A Lenda da Imortalidade da Alma Página 1
SUMÁRIO
PREFÁCIO...................................................................................................................................................................................4
I-Um testemunho pessoal.........................................................................................................................................4
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEMA.............................................................................................................13
I –Introdução.................................................................................................................................................................13
II–A Primeira Mentira..............................................................................................................................................13
III–Por que a mentira?.............................................................................................................................................21
IV–Como o conceito de “alma imortal” entrou no Judaísmo............................................................29
CAPÍTULO 2 – OS PAIS DA IGREJA E A IMORTALIDADE DA ALMA...............................................37
I–Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma?.............................................................................37
II–A Dormição de Maria e a Imortalidade da Alma ...............................................................................48
CAPÍTULO 3 – CONCEITOS BÍBLICOS SOBRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO................................51
I–Conceitos com relação à alma ........................................................................................................................51
II–Qual é o conceito correto?...............................................................................................................................51
III–O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]? .......................................................53
IV–A morte da alma...................................................................................................................................................75
V–Conclusão..................................................................................................................................................................94
VI–Sobre os significados secundários para a alma................................................................................95
CAPÍTULO 4 – A CRENÇA DA IMORTALIDADE DA ALMA NO ANTIGO TESTAMENTO .103
I –Introdução ao Capítulo...................................................................................................................................103
II–Moisés, Jó e a Imortalidade da Alma......................................................................................................104
III–Os Livros Poéticos...........................................................................................................................................109
IV–A posição dos Livros Proféticos..............................................................................................................120
V–Saul conversou com Samuel depois de morto?...............................................................................123
VI–A alma no lugar de silêncio........................................................................................................................129
VII–Conclusão............................................................................................................................................................132
VIII–Estavam enganados os escritores do Antigo Testamento?.................................................136
CAPÍTULO 5 – A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA NO NOVO TESTAMENTO.......146
I–Introdução ao Capítulo....................................................................................................................................146
CAPÍTULO 5.1 – JESUS PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?...............................................147
II–A Parábola do rico e do Lázaro.................................................................................................................147
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III–A Origem pagã do Hades.............................................................................................................................154
IV–O que é o Sheol?................................................................................................................................................156
V–O Significado da Parábola.............................................................................................................................160
VI–Deus de vivos, não de mortos – Argumento contra ou a favor da imortalidade da
alma?...............................................................................................................................................................................174
VII–Mateus 10:28 e a destruição da alma ................................................................................................177
VIII–Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso?......................................................................................182
IX–Um espírito não tem carne e ossos.......................................................................................................196
CAPÍTULO 5.2 – O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU?..................................................................199
X–Sobre a entrada no Reino ou na condenação....................................................................................199
XI–Sobre Imortalidade e Vida Eterna.........................................................................................................208
XII–Sobre o Estado Final dos ímpios...........................................................................................................210
XIII–A Ressurreição de Lázaro........................................................................................................................211
CAPÍTULO 5.3 – OS APÓSTOLOS PREGAVAM A IMORTALIDADE DA ALMA?................216
XIV–Atos dos Apóstolos.......................................................................................................................................216
CAPÍTULO 5.4 – PAULO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?............................................225
XV–Ausente do corpo e presente com Cristo.........................................................................................225
XVI–A realidade da ressurreição em contraste com a alma imortal........................................237
XVII–A consolação do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses..........................................................245
XVIII–“Buscando” aquilo que nós já temos?...........................................................................................250
XIX–Deus, o único que possui a imortalidade........................................................................................253
XX–Levou cativo o cativeiro..............................................................................................................................256
XXI–A Bíblia e as Experiências Fora do Corpo.......................................................................................260
XXII–A Entrada no Reino é somente na Ressurreição......................................................................262
XXIII–Últimas considerações dos ensinos de Paulo contra a imortalidade da alma......271
CAPÍTULO 5.5 – AFINAL, ALGUM APÓSTOLO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?
.................................................................................................................................................................................................277
XXIV–O autor desconhecido de Hebreus também desconhecia a Imortalidade da Alma
.............................................................................................................................................................................................277
XXV–Pedro pregou a Imortalidade da Alma?.........................................................................................289
XXVI–João pregou a Imortalidade da Alma?...........................................................................................300
XXVII–Mais pilares do imortalismo sendo derrubados...................................................................304
CAPÍTULO 6 – O SONO DA MORTE.....................................................................................................................319
I–A Metáfora do Sono............................................................................................................................................319
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II–O “dormir” é referência somente para o corpo?.............................................................................323
CAPÍTULO 7 – A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS.......................................................................................329
I-A Ressurreição é Física?...................................................................................................................................329
II–O que é a “Ressurreição”?.............................................................................................................................341
III–A recompensa é no momento da morte ou somente na ressurreição? ..........................343
IV–Morte – o maior inimigo..............................................................................................................................345
V–O que acontece na Ressurreição?............................................................................................................346
CAPÍTULO 8 – A DOUTRINA DO INFERNO E DOS ACONTECIMENTOS FINAIS...................358
I-Introdução ao Capítulo.....................................................................................................................................358
CAPÍTULO 8.1 – INFERNO: TORMENTO ETERNO OU ANIQUILACIONISMO?.................361
II–Conceitos errôneos sobre o Inferno......................................................................................................361
III–O Repertório Bíblico de Aniquilamento.............................................................................................363
IV–Analisando as passagens utilizadas pelos imortalistas............................................................373
V–O Aniquilamento dos Ímpios......................................................................................................................395
VI–A Lei da Proporcionalidade.......................................................................................................................410
VII-A Lei Moral..........................................................................................................................................................419
VIII–Conclusão..........................................................................................................................................................422
CAPÍTULO 8.2 – OS ACONTECIMENTOS FINAIS...................................................................................425
I–Onde passaremos a eternidade?................................................................................................................425
II-Novos Céus e Nova Terra..............................................................................................................................428
CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................................................................433
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PREFÁCIO
I-Um testemunho pessoal
“Se as pessoas que morreram em Cristo já estão no Céu, então qual a necessidade da
ressurreição? Por que elas precisariam deixar o Céu, voltar para o corpo sepultado,
ressuscitar novamente e retornar para o Céu? Será que é por causa deste ‘dilema
doutrinário’, impossível de ser resolvido, que não se vê muita pregação sobre a ressurreição
nas igrejas cristãs que creem no estado consciente dos mortos?”1
Quem estiver lendo este livro pela primeira vez pode se surpreender em saber que seu
autor não é adventista ou testemunha de Jeová, mas um evangélico comum que cria na
imortalidade da alma, a exemplo do que a grande maioria dos evangélicos ainda creem. A
noção de que Deus tenha implantando um elemento imortal no homem, que sobrevive à
parte do corpo na morte e volta para Deus em estado incorpóreo esperando a ressurreição
em um estado intermediário é ponto de fé em muitas religiões, inclusive cristãs.
Nasci e cresci aprendendo a doutrina da imortalidade da alma. Talvez a primeira coisa que
eu tenha ouvido sobre a morte é que a alma é imortal. Sobre ressurreição? Não, isso não
era muito importante. Um mero detalhe desnecessário e de menor importância, que não era
muito ressaltado nas igrejas. Tinha apenas um leve conhecimento sobre ressurreição, mas
sobre imortalidade da alma estava na ponta da língua. Fui doutrinado, tanto pelas igrejas
que eu frequentava quanto pelos sites apologéticos evangélicos na internet, que a alma era
imortal.
Quando comecei a construção de meu primeiro site2, em 2009, eu dediquei uma página
para “provar” a imortalidade da alma, baseando-me naquelas mesmas meia dúzia de
passagens bíblicas isoladas que todo bom imortalista sabe de cor: partir e estar com Cristo,
as “almas” debaixo do altar clamando vingança, o ladrão da cruz, a parábola do Lázaro, os
espíritos em prisão, etc. Passava essas passagens no site achando que era tudo aquilo que
a Bíblia tinha a dizer sobre o tema. E, nos debates, sustentava essa mesma posição.
Antes de contar como que eu deixei de crer na imortalidade da alma, será necessário
começar contando como que tudo começou. Uma daquelas perguntas que todo cristão tem
em mente mas que apenas alguns poucos têm coragem de assumi-la é sobre como que um
Deus cheio de amor, graça, justiça e misericórdia poderia deixar queimando literalmente
entre as chamas de um lago de fogo e enxofre por toda a eternidade os pecadores que
durante alguns anos não serviram a Cristo em suas vidas terrenas.
Não é preciso ser um filósofo para entender que tal punição seria injusta. Um tormento
infinito por pecados finitos não entrava na minha cabeça, pelo menos não com o Deus que
nos é revelado nas Escrituras, que tanto amou o mundo ao ponto de dar o Seu único Filho
por todos nós. Se nem eu ou você seríamos tão cruéis e implacáveis ao ponto de mandar o
nosso maior inimigo para literalmente as chamas de um fogo eterno, para sofrer
terrivelmente para sempre e sem volta, quanto menos Deus, que ama muito mais essa
pessoa do que eu ou você!
1 MEDEIROS, Gilson. Jesus falou mais sobre o inferno do que sobre o Céu. Será? Disponível em:
<http://prgilsonmedeiros.blogspot.com.br/2009/07/cuidado-com-o-fogo-do-inferno.html>. Acesso em:
22/08/2013.
2 apologiacrista.com
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As explicações que ouvia sobre isso não me eram satisfatórias. Uns diziam que o inferno foi
criado para o diabo e seus anjos, e que “por acidente” os não-cristãos vão acabar
partilhando do destino do diabo e seus anjos. Mas como Deus é onisciente e sabia muito
bem de todo o desenrolar da história humana antes mesmo de criar o homem, fica ainda
mais incoerente crer que ele não tenha previsto esse inferno de tormento eterno para os
homens pecadores. Na verdade, essa explicação não ajudava nada.
Por esta época, eu comecei a me aventurar a ler vários daqueles relatos de vida após a
morte. Li desde pessoas que supostamente foram ao Céu, até pessoas que passaram pelo
inferno e voltaram (há também pessoas que dizem ter visitado o purgatório e o limbo).
Claro que a maior ênfase e quantidade de relatos era deste último, o inferno. Li desde as
visões de Santa Faustina do inferno, até a “divina revelação do inferno” de Mary Baxter, os
“23 minutos no inferno” de Bill Wiese, dentre muitas outras “revelações”, as quais eu me
amarrava, e tinha toda a credulidade do mundo de que tais visões eram reais.
Na época, eu não tinha qualquer conhecimento bíblico sério sobre o que era realmente o
inferno bíblico, apenas tinha aquela visão tradicional de inferno, herdada a nós pela Igreja
Católica na Idade Média, ao maior estilo “Comédia de Dante”. Para mim, o inferno era um
local subterrâneo, onde as almas ou espíritos imortais dos pecadores desciam, e lá eram
atormentados por demônios, por fogo, por torturas colossais de todos os tipos. O inferno
era praticamente uma Disneylândia do demônio, que se divertia à beça torturando os
pecadores.
Em outras palavras, ao invés de o inferno ser uma punição para o demônio (pois
foi “preparado para o diabo e seus anjos” – cf. Mt.25:41), era uma total curtição para ele.
Mas não era somente isso que me estranhava nestes relatos “infernais”. Não era preciso ter
nenhum conhecimento teológico para perceber que os relatos eram sempre contraditórios
entre si (portanto, mutuamente excludentes), e em quase todos os casos as pessoas
encontravam por lá personagens famosos, como Michael Jackson, John Lennon, o papa João
Paulo II, dentre outros. E os “espíritos”? Estes sangravam, vestiam roupas humanas,
tinham até pele e ossos.
Tudo isso me parecia muito estranho, para dizer pouco. Mas o ponto em comum em todas
as visões do inferno é que a pessoa que foi supostamente levada até lá estava ao lado de
Jesus, que se mostrava profundamente triste com o sofrimento daquelas pessoas, quase
que arrependido, como se não tivesse sido ele próprio que tivesse preparado aquele lugar e
soubesse de antemão o destino que os não-salvos teriam ali. Mas dizia que naquele
momento já não restava mais nada a ser feito, pois aquelas pessoas já estariam
condenadas para passarem toda a eternidade naquele lugar. Apenas mais tarde fui entender
que os mortos só serão julgados e condenados na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1;
Jo.5:28,29; At.17:31).
Contudo, ao invés de me conformar com essa explicação, isso piorava ainda mais as coisas,
pois passava a ideia de um Deus que é incapaz de solucionar os problemas ou resgatar as
pessoas daquele lugar terrível, que sabia premeditadamente que aquelas pessoas iriam
para aquele lugar, e, ao invés de decretar um juízo justo e correspondente aos pecados de
cada um, decide por um tormento eterno para todos, indiscriminadamente. Um rapaz de
doze anos que não conheceu Jesus teria a mesma pena de Adolf Hitler, que exterminou os
judeus.
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O diabo, autor do pecado e que peca desde o princípio (cf. 1Jo.3:8), ficaria se divertindo
torturando aqueles que pecaram somente durante algum tempo. Todas as respostas que lia
e ouvia não serviam para melhorar a situação, mas apenas serviam para acentuar o
problema. A base filosófica podia às vezes parecer racional, mas nunca atingia o cerne da
questão. E, com medo de questionar se isso é justo ou não e ir parar neste local infernal,
tinha receio de questionar o próprio Deus sobre isso, ou de perguntar a outras pessoas.
Afinal, o motor que rege muitos crentes para viverem certinho não é Deus ou a vida eterna,
é o fogo do inferno. Muitos crentes querem ser santos à marra, por força de obrigação e
não por livre e espontânea vontade de amar a Deus, porque tem medo de morrer no
pecado e irem parar neste local infernal. Sendo assim, a real motivação para servir a Cristo
acaba sendo escapar do inferno, e não encontrar seu Salvador. Para elas, se um tormento
eterno não existisse, valeria mais a pena viver no pecado!
E cristãos firmados sobre o medo do inferno não são cristãos verdadeiros. O cristão tem que
estar firmado em Cristo, e somente nEle. Mas isso é muito difícil para alguém que tem em
mente a ideia de que, se cometer algum deslize, tem um local embaixo da terra com vários
seres passando por tormentos colossais nas mãos de criaturas demoníacas com um garfo
na mão, junto a um fogo que queima espíritos incorpóreos para sempre.
Seria mais justo que Deus punisse cada pecador com o tanto correspondente aos seus
pecados do que enviar todos juntos para uma mesma condenação de um tormento infinito
por pecados finitos. Da mesma forma que eu considerava injusto que não houvesse castigo
nem punição pelos pecados, igualmente achava injusto que essa punição fosse eterna para
todos, indistintamente. A solução para isso seria um castigo proporcional aos pecados de
cada um, e não uma extinção de vida antes de pagar pelos pecados, e muito menos um
tormento eterno, que só serviria para perpetuar o pecado, os pecadores, o mal, as
blasfêmias e o tormento no Universo para sempre, ao invés de eliminá-lo de uma vez por
todas.
Foi então que, lendo um artigo do doutor Samuele Bacchiocchi (o qual eu faço questão de
citar neste livro em várias ocasiões), eu descobri a verdade sobre o inferno, que consiste
em um castigo proporcional às obras e em aniquilacionismo, e não em um tormento
eterno. É claro que isso não era tudo. Comecei a estudar o assunto e perceber a falácia dos
argumentos imortalistas para um tormento eterno, os quais serão examinados ao longo
deste livro. Descobri, então, que Deus não castiga da mesma forma todos os pecadores com
um tormento eterno para todos indistintamente, mas pune a cada um com o tanto
correspondente pelos seus pecados.
Descobri que Deus não dá “infinitos açoites” em ninguém, mas que uns receberão “muitos
açoites” (cf. Lc.12:47), enquanto outros, por sua vez, receberão “poucos açoites” (cf.
Lc.12:48). Descobri, finalmente, a linguagem bíblica que expressa de maneira grandiosa a
justiça de Deus: que os ímpios serão castigados pelo tanto correspondente aos seus
pecados e, em seguida, eliminados, e não atormentados para sempre.
Essa descoberta foi duplamente libertadora: primeiro, me libertou de um engano bíblico
tremendo que é a crença em um inferno de tormento eterno e consc iente, baseando-me em
uma ou outra passagem isolada, quando a Bíblia por completo rejeita tal doutrina. Segundo,
ela me libertou de outro tormento, o psicológico, pois pude ver novamente como que o
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amor e a justiça de Deus andam de mãos dadas, e que Ele não é incoerente com relação ao
destino eterno dos perdidos. Como o próprio Bacchiocchi disse, “a recuperação do ponto de
vista bíblico do juízo final pode soltar a língua dos pregadores, porque podem pregar esta
doutrina vital sem receio de retratar a Deus como um monstro”3.
Mesmo após crer na crença bíblica da destruição eterna dos ímpios e rejeitar a tese do
tormento eterno, o fato é que eu continuei crendo no estado intermediário, onde as almas
dos justos já estariam com Deus e as dos ímpios já estariam no inferno (ainda que não seja
eternamente). Sim, é incoerente crer nisso, pois se a alma sobrevive à morte do corpo é
porque ela não morre; ou seja, que ela é imortal. Mas se ela morre na segunda morte,
então ela não é imortal! Em outras palavras, crer que a alma sobrevive após a morte e ao
mesmo tempo crer que ela perecerá no dia do juízo é ser incoerente: seria o mesmo que
dizer que a alma morre e não morre, que ela é e não é imortal.
Portanto, de duas, uma: ou a crença no tormento eterno do inferno é verdadeira, ou então,
se não é, a própria imortalidade da alma em um estado intermediário é falsa. Demorou
mais algum tempo para descobrir isso, e dessa vez a bomba veio com um
nome: ressurreição dos mortos! Sim, essa crença tão esquecida e praticamente abandonada
pelos pastores e igrejas em nossos dias foi exatamente aquilo que me levou rejeitar a
imortalidade da alma.
É certo que as igrejas que pregam a imortalidade da alma, em sua maioria, não rejeitam a
ressurreição dos mortos. Porém, isso não muda o fato de que ambas as doutrinas são
mutuamente excludentes. Os gregos da época de Cristo, que difundiram enormemente a
tese da alma imortal para o mundo, não criam na ressurreição dos mortos, e por isso
zombaram de Paulo no Areópago (cf. At.17:32). O teólogo luterano Oscar Cullmann logo
percebeu esse contraste e escreveu o livro: “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos
Mortos?”, onde ele aborda tal contraste abismal entre ambas as doutrinas.
O fato é que a imortalidade da alma anula completamente o valor e a importância (e
principalmente a necessidade) da ressurreição. Prova disso é que raramente se vê
pregações colocando o foco na esperança da ressurreição nos dias de hoje. Desde quando a
doutrina pagã na imortalidade da alma entrou no Cristianismo, o foco passou a ser a
esperança da imortalidade da alma, e não mais a esperança de ressurgir dentre os mortos
na manhã da ressurreição do último dia. O foco mudou completamente.
Da Igreja Primitiva, onde nunca se ouviu falar de “alma imortal” [psiquê athanatos], e que
pregava que a única esperança dos cristãos era na ressurreição, para a igreja atual, onde
não se ouve mais pregações sobre a ressurreição, onde ninguém fala que a sua maior
esperança é em ressuscitar dos mortos, onde a crença na alma imortal suprimiu a crença
fundamental na ressurreição. Rejeitar a imortalidade da alma não é apenas repudiar uma
doutrina falsa oriunda do paganismo grego, mas é engrandecer e enaltecer novamente a
ressurreição dos mortos, assim como era crida na Igreja primitiva.
Diante disso, chegou o dia em que eu parei para ler 1ª Coríntios, capítulo 15. Nunca vou me
esquecer daquele dia. Nunca algum capítulo mexeu tanto comigo. A cada verso que lia, a
cada compreensão do ensino de Paulo sobre a ressurreição, eu ficava admirado, e ao
mesmo tempo espantado – como nunca havia percebido aquilo antes? Era difícil acreditar
3 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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que a Igreja se distanciou tanto daquele ensino. Era difícil acreditar que a cada versículo eu
me convencia cada vez mais que imortalidade da alma não condiz com ressurreição dos
mortos.
Confesso que fiquei pálido quando li no verso 18 Paulo dizendo que, se não fosse pela
ressurreição, os que dormiram em Cristo já pereceram. Confesso que fiquei mais pálido
ainda quando li no verso seguinte que a nossa esperança em Cristo se limitaria somente a
esta presente vida, se não existisse a ressurreição. Quanto mais eu lia, mais me convencia
que, se não fosse pela ressurreição do último dia, não existiria nada depois da morte. Tanto
é que Paulo diz que, sem ressurreição, seria melhor comer, beber e depois morrer (v.32), e
estaríamos correndo perigos à toa (v.30).
Nunca havia visto um imortalista pregar essas passagens. E até hoje nunca vi alguém as
explicar satisfatoriamente, à luz de sua crença na imortalidade da alma. Afinal, Paulo
poderia ter dito que viveríamos no Céu do mesmo jeito sem a ressurreição, estando com
nossas almas no Paraíso sem um corpo. Para os imortalistas, a ressurreição é isso: um
detalhe desnecessário. Para que ressuscitar um corpo morto, se já estaríamos no Céu? De
qualquer forma, na teologia imortalista, a ressurreição é desnecessária e inútil, pois
estaríamos com Deus no Céu com ou sem um corpo físico glorioso.
Estaríamos desfrutando das delícias do Paraíso para sempre, do mesmo jeito. Estaríamos
com Deus eternamente, independentemente de um corpo se levantar dos mortos ou não.
Mas, se a alma não é imortal, então a ressurreição é totalmente necessária. Sem ela, os
mortos já teriam perecido para sempre (v.18). Sem ela, não haveria outra vida após a
morte, e a nossa esperança seria somente esta vida presente (v.19). Sem ela, é inútil sofrer
perseguições por amor a Cristo (v.30). Sem ela, a própria vida é inútil (v.32). Quanta
diferença entre imortalidade da alma e ressurreição dos mortos!
Depois, li os versos 51-54, onde vejo Paulo dizendo que seremos dotados de imortalidade
somente após a ressurreição, pois ela não é algo que já trazemos conosco em nossa
natureza no presente momento. E vejo também que a morte não é a libertadora da alma
imortal, mas o maior inimigo a ser vencido (vs. 54-55), e que só é tragada na ressurreição
(v.54). Quão importante, gloriosa e fundamental é a ressurreição!
Quando descobri o valor da ressurreição no Cristianismo, o tanto que ela é importante e
como ela foi sendo tão sistematicamente abandonada até chegar aos nossos dias (a tal
ponto que raramente se vê pregações sobre a ressurreição hoje em dia), tentei entender o
porquê que ela foi tão esquecida. Afinal, isso tudo não poderia ter acontecido do nada, sem
uma razão de ser. Ao lermos o livro de Atos vemos que em 2/3 das ocasiões em que a
palavra “esperança” entra em cena ela está relacionada à esperança da ressurreição dos
mortos, no último dia.
O próprio Paulo disse que “nessa esperança”, isto é, na esperança da “redenção do nosso
corpo”, é que “fomos salvos” (cf. Rm.8:24), que tinha “a mesma esperança desses homens,
de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos” (cf. At.24:15), e de que
estava sendo julgado “por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos” (cf.
At.23:6). Se a esperança da ressurreição era o foco da Igreja primitiva e foi perdendo
espaço até os dias atuais, é porque algo aconteceu, porque alguma outra coisa foi ganhando
este espaço.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 9
E, ao estudarmos a história da Igreja, vemos que no final do século II os filósofos cristãos,
admiradores da filosofia de Platão, decidiram criar um meio de tentar conciliar o ensino da
ressurreição com a imortalidade da alma, inventando um estado intermediário, onde as
almas esperariam em forma incorpórea a ressurreição dos seus corpos. A partir de então, a
imortalidade da alma foi ganhando cada vez mais espaço, e a ressurreição perdendo cada
vez mais. Pois, se a alma já vai para o Céu sem a necessidade da ressurreição, para que
existe ressurreição? A ressurreição seria desnecessária, pois já estaríamos na glória ou pelo
menos assegurados entre os salvos.
E tudo aquilo que Paulo disse aos coríntios em 1ª Coríntios 15 perderia completamente o
sentido e a razão de existir. Ao invés de Paulo estar pregando a necessidade da
ressurreição, ele estaria simplesmente pregando a existência dela. A ressurreição que a
Bíblia ensina é uma ressurreição não apenas física e real, mas necessária e fundamental. A
ressurreição crida pelos imortalistas, no entanto, é inútil e desnecessária (pois já estaríamos
no Céu antes dela e continuaríamos lá sem ela, mesmo se ela nunca existisse).
Esse evidente contraste entre os pontos de vista mortalista e imortalista em relação à vida
após a morte fica ainda mais acentuado quando vemos que, se de fato é apenas na
ressurreição que ganhamos vida, então essa deve ser a nossa maior esperança, mas se a
nossa alma já está no Céu antes dela e sem a necessidade dela, então a nossa esperança
não é a ressurreição dos mortos, como tão insistentemente pregavam os apóstolos, mas a
imortalidade da alma.
E é neste espantalho criado pelos imortalistas e apelidado de “ressurreição” que eles
acreditam: uma ressurreição desnecessária, sem razão lógica de existir, em que viveríamos
muito bem sem ela e onde é absurdo colocar “esperança” numa tão simples religação de
corpo com alma por ocasião da segunda vinda de Cristo. A maior razão deste livro existir
não é dizer que a alma morre, mas é anunciar a verdadeira ressurreição, retornando às
raízes da esperança cristã primitiva, voltando aos primórdios de quando a imortalidade da
alma estava das portas para fora da Igreja, e por essa mesma razão a ressurreição era o
foco de todo o pensamento apostólico e neotestamentário.
Para o inimigo, bastou inventar a mentira de que “certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4),
que o homem rapidamente deixou de lado, arquivado em algum lugar, a sua crença numa
ressurreição vindoura. Bastou ensinar que a alma não morre para trazer junto consigo todas
as outras heresias que vemos hoje: oração pelos mortos, culto aos mortos, intercessão dos
santos falecidos, reencarnação, consulta aos espíritos, purgatório, limbo, dentre outras
inúmeras heresias perpetuadas até os dias de hoje, tendo todas elas essa mesma base
inventada pelo maligno, de que existe vida consciente entre a morte e a ressurreição.
O que vemos, na verdade, é que todas as heresias têm como fundamento a crença de que a
alma sobrevive após a morte. Sem ela, nenhuma das maiores heresias citadas acima
existiria. Sem ela, Satanás não teria um pretexto para fazer com que o povo ascenda velas
aos mortos, beije imagens deles, se prostre diante delas, reze a alguém que já faleceu, ore
por eles ou os consulte. A imortalidade da alma foi a primeira mentira inventada por
Satanás na história da humanidade (cf. Gn.3:4), porque ela é a base e o fundamento de
todas as demais mentiras.
Na verdade, a maioria dos evangélicos perde tempo enquanto refuta a crença no purgatório,
intercessão dos santos, imagens, idolatria, culto aos mortos, dentre tantas outras heresias,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 10
pois elas são apenas a consequência de uma heresia maior. Todas elas
são consequências da crença na imortalidade da alma. Destruindo essa maior mentira,
todas as outras mentiras secundárias caem por terra, sem fazer qualquer esforço, como em
um efeito dominó. Enquanto os evangélicos apenas atacarem essas doutrinas em si
mesmas, não estarão fazendo qualquer progresso. Só conseguirão quando perceberem que
o mal só é cortado se for pela raiz: quando destruirmos a base e o fundamento de todas
essas heresias, que é precisamente a imortalidade da alma.
Em resumo, aqui escreve alguém que sempre foi doutrinado com os ensinos de imortalidade
da alma e tormento eterno, que sempre frequentou igrejas que criam e creem nisso, que
sempre ouviu isso a vida inteira, aí veio a Bíblia e mudou tudo. Como é que isso ocorre?
Somente quando estamos com a mente aberta para a verdade. O curioso é que eu já havia
lido 1ª Coríntios 15 diversas vezes antes daquele dia. Por que nunca havia notado nada
“diferente”? Porque estava com a mente fechada para a verdade.
Enquanto eu estava apenas seguindo uma orientação religiosa proveniente de tradições
humanas denominacionais de uma igreja X ou Y, eu podia ler mil vezes aquele capítulo, que
iria estar como que com um “véu” espiritual me cobrindo. Mas, uma vez que dispus em meu
coração o interesse de descobrir a verdade, e nada além da verdade bíblica, eu conheci a
verdade, e a verdade me libertou. Todos se deparam com a verdade, mas apenas alguns
poucos estão realmente abertos a aceitá-la. Da mesma forma que Cristo bate na porta do
coração de cada um de nós, mas só o aceitamos se estivermos dispostos a isso (cf.
Ap.3:20), o mesmo acontece com as verdades bíblicas. Certa vez um amigo meu comentou
o seguinte:
“Sabe o que acontece, Lucas? O problema é que a gente pode até ampliar alguma coisa
sobre isso, mas não vai pegar. Você, e nem eu, ou quem quer que seja, consegue falar tão
alto. A coisa talvez até mude, talvez, se quem padronizou o mandamento, no caso a Igreja
Católica, reverter o quadro, dizendo que houve um erro. Muitos recebem as mudanças com
alegria, satisfação, concordando com tudo, mas em apenas alguns dias elas voltam à crença
comum. Pode-se encher isso aqui de textos e mais textos que convençam as pessoas que
nada vai resolver. Que se encha isso aqui de argumentos que nos deixem com olhos
lacrimejantes de satisfação, com apenas dez dias sem tocar no assunto, as pessoas são
novamente empurradas para a crença tradicional ensinada há milênios, no que se refere a
esses assuntos”
Essa é a mais pura verdade, e é o que eu mais constato nestes tempos em que eu debato
sobre isso. A maioria das pessoas não segue a Bíblia, segue uma religião. Não segue Cristo,
segue o ensino denominacional mais tradicional. Não falo mal e nem quero desmerecer
nenhuma denominação, mas a verdade está somente na Bíblia. Isso vale tanto para
católicos, como principalmente para os evangélicos, que dizem seguir a Sola Scriptura.
O que vemos é que muitas pessoas não estão com a mente aberta para decidir pela
verdade bíblica. Elas já têm uma verdade pré-estabelecida na mente delas, oriunda da
tradição da igreja X, e defendem essa tradição com unhas e dentes, usando a Bíblia não
para descobrir a verdade que está nela, mas somente para encontrar pretextos e passagens
que possam corroborar com a crença da tradição. Ao invés de fazerem um estudo sério e
honesto, com a mente totalmente aberta para a verdade, elas já estão com uma verdade
pré-concebida na mente delas, e buscam apoio para essa verdade na Bíblia.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 11
Em outras palavras, a Bíblia não é a fonte da verdade para essas pessoas. A fonte da
verdade é a tradição denominacional, e a Bíblia é apenas um meio para dar pretextos para
essa crença. Sendo assim, não me assusta que tantas pessoas leiam 1ª Coríntios 15 a
exemplo de como fazem com inúmeras outras passagens das Escrituras que desmentem
claramente a imortalidade da alma, mas elas continuam batendo nessa mesma tecla.
Enquanto eu estive com a mente fechada, ainda que lesse 1ª Coríntios 15 ou ouvisse falar
sobre ressurreição, não a compreendia. Era como os discípulos, que ouviam Jesus falando
explicitamente a eles que iria morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas mesmo sendo assim
tão claro, eles mesmo assim não entendiam, pois o seu entendimento estava encoberto (cf.
Lc.9:45). Porém, quando estive com a mente aberta para a verdade, a quantidade
insuperável de evidências bíblicas era tão grande que precisei fazer um livro sobre isso.
Com a mente aberta para a verdade bíblica, não foi difícil achar uma riqueza bíblica que eu
jamais teria descoberto se não me lançasse nas Escrituras e mergulhasse nelas. Jamais
teria descoberto tudo isso se não fosse por estar com a mente aberta para a verdade
bíblica. É claro que a ajuda de apologistas experientes me ajudaram bastante neste
processo. Tenho que ser grato a Azenilto Brito (que gentilmente me apresentou o livro de
Bacchiocchi e que me ajudou muito com os seus brilhantes artigos sobre o tema), a
Samuele Bacchiocchi, a Leandro Quadros, a Oscar Cullmann e a tantos outros, em suas
maravilhosas defesas deste ponto sobre a vida após a morte.
Porém, acima de tudo, tenho que ser agradecido a Deus, por ter nos dado a Sua Santa
Palavra. Eu não tive nenhum sonho, nenhuma revelação, não vi Deus, não tive contato com
um anjo poderoso com uma espada na mão, não fui alvo de uma profecia e nem fui
arrebatado ao terceiro céu. Tudo isso que eu descobri não foi de alguma forma
extraordinária: foi somente lendo a Bíblia. Algo tão simples, mas tão pouco praticado por
muitos.
Fico imensamente agradecido ao Senhor por ter me dado a honra de militar por essa
doutrina tão abandonada de nossas igrejas nos dias de hoje, chamada ressurreição dos
mortos, e de poder combater a raiz de todas as heresias e a primeira de todas as mentiras,
chamada imortalidade da alma. É claro que isso me custou caro. Muito caro. Já fui chamado
de “herege” por causa disso não poucas vezes. Muitos outros evangélicos perdem o
prestígio e consideração que tem por mim por verem que eu prego uma coisa que vai
contra a tradição da igreja deles. Já sabia desse risco desde o início.
Se eu quisesse agradar a homens, estaria pregando aquilo que todo mundo gostaria de
ouvir. Se eu quisesse agradar a homens, estaria ensinando que “certamente não morrerás”.
Se a minha intenção em Cristo fosse de fazer amigos que dessem um tapinha nas costas e
me apoiassem em tudo o que eu dissesse, certamente estaria pregando que possuímos uma
alma, e não que somos uma (cf. Gn.2:7). Esse é o preço pago por pregar a verdade, e sei
que pagarei esse preço até o fim da minha vida.
Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se
tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me
confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. E, por essa mesma graça, hoje eu
fico muito feliz em ver que tantas pessoas já se libertaram dessa doutrina pagã, e hoje
estão livres para pregar a ressurreição e a vida em Jesus Cristo.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 12
E eu não sou o único. Poderia passar todo o dia mostrando inúmeros teólogos de diferentes
segmentos religiosos evangélicos imortalistas, mas que, através de uma leitura sincera e
honesta das Escrituras, adotaram a postura bíblica da mortalidade natural da alma humana.
Poderíamos referir aqui os nomes de Oscar Cullmann, Clark Pinnock, John Stott, John
William Weham, Edward Green, Philip Hughes, David Edwards, Basil Atkinson, Greg Boyd,
William Branham, Harold Camping, Charles Fitch, Roger Foster, Fudge Edward, Charles
Gore, Henry Grew, Homer Hailey, Emmanuel Pétavel-Olliff, Oliver Chase Quick, Ulrich Ernst
Simon, George Storrs, William Temple, dentre tantos outros eruditos e teólogos de renome,
que não eram adventistas nem testemunhas de Jeová, e que, mesmo fazendo parte de
denominações que pregavam a imortalidade da alma, adotaram a postura de mortalidade
da alma após um exame bíblico sério e honesto consigo mesmos.
Todos eles poderiam ter mantido a sua crença na imortalidade da alma, o que seria muito
mais fácil e confortável para eles. Mas, mesmo sofrendo não poucas vezes a oposição e
perseguição de ataques contrários, eles não puderam fechar os olhos para as tão grandes e
notáveis evidências bíblicas que combatem tão fortemente a crença na imortalidade da
alma, que pode até enganar a muitos com uma dúzia de versos isolados sem exegese, mas
que dificilmente resiste a um exame bíblico criterioso respeitando as normas da
hermenêutica bíblica.
É claro que ainda existem aqueles que hesitam, que perseguem, que chamam os outros de
hereges sem examinar a si mesmos, que olham torto, que são fechados para a verdade ou
que lerão este livro meramente na intenção de refutá-lo. Isso sempre existiu, e sempre
existirá. Paulo foi debochado pelos gregos, porque pregava a ressurreição dos mortos, e
eles a imortalidade da alma (cf. At.17:32). Por isso, não é de se surpreender que a mesma
coisa aconteça nos dias de hoje.
Mas a minha alegria é ver que não estou sozinho nesta batalha – estou cercado de tão
grande nuvem de testemunhas, entre leigos e eruditos, das mais diferentes denominações
religiosas, que cada vez mais estão abrindo os olhos para a verdade e se libertando do
engano. Destes, sou apenas mais um militante. Apenas mais um que, ao invés de iludir
você dizendo que certamente não morrerás, digo que Deus é o único que possui a
imortalidade, mas que Cristo é a ressurreição e a vida.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 13
CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEMA
I –Introdução
“Nenhuma das minhas publicações provocou tal entusiasmo ou tão violenta hostilidade”4.
É assim que Oscar Cullmann, renomado teólogo suíço, definiu o seu livro ferrenhamente
atacado: “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos mortos?”, após uma mudança de
posição e consciência sobre a vida pós-morte. A ideia de imortalidade inerente está
enraizada nas principais religiões do mundo, mas atualmente cresce o número de eruditos
que, lendo a Bíblia, abandonam tal crença. O que leva tantos teólogos na atualidade, como
Oscar Cullmann, Clark Pinnock, John Stott, John William Weham, Edward Green, Philip
Hughes, David Edwards, entre muitos outros, a abandonarem a visão de estado
intermediário e de eternidade no lago de fogo, se nasceram aprendendo que tais crenças
eram verdadeiras e apenas as “seitas heréticas” pregavam o contrário? Simplesmente,
continue lendo. Você vai entender!
II–A Primeira Mentira
“Certamente não morrerás” (cf. Gênesis 3:4)
Não é a toa que a crença na imortalidade da alma está presente em praticamente todas as
religiões pagãs. Todos sabem que existem principados (demônios) atuando por trás dos
grandes sistemas religiosos, que monitoram, regem, comandam e perpetuam esses
enganos. Muitas mentiras foram implantadas nas raízes da Igreja ao longo dos séculos, e
como a tradição foi tendo um valor doutrinário cada vez mais acentuado e muito maior do
que a própria Escritura Sagrada, estes enganos passaram a atuar nos cristãos como
verdades independentes da Bíblia.
A justificação ficou por obras, o evangelho deixou de ser “Cristocêntrico”, os que morreram
passaram a ser intercessores, a ressurreição dos mortos começou a perder a sua
importância, a salvação da alma poderia perfeitamente achar-se por meio da venda de
indulgências, a Santa Inquisição tratou de “dar um fim” em quem fosse contra os dogmas
sagrados da tradição e o evangelho puro, simples, sincero e verdadeiro, que não estava
sujeito a acréscimos (cf. Gl.1:8), começou a se desviar do Caminho, do foco, daquilo que
lhes foi originalmente pregado por Cristo e pelos apóstolos.
Ao longo dos séculos, muitos enganos e mentiras foram perspicazmente sendo infiltrados na
Igreja, e o evangelho estava gritantemente angustiado por uma Reforma. Como os dogmas
não podiam ser contestados (eram “infalíveis” por meio do Magistério), ninguém ousava
contrariar aquilo que lhes era dito. E, se alguém ousasse tanto, poderia ser queimado ou
torturado, intitulado como herege e inimigo público da Santa Sé. É claro que existia um
livro, que foi praticamente reprimido das mãos do povo, livro este que continha aquilo que
foi originalmente anunciado, que continha o evangelho puro, sincero, da maneira como era
no início.
4 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:
<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 14
Essas Sagradas Letras tinham que ser reprimidas, ou, doutra forma, as próprias pessoas
acabariam por descobrir dezenas de mentiras que foram invadindo o Cristianismo com o
tempo. O mundo, enquanto sob o jugo da Igreja Romana, vivia em trevas. O povo, sem as
divinas Escrituras traduzidas em sua língua. E o clero, cada vez mais explorando a
ignorância deste povo. Isso levou a Igreja Católica a proibir a leitura da Bíblia e a lutar ao
máximo contra a divulgação dela. O Concílio de Tolosa (1229) categoricamente declarou:
“Proibimos os leigos de possuírem o Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda
mais severamente que estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As
casas, os mais humildes lugares de esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de
homens condenados por possuírem as Escrituras devem ser inteiramente
destruídos. Tais homens devem ser perseguidos e caçados nas florestas e cavernas,
e qualquer que os abrigar será severamente punido”5
Os leigos eram proibidos de lerem as Escrituras Sagradas em sua própria língua e até
mesmo de possuírem a Bíblia. Tais homens que tivessem uma Bíblia em casa deveriam ser
condenados, caçados, inteiramente destruídos, perseguidos e caçados nas florestas e
cavernas. Nesta época de trevas, a Igreja Católica, a serviço de Satanás, lançava dura
perseguição contra o povo de Deus que se apegava às Escrituras, que tinha que buscar
locais de esconderijo em retiros subterrâneos para poderem ler a Bíblia, mas a Igreja
Católica ordenava caçar e perseguir tais homens até nas cavernas ou em qualquer outro
lugar, até serem destruídos por completo.
Nenhuma perseguição à Bíblia feita por um não-cristão em toda a história da humanidade
se comparou a perseguição elaborada pela Igreja Romana, nem mesmo a de Diocleciano ou
a de Nero. O Papa Pio IX defendia que as sociedades bíblicas eram pestes que deveriam ser
destruídas por todos os meios possíveis:
“Socialismo, comunismo, sociedades clandestinas, sociedades bíblicas... pestes estas
devem ser destruídas através de todos os meios possíveis”6
A leitura da Bíblia era absolutamente proibida aos leigos e considerada como sendo uma
peste:
“Essa peste (a Bíblia) assumiu tal extensão, que algumas pessoas indicaram sacerdotes
por si próprias, e mesmo alguns evangélicos que distorcem e destruíram a verdade do
evangelho e fizeram um evangelho para seus próprios propósitos... elas sabem que a
pregação e explanação da Bíblia são absolutamente proibidas aos membros
leigos”7
John Wycliffe (1328 – 1384 d.C), que lutou fortemente pela restauração do evangelho
bíblico e chegou até a elaborar uma tradução das Escrituras para tirar o povo das trevas, foi
chamado de pestilento canalha de abominável heresia, por ter lutado em prol da divulgação
da leitura bíblica pelos leigos:
5 Concil. Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons 14:2.
6 Papa Pio IX, em sua Encíclica “Quanta Cura”, Título IV, 8 de Dezembro de 1866.
7 Acts of Inquisition, Philip Van Limborch, History of the Inquisition, cap. 8.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 15
“O pestilento canalha de abominável heresia, que inventou uma nova tradução das
Escrituras em sua língua materna”8
As decisões dos concílios eram claras: a leitura da Bíblia era proibida aos leigos, mas,
enquanto a Bíblia era um livro proibido, as “Horas da Bem-aventurada Virgem” era
permitido:
“Proibimos ainda que seja permitido aos leigos possuir os livros do Velho e Novo
Testamento, êxito o Saltério, ou o Breviário para dizer o Ofício divino, ou as Horas da
Bem-aventurada Virgem a quem as desejar ter por devoção; porém proibimos estritamente
que esses livros sejam em língua vulgar”9
Em outra encíclica do papa Pio IX, ele reitera a proibição da leitura da Bíblia em língua
vulgar, por sanção geral de toda a Igreja:
"Nas regras que foram aprovadas pelos Padres designados pelo Concílio Tridentino,
aprovadas por Pio IV e antepostas ao Índice dos livros proibidos, lê-se por sanção geral que
não se deve permitir a leitura da Bíblia publicada em língua vulgar”10
O papa Leão XII também se revoltou contra aqueles que tentavam trazer ao povo a tão
sonhada leitura da Bíblia em sua própria língua:
“Não se vos oculta, Veneráveis Irmãos, que certa Sociedade vulgarmente chamada bíblica
percorre audazmente todo o orbe e, desprezadas as tradições dos santos Padres, contra o
conhecidíssimo decreto do Concílio Tridentino [v. 786], juntando para isso as suas forças e
todos os meios, tenta que os Sagrados Livros se vertam, ou melhor, se pervertam nas
línguas vulgares de todas as nações”11
O papa Pio VII reforça que não somente ele, mas também os seus predecessores avisavam
constantemente que a leitura da Bíblia ao povo é mais um dano do que algo útil, e a única
versão permitida era a Vulgata Latina:
"Porque deverias ter tido diante dos olhos o que constantemente avisaram também os
nossos predecessores, a saber: que se os sagrados Livros se permitem correntemente e
em língua vulgar e sem discernimento, disso há de resultar mais dano que utilidade.
Ora, a Igreja Romana que somente admite a edição Vulgata, por prescrição bem notória do
Concílio Tridentino (ver 785 s), rejeita as versões das outras línguas”12
Como a Vulgata estava escrita em latim e praticamente a totalidade do povo da época não
entendia nada deste idioma (alguns mal sabiam a sua própria língua, quanto menos o
latim!), então eles astutamente permitiam somente esta versão da Bíblia, para que o povo
não entendesse nada do que estava escrito.
Também o papa Clemente XI, em sua Constituição Dogmática “Unigenitus”, condenou
vigorosamente como erradas uma série de reivindicações feitas por Pascásio Quesnel.
8 Condenação de Wycliffe pelo Concílio de Constança, em 1415.
9 Concílio de Tolosa, 1229, cap. 14.
10 Pio IX, Encíclica Inter praecipuas, 16 de Maio de 1844.
11 Leão XII, Encíclica Ubi primum de 5 de Maio de 1824.
12 Pio VII, carta Magno et acerbo, 3 de Setembro de 1816; Denzinger # 1603.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 16
Entre elas, inclui-se a necessidade de estudar as Escrituras, que a leitura da Bíblia é para
todos, que é danoso querer retrair os cristãos da leitura bíblica, que as mulheres poderiam
ler a Bíblia, que os cristãos poderiam ler o Novo Testamento, que o povo simples teria o
direito de ler as Escrituras, entre outros:
70. Útil e necessário é em todo tempo, em todo lugar e para todo gênero de pessoas
estudar e conhecer o espírito, a piedade e os mistérios da Sagrada Escritura.
71. A leitura da Sagrada Escritura é para todos.
81. A obscuridade santa da Palavra de Deus não é para os leigos razão de dispensar-se da
sua leitura.
82. O dia do Senhor deve ser santificado pelos cristãos com piedosas leituras e, sobretudo,
das Sagradas Escrituras. É coisa danosa querer retrair os cristãos desta leitura.
83. É ilusão querer convencer-se de que o conhecimento dos mistérios da religião não
devem comunicar-se às mulheres pela leitura dos Livros Sagrados.
84. Arrebatar das mãos dos cristãos o Novo Testamento ou mantê-lo fechado, tirando-lhes
o modo de entendê-lo, é fechar-lhes a boca de Cristo.
86. Arrebatar ao povo simples este consolo de unir a sua voz à voz de toda a Igreja, é uso
contrário à prática apostólica e à intenção de Deus.
(Denzinger #1429-1434, 1436, 8 de Setembro de 1713)
Por que estamos dizendo tudo isso? Simplesmente porque a própria Igreja Católica
sabia que tinha algo a esconder. Sabia que, se as Sagradas Letras fossem reveladas ao
povo, muitas lendas que foram surgindo através dos séculos pela tradição iriam ruir
sistematicamente. O próprio Magistério católico reconhecia que, de fato, muitas doutrinas
mentirosas que vão contra o evangelho verdadeiro foram, ao passar dos séculos,
encontrando lugar na Igreja. Uma dessas principais mentiras era que, como o catecismo
católico expõe: “A Igreja ensina que toda alma espiritual é criada imediatamente por Deus--
não é ‘produzida’ pelos pais – e também é imortal: não perece quando se separa do
corpo por ocasião da morte”13
Apesar de boa parte dos “rebeldes” serem facilmente silenciados de um ou de outro jeito
(na maioria das vezes, do outro), começaram a surgir homens levantados por Deus a fim de
fazer com que, ao passar dos séculos, a doutrina fosse aos poucos voltando ao foco inicial.
Muitas doutrinas claramente contraditórias à Palavra de Deus foram aos poucos sendo
repensadas. O próprio Martinho Lutero chegou a expressar-se de maneira contraria às teses
de imortalidade da alma, colocando-a no grupo das “monstruosidades sem fim no monte de
estrume dos decretos romanos”:
“Contudo, eu permito ao Papa estabelecer artigos de fé para si mesmo e para seus próprios
fiéis – tais como: que o pão e o vinho são transubstanciados no sacramento; que a essência
de Deus não gera nem é gerada; que a alma é a forma substancial do corpo humano; que
ele [o papa] é o imperador do mundo e rei dos céus, e deus terreno; que a alma é
13 Catechism of the Catholic Church, pág.93.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 17
imortal; e todas estas monstruosidades sem fim no monte de estrume dos
decretos romanos – para que tal qual sua fé é, tal seja seu evangelho, e tal a sua igreja,
e que os lábios tenham alface apropriada e a tampa possa ser digna da panela"14
Em outra ocasião, Lutero chamou a imortalidade da alma de "sonho humano" e de "doutrina
de demônios":
"Daí os especialistas em Roma recentemente pronunciaram um decreto sagrado [no Quinto
Concílio Laterano, 1512-1517] que estabelece que a alma do homem é imortal, agindo
como se nós não disséssemos todos em nosso comum Credo, “eu acredito na vida eterna”.
E, com a assistência do gênio Aristóteles, eles decretam além disto que a alma é
“essencialmente a forma do corpo humano”, e muitos outros esplêndidos artigos de
natureza parecida. Estes decretos são, de fato, mais apropriados para a igreja papal,
pois eles possibilitam a eles manter sonhos humanos e as doutrinas de demônios
enquanto eles pisam e destroem a fé e ensino de Cristo"15
A visão de Lutero era de uma natureza humana holista, de uma alma mortal e de os mortos
“dormindo” até a manhã da ressurreição do último dia, quando “Ele nos chamar e nos
acordar juntamente com todos os Seus queridos filhos para a Sua eterna glória e juízo”.
Enquanto isso, eles “nada sentem absolutamente”:
“Não há ali deveres, ciência, conhecimento, sabedoria. Salomão opinou que os mortos
estão a dormir, e nada sentem absolutamente. Pois os mortos ali jazem, não levando
em conta nem dias nem anos; mas, quando despertarem, parecer-lhes-á haver dormido
apenas um minuto”16
“Assim como alguém que dorme e chega a manhã inesperadament e, quando acorda, sem
saber o que aconteceu: assim nós nos ergueremos no último dia sem saber como chegamos
a morte e como passamos por ela. Nós dormiremos até que Ele venha e bata na
pequena sepultura e diga: Dr. Martinho, levanta-te! Então eu me erguerei num
momento e serei feliz com Ele para sempre”17
“Nós devemos aprender a ver nossa morte com a luz correta, de forma que não fiquemos
alarmados por causa dela, como o descrente faz; porque em Cristo ela não é de fato morte,
mas um fino, doce e breve sono, que nos traz libertação deste vale de lágrimas, do pecado
e do temor e extremidade da verdadeira morte e de todos os desfortúnios desta vida, e nós
devemos estar seguros e sem cuidado, descansando docemente e gentilmente por um
breve momento, como em um sofá, até o tempo quando ele nos chamar e nos
acordar juntamente com todos seus queridos filhos para sua eterna glória e gozo.
Pois já que nós o chamamos de sono, nós sabemos que não ficaremos nele, mas seremos
novamente acordados e vivificados, e que o tempo durante o qual dormimos, não parecerá
mais longo do que se nós tivéssemos apenas caído no sono. Daí nós devemos nos censurar
por estarmos surpresos ou alarmados com tal sono na hora da morte, e de repente formos
14 Martinho Lutero, Assertio Omnium Articulorum M. Lutheri per Bullam Leonis X. Novissimam
Damnatorum.
15 Lutero, LW 32:77.
16 Exposição do Livro de Salomão, Chamado Eclesiastes, de Lutero.
17 The Chrislian Hope-pág.37.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 18
revividos da cova e da decomposição, e inteiramente bem, novo, com uma pura, clara e
glorificada vida, encontrarmos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nas nuvens”18
Infelizmente, a noção de Calvino de que a alma era imortal acabou falando mais alto e a
maioria das igrejas reformadas acabaram adotando a tese da imortalidade da alma. Para
não causar divisão e nem atrito com os demais reformadores, Lutero acabou não
dogmatizando a questão e deixou-a em aberto para quem quisesse crer que a alma era
imortal (como Calvino cria) ou para quem se unisse à sua crença particular na mortalidade
natural da alma.
Isso não impediu que, com o tempo, um número impressionante de mestres e teólogos
respeitados e reconhecidos começassem a repensar as suas doutrinas de imortalidade da
alma à luz das Sagradas Escrituras, e passaram a ver que, de fato, a doutrina da
imortalidade da alma não bate com a doutrina da ressurreição e muito menos com o que as
Sagradas Letras tem a nos dizer. O número de pessoas que deixam a visão dualista da
natureza humana impressiona não apenas pela quantidade, mas também por estar em
franco crescimento. De fato, a imortalidade da alma pode ser classificada como sendo a
primeira mentira que entrou no mundo e provavelmente a última a sair dele.
Muitas pessoas de bem têm sido enganadas atualmente sobre o estado dos mortos. Mas
não é de hoje que isso acontece. Deus disse para o homem, como consequência do pecado:
“Certamente morrerás” (cf. Gn.2:17). Mas Satanás, a serpente, retruc ou: “Certamente que
não morrerás” (cf. Gn.3:4). Quem estava com a razão? Deus ou Satanás? Certamente que
Deus.
A própria presença da “árvore da vida” no jardim do Éden indica claramente que a
imortalidade era condicional à participação do fruto de tal árvore. Nós não tínhamos uma
“alma imortal”! Com a Queda da humanidade, quando o pecado entrou no mundo, a morte
(que não estava prevista no plano inicial de Deus para com a Sua Criação) passou a tornar-
se uma realidade. O estado do homem alterou-se, e este passou a ser um ser mortal.
A segurança de imortalidade baseava-se em partilharem da árvore da vida no Jardim, que
lhes garantia exatamente a imortalidade (cf. Gn.3:22). É evidente que Deus não iria colocar
tal árvore a disposição caso já tivesse implantado uma alma eterna que lhes garantisse tal
imortalidade. Visto que a condição para “viver para sempre” constituía-se na participação do
fruto da árvore da vida, fica muito claro que eles não detinham em si mesmos a
imortalidade, supostamente na forma de um elemento eterno implantado em seu ser. Se
Deus colocou no ser humano uma alma imortal, então por que razão existiria a “árvore da
vida” no Jardim do Éden?
Ora, se já fôssemos imortais isso seria totalmente desnecessário! Se o homem comesse da
árvore da vida, se tornaria imortal (cf. Gn.3:22). Contudo, foram expulsos do Jardim do
Éden, sem terem comido da árvore da vida, e dois querubins ficaram na guarda do
Jardim, exatamente a fim de que não comessem da árvore da vida e vivessem eternamente
(cf. Gn.3:24). Tudo isso seria totalmente desnecessário se já possuíssemos uma alma
imortal. Para que guardar o homem de comer do fruto da árvore da vida e viver para
sempre se ele já era imortal por meio de uma alma eterna que já lhes teria sido
implantada?
18 Compend of Luther’s Theology, editado por Hugh Thomson Kerr, Jr., p. 242.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 19
O homem seria imortal caso comesse do fruto da árvore da vida, mas não comeu. Deus não
fez o homem com o conhecimento do bem e do mal, mas ele comeu do fruto da árvore do
conhecimento do bem e do mal e teve tal conhecimento. Da mesma maneira, Deus não fez
o homem com uma alma imortal. A imortalidade era condicional a participação do fruto da
árvore da vida, assim como o conhecimento do bem e do mal era condicional a participação
daquela árvore. Mas, ao contrário do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal na
qual eles comeram, eles não comeram do fruto da árvore da vida!
O resultado disso é que o homem não tornou-se um ser imortal. Ele, “morrendo, morreria”
(cf. Gn.2:7). O homem era mortal pela sua natureza original, sem uma alma imortal, mas
com a possibilidade de receber a imortalidade por meio da participação da árvore da vida.
Isso, contudo, ele perdeu ao ser expulso do Jardim, e, portanto, perderam a possibilidade
de participação na árvore da vida que lhes poderia nutrir de imortalidade. O homem perdeu
a imortalidade quando foi expulso do Éden, e assim a morte veio a partir do pecado, sendo
revertida na ressurreição (cf. 1Co.15:22,23).
A Bíblia, contudo, nos apresenta que a árvore da vida (imortalidade) estará novamente
presente no Paraíso, somente aos salvos, após a ressurreição dos mortos (cf.
Ap.22:2). E acontecerá que “quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a
água da vida” (cf. Ap.22:17). O homem, agora sim, se tornaria imortal. A árvore da vida
representava a imortalidade na comunhão com Deus, mas com o pecado fomos privados do
acesso desta fonte de eternidade, que agora continua na presença dEle, onde iremos
desfrutá-la depois que formos ressuscitados (cf. Ap.22:2). A eternidade no homem era
condicional, não a uma alma que lhes teria implantada, mas sim a obediência ao Ser
Criador do Universo, como um dom de Deus.
O homem foi privado da árvore da vida para que não se tornasse imortal como Deus, e, de
fato, não comemos da árvore da vida (cf. Gn.3:22-23). Com a desobediência a Deus, a
participação na árvore da vida foi cortada (cf. Gn.3:22,23), o que demonstra claramente
que a imortalidade não residia numa alma imortal recém-implantada, mas sim na
obediência a Deus. A desobediência foi o que ocasionaria a morte, em um contraste direto
com a vida eterna residente na forma da árvore da vida. Quando entrou o pecado do
mundo, juntamente com ele entrou a morte: O processo da morte teria início.
O texto original hebraico simplesmente reza que: “Morrendo, morrereis”. A Bíblia não diz
que “no dia em que comerdes, certamente morrerás no mesmo dia”. Diz somente que ele
morreria, mas não diz quando. A morte não estava no plano inicial de Deus para com a Sua
Criação. Contudo, com o pecado reinou a morte (cf. Rm.5:21; Rm.5:12), que só será
revertida na ressurreição do último dia (cf. 1Co.15:51-55; 1Co.15:22,23; Jo.6:39,40).
No dia em que Adão comesse daquela árvore proibida ele ia morrer, ou seja, tornar-se-ia
um ser mortal, o que ele realmente se tornou. O processo de morte como consequência do
pecado alcançaria a todos os seres humanos a partir do momento em que este pecasse
contra Deus, tornando-se receptível ao processo de morte que lhes sucederia. Analisando o
texto original hebraico, vemos que, realmente, a morte seria a cessação total de vida.
O que foi dito a eles: ”umê`êtshadda`ath thobh vârâ` lo' tho'khal mimmennu kiy beyom
'akhâlkhamimmennu moth tâmuth” (cf. Gn.2:17). Analisando as duas últimas palavras,
vemos claramente quando é que o homem morreria: “moth tâmuth” – traduzindo:
“morrendo morrereis”. Isso é omitido pela maioria das versões vernáculas porque contraria
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 20
diretamente a posição imortalista de que ocorreu apenas uma “morte espiritual” e que esta
morte teria acontecido logo naquele mesmo dia, ignorando o fato de que o hebraico diz
taxativamente que tal morte seria quando o homem morresse – “morrendo, morrereis”.
Passando para o bom linguajar português dos dias de hoje, o que Deus estava dizendo era
que “quando vocês morressem iriam morrer mesmo”! A morte seria o fim total de qualquer
existência humana, corpo e alma, pois, como consequência do pecado, o processo de morte
teria início a partir do primeiro falecimento. A verdade incontestável é que não existiria
nenhum estado de vida entre a morte e a ressurreição.
Ora, se o homem continuasse vivo em um estado intermediário após a morte corporal que
todos nós passamos, então o homem não morreria completamente – ele estaria vivo em um
estado desencarnado. Essa é exatamente a mentira que a serpente pregou à Eva (cf.
Gn.3:4), e que engana milhões de pessoas até hoje, invalidando toda uma consequência de
morte – física e espiritual – que o homem encontraria como consequência do pecado.
Ademais, a mentira de Satanás seria classificada como uma “verdade”, uma vez que o
homem não morreria mesmo – viveria eternamente por meio de uma alma imortal que teria
sido supostamente implantada no ser humano. Fica muito claro que o homem não seria
inerentemente imortal, mas passaria por um estado de morte – “morrendo, morrereis” –
por causa do pecado, uma “lacuna”, um período sem vida entre a morte e a ressurreição,
fato esse que Satanás queria desmentir, dizendo que “certamente não morrerás” (cf.
Gn.3:4).
O processo de morte alcançaria todos os seres humanos, pois “o salário do pecado é a
morte” (cf. Rm.6:23) e “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (cf.
Rm.3:23), por isso, “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). Isso tudo nos deixa
claro que a morte como consequência do pecado não alcançaria tão somente o corpo, mas o
ser integral do ser humano, corpo e alma (cf. Ez.18:4,20; Gn.2:7). Como bem disse o
pastor luterano Martin Volkmann: “Como vemos, há duas concepções de vida após a morte.
A diferença, segundo certo modo de pensar, é que a parte supostamente imortal não foi
afetada pelo pecado em nós, enquanto na outra forma de pensar reconhece-se a
natureza radical do pecado e proclama uma nova vida através da obra salvadora
de Deus”.
A morte seria a cessação total de vida. Corpo e alma foram afetados pelo pecado. A
imortalidade não era uma possessão natural através de uma alma recém-implantada, mas
condicionada à obediência a Deus na participação da árvore da vida. Mas o homem pecou.
Transgrediu a ordenança divina. Trouxe a morte para si mesmo. Perdeu a participação na
árvore da vida. Tornou-se naturalmente mortal. E, a partir deste dia, ele morreria na morte
– não teria uma existência contínua em forma incorpórea após a morte.
Felizmente, a Palavra de Deus nos apresenta uma reviravolta neste quadro, apresentando
que o processo de morte iniciado em Adão e a cessação de vida como consequência do
pecado não seria um quadro perpétuo, mas seria revertido em Cristo, na Sua Vinda: “Pois
da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados.
Mas cada um por sua vez: Cristo, as primícias; depois, quando ele vier, os que lhe
pertencem” (cf. 1Co.15:22,23).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 21
O processo de cessação de vida na morte, ocorrido com todos os seres humanos e iniciado
em Adão – “em Adão todos morrem” – seria revertido no “último dia” (cf. Jo.6:39,40),
quando Cristo há de vivificar os que lhe pertencem por ocasião de sua segunda vinda,
porque Ele venceu a morte (cf. Hb.2:14), dando-nos também vitória sobre a morte na
ressurreição (cf. 1Co.15:54). Neste momento, então, Cristo nos resgatará da morte, nos
vivificará e nos levará para as nossas moradas celestiais onde Ele está (cf. Jo.14:2,3).
Em Adão todos morrem porque ele certamente não viveria eternamente (cf. Gn.2:17;
Gn.3:4), mas como consequência do pecado ele passaria por um estado sem vida que teria
início no momento da morte física. Mas a esperança cristã é a de que este estado não é
perpétuo, mas é revertido pelo milagre da ressurreição, que nos traz vida e nos resgata da
morte a fim de possuirmos a nossa herança celestial em Cristo.
Por isso os cristãos tem na ressurreição a sua maior esperança (cf. At.26:7), pois é ela que
nos diz que nem tudo está perdido, que o trabalho dos cristãos não é em vão (cf.
1Co.15:32), que haverá o momento em que a morte será tragada pela vitória (cf.
1Co.15:54), que aqueles que fizeram o bem “sairão para a ressurreição da vida” (cf.
Jo.5:29), quando terão a recompensa pelo o que fizeram em vida e tomarão posse de suas
moradas eternas. A ressurreição é o antídoto para a morte, é o milagre que Deus
providenciou a fim de que não ficássemos para sempre sem vida, mas que por meio de
Cristo pudéssemos herdar a vida eterna.
Claro, não demorou muito para Satanás entrar em cena e deturpar essa verdade,
propagando o que hoje é a base e fundamento da doutrina imortalista, retirada
diretamente da boca da serpente: “Certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4) – o
homem seria inerentemente imortal! A ressurreição já não era mais o antídoto para a
morte, mas sim a libertação da alma se desprendendo da prisão do corpo, como pregava
Platão. Este foi, com toda a certeza, o primeiro sermão imortalista na história, a primeira
das mentiras que Satanás implantou no mundo: a lenda da imortalidade da alma.
III–Por que a mentira?
Por que a mentira? – O motivo desta pergunta é: “Qual é o objetivo de Satanás em pregar
tal mentira?”. Certamente que ele teria uma boa razão para isso, além de contradizer o
ensino claro de Deus (cf. Gn.2:17). Para respondermos a esta pergunta, temos
primeiramente que ter em mente que o principal objetivo de Satanás é desviar o cristão da
verdade. Passar a ideia de um Deus mal.
Eis aí a principal das armas de engano de Satanás: Desviar o caráter imutável do amor
de Deus. Satanás é a serpente, é aquele que engana. Quanto mais pessoas ele conseguir
desviar de Deus, de preferência passando a ideia de um deus sanguinário, que tem uma ira
pelos ímpios que não cessa nunca, melhor. Infelizmente, essa tática tem causado muito
sucesso nas nossas igrejas.
Muitos milhões de indivíduos no mundo todo abandonam a crença em Deus por causa desta
ideia, por não conseguirem admitir que Deus possa ser ao mesmo tempo bom e mal e com
duas faces, ou que para demonstrar Sua justiça tenha que atormentar eternamente no fogo
a alma de bilhões de pessoas, e acabam por pensar: “Ele não existe”. Muitos têm saído das
fileiras do Cristianismo por causa deste assunto. Isto poderia ser evitado, caso fosse feito
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 22
um estudo sincero, honesto e fiel à exegese e ao contexto das Escrituras, que é o que
faremos ao longo de todo este estudo.
O Dr. Samuelle Bacchiocchi elucida a questão nas seguintes palavras:
“Um Deus que inflige torturas infindáveis a Suas criaturas assemelha-se muito mais a
Satanás do que a um Pai amoroso a nós revelado por Jesus Cristo (...) A justiça divina
nunca poderia requerer para pecadores finitos a infinita penalidade da eterna dor, porque o
tormento infindável não serve a qualquer propósito reformatório, precisamente porque não
tem fim”19
John Stott manifesta a mesma opinião, ao dizer:
“Eu não minimizo a gravidade do pecado como rebelião contra Deus, nosso Criador, mas
questiono se o tormento eterno consciente é compatível com a revelação bíblica da divina
justiça”20
A verdade é que muitas pessoas têm deixado as fileiras do Cristianismo por não poderem
acreditar que Deus, em Sua Onisciência, poderia criar seres sabendo que os puniria com um
tormento eterno e infindável de maneira premeditada. Seria muito mais lógico e racional
(pela justiça e pelo amor de Deus) crermos que Ele puniria a cada um de acordo com aquilo
que cada ser merece, e não uma pena infindável para cada ser que comete pecados finitos,
tendo como consequência a queima eterna de sua alma em um verdadeiro lago de fogo.
Se tal fato sucedesse, poderíamos também dar margens a movimentos como a “Santa”
Inquisição, por exemplo, que matou e torturou milhões na Idade Média, mas, como apontou
Azenilto Brito, “se Deus é impiedoso ao punir pecadores com tormentos infindáveis no
mundo por vir, porque não devia a Igreja agir de modo semelhante neste presente mundo,
torturando e queimando os heréticos?”21
O assunto é motivo de entusiasmo para os ateus, e a grande maioria dos cristãos
defensores da imortalidade da alma não conseguem conciliar o amor divino com a crueldade
eterna que seria tal destino aos impenitentes. Ademais, muitos cristãos que já est ão dentro
da Igreja não saem, não por buscarem um comprometimento sincero e verdadeiro com
Deus, mas para escaparem de um tormento eterno no inferno. O Cristianismo não somente
muda de sentido como também perde o foco, o amor, a justiça e a misericórdia nos
revelada mediante o evangelho. Na verdade, todos estes atributos – e muitos outros –
fazem parte da natureza divina e nenhum deles daria margem a um tormento eterno por
pecados finitos.
Como a Igreja pode coerentemente apresentar Deus como sendo alguém que amou o
mundo de tal maneira que enviou o Seu único Filho para que todo aquele que nele crê não
pereça, mas tenha a vida eterna (cf. Jo.3:16), se, por outro lado, odeia os pecadores de tal
maneira que os envia para um lago de fogo e enxofre onde passarão tormentos infinitos
19 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
20
STOTT, John. Essentials: A Liberal-Evangelical Dialogue. Londres: Hodder and Stoughton, 1988, p.
316.
21 BRITO, Azenilto Guimarães. Implicações Morais e Cosmológicas do Tormento Eterno. Disponível
em: <http://www.salvos.com.br/inferno>. Acesso em: 15/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 23
perpetuados por toda a eternidade sob choro e ranger de dentes e sofrendo torturas
colossais? Se Deus ama os pecadores (como a teologia moderna ensina), como conciliar
isso com permitir tamanhos horrores aos pecadores impenitentes?
Ora, se nem mesmo uma pessoa humana, falível e que nem ama tanto assim o próximo (ou
é até mesmo odeia o próximo) não chegaria ao ponto de enviá-lo para “o quinto dos
infernos”, sob as chamas de um fogo eterno para sofrer tormentos horríveis por toda a
eternidade, quanto menos Deus, que em teoria é aquele que mais ama, que mais perdoa e
que é a fonte de toda a misericórdia! Enquanto a Igreja tiver a noção deste deus mutável,
que ama os pecadores nesta vida mas já preparou um inferno eterno onde eles deverão
sofrer horrivelmente após a morte e para sempre, dificilmente um descrente poderá
compreender perfeitamente o amor de Deus que excede todo o entendimento. Sempre t erá
em mente este contraste que vai claramente contra a moral humana, quanto mais a divina.
Apenas um regresso às Escrituras nos faria ter em mente um Deus justo e verdadeiro, que
recompensa os justos com a vida eterna e que pude os ímpios de acordo com aquilo que
cada um merece, e não com um tormento eterno para todos indistintamente. Isso sim é
unir a justiça e o amor de Deus como descrito no evangelho bíblico. A justiça e o amor de
Deus andam juntos, e o que Satanás mais quer é desqualificá-los ao perpetuar a primeira e
provavelmente a maior de todas as mentiras – a da “imortalidade da alma”.
Um exame fiel e honesto das Escrituras não apenas mostra o quanto não-bíblica é essa
doutrina, mas também nos faz voltar ao Cristianismo puro e verdadeiro focado em um Deus
de amor e justiça e na ressurreição para a vida eterna que Ele nos concede pela Sua Graça.
A imortalidade condicional e a “vida somente em Cristo” afirmam a realidade do inferno sem
impugnar o caráter de Deus, e dá honra completa para Cristo como "a ressurreição e a
vida”.
A crença na imortalidade inerente como base de fé – Satanás continua usando dos mais
variados meios a fim de perpetuar a primeira mentira, pois isso é um forte meio de desviar
as pessoas da sinceridade e pureza devidas a Cristo. Por meio da crença da sobrevivência
da alma na morte, inúmeras religiões do mundo terminam cursando os mais variados meios
de consulta aos mortos em desobediência à Palavra de Deus.
Existem religiões que tem como base a doutrina da sobrevivência da alma em um estado
intermediário. Caso essa doutrina esteja errada, a religião termina. O culto aos mortos no
catolicismo é um bom exemplo disso, uma vez que Cristo deixou claro que “só ao Senhor
teu Deus darás culto” (cf. Mt.4:10) e que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e
os homens, Cristo Jesus” (cf. 1Tm.2:5).
Satanás usa das mais variadas maneiras para deturpar a Palavra de Deus e perpetuar a
primeira mentira, da imortalidade da alma, a fim de que o que Paulo mais temia
acontecesse: “Pois, assim como Eva foi enganada pelas mentiras da cobra, eu tenho medo
de que a mente de vocês seja corrompida e vocês abandonem a devoção pura e sincera a
Cristo” (cf. 2Co.11:3). A imortalidade da alma foi a doutrina que Satanás encontrou uma
“brecha” a fim de que o evangelho fosse sutilmente modificado por meio de homens que
“introduziram secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os
resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (cf. 2Pe.2:1).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 24
O culto aos mortos é um bom exemplo de um meio que a Serpente continua utilizando a fim
de desviar o cristão do evangelho puro e genuíno somente a Cristo. Quando o evangelho
deixa de ser Cristocêntrico, a missão de Satanás está completa. E qual é o meio que ele
usa para perpetuar tais enganos? Claro, a mesma mentira pregada à Eva no Jardim:
“...certamente não morrereis” (cf. Gn.3:4).
O que Satanás ensina, na verdade, é bem simples. Ele diz que o nosso “verdadeiro eu”, a
nossa “alma eterna”, não morre. De modo que, se não formos tão bons, “a reza resolve
tudo”! Tal visão de imortalidade inerente que Satanás ensina é bem mais simples do que o
que Deus quer que creiamos: que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4), porque a
consequência do pecado seria “moth tâmuth” – “morrendo, morrereis” (cf. Gn.2:17). Todas
as práticas de culto aos mortos, de intercessão de santos já falecidos, de invocação ou
comunicação com os mortos ou de qualquer coisa do gênero, que quase sempre geram
idolatria e apego no coração dos homens àquilo que já morreu ao invés de se focar Naquele
que está vivo (Jesus), tem como base e fundamento a crença na imortalidade da alma.
No espiritismo, então, a coisa complica ainda mais. A consulta aos mortos, que existe de
maneira “mascarada” no catolicismo mediante a oração que é um claro meio de
comunicação, é “desmascarada” no espiritismo que abertamente declara isso
convictamente. A própria crença na reencarnação, que é crida não somente por espíritas
mas também por muitos outros grupos panteístas (como o budismo e o hinduísmo) também
tem por base a crença que a alma sobrevive consciente após a morte. Afinal, se a alma não
sobrevive, não há como reencarnar.
A Bíblia afirma categoricamente que “entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a
seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem
feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico,
nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor;
e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti" (cf. Dt.18:9-12).
Afinal, “a favor dos vivos consultar-se-ão os mortos?” (cf. Is.8:19). Não!
Deus sabe muito bem dessa impossibilidade de comunicação dos mortos com os vivos, e foi
por isso o Senhor proibiu o seu povo israelita de tentar tal “comunicação”, a fim de que não
fossem enganados por espíritos demoníacos (cf. Lv.19:31; 20:6; 1Sm.28:7-25; Is.8:19;
1Tm.4:1; Ap.16:14), dada a devida impossibilidade de comunicação com os que já
morreram (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó
14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). Dada tal impossibilidade, quem se
apresenta no “além" para se comunicar com os vivos são os espíritos dos demônios, e se
aproveitando, é claro, da mentira da imortalidade da alma.
Tudo isso poderia ser perfeitamente removido e o evangelho restaurado caso fosse
realizado um exame apurado das Escrituras, analisando a um conteúdo total e não se
apegando cegamente a um texto ou outro descontextualizado tomando tais textos isolados
como regra de doutrina. Mas, como Jesus disse em Mateus 28:20 para ensinarmos tudo,
também precisamos revelar às pessoas o que realmente acontece depois da morte, pois
isso nos faria voltar ao evangelho Cristocêntrico tão abandonado por consequência da
primeira mentira.
Imagine um mundo onde todos creem conforme a Bíblia diz: que a alma que pecar, essa
morrerá (cf. Ez.18:4). Imagine um mundo onde a mentira de que “certamente não
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 25
morrerás” não engana mais ninguém. Imagine um mundo onde todos creem que a
ressurreição é o caminho para uma nova vida no retorno à existência. Ou seja: imagine o
mundo todo seguindo os padrões bíblicos. No que isso implicaria? Isso implicaria na
completa inexistência da idolatria no mundo, visto que grande parte dela subsiste com base
na crença que “espíritos” ou “almas” subsistem após a morte e são dignos de serem
consultados, venerados, cultuados ou adorados.
Isso implicaria na completa inexistência de todos os falsos sistemas religiosos que tem por
base a crença que a alma é imortal, o que inc lui espiritismo, catolicismo, budismo,
hinduísmo, religiões panteístas, politeístas e pagãs, que tem como fundamento a crença da
transmigração das almas, da reencarnação, da evocação dos mortos, da intercessão dos
falecidos, da veneração e culto aos defuntos. Isso implicaria também em um mundo mais
Cristocêntrico, isto é, um mundo onde Aquele que vive é o único digno de toda a glória,
toda a honra, toda a majestade e todo o louvor, pois é aquele que venceu a morte e
ressuscitou, Cristo Jesus.
Todas as orações e todo o culto em todo o mundo seriam voltados e dirigidos unicamente
Àquele que era, que é e que há de vir. Todas as nações seriam felizes e haveria paz no
mundo, pois “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” (cf. Sl.33:12). Todos os nossos atos de
adoração seriam sempre voltados por Ele e para Ele. Você poderia pensar: “Este é um
mundo utópico, imaginário, impossível de ser verdade um dia”. Mas seria isso tão somente
o reflexo de um mundo onde a primeira mentira implantada pela serpente já não teria mais
lugar, e as suas consequências também não. O único que fica feliz da vida em ver o povo
continuar crendo e propagando a heresia de que a alma é imortal é o diabo que inventou
essa mentira, pois é por meio dela que ele sempre enganou e continua cegando bilhões de
pessoas em todo o planeta.
A imortalidade da alma é a carta “coringa” de Satanás. É por meio dela que tantas pessoas
desviam o foco e a atenção que deveriam ser direcionadas a Deus. Sem essa carta na
manga, dificilmente o Inimigo conseguiria desenvolver outros métodos para desviar a
devoção pura e sincera somente a Cristo. Por outro lado, o exame sincero e honesto das
Escrituras nos faria desmantelar sistemas religiosos totalmente baseados na crença em uma
alma imortal. Isso faria voltar ao evangelho puro e sincero de devoção somente a um
homem, aquele que mesmo tendo morrido ainda vive, e por isso pode interceder por nós –
Cristo: “Portanto, ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele,
aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles” (cf. Hebreus 7:25).
Resumindo este ponto, o que devemos ter em mente é que toda falsa doutrina criada
por Satanás tem algum objetivo por detrás dela, e este objetivo nunca é levar o
cristão mais perto de Cristo e da devoção única a Ele, mas sempre reside em desviar as
pessoas da devoção única ao Senhor (cf. 2Co.11:3). Seria muito estranho que o diabo
quisesse “inventar a mentira da mortalidade da alma”, uma vez sendo que isso apenas
serviria para destruir por completo com todos os enganos existentes nos mais diversos
sistemas religiosos falsos que existem no mundo, e que se baseiam na crença em uma alma
imortal.
Em outras palavras, o diabo não ganharia nada pregando a mortalidade da alma; ao
contrário, apenas perderia o seu império de engano e o veria caindo às ruínas. Teria que
inventar outras mentiras que substituíssem a crença em uma alma imortal para conseguir
conduzir novamente o povo à perdição. Não faz qualquer sentido a mortalidade da alma ser
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 26
uma “heresia”, pois heresia é algo criado por Satanás com uma finalidade que de alguma
forma consiste em poder desviar o cristão de Cristo. Quem é que vai “se desviar de Cristo”
por crer que a vida termina na morte e recomeça na ressurreição? Ninguém. Ao contrário,
iria apenas reforçar a importância do papel da ressurreição dentro da comunidade cristã.
Iria fazer-nos retornar aos primórdios da fé, aos tempos em que a ressurreição era a maior
esperança dos cristãos (cf. At.24:15; 26:6; 28:20; 23:6; 26:7).
Mas seria totalmente lógico que ele implantasse a mentira da imortalidade da alma e
assim conseguisse enganar cada vez mais pessoas através dela, como de fato engana, pois
a imortalidade da alma sim tem o poder de desviar o cristão de Cristo, de criar falsos
sistemas religiosos em torno dela, de servir como base para a perda de um evangelho
Cristocêntrico para colocar o foco nos mortos, para dar plausibilidade às crenças na
transmigração e reencarnação das almas, evocação e consulta aos espíritos, oração e
intercessão dos mortos e pelos mortos, culto e veneração àqueles que já morreram, e por aí
vai.
Por isso que foi a primeira mentira implantada pela serpente no Jardim (cf.
Gn.3:4). Note que Satanás não perdeu tempo em implantar essa mentira no mundo. Ela
não foi a terceira, nem a quarta mentira inventada. Não foi inventada depois de muitos
séculos, foi a primeira, foi a que serviu como ponto de partida para todas as demais
mentiras que vimos acima.
Por tudo isso, eu concordo plenamente com a colocação verdadeira feita pelo professor
Sikberto sobre isso: “A imortalidade da alma é a base doutrinária da rebelião de
Lúcifer, e o fundamento das demais mentiras. Sempre que ele entra em ação em
uma situação nova, a primeira coisa que tenta fazer crer é que a alma não morre.
E sabe por quê? Pelo fato de que assim é mais fácil crer nas demais mentiras
dele”22
Desvantagens óbvias em crer que os mortos já estão no Céu – Embora para algumas
pessoas o simples fato de pensar que os seus entes queridos não estejam neste exato
momento no Paraíso possa ser uma dura realidade, também devemos ressaltar o fato de
que, em primeiro lugar, em absolutamente nunca alguém na Bíblia é consolado com a
notícia de que alguma pessoa já tenha subido aos Céus.
Pelo contrário, é dito de maneira clara há uma multidão de mais de três mil pessoas no
Pentecoste que Davi não subiu aos Céus (cf. At.2:34), algo que os apóstolos evitariam ao
máximo de pronunciar diante de tão grande multidão no caso de Davi, ao contrário, já
tivesse subido aos Céus. Em segundo lugar, quando o apóstolo Paulo envia consolações aos
tessalonicenses sobre os seus parentes falecidos ele foca-se inteiramente na esperança da
ressurreição, e não no “fato” de que eles supostamente já estivessem no Céu ou em algum
lugar de bem-aventurança (cf. 1Ts.4:13-18).
Tal consolação focada completamente na esperança da ressurreição do último dia não seria
logicamente cabível caso a ressurreição fosse somente um mero “detalhe” e as suas almas
já estivessem no Paraíso. Até porque, se tal se sucedesse, bastaria que Paulo relatasse isso
e pronto – já estariam consolados. O próprio fato de ele omitir completamente tal menção
22 MARKS, Sikberto. História da Adoração. Disponível em: <http://cristoembrevevira.com/introducao-a-
historia-da-adoracao/>. Acesso em: 15/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 27
nos faz pensarmos que ou (1) Paulo não os consolou direto da maneira que qualquer
imortalista faria; ou (2) eles realmente não estão no Céu, mas irão ressuscitar no último
dia, o que explicaria devidamente o porquê de Paulo tê-los consolado somente com a
esperança de alcançar superior ressurreição.
Em terceiro lugar, ao enviar consolações à família de Onesíforo (já morto), ele novamente
em nada fala que este já estivesse desfrutando das bênçãos paradisíacas; pelo contrário, de
novo foca-se inteiramente na esperança de alcançar a misericórdia de Deus “naquele dia”:
“Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor!” (cf.
2Tm.1:17).
Ademais, tal “consolação” não faria sentido em caso que Onesíforo já estivesse no Céu
porque se assim fosse ele já teria alcançado a misericórdia de Deus já adentrando no
Paraíso junto com os demais santos. Isso é somente lógica. Até mesmo quando Jesus Cristo
foi consolar as irmãs de Lázaro, já falecido, ele em nada indica que já este estivesse na
“glória”, mas insiste em apontar a ressurreição “no último dia” como única fonte de
consolação (cf. Jo.11:17-27).
Além disso, ressalta o aspecto inconsciente e não-consciente do ser racional na morte ao
fazer a devida analogia de Lázaro com um estado de “sono”, uma indicação de inatividade,
e não de atividade: “Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas
vou despertá-lo do seu sono” (cf. Jo.11:11). Se Lázaro estivesse consciente na glória
desfrutando das maravilhas do “estado intermediário” então a analogia correta seria com o
“acordado” e não com o “dormindo”, tendo que ser “despertado” de seu “sono”. A
caracterização é de inconsciência na morte e de um “despertar” na ressurreição.
Vemos, portanto, que se ninguém em parte alguma da Bíblia enviou “consolações”
baseando-se no suposto “fato” de que alguém já estivesse no Céu, então não seria absurdo
demais acreditar que, de fato, eles não estão lá. Difícil mesmo seria acreditar que os
apóstolos criam na imortalidade da alma e mesmo assim insistiam em nunca se basear nela
para consolar alguém, como todo e qualquer bom imortalista faz nos dias de hoje, focando-
se na crença de que o falecido “já está no Céu” e não que “ele irá ressuscitar um dia”.
O que realmente vemos é o apóstolo Paulo focando-se no momento em que realmente
atingiremos a imortalidade, que é quando todos os que estão dormindo, “num momento,
num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta, a trombeta soará, e os mortos
ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é
corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da
imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é
mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada
foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua
vitória?” (cf. 1Co.15:51-54).
Tal imortalidade não é obtida no momento do nascimento mediante a posse de uma “alma
imortal”, mas sim no momento da ressurreição dos mortos. Por fim, seria imensamente
mais desfavorável imaginarmos, por exemplo, que alguma pessoa justa morra e a sua
“alma imortal” parta de imediato ao Paraíso, aguardando a entrada celestial dos seus entes
queridos, mas passa-se o tempo e... nada. Passa-se mais tempo e eles continuam sem
aparecer por lá.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 28
Mais algumas gerações vão passando e, vendo que ninguém ali se achega, tem que chegar
à triste conclusão de que os seus parentes morreram sem alcançar a salvação e, pior, estão
sofrendo em torturas colossais em um inferno de fogo e enxofre, assim condenados por
toda a eternidade. Como pode ter paz e alegria celestiais um homem sob tais condições?
Felizmente, o que a Bíblia nos mostra é que nós, os vivos, de modo nenhum precederemos
os que dormem – entraremos nas nossas moradas no mesmo instante deles (cf. 1Ts.4:15),
quando Cristo voltar para nos levar onde ele está (cf. Jo.14:2,3).
A motivação errada – Se para manter alguém na linha for preciso a ameaça de um inferno e
demônios torturadores terríveis, então nesse contexto Jesus se torna apenas um meio
utilizável para se escapar do mal. O objetivo e finalidade dessa "conversão" é fugir do
inferno e não Jesus. Para aqueles que tem a fé edificada sobre a rocha que é Cristo, a bem-
aventurança de obter superior ressurreição e uma vida eterna somente em Cristo é
motivação mais do que suficiente que o mundo jamais poderia imaginar, ainda assim
continuarei cristão, pois eu não fui convertido pelo medo de um tormento eterno.
Certa vez, enquanto eu debatia com um católico romano, ele me veio com a seguinte
indagação: “Que vantagem teriam os justos diante dos maus, se ambos morrem, acabam-
se e simplesmente a única vantagem é os justos gozarem a vida eterna”? Infelizmente, esse
é um pensamento bastante comum entre os defensores do tormento eterno.
Lamentavelmente, acham ser pouco e insuficiente gozar de uma vida eterna em um Paraíso
junto a Deus. Só teria validade caso víssemos os “hereges” queimando eternamente,
incluindo muitos parentes e até mesmo irmãos! Adoraríamos a Deus por medo e não por
amor! Infelizmente, para muitos o Paraíso só seria uma recompensa mesmo caso houvesse
pessoas queimando para todo o sempre. Se não houvessem seres queimando
miseravelmente por toda a eternidade vivendo terrores colossais, então nem vale a pena
ser justo!
A vida eterna é suficiente para mim. Adoro a Deus não com medo de um inferno eterno,
mas pelo dom da vida eterna que ele concede gratuitamente a todos aqueles que creem.
Infelizmente, a doutrina da imortalidade da alma cria “cristãos” edificados sobre o medo do
inferno e não sobre a graça de Deus. Disso resulta toda uma desvalorização do que é o dom
da vida eterna e da imortalidade que Deus concede aos justos pela Sua Graça. Os livros de
Mary Baxter, por exemplo, produzem "conversões" motivadas pelo medo do inferno. Nos
seus livros, os “espíritos” ali mencionados detêm inclusive ossos e sangue! Pasme! Isso sem
mencionar o fato de que os “espíritos” da “Divina Revelação do Inferno” descem a este
lugar ainda vestidos com as suas roupas usuais! As outras “revelações” infernais vão daí
para pior!
Isso nos mostra claramente que tais “revelações” realmente não passam de mais investidas
do maligno a fim de perpetuar, de todas as maneiras possíveis, a primeira mentira. O que o
diabo mais quer é “revelar” para o povo aquilo que Deus não revelou na Bíblia, ainda mais
quando tal revelação claramente a contraria. Pessoas assim vivem debaixo de um legalismo
terrível e suas vidas se tornam um verdadeiro inferno. Elas são atormentadas pela
insegurança da própria salvação e enxergam Deus de forma volúvel, mutável e leviano. E a
fé dessas pessoas depende desse tormento pra continuarem "firmes na fé", pois se o
inferno não existir mais para elas, então elas pensam que já não vale a pena viver em
santidade.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 29
Elas vivem em santidade para que o diabo não tenha brechas e não serem lançadas no
inferno. A santidade torna-se apenas um mecanismo contra o mal e não o propósito da vida
cristã. Definitivamente, são inúmeras as razões pelas quais Satanás prega a doutrina da
imortalidade da alma nos grandes sistemas religiosos, e perpetua estes enganos, com uma
única finalidade, que aliás é próprio de sua própria natureza: desviar o caráter de Deus.
“Propague a mentira que afaste as pessoas deste Deus, e esvazie as fileiras da Igreja”.
IV–Como o conceito de “alma imortal” entrou no Judaísmo
Como já vimos, a primeira vez em que a doutrina da imortalidade da alma entrou no mundo
foi através da serpente, no Jardim do Éden, proferindo o que seria hoje a base da doutrina
imortalista: “...certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4). Essa mentira foi a primeira que
Satanás implantou no mundo, por inúmeros motivos, como vimos:
(1) Impugnar o caráter imutável do amor [e justiça] de Deus;
(2) Ser a base das demais mentiras que resultam em adoração e culto às criaturas mortas,
espiritismo, paganismo, consulta aos mortos, intercessão dos santos, purgatório,
reencarnação, etc;
(3) Tirar do evangelho o Cristocentrismo primitivo;
(4) Se a pessoa não morre, ela não tem a necessidade de um arrependimento sincero e
genuíno (através de um processo de santificação), para ser separada do mundo e tornar-se
propriedade exclusiva do Senhor, pois bastaria apenas ser “mais ou menos boa” e depois da
morte “as rezas resolvem tudo”;
(5) Faz com que o foco das pessoas seja de escapar de um inferno horrivelmente
atormentador ao invés do foco ser em Cristo Jesus e na graça divina;
(6) Desvaloriza o conceito de “vida eterna”, uma vez que todas as pessoas teriam uma vida
eterna de qualquer jeito (no Céu ou no inferno), e a vida eterna não seria um dom e não
seria somente em Cristo, mas existiria também uma vida eterna com o diabo;
(7) Despreza o verdadeiro valor da ressurreição dos mortos para a vida ou para a
condenação, uma vez que os mortos já estariam no Céu ou no inferno, sendo, portanto,
totalmente desnecessário e inútil tal ressurreição dos mortos;
(8) O objetivo e finalidade da “conversão” de um cristão seria de escapar de um inferno
eterno e não Jesus;
(9) Cria cristãos edificados sobre o medo e sobre uma consciência errada com relação a
Deus, ao invés de estarem edificados sobre o amor e sobre a graça do Pai; e, finalmente:
(10) Tira a honra completa para Cristo como "a ressurreição e a vida”, com o objetivo de
esvaziar as fileiras da Igreja a fim de trazê-las para religiões falsas edificadas sobre a
crença na alma imortal para continuarem subsistindo.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 30
Satanás é considerado pela Bíblia o “pai da mentira” (cf. Jo.8:44), que, ao ser expulso do
Céu, procurou de todas as maneiras atacar a criação do Deus, o homem, uma vez que ele
não tinha força suficiente para confrontar diretamente a Deus. O resultado disso foi a
implantação de diversas mentiras, quase todas elas construídas sobre a crença de que
“certamente não morrerás”, e a partir daí o ensino em um estado intermediário consciente
dos mortos e em um tormento eterno se tornaram realidade para boa parte dos
antediluvianos e foi retomado pelas pessoas no tempo de Ninrod.
O criador da imortalidade natural da alma é Satanás (cf. Gn.3:4), mas, depois, ele se
utilizou de recursos humanos para difundir tal doutrina pelo mundo afora, na “confusão das
línguas” na Torre de Babel, se disseminando pelo mundo, sendo maior o número de pessoas
a crer na alma imortal do que as que criam na mortalidade natural da alma.
Uma vez que tal ideia foi criada pelo diabo, ficou muito fácil torná-la plenamente difundida
entre as religiões pagãs que não tinham comprometimento com o Deus de Israel. Afinal,
são os próprios espíritos malignos que regem e perpetuam estes enganos, e com facilidade
vemos que a grande maioria das religiões pagãs da antiguidade passaram a seguir também
a mentira propagada pela boca da serpente no Éden.
Os hebreus, contudo, tinham o Deus vivo, e por isso acreditavam em uma natureza humana
holista, e não dualista do ser humano. Eles estavam protegidos pelo Deus de Israel de
doutrinas falsas que pudessem enganar até os homens justos. Os povos pagãos, contudo,
não tinham o Deus de Israel, estando completamente expostos às doutrinas dos demônios,
os verdadeiros agentes por detrás dos “ídolos” (cf. 1Co.10:20). O resultado disso foi que
sem a menor dificuldade praticamente todas elas adotaram a mesma mentira proferida à
Eva no Jardim e passaram a crer na doutrina da imortalidade da alma, em suas mais
diferentes formas.
Com o passar do tempo, a crença na sobrevivência da alma passou a se tornar realidade até
mesmo entre os judeus, o povo do Deus vivo, mas somente depois que o Antigo
Testamento foi concluído. Segundo a própria Enciclopédia Judaica, a imortalidade da
alma não é ensinada nas Escrituras e os judeus só passaram a crer nela através de Platão,
seu principal expoente, em um verdadeiro sincretismo religioso com o helenismo
predominante naquela época e naquela região, por ocasião da diáspora judaica:
"A crença de que a alma continua existindo após a decomposição do corpo é uma
especulação... que não é ensinada expressamente na Sagrada Escritura... A crença na
imortalidade da alma chegou aos judeus quando eles tiveram contato com o
pensamento grego e principalmente através da filosofia de Platão (427 - 347 a.C.),
seu principal expoente, que chegou a esse entendimento por meio dos mistérios órficos e
eleusianos, que na Babilônia e no Egito se encontravam estranhamente misturados"23
Para entendermos como isso se deu, temos que regressar à história dos hebreus. Israel era
um só povo unido até 922 a.C, quando as doze tribos se dividiram em dois reinos, o reino
do Sul (liderado por Judá) e o reino do Norte (liderado por Efraim). O reino do Norte foi
invadido pelos assírios em 725 d.C, e o rei Salmanaser V conquistou Israel, prendeu o rei e
levou cativos os israelitas para outra terra. O mesmo veio a acontecer tempos mais tarde
com o reino do Sul, em 586 a.C, nas mãos dos babilônicos. Eles foram levados cativos e
foram dispersos pelas outras regiões do mundo, daí o nome diáspora, que vem de
23 Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 31
dispersão. Quando eles foram expulsos da terra de Israel, eles se misturaram aos outros
povos e adaptaram muito de sua cultura e doutrina para si.
Ocorre que essa época da diáspora judaica se deu exatamente no período helenístico,
onde os gregos impunham sua cultura os povos conquistados:
“Designa-se por período helenístico (do grego, hellenizein – ‘falar grego’, ‘viver como os
gregos’) o período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a
morte de Alexandre o Grande em 323 a.C e a anexação da península grega e ilhas por
Roma em 146 a.C. Caracterizou-se pela difusão da civilização grega numa vasta área que se
estendia do mar Mediterrâneo oriental à Ásia central. De modo geral, o helenismo foi a
concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios
que conquistava”24
Um dos elementos principais da cultura grega era a filosofia, e dentro dessa área se
destaca Platão. Ele foi o maior divulgador da doutrina da imortalidade da alma na Grécia
Antiga, e a alma ser imortal era um elemento essencial em sua filosofia. Com o período
helenista, essa filosofia (de que a alma é imortal) chegou em grande peso aos demais
povos, em especial aos hebreus, que não mais tinham um território próprio e estavam
“dispersos entre os gregos” (cf. Jo.7:35), e esses hebreus foram helenizados, isto é,
adquiriram para si a forma de pensar dos gregos, mesclando às crenças já cridas por eles.
O resultado disso é que eles continuaram crendo em ressurreição, mas passaram a incluir
em sua cultura a tese grega pagã de que a alma é imortal. Daí surge o tal do “estado
intermediário”, que foi inventado pelos imortalistas numa tentativa de conciliar ambas as
crenças, a imortalidade da alma e a ressurreição, pois, enquanto essa ressurreição não
ocorre, as almas dos que morreram estariam no Céu esperando essa ressurreição
acontecer, num estágio intermediário, entre a morte e a segunda vinda de Cristo.
Durante o período helenista foram fundadas várias cidades de cultura grega, e dentre elas
destaca-se Alexandria, que era uma espécie de “centro do helenismo”, com forte
concentração da cultura grega. Muitos judeus foram dispersos para essa cidade. Um dos
judeus helenizados que começaram a propagar fortemente a imortalidade da alma foi Filon,
sobre quem a Enciclopédia Judaica afirma:
“Não há referências diretas na Bíblia para a origem da alma, sua natureza e sua relação
com o corpo, e essas perguntas deram espaço para as especulações da escola judaica de
Alexandria, especialmente de Filon, o judeu, que procurou na interpretação alegórica de
textos bíblicos a confirmação de seu sistema psicológico. Nos três termos (‘ruach’, ‘nephesh’
e ‘neshamah’) Filon viu a corroboração da visão platônica de que a alma humana é
tripartite (τριμεής), tendo uma parte racional, uma segunda mais espiritual, e uma terceira
como sendo a sede dos desejos”25
Essa crença grega foi originalmente rejeitada pelos judeus da palestina, como atesta a
Enciclopédia Judaica citando o Talmude:
24 Wikipédia, a enciclopédia livre. Período helenístico. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Per%C3%ADodo_helen%C3%ADstico>. Acesso em: 12/09/2013.
25 Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma".
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 32
“Essa crença foi rejeitada pelos estudiosos do Talmude, que ensinaram que o corpo está em
um estado de perfeita pureza (Ber. 10a;. Mek 43b), e está destinado herdar sua morada
celestial (...) Os rabinos afirmaram que o corpo não é a prisão da alma, mas, ao contrário, o
seu meio de desenvolvimento e aperfeiçoamento”26
Por isso mesmo, nada é dito na Enciclopédia Judaica sobre os judeus crerem que a alma é
um elemento imaterial e imortal antes dessa helenização com as teses gregas. Ao contrário,
ela diz claramente:
“Uma vez que a alma é concebida como sendo apenas a respiração (‘nephesh’, ‘neshamah’,
comp. ‘anima’), e inseparavelmente ligada, senão identificada, com o sangue da vida (Gn
9:4; 4:11; Lv 17:11), nenhuma substância real pode ser atribuída a ela. Assim, quando o
espírito ou sopro de Deus (‘Nishmat’ ou ‘Ruach Hayyim’), que é o que se acredita que
mantém corpo e alma juntos, tanto dos homens como dos animais (Gn 2:7; 6:17; 7:22; Jó
27:3), é retirado (Sl 146:4) ou retorna a Deus (Ec 12:7; Jó 34:14), a alma desce ao Sheol
ou Hades, para lá ter uma sombria existência, sem vida e consciência (Jó 14:21; Sl 6:5;
115:7; Is 38:19; Ec 9:5; 9:10). A crença em uma vida contínua da alma, que é a base da
primitiva adoração aos antepassados e dos ritos de necromancia, prat icados também pelo
antigo Israel (1Sm 28:13; Is 8:19), foi desencorajada e suprimida pelo profeta como
antagônica à crença em YHWH, o Deus da vida, o Governador do Céu e da Terra”27
E sobre o significado original de “espírito” entre os judeus da época do Antigo Testamento
ela diz:
“O relato mosaico da criação do homem fala de um espírito ou fôlego com que foi dotado
por seu Criador (Gn 2:7), mas esse espírito é concebido como sendo inseparavelmente
ligado, senão totalmente identificado, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11).
Somente através do contato dos judeus com o pensamento persa e grego surgiu a
ideia de uma alma desencarnada, tendo sua própria individualidade”28
A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional também revela que os israelitas não criam na
imortalidade da alma antes de serem tardiamente influenciados por Platão:
"Quase sempre somos mais ou menos influenciados pela ideia grega platônica, que diz que
o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita
e não é encontrada em nenhum lugar do Antigo Testamento"29
Claro que Deus só deixou que tal fato se concretizasse depois do Antigo Testamento ter sido
concluído, pois Ele cuida de não haver doutrinas falsas em Sua Palavra. Quando o último
livro do Antigo Testamento foi escrito (que foi o livro de Malaquias, em 397 a.C), ainda não
havia ocorrido esse sincretismo com o paganismo grego, que, como vimos, se deu a
partir de 323 a.C. Sendo assim, podemos chegar à conclusão de que Deus guardou a Sua
Palavra do paganismo, salvaguardando o Antigo Testamento de conter alguma filosofia
imortalista de séculos posteriores, quando já estavam influenciados pela filosofia grega.
26 ibid.
27 Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566.
28 Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma".
29 Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, 1960, vol. 2, "Morte", p. 812.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 33
O fato da doutrina na alma imortal ter sido propagada entre os judeus através do
sincretismo com a filosofia platônica, também atestado pela própria Enciclopédia Judaica,
explica o porquê dos livros apócrifos contidos nas Bíblias dos católicos estarem repletos de
informações claras sobre a “imortalidade da alma” e sobre a existênc ia do estado
intermediário, e até mesmo do “purgatório” e de oração pelos mortos, pois foram escritos
depois de ter se consumado tal contato com o paganismo.
É evidente que tal pensamento para os hebreus só se tornou realidade a eles a partir do
sincretismo religioso com as religiões pagãs, por ocasião da diáspora judaica, quando o
povo hebreu esteve exposto às doutrinas helenísticas de grande influência, incluindo a forte
concepção grega de imortalidade da alma impregnada por Platão na Grécia Antiga.
Quando os judeus estiveram expostos a tais pensamentos, passaram então a escrever e a
acreditar em tais superstições, contrariando o pensamento holístico bíblico de séculos
anteriores (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó
14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). Na própria narração da criação humana é
narrado o simplismo bíblico no homem tornar-se uma alma (cf. Gn.2:7), algo muito
diferente dos contos pagãos em que os seres humanos recebiam (ou “obtinham”) uma alma
eterna/imortal que lhes era infundida.
Na Bíblia Sagrada, “espírito” significa somente “vida”, e não uma outra pessoa c onsciente
dentro do ser humano (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29), algo
muito diferente do que criam as religiões pagãs e politeístas da época. Na diáspora judaica,
influenciados pelo sincretismo pagão, o povo judeu passou a claramente declarar a posição
de imortalidade da alma (cf. Sabedoria 3:1-4; 5:1-4; 2:23; 3:2,4; 8:19,20; 9:15).
O livro de “Sabedoria”, por exemplo, cita passagens de livros bíblicos escritos séculos
depois da morte de Salomão (em 998 a.C) e faz isso da Septuaginta grega, que começou a
ser traduzida por volta de 280 a.C. Por isso, o livro “Sabedoria de Salomão”, na verdade,
não tem nada a ver com Salomão, que claramente negava a vida após a morte (cf.
Ec.3:19,20; Ec.9:5; Ec.9:6; Ec.9:10), isso evidentemente séculos antes da diáspora
judaica. Atualmente acredita-se que o escritor tenha sido um judeu de Alexandria, no Egito,
por volta de meados do primeiro século antes de Cristo.
O escritor deste livro faz uso fortemente da filosofia grega, mostrando grande particular
familiaridade com ela. Ele usa terminologia platônica na divulgação da doutrina da
imortalidade da alma (cf. Sabedoria 3:1,4; 5:1-4; 2:23; 3:2,4; 8:19,20; 9:15). Outros
conceitos pagãos apresentados são a pré-existência das almas humanas e o conceito de que
o corpo é um impedimento ou estorvo para a alma (cf. 8:19, 20; 9:15). É óbvio que tais
ensinamentos não existem em parte nenhuma da Bíblia canônica e muito menos antes da
diáspora, pois tais ensinamentos estão clarissimamente relacionados ao sincretismo com o
dualismo platônico.
ANTES DA DIÁSPORA DEPOIS DA DIÁSPORA
“Porque os vivos sabem que hão de
morrer, mas os mortos não sabem coisa
nenhuma, nem tampouco terão eles
recompensa, porque a sua memória jaz no
esquecimento. Amor, ódio e inveja para
eles já pereceram; para sempre não têm
“As almas dos justos estão nas mãos de
Deus, e nenhum tormento jamais os
tocará [...] pois na verdade eles estão
em paz, e a esperança deles é plena
imortalidade” (cf. Sabedoria 3:1-4)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 34
eles parte em coisa alguma do que se faz
debaixo do sol [...] Tudo quanto te vier à
mão para fazer faze-o conforme as tuas
forças, porque no além, para onde tu vais,
não há obra, nem projetos, nem
conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf.
Eclesiastes 9:5, 6 e 10)
Antes daquele momento, nada de imortalidade da alma; depois daquele momento,
inúmeras menções explícitas dela. No livro anteriormente citado, lemos algumas destas
“descrições”: "As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da
morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; e a sua saída deste mundo foi
considerada como uma aflição, e a sua separação de nós como um extermínio; mas eles
estão em paz (no céu). E, se eles sofreram tormentos diante dos homens, a sua esperança
está cheia de imortalidade” (cf. Sabedoria 3:1-4)
Fica mais do que claro que tais menções explícitas de imortalidade da alma nos livros não-
canônicos (ou “apócrifos”) foram feitas não pela inspiração divina, mas sim pelo sincretismo
com o paganismo grego, “coincidentemente” no exato momento da diáspora judaica. Se a
imortalidade da alma fosse a doutrina do Antigo Testamento antes da influência de
ensinamentos gregos de dualismo entre corpo e alma, então o que deveríamos esperar
seria justamente inúmeras e constantes menções plenamente definidas de imortalidade da
alma neles (assim como vemos constantemente ensinamentos dualistas depois da
diáspora).
Tal fato, contudo, está muito longe de ser realidade. O próprio fato de os hebreus
começarem a escrever sobre a imortalidade da alma a partir da diáspora corrobora com a
História que nos mostra que houve tal sincretismo pagão por esta época. O Dr. Samuelle
Bacchiocchi acrescenta:
“Durante esse período inter-testamentário, o povo judeu esteve exposto, tanto em seu lar,
na Palestina, quanto na diáspora (dispersão), à cultura e filosofias helenísticas (gregas) de
grande influência. O impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas,
inclusive na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaic as produzidas
nessa época”30
Vemos, portanto, que como o resultado deste impacto foi o que resultou na difusão da
doutrina da imortalidade da alma entre os judeus, que entrou no judaísmo não por uma
ordenança divina, mas decorrente do puro sincretismo religioso com as religiões
pagãs.
Mas havia ainda uma linha de pensamento que corria no mundo judaico em paralelo com a
visão dualista helenista. Esta outra linha de pensamento diz respeito ao judaísmo
palestino que se manteve fiel aos escritos bíblicos veterotestamentários. Um dos livros que
nos mostra isso é o apócrifo de 2ª Baruque, que, em linguagem bem semelhante aos
ensinos canônicos neotestamentários provenientes da palestina, afirma que os mortos
“dormem no pó da terra” e na segunda vinda do Messias “todos os que adormeceram na
30 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a
natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 35
esperança dEle ressuscitarão; todos os justos serão reunidos num instante e os ímpios
lamentarão, pois o tempo de seu tormento é chegado” (cf. 2ª Baruque cap.30).
A linha de pensamento é fortemente semelhante ao pensament o do Novo Testamento e
expressa com exatidão a figura bíblica adequada para a morte: o sono (cf. Jo.11:11); o
local onde estão os mortos: o pó da terra (cf. Dn.12:2); a esperança do verdadeiro cristão:
a ressurreição (cf. Hb.11:35); o momento em que os justos serão todos ajuntados
juntamente: na segunda vinda de Cristo (cf. 1Ts.4:15); e quando é que os ímpios
finalmente serão atormentados: somente na ressurreição que lhes é chegado o momento da
sua punição (cf. 2Pe.2:9).
Esta linha de pensamento ainda corrente no primeiro século (2ª Baruque foi escrito em fins
do primeiro século d.C ou início do segundo) ainda corria entre o judaísmo palestino. Uma
linha que mantém a esperança focada na ressurreição (cf. At.24:15), que prega que só
Deus é possuidor natural de imortalidade (cf. 1Tm.6:16), e que o homem tem que buscá-la
porque não a possui naturalmente (cf. Rm.2:7). Essa é a linha de pensamento
neotestamentária utilizada pelos apóstolos.
Foi somente a partir de meados do segundo século que os filósofos primitivos cristãos
adotaram o conceito grego de imortalidade da alma, algo presumível uma vez que tal
conceito era fortemente difundido nas comunidades não-cristãs. Muitas doutrinas foram
corrompidas ao longo dos séculos, incluindo a concepção do dualismo grego dominante na
época.
Por este tempo a ideia da existência de uma alma imortal tomou conta do Cristianismo,
permanecendo até os dias de hoje, na maioria das igrejas cristãs. Tendo como única fonte
de fé as Sagradas Escrituras disponíveis em sua época, e que negavam em absoluto
qualquer tipo de vida pré-ressurreição (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4;
Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17), os
apóstolos a seguiam em não tomar parte com tal doutrina que, até esta época, estava das
portas para fora da Igreja.
O próprio fato da vida ser apenas a partir da ressurreição fazia com que o foco da Igreja
primitiva fosse completamente voltado ao glorioso dia da ressurreição dos mortos, assunto
este que era a base de todo o Novo Testamento, sendo mencionadas algumas centenas de
vezes (ex: Atos 16:6-8; Hebreus 11:35; Atos 4:2; 17:18; Atos 23:6; 24:15, que mostram
que a esperança dos cristãos era na ressurreição).
Por que quase não ouvimos falar na doutrina da ressurreição entre as igrejas cristãs dos
dias de hoje? Porque elas passaram a adotar a imortalidade da alma. O helenismo
trouxe aos hebreus uma mescla das doutrinas gregas de imortalidade da alma com as suas
próprias convicções a respeito a ressurreição dos mortos. O resultado desta mescla foi que
eles não deixaram de conceber a doutrina da ressurreição, mas incluíram junto a ela uma
nova ideia que com o passar dos tempos foi deixando a realidade da ressurreição cada vez
mais insignificante: a imortalidade da alma.
Na época de Cristo, imortalidade da alma e ressurreição dos mortos eram dois opostos. Os
gregos acreditavam na doutrina da imortalidade (e os cristãos dos dias de hoje misturam os
dois). Naquela época, contudo, uma vez que a esperança cristã era a da ressurreição, se
você quisesse pregar que os mortos já tinham ido para a glória teria que pregar deste jeito:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 36
“Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a
fé de alguns” (cf. 2Tm.2:18). O próprio apóstolo Paulo teve sérios problemas em Atenas por
causa da crença deles na imortalidade da alma, como é dito em Atos 17:32. A verdade é
que Paulo pregava a ressurreição, e, os gregos, a imortalidade incondicional da alma. O
resultado disso foi a rejeição por parte deles aos ensinamentos de Paulo.
A esperança bíblica primitiva era sempre voltada à ressurreição, e não à imortalidade da
alma. A crença na alma imortal não apenas desqualifica e tira a importância da
ressurreição, como também a anula como sem sentido, uma vez que todos iríamos
continuar no Céu ou no inferno do mesmo jeito sem ela. Tal detrimento óbvio entre
imortalidade da alma e ressurreição dos mortos é tão evidente que levou muitos grandes
escritores a exporem tal discrepância, como o grande teólogo luterano Oscar Cullmann e o
doutor adventista Samuelle Bacchiocchi (que colocaram tal contradição no título de seus
livros).
O autor deste livro disponibilizará de mais de duas centenas de provas contra a doutrina
dualista ao longo de toda a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, que serão mostradas e
comentadas uma a uma ao longo de todo o livro, revelando como que tal doutrina não é
apenas a primeira mentira, como também a maior de todas as mentiras de todos os
tempos.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 37
CAPÍTULO 2 – OS PAIS DA IGREJA E A IMORTALIDADE DA ALMA
I–Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma?
Os Pais da Igreja foram os influentes cristãos, bispos, teólogos e mestres que marcaram
história na Igreja primitiva nos primeiros séculos e cujos trabalhos foram utilizados como
precedentes doutrinários nos séculos seguintes. O estudo dos escritos dos Pais da Igreja é
denominado “patrística”, e seu conteúdo é de profunda relevância quando buscamos saber
se a Igreja cristã dos primeiros séculos cria ou não em alguma doutrina. Afinal, se os Pais
da Igreja que conviveram tão próximos aos apóstolos, como Policarpo (69-155 d.C) que foi
discipulado pelo próprio apóstolo João, ou Inácio (35-107 d.C), que também conviveu com
os apóstolos, estavam equivocados, então toda a verdade cristã deixada pelos discípulos de
Jesus foi corrompida dentro de um período de tempo extremamente curto.
Doutra forma, se confirmamos que os primeiros cristãos criam de acordo com a crença
bíblica sobre a vida após a morte, temos a ratificação de que os bispos que sucederam os
apóstolos salvaguardaram a doutrina bíblica a este respeito, e que apenas tardiamente a
Igreja se desviou do curso. Por isso, embora a Bíblia seja a nossa única regra de fé e
prática, o estudo da patrística não perde seu valor por isso, mas nos ajuda a entender se os
primeiros cristãos da Igreja primitiva criam na imortalidade ou na mortalidade da alma,
assim como as epístolas apostólicas nos ajudam a entender a visão daqueles que
conviveram pessoalmente com Cristo. Afinal, se aqueles que conviveram de perto com os
apóstolos não criam na imortalidade da alma, tampouco cremos que os próprios apóstolos
tenham passado tal ensino a eles.
Que a imortalidade da alma não era uma crença adotada pelos primeiros Pais da Igreja, em
especial os do século I até meados do século II d.C, isso fica evidente pela própria
argumentação imortalista que sempre cita apenas os Pais de tempos bem posteriores,
começando por Orígenes e avançando até Agostinho. Eles realmente não têm nenhuma
prova irrefutável dessa doutrina que possa ser encontrada em qualquer obra de qualquer
Pai da Igreja que tenha convivido mais de perto com os apóstolos. Neste capítulo, portanto,
irei provar resumidamente como que a patrística refuta a imortalidade incondicional da alma
naquilo que tange aos primeiros séculos de Cristianismo.
Inácio de Antioquia (68 – 107 d.C) cria que seria encontrado como discípulo de Policarpo
depois que a ressurreição tivesse sido consumada, e não imediatamente após a morte em
algum estado intermediário:
”Uma vez que a Igreja de Antioquia da Síria está em paz, como fui informado, graças à
vossa oração, fiquei mais confiante na serenidade de Deus, se com o sofrimento eu o
alcançar, para ser encontrado na ressurreição como vosso discípulo”31
Era na ressurreição – e não após a morte – que Inácio se reencontraria com Policarpo, e
seria reconhecido como seu discípulo. O mesmo ele afirma aos cristãos de Éfeso:
”Fora dele [Jesus], nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São
as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à
31 Carta de Inácio a Policarpo, 7:1.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 38
vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos
cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo”32
Inácio queria se encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, mas a pergunta que não quer
calar é: “quando”? Qualquer imortalista responderia que seria logo após a morte e antes
da ressurreição, quando supostamente a “alma imortal” de Inácio partiria para o Céu e se
encontraria na sua herança, junto aos cristãos de Éfeso. Porém, Inácio diz claramente que
seria na ressurreição que isso aconteceria! A crença de Inácio de que era somente na
ressurreição dos mortos que os cristãos entram em sua herança celestial e se reencontram
com os demais cristãos era crida também por Policarpo (69 – 155 d.C), contemporâneo de
Inácio, que afirmou que a ressurreição não é somente do corpo (como creem os
imortalistas), mas também da alma:
“Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os
mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do
corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo”33
Justino (100 – 165 d.C) foi ainda mais além e declarou que aqueles que criam que a alma
vai para o Céu após a morte e antes da ressurreição nem sequer poderiam ser considerados
cristãos, mas estariam no grupo daqueles que eram considerados «ímpios e hereges», que
ensinavam «doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas»:
"Além disso, eu indiquei-lhe que há alguns que se consideram cristãos, mas são
ímpios, hereges, ateus, e ensinam doutrinas que são em todos os sentidos
blasfemas, ateístas e tolas. Mas, para que saiba que eu não estou sozinho em dizer isso
a você, eu elaborarei uma declaração, na medida em que puder, de todos os argumentos
que se passaram entre nós, em que eu devo registrá-las, e admitindo as mesmas coisas
que eu admito a você. Pois eu opto por não seguir a homens ou a doutrinas humanas, mas
a Deus e as doutrinas entregues por Ele. Se vós vos deparais com supostos Cristãos que
não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no
ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos. Mas
eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que
haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída,
adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram"34
O Diálogo com Trifão, escrito por Justino, é ainda mais interessante por ser apresentado em
forma de diálogo. Nele, podemos ver as incoerências da crença de que a alma é imortal e
também como que os primeiros cristãos contestavam essa crença de origem pagã. Por
exemplo, Justino afirma que as almas dos homens são em tudo semelhante às almas dos
animais:
Velho: E todas as almas de todos os seres vivos podem compreendê-Lo? Ou são as almas
dos homens de um tipo e as almas dos cavalos e de jumentos de outro tipo?
Justino: Não. Mas as almas que estão em todos são semelhantes. (Capítulo 4)
32 Inácio aos Efésios, 11:2.
33 O Martírio de Policarpo, 14:2.
34 Diálogo com Trifão, Cap.80.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 39
Aqui Justino declara que as almas humanas não são diferentes das dos animais. Se lermos
o relato da criação em Gênesis, vemos que ambos são descritos como sendo alma-nephesh
(cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). Alguns imortalistas, na tentativa de
refutar este fato bíblico, tentam dizer que as almas dos animais são diferentes das almas
humanas, pois a deles seria mortal, enquanto a nossa seria imortal. Isso é o que o homem
velho estava dialogando com Justino, mas este nega que haja diferença entre ambas as
almas, exatamente como prega a doutrina bíblica holista!
Mais a frente, vemos um interessante diálogo de Justino com o Velho, onde os dois
discorrem sobre a natureza do universo e sobre o destino da alma após a morte. Desde que
o universo lhes pareceu ser gerado (como a Bíblia ensina que foi), eles concluem que as
almas não podem ser imortais, mas morrem após a morte do corpo:
Velho: Você diz que o mundo também é não-gerado?
Justino: Alguns dizem que sim. Eu, porém, não concordo com eles.
Velho: Você está certo, pois que razão alguém tem para supor que um corpo tão sólido,
possuindo resistência, composto, mutável, em decomposição, e renovado a cada dia, não
surgiu de alguma causa? Mas se o mundo é gerado, as almas necessariamente
também são geradas, e talvez em algum momento elas não existam, porque elas
foram feitas por conta dos homens e outros seres vivos, se você for dizer que eles foram
gerados totalmente à parte, e não juntamente com seus respectivos órgãos.
Justino: Isso parece estar correto.
Velho: Não são, pois, imortais?
Justino: Não, desde que o mundo pareceu-nos ser gerado. (Capítulo 5)
Justino afirma que as almas não são imortais, porque o universo foi gerado. Então, vem a
parte que alguns imortalistas se utilizam, tirando-a de seu devido contexto, que é
quando o velho que debate com Justino (e não o próprio Justino) afirma que as almas não
morreriam completamente, mas as almas dos justos iriam para um “lugar melhor” após a
morte, e as dos injustos iriam para um “lugar pior”, esperando o dia do julgamento. Já vi
alguns imortalistas fazerem uso dessa passagem na intenção de passar a ideia de que
Justino não cria que a alma morria após a morte, mas eles se esquecem de que foi o
próprio Justino que corrigiu este pensamento do homem velho logo na sequencia
do Diálogo:
Velho: Mas eu não digo, na verdade, que todas as almas morrem... mas depois da morte
as almas dos piedosos permanecem em um lugar melhor, enquanto as dos injustos e
perversos estão em um lugar pior, esperando o momento do julgamento. Assim, alguns que
tem sido dignos de serem apreciados por Deus nunca morrem, mas outros são punidos,
desde que Deus quer que eles existam e sejam punidos.
Justino: O que você diz, então, é de uma natureza similar com o que Platão ensina sobre o
mundo, quando ele diz que ele é realmente sujeito à decadência, na medida em que foi
criado, mas que nem vai ser dissolvido, nem encontrar-se com o destino da morte por conta
da vontade de Deus. Parece-lhe que o mesmo pode ser dito da alma, e em geral de todas
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 40
as coisas? Para as coisas que existem depois de Deus, ou em qualquer momento
existem, estas têm a natureza de decadência, e podem ser apagadas e deixarem
de existir, pois só Deus é ingênito e imortal, e por isso mesmo Ele é Deus, mas
todas as outras coisas criadas por Ele são corruptíveis. Por esta razão ambas as
almas morrem, uma vez que, se fossem ingênitas, elas nem teriam pecado, nem seriam
preenchidas com a loucura, e nem seriam covardes ou ferozes; nem seriam de bom grado
se transformarem em porcos e as serpentes em cães, se fossem não-geradas.
Note que o homem velho realmente propôs a imortalidade da alma a Justino, mas foi o
próprio Justino quem refutou aquele pensamento logo em seguida, dizendo que o homem
velho estava pensando da mesma forma que Platão, de que o mundo não vai ser dissolvido,
e de que o mesmo poderia ser aplicado com relação à alma (que não se dissolveria após a
morte). Isso estaria errado pelo fato de que as coisas criadas por Deus tem uma natureza
corruptível, e por essa razão “ambas as almas morrem”, isto é, tanto as almas dos
homens como também as dos animais perecem após a morte, não são imortais como cria
Platão. Mais adiante, Justino reitera mais uma vez que a alma deixa de existir após a morte,
e que o homem não existe mais quando o espírito da vida é retirado dele, não existindo
mais a alma:
“Sempre que a alma tem de deixar de existir, o homem não existe mais, o espírito da
vida é removido, e não há mais alma, mas ele vai voltar para o lugar de onde foi feito”35
Para Justino, quando Deus retira do homem o sopro de vida que Ele soprou originalmente
nas narinas de Adão, o homem não existe mais, a alma deixa de existir e «não há mais
alma»; o homem como um ser integral volta para o lugar de onde ele foi formado: o pó da
terra. Por isso, a ressurreição é a única esperança para trazer o homem de volta à
existência, como Justino também declara a Trifão:
Trifão: Diga-me, então, devem os que viviam de acordo com a lei dada por Moisés,
viverem da mesma maneira com Jacó, Enoque, Noé, na ressurreição dos mortos, ou
não?
Justino: Quando citei, senhor, as palavras ditas por Ezequiel, que, ”mesmo que Noé, Daniel
e Jó estivessem nela, eles não poderiam livrar seus filhos e suas filhas, o pedido não lhes
seria concedido", mas que cada um deve ser salvo pela sua própria justiça, disse também
que aqueles que suas vidas foram reguladas pela lei de Moisés de igual modo devem ser
salvos. Pois o que está na lei de Moisés é naturalmente bom, piedoso e justo, e foi prescrito
a ser praticado por aqueles que devem obedecê-la, e foi designada para ser realizada em
virtude da dureza dos corações do povo, e feita também para aqueles que estavam debaixo
da lei. Desde aqueles que fizeram o que é universal, naturalmente, e eternamente bom é
agradável a Deus, eles serão salvos por esse Cristo na ressurreição, em pé de
igualdade com os homens justos que foram antes deles, ou seja, Noé e Enoque, e Jacó, e
quem mais existir, juntamente com aqueles que conheceram esse Cristo, Filho de Deus, que
foi a estrela da manhã e submeteu-se ao encarnar-se, e nascer desta virgem da família de
Davi, a fim de que, por nesta dispensação, a serpente que peca desde o princípio e os anjos
com ele possam ser destruídos, e que a morte possa ser desprezada, para sair
eternamente, na segunda vinda de Cristo, aqueles que acreditam n'Ele e viveram
aceitavelmente. (Capítulo 45)
35 Diálogo com Trifão, Cap.6.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 41
É tão claro como a luz do dia o fato de que Justino cria que seria na ressurreição (que
acontece na segunda vinda de Cristo) que aqueles que já morreram (tais como Noé, Enoque
e Jacó) iriam ser salvos e sair para a vida eterna. Por isso ele se regozijava da morte: não
por pensar que tinha uma “alma imortal” que sobrevivesse conscientemente após a morte,
mas por crer que Deus o ressuscitaria e o tornaria imortal nessa ressurreição:
“Mas nós nos regozijamos da morte, acreditando que Deus nos ressuscitará a nós pelo
seu Cristo, e nos fará incorruptíveis, e intactos, e imortais, e sabemos que as
ordenanças impostas em virtude da dureza dos corações do povo em nada contribuem para
o desempenho da justiça e da piedade”36
Por tudo isso, a vida eterna seria herdada somente após a santa ressurreição, e não antes
dela:
“Ele [Josué] não apenas teve o seu nome alterado, como também foi sucessor de Moisés,
sendo o único de seus contemporâneos que saiu do Egito, ele levou os sobreviventes para a
Terra Santa e foi ele, e não Moisés, que conduziu as pessoas para a Terra Santa, e assim
como ela foi distribuída por sorteio para os que entraram junto com ele, assim também
Jesus Cristo virá novamente e distribuirá a boa terra para cada um, embora não da mesma
maneira. Pois o primeiro [Josué] deu-lhes uma herança temporária, visto que ele não era
nem Cristo, que é Deus, nem o Filho de Deus; mas este último [Jesus], após a santa
ressurreição, nos dará a posse eterna”37
Os homens de todas as épocas que creram em Cristo e que viveram de acordo com a
Palavra de Deus “estarão” {futuro} naquela terra, e “herdarão” {futuro} o eterno e
incorruptível bem:
“E, portanto, todos os homens em todos os lugares, quer escravos ou livres, que creem em
Cristo, e reconheceram a verdade em suas próprias palavras e dos Seus profetas, sabemos
que eles estarão com ele naquela terra, e herdarão o eterno e incorruptível bem”38
Se Justino cresse que herdamos a vida eterna antes da ressurreição (no momento em que a
alma “voa” para o Céu após a morte), então ele teria dito que os que já morreram já estão
naquela terra prometida por Deus, e que já herdaram o eterno e incorruptível bem. O fato
de ele colocar tudo no tempo futuro nos mostra mais uma vez que ele não cria na
imortalidade da alma. A posse da vida eterna era vista como um acontecimento depois da
ressurreição dos mortos, e não antes:
“E a Palavra, sendo o Seu Filho, veio até nós, tendo sido manifestado em carne, revelando
tanto si mesmo como também o Pai, dando-nos a ressurreição dos mortos e, depois, a
vida eterna”39
Por isso mesmo ele advogava a tese bíblica de que a ressurreição não é meramente do
corpo, mas do corpo e da alma, pois tanto o corpo como a alma formam o homem, e
consequentemente tanto o corpo como a alma morrem, e tanto o corpo como a alma
ressuscitam na ressurreição:
36 Diálogo com Trifão, Cap.46.
37 Diálogo com Trifão, Cap.113.
38 Diálogo com Trifão, Cap.139.
39 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.1.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 42
“Pois o que é homem, senão um animal racional composto de corpo e alma? É a alma
chamada de homem por si mesma? Não, mas é chamada a alma do homem. Será que o
corpo pode ser chamado de homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, então,
nenhum deles é por si só o homem, mas o que é composto dos dois juntos é
chamado de homem, e Deus chamou o homem para a vida e ressurreição, Ele
chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo”40
“Se Ele não tinha necessidade da carne, por que Ele iria curá-la? E o que é o mais
convincente de todos: Ele ressuscitou os mortos. Por quê? Não era para mostrar como a
ressurreição deveria ser? Como, então, Ele ressuscitará os mortos? Suas almas ou os
seus corpos? Manifestamente ambos”41
Arnóbio foi outro a declarar que a tese da imortalidade da alma era crida em sua época por
“pensadores recentes e fanáticos”:
"Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber
esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticos
pela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais”42
Essa é uma declaração enfática que nos leva a crer novamente que quando a imortalidade
da alma entrou na Igreja não foi por ser pregada desde sempre pelos apóstolos, mas foi ao
longo de um processo de desvio doutrinário, começando a ser pregada por apenas alguns
“recentes”, que, influenciados pela filosofia grega platônica, trouxeram para dentro da
Igreja o conceito pagão de que a alma seria imortal. Os pensadores da época que criam que
a alma era imortal eram questionados pela sua própria infantilidade e ignorância em ver
este assunto desta forma:
“Mas se você está realmente certo de que as almas dos homens são imortais e dotadas
de conhecimento, quando elas voam para cá, deixe-me questionar a juventude que
você vê as coisas pela sua ignorância, estando acostumado aos caminhos dos
homens”43
Arnóbio enfatiza também que as almas não são incorpóreas, o que é outra base e
fundamento da tese imortalista que é derrubada, juntamente com a crença de que elas
seriam “imortais”:
“Além disso, o mesmo raciocínio não só mostra que elas [as almas] não são
incorpóreas, mas também as privam de toda e qualquer imortalidade, e remete-as
para os limites dentro dos quais a vida é normalmente fechada”44
Por fim, outros dois autores cristãos do segundo século d.C que são bem importantes para
entendermos o pensamento presente na Igreja da época, são Teófilo de Antioquia (120 –
180 d.C) e Taciano, o Sírio (120 – 180 d.C), que são da mesma época, sendo que ambos
eram filósofos e ambos discorreram amplamente sobre a ressurreição, sobre a natureza
40 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.8.
41 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.9.
42 Arnóbio, op. cit., Liv. II, 14-15; pag. 51.
43 Arnóbio, Against the Heathen , Livro II, Cap.24.
44 Arnóbio, Against the Heathen, Livro II, Cap.26.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 43
humana e sobre a vida após a morte. Começaremos por Teófilo, que escreveu três livros a
Autólico, e disse:
“Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver
a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então
compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da
incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a
tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o
imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente
contra ele”45
Acima constatamos três pontos principais. O primeiro, é que a natureza humana atual é
mortal. A segunda, é que a alma ressuscita juntamente com o corpo, o que era uma crença
comum no século d.C. E o terceiro, que é somente na ressurreição, quando o homem se
torna imortal, que ele verá o imortal, Deus. A doutrina tardia da imortalidade da alma
mudou tudo isso, pois prega que o ser humano possui atualmente a imortalidade na forma
de uma alma imortal, ensina que a ressurreição é somente do corpo e também que veremos
a Deus logo após a morte, antes mesmo da ressurreição. Quanta diferença disso para aquilo
que os Pais da Igreja criam e ensinavam!
Outro fato que Teófilo nos mostra e que, como já vimos, é totalmente compatível com a
Bíblia e com aquilo que disse Justino de Roma, é que os animais também são almas
viventes:
“E disse Deus: ‘Que as águas produzam répteis de alma vivente e aves que voam sobre a
terra debaixo do firmamento do céu’. E assim se fez. E Deus fez os monstros grandes do
mar, e toda alma dos animais que se arrastam, que as águas produziram conforme suas
espécies, e todo volátil alado segundo a sua espécie. E Deus viu que era bom. E Deus os
abençoou, dizendo: ‘Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar, e que as aves se
multipliquem sobre a terra’. Houve tarde e houve manhã: quinto dia.E disse Deus: ‘Que a
terra produza alma vivente conforme a sua espécie, quadrúpedes e répteis e feras da
terra segundo a sua espécie’. E assim se fez. E Deus fez as feras da terra conforme a sua
espécie e os animais segundo a sua espécie, e todos os répteis da terra”46
Depois que a doutrina pagã da imortalidade da alma ganhou força dentro do Cristianismo,
ficou comum os teólogos da imortalidade negarem que os animais sejam ou possuam alma,
e a grande maioria das traduções vertem os textos acima (a exemplo de outros onde
aparece nephesh para os animais) como “criaturas viventes”, antes que como “almas
viventes”, que é o real significado do hebraico nephesh. Tudo para negar que os animais
são tão nephesh quanto o ser humano, e que, por isso, nephesh não é nem nunca foi um
elemento eterno, imortal e imaterial presente na natureza humana.
O curioso é que estas mesmas traduções que adulteram o original hebraico e traduzem por
“criatura” onde deveria ser “alma” relacionando-se aos animais, no mesmo contexto
traduzem a mesma palavra [nephesh] por alma mesmo quando se refere a seres humanos!
A manobra por trás disso tudo é muito clara: eles querem passar a falsa ideia de que
nephesh (alma) é um elemento imortal e imaterial que está presente em nós mas não nos
animais; por isso, traduzem essa palavra por “alma” quando se refere aos seres humanos,
45 Teófilo a Autólico, Livro I, Cap.7.
46 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.11.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 44
mas não traduzem por “alma” quando a mesma palavra é aplicada igualmente aos animais,
ou senão todos ficariam sabendo que nephesh não é um elemento imortal coisa nenhuma.
Teófilo também faz um contraste entre nós e Deus, mostrando que Deus é imortal,
enquanto o homem deixa de existir por um tempo, até voltar à existência em uma
ressurreição futura:
“Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande mistério, pois o sol é símbolo de
Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere muito da lua em poder e glória, assim Deus
é muito diferente da humanidade; como o sol permanece sempre cheio e não
diminui, assim Deus permanece sempre perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria,
imortalidade e de todos os bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo,
morre, e é símbolo de como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para
demonstrar a ressurreição futura”47
De todos os escritos de Teófilo, o meu preferido é aquele em que ele t rata mais diretamente
sobre a constituição da natureza humana. A crença unânime entre os imortalistas é a de
que o homem foi criado naturalmente possuindo a imortalidade, isto é, que a alma é
naturalmente imortal, e isso vale para todo mundo, justos ou ímpios, crentes ou incrédulos.
Por outro lado, eu não digo que a alma foi criada naturalmente imortal (o que já vimos que
é uma heresia), mas nem que ela foi criada mortal, e sim que foi criada com a
possibilidade de ambas, mas o homem, ao escolher o pecado, trouxe a morte a si
mesmo, e, desta forma, o homem não se tornou imortal, mas mortal por natureza. É
exatamente isso o que Teófilo nos explica com grande sabedoria nessas palavras:
“Poder-se-á dizer: ‘O homem não foi criado mortal por natureza?’ De jeito nenhum. ‘Então
foi criado imortal?’ Também não dizemos isso. ‘Então não foi nada?’ Também não
dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem
imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por
outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte.
Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa
e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade, guardando o
mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser
deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa
da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos. O
que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora
Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o
homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, desobedecendo, atraiu sobre si a
morte, assim também, obedecendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a
vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os
cumpre pode salvar-se e, tendo alcançado a ressurreição, herdar a imortalidade”48
Teófilo acima foi simplesmente brilhante em suas colocações. Deus não criou o homem com
uma alma imortal, pois, se o tivesse criado imortal, «o teria feito deus»; nem tampouco o
criou mortal, senão poderia parecer que Deus é a causa da morte, ou seja, que Ele não
deixou a nós outra opção a não ser a morte. A imortalidade ou mortalidade, portanto,
estava dependente da escolha do homem. Dito em termos simples, a possibilidade de
47 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.15.
48 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.27.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 45
possuir a imortalidade não estava baseada em uma alma imortal recém-implantada,
mas condicionada à obediência a Deus.
Mas, no Jardim, o homem preferiu comer do fruto proibido, pecou e desobedeceu ao
Criador, e atraiu a morte para si mesmo. Desde então o homem passou a ser naturalmente
mortal, por causa do pecado, que afetou tanto o corpo como a alma. O homem, desta
forma, «se tornou a causa da morte para si mesmo, porque Deus o fez livre e senhor de
seus atos». O homem tornou-se naturalmente mortal pela sua própria negligência e
desobediência. Mas Deus, pela Sua misericórdia, deu-nos a possibilidade de sermos
imortais, se obedecermos a vontade de Deus, podendo adquirir a vida eterna.
A pergunta que devemos fazer é: “O que Deus providenciou para poder nos conceder uma
vida eterna (imortalidade)”? A resposta não é uma alma naturalmente imortal, mas sim a
ressurreição dos mortos. A ressurreição é, por assim dizer, o “antídoto” para a
imortalidade, é por meio dela que os santos podem obter a vida eterna. Foi por isso que
Teófilo disse que, tendo alcançado a ressurreição, podemos herdar a imortalidade.
A imortalidade não é uma posse já garantida através da detenção de uma alma imortal em
nossa própria natureza, mas sim algo que herdaremos, no futuro, através da ressurreição
dos mortos, para aqueles que forem obedientes a Deus. Este pensamento mina toda uma
noção de imortalidade natural da alma, onde o homem já foi criado possuindo naturalmente
a imortalidade, onde tanto justos como ímpios viverão eternamente e são imortais, onde o
pecado afeta apenas o corpo e não a alma, e onde a ressurreição não passa de uma
encenação desnecessária e já estaríamos no Céu muito antes dela acontecer.
Essa realidade que os imortalistas não podem aceitar, que é o fato de que há uma “lacuna”
(inexistência) entre a morte e a ressurreição, que a Bíblia metaforicamente chama de
“sono”, era muito bem crida pelos Pais da Igreja, como Taciano, que também reiterou que,
da mesma forma que o homem não existe antes de nascer, ele também não existirá após a
morte, só voltando a existir através da ressurreição, quando se dará a reintegração de
todos os homens por ocasião do julgamento:
“Por isso, também cremos que acontecerá a ressurreição dos corpos depois da consumação
do universo, não como dogmatizam os estóicos, segundo os quais as mesmas coisas
nascem e perecem depois de determinados períodos cíclicos, sem utilidade nenhuma, mas
de uma só vez. Totalmente acabados os tempos que vivemos, dar-se-á a reintegração de
todos os homens por razão do julgamento. Então seremos julgados não por Minos ou
Radamante, antes de cuja morte, como dizem os mitos, nenhuma alma era julgada, mas o
juiz é o próprio Deus que nos criou. Por mais que nos considereis charlatães e palhaços,
nada disso nos importa, depois que cremos nesta doutrina. Com efeito, do mesmo modo
como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na
substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei
em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei
de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como
não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o
universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou
despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre
ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em
seu ser primeiro a minha substância, que é visível apenas para ele”49
49 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.6.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 46
A mesma verdade da natureza humana criada “neutra” podendo se tornar mortal ou imortal
pela sua própria escolha é reforçada também por Taciano:
“Todavia, como a virtude do Verbo tem em si a presciência do futuro, não por fatalidade do
destino, mas por livre determinação dos que escolhem, predisse os acontecimentos futuros,
freou a maldade por suas proibições e louvou os que perseveram no bem. Aconteceu,
porém, que os homens e os anjos seguiram e proclamaram Deus àquele que, por ser
criatura primogênita, superava os demais em inteligência, justamente ele que se havia
revelado contra a lei de Deus. Então a virtude do Verbo negou a sua convivência não só ao
que se tornara cabeça desse louco orgulho, mas também a quantos o haviam seguido. E o
homem, que tinha sido criado à imagem de Deus, apartando-se dele o espírito
mais poderoso, tornou-se mortal e aquele que fora primogênito, por sua transgressão e
insensatez, foi declarado demônio, e os que imitaram suas fantasias se transformaram no
exército dos demônios que, por razão de seu livre-arbítrio, foram entregues à própria
perversidade”50
“Nós não fomos criados para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A
liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo
pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a
produzimos, porém somos também capazes de recusá-la”51
E a realidade de que a ressurreição não é somente do corpo, mas também da alma,
também era crida por Taciano, seguindo o exemplo de todos os outros Pais da Igreja de sua
época que já foram citados fazendo o mesmo tipo de menção, tais como Justino, Policarpo e
Teófilo:
“Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a
carne ressuscita sem a alma”52
A alma, segundo Taciano, não pode jamais se manifestar sem o corpo. Ele certamente
deveria explicar isso para os imortalistas atuais, que creem e ensinam que passaremos
longos tempos manifestados no Céu apenas em alma e sem um corpo físico ressurreto. O
próprio Credo Apostólico (de origem antiga) prega a ressurreição do corpo, sem nada dizer
a respeito de imortalidade da alma.
Diante de tudo isso, a afirmação de que a imortalidade da alma é uma doutrina ortodoxa do
Cristianismo é uma lenda para aqueles que no mínimo se dão ao trabalho de estudar a
fundo os escritos patrísticos do primeiro ao segundo século d.C, que constituem um
verdadeiro arsenal de declarações altamente destrutivas contra os pilares da crença pagã
em uma alma imortal. Não, os Pais da Igreja mais próximos dos apóstolos jamais creram
que a alma era imortal, pois essa nunc a foi uma doutrina apostólica. Com Orígenes, famoso
por fantasiar e metaforizar tudo, e Clemente de Alexandria (que em muito seguiu a linha de
Orígenes), o Cristianismo passou a adotar a crença de que possuímos uma alma imortal.
Curiosamente, nem mesmo estes autores sabiam direito do que estavam falando. Orígenes,
que mais tarde foi declarado herege pela própria Igreja, não foi apenas aquele que começou
50 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.7.
51 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.11.
52 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.15.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 47
a propor que a alma era imortal; ele também propôs a preexistência das almas ou
reencarnação, ao induzir que foram os méritos de uma vida anterior que fizeram com que
Jacó tivesse sido amado por Deus:
“Então, depois de ter examinado mais a fundo as Escrituras a respeito de Jacó e Esaù,
achamos que não depende da injustiça de Deus que antes de ter nascido e de ter feito
algum bem ou mal - isto é nesta vida -, tenha sido dito que o maior serviria o menor; e
achamos que não é injusto que no ventre da mãe Jacó tenha suplantado seu irmão (...), se
crermos que pelos méritos da vida anterior com razão ele tenha sido amado por
Deus por merecer ser preferido ao irmão”53
O Dicionário de Teologia Evangélica também destacou essa influência grega sofrida por
Orígenes:
"A especulação acerca da alma na Igreja pós-apostólica foi fortemente influenciada pela
filosofia grega. Podendo ser visto pelo fato de Orígenes ter aceitado as doutrinas de Platão,
sobre a preexistência da alma, originalmente como uma mente (nous em grego) pura, a
qual, por causa do seu afastamento de Deus, se abrandou para a condição de alma
(psyche), perdendo assim a sua participação na chama divina ao voltar-se para a Terra"54
O outro, por sua vez, propôs que os apóstolos foram evangelizar no inferno:
“Os apóstolos, seguindo o Senhor, evangelizaram também aqueles que se
encontravam no Hades; evidentemente era necessário que os melhores discípulos se
tornassem imitadores do Mestre também lá”55
Até mesmo Voltaire percebeu essa grande confusão que se tornou a Igreja depois da
adoção da crença de que a alma era imortal – cada um cria em uma coisa diferente:
“Que importam em questões inacessíveis à razão, essas novelas criadas por nossas incertas
imaginações? Que importa que os pais da Igreja dos quatro primeiros séculos
acreditassem que a alma era corporal? Que importa que Tertuliano, contradizendo-
se, decidisse que a alma é corporal, figurada e simples ao mesmo tempo? Teremos
mil testemunhos de nossa ignorância, porém nem um só oferece vislumbre da verdade”56
Então, aquilo que antes era o evangelho simples, puro e sincero, onde a alma era
naturalmente mortal por causa do pecado e o homem poderia se tornar imortal na
ressurreição da alma e do corpo, se tornou a maior bagunça, e dali para frente começaram
a dar margens a uma série de outras grandes heresias que foram surgindo com o passar
dos tempos. Dentre tais heresias, destaca-se a crença no purgatório, a intercessão dos
santos (crida por muitos Pais da Igreja a partir do terceiro século d.C), a da preexistência
da alma, a da reencarnação, a da comunicação ou evocação dos mortos, a das rezas aos
mortos, e por ai vai.
O Cristianismo já estava infectado pela primeira mentira pregada pela serpente – que
“certamente não morrerás” (Gn.3:4), que era e é a base para todos os demais enganos e
53 Orígenes, I Principi, Torino 1968, Livro II, 9, 7.
54 Dicionário de Teologia Evangélica, "Alma", 1992, p. 1037.
55 Clemente de Alexandria, op. cit., Livro VI, 45,5: pag. 688-689.
56 Voltaire, Sobre a Alma, Cap.1.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 48
mentiras perpetuados até os nossos dias. A partir do momento em que alguns «pensadores
recentes e fanáticos» começaram a implantar a semente da imortalidade da alma no seio da
Igreja antiga, uma série de outras heresias destrutivas começaram a entrar na Igreja como
o fruto deste processo. Graças a Deus que, possuindo tão grande arsenal de centenas de
provas bíblicas contra a imortalidade da alma e mais um outro arsenal insuperável de
provas históricas de que os primeiros Pais da Igreja jamais deram crédito a essa heresia,
hoje podemos rejeitar essa doutrina profana e c olocá-la no mesmo lugar onde ela se
encontrava na época dos apóstolos: das portas para fora da Igreja Cristã e alicerçada
unicamente no mais puro paganismo.
II–A Dormição de Maria e a Imortalidade da Alma
A “Dormição de Maria” é a crença de que Maria “dormiu” (morreu) e ressuscitou
posteriormente, assim como Jesus Cristo, sem ter sofrido a corrupção no túmulo. Ela é crida
pela Igreja Católica Ortodoxa, que comemora a morte de Maria e a sua ressurreição de
corpo e alma aos céus como a “Festa da Dormição da Mãe de Deus” no dia 15 de Agosto
(28 de Agosto no calendário juliano). Essa doutrina que sugeriu a assunção de Maria,
embora não haja nenhuma pista de que tenha sido proveniente dos apóstolos, é de origem
antiga, pois no quarto século d.C já haviam Pais da Igreja defendendo ou supondo essa
ideia. Mas a pergunta principal a se destacar aqui sobre a dormição de Maria é: o que
aconteceu com Maria entre a sua morte e assunção?
Como vemos, a Igreja Católica Ortodoxa crê que Maria ressuscitou de corpo e alma, e não
se ressuscita algo que não esteja morto. A crença presume que Maria morreu
completamente – corpo e alma – e posteriormente passou pela ressurreição, não
meramente corporal, mas uma ressurreição de corpo e alma. A Igreja Romana igualmente
crê que “Maria foi assunta de corpo e alma à glória celeste”57. Se Maria foi assunta de
corpo e alma à glória celeste, isso significa que a alma de Maria não estava já no Céu
quando ela ressuscitou.
A doutrina, portanto, presume que Maria morreu de corpo e alma e ressuscitou de
corpo e alma. A Igreja Ortodoxa declara isso categoricamente, enquanto que a Igreja
Romana, embora oficialmente não tenha tido uma declaração em ex cathedra que confirme
se Maria morreu ou não, conta com diversas declarações de papas e doutores da Igreja que
também criam que Maria passou pela morte. O papa João Paulo II, por exemplo, em sua
Audiência Geral de 25 de Junho de 1997, citou São Tomás de Aquino e disse:
“No que diz respeito às causas da morte de Maria, não parecem fundadas as opiniões que
querem excluir as causas naturais. Mais importante é investigar a atitude espiritual da
Virgem no momento de deixar este mundo. A este propósito, São Francisco de
Sales considera que a morte de Maria se produziu como efeito de um ímpeto de amor.
Fala de uma morte ‘no amor, por causa do amor e por amor’ e por isso chega a afirmar
que a Mãe de Deus morreu de amor por seu filho Jesus (Tratado do Amor de Deus, Liv. 7,
cc. XIII-XIV). Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, do ponto de vista
físico, tenha produzido a morte de Maria, pode-se dizer que o trânsito desta vida para a
outra foi para Maria um amadurecimento da graça na glória, de modo que nunca melhor
que nesse caso a morte pode conceber-se como uma ‘dormição’"58
57 §966 do Catecismo Católico.
58 Audiência geral de 25 de Junho de 1997 de João Paulo II. Disponível em:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 49
Vemos claramente, portanto, o papa João Paulo II em uma audiência geral afirmando que
Maria morreu, e citando São Francisco de Sales que cria da mesma forma. O padre Miguel
Ángel Fuentes segue essa mesma linha e cita também outro teólogo católico para confirmar
a sua posição de que Maria passou realmente pela morte:
“Segundo G. Alastruey ('Tratado da Virgem Santíssima', BAC, Madrid 1945, pp. 405 e
seguintes), somente para citar um dos mais influentes mariólogos, a verdadeira doutrina (e
que deve se ter como teologicamente correta) é que a Virgem Maria verdadeiramente
morreu”59
O mesmo cita também Agostinho, Jerônimo, João Damasceno, André de Creta, João de
Tessalônica e Nicolás Cabasilas em apoio da tese de que Maria realmente morreu, de acordo
com a tradição tanto grega como latina. Portanto, vemos que a crença crida pela Igreja
Católica Romana também é a mesma crença da Igreja Católica Ortodoxa, de que:
1º Maria morreu de corpo e alma.
2º Maria ressuscitou de corpo e alma.
3º Maria foi assunta aos céus de corpo e alma.
