelo professor Amílcar Martins,
relativas às"intenções/acções/retroacções/investigações do educador, professor ou
animador:
                  - objectivos gerais de ensino;
                  - acentuações a privilegiar face ao contexto;
                  - princípios de orientações pedagógicas e didáctica;
                  - perfil de atitudes e competências do educador;
                  - formas de intervenção;
                  - retroacção, reflexão e auto-avaliação;
                  - investigação-acção sobre as experiências educativas.".8




7
    TRAVASSOS, Lubélia (2005). Budismo. A filosofia Moral e científica. Inserida na obras da série
"Sabedoria Divina". Projecto Anjo Dourado, Mafra. (pp.95).
8
    MARTINS, Amílcar (coord.)(2002). Didáctica das Expressões. Lisboa. Universidade Aberta, p. 56.
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Concepção de mandalas, através da simbologia das cores, representação do Eu.
Aplicação e uso de mandalas em contextos educacionais e formativos, de carácter
educativo.

Interpretação e significações sobre o uso de mandalas em processos educativos e
formativos (concepção de objectivos cromáticos e iconográficos de mandalas, diário de
bordo e registos áudio e vídeo).


5. Oficina de expressões: Acredita em ti


A actividade que seguidamente se expõe, foi desenvolvida, como oficina de expressões,
com crianças dos 9 aos 18 anos, inseridas em programas de instituições de
solidariedade, durante o mês de Julho de 2010, em Almada. As diversas animações que
se encontravam inseridas dentro desta oficina, antes apenas destinadas a estas crianças,
foram abrangidas pelos próprios monitores que as acompanhavam. O interesse
despertado à medida que o "gelo se ia quebrando", fez com que a proximidade afectiva
fosse uma constante, como à frente irei desenvolver. Com este trabalho, adquiri
instrumentos de observação destas crianças. O seu olhar perante um novo tema, o seu
olhar perante o seu Eu e a forma como se interpretavam e principalmente o seu olhar,
numa viagem fantástica ao seu interior, num acreditar que todos são capazes de se
exprimirem criativamente, sentidas e vividas. O olhar prende-se numa viagem entre o
imaginário e o fantástico escrito e desenhado por crianças.

Destinatários

- Crianças dos 9 aos 18 anos ( grupo de 28 crianças)
- Monitores (grupo de seis)

Objectivos da pesquisa:


- Apreender as características da organização geométrica e cromática da iconografia
mandaliana;
- Realçar o significado da geometria sagrada e artística nos processos de concepção e de
comunicação assentes na estrutura da mandala;
- Sensibilizar para o acreditar nas competências artísticas de cada um;
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- Utilizar uma mandala como expressão de um sentimento, acontecimento ou memória;
- Desenvolver a apetência artística de cada um e o gosto pelo desenho e pintura;
- Utilizar a Arte como canal de aproximação entre um Educador/animador/pedagogo e
os alunos;
- Desenvolver a cooperação e a afectividade dentro do grupo;
- Reflectir sobre os comportamentos tidos nesta experiência educativa por parte de todos
os participantes
- Avaliar as competências adquiridas na concepção de mandalas e na interculturalidade,
tendo em conta, a relação criada na atribuição de significados a certos objectos, ao nível
da concepção, implementação e impacto da Arte na Educação;

Materiais disponibilizados pela Pousada de Juventude de Almada:
- Computador;
- DataShow;
A sala disponível, foi a sala de convívio, onde foram colocadas mesas e cadeiras, para
as crianças trabalharem.

Meios necessários:
- Todo o material de desenho e pintura foi levado por mim (lápis de cor e de cera e
canetas de feltro)
- Acompanhamento por parte dos monitores durante as actividades (a sua participação
foi essencial para as crianças observarem e compararem desenhos);

Duração da Oficina:
- consoante cada actividade e a participação de todos. Foi estimado duas horas para o
número total dos participantes (34: 28 crianças e 6 monitores), por cada actividade.
Horário:
Sábado: da parte da tarde
Domingo, 2ª e 3ª feira: depois de jantar, por volta das 9 da noite

Coordenação da Colónia de férias:
Drª Maria do Rosário

Coordenação da Oficina:
Ana Margarida Mira
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Estratégias:
O projecto foi todo desenvolvido na sala de convívio da Pousada de Juventude de
Almada, pelo espaço físico e pelos materiais disponíveis pela mesma para a realização
desta oficina.


    Fases           Conteúdos               Actividades                Actividades
                                                                     Complementares
 A mandala       A construção da     Observação de um              Pintura de uma
  tibetana       mandala             powerpoint com imagens        mandala já existente.
                 Tibetana.           da técnica utilizada na       (ficha 3)
                 A filosofia e a     construção de uma
                 doutrina Budista.   mandala feita por monges
                 As mandalas         tibetanos. (ficha 1)
                 indianas e          Explicitação da filosofia e
                 chinesas.           a doutrina budista.
                                     Observação de imagens de
                                     diversas mandalas
                                     indianas e chinesas (ficha
                                     2)

   Como          A construção de     Técnicas de construção de     Construção de uma
  desenhar       uma mandala         uma mandala.                  mandala que
    uma                              A simbologia das cores.       represente o Eu de
  mandala                            (ficha 4).                    cada um
                                     Observação de um vídeo
                                     onde é desenhada uma
                                     mandala pela pintora
                                     Milliande (ficha 5)
Apresentação Construção de           Técnica de representação      Construção de uma
   final     uma mandala             expressiva de um              mandala que
             Exposição dos           acontecimento.                represente a colónia
             trabalhos               Técnicas de modelagem de      de férias.
                                     objectos (ficha 6)            Entrega de mandalas
                                     Técnicas de pintura em        feitas em massa de
                                     tecido.                       modelar a todos os
                                                                   participantes
                                                                   Entrega de tchirts
                                                                   com um desenho de
                                                                   uma mandala
                                                                   desenhada por mim
                                                                   aos monitores.
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Ficha 1 - A construção de uma mandala
A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foram mostradas uma sequência de imagens da
construção de uma mandala tibetana. O PowerPoint foi elaborado por mim, não tinha som, nem animações, para que
eu pudesse ir explicando todas as fases da construção e permitisse possíveis perguntas que fossem feitas à medida
que ia explicando. Como acabou por verificar.

Material para fazer mandalas tibetanas:
Areia
Pedras transformadas em pó de forma a criar areias de várias cores
Tampo liso de grandes dimensões
Instrumentos de precisão

Como construir as mandalas:
1. Desenhar a giz todo o contorno da mandala. A construção deverá ser feita
com o máximo de rigor geométrico.




2. Começar a preencher os espaços com as areias. Deverá ser preenchida do centro para o exterior, por simbolizar a
divindade principal, geralmente Budha.




Cada preenchimento deve ter atenção à divindade que se presta homenagem. O cuidado é extremo e a
pormenorização uma constante.

3. No final da construção toda a mandala é apagada, da divindade mais importante para a menos e lançada ao mar.
Esta decisão de a apagar dá importância não ao produto final, mas sim a todo o processo de construção. Os monges
tibetanos acreditam que através da construção de uma mandala, conseguem criar uma canal com o Universo
cósmico, com o Conhecimento supremo, a Luz, mas que através da sua entrega ao rio ou mar, o entregam de novo à
sua origem, quase como uma bênção, uma atitude partilha. Onde tudo é da natureza, o Homem apenas tem acesso a
ela mas nunca tem o direito de a manter.
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Nota: a construção da mandala tibetana, simboliza o palácio da divindade, cada área é preenchida por um
monge. Este processo pode demorar dias ou até mesmo semanas. A concentração é essencial para a sua
construção.




Ficha 2 - Mandalas Indianas e Chinesas
A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foram mostradas uma sequência de imagens de
mandalas indianas e chinesas.

Material para fazer mandalas indianas:
Areia /giz branco
Flores (no caso de mandalas indianas)

Como construir as mandalas:
1. Desenhar a giz a mandala `aporta de casa todas as manhãs como sinal de protecção.
2. Algumas mandalas são feitas com flores no meio da rua, geralmente em épocas festivas.
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Ficha 3 - Pintura de uma mandala
A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foi pedido que pintassem a mandala abaixo em
anexo. Cada um deveria começar por pintar o centro (simbolizando o Eu de cada um) e continuassem para o seu
exterior.

Material para fazer mandalas tibetanas:
Desenho de uma mandala pré-concebido
Lápis de cor e de cera
Canetas de feltro




Nome: __________________________________________________________ Idade: _____
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Ficha 4 - Panfleto sobre mandalas
A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foi entregue um panfleto de explicação sobre tudo
apreendido ao longo das actividades.