Se a alma de Maria já tivesse subido aos céus no momento da morte, então Maria não teria
sido assunta “de corpo e alma” como pregam a Igreja Romana e Ortodoxa, mas teria sido
assunta somente de corpo, porque a alma supostamente já estaria no Céu. Isso
mostra clarissimamente que até a época em que se deu essa tradição não se cria na
imortalidade da alma, doutrina esta que ensina que a alma é imortal e parte desta vida
imediatamente no momento da morte, e que a ressurreição é somente do corpo. Se os
cristãos dos primeiros séculos cressem na imortalidade da alma, teriam ensinado que
apenas o corpo de Maria que morreu, que a alma dela subiu ao Céu no momento da morte
corporal, e que apenas o corpo ressuscitou e foi assunto ao Paraíso, como creem os
imortalistas atuais60.
A ressurreição de corpo e alma de Maria sugere fortemente que até aquela época a Igreja
ainda não havia ensinado errado a doutrina da imortalidade da alma. Para que os mais
mariólogos pudessem colocar Maria no Céu, não apelaram para uma “imortalidade da
alma”, pois essa doutrina não existia na Igreja, por isso tiveram que sugerir a crença
na assunção de Maria, onde tanto o corpo quanto a alma que morreram ressuscitariam e
adentrariam os céus. Tempos mais tarde, quando a doutrina da imortalidade da alma
ganhou força na Igreja da época, ficou muito mais fácil para os católicos colocarem todos os
santos no Céu: bastou ensinar que a alma era imortal.
<http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1997/documents/hf_jp-
ii_aud_25061997_po.html>. Acesso em: 21/08/2013.
59 FUENTES, Miguel Álgel. Él Teólogo Responde. Disponível em:
<http://www.exsurgedomini.xpg.com.br/>. Acesso em: 21/08/2013.
60 Vale destacar que eu não estou aqui defendendo a veracidade da crença na assunção de Maria, mas
demonstrando historicamente que, até o período em que tal crença foi proposta, não se criam na
imortalidade da alma – e isso independe totalmente se a crença de que Maria foi assunta aos céus é
verdadeira ou falsa.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 50
Desta forma conseguem sustentar até hoje suas crenças na canonização dos santos,
intercessão dos santos, oração pelos mortos, purgatório e consulta aos mortos em cima
deste sustentáculo da imortalidade da alma, que é a base e fundamento de todas as demais
heresias. Os primeiros cristãos não tinham tal crença, tanto é que a palavra
“cemitério” veio dos cristãos primitivos. Os romanos chamavam de “necropolis”, que era
a cidade dos mortos, mas os cristãos, por crerem diferente dos romanos pagãos que
ensinavam a vida no pós-morte, decidiram dar um nome diferente ao local onde colocamos
os mortos, chamando-o de “cemitério”, que vem do grego kimitírion, significando
“dormitório”.
Por que os cristãos primitivos deram o nome de “dormitório” para o lugar dos mortos, ao
invés de manterem o nome de necropolis? Porque, diferentemente dos pagãos que criam
que a alma era imortal, eles acreditavam que os mortos estavam realmente “dormindo”61
até a volta de Jesus e a ressurreição para a vida.
61 No capítulo 6 deste livro analisaremos o que exatamente os cristãos primitivos queriam dizer quando
falavam que os mortos “dormem”.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 51
CAPÍTULO 3 – CONCEITOS BÍBLICOS SOBRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO
I–Conceitos com relação à alma
Dualismo – A visão do ser humano no contexto imortalista é que este possui uma natureza
dualista, isto é, tem um corpo e possui uma alma [nephesh, no hebraico, psiquê, no grego],
que seria imortal e estaria presa dentro do corpo e que é liberta por ocasião da morte
deste, indo imediatamente para o Céu ou para o inferno, durante toda a eternidade. Na
ressurreição, apenas o corpo morto ressuscita, pois a alma imortal já está lá, liberta do
corpo, há muito tempo, religando-se a este por ocasião da ressurreição dos mortos que se
dá no momento da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).
Essa é a visão dualista da natureza humana, de imortalidade da alma. Noutras palavras,
você é uma pessoa que tem outra “pessoa” dentro de você. A visão tricotomista do ser
humano ensina o mesmo contraste dualista de corpo e alma e prega que nós somos um
espírito, possuímos uma alma e moramos em um corpo. Portanto, ambas as visões –
dualista e tricotomista – serão refutadas da mesma forma, visto que possuem os mesmos
conceitos básicos sobre a constituição da natureza humana.
Holismo – O conceito holista da natureza humana prega, ao contrário da imortalidade, que o
ser humano não tem uma alma: ele é uma alma. Ele vive como uma alma, ele morre como
uma alma. Uma alma vivente significa apenas um “ser vivo”. Nós não temos uma alma
imortal presa dentro do nosso corpo que é liberta por ocasião da morte. A morte é o último
inimigo a ser vencido (pelo fator “ressurreição”), e não o libertador da “alma imortal” (cf.
1Co.15:26). Pessoas morrem, pessoas ressuscitam.
Corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa e não pessoas separadas. O
espírito é o princípio ativador da vida, é aquilo que dá animação ao corpo, é o sopro de
Deus por meio do qual respiramos e somos seres (almas) viventes. É esse o simplismo
bíblico sobre a criação da natureza humana, que elimina os complexos malabarismos
propostos por Platão em sua tese sobre a natureza dualista e a sobrevivência da alma após
a morte em um estado consciente.
II–Qual é o conceito correto?
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de
vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7)
Eis aí a passagem bíblica acerca da criação do ser humano, que nos dá um perfeito
entendimento dos conceitos bíblicos de corpo, alma e espírito. É aqui que entra em cena
algo muito desconhecido pela maioria das pessoas: biblicamente, o homem não tem uma
alma, ele é uma alma. Ele “TORNOU-SE” uma alma e não “obteve” uma! A alma é o que o
homem passou a ser, e não o que ele obteve de Deus. O corpo é a alma em sua forma
exterior. A ideia hebraica de personalidade é a de um corpo animado pelo fôlego de vida
(espírito) que alimenta o corpo, e não de uma alma presa dentro deste corpo. Assim,
podemos entender que:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 52
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o
fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma]” (cf. Gênesis
2:7 – grifo meu)
A passagem bíblica que relata a criação do ser humano também nos deixa um sentido claro
de corpo, alma e espírito. Nenhum é um elemento que Deus implantou no homem, imaterial
e imortal, que saia dele após a morte, com consciência e personalidade. O espírito é tão
somente o fôlego de vida que Deus soprou em nós e que o possuímos pela duração de
nossas vidas terrenas. Nós permanecemos com este fôlego que nos concede respiração para
continuarmos vivos durante a nossa existência terrestre, mas, quando este sopro se vai, as
“almas viventes” tornam-se “almas mortas”.
O que retorna a Deus é o princípio de vida que ele soprou em nós a fim de conceder
animação ao corpo formado do pó, e não uma alma imortal. Este princípio animador da vida
é possuído tanto por homens como por animais (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20;
Gn.7:15; Sl.104:29). Este princípio é garantido tanto aos seres humanos quanto aos
animais pela duração de sua existência terrena. A alma, no conceito bíblico, é que o ser
humano “tornou-se” e não “obteve”. Deus não colocou uma alma no homem. Por isso
mesmo, morrendo o homem, morre a alma (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21;
Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21).
Já a visão dualista em sua totalidade defende que o sopro de vida que Deus soprou em
nossas narinas é a própria alma imortal implantada no ser humano. Sendo assim, o sopro
de Deus em nossas narinas é o espírito (alma) imortal implantado nele, totalmente
independente do corpo, preso dentro dele e liberto após a morte, com consciência e
personalidade. Sendo assim, a narrativa de Gênesis 2:7 deveria ser entendida da seguinte
maneira:
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o
fôlego de vida [espírito/alma imortal], e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf.
Gênesis 2:7 – grifo meu)
Essa é, contudo, uma interpretação tendenciosa que deturpa completamente a clareza do
texto bíblico. Não é necessário ser nenhum grande teólogo para perceber que tal
interpretação é inválida pelo fato que adultera os sentidos primários de corpo, alma e
espírito, que são deixados de maneira bem clara na narrativa da criação da natureza
humana em Gênesis 2:7. Além de ignorar o fato de que a primeira vez que alma [nephesh]
é mencionada na Bíblia é relacionado ao próprio ser humano como um todo, tornando-se
uma alma e não obtendo uma, também altera nephesh para o meio do versículo quando na
realidade ela é claramente relacionada ao final deste. Tudo não passa de uma completa
manipulação bíblica textual.
A passagem da criação do homem coloca nephesh no fim do verso, e não no meio como
querem os imortalistas. A alma é o que o homem “tornou-se”; o “espírito” é o que foi
soprado nele para dar animação ao corpo formado do pó. Pelo fato de Deus não ter
revelado a Moisés uma realidade dualista do ser humano, este narra simplesmente o
princípio animador da vida dando animação a uma “alma vivente”. Esse total simplismo
bíblico nega inteiramente que a natureza humana seja dualista, composta por uma alma
imortal e por um corpo mortal. A revelação de Deus a Moisés incluiu apenas um corpo
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 53
proveniente do pó tornando-se animado, sem qualquer tipo de alma sendo ingerida dentro
da substância corporal para lhe conceder imortalidade.
A forte tentativa de ignorar o simplismo bíblico no relato da criação humana não provém de
alguma razão teológica (de fato, os imortalistas fazem de tudo para colocar uma “alma
imortal” no relato da criação onde não aparece nada disso), mas sim porque negam em
aceitar o fato óbvio de que a narração da criação traz uma natureza holista e não dualista
do ser humano. Isso, evidentemente, os faria negar a sua crença de que Deus tenha
implantado no homem um elemento eterno lhe concedendo imortalidade, o que daria um
fim na doutrina do “estado intermediário” e do tormento eterno.
Que nephesh não é o próprio espírito [ruach, no hebraico] implantado no ser humano com
imortalidade e personalidade, isso fica muito bem claro na Bíblia Sagrada, embora sejam
coerentes em alguns de seus sentidos secundários. A ignorância em aceitar o sentido claro
de corpo, alma e espírito de acordo com a Bíblia segundo Gênesis 2:7 causa, além de
adulterações no sentido do texto, uma confusão ainda maior para solucionar os problemas
depois, por causa da interpretação tendenciosa e errônea por parte dos dualistas. E este é
apenas o início do fim da imortalidade da alma.
III–O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]?
Espírito, no original hebraico “ruach”, significa literalmente: “sopro, vento”. É o fôlego de
vida que Deus soprou em nossas narinas tornando-nos almas viventes. Para os imortalistas,
significa nada a mais e nada a menos do que a própria alma imortal implantada no homem,
um segmento com consciência e personalidade. Mas isso não é verdade. A seguir, apresento
inúmeras provas de que o espírito não tem parte nenhuma com um ser vivo inteligente que
sobrevive fora do corpo:
O fôlego de vida sai do ser humano – Uma grande prova de que o fôlego de vida (espírito)
que Deus soprou em nós não é uma alma imortal, é que a Bíblia afirma categoricamente
que nós o perdemos por ocasião da morte (cf. Jó 27:3; Jó 34:14-15). Ora, se fosse uma
entidade consciente presa dentro de nós, então continuaria conosco após a nossa morte,
mas isso não é verdade: a Bíblia caracteriza a morte como a retirada do fôlego de vida
(sopro). Isso prova que o “espírito” que possuímos nada mais é do que o sopro da parte de
Deus que concede animação ao corpo, sendo freqüentemente caracterizado como sendo o
“sopro de Deus” (cf. Jó 33:4).
Quando é retirado por Deus (expirando), o fôlego é reintegrado no ar, por Deus. O próprio
fato de nós possuirmos o “fôlego de vida” não significa possuir em si mesmo a imortalidade,
porque na morte este princípio volta para Deus. Isso nos mostra que a vida deriva de Deus,
é sustida por Deus e retorna para Deus por ocasião da morte. “Espírito”, no conceito bíblico,
em nada tem a ver com uma entidade viva e consciente tal como no estilo kardecista ou
platônico.
Tal fato é acentuado por Jó ao declarar: “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de
Deus no meu nariz, nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará
engano” (cf. Jó 27:3,4). Enquanto o sopro de Deus está nas nossas narinas, nunca Jó
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 54
pronunciaria qualquer palavra de engano. Quando, porém, o sopro se vai, o que é dele?
Nada, não mais existe (cf. Jó 7:21; Jó 14:10-12).
Por isso ele acentua que enquanto estiver com ele o sopro de Deus nas suas narinas, os
seus lábios não pronunciariam engano. O sopro (fôlego de vida) é inteiramente dependente
de estar nas nossas narinas (corpo físico) para continuar ativo, dando continuidade a vida.
Sem o corpo físico, este princípio deixa de conceder vida em si mesmo. Ademais, se o
espírito [ruach – sopro] fosse a própria alma imortal implantada em nós, então a declaração
de Jó nos levaria a crer que a “alma imortal” está situada no nariz de cada indivíduo:
“Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz” (cf. Jó 27:3).
Também lemos na passagem anteriormente citada: “E formou o Senhor Deus o homem do
pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma
vivente” (cf. Gn.2:7). Ora, é aí que se situa essa “alma imortal”, no nariz de cada indivíduo?
É mais do que evidente que o espírito (fôlego de vida) não é a alma implantada no ser
humano nas suas narinas, mas simplesmente o princípio que anima o corpo, concedendo-
lhe respiração a fim de se tornar um ser ativo.
Isso explica o fato bíblico deste princípio encontrar-se nas nossas narinas, e não na “alma”
ou em alguma outra parte do corpo. Evidentemente, o fôlego de vida (espírito) que
possuímos não tem parte nenhuma com uma noção dualista de corpo e alma; antes, é o
princípio animador do corpo, que garante a existência da vida terrestre de toda a carne, e
que volta para Deus quando expiramos na morte. Dizer que o fôlego de vida (espírito) que
foi soprado no homem em Gênesis 2:7 é uma “alma imortal” é o mesmo que dizer que
possuímos a alma em nosso nariz, o que creio não ser nem um pouco razoável.
O princípio animador do corpo - O corpo é formado de matéria, de pó. O espírito é o que dá
animação ao corpo, e assim tornamo-nos almas viventes. Sem o espírito em nós, o nosso
corpo morto não passa de matéria (pó) inanimado, sem vida. O que é o “espírito”, então? É
exatamente aquilo que dá animação ao corpo, é a “vida” por assim dizer. Obviamente não
tem parte nenhuma com algum outro “você” que volta para Deus, mas representa tão
somente a vida deixada nas mãos do Criador; é por isso que a Bíblia apresenta os animais
com o mesmo espírito-ruach possuído pelos humanos (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22;
Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). No livro de Apocalipse é lido que até uma imagem de
escultura é dotada de espírito [pneuma, no grego] para tornar-se um ser animado:
“E foi-lhe concedido que desse espírito [pneuma] à imagem da besta, para que também a
imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a
imagem da besta” (cf. Apocalipse 13:15)
Aqui vemos que a imagem de escultura (um ser inanimado) foi dotada de espírito [pneuma]
e assim foi dada animação [vida] à imagem. É mais do que óbvio que Deus não colocou
uma “alma imortal” dentro da imagem e muito menos alguma entidade consciente que volta
com personalidade e inteligência para Deus, mas simplesmente concedeu-lhe o fôlego da
vida para dar animação à imagem de pedra. É exatamente a mesma coisa que sucedeu aos
seres humanos.
A mesma coisa sucedeu a nós: fomos formados do pó da terra, de matéria inanimada; até
que Deus soprou em nós o espírito [vida] dando animação à matéria formada do pó – e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 55
assim o homem tornou-se uma alma [ser] vivente. O espírito é o que vem da parte de Deus
e que dá animação a um elemento inanimado, tornando tal elemento em animado,
concedendo-lhe vida. Quando as pessoas morrem, elas perdem a vida [espírito], tornam-se
novamente em matéria inanimada (pó), é por isso que a Bíblia afirma que o espírito de
todos retorna a Deus (cf. Ec.12:7), pois as pessoas perdem a vida, voltam a ser pó.
Deus, contudo, ressuscitará os nossos corpos mortais, soprando novamente em nós o
espírito [vida] na ressurreição (para sermos novamente um ser animado, vivente)
tornando-nos novamente em “almas viventes”. Tal fato é relatado com clareza em
Apocalipse:
“Então vi uns tronos; e aos que se assentaram sobre eles foi dado o poder de julgar; e vi as
almas daqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de
Deus, e que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam o sinal na fronte
nem nas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse
20:4)
Aqui é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus
reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas. O que aconteceu, então, nessa
ressurreição? Aconteceu que Deus soprou em nós novamente o espírito que vem da parte
dEle, para que saíssemos do estado inanimado (i.e, sem vida), tornando-nos novamente em
almas viventes:
“Assim diz o Soberano, o Senhor, a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês
terão vida. Porei tendões em vocês e farei aparecer carne sobre vocês e os cobrirei com
pele; porei um espírito em vocês, e vocês terão vida. Então vocês saberão que eu sou o
Senhor” (cf. Ezequiel 37:5,6)
“Por isso profetize e diga-lhes: Assim diz o Soberano, o Senhor: Ó meu povo, vou abrir os
seus túmulos e fazê-los sair; trarei vocês de volta à terra de Israel. E quando eu abrir os
seus túmulos e os fizer sair, vocês, meu povo, saberão que eu sou o Senhor. Porei o meu
espírito em vocês e vocês viverão, e eu os estabelecerei em sua própria terra. Então vocês
saberão que eu, o Senhor, falei, e fiz. Palavra do Senhor” (cf. Ezequiel 37:12-14)
Notem que não é o nosso espírito que deixa o Céu para se religar ao corpo por ocasião da
ressurreição, mas sim o espírito de Deus que concede vida que nos é soprado novamente;
fazendo-nos sair dos túmulos, o local onde o povo que já morreu se encontraria. Nós
estaríamos sem vida na morte, mas Deus nos concederia novamente o espírito que parte
dEle a fim de nos conceder novamente vida por ocasião da ressurreição.
Não existe nenhuma religação entre corpo e alma, mas tão somente o princípio animador da
vida sendo novamente concedido a nós por ocasião da ressurreição dos mortos. Podemos
assim traçar uma correta analogia com a imagem inanimada de Apocalipse que recebeu o
espírito para tornar-se animada:
A NATUREZA HUMANA
SEGUNDO GÊNESIS 2:7
A IMAGEM DE APOCALIPSE
13:15
Feito do pó da terra Feita de pedra
Material inanimado Material inanimado
Foi-lhe dado o espírito Foi-lhe dada o espírito
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 56
Passou a ter vida (tornou-se um
ser vivente)
Passou a ter vida
Tornou-se um ser animado Tornou-se um ser animado
Como vemos, o “espírito” que possuímos é nada a mais do que aquilo que dá animação ao
corpo (matéria), concedendo-lhe vida. A analogia com a imagem de pedra relatada no
Apocalipse é válida porque o mesmo que sucedeu aos seres humanos sucedeu também à
imagem, ambos tornaram-se um ser animado após ser lhes soprado o espírito. É evidente
que o “espírito” soprado não é uma “alma imortal” (pois se assim o fosse então por lógica a
imagem de pedra também a deveria possuir, pois também foi dotada de espírito-pneuma),
mas é tão somente o princípio de vida concedido às criaturas viventes durante a
permanência de sua existência terrestre.
É claramente nos referido que o motivo dos ídolos mudos não serem vivos é decorrente do
fato de não possuírem “espírito-ruach”: “Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no
seu interior não há fôlego [ruach] nenhum” (cf. Hc.2:9). E também em Jeremias: “Todo
ourives é envergonhado pela imagem que ele esculpiu; pois as suas imagens são mentira, e
nelas não há fôlego [ruach]” (cf. Jr.10:4).
Aqui vemos que os que não têm vida são descritos como sem “espírito-ruach”. Os ídolos são
considerados como “sem vida” pelo fato de serem destituídos de espírito-ruach, que é o
princípio animador de toda a vida. Quando um ídolo ou uma imagem ganha animação, é
descrito como constituído de “espírito-pneuma” (cf. Ap.13:15), porque passou a ter vida.
Em outras palavras, o espírito é nada a mais do que o poder capacitador de vida a qualquer
ser vivente, mesmo quando se trata de imagens de pedra ou de animais, como veremos
mais adiante.
Ele não é uma alma imortal, e nem algo que traz consigo imortalidade, consciência e
personalidade após a morte, mas apenas a vida que possuímos em nossa jornada em nossa
terrestre. Se o espírito fosse uma alma imortal, então a imagem de pedra de
Ap.13:15 e os animais também teriam “almas imortais”, pois são descritos
possuindo “espírito-pneuma”. Quando o espírito é retirado do ser humano, este volta
para o pó da terra (cf. Sl.104:29; Sl.146:4; Gn.3:19). Da mesma forma, quando o espírito
concedido temporariamente àquela imagem lhe é retirado, esta volta a ser uma pedra
inanimada. O processo é o mesmo: seres ou objetos inanimados que temporariamente
ganham vida pelo sopro do espírito-ruach em seu interior e que tornam-se novamente
inanimados (sem vida) após este sopro retornar ao Criador.
Sai o espírito, volta ao pó – Confirmando o fato anterior, vemos que os autores bíblicos
correspondiam bem ao fato de que a saída do espírito-ruach por ocasião da morte não
significa a continuação da vida em um outro estágio ou em uma dimensão superior, mas
sim a cessação dela. O salmista expressa em palavras o que aconteceu na criação humana
e o que acontece ao fim dela: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados” (cf.
Sl.104:30). O sopro de Deus [fôlego] nas nossas narinas, também denominado por
“espírito-ruach” (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), é o que nos faz vivos – nos transforma em
“almas viventes” (cf. Gn.2:7).
A pergunta que fica é: quando este “fôlego” ou “espírito” deixa o corpo por ocasião da
morte (ao expirar), o que acontece ao ser racional? O verso anterior do Salmo no qual
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 57
acabamos de passar responde corretamente a esta pergunta: “Quando escondes o teu
rosto, entram em pânico; quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29).
O ser racional simplesmente volta ao pó. Quando o fôlego [espírito] é retirado do ser
humano, este não parte desencarnado para um estado intermediário, mas simplesmente
deixa de existir – volta a ser pó.
A saída do espírito por ocasião da morte não significa um ser racional deixando o corpo. Jó
declara isso enfaticamente nas seguintes palavras: “Porém, morto o homem, é consumido;
sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele? Como as águas se retiram do
mar, e o rio se esgota, e fica seco, assim o homem se deita, e não se levanta; até que não
haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf. Jó 14:10-12).
Aqui vemos a entrega do espírito não significa levar consciência e personalidade na morte,
porque mesmo assim ele não é despertado até não existir mais céus. Após afirmar que o
homem rende o seu espírito na morte, Jó faz a pergunta que não quer calar: “Onde ele
está”? Isto é, para onde ele vai? O que acontece com ele? Simplesmente, deixa de existir.
Não vai desencarnado para o Céu. Ele torna-se como as águas que se retiram do mar e
como um rio que se esgota e fica seco. Essa analogia feita por Jó nos mostra claramente
que o homem não mais existe.
Assim como quando as águas se retiram do mar este já não existe, e quando o rio se
esgota fica seco e desaparece, assim também do mesmo modo o homem na morte já não
existe. O ser racional só volta a atividade quando “não existir mais céus” (v.12), o que o
Novo Testamento relaciona à “ressurreição do último dia” (Jo.6:39,40), quando “os céus e a
terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para
a destruição dos ímpios” (cf. 2Pe.3:7).
Se a retirada do espírito do homem na morte significa a ida imediata na presença de Deus
em estado desencarnado, então a analogia feita por Jó seria nula e sem sentido. Tal
analogia nos revela que o ser racional deixa de existir após a entrega do espírito-ruach. Tal
fato é apresentado com ainda mais clareza no Salmo 146:4 – “Quando o espírito deles se
vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4).
A entrega do espírito não significa a continuação de vida em um estado desencarnado, mas
sim a cessação dela, pois os “pensamentos perecem”. Sendo que os próprios imortalistas
atribuem o processo de pensamento como função da alma, a sede dos pensamentos, seria
imprescindível que eles continuassem existindo após a entrega do espírito na morte, caso
fosse um ser racional com inteligência e consciência. Contudo, os próprios pensamentos
perecem, pois não existe ser racional na morte.
A alma e o sangue – Em Levítico 17:11, lemos: “Porque a vida da carne está no sangue”.
No texto original hebraico, “vida” aqui é a tradução de nephesh, de modo que a
transliteração correta da passagem seria: “A alma da carne está no sangue”. O motivo pelo
qual a alma é igualada ao sangue provém do fato de que a vitalidade da vida-nephesh
reside no sangue. Em outras palavras, sem sangue não há vida-nephesh. O corpo não é a
prisão de uma alma imaterial, pois a alma da carne está no sangue.
Isso não faz sentido caso a alma fosse algo imaterial implantado dentro de nós, pois se
assim o fosse não teria parte nenhuma com o sangue. Também lemos certa afirmação em
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 58
Gênesis no mesmo estilo: “Carne, porém, com sua vida [nephesh] isto é, com seu sangue,
não comereis. Certamente requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida [nephesh];
de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim da mão do próximo de
cada um requererei a vida [nephesh] do homem” (cf. Gn.9:4,5).
Ora, se a vida (alma- nephesh) do homem é o sangue, então sem o sangue não há vida
(alma-nephesh). Isto é somente lógica. O homem sem sangue não pode permanecer vivo
de acordo com esta declaração de Gênesis. Pois a vida [alma-nephesh] está no sangue.
Como então assumir que uma pessoa sem sangue (um espírito incorpóreo, por exemplo)
possa ser considerada viva em um “estado intermediário”? Não faz sentido. Sem sangue
não há vida, pois “a alma da carne está no sangue”. Como o erudito Basil Atkinson
corretamente assinala: “A alma do homem está em seu sangue e, de fato, o seu sangue é a
sua alma”.
O maior problema da teologia imortalista é que eles pensam que o sangue está relacionado
apenas ao corpo físico, externo, e que, portanto, sem sangue não há mais vida no corpo,
mas a alma não é afetada com isso e permanece viva subsistindo sem o corpo em algum
lugar. Em outras palavras, para os dualistas é extremamente crucial que o sangue seja a
vitalidade apenas do corpo e não da alma. Caso contrário, a alma não escaparia da morte,
tanto quanto o corpo. O texto bíblico, porém, ao invés de dizer “o sangue do vosso corpo”,
diz “o sangue da vossa alma” (nephesh – Gn.9:5). Isso mostra que a alma subsiste viva
através do sangue tanto quanto o corpo físico.
E assim matamos dois coelhos de uma só vez: o primeiro, é aquele que desassocia a alma
do sangue e ensina que somente o corpo é movido pelo sangue e só existe com a vitalidade
deste (o que já vimos que é falso, pois o sangue desempenha o mesmo papel para com a
alma), e o segundo é o de que a alma seria uma entidade espiritual imaterial infundida
dentro de nós. Se fosse, não estaria dependente de algo físico e tangível (como o sangue),
e a Bíblia não diria que “a sua alma-nephesh, isto é, o seu sangue, não comereis”, pois
seria ilógico e sem qualquer possibilidade “comer a alma, ou seja, o sangue”.
Uma coisa estaria tão desassociada da outra que tal sentença seria no mínimo absurda.
Uma seria tangível e a outra intangível, uma seria material e a outra imaterial, uma
desceria ao túmulo na morte e a outra aos céus, uma estaria ligada ao corpo e a outra ao
espírito. Como dizer que a alma é o sangue com tantos contrastes que a teologia imortalista
afirma que os separa? Uma coisa não teria nada a ver com a outra, e, portanto, não seriam
igualadas. Só foram porque a linha dualista que separa a alma do corpo e os contrasta
realmente não tem qualquer cabimento bíblico.
Portanto, não restam objeções ao fato de que não existe alma sem sangue; sem sangue
não há vida. Não existe qualquer chance ou possibilidade de existir um “estado
intermediário” de “espíritos incorpóreos” pré-ressurreição ausentes de corpo. O fato bíblico
de que a alma da carne está no sangue e de que a vida [nephesh] do homem é o seu
sangue nos mostra que não pode uma pessoa ser considerada como “viva” em algum lugar
sem a vitalidade da vida-nephesh que reside no sangue.
Na morte, o coração deixa de bater, o sangue deixa de circular, e tornamo-nos almas
mortas. Só voltaremos ao estado de vida novamente quando estivermos com a vitalidade
da vida, com o sangue, sem o qual não existe vida [alma-nephesh]. Poderíamos resumir o
argumento nas seguintes premissas:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 59
(1) A alma da carne está no sangue – cf. Lv.17:11.
(2) Não existe vida [alma - nephesh] sem sangue – cf. Gn.9:4,5.
(3) Na morte, perdemos o sangue, a vitalidade da alma.
(4) Sem o sangue que dá vida a alma, não existe alma.
(5) Só voltaremos a ser reconstituídos de sangue novamente na ressurreição.
(6) Logo, a alma ganha vida novamente a partir da ressurreição dos mortos.
O homem torna-se uma alma vivente – Uma outra prova importante para que possamos
compreender que o espírito não é uma alma imortal é a própria continuação da passagem
de Gênesis 2:7 – “...soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma
alma vivente”. Duas coisas são interessantes aqui. Em primeiro lugar, a alma é o que o
homem “tornou-se”, e não o que ele “obteve”. Como já vimos, Deus não colocou uma alma
no homem, como erroneamente pensa a doutrina dualista.
Em segundo lugar, com a implantação do sopro de Deus em nossas narinas, o homem
tornou-se uma “alma vivente”, e não uma “alma imortal”! Ora, se a interpretação correta
fosse a dualista, então a sequência imediata de tal passagem seria que o homem tornou-se
(ou melhor, “obteve”) uma “alma imortal”, “imaterial”, pois o termo “alma vivente” após a
implantação do espírito-ruach implica que pode se tornar “alma morta” após a retirada do
espírito-ruach. Isso é somente lógica.
Quando a Bíblia diz que em resultado do sopro divino “o homem tornou-se uma alma
vivente”, ela está dizendo apenas que o corpo formado literalmente do pó da terra ganhou
animação e se fez um ser vivo, que respira – nada além disso. O sangue (vitalidade da alma
– cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5) começou a circular, o cérebro começou a raciocinar e o coração a
bater, com todos os sinais ativados. O homem tornou-se uma “alma vivente”, ou seja, ou
ser vivo, que deixa de existir na morte e volta à existência na ressurreição gloriosa.
Não houve um componente imaterial e imortal colocado no ser humano. Declarado em
termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”!
Evidentemente a alma é considerada “vivente” enquanto vive, passando a ser “alma morta”
por ocasião da retirada do fôlego de vida [espírito] no falecimento. Uma alma vivente
significa simplesmente um ser vivo, que morre. Alma é vista como a natureza humana
como um todo, e não como uma parte do ser humano separada do corpo e presa dentro
deste.
O espírito sobe para Deus – Outra prova patente contra os imortalistas é o que Salomão
descreve em Eclesiastes: “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o
deu” (cf. Ec.12:7). É fato bíblico que todas as pessoas (sendo justas ou ímpias) desciam
para o Sheol na morte (cf. Gn.37:35; Jó 10:21,22; Sl.94:17; Gn.42:38; Gn.42:29,31;
Is.38:10,17; Sl.16:10; Sl.49:9,15; Sl.88:3-6,11; Jó 17:16). Para os imortalistas, Sheol é a
habitação dos espíritos incorpóreos e conscientes. Já para os mortalistas, significa
puramente “sepultura”, em um sentido mais amplo, como veremos mais adiante. O debate
sobre o conceito correto sobre Hades/Sheol será abordado mais a frente neste livro.
O que temos de fato, por hora, é que todas as pessoas desciam ao Sheol por ocasião da
morte. Onde se localiza o Sheol? Localiza-se nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9), no
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 60
“coração” desta terra (cf. Mt.12:40), em oposição ao Céu (cf. Mt.11:23). Os seguidores da
revolta de Coré “desceram... vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30,33). Eis aqui já a primeira
contradição dos imortalistas: O “espírito” sobe para Deus, e não “desce” para o Sheol
(cf. Ec.12:7)! Se o espírito fosse um elemento com consciência e personalidade, ele
deveria descer e não subir. Mas isso jamais é dito na Bíblia, pelo simples fato de que o
espírito é nada a mais do que o dom da vida [fôlego] concedido durante a duração de
nossas vidas terrenas, e não algum segmento que leva consigo consciência e personalidade
após a morte.
Sobe para Deus por ocasião da morte porque deriva de Deus, e volta para Deus. Salomão é
bem claro em dizer que o espírito subiu para Deus, e não “que desceu para o Sheol”!
Nisso vemos uma clara evidência que o espírito está longe de ser a própria pessoa como
uma entidade viva e consciente, mas é tão somente o princípio de vida que retorna para
Deus no momento da morte. Sendo que na época de Salomão todas as pessoas desciam ao
Sheol, que biblicamente fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), como é que
Salomão diz que o espírito sobre para Deus? Também em Atos 2:27, falando a respeito de
Jesus, entre a sua morte e ressurreição, o texto assim narra: “Porque não deixarás a minha
alma no Hades, nem permitirás que aquele que te é leal veja a corrupção”.
E também em Mateus 12:40 – “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no
ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração
da terra”. A alma de Jesus passou os três dias e três noites em que esteve morto no Sheol,
que fica debaixo da terra, e não no Paraíso! Isso, contudo, não impediu ele tivesse
entregado o seu espírito ao Pai nos dias em que esteve morto: “Pai, ao Senhor entrego o
meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46).
Ora, como é que Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol (cf. Mt.12:40;
At.2:27), que fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), se a Bíblia diz que o
“espírito” dele subiu para Deus? Obviamente, porque o “espírito” não é o nosso “próprio
eu”, não sendo uma “alma imortal”, mas é tão somente o princípio animador da vida
concedido por Deus tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua
existência terrena, que volta para Deus por ocasião da morte.
Nisso fica claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” liberto na morte, pois, se assim
fosse, seguir-se-ia que Cristo teria passado (os dias em que esteve morto) com o Pai, e não
debaixo da terra, no Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27), pois o espírito sobe, e não desce!
Vemos, portanto, que se a visão dualista de que o espírito é um segmento consciente que
leva consigo personalidade, deveríamos pressupor que:
(1) O espírito desceria para o Sheol, e não voltaria a Deus (cf. Ec.12:7).
(2) Sendo que Cristo entregou seu espírito ao Pai, ele deveria ter subido aos céus na
morte, e não descido ao Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27).
Contudo, estas duas premissas imortalistas contrariam diretamente a Bíblia Sagrada, como
já vimos.
NA BÍBLIA SAGRADA NA TEOLOGIA DUALISTA
O espírito sobe para Deus na
morte – cf. Ec.12:7
O espírito de todos deveria descer
(para o Sheol) na morte
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 61
Jesus entregou ao Pai o seu
espírito mas mesmo assim esteve
no Sheol (regiões inferiores da
terra – cf. Ef.4:9) na morte
Se o espírito fosse um segmento
consciente com personalidade,
Cristo deveria logicamente estar
com o Pai enquanto esteve morto
Vale também ressaltar que Cristo, depois de três dias em que esteve morto, ainda assim
declarou a Maria Madalena: “Não me detenhas, porque ainda não subiu para o Pai” (cf.
Jo.20:17). Óbvio, porque a entrega de seu espírito ao Pai não significou o seu regresso a
Ele, pelo fato de que o espírito não é um segmento consciente e com personalidade, mas
tão somente o princípio animador do corpo.
Tudo isso nos mostra de forma mais do que clara e lúcida de que o espírito que possuímos
não é uma outra pessoa que é liberta conscientemente após a morte, mas sim um princípio
que ativa o corpo concedendo-lhe animação. Como o corpo volta para o pó da terra na
morte, ele deixa de ser animado e, portanto, o espírito-ruach perde o seu sentido de
animação do corpo e volta para Deus por ocasião da morte.
A “salvação universal dos espíritos” – Uma verdade universal é dita em Eclesiastes 12:7 - “E
o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. Essa é uma verdade
universal, ou seja, o espírito de todos volta para Deus, que o deu. Em lugar nenhum da
Bíblia está escrito que o espírito dos ímpios desce para o inferno ou para o diabo. Não, pois
todos os espíritos sobem para Deus.
Nisso também fica mais do que claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” fora do
corpo, pois, se assim o fosse, então teríamos uma salvação universal (de justos e ímpios),
pois o espírito de todos sobre para Deus! O que Salomão estava falando era simplesmente
para que se lembrassem do seu Criador nos dias da sua juventude (v.1), antes que chegue
à velhice (v.2-6), e com a morte “o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus,
que o deu” (v.12).
Esse processo é ocorrido em todos os seres humanos sejam justos ou ímpios. Assim como
todas as criaturas humanas devem se lembrar do Criador na juventude e assim como tanto
justos como ímpios envelhecem, assim também o espírito de todos sobre para Deus por
ocasião da morte. Em momento nenhum o autor deixa passar qualquer hipótese de que o
termo se restringisse apenas aos salvos, porque o próprio contexto mostra um processo que
sucede a todos os seres humanos.
O que Salomão (autor do livro de Eclesiastes – cf. Ec.1:1) estava relatando é uma verdade
universal de que o espírito [de todos] por ocasião da morte retorna a Deus, quem o deu. O
que retorna a Deus se refere ao espírito de todos os homens, não somente dos justos, mas
de “toda a carne”. O próprio fato do espírito de todas as pessoas voltar a Deus na morte
nos prova novamente que este espírito-ruach não é uma alma imortal ou a própria pessoa
em estado desencarnado, pois se assim sucedesse então apenas o espírito das pessoas
boas que subiria para Deus, e o das pessoas más desceria para o inferno ou para o diabo.
Todos os espíritos sobem para Deus porque o nosso espírito não é uma entidade consciente
com personalidade com destinos diferentes entre bons e maus após a morte, mas tão
somente o fôlego de vida presente em todas as criaturas durante a nossa existência
terrestre, princípio este que retorna para Deus porque provém dEle mesmo a fim de dar
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 62
animação para o corpo formado do pó. Por isso, o autor não faz a mínima questão de
diferenciar o destino do espírito de bons ou de maus por ocasião da morte. Novamente a
doutrina imortalista entra em choque contra os princípios da exegese e hermenêutica.
Os animais também como alma – Uma outra prova clara de que “alma vivente” não significa
“alma imortal” é o fato de que aos animais também foi designado o termo “alma vivente -
nephesh hayyah” (cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). A maioria das
pessoas desconhecem tal fato simplesmente porque os seus tradutores decidiram traduzir o
termo hebraico “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” em referência aos animais, e
como “alma vivente” nas referências a seres humanos.
O motivo, evidentemente, não é por causa dos manuscritos originais, mas sim por
consequência de suas convicções religiosas, de que o homem conta com uma alma imortal
não possuída pelos animais. Em decorrência disso não quiseram comprometer as suas
doutrinas da imortalidade da alma humana criando um dilema de primeira ordem, e
tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura” quando em
referência aos animais e como “alma” quando em referência aos seres humanos.
Essa é a mesma adulteração reconhecida em outras inúmeras passagens bíblicas que
mostram também a alma-nephesh sendo morta ou destruída, o que também é ocultado
pela grande maioria das versões, embora fosse um conceito amplamente difundido na
Bíblia. O original, contudo, traz nephesh [alma], tanto a seres humanos, como também aos
animais. O termo alma-nephesh é empregado tanto para as pessoas quanto para os animais
porque ambos são seres conscientes.
Tanto homens como animais partilham do mesmo princípio animador de vida, isto é, o
“fôlego da vida”. Todo o ser vivente relaciona-se a todas as criaturas, não somente ao
homem, mas também aos animais (cf. Jó 12:10). O homem não recebeu uma alma de
Deus; ele tornou-se uma alma vivente, assim como os animais. A natureza de todo o
ser vivente é mortal, e não imortal, o que somente Deus é (cf. 1Tm.6:16).
Herdaremos uma natureza imortal com a ressurreição dos mortos na segunda vinda de
Cristo (cf. 1Co.15:53; 1Co.15:23). A alma não é algo imaterial e nem imortal, pois até
mesmo os animais são referidos como alma-nephesh. Sendo que no mesmo contexto em
que Deus dá a revelação a Moisés sobre a criação em Gênesis 1 e 2 a palavra nephesh
[alma] é uma referência não somente aos humanos mas também aos animais, fica claro
que Moisés não imaginava que este termo hebraico significasse em si mesmo a detenção de
imortalidade.
Doutra forma, teria ele apenas feito menção a este termo quando em referência aos
humanos, somente. Para ele o termo significava tão somente um ser consciente, sujeito a
morte tanto quanto os animais. Por isso, ele não se incomodava e nem se intimidava em
fazê-lo em menção a humanos e a animais. Quando os defensores da imortalidade da alma
se deparam com o fato bíblico de que nephesh também é mencionado em referência direta
aos animais e no mesmo contexto dos seres humanos, se dão conta do dilema
intransponível que são obrigados a encarar.
Afinal, se a alma é imortal e imaterial, então os animais também partilhariam desta mesma
qualidade que deveria estar presente somente nos seres humanos. A única solução lógica
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 63
para isso é exposta por Basil Atkinson: “Eles [o homem e os animais] não são criaturas
bipartites que consistem de uma alma e um corpo que podem ser separados e prosseguir
vivendo. Suas almas são a totalidade deles e compreende seus corpos, bem como suas
faculdades mentais”62
Os animais com espírito e fôlego – Ademais, exatamente a mesma palavra, no original
hebraico ruach, que é traduzida por “espírito”, é usada tanto em relação aos seres humanos
quanto a animais (cf. Gn.7:15; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.6:17; Sl.104:29). Ou seja: os
animais também possuem espírito-ruach da mesma forma que os seres humanos! A Bíblia
não faz sequer a menor distinção entre eles. O espírito “de toda a carne” entrou na arca de
Noé, e não foram apenas seres humanos que lá entraram:
“E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto
de Noé na arca” (cf. Gênesis 7:15)
Note que de toda a carne em que havia espírito de vida entraram de dois em dois para a
arca de Noé. Será que foram apenas os humanos que entraram na arca? É claro que não.
Isso deixa claro que os animais também possuem espírito de vida, pois o espírito-
ruach não é uma detenção apenas dos humanos. Dizer que os animais têm fôlego, mas não
tem espírito, é negar dois fatos claros na Bíblia Sagrada.
O primeiro, é que espírito [ruach] é usado tanto a animais como a seres humanos
indistintamente (cf. Gn.7:15). A Bíblia não faz a mínima distinção, porque “entraram na
arca de dois a dois de toda carne em que há um espírito vivo” (cf. Gn.7:15 – Young’s Literal
Translation). Se alguém alega que os animais não têm espírito, ent ão além de contradizer a
Bíblia seria forçado a negar também que os seres humanos o possuam, pois a mesma
palavra é usada para os dois no mesmo contexto!
Também lemos em Gênesis 6:17:
“Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne
que há espírito [ruach] de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará”
A passagem é bem clara em relatar a eliminação completa de toda a carne em que há o
espírito-ruach, por ocasião do dilúvio. Se fosse correta a interpretação dos dualistas de que
o espírito significa uma alma imortal e que apenas os humanos a possuem, então
deveríamos pressupor que somente os seres humanos foram eliminados por ocasião do
dilúvio, pois a Bíblia relata bem claramente que toda a criatura em que houvesse espírito-
ruach seria desfeita. É evidente que os animais também foram eliminados no dilúvio,
porque eles também possuem espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29;
Ec.3:19,20).
Em Gênesis 7:21,22 lemos novamente a confirmação bíblica de que os animais também
possuem espírito-ruach: “E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave
como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o
que tinha fôlego de espírito [ruach] de vida em seus narizes, tudo o que havia na
terra seca, morreu” (cf. Gn.7:21,22). Também lemos no Salmo 104:29 o rei Davi afirmando
que os peixes e os outros animais marinhos também possuem ruach:
62 ATKINSON, Basil F. C. Life and Immortality. Londres, pp. 1-2;.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 64
“Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia
está a terra das tuas riquezas. Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há
seres sem número, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios; e o leviatã que
formaste para nele folgar. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo
oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes
o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu
pó. Envias o teu espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (cf. Salmos
104:24-30)
Diante do contexto, o escritor bíblico inspirado não está falando de seres humanos, mas de
animais marinhos, pequenos e grandes. E o que ele diz? Que, quando Deus retira-hes o
fôego (que o original hebraico traz ruach, espírito!), eles morrem e voltam ao pó! No verso
seguinte, é nos dito como eles são criados: Deus envia-lhes o espírito [ruach], e eles são
criados, e quando esse espírito [ruach] lhes é retirado, eles morrem e voltam ao pó. Ou
seja: o que diferencia humanos de animais no quesito da vida após a morte não é a suposta
possessão de um espírito no íntimo do ser, nem a posse de um espírito na criação ou a
retirada dele appós a morte, pois isso tudo isso acontece também com os animais,
mas é o fato de que um ressuscita e o outro não. Daí toda a importância da ressurreição no
NT, como sendo a esperança dos cristãos.
Isso tudo mostra que é fato indiscutível que os animais também possuem o mesmo espírito-
ruach possuído pelos seres humanos. Será que os animais ao morrer irão para o estado
intermediário junto com os homens? Claro que não. Fica claro que espírito significa
“vida”, e não um ser inteligente que sai do corpo na hora da morte. O segundo erro
provém do fato de que o espírito é o próprio fôlego de vida, conforme descrição de Gênesis
2:7 e o paralelismo de Jó 33:4, de Jó 32:8 e de Isaías 42:5. E todos – humanos e animais –
possuem o mesmo fôlego, e não fôlegos diferentes:
“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e
lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo
fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são
vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó”
(cf. Eclesiastes 3:19,20)
O que sucedeu na criação do homem é exatamente o mesmo que aconteceu na criação dos
animais: Deus soprou-lhes o fôlego de vida [espírito] e eles tornaram-se almas viventes.
Não há diferença alguma e nem vantagem nenhuma conosco em relação aos animais que
nos permita desfrutar de uma imortalidade inerente e incondicional diferentemente deles
que voltam para o pó. Todos foram feitos do pó e voltarão para exatamente o mesmo lugar:
o pó.
O mais interessante sobre esta última passagem (cf. Ec.3:19,20) é que o autor faz uso do
hebraico ruach (espírito) no mesmo contexto dos seres humanos, dizendo ainda que ambos
são iguais! “Todos tem o mesmo espírito-ruach” (v.19)! O escritor inspirado faz questão de
ressaltar o fato de que não apenas o fôlego-neshamah, como também o espírito-ruach é
possuído pelos animais, e, se adiantando a quaquer objeção imortalista, afirma ainda que o
espírito possuído por ambos é o mesmo, refutando qualquer psosibilidade de o espírito dos
humanos ser uma “alma imortal” e dos animais ser uma mera “respiração”!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 65
Ele iguala em absoluto o espírito dos homens com o dos animais dizendo que são a mesma
coisa (v.19), e por consequência disso a vantagem dos homens sobre os animais não é
nenhuma (v.19), e, finalmente, conclui dizendo que o local que os homens partem na
morte é o mesmo caminho dos animais (v.20). Francamente, mas apenas uma
interpretação textual extremamente tendenciosa e mal feita que poderia chegar ao ponto de
negar o fato óbvio de que o espírito possuído pelos seres humanos não é diferente daquele
que é detido pelos animais, e que em decorrência deste fato ambos perecem igualmente na
morte e tem o mesmo destino: o pó da terra.
Aqui é claramente indicado a nós que o motivo pelo qual o homem não possui vantagem
nenhuma sobre os animais decorre do fato de que ambos possuem o mesmo espírito-ruach.
Ora, se o espírito-ruach dos animais não lhes concede uma imortalidade, então é óbvio que
o dos seres humanos também não lhes dá tal vantagem. Como os defensores da alma
imortal fizeram com tão grande prova irrefutavelmente contra o ensinamento dualista?
Simples, adulteraram a tradução. Preferiram tomar a liberdade em traduzir por “fôlego”
antes do que por “espírito”, como deveria ser traduzido. O hebraico tem palavra exata para
ambos, mas Salomão faz menção do ruach [espírito] para os animais e o faz no mesmo
contexto dos seres humanos e igualando-os a estes!
É óbvio que o “espírito” possuído por nós não significa uma alma imortal e muito menos
alguma qualificação em nós presente que nos ofereça vantagem alguma sobre os animais
ou que nos leve para o Céu após a morte. Antes, é nada a mais do que a vida presente não
apenas nos seres humanos, como também nos animais. O destino de ambos é o pó da
terra. Felizmente, a Bíblia nos assegura que existirá a ressurreição dos mortos para todos
os seres humanos (cf. Dn.12:2), que acontece na segunda vinda de Cristo (cf.
1Co.15:22,23). É a ressurreição, e não a possessão de uma “alma” ou um “espírito”, que
nos distinguem dos animais no quesito “morte”.
Devemos também considerar mais alguns fatos importantes a ser mencionados. O primeiro
deles é que se os escritores bíblicos tivessem a ideia de que apenas os humanos possuem
espírito e os animais possuem apenas o “fôlego” (como ensinam os imortalistas), então eles
utilizariam essa segunda palavra para quando relacionado aos animais, pois o hebraico
possui palavra para fôlego [neshamah] e para espírito [ruach]. Mas quando aplicado aos
animais, ao invés de mencionarem apenas o fôlego-neshamah, eles mencionavam o
espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29)!
E, pior ainda, eles a mencionavam junto com os seres humanos sem fazer a menor
distinção entre eles (cf. Gn.7:15; Gn.6:17; Gn.7:21,22)! E mais, quando o rei Davi foi
tratar de peixes, ao invés de ele mencionar apenas o fôlego (como qualquer imortalista
faria), ele faz questão de mencionar o próprio espírito-ruach (Sl.104:29). Finalmente, se o
fôlego é aquilo que dá animação ao corpo e o espírito é uma alma imortal e consciente,
então a estátua de pedra do Apocalipse deveria ter sido revestida de fôlego para dar
animação à imagem, e não de espírito. Vemos, contudo, que o apóstolo João descreve a
imagem de pedra recebendo espírito-pneuma para conceder animação, e não “fôlego” (cf.
Ap.13:15)!
Portanto, a não ser que os imortalistas queiram dar lições de Bíblia aos escritores bíblicos,
fica mais do que claro que o espírito que possuímos nada mais é do que o próprio fôlego de
vida que nos dá animação ao corpo formado do pó. Isso explica o paralelismo bíblico entre
fôlego e espírito (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), indicando que ambos tratam-se do mesmo
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 66
elemento e não de elementos diferentes; ambos são aquilo que dá animação à matéria,
nenhum sendo uma “alma imortal” ou algum elemento eterno constituído de personalidade,
pois até mesmo os animais o possuem.
A imensa dificuldade por parte dos imortalistas em conciliar os conceitos de corpo, alma e
espírito com a Bíblia Sagrada, é que eles usam os conceitos kardecistas e platônicos de
dualidade de corpo e alma com o espírito sendo uma entidade consciente com
personalidade. Quando tentam conciliar isso com a Bíblia (que nos deixa um conceito
simples, claro e coerente desses princípios básicos) resulta em uma total confusão de
ideias, pois o dualismo grego de corpo e alma influenciado pelas doutrinas de origens pagãs
não se mistura com as doutrinas bíblicas acerca da criação do homem.
“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais,
e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o
mesmo fôlego [ruach – espírito], e a vantagem dos homens sobre os animais não é
nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram
feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20)
O espírito não é uma entidade que traz consigo vida e personalidade após a morte – Uma
prova muito forte disso é o fato de que, falando de meros peixes, o salmista afirma: “Se
lhes cortas a respiração [ruach], morrem, e voltam ao seu pó” (cf. Sl.104:29). Ora, nem
mesmo qualquer imortalista chegaria ao ponto de alegar que o espírito-ruach dos peixes
leva consigo personalidade e consciência na morte. Dizer que com os seres humanos é
totalmente diferente é forçar o texto, pois a mesma expressão é empregada para ambos
(cf. Sl.104:29; Gn.7:15; Gn.7:22; Ec.3:21).
O processo que acontece com os humanos é o mesmo que acontece com os peixes:
“Escondes a tua face - e ficam perturbados, Tu ajunta o seu espírito – eles expiram, e
voltam para o pó” (cf. Sl.104:29 - Young’s Literal Translation). Embora você provavelmente
já tenha ouvido algo assim antes com relação aos seres humanos, essa passagem está
falando de meros peixes! Compare, por exemplo, tal passagem acima (referindo-se a
peixes) com o que Jó declara: “Se fosse a intenção dele, e de fato retirasse o seu espírito e
o seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, e o homem voltaria ao pó” (cf. Jó
34:14,15).
Veja que o mesmo processo que ocorre com os seres humanos acontece também com os
peixes: Deus retira o seu espírito [ruach], e eles voltam ao pó. Não há a mínima diferença
entre o processo que ocorre com um e o que sucede ao outro. Claro, os imortalistas
evidentemente preferiram traduzir na maioria das vezes “respiração” no Salmo 104:9 para
os peixes e “espírito” para os homens em Jó 34:14,15. Mas a palavra usada no original
hebraico é a mesma para ambos [ruach] e o processo que ocorre também é exatamente o
mesmo.
Sendo assim, o “espírito” que Cristo e que Estêvão entregaram a Deus nada mais era do
que as suas vidas humanas que voltavam para Deus que soprou-lhes o fôlego enquanto
estes ainda viviam. O espírito que retorna para Deus é, como vimos, simplesmente o
princípio animador da vida que concedido por Deus tanto para homens como para animais
durante a jornada terrestre.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 67
O “espírito” não é o nosso “verdadeiro eu” – Certa vez, vi uma exemplificação que
compreende muito bem os sentidos reais de alma e espírito humanos no contexto da
criação. A vida surge quando um corpo inanimado (pó) se une com a força vital,
denominada de ruach (espírito ou respiração). Como resultado desta união, o homem
tornou-se uma alma vivente (cf. Gn.2:7). Em momento nenhum lhe é infundida uma alma;
ao contrário, ele se faz uma alma vivente quando Deus lhes sopra a respiração
[fôlego/espírito] nos seus corpos.
Poderíamos compará-lo com a “eletricidade” nesta analogia. A questão que fica é: O que
sucede à alma vivente, como resultado da junção da respiração com o pó? A resposta para
essa pergunta pode ser ilustrada através da nossa ilustração com a lâmpada. A lâmpada
pode ser analogicamente comparada com o corpo e a eletricidade com o espírito. Enquanto
a eletricidade circula por dentro da lâmpada, há luz. A luz é como a alma vivente, o ser
racional. Quando, porém, desligamos o interruptor da luz e a eletricidade cessa de circular
na lâmpada, para onde é que a luz vai?
Simplesmente deixa de existir. Não vai para uma outra dimensão. Ao sair da lâmpada, ela
simplesmente acaba. Igualmente, quando Deus resolve desligar a “eletricidade” da nossa
vida, o fôlego deixa de entrar de entrar em nosso corpo. Para onde vai a alma vivente? Para
onde vai a pessoa? Vai imediatamente para o Céu, para o inferno ou para o purgatório?
Não, deixa de existir. Exatamente como a luz. A Bíblia descreve este estado como um sono
pacífico (cf. Sl.13:3).
Mais um outro exemplo elucidativo: a alma é o resultado da junção do pó da terra com o
fôlego da vida (cf. Gn.2:7). Assim, entendemos que não há uma alma viva [vivente] sem o
corpo (pó) com o espírito (fôlego de vida). É como a água, que é a combinação de oxigênio
e hidrogênio. Mas se você separar os dois elementos a água desaparece. Não existe uma
alma vivente sem o corpo com o fôlego de vida. Poderíamos elucidar a questão da seguinte
maneira:
LÂMPADA + ELETRECIDADE = LUZ
LÂMPADA – ELETRECIDADE = SEM LUZ
OXIGÊNIO + HIDROGÊNIO = ÁGUA
OXIGÊNIO – HIDROGÊNIO = SEM ÁGUA
PÓ DA TERRA + FOLÊGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA VIVENTE [vida]
PÓ DA TERRA – FOLÊGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA MORTA [sem vida]
Estêvão conhecia a Bíblia, e sabia que o espírito voltava para Deus que é quem o deu (cf.
Ec.12:7). E quando ele entregou o espírito (cf. At.7:59,60), para onde Estêvão foi? Ele foi
para o Céu ou para o inferno? Ele foi arrebatado? Foi levado para junto de Cristo? Não. A
Bíblia diz simplesmente que ele “adormeceu” (cf. At.7:60). Igualmente, Jesus Cristo
entrega o espírito no momento da morte (cf. Lc.23:46), mas a Bíblia afirma que a sua alma
esteve no Sheol (cf. At.2:27), no coração da terra durante os três dias e três noites em que
esteve morto (cf. Mt.12:40), e não no Paraíso! Além disso, declara à Maria Madalena, após
três dias que esteve morto, que ainda não subiu para o Pai (cf. Jo.20:17). Isso nos revela
que o comprometimento de seu espírito (cf. Lc.23:46) não foi o seu regresso ao Pai. O
espírito separado do corpo não é o "real" você!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 68
Na morte, o real volta ao pó (cf. Gn.3:19). O espírito de todos volta para Deus (cf.
Ec.12:7), pois foi Deus quem o deu. Esse é o princípio básico da vida: a vida deriva de
Deus, é sustida por Deus e volta para Deus por ocasião da morte. O corpo se desintegra
(volta a ser pó) e o fôlego da vida (espírito), que Deus assoprou originalmente nas narinas
de Adão, retorna para Ele. Esse é um princípio universal de que Deus recebe o espírito de
todos, evidentemente não sendo o nosso “verdadeiro eu”. Outra designação comum na
Bíblia com relação ao sentido de “alma” é de “vida”. A vida é o resultado do que o homem
foi formado (ou seja, pó da terra + fôlego de vida = vida [alma vivente]). Por isso mesmo,
em muitas ocasiões a palavra “alma” é corretamente traduzida simplesmente por “vida” ou
como “vida eterna” no sentido ampliado de alma-psiquê empregado no Novo Testamento.
Tal sentido secundário não adultera o sentido primário simplesmente porque não apresenta
nenhuma contradição com outras verdades bíblicas (como Gênesis 2:7 que narra o
simplismo bíblico da alma como resultado e não como parte da porção), e, ainda mais, é um
significado secundário plausível uma vez que a vida é o resultado dos elementos que
tornaram o homem um ser animado. Em outras palavras, se uma “alma vivente” é
simplesmente um “ser vivo”, a alma pode ser assim classificada, então, como a própria vida
humana. Veremos mais detalhes sobre isso neste estudo ao explorarmos algumas
passagens bíblicas tais como, por exemplo, a de Mateus 10:28, usada pelos imortalistas
como suposta “prova” da imortalidade da alma.
O corpo é a alma visível – A partir do relato da criação humana em Gênesis 2:7, podemos
perceber claramente que o homem é uma alma e possui um fôlego de vida que dá a
animação ao corpo formado do pó. O que seria então o “corpo”? Nada mais é do que a alma
visível. A alma é a pessoa integral, como o resultado do corpo formado do pó da terra com
a fusão do fôlego de vida [espírito] soprado em suas narinas para o homem tornar-se um
ser vivente. Dito em termos simples, o corpo não é a prisão da alma, mas reflete a própria
alma como visivelmente ela é. O Dr. Hans Walter Wolff faz a seguinte ponderação:
“O que nephesh [alma] significa? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional]
(...) O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh
[alma]”63
A Bíblia confirma tal posição relatando inúmeras vezes a morte do corpo como a morte da
alma (ver Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ag.2:13).
Nestas passagens, o original hebraico traz alma [nephesh] embora fosse o corpo (ou
“carne”) que jazia morto. Por exemplo: “Todos os dias da sua consagração para o Senhor,
não se aproximará de um cadáver” (cf. Nm.6:6). No original hebraico dessa mesma
passagem lemos: “kol-yemêy hazziyro layhvh `al-nephesh mêth lo' yâbho'” (cf. Nm.6:6).
Também lemos em Números 9:7 – “Estamos imundos por termos tocado o cadáver de um
homem; por que havemos de ser privados de apresentar a oferta do Senhor, a seu tempo,
no meio dos filhos de Israel?” (cf. Nm.9:7); no original hebraico: “vayyo'mru hâ'anâshiym
hâhêmmâh 'êlâyv 'anachnu themê'iymlenephesh 'âdhâm lâmmâh niggâra` lebhiltiy haqribh
'eth-qorbanAdonay bemo`adho bethokh benêy yisrâ'êl” (cf. Nm.9:7).
63
WOLFF, Hans Walter. Anthropology of the Old Testament. Filadélfia, 1974, p. 1.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 69
Lemos também em Números 19:11 – “Aquele que tocar em algum morto, cadáver de
algum homem, imundo será sete dias” (cf. Nm.19:11); no original hebraico: “hannoghêa`
bemêth lekhol-nephesh 'âdhâm vethâmê' shibh`ath yâmiym” (cf. Nm.9:11). E dois versos
à frente: “Todo aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, e não se
purificar, contamina o tabernáculo do Senhor; essa pessoa será eliminada de Israel; porque
a água purificadora não foi aspergida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua
imundícia” (cf. Nm.19:13). No texto original hebraico: “kol-hannoghêa` bemêth benephesh
hâ'âdhâm 'asher-yâmuth velo'yithchathâ' 'eth-mishkan Adonay thimmê' venikhrethâh
hannephesh hahiv'miyyisrâ'êl kiy mêy niddâh lo'-zoraq `âlâyv thâmê' yihyeh `odhthum'âtho
bho” (cf. Nm.19:13).
Poderíamos ficar o livro todo repassando inúmeras passagens bíblicas que demonstram de
maneira clara que para os hebreus o corpo nada mais era do que a própria alma visível, não
tinha absolutamente parte nenhuma com qualquer segmento imaterial ou imortal. Por isso,
o cadáver de um homem era frequentemente relacionado à alma que jazia morta porque o
corpo é a alma visível.
Para Moisés e para os hebreus, a alma nunca foi imortal. Mas, para aquelas pessoas que
insistem em se opor à doutrina da mortalidade bíblica, “estarão em apuros para explicar
aquelas passagens que falam de uma pessoa morta como uma alma-nephesh morta (Lev.
19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6, 11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13: Ageu 2:13). Para elas é
inconcebível que uma alma imortal possa morrer com o corpo”64
A alma não é algo imaterial – Nenhum escritor bíblico tinha em mente a crença de que o
corpo é a prisão de uma alma imaterial dentro dele. Isso fica muito claro na Bíblia por
inúmeras razões. Em primeiro lugar, porque a Bíblia afirma que a alma emagrece: “E ele
lhes cumpriu o seu desejo, mas enviou magreza às suas almas” (cf. Sl.106:5). Evidente
que, se a alma fosse uma entidade imaterial, então ela não poderia “emagrecer” de jeito
nenhum! É óbvio que a alma é o ser integral do homem e, sendo assim, ela também
emagrece junto com o corpo (lembre-se de que o corpo é a alma visível).
Se a alma emagrece, então ela não é imaterial mas sim algo bem material, que nasce, que
cresce, que emagrece, que engorda, que sente sede, que envelhece e que morre. Se a
crença dos escritores bíblicos fosse de que apenas o corpo que sofre todas essas alterações
físicas naturais (como nascer, crescer, emagrecer, morrer, etc), então o salmista
certamente teria empregado a palavra hebraica bashar, que significa “corpo”, e não
nephesh (alma). O mesmo pode ser dito com relação aos demais pontos que apresentarei a
seguir.
Isaías nos diz que “será também como o faminto que sonha, que está a comer, porém,
acordando, sente-se vazio; ou como o sedento que sonha que está a beber, porém,
acordando, eis que ainda desfalecido se acha, e a sua alma com sede; assim será toda a
multidão das nações, que pelejarem contra o monte Sião” (cf. Is.29:8). Uma entidade
imaterial não pode sentir sede, pois a sede é uma característica do corpo físico. No máximo
poderia sentir sede em um sentido puramente metafórico, como quando o salmista afirma
que tem “sede de ti [de Deus]” (cf. Sl.143:6). Mas no contexto no qual o texto de Isaías
64 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 70
está inserido percebemos facilmente que se trata não de uma linguagem poética ou
alegórica, mas natural e literal.
Ele fala de pessoas fisicamente famintas que sonham em comer algo, mas que acordam e
veem que estão vazias, e de pessoas com sede que sonham que estão bebendo algo, mas
que acordam e ainda estão desfalecidas, e a sua alma com sede. Sede do que? Sede de
Deus? Não, sede de beber algo, como o contexto indica. Trata-se de pessoas fisicamente
com sede, que sonham em estar bebendo algo, mas acordam e percebem que não beberam
nada, que ainda estão desfalecidas fisicamente, que a sua alma continua com sede. Nisso
fica muito claro que a alma é o próprio ser vivente como pessoa, e não algo imaterial dentro
dele.
Outro exemplo semelhante ocorre quando os israelitas murmuravam no deserto na
insistência por carne: “Agora, porém, seca-se a nossa alma [nephesh], e nenhuma cousa
vemos senão este maná” (cf. Nm.11:16). Eles estavam falando de um maná físico, e de
uma sede real, não meramente de algo simbólico ou em algum sentido espiritual. Portanto,
a alma que está seca se refere ao próprio físico que clama por outra comida além do maná.
Ou seja, a alma é identificada novamente como sendo algo físico e visível na forma do
corpo, e não em uma substância imaterial residente dentro do corpo.
Existem muitas coisas que um elemento imaterial não pode fazer. Uma dessas é chorar, por
exemplo. Contudo, lemos na Bíblia que a alma de tristeza verte lágrimas: “Chora de tristeza
a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa” (cf. Sl.119:28). Se a alma derrama
lágrimas, então ela não é imaterial. Nada há nas Escrituas nada que possa mostrar que a
alma é um segmento imaterial na natureza do homem, afinal, se assim fosse esperaríamos
que ela não pudesse derramar lágrimas, uma vez sendo isso um fenômeno natural,
material, físico, visível.
Além disso, a Bíblia afirma categoricamente que a alma desce à cova após a morte (cf. Jó
33:18,22,28,30; Is.38:17; Sl.94:17). Se a alma fosse algo imaterial, então ela de maneira
nenhuma poderia descer à sepultura na morte (ela deveria era subir ao Céu ou ir para o
inferno). Também sabemos que a Bíblia afirma inúmeras e incansáveis vezes que a alma
morre, e uma entidade imaterial não pode falecer (ver a morte da alma em Nm.31:19;
Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30;
Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20; At.3:23;
Tg.5:20, etc).
Jó fala que “se comi os seus frutos sem dinheiro, e sufoquei a alma dos seus donos, por
trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó” (cf. Jó
31:39,40). “Sufocar a alma” significa sufocar a própria pessoa, porque algo imaterial não
pode ser sufocado. Por fim, a Bíblia declara a alma como em Gênesis 2:7: uma pessoa, e
não uma entidade imaterial. Assim podemos entender que Abraão “tomou a Sarai, sua
mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que
lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de
Canaã” (cf. Gn.12:5). Abraão não estava tomando para si substâncias imateriais, mas sim
algo bem material, pessoas, de carne e osso.
Concluímos, pois, que a alma não é um segmento imaterial, mas sim a própria vida humana
como o resultado da junção do pó da terra com o fôlego de vida (para dar animação ao
corpo morto), resultando em um ser vivo. Enquanto o dualismo platônico ensina que a
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alma-psiquê é algo imaterial, intangível, invisível, eterno e imortal, as Sagradas Escrituras
apresentam a alma como referência a criaturas terrestres, incluindo os animais, referindo-
se a algo bem material, tangível, visível e mortal.
Sumariando, corpo e alma não são duas pessoas dentro de um único ser (um mortal e outro
imortal), mas sim duas características da mesma pessoa. A alma é a sede dos
pensamentos, que também perecem com a morte (cf. Sl.146:4). O corpo é um homem
como um ser concreto. Isso não significa dualismo entre corpo e alma, mas sim duas
características da mesma pessoa.
Como disse Dom Wulstan Mork:
“Não havia a dicotomia grega de alma e corpo, de duas substâncias opostas, mas uma
unidade, homem, que é bashar [corpo] de um aspecto e nephesh [alma] de outro. Bashar,
pois, é a realidade concreta da existência humana, nephesh é a personalidade da existência
humana”65
De fato, a própria Enciclopédia Católica fez uma interpretação muito feliz daquilo que
realmente significa “alma”, sem ter parte com algum segmento imaterial preso dentro do
homem:
“Nephesh [né·fesh] é um termo de muito maior extensão do que nossa ‘alma’, significando
vida (Êx 21.23; Dt 19.21) e suas várias manifestações vitais: respiração (Gn 35.18; Jó
41.13,21), sangue [Gn 9.4; Dt 12.23; Sl 140(141).8], desejo (2 Sm 3.21; Pr 23.2). A alma
no Antigo Testamento significa, não uma parte do homem, mas o homem inteiro — o
homem como ser vivente. Similarmente, no Novo Testamento significa vida humana: a vida
duma entidade individual, consciente (Mt 2.20; 6.25; Lu 12.22-23; 14.26; Jo 10.11, 15, 17;
13.37)”66
A alma na cova – Outro fator importante que mostra que os escritores do Antigo e do Novo
Testamento não imaginavam uma natureza dualista do ser humano é a resposta para a
pergunta: para onde vai o corpo quando morre? Biblicamente, para a cova, a sepultura. De
acordo com os imortalistas, a alma tem um destino diferente do corpo, prosseguindo de
imediato ao Céu ou ao inferno.
Sendo a alma a própria pessoa integral como o resultado do pó da terra com o fôlego de
vida, entendemos que não há uma alma viva sem a combinação de corpo e espírito. Sem
corpo não há uma alma vivente e sem espírito também não há alma viva. O que a Bíblia diz
a respeito disso? A alma regressa ao lugar de silêncio (a sepultura) ou seria levada para
tormentos eternos ou imediatamente ao Céu, tendo dest inos diferentes do corpo? No livro
de Jó temos a resposta a esta questão:
“Para apartar o homem do seu designo e livrá-lo da soberba; para livrar a sua alma da
cova, e a sua vida da espada” (cf. Jó 33:18). Como vemos, o lugar para onde a alma
regressaria seria à cova (sepultura), e não para uma outra dimensão! Também continuamos
lendo no mesmo capítulo: “Sua alma aproxima-se da cova, e sua vida, dos mensageiros
da morte” (cf. Jó 33:22). Novamente é relatado o fato bíblico de que o lugar para onde a
65 MORK, Dom Wulstan. The Biblical Meaning of Man. Milwaukee, Wisconsin, 1967, p. 34.
66 New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XIII, p. 467.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 72
alma se aproxima não é para o Céu ou para o inferno, mas para a cova. E novamente
continuamos lendo:
“Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer para a cova, e viverei para
desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). A clareza da linguagem é tão evidente que não necessita de
maiores elucidações. O lugar para onde a alma iria era para a cova, não era o destino
apenas do corpo! Por que Eliú no livro de Jó omite completamente que a alma suba
consciente para o Céu, inferno, ou qualquer outro canto, mas diz que ela desce para a
cova?
Ele estava tentando enganar os teólogos da doutrina da imortalidade? Bom, talvez. Mas,
apesar de ter todas as possibilidades de narrar a sobrevivência da alma à parte do corpo, já
assegurada em algum lugar “entre os salvos”, ele afirma de maneira categórica que o local
da alma é na cova. Ele manifesta claramente a sua visão holista bíblica de que a alma não
tem destinos diferentes do corpo após a morte. Ademais, além de relatar que a sua alma
desceria para a cova caso morresse, ele ainda afirma que, uma vez que continua com vida,
“viverei para desfrutar a luz”.
Em outras palavras, caso ele morresse já não veria mais luz nenhuma! Como se isso tudo
não fosse suficientemente claro, o salmista declara o mesmo ponto de vista do livro de Jó,
assumindo exatamente a mesma posição de que não é apenas o corpo que jaz na sepultura,
mas a alma também: “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria
no lugar do silêncio” (cf. Sl.94:17). Ora, qual era o lugar do silêncio no qual o salmista
declara que partiria a sua alma?
Evidentemente não é uma referência ao Céu com altos louvores e muito menos aos terrores
e gritarias do fogo do inferno; sendo, antes, uma clara referência à sepultura, o verdadeiro
lugar do silêncio para o qual o salmista afirma categoricamente que não o c orpo tão
somente, mas também a alma partiria após a morte. Quando o rei Ezequias estava à beira
da morte, ele relata a sua convicção de que a sua alma partiria para a cova, para a
corrupção:
“Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a
livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados”
(cf. Is.38:17). O Senhor livrou a sua alma de ir para onde? Pro Céu? Pro inferno? Pro
purgatório? Não, de ir pra cova. Ezequias sabia que o destino de sua alma seria para a
cova, para o lugar de corrupção. Por isso mesmo, ele clama pela manutenção de sua vida
no capítulo inteiro (cf. Isaías 38). No Salmo 88:3, o salmista expressa a mesma ideia:
“Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura”
(cf. Sl.88:3). Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate
da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e
não sofra decomposição” (cf. Sl.49:8,9). Aqui fica claro que a alma também pode sofrer
decomposição; contudo, é passível de ser resgatada [na ressurreição] para viver para
sempre e não sofrer decomposição [na sepultura].
Com toda a clareza necessária, a Bíblia não deixa espaços para a heresia de que o corpo é a
prisão de uma alma imaterial e imortal que tem destinos diferentes após a morte partindo
para o Céu ou para o inferno. Antes, a alma, como é a própria pessoa humana como o
resultado do pó da terra com o fôlego da vida (cf. Gn.2:7), jaz na sepultura. Não obstante a
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 73
isso, o salmista afirma: “Na prosperidade repousará a sua alma, e a sua descendência
herdará a terra” (cf. Sl.25:13). A alma também “repousa”, não é só o corpo que dorme!
Muito embora os escritores bíblicos tivessem a sua disposição a plena condição de relatar
que o corpo somente é que desce a cova ou que “repousa”, eles insistem em declarar que a
alma [nephesh] desce a cova, a corrupção, ao silêncio. Ponderamos: iriam todos eles
relatar que a alma jaz na cova caso tivessem em mente que após as suas mortes a sua
alma partiria logo para qualquer lugar, menos para a cova?
É óbvio que não! A crença dos escritores bíblicos era de uma natureza holista e não dualista
do ser humano, de modo que a alma não escapava da sepultura. É digno de nota, também,
o fato de que nunca em passagem nenhuma da Bíblia há qualquer declaração de algum
relato da alma subindo ao Céu ou descendo para o inferno. Em absolutamente todas as
vezes em que alguém relata o local onde a sua alma partiria com a morte, diz respeito
somente a sepultura.
Evidentemente a alma descer para a cova é a conclusão dos escritores bíblicos diante do
fato de que a alma morre, e é exatamente isso o que veremos a seguir. Afinal, “que homem
há, que viva, e não veja a morte? Livrará ele a sua alma do poder da sepultura?” (cf.
Sl.88:48). Não! Ninguém! Todos os homens são mortais e não tem uma vida inerentemente
imortal; a alma de todos está sujeita ao poder da sepultura! O salmista deixa nítido que
todos os homens morrem e descem à sepultura, e que esta morte não se resume apenas ao
corpo, mas também à alma, fazendo a pergunta retórica: “livrará ele a sua alma do poder
da sepultura”?
Diante de tudo isso, apenas alguém bem mal intencionado para acreditar que os escritores
bíblicos acreditavam que a alma tinha destinos diferentes do corpo após a morte, uma vez
que a Bíblia apresenta tantas vezes não só a morte da alma, mas também a sua descida ao
silêncio e a cova (sepultura), bem como que a alma está “repousando”. Sendo assim, a
visão bíblica, como vimos, é holista, e não dualista.
Paralelismo entre corpo e alma - Somente aquele que entende que corpo e alma são duas
características da mesma pessoa e não duas coisas opostas, entenderá o paralelismo bíblico
entre corpo e alma: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente; a minha
alma tem sede de Ti; meu corpo Te almeja” (cf. Sl.63:1). Corpo e alma não são dois
opostos; doutra forma seria impossível que eles fossem colocados intercambiavelmente.
Isso seria uma afronta para a doutrina dualista, que prega exatamente o contrário disso,
isto é, que corpo e alma são dois opostos, dois extremos distintos, material e imaterial,
mortal e imortal.
Qual nada, ambos são colocados intercambiavelmente em um paralelismo bíblico, porque
são duas manifestações da mesma pessoa, e não formas diferentes de existência. Nisso fica
muito claro a visão bíblica holista em detrimento da doutrina dualista. Colocar corpo e alma
intercambiavelmente como paralelismo seria uma completa afronta à visão grega dualista,
que prega exatamente o inverso disso, isto é, que um é antagônico – oposto – ao outro.
O mesmo paralelismo é feito no Salmo 84:2 entre alma, coração e carne e também em Jó
14:22 incluindo corpo e alma. Devemos sempre lembrar que, de acordo com o dicionário,
paralelismo é “um encadeamento de funções sintáticas idênticas ou um encadeamento
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 74
de orações de valores sintáticos iguais. Orações que se apresentam com a mesma estrutura
sintática externa, ao ligarem-se umas às outras em processo no qual não se permite
estabelecer maior relevância de uma sobre a outra”67.
Paralelismo é, portanto, quando duas linhas expressam o mesmo pensamento em
linguagem ligeiramente diferente, ou quando o pensamento da primeira linha é completado,
ampliado ou intensificado na segunda, tendo a mesma aplicação prática. Noutras palavras,
se corpo e alma fossem dois distintos opostos como pregam os dualistas (o corpo mortal e a
alma imortal; o corpo corruptível e a alma incorruptível; o corpo material e a alma
imaterial), então o que esperaríamos seria justamente uma antítese, isto é, um contraste
nítido entre ambos que expressaria tal discrepância.
Contudo, o que vemos na Bíblia é que corpo e alma são usados intercambiavelmente como
paralelismo, porque não são dois opostos e nem duas “pessoas” dentro de um único ser,
mas sim duas características da mesma pessoa, pois os dois estão intimamente
relacionados; o corpo é a forma exterior da alma e a alma é a vida interior do corpo
humano. Por isso, eles não são opostos (como ensinavam os gregos dualistas), mas
intercambiáveis (como apregoa o holismo bíblico). Tal definição fere gritantemente o
conceito platônico da “alma imortal”.
A sede dos pensamentos – Alguma parte dos defensores da imortalidade da alma sustentam
que o fato dela ser utilizada biblicamente como fonte dos pensamentos humanos significa
que ela é um segmento imortal. Sustentam a diferença entre a parte mortal (que não
pensa) e a imaterial implantada por Deus (que comanda os sentimentos humanos). Essa
conclusão, contudo, carece inteiramente de respaldo teológico. Isso porque o coração
também é utilizado biblicamente como sede dos pensamentos, ainda mais do que a própria
alma.
Por exemplo, é nos dito que o coração é sede de alegria (cf. Pv.27:11), coragem (cf.
Sm.17:10), tristeza (cf. Ne.2:2), desânimo (cf. Nm.32:7), perturbação (cf. 2Rs.6:11),
tenção (cf. Is.35:4), ódio (cf. Lv.19:17), amor (cf. Dt.13:3), confiança (cf. Pv.31;11),
generosidade (cf. 2Cr.29:31), inveja (cf. Pv.23:17). O coração estremece (cf. 1Sm.28:5),
excita-se (cf. Sl.38:10), desmaia (cf. Gn.45:26), adoece (cf. Pv.13:13), desfalece (cf.
Gn.42:28), agita-se (cf. Pv.13:12).
Em outras ocasiões, o coração é claramente indicado como sendo a fonte dos pensamentos
e sentimentos do ser humano: “Pois do coração procedem os maus pensamentos, os
homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as
calúnias” (cf. Mt.15:39). Por isso mesmo, “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu
coração, porque dele procedem as fontes da vida” (cf. Pv.4:23). E quando Davi diz a
Salomão: "E você, meu filho Salomão, reconheça o Deus de seu pai, e sirva-o de todo o
coração e espontaneamente, pois o Senhor sonda todos os corações e conhece a motivação
dos pensamentos” (cf. 1Cr.28:9).
Portanto, se a alma é imortal porque em determinadas ocasiões é utilizada como fonte de
sentimentos e emoções, então o coração certamente não pode deixar de ser também. O
próprio fato de organismos materiais que perecem com a morte do corpo serem utilizados
como sede dos pensamentos juntamente com a alma, nos mostra que ambos não são duas
67 Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralelismo_sint%C3%A1tico>. Acesso em: 15/08/2013.
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partes distintas (uma pensante e outra matéria irracional), mas sim duas manifestações do
mesmo ser mortal.
Não existe um aspecto espiritual em contraposição ao físico, nem o ser “interior” em
oposição ao “exterior”, mas sim o ser como criatura viva, consciente e pessoal. O
paralelismo bíblico entre alma e coração como sede dos pensamentos nos mostra que eles
não são duas entidades distintas, mas consistem em duas maneiras de se referir a si
próprio. Os escritores bíblicos se utilizavam de paralelismo entre coração e espírito como
sede dos sentimentos: “O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar
os ossos” (cf. Pv.17:22).
E também de paralelismo entre coração e alma: “O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à
prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma” (cf. Dt.13:3). Tal
paralelismo entre coração e alma nos mostra que ambos são tão somente agentes materiais
utilizados intercambiavelmente ao tratar-se dos pensamentos e sentimentos humanos. O
coração e a alma não são dois opostos (um material e outro imaterial; um mortal e outro
imortal), mas dois agentes que estão intimamente ligados entre si, sendo duas
características da mesma pessoa, e não entidades opostas.
Isso nos permite perfeitamente acentuarmos o parelelismo entre alma e coração e
colocarmos ambos como sede dos pensamentos, o que infelizmente não é possível no
modelo dualista tradicional. A verdade bíblica é a de que o sopro de Deus que nos traz
fôlego de vida é visivelmente presente na forma da respiração, e a alma é visivelmente
presente na forma do corpo. Por isso, corpo, alma, espírito e coração não são opostos e
nem distintos, mas características da mesma pessoa, o ser integral holista do ser humano.
A Bíblia Sagrada, em sua totalidade, contradiz gritantemente os conceitos platônicos da
“alma imortal”.
IV–A morte da alma
No Antigo Testamento – A Bíblia relata a morte da alma tantas inúmeras vezes que eu tive
que resumir citações condensadas aqui ao invés de passar uma a uma. O arsenal bíblico da
morte da alma é tão significativo ao ponto de nenhum exegeta sério poder contestar que
este é um fato. Ela não sobrevive a parte do corpo, mas, pelo contrário, morre com ele,
pelo que não existe “alma vivente” sem o corpo com o fôlego de vida. Quando o fôlego de
vida [espírito] é retirado, nós que somos almas viventes nos tornamos almas mortas. É por
isso que a Bíblia fala tão frequentemente na morte da alma também.
No Antigo Testamento, os escritores bíblicos quase cansaram de falar que a alma morre. No
texto original hebraico, a alma morria, era transpassada, podia ser morta, morria para esta
vida e morria para a próxima, a alma morria a toda hora. Josué conseguiu o “feito” de
exterminar muitas almas... (ver Josué 10:28 no original hebraico: “Ve'eth-maqqêdhâh
lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy-cherebh ve'eth-malkâh hecherim
'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr sâriydh vayya`as lemelekh
maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho”).
A tradução literal ficaria assim: “Naquele dia tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o rei
a espada e exterminou toda a alma que nela vivia, sem deixar sobreviventes. E fez com
o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó”. E não foi só essa vez que Josué
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 76
conseguiu o feito extraordinário de matar não só o corpo, mas a alma também: em Josué
10:30, 31, 34, 36 e 38, a alma costumava morrer sempre. No original hebraico, Josué
“matou a espada todas as almas” (cf. Js.10:30), e “exterminou toda a alma” (cf.
Js.10:28). Definitivamente, se existia uma imortalidade da alma, então Josué deveria
ganhar uma medalha de honra ao mérito por tais feitos.
Se alguém “matava uma alma acidentalmente”, podia fugir para uma cidade de refúgio
(cf. Js.20:3). Era possível aniquilar uma alma sem intenção (cf. Js.20:9). A alma morria
tantas vezes, que uma referência completa a todas as passagens nos faria superar os
limites de escopo deste livro. É claro que a maioria das versões bíblicas a nossa disposição
simplesmente não traduzem a palavra “alma” como colocada no original hebraico [nephesh]
pelo simples fato de que isso seria uma afronta à teoria imortalista de que é só o corpo que
morre e a alma não. Os personagens bíblicos não acreditavam que seria apenas o corpo que
morreria, pois eles categoricamente afirmam: “Quem contará o pó de Jacó e o número da
quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim
como o seu” (cf. Nm.23:10).
Veja que ele não diz: “que meu corpo morra a morte dos justos”, o que presumivelmente
seria a única coisa que os defensores da imortalidade da alma afirmariam. A própria alma
não escaparia da morte, e essa era a tão forte convicção de toda a Bíblia. A esperança deles
não era que as suas almas fossem imortais, mas sim que elas morressem as mortes
dignas dos justos, isto é, com honra. Este seria o fim deles, e não um início de uma nova
existência!
Tal convicção de que a alma também não escapa da morte pode ser encontrada mais
inúmeras vezes: “Dai-me um sinal seguro de que salvareis meu pai, minha mãe, meus
irmãos, minhas irmãs e todos os que lhe pertencem e livrareis as nossas vidas da morte”
(cf. Js.2:13). Caso os israelitas atacassem Jericó, as “vidas” da família de Raabe seriam
mortas. Poucos sabem, contudo, que o original hebraico verte novamente a morte da alma-
nephesh ao invés de “vida” como é traduzido por muitas versões. A Versão King James é
uma das versões que traduzem nesta passagem corretamente a morte da alma, como
sendo o próprio término da vida, a cessação da existência.
Em Deuteronômio 19:11, a tradução em português assim reza: “Mas, se alguém odiar o seu
próximo, ficar à espreita dele, atacá-lo e matá-lo, e fugir para uma dessas cidades...”.
Contudo, o original hebraico traz novamente a morte da alma: “Vekhiy-yihyeh 'iysh
sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv vehikkâhu nephesh vâmêth venâs'el-'achath
he`âriym hâ'êl”. “Matá-lo” aqui é a tradução do original hebraico que traz nephesh: matar
a alma!
Em Jó 27:8, quando lemos que Deus eliminaria os ímpios, tirando a sua vida, o original
traduz por “tira a alma” [nephesh]: “Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado,
quando Deus lhe tira a alma [nephesh]”? O fato bíblico é que “a alma que pecar, essa
morrerá” (cf. Ez.18:4; Ez.18:21). Se Deus tivesse feito a alma imortal, teria dito a Ezequiel
que “a alma que pecar viverá eternamente em estado desencarnado”; ou, então, diria que
“a alma que pecar nunca morrerá”! Contudo, vemos que nem mesmo a alma está isenta da
morte.
Os autores bíblicos usavam e abusavam da morte da alma. Outro fato interessante
encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 77
a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição” (cf.
Sl.49:8,9). Se a alma fosse algo à parte do corpo que se desliga deste por ocasião da
morte, então ela jamais poderia em circunstância alguma sofrer decomposição. O que
deveria sofrer decomposição seria o corpo, somente, e não a alma. Contudo, o verso 8 faz
menção a nephesh - alma!
A verdade é que no original hebraico a alma é explicitamente morta: “Para que nelas se
acolha aquele que matar alguém [nephesh] involuntariamente” (cf. Nm.35:15).
Evidentemente o hebraico nephesh [alma] nunca é traduzido na maior parte das versões
pelo simples fato de que isso iria suscitar o questionamento de que a alma claramente
morre com a morte do corpo. Por isso, traduzem até o “matar alguém”... e daí pulam
imediatamente para o: “...involuntariamente”.
Não traduzem por “matar alguma alma”, pois desta forma é muito mais fácil enganar os
leitores que não tem como descobrir usando apenas a linguagem disponível no texto em
português se o verso verte a morte apenas do corpo ou também da alma. O que bem
podemos observar, ao longo de toda a Bíblia, é que a alma morre tanto quanto o corpo (ou
até mais), mas isso é escondido dos leitores pela maioria das traduções. Tais casos
semelhantes ocorrem inúmeras vezes nas Escrituras.
Alguns, na tentativa de provar que a alma é imortal, argumentam usando o texto de 1ª Reis
17:21-22, que assim diz: “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e
disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-Te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele. E o
Senhor atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (cf.
1Rs.17:20-22). Mas, na realidade, tudo o que este texto nos mostra é que a alma do
menino, que estava morta, voltou a ter vida – ele tornou-se novamente um ser vivente,
uma alma vivente. Corrobora com isso a variante linguística do texto, como observa o Dr.
Samuelle Bacchiocchi:
“Esta leitura, que se acha à margem da versão AV, apresenta uma construção linguística
diferente. O que retorna às partes interiores é a respiração. A alma como tal nunca se liga a
algum órgão ‘interior’ do corpo. O retorno da respiração às partes interiores resulta no
reavivamento do corpo, ou, poderíamos dizer, faz com que se torne uma vez mais uma
alma vivente”68
Concorda com isso também o significado secundário de alma como sendo "vida". Cristo
disse que aquele que queria segui-lo teria que odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar
a "si mesmo"69 ou a um elemento imortal que o próprio Deus tenha implantado no homem,
como creem os imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das
traduções bíblicas tem vertido a passagem por "vida"70. Isso é o mesmo que ocorre em 1ª
Reis 17:22, onde alma aparece no sentido de vida. A "vida" voltou ao menino, como diz a
NVI: "O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu" (cf.
1Rs.17:22), e desta forma ele passou a ser uma alma vivente novamente, não mais uma
alma morta71. Sobre isso, Bacchiocchi acrescenta:
68 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
69 Cristo disse para amar o próximo como a si mesmo (cf. Mt.22:39), e não para odiar a si mesmo, o
que seria uma contradição.
70 Tal como fazem a Almeida Revisada e Imprensa Bíblica, a Nova Versão Internacional e a Sociedade
Bíblica Britânica, além das versões católicas Ave Maria, a Bíblia de Jerusalém e versão da CNBB.
71 Algum imortalista poderia aproveitar essa ocasião para objetar dizendo que "alma" também deveria ser
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 78
“Até mesmo o Interpreter’s Dictionary of the Bible [Dicionário bíblico do intérprete], de
concepção liberal, em seu verbete sobre a morte declara explicitamente: ‘A partida do
nephesh [alma] deve ser vista como uma figura de linguagem, pois não continua a existir
independentemente do corpo, mas morre com ele (Núm. 31:19; Juí. 16:30; Eze. 13:19).
Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a ‘alma’ é separada do corpo no
momento da morte. O ruach, ‘espírito’, que faz do homem um ser vivente (cf. Gên. 2:7), e
que ele perde por ocasião da morte, não é, falando-se apropriadamente, uma realidade
antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ecl. 12:7)’”72
Além disso, aquele que matasse alguma alma deveria ficar sete dias fora do arraial:
“Acampai-vos por sete dias fora do arraial; todos vós, tanto o que tiver matado alguma
alma [nephesh], como o que tiver tocado algum morto” (cf. Nm.31:9). Se tais
“exterminadores de alma” vivessem no século presente e vissem o que o conceito de “alma”
se tornou após a adoção universal do conceito platônico para este termo, iriam ficar
realmente assombrados em descobrir que mataram almas imortais!
A morte do corpo está sempre ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da
alma. Nós não temos uma alma presa dentro de nós que é liberta por ocasião da morte; nós
somos essa “pessoa” que morre e que revive por ocasião da ressurreição (cf. Ap.20:4)! É
por isso que, quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão, a Bíblia nos diz
repetidas vezes que “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (cf. Js.10:28, 30, 31,
34, 36, 38). Definitivamente não haviam avisado Josué que no máximo o que ele matou foi
somente um corpo!
Em Deuteronômio 11:9, lemos que “havendo alguém que aborrece o seu próximo, e lhe
arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal, e se acolhe a uma destas
cidades...”. A frase “o fere de golpe mortal” é uma infeliz tradução do original hebraico que
diz “fere a alma-nephesh mortalmente”. Jamais poderíamos imaginar que um cidadão iria
com a sua espada transpassar tanto um indivíduo num combate ao ponto de matar até a
alma “imortal” e imaterial que essa pessoa possui dentro dela! É nítido que a alma não era
crido como sendo algo imaterial com imortalidade preso dentro de nós, o que também fica
claro em Jeremias:
“Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste grandemente a este povo e
a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe até à alma” (cf. Jr.4:10). Se
a alma fosse algo imaterial, não poderia ser atingida por objeto algum material e nem ser
penetrada! Uma entidade imortal e imaterial não pode ser ferida com espada ou algum
outro instrumento; contudo, lemos que “vos estejam à mão cidades que vos sirvam de
cidades de refúgio, para que ali se acolha o homicida que ferir a alguma alma [nephesh]
por engano” (cf. Nm.35:11).
Aqui o “ferir” é propriamente a morte, porque o que a atinge é um homicida. Obviamente a
morte do corpo é a morte da alma, pelo fato de que a alma não é um segmento imaterial
traduzida por "vida" nas mais de 58 citações explícitas onde ela morre, como se resolvesse o problema
da morte da alma. Contudo, "matar a vida" não faz qualquer sentido, mostrando que nessas ocasiões
alma aparece em seu significado primário, de um ser vivo, e eliminando aqui a possibilidade de se tratar
de um elemento imortal que sobrevive à parte do corpo após a morte, que é o significado principal de
alma na visão imortalista.
72 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 79
que não pode ser atingido e nem destruído. Nenhum autor bíblico acreditava que existia
uma alma imortal e imaterial presa dentro do nosso corpo, pois, se assim fosse, então a
alma jamais e em circunstância alguma poderia ser morta e nem destruída em hipótese
nenhuma!
Isaías fala a respeito de Jesus nessas palavras: “Por isso lhe darei a sua parte com os
grandes, e com os fortes ele partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a
morte, e foi contado com os transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos,
e intercedeu pelos transgressores” (cf. Is.53:12). Comentando essa passagem, o Dr.
Samuelle Bacchiocchi afirma: “’Ele derramou’ é versão do hebraico arah que significa
‘esvazia, desnudar, ou deixar a descoberto’. Isso significa que o Servo Sofredor esvaziou-Se
de toda a vitalidade e força da alma. Na morte, a alma não mais funciona como o princípio
animador da vida, mas descansa na sepultura”73
De qualquer forma, eles não insistiriam tanto na morte da alma, com os tradutores bíblicos
na grande maioria dos casos traduzindo por “pessoa” ao invés de “alma-nephesh”, como
deve ser traduzido, presumivelmente por causa de crerem que a alma é imortal e não pode
ser morta, contrariando a Bíblia toda (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21;
Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21). Em Números 31:19,
lemos que a morte do corpo é a morte da alma:
“Acampai-vos sete dias fora do arraial; qualquer de vós que tiver matado alguma pessoa
[nephesh] e qualquer que tiver tocado em algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia, vos
purificareis, tanto vós como os vossos cativos” (cf. Nm.31:19). O original novamente traz a
morte da alma: “Ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol horêgh
nephesh vekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom
hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem”.
Qualquer erudito familiarizado com as Escrituras também irá se deparar repetidamente com
a forte convicção bíblica de que, caso as pessoas morressem, as suas almas não
escapariam da morte. Isso explica o porquê que, em tantos casos, vemos os salmistas
agradecendo a Deus por ter livrado a alma deles da morte, prolongando os dias de vida
deles, ou, então, dizendo que a sua alma morreria a morte dos justos:
“Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés
da queda” (cf. Sl.116:8).
“Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome” (cf. Sl.39:19)
“Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar
diante de Deus na luz dos viventes?” (cf. Sl.56:13)
“Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma
morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10)
“E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte” (cf. Jó
33:22)
73 ibid.
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“Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente
morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será eliminada do
meio do seu povo” (cf. Êx.31:14)
“Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à
pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50)
“E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a
sua alma se angustiou até a morte” (cf. Jz.16:16)
“Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a
presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas
viúvas no meio dela” (cf. Ez.22:25)
“E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei,
a eles, e a toda a alma que nela havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá
como fizera ao rei de Jericó” (cf. Js.10:28)
“Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem
sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza” (cf. Ez.22:27)
Estes são alguns exemplos de passagens nas quais não precisamos ir até o original hebraico
para revelarmos que o original traz a palavra “alma”, pois as próprias versões em português
(ou a maioria delas) já traduzem por “alma” nestes versos, traduzindo nephesh por alma
como realmente deve ser, em um contexto onde ela é morta, ou destruída, ou eliminada, ou
devorada! Vale lembrar sempre que existe uma outra grande maioria de passagens
bíblicas relatando a morte e extermínio da alma, em que nephesh não foi traduzido por
“alma” como corretamente deveria ser, mas o que restou a nós já é mais do que o
suficiente para imputarmos a doutrina de que a alma não morre como algo completamente
antibíblico.
Os escritores bíblicos jamais disseram que a alma é um elemento imaterial e imortal, mas
sim algo bem material e que morre. Por tudo isso, não existe alma imortal; o fato de a alma
morrer tanto provém de que uma “alma vivente” não significa uma “alma imortal”, mas
simplesmente um “ser vivo”, sujeito a morte: “Eis que todas as almas são minhas; como a
alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf.
Ez.18:4).
O Dr. Bacchiocchi ainda acrescenta:
“As pessoas tinham grande temor por suas almas [nephesh] (Jos. 9:24) quando outros
estavam buscando suas almas [nephesh] (Êxo. 4:19; 1 Sam. 23:15). Eles tiveram que fugir
por suas almas [nephesh] (2 Reis 7:7) ou defender suas almas [nephesh] (Est. 8:11); se
não o fizessem, suas almas [nephesh] seriam totalmente destruídas (Jos. 10:28, 30, 32,
35, 37, 39). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4, 20). Raabe pediu aos dois espias
israelitas que salvassem sua família falando em termos de “livrareis as nossas vidas [almas-
VKJ] da morte” (Jos. 2:13)”74
74 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 81
Sumariando, vemos que, biblicamente, a alma morre (cf. Ez.18:4), perece (cf. Mt.10:28), é
destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da morte (cf. Sl.78:50), é completamente
eliminada (cf. Êx.31:14), desce à cova na morte (cf. Jó 33:22), revive na ressurreição
[porque estava morta antes disso] (cf. Ap.20:4), é totalmente destruída (cf. Js.10:28), é
derramada na morte (Is.53:12), é penetrada pelo fio da espada (cf. Jr.4:10), é passível de
sofrer decompisição [na sepultura] (cf. Sl.49:8,9), “repousa” na morte (cf. Sl.25:13), é
sufocada (cf. Jó 31:39,40), é devorada (cf. Ez.22:25), pode ser assassinada (cf. Nm.35:11)
e exterminada (cf. At.3:23).
Que a alma não é e nem nunca foi imortal, isso também fica evidente pelo fato de que, em
mais de 1600 citações em que aparece “alma” na Bíblia, em nenhuma delas é seguida do
termo “eterno” [aionios] ou “imortal” [athanatos], o que obviamente seria feito caso a alma
fosse eterna ou imortal. Porém, isso nunca ocorre nas Escrituras, que preferem insistir
constantemente em dizer que a alma morre, é destruída, exterminada e aniquilada (cf.
Nm.31:19; 35:15,30; 23:10; Js.20:3,9; Js.20:3,28; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14,15;
Jz.16:30; 16:30; Ez.18:4,21; 22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc).
A Bíblia usa e abusa de todos os termos genéricos para a morte da alma. Junte isso ao fato
que vimos acima, de que nunca algum escritor bíblico fez qualquer questão de dizer que a
alma seria ‘eterna’ ou ‘imortal’ (em mais de 1600 citações), porque eles sabiam bem que a
alma morre com a morte do corpo. Ou seja: temos centenas de centenas de citações
mostrando explicitamente e expressamente a morte da alma, mas nenhuma que de forma
direta afirme que a alma é “imortal” (athanatos) ou “eterna” (aionios)! Isso vai
frontalmente contra o dualismo grego que divulgava a imortalidade da alma amplamente e
nunca ousava dizer que a morria podia ser morta, o que seria uma completa afronta para os
gregos dualistas, um verdadeiro escândalo para eles.
Se a alma de fato fosse imortal, o que deveríamos esperar seria uma “enchente” de citações
bíblicas falando sobre a “alma eterna”, a “alma imortal”, a “imortalidade da alma”, etc. O
próprio fato de a Bíblia insistir tanto na morte da alma ao invés de promover a imortalidade
desta é suficientemente incontestável a fim de desqualificarmos inteiramente esta doutrina
por não possuir um mínimo de respaldo teológico sério. Crer que a alma é imortal é estar
com os olhos “vendados” (cf. 2Co.4:4) a luz de todas as evidências.
No Novo Testamento – O Novo Testamento confirma, mantém e amplia a crença bíblica de
que a alma morre. Jesus nos contou sobre aquele que pode destruir o corpo e a alma (cf.
Mt.10:28), Tiago nos diz que a alma está sujeita à morte (cf. Tg.5:20) e Pedro declara que
ela pode ser exterminada:
“E acontecerá que toda a alma que não escutar esse profeta será exterminada dentre o
povo” (cf. Atos 3:23)
Neste texto a palavra usada para o extermínio da alma é exolothreuo, que, de acordo com o
léxico de Strong, significa “derrubar do seu lugar, destruir completamente, extirpar”75. Não
tem qualquer relação com um prosseguimento eterno e ininterrupto de vida consciente, mas
diz respeito a um extermínio, uma completa cessação de existência. A palavra grega
exolothreuo denota o completo extermínio da alma. Embora os escritores bíblicos tivessem
a completa decisão de escolha entre respaldar a morte do “corpo” ou da “pessoa”, duas
75 Léxico da Concordância de Strong, 1842.
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palavras disponíveis tanto no grego como no hebraico, eles insistem na morte e extermínio
da alma [nephesh/hebraico – psuchê/grego].
Paulo também afirma, no auge da tempestade de Atos 27, que “nenhuma vida se perderá”
(cf. At.27:22). O “perder-se” aqui referido é claramente relacionado com a cessação de
vida, a morte na qual passaria aquelas pessoas em caso que o navio se afundasse. Poucas
pessoas sabem, contudo, que o original grego traz “alma-psiquê” novamente: “kai abs=ta
abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê gar psuchês oudemia estai ex umôn
plên tou ploiou”. Em outras palavras, eles teriam as suas próprias almas mortas.
O apóstolo Paulo usou a palavra para alma-psiquê apenas treze vezes em seus escritos (de
1600 em que aparece na Bíblia). A razão mais razoável para isso é que ele não queria dar
entender aos seus leitores um sentido equívoco daquilo que seria a “alma”, em direto
contraste com o pensamento platônico que a divulgava amplamente. Por isso mesmo, ele
jamais se utilizou do termo “alma-psichê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Pelo
contrário, relata que “é semeado um corpo natural [psychikon] e ressuscita um corpo
espiritual. Se há corpo natural [psychikon], há também corpo espiritual” (cf. 1Co.15:44).
Aqui ele se utiliza de um derivado de alma-psyche a fim de denotar a natureza do corpo
natural que está sujeito à morte [e consequente ressurreição], e não a algum elemento
imaterial ou imortal. “Corpo natural” aqui é a tradução do grego que diz: “soma psuchikos”,
que literalmente significa: “corpo psíquico” (psiquê significa alma). Alma-psiquê, portanto,
está relacionada a um corpo natural que morre e que ressuscita, e não a um elemento
imaterial, intangível e imortal desassociado do corpo natural e mortal.
Os manuscritos originais da Bíblia (AT/hebraico; NT/grego) sempre insistem que a alma não
é uma parte divisível do corpo ou algum potencial imaterial presente na natureza humana
trazendo consigo imortalidade, mas sim a própria pessoa como um ser vivo, como uma
alma vivente. Paulo e Barnabé eram “homens que têm arriscado a vida [psiquê] pelo nome
de nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. At.15:26), porque a alma-psiquê também morre. Por
isso, ela também é colocada em risco de acordo com os perigos em determinada localidade.
Eles colocaram a própria alma em risco por amor a Cristo, porque a alma também pode ser
morta. Se assim não fosse, eles estariam arriscando apenas o corpo mortal, e não a alma,
pois esta supostamente seria imortal e inatingível a qualquer perigo de vida.
Em Mateus 2:20, é nos dito que já morreram os que buscavam a alma-psiquê do menino
Jesus:
“Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram
os que buscavam a alma da criancinha” (cf. Mateus 2:20)
No grego:
“legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou kai poreuou eis gên israêl
tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou”
O termo “buscar a alma”, diante do contexto, tem clara ligação com buscar a morte
daquela criança, que era o objetivo de Herodes: matar o menino Jesus. Ocorre que o
evangelista Mateus, ao invés de dizer que eles matariam apenas o corpo, emprega
novamente o termo “alma-psiquê”, pois a morte seria total: corpo e alma. Jesus disse em
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 83
Mateus 16:25 que “todo aquele que quiser salvar a sua alma [psiquê], perdê-la-á; mas todo
aquele que perder a sua alma [psiquê] por minha causa, achá-la-á”.
O termo “perder a alma” aqui diz respeito ao martírio que todos os discípulos de Cristo
passaram. Eles “perderam a alma”, isto é, tiveram um fim nesta vida pelas mãos de
homens cruéis, visando “ganhá-la” num momento futuro, na ressurreição dos mortos. Mais
uma vez, a morte não está relacionada ao corpo de modo estrito, mas também à psiquê:
alma! Outra clara referência neotestamentária sobre a morte da alma está em Marcos 3:4,
quando Cristo diz:
“A seguir, disse-lhes: ‘É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma má ação, salvar
ou matar uma alma?” (cf. Marcos 3:4)
No grego:
“kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai ê
kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn”
De acordo com a Concordância de Strong, a palavra grega apokteino significa:
615 αποκτεινω apokteino
de 575 e kteino (matar); v
1) matar o que seja de toda e qualquer maneira.
1a) destruir, deixar perecer.
Portanto, apokteino psiquê denota a morte completa da alma, e não uma “imortalidade
natural” dela. Pedro, ao dizer que morreria por Cristo, chegou a dizer:
“Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a minha alma em
benefício de ti!” (cf. João 13:37)
No grego:
“legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi akolouthêsai arti tên
psuchên mou uper sou thêsô”
Pedro estava simplesmente dizendo que estava disposto a morrer por Cristo, e para isso
diz que entregaria a sua psiquê por amor do Mestre, isto é, estaria disposto a entregar a
sua própria alma à morte em benefício de Cristo. Ele não cria que no máximo entregaria um
corpo para morrer, mas a alma. Ele não via a alma como um elemento imaterial e imortal,
mas como algo tão fadado à morte quanto o próprio corpo. E o mesmo pode ser dito com
relação ao Filho do homem, que daria a sua alma-psiquê como resgate em troca de muitos:
“Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse, mas para ministrar e
dar a sua alma como resgate em troca de muitos” (cf. Mateus 20:28)
No grego:
“ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai dounai tên
psuchên autou lutron anti pollôn”
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“Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das
ovelhas” (cf. João 10:11)
No grego:
“egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper tôn
probatôn”
“Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua alma a favor de seus
amigos” (cf. João 15:13)
No grego:
“meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn philôn autou”
“Dar a sua alma” nada mais é do que entregar a sua própria vida à morte, em favor da
humanidade. Psiquê mais uma vez não é vista como algo imortal, mas algo sujeito à morte,
como o corpo. Finalmente, em Apocalipse 20:4 é nos dito que as almas dos que foram
degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque
estavam mortas antes disso:
“E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas
daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que
não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em
suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4)
Neste contexto em que as almas revivem, não aparece corpo-soma na passagem, mas
apenas a referência às almas-psiquê que João viu em sua visão ganharem vida novamente
no ato da ressurreição. Dizer que aquilo que reviveu foi somente o corpo é entrar em
gritante contradição com o texto bíblico, que em momento nenhum fala de corpos. O texto
não diz: “as almas daqueles corpos que foram degolados”, mas sim “as almas daqueles
que foram degolados”. Foram “as almas daqueles que foram degolados” que reviveram, e
não “os corpos daqueles que foram degolados”.
Dizer que o “daqueles” está associado ao corpo (que nem sequer aparece no texto) e não
ao referencial direto (“almas”) é no mínimo querer ferir a exegese e amputar as regras de
interpretação textual. “Daqueles” é uma referência clara ao referencial mais direto, ou seja,
“as almas”. Um exemplo prático para elucidar a questão: se eu dissesse que “a gasolina
daqueles carros que pararam de funcionar foi recolocada”, o que é que foi recolocado? A
gasolina ou os carros? Óbvio: a gasolina. É a gasolina daqueles carros, e não os próprios
carros. Em Apocalipse 20:4 é exatamente a mesma estrutura textual que aparece. Vemos
que as almas daqueles mártires reviveram. O que reviveu? A resposta também é óbvia: as
almas daqueles que foram degolados!
Além disso, o original grego traz o artigo definido, que no grego é "των" (ho), e que é
traduzido na maioria das versões por “daqueles”:
“kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tôn
pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou
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prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai
ouk”
De acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa:
3588 ο ho que inclui o feminino η he, e o neutro το to
em todos as suas inflexões, o artigo definido; artigo
1) este, aquela, estes, etc.
Exceto “o” ou “a”, apenas casos especiais são levados em consideração.
Este artigo inclui o feminino e também o neutro, o que mostra que está apenas reiterando
que o sujeito é mesmo as almas, e não algum outro. “Corpo-soma” é masculino, e não
feminino; ademais, nunca que o artigo definido ho toma o lugar de sujeito da frase, ele
apenas é um artigo definido que confirma o sujeito da frase, não é utilizado para fazer uma
distinção das “almas”, mas é um prosseguimento do relato delas, ainda com elas (as
almas) sendo o sujeito único da frase. Portanto, em momento nenhum a referência e o
sujeito da frase deixa de ser “as almas”, o que nos mostra que:
• Almas são decapitadas (morrem)
• Almas revivem na ressurreição
Por tudo isso, vemos que o Catecismo Católico que afirma que “a alma não perece com a
morte do corpo”76 mostra uma total carência de conhecimento e discernimento bíblico. Isso
explica o porquê do “problema da Bíblia” como já foi aqui exposto; e, de fato, até hoje a
grande maioria das traduções continuam omitindo dos seus leitores a morte da alma com a
morte do corpo. Mas, fazer o que: essa é a única maneira de “salvar” a doutrina de que a
alma não morre e está viva em algum lugar, escondendo e omitindo dos seus leitores a
verdade bíblica da morte da alma, o que exterminaria com um império de cegueira
espiritual que tenta monopolizar a opinião escondendo a verdade dos olhos do povo,
perpetuando estes enganos através das tradições humanas.
Citações explícitas da morte da alma nos originais – Como foi dito, as versões vernáculas à
nossa disposição na grande maioria das vezes omitem as menções à morte da alma quando
ela aparece, e para que isso seja verificável de forma mais clara e próxima dos leitores
segue abaixo uma lista completa com 58 citações explícitas da morte da alma, afora
aquelas onde a morte da alma vem implicitamente no texto e outras várias menções ao
longo de toda a Escritura.
No Pentateuco:
(Gênesis 19:19-20) - Ora, por favor, teu servo achou favor aos teus olhos, de modo que
estás magnificando a tua benevolência de que usas para comigo, para preservar viva a
minha alma, mas eu — eu não posso escapar para a região montanhosa, para que não se
apegue a mim a calamidade e eu certamente morra. Ora, por favor, esta cidade está
perto para se fugir para lá... e minha alma viverá.
(No Hebraico) - hinnêh-nâ' mâtsâ' `abhdekha chên be`êyneykha vattaghdêlchasdekha
'asher `âsiythâ `immâdhiy lehachayoth 'eth-naphshiy ve'ânokhiy lo''ukhal lehimmâlêth
76 §366 do Catecismo Católico.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 86
hâhârâh pen-tidhbâqaniy hârâ`âh vâmattiy hinnêh-nâ' hâ`iyr hazzo'th qerobhâh lânus
shâmmâh vehiy' mits`âr'immâlthâh nâ' shâmmâh halo' mits`âr hiv' uthechiy naphshiy.
(Gênesis 37:21) - Ouvindo isso Rubem, tentou livrá-lo da mão deles. De modo que disse:
Não golpeemos fatalmente a sua alma.
(No Hebraico) - vayya`as gam-hu' math`ammiym vayyâbhê' le'âbhiyvvayyo'mer le'âbhiyv
yâqum 'âbhiy veyo'khal mitsêydh benoba`abhurtebhârakhanniy naphshekha.
(Êxodo 31:14) - E tendes de guardar o sábado, pois é algo santo para vós. O profanador
dele será positivamente morto. Caso haja alguém fazendo nele alguma obra,
então essa alma tem de ser decepada do meio do seu povo.
(No Hebraico) - ushemartem 'eth-hashabbâthkiy qodhesh hiv' lâkhem mechaleleyhâ moth
yumâth kiy kol-hâ`osehbhâh melâ'khâh venikhrethâh hannephesh hahiv' miqqerebh
`ammeyhâ.
(Levítico 19:28) - E não vos deveis fazer cortes na carne em prol duma alma falecida e
não deveis fazer tatuagem em vós.
(No Hebraico) - vesereth lânephesh lo' thittenu bibhsarkhem ukhethobheth qa`aqa`lo'
thittenu bâkhem 'aniy Adonay.
(Levítico 21:1, 11) - Ninguém se pode aviltar entre o seu povo por uma alma falecida. E
não se deve chegar a uma alma morta. Não se pode aviltar por seu pai e por sua mãe.
(No Hebraico) - vayyo'mer Adonay 'el-mosheh 'emor 'el-hakkohaniym benêy 'aharon
ve'âmartâ 'alêhemlenephesh lo'-yithammâ' be`ammâyv ve`al kol-naphshoth mêth lo'
yâbho'le'âbhiyv ule'immo lo' yithammâ'.
(Levítico 23:30) - Quanto a qualquer alma que fizer qualquer sorte de obra neste mesmo
dia, terei de destruir esta alma dentre o seu povo.
(No Hebraico) - vekhol-hannephesh 'asher ta`aseh kol-melâ'khâh be`etsem hayyom
hazzeh veha'abhadhtiy 'eth-hannepheshhahiv' miqqerebh `ammâh.
(Levítico 24:17) - E caso um homem golpeie fatalmente qualquer alma do gênero
humano, sem falta deve ser morto.
(No Hebraico) - ve'iysh kiy yakkeh kol-nephesh 'âdhâm moth yumâth.
(Números 19:13) - Todo aquele que tocar num cadáver, a alma de qualquer homem que
tenha morrido, e não se purificar, profanou o tabernáculo de Jeová, e essa alma terá de
ser decepada de Israel.
(No Hebraico) - kol-hannoghêa` bemêth benephesh hâ'âdhâm 'asher-yâmuth
velo'yithchathâ' 'eth-mishkan Adonay thimmê' venikhrethâh hannephesh hahiv'miyyisrâ'êl
kiy mêy niddâh lo'-zoraq `âlâyv thâmê' yihyeh `odhthum'âtho bho.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 87
(Números 23:10) - Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que
a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu.
(No Hebraico) - miy mânâh `apharya`aqobh umispâr 'eth-robha` yisrâ'êl
tâmoth naphshiy moth yeshâriymuthehiy 'achariythiy kâmohu.
(Números 31:19) - Quanto a vós mesmos, acampai sete dias fora do acampamento. Todo
aquele que tiver matado uma alma e todo aquele que tiver tocado em alguém que foi
morto — deveis purificar-vos no terceiro dia e no sétimo dia.
(No Hebraico) - ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol
horêgh nephesh vekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom
hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem.
(Números 35:11) - E tendes de escolher cidades convenientes para vós. Servirão para vós
de cidades de refúgio, e para lá terá de fugir o homicida que sem querer golpear
fatalmente uma alma.
(No Hebraico) - vehiqriythem lâkhem `âriym `ârêy miqlâthtihyeynâh lâkhem venâs
shâmmâh rotsêach makkêh-nephesh bishghâghâh.
(Números 35:30) - Todo aquele que golpear fatalmente uma alma deve ser morto
como assassino, pela boca de testemunhas, e uma só testemunha não pode
testificar contra uma alma para ela morrer.
(No Hebraico) - kol-makkêh-nephesh lephiy `êdhiym yirtsach 'eth-hârotsêach ve`êdh
'echâdhlo'-ya`aneh bhenephesh lâmuth.
(Deuteronômio 19:11) - Porém, caso haja um homem que odeie seu próximo, e ele se
tenha posto de emboscada contra este e se tenha levantado contra ele e golpeado
fatalmente a sua alma, e ele tenha morrido, e o homem tenha fugido para uma destas
cidades.
(No Hebraico) - vekhiy-yihyeh 'iysh sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv
vehikkâhu nepheshvâmêth venâs'el-'achath he`âriym hâ'êl.
(Deuteronômio 22:26) - E não deves fazer nada à moça. A moça não tem pecado que
mereça a morte, pois, assim como um homem se levanta contra seu próximo e deveras o
assassina, sim, uma alma, assim é neste caso.
(No Hebraico) - velanna`ar [v][la][na`arâh] lo'-tha`aseh dhâbhâr 'êynlanna`ar
[la][na`arâh] chêthe' mâveth kiy ka'asher yâqum 'iysh `al-rê`êhuuretsâcho nephesh kên
haddâbhâr hazzeh.
Nos Históricos:
(Josué 2:13-14) - E tereis de preservar vivos meu pai e minha mãe, e meus irmãos, e
minhas irmãs, e todos os que lhes pertencem, e tereis de livrar as nossas almas da
morte. A isto lhe disseram os homens: “Nossas almas hão de morrer em vosso lugar”!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 88
(No Hebraico) - vehachayithem 'eth-'âbhiy ve'eth-'immiy ve'eth-'achayve'eth-'achothay
['achyothay] ve'êth kol-'asher lâhem vehitsaltem 'eth-naphshothêynu mimmâveth
vayyo'mru lâh hâ'anâshiym naphshênuthachtêykhem lâmuth 'im lo' thaggiydhu 'eth-
debhârênu zeh vehâyâh bethêth-Adonay lânu 'eth-hâ'ârets ve`âsiynu `immâkh chesedh
ve'emeth.
(Josué 10:28, 35) - E naquele dia Josué capturou Maquedá e passou a golpeá-la com o fio
da espada. Quanto ao seu rei,devotou à destruição tanto a ele como a toda alma que
havia nela. Não deixou restar sobrevivente. E foram capturá-la naquele dia e começaram a
golpeá-la com o fio da espada, e naquele dia devotaram à destruição toda alma que
nela vivia, segundo tudo o que tinham feito a Laquis.
(No Hebraico) - ve'eth-maqqêdhâh lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy-
cherebh ve'eth-malkâh hecherim 'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr
sâriydh vayya`as lemelekh maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho vayyilkedhuhâ
bayyom hahu' vayyakkuhâ.lephiy-cherebh ve'êth kol-hannephesh 'asher-bâh bayyom
hahu' hecheriymkekhol 'asher-`âsâh lelâkhiysh ph.
(Josué 11:10-11) - E foram golpear toda alma que havia nela com o fio da
espada, devotando-as à destruição. Não sobrou absolutamente nada que respirasse, e
ele queimou Hazor com fogo.
(No Hebraico) - vayyâshâbhyehoshua` bâ`êth hahiy' vayyilkodh 'eth-châtsor ve'eth-
malkâh hikkâhbhechârebh kiy-châtsor lephâniym hiy' ro'sh kol-hammamlâkhoth hâ'êlleh
vayyakku 'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lephiy-cherebh hacharêm lo'nothar kol-
neshâmâh ve'eth-châtsor sâraph bâ'êsh.
(Juízes 16:16) - E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e
molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte.
(No Hebraico) - vayhiy kiy-hêtsiyqâh lo bhidhbhâreyhâ kol-hayyâmiymvatte'alatsêhu
vattiqtsar naphsho lâmuth.
(Juízes 16:30) - E Sansão passou a dizer: “Morra a minha alma com os filisteus”
Então se encurvou com poder e a casa foi cair sobre os senhores do eixo e sobre todo o
povo que havia nela, de modo que os mortos, que entregou à morte ao ele mesmo morrer,
vieram a ser mais do que os que entregara à morte durante a sua vida.
(No Hebraico) - vayyo'mer shimshon tâmoth naphshiy `im-pelishtiym vayyêthbekhoach
vayyippol habbayith `al-hasserâniym ve`al-kâl-hâ`âm 'asher-bo vayyihyu hammêthiym
'asher hêmiyth bemotho rabbiym mê'asherhêmiyth bechayyâyv.
(1 Reis 19:4) - E ele mesmo entrou no ermo, sentou-se debaixo de certo zimbro. E
começou a pedir que a sua alma morresse a dizer: “Já basta, Senhor, agora tira a
minha alma, pois não sou melhor que os meus pais”.
(No Hebraico) - vehu'-hâlakh bammidhbâr derekh yom vayyâbho' vayyêshebh tachath
rothem'echâth ['echâdh] vayyish'al 'eth-naphsho lâmuth vayyo'mer rabh `attâhAdonay
qach naphshiy kiy-lo'-thobh 'ânokhiy mê'abhothây.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 89
Nos Poéticos:
(Jó 7:15) - De modo que a minha alma escolhe a sufocação, a morte em vez de meus
ossos.
(No Hebraico) - vattibhchar machanâq naphshiy mâvethmê`atsmothây.
(Jó 11:20) - E falharão os próprios olhos dos iníquos; e perecerá deles o lugar de refúgio,
e sua esperança será a expiração da alma.
(No Hebraico) - ve`êynêy reshâ`iym tikhleynâhumânos 'âbhadh minhem vethiqvâthâm
mappach-nâphesh ph.
(Jó 27:8) - Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a
alma?
(No Hebraico) - kiy mah-tiqvath chânêph kiy yibhtsâ` kiyyêshel 'eloah naphsho.
(Jó 33:22) - E sua alma se chega à cova, e sua vida aos que infligem a morte.
(No Hebraico) - vattiqrabh lashachath naphsho vechayyâtho lamemithiym.
(Jó 36:14) - Sua alma morrerá na própria infância, e sua vida entre os homens que se
prostituem no serviço dum templo.
(No Hebraico) - tâmoth banno`ar naphshâm vechayyâthâm baqqedhêshiym.
(Salmos 22:29) - Todos os gordos da terra comerão e se curvarão; diante dele se
dobrarão todos os que descem ao pó, e ninguém jamais preservará viva a sua própria
alma.
(No Hebraico) – dashen erets akal shachah yarad aphar kara paniym chayah nephesh.
(Salmos 49:8,9) - Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para
sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição.
(No Hebraico) – âch lo'-phâdhoh yiphdeh 'iyshlo'-yittên lê'lohiym kophro veyêqar
pidhyon naphshâmvechâdhalle`olâm.
(Salmos 56:13) - Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da
queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes?
(No Hebraico) – natsal nephesh maveth regel dchiy halak paniym elohiym owr chay.
(Salmos 78:50) - Ele passou a preparar uma senda para a sua ira. Não refreou a alma
deles da própria morte; e entregou a vida deles à própria pestilência.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 90
(No Hebraico) - yephallês nâthiybh le'appo lo'-châsakhmimmâveth naphshâm
vechayyâthâm laddebher hisgiyr.
(Salmos 116:8) - Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das
lágrimas, e os meus pés da queda.
(No Hebraico) - kiy chillatstâ naphshiy mimmâveth'eth-`êyniy min-dim`âh 'eth-raghliy
middechiy.
Nos Profetas:
(Isaías 53:12) - Por isso lhe darei a sua parte com os grandes, e com os fortes ele
partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os
transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos
transgressores.
(No Hebraico) - lâkhên 'achalleq-lo bhârabbiym ve'eth-`atsumiym yechallêq shâlâl
tachath'asher he`erâh lammâveth naphsho ve'eth-poshe`iym nimnâh vehu' chêthe'-
rabbiym nâsâ' velapposhe`iym yaphgiya` s.
(Jeremias 2:34) - Também, nas tuas saias foram achadas as manchas de sangue das
almas dos pobres inocentes. Não as encontrei no ato de arrombamento, mas [estão] em
todas estas.
(No Hebraico) - gambikhnâphayikh nimtse'u dam naphshoth 'ebhyoniym neqiyyiym lo'-
bhammachtereth metsâ'thiym kiy `al-kâl-'êlleh.
(Jeremias 4:10) - Então disse eu: “Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste
grandemente a este povo e a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe
até à alma”.
(No Hebraico) - vâ'omar 'ahâh 'adhonây Adonay.'âkhên hashê' hishê'thâ lâ`âm hazzeh
veliyrushâlaim lê'mor shâlomyihyeh lâkhem venâghe`âh cherebh `adh-hannâphesh.
(Jeremias 40:14) - E passaram a dizer-lhe: “Acaso não sabes que o próprio Baalis, rei dos
filhos de Amom, enviou Ismael, filho de Netanias, para golpear-te a alma?” Mas Gedalias,
filho de Aicão, não lhes deu crédito.
(No Hebraico) - vayyo'mru 'êlâyv hayâdhoa` têdha` kiy ba`aliysmelekh benêy-`ammon
shâlach 'eth-yishmâ`ê'l ben-nethanyâh lehakkothekhanâphesh velo'-he'emiyn lâhem
gedhalyâhu ben-'achiyqâm.
(Ezequiel 13:19) - E porventura me profanareis para com o meu povo em troca de
punhados de cevada e por pedacinhos de pão, para entregardes à morte as almas que
não deviam morrer e para preservardes vivas as almas que não deviam viver, pela
vossa mentira ao meu povo, os que ouvem a mentira?
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 91
(No Hebraico) - vattechallelnâh 'othiy 'el-`ammiy besha`alêy se`oriymubhiphthothêy
lechem lehâmiythnephâshoth 'asher lo'-themuthenâh ulechayyoth nephâshoth 'asher lo'-
thichyeynâh bekhazzebhkhem le`ammiy shome`êy khâzâbhs.
(Ezequiel 17:17) - E Faraó não o fará eficiente na guerra por meio duma grande força
militar e por meio duma congregação numerosa, levantando um aterro de sítio e
construindo um muro de sítio, a fim de decepar muitas almas.
(No Hebraico) - velo' bhechayil gâdhol ubheqâhâl robh ya`aseh'otho phar`oh
bammilchâmâh bishpokh solelâh ubhibhnoth dâyêq lehakhriyth nephâshoth rabboth.
(Ezequiel 18:4) - Eis que todas as almas — a mim me pertencem. Como a alma do pai,
assim também a alma do filho — a mim me pertencem. A alma que pecar — ela é
que morrerá.
(No Hebraico) - hên kol-hannephâshoth liy hênnâh kenephesh hâ'âbhukhenephesh
habbên liy-hênnâh hannephesh hachothê'th hiy' thâmuth s.
(Ezequiel 22:25) - Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que
ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas,
multiplicam as suas viúvas no meio dela.
(No Hebraico) - qesher nebhiy'eyhâ bethokhâh ka'ariy sho'êghthorêph
thâreph nephesh 'âkhâlu chosen viyqâr yiqqâchu 'almenotheyhâ hirbubhethokhâh.
(Ezequiel 22:27) - Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa,
para derramarem sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza.
(No Hebraico) - sâreyhâbheqirbâh kiz'êbhiym thorephêy thâreph lishpâkh-dâm
le'abbêdh nephâshothlema`an betsoa` bâtsa.
(Ezequiel 33:6) - E no que se refere ao vigia, se ele vir a espada chegar e realmente não
tocar a buzina e a espada vier e lhes tirar a alma, terá de ser tirada pelo seu próprio
erro, mas o seu sangue exigirei de volta da mão do próprio vigia
(No Hebraico) - vehatsopheh kiy-yir'eh 'eth-hacherebh bâ'âh velo'-thâqa`bashophâr
vehâ`âm lo'-nizhâr vattâbho' cherebh vattiqqach mêhem nâpheshhu' ba`avono nilqâch
vedhâmo miyyadh-hatsopheh 'edhrosh s.
Jesus Nos Evangelhos:
(Mateus 2:19-20) - E disse: “Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra
de Israel, porque já morreram os que buscavam a alma da criancinha”
(No Grego) - teleutêsantos de tou êrôdou idou aggelos kuriou a=phainetai kat onar
tsb=phainetai tô iôsêph en aiguptô legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou
kai poreuou eis gên israêl tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 92
(Mateus 20:28) - Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse,
mas para ministrar e dar a sua alma como resgate em troca de muitos.
(No Grego) - ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai
dounai tên psuchên autou lutron anti pollôn.
(Marcos 3:4) - A seguir, disse-lhes: “É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma
má ação, salvar ou matar uma alma?”
(No Grego) - kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai
ê kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn.
(Lucas 6:9) - Jesus disse-lhes então: Eu vos pergunto: é lícito, no sábado, fazer o bem ou
causar dano, salvar ou destruir uma alma?
(No Grego) - eipen a=de tsb=oun o iêsous pros autous a=eperôtô tsb=eperôtêsô umas
a=ei tsb=ti exestin a=tô tsb=tois a=sabbatô tsb=sabbasin agathopoiêsai ê
kakopoiêsai psuchên sôsai ê b=apokteinai ats=apolesai.
(Lucas 17:33) - Todo aquele que buscar manter a sua alma a salvo para si mesmo, perdê-
la-á, mas todo aquele que a perder, preservá-la-á viva.
(No Grego) - os ean zêtêsê tên psuchên autou a=peripoiêsasthai tsb=sôsai apolesei
autên tsb=kai os a=d a=an tsb=ean apolesê tsb=autên zôogonêsei autên.
(João 10:11) - Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em
benefício das ovelhas.
(No Grego) - egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper
tôn probatôn.
(João 12:25) - Quem estiver afeiçoado à sua alma, destruí-la-á, mas quem odiar a sua
alma neste mundo, protegê-la-á para a vida eterna.
(No Grego) - o philôn tên psuchên autou a=apolluei tsb=apolesei autên kai o misôn
tên psuchên autou en tô kosmô toutô eis zôên aiônion phulaxei autên.
(João 13:37) - Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a
minha alma em benefício de ti!
(No Grego) - legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi
akolouthêsai arti tên psuchên mou uper sou thêsô.
(João 15:13) - Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua
alma a favor de seus amigos.
(No Grego) - meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn
philôn autou.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 93
Discípulos e Apóstolos Cristãos no Resto do Novo Testamento:
(Atos 3:23) - Deveras, toda alma que não escutar esse Profeta será completamente
exterminada dentre o povo.
(No Grego) - estai de pasa psuchê êtis ab=ean ts=an mê akousê tou prophêtou ekeinou
a=exolethreuthêsetai tsb=exolothreuthêsetai ek tou laou.
(Atos 15:25,26) - Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns homens e
enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que arriscaram as suas
almas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo.
(No Grego) - edoxen êmin genomenois omothumadon a=eklexamenois tsb=eklexamenous
andras pempsai pros umas sun tois agapêtois êmôn barnaba kai paulô anthrôpois
a=paradedôkosi tsb=paradedôkosin tas psuchas autôn uper tou onomatos tou kuriou êmôn
iêsou christou.
(Atos 27:20-22) - E, não aparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrelas, e
caindo sobre nós uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos
salvarmos. E, havendo já muito que não se comia, então Paulo, pondo-se em pé no meio
deles, disse: Fora, na verdade, razoável, ó senhores, ter-me ouvido a mim e não partir de
Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perda. Mas agora vos admoesto a que
tenhais bom ânimo, porque não se perderá a alma de nenhum de vós, mas somente o
navio.
(No Grego) - kai abs=ta abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê
gar psuchês oudemia estai ex umôn plên tou ploiou.
(Romanos 11:3) - Mataram os teus profetas, só eu sobrei, e eles estão procurando a
minha alma.
(No Grego) - kurie tous prophêtas sou apekteinan tsb=kai ta thusiastêria sou kateskapsan
kagô upeleiphthên monos kai zêtousin tên psuchên mou.
(Hebreus 10:38-39) - Ora, nós não somos dos que retrocedem para a destruição, mas
dos que têm fé para preservar viva a alma.
(No Grego) - o de dikaios a=mou ek pisteôs zêsetai kai ean uposteilêtai ouk eudokei
ê psuchê mou en autô êmeis de ouk esmen upostolês eis apôleian alla pisteôs eis
peripoiêsin psuchês.
(Tiago 5:20) - Sabei que aquele que fizer um pecador voltar do erro do seu
caminho salvará a sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados.
(No Grego) - ginôsketô oti o epistrepsas amartôlon ek planês odou autou
sôsei psuchên a=autou ek thanatou kai kalupsei plêthos amartiôn.
(Apocalipse 12:11) - E eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da
palavra do seu testemunho, e não amaram as suas almas, nem mesmo ao encararem
a morte.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 94
(No Grego) - kai autoi enikêsan auton dia to aima tou arniou kai dia ton logon tês
marturias autôn kai ouk êgapêsan tên psuchên autôn achri thanatou.
(Apocalipse 16:3) - E o segundo derramou a sua tigela no mar. E este se tornou em
sangue como de um morto, e morreu toda alma vivente, [sim,] as coisas no mar.
(No Grego) - kai o deuteros tsb=aggelos b=exechee ats=execheen tên phialên autou eis
tên thalassan kai egeneto aima ôs nekrou kaipasa psuchê a=zôês tsb=zôsa apethanen
a=ta en tê thalassê.
(Apocalipse 16:3) - E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de
julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela
palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal
em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos.
(No Grego) - kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai
tas psuchas tôn pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai
oitines ou prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona
autou kai ouk.
É impressionante a quantidade esmagadora de evidências bíblicas claras e diretas que
atestam a mortalidade da alma. Essa doutrina é biblicamente muitíssimo mais óbvia e
evidente do que praticamente todas as doutrinas que cremos, incluindo Trindade, divindade
de Cristo, forma de batismo, discussões escatológicas, livre arbítrio, soteriologia ou outras
discussões semelhantes, em que, na maioria dos casos, temos uma dúzia de versículos
bíblicos que são usados para fundamentar determinado ponto de vista da fé cristã, mas
quando tratamos da mortalidade da alma existem literalmente centenas e centenas de
citações explícitas de que a alma morre, não deixando qualquer sombra de dúvida
sobre o tema aos leigos. Infelizmente, embora as evidências sejam esmagadoras e em um
mundo normal nenhuma pessoa com a mente aberta negaria a clareza da mortalidade
bíblica, isso é muito diferente quando tratamos deste tema com aqueles que já estão pré-
condicionados a crerem diferente.
V–Conclusão
A vista de tudo isso, podemos certamente concluir que, no conc eito bíblico, e não no
conceito kardecista, platônico ou pagão que infelizmente acabaram influenciando a nossa
cultura, a designação de “corpo”, “alma” e “espírito”, de acordo com as Escrituras, são:
CORPO ESPÍRITO ALMA
Matéria, pó. O corpo é a alma
visível.
É sopro de Deus que ele
soprou em nós concedendo
animação ao corpo
formado do pó. É a própria
vida presente tanto em
homens como nos animais.
A pessoa integral como o
resultado do pó da terra com
o fôlego da vida, isto é, o
próprio ser vivo.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 95
O Dr. Samuelle Bacchiocchi definiu bem os princípios bíblicos acerca de corpo, alma e
espírito na visão bíblica holista, dizendo que “o corpo, o fôlego de vida, e a alma estão
presentes na criação do homem, não como entidades separadas, mas como características
da mesma pessoa. O corpo é o homem como um ser concreto; a alma é o homem
como um indivíduo vivo; o fôlego de vida ou espírito é o homem tendo sua fonte
em Deus”77.
Nós não somos uma pessoa com outra pessoa dentro de nós; antes, “corpo, alma e espírito”
são três características da mesma pessoa. Entender os conceitos bíblicos acerca de corpo,
alma e espírito é de fundamental importância para rejeitarmos a doutrina errônea de
“imortalidade da alma”.
VI–Sobre os significados secundários para a alma
Certamente existem vários sentidos secundários de alma ou espírito, mas, uma vez que o
homem “tornou-se” uma alma (e não “obteve” uma), sendo assim alma, e não possuindo
uma, e uma vez que o espírito não é a própria alma, não é o nosso próprio “eu”, não é algo
com personalidade e consciência, volta o espírito de todos para Deus por ocasião da morte,
entre muitos outros fatores que vimos anteriormente, fica claro que o sentido de “alma”
como uma entidade imortal/imaterial presa dentro do nosso corpo e libert a por ocasião da
morte é perder completamente o sentido primário e legítimo de definições de alma e
espírito, por tudo aquilo que vimos acima, para seguir os padrões gregos dualistas de corpo
e alma.
Os sentidos secundários de alma e espírito jamais podem corromper os seus sentidos
primários, pois se assim fosse criaria um dilema teológico de primeira ordem e acarretaria
em uma série de contradições bíblicas pelo o que vimos até aqui. Uma vez que o homem
não obteve alma nenhuma (mas tornou-se uma) e que a alma morre, qualquer
interpretação que defina o corpo como a prisão de uma alma imaterial e imortal levando
consigo consciência e personalidade seria falsa. O corpo nunca foi uma prisão da alma.
Tais conceitos foram completamente deturpados, primariamente com o dualismo platônico
de corpo e alma difundido na Grécia Antiga, e chega aos dias de hoje com ainda mais força
despertado pelo espiritismo kardecista com suas concepções dualísticas da natureza
humana, conceitos esses que batem de frente com a Palavra de Deus, que nada nos diz
sobre Ele ter formado dentro do homem uma alma imortal. Os imortalistas pregam os
conceitos espíritas de corpo, alma e espírito, e assim tentam misturar com a Bíblia: o
resultado é uma completa e total confusão.
Seguem-se treze pontos no quadro a seguir que resumem bem isso:
NA TEOLOGIA
IMORTALISTA
MOTIVO NA BÍBLIA SAGRADA
(1) Apenas o espírito dos
justos sobe para Deus após a
morte
Sendo que o espírito seria
uma entidade consciente,
então o dos justos deveria
subir para Deus (cf.
O espírito de todas as pessoas
– justas ou ímpias – retorna
para Deus na morte (cf.
Ec.12:7)
77 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 96
Lc.23:46), e o dos ímpios
deveria ter um destino
diferente descendo para o
Hades, que fica nas
regiões inferiores desta
terra (cf. Mt.11:23;
Ef.4:9; Mt.12:40).
Contudo...
(2) Ao entregar o espírito na
morte, Jesus foi para o Pai
Sendo que o espírito é a
própria pessoa inteligente,
então quando Cristo
entregou o seu espírito
para o Pai (cf. Lc.23:46),
seria lógico que Cristo já
tivesse subido para o Pai
depois da morte.
Contudo...
Depois de três dias morto,
Jesus ainda não havia subido
ao Pai (cf. Jo.20:17)
(3) Ao entregar o espírito
para Deus, Jesus foi para o
Paraíso
Se Deus está no Paraíso,
e Cristo ao morrer
entregou o seu espírito ao
Pai, então a sua alma lá
deveria ter passado os
três dias em que esteve
morto. Contudo...
A alma de Cristo passou os
três dias e três noites no
coração da terra, no Sheol,
nas regiões inferiores da terra,
e não no Paraíso (cf. At.2:27;
Mt.12:40)
(4) O homem obteve uma
alma
Essa é a base da doutrina
imortalista, de que Deus
supostamente teria
implantado uma alma nos
seres humanos.
Contudo...
O homem tornou-se uma
alma (cf. Gn.2:7)
(5) Apenas os seres
humanos possuem espírito
Se o espírito fosse
realmente uma entidade
consciente e dotada de
personalidade em nós
implantada, então
somente os humanos a
possuiriam. Contudo...
Os homens e os animais
possuem espírito-ruach (cf.
Gn.6:17; Gn.7:21,22;
Ec.3:19,20; Gn.7:15;
Sl.104:29)
(6) Existe vida sem sangue Nosso espírito sobrevive
em um “estado
intermediário” antes da
ressurreição quando
ganharemos novamente
um corpo. Contudo...
Não há vida sem sangue; a
alma da carne está no sangue
(cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5)
(7) Nós já possuímos a
imortalidade
Se o nosso “verdadeiro
eu”, a nossa alma, fosse
eterna, então nós já
seríamos detentores da
imortalidade,
supostamente na forma
Nós temos que buscar a
imortalidade (cf. Rm.2:7)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 97
de um elemento eterno
implantado em nosso ser.
Contudo...
(8) A alma vai para o Céu ou
para o inferno na morte
Essa é a base da doutrina
imortalista. Contudo...
A alma retorna para a cova na
morte (cf. Jó 33:18; Is.38:17;
Jó 33:22; Sl.94:17; Jó 33:28;
Sl.49:8,9; Jó 33:30)
(9) A alma é eterna e imortal Apesar de nunca na Bíblia
inteira tais termos
precederem a palavra
“alma”, é assim que os
imortalistas acreditam.
Contudo...
A alma morre (cf. Nm.31:19;
Nm.35:15,30; Js.20:3,9;
Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt.
19:6, 11; Jr.40:14,15;
Jz.16:30; Nm.23:10;
Ez.18:4,20; Jz.16:30;
Nm.23:10; Mt.10:28;
Ez.22:25,27; Jó 11:20;
At.3:23; Tg.5:20)
(10) O homem já foi criado
com a imortalidade
Um elemento eterno já
teria sido implantado em
nós logo na criação do ser
humano, concedendo-lhe
imortalidade. Contudo...
Se o homem comesse da
árvore da vida seria imortal
(cf. Gn.3:22)
(11) Nós já somos revestidos
de imortalidade
Mediante uma alma
eterna em nós
implantada, nós já somos
revestidos de
imortalidade, para
desfrutar dela em um
“estado intermediário”
pré-ressurreição.
Contudo...
Só alcançaremos a
imortalidade quando seremos
revestidos dela a partir da
ressurreição dos mortos (cf.
1Co.15:51-54)
(12) A alma é algo imaterial A base da teologia que
divide a natureza humana
entre o corpo material e
uma “alma imaterial” que
possuiríamos presa dentro
do corpo. Contudo...
A alma é visivelmente
presente na forma do corpo, e
até mesmo em cadáveres (cf.
Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4;
Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10;
19:11, 13; Ag.2:13), pois o
corpo é a forma exterior da
alma
(13) Corpo e alma são dois
opostos
Sendo o corpo mortal e a
alma imortal; o corpo
corruptível e a alma
incorruptível; o corpo
material e a alma
imaterial; corpo e alma
são antagônicos entre si –
dois opostos. Contudo...
Corpo e alma são usados
intercambiavelmente como
paralelismo bíblico (cf.
Sl.63:1)
Em resumo, os sentidos secundários de espírito e alma devem necessariamente seguir a
mesma linha a partir de seu sentido principal e primário, ou, senão, a própria Bíblia
seria contraditória e confusa consigo mesma. Além disso, poderíamos sempre dar a
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 98
qualquer palavra bíblica o significado que bem quiséssemos ao nosso bel prazer. A exegese
seria inútil, a hermenêutica ficaria amputada. Quem se importaria com o que alma significa
primariamente ou sem seu devido contexto, se cada um pode dar a ela o sentido que bem
quiser na passagem que bem entender? Alma, como vimos, possui o significado primário de
um ser vivo, o “todo” do ser humano, cujas características são:
• Corruptível (emagrece, sente sede, chora, desce à cova da corrupção na morte)
• Mortal (a morte do corpo é a morte da alma)
• Material (visível na forma do corpo)
• Algo que somos (e não algo que detemos)
Diante dos sentidos primários para alma presentes na própria narração da natureza humana
em Gênesis 2:7 e também ao longo de toda a Escritura, os sentidos secundários jamais
podem contrariar os sentidos primários, como se pudesse significar ao mesmo tempo:
• Incorruptível
• Imortal
• Imaterial
• Algo que obtemos
Isso seria o mesmo que dizer que os significados secundários de uma palavra
corrompem, substituem ou contradizem seus significados primários, o que
evidentemente nada mais é senão aleijar a exegese. Podemos dar a palavra significados
secundários de acordo com cada situação? Sim, podemos. Mas este significado é dado ao
nosso bel prazer? Não. Pode entrar em contradição com seus significados primários? Nunca!
Muito pelo contrário: são exatamente os significados primários de um determinado termo
bíblico que dão significados secundários a esta mesma palavra. Por exemplo, sabemos que
alma é, primariamente, o ser integral, o ser vivo. Por isso, não seria errado dizer que a
alma é a própria vida, uma vez sendo que pela junção do corpo com o espírito a própria
vida se formou, teve início, como consequência da junção daqueles dois elementos. Por
isso, nesse sentido, “alma” significa “vida”.
Note que este sentido está correto e plausível diante do significado primário da palavra
e da descrição bíblica segundo Gênesis 2:7. Não é um significado arbitrário, não contradiz
em primeira mão o fato de que o homem não obteve uma alma mas se tornou uma, não
entra em contradição com nenhum dos fatos apresentados neste estudo. Por isso, o
imortalista que alega que em Gênesis 2:7 o homem realmente é uma alma mas que em
outras situações o homem não mais é uma alma mas possui uma, está entrando em sérias
contradições com a Escritura.
É o mesmo que afirmar que o significado secundário da palavra é o mais correto e que toma
o lugar do significado primário, que um significado secundário pode entrar em contradição
com o significado primário e que o homem ao mesmo tempo é uma alma e possui uma
alma, o que é totalmente contraditório. Uma coisa é compreender que biblicamente o
homem é uma alma e a partir deste conceito primário ir descobrindo sentidos
secundários que tem como base este sentido primário real, outra coisa inteiramente
distinta é concordar com isso mas ao mesmo tempo formular sentidos secundários que
em nada tem a ver com o sentido primário e que ainda o contradiz!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 99
Em outras palavras, se o homem é holista (como aqui ficou provado que é), então dentro
desta linha holista devemos procurar os sentidos secundários, pois o homem não pode ser
holista e dualista ao mesmo tempo; ou seja, a alma não pode ser mortal em um lugar e
imortal em outro. Ou a alma é mortal ou é imortal. Como vimos, há um arsenal bíblico
insuperável de citações Escriturísticas que revelam expressamente que a alma morre;
portanto, não há lugar para o dualismo na Bíblia, nem mesmo em sentidos secundários. O
fato da natureza humana ser holista elimina qualquer sentido secundário dualista
para a alma.
Quando você vê uma pessoa, você está vendo uma alma, que morre. Uma alma vivente é
simplesmente um ser vivo, mortal, que só atinge o patamar de imortalidade a partir da
realidade da ressurreição (cf. 1Co.15:51-54), somente no último dia. O corpo é a alma
visível. Por isso, é errado dizer que “você é um espírito que possui uma alma”. É o espírito
chamado de homem por si mesmo? Não, mas é chamado de “espírito do homem”. Sendo
assim, você não é um espírito que possui uma alma, mas é um ser vivo (alma vivente) que
é constituído de um organismo físico (corpo) com todas as suas funções, junto à força vital
(fôlego de vida) que dá vida ao corpo durante a sua jornada terrestre. Não existe nenhum
segmento imaterial, ou imortal, que leve consigo consciência e personalidade, que Deus
tenha implantado no ser humano.
É digno de nota que sempre a Bíblia afirma que é o espírito [princípio animador da vida]
que volta para Deus por ocasião da morte (cf. At.7:59; Lc.23:46; Ec.12:7), tanto de just os
como de ímpios (cf. Ec.12:7), sendo que nunca é nos dito que a alma volta para Deus ou
desce para o inferno. Salomão nos escreve que o espírito volta para Deus (cf. Ec.12:7);
Estêvão entregou o espírito para Deus na morte (cf. At.7:59), do mesmo modo Jesus
entregou o espírito na morte (Lc.23:46). Por que nunca em parte alguma da Bíblia há
sequer qualquer menção da alma voltando para Deus ou sendo entregue nas suas mãos
após a morte?
A razão para isso é simples: o que retorna a Deus não é uma alma imortal, mas
simplesmente o princípio animador da vida concedido por Deus tanto aos seres humanos
quanto aos animais pela duração de sua existência terrena. O fôlego de vida [espírito] é nos
concedido como “empréstimo” a fim de animar um ser inanimado (pó). Quando, porém,
esse espírito deixa de dar animação ao corpo (que volta a ser pó), Deus recebe de volta
para ele aquilo que já era dele mesmo. Por isso, o espírito de toda a carne volta para Deus,
que é quem o deu (cf. Ec.12:7). O ser racional simplesmente deixa de existir – volta a ser
pó: morre.
Como disse o Dr. Bacchiocchi:
“Enquanto permanecer o ‘sopro de vida’ [espírito], os seres humanos são ‘almas viventes’.
Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia
frequentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lev. 19:28; 21:1, 11;
22:4; Núm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ageu 2:13)”78
Na ressurreição, Deus sopra novamente em nossas narinas o fôlego de vida que retorna a
Ele, o nosso corpo é ressuscitado glorificado, e nos tornamos novamente em almas
viventes. Quanto ao fator ressurreição, veremos mais sobre isso nos próximos capítulos. A
pergunta, no entanto, que quisemos responder neste ponto é: onde no relato da criação
78 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 100
Deus aparece implantando uma alma imortal no homem? Exatamente... em lugar
nenhum.
Quando analisamos a criação da natureza humana, vemos como fica absurdamente claro
que nós não fomos dotados de uma alma imortal cativa dentro de nós. Assim como Deus
soprou o fôlego de vida em nossas narinas (cf. Gn.2:7), ele soprou nos animais também (cf.
Ec.3:21; Gn.7:15). E exatamente a mesma expressão “alma vivente” empregada aos seres
humanos também foi empregada aos animais. Em Gênesis 2:19, Adão foi convidado para o
nome de cada “alma [nephesh] vivente”. O que aconteceu no relato da criação dos seres
humanos foi exatamente o mesmo que aconteceu com os animais.
A nossa diferença é que fomos criados a imagem e semelhança de Deus, sem, contudo,
sermos compostos da mesma substância, como Deus. Deus é espírito, Deus é imortal; Ele
possui auto-inerência à vida eterna. O homem, por outro lado, foi formado a partir dos
elementos da terra como um material inerte, o cadáver físico de matéria orgânica no chão -
até que Deus soprou nele o fôlego da vida. Ao ponto que o homem passou a ser alma
vivente.
O argumento mais inútil já utilizado pelos defensores da tese de que o homem é matéria e
possui em si mesmo uma substância imaterial é dizer que pelo fato do homem ser formado
a imagem e semelhança de Deus lhe dá o direito de ser como Deus, imortal. Isso é um
completo disparate. Por essa mesma linha de raciocínio, poderíamos presumivelmente
pressupor que o homem deveria também ser onisciente, onipresente e onipotente – porque
Deus é!
É óbvio que nem onipresença, nem onisciência, nem tampouco onipotência ou imortalidade
é possuído por outro a não ser o próprio Deus vivo, que é “o único que possui a
imortalidade” (cf. 1Tm.6:16). Dizer que o homem é eterno não é o colocar no mesmo
patamar de Deus, mas também fazer dele próprio deus. Ele contaria com um poder divino
inerente dentro dele mesmo e possuiria aquilo que somente Deus possui (cf. 1Tm.6:16). Tal
visão é ferrenhamente contrária ao que a Bíblia nos mostra, afinal, “que é o homem mortal
para que te lembres dele?” (cf. Sl.8:4).
Nada além de substância materiais que perecem na morte, sendo milagrosamente recriado
pelo fator ressurreição. O ser humano é um ser distinto de Deus: Deus é eterno, o homem é
finito; Deus é imortal, o homem é mortal; Deus não tem começo e nem fim, o homem
naturalmente tem um começo e um fim temporal. Mas Deus, pela Sua infinita graça e
misericórdia, trouxe-nos “a ressurreição e a vida” (cf. Jo.11:25) por meio de Jesus Cristo,
pelo que nós poderemos desfrutar da imortalidade condicional a partir deste prorrogamento
de vida que é a ressurreição dentre os mortos na segunda vinda de Cristo.
Bacchiocchi ainda acrescenta:
“Nada na Escritura sugere que o homem transmite a imagem de Deus por possuir atributos
divinos, como a imortalidade. Não existem razões válidas para isolar a imortalidade como o
único atributo divino que se tenciona expressar pela frase ‘imagem de Deus’”79
A “alma” é algo que somos, não é algo que nós temos. Na ressurreição, seremos dotados de
imortalidade e incorruptibilidade (cf. 1Co.15:54,55). Enquanto isso, os seres humanos são
79 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 101
criaturas de pó: “Defendes o órfão e o oprimido, a fim de que o homem, que é pó, já não
cause terror” (cf. Sl.10:18); “Com o suor do teu rosto comerás pão, até que voltes a terra,
porque dela foste tirado; pois és pó e ao pó tornarás" (cf. Gn.3:19). Abraão respondeu e
disse: "Eis que agora eu me comprometi a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (cf. Gn
18:27). A nossa estrutura é puramente o pó: “Pois ele conhece a nossa estrutura, ele
lembra que somos pó” (cf. Sl.103:14).
É interessante notar que, enquanto o dualismo e tricotomismo afirmam que nós somos
espírito (que por definição seria algo imortal e imaterial), a Bíblia declara que nós somos
pó (que por definição não é nada senão algo corruptível e fadado à inexistência).
Infelizmente, muitas pessoas hoje em dia preferem seguir doutrinas de homens famosos
que guiam ao erro do que se apegar ao que é simples e claro através da Escritura Sagrada.
O Salmo 104 retrata muito bem o processo que ocorre com o ser humano. Não é algo
complexo, pelo contrário, completamente simples. Na criação: “Quando sopras o teu fôlego,
eles são criados” (v.30); e na morte: “Quando escondes o teu rosto, entram em pânico;
quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29). Deus não formou o
homem a partir de alguma substância espiritual divina, mas sim exatamente do pó da terra
(cf. Gn.2:7).
Concluindo, nós não temos uma alma imortal em nosso ser, o nosso “verdadeiro eu” não
tem destinos diferentes após a morte, senão ao pó. Nós não temos alma, somos "almas
viventes" [nephesh] (cf. Gn.2:7), assim como os animais. Claro, não demorou muito para
que Satanás aparecesse em cena contrariando o aviso de Deus sobre o pecado e suas
consequências mortais. Tentando Eva com o fruto proibido, ele disse: "você certamente
não morrerá...” (cf. Gn.3:4). Em certo sentido, os conceitos modernos de alma imortal e
reencarnação visam transmitir a mesma ideia, de que o homem é inerentemente imortal,
que ele realmente não vai morrer. Ezequiel disse exatamente o oposto: "... A alma que
pecar, essa morrerá" (cf. Ez.18:4,20).
Como bem colocou o teólogo luterano Oscar Cullmann:
“A doutrina grega da imortalidade e a esperança cristã na ressurreição diferem tão
radicalmente porque o pensamento grego tem uma interpretação completamente diferente
da criação. A interpretação judaica e cristã da criação exclui todo o dualismo grego de corpo
e alma”80
A natureza holista do ser humano é tão evidente que todas as tentativas de negar o
simplismo bíblico na criação do homem caem em inúmeras contradições e erros de primeira
ordem, porque a narração do Gênesis é gritantemente contrária a uma suposta “alma
imortal/imaterial” implantada no ser humano. Moisés (autor do Gênesis) não tinha sequer a
mínima ideia de dualismo; e, se tal fosse o caso, decerto teria relatado a criação como
sendo da seguinte forma:
“...Deus formou o homem do pó da terra e incluiu nele um espírito eterno e o
homem obteve uma alma imortal”
80 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:
<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 102
Apesar de isso parecer ser uma piada diante do que realmente está na Bíblia (e uma piada
de mau gosto), incrivelmente é deste modo que os imortalistas imaginam, e empreendem
todos os seus malabarismos “exegéticos” para tentar forçar o texto ao máximo a fim de
passar tal ideia falsa e completamente distorcida do que o texto bíblico diz. Provavelmente
seria assim que Moisés teria escrito caso imaginasse que o homem possui uma alma imortal
diferentemente dos animais.
É óbvio que isso não aparece em lugar nenhum da Bíblia, porque o simplismo bíblico exclui
qualquer tentativa de dualismo entre corpo e alma. Deus soprou o fôlego para dar animação
ao corpo formado do pó, e assim o homem tornou-se uma alma vivente. Não existe nada,
absolutamente nada mesmo, nem sequer alguma pista, de alguma alma imortal implantada
nos seres humanos. Os dualistas tentam achar a tal da “alma imortal” onde não existe, e
isso acaba acarretando em uma série de contradições sérias como vimos acima. Não é a toa
que o Dicionário e Enciclopédia Bíblica Online, a mais completa enciclopédia bíblica em
Língua Portuguesa, que por vezes apresenta tendências dualistas, mesmo assim declara no
tema de imortalidade da alma:
“Nos autores não cristãos, Heródoto, historiador grego que viveu alguns séculos antes de
Cristo, diz-nos que os egípcios foram os primeiros que ensinaram a imortalidade da alma
humana. Logo depois Platão ensinou ao mundo grego a mesma verdade, dizendo ter
aprendido essa doutrina de outro filósofo, chamado Pitágoras. Platão baseou uma boa
porção dos seus ensinamentos morais nesta grandiosa crença, o ser bom ou o ser mau é
que determina o futuro da alma, sendo pitorescamente descritos os tormentos dos maus, e
a felicidade dos bons. Na Sagrada Escritura, ‘E formou o Senhor Deus o homem do pó da
terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.’ (Gn
2.7). A alma é a combinação do corpo e do fôlego de vida, quer dizer, sem corpo não há
alma e sem fôlego de vida também não há alma. O fôlego de vida é a mesma coisa que
espírito (Jó 27:3). Quanto à vida futura, a Escritura claramente nos ensina que o corpo
volta a ser pó e o espírito, ou fôlego de vida, volta para Deus. 'Eis que todas as almas são
minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar,
essa morrerá.' Ezequiel 18:4. Nós aspiramos possuir a imortalidade. A Bíblia usa a palavra
alma 1600 vezes, mas nunca usa a expressão: 'alma imortal'. Receberemos a imort alidade
quando Jesus voltar (1Tim 6:16 e Rom 2:7)"81
81 Disponível em: <http://dicionariobiblico.elosdejesus.com.br/imortalidade-da-alma/2520>. Acesso em:
15/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 103
CAPÍTULO 4 – A CRENÇA DA IMORTALIDADE DA ALMA NO ANTIGO TESTAMENTO
I –Introdução ao Capítulo
Da primeira a última página da Bíblia, a doutrina da imortalidade da alma não resiste a um
exame apurado das Escrituras. Já começando com o Antigo Testamento. Um exame das
páginas do AT nos faz perceber que os escritores inspirados não tinham a mínima noção de
uma existência consciente imediatamente após a morte. As evidências são tão fortes que as
explicações dos imortalistas quanto ao AT muitas vezes chegam a negar que os escritores
sabiam mesmo do que estavam falando: “eles não tinham tanto conhecimento” – dizem
eles.
Outros apelam com explicações que deixam a desejar e muito, e, ainda outros,
simplesmente deixam sem explicação mesmo – o que vale na verdade é só o Novo
Testamento! Sim, o NT certamente que vale também como regra de fé e doutrina, mas o AT
jamais pode ser esquecido, porque “toda a Escritura é divinamente inspirada” (cf.
2Tm.3:16), e as Escrituras que os apóstolos tinham disponíveis a seu tempo eram
exatamente os escritos do AT que negavam a vida após a morte em um estado
intermediário.
Toda Escritura é divinamente inspirada. O Espírito Santo que inspirou as páginas do Antigo
Testamento é o mesmo Espírito que dirigiu as páginas do Novo. Ou os dois testamentos
pregam a vida pós-morte antes da ressurreição do último dia, ou nenhum dos dois pregam!
A fortíssima luz das evidências nos deixa claramente a segunda opção como a única via. Na
verdade, ambos não se contradizem – um confirma o outro.
O fato é que ambos derrubam a imortalidade da alma, tanto o Novo como o Velho.
Começaremos com as definições de ambos os grupos e em seguida passaremos a ver os
ensinamentos veterotestamentários com relação à vida após a morte. Nos próximos
capítulos, o foco será centralizado no estado entre a morte e a ressurreição que os seres
humanos passam, para, no fim, passarmos aos acontecimentos finais.
Holismo – Na visão bíblica holista da natureza humana, o homem na morte está
inconsciente, lit. morto (i.e, sem vida). Não existe nenhuma forma de vida incorpórea e
consciente entre a morte e a ressurreição, pois a morte implica na cessação total de vida
para qualquer ser humano. Este estado entre a morte e a ressurreição é o que a Bíblia
caracteriza como um estado de “sono” (cf. Sl.13:3; Jo.11:11), uma metáfora adequada
para o estado inconsciente do ser racional na morte.
O despertar da ressurreição na volta de Cristo traz novamente a vida aos que nEle
dormiram, revivendo e sendo julgados para a vida ou para a condenação. Tal ensinamento
é amplamente fundamentado pela Escritura Sagrada, como veremos ao longo de todo este
estudo. A ressurreição dos mortos implica em dar a vida a alguém que está sem vida, e não
em um processo de religação de corpo com alma, pois tal suposição é estranha à luz das
Escrituras. A morte do corpo implica na morte da alma, uma vez que o corpo é a alma
visível.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 104
Dualismo – Para os defensores da doutrina da imortalidade da alma, o corpo é uma prisão
da alma, que é liberta por ocasião da morte, indo direto ao Céu ou ao inferno (algumas
vertentes pregam também o purgatório, limbo, e outros “compartimentos”), e lá esperam
até a ressurreição dos mortos, quando as suas almas imortais se religam novamente ao
corpo. Defendem esta tese baseando-se em algumas passagens bíblicas isoladas entre si,
as quais analisaremos amplamente ao longo deste estudo.
Para eles, existe existência de vida entre a morte e a ressurreição em um estado
incorpóreo, e a maior parte dos defensores desta doutrina acredita que os mortos já foram
julgados, baseando este ensinamento em Hebreus 9:27, mas tem grande dificuldade em
explicar outros textos que refutam absolutamente isso (ex: At.17:41; 1Pe.4:5; 2Tm.4:1).
As amplas referências bíblicas ao “sono” para os mortos se referem em sua totalidade
somente ao corpo, e não à alma. A alma, imaterial e imortal por natureza, jamais pode
morrer.
II–Moisés, Jó e a Imortalidade da Alma
Segundo reza a tradição, o autor de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio
teria sido Moisés, o que também é confirmado biblicamente (cf. Lc .24:44; 2Cr.25:4). Estes
livros são muito importantes, pois relatam fatos como a criação do homem, bem como a
sua natureza humana. Em termos simples, se existisse uma alma imortal, aí estaria uma
ótima oportunidade de mencionar tal fato tão importante no t ocante a natureza do homem.
Mas nada de imortalidade é mencionado nos cinco livros de Moisés. No relato acerca da
criação do ser humano bem como a sua natureza, ela é apresentada de maneira holista, e
não dualista (cf. Gênesis 2:7 – ver Capítulo 3).
Vimos neste estudo que o mesmo processo que sucede aos homens sucede também aos
animais. Afinal, “o que sucede aos filhos dos homens é mesmo que sucede aos animais,
lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo
fôlego [espírito - ruach], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma,
porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó,
e todos voltarão ao pó” (cf. Ec.3:19,20).
É comum a Bíblia igualar absolutamente os homens com os animais, pelo simples fato de
que não existe vantagem nenhuma de um em relação a outro. Ambos são feitos do pó e o
único lugar para o qual voltam é para o pó. Disso resulta toda uma infinidade de passagens
bíblicas em que o homem é igualado aos animais pelo fato de não possuir nenhuma
vantagem sobre eles: “O homem, mesmo que muito importante, não vive para sempre, é
como os animais, que perecem” (cf. Sl.49:12).
Tais comparações não fariam sentido em caso que nós (ao contrário deles) fôssemos
dotados de uma alma imortal que nos diferenciasse deles no quesito pós-morte. Isso seria
uma clara vantagem nossa. Deus soprou o fôlego que garante vida aos animais do mesmo
modo que soprou aos seres humanos (cf. Ec.3:19,20), ambos possuem “espírito” [ruach] –
cf. Gênesis 7:15; Eclesiastes 3:19,20; Salmo 104:29 -, que é o que garante a vida; ambos
expiram o ruach na morte (cf. Sl.104:29; Ec.12:7), e a ambos é referido o termo alma-
nephesh (cf. Gn.2:7; Gn.1:20). Não foi dado aos seres humanos nenhuma vantagem sobre
os animais quando o assunto é o destino pós-morte, e por isso que Salomão os iguala
absolutamente quando trata disso (cf. Ec.3:19,20).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 105
O mesmo que sucedeu aos homens sucedeu aos animais, os humanos não têm a vantagem
de possuírem uma “alma imortal”! Deus não colocou uma alma no homem. Moisés é bem
claro no relato da criação em negar qualquer vestígio de um elemento transcendental que
garanta imortalidade incondicional, intrínseca, com consciência e personalidade na morte.
No aspecto prático, é óbvio que nos cinco livros de Moisés não existe qualquer menção de
vida dentre os mortos em um “estado intermediário”. Pelo contrário, quando Caim mata
Abel, o Senhor Deus diz: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão
está clamando” (cf. Gn.4:10).
O Abel como pessoa não poderia clamar nada depois da morte porque ele estava passando
por aquilo que a Bíblia caracteriza por “inconsciência” (cf. Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4;
Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17) e por
“sono” (cf. Sl.13:3; Sl.25:13; Jó 14:11-12; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13;
1Ts.4:14; 1Ts.4:15). Por isso, o que clamava não era o próprio Abel, mas sim o sangue
dele. Evidentemente é uma personificação e não uma realidade, pois o sangue não tem vida
e personalidade em si mesmo. É comum a Bíblia personificar personagens inanimados (ex:
Juízes 9:8-15; 2 Reis 14:9; Habacuque 2:11; Lucas 10:40; Mateus 3:9; ver Jó 12:7 e 8;
Gênesis 4:10; Apocalipse 10:3).
Se Abel estivesse vivo em um “estado intermediário”, Deus teria dito que ele próprio [Abel]
que estava clamando. Mas como ele não está, então Deus teve que personificar algo sem
vida [o sangue] para exercer a linguagem do “clamor”. Ainda mais importante do que isso é
o que relata outro escritor bíblico tão antigo quanto Moisés: Jó. Este homem teve a sua
história narrada aproximadamente no ano 2000 a.C. Se no caso de Moisés a natureza
dualista do homem é totalmente omitida e rejeitada, no caso de Jó os seus diálogos com
seus companheiros (Bildade, Zofar, Eliú e Elifaz) é extremamente produtivo em termos
práticos.
Nele, Jó comenta: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará
sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a
Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus
rins se consomem no meu interior” (cf. Jó 19:25-27). Até mesmo Jó, há dois mil anos a.C,
já sabia que só iria ver a Deus quando por fim o Redentor (figura de Cristo) se levantasse
sobre a terra, e não antes disso!
Jó também é o mesmo que diz: “Mas, morto o homem, e, consumido; sim rendendo o
homem o espírito, então onde está? Como as águas se evaporam de um lago, e o rio se
esgota e seca; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf.
Jó 14:10-12). Jó sequer imaginava que ao morrer estaria na presença imediata de Deus,
por isso revela que teria que esperar até que “não houvesse mais céus”, pois só neste
momento veria a Deus (cf. Jó 19:25-27), sendo despertado de seu estado caracterizado de
“sono” (cf. Jó 14:12).
Para Jó, a morte não seria um passaporte para estar imediatamente com Deus, porque ele
fala claramente de esperar até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11) e até ser
“substituído” (cf. Jó 14:14). A esperança de Jó, assim como a de todos os cristãos, é
na ressurreição do último dia, e não na partida da alma na morte! E, como se isso
não fosse suficientemente claro, Jó continua a dizer: “Morrendo o homem tornará a viver?
Todos os dias da minha vida esperaria, até que viesse a minha mudança. Chamar-me-ias, e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 106
eu te responderia...” (cf. Jó 14:14, 15). Jó sabia muito bem que, “morrendo... morreria” (cf.
Gn.2:7). Mas ele tinha a esperança de ver a Deus no tempo do fim, e somente no tempo do
fim, quando o seu Redentor se levantaria sobre a terra.
Este é o momento da ressurreição do último dia (cf. Jo.6:39,40), que o Novo Testamento
relaciona à segunda vinda de Cristo (ver 1Co.15:22,23). É só neste momento que veremos
a Deus. Jó definitivamente não cria numa natureza dualista do ser humano. Isso explica o
porquê de ele dizer que “o único lar pelo qual espero é a sepultura” (cf. Jó 17:13), porque
ele não cria que o ser humano fosse um ser dividido em corpo e alma, cada qual com
destinos diferentes após a morte. Se assim fosse, a sepultura não seria o seu único destino,
mas o destino apenas do corpo, uma vez sendo que o ser racional dele (que seria a alma) já
estaria assegurada entre os salvos em alguma espécie de Paraíso, o que é claramente
rejeitado por ele que cria que o seu único destino era o túmulo.
Jó também sabia que, caso morresse (cf. Jó 3:11), não iria imediatamente para junto de
Deus, mas estaria permanecendo em “repouso” (cf. Jó 3:13,17; 14:10-12), no mesmo lugar
onde encontra-se os justos com os ímpios (cf. Jó 3:17-19), sendo que já não se ouvem
mais gritos (cf. Jó 3:18) e todos estão em sossego (cf. Jó 3:18), algo impossível para
alguém que está em um lugar ouvindo os gritos de espíritos que estão em meio às chamas:
“Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso; os prisioneiros
também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos. Os simples
e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor” (cf. Jó 3:17-19)
Jó não tinha a menor visão de vida após a morte onde justos e ímpios teriam destinos
distintos no pós-vida, mas sim de um lugar onde estão “os simples e os poderosos” (v.19),
os cansados, os prisioneiros e os homens livres (vs.18-19). A linguagem sobre permanecer
em repouso (v.17) mostra claramente que ele não tinha a menor noção dos ímpios sofrendo
horrivelmente gritando entre as chamas de um fogo eterno aterrorizante, pois cria que “os
ímpios já não se agitam” (v.17), denotando um estado de inatividade. Já “não se ouvem
mais gritos” (v.18), o que seria difícil de se esperar caso a descrição fosse das chamas de
um fogo infernal.
Não há qualquer citação sobre a presença de Deus naquele lugar, nem de anjos, nem de
demônios, nem de suplícios, nem de regozijos. Tão somente o simplismo do sono da morte.
Tudo isso nos mostra que o local de repouso, inatividade, sem gritos e sem distinção entre
justos e ímpios que Jó tinha em mente após a morte não era outro senão a sepultura. Não
havia qualquer visão sensacionalista sobre a vida pós-morte e muito menos uma
imaginação aflorada como um “inferno de Dante”. Em meio a tantas evidências claras de
que Jó não acreditava na existência de uma suposta “alma imortal” que lhe garantisse
sobrevivência após a morte, os dualistas conseguem encontrar uma “brecha” em Jó 26:5,
que supostamente “provaria” a sobrevivência da alma em um estado intermediário.
Algumas traduções em língua portuguesa vertem da seguinte maneira o verso: “A alma dos
mortos treme debaixo das águas com seus habitantes”. Essa tradução, contudo, não é fiel
aos manuscritos originais. A palavra usada nos manuscritos originais do hebraico é Há
Rephaim, que significa literalmente “os gigantes”, e não “almas”! Tal tradução de “a alma
dos mortos” não corresponde ao que o texto original do hebraico diz, pois a referência é aos
Rephains e não a “almas”-nephesh. Várias das melhores traduções do mundo vertem o
texto da maneira como ele verdadeiramente o é, como a Young’s Literal Translation (que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 107
mantém uma tradução fiel aos manuscritos originais), e traduz: “Os refains são formados
debaixo das águas com seus habitantes”.
Os Rephains foram gigantes que habitaram na Palestina e outros lugares, mas foram
destruídos por outros povos e por fim acabaram por desaparecer. Com o tempo, a
expressão passou a significar qualquer ser gigantesco, como as baleias, por exemplo. Jó
26:5 deveria ser melhor traduzido por “os gigantes tremem debaixo das águas com seus
habitantes” – uma clara alusão aos grandes animais marinhos, como as baleias. Tal
tradução de “as almas dos mortos” nem corresponde aos textos originais e nem faz
qualquer tipo de lógica, pois as almas dos mortos não ficam “debaixo da água tremendo”...
Vale também ressaltar que para Jó os ímpios não estavam sendo atormentados no dado
momento. Se fosse este o caso, então seria imprescindível que isso tivesse sido mencionado
em algum lugar no diálogo ou filosofias com os seus amigos, uma vez que eles abordavam
bastante o aspecto da outra vida e a vantagem entre justos e ímpios. Contudo, o que lemos
é que os maus não estão no inferno, mas estão “reservados”, no túmulo, para o dia do
Juízo:
“Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que morava o ímpio?
Porventura não perguntastes aos viandantes? e não aceitais o seu testemunho, de que o
mau é preservado no dia da destruição, e poupado no dia do furor? Quem acusará diante
dele o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que fez? Ele é levado para a sepultura, e
vigiam-lhe o túmulo” (cf. Jó 21:28-32).
Também em Jeremias 12:3, lemos que os ímpios estão “reservados... para o dia da
matança” (cf. Jr.12:3). A punição não é algo já vigente, mas um acontecimento futuro. Em
momento nenhum é dito no livro de Jó que a morte seria um prêmio ou um passaporte para
um Paraíso. Pelo contrário, a morte é caracterizada como um inimigo. A situação de Jó era
tão decadente que até a morte seria melhor alternativa para ele. Isso porque a morte dos
justos era absolutamente igualada a dos ímpios (cf. Jó 21:23-26). Não existia “vantagem”
dos bons em detrimento dos maus no sentido de que a alma de todos desceria para a cova
com a morte (cf. Jó 33:18,22,28,30).
Quando é retirado o espírito do homem, para onde este vai? Para junto de Deus? Para Jó,
não exatamente. Retirado o espírito, o homem não vai para junto de Deus, mas volta para
o pó da terra (cf. Jó 34:14,15). Não só ele, mas o salmista também declara a mesma
realidade: “Quando escondes o rosto, entram em pânico; quando lhes retira o fôlego,
morrem e voltam para o pó” (cf. Sl.104:29). E em outra parte: “Quando o espírito deles se
vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4). Os
hebreus, ao contrário dos gregos, acreditavam em uma natureza humana holista, e não
dualista. É mais do que evidente que Jó não acreditava em imortalidade da alma nenhuma.
Até por isso, ele afirma: “Porém os olhos dos ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio;
e a sua esperança será o expirar da alma” (Jó 11:20). Ora, já vimos que o extirpar da
alma significa a própria morte desta (cf. Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10;
Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.22:25,27), com destino à cova (cf. Jó 33:18,22,28,30;
Is.38:17; Sl.94:17), sendo que a vida humana sobe para Deus (cf. Ec.12:7).
Ora, a coisa mais ridícula que algum defensor da imortalidade da alma ousaria dizer era que
a esperança dos ímpios seria o extirpar da alma, pois isso remeteria a um imediato
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 108
lançamento da alma em um lago de fogo eterno completamente atormentador. De jeito
nenhum que essa seria a “esperança” deles! O “extirpar da alma” seria o seu maior medo, e
não sua esperança. É óbvio que para Jó não existia qualquer existência de vida antes da
ressurreição dos mortos, concluindo-se então que logicamente a situação destes ímpios
seria aqui na terra ruim ao ponto da morte ser um “alívio”, pois eles deixariam
absolutamente de existir, ainda que durante algum tempo, até a ressurreição.
É evidente que na própria visão veterotestamentária haverá um dia que Deus determinou
para julgar todo o mundo (cf. Ec.11:9), mas este castigo seria proporcional ao que lhes é
merecido e não seria antes da ressurreição, pois, se tal se sucedesse, então o extirpar da
alma seria a consequência mais agonizante e aterrorizadora que algum ímpio já poderia
passar! Isso estaria longe, muito longe de ser uma “esperança”! É muito claro que para Jó
não existia tormento para os ímpios logo após a morte, e nem vida antes da ressurreição.
Para Jó, o homem é mortal e não imortal (cf. Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2) – “Como pode o
mortal ser justo diante de Deus?” (9:2) -, declaração, aliás, que permeia a Bíblia toda com
respeito à natureza humana (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12; Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4;
Rm.1:23). Existem biblicamente (AT e NT) dezenas de dezenas de menções com relação à
natureza humana definindo-a como “mortal”, como o próprio Deus diz em Isaías: “Eu, eu
sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal,
ou o filho do homem, que não passa de erva?” (cf. Is.51:12).
O homem é um mero ser mortal, não passa de uma simples erva, não possui em si mesmo
um segmento transcendental que lhe dê imortalidade. Por isso mesmo, ele não deve ser
temido (v.12), pois “não passa de erva” (v.12). Tal analogia feita por Deus seria nula e sem
sentido em caso que, ao contrário da simples erva, o “verdadeiro eu” do ser humano fosse
imortal, e não mortal como diz o próprio verso. Aqui a comparação do homem com a erva é
claramente relacionada ao fato de ele ser mortal. Se o homem tivesse uma alma imortal,
então a erva também deveria ter, pois, doutra forma, tal analogia seria oca e sem sentido.
Os dois são mortais; nenhum dos dois tem um elemento imortal – por isso, neste
sentido o homem não tem nenhuma vantagem sobre a “erva” (cf. Is.51:12), como o próprio
Deus afirmou.
Ademais, se o “verdadeiro eu” do ser humano fosse imortal, seria bem presumível que
também houvessem dezenas de menções a essa parte imortal do homem; contudo, em
absolutamente todas as ocasiões em que a natureza humana é colocada em jogo, ela
sempre aparece como “mortal”, e nunca como “imortal” (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12;
Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4; Rm.1:23; Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2). Tal quadro que nos é
apresentado mostra-nos claramente que o ser humano não é um ser dualista (parte mortal
e parte imortal), mas plenamente mortal.
Jó também sabia que, morrendo, já não existiria mais: “Por que não perdoas as minhas
ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás,
mas eu já não existirei” (cf. Jó.7:21). Se Jó morresse e sua alma imortal fosse levada
para junto de Deus, então este “acharia” Jó! De maneira nenhuma que Deus não
encontraria Jó após a sua morte como é claramente relatado em 7:21, caso este estivesse
com o próprio Deus logo após a morte.
Mas a razão pela qual o Deus onipresente não encontraria Jó é que este, morrendo, já não
existiria. A mesma verdade é relatada no Salmo 39:13. Não é possível “encontrar” algo que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 109
não mais existe. Nem Moisés com a criação do ser humano, nem Jó na conversa com seus
amigos, acreditavam em qualquer imortalidade da alma. Um nega uma natureza dualista do
homem, o outro nega um estado intermediário das almas. O fato em comum é que
ambos levantam a bandeira contra a imortalidade da alma.
III–Os Livros Poéticos
São chamados de “Livros Poéticos” aqueles livros que se destacam dos demais do Antigo
Testamento pelo gênero devocional de seu conteúdo. São cinco ao todo: Jó, Salmos,
Provérbios, Eclesiastes e Cantares. Já vimos a evidência de Jó. Veremos agora o
testemunho de Eclesiastes.
O Testemunho de Eclesiastes - O livro de Eclesiastes certamente que desperta uma grande
curiosidade por parte dos leitores. As filosofias do “sábio”, filho de Davi (cf. Ec.1:1), sobre a
vida pós-morte, apresenta uma grande recusa da possibilidade de existir vida em um
estado intermediário antes da ressurreição. Do início ao fim de Eclesiastes, vemos que
Salomão segue um princípio e segue essa linha em seus pensamentos. A lógica presente no
livro é que não existe vida após a morte. A partir disso, é comum vermos o autor igualar a
morte dos homens com a dos animais, por exemplo:
“Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e
lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo
fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são
vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf.
Eclesiastes 3:19,20)
A razão pela qual os homens não terem vantagem nenhuma sobre os animais é que o
destino dos dois é o mesmo após a morte. Nisso fica claro que Salomão não cria em uma
natureza dualista do ser humano, com uma alma imortal que o diferenciasse dos animais.
Isso implicaria em uma evidente vantagem dos homens sobre os animais! Aliás, já vimos
que até aos animais foi designado o mesmo termo “nephesh hayyah” que foi designado aos
seres humanos (cf. Gn.2:7; Gn.1:20).
Como vimos no capítulo 3 deste estudo, no original hebraico a palavra aqui utilizada por
Salomão (cf. 3:19) é ruach-espírito. Os seres humanos possuem o mesmo espírito-ruach
dos animais e, por isso, não possuem nenhuma vantagem sobre eles. Isso nos mostra
claramente que o nosso espírito-ruach não é uma “alma imortal” ou algo que garanta
imortalidade levando consigo consciência e personalidade após a morte, pois, se assim
fosse, o espírito-ruach dos humanos seria gritantemente diferenciado do espírito-ruach dos
animais, e Salomão não os igualaria.
É evidente que em vários aspectos temos vantagens sobre eles; quando, porém, a questão
é a natureza e destinos pós-morte, ambos são absolutamente igualados (cf. Ec.3:19):
ESPÍRITO DO
HOMEM E DOS
ANIMAIS
DESTINO DO
HOMEM E DOS
ANIMAIS
MATERIAL DO
QUAL FORAM
FEITOS
CONCLUSÃO
O mesmo (cf. 3:19) O pó da terra (cf.
3:20)
Feitos do pó (cf.
3:20)
A vantagem de
homens sobre
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 110
animais no quesito
de natureza e
destinos pós-morte
não é nenhuma (cf.
3:19)
Seguindo essa linha de raciocínio, Salomão diz também que o destino pós-morte dos tolos é
o mesmo do sábios (cf. Ec.2:15), que o sábio morre do mesmo jeito que o tolo (cf.
Ec.2:16), que o destino dos justos é o mesmo destino dos ímpios (cf. Ec.2:14), que o
destino dos homens é o mesmo dos animais (cf. Ec.3:19), e que todos vão para o mesmo
lugar após a morte (cf. Ec.3:20): “E, ainda que vivesse duas vezes mil anos e não gozasse
o bem, não vão todos para um mesmo lugar?“ (cf. Ec.6:6); “Tudo sucede igualmente a
todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao
que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como
ao que teme o juramento” (cf. Ec.9:2).
Salomão não diferenciava o destino dos justos e dos ímpios, tampouco com o dos animais ,
porque não cria em uma alma imortal deixando o corpo na morte. Ele não acreditava em
uma alma imortal que era julgada no momento da morte com destinos diferentes, não
existia uma recompensa logo após a morte: o destino de ambos era o mesmo.
“Assim que também isto é um grave mal que, justamente como veio, assim há de ir; e que
proveito lhe vem de trabalhar para o vento... Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa:
comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo
do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção” (cf. Eclesiastes
5:16,18).
Com a realidade da ressurreição dentre os mortos, é comum vermos os escritores do Novo
Testamento proferirem que a recompensa será dada a cada um no momento da segunda
vinda de Cristo (cf. Mt.16:27; Ap.22:14; 1Pe.5:4; 5; Lc.14:14; 2Tm.4:1), que é quando os
mortos serão ressuscitados (cf. 1Co.15:22,23; 1Ts.4:15), para aí entrarem no gozo do
Paraíso (cf. Jo.14:2-4; 1Ts.4:15). Salomão não acreditava na vida imediatamente após a
morte e não tinha o foco centrado na ressurreição como os escritores do Novo Testamento
tinham, razão pela qual, ao invés de escrever focado no momento da ressurreição (como
faziam os escritores neotestamentários), escrevia focado naquele estágio imediatamente
após a morte, antes da ressurreição, que é um estado sem vida.
Mais significativo ainda do que isso são as comparações que Salomão faz: “Se o homem
gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua
alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor
do que ele” (cf. Ec.6:3). Qualquer leitor honesto concluirá que, para Salomão, uma criança
abortada é sinal de alguém que perdeu totalmente o dom da vida. Se ela tivesse
automaticamente uma vida no Paraíso ou em algum lugar garantida entre os salvos, não
valeria tal comparação que Salomão faz neste verso.
E ele continua: “Porquanto debalde veio, e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu
nome. E ainda que nunca viu o sol, nem conheceu nada, mais descanso tem este do que
aquele” (cf. Ec.6:5). A vantagem de um aborto sobre os vivos não baseava-se em possuir
automaticamente uma vida eterna com Deus, mas sim decorrente do fato de que “nunca
veria o sol”. Salomão realmente acreditava que “os mortos não sabem de nada” (cf.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 111
Ec.9:5)! Entender o pensamento de Salomão é de fundamental importância para
compreendermos a revelação no livro de Daniel:
“E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros
para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2)
Outra comparação que Salomão faz é relatada em Eclesiastes 9:4, que diz que um cão vivo
vale mais do que um leão morto: “Quem está entre os vivos tem esperança; até um
cachorro vivo é melhor do que um leão morto!” (cf. Ec.9:4). É claro que se os mortos
estivessem vivos gozando de bem-aventuranças então um leão morto valeria muito mais do
que um cão vivo! Como Salomão não acreditava em vida após a morte, então mesmo um
“leão”, se estivesse morto, valeria menos até mesmo em relação a um “cão” vivo!
Vale ressaltar também que, para Salomão, nós [os que estamos “debaixo do sol”] somos os
únicos vivos. Não existem vivos em algum outro lugar. Quem está entre os vivos somos
nós, que ainda temos esperança. O verso seguinte também elucida o anterior mostrando o
porquê do cão vivo valer mais do que um leão morto: porque os mortos não estão cônscios
de coisa alguma:
“Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma,
nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao
esquecimento. Também o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram, e já não
têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol” (cf.
Eclesiastes 9:5,6)
Aqui Salomão apenas reitera aquela linha de raciocínio que ele já mantém desde o início de
seu livro, desta vez de forma ainda mais direta: os mortos não sabem de coisa nenhuma
(cf. Ec.9:5), tem a memória entregue ao esquecimento (cf. Ec.9:5), e sentimentos de amor,
ódio e inveja já pereceram (cf. Ec.9:6). Como os imortalistas respondem a evidência de
Eclesiastes? A maioria afirma que tudo isso se limita ao que acontece “debaixo do sol”. A
expressão “debaixo do sol” se refere realmente ao nosso mundo; porém, Salomão a usou
porque na mente dele não há a mínima ideia de que os mortos cheguem a outro lugar! Os
hebreus não pensavam como os gregos. De fato, Salomão fala muito das coisas que
acontecem “debaixo do sol”, como em Eclesiastes 9:6:
“Amor, ódio e inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa
alguma do que se faz debaixo do sol” (v.6)
Aqui ele diz que as coisas que acontecem debaixo do sol (tais como amor, ódio e inveja) já
não são possíveis para os mortos, que não sabem de “coisa nenhuma” (v.5). Ele não está
dizendo que os mortos não desfrutam de amor, ódio e inveja debaixo do sol, mas sim que
os sentimentos de amor, ódio e inveja não são possíveis aos que já morreram, mas apenas
aos que estão debaixo do sol, isto é, aos vivos. As interpretações tendenciosas dos
imortalistas em suas tentativas de negarem o óbvio do texto bíblico se mostram
completamente fracassadas quando se deparam com uma interpretação de texto simples e
ao mesmo tempo precisa.
Se, portanto, o sentimento de amor só está presente entre os vivos, ou seja, entre aqueles
que estão debaixo do sol, então só nos restam duas alternativas: ou os mortos estão
realmente inconscientes, isto é, sem vida; ou, então, eles estão vivos em algum lugar e não
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 112
tem amor por ninguém! Qual é o mais provável? Que o sentimento de amor já não exista
entre os mortos ou que ele não exista exatamente porque são os próprios mortos que não
estão com vida?
Além disso, é extremamente impreciso dizer que Salomão só se preocupava com os vivos,
pois ele fala também com relação à vida no além, ele fala do estado dos mortos:
“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além,
para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma”
(cf. Eclesiastes 9:10)
Fica claro que também no além, na “habitação dos mortos”, não existe qualquer atividade
ou sabedoria. O original hebraico traz neste verso a palavra “Sheol”, transliterado para
Hades no grego do NT. Para os defensores da imortalidade, este lugar é referência a
“habitação consciente dos espíritos”. Salomão liquida com isso usando as palavras hebraicas
ma`aseh', cheshbown e chokmah, que de acordo com a Concordância de Strong, tais
palavras transliteradas demonstram que os mortos:
(1) Não tem nenhum conhecimento, obras ou atividade [ma`aseh]82
(2) Não tem inteligência e nem dispositivo de razão [cheshbown]83
(3) Não tem sabedoria, habilidade e nem inteligência [chokmah]84
Evidentemente um estado de completa inconsciência.
O Espírito Santo não “inspirou errado” o livro de Eclesiastes, e tentar negar todas as
evidências deste livro como prova contra a imortalidade da alma é no mínimo estar com a
mente totalmente fechada para o conteúdo geral do livro, é negar todo um raciocínio que o
autor mantém desde o princípio de seu livro. Fica claro, diante de todas as evidências,
passagens bíblicas, bem como a linha de raciocínio que Salomão segue desde o seu início,
que ele não cria de maneira nenhuma em qualquer “alma imortal” que sai do corpo no
instante da morte. A visão de Salomão não é única, mas reflete uma regra do AT: não
existe a imortalidade da alma.
Outro argumento bastante utilizado por alguma parte dos defensores da imortalidade
intrínseca com relação ao livro de Eclesiastes é que ele não acreditava que pudesse existir
vida em qualquer era futura. Sendo assim, o argumento deles é que, se nos basearmos no
livro de Eclesiastes como evidente prova contra o estado intermediário, teríamos que negar
também qualquer vida futura – até mesmo por meio de uma ressurreição – porque
(segundo eles) Salomão não acreditava em nenhum tipo de vida para nenhuma era.
Esse argumento falha em dois pontos principais. Em primeiro lugar, porque seria o mesmo
que negar que o Espírito Santo dirigia Salomão em seus ensinamentos. Se o Espírito Santo
dirigia os ensinamentos dele e ele conta um “engano”, seria o mesmo que afirmássemos
que o Espírito Santo “inspirou errado” e escreveu mentiras e enganações na Bíblia Sagrada,
o que é um ultraje contra a divindade. Se, contudo, tomarmos o outro ponto (de que
Salomão não estava inspirado), então deveríamos também negar a Bíblia como regra de fé,
pois ela não seria considerada “segura” em seus ensinamentos.
82 Léxico da Concordância de Strong, 4639.
83 Léxico da Concordância de Strong, 2808.
84 Léxico da Concordância de Strong, 2451.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 113
Afinal, se Salomão pôde escrever bobagens e ensinar doutrinas erradas e antibíblicas aos
seus leitores – e está na Bíblia – quem pode nos garantir que não existam outros vários
erros doutrinários presentes nos demais livros que também fazem parte do cânon bíblico? A
única maneira de salvaguardar a inspiração das Esc rituras e a infalibilidade (segurança)
doutrinária dela é admitindo também a inspiração de Eclesiastes no mesmo nível dos
demais livros.
Ademais, se Salomão errou ao escrever isso, deveríamos também negar que toda a
Escritura (incluindo Eclesiastes, é claro) seja divinamente inspirada, e deste modo
estaríamos chamando o apostolo Paulo de mentiroso, pois ele afirmou que “toda Escritura
é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a
educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado
para toda boa obra” (cf. 2Tm.3:16), e não apenas parte dela. Aqui vemos que a Escritura é
útil não somente para aperfeiçoar o caráter das pessoas (como alguns pensam), mas
também como “ensino”, isto é, em questões doutrinárias.
Em segundo lugar, é um completo equívoco dizer que Salomão desacreditava
completamente que os mortos ressuscitariam um dia. Tão certo como ele desacreditava
completamente em que os atuais mortos já estivessem vivos em sua época em algum tipo
de “estado intermediário” (cf. Ec.9:5,6; 9:10), também é certo que ele sabia muito bem
que Deus haveria de julgar a cada um pelo que fez e lhes conceder uma vida eterna (aos
justos). De fato, Salomão fala da "eternidade" no coração humano (cf. Ec.3:11) e de
imortalidade quando ele declara que o homem um dia irá "à casa eterna" (cf. 12:5).
Ele enfatiza também que devemos temer ao Senhor porque num certo dia "de todas estas
coisas Deus nos pedirá contas" (cf. 11:9). A realidade do dia do juízo quando estaremos
diante de Deus é reiterada por ele no capítulo seguinte, quando ele conclui o livro dizendo
que “Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja
bom, seja mal” (cf. Ec.12:14). Isso é claramente uma menção ao juízo que acontece na
segunda vinda de Cristo. Portanto, a partir de Eclesiastes, podemos perceber o que é abaixo
relatado:
VIDA TERRENA ESTADO INTERMEDIÁRIO RESSURREIÇÃO (JUÍZO)
PARA A VIDA ETERNA
A breve vida em que
passamos “debaixo do sol”
Um estado em que os
mortos se encontram
atualmente e que Salomão
define como “sem
inteligência, razão,
conhecimento ou sabedoria”
(cf. 9:10), e que “os mortos
não estão cônscios de coisa
alguma” (cf. 9:5), sendo
que os sentimentos como
“amor, ódio e inveja já
pereceram” (cf. 9:6)
Um estado de vida em que
Salomão acentua que
estaremos em “moradas
eternas” (cf. 12:5) e que
certamente passaremos pelo
juízo de Deus que nos julgará
por tudo o que fizermos (cf.
11:9; 12:14)
Outra prova clara de que o livro de Eclesiastes não contradiz o restante dos ensinamentos
bíblicos neotestamentários é o fato de que ele próprio escrevia sabendo que o espírito
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 114
retornava para Deus por ocasião da morte: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito
volta a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7). Este ensino não é contrário ao do NT, pelo contrário,
corresponde exatamente ao ensino neotestamentário: “Pai ao Senhor entrego o meu
espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46). Note que o que Salomão declara em
Eclesiastes é exatamente aquilo que é confirmado pelo NT. Salomão, que sabia muito bem
que o espírito subia para Deus, afirmava também categoricamente, neste mesmo livro, que
os mortos não estão conscientes de coisa alguma (cf. Ec.9:4,5; 9:10) e que o homem
possui o mesmo espírito-ruach dos animais, tendo o mesmo destino que eles tem ao
morrerem (cf. Ec.3:19).
A palavra usada no original hebraico de Eclesiastes 9:10 é “Sheol”, que para os imortalistas
é a morada dos espíritos, que se localiza nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9;
Mt.12:40; Mt.11:23). Tanto isso não é verdade que Salomão afirma que o espírito [de
todos] sobe para Deus (cf. Ec.12:7), e sabia que neste local não existia nenhum tipo de
sabedoria ou conhecimento (cf. Ec.9:10), que os mortos não sabiam de nada (cf. Ec.9:5), e
iam todos [justos ou ímpios] para o mesmo lugar após a morte (cf. Ec.3:20).
Em outras palavras, Salomão sabia que o espírito subia para Deus, mas também sabia que
não tinha parte alguma com alguma “entidade viva e consciente” que nós levamos conosco
após a morte. Vemos claramente que Salomão não contraria os ensinos neotestamentários,
ao contrário, concorda com eles:
ECLESIASTES NOVO TESTAMENTO
“E o pó volte à terra, como o era,
e o espírito volta a Deus, que o
deu” (cf. Ec.12:7)
“Pai ao Senhor entrego o meu
espírito. E com estas palavras
morreu” (cf. Lc.23:46)
RESULTADO RESULTADO
Mesmo assim os mortos não
sabem de nada (cf. 9:5) e não
tem amor, ódio ou inveja que já
não existem para eles (cf. 9:6),
que não tem inteligência, razão,
conhecimento ou sabedoria (cf.
9:10)
Mesmo assim Jesus não havia
subido ao Pai mesmo três dias
depois de ter sido ressuscitado
(cf. Jo.20:17)
Sendo assim, Eclesiastes não representa nenhuma contradição com o restante da Bíblia e
podemos chegar à fácil conclusão de que o Espírito Santo não inspirou errado nenhum
escritor bíblico. Tal testemunho de Eclesiastes reflete todo o pensamento do Antigo e do
Novo Testamento, como veremos mais adiante. Tudo o que Salomão fez, e que
comprovamos até aqui, é negar absolutamente qualquer imortalidade da alma em um
estado intermediário, pois ele não havia sido influenciado pela filosofia grega de dualismo
que viria mais tarde.
Embora seja verdade que ele ressaltasse muito mais o período sem vida entre a morte e a
ressurreição, também é fato que ele cria que um dia viria o juízo (cf. Ec. 11:9; 12:14) e
uma vida eterna (cf. Ec.12:5). Portanto, ele pode ser usado como prova de alguém que cria
em vida futura após o juízo, mas não cria na imortalidade da alma, pois não aceitava um
estado já consciente dos mortos atuais em algum estado intermediário entre a morte e a
ressurreição.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 115
O “espírito” que subia para Deus (cf. Ec.12:7), como já vimos no capítulo 3 deste livro, não
era uma alma imortal, mas a própria vida humana de todos os homens, justos ou
pecadores. Por isso, alegar em cima desta passagem a “imortalidade da alma” significa
negar todo o restante do livro de Eclesiastes que explicitamente nega isso, e também inferir
que os ímpios assim como os justos estarão com Deus após a morte, quando apenas os
justos deveriam estar com Ele. Afinal, segundo Salomão é o espírito de todos os homens
que volta a Deus após a morte, e não apenas o dos justos ou daqueles que merecem o Céu
(cf. Ec.12:7).
Sendo assim, é correto afirmar que Salomão não via o espírito como sendo uma alma
imortal ou alguma entidade incorpórea e consciente que leve consigo personalidade e
racionalidade após a morte, motivo pelo qual ele declara que os animais possuem
exatamente o mesmo espírito-ruach possuído pelos seres humanos (cf. Ec.3:19) e, por
conta do fato de que o espírito presente em ambos serem o mesmo, o destino de ambos
após a morte também seria o mesmo: o pó da terra (cf. Ec.3:20).
O que nos distingue dos animais no que tange à vida após a morte, tanto para Salomão
como também para os demais escritores bíblicos, não é que nós sejamos possuidores de
uma alma-nephesh e os animais não, ou que nós sejamos detentores de espírito-ruach e os
animais não, mas sim que nós ressuscitaremos do pó, e os animais não. Por isso ele diz
em Eclesiastes 3:21 que o nosso espírito volta para Deus (que soprará novamente em nós
pela ressurreição, tornando-nos novamente “almas viventes”), mas o dos animais volta à
terra (de onde não tem mais volta).
O Livro dos Salmos - Outro livro de valor histórico de grande consideração para analisarmos
o pensamento do povo do Antigo Testamento na questão relativa à vida pós-morte, é a
coletânea de hinos, salmos e corinhos, também entre os Livros Poéticos aos quais
denominamos de “Salmos”. Nele, vemos inúmeras considerações import antes que nos
fazem confirmar aquele pensamento de Salomão em Eclesiastes, como vimos acima. Dos
cento e cinquenta salmos, não vemos nenhuma menção explícita ou mesmo implícita de um
estado intermediário ou de uma imortalidade da alma. Ao contrário, vemos constantemente
menções bem explícitas de que não existe vida entre a morte e a ressurreição. Uma prova
óbvia disso é o fato dos mortos não poderem mais se lembrar de Deus:
“Na morte não há lembrança de ti. E no Sheol, quem te louvará?” (cf. Salmos 6:5).
A razão pela qual os mortos não se lembrarem de Deus é porque perderam completamente
a consciência, porque o processo de pensamento cessa quando o corpo morre. Mesmo no
inferno ou em qualquer outro lugar, entre os mortos justos ou ímpios, se houvesse
consciência após a morte poderiam recordar-se de quem é Deus. Na verdade, a primeira
pessoa na qual eles se lembrariam seria de Deus! É impossível concluirmos que os
mortos estão conscientes sem poderem nem ao menos recordar-se de Deus, uma vez que é
Deus quem nos julga, é Deus quem manda para o Céu ou para o inferno, é Deus quem tem
o domínio sobre o passado, o presente e o futuro das pessoas.
Se existisse vida inteligente entre a morte e a ressurreição, então onde fosse que os mortos
estivessem (seja no Céu, no inferno, ou em qualquer outro lugar), seriam capazes de se
lembrar de Deus! É evidente que os mortos não se lembram mais de Deus porque não tem
mais consciência alguma. Veja que o salmista não expressa uma dúvida se os mortos
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 116
lembram ou se não lembram de alguma coisa; pelo contrário, afirma de forma categórica a
sua convicção que não é possível haver lembrança na morte. Ou seja, se a alma é mesmo
“imortal”, neste caso ela sofre de um grave problema de amnésia.
O Salmo 115 também garante de forma clara que os mortos não louvam a Deus (cf.
Sl.115:17), e no verso seguinte reitera que quem louva a Deus são os vivos (cf. Sl.115:18).
Essa verdade é confirmada em Isaías 38:19, que diz que “os vivos, e somente os vivos,
que te louvam, como eu te louvo agora”. Na morte não existe mais nenhum louvor a Deus
(cf. Sl.6:5; Sl.115:17). Nenhum salmista ou qualquer escritor fez distinção entre os mortos
justos ou ímpios – somente os vivos é que louvam a Deus! Ponderamos: caso os salmistas
soubessem que a alma dos mortos está consciente, insistiriam tanto em dizer que na morte
não é possível louvar a Deus? É evidente que não, pois quem já estivesse no Paraíso, em
um lugar de alegria, ou em algum lugar assegurado entre os salvos, poderia perfeitamente
louvar a Deus.
Afinal, “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para
a glória de Deus o Pai” (cf. Fp.2:10,11). É evidente que os mortos não louvam a Deus e
quem louva é somente os vivos em decorrência da inconsciência pós-morte que determina a
impossibilidade de se louvar a Deus entre os que morreram (cf. Sl.6:5). Isso porque eles
não estariam vivos em algum lugar, mas sem vida, no pó da terra: “Que proveito obterás
no meu sangue, quando baixo à cova? Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a
tua verdade?” (cf. Sl.30:9). Aqui novamente o salmista reitera a sua posição de negação à
existência de vida entre os mortos. Se ele morresse, nada mais poderia dar de proveito
para Deus. A razão disso? Viraria pó: “Louvar-te-á, porventura, o pó”?
Claramente o salmista diz que o lugar para onde todas as pessoas vão após a morte não é o
Céu ou o inferno com as suas almas imortais, mas o pó da terra. Ao comparar a morte com
o pó, o salmista claramente mostra que não há consciência na morte, porque o pó não
pode pensar. Por isso mesmo, não seria de proveito nenhum para Deus, e nem ao menos
poderia louvá-lo depois da morte (cf. Sl.30:9). Como se isso não fosse suficientemente
claro, o Salmo 146 confirma novamente a crença na inconsciência pós-morte, ao afirmar
que os mortos não pensam: “Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia
perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4).
Sendo que na morte os pensamentos perecem, é evidente que não há alma consciente que
sobreviva a parte do corpo em um estado desencarnado. Se o processo de pensamento que
os próprios imortalistas atribuem como função da alma sobrevivesse à morte do corpo,
então os pensamentos dos que morressem continuaria, e não pereceria! No momento da
morte os pensamentos perecem porque a pessoa simplesmente deixa de existir e passa à
inconsciência que a Bíblia caracteriza de “sono” relativo ao estado dos mortos (cf. Sl.13:3).
Os mortos não mais pensam. Alegar que essa passagem diz respeito somente ao corpo é se
mostrar extremamente arbitrário e desonesto consigo mesmo, visto que os próprios
imortalistas atribuem o processo de pensamento como função da alma, e, portanto,
na morte os pensamentos não “pereceriam”, mas continuariam existindo à parte do corpo, a
não ser que a alma realmente morra, como já constatamos aqui.
Portanto, a não ser que os imortalistas refaçam toda a sua teologia e digam que a sede dos
pensamentos não é mais atribuição da alma mas somente do corpo e a alma não tem
qualquer ligação com isso, eles terão que admitir a morte da alma com o fim dos
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 117
pensamentos. Se você quiser testar a honestidade intelectual de determinado defensor da
imortalidade da alma, basta mostrar esse verso bíblico a ele. O tempo todo eles dizem que
a sede dos pensamentos é associada à alma, mas quando chegamos a uma passagem
bíblica que explicitamente diz que estes pensamentos perecem após a morte, aí não é mais
a alma não, é o corpo somente!
Ademais, vemos biblicamente que os que já morreram estão numa “terra de silêncio”, e não
de gritarias características do inferno ou de algum lugar de tormento, ou de altos louvores e
regozijos característicos do Paraíso: “Os mortos, que descem a terra do silêncio, não
louvam a Deus, o Senhor” (cf. Sl.115:17). Que nítido contraste com a visão popular
“barulhenta” da vida após a morte, na qual os salvos louvam a Deus no Paraíso e os não-
salvos gritam desesperadamente no inferno! É evidente que a terra de silêncio na qual não
é possível mais louvar-se a Deus diz respeito à sepultura e não a alguma “habitação dos
espíritos”. A tentativa imortalista em afirmar que essa passagem também diz respeito
somente ao corpo e não à alma também é um completo fracasso, visto que o mesmo
salmista afirma taxativamente que é a alma que habitaria neste local de silêncio:
“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar de silêncio”
(cf. Salmos 94:17)
É a alma que vai para o lugar de silêncio, não meramente um corpo morto. O local de
silêncio não é o Céu ou o inferno, mas puramente sepultura para onde a alma, o ser integral
do salmista, partira na morte. Mais uma vez vemos que as interpretações tendenciosas que
os imortalistas são forçados a adotarem para salvarem a crença deles numa “alma imortal”,
dizendo que as referências dizem respeito apenas ao corpo e não à alma, fracassam
miseravelmente por uma exegese simples e por passagens bíblicas onde os próprios
escritores inspirados deixavam nítido e evidente que essa inconsciência se trata da alma, e
não apenas do corpo.
Os salmistas sabiam que os mortos não veem mais a luz: “Irá para a geração de seus pais;
eles nunca verão a luz” (cf. Sl.49:19). Se os mortos estivessem vivos no Céu, no inferno, no
Sheol, ou onde quer que fosse, eles poderiam ver a luz como resultado e consequência da
visão. Contudo, não mais veem a luz porque eles já não estão cônscios de coisa alguma. O
salmista esperava ver Deus, mas não quando ele morresse e a sua alma imortal partisse
para o Céu, mas sim quando ele “despertasse”, na ressurreição:
“Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar, ficarei satisfeito em
ver a tua semelhança” (cf. Salmos 17:15)
O salmista só esperava ver a face de Deus quando “despertasse”, e não quando morresse.
O “despertar” diz respeito à ressurreição dos mortos do último dia, quando “muitos dos que
dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e
desprezo eterno” (cf. Dn.12:2). Sendo que é só nesse “despertar” que o salmista veria a
Deus, então é óbvio que ele não o estaria vendo antes disso. Ele expressa nitidamente a
sua convicção de que o momento de ver a Deus seria somente na ressurreição. Onde ele
estaria agora, então? Dormindo o sono da morte: “Ilumina-me os olhos, para que eu não
durma o sono da morte” (cf. Sl.13:3).
É digno de nota que o salmista esperava ver a Deus quando ele “despertasse” (uma clara
figura da ressurreição – cf. Dn.12:2), ele não tinha a mínima ideia de que estaria
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 118
imediatamente com Deus depois da morte por meio de uma alma imortal, por isso relata
que o momento em que veria a face de Deus é na ressurreição – quando despertasse! É
mais do que claro que nenhum dos salmistas acreditava na vida consciente após a morte
em um estado intermediário dos mortos. Isso fica ainda mais evidente ao vermos que o
salmista usou neste verso a palavra hebraica “quwts”, que significa exatamente: “ser
arrancado do sono; despertar; surgir”. É uma claríssima referência à ressurreição, e
prova disso é que exatamente esta mesma palavra é utilizada por Daniel para falar do dia
em que os mortos hão de ressurgir:
“E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão [quwts], uns para vida eterna, e
outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2)
Também em Isaías 26:19 essa mesma palavra é usada como clara referência à ressurreição
dos mortos:
“Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem [quwts]!” (cf. Isaías
26:19)
Agora voltando para o Salmo 17:15 – “Mas eu, confiado na vossa justiça, contemplarei a
vossa face; ao despertar [quwts], saciar-me-ei com a visão de vosso ser”. Não poderia
haver linguagem mais clara e lúcida do que essa a fim de denotar que só veremos a Deus
na ressurreição, e não antes disso. É no despertar-quwts da ressurreição que veremos a
Deus, e não na morte-moth/tâmuth., em algum estado intermediário pré-ressurreição.
O Salmo 88:12 diz: “Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas? E a tua justiça,
na terra do esquecimento?” (cf. Sl.88:12). O local é descrito como terra do
“esquecimento”, pois não mais pode lembrar-se de coisa alguma, nem mesmo de Deus (cf.
Sl.6:5). Note que os mortos não estão numa terra de consciência ou de atividade, mas sim
de esquecimento, uma clara linguagem de inconsciência, e não de consciência. Os que já
morreram não mais veem manifestadas as maravilhas de Deus (cf. Sl.88:12).
Davi também faz a pergunta retórica: “Será que fareis milagres pelos mortos? Ressurgirão
eles para vos louvar?” (cf. Sl.88:10). Alguém que já morreu não mais pode louvar a
Deus; por isso, seria necessário que eles “ressurgirem” para louvá-Lo. O estado em que
eles estão agora os impede de louvar ao Senhor, pelo que Davi aponta à ressurreição
como sendo o único modo pelo qual os que já morreram possam voltar a louvar o Senhor.
Se os que já morreram já pudessem louvar a Deus, então não faria sentido eles terem que
“ressurgirem” para poderem louvá-Lo!
Ainda mais se considerarmos que a palavra hebraica “koom” – subir; levantar; ressurgir
– está no sentido de ressurreição (como vemos que a Bíblia usa – cf. Dn.12:2; Dn.12:13;
Jo.3:14; Jo.12:32; Jo.12:34), vemos que o salmista expressa a sua convicção de que
apenas por meio da ressurreição é que os que já morreram poderão louvar a Deus. A frase
“ressurgirão eles para vos louvar” só faz sentido se, realmente, eles não estão louvando a
Deus no presente momento, sendo, portanto, necessário eles ressurgirem
(ressuscitarem) para isso. É uma enfática declaração de que só poderemos voltar a louvar o
Senhor após a morte no momento da ressurreição, e não antes disso, em algum estado
intermediário através de uma alma imortal que já estivesse no Céu antes da ressurreição do
último dia.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 119
Uma tentativa dos imortalistas de fugirem de algumas dessas claras evidências contrárias a
eles reside em tentar provar que logo após a morte os salmistas pensavam que seriam
imediatamente levados para junto de Deus, usando textos como o Salmo 49:15 – “Mas
Deus remirá a minha alma do poder do Sheol, pois me receberá”. Como pode isso se a
Bíblia diz claramente que a alma vai para o lugar de silêncio (cf. Sl.94:17), e não para o
lugar de louvores no Paraíso? É uma contradição bíblica?
Logicamente que não. O Salmo apenas fala que Deus remirá a alma do poder do Sheol, que
a luz da Bíblia Sagrada é a sepultura (cf. Sl.115:17; Sl.88:11; Sl.94:17; Gn.37:35), que
Deus não a esqueceria naquele local de escuridão, pelo contrário, iria recebê-lo com Ele,
através de uma ressurreição dentre os mortos. Remir a alma do poder do Sheol não
significa não ir ao Sheol, pois a crença do AT era unânime em acreditar que todos iam para
lá após a morte (cf. Sl.18:5; Gn.37:35; 44:31; Jó 17:13), mas diz respeito a ser resgatado
da morte, remido daquele local de escuridão, através da ressurreição. Prova disso é que em
Atos 2:27 essa mesma passagem é relacionada à ressurreição e não ao momento da morte.
Em Oséias 13:14, também lemos sobre Deus remir a alma do poder do Sheol, na seguintes
palavras:
“Eu os redimirei do poder do Sheol; eu os resgatarei da morte. Onde estão, ó morte, as
suas pragas? Onde está, ó sepultura, a sua destruição?” (cf. Oséias 13:14)
Ocorre que o apóstolo Paulo relaciona este momento ao da ressurreição do último dia:
“Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos transformados,
num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta
soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque
é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é
mortal se revista da imortalidade. Mas, quando isto que é corruptível se revestir da
incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a
palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, a tua
vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (cf. 1ª Coríntios 15:51-55)
Vamos ligar os pontos:
1º O salmista diz que teria a sua alma remida do poder do Sheol.
2º Em Oséias 13:14 Deus diz o mesmo.
3º E o apóstolo Paulo relaciona o texto de Oséias ao momento da ressurreição.
Portanto, fica claro que remir a alma do Sheol (sepultura) não significa não ser conduzido
até lá, mas ser resgatado por meio da ressurreição, quando seremos transformados em
seres incorruptíveis e imortais. O único meio de voltar a vida é através de uma ressurreição
dentre os mortos. E essa verdade também é exposta no Novo Testamento, mais
especificamente com a ressurreição por ocasião da volta de Cristo, quando a pessoa que
está presa ao poder do Sheol ressuscitará para entrar na Jerusalém Celestial, e é só neste
momento que a morte é vencida (cf. 1Co.15:54-55).
Que todas as pessoas partiam para o Sheol após a morte, tanto justos como ímpios, isso é
mais do que evidente para qualquer leitor honesto da Bíblia, fato comprovado em inúmeras
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 120
passagens, das quais segue-se uma pequena lista: Gên.37:35; Jó 10:21,22; Sal.94:17;
Gên.42:38; Gên.42:29,31; Isa.38:10,17; Sal.16:10; Sal.49:9,15; Sal.88:3-6,11; Jó
17:16. Cada uma dessas passagens reflete o fato de que tanto justos como ímpios desciam
ao Sheol (sepultura) após a morte, não tinham destinos diferentes. O filho de Jacó, José,
partiria para o Sheol caso morresse (cf. Gn.37:35), e ele era considerado um homem justo.
Prova ainda mais forte é que até mesmo a alma de Cristo esteve no Sheol enquanto esteve
morto (cf. At.2:27), colocando um “ponto final” em qualquer discussão do tipo. Tanto justos
como ímpios jazem no Sheol após a morte.
O testemunho dos salmistas, que reflete todo o pensamento dos escritores divinamente
inspirados do Antigo Testamento, é que os mortos não louvam a Deus (cf. Isaías 38:19;
Salmos 6:5), não sabem de nada (cf. Eclesiastes 9:5), valem menos do que um cachorro
vivo (cf. Eclesiastes 9:4), sua memória jaz no esquecimento (cf. Eclesiastes 9:5), não tem
lembrança de Deus (cf. Salmos 6:5), estão num lugar de esquecimento (cf. Salmos 88:12),
não confiam na fidelidade de Deus (cf. Isaías 38:18), não falam da sua fidelidade (cf.
Salmos 88:12), estão numa terra de silêncio - e não de gritaria do inferno ou de altos
louvores do Céu (cf. Salmos 115:17; 94:17), não podem ser alvos de confiança (cf. Salmos
146:3), tem que ressurgir para poder louvar a Deus (cf. Salmos 88:10), somente O verão
após a ressurreição (cf. Salmos 17:15) e não pensam (cf. Salmos 146:4).
Definitivamente um estado de plena e total inconsciência entre aqueles que dormem em
suas sepulturas aguardando a ressurreição dentre os mortos.
IV–A posição dos Livros Proféticos
Ezequiel - Os Livros Proféticos se destacam dos demais por serem as palavras de Deus
liberadas pelos profetas. Concentrem-se muito mais no que Deus falou do que nos eventos
históricos em que falaram da parte do Senhor. No livro de Ezequiel, por exemplo, vemos o
Senhor Deus dizendo através daquele profeta:
“A alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ezequiel 18:4)
Essa passagem pode ser um susto para muitas pessoas – sim, a alma [nephesh] – morre.
Isso porque, como vimos no capítulo 3 deste estudo, nós temos uma natureza holista, e não
dualista. Nós somos nephesh, e não “temos” nephesh. A alma [pessoa] que pecar, morrerá!
A consequência do pecado foi mortal para toda a natureza humana, atingindo não apenas o
corpo, mas também a alma. Deus não disse que apenas “o corpo que pecar... morrerá”; ao
contrário, tanto o corpo como a alma foram sujeitos aos efeitos destrutivos resultantes do
pecado. Por isso mesmo, a alma também pode ser devorada:
“Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a
presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas
viúvas no meio dela” (cf. Ezequiel 22:25)
O orginal hebraico traz neste verso a palavra “aw-kal'”, que significa literalmente:
“consumir; devorar”. A alma [nephesh] não é isenta do consumir e devorar do corpo. O
mesmo autor também afirma que as almas [nephesh] também são destruídas (cf.
Ez.22:27). Como no caso de Ezequiel 18, a grande maioria destes relatos não expressa
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 121
apenas um “pensamento do profeta” que poderia estar “ultrapassado” para os dias de hoje,
porque é o próprio Deus vivo que falava por meio do profeta.
Por exemplo: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do
filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). Aqui é evidentemente o
próprio Deus que estava falando (o profeta apenas passou por escrito aquilo que lhe havia
sido dito), porque as “todas as almas são minhas”, isto é, de Deus (em primeira pessoa), e
essas almas também morrem. Se as almas não estivessem sujeitas à morte, então não
seria apenas a Bíblia que estaria equivocada, mas o próprio Deus estaria mentindo para o
profeta.
Isaías - O livro de Isaías relata o momento crucial em que o rei Ezequias encontrava-se à
beira da morte. O profeta Isaías é enviado a este rei para lhe dizer que ele iria adoecer de
uma enfermidade mortal que sofria (cf. Is.38:1). Qual foi a reação de Ezequias? Ficou feliz
pois sabia que iria estar imediatamente com Deus ou em algum paraíso? Não. Na verdade,
ele orou sob lágrimas clamando pela manutenção de sua vida. No capítulo inteiro é
mencionado como ele se alegrou ao ver que Deus lhe havia acrescentado quinze anos à sua
vida. Ora, se Ezequias pensasse que a sua alma imortal iria partir de imediato a um lugar
de conforto e bem-aventurança, então iria desejar a morte acima de todas as coisas!
A morte, porém, é tratada como um inimigo na Bíblia, o último inimigo a ser vencido (cf.
1Co.15:26). Não existe vida ou bem-aventuranças na morte. Ezequias queria fugir deste
inimigo, e conseguiu, ao menos temporariamente. Em toda a sua declaração de louvor a
Deus por este ter-lhe concedido a manutenção de sua vida, ele revela o que realmente
aconteceria caso ele tivesse morrido. É nos dito que ele não veria mais os moradores do
mundo: “jamais verei homem algum entre os moradores do mundo” (cf. Is.38:11), e
também declara que “não tornarei mais a ver o Senhor, o Senhor, na terra dos viventes;
não olharei mais para a humanidade” (cf. Isaías 38:11).
Isso prova claramente que os que já morreram não estão de forma alguma conscientes do
que aqui acontece (como pregam algumas religiões), pois Ezequias demonstra nitidamente
a sua convicção que não mais veria ou olharia para qualquer cidadão deste mundo. Isso é
consequente do fato de que ele próprio sabia que não estaria consciente depois que
morresse. Afirma, alguns versos em seguida, o destino para o qual partiria sua alma na
morte:
“Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a
livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados”
(cf. Isaías 38:17)
Ou seja, a cova, o local de corrupção, para o qual a sua alma não escaparia. Ele não diz que
se morresse a sua alma iria ao Céu ou ao inferno, mas à cova, isto é, à sepultura. E diz que
seria a sua alma (nephesh) quem partiria para a cova após a morte, e não apenas o corpo!
Em seguida, ele afirma também qual seria o estado dos mortos naquele momento em que
ele passaria também a ficar em caso que a sua vida lhe fosse retirada:
“Pois não pode louvar-te o Sheol, nem a morte cantar-te os louvores; os que descem
para a cova não podem esperar na tua fidelidade. Os vivos, somente os vivos, esses
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 122
te louvam como hoje eu o faço; o pai fará notória aos filhos a tua fidelidade” (cf. Isaías
38:18,19)
É evidente que do início ao fim Ezequias apresenta a sua convicção e linha de raciocínio de
que não existe vida na morte. Diante do que é aqui exposto, percebemos que:
(1) Caso ele morresse, não estaria mais ciente das coisas que acontecem neste mundo (cf.
Is.38:11)
(2) A sua alma iria para a cova com a morte (cf. Is.38:17)
(3) Na morte não há louvor a Deus (cf. Is.38:18)
(4) Os mortos não podem louvar a Deus e nem cantar louvores (cf. Is.38:18)
(5) Eles não esperam a fidelidade de Deus (cf. Is.38:18)
(6) Somente os que estão na terra dos viventes é que o louva (cf. Is.38:19)
Definitivamente Ezequias não acreditava em uma existência consciente com Deus logo após
a morte. Do início ao fim ele mostra a sua visão holista da natureza humana corrente nas
Escrituras, sabendo que a morte era a total cessação de vida. Ele não esperava partir rumo
a lugar algum de bem-aventurança, nem mesmo estaria com vida, pois se fosse assim
poderia louvar a Deus, entoar-lhe cânticos e esperaria pela Sua fidelidade!
É evidente que alguém que volta ao pó da terra, estando inconsciente, deixando de existir o
ser racional, realmente não pode realizar tais coisas. Note também que Ezequias não
somente relata que os mortos não louvam a Deus, como também denota a sua
impossibilidade. Os mortos “não podem”, isto é, “não tem como”, “não é possível”, não
existe meio nenhum de algum morto cantar louvores ao Deus Altíssimo.
É claro que tal impossibilidade só poderia ser fruto de uma inconsciência pós-morte, e por
isso ele diz em seguida que os mortos não esperam pela fidelidade de Deus, fato este que
seria uma inverdade profunda caso eles já estivessem na presença de Deus ou em lugar
entre os salvos. Os mortos não esperam mais na fidelidade de Deus, não por já estarem na
presença dEle, mas porque na morte simplesmente deixam de existir – “o que é dele?” (cf.
Jó 14:10); nada, não mais existe (cf. Jó 14:10,12; Jó 7:21).
Por fim, em Isaías lemos que os patriarcas não tinham a mínima ideia do que acontece
entre os vivos:
“Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece;
tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome” (cf. Isaías
63:16)
Para algumas religiões, os patriarcas como Abraão e Jacó não apenas conhecem os que
estão vivos hoje, mas também rezam e intercedem por nós. Já para a Bíblia, Abraão não
nos conhece, e Israel não nos reconhece.
Daniel - O livro profético de Daniel é um que diz da forma mais clara e explícita a
ressurreição dos mortos. É nele que lemos que “muitos dos que dormem no pó da terra
despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf.
Dn.12:2). Nele, lemos que os mortos que ressuscitassem estariam “no pó da terra” (cf.
Dn.12:2), e não no “Céu” ou no “inferno” para reincorporarem em seus corpos mortos; e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 123
logo no versículo seguinte tal confirmação de que a entrada na herança só viria no fim, com
a ressurreição:
“Tu, porém, vai até ao fim; porque descansarás, e te levantarás na tua herança, no fim dos
dias” (cf. Daniel 12:13)
Como podemos ver Daniel só se levantará no “tempo do fim”, no fim dos dias, e só depois
disso entrará na sua herança. A Young’s Literal Translation verte por “ficará na tua sorte no
fim dos dias”. A versão King James with Strongs também traduz semelhantemente: “tu
ficarás em tua sorte no fim dos dias”. Fica muito evidente que é só no final dos tempos,
depois da ressurreição, que entraremos em nossas moradas celestiais. Isso está de total
conformidade com o Novo Testamento que afirma de forma clara que só entraremos em
nossas moradas quando Cristo voltar (cf. Jo.14:2,3; Mt.25:31-34), que é o momento da
ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). Deus, de forma mais do que clara, deixa
evidente para o próprio Daniel que a sua entrada no Paraíso não seria algo iminente, pelo
contrário, seria algo que só aconteceria no fim dos dias.
O “descansar” aqui é a indicação do estado no qual Daniel estaria na morte, o que a Bíblia
relativiza com um estado de “sono” (ver Sl.13:3; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51;
1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15; 1Co.11:30; 1Co.15:6; 1Co.15:18); o “levantar” é
claramente relacionado com a ressurreição dentre os mortos (ver João 3:14; João 12:32;
João 12:34); o “fim dos dias” é o momento em que ele [Daniel] seria “levantado”
[ressuscitado], o que a Bíblia caracteriza como sendo “no último dia” (ver João 6:39; João
6:40), e é somente neste momento em que Daniel entraria em sua herança, no fim dos
dias.
Ele não entra na herança logo após a morte com a sua “alma imortal”, mas
somente quando fosse ressuscitado no último dia. Isso por si só é prova mais do que
suficiente para desmontar completamente a falsa doutrina da imortalidade da alma, pois
não reflete um “pensamento ultrapassado do Antigo Testamento”, mas é o próprio Deus
falando para o profeta, de que este não estaria com Ele imediatamente na morte como um
acontecimento iminente, mas deixando claro que tal fato concretizar-se-ia apenas no final
dos dias, e através de uma ressurreição!
V–Saul conversou com Samuel depois de morto?
A passagem mais usada pelos imortalistas para mostrar a crença na vida pós-morte no
Antigo Testamento é – pasme – uma sessão espírita. O relato da suposta conversa com o
“espírito” de Samuel se encontra em 1ª Samuel 28. Isso só pode ser mesmo fruto de uma
teologia fraca que na carência de evidências sólidas ou factuais precisa apelar para coisas
do tipo. Nem mesmo os imortalistas mais sérios creem que foi mesmo Samuel quem
apareceu a Saul, há muitos imortalistas honestos que admitem que se trata de um espírito
maligno se fingindo de Samuel. Temos várias razões para desacreditar que, de fato, o
espírito de Samuel tenha conversado com Saul (além do fato de que, como vimos, não
existe uma alma imortal no homem).
Em primeiro lugar, Deus havia cortado todo o tipo de comunicação dEle com Samuel. Esse
fato é extremamente importante: “E perguntou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe
respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas” (cf. 1Sm.28:6). Deus
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 124
realmente não estava disposto a dar nenhum tipo de mensagem dEle a Saul. Isso aconteceu
porque este havia desobedecido às ordens do Senhor. Havia se tornado repugnante a Ele, e
por isso Deus não lhe mandava uma resposta, nem por sonhos, nem por visões, nem por
profetas e nem mesmo pelo Urim. Em outras palavras, Deus definitivamente havia cortado
todo e qualquer laço com o rei Saul.
Logo, não foi Samuel quem apareceu a Saul. Se Deus não havia dado resposta a Saul,
então Ele não mandaria Samuel falar com ele. Dizer que foi de fato Samuel quem apareceu
a Saul significa dizer que Deus mudou de opinião tão rapidamente com relação a dar uma
mensagem a Saul, se arrependendo de não ter dado a mensagem antes. Ora, por que razão
Deus não mandaria a resposta a Saul por meio de meios legais e lícitos para o povo
israelita, como o Urim, os profetas, ou por sonhos ou por visões, mas ao invés disso foi dar
a resposta a Saul justamente por meio de uma prática condenada pelo próprio Deus?
Em outras palavras: se Deus não havia dado resposta a Saul pelos meios “lícitos”,
por que iria dar a resposta por um meio ilícito e contrário àquilo que Ele mesmo
tinha ordenado? Sabendo que o nosso Deus “não muda” (cf. Ml.3:6) e que nEle “não há
mudança nem sombra de variação alguma” (cf. Tg.1:17), é incoerente crer que Ele primeiro
não quis responder Saul, mas depois mudou de ideia e quis respondê-lo; que primeiro não
quis dar uma resposta nem mesmo por meios lícitos que convém, mas depois decidiu
responder-lhe justamente através de uma prática pagã condenada pelo próprio Deus!
Em segundo lugar, a própria passagem diz claramente, no verso 6, que Deus não queria
mandar uma resposta para Saul por meio de nenhum profeta. Sabemos que Samuel era
um profeta. Se fosse da vontade de Deus ter enviado uma resposta através de Samuel,
que era profeta, Ele certamente já o teria feito antes, quando Saul havia consultado os
próprios profetas. Mas vemos o texto bíblico dizendo claramente que Deus não queria
usar profetas para falar com Saul (v.6). Portanto, sendo Samuel um profeta e sabendo
que Deus não queria usar profetas, não é correta a afirmação de que Samuel apareceu a
Saul em En-Dor.
Em terceiro lugar, devemos lembrar que consultar os mortos era uma prática pagã
totalmente repudiada pelas Escrituras e abominada por Deus (cf. Ex.22:18; 1Sm.28:3).
Deus não enviaria o seu servo Samuel a falar com o rei Saul se Ele próprio havia proibido
esse tipo de comunicação! A razão pela qual a comunicação com os mortos era proibida é
porque quem aparece de fato é um demônio, e não “espíritos”, já que, como vimos,
“espírito” na Bíblia não tem parte nenhuma com uma entidade imaterial presa dentro do
nosso corpo com personalidade e consciência.
Em quarto lugar, Deus ordenou que Saul devia morrer exatamente em decorrência desta
atividade de buscar estabelecer esse tipo de comunicação proibida pelo próprio Deus (cf.
1Cr.10:13). Ora, se Deus decidiu se comunicar com o rei Saul por aquele meio
(“permitindo” a aparição de Samuel a ele), então Ele terminou traindo ao rei! Como
podemos imaginar um Deus traiçoeiro assim? Pois além de ser volúvel por determinar algo
e logo em seguida mudar de ideia (passando a ideia de alguém que passa por cima de Suas
próprias regras), ainda castiga com morte o rei justamente porque foi em busca de uma
comunicação proibida, mas que, na verdade, teria sido propiciada pelo próprio Deus!
Em quinto lugar, porque Samuel, como profeta de Deus, não iria tomar a iniciativa de
atender ao chamado de uma feiticeira, o que contrariaria diretamente a ordem divina de
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 125
que os vivos não busquem comunicar-se com os mortos. Além disso, não se submeteria às
regras de necromancia, que não iriam jamais interferir em alguém que realmente estivesse
na presença de Deus. As Escrituras afirmam que quem buscasse a prática de necromancia
seria contaminados por ela (cf. Lv.19:31; Ap.22:15).
Se Samuel atendesse ao chamado da feiticeira estaria contribuindo para uma prática
condenada por Deus, e, além disso, estaria se contaminando em decorrência disso, e se
assim sucedesse nem mesmo poderia mais voltar à companhia divina, pois na presença de
Deus não entra quem se contamine (cf. Ap.21:27).
Então, de duas possibilidades, temos apenas as seguintes propostas:
(1) Ou Deus ordenou que Samuel se apresentasse a Saul, o que é improvável e antilógico,
tendo em vista que Ele não quis comunicar-se com Saul pelos meios legais e lícitos (v.6),
seguindo-se que muito menos iria se comunicar com ele justamente mediante uma prática
condenada por Ele próprio (cf. Lv.24:7) e, pior que isso, depois puni-lo com a morte
justamente por esta prática propiciada pelo próprio Deus!
(2) Ou foi Samuel quem quis se apresentar ao chamado da feiticeira por conta própria, algo
que é ainda mais absurdo, tendo em vista que ele estaria se contaminando com esta prática
e estaria indo contra as permissões do próprio Deus. Se a premissa 1 estiver errada, então
Deus não quis se comunicar com Saul por tal meio, e, se Samuel mesmo assim se
apresentou a Saul, então ele só poderia ter “passado por cima” das ordens de Deus ao se
apresentar à feiticeira. De qualquer modo, a encruzilhada é notável: ou Deus ordenou que
Samuel se apresentasse (o que já vimos que é ilógico e de todo incoerente), ou então
Samuel passou por cima do próprio Deus (muito, muito mais ilógico e incoerente!). A única
conclusão lógica que podemos chegar é que não foi Samuel quem se apresentou a Saul em
En-Dor.
Em sexto lugar, se foi de fato Samuel quem se apresentou para Saul, então teríamos que
dar crédito para todas as sessões espíritas abrindo uma clara possibilidade de eles estarem
realmente se comunicando com os “espíritos”. Afinal, se Samuel pôde tranquilamente se
apresentar diante daquela feiticeira mesmo sendo contra a vontade e a Palavra de Deus,
quem é que garante que o mesmo não pode se repetir nos dias de hoje, e os “espíritos” (de
santos, inclusive) apareçam com “mensagens” às pessoas vivas da terra?
Em sétimo lugar, o que a feiticeira diz ter visto foi um ser sobrenatural, ou seres
sobrenaturais — “um deus-elohim”. Este termo é utilizado com grande frequência quando
com relação a falsos deuses (cf. Gn.35:2; Êx.12:12; Êx.20:3), e Paulo nos diz que o agente
que atua por detrás dos “deuses” são os demônios (cf. 1Co.10:20). Portanto, nada mais
aconteceu senão “o próprio Satanás se transfigurando em anjo de luz” (cf. 2Co.11:14). Vale
ressaltar que em momento nenhum da Bíblia o profeta Samuel é descrito como sendo um
“deus” (elohim), mas o diabo, sim, este é descrito como sendo o “deus deste século”
(cf. 2Co.4:4). Portanto, é muito mais lógico e coerente que quem tenha se apresentado
tenham sido demônios, e não o próprio profeta.
Em oitavo lugar, porque o referido ser que a feiticeira viu “subia de dentro da terra”
(v.13). Ora, os seres “divinos” não vem de “dentro da terra” (tal citação é estranha à
Bíblia), mas sim do alto (cf. Gn.22:11,15; 2Rs.2:11; Is.6:1,2; Is.32:15; Lc.2:13,14;
Mt.3:16,17; Ap.14:6). Os próprios imortalistas entram em séria contradição com a sua
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 126
própria teologia aqui neste ponto, pois eles afirmam que o espírito que possuímos é uma
“alma imortal” com consciência e personalidade que sobrevive à parte do corpo após a
morte, e Salomão, ainda nos tempos do Antigo Testamento, afirma que o espírito sobe
para Deus após a morte (cf. Ec.12:7).
Portanto, se o espírito é a tal “alma imortal”, então os espíritos ou almas imortais deveriam
estar no Céu na época do Antigo Testamento, e não debaixo da terra. Consequentemente,
Samuel estaria lá em cima, com Deus, entre os salvos, e não “debaixo da terra”, de onde
a feiticeira o viu. Ela disse claramente que “vejo deuses que sobem da terra” (v.13), e não
que descem do Céu.
Então, visto que o espírito sobe para Deus e não “desce” para debaixo da terra, se fosse o
Samuel verdadeiro ele não estaria sendo visto “subindo da terra”, a não ser que o espírito
dele tenha subido para Deus, depois descido de novo para debaixo da terra, depois subido
de novo para atender à necromancia da feiticeira... enfim... diante de tamanha c ontradição
lógica só nos resta desacreditar na implausível interpretação que alguns imortalistas fazem
desta passagem, dizendo que era mesmo Samuel quem apareceu e caindo em uma série de
contradições insuperáveis pela frente, que inteiramente refutam tal t eoria mirabolante.
Em nono lugar, porque a “predição” do suposto Samuel de que “amanhã tu e teus filhos
estareis comigo” (v.19) significaria então que os profetas de Deus e reis apóstatas
compartilham a mesma habitação após a morte? Não, isso é um absurdo e antibíblico.
Mesmo se Samuel estivesse vivo em algum lugar, Saul (um rei ímpio de acordo com a
Bíblia) não estaria na mesma habitação de Samuel! Se o espírito de Samuel estava no
Paraíso com Deus, então de modo algum que Saul, um rei ímpio, estaria com o próprio
Samuel após a morte.
O pseudo-Samuel cria que justos e ímpios partilhariam conscientemente o mesmo lugar
após a morte, estaria um junto do outro, o que é negado pela própria teologia imortalista!
Como crer em um “Samuel” que cai em tantas contradições ao ponto de contradizer a
própria teologia imortalista com as suas declarações? E como podem os imortalistas
fazerem uso dessa passagem como suposta “prova” da imortalidade da alma, se ela quando
analisada em seu todo refuta as próprias crendices populares sobre Céu e inferno e destinos
diferentes entre justos e ímpios após a morte e antes da ressurreição?
De acordo com a própria teologia popular que segue a tendência imortalista, os ímpios já
estão no inferno e os justos já estão no Céu e, portanto, Saul não estaria “comigo” (junto
com Samuel) mas sim queimando em uma outra dimensão enquanto Samuel desfrutava
das bênçãos paradisíacas (enquanto atendia o chamado de feiticeiras...). Veja que é a
própria doutrina imortalista entrando novamente em contradição com ela mesma.
Em décimo lugar, segundo boas traduções (como a versão inglesa King James e a
espanhola Reina Valera), a feiticeira disse que avistava “deuses”, no plural (v.13). Será
que Samuel veio acompanhado de um comitê de santos que subiam da terra para atender
ao chamado da feiticeira? Não, tudo indica que tratavam-se de espíritos malignos.
Em décimo primeiro lugar, porque Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (v.19), como
dizia a profecia do pseudo-Samuel. A profecia indicava que Saul viria a ser morto pelas
mãos dos filisteus. Mas o fato é que Saul se suicidou (cf. 1Sm.31:4), e veio parar nas mãos
dos homens de Jabes-Gileade (cf. 1Sm.31:11-13), e não dos filisteus (nem Saul e nem os
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 127
moradores de Jabes-Gileade eram filisteus). Saul apenas passou pelas mãos dos filisteus,
mas não foi entregue aos filisteus. Ele foi entregue aos cidadãos de Jabes-Gileade, após
cometer suicídio. Claro que o pseudo-Samuel não podia prever esse detalhe.
Em décimo segundo lugar, porque a profecia de “Samuel” era que no dia seguinte “tu e teus
filhos estarão comigo” (v.19). Isto indica que todos os filhos de Saul estariam com ele, pois
não foram feitas exceções na mensagem de Samuel. Na melhor das hipóteses, a maioria
dos filhos [em geral] estariam mortos com ele. Contudo, metade dos filhos não morreram.
Saul tinha seis filhos e três deles sobreviveram. Morreram na batalha Jônatas, Abinadabe e
Malquisua (cf. 2Sm.31:8-10; 21:8).
Alguns imortalistas contestam este fato alegando que a profecia poderia ser considerada
verdadeira se somente um filho morresse. Isso, porém, não é verdade. Ela não diz “alguns
dos teus filhos”, mas diz claramente “os teus filhos”. Se isso não implica em totalidade, pelo
menos implica em maioria geral. Mas nem em um caso nem em outro a profecia obteria
êxito, visto que a metade dos filhos de Saul permaneceram vivos após a batalha!
Esses fatos contrastantes tornam essas profecias de “Samuel” uma flagrante contradição
com o testemunho da parte de Deus a respeito do verdadeiro Samuel, que “nenhuma das
suas palavras deixou cair em terra" (cf. 1Sm.3:19). Por mais que Satanás quisesse colocar
os filhos (a profecia não traz exceção a ninguém e ainda generaliza) na morte, apenas
conseguiu isso com a metade deles. Como o diabo não é onisciente como Deus é, ele não
pôde fazer profecias exatas, mas apenas generalizações, em estilo sibilino, e ainda por cima
erradas, quando muito apenas parcialmente corretas.
Em décimo terceiro lugar, e provavelmente o maior de todos os vários erros da “profecia”
do pseudo-Samuel, vemos ele afirmando que “amanhã você e seus filhos estarão comigo
(mortos)” (v.19). Entretanto, isso só ocorreu dias depois, e não no dia seguinte (cf.
1Sm.30:1; 31:1-6). Alguns imortalistas tentam contornar tamanha contradição tão evidente
entre o relato do pseudo-Samuel e este fato bíblico dizendo que a palavra “amanhã” refere-
se a um tempo indefinido, o que implica que Saul e seus filhos não precisariam morrer no
dia seguinte.
Contudo, a palavra utilizada no original hebraico para “amanhã” neste texto é mahar, que
significa realmente dia seguinte, e não um tempo indefinido, como em Êxodo 9:5:1, 1ª
Samuel 20:5, Provérbios 3:28, Isaías 22:13 e em outros textos. A palavra utilizada para
“amanhã”, portanto, tem o sentido de dia seguinte, e não de tempo indeterminado.
Se o pseudo-Samuel cresse que a morte de Saul e de seus filhos não fosse no dia seguinte
mas em algum tempo mais tarde, teria empregado o plural (“daqui alguns dias”), ou
expressões mais gerais de um tempo indeterminado ainda que iminente, como “em breve”,
ou simplesmente não mostraria nenhuma expressão temporal, muito menos empregaria
mahar, que significa dia seguinte, se soubesse que seria em qualquer outro dia menos no
dia seguinte! Na verdade, as contra-argumentações imortalistas, que carecem inteiramente
de fundamento bíblico, servem apenas para tentar contornar o fato óbvio de que o pseudo-
Samuel que se apresentou em En-Dor errou, errou e errou em suas predições.
Em qualquer outro lugar da Bíblia onde mahar é apresentado eles nem sequer contestam o
fato de que se trata realmente do dia seguinte, mas, como aqui vai contra a teologia deles,
então eles precisam apelar e dizer que aqui, e somente aqui, essa palavra tem um “sentido
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 128
diferente e mais amplo”, que não significa aquilo que sempre significa em todo o Antigo
Testamento, e que “Samuel” preferiu a utilizar mesmo correndo o risco de ser “mal
interpretado” quando poderia ter empregado inúmeras expressões diferentes que poderiam
se encaixar corretamente no tempo da morte de Saul e seus filhos!
De fato, fica difícil ver quem erra mais: se foi Saul com as suas predições ou se são os
imortalistas em suas inúteis tentativas de tentar negar a todo o custo o óbvio da Bíblia
Sagrada a fim de defender uma profecia nitidamente falsa. Finalmente, em décimo quarto
lugar, a Bíblia diz que Saul entendeu que era Samuel (cf. 1Sm.28:14). Partindo do
pressuposto de que o rei Saul havia entendido (na percepção dele) que tratava-se de
Samuel, o texto continua relatando como era na visão deste. Foi Saul que “deduziu” que o
vulto que subia da terra, ao qual ele não via, era o profeta Samuel. Não foi Deus que
disse que era Samuel, foi o rei Saul que entendeu que supostamente tratar-se-ia
de Samuel.
Com efeito, a alegação imortalista de que o texto bíblico fala de “Samuel” e não de
“demônio” fracassa exatamente em não admitir o óbvio do texto bíblico, de que este tratava
o caso do ponto de vista do próprio Saul e de acordo com o entendimento deste. Saul
realmente achava que era Samuel, por isso o texto diz que “Saul entendeu que era
Samuel” (v.14) e continua o relato de acordo com a opinião de Saul, isto é, que se tratava
de Samuel e não de um espírito maligno. Ignorar que o texto está retratando claramente a
percepção de Saul e não dando um “veredicto” sobre se era ou não Samuel é
simplesmente ignorar a exegese correta do texto em seu todo. Exemplos similares a este
ocorrem aos montões no Antigo Testamento.
Por exemplo, sabemos que o sol não “parou” de fato, mas a Bíblia afirma que o sol parou
(cf. Js.10:13). Por que a Bíblia disse isso? Ela mentiu? Não, ela apenas relatou aquele
acontecimento do ponto de vista de Josué, que com o conhecimento limitado da época
achou que o sol havia “parado”. Ou seja, embora a Bíblia diga que “o sol parou”, o que ela
quer dizer com isso é que Josué entendeu que o sol havia parado. Da mesma forma, o texto
de 1ª Samuel 28 retrata o acontecimento do ponto de vista de Saul, como também o verso
14 deixa bem claro.
Embora esteja escrito que “era Samuel”, o que ela quer dizer com isso é que Saul entendeu
que era Samuel, que com o seu conhecimento limitado das coisas espirituais achou que era
o profeta “subindo de dentro da terra”. Sendo assim, é errado tentar tirar alguma noção de
“argumento” em cima do fato de que o texto bíblico traz “Samuel” e não “demônio”, a não
ser que o entendimento de Saul estivesse correto, o que provamos aqui que não estava, por
todas as razões apresentadas acima.
Concluímos, pois, que não foi Samuel quem se manifestou em En-Dor. Tudo não passou de
uma fraude e artimanha de um espírito maligno. Satanás é experiente, perito em
contrafazer as coisas de Deus, e até mesmo em imitar falsamente os mortos. Nem com
sessão espírita a imortalidade da alma consegue se sustentar. O fato é que os escritores
bíblicos, inspirados pelo Espírito Santo, jamais falaram em imortalidade da alma, mas
sempre respaldaram frequentemente que os mortos passam inconscientes o sono da morte
(cf. Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12;
Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). E, contra fatos, não há argumentos – nem mesmo
sessão espírita.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 129
VI–A alma no lugar de silêncio
“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf.
Salmo 94:17)
Essa informação, presente no Salmo 94, é também de extrema importância para
compreendermos o pensamento dos escritores do Antigo Testamento, também guiados pelo
Espírito Santo assim como os do Novo. Já provamos aqui neste estudo, por tudo o que
analisamos até aqui, que a doutrina do Antigo Testamento é fortemente contrária à posição
de imortalidade da alma e a qualquer tipo de vida inteligente entre a morte e a
ressurreição, e refutamos as interpretações errôneas que os imortalistas fazem em cima de
algumas passagens veterotestamentárias usadas como suposta “evidência” de vida após a
morte em um estado desencarnado.
O nosso próximo passo, agora, é refutarmos os argumentos que são usados por boa parte
deles a fim de negar tão tamanha evidência bíblica acerc a do pensamento dos escritores
bíblicos do Antigo Testamento relacionado ao estado dos mortos. Para muitos teólogos da
imortalidade da alma, todas as posições sobre os mortos tratam-se apenas e tão somente
do corpo. Isso é errado por vários motivos. Em primeiro lugar, porque, como vimos no
capítulo 3, a natureza humana é holista, e não dualista. Em outras palavras, quando nós
morremos, é a pessoa integral que morre. Isso é muito claro nas Escrituras Sagradas que o
conceito de “alma” e “espírito” na Bíblia não remete a uma alma imortal com personalidade
própria ou a um segmento preso dentro de nós que é liberto por ocasião da morte.
Em segundo lugar, porque seria completamente ilógico os escritores do Antigo Testamento
escreverem tanto sobre a vida após a morte e fazerem sempre referencias a “perecem os
pensamentos” (cf. Sl.146:4), “não sabem de nada” (cf. Ec.9:5), “sua memória jaz no
esquecimento” (cf. Ec.9:5); “não tem lembrança de Deus” (cf. Sl.6:5), “não louvam ao
Senhor” (cf. Is.38:19), “já não existe” (cf. Jó 7:21), dentre tantas inúmeras citações que
poderíamos aqui citar, e estarem sempre falando só do corpo, nunca da alma! É totalmente
inimaginável que tais pessoas estivessem tão excessivamente preocupadas em narrar tanto
o estado de um simples corpo morto ao invés de falar sobre a vida pós-morte espiritual!
Esperaríamos justamente o contrário: que eles constantemente fizessem amplas descrições
daquilo que realmente importa, do destino da alma e do ser racional após a morte, e não de
uma simples “carcaça” que nada mais vale. Será que os autores bíblicos iriam desperdiçar o
tempo deles fazendo descrições de um mero corpo morto que já virou pó, quando poderiam
ter a oportunidade de descrever o que seria muito mais importante, que seria o lado
consciente e racional que os imortalistas atribuem à alma? Lógico que não! Portanto, alegar
que os autores bíblicos estavam sempre narrando o estado corporal depois da morte e não
o estado da alma (i.e, do ser racional ativo e pensante) é incorrer em uma grande
incoerência lógica.
Além disso, fato é que os próprios imortalistas associam o “verdadeiro eu” (i.e, o lado
racional, a consciência humana) à alma ou ao espírito. Eles dizem que você é um espírito,
possui uma alma e habita em um corpo. Em outras palavras, este seu corpo é um mero
revestimento, pois a sua consciência, racionalidade, fonte dos pensamentos, é tudo
relacionado à alma, e não ao corpo. O interessante é que o salmista disse explicitamente
que na morte “os pensamentos perecem” (cf. Sl.6:5). Se a racionalidade é atribuída à alma
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 130
e não ao corpo, é lógico que a citação bíblica diz respeito à alma. Não esperaríamos que o
salmista dissesse que depois da morte não há mais pensamentos se estes continuassem no
pós-vida através do mesmo “processador” que os mantinha ativos aqui na terra: a alma.
Em terceiro lugar, a descrição é com relação ao estado dos mortos. Quanto a isso não
resta dúvidas de que eles sabiam muito bem que era um estado de plena inconsciência,
caracterizado como um “sono” (cf. Jó 14:11-12; cf. Sl.76:5; 90:5), e nisso vemos
unanimiidade entre todos os salmistas e escritores do Antigo Testamento. Se o estado dos
mortos fosse de consciência e de atividade, então a figura usada não seria uma que indica
que os mortos estão dormindo, mas uma que indicasse que eles estão acordados. O fato do
“sono” ser utilizado como metáfora para o estado dos mortos prova que os escritores
bíblicos acreditavam que os mortos não estavam conscientes, pois se assim o fosse
escolheriam uma metáfora de “acordado”, e não de “dormindo”.
Em quarto lugar, as referências tratam-se de indivíduos, e não de meros corpos. É a
pessoa integral que morre, é a pessoa integral que perecem os pensamentos. Deus não
disse: “no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma
sobreviverá num estado desincorporado”. Antes, declarou: “Vós”, ou seja, a pessoa inteira,
“morrereis”. Deus não disse que “a alma que pecar, essa viverá eternamente em um estado
desencarnado”; ao contrário, disse que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4).
No livro de Daniel, o próprio Deus chega a ele e diz: “Tu, porém, vai até ao fim; porque
descansarás, e te levantarás na tua herança, no fim dos dias” (cf. Dn.12:13). Deus estava
falando com indivíduo Daniel ou só com o corpo dele? “Tu, porém” é uma referência ao
próprio Daniel como pessoa, e não somente ao corpo dele! “...porque descansarás”... quem
descansarás? O indivíduo Daniel ou só o corpo dele? Não seria melhor então Deus corrigir a
sua frase para não confundir ou enganar Daniel e dizer: “porque o teu corpo
descansarás”... como induzem os imortalistas? Não, Deus não disse para Daniel: “teu corpo
dormirá, mas você ficará comigo”! É ao próprio Daniel, a pessoa integral, que são referidas
todas essas coisas. Deus estava falando com o ser racional de Daniel, e é o seu ser racional
que “descansaria” com a morte e só “despertaria” no final dos dias.
É extremamente confuso e incoerente crer que Deus estava falando apenas com o corpo
de Daniel, mas não com o ser racional pensante (alma) dele! Ele não estava falando
apenas com a “carcaça”, Ele estava falando com o ser pensante, racional, o verdadeiro “eu”,
que na visão dos imortalistas é a alma. Portanto, a passagem se aplica à alma. Mas quando
eles veem que essa mesma passagem fala em descansar e se levantar (i.e, morrer e
ressuscitar) para somente no final dos tempos entrar na sua herança celestial, aí a conversa
muda, não é mais a alma não, é só o corpo mesmo!
Então, a regra “exegética” dos imortalistas baseia-se no seguinte raciocínio: o “verdadeiro
eu” do ser humano é a alma, e, portanto, as citações diretas ao “eu” se referem à alma, ao
indivíduo como ser racional. Mas se algum texto bíblico fala do “eu” dormindo,
ressuscitando ou em estado inconsciente, aí não é mais a alma, é só o corpo mesmo! Essa
teologia confusa só pode ser fruto do desespero em precisar negar a obviedade dos textos
bíblicos que clarissimamente negam um estado consciente do ser racional na morte.
As suas crenças baseadas numa tradição que diz que a alma é imortal é tão forte que eles
são forçados, estando ou não de acordo com as regras básicas da exegese e da
hermenêutica, a negarem a priori qualquer texto bíblico que fale do “eu” em estado
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 131
inconsciente, ou de morte, ou de ressurreição, conquanto que em todas as outras ocasiões
na Bíblia este “eu” se refira à alma. Isso tudo somente para salvar uma crença confusa,
antibíblica e cheia de engano, que necessita de verdadeiros “malabarismos teológicos” para
sustentá-la. Por mais incrível que possa parecer, os imortalistas conseguem o extraordinário
feito de “interpretarem” Daniel 12:13 da seguinte maneira:
“Tu – isto é, o teu corpo, mas não a tua alma – vai até o fim; porque o teu corpo
descansarás, e somente ele se levantará na sua herança, no fim dos dias, enquanto você já
estará comigo no Céu muito antes disso”
Vejam só até onde eles precisam chegar para salvar a tese da alma imortal! De fato, a
interpretação simples, correta e objetiva dessa passagem mostra exatamente o inverso
disso:
“Tu [i.e, o indivíduo como pessoa, o ser racional, corpo e alma], porém, vai até ao fim;
porque [tu – corpo e alma, ser integral] descansarás, e [tu – corpo e alma, ser integral]
levantarás na tua herança, no fim dos dias”
O sujeito (“tu”), como vimos, se aplica ao próprio Daniel como pessoa, e a pessoa não se
resume ao seu corpo somente, mas a corpo e alma. E este mesmo sujeito é repetido
no mesmo contexto sequencialmente em se tratando de morte e ressurreição, e de entrar
na herança celestial somente no fim dos tempos. Definitivamente, uma exegese honesta e
sincera desfaz completamente as “interpretações” dos imortalistas, porque um exame
bíblico sincero e honesto desmente completamente o engano da imortalidade da alma.
Em quinto lugar, os escritores falavam da vida do além: “Tudo quanto te vier à mão para
fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde vais, não há obra, nem
projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Ec.9:10 - ARA). E é no “além” que
não há obra, projeto, conhecimento ou sabedoria! No “além” [Sheol] não existe inteligência
ou razão [khesh-bone'], logo, não há consciência. A palavra aqui utilizada no original
hebraico é “Sheol”, que, segundo os imortalistas, é a morada consciente dos espíritos,
enquanto que a sepultura seria o destino unicamente do corpo. Ocorre que Salomão diz que
no Sheol, isto é, neste local que os imortalistas dizem estar a alma à parte do corpo e
vivendo conscientemente, não há obra, nem projetos, nem conhecimento e nem
sabedoria alguma.
Como poderiam eles estarem fazendo referência apenas ao corpo, se o autor bíblico fala do
“além” [Sheol], que os próprios imortalistas admitem ser o destino da alma e não do corpo,
e dizem que neste local para onde a alma vai não existe qualquer c onhecimento, sabedoria
ou obra? Se fosse mesmo da opinião dos escritores bíblicos de que é apenas o corpo que
fica inconsciente após a morte, eles não teriam retratado o Sheol (onde ficaria a alma)
como um local onde não existe consciência, no máximo falariam da sepultura (onde ficaria o
corpo) desta maneira. Portanto, as citações dizem respeito ao corpo e à alma, ao todo do
ser humano, ao ser vivo como pessoa, corpo e alma, e não apenas a uma parte dele.
Em sexto lugar, os escritores do Antigo Testamento não acreditavam que a alma
permanecia viva, mas que ela morria: “Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas
almas da morte, mas entregou à pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50); “Quem contará o
pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos
justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10); “E naquele mesmo dia tomou Josué a
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 132
Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei, a eles, e a toda a alma que nela
havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó” (cf.
Js.10:28). Se a alma morre, então ela não é imortal. E, se os escritores bíblicos não
hesitavam em mencionar a morte da alma, então as diversas menções explícitas à
inexistência no pós-vida não tem relação somente ao destino do corpo.
Em sétimo lugar, a Bíblia também declara que o local da alma seria a cova (não era apenas
o destino corporal): “Eis que foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém,
amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti
todos os meus pecados” (cf. Is.38:17); “Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer
para a cova, e viverei para desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). Embora os escritores bíblicos
pudessem perfeitamente colocar em pauta a sua visão “dualista” de que era apenas o corpo
morto que partiria para a sepultura, enquanto a alma supostamente tomasse um rumo
diferente, eles fazem questão de mencionar que o destino do corpo é o mesmo destino da
alma – a cova (cf. Sl. 94:17; Is. 38:17; Jó 33:28; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:30). Se eles
retratavam a alma na cova, então não era crença deles de que fosse apenas um corpo
morto que já descesse na morte.
O que vemos em todo o Antigo Testamento é, portanto, a confirmação daquilo que nós
vimos historicamente: que a doutrina da imortalidade da alma era completamente estranha
para os hebreus, só se tornando realidade para os helenistas a partir da diáspora judaica. É
mais do que claro que, para os escritores do Antigo Testamento, a alma ia para apenas um
lugar após a morte, que por sinal era o mesmo de justos e ímpios: a sepultura (Sheol).
Este é o lugar de silêncio do qual o salmista fala, este é o local onde perecem os
pensamentos (cf. Sl.146:4), onde é impossível louvar a Deus (cf. Sl.6:5), onde os mortos
não sabem de coisa nenhuma (cf. Ec.9:5), onde a memória dos mortos jaz no esquecimento
e perecem sentimentos de amor, ódio e inveja (cf. Ec.9:5,6), o local onde não há mais
sabedoria alguma e nem planejamento (cf. Ec.9:5), o local onde a pessoa já não existe (cf.
Jó 7:21) e para a alma [a própria pessoa] vai após a morte (cf. Sl.94:7; Is.38:17).
Não é no Céu ou no inferno. É no pó da terra (cf. Gn.3:19; Sl.22:15; Is.26:19; Jó 7:21;
Dn.12:2). Haverá, porém, o dia em que “muitos dos que dormem no pó da terra
despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf.
Dn.12:2). Essa é a verdade bíblica, presente não só na teologia do Antigo Testamento, mas
também a mesma do Novo, como veremos no próximo capítulo.
VII–Conclusão
Pelos escritos do Antigo Testamento, podemos afirmar categoricamente a crença deles de
que:
Numeração Declarações relativas ao estado dos
mortos
Base bíblica
veterotestamentária
1 Os mortos não estão cônscios de
coisa nenhuma
Eclesiastes 9:5
2 Um cachorro vivo vale mais do que
um leão morto
Eclesiastes 9:4
3 No “além” [Sheol] não há sabedoria Eclesiastes 9:10
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 133
[khok-maw']
4 No “além” [Sheol] não há
conhecimento [dah'-ath]
Eclesiastes 9:10
5 No “além” [Sheol] não há inteligência
[khok-maw']
Eclesiastes 9:10
6 No “além” [Sheol] não há dispositivo
de razão [khesh-bone']
Eclesiastes 9:10
7 Apenas os vivos [os que estão
“debaixo do sol”] estão com vida
Eclesiastes 4:2
8 A vantagem dos homens sobre os
animais é nenhuma
Eclesiastes 3:19
9 O destino de bons e de ímpios é o
mesmo depois da morte
Eclesiastes 2:14,15
10 O destino dos homens e dos animais
é o mesmo depois da morte
Eclesiastes 3:20
11 Fôlego de vida é a mesma coisa que
espírito
Gênesis 2:7; Jó 33:4;
32:8; Isaías 42:5
12 O fôlego de vida dos homens é o
mesmo dos animais e não há
diferença entre eles
Eclesiastes 3:19
13 O espírito de toda a carne [justos e
ímpios] volta para Deus por ocasião
da morte
Eclesiastes 12:7
14 A memória dos mortos jaz no
esquecimento
Eclesiastes 9:5
15 Sentimentos como amor, ódio e
inveja já pereceram para os mortos
Eclesiastes 9:4
16 Na morte não há lembrança de Deus Salmos 6:5
17 Os mortos não louvam ao Senhor Isaías 38:19
18 Na morte os homens não têm
proveito nenhum para Deus
Salmos 30:9
19 Os mortos não pensam Salmos 146:4
20 Os mortos estão numa terra de
silêncio
Salmos 115:17
21 A alma vai para um lugar de silêncio Salmos 94:17
22 A alma vai para a cova Jó 33:18,22,28
23 Nós só veremos a Deus no tempo do
fim
Jó 19:25-27
24 Nós só veremos a Deus após a
ressurreição
Salmos 17:15
25 Nós só entramos em nossa herança
celestial na ressurreição do final dos
dias
Daniel 12:13
26 Os mortos não olham mais para a
humanidade
Isaías 38:11
27 Os mortos estão numa terra de
esquecimento
Salmos 88:12
28 O único destino do homem após a
morte é a sepultura
Jó 17:13
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 134
29 O homem é como os animais que
perecem
Salmos 49:12
30 As referências ao “dormir” tratam-se
de indivíduos, do ser racional, e não
de meros corpos
Daniel 12:13
31 Até não haver mais céus, o homem
não despertará e nem levantará de
seu sono
Jó 14:10-12
32 O homem na morte já não existe e
Deus não pode encontrá-lo
Jó 7:21
33 O homem na morte torna-se como
um lago ou rio cujas águas se
secaram
Jó 14:11-12
34 O homem não levanta de seu estado
de inatividade até “não existirem
mais céus”
Jó 14:12
35 Os ímpios não possuirão uma
eternidade, mas serão devorados,
consumidos, eliminados, não
existirão e serão exterminados
Salmos 21:9; 37:22; 37:9;
37:10; Provérbios 10:25
36 Os ímpios deixarão de existir e
apenas os justos viverão para
sempre
Salmos 104:35; 49:8,9;
Provérbios 2:22; 19:16;
11:19
37 No dia do Juízo, o Senhor não
deixará nem raiz e nem ramo dos
ímpios
Malaquias 4:1
38 Neste mesmo dia, os ímpios se farão
em cinzas debaixo dos pés dos justos
Malaquias 4:3
39 A alma repousa após a morte Salmos 23:13
40 A alma também pode sofrer
decomposição; contudo, é passível
de ser resgatada [na ressurreição]
para viver para sempre e não sofrer
decomposição [na sepultura]
Salmos 49:8,9
41 Os mortos não mais confiam na
fidelidade de Deus
Isaías 38:18
42 Os mortos não falam da fidelidade de
Deus
Salmos 88:12
43 Não existem gritos no “além” (Sheol) Jó 3:18
44 Sheol não é uma “morada de
espíritos”, mas uma figura da
sepultura
Gênesis 37:35; Salmos
141:7
45 O “além” (Sheol) é um lugar de
repouso
Jó 3:11,13,17; 3:18
46 O Sheol é um lugar de silêncio Salmos 115:17; 94:17
47 O Sheol é um lugar de escuridão (e
não de “fogo”, o que remeteria a
luminosidade)
Jó 10:20,21; Salmos
88:10-12
48 São os ossos (e não “espíritos”) que
descem ao Sheol na morte
Salmos 141:7
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 135
49 Os mortos não veem mais a luz Salmos 49:19
50 Todos descem para o Sheol na morte Jó 3:11-19
51 O Sheol é o pó da terra Jó 17:16
52 O local de habitação na morte é no
pó da terra
Isaías 26:19
53 A consciência dos mortos é
comparada com o pó da terra – ou
seja, não há nenhuma
Salmos 30:9
54 Até as ovelhas vão para o Sheol na
morte
Salmos 49:14
55 O mau não está no inferno. Está
“reservado” no túmulo até o dia do
juízo
Jó 21:28-32
56 O homem tornou-se (não “obteve”)
uma alma
Gênesis 2:7
57 Não existe alma sem sangue Levítico 17:11; Gênesis:
9:4,5
58 O corpo é a alma visível Levítico 19:28; 21:1,11;
22:4; Números 5:2;
6:6,11; 9:6,7,10; 19:11,13
59 A estrutura dos homens é puramente
o pó
Salmos 103:14; Gênesis
18:27
60 Apenas os vivos possuem o “espírito
de vida”
Gênesis 7:15
61 A alma [nephesh] pode ser
totalmente destruída
Josué 10:28, 30, 32, 35,
37, 39
62 O processo que ocorre aos homens é
o mesmo processo que sucede aos
animais na morte
Salmos 104:29; Eclesiastes
3:19,20
63 Espírito significa “vida” e não um ser
inteligente que sai do corpo na hora
da morte
Salmos 104:29; Jó 12:10
64 Tanto homens como animais expiram
o espírito-ruach na morte
Salmos 104:29; Eclesiastes
12:7
65 A alma morre Ezequiel 18:4,10
66 A alma é exterminada Josué 10:28
67 A morte do corpo é a morte da alma Números 31:19; 35:15,30;
Josué 20:3,9; Gênesis
37:21;
68 A alma-nephesh pode ser
transpassada mortalmente
Deuteronômio 11:9
69 Se você matar uma alma, poderá
fugir para uma cidade de refúgio
Josué 20:3
70 A alma emagrece Salmos 106:15
71 A alma sente sede Isaías 29:8
72 A própria vida vai para a sepultura
após a morte
Salmos 88:3
73 A alma vai para a cova da corrupção
[sepultura]
Isaías 38:17
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 136
74 Até o sangue desce ao Sheol na
morte
1 Reis 2:9
75 O homem é um ser mortal e não
imortal
Jó 9:2; 10:15; 4:17;
Salmos 56:4; 9:17; Isaías
51:12
76 O Antigo Testamento nunca usa os
termos para “eterno” ou “imortal”
para a alma
Nunca usa mesmo
77 O homem retorna para o pó na morte Salmos 103:14; Gênesis
3:19; 18:27
78 Os animais também são
denominados de “almas viventes”
Gênesis 1:20,21,24,30;
2:19; 9:10,12,15,16
79 O homem não comeu da árvore da
vida para ser imortal vivendo
eternamente
Gênesis 3:24
80 A presença da “árvore da vida” no
jardim do Éden indica que a
imortalidade era condicional à
participação do fruto de tal árvore
Gênesis 2:9
81 O conhecimento do bem e do mal foi
adquirido ao comerem da árvore da
ciência do bem e do mal; mas a
imortalidade não foi adquirida pois o
homem não comeu da árvore da vida
Gênesis 2:22,23
82 No relato da Criação de Gênesis 1 e 2
nada é dito de Deus ter formado
dentro do homem uma “alma” ou
“espírito” imortal
Nada mesmo
83 Os animais também possuem
espírito-ruach
Gn.6:17; Gn.7:21,22;
Gn.7:15; Sl.104:29
84 O homem certamente morreria
(Heb.: Morrendo, morrerás)
Gênesis 2:7
85 A mentira da serpente [Satanás] é a
base da doutrina imortalista:
“Certamente que não morrerás”
Gênesis 3:4
Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e honestidade constata com facilidade que
definitivamente os escritores do Antigo Testamento não acreditavam absolutamente em
nenhuma vida logo após a morte. Eles tinham a consciência de que só voltariam de seu
estado de inatividade com o despertar da manhã da ressurreição. Esse pensamento não é
contrário ao do Novo, pelo contrário, o ensinamento neotestamentário confirma o Antigo.
VIII–Estavam enganados os escritores do Antigo Testamento?
“Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa” (cf.
Números 23:19)
Até este ponto já vimos inúmeras evidências claras de que nenhum escritor do Antigo
Testamento acreditava em uma vida logo após a morte ou em um estado intermediário das
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 137
almas. Também já refutamos os argumentos usados pelos imortalistas numa tentativa de
anular as esmagadoras evidências do Antigo Testamento. À luz de tudo isso, devemos
perguntar: “estariam certos os escritores do Antigo Testamento em pregar a inconsciência
após a morte, ou eles estariam enganados em suas teologias por terem pouco
conhecimento”?
Por mais estranho que possa parecer, sim, existem imortalistas mais honestos, que
admitem que os escritores do Antigo Testamento negavam a vida após a morte, mas
tentam contornar este fato dizendo apenas que “eles tinham um conhecimento limitado” e
que o Novo Testamento “corrigiu o Antigo” e começou a pregar a imortalidade da alma.
Porém, não restam dúvidas que os escritores do Antigo Testamento não estavam sendo
enganados. Na verdade, se os escritores veterotestamentários estavam sendo enganados,
então quem os estava enganando era o Espírito Santo, pois é Ele quem inspirou as
Sagradas Letras:
“Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e
perfeitamente habilitado para toda boa obra” (cf. 2ª Timóteo 3:16)
Notem que toda a Escritura é declarada como sendo inspirada, o Antigo Testamento não
era uma exceção à regra. Se, portanto, eles erraram, então erraram inspirados pelo Espírito
Santo! Ou pior: o próprio Espírito Santo, que inspirou as Escrituras, levou os escritores do
Antigo Testamento a errarem! Eles estavam escrevendo enganos inspirados!
De fato, a única diferença entre os escritores do Antigo e do Novo Testamento é que no
Novo o foco é maior na ressurreição dos mortos para a vida eterna, enquanto que no Antigo
o foco é maior no estado imediato pós-morte, uma vez que eles não conheciam Jesus para
saberem que são ressuscitados com a Sua Volta, embora soubessem que no final seriam
ressuscitados e recompensados para herdarem a vida eterna (cf. Dn.12:2; Jó 19:25-27;
Sl.58:9-11; Sl.37:22; Sl.37:9). Ou seja: ambos refutam a imortalidade da alma, mas cada
um da sua maneira.
Os autores do Antigo Testamento não estavam inspiradamente errados e nem enganando o
povo do século XXI, a única coisa que mudava era o foco, concentrado no estado dos
mortos imediatamente após a morte: de inconsciência. No Novo Testamento, a ressurreição
de Cristo assegura a nossa própria ressurreição (cf. 1ª Coríntios 15), como primícia
daqueles que dormem para um dia entrarem na vida eterna. Por isso, enquanto o foco
veterotestamentário é no estado atual dos mortos de inconsciência, o foco
neotestamentário é totalmente na ressurreição dos mortos para a vida eterna, como
veremos mais adiante neste estudo ao analisarmos o Novo Testamento e a sua posição com
relação à vida pós-morte.
É fato que eles sabiam que, no tempo do fim, voltariam a ver a Deus (cf. Jó 19:25-27),
quando até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11). O salmista também escreve que
Deus não esqueceria a sua alma no Sheol, mas lhe receberia com Ele (cf. Sl.49:15), o que o
Novo Testamento atribui à ressurreição dentre os mortos (cf. At.2:27). O Antigo
Testamento nos mostra a realidade da ressurreição “para a vida eterna ou para o desprezo
eterno” (cf. Dn.12:2), e que eles entrariam na herança quando se “levantassem” (cf.
Dn.12:13), uma figura da ressurreição. Davi deixa implícito que um dia os mortos
ressurgiriam para louvar a Deus (cf. Sl.88:10), e em outra passagem deixa claro que veria
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 138
a Deus “quando despertasse” (cf. Sl.17:15), novamente um indicador da ressurreição dos
mortos.
Jesus Cristo também aplica o texto de Êxodo 3:6 {Sou o Deus de Isaque, Abraão e Jacó}
como prova da ressurreição dos mortos (cf. Lc.20:37). Em Atos 13:34,35, vemos Paulo
aplicando o texto de Isaías 55:3 como prova da ressurreição. Neste mesmo livro, há a
menção explícita de que “os vossos mortos revivam; que seus cadáveres ressuscitem!” (cf.
Is.26:19). Ezequiel nos diz que a alma pode sofrer a morte final ou viver (cf. Ez.18:4,20), e
o salmista afirma que “a herança deles [dos salvos] será eterna” (cf. Sl.37:18) e que terão
uma vida eterna (cf. Sl.37:27).
Quanto à realidade do juízo vindouro, eles também tinham esse conhecimento, pois
afirmavam que “o Senhor não o abandonará em suas mãos e, quando for julgado, não o
condenará” (cf. Sl.37:33). Eles sabiam que seriam julgados, mas esperavam não sofrer a
condenação. Da mesma, Salomão também inclui o fato de que os mortos seriam julgados
um dia, quando Deus um dia "de todas estas coisas nos pedirá contas" (cf. Ec.11:9). O
próprio “livro da vida” era realidade não apenas ao período neotestamentário, mas no
próprio Antigo Testamento (cf. Sl.69:28; Sl.139:16; Êx.32:33).
Por tudo isso (e muito mais) torna-se inútil a tentativa frustrada por parte dos imortalistas
em dizer que os escritores do Antigo Testamento não tinham o devido conhecimento por
suas “limitações da época” ou que não acreditavam na ressurreição para a vida eterna ou
no juízo vindouro. É claro que eles acreditavam nestas coisas, só não aceitavam na doutrina
herética da imortalidade da alma e, por isso, não faziam menção nenhuma a ela. Ademais,
existem certas passagens do Antigo Testamento que não podem ser um “engano” dos
escritores por “falta de conhecimento”, simplesmente porque é o próprio Deus vivo
(imutável, que não pode mentir) que disse tal coisa.
Por exemplo, em Ezequiel 18:4,20 (ao falar da morte da alma) é o próprio Deus falando ao
profeta, e não apenas um pensamento deles. Também em Daniel 12:13 é o próprio Deus
dizendo ao profeta que este só entraria na sua herança prometida no final dos tempos ,
através da ressurreição dos mortos (ser “levantado” – cf. Dn.12:13 com Jo.3:14; 12:32, 34,
que é uma figura da ressurreição) para só neste momento entrar na sua herança, no final
dos tempos, e não imediatamente em seguida por meio de uma “alma imortal”. Isso não
era apenas um “pensamento do profeta”, mas era o próprio Deus falando para ele, e Deus
não pode mentir.
Inúmeros exemplos poderiam ser citados aqui. E, mesmo quando é apenas o escritor bíblico
fazendo as suas ponderações, temos que lembrar que ele estava sendo dirigido e inspirado
pelo Espírito Santo (cf. 2Tm.3:16). Embora tenham sido homens aqueles que escreveram
as mensagens, "nunca, jamais, qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto,
homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (cf. 2Pe.1:21). O Espírito
Santo é imutável. Isso significa que ele não poderia ter inspirado um autor a escrever uma
coisa sobre os mortos e depois inspirado outro a escrever uma coisa totalmente diferente.
A Bíblia não é contraditória em seus ensinamentos. Os escritores do Antigo Testamento
sabiam que iam levantar do estado de inatividade (cf. Dn.12:13; Dn.12:2; Jó 19:25-27;
Sl.49:15; Sl.73:21-24). Essa não é uma posição contraditória à do Novo Testamento, muito
pelo contrário, é a mesma do Novo (cf. 1Co.15:18; 1Co.15:22,23; Jo.14:3; 2Tm.4:6-8).
Jamais poderíamos imaginar que os escritores do Novo Testamento fossem contradizer o
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 139
Velho! Ainda mais quando vemos noções de que a única fonte de fé deles era a Escritura, e
não a tradição judaica, sabiam também que toda Escritura era divinamente inspirada (cf.
2Tm.3:16), e citavam inúmeras vezes partes da Escritura para basear os seus ensinos,
principalmente tratando-se das epístolas apostólicas.
Fica muito claro que todos os apóstolos liam as Escrituras e as compreendiam, colocavam-
nas como a fonte de fé divinamente inspirada e baseavam os seus escritos fundamentando-
se também naquilo que tinham de Escritura na sua época - o Antigo Testamento. Os
cristãos de Bereia foram desafiados a consultarem nas Escrituras para verem se aquilo que
Paulo dizia era mesmo verdade (cf. Atos 17:11), e eles foram elogiados por isso. Temos que
lembrar que, naquele tempo, a única “Escritura” que eles possuíam era precisamente
o Antigo Testamento.
É completamente impossível pensarmos que os apóstolos estavam pregando um evangelho
diferente daqueles que eles tinham como referência no Antigo Testamento. Se Paulo
pregasse a imortalidade da alma contraditoriamente ao ensinamento claro do Antigo
Testamento, os cristãos de Bereia teriam “desmascarado” ele, pois estes “eram mais nobres
do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse,
examinando todos os dias as Escrituras [AT], para ver se tudo era assim mesmo”
(cf. At.17:11). Até mesmo Jesus desafiava a procurarem na Escritura, o Antigo Testamento
(cf. Mt.21:42).
Jesus citava repetidamente o Antigo Testamento, que era a Escritura vigente em Seu
tempo. Reconhecia sua autoridade como livro histórico, como um manual de instrução da
vida prática, e também como fonte de doutrina religiosa. O apóstolo João também diz para
examinar as Escrituras (cf. Jo.5:39), a exemplo de Paulo que incentivava Timóteo a
examinar a Escritura (cf. 2Tm.3:15) e a dedicar-se à leitura pública dela (cf. 1Tm.4:13).
Devemos sempre lembrar que a única Escritura que eles tinham disponível naquela época
era exatamente os escritos do Antigo Testamento. Jesus Cristo repetidamente citava as
Escrituras e mantinha a sua firme posição de que o Antigo Testamento era a Palavra de
Deus escrita, afirmando inúmeras vezes que "está escrito ... está escrito ... está escrito ..."
(cf. Mt.4:4,7,10).
Esta frase aparece mais de noventa vezes no Novo Testamento, o que nos mostra que não
apenas Jesus, mas todos os apóstolos criam ser o Antigo Testamento regra confiável de fé e
doutrina que não poderia ser anulada, confirmando a suprema autoridade divina da Palavra
de Deus escrita. Ao contrário do que pensam alguns, o Antigo Testamento não é apenas um
bom livro de regras morais, mas é também regra de doutrina religiosa, de fonte de ensino
(cf. 2Tm.3:16). Afinal, “tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (cf.
Rm.15:4)!
Ademais, as Escrituras declaram enfaticamente que “é impossível que Deus minta" (cf.
Hb.6:18). O apóstolo Paulo confirma o fato declarando que "Deus que não pode mentir" (cf.
Tt.1:2), pois Ele é “o mesmo ontem, hoje e eternamente” (cf. Hb.13:8), Ele é o Senhor e
não muda (cf. Ml.3:6), é o Deus onisciente, “que não muda como sombras inconstantes”
(cf. Tg.1:17) e, portanto, não poderia colocar doutrinas falsas em Sua Palavra e depois ter
mudado de opinião no Novo Testamento, especialmente em doutrina religiosa com relação à
vida após a morte.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 140
Ele é a Verdade (cf. Jo.14:6), e Jesus declarou ao Pai que “a tua Palavra é a verdade” (cf.
Jo.17:17). Não há como imaginarmos que poderia haver alguma mentira incluída nas
Escrituras sobre o estado dos mortos, pois isso faria de Deus um mentiroso, mas “as tuas
palavras são em tudo verdade” (cf. Sl.119:160). Em tudo, inclusive no Antigo Testamento!
O Antigo Testamento é Palavra de Deus tanto quanto o Novo e, por isso, não pode mentir e
nem mudar de opinião como parte dos imortalistas pensam que mudou. Jesus referiu-se ao
Antigo Testamento como sendo a "Palavra de Deus", que "não pode falhar" (cf. Jo.10:35).
Ela veio “da boca de Deus” (cf. Mt.4:4) e, por isso, não contém falsos ensinamentos.
Jesus confirmou várias vezes que o Antigo Testamento era Palavra de Deus ao afirmar aos
fariseus que eles estavam "invalidando a palavra de Deus" pela sua própria tradição (cf. Mc
7:13). Paulo declara a mesma posição ao referir-se às Escrituras como sendo "a palavra de
Deus" (cf. Rm.9:6). Enquanto Paulo lhes expunha as Escrituras (AT), a Bíblia afirma que ele
expunha a “palavra de Deus” (cf. At.13:44; At.18:11). Os cristãos que foram dispersos
anunciavam a “palavra de Deus” (cf. At.13:5), tendo como única fonte de fé exatamente o
Antigo Testamento. Igualmente, o autor de Hebreus afirma que eles presisavam serem
ensinados “novamente sobre os princípios elementares da palavra de Deus” (cf. Hb.5:12). O
único lugar onde os hebreus eram ensinados era nas Escrituras; o autor de Hebreus,
portanto, a coloca como a sendo a “palavra de Deus”.
Isso tudo nos mostra que o Antigo Testamento era considerado como “Palavra de Deus”, e
Deus não pode mentir, enganar, mudar de ideia depois ou ter falta de conhecimento sobre
determinado tema. É bem notório que “aquele que desobedecer a um desses mandamentos,
ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no
Reino dos céus” (cf. Mt.5;19). Jesus afirmou categoricamente que "até que o céu e a terra
passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra" (cf. Mt 5:18).
Os defensores da imortalidade da alma não apenas tiram vários “is” ou “tios” de Eclesiastes,
dos Salmos, de Daniel, Jó, de Isaías, Ezequiel, etc, como também adicionam nela o que eles
jamais mencionaram: a falsa doutrina da imortalidade da alma.
Não, os apóstolos não eram contrários àquilo que a Palavra lhes ensinava. Ensinamentos
morais de regra de doutrina e de fé, jamais poderiam ter sido alterados! Isso nada mais é
do que uma artimanha maligna para desqualificar as doutrinas bíblicas, negar a
infalibilidade doutrinária das Escrituras e negar que um mesmo Espírito inspirou e dirigiu
ambos os Testamentos que não podem ser contraditórios entre si. Um confirma o outro, e
não o anula ou o altera como “totalmente ultrapassado”! O que Satanás mais quer é anular
a Escritura, que “jamais pode ser anulada” (cf. Jo.10:35), passando a ideia de que os
ensinamentos veterotestamentários estão ultrapassados e fora de tempo e que o Novo
Testamento contradiz o Antigo Testamento e a Bíblia choca-se consigo mesma em questão
de doutrina.
Essa artimanha maligna tem enganado milhões de pessoas no mundo todo que acabam
mesmo que impropositalmente renegando o Antigo Testamento que é a Palavra do Deus
vivo, desacreditando nela e, pior ainda, se opondo às Escrituras! A conclusão que vemos,
que ficará ainda mais clara após analisarmos o conteúdo do Novo Testamento, é que eles
não contrariavam o Velho, pelo contrário, o confirmavam. O Novo Testamento não anula
o Velho, mas o confirma, porque os dois fazem parte da Palavra de Deus escrita,
que não engana ninguém.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 141
Para refutar tais indivíduos, não basta simplesmente dizer que o Antigo Testamento está na
Bíblia tanto quanto o Novo Testamento. Eles vão dizer que a circuncisão, a guarda do
sábado e outros ritos cerimoniais, festas judaicas, lei mosaica, foi tudo abolido na Nova
Aliança. E pra eles a mortalidade da alma foi junto e a alma se tornou imortal, ou melhor,
“descobriram” isso! Ocorre aqui que o que foi abolido na Antiga Aliança não tem nada a
ver com assuntos sobre vida após a morte, mas sim com a lei cerimonial, isto é com
o lado cerimonial da lei que impunha uma série de obrigações ao povo judaico, a maioria da
qual foi abolida por Cristo na Nova Aliança, chegando ao fim desde que Jesus ressuscitou.
Desde que Jesus ressuscitou não precisamos mais nos circuncidar no oitavo dia, não
precisamos mais celebrar um ano do Jubileu, não precisamos de mais cidades de refúgio,
não precisamos festejar a festa do Purim, fazer ofertas diversas que estavam prescritas na
Lei, observar dias de festa, sacrificar um cordeiro todos os dias, etc. Porque essas coisas
chegaram fazem parte da lei cerimonial judaica, e foi substituída por alguma outra coisa
no Novo Testamento.
Por exemplo, a circuncisão foi substituída pelo batismo (cf. Cl.2:11-12), o sacrifício de
cordeiros foi substituído pelo sacrifício do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo (cf. Hb.9:13-14), o
sábado cerimonial era uma representação descanso celestial eterno (cf. Hb.4:4-11), e assim
por diante. Mas a imortalidade ou mortalidade da alma não é uma obrigação
cerimonial da lei judaica! Ou seja: não tem nada a ver! Impossível que a alma fosse
mortal até Jesus morrer na cruz e imortal depois que Ele ressuscitou! Isso não tem qualquer
ligação com as cerimônias judaicas que foram abolidas no Novo Concerto! Prova disso é que
os próprios pregadores da imortalidade da alma (sejam católicos ou protestantes) pregam
muitas coisas provenientes do Antigo Testamento.
Para ser mais sincero, a maioria das pregações atuais baseiam-se muito mais no Antigo
Testamento do que no Novo. Pregam sobre os patriarcas, sobre os reis de Israel, sobre os
Dez Mandamentos, sobre o dízimo, sobre não fazer imagens de escultura baseando-se em
Êxodo 20:4 (que desde que me lembro se encontra no AT), sobre não falar o nome de Deus
em vão (apenas alusões sobre juramentos são feitas no NT, mas sobre não falar o nome de
Deus em vão em qualquer situação é mandamento apenas do AT, não sendo repetido no
NT, e mesmo assim todos consideram verdadeiro), sobre não praticar incesto (que por
incrível que pareça só se encontra no AT e não no NT, e mesmo assim todos concordam que
incesto é errado), enfim, pregam inúmeras coisas (doutrinas e práticas) baseando-se no
Antigo Testamento.
Isso significa que eles próprios creem na validade doutrinal do Antigo Testamento para os
nossos dias (embora nem sempre confessem isso abertamente). Se eles creem também no
Antigo Testamento, isso significa que nem tudo do Antigo Testamento foi abolido. Temos,
assim, que usar de critério para sabermos o que foi abolido e o que não foi. Não é
simplesmente fazer como os imortalistas fazem à moda do “bem me quer, mal me quer”
dizendo simplesmente: “essa doutrina eu gosto, ela fica, mas essa eu não gosto, então ela
foi abolida”. Não! Como em tudo na vida, não é o gosto pessoal que determina o que foi
abolido e o que não foi. O que determina é aquilo que Paulo disse aos Colossenses:
“Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma
maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os
principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto,
ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 142
nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (cf.
Colossenses 2:14-17)
Aqui Paulo fala sobre o que que Cristo aboliu (riscou) com a entrada da Nova Aliança. Ele
afirma que Cristo riscou uma cédula de ordenanças, cravando-a na cruz. Ou seja: há coisas
que Cristo deu um fim nelas depois que morreu. Então, para que a questão não ficasse por
demais “vaga”, em aberto, ele afirma expressamente o que é isso que Cristo aboliu: os ritos
e leis cerimoniais da lei judaica relacionados à comida e bebida, aos dias de festa e
sábados. Em outras palavras, ele diz que o que foi abolido diz respeito às práticas e ritos
cerimoniais da lei judaica, como já foi explanado. É isso o que vai embora, e não assuntos
como a vida após a morte, como alguns creem! É evidente que a vida após a morte não era
um cerimonial ou rito da lei judaica.
Portanto, as questões relacionadas aos ritos e cerimônias judaicas que estão prescritos na
lei deles chegaram ao fim, mas os outros assuntos que não tem relação com a lei cerimonial
(que não foram ordenanças dadas somente aos judeus de acordo com a cultura deles)
continuam valendo, evidentemente. É por isso que incesto é proibido, que usar o nome de
Deus em vão é pecado, que a imortalidade da alma é uma falsa doutrina. Porque o Antigo
Testamento condena expressamente essas coisas, e elas não têm qualquer relação com
“leis cerimoniais”!
Sendo assim, a pretensão daqueles que querem por um “fim” ao Antigo Testamento naquilo
que tange ao estado pós-morte fracassa absolutamente. Não, Deus não deixou o povo em
“trevas” no Antigo Testamento sem saber nada sobre a vida após a morte e os enganando
fazendo-os pensar que não existia vida após a morte quando existia. Deus desde sempre
deixou claro que a vida eterna é somente após a ressurreição, e isso desde os tempos do
Antigo Testamento!
Os que dizem que não, geralmente argumentam que o povo do Antigo Testamento não
tinha conhecimento sobre os assuntos relacionados à vida após a morte, o que incluiria a
ressurreição, evidentemente. Mas isso é puramente uma clara distorção da verdade. O
Antigo Testamento ensina clara e explicitamente a ressurreição, tanto quanto
nega clara e explicitamente a imortalidade da alma. É por isso que Daniel fala em
ressurreição:
“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão [quwts], uns para vida eterna, e
outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2)
É por isso que Isaías também explicitamente fala em ressurreição:
“Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão [quwts]; despertai e
exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a
terra lançará de si os mortos” (cf. Isaías 26:19)
E é por isso que o salmista também usa exatamente a mesma palavra no hebraico utilizada
por Daniel e por Isaías para descrever a ressurreição, em um contexto em que ele deixa
claro que ele só veria a Deus depois que “despertasse” [quwts – ressuscitar], e não antes
disso:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 143
“Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar [quwts], ficarei
satisfeito em ver a tua semelhança” (cf. Salmos 17:15)
A ressurreição aparece outras incontáveis vezes no Antigo Testamento de forma indireta,
mas só de mostrar que Davi, Isaías e Daniel escreveram explicitamente sobre a
ressurreição (e ainda dizendo que só obteriam vida eterna e veriam a Deus depois dessa
ressurreição ter se consumado) já nos deixa claro e lúcido que os autores do Antigo
Testamento tinham sim uma visão concreta sobre o que aconteceria após a morte. Assim
como acontece dezenas de vezes no Novo Testamento, os escritores do Antigo Testamento
também falavam sobre ressurreição, também diziam que obteriam vida somente após ela
ter se consumado e também criam que o estado pós-morte era um “sono”:
“Ilumina- me os olhos, para que eu não durma o sono da morte” (cf. Salmos 13:3)
Além disso, eles também tinham uma visão sobre o “livro da vida”, que seria um livro onde
estariam anotados os nomes dos salvos que herdariam a vida eterna:
“Sejam eles tirados do livro da vida e não sejam incluídos no rol dos justos” (cf. Salmos
69:28)
“Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos
no teu livro antes de qualquer deles existir” (cf. Salmos 139:16)
“Respondeu o Senhor a Moisés: Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim”
(cf. Êxodo 32:33)
Eles também tinham uma visão bem concreta de que existiria uma vida eterna:
“Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna,
outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (cf. Daniel 12:2)
“Ele vos pediu a vida, vós lha concedestes, uma vida cujos dias serão eternos” (cf.
Salmos 21:4)
“O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna” (cf. Salmos 37:18)
“É como o orvalho do Hermon, que desce pela colina de Sião; pois ali derrama o Senhor a
vida e uma bênção eterna” (cf. Salmos 133:3)
E eles também tinham uma visão bem concreta no que tange ao pós-morte na questão do
juízo. Criam que Deus um dia julgaria todos os homens:
“E saía um rio de fogo, de diante dele. Milhares de milhares o serviam; milhões e milhões
estavam diante dele. O tribunal iniciou o julgamento, e os livros foram abertos” (cf. Daniel
7:10)
“Por isso os ímpios não resistirão no julgamento, nem os pecadores na comunidade dos
justos” (cf. Salmos 1:5)
“O Senhor reina para sempre; estabeleceu o seu trono para julgar” (cf. Salmos 9:7)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 144
“Trarei vocês para o deserto das nações e ali, face a face, os julgarei” (cf. Ezequiel 20:35)
“Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja
bom, seja mal” (cf. Eclesiastes 12:14)
“Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude!
Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas
essas coisas Deus o trará a julgamento” (cf. Eclesiastes 11:9)
Portanto, tendo em vista tudo isso, dizer que as provas bíblicas abundantes que negam
explicitamente a imortalidade da alma com uma objetividade incontestável “não valem”
somente porque estão no Antigo Testamento, alegando que os escritores bíblicos daquela
época não tinham conhecimento sobre a vida após a morte, é totalmente errado porque:
1º O Antigo Testamento é Palavra de Deus tão inspirada e inerrante em matéria de fé
quanto o Novo (cf. 2Tm.3:16), é fonte de ensino doutrinário (cf. Rm.15:4), é “peneira”
contra falsos ensinos (cf. At.17:11), e, como Deus não pode mentir (Tt.1:2), nem mudar
(cf. Ml.3:6), nem a Sua Palavra falhar (cf. Sl.33:4), jamais teria inspirado errado qualquer
escritor bíblico do Antigo Testamento, nem tampouco permitido que em Sua Palavra
houvessem enganos como fruto de um suposto “conhecimento limitado” em termos de
matéria de fé. Jesus disse que “a Escritura não pode ser anulada” (cf. Jo.10:35). Sendo que
na sua época toda “Escritura” que eles possuíam era o Antigo Testamento, é lógico que
Cristo estava proibindo que anulassem alguma matéria de fé por algum outro ensinamento
(a lei cerimonial não era matéria de fé e doutrina, mas costumes, cerimoniais e rituais
prescritos aos judeus, e isso que chegou ao fim na Nova Aliança).
2º Os próprios imortalistas creem em muitas coisas que estão no Antigo Testamento
(mesmo naquelas que não são explicitamente repetidas no Novo Testamento, tal como não
fazer imagens de escultura, não usar o nome de Deus em vão e não praticar incesto).
3º O que chegou ao fim na Nova Aliança diz respeito à lei cerimonial judaica relacionada
aos ritos e ordenanças prescritos ao povo judeu na época da Antiga Aliança (cf. Cl.2:14-17).
Não tem absolutamente nada a ver com a crença ou descrença na mortalidade ou
imortalidade da alma e no estado dos mortos!
4º Os escritores do Antigo Testamento tinham sim uma visão concreta sobre o que
aconteceria depois da morte. Eles escreviam explicitamente sobre o sono da morte (cf.
Sl.13:3), sobre ressurreição dos mortos (cf. Dn.12:2), sobre a existência do livro da vida
(cf. Sl.69:28) e sobre a realidade do dia do juízo (cf. Ec.12:14), assim como os escritores
do Novo Testamento, que não mudaram nada daquilo que os autores do Antigo acreditaram
e escreveram sobre isso; pelo contrário, reiteraram a realidade de que a morte é um sono e
que a vida eterna é depois da ressurreição e do juízo para condenação final. Ou seja: os
escritores do Antigo Testamento tanto tinham uma visão concreta sobre o destino pós-
morte que os seus ensinos sobre isso serviram como base de tudo aquilo que foi
exaustivamente repetido no Novo Testamento sobre este tema! O Novo Testamento não
mudou nem acrescentou nada ao Antigo, apenas confirmou e reiterou amplamente as
verdades já contidas no tempo veterotestamentário.
5º Portanto, é de todo incoerente dizer que o Antigo Testamento “não vale”. Se Deus havia
revelado a eles a ressurreição dos mortos, por que iria “esconder” a imortalidade da alma
deles? O que Ele ganharia com isso? Tudo o que iria fazer seria deixá-los confusos, crendo
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 145
em uma mentira, e pior ainda: escrevendo na Bíblia, a Palavra de Deus inspirada, infalível e
inerrante, que a alma morre (cf. Js.10:28), é destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da
morte (cf. Sl.78:50), é eliminada (cf. Êx.31;14), é totalmente destruída (cf. Nm.31:19), é
devorada (cf. Ez.22:25), é assassinada (cf. Nm.35:11), é exterminada (cf. At.3:23) e desce
à cova na morte (cf. Jó 33:22). E, além disso, que...
1. Os mortos não podem louvar a Deus, mas somente os vivos – Sl.6:5; Is.38:19.
2. No Sheol (“morada dos mortos”) não há lembrança de Deus – Sl.6:5.
3. No Sheol Deus não é louvado e nem lembrado – Sl.6:5; Is.38:18,19.
4. Os que estão no Sheol não confiam na fidelidade de Deus – Is.38:18.
5. O Sheol é um local de escuridão – Sl.88:12.
6. O Sheol é uma terra de esquecimento, e não de memória – Sl.88:12.
7. Deus está “escondido” daqueles que estão no Sheol – Sl.143:7.
8. Ao morrer, os pensamentos perecem – Sl.146:4.
9. Um cachorro vivo vale mais do que um leão morto – Ec.9:4.
10. Os mortos não sabem de coisa nenhuma – Ec.9:5.
11. A memória dos mortos jaz no esquecimento – Ec.9:5.
12. Sentimentos como o amor já desapareceram para eles – Ec.9:5.
13. No além não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma –
Ec.9:10.
E contra isso não há lei.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 146
CAPÍTULO 5 – A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA NO NOVO TESTAMENTO
I–Introdução ao Capítulo
Já vimos até aqui que a noção da natureza humana na concepção hebraica bíblica é de uma
natureza holista e não dualista do ser humano, confirmado pela descrição da criação
humana de Gênesis 1 e 2 e pelos escritos veterotestamentários que negam em completo a
doutrina de que o corpo é a prisão de uma alma imortal.
A visão bíblica do Antigo Testamento era de que o homem é uma alma, e não de que ele
possui uma, por isso é tão constante a linguagem denotativa de inconsciência no pós-
morte e da própria morte da alma. A noção de dualidade só veio a se tornar realidade para
os judeus helenistas a partir do período intertestamentário, depois da conclusão do Antigo
Testamento, quando o povo judeu esteve exposto na diáspora judaica à filosofias e culturas
helenistas (gregas), que mantinham forte influência nos povos dispersos, incluindo a
concepção do dualismo impregnado por Platão na Grécia Antiga.
Nosso próximo passo, a partir de agora, será estabelecer se o Novo Testamento altera a
Palavra de Deus escrita no Antigo Testamento ou se a apoia, no tocante à natureza humana
e seu destino. Uma absurda falácia que é constantemente utilizada pelos imortalistas como
uma tática de pressão é a de que os mortalistas tem que apelar para as passagens do
Antigo Testamento, porque o Novo não traria vantagem nenhuma à crença na mortalidade
da alma.
Isso, na verdade, é um conceito completamente deturpado do Novo Testamento. Em
primeiro lugar, a Bíblia é uma coisa só. O Antigo Testamento deve ser utilizado como regra
de fé e doutrina tanto quanto o Novo e é tão inspirado quanto o Novo. Em segundo,
pessoalmente, se tivesse que escolher entre o Antigo ou o Novo Testamento para anular a
imortalidade da alma, eu ficaria mil vezes com o Novo. O Novo Testamento não só confirma
o Antigo, como também possui inúmeras provas contra a imortalidade da alma muito mais
do que o Antigo Testamento possui, como veremos ao longo de todo o resto deste estudo.
Prossiga a leitura, e você verá que, de fato, um mesmo Espírito dirigia ambos os
Testamentos, divinamente inspirados, que não se contradizem naquilo que afirmam e que
não entram em choque entre si. A visão do Novo Testamento confirma a visão do Antigo
porque o que os apóstolos tinham como fonte de fé e base de doutrina em sua época (as
Escrituras) eram exatamente os escritos veterotestamentários que negam a visão dualista
de imortalidade da alma. Começaremos com aquilo que foi diretamente dito por Jesus, e
depois passaremos às epístolas apostólicas.
Muitas refutações de teses imortalistas serão feitas nesta parte, cada uma por sua ordem.
Serão passados a partir de agora não somente as provas neotestamentárias da mortalidade
da alma, como também um longo estudo sobre todas as passagens que são utilizadas pelos
imortalistas, como supostas provas do dualismo platônico na Bíblia, refutando todas as
defeituosas interpretações que são feitas em cima delas, e, como veremos, a maioria delas
são provas contra (e não a favor) da visão dualista, sendo descaradamente tiradas de seu
devido contexto ou que não respeitam a regra gramatical dos manuscritos originais do Novo
Testamento, escritos em grego.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 147
CAPÍTULO 5.1 – JESUS PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei
comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. João 14:2,3)
Nós não entraremos em nossas moradas celestiais depois que morrermos, mas quando Ele
voltar. Isso entra em total acordo com o ensinamento bíblico acerca de quando seremos
ressuscitados dentre os mortos e vivificados, que será exatamente nesta segunda vinda:
“Pois da mesma forma como em Adão todos morreram, em Cristo todos serão vivificados.
Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe
pertencem” (cf. 1Co.15:22,23). Se Cristo tivesse a intenção de lhes pregar a imortalidade
da alma indubitavelmente diria que os lugares estariam disponíveis aos salvos conforme
fossem morrendo e as suas almas se achegassem no Céu para assumi-las.
Mas, se Cristo não ensinou a imortalidade da alma, como entender determinadas passagens
bíblicas que tem sido constantemente vistas pela ótica dualista? A primeira delas que
veremos, e que talvez seja a mais explorada pelos imortalistas, é a parábola do rico e do
Lázaro. Para tanto, muitas questões terão que ser abordadas aqui. Questões históricas e
bíblicas, que poucas pessoas levam em consideração, mas que são de extrema importância
para chegarmos a uma conclusão satisfatória.
II–A Parábola do rico e do Lázaro
Um argumento bastante usado pelos dualistas é de que não se trata de uma parábola, pois
ela possui nomes. Ora, isso é totalmente compreensível pelo fato de que os judeus
colocavam Abraão acima de Jesus: “Nosso pai é Abraão ... És maior do que o nosso pai
Abraão?” (cf. Jo.8:39,53; Mt.3:9). O que simplesmente Jesus faz é pôr na boca Abraão
exatamente as palavras que ele teria dito em pessoa: “Se não ouvem a Moisés e aos
profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”
(cf. Lc.16:31).
Para isso é evidente que teria que citar nomes. Além disso, não há absolutamente nenhuma
regra que obrigue que uma parábola não tenha nomes. Jesus contou parábolas sem precisar
dizer para as pessoas: “Atenção, isso é uma parábola...”! A parábola do rico e do Lázaro fica
entre parábolas, como podemos ver a seguir:
CAP.14 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA GRANDE FESTA
CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA
CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA MOEDA PERDIDA
CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO
CAP.16 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR DESONESTO
CAP. 16 DE LUCAS – A ******** DO RICO E LÁZARO
CAP.17 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO EMPREGADO
CAP.18 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA VIÚVA E DO JUIZ
Nisso fica claro que a história tratava-se realmente de uma parábola. A parábola diz que
"havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 148
daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caiam da mesa do rico; e até os cães
vinham lamber as úlceras" (cf. Lc.16:20,21). Igualmente, vemos que o homem rico da
parábola não era apenas rico, mas vaidoso e se vestia do melhor daquilo que podia usufruir:
"púrpura e linho finíssimo" (cf. Lc.16:19). Ele “todos os dias se regalava esplendidamente”
(cf. Lc.16:19), ou seja, era de absolutamente alta classe.
Ponderamos: onde é que você já viu um banquete de alta classe de um rico que permitisse
que um mendigo cheio de chagas ficasse sentado à sua porta, e que, além disso, ainda
deixava que comesse das migalhas de sua mesa? Se isso já é uma possibilidade
altissimamente improvável nos nossos dias, isso era completamente impossível de
acontecer naquela sociedade judaica.
O rico de jeito nenhum iria permitir que os seus visitantes (também ricos tais como ele)
passassem pela porta com um mendigo, que, além disso, ainda estava coberto de chagas,
em uma doença contaminosa, possivelmente a própria lepra, comum naqueles dias. Isso
não faz a personalidade de um judeu rico daquela época (muito menos um que teria sido
mandado para o inferno em seguida). Como se esse cenário não fosse suficientemente
improvável, ainda vemos também cachorros que lambiam as suas chagas! Quando vemos
tal cenário, vemos que isso era impossível!
Tratava-se somente de uma história que Jesus criou do mesmo modo que ele criou outras
histórias (parábolas) com uma lição moral a ser dela retirada. E, de fato, Cristo tinha um
ponto muito importante para chamar a atenção de seus ouvintes, como veremos mais
adiante. Para isso ele usava uma parábola, como é a do rico e do Lázaro. Cristo não
precisava dizer: “Olha, gente, isso é uma outra parábola”; pelo simples fato de que ele
“nada lhes dizia sem usar alguma parábola” (cf. Mt.13:34).
Em Lucas 12:41 os seus discípulos interpretaram um ensinamento de Cristo como sendo
uma parábola, mas em lugar nenhum vemos Cristo dizendo que aquilo era uma parábola
(ver Lucas 12:35-41). Os seus discípulos sabiam que ele lhes falava por meio de parábolas
ao contar histórias, e não precisavam questioná-lo quanto a isso, muito menos quando tal
história localiza-se exatamente no meio de outras histórias parabólicas! O mesmo quadro
ocorre em Mateus 7:17, quando os seus discípulos interpretam os seus ensinos como sendo
uma parábola (cf. Mt.7:15-17), embora em lugar nenhum Cristo tenha feito qualquer
questão de mencionar que aquilo tratava-se realmente de uma parábola.
Em outra ocasião, em Mateus 15:14, Pedro identifica um ensinamento de Cristo como sendo
uma parábola, embora em lugar nenhum Jesus tenha feito questão de ressaltar que aquilo
era mesmo uma parábola, e em Lucas 6:39 o evangelista conta o mesmo ensinamento mas
omite que aquilo tratava-se de uma parábola. Se Lucas conta o mesmo relato encontrado
em Mateus e não diz que se tratava de uma parábola (sendo que em Mateus está bem claro
que era), então vemos que Lucas citava parábolas de Cristo sem necessariamente afirmar
estar se tratando de uma parábola. Mas se toda vez que Cristo contasse parábolas tivesse
que haver a menção de que aquilo é uma parábola, então Mateus entraria em contradição
com Lucas, pois ambos contam a mesma história, mas um diz que é uma parábola e o outro
não diz nada!
Do mesmo modo, em Lucas 5:36 o autor diz que Cristo dizia uma parábola aos seus
seguidores, mas em Marcos 2:21 a mesma história aparece sem qualquer menção de
estar ligada a uma parábola. Tudo isso nos faz ter a certeza de que, realmente, Jesus
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 149
ensinava aos seus discípulos por meio de parábolas, que não tem qualquer necessidade de
serem mencionadas como tal. Se até mesmo nestes contextos os seus discípulos sabiam
que aquilo era parábola, mesmo sem ninguém ter dito expressamente que era uma, quanto
mais quando vemos que tal história parabólica de Lucas 16 está exatamente entre várias
outras parábolas que Jesus estava contando!
Se você está contando várias piadas numa roda de amigos, não precisa repetir o tempo
todo que ao término de uma você estará iniciando outra piada. Todos já saberão disso. Da
mesma forma, se Cristo estava contando várias parábolas uma em seguida da outra, era
completamente desnecessário dar um aviso de alerta avisando que aquilo era parábola e
não um relato real. Isso já era simplesmente óbvio. Os únicos que não conseguem entender
isso são os imortalistas, que por não compreenderem nem o contexto nem o significado de
uma parábola precisam ignorar tudo isso e fazerem de conta de que não é parábola, é
realidade, e de que, se não fosse uma história real, Jesus precisaria ter parado a conversa,
avisado que era outra parábola, e só assim eles ficariam satisfeitos!
Ademais, vários detalhes na parábola nos mostram que aquilo não era um relato real, mas
uma ficção. Por exemplo, veremos que o rico possui um corpo físico com língua e todos os
outros membros do corpo, que ele sentia sede, que precisava beber água, que conseguia
conversar com quem estava no Céu mesmo enquanto queimava em meio às chamas de
fogo, dentre outros tantos fatos que nos mostram claramente que tudo aquilo não passava
de mera parábola assim como todas as outras, cuja significância estava baseada no
ensinamento moral por trás dela, e não no relato em si como sendo algo literal.
Veremos que uma parábola nunca, jamais e em circunstância alguma pode ser
fundamentada como regra de doutrina pelos seus meios parabólicos.
Parábolas não tem meios literais - É mais especificamente neste ponto que colocamos um
fim na superstição de que existe um estado intermediário das almas porque os meios de
uma parábola tem que ser literais. É aí que muita gente se engana: parábolas não
necessitam de meios literais, ao contrário, apresentam uma lição moral valiosa por
detrás de meios não necessariamente literais. Uma prova muito forte disso é o simples
fato de que Jesus contou muitas parábolas, e se fôssemos tomar literalmente todos os
meios que ele usa, iríamos encontrar inúmeros “absurdos”.
Por exemplo: neste mesmo contexto da parábola do rico e Lázaro há a parábola do
administrador desonesto (cf. Lc.16:1-12). Veja o que o verso 8 diz: “O senhor elogiou o
administrador desonesto, porque agiu astutamente. Pois os filhos deste mundo são mais
astutos no trato entre si do que os filhos da luz” (cf. Lc.16:8). Analisando a parábola
literalmente, poderíamos chegar à infeliz conclusão de que Cristo aprovava a administração
desonesta. Contudo, ele não estava incentivando a prática de administração desonesta, até
mesmo porque em parte alguma a Bíblia aprova tal prática, mas a lição moral da parábola
não é sobre administrar desonestamente (cf. Lc.16:9). Os meios da parábola não são
reais e não influenciam sua lição moral!
Do mesmo modo, Jesus contou uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca
desfalecer (cf. Lc.18:1-8). Nela, o juiz (que representa Deus, aquele que atende as nossas
orações) é tratado como “um homem mau que nem ao homem respeitava” (cf. Lc.18:2). É
óbvio que o que Cristo queria realmente ensinar não era que Deus é um homem mau, mas
sim que se até um homem mau atende aos nossos pedidos, quanto mais o nosso Pai que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 150
está no Céu nos atenderá (que não é mau coisa nenhuma, mas poderíamos chegar a essa
conclusão caso tomássemos os meios dessa parábola como reais). Novamente, vemos uma
lição moral (de orar sempre e nunca desfalecer) sendo ensinada através de meios não
reais/literais.
A mesma coisa veremos que sucede também na parábola do rico e Lázaro. Uma lição moral
(de advertência à incredulidade dos fariseus e às tradições da época) sendo ensinada
através de meios não reais/literais. Essa é uma regra comum em todas as parábolas, que os
imortalistas só não admitem que possa valer também para Lucas 16:19-31, porque
implicaria em abrir mão de uma das únicas passagens bíblicas que supostamente
favoreceriam a doutrina grega da imortalidade da alma.
Em outra parábola, Deus é retratado como “um homem severo que ceifas onde não
semeaste e ajuntas onde não espalhaste” (cf. Mt.25:24). Diante do contexto, este “homem”
é Aquele que distribui os dons (talentos) aos homens e a quem nós devemos prestar contas
um dia. Quem ele é? Óbvio: Deus. Mas será que Deus é “um homem severo que ceifa onde
não semeou e ajunta onde não espalhou”? Claro que não. Tomemos os meios de uma
parábola como reais e mudamos totalmente a visão de um Deus de amor e justiça que a
Escritura nos revela do início ao fim!
Vejam que curioso: se tomarmos os meios dessa parábola como reais, todo o conceito de
Deus apresentado em toda a Escritura muda. Da mesma forma, se tomarmos a
parábola do rico e Lázaro como literal, todo o conceito sobre a natureza humana e seu
destino pós-morte apresentado em toda a Escritura muda. Mas no primeiro caso os
imortalistas aceitam facilmente que se trata de meros meios não-literais e irreais
característicos de uma parábola, enquanto que no segundo caso não aceitam de jeito
nenhum, pois estão presos em seus sofismas sobre a existência de uma alma imortal e
precisam se apegar a todo e qualquer custo a passagens claramente parabólicas como a de
Lucas 16 para fundamentar as suas teses!
Tome também, por exemplo, outro meio de parábola contada por Cristo: “Então o senhor
disse ao servo: Vá pelos caminhos e valados e obrigue-os a entrar, para que a minha
casa fique cheia” (cf. Lc.14:23). Será que as pessoas são forçadas a entrar no Céu,
sendo obrigadas a isso, contra a vontade delas? É claro que não, pois Deus nos concedeu o
livre arbítrio. Ninguém é obrigado ou forçado por Deus a ser salvo, pois a salvação é algo
que implica em perseverança (nossa) até o fim (cf. Mt.24:13), ninguém vai pro Céu contra
a sua própria vontade.
Mas se as parábolas são reais em seu todo e seus meios são apresentados literalmente,
então somos obrigados a entrar no Reino de Deus, não há escapatória, seremos salvos
querendo ou não! O que é mais razoável de se aceitar? Que Deus nos obriga a entrar em
Sua casa, ou que as parábolas não possuem meios reais, mas apenas uma verdade moral
por detrás de um ensinamento com meios simbólicos?
Evidentemente que as parábolas não tem meios literais, jamais podemos fundamentar uma
doutrina bíblica sustentada por meios de parábolas. Se dissermos que a parábola de Lucas
16 (do Rico e do Lázaro) obrigatoriamente tem que ter meios reais e literais,
consequentemente as demais parábolas de Cristo também devem ter meios reais e literais.
Por que a parábola do rico e Lázaro teria que ser exatamente a única exceção à regra? Será
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 151
que é porque somente deste jeito que os imortalistas conseguem sustentar a doutrina da
imortalidade da alma baseando-se em tal parábola?
Ora, se fôssemos literalizar a parábola, encontraríamos, como vimos, uma série de
problemas e contradições de primeira ordem à frente. As parábolas não podem jamais
serem tomadas literalmente pelos seus meios, pois se fosse assim deveríamos chegar à
infeliz conclusão de que Deus é um juiz mau e que não respeita ao homem, que é um
homem severo que planta aonde não semeou, que aprova a prática de administração
desonesta e que obriga as pessoas a entrarem no Céu!
É óbvio que Deus não é nenhuma dessas coisas porque as parábolas nunca podem ser
tomadas literalmente – em circunstância nenhuma – mas devemos retirar delas a sua lição
moral. O mesmo deve ser dito também com relação à parábola do rico e do Lázaro. Qual é a
sua lição moral? Ela se encontra no verso 31:
“Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que
ressuscite alguém dentre os mortos” (cf. Lucas 16:31)
Vemos, portanto, que a lição moral da parábola contada por Cristo em Lucas 16:19-31 em
nada tem a ver com a imortalidade da alma, mas, ao contrário, tem relação com a
incredulidade dos fariseus em rejeitarem os ensinamentos de Cristo – nem sequer uma
ressurreição os faria persuadir. Quando tratamos de descrições bíblicas claras e reais (não
em textos parabólicos ou simbólicos), os meios são necessariamente reais e literais ao todo.
Contudo, isso não acontece quando estamos tratando de uma parábola. Parábola não
necessita de meios reais, mas sim de lições morais que levam o ouvinte à reflexão. O
principal problema daqueles que pregam a existência da alma imortal é não saberem ao
certo o que é uma parábola:
PARÁBOLA
Acepções
■substantivo feminino
1 narrativa alegórica que transmite uma mensagem indireta, por meio de comparação ou
analogia
1.1 narrativa alegórica que encerra um preceito religioso ou moral, esp. as encontradas nos
Evangelhos
Ex.: a p. do filho pródigo
Vejamos então o significado de alegoria:
ALEGORIA
Acepções
■substantivo feminino
1 modo de expressão ou interpretação us. no âmbito artístico e intelectual, que consiste em
representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada e em que cada elemento
funciona como disfarce dos elementos da ideia representada.
Como o próprio dicionário atesta, parábolas são estórias de ficção, que Jesus
frequentemente empregava para ensinar alguma coisa aos seus ouvintes. Parábolas não são
e nem nunca foram histórias contadas com a intenção de passar meios reais. Se fosse
assim, não faria uso de uma parábola. Parábola é quando o autor utiliza-se de meios ou
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 152
cenários quaisquer, sem a obrigatoriedade de serem verdadeiros ou literais, para ensinar
uma lição moral por finalidade, mediante a metaforização ou personificação de personagens
inanimados, como é o caso da conversa entre árvores registrada em 2ª Reis 14:9.
Isso nós podemos ver ao longo de várias parábolas contadas por Cristo, que claramente não
são fatos reais – são parábolas. Por exemplo, é extremamente improvável que houvesse um
homem que vendeu todos os seus bens para comprar uma pérola de grande valor (cf.
Mt.13:46), pois isso não faria sentido. Também não houve um administrador infiel elogiado
pelo seu senhor (cf. Lc.16:8). Da mesma forma, Cristo também afirmou sobre ter de
arrancar os olhos ou cortar pernas e braços para entrar no Reino dos céus. Será que por
isso no Reino haverá caolhos, manetas e pernetas – tudo isso literalmente? É claro que não.
Tudo isso é obviamente uma linguagem altamente metafórica, tanto quanto a parábola do
rico e do Lázaro.
Mais ainda que isso, uma outra prova fatal que nos faz concluir que Cristo não estava como
finalidade dado uma aula sobre o estado dos mortos, é o fato de que nem mesmo as
palavras “alma-psiquê” ou “espírito-pneuma” aparecem nesta parábola. Pelo contrário, o
rico possuía um corpo físico com dedo, língua e que sente calor e pede água para matar a
sede (cf. Lc.16:24). A própria sede é uma característica do corpo, e não de um espírito
“imaterial”, “fluídico”.
Um espírito desprovido de corpo não tem nada disso, e a Bíblia diz que nós só teremos um
corpo novamente após ressurgirmos dos mortos (cf. 1Co.15:42-44). Jesus disse claramente
que um espírito não tem nem carne e nem ossos (cf. Lc.24:39). Será que Cristo se
enganou dizendo que o rico possuía língua no Hades ou os corpos dos
personagens foram parar no Hades por engano? Nenhuma das duas, era mera
parábola: não exigia meios reais! Se o objetivo de Cristo ao contar esse parábola fosse
exatamente anunciar a imortalidade da alma, então seria completamente indispensável a
menção de “almas” ou de “espíritos” deixando o corpo e partindo para o “além”.
Contudo, os personagens ali citados vão com os seus corpos para o Hades, tudo nos mostra
que o que aconteceu foi a personificação de personagens inanimados e, por este
motivo, não eram os “espíritos” que desciam ao Hades, mas sim os próprios corpos.
Como bem assinalou o doutor Samuelle Bacchiocchi:
“Os que interpretam a parábola como uma representação literal do estado dos salvos e
perdidos após a morte defrontam problemas insuperáveis. Se a narrativa for uma descrição
real do estado intermediário, então deve ser verdadeiro em fato e coerente em detalhe.
Contudo, se a parábola for figurada, então somente a lição moral a ser transmitida deve nos
preocupar. Uma interpretação literal da narrativa se despedaça sob o peso de seus próprios
absurdos e contradições, como se torna evidente sob exame detido”85
A questão aqui é muito simples: se a intenção de Cristo em contar essa parábola fosse de
alguma forma fazer uma descrição fiel do atual estado dos mortos, então é óbvio que os
personagens estariam no Hades em forma de espíritos incorpóreos, e não com os próprios
corpos físicos, como um exame da parábola nos indica claramente. O fato de eles estarem
lá com seus próprios corpos prova inequivocadamente que o que ocorreu neste caso nada
85 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, p. 136.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 153
mais foi senão a personificação de personagens inanimados, o que é muito comum na
Bíblia. Corpos já mortos foram personificados e ganharam vida dentro de um contexto
parabólico, isto é, de uma estória alegórica para ensinar alguma lição moral como
finalidade.
O que ocorreu, portanto, não foi uma descrição do atual estado dos mortos como “espíritos
incorpóreos” em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, mas sim a
personificação de corpos mortos como se estivessem vivos, e do que aconteceria
neste contexto parabólico. Tanto quanto a linguagem parabólica da conversa entre árvores
em 2ª Reis 14:9 não significa que as árvores realmente conversam entre si, a parábola do
rico e Lázaro não prova que espíritos incorpóreos mantém consciência no pós-morte, mas
apresenta a mesma personificação de personagens inanimados que ocorre tanto em 2ª Reis
14:9 como em diversas outras ocorrências bíblicas num mesmo contexto alegórico ou
parabólico.
Isso também é constatado pelo fato de que o rico pede que joguem um pingo água para
molhar a sua língua, enquanto ele queimava em meio às chamas! Além da sede literal (por
água) ser uma característica corporal (e não de um “espírito”, como anjos ou demônios, por
exemplo), de que serviria um “dedo” molhado “em água” para aliviar tamanhos rigores
extremos de um fogo devorador e literalmente verdadeiro que o rico estaria passando
naquele exato momento e também por toda a eternidade?
Ademais, a própria parábola diz que havia um abismo muito grande entre ambas as partes,
motivo pelo qual o rico não podia ser molhado com água. Contudo, ele conversava com
Abraão como se estivesse face-a-face com ele! Ora, se ele conversava tão perfeitamente
com Abraão, então ele também poderia perfeitamente ser molhado com água, pois a
distância assim o permitiria.
E será possível compreender absolutamente o que cada pessoa da cena diz sendo que neste
mesmo cenário havia um barulho horrivelmente aterrorizante de fogo em atividade e
milhões ou bilhões de pessoas queimando e gritando aos prantos naquele mesmo
momento? Quem iria compreender o que alguma pessoa fala em tal cenário? Como se tudo
isso não fosse suficientemente claro, será que no Reino poderemos conversar c om os não-
salvos enquanto eles queimam em meios às chamas? Pois, pela parábola, tal comunicação
entre os salvos e os não-salvos seria perfeitamente plausível.
Poderíamos, caso tomássemos os meios da parábola como literais, ver e conversar com os
nossos parentes não-salvos enquanto eles queimam no inferno! Certamente bater papo com
alguém nestas condições e neste cenário, é uma terrível falta de bom senso. Os que não
forem salvos jamais poderão se unir novamente com os que forem salvos (por meio de uma
conversa, por exemplo), pois a morte significa a separação total entre ambos os grupos. É
isso o que também é ilustrado nesta parábola.
Não, meus amigos, definitivamente não foi o estado dos mortos que foi ilustrado nesta
parábola, não houve nenhuma descrição de “estado intermediário” algum, mas apenas e tão
somente a personificação de personagens inanimados ganhando vida (típico de parábola),
em um cenário corrente na época, como veremos mais a seguir. Com toda a clareza, os
imortalistas que insistirem em admitir a parábola do rico e Lázaro como sendo “prova” do
dualismo platônico na Bíblia, encontrarão tamanhos dilemas insuperáveis pela frente a tal
ponto de terem que reformular toda a sua teologia acerca de como é o pós-morte.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 154
Sobre o Hades – Outro fato que ajuda ainda mais a derrubarmos a má interpretação dos
dualistas é o lugar para onde teria ido o rico:
“E, no Hades, viu Abraão e Lázaro, em seu seio” (cf. Lucas 16:23)
A clareza da linguagem é evidente: o rico estava no Hades. E é a partir desta parábola que
surge a idéia de que todos os “espíritos” desencarnados vão para o Hades após a morte,
com divisão para justos e ímpios. Ora, qual doutrina básica da fé cristã que tem por base
uma parábola? Nenhuma. Mas a parábola do rico e Lázaro (como única suposta “descrição”
do “estado intermediário” encontrada na Bíblia) obrigatoriamente tem que ser literalizada e
fundamentada como doutrina bíblica (para eles).
Afinal, a maior base da doutrina imortalista é justamente os meios de uma parábola, em
que os corpos descem junto para o “estado intermediário” conversar com os que já
morreram enquanto se queimam entre as chamas. Pasme! Mas, mesmo que este fosse o
caso, a História nos mostra que o Hades, como um local de tormento em que o rico estava,
é de origem totalmente pagã, e não bíblica. Veremos a seguir onde nasceu o Hades e como
entrou de braços abertos na doutrina imortalista.
III–A Origem pagã do Hades
A origem pagã do Hades - Na literatura hebraica, o Sheol (transliterado para “Hades” no
grego), não era um local de habitação de espíritos vivos e conscientes em estado
desencarnado. Já vimos que os autores do Antigo Testamento não tinham a mínima ideia de
vida consciente antes da ressurreição, muito menos de almas imortais ou espíritos em um
estado intermediário.
A vida pós-morte na visão do Antigo Testamento era que os mortos não louvam a Deus (cf.
Is.38:19; Sl.6:5), não sabem de nada (cf. Ec.9:5), valem menos do que um cachorro vivo
(cf. Ec.9:4), sua memória jaz no esquecimento (cf. Ec.9:5), não tem lembrança de Deus
(cf. Sl.6:5), não confiam na fidelidade de Deus (cf. Is.38:18), não falam da Sua fidelidade
(cf. Sl.88:12), estão numa terra de silêncio, e não de gritaria do inferno ou de altos
louvores do Céu (cf. Sl.115:17), não podem ser alvos de confiança (cf. Sl.146:3), não
pensam (cf. Sl.146:4), não tem proveito nenhum para Deus depois de morto (cf. Sl.30:9),
são comparados com o pó (cf. Sl.30:9), etc.
Mesmo assim, eles falavam constantemente em Sheol (Hades), como o local para onde vão
os mortos. Algumas referências são: Jó 7:9, Salmos 18:5, Salmos 86:3, Salmos 139:8,
Provérbios 30:16, Gênesis 37:35, Eclesiastes 9:10, entre outros. Ora, como podem os
escritores do Antigo Testamento desacreditarem completamente no estado intermediário
mas falarem tanto no Sheol? É evidente que, para eles, Sheol estava longe de ser um local
de habitação consciente de espíritos incorpóreos, mas era meramente uma figura para a
sepultura.
Na passagem de Malaquias (último livro do AT) para Mateus (o primeiro do NT) há um
período de quatrocentos anos (conhecido como “período intertestamentário”). Neste período
é que os hebreus estiveram dispersos para as nações influenciadas pelo dualismo grego que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 155
estabelecia nelas uma forte ligação ética, cultural, social e filosófica, por meio da doutrina
helenista. Tais filosofias correntes na Grécia Antiga (especialmente a amplamente difundida
doutrina da “imortalidade da alma”) acabaram entrando no judaísmo helenista.
Tal impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, incluindo na
adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas (inclusive vários “livros
apócrifos”) produzidas nessa época. De acordo com os professores Stephen L. Harris e
James Tabor, Sheol é um lugar de “vazio” que tem suas origens na Bíblia Hebraica e no
Talmud:
"Seres humanos, como os animais do campo, são feitos de ‘pó da terra’ e na morte eles
retornam ao pó (Gênesis 2:7; 3:19). A palavra hebraica Alma (Nephesh, Psyche),
tradicionalmente traduzida por ‘alma viva’, mas mais adequadamente compreendida como
‘criatura vivente’ é a mesma para todas as criaturas viventes e não se refere a nada
imortal... Todos os mortos descem ao Sheol, e lá eles jazem no sono juntos. Seja bom ou
mau, rico ou pobre, escravo ou liberto (Jó 3:11-19). Ele é descrito como uma região ‘escura
e profunda’, ‘a cova’, e ‘a terra do esquecimento’, interrupção da vida (Salmos 6:5; 88:3-
12). Se se encara situações extremas de sofrimento no mundo dos vivos acima, como
aconteceu com Jó, o Sheol pode ser visto como um alívio bem-vindo à dor - basta ver o
terceiro capítulo de Jó. Mas, basicamente, ele é um tipo de ‘nada’ (Salmo 88:10)”86
Harris partilha observações similares em seu “Compreendendo a Bíblia”, e acentua o fato de
que houve uma associação com as religiões pagãs no período helenista que modificou o real
significado de “Sheol” bíblico:
“Quando os escribas judeus helenistas traduziram a Bíblia para o grego, eles
usaram o termo ‘Hades’ para traduzir Sheol, trazendo uma associação mitológica
completamente nova à ideia de existência póstuma. Nos mitos da Grécia Antiga, o
Hades, nomeado a partir da deidade sombria que o reinava, era originalmente similar ao
Sheol hebraico, um submundo escuro no qual todos os mortos, a despeito do mérito
individual, eram indiscriminadamente colocados"87
Sobre seu significado original, a Enciclopédia Britância afirma:
“O Sheol estava localizado em alguma parte ‘debaixo’ da terra. A condição dos mortos não
era de dor nem de prazer. Nem a recompensa para os justos nem o castigo para os iníquos
estavam relacionados com o Sheol. Tanto os bons como os maus, tiranos e santos, reis e
órfãos, israelitas e gentios – todos dormiam juntos sem estarem cônscios uns dos
outros”88
A própria Enciclopédia Católica reconhece isso ao dizer:
“Na Bíblia, [Sheol] designa o lugar de completa inércia ao qual se desce quando se morre,
quer alguém seja justo quer ímpio, rico ou pobre”89
86 TABOR, James. What the Bible says about Death, Afterlife, and the Future. Disponível em:
<http://clas-pages.uncc.edu/james-tabor/>. Acesso em: 15/08/2013.
87 HARRIS, Stephen L. Understanding the Bible: the 6th Edition (McGraw Hill 2002) p. 436.
88 Enciclopédia Britânica, 1971, Vol. 11, p. 276.
89 Nova Enciclopédia Católica, Vol. 13, p. 170.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 156
Esta é uma verdade indiscutível: o Sheol estava longe de ser uma habitação consciente de
espíritos. Contudo, houve uma associação mitológica com as filosofias gregas (de
imortalidade da alma). Em outras palavras, o sentido bíblico de Sheol foi totalmente
deturpado pelo sincretismo com a mitologia pagã. Na mitologia grega o mundo dos
mortos, chamado apenas de Hades, era o local no subterrâneo para onde iam as almas
das pessoas mortas (sejam elas boas ou más), guiadas por Hermes, o emissário dos
deuses, para lá tornarem-se sombras. É um local de tristeza. No fim da luta dos deuses
olímpicos contra os Titãs (a Titanomaquia), os deuses olímpicos saíram vitoriosos.
Então, Zeus, Posídon e Hades partilharam entre si o universo: Zeus ficou com os céus e as
terras, Posídon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos. Os titãs
pediram socorro a Érebo do mundo inferior; Zeus, então, lançou Érebo para lá também,
assim tornou-se a noite eterna do Hades (Érebo também é outra designação do mundo
inferior). Das Idades do Homem e suas raças, a raça de bronze, raça dos heróis, e a raça de
ferro vão para o Hades após a morte.
Este sincretismo com as religiões pagãs que resultou em uma aplicação totalmente diferente
de Sheol/Hades: a de um local no subterrâneo para onde vão as almas das pessoas mortas
(sejam elas boas ou más), no “Mundo dos Mortos”, denominado Hades. Querendo ou não,
gostado ou não, é uma clara deturpação imortalista do que realmente é o Sheol. Tirando os
maiores absurdos, que jamais seriam assumidos pelos cristãos (como, por exemplo, o fato
de serem guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, ou dos Titãs pedirem a ajuda de
Érebo), a essência pagã de Hades, como um local de habitação de espíritos, foi absorvida
da mitologia pagã direto para a teologia bíblica dos imortalistas.
IV–O que é o Sheol?
O que é o Sheol? - Como já vimos acima, antes da mitologia pagã se infiltrar dentro dos
moldes do Cristianismo, Sheol era puramente sepultura. É claro que a sua aplicação varia
de passagem a passagem, mas nunca no sentido mitológico de “habitação de espíritos”. O
Sheol bíblico é um local de silêncio, e não de gritaria do inferno:
“Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus, o Senhor” (cf. Salmos
115:17)
“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf.
Salmos 94:17)
Mais claro ainda é o Salmo 94:17, que diz de forma enfática que o que habita no silêncio é a
própria alma, derrubando a toda e qualquer tentativa de vulgarizar o termo como se fosse
“silêncio somente para o corpo”. O salmista sabia muito bem que o local para onde iria após
a morte seria de silêncio, e não de louvores entre os salvos ou de gritaria do inferno.
Convenhamos: qual é o lugar do “silêncio” que o salmista fala? Claramente a sepultura. O
local para onde a alma vai após a morte (cf. Sl.94:17), em estado de total inconsciência (cf.
Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.30:9; Sl.88:12). Outra prova clara de que os
hebreus do Antigo Testamento sabiam muito bem que Sheol não era inferno, mas sim
sepultura, é Jacó enterrando o seu filho José:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 157
“E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém,
recusou ser consolado, e disse: Na verdade, com choro hei de descer para meu filho até o
Sheol. Assim o chorou seu pai” (cf. Gênesis 37:35)
Jacó evidentemente ainda não sabia que na mitologia pagã grega (de imortalidade da alma)
o Hades ficava no centro da Terra. Jacó foi cavando até o inferno para enterrar o seu filho
José? Não, Jacó sabia muito bem que Sheol era puramente sepultura. Ele sabia disso
porque essa era a crença da época, o sentido puro de Sheol.
Ademais, Jacó foi enterrar o corpo morto de José e não uma alma ou espírito incorpóreo.
Sheol não é um local de espíritos sem corpo, mas sim de corpos mortos. Sheol é claramente
identificado como sendo sepultura, o pó da terra. Outras inúmeras passagens nos trazem
um sentido completo de que Sheol não era habitação consciente de espíritos
desencarnados. Alguns exemplos, por exemplo, podem ser encontrados em Jó e em
Salmos:
“Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco
eu tome alento. Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e
da sombra da morte” (cf. Jó 10:20,21)
“Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam?
Será que no Sheol ainda se fala do teu amor? Será que naquele lugar de destruição se fala
da tua fidelidade? Será que naquela escuridão são vistos os teus milagres? Será que na
terra do esquecimento se pode ver a tua fidelidade?” (cf. Salmos 88:10-12).
Como podemos ver, a terra era claramente descrita como uma “escuridão”. Ora, se o Hades
é um local de tormento, com fogo e tudo, então o fogo remeteria à luminosidade. O local
não seria nem lugar de “escuridão” e muito menos lugar de “densas trevas”. Onde há fogo,
há luz. Essa descrição do Sheol bíblico anula a concepção pagã em um Hades cheio de fogo
e espíritos vivos ali queimando. O Salmo 49:14 também deixa claro que até as ovelhas vão
para o Sheol na morte:
“Como ovelhas são postas na sepultura [Sheol, no original hebraico]...” (cf. Salmos 49:14)
É óbvio que o Sheol é apenas o pó da terra, o destino de todas as criaturas viventes. Jó
também nos esclarece que o Sheol bíblico está longe de ser morada de espíritos queimando
em meio às chamas, ao dizer que naquele lugar ele “já agora repousaria tranquilo;
dormiria, e, então, haveria para mim descanso... Ali, os maus cessam de perturbar, e, ali,
repousam os cansados; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os
gritos do feitor de escravos” (cf. Jó 3:13,17,18). Já não se ouve mais gritos, algo
inconcebível caso Jó tivesse a ideia de que aquele local era um lugar de tormento ou de
gritos de espíritos em meio às chamas.
No livro de Eclesiastes também lemos:
“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no além
[Sheol], para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria
alguma” (cf. Eclesiastes 9:10)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 158
A palavra usada em Eclesiastes 9:10 com relação ao Sheol é que não há chokmah
[inteligência, razão]. Morre o homem e o ser racional se vai. Não há inteligência, não há
consciência. Biblicamente, Sheol não é, e nunca foi, uma morada de espíritos vivos e
conscientes em alegria ou em tormento com fogo. Como se não fosse suficientemente claro
o fato de que no Sheol não há obra, nem projeto, nem conhecimento, e nem sabedoria, o
salmista afirma que “quem morreu não se lembra de ti; e no Sheol quem te louvará?” (cf.
Sl.6:5). É evidente que no Sheol não se pode louvar a Deus. Fica a pergunta: que tipo de
“espírito” que é salvo e vai para este lugar sem poder louvar a Deus?
O único argumento utilizado pelos imortalistas na tentativa de contradizer o fato bíblico de
que o Sheol é o equivalente à sepultura é que os hebreus tinham palavra específica para
“sepultura”, que é qéver, então Sheol deve significar algo diferente disso. Isso, por si só,
não significa nada, pois no hebraico e no grego há diversas palavras sinônimas, que
possuem a mesma aplicação prática. Na própria língua portuguesa, aplicamos exterminar e
aniquilar com o mesmo sentido, bem como adversário e antagonista, oposição e antítese,
enfermo e doente, desagradar e descontentar, futuro e porvir, enorme e imenso, imparcial
e neutro, dentre tantas outras palavras sinônimas. Diante disso, por que Sheol e sepultura
não podem ser palavras sinônimas, assim como sepultura e túmulo?
Em segundo lugar, existe uma diferença básica entre Sheol e qéver. Hades ou Sheol não se
refere a um único sepulcro (gr.: tá‧fos), nem a um único túmulo (gr.: mné‧ma), nem a um
único túmulo memorial (gr.: mne‧meí‧on), mas à sepultura comum da humanidade, onde
os mortos e enterrados não são vistos. Assim, vemos que Sheol é aplicado quando a
referência é à sepultura comum da humanidade (em um sentido coletivo), enquanto qéver
se refere ao um único sepulcro (em um sentido individual).
Sheol é o sentido mais amplo da sepultura, tendo a mesma aplicação prática desta, pois
quem está na sepultura está no Sheol, da mesma forma que quem está em São Paulo está
no Brasil. Sheol é o “mundo dos mortos”, não como um local de habitação de espíritos
conscientes, mas de almas mortas (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3,9; Gn.37:21;
Dt.19:6,11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10), em local de total silêncio (cf. Sl.115:17;
Sl.94:17), e em estado de total inconsciência (cf. Sl.146:4; Sl.6:5; Ec.9:5,6; Ec.9:10).
No caso da revolta de Coré, por exemplo, relatada em Números 16, a terra “abriu a sua
boca” e os seus seguidores “desceram vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30; Nm.16:33). Seria
extremamente inimaginável pensarmos que a terra abriu a boca para eles caírem até o
centro da terra onde ficaria o Sheol, sendo que no meio dessa queda os seus corpos foram
transformando-se automaticamente em espíritos desencarnados. A evidência aqui é tão
forte que os próprios imortalistas admitem que Sheol aqui significa o pó da terra, corpos
físicos sendo esmagados pela força da natureza através da ação divina (embora eles
afirmem que este caso é uma “exceção”, o que vemos que não – é a regra!).
Obviamente que o que aconteceu realmente é que a terra abriu a boca e os tragou
enquanto ainda estavam vivos, descendo para a “cova” (ou “pó”), o que mostra a total
correspondência entre estes dois termos. Mais forte ainda do que isso é o paralelismo
evidente que constatamos em Jó: “Descerá ela às portas do Sheol? Desceremos juntos ao
pó?” (cf. Jó 17:16). Aqui vemos Jó fazendo o uso de um paralelismo entre o “Sheol” e o
“pó”. Paralelismo é a sucessão de partes do discurso que tem entre si uma relação de
similaridade de conteúdo; um encadeamento de funções sintáticas idênticas de valores
iguais. Jó identifica o Sheol como sendo a mesma coisa que o pó da terra, ao relacionar
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 159
ambos na mesma sentença expondo tal paralelismo. Após afirmar que ele desceria ao
Sheol, afirma categoricamente que este lugar é o pó (cf. Jó 17:16).
Ainda que os escritores do Antigo Testamento falassem constantemente em Sheol,
desacreditavam completamente em qualquer estado intermediário. Talvez seja por isso que
o apóstolo Paulo, em suas epístolas, não tenha mencionado absolutamente nenhuma vez a
palavra “Hades” – o termo já estava paganizado. Aliás, nem Paulo, nem Tiago, nem Pedro,
nem Judas, e nem o desconhecido autor de Hebreus: todos pareciam desconhecer tal
palavra, não sendo mencionada em parte nenhuma de suas epístolas. Só há uma única
razão mais provável para isso, que é exatamente não querer confundir os leitores dualistas
com o sentido pagão de Hades, já em vigor em sua época.
O Sheol também é caracterizado como “a terra das trevas e da sombra da morte” (cf. Jó
10:21,22), onde os mortos nunca mais vêem a luz (cf. Sl.49:20; 88:13). É também, como
vimos, a “região do silêncio”, e não de gritaria do inferno ou de louvores do Paraíso (cf. Sl.
94:17; 115:17), para onde caminha a alma rumo ao local do silêncio (cf. Sl.94:17). A ideia
de descanso ou sono no Sheol fica evidente no livro de Jó que clama em meio a seus
tormentos físicos: “Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? [...]
Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria, e então haveria para mim descanso [...] Ali
os maus cessam de perturbar, e ali repousam os cansados” (cf. Jó 3:11,13,17).
No Salmo 141:7 também fica mais do que evidente que Sheol é claramente identificado
como sepultura: “Ainda que sejam espalhados os meus ossos à boca da sepultura [Sheol]
quando se lavra e sulca a terra”. Até os ossos desciam para o Sheol! Se Sheol fosse um
local de morada de “espíritos”, o salmista certamente mencionaria isso, mas além negar tal
fato ele acentua que são os ossos que descem ao Sheol, o que nos revela que é um local
não de “espíritos”, mas de corpos mortos, que jazem na sepultura.
Um dos textos mais claros de que o Sheol é uma referência à sepultura é o de Isaías 14:11,
que diz: “Sua soberba foi lançada na sepultura [Sheol], junto com o som das suas liras;
sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes”. O detalhe é que o texto se refere a ele
estar sendo comido de larvas e coberto de vermes, o que nos mostra a total
correspondência entre o Sheol e o túmulo, abaixo da terra, e de quem estar lá ser um corpo
morto, um cadáver, e não alguma alma ou espírito incorpóreo.
De igual modo, Davi adverte seu filho Salomão com relação a Simei: “Mas, agora, não o
considere inocente. Você é um homem sábio e saberá o que fazer com ele; apesar de ele já
ser idoso, faça-o descer ensangüentado à sepultura [Sheol]” (cf. 1Rs.2:9). Novamente,
o original hebraico verte a palavra “Sheol”, e não “sepultura” como a maioria dos tradutores
preferiram traduzir. Aqui vemos que alguma pessoa pode descer ensanguetada ao Sheol,
o que nos mostra claramente que o Sheol não é uma morada de espíritos incorpóreos, mas
sim a própria sepultura, para o qual é o destino dos corpos que morreram (espírito não
sangra!).
Por isso, até mesmo o sangue das pessoas descem ao Sheol [sepultura]. Isso explica o
porquê que em absolutamente nenhuma parte das Escrituras é mencionado espírito-
ruach/pneuma no Sheol/Hades. Este nunca foi algum tipo de “morada de espíritos”! Fica
mais do que claro que nenhum escritor bíblico pensava em Sheol como uma morada
consciente de espíritos desencarnados, como um local de tormento ou suplício. Se fosse
esse o sentido primário de Sheol, então veríamos uma infinidade de passagens bíblicas que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 160
relatam tal fato, o que não é verdade. Aliás, nem sequer o elemento “fogo” aparece
relacionado em qualquer descrição bíblica do Sheol. Que maneira “estranha” de
descrever o inferno!
Portanto, vemos que o Sheol bíblico não é um lugar onde Caim está queimando há seis mil
anos até hoje, mas sim uma figura da sepultura, o lugar para onde parte a alma após a
morte (cf. Is.38:17; Sl.94:17; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:28; Jó 33:30). Sheol é sepulcro,
pó, profundezas da terra, morte, vazio, túmulo. Jamais foi morada de espíritos em plena
atividade e consciência, em regozijo ou em tormento. Nunca é mencionado tormento no
Sheol. Na parábola do rico e do Lázaro, o que ocorreu foi uma metaforização e
personificação dos personagens (Abraão, Lázaro, o rico) bem como do próprio cenário onde
se passava a parábola (Sheol), que não exige meios literais.
Prova forte disso é que a própria parábola retrata o rico indo para a sepultura (v.22), e
depois mostra ele no Hades (v.23) sem fazer menção de “almas” ou “espíritos”, mas com o
seu próprio corpo natural (v.24), o que nos mostra a correspondência entre a sepultura e o
Hades, e que nos revela que o que de fato ocorreu foi uma metaforização e personificação
própria dos meios de uma parábola, como é no caso de 2ª Reis 14:9 em que as árvores
falam.
Entender o significado bíblico e puro de Sheol é profundamente necessário para
compreendermos que o que ocorreu em Lucas 16 nada mais foi senão a personificação não
apenas dos personagens ali presentes, como também do próprio cenário em que aquilo tudo
se passava. Como já vimos, eram corpos físicos que desceram ao Hades na parábola, e
conferimos também que o Hades (Sheol) bíblico é a sepultura, que nada mais é senão o
local de corpos físicos. A única coisa que muda é a personificação de tais personagens,
ganhando vida neste lugar, como um fundo parabólico onde se passa aquilo que realmente
Jesus queria ensinar como a lição moral da parábola.
V–O Significado da Parábola
Voltando à parábola - Já vimos que a parábola não pode ser analisada literalmente. Vários
fatores corroboram para isso, incluindo o fato de que os personagens possuem corpos reais,
com língua, dedo, sentimento de sede, o local onde a parábola se passava e outras
parábolas que claramente também não necessitam de meios reais. Observe esta outra
parábola bíblica:
“Porém Jeoás, rei de Israel, enviou a Amazias, rei de Judá, dizendo: O cardo que está no
Líbano enviou ao cedro que está no Líbano, dizendo: Dá tua filha por mulher ao meu filho;
mas os animais do campo que estavam no Líbano, passaram e pisaram o cardo” (cf. 2ª Reis
14:9). Analisando literalmente (assim como fazem com a parábola do Lázaro), cardo e
cedro (que são árvores) falam. Creio que a maioria das pessoas concorde comigo que as
árvores não falem.
São parábolas, e parábolas são metáforas, alegoria, estória, ficção, que não podem ser
classificadas literalmente. Se pretendêssemos usar as parábolas literalmente, deveríamos –
usando a mesma lógica que os imortalistas fazem com a parábola do Lázaro – dizer que as
árvores também falam e fundamentarmos isso como doutrina. Felizmente, parábolas não
são relatos literais, e sim metáforas com uma lição moral.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 161
Sendo assim, podemos ficar tranquilos sabendo que as árvores realmente não falam, pois
parábolas não apresentam meios reais, mas apenas lições morais por detrás de um cenário
fictício. É evidente que cada elemento na parábola acima de 2ª Reis tinha o seu devido
significado e a sua devida lição moral. Nada mais que dois reis: o de Judá (Amazias), e o de
Israel (Jeoás) são personificados pelas árvores. Jeoás compôs a parábola para Amazias.
Este não a atendeu (cf. 2ª Reis 14:11), e por isso, o povo do “cardo” (Amazias) foi ferido
pelos “animais do campo” (exército do “cedro” – Jeoás). A lição da parábola não era que as
árvores falam, mas sim uma mensagem aos que lessem a metáfora a partir da
personificação de personagens inanimados. A mesma linguagem vemos em várias outras
partes da Bíblia:
“Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu sobre
nós. Mas a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em
mim prezam, para ir balouçar sobre as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem
tu, e reina sobre nós. Mas a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu
bom fruto, para ir balouçar sobre as árvores? Disseram então as árvores à videira: Vem tu,
e reina sobre nós. Mas a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a
Deus e aos homens, para ir balouçar sobre as árvores? Então todas as árvores disseram ao
espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. O espinheiro, porém, respondeu às árvores: Se de
boa fé me ungis por vosso rei, vinde refugiar-vos debaixo da minha sombra; mas, se não,
saia fogo do espinheiro, e devore os cedros do Líbano” (cf. Juízes 9:8-15)
Novamente, a lição não era que as árvores ou os espinheiros falem ou dialoguem entre si.
Tudo não passava de mera parábola em que as oliveiras, a figueira e a videira
representavam aqueles que não quiseram reinar sobre as “árvores” (povo de Siquém). As
mais valiosas árvores do Oriente Médio aqui simbolizam os homens principais de Siquém, e
o espinheiro era um arbusto farpado comum nas colinas da Palestina e representava
apropriadamente Abimeleque, que nada produzia de valor. Os meios eram puro simbolismo
e representação comum na Bíblia Sagrada, não eram verdades literais porque nem árvores,
nem cedros, nem cardos, nem oliveiras, nem figueiras, nem videiras e nem espinheiros
falam!
É óbvio que a única coisa que devemos tirar como verdade literal é a sua lição moral, e não
os seus meios. O mesmo deve ser dito com relação à parábola do Lázaro, em que houve
uma personificação, vivificação dos personagens ali apresentados (Lázaro, o rico e Abraão)
bem como uma metaforização do cenário (Hades) que, como vimos, é puramente sepultura.
É comum a Bíblia personificar personagens inanimados.
A PERSONIFICAÇÃO BÍBLICA DE PERSONAGENS INANIMADOS
1 “Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu
sobre nós” (cf. Juízes 9:8-15)
2 “O cardo ... mandou dizer ao cedro ... Dá tua filha por mulher a meu filho” (cf. 2ª
Reis 14:9)
3 “Disseram então as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós” (cf. Juízes 9:12)
4 “Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento”
(cf. Habacuque 2:11)
5 “Se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (cf. Lucas 10:40; Mateus 3:9)
6 “O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra
vocês e como fogo lhes devorará a carne” (cf. Tiago 5:3)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 162
7 “A voz do sangue do teu irmão clama da terra a mim” (cf. Gênesis 4:10)
8 “Quando ele bradou, os sete trovões falaram” (cf. Apocalipse 10:3)
9 “Ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf. Hebreus
12:24)
10 “E ouvi o altar responder: Sim, Senhor Deus todo-poderoso, verdadeiros e justos
são os teus juízos” (cf. Apocalipse 16:7)
11 “Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês
foi retido com fraude, está clamando contra vocês” (cf. Tiago 5:4)
12 “Então jubilarão as árvores dos bosques perante o Senhor, porquanto vem julgar a
terra” (cf. 1 Crônicas 16:33)
13 “Pois com alegria saireis, e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros
romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores de campo baterão
palmas” (cf. Isaías 55:12)
14 “Mas, pergunta agora às alimárias, e elas te ensinarão; e às aves do céu, e elas te
farão saber; ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes o mar to
declararão” (cf. Jó 12:7,8)
15 “Ressoe o mar, e tudo o que nele existe; exultem os campos, e tudo o que neles
há!” (cf. 1 Crônicas 16:32)
16 “Os rios batam as palmas; regozijem-se também as montanhas” (cf. Salmos 98:8)
Tudo isso acima tem um nome: alegoria. Tudo tem uma lição moral para aprendermos por
detrás de um cenário com personagens inanimados, sem vida, que ganham vida na
parábola ou na alegoria que está sendo dita, com a finalidade de ensinar alguma coisa aos
ouvintes. Obviamente, essa “alguma coisa” que se quer ensinar aos ouvintes não é o
próprio cenário em si ou seus meios (que árvores, rios, altares, trovões, sangue, pedra,
ouro ou pessoas após a morte falem), mas sim aquilo que moralmente podemos depreender
por meio destas alegorias.
Nada indica que o salmista esteja querendo passar a ideia de que rios batem palmas e as
montanhas se regozijam (cf. Sl.98:9), nada indica que Jó queria passar a ideia de que a
terra e os peixes falam (cf. Jó 12:7,8), nada indica que João cria que altares e trovões
falam (cf. Ap.10:3; 16:7), nada indica Moisés cria que o sangue tem voz (cf. Gn.4:10),
nada indica que o escritor bíblico cria que as árvores conversam entre si (cf. Jz.9:8-15;
2Rs.14:9), nada indica que Cristo pensava que as pedras falavam (cf. Lc.10:40), e da
mesma forma nada indica que esse mesmo Jesus cria que corpos mortos que
desciam ao Hades ganhavam vida literalmente (cf. Lc.16:19-31).
As pessoas se esquecem que é comum a Bíblia personificar personagens inanimados, ainda
mais em um contexto parabólico ou simbólico! Biblicamente, as árvores, sangue e trovões
falam mais do que os mortos, que, quando falam, é em um contexto claramente metafórico,
inserido em um contexto alegórico que dá margens a isso. Os meios de uma parábola nunca
podem ser considerados literais e, por isso, o nosso próximo passo a partir de agora é
descobrirmos o que representa cada elemento personificado na parábola do Lázaro.
Entendendo a parábola - A Bíblia não diz que o rico era um rico ímpio. Diz apenas que era
“um homem ímpio e... morreu” (cf. Lc.16:22). E isso nunca, jamais, em circunstância
nenhuma, pode ser considerado um “pecado” digno de lançar uma alma no fogo do inferno.
Se fosse assim, então muitos homens por serem ricos deveriam partilhar do inferno
também, incluindo Abraão, Isaque, Jacó, Jó, José de Arimateia, etc. Lembre-se que estamos
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 163
analisando a parábola literalmente, como os imortalistas o querem que façamos para
fundamentar uma doutrina bíblica. A parábola diz apenas que era um homem rico. Em
momento nenhum diz que era um homem mau ou profano.
E quanto a Lázaro? A situação piora ainda mais para o lado dos imortalistas, pois a parábola
diz apenas que ele “era um homem pobre e... morreu”. Ora, jamais poderíamos pressupor
que ser pobre ou mendigo é passaporte para a salvação. Não. A Bíblia não ensina, em
nenhum lugar, que por ser pobre ou ter sofrido muitas dores, alguém tem a garantia
celestial. Isso não é bíblico! E a parábola nada diz de ser Lázaro um mendigo do “bem”, diz
apenas ser um mendigo. Pense: se o rico fosse uma representação de todos os justos e
Lázaro representasse todos os ímpios (como querem os imortalistas), então não seria
estranho que em momento nenhum Jesus dissesse que o rico era ímpio ou que o pobre
Lázaro era justo?
Afinal, isso seria da maior fundamental importância caso fosse este o caso que Cristo
quisesse ilustrar. Se fosse este o caso, então nos seria dito claramente que o rico era ímpio
e o mendigo era justo. Mas isso não nos é relatado, porque, como veremos, não era isso o
que Jesus ilustrar. Ademais, se a parábola deve ser analisada literalmente, então
deveríamos colocar todos os pobres no Céu e todos os ricos no inferno. Irmão, são
parábolas, e parábolas não tem meios reais, jamais podem entendidas literalmente.
Além disso, a parábola nos indica que Lázaro era do pior tipo de gente, com o corpo todo
carcomido e cheio de chagas por uma doença terrível, presumivelmente a lepra. A
obrigação, por Lei, de qualquer leproso (ou nestas condições do Lázaro da parábola) era de
passar longe das demais pessoas e ainda gritar: “Imundo! Imundo!” (cf. Lv.13:44-46). Isto
quando não eram apedrejados. Pobres criaturas!
Agora continue imaginando o cenário: um rico, de alta classe, de repente se depara com
esse pobre “farrapo” de gente, com cães lambendo as feridas em carne viva, devorada pela
lepra. Qual seria sua reação? Deixaria ele comer da comida ou o expulsaria dali? Lembrem-
se, pessoas como o pobre Lázaro nem mesmo podiam chegar perto de alguma pessoa da
sociedade! Quanto mais comer das migalhas de algum homem rico!
Qual seria sua atitude ao encontrar, na porta de sua casa um leproso, em tamanho
avançado grau de enfermidade? Sua reação é uma incógnita, mas a do Rico da parábola,
não. Não só o permitiu comer das migalhas, como também não o expulsou dali (o que
estaria de acordo com a própria Lei dos judeus) e, além disso, pelo relato percebemos que
tal fato deve ter durado dias de benevolência! Portanto, esse Rico da parábola não era um
homem mau, mas bom, de coração e inclinado a fazer tal “caridade”.
Ora, se Lázaro por ser mendigo foi para o Seio de Abraão, por que o rico também não foi,
uma vez que não é nenhum “pecado” ser rico, e esse da parábola demonstrou alguma
humanidade? Por que o rico também não foi salvo, se a parábola deve ser analisada
literalmente ou se a intenção de Cristo era representar os homens ímpios que vão para o
inferno a partir dessa parábola? Se essa fosse a intenção de Cristo, deveríamos esperar que
ele narrasse um homem rico completamente desumano, ímpio, ladrão, que merecesse
verdadeiramente um inferno para si.
Esperaríamos realmente a descrição de alguém que nem ao menos deixa o pobre comer das
migalhas e que ainda o chutaria para fora, ou que consegue a sua riqueza por meios
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 164
desonestos. Contudo, isso está muito longe de ser o caso! Ademais, se os salvos
personificados pelo mendigo conversam com os ímpios no inferno, personificados pelo Rico,
imaginemos, por exemplo, que você esteja no Céu, gozando a bem-aventurança, quando,
de repente, você ouve gritos, e estes aumentam gradativamente.
Você então contempla seu parente ou amigo no inferno, com o fogo o consumindo por
completo, sob gritos e torturas horríveis. Medite: como você se sentiria, vendo-o do lado de
lá, um amigo ou parente nesta condição terrível? Afinal, se a parábola deve ser analisada
literalmente, então o Céu e o inferno são separados por uma “parede-de-meia”, certo? Ora,
é impossível acreditarmos numa coisa dessas, mas tal cenário insuportável é o que
deveríamos admitir em caso de aceitar que os meios da parábola são literais.
Selecionei uma lista com apenas vinte de todos os absurdos a que chegaríamos caso
fundamentássemos a parábola como uma doutrina bíblica:
ERROS E CONSTATAÇÕES DA ANÁLISE LITERAL DA PARÁBOLA PELOS SEUS
MEIOS
1 Os mortos partem para o outro mundo não como “espíritos”, mas com o seu
próprio corpo com dedos, línguas, etc.
2 Os “espíritos” sentem sede (v.24).
3 Ser rico é motivo de ser mandado ao inferno, apesar de ter demonstrado tão
grande benevolência para com o pobre Lázaro e a própria parábola nada dizer de
que o Rico era um homem mau!
4 Ser mendigo é passaporte para o Céu, uma vez que a parábola em nada indica que
o mendigo era um homem justo ou que cria no Senhor.
5 O Céu e o inferno ficam um bem do lado do outro (veríamos os nossos amigos ou
parentes queimando lá do outro lado!).
6 Apesar de haver um “abismo intransponível” entre ambas as partes, os salvos
podem ficar conversando a vontade com os ímpios que estão queimando no
inferno (vs. 25 e 26). A comunicação entre os justos do Céu e os ímpios do inferno
é perfeitamente possível (poderíamos ficar conversando com os nossos amigos ou
parentes enquanto estes estão entre as chamas de um fogo eterno e devorador).
7 É possível falar perfeitamente como em uma conversa normal enquanto queima-se
entre as chamas de um fogo verdadeiro (vs. 23-31).
8 O mediador não é Jesus, mas Abraão, para atender o chamado do rico (ver 1ª
Timóteo 2:5; João 14:6; Efésios 2:18, etc).
9 Usando a mesma lógica que os imortalistas usam com a análise literal dos meios
de uma parábola, concluímos que as árvores falam (cf. 2ª Reis 14:11).
10 O rico pedia que Lázaro molhasse apenas a língua dele enquanto queimava entre
as chamas, ao invés de lhe dar um verdadeiro “banho de água”!
11 Se os mortos justos partem para o “Seio de Abraão” na morte, para onde partiu
Abraão quando morreu?
12 Para onde iam os que morriam antes de Abraão?
13 Caim inaugurou o tormento do Hades e está queimando há seis mil anos até hoje.
14 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz
conclusão de que Deus é um juiz mau que nem ao homem respeita (meios da
parábola de Lucas 18:1-8).
15 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz
conclusão de que a Bíblia aprova a prática de administração desonesta (meios da
parábola de Lucas 16:1-12).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 165
16 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz
conclusão de que e Deus é um homem severo que ceifas onde não semeaste e
ajuntas onde não espalhaste (meios da parábola de Mateus 25:24)
17 Imediatamente após a morte vem o juízo (cf. Hb.9:27). Mas na parábola o rico e
Lázaro foram conduzidos aos seus respectivos lugares sem sequer passarem por
algum julgamento antes, que sequer é mencionado ao longo de toda a parábola.
Sendo assim, ou o autor de Hebreus se engana ao dizer que o que sucede a morte
é o juízo e não a condenação ao inferno ou o gozo do Paraíso, ou a parábola não
deve traduzir acontecimentos reais.
18 Se o Hades/Sheol é alguma “morada de espíritos”, então Davi estava enganando-
se a si mesmos e aos outros ao escrever que são os ossos que descem ao Sheol
(cf. Sl.141:7 – “Sheol”, no original hebraico)
19 Como explicar que na própria lição moral da parábola (ou seja, o que realmente
devemos retirar dela como fonte de doutrina teológica), o personagem Abraão fala
em “ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (vs. 30 e 31), confirmando
que só a ressurreição é o caminho do retorno de quem morreu à existência?
20 O rico reconhece Abraão (v.23), o que demonstra que tinha familiaridade com ele,
mas na própria parábola Abraão cita Moisés (v.29), que é de séculos posteriores.
Se essa parábola for considerada real, corroboraria com a tese de que os mortos
sabem o que acontece no mundo dos vivos, o que é negado pelos protestantes.
É evidente, portanto, que se trata de mera parábola e como as outras devemos tirar dela a
sua lição moral e não analisá-la literalmente e muito menos podemos sair por aí
fundamentando importantes doutrinas bíblicas edificando-as sobre meios de parábolas!
Assim como na parábola de 2ª Reis a lição não era que as árvores falam, mas cada
elemento tem o seu devido significado, assim também o é na parábola do rico e Lázaro. O
nosso próximo passo, então, será desvendarmos o que cada um representava na parábola.
Antes, porém, um pequeno adendo para a refutação de outros argumentos imortalistas
comumente enfrentados.
As contradições imortalistas – Os imortalistas, ao sustentarem essa parábola como sendo
real e literal quando querem refutar os mortalistas, incorrem em uma série de contradições
bíblicas com a doutrina deles mesmos. Um dos exemplos mais claros que podemos citar é a
interpretação deles sobre o “espírito” que volta a Deus após a morte. À luz da Bíblia, esse
espírito nada mais é senão o sopro de vida que volta a Deus após a morte porque provém
dEle, mas os imortalistas precisam sustentar que esse espírito que volta para Deus é a
própria alma imortal, um ser consciente com personalidade que vai para o Céu
imediatamente após a morte.
Sendo assim, a interpretação deles de textos como Eclesiastes 12:7 é de que logo ao
morrermos nossa alma deixa o corpo e vai para a presença de Deus. Mas, sabendo que
Deus está no Céu, como é que nesta parábola Abraão e Lázaro estavam no Hades, que fica
nas profundezas da terra e não no Céu, como o próprio Senhor Jesus deixou claro em
Mateus 11:23? Pois ele disse: “E tu, Cafarnaum, será elevada até ao Céu? Não, você
descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados tivessem sido
realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje” (cf. Mt.11:23).
Se o Hades não é o Céu, mas fica em oposição a este (um está “acima” de nós e outro
“abaixo”) e o espírito volta a Deus após a morte (cf. Ec.12:7), como é que Abraão, Lázaro e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 166
o rico estavam no Hades na parábola, e não no Céu ou em alguma dimensão celestial? Isso
fica claro na própria parábola, que diz:
“No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe,
com Lázaro ao seu lado” (cf. Lucas 16:23)
Como vemos, o rico estava no Hades, e não com Deus nas regiões celestiais. E Abraão, por
sua vez, também não poderia estar no Céu, porque estava tão próximo do rico que
podia vê-lo e conversar com ele! Se tudo isso se passava no Hades, que para os
imortalistas é um local embaixo da terra onde espíritos sobrevivem conscientemente à parte
do corpo, como conciliar isso com o texto de Eclesiastes 12:7, que diz que o espírito volta
para Deus na morte, e não que desce ao Hades? Na teologia bíblica mortalista é fácil
responder a esta pergunta, pois o Hades é uma figura da sepultura para onde vamos ao
morrer, e o espírito não é uma “alma imortal” ou um ser consciente e racional à parte do
corpo, mas apenas o sopro de vida de Deus.
Mas como os imortalistas interpretam que a alma é imortal e o espírito é uma entidade
consciente, teriam que explicar como é que o espírito sobe para Deus, como disse Salomão
(cf. Ec.12:7), Jesus (cf. Lc.23:46) e Estêvão (cf. At.7:59), e a alma vai parar no Hades, que
é onde estavam Abraão e Lázaro nesta parábola. Ou eles interpretam a parábola
alegoricamente (como deveriam fazer) ou é a própria teologia deles próprios que vai por
água abaixo.
Outra passagem que refuta a interpretação imortalista de Lucas 16 é a de Hebreus 9:27,
que diz que imediatamente após a morte segue-se o juízo, e não o Céu ou o inferno. Ou
seja: a próxima experiência consciente que alguém desfrutará após a morte será o imediato
encontro com o tribunal de Cristo (para os justos) ou o grande trono branco (para os
ímpios). Mas nessa parábola contada por Cristo não há qualquer menção ao juízo
seguindo-se à morte. Não é nos dito que o rico morreu, foi julgado e depois condenado a
sofrer no Hades, mas que ele foi direto para o Hades. Sendo assim, ou o autor de Hebreus
errou ao dizer que logo após a morte vem o juízo, ou a parábola não é uma história real
contada por Jesus, mas uma alegoria.
Ora, sabemos que este juízo só ocorrerá na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1) e que os ímpios só
serão julgados após o término do milênio (cf. Ap.20:11-15), seguindo-se, portanto, que o
rico não foi literalmente enviado ao Hades conscientemente para ser atormentado, mas
espera o dia do juízo, que é de fato a próxima experiência que alguém tem depois de
morrer. Portanto, as verdades literais da Bíblia anulam qualquer possibilidade de essa
parábola ser um acontecimento real ou retratar algo que de fato ocorra com alguém após a
morte, e de quebra põe a própria teologia imortalista em confusão consigo mesma.
Refutando contra-argumentos – A contra-argumentação mais famosa utilizada pelos
imortalistas é que, mesmo que Lucas 16 seja uma parábola e não necessariamente precise
relatar meios literais, a imortalidade da alma deve mesmo assim ser considerada através
desta passagem porque Jesus não iria “confundir” os seus ouvintes judeus incrédulos, que
poderiam pensar que realmente aquele estado intermediário existia. Para eles, se aquela
descrição da parábola fosse fictícia, isso causaria enorme confusão na mente daquelas
pessoas e muitos poderiam tomar aquilo como sendo um retrato da verdade. A vista deste
argumento, temos que fazer as seguintes considerações:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 167
1º Em primeiro lugar, o povo daquela época, diferentemente do atual, já estava habituado
com o uso de parábolas e sabiam que elas não poderiam ser levadas ao pé da letra. Jesus
só lhes falava por meio de parábolas (cf. Mt.13:34), e, se eles fossem literalizar cada uma
delas, poderiam ter depreendido vários erros teológicos dos quais já constatamos aqui,
como, por exemplo, a alegação de que Deus é um juiz ímpio (cf. Lc.18:2), que colhe onde
não semeou (cf. Mt.25:24), que obriga as pessoas a irem para o Céu (cf. Lc.14:23), ou que
aprova a prática da administração desonesta (cf. Lc.16:8). Mas nunca vemos alguém
acusando Jesus por insinuar que ele aprovava a administração desonesta, que colocava um
caráter ímpio em Deus ou que não respeitava a nossa própria liberdade. Portanto, podemos
perceber claramente que o próprio povo da época entendia que as parábolas não podiam
ser interpretadas literalmente. Se eles não faziam isso com as outras parábolas, também
não iriam aplicar este princípio na do rico e Lázaro para serem “confundidos”!
2º Em segundo lugar, se Jesus não poderia fazer uso dessa parábola em função da
“confusão” que causaria em seus ouvintes, então ele não obteve tanto sucesso, visto que o
Hades que ele mencionou era totalmente diferente daquele que é crido hoje pelos
imortalistas. Por exemplo, na parábola Céu e inferno ficam lado a lado, já na teologia
imortalista ficam em dimensões diferentes. Na parábola, os salvos e os perdidos conversam
numa boa, já na teologia imortalista não há contato entre os salvos e perdidos que se
foram. Na parábola, o rico tinha um corpo físico com língua, dedos, e sentia sede. Já na
teologia imortalista, é apenas um espírito incorpóreo que desce ao Hades. Sendo assim, se
este argumento imortalista realmente procede, certamente se volta contra eles mesmos
quando analisado mais de perto.
3º Em terceiro lugar, temos que ressaltar que Jesus não estava contando essa parábola aos
incrédulos (multidão), mas aos seus próprios discípulos. Isso por si só já fulmina com esse
argumento imortalista, pois, se Cristo contou essa parábola aos seus próprios discípulos (e
estes já estavam muito bem doutrinados por Cristo), não haveria possibilidades de
“confundir a multidão” que vivia em trevas. Podemos perceber que Jesus falava em
particular com os seus discípulos e não com toda a multidão através da leitura do verso
seguinte, que deixa claro que Jesus estava falando “aos discípulos” – Lucas 17:1. Temos
que lembrar que o original da Bíblia não continha a divisão por capítulos e versículos, e,
portanto, Lucas 17:1 era simplesmente a continuação direta e imediata do relato descrito
até o verso 31 em Lucas 16, que deixa evidente que a conversa era entre Jesus e seus
discípulos, e não entre Jesus e a multidão.
4º E, em quarto lugar, devemos lembrar que seus discípulos, evidentemente, já eram muito
bem doutrinados por Cristo, e portanto não teriam qualquer problema com essa parábola. O
pastor adventista Valdeci Junior costuma contar aos seus ouvintes uma história semelhante
a que Jesus contou em Lucas 16:19-31, dizendo90:
«Certa vez, morreram, na mesma hora, em lugares diferentes mas não muito distante um
do outro, dois homens. O primeiro era um senhor simples, sem estudos, motorista de
ônibus na pequena região onde morava. Era conhecido de todos, principalmente pela má
execução de sua tarefa profissional. Era muito, mas muito barbeiro. Foi assim a vida toda,
até que morreu em acidente de transito. O segundo homem era o pastor da cidadela.
90 Disponível em: <http://www.nasaladopastor.com/2011/03/parabola-do-rico-e-do-lazaro-vai-pro.html>.
Acesso em: 15/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 168
Pois bem, chegaram na porta do céu praticamente juntos. São Pedro atendeu primeiro o
motorista. No questionário de admissão para entrar no céu, quando São Pedro queria saber
quem ele era, aquele homem começou a explicar: eu sou aquele conhecido motorista de
ônibus, da empresa tal, de tal cidade, e tal e tal... Ah, ta! Disse São Pedro. Você é o
motorista barbeiro! “Justamente”, respondeu o homem! Pois bem! Disse São Pedro. Entre!
O Céu é todo seu!
O pastor, que estava assistindo a entrevista enquanto esperava para ser também atendido,
pensava: “Se este homenzinho foi admitido ao Céu, imagine eu, o pregador”.
São Pedro se virou para o pastor: “Você é o próximo?”
“Sim”, respondeu o pastor, todo empolgado: “Sou o pastor, da mesma cidade deste
barbeiro que acabou de entrar...”
São Pedro cortou: “Olha, eu sei quem você é. Infelizmente, você não tem entrada livre ao
Céu. Não poderá ficar aqui”.
“Mas como?”, contestou o pastor. “Este homenzinho ignorante, iletrado, que fazia seu
trabalho mal feito, que não pregava, que vivia dando prejuízo pra empresa, que sempre
deixava todos os seus passageiros tensos e temerosos, vai entrar no Céu, e eu, o pregador,
que vivia na igreja, que falava da palavra de Deus, que procurava deixar todos em paz, não
poderei entrar?”
“É justamente nesta diferença que está a razão da rejeição de sua entrada em face da
admissão do motorista”, respondeu São Pedro.
“Não entendi”, disse o pregador.
O apóstolo porteiro do Céu explicou: “É que enquanto você estava na igreja, com seus
sermões sem vida, colocando todos os seus fiéis para dormir, o motorista estava colocando
todos os seus passageiros para rezar”»
Depois que ele conta a história, ainda antes de revelar ao auditório qual será o assunto do
dia, começa a perguntar às pessoas quais são as lições que elas tiraram desta história. É
interessante notar alguns pontos da reação do auditório. Assim que termina a história, os
ouvintes sorriem e vão fazendo a lista das lições aprendidas:
“Nem todo o que me diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus”
“Os simples também têm entrada no Céu”
“É melhor a devoção do que o formalismo”
“Ser pastor não garante a salvação”
“O pregador deve fazer bons sermões”
“O Céu não admite só pela aparência”
“As aparências enganam”
“Devemos vigiar e orar”
E por aí vai...
Interessante é que absolutamente ninguém até hoje diz que viu nesta história lições como:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 169
“São Pedro está lá na porta do Céu esperando por nós”
“Antes de entrarmos no Céu teremos que passar por uma entrevista”
“Assim que morremos chegamos ao Céu”
“Pode ser que cheguemos à porta do Céu e não sejamos admitidos”
“A alma é imortal”
Ninguém se escandaliza por isso ou ridiculariza a história. Esperam então que ele introduza
o assunto da palestra baseado em alguma das lições que conseguiram tirar dela. Começam
a imaginar qual será o tema da noite. Jamais pensam que ele iria falar da parábola do rico e
do Lázaro. Ele se aproveitou de uma crendice popular apenas como um cenário onde se
passava uma historia inventada, a fim de ensinar algumas lições. Por que?
1º O auditório sabe que esta não é uma historia verdadeira.
2º Eles conhecem a crendice popular de que quem morre vai pro Céu, e na entrada
encontra São Pedro.
3º Eles não creem nesta crendice como doutrina. Sabem que isto não é verdade (ele já
conhece o auditório e sabe que eles creem como ele crê, sobre o destino do homem após a
morte).
4º O auditório vai conseguir captar as lições que ele quer ensinar com mais facilidade, pois,
através de uma metáfora, está figurando o ensino. Isto é didática. A primeira vez que ele
ouviu esta historia, ela foi contada por um palestrante que não cria na imortalidade da
alma, para um publico que também não cria. Na ocasião, todos entenderam a mensagem. A
questão de mortalidade ou imortalidade nem foi cogitada por ninguém. Não era este o
assunto.
Isto foi o que Jesus fez. Ele se utilizou de um cenário popular como um fundo fictício onde
se passava a parábola do rico e Lázaro, na qual ele ensinou aos seus discípulos as lições
morais que iremos analisar a partir de agora. Isso obviamente não confundiria os discípulos
nem a ninguém que entendesse um pouco de Bíblia para saber que a natureza humana é
holista, que a morte é a cessação da existência e a ressurreição é o antídoto para a vida
eterna, tanto quanto a palestra do pastor Valdeci Junior, que vimos acima, não levou
ninguém a tirar a conclusão de que aquela história ensina a imortalidade da alma, nem
tampouco chegou a “confundir” alguém.
O significado dos elementos da parábola - O homem rico representava a nação judaica, que
se orgulhava de se auto-considerar “os filhos de Abraão” (cf. Jo.8:33). Eram o povo
escolhido de Deus, a nação eleita, sacerdócio real, tinham a Lei de Deus, os Mandamentos,
eram os filhos legítimos de Abraão. Deus lhes computou todas as responsabilidades do
Reino como os Seus filhos, como a Sua nação eleita.
Contudo, rejeitaram o Messias, rejeitaram o Filho de Deus encarnado, preferiram seguir os
seus caminhos e as suas tradições, fundamentando-as na segurança de serem os filhos de
Abraão, a nação de Jeová e, portanto, os filhos legítimos do Reino. Em contraste, como eles
consideravam os gentios? Os consideravam como os coitados, considerados como cães,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 170
imundos e indignos do favor do Céu, pelos judeus. Não foram os “escolhidos de Deus”,
eram, portanto, os “Lázaros espirituais”.
Enquanto os judeus receberam tudo de bom nesta vida, recebendo o favor de Deus como a
nação eleita e sacerdócio real, para lhes ser computada como justiça, os gentios
(representados pelo mendigo Lázaro) eram os “pobres” do Reino. Ficavam para trás, o
máximo que faziam era “comer as migalhas” daqueles que faziam parte do Reino, os
judeus, representados pelo Rico.
Como o rico, os judeus não estendiam a mão para auxiliar os gentios em suas necessidades
espirituais. Permitia apenas comer das migalhas. Cheios de orgulho, consideravam-se o
povo escolhido e favorecido de Deus; contudo, não serviam nem adoravam a Deus.
Depositavam confiança na circunstância de serem filhos de Abraão, dizendo: “Somos
descendência de Abraão” (cf. Jo.8:33), e diziam isso orgulhosamente.
Assim, foram os judeus comparados ao homem Rico da parábola, pelo fato de que possuíam
as riquezas do evangelho, mas, no entanto, não cumpriram a vontade de Deus a respeito
deles, que era de ser a luz dos gentios. No campo religioso, os pobres gentios pegavam
mesmo apenas as migalhas. Uma cena que exemplifica bem esse quadro encontra-se no
evangelho de Mateus:
“E, partindo Jesus dali, foi para as bandas de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia,
que saíra daquelas cercanias, clamou dizendo: Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de
mim, que minha filha está miseravelmente endemoniada. Mas Ele não lhe respondeu
palavra. E os discípulos, chegando ao pé dEle, rogaram-lhe dizendo: Despede-a, que vem
gritando atrás de nós. E Ele respondendo disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas
perdidas da casa de Israel. Então chegou ela e adorou-O dizendo: Senhor, socorre-me. Ele
porém, respondendo disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos.
E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que
caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher,
grande é a tua fé: Seja isto feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua
filha ficou sã” (cf. Mateus 15:21-28).
Aquela mulher cananéia (gentios) também queria compartilhar das “migalhas” da mesa,
assim como o mendigo Lázaro. Uma descrição perfeita daquele cenário. O que Jesus fez?
Elogiou a sua fé. Apesar de ele ter sido chamado para a “casa de Israel”, ficou
impressionado com a fé dos gentios, pois “nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé”.
Aquela gentia contentava-se em comer das migalhas da mesa, como é o caso de Lázaro na
parábola.
Outro exemplo disso encontra-se em Mateus 8:5-13. Nesta experiência, o centurião
expressou exatamente o que os judeus pensavam dos gentios: “Não sou digno de que
entreis em minha casa” (v.8). No entanto, o centurião demonstrou grande fé quando disse:
“Diga somente uma palavra e meu criado sarará” (v.8). Jesus curou o servo daquele gentio
e publicamente elogiou sua fé com estas palavras: “Nem mesmo em Israel encontrei tanta
fé” (v.10), e, por fim, assegurou que muitos gentios irão se assentar na mesa com Abraão
(cf. Gl.3:27-29; Rm.10:12).
Apesar de serem considerados “a descendência de Abraão”, os gentios demonstravam uma
fé muito superior do que a dos próprios israelitas! Embora estes fossem “os ricos do Reino”,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 171
devendo ser a luz das nações e os reis da terra deveriam caminhar vendo a glória de Deus
que paira sobre eles (cf. Is.60:3), não aproveitaram essa sua riqueza. Os gentios, contudo,
mesmo sendo os “Lázaros espirituais”, desprezados pelos judeus por não serem os “filhos
de Abraão”, demonstraram uma fé muito superior a dos próprios judeus.
No pátio do Templo de Jerusalém havia uma linha demarcatória que, no caso de ali algum
gentio passar, morria imediatamente (cf. At.21:29), isso porque eram considerados
indignos pelos judeus de cultuar a Deus no Seu Templo. Portanto, Cristo quis ensinar nesta
parábola que os judeus (Rico) banqueteavam-se na mesa da verdade, enquanto os gentios
(Lázaro), eram como os cachorrinhos que procuravam a todo custo apanhar ao menos das
migalhas do evangelho.
E, de fato, eles passaram a fazer parte da mesa de Deus, unidos em “um só povo” (cf.
Jo.11:52). Isso serviu de lição moral ao grupo dos fariseus, que eram exatamente aqueles a
quem Cristo condenava nesta parábola (v.14,15). A maior prova de que o Rico (nação
judaica) recebeu “seus bens em sua vida”, como nos informa a parábola, foi o fato de ter
sido chamada para ser o sacerdócio real de Deus na Terra, nação santa, peculiar.
Sobre ela o Senhor dispensou, por séculos, bênçãos sem limites, além de dar-lhes uma
terra onde mana leite e mel e, finalmente, deu-lhes o próprio Messias, o Salvador. A reação
do rico (judeus), contudo, foi esta: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”
(cf. Jo.1:11). Os judeus, portanto, rejeitaram o Messias (o Rico morre). Assim sendo,
perderam a soberania divina sobre as demais nações.
O evangelho haveria de ser então anunciado em seu poder aos gentios (Lázaro), a fim de
que também eles participassem da mesa do Reino. Não comeriam mais migalhas da mesa
do Senhor, mas fariam parte do banquete do Reino (cf. Lc.13:29). O que Jesus faz? Ele tira
do próprio Abraão, sobre o qual aquela nação judaica se orgulhava em sua chamada
“superioridade”, as palavras que este haveria de ter dito em pessoa: “Se não ouvem a
Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (cf.
Lc.16:31).
Essa é a lição moral da parábola. Nada, nem mesmo uma ressurreição, poderia converter
aquela nação novamente. Tornaram-se cegos espirituais, cavaram-se a si mesmo um
abismo intransponível entre eles e Deus, entre eles e a salvação (cf. Lc.16:26). A parábola,
portanto, não deve ser interpretada literalmente pelos seus meios fundamentando-a como
doutrina, pelo contrário, tem cada elemento o seu devido significado ao exemplo das outras
parábolas que também não apresentam meios literais, mas uma verdade moral por detrás
de um cenário fictício.
Ele contou a parábola do Rico e do Lázaro, em que o homem rico representava o próprio
povo judeu que teve todas as oportunidades nesta vida, mas a desperdiçou, enquanto, em
contraste, os gentios (representados por Lázaro na parábola) eram os “Lázaros espirituais”,
desprezados pelos judeus, mas que desfrutariam de muito maior bem-aventurança do que a
própria nação judaica que se autoproclamava os “filhos de Abraão”. O quadro todo
representava aquela nação judaica que se orgulhava por serem os filhos de Abraão
escolhidos de Deus (representados pelo Rico), quando, na verdade, os que são da fé é que
são os verdadeiros filhos de Abraão (representados pelo pobre Lázaro), como disse o
apóstolo Paulo: “Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos
de Abraão” (cf. Gl.3:7).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 172
Por fim, a lição moral da parábola é que, “se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco
acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (cf. Lc.16:31). Os fariseus
desprezavam Jesus, não acreditavam nele, o perseguiam, apesar de todos os feitos
milagrosos de Cristo, incluindo o de ressuscitar os mortos. Jesus havia ressuscitado
exatamente um homem chamado Lázaro (cf. Jo.11:43,44), que havia voltado à vida após
quatro dias em que esteve morto, mas nem mesmo assim os fariseus acreditaram nele, e
ainda continuavam a o perseguir!
Os que não escutam Moisés e os profetas também não vão acreditar em Cristo, nem mesmo
se os mortos ressuscitarem. De fato, essa verdade foi ainda mais ressaltada pela reação dos
dirigentes dos judeus quando Jesus ressuscitou Lázaro, no relato de João 11. Ao invés de
eles passarem a acreditar em Cristo, começaram a persegui-lo ainda mais do que antes:
“Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: Que
faremos? Porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão
nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação (...) Ora, os principais dos
fariseus tinham dado ordem para que, se alguém soubesse onde ele [Jesus] estava, o
denunciassem, para o prenderem” (cf. João 11:47-48,57)
“E os principais dos sacerdotes tomaram a deliberação para matar também a Lázaro;
porque muitos dos judeus, por causa dele, iam e criam em Jesus” (cf. João 12:10-11)
Então, Cristo ensina que para aqueles que se proclamavam os “filhos de Abraão”, nenhuma
prova – nem mesmo sequer uma ressurreição, como foi a de Lázaro – os fariam mudar de
opinião e converter-se. O próprio Abraão que os condenava!
Jesus não estava dizendo que literalmente algum morto teria que voltar a vida para contar
sobre os tormentos do Hades, convertendo assim aquela nação judaica, pois a Bíblia traz
um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (cf. 1Rs.17:17-24;
2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11), mas absolutamente nenhuma
delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar. Lázaro, que foi trazido à vida
após quatro dias morto não teve nenhuma experiência fora do corpo, e muito menos
alguma “mensagem” para trazer a família nenhuma.
O que Jesus estava fazendo era uma exortação à comunidade: ouvirem a Moisés e aos
profetas (i.e, a Escritura da época), antes que seja tarde demais. Isso porque as tradições
humanas daquele povo já estavam se sobrepondo a “Moisés e os profetas”, já estavam
tomando o lugar da Sagrada Escritura (cf. Mc.7:13). Se considerando filhos de Abraão
(Rico) que são beneficiados no banquete do Reino de Deus, desprezavam os gentios
(Lázaro), que tinham que comer das migalhas que caíam de suas mesas. Mas este quadro
estava se revertendo. A partir do período da Graça, eram os gentios que desfrutariam das
bem-aventuranças do Reino, ao passo que aqueles que se apoiavam na descendência
natural de Abraão seriam condenados pelo próprio Abraão.
Conclusão – A parábola apresenta através de meios não-literais (fictícios) diversos
princípios morais que estavam sendo rejeitados pelos judeus da época de Cristo, em
especial o repúdio aos gentios, que haveriam de desfrutar muito maior bem-aventurança
que os próprios judeus. Eles “virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e
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assentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (cf. Lc.13:29), junto a Abraão e os patriarcas (cf.
Lc.13:28), enquanto os incrédulos ficarão de fora:
“Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os
profetas no reino de Deus, e vós lançados fora. E virão do oriente, e do ocidente, e do
norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (cf. Lucas 13:28-29)
O quadro descrito em Lucas 13:28-29 é tipificado na parábola do Rico e Lázaro. Na
parábola, o pobre, representando a multidão de gentios convertidos, está ao lado de Abraão
(cf. Lc.16:22), exatamente como em Lucas 13:28, ao passo que os incrédulos estão de fora
do Reino, o que também é tipificado na parábola (cf. Lc.16:23). Assim como em Lucas
13:28-29, na parábola os gentios convertidos representados por Lázaro desfrutam das bem-
aventuranças do Reino como em um verdadeiro banquete, após terem desfrutado apenas
das “migalhas” enquanto estiveram aqui na terra (cf. Lc.16:21).
Sendo assim, podemos dizer que a parábola do Rico e Lázaro é uma tipificação do ensino de
Cristo descrito em Lucas 13:28-29, mas com maior riqueza de ensinos morais a serem
obtidos dela, como vimos acima. Note que o verbo em Lucas 13:28-29 está em todo o
momento no tempo futuro. Cristo diz que “haverá” choro e ranger de dentes (v.28), e não
que está havendo choro e ranger de dentes. Da mesma forma, diz que muitos virão do
oriente e do ocidente para fazerem parte do Reino, e não que já estejam lá (v.29). Eles se
assentar-se-ão à mesa de Deus, como em um acontecimento futuro (v.29).
Portanto, aquilo que acontecerá futuramente foi tipificado na parábola do Rico e Lázaro,
não de forma literal, mas com a personificação dos personagens ali citados e transmitindo
um ensinamento moral aos seus discípulos. A parábola em si não é a descrição de como
será o pós-vida, mas uma tipificação desta. Na parábola é tipificado aquilo que virá a ser,
isto é, gentios de todas as nações fazendo parte do Reino junto a Abraão, incrédulos de
fora, reforço ao apego às Escrituras (“Moisés e os profetas” – cf. Lc.16:31) e a rejeição à
incredulidade dos líderes dos judeus. De fato, à exemplo da lista de lições aprendidas na
história do pastor Valdeci Junior, podemos listar também aquilo que aprendemos com a
parábola do Rico e Lázaro:
1º Que, diferentemente dos fariseus que pensavam que as riquezas eram um sinal da
aprovação divina (e estes eram extremamente apegados ao dinheiro - cf. Lc.16:14),
haverão homens ricos (v.19) que estarão de fora do Reino (vs.22-23).
2º Que, diferentemente da crendice popular de que a pobreza e a doença eram coisas do
diabo, haverão homens extremamente pobres e doentes que serão salvos (vs.20-21).
3º Que os gentios que na época comiam apenas das migalhas passarão a desfrutar da mesa
do Reino de Deus ao lado de Abraão (v.21).
4º Que o simples fato de se apoiar na descendência natural de Abraão em nada significa
que é realmente filho de Deus (v.24).
5º Que os que desprezam a Cristo estão cavando para si mesmos um “abismo
intransponível” entre eles e Deus (v.26).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 174
6º Que nem todo aquele que reivindica para si mesmo o direito de ser chamado filho de
Abraão ou de Deus é realmente um convertido (vs.24-25).
7º Que a ressurreição é o único caminho para quem morreu voltar à existência (v.31).
8º Que até mesmo um grande sinal miraculoso como ressuscitar os mortos não é suficiente
para fazer que os descrentes creiam em Cristo Jesus (vs.30-31).
9º Que a oportunidade de salvação se limita ao “hoje”, e não depois da morte, quando nada
mais pode ser feito (v.s.24-31).
10º Que a Sagrada Escritura (“Moisés e os profetas” – v.31) é o único meio através do qual
um incrédulo pode se se arrepender e se converter de seus maus caminhos.
Na parábola do Rico e Lázaro, Cristo mostra que é nesta vida os homens decidem seu
destino eterno, porque, depois, será apenas por meio da ressurreição que voltaremos à
existência (cf. Lc.16:31) e seremos ressurretos para a vida eterna ou para a condenação
(cf. Jo.5:28-29), de acordo com os atos praticados em vida (cf. 2Co.5:10), sem segunda
chance após a morte (cf. Hb.9:27). Durante o presente momento, essa salvação é oferecida
por Deus a toda criatura, sem distinção entre ricos e pobres, judeus ou não-judeus. Mas, se
os homens desperdiçam as oportunidades se apoiando em tradições humanas antes que nas
Escrituras, acabam por si mesmos cavando entre eles e Deus um abismo intransponível.
VI–Deus de vivos, não de mortos – Argumento contra ou a favor da imortalidade
da alma?
Outra passagem que tem sido olhada pela ótica dualista é o que Jesus diz em Lucas
20:38,39 – “Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para ele todos
vivem”. Infelizmente, bastaria que as pessoas lessem o versículo anterior para entender o
que Jesus queria provar com aquilo: “E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o
indicou no trecho referente à sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de
Isaque e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para
ele todos vivem. Então disseram alguns dos escribas: Mestre, respondeste bem. Dai por
diante não ousaram mais interrogá-lo” (cf. Lc.20:37-40).
Do início ao fim Jesus estava usando tal passagem para provar a ressurreição dos mortos, e
não uma imortalidade da alma. O fato é que, pelo contexto, Cristo estava debatendo com
uma seita da época, chamada de “saduceus”. Estes saduceus não acreditavam na
ressurreição dos mortos:
“Então se aproximaram dele alguns dos saduceus, que dizem não haver ressurreição, e
lhe perguntaram...” (cf. Marcos 12:18)
Então, Jesus, para provar que os mortos hão de ressuscitar, citou o trecho que diz que Deus
é o Deus de Isaque, Abraão e Jacó, provando assim que eles ainda seriam ressuscitados;
eles não estavam mortos para todo o sempre como acreditavam esses saduceus (que não
criam na ressurreição para trazer de novo alguém a vida), porque se fosse assim Deus iria
dizer que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 175
O intuito de Cristo, portanto, era mostrar para aquele grupo de religiosos, que não
acreditavam na ressurreição, que essa era um fato que iria acontecer, pois Deus não é um
Deus de mortos. Logo, todos os mortos – incluindo Isaque, Abraão e Jacó – seriam
ressuscitados, ao contrário do que acreditavam os saduceus, e viveriam com Deus. Do início
ao fim a passagem é para provar a ressurreição dos mortos:
“E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o indicou no trecho referente à sarça,
quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (cf. Lucas
20:37,38)
Fica muito mais do que claro que Jesus usou essa passagem para desacreditar aquilo que os
saduceus acreditavam, isto é, que os mortos não vão ressuscitar nunca. Se a ressurreição
não acontecesse, Deus seria Deus de mortos. O evangelho de Marcos também é revelador
para descobrirmos o que Jesus estava querendo dizer com esta passagem:
“Pois, quando os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do Céu, e ninguém casará”
(cf. Marcos 12:25)
“Quando os mortos ressuscitarem”, e não quando a nossa alma imortal deixa o corpo por
ocasião da morte! Jesus disse claramente, no contexto, que é “quando os mortos
ressuscitarem”, é isso o que Jesus queria provar. Se a intenção de Cristo fosse provar a
imortalidade da alma (algo estranho, pois a pergunta não foi sobre isso, mas sobre a
ressurreição), então decerto teria dito: “Quando vocês morrerem... serão como anjos
no Céu”, se a alma fosse direto para o Paraíso. Contudo, Cristo é claro em dizer: “Quando
os mortos ressuscitarem serão como anjos no Céu”.
Na verdade, quando os defensores da imortalidade da alma usam esta passagem como
suposta “prova” do estado intermediário, eles mal sabem que tudo não passa de um famoso
“tiro no pé”. Além de demonstrar uma lastimável interpretação de texto (sem observar o
contexto histórico e a contextualização textual que desmontam por completo com a
interpretação deles), a passagem ainda sustém uma grande prova contra o estado
intermediário. Por quê? Simplesmente porque Cristo afirma categoricamente que “quando
os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do Céu” (cf. Mc.12:25).
Se o espírito dos salvos partisse para o Paraíso logo no momento da morte em um “estado
intermediário”, então certamente Cristo teria dito que “quando morrerem... serão como
anjos no Céu”. Contudo, é somente na ressurreição que tal fato se concretiza, o que
fulmina com a existência de um suposto estado intermediário. Ademais, os próprios
saduceus (que não acreditavam em nada após a morte e nem em ressurreição) sabiam que
o Mestre não acreditava em um “estado intermediário”, por isso perguntam a ele focando
no momento da ressurreição, pois é somente neste momento em que os mortos voltam à
vida:
“Na ressurreição, de qual deles será ela esposa, pois os sete por esposa a tiveram?” (cf.
Marcos 12:23)
Se Jesus cresse na imortalidade da alma, os saduceus o teriam indagado sobre essa
possibilidade de a alma ser imortal, e não sobre a possibilidade de a ressurreição acontecer.
Eles questionaram direto a ressurreição sem cogitar qualquer estado intermediário ou
imortalidade da alma (que eles também não criam) porque sabiam que Jesus cria na
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 176
ressurreição, e não na imortalidade da alma. Por isso, o foco da discussão em todo o
momento não foi sobre se a alma é ou não é imortal, mas sim se a ressurreição vai ou não
vai ocorrer. Aparentemente, a questão relativa a um estado intermediário não era um ponto
de discussão. Nem Jesus nem os saduceus que o questionavam criam nela, e por isso o
único que foi debatido foi a ressurreição, que Cristo ensinava e os saduceus não.
Além disso, devemos ressaltar o fato de que, neste mesmo contexto, Cristo relata que “não
podem mais morrer, pois são como os anjos. São filhos de Deus, visto que são filhos da
ressurreição” (cf. Lc.20:36). Aqui vemos que os que partem deste mundo tornam-se
imortais (“não podem mais morrer”) e tornam-se como os anjos (“são como os anjos”) a
partir da ressurreição dentre os mortos, como é claramente indicado pelo contexto (vs.
33 e 34) e pelo próprio fim do verso que torna tal afirmação muito evidente ao relatar
explicitamente que são “filhos da... ressurreição” (v.36). Não desfrutaremos de imortalidade
em um estado intermediário, mas somente quando Jesus voltar e nos ressuscitar para
entrarmos na vida eterna (cf. Jo.5:28,29).
Vemos, portanto, que esta passagem, em lugar de favorecer a doutrina grega da
imortalidade da alma, constitui-se exatamente em uma forte confirmação de que a vida
eterna e a era vindoura se dará pela ressurreição dos mortos! Finalmente, como se
tudo isso não fosse suficientemente claro para vermos como os imortalistas deturpam essa
passagem bíblica tirando-a do seu contexto, devemos ressaltar também que a lógica de
Cristo nesta passagem só faria sentido em caso que os mortos estivessem literalmente
mortos mesmo (i.e, sem vida) e só ganharão vida a partir da ressurreição.
Como podemos provar este ponto de vista?
Em primeiro lugar, porque se Cristo tivesse provado que os mortos estão atualmente vivos
(como os imortalistas interpretam erroneamente o verso 38), então isso, por si só, em
absolutamente nada provaria que os mortos irão ressuscitar, pois Cristo usou aquilo para
provar a ressurreição que os saduceus desacreditavam (cf. Lc.20:37; Lc.20:33), e tal
argumento dele no verso 38 (supostamente de que os mortos já estivessem vivos) não
seria nenhuma “prova incontestável” da ressurreição, uma vez que os mortos poderiam
viver eternamente em um estado desencarnado (como criam os gregos de sua época) na
forma de uma alma imortal, sem passar pela ressurreição. Sendo assim, Jesus teria tentado
provar a ressurreição por meio de um argumento que não prova a ressurreição! Afinal, que
os mortos estão vivos não é prova de que eles irão ressuscitar. Os próprios gregos de sua
época criam nisso e não criam na ressurreição.
Se, contudo, ponderamos que os mortos estão sem vida, vemos que tal afirmação de Cristo
(de que Deus não é Deus de mortos) prova totalmente a ressurreição, uma vez que, sem
ela, Deus seria Deus de mortos, e que o próprio fato de Ele ser Deus de vivos prova que
eles sairão deste estado de morte (i.e, sem vida), para necessariamente passarem por
uma ressurreição, ganhando vida, pois senão Deus seria um Deus de mortos e diria que
era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
Então torna-se lógico que tal argumento de Cristo só seria validado caso os mortos
estivessem literalmente mortos (i.e, sem vida) para ganharem vida somente a partir da
ressurreição, pois somente desta maneira o objetivo de Cristo em provar a ressurreição se
concretizaria. Se os mortos já estivessem vivos, tal passagem não provaria a ressurreição, e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 177
o argumento seria inútil. Mas se os mortos estão realmente sem vida, então o fato de que
eles viverão um dia prova totalmente que uma ressurreição deve ocorrer.
Vemos, portanto, que tal pretensão imortalista falha em inúmeros aspectos, como vimos:
1º O argumento de Cristo para provar a ressurreição somente a provaria efetivamente em
caso que os mortos estivessem literalmente mortos (sem vida) como de fato eles estão.
2º Se os que morreram já estivessem com vida em uma forma incorpórea, Jesus teria
usado um argumento para provar a ressurreição que simplesmente não prova a
ressurreição!
3º Cristo não quis de maneira nenhuma provar que os mortos já estão vivos, pois o verso
37 diz claramente que ele usou tal argumento para provar “que os mortos hão de
ressuscitar”, e não de que eles já estão vivos em algum lugar.
4º Os que morrem são filhos “da ressurreição” (v.36), e não da alma imortal, do estado
intermediário ou da imortalidade da alma. Eles são considerados “filhos da ressurreição”
porque é somente a partir dela que eles ganham vida.
5º Nós nos tornaremos semelhantes aos anjos (não no aspecto físico, mas no sentido de
que não possa mais se dar em casamento – v.35) quando “os mortos ressuscitarem” (cf.
Mc.12:25), e não quando a alma supostamente parte do corpo rumo a um “estado
intermediário” imaginário.
6º O saduceus sabiam que Jesus não acreditava no estado intermediário, por isso
perguntaram direto se “na ressurreição, de qual delas será ela esposa...” (cf. Mc.12:23). A
imortalidade da alma ou existência de um estado intermediário nem ao menos era um
ponto de discussão entre eles, pois tanto Cristo como os saduceus não criam nisso, e por
essa razão o debate entre os dois foi sobre a ressurreição, que era crida por Jesus e
rejeitada pelos saduceus.
Vemos, portanto, que quando analisamos o devido contexto, tal passagem não apresenta
absolutamente nenhuma, mas nenhuma mesmo, prova da “imortalidade da alma”, mas
constitui-se em uma fortíssima prova contra ela. Como em todas as outras passagens que
são utilizadas por eles, basta analisarmos o próprio contexto e deixarmos o texto fluir
normalmente que toda e qualquer pretensão imortalista cai por terra e volta-se contra os
seus próprios proponentes.
VII–Mateus 10:28 e a destruição da alma
A passagem de Mateus 10:28, em que Jesus diz: “Não temais os que matam o corpo e não
podem matar a alma; temei antes aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o
corpo”, tem sido vista pelas lentes dualistas como um apoio para a doutrina da imortalidade
da alma, possivelmente como a única passagem bíblica dentre mais de 1600 em que a
“alma” é mencionada com possibilidade de ser imortal. Tal interpretação, contudo, carece
inteiramente de fundamento.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 178
Se o que Jesus queria provar em Mateus 10:28 era a doutrina da imortalidade da alma, por
que então a continuação deste mesmo diz que a alma-psiquê é destruída junto com o
corpo? Afinal, como disse Cullmann, “se a alma é destruída, então ela não é imortal”91. E,
se Cristo queria provar que a alma nunca é destruída, então certamente não teria dito que
ela pode perecer. Um elemento imaterial não poderia jamais sofrer a destruição que afeta o
corpo e nem ser destruído.
Se o que está em jogo em Mateus 10:28 é a alma como um elemento, como creem os imortalistas, isso
refutaria a própria tese da imortalidade da alma, pois a continuação lógica de um texto que diz que os
homens podem apenas matar o corpo mas não podem matar a alma é que Deus destruirá tanto um
como o outro. Não há a menor lógica em dizer que os homens podem matar o corpo e não a alma e
Deus também só mata o corpo e não a alma, ou pior: que os homens possam matar o corpo e não a
alma e Deus não mata nem um nem outro!
É óbvio que a mensagem de Jesus sobre temer a Deus acima de todas as coisas só faria sentido se, de
fato, os homens matassem o corpo e Deus matasse o corpo e a alma, isto é, que ele matasse mais do
que os homens são capazes de fazer. Isso implica necessariamente em uma destruição-apollumi no
sentido de cessação de vida, de morte no mesmo sentido de não-vida que o verso trata. Se o “destruir”
aqui é uma mera referência a “fazer perder” ou “lançar” (como vertem algumas traduções) mas não a
matar literalmente (fazer com que deixe de existir) o texto estaria dizendo que os homens matam apenas
o corpo e não a alma e Deus também mata apenas o corpo e não a alma.
Isso obviamente anula toda a mensagem de não temer quem pode dar um fim apenas ao corpo, se Deus
da mesma forma também só desse um fim ao corpo! Evidentemente, não estamos dizendo que em
outras ocasiões apollumi não possa significar meramente “perdição” e não “destruição” (pois ambos são
significados da palavra), mas sim que neste contexto específico de Mateus 10:28 seria um absurdo
interpretar apollumi em outro sentido que não seja o de aniquilamento, pois faria com que o texto
estivesse dizendo que não é para temer aqueles que só podem matar o corpo, mas era para temer
aquele que também só mata o corpo!
Em outras palavras, se “alma” aparece aqui no sentido de elemento da natureza humana, como creem
os imortalistas, essa seria uma prova indiscutível e irrefutável do aniquilacionismo da alma dos ímpios,
que Deus aniquila no geena tanto o corpo quanto a alma dos ímpios, o que implica na inexistência do
tormento eterno do inferno que creem os dualistas. Isso os faria renegar suas próprias convicções
teológicas a respeito do inferno, para salvar a crença da sobrevivência da alma em um estado
intermediário.
Sendo assim, alma no sentido de elemento em Mateus 10:28 é um golpe de morte na própria doutrina da
imortalidade da alma, pois provaria que esse elemento chamado “alma” é aniquilado no geena
juntamente com o corpo. Os imortalistas não teriam qualquer vantagem sobre os mortalistas em usarem
Mateus 10:28 com alma no sentido de elemento, pois estariam refutando a si mesmos. Uma análise
meticulosa da passagem, no entanto, nos mostrará que Cristo não usou alma no sentido de elemento da
natureza humana em Mateus 10:28.
Para entendermos o que Jesus realmente quis dizer nesta passagem, teremos que regressar
rapidamente para os conceitos básicos sobre corpo e alma, e depois analisarmos o contexto
em que Cristo aplicava a palavra “alma” em seus ensinos. Voltando a Gênesis 2:7, que fala
sobre a criação do homem, vemos que Deus “formou o homem do pó da terra [corpo], e
soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma
vivente [alma]” (cf. Gn.2:7 – grifo meu).
Este é o sentido primário de alma. Sendo que o homem “tornou-se” alma, e não “obteve”
uma, é fato que qualquer interpretação que induzisse que temos em nós uma alma imortal
presa dentro do nosso corpo estaria errada. Primeiramente, temos que lembrar que existem
91 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:
<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 179
sentidos secundários de alma-psiquê. Uma vez que corpo, alma e espírito são
características da mesma pessoa, então é excluído de imediato a possibilidade de que a
nossa natureza seja dualista. Se o homem é alma, ele não pode ter/possuir alma, pois isso
altera o sentido primário do que é alma. Isso, contudo, não exclui a possibilidade de haver
sentidos secundários em que a palavra alma-psiquê é empregada, em um sentido que não
altere o seu significado primário. Um bom exemplo disso é psiquê no sentido de “vida”.
Jesus conhecia muito bem as Escrituras, e sabia perfeitamente que em nenhuma vez a
alma-nephesh/psiquê é apresentada na Bíblia como sendo “eterna” ou “imortal”; ao
contrário, a Bíblia afirma categoricamente que a alma perece com a morte do corpo (cf.
Nm.31:19; Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15;
Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20;
At.3:23). Para entendermos, portanto, a aplicação que Ele fez nessa passagem, temos que
entender que, de acordo com a criação da natureza humana em Gênesis 2:7, a vida surge a
partir da implantação do fôlego de vida:
CORPO [PÓ] + FÔLEGO [ESPÍRITO] = VIDA
Assim, “alma vivente” ou “ser vivo” tem a mesma aplicação. Ambos significam a vida
humana que resulta de um corpo animado pelo fôlego da vida. Constantemente a Bíblia
emprega o termo psiquê no sentido de “vida”, principalmente no Novo Testamento. O
sentido neotestamentário de “alma” passou também a abranger a vida eterna àqueles que
aceitam a Cristo e seguem ao evangelho (cf. 1Co.15:51-54 com Mt.19:29). Inúmeros
exemplos podem ser citados como provas de tal fato, como podemos verificar em Mateus
16:25,26:
“Porquanto, quem quiser salvar a sua vida [psiquê] perdê-la-á; e quem perder a vida
[psiquê] por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo
inteiro e perder a sua alma [psiquê]? Ou que dará o homem em troca da sua alma
[psiquê]?”
Os tradutores da maioria das versões preferiram verter psiquê por “vida” do que
propriamente por “alma”, presumivelmente por crerem que ela é imortal e que não pode ser
“perdida”. No v.26, “perder a psiquê” significa perdê-la no fogo do juízo que há de devorar
os rebeldes (cf. Hb.10:26,27; Ap.20:9). Mas, no v.25, Cristo diz que é possível um homem
“perder a psiquê” por Sua causa! Isso evidentemente criaria um dilema teológico de
primeira ordem, razão pela qual os tradutores resolveram o dilema e traduziram psiquê
como “vida” no v.25 e como “alma” no v.26, variando a tradução de psiquê de acordo com
a sua própria ótica do que acreditam ser a melhor correspondência do termo.
Como vimos no capítulo 3, Cristo também disse que aquele que queria segui-lo teria que
odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar a "si mesmo" ou a um elemento
transcendental que o próprio Deus tenha implantado no homem, como creem os
imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das traduções bíblicas tem
vertido a passagem por "vida”. Quando voltamos a Mateus 10:28 e fazemos o mesmo,
interpretando “alma” não como um elemento mas como uma representação da vida
póstuma que adquirimos na ressurreição, vemos que qualquer favorecimento à doutrina da
imortalidade da alma desaparece. O Dr. Samuelle Bacchiocchi também faz importantes
observações sobre o sentido de psiquê como vida eterna:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 180
“Cristo ampliou o sentido veterotestamentário de nephesh-alma como vida física tornando-a
inclusiva da vida eterna recebida por aqueles desejosos de sacrificar a vida presente (alma)
por Sua causa. Encontramos confirmação para o sentido ampliado de alma na redação de
João da mesma declaração de Cristo: ‘Quem ama a sua vida [psychê], perde-a; mas aquele
que odeia a sua vida [psychê] neste mundo, preserva-la-á para a vida eterna’ (João 12:25).
A correlação entre ‘este mundo’ e ‘vida eterna’ indica que alma-psychê é empregada para
referir-se tanto à vida terrena quanto à vida eterna”92
O Dr. Edward Schweizer também faz uma importante observação a este respeito:
“Na versão joanina da declaração de Cristo é evidente que a alma não é imortal, porque
doutro modo não devíamos ser instados a detestá-la. Psychê é a vida dada ao homem por
Deus e que mediante a atitude do homem para com Deus recebe o seu caráter como mortal
ou eterno... Daí nunca lermos da psychê aionios ou athanatos (alma eterna ou imortal),
somente da psychê (alma) que é dada por Deus e mantida por Ele para zoe aionios [vida
eterna]”93
Bacchiocchi ainda acrescenta:
“O significado de alma como vida eterna aparece também em Lucas 21:19, onde Cristo
declara: ‘É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas’. O contexto indica que
Cristo não está falando da preservação da vida terrena, porque Ele prediz que alguns de
seus seguidores serão traídos e postos à morte (v. 16). Aqui a alma-psychê é claramente
entendida como vida eterna conseguida por aqueles dispostos a fazerem um compromisso
total, sacrifical com Cristo. Este é o sentido ampliado que Cristo atribui à alma; um sentido
que nega a noção da alma como uma entidade imaterial, imortal que coexiste com o corpo.
O erro mais tolo que qualquer um pode cometer é ‘ganhar o mundo todo e perder a sua
alma [psychê]’ (Mar. 8:36)”94
Vemos, portanto, que o termo alma-psiquê no NT chegou a incluir o dom da vida eterna que
é recebido por aqueles sacrificam a sua vida terrena por amor a Cristo. Tal imortalidade a
Bíblia nos deixa claro que obteremos a partir da ressurreição dentre os mortos (cf.
1Co.15:51-54), e é neste sentido ampliado de alma-psychê que devemos entender a
declaração de Cristo em Mateus 10:28. Matar o corpo mas não matar a alma significa matar
apenas para esta vida [primeira morte], mas não ter o poder para destruir na morte eterna
[segunda morte]. Deus, contudo, tem o poder para eliminar ambos: tanto para a primeira
morte como para a segunda, no lago de fogo (cf. Ap.20:14), privando o pecador da vida
eterna obtida pelos salvos que comem da árvore da vida (cf. Ap.22:2).
Matar o corpo significa a eliminação desta vida presente, mas isso não mata a alma [vida
eterna] que é recebida por ocasião da ressurreição àqueles que se sujeitaram ao senhorio
de Cristo. Os homens podem, no máximo, pôr alguma pessoa a dormir (morrer), mas nunca
destruí-la em definitivo até a segunda morte, como Deus faz. O corpo está representando
essa presente vida terrena, ao passo que a alma está no sentido da vida póstuma, adquirida
92 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
93 SCHWEIZER Edward, “Psyche,” Theological Dictionary of the New Testament, ed., Gerhard
Friedrich, (Grand Rapids, 1974), Vol. 9, p. 640.
94 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o
destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 181
após a ressurreição. Em outras palavras, levando em consideração o sentido ampliado de
“alma” em seus ensinos, o que Cristo estava dizendo era:
“Não temais aqueles que podem pôr um fim à sua existência terrena, mas não podem fazer
nada quanto à vida póstuma, temei antes aquele que pode dar um fim tanto à sua vida
terrena quanto à vida futura”
Outra prova definitiva de que era este o sentido da frase de Jesus é o fato de que esta
mesma passagem encontra eco no evangelho de Lucas, mas este omite a palavra “alma -
psiquê”, presumivelmente para não confundir os leitores com o conceito dualista da época,
explicando o sentido da declaração de Cristo que foi transmitida em termos literais por
Mateus:
“E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que
fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem
poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei” (cf. Lucas 12:4,5)
E é exatamente este o sentido da frase de Cristo. O que Lucas faz é clarear aos seus
leitores aquilo que Jesus estava querendo dizer: não temer aquele que pode matar apenas o
corpo [primeira morte], temei antes aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no
inferno [segunda morte]. Por qual motivo Lucas iria deixar de escrever exatamente as
palavras que Cristo de fato disse, para ao invés disso omitir a palavra “alma-psiquê” e ir
direto para o significado e aplicação da frase? A única razão lógica para isso é que ele não
queria confundir os leitores dualistas da época.
Mais ainda que isso, a passagem no versão de Lucas 12:4-5 (no mesmo texto de Mateus
10:28) nos revela que a alma não vai direto para o “inferno” depois da morte do corpo.
Alguns imortalistas poderiam objetar levantando a questão que Cristo afirmou que “temei
antes aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno”. Para os imortalistas,
a palavra aqui traduzida por “inferno” (que não existe nos manuscritos originais, mas é uma
palavra de origem latina acrescentada depois de muitos séculos), deveria presumivelmente
se tratar do suposto “estado intermediário” em que a alma estaria passando após a morte
do corpo.
Este local, para eles, é o Hades (transliterado grego de “Sheol”). Não iremos voltar
novamente aos conceitos básicos já mostrados sobre Sheol/Hades, até porque já fizemos
isso aqui neste estudo. O que eu quero provar aqui é que Cristo nega que a alma parta de
imediato a um “estado intermediário” após a morte do corpo. Isso nós descobrimos ao
lermos os manuscritos originais do grego:
“upodeixô de umin tina phobêthête phobêthête ton meta to apokteinai tsb=exousian
echonta a=exousian embalein eis tên geennan nai legô umin touton phobêthête” (cf. Lucas
12:5)
Percebam na palavra grifada no texto acima do original grego, que o local para onde Cristo
disse que a alma partiria após a morte do corpo é ao geena. Tal local, contudo, ainda está
para ser inaugurado, após o término do milênio. Em outras palavras, Hades seria onde os
mortos se encontram atualmente sem vida [primeira morte] e geena é o local onde os
ímpios que ressuscitarão serão lançados.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 182
Ao dizer que “temei antes aquele que depois de matar o corpo tem poder para lançar no
inferno [geena]”, Cristo nega em absoluto que exista alguma vida consciente em forma de
espírito incorpóreo no Hades (estado intermediário), porque se fosse assim o que sucederia
a morte do corpo seria o lançamento da alma no Hades. Contudo, após a morte do corpo
lemos que o que sucede é o lançamento no “inferno” [geena], a morte final, ou seja, não
existe um estado intermediário!
O quadro abaixo ilustra o que acima foi dito:
VIDA TERRENA ESTADO INTERMEDIÁRIO
[PRIMEIRA MORTE]
ESTADO FINAL
[SEGUNDA MORTE]
Morte do corpo (=morte
para essa vida)
??????? A alma é lançada no inferno-
geena (=morte eterna)
O quadro acima apenas ajuda a ilustrar o que é aqui exposto. Após a morte do corpo, a
alma é lançada no geena, que ainda não foi inaugurado! Nisso fica nitido a inexistência de
um “estado intermediário” com consciência, pois, se tal sucedesse, então a alma partiria a
um estado intermediário na morte, e não ao estado final pós-ressurreição. Depois da morte
corporal (primeira morte) o que vem direto é o lançamento da alma ao geena [segunda
morte], que é inaugurado depois da ressurreição dos mortos, sem qualquer menção a um
estado intermediário entre a morte e a ressurreição.
As palavras de Cristo em Lucas 14:5 foram exatas e ajudam absolutamente a confirmar a
interpretação correta de Mateus 10:28 em detrimento da posição dos defensores da
imortalidade da alma. Assim, fica ainda mais claro o sentido de alma em Mateus 10:28,
como vemos no quadro abaixo:
VIDA TERRENA ESTADO FINAL
“Não temais aqueles que podem
pôr um fim à sua existência
terrena, mas não podem fazer
nada quanto à vida póstuma”
“Temei antes aquele que pode dar
um fim tanto à sua vida terrena
quanto à vida futura”
Vemos, portanto, que tal passagem de Mateus 10:28 é, mais uma vez, uma arma contrária
à imortalidade da alma. Ela prova a inexistência de um “estado intermediário”, e de fato nos
revela que haverá um dia em que Deus eliminará para sempre os pecadores, em uma
segunda morte final e irreversível. E, se isso não é aniquilamento final, então não sabemos
como isso poderia ser traduzido em palavras.
VIII–Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso?
A última das falsas interpretações dos verdadeiros ensinos de Cristo por parte dos
defensores da doutrina da imortalidade da alma é também uma das últimas mensagens que
Cristo trouxe enquanto ainda estava em vida. Segundo os dualistas, o que Jesus disse ao
ladrão ao seu lado na cruz foi que estaria naquele mesmo dia com ele no Paraíso: “Em
verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (cf. Lc.23:43).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 183
O que poucas pessoas sabem, contudo, é que temos muitas evidências de que o ladrão,
realmente, não esteve no Paraíso naquele dia. Mas como não? A Bíblia não diz claramente
isso? Na verdade, não. O fato é que o original grego não tinha vírgulas, e o texto original
assim reza: “Kai eipen autw amhn soi legw shmeron met emou esh en tw paradeisw” (cf.
Lc.23,43).
Em primeiro lugar, é bom mencionarmos logo que a adição presente em muitas Bíblias, da
palavra “QUE”, não existe nos originais. O que Jesus realmente disse ao ladrão da cruz foi:
“Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso”. Como o texto original não possui
vírgulas e o texto deixa em aberto a questão, poderíamos colocá-la em dois lugares
diferentes, entretanto é algo que mudaria completamente o significado da frase.
Esta poderia ser: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (dando a entender
que estaria naquele dia no Paraíso com o ladrão da cruz) ou então: “Em verdade te digo
hoje, estarás comigo no Paraíso” (ele garantia “hoje” que o ladrão estaria no Paraíso).
É algo parecido com uma rebelião em determinada cidade, em que o governante comunicou
a revolta ao seu superior, dizendo: “Devo fazer fogo ou poupar a cidade?” A resposta do
superior foi: “Fogo não, poupe a cidade”. Infelizmente, o funcionário do correio trocou a
vírgula e escreveu o seguinte na resposta do telegrama: “Fogo, não poupe a cidade”.
E assim cidade foi totalmente destruída.
Mas como podemos saber que Jesus realmente não disse: “Em verdade te digo, hoje
estarás comigo no Paraíso”? Temos muitos motivos para desacreditar que o ladrão esteve
naquele mesmo dia com Cristo no Paraíso. Algumas das principais razões são:
Após três dias, Jesus ainda não havia subido ao Pai – Uma verdade que nos é reveladora
para concluirmos que Cristo não esteve com o ladrão da cruz naquele mesmo dia no Paraíso
é o fato de que, após três dias morto, Jesus ainda não havia subido ao Pai, e declarou a
Maria Madalena: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai” (cf. Jo.20:17).
Ora, se Jesus ainda não havia subido ao Pai após três dias, então não poderia ter estado
naquele mesmo dia com o ladrão da cruz no Paraíso!
Alguns imortalistas rejeitam essa evidência pela alegação de que Jesus esteve no Paraíso
"em espírito" nesses dias, mas não corporalmente. Se isso fosse verdade, porém, Cristo
teria mentido a Maria Madalena, já que o texto em questão não faz menção ao corpo de
Nosso Senhor, mas sim ao ser racional dele. O texto não diz que ele não subiu “apenas
corporalmente”, o texto fala da pessoa de Cristo, do ser racional, que o próprio Cristo não
passou pelo Paraíso nos dias em que esteve morto. Admitindo-se que o ser racional seja a
"alma" ou o "espírito", como alegam os imortalistas, seria incoerente crer que Jesus
estivesse apenas se referindo ao corpo. Essa interpretação também fere as regras da lógica
e do bom senso, como observa o prof. Azenilto Brito:
“Para os imortalistas, quando Jesus declarou que não subiu para o Pai em João 20:17 Ele
quis dizer — minha alma é que subiu; agora é que vou completo, corpo e alma... Conclusão
absurda, para dizer o mínimo”95
95 BRITO, Azenilto Guimarães. "Deixar o corpo e habitar com o Senhor". Disponível em:
<http://www.iasdemfoco.net/defesaPag.asp?Id=114>. Acesso em: 15/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 184
É evidente que, caso Cristo tivesse subido ao Paraíso, então ele relataria isso a Maria
Madalena ou, no mínimo, omitiria tal declaração tão categórica de que ele não esteve no
Paraíso, optando por dizer algo como “já subi e subirei de novo”. Infelizmente para os
imortalistas, a única coisa que Cristo disse é que ainda não havia subido ao Pai, algo que
não seria verdade caso o “verdadeiro eu” de Cristo já tivesse subido.
Alguns imortalistas, em uma outra tentativa em demonstrar alguma objeção ao argumento
baseado em João 20:17, dizem que o fato de Jesus ter subido ao Pai não implica que ele
tenha ido ao Paraíso, como se o Paraíso ficasse em um lugar e Deus em outro! Esse
“Paraíso sem Deus” que eles creem certamente não é o Paraíso bíblico, mas um que eles
inventaram no desespero em oferecerem alguma refutação decente ao texto de João 20:17,
que por si mesmo é óbvio e refuta as teses imortalistas. Eles creem que Paulo foi
“arrebatado ao Paraíso” (cf. 2Co.12:4) e não viu nem Deus por lá (seria o mesmo que eu o
convidasse a estar na minha casa e eu mesmo não estivesse lá), e inacreditavelmente
interpretam que a “árvore da vida, que está no Paraíso de Deus” (cf. Ap.2:7), está em um
lugar onde nem Deus está!
Ou seja: que o Paraíso é chamado de “Paraíso de Deus” mas não é onde Deus está! É a
mesma coisa de a minha casa se chamar de “casa do Lucas” mas o Lucas não mora lá. Eles
pensam que Deus estava de “férias” naqueles três dias, longe do Paraíso dele mesmo! Além
disso, notemos que Jesus entregou o seu espírito ao Pai ao morrer (cf. Lc.23:46), e para os
imortalistas esse espírito é a alma imortal que deixa o corpo com consciência e
personalidade após a morte. Sendo assim, é imprescindível que Jesus estivesse com o Pai
naquele mesmo dia, ou senão eles teriam que reformular toda a teologia deles acerca
daquilo que é o “espírito”.
Portanto, a declaração categórica de que Jesus não subiu ao Pai (cf. Jo.20:17) entra em
choque com a crença deles de que o espírito é um ser consciente e racional, visto que por
essa lógica Cristo deveria ter subido ao Pai imediatamente na morte já que havia entregado
o seu espírito a Ele. Ou esse espírito não é um ser consciente e racional como os
imortalistas creem, ou Jesus fez uma encenação ao entregar o seu espírito ao Pai na morte
para depois dizer que ainda não havia subido ao Pai.
Jesus desceu, não subiu – Outro fator de clareza fundamental para concluirmos que Cristo
realmente não subiu ao Pai no dia em que morreu é o fato de que, nos três dias em que ele
esteve morto, ele esteve no Sheol, e não no Paraíso. Tal fato é relatado no livro de Atos,
quando Pedro falava a respeito da ressurreição de Jesus: “Porque não deixarás a minha
alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (cf. At.2:27). Pedro na
realidade usou a passagem do livro dos Salmos em que Davi citava tal passagem, que diz:
“Pois não abandonarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu santo veja a
corrupção” (cf. Sl.16:10). De acordo com o léxico da Concordância de Strong, a palavra
traduzida por "deixar" vem do grego "egkataleipo", que tem o sentido de abandonar:
1459 εγκαταλειπω egkataleipo
de 1722 e 2641; v
1) abandonar, desertar.
1a) deixar em grandes dificuldades, deixar abandonado.
1b) totalmente abandonado, completamente desamparado.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 185
2) deixar para trás, desistir de sobreviver, falecer.
Como vemos, a alma de Jesus foi retirada do Sheol ao ser ressuscitado, e não do Paraíso.
Ele não viu a corrupção pois não foi deixado abandonado no Sheol, onde esteve enquanto
morto, mas foi retirado de lá apenas três dias depois. Aqui vemos mais uma vez que Sheol
significa sepultura, a "cova da corrupção" (cf. Is.38:17), e o detalhe é que Pedro e o
salmista declaram que foi o local para onde a alma de Cristo — e não apenas o corpo —
esteve na morte.
No grego de Atos 2:27:
"oti ouk egkataleipseis tên psuchên mou eis a=adên tsb=adou oude dôseis ton osion sou
idein diaphthoran" - Atos 2:27
No hebraico do Salmo 16:10:
"iy lo'-tha`azobh naphshiy lish'ol lo'-thittênchasiydhkha lir'oth shâchath" - Salmos 16:10
O próprio Cristo afirmou que esse Sheol (transliterado ao grego como "Hades") fica nas
regiões inferiores da terra, em oposição ao Paraíso: “E tu, Cafarnaum, será elevada até ao
céu? Não, você descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados
tivessem sido realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje” (cf. Mt.11:23; ver
também: Ef.4:9; Mt.12:40).
Portanto, vemos que a alma de Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol,
que não é o Paraíso, muito pelo contrário, está em um local em oposição a ele (cf.
Mt.11:23). O Filho do homem estaria “três dias e três noites no coração da terra” (cf.
Mt.12:40), não apenas de forma corporal, mas como alma, conforme diz a profecia do
salmista (cf. Sl.16:10) e a confirmação do apóstolo Pedro (cf. At.2:27), e não no Paraíso.
Tendo isso em mente, até aqui podemos perceber que:
• O ser racional de Cristo não passou pelo Paraíso nos três dias em que esteve morto (cf.
João 20:17).
• A alma de Cristo não esteve no Paraíso nos dias em que este esteve morto, mas no Sheol
(cf. At.2:27; Sl.16:10), que fica nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9; Mt.12:40), em
oposição ao Paraíso (cf. Mt.11:23), e não no próprio Paraíso.
Tudo isso já nos mostra que Jesus não pode ter dito que o ladrão estaria com Ele naquele
mesmo dia no Paraíso, se nem o próprio Cristo esteve no Paraíso nos dias de sua
morte. A interpretação correta de Lucas 23:43 deve estar de acordo com as regras da
hermenêutica, que afirma que a Bíblia explica a própria Bíblia. Sendo que é tão nítido
biblicamente que Cristo não esteve no Paraíso quando morreu, a interpretação correta de
Lucas 23:43 é contrária à oferecida pelos imortalistas.
Numa tentativa desesperada em negarem o óbvio e tentarem conciliar suas teses com
aquilo que a Bíblia declara taxativamente sobre para onde Cristo foi após a morte, alguns
imortalistas afirmam que Jesus esteve no Sheol mas ao mesmo tempo esteve com o ladrão
da cruz no Paraíso, fazendo uso de sua onipresença. T ais malabarismos exegéticos só são
feitos para negar a clareza da linguagem bíblica sobre a mortalidade da alma, pois em
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 186
outras circunstâncias nenhum deles diz que Jesus, enquanto esteve entre nós, vivia em dois
lugares ao mesmo tempo.
Ninguém afirma que Jesus viva em Nazaré mas simultaneamente estava no Egito, na
América, no Paraíso e no Hades. Enquanto Jesus esteve limitado a um corpo, ele jamais fez
uso do atributo da onipresença. Ele era um homem, e, assim como nós, se estava em um
lugar, não estava em outro. Jesus não nasceu em todos os lugares do mundo por ser
onipresente, ele nasceu em Belém. Jesus não cresceu em todos os lugares do mundo por
ser onipresente, ele cresceu em Nazaré. Jesus não pregava em todos os lugares do mundo
por ser onipresente, ele pregava no Templo. Jesus não morreu em todos os lugares do
mundo por ser onipresente, ele morreu no Gólgota.
Da mesma forma, após a morte Jesus não estava no Sheol e ao mesmo tempo no Paraís o
por ser onipresente, a Bíblia diz que ele passou os três dias e três noites no Sheol. Jesus
esvaziou-se a si mesmo ao se fazer humano (cf. Fp.2:6,7), ele só voltou a fazer uso de seus
atributos divinos na glorificação. Nasceu, cresceu, viveu e morreu como homem. E, como
homem, não esteve em dois lugares ao mesmo tempo, seja na vida ou na morte. Isso por si
só já é mais que o suficiente para liquidar com a antibíblica tese de que o ladrão esteve com
Cristo naquele mesmo dia no Paraíso, mas prosseguiremos c om mais provas em diante para
enriquecermos ainda mais as evidências deste estudo sobre Lucas 23:43.
O contexto – O que foi dito pelo ladrão da cruz no verso anterior a esta resposta de Cristo
(no verso 42), no original grego foi: μνήσθητί = Lembra-te  μου = de mim  ὅταν =
quando  ἔλθῃς = vier  εἰς = em  τὴν = o  βασιλείαν = Reino  σου = de ti. Ou seja,
“Lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”. Tal é o texto original no grego e
confirmado pelas melhores versões a nossa disposição, tais como a versão Trinitariana, a
Versão Italiana de G. Deodatti, a Francesa L. Segond, a Inglesa de King James, Almeida
Revisada e Atualizada, entre outras.
Cristo buscava assegurar ao ladrão da cruz que não precisava pensar em termos de tempo
tão remoto para ser lembrado por Ele. “Hoje lhe garanto que estarás comigo no
Paraíso”, é o sentido lógico diante de tal contexto. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se
dele no futuro quando Ele viesse no Seu Reino visível (v.42), mas Jesus respondeu o
lembrando imediatamente - “hoje” - assegurando que estaria com Ele no Paraíso.
“Em verdade te digo hoje”, isto é, eu lembro agora mesmo, não precisa pensar em um
tempo tão distante, hoje mesmo eu te digo que você estará comigo no Paraíso. Esse é o
sentido lógico pelo contexto. Note que o próprio ladrão sabia que não iria ao Céu
imediatamente após a morte, já que pediu para Cristo se lembrar dele “quando viesse
em seu Reino”, ou seja, na segunda vinda de Cristo.
O ladrão não morria naquele mesmo dia – Um condenado a morte de cruz geralmente
demorava dias para morrer na cruz. Lemos em João 19:31-33 um costume antigo realizado
pelos judeus: “Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto
como era a Preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que lhes
quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade,
quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas vindo a
Jesus, e vendo-O já morto, não lhe quebraram as pernas” (cf. Jo.19:31-33).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 187
Qual seria a razão pela qual devia-se quebrar as pernas dos crucificados? Porque o
crucificado não morria no mesmo dia. Cristo foi exceção ao caso porque expirou antes (cf.
Lc.23:46), ele não morreu como resultado da hemorragia. Os outros, contudo, ainda
ficavam vivos agonizando durante dias – não poderiam estar com Cristo naquele mesmo dia
em questão. Isso é o que a História e a Bíblia Sagrada nos mostram. Diz o comentário de J.
B. Howell:
“O crucificado permanecia pendurado na cruz até que, exausto pela dor, pelo
enfraquecimento, pela fome e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os padecimentos
geralmente três dias, e às vezes, sete"96
Arnaldo B. Christianini segue na mesma linha e afirma:
“Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados
na cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem (...) Se era necessário quebrar as pernas
aos dois malfeitores, antes do pôr do sol, é porque não haviam morrido ainda. Na pior das
hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais do que o Mestre. Como podia, um
deles, estar no mesmo dia junto de Jesus?”97
Vemos, portanto, que historicamente os ladrões que morriam na cruz não faleciam no
mesmo dia da crucificação. E a Bíblia confirma isso? Sim, confirma. Na passagem
anteriormente citada, vemos que “os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os
corpos na cruz, visto que era véspera do sábado, pediram a Pilatos que se lhes quebrassem
as pernas, e fossem tirados” (cf. Jo.19:31). Por que as pernas dos c rucificados foram
quebradas? Para matá-los logo? Se alguém quisesse matá-los, bastaria uma lancetada no
coração ou no fígado deles (como foi feita com Cristo porque viram que já estava morto).
A finalidade em quebrar as pernas deles não era para matá-los, mas porque havia uma
tradição entre os judeus que não permitia que o condenado ficasse dependurado na cruz no
dia de sábado. Por isso, lhes quebravam as pernas e era descido do madeiro e assim
permanecia até o fim do sábado. Prova ainda mais forte de que tal procedimento não
resultava em morte imediata dos crucificados é a grande surpresa de Pilatos (experiente em
crucificações) em ver que Jesus já havia morrido:
“E Pilatos se admirou de que {Cristo} já estivesse morto” (cf. Marcos 15:44)
Pilatos ficou pasmo em ver que Jesus já estivesse morto. Certamente deveria ter dito algo
como: “Já morreu?!” Por que Pilatos “se admirou”? Por certo, Pilatos, veterano em mandar
pessoas para cruz, já familiarizado com as crucificações, admirou-se diante de um fato
inusitado: era algo incomum alguém morrer no mesmo dia da crucificação! O léxico de
Strong define a palavra aqui traduzida por "admirou-se" como sendo:
2296 θαυμαζω thaumazo
de 2295; TDNT - 3:27,316; v
1) admirar-se, supreender-se, maravilhar-se.
2) estar surpreendido, ser tido em admiração.
96 Comentário de S. Mateus, p. 500.
97 CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª edição. São Paulo: 1965,
p. 222.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 188
Assim vemos que o fato de alguém morrer naquele mesmo dia da crucificação era algo
extraordinário, bem fora do normal, um fato que causa espanto, surpresa, admiração. Foi
assim com Jesus, mas nada indica que tenha assim sido também com os ladrões ao seu
lado na cruz. Ao contrário, a evidência indica que eles permaneceram vivos depois da morte
de Cristo, pois este foi o único a ter o lado furado por uma lança por já ter morrido naquele
mesmo dia (cf. Jo.19:33-34), os demais permaneceram vivos dependurados do madeiro até
o fim do sábado para depois serem outra vez amarrados à cruz. Não era intenção dos
romanos matá-los, mas deixá-los sofrendo (cf.Jo.19:32).
Concluímos, pois, que historicamente e biblicamente o ladrão não morria naquele mesmo
dia, e isso, unido às razões já apresentadas, nos mostra claramente que o ladrão não
poderia estar naquele mesmo dia com Cristo no Paraíso – que, por sinal, também não subiu
por lá enquanto esteve morto (cf. Jo.20:17; At.2:27).
Evidências Históricas – Como já foi demonstrado, no original grego (Koiné) em que a Bíblia
foi escrita não existia vírgulas, o que dá margens para os tradutores as colocarem de acordo
com as suas tradições religiosas. Mas, posteriormente, o grego passou a ter vírgula, e como
era costume dos Pais da Igreja citarem constantemente as Escrituras em seus próprios
escritos, eles transcreveram o texto de Lucas 23:43 da forma mais coerente que vimos
acima: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no Paraíso”. Por exemplo, Hesíquio de
Jerusalém, que foi um cristão presbítero e exegeta do quinto século d.C, transcreveu essa
passagem de Lucas 23:43 da seguinte maneira:
“Verdadeiramente eu lhe falo hoje”98
Teofilacto declarou o mesmo ao escrever Lucas 23:43 do seguinte modo:
“Verdadeiramente eu lhe falo hoje”99
Como vemos, os próprios Pais da Igreja de épocas posteriores (onde já existia a vírgula)
reconheciam que Jesus lhe falava “hoje” que o ladrão estaria com Ele no Paraíso, e não que
o ladrão estaria no Paraíso naquele mesmo dia. Vale ressaltar um detalhe importante: a
maioria dos Pais da Igreja, especialmente a partir do terceiro século d.C, começaram a
adotar a tese da imortalidade da alma, contrariando a visão de dois séculos de Cristianismo
(conforme já conferimos no capítulo 2 deste livro). Isso significa que estes Pais da
Igreja, mesmo sendo imortalistas, reconheciam que a forma gramatical do grego
apontava que a vírgula deveria ser colocada depois do “hoje”.
O mesmo acontece nos dias de hoje: vários imortalistas já abandonaram este “argumento
de Lucas 23:43”, uma vez que perceberam que a passagem pode perfeitamente ser
entendida e interpretada dentro do prisma mortalista, sem qualquer problema. A
interpretação de que Lucas 23:43 é uma “prova” da imortalidade da alma só começou a
surgir vários séculos depois, quando começaram a pedir provas bíblicas que
fundamentassem essa doutrina, e, sem encontrar quase nenhuma, tiveram que apelar para
passagens como essa, que nem mesmo os primeiros imortalistas lançaram mão dela,
entendendo que a pontuação realmente era contra, e não a favor da tese deles neste texto.
98 Hesichius de Jerusalem, em Patrologia Grega, Volume Noventa e Três, 1433.
99 Teofilacto em Patrologia Grega, em Patrologia Grega, Volume Cento e Vinte e Três, 1104.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 189
Vale também ressaltar que não foram apenas os Pais da Igreja que entenderam que a
vírgula em Lucas 23:43 deve ser colocada antes do “hoje”, pois muitos outros manuscritos
antigos atestam o mesmo. Os Manuscritos Bc e Sy-C, Antigo Siríaco, que são
grandemente respeitados na comunidade acadêmica e apologética e que datam do terceiro
século AD, sendo um dos manuscritos do NT mais importantes que temos até hoje, verte o
texto de Lucas 23:43 colocando a vírgula depois do “hoje”:
"Eu digo a você hoje, que Comigo tu deve estar no Jardim de Éden"100
Por fim, o próprio Vaticanus 1209, um dos melhores manuscritos gregos do Novo
Testamento, que data do século IV d.C e que é uma das fontes pelas quais os estudiosos
mais trabalham na identificação do original do NT, traz o seguinte em Lucas 23:43:
Note que no texto grego há um ponto depois da palavra “semeron” (dia), e não antes dela.
Este Condex Vaticanus foi considerado por Westcott e Hort como o melhor manuscrito grego
do NT, e é também um dos manuscritos mais antigos da Bíblia, sendo inclusive mais antigo
do que o Codex Sinaiticus. É interessante também os comentários do erudito Earle Ellis em
sua obra “The Gospel of Luke”, no comentário da Bíblia New Century:
“Alguns manuscritos produzidos razoavelmente cedo colocam a vírgula depois de ‘hoje’ e
assim, continuam com a referência a parousia do verso 42”101
Isto, sem dúvida, mostra que este erudito sabe a respeito da pontuação no Ms Vaticanus
em Lucas 23:43, bem como em outros respeitados manuscritos antigos.
A gramática – Ainda que o texto original não possua vírgulas, a forma linguística em que ele
é escrito nos ajuda a desvendarmos qual é o seu real sentido na passagem em pauta. No
português, quando traduzimos a frase podemos colocá-la em antes ou depois do advérbio
“hoje” (como vimos acima), e ambas as traduções aparentemente podem dar sentido real à
frase. Contudo, quando pegamos os manuscritos originais no grego e ponderamos em onde
colocar a vírgula, tal não faz sentido se ela for colocada antes do “hoje”, como querem os
imortalistas. Por quê? Simplesmente porque isso criaria um dilema de primeira ordem por
falta de lógica no próprio texto.
Grande parte dos tradutores simplesmente ignoram a palavra ἐμοῦ = de mim. Sem
considerar esta palavra o sentido original do foi dito se perde. Vejamos a tradução do verso
palavra por palavra:
100 Manuscritos Bc e Sy-C - Antigo Siríaco.
101 Publicado por Wm.B.Eerdmans Publishing Co. Grand Rapids Michigan, reprint of 1983.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 190
καὶ = E  εἶπεν = disse  αὐτῷ = a ele  Ἀμήν = amém  σοι = a ti  λέγω = digo 
σήμερον = hoje  μετ᾿ = depois  ἐμοῦ = de mim  ἔσῃ = serás  ἐν = em  τῷ = o 
παραδείσῳ = paraíso.
A palavra μετ᾿ significa “comigo”, como também significa “depois”, se você considerar que
μετ᾿ está no sentido de “comigo”. Necessariamente, temos que ignorar a palavra ἐμοῦ = de
mim. Comigo de mim, não faz sentido algum. A vírgula não pode ficar antes de “hoje”. A
vírgula deve ser colocada após o “hoje” e também após o “depois”. Considerando todas as
palavras como elas são literalmente e traduzindo corretamente, o sentido original do foi dito
fica muito claro:
“E disse a ele; Amém a ti digo hoje, depois, de mim serás em o paraíso”. Depois de todas
as coisas concluídas, o ladrão com certeza absoluta será do nosso Salvador. Jesus entregou
ao ladrão da cruz a promessa de que este estaria no Paraíso. ‘Hoje’ é o momento em que
esta promessa lhe foi dita. Naquele momento Cristo assegurou a ele tal promessa.
Mas em resposta a que foi feita a promessa?
Verso 42... μνήσθητί = Lembra-te  μου = de mim  ὅταν = quando  ἔλθῃς = vier  εἰς =
em  τὴν = o  βασιλείαν = Reino  σου = de ti.
“Lembra-te de mim quando vier em o reino de ti”. O ladrão tinha dúvida se aquilo poderia
ser possível e, por isso, seu pedido a Jesus foi que este se lembrasse dele, não quando
morresse, mas quando Ele viesse em seu poder visível. Então, naquele momento, o
hoje, Cristo lhe deu esta certeza. Ele lhe garantiu: “depois, de mim serás em o paraíso”.
A preposição μετὰ indica um tempo – depois; após; além de. Depois que todas as coisas
forem concluídas, quando Cristo vier na Sua Glória, o ladrão estará na glória com o Senhor
Jesus. Naquele momento, o ‘hoje’ do verso, o ladrão recebeu a certeza de que, no futuro,
estaria com Cristo no Paraíso.
ἐμοῦ ou μου é um pronome na primeira pessoa do singular, que não pode ser ignorado. No
grego a pontuação não é absolutamente necessária para a compreensão textual, mas no
português se você não organizar as palavras da maneira correta e usando a pontuação, o
texto fica sem nenhum sentido, e ainda dá margens para más interpretações.
Refutando objeções – A principal objeção sustentada pelos defensores da imortalidade da
alma neste texto é que seria inteiramente desnecessário a adição do "hoje", pois se Jesus
dizia aquilo naquele momento (o "hoje") não seria preciso adicionar que estava dizendo
aquilo hoje. Em resposta a essa objeção, devemos ressaltar, em primeiro lugar, que é muito
comum na Bíblia a utilização do "hoje" em construções de frases em muito semelhantes à
de Lucas 23:43. Por dezenas de vezes vemos declarações semelhantes que são precedidas
pelo "hoje", como, por exemplo:
(Jeremias 42:21) - E vo-lo tenho declarado hoje; mas não destes ouvidos à voz do Senhor
vosso Deus, em coisa alguma pela qual ele me enviou a vós.
(Deuteronômio 6:6) - E estas palavras, que te ordeno hoje, estarão no teu coração.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 191
(Deuteronômio 11:8) - Guardai, pois, todos os mandamentos que eu vos ordeno hoje,
para que sejais fortes, e entreis, e ocupeis a terra que passais a possuir.
(Deuteronômio 30:18) - Então eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não
prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a
possuas.
(Deuteronômio 4:40) - E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que te
ordeno hoje para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os
dias na terra que o Senhor teu Deus te dá para todo o sempre.
(Atos 20:26) - Portanto, eu lhes declaro hoje que estou inocente do sangue de todos.
As passagens acima são apenas alguns exemplos do emprego do "hoje" na mesma
construção de frase que observamos em Lucas 23:43. Constatamos facilmente que
expressões semelhantes a essa são utilizadas aos montões na Bíblia:
"...te ordeno hoje" (cf. Dt.6:6; 11:8; 4:40; 30:11; 27:10; 15:5; 30:8; 27:1; 10:13;
11:13; 15:5; 8:11; 28:14; 27:4; 13:18; 19:9; 8:1; 1:28; 28:1; 28:13)
"...declaro hoje" (cf. Je.42:21; Dt.30:18; At.20:26)
"...testifico hoje" (cf. Dt.8:19; 32:46)
"...ponho hoje" (cf. Dt.4:8)
"...proponho hoje" (cf. Dt.30:15; 11:32)
"...vos mando hoje" (cf. Dt.11:27)
"...vos anuncio hoje" (cf. Zc.9:12)
Lucas 23:43 não faz parte de uma exceção, faz parte de uma regra. De fato, o Dr. Rodrigo
Silva, em sua tese de doutorado na Pontífica Faculdade de Teologia Nossa Senhora da
Assunção, intitulada "Análise Linguística do Sémeron em Lucas 23:43", provou com base
em uma minuciosa investigação das ocorrências do advérbio sémeron nos textos gregos do
Antigo Testamento (tradução da Septuaginta) e do Novo Testamento que “na maioria
absoluta dos casos” em que existe uma ambiguidade semelhante à de Lucas 23:43, “a
ligação de sémeron com o primeiro verbo demonstrou-se a mais natural”. A expressão
"hoje" ligada ao verbo não é redundante, é enfática, e ocorre aos montões na Bíblia. Mesmo
se fosse uma exceção, isso de modo nenhum invalidaria o argumento, visto que exceções
também existem na Bíblia em grande quantidade.
Além disso, alegam também que Jesus se expressou diversas vezes dizendo "em verdade te
digo" além de em Lucas 23:43, mas que em nenhuma delas ele adicionou o "hoje", à
exceção de Marcos 14:30. Sendo assim, se Jesus não teve uma boa razão para mudar sua
forma habitual de dizer o "em verdade te digo", ele deve ter se expressado conforme os
imortalistas creem. O que eles não são capazes de imaginar, porém, é que existe uma boa
razão pela qual Jesus adicionou o 'hoje'. E isso está totalmente relacionado ao verso
anterior, em que o ladrão diz: “και ελεγεν τω ιησου μνησθητι μου κυριε οταν ελθης εν τη
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 192
βασιλεια σου”, corretamente traduzido por: “Lembra-te de mim quanto vieres no teu
Reino”.
A palavra grega aqui traduzida por "vir" (e que algumas versões traduzem por "entrar") é
erchomai, que, de acordo com o NAS New Testament Lexicon grego, significa: "vir de um
lugar para outro". Ainda segundo o léxico do grego, na grande maioria das vezes em que
essa palavra aparece no Novo Testamento significa vir:
Vieram: 225 vezes.
Vêm: 222 vezes.
Vem: 64 vezes.
Chegando: 87 vezes.
Foi: 18 vezes.
Vai: uma vez.
Chegou: uma vez;
Entrou: duas vezes.
Esse verbo aparece mais de quinhentas vezes ligado a "vir" e apenas duas vezes ligado
a "entrar", e mesmo assim muitas traduções preferiram traduzir por "quando entrar no teu
Reino", para dar algum sentido à declaração posterior de Cristo de que estaria naquele
mesmo dia com Ele no Paraíso. O Thayer's Greek Lexicon afirma que essa palavra tem
relação com: (a) a volta invisível de Cristo do Céu; (b) equivalente a vir para fora, mostrar-
se. De acordo com Buttmann, "quando é usado com substantivos de tempo, expressa um
sentido futuro, virá" (Buttmannm 204; Winer Gramática § 40, 2). Alguns exemplos de
quando esse verbo ocorre na Bíblia são:
(Mateus 3:7) - Mas, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham
[erchomenous] para o batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da
ira vindoura'?
(Mateus 3:11) - Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem
[erchomenos] depois de mim é maior do que eu e eu não sou digno nem mesmo de lavar as
suas sandálias.
(Mateus 3:14) - João, porém, tentou impedi-lo, dizendo: 'Eu preciso ser batizado por você,
e você vem [erche] a mim?
(Mateus 3:16) - Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento os céus se
abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo [erchomenon] sobre
ele.
(Mateus 5:17) - Não pensem que vim [elthon] para abolir a lei ou os profetas; não vim
[elthon] para abolir, mas para cumprir.
(Mateus 6:10) - Venha [eltheto] o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra com
no Céu.
A nota de rodapé da Nova Versão Internacional também faz uma importante observação em
Lucas 23:42:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 193
"Muitos manuscritos dizem: 'quando vieres no teu poder real'" (NVI)
Os judeus criam que a vinda do Messias acarretaria na vinda imediata do Reino em sua
forma visível, com um Cristo político e libertador. Contudo, a vinda de Jesus trouxe o Reino
em sua forma espiritual, dando-nos vitória sobre as forças das trevas. Quando o ladrão
pede para ser lembrado por Cristo “quando vieres [erchomai] no teu Reino”, ou
"quando vieres no teu poder real", conforme muitos manuscritos antigos trazem, ele
revela a sua convicção de que ele só voltaria à vida novamente quando a vinda visível do
Reino de Cristo for consumada, pois é somente neste momento (da segunda vinda de
Cristo, a Sua Volta Gloriosa), que os mortos serão ressuscitados.
O ladrão sabia que ele iria morrer e pede para ser lembrado por Cristo naquele dia tão
esperado em que Ele viesse em Seu reino em sua forma visível, destruindo o poder da
morte e dando vida aos mortos. É neste momento que o ladrão queria ser lembrado por ele,
porque é somente neste momento em que os mortos ressuscitam para estar com Cristo.
Jesus, então, declara ao ladrão que não precisava pensar em tempos tão remotos para ser
lembrado por ele, mas que hoje mesmo lhe garantia que com Ele estaria no Paraíso. Ele
não precisaria ficar na ansiedade da volta de Jesus para ser lembrado somente dois mil
anos depois para saber de seu destino final, pois naquele mesmo momento, o "hoje" em
questão, Cristo lhe assegurava a salvação.
O verso 42, portanto, deixa claro que o próprio ladrão sabia que não entraria no Paraíso
naquele mesmo dia, por isso pediu para ser lembrado por Cristo somente quando na Sua
Segunda Vinda. Cristo, então, lhe assegurou naquele mesmo dia que o ladrão estaria com
ele no Paraíso. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro quando Ele viesse em
seu poder visível, mas Jesus respondeu lembrando a ele imediatamente, o “hoje” do verso,
e garantindo que com Ele seria no Paraíso. Sendo assim, o emprego do "hoje" no verso 43
não é desnecessário e nem redundante. Ele não apenas serve para enfatizar como ocorre
em outras dezenas de vezes na Bíblia, mas também para antecipar a garantia da salvação
ao crucificado. Como observa Bacchiocchi:
“A razão para esta ligação excepcional do advérbio ‘hoje’ à frase ‘verdadeiramente, te digo’
poderia muito bem ser o contexto imediato. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no
futuro quando estabelecesse o Seu reino messiânico. Mas Jesus respondeu lembrando ao
penitente ladrão imediatamente, ‘hoje’, e por reassegurar-lhe que ele com Ele estaria no
Paraíso”102
Mas e as traduções bíblicas? – É alegado também pelos imortalistas que, se a vírgula deve
ser colocada depois do "hoje", e não antes dele, como foi provado aqui tendo em vista todo
o contexto textual, a gramática do texto em grego, a hermenêutica, os documentos antigos
e as evidências históricas, então praticamente todas as versões que existem hoje estão
todas adulterando a Bíblia, e que a única versão correta das Escrituras seria a "Tradução
Novo Mundo", das Testemunhas de Jeová, que traduz o verso desta maneira.