                        Mandala                                                                                   As mandalas são muitas vezes constituídas por
 A palavra mandala de origem sânscrita, caracteriza-se                                                            uma série de círculos concêntricos, cercados por
                                                                                                                  um quadrado que, por sua vez, é cercado por outro
 por um círculo, (círculo mágico) parte do centro                                                                 círculo. O quadrado possui um portão no centro de
 sagrado. É uma representação geométrica da relação                                                               cada lado, o principal voltado para o leste, com
                                                                                                                  outras três entradas em cada ponto cardeal. Eles
 entre o Homem e o Cosmo. Representa a roda (círculo)                                                             representam entradas para o palácio da divindade
 e a Totalidade (todo).                                                                                           principal e são baseados no desenho do templo
                                                                                                                  indiano clássico de quatro lados.
 Mand= essência
 La= iluminação                                                                     Tais mandalas são plantas elaboradas do palácio, visto de cima.
                                                                                    Os portais, porém, muitas vezes são "deitados", assim como os muros externos.
 O conjunto é a perfeição da alma, do espírito. As                                  Estes portais são elaboradamente decorados com símbolos tântricos. A
                                                                                    arquitectura da mandala representa tanto a natureza da realidade como a ordem de
 mandalas ajudam cada um de nós a reflectir sobre a                                 uma mente iluminada. [...]
 nossa vida.                                                                        A divindade central representa o estado da iluminação [...] e as várias partes do
                               No Budismo, representa o palácio da divindade,       palácio indicam os aspectos chave da personalidade iluminada. As divindades
                               a dimensão da mente iluminada (do                    iradas representam as próprias emoções negativas — como a raiva, o ódio, o
                               conhecimento). No Tibete, os monges                  desejo e a ignorância — transmutadas na consciência iluminada de um buddha.
                               representam mandalas com areia, demoram
                               horas, dias a fazê-las e no fim apagam e lançam                   (John Powers, Introduction to Tibetan Buddhism)
                               ao mar.
                                                                                    Em toda a nossa história, muitos povos desenharam
                                                                                    mandalas.
 A ideia importante não é o aspecto final, mas como
 cada um representa a sua mandala. Como utiliza as
 cores e o que cada uma significa para si. São muito
 utilizadas para desenvolver a criatividade de cada um
 de nós.
                                                                                    Calendário Inca       Rangoli (arte indiana)        Vitral da Igreja Santana S. Paulo
                                                                                    Existem três tipos de mandalas:
                                                                                    Culto (mandalas tibetanas) têm no centro a divindade
                                                                                    mais importante: Shiva ou Budha
                                                                                    Terapêuticas: muitas vezes servem para "curar" o
                                                                                    nosso interior, são imagens de
 As mandalas representam-se através de imagens                                      como nos sentimos, o que
 concêntricas (á volta de um círculo) ou através de                                 temos de melhorar,
 figuras geométricas.                                                               o que nos preocupa.
 Muitas das mandalas japonesas que conhecemos, são
 baseadas em doutrinas e ensinamentos budistas,                                     Meditação: para reflectir
 originalmente trazidos da Índia para a China.                                      sobre nós.

(estrutura da parte da frente do panfleto)
  Como pintar mandalas                                                              1º O centro é a parte mais importante da mandala. Pode estar marcado ou não,
                                                                                    mas tem de se perceber a sua existência.
                             Antes de se desenhar e pintar uma mandala,
                             deve-se lavar as mãos.                                 Este elemento não pertence ao mundo material: é a força da mandala.
                             Lavar as mãos simboliza o afastar do nosso
                                                                                    O círculo exterior que fecha a mandala deve ser preenchido com desenhos,
                             corpo e do nosso espírito tudo o que existe de
                             negativo. reflectir ou fazer uma oração sobre o        símbolos e cores. Simboliza o espaço sagrado do profano.
                             que se pretende desenhar.
                                                                                    2º Trabalha a mandala até sentires que está concluída. Roda o desenho várias
                                                                                    vezes, de diferentes ângulos. Deve ter um certo equilíbrio.
 É muito importante saber o motivo (intenção) pelo qual se desenha uma mandala.
 Cada um dá o significado que quer à sua mandala.                                   3º Quando encontrares a orientação que aches correcta, marca-a para saberes para
                                                                                    que lado fica voltada. No final dá-lhe um título.
 Significados das cores:
 Vermelho A cor do amor, da atração, força e vitalidade. Pode ser usada para dar
 energia a alguém que está diante de situações difíceis.
 Azul A cor da paz, relaxamento, suavidade e paciência. Pode ser usada para
 pessoas que estão a passar por momentos de stress, ou simplesmente para acalmar
 o ambiente e os que estiverem ali.
 Amarelo A cor do pensamento, activadora da mente e energizante. Ideal para
 estimular os estudos e para pessoas com algum problema de memória ou falta de
 concentração.
 Verde A cor da cura e saúde. Pode ser usada para diminuir problemas de saúde,
 não esquecendo que o verde tem um pouco do azul e do amarelo e trás consigo as
 características destas duas cores.
 Lilás A cor da elevação espiritual, bondade e harmonia. Pode ser usada por
 alguém que se sente injustiçado sem motivo real, alguém em busca de explicações
 sobre a existência e a religiosidade, não esquecendo que o lilás tem um pouco do
 azul e trás consigo as características desta cor.
 Laranja A cor da energia. É a mistura de vermelho e amarelo e trás em si as
 qualidades de ambas de maneira equilibrada. Boa para todos os ambientes se
 aplicando a todos os tipos de negócio.
 Branco A cor que é a junção de todas as cores existentes na natureza. Purifica e
 equilibra o indivíduo e o ambiente. Bom para qualquer ambiente e negócio.


(verso do panfleto)
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Ficha 5 - Pintura de uma mandala pela artista Milliane
A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foi mostrado um vídeo onde a pintora Milliane,
desenha uma mandala.




       Zendalas- How to Draw a Mandala Zentangle Style.mp4




Nota: O vídeo poderá ser visto no Youtube.
http://www.youtube.com/watch?v=C4Nlz4XMxcs



Ficha 6 - Construção de uma mandala através da modelagem
Foram oferecidos a todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) uma mandala criada por mim.

Material para fazer mandalas:
Pasta de modelar
Fios de couro azul e branco
Missangas e pedras de cores branca e violeta
Moldes de figuras geométricas (estrelas e círculos)
forno

Como construir as mandalas:
1. Trabalhar a pasta de modelar e cortá-la em círculos, utilizando um copo.




2. Com os moldes, fazer desenhos. No centro uma estrela (simbolizando cada um), à volta outra (de protecção).
Preencher com missangas violetas cada vértice da estrela. Os espaços formados pelos vértices, preencher com pedras
brancas.
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3. por fim, levar ao forno para secar e colocar os fios.




Algumas imagens das mandalas pintadas nas tchirts dos monitores




Simbologia da mandala pintada em tecido:

Centro o S: simboliza o S da Associação Shams
Os círculos laranjas e brancos: os monitores e todos os que dinamizaram esta colónia de férias.

À volta, Flores que se transformam em corações: simbolizam os cinco grupos de crianças
distribuídas aos monitores(Sky, wind, water, star, sun).
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6. A experiência vivida dia-a-dia:


Dia um (diário de bordo):