Isso simplesmente não é verdade. É fato que as traduções que optaram por colocar a
vírgula depois do "hoje" erraram, mas elas não erraram por desonestidade (o que seria
adulteração na Bíblia), pois o verso realmente deixa em abert o as duas traduções no grego
102 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e
o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 194
em primeira instância, mas por seus próprios pressupostos teológicos, pois todas elas
defendem a tese de imortalidade da alma. Igor Miguel, um erudito do grego bíblico,
esclareceu sobre a questão das traduções bíblicas nas seguintes palavras:
"Sabe-se que toda tradução é naturalmente interpretativa e hermenêutica. Ou seja, está
sempre submetida aos conceitos e ponto de vista do tradutor. Há os que sustentam uma
'imparcialidade' ou 'neutralidade' em traduções. Porém, cientificamente, sabe-se que a
'neutralidade' é um mito. O tradutor pode tender à 'imparcialidade', porém sempre há algo
de sua individualidade e subjetividade que estarão presentes em sua produção textual.
Nesta mesma linha, há o mito da 'tradução fiel', que é trat ar a tradução como uma
reprodução literal e precisa da fonte primária. Em outras palavras, uma tradução da Bíblia
em português (ou qualquer outra língua) que se diga 100% fiel às fontes originais. O ideal
de uma 'tradução fiel' é uma impossibilidade técnic a, não há como fazer uma tradução que
reproduza fielmente, em todos os aspectos, o que o autor quis dizer. Pois é óbvio, que o
sentido de um texto só pode ser entendido em todas suas dimensões de significado, quando
inserido em sua língua e contexto originais. Ao passar este significado ou sentido para uma
outra língua, há perdas, limitações naturais que ocorrem pelo simples fato de ser uma
tradução"103
E ele conclui dizendo:
"Por isto, não existem traduções perfeitas, ou uma que possa ser considerada a melhor.
Existem boas traduções da Bíblia publicadas por editoras Evangélicas, Católicas e Judaicas,
porém, estão todas suscetíveis às críticas e às mesmas vulnerabilidades textuais que já
foram mencionadas... toda tradução tem seu valor, o que não anula obviamente, suas
limitações"104
Essas colocações são decididamente importantes porque nos ajudam a compreender a razão
pela qual a grande maioria dos tradutores optaram por colocarem a vírgula antes do "hoje":
porque estão tendenciados a isso em vista de seus próprios conceitos teológicos. Isso é
muito diferente de dizer que eles "adulteraram" a Bíblia. Significa apenas que, quando
chega a um ponto de disputa teológica, sempre optam por seguir a linha teológica que a
determinada sociedade bíblica adota - na maioria dos casos, a de imortalidade da alma. Por
isso, é evidente que as traduções de imortalistas (como as Almeidas ou as católicas) vão
optar por colocar a vírgula antes do "hoje", ao passo que as traduções de mortalistas (como
TJS ou adventistas) vão optar por colocar a vírgula depois do "hoje".
Isso não representa nada em questão de exegese, porque a obrigação do tradutor não é de
ser um exegeta, mas meramente de traduzir. Quem terá o trabalho de reunir todas as
evidências bíblicas na busca da compreensão correta do texto são os eruditos bíblicos, os
críticos textuais, não os tradutores. Por isso, a grande quantidade de versões bíblicas com a
vírgula colocada antes do hoje apenas reflete que a grande maioria dos tradutores são
imortalistas, nada a mais do que isso. Se a maioria fosse mortalista (o que algum dia pode
chegar a ser), a maioria colocaria a vírgula depois do "hoje".
Isso obviamente não implica que as versões que se equivocaram colocando a vírgula antes
do "hoje" estejam erradas em seu todo, nem muito menos implica que as traduções que
103 MIGUEL, Igor. Problemas da Bíblia Hebraica em Português. Disponível em:
<http://www.welingtoncorp.xpg.com.br/biblia_hebraica_portugues.pdf>. Acesso em: 15/08/2013.
104 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 195
optaram pela vírgula depois do "hoje" estejam certas em todo o resto. Todas as traduções
bíblicas erram em alguns pontos e acertam em outras, e todas as traduções bíblicas tendem
pelo lado teológico aceito por eles quando há uma passagem de tradução livre e fruto de
interpretação bíblica.
Além disso, não é verdade que a Tradução Novo Mundo seja a única que coloca a vírgula
depois do "hoje". Outras versões, como a Tradução Trinitariana, em português, editada em
1883 pela “Trinitarian Bible Society” de Londres, diz:
“Na verdade te digo hoje, que serás comigo no Paraíso”
Da mesma forma, o Emphasized New Testament, de Joseph B. Rotherham, impresso em
Londres, em 1903, assim traduz Lucas 23:43:
“Jesus! Lembra-te de mim na ocasião em que vieres no Teu reino. E Ele disse-lhe: Na
verdade, digo-te neste dia: Comigo estarás no Paraíso”
O The New Testament, de George M. Lamsa, diz:
“Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso”
A chamada Concordant Version, em inglês, assim traduz:
“E Jesus lhe disse: ‘Na verdade a ti estou dizendo hoje, comigo estarás no Paraíso'”
O famoso Manuscrito Curetoniano da Versão Siríaca, que está hoje no Museu Britânico,
assim diz:
“Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, que comigo estarás no Jardim do Éden”
O comentário da Oxford Companion Bible ainda diz:
“’Hoje’ concorda com ‘te digo’ para dar ênfase à solenidade da ocasião; não concorda com
‘estarás’”,
No Apêndice n°. 173, a famosa Oxford Companion Bible acrescenta:
“A interpretação deste versículo depende inteiramente da pontuação, a qual se baseia toda
na autoridade humana, pois os manuscritos gregos não tinham pontuação alguma até o
nono século, e mesmo nessa época somente um ponto no meio das linhas, separando cada
palavra... A oração do malfeitor referia-se também àquela vinda e àquele Reino, e não a
alguma coisa que acontecesse no dia em que aquelas palavras foram ditas".
E concluem dizendo:
“E Jesus lhe disse: ‘Na verdade te digo hoje’ ou neste dia quando, prestes a morrerem, este
homem manifestou tão grande fé no Reino vindouro do Messias, no qual só será Rei quando
ocorrer a ressurreição – agora, sob tão solenes circunstâncias, te digo: serás comigo no
Paraíso”.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 196
Por fim, a versão impressa da Nueva Reina Valera de 2000 assim traduz:
"Então Jesus lhe respondeu: ‘Eu te asseguro hoje, estarás comigo no paraíso’"
Portanto, é simplesmente falsa a afirmação de que a única versão da Bíblia que traduz
Lucas 23:43 da maneira correta é a Tradução Novo Mundo das Testemunhas de Jeová.
De fato, Lucas 23:43 é uma mensagem em que Cristo diz ao ladrão da cruz: "Em verdade
te digo hoje, estarás comigo no Paraíso", mas que os tradutores bíblicos imortalistas
preferiram por suas próprias convicções teológicas traduzirem por: "Em verdade te digo,
hoje estarás comigo no Paraíso".
E assim exegese foi totalmente destruída.
IX–Um espírito não tem carne e ossos
Depois que Jesus ressuscitou, ele apareceu aos discípulos, que se assustaram, pensando
estar vendo um espírito, ao que ele responde dizendo que um espírito não tem carne e
ossos como ele tinha:
"E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse -lhes:
Paz seja convosco. E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum
espírito. E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos
aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me
e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho" (cf. Lucas
24:36-39)
Para os imortalistas, se Jesus cresse na mortalidade da alma teria dito que não existia
espírito, e não que um espírito não tem carne e osso. A resposta para essa alegação
imortalista é muito simples: Jesus não poderia ter dito que não existem espíritos pela
simples razão de que os anjos (bem como os demônios) são espíritos (cf. Hb.1:14), assim
como o próprio Deus (cf. Jo.4:24).
Portanto, se Jesus simplesmente dissesse que "não existem espíritos" ele estaria negando a
existência de Deus, dos anjos e dos demônios. Tudo aquilo foi fruto do desespero
momentâneo dos discípulos de Cristo ao ver alguém misteriosamente entrando "do nada"
no meio da casa, que estava "com as portas fechadas" (cf. Jo.20:26), sem chances de
algum desconhecido "aparecer" no meio deles. Então, no pânico, eles pensaram "estar
vendo um espírito", que poderia ser um anjo do bem ou do mal, ou até mesmo um
fantasma, como ocorreu em outra ocasião, em que os discípulos pensaram estar vendo um
fantasma na hora do pânico, ao ver o mesmo Jesus andando por sobre as águas:
"E, vendo que se fastigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta
vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante.
Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, acharam que era um fantasma, e deram
grandes gritos" (cf. Marcos 6:48,49)
Qualquer um sabe que fantasmas não existem de verdade. E eu tenho certeza que na
teologia dos apóstolos também não havia lugar para tal crendice popular. Mas, na hora do
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 197
desespero, eles gritaram apavorados, confundindo Jesus com um "fantasma", ainda que
fantasmas não existam. Da mesma forma, quando Jesus apareceu "do nada" dentro da casa
onde eles estavam reunidos a portas fechadas, o pânico tomou conta dos discípulos de tal
forma que eles, a exemplo da ocasião anterior em que pensavam estar vendo um
"fantasma", acharam que era um "espírito".
Nada indica se esse "espírito" que eles achavam que Jesus era fosse um espírito humano
incorpóreo, como creem os imortalistas, pois anjos e demônios também são espíritos, e na
hora do desespero até fantasmas (que são popularmente conhecidos como sendo espíritos)
eram cridos pelos discípulos, o que não implica na existência real deles. Esse "ser" que eles
achavam estar vendo podia ser, na imaginação deles, qualquer coisa, visto que por várias
ocasiões as pessoas não reconheceram Jesus, como no alto mar (cf. Mc.6:48,49), na
travessia de Emaús (cf. Lc.24:16), ou na pescaria que também ocorreu depois da
ressurreição (cf. Jo.21:4):
"E, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, mas os discípulos não reconheceram que
era Jesus" (cf. João 21:4)
"Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que não o reconhecessem" (cf. Lucas
24:16)
"E, vendo que se fastigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta
vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante.
Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, acharam que era um fantasma, e deram
grandes gritos" (cf. Marcos 6:48,49)
Portanto, podemos ver que:
• Os discípulos estavam apavorados, como quando pensavam estar vendo um fantasma,
pois não é normal que uma pessoa entre "do nada" no meio de uma casa que estava às
portas fechadas, com medo dos romanos.
• Os discípulos, como em outras ocasiões, não estavam reconhecendo Jesus.
• No desespero e sem reconhecer quem era, pensaram que era um "espírito",
semelhantemente a quando creram que estavam vendo um "fantasma" na outra ocasião.
• Não é possível precisar ao certo que tipo de espírito eles acreditavam que era no
momento do pânico, visto que anjos e demônios também são espíritos, e que crendices
populares como fantasmas também são considerados como sendo espíritos.
• Jesus, por sua vez, não poderia responder dizendo que "espíritos não existem", pois
estaria negando a existência de espíritos que realmente existem, como anjos, demônios e o
próprio Deus, que é espírito. Não é porque existem determinadas crendices populares falsas
(como a crença em fantasmas e em espíritos humanos desencarnados, como no
espiritismo) que não existe nenhum tipo de espírito.
• Ao dizer que um espírito não tem carne nem ossos, Jesus acalmou os ânimos dos
discípulos, para que não mais pensassem estar vendo algum ser misterioso, como um
fantasma ou algum espírito do mal. É muito pouco provável que os discípulos acreditassem
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 198
que se tratasse do próprio Senhor Jesus em forma incorpórea, pois se os discípulos
tivessem identificado Jesus ali, ainda que em forma incorpórea, teriam ficado felizes,
jubilosos, exultantes ao reverem o Mestre. Se eles ficaram com medo e pensaram estar
vendo "um espírito", é porque eles não reconheceram Jesus, a não ser que tivessem medo
de Jesus! Evidentemente, o medo deles não era se Jesus estava em estado corpóreo ou
incorpóreo, mas sim se aquilo que eles viam fosse alguma coisa digna de medo, como
quando eles achavam estar vendo um fantasma e se amedrontaram, porque não sabiam
que era Cristo.
Concluindo, não há absolutamente nada conclusivo em Lucas 24:39 que ao menos indique
que a alma humana é imortal. Todo o texto pode ser perfeitamente entendido e plenamente
assimilado tendo em vista a ótica mortalista e bíblica, sem a necessidade de implicar na
existência de um elemento eterno e que sobreviva com consciência à parte do corpo após a
morte. Os imortalistas tem que, a todo custo, forçar a interpretação da passagem para que
favoreça a interpretação deles. O espírito não pode ser outra coisa senão um espírito
humano, os discípulos não poderiam estar enganados pelo pânico como quando achavam
estar vendo um fantasma, e Jesus tinha que ter dito que espíritos não existem, mesmo que
isso fosse impossível já que anjos, demônios e o próprio Deus são espíritos. Tudo isso fruto
da misteriosa forma de formular argumentos, inventada pelos imortalistas.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 199
CAPÍTULO 5.2 – O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU?
Tivemos que mostrar muitas refutações a diversas interpretações defeituosas de passagens
que são usadas constantemente pelos imortalistas, para a partir disso apresentarmos quais
foram os verdadeiros ensinos de Cristo, pois de fato muitas palavras de Jesus foram mal
interpretadas, tiradas de seu devido contexto, sem ser fiel e verdadeiro para com a
gramática dos manuscritos em grego ou vistas com a ótica dualista de imortalidade da
alma.
Como vimos, nenhuma delas apresenta qualquer prova que chegue perto de abalar os
fortes fundamentos da doutrina da imortalidade condicional a partir da ressurreição, como é
relatado do início ao fim da Bíblia. Na realidade, grande parte delas não somente mostram o
quanto a interpretação “pró-imortalidade” está equivocada, como também, em muitas
ocasiões, constituem-se em fortes provas contrárias a ela. Vemos isso quando respeitamos
as regras da exegese e colocamos cada passagem no devido contexto em que ela se insere.
Dadas as devidas refutações, passaremos agora a mostrar aquilo que Jesus Cristo
realmente afirmou com relação à natureza humana e a vida pós-morte. Como veremos,
todos os ensinamentos de Cristo são coerentes em negar veementemente qualquer
pretensão de dividir a natureza humana entre o aspecto material e o aspecto
imortal/imaterial. Ao contrário, veremos que a entrada no Reino é somente por ocasião da
ressurreição, bem como a entrada na condenação que os ímpios sofrerão, e todos os outros
fatores corroborando para isso nos ensinamentos de Jesus Cristo acerca da vida pós-morte.
X–Sobre a entrada no Reino ou na condenação
A Parábola do Joio e do Trigo – Ironicamente, comecemos com isso mesmo – uma parábola!
Mas essa, por sua vez, possui a explicação do próprio Cristo sobre o significado de sua
própria parábola, sobre o que significa cada elemento e sobre os tempos em que tais coisas
se dariam. Nessa parábola vemos Cristo ensinando sobre o estado dos mortos e sobre os
destinos finais. Veremos o que ele conta:
“Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia
a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio
no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o
joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste
tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é
quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém,
lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai
crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei
primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu
celeiro” (cf. Mateus 13:24-30)
Em seguida, os discípulos pedem que Cristo explique essa parábola, e a explicação do
Mestre vem na sequência:
“Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus
discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 200
lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa
semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou,
é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é
colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho
do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que
cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de
dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos
para ouvir, ouça” (cf. Mateus 13:36-43)
Essa parábola de Cristo simplesmente concorda com tudo aquilo que já vimos aqui: que os
justos não entram no Paraíso com as suas “almas imortais” logo após a morte, mas
somente no fim do mundo, momento em que os mortos serão vivificados (cf.
1Co.15:22,23), para a partir daí entrarem no Paraíso (cf. Jo.14:2,3; Jo.5:28,29). Do
mesmo modo, os ímpios não são condenados a ficarem queimando antes da ressurreição no
fim do mundo. A parábola do semeador nos ilustra bem esse quadro:
“E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que
vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis
também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da
ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o
queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro” (cf. Mateus 13:28-30)
Vemos, portanto, que o trigo (filhos do Reino) e o joio (filhos do maligno) são deixados
juntos, isto é, no mesmo lugar, até a ocasião da ceifa. Um não está separado do outro,
como um no Céu e outro no inferno, muito pelo contrário, são mantidos juntos até a ceifa e
é só neste momento em que o joio (ímpios) irá queimar, e o trigo (justos) irá ser ajuntado
no “celeiro” (Reino dos céus).
Conforme a explicação que Cristo dá em seguida com relação à parábola, vemos claramente
que a ceifa é somente no fim do mundo: “O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o
fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos” (cf. Mt.13:39). Em outras palavras, o trigo
(justos) só será ajuntado no celeiro (Reino) no fim do mundo!
Até lá, ambos estão no mesmo lugar (cf. Mt.13:30). É só por ocasião da ceifa, que acontece
“no fim do mundo”, que os justos se separarão dos ímpios para aí sim entrarem no
“celeiro”. Isso é um golpe fatal na teoria de que entramos no Céu imediatamente após a
morte ao mesmo passo que os ímpios vão para o inferno também imediatamente após a
morte, e na ressurreição do último dia ambos são ressuscitados para continuarem no
mesmo lugar em que já estavam antes. Igualmente notório é o fato de que os ímpios só
serão queimados no fogo na consumação deste mundo:
“Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo”
(cf. Mateus 13:40)
Isso prova que eles não estão queimando ainda, pelo contrário, só serão queimados no fogo
“na consumação deste mundo” (v.40). É na “consumação do mundo” – no final dos tempos,
na última era, no fim do mundo – que os ímpios serão queimados no fogo. Não é algo que
já esteja em atividade! O ensinamento de Cristo nega absolutamente que os ímpios já
possam estar queimando atualmente em algum lugar, porque tal fato só se tornará
realidade para eles no final dos tempos, na consumação deste mundo quando a Bíblia diz
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 201
que haverá a separação entre os justos e os ímpios (cf. Mt.13:30), por ocasião da ceifa (cf.
Mt.13:29,30), que acontece somente no fim do mundo (Mt.13:39).
Também é notório que é somente neste momento que os justos herdam o Reino do Pai:
“Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça”
(cf. Mateus 13:43)
Note que é somente neste momento que os justos entram no Reino. O original grego traz a
palavra “tote”, que, de acordo com o Léxico da Concordância de St rong, significa:
“quando; o momento em que; naquele tempo; então”105. Ou seja, é somente naquele
tempo, quando daquele momento, que os justos brilharão como o sol no Reino de Deus.
Pelo contexto de Mateus 13, este momento é claríssimamente definido como sendo na
consumação deste mundo, no fim das eras:
“O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os
anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste
mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que
causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali
haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de
seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (cf. Mateus 13:39-43)
O que Cristo ensina é bem claro: os justos só serão ajuntados para o celeiro no fim do
mundo (cf. Mt.13:30), e os ímpios só serão queimados no fogo na consumação deste
mundo (cf. Mt.13:40). Para um bom entendedor, meia-palavra basta. Mas Cristo foi bem
mais preciso que isso!
Separação entre justos e ímpios apenas no fim do mundo – Mais uma vez, em uma
parábola próxima à anterior, Cristo assegurou que a separação entre os bons e os maus só
se dará na consumação dos séculos: “Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma
rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam
para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam
fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de
entre os justos. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes”
(cf. Mt.13:47-50).
Aqui vemos novamente em cena a segurança de Cristo em afirmar que a separação entre
justos e ímpios só ocorrerá na consumação dos séculos, sendo que antes disso eles estão
no mesmo lugar, e não em lugares ou dimensões diferent es! Ademais, Cristo também
deixou mais do que claro aqui que os maus só serão lançados na fornalha de fogo para
terem prantos e ranger de dentes na consumação dos séculos.
Não é algo que já esteja em atividade com os ímpios sofrendo tormento. Antes da
“consumação dos séculos”, eles estão no mesmo lugar, ou seja, se os ímpios já estão
queimando com fogo, então os justos também estão! É óbvio que todos os grupos não se
encontram senão no pó da terra (cf. Is.26:19; Gn.3:19; Sl.22:15; Jó 7:21; Dn.12:2), o
que explica o porquê que Cristo só os diferenciou por ocasião da consumação dos tempos.
105 Léxico da Concordância de Strong, 5119.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 202
Tudo isso nos mostra que, realmente, Cristo queimará [futuro] a palha no fogo (cf.
Lc.3:17), eles não estão queimando [presente]. O joio, os cestos ruins e a palha serão
queimados na consumação dos séculos, na consumação das eras. Não é algo que já esteja
em atividade em algum lugar.
A entrada no Reino é somente na segunda vinda de Cristo - “Quando o Filho do Homem
vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial.
Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o
pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à
sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu
Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do
mundo” (cf. Mateus 25:31-34)
Aqui fica mais do que claro que a entrada no Reino se dará por ocasião da revelação
gloriosa de Cristo, quando o Filho do Homem vier na sua glória para separar os bons dos
maus. Se os justos já estivessem desfrutando das bem-aventuranças do Reino, então Cristo
diria para eles “continuarem no Reino”. Contudo, a clareza da linguagem textual não
deixa margem para duplas interpretações: os justos não estavam no Reino, mas entrariam
no Reino a partir da revelação gloriosa do Filho do Homem, ou seja, na segunda vinda de
Cristo. Ele não disse “continuem no Reino”, mas sim: “entrem no Reino” – “o recebam”!
Ninguém entra em algum lugar se já estava lá. Ninguém diz: "entre na casa" para um
convidado que já está hospedado em sua casa há muito tempo. Vale ressaltar que o que
está em jogo aqui não é apenas a recompensa, como alegam alguns imortalistas, mas é o
próprio Reino, o próprio Paraíso celestial. Impossível conciliar isso com a tese de que tais
pessoas já estavam há séculos no Reino como espíritos incorpóreos para "receberem" o
Reino que já tinham e "entrarem" no Paraíso em que já estavam. A palavra grega
kleronomeo, usada aqui em Mateus, implica em "tornar-se participante de; obter"106, e não
pode ser ignorada.
Ademais, também é digno de nota que é somente nesta vinda gloriosa do Filho do homem
com todos os anjos que as ovelhas serão separadas dos bodes – elas não estão separadas
ainda. Do mesmo modo, um pouco mais à frente é dito ao grupo da direita para entrarem
no inferno (v.41), também a partir daquele momento. Se eles já estivessem no inferno isso
não faria sentido, pois eles já estariam queimando como “espíritos”, para ressuscitarem,
serem julgados, e continuarem queimando do mesmo jeito!
É muito claro a partir destes textos que a separação entre os justos e os ímpios não vem
senão por ocasião da consumação do mundo, e é neste momento que os justos recebem o
Reino prometido e nesta ocasião é que os ímpios são queimados. Não é no momento da
morte com as suas “almas imortais”. Os justos viriam receber o Reino que lhes fora
prometido desde a criação do mundo, lhes sendo concedido naquele momento.
Lembro-me de certa vez, há muito tempo atrás, quando debatia em uma rede social com
um defensor da doutrina da imortalidade que, ao se deparar com tal passagem e todas as
suas implicações que destacamos aqui, simplesmente teve que dizer: “Não tem como
refutar”, e para disfarçar a falta de contra-argumentação ainda completou dizendo: “você
106 Léxico da Concordância de Strong, 2816.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 203
tinha que estar certo em alguma coisa”! De fato, tal passagem é tão expressamente clara
que não abre espaços nem para refutações e nem para duplas interpretações.
É inimaginável que Cristo tenha que separar os dois grupos caso eles já estivessem bem
separados (uns no Céu e outros no inferno), e não tem como se conceber que Cristo diria
“venham receber o Reino” a pessoas que já estivessem desincorporadas no Reino há
milênios, ou até mais! Realmente, não existe como refutar a clareza e objetividade da
linguagem de Cristo em dizer de maneira explícita qual é o tempo em que os justos
receberiam o Reino e em que finalmente seriam separados dos ímpios.
Tudo isso ocorre, contudo, não quando as suas almas partem para o Céu c om a morte, mas
sim por ocasião da revelação gloriosa de Cristo, “curiosamente” o mesmo momento em que
se dá a ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). O Reino, que lhes estava “preparado”
desde a fundação do mundo (v.34), finalmente lhes seria concedido. E quando isso
acontecerá? A resposta se encontra no verso 31: “Quando o Filho do homem vier em sua
glória, com todos os anjos”. Trata-se da volta gloriosa de Jesus Cristo, e é só neste
momento em que os da direita, os justos, entram no Reino (v.34).
Voltarei e tomar-vos-ei comigo – Outro argumento conclusivo contra a teoria de que ao
morrermos somos imediatamente conduzidos ao Paraíso antes da ressurreição dos mortos é
o fato de que Jesus não deixou margem de dúvidas quanto à data em que os seus discípulos
seriam levados ao Paraíso:
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei
comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. Jo.14:2,3). A clareza da
linguagem é tão evidente que não abre espaços para duplas interpretações. A entrada no
Paraíso se dá por ocasião da volta de Cristo, e não por uma alma imortal que deixa o corpo
por ocasião da morte.
A clareza da linguagem é tão clara que já foram feitas inúmeras tentativas frustradas para
negar tamanha evidência, mas todas elas fraquejam em suas tentativas. A primeira
objeção diz que Jesus, ao dizer que voltaria para tomá-los consigo, referia-se ao tempo
apocalíptico quando ele arrebataria os salvos que ainda estivessem vivos aqui na terra.
Contudo, o contexto deixa bem claro que ele estava dizendo aquilo para os seus
discípulos (cf. Jo.13:36), e não para qualquer um em alguma era apocalíptica. Na verdade,
Jesus estava respondendo a uma pergunta de Simão Pedro (v.36), dizendo em seguida para
os discípulos:
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei
comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. João 14:2,3)
Será que algum apóstolo está vivo até os dias de hoje para ser arrebatado nesta promessa?
É claro que não! Fica mais do que claro que Jesus, falando aos seus discípulos, indicava
claramente que eles só ocupariam as suas moradas no Paraíso por ocasião da Sua Volta
gloriosa. A segunda objeção imortalista contra a evidência deste texto é que Jesus estaria
falando da morte deles para ocuparem os seus lugares no Paraíso. Contudo, isso é ferir o
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 204
contexto bíblico que afirma de forma categórica de que tal fato se dará não pela morte dos
apóstolos, mas sim por ocasião da volta de Cristo.
“Voltarei e tomar-vos-ei comigo” é uma clara referência a volta de Jesus. Em outras
circunstâncias, tal fato não seria alvo de objeção alguma, mas tendo em vista que
comprometeria a doutrina imortalista, tentam negar o evidente. Ademais, Cristo não disse:
“Quando vocês morrerem vão ocupar as moradas”, mas sim: “Quando eu voltar tomar-vos-
ei comigo”... para só então ocuparem as moradas.
E, por fim, o contexto deixa evidente que Cristo irá “preparar um lugar” (v.3), para depois
voltar (uma vez) para buscar aqueles que lhe pertencem. Se essa objeção estivesse correta,
então Cristo voltaria sucessivas vezes ininterruptas para buscar crente após a morte.
Porém, Cristo falava de um evento específico, de uma vinda em especial, para tomar todo o
corpo apostólico e não sobre vindas diferentes e variadas para cada um individualmente e
em tempos distintos.
A terceira objeção por parte dos imortalistas é que Cristo pudesse estar se referindo à sua
ressurreição dentre os mortos. Contudo, essa teoria falha no mesmo ponto da anterior:
“voltarei e tomar-vos-ei comigo” é uma clara referência à segunda vinda de Cristo, nunca
indicando que tratasse da ressurreição do Senhor. Se a referência fosse à ressurreição de
Cristo, isso faria de Jesus um mentiroso ao dizer que prepararia as moradas no Paraíso,
uma vez que tal fato não seria possível já que enquanto ele esteve morto antes de sua
ressurreição não esteve no Céu para “preparar” morada alguma, pelo c ontrário, ele não
subiu ao Céu (cf. Jo.20:17), e ficou três dias e três noites no Sheol (cf. At.2:27; Mt.12:40),
e não no Paraíso “preparando moradas”.
Finalmente, essa teoria falha ainda mais porque negaria que Jesus tomaria os seus
discípulos consigo. Se fosse uma referência à ressurreição de próprio Cristo, então teríamos
um grande problema uma vez que Jesus não “tomou consigo” em suas moradas discípulo
nenhum por ocasião da sua ressurreição! Isso seria um disparate e uma promessa não
cumprida se Cristo estivesse mesmo falando da ressurreição dele mesmo!
Por fim, devemos ressaltar que, para onde Cristo iria, nem sequer os seus próprios
discípulos poderiam segui-lo (cf. Jo.13:36). Por isso, faz-se necessário que Ele volte para
nos levar onde ele está [segunda vinda de Cristo], para estarmos com Ele onde ele estiver
(cf. Jo.14:3). Todas as objeções à clareza da linguagem de João 14:2,3 são refutações
fracas, quase sempre interpretações forçadas do texto bíblico numa tentativa desesperada
em negarem o óbvio daquilo que diz as Escrituras.
Jesus não disse que os lugares estariam disponíveis aos salvos conforme fossem morrendo
e suas almas chegassem no Céu para assumi-las. Seria impossível Cristo voltar para levar
os seus discípulos ao Céu caso eles já estivessem lá, pois Jesus não teria que voltar para
buscar novamente aqueles que já estivessem no Paraíso.
É óbvio que eles só entram na segunda vinda, quando Cristo voltar para nos levar onde ele
está, e não quando a suposta “alma imortal” deixa o corpo após a morte, em algum estado
intermediário dos mortos. Se a alma fosse imortal, o texto estaria dizendo que, "quando eu
for e vos preparar lugar, vocês virão a mim quando morrerem, para que, onde eu estou,
estejais vós também". Porém, a linguagem bíblica expressa é clara ao ponto de nos fazer
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 205
entender que apenas pela ressurreição, quando Jesus vier nos buscar, é que entraremos em
nossas moradas celestiais. E não restam objeções a tal fato.
Para onde Cristo vai, só iremos na ressurreição – “Disse, pois, Jesus: Ainda um pouco de
tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis, e não
me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir” (cf. Jo.7:33,34). Quando Jesus afirma
em João 7:34 que “onde eu vou, vós não podeis ir”, os imortalistas são rápidos em
responder que Cristo estava falando com os fariseus e, portanto, eles vão queimar para
sempre e não podem ir onde Cristo vai. O problema, contudo, é que essa mesma verdade é
afirmada não apenas aos fariseus incrédulos, mas aos próprios discípulos dele!
Isso fica claro em João 13:33 em que ele afirma: “Meus filhinhos, vou estar com vocês
apenas por mais um pouco. Vocês procurarão por mim e, como eu disse aos judeus, agora
lhes digo: Para onde eu vou, vós não podeis ir” (cf. Jo.13:33). Não apenas os judeus
hipócritas de João 7:34, mas também os seu próprios seguidores em João 13:33 não
poderiam ir para onde Jesus partiria. Quando que eles poderiam, então, juntar-se a ele? O
próprio Mestre responde alguns poucos versos à frente:
“Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou
preparar-vos um lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para
mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (cf. Jo.14:2,3). Ou seja,
quando Ele [Cristo] voltar em Sua segunda Vinda. Não, essa não é apenas uma repetição do
argumento passado acima, mas é um complemento muito importante, pois Cristo afirma
categoricamente que os próprios apóstolos não poderiam estar com Cristo e nem sequer o
achar quando ele partisse para a outra vida, mesmo Simão Pedro afirmando que daria a
própria vida para seguir a Jesus: “Pedro perguntou: Senhor, por que não posso seguir-
te agora? Darei a minha vida por ti” (cf. Jo.13:37).
Em outras palavras, não adiantava procurar entre o “povo espalhado pelos gregos” (cf.
Jo.7:35), não adiantava nem mesmo morrer (cf. Jo.13:37), pois para onde Cristo iria,
absolutamente ninguém poderia ir até ele. Por isso, faz-se necessário ele voltar e nos levar
com ele, para só aí estarmos onde ele está – aquele local onde ninguém poderia segui-lo
(nem mesmo morrendo para isso) – o Paraíso.
Se a morte introduzisse a alma de Pedro imediatamente no Céu com o próprio Jesus, então
ele logicamente poderia segui-lo ao dar a vida por ele. Contudo, Cristo é enfático em relatar
que nem mesmo a morte os traria para onde ele iria (cf. Jo.13:37; 13:33), o que nos revela
que, realmente, é apenas com uma segunda vinda do próprio Cristo em que os apóstolos
estariam de fato com ele (cf. Jo.14:2,3), através da ressurreição dos mortos.
A justa recompensa na ressurreição – "E serás bem-aventurado; porque eles não têm com
que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos"
(Lc.14:14). Jesus aqui afirma que a recompensa será dada na ressurreição. Ir ao estado
intermediário já não é uma forma de recompensa? Claro que sim, afinal no estado
intermediário já haverá a distinção de pessoas salvas e perdidas e as perdidas estariam em
um fogo atormentador e os salvos curtindo as delicias da vida eterna (pelo menos é assim
que os imortalistas ensinam).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 206
Se existe um estado intermediário junto a Deus, com todos os outros santos, desfrutando
das bênçãos paradisíacas e da profunda felicidade que é estar com o Pai em contraste com
esta vida terrena, então isso seria uma forma de recompensa – e bota “recompensa” nisso!
Contudo, a declaração de Cristo é categórica ao afirmar que a recompensa pelas dada aos
justos não vem no momento da morte, mas sim na ressurreição dos mortos!
Ao tentar conciliar a existência do estado intermediário com a recompensa que só é dada no
momento da ressurreição, os imortalistas caem em uma séria contradição, pois, se tal
estado intermediário no Céu com Deus realmente existisse, então os que morressem já
estariam desfrutando das bênçãos paradisíacas, sendo recompensados. Contudo, Jesus
nega isso ao afirmar claramente que a recompensa dada aos que se esforçam nessa vida é
na ressurreição dos mortos, o que contraria o ensino do “estado intermediário”.
Na verdade, não há sequer “pista” alguma que indique que os justos seriam nem mesmo
recompensados gradativamente ao longo de tal “estado intermediário”, afinal, se a
recompensa é a ressurreição, então estar com Deus desfrutando das delícias celestiais em
um estado intermediário não é uma recompensa. Pelo menos seria essa desastrosa
conclusão que deveríamos pressupor em caso que, de fato, existisse esse “estado
intermediário”. Isso contraria também o ensino expresso no Concílio de Trento, considerado
infalível para os católicos, que de forma explícita declara que a recompensa vem
imediatamente após a morte, e não na ressurreição dos mortos, como disse Jesus:
“Quando morremos, experimentamos o que se chama o juízo individual. A Escritura diz que
'aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo' (Heb.
9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para bem
ou mal. Sabemos ao mesmo tempo qual será o nosso destino final. No fim dos tempos,
quando Jesus voltar, virá o juízo geral ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus
25:31-32: 'Quando o filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se
assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações; e ele
separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos.' Neste juízo geral
todos os nossos pecados serão revelados publicamente (Lucas 12:2-5)”107
Distorcendo o significado do texto de Hebreus 9:27 (que veremos mais adiante), a Igreja
Católica Romana mantém a ideia de que existem dois juízos, conquanto que a Bíblia afirme
tão claramente que existe apenas un único juízo (cf. Rm.2:16; At.17:31; 1Co.3:13;
Dn.12:13; 2Tm.4:1,8), e que a recompensa vem imediatamente após a morte e antes da
ressurreição, ainda que Cristo tenha sido tão direto em afirmar que os justos só serão
recompensados na ressurreição dos mortos (cf. Lc.14:14). Tudo isso nos mostra mais uma
vez o contraste entre a teologia da imortalidade da alma e o ensino bíblico: eles precisam
multiplicar a existência de juízos e antecipar o momento da recompensa, de outro modo
não haveria como pregar a doutrina dualista de uma forma que passasse um mínimo de
coerência.
A condenação é somente no último dia – "Há um juiz para quem me rejeita e não aceita as
minhas palavras; a própria palavra que proferi o condenará no último dia” (cf. Jo.12:48).
As palavras de Cristo são tão lúcidas que não necessitam nem um pouco de maiores
elucidações. Qual é o momento em que os ímpios serão condenados? Logo depois da morte
quando são lançados no inferno ou somente no último dia? Jesus nos responde a esta
107 Concílio de Trento, Decreto sobre o Purgatório, Denzinger # 983.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 207
questão dizendo claramente e sem rodeios que serão condenados “no último dia” e – que
grande "coincidência" – este é o momento da ressurreição:
“E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me
deu, mas que eu o ressuscite no último dia” (cf. João 6:39)
Vemos, portanto, que a condenação dos ímpios não é logo depois da morte em um “estado
intermediário” e muito menos que eles já estejam sofrendo suas condenações em algum
lugar, pois a sua condenação é somente no último dia, o dia da ressurreição dos mortos .
Considerar que os ímpios já estejam atualmente queimando em um lugar de fogo
denominado de “inferno” ou “Hades” significa crer que eles já sofreram a condenação antes
mesmo do momento em que Cristo disse que eles seriam condenados!
É óbvio que se o momento da condenação dos ímpios é no último dia, segue-se logicamente
que eles não estão na condenação, como pensam os imortalistas. Infelizmente, os
defensores da alma imortal nunca poderão admitir tal verdade declarada por Cristo, pois
isso invalidaria a tese pagã de que milhões de pessoas supostamente já estão sofrendo a
condenação de um inferno de fogo em atividade e fulminaria com a lenda da imortalidade
da alma.
A entrada no Reino ou na condenação é por ocasião da volta de Cristo – Confirmando as
claras palavras de Cristo aos seus discípulos assegurando-lhes que o momento em que eles
teriam parte em suas moradas celestiais seria na Sua Volta (cf. Jo.14:2,3), porque é este o
momento da ressurreição (cf. 1Co.15:22,23), o próprio Jesus lhes conta uma parábola em
que confirma tal ensino de que a entrada no Reino ou na condenação ocorre por ocasião da
Sua Volta, e não de alguma “alma” ou “espírito” que parta desencarnado antes disso.
Vejamos o que ele ensina:
“Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que
tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco
talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel!
Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu
senhor!’” (cf. Mateus 25:19-21)
Qual é o momento em que o servo bom e fiel tomou parte na alegria do Senhor? Antes ou
depois da volta do seu senhor? Não foi antes, mas depois! É muito claro aqui que o “senhor”
da parábola é uma representação do próprio Cristo que há de voltar para então
recompensar a cada um, e os servos fieis só entram no gozo do Senhor quando o dono da
vinha [representação de Cristo] voltar, “depois de muito tempo” (v.19)!
Ele não poderia ser mais claro e exato do que isso ao afirmar os tempos e datas em que se
daria tal acontecimento. Também vemos neste mesmo contexto que é somente quando o
Senhor volta que os seus servos têm que prestar contas a ele (vs. 20, 22). É no momento
da volta de Cristo, e não antes dela, que teremos que prestar contas perante Ele por tudo o
que fizemos! E, finalmente, também é este o momento em que o servo mau é lançado na
trevas (v.30).
Portanto, a partir de tal parábola de Cristo percebemos que: (1) entraremos na alegria do
Senhor por ocasião da Sua Volta; (2) seremos recompensados por ele nessa ocasião; (3) é
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 208
também nessa ocasião em que teremos que prestar contas a ele; e (4) é também na volta
de Cristo que os servos infieis são lançados nas trevas.
Todas essas conclusões negam em absoluto a imortalidade da alma, pois tal doutrina,
estranha à Bíblia, prega exatamente o inverso disso: de que já entramos na alegria do
Senhor em um estado intermediário muitíssimo antes da Volta de Cristo (alguns dois mil
anos antes de sua volta), de que somos recompensados entrando no Céu logo depois da
morte, de que prestaremos contas a ele antes da sua vinda e de que os servos infieis já
estão queimando atualmente e estão esperando entre as chamas a volta de Cristo para
prestarem contas e voltarem a queimar novamente depois disso.
A vergonha dos ímpios é na segunda vinda – “Se alguém se envergonhar de mim e das
minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará
dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (cf. Mc.8:38). O momento
em que o Filho do homem irá se envergonhar dos pecadores é quando ele vier na glória de
seu Pai com todos os santos anjos, algo que vai de frente à doutrina da imortalidade da
alma, uma vez que os ímpios já estariam queimando no inferno muito antes disso e,
portanto, já sendo envergonhados. O próprio Cristo, contudo, afirma que aquela geração
iria passar vergonha na Sua Vinda, e não antes disso.
O próprio fato de Cristo ter feito uma referência àquela geração judaica de sua época
(“nesta geração” – v.38), prova que eles não podem estar queimando atualmente, uma vez
que deste modo aquela geração já estaria sendo envergonhada, mas Cristo afirma
categoricamente que tal fato concretizar-se-á na Sua vinda, na ressurreição dos mortos
para a vida ou para a vergonha da condenação. É bem nítido que aquela geração que
pereceu não está já na condenação do inferno, pois desta forma eles já estariam
condenados e envergonhados antes da volta de Cristo!
XI–Sobre Imortalidade e Vida Eterna
Cristo e a Vida Eterna – É fator bem importante, primeiro, considerar que nem todos
alcançam uma vida eterna, que não existe uma vida eterna no inferno, que a vida eterna é
a partir da ressurreição e que a imortalidade é um dom de Deus para ser buscada. Nos
aprofundaremos mais neste ponto principalmente quando passarmos aos ensinos de Paulo,
por hora limitemo-nos acerca dos ensinamentos de Jesus Cristo, que disse:
“E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha
mão” (cf. João 10:28)
Se Cristo me dá a vida eterna, isso quer dizer que não temos uma natureza imortal, e sim
que essa imortalidade é totalmente dependente de Cristo se somos salvos. Essa verdade é
tão fundamental que é pregada por várias outras vezes por Crist o. A vida eterna está
reservada apenas e tão somente aos filhos de Deus: “Para que todo o que nele crê tenha a
vida eterna” (cf. Jo.3:15). Note que Cristo fez a promessa de dar a vida eterna somente
àqueles que nEle crerem. E ainda acentua: “E esta é a promessa que ele mesmo nos fez, a
vida eterna” (cf. 1Jo.2:25). Mas, por que razão que Jesus iria dar uma vida eterna a alguém
que já possuísse em si mesmo uma alma imortal? Essa é uma questão que imortalistas tem
uma grande dificuldade de explicar.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 209
“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o
Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (cf. João 6:27)
“De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida
eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (cf. João 6:40)
Além disso, é importante considerarmos que a vida eterna é uma herança: “Certo homem
de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (cf.
Lc.18:18). Se a vida eterna já fosse garantia de todos por terem uma “alma imortal”, então
este homem não teria que perguntar para Cristo o que ele devia fazer para herdá-la,
pois ele já a teria de qualquer jeito! Mas apenas os justos herdam vida eterna. Em João
6:51, Cristo faz a seguinte afirmação:
“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (cf.
João 6:51)
Logo, quem não come do pão da vida não viverá eternamente. O ensinamento é claro em
desfazer a imortalidade incondicional por meio de uma alma eterna, pois a conjunção “se”
expressa uma condição: apenas aqueles que comem do pão poderão viver eternamente.
Isso nos mostra que não existe uma alma imortal implantada nos seres humanos, pois é
apenas por meio de Cristo (e não mediante uma alma imortal) que os justos viverão
eternamente no futuro, e os ímpios (que não comem do pão vivo) não viverão eternamente
em algum lugar.
Isso é confirmado novamente por Cristo: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e
igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá” (cf.
Jo.6:57). Novamente aqui é acentuado o fato de que a vida é somente em Cristo. Apenas
por meio dEle é que podemos viver eternamente. O que vai além disso deve fazer parte da
mentira de Satanás (cf. Gn.3:4).
Os apóstolos contrariavam a Cristo? – Os apóstolos não contrariam a Cristo, muito pelo
contrário, seguem na mesma linha. O apóstolo Paulo afirma que a imortalidade é por meio
do evangelho (cf. 2Tm.1:10). Ora, se a imortalidade é por meio do evangelho então
aqueles que desprezam o evangelho não possuem a imortalidade. O apóstolo João vai além
e declara que o assassino não tem a vida eterna permanente em si (cf. 1Jo.3:15), e
assegura que a vida é somente em Cristo (cf. 1Jo.5:12). Os ímpios, ao contrário, não
verão a vida (cf. Jo.3:36). Importante ressaltar também que a vida eterna e a
imortalidade é a partir da ressurreição dentre os mortos.
Apenas Deus tem uma “vida eterna” permanente em si no sentido completo da palavra, não
tendo nem princípio nem fim de dias, sendo eterno literalmente. Aos justos é concedida
uma vida eterna e imortalidade, não como Deus possui (i.e, imortalidade inerente, sem
início e nem fim), mas sim uma imortalidade condicional (de seguir o evangelho e de aceitar
a Cristo – cf. 2Tm.1:10; Jo.6:51; Jo.6:57).
Essa imortalidade é a partir da ressurreiç ão dentre os mortos. É por isso que a imortalidade
tem que ser buscada (cf. Rm.2:7), e revestida (cf. 1Co.15:53), na ressurreição (cf.
1Co.15:51-54). Ora, ninguém busca aquilo que já se possui. Essa realidade, da vida eterna
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 210
a partir da ressurreição, é ainda mais acentuada pelo próprio Cristo, que declara: “Não
fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos
túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem da ressurreição para a vida; e os
que fizeram o mau da ressurreição para a condenação” (cf. Jo.5:28,29).
Eles não estão na vida, mas sairão para a vida a partir da ressurreição. A vida está
relacionada à ressurreição porque ela está condicionada a ela. Ademais, todos ressuscitarão
vindos do túmulo (e não do Céu, do inferno ou do purgatório) a fim de comparecer no
tribunal divino. A Bíblia afirma que só Deus possui a imortalidade c omo uma possessão
presente:
“O único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais
viu nem pode ver. Para ele, honra e poder para sempre. Amém” (cf. 1Tm.6:16). Para a
humanidade, a imortalidade é ainda um prêmio a ser buscada: “... para aqueles que pela
paciência em fazer bem, procuram glória, honra e imortalidade, ele dará a vida eterna” (cf.
Rm.2:7). Definitivamente, Jesus e os apóstolos jamais ensinaram a doutrina da
imortalidade da alma.
XII–Sobre o Estado Final dos ímpios
Mais ensinamentos de Cristo – Os ensinamentos de Cristo acerca do estado final dos ímpios
é bem claro, e do início ao fim nega toda e qualquer “imortalidade” que seja concedida
também a eles. Um bom exemplo disso é o que o Mestre narra em Marcos 12:1-9:
“Certo homem plantou uma vinha, colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para
prensar as uvas e construiu uma torre. Depois arrendou a vinha a alguns lavradores e foi
fazer uma viagem. Na época da colheita, enviou um servo aos lavradores, para rece ber
deles parte do fruto da vinha. Mas eles o agarraram, o espancaram e o mandaram embora
de mãos vazias. Então enviou-lhes outro servo; e lhe bateram na cabeça e o humilharam. E
enviou ainda outro, o qual mataram. Enviou muitos outros; em alguns bateram, a outros
mataram. Faltava-lhe ainda um para enviar: seu filho amado. Por fim o enviou, dizendo: A
meu filho respeitarão. Mas os lavradores disseram uns aos outros: Este é o herdeiro.
Venham, vamos matá-lo, e a herança será nossa. Assim eles o agarraram, o mataram e o
lançaram para fora da vinha. O que fará então o dono da vinha? Virá e exterminará
aqueles lavradores e dará a vinha a outros” (cf. Marcos 12:1-9)
O que Cristo ensina nessa parábola acerca do fim dos ímpios é bem claro. Se ele quisesse
induzir que seriam dotados de imortalidade igual aos justos e ficando para sempre no lago
de fogo (conscientemente), então provavelmente teria dito que eles seriam “castigados
eternamente”, ou que “torturaria aqueles homens para sempre”. Mas claramente não é isso
o que Jesus ensina sobre o destino final dos pecadores. O Nosso Senhor compara a
destruição dos ímpios com joio reunido em molhos para ser queimado (cf. Mt.13:30). Ora,
acaso o joio que é queimado (que representa os ímpios) possui um material imortal e
indestrutível? É claro que não. Assim também os ímpios, representados pelo joio, não são
indestrutíveis.
A Bíblia diz claramente que os ímpios não terão corpos incorruptíveis, que é exclusividade
apenas dos justos (cf. Fp.3:20,21; 1Co.15:35-55). Paulo também afirma isso
categoricamente: “Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 211
corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna” (cf. Gl.6:8).
Em oposição a uma “vida eterna”, os ímpios possuirão corpos corruptíveis. Se fossem
queimar eternamente seriam exatamente o contrário, isto é, incorruptíveis. A comparação
de Cristo com o joio que é queimado é exata, pois, assim como o joio, os ímpios não ficam
queimando para sempre: são corruptíveis como o joio, e não incorruptíveis como os justos.
Ademais, como apontou o Dr. Samuelle Bacchiocchi em "Imortalidade ou Ressurreição?",
Jesus fez a devida analogia do destino dos não-salvos com ervas reunidas nos molhos para
serem queimadas (cf. Mt.13:30,40), os maus peixes que lançados fora (cf. Mt.13:48), as
plantas ruins que foram arrancadas (cf. Mt.15:13), a árvore que não dá frutos que é
cortada (cf. Lc.13:7), os galhos secos que foram queimados (cf. Jo.15:6), os servos
infieis exterminados (cf. Lc.20:16), o mau servo que foi despedaçado (cf. Mt.24:51), os
galileus que pereceram (cf. Lc.13:2,3), as dezoito pessoas que foram esmagadas pela
torre de Siloé (cf. Lc.13:4,5), os antediluvianos que foram destruídos pelo dilúvio (cf.
Lc.17:27), as pessoas de Sodoma e Gomorra que foram consumidas pelo fogo (cf.
Lc.17:29) e os servos maus que foram executados (cf. Lc.19:14,27).
Nenhuma dessas comparações do fim dos ímpios induz a uma existência eterna, muito pelo
contrário, remete a uma destruição completa, a um fim de existência.
XIII–A Ressurreição de Lázaro
A Ressurreição de Lázaro – Outro fato de fundamental importância que revela que Cristo
jamais ensinou a doutrina da imortalidade da alma é a ressurreição de Lázaro, o que fica
mais evidente quando analisamos cuidadosamente o contexto:
“Chegando, pois, Jesus, encontrou-o já com quatro dias de sepultura. Ora, Betânia distava
de Jerusalém cerca de quinze estádios. E muitos dos judeus tinham vindo visitar Marta e
Maria, para as consolar acerca de seu irmão. Marta, pois, ao saber que Jesus chegava, saiu-
lhe ao encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa. Disse, pois, Marta a Jesus: Senhor,
se (estivesses aqui) meu irmão não teria morrido. E mesmo agora sei que tudo quanto
pedires a Deus, Deus to concederá. Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir.
Disse-lhe Marta: Sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia. Declarou-
lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto,
viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? Respondeu-lhe
Marta: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao
mundo” (cf. João 11:17-27)
Muitas coisas podemos considerar a partir deste relato. Em primeiro lugar, quando Jesus
consolava as irmãs de Lázaro (já morto), em nada indicou que este estivesse na “glória” ou
contemplando a face de Deus, mas apenas lhes dá a esperança da ressurreição (cf.
Jo.11:17-27). Ele aponta a ressurreição “no último dia” como única fonte de consolação.
Se Lázaro já estivesse na “glória”, então Jesus iria aproveitar tal oportunidade a fim de
ressaltar que era sem sentido o pranto por ele, uma vez que já estaria em um lugar
muitíssimo melhor, e seria muito mais desvantajoso para ele (Lázaro) ter que voltar para
esta presente terra cheia de perdição. Em outras palavras, seria melhor para Lázaro tê -lo
deixado onde ele estava! Mas Cristo não somente o ressuscita como também usa como
fonte de consolação a base na ressurreição do último dia.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 212
Em momento nenhum ele chega a induzir que Lázaro já estivesse desfrutando de alguma
bem-aventurança paradisíaca, e se tal fato fosse verdade então ele mencionaria às irmãs
dele sem a menor hesitação, uma vez que estavam não só elas, mas todos os outros, aflitos
de espírito e chorando pela sua morte.
Contudo, não somente Cristo usa como a única base de consolação a esperança da
ressurreição, como também Marta reage às palavras dEle nessa mesma base, confirmando
sua esperança na ressurreição. De acordo com o texto, Jesus consolou a irmã de Lázaro
dizendo que este iria “ressurgir”. Marta sabia disso, mas sabia também que ele só iria
ressurgir na ressurreição do último dia. Este fato é muito importante, pois mostra que
Marta acreditava que Lázaro só voltasse à vida através da realidade da ressurreição, que se
dá somente no último dia, o dia da volta de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).
Marta certamente que não estava falando apenas de um simples corpo morto que voltaria a
vida, pelo contrário, referia-se ao próprio Lázaro como pessoa, como ser racional. Marta
acreditava realmente que seu irmão estava literalmente morto, e chorava, pois acreditava
que só ressurgiria na ressurreição do último dia. Um pouco mais de raciocínio e saberíamos
o porquê que a esperança de Marta era na ressurreiç ão do último dia: porque era somente
neste momento em que ela (Marta) voltaria a encontrá-lo (Lázaro).
O momento em que ambos seriam reapresentados e poderiam exultar-se de alegria e
satisfação não seria quando Marta também morresse e a sua alma se encontrasse com
Lázaro; pelo contrário, tal reencontro só se daria na ressurreição do último dia, pois é
somente neste momento em que Lázaro voltaria à vida e Marta (que certamente também
passaria pela morte) também, e ambos seriam apresentados. Isso explica a esperança de
Marta em voltar a vê-lo na ressurreição do último dia, o que também foi a única fonte de
consolação dada a ela.
Cristo não contradiz essa concepção de Marta, muito pelo contrário, concorda com ela, e por
fim diz: “...quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (v.25). Cristo não disse
“...ainda que morra, vive...”, pelo contrário, afirmou: “ainda que esteja morto, viverá”. Do
princípio ao fim, Jesus nega qualquer existência de um estado intermediário consciente em
que Lázaro estivesse vivo, pois se este fosse o caso então Ele teria dito que “ainda que
esteja morto... vive”, o que indicaria o estado consciente (de vida) do ser racional na
morte. O Mestre, contudo, nega este estado, pois afirma que tal vida não é algo presente,
mas sim um acontecimento futuro: “ainda que morra... viverá” – verbo no futuro,
indicando a esperança da ressurreição no último dia como único meio de alguma pessoa
voltar à existência.
O ensinamento é que quem nele crer “viverá eternamente” (cf. Jo.6:58), e não “vive...
eternamente”. A posse da eternidade é um acontecimento futuro, e não algo já presente –
ainda que morra, viverá! Alguns ainda objetam dizendo que no verso seguinte ele diz que
nós não morremos nunca, como algumas versões erroneamente traduzem: “todo aquele
que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (v.26). Contudo, esta tradução segue
novamente as tendências dualistas dos tradutores, e não o original grego. O texto original
traz: “ou mh apoqanh eiV ton aiwna" – não morrerá eternamente.
Como vemos, no verso 25 Jesus falava do estado atual dos mortos negando que estes
estivessem com vida e indicando que a posse da vida aos mortos é um acontecimento
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 213
futuro, e no verso seguinte (v.26) ele falava da morte eterna [segunda morte] na qual os
justos não passarão, mas somente aqueles que não forem encontrados no livro da vida no
dia do Juízo, na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). Algumas versões traduzem este
texto corretamente de acordo com o original grego, como é o caso da NVI e da ARA.
Tal passagem é, portanto, um golpe de morte na doutrina do estado intermediário
consciente dos mortos. Todos passaremos pelo estado de morte (i.e, sem vida) entre a
morte e a ressurreição, mas apenas os ímpios sofrerão também a morte eterna [segunda
morte] em contraste com os justos que terão a vida eterna. É exatamente isso que Cristo
descreve nos versos de João 11:25,26, sem fazer nenhuma indicação de estado consciente
dos mortos, mas, ao contrário, dizendo que apenas no futuro os que já morreram
desfrutarão de vida.
Além de tudo isso, devemos lembrar também que o texto absolutamente não fala de lugar
nenhum em que Lázaro tivesse passado pelos quatro dias em que esteve morto. Cristo não
disse: “Lázaro, sobe”, ou então: “Lázaro, desce”; pelo contrário, disse simplesmente:
“Lázaro, sai para fora” (cf. Jo.11:43). O ser racional de Lázaro estava na sepultura, e não
no alto (Céu) ou embaixo (inferno).
Como os próprios imortalistas atestam que o processo de pensamento é ligado a alma e
como função desta, sendo o próprio ser racional de Lázaro, é imprescindível que Jesus se
dirigisse a este ser racional (alma) com o grito de “Lázaro, desce!” – se estivesse no Sheol
ou no inferno – ou então: “Lázaro, sobe!” – se estivesse com Deus no Céu. Contudo, vemos
que o ser racional não estava em outro lugar senão na própria sepultura.
Se Lázaro tivesse alguma “experiência sobrenatural” nos quatro dias em que esteve morto,
João certamente iria narrar tal fato sem hesitação alguma. Afinal, seria tema
importantíssimo e de maior interesse. Contudo, Lázaro nenhuma informação trouxe da sua
suposta passagem pela glória celestial; aliás, nem ele e nem qualquer das outras sete
pessoas que foram levantadas dentre os mortos (cf. 1Rs.17:7-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-
15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11) tiveram qualquer experiência entre a morte e a
ressurreição para compartilhar conosco.
Isso seria de importância fundamental para calar alguns grupos daquela sociedade judaica,
como os saduceus, que não acreditavam em nada após a morte nem em ressurreição.
Contudo, nem eles tiveram história nenhuma para contar, nem qualquer escritor bíblico fez
questão relatar tal suposição. Isso não é meramente um “argumento do silêncio” como
argumentam alguns. Mas, mesmo que assim fosse, o bom senso nos leva a acreditar que
qualquer experiência fora do corpo entre a morte e a ressurreição seria narrada por quem
tivesse passado por tal fato.
Uma prova muito forte disso são as várias pessoas que entraram em estado de “quase -
morte”, e o cérebro criou imagens de “paraísos” ou do “inferno”, sem, contudo, as pessoas
haverem falecido de fato. Todas elas narram tais acontecimentos sem a menor hesitação, e
não somente isso, mas tal fato é o primeiro a ser mencionado por elas. Na Bíblia Sagrada,
contudo, absolutamente nada disso acontece. As pessoas que literalmente morreram (não
ficaram apenas em estado de “quase-morte”) não tiveram nada e história nenhuma para
relatar.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 214
A razão pela qual Lázaro e as outras sete pessoas levantadas dentre os mortos não tiveram
nada para contar é que elas passaram pelo “sono da morte”, assim como todas as pessoas
passam, até Cristo Jesus nos trazer de volta a vida, como ele prometeu: “Eis que virá a
hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os justos sairão para a
ressurreição da vida; e os maus para a ressurreição da condenação” (cf. Jo.5:28,29).
Os que pregam a teoria do “estado intermediário” com as nossas “almas imortais” encaram
uma grande confusão: ou Cristo retirou Lázaro do conforto no Paraíso (no “Seio de
Abraão”), para trazer de volta a este mundo que jaz no maligno - cometendo assim uma
maldade para com Lázaro -, ou então teria retirado Lázaro do inferno (algo muito
improvável, pois era um seguidor do Mestre que Lhe amava), mas teria sido assim
antibíblico, concedendo-lhe uma segunda oportunidade de salvação. Não, Jesus não tirou
Lázaro do Paraíso à força para trazer de volta para este mundo (o que, aliás, faria Lázaro
ter ficado revoltadíssimo!).
O que os imortalistas imaginam Deus dizendo, jamais aconteceu: “’Lázaro, você já está aqui
há quatro dias, mas agora você vai ter que voltar, porque o meu Filho está te
ressuscitando!’ ‘Mas Deus, eu quero ficar aqui’! ‘Vai nada, Lázaro, você vai embora...!’” É
óbvio que esse absurdo jamais aconteceu, o que realmente aconteceu é o que Jesus disse
em João 11:11 – “Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme,
mas vou despertá-lo do seu sono”. Como acertadamente apontou o professor Gilson
Medeiros, seria um absurdo olhar o relato da ressurreição de Lázaro segundo a ótica
dualista de imortalidade da alma:
“Se já recebemos a recompensa logo por ocasião da morte, como querem os infernistas,
como será que Lázaro, irmão de Marta e Maria, deve ter se sentido depois que Jesus o
ressuscitou? Segundo a heresia pregada nas igrejas cristãs, ele foi chamado de volta para
este mundo de pecado e sujeiras depois de ter experimentado 4 dias de ‘glória’ no Céu.
Perceberam o absurdo de se crer no paganismo grego?! Prefiro ficar com a Bíblia!”108
Conclusão – Concluímos, pois, que Jesus em momento algum pregou a doutrina da
imortalidade da alma. Pelo contrário, muitas passagens foram distorcidas por parte dos
dualistas, mas todas elas não passam por um teste de fogo bíblico, em poucas linhas são
facilmente refutadas. Uma doutrina que apresenta como principal fundamento os meios de
uma parábola não pode ser alvo de muita confiança.
Na verdade, não merece nem um mínimo de confiança. Nosso Senhor assegurou aos
apóstolos que para onde ele iria, eles não poderiam ir (cf. Jo.13;33). Contudo, apresenta-
lhes a esperança de que chegaria o dia em que ele voltaria para lhes tomar consigo, para
que onde ele estaria, lá estivessem eles também (cf. Jo.14:2,3). A necessidade da
ressurreição traduz-se em dar a vida a quem está sem vida, e não a um simples fato de
um espírito sem corpo ganhar um e continuar no Céu do mesmo jeito.
Tal fato é assegurado pelas palavras de Cristo de que entrariam na vida a partir a
ressurreição (cf. Jo.5:28,29), que a alma não vai diretamente para a vida eterna mas é
preservada até este momento em que entraria na vida [através da ressurreição] (cf.
108 MEDEIROS, Gilson. Jesus falou mais sobre o inferno do que sobre o Céu. Será? Disponível em:
<http://prgilsonmedeiros.blogspot.com.br/2009/07/cuidado-com-o-fogo-do-inferno.html>. Acesso em:
22/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 215
Jo.12:25), que a condição de ter vida é de segui-Lo (cf. 2Tm.1:10; Jo.6:51; Jo.6:57), da
realidade de que só a partir dessa ressurreição é que os justos se separarão dos ímpios (cf.
Mt.25:31,32), para só aí entrarem no celeiro, fato que se dará no fim do mundo (cf.
Mt.13:39), e de igual modo os ímpios só serão queimados na consumação deste mundo (cf.
Mt.13:40), na consumação dos séculos (cf. Mt.13:47-50).
Os justos entrarão no Reino não quando eles morressem e as suas almas imortais partissem
para o Céu, mas sim quando o “Filho do homem vier na sua glória e todos os anjos com ele”
(cf. Mt.25:31-34), pois é somente neste momento em que os justos recebem o Reino que
lhes fora prometido desde a fundação do mundo (cf. Mt.25:34).
Tudo isso prova que não há separação de corpo e alma por ocasião da morte c om destinos
diferentes a justos e ímpios, estabelecidos definitivamente em seus destinos finais por toda
eternidade logo após o momento da morte, através de uma alma imortal sendo liberta da
prisão do corpo. Corpo e alma não são opostos. A esperança do cristão é a de que “ainda
que morra, viverá” (cf. Jo.11:25), e não a de que “ainda que morra, vive”!
Seria excelente se todas as pessoas viessem a refletir sinceramente sobre o tema, e
deixassem de crer na mentira de Satanás (cf. Gn.3:4), para crerem que “virá a hora em que
todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os justos sairão para a ressurreição
da vida; e os maus para a ressurreição da condenação” (Jesus Cristo, em João 5:28,29).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 216
CAPÍTULO 5.3 – OS APÓSTOLOS PREGAVAM A IMORTALIDADE DA ALMA?
XIV–Atos dos Apóstolos
“Ao contrário, tinham alguns pontos de divergência com ele acerca de sua própria religião e
de um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (cf. Atos 25:19)
Para descobrirmos se a Igreja primitiva adotava a doutrina da imortalidade da alma, temos
o testemunho ocular de uma pessoa que conviveu com os primeiros apóstolos, um médico
que contou a história dos primeiros anos do Evangelho: Lucas. Quando o sincronismo com
as religiões pagãs ainda não havia penetrado nos moldes do Cristianismo e a doutrina que
era pregada vinha diretamente daqueles que eram testemunhas oculares do Messias, que
conviveram com ele e estavam com ele, sendo deixados aqui com a missão de pregar o
evangelho a toda criatura (cf. Mc.16:15), a doutrina da imortalidade era deixada das portas
para fora da Igreja.
Como iremos ver ao longo da evidência de Atos, a pregação era totalmente voltada para a
ressurreição dentre os mortos, não só de Cristo, mas de todos os cristãos por ocasião da
Sua Volta. A pregação era o Cristo que, mesmo morto, ainda vive, e vive para todo o
sempre. E aos demais estaria valendo essa mesma lógica? Certamente que não. A primeira
evidência que veremos é a de Davi.
Davi morto, Jesus vivo – A primeira forte evidência que veremos é a que Pedro se refere a
Davi, fazendo um contraste com Jesus Cristo. O que Pedro nos revela em Atos 2:34
certamente que não é aquilo que a maioria dos imortalistas imaginam:
“Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara: Disse o Senhor ao meu
Senhor: Assenta-te à minha direita” (cf. Atos 2:34)
A clareza da linguagem é indiscutível: Pedro estava dizendo que Davi não havia subido aos
céus. Os imortalistas geralmente objetam a essa passagem alegando que o corpo de Davi
não havia subido ao Céu, mas a alma dele havia subido. Isso, contudo, carece de
confirmação bíblica.
Em primeiro lugar, Pedro jamais poderia ter dito que Davi não havia subido ao Céu
corporalmente, mas já havia subido em espírito, porque isso levaria a confundir uma
enormidade de pessoas que estavam acompanhando o discurso. Devemos lembrar que o
apóstolo estava pregando para nada a mais nada a menos que três mil pessoas, que, além
disso, eram descrentes ouvindo a pregação do Evangelho. A maioria poderia ser pessoas
humildes, que não teriam a tamanha “habilidade” que os imortalistas têm de discernir que a
alma subiu, mas o corpo não.
Certamente que eles iriam pensar como o texto parece indicar claramente: que Davi (a
pessoa de Davi, e não "uma parte" dele) não havia passado pelo Céu. E isso já seria o
suficiente para negarem o evangelho com o pretexto de heresia por não terem entendido
direito o que Pedro estava tentando dizer nesta passagem. As pessoas que ouviam viva-voz
a pregação de Pedro iriam pensar realmente que Davi não havia subido aos céus, e não
fazer malabarismos mentais para negarem este fato.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 217
Em segundo lugar, o próprio Pedro jamais iria querer confundir a multidão. Se Davi
estivesse já no Céu ele não diria que ele não estava e ainda omitiria explicações! O apóstolo
na iria “confundir” a multidão de tal maneira a induzir que apenas um corpo morto não
havia subido, mas que a “alma imortal” já estivesse lá. Se tal caso procedesse, certamente
que Pedro faria uma distinção, explicando que Davi não havia subido apenas corporalmente,
e explicando que a alma já havia subido para não confundir o pessoal.
Em terceiro lugar, isso é ferir o texto bíblico, que omite completamente que Davi tenha
subido em forma incorpórea. O texto só diz que ele não subiu. Dizer que Davi subiu sem
um corpo é colocar na boca de Pedro aquilo que ele jamais afirmou e ir absolutamente
“além daquilo que está escrito” (cf. 1Co.4:6).
Em quarto lugar, se a passagem deve ser interpretada conforme essa opinião, então
deveríamos entender que o escritor de Atos (Lucas) deixou entender errado. O jeito certo
seria: “Porque Davi não subiu corporalmente aos céus...”. Tal declaração seria a mais
lógica e se Lucas tivesse a intenção de dar a frase tal sentido ele teria essa opção pronta, a
mão, que poderia ser perfeitamente utilizada. Mas é óbvio que o texto não diz isso, o que o
texto realmente diz é: “Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara...”. Lucas
era um escritor bem inteligente para deixar passar batido tão tremenda confusão aos seus
leitores. Qualquer imortalista daria uma ênfase ao fato de que Davi não subiu aos céus
corporalmente apenas, se esse fosse o caso. Mas em nada o texto nos indica isso. O ser
racional de Davi (geralmente associado à alma ou ao ser pensante) não havia subido aos
céus.
Em quinto lugar, conforme veremos mais adiante, o contexto da passagem não confirma tal
ideia. O contexto faz uma antítese com Cristo, que está vivo e já subiu ao Céu. Se Davi
também tivesse subido ao Céu, essa analogia seria nula e sem sentido. E, em sexto, a
referência faz alusão a pessoa de Davi, ao Davi como indivíduo. Não como um Davi
separado, “cortado pela metade”, mas ao Davi integral, como pessoa. Quando falamos de
indivíduos, tratamos da pessoa integral que não subiu aos céus. Davi não teve um corpo
que morreu e uma alma que subiu ao Céu. Davi, como pessoa, não havia subido aos céus.
Outra “explicação” que já fora levantada para essa passagem é que os mortos estariam no
“Paraíso” e não no “Céu”, e, por isso, Davi não subiu para o Céu (sim, eu já ouvi essa
“explicação”!). Essa última objeção é a mais absurda de todas por dois principais motivos. O
primeiro, segundo e terceiro Céu incluem todas as dimensões existentes de vida humana ou
espiritual. Pedro não disse que Davi não subiu somente ao “primeiro ou segundo céu”, pelo
contrário, relata que Davi não subiu aos Céus, no plural, ou seja, Davi não subiu para
lugar nenhum! O Paraíso, portanto, localiza-se no “terceiro Céu”, que inclui todas as
dimensões espirituais, no qual Davi também não subiu. Logo, tal objeção é inválida e não
ajuda em nada para “melhorar” as coisas.
Em segundo lugar, para confirmar o fato de que o Paraíso é o terceiro Céu, o apóstolo Paulo
escreve: “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu
[...] foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é
permitido falar” (cf. 2Co.12:2,4). Aqui vemos claramente o paralelismo de Paulo em afirmar
primeiramente que foi arrebatado ao terceiro Céu e, em seguida, confirmar que este local é
o Paraíso. E Davi não subiu a nenhum dos Céus (nem ao terceiro). Portanto, não restam
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 218
objeções contra o fato de que verdadeiramente Davi não subiu para lugar nenhum – nem
para o primeiro, nem para o segundo e nem para o terceiro céu, que é o Paraíso.
O Contexto
Este mesmo texto de Atos que diz que Davi não subiu aos céus faz um paralelo entre Davi e
Cristo, dizendo que este último não está morto que nem Davi, mas vivo, e já subiu aos céus
(cf. At.1:3; At.2:33), como podemos observar claramente inclusive no verso anterior, com
respeito a Cristo: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo rec ebido do Pai a promessa do
Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (cf. At.2:33).
Enquanto Davi, em contraste, o texto diz que: “Irmãos, seja-me permitido dizer-vos
claramente a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu túmulo
permanece entre nós até hoje” (At.2:29). Mas por que o autor iria fazer uma declaração tão
óbvia como essa? Certamente que ele estava acentuando uma antítese: Davi está morto,
mas Jesus está vivo.
O seguinte quadro ajuda a elucidar o contraste feito por Pedro:
CONTRASTE ENTRE JESUS E DAVI
JESUS CRISTO DAVI
Já subiu aos Céus – At.2:33 Não subiu aos Céus – At.2:34
Está com Deus (Pai) – At.2:33 Está na sepultura – At.2:29
Está vivo – At.1:3; ; 2:31; 2:33 Está morto e o seu túmulo se encontra entre
nós até hoje – At.2:29
O contraste entre Cristo e Davi é evidente no discurso de Pedro e qualquer bom analisador
bíblico consegue discernir a devida antítese entre um e outro em seu discurso. O bom
senso, a lógica, o contexto e a antítese clara são fortes evidências de que não existe a
imortalidade da alma, e não somente isso, mas elimina a possibilidade de haver um “estado
intermediário” nos Céus, pois nem sequer Davi (homem que era segundo o coração de Deus
– ver Atos 13:22) poderia ser achado por lá.
O Original Grego
Além de tudo isso que já vimos até aqui provando que, de fato, Davi não subiu de forma
alguma para os céus, outro fato de importância fundamental a ser mencionado é que, no
original grego, a palavra utilizada para “não subiu aos céus” é “ou”, que, de acordo com a
Concordância de Strong109, é um negativo absoluto, geralmente usado em perguntas
diretas que se esperam uma resposta afirmativa. Ela difere da palavra grega geralmente
utilizada para "não", que é "mê", porque passa claramente a ideia de uma negação
absoluta, como um "nunca", e não de uma negação parcial. Por essa mesma razão a
tradução de Knox verteu o texto por: "Davi nunca subiu aos céus...".
A utilização do "ou" em contraste com o "não" comum (mê) refuta duas teses imortalistas
quanto a este texto. A primeira, que já vimos, é a de que uma parte de Davi subiu (a alma),
e outra não subiu (o corpo). A negação absoluta abrange o todo de Davi e não apenas uma
parte dele. É como se o texto estivesse dizendo: "absolutamente Davi não subiu aos céus",
ou seja, em termos absolutos.
109 Léxico da Concordância de Strong, 3756.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 219
E a segunda é a tese de que Davi não havia subido naquele momento em que ele escrevia o
verso, mas que já estivesse no Paraíso quando Pedro discursava, o que também é refutado
pelo sentido da frase, de que Davi nunca subiu aos céus. O texto não diz que Davi "não
havia (no passado) subido aos céus", passando a ideia de que ele poderia ter subido depois,
mas expressa uma negativa absoluta, que não abrange apenas o tempo passado com
possibilidade de alteração no presente, mas algo que nunca aconteceu, um "não" em
termos absolutos, no sentido completo da palavra. Desta forma, o texto inegavelmente põe
a imortalidade da alma das portas para fora da Igreja primitiva, e isso diante de uma
multidão de mais de três mil pessoas.
A insistência de Paulo: Jesus está vivo! – Uma prova muito forte de que todos os que
morreram estão literalmente mortos, e não “vivos em outro mundo”, é a insistência de
Paulo na presença do rei Agripa em provar que Jesus Cristo, mesmo morto, está vivo. É dito
para esse rei: “Ao contrário, tinham alguns pontos de divergência com ele acerca de sua
própria religião e de um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (cf.
At.25:19). Ponderamos: qual seria a razão da insistência de Paulo em provar que Jesus,
mesmo morto, ainda vive?
Simplesmente pelo fato de que os outros que morreram não estão vivos. É por isso que
Paulo tanto insistia para provar que Jesus, mesmo morto, ainda vive. Se todas as pessoas
ao morrerem fossem diretamente ao Céu ou ao inferno, vivas em algum lugar, será que
Paulo precisaria insistir com eles para provar que Jesus está vivo? Absolutamente que não!
Não seria nem necessário provar, já que todos os mortos já est ariam vivos em algum lugar!
Sendo que todos os mortos estariam, na teologia imortalista, vivos em algum lugar (e não
somente Jesus) seria inútil Paulo ter que insistir que alguém que já morreu está vivo. Ou se
a única coisa que Paulo queria provar era que Jesus ressuscitou, então Lucas (escritor de
Atos) indiscutivelmente deveria ter relatado que foi a ressurreição que Paulo queria provar –
e não que Cristo estava (naquele momento) vivo, em detrimento dos demais.
Note que o texto não diz que o espanto do rei Agripa foi apenas por Jesus ter ressuscitado,
mas por alguém que já morreu estar com vida. Ele não diz simplesmente: "o qual Paulo
insiste que ressuscitou", mas sim: "o qual Paulo insiste que está vivo". Se a imortalidade da
alma fosse a crença dos primeiros apóstolos na Igreja primitiva, então Paulo
definitivamente não teria que reiterar a sua posição de que Jesus está vivo, até porque
todos os mortos já estariam vivos! E, se é somente por meio da ressurreição que alguém
que já morreu ganha vida, então a imortalidade da alma é ainda mais claramente negada.
Se Paulo teve que insistir com eles para provar que Jesus está vivo, então evidentemente é
porque os outros em geral estão realmente mortos – não estão vivos em estado
“desencarnado”. Essa passagem não faz lógica nenhuma na teologia dos imortalistas: todos
os mortos estariam vivos mesmo! O motivo pelo qual Paulo tinha que insistir com eles para
provar que Jesus, mesmo morto, está vivo, vem pelo fato evidente de que os outros em
geral estão, realmente, mortos. Novamente o contraste: Cristo, mesmo morto, ainda vive,
ao contrário dos demais mortos.
Imagine, por exemplo, na trágica queda do World Trade Center, em 11 de Setembro de
2001, se eu dissesse a você que houve um sobrevivente que caiu de um dos últimos
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 220
andares, mas estava vivo. Certamente que poucas pessoas acreditariam logo de cara: eu
teria que insistir com você para provar que realmente houve um sobrevivente, que se
salvou em meio à tragédia.
Agora, imagine que no dia 11 de Setembro não houve atentado algum. Os prédios não
foram atingidos por nenhum avião, não houve explosões e ele permaneceu intacto, perfeito,
sem nenhum arranhão. Eu teria que insistir com você para que acreditasse que existia
alguma pessoa viva naquele prédio? É claro não! Isso seria óbvio, pois logicamente todas as
pessoas estariam vivas!
Qualquer pessoa que faça uso de um raciocínio lógico percebe o motivo óbvio e evidente
pelo qual Paulo dizia que Jesus, mesmo morto, ainda vive: porque os outros que morreram
realmente não estavam vivos. A verdade é que Paulo teve que insistir que Jesus ainda vive
porque os outros mortos em geral estão, realmente, mortos – sem vida. Poderíamos
resumir o argumento da seguinte maneira:
(1) Paulo precisou afirmar na presença do rei Agripa a sua convicção de que Cristo mesmo
morto está vivo.
(2) Se todos os mortos estivessem vivos, então não seria preciso insistir para provar que
algum morto está vivo, pois isso seria algo óbvio e qualquer que já morresse estaria vivo
em algum lugar de qualquer jeito, através de uma alma imortal que sobrevive à morte.
(3) Logo, o bom senso nos diz que os que já morreram estão literalmente mortos (i.e, sem
vida), o que explica o porquê de Paulo ter que insistir em provar que Cristo está vivo.
Paulo contra os imortalistas – “Quando ouviram sobre a ressurreição dos mortos, alguns
deles zombaram, e outros disseram: 'A esse respeito nós o ouviremos uma outra vez'” (cf.
At.17:32). Paulo foi a Atenas, pregar o Evangelho no coração da crença da imortalidade da
alma. O contexto mostra que Paulo estava ensinando sobre o Deus vivo, o “Deus
desconhecido” dos gregos (v.23). Até este momento, eles o ouviam atentamente. Isso,
contudo, durou apenas até o devido instante em que Paulo declarou uma verdade cristã,
mas contrária aos ensinamentos pagãos, dizendo uma coisa que fez com que os atenienses
zombassem dele e parassem de escutá-lo: A Ressurreição dos Mortos.
O que acontece, e mais chama a atenção, é o motivo pelo qual eles rejeitaram a doutrina de
Paulo: porque eles acreditavam na imortalidade da alma. Aí está a chave de todos os
problemas. Paulo pregava a ressurreição, os atenienses pregavam a imortalidade. Enquanto
a esperança cristã primitiva era de alcançar superior ressurreição no último dia, a esperança
dos gregos era de ver a “alma imortal” deixando o corpo depois da morte. Obviamente eles
não puderam aceitar o ensinamento de Paulo, e zombaram dele.
O evangelho que Paulo pregava era totalmente diferente daquilo que os gregos acreditavam
sobre a vida pós-morte, a ideia de imortalidade incondicional e inerente, também enraizada
no catolicismo e em muitas igrejas protestantes. Foi, aliás, da filosofia grega secular que o
conceito antibíblico de imortalidade da alma entrou nas raízes do Cristianismo. Imortalidade
da alma e ressurreição dos mortos são dois opostos. Nesse caso, Paulo sofreu o maior
embate de ideias que persiste até os dias de hoje: Imortalidade da Alma x Ressurreição
dos Mortos.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 221
A Ressurreição dos Mortos: O Foco da Igreja – Contando apenas o livro de Atos dos
Apóstolos (sem levar em conta as epístolas pastorais), são feitas mais de 25 exposições da
palavra “ressurreição” e seus derivados. Por que a Igreja primitiva focava tanto na
ressurreição dentre os mortos? Veja, por exemplo, o que o apóstolo Paulo disse em Atos
26:6-8:
“Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos
nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossa doze tribos esperam que se cumpra,
cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa dessa esperança, ó rei, que estou
sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus
ressuscite os mortos?” (cf. Atos 26:6-8)
É exatamente isso. A esperança de Paulo era focada no dia em que todas as pessoas hão de
ressuscitar dentre os mortos. “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite
os mortos?” Se existisse uma “imortalidade da alma”, um elemento que está preso dentro
do nosso corpo, liberto por ocasião da morte, todos os mortos justos já estariam no Céu
(como é pregado pelos imortalistas) e o foco na esperança da ressurreição de um simples
corpo morto seria totalmente sem sentido, a esperança seria em uma “alma imortal” que se
libertaria do corpo rumo ao Paraíso.
Uma vez que todos já estivessem no Céu naquele momento, não haveria um motivo lógico
para acharem impossível que Deus ressuscite os mortos, e o foco da esperança não seria de
uma ressurreição de um simples corpo morto que já virou pó, mas sim de uma alma imortal
que deixa o corpo por ocasião da morte. Não seria estranho que, no livro da História da
Igreja, houvesse dezenas e dezenas de menções da “ressurreição dos mortos”, mas
nenhuma (absolutamente nenhuma mesmo) falando de “imortalidade da alma”, ou de
“estado intermediário”?
Afinal, se essa doutrina de “imortalidade da alma” fosse realmente uma realidade entre os
primeiros cristãos, seria completamente imprescindível que os apóstolos fizessem várias
menções a ela, ainda mais quando vemos eles fazendo dezenas de menções claras sobre a
ressurreição dos mortos no último dia. Adicione então a isso todas as cartas apostólicas que
também não mencionam nada de “alma imortal”, mas continuam falando em outras
centenas de vezes sobre a ressurreição, e você verá o resultado.
A pregação dos primeiros apóstolos e da Igreja primitiva era sempre focada na esperança
da ressurreição dentre os mortos. Essa doutrina, como já vimos anteriormente, não
combina em absolutamente nada com a imortalidade da alma. Isso porque não faz sentido
nenhum focar na ressurreição dos mortos se todos ao morrerem vão direto para o Céu ou
para o inferno e o fato da ressurreição é quase insignificante já que eles já estariam lá! É
por isso que nas nossas igrejas de hoje pregações sobre a ressurreição dos mortos
praticamente inexistem.
Pregações sobre a “ressurreição dos mortos” praticamente não existem porque a doutrina
pagã de imortalidade da alma sobrepõe grandemente a realidade da ressurreição. A
ressurreição dentre os mortos virou apenas uma ressurreição de um corpo morto, que na
maioria dos casos já virou pó. A única coisa que muda é que os “espíritos desincorporados”
acabam “ganhando novamente um corpo”.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 222
Por este motivo, torna-se ilógica pregações sobre a simples ressurreição de um mero corpo
morto: a realidade dentro da maioria das igrejas cristãs é de imortalidade da alma, e não de
ressurreição dos mortos! Pregações sobre os que “estão na glória” são mais do que comuns,
mesmo não se importando com o fato dos apóstolos jamais falarem tal coisa. A ressurreição
perdeu o seu sentido. Ficou “fora de moda”.
Isso é bem diferente daquela esperança, que os primeiros cristãos sustentavam dentro de si
mesmos com todas as forças: A Esperança da Ressurreição dentre os Mortos. Uma vez
que os mortos em geral estão literalmente mortos, só ressuscitando no último dia, t orna-se
comum pregações focadas sobre a esperança de ressurgir dentre os mortos no último dia e
torna-se lógica frases como: “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os
mortos?”
Respondendo a pergunta do início, por que os apóstolos focavam tanto na ressurreição
dentre os mortos sem dar nenhuma pista de “imortalidade”? Porque pessoas morriam, e
pessoas eram vivificadas. Eis a raiz da questão: a ressurreição é para a pessoa integral, e
não para um simples corpo morto que já virou pó que se une à sua “alma imortal” que lhe
espera lá em cima.
Aí vermos tanto foco da Igreja primitiva e dos primeiros apóstolos na ressurreição e nada
de “imortalidade”, em contraste com as igrejas dos dias de hoje, em que as pregações
sobre a ressurreição desapareceram pelo simples fato de que perderam o sentido diante da
imortalidade da alma. Voltemos ao evangelho puro e sincero. Voltemos ao foco da
ressurreição dentre os mortos.
A verdade é que imortalidade da alma e ressurreição são dois opostos, e a primeira anula a
segunda e torna a ressurreição algo completamente desnecessário. Para que “ressurreição”
se sem ela nós ficaríamos no Céu eternamente do mesmo jeito? De modo nenhum que a
esperança viva dos primeiros apóstolos seria totalmente voltada à ressurreição. A doutrina
da imortalidade da alma diminui completamente o sentido e o valor do que a ressurreição
representa no Cristianismo.
É de se espantar o fato de os apóstolos darem tanta importância à ressurreição, ao ponto
de dizerem que era essa a única esperança deles (cf. At.23:6; 24:5; 26:6-8), se ela se
resume simplesmente a isso: na prática... nada. Já estaríamos no Céu. Já estaríamos na
presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Então, pra que serve, na prática, uma
ressurreição? Seria um mero "religar entre o corpo e a alma", como dizem os imortalistas?
Não, em toda a Bíblia não há qualquer citação de um “religar” entre corpo e alma na
ressurreição.
Você irá folhear a Bíblia inteira e nunca verá alguém colocando a sua esperança no fato da
alma ser imortal. Mas, em lugar disso, irá olhar mais à frente, até contemplar aquela
mesma esperança tão admiravelmente crida e desejada pelos apóstolos:
“Não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos
interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso
corpo. Pois nessa esperança fomos salvos” (cf. Romanos 8:23-24)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 223
“Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos
nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossas doze tribos esperam que se cumpra,
cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa desta esperança, ó rei, que estou
sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite
os mortos?” (cf. Atos 26:6-8)
"E tenho em Deus a mesma esperança desses homens: de que haverá ressurreição
tanto de justos como de injustos" (cf. Atos 24:15)
“Irmãos, sou fariseu, filho de fariseu. Estou sendo julgado por causa da minha esperança
na ressurreição dos mortos!” (cf. Atos 23:6)
A palavra “esperança” aparece nove vezes no livro de Atos. Em seis delas é para se referir
a esperança de ressuscitar dentre os mortos (2/3 das ocasiões). Como seria bom ver a
Igreja voltar ao foco primitivo, onde a esperança não estava numa imortalidade da alma,
mas em estar com Cristo através da ressurreição dentre os mortos, a nossa esperança.
Não existe vida antes da ressurreição – Finalmente, devemos ver a afirmação que Paulo faz
em Atos: “O fato de que Deus o ressuscitou dos mortos, para que nunca entrasse em
decomposição, é declarado nestas palavras: ‘Eu lhes dou as santas e fieis bênçãos
prometidas a Davi’. Assim ele diz noutra passagem: ‘Não permitirás que o teu Santo sofra
decomposição’” (cf. At.13:34,35). Vamos por partes. O verso 35 nos faz explicitamente
pensarmos na ressurreição, pois ele não sofreria decomposição no túmulo. Mas e o verso
34? Será que Paulo citou um verso do AT de maneira errada? O que ele tem a ver com a
ressurreição? Vejamos novamente o verso 34:
“O fato de que Deus o ressuscitou dos mortos, para que nunca entrasse em decomposição,
é declarado nestas palavras: ‘Eu lhes dou as santas e fiéis bênçãos prometidas a Davi’”
(v.34)
Quais são as santas e fieis bênçãos que foram prometidas a Davi, e que se cumpriram em
Cristo? A de exercer um reinado perpétuo (cf. 1Rs.9:5). Cristo não poderia exercer tal
reinado perpétuo enquanto morto, pois, como vimos, não existe vida consciente entre a
morte e a ressurreição. Por isso, para tomar posse dessa promessa feita a Davi ele deveria
passar por uma ressurreição. Quando assumimos a posição de imortalidade da alma, esse
verso não faz sentido nenhum a fim de provar irrefutavelmente a ressurreição, mas quando
assumimos a posição mortalista tudo começa a fazer sentido.
A lógica é bem simples: Se ele receberia as bênçãos prometidas a Davi de exercer um
reinado perpétuo, então ele necessariamente deveria passar por uma ressurreição, pois
não existe glória e benção antes da ressurreição, enquanto morto. A morte é um
estado sem vida (i.e, sem existência consciente), em que o ser racional deixa de existir.
Mas, se lhe eram prometidas as santas e fieis bênçãos, então ele deveria sair deste estado
de inatividade para ser abençoado. Nisso fica nítido que ele necessariamente deveria ser
ressuscitado, e vemos que o apóstolo Paulo citou um versículo certo e que realmente prova
a ressurreição.
Este verso só provaria de fato a ressurreição se antes dela não existisse vida
(consequentemente não existiria as bênçãos prometidas no verso), pois doutra forma ele
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 224
poderia perfeitamente estar desfrutando da bênção com ou sem a ressurreição
(supostamente na forma de um espírito incorpóreo no Céu). Paulo segue a linha de
raciocínio de que entre a morte e a ressurreição não existe vida e, por isso, se lhe era
predito as bênçãos do reinado perpétuo, então ele deveria necessariamente ressuscitar para
desfrutá-las, pois elas não são possíveis antes da ressurreição em decorrência do fato de
eles estarem sem vida.
Ele segue a seguinte lógica que contraria a posição dos imortalistas de que existe “glória”
antes da ressurreição:
(1) Era predito profeticamente a respeito de Cristo que este iria receber as bênçãos de
Davi.
(2) Como não existe existência consciente entre a morte e a ressurreição, segue-se que
antes da ressurreição ele não poderia desfrutar daquilo que foi descrito no verso.
(3) Logo, ele necessariamente teria que ser ressuscitado.
Qual nada, este versículo passado por Paulo só provaria de fato a ressurreição se na morte
não fosse possível se cumprir em Cristo aquilo que fora prometido a Davi.
Conclusão – Quando lemos todos os vinte e oito capítulos que nos mostram o pensamento
da Igreja primitiva, vemos que eles não tinham qualquer relação com a doutrina dualista de
imortalidade da alma. Para os imortalistas, Davi já subiu aos céus; já para Pedro, Davi
nunca subiu aos céus (cf. At.2:34), e o contexto nos mostra que ele só entra quando
“[Cristo] ponha todos os teus inimigos como estrado dos teus pés” (v.35), uma referência
ao que Jesus fará por ocasião da ressurreição (cf. 1Co.15:25). A verdade é que Davi está
morto, no túmulo (cf. At.2:29), pois, “tendo Davi servido ao propósito de Deus em sua
geração, adormeceu” (cf. At.13:36). Cristo, em contrapartida, está vivo (cf. At.2:33;
19:25).
A declaração de Pedro no pentecoste com relação ao estado de Davi jamais seria proferida
por um defensor da imortalidade da alma, e isso explica o porquê que a esperança dos
primeiros apóstolos era total e completamente voltada ao dia da ressurreição (cf. At.23:6;
17:18; 17:32; 26:6-8; 24:15), porque é somente este o momento em que “os mortos
viverão” (cf. Is.26:19). O próprio fato de Paulo ter a necessidade de provar que Cristo,
mesmo morto, ainda vive (cf. At.19:25), prova que os que morreram não desfrutam de vida
ainda, senão na ressurreição dos mortos do último dia. Como Cristo ressuscitou primeiro, já
desfruta de vida (cf. At.2:27,28).
Não é a toa que Paulo teve tão grande contenda com os gregos dualistas quando o tema era
a ressurreição dos mortos (cf. At.17:32), porque a doutrina da imortalidade da alma anula o
sentido e valor que a ressurreição tem dentro do Cristianismo. Enquanto a doutrina era pura
e sincera, o foco era completamente voltado na ressurreição; quando, porém, o dualismo
grego entrou também na teologia cristã, a ressurreição foi praticamente abandonada dos
púlpitos, dando lugar àquilo que jamais foi mencionado por apóstolo algum: A Lenda da
Imortalidade da Alma.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 225
CAPÍTULO 5.4 – PAULO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?
“Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não
ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (cf. 1 Coríntios 15:32)
O apóstolo Paulo é outra peça fundamental para compreendermos se a Bíblia é contra ou a
favor da imortalidade da alma. Dois terços dos livros do Novo Testamento são de autoria do
apóstolo. Ele, além de ver a Cristo na estrada de Damasco, teve o apostolado marcado por
revelação direta por parte de Jesus Cristo (cf. Gl.1:11,12), tendo sido inclusive arrebatado
ao terceiro céu (cf. 2Co.12:2-4). Sem dúvida, se tem alguém instruído na verdadeira
doutrina, esse alguém é Paulo.
O evangelho paulino tampouco podia ser mudado (cf. Gl.1:8,9). Já vimos anteriormente que
Paulo inclusive foi censurado em Atenas exatamente por pregar a doutrina da ressurreição,
em contraste direto com a “imortalidade da alma” pregada pelos atenienses (cf. At.17:32).
Mas, para vermos se Paulo pregava ou não a doutrina da imortalidade da alma, iremos
começar pelo fim: quando é que Paulo “estaria com Cristo”?
XV–Ausente do corpo e presente com Cristo
Ausente do corpo e presente com Cristo. Quando? – Começaremos o nosso estudo sobre o
pensamento de Paulo em relação à vida após a morte analisando de forma aprofundada as
passagens que mais são constantemente utilizadas pelos imortalistas na tentativa de
ensinar que Paulo era adepto da doutrina imortalista. Eles citam principalmente duas
passagens nas quais o apóstolo expressa o mesmo pensamento, de que queria "partir e
estar com Cristo", ou que desejava estar "ausente do corpo e presente com Cristo".
Examinaremos tais passagens dentro de seu devido contexto, analisando-as
exegeticamente, a fim de vermos se os argumentos imortalistas são ou não coerentes:
“Porquanto, para mim, o viver é cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne
traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado,
estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente
melhor” (cf. Filipenses 1:21-23)
Para entendermos o que Paulo fala em Filipenses 1:21-23 é de extrema importância
analisarmos o que ele diz em 2ª Coríntios 5:1-8, pois ele reafirma exatamente o que ele
disse aos filipenses (sobre partir e estar com Cristo), mas de forma mais extensa e
aprofundada, explicando dentro do contexto o que ele entendia como sendo esse partir e
estar com Cristo:
"Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de
Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também
gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; Se, todavia, estando
vestidos, não formos achados nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo,
gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o
mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual
nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo
que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (porque andamos por fé, e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 226
não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com
o Senhor" (cf. 2ª Coríntios 5:1-8)
Os imortalistas tem o costume de jogarem o verso 8 de 2ª Coríntios 5 de forma isolada,
retirando-o de seu devido contexto, como já é de costume, sempre isolando um verso de
seu contexto. A razão pela qual eles nunc a falam do contexto que envolve esses textos é
porque sabem que a análise meticulosa deles refuta as suas próprias teses de imortalidade
da alma. Paulo inicia o verso 1 de 2ª Coríntios 5 dizendo:
"Se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma
casa não feita por mãos, eterna, nos céus" (v.1)
Quando Paulo fala que a nossa casa terrestre vai se desfazer, ele não está se referindo à
nossa casa literal onde moramos, construída a base de tijolos, mas sim do nosso corpo
mortal, fazendo a mesma analogia que fez o escritor de Hebreus a este respeito, quando
disse:
"... mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que
nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos" (cf. Hebreus
3:6)
Quando “a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer” não é uma referência à uma
casa literal feita à base de madeira ou tijolos onde Paulo morava, ele não estava
preocupado com o destino de uma moradia terrena porque ele disse claramente que “até
agora não temos tido residência certa” (cf. 1Co.4:11). Se ele nem moradia fixa tinha e
frequentemente escrevia em prisões, é evidente que a referência é ao seu próprio corpo
terreno.
Portanto, dentro da analogia que faz o apóstolo Paulo, ao dizer que essa casa terrestre
deste tabernáculo se desfará ele estava se referindo à sua própria morte corporal, ou
seja, a este presente corpo mortal que passará pela morte física. Mas Paulo continua nessa
mesma analogia, dizendo que, quando essa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer
(i.e, quando este corpo mortal perecer) temos de Deus um edifício, uma casa não feita por
mãos, eterna, nos céus. A que ele se refere aqui? Logicamente, se a casa deste tabernáculo
se refere ao nosso presente corpo mortal e corruptível, o edifício eterno a que Paulo se
refere diz respeito ao nosso corpo imortal e incorruptível da ressurreição.
Da mesma forma que o apóstolo não estava falando de casas literais de tijolos na primeira
parte do verso, mas de um corpo mortal e corruptível que temos hoje, igualmente na
continuação do verso ele complementa essa mesma analogia, não se referindo a uma casa
literal nos céus (como uma "mansão celestial", como pensam alguns), mas sim a um corpo
imortal e incorruptível, em contraste a este presente corpo mortal e corruptível que
possuímos hoje. Somente desta forma a analogia de Paulo faria sentido. Ele afirma que iria
morrer fisicamente (casa terrestre deste tabernáculo se desfazendo), para obter um edifício
superior e eterno (corpo imortal da ressurreição). Mais claro ainda é a afirmação
subsequente, onde ele diz:
“...temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas” (v.1)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 227
Essa “casa não feita por mãos humanas”, como já vimos na analogia traçada pelo apóstolo,
não se refere a uma morada celestial, mas ao corpo ressurreto, pois não está em contraste
a uma morada terrena, mas ao corpo físico atual. A linguagem expressa por Paulo, acerca
de ser “uma casa não feita por mãos”, fortalece ainda mais este fato, pois essa foi também
exatamente a mesma linguagem utilizada por Jesus quando se referiu ao seu
corpo ressurreto:
“Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em
três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens” (cf. Marcos 14:58)
Este edifício “não feito por mãos de homens” que Cristo disse que edificaria em três dias
não é o próprio templo de Jerusalém em si, que até hoje está em ruínas, nem uma morada
celestial, mas sim o seu próprio corpo ressurreto, pois de fato ele ressuscitou três dias
depois, em um corpo glorificado. Por isso, João ressalta que “ele falava do templo do seu
próprio corpo” (cf. Jo.2:21). Assim, vemos que esse edifício que Paulo se refere, que estava
em contraste a um corpo físico terreno e que não foi feito por mãos humanas, não é uma
morada celestial, mas um corpo ressurreto.
Só pela análise desse verso 1 já podemos compreender perfeitamente que a visão de Paulo
não era de se desfazer deste corpo mortal para habitar no Céu sem um corpo antes da
ressurreição, mas era de se desfazer deste corpo mortal para obter um corpo imortal
que teremos na ressurreição dos mortos. Se o apóstolo traça um paralelo entre a casa
e o edifício, e essa casa não é uma casa literal mas sim o corpo terreno, então é evidente
que o edifício que Paulo se referia também não é um edifício literal que está no Céu, mas
sim um corpo ressurreto celestial.
Com efeito, Paulo nada falava sobre estar com Cristo em um estado intermediário entre a
morte e a ressurreição, onde estaremos despidos (sem um corpo), mas sim sobre a própria
ressurreição, quando estaremos revestidos de nosso "edifício" eterno nos céus (i.e, de um
corpo imortal da ressurreição). Essa ideia fica ainda mais clara quando prosseguimos na
leitura com o verso 2, onde o apóstolo diz:
"E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu"
(v.2)
Paulo complementa no verso 2 a ideia do verso 1, de que morreria com o desejo de ser
revestido. Mas revestido do que? Da espada do Zorro? Não, mas revestido de um corpo
imortal e incorruptível. No original grego, a palavra utilizada por Paulo aqui é ependuomai,
que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: "colocar sobre, vestir-se"110. Ela
vem da palavra enduo, que tem o mesmo significado:
1746 ενδυοω enduo
de 1722 e 1416 (no sentido de entrar em uma veste) TDNT - 2:319,192; v
1) entrar numa (roupa), vestir, vestir-se.
Essa é exatamente a mesma palavra que Paulo usa quando se refere ao revestimento que
os crentes irão passar na ressurreição:
110 Léxico da Concordância de Strong, 1902.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 228
"E, quando isto que é corruptível se revestir [enduo] da incorruptibilidade, e isto que é
mortal se revestir [enduo] da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita:
Tragada foi a morte na vitória" (cf. 1ª Coríntios 15:54)
Portanto, Paulo estava dizendo que iria morrer para ser revestido de um corpo glorioso
ressurreto. Ele não estava neste verso dizendo que iria para o Céu, mas que seria
revestido de algo que é do Céu. Ele não disse: "desejando ir para a nossa habitação no
Céu"; mas sim: "desejando ser revestido da nossa habitação, que é do Céu". Com efeito, a
ideia que é passada aqui não é de morrer e ir para o Céu sem um corpo, mas sim, como
vimos pelo contexto, de ser revestido de um corpo ressurreto, que é "do Céu", isso é,
celestial, glorioso, em contraste a este presente corpo mortal, corruptível.
A nota de rodapé da NVI (Nova Versão Internacional) parece concordar com tal
interpretação lógica do texto bíblico, com "habitação terrestre" sendo uma referência ao
corpo terreno e que "gememos" esperando o revestimento de um corpo glorioso
ressurreto:
"Temporária habitação terrena em que vivemos. Nosso corpo (v. 2Pe 1.13). Como uma
tenda, temporária e pouco durável, nosso corpo é frágil, vulnerável e se desgasta (4.10-
12,16)"111
"Gememos. Porque ansiamos pela perfeição que será nossa ao nos vestirmos do glorioso
corpo espiritual (cf. 1Co 15.42-49)"112
Portanto, podemos ver que o desejo de Paulo, pelo qual ele "gemia" (v.2), não era de
habitar no Céu como um espírito incorpóreo antes da ressurreição dos mortos em algum
estado intermediário, mas sim de alcançar a ressurreição dos mortos. A tradução da
CNBB verte o verso 2 de forma ainda mais direta: "por isso, suspiramos neste estado,
desejosos de revestir o nosso corpo celeste". E isso fica ainda mais nítido quando
vemos o verso seguinte, que diz:
"Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus" (v.3)
É de consenso até mesmo entre os imortalistas que o "nus" no verso 3 se refira a um
estado não-corporal, isto é, destituído de corpo, ao passo que o "vestidos" se refira ao
revestimento do corpo ressurreto ao qual Paulo se refere em todo o contexto. A nota de
rodapé da NVI também concorda com isso e afirma:
"Nus. Sem a roupagem de um corpo, estado daqueles cuja habitação terrena, temporária,
foi desmantelada pela morte"113
Portanto, "vestido" seria o revestimento de um corpo ressurreto e "despido" (ou "nu")
seria ficar sem um corpo, ou seja, ficar morto. Para os imortalistas, esse "nu" seria o estado
consciente dos espíritos incorpóreos que aguardam a ressurreição dos mortos no Céu,
distinguindo da visão mortalista que interpreta o "nus" como sendo o estado sem vida entre
a morte e a ressurreição, em que os mortos não estão no Paraíso, mas em suas sepulturas.
111 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:1, p. 1991.
112 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:2, p. 1992.
113 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:3, p. 1992.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 229
A visão imortalista deste verso fica bem clara na análise que o Pr. Airton Evangelista da
Costa faz deste texto:
"2 Co 5.4: '...não queremos ser despidos, mas vestidos de novo, para que o mortal seja
recolhido pela vida'. O estado do crente de ser despido não se refere ao corpo no sepulcro,
mas ao espírito que aguarda o 'corpo da glória' na ressurreição"114
Porém, o próprio Paulo refuta tal tese de que seja possível viver no Paraíso sem um corpo,
na forma de um espírito incorpóreo no Céu antes da ressurreição, pois deixa claro que no
Céu não seria achado despido, mas vestido. Outras traduções deixam isso ainda mais
claro, ao verterem o verso 3 da seguinte maneira:
"Contanto que sejamos achados vestidos e não despidos" (versão Ave Maria)
"E isso será possível se formos encontrados vestidos, e não nus" (versão da CNBB)
"O que será possível se formos encontrados vestidos, e não nus" (Bíblia de Jerusalém)
O professor Azenilto Brito também destacou isso ao dizer:
"Se vestido significa estar num corpo, estar nu é ficar sem um corpo. Observe que Paulo
deixa muito claro que a vida futura é uma condição de vestido e não de nu! Ele dá não dá
absolutamente qualquer apoio ao ensino de vida sem um corpo"115
Com efeito, Paulo refuta a tese de que o "despido" se refira a uma condição consciente no
Céu como um espírito incorpóreo antes da ressurreição, pois afirma que tal coisa só seria
possível se fosse encontrado vestido (com corpo), e não nu (sem corpo). Prova disso é o
verso seguinte, onde ele reitera essa pensamento com ainda mais força:
"Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não
porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela
vida" (v.4)
Paulo diz claramente que não queria ser despido, mas revestido. Ora, se a condição de
"despido", conforme os imortalistas dizem, se refere a uma condição consciente no Céu
onde já estamos com Cristo em forma de espírito incorpóreo, Paulo iria desejar isso mais do
que tudo, pois o maior desejo do cristão é estar com Cristo, independentemente se isso vai
acontecer com ou sem um corpo. Seria muito estranho que o “despido” se relacionasse a
um espírito com consciência e personalidade que vai para o Paraíso esperando a
ressurreição, pois se fosse assim Paulo não acentuaria tanto que não desejava estar neste
estado (vs. 3-4).
O fato de Paulo ter declarado tão enfaticamente que não queria ser despido põe por terra a
teoria imortalista de que esse "despido" se refira a uma condição consciente no Céu em um
estado intermediário. Seria o mesmo que Paulo estar dizendo: "Eu não quero estar no Céu
114 COSTA, Airton Evangelista. Reflexões sobre a imortalidade da alma. Disponível em:
<http://solascriptura-tt.org/AntropologiaEHamartologia/ReflexoesImortalidadeAlma-AECosta.htm>.
Acesso em: 16/08/2013.
115 BRITO, Azenilto Guimarães. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c-
224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 230
com Cristo como espírito em um estado intermediário, mas sim ser revestido". Isso faz
sentido? É claro que não. Para Paulo, não existia uma condição consciente no Céu sem
o revestimento de um corpo.
Quando ele fala sobre estar "despido" ou se encontrar "nu", não se refere a um estado
consciente em um estado intermediário, como sonham os imortalistas, mas sim à
verdadeira condição em que os mortos passam entre a morte e a ressurreição, onde estão
inconscientes e literalmente mortos (i.e, sem vida), destituídos de corpo (porque esperam a
ressurreição). É este o estado entre a morte e a ressurreição que Paulo tinha em mente, e
por isso ele afirmou que não queria ser despido, mas revestido; ou seja, que para ele
não interessava nem era de nenhum valor esse estado entre a morte e a ressurreição em
que não estamos com vida, mas o que ele queria mesmo era ser revestido (ressuscitar). Joe
Crews também observa isso nas seguintes palavras:
"Ele não está ansioso para o sono da morte (sendo 'despidos') quando ele não estaria com o
Senhor, mas ele está esperando pela redenção do corpo quando ele ia ser revestido com a
'casa eterna nos céus'. Nesta vida ele estaria vestido com um corpo mortal, e depois a
mortalidade seria 'absorvida pela vida', e ele teria um celestial corpo imortal. Mas tanto no
tabernáculo terreno quanto no celestial ele continua a ter um corpo. Paulo não faz
referência à uma alma separada do corpo. Ou ele possui um corpo neste planeta e está
ausente do Senhor, ou ele possui um corpo redimido no céu, e está presente com o
Senhor"116
Isso mostra, mais uma vez, que Paulo não tinha em mente a visão que os imortalistas tem
sobre a vida após a morte, em que estamos com Cristo enquanto despidos (sem corpo, e
supostamente como espíritos incorpóreos ou almas desencarnadas) esperando a
ressurreição em um estado intermediário, mas sim de que não existe vida na condição
de despido, e por isso o desejo dele era de ser logo "revestido", que, como já vimos,
significa ressuscitar, ser revestido de um corpo glorioso, ressurreto.
Paulo não iria rejeitar entrar no Céu como um espírito incorpóreo. O que ele estava dizendo
é que seu desejo, pelo qual ele "gemia" (v.3), não era o de morrer para entrar no estado
sem vida entre a morte e a ressurreição, em que estaremos despidos, inconscientes, sem
vida, mas sim para alcançar a ressurreição dos mortos, isto é, para ser revestido
novamente (v.4), de um corpo glorioso.
O desejo de Paulo, pelo qual ele gemia carregado, era na esperança de ser revestido para
que o mortal fosse absorvido pela vida (v.4). A pergunta final que nos fica é: quando é
que se dá este momento tão desejado por Paulo, quando o mortal será absorvido
pela vida? Para os coríntios, isso não era uma dúvida, nem uma incógnita, pois o próprio
Paulo já lhes havia escrito sobre isso poucos anos antes, em sua primeira epístola a eles:
“Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos,
num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta
soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é
necessário que isso que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isso que é
mortal se revista da imortalidade. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista
116 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em:
<http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>.
Acesso em: 19/08/2013
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 231
de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade, então se
cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (cf. 1ª Coríntios
15:51-54)
A resposta é clara: a morte só será absorvida pela vida ao soar da última trombeta, por
ocasião da ressurreição dos mortos. É somente na ressurreição que o mortal se reveste da
vida, que a morte é tragada pela vitória. Seria impossível que o mortal fosse absorvido pela
vida logo após a morte em algum estado intermediário em forma de espírito incorpóreo,
pois, na teologia imortalista, nosso corpo morre e nossa alma já é imortal. Assim, nada que
hoje é mortal ("para que o mortal") seria "absorvido pela vida" após a morte. Obviamente
Paulo estava se referindo não a um estado intermediário antes da ressurreição, mas
precisamente à ressurreição, quando nossa natureza mortal será transformada em uma
natureza imortal (cf. 1Co.15:51-54), com a morte sendo tragada (cf. 1Co.15:54), com o
mortal sendo absorvido pela vida.
Portanto, quando Paulo diz que não queria ser despido, mas revestido, para que o mortal
fosse absorvido pela vida, ele não estava dizendo que queria morrer para estar com Cristo
em um estado intermediário como um espírito incorpóreo, mas sim que não queria passar
pelo estado entre a morte e a ressurreição no qual estaria "despido" (i.e, sem um corpo,
porque estaria morto, sem vida), desejando logo chegar a ressurreição, quando seria
"revestido" e quando o mortal seria absorvido pela vida. Impossível conciliar isso com a
teologia imortalista, segundo a qual Paulo desejava estar com Cristo logo em um estado
intermediário e antes da ressurreição. Como bem observou Joe Crews:
"O que se entende pelo termo 'despido'? Repare que Paulo especificamente declara
que ele não tinha vontade de estar nu ou despido. Podemos estar certos, então,
que o estado despido não envolvia estar com o Senhor, uma vez que Paulo não
deseja estar despido [e ele desejava estar com o Senhor]. De fato, o apóstolo fez
referência a estar vestido em apenas duas casas, a terrena e a celeste. No estado despido,
ele não estava nem vestido com o corpo terreno e nem com o celeste. Isso deixa apenas
uma explicação possível. Estar 'despido' ou 'nú' é a condição de morte que é o intervalo
entre a dissolução da casa terrena e a entrada na celestial"117
Os imortalistas não tem saída, pois se veem obrigados a acreditarem que Paulo estava
desejando estar com Cristo e ao mesmo tempo estava desejando não estar com Cristo, pois
para eles este encontro de Paulo com Cristo se dá em um estado intermediário como
espírito incorpóreo, mas o próprio Paulo diz claramente que não queria estar despido (cf.
2Co.5:4). Se esse encontro de Paulo com Cristo se dá enquanto o apóstolo está “despido”,
então por que ele diz que não queria estar despido? Seria o mesmo que afirmar que não
queria estar com Cristo!
Além disso, a profunda semelhança entre o que Paulo diz aqui em 2ª Coríntios 5:1-5 e o
que ele declara em Romanos 8:22,23 (“mas até nós, que temos as primícias do Espírito,
também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do
nosso corpo”) faz um paralelo tão impressionante que demonstra que ele tinha a mesma
ideia em mente nas duas ocasiões:
AOS CORÍNTIOS (2Co.5:1-5) AOS ROMANOS (Rm.8:22-23)
117 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 232
"Neste tabernáculo nós gememos" (v.4) "Também gememos em nós mesmos"
(v.23)
"O qual nos deu como penhor o Espírito"
(v.5)
"Temos as primícias do Espírito" (v.23)
"Desejando ser revestido da nossa
habitação, que é do Céu" (v.2)
"Aguardando a nossa adoção, a saber, a
redenção do nosso corpo" (v.23)
A analogia e a comparação dos versos nos deixa muito claro que o momento em que
seremos "revestidos da nossa habitação que é do Céu" (cf. 2Co.5:2) é quando teremos a
"redenção do nosso corpo" (cf. Rm.8:23), isto é, na ressurreição dos mortos. Joe Crews
também discorre sobre isso acentuando tal fato:
"A comparação revela que este revestimento para o Céu tem lugar na 'redenção do corpo'...
em outras palavras, mesmo que a morte deva dissolver esse corpo mortal, Paulo torna
muito claro que não seremos revestidos da nossa habitação que é do Céu (imortalidade) até
a vinda de Jesus e a redenção do corpo. Isto também é estabelecido por repetidas
referências ao estado 'nu' ou 'despido'"118
E Paulo segue com sua analogia no verso 6, dizendo:
"Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo,
vivemos ausentes do Senhor. Porque andamos por fé, não por vista" (vs. 6-7)
A Bíblia de Jerusalém traduz estes mesmos versos da seguinte maneira:
"Por conseguinte, estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste
corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não
pela visão" (vs. 6-7)
Diante de todo o contexto, como já observamos, Paulo realmente queria estar ausente do
corpo, mas não para habitar com o Senhor em estado incorpóreo (despido), mas
revestido (ressurreto). Como diz Azenilto, "Paulo não está antecipando uma condição de
um corpo desvestido, e sim um corpo revestido (...) Paulo não está descrevendo uma
condição de algo imaterial ou o 'despido'. Ele se refere ao momento em que vai receber o
corpo imortal. O corpo do qual, então, estará ausente é o seu atual corpo terreno, mas ele
não ficará desmaterializado (nu), nesse momento"119.
Enquanto habitamos neste corpo (habitação terrena) estamos longe do Senhor e da nossa
"mansão" (corpo ressurreto), e por isso desejamos estar ausentes deste corpo mortal para
estarmos perto do Senhor, como o apóstolo afirma no verso seguinte:
"Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor"
(v.8)
E aqui chegamos, finalmente, ao verso 8, aquele tão usado pelos imortalistas, com a
diferença de que nós mostramos o contexto e fazemos amplo uso da exegese e da
hermenêutica bíblica, e eles simplesmente fingem que esse verso 8 caiu do Céu sem
118 ibid.
119 BRITO, Azenilto Guimarães. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c-
224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 233
contexto e nem nada, e de forma isolada deturpam vergonhosamente esse verso bíblico
como se indicasse que Paulo estava dizendo que queria estar com Cristo num estado
intermediário como espírito incorpóreo, quando diante de todo o contexto o que vemos
é exatamente o contrário disso, e que Paulo só estaria com Cristo quando ressurreto,
dotado de um corpo glorioso da ressurreição, não despido, mas revestido, não incorpóreo,
mas corpóreo, e não antes do mortal ser absorvido pela vida, da morte ser tragada pela
vitória.
Paulo desejava realmente estar ausente deste corpo terreno e estar presente com Cristo,
mas não despido, senão revestido do corpo glorioso da ressurreição. Como bem disse
Azenilto, ele estava "contemplando o além-túmulo, para além da ressurreição, àquele
glorioso momento em que iria saudar a Jesus face a face e viver com Ele para sempre"120.
Ou seja: o desejo de Paulo em estar com Cristo não se concretiza em um estado
intermediário despido de corpo, mas na própria ressurreição dos mortos.
Satanás é astuto e sabe tirar um texto de seu contexto para fundamentar uma heresia, e
este texto de 2ª Coríntios 5:8 é o maior exemplo disso, a mais vergonhosa adulteração
bíblica que já existiu, pois quando posta diante de seu contexto é na verdade um golpe de
morte na própria lenda da imortalidade da alma, e revela que Paulo tinha exatamente a
mesma mentalidade de um cristão holista.
Partir e estar com Cristo – O texto de Filipenses 1:21-23 expressa exatamente a mesma
coisa do texto de 2ª Coríntios 5:8, e, portanto, deve ser interpretado da mesma forma.
Paulo queria "partir e estar com Cristo", da mesma forma que alguém pode querer partir
para Washington e estar com Barack Obama. Sim, ambos vão deixar algo, um a vida e
outro o Brasil. E ambos vão encontrar alguém, um Cristo e o outro Obama. Mas tais frases
de maneira nenhuma indicam que isso se dará imediatamente no Chronos seguinte. Para os
hebreus, o tempo para de contar para quem morre. Quem morresse estaria
inconscientemente morto (cf. Sl.13:3; 30:9; 94:17; 146:4; 6:5; 115:17; Ec.9:5,6,10; Jó
14:11,12; Is.38:18; 28:19), de forma que o intervalo entre a morte e a ressurreição não
passaria de um piscar de olhos para o ressuscitado, mesmo que se passassem alguns
milênios entre a morte e a ressurreição.
Por isso, a passagem de Paulo em Filipenses aborda a vida após a morte neste aspecto
atemporal da existência depois da morte. Algo semelhante ocorre quando o autor de
Hebreus escreve que após a morte vem em seguida o juízo (cf. Hb.9:27), mas sabemos que
o juízo só ocorre na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). Novamente vemos o autor
ressaltando o aspecto atemporal entre a morte e a ressurreição. Embora depois da morte
venha em seguida o juízo, este juízo só acontece na volta de Jesus, ainda que se passem
milênios entre a morte de alguém e a volta de Cristo.
Pela não existência de um estado intermediário, quem morre e volta ao pó não está mais
condicionado a tempo e a espaço. A ressurreição vem como em um piscar de olhos, de
modo que partimos e estamos com Cristo imediatamente depois, ainda que isso em um
aspecto temporal leve anos ou milênios para se concretizar. O pastor Hermes Fernandes,
bispo consagrado pela International Christian Communion (comunhão que reúne os bispos
de tradição anglicana/episcopal dos cinco continentes) mantém o mesmo ponto de vista e,
depois de passar por uma longa reflexão sobre o tema à luz da Bíblia, afirmou:
120 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 234
"A morte é sucedida imediatamente pelo juízo (Hb.9.27). Não há hiato entre os dois
eventos. Ao deixarmos essa vida, somos transportados ao Tribunal de Cristo, e à Sua
presença imediata. Deixamos o tempo, e entramos em uma esfera atemporal, chamada
também de eternidade. Não há estado intermediário entre a morte e a ressurreição, ou
entre a morte e o juízo. Foi a doutrina do estado intermediário que proveu um terreno fértil
para o surgimento de doutrinas como a do purgatório e da intercessão dos santos, que não
possuem qualquer respaldo bíblico consistente. Não devemos esperar que ao morrermos
sejamos levados ao Seio de Abraão, para ali esperarmos o momento da ressurreição"121
Pouco depois, faz uso exatamente do mesmo contexto incontestável de 2ª Coríntios 5:1-8
para fundamentar essa posição:
"Alguns creem que, ao deixarmos nossos corpos, experimentamos um estágio
intermediário, em que seremos tão-somente espíritos desencarnados. Isso é um absurdo.
Nosso espírito não deseja viver, senão em um corpo através do qual possa glorificar a Deus.
Daí a importância da ressurreição corporal. Paulo chega a afirmar que nós 'gememos,
desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do Céu, porque estando vestidos, não
seremos achados nus. Pois também nós, os que estamos neste tabernáculo (o corpo físico
atual), gememos angustiados, não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para
que o mortal seja absorvido pela vida' (2 Co.5:2-4). O crente em Jesus jamais deve desejar
ser despido, isto é, viver sem um corpo, através do qual possa servir e louvar ao Seu
Deus"122
Por fim, ele declara:
"Para quem está vivo no mundo hoje, pode parecer que esse dia esteja num futuro remoto.
Mas para quem deixa o mundo hoje, é como se esse dia chegasse imediatamente. Não há
intervalo. É como se entrássemos numa máquina do tempo, e fôssemos arremessados em
um futuro distante. Lá chegando, não apenas nos encontraremos com o Senhor nos ares,
vindo em direção a Terra para julgar os vivos e os mortos, como também encontraremos
todos os eleitos de Deus, de todas as eras. Dentre os que morreram em Cristo, ninguém vai
chegar primeiro... Por isso Jesus disse que os amigos que granjearmos aqui na terra, serão
os mesmos que nos receberão 'nos tabernáculos eternos' (Lc.16.). Na verdade, nos
recepcionaremos uns aos outros, pois chegaremos todos juntos. Há ordem de partida, mas
não há ordem de chegada. Por vivermos confinados ao tempo e ao espaço, assistimos à
partida de cada pessoa que deixa essa vida. Mas na eternidade não haverá ordem de
chegada. Todos compareceremos diante do Trono de Deus concomitantemente"123
O Dr. Samuelle Bacchiocchi acrescenta:
“Sua [dos crentes que morrem] relação para com Cristo é de algo imediato, porque não têm
consciência da passagem do tempo entre sua morte e ressurreição. Experimentam o que
121 FERNANDES, Hermes Carvalho. Afinal, para onde vamos ao morrer? Parte 1. Disponível em:
<http://www.hermesfernandes.com/2009/12/afinal-pra-onde-vamos-ao-morrer-parte-1.html>. Acesso em:
16/08/2013.
122 ibid.
123 FERNANDES, Hermes Carvalho. Afinal, para onde vamos ao morrer? Parte 2. Disponível em:
<http://www.hermesfernandes.com/2009/12/pra-onde-vamos-ao-morrer-parte-2.html>. Acesso em:
16/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 235
pode ser chamado ‘tempo eterno’. Mas para os que prosseguem vivendo sob o limite de
tempo ligado à Terra há um intervalo entre a morte e a ressurreição”124
Essa visão bíblica da morte é compartilhada também pelo apologista cristão batista Joe
Haynes, que afirmou:
"A Bíblia ensina claramente que quando um crente morre, não há razão para acreditar em
qualquer estado intermediário, mas podemos supor que a sua próxima experiência vai ser o
momento da ressurreição, quando ele é unido com Cristo sobre a Terra"125
O próprio Lutero compartilhou essa visão sobre o estado entre a morte e a ressurreição ao
dizer:
"Repentinamente ressuscitaremos no último dia, sem conseguir compreender como
morremos e como passamos pela morte"126
Como disse Wolfhart, "a continuidade de nossa vida presente com a vida futura da
ressurreição dos mortos não deve ser buscada na seqüência linear do tempo; ela reside no
caráter oculto do Deus eterno, cujo futuro já está presente em nossas vidas"127. Aqueles
que pensam que aquilo que Paulo expressou em Filipenses 1:21-23 sobre "partir e estar
com Cristo" por ser algo "incomparavelmente melhor" é algo que vai contra os princípios do
mortalismo bíblico defendido pelo próprio Paulo o fazem por pura ignorância, confundindo a
crença da mortalidade da alma com a psicopaniquia, popularmente conhecida como "sono
da alma", segundo a qual as almas não morreriam, mas estariam dormindo literalmente em
um estado intermediário, aguardando a ressurreição dos mortos.
Embora essa outra visão ensine que os mortos só entram no Céu por ocasião da segunda
vinda de Cristo, ela falha exatamente em crer que existe um elemento imortal no homem e
que sobrevive à parte do corpo, ainda que inconscientemente. Tal não é a visão bíblica
sobre a morte. Quando falamos que os mortos dormem, não estamos a dizer que eles estão
literalmente dormindo, mas fazendo uso de uma figura de linguagem para um estado sem
consciência entre a morte e a ressurreição. É lógico que faz sentido o que Paulo disse em
Filipenses 1:21-23, e qualquer mortalista diria o mesmo, porque não existe "vida" ou
"tempo" entre a morte e a ressurreição.
Portanto, é realmente um "partir e estar com Cristo", ainda que isso somente se
concretize na ressurreição dos mortos. Para Paulo, seria infinitamente melhor a morte, pois
desta forma ele seria imediatamente conduzido a Cristo, pela não existência de passagem
de tempo entre a morte e a ressurreição, e não por possuir alguma "alma imortal" que
sobreviva à morte física e siga a um estado intermediário em condição incorpórea, o que o
próprio apóstolo fez questão de negar quando escreveu a mesma coisa aos coríntios (cf.
2Co.5:8), dizendo que queria morrer não para ser despido (sem corpo), mas revestido (com
corpo ressurreto), que não estaria no Céu em condição incorpórea, mas "vestido" (cf.
2Co.5:2-3), e que tal coisa se daria quando o mortal fosse absorvido pela vida (cf.
2Co.5:4), na ressurreição.
124 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e
o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, pg. 170.
125 HAYNES, Joe. Por que não creio em um "estado intermediário" entre a morte e a ressurreição?
Disponível em: <www.revistacrista.org>. Acesso em: 16/08/2013.
126 WOLF, Manfred. p. 92.
127 PANNENBERG, Wolfhart. Systematische Theologie –Vol. 3, p. 574.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 236
Desta forma, os textos de 2ª Coríntios 5:8 e de Filipenses 1:21-23 realmente ensinam a
iminência em estar com Cristo logo após a morte, mas isso não se dá em função de uma
"alma imortal" em nós presente, mas sim pela inexistência de tempo entre a
morte e a ressurreição. É deste mesmo modo que o pastor presbiteriano José Luiz
Martins Carvalho se posicionou, dizendo:
"A Escritura nos adverte: 'E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez,
vindo, depois disto, o juízo' (Hb 9.27). O juízo segue-se à morte, pois passa-se do chrónos
ao kairós, muda-se o parâmetro temporal. Do tempo linear para a eternindade. Logo, para
o cristianismo bíblico não há imortalidade nem sono da alma [psicopaniquia], mas apenas a
mudança de estado do tempo para a eternidade. Na Parousia, tempo e eternidade se
encontrarão. É isto que, hoje, ansiosamente aguardamos!"128
Francis D. Nichol ainda faz importantes observações que nos mostram pela Bíblia que é
comum dois acontecimentos estarem ligados ainda que divididos por um longo período de
tempo entre eles em um aspecto temporal:
“Não é incomum um escritor bíblico reunir eventos que est ão separados por um longo
espaço de tempo. Geralmente, a Bíblia não entra em detalhes, mas apresenta os pontos
realmente importantes do trato de Deus com a humanidade no transcorrer dos séculos. Por
exemplo, Isaías 61:1 e 2 contém uma profecia da obra que Cristo faria em Seu primeiro
advento. Em Lucas 4:17-19 está o relato de Cristo lendo essa profecia para o povo e
informando: ‘Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.’ (v.21). Mas um exame
cuidadoso revelará que Cristo não leu toda a profecia de Isaías, embora evidentemente ela
seja uma declaração conectada. Ele terminou com a frase: ‘Apregoar o ano aceitável do
Senhor’. Mas a frase seguinte da sentença é: ‘E o dia da vingança do nosso Deus’. Ele não
leu essa parte porque ela não devia se cumprir logo. A passagem de Isaías nem mesmo
sugere que um período de tempo se interpõe entre esta frase e as precedentes. Mas outras
passagens bíblicas indicam claramente tal fato, e é pelo exame de todas as outras
passagens que entendemos uma profecia breve e condensada como essa de Isaías”129
E ele continua destacando agora o período de mil anos que se interpõe entre a vinda de
Cristo e a destruição desta terra, que é ligado por Pedro como se não houvesse período de
tempo significativo entre eles:
“Ou considere a profecia do segundo advento conforme apresentada em II Pedro 3:3-13. Se
nenhuma outra passagem bíblica fosse comparada com essa, poderíamos facilmente chegar
à conclusão de que o segundo advento de Cristo resulta imediatamente na destruição do
mundo pelo fogo. Todavia, quando comparamos II Pedro 3 com Apocalipse 20, aprendemos
que um período de mil anos se interpõe entre o segundo advento e a destruição do mundo
pelo fogo. Pedro estava apenas dando um breve sumário dos extraordinários eventos
iminentes. Ele passou imediatamente do grande fato do segundo advento para o próximo
grande ato no drama do trato de Deus com este planeta: sua destruição pelo fogo. No caso
128 CARVALHO, José Luiz Martins. Imortalidade da Alma ou Ressurreição da Vida? Disponível em:
<http://teologiahoje.blog.com/2010/07/01/imortalidade-da-alma-ou-ressurreicao-da-vida/>. Acesso em:
16/08/2013.
129 NICHOL, Francis David. Respostas a Objeções. Tatuí: Casa, 2004.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 237
da profecia de Pedro, assim como no da profecia de Isaías, não há necessidade de confusão
se seguirmos o plano de comparar passagem com passagem para preencher os detalhes”130
Vemos, portanto, que em absolutamente nada o "partir e estar com Cristo" implica em uma
alma incorpórea vivendo conscientemente em algum estado intermediário antes da
ressurreição, o que não é dito em parte nenhuma da teologia paulina e é negado pelo
próprio apóstolo quando trata dessa mesma questão com mais amplitude, como vimos na
exegese de 2ª Coríntios 5:1-8. Os imortalistas que formulam argumentos como esse
demonstram não conhecerem a doutrina mortalista, confundindo-a com a psicopaniquia,
crendo que achamos que existe passagem de tempo entre a morte e a ressurreição e
anulando a iminência da mensagem de Paulo sobre estar com Cristo. Se pelo menos
entendessem aquilo que tanto criticam, poderiam talvez formular argumentos mais sólidos.
XVI–A realidade da ressurreição em contraste com a alma imortal
Uma das maiores declarações bíblicas que contrariam a ilusão da imortalidade da alma é o
que o apóstolo Paulo escreve em 1ª Coríntios, no capítulo 15. Como veremos a seguir, o
capítulo inteiro é uma refutação à doutrina de que a alma imortal se religa ao corpo por
ocasião da ressurreição. Ele mostra que a ressurreição, longe de ser apenas uma religação
entre corpo e alma, é o único meio pelo qual podemos viver em alguma existência futura,
numa vida póstuma.
Para os imortalistas, se nenhuma ressurreição existisse nós já estaríamos assegurados no
Céu de qualquer jeito com as nossas almas imortais, e a existência da ressurreição apenas
implicaria em almas voltando do Paraíso e se religando ao nosso corpo morto, para depois
retornarem novamente ao Céu "completos". Tal conceito é totalmente estranho à Bíblia e
inconsistente com a teologia paulina. Na visão dualista, se a ressurreição não existisse nós
ficaríamos como espíritos desencarnados durante toda a eternidade.
Já para a Bíblia, que não atesta para a existência de um “estado intermediário das almas”,
se a ressurreição do último dia não existisse então estaríamos todos perdidos, mortos no pó
da terra sem mais nenhuma esperança. A pergunta que fica é: qual seria a posição do
apóstolo Paulo sobre o assunto? Seria ele favorável a uma religação do corpo com a alma,
sendo a ressurreição um mero detalhe desnecessário, ou seria ele favorável ao fato de que
não existe vida entre a morte e a ressurreição? Paulo nos responde a esta questão em um
longo capítulo de sua primeira epístola aos Coríntios. E é exatamente isso o que
analisaremos a partir de agora.
1 Coríntios 15
12 Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois,
afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?
13 E, se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou.
14 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé;
15 e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus
que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não
ressuscitam.
16 Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
17 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados.
130 ibid.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 238
18 E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram.
19 Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais
infelizes de todos os homens.
20 Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que
dormem.
21 Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos
veio por um homem.
22 Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão
vivificados em Cristo.
23 Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na
sua vinda.
24 Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver
aniquilado todo o império, e toda a potestade e força.
25 Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés.
26 Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte.
27 Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as
coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas.
28 E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se
sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.
29 Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos
não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?
30 Por que estamos nós também a toda a hora em perigo?
31 Eu protesto que cada dia morro, gloriando-me em vós, irmãos, por Cristo Jesus nosso
Senhor.
32 Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os
mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos.
Fiz questão de passar todo o contexto para analisarmos as várias implicações para o que é
dito acima pelo apóstolo Paulo. Vemos que alguns cristãos da igreja de Corinto estavam
dizendo que a ressurreição não iria acontecer. Paulo, então, primeiramente mostra as
consequências disso, depois mostra o que aconteceria caso a ressurreição não existisse, em
seguida confirma que, de fato, a ressurreição irá acontecer como algo futuro, mostra os
tempos em que ela se cumprirá e termina o capítulo mostrando o que ele faria caso não
ocorresse a ressurreição dos mortos.
O capítulo inteiro, que vai até o verso 58, é uma verdadeira aula sobre a ressurreição dos
mortos. Se houve um ótimo momento para Paulo afirmar a sua doutrina da imortalidade da
alma, com a menção das nossas almas imortais no Céu ou de religação de corpo e alma por
ocasião dessa ressurreição, aí estava uma ótima oportunidade! Contudo, vemos que as
implicações do que é acima exposto é muito, mas muito diferente daquilo que imaginam os
imortalistas.
Em primeiro lugar, se existisse uma imortalidade da alma, os que “dormem” estariam como
almas incorpóreas no Céu. Contudo, Paulo diz que, se não há a ressurreição, então os
mortos já teriam perecido (eles não ficariam “desincorporados pela eternidade”, pelo
contrário, estariam todos mortos!). O original grego traz a palavra apôlonto neste verso 18,
que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: "perecer, estar perdido, arruinado,
destruído"131. Todos esses significados dão a mesma dimensão de implicação: para Paulo,
131 Léxico da Concordância de Strong, 622.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 239
os mortos estariam agora perdidos, ou totalmente destruídos, arruinados, se não fosse
pela ressurreição dos mortos.
O problema para os imortalistas reside precisamente no fato de que, na teologia deles, os
que morreram em Cristo estariam neste momento no Céu, e continuariam lá da mesma
forma se não ocorresse a ressurreição, com o único detalhe de que viveriam para sempre
em forma incorpórea. Então, como é que eles poderiam estar perdios, arruinados ou
destruídos se não fosse pela ressurreição? Simplesmente não faz sentido.
Estar no Céu, ainda que em estado incorpóreo pré-ressurreto, deveria ser motivo de
regozijo, alegria e exultação, e não de estar "perdido" ou de já ter "perecido". Esses versos,
de fato, só tem sentido se Paulo cresse que não existe vida entre a morte e a
ressurreição, e que é a ressurreição que traz uma pessoa de volta à existência .
Desta forma, dizer que se não fosse por essa ressurreição os que morreram em Cristo já
pereceram ou estão perdidos faz todo o sentido, uma vez sendo que não haveria
ressurreição para herdarem uma vida eterna póstuma.
Esta é uma das consequências fatais em caso de a alegação infundamentada dos Coríntios
de que a ressurreição não existe fosse verdadeira. Aqueles que aguardam a ressurreição
dentre os mortos a fim de ganhar vida nesta ocasião não ganhariam vida nenhuma –
estariam destruídos – sem vida, para sempre, sem esperança (v.18,19,30,32). Não
estariam desfrutando as bênçãos paradisíacas no Céu por toda a eternidade desprovidos de
corpos. O que Paulo estava dizendo era que, se a ressurreição não existe, então os mortos
já pereceram. Em outras palavras, se não fosse pelo “fator ressurreição”, coitados –
estariam perdidos! De jeito nenhum que estariam com as suas “almas imortais”
desencarnados para todo o sempre!
Além disso, no verso 19 o apóstolo continua batendo firme nessa mesma linha, afirmando
que se não há a ressurreição [de um simples corpo morto(?)], então a nossa esperança se
limitaria apenas a esta vida, razão dele escrever no verso seguinte, seguindo a mesma
lógica: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais
infelizes de todos os homens” (cf. 1Co.15:19). Ora, mas as nossas almas já não estariam lá
no Céu, incorpóreas porém conscientes, na outra vida?
A ressurreição de um simples corpo morto não seria um mero detalhe? Por que a nossa
esperança se limitaria apenas para esta presente vida se nós ficaríamos a eternidade
inteira lá no Céu do mesmo jeito, só que sem corpo? É evidente que, para o apóstolo
Paulo, a vida é somente a partir da ressurreição, e, portanto, já teriam perecido os que
dormiram em Cristo caso ela não fosse uma realidade, e não existiria uma vida póstuma
nem como “almas” nem como “espíritos”. A nossa esperança limitar-se-ia apenas e tão-
somente a esta presente vida.
Uma “saída” encontrada por alguma parte dos defensores do estado intermediário é que
Paulo referia-se somente ao versículo anterior: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé,
e ainda permaneceis nos vossos pecados” (v.17). Contudo, se contextualizarmos a
passagem, veremos que o apóstolo está relatando uma série de conseqüências em caso que
a ressurreição não existisse, das quais uma delas é a de que nem o próprio Cristo teria se
levantado do túmulo, outra delas é que a nossa fé seria vã, outra delas é que os apóstolos
seriam tidos como falsas testemunhas de Cristo, outra delas seria que os que dormiram em
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 240
Cristo já teriam perecido, outra delas é que a nossa esperança se limitaria apenas a esta
vida, e assim por diante, como podemos constatar por todo o contexto:
a) Alguns corintos estavam dizendo que a ressurreição não existia.
b) Paulo diz que, se a ressurreição não existe, então Jesus também não ressuscitou, e nós
continuamos mortos em nossos pecados.
c) “E ainda mais” (ou seja, ele estava enumerando um outro ponto), se a ressurreição não
existe, estão os que dormiram em Cristo já pereceram.
d) Se a ressurreição não existe, então conforme o verso 19 a nossa esperança seria
apenas para esta vida (em outras palavras, não existiria uma “vida póstuma”!)
e) Mas, de fato, Cristo ressuscitou como primícia daqueles que dormem, e por isso
vivificará todos os mortos na sua segunda vinda (v.23)
f) O último inimigo a ser vencido é a morte.
g) Se não há ressurreição, então Paulo lutou com feras em Éfeso à toa.
h) Se não há ressurreição, então seria melhor “comer, beber, e depois morrer”.
Como vemos, alguns de Corinto estavam duvidando da existência da ressurreição, e Paulo
lhes apresenta uma série de conclusões que naturalmente se extrairiam desta falsa
alegação. Se os mortos não ressuscitam, logo (1) nem sequer Cristo ressuscitou (v.13);
(2) é vazia a nossa pregação (v.14); (3) é vã a nossa fé (v.14); (4) somos falsas
testemunhas de que Cristo foi ressuscitado (v.15); (5) ainda estamos nos nossos pecados
(v.17); (6) ainda estamos na condenação do pecado (v.17); (7) também os que dormiram
em Cristo já pereceram (v.18); (8) a nossa esperança seria somente para esta vida (v.19);
(9) somos os mais dignos de compaixão (v.19); (10) sofremos adversidades à toa (v.30);
(11) o melhor a fazer seria viver a vida hedonisticamente (v.32).
Principalmente as conclusões de Paulo de número 7 a 11 nos mostram claramente que, sem
a ressurreição, nem existiria mais nenhuma vida póstuma. Perceba ainda que em nenhum
dos argumentos Paulo fala de que “os que morreram não estariam com Cristo agora
mesmo”; ou que eles “não estariam na glória”; tampouco fala ele sobre “religação de corpo
com alma”. Se Paulo fosse imortalista, não diria que sem ressurreição os que morreram em
Cristo já teriam perecido e que a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, teria
dito que neste caso os que morreram em Cristo não estão no Céu e que
continuariam como espíritos incorpóreos para sempre.
Isso nos mostra que, na visão paulina, não existia nenhuma forma de vida racional entre a
morte e a ressurreição. Por isso, se não existisse ressurreição, seria o fim de tudo (cf.
1Co.15:18,19; 15:30,32). Vale a pena lembrar também que, se existisse uma alma imortal
em nós, então o fato de Cristo ter ou não ressuscitado nos garantiria de qualquer jeito uma
vida póstuma por meio dela, ainda mais quando de acordo com a teologia imortalista os que
morreram antes de Cristo já estariam com vida em algum lugar e, portanto, não poderiam
ter “perecido” como mostra o verso 18, e já obteriam uma vida póstuma contrariando o que
indica o verso 19.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 241
Para os imortalistas, os justos que morreram antes da ressurreição de Cristo já tinham suas
almas conduzidas ao Céu ou ao Seio de Abraão, a um lugar de paz e descanso, e, portanto,
o fato de Cristo ter ressuscitado ou não seria elementar, pois vida póstuma antes da
ressurreição aconteceria de qualquer jeito. Neste caso, Paulo também não teria dito que os
mortos sem a ressurreição de Cristo já teriam perecido ou estariam perdidos, mas teria dito
que ficariam para sempre no Céu ou no Sheol (o que não deixaria de ser um prêmio, ao
invés de uma perdição, como ele diz claramente no verso 18).
Ainda, seria errôneo afirmar que nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida
(v.19), já que, com ou sem a existência da nossa ressurreição ou da ressurreição de Cristo,
os mortos teriam sim uma vida póstuma, quando a suposta alma imortal se desligaria do
corpo após a morte, o que, segundo eles, já estava acontecendo desde o início da
humanidade, antes mesmo da ressurreição de Jesus ou da ressurreição geral dos demais
mortos. Portanto, não existem escapatórias à luz da clareza da linguagem de Paulo neste
capítulo sobre a ressurreição, que todo ele é uma negativa enfática à possibilidade de vida
consciente antes da ressurreição dos mortos.
Ele nega inteiramente que qualquer crente em qualquer era já pudesse estar com vida
antes da ressurreição. Os versos mostrados deixam bem claro que, na visão de Paulo, a
vida era somente a partir da ressurreição, e não antes da ressurreição em um estado
intermediário, como dizem os imortalistas. Evidentemente as únicas exceções a isso são os
que não passaram pela morte, como é o caso de Elias e Enoque e, portanto, não necessitam
de uma ressurreição, pois foram transladados vivos.
Mais algumas observações podem ser feitas à luz de todo o capítulo de 1ª Coríntios 15. O
último inimigo a ser vencido é a morte, que diante do contexto será vencida em função da
ressurreição, e não de uma alma imortal que vence a morte sendo liberta do corpo por
ocasião do falecimento. A morte não é tratada na Bíblia como sendo uma amiga, mas como
uma inimiga, como o último inimigo a ser vencido, que será destruído somente pela
ressurreição. Como bem destacou Oscar Cullmann:
"Somente aquele que discerne com os primitivos cristãos o horror da morte, que leva a
morte a sério como ela é, pode compreender a exultação da celebração da comunidade
cristã primitiva e entender que o pensamento de todo o Novo Testamento é governado pela
crença na ressurreição. A crença na imortalidade da alma não é a crença num evento
revolucionário. Imortalidade é, na verdade, só uma afirmação negativa: a alma não morre,
mas simplesmente continua viva. Ressurreição é uma afirmação positiva: todo homem, que
morreu de fato, é chamado de volta à vida por um novo ato criativo de Deus. Algo
aconteceu - um milagre de criação! Pois algo também tinha ocorrido anteriormente, algo
temível: a vida criada por Deus havia sido destruída"132
Se após a morte física nossa alma sobrevivesse e fosse direto à presença divina, a morte
teria sido vencida pela imortalidade da alma, e não somente pela ressurreição, no final de
todas as coisas, como nos diz João, no Apocalipse (cf. Ap.20:14). E, por fim, Paulo diz que,
se não há ressurreição, então ele lutou com feras em Éfeso à toa (v.32). Mas como seria “à
toa” caso ele fosse para o Paraíso do mesmo jeito só que desincorporado? Por que ele diz
132 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:
<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 242
que não se aproveitaria nada disso, “se os mortos não ressuscitam”? Não valeria a pena
caso estivéssemos com nossa alma durante toda a eternidade no Paraíso do mesmo jeito?
Como vemos, para Paulo o Cristianismo só valeria a pena de ser vivido caso existisse a
ressurreição, pois sem ela a nossa luta diária seria inútil, seria em vão. É óbvio que Paulo
não imaginava que se pudesse estar no Céu como espírito incorpóreo antes da ressurreição.
E isso fica ainda mais nítido com o verso seguinte, onde ele diz:
“Se os mortos não ressuscitam, então comamos e bebamos, que amanhã morreremos”
(v.32)
Segundo o apóstolo, a melhor opção seria aproveitar hedonisticamente esta vida, “comendo
e bebendo e depois morrendo”. Qual a razão para Paulo falar deste jeito? Simplesmente
porque se a ressurreição não existe então também não existiria nenhuma vida póstuma.
Seria o “morrer e acabou”. Para sempre. A melhor opção, então, seria “comer e beber, e
depois morrer”! Clarissimamente o que se segue à morte não é um “estado intermediário
das almas”, mas sim a ressurreição na volta de Cristo (v.22,23).
Sem a realidade da ressurreição, não há nenhuma esperança de vida eterna. Também é
importante analisarmos o verso 30: “E por que também nós nos expomos a perigos a toda
hora? Dia após dia morro!” (v.30). Para Paulo, não fosse a ressurreição dos mortos, nem
valia a pena viver, porque a morte seria o fim de tudo. Por isso, o melhor a fazer seria viver
hedonisticamente esta vida (v.32), pois não existiria uma vida póstuma (v.19), e ele estaria
exposto a perigos sem razão lógica nenhuma (v.30)! Citando de exemplo uma prática
existente entre os pagãos, Paulo diz:
“Se não há ressurreição, que farão aqueles que se batizam pelos mortos? Se absolutamente
os mortos não ressuscitam, por que se batizam por eles?” (1ª Coríntios 15:29)
Paulo usa o exemplo “deles” (os pagãos), que tinham o costume de batizar em favor dos
mortos, por causa da esperança deles na ressurreição. Mas, se os mortos não
ressuscitam, então este batismo que era feito em favor deles seria simplesmente inútil, uma
perda de tempo. Difícil imaginar isso no caso de que as almas já estivessem em algum lugar
após a morte, pois, neste caso, tal batismo pelos mortos teria efeito com ou sem a
ressurreição acontecer!
Mas, na teologia bíblica, este verso faz total sentido. Afinal, se não há ressurreição, não há
vida póstuma, já que a vida póstuma se inicia na ressurreição. E, se não há vida póstuma,
não há razão de se batizar pelos mortos. Aqueles que batizavam pelos mortos não faziam
isso por crer na imortalidade da alma, mas por crer na ressurreição. Eles tinham a
esperança de que aqueles que já morreram iriam um dia retornar à vida por meio de uma
ressurreição dentre os mortos, e, com essa esperança, batizavam em favor deles. Mas, se
não há ressurreição, não há retorno à vida, não há retorno à existência – por isso a
inutilidade de tal batismo! Portanto, até mesmo quando Paulo faz uso do exemplo do
convívio dos pagãos, mesmo assim há a clara menção de que é só por meio da
ressurreição, e não antes dela, que alcançamos a vida.
Claramente Paulo não imaginava de jeito nenhum que sem a ressurreição os que já
morreram viveriam eternamente do mesmo jeito por meio de uma alma imortal. O contexto
todo faz com que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso abandone completamente
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 243
na mesma hora a heresia de que “morremos e vamos com as nossas almas imortais para o
Céu, e a ressurreição é de um simples corpo morto que se religa às nossas almas no Paraíso
por ocasião da ressurreição que acontece na segunda vinda de Cristo”.
A coisa mais absurda que algum imortalista diria é que sem a ressurreição o melhor que
temos a fazer é viver hedonisticamente sem mais nenhuma esperança, porque para eles a
vida seria eterna do mesmo jeito por meio de uma alma imortal em nós implantada. A
ressurreição, sendo ou não sendo uma realidade, não impediria a vida após a morte. Seria
um mero detalhe sem muita importância, pois nós viveríamos eternamente, seríamos
julgados e todas as demais coisas seriam feitas sem corpo. Isso é claramente negado pelas
palavras do apóstolo Paulo.
A verdade é que a própria esperança de vida eterna ou imortalidade teria perecido em caso
que a ressurreição na volta de Cristo não existisse (cf. 1Co.15:18,19,30,32), o que nos
mostra claramente que a esperança cristã não é a de eternidade por meio de uma alma
imortal implantada em nós por ocasião do nascimento, mas sim de uma imortalidade
mediante a ressurreição dos mortos, o foco de todo o capítulo (cf. 1Cor.15); aliás, de todo o
Novo Testamento. É apenas pela ressurreição, por meio da ressurreição e na ressurreição
que obteremos a imortalidade. Paulo nega em absoluto a existência de vida póstuma senão
por ocasião da ressurreição dentre os mortos, a nossa esperança.
Do início ao fim, o apóstolo segue a linha de pensamento holista. Sendo que não existe uma
“alma imortal”, então não existe uma vida “com almas” antes da ressurreição. Por isso, se
essa ressurreição não existe, então os que dormem em Cristo já teriam perecido. Por isso, a
nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida. Por isso, Paulo teria lutado com
feras em Éfeso totalmente à toa, pois não existiria uma vida póstuma. Então, o melhor a
fazer caso os mortos não ressuscitassem seria “comer, beber e depois morrer”. Seria o fim.
Não fosse pelo fator ressurreição, a morte que cada indivíduo passa seria o fim definitivo de
sua existência.
É óbvio que Paulo não tinha a mínima noção de que a ressurreição se limitava a um simples
corpo mortal que se religaria ao nosso “verdadeiro eu”, as nossas almas imortais que já
estariam no Paraíso em uma existência contínua. Qual nada, se não fosse pela ressurreição,
já teriam perecido. Mas, de fato, Paulo traz uma esperança. Essa é a mesma esperança que
os apóstolos alimentavam tanto: a esperança da ressurreição dentre os mortos, no último
dia.
Paulo dá um motivo de esperança e de alegria aos coríntios, que não se baseava na ilusão
pagã de que as nossas almas imortais já estariam no Céu, mas sim no dia em que todos os
que estão literalmente mortos seriam vivificados. E essa esperança é apresentada nos
versos 22 e 23 de maneira mais clara: “Porque, assim como todos morrem em Adão,
assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as
primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda”.
Em Adão todos morremos, literalmente, pois Adão desobedeceu as ordens de Deus,
tornando-se mortal, sendo enganado pela mentira de Satanás de que certamente não
morreria (cf. Gn.3:4). Porém, a esperança é de que, em Cristo Jesus, todos serão
vivificados. De acordo com o dicionário, “vivificar” significa exatamente “Dar vida a; fazer
existir”. Os mortos voltarão à vida na ressurreição do último dia, na gloriosa volta do
Nosso Senhor Jesus Cristo.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 244
Curioso é notar que, enquanto por todo o capítulo o apóstolo lista uma série de fatos
trágicos que seriam realidade na hipótese de não existir ressurreição, ele por fim cita as
boas-novas, falando sobre o meio pelo qual podemos ganhar vida novamente no futuro,
onde em momento nenhum é mencionado que seja através de uma alma imortal
imediatamente após a morte, mas sim por meio da ressurreição dos mortos, quando
seremos vivificados na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23).
Não é a toa que Paulo passou algumas epístolas falando capítulos inteiros sobre a
ressurreição, como em 1ª Coríntios 15, o único capítulo na Bíblia completamente elaborado
à ressurreição dos mortos, mas não há referência nenhuma à religação dos corpos
ressurretos a almas deixando o Céu, o inferno ou o purgatório. Como Paulo poderia ter se
esquecido do ponto mais fundamental da doutrina da ressurreição, no ponto de vista
dualista?
Certamente os teólogos imortalistas do século XXI com as suas doutrinas dualistas iriam dar
uma “aula teológica” para o apóstolo Paulo aprender a falar de algo tão importante na
doutrina da ressurreição! Não seria estranho que Paulo deixasse de mencionar isso
inteiramente em sua discussão acerca daquilo que acontece na ressurreição? Afinal, tal
conceito é de fundamental importância a fim de compreendermos o que se dá em tal
ocasião. Se Paulo fosse imortalista, certamente não hesitaria em mencionar um “fato” tão
importância dentre os acontecimentos que sobrevêm na ressurreição!
E olha que Paulo não poupou palavras sobre o tema. Disse sobre as consequências da
ressurreição (v.19,20), disse sobre as testemunhas da ressurreição (v.4,5), disse sobre o
seu próprio testemunho (v.8), disse sobre a ressurreição de Cristo (v.13), disse sobre
quando seremos vivificados (v.22,23), disse sobre o inimigo da ressurreição (v.26), disse
com que tipo de corpos virão (v.36-39), disse sobre os corpos celestes e os corpos
terrestres (v.40), disse sobre o corpo semeado e o corpo ressurreto (v.v.42-44), disse
sobre a imagem do homem terreno e celestial (v.47,48), disse sobre quando seremos
imortais (v.53), disse sobre quando seremos incorruptíveis (v.51-54), disse sobre quando a
morte é tragada (v.54,55). .. mas sobre a religação de corpos ressurretos com almas
incorpóreas, um dos principais pontos e focos da doutrina da imortalidade da alma
no contexto da ressurreição... nada!
Mais do que isso, ele acentua o momento em que realmente atingiremos a imortalidade:
“Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos
transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta.
Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados.
Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que
é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de
incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que
está escrita: A morte foi destruída pela vitória” (cf. 1Co.15:51-54)
Como vemos, a imortalidade não é algo que nós já possuímos (supostamente na forma de
uma alma imortal dentro de nosso ser), mas sim algo pelo qual nos revestiremos, no
futuro. E quando? Na ressurreição dos mortos.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 245
Poderíamos resumir os argumentos levantados em torno de 1ª Coríntios 15 com um quadro
que resume o contraste entre a teologia paulina com a teologia imortalista:
O QUE ACONTECERIA CASO A RESSURREIÇÃO NÃO EXISTISSE
PARA OS IMORTALISTAS PARA O APÓSTOLO PAULO
Os mortos ficariam desencarnados para
sempre
Os que dormiram em Cristo já pereceram –
cf. 1Co.15:18
Existiria uma vida póstuma em forma de
“espírito incorpóreo”
A nossa esperança se limitaria apenas a esta
presente vida – cf. 1Co.15:19
Deveríamos dar o máximo pela nossa
salvação pois as nossas almas ficariam para
sempre no Céu do mesmo jeito, embora
sem um corpo físico
O melhor a fazer seria viver a vida
hedonisticamente, “comamos e bebamos,
para que amanhã morramos” – cf.
1Co.15:32
Valeria a pena ficar em perigo pois as
nossas almas ficariam para sempre no Céu
do mesmo jeito
Estaríamos correndo perigo totalmente à toa
– cf. 1Co.15:30
Na ressurreição a alma imortal se religa ao
corpo morto
Pessoas são mortas, pessoas são vivificadas
na volta de Cristo – cf. 1Co.15:22,23
A morte é vencida quando a alma imortal
vence a morte sendo liberta da prisão do
corpo
A morte só é vencida por ocasião da
ressurreição dos mortos – cf. 1Co.15:55
Nós já detemos a imortalidade na forma de
uma alma imortal implantada em nosso ser
A imortalidade é uma possessão futura, a
qual só alcançaremos com a ressurreição
dos mortos – cf. 1Co.15:51-54
Com tudo isso, podemos constatar que, na visão de Paulo, a imortalidade está ligada
unicamente à ressurreição dos mortos, como podemos ver em todo o capítulo de 1ª
Coríntios 15. E Paulo termina o capítulo da seguinte maneira: “Portanto, meus amados
irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o
vosso trabalho no Senhor não é em vão” (cf. 1Co.15:58). No capítulo inteiro toda a
esperança da recompensa pelo trabalho dos cristãos não é relativa a uma alma imortal que
lhes garante a imortalidade, mas unicamente ligada à ressurreição na volta de Cristo.
Se todos os crentes tivessem uma alma imortal implantada dentro deles, Paulo certamente
lhes lembraria disso como garantia certa de imortalidade e de recompensa pelo trabalho no
Senhor. Contudo, vemos em todo o capítulo que a ressurreição é o único fundamento e
penhor da esperança do crente a fim de atingir uma vida eterna e imortalidade na volta de
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
XVII–A consolação do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses
“Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (cf. 1ª Tessalonicenses 4:18)
Paulo responde a várias perguntas dos tessalonicenses que foram feitas a ele sobre a vida
pós-morte, e lhes dá uma palavra de conforto, a qual ele diz para consolar-vos uns aos
outros com essas palavras. Mas qual foi essa consolação? A consolação de que os que
morreram já estão todos no Céu e desfrutando da glória ou a esperança de que um dia
todos os mortos iriam ressuscitar? O contexto todo aponta para a segunda alternativa:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 246
“Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para
não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus
morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os
que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de
arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão
primeiro. Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que
ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem” (cf. 1ª
Tessalonicenses 4:13-15)
O contexto é totalmente voltado para a esperança da ressurreição dentre os mortos. A
pergunta que incomoda os imortalistas é: por que razão Paulo não consolou os
tessalonicenses dizendo que os mortos já estavam no Céu, mas em momento nenhum disse
isso e trouxe como única esperança de consolo a ressurreição dentre os mortos? Por que
razão Paulo iria ocultar uma verdade tão fundamental e importante que é tão
insistentemente ensinada pelos imortalistas quando eles falam "com respeito aos que
dormem"?
Por que quando um imortalista fala sobre os que já morreram nunca hesita em mencionar
que os tais já estão salvos no Céu, mas Paulo, ao contrário, omite isso e cita apenas a
ressurreição como fonte de consolo? Se os mortos já estão com Cristo, o que custava ele
ter consolado os tessalonicenses com essa palavra, e não frisar apenas na ressurreição?
Por acaso um imortalista comum costuma consolar alguém que tem um ente querido morto
destacando apenas e tão somente a ressurreição, sem fazer qualquer alusão de que tal
pessoa já esteja no Céu? Como bem destacou o Dr. Samuelle Bacchiocchi:
“Se Paulo realmente cresse que ‘os mortos em Cristo’ não estavam de fato mortos nas
sepulturas, mas vivos no céu como almas desincorporadas, teria se aproveitado de sua
bendita condição no céu para explicar aos tessalonicenses que a lamentação deles era sem
sentido. Por que lamentar por seus amados, se estavam já desfrutando as bênçãos
celestiais? A razão de Paulo não lhes dar tal encorajamento é, obviamente, o fato de que
sabia que os santos adormecidos não estavam no céu, mas em suas sepulturas”133
Paulo foca-se inteiramente na esperança da ressurreição ao consolar os tessalonicenses
sobre os seus parentes já falecidos. Quanta diferença para os dias de hoje, em que a
consolação é sempre voltada ao “fato” de que a pessoa supostamente “já está na glória”, e
a ressurreição (que é tomada como sendo apenas a adição de um corpo) virou um simples e
mero detalhe! Para Paulo, contudo, a única esperança para o cristão que hoje descansa é a
ressurreição (cf. 1Ts.4:18).
Dito em termos simples, Paulo consolou os tessalonicenses dizendo: "Não se entristeçam
como os demais que não tem esperança, pois nós temos uma esperança: de que os mortos
irão ressuscitar quando Jesus voltar"! Um imortalista, no lugar de Paulo, teria dito: "Não se
entristeçam como os demais que não tem esperança, pois os que morreram já estão
desfrutando das bênçãos paradisíacas do Céu". A diferença entre ambas é gritante, pois
uma tem seu foco na ressurreição, enquanto outra sobrepõe a ressurreição com um ensino
estranho às Escrituras, que deixa sem sentido a esperança de ressuscitar, já que os que
morreram já estariam com Cristo.
133 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e
o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, p. 136.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 247
E assim estaremos com o Senhor – “Porque o Senhor mesmo descerá do céu com grande
brado, à voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo
ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos seremos arrebatados juntamente
com eles, nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre
com o Senhor” (cf. 1ª Tessalonicenses 4:16,17).
Paulo deixa claro o modo pelo qual um crente pode "estar com o Senhor", expressando essa
ideia ao longo de todo o contexto. Para os vivos, esse meio é o arrebatamento ou
transladação dos crentes por ocasião da vinda de Cristo; para os mortos, esse meio é a
ressurreição dos mortos. Paulo simplesmente não deixa qualquer outra alternativa aqui.
Sobre este texto, Joe Crews fez essa importante observação:
"Observe o significado da palavra 'ASSIM'. Significa 'desta forma', 'deste modo', 'por esse
meio'. 'ASSIM', desta maneira, por este meio, 'nós estaremos com a Senhor'. Ao detalhar,
sem qualquer limitação, a forma e os meios pelos quais nós vamos estar com o Se nhor,
Paulo exclui todos os outros meios. Se existe outra maneira de conseguir estar com o
Senhor, depois de vermos a clara linguagem de Paulo, é uma estupenda falsidade. Se nós
vamos estar com o Senhor através do nosso espírito imortal quando morrermos, então não
vamos estar com Ele por meio da vinda visível de Jesus, a ressurreição dos mortos, e a
transformação para a vida. As palavras de Paulo, então não seriam verdade. Não existe
uma forma possível de evitar tal conclusão, salvo afirmando que a descida do Senhor do
céu, o poderoso brado, a trombeta, a ressurreição dos mortos e a transformação para a
vida, todos ocorreriam quando a pessoa morre – uma posição demasiado absurda para ser
considerada"134
Azenilto Brito complementa:
"Observem novamente que, em 1 Tessalonicenses 4:16, 17, Paulo espera estar presente
com o Senhor. Ele descreve a vinda gloriosa de Cristo, a ressurreição dos mortos e a
trasladação dos santos vivos . Então diz que 'assim estaremos sempre com o Senhor'. Essa
palavra 'assim' significa, portanto, desta forma, ou por esse meio. Ele está dizendo: Isto é
como vamos chegar a estar com o Senhor. Se, portanto, é através da vinda de Cristo e da
ressurreição que chegaremos a estar com o Senhor, então é óbvio que não vamos estar
com o Senhor antes desse tempo"135
Desta forma, podemos ver que Paulo exclui a ideia de estar com o Senhor através de uma
alma imortal que sobrevive à parte do corpo após a morte, pois coloca como únicos meios
para se estar com Cristo a ressurreição (para os mortos) e o arrebatamento (para os vivos).
Nada de uma outra opção alternativa para aqueles que já morreram!
“Não sejamos ignorantes” – “Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca
dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm
esperança. Cremos que Jesus morreu e ressurgiu, assim também cremos que aos que
134 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em:
<http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>.
Acesso em: 19/08/2013.
135 BRITO, Azenilto Guimarães. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c-
224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 248
dormem em Jesus, Deus os trará com Ele” (cf. 1Ts.4:13,14). Não podemos enfrentar a
morte como aqueles que já perderam a esperança. Sabemos que os que já dormiram em
Cristo serão ressuscitados para a vida eterna. Essa é a grande esperança pela qual vive o
cristão (cf. 1Cor.15).
Paulo inicia o verso 15 dizendo que não queria que os seus leitores fossem ignorantes
sobre aqueles que dormem, ou seja, os mortos ("não quero que sejais ignorantes acerca
dos que já dormem"), o que significa que ele não queria que os tessalonicenses não
tivessem em conta o estado dos mortos, mas que eles tivessem conhecimento, para que
não fossem ignorantes (i.e, não instruídos, sem conhecimento). Estranho o apóstolo não
querer que eles ficassem sem conhecimento sobre os que dormem, e mesmo assim não
dizer absolutamente nada sobre eles estarem no Céu! Desse modo, eles continuariam na
ignorância sobre os que dormem!
Se Paulo não queria que eles fossem ignorantes sobre os mortos ele certamente teria dito
aquilo que é a base de toda a doutrina imortalista: que os que morreram já estão no Céu,
assegurados entre os salvos. Isso sim, além de tirar os tessalonicenses da ignorância, ainda
serviria como uma boa base de consolo a eles, que era o objetivo do apóstolo (cf.
1Ts.4:18).
Contudo, nada é nos dito sobre eles já estarem salvos no Céu, mas tudo aquilo que eles
precisavam saber sobre os que dormem a fim de serem consolados é que eles um dia irão
ressuscitar, e que haverá o reencontro entre eles e nós nos ares. Uma concepção
totalmente holista da natureza humana, onde somente nos reencontramos com nossos
entes queridos na volta de Cristo, onde os mortos somente voltam à vida na ressurreição, e
onde a única esperança e fonte de consolo é a expectativa pela da ressurreição da vida.
Seria um absurdo que Paulo, que não queria que seus leitores fossem ignorantes acerca
dos que dormem, não dissesse nada sobre eles já estarem no Paraíso, caso eles lá
estivessem. Não ser “ignorante” significa exatamente a falta de conhecimento, sabedoria e
instrução sobre determinado tema. Então, após insistir que os tessalonicenses não tivessem
falta de conhecimento ou instrução sobre os seus parentes falecidos, ele esclarece a
situação deles sem dizer nada que os mortos já estivessem no Céu.
Ora, se os mortos já estivessem no Céu então Paulo teria deixado os
tessalonicenses continuarem na ignorância, que era exatamente aquilo que Paulo
estava lutando contra! Em termos simples, ele estaria dizendo para que “não fossem
ignorantes” e depois tê-los deixado continuarem na ignorância! O mesmo apóstolo Paulo
escreveu aos coríntios que “acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais
ignorantes” (cf. 1Co.12:1). A mesma coisa que Paulo disse aos tessalonicenses sobre os
mortos ele disse aos coríntios sobre os dons espirituais: que não queria que eles ficassem
na ignorância. Então, o que ele faz em seguida?
Ele realmente não queria que eles tivessem falta de conhecimento a respeito de nada sobre
os dons espirituais, e lhes fala tudo: fala sobre os dom de línguas (cf. 12:10), sobre o dom
de sabedoria (cf. 12:8), sobre a palavra de conhecimento (cf. 12:8), sobre o dom de cura
(cf. 12:9), sobre o dom da fé (cf. 12:9), sobre o dom de operação de milagres (cf. 12:10),
sobre o dom de discernimento de espíritos (cf. 12:10), sobre o dom de variedades e de
interpretação de línguas (cf. 12:10), sobre a diversidade de dons (cf. 12:4), sobre a
diversidade de ministérios (cf. 12:5), sobre a diversidade de operações (cf. 12:6), sobre as
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 249
manifestações do Espírito (cf. 12:7), sobre que nem todos tem os determinados dons (cf.
12:28-30), fala mais um capítulo inteiro sobre o dom de línguas (cap.14), fala quais são os
dons de edificação coletiva (da Igreja) e quais são os dons de edificação pessoal (cf. 14:4),
sobre quais são os dons maiores e quais são os dons menores (cf. 12:1,39), fala que o
espírito dos profetas está sujeito aos profetas (cf. 12:32); enfim, fala sobre TUDO! Paulo
realmente não queria que eles continuassem na ignorância!
Igualmente, ele fala que “não quero que sejais ignorantes acerca dos que dormem” (cf.
1Ts.4:13), ou seja, sobre aqueles que já morreram, mas não fala nada sobre eles já
estarem no Céu, não fala nada sobre a imortalidade da alma, não fala nada sobre religação
de corpo com alma na ressurreição, não fala nada sobre “almas” ou “espíritos” subsistindo à
parte do corpo, não faz descrição nenhuma e nem qualquer menção do “estado
intermediário”, e a sua única fonte de consolação a eles é voltada inteiramente e
unicamente na ressurreição dos mortos, sem mencionar absolutamente nada daquilo
que os imortalistas pregam! Parece até que ele queria que os tessalonicenses
continuassem na ignorância!
E o mesmo apóstolo ainda diz: “... para que não vos entristeçais como os demais, que não
tem esperança” (v.13). Por que Paulo diz isso? Porque, para algumas pessoas, a morte era
o fim total da vida e nunca mais eles voltariam a viver um dia. Essas pessoas não tinham
mais esperança nenhuma. Inscrições em túmulos e referências na literatura demonstram
que os pagãos daquela região encaravam com pavor a morte, considerando-a o fim de tudo,
para sempre. Paulo, contudo, não queria que os tessalonicenses fossem como essas
pessoas. Consolou-lhes dizendo que não deviam ser como tais que não tinham mais
esperança nenhuma.
Para o verdadeiro cristão, a morte não é o fim para sempre. A Bíblia nos traz a realidade da
ressurreição no último dia, quando os mortos serão vivificados (cf. Jo.6:39,40; 5:28,29;
1Co.15:22,23). E é exatamente isso que Paulo escreve aos tessalonicenses: a morte não é
o fim completo, existe ressurreição! Da mesma forma que Cristo ressurgiu, os mortos
também ressurgirão um dia. Os outros não tinham mais esperança nenhuma por
acreditarem que os mortos nunca mais viveriam, mas Paulo faz a ressalva de que ainda
existe a esperança de alcançarem a ressurreição na vinda de Cristo.
Os outros não tinham mais esperança, mas Paulo lhes trazia uma esperança: a esperança
de ressurgir dentre os mortos no último dia. Paulo não queria que os tessalonicenses se
entristecessem, não porque os que “dormem” já estivessem no Céu, mas porque existia a
esperança da ressurreição na volta de Cristo. É evidente que ele realmente não os deixou
na ignorância, assim como na carta aos Coríntios em que ele não queria que fossem
ignorantes nos dons espirituais e não os deixa na ignorância disso, pelo contrário, passa a
expor-lhes detalhadamente a questão.
Da mesma forma, com os tessalonicenses ele disse absolutamente tudo aquilo que eles
precisavam saber com respeito aos que já dormiram para que eles não continuassem na
ignorância; ou seja, que eles iriam ressuscitar, passando a expor-lhes em detalhes como se
dariam os eventos finais da ressurreição, pois isso é tudo o que é necessário para o cristão
saber. O evangelho bíblico é algo realmente muito simples: você morre e só volta ao estado
de vida na ressurreição, essa é a consolação do cristão, e tudo o que o crente precisa saber
sobre os mortos é que eles voltarão à vida quando Cristo voltar e nos tomar com Ele.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 250
XVIII–“Buscando” aquilo que nós já temos?
“E vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam glória, honra e
imortalidade” (cf. Romanos 2:7)
A Vida Eterna e a Imortalidade – Ter uma vida eterna é exclusividade apenas daqueles que
“perseveram em fazer o bem”, e a “imortalidade” não é algo que todos possuam dentro de
si, visto que tem que ser buscada. Ora, quem já viu alguém buscar uma coisa que todo
mundo já tem independente de ser bom ou mal, justo ou ímpio? Ninguém busca aquilo que
já se possui. Buscamos aquilo que não temos, mas almejamos ter. Também não é todos os
que conseguem alcançar, visto que se fosse assim não seria necessário “perseverar em
fazer o bem”. De acordo com o apóstolo Paulo, então, podemos assegurar que:
(1) A imortalidade não é uma possessão natural, visto que tem que ser buscada.
(2) Nem todas as pessoas a alcançam, mas apenas aqueles que “perseveram em fazer o
bem”.
Essas duas conclusões concordam afirmativamente com tudo aquilo que já vimos até aqui.
Se existisse uma ama imortal presa dentro do nosso corpo, mas liberta por ocasião da
morte, então a imortalidade não teria que ser buscada. Visto que deve ser buscada, então
nós não a temos. Ninguém diz: “vamos buscar a imortalidade” se todo mundo já tem uma
alma imortal que garante imortalidade a todos. Se temos que buscar é porque não a
possuímos agora, e porque nem todos a alcançam. No texto original grego, a palavra usada
foi aphtharsia, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa:
861 αφθαρσια aphtharsia
de 862; TDNT - 9:93,1259; n f
1) incorrupção, perpetuidade, eternidade.
Paulo empregou essa palavra porque ambos os sentidos fazem a lógica de pensamento
dele. A vida eterna é dada a todos aqueles que buscam a “glória [...] honra [...]
imortalidade [...] incorruptibilidade”. Se Paulo achasse que a imortalidade não tem que
ser buscada assim como a glória, a honra e a incorruptibilidade, então de modo algum teria
utilizado uma palavra que tem ambos os significados. O fato aqui é que o apóstolo
considerava tanto a imortalidade como a incorruptibilidade como dons que devem ser
buscados, de outra maneira não teria empregado a palavra aphtharsia.
Empregando tal palavra, Paulo deixa claro que tanto a imortalidade como a
incorruptibilidade tem que ser buscadas, porque a palavra aqui empregada significa ambas
e Paulo não iria querer passar tão tremenda confusão aos seus leitores. Se somos imortais,
por que devemos ainda buscar a imortalidade e a incorruptibilidade? Se devemos buscar, é
porque não a temos. Não se procura por algo que já se possui, supostamente na forma de
um elemento eterno que se carregaria no íntimo do ser.
A imortalidade não é algo que já somos possuidores mediante uma alma imortal,
mas algo que tem que ser buscado e que só a alcança aqueles que perseveram em
fazer o bem. Obter futura imortalidade não é algo simplíssimo pela implantação de uma
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 251
alma imortal em nosso interior, mas sim um prêmio que implica em perseverança e busca,
e que é alcançado por aqueles que fazem por merecer.
Ademais, se temos que buscar a imortalidade, então é certo também que nem todos a
alcançam (de outra forma não deveríamos buscá-la!). O próprio fato de a imortalidade ter
de ser buscada prova que não é algo que todos conseguem obter; é como uma corrida, em
que somente os melhores alcançam a coroa da vida e aquilo que Paulo chama de
“imortalidade”. O contexto todo também faz desmoronar diante de nossos olhos qualquer
teoria de que os ímpios também são imortais.
Em primeiro lugar, porque a imortalidade é dada a todos aqueles que buscam alcançar a
“glória... a honra... e a imortalidade”. É evidente que nem todos alcançam a glória e é
evidente também que nem todos alcançam a honra – glória e honra apenas os justos
alcançam. Visto que a imortalidade também é imediatamente ligada a elas, é uma
presunção lógica que apenas os justos alcançam a imortalidade, que tem que ser buscada
tanto quanto a glória e a honra!
DEVE SER BUSCADA MOTIVO
Glória (cf. Rm.2:7) Nem todos a alcançam
Honra (cf. Rm.2:7) Nem todos a alcançam
Imortalidade (cf. Rm.2:7) Nem todos a alcançam
Se existisse em nós algum elemento eterno, imortal, imaterial, supostamente implantado
em nós desde o nascimento, então todos “alcançariam” a imortalidade, até porque todos já
possuiriam a imortalidade. Dizer que a glória e honra só são alcançadas por alguns mas a
imortalidade todos possuem é negar a clareza textual bem como o próprio contexto em
pauta.
Em segundo lugar, a imortalidade é dada àqueles que “perseveram em fazer o bem” (v.7),
ou seja, se você não persevera em fazer o bem você não alcança a imortalidade! Tendo em
vista tudo isso, fica muito claro que a imortalidade não é uma possessão natural que todos
possuem mediante a posse de uma alma imortal, mas é um dom de Deus que Ele concede
pela Sua Graça a todos aqueles que a buscam, e que a desfrutarão por ocasião da
ressurreição da vida. Outra passagem em que Paulo reafirma a sua crença de que a
imortalidade não é uma possessão natural do ser humano e é apenas para os justos,
aqueles mesmos que “perseveram em fazer o bem”, se encontra em sua segunda epístola a
Timóteo:
“E que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual
destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho” (cf. 2ª Timóteo
1:10)
A Nova Versão Internacional traduz por: “imortalidade por meio do evangelho”. A ARA traz
“imortalidade mediante o evangelho”. Isso indica que a imortalidade não é algo que todas
as pessoas têm ou possuam, mas algo que é alcançado somente mediante o evangelho.
Isso explica o porquê que Paulo afirma categoricamente que só a obtêm aqueles que a
“buscam”, e “perseveram em fazer o bem”!
Se a imortalidade é por meio do evangelho então aqueles que desprezam o evangelho não
alcançam a imortalidade. E se só a obtém os que a alcançam por meio do evangelho, então
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 252
não existe uma alma imortal implantada dentro de nós, pois se assim o fosse a imort alidade
seria para todos, dentro ou fora do evangelho. Ademais, se Paulo cresse que a imortalidade
é para todos, não diria que ela é mediante o evangelho, se até mesmo um ímpio ou pagão
que nem conhece a Jesus ou o despreza a obtém através de uma alma imortal.
A imortalidade, então, não seria "por meio do evangelho", mas seria por meio de uma alma
imortal que qualquer ímpio possui. Por que razão Paulo faz questão de acentuar que a
imortalidade é por meio do evangelho? Porque aqueles que não seguem o evangelho não
alcançam a imortalidade, que é um dom concedido por Deus (cf. Rm.6:23), após a
ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:51-54; Jo.5:28,29). Nisso fica mais do que evidente
que não existe uma alma imortal implantada nos seres humanos.
Mais algumas considerações importantes nos escritos de Paulo nos revela que a
imortalidade (obter uma vida eterna) é um dom concedido por Deus:
“Que fruto vocês colheram então das coisas as quais agora vocês se envergonham? O fim
delas é a morte! Mas agora que vocês foram libertos do pecado e se tornaram escravos de
Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna. Porque o salário
do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso
Senhor” (cf. Romanos 6:23)
O salário (i.e, o fim) do pecado não é uma existência eterna, mas a morte. O pecado tem
por finalidade a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, destinada apenas
àqueles que creem. Definir “morte” com outro significado aqui além de “cessação de vida” é
rejeitar o fato de que se trata dos destinos finais e está sendo usado em contraste com
“vida”, sendo que Paulo apresenta a nós os dois caminhos finais: a morte ou a vida.
O texto não diz que o ímpio viverá eternamente em tormento, aqui se contrastam a vida e a
morte. Quanto ao destino final dos ímpios, este tema será mais abordado mais adiante. Por
enquanto, o que eu quero colocar em evidência é o fato de que ter uma vida eterna é um
dom, dom este concedido por Deus. Não é qualquer um que tem o dom de alcançar uma
imortalidade. Stephen H. Travis definiu acertadamente o que é a imortalidade da seguinte
maneira:
“A imortalidade da alma é uma doutrina não-bíblica derivada da filosofia grega. No ensino
bíblico o homem é ‘condicionalmente imortal’--isto é, ele tem a possibilidade de tornar-se
imortal se receber a ressurreição e imortalidade como um dom de Deus. Isso deixaria
implícito que Deus concede a imortalidade na ressurreição àqueles que O amam, mas os
que a Ele resistem perdem a existência”136
Ter uma vida eterna (ou imortalidade) não é uma garantia por meio de uma alma eterna
em nós implantada, mas sim uma esperança para aqueles que tem fé em Jesus, uma
promessa futurística, e não algo já presente na forma de um elemento imortal presente no
nosso ser: “Fé e conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual
o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos” (cf. Tt.1:2).
O que nos garante ter no futuro uma vida eterna não é uma alma que já esteja implantada
em nós, mas a nossa fé e esperança em confiar que Deus é fiel para cumprir a sua
promessa “que Ele o fez a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos seus
136 TRAVIS, Stephen H. Eu Creio na Segunda Vinda de Jesus. Grand Rapids, 1982, p. 198.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 253
herdeiros, tendo a esperança da vida eterna” (cf. Tt.3:7). Se já possuíssemos uma alma
eterna que não perece na morte, então a imortalidade não seria uma “esperança”, mas
algo já certo e concretizado na forma deste elemento eterno, imortal, que seria a alma.
Contudo, vemos que a vida eterna é uma esperança porque não temos em nós mesmos
algo que nos garanta tal imortalidade, mas cremos (pela fé) que o mesmo Deus que
ressuscitou ao Senhor Jesus nos ressuscitará também, e essa é a esperança do verdadeiro
cristão. A imortalidade não é uma possessão natural do ser humano decaído, pois o pecado
atingiu tanto o corpo como a alma; a morte entrou no mundo não apenas para o corpo, mas
para o ser integral que foi desobediente e rebelde a Deus. O mesmo apóstolo Paulo escreve
para que “purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando
a santidade no temor de Deus” (cf. 2Co.7:1), porque o espírito não está isento da
contaminação do pecado que atingiu o corpo.
Mas os justos, que são lavados e purificados no sangue do Cordeiro, tem a esperança de
herdarem, por meio do evangelho, a imortalidade. Atualmente, falar em “imortalidade” já
transformou-se em algo tão comum, banal e ordinário que poucas pessoas sabem
realmente que a natureza humana, como um todo, é mortal, mas Deus, em Sua infinita
misericórdia, concede uma vida eterna àqueles que lhes buscam.
Essa é a verdade do evangelho puro e sincero. É por isso que um homem perguntou ao
Filho do homem: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (cf. Lc.18:18). A
vida eterna é um dom de Deus, e não uma realidade já presente em qualquer um na forma
da alma. Deus não distribui dons assim para qualquer um, e não é sádico para fazer com
que algumas pessoas tenham que buscar a imortalidade se todos já a possuem de qualquer
maneira.
XIX–Deus, o único que possui a imortalidade
Deus, o único que possui a imortalidade – “Aquele que possui, ele só, a imortalidade, e
habita em luz inacessível; a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver; ao qual
seja honra e poder para sempre. Amém” (cf. 1Tm.6:16). Essa declaração conclusiva que faz
o apóstolo Paulo confirme tudo aquilo que já vimos até aqui: Deus é o único que possui a
imortalidade. Ponderamos: se todos nós tivéssemos presos dentro de nós uma “alma
imortal”, Paulo iria dizer que apenas Deus que possui tal imortalidade? Absolutamente não.
Nisso fica claro que nós, seres humanos, não possuímos a imortalidade, supostamente na
forma de um elemento imortal implantado em nosso ser. Deus é o único. Ele só possui a
imortalidade. Se nós possuíssemos uma alma imortal, nós não morreríamos nunca,
viveríamos eternamente e inerentemente, através dessa alma. Aliás, essa é a base da
doutrina imortalista, refutada pelo apóstolo Paulo.
Tal passagem é tão irrefutável que os apologistas Norman Geisler e Thomas Howe (ambos
defensores da imortalidade da alma) tentaram oferecer a melhor explicação a ela dentro do
prisma imortalista, mas que, como veremos, só complica ainda mais a situação deles. Eles
argumentaram da seguinte maneira:
”Deus é o único que possui a imortalidade intrinsecamente, em virtude de sua própria
natureza. Todos os crentes a recebem como uma dádiva de Deus, mas ela não é inerente à
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 254
natureza humana, como criaturas que são. Coloquemos isso de outro modo: somente Deus
é imortal - os seres humanos simplesmente possuem imortalidade”137
A explicação deles, muito repetida no meio imortalista, acaba falhando exatamente no
ponto em que ela mais tenta se sustentar: de que nós não somos imortais, mas apenas
possuímos a imortalidade (por causa da alma imortal que em nós reside). O texto original
do grego, contudo, deita por terra essa tentativa de refutação, visto que Paulo fez questão
de usar o termo grego para possessão-echôn nessa passagem, como podemos constatar:
“o monos echôn athanasian phôs oikôn aprositon on eiden oudeis anthrôpôn oude idein
dunatai ô timê kai kratos aiônion amên” (cf. 1ª Timóteo 6:16)
De acordo com o léxico da Concordância de Strong, echôn significa:
2192 εχω echo
verbo primário; TDNT - 2:816,286; v
1) ter, i.e. segurar.
1a) ter (segurar) na mão, no sentido de utilizar; ter (controlar) possessão da mente
(refere-se a alarme, agitação, emoção, etc.); segurar com firmeza; ter ou incluir ou
envolver; considerar ou manter como.
2) ter, i.e., possuir.
Como vemos, tal verbo denota possessão, como quando alguém "segura" algo, quando têm
em seu controle, ou possui em sua natureza. É esse o verbo que sempre aparece quando o
assunto é ter ou possuir algo. Em Mateus 11:15, é nos dito que "quem tem [echôn] ouvidos
para ouvir, ouça". O jovem rico "retirou-se triste, porque possuía [echôn] muitas
propriedades" (cf. Mt.19:22). Os saduceus perguntaram a Cristo se alguém, "não tendo
[echôn] filhos, casará o seu irmão com a mulher dele" (cf. Mt.22:24). Os judeus, ao
ouvirem Jesus pregando, "maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como
tendo [echôn] autoridade" (cf. Mc.1:22). Na sinagoga "estava ali um homem que tinha
[echôn] uma das mãos atrofiada" (cf. Mc.3:1). Paulo disse que "é preciso que o presbítero
seja irrepreensível, marido de uma só mulher, e tenha [echôn] filhos crentes..." (cf.
Tt.1:6).
Como podemos ver ao longo de todo o Novo Testamento, o verbo echôn nunca está
relacionado a "ser", mas a "possuir". Paulo sabia muito bem disso, e por essa mesma
razão não disse apenas que Deus "é o único imortal", mas que é o único que "possui
[echôn] a imortalidade". Desta forma, embora seja louvável a tentativa de refutação pelos
imortalistas, ela não é sincera quando analisamos o original grego138. Ele nos mostra que
Deus não apenas é o único que é imortal, mas também que é o único a possuir a
imortalidade, refutando a objeção de Geisler e Howe.
137 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da
Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
138 Além do original grego, muitas versões vernáculas também traduzem corretamente esse verso por
"ter" ou "possuir", tais como a Almeida Revisada e Atualizada, a Almeida Corrigida e Revisada Fiel, a
Almeida Revisada Imprensa Bíblica, a Sociedade Bíblica Britânica, e até mesmo as versões católicas,
como a versão Ave Maria ou da CNBB, mostrando que os tradutores bíblicos sabiam do significado do
echôn e deitando por terra a tese imortalista de que Deus é o único que é imortal, mas que nós também
possuímos a imortalidade, por meio da alma imortal implantada em nosso ser.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 255
Tais apologistas, defensores da tese da alma imortal, sabiam muito bem que, se Deus é o
único a possuir a imortalidade, então nós não possuímos uma alma imortal, e por essa
razão tentaram objetar com tal distinção entre "ser" e "possuir", ainda que no grego esteja
"possuir" e não "ser"! O texto em pauta fala acerca de possessão, de posse presente. Paulo
afirma que Deus é o único a possuir a imortalidade.
Nós, seres humanos, não possuímos a imortalidade, mas almejamos obtê-la, é por isso ela
tem que ser buscada (cf. Rm.2:7). Deus é o único que tem a imortalidade como possessão
presente (cf. 1Tm.6:16), ao passo que os justos terão a sua natureza mortal transformada
um uma natureza imortal por ocasião da ressurreição (cf. 1Co.15:53,54). Nós não somos
um corpo mortal que possui um elemento imortal, porque o único a possuir tal
imortalidade é o Deus Todo-Poderoso (cf. 1Tm.6:16). E isso obviamente exclui todo o
dualismo grego entre corpo e alma.
Outros imortalistas, na tentativa de oferecerem alguma outra interpretação que lhes pareça
mais plausível que a anterior, que é facilmente refutada, argumentam que Deus é o único
que é a fonte da imortalidade, ao passo que os seres humanos apenas obtém imortalidade
derivada de Deus. Isso, contudo, novamente fere o texto bíblico, que em momento nenhum
fala sobre fonte de imortalidade, mas sobre possessão de imortalidade. Paulo não disse que
"Deus é o único que é a fonte da imortalidade", mas sim que Ele é "o único que possui a
imortalidade".
É praxe dos imortalistas terem que distorcer ou até mesmo manipular um texto bíblico,
reinterpretando-o ao ponto de reescrevê-lo, para poderem encaixar as suas teses na Bíblia.
A razão para isso é simples: porque aquilo que o texto diz de verdade simplesmente não os
agrada. Precisam mudar o texto bíblico, alterar a Palavra de Deus. Onde diz "o único que
possui a imortalidade", mudam para "o único que é a fonte da imortalidade". O texto,
porém, nada discorre sobre "ser uma fonte de imortalidade", passando a ideia de que
outros seres também a possuem; ao contrário, rejeita a tese de que outros seres a possam
possuir por possessão natural.
Além disso, uma objeção semelhante é feita por imortalistas que, em lugar de
"imortalidade", mudam para "eternidade", como fez o Pr. Airton Evangelista da Costa:
"A imortalidade de que trata 1 Timóteo 6.16, refere-se a um atributo intrínseco da
Divindade; uma imortalidade que pode ser traduzida por eternidade, isto é, Deus não teve
começo nem terá fim"139
Qual a necessidade de se alterar o que o texto bíblic o diz, de "imortalidade" para
"eternidade"? É evidente que os próprios imortalistas reconhecem as dificuldades de se
encarar um texto bíblico de acordo com aquilo que o texto diz categoricamente, daí a
necessidade de se trocar palavras, como se o próprio Paulo tivesse escolhido as palavras
erradas, obrigando os imortalistas de séculos posteriores a corrigirem Paulo e, em lugar de
"imortalidade", traduzirem por "eternidade", que seria uma escolha mais correta, na opinião
deles.
139 COSTA, Airton Evangelista. Reflexões sobre a imortalidade da alma. Disponível em:
<http://solascriptura-tt.org/AntropologiaEHamartologia/ReflexoesImortalidadeAlma-AECosta.htm>.
Acesso em: 15/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 256
Contudo, se o próprio Paulo quisesse apenas dizer que Deus é o único que "possui a
eternidade" (o que em si mesmo não teria sentido, visto que Deus não "possui" a
eternidade, mas "é" eterno, tornando inócuo e sem sentido o emprego do echôn, como
vimos anteriormente) ele teria pronto, a mão, e perfeitamente disponível a palavra aionios,
que é a palavra sempre utilizada quando se refere à eternidade, ou a algo que é eterno. Por
exemplo, Deus fará conhecido o "eterno [aionios] propósito que fez em Cristo Jesus" (cf.
Ef.3:11), nos fará entrar no "reino eterno [aionios] de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo" (cf. 2Pe.1:11), o evangelho é chamado de "evangelho eterno [aionios]" (cf.
Ap.14:6), o Espírito Santo é chamado de "Espírito eterno [aionios]" (cf. Hb.9:14), e
quando o próprio Paulo quis dizer que Deus é eterno ele empregou aionios:
"Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o
mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé" (cf. Romanos
16:26)
No grego:
"phanerôthentos de nun dia te graphôn prophêtikôn kat epitagên tou aiôniou theou eis
upakoên pisteôs eis panta ta ethnê gnôristhentos"
Portanto, quando Paulo queria passar a ideia de que Deus era eterno, ele nunca hesitava
em usar outra palavra senão a própria em questão que significa eterno, que é aionios. Se
ele decidiu mudar em 1ª Timóteo 6:16 e empregar a palavra para imortalidade, que é
athanasia, é porque ele não queria dizer "eterno", mas "imortal"! Paulo não se enganou na
palavra escolhida e nem disse uma coisa "querendo dizer outra", como a alegação
imortalista que mais parece querer concertar um erro do apóstolo Paulo no desespero em
oferecer alguma interpretação para a palavra "imortalidade" que não seja "imortalidade"!
Pois imortal não é aquilo que é eterno, isto é, que não tem começo e nem fim. Só Deus é
eterno, isso ninguém contesta. Mas imortal (athanasia), diferenciando-se de eterno
(aionios), diz respeito simplesmente a algo que não pode morrer. Nem os seres humanos
nem os anjos possuem a imortalidade em seu ser, que seria algo que lhes impedisse de
morrer e que lhes garantiria uma existência eterna. Se os anjos possuíssem a imortalidade,
os que caíram não estariam fadados à morte no lago de fogo, como veremos mais adiante
no capítulo sobre o inferno. Os anjos bons, por sua vez, tem sua imortalidade condicionada
à sua obediência a Deus, assim como os humanos, que não possuem nenhum elemento
imortal que lhes garanta uma existência sem fim, mas que podem viver eternamente se
forem fieis a Cristo e obedientes a Deus, herdando uma vida eterna na ressurreição.
Desta forma, podemos ver que todos os argumentos imortalistas que tentam contradizer
aquilo que o texto bíblico diz claramente falham miseravelmente quando postos à prova
pela própria Bíblia, pois não parecem interessados em fazer exegese, mas meramente em
demonstrar indignação com o que realmente está escrito, tentando reescrever a Bíblia ou
nos tentar convencer que Paulo disse uma coisa mas queria dizer outra, ou que usou uma
palavra quando o correto mesmo era outra que estava perfeitamente disponível, mas não
foi usada por ele. Isso não é interpretar um texto, mas forçá-lo de tal forma que o contraste
entre ele e a imortalidade da alma se torne mais sutil.
XX–Levou cativo o cativeiro
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 257
Paulo pregou a entrada no Céu por ocasião da ressurreição de Cristo? – Outro conceito que
tem sido sistematicamente deturpado dentro da teologia imortalista é a tese não-bíblica
mas amplamente divulgada entre os dualistas, que consiste no ensino de que, por ocasião
da ressurreição de Cristo, os mortos justos que esperavam conscientemente no Sheol (que,
como vimos, não é uma morada de espíritos desencarnados, mas puramente sepultura),
partiram dali para o Paraíso, onde estão até hoje. Para isso, eles se apoiam em um único
versículo bíblico, que é analisado de forma isolada e tão mal interpretado por alguns a tal
ponto que foi necessário que os próprios imortalistas revissem essa tese e a refutassem em
seus livros. O verso em questão trata-se de Efésios 4:8-9, onde Paulo diz:
“Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos
homens. Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões
inferiores da terra?” (cf. Efésios 4:8,9)
E pronto! Os imortalistas, de alguma forma, acharam neste versículo o subsídio necessário
para a crença corrente por muitos neste meio, de que, por ocasião da ressurreição de
Cristo, todos os mortos que estavam no Hades foram transferidos para o Paraíso. Segundo
eles, Cristo desceu – pasme - até o inferno (v.9), entendem eles “inferno” por “regiões
inferiores da terra”.
Não é preciso dizer nada, pois o texto fala por mim: não há absolutamente nada disso no
texto! Se realmente houvesse havido esta transferência de lugar dos mortos, Paulo iria
acentuar isso em qualquer uma de suas epístolas ou então o próprio Jesus iria pregar tal
coisa. Este “ensinamento” seria amplamente encontrado nas Escrituras. Mas isso não
aparece em lugar nenhum, senão na teologia de alguns que distorcem completamente essa
passagem como forma isolada de conciliar os meios “literais” da parábola do Lázaro com a
consciência pós-morte no Céu.
Interpretar que “levar cativo o cativeiro” significa exatamente transportar espíritos
desencarnados justos do Hades para o Céu é forçar a passagem completamente – o texto
não diz isso e poderíamos forçá-la do jeito que quisermos para fundamentar qualquer
doutrina! Se essa transferência realmente tivesse ocorrido, então certamente isso estaria
sendo mencionado de maneira clara nas Escrituras. Mas isso não ocorre em parte nenhuma.
Vejamos, por exemplo, no comentário do mesmo apologista imortalista anteriormente
citado, o que ele tem a nos dizer sobre Efésios 4:8-9:
“Finalmente, quando Cristo ‘levou cativo o cativeiro’, não estava levando amigos para o céu.
É uma referência à sua vitória sobre as forças do inimigo. Os cristãos não são ‘cativos’ no
céu. Não somos forçados a ir para lá contra a nossa própria e livre esc olha (veja Mt 23:37;
2 Pe 3:9)"140
Sobre o “descer às regiões inferiores da terra”, ele comenta:
“A expressão ‘até as regiões inferiores da terra’ não é uma referência ao inferno, mas ao
túmulo. Até mesmo o ventre de uma mulher é descrito como sendo ‘profundezas da terra’
140 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da
Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 258
(Sl 139:15). Essa expressão significa simplesmente covas, túmulos, lugares fechados na
terra, em oposição a partes altas, como montanhas"141
O comentário dos tradutores na nota de rodapé da Nova Versão Internacional, que por sinal
também adota a crença na imortalidade da alma, também faz questão de refutar esse mito
no que diz respeito a Efésios 4:9:
"Embora Paulo cite o salmo para introduzir a ideia de 'dons aos homens', aproveita a
oportunidade para relembrar ao leitor a vinda de Cristo à terra (sua encarnação) e a
subsequente ressurreição e ascenção. É provável que o texto não signifique (como
pensam alguns e como querem algumas traduções) que Cristo desceu ao
inferno"142
Até mesmo o pastor norte-americano John Piper se posicionou contra a tese de que Jesus
tenha descido ao inferno entre a sua morte e ressurreição, e disse:
"Em Efésios 4:9, é dito que Cristo desceu às partes mais baixas da terra. Isso
provavelmente significa que ele desceu à terra, que é as partes mais baixas. O “da” ali não
significa que ele estava afundando na terra. Assim, não penso que o texto garanta a
interpretação que ele desceu ao inferno (...) Minha conclusão é que não existe nenhuma
base textual para crer que Cristo desceu ao inferno"143
Vemos, portanto, que são os próprios imortalistas que refutam esse mito amplamente crido
por muitos deles, de que "levar cativo o cativeiro" significa ter tirado pessoas do Hades e as
transferido para o Paraíso. Levar cativo o cativeiro é uma linguagem que expressa a vitória
de Cristo sobre as trevas e sobre os inimigos espirituais de Cristo. Não significa que ele
desceu até o inferno e nem que ele tenha levado amigos cativos para o Céu. Se assim
fosse, os próprios imortalistas teriam que rever sua própria teologia, pois ensinam que o
Sheol (Hades) era um local de paz para os justos, e não um "cativeiro".
Além disso, teriam que rever seus conceitos sobre alma e espírito, uma vez que se baseiam
em um texto de Eclesiastes que fala da retirada do espírito na morte para Deus (cf.
Ec.12:7), e não para o Sheol. Se tal interpretação fosse correta e o espírito fosse mesmo
uma "alma imortal", o espírito deveria descer ao Hades e só subir ao Paraíso após a
ressurreição de Cristo. É evidente que os imortalistas não conseguem conciliar suas teses
com elas mesmas, pois todas são contraditórias umas às outras.
Mas ainda há um texto bíblico por eles utilizado, e este é ainda mais completamente
descontextualizado: “’E também: Nele porei a minha confiança’. Novamente ele diz: ‘Aqui
estou eu com os filhos que Deus me deu’” (cf. Hb.2:13). Para eles, estes “filhos que Deus
me deu” significa exatamente os espíritos desencarnados que Cristo transportou para o Céu
na sua morte. Tal interpretação, contudo, é claramente negada pelo verso seguinte que
especifica tudo: “Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele
também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele
que tem o poder da morte, isto é, o diabo” (v.14).
141 ibid.
142 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em Efésios 4:9, p. 2023.
143 PIPER, John Stephen. Cristo desceu ao inferno? Disponível em:
<http://www.revistacrista.org/Morte%20e%20Eternidade_Cristo%20Desceu%20ao%20Inferno.htm#.UhJ9
LZIqaO1>. Acesso em: 16/08/2013.
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Aqui vemos que os “filhos” do verso 13 não são espíritos sem corpo levados para o Céu a
fim de serem apresentados para Deus, mas sim pessoas "de carne e de sangue" (v.14), e o
texto diz respeito à encarnação de Cristo, quando Jesus “participou desta condição humana”
(v.14), e esteve com pessoas “de carne e sangue”. Aqui temos mais um exemplo de como é
fácil tirar um texto de seu contexto para fundamentar mitos, que sempre tem o poder de
enganar aqueles que não buscam se aprofundar no contexto e procurar a verdade.
Por tudo isso, vemos que não existe base bíblica nenhuma para a teoria amplamente
mirabolante divulgada entre os imortalistas, de que, por ocasião da morte e ressurreição de
Cristo, ele desceu até ao inferno e transportou os justos direto do Hades para o Céu. O que
a Bíblia realmente ensina, como vimos, é exatamente o contrário de tal ensino. Os justos
não estão no Céu ainda, mas entrarão por ocasião da segunda vinda de Cristo, momento
em que os vivos justos serão arrebatados a fim de entrarem no Paraíso ao mesmo passo
dos justos que já morreram. Qualquer doutrina que vai além disso é não-bíblica, e as
próprias Escrituras advertem a "não se deixar levar pelos diversos ensinos estranhos" (cf.
Hb.13:9).
Todo joelho se dobrará nos infernus? – Outra passagem usada a fim de pregar que os
ímpios já estão atualmente queimando no inferno se encontra em Filipenses 2:10, que
assim reza: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo
da terra”. Algumas versões católicas trazem a palavra “infernus” nesta passagem144,
passando novamente aquela ideia de que Jesus desceu literalmente até o "inferno" (na
concepção popular do termo). Contudo, essa não passa de mais uma adulteração do texto
bíblico original.
O texto original grego verte: “epigeiôn kai katachthoniôn” – debaixo da terra. A palavra
“infernus” simplesmente não existe nos manuscritos originais, mas é de origem latina. A
tradução correta por “debaixo da terra” é aplicada em praticamente todas as outras
traduções, principalmente as mais respeitadas. O original não a traduz por “inferno” e,
como vimos, até mesmo o ventre de uma mulher é descrito como sendo "profundezas da
terra" (cf. Sl.139:15), o que não significa que o ventre de uma mulher seja o inferno!
Como constatamos anteriormente, essa expressão significa simplesmente covas, túmulos,
lugares fechados na terra, em oposição a partes altas, como montanhas. A expressão “que
todo joelho se dobre no Céu, na terra e debaixo da terra” não prega de jeito nenhum que
dentro do nosso planeta existam pessoas queimando no inferno dobrando os seus joelhos. A
própria NVI mais uma vez faz questão de corrigir mais este engano popular em sua nota de
rodapé, no comentário sobre Apocalipse 5:3:
“céu [...] terra [...] debaixo da terra. Expressão convencional usada para expressar a
universalidade da proclamação. Não pretendia ensinar uma divisão tríplice do universo”
Tão é verdade isso que neste texto de Apocalipse 5:13 lemos: “Depois ouvi todas as
criaturas existentes no céu, na terra , debaixo da terra, e no mar, e tudo o que neles há,
diziam: Àquele que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória
e o poder, para todo o sempre” (cf. Ap.5:13). Analisando literalmente, devemos supor
144 Tal como faz a versão Ave Maria, conquanto que outras versões católicas corrijam esse erro e
traduzam corretamente o texto por "debaixo da terra", como faz a CNBB.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 260
então que os animais marinhos (ou talvez os mergulhadores) declaravam isso no fundo do
mar? Evidente que não, era apenas uma expressão convencional usada para expressar a
universalidade da proclamação.
A Bíblia, do início ao fim, nega que os ímpios já estejam queimando agora. Ela ensina que
“o Senhor sabe entregar o devoto fora das tentações, e reservar os injustos para o dia do
juízo para ser punido” (cf. 2Pe.2:9). Se eles estão sendo mantidos “reservados” para o dia
em que serão punidos, é porque eles não estão sendo punidos ainda (no presente
momento). Pois, como vimos, os ímpios só serão queimados no fogo na consumação deste
mundo: “Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação
deste mundo” (cf. Mt.13:40).
XXI–A Bíblia e as Experiências Fora do Corpo
Experiências fora do corpo – Alguns imortalistas citam a experiência de Paulo revelada aos
coríntios para tentarem provar de alguma maneira que existe uma alma imortal presa
dentro do nosso corpo. Veremos tal citação: “É necessário que eu continue a gloriar-me
com isso. Ainda que eu não ganhe nada com isso, passarei às visões e revelações do
Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu.
Se foi no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe” (cf. 2Co.12:1,2).
Para eles, a alma de Paulo se desligou temporariamente do corpo rumando ao Céu a fim de
ter as revelações. Tal interpretação, contudo, carece de respaldo teológico sério. Em
primeiro lugar, porque a experiência que Paulo teve se deu enquanto este estava em vida, e
não depois de morto. A doutrina da mortalidade da alma prega que não existe vida entre a
morte e a ressurreição, sendo, portanto, a morte a cessação total de existência consciente.
Como a experiência de Paulo se deu enquanto este ainda estava com vida, segue -se que
não contraria os princípios teológicos da doutrina mortalista.
Em segundo lugar, não é nos dito que Paulo foi na forma de uma “alma imortal” para o
Paraíso. Ele afirma que foi “no corpo ou fora dele”; e não “no corpo ou na alma”. Em toda a
citação deste acontecimento não há qualquer citação de alma-psiquê ou de espírito-
pneuma, mas apenas de corpo-soma. Paulo não queria confundir os seus leitores e, por
isso, nem sequer faz qualquer menção de “alma” ou “espírito” em tal experiência.
Estar fora do corpo não significa, na visão holista paulina, estar na forma de um espírito
descorpóreo (se fosse assim então ele faria menção da possibilidade de partida da alma na
experiência, o que não é nos dito). Significa apenas que ele poderia estar fisicamente no
Paraíso (“no corpo”), ou tendo um quadro mental do Paraíso (“fora” do corpo). Isso explica
o porquê de Paulo falar claramente em “visões e revelações” no verso 1, porque ele sabia
da possibilidade daquilo ter se tratado apenas de uma visão, o que não é algo real em si
mesmo (cf. At.12:9).
Neste caso, não seria o seu próprio corpo que lá estaria, pois ele [Paulo] estaria na terra e
tendo uma visão [arrebatamento de sentidos] do Paraíso. O apóstolo Pedro nos afirma que
uma visão não é necessariamente algo que esteja acontecendo de fato no devido momento
como um acontecimento físico: “Pedro, saindo, seguia-o, e não sabia que era real o que se
fazia por meio do anjo, mas julgava que era uma visão” (cf. At.12:9).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 261
Vemos, portanto, que a dúvida de Paulo não se baseava na suposição de estar no Céu como
alma ou como corpo, mas sim de estar literalmente no Céu (corporavelmente) ou de estar
tendo uma visão como se lá estivesse (v.1), o que seria considerado “fora do corpo”,
porque o corpo estaria na terra enquanto passava-se a visão e as revelações, e não porque
a alma teria partido.
Concorda também com isso todo o ensinamento bíblico acerca de arrebatamentos, pois a
Bíblia nunca nos mostra qualquer caso de qualquer profeta do AT ou de qualquer pessoa
que tenha visto a partida da alma para ter a experiência. Essa nunca é a linguagem bíblica
empregada por eles, porque eles não acreditavam na visão dualista da natureza humana.
Por isso, em absolutamente nunca a alma-psyque/nephesh é referida em qualquer
experiência de qualquer pessoa, mas tão somente fazem eles questão de mencionar uma
visão (revelação), em um arrebatamento de sentidos em que eles se viam em determinado
lugar.
Vemos, por exemplo, a narração da experiência de Ezequiel: “Enquanto ele falava, o
Espírito entrou em mim e me pôs de pé, e ouvi aquele que me falava” (cf. Ez.2:2). Não
é nos dito que foi o espírito do próprio profeta que deixou o corpo na experiência, mas sim o
Espírito de Deus que temporariamente entrou nele a fim de lhe capacitar a receber de Deus
aquilo que Ele lhe havia dado. A mesma linguagem é expressa várias vezes pelo profeta:
“No quinto dia do sexto mês do sexto ano do exílio, eu e as autoridades de Judá estávamos
sentados em minha casa quando a mão do Soberano Senhor veio ali sobre mim” (cf.
Ezequias 8:1)
“Então o Espírito me ergueu e me levou para a porta do templo do Senhor, que dá
para o oriente. Ali, à entrada da porta, havia vinte e cinco homens, e vi entre eles Jazanias,
filho de Azur, e Pelatias, filho de Benaia, líderes do povo” (cf. Ezequias 11:1)
“Então o Espírito de Deus ergueu-me e levou-me aos que estavam exilados na Babilônia,
na visão dada pelo Espírito de Deus” (cf. Ezequias 11:24)
Veja que não é o espírito do profeta que deixa o corpo, mas sim o Espírito de Deus que
espiritualmente lhe erga a fim de ele ter uma visão de determinado local. É exatamente isso
também o que aconteceu com João no Apocalipse: “Imediatamente me vi tomado pelo
Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém” (cf.
Ap.4:2), e é essa também a ideia expressa pelo apóstolo Paulo em 1Cor.12:1,2.
Sumariando, quando Paulo menciona que foi “arrebatado” nesta experiência, ele está
falando de visões proféticas, como diz de modo claro o verso 1.
Os profetas tinham a sensação de estarem em outros lugares quando estavam tendo as
visões (cf. Ez.11:24; Ap.1:10); mas essa de Paulo, em especial, ele não sabia se estava de
fato naquele lugar (se fosse assim necessariamente estaria no corpo), ou se estava lá em
uma visão, tendo um arrebatamento de sentidos em que se viu no Paraíso. Algo
semelhante aconteceu com Pedro:
“Estando eu orando na cidade de Jope, tive, num arrebatamento dos sentidos, uma
visão; via um vaso, como um grande lençol que descia do céu e vinha até junto de mim”
(cf. Atos 11:5)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 262
O que acontece é um arrebatamento de sentidos – que é considerado como sendo uma
“visão” – e não uma “alma imortal” deixando temporariamente o corpo ou um "espírito" se
desligando da prisão do corpo e habitando em outro lugar, ao maior estilo kardecista de
ensino. Tal linguagem é extremamente estranha à luz da Bíblia, simplesmente porque o
dualismo grego não se encaixa nas Escrituras.
Todos os apóstolos e profetas sabiam muito bem que o que lhes sucedia não era um espírito
deixando o corpo e muito menos uma alma imortal que se desligava da matéria, mas sim
um arrebatamento de sentidos em que se viam em determinado lugar. A razão pela
qual eles jamais afirmaram que as suas “almas” deixaram o corpo provém do fato evidente
de que eles não acreditavam no dualismo entre corpo e alma pregado entre os gregos.
XXII–A Entrada no Reino é somente na Ressurreição
Paulo e Onesíforo – O companheiro de Paulo, Onesíforo, morre, e Paulo fala a respeito dele
em sua segunda epístola a Timóteo: “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo,
porque muitas vezes ele me reanimou e não se envergonhou por eu estar preso; ao
contrário, quando chegou a Roma, procurou-me diligentemente até me encontrar.
Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor!
Você sabe muito bem quantos serviços ele me prestou em Éfeso” (cf. 2ª Tm.1:16-18).
Este desejo de Paulo reforça ainda mais aquilo que já vimos até aqui: os mortos
permanecem sem vida até a ressurreição dos mortos, quando serão despertados, sendo
julgados para entrarem no Céu ou no inferno. Sabendo que Onesíforo, já morto, se
encontrava nesse estado, Paulo deseja que ele encontre misericórdia da parte do Senhor
“naquele dia” , indicado como um acontecimento futuro, o dia do juízo na segunda vinda
de Cristo.
Para os imortalistas isso não faz qualquer sentido já que Onesíforo já teria encontrado a
misericórdia da parte de Deus, pois já teria supostamente entrado no Paraíso com todos os
outros santos. A misericórdia a Onesíforo já seria encontrada, ele já estaria no Céu e já
teria sido julgado (cf. Hb.9:27), já estaria desfrutando das bênçãos paradisíacas. Contudo,
Paulo nada diz de Onesíforo já ter partido para a glória celestial, e ainda consola a família
baseando-se na esperança de alcançar a misericórdia da parte do Senhor “naquele dia”,
obviamente porque ele não teria encontrado tal misericórdia ainda.
Isso não faz senso algum caso Onesíforo já estivesse no Paraíso, pois Paulo (assim como
qualquer imortalista) teria escrito que Onesíforo já teria alcançado a misericórdia de Deus e
que ele já estava na “glória”. Mas o fato é que Onesíforo ainda não alcançou a misericórdia
de Deus, e somente a alcançará “naquele dia”, o dia do juízo. Paulo deseja que ele alcance
a misericórdia de Deus no dia do juízo, uma vez que Onesíforo não havia sido julgado
ainda para encontrar a misericórdia da parte de Deus e entrar no Céu. Tal declaração de
Paulo é fatal à doutrina da imortalidade por dois motivos principais:
(1) A consolação de Paulo não é que Onesíforo já esteja confortado no Céu, mas sim de
obter a misericórdia no dia de um juízo futuro.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 263
(2) Se Onesíforo já estivesse no Céu então já teria alcançado a misericórdia de Deus e,
portanto, Paulo teria que ter empregado o verbo no passado: “encontrou”, e não
“encontre naquele dia”, a misericórdia da parte do Senhor.
A linguagem de Paulo difere absurdamente dos defensores da alma imortal, porque ele não
diz que “ele encontrou misericórdia da parte de Deus”; mas sim que ele só encontrará a
misericórdia de Deus em um acontecimento futuro que se dará “naquele dia”.
Evidentemente, tal linguagem de Paulo expressa a sua convicção de que os que já
morreram só ganham vida em um acontecimento futuro – “naquele dia” – e, portanto,
torna-se lógico o desejo do apóstolo em ver Onesíforo encontrar a misericórdia de Deus em
um futuro distante, e não em consolar alguém com a ilusão de que este já estaria “na
glória”, já tendo passado pelo juízo e alcançado a misericórdia de Deus.
A salvação do espírito é no Dia do Senhor – “Entreguem esse homem a Satanás, para que o
seu corpo seja destruído, e o seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (cf. 1Co.5:5). Essa
é uma refutação de peso para a doutrina de que o espírito é salvo logo no momento da
morte. O apóstolo Paulo ressalta que o homem que seria excomungado da Igreja (“entregue
a Satanás”) de alguma forma poderia se voltar a Cristo e buscar a salvação para ser salvo.
A pergunta que fica é: quando é que o espírito deste homem seria salvo? Quando ele
morresse? Não, mas “no dia do Senhor”, que é claramente relacionado com a segunda
vinda de Cristo.
Inúmeros versículos nos mostram que o “dia do Senhor” trata-se da Sua segunda vinda: “O
sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia
do Senhor” (cf. At.2:20). Outras passagens que relacionam claramente o “dia do Senhor”
que ainda está por vir com a segunda vinda de Cristo encontram-se nas epístolas de Paulo
aos tessalonicenses: “Pois vós mesmos estais inteirados com precisão que o dia do Senhor
vem como o ladrão de noite” (cf. 1Ts.5:2). E novamente ele afirma que o dia do Senhor é o
momento da Sua segunda vinda: “A que não vos demovais da vossa mente, com facilidade,
nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se
procedesse de nós, supondo tenha chegado o dia do Senhor” (cf. 2Ts.2:2).
O “dia do Senhor” não chegou ainda porque ele só acontece na segunda vinda de Cristo.
Paulo, em todas as suas epístolas, compartilhava sua crença de que o dia do Senhor é
relacionado à volta de Cristo. Pedro também compartilhava da mesma ideia ao escrever:
“Virá, entretanto, como o ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso
estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela
existem serão atingidas” (cf. 2Pe.3:10).
Vemos, portanto, que o “dia do Senhor” é uma clara referência à segunda vinda de nosso
Senhor Jesus Cristo, a Sua Volta gloriosa, e não ao momento da morte do homem a quem
Paulo se refere. É no momento da segunda vinda de Cristo que o espírito será salvo, e não
no momento da morte! Vale ressaltar sempre que é exatamente nesta segunda vinda que
ocorre a ressurreição (cf. 1Co.15:22,23).
Se Paulo cresse que uma alma imortal deixasse imediatamente o corpo com a morte,
levando consigo consciência e personalidade, então diria que o espírito seria salvo no
momento da morte. Contudo, é claro o sentido do texto – o espírito é salvo “no dia do
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 264
Senhor”, e não no dia de sua morte, o que nos revela ainda mais claramente a crença de
Paulo de que a vida era somente a partir da ressurreição.
Sendo que é nos dito de modo claro que “o corpo seja destruído” [iria morrer
corporalmente], o que esperaríamos na sequência, se existisse a imortalidade da alma,
seria que o espírito seria salvo logo neste mesmo momento da morte, partindo
imediatamente para junto de Deus. Contudo, Paulo faz questão de ressaltar que o espírito
será salvo é “no dia do Senhor”, e não no dia da morte ou no mesmo momento exato da
destruição corporal, porque é somente no dia do Senhor que ocorre a ressurreição para a
vida.
Os filhos não foram revelados na glória ainda – “A natureza criada aguarda, com grande
expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados” (cf. Rm.8:19). Se os filhos de Deus já
estivessem na glória, então a natureza não estaria esperando nada, pois já estariam todos
sendo sucessivamente revelados nas mortes de cada um! Veja que o verbo está no futuro:
“sejam revelados”; e não: “estão sendo revelados” ou “foram revelados”! O que o
apóstolo Paulo escreve vai frontalmente contra a doutrina de que “morremos e vamos para
a glória celestial”, porque os filhos de Deus ainda nem sequer foram revelados.
A natureza está aguardando, isto é, ela está com “grande expec tativa”, sabendo que os
filhos de Deus não foram revelados, mas haverá um dia em que eles, finalmente, serão
revelados. Essa é a expectativa que todo verdadeiro cristão deveria ter, centrado no
glorioso dia da ressurreição dentre os mortos no qual os filhos de Deus serão finalmente
revelados para a glória diante de Deus.
Alguém ainda poderia argumentar como é que podemos ter a completa certeza de que se
trata realmente da ressurreição dos mortos. A resposta a isso está na própria continuação
da passagem no seu contexto, que deixa tal interpretação ainda mais clara:
Romanos 8
19 A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam
revelados.
20 Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da
vontade daquele que a sujeitou, na esperança
21 de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se
encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus.
22 Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto.
23 E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos
interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso
corpo.
24 Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem
espera por aquilo que está vendo?
25 Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente.
Paulo afirma que ele esperava com ansiedade o momento em que seremos adotados como
filhos, e indica este momento na sequência: a redenção do nosso corpo! Uma clara
referência à ressurreição dos mortos, quando este corpo corruptível se transformará em
incorruptível e a nossa natureza mortal se revestirá de imortalidade. O que Paulo afirma é
muito importante, pois a partir disso vemos que a expectativa de Paulo não era que sua
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 265
alma deixasse o seu corpo rumando a um estado intermediário, mas estava totalmente
centrada na ressurreição dos mortos.
Tal era a esperança dele, na qual ele diz que esperava ansiosamente (v.23). Quanta
diferença para os dias de hoje em que a doutrina da imortalidade da alma fez com que a
ressurreição se tornasse um mero detalhe desnecessário! É óbvio que esta é a esperança de
Paulo porque é neste momento em que ele se veria na glória. Tal conclusão fica ainda
mais forte quando vemos que é neste momento em que seremos adotados como filhos
(v.23). Não é logo após a morte em um estado desencarnado, mas sim na “redenção do
nosso corpo”, na ressurreição dos mortos.
Paulo nem imaginava que poderia ficar milênios no Paraíso em um “estado intermediário”
sem ter sido adotado como filho ainda para só depois disso Deus finalmente adotá-lo como
filho e só depois disso ele ser revelado. O foco todo é na ressurreição dos mortos, porque é
somente neste momento que vem a adoção como filho na glória (v.23). Paulo segue uma
lógica incontestável: os filhos de Deus ainda não estão revelados (v.19), a espera ansiosa
era pela redenção do corpo (ressurreição - v.23), e a nossa adoção como filho é também
somente na ressurreição (v.23)!
E Paulo ainda conclui: “é nessa esperança que fomos salvos” (v.24)! Qual é o contexto?
Qual é a ênfase? Qual é o sentido lógico lendo-se todo o conjunto? É óbvio que Paulo sabia
que o momento em que estaria na glória seria na ressurreição, quando finalmente seremos
adotados como filhos. E era nessa esperança - da ressurreição - que ele vivia, e não na
ilusão de uma vida em estado incorpóreo, antes de chegar qualquer "redenção do nosso
corpo" e antes da nossa "adoção como filhos".
A recompensa ou a condenação ocorre somente por ocasião do juízo - “Se alguém constrói
sobre esse alicerce, usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra
será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a
qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá
recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo,
será salvo como alguém que escapa através do fogo. Vocês não sabem que são santuário
de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus,
Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado” (cf. 1ª Coríntios
3:12-17)
A partir de tal relato de Paulo, podemos ver que a recompensa ou prejuízo se daria por
ocasião do dia do juízo quando seremos julgados (v.13). Esse dia, como tantas vezes
insistiu o apóstolo, ocorre por ocasião da segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1), e é neste
momento que os que morreram receberão a recompensa (v.14), ou sofrerão o prejuízo
(v.15), ou serão destruídos {condenados} (v.17). De acordo com a teologia imortalista,
contudo, os mortos já estariam sendo recompensados no Céu e os ímpios já estariam
condenados sofrendo a destruição. Paulo nega tal interpretação porque, para ele, tais fatos
se concretizarão apenas naquele Dia, o dia do juízo, na segunda vinda de Cristo, quando os
mortos serão ressuscitados.
Também é interessante notar que, para o apóstolo, os que já morreram ainda não foram
feitos justos (justificados perante Deus), porque tal acontecimento é retratado como algo
futuro, e não como algo que já tenha acontecido:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 266
“Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos
pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão
feitos justos” (cf. Romanos 5:19)
Note que o verbo está no futuro: “serão feitos”, o que no mínimo indica que tais justos
ainda não foram justificados. Muitos já foram feitos pecadores por causa de um homem
(Adão), mas muitos serão feitos justos por meio de um homem (Cristo), na Sua Vinda. A
mesma linguagem é expressa por ele no verso 17: ”Se pela transgressão de um só a morte
reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça
e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo” (cf.
Rm.5:17). Paulo de modo algum indica que eles já estão reinando, ou que “reinam”; pelo
contrário, indica novamente como um acontecimento lançado para um futro: reinarão –
por meio de Cristo – na Sua Vinda.
A entrada no Reino sucede a ressurreição – Existem, biblicamente, muitas verdades
espirituais que são também verdades materiais. Por exemplo, Deus nos “resgatou do
domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (cf. Cl.1:13). Essa é
uma verdade espiritual; embora nós materialmente continuarmos nesta terra no mesmo
lugar antes e depois de recebermos a Cristo em nossos corações, nós espiritualmente
estávamos no Reino das Trevas, no poderio de Satanás, coberto pelos nossos pecados, sem
o sangue de Cristo, sem Jesus nas nossas vidas. O material destino dos ímpios e pecadores
é onde eles espiritualmente já estão agora, neste exato momento.
Da mesma forma, nós (os que já recebemos a Cristo) espiritualmente chegamos “ao monte
Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo [...] aos milhares de milhares de anjos
em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus [...] a
Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de
uma nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf.
Hb.12:22-24).
O que materialmente só alcançaremos no juízo daquele Dia, nós espiritualmente já
alcançamos agora. Há muitas outras verdades materiais que são espiritualizadas na Bíblia.
Uma delas não poderia deixar de mencionar a ressurreição e a entrada na glória: “Deus nos
ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus”
(cf. Ef.2:6). Evidentemente, trata-se de mais uma verdade espiritual, nós materialmente
seremos ressuscitados na volta de Cristo para depois estarmos com Ele.
O que é verdade no campo espiritual também é verdade no campo material: a
participação nos lugares celestiais sucede a ressurreição. Paulo coloca em primeiro
lugar a ressurreição, para depois mencionar a tomada nos lugares celestiais. O que nós
espiritualmente já tomamos posse hoje (no campo espiritual), nós materilamente
tomaremos de fato tais lugares após a ressurreição, como é claramente mencionado acima
pelo apóstolo, que coloca primeiro a ressurreição, para depois a tomada nos lugares
celestiais. Verdade espiritual, verdade material!
“Deus nos ressuscitou [1] com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais [2]
em Cristo Jesus” (cf. Efésios 2:6)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 267
Os imortalistas invertem essa lógica, pois, para eles, nós já estaremos nos lugares celestiais
muito antes da ressurreição, e, portanto, a ressurreição sucederia (ao invés de preceder) a
entrada na glória.
O orgulho de Paulo seria no dia do Senhor – “...Assim, no dia de Cristo eu me orgulharei
de não ter corrido nem me esforçado inutilmente” (cf. Fp.2:16). O orgulho de Paulo em ver
que não correu inutilmente é relacionado ao dia de Cristo (momento da ressurreição – cf.
1Co.15:23). Seria presumível que se Paulo acreditasse que iria para o Céu muito antes da
ressurreição (e os filipenses também), então nesse momento ele já se orgulharia de seu
trabalho em favor deles, em não ter corrido em vão. Contudo, tal satisfação de Paulo
concretizar-se-á no “dia do Senhor”, a Sua volta, relacionado à ressurreição dos mortos.
Paulo coloca a ênfase de sua satisfação nessa ocasião porque é na ressurreição que eles se
veriam novamente, e ele, Paulo, se orgulharia de seu trabalho, vendo que conseguiu a
salvação deles. O mesmo também pode ser dito quanto aos tessalonicenses: “Pois quem é a
nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor
Jesus em sua vinda? Não sois vós?” (cf. 1Ts.2:19). O momento em que Paulo irá orgulhar-
se e regozijar-se de seu trabalho é na segunda vinda de Cristo, porque é neste momento
que os mortos serão ressuscitados.
Os que morreram ainda não foram manifestados na glória – “Quando Cristo, vossa vida, for
manifestado, então também vós sereis manifestados com ele na glória” (cf. Cl.3:4).
Como vemos, o momento em que seremos manifestados na glória é quando ele, Cristo, se
manifestar. Não é quando morrermos e a nossa alma imortal deixa o corpo, mas sim
quando Cristo, o Supremo Pastor, voltar em Seu Reino. O próprio fato de Paulo manifestar a
sua convicção de que ele e os demais seriam manifestados na glória na sua segunda de
Cristo indica que eles não estão manifestados ainda, mas que tal momento se dará pela
ocasião da ressurreição dos mortos, na volta de Cristo. Joe Crews também discorreu sobre
isso nas seguintes palavras:
"Quando Paulo esperava a transformação da mortalidade para a imortalidade? Ele
responde: 'Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos
manifestareis com ele em glória'. Colossenses 3:4. Quando é então? Na Sua segunda vinda.
Os salvos têm aparecido com Ele na glória já? Não. Isso só acontecerá então, quando Ele
aparecer"145
A lógica é realmente muito simples: nós seremos manifestados na glória quando
Cristo for manifestado. E, se isso não é prova que os mortos não estão manifestados
ainda, então não sabemos como os imortalistas poderiam ser convencidos disso.
Somente na ressurreição Paulo veria a Deus – É também por ocasião da manifestação de
Cristo que Paulo veria a Deus: “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em
espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei
plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido” (cf. 1Co.13:12). A
145 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em:
<http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>.
Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 268
palavra “então” denota um tempo: naquele momento, naquele instante, a partir daquilo; é
somente na manifestação de Cristo em que conheceremos plenamente a Deus e o veremos
face a face, porque o contexto deixa claro que isso se dará por ocasião da segunda vinda de
Cristo, quando chegar o que é perfeito (cf. 1Co.13:10).
Nós seremos manifestados em glória quando ele (Cristo) se manifestar, e também é
somente nesta ocasião que Paulo e os leitores de sua carta veriam a Deus plenamente, face
a face. Já para os imortalistas, Paulo e os demais santos já conheceriam a Deus e o veriam
face a face muito antes da ressurreição, enquanto almas incorpóreas em um estado
intermediário, ainda que Paulo tenha sido enfático de que ele e os demais só veriam a Deus
"quando viesse o que é perfeito", ou seja, quando Cristo voltar146.
A nossa cidadania celestial na ressurreição – “A nossa cidadania, porém, está nos céus, de
onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Pelo poder que o
capacita a colocar todas as coisas debaixo do seu domínio, ele transformará os nossos
corpos humilhados, para serem semelhantes ao seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz
poder de sujeitar também a si todas as coisas” (cf. Filipenses 3:20,21).
Paulo aqui fala, no verso 20, que nós temos uma cidadania nos céus, e, no verso seguinte
(v.21), mostra quando é que tomaremos posse desta cidade: quando Cristo transformar
os nossos corpos humilhados para serem semelhantes ao seu corpo glorioso! É
evidente que trata-se de mais uma menção à ressurreição, quando “isto que é mortal se
revestirá de imortalidade e isto que é corruptível se revestirá de incorruptibilidade” (cf.
1Co.15:53).
Se Paulo cresse no estado intermediário e na imortalidade da alma, seria presumível que ele
falasse que "nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos um Salvador, Jesus
Cristo, a quem iremos encontrar tão logo morramos". Contudo, o desejo de Paulo em tomar
posse da cidadania celestial concretiza-se na ressurreição dos mortos, na transformação de
nossos humilhados a um glorioso à imagem de Cristo. Paulo acentua mais uma vez sua
expectativa da “cidade celestial” que herdaria quando no Seu retorno Cristo “subordinar a Si
todas as coisas”, e sabemos que tal fato se dará na consumação deste mundo, na volta de
Cristo, com a ressurreição dos mortos.
Os que já morreram não estão no Céu – Mais uma evidência de que os que morreram, em
geral, ainda não estão no Céu, é de que em nenhuma de suas epístolas Paulo se refere a
alguém que já morreu como já estando no Paraíso com Deus, e ainda “se esquece” de
mencioná-los até mesmo quando faz uma referência a quem lá está! Isso é demonstrado
quando analisamos a primeira carta de Paulo a Timóteo:
“Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que sem
prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” (cf. 1ª Timóteo 5:21)
146 Não pode se referir a outro momento senão à segunda vinda de Cristo. Primeiro, porque quando
chegasse o que é perfeito as profecias, o conhecimento e os dons espirituais cessariam (v.10), mas eles
continuam existindo. Segundo, porque dificilmente "já chegou o que é perfeito" se a Igreja ainda está
longe de cumprir toda a missão que a ela lhe foi incumbida na terra; e, terceiro, porque o mal, as
tragédias e o pecado que há no mundo atestam que o imperfeito continua atuando. Sendo assim,
embora o texto não diga de forma explícita que se trate da segunda vinda de Cristo (ressurreição), isso é
facilmente deduzido a partir dele.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 269
É evidente que ele está fazendo uma menção àqueles que estão hoje na glória, como
testemunhas daquilo que ele dizia a Timóteo. E ele menciona, a saber, Deus Pai, o Senhor
Jesus e os anjos eleitos. Se existisse uma “multidão de almas” no Paraíso junto a Deus e
aos os anjos eleitos seria imprescindível que ele fizesse menção a elas também!
É óbvio que ele, contudo, não faz menção nenhuma, porque sabia que os que já morreram
não estão lá ainda. Ele faz uma distinção entre os anjos, fazendo questão de mencionar os
anjos “eleitos”, uma vez que existem também anjos “caídos”, que perderam as suas
posições no Céu e por essa razão não estão mais lá. Por isso Paulo faz questão de
mencionar os anjos eleitos, pois estes ainda continuam no Céu; mas, com respeito a
“almas” naquele lugar... nada! Paulo não faz nenhuma questão de mencionar a multidão de
espíritos humanos que supostamente estariam no Céu!
“Conjuro-te diante de Deus [1], e do Senhor Jesus Cristo [2], e dos anjos eleitos [3], que
sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” (cf. 1ª Timóteo 5:21)
Se Paulo fosse imortalista e cresse que os que morreram já estão salvos no Céu,
provavelmente teria dito:
"Conjuro-te diante de Deus [1], e do Senhor Jesus Cristo [2], e dos anjos eleitos [3], e
dos santos [4], que sem prevenção guarde essas estas coisas, nada fazendo por
parcialidade"
O reencontro é somente na ressurreição – “E espero que, assim como vocês nos
entenderam em parte, venham a entender plenamente que podem orgulhar-se de nós,
assim como nos orgulharemos de vocês no dia do Senhor Jesus” (cf. 2Co.1:14). Aqui fica
claro que o momento em que Paulo se orgulharia de que seu trabalho pelos corintos não foi
em vão não é no momento da morte de cada um deles se apresentando a Paulo e aos
demais santos no Céu, mas sim “no dia do Senhor Jesus”, o glorioso dia da Sua Vinda
quando os mortos serão ressuscitados. Por que? Porque é somente neste momento em que
ambos (Paulo e os coríntios) se veriam novamente. Tal fato é ainda mais acentuado por
aquilo que Paulo escreve na mesma carta:
“Porque sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus dentre os mortos, também nos
ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês” (cf. 2ª Coríntios 4:14).
Novamente vem à tona a ênfase de Paulo reafirmando que o momento no qual ele voltaria a
ver os coríntios e que ambos seriam apresentados novamente seria na ressurreição dos
mortos, no “dia do Senhor Jesus” (cf. 2Co.1:14; 2Co.4:14), e não no momento das mortes
de cada um com as suas almas imortais se encontrando lá no Céu. Paulo afirma que
gostaria de ser apresentado com aqueles a quem ele havia ganho para a fé cristã, queria
encontrá-los todos. Por que ele não disse que esperava que isso ocorresse quando morresse
e a sua alma fosse para o Céu?
A ênfase dele está na ressurreição, porque é na ressurreição que Paulo e os coríntios se
veriam novamente, como é claramente declarado por ele: “nos ressuscitará... para nos
apresentar com vocês” (v.14). Fica patente que, para o apóstolo Paulo, o momento em que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 270
ele se veria de novo com os coríntios seria na ressurreição, quando Deus ressuscitará
ambos e nós seremos mutuamente apresentados.
A aprovação de Deus é somente na ressurreição – “Portanto, não julguem nada antes da
hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas
e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a
sua aprovação” (cf. 1Co.4:5). Paulo declara que o momento em que o que está oculto
será revelado não é no momento da morte de cada um, mas quando o Senhor vier. Se os
ímpios já estivessem no inferno, já teria sido revelada as suas más obras e intenções do
coração.
Contudo, tal fato concretiza-se apenas na vinda do Senhor Jesus. Além disso, o apóstolo
escreve que “nessa ocasião” (quando o Senhor vier) cada um receberá de Deus a sua
aprovação. A aprovação dos justos não vem no momento da morte de cada um, mas sim na
volta do Senhor que é quando os mortos serão ressuscitados. Se os mortos já estivessem
no Céu ou em algum lugar de gozo e alegria, eles já teriam obtido a aprovação de Deus. Por
que nós só obteremos a aprovação de Deus no momento em que ocorre a ressurreição?
Porque é neste momento em que entramos no Paraíso, não antes disso.
A coroa da justiça – "Eu já estou sendo derramado como uma oferta de bebida. Está
próximo o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a
fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará
naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda" (cf.
2 Timóteo 4:6-8). Paulo, já próximo da morte, declara que ele só receberá a coroa da
justiça “naquele dia”. Esse dia é o da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:23), confirmado
também no final da própria passagem: “mas também a todos os que amarem a sua
vinda”. Até aquele dia, a coroa dele está “guardada” (v.8). Ele não vai para o Céu antes da
ressurreição.
É só neste momento receberemos a coroa da justiça, a justa premiação por todos os
esforços empreendidos pelos santos, consumando com a entrada no Paraíso, coroa a qual
Deus nos guarda até aquele dia (o dia da segunda vinda de Cristo). A linguagem de Paulo
próximo da morte não é: “a minha merecida coroa da justiça receberei tão logo ao morrer”,
mas sim de ter corrido uma corrida da fé, cuja retribuição por seus frutos ele veria
“naquele dia” da segunda vinda de Cristo (v.8), quando ganhará a sua merecida coroa da
justiça. Não era algo que aconteceria iminentemente após a morte antes da ressurreição,
mas é um prêmio guardado, reservado, para se tomar posse em um acontecimento futuro
através da ressurreição dentre os mortos na segunda vinda de Cristo.
Receberão a devida paga no futuro - “Se de fato é justo para com Deus que Ele dê em paga
tribulação aos que vos atribulam, e a vós outros que sois atribulados, alívio juntamente
conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do Seu poder,
em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra
os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de
eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do Seu poder. Isso acontecerá
no dia em que ele vier para ser glorificado em seus santos e admirado em todos os
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 271
que creram, inclusive vocês que creram em nosso testemunho” (cf. 2ª Tessalonicenses
1:7-10)
Mais essa vez, Paulo deixa claro que:
(1) Os cristãos que estavam sofrendo perseguição receberão alívio “quando do Céu se
manifestar o Senhor Jesus” (segunda vinda de Cristo). Note que o alívio das tribulações dos
santos se daria não quando eles morressem e as suas almas fossem para o Céu, mas
quando se manifestasse o Senhor Jesus, na Sua volta em glória. Se nas mortes de cada um
as suas almas partissem para o Céu antes da ressurreição, então eles já seriam aliviados
muito antes da segunda vinda de Cristo!
(2) Os ímpios só serão castigados, quando “o Senhor tomar vingança contra os que não
conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus”. É
dito claramente que no verso 7 que isso só acontecerá “quando do Céu se manifestar o
Senhor Jesus”, ou seja, um acontecimento lançado para o futuro. No verso 9 Paulo
completa dizendo que eles sofrerão a pena da destruição eterna, o que significa que eles
não estão sofrendo ainda. O verbo está no futuro, indicando que a punição dos ímpios é
algo que está para acontecer “naquele dia”, e não algo que já esteja em atividade. Se já
existisse um inferno de fogo em atividade, Paulo teria se enganado em conjurar o verbo no
futuro: “sofrerão”, ao invés de colocar o verbo no presente: “sofrem”, ou “sofrendo”!
(3) Complementando o ponto anterior, Paulo relata no verso 10 quando é o momento em
que aqueles que atribulam os cristãos serão castigados. Ao invés de dizer que seria quando
eles morressem e as suas almas fossem para o inferno (o que já seria um grande castigo),
ele escreve categoricamente que “isso acontecerá no dia em que ele vier para ser
glorificado em seus santos”, ou seja, na segunda vinda de Cristo, que é o momento da
ressurreição.
Paulo se revela contrário ao pensamento grego de que a punição e o castigo viria no
momento das mortes de cada um. Para os cristãos, o momento de toda a esperança em ver
os atos de justiça de Deus serem consumados é na conclusão de todas as coisas (cf.
Ap.15:4; Ap.21:4,5), com a consequente retribuição aos justos com salvação e aos ímpios
com o castigo.
Do início ao fim, Paulo segue a lógica de que os ímpios não estão sendo castigados
atualmente, mas que esse castigo se dará em uma ocasião futura, claramente indicada na
revelação do Senhor Jesus Cristo, do mesmo modo que o alívio dos santos é na revelação
de Cristo, o momento da ressurreição, e não quando eles morressem partindo para um
estado intermediário de bem-aventuranças; afinal, tal solenidade já seria um alívio para o
povo de Deus. Paulo, contudo, enfaticamente traduz a sua convicção de que tais fatos
apenas se concretizarão a partir da segunda vinda de Cristo e não antes dela.
XXIII–Últimas considerações dos ensinos de Paulo contra a imortalidade da alma
Paulo contra a imortalidade da alma em Atenas – Podemos perceber o contraste entre a
doutrina de Paulo e a imortalidade da alma a partir do texto de Atos 17, em que Paulo foi a
Atenas a fim de pregar o evangelho. Já vimos neste estudo que foi do dualismo grego que a
mentira da serpente de que “certamente não morrerás” entrou no judaísmo por ocasião da
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 272
diáspora judaica, sendo os gregos, portanto, ferrenhos defensores da doutrina da
imortalidade da alma. Em outras palavras, se Paulo pregava esta mesma doutrina, ele
estaria se sentindo praticamente em casa! O que nós vemos, contudo, é que Paulo de jeito
nenhum ensinava a imortalidade da alma:
“Ora, alguns filósofos epicureus e estóicos disputavam com ele. Uns diziam: Que quer dizer
este paroleiro? E outros: Parece ser pregador de deuses estranhos; pois anunciava a boa
nova de Jesus e a ressurreição” (cf. Atos 17:18)
Aqui vemos duas coisas que Paulo pregava. Uma delas praticamente todas as religiões
cristãs pregam: Jesus. A segunda coisa praticamente nenhuma igreja cristã que crê no
dualismo prega: a ressurreição dos mortos. Satanás conseguiu praticamente silenciar as
boas novas acerca da ressurreição porque conseguiu trazer o dualismo grego direto para a
teologia dos imortalistas. Vemos, por enquanto, que Paulo pregava:
(1) Jesus
(2) Ressurreição
Prova ainda mais forte de que Paulo não pregava a doutrina da imortalidade da alma é o
versículo seguinte, que diz:
“E, tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é
essa de que falas?” (cf. Atos 17:18)
A doutrina da imortalidade da alma era bem conhecida pelos gregos, mas, ainda assim,
vemos a afirmação deles de que o que Paulo pregava era uma “nova doutrina”, mais um
sinal de que o apóstolo não compactava com a velha e conhecida teologia da imortalidade
da alma, que não era nem um pouco "nova" para os gregos. Para os gregos, a primeira
coisa que Deus teria implantado no ser humano foi uma “alma imortal”. Paulo, contudo, não
faz qualquer questão de mencioná-la:
“Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo
dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas” (cf. Atos 17:25)
Paulo apenas faz menção do “fôlego” (aquilo que dá animação ao corpo formado do pó da
terra) que resulta na vida, em um ser vivo. Nada de “alma imortal” é mencionada por ele,
pelo simples fato de que Deus não colocou uma alma no homem. O que para os gregos
dualistas era de todas as coisas a mais primária e importante, para Paulo é desprezada –
ele nem faz questão de mencionar junto ao “fôlego” e a “vida”! Disso já podemos perceber
o contraste entre a teologia paulina e a dualista com relação à natureza humana. Um pouco
mais à frente e o vemos desmoronando ainda mais os pilares da doutrina da imortalidade
da alma pregada por eles:
“Porquanto determinou um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do
varão que para isso ordenou; e disso tem dado certeza a todos, ressuscitando-o dentre os
mortos” (cf. Atos 17:31)
Para os gregos, os mortos já haviam sido julgados para serem condenados num estado
intermediário ou desfrutarem as delícias de um Paraíso. Afinal, a alma é julgada logo depois
que sai do corpo! Para Paulo, contudo, Deus não julgou o mundo ainda (cf. At.17:31). A
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 273
razão para isso é muito simples: nós só ganharemos vida novamente na ressurreição e, por
isso, é na volta de Cristo em que seremos julgados para a vida ou para a condenação (cf.
2Tm.4:1). Novamente vemos o contraste entre o ensino de que a alma é imortal e o ensino
de Paulo.
Mais interessante ainda é a segunda parte de seu argumento: “...e disso tem dado certeza a
todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (cf. At.17:31). Aqui vemos que a segurança e a
esperança de Paulo em uma vida eterna não se baseava em uma alma imortal que
garantiria isso a todos, mas sim na ressurreição de Jesus Cristo, que garante a nossa
própria ressurreição! A única esperança para o cristão ser julgado e obter vida é baseado e
fundamentado na esperança da ressurreição dentre os mortos, da qual Cristo foi a nossa
primícia. Os gregos depositavam toda a confiança deles na esperança de uma alma eterna
ter sido implantada neles – e essa alma imortal é segurança de vida eterna, de juízo e,
evidentemente, de imortalidade. Quanta diferença para o evangelho bíblico pregado por
Paulo!
Isso tudo explica o porquê de os gregos o terem deixado falar sozinho em seguida:
“Mas quando ouviram falar em ressurreição de mortos, uns escarneciam, e outros diziam:
Acerca disso te ouviremos ainda outra vez” (cf. Atos 17:32)
Ressurreição dos mortos e imortalidade da alma realmente não tem nada em comum.
Ambos são dois opostos e são também mutuamente excludentes, não se pode admitir a
existência de uma alma imortal com a ressurreição, pois a primeira faz com que a segunda
seja algo desnecessário e inútil, praticamente sem proveito uma vez que a nossa esperança
não seria baseada na ressurreição, mas sim em uma “alma imortal” indo para o Céu e lá
ficando eternamente.... independente de ressurreição ou não!
É claro que tal ideia grega não condiz com o Cristianismo puro, não bate com aquilo que
Paulo ensinava em Atenas, não combina com aquilo que o apóstolo ensinava em lugar
nenhum, pois ele nunca, em circunstância nenhuma, fez qualquer menção de imortalidade
da alma ou de estado intermediário em seus esc ritos, porque sabia que tal doutrina é uma
lenda à luz da Bíblia Sagrada, a nossa verdadeira fonte de fé e ensino. Por essa razão
Cullmann concluiu:
"Em suas viagens missionárias, Paulo certamente encontrou pessoas que eram incapazes de
crer em sua pregação da ressurreição exatamente em razão de acreditarem na imortalidade
da alma. Assim, em Atenas só houve zombaria no momento em que Paulo falou da
ressurreição (...) Com efeito, para os gregos, que acreditavam na imortalidade da alma,
pode ter sido mais difícil aceitar a pregação cristã da ressurreição do que foi para os outros.
Por volta dos anos 150, Justino (em seu Diálogo, 80) escreve sobre as pessoas, 'que dizem
que não há ressurreição dos mortos, e sim que imediatamente após a morte a alma deles
ascende ao céu'. Aqui se percebe claramente o contraste"147
A transformação da natureza humana é somente na ressurreição – A Bíblia não abre
margens para a interpretação de que a nossa natureza já possui a imortalidade mediante a
posse de uma alma eterna. Uma prova muito forte disso é que a imortalidade é algo em que
147 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:
<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 16/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 274
nós seremos revestidos, não é algo que nós já possuímos. Paulo escreve abertamente sobre
isso em sua primeira epístola aos Coríntios, no capítulo 15, o qual já abordamos em parte,
que é o mesmo capítulo em que Paulo trata acerca do caráter da ressurreição dos mortos, e
ele não poderia concluir o capítulo sem lhes revelar quando é o momento em que nós
seremos dotados de imortalidade:
“Eis que lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados,
num momento, num abrir e fechar de olhos, ao soar da última trombeta. Pois a trombeta
soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Pois é
necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é
mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de
incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que
está escrita: ‘Tragada foi a morte pela vitória!’” (cf. 1ª Coríntios 15:51-54)
Diante do que é aqui exposto, percebemos que antes da ressurreição (que só acontece na
segunda vinda de Cristo), nós estaremos:
(1) Mortais
(2) Corruptíveis
Aqui vemos que a imortalidade não é uma possessão natural que levamos desde o
nascimento, mas algo que nós seremos revestidos a partir da ressurreição. Antes disso, nós
somos corruptíveis e mortais, só atingindo o patamar de imortalidade quando os mortos
ressuscitarem e a nossa natureza corruptível e mortal transformar-se revestindo-se de
incorruptibilidade e imortalidade.
Se os mortos já estivessem em um “estado intermediário das almas”, eles já estariam
desfrutando da imortalidade e esta não deveria ser revestida (i.e, ganha, adquirida) na
ressurreição. Isso é somente lógica. Se dentro da nossa natureza já existisse um elemento
imaterial concedendo imortalidade, então a imortalidade não deveria ser “revestida” por
nós na ressurreição, pois nós supostamente já seríamos detentores dela. Ora, só se
reveste de algo que não se possui. Se a imortalidade é revestida em nós na ressurreição
– e não implantada logo no nascimento – então nós não temos algum elemento eterno em
nosso ser.
O fato de que nós só atingiremos a imortalidade na ressurreição dos mortos e da morte só
ser tragada neste momento é prova mais do que suficiente de que nós não a possuímos no
presente momento, mas só a adquirimos no instante da ressurreição, em “um abrir e fechar
de olhos” (v.51). O texto é bem claro em dizer que a imortalidade só é alcançada após a
segunda vinda de Cristo! Nós não somos imortais mediante uma alma eterna, mas seremos
transformados em imortais a partir da ressurreição dos mortos, na segunda vinda do nosso
Senhor.
Como os imortalistas fazem para escapar de tamanha evidência deste texto bíblico tão
claro? Geralmente, adulterando a Bíblia. Muitos tradutores preferiram tomar a liberdade de
traduzirem a passagem por "este corpo mortal" ou "este corpo corruptível", nos versos 53 e
54, por não conseguirem conceber a ideia de que é a natureza humana como um todo, e
não apenas um corpo, que é revestido de imortalidade na ressurreição. Contudo, essa
adição simplesmente não existe nos manuscritos originais. Paulo jamais colocou a palavra
"corpo" na passagem. O original é traduzido simplesmente diz:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 275
“dei gar to fqarton touto endusasqai afqarsian kai to qnhton touto endusasqai aqanasian
otan de to fqarton touto endushtai afqarsian kai to qnhton touto endushtai aqanasian tote
genhsetai o logoV o gegrammenoV katepoqh o qanatoV eiV nikoV”
A tradução correta é a passada acima neste texto. Paulo jamais induziu que era apenas e
tão-somente um corpo que é revestido de imortalidade, pois a palavra no original grego
para corpo (swma) nem sequer é mencionada em nenhuma parte do texto! Paulo estava
retratando o momento em que a nossa natureza mortal se revestiria de imortalidade:
somente na ressurreição dos mortos. Antes dessa ressurreição, o que nós somos? Mortais
e corruptíveis! Só alcançaremos a imortalidade com a ressurreição dos mortos por ocasião
da segunda vinda de Cristo.
Diante dos ensinamentos do apóstolo Paulo, percebemos que a imortalidade muito longe de
ser uma possessão natural do ser humano por meio da posse de uma alma imortal que
supostamente teria sido “implantada” nos seres humanos. Pelo contrário:
(1) A imortalidade deve ser buscada (cf. Romanos 2:7)
(2) A imortalidade é por meio do evangelho (cf. 2ª Timóteo 1:10)
(3) Só seremos dotados de imortalidade e de incorruptibilidade com a ressurreição dos
mortos (cf. 1ª Coríntios 15:52,53)
Isso explica o porquê que, caso ela não existisse, os mortos já teriam perecido (cf.
1Co.15:18) e a nossa esperança seria somente para esta vida (cf. 1Co.15:19;
1Co.15:30,32), pois nós não temos uma alma imortal.
Conclusão – Os ensinamentos do apóstolo Paulo foram desmoralizantes para a doutrina da
imortalidade da alma. Além de jamais ter afirmado que os que estão mortos já se
encontram atualmente com Cristo, ou que já estão no Paraíso, mas insistindo sempre que
eles “dormiam” (cf. 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15;
1Co.11:30; 1Co.15:18; Ef.5:14), ele também afirma categoricamente que, se não fosse
pela ressurreição dos mortos, que acontece na volta de Cristo, todos os mortos já teriam
perecido (cf. 1Co.15:18), a nossa esperança então seria apenas para esta vida (cf.
1Co.15:19), e seria bem melhor “comer, beber e depois morrer” (cf. 1Co.15:32), porque a
luta de Paulo teria sido à toa (cf. 1Co.15:32).
É evidente que Paulo acreditava que não existia vida antes da ressurreição. Para nós, não
existiria nenhuma vida póstuma sem a ressurreição (cf. 1Co.15:19,32), e, para os que já
morreram, já teriam perecido-apollumi (v.18) se ela não existe. Não estariam eternamente
no Céu, em estado incorpóreo. Paulo também deixa claro que estaremos no Paraíso
vestidos, e não achados nus (cf. 2Co.5:3,4). Afirma ainda que, após a sua morte, a coroa
da justiça estaria guardada para ele receber somente “naquele dia”, o dia da volta de Cristo
(cf. 2Tm.4:6-8).
Na consolação aos tessalonicenses, falando sobre os seus parentes já falecidos, o apóstolo
jamais indica que eles já estão na glória do Paraíso, muito pelo contrário, os consola
unicamente com a esperançada da ressurreição dos mortos (cf. 1Ts.4:18), o que não faria
sentido nenhum se fosse apenas para um corpo morto que já virou pó se as almas imortais
já estivessem com Deus no Céu. A consolação de Paulo, voltada totalmente para a
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 276
ressurreição, além de omitir que os seus amigos e parentes já estivessem na glória, afirma
ainda de modo categórico que “de modo algum precederemos os que dormem” (cf.
1Ts.4:15), indicando que mortos e vivos entrarão no Paraíso no mesmo momento.
As pouquíssimas passagens usadas pelos imortalistas dentre as treze epístolas paulinas
assinadas são puramente constituídas de versos completamente descontextualizados ou de
passagens com interpretações inteiramente forçadas. O motivo para não acharem nada nos
escritos de Paulo que favoreça a imortalidade da alma em suas treze epístolas provém de
que, de fato, Paulo desacreditava completamente que Deus tivesse implantado nos homens
uma “alma imortal”. Se Paulo acreditasse que nós possuímos uma alma imortal, teria dito
que o espírito seria salvo no momento da morte, e não no “dia do Senhor” (cf. 1Co.5:5).
Também teria dito que o reencontro dele com os santos seria no momento das mortes de
cada um, e não na ressurreição (no “dia do Senhor Jesus” – 2Co.1:14; 4:14).
Paulo não acreditava que o ser humano era dividido dualisticamente. Por isso, a
imortalidade deve ser buscada (cf. Rm.2:7), e só Deus a possui como uma possessão
presente (cf. 1Tm.6:16). A imortalidade subsistirá com a ressurreição dos mortos, quando
aos justos será lhes dado corpos incorruptíveis (imortais), ao contrário dos ímpios (cf.
Gl.6:8), sendo a imortalidade apenas “por meio do evangelho” (cf. 2Tm.1:10). A morte é
vencida não em função de uma alma imortal que deixa o corpo após a morte sendo liberta
da prisão da matéria, mas pela ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:54).
Também é importante ressaltar que é apenas por ocasião da ressurreição que seremos
dotados de imortalidade (cf. 1Co.15:51), que seremos adotados por Deus como filhos (cf.
Rm.8:19-25) e que tomaremos posse de nossa cidade celestial (cf. Fp.3:20,21). Por
enquanto, não existe nenhuma “multidão de almas” no Paraíso (cf. 1Tm.5:21), porque é
somente pela manifestação de Cristo que seremos manifestados na glória (cf. Cl.3:4). Por
essa mesma razão, os que morreram, como Onesíforo, ainda não encontraram a
misericórdia de Deus entrando no Céu, mas acharão misericórdia "naquele dia", o dia do
juízo (2Tm.1:16-18), na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1).
Paulo deixa uma esperança, esperança essa tão pregada pela Igreja primitiva e pelos
primeiros apóstolos, esperança essa que consiste no fato de que, “assim como todos
morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua
ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda” (cf. 1Co.15:22,23). A
esperança de que seremos dotados do dom da imortalidade e da incorruptibilidade por
ocasião dessa ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:53,54), quando, finalmente, poderemos
dizer que “tragada foi a morte pela vitória” (cf. 1Co.14:54).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 277
CAPÍTULO 5.5 – AFINAL, ALGUM APÓSTOLO PREGOU A IMORTALIDADE DA
ALMA?
XXIV–O autor desconhecido de Hebreus também desconhecia a Imortalidade da
Alma
“Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a
concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para
que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (cf. Hebreus 11:39,40)
A carta aos Hebreus, por não ser assinada, causa a especulação de muitos sobre quem teria
sido o seu autor. Alguns arriscam tratar-se do próprio apóstolo Paulo. Mas sendo Paulo, ou
sendo outro, o fato é que o autor da epístola aos Hebreus mantém a mesma linha de
pensamento holista, contrária à imortalidade da alma. A imortalidade condicional, a partir
da ressurreição (dia do juízo), era unanimidade entre todos os apóstolos. Começaremos
com a questão relativa ao juízo, bem colocada pelo autor de Hebreus:
A Questão do Juízo – “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só
vez e depois disso enfrentar o juízo” (cf. Hb.9:27). Uma das provas que eu considero mais
fortes da inconsciência pós-morte é a questão relativa ao juízo. O autor de Hebreus é bem
enfático ao dizer que logo em seguida da morte vem o juízo. Não vem o Céu e nem o
inferno. A pessoa só é levada ao Céu ou ao inferno depois de ser julgada. Contudo, lemos
que este julgamento só irá acontecer ao soar da última trombeta (cf. Ap.11:18), e após
toda a tribulação apocalíptica, no final dos tempos (cf. Ap.20:12), na volta de Jesus (cf.
2Tm.4:1).
O julgamento só acontecerá “quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os
anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória” (cf. Mt.25:31). Sendo assim, a
doutrina de que vamos diretamente para o Céu ou para o inferno antes da volta de Cristo
(quando os mortos serão ressuscitados – cf. 1Co.15:22,23) entra em um total choque de
lógica. Se as pessoas vão direto para o Céu ou para o inferno antes da volta de Cristo
quando serão julgadas (cf. Mt.25:31), isso conflitaria com Hebreus 9:27, que diz
enfaticamente que o juízo é logo após a morte.
Se o juízo é só na volta de Cristo (cf. Mt.25:41; 2Tm.4;1), mas os mortos já estão no Céu
ou no inferno muito antes disso, então eles estariam lá sem serem julgados ou, então,
haveria dois julgamentos, mas Hebreus 9:27 traz o juízo no singular. Cada pessoa é julgada
apenas uma única vez. Ninguém é levado ao Céu ou ao inferno antes do juízo, e este só
acontecerá na volta de Cristo.
Por conseguinte, os mortos antes disso não podem estar no Céu ou no inferno. Estão
literalmente mortos, na sepultura, e só serão ressuscitados na volta de Cristo quando serão
julgados. Um só julgamento, logo após serem ressuscitados, e só depois de serem julgados
irão para o Céu ou para o inferno. Uma lógica simples e coerente, mas do lado dos
imortalistas é preciso muita imaginação para sustentar a doutrina da imortalidade da alma à
luz da doutrina do juízo.
Para deixar um pouco mais claro, vamos enumerar as premissas:
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 278
(1) Existe um só juízo.
(2) Esse juízo é somente na volta de Cristo.
(3) Ninguém é lançado no Céu ou no inferno sem antes ser julgado.
(4) Por conseguinte, concluímos que não existe vida antes da ressurreição dentre os mortos
quando todos serão julgados.
Vamos fortalecer um pouco mais os dois primeiros pontos e mostrar à luz da Bíblia Sagrada
a questão relativa ao Juízo:
1. Existe um só juízo. Esse é um fato evidente que a Bíblia deixa mais do que claro. Em
primeiro lugar, nunca na Bíblia inteira é mencionada qualquer pessoa passando por dois
juízos. O juízo é apenas um porque não pode ser revogado. Além disso, Hebreus 9:27 traz
“juízo” no singular. Existe um único juízo.
Também em Mateus 10:25, em Mateus 11:22, em Mateus 11:24, em Mateus 12:36, em
Mateus 12:41, em Mateus 12:42, em Lucas 10:14, em Lucas 11:31, em Lucas 11:32, em
João 5:29, em João 9:39, em João 12:8, em João 12:11, em Atos 24:25, em Hebreus 6:2,
em Hebreus 9:27, em Tiago 2:23, em 2ª Pedro 2:4, em 2ª Pedro 2:9, em 2ª Pedro 3:7, em
1ª João 14:17, em todas essas passagens o juízo vem no singular.
Apenas um péssimo leitor da Bíblia seria capaz de negar o fato inteiramente claro e óbvio
de que existe um único juízo para cada pessoa. Juízo este que não pode ser revogado e
nem alterado, por isso mesmo é chamado de “juízo eterno”. Que os mortos não foram
julgados fica ainda mais claro à luz de Atos 7:31, que diz: “Porquanto tem determinado um
dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso
deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. Esse dia não chegou ainda. Note
que o verbo está no futuro: “há de julgar” – ou seja, o juízo ainda não se concretizou e,
portanto, os mortos não foram julgados para entrarem no Céu ou no inferno. Tal juízo
ocorre é na segunda vinda de Cristo, como veremos a seguir.
2. Esse juízo é somente na volta de Cristo. Esse juízo a Bíblia afirma que acontece
exatamente no momento da segunda vinda de Cristo. Em Mateus 25, a partir do verso 31, o
Senhor Jesus fala sobre esse juízo, e diz quando ele será efetuado: “Quando o Filho do
Homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória
celestial” (cf. Mt.25:31). Trata-se a uma referência clara à volta gloriosa de Cristo. Também
no contexto lemos: “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Venham, benditos de
meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo”
(cf. Mt.25:32).
Veja que os justos só entram na herança depois deste juízo, que acontece na revelação
gloriosa de Cristo. Na epístola à Timóteo, Paulo afirma tal fato categoricamente: “Na
presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos pela sua vinda e
por seu Reino” (cf. 2Tm.4:1). Clareza maior do que essa é impossível: “há de julgar...
pela sua vinda”! "Há de julgar" denota que o juízo não aconteceu ainda, mas é um evento
futuro, ao passo que "na sua vinda" mostra quando é que esse juízo acontecerá.
Importante também é ressaltar que é só depois deste julgamento que os santos serão
recebidos no Reino (cf. Mt.25:32). Se ao morrerem as suas almas imortais já tivessem
partido para o Paraíso (sem serem julgadas e nem nada, contrariando inclusive Hebreus
9:27), então os santos já teriam sido recebidos no Reino. O fato é que este julgamento só
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 279
acontece na segunda vinda de Cristo. Isso explica o porquê que Paulo esperava que
Onesíforo encontrasse a misericórdia da parte do Senhor “naquele dia” (cf. 2Tm.1:16-18).
Se os mortos já estivessem sido julgados estando no Céu ou no inferno como pregam os
imortalistas, então Onesíforo já teria encontrado a misericórdia da parte do Senhor. No
próprio livro de Apocalipse lemos que o juízo só vem após o término de todos os
acontecimentos finais, após a segunda vinda de Cristo e a ressurreição: “Vi também os
mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi
aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito,
segundo o que estava registrado nos livros” (cf. Ap.20:12).
3. Ninguém é lançado no Céu ou no inferno sem antes ser julgado. Já vimos nos dois
últimos pontos que existe um único juízo para cada pessoa, e este juízo começa apenas na
segunda vinda de Cristo. Obviamente, ninguém seria condenado sem ser julgado primeiro.
Se os ímpios já estivessem queimando no inferno, seria totalmente desnecessário um juízo
na volta de Cristo já que eles já estão lá, não podem sair de lá, e vão continuar lá do
mesmo jeito. Isso prova que eles não estão queimando ainda. O castigo não está ainda
ocorrendo, não havendo esse fogo devorador senão por ocasião da revelação de Cristo
“naquele dia”, o dia da segunda vinda de Cristo (cf. 2Ts.2:7-10).
O fato é que existe um só juízo (cf. Mt.10:25; Mt.11:22; Mt.11:24; Mt.12:36; Mt.12:41;
Mt.12:42; Lc.10:14Lc.11:31; Lc.11:32; Jo.5:29; Jo.9:39; Jo.12:8Jo.12:11; At.24:25;
Hb.6:2; Hb.9:27, Tg.2:23; 2Pe.2:4; 2Pe.2:9; 2Pe.3:7; 1Jo.14:17), esse juízo após a
morte (cf. Hebreus 9:27), sendo na volta de Cristo (cf. Mt.25:31; Ap.20:12; 2Tm.4;1;
At.7:31), só depois deste juízo que os mortos receberão a merecida recompensa
(cf. Mt.16:27; Ap.22:12; Dn.12:13), e se os ímpios já estivessem queimando no inferno,
seria totalmente desnecessário um juízo na volta de Cristo já que eles já estão lá, não
podem sair de lá, e vão continuar lá do mesmo jeito. Ninguém é lançado no Céu ou no
inferno sem ser julgado primeiro!
- Por conseguinte, concluímos que não existe vida antes da ressurreição dentre os mortos
quando justos e ímpios serão julgados, para entrarem no Paraíso ou para serem punidos.
Os ímpios não vão estar sendo castigados no inferno sem nem ao menos serem julgados
primeiro, para depois sair e ir para o julgamento e voltar a queimar novamente. Tal
doutrina (de estado intermediário) não se harmoniza com a doutrina do juízo.
Poderíamos sustentar as premissas de várias maneiras provando que a doutrina do juízo
não se harmoniza com a imortalidade em um estado intermediário. Alguns meios que são
legítimos pelo que vimos até aqui:
(1) Depois da morte vem em seguida o juízo, e não o Céu ou o inferno (cf. Hb.9:27).
(2) Este juízo é único e ocorre somente na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1).
(3) Logo, os mortos não estão atualmente no Céu ou no inferno.
As duas primeiras premissas são fatos que nós já vimos até aqui, amplamente declarados
na Bíblia, e a terceira é a conclusão lógica das premissas. É muito claro que os apóstolos
tinham a convicção de que o estado entre a morte e a ressurreição era um estado
realmente de morte (sem vida) e, por isso, um estado atemporal. Não existe lapso de
tempo entre a morte e a ressurreição.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 280
É por isso que o escritor de Hebreus afirma que para quem morreu vem em seguida o juízo
(cf. Hb.9:27), apesar deste juízo ser somente na segunda vinda do Senhor (cf. 1Tm.4:1).
Se o estado intermediário fosse um estado temporal, então existiriam milhares de anos no
Céu ou no inferno antes da ocasião do juízo; em outras palavras, depois da morte não
haveria o juízo! É óbvio que este estado é, como vimos, atemporal, não-existente.
Morreu e vem o juízo, apesar de ser somente na volta de Jesus.
Sendo que em um estado atemporal não existe tempo, segue-se que, morrendo, vem em
seguida o juízo, que no estado temporal é claramente relacionado à segunda vinda do
Senhor, o Cristo. Para quem está literalmente morto (i.e, sem vida) não existe tempo e
espaço, e a passagem da vida terrena para a ressurreição é, realmente, como em um abrir
e fechar de olhos, quando seremos ressuscitados e julgados para estar com Cristo. Isso é
muito evidente quando comparamos a declaração de Hebreus 9:27 em relação à doutrina
do juízo registrada na Bíblia Sagrada.
Outra maneira simples de desclassificarmos a doutrina da imortalidade da alma em frente à
doutrina do juízo:
(1) Existe um só juízo para cada pessoa.
(2) Se alguém é lançado no fogo do inferno, pressupõe que tenha sido julgado para isso.
(3) Contudo, o juízo somente vem a ocorrer na segunda vinda de Cristo.
(4) Logo, os mortos estão literalmente mortos (i.e, sem vida) esperando serem
ressuscitados para aí sim serem julgados para então entrarem na vida ou na condenação.
Novamente todas as premissas são confirmadas biblicamente, como já vimos acima. A
premissa número dois apresenta uma lógica incontestável de que para alguém ir para o
fogo do inferno é bem presumível que, realmente, deva ter passado por um juízo para isso.
Afinal, o nosso Deus é um Deus justo, que não iria de forma alguma condenar alguém sem
ter sido julgado para isso! Deus julga, e depois condena.
A salvação ou perdição não precedem o juízo porque na própria continuação da passagem o
autor de Hebreus evidencia que a salvação sucede (e não “antecede”) o juízo: “Da mesma
forma, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e depois disso enfrentar o
juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados
de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos
que o aguardam” (cf. Hb.9:27,28).
Portanto, fica claro que não existe um “estado intermediário das almas”, pois o juízo para a
separação entre justos e injustos só ocorre na segunda vinda de Cristo e a salvação não
precede o juízo. Se as pessoas já estivessem no Céu neste “estado intermediário” (ou em
algum outro lugar entre os salvos) então ela já estaria salva e, portanto, a salvação
precederia o juízo, o que é claramente negado pelo autor de Hebreus (cf. Hb.9:28)! Os que
“o aguardam” não estavam já entre os salvos, pois se fosse assim Cristo não teria que
“trazer salvação” a eles! A lógica desmente completamente a lenda da imortalidade da
alma.
Também João afirma que “nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no dia do juízo
tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos também nós neste mundo" (cf. 1Jo.4:17).
Por que ele acentua essa confiança “no dia do juízo” e não no dia da morte, quando a
suposta “alma imortal” iria partir para o Céu? Ou o salvo morrendo já teria a sua sorte
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 281
definida entre os salvos, ali permanecendo esperando o dia do dia do juízo para saber se
serão salvos ou não, embora já certos de que sim!
Ora, o crente que morre só ganha (efetivamente) a salvação para desfrutá-la na segunda
vinda de Cristo (cf. Hb.9:27,28), e não em um “estado intermediário”, e a expectativa
sendo lançada para o Dia do Juízo seria inútil em caso que a alma já fosse salva ou
condenada logo no momento da morte. Esperaríamos justamente o inverso, isto é, que a
expectativa para saber se seremos ou não salvos fosse logo na morte e não no juízo que só
vem a acontecer na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1; At.7:31). Quando assumimos a posição de
mortalidade fazemos como João – colocamos o Dia do Juízo sendo o “clímax” da história;
quando, porém, a “imortalidade da alma” entra no Cristianismo, esse Dia deixa de ser o
centro do palco.
Poderíamos também argumentar de outra maneira, se preferíssemos:
(1) Se os ímpios já estivessem no inferno e os justos no Céu, não precisariam ser julgados
para permanecerem no mesmo lugar do mesmo jeito, já que a ida ao Céu ou ao inferno é
algo definitivo e irreversível.
(2) O juízo é somente na segunda vinda de Cristo.
(3) Pressupõe-se logicamente, portanto, que os mortos não estão na vida ou na
condenação antes do momento do juízo.
Nestas últimas premissas, o ponto-chave está fundamentado sobre a lógica da primeira
premissa, de que é algo que vai frontalmente contra a lógica ter que sair do Céu ou do
inferno para ser julgado e depois permanecer no Céu ou no inferno do mesmo jeito que
antes. Isso, além de não fazer lógica nem ter qualquer sentido, faz do Dia do Julgamento
algo presumível e sem razão de ser. Esperaríamos justamente o contrário, isto é, que os
mortos fossem julgados e, depois, encaminhados ou para a vida ou para a condenação, em
seus destinos finais de acordo com o que as suas obras fizeram por merecer.
Essa é uma lógica muito simples, que nos faz desacreditar na doutrina imortalista, uma vez
que apresentaria um choque de lógica irreversível. É impossível que a sabedoria divina
apresentar-se-ia de maneira tão confusa, de fazer um juízo depois de todos já serem
condenados ou terem ido para a vida, e depois do juízo voltar para o inferno ou voltar para
o Céu do mesmo jeito que estava antes.
Como já foi colocado aqui, os ímpios não vão estar sendo castigados no inferno sem nem ao
menos serem julgados primeiro, para depois saírem e irem para o julgamento para em
seguida voltarem a queimar novamente; e, se os ímpios já estivessem queimando no
inferno, seria totalmente desnecessário um juízo na volta de Cristo já que eles já estão lá,
não podem sair de lá, e vão continuar lá do mesmo jeito.
Mais importante ainda do que os fatos expostos acima que desqualificam a doutrina da
imortalidade em frente à doutrina do juízo é o que o autor da carta aos Hebreus escreve
logo em seguida do verso em que aqui colocamos: “Da mesma forma, como aos homens
está ordenado morrerem uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo
foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 282
segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam”
(cf. Hebreus 9:27,28)
Assim como na ordem natural o homem morre uma só vez (v.27 – em consequência do
pecado – cf. Rm.5:12), também Cristo morreu uma só vez como sacrifício pelo pecado
(v.28). E assim como, depois da morte, o homem enfrenta o juízo, também Cristo
aparecerá de novo, trazendo a salvação para os que o aguardam.
Aqui mora mais uma chave para compreendermos o teor da negação à doutrina imortalista
em frente à carta aos Hebreus e à doutrina do juízo: os que lhe aguardam (v.28), que
morreram vindo em seguida o juízo (v.27) [que ocorre na segunda vinda de Cristo – cf.
2Tm.4:1], não estão já salvos atualmente desfrutando das bênçãos paradisíacas, mas, ao
contrário, aguardam a segunda vinda do Senhor para aí sim serem salvos.
Se os mortos já estivessem no Céu então eles já teriam encontrado a salvação. Deus não
teria a necessidade de “trazer a salvação” para alguém que já está entre os salvos. Do início
ao fim, a doutrina do juízo nega de forma mais do que clara e precisa a doutrina da
sobrevivência da alma em um estado intermediário dos mortos antes da ressurreição geral.
Eles estão esperando por nós – “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua
fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido
coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados”
(cf. Hb.11:39,40). Os heróis da fé ainda não obtiveram a concretização da promessa, pois
Deus não quer que sem nós eles sejam aperfeiçoados. Qual é essa promessa, de acordo
com o contexto? O contexto deixa claro que a “concretização da promessa” é a entrada no
Paraíso, na cidade celestial (cf. Hb.11:10; Hb.11:16; Hb.11:26), como também é dito
claramente no verso 16:
“Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa
razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade”
(cf. Hebreus 11:16)
E todos esses “heróis da fé”, dos quais o autor de Hebreus trata no capítulo 11, não
obtiveram ainda a promessa. Eles esperam superior ressurreição, como é dito no
verso 35: “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram
torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição”. O verso 39
deixa claro que eles não obtiveram a concretização da promessa (de entrar no Paraíso – cf.
11:16), e o verso seguinte explica o porquê de eles não terem ainda entrado nos Céus, “por
haver Deus provido coisa superior a nossa respeito”, e “para que eles, sem nós, não sejam
aperfeiçoados”.
Eles [os mortos] só entrarão na Jerusalém celestial quando nós [os vivos] formos junto com
eles, eles não entram antes de nós! Pelo contrário, eles “esperam superior ressurreição”,
como é dito claramente no verso 35, e entram na pátria celestial ao mesmo passo nosso,
pois eles sem nós não são aperfeiçoados nem obtêm a concretização da promessa.
Os que morreram não obtêm a concretização da promessa após a morte, por Deus haver
provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados!
Note que Paulo, em 1ª Tessalonicenses 4:15, usa o mesmo pronome na primeira pessoa do
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 283
plural quando se refere aos vivos que seriam arrebatados por ocasião da volta de [“nós, os
vivos”]; com os heróis da fé não é diferente, eles não obtêm a concretização da promessa
senão quando "nós", ou seja, os vivos da época da volta de Cristo, formos ajuntados para
entrar na Cidade Celestial ao mesmo tempo daqueles que já morreram.
Pois é apenas desta forma que os heróis da fé que já morreram alcançam a promessa:
quando todos forem ajuntados ao mesmo tempo, sem distinção, sem prioridade entre
mortos e vivos por ocasião da volta de Cristo. A segunda vinda do Senhor não é um bem
apenas aos vivos para entrar no Céu, mas também aos próprios mortos, pois da mesma
maneira que os vivos só entram no Céu na Sua Vinda, o mesmo se dá para os que já
morreram (cf. 1Ts.4:15; Hb.11:39,40).
Isso é o que significa colocar a volta de Cristo totalmente no centro do palco! Os que
pregam que o autor da epístola aos Hebreus, contraditoriamente, ensinava a doutrina da
imortalidade da alma, apregoam o texto de Hebreus 12:23, que diz: “à igreja dos
primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus juiz de todos os
homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. Contudo, basta analisarmos o contexto
para vermos o quão equivocada está a interpretação dualista e deixarmos o texto fluir
livremente, a partir dos versos anteriores e seguintes:
“Mas vocês [hebreus] chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus
vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos
primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos
os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de uma nova aliança,
e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf. Hebreus 12:22-24)
O autor começa falando de uma santificação sem a qual ninguém verá a Deus (v.14), alerta
para seus leitores não serem como Esaú que vendeu a benção de Deus, e de como o povo
pecou no pé do Sinai. Então a partir do v.22 começa a elogiar os hebreus a quem ele
escrevia, e nessa seção de elogio consta que eles já haviam chegado à Jerusalém celestial
(espiritualmente), chegaram também ao acesso dos anjos, faziam parte da mesma igreja
dos primogênitos, que assim como eles estão inscritos no céus (livro da vida), alcançaram a
Deus, alcançaram a Jesus, estão no mesmo patamar daqueles que tiveram seus espíritos
aperfeiçoados (estatura de varão perfeito), dos quais ele menciona em todo o capítulo 11,
aqueles ao qual o autor se referia estavam no mesmo nível dos justos patriarcas.
O autor não poderia estar falando que os justos que morreram já estão aperfeiçoados no
Céu, pelo simples fato de que, como vimos, ele declara taxativamente o contrário alguns
versos antes:
"Por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles [os patriarcas
mortos do cap.11], sem nós [os vivos], não fossem aperfeiçoados" (cf. Hb.11:40)
Ou seja, os heróis da fé ainda aguardam o aperfeiçoamento total de suas vidas. O texto
deixa claro que esse aperfeiçoamento será em conjunto com os outros santos (nós), e
ocorrerá somente como Jesus predisse (cf. Jo.6:44), num abrir e fechar de olhos (cf.
1Co.15:52), no último dia, o da Sua volta e não antes disso.
O que o autor de Hebreus estava colocando era uma verdade espiritual e não um fato
material. Os hebreus não haviam chegado literalmente aos milhares de anjos, por exemplo.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 284
É como quando Paulo escreve que Deus nos “resgatou do domínio das trevas e nos
transportou para o Reino do seu Filho amado” (cf. Cl.1:13). Essa é uma grande verdade
espiritual; embora nós materialmente continuamos nesta terra no mesmo lugar antes e
depois de recebermos a Cristo em nossos corações, nós espiritualmente estávamos no
Reino das Trevas antes de conhecer a Cristo.
Materialmente falando, a nossa união com eles se dará por ocasião da ressurreição (cf.
1Ts.4:15), como o próprio autor de Hebreus escreve que eles ainda não foram
aperfeiçoados (cf. Hb.11:39,40). É só neste momento que eles entram no Céu sendo
aperfeiçoados, pois “eles sem nós não alcançam a promessa”. Ademais, não nos é dito que
os primogênitos estão nos céus, mas sim que os seus nomes estão nos céus. Isso é muito
significativo, porque nós temos os nossos nomes inscritos no Céu em vida e não depois que
morremos:
“E peço-te também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que
trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os outros cooperadores, cujos
nomes estão no livro da vida” (cf. Filipenses 4:3)
Veja que eles já estavam com os seus nomes inscritos no Céu, no livro da vida. Paulo não
escreve “estará” {no futuro}, mas sim “estão” {no presente momento}. Cristo também diz
que nós temos os nossos nomes escritos nos céus no presente momento (cf. Lc.10:20).
Portanto, a menção de Hebreus 12:23 diz respeito a pessoas vivas, e não a mortos!
Finalmente, se o autor de Hebreus quisesse realmente passar a informação de que as
próprias pessoas estão nos Céus, então ele diria que eles “estão nos céus”; contudo, ele
diz que “cujos nomes... estão nos céus”! Isso é muito importante, pois os nomes são
escritos enquanto as pessoas estão vivas e, por isso, não são as próprias pessoas, mas sim
os seus nomes que estão nos céus. Se o autor de Hebreus fosse imortalista, certamente
teria dito que eram os próprios primogênitos que estavam no Céu.
Outra passagem igualmente utilizada na tentativa de se provar a vida após a morte na
epístola aos Hebreus encontra-se no verso 4 de Hebreus 11, que diz:
“Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício superior ao de Caim. Pela fé ele foi reconhecido
como justo, quando Deus aprovou as suas ofertas. Embora esteja morto, por meio da fé
ainda fala” (cf. Hebreus 11:4)
Mas vemos que eles falham aqui exatamente no mesmo ponto do anterior: não é a “alma”
de Abel que ainda fala, mas sim a sua fé! É o seu exemplo e dedicação de fé que nos serve
de exemplo e ensino até os dias de hoje. Seu ato ainda fala! O ato de Abel foi um ato de
adoração a Deus: pela fé ele apresentou a Deus um culto mais aceitável e excelente em
relação a Caim. É evidente que se fosse o próprio Abel que falasse, então bastaria que o
autor de Hebreus registrasse que “ele [Abel], mesmo morto, ainda fala” – e “fim de papo”!
Mas, uma vez que ele de fato não acreditava que Abel já estivesse vivo em algum lugar,
então teve que dizer que foi o seu ato de fé que fala a nós. Não é o próprio Abel, e muito
menos a “alma” dele que fala! O mesmo autor escreve na mesma epístola que o sangue de
Abel fala (cf. Hb.12:24). Não é “estranho” que sempre seja “a fé”, “o sangue” ou os
"nomes”, e não a própria “alma” ou “espírito" que estejam vivos ou falem?
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 285
Morreram, e mesmo assim não alcançaram a promessa – Neste mesmo contexto vemos o
autor de Hebreus colocando algo semelhante ao que ele relata nos versos 39 e 40: “Todos
estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e
crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra”
(Hb.11:13). Aqui vemos que, mesmo morrendo, eles ainda não alcançaram a promessa! A
versão católica da CNBB assim reza: “Todos estes morreram firmes na fé. Não chegaram a
desfrutar a realização da promessa, mas puderam vê-la e saudá-la de longe e se
declararam estrangeiros e peregrinos na terra que habitavam” (cf. Hb.11:13).
Temos sempre que lembrar que a “promessa” que o autor de Hebreus se refere é
exatamente a cidade celestial junto a Deus (cf. Hb.11:10; Hb.11:16; Hb.11:26). Mesmo
depois de morrerem {estando na fé}, eles não alcançaram a promessa! Ora, se a morte
introduzisse as suas almas direto na presença de Deus, então eles já teriam alcançado a
promessa na morte, que seria a própria estadia celestial. O que vemos, contudo, é
exatamente o inverso disso, eles morreram e não alcançaram a promessa, eles a viram
(“saudaram”) pelos olhos da fé, vendo-a de longe, mas sem a alcançar!
É impossível que as promessas ali relatadas tratem-se apenas de seus objetivos terrenos,
porque com relação a promessas terrenas eles já haviam alcançado as promessas (cf.
Hb.11:13). É inequívoco, então, que realmente tratam-se das promessas espirituais, da
“cidade que tem fundamentos” (cf. Hb.11:10), como é ressaltado por todo o contexto (cf.
Hb.11:10; Hb.11:16; Hb.11:26).
Vemos, portanto, que a morte não foi o passaporte direto para a presença de Deus no Céu
(como erroneamente pensam os defensores da alma imortal). O autor nunca diz em parte
nenhuma de sua carta que “eles já receberam a promessa”; pelo contrário, diz
exatamente o inverso disso: “morreram sem receber as promessas”; “não chegaram a
desfrutar da realização das promessas"; “não obtiveram a realização da promessa”; “eles
sem nós não são aperfeiçoados”, etc (cf. Hb.11:39; Hb.11:40; Hb.11:13).
Se os pais da fé já tivessem no Céu na época em que o escritor de Hebreus relatava tais
fatos, então seria imprescindível que ele narrasse este fato tão importante na teologia da
imortalidade da alma. Isso seria de fundamental importância pelo contexto, deixando claro
que depois de todos os seus esforços e lutas aqui na terra eles finalmente alcançaram a
promessa da cidade celestial. Contudo, tal colocação não é levantada em parte nenhuma ,
pelo simples fato de que eles, realmente, ainda não alcançaram a cidade que tem
fundamentos, mas esperam a concretização da promessa.
Eles não estão na pátria celestial – Um outro ponto importante com relação aos heróis da fé
é que é nos dito ainda mais enfaticamente que eles, de fato, ainda não estão na cidade
celestial, como podemos ver ao longo de todo o contexto:
Hebreus 11
13 Foi na fé que todos {nossos pais} morreram. Embora sem atingir o que lhes tinha
sido prometido, viram-no e o saudaram de longe, confessando que eram só estrangeiros e
peregrinos sobre a terra.
14 Porque, os que isto dizem, claramente mostram que buscam uma pátria.
15 E se se referissem àquela donde saíram, ocasião teriam de tornar a ela...
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 286
16 Mas não. Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, à celestial. Por isso, Deus não se
dedigna de ser chamado o seu Deus; de fato, ele lhes preparou uma cidade.
Aqui vemos a confirmação de que os heróis da fé, de fato, não estão na pátria. Isso porque
eles “buscam uma pátria” (v.14). Ora, se eles buscam uma pátria, então eles não estão
nesta pátria! Tal lógica simples desmente em absoluto que eles já estejam no Céu, porque o
mesmo contexto nos mostra que tal “pátria” refere-se exatamente a cidade celestial (v.16).
Se você busca por algo é porque você não possui tal coisa, mas ainda deseja alcançá-la.
É exatamente esta a situação dos heróis da fé: eles não alcançaram ainda tal pátria, não
estão nela, mas anseiam e desejam tomar posse dela. Por isso, eles buscam uma pátria, e
não estão em alguma pátria! O verso 13 traduz praticamente tudo o que nós estamos
dizendo aqui: “Embora sem atingir o que lhes tinha sido prometido...”; ou seja, eles
não atingiram tal pátria, e a analogia nos mostra a tipificação com a pátria celestial (v.16),
na qual eles não estão ainda.
Deus lhes “preparou” esta cidade (v.16). A cidade está preparada para eles entrarem; eles
não entraram ainda, mas aguardam tal concretização da promessa para que “conosco eles
sejam aperfeiçoados” (v.40). Tal união entre os heróis da fé e os outros salvos concretiza-
se exatamente neste momento tão esperado, tão desejado, momento este que se dá na
volta do Senhor deles e nosso, o Salvador, o Cristo, na superior ressurreição dentre os
mortos.
O autor de Hebreus faz questão de relatar que eles não então na pátria celestial (doutro
modo teria dito abertamente isso), mas sim que esta cidade lhes está “preparada” para o
dia em que irão entrar. A cidade está preparada não apenas para nós, mas também para
eles, para que juntamente atinjamos o que nos foi prometido, a promessa de uma pátria
suprema, isto é, a celestial.
Focando-se na esperança da ressurreição – “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus
mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior
ressurreição” (cf. Hb.11:35). A passagem é bem clara em dizer que o motivo pelo qual
eles suportaram a tortura e a perseguição foi a esperança de obterem uma superior
ressurreição, e não da alma partindo imediatamente para o Céu por ocasião da morte. Isso
seria muito estranho caso existisse a imortalidade da alma. Esperar-se-ia o contrário, isto é,
que eles morressem esperando que as suas almas já partissem para o Céu para receber sua
herança.
Contudo, eles morreram foi “para obterem superior ressurreição”. Foi pela ressurreição dos
mortos que eles aceitaram a tortura e a perseguição, pelo simples fato de que é na
ressurreição em que finalmente entraremos no Reino prometido do Pai. Se existisse a
imortalidade da alma, eles morreriam esperando que as suas almas imortais partissem
imediatamente para o Céu, o que seria o mais importante, e a ressurreição se limitaria
apenas a obter novamente um corpo para continuar no Céu do mesmo jeito. Obviamente,
essa visão estava longe de se comparar àquela que os mártires tinham próximos da morte.
Contraste entre Cristo e os homens mortais – “No primeiro caso, os que recebem os dízimos
são homens mortais; lá, porém, se trata de alguém do qual se declara que vive” (cf.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 287
Hb.7:8). Aqui contrasta-se “homens mortais” com aquele vive [atualmente] – Cristo. Este
versículo simplesmente não faz lógica para os imortalistas. Em primeiro lugar, porque os
que recebem o dízimo “no primeiro caso” (pelo contexto, os levitas – cf. Hb.7:5,6) também
deveriam estar vivos assim como Cristo, pois seriam imortais através de uma alma eterna
que lhes teria sido supostamente implantada.
Em segundo lugar, o contraste que faz o autor de Hebreus é muito claro: Jesus é aquele
“que se declara que vive”, ao contrário dos demais homens! Ora, se existisse a
imortalidade da alma então aqueles homens também estariam vivos e, portanto, o
contraste ali apresentado seria nulo e sem sentido. Novamente vemos a distinção entre
Cristo e os outros que já morreram, assim como a antítese entre Cristo e Davi (cf. At.2:34),
e entre Cristo e os demais (cf. At.19:25), vemos também aqui o fato de que os homens são
mortais, mas Cristo vive!
O texto original do grego traz: “apothnesko anthropos” – homens mortais – e, em
seguida, aplica os termos gregos: “ekei de” – lá, porém. Veja que o autor faz questão de
ressaltar o caráter de um contraste. A última palavra deixa claro uma condição: “mas;
porém; contudo”. Ele ressalta um nítido contraste, uma antítese, entre um grupo (levitas) e
o outro (Cristo). Após ressaltar que estava elaborando um contraste entre um e outro
grupo, ele declara que a respeito de Cristo: “marturoumenos oti zê" – testemunha que
vive.
Em outras palavras, dado o devido contraste, Cristo continua vivo e os outros não; à Cristo
se declara que vive, aos outros homens se declara que são mortais; é muito claro a partir
deste versículo que Cristo está atualmente vivo, ao contrário dos demais homens. Aqui são
homens que estão mortos; lá, porém, trata-se de alguém que está vivo. Embora na
teologia imortalista todos os que morreram já estão vivos em algum lugar (até mesmo
junto com o próprio Cristo), o autor de Hebreus faz o contraste e distinção entre ambos – lá
estão mortos, aqui está vivo!
Isso provém do fato de que Jesus já ressuscitou antes (cf. 1Co.15:22,23) e, por isso, vive.
Os outros, contudo, esperam a ressurreição (sem vida), o que explica o nítido contraste
feito pelo escritor de Hebreus, entre o Cristo vivo e os demais mortos. Se tanto Cristo
quanto os outros homens que morreram estivessem todos vivos, então a antítese perderia
completamente o seu sentido. Só entende esta passagem quem realmente crê que não
existe vida entre a morte e a ressurreição, sendo a morte o fim da existência. A passagem
é uma prova incontestável de que Cristo está vivo e os outros do “primeiro caso”
estão, realmente, mortos - sem vida.
Antítese entre os que morrem e o que permanece eternamente – “E, na verdade, aqueles
foram feitos sacerdotes em grande número, porque pela morte foram impedidos de
permanecer. Mas este, visto que vive para sempre, Jesus tem um sacerdócio
permanente. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a
Deus, pois vive para sempre para interceder por eles” (cf. Hb.7:23-25). Aqui vemos que o
motivo pelo qual Cristo tem um sacerdócio perpétuo provém do fato de que ele permanece
[vivo] para sempre!
Ora, se os homens subsistissem fora do corpo em estado desencarnado por meio de uma
alma imortal, segue-se então que eles também permaneceriam para sempre. Novamente,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 288
vemos como é confusa a doutrina imortalista, porque de novo faz com que o contraste feito
pelo escritor seja fútil, sem sentido, pois ambos permaneceriam para sempre. Se Cristo
permanecesse vivo para sempre e os outros também, isso não seria antítese coisa
nenhuma. Isso ignora completamente o contexto bíblico e o fato de ele aplicar a partícula
grega “de” – mas; contudo; entretanto.
É muito claro que se trata de uma antítese, de um contraste entre o Cristo que está vivo e
os demais que estão mortos. Se seguimos a lógica incontestável de que os que já morreram
realmente estão sem vida (pois não existe forma de vida consciente entre a morte e a
ressurreição), então tudo começa a fazer sentido. A morte os impede de permanecer
(v.23); mas Cristo vive para sempre (v.25), porque tem um sacerdócio perpétuo
proviniente do fato de que permence vivo eternamente (v.24)!
Novamente, vemos que toda a antítese aqui feita revela-nos que a doutrina da alma imortal
não bate com o que é nos dito. Afinal, os dois grupos viveriam para sempre e os dois
grupos permaneceriam eternamente vivos. Isso significa contrariar o pensamento do autor,
que segue uma lógica incontestável: Cristo está vivo; os demais, mortos.
Conclusão – Seguindo a linha de raciocínio bíblico holista, o autor da epístola aos Hebreus
refuta vigorosamente a tese de imortalidade da alma em um estado intermediário. Afinal, se
isso fosse uma realidade, então os heróis da fé do passado já haveriam alcançado a
promessa, algo que não somente ele não diz em parte nenhuma da epístola, como também
faz questão de ressaltar o fato de que eles não alcançaram a promessa (cf. Hb.11:39,40).
Nem mesmo com a morte eles alcançaram a promessa (cf. Hb.11:13), o que nos mostra
que a morte não implica na libertação da alma direto à presença de Deus. Se tal fosse o
caso, eles já teriam alcançado a promessa e a morte introduziria eles direto ao Céu, algo
que o autor de Hebreus nega (cf. Hb.11:13; 11:39,40).
Ademais, o fato de o juízo suceder o momento da morte (cf. Hb.9:27) e este juízo só ser na
segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1) nos mostra que os mortos não podem já estar no
Céu ou no inferno, uma vez que não é isso o que sucede a morte (mas sim o juízo na volta
do Senhor) e que presumivelmente para alguma pessoa ser lançada no fogo deve ter
passado primeiramente por uma condenação, algo que também é negado biblicamente que
já tenha acontecido (cf. At.17:41; 1Pe.4:5; Jo.5:28,29).
Em todo o livro de Hebreus, vemos que toda a “confiança que nós temos” (cf. Hb.10:35) e
que “será ricamente recompensada” (v.35) se dará não quando nós morrermos e as nossas
almas partirem para o Céu, mas sim quando “em breve, muito em breve, Aquele que vem
virá, e não demorará” (v.37), e aí sim receberemos o que Ele nos prometeu (v.36), porque
é somente neste momento em que os mortos serão ressuscitados (cf. 1Co.15;22,23).
Em Hebreus 11:35, vemos que o motivo pelo qual alguns deles aceitaram a tortura foi
visando uma superior ressurreição, e não a “esperança” de suas almas estarem de
imediato no Céu em um “estado intermediário”. A ressurreição deveria ser a única
esperança para o cristão obter vida novamente e imortalidade, algo que também é muito
ressaltado por Paulo ao longo de todo capítulo de 1ª Coríntios 15. Ademais, é nos feito um
contraste entre Cristo – que vive – e os homens mortais (cf. Hb.7:8).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 289
Uma vez que o autor de Hebreus está claramente intitulando uma antítese, segue-se que
não há como os “homens mortais” estarem vivos (pois se fosse assim não seria um
contraste!). Pouco mais a frente e lemos também que “ele [Cristo] pode também salvar
perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para interceder por
eles” (cf. Hb.7:25). Novamente vemos o contraste aqui acentuado, entre aqueles que
perecem pela morte (v.23) e aquele que permanece para sempre (v.24), Cristo! Por tudo
isso, diante de tudo o que já constatamos até aqui pelos Pais da Igreja, pelo Antigo
Testamento, pelos ensinamentos de Jesus, de Paulo e agora também pelo autor de
Hebreus, a tese pagã da imortalidade da alma permanece sendo uma grande lenda quando
tratamos de Cristianismo bíblico.
XXV–Pedro pregou a Imortalidade da Alma?
Jesus foi ao inferno pregar aos antediluvianos? – Uma passagem bastante utilizada para
colocar Jesus no inferno (sim, vale tudo para defender a imortalidade da alma...) se
encontra na primeira epístola de Pedro. O texto bíblico assim narra: “Cristo morreu, uma
única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na
carne, mas vivificado no Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os
quais noutro tempo foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos
dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram
salvos, através da água” (cf. 1Pe.3:18-21).
Por isso, grande parte dos imortalistas pregam que entre a morte e a ressurreição Jesus foi
para o inferno, selecionou os espíritos dos antediluvianos dos dias de Noé, e lhes fez uma
pregação. Há muitos problemas com essa interpretação. Em primeiro lugar, o ensino bíblico
em sua totalidade nega qualquer oportunidade de salvação para os mortos, pois ela é
restrita apenas a esta vida (cf. 2Co.6:1,2; Hb.3:13; Hb.9:27, etc.).
Logo, Cristo não poderia ter pregado para pessoas mortas, pois elas não podem mais se
arrepender e sair do lugar de condenação para o lugar de conforto. Dizer que Cristo
literalmente desceu para o inferno, a fim de fazer uma pregação para pessoas já mortas e
condenadas é, além de colocar o Senhor Jesus em um lugar que ele não merece, ferir a
Bíblia que afirma categoricamente que os mortos não tem uma segunda oportunidade de
salvação, tornando assim vã qualquer pregação.
Em segundo lugar, uma vez que os mortos não poderiam mais sair daquele lugar de
tormento, então qualquer pregação de Cristo, independente de qual fosse o teor, seria
inútil, uma vez que aqueles perdidos não poderiam sair de lá jamais. Se os mortos que se
encontravam no inferno, ou no Hades, não poderiam sair de lá mesmo, não importa qual
fosse a pregação, então podemos até especular sobre como devia ter sido a tal da
“pregação”:
“Eis que vos trago ‘boas novas’ de grande desespero: estão sendo atormentados por seus
pecados? Não viram nada ainda! Muito mais torturas enfrentarão depois da ressurreição,
quando as suas ‘almas imortais’ deixarão este lugar para se religarem aos seus corpos
mortos, passarem pelo julgamento e depois voltarem de novo para o inferno para
continuarem queimando como antes para todo o sempre...!”
Será que isso faz o estilo de Jesus Cristo? Não me parece nem um pouco!
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 290
Em terceiro lugar, tendo descido ao Hades ou inferno, Jesus teria selecionado apenas e
tão-somente os espíritos daqueles da época de Noé, escolhendo a dedo só a alguns e,
enquanto eles queimavam, Cristo foi fazendo a tal “pregação” para eles. Os outros,
contudo, presumivelmente deviam estar com os ouvidos tampados para não ouvirem nada
da pregação.
E, por fim, após terminarem de ouvir a tal da pregação (enquanto queimavam entre as
chamas de um fogo real e inapagável), eles continuaram queimando do mesmo jeito que
antes! Isso realmente deve fazer lógica para os imortalistas, além de basearem-se em um
Deus arbitrário, que escolhe a dedo alguns poucos “privilegiados” para ouvirem a pregação
enquanto queimam no fogo do inferno, do purgatório, ou do Hades, e os outros nem sequer
podem ouvir a tal pregação!
Em quarto lugar, o texto nada diz sobre Jesus ter passado pelo inferno (ou Hades). Se
Cristo não subiu para o Céu entre a sua morte e ressurreição (cf. Jo.20:17), tampouco teria
morrido e ido para o inferno, lugar no qual ele, sem pecado algum, de modo algum teria
merecido! Se Cristo tivesse ido para o inferno fazer essa pregação, então bastaria que
Pedro tivesse mencionado isso no verso 19, no qual ele menciona que a pregação teria sido
realizada aos espíritos em prisão.
Se Cristo tivesse descido ao inferno ou ao Hades, Pedro poderia ter perfeitamente
mencionado este local, como qualquer um assinaria “espíritos no inferno” ou “espíritos no
Hades”. O fato de Pedro não mencionar nenhum destes dois lugares provém do fato de que
essa prisão corresponde à prisão do pecado, como veremos mais adiante. E, em quinto
lugar, mandar Jesus para o inferno é o bom senso que nos diz que um homem santo como
este não seria mandado para tal lugar entre a sua morte e ressurreição! O inferno foi feito
“para o diabo e seus anjos” (cf. Mt.25:41), e não para Jesus, nem mesmo de forma
temporária!
Portanto, tendo em vista as razões lógicas expostas acima, é ilógico interpretar a passagem
da maneira como querem os dualistas. Veremos a seguir mais algumas provas de que tal
interpretação deles está equivocada e, em seguida, explicar e elucidar tal passagem à luz
do contexto.