"O primeiro dia, é sempre o mais difícil, quebrar barreiras, portas que se fecham
perante os nossos olhos, perante as nossas palavras. Foi uma decisão muito pensada,
como seria esta minha viagem neste mundo tão desconhecido para mim. Vinte e oito
caras que se mostram perante mim... vinte e oito portas que se fecham à medida que
interfiro no seu mundo. Converso com os monitores e sinto que cada olhar repousa em
mim, cada gesto que faço é observado ao milímetro. Sou analisada. Sinto isso! Sinto
que me consideram uma intrusa, não percebem qual é o meu papel, a minha função.
estarei ali para os analisar. Farto disso estão eles. os mais novos não me sentem muito
como ameaça, mas os mais velhos sim! Pelo que percebi, pessoas que fazem
demasiadas perguntas, ou que os tentam analisar, são as principais responsáveis por
                                                          não estarem com os seus
                                                          pais. Senti-me uma ameaça.
                                                          Como também sou mãe, levei
                                                          os meus filhos, para que me
                                                          vissem,   não     como     uma
                                                          intrusa, mas sim como uma
                                                          pessoa, também ela com
                                                          família, também ela com
receios e alegrias. O carinho e a atenção que me viram demonstrar para com os meus
filhos, foi como uma porta aberta que eles permitiram abrir para esta viagem que me
propus fazer. Consegui falar com alguns, apenas os mais novos. Sinto um toque no meu
braço e ouço umas palavras cheias de preocupação e ao mesmo tempo de maturidade
dos seus 9 anos. A sua voz doce permite-me voar perante aquele emaranhado de
caracóis que se vislumbra à minha frente. Chama-se Alexandre, reparo que só tem uma
perna, mas pelo o que soube é o mais vivaço de todos.
- Se calhar ele tem medo das minhas muletas. (referia-se ao meu filho mais novo,
Tomás com 1 ano).
- Não. Digo-lhe. - Porquê?
- Porque toda a gente tem medo, ninguém se aproxima de mim, quando vêm as muletas.
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Aquelas palavras, fizeram-me abanar, senti vontade de o abraçar, aqueles olhos
sedentos de amor e carinho, fizeram-me oscilar.
- Não te preocupes, ele não tem medo, ele até se ri para ti.
Aqueles olhos de um momento para o outro encheram-se e brilharam, durante o resto
do tempo que lá estive, teve sempre ao lado dele. Duas meninas mais velhas (ambas
com 18 anos), a Sandra e a Dulce, vieram pegar no Tomás ao colo, andaram com ele
para cima e para baixo.
Os rapazes mais velhos, foram a maior dificuldade, percebi que as suas atitudes eram
leis para os mais novos. Um sentimento de respeito incrível. percebi que seria através
deles que teria de ganhar a sua confiança. Tomei uma decisão, os mais velhos têm
autorização de fumar, desde que acompanhados com algum monitor. Aproveitei isso,
em meu próprio benefício. Sentei-me no chão ao lado deles, meti conversa sobre
música. O gelo foi-se quebrando. Ao final daquela tarde, tinha conseguido muito,
recebi os parabéns dos monitores. Até eu própria estava feliz e surpresa. Passei a ser
um deles.
Vi, com atenção o carinho que as meninas continuavam a prestar ao meu filho mais
novo fazendo as delícias daquelas carinhas larocas. Fizeram questão de lhe dar a papa.
senti-me feliz, tinha quebrado o gelo. Olhei com carinho, o meu filho mais velho jogava
à bola com uns amiguinhos que fizera. Conversei com os monitores, amanhã voltarei."



Dia dois (diário de bordo):


" Hoje aprendi muito com estes miúdos. Aprendi a olhar de forma diferente, a olhar
para cada um deles, a aprender através de cada um. Quando cheguei fui recebida pelos
mais novos, esperavam com ansiedade a minha chegada. Sentados no chão outros em
                                              cadeiras, formavam pequenos grupos à
                                              espera da minha suposta aula.
                                              Os mais velhos com um ar de "seca",
                                              olhavam para mim e de vez em quando
                                              "atiravam bocas" pelos minutos que
                                              demorou ainda a instalar o power point no
computador. Senti-me nervosa. Apesar dos largos anos de experiência que tenho como
professora, senti-me julgada. Continuei. As luzes apagaram-se e começaram a surgir
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inúmeras imagens, umas após outras comecei a explicar toda a construção das
mandalas. Comecei a ver braços no ar, parei e dei-lhes a palavra. Uns atrás dos
outros, as perguntas eram imensas...."e os monges têm paciência para fazer isso das
mandalas?", "e como partem as pedras para ficar em pó?", "ai, eu não conseguia fazer
isso assim tão bonito!". Era extraordinário sentir aquelas caras deslumbrantes a olhar
para as imagens e a fazer perguntas. O filme acabou e pedi-lhes para pintar uma
mandala que lhes tinha trazido. Ouvi inúmeros comentários "eu não sei se consigo", "e
pinto de que cor?", "monitora, como vou ter tempo para pintar isto?", expliquei-lhes
que o tempo era indiferente, que se deixassem ir, tivessem em atenção as cores que
mais os simbolizavam e a partir daí começaria a sua viagem. Achei que era capaz de
conseguir tirar inúmeras fotografias...inúmeros vídeos... mas com estas crianças foi
impossível, tinha de fazer parte do grupo. Tinha de pertencer a eles. Pousei a máquina
e sentei-me ao lado deles. à medida que iam desenhando, iam conversando comigo,
contando porque estavam nas instituições, porque não estavam com os seus pais.
percebi que os mais pequenos, sentiam saudades dos pais. Sabiam que estavam melhor
nas instituições, mas a falta do pai e da mãe ao lado é um bem precioso. Percebi que
nenhum estava para adopção, os pais não queriam. Mas os mais velhos até nem
queriam regressar. Senti tristeza, naqueles olhares. Senti vontade de os trazer a todos
comigo. Hoje foi um dia muito intenso, para mim, porque vivenciei uma realidade que
não estava à espera. Se eu pudesse guardava-os a todos. perto de mim..."
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Dia três (diário de bordo):

" Hoje foi o dia mais difícil para eles, vimos um vídeo de uma pintora e a seguir quando
lhes pedi para que criassem uma mandala que simbolizasse cada um, começaram-se a
                                         ouvir reclamações "não consigo", "para que
                                         quer saber como eu sou?", "não sei se sou
                                         capaz". Umas atrás das outras começaram a
                                         turbilhar dentro de mim. Pedi-lhes silêncio,
                                         expliquei-lhes que eram livres de não o fazer.
                                         Não iria impor nada, estava apenas a pedir
um desenho. deixo aqui alguns comentários que me marcaram.




                                        A Inês tem 11 anos, no início começou por
                                        pintar a mandala toda em cor de rosa. Puxou-
                                        me por um braço e ao meu ouvido disse-me
                                        "monitora eu não sou toda cor-de-rosa".
                                        larguei tudo e sentei-me com ela. Perguntei de
                                        que cor era. Disse-me depois de muito pensar
                                        que "eu sou verde...sim verde como a
                                        Natureza". Perguntei-lhe " e de um só verde ou
                                        vários verdes?" "muitos....sim sou muitos
                                        verdes". Propus que fossemos buscar os tais
verdes, senti a sua mão na minha, e deixou-se ir. Senti-me feliz, pelo voto de confiança.
Sentámo-nos, à medida que ia pintando, ia contando coisas, até que disse "eu sou como
o mar, como as ondas do mar, umas vezes sou calminha outras não" Adorei aquela
expressão. Fui buscar os azuis. No final, orgulhosa do seu desenho, mostrou-mo.
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A Mariana tem 11 anos, muito agressiva,
conflituosa, disse-me que não pintava,
porque não queria. reparei que tinha
pintado os braços dela, cheios de
corações,   mostravam     um     amor   de
infância platónico, o qual ninguém
poderia saber. Perguntei-lhe se estava
apaixonada "não pode contar a ninguém
é segredo"disse-me. Prometi-lhe que não faria. Chamei-a para lhe mostrar as minhas
mandalas, também eu quando não quero que ninguém saiba o que penso, por vezes
escrevo frases, palavras, ou desenhos que só eu sei o que significa. Perguntei-lhe se
não era capaz de fazer o mesmo. Representar aquele amor enorme que a consumia.
Este foi a sua representação.

Dia quatro (diário de bordo):


Hoje tinha planeado inúmeras coisas, mas os miúdos surpreenderam-me! Estavam
todos à minha espera, fizeram-me uma surpresa. Preparam uma pequena festa, tinham
prendas (que a associação comprou por eles, apesar de terem sido escolhidas por eles)
para oferecer, aos monitores, uns aos outros e .....a mim....Senti uma alegria
estonteante, não estava á espera. Senti-me que nem Maria Madalena e chorei quando
me ofereceram um fio... com UMA MANDALA. Beijos, abraços, lágrimas, risos, aquela
sala encheu-se de uma energia tão forte que quase que rebentava com o recinto. Era o
seu último dia. Ofereci-lhes as mandalas que estive a fazer durante quase toda a noite.
Receberam a prenda com o maior carinho. Percebi que não estavam à espera. Vou
sentir a falta deles. Apesar do pouco tempo que estive com eles, foi sentido, foi
profundo. Aprendi a dar valor a pormenores que se calhar não percebia. Aprendi a
confiar neles. Sinto que eles aprenderam a acreditar....sim ACREDITAR que são
capazes de fazer coisas bonitas, mesmo no mundo tão negro onde acham que estão.
Acho que esta foi a maior experiência de ambas as partes. Eu conseguir transmitir, que
todos são capazes de fazer uma obra de arte e principalmente de TODOS acreditarem
que são capazes de a fazer..."
P á g i n a | 24




7. A interpretação de cada um(alguns exemplos):

Alexandre 9 anos
O Alexandre retracta-se como uma
criança escura (preta), por ser mulata.
Acha que não existe cor na sua vida.
Quando se retracta junto dos outros (1ª
imagem) sente-se integrado.
Ana Carina 14 anos
A Ana é pouco expansiva, fala muito
pouco, por vezes acanhada. Prefere a
instituição a voltar para junto dos pais.
P á g i n a | 25

Dulce 18 anos
A Dulce é uma rapariga amorosa,
muito expansiva. Não fez a 2ª mandala
por estar sob o efeito de medicação
(não me foi facultada o motivo da
medicação).
Inês 11 anos
Retracta-se como sendo verde e azul.
Mantêm o mesmo raciocínio de
associação de cores em ambas as
mandalas.