Alguns versículos que lançam bastante luz – Além dos fatos já expostos acima, há mais
razões pelas quais a Bíblia desaprova absolutamente que Cristo tenha pregado no inferno
para pessoas que já estavam mortas. Acima foi exposto como que o bom senso liquida com
tal “interpretação”, e agora veremos alguns textos bíblicos que também derrubam com
qualquer possibilidade dos mortos ouvirem o evangelho.
“Como cooperadores de Deus, insistimos com vocês para não receberem em vão a graça de
Deus. Pois ele diz: No tempo aceitável te escutei e no dia da salvação te socorri; eis aqui
agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação!” (cf. 2ª Coríntios 6:1,2)
Aqui fica claro que a pregação para a salvação não é depois da morte, mas é “aqui agora”,
neste momento, no tempo chamado “hoje”. Depois da morte não existe qualquer chance de
ouvir a pregação a fim de ser salvo, porque é hoje – agora – o tempo aceitável, o dia da
salvação.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 291
A mesma linguagem é empregada pelo autor de Hebreus: “Pelo contrário, encorajem-se uns
aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama ‘hoje’, de modo que nenhum
de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (cf. Hb.3:13). O tempo que nós temos de
encorajar uns aos outros é hoje, nesta presente vida, porque depois não teremos mais
qualquer possibilidade de ouvir o evangelho. Por isso, é durante o tempo que se chama
“hoje” que ainda existe tal possibilidade. O evangelho não é e nem pode ser pregado para
mortos, mas apenas aqueles que estão debaixo do Céu:
“Desde que continuem alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do
evangelho, que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão
debaixo do céu. Esse é o evangelho do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (cf. Colocenses
1:23)
Se os mortos tivessem ouvido alguma pregação de Cristo entre a sua morte e ressurreição,
então segue-se logicamente que o evangelho também teria sido proclamado não apenas
àqueles que estão debaixo do céu, mas também àqueles que estão “no além”, ou no
inferno. Tal suposição, contudo, é negada pelas claras palavras do apóstolo Paulo em relatar
que até aquele momento o evangelho havia sido pregado era para aqueles que estão
“debaixo do céu” (ou seja, a nós, os vivos), e não a pessoas já mortas em algum lugar!
Por fim, de acordo com o texto de Hebreus 9:27, que diz que “depois da morte vem o juízo”
(cf. Hb.9:27), segue-se a ideia de que os mortos já estariam julgados e qualquer pregação
de Cristo seria vã, pois o juízo é “eterno” (cf. Hb.6:2), ou seja, irreversível! Portanto,
biblicamente não existe qualquer chance de salvação depois da morte, bem como não existe
qualquer possibilidade de ouvir a pregação do evangelho depois de já haver morrido - muito
menos estando no inferno!
Por tudo isso, os eruditos bíblicos mais sérios têm rejeitado a interpretação absurda de que
Jesus tivesse ido para o inferno pregar para pessoas mortas que não poderiam se salvar.
Tal suposição, além de contradizer completamente as regras da lógica e do bom senso e de
ir frontalmente contra a Palavra de Deus, ainda tem como finalidade colocar Jesus no
inferno. É uma suposição tão satânica quanto a própria lenda da imortalidade da alma.
O nosso próximo passo, a partir de agora, será analisarmos o devido contexto a fim de
interpretarmos corretamente o texto de 1ª Pedro 3:19 à luz do contexto e das verdades
apresentadas nas Escrituras.
Como entender os “espíritos em prisão”? - Para vermos o que Pedro estava dizendo nessa
passagem, temos que contextualizá-la ao invés de isolarmos o verso 19 para
fundamentarmos uma doutrina antibíblica. O verso anterior (v.18), explica o seguinte
(v.19), declarando: “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo
pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo
Espírito”.
Aqui o termo “espírito” é o próprio Espírito Santo, conforme também mencionam muitas
boas traduções como a Versão inglesa King James (considerada por muitos a melhor versão
do mundo), a versão francesa Louís Segond, a versão italiana Giovanni Diodati Bible, a
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 292
versão alemã Luther, a versão católica da CNBB, a NVI (Nova Versão Internacional), a nova
versão Vulgata Latina, entre outras.
Jesus não foi vivificado pelo espírito dele mesmo, foi o Espírito Santo quem vivificou a
Cristo. O original grego não possui diferenciação alguma entre as letras maiúsculas e
minúsculas, de modo que é pelo contexto que analisamos se “espírito” trata-se da pessoa
do Espírito Santo ou não. A prova mais forte de que é o Espírito Santo quem vivificou a
Cristo está na própria Bíblia Sagrada:
“E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês,
aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais,
por meio do seu Espírito, que habita em vocês” (cf. Romanos 8:11)
O Espírito (Santo) que ressuscitou a Cristo é o mesmo que nos ressuscitará. Nisso fica claro
que o “espírito” no verso 18 é uma referência ao Espírito Santo, e não ao próprio espírito de
Cristo. Portanto, o verso 18 afirma que Jesus foi vivificado pelo Espírito Santo. A palavra
grega “en” (empregada no início do verso 19) refere-se ao termo anterior “Espírito”, e o
verso 19 significa que Cristo pregou aos antediluvianos, não pessoalmente, mas pelo
Espírito Santo nos dias de Noé. Parafraseando Leandro Quadros, levando-se em conta o
contexto bíblico o texto diz o seguinte: “Nos dias de Noé, por meio do Espírito Santo
Cristo pregou aos antediluvianos que estavam presos pelas cadeias do pecado”148.
Quais eram essas “cadeias”? O próprio Cristo responde:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos
pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos
cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor.
E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga
estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos
ouvidos” (cf. Lucas 4:18-21)
Vemos que Jesus compreendia que a sua obra terrena implicava principalmente em dar
“abertura da prisão aos presos”. Ora, de qual “prisão” Jesus estava falando? Da prisão
espiritual. Achavam-se ligados em pecado, e Cristo devia fazer essa obra, porquanto sobre
Ele estava “o espírito do Senhor”. Tanto Cristo quanto as pessoas a quem Ele pregava
estavam vivos. Inúmeras menções a “prisão” como sendo uma referência espiritual (e não
física ou literal) com respeito ao pecado é encontrada nas Sagradas Escrituras. No Salmo
142:7 Davi suplicou que Deus tirasse a sua alma da prisão:
“Tira a minha alma da prisão, para que louve o teu nome; os justos me rodearão, pois me
fizeste bem” (cf. Sl.142:7). Provérbios 5:22 nos afirma que a prisão que traz a alma
prisioneira é a prisão do pecado: “Quanto ao ímpio, as suas iniqüidades o prenderão, e com
as cordas do seu pecado será detido” (cf. Pv.5:22). E que os antediluvianos estiveram bem
presos na prisão do pecado é dedutível a partir da leitura bíblica de Gênesis 6:5:
“E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a
imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (cf. Gênesis 6:5)
148 QUADROS, Leandro. Cristo realmente pregou aos “espíritos em prisão”? 1 Pedro 3:19.
Disponível em: <http://novotempo.com/namiradaverdade/cristo-realmente-pregou-aos-
%E2%80%9Cespiritos-em-prisao%E2%80%9D-1-pedro-319/>. Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 293
Portanto, o Espírito Santo pregou a pessoas vivas, e não a pessoas mortas que estavam
queimando em algum lugar e não podiam mais se salvar! A “prisão” ali mencionada é uma
referência, não ao inferno-geena, e nem ao Hades ou Tártarus, mas sim à prisão espiritual
na qual estão presos aqueles que vivem no pecado. Ademais, o termo “espírito” não remete
a pessoas mortas desencarnadas. Biblicamente, os vivos são considerados como espíritos,
porque corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa. Na sua primeira
epístola aos Coríntios (cf. 16:18), Paulo aplica o termo com respeito as pessoas vivas –
“porque trouxeram refrigério ao meu espírito” -, isto é, a mim mesmo, à minha pessoa.
Também em Gálatas 6:18, ele afirma: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja irmãos,
com o vosso espírito”. Vosso espírito quer dizer convosco, com a vossa pessoa. Gênesis
7:15 afirma que: “de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em
dois para junto de Noé na arca” (cf. Gn.7:15). Em Hebreus 12:23, vemos o termo “espírito”
ser utilizado como menção para a igreja militante. Portanto, o termo “espírito”, quando se
refere a seres humanos, remete a pessoas vivas, e não mortas.
E a última questão a ser resolvida é: quando é que se deu tal pregação? No verso 21 há a
expressão “noutro tempo”, que claramente se identifica com o tempo em que “a
longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé”. O tempo era os dias de Noé, o tempo
durante o qual Deus procurou libertá-los da prisão do pecado.
Portanto, a passagem bíblia, dentro de seu devido contexto, nega qualquer possibilidade de
salvação após a morte ou de pregação para pessoas mortas e que não poderiam mais sair
do lugar onde se encontravam. A Bíblia é bem clara em mencionar que a oportunidade de
receber a pregação oferecida por Cristo é somente nesta vida (cf. 2Co.6:1,2; Hb.3:13;
Hb.9:27; Cl.1:23). O professor Apolinário faz uma boa observação em sua conclusão sobre
tal passagem:
“Ao ler com atenção 1 Pedro 3:18, verificamos que o Espírito Santo que ressuscitou dos
mortos a Cristo, foi o meio usado por Cristo para advertir o povo do tempo de Noé, de que
estava iminente o dilúvio e se preparassem para entrar na arca. Não obstante, eles
rejeitaram a mensagem, e somente Noé e sua família foram salvos. Não há, pois, nestes
passos, insinuação alguma de que enquanto esteve na sepultura, Cristo haja pregado. Essa
doutrina é ensinada pela Igreja Católica, sem apoio nas Escrituras”149
O mesmo Pedro afirma que Noé era um “arauto de justiça” (cf. 2Pe.2:5). A pregação
ocorreu não quando Cristo teria descido ao “inferno” (o que é antibíblico), mas sim pelo
Espírito Santo (v.18), durante os dias de Noé. O que podemos tirar de 1ª Pedro 3:18-21 é
simplesmente que nos dias de Noé, por meio do Espírito Santo, Cristo pregou aos
antediluvianos que estavam presos pelas cadeias do pecado.
Não há apoio nenhum à doutrina da imortalidade da alma e não apresenta contradição
alguma com o restante total das Escrituras Sagradas que negam em completo tal doutrina
que divide a natureza humana. Os únicos que querem colocar Jesus no inferno são os
satanistas, e não os verdadeiros cristãos. Vejamos, então, o resumo de alguns pontos que
confirmam essa correta interpretação acima, em detrimento da interpretação isolada dos
imortalistas no verso 19.
149 APOLINÁRIO, Pedro. Explicação de Textos Difíceis da Bíblia. 4ª Edição Corrigida, p. 227-234.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 294
1 Não coloca Jesus no inferno.
2 Não contradiz o resto da Bíblia toda que desmente completamente a imortalidade
da alma.
3 A pregação não foi de Jesus pessoalmente, mas sim pelo Espírito Santo, como
indica o contexto (v.18).
4 A “prisão” não é o inferno ou o Hades (se fosse, poderia perfeitamente ser
utilizado estas palavras), mas trata-se da prisão espiritual na qual se encontravam
aqueles antediluvianos.
5 Não indica uma segunda oportunidade de salvação após a morte.
6 Não faz com que o evangelho tenha sido pregado para pessoas mortas em
condenação, o que é antibíblico e inútil, já que eles não poderiam sair de lá
mesmo. O evangelho foi pregado aos que hoje estão mortos (mas estavam vivos
na época em que a pregação foi feita).
7 Não induz um Deus arbitrário que escolhe alguns privilegiados da época de Noé
para ouvir a pregação (em meio à condenação) enquanto os outros que não foram
selecionados ficaram sem ouvir nada.
8 Faz uma correspondência correta com o tempo em que tal pregação foi feita
através do Espírito Santo (v.21).
9 Não contradiz o próprio Pedro que afirma em outra oportunidade que os ímpios só
serão punidos no dia do Juízo (cf. 2Pe.2:9) e que serão reduzidos as cinzas (cf.
2Pe.2:6), desmentindo assim qualquer imortalidade incondicional aos condenados.
10 Por fim, o fato que Pedro narrou em 1Pe.18-21 não é uma “revelação extrabíblica”
que ele recebeu diretamente de Cristo depois que ele ressuscitou, mas sim um fato
bíblico, como os autores das epístolas do NT constantemente costumavam fazer
menções a fatos Escriturísticos. Que o Espírito Santo pregou por meio de Noé e de
sua família àqueles antediluvianos, que não aceitaram a pregação, isso é um fato
bíblico. Em outras palavras, Pedro citou um fato escriturístico, sendo que ele
mesmo afirmou ser Noé um instrumento de Deus para a justiça na terra de sua
época (cf. 2Pe.2.5). Pedro não foi “além do que está escrito” (cf. 1Co.4:6), pelo
contrário, narrou algo que a Bíblia conta.
Finalmente, seria interessante destacarmos que os próprios imortalistas mais sóbrios e
respeitados refutam essa teoria de que Jesus tenha pregado a pessoas mortas em 1ª Pedro
3:19. O famoso pastor protestante John Piper, por exemplo, escreveu:
“O outro texto é 1 Pedro 3:18-20, onde é dito que Cristo foi pregar aos espíritos que agora
estão em prisão. Isto é, eles tinham morrido – tendo vivido nos dias de Noé – e estão agora
em prisão; e Cristo foi pregar a eles. Alguns tomam isso como significando que entre a
Sexta Feira da Paixão e o Domingo da Ressurreição, Cristo desceu ao inferno e pregou o
evangelho ali. Mas tampouco penso que esse seja o significado desse texto. Acredito que
ele significa que, quando essas pessoas estavam vivas nos dias de Noé, o Espírito de Cristo
pregou a eles através da pregação de Noé”150
A própria nota de rodapé na Nova Versão Internacional desdenha tal interpretação
imortalista de que Cristo tenha pregado a mortos, visto que os “mortos” seria uma
150 PIPER, John Stephen. Cristo desceu ao inferno? Disponível em:
<http://www.revistacrista.org/Morte%20e%20Eternidade_Cristo%20Desceu%20ao%20Inferno.htm#.UhJ9
LZIqaO1>. Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 295
referência a pessoas mortas na época em que Pedro escreveu o texto, mas vivas na época
em que a pregação foi feita:
“Essa pregação foi um acontecimento passado, a pessoas que então viviam, mas já
estavam mortas nos dias do autor da carta. Não haverá oportunidade para as pessoas
serem salvas após a morte; v. Hb 9.27”151
Como diz Norman Geisler, “é possível que ela se refira àqueles que agora estão mortos, e
que ouviram o Evangelho no tempo em que estavam vivos. Em apoio a isso é citado o fato
de que o Evangelho ‘foi pregado’ (no passado) àqueles que estão ‘mortos’ (situação
presente)”152. Como vemos, a insistência tola de alguns imortalistas em colocarem Jesus no
inferno em prol da lenda da imortalidade da alma se vê inútil quando colocada de frente aos
próprios imortalistas mais sóbrios.
O castigo é no dia do Juízo – Pedro não poupou clareza em se tratando de negar
completamente a imortalidade da alma. Em 2ª Pedro 2:9 lemos que: “O Senhor sabe
entregar o devoto fora das tentações, e reservar os injustos para o dia do juízo para ser
punido” (cf. 2Pe.2:9). Os ímpios não estão já sendo punidos, eles estão “reservados” para o
dia do juízo em que, aí sim, serão punidos. Se eles estão reservados para o dia em que
serão punidos é porque não estão sendo punidos ainda. Se eles já estivessem queimando
em algum lugar, já estariam sendo punidos. À luz deste texto bíblico tão ferrenhamente
contra a punição atual dos ímpios, algumas traduções como a Almeida Atualizada tomaram
a liberdade de traduzi-lo da seguinte maneira:
“Também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os
injustos, que já estão sendo castigados” (cf. 2ª Pedro 2:9)
Contudo, esta tradução não corresponde com o original grego, mas sim com as pretensões
dos defensores da imortalidade da alma em salvarem sua doutrina antibíblica de que os
ímpios já estão sendo castigados agora. O original grego traz: “krisewV kolazomenouV
threin” – reservados para condenação – e as palavras gregas “hmeran krisewV"
empregadas no verso mostram quando é que se dará essa punição: “hmneran krisewV” –
dia do juízo [julgamento, condenação]. É impossível que algum tradutor bíblico tenha
falhado na tradução deste verso de forma não-intencional ou acidental, sendo que ele é de
tão fácil tradução e assim é feito pelas melhores versões do mundo, como a versão inglesa
King James, conhecida mundialmente pela sua tradução fiel aos originais da Bíblia,
traduzindo este verso da seguinte maneira:
“The Lord knoweth how to deliver the godly out of temptations, and to reserve the unjust
unto the day of judgment to be punished”
“O Senhor sabe como livrar os piedosos da tentação, e reservar os injustos para o dia do
julgamento, para serem punidos”
Essa tradução correta também é a mesma tradução das melhores versões do mundo, como
a tradução de Reina Valera (Espanha), que assim traduz:
151 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 1Pe.4:6, p. 2134.
152 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da
Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 296
“Sabe el Señor librar de tentación á los píos, y reservar á los injustos para ser atormentados
en el día del juicio”
“O Senhor sabe livrar da tentação os justos, e reservar os injustos para serem
atormentados no dia do juízo”
Mais traduções que trazem que os injustos só serão punidos no dia do juízo, além do
próprio texto original no grego de acordo com a Concordância de Strong, é a Young’s Literal
Translation, a Luther (1912), a Giovanni Diodati Bible (1649), a Louis Segond (1910), entre
outras. Por incrível que pareça, nesse quesito até mesmo as traduções católicas superaram
as protestantes em língua portuguesa, pois tanto a Ave Maria como a CNBB traduziram por
“reservar os ímpios para serem castigados no dia do juízo”153 e por “reserva os ímpios para
o castigo no dia do julgamento”154. Uma das versões protestantes da Bíblia em português
que se salva é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel, que verteu por “reservar os injustos
para o dia do juízo, para serem castigados”, corrigindo o equívoco das traduções anteriores.
A clareza da linguagem é indiscutível: os ímpios não estão sendo punidos ainda, mas estão
reservados para o dia do juízo, quando aí sim serão punidos. Para o apóstolo Pedro, os
ímpios não estavam sendo castigados no presente momento, mas o momento em que serão
castigados era no dia do juízo. A lógica é indiscutível:
(1) Os ímpios estão “reservados” para serem castigados “no dia do juízo” (cf. 2Pe.2:9).
(2) Este juízo é um um acontecimento futuro na volta de Cristo (cf. 2Tm.4:1; At.7:31;
1Pe.4:5).
(3) Logo, os ímpios não estão sendo castigados atualmente.
Essa lógica de Pedro é como um golpe de morte na visão tradicional e comum que se tem
do inferno, onde todos os não-salvos já estariam entre as chamas de um fogo devorador
neste exato momento, sofrendo pelos seus pecados ao passo que os justos já estariam na
glória. Pedro neste verso especificamente não fala nada sobre a condição atual dos salvos,
mas nos dá uma pista importantíssima que nos ajuda a refutar a tese da imortalidade da
alma: que os ímpios não estão sendo castigados ainda.
Tal castigo é futuro, não é algo que já esteja em andamento. Os ímpios estão “reservados”
(em suas sepulturas) para o dia do juízo (na segunda vinda de Cristo, quando ocorre a
ressurreição) em que serão castigados. A doutrina pagã da imortalidade da alma t enta a
todo custo reverter este raciocínio, tentando nos convencer que o castigo dos ímpios já é
atual e que depois do juízo apenas haverá uma continuação deste tormento já existente.
Nada que esteja mais longe da teologia de Pedro, onde vemos que a punição e o castigo é
algo lançado no futuro, e que os ímpios estão “reservados” a sofrer, e não que já estejam
sofrendo neste momento.
A punição dos ímpios é um acontecimento futuro – Em 2ª Pedro 2:6 o apóstolo Pedro
reafirma sua crença com relação ao destino final dos ímpios: “Também condenou as cidades
153 Tradução da versão Ave Maria.
154 Tradução da versão da CNBB.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 297
de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos
ímpios” (cf. 2Pe.2:6). “Reduzindo-os a cinzas”! Que péssima figura de linguagem para
alguém que terá uma vida eterna no inferno!155 Por meio deste texto percebemos que, além
da redução às cinzas por parte dos ímpios (o que de modo algum se relaciona a uma
“imortalidade”, como ensinam os dualistas), o apóstolo Pedro é claro em referir-se a
punição dos ímpios como algo futuro. Novamente, a confirmação de que os ímpios não
estão queimando ainda.
Se os ímpios já estivessem sendo castigados e sofrendo no presente momento, Pedro
escreveria que “está acontecendo aos ímpios”, e não “daquilo que acontecerá aos ímpios”.
O apóstolo deixa mais do que claro que o tempo dos ímpios serem castigados é no futuro,
do que “acontecerá” com os ímpios, e não daquilo que já está acontecendo com eles.
Não resta sombra de dúvida nenhuma que, na visão de Pedro, a punição/castigo e
destruição dos ímpios sempre foi considerado um acontecimento futuro, que lhes está
reservado a acontecer no dia do juízo, que corresponde a ressurreição dos mortos/segunda
vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). Isso se confirma nas palavras de Pedro na sua segunda
epístola:
“Estes são fontes sem água, névoas levadas por uma tempestade, para os quais está
reservado o negrume das trevas” (cf. 2ª Pedro 2:12-17)
Os pecadores estão “reservados” para o castigo final, intitulado “negrume das trevas”,
para o dia do juízo, ou seja, não estão queimando ainda. Ele jamais faz menção a um
“inferno de fogo em atividade”, pelo contrário, intitula os ímpios como “reservados para
serem castigados no dia do Juízo” (cf. 2Pe.2:9), para o que “acontecerá aos ímpios” (cf.
2Pe.2:6), aos quais está “reservado o negrume das trevas” (cf. 2Pe.2:17). Nada disso
condiz com um fogo eterno em andamento, mas com um acontecimento futuro que ainda
não lhes sobreveio.
Exultação e Regozijo somente na volta de Cristo – “Amados, não estranheis o fogo ardente
que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos
estivesse acontecendo. Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes
dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis
exultando” (cf. 1ª Pedro 4:12,13).
É também de grande importância o que é dito aqui por Pedro. De acordo com ele, a
exultação se dá por ocasião da revelação da glória de Cristo (segunda vinda). Ora, se
fossem com suas almas para o Céu, seguindo-se à morte, não iriam ali exultar e alegrar-se?
Para ele, contudo, somente por ocasião da “revelação da Sua glória” é que se concretiza
tal sentimento de exultação, porque é neste momento em que os mortos são ”vivificados”
(cf. 1Co.15:22,23).
A imarcescível coroa da glória – “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis
a imarcescível coroa da glória” (cf. 1Pe.5:4). De acordo com Pedro, a imarcescível coroa da
155 Sobre essa parte do argumento, me reservarei a discorrer mais extensivamente sobre o destino final
dos ímpios no capítulo 8, que trata especificamente sobre a doutrina do inferno e dos acontecimentos
finais.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 298
glória só estará disponível aos crentes por ocasião do segundo advento de Cristo. Se já não
fosse o suficiente a “coroa da justiça” de Paulo estar guardada para “naquele dia” (cf.
2Tm.4:6-8), a coroa da glória também só estará disponível aos santos na segunda vinda de
Cristo, que “coincidentemente” é no mesmo momento da ressurreição dos mortos. Seria
muito estranho que os santos ficassem milênios no Céu sem terem recebido ainda a tão
esperada coroa da justiça e a coroa da glória!
A volta de Cristo no centro do palco - É digno de nota também que, em toda a epístola, o
que ele reflete não é a “esperança viva de morrer e a alma regozijar-se no Céu”, mas sim
da hora da volta de Cristo, pelo fato de que é neste momento em que os vivos são
arrebatados e os mortos ressuscitados, para todos juntos entrarmos juntamente no Reino
de Deus. Tal foco é apresentado ao longo de toda a epístola, a começar pelo primeiro
capítulo: “Que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que
está preparada para se revelar no último tempo” (cf. 1Pe.1:5).
A herança e a salvação só são recebidas na revelação de Cristo no último tempo. Isso fere a
doutrina da imortalidade da alma porque, para eles, os santos que fossem morrendo já
estariam salvos em um “estado intermediário” muito antes do “último tempo” na “revelação
de Jesus Cristo”! Pedro nega que possamos tomar parte efetivamente na salvação (Reino)
antes da revelação de Jesus Cristo que há de se consumar no último tempo.
Um pouco mais à frente lemos:
“Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente
na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo” (cf. 1ª Pedro 1:13)
A graça e a esperança são dadas no momento da ressurreição/segunda vinda de Cristo, e
não no momento das mortes de cada crente para habitar com Deus no Céu. Sumariando, a
esperança de Pedro sempre esteve ligada ao aparecimento de Jesus Cristo, porque é neste
momento que seremos salvos (cf. 1Pe.1:5) e é neste momento em que a graça nos é
concedida (cf. 1Pe.1:13). Essa graça relaciona-se a nossa própria união com Cristo, ao que
Pedro indica como se concretizando no dia da Sua Volta, e não nas mortes de cada crente e
suas almas subindo ao Céu. Tal doutrina é estranha à Bíblia, e não condiz nem um pouco
com a “esperança viva” de Pedro:
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande
misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo
dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada
nos céus para vós, que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação
que está preparada para se revelar no último tempo; na qual exultais, ainda que agora por
um pouco de tempo, sendo necessário, estejais contristados por várias provações, para que
a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo,
redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (cf. 1ª Pedro 1:3-7).
Essa era a esperança dos cristãos: de receberam a sua herança garantida nos céus, não por
ocasião da morte, mas sim “no último tempo... na revelação de Jesus Cristo”. Note que o
apóstolo confirma a ideia bíblica de que os santos entrarão na herança “no último tempo”
e, confirmando tal fato, ele ainda assinala: “na revelação de Jesus Cristo”! Há linguagem
mais clara do que isso para mostrar quando é que os salvos entrarão na herança e
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 299
receberão o Reino? Toda a ênfase está na vinda futura de Cristo no último tempo, porque é
exatamente neste momento em que os mortos levantam e ganham vida e que há a reunião
no Céu entre os arrebatados e os ressuscitados.
O foco cristão verdadeiro sempre foi voltado à segunda vinda de Cristo, a sua volta gloriosa,
que foi deixada de lado para dar lugar à ideia grega de que, morrendo, as nossas almas
partem já para o Céu – e tudo isso antes da volta de Cristo! Negar a falsa doutrina pagã de
“imortalidade da alma” significa colocar a esperança da segunda vinda e do Reino de Deus
em perspectiva: no centro do palco, como sempre faziam os primeiros crist ãos.
Alguns imortalistas poderiam tentar objetar alegando que Pedro esperava estar vivo quando
Jesus voltasse, e que por essa razão todas essas passagens acerca de receber a coroa da
glória quando Jesus voltar, de receber sua herança na volta de Cristo, de se alegrar
exultando na segunda vinda do Senhor e de tantas outras citações que mostram que a
entrada no Reino seria a volta de Cristo (ressurreição), e não em um estado intermediário,
se relacionam apenas com os vivos que serão arrebatados na volta de Jesus, e não com os
mortos. Tal alegação, porém, é facilmente refutada pela leitura da epístola do próprio
Pedro, onde ele afirma que sabia que em breve iria “deixar esse tabernáculo”, isto é, sabia
que morreria em breve, e não que ficaria vivo até ver a volta de Jesus:
“Porque sei que em breve deixarei este tabernáculo, como o nosso Senhor Jesus já me
revelou” (cf. 2ª Pedro 1:14)
Portanto, todas as passagens e argumentos que vimos acima onde o próprio Pedro coloca
toda a sua esperança voltada ao momento da segunda vinda e ressurreição se relaciona não
apenas com os vivos, mas aos mortos, pois o próprio Pedro sabia que iria morrer em breve
e que não permaneceria vivo até a vinda de Cristo, pois o próprio Senhor Jesus lhe havia
revelado isso, de que ele iria morrer (cf. 2Pe.1:14). Desta forma, todas as alegações que
tentam anular tais evidências nas epístolas de Pedro como se ele estivesse apenas
preocupado em mostrar o momento em que os vivos estarão com o Senhor e não com os
mortos caem por terra, assim como com Paulo, que também sabia que iria morrer em breve
(cf. 2Tm.4:7,7), e mesmo assim fez todas aquelas declarações que vimos anteriormente.
Os que morreram ainda não passaram pelo julgamento – Outra evidência muito forte de
que os ímpios não estão atualmente no inferno é o fato dos que morreram ainda não terem
passado por um julgamento. Já vimos diversas passagens que dão respaldo a tal fato, e
agora examinaremos o texto do próprio Pedro, que disse:
“Contudo, eles terão que prestar contas àquele que está pronto para julgar os vivos e os
mortos” (cf. 1ª Pedro 4:5)
Ora, não há como admitir que existam pessoas sofrendo horriveis tormentos sob a tortura
de demônios cruéis e torturadores em um inferno fogo durante milênios desde um passado
remoto até aqui e tudo isso sem ter passado por um julgamento! Até mesmo no Direito
Romano era proibido condenar algum cidadão sem ter passado por um juízo antes disso.
Era ilegal açoitar um cidadão romano (cf. At.16:38), ainda mais no caso de não haver
processo. Essas são regras de ética que regem o mundo até os dias de hoje.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 300
Se nós, “sendo maus” (cf. Mt.7:11), sabemos condenar um cidadão eticamente a partir de
um juízo para isso, quanto mais Deus, o Juíz que está nos céus, que é muitíssimo mais
justo do que o mais honesto dos homens, não irá atormentar alguma pessoa sem antes ter
passado por julgamento! Deus é ético, e, pela sua ética, só irá condenar alguém depois dele
passar por um juízo, a fim de ter a completa ciência do mal que praticou e ter o direito de
se defender ou não.
Dizer que Deus lança a alma de alguma pessoa em um tormento durante séculos sem
direito a julgamento é ferir a ética e a natureza divina. O próprio fato de Paulo e Pedro
insistirem tanto no fato de dizer que Deus não julgou ainda, mas “há de julgar”, e por
ocasião da Sua Vinda, já mostra que eles não acreditavam que a alma de qualquer pessoa
já pudesse estar sendo castigada ou condenada.
Afinal, onde é que já se viu uma pessoa estar na condenação sem nem ao menos ser...
condenada?! Ora, isso é inadimisível, completamente contra as leis da lógica e do bom
senso! Os que morrerem só irão para a condenação na ressurreição (cf. Jo.5:28,29) e só
serão julgados na volta de Cristo (cf. 2Tm.4:1), seguindo-se logicamente, então, o fato de
que eles não estão condenados e nem sofrendo castigo antes de tal momento.
XXVI–João pregou a Imortalidade da Alma?
A vida é somente em Cristo – Algo que o apóstolo João costumava acentuar bastante era o
ensino de que a vida era somente em Cristo, mediante Cristo e por meio de Cristo apenas.
Não existe vida senão em Cristo. Com isso, ele acentua ainda mais que nós não temos uma
alma imortal como posse presente a todos indistintamente, com uma imortalidade
incondicional.
Pelo contrário, assim como Paulo, João acentua o fato de que a vida é unicamente em
Cristo, que os que não seguem a Cristo não terão a vida e de que esta tem que ser
buscada, resultante do fato de que não temos em nós um elemento que nos garanta a
imortalidade. No seu evangelho, vemos João dar bastante ênfase aos ensinamentos de
Cristo acerca do tema da imortalidade.
De acordo com o dicionário, “vida eterna” e “imortalidade” são sinônimos:
Imortalidade: é o termo utilizado para designar uma vida ou existência indestrutível, que
se auto sustém.
Vida eterna: é o termo utilizado para designar uma vida ou existência indestrutível, que se
auto sustém.
Também de acordo com o dicionário da Língua Portuguesa (DPLP), “imortalidade” significa:
1. Qualidade, estado daquilo que é imortal.
2. Duração perpétua.
“Vida” significa “o período de tempo que decorre desde o nascimento até a morte dos
seres”156. Aplicando os significados de ambos os termos, o dicionário conclui que “Vida
156 Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 301
Eterna” significa: “Vida futura, a outra vida, a vida espiritual”. Biblicamente falando,
teremos uma vida eterna (i.e, que não tem fim) quando formos ressuscitados dentre os
mortos para a ressurreição da vida (cf. Jo.5:28,29; Jo.12:25; 1Tm.6:16; Rm.2:7;
1Co.15:51-54).
Portanto, vemos que “vida eterna” tem a mesma aplicação prática de “imortalidade”.
Porém, perante a Bíblia, teremos uma vida eterna (i.e, imortalidade, viver eternamente)
apenas por meio de Cristo. A vida eterna (imortalidade) é exclusividade dos salvos. Se
alguém já tivesse imortalidade, Jesus não prec isaria lhe prometer vida eterna. Para que dar
vida eterna a alguém que já é imortal? Não seria o mesmo que “chover no molhado”?
“E esta é a promessa que ele mesmo nos fez, a vida eterna” (cf. 1ª João 2:25)
“Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (cf. João 5:40)
Obter vida não é algo natural implantado em nós desde o dia do nascimento, mas algo que
está presente em Cristo (cf. Cl.3:4; Rm.6:23), que é concedido àqueles que nEle creem
(cf.Jo.17:3), a fim de entrarem no Paraíso quando obterem imortalidade, na ressurreição
(cf. 1Co.15:51-54). A doutrina da imortalidade natural da alma não bate com os
ensinamentos bíblicos acerca do que é a “vida” e de como a adquirimos.
Apenas perseverando que obteremos a vida: “É perseverando que vocês obterão a vida” (cf.
Lc.21:19). Apesar de já possuirmos a vida por estarmos ligados a Cristo (cf. Jo.6:47),
porque “a vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus
Cristo que enviaste” (cf. Jo.17:3), nós só tomaremos posse da vida (eterna) por ocasião da
ressurreição (cf. Jo.5:28,29; 1Co.15:51-54). Algo semelhante ocorre quando Paulo afirma
que Cristo “destruiu a morte” (cf. 2Tm.1:10), mas mesmo assim as pessoas continuam
morrendo (cf. Hb.9:27; Rm.5:12).
O que acontece é que Cristo destruiu a morte legalmente (por meio de sua ressurreição),
entretanto a morte só será destruída literalmente (efetivamente) por ocasião da
ressurreição (cf. 1Co.15:54), quando “se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a
morte pela vitória” (cf. 1Co.15:54). De igual modo, nós legalmente já somos possuidores da
vida (cf. Jo.6:47; 6:40), porque já conhecemos ao Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, e é
nisto que consiste a vida eterna (cf. Jo.17:3).
Contudo, nós só obteremos literalmente a vida por ocasião da ressurreição, quando “isto
que é mortal se revestir de imortalidade” (cf. 1Co.15:53), e entraremos efetivamente na
vida eterna, de fato, quando os justos “sairão para a vida” (cf. Jo.5:29) e os ímpios “sairão
para a condenação” (cf. Jo.5:29), o que se dá por ocasião da ressurreição. Fazendo uma
analogia, é como se agora os que creem em Cristo já tem o “passaporte” da vida eterna, ou
seja, a garantia pela fé de que entraremos nela futuramente, ocasião em que vamos
efetivamente entrar na ressurreição.
É este aspecto que Jesus aborda em Lucas 21:19 – “obterão a vida”:
“É perseverando que vocês obterão a vida” (cf. Lucas 21:19)
A vida é efetivamente um acontecimento futuro (“obterão”, e não “possui”!). A vida não é
algo que já somos efetivamente possuidores por meio de uma alma imortal, mas algo que
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 302
implica em perseverança (cf. Lc.21:19), e que os santos “obterão”, no futuro. Obter vida
não é algo simplíssimo em decorrência de uma alma eterna em nós implantada, pelo
contrário, é algo que se obtém por meio da perseverança! Cristo também afirma no
evangelho de João:
“Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá
vida a quem ele quer dá-la” (cf. João 5:21)
Esta passagem não faz sentido para os imortalistas, uma vez que os mortos já estariam
vivos em algum lugar e, portanto, não iriam “obter” vida na ressurreição, mas tão-somente
“continuar” vivos, como já estariam antes, supostamente em um estado desencarnado
entre a morte e a ressurreição. Sendo que o processo de pensamento é geralmente
associado à alma, segue-se que o ser racional estava realmente morto, e não vivo157.
Quando ele se manifestar – "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é
manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar,
seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos" (cf. 1Jo.2:2). João
afirma que o momento em que veremos a Deus como Ele é não é na morte, em um estado
intermediário antes da ressurreição, mas quando Cristo se manifestar, que é precisamente
o momento quando ocorre a ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). Somente na
ressurreição dos mortos o "veremos como ele é" e somente nesta ocasião é que "seremos
semelhantes a ele" – nada que ocorresse antes da segunda vinda de Cristo!
Como disse Joe Crew:
"João não poderia ter acreditado que os justos mortos já estavam na presença do Senhor.
Se fosse assim, eles seriam capazes de vê-lo 'como ele é' e naquele momento eles já teriam
sido transformados para serem 'semelhantes' a Cristo. No entanto, ele refuta a ideia de que
qualquer um já O tenha visto e declara inequivocamente que tudo vai acontecer 'quando ele
se manifestar'"158
Vida eterna no futuro – Além disso, a Bíblia deixa claro quem é que herdará uma vida
eterna: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe [ou
mulher], ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e
herdará a vida eterna” (cf. Mt.19:29). Duas coisas ficam claras aqui. A primeira é que a
vida eterna não é algo que todos já possuem, mas que alguns possuirão, no futuro, a saber:
os salvos na ressurreição. Este mesmo relato em Marcos vem desta forma: “Que não receba
cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos,
com perseguições; e no século futuro a vida eterna” (cf. Mc.10:30).
A vida eterna é algo relacionado ao século futuro, que vem do grego aion erchomai. A
primeira palavra, como já vimos, significa: “para sempre, uma idade ininterrupta, tempo
157 O texto diz que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, e não que ressuscita corpos e lhes dá vida.
O texto fala da pessoa, e não apenas de uma parte da pessoa (como se estivesse limitado somente ao
corpo).
158 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em:
<http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>.
Acesso em: 19/08/2013.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 303
perpétuo, eternidade”159. A segunda, por sua vez, significa “vir”160. Se juntarmos as duas
palavras, teríamos algo como “quando vier o eterno”, o que algumas traduções verteram
por “século futuro”161, “mundo vindouro”162, “mundo por vir”163, “século vindouro”164 ou
“mundo futuro”165. Por mais que os tradutores tenham tomado a liberdade de traduzirem de
várias formas diferentes, todos são unânimes em demonstrar que a vida eterna não é algo
que nós já possuímos, supostamente na forma de uma alma imortal, mas sim algo que
possuiremos no futuro, e destinado apenas aos salvos, aqueles que decidiram seguir a
Cristo, como diz o verso (cf. Mc.10:30; Mt.19:29).
Se nós fôssemos possuidores de uma alma imortal, essa imortalidade seria uma possessão
presente, e destinada não apenas aos justos que seguem a Cristo, mas até mesmo aos
ímpios, que na teologia imortalista vivem para sempre. Além disso, vemos que a posse da
vida eterna não é em um estado intermediário imediatamente após a morte e antes da
ressurreição, mas no aion erchomai, no século futuro, na consumação deste mundo, no
mundo vindouro, quando “o eterno vier”, quando Jesus voltar, quando os mortos
ressuscitarem. Jesus não disse em momento algum que eles iriam herdar a vida eterna logo
após a morte em um estado intermediário, mas sim no “mundo vindouro” (cf. Mc.10:30;
Mt.19:29), na Jerusalém celestial que descerá dos céus à Nova Terra prometida somente
após a ressurreição se consumar (cf. Ap.21:2).
O apóstolo João, tanto em seu evangelho como também em suas epístolas, também
acentua o fato de que a imortalidade é apenas em Cristo Jesus. Em seu evangelho vemos
Cristo dizendo o seguinte:
“Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (cf.
João 6:51)
Logo, quem não come do pão da vida não viverá eternamente. Vocês se lembram do
apóstolo Paulo, que escreveu que a imortalidade é apenas por meio do evangelho (cf.
2Tm.1:10)? Da mesma maneira, João acentua tal fato: “Assim como o Pai, que vive, me
enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá”
(cf. Jo.6:57). Havia uma plena concordância entre os apóstolos de Jesus de que a vida não
vem por meio de uma alma implantada no nascimento, mas essa vida é somente em Cristo,
sem Cristo não há vida.
É por isso que João escreve: “Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de
Deus, não tem a vida” (cf. 1Jo.5:12). Quem não tem Cristo não tem vida. Somente em
Cristo temos a vida. Quem não tem Cristo nem sequer poderá ver a vida: “Por isso, quem
crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a
vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (cf. Jo.3:36). Os ímpios nem ao menos verão
a vida, pois essa é somente para quem crê no Filho de Deus, e a tem em seu nome: “Mas
estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo,
tenham vida em seu nome” (cf. Jo.20:31).
159 Léxico da Concordância de Strong, 165.
160 Léxico da Concordância de Strong, 2064.
161 Almeida Corrigida e Revisada Fiel.
162 Almeida Revisada Imprensa Bíblica e Almeida Atualizada.
163 Almeida Revista e Atualizada.
164 Reina Valera e Ave Maria.
165 Bíblia de Jerusalém e CNBB.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 304
Em João 5:40, Cristo afirma: “Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (cf.
Jo.5:40). Aqui são colocados dois caminhos finais: ter uma vida eterna ou ter a cessação de
vida, que significa não ter vida nenhuma. De outro modo, não seria estritamente necessário
vir a Cristo para ter vida, pois qualquer um teria vida em algum lugar de qualquer jeito!
Sim, as palavras de Simão Pedro acertaram o alvo: “Senhor, para onde iremos? Tu tens as
palavras de vida eterna” (cf. Jo.6:68). Não existe vida em outro lugar senão em Cristo. Ter
a vida não é algo natural pela posse de uma alma imortal, mas é algo que obtém aquele
que vem a Cristo, porque só os que vencerem obterão a vida: “Contudo, vocês não querem
vir a mim para terem vida” (cf. Jo.5:40). Vejam o que diz o apóstolo João:
“Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não t em a vida” (cf.
1ª João 5:12)
A conclusão inequívoca a partir de tudo isso que o apóstolo João nos revela em suas
epístolas e em seu evangelho é que ter uma vida eterna e consequente imortalidade
herdando a vida não é uma possessão natural de todos os seres humanos por meio de uma
alma imortal presa dentro do corpo. Pelo contrário, é mediante Jesus Cristo para aqueles
que O seguem por meio do evangelho, negando-se a si mesmos e tomando a sua cruz, este
terá o dom da vida e da imortalidade, obtido com a ressurreição dos mortos:
“Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem
nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a
vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados” (cf. João 5:28,29)
Por fim, no evangelho de João vemos Jesus dizendo:
“Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram
e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente” (cf. João 6:58)
Será que os ímpios também comem do pão da vida?
Em suma, através dos ensinamentos de João podemos compreender que:
1º A posse da vida eterna (imortalidade) não é algo natural já infundido em nossa natureza
através de uma alma imortal, mas é algo futuro.
2º Não se obtém uma vida eterna através de uma alma eterna, mas por se crer em Cristo
Jesus, através da ressurreição dos mortos.
3º Os ímpios não possuem a imortalidade, pois essa é exclusividade daqueles que “comem
do pão da vida” (creem no Filho de Deus).
4º A posse da vida eterna está diretamente relacionada ao “século futuro”, ou “mundo
vindouro”, conforme Marcos 10:30 e Mateus 19:29, algo que só se consuma na
ressurreição dos mortos e segunda vinda de Cristo, com a chegada de novos céus e nova
terra inaugurando o “mundo vindouro” que Jesus se referia, e não imediatamente em um
estado intermediário antes da consumação deste mundo e da ressurreição.
XXVII–Mais pilares do imortalismo sendo derrubados
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 305
Uma passagem que tem sido usada com certa frequencia pelos imortalistas é a cena que
ocorreu no monte da transfiguração, acontecimento este registrado em Mateus 17:1-8, em
Marcos 9:2-8 e em Lucas 9:28-36, onde Elias e Moisés aparecem vivos a Pedro, Tiago e
João, e conversam com o Senhor Jesus no monte. Mas como isso pôde ter ocorrido de fato,
se, como vimos, os mortos só voltam à vida através da ressurreição? Isso levou alguns
imortalistas a conjecturarem que foram almas incorpóreas que desceram do além e se
apresentaram a Cristo e aos três discípulos naquela ocasião, e que isso seria “prova” da
sobrevivência da alma após a morte. Seria isso verdade? É isso o que vamos descobrir
agora.
Elias – Que Elias apareceu no monte, isso não apresenta problema nem contradição
alguma, uma vez que Elias não passou pela morte, não necessitando assim de uma
ressurreição. Elias foi transladado vivo: “E, indo eles caminhando e conversando, eis que
um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num
redemoinho” (cf. 2Rs.2:11).
Moisés – Quanto a Moisés, a Bíblia relata a morte dele (cf. Dt.34:5), como também relata a
vivificação dele. À luz dos fatos bíblicos que nos norteiam, vemos que Moisés estava
corporalmente no monte da transfiguração, e não como um espírito incorpóreo. Isso fica
nítido a partir da leitura do próprio relato dos textos bíblicos que os imortalistas fingem
conhecer quando formulam este argumento. Pedro, por exemplo, sugeriu a construção de
três tendas, incluindo uma para Moisés:
“Pedro tomou então a palavra e disse-lhe: Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei
aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (cf. Mateus 17:4)
A palavra aqui traduzida por “tenda” é o grego skene, que, de acordo com o léxico da
Concordância de Strong, significa:
4633 σκηνη skene
aparentemente semelhante a 4632 e 4639; TDNT - 7:368,1040; n f
1) tenda, tabernáculo, (feito de ramos verdes, ou peles de animais, ou outros materiais).
2) do bem conhecido templo móvel de Deus, a partir do modelo do qual o templo em
Jerusalém foi construído.
Essa palavra denota, portanto, um objeto físico, e não algo imaterial. Ora, é inadmissível
construir tenda para um espírito, que seriam seres imponderáveis, fluídicos, abstratos e
não-físicos, conforme a crença popular imortalista. Isso por si só já define a questão e nos
permite chegar a conclusão de que o Moisés que apareceu no monte não foi um espírito
incorpóreo que aguardava em algum estado intermediário, mas alguém com corpo físico,
assim como estavam Elias e Jesus, doutra forma Pedro teria sugerido construir duas tendas,
e não três. Se Pedro estivesse contemplando algum “espírito” ou cresse que a aparição de
Moisés só poderia se dar em forma de alma descorpórea – como pensam os imortalistas –
não teria dito para construir uma tenda para Moisés.
Além disso, a construção de tendas leva a crer que Pedro pensava que eles iriam passar um
bom tempo ali, ao ponto de “acamparem” no local, de passarem a noite ali. Se ele pensasse
que fosse apenas uma aparição rápida, durante apenas alguns minutos, não haveria a
necessidade de tendas. Isso aponta que Pedro pensava que os três (Jesus, Elias e Moisés)
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 306
iriam passar a noite ali, e por isso se fazia necessário a construção de uma tenda para cada
um. Neste ponto a crença de que Moisés estava no monte em espírito também é colocada
em xeque, pois um espírito não dorme, e o apóstolo não iria pensar que um espírito
incorpóreo precisasse de uma tenda para passar a noite e dormir.
Se ele sugeriu a construção de três tendas, incluindo uma para Moisés, significa que ele
sabia que Moisés estava fisicamente presente, e que por isso precisaria de uma tenda para
passar a noite e descansar. A teoria de que Pedro não conseguiu identificar se Moisés
estava ou não encarnado é facilmente refutada pelo fato de que ele, assim como os demais
discípulos que ali estavam, falavam face a face com Jesus, que estava ao lado de Elias e
Moisés. Se eles estavam tão próximos uns dos outros, ao ponto de saber quem era quem e
de poder conversar com quem ali estava, é óbvio que ele também teria a percepção de
Moisés estar corporalmente ali ou se estava apenas em espírito. E Pedro claramente
identificou como estando corporalmente.
Os imortalistas aqui pretendem ser melhores que Pedro. Eles não estavam no monte e
estão convencidos de que Moisés estava em forma de espírito incorpóreo, e acham que
Pedro, que estava no monte, estava errado! Será que devemos acreditar no apóstolo Pedro,
que estava no monte e presenciou tudo aquilo, demonstrando que Moisés estava com corpo
físico, ou deveríamos acreditar nos imortalistas, que não estavam no monte e mesmo assim
querem nos convencer de que Pedro estava enganado e que quem está certo são eles ?
Devemos confiar numa testemunha ocular dos fatos ou em apologistas desesperados em
formular um argumento confuso e contraditório? Eu prefiro ficar com a Bíblia!
A Bíblia dá pistas da vivificação de Moisés? – Já vimos que Pedro estava fisicamente no
monte, e não como um espírito incorpóreo. Isso por si só já é o suficiente para demonstrar
que a alegação imortalista não tem fundamento, pois toda ela se baseia na suposição de
que Moisés esteve como um espírito sem corpo. Portanto, que Moisés deve ter passado por
uma vivificação para ter aparecido no monte isso é um fato, e não uma hipótese. Se o
restante da Bíblia também apoia essa tese, é o que veremos agora. Um texto-chave para a
compreensão da vivificação de Moisés é o de Judas 9, que diz:
“Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de
Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te
repreenda” (cf. Judas 9)
Aqui é relatada a cena em que Miguel briga com Satanás pelo corpo de Moisés. Mas para
quê o diabo iria querer um cadáver? O que é que o diabo iria ganhar com um simples
corpo morto? Evidentemente Satanás queria mantê-lo preso à sepultura, porque cada
ressurreição que acontece é um desafio ao seu “império de morte” (cf. Hb.2:14). Sobre isso
Cullmann faz excelentes observações:
“A morte como tal é o inimigo de Deus. Pois Deus é a Vida e o Criador da vida. Não é pela
vontade de Deus que existe a degradação e a decadência, a mortalidade e a doença, os
subprodutos da morte agindo em nossa vida. Todas estas coisas, segundo o entendimento
cristão e judaico, decorrem do pecado humano. Portanto, toda a cura que Jesus realizava
não envolve apenas trazer de volta da morte, mas também a invasão do domínio do
pecado, e foi por isso que, em todas as ocasiões, Jesus disse: ‘Seus pecados estão
perdoados’. Não é que exista um pecado correspondente para cada doença específica, mas,
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 307
em vez disso, assim como a presença da morte, o fato de a doença acometer a todos é uma
consequencia da condição pecaminosa de toda a humanidade. Toda cura é uma
ressurreição parcial, uma vitória parcial da vida sobre a morte. Este é o ponto de
vista cristão”166
A morte é considerada o império de Satanás (cf. Hb.2:14), e o maior inimigo de Deus (cf.
1Co.15:26). O ato da ressurreição é o que há de mais ameaçador ao império da morte,
exatamente porque traz de volta uma pessoa à vida, porque tira uma pessoa de seu
domínio. Morte e ressurreição são dois opostos, dois inimigos. Isso explica o porquê que o
diabo estava lutando pelo corpo de Moisés: para retê-lo em seu domínio, para impedir uma
ressurreição, que é o que se contrapõe à morte.
Não há sentido em lutar por um simples cadáver se a alma “imortal” já está no Céu.
Satanás estava lutando pela permanência de Moisés na morte, em um estado sem vida. O
arcanjo Miguel, contudo, lutou contra o diabo pela posse do corpo de Moisés, para que este
fosse retirado do domínio da morte e conduzido ao reino de vida da ressurreição. Deste
modo podemos compreender perfeitamente tal relato de Judas 9. O que fortalece ainda
mais tal ponto de vista lógico é de onde Judas tirou tal fato: de um livro apócrifo chamado
de Assunção de Moisés. Norman Geisler discorre sobre isso nas seguintes palavras:
“Este episódio não é encontrado no AT e acontece de ser encontrado num livro apócrifo
intitulado A ascensão de Moisés”167
A nota de rodapé da Nova Versão Internacional também diz:
“Segundo vários mestres da igreja primitiva, esse versículo baseia-se numa obra apócrifa
chamada Assunção de Moisés”168
Como vemos, Judas não tirou esse acontecimento “do nada”, não lhe veio à mente de uma
hora pra outra ou por uma revelação divina repentina, mas foi tirado de um livro que
contextualiza todo este acontecimento que envolveu a briga de Miguel e Satanás pelo corpo
de Moisés. Como o próprio título sugere, seria incoerente que a Assunção de Moisés não
narrasse uma assunção de Moisés! Este é o tema central do livro, que existia na época de
Judas mas se perdeu com o tempo, subsistindo hoje apenas através da tradição oral
judaica. Como vemos, o diabo não brigou pelo corpo de Moisés por nada, mas para tentar
impedir a vivificação dele, para tentar mantê-lo na morte. Evidentemente cremos que
Miguel venceu a disputa com Satanás e que Moisés foi vivificado.
E foi precisamente isso o que possibilitou que ele aparecesse corporalmente no monte da
transfiguração: a sua vivificação dos mortos. Os judeus acreditavam na assunção de Moisés,
o diabo tentou mantê-lo preso à sepultura, mas Miguel prevaleceu e Moisés voltou à vida, e
apareceu no monte da transfiguração ao lado de Cristo e Elias. Isso certamente não
significa que todo o livro da assunção de Moisés é inspirado, significa apenas que aquele
fato – da ressurreição de Moisés – é uma verdade. Verdade é verdade em qualquer lugar.
Os hebreus de sua época acreditavam plenamente em tal fato, e Judas também acreditava
166 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em:
<http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 20/28/2013.
167 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da
Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
168 Nota de rodapé na Nova Versão Internacional em Jd.9, p. 2164.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 308
nisso, tanto que ele transcreveu para a Bíblia Sagrada a passagem do livro judaico sobre tal
acontecimento.
A Bíblia nos apresenta apenas duas únicas alternativas para deixamos de estar no estado de
morte (i.e, sem vida). São essas:
(1) Passar pela ressurreição (ser vivificado – 1Co.15:22,23)
(2) Não passar pela morte (ser transladado vivo como nos casos de Elias e Enoque)
Sem passar pela ressurreição não há vida (cf. 1Co.15:18,19; 1Co.15:32), e é evidente que
nós seremos ressuscitados na volta de Cristo (cf. 1Ts.4:16; 1Co.15:22,23). A cena da
transfiguração do monte não era uma sessão espírita e muito menos uma contradição
bíblica. Pelo contrário, das duas únicas pessoas que apareceram com Cristo no monte, uma
não passou pela morte e a outra passou pela ressurreição. Contraditório seria se víssemos
um “espírito” baixando no monte, vindo do “além”. O erudito bíblico Adam Clarke colocou
perfeitamente em suas palavras aquilo que aconteceu no monte da transfiguração, sem
fazer absolutamente nenhuma acepção às teses dualistas neste contexto:
"Elias veio do Céu no mesmo corpo com que deixou a Terra, pois fora trasladado, e não viu
a morte. (II Reis 2:11). E o corpo de Moisés fora provavelmente ressuscitado, como sinal ou
penhor da ressurreição; e como Cristo está para vir a julgar os vivos e os mortos--porque
nem todos morreremos, mas todos seremos transformados (I Coríntios 15: 51)--Ele
certamente deu plena representação deste fato na pessoa de Moisés, que morrera e então
fora trazido à vida (ou aparecera naquele momento como aparecerá ressurreto no dia final),
e na pessoa de Elias, que nunca provou a morte”169
Por que Elias e Moisés? – Essa pergunta pode não fazer tanto sentido para alguns, mas
muitos se indagam do porquê que Cristo escolheu Elias e Moisés para aparecerem no
monte, e não algum outro que não tivesse passado pela morte (como Enoque) ou algum
outro que fosse temporariamente vivificado, no lugar de Moisés. Porém, a escolha específica
de Elias e Moisés não veio ao acaso. Moisés estava representando a Lei, é por isso que a lei
é chamada até hoje de “lei de Moisés” (Jo.1:17). Elias, por sua vez, estava ali
representando os profetas. Ele é até hoje reconhecido pelo povo judeu como sendo o
principal dos profetas que já existiu. E Cristo, por sua vez, representava o Evangelho, a
Nova Aliança em que vivemos hoje, da qual ele obviamente é o principal.
Sendo assim, a Lei, os Profetas e o Evangelho estavam sendo representadas nas pessoas de
Moisés, Elias e Jesus. Outra representação importante que estava sendo feita naquela
ocasião é o meio pelo qual podemos chegar a Cristo. Estava ali Elias, que não passou pela
morte, mas foi vivificado em vida. Elias representa ali aqueles que estarão vivos por ocasião
do arrebatamento e que não passarão pela morte por ocasião da segunda vinda de Cristo.
Do outro lado estava Moisés, que representava o outro grupo, o daqueles que de fato
morreram, mas que serão ressuscitados para estarem com Cristo no último dia, que ali na
transfiguração estava entre Elias e Moisés, porque estará junto a ambos os grupos na Sua
segunda vinda (cf. 1Ts.4:16,17). Assim, tanto Elias como Moisés estavam no monte não por
acaso, nem por sorte, mas com toda uma representação importante que ali estava sendo
figurada.
169 CLARKE, Adam, apud CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª
edição. São Paulo: 1965.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 309
Seria uma sessão espírita? – Ademais de tudo isso, se Moisés e Elias estivessem no monte
como espíritos incorpóreos, conversando com outros seres em vida, quem deveria estar
fazendo a festa neste momento são os espíritas, que creem exatamente nisso. A cena do
monte da transfiguração deveria ser considerada como a primeira sessão espírita que já
existiu – ou a segunda, se contarmos a interpretação deles de 1ª Samuel 28. Seria
impensável, e até mesmo herético, pensar numa coisa dessas.
Ainda, se Moisés e Elias (ou um dos dois) eram “espíritos”, como foi que Pedro e os demais
discípulos os viram? Pois, de acordo com a concepção popular (espírita e imortalista),
espíritos são seres incorpóreos, imateriais, e não físicos. Se espíritos humanos incorpóreos
existissem e pudessem ser vistos, então todos nós veríamos os espíritos de nossos parentes
deixando o corpo na morte e subindo ao Céu. Além disso, como eles falaram com eles? Pois
o texto nos mostra uma conversa normal de Jesus com Elias e Moisés, antes de serem
interrompidos por Pedro:
“Naquele mesmo momento apareceram diante deles Moisés e Elias, conversando com
Jesus” (cf. Mateus 17:3)
Alguns tentar cobrir isso alegando que aquilo ali era uma visão do Reino de Deus, como se
eles estivessem tendo uma visão dos céus. Sustentam isso com a afirmação de Cristo, que
disse que “alguns dos que aqui se acham não experimentarão a morte antes de verem o
Filho do homem vindo em seu Reino” (cf. Mt.16:28). Contudo, notem que Jesus não disse
que alguns dos que ali estavam veriam o Reino, mas sim que veriam o Filho do homem
vindo em Seu Reino, o que é bem diferente e aduz à volta de Jesus, à segunda vinda de
Cristo, quando Ele vier em Seu Reino.
Não se tratava apenas de uma visão comum do Céu, mas de Jesus vindo em Seu Reino.
Isso não se cumpriu no monte da transfiguração, mas sim com o apóstolo João, que viu
Jesus voltar em Seu Reino nas visões que teve no Apocalipse. Além disso, se naquele
momento houvesse ocorrido uma visão celestial do Reino de Deus, como alguns alegam,
isso teria ficado muito claro aos discípulos e ao próprio Pedro, que obviamente não iria
pedir para construir uma “tenda” se estivessem vendo espíritos no Céu!
É óbvio que Pedro os via de forma natural, no monte, não estava tendo uma visão do
Paraíso celestial, e por isso propôs a construção de tendas, uma para cada um, para
passarem a noite ali. Tudo aquilo se passou de forma natural, não eram espíritos, não era
uma visão celestial, mas era algo real e natural que acontecia no próprio monte.
Finalmente, há também aqueles que alegam (como é o caso das testemunhas de Jeová)
que tudo aquilo não passou de uma visão espiritual comum, e não de uma visão do Céu ou
do Reino de Deus. Sendo assim, Moisés estaria de fato morto, na sepultura, mas apareceu
no monte através de uma visão não-literal que não era um acontecimento real (o mesmo
teria acontecido com Elias).
Embora essa visão não ensine a imortalidade da alma, pois sendo meramente uma visão
não-literal não indicaria nada se Moisés estaria factualmente morto ou vivo na realidade, ela
está longe de ser a mais provável diante dos acontecimentos que nos norteiam, pois todo o
contexto parece indicar uma realidade literal, e a própria palavra “visão” aplicada por
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 310
Mateus em 17:9 é explicada por Lucas como se referindo às “coisas que tinham visto” (cf.
Lc.9:36; ver também Mc.9:9), o que passa a ideia de que Jesus usou a palavra “visão” não
para se referir a algum tipo de visão extática ou arrebatamento de sentidos, mas com
relação às “coisas que [os discípulos] tinham visto” (cf. Lc.9:36).
Além disso, dificilmente Jesus estaria literalmente conversando com Moisés e Elias (cf.
Mt.7:13) se aquilo tudo fosse apenas uma visão extática ou um arrebatamento de sentidos.
Uma comunicação real exige necessariamente uma presença real de Moisés e Elias naquele
monte. Corrobora com isso o fato de o texto bíblico apresentar o relato de forma bem
natural, “enquanto ele (Jesus) orava [literalmente], a aparência do seu rosto se
transfigurou [literalmente] e suas vestes resplandeceram de brancura [literalmente], e
eis que estavam falando [literalmente] com ele dois homens, Moisés e Elias” (cf.
Lc.9:28,29).
Se o contexto todo é natural e é apresentado de maneira natural, dificilmente a aparição de
Elias e Moisés seria irreal. Não estamos num contexto de uma parábola aqui, ou de uma
simbologia apocalíptica (que é um livro repleto de alegorias), mas de uma descrição natural
rodeada de alusões literais. Sendo assim, ainda que se tudo aquilo tivesse sido apenas uma
“visão” isso não afetaria em nada a doutrina da mortalidade da alma, essa não é a melhor
explicação para a aparição de Moisés no monte.
Cremos que todo o contexto, à luz de todos os fatos, nos deixa claro que Moisés e Elias
apareceram corporalmente aos discípulos diante de Jesus, e que isso foi um acontecimento
real que exige, portanto, a ressurreição de Moisés em forma corpórea170.
Refutando objeções – Mesmo com todos estes fatos que deixam claro que tudo aquilo que
se passou no monte não serve absolutamente nunca de prova de imortalidade da alma,
alguns imortalistas ainda insistem com perguntas que são feitas na tentativa de contrariar
este fato. Analisaremos cada uma delas e veremos se realmente refutam algo que foi
exposto aqui.
• Jesus é a primícia e primogênito dos mortos. É alegado aqui que Jesus, como a
primícia dos que dormem (cf. 1Co.15:22) e o primogênito dos mortos (cf. Ap.1:5), deve ter
sido o primeiro a passar pela ressurreição gloriosa adentrando os céus. Mas quem é que
nega isso? Nada na Bíblia indica que Moisés tenha tomado o lugar de Cristo ressuscitando
gloriosamente ou adentrando os céus. A ressurreição de Moisés que vimos se assemelha
muito mais aos vários casos de ressurreição na Bíblia que aconteceram antes da
ressurreição de Cristo, como diversos relatos de pessoas ressurretas no AT e no NT (cf.
1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; Jo.11:11; At.9:36-41; 20:9-11). A
diferença entre essas pessoas e Jesus, que faz com que Cristo seja o primeiro mesmo em
vista desses casos, é que tais pessoas morreram de novo, ao passo que Jesus foi o primeiro
a adentrar os céus gloriosamente.
Moisés foi de fato vivificado para aparecer no monte da transfiguração, mas não adentrou
os céus em glória como Jesus, foi uma vivificação temporária, uma tipologia e
representação da ressurreição geral dos mortos no último dia, ele “aparecera naquele
170 Não estamos dizendo que Moisés ressuscitou em corpo glorificado, apenas que ele ressuscitou
fisicamente pelo poder divino. A glorificação de Moisés ocorrerá em conjunto com os demais santos na
ressurreição do último dia.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 311
momento como aparecerá ressurreto no dia final”171, e não uma ressurreição direto para a
vida eterna no Céu. A vivificação de Moisés não contraria nenhum princípio da Palavra de
Deus sobre Jesus ter sido o primeiro a ressuscitar gloriosamente para o Céu sem passar
novamente pela morte, porque não dizemos que Moisés ressuscitou gloriosamente para o
Céu sem passar novamente pela morte. Uma coisa é bem diferente da outra e elas não se
misturam para que uma anule a outra.
• Moisés viu a corrupção. Outra coisa que jamais foi negada por mim, visto que não
sabemos precisamente quando que Moisés foi ressuscitado por Miguel (a Bíblia relata este
fato de modo que podemos ter a convicção de que ocorreu, conquanto não saibamos
exatamente quando ocorreu). Moisés não ter visto a corrupção de modo algum é alguma
premissa necessária para o fato de que Moisés foi vivificado temporariamente e apareceu
com Cristo e Elias corporalmente no monte da transfiguração. Muitos dos que Cristo
ressuscitará no último dia terão visto a corrupção em seus túmulos, e obviamente não
deixarão de ressurgir por causa disso.
• A ressurreição de Moisés não se encontra nos atos dos heróis da fé. Esse
argumento é de todos o mais pobre, na prática se baseia em dizer que, se a ressurreição de
Moisés tivesse ocorrido, isso teria sido mencionado pelo autor de Hebreus na descrição dos
heróis da fé em Hebreus 11, mas já que não foi então ela não ocorreu! Pasme que ainda
formulem argumentos assim, mas em resposta a isso temos que considerar que:
(a) Existem uma infinidade de fatos sobre os heróis da fé que também não aparecem na
lista. José, por exemplo, é até hoje lembrado por ter se tornado o governador do Egito, e o
segundo maior de toda a terra da época, atrás apenas do Faraó, e isso depois de ter sido
desprezado pelos seus irmãos, vendido aos egípcios, se tornado escravo, ser preso e passar
por toda uma reviravolta que o tornou aquilo que ele passou a ser. Mas nada disso é dito
em Hebreus 11, apenas que “pela fé José, no fim da vida, fez menção do êxodo dos
israelitas do Egito e deu instruções acerca dos seus próprios ossos” (cf. Hb.11:22), sem
mencionar nenhum dos acontecimentos grandiosos mencionados acima.
Em outras palavras, se um acontecimento importante na vida de um personagem bíblico
devesse necessariamente passar pela confirmação da descrição do autor de Hebreus,
teríamos que rejeitar todos esses grandes acontecimentos na vida de José e ficarmos
apenas com a instrução dos ossos! Ora, se muitas coisas importantes sobre José não foram
ditas, bem como muitas coisas sobre outros vários personagens bíblicos, por que com
Moisés deveria ter sido dito tudo? Quer dizer que nenhum fato bíblico importante realmente
aconteceu a não ser que tenha sido mencionado pelo autor de Hebreus? Não me parece um
método exegético confiável.
(b) Elias, que foi arrebatado ao Céu em vida e se encontra lá até hoje (sendo, portanto,
algo ainda mais significativo do que a vivificação temporária de Moisés) também não se
encontra na lista; aliás, este grande profeta nem sequer figura na lista dos heróis da fé!
(c) Daniel, um dos maiores nomes de todo o AT da Bíblia, sobre quem Deus faz diversas
vezes menção de Sua aprovação, e acerca de quem Ele se refere muitas vezes como o
“muito amado” (cf. Dn.9:23; 10:11; 10:19), também não aparece na lista.
171 CLARKE, Adam, apud CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª
edição. São Paulo: 1965.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 312
(d) Sendo assim, a conclusão óbvia a que se chega é que o autor de Hebreus não tinha a
finalidade de listar todos os grandes nomes do AT nem mesmo todos os grandes
acontecimentos que marcaram aquele período, mas selecionou alguns pela sua própria
vontade e deixou outros de fora pela mesma razão, e é infantil considerarmos verdadeiros
apenas os fatos que o autor de Hebreus “deixou na lista”. Este é um argumento do silêncio
que não prova nada, ou senão teríamos que reformular toda a Bíblia e só ficarmos com
aquilo que está escrito em Hebreus 11!
(e) É importante ressaltar que a Bíblia não diz que Moisés ressuscitou em corpo glorificado,
pois o primeiro que ressuscitou com corpo glorificado (i.e, para nunc a mais morrer) foi
Jesus Cristo. A ressurreição de Moisés se equipara aos vários casos de ressurreição
temporária na Bíblia, onde as pessoas ressuscitam para viver por algum tempo e depois
voltam a morrer. Moisés ressuscitou com o objetivo específico de aparecer no monte da
transfiguração, por causa de toda a importante representação que destacamos
anteriormente. Com efeito, é incoerente crer que o autor de Hebreus faria questão de
destacar a ressurreição temporária de Moisés, se ele não fez questão de fazer isso em
nenhum dos outros vários casos de ressurreição temporária descritas na Bíblia (cf.
1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; Jo.11:11; At.9:36-41; 20:9-11). Por que
Moisés teria que ser a exceção?
(f) Finalmente, devemos considerar que o autor de Hebreus não estava registrando todos
os feitos importantes, mas vários daqueles que foram obtidos através da fé. É por isso que
no começo de cada menção a cada personagem bíblico é antec edido pelo “pela fé”, porque
ele estava ressaltando os feitos grandiosos que tais personagens obtiveram através de sua
fé, e não por algum outro meio. Ora, Moisés não ressuscitou por sua própria fé, pois os
mortos não tem “fé”. Moisés não foi ressurreto por ter exercido fé nisso, até porque estava
morto, mas porque Deus o ressuscitou dos mortos – não foi pela fé do próprio Moisés.
Consequentemente, o autor de Hebreus não poderia ter dito que “pela fé Moisés ressuscitou
para aparecer no monte”, pela simples razão de que não foi a fé do próprio Moisés que o
reviveu. Para exercer fé é preciso estar em vida, os mortos não tem fé – e esse ponto é de
consenso até mesmo entre os imortalistas mais sensatos.
• Miguel não poderia ressuscitar Moisés porque é Deus quem ressuscita os mortos.
Ora, se Deus usou pessoas como Elias, Eliseu, Pedro, Paulo e tantos outros seres humanos
para ressuscitar mortos, por que razão não poderia ter usado Miguel, um arcanjo (que,
portanto, está em posição acima dos próprios homens – cf. Hb.2:7) para isso? Ninguém diz
que Miguel ressuscitou Moisés, mas que Deus usou Miguel para ressuscitá-lo, da mesma
forma que Ele usou seres humanos em tantas outras ocasiões (cf. 1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-
37; Lc.7:11-15; 8:41-56; Jo.11:11; At.9:36-41; 20:9-11), e nem por isso significa que a
obra de ressurreição deixou de ser de Deus.
Em conclusão, considerando: (a) o próprio relato do monte da transfiguração que prova
que Moisés estava fisicamente presente, e não como um espírito incorpóreo; (b) o fato de
Miguel brigar com o diabo pelo corpo de Moisés; (c) o fato de Judas ter retirado isso do
livro da Assunção de Moisés que narra tal fato naquele mesmo contexto; (d) o fato de
judeus como Judas estarem familiarizados com a realidade da assunção de Moisés; (e) toda
a representação que envolvia a escolha direta de Moisés e Elias para estarem no monte; e:
(f) a pobreza do nível das contra-argumentações imortalistas; podemos considerar que crer
na vivificação de Moisés não apenas é o mais razoável diante dos fatos, mas é a única coisa
que explica os fatos.
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 313
As almas do Apocalipse: Literal ou Simbólico? – Por fim, o último dos argumentos
imortalistas a ser refutado se encontra em Apocalipse 6:9-11, que os defensores da
doutrina da imortalidade da alma gostam de usá-lo como um acontecimento literal
daqueles que estavam no Céu pedindo a vingança dos seus inimigos. Eles se esquecem,
porém, que João não escreveu um livro literário e sim um livro simbólico. Todas as ações
místicas tem um exato sentido literal para ser identificado. Quando João escreve que o Sol
se escureceu refere-se às cidades pegando fogo com fumaça para todos os lados – veja se
você vai conseguir ver o Sol! Quando fala do mar virando sangue, jogue corpos e mais
corpos no mar e você vai ver no que vira.
Ninguém pensará que no Céu há cavalos brancos, bermejos, negros ou pálidos, montados
por ginetes belicosos; ninguém pensará que Jesus está no Céu na forma de um cordeiro
com uma ensanguentada ferida de faca, ou que está em forma de um leão (leão da tribo de
Judá). Os quatro seres viventes não representam criaturas aladas reais com características
de animais. Também não há ali "almas" que jazem na base de um altar. Toda a cena foi
uma representação gráfica e simbólica, de que aqueles que foram martirizados seriam
vingados por Deus, no dia do juízo final. Toda a simbologia apocalíptica tem um sentido a
ser identificado.
Algumas passagens que são claramente simbólicas, dentre muitas outras que podemos
destacar são:
(1) Cristo no Céu em forma de cordeiro ensanguentado (cf. Ap.5:6).
(2) Criaturas dentro do mar falando e louvando a Deus (cf. Ap.5:13).
(3) Várias estrelas caindo sobre a terra (cf. Ap.6:13). Sabe-se que o tamanho das estrelas
é maior do que o do nosso planeta e se caíssem estrelas sobre a Terra esta acabaria no
mesmo instante e o Apocalipse teria fim.
(4) Cavalos com cabeças de leão (cf. Ap.9:17).
(5) Cavalos que soltavam de sua boca fogo e enxofre (cf. Ap.9:17).
(6) Gafanhotos com coroa de ouro e rosto humano, cabelos como de mulher e dentes como
de leão (cf. Ap.9:7,8).
(7) Um dragão perseguindo uma mulher grávida no deserto (cf. Ap.12:13).
(8) A mulher grávida no deserto tem asas e voa (cf. Ap.12:14).
(9) A terra abre a boca engolindo um rio que um dragão soltou com a sua boca (cf.
Ap.12:15,16).
(10) Os trovões falam (cf. Ap.10:3).
(11) O altar fala (cf. Ap.16:7).
A Lenda da Imortalidade da Alma Página 314
(12) Jesus tem sete chifres e sete olhos (cf. Ap.5:6).
(13) Duas oliveiras e dois candelabros soltam fogo devorador de suas bocas (cf.
Ap.11:4,5).
Diante de tudo isso, por que não crer que almas agonizando debaixo do altar em pleno
Paraíso clamando por vingança contra os seus inimigos seja uma cena simbólica? Tal como
não existia uma mulher grávida sendo perseguida por um dragão no deserto durante mil
duzentos e sessenta dias, mas esta mulher representa a Igreja e o dragão representa
Satanás perseguindo a Igreja, igualmente não existe alguém no Paraíso agonizando e
gritando por vingança, mas é de fato uma representação de que aqueles que foram
martirizados seriam vingados por Deus, no dia do juízo final.
Pressupor que existem literalmente almas no Céu agonizando, gritando “em alta voz” (cf.
Ap.6:10) em seus clamores por vingança contra os seus inimigos é ferir a todos quanto
pensam racionalmente e entendem as linguagens simbólicas do Apocalipse. Se até o trov ão
fala no Apocalipse (cf. Ap.10:3), e isso é claramente uma linguagem simbólica, por que as
“almas” gritando vingança no Céu tem que ser necessariamente literal? Afinal, João
escreveu um livro altamente simbólico: “Quando ele bradou, os sete trovões falaram. Logo
que os sete trovões falaram, eu estava prestes a escrever, mas ouvi uma voz do céu, que
disse: Sele o que disseram os sete trovões, e não o escreva” (cf. Ap.10:3,4). Dois pesos...
duas medidas!
O Paraíso não é um local onde as pessoas ficam agonizadas e atormentadas ao ponto de
clamarem em alta voz a vingança contra os inimigos, muito pelo contrário, é exatamente o
inverso: é o momento em que as pessoas recebem a sua merecida recompensa e entram no
conforto do Pai, no lugar no qual “Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já
não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas
passaram” (cf. Ap.21:4).
Se não há mais dor, nem luto e nem lágrima na presença de Deus, então é totalmente
inconcebível que haja literalmente almas clamando por vingança contra os seus inimigos,
aos gritos! O Céu é ex
A lenda da imortalidade da alma
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  • 1.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 1 SUMÁRIO PREFÁCIO...................................................................................................................................................................................4 I-Um testemunho pessoal.........................................................................................................................................4 CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEMA.............................................................................................................13 I –Introdução.................................................................................................................................................................13 II–A Primeira Mentira..............................................................................................................................................13 III–Por que a mentira?.............................................................................................................................................21 IV–Como o conceito de “alma imortal” entrou no Judaísmo............................................................29 CAPÍTULO 2 – OS PAIS DA IGREJA E A IMORTALIDADE DA ALMA...............................................37 I–Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma?.............................................................................37 II–A Dormição de Maria e a Imortalidade da Alma ...............................................................................48 CAPÍTULO 3 – CONCEITOS BÍBLICOS SOBRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO................................51 I–Conceitos com relação à alma ........................................................................................................................51 II–Qual é o conceito correto?...............................................................................................................................51 III–O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]? .......................................................53 IV–A morte da alma...................................................................................................................................................75 V–Conclusão..................................................................................................................................................................94 VI–Sobre os significados secundários para a alma................................................................................95 CAPÍTULO 4 – A CRENÇA DA IMORTALIDADE DA ALMA NO ANTIGO TESTAMENTO .103 I –Introdução ao Capítulo...................................................................................................................................103 II–Moisés, Jó e a Imortalidade da Alma......................................................................................................104 III–Os Livros Poéticos...........................................................................................................................................109 IV–A posição dos Livros Proféticos..............................................................................................................120 V–Saul conversou com Samuel depois de morto?...............................................................................123 VI–A alma no lugar de silêncio........................................................................................................................129 VII–Conclusão............................................................................................................................................................132 VIII–Estavam enganados os escritores do Antigo Testamento?.................................................136 CAPÍTULO 5 – A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA NO NOVO TESTAMENTO.......146 I–Introdução ao Capítulo....................................................................................................................................146 CAPÍTULO 5.1 – JESUS PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?...............................................147 II–A Parábola do rico e do Lázaro.................................................................................................................147
  • 2.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 2 III–A Origem pagã do Hades.............................................................................................................................154 IV–O que é o Sheol?................................................................................................................................................156 V–O Significado da Parábola.............................................................................................................................160 VI–Deus de vivos, não de mortos – Argumento contra ou a favor da imortalidade da alma?...............................................................................................................................................................................174 VII–Mateus 10:28 e a destruição da alma ................................................................................................177 VIII–Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso?......................................................................................182 IX–Um espírito não tem carne e ossos.......................................................................................................196 CAPÍTULO 5.2 – O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU?..................................................................199 X–Sobre a entrada no Reino ou na condenação....................................................................................199 XI–Sobre Imortalidade e Vida Eterna.........................................................................................................208 XII–Sobre o Estado Final dos ímpios...........................................................................................................210 XIII–A Ressurreição de Lázaro........................................................................................................................211 CAPÍTULO 5.3 – OS APÓSTOLOS PREGAVAM A IMORTALIDADE DA ALMA?................216 XIV–Atos dos Apóstolos.......................................................................................................................................216 CAPÍTULO 5.4 – PAULO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA?............................................225 XV–Ausente do corpo e presente com Cristo.........................................................................................225 XVI–A realidade da ressurreição em contraste com a alma imortal........................................237 XVII–A consolação do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses..........................................................245 XVIII–“Buscando” aquilo que nós já temos?...........................................................................................250 XIX–Deus, o único que possui a imortalidade........................................................................................253 XX–Levou cativo o cativeiro..............................................................................................................................256 XXI–A Bíblia e as Experiências Fora do Corpo.......................................................................................260 XXII–A Entrada no Reino é somente na Ressurreição......................................................................262 XXIII–Últimas considerações dos ensinos de Paulo contra a imortalidade da alma......271 CAPÍTULO 5.5 – AFINAL, ALGUM APÓSTOLO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA? .................................................................................................................................................................................................277 XXIV–O autor desconhecido de Hebreus também desconhecia a Imortalidade da Alma .............................................................................................................................................................................................277 XXV–Pedro pregou a Imortalidade da Alma?.........................................................................................289 XXVI–João pregou a Imortalidade da Alma?...........................................................................................300 XXVII–Mais pilares do imortalismo sendo derrubados...................................................................304 CAPÍTULO 6 – O SONO DA MORTE.....................................................................................................................319 I–A Metáfora do Sono............................................................................................................................................319
  • 3.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 3 II–O “dormir” é referência somente para o corpo?.............................................................................323 CAPÍTULO 7 – A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS.......................................................................................329 I-A Ressurreição é Física?...................................................................................................................................329 II–O que é a “Ressurreição”?.............................................................................................................................341 III–A recompensa é no momento da morte ou somente na ressurreição? ..........................343 IV–Morte – o maior inimigo..............................................................................................................................345 V–O que acontece na Ressurreição?............................................................................................................346 CAPÍTULO 8 – A DOUTRINA DO INFERNO E DOS ACONTECIMENTOS FINAIS...................358 I-Introdução ao Capítulo.....................................................................................................................................358 CAPÍTULO 8.1 – INFERNO: TORMENTO ETERNO OU ANIQUILACIONISMO?.................361 II–Conceitos errôneos sobre o Inferno......................................................................................................361 III–O Repertório Bíblico de Aniquilamento.............................................................................................363 IV–Analisando as passagens utilizadas pelos imortalistas............................................................373 V–O Aniquilamento dos Ímpios......................................................................................................................395 VI–A Lei da Proporcionalidade.......................................................................................................................410 VII-A Lei Moral..........................................................................................................................................................419 VIII–Conclusão..........................................................................................................................................................422 CAPÍTULO 8.2 – OS ACONTECIMENTOS FINAIS...................................................................................425 I–Onde passaremos a eternidade?................................................................................................................425 II-Novos Céus e Nova Terra..............................................................................................................................428 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................................................................................433
  • 4.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 4 PREFÁCIO I-Um testemunho pessoal “Se as pessoas que morreram em Cristo já estão no Céu, então qual a necessidade da ressurreição? Por que elas precisariam deixar o Céu, voltar para o corpo sepultado, ressuscitar novamente e retornar para o Céu? Será que é por causa deste ‘dilema doutrinário’, impossível de ser resolvido, que não se vê muita pregação sobre a ressurreição nas igrejas cristãs que creem no estado consciente dos mortos?”1 Quem estiver lendo este livro pela primeira vez pode se surpreender em saber que seu autor não é adventista ou testemunha de Jeová, mas um evangélico comum que cria na imortalidade da alma, a exemplo do que a grande maioria dos evangélicos ainda creem. A noção de que Deus tenha implantando um elemento imortal no homem, que sobrevive à parte do corpo na morte e volta para Deus em estado incorpóreo esperando a ressurreição em um estado intermediário é ponto de fé em muitas religiões, inclusive cristãs. Nasci e cresci aprendendo a doutrina da imortalidade da alma. Talvez a primeira coisa que eu tenha ouvido sobre a morte é que a alma é imortal. Sobre ressurreição? Não, isso não era muito importante. Um mero detalhe desnecessário e de menor importância, que não era muito ressaltado nas igrejas. Tinha apenas um leve conhecimento sobre ressurreição, mas sobre imortalidade da alma estava na ponta da língua. Fui doutrinado, tanto pelas igrejas que eu frequentava quanto pelos sites apologéticos evangélicos na internet, que a alma era imortal. Quando comecei a construção de meu primeiro site2, em 2009, eu dediquei uma página para “provar” a imortalidade da alma, baseando-me naquelas mesmas meia dúzia de passagens bíblicas isoladas que todo bom imortalista sabe de cor: partir e estar com Cristo, as “almas” debaixo do altar clamando vingança, o ladrão da cruz, a parábola do Lázaro, os espíritos em prisão, etc. Passava essas passagens no site achando que era tudo aquilo que a Bíblia tinha a dizer sobre o tema. E, nos debates, sustentava essa mesma posição. Antes de contar como que eu deixei de crer na imortalidade da alma, será necessário começar contando como que tudo começou. Uma daquelas perguntas que todo cristão tem em mente mas que apenas alguns poucos têm coragem de assumi-la é sobre como que um Deus cheio de amor, graça, justiça e misericórdia poderia deixar queimando literalmente entre as chamas de um lago de fogo e enxofre por toda a eternidade os pecadores que durante alguns anos não serviram a Cristo em suas vidas terrenas. Não é preciso ser um filósofo para entender que tal punição seria injusta. Um tormento infinito por pecados finitos não entrava na minha cabeça, pelo menos não com o Deus que nos é revelado nas Escrituras, que tanto amou o mundo ao ponto de dar o Seu único Filho por todos nós. Se nem eu ou você seríamos tão cruéis e implacáveis ao ponto de mandar o nosso maior inimigo para literalmente as chamas de um fogo eterno, para sofrer terrivelmente para sempre e sem volta, quanto menos Deus, que ama muito mais essa pessoa do que eu ou você! 1 MEDEIROS, Gilson. Jesus falou mais sobre o inferno do que sobre o Céu. Será? Disponível em: <http://prgilsonmedeiros.blogspot.com.br/2009/07/cuidado-com-o-fogo-do-inferno.html>. Acesso em: 22/08/2013. 2 apologiacrista.com
  • 5.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 5 As explicações que ouvia sobre isso não me eram satisfatórias. Uns diziam que o inferno foi criado para o diabo e seus anjos, e que “por acidente” os não-cristãos vão acabar partilhando do destino do diabo e seus anjos. Mas como Deus é onisciente e sabia muito bem de todo o desenrolar da história humana antes mesmo de criar o homem, fica ainda mais incoerente crer que ele não tenha previsto esse inferno de tormento eterno para os homens pecadores. Na verdade, essa explicação não ajudava nada. Por esta época, eu comecei a me aventurar a ler vários daqueles relatos de vida após a morte. Li desde pessoas que supostamente foram ao Céu, até pessoas que passaram pelo inferno e voltaram (há também pessoas que dizem ter visitado o purgatório e o limbo). Claro que a maior ênfase e quantidade de relatos era deste último, o inferno. Li desde as visões de Santa Faustina do inferno, até a “divina revelação do inferno” de Mary Baxter, os “23 minutos no inferno” de Bill Wiese, dentre muitas outras “revelações”, as quais eu me amarrava, e tinha toda a credulidade do mundo de que tais visões eram reais. Na época, eu não tinha qualquer conhecimento bíblico sério sobre o que era realmente o inferno bíblico, apenas tinha aquela visão tradicional de inferno, herdada a nós pela Igreja Católica na Idade Média, ao maior estilo “Comédia de Dante”. Para mim, o inferno era um local subterrâneo, onde as almas ou espíritos imortais dos pecadores desciam, e lá eram atormentados por demônios, por fogo, por torturas colossais de todos os tipos. O inferno era praticamente uma Disneylândia do demônio, que se divertia à beça torturando os pecadores. Em outras palavras, ao invés de o inferno ser uma punição para o demônio (pois foi “preparado para o diabo e seus anjos” – cf. Mt.25:41), era uma total curtição para ele. Mas não era somente isso que me estranhava nestes relatos “infernais”. Não era preciso ter nenhum conhecimento teológico para perceber que os relatos eram sempre contraditórios entre si (portanto, mutuamente excludentes), e em quase todos os casos as pessoas encontravam por lá personagens famosos, como Michael Jackson, John Lennon, o papa João Paulo II, dentre outros. E os “espíritos”? Estes sangravam, vestiam roupas humanas, tinham até pele e ossos. Tudo isso me parecia muito estranho, para dizer pouco. Mas o ponto em comum em todas as visões do inferno é que a pessoa que foi supostamente levada até lá estava ao lado de Jesus, que se mostrava profundamente triste com o sofrimento daquelas pessoas, quase que arrependido, como se não tivesse sido ele próprio que tivesse preparado aquele lugar e soubesse de antemão o destino que os não-salvos teriam ali. Mas dizia que naquele momento já não restava mais nada a ser feito, pois aquelas pessoas já estariam condenadas para passarem toda a eternidade naquele lugar. Apenas mais tarde fui entender que os mortos só serão julgados e condenados na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1; Jo.5:28,29; At.17:31). Contudo, ao invés de me conformar com essa explicação, isso piorava ainda mais as coisas, pois passava a ideia de um Deus que é incapaz de solucionar os problemas ou resgatar as pessoas daquele lugar terrível, que sabia premeditadamente que aquelas pessoas iriam para aquele lugar, e, ao invés de decretar um juízo justo e correspondente aos pecados de cada um, decide por um tormento eterno para todos, indiscriminadamente. Um rapaz de doze anos que não conheceu Jesus teria a mesma pena de Adolf Hitler, que exterminou os judeus.
  • 6.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 6 O diabo, autor do pecado e que peca desde o princípio (cf. 1Jo.3:8), ficaria se divertindo torturando aqueles que pecaram somente durante algum tempo. Todas as respostas que lia e ouvia não serviam para melhorar a situação, mas apenas serviam para acentuar o problema. A base filosófica podia às vezes parecer racional, mas nunca atingia o cerne da questão. E, com medo de questionar se isso é justo ou não e ir parar neste local infernal, tinha receio de questionar o próprio Deus sobre isso, ou de perguntar a outras pessoas. Afinal, o motor que rege muitos crentes para viverem certinho não é Deus ou a vida eterna, é o fogo do inferno. Muitos crentes querem ser santos à marra, por força de obrigação e não por livre e espontânea vontade de amar a Deus, porque tem medo de morrer no pecado e irem parar neste local infernal. Sendo assim, a real motivação para servir a Cristo acaba sendo escapar do inferno, e não encontrar seu Salvador. Para elas, se um tormento eterno não existisse, valeria mais a pena viver no pecado! E cristãos firmados sobre o medo do inferno não são cristãos verdadeiros. O cristão tem que estar firmado em Cristo, e somente nEle. Mas isso é muito difícil para alguém que tem em mente a ideia de que, se cometer algum deslize, tem um local embaixo da terra com vários seres passando por tormentos colossais nas mãos de criaturas demoníacas com um garfo na mão, junto a um fogo que queima espíritos incorpóreos para sempre. Seria mais justo que Deus punisse cada pecador com o tanto correspondente aos seus pecados do que enviar todos juntos para uma mesma condenação de um tormento infinito por pecados finitos. Da mesma forma que eu considerava injusto que não houvesse castigo nem punição pelos pecados, igualmente achava injusto que essa punição fosse eterna para todos, indistintamente. A solução para isso seria um castigo proporcional aos pecados de cada um, e não uma extinção de vida antes de pagar pelos pecados, e muito menos um tormento eterno, que só serviria para perpetuar o pecado, os pecadores, o mal, as blasfêmias e o tormento no Universo para sempre, ao invés de eliminá-lo de uma vez por todas. Foi então que, lendo um artigo do doutor Samuele Bacchiocchi (o qual eu faço questão de citar neste livro em várias ocasiões), eu descobri a verdade sobre o inferno, que consiste em um castigo proporcional às obras e em aniquilacionismo, e não em um tormento eterno. É claro que isso não era tudo. Comecei a estudar o assunto e perceber a falácia dos argumentos imortalistas para um tormento eterno, os quais serão examinados ao longo deste livro. Descobri, então, que Deus não castiga da mesma forma todos os pecadores com um tormento eterno para todos indistintamente, mas pune a cada um com o tanto correspondente pelos seus pecados. Descobri que Deus não dá “infinitos açoites” em ninguém, mas que uns receberão “muitos açoites” (cf. Lc.12:47), enquanto outros, por sua vez, receberão “poucos açoites” (cf. Lc.12:48). Descobri, finalmente, a linguagem bíblica que expressa de maneira grandiosa a justiça de Deus: que os ímpios serão castigados pelo tanto correspondente aos seus pecados e, em seguida, eliminados, e não atormentados para sempre. Essa descoberta foi duplamente libertadora: primeiro, me libertou de um engano bíblico tremendo que é a crença em um inferno de tormento eterno e consc iente, baseando-me em uma ou outra passagem isolada, quando a Bíblia por completo rejeita tal doutrina. Segundo, ela me libertou de outro tormento, o psicológico, pois pude ver novamente como que o
  • 7.
    A Lenda daImortalidade da Alma Página 7 amor e a justiça de Deus andam de mãos dadas, e que Ele não é incoerente com relação ao destino eterno dos perdidos. Como o próprio Bacchiocchi disse, “a recuperação do ponto de vista bíblico do juízo final pode soltar a língua dos pregadores, porque podem pregar esta doutrina vital sem receio de retratar a Deus como um monstro”3. Mesmo após crer na crença bíblica da destruição eterna dos ímpios e rejeitar a tese do tormento eterno, o fato é que eu continuei crendo no estado intermediário, onde as almas dos justos já estariam com Deus e as dos ímpios já estariam no inferno (ainda que não seja eternamente). Sim, é incoerente crer nisso, pois se a alma sobrevive à morte do corpo é porque ela não morre; ou seja, que ela é imortal. Mas se ela morre na segunda morte, então ela não é imortal! Em outras palavras, crer que a alma sobrevive após a morte e ao mesmo tempo crer que ela perecerá no dia do juízo é ser incoerente: seria o mesmo que dizer que a alma morre e não morre, que ela é e não é imortal. Portanto, de duas, uma: ou a crença no tormento eterno do inferno é verdadeira, ou então, se não é, a própria imortalidade da alma em um estado intermediário é falsa. Demorou mais algum tempo para descobrir isso, e dessa vez a bomba veio com um nome: ressurreição dos mortos! Sim, essa crença tão esquecida e praticamente abandonada pelos pastores e igrejas em nossos dias foi exatamente aquilo que me levou rejeitar a imortalidade da alma. É certo que as igrejas que pregam a imortalidade da alma, em sua maioria, não rejeitam a ressurreição dos mortos. Porém, isso não muda o fato de que ambas as doutrinas são mutuamente excludentes. Os gregos da época de Cristo, que difundiram enormemente a tese da alma imortal para o mundo, não criam na ressurreição dos mortos, e por isso zombaram de Paulo no Areópago (cf. At.17:32). O teólogo luterano Oscar Cullmann logo percebeu esse contraste e escreveu o livro: “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?”, onde ele aborda tal contraste abismal entre ambas as doutrinas. O fato é que a imortalidade da alma anula completamente o valor e a importância (e principalmente a necessidade) da ressurreição. Prova disso é que raramente se vê pregações colocando o foco na esperança da ressurreição nos dias de hoje. Desde quando a doutrina pagã na imortalidade da alma entrou no Cristianismo, o foco passou a ser a esperança da imortalidade da alma, e não mais a esperança de ressurgir dentre os mortos na manhã da ressurreição do último dia. O foco mudou completamente. Da Igreja Primitiva, onde nunca se ouviu falar de “alma imortal” [psiquê athanatos], e que pregava que a única esperança dos cristãos era na ressurreição, para a igreja atual, onde não se ouve mais pregações sobre a ressurreição, onde ninguém fala que a sua maior esperança é em ressuscitar dos mortos, onde a crença na alma imortal suprimiu a crença fundamental na ressurreição. Rejeitar a imortalidade da alma não é apenas repudiar uma doutrina falsa oriunda do paganismo grego, mas é engrandecer e enaltecer novamente a ressurreição dos mortos, assim como era crida na Igreja primitiva. Diante disso, chegou o dia em que eu parei para ler 1ª Coríntios, capítulo 15. Nunca vou me esquecer daquele dia. Nunca algum capítulo mexeu tanto comigo. A cada verso que lia, a cada compreensão do ensino de Paulo sobre a ressurreição, eu ficava admirado, e ao mesmo tempo espantado – como nunca havia percebido aquilo antes? Era difícil acreditar 3 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 8 que a Igreja se distanciou tanto daquele ensino. Era difícil acreditar que a cada versículo eu me convencia cada vez mais que imortalidade da alma não condiz com ressurreição dos mortos. Confesso que fiquei pálido quando li no verso 18 Paulo dizendo que, se não fosse pela ressurreição, os que dormiram em Cristo já pereceram. Confesso que fiquei mais pálido ainda quando li no verso seguinte que a nossa esperança em Cristo se limitaria somente a esta presente vida, se não existisse a ressurreição. Quanto mais eu lia, mais me convencia que, se não fosse pela ressurreição do último dia, não existiria nada depois da morte. Tanto é que Paulo diz que, sem ressurreição, seria melhor comer, beber e depois morrer (v.32), e estaríamos correndo perigos à toa (v.30). Nunca havia visto um imortalista pregar essas passagens. E até hoje nunca vi alguém as explicar satisfatoriamente, à luz de sua crença na imortalidade da alma. Afinal, Paulo poderia ter dito que viveríamos no Céu do mesmo jeito sem a ressurreição, estando com nossas almas no Paraíso sem um corpo. Para os imortalistas, a ressurreição é isso: um detalhe desnecessário. Para que ressuscitar um corpo morto, se já estaríamos no Céu? De qualquer forma, na teologia imortalista, a ressurreição é desnecessária e inútil, pois estaríamos com Deus no Céu com ou sem um corpo físico glorioso. Estaríamos desfrutando das delícias do Paraíso para sempre, do mesmo jeito. Estaríamos com Deus eternamente, independentemente de um corpo se levantar dos mortos ou não. Mas, se a alma não é imortal, então a ressurreição é totalmente necessária. Sem ela, os mortos já teriam perecido para sempre (v.18). Sem ela, não haveria outra vida após a morte, e a nossa esperança seria somente esta vida presente (v.19). Sem ela, é inútil sofrer perseguições por amor a Cristo (v.30). Sem ela, a própria vida é inútil (v.32). Quanta diferença entre imortalidade da alma e ressurreição dos mortos! Depois, li os versos 51-54, onde vejo Paulo dizendo que seremos dotados de imortalidade somente após a ressurreição, pois ela não é algo que já trazemos conosco em nossa natureza no presente momento. E vejo também que a morte não é a libertadora da alma imortal, mas o maior inimigo a ser vencido (vs. 54-55), e que só é tragada na ressurreição (v.54). Quão importante, gloriosa e fundamental é a ressurreição! Quando descobri o valor da ressurreição no Cristianismo, o tanto que ela é importante e como ela foi sendo tão sistematicamente abandonada até chegar aos nossos dias (a tal ponto que raramente se vê pregações sobre a ressurreição hoje em dia), tentei entender o porquê que ela foi tão esquecida. Afinal, isso tudo não poderia ter acontecido do nada, sem uma razão de ser. Ao lermos o livro de Atos vemos que em 2/3 das ocasiões em que a palavra “esperança” entra em cena ela está relacionada à esperança da ressurreição dos mortos, no último dia. O próprio Paulo disse que “nessa esperança”, isto é, na esperança da “redenção do nosso corpo”, é que “fomos salvos” (cf. Rm.8:24), que tinha “a mesma esperança desses homens, de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos” (cf. At.24:15), e de que estava sendo julgado “por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos” (cf. At.23:6). Se a esperança da ressurreição era o foco da Igreja primitiva e foi perdendo espaço até os dias atuais, é porque algo aconteceu, porque alguma outra coisa foi ganhando este espaço.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 9 E, ao estudarmos a história da Igreja, vemos que no final do século II os filósofos cristãos, admiradores da filosofia de Platão, decidiram criar um meio de tentar conciliar o ensino da ressurreição com a imortalidade da alma, inventando um estado intermediário, onde as almas esperariam em forma incorpórea a ressurreição dos seus corpos. A partir de então, a imortalidade da alma foi ganhando cada vez mais espaço, e a ressurreição perdendo cada vez mais. Pois, se a alma já vai para o Céu sem a necessidade da ressurreição, para que existe ressurreição? A ressurreição seria desnecessária, pois já estaríamos na glória ou pelo menos assegurados entre os salvos. E tudo aquilo que Paulo disse aos coríntios em 1ª Coríntios 15 perderia completamente o sentido e a razão de existir. Ao invés de Paulo estar pregando a necessidade da ressurreição, ele estaria simplesmente pregando a existência dela. A ressurreição que a Bíblia ensina é uma ressurreição não apenas física e real, mas necessária e fundamental. A ressurreição crida pelos imortalistas, no entanto, é inútil e desnecessária (pois já estaríamos no Céu antes dela e continuaríamos lá sem ela, mesmo se ela nunca existisse). Esse evidente contraste entre os pontos de vista mortalista e imortalista em relação à vida após a morte fica ainda mais acentuado quando vemos que, se de fato é apenas na ressurreição que ganhamos vida, então essa deve ser a nossa maior esperança, mas se a nossa alma já está no Céu antes dela e sem a necessidade dela, então a nossa esperança não é a ressurreição dos mortos, como tão insistentemente pregavam os apóstolos, mas a imortalidade da alma. E é neste espantalho criado pelos imortalistas e apelidado de “ressurreição” que eles acreditam: uma ressurreição desnecessária, sem razão lógica de existir, em que viveríamos muito bem sem ela e onde é absurdo colocar “esperança” numa tão simples religação de corpo com alma por ocasião da segunda vinda de Cristo. A maior razão deste livro existir não é dizer que a alma morre, mas é anunciar a verdadeira ressurreição, retornando às raízes da esperança cristã primitiva, voltando aos primórdios de quando a imortalidade da alma estava das portas para fora da Igreja, e por essa mesma razão a ressurreição era o foco de todo o pensamento apostólico e neotestamentário. Para o inimigo, bastou inventar a mentira de que “certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4), que o homem rapidamente deixou de lado, arquivado em algum lugar, a sua crença numa ressurreição vindoura. Bastou ensinar que a alma não morre para trazer junto consigo todas as outras heresias que vemos hoje: oração pelos mortos, culto aos mortos, intercessão dos santos falecidos, reencarnação, consulta aos espíritos, purgatório, limbo, dentre outras inúmeras heresias perpetuadas até os dias de hoje, tendo todas elas essa mesma base inventada pelo maligno, de que existe vida consciente entre a morte e a ressurreição. O que vemos, na verdade, é que todas as heresias têm como fundamento a crença de que a alma sobrevive após a morte. Sem ela, nenhuma das maiores heresias citadas acima existiria. Sem ela, Satanás não teria um pretexto para fazer com que o povo ascenda velas aos mortos, beije imagens deles, se prostre diante delas, reze a alguém que já faleceu, ore por eles ou os consulte. A imortalidade da alma foi a primeira mentira inventada por Satanás na história da humanidade (cf. Gn.3:4), porque ela é a base e o fundamento de todas as demais mentiras. Na verdade, a maioria dos evangélicos perde tempo enquanto refuta a crença no purgatório, intercessão dos santos, imagens, idolatria, culto aos mortos, dentre tantas outras heresias,
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 10 pois elas são apenas a consequência de uma heresia maior. Todas elas são consequências da crença na imortalidade da alma. Destruindo essa maior mentira, todas as outras mentiras secundárias caem por terra, sem fazer qualquer esforço, como em um efeito dominó. Enquanto os evangélicos apenas atacarem essas doutrinas em si mesmas, não estarão fazendo qualquer progresso. Só conseguirão quando perceberem que o mal só é cortado se for pela raiz: quando destruirmos a base e o fundamento de todas essas heresias, que é precisamente a imortalidade da alma. Em resumo, aqui escreve alguém que sempre foi doutrinado com os ensinos de imortalidade da alma e tormento eterno, que sempre frequentou igrejas que criam e creem nisso, que sempre ouviu isso a vida inteira, aí veio a Bíblia e mudou tudo. Como é que isso ocorre? Somente quando estamos com a mente aberta para a verdade. O curioso é que eu já havia lido 1ª Coríntios 15 diversas vezes antes daquele dia. Por que nunca havia notado nada “diferente”? Porque estava com a mente fechada para a verdade. Enquanto eu estava apenas seguindo uma orientação religiosa proveniente de tradições humanas denominacionais de uma igreja X ou Y, eu podia ler mil vezes aquele capítulo, que iria estar como que com um “véu” espiritual me cobrindo. Mas, uma vez que dispus em meu coração o interesse de descobrir a verdade, e nada além da verdade bíblica, eu conheci a verdade, e a verdade me libertou. Todos se deparam com a verdade, mas apenas alguns poucos estão realmente abertos a aceitá-la. Da mesma forma que Cristo bate na porta do coração de cada um de nós, mas só o aceitamos se estivermos dispostos a isso (cf. Ap.3:20), o mesmo acontece com as verdades bíblicas. Certa vez um amigo meu comentou o seguinte: “Sabe o que acontece, Lucas? O problema é que a gente pode até ampliar alguma coisa sobre isso, mas não vai pegar. Você, e nem eu, ou quem quer que seja, consegue falar tão alto. A coisa talvez até mude, talvez, se quem padronizou o mandamento, no caso a Igreja Católica, reverter o quadro, dizendo que houve um erro. Muitos recebem as mudanças com alegria, satisfação, concordando com tudo, mas em apenas alguns dias elas voltam à crença comum. Pode-se encher isso aqui de textos e mais textos que convençam as pessoas que nada vai resolver. Que se encha isso aqui de argumentos que nos deixem com olhos lacrimejantes de satisfação, com apenas dez dias sem tocar no assunto, as pessoas são novamente empurradas para a crença tradicional ensinada há milênios, no que se refere a esses assuntos” Essa é a mais pura verdade, e é o que eu mais constato nestes tempos em que eu debato sobre isso. A maioria das pessoas não segue a Bíblia, segue uma religião. Não segue Cristo, segue o ensino denominacional mais tradicional. Não falo mal e nem quero desmerecer nenhuma denominação, mas a verdade está somente na Bíblia. Isso vale tanto para católicos, como principalmente para os evangélicos, que dizem seguir a Sola Scriptura. O que vemos é que muitas pessoas não estão com a mente aberta para decidir pela verdade bíblica. Elas já têm uma verdade pré-estabelecida na mente delas, oriunda da tradição da igreja X, e defendem essa tradição com unhas e dentes, usando a Bíblia não para descobrir a verdade que está nela, mas somente para encontrar pretextos e passagens que possam corroborar com a crença da tradição. Ao invés de fazerem um estudo sério e honesto, com a mente totalmente aberta para a verdade, elas já estão com uma verdade pré-concebida na mente delas, e buscam apoio para essa verdade na Bíblia.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 11 Em outras palavras, a Bíblia não é a fonte da verdade para essas pessoas. A fonte da verdade é a tradição denominacional, e a Bíblia é apenas um meio para dar pretextos para essa crença. Sendo assim, não me assusta que tantas pessoas leiam 1ª Coríntios 15 a exemplo de como fazem com inúmeras outras passagens das Escrituras que desmentem claramente a imortalidade da alma, mas elas continuam batendo nessa mesma tecla. Enquanto eu estive com a mente fechada, ainda que lesse 1ª Coríntios 15 ou ouvisse falar sobre ressurreição, não a compreendia. Era como os discípulos, que ouviam Jesus falando explicitamente a eles que iria morrer e ressuscitar ao terceiro dia, mas mesmo sendo assim tão claro, eles mesmo assim não entendiam, pois o seu entendimento estava encoberto (cf. Lc.9:45). Porém, quando estive com a mente aberta para a verdade, a quantidade insuperável de evidências bíblicas era tão grande que precisei fazer um livro sobre isso. Com a mente aberta para a verdade bíblica, não foi difícil achar uma riqueza bíblica que eu jamais teria descoberto se não me lançasse nas Escrituras e mergulhasse nelas. Jamais teria descoberto tudo isso se não fosse por estar com a mente aberta para a verdade bíblica. É claro que a ajuda de apologistas experientes me ajudaram bastante neste processo. Tenho que ser grato a Azenilto Brito (que gentilmente me apresentou o livro de Bacchiocchi e que me ajudou muito com os seus brilhantes artigos sobre o tema), a Samuele Bacchiocchi, a Leandro Quadros, a Oscar Cullmann e a tantos outros, em suas maravilhosas defesas deste ponto sobre a vida após a morte. Porém, acima de tudo, tenho que ser agradecido a Deus, por ter nos dado a Sua Santa Palavra. Eu não tive nenhum sonho, nenhuma revelação, não vi Deus, não tive contato com um anjo poderoso com uma espada na mão, não fui alvo de uma profecia e nem fui arrebatado ao terceiro céu. Tudo isso que eu descobri não foi de alguma forma extraordinária: foi somente lendo a Bíblia. Algo tão simples, mas tão pouco praticado por muitos. Fico imensamente agradecido ao Senhor por ter me dado a honra de militar por essa doutrina tão abandonada de nossas igrejas nos dias de hoje, chamada ressurreição dos mortos, e de poder combater a raiz de todas as heresias e a primeira de todas as mentiras, chamada imortalidade da alma. É claro que isso me custou caro. Muito caro. Já fui chamado de “herege” por causa disso não poucas vezes. Muitos outros evangélicos perdem o prestígio e consideração que tem por mim por verem que eu prego uma coisa que vai contra a tradição da igreja deles. Já sabia desse risco desde o início. Se eu quisesse agradar a homens, estaria pregando aquilo que todo mundo gostaria de ouvir. Se eu quisesse agradar a homens, estaria ensinando que “certamente não morrerás”. Se a minha intenção em Cristo fosse de fazer amigos que dessem um tapinha nas costas e me apoiassem em tudo o que eu dissesse, certamente estaria pregando que possuímos uma alma, e não que somos uma (cf. Gn.2:7). Esse é o preço pago por pregar a verdade, e sei que pagarei esse preço até o fim da minha vida. Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus. E, por essa mesma graça, hoje eu fico muito feliz em ver que tantas pessoas já se libertaram dessa doutrina pagã, e hoje estão livres para pregar a ressurreição e a vida em Jesus Cristo.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 12 E eu não sou o único. Poderia passar todo o dia mostrando inúmeros teólogos de diferentes segmentos religiosos evangélicos imortalistas, mas que, através de uma leitura sincera e honesta das Escrituras, adotaram a postura bíblica da mortalidade natural da alma humana. Poderíamos referir aqui os nomes de Oscar Cullmann, Clark Pinnock, John Stott, John William Weham, Edward Green, Philip Hughes, David Edwards, Basil Atkinson, Greg Boyd, William Branham, Harold Camping, Charles Fitch, Roger Foster, Fudge Edward, Charles Gore, Henry Grew, Homer Hailey, Emmanuel Pétavel-Olliff, Oliver Chase Quick, Ulrich Ernst Simon, George Storrs, William Temple, dentre tantos outros eruditos e teólogos de renome, que não eram adventistas nem testemunhas de Jeová, e que, mesmo fazendo parte de denominações que pregavam a imortalidade da alma, adotaram a postura de mortalidade da alma após um exame bíblico sério e honesto consigo mesmos. Todos eles poderiam ter mantido a sua crença na imortalidade da alma, o que seria muito mais fácil e confortável para eles. Mas, mesmo sofrendo não poucas vezes a oposição e perseguição de ataques contrários, eles não puderam fechar os olhos para as tão grandes e notáveis evidências bíblicas que combatem tão fortemente a crença na imortalidade da alma, que pode até enganar a muitos com uma dúzia de versos isolados sem exegese, mas que dificilmente resiste a um exame bíblico criterioso respeitando as normas da hermenêutica bíblica. É claro que ainda existem aqueles que hesitam, que perseguem, que chamam os outros de hereges sem examinar a si mesmos, que olham torto, que são fechados para a verdade ou que lerão este livro meramente na intenção de refutá-lo. Isso sempre existiu, e sempre existirá. Paulo foi debochado pelos gregos, porque pregava a ressurreição dos mortos, e eles a imortalidade da alma (cf. At.17:32). Por isso, não é de se surpreender que a mesma coisa aconteça nos dias de hoje. Mas a minha alegria é ver que não estou sozinho nesta batalha – estou cercado de tão grande nuvem de testemunhas, entre leigos e eruditos, das mais diferentes denominações religiosas, que cada vez mais estão abrindo os olhos para a verdade e se libertando do engano. Destes, sou apenas mais um militante. Apenas mais um que, ao invés de iludir você dizendo que certamente não morrerás, digo que Deus é o único que possui a imortalidade, mas que Cristo é a ressurreição e a vida.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 13 CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO AO TEMA I –Introdução “Nenhuma das minhas publicações provocou tal entusiasmo ou tão violenta hostilidade”4. É assim que Oscar Cullmann, renomado teólogo suíço, definiu o seu livro ferrenhamente atacado: “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos mortos?”, após uma mudança de posição e consciência sobre a vida pós-morte. A ideia de imortalidade inerente está enraizada nas principais religiões do mundo, mas atualmente cresce o número de eruditos que, lendo a Bíblia, abandonam tal crença. O que leva tantos teólogos na atualidade, como Oscar Cullmann, Clark Pinnock, John Stott, John William Weham, Edward Green, Philip Hughes, David Edwards, entre muitos outros, a abandonarem a visão de estado intermediário e de eternidade no lago de fogo, se nasceram aprendendo que tais crenças eram verdadeiras e apenas as “seitas heréticas” pregavam o contrário? Simplesmente, continue lendo. Você vai entender! II–A Primeira Mentira “Certamente não morrerás” (cf. Gênesis 3:4) Não é a toa que a crença na imortalidade da alma está presente em praticamente todas as religiões pagãs. Todos sabem que existem principados (demônios) atuando por trás dos grandes sistemas religiosos, que monitoram, regem, comandam e perpetuam esses enganos. Muitas mentiras foram implantadas nas raízes da Igreja ao longo dos séculos, e como a tradição foi tendo um valor doutrinário cada vez mais acentuado e muito maior do que a própria Escritura Sagrada, estes enganos passaram a atuar nos cristãos como verdades independentes da Bíblia. A justificação ficou por obras, o evangelho deixou de ser “Cristocêntrico”, os que morreram passaram a ser intercessores, a ressurreição dos mortos começou a perder a sua importância, a salvação da alma poderia perfeitamente achar-se por meio da venda de indulgências, a Santa Inquisição tratou de “dar um fim” em quem fosse contra os dogmas sagrados da tradição e o evangelho puro, simples, sincero e verdadeiro, que não estava sujeito a acréscimos (cf. Gl.1:8), começou a se desviar do Caminho, do foco, daquilo que lhes foi originalmente pregado por Cristo e pelos apóstolos. Ao longo dos séculos, muitos enganos e mentiras foram perspicazmente sendo infiltrados na Igreja, e o evangelho estava gritantemente angustiado por uma Reforma. Como os dogmas não podiam ser contestados (eram “infalíveis” por meio do Magistério), ninguém ousava contrariar aquilo que lhes era dito. E, se alguém ousasse tanto, poderia ser queimado ou torturado, intitulado como herege e inimigo público da Santa Sé. É claro que existia um livro, que foi praticamente reprimido das mãos do povo, livro este que continha aquilo que foi originalmente anunciado, que continha o evangelho puro, sincero, da maneira como era no início. 4 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 14 Essas Sagradas Letras tinham que ser reprimidas, ou, doutra forma, as próprias pessoas acabariam por descobrir dezenas de mentiras que foram invadindo o Cristianismo com o tempo. O mundo, enquanto sob o jugo da Igreja Romana, vivia em trevas. O povo, sem as divinas Escrituras traduzidas em sua língua. E o clero, cada vez mais explorando a ignorância deste povo. Isso levou a Igreja Católica a proibir a leitura da Bíblia e a lutar ao máximo contra a divulgação dela. O Concílio de Tolosa (1229) categoricamente declarou: “Proibimos os leigos de possuírem o Velho e o Novo Testamento... Proibimos ainda mais severamente que estes livros sejam possuídos no vernáculo popular. As casas, os mais humildes lugares de esconderijo, e mesmo os retiros subterrâneos de homens condenados por possuírem as Escrituras devem ser inteiramente destruídos. Tais homens devem ser perseguidos e caçados nas florestas e cavernas, e qualquer que os abrigar será severamente punido”5 Os leigos eram proibidos de lerem as Escrituras Sagradas em sua própria língua e até mesmo de possuírem a Bíblia. Tais homens que tivessem uma Bíblia em casa deveriam ser condenados, caçados, inteiramente destruídos, perseguidos e caçados nas florestas e cavernas. Nesta época de trevas, a Igreja Católica, a serviço de Satanás, lançava dura perseguição contra o povo de Deus que se apegava às Escrituras, que tinha que buscar locais de esconderijo em retiros subterrâneos para poderem ler a Bíblia, mas a Igreja Católica ordenava caçar e perseguir tais homens até nas cavernas ou em qualquer outro lugar, até serem destruídos por completo. Nenhuma perseguição à Bíblia feita por um não-cristão em toda a história da humanidade se comparou a perseguição elaborada pela Igreja Romana, nem mesmo a de Diocleciano ou a de Nero. O Papa Pio IX defendia que as sociedades bíblicas eram pestes que deveriam ser destruídas por todos os meios possíveis: “Socialismo, comunismo, sociedades clandestinas, sociedades bíblicas... pestes estas devem ser destruídas através de todos os meios possíveis”6 A leitura da Bíblia era absolutamente proibida aos leigos e considerada como sendo uma peste: “Essa peste (a Bíblia) assumiu tal extensão, que algumas pessoas indicaram sacerdotes por si próprias, e mesmo alguns evangélicos que distorcem e destruíram a verdade do evangelho e fizeram um evangelho para seus próprios propósitos... elas sabem que a pregação e explanação da Bíblia são absolutamente proibidas aos membros leigos”7 John Wycliffe (1328 – 1384 d.C), que lutou fortemente pela restauração do evangelho bíblico e chegou até a elaborar uma tradução das Escrituras para tirar o povo das trevas, foi chamado de pestilento canalha de abominável heresia, por ter lutado em prol da divulgação da leitura bíblica pelos leigos: 5 Concil. Tolosanum, Papa Gregório IX, Anno Chr. 1229, Canons 14:2. 6 Papa Pio IX, em sua Encíclica “Quanta Cura”, Título IV, 8 de Dezembro de 1866. 7 Acts of Inquisition, Philip Van Limborch, History of the Inquisition, cap. 8.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 15 “O pestilento canalha de abominável heresia, que inventou uma nova tradução das Escrituras em sua língua materna”8 As decisões dos concílios eram claras: a leitura da Bíblia era proibida aos leigos, mas, enquanto a Bíblia era um livro proibido, as “Horas da Bem-aventurada Virgem” era permitido: “Proibimos ainda que seja permitido aos leigos possuir os livros do Velho e Novo Testamento, êxito o Saltério, ou o Breviário para dizer o Ofício divino, ou as Horas da Bem-aventurada Virgem a quem as desejar ter por devoção; porém proibimos estritamente que esses livros sejam em língua vulgar”9 Em outra encíclica do papa Pio IX, ele reitera a proibição da leitura da Bíblia em língua vulgar, por sanção geral de toda a Igreja: "Nas regras que foram aprovadas pelos Padres designados pelo Concílio Tridentino, aprovadas por Pio IV e antepostas ao Índice dos livros proibidos, lê-se por sanção geral que não se deve permitir a leitura da Bíblia publicada em língua vulgar”10 O papa Leão XII também se revoltou contra aqueles que tentavam trazer ao povo a tão sonhada leitura da Bíblia em sua própria língua: “Não se vos oculta, Veneráveis Irmãos, que certa Sociedade vulgarmente chamada bíblica percorre audazmente todo o orbe e, desprezadas as tradições dos santos Padres, contra o conhecidíssimo decreto do Concílio Tridentino [v. 786], juntando para isso as suas forças e todos os meios, tenta que os Sagrados Livros se vertam, ou melhor, se pervertam nas línguas vulgares de todas as nações”11 O papa Pio VII reforça que não somente ele, mas também os seus predecessores avisavam constantemente que a leitura da Bíblia ao povo é mais um dano do que algo útil, e a única versão permitida era a Vulgata Latina: "Porque deverias ter tido diante dos olhos o que constantemente avisaram também os nossos predecessores, a saber: que se os sagrados Livros se permitem correntemente e em língua vulgar e sem discernimento, disso há de resultar mais dano que utilidade. Ora, a Igreja Romana que somente admite a edição Vulgata, por prescrição bem notória do Concílio Tridentino (ver 785 s), rejeita as versões das outras línguas”12 Como a Vulgata estava escrita em latim e praticamente a totalidade do povo da época não entendia nada deste idioma (alguns mal sabiam a sua própria língua, quanto menos o latim!), então eles astutamente permitiam somente esta versão da Bíblia, para que o povo não entendesse nada do que estava escrito. Também o papa Clemente XI, em sua Constituição Dogmática “Unigenitus”, condenou vigorosamente como erradas uma série de reivindicações feitas por Pascásio Quesnel. 8 Condenação de Wycliffe pelo Concílio de Constança, em 1415. 9 Concílio de Tolosa, 1229, cap. 14. 10 Pio IX, Encíclica Inter praecipuas, 16 de Maio de 1844. 11 Leão XII, Encíclica Ubi primum de 5 de Maio de 1824. 12 Pio VII, carta Magno et acerbo, 3 de Setembro de 1816; Denzinger # 1603.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 16 Entre elas, inclui-se a necessidade de estudar as Escrituras, que a leitura da Bíblia é para todos, que é danoso querer retrair os cristãos da leitura bíblica, que as mulheres poderiam ler a Bíblia, que os cristãos poderiam ler o Novo Testamento, que o povo simples teria o direito de ler as Escrituras, entre outros: 70. Útil e necessário é em todo tempo, em todo lugar e para todo gênero de pessoas estudar e conhecer o espírito, a piedade e os mistérios da Sagrada Escritura. 71. A leitura da Sagrada Escritura é para todos. 81. A obscuridade santa da Palavra de Deus não é para os leigos razão de dispensar-se da sua leitura. 82. O dia do Senhor deve ser santificado pelos cristãos com piedosas leituras e, sobretudo, das Sagradas Escrituras. É coisa danosa querer retrair os cristãos desta leitura. 83. É ilusão querer convencer-se de que o conhecimento dos mistérios da religião não devem comunicar-se às mulheres pela leitura dos Livros Sagrados. 84. Arrebatar das mãos dos cristãos o Novo Testamento ou mantê-lo fechado, tirando-lhes o modo de entendê-lo, é fechar-lhes a boca de Cristo. 86. Arrebatar ao povo simples este consolo de unir a sua voz à voz de toda a Igreja, é uso contrário à prática apostólica e à intenção de Deus. (Denzinger #1429-1434, 1436, 8 de Setembro de 1713) Por que estamos dizendo tudo isso? Simplesmente porque a própria Igreja Católica sabia que tinha algo a esconder. Sabia que, se as Sagradas Letras fossem reveladas ao povo, muitas lendas que foram surgindo através dos séculos pela tradição iriam ruir sistematicamente. O próprio Magistério católico reconhecia que, de fato, muitas doutrinas mentirosas que vão contra o evangelho verdadeiro foram, ao passar dos séculos, encontrando lugar na Igreja. Uma dessas principais mentiras era que, como o catecismo católico expõe: “A Igreja ensina que toda alma espiritual é criada imediatamente por Deus-- não é ‘produzida’ pelos pais – e também é imortal: não perece quando se separa do corpo por ocasião da morte”13 Apesar de boa parte dos “rebeldes” serem facilmente silenciados de um ou de outro jeito (na maioria das vezes, do outro), começaram a surgir homens levantados por Deus a fim de fazer com que, ao passar dos séculos, a doutrina fosse aos poucos voltando ao foco inicial. Muitas doutrinas claramente contraditórias à Palavra de Deus foram aos poucos sendo repensadas. O próprio Martinho Lutero chegou a expressar-se de maneira contraria às teses de imortalidade da alma, colocando-a no grupo das “monstruosidades sem fim no monte de estrume dos decretos romanos”: “Contudo, eu permito ao Papa estabelecer artigos de fé para si mesmo e para seus próprios fiéis – tais como: que o pão e o vinho são transubstanciados no sacramento; que a essência de Deus não gera nem é gerada; que a alma é a forma substancial do corpo humano; que ele [o papa] é o imperador do mundo e rei dos céus, e deus terreno; que a alma é 13 Catechism of the Catholic Church, pág.93.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 17 imortal; e todas estas monstruosidades sem fim no monte de estrume dos decretos romanos – para que tal qual sua fé é, tal seja seu evangelho, e tal a sua igreja, e que os lábios tenham alface apropriada e a tampa possa ser digna da panela"14 Em outra ocasião, Lutero chamou a imortalidade da alma de "sonho humano" e de "doutrina de demônios": "Daí os especialistas em Roma recentemente pronunciaram um decreto sagrado [no Quinto Concílio Laterano, 1512-1517] que estabelece que a alma do homem é imortal, agindo como se nós não disséssemos todos em nosso comum Credo, “eu acredito na vida eterna”. E, com a assistência do gênio Aristóteles, eles decretam além disto que a alma é “essencialmente a forma do corpo humano”, e muitos outros esplêndidos artigos de natureza parecida. Estes decretos são, de fato, mais apropriados para a igreja papal, pois eles possibilitam a eles manter sonhos humanos e as doutrinas de demônios enquanto eles pisam e destroem a fé e ensino de Cristo"15 A visão de Lutero era de uma natureza humana holista, de uma alma mortal e de os mortos “dormindo” até a manhã da ressurreição do último dia, quando “Ele nos chamar e nos acordar juntamente com todos os Seus queridos filhos para a Sua eterna glória e juízo”. Enquanto isso, eles “nada sentem absolutamente”: “Não há ali deveres, ciência, conhecimento, sabedoria. Salomão opinou que os mortos estão a dormir, e nada sentem absolutamente. Pois os mortos ali jazem, não levando em conta nem dias nem anos; mas, quando despertarem, parecer-lhes-á haver dormido apenas um minuto”16 “Assim como alguém que dorme e chega a manhã inesperadament e, quando acorda, sem saber o que aconteceu: assim nós nos ergueremos no último dia sem saber como chegamos a morte e como passamos por ela. Nós dormiremos até que Ele venha e bata na pequena sepultura e diga: Dr. Martinho, levanta-te! Então eu me erguerei num momento e serei feliz com Ele para sempre”17 “Nós devemos aprender a ver nossa morte com a luz correta, de forma que não fiquemos alarmados por causa dela, como o descrente faz; porque em Cristo ela não é de fato morte, mas um fino, doce e breve sono, que nos traz libertação deste vale de lágrimas, do pecado e do temor e extremidade da verdadeira morte e de todos os desfortúnios desta vida, e nós devemos estar seguros e sem cuidado, descansando docemente e gentilmente por um breve momento, como em um sofá, até o tempo quando ele nos chamar e nos acordar juntamente com todos seus queridos filhos para sua eterna glória e gozo. Pois já que nós o chamamos de sono, nós sabemos que não ficaremos nele, mas seremos novamente acordados e vivificados, e que o tempo durante o qual dormimos, não parecerá mais longo do que se nós tivéssemos apenas caído no sono. Daí nós devemos nos censurar por estarmos surpresos ou alarmados com tal sono na hora da morte, e de repente formos 14 Martinho Lutero, Assertio Omnium Articulorum M. Lutheri per Bullam Leonis X. Novissimam Damnatorum. 15 Lutero, LW 32:77. 16 Exposição do Livro de Salomão, Chamado Eclesiastes, de Lutero. 17 The Chrislian Hope-pág.37.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 18 revividos da cova e da decomposição, e inteiramente bem, novo, com uma pura, clara e glorificada vida, encontrarmos nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nas nuvens”18 Infelizmente, a noção de Calvino de que a alma era imortal acabou falando mais alto e a maioria das igrejas reformadas acabaram adotando a tese da imortalidade da alma. Para não causar divisão e nem atrito com os demais reformadores, Lutero acabou não dogmatizando a questão e deixou-a em aberto para quem quisesse crer que a alma era imortal (como Calvino cria) ou para quem se unisse à sua crença particular na mortalidade natural da alma. Isso não impediu que, com o tempo, um número impressionante de mestres e teólogos respeitados e reconhecidos começassem a repensar as suas doutrinas de imortalidade da alma à luz das Sagradas Escrituras, e passaram a ver que, de fato, a doutrina da imortalidade da alma não bate com a doutrina da ressurreição e muito menos com o que as Sagradas Letras tem a nos dizer. O número de pessoas que deixam a visão dualista da natureza humana impressiona não apenas pela quantidade, mas também por estar em franco crescimento. De fato, a imortalidade da alma pode ser classificada como sendo a primeira mentira que entrou no mundo e provavelmente a última a sair dele. Muitas pessoas de bem têm sido enganadas atualmente sobre o estado dos mortos. Mas não é de hoje que isso acontece. Deus disse para o homem, como consequência do pecado: “Certamente morrerás” (cf. Gn.2:17). Mas Satanás, a serpente, retruc ou: “Certamente que não morrerás” (cf. Gn.3:4). Quem estava com a razão? Deus ou Satanás? Certamente que Deus. A própria presença da “árvore da vida” no jardim do Éden indica claramente que a imortalidade era condicional à participação do fruto de tal árvore. Nós não tínhamos uma “alma imortal”! Com a Queda da humanidade, quando o pecado entrou no mundo, a morte (que não estava prevista no plano inicial de Deus para com a Sua Criação) passou a tornar- se uma realidade. O estado do homem alterou-se, e este passou a ser um ser mortal. A segurança de imortalidade baseava-se em partilharem da árvore da vida no Jardim, que lhes garantia exatamente a imortalidade (cf. Gn.3:22). É evidente que Deus não iria colocar tal árvore a disposição caso já tivesse implantado uma alma eterna que lhes garantisse tal imortalidade. Visto que a condição para “viver para sempre” constituía-se na participação do fruto da árvore da vida, fica muito claro que eles não detinham em si mesmos a imortalidade, supostamente na forma de um elemento eterno implantado em seu ser. Se Deus colocou no ser humano uma alma imortal, então por que razão existiria a “árvore da vida” no Jardim do Éden? Ora, se já fôssemos imortais isso seria totalmente desnecessário! Se o homem comesse da árvore da vida, se tornaria imortal (cf. Gn.3:22). Contudo, foram expulsos do Jardim do Éden, sem terem comido da árvore da vida, e dois querubins ficaram na guarda do Jardim, exatamente a fim de que não comessem da árvore da vida e vivessem eternamente (cf. Gn.3:24). Tudo isso seria totalmente desnecessário se já possuíssemos uma alma imortal. Para que guardar o homem de comer do fruto da árvore da vida e viver para sempre se ele já era imortal por meio de uma alma eterna que já lhes teria sido implantada? 18 Compend of Luther’s Theology, editado por Hugh Thomson Kerr, Jr., p. 242.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 19 O homem seria imortal caso comesse do fruto da árvore da vida, mas não comeu. Deus não fez o homem com o conhecimento do bem e do mal, mas ele comeu do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal e teve tal conhecimento. Da mesma maneira, Deus não fez o homem com uma alma imortal. A imortalidade era condicional a participação do fruto da árvore da vida, assim como o conhecimento do bem e do mal era condicional a participação daquela árvore. Mas, ao contrário do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal na qual eles comeram, eles não comeram do fruto da árvore da vida! O resultado disso é que o homem não tornou-se um ser imortal. Ele, “morrendo, morreria” (cf. Gn.2:7). O homem era mortal pela sua natureza original, sem uma alma imortal, mas com a possibilidade de receber a imortalidade por meio da participação da árvore da vida. Isso, contudo, ele perdeu ao ser expulso do Jardim, e, portanto, perderam a possibilidade de participação na árvore da vida que lhes poderia nutrir de imortalidade. O homem perdeu a imortalidade quando foi expulso do Éden, e assim a morte veio a partir do pecado, sendo revertida na ressurreição (cf. 1Co.15:22,23). A Bíblia, contudo, nos apresenta que a árvore da vida (imortalidade) estará novamente presente no Paraíso, somente aos salvos, após a ressurreição dos mortos (cf. Ap.22:2). E acontecerá que “quem tem sede, venha; e quem quiser, receba de graça a água da vida” (cf. Ap.22:17). O homem, agora sim, se tornaria imortal. A árvore da vida representava a imortalidade na comunhão com Deus, mas com o pecado fomos privados do acesso desta fonte de eternidade, que agora continua na presença dEle, onde iremos desfrutá-la depois que formos ressuscitados (cf. Ap.22:2). A eternidade no homem era condicional, não a uma alma que lhes teria implantada, mas sim a obediência ao Ser Criador do Universo, como um dom de Deus. O homem foi privado da árvore da vida para que não se tornasse imortal como Deus, e, de fato, não comemos da árvore da vida (cf. Gn.3:22-23). Com a desobediência a Deus, a participação na árvore da vida foi cortada (cf. Gn.3:22,23), o que demonstra claramente que a imortalidade não residia numa alma imortal recém-implantada, mas sim na obediência a Deus. A desobediência foi o que ocasionaria a morte, em um contraste direto com a vida eterna residente na forma da árvore da vida. Quando entrou o pecado do mundo, juntamente com ele entrou a morte: O processo da morte teria início. O texto original hebraico simplesmente reza que: “Morrendo, morrereis”. A Bíblia não diz que “no dia em que comerdes, certamente morrerás no mesmo dia”. Diz somente que ele morreria, mas não diz quando. A morte não estava no plano inicial de Deus para com a Sua Criação. Contudo, com o pecado reinou a morte (cf. Rm.5:21; Rm.5:12), que só será revertida na ressurreição do último dia (cf. 1Co.15:51-55; 1Co.15:22,23; Jo.6:39,40). No dia em que Adão comesse daquela árvore proibida ele ia morrer, ou seja, tornar-se-ia um ser mortal, o que ele realmente se tornou. O processo de morte como consequência do pecado alcançaria a todos os seres humanos a partir do momento em que este pecasse contra Deus, tornando-se receptível ao processo de morte que lhes sucederia. Analisando o texto original hebraico, vemos que, realmente, a morte seria a cessação total de vida. O que foi dito a eles: ”umê`êtshadda`ath thobh vârâ` lo' tho'khal mimmennu kiy beyom 'akhâlkhamimmennu moth tâmuth” (cf. Gn.2:17). Analisando as duas últimas palavras, vemos claramente quando é que o homem morreria: “moth tâmuth” – traduzindo: “morrendo morrereis”. Isso é omitido pela maioria das versões vernáculas porque contraria
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 20 diretamente a posição imortalista de que ocorreu apenas uma “morte espiritual” e que esta morte teria acontecido logo naquele mesmo dia, ignorando o fato de que o hebraico diz taxativamente que tal morte seria quando o homem morresse – “morrendo, morrereis”. Passando para o bom linguajar português dos dias de hoje, o que Deus estava dizendo era que “quando vocês morressem iriam morrer mesmo”! A morte seria o fim total de qualquer existência humana, corpo e alma, pois, como consequência do pecado, o processo de morte teria início a partir do primeiro falecimento. A verdade incontestável é que não existiria nenhum estado de vida entre a morte e a ressurreição. Ora, se o homem continuasse vivo em um estado intermediário após a morte corporal que todos nós passamos, então o homem não morreria completamente – ele estaria vivo em um estado desencarnado. Essa é exatamente a mentira que a serpente pregou à Eva (cf. Gn.3:4), e que engana milhões de pessoas até hoje, invalidando toda uma consequência de morte – física e espiritual – que o homem encontraria como consequência do pecado. Ademais, a mentira de Satanás seria classificada como uma “verdade”, uma vez que o homem não morreria mesmo – viveria eternamente por meio de uma alma imortal que teria sido supostamente implantada no ser humano. Fica muito claro que o homem não seria inerentemente imortal, mas passaria por um estado de morte – “morrendo, morrereis” – por causa do pecado, uma “lacuna”, um período sem vida entre a morte e a ressurreição, fato esse que Satanás queria desmentir, dizendo que “certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4). O processo de morte alcançaria todos os seres humanos, pois “o salário do pecado é a morte” (cf. Rm.6:23) e “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (cf. Rm.3:23), por isso, “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). Isso tudo nos deixa claro que a morte como consequência do pecado não alcançaria tão somente o corpo, mas o ser integral do ser humano, corpo e alma (cf. Ez.18:4,20; Gn.2:7). Como bem disse o pastor luterano Martin Volkmann: “Como vemos, há duas concepções de vida após a morte. A diferença, segundo certo modo de pensar, é que a parte supostamente imortal não foi afetada pelo pecado em nós, enquanto na outra forma de pensar reconhece-se a natureza radical do pecado e proclama uma nova vida através da obra salvadora de Deus”. A morte seria a cessação total de vida. Corpo e alma foram afetados pelo pecado. A imortalidade não era uma possessão natural através de uma alma recém-implantada, mas condicionada à obediência a Deus na participação da árvore da vida. Mas o homem pecou. Transgrediu a ordenança divina. Trouxe a morte para si mesmo. Perdeu a participação na árvore da vida. Tornou-se naturalmente mortal. E, a partir deste dia, ele morreria na morte – não teria uma existência contínua em forma incorpórea após a morte. Felizmente, a Palavra de Deus nos apresenta uma reviravolta neste quadro, apresentando que o processo de morte iniciado em Adão e a cessação de vida como consequência do pecado não seria um quadro perpétuo, mas seria revertido em Cristo, na Sua Vinda: “Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um por sua vez: Cristo, as primícias; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem” (cf. 1Co.15:22,23).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 21 O processo de cessação de vida na morte, ocorrido com todos os seres humanos e iniciado em Adão – “em Adão todos morrem” – seria revertido no “último dia” (cf. Jo.6:39,40), quando Cristo há de vivificar os que lhe pertencem por ocasião de sua segunda vinda, porque Ele venceu a morte (cf. Hb.2:14), dando-nos também vitória sobre a morte na ressurreição (cf. 1Co.15:54). Neste momento, então, Cristo nos resgatará da morte, nos vivificará e nos levará para as nossas moradas celestiais onde Ele está (cf. Jo.14:2,3). Em Adão todos morrem porque ele certamente não viveria eternamente (cf. Gn.2:17; Gn.3:4), mas como consequência do pecado ele passaria por um estado sem vida que teria início no momento da morte física. Mas a esperança cristã é a de que este estado não é perpétuo, mas é revertido pelo milagre da ressurreição, que nos traz vida e nos resgata da morte a fim de possuirmos a nossa herança celestial em Cristo. Por isso os cristãos tem na ressurreição a sua maior esperança (cf. At.26:7), pois é ela que nos diz que nem tudo está perdido, que o trabalho dos cristãos não é em vão (cf. 1Co.15:32), que haverá o momento em que a morte será tragada pela vitória (cf. 1Co.15:54), que aqueles que fizeram o bem “sairão para a ressurreição da vida” (cf. Jo.5:29), quando terão a recompensa pelo o que fizeram em vida e tomarão posse de suas moradas eternas. A ressurreição é o antídoto para a morte, é o milagre que Deus providenciou a fim de que não ficássemos para sempre sem vida, mas que por meio de Cristo pudéssemos herdar a vida eterna. Claro, não demorou muito para Satanás entrar em cena e deturpar essa verdade, propagando o que hoje é a base e fundamento da doutrina imortalista, retirada diretamente da boca da serpente: “Certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4) – o homem seria inerentemente imortal! A ressurreição já não era mais o antídoto para a morte, mas sim a libertação da alma se desprendendo da prisão do corpo, como pregava Platão. Este foi, com toda a certeza, o primeiro sermão imortalista na história, a primeira das mentiras que Satanás implantou no mundo: a lenda da imortalidade da alma. III–Por que a mentira? Por que a mentira? – O motivo desta pergunta é: “Qual é o objetivo de Satanás em pregar tal mentira?”. Certamente que ele teria uma boa razão para isso, além de contradizer o ensino claro de Deus (cf. Gn.2:17). Para respondermos a esta pergunta, temos primeiramente que ter em mente que o principal objetivo de Satanás é desviar o cristão da verdade. Passar a ideia de um Deus mal. Eis aí a principal das armas de engano de Satanás: Desviar o caráter imutável do amor de Deus. Satanás é a serpente, é aquele que engana. Quanto mais pessoas ele conseguir desviar de Deus, de preferência passando a ideia de um deus sanguinário, que tem uma ira pelos ímpios que não cessa nunca, melhor. Infelizmente, essa tática tem causado muito sucesso nas nossas igrejas. Muitos milhões de indivíduos no mundo todo abandonam a crença em Deus por causa desta ideia, por não conseguirem admitir que Deus possa ser ao mesmo tempo bom e mal e com duas faces, ou que para demonstrar Sua justiça tenha que atormentar eternamente no fogo a alma de bilhões de pessoas, e acabam por pensar: “Ele não existe”. Muitos têm saído das fileiras do Cristianismo por causa deste assunto. Isto poderia ser evitado, caso fosse feito
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 22 um estudo sincero, honesto e fiel à exegese e ao contexto das Escrituras, que é o que faremos ao longo de todo este estudo. O Dr. Samuelle Bacchiocchi elucida a questão nas seguintes palavras: “Um Deus que inflige torturas infindáveis a Suas criaturas assemelha-se muito mais a Satanás do que a um Pai amoroso a nós revelado por Jesus Cristo (...) A justiça divina nunca poderia requerer para pecadores finitos a infinita penalidade da eterna dor, porque o tormento infindável não serve a qualquer propósito reformatório, precisamente porque não tem fim”19 John Stott manifesta a mesma opinião, ao dizer: “Eu não minimizo a gravidade do pecado como rebelião contra Deus, nosso Criador, mas questiono se o tormento eterno consciente é compatível com a revelação bíblica da divina justiça”20 A verdade é que muitas pessoas têm deixado as fileiras do Cristianismo por não poderem acreditar que Deus, em Sua Onisciência, poderia criar seres sabendo que os puniria com um tormento eterno e infindável de maneira premeditada. Seria muito mais lógico e racional (pela justiça e pelo amor de Deus) crermos que Ele puniria a cada um de acordo com aquilo que cada ser merece, e não uma pena infindável para cada ser que comete pecados finitos, tendo como consequência a queima eterna de sua alma em um verdadeiro lago de fogo. Se tal fato sucedesse, poderíamos também dar margens a movimentos como a “Santa” Inquisição, por exemplo, que matou e torturou milhões na Idade Média, mas, como apontou Azenilto Brito, “se Deus é impiedoso ao punir pecadores com tormentos infindáveis no mundo por vir, porque não devia a Igreja agir de modo semelhante neste presente mundo, torturando e queimando os heréticos?”21 O assunto é motivo de entusiasmo para os ateus, e a grande maioria dos cristãos defensores da imortalidade da alma não conseguem conciliar o amor divino com a crueldade eterna que seria tal destino aos impenitentes. Ademais, muitos cristãos que já est ão dentro da Igreja não saem, não por buscarem um comprometimento sincero e verdadeiro com Deus, mas para escaparem de um tormento eterno no inferno. O Cristianismo não somente muda de sentido como também perde o foco, o amor, a justiça e a misericórdia nos revelada mediante o evangelho. Na verdade, todos estes atributos – e muitos outros – fazem parte da natureza divina e nenhum deles daria margem a um tormento eterno por pecados finitos. Como a Igreja pode coerentemente apresentar Deus como sendo alguém que amou o mundo de tal maneira que enviou o Seu único Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (cf. Jo.3:16), se, por outro lado, odeia os pecadores de tal maneira que os envia para um lago de fogo e enxofre onde passarão tormentos infinitos 19 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007. 20 STOTT, John. Essentials: A Liberal-Evangelical Dialogue. Londres: Hodder and Stoughton, 1988, p. 316. 21 BRITO, Azenilto Guimarães. Implicações Morais e Cosmológicas do Tormento Eterno. Disponível em: <http://www.salvos.com.br/inferno>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 23 perpetuados por toda a eternidade sob choro e ranger de dentes e sofrendo torturas colossais? Se Deus ama os pecadores (como a teologia moderna ensina), como conciliar isso com permitir tamanhos horrores aos pecadores impenitentes? Ora, se nem mesmo uma pessoa humana, falível e que nem ama tanto assim o próximo (ou é até mesmo odeia o próximo) não chegaria ao ponto de enviá-lo para “o quinto dos infernos”, sob as chamas de um fogo eterno para sofrer tormentos horríveis por toda a eternidade, quanto menos Deus, que em teoria é aquele que mais ama, que mais perdoa e que é a fonte de toda a misericórdia! Enquanto a Igreja tiver a noção deste deus mutável, que ama os pecadores nesta vida mas já preparou um inferno eterno onde eles deverão sofrer horrivelmente após a morte e para sempre, dificilmente um descrente poderá compreender perfeitamente o amor de Deus que excede todo o entendimento. Sempre t erá em mente este contraste que vai claramente contra a moral humana, quanto mais a divina. Apenas um regresso às Escrituras nos faria ter em mente um Deus justo e verdadeiro, que recompensa os justos com a vida eterna e que pude os ímpios de acordo com aquilo que cada um merece, e não com um tormento eterno para todos indistintamente. Isso sim é unir a justiça e o amor de Deus como descrito no evangelho bíblico. A justiça e o amor de Deus andam juntos, e o que Satanás mais quer é desqualificá-los ao perpetuar a primeira e provavelmente a maior de todas as mentiras – a da “imortalidade da alma”. Um exame fiel e honesto das Escrituras não apenas mostra o quanto não-bíblica é essa doutrina, mas também nos faz voltar ao Cristianismo puro e verdadeiro focado em um Deus de amor e justiça e na ressurreição para a vida eterna que Ele nos concede pela Sua Graça. A imortalidade condicional e a “vida somente em Cristo” afirmam a realidade do inferno sem impugnar o caráter de Deus, e dá honra completa para Cristo como "a ressurreição e a vida”. A crença na imortalidade inerente como base de fé – Satanás continua usando dos mais variados meios a fim de perpetuar a primeira mentira, pois isso é um forte meio de desviar as pessoas da sinceridade e pureza devidas a Cristo. Por meio da crença da sobrevivência da alma na morte, inúmeras religiões do mundo terminam cursando os mais variados meios de consulta aos mortos em desobediência à Palavra de Deus. Existem religiões que tem como base a doutrina da sobrevivência da alma em um estado intermediário. Caso essa doutrina esteja errada, a religião termina. O culto aos mortos no catolicismo é um bom exemplo disso, uma vez que Cristo deixou claro que “só ao Senhor teu Deus darás culto” (cf. Mt.4:10) e que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (cf. 1Tm.2:5). Satanás usa das mais variadas maneiras para deturpar a Palavra de Deus e perpetuar a primeira mentira, da imortalidade da alma, a fim de que o que Paulo mais temia acontecesse: “Pois, assim como Eva foi enganada pelas mentiras da cobra, eu tenho medo de que a mente de vocês seja corrompida e vocês abandonem a devoção pura e sincera a Cristo” (cf. 2Co.11:3). A imortalidade da alma foi a doutrina que Satanás encontrou uma “brecha” a fim de que o evangelho fosse sutilmente modificado por meio de homens que “introduziram secretamente heresias destruidoras, chegando a negar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (cf. 2Pe.2:1).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 24 O culto aos mortos é um bom exemplo de um meio que a Serpente continua utilizando a fim de desviar o cristão do evangelho puro e genuíno somente a Cristo. Quando o evangelho deixa de ser Cristocêntrico, a missão de Satanás está completa. E qual é o meio que ele usa para perpetuar tais enganos? Claro, a mesma mentira pregada à Eva no Jardim: “...certamente não morrereis” (cf. Gn.3:4). O que Satanás ensina, na verdade, é bem simples. Ele diz que o nosso “verdadeiro eu”, a nossa “alma eterna”, não morre. De modo que, se não formos tão bons, “a reza resolve tudo”! Tal visão de imortalidade inerente que Satanás ensina é bem mais simples do que o que Deus quer que creiamos: que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4), porque a consequência do pecado seria “moth tâmuth” – “morrendo, morrereis” (cf. Gn.2:17). Todas as práticas de culto aos mortos, de intercessão de santos já falecidos, de invocação ou comunicação com os mortos ou de qualquer coisa do gênero, que quase sempre geram idolatria e apego no coração dos homens àquilo que já morreu ao invés de se focar Naquele que está vivo (Jesus), tem como base e fundamento a crença na imortalidade da alma. No espiritismo, então, a coisa complica ainda mais. A consulta aos mortos, que existe de maneira “mascarada” no catolicismo mediante a oração que é um claro meio de comunicação, é “desmascarada” no espiritismo que abertamente declara isso convictamente. A própria crença na reencarnação, que é crida não somente por espíritas mas também por muitos outros grupos panteístas (como o budismo e o hinduísmo) também tem por base a crença que a alma sobrevive consciente após a morte. Afinal, se a alma não sobrevive, não há como reencarnar. A Bíblia afirma categoricamente que “entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti" (cf. Dt.18:9-12). Afinal, “a favor dos vivos consultar-se-ão os mortos?” (cf. Is.8:19). Não! Deus sabe muito bem dessa impossibilidade de comunicação dos mortos com os vivos, e foi por isso o Senhor proibiu o seu povo israelita de tentar tal “comunicação”, a fim de que não fossem enganados por espíritos demoníacos (cf. Lv.19:31; 20:6; 1Sm.28:7-25; Is.8:19; 1Tm.4:1; Ap.16:14), dada a devida impossibilidade de comunicação com os que já morreram (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). Dada tal impossibilidade, quem se apresenta no “além" para se comunicar com os vivos são os espíritos dos demônios, e se aproveitando, é claro, da mentira da imortalidade da alma. Tudo isso poderia ser perfeitamente removido e o evangelho restaurado caso fosse realizado um exame apurado das Escrituras, analisando a um conteúdo total e não se apegando cegamente a um texto ou outro descontextualizado tomando tais textos isolados como regra de doutrina. Mas, como Jesus disse em Mateus 28:20 para ensinarmos tudo, também precisamos revelar às pessoas o que realmente acontece depois da morte, pois isso nos faria voltar ao evangelho Cristocêntrico tão abandonado por consequência da primeira mentira. Imagine um mundo onde todos creem conforme a Bíblia diz: que a alma que pecar, essa morrerá (cf. Ez.18:4). Imagine um mundo onde a mentira de que “certamente não
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 25 morrerás” não engana mais ninguém. Imagine um mundo onde todos creem que a ressurreição é o caminho para uma nova vida no retorno à existência. Ou seja: imagine o mundo todo seguindo os padrões bíblicos. No que isso implicaria? Isso implicaria na completa inexistência da idolatria no mundo, visto que grande parte dela subsiste com base na crença que “espíritos” ou “almas” subsistem após a morte e são dignos de serem consultados, venerados, cultuados ou adorados. Isso implicaria na completa inexistência de todos os falsos sistemas religiosos que tem por base a crença que a alma é imortal, o que inc lui espiritismo, catolicismo, budismo, hinduísmo, religiões panteístas, politeístas e pagãs, que tem como fundamento a crença da transmigração das almas, da reencarnação, da evocação dos mortos, da intercessão dos falecidos, da veneração e culto aos defuntos. Isso implicaria também em um mundo mais Cristocêntrico, isto é, um mundo onde Aquele que vive é o único digno de toda a glória, toda a honra, toda a majestade e todo o louvor, pois é aquele que venceu a morte e ressuscitou, Cristo Jesus. Todas as orações e todo o culto em todo o mundo seriam voltados e dirigidos unicamente Àquele que era, que é e que há de vir. Todas as nações seriam felizes e haveria paz no mundo, pois “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor” (cf. Sl.33:12). Todos os nossos atos de adoração seriam sempre voltados por Ele e para Ele. Você poderia pensar: “Este é um mundo utópico, imaginário, impossível de ser verdade um dia”. Mas seria isso tão somente o reflexo de um mundo onde a primeira mentira implantada pela serpente já não teria mais lugar, e as suas consequências também não. O único que fica feliz da vida em ver o povo continuar crendo e propagando a heresia de que a alma é imortal é o diabo que inventou essa mentira, pois é por meio dela que ele sempre enganou e continua cegando bilhões de pessoas em todo o planeta. A imortalidade da alma é a carta “coringa” de Satanás. É por meio dela que tantas pessoas desviam o foco e a atenção que deveriam ser direcionadas a Deus. Sem essa carta na manga, dificilmente o Inimigo conseguiria desenvolver outros métodos para desviar a devoção pura e sincera somente a Cristo. Por outro lado, o exame sincero e honesto das Escrituras nos faria desmantelar sistemas religiosos totalmente baseados na crença em uma alma imortal. Isso faria voltar ao evangelho puro e sincero de devoção somente a um homem, aquele que mesmo tendo morrido ainda vive, e por isso pode interceder por nós – Cristo: “Portanto, ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que, por meio dele, aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles” (cf. Hebreus 7:25). Resumindo este ponto, o que devemos ter em mente é que toda falsa doutrina criada por Satanás tem algum objetivo por detrás dela, e este objetivo nunca é levar o cristão mais perto de Cristo e da devoção única a Ele, mas sempre reside em desviar as pessoas da devoção única ao Senhor (cf. 2Co.11:3). Seria muito estranho que o diabo quisesse “inventar a mentira da mortalidade da alma”, uma vez sendo que isso apenas serviria para destruir por completo com todos os enganos existentes nos mais diversos sistemas religiosos falsos que existem no mundo, e que se baseiam na crença em uma alma imortal. Em outras palavras, o diabo não ganharia nada pregando a mortalidade da alma; ao contrário, apenas perderia o seu império de engano e o veria caindo às ruínas. Teria que inventar outras mentiras que substituíssem a crença em uma alma imortal para conseguir conduzir novamente o povo à perdição. Não faz qualquer sentido a mortalidade da alma ser
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 26 uma “heresia”, pois heresia é algo criado por Satanás com uma finalidade que de alguma forma consiste em poder desviar o cristão de Cristo. Quem é que vai “se desviar de Cristo” por crer que a vida termina na morte e recomeça na ressurreição? Ninguém. Ao contrário, iria apenas reforçar a importância do papel da ressurreição dentro da comunidade cristã. Iria fazer-nos retornar aos primórdios da fé, aos tempos em que a ressurreição era a maior esperança dos cristãos (cf. At.24:15; 26:6; 28:20; 23:6; 26:7). Mas seria totalmente lógico que ele implantasse a mentira da imortalidade da alma e assim conseguisse enganar cada vez mais pessoas através dela, como de fato engana, pois a imortalidade da alma sim tem o poder de desviar o cristão de Cristo, de criar falsos sistemas religiosos em torno dela, de servir como base para a perda de um evangelho Cristocêntrico para colocar o foco nos mortos, para dar plausibilidade às crenças na transmigração e reencarnação das almas, evocação e consulta aos espíritos, oração e intercessão dos mortos e pelos mortos, culto e veneração àqueles que já morreram, e por aí vai. Por isso que foi a primeira mentira implantada pela serpente no Jardim (cf. Gn.3:4). Note que Satanás não perdeu tempo em implantar essa mentira no mundo. Ela não foi a terceira, nem a quarta mentira inventada. Não foi inventada depois de muitos séculos, foi a primeira, foi a que serviu como ponto de partida para todas as demais mentiras que vimos acima. Por tudo isso, eu concordo plenamente com a colocação verdadeira feita pelo professor Sikberto sobre isso: “A imortalidade da alma é a base doutrinária da rebelião de Lúcifer, e o fundamento das demais mentiras. Sempre que ele entra em ação em uma situação nova, a primeira coisa que tenta fazer crer é que a alma não morre. E sabe por quê? Pelo fato de que assim é mais fácil crer nas demais mentiras dele”22 Desvantagens óbvias em crer que os mortos já estão no Céu – Embora para algumas pessoas o simples fato de pensar que os seus entes queridos não estejam neste exato momento no Paraíso possa ser uma dura realidade, também devemos ressaltar o fato de que, em primeiro lugar, em absolutamente nunca alguém na Bíblia é consolado com a notícia de que alguma pessoa já tenha subido aos Céus. Pelo contrário, é dito de maneira clara há uma multidão de mais de três mil pessoas no Pentecoste que Davi não subiu aos Céus (cf. At.2:34), algo que os apóstolos evitariam ao máximo de pronunciar diante de tão grande multidão no caso de Davi, ao contrário, já tivesse subido aos Céus. Em segundo lugar, quando o apóstolo Paulo envia consolações aos tessalonicenses sobre os seus parentes falecidos ele foca-se inteiramente na esperança da ressurreição, e não no “fato” de que eles supostamente já estivessem no Céu ou em algum lugar de bem-aventurança (cf. 1Ts.4:13-18). Tal consolação focada completamente na esperança da ressurreição do último dia não seria logicamente cabível caso a ressurreição fosse somente um mero “detalhe” e as suas almas já estivessem no Paraíso. Até porque, se tal se sucedesse, bastaria que Paulo relatasse isso e pronto – já estariam consolados. O próprio fato de ele omitir completamente tal menção 22 MARKS, Sikberto. História da Adoração. Disponível em: <http://cristoembrevevira.com/introducao-a- historia-da-adoracao/>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 27 nos faz pensarmos que ou (1) Paulo não os consolou direto da maneira que qualquer imortalista faria; ou (2) eles realmente não estão no Céu, mas irão ressuscitar no último dia, o que explicaria devidamente o porquê de Paulo tê-los consolado somente com a esperança de alcançar superior ressurreição. Em terceiro lugar, ao enviar consolações à família de Onesíforo (já morto), ele novamente em nada fala que este já estivesse desfrutando das bênçãos paradisíacas; pelo contrário, de novo foca-se inteiramente na esperança de alcançar a misericórdia de Deus “naquele dia”: “Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor!” (cf. 2Tm.1:17). Ademais, tal “consolação” não faria sentido em caso que Onesíforo já estivesse no Céu porque se assim fosse ele já teria alcançado a misericórdia de Deus já adentrando no Paraíso junto com os demais santos. Isso é somente lógica. Até mesmo quando Jesus Cristo foi consolar as irmãs de Lázaro, já falecido, ele em nada indica que já este estivesse na “glória”, mas insiste em apontar a ressurreição “no último dia” como única fonte de consolação (cf. Jo.11:17-27). Além disso, ressalta o aspecto inconsciente e não-consciente do ser racional na morte ao fazer a devida analogia de Lázaro com um estado de “sono”, uma indicação de inatividade, e não de atividade: “Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do seu sono” (cf. Jo.11:11). Se Lázaro estivesse consciente na glória desfrutando das maravilhas do “estado intermediário” então a analogia correta seria com o “acordado” e não com o “dormindo”, tendo que ser “despertado” de seu “sono”. A caracterização é de inconsciência na morte e de um “despertar” na ressurreição. Vemos, portanto, que se ninguém em parte alguma da Bíblia enviou “consolações” baseando-se no suposto “fato” de que alguém já estivesse no Céu, então não seria absurdo demais acreditar que, de fato, eles não estão lá. Difícil mesmo seria acreditar que os apóstolos criam na imortalidade da alma e mesmo assim insistiam em nunca se basear nela para consolar alguém, como todo e qualquer bom imortalista faz nos dias de hoje, focando- se na crença de que o falecido “já está no Céu” e não que “ele irá ressuscitar um dia”. O que realmente vemos é o apóstolo Paulo focando-se no momento em que realmente atingiremos a imortalidade, que é quando todos os que estão dormindo, “num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta, a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?” (cf. 1Co.15:51-54). Tal imortalidade não é obtida no momento do nascimento mediante a posse de uma “alma imortal”, mas sim no momento da ressurreição dos mortos. Por fim, seria imensamente mais desfavorável imaginarmos, por exemplo, que alguma pessoa justa morra e a sua “alma imortal” parta de imediato ao Paraíso, aguardando a entrada celestial dos seus entes queridos, mas passa-se o tempo e... nada. Passa-se mais tempo e eles continuam sem aparecer por lá.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 28 Mais algumas gerações vão passando e, vendo que ninguém ali se achega, tem que chegar à triste conclusão de que os seus parentes morreram sem alcançar a salvação e, pior, estão sofrendo em torturas colossais em um inferno de fogo e enxofre, assim condenados por toda a eternidade. Como pode ter paz e alegria celestiais um homem sob tais condições? Felizmente, o que a Bíblia nos mostra é que nós, os vivos, de modo nenhum precederemos os que dormem – entraremos nas nossas moradas no mesmo instante deles (cf. 1Ts.4:15), quando Cristo voltar para nos levar onde ele está (cf. Jo.14:2,3). A motivação errada – Se para manter alguém na linha for preciso a ameaça de um inferno e demônios torturadores terríveis, então nesse contexto Jesus se torna apenas um meio utilizável para se escapar do mal. O objetivo e finalidade dessa "conversão" é fugir do inferno e não Jesus. Para aqueles que tem a fé edificada sobre a rocha que é Cristo, a bem- aventurança de obter superior ressurreição e uma vida eterna somente em Cristo é motivação mais do que suficiente que o mundo jamais poderia imaginar, ainda assim continuarei cristão, pois eu não fui convertido pelo medo de um tormento eterno. Certa vez, enquanto eu debatia com um católico romano, ele me veio com a seguinte indagação: “Que vantagem teriam os justos diante dos maus, se ambos morrem, acabam- se e simplesmente a única vantagem é os justos gozarem a vida eterna”? Infelizmente, esse é um pensamento bastante comum entre os defensores do tormento eterno. Lamentavelmente, acham ser pouco e insuficiente gozar de uma vida eterna em um Paraíso junto a Deus. Só teria validade caso víssemos os “hereges” queimando eternamente, incluindo muitos parentes e até mesmo irmãos! Adoraríamos a Deus por medo e não por amor! Infelizmente, para muitos o Paraíso só seria uma recompensa mesmo caso houvesse pessoas queimando para todo o sempre. Se não houvessem seres queimando miseravelmente por toda a eternidade vivendo terrores colossais, então nem vale a pena ser justo! A vida eterna é suficiente para mim. Adoro a Deus não com medo de um inferno eterno, mas pelo dom da vida eterna que ele concede gratuitamente a todos aqueles que creem. Infelizmente, a doutrina da imortalidade da alma cria “cristãos” edificados sobre o medo do inferno e não sobre a graça de Deus. Disso resulta toda uma desvalorização do que é o dom da vida eterna e da imortalidade que Deus concede aos justos pela Sua Graça. Os livros de Mary Baxter, por exemplo, produzem "conversões" motivadas pelo medo do inferno. Nos seus livros, os “espíritos” ali mencionados detêm inclusive ossos e sangue! Pasme! Isso sem mencionar o fato de que os “espíritos” da “Divina Revelação do Inferno” descem a este lugar ainda vestidos com as suas roupas usuais! As outras “revelações” infernais vão daí para pior! Isso nos mostra claramente que tais “revelações” realmente não passam de mais investidas do maligno a fim de perpetuar, de todas as maneiras possíveis, a primeira mentira. O que o diabo mais quer é “revelar” para o povo aquilo que Deus não revelou na Bíblia, ainda mais quando tal revelação claramente a contraria. Pessoas assim vivem debaixo de um legalismo terrível e suas vidas se tornam um verdadeiro inferno. Elas são atormentadas pela insegurança da própria salvação e enxergam Deus de forma volúvel, mutável e leviano. E a fé dessas pessoas depende desse tormento pra continuarem "firmes na fé", pois se o inferno não existir mais para elas, então elas pensam que já não vale a pena viver em santidade.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 29 Elas vivem em santidade para que o diabo não tenha brechas e não serem lançadas no inferno. A santidade torna-se apenas um mecanismo contra o mal e não o propósito da vida cristã. Definitivamente, são inúmeras as razões pelas quais Satanás prega a doutrina da imortalidade da alma nos grandes sistemas religiosos, e perpetua estes enganos, com uma única finalidade, que aliás é próprio de sua própria natureza: desviar o caráter de Deus. “Propague a mentira que afaste as pessoas deste Deus, e esvazie as fileiras da Igreja”. IV–Como o conceito de “alma imortal” entrou no Judaísmo Como já vimos, a primeira vez em que a doutrina da imortalidade da alma entrou no mundo foi através da serpente, no Jardim do Éden, proferindo o que seria hoje a base da doutrina imortalista: “...certamente não morrerás” (cf. Gn.3:4). Essa mentira foi a primeira que Satanás implantou no mundo, por inúmeros motivos, como vimos: (1) Impugnar o caráter imutável do amor [e justiça] de Deus; (2) Ser a base das demais mentiras que resultam em adoração e culto às criaturas mortas, espiritismo, paganismo, consulta aos mortos, intercessão dos santos, purgatório, reencarnação, etc; (3) Tirar do evangelho o Cristocentrismo primitivo; (4) Se a pessoa não morre, ela não tem a necessidade de um arrependimento sincero e genuíno (através de um processo de santificação), para ser separada do mundo e tornar-se propriedade exclusiva do Senhor, pois bastaria apenas ser “mais ou menos boa” e depois da morte “as rezas resolvem tudo”; (5) Faz com que o foco das pessoas seja de escapar de um inferno horrivelmente atormentador ao invés do foco ser em Cristo Jesus e na graça divina; (6) Desvaloriza o conceito de “vida eterna”, uma vez que todas as pessoas teriam uma vida eterna de qualquer jeito (no Céu ou no inferno), e a vida eterna não seria um dom e não seria somente em Cristo, mas existiria também uma vida eterna com o diabo; (7) Despreza o verdadeiro valor da ressurreição dos mortos para a vida ou para a condenação, uma vez que os mortos já estariam no Céu ou no inferno, sendo, portanto, totalmente desnecessário e inútil tal ressurreição dos mortos; (8) O objetivo e finalidade da “conversão” de um cristão seria de escapar de um inferno eterno e não Jesus; (9) Cria cristãos edificados sobre o medo e sobre uma consciência errada com relação a Deus, ao invés de estarem edificados sobre o amor e sobre a graça do Pai; e, finalmente: (10) Tira a honra completa para Cristo como "a ressurreição e a vida”, com o objetivo de esvaziar as fileiras da Igreja a fim de trazê-las para religiões falsas edificadas sobre a crença na alma imortal para continuarem subsistindo.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 30 Satanás é considerado pela Bíblia o “pai da mentira” (cf. Jo.8:44), que, ao ser expulso do Céu, procurou de todas as maneiras atacar a criação do Deus, o homem, uma vez que ele não tinha força suficiente para confrontar diretamente a Deus. O resultado disso foi a implantação de diversas mentiras, quase todas elas construídas sobre a crença de que “certamente não morrerás”, e a partir daí o ensino em um estado intermediário consciente dos mortos e em um tormento eterno se tornaram realidade para boa parte dos antediluvianos e foi retomado pelas pessoas no tempo de Ninrod. O criador da imortalidade natural da alma é Satanás (cf. Gn.3:4), mas, depois, ele se utilizou de recursos humanos para difundir tal doutrina pelo mundo afora, na “confusão das línguas” na Torre de Babel, se disseminando pelo mundo, sendo maior o número de pessoas a crer na alma imortal do que as que criam na mortalidade natural da alma. Uma vez que tal ideia foi criada pelo diabo, ficou muito fácil torná-la plenamente difundida entre as religiões pagãs que não tinham comprometimento com o Deus de Israel. Afinal, são os próprios espíritos malignos que regem e perpetuam estes enganos, e com facilidade vemos que a grande maioria das religiões pagãs da antiguidade passaram a seguir também a mentira propagada pela boca da serpente no Éden. Os hebreus, contudo, tinham o Deus vivo, e por isso acreditavam em uma natureza humana holista, e não dualista do ser humano. Eles estavam protegidos pelo Deus de Israel de doutrinas falsas que pudessem enganar até os homens justos. Os povos pagãos, contudo, não tinham o Deus de Israel, estando completamente expostos às doutrinas dos demônios, os verdadeiros agentes por detrás dos “ídolos” (cf. 1Co.10:20). O resultado disso foi que sem a menor dificuldade praticamente todas elas adotaram a mesma mentira proferida à Eva no Jardim e passaram a crer na doutrina da imortalidade da alma, em suas mais diferentes formas. Com o passar do tempo, a crença na sobrevivência da alma passou a se tornar realidade até mesmo entre os judeus, o povo do Deus vivo, mas somente depois que o Antigo Testamento foi concluído. Segundo a própria Enciclopédia Judaica, a imortalidade da alma não é ensinada nas Escrituras e os judeus só passaram a crer nela através de Platão, seu principal expoente, em um verdadeiro sincretismo religioso com o helenismo predominante naquela época e naquela região, por ocasião da diáspora judaica: "A crença de que a alma continua existindo após a decomposição do corpo é uma especulação... que não é ensinada expressamente na Sagrada Escritura... A crença na imortalidade da alma chegou aos judeus quando eles tiveram contato com o pensamento grego e principalmente através da filosofia de Platão (427 - 347 a.C.), seu principal expoente, que chegou a esse entendimento por meio dos mistérios órficos e eleusianos, que na Babilônia e no Egito se encontravam estranhamente misturados"23 Para entendermos como isso se deu, temos que regressar à história dos hebreus. Israel era um só povo unido até 922 a.C, quando as doze tribos se dividiram em dois reinos, o reino do Sul (liderado por Judá) e o reino do Norte (liderado por Efraim). O reino do Norte foi invadido pelos assírios em 725 d.C, e o rei Salmanaser V conquistou Israel, prendeu o rei e levou cativos os israelitas para outra terra. O mesmo veio a acontecer tempos mais tarde com o reino do Sul, em 586 a.C, nas mãos dos babilônicos. Eles foram levados cativos e foram dispersos pelas outras regiões do mundo, daí o nome diáspora, que vem de 23 Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 31 dispersão. Quando eles foram expulsos da terra de Israel, eles se misturaram aos outros povos e adaptaram muito de sua cultura e doutrina para si. Ocorre que essa época da diáspora judaica se deu exatamente no período helenístico, onde os gregos impunham sua cultura os povos conquistados: “Designa-se por período helenístico (do grego, hellenizein – ‘falar grego’, ‘viver como os gregos’) o período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a morte de Alexandre o Grande em 323 a.C e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146 a.C. Caracterizou-se pela difusão da civilização grega numa vasta área que se estendia do mar Mediterrâneo oriental à Ásia central. De modo geral, o helenismo foi a concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios que conquistava”24 Um dos elementos principais da cultura grega era a filosofia, e dentro dessa área se destaca Platão. Ele foi o maior divulgador da doutrina da imortalidade da alma na Grécia Antiga, e a alma ser imortal era um elemento essencial em sua filosofia. Com o período helenista, essa filosofia (de que a alma é imortal) chegou em grande peso aos demais povos, em especial aos hebreus, que não mais tinham um território próprio e estavam “dispersos entre os gregos” (cf. Jo.7:35), e esses hebreus foram helenizados, isto é, adquiriram para si a forma de pensar dos gregos, mesclando às crenças já cridas por eles. O resultado disso é que eles continuaram crendo em ressurreição, mas passaram a incluir em sua cultura a tese grega pagã de que a alma é imortal. Daí surge o tal do “estado intermediário”, que foi inventado pelos imortalistas numa tentativa de conciliar ambas as crenças, a imortalidade da alma e a ressurreição, pois, enquanto essa ressurreição não ocorre, as almas dos que morreram estariam no Céu esperando essa ressurreição acontecer, num estágio intermediário, entre a morte e a segunda vinda de Cristo. Durante o período helenista foram fundadas várias cidades de cultura grega, e dentre elas destaca-se Alexandria, que era uma espécie de “centro do helenismo”, com forte concentração da cultura grega. Muitos judeus foram dispersos para essa cidade. Um dos judeus helenizados que começaram a propagar fortemente a imortalidade da alma foi Filon, sobre quem a Enciclopédia Judaica afirma: “Não há referências diretas na Bíblia para a origem da alma, sua natureza e sua relação com o corpo, e essas perguntas deram espaço para as especulações da escola judaica de Alexandria, especialmente de Filon, o judeu, que procurou na interpretação alegórica de textos bíblicos a confirmação de seu sistema psicológico. Nos três termos (‘ruach’, ‘nephesh’ e ‘neshamah’) Filon viu a corroboração da visão platônica de que a alma humana é tripartite (τριμεής), tendo uma parte racional, uma segunda mais espiritual, e uma terceira como sendo a sede dos desejos”25 Essa crença grega foi originalmente rejeitada pelos judeus da palestina, como atesta a Enciclopédia Judaica citando o Talmude: 24 Wikipédia, a enciclopédia livre. Período helenístico. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Per%C3%ADodo_helen%C3%ADstico>. Acesso em: 12/09/2013. 25 Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma".
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 32 “Essa crença foi rejeitada pelos estudiosos do Talmude, que ensinaram que o corpo está em um estado de perfeita pureza (Ber. 10a;. Mek 43b), e está destinado herdar sua morada celestial (...) Os rabinos afirmaram que o corpo não é a prisão da alma, mas, ao contrário, o seu meio de desenvolvimento e aperfeiçoamento”26 Por isso mesmo, nada é dito na Enciclopédia Judaica sobre os judeus crerem que a alma é um elemento imaterial e imortal antes dessa helenização com as teses gregas. Ao contrário, ela diz claramente: “Uma vez que a alma é concebida como sendo apenas a respiração (‘nephesh’, ‘neshamah’, comp. ‘anima’), e inseparavelmente ligada, senão identificada, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11), nenhuma substância real pode ser atribuída a ela. Assim, quando o espírito ou sopro de Deus (‘Nishmat’ ou ‘Ruach Hayyim’), que é o que se acredita que mantém corpo e alma juntos, tanto dos homens como dos animais (Gn 2:7; 6:17; 7:22; Jó 27:3), é retirado (Sl 146:4) ou retorna a Deus (Ec 12:7; Jó 34:14), a alma desce ao Sheol ou Hades, para lá ter uma sombria existência, sem vida e consciência (Jó 14:21; Sl 6:5; 115:7; Is 38:19; Ec 9:5; 9:10). A crença em uma vida contínua da alma, que é a base da primitiva adoração aos antepassados e dos ritos de necromancia, prat icados também pelo antigo Israel (1Sm 28:13; Is 8:19), foi desencorajada e suprimida pelo profeta como antagônica à crença em YHWH, o Deus da vida, o Governador do Céu e da Terra”27 E sobre o significado original de “espírito” entre os judeus da época do Antigo Testamento ela diz: “O relato mosaico da criação do homem fala de um espírito ou fôlego com que foi dotado por seu Criador (Gn 2:7), mas esse espírito é concebido como sendo inseparavelmente ligado, senão totalmente identificado, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11). Somente através do contato dos judeus com o pensamento persa e grego surgiu a ideia de uma alma desencarnada, tendo sua própria individualidade”28 A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional também revela que os israelitas não criam na imortalidade da alma antes de serem tardiamente influenciados por Platão: "Quase sempre somos mais ou menos influenciados pela ideia grega platônica, que diz que o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita e não é encontrada em nenhum lugar do Antigo Testamento"29 Claro que Deus só deixou que tal fato se concretizasse depois do Antigo Testamento ter sido concluído, pois Ele cuida de não haver doutrinas falsas em Sua Palavra. Quando o último livro do Antigo Testamento foi escrito (que foi o livro de Malaquias, em 397 a.C), ainda não havia ocorrido esse sincretismo com o paganismo grego, que, como vimos, se deu a partir de 323 a.C. Sendo assim, podemos chegar à conclusão de que Deus guardou a Sua Palavra do paganismo, salvaguardando o Antigo Testamento de conter alguma filosofia imortalista de séculos posteriores, quando já estavam influenciados pela filosofia grega. 26 ibid. 27 Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566. 28 Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma". 29 Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, 1960, vol. 2, "Morte", p. 812.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 33 O fato da doutrina na alma imortal ter sido propagada entre os judeus através do sincretismo com a filosofia platônica, também atestado pela própria Enciclopédia Judaica, explica o porquê dos livros apócrifos contidos nas Bíblias dos católicos estarem repletos de informações claras sobre a “imortalidade da alma” e sobre a existênc ia do estado intermediário, e até mesmo do “purgatório” e de oração pelos mortos, pois foram escritos depois de ter se consumado tal contato com o paganismo. É evidente que tal pensamento para os hebreus só se tornou realidade a eles a partir do sincretismo religioso com as religiões pagãs, por ocasião da diáspora judaica, quando o povo hebreu esteve exposto às doutrinas helenísticas de grande influência, incluindo a forte concepção grega de imortalidade da alma impregnada por Platão na Grécia Antiga. Quando os judeus estiveram expostos a tais pensamentos, passaram então a escrever e a acreditar em tais superstições, contrariando o pensamento holístico bíblico de séculos anteriores (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). Na própria narração da criação humana é narrado o simplismo bíblico no homem tornar-se uma alma (cf. Gn.2:7), algo muito diferente dos contos pagãos em que os seres humanos recebiam (ou “obtinham”) uma alma eterna/imortal que lhes era infundida. Na Bíblia Sagrada, “espírito” significa somente “vida”, e não uma outra pessoa c onsciente dentro do ser humano (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29), algo muito diferente do que criam as religiões pagãs e politeístas da época. Na diáspora judaica, influenciados pelo sincretismo pagão, o povo judeu passou a claramente declarar a posição de imortalidade da alma (cf. Sabedoria 3:1-4; 5:1-4; 2:23; 3:2,4; 8:19,20; 9:15). O livro de “Sabedoria”, por exemplo, cita passagens de livros bíblicos escritos séculos depois da morte de Salomão (em 998 a.C) e faz isso da Septuaginta grega, que começou a ser traduzida por volta de 280 a.C. Por isso, o livro “Sabedoria de Salomão”, na verdade, não tem nada a ver com Salomão, que claramente negava a vida após a morte (cf. Ec.3:19,20; Ec.9:5; Ec.9:6; Ec.9:10), isso evidentemente séculos antes da diáspora judaica. Atualmente acredita-se que o escritor tenha sido um judeu de Alexandria, no Egito, por volta de meados do primeiro século antes de Cristo. O escritor deste livro faz uso fortemente da filosofia grega, mostrando grande particular familiaridade com ela. Ele usa terminologia platônica na divulgação da doutrina da imortalidade da alma (cf. Sabedoria 3:1,4; 5:1-4; 2:23; 3:2,4; 8:19,20; 9:15). Outros conceitos pagãos apresentados são a pré-existência das almas humanas e o conceito de que o corpo é um impedimento ou estorvo para a alma (cf. 8:19, 20; 9:15). É óbvio que tais ensinamentos não existem em parte nenhuma da Bíblia canônica e muito menos antes da diáspora, pois tais ensinamentos estão clarissimamente relacionados ao sincretismo com o dualismo platônico. ANTES DA DIÁSPORA DEPOIS DA DIÁSPORA “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm “As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento jamais os tocará [...] pois na verdade eles estão em paz, e a esperança deles é plena imortalidade” (cf. Sabedoria 3:1-4)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 34 eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol [...] Tudo quanto te vier à mão para fazer faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Eclesiastes 9:5, 6 e 10) Antes daquele momento, nada de imortalidade da alma; depois daquele momento, inúmeras menções explícitas dela. No livro anteriormente citado, lemos algumas destas “descrições”: "As almas dos justos estão na mão de Deus, e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos olhos dos insensatos que morriam; e a sua saída deste mundo foi considerada como uma aflição, e a sua separação de nós como um extermínio; mas eles estão em paz (no céu). E, se eles sofreram tormentos diante dos homens, a sua esperança está cheia de imortalidade” (cf. Sabedoria 3:1-4) Fica mais do que claro que tais menções explícitas de imortalidade da alma nos livros não- canônicos (ou “apócrifos”) foram feitas não pela inspiração divina, mas sim pelo sincretismo com o paganismo grego, “coincidentemente” no exato momento da diáspora judaica. Se a imortalidade da alma fosse a doutrina do Antigo Testamento antes da influência de ensinamentos gregos de dualismo entre corpo e alma, então o que deveríamos esperar seria justamente inúmeras e constantes menções plenamente definidas de imortalidade da alma neles (assim como vemos constantemente ensinamentos dualistas depois da diáspora). Tal fato, contudo, está muito longe de ser realidade. O próprio fato de os hebreus começarem a escrever sobre a imortalidade da alma a partir da diáspora corrobora com a História que nos mostra que houve tal sincretismo pagão por esta época. O Dr. Samuelle Bacchiocchi acrescenta: “Durante esse período inter-testamentário, o povo judeu esteve exposto, tanto em seu lar, na Palestina, quanto na diáspora (dispersão), à cultura e filosofias helenísticas (gregas) de grande influência. O impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, inclusive na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaic as produzidas nessa época”30 Vemos, portanto, que como o resultado deste impacto foi o que resultou na difusão da doutrina da imortalidade da alma entre os judeus, que entrou no judaísmo não por uma ordenança divina, mas decorrente do puro sincretismo religioso com as religiões pagãs. Mas havia ainda uma linha de pensamento que corria no mundo judaico em paralelo com a visão dualista helenista. Esta outra linha de pensamento diz respeito ao judaísmo palestino que se manteve fiel aos escritos bíblicos veterotestamentários. Um dos livros que nos mostra isso é o apócrifo de 2ª Baruque, que, em linguagem bem semelhante aos ensinos canônicos neotestamentários provenientes da palestina, afirma que os mortos “dormem no pó da terra” e na segunda vinda do Messias “todos os que adormeceram na 30 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 35 esperança dEle ressuscitarão; todos os justos serão reunidos num instante e os ímpios lamentarão, pois o tempo de seu tormento é chegado” (cf. 2ª Baruque cap.30). A linha de pensamento é fortemente semelhante ao pensament o do Novo Testamento e expressa com exatidão a figura bíblica adequada para a morte: o sono (cf. Jo.11:11); o local onde estão os mortos: o pó da terra (cf. Dn.12:2); a esperança do verdadeiro cristão: a ressurreição (cf. Hb.11:35); o momento em que os justos serão todos ajuntados juntamente: na segunda vinda de Cristo (cf. 1Ts.4:15); e quando é que os ímpios finalmente serão atormentados: somente na ressurreição que lhes é chegado o momento da sua punição (cf. 2Pe.2:9). Esta linha de pensamento ainda corrente no primeiro século (2ª Baruque foi escrito em fins do primeiro século d.C ou início do segundo) ainda corria entre o judaísmo palestino. Uma linha que mantém a esperança focada na ressurreição (cf. At.24:15), que prega que só Deus é possuidor natural de imortalidade (cf. 1Tm.6:16), e que o homem tem que buscá-la porque não a possui naturalmente (cf. Rm.2:7). Essa é a linha de pensamento neotestamentária utilizada pelos apóstolos. Foi somente a partir de meados do segundo século que os filósofos primitivos cristãos adotaram o conceito grego de imortalidade da alma, algo presumível uma vez que tal conceito era fortemente difundido nas comunidades não-cristãs. Muitas doutrinas foram corrompidas ao longo dos séculos, incluindo a concepção do dualismo grego dominante na época. Por este tempo a ideia da existência de uma alma imortal tomou conta do Cristianismo, permanecendo até os dias de hoje, na maioria das igrejas cristãs. Tendo como única fonte de fé as Sagradas Escrituras disponíveis em sua época, e que negavam em absoluto qualquer tipo de vida pré-ressurreição (cf. Gn.2:7; Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17), os apóstolos a seguiam em não tomar parte com tal doutrina que, até esta época, estava das portas para fora da Igreja. O próprio fato da vida ser apenas a partir da ressurreição fazia com que o foco da Igreja primitiva fosse completamente voltado ao glorioso dia da ressurreição dos mortos, assunto este que era a base de todo o Novo Testamento, sendo mencionadas algumas centenas de vezes (ex: Atos 16:6-8; Hebreus 11:35; Atos 4:2; 17:18; Atos 23:6; 24:15, que mostram que a esperança dos cristãos era na ressurreição). Por que quase não ouvimos falar na doutrina da ressurreição entre as igrejas cristãs dos dias de hoje? Porque elas passaram a adotar a imortalidade da alma. O helenismo trouxe aos hebreus uma mescla das doutrinas gregas de imortalidade da alma com as suas próprias convicções a respeito a ressurreição dos mortos. O resultado desta mescla foi que eles não deixaram de conceber a doutrina da ressurreição, mas incluíram junto a ela uma nova ideia que com o passar dos tempos foi deixando a realidade da ressurreição cada vez mais insignificante: a imortalidade da alma. Na época de Cristo, imortalidade da alma e ressurreição dos mortos eram dois opostos. Os gregos acreditavam na doutrina da imortalidade (e os cristãos dos dias de hoje misturam os dois). Naquela época, contudo, uma vez que a esperança cristã era a da ressurreição, se você quisesse pregar que os mortos já tinham ido para a glória teria que pregar deste jeito:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 36 “Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a fé de alguns” (cf. 2Tm.2:18). O próprio apóstolo Paulo teve sérios problemas em Atenas por causa da crença deles na imortalidade da alma, como é dito em Atos 17:32. A verdade é que Paulo pregava a ressurreição, e, os gregos, a imortalidade incondicional da alma. O resultado disso foi a rejeição por parte deles aos ensinamentos de Paulo. A esperança bíblica primitiva era sempre voltada à ressurreição, e não à imortalidade da alma. A crença na alma imortal não apenas desqualifica e tira a importância da ressurreição, como também a anula como sem sentido, uma vez que todos iríamos continuar no Céu ou no inferno do mesmo jeito sem ela. Tal detrimento óbvio entre imortalidade da alma e ressurreição dos mortos é tão evidente que levou muitos grandes escritores a exporem tal discrepância, como o grande teólogo luterano Oscar Cullmann e o doutor adventista Samuelle Bacchiocchi (que colocaram tal contradição no título de seus livros). O autor deste livro disponibilizará de mais de duas centenas de provas contra a doutrina dualista ao longo de toda a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, que serão mostradas e comentadas uma a uma ao longo de todo o livro, revelando como que tal doutrina não é apenas a primeira mentira, como também a maior de todas as mentiras de todos os tempos.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 37 CAPÍTULO 2 – OS PAIS DA IGREJA E A IMORTALIDADE DA ALMA I–Os Pais da Igreja criam na imortalidade da alma? Os Pais da Igreja foram os influentes cristãos, bispos, teólogos e mestres que marcaram história na Igreja primitiva nos primeiros séculos e cujos trabalhos foram utilizados como precedentes doutrinários nos séculos seguintes. O estudo dos escritos dos Pais da Igreja é denominado “patrística”, e seu conteúdo é de profunda relevância quando buscamos saber se a Igreja cristã dos primeiros séculos cria ou não em alguma doutrina. Afinal, se os Pais da Igreja que conviveram tão próximos aos apóstolos, como Policarpo (69-155 d.C) que foi discipulado pelo próprio apóstolo João, ou Inácio (35-107 d.C), que também conviveu com os apóstolos, estavam equivocados, então toda a verdade cristã deixada pelos discípulos de Jesus foi corrompida dentro de um período de tempo extremamente curto. Doutra forma, se confirmamos que os primeiros cristãos criam de acordo com a crença bíblica sobre a vida após a morte, temos a ratificação de que os bispos que sucederam os apóstolos salvaguardaram a doutrina bíblica a este respeito, e que apenas tardiamente a Igreja se desviou do curso. Por isso, embora a Bíblia seja a nossa única regra de fé e prática, o estudo da patrística não perde seu valor por isso, mas nos ajuda a entender se os primeiros cristãos da Igreja primitiva criam na imortalidade ou na mortalidade da alma, assim como as epístolas apostólicas nos ajudam a entender a visão daqueles que conviveram pessoalmente com Cristo. Afinal, se aqueles que conviveram de perto com os apóstolos não criam na imortalidade da alma, tampouco cremos que os próprios apóstolos tenham passado tal ensino a eles. Que a imortalidade da alma não era uma crença adotada pelos primeiros Pais da Igreja, em especial os do século I até meados do século II d.C, isso fica evidente pela própria argumentação imortalista que sempre cita apenas os Pais de tempos bem posteriores, começando por Orígenes e avançando até Agostinho. Eles realmente não têm nenhuma prova irrefutável dessa doutrina que possa ser encontrada em qualquer obra de qualquer Pai da Igreja que tenha convivido mais de perto com os apóstolos. Neste capítulo, portanto, irei provar resumidamente como que a patrística refuta a imortalidade incondicional da alma naquilo que tange aos primeiros séculos de Cristianismo. Inácio de Antioquia (68 – 107 d.C) cria que seria encontrado como discípulo de Policarpo depois que a ressurreição tivesse sido consumada, e não imediatamente após a morte em algum estado intermediário: ”Uma vez que a Igreja de Antioquia da Síria está em paz, como fui informado, graças à vossa oração, fiquei mais confiante na serenidade de Deus, se com o sofrimento eu o alcançar, para ser encontrado na ressurreição como vosso discípulo”31 Era na ressurreição – e não após a morte – que Inácio se reencontraria com Policarpo, e seria reconhecido como seu discípulo. O mesmo ele afirma aos cristãos de Éfeso: ”Fora dele [Jesus], nada tenha valor para vós. Eu carrego as correntes por causa dele. São as pérolas espirituais com as quais eu gostaria que me fosse dado ressuscitar, graças à 31 Carta de Inácio a Policarpo, 7:1.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 38 vossa oração. Desta desejo sempre participar para me encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, que estão sempre unidos aos apóstolos pela força de Jesus Cristo”32 Inácio queria se encontrar na herança dos cristãos de Éfeso, mas a pergunta que não quer calar é: “quando”? Qualquer imortalista responderia que seria logo após a morte e antes da ressurreição, quando supostamente a “alma imortal” de Inácio partiria para o Céu e se encontraria na sua herança, junto aos cristãos de Éfeso. Porém, Inácio diz claramente que seria na ressurreição que isso aconteceria! A crença de Inácio de que era somente na ressurreição dos mortos que os cristãos entram em sua herança celestial e se reencontram com os demais cristãos era crida também por Policarpo (69 – 155 d.C), contemporâneo de Inácio, que afirmou que a ressurreição não é somente do corpo (como creem os imortalistas), mas também da alma: “Eu te bendigo por me teres julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires, e do cálice de teu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo”33 Justino (100 – 165 d.C) foi ainda mais além e declarou que aqueles que criam que a alma vai para o Céu após a morte e antes da ressurreição nem sequer poderiam ser considerados cristãos, mas estariam no grupo daqueles que eram considerados «ímpios e hereges», que ensinavam «doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas»: "Além disso, eu indiquei-lhe que há alguns que se consideram cristãos, mas são ímpios, hereges, ateus, e ensinam doutrinas que são em todos os sentidos blasfemas, ateístas e tolas. Mas, para que saiba que eu não estou sozinho em dizer isso a você, eu elaborarei uma declaração, na medida em que puder, de todos os argumentos que se passaram entre nós, em que eu devo registrá-las, e admitindo as mesmas coisas que eu admito a você. Pois eu opto por não seguir a homens ou a doutrinas humanas, mas a Deus e as doutrinas entregues por Ele. Se vós vos deparais com supostos Cristãos que não façam esta confissão, mas ousem também vituperar o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e neguem a ressurreição dos mortos, sustentando antes, que no ato de morrer, as suas almas são elevadas ao céu, não os considereis Cristãos. Mas eu e os outros, que somos cristãos de bem em todos os pontos, estamos convictos de que haverá uma ressurreição dos mortos, e mil anos em Jerusalém, que será construída, adornada e alargada, como os profetas Ezequiel e Isaías e outros declaram"34 O Diálogo com Trifão, escrito por Justino, é ainda mais interessante por ser apresentado em forma de diálogo. Nele, podemos ver as incoerências da crença de que a alma é imortal e também como que os primeiros cristãos contestavam essa crença de origem pagã. Por exemplo, Justino afirma que as almas dos homens são em tudo semelhante às almas dos animais: Velho: E todas as almas de todos os seres vivos podem compreendê-Lo? Ou são as almas dos homens de um tipo e as almas dos cavalos e de jumentos de outro tipo? Justino: Não. Mas as almas que estão em todos são semelhantes. (Capítulo 4) 32 Inácio aos Efésios, 11:2. 33 O Martírio de Policarpo, 14:2. 34 Diálogo com Trifão, Cap.80.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 39 Aqui Justino declara que as almas humanas não são diferentes das dos animais. Se lermos o relato da criação em Gênesis, vemos que ambos são descritos como sendo alma-nephesh (cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). Alguns imortalistas, na tentativa de refutar este fato bíblico, tentam dizer que as almas dos animais são diferentes das almas humanas, pois a deles seria mortal, enquanto a nossa seria imortal. Isso é o que o homem velho estava dialogando com Justino, mas este nega que haja diferença entre ambas as almas, exatamente como prega a doutrina bíblica holista! Mais a frente, vemos um interessante diálogo de Justino com o Velho, onde os dois discorrem sobre a natureza do universo e sobre o destino da alma após a morte. Desde que o universo lhes pareceu ser gerado (como a Bíblia ensina que foi), eles concluem que as almas não podem ser imortais, mas morrem após a morte do corpo: Velho: Você diz que o mundo também é não-gerado? Justino: Alguns dizem que sim. Eu, porém, não concordo com eles. Velho: Você está certo, pois que razão alguém tem para supor que um corpo tão sólido, possuindo resistência, composto, mutável, em decomposição, e renovado a cada dia, não surgiu de alguma causa? Mas se o mundo é gerado, as almas necessariamente também são geradas, e talvez em algum momento elas não existam, porque elas foram feitas por conta dos homens e outros seres vivos, se você for dizer que eles foram gerados totalmente à parte, e não juntamente com seus respectivos órgãos. Justino: Isso parece estar correto. Velho: Não são, pois, imortais? Justino: Não, desde que o mundo pareceu-nos ser gerado. (Capítulo 5) Justino afirma que as almas não são imortais, porque o universo foi gerado. Então, vem a parte que alguns imortalistas se utilizam, tirando-a de seu devido contexto, que é quando o velho que debate com Justino (e não o próprio Justino) afirma que as almas não morreriam completamente, mas as almas dos justos iriam para um “lugar melhor” após a morte, e as dos injustos iriam para um “lugar pior”, esperando o dia do julgamento. Já vi alguns imortalistas fazerem uso dessa passagem na intenção de passar a ideia de que Justino não cria que a alma morria após a morte, mas eles se esquecem de que foi o próprio Justino que corrigiu este pensamento do homem velho logo na sequencia do Diálogo: Velho: Mas eu não digo, na verdade, que todas as almas morrem... mas depois da morte as almas dos piedosos permanecem em um lugar melhor, enquanto as dos injustos e perversos estão em um lugar pior, esperando o momento do julgamento. Assim, alguns que tem sido dignos de serem apreciados por Deus nunca morrem, mas outros são punidos, desde que Deus quer que eles existam e sejam punidos. Justino: O que você diz, então, é de uma natureza similar com o que Platão ensina sobre o mundo, quando ele diz que ele é realmente sujeito à decadência, na medida em que foi criado, mas que nem vai ser dissolvido, nem encontrar-se com o destino da morte por conta da vontade de Deus. Parece-lhe que o mesmo pode ser dito da alma, e em geral de todas
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 40 as coisas? Para as coisas que existem depois de Deus, ou em qualquer momento existem, estas têm a natureza de decadência, e podem ser apagadas e deixarem de existir, pois só Deus é ingênito e imortal, e por isso mesmo Ele é Deus, mas todas as outras coisas criadas por Ele são corruptíveis. Por esta razão ambas as almas morrem, uma vez que, se fossem ingênitas, elas nem teriam pecado, nem seriam preenchidas com a loucura, e nem seriam covardes ou ferozes; nem seriam de bom grado se transformarem em porcos e as serpentes em cães, se fossem não-geradas. Note que o homem velho realmente propôs a imortalidade da alma a Justino, mas foi o próprio Justino quem refutou aquele pensamento logo em seguida, dizendo que o homem velho estava pensando da mesma forma que Platão, de que o mundo não vai ser dissolvido, e de que o mesmo poderia ser aplicado com relação à alma (que não se dissolveria após a morte). Isso estaria errado pelo fato de que as coisas criadas por Deus tem uma natureza corruptível, e por essa razão “ambas as almas morrem”, isto é, tanto as almas dos homens como também as dos animais perecem após a morte, não são imortais como cria Platão. Mais adiante, Justino reitera mais uma vez que a alma deixa de existir após a morte, e que o homem não existe mais quando o espírito da vida é retirado dele, não existindo mais a alma: “Sempre que a alma tem de deixar de existir, o homem não existe mais, o espírito da vida é removido, e não há mais alma, mas ele vai voltar para o lugar de onde foi feito”35 Para Justino, quando Deus retira do homem o sopro de vida que Ele soprou originalmente nas narinas de Adão, o homem não existe mais, a alma deixa de existir e «não há mais alma»; o homem como um ser integral volta para o lugar de onde ele foi formado: o pó da terra. Por isso, a ressurreição é a única esperança para trazer o homem de volta à existência, como Justino também declara a Trifão: Trifão: Diga-me, então, devem os que viviam de acordo com a lei dada por Moisés, viverem da mesma maneira com Jacó, Enoque, Noé, na ressurreição dos mortos, ou não? Justino: Quando citei, senhor, as palavras ditas por Ezequiel, que, ”mesmo que Noé, Daniel e Jó estivessem nela, eles não poderiam livrar seus filhos e suas filhas, o pedido não lhes seria concedido", mas que cada um deve ser salvo pela sua própria justiça, disse também que aqueles que suas vidas foram reguladas pela lei de Moisés de igual modo devem ser salvos. Pois o que está na lei de Moisés é naturalmente bom, piedoso e justo, e foi prescrito a ser praticado por aqueles que devem obedecê-la, e foi designada para ser realizada em virtude da dureza dos corações do povo, e feita também para aqueles que estavam debaixo da lei. Desde aqueles que fizeram o que é universal, naturalmente, e eternamente bom é agradável a Deus, eles serão salvos por esse Cristo na ressurreição, em pé de igualdade com os homens justos que foram antes deles, ou seja, Noé e Enoque, e Jacó, e quem mais existir, juntamente com aqueles que conheceram esse Cristo, Filho de Deus, que foi a estrela da manhã e submeteu-se ao encarnar-se, e nascer desta virgem da família de Davi, a fim de que, por nesta dispensação, a serpente que peca desde o princípio e os anjos com ele possam ser destruídos, e que a morte possa ser desprezada, para sair eternamente, na segunda vinda de Cristo, aqueles que acreditam n'Ele e viveram aceitavelmente. (Capítulo 45) 35 Diálogo com Trifão, Cap.6.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 41 É tão claro como a luz do dia o fato de que Justino cria que seria na ressurreição (que acontece na segunda vinda de Cristo) que aqueles que já morreram (tais como Noé, Enoque e Jacó) iriam ser salvos e sair para a vida eterna. Por isso ele se regozijava da morte: não por pensar que tinha uma “alma imortal” que sobrevivesse conscientemente após a morte, mas por crer que Deus o ressuscitaria e o tornaria imortal nessa ressurreição: “Mas nós nos regozijamos da morte, acreditando que Deus nos ressuscitará a nós pelo seu Cristo, e nos fará incorruptíveis, e intactos, e imortais, e sabemos que as ordenanças impostas em virtude da dureza dos corações do povo em nada contribuem para o desempenho da justiça e da piedade”36 Por tudo isso, a vida eterna seria herdada somente após a santa ressurreição, e não antes dela: “Ele [Josué] não apenas teve o seu nome alterado, como também foi sucessor de Moisés, sendo o único de seus contemporâneos que saiu do Egito, ele levou os sobreviventes para a Terra Santa e foi ele, e não Moisés, que conduziu as pessoas para a Terra Santa, e assim como ela foi distribuída por sorteio para os que entraram junto com ele, assim também Jesus Cristo virá novamente e distribuirá a boa terra para cada um, embora não da mesma maneira. Pois o primeiro [Josué] deu-lhes uma herança temporária, visto que ele não era nem Cristo, que é Deus, nem o Filho de Deus; mas este último [Jesus], após a santa ressurreição, nos dará a posse eterna”37 Os homens de todas as épocas que creram em Cristo e que viveram de acordo com a Palavra de Deus “estarão” {futuro} naquela terra, e “herdarão” {futuro} o eterno e incorruptível bem: “E, portanto, todos os homens em todos os lugares, quer escravos ou livres, que creem em Cristo, e reconheceram a verdade em suas próprias palavras e dos Seus profetas, sabemos que eles estarão com ele naquela terra, e herdarão o eterno e incorruptível bem”38 Se Justino cresse que herdamos a vida eterna antes da ressurreição (no momento em que a alma “voa” para o Céu após a morte), então ele teria dito que os que já morreram já estão naquela terra prometida por Deus, e que já herdaram o eterno e incorruptível bem. O fato de ele colocar tudo no tempo futuro nos mostra mais uma vez que ele não cria na imortalidade da alma. A posse da vida eterna era vista como um acontecimento depois da ressurreição dos mortos, e não antes: “E a Palavra, sendo o Seu Filho, veio até nós, tendo sido manifestado em carne, revelando tanto si mesmo como também o Pai, dando-nos a ressurreição dos mortos e, depois, a vida eterna”39 Por isso mesmo ele advogava a tese bíblica de que a ressurreição não é meramente do corpo, mas do corpo e da alma, pois tanto o corpo como a alma formam o homem, e consequentemente tanto o corpo como a alma morrem, e tanto o corpo como a alma ressuscitam na ressurreição: 36 Diálogo com Trifão, Cap.46. 37 Diálogo com Trifão, Cap.113. 38 Diálogo com Trifão, Cap.139. 39 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.1.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 42 “Pois o que é homem, senão um animal racional composto de corpo e alma? É a alma chamada de homem por si mesma? Não, mas é chamada a alma do homem. Será que o corpo pode ser chamado de homem? Não, mas é chamado o corpo do homem. Se, então, nenhum deles é por si só o homem, mas o que é composto dos dois juntos é chamado de homem, e Deus chamou o homem para a vida e ressurreição, Ele chamou não uma parte, mas o todo, que é a alma e o corpo”40 “Se Ele não tinha necessidade da carne, por que Ele iria curá-la? E o que é o mais convincente de todos: Ele ressuscitou os mortos. Por quê? Não era para mostrar como a ressurreição deveria ser? Como, então, Ele ressuscitará os mortos? Suas almas ou os seus corpos? Manifestamente ambos”41 Arnóbio foi outro a declarar que a tese da imortalidade da alma era crida em sua época por “pensadores recentes e fanáticos”: "Não há motivo, portanto, que nos engane, não há motivo que nos faça conceber esperanças infundadas aquele que se diz por alguns pensadores recentes e fanáticos pela excessiva estima de si mesmos que, as almas são imortais”42 Essa é uma declaração enfática que nos leva a crer novamente que quando a imortalidade da alma entrou na Igreja não foi por ser pregada desde sempre pelos apóstolos, mas foi ao longo de um processo de desvio doutrinário, começando a ser pregada por apenas alguns “recentes”, que, influenciados pela filosofia grega platônica, trouxeram para dentro da Igreja o conceito pagão de que a alma seria imortal. Os pensadores da época que criam que a alma era imortal eram questionados pela sua própria infantilidade e ignorância em ver este assunto desta forma: “Mas se você está realmente certo de que as almas dos homens são imortais e dotadas de conhecimento, quando elas voam para cá, deixe-me questionar a juventude que você vê as coisas pela sua ignorância, estando acostumado aos caminhos dos homens”43 Arnóbio enfatiza também que as almas não são incorpóreas, o que é outra base e fundamento da tese imortalista que é derrubada, juntamente com a crença de que elas seriam “imortais”: “Além disso, o mesmo raciocínio não só mostra que elas [as almas] não são incorpóreas, mas também as privam de toda e qualquer imortalidade, e remete-as para os limites dentro dos quais a vida é normalmente fechada”44 Por fim, outros dois autores cristãos do segundo século d.C que são bem importantes para entendermos o pensamento presente na Igreja da época, são Teófilo de Antioquia (120 – 180 d.C) e Taciano, o Sírio (120 – 180 d.C), que são da mesma época, sendo que ambos eram filósofos e ambos discorreram amplamente sobre a ressurreição, sobre a natureza 40 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.8. 41 Justino, Tratado sobre a Ressurreição, Cap.9. 42 Arnóbio, op. cit., Liv. II, 14-15; pag. 51. 43 Arnóbio, Against the Heathen , Livro II, Cap.24. 44 Arnóbio, Against the Heathen, Livro II, Cap.26.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 43 humana e sobre a vida após a morte. Começaremos por Teófilo, que escreveu três livros a Autólico, e disse: “Ó homem, se compreenderes isso, e viveres de maneira pura, piedosa e justa, poderás ver a Deus. Antes de tudo, porém, entrem em teu coração a fé e o temor de Deus, e então compreenderás isso. Quando depuseres a mortalidade e te revestires da incorruptibilidade, verás a Deus de maneira digna. Com efeito, Deus ressuscitará a tua carne, imortal, juntamente com tua alma. Então, tornado imortal, verás o imortal, contanto que agora tenhas fé nele. Então reconhecerás que falaste injustamente contra ele”45 Acima constatamos três pontos principais. O primeiro, é que a natureza humana atual é mortal. A segunda, é que a alma ressuscita juntamente com o corpo, o que era uma crença comum no século d.C. E o terceiro, que é somente na ressurreição, quando o homem se torna imortal, que ele verá o imortal, Deus. A doutrina tardia da imortalidade da alma mudou tudo isso, pois prega que o ser humano possui atualmente a imortalidade na forma de uma alma imortal, ensina que a ressurreição é somente do corpo e também que veremos a Deus logo após a morte, antes mesmo da ressurreição. Quanta diferença disso para aquilo que os Pais da Igreja criam e ensinavam! Outro fato que Teófilo nos mostra e que, como já vimos, é totalmente compatível com a Bíblia e com aquilo que disse Justino de Roma, é que os animais também são almas viventes: “E disse Deus: ‘Que as águas produzam répteis de alma vivente e aves que voam sobre a terra debaixo do firmamento do céu’. E assim se fez. E Deus fez os monstros grandes do mar, e toda alma dos animais que se arrastam, que as águas produziram conforme suas espécies, e todo volátil alado segundo a sua espécie. E Deus viu que era bom. E Deus os abençoou, dizendo: ‘Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar, e que as aves se multipliquem sobre a terra’. Houve tarde e houve manhã: quinto dia.E disse Deus: ‘Que a terra produza alma vivente conforme a sua espécie, quadrúpedes e répteis e feras da terra segundo a sua espécie’. E assim se fez. E Deus fez as feras da terra conforme a sua espécie e os animais segundo a sua espécie, e todos os répteis da terra”46 Depois que a doutrina pagã da imortalidade da alma ganhou força dentro do Cristianismo, ficou comum os teólogos da imortalidade negarem que os animais sejam ou possuam alma, e a grande maioria das traduções vertem os textos acima (a exemplo de outros onde aparece nephesh para os animais) como “criaturas viventes”, antes que como “almas viventes”, que é o real significado do hebraico nephesh. Tudo para negar que os animais são tão nephesh quanto o ser humano, e que, por isso, nephesh não é nem nunca foi um elemento eterno, imortal e imaterial presente na natureza humana. O curioso é que estas mesmas traduções que adulteram o original hebraico e traduzem por “criatura” onde deveria ser “alma” relacionando-se aos animais, no mesmo contexto traduzem a mesma palavra [nephesh] por alma mesmo quando se refere a seres humanos! A manobra por trás disso tudo é muito clara: eles querem passar a falsa ideia de que nephesh (alma) é um elemento imortal e imaterial que está presente em nós mas não nos animais; por isso, traduzem essa palavra por “alma” quando se refere aos seres humanos, 45 Teófilo a Autólico, Livro I, Cap.7. 46 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.11.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 44 mas não traduzem por “alma” quando a mesma palavra é aplicada igualmente aos animais, ou senão todos ficariam sabendo que nephesh não é um elemento imortal coisa nenhuma. Teófilo também faz um contraste entre nós e Deus, mostrando que Deus é imortal, enquanto o homem deixa de existir por um tempo, até voltar à existência em uma ressurreição futura: “Os luzeiros contêm o exemplo e símbolo de um grande mistério, pois o sol é símbolo de Deus e a lua o é do homem. Como o sol difere muito da lua em poder e glória, assim Deus é muito diferente da humanidade; como o sol permanece sempre cheio e não diminui, assim Deus permanece sempre perfeito, repleto de poder, inteligência, sabedoria, imortalidade e de todos os bens. Em troca, a lua perece cada mês, e de certo modo, morre, e é símbolo de como é o homem; depois torna a nascer e cresce, para demonstrar a ressurreição futura”47 De todos os escritos de Teófilo, o meu preferido é aquele em que ele t rata mais diretamente sobre a constituição da natureza humana. A crença unânime entre os imortalistas é a de que o homem foi criado naturalmente possuindo a imortalidade, isto é, que a alma é naturalmente imortal, e isso vale para todo mundo, justos ou ímpios, crentes ou incrédulos. Por outro lado, eu não digo que a alma foi criada naturalmente imortal (o que já vimos que é uma heresia), mas nem que ela foi criada mortal, e sim que foi criada com a possibilidade de ambas, mas o homem, ao escolher o pecado, trouxe a morte a si mesmo, e, desta forma, o homem não se tornou imortal, mas mortal por natureza. É exatamente isso o que Teófilo nos explica com grande sabedoria nessas palavras: “Poder-se-á dizer: ‘O homem não foi criado mortal por natureza?’ De jeito nenhum. ‘Então foi criado imortal?’ Também não dizemos isso. ‘Então não foi nada?’ Também não dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte. Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imortalidade, guardando o mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos. O que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, desobedecendo, atraiu sobre si a morte, assim também, obedecendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os cumpre pode salvar-se e, tendo alcançado a ressurreição, herdar a imortalidade”48 Teófilo acima foi simplesmente brilhante em suas colocações. Deus não criou o homem com uma alma imortal, pois, se o tivesse criado imortal, «o teria feito deus»; nem tampouco o criou mortal, senão poderia parecer que Deus é a causa da morte, ou seja, que Ele não deixou a nós outra opção a não ser a morte. A imortalidade ou mortalidade, portanto, estava dependente da escolha do homem. Dito em termos simples, a possibilidade de 47 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.15. 48 Teófilo a Autólico, Livro II, Cap.27.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 45 possuir a imortalidade não estava baseada em uma alma imortal recém-implantada, mas condicionada à obediência a Deus. Mas, no Jardim, o homem preferiu comer do fruto proibido, pecou e desobedeceu ao Criador, e atraiu a morte para si mesmo. Desde então o homem passou a ser naturalmente mortal, por causa do pecado, que afetou tanto o corpo como a alma. O homem, desta forma, «se tornou a causa da morte para si mesmo, porque Deus o fez livre e senhor de seus atos». O homem tornou-se naturalmente mortal pela sua própria negligência e desobediência. Mas Deus, pela Sua misericórdia, deu-nos a possibilidade de sermos imortais, se obedecermos a vontade de Deus, podendo adquirir a vida eterna. A pergunta que devemos fazer é: “O que Deus providenciou para poder nos conceder uma vida eterna (imortalidade)”? A resposta não é uma alma naturalmente imortal, mas sim a ressurreição dos mortos. A ressurreição é, por assim dizer, o “antídoto” para a imortalidade, é por meio dela que os santos podem obter a vida eterna. Foi por isso que Teófilo disse que, tendo alcançado a ressurreição, podemos herdar a imortalidade. A imortalidade não é uma posse já garantida através da detenção de uma alma imortal em nossa própria natureza, mas sim algo que herdaremos, no futuro, através da ressurreição dos mortos, para aqueles que forem obedientes a Deus. Este pensamento mina toda uma noção de imortalidade natural da alma, onde o homem já foi criado possuindo naturalmente a imortalidade, onde tanto justos como ímpios viverão eternamente e são imortais, onde o pecado afeta apenas o corpo e não a alma, e onde a ressurreição não passa de uma encenação desnecessária e já estaríamos no Céu muito antes dela acontecer. Essa realidade que os imortalistas não podem aceitar, que é o fato de que há uma “lacuna” (inexistência) entre a morte e a ressurreição, que a Bíblia metaforicamente chama de “sono”, era muito bem crida pelos Pais da Igreja, como Taciano, que também reiterou que, da mesma forma que o homem não existe antes de nascer, ele também não existirá após a morte, só voltando a existir através da ressurreição, quando se dará a reintegração de todos os homens por ocasião do julgamento: “Por isso, também cremos que acontecerá a ressurreição dos corpos depois da consumação do universo, não como dogmatizam os estóicos, segundo os quais as mesmas coisas nascem e perecem depois de determinados períodos cíclicos, sem utilidade nenhuma, mas de uma só vez. Totalmente acabados os tempos que vivemos, dar-se-á a reintegração de todos os homens por razão do julgamento. Então seremos julgados não por Minos ou Radamante, antes de cuja morte, como dizem os mitos, nenhuma alma era julgada, mas o juiz é o próprio Deus que nos criou. Por mais que nos considereis charlatães e palhaços, nada disso nos importa, depois que cremos nesta doutrina. Com efeito, do mesmo modo como, não existindo antes de nascer, eu ignorava quem eu era e só subsistia na substância da matéria carnal – mas uma vez nascido, eu, que antes não existia, acreditei em meu ser pelo nascimento – assim também eu, que existi e que pela morte deixarei de ser e outra vez desaparecerei da vista de todos, novamente voltarei a ser como não tendo antes existido e portanto nasci. Mesmo que o fogo destrua a minha carne, o universo recebe a matéria evaporada; se me consumo nos rios ou no mar, ou sou despedaçado pelas feras, permaneço depositado nos tesouros de um senhor rico. O pobre ateu desconhece esses depósitos, mas Deus, que é rei, quando quiser, restabelecerá em seu ser primeiro a minha substância, que é visível apenas para ele”49 49 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.6.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 46 A mesma verdade da natureza humana criada “neutra” podendo se tornar mortal ou imortal pela sua própria escolha é reforçada também por Taciano: “Todavia, como a virtude do Verbo tem em si a presciência do futuro, não por fatalidade do destino, mas por livre determinação dos que escolhem, predisse os acontecimentos futuros, freou a maldade por suas proibições e louvou os que perseveram no bem. Aconteceu, porém, que os homens e os anjos seguiram e proclamaram Deus àquele que, por ser criatura primogênita, superava os demais em inteligência, justamente ele que se havia revelado contra a lei de Deus. Então a virtude do Verbo negou a sua convivência não só ao que se tornara cabeça desse louco orgulho, mas também a quantos o haviam seguido. E o homem, que tinha sido criado à imagem de Deus, apartando-se dele o espírito mais poderoso, tornou-se mortal e aquele que fora primogênito, por sua transgressão e insensatez, foi declarado demônio, e os que imitaram suas fantasias se transformaram no exército dos demônios que, por razão de seu livre-arbítrio, foram entregues à própria perversidade”50 “Nós não fomos criados para a morte, mas morremos por nossa própria culpa. A liberdade nos deixou; nós que éramos livres, nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Deus não fez nada mau; fomos nós que produzimos a maldade; nós que a produzimos, porém somos também capazes de recusá-la”51 E a realidade de que a ressurreição não é somente do corpo, mas também da alma, também era crida por Taciano, seguindo o exemplo de todos os outros Pais da Igreja de sua época que já foram citados fazendo o mesmo tipo de menção, tais como Justino, Policarpo e Teófilo: “Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a carne ressuscita sem a alma”52 A alma, segundo Taciano, não pode jamais se manifestar sem o corpo. Ele certamente deveria explicar isso para os imortalistas atuais, que creem e ensinam que passaremos longos tempos manifestados no Céu apenas em alma e sem um corpo físico ressurreto. O próprio Credo Apostólico (de origem antiga) prega a ressurreição do corpo, sem nada dizer a respeito de imortalidade da alma. Diante de tudo isso, a afirmação de que a imortalidade da alma é uma doutrina ortodoxa do Cristianismo é uma lenda para aqueles que no mínimo se dão ao trabalho de estudar a fundo os escritos patrísticos do primeiro ao segundo século d.C, que constituem um verdadeiro arsenal de declarações altamente destrutivas contra os pilares da crença pagã em uma alma imortal. Não, os Pais da Igreja mais próximos dos apóstolos jamais creram que a alma era imortal, pois essa nunc a foi uma doutrina apostólica. Com Orígenes, famoso por fantasiar e metaforizar tudo, e Clemente de Alexandria (que em muito seguiu a linha de Orígenes), o Cristianismo passou a adotar a crença de que possuímos uma alma imortal. Curiosamente, nem mesmo estes autores sabiam direito do que estavam falando. Orígenes, que mais tarde foi declarado herege pela própria Igreja, não foi apenas aquele que começou 50 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.7. 51 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.11. 52 Taciano, Diálogo com os Gregos, Cap.15.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 47 a propor que a alma era imortal; ele também propôs a preexistência das almas ou reencarnação, ao induzir que foram os méritos de uma vida anterior que fizeram com que Jacó tivesse sido amado por Deus: “Então, depois de ter examinado mais a fundo as Escrituras a respeito de Jacó e Esaù, achamos que não depende da injustiça de Deus que antes de ter nascido e de ter feito algum bem ou mal - isto é nesta vida -, tenha sido dito que o maior serviria o menor; e achamos que não é injusto que no ventre da mãe Jacó tenha suplantado seu irmão (...), se crermos que pelos méritos da vida anterior com razão ele tenha sido amado por Deus por merecer ser preferido ao irmão”53 O Dicionário de Teologia Evangélica também destacou essa influência grega sofrida por Orígenes: "A especulação acerca da alma na Igreja pós-apostólica foi fortemente influenciada pela filosofia grega. Podendo ser visto pelo fato de Orígenes ter aceitado as doutrinas de Platão, sobre a preexistência da alma, originalmente como uma mente (nous em grego) pura, a qual, por causa do seu afastamento de Deus, se abrandou para a condição de alma (psyche), perdendo assim a sua participação na chama divina ao voltar-se para a Terra"54 O outro, por sua vez, propôs que os apóstolos foram evangelizar no inferno: “Os apóstolos, seguindo o Senhor, evangelizaram também aqueles que se encontravam no Hades; evidentemente era necessário que os melhores discípulos se tornassem imitadores do Mestre também lá”55 Até mesmo Voltaire percebeu essa grande confusão que se tornou a Igreja depois da adoção da crença de que a alma era imortal – cada um cria em uma coisa diferente: “Que importam em questões inacessíveis à razão, essas novelas criadas por nossas incertas imaginações? Que importa que os pais da Igreja dos quatro primeiros séculos acreditassem que a alma era corporal? Que importa que Tertuliano, contradizendo- se, decidisse que a alma é corporal, figurada e simples ao mesmo tempo? Teremos mil testemunhos de nossa ignorância, porém nem um só oferece vislumbre da verdade”56 Então, aquilo que antes era o evangelho simples, puro e sincero, onde a alma era naturalmente mortal por causa do pecado e o homem poderia se tornar imortal na ressurreição da alma e do corpo, se tornou a maior bagunça, e dali para frente começaram a dar margens a uma série de outras grandes heresias que foram surgindo com o passar dos tempos. Dentre tais heresias, destaca-se a crença no purgatório, a intercessão dos santos (crida por muitos Pais da Igreja a partir do terceiro século d.C), a da preexistência da alma, a da reencarnação, a da comunicação ou evocação dos mortos, a das rezas aos mortos, e por ai vai. O Cristianismo já estava infectado pela primeira mentira pregada pela serpente – que “certamente não morrerás” (Gn.3:4), que era e é a base para todos os demais enganos e 53 Orígenes, I Principi, Torino 1968, Livro II, 9, 7. 54 Dicionário de Teologia Evangélica, "Alma", 1992, p. 1037. 55 Clemente de Alexandria, op. cit., Livro VI, 45,5: pag. 688-689. 56 Voltaire, Sobre a Alma, Cap.1.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 48 mentiras perpetuados até os nossos dias. A partir do momento em que alguns «pensadores recentes e fanáticos» começaram a implantar a semente da imortalidade da alma no seio da Igreja antiga, uma série de outras heresias destrutivas começaram a entrar na Igreja como o fruto deste processo. Graças a Deus que, possuindo tão grande arsenal de centenas de provas bíblicas contra a imortalidade da alma e mais um outro arsenal insuperável de provas históricas de que os primeiros Pais da Igreja jamais deram crédito a essa heresia, hoje podemos rejeitar essa doutrina profana e c olocá-la no mesmo lugar onde ela se encontrava na época dos apóstolos: das portas para fora da Igreja Cristã e alicerçada unicamente no mais puro paganismo. II–A Dormição de Maria e a Imortalidade da Alma A “Dormição de Maria” é a crença de que Maria “dormiu” (morreu) e ressuscitou posteriormente, assim como Jesus Cristo, sem ter sofrido a corrupção no túmulo. Ela é crida pela Igreja Católica Ortodoxa, que comemora a morte de Maria e a sua ressurreição de corpo e alma aos céus como a “Festa da Dormição da Mãe de Deus” no dia 15 de Agosto (28 de Agosto no calendário juliano). Essa doutrina que sugeriu a assunção de Maria, embora não haja nenhuma pista de que tenha sido proveniente dos apóstolos, é de origem antiga, pois no quarto século d.C já haviam Pais da Igreja defendendo ou supondo essa ideia. Mas a pergunta principal a se destacar aqui sobre a dormição de Maria é: o que aconteceu com Maria entre a sua morte e assunção? Como vemos, a Igreja Católica Ortodoxa crê que Maria ressuscitou de corpo e alma, e não se ressuscita algo que não esteja morto. A crença presume que Maria morreu completamente – corpo e alma – e posteriormente passou pela ressurreição, não meramente corporal, mas uma ressurreição de corpo e alma. A Igreja Romana igualmente crê que “Maria foi assunta de corpo e alma à glória celeste”57. Se Maria foi assunta de corpo e alma à glória celeste, isso significa que a alma de Maria não estava já no Céu quando ela ressuscitou. A doutrina, portanto, presume que Maria morreu de corpo e alma e ressuscitou de corpo e alma. A Igreja Ortodoxa declara isso categoricamente, enquanto que a Igreja Romana, embora oficialmente não tenha tido uma declaração em ex cathedra que confirme se Maria morreu ou não, conta com diversas declarações de papas e doutores da Igreja que também criam que Maria passou pela morte. O papa João Paulo II, por exemplo, em sua Audiência Geral de 25 de Junho de 1997, citou São Tomás de Aquino e disse: “No que diz respeito às causas da morte de Maria, não parecem fundadas as opiniões que querem excluir as causas naturais. Mais importante é investigar a atitude espiritual da Virgem no momento de deixar este mundo. A este propósito, São Francisco de Sales considera que a morte de Maria se produziu como efeito de um ímpeto de amor. Fala de uma morte ‘no amor, por causa do amor e por amor’ e por isso chega a afirmar que a Mãe de Deus morreu de amor por seu filho Jesus (Tratado do Amor de Deus, Liv. 7, cc. XIII-XIV). Qualquer que tenha sido o fato orgânico e biológico que, do ponto de vista físico, tenha produzido a morte de Maria, pode-se dizer que o trânsito desta vida para a outra foi para Maria um amadurecimento da graça na glória, de modo que nunca melhor que nesse caso a morte pode conceber-se como uma ‘dormição’"58 57 §966 do Catecismo Católico. 58 Audiência geral de 25 de Junho de 1997 de João Paulo II. Disponível em:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 49 Vemos claramente, portanto, o papa João Paulo II em uma audiência geral afirmando que Maria morreu, e citando São Francisco de Sales que cria da mesma forma. O padre Miguel Ángel Fuentes segue essa mesma linha e cita também outro teólogo católico para confirmar a sua posição de que Maria passou realmente pela morte: “Segundo G. Alastruey ('Tratado da Virgem Santíssima', BAC, Madrid 1945, pp. 405 e seguintes), somente para citar um dos mais influentes mariólogos, a verdadeira doutrina (e que deve se ter como teologicamente correta) é que a Virgem Maria verdadeiramente morreu”59 O mesmo cita também Agostinho, Jerônimo, João Damasceno, André de Creta, João de Tessalônica e Nicolás Cabasilas em apoio da tese de que Maria realmente morreu, de acordo com a tradição tanto grega como latina. Portanto, vemos que a crença crida pela Igreja Católica Romana também é a mesma crença da Igreja Católica Ortodoxa, de que: 1º Maria morreu de corpo e alma. 2º Maria ressuscitou de corpo e alma. 3º Maria foi assunta aos céus de corpo e alma. Se a alma de Maria já tivesse subido aos céus no momento da morte, então Maria não teria sido assunta “de corpo e alma” como pregam a Igreja Romana e Ortodoxa, mas teria sido assunta somente de corpo, porque a alma supostamente já estaria no Céu. Isso mostra clarissimamente que até a época em que se deu essa tradição não se cria na imortalidade da alma, doutrina esta que ensina que a alma é imortal e parte desta vida imediatamente no momento da morte, e que a ressurreição é somente do corpo. Se os cristãos dos primeiros séculos cressem na imortalidade da alma, teriam ensinado que apenas o corpo de Maria que morreu, que a alma dela subiu ao Céu no momento da morte corporal, e que apenas o corpo ressuscitou e foi assunto ao Paraíso, como creem os imortalistas atuais60. A ressurreição de corpo e alma de Maria sugere fortemente que até aquela época a Igreja ainda não havia ensinado errado a doutrina da imortalidade da alma. Para que os mais mariólogos pudessem colocar Maria no Céu, não apelaram para uma “imortalidade da alma”, pois essa doutrina não existia na Igreja, por isso tiveram que sugerir a crença na assunção de Maria, onde tanto o corpo quanto a alma que morreram ressuscitariam e adentrariam os céus. Tempos mais tarde, quando a doutrina da imortalidade da alma ganhou força na Igreja da época, ficou muito mais fácil para os católicos colocarem todos os santos no Céu: bastou ensinar que a alma era imortal. <http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1997/documents/hf_jp- ii_aud_25061997_po.html>. Acesso em: 21/08/2013. 59 FUENTES, Miguel Álgel. Él Teólogo Responde. Disponível em: <http://www.exsurgedomini.xpg.com.br/>. Acesso em: 21/08/2013. 60 Vale destacar que eu não estou aqui defendendo a veracidade da crença na assunção de Maria, mas demonstrando historicamente que, até o período em que tal crença foi proposta, não se criam na imortalidade da alma – e isso independe totalmente se a crença de que Maria foi assunta aos céus é verdadeira ou falsa.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 50 Desta forma conseguem sustentar até hoje suas crenças na canonização dos santos, intercessão dos santos, oração pelos mortos, purgatório e consulta aos mortos em cima deste sustentáculo da imortalidade da alma, que é a base e fundamento de todas as demais heresias. Os primeiros cristãos não tinham tal crença, tanto é que a palavra “cemitério” veio dos cristãos primitivos. Os romanos chamavam de “necropolis”, que era a cidade dos mortos, mas os cristãos, por crerem diferente dos romanos pagãos que ensinavam a vida no pós-morte, decidiram dar um nome diferente ao local onde colocamos os mortos, chamando-o de “cemitério”, que vem do grego kimitírion, significando “dormitório”. Por que os cristãos primitivos deram o nome de “dormitório” para o lugar dos mortos, ao invés de manterem o nome de necropolis? Porque, diferentemente dos pagãos que criam que a alma era imortal, eles acreditavam que os mortos estavam realmente “dormindo”61 até a volta de Jesus e a ressurreição para a vida. 61 No capítulo 6 deste livro analisaremos o que exatamente os cristãos primitivos queriam dizer quando falavam que os mortos “dormem”.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 51 CAPÍTULO 3 – CONCEITOS BÍBLICOS SOBRE CORPO, ALMA E ESPÍRITO I–Conceitos com relação à alma Dualismo – A visão do ser humano no contexto imortalista é que este possui uma natureza dualista, isto é, tem um corpo e possui uma alma [nephesh, no hebraico, psiquê, no grego], que seria imortal e estaria presa dentro do corpo e que é liberta por ocasião da morte deste, indo imediatamente para o Céu ou para o inferno, durante toda a eternidade. Na ressurreição, apenas o corpo morto ressuscita, pois a alma imortal já está lá, liberta do corpo, há muito tempo, religando-se a este por ocasião da ressurreição dos mortos que se dá no momento da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). Essa é a visão dualista da natureza humana, de imortalidade da alma. Noutras palavras, você é uma pessoa que tem outra “pessoa” dentro de você. A visão tricotomista do ser humano ensina o mesmo contraste dualista de corpo e alma e prega que nós somos um espírito, possuímos uma alma e moramos em um corpo. Portanto, ambas as visões – dualista e tricotomista – serão refutadas da mesma forma, visto que possuem os mesmos conceitos básicos sobre a constituição da natureza humana. Holismo – O conceito holista da natureza humana prega, ao contrário da imortalidade, que o ser humano não tem uma alma: ele é uma alma. Ele vive como uma alma, ele morre como uma alma. Uma alma vivente significa apenas um “ser vivo”. Nós não temos uma alma imortal presa dentro do nosso corpo que é liberta por ocasião da morte. A morte é o último inimigo a ser vencido (pelo fator “ressurreição”), e não o libertador da “alma imortal” (cf. 1Co.15:26). Pessoas morrem, pessoas ressuscitam. Corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa e não pessoas separadas. O espírito é o princípio ativador da vida, é aquilo que dá animação ao corpo, é o sopro de Deus por meio do qual respiramos e somos seres (almas) viventes. É esse o simplismo bíblico sobre a criação da natureza humana, que elimina os complexos malabarismos propostos por Platão em sua tese sobre a natureza dualista e a sobrevivência da alma após a morte em um estado consciente. II–Qual é o conceito correto? “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7) Eis aí a passagem bíblica acerca da criação do ser humano, que nos dá um perfeito entendimento dos conceitos bíblicos de corpo, alma e espírito. É aqui que entra em cena algo muito desconhecido pela maioria das pessoas: biblicamente, o homem não tem uma alma, ele é uma alma. Ele “TORNOU-SE” uma alma e não “obteve” uma! A alma é o que o homem passou a ser, e não o que ele obteve de Deus. O corpo é a alma em sua forma exterior. A ideia hebraica de personalidade é a de um corpo animado pelo fôlego de vida (espírito) que alimenta o corpo, e não de uma alma presa dentro deste corpo. Assim, podemos entender que:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 52 “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma]” (cf. Gênesis 2:7 – grifo meu) A passagem bíblica que relata a criação do ser humano também nos deixa um sentido claro de corpo, alma e espírito. Nenhum é um elemento que Deus implantou no homem, imaterial e imortal, que saia dele após a morte, com consciência e personalidade. O espírito é tão somente o fôlego de vida que Deus soprou em nós e que o possuímos pela duração de nossas vidas terrenas. Nós permanecemos com este fôlego que nos concede respiração para continuarmos vivos durante a nossa existência terrestre, mas, quando este sopro se vai, as “almas viventes” tornam-se “almas mortas”. O que retorna a Deus é o princípio de vida que ele soprou em nós a fim de conceder animação ao corpo formado do pó, e não uma alma imortal. Este princípio animador da vida é possuído tanto por homens como por animais (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). Este princípio é garantido tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência terrena. A alma, no conceito bíblico, é que o ser humano “tornou-se” e não “obteve”. Deus não colocou uma alma no homem. Por isso mesmo, morrendo o homem, morre a alma (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21). Já a visão dualista em sua totalidade defende que o sopro de vida que Deus soprou em nossas narinas é a própria alma imortal implantada no ser humano. Sendo assim, o sopro de Deus em nossas narinas é o espírito (alma) imortal implantado nele, totalmente independente do corpo, preso dentro dele e liberto após a morte, com consciência e personalidade. Sendo assim, a narrativa de Gênesis 2:7 deveria ser entendida da seguinte maneira: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito/alma imortal], e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gênesis 2:7 – grifo meu) Essa é, contudo, uma interpretação tendenciosa que deturpa completamente a clareza do texto bíblico. Não é necessário ser nenhum grande teólogo para perceber que tal interpretação é inválida pelo fato que adultera os sentidos primários de corpo, alma e espírito, que são deixados de maneira bem clara na narrativa da criação da natureza humana em Gênesis 2:7. Além de ignorar o fato de que a primeira vez que alma [nephesh] é mencionada na Bíblia é relacionado ao próprio ser humano como um todo, tornando-se uma alma e não obtendo uma, também altera nephesh para o meio do versículo quando na realidade ela é claramente relacionada ao final deste. Tudo não passa de uma completa manipulação bíblica textual. A passagem da criação do homem coloca nephesh no fim do verso, e não no meio como querem os imortalistas. A alma é o que o homem “tornou-se”; o “espírito” é o que foi soprado nele para dar animação ao corpo formado do pó. Pelo fato de Deus não ter revelado a Moisés uma realidade dualista do ser humano, este narra simplesmente o princípio animador da vida dando animação a uma “alma vivente”. Esse total simplismo bíblico nega inteiramente que a natureza humana seja dualista, composta por uma alma imortal e por um corpo mortal. A revelação de Deus a Moisés incluiu apenas um corpo
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 53 proveniente do pó tornando-se animado, sem qualquer tipo de alma sendo ingerida dentro da substância corporal para lhe conceder imortalidade. A forte tentativa de ignorar o simplismo bíblico no relato da criação humana não provém de alguma razão teológica (de fato, os imortalistas fazem de tudo para colocar uma “alma imortal” no relato da criação onde não aparece nada disso), mas sim porque negam em aceitar o fato óbvio de que a narração da criação traz uma natureza holista e não dualista do ser humano. Isso, evidentemente, os faria negar a sua crença de que Deus tenha implantado no homem um elemento eterno lhe concedendo imortalidade, o que daria um fim na doutrina do “estado intermediário” e do tormento eterno. Que nephesh não é o próprio espírito [ruach, no hebraico] implantado no ser humano com imortalidade e personalidade, isso fica muito bem claro na Bíblia Sagrada, embora sejam coerentes em alguns de seus sentidos secundários. A ignorância em aceitar o sentido claro de corpo, alma e espírito de acordo com a Bíblia segundo Gênesis 2:7 causa, além de adulterações no sentido do texto, uma confusão ainda maior para solucionar os problemas depois, por causa da interpretação tendenciosa e errônea por parte dos dualistas. E este é apenas o início do fim da imortalidade da alma. III–O que é o “espírito” [ruach] e o que é a “alma” [nephesh]? Espírito, no original hebraico “ruach”, significa literalmente: “sopro, vento”. É o fôlego de vida que Deus soprou em nossas narinas tornando-nos almas viventes. Para os imortalistas, significa nada a mais e nada a menos do que a própria alma imortal implantada no homem, um segmento com consciência e personalidade. Mas isso não é verdade. A seguir, apresento inúmeras provas de que o espírito não tem parte nenhuma com um ser vivo inteligente que sobrevive fora do corpo: O fôlego de vida sai do ser humano – Uma grande prova de que o fôlego de vida (espírito) que Deus soprou em nós não é uma alma imortal, é que a Bíblia afirma categoricamente que nós o perdemos por ocasião da morte (cf. Jó 27:3; Jó 34:14-15). Ora, se fosse uma entidade consciente presa dentro de nós, então continuaria conosco após a nossa morte, mas isso não é verdade: a Bíblia caracteriza a morte como a retirada do fôlego de vida (sopro). Isso prova que o “espírito” que possuímos nada mais é do que o sopro da parte de Deus que concede animação ao corpo, sendo freqüentemente caracterizado como sendo o “sopro de Deus” (cf. Jó 33:4). Quando é retirado por Deus (expirando), o fôlego é reintegrado no ar, por Deus. O próprio fato de nós possuirmos o “fôlego de vida” não significa possuir em si mesmo a imortalidade, porque na morte este princípio volta para Deus. Isso nos mostra que a vida deriva de Deus, é sustida por Deus e retorna para Deus por ocasião da morte. “Espírito”, no conceito bíblico, em nada tem a ver com uma entidade viva e consciente tal como no estilo kardecista ou platônico. Tal fato é acentuado por Jó ao declarar: “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz, nunca os meus lábios falarão injustiça, nem a minha língua pronunciará engano” (cf. Jó 27:3,4). Enquanto o sopro de Deus está nas nossas narinas, nunca Jó
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 54 pronunciaria qualquer palavra de engano. Quando, porém, o sopro se vai, o que é dele? Nada, não mais existe (cf. Jó 7:21; Jó 14:10-12). Por isso ele acentua que enquanto estiver com ele o sopro de Deus nas suas narinas, os seus lábios não pronunciariam engano. O sopro (fôlego de vida) é inteiramente dependente de estar nas nossas narinas (corpo físico) para continuar ativo, dando continuidade a vida. Sem o corpo físico, este princípio deixa de conceder vida em si mesmo. Ademais, se o espírito [ruach – sopro] fosse a própria alma imortal implantada em nós, então a declaração de Jó nos levaria a crer que a “alma imortal” está situada no nariz de cada indivíduo: “Enquanto em mim houver alento, e o sopro de Deus no meu nariz” (cf. Jó 27:3). Também lemos na passagem anteriormente citada: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente” (cf. Gn.2:7). Ora, é aí que se situa essa “alma imortal”, no nariz de cada indivíduo? É mais do que evidente que o espírito (fôlego de vida) não é a alma implantada no ser humano nas suas narinas, mas simplesmente o princípio que anima o corpo, concedendo- lhe respiração a fim de se tornar um ser ativo. Isso explica o fato bíblico deste princípio encontrar-se nas nossas narinas, e não na “alma” ou em alguma outra parte do corpo. Evidentemente, o fôlego de vida (espírito) que possuímos não tem parte nenhuma com uma noção dualista de corpo e alma; antes, é o princípio animador do corpo, que garante a existência da vida terrestre de toda a carne, e que volta para Deus quando expiramos na morte. Dizer que o fôlego de vida (espírito) que foi soprado no homem em Gênesis 2:7 é uma “alma imortal” é o mesmo que dizer que possuímos a alma em nosso nariz, o que creio não ser nem um pouco razoável. O princípio animador do corpo - O corpo é formado de matéria, de pó. O espírito é o que dá animação ao corpo, e assim tornamo-nos almas viventes. Sem o espírito em nós, o nosso corpo morto não passa de matéria (pó) inanimado, sem vida. O que é o “espírito”, então? É exatamente aquilo que dá animação ao corpo, é a “vida” por assim dizer. Obviamente não tem parte nenhuma com algum outro “você” que volta para Deus, mas representa tão somente a vida deixada nas mãos do Criador; é por isso que a Bíblia apresenta os animais com o mesmo espírito-ruach possuído pelos humanos (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29). No livro de Apocalipse é lido que até uma imagem de escultura é dotada de espírito [pneuma, no grego] para tornar-se um ser animado: “E foi-lhe concedido que desse espírito [pneuma] à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da besta” (cf. Apocalipse 13:15) Aqui vemos que a imagem de escultura (um ser inanimado) foi dotada de espírito [pneuma] e assim foi dada animação [vida] à imagem. É mais do que óbvio que Deus não colocou uma “alma imortal” dentro da imagem e muito menos alguma entidade consciente que volta com personalidade e inteligência para Deus, mas simplesmente concedeu-lhe o fôlego da vida para dar animação à imagem de pedra. É exatamente a mesma coisa que sucedeu aos seres humanos. A mesma coisa sucedeu a nós: fomos formados do pó da terra, de matéria inanimada; até que Deus soprou em nós o espírito [vida] dando animação à matéria formada do pó – e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 55 assim o homem tornou-se uma alma [ser] vivente. O espírito é o que vem da parte de Deus e que dá animação a um elemento inanimado, tornando tal elemento em animado, concedendo-lhe vida. Quando as pessoas morrem, elas perdem a vida [espírito], tornam-se novamente em matéria inanimada (pó), é por isso que a Bíblia afirma que o espírito de todos retorna a Deus (cf. Ec.12:7), pois as pessoas perdem a vida, voltam a ser pó. Deus, contudo, ressuscitará os nossos corpos mortais, soprando novamente em nós o espírito [vida] na ressurreição (para sermos novamente um ser animado, vivente) tornando-nos novamente em “almas viventes”. Tal fato é relatado com clareza em Apocalipse: “Então vi uns tronos; e aos que se assentaram sobre eles foi dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam o sinal na fronte nem nas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4) Aqui é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas. O que aconteceu, então, nessa ressurreição? Aconteceu que Deus soprou em nós novamente o espírito que vem da parte dEle, para que saíssemos do estado inanimado (i.e, sem vida), tornando-nos novamente em almas viventes: “Assim diz o Soberano, o Senhor, a estes ossos: Farei um espírito entrar em vocês, e vocês terão vida. Porei tendões em vocês e farei aparecer carne sobre vocês e os cobrirei com pele; porei um espírito em vocês, e vocês terão vida. Então vocês saberão que eu sou o Senhor” (cf. Ezequiel 37:5,6) “Por isso profetize e diga-lhes: Assim diz o Soberano, o Senhor: Ó meu povo, vou abrir os seus túmulos e fazê-los sair; trarei vocês de volta à terra de Israel. E quando eu abrir os seus túmulos e os fizer sair, vocês, meu povo, saberão que eu sou o Senhor. Porei o meu espírito em vocês e vocês viverão, e eu os estabelecerei em sua própria terra. Então vocês saberão que eu, o Senhor, falei, e fiz. Palavra do Senhor” (cf. Ezequiel 37:12-14) Notem que não é o nosso espírito que deixa o Céu para se religar ao corpo por ocasião da ressurreição, mas sim o espírito de Deus que concede vida que nos é soprado novamente; fazendo-nos sair dos túmulos, o local onde o povo que já morreu se encontraria. Nós estaríamos sem vida na morte, mas Deus nos concederia novamente o espírito que parte dEle a fim de nos conceder novamente vida por ocasião da ressurreição. Não existe nenhuma religação entre corpo e alma, mas tão somente o princípio animador da vida sendo novamente concedido a nós por ocasião da ressurreição dos mortos. Podemos assim traçar uma correta analogia com a imagem inanimada de Apocalipse que recebeu o espírito para tornar-se animada: A NATUREZA HUMANA SEGUNDO GÊNESIS 2:7 A IMAGEM DE APOCALIPSE 13:15 Feito do pó da terra Feita de pedra Material inanimado Material inanimado Foi-lhe dado o espírito Foi-lhe dada o espírito
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 56 Passou a ter vida (tornou-se um ser vivente) Passou a ter vida Tornou-se um ser animado Tornou-se um ser animado Como vemos, o “espírito” que possuímos é nada a mais do que aquilo que dá animação ao corpo (matéria), concedendo-lhe vida. A analogia com a imagem de pedra relatada no Apocalipse é válida porque o mesmo que sucedeu aos seres humanos sucedeu também à imagem, ambos tornaram-se um ser animado após ser lhes soprado o espírito. É evidente que o “espírito” soprado não é uma “alma imortal” (pois se assim o fosse então por lógica a imagem de pedra também a deveria possuir, pois também foi dotada de espírito-pneuma), mas é tão somente o princípio de vida concedido às criaturas viventes durante a permanência de sua existência terrestre. É claramente nos referido que o motivo dos ídolos mudos não serem vivos é decorrente do fato de não possuírem “espírito-ruach”: “Eis que está coberto de ouro e de prata, mas no seu interior não há fôlego [ruach] nenhum” (cf. Hc.2:9). E também em Jeremias: “Todo ourives é envergonhado pela imagem que ele esculpiu; pois as suas imagens são mentira, e nelas não há fôlego [ruach]” (cf. Jr.10:4). Aqui vemos que os que não têm vida são descritos como sem “espírito-ruach”. Os ídolos são considerados como “sem vida” pelo fato de serem destituídos de espírito-ruach, que é o princípio animador de toda a vida. Quando um ídolo ou uma imagem ganha animação, é descrito como constituído de “espírito-pneuma” (cf. Ap.13:15), porque passou a ter vida. Em outras palavras, o espírito é nada a mais do que o poder capacitador de vida a qualquer ser vivente, mesmo quando se trata de imagens de pedra ou de animais, como veremos mais adiante. Ele não é uma alma imortal, e nem algo que traz consigo imortalidade, consciência e personalidade após a morte, mas apenas a vida que possuímos em nossa jornada em nossa terrestre. Se o espírito fosse uma alma imortal, então a imagem de pedra de Ap.13:15 e os animais também teriam “almas imortais”, pois são descritos possuindo “espírito-pneuma”. Quando o espírito é retirado do ser humano, este volta para o pó da terra (cf. Sl.104:29; Sl.146:4; Gn.3:19). Da mesma forma, quando o espírito concedido temporariamente àquela imagem lhe é retirado, esta volta a ser uma pedra inanimada. O processo é o mesmo: seres ou objetos inanimados que temporariamente ganham vida pelo sopro do espírito-ruach em seu interior e que tornam-se novamente inanimados (sem vida) após este sopro retornar ao Criador. Sai o espírito, volta ao pó – Confirmando o fato anterior, vemos que os autores bíblicos correspondiam bem ao fato de que a saída do espírito-ruach por ocasião da morte não significa a continuação da vida em um outro estágio ou em uma dimensão superior, mas sim a cessação dela. O salmista expressa em palavras o que aconteceu na criação humana e o que acontece ao fim dela: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados” (cf. Sl.104:30). O sopro de Deus [fôlego] nas nossas narinas, também denominado por “espírito-ruach” (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), é o que nos faz vivos – nos transforma em “almas viventes” (cf. Gn.2:7). A pergunta que fica é: quando este “fôlego” ou “espírito” deixa o corpo por ocasião da morte (ao expirar), o que acontece ao ser racional? O verso anterior do Salmo no qual
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 57 acabamos de passar responde corretamente a esta pergunta: “Quando escondes o teu rosto, entram em pânico; quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29). O ser racional simplesmente volta ao pó. Quando o fôlego [espírito] é retirado do ser humano, este não parte desencarnado para um estado intermediário, mas simplesmente deixa de existir – volta a ser pó. A saída do espírito por ocasião da morte não significa um ser racional deixando o corpo. Jó declara isso enfaticamente nas seguintes palavras: “Porém, morto o homem, é consumido; sim, rendendo o homem o espírito, então onde está ele? Como as águas se retiram do mar, e o rio se esgota, e fica seco, assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf. Jó 14:10-12). Aqui vemos a entrega do espírito não significa levar consciência e personalidade na morte, porque mesmo assim ele não é despertado até não existir mais céus. Após afirmar que o homem rende o seu espírito na morte, Jó faz a pergunta que não quer calar: “Onde ele está”? Isto é, para onde ele vai? O que acontece com ele? Simplesmente, deixa de existir. Não vai desencarnado para o Céu. Ele torna-se como as águas que se retiram do mar e como um rio que se esgota e fica seco. Essa analogia feita por Jó nos mostra claramente que o homem não mais existe. Assim como quando as águas se retiram do mar este já não existe, e quando o rio se esgota fica seco e desaparece, assim também do mesmo modo o homem na morte já não existe. O ser racional só volta a atividade quando “não existir mais céus” (v.12), o que o Novo Testamento relaciona à “ressurreição do último dia” (Jo.6:39,40), quando “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a destruição dos ímpios” (cf. 2Pe.3:7). Se a retirada do espírito do homem na morte significa a ida imediata na presença de Deus em estado desencarnado, então a analogia feita por Jó seria nula e sem sentido. Tal analogia nos revela que o ser racional deixa de existir após a entrega do espírito-ruach. Tal fato é apresentado com ainda mais clareza no Salmo 146:4 – “Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4). A entrega do espírito não significa a continuação de vida em um estado desencarnado, mas sim a cessação dela, pois os “pensamentos perecem”. Sendo que os próprios imortalistas atribuem o processo de pensamento como função da alma, a sede dos pensamentos, seria imprescindível que eles continuassem existindo após a entrega do espírito na morte, caso fosse um ser racional com inteligência e consciência. Contudo, os próprios pensamentos perecem, pois não existe ser racional na morte. A alma e o sangue – Em Levítico 17:11, lemos: “Porque a vida da carne está no sangue”. No texto original hebraico, “vida” aqui é a tradução de nephesh, de modo que a transliteração correta da passagem seria: “A alma da carne está no sangue”. O motivo pelo qual a alma é igualada ao sangue provém do fato de que a vitalidade da vida-nephesh reside no sangue. Em outras palavras, sem sangue não há vida-nephesh. O corpo não é a prisão de uma alma imaterial, pois a alma da carne está no sangue. Isso não faz sentido caso a alma fosse algo imaterial implantado dentro de nós, pois se assim o fosse não teria parte nenhuma com o sangue. Também lemos certa afirmação em
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 58 Gênesis no mesmo estilo: “Carne, porém, com sua vida [nephesh] isto é, com seu sangue, não comereis. Certamente requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida [nephesh]; de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim da mão do próximo de cada um requererei a vida [nephesh] do homem” (cf. Gn.9:4,5). Ora, se a vida (alma- nephesh) do homem é o sangue, então sem o sangue não há vida (alma-nephesh). Isto é somente lógica. O homem sem sangue não pode permanecer vivo de acordo com esta declaração de Gênesis. Pois a vida [alma-nephesh] está no sangue. Como então assumir que uma pessoa sem sangue (um espírito incorpóreo, por exemplo) possa ser considerada viva em um “estado intermediário”? Não faz sentido. Sem sangue não há vida, pois “a alma da carne está no sangue”. Como o erudito Basil Atkinson corretamente assinala: “A alma do homem está em seu sangue e, de fato, o seu sangue é a sua alma”. O maior problema da teologia imortalista é que eles pensam que o sangue está relacionado apenas ao corpo físico, externo, e que, portanto, sem sangue não há mais vida no corpo, mas a alma não é afetada com isso e permanece viva subsistindo sem o corpo em algum lugar. Em outras palavras, para os dualistas é extremamente crucial que o sangue seja a vitalidade apenas do corpo e não da alma. Caso contrário, a alma não escaparia da morte, tanto quanto o corpo. O texto bíblico, porém, ao invés de dizer “o sangue do vosso corpo”, diz “o sangue da vossa alma” (nephesh – Gn.9:5). Isso mostra que a alma subsiste viva através do sangue tanto quanto o corpo físico. E assim matamos dois coelhos de uma só vez: o primeiro, é aquele que desassocia a alma do sangue e ensina que somente o corpo é movido pelo sangue e só existe com a vitalidade deste (o que já vimos que é falso, pois o sangue desempenha o mesmo papel para com a alma), e o segundo é o de que a alma seria uma entidade espiritual imaterial infundida dentro de nós. Se fosse, não estaria dependente de algo físico e tangível (como o sangue), e a Bíblia não diria que “a sua alma-nephesh, isto é, o seu sangue, não comereis”, pois seria ilógico e sem qualquer possibilidade “comer a alma, ou seja, o sangue”. Uma coisa estaria tão desassociada da outra que tal sentença seria no mínimo absurda. Uma seria tangível e a outra intangível, uma seria material e a outra imaterial, uma desceria ao túmulo na morte e a outra aos céus, uma estaria ligada ao corpo e a outra ao espírito. Como dizer que a alma é o sangue com tantos contrastes que a teologia imortalista afirma que os separa? Uma coisa não teria nada a ver com a outra, e, portanto, não seriam igualadas. Só foram porque a linha dualista que separa a alma do corpo e os contrasta realmente não tem qualquer cabimento bíblico. Portanto, não restam objeções ao fato de que não existe alma sem sangue; sem sangue não há vida. Não existe qualquer chance ou possibilidade de existir um “estado intermediário” de “espíritos incorpóreos” pré-ressurreição ausentes de corpo. O fato bíblico de que a alma da carne está no sangue e de que a vida [nephesh] do homem é o seu sangue nos mostra que não pode uma pessoa ser considerada como “viva” em algum lugar sem a vitalidade da vida-nephesh que reside no sangue. Na morte, o coração deixa de bater, o sangue deixa de circular, e tornamo-nos almas mortas. Só voltaremos ao estado de vida novamente quando estivermos com a vitalidade da vida, com o sangue, sem o qual não existe vida [alma-nephesh]. Poderíamos resumir o argumento nas seguintes premissas:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 59 (1) A alma da carne está no sangue – cf. Lv.17:11. (2) Não existe vida [alma - nephesh] sem sangue – cf. Gn.9:4,5. (3) Na morte, perdemos o sangue, a vitalidade da alma. (4) Sem o sangue que dá vida a alma, não existe alma. (5) Só voltaremos a ser reconstituídos de sangue novamente na ressurreição. (6) Logo, a alma ganha vida novamente a partir da ressurreição dos mortos. O homem torna-se uma alma vivente – Uma outra prova importante para que possamos compreender que o espírito não é uma alma imortal é a própria continuação da passagem de Gênesis 2:7 – “...soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente”. Duas coisas são interessantes aqui. Em primeiro lugar, a alma é o que o homem “tornou-se”, e não o que ele “obteve”. Como já vimos, Deus não colocou uma alma no homem, como erroneamente pensa a doutrina dualista. Em segundo lugar, com a implantação do sopro de Deus em nossas narinas, o homem tornou-se uma “alma vivente”, e não uma “alma imortal”! Ora, se a interpretação correta fosse a dualista, então a sequência imediata de tal passagem seria que o homem tornou-se (ou melhor, “obteve”) uma “alma imortal”, “imaterial”, pois o termo “alma vivente” após a implantação do espírito-ruach implica que pode se tornar “alma morta” após a retirada do espírito-ruach. Isso é somente lógica. Quando a Bíblia diz que em resultado do sopro divino “o homem tornou-se uma alma vivente”, ela está dizendo apenas que o corpo formado literalmente do pó da terra ganhou animação e se fez um ser vivo, que respira – nada além disso. O sangue (vitalidade da alma – cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5) começou a circular, o cérebro começou a raciocinar e o coração a bater, com todos os sinais ativados. O homem tornou-se uma “alma vivente”, ou seja, ou ser vivo, que deixa de existir na morte e volta à existência na ressurreição gloriosa. Não houve um componente imaterial e imortal colocado no ser humano. Declarado em termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”! Evidentemente a alma é considerada “vivente” enquanto vive, passando a ser “alma morta” por ocasião da retirada do fôlego de vida [espírito] no falecimento. Uma alma vivente significa simplesmente um ser vivo, que morre. Alma é vista como a natureza humana como um todo, e não como uma parte do ser humano separada do corpo e presa dentro deste. O espírito sobe para Deus – Outra prova patente contra os imortalistas é o que Salomão descreve em Eclesiastes: “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7). É fato bíblico que todas as pessoas (sendo justas ou ímpias) desciam para o Sheol na morte (cf. Gn.37:35; Jó 10:21,22; Sl.94:17; Gn.42:38; Gn.42:29,31; Is.38:10,17; Sl.16:10; Sl.49:9,15; Sl.88:3-6,11; Jó 17:16). Para os imortalistas, Sheol é a habitação dos espíritos incorpóreos e conscientes. Já para os mortalistas, significa puramente “sepultura”, em um sentido mais amplo, como veremos mais adiante. O debate sobre o conceito correto sobre Hades/Sheol será abordado mais a frente neste livro. O que temos de fato, por hora, é que todas as pessoas desciam ao Sheol por ocasião da morte. Onde se localiza o Sheol? Localiza-se nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9), no
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 60 “coração” desta terra (cf. Mt.12:40), em oposição ao Céu (cf. Mt.11:23). Os seguidores da revolta de Coré “desceram... vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30,33). Eis aqui já a primeira contradição dos imortalistas: O “espírito” sobe para Deus, e não “desce” para o Sheol (cf. Ec.12:7)! Se o espírito fosse um elemento com consciência e personalidade, ele deveria descer e não subir. Mas isso jamais é dito na Bíblia, pelo simples fato de que o espírito é nada a mais do que o dom da vida [fôlego] concedido durante a duração de nossas vidas terrenas, e não algum segmento que leva consigo consciência e personalidade após a morte. Sobe para Deus por ocasião da morte porque deriva de Deus, e volta para Deus. Salomão é bem claro em dizer que o espírito subiu para Deus, e não “que desceu para o Sheol”! Nisso vemos uma clara evidência que o espírito está longe de ser a própria pessoa como uma entidade viva e consciente, mas é tão somente o princípio de vida que retorna para Deus no momento da morte. Sendo que na época de Salomão todas as pessoas desciam ao Sheol, que biblicamente fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), como é que Salomão diz que o espírito sobre para Deus? Também em Atos 2:27, falando a respeito de Jesus, entre a sua morte e ressurreição, o texto assim narra: “Porque não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que aquele que te é leal veja a corrupção”. E também em Mateus 12:40 – “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”. A alma de Jesus passou os três dias e três noites em que esteve morto no Sheol, que fica debaixo da terra, e não no Paraíso! Isso, contudo, não impediu ele tivesse entregado o seu espírito ao Pai nos dias em que esteve morto: “Pai, ao Senhor entrego o meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46). Ora, como é que Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27), que fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9), se a Bíblia diz que o “espírito” dele subiu para Deus? Obviamente, porque o “espírito” não é o nosso “próprio eu”, não sendo uma “alma imortal”, mas é tão somente o princípio animador da vida concedido por Deus tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência terrena, que volta para Deus por ocasião da morte. Nisso fica claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” liberto na morte, pois, se assim fosse, seguir-se-ia que Cristo teria passado (os dias em que esteve morto) com o Pai, e não debaixo da terra, no Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27), pois o espírito sobe, e não desce! Vemos, portanto, que se a visão dualista de que o espírito é um segmento consciente que leva consigo personalidade, deveríamos pressupor que: (1) O espírito desceria para o Sheol, e não voltaria a Deus (cf. Ec.12:7). (2) Sendo que Cristo entregou seu espírito ao Pai, ele deveria ter subido aos céus na morte, e não descido ao Sheol (cf. Mt.12:40; At.2:27). Contudo, estas duas premissas imortalistas contrariam diretamente a Bíblia Sagrada, como já vimos. NA BÍBLIA SAGRADA NA TEOLOGIA DUALISTA O espírito sobe para Deus na morte – cf. Ec.12:7 O espírito de todos deveria descer (para o Sheol) na morte
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 61 Jesus entregou ao Pai o seu espírito mas mesmo assim esteve no Sheol (regiões inferiores da terra – cf. Ef.4:9) na morte Se o espírito fosse um segmento consciente com personalidade, Cristo deveria logicamente estar com o Pai enquanto esteve morto Vale também ressaltar que Cristo, depois de três dias em que esteve morto, ainda assim declarou a Maria Madalena: “Não me detenhas, porque ainda não subiu para o Pai” (cf. Jo.20:17). Óbvio, porque a entrega de seu espírito ao Pai não significou o seu regresso a Ele, pelo fato de que o espírito não é um segmento consciente e com personalidade, mas tão somente o princípio animador do corpo. Tudo isso nos mostra de forma mais do que clara e lúcida de que o espírito que possuímos não é uma outra pessoa que é liberta conscientemente após a morte, mas sim um princípio que ativa o corpo concedendo-lhe animação. Como o corpo volta para o pó da terra na morte, ele deixa de ser animado e, portanto, o espírito-ruach perde o seu sentido de animação do corpo e volta para Deus por ocasião da morte. A “salvação universal dos espíritos” – Uma verdade universal é dita em Eclesiastes 12:7 - “E o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu”. Essa é uma verdade universal, ou seja, o espírito de todos volta para Deus, que o deu. Em lugar nenhum da Bíblia está escrito que o espírito dos ímpios desce para o inferno ou para o diabo. Não, pois todos os espíritos sobem para Deus. Nisso também fica mais do que claro que o espírito não é o nosso próprio “eu” fora do corpo, pois, se assim o fosse, então teríamos uma salvação universal (de justos e ímpios), pois o espírito de todos sobre para Deus! O que Salomão estava falando era simplesmente para que se lembrassem do seu Criador nos dias da sua juventude (v.1), antes que chegue à velhice (v.2-6), e com a morte “o pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (v.12). Esse processo é ocorrido em todos os seres humanos sejam justos ou ímpios. Assim como todas as criaturas humanas devem se lembrar do Criador na juventude e assim como tanto justos como ímpios envelhecem, assim também o espírito de todos sobre para Deus por ocasião da morte. Em momento nenhum o autor deixa passar qualquer hipótese de que o termo se restringisse apenas aos salvos, porque o próprio contexto mostra um processo que sucede a todos os seres humanos. O que Salomão (autor do livro de Eclesiastes – cf. Ec.1:1) estava relatando é uma verdade universal de que o espírito [de todos] por ocasião da morte retorna a Deus, quem o deu. O que retorna a Deus se refere ao espírito de todos os homens, não somente dos justos, mas de “toda a carne”. O próprio fato do espírito de todas as pessoas voltar a Deus na morte nos prova novamente que este espírito-ruach não é uma alma imortal ou a própria pessoa em estado desencarnado, pois se assim sucedesse então apenas o espírito das pessoas boas que subiria para Deus, e o das pessoas más desceria para o inferno ou para o diabo. Todos os espíritos sobem para Deus porque o nosso espírito não é uma entidade consciente com personalidade com destinos diferentes entre bons e maus após a morte, mas tão somente o fôlego de vida presente em todas as criaturas durante a nossa existência terrestre, princípio este que retorna para Deus porque provém dEle mesmo a fim de dar
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 62 animação para o corpo formado do pó. Por isso, o autor não faz a mínima questão de diferenciar o destino do espírito de bons ou de maus por ocasião da morte. Novamente a doutrina imortalista entra em choque contra os princípios da exegese e hermenêutica. Os animais também como alma – Uma outra prova clara de que “alma vivente” não significa “alma imortal” é o fato de que aos animais também foi designado o termo “alma vivente - nephesh hayyah” (cf. Gn.1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16; Lv.11:46). A maioria das pessoas desconhecem tal fato simplesmente porque os seus tradutores decidiram traduzir o termo hebraico “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” em referência aos animais, e como “alma vivente” nas referências a seres humanos. O motivo, evidentemente, não é por causa dos manuscritos originais, mas sim por consequência de suas convicções religiosas, de que o homem conta com uma alma imortal não possuída pelos animais. Em decorrência disso não quiseram comprometer as suas doutrinas da imortalidade da alma humana criando um dilema de primeira ordem, e tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura” quando em referência aos animais e como “alma” quando em referência aos seres humanos. Essa é a mesma adulteração reconhecida em outras inúmeras passagens bíblicas que mostram também a alma-nephesh sendo morta ou destruída, o que também é ocultado pela grande maioria das versões, embora fosse um conceito amplamente difundido na Bíblia. O original, contudo, traz nephesh [alma], tanto a seres humanos, como também aos animais. O termo alma-nephesh é empregado tanto para as pessoas quanto para os animais porque ambos são seres conscientes. Tanto homens como animais partilham do mesmo princípio animador de vida, isto é, o “fôlego da vida”. Todo o ser vivente relaciona-se a todas as criaturas, não somente ao homem, mas também aos animais (cf. Jó 12:10). O homem não recebeu uma alma de Deus; ele tornou-se uma alma vivente, assim como os animais. A natureza de todo o ser vivente é mortal, e não imortal, o que somente Deus é (cf. 1Tm.6:16). Herdaremos uma natureza imortal com a ressurreição dos mortos na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:53; 1Co.15:23). A alma não é algo imaterial e nem imortal, pois até mesmo os animais são referidos como alma-nephesh. Sendo que no mesmo contexto em que Deus dá a revelação a Moisés sobre a criação em Gênesis 1 e 2 a palavra nephesh [alma] é uma referência não somente aos humanos mas também aos animais, fica claro que Moisés não imaginava que este termo hebraico significasse em si mesmo a detenção de imortalidade. Doutra forma, teria ele apenas feito menção a este termo quando em referência aos humanos, somente. Para ele o termo significava tão somente um ser consciente, sujeito a morte tanto quanto os animais. Por isso, ele não se incomodava e nem se intimidava em fazê-lo em menção a humanos e a animais. Quando os defensores da imortalidade da alma se deparam com o fato bíblico de que nephesh também é mencionado em referência direta aos animais e no mesmo contexto dos seres humanos, se dão conta do dilema intransponível que são obrigados a encarar. Afinal, se a alma é imortal e imaterial, então os animais também partilhariam desta mesma qualidade que deveria estar presente somente nos seres humanos. A única solução lógica
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 63 para isso é exposta por Basil Atkinson: “Eles [o homem e os animais] não são criaturas bipartites que consistem de uma alma e um corpo que podem ser separados e prosseguir vivendo. Suas almas são a totalidade deles e compreende seus corpos, bem como suas faculdades mentais”62 Os animais com espírito e fôlego – Ademais, exatamente a mesma palavra, no original hebraico ruach, que é traduzida por “espírito”, é usada tanto em relação aos seres humanos quanto a animais (cf. Gn.7:15; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.6:17; Sl.104:29). Ou seja: os animais também possuem espírito-ruach da mesma forma que os seres humanos! A Bíblia não faz sequer a menor distinção entre eles. O espírito “de toda a carne” entrou na arca de Noé, e não foram apenas seres humanos que lá entraram: “E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca” (cf. Gênesis 7:15) Note que de toda a carne em que havia espírito de vida entraram de dois em dois para a arca de Noé. Será que foram apenas os humanos que entraram na arca? É claro que não. Isso deixa claro que os animais também possuem espírito de vida, pois o espírito- ruach não é uma detenção apenas dos humanos. Dizer que os animais têm fôlego, mas não tem espírito, é negar dois fatos claros na Bíblia Sagrada. O primeiro, é que espírito [ruach] é usado tanto a animais como a seres humanos indistintamente (cf. Gn.7:15). A Bíblia não faz a mínima distinção, porque “entraram na arca de dois a dois de toda carne em que há um espírito vivo” (cf. Gn.7:15 – Young’s Literal Translation). Se alguém alega que os animais não têm espírito, ent ão além de contradizer a Bíblia seria forçado a negar também que os seres humanos o possuam, pois a mesma palavra é usada para os dois no mesmo contexto! Também lemos em Gênesis 6:17: “Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne que há espírito [ruach] de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará” A passagem é bem clara em relatar a eliminação completa de toda a carne em que há o espírito-ruach, por ocasião do dilúvio. Se fosse correta a interpretação dos dualistas de que o espírito significa uma alma imortal e que apenas os humanos a possuem, então deveríamos pressupor que somente os seres humanos foram eliminados por ocasião do dilúvio, pois a Bíblia relata bem claramente que toda a criatura em que houvesse espírito- ruach seria desfeita. É evidente que os animais também foram eliminados no dilúvio, porque eles também possuem espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29; Ec.3:19,20). Em Gênesis 7:21,22 lemos novamente a confirmação bíblica de que os animais também possuem espírito-ruach: “E expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o que tinha fôlego de espírito [ruach] de vida em seus narizes, tudo o que havia na terra seca, morreu” (cf. Gn.7:21,22). Também lemos no Salmo 104:29 o rei Davi afirmando que os peixes e os outros animais marinhos também possuem ruach: 62 ATKINSON, Basil F. C. Life and Immortality. Londres, pp. 1-2;.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 64 “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas. Assim é este mar grande e muito espaçoso, onde há seres sem número, animais pequenos e grandes. Ali andam os navios; e o leviatã que formaste para nele folgar. Todos esperam de ti, que lhes dês o seu sustento em tempo oportuno. Dando-lho tu, eles o recolhem; abres a tua mão, e se enchem de bens. Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó. Envias o teu espírito, e são criados, e assim renovas a face da terra” (cf. Salmos 104:24-30) Diante do contexto, o escritor bíblico inspirado não está falando de seres humanos, mas de animais marinhos, pequenos e grandes. E o que ele diz? Que, quando Deus retira-hes o fôego (que o original hebraico traz ruach, espírito!), eles morrem e voltam ao pó! No verso seguinte, é nos dito como eles são criados: Deus envia-lhes o espírito [ruach], e eles são criados, e quando esse espírito [ruach] lhes é retirado, eles morrem e voltam ao pó. Ou seja: o que diferencia humanos de animais no quesito da vida após a morte não é a suposta possessão de um espírito no íntimo do ser, nem a posse de um espírito na criação ou a retirada dele appós a morte, pois isso tudo isso acontece também com os animais, mas é o fato de que um ressuscita e o outro não. Daí toda a importância da ressurreição no NT, como sendo a esperança dos cristãos. Isso tudo mostra que é fato indiscutível que os animais também possuem o mesmo espírito- ruach possuído pelos seres humanos. Será que os animais ao morrer irão para o estado intermediário junto com os homens? Claro que não. Fica claro que espírito significa “vida”, e não um ser inteligente que sai do corpo na hora da morte. O segundo erro provém do fato de que o espírito é o próprio fôlego de vida, conforme descrição de Gênesis 2:7 e o paralelismo de Jó 33:4, de Jó 32:8 e de Isaías 42:5. E todos – humanos e animais – possuem o mesmo fôlego, e não fôlegos diferentes: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20) O que sucedeu na criação do homem é exatamente o mesmo que aconteceu na criação dos animais: Deus soprou-lhes o fôlego de vida [espírito] e eles tornaram-se almas viventes. Não há diferença alguma e nem vantagem nenhuma conosco em relação aos animais que nos permita desfrutar de uma imortalidade inerente e incondicional diferentemente deles que voltam para o pó. Todos foram feitos do pó e voltarão para exatamente o mesmo lugar: o pó. O mais interessante sobre esta última passagem (cf. Ec.3:19,20) é que o autor faz uso do hebraico ruach (espírito) no mesmo contexto dos seres humanos, dizendo ainda que ambos são iguais! “Todos tem o mesmo espírito-ruach” (v.19)! O escritor inspirado faz questão de ressaltar o fato de que não apenas o fôlego-neshamah, como também o espírito-ruach é possuído pelos animais, e, se adiantando a quaquer objeção imortalista, afirma ainda que o espírito possuído por ambos é o mesmo, refutando qualquer psosibilidade de o espírito dos humanos ser uma “alma imortal” e dos animais ser uma mera “respiração”!
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 65 Ele iguala em absoluto o espírito dos homens com o dos animais dizendo que são a mesma coisa (v.19), e por consequência disso a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma (v.19), e, finalmente, conclui dizendo que o local que os homens partem na morte é o mesmo caminho dos animais (v.20). Francamente, mas apenas uma interpretação textual extremamente tendenciosa e mal feita que poderia chegar ao ponto de negar o fato óbvio de que o espírito possuído pelos seres humanos não é diferente daquele que é detido pelos animais, e que em decorrência deste fato ambos perecem igualmente na morte e tem o mesmo destino: o pó da terra. Aqui é claramente indicado a nós que o motivo pelo qual o homem não possui vantagem nenhuma sobre os animais decorre do fato de que ambos possuem o mesmo espírito-ruach. Ora, se o espírito-ruach dos animais não lhes concede uma imortalidade, então é óbvio que o dos seres humanos também não lhes dá tal vantagem. Como os defensores da alma imortal fizeram com tão grande prova irrefutavelmente contra o ensinamento dualista? Simples, adulteraram a tradução. Preferiram tomar a liberdade em traduzir por “fôlego” antes do que por “espírito”, como deveria ser traduzido. O hebraico tem palavra exata para ambos, mas Salomão faz menção do ruach [espírito] para os animais e o faz no mesmo contexto dos seres humanos e igualando-os a estes! É óbvio que o “espírito” possuído por nós não significa uma alma imortal e muito menos alguma qualificação em nós presente que nos ofereça vantagem alguma sobre os animais ou que nos leve para o Céu após a morte. Antes, é nada a mais do que a vida presente não apenas nos seres humanos, como também nos animais. O destino de ambos é o pó da terra. Felizmente, a Bíblia nos assegura que existirá a ressurreição dos mortos para todos os seres humanos (cf. Dn.12:2), que acontece na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). É a ressurreição, e não a possessão de uma “alma” ou um “espírito”, que nos distinguem dos animais no quesito “morte”. Devemos também considerar mais alguns fatos importantes a ser mencionados. O primeiro deles é que se os escritores bíblicos tivessem a ideia de que apenas os humanos possuem espírito e os animais possuem apenas o “fôlego” (como ensinam os imortalistas), então eles utilizariam essa segunda palavra para quando relacionado aos animais, pois o hebraico possui palavra para fôlego [neshamah] e para espírito [ruach]. Mas quando aplicado aos animais, ao invés de mencionarem apenas o fôlego-neshamah, eles mencionavam o espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29)! E, pior ainda, eles a mencionavam junto com os seres humanos sem fazer a menor distinção entre eles (cf. Gn.7:15; Gn.6:17; Gn.7:21,22)! E mais, quando o rei Davi foi tratar de peixes, ao invés de ele mencionar apenas o fôlego (como qualquer imortalista faria), ele faz questão de mencionar o próprio espírito-ruach (Sl.104:29). Finalmente, se o fôlego é aquilo que dá animação ao corpo e o espírito é uma alma imortal e consciente, então a estátua de pedra do Apocalipse deveria ter sido revestida de fôlego para dar animação à imagem, e não de espírito. Vemos, contudo, que o apóstolo João descreve a imagem de pedra recebendo espírito-pneuma para conceder animação, e não “fôlego” (cf. Ap.13:15)! Portanto, a não ser que os imortalistas queiram dar lições de Bíblia aos escritores bíblicos, fica mais do que claro que o espírito que possuímos nada mais é do que o próprio fôlego de vida que nos dá animação ao corpo formado do pó. Isso explica o paralelismo bíblico entre fôlego e espírito (cf. Jó 33:4; Jó 32:8; Is.42:5), indicando que ambos tratam-se do mesmo
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 66 elemento e não de elementos diferentes; ambos são aquilo que dá animação à matéria, nenhum sendo uma “alma imortal” ou algum elemento eterno constituído de personalidade, pois até mesmo os animais o possuem. A imensa dificuldade por parte dos imortalistas em conciliar os conceitos de corpo, alma e espírito com a Bíblia Sagrada, é que eles usam os conceitos kardecistas e platônicos de dualidade de corpo e alma com o espírito sendo uma entidade consciente com personalidade. Quando tentam conciliar isso com a Bíblia (que nos deixa um conceito simples, claro e coerente desses princípios básicos) resulta em uma total confusão de ideias, pois o dualismo grego de corpo e alma influenciado pelas doutrinas de origens pagãs não se mistura com as doutrinas bíblicas acerca da criação do homem. “Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego [ruach – espírito], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20) O espírito não é uma entidade que traz consigo vida e personalidade após a morte – Uma prova muito forte disso é o fato de que, falando de meros peixes, o salmista afirma: “Se lhes cortas a respiração [ruach], morrem, e voltam ao seu pó” (cf. Sl.104:29). Ora, nem mesmo qualquer imortalista chegaria ao ponto de alegar que o espírito-ruach dos peixes leva consigo personalidade e consciência na morte. Dizer que com os seres humanos é totalmente diferente é forçar o texto, pois a mesma expressão é empregada para ambos (cf. Sl.104:29; Gn.7:15; Gn.7:22; Ec.3:21). O processo que acontece com os humanos é o mesmo que acontece com os peixes: “Escondes a tua face - e ficam perturbados, Tu ajunta o seu espírito – eles expiram, e voltam para o pó” (cf. Sl.104:29 - Young’s Literal Translation). Embora você provavelmente já tenha ouvido algo assim antes com relação aos seres humanos, essa passagem está falando de meros peixes! Compare, por exemplo, tal passagem acima (referindo-se a peixes) com o que Jó declara: “Se fosse a intenção dele, e de fato retirasse o seu espírito e o seu sopro, a humanidade pereceria toda de uma vez, e o homem voltaria ao pó” (cf. Jó 34:14,15). Veja que o mesmo processo que ocorre com os seres humanos acontece também com os peixes: Deus retira o seu espírito [ruach], e eles voltam ao pó. Não há a mínima diferença entre o processo que ocorre com um e o que sucede ao outro. Claro, os imortalistas evidentemente preferiram traduzir na maioria das vezes “respiração” no Salmo 104:9 para os peixes e “espírito” para os homens em Jó 34:14,15. Mas a palavra usada no original hebraico é a mesma para ambos [ruach] e o processo que ocorre também é exatamente o mesmo. Sendo assim, o “espírito” que Cristo e que Estêvão entregaram a Deus nada mais era do que as suas vidas humanas que voltavam para Deus que soprou-lhes o fôlego enquanto estes ainda viviam. O espírito que retorna para Deus é, como vimos, simplesmente o princípio animador da vida que concedido por Deus tanto para homens como para animais durante a jornada terrestre.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 67 O “espírito” não é o nosso “verdadeiro eu” – Certa vez, vi uma exemplificação que compreende muito bem os sentidos reais de alma e espírito humanos no contexto da criação. A vida surge quando um corpo inanimado (pó) se une com a força vital, denominada de ruach (espírito ou respiração). Como resultado desta união, o homem tornou-se uma alma vivente (cf. Gn.2:7). Em momento nenhum lhe é infundida uma alma; ao contrário, ele se faz uma alma vivente quando Deus lhes sopra a respiração [fôlego/espírito] nos seus corpos. Poderíamos compará-lo com a “eletricidade” nesta analogia. A questão que fica é: O que sucede à alma vivente, como resultado da junção da respiração com o pó? A resposta para essa pergunta pode ser ilustrada através da nossa ilustração com a lâmpada. A lâmpada pode ser analogicamente comparada com o corpo e a eletricidade com o espírito. Enquanto a eletricidade circula por dentro da lâmpada, há luz. A luz é como a alma vivente, o ser racional. Quando, porém, desligamos o interruptor da luz e a eletricidade cessa de circular na lâmpada, para onde é que a luz vai? Simplesmente deixa de existir. Não vai para uma outra dimensão. Ao sair da lâmpada, ela simplesmente acaba. Igualmente, quando Deus resolve desligar a “eletricidade” da nossa vida, o fôlego deixa de entrar de entrar em nosso corpo. Para onde vai a alma vivente? Para onde vai a pessoa? Vai imediatamente para o Céu, para o inferno ou para o purgatório? Não, deixa de existir. Exatamente como a luz. A Bíblia descreve este estado como um sono pacífico (cf. Sl.13:3). Mais um outro exemplo elucidativo: a alma é o resultado da junção do pó da terra com o fôlego da vida (cf. Gn.2:7). Assim, entendemos que não há uma alma viva [vivente] sem o corpo (pó) com o espírito (fôlego de vida). É como a água, que é a combinação de oxigênio e hidrogênio. Mas se você separar os dois elementos a água desaparece. Não existe uma alma vivente sem o corpo com o fôlego de vida. Poderíamos elucidar a questão da seguinte maneira: LÂMPADA + ELETRECIDADE = LUZ LÂMPADA – ELETRECIDADE = SEM LUZ OXIGÊNIO + HIDROGÊNIO = ÁGUA OXIGÊNIO – HIDROGÊNIO = SEM ÁGUA PÓ DA TERRA + FOLÊGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA VIVENTE [vida] PÓ DA TERRA – FOLÊGO DA VIDA [ESPÍRITO] = ALMA MORTA [sem vida] Estêvão conhecia a Bíblia, e sabia que o espírito voltava para Deus que é quem o deu (cf. Ec.12:7). E quando ele entregou o espírito (cf. At.7:59,60), para onde Estêvão foi? Ele foi para o Céu ou para o inferno? Ele foi arrebatado? Foi levado para junto de Cristo? Não. A Bíblia diz simplesmente que ele “adormeceu” (cf. At.7:60). Igualmente, Jesus Cristo entrega o espírito no momento da morte (cf. Lc.23:46), mas a Bíblia afirma que a sua alma esteve no Sheol (cf. At.2:27), no coração da terra durante os três dias e três noites em que esteve morto (cf. Mt.12:40), e não no Paraíso! Além disso, declara à Maria Madalena, após três dias que esteve morto, que ainda não subiu para o Pai (cf. Jo.20:17). Isso nos revela que o comprometimento de seu espírito (cf. Lc.23:46) não foi o seu regresso ao Pai. O espírito separado do corpo não é o "real" você!
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 68 Na morte, o real volta ao pó (cf. Gn.3:19). O espírito de todos volta para Deus (cf. Ec.12:7), pois foi Deus quem o deu. Esse é o princípio básico da vida: a vida deriva de Deus, é sustida por Deus e volta para Deus por ocasião da morte. O corpo se desintegra (volta a ser pó) e o fôlego da vida (espírito), que Deus assoprou originalmente nas narinas de Adão, retorna para Ele. Esse é um princípio universal de que Deus recebe o espírito de todos, evidentemente não sendo o nosso “verdadeiro eu”. Outra designação comum na Bíblia com relação ao sentido de “alma” é de “vida”. A vida é o resultado do que o homem foi formado (ou seja, pó da terra + fôlego de vida = vida [alma vivente]). Por isso mesmo, em muitas ocasiões a palavra “alma” é corretamente traduzida simplesmente por “vida” ou como “vida eterna” no sentido ampliado de alma-psiquê empregado no Novo Testamento. Tal sentido secundário não adultera o sentido primário simplesmente porque não apresenta nenhuma contradição com outras verdades bíblicas (como Gênesis 2:7 que narra o simplismo bíblico da alma como resultado e não como parte da porção), e, ainda mais, é um significado secundário plausível uma vez que a vida é o resultado dos elementos que tornaram o homem um ser animado. Em outras palavras, se uma “alma vivente” é simplesmente um “ser vivo”, a alma pode ser assim classificada, então, como a própria vida humana. Veremos mais detalhes sobre isso neste estudo ao explorarmos algumas passagens bíblicas tais como, por exemplo, a de Mateus 10:28, usada pelos imortalistas como suposta “prova” da imortalidade da alma. O corpo é a alma visível – A partir do relato da criação humana em Gênesis 2:7, podemos perceber claramente que o homem é uma alma e possui um fôlego de vida que dá a animação ao corpo formado do pó. O que seria então o “corpo”? Nada mais é do que a alma visível. A alma é a pessoa integral, como o resultado do corpo formado do pó da terra com a fusão do fôlego de vida [espírito] soprado em suas narinas para o homem tornar-se um ser vivente. Dito em termos simples, o corpo não é a prisão da alma, mas reflete a própria alma como visivelmente ela é. O Dr. Hans Walter Wolff faz a seguinte ponderação: “O que nephesh [alma] significa? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional] (...) O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh [alma]”63 A Bíblia confirma tal posição relatando inúmeras vezes a morte do corpo como a morte da alma (ver Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ag.2:13). Nestas passagens, o original hebraico traz alma [nephesh] embora fosse o corpo (ou “carne”) que jazia morto. Por exemplo: “Todos os dias da sua consagração para o Senhor, não se aproximará de um cadáver” (cf. Nm.6:6). No original hebraico dessa mesma passagem lemos: “kol-yemêy hazziyro layhvh `al-nephesh mêth lo' yâbho'” (cf. Nm.6:6). Também lemos em Números 9:7 – “Estamos imundos por termos tocado o cadáver de um homem; por que havemos de ser privados de apresentar a oferta do Senhor, a seu tempo, no meio dos filhos de Israel?” (cf. Nm.9:7); no original hebraico: “vayyo'mru hâ'anâshiym hâhêmmâh 'êlâyv 'anachnu themê'iymlenephesh 'âdhâm lâmmâh niggâra` lebhiltiy haqribh 'eth-qorbanAdonay bemo`adho bethokh benêy yisrâ'êl” (cf. Nm.9:7). 63 WOLFF, Hans Walter. Anthropology of the Old Testament. Filadélfia, 1974, p. 1.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 69 Lemos também em Números 19:11 – “Aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, imundo será sete dias” (cf. Nm.19:11); no original hebraico: “hannoghêa` bemêth lekhol-nephesh 'âdhâm vethâmê' shibh`ath yâmiym” (cf. Nm.9:11). E dois versos à frente: “Todo aquele que tocar em algum morto, cadáver de algum homem, e não se purificar, contamina o tabernáculo do Senhor; essa pessoa será eliminada de Israel; porque a água purificadora não foi aspergida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua imundícia” (cf. Nm.19:13). No texto original hebraico: “kol-hannoghêa` bemêth benephesh hâ'âdhâm 'asher-yâmuth velo'yithchathâ' 'eth-mishkan Adonay thimmê' venikhrethâh hannephesh hahiv'miyyisrâ'êl kiy mêy niddâh lo'-zoraq `âlâyv thâmê' yihyeh `odhthum'âtho bho” (cf. Nm.19:13). Poderíamos ficar o livro todo repassando inúmeras passagens bíblicas que demonstram de maneira clara que para os hebreus o corpo nada mais era do que a própria alma visível, não tinha absolutamente parte nenhuma com qualquer segmento imaterial ou imortal. Por isso, o cadáver de um homem era frequentemente relacionado à alma que jazia morta porque o corpo é a alma visível. Para Moisés e para os hebreus, a alma nunca foi imortal. Mas, para aquelas pessoas que insistem em se opor à doutrina da mortalidade bíblica, “estarão em apuros para explicar aquelas passagens que falam de uma pessoa morta como uma alma-nephesh morta (Lev. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6, 11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13: Ageu 2:13). Para elas é inconcebível que uma alma imortal possa morrer com o corpo”64 A alma não é algo imaterial – Nenhum escritor bíblico tinha em mente a crença de que o corpo é a prisão de uma alma imaterial dentro dele. Isso fica muito claro na Bíblia por inúmeras razões. Em primeiro lugar, porque a Bíblia afirma que a alma emagrece: “E ele lhes cumpriu o seu desejo, mas enviou magreza às suas almas” (cf. Sl.106:5). Evidente que, se a alma fosse uma entidade imaterial, então ela não poderia “emagrecer” de jeito nenhum! É óbvio que a alma é o ser integral do homem e, sendo assim, ela também emagrece junto com o corpo (lembre-se de que o corpo é a alma visível). Se a alma emagrece, então ela não é imaterial mas sim algo bem material, que nasce, que cresce, que emagrece, que engorda, que sente sede, que envelhece e que morre. Se a crença dos escritores bíblicos fosse de que apenas o corpo que sofre todas essas alterações físicas naturais (como nascer, crescer, emagrecer, morrer, etc), então o salmista certamente teria empregado a palavra hebraica bashar, que significa “corpo”, e não nephesh (alma). O mesmo pode ser dito com relação aos demais pontos que apresentarei a seguir. Isaías nos diz que “será também como o faminto que sonha, que está a comer, porém, acordando, sente-se vazio; ou como o sedento que sonha que está a beber, porém, acordando, eis que ainda desfalecido se acha, e a sua alma com sede; assim será toda a multidão das nações, que pelejarem contra o monte Sião” (cf. Is.29:8). Uma entidade imaterial não pode sentir sede, pois a sede é uma característica do corpo físico. No máximo poderia sentir sede em um sentido puramente metafórico, como quando o salmista afirma que tem “sede de ti [de Deus]” (cf. Sl.143:6). Mas no contexto no qual o texto de Isaías 64 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 70 está inserido percebemos facilmente que se trata não de uma linguagem poética ou alegórica, mas natural e literal. Ele fala de pessoas fisicamente famintas que sonham em comer algo, mas que acordam e veem que estão vazias, e de pessoas com sede que sonham que estão bebendo algo, mas que acordam e ainda estão desfalecidas, e a sua alma com sede. Sede do que? Sede de Deus? Não, sede de beber algo, como o contexto indica. Trata-se de pessoas fisicamente com sede, que sonham em estar bebendo algo, mas acordam e percebem que não beberam nada, que ainda estão desfalecidas fisicamente, que a sua alma continua com sede. Nisso fica muito claro que a alma é o próprio ser vivente como pessoa, e não algo imaterial dentro dele. Outro exemplo semelhante ocorre quando os israelitas murmuravam no deserto na insistência por carne: “Agora, porém, seca-se a nossa alma [nephesh], e nenhuma cousa vemos senão este maná” (cf. Nm.11:16). Eles estavam falando de um maná físico, e de uma sede real, não meramente de algo simbólico ou em algum sentido espiritual. Portanto, a alma que está seca se refere ao próprio físico que clama por outra comida além do maná. Ou seja, a alma é identificada novamente como sendo algo físico e visível na forma do corpo, e não em uma substância imaterial residente dentro do corpo. Existem muitas coisas que um elemento imaterial não pode fazer. Uma dessas é chorar, por exemplo. Contudo, lemos na Bíblia que a alma de tristeza verte lágrimas: “Chora de tristeza a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa” (cf. Sl.119:28). Se a alma derrama lágrimas, então ela não é imaterial. Nada há nas Escrituas nada que possa mostrar que a alma é um segmento imaterial na natureza do homem, afinal, se assim fosse esperaríamos que ela não pudesse derramar lágrimas, uma vez sendo isso um fenômeno natural, material, físico, visível. Além disso, a Bíblia afirma categoricamente que a alma desce à cova após a morte (cf. Jó 33:18,22,28,30; Is.38:17; Sl.94:17). Se a alma fosse algo imaterial, então ela de maneira nenhuma poderia descer à sepultura na morte (ela deveria era subir ao Céu ou ir para o inferno). Também sabemos que a Bíblia afirma inúmeras e incansáveis vezes que a alma morre, e uma entidade imaterial não pode falecer (ver a morte da alma em Nm.31:19; Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc). Jó fala que “se comi os seus frutos sem dinheiro, e sufoquei a alma dos seus donos, por trigo me produza cardos, e por cevada joio. Acabaram-se as palavras de Jó” (cf. Jó 31:39,40). “Sufocar a alma” significa sufocar a própria pessoa, porque algo imaterial não pode ser sufocado. Por fim, a Bíblia declara a alma como em Gênesis 2:7: uma pessoa, e não uma entidade imaterial. Assim podemos entender que Abraão “tomou a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de Canaã” (cf. Gn.12:5). Abraão não estava tomando para si substâncias imateriais, mas sim algo bem material, pessoas, de carne e osso. Concluímos, pois, que a alma não é um segmento imaterial, mas sim a própria vida humana como o resultado da junção do pó da terra com o fôlego de vida (para dar animação ao corpo morto), resultando em um ser vivo. Enquanto o dualismo platônico ensina que a
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 71 alma-psiquê é algo imaterial, intangível, invisível, eterno e imortal, as Sagradas Escrituras apresentam a alma como referência a criaturas terrestres, incluindo os animais, referindo- se a algo bem material, tangível, visível e mortal. Sumariando, corpo e alma não são duas pessoas dentro de um único ser (um mortal e outro imortal), mas sim duas características da mesma pessoa. A alma é a sede dos pensamentos, que também perecem com a morte (cf. Sl.146:4). O corpo é um homem como um ser concreto. Isso não significa dualismo entre corpo e alma, mas sim duas características da mesma pessoa. Como disse Dom Wulstan Mork: “Não havia a dicotomia grega de alma e corpo, de duas substâncias opostas, mas uma unidade, homem, que é bashar [corpo] de um aspecto e nephesh [alma] de outro. Bashar, pois, é a realidade concreta da existência humana, nephesh é a personalidade da existência humana”65 De fato, a própria Enciclopédia Católica fez uma interpretação muito feliz daquilo que realmente significa “alma”, sem ter parte com algum segmento imaterial preso dentro do homem: “Nephesh [né·fesh] é um termo de muito maior extensão do que nossa ‘alma’, significando vida (Êx 21.23; Dt 19.21) e suas várias manifestações vitais: respiração (Gn 35.18; Jó 41.13,21), sangue [Gn 9.4; Dt 12.23; Sl 140(141).8], desejo (2 Sm 3.21; Pr 23.2). A alma no Antigo Testamento significa, não uma parte do homem, mas o homem inteiro — o homem como ser vivente. Similarmente, no Novo Testamento significa vida humana: a vida duma entidade individual, consciente (Mt 2.20; 6.25; Lu 12.22-23; 14.26; Jo 10.11, 15, 17; 13.37)”66 A alma na cova – Outro fator importante que mostra que os escritores do Antigo e do Novo Testamento não imaginavam uma natureza dualista do ser humano é a resposta para a pergunta: para onde vai o corpo quando morre? Biblicamente, para a cova, a sepultura. De acordo com os imortalistas, a alma tem um destino diferente do corpo, prosseguindo de imediato ao Céu ou ao inferno. Sendo a alma a própria pessoa integral como o resultado do pó da terra com o fôlego de vida, entendemos que não há uma alma viva sem a combinação de corpo e espírito. Sem corpo não há uma alma vivente e sem espírito também não há alma viva. O que a Bíblia diz a respeito disso? A alma regressa ao lugar de silêncio (a sepultura) ou seria levada para tormentos eternos ou imediatamente ao Céu, tendo dest inos diferentes do corpo? No livro de Jó temos a resposta a esta questão: “Para apartar o homem do seu designo e livrá-lo da soberba; para livrar a sua alma da cova, e a sua vida da espada” (cf. Jó 33:18). Como vemos, o lugar para onde a alma regressaria seria à cova (sepultura), e não para uma outra dimensão! Também continuamos lendo no mesmo capítulo: “Sua alma aproxima-se da cova, e sua vida, dos mensageiros da morte” (cf. Jó 33:22). Novamente é relatado o fato bíblico de que o lugar para onde a 65 MORK, Dom Wulstan. The Biblical Meaning of Man. Milwaukee, Wisconsin, 1967, p. 34. 66 New Catholic Encyclopedia, 1967, Vol. XIII, p. 467.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 72 alma se aproxima não é para o Céu ou para o inferno, mas para a cova. E novamente continuamos lendo: “Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer para a cova, e viverei para desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). A clareza da linguagem é tão evidente que não necessita de maiores elucidações. O lugar para onde a alma iria era para a cova, não era o destino apenas do corpo! Por que Eliú no livro de Jó omite completamente que a alma suba consciente para o Céu, inferno, ou qualquer outro canto, mas diz que ela desce para a cova? Ele estava tentando enganar os teólogos da doutrina da imortalidade? Bom, talvez. Mas, apesar de ter todas as possibilidades de narrar a sobrevivência da alma à parte do corpo, já assegurada em algum lugar “entre os salvos”, ele afirma de maneira categórica que o local da alma é na cova. Ele manifesta claramente a sua visão holista bíblica de que a alma não tem destinos diferentes do corpo após a morte. Ademais, além de relatar que a sua alma desceria para a cova caso morresse, ele ainda afirma que, uma vez que continua com vida, “viverei para desfrutar a luz”. Em outras palavras, caso ele morresse já não veria mais luz nenhuma! Como se isso tudo não fosse suficientemente claro, o salmista declara o mesmo ponto de vista do livro de Jó, assumindo exatamente a mesma posição de que não é apenas o corpo que jaz na sepultura, mas a alma também: “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf. Sl.94:17). Ora, qual era o lugar do silêncio no qual o salmista declara que partiria a sua alma? Evidentemente não é uma referência ao Céu com altos louvores e muito menos aos terrores e gritarias do fogo do inferno; sendo, antes, uma clara referência à sepultura, o verdadeiro lugar do silêncio para o qual o salmista afirma categoricamente que não o c orpo tão somente, mas também a alma partiria após a morte. Quando o rei Ezequias estava à beira da morte, ele relata a sua convicção de que a sua alma partiria para a cova, para a corrupção: “Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados” (cf. Is.38:17). O Senhor livrou a sua alma de ir para onde? Pro Céu? Pro inferno? Pro purgatório? Não, de ir pra cova. Ezequias sabia que o destino de sua alma seria para a cova, para o lugar de corrupção. Por isso mesmo, ele clama pela manutenção de sua vida no capítulo inteiro (cf. Isaías 38). No Salmo 88:3, o salmista expressa a mesma ideia: “Porque a minha alma está cheia de angústia, e a minha vida se aproxima da sepultura” (cf. Sl.88:3). Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição” (cf. Sl.49:8,9). Aqui fica claro que a alma também pode sofrer decomposição; contudo, é passível de ser resgatada [na ressurreição] para viver para sempre e não sofrer decomposição [na sepultura]. Com toda a clareza necessária, a Bíblia não deixa espaços para a heresia de que o corpo é a prisão de uma alma imaterial e imortal que tem destinos diferentes após a morte partindo para o Céu ou para o inferno. Antes, a alma, como é a própria pessoa humana como o resultado do pó da terra com o fôlego da vida (cf. Gn.2:7), jaz na sepultura. Não obstante a
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 73 isso, o salmista afirma: “Na prosperidade repousará a sua alma, e a sua descendência herdará a terra” (cf. Sl.25:13). A alma também “repousa”, não é só o corpo que dorme! Muito embora os escritores bíblicos tivessem a sua disposição a plena condição de relatar que o corpo somente é que desce a cova ou que “repousa”, eles insistem em declarar que a alma [nephesh] desce a cova, a corrupção, ao silêncio. Ponderamos: iriam todos eles relatar que a alma jaz na cova caso tivessem em mente que após as suas mortes a sua alma partiria logo para qualquer lugar, menos para a cova? É óbvio que não! A crença dos escritores bíblicos era de uma natureza holista e não dualista do ser humano, de modo que a alma não escapava da sepultura. É digno de nota, também, o fato de que nunca em passagem nenhuma da Bíblia há qualquer declaração de algum relato da alma subindo ao Céu ou descendo para o inferno. Em absolutamente todas as vezes em que alguém relata o local onde a sua alma partiria com a morte, diz respeito somente a sepultura. Evidentemente a alma descer para a cova é a conclusão dos escritores bíblicos diante do fato de que a alma morre, e é exatamente isso o que veremos a seguir. Afinal, “que homem há, que viva, e não veja a morte? Livrará ele a sua alma do poder da sepultura?” (cf. Sl.88:48). Não! Ninguém! Todos os homens são mortais e não tem uma vida inerentemente imortal; a alma de todos está sujeita ao poder da sepultura! O salmista deixa nítido que todos os homens morrem e descem à sepultura, e que esta morte não se resume apenas ao corpo, mas também à alma, fazendo a pergunta retórica: “livrará ele a sua alma do poder da sepultura”? Diante de tudo isso, apenas alguém bem mal intencionado para acreditar que os escritores bíblicos acreditavam que a alma tinha destinos diferentes do corpo após a morte, uma vez que a Bíblia apresenta tantas vezes não só a morte da alma, mas também a sua descida ao silêncio e a cova (sepultura), bem como que a alma está “repousando”. Sendo assim, a visão bíblica, como vimos, é holista, e não dualista. Paralelismo entre corpo e alma - Somente aquele que entende que corpo e alma são duas características da mesma pessoa e não duas coisas opostas, entenderá o paralelismo bíblico entre corpo e alma: “Ó Deus, tu és o meu Deus forte, eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de Ti; meu corpo Te almeja” (cf. Sl.63:1). Corpo e alma não são dois opostos; doutra forma seria impossível que eles fossem colocados intercambiavelmente. Isso seria uma afronta para a doutrina dualista, que prega exatamente o contrário disso, isto é, que corpo e alma são dois opostos, dois extremos distintos, material e imaterial, mortal e imortal. Qual nada, ambos são colocados intercambiavelmente em um paralelismo bíblico, porque são duas manifestações da mesma pessoa, e não formas diferentes de existência. Nisso fica muito claro a visão bíblica holista em detrimento da doutrina dualista. Colocar corpo e alma intercambiavelmente como paralelismo seria uma completa afronta à visão grega dualista, que prega exatamente o inverso disso, isto é, que um é antagônico – oposto – ao outro. O mesmo paralelismo é feito no Salmo 84:2 entre alma, coração e carne e também em Jó 14:22 incluindo corpo e alma. Devemos sempre lembrar que, de acordo com o dicionário, paralelismo é “um encadeamento de funções sintáticas idênticas ou um encadeamento
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 74 de orações de valores sintáticos iguais. Orações que se apresentam com a mesma estrutura sintática externa, ao ligarem-se umas às outras em processo no qual não se permite estabelecer maior relevância de uma sobre a outra”67. Paralelismo é, portanto, quando duas linhas expressam o mesmo pensamento em linguagem ligeiramente diferente, ou quando o pensamento da primeira linha é completado, ampliado ou intensificado na segunda, tendo a mesma aplicação prática. Noutras palavras, se corpo e alma fossem dois distintos opostos como pregam os dualistas (o corpo mortal e a alma imortal; o