Micael 11 anos
O Micael quando se retracta junto dos
outros é um menino feliz. Quando é o
seu Eu, utiliza o preto. Confessou-me
que descobriu que a mãe tem um
cancro e quer voltar para junto dela.

Sandra 18 anos
Retracta-se de cores cinzenta e rosa,
porque acha que é feliz na instituição
apesar de ter de sair por fazer agora 18
anos. Retractou o Eu (2ª imagem)
como se fosse um caos a sua vida
agora.
Maria do Rosário (monitora)
Considera que o que a faz feliz é estar
com estes meninos, apesar de saber
que é uma coisa que a consome
emocionalmente. Considera-se feliz
(verde) por trazer a esperança até eles.
P á g i n a | 26


8. Resultados da experiência:

A análise feita após toda experiência vivida ao longo destes quatro dias, permitiu-me
rever o provérbio chinês, disponibilizada pelo professor Amílcar Martins (Martins:
2002: 21)


                               Diz-me e eu esquecerei
                           Ensina-me e eu lembrar-me-ei
                            Envolve-me e eu aprenderei


A vida de um pedagogo é uma caixinha de surpresas, a todo o instante somos
bombardeados por novos alunos, novas tendências, novas metodologias, mas nunca
estamos preparados para vivenciarmos estas realidades sociais tão descabidas num
mundo que se diz tão desenvolvido. Estes jovens, que perderam confiança nas pessoas
que as trouxeram ao mundo e que deveriam zelar constantemente por elas. São as
primeiras a falhar. As instituições que as recolhem, também não sabem dar amor e
afecto de pai e mãe. Pelos corajosos voluntários, a que ninguém lhes dá o mérito que
merecem, por desenvolverem actividades e experiências para estes jovens. Pela palavra
de apoio que todos deveríamos dar a estes jovens para eles ACREDITAREM em si, que
são capazes de conquistar o mundo através da Arte. Que são capazes de voar mais alto.
Foi isto que eu aprendi, aprendi a ser melhor, um pouco mais e também eu vou subindo
mais um degrau desta enorme escadaria, tentando seguir lado a lado destes jovens,
dando palavras de amizade, ternura e confiança. Para juntos aprendermos a fazer um
mundo melhor.
Acredito que esta pequena experiência me fez perceber, qual o caminho a seguir na
minha proposta de dissertação e onde poderei estar a falhar e onde devo melhora
9. Referências Bibliográficas:


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P á g i n a | IV

Oficina de Expressão - Acredita em ti Mandalas

  • 1.
    Departamento de Educaçãoe Ensino a Distância Mestrado em Arte e Educação Oficina de expressão: Acredita em ti Um projecto de investigação no âmbito do Mestrado em Arte e Educação da Universidade Aberta Ana Margarida Mira Lisboa, 2010 Trabalho final da disciplina de ADEA Mestrado em Arte e Educação Professor: Amílcar Martins
  • 2.
    Página |2 "... umprojecto diferencia-se de uma mera actividade de ensino-aprendizagem não só pelos domínios do sentido e da intenção que o orientam, mas também pela própria organização, realização e efeitos que dele se engendram..." (Martins, 2002: 93)
  • 3.
    Página |3 Índice Mestrado emArte e Educação .......................................................................................... 1 Introdução ......................................................................................................................... 4 1. Enquadramento ............................................................................................................. 5 1.1. A cidade de Almada .............................................................................................. 5 2. A Associação Shams..................................................................................................... 6 3. Contexto da pesquisa .................................................................................................... 8 3.1 Pedagogia da Situação ............................................................................................ 8 4. Quadro teórico-conceptual da pesquisa: ....................................................................... 9 5. Oficina de expressões: Acredita em ti ........................................................................ 10 Destinatários ............................................................................................................... 10 Objectivos da pesquisa: .............................................................................................. 10 Materiais disponibilizados pela Pousada de Juventude de Almada: .......................... 11 Meios necessários: ...................................................................................................... 11 Duração da Oficina: .................................................................................................... 11 Coordenação da Colónia de férias: ............................................................................. 11 Coordenação da Oficina: ............................................................................................ 11 Estratégias:.................................................................................................................. 12 6. A experiência vivida dia-a-dia:................................................................................... 19 Dia dois (diário de bordo):.......................................................................................... 20 Dia três (diário de bordo): .......................................................................................... 22 Dia quatro (diário de bordo): ...................................................................................... 23 7. A interpretação de cada um: ....................................................................................... 24 8. Resultados da experiência: ......................................................................................... 26 9. Referências Bibliográficas:............................................................................................ I
  • 4.
    Página |4 Introdução No âmbito da disciplina de ADEA1, foi pedido como trabalho final, um projecto de investigação em Arte-Educação. Este trabalho tem como título Oficina de expressão: Acredita em ti. Este trabalho surgiu, através de um convite muito especial que a Associação Shams, me fez, no sentido de participar em regime voluntariado numa colónia de férias com crianças. A maioria das crianças, encontra-se em regime de internato em diversas instituições sociais, retiradas aos seus pais devido a maus tratos e outros problemas de cariz social. No inicio, este estudo, era suposto funcionar como uma antevisão da questão que pretendo investigar e analisar na dissertação de mestrado em Arte e Educação, na criação de uma oficina/actividade a desenvolver através da construção de mandalas, com a participação de várias Escolas públicas e privadas do concelho de Almada. No final, acabou por se reflectir numa ajuda preciosa no crescimento moral e afectivo destes meninos, que apelam ao coração, sedentos de amor e atenção. A aprendizagem foi comum, tanto ao nível afectivo, como ao nível educativo e pedagógico. A finalidade deste estudo2 consistiu em determinar se a representação visual de mandalas em contexto formal, permitiria a construção de um saber próprio e significativo para os jovens actuais. A utilização de uma linguagem iconográfica significante, para um sujeito que procura uma interpretação lógica ao que apreende e o interioriza. O contexto teórico desta pesquisa, procurou envolver o significado inerente e o papel desempenhado pelas iconografias mandalianas, a subjectividade da arte no processo cognitivo de aprendizagem e em especial a vertente artística e iconográfica das mandalas associada a uma reflexão consciente potenciadora de relações afectivas, evocando os princípios e conceitos da doutrina budista, da Arte e de uma Aprendizagem Conjunta. 1 ADEA: Animação e Didáctica das Expressões Artísticas, coordenada pelo professor Amílcar Martins 2 Este artigo baseia-se num estudo de investigação da procura da individualidade transcendental e iconográfica de cada um, associando-o a um significado mnemónico.
  • 5.
    Página |5 1. Enquadramento 1.1.A cidade de Almada A cidade de Almada, sempre foi ponto de apoio e de auxilio no desenvolvimento da cidade de Lisboa, pela sua proximidade, factor este determinante, para a fixação da população junto às suas margens, utilizando o Tejo como meio de subsistência. A cidade de Almada, contém vestígios humanos, que datam desde a pré-história. No final do séc. XIX, a indústria existente em Almada proliferou devido ao aumento do sector corticeiro e das pequenas indústrias de moagem, expandindo-se e crescendo enquanto cidade própria. Em 19973, Almada aderiu ao Movimento das Cidades Educadoras4, assumindo assim " um paradigma de desenvolvimento local, assente no compromisso do diálogo, da transversalidade das acções, da relação entre administrações (local, regional e central) e a sociedade civil", (retirado da página oficial da Câmara Municipal de Almada). Em 2004, Almada voltou a subscrever a revisão da Carta das Cidades Educadoras, em Génova. Actualmente, encontra-se a desenvolver um site destinado à construção da Cidade Educadora, com vista à implementação das novas tecnologias, como forma de divulgação da(s) oferta(s) educativa(s) de todas as instituições almadenses. A participação de todos, proporciona "igualdade, de cidadania inclusiva, de participação, de coesão" (retirado da página oficial da Câmara Municipal de Almada), por parte de toda a população e em prol dela. "... A cidade educadora deverá encorajar o diálogo entre gerações, não somente enquanto fórmula de coexistência pacífica, mas como procura de projectos comuns e partilhados entre grupos de pessoas de idades diferentes. Estes projectos, deverão ser orientados para a realização de iniciativas e acções cívicas, cujo valor consistirá precisamente no carácter intergeracional e na exploração das respectivas capacidades e valores próprios de cada idade..." (retirado da Carta das Cidades Educadoras, 2004). 3 Década do Desenvolvimento Integrado, com a implementação de novas estruturas viárias, de equipamentos sócio-culturais, educativos e desportivos, implementação de novos espaços verdes e apoio na construção social. 4 A Carta das Cidades Educadoras, baseia-se na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), no Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966), na Declaração Mundial da Educação para Todos (1990), na Convenção nascida da Cimeira Mundial para a Infância (1990) e na Declaração Universal sobre Diversidade Cultural (2001).
  • 6.
    Página |6 Palco dediversas actividades em prol dos habitantes, diversas associações, esforçam-se por chegar a todos (crianças e adultos), amor, atenção e principalmente auxílio, numa época em que o egoísmo é uma constante na vida das pessoas. É através destas Associações, que o nosso olhar deve repousar, deve sentir e guardar por estes meninos que precisam do nosso apoio. É através do Seu olhar, que sentimos que um simples gesto pode significar tanto na vida de alguém. 2. A Associação Shams5 A Associação Shams sediada em Almada, promove actualmente, consultas de Apoio Psicológico e Psicopedagógico, de Orientação Escolar e Vocacional, e de Avaliação Psicológica em parceria com a Santa Casa da Misericórdia de Almada. Este ano, elaborou uma colónia de férias com crianças compreendidas entre os 9 e os 18 anos de várias instituições sociais, na grande maioria retiradas aos pais por mal tratos. Ilustração 1 - Actividades desenvolvidas na pousada da Juventude de Almada A colónia de férias proporcionou alojamento e alimentação na Pousada de Juventude de Almada e promoveu inúmeras actividades e passeios por Lisboa, Almada, Trafaria e Costa da Caparica. Todos os monitores que acompanharam estas crianças, foram em regime de voluntariado, abdicando das suas férias em prol delas. A sua extrema 5 Sediada na Rua D. Maria da Silva, nº 8, 1º Dto. Sala D – Almada (Praça Gil Vicente), no Conselho de Almada, Setúbal. Contactos: Telefones: 960050044 / 934403872 / 919399109 Email: associacao.shams@gmail.com
  • 7.
    Página |7 dedicação ecarinho para com eles, proporcionou ambientes de elevado companheirismo e cumplicidade. Numa destas actividades, tive a felicidade de poder participar e acabei por ficar durante quatro dias a acompanhar estas crianças que muito marcaram a minha vida e que me fizeram olhar de uma forma diferente, estes pequenos mundos tão fechados à nossa sociedade. Ilustração 2- Vista da Pousada da Juventude de Almada Ilustração 3 - vistan para Lisboa da Pousada da Juventude de Almada
  • 8.
    Página |8 3. Contextoda pesquisa 3.1 Pedagogia da Situação Segundo Gisèle Barret, a espontaneidade e o imprevisto de situações que surgem no desenvolvimento de uma actividade, são como degraus que nós, enquanto Educadores pela arte, subimos, na construção e enriquecimento de uma visão pedagógica e afectiva entre alunos e pedagogos. A vivência e a cumplicidade criadas pela proximidade "privilegia o vivido individual e colectivo no aqui e agora" (Martins, 2006: 117). Através desta experiência, realizada em contexto educativo-afectivo, a visão de um Educador poderá ser matriz para uma nova construção de proximidade em fazer acreditar mais no potencial expressivo que cada jovem tem dentro de si. A intencionalidade deste estudo é abordar um conceito doutrinal e iconográfico milenar na comunidade educativa, possível de suscitar objecto de reflexão para a personagem que educa e a personagem criativa, que aprende, partilha e constrói o seu próprio conhecimento. Na observação de várias pesquisas feitas por diversos investigadores, especificamente Carl Jung, tenciono analisar imagens e ícones específicos, utilizados por cada jovem, na construção de mandalas, como processo de aprendizagem. “ (…) Only gradually did I discover what the mandala really is: Formation, Eternal Mind’s eternal recreation (…)” (JUNG: 1973: V) Avaliar a importância das mandalas como iconografia artística num contexto de comunicação pela Arte. A mandala, permite assim, alcançar um estágio de consciência superior, na procura interior de um caminho mais próximo da transcendência. Na implementação do estudo, considera-se a mandala da Pedagogia da Situação6. Esta análise pedagógica permite que o Espaço, ou seja, o lugar físico da actividade, numa relação directa com a variável Tempo, predisponha uma análise reflexiva entre a aprendizagem de construção de mandalas num contexto educativo. Além do seu conhecimento científico e da correcta aplicação dos conteúdos programáticos, um pedagogo, deve ter atenção na sua atitude, postura e sensibilidade perante cada um dos seus alunos, para que através da motivação, incentivo, auto-estima, partilha, colaboração e cooperação, cada aluno possa chegar ao seu próprio auto-conhecimento. 6 A pedagogia da Situação foi apresentada por Gisèle Barret, em “Essai sur la pédagogie de la situation en expression dramatique et en éducation” em 1986
  • 9.
    Página |9 4. Quadroteórico-conceptual da pesquisa: No enquadramento teórico será analisada a mandala como arquétipo e significado cultural de povos orientais, numa perspectiva histórica da filosofia budista, como "pura filosofia moral, assim como um sistema de ética e metafísica transcendental".7 Na fundamentação teórica das investigações existentes, serão observados alguns autores, entre os quais Carl Jung, como contextualização das teorias ocidentais e metodologias utilizadas em processos cognitivos. Segundo Jung, o inconsciente pessoal contém todas as informações adquiridas ao longo da vida, mas que são esquecidas, enquanto, que o inconsciente colectivo, é composto por arquétipos e símbolos que representam as situações de formas diferentes. No Budismo Tibetano a mandala é usada como ritual de auxílio à concentração e à meditação (yantra). A mandala como matriz iconográfica e potenciadora da criação e representação de mnemónicas como instrumentos de estudo, funciona como retroacção dos conhecimentos adquiridos nas aulas e serve como meio de reflexão e análise para o pedagogo do processo de entendimento de cada um dos seus alunos. Assim, a expressão plástica, como instrumento mnemónico e auxiliar de memória, nesta situação pedagógica, proporciona a utilização de experiências vividas por cada um, tanto na sala de aula, como das diferentes variáveis aleatórias ou imprevisíveis que possam ocorrer no exterior. As indicações e principais directrizes das expressões artísticas na educação, determinadas pelo professor Amílcar Martins, relativas às"intenções/acções/retroacções/investigações do educador, professor ou animador: - objectivos gerais de ensino; - acentuações a privilegiar face ao contexto; - princípios de orientações pedagógicas e didáctica; - perfil de atitudes e competências do educador; - formas de intervenção; - retroacção, reflexão e auto-avaliação; - investigação-acção sobre as experiências educativas.".8 7 TRAVASSOS, Lubélia (2005). Budismo. A filosofia Moral e científica. Inserida na obras da série "Sabedoria Divina". Projecto Anjo Dourado, Mafra. (pp.95). 8 MARTINS, Amílcar (coord.)(2002). Didáctica das Expressões. Lisboa. Universidade Aberta, p. 56.
  • 10.
    P á gi n a | 10 Concepção de mandalas, através da simbologia das cores, representação do Eu. Aplicação e uso de mandalas em contextos educacionais e formativos, de carácter educativo. Interpretação e significações sobre o uso de mandalas em processos educativos e formativos (concepção de objectivos cromáticos e iconográficos de mandalas, diário de bordo e registos áudio e vídeo). 5. Oficina de expressões: Acredita em ti A actividade que seguidamente se expõe, foi desenvolvida, como oficina de expressões, com crianças dos 9 aos 18 anos, inseridas em programas de instituições de solidariedade, durante o mês de Julho de 2010, em Almada. As diversas animações que se encontravam inseridas dentro desta oficina, antes apenas destinadas a estas crianças, foram abrangidas pelos próprios monitores que as acompanhavam. O interesse despertado à medida que o "gelo se ia quebrando", fez com que a proximidade afectiva fosse uma constante, como à frente irei desenvolver. Com este trabalho, adquiri instrumentos de observação destas crianças. O seu olhar perante um novo tema, o seu olhar perante o seu Eu e a forma como se interpretavam e principalmente o seu olhar, numa viagem fantástica ao seu interior, num acreditar que todos são capazes de se exprimirem criativamente, sentidas e vividas. O olhar prende-se numa viagem entre o imaginário e o fantástico escrito e desenhado por crianças. Destinatários - Crianças dos 9 aos 18 anos ( grupo de 28 crianças) - Monitores (grupo de seis) Objectivos da pesquisa: - Apreender as características da organização geométrica e cromática da iconografia mandaliana; - Realçar o significado da geometria sagrada e artística nos processos de concepção e de comunicação assentes na estrutura da mandala; - Sensibilizar para o acreditar nas competências artísticas de cada um;
  • 11.
    P á gi n a | 11 - Utilizar uma mandala como expressão de um sentimento, acontecimento ou memória; - Desenvolver a apetência artística de cada um e o gosto pelo desenho e pintura; - Utilizar a Arte como canal de aproximação entre um Educador/animador/pedagogo e os alunos; - Desenvolver a cooperação e a afectividade dentro do grupo; - Reflectir sobre os comportamentos tidos nesta experiência educativa por parte de todos os participantes - Avaliar as competências adquiridas na concepção de mandalas e na interculturalidade, tendo em conta, a relação criada na atribuição de significados a certos objectos, ao nível da concepção, implementação e impacto da Arte na Educação; Materiais disponibilizados pela Pousada de Juventude de Almada: - Computador; - DataShow; A sala disponível, foi a sala de convívio, onde foram colocadas mesas e cadeiras, para as crianças trabalharem. Meios necessários: - Todo o material de desenho e pintura foi levado por mim (lápis de cor e de cera e canetas de feltro) - Acompanhamento por parte dos monitores durante as actividades (a sua participação foi essencial para as crianças observarem e compararem desenhos); Duração da Oficina: - consoante cada actividade e a participação de todos. Foi estimado duas horas para o número total dos participantes (34: 28 crianças e 6 monitores), por cada actividade. Horário: Sábado: da parte da tarde Domingo, 2ª e 3ª feira: depois de jantar, por volta das 9 da noite Coordenação da Colónia de férias: Drª Maria do Rosário Coordenação da Oficina: Ana Margarida Mira
  • 12.
    P á gi n a | 12 Estratégias: O projecto foi todo desenvolvido na sala de convívio da Pousada de Juventude de Almada, pelo espaço físico e pelos materiais disponíveis pela mesma para a realização desta oficina. Fases Conteúdos Actividades Actividades Complementares A mandala A construção da Observação de um Pintura de uma tibetana mandala powerpoint com imagens mandala já existente. Tibetana. da técnica utilizada na (ficha 3) A filosofia e a construção de uma doutrina Budista. mandala feita por monges As mandalas tibetanos. (ficha 1) indianas e Explicitação da filosofia e chinesas. a doutrina budista. Observação de imagens de diversas mandalas indianas e chinesas (ficha 2) Como A construção de Técnicas de construção de Construção de uma desenhar uma mandala uma mandala. mandala que uma A simbologia das cores. represente o Eu de mandala (ficha 4). cada um Observação de um vídeo onde é desenhada uma mandala pela pintora Milliande (ficha 5) Apresentação Construção de Técnica de representação Construção de uma final uma mandala expressiva de um mandala que Exposição dos acontecimento. represente a colónia trabalhos Técnicas de modelagem de de férias. objectos (ficha 6) Entrega de mandalas Técnicas de pintura em feitas em massa de tecido. modelar a todos os participantes Entrega de tchirts com um desenho de uma mandala desenhada por mim aos monitores.
  • 13.
    P á gi n a | 13 Ficha 1 - A construção de uma mandala A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foram mostradas uma sequência de imagens da construção de uma mandala tibetana. O PowerPoint foi elaborado por mim, não tinha som, nem animações, para que eu pudesse ir explicando todas as fases da construção e permitisse possíveis perguntas que fossem feitas à medida que ia explicando. Como acabou por verificar. Material para fazer mandalas tibetanas: Areia Pedras transformadas em pó de forma a criar areias de várias cores Tampo liso de grandes dimensões Instrumentos de precisão Como construir as mandalas: 1. Desenhar a giz todo o contorno da mandala. A construção deverá ser feita com o máximo de rigor geométrico. 2. Começar a preencher os espaços com as areias. Deverá ser preenchida do centro para o exterior, por simbolizar a divindade principal, geralmente Budha. Cada preenchimento deve ter atenção à divindade que se presta homenagem. O cuidado é extremo e a pormenorização uma constante. 3. No final da construção toda a mandala é apagada, da divindade mais importante para a menos e lançada ao mar. Esta decisão de a apagar dá importância não ao produto final, mas sim a todo o processo de construção. Os monges tibetanos acreditam que através da construção de uma mandala, conseguem criar uma canal com o Universo cósmico, com o Conhecimento supremo, a Luz, mas que através da sua entrega ao rio ou mar, o entregam de novo à sua origem, quase como uma bênção, uma atitude partilha. Onde tudo é da natureza, o Homem apenas tem acesso a ela mas nunca tem o direito de a manter.
  • 14.
    P á gi n a | 14 Nota: a construção da mandala tibetana, simboliza o palácio da divindade, cada área é preenchida por um monge. Este processo pode demorar dias ou até mesmo semanas. A concentração é essencial para a sua construção. Ficha 2 - Mandalas Indianas e Chinesas A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foram mostradas uma sequência de imagens de mandalas indianas e chinesas. Material para fazer mandalas indianas: Areia /giz branco Flores (no caso de mandalas indianas) Como construir as mandalas: 1. Desenhar a giz a mandala `aporta de casa todas as manhãs como sinal de protecção. 2. Algumas mandalas são feitas com flores no meio da rua, geralmente em épocas festivas.
  • 15.
    P á gi n a | 15 Ficha 3 - Pintura de uma mandala A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foi pedido que pintassem a mandala abaixo em anexo. Cada um deveria começar por pintar o centro (simbolizando o Eu de cada um) e continuassem para o seu exterior. Material para fazer mandalas tibetanas: Desenho de uma mandala pré-concebido Lápis de cor e de cera Canetas de feltro Nome: __________________________________________________________ Idade: _____
  • 16.
    P á gi n a | 16 Ficha 4 - Panfleto sobre mandalas A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foi entregue um panfleto de explicação sobre tudo apreendido ao longo das actividades. Mandala As mandalas são muitas vezes constituídas por A palavra mandala de origem sânscrita, caracteriza-se uma série de círculos concêntricos, cercados por um quadrado que, por sua vez, é cercado por outro por um círculo, (círculo mágico) parte do centro círculo. O quadrado possui um portão no centro de sagrado. É uma representação geométrica da relação cada lado, o principal voltado para o leste, com outras três entradas em cada ponto cardeal. Eles entre o Homem e o Cosmo. Representa a roda (círculo) representam entradas para o palácio da divindade e a Totalidade (todo). principal e são baseados no desenho do templo indiano clássico de quatro lados. Mand= essência La= iluminação Tais mandalas são plantas elaboradas do palácio, visto de cima. Os portais, porém, muitas vezes são "deitados", assim como os muros externos. O conjunto é a perfeição da alma, do espírito. As Estes portais são elaboradamente decorados com símbolos tântricos. A arquitectura da mandala representa tanto a natureza da realidade como a ordem de mandalas ajudam cada um de nós a reflectir sobre a uma mente iluminada. [...] nossa vida. A divindade central representa o estado da iluminação [...] e as várias partes do No Budismo, representa o palácio da divindade, palácio indicam os aspectos chave da personalidade iluminada. As divindades a dimensão da mente iluminada (do iradas representam as próprias emoções negativas — como a raiva, o ódio, o conhecimento). No Tibete, os monges desejo e a ignorância — transmutadas na consciência iluminada de um buddha. representam mandalas com areia, demoram horas, dias a fazê-las e no fim apagam e lançam (John Powers, Introduction to Tibetan Buddhism) ao mar. Em toda a nossa história, muitos povos desenharam mandalas. A ideia importante não é o aspecto final, mas como cada um representa a sua mandala. Como utiliza as cores e o que cada uma significa para si. São muito utilizadas para desenvolver a criatividade de cada um de nós. Calendário Inca Rangoli (arte indiana) Vitral da Igreja Santana S. Paulo Existem três tipos de mandalas: Culto (mandalas tibetanas) têm no centro a divindade mais importante: Shiva ou Budha Terapêuticas: muitas vezes servem para "curar" o nosso interior, são imagens de As mandalas representam-se através de imagens como nos sentimos, o que concêntricas (á volta de um círculo) ou através de temos de melhorar, figuras geométricas. o que nos preocupa. Muitas das mandalas japonesas que conhecemos, são baseadas em doutrinas e ensinamentos budistas, Meditação: para reflectir originalmente trazidos da Índia para a China. sobre nós. (estrutura da parte da frente do panfleto) Como pintar mandalas 1º O centro é a parte mais importante da mandala. Pode estar marcado ou não, mas tem de se perceber a sua existência. Antes de se desenhar e pintar uma mandala, deve-se lavar as mãos. Este elemento não pertence ao mundo material: é a força da mandala. Lavar as mãos simboliza o afastar do nosso O círculo exterior que fecha a mandala deve ser preenchido com desenhos, corpo e do nosso espírito tudo o que existe de negativo. reflectir ou fazer uma oração sobre o símbolos e cores. Simboliza o espaço sagrado do profano. que se pretende desenhar. 2º Trabalha a mandala até sentires que está concluída. Roda o desenho várias vezes, de diferentes ângulos. Deve ter um certo equilíbrio. É muito importante saber o motivo (intenção) pelo qual se desenha uma mandala. Cada um dá o significado que quer à sua mandala. 3º Quando encontrares a orientação que aches correcta, marca-a para saberes para que lado fica voltada. No final dá-lhe um título. Significados das cores: Vermelho A cor do amor, da atração, força e vitalidade. Pode ser usada para dar energia a alguém que está diante de situações difíceis. Azul A cor da paz, relaxamento, suavidade e paciência. Pode ser usada para pessoas que estão a passar por momentos de stress, ou simplesmente para acalmar o ambiente e os que estiverem ali. Amarelo A cor do pensamento, activadora da mente e energizante. Ideal para estimular os estudos e para pessoas com algum problema de memória ou falta de concentração. Verde A cor da cura e saúde. Pode ser usada para diminuir problemas de saúde, não esquecendo que o verde tem um pouco do azul e do amarelo e trás consigo as características destas duas cores. Lilás A cor da elevação espiritual, bondade e harmonia. Pode ser usada por alguém que se sente injustiçado sem motivo real, alguém em busca de explicações sobre a existência e a religiosidade, não esquecendo que o lilás tem um pouco do azul e trás consigo as características desta cor. Laranja A cor da energia. É a mistura de vermelho e amarelo e trás em si as qualidades de ambas de maneira equilibrada. Boa para todos os ambientes se aplicando a todos os tipos de negócio. Branco A cor que é a junção de todas as cores existentes na natureza. Purifica e equilibra o indivíduo e o ambiente. Bom para qualquer ambiente e negócio. (verso do panfleto)
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    P á gi n a | 17 Ficha 5 - Pintura de uma mandala pela artista Milliane A todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) foi mostrado um vídeo onde a pintora Milliane, desenha uma mandala. Zendalas- How to Draw a Mandala Zentangle Style.mp4 Nota: O vídeo poderá ser visto no Youtube. http://www.youtube.com/watch?v=C4Nlz4XMxcs Ficha 6 - Construção de uma mandala através da modelagem Foram oferecidos a todos os participantes (meninos e meninas e seus monitores) uma mandala criada por mim. Material para fazer mandalas: Pasta de modelar Fios de couro azul e branco Missangas e pedras de cores branca e violeta Moldes de figuras geométricas (estrelas e círculos) forno Como construir as mandalas: 1. Trabalhar a pasta de modelar e cortá-la em círculos, utilizando um copo. 2. Com os moldes, fazer desenhos. No centro uma estrela (simbolizando cada um), à volta outra (de protecção). Preencher com missangas violetas cada vértice da estrela. Os espaços formados pelos vértices, preencher com pedras brancas.
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    P á gi n a | 18 3. por fim, levar ao forno para secar e colocar os fios. Algumas imagens das mandalas pintadas nas tchirts dos monitores Simbologia da mandala pintada em tecido: Centro o S: simboliza o S da Associação Shams Os círculos laranjas e brancos: os monitores e todos os que dinamizaram esta colónia de férias. À volta, Flores que se transformam em corações: simbolizam os cinco grupos de crianças distribuídas aos monitores(Sky, wind, water, star, sun).
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    P á gi n a | 19 6. A experiência vivida dia-a-dia: Dia um (diário de bordo): "O primeiro dia, é sempre o mais difícil, quebrar barreiras, portas que se fecham perante os nossos olhos, perante as nossas palavras. Foi uma decisão muito pensada, como seria esta minha viagem neste mundo tão desconhecido para mim. Vinte e oito caras que se mostram perante mim... vinte e oito portas que se fecham à medida que interfiro no seu mundo. Converso com os monitores e sinto que cada olhar repousa em mim, cada gesto que faço é observado ao milímetro. Sou analisada. Sinto isso! Sinto que me consideram uma intrusa, não percebem qual é o meu papel, a minha função. estarei ali para os analisar. Farto disso estão eles. os mais novos não me sentem muito como ameaça, mas os mais velhos sim! Pelo que percebi, pessoas que fazem demasiadas perguntas, ou que os tentam analisar, são as principais responsáveis por não estarem com os seus pais. Senti-me uma ameaça. Como também sou mãe, levei os meus filhos, para que me vissem, não como uma intrusa, mas sim como uma pessoa, também ela com família, também ela com receios e alegrias. O carinho e a atenção que me viram demonstrar para com os meus filhos, foi como uma porta aberta que eles permitiram abrir para esta viagem que me propus fazer. Consegui falar com alguns, apenas os mais novos. Sinto um toque no meu braço e ouço umas palavras cheias de preocupação e ao mesmo tempo de maturidade dos seus 9 anos. A sua voz doce permite-me voar perante aquele emaranhado de caracóis que se vislumbra à minha frente. Chama-se Alexandre, reparo que só tem uma perna, mas pelo o que soube é o mais vivaço de todos. - Se calhar ele tem medo das minhas muletas. (referia-se ao meu filho mais novo, Tomás com 1 ano). - Não. Digo-lhe. - Porquê? - Porque toda a gente tem medo, ninguém se aproxima de mim, quando vêm as muletas.
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    P á gi n a | 20 Aquelas palavras, fizeram-me abanar, senti vontade de o abraçar, aqueles olhos sedentos de amor e carinho, fizeram-me oscilar. - Não te preocupes, ele não tem medo, ele até se ri para ti. Aqueles olhos de um momento para o outro encheram-se e brilharam, durante o resto do tempo que lá estive, teve sempre ao lado dele. Duas meninas mais velhas (ambas com 18 anos), a Sandra e a Dulce, vieram pegar no Tomás ao colo, andaram com ele para cima e para baixo. Os rapazes mais velhos, foram a maior dificuldade, percebi que as suas atitudes eram leis para os mais novos. Um sentimento de respeito incrível. percebi que seria através deles que teria de ganhar a sua confiança. Tomei uma decisão, os mais velhos têm autorização de fumar, desde que acompanhados com algum monitor. Aproveitei isso, em meu próprio benefício. Sentei-me no chão ao lado deles, meti conversa sobre música. O gelo foi-se quebrando. Ao final daquela tarde, tinha conseguido muito, recebi os parabéns dos monitores. Até eu própria estava feliz e surpresa. Passei a ser um deles. Vi, com atenção o carinho que as meninas continuavam a prestar ao meu filho mais novo fazendo as delícias daquelas carinhas larocas. Fizeram questão de lhe dar a papa. senti-me feliz, tinha quebrado o gelo. Olhei com carinho, o meu filho mais velho jogava à bola com uns amiguinhos que fizera. Conversei com os monitores, amanhã voltarei." Dia dois (diário de bordo): " Hoje aprendi muito com estes miúdos. Aprendi a olhar de forma diferente, a olhar para cada um deles, a aprender através de cada um. Quando cheguei fui recebida pelos mais novos, esperavam com ansiedade a minha chegada. Sentados no chão outros em cadeiras, formavam pequenos grupos à espera da minha suposta aula. Os mais velhos com um ar de "seca", olhavam para mim e de vez em quando "atiravam bocas" pelos minutos que demorou ainda a instalar o power point no computador. Senti-me nervosa. Apesar dos largos anos de experiência que tenho como professora, senti-me julgada. Continuei. As luzes apagaram-se e começaram a surgir
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    P á gi n a | 21 inúmeras imagens, umas após outras comecei a explicar toda a construção das mandalas. Comecei a ver braços no ar, parei e dei-lhes a palavra. Uns atrás dos outros, as perguntas eram imensas...."e os monges têm paciência para fazer isso das mandalas?", "e como partem as pedras para ficar em pó?", "ai, eu não conseguia fazer isso assim tão bonito!". Era extraordinário sentir aquelas caras deslumbrantes a olhar para as imagens e a fazer perguntas. O filme acabou e pedi-lhes para pintar uma mandala que lhes tinha trazido. Ouvi inúmeros comentários "eu não sei se consigo", "e pinto de que cor?", "monitora, como vou ter tempo para pintar isto?", expliquei-lhes que o tempo era indiferente, que se deixassem ir, tivessem em atenção as cores que mais os simbolizavam e a partir daí começaria a sua viagem. Achei que era capaz de conseguir tirar inúmeras fotografias...inúmeros vídeos... mas com estas crianças foi impossível, tinha de fazer parte do grupo. Tinha de pertencer a eles. Pousei a máquina e sentei-me ao lado deles. à medida que iam desenhando, iam conversando comigo, contando porque estavam nas instituições, porque não estavam com os seus pais. percebi que os mais pequenos, sentiam saudades dos pais. Sabiam que estavam melhor nas instituições, mas a falta do pai e da mãe ao lado é um bem precioso. Percebi que nenhum estava para adopção, os pais não queriam. Mas os mais velhos até nem queriam regressar. Senti tristeza, naqueles olhares. Senti vontade de os trazer a todos comigo. Hoje foi um dia muito intenso, para mim, porque vivenciei uma realidade que não estava à espera. Se eu pudesse guardava-os a todos. perto de mim..."
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    P á gi n a | 22 Dia três (diário de bordo): " Hoje foi o dia mais difícil para eles, vimos um vídeo de uma pintora e a seguir quando lhes pedi para que criassem uma mandala que simbolizasse cada um, começaram-se a ouvir reclamações "não consigo", "para que quer saber como eu sou?", "não sei se sou capaz". Umas atrás das outras começaram a turbilhar dentro de mim. Pedi-lhes silêncio, expliquei-lhes que eram livres de não o fazer. Não iria impor nada, estava apenas a pedir um desenho. deixo aqui alguns comentários que me marcaram. A Inês tem 11 anos, no início começou por pintar a mandala toda em cor de rosa. Puxou- me por um braço e ao meu ouvido disse-me "monitora eu não sou toda cor-de-rosa". larguei tudo e sentei-me com ela. Perguntei de que cor era. Disse-me depois de muito pensar que "eu sou verde...sim verde como a Natureza". Perguntei-lhe " e de um só verde ou vários verdes?" "muitos....sim sou muitos verdes". Propus que fossemos buscar os tais verdes, senti a sua mão na minha, e deixou-se ir. Senti-me feliz, pelo voto de confiança. Sentámo-nos, à medida que ia pintando, ia contando coisas, até que disse "eu sou como o mar, como as ondas do mar, umas vezes sou calminha outras não" Adorei aquela expressão. Fui buscar os azuis. No final, orgulhosa do seu desenho, mostrou-mo.
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    P á gi n a | 23 A Mariana tem 11 anos, muito agressiva, conflituosa, disse-me que não pintava, porque não queria. reparei que tinha pintado os braços dela, cheios de corações, mostravam um amor de infância platónico, o qual ninguém poderia saber. Perguntei-lhe se estava apaixonada "não pode contar a ninguém é segredo"disse-me. Prometi-lhe que não faria. Chamei-a para lhe mostrar as minhas mandalas, também eu quando não quero que ninguém saiba o que penso, por vezes escrevo frases, palavras, ou desenhos que só eu sei o que significa. Perguntei-lhe se não era capaz de fazer o mesmo. Representar aquele amor enorme que a consumia. Este foi a sua representação. Dia quatro (diário de bordo): Hoje tinha planeado inúmeras coisas, mas os miúdos surpreenderam-me! Estavam todos à minha espera, fizeram-me uma surpresa. Preparam uma pequena festa, tinham prendas (que a associação comprou por eles, apesar de terem sido escolhidas por eles) para oferecer, aos monitores, uns aos outros e .....a mim....Senti uma alegria estonteante, não estava á espera. Senti-me que nem Maria Madalena e chorei quando me ofereceram um fio... com UMA MANDALA. Beijos, abraços, lágrimas, risos, aquela sala encheu-se de uma energia tão forte que quase que rebentava com o recinto. Era o seu último dia. Ofereci-lhes as mandalas que estive a fazer durante quase toda a noite. Receberam a prenda com o maior carinho. Percebi que não estavam à espera. Vou sentir a falta deles. Apesar do pouco tempo que estive com eles, foi sentido, foi profundo. Aprendi a dar valor a pormenores que se calhar não percebia. Aprendi a confiar neles. Sinto que eles aprenderam a acreditar....sim ACREDITAR que são capazes de fazer coisas bonitas, mesmo no mundo tão negro onde acham que estão. Acho que esta foi a maior experiência de ambas as partes. Eu conseguir transmitir, que todos são capazes de fazer uma obra de arte e principalmente de TODOS acreditarem que são capazes de a fazer..."
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    P á gi n a | 24 7. A interpretação de cada um(alguns exemplos): Alexandre 9 anos O Alexandre retracta-se como uma criança escura (preta), por ser mulata. Acha que não existe cor na sua vida. Quando se retracta junto dos outros (1ª imagem) sente-se integrado. Ana Carina 14 anos A Ana é pouco expansiva, fala muito pouco, por vezes acanhada. Prefere a instituição a voltar para junto dos pais.
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    P á gi n a | 25 Dulce 18 anos A Dulce é uma rapariga amorosa, muito expansiva. Não fez a 2ª mandala por estar sob o efeito de medicação (não me foi facultada o motivo da medicação). Inês 11 anos Retracta-se como sendo verde e azul. Mantêm o mesmo raciocínio de associação de cores em ambas as mandalas. Micael 11 anos O Micael quando se retracta junto dos outros é um menino feliz. Quando é o seu Eu, utiliza o preto. Confessou-me que descobriu que a mãe tem um cancro e quer voltar para junto dela. Sandra 18 anos Retracta-se de cores cinzenta e rosa, porque acha que é feliz na instituição apesar de ter de sair por fazer agora 18 anos. Retractou o Eu (2ª imagem) como se fosse um caos a sua vida agora. Maria do Rosário (monitora) Considera que o que a faz feliz é estar com estes meninos, apesar de saber que é uma coisa que a consome emocionalmente. Considera-se feliz (verde) por trazer a esperança até eles.
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    P á gi n a | 26 8. Resultados da experiência: A análise feita após toda experiência vivida ao longo destes quatro dias, permitiu-me rever o provérbio chinês, disponibilizada pelo professor Amílcar Martins (Martins: 2002: 21) Diz-me e eu esquecerei Ensina-me e eu lembrar-me-ei Envolve-me e eu aprenderei A vida de um pedagogo é uma caixinha de surpresas, a todo o instante somos bombardeados por novos alunos, novas tendências, novas metodologias, mas nunca estamos preparados para vivenciarmos estas realidades sociais tão descabidas num mundo que se diz tão desenvolvido. Estes jovens, que perderam confiança nas pessoas que as trouxeram ao mundo e que deveriam zelar constantemente por elas. São as primeiras a falhar. As instituições que as recolhem, também não sabem dar amor e afecto de pai e mãe. Pelos corajosos voluntários, a que ninguém lhes dá o mérito que merecem, por desenvolverem actividades e experiências para estes jovens. Pela palavra de apoio que todos deveríamos dar a estes jovens para eles ACREDITAREM em si, que são capazes de conquistar o mundo através da Arte. Que são capazes de voar mais alto. Foi isto que eu aprendi, aprendi a ser melhor, um pouco mais e também eu vou subindo mais um degrau desta enorme escadaria, tentando seguir lado a lado destes jovens, dando palavras de amizade, ternura e confiança. Para juntos aprendermos a fazer um mundo melhor. Acredito que esta pequena experiência me fez perceber, qual o caminho a seguir na minha proposta de dissertação e onde poderei estar a falhar e onde devo melhora
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    9. Referências Bibliográficas: ARNHEIM,Rudolf (1980). Arte e Percepção visual: uma psicologia da visão criadora. Thompson learning BARRET, Gisèle (1992). Pédagogie de l'expression dramatique. Montréal: Recherche en expression. BODGAN, Robert e BIKLEN, Sari (2006), Investigação Qualitativa em Educação – Uma Introdução à Teoria e aos Métodos. Porto. Porto Editora. CARMO e FERREIRA (1998, pp. 175-178) artigo cedido pela docente da disciplina de Metodologias de Investigação Educacional, Universidade Aberta CLÉMENT, Élisabeth e outros (1994) Dicionário prático de Filosofia. Terramar - Lisboa CRAFT, Anna (2004). A Universalização da criatividade. In Cadernos de Actividade: Criatividade e Educação. Associação Educativa para o desenvolvimento da Criatividade – Lisboa. CROSSMAN, Sylvie and BAROU, Jean-Pierre (1995). Tibetan Mandala: Art and practice the wheel of time. Konecky & Konecky CURRÍCULO NACIONAL DO ENSINO BÁSICO – Competências essenciais. (2001). Lisboa. Departamento do Ensino Básico do Ministério da Educação. DIAS, J.M.Barros (2004) Ética e Educação. Universidade Aberta – Lisboa ECO, Humberto (1971). A Definição de Arte. Lisboa. Edições 70. FERNANDES, Arménio. Projecto ser mais – Educação para a sexualidade online (artigo). FERNANDES, Domingues (1991). Notas sobre os paradigmas da investigação em Educação. Artigo publicado Noesis (18), pp.64-66. FERNANDES, Luís (2002: 26-27). Em, CARIA, T. (2002) (org), Experiência etnográfica em Ciências Sociais, Porto, Edições Afrontamento. FIORAVANTI, Celina (2004) Mandalas 32 caminos de sabiduría. Pluralsingular Ediciones, S.L. Madrid – Espanha FONSECA, Victor da (2001) Cognição e Aprendizagem. Colecção: Educação para o século. Rainho e Neves, Lda – Lisboa
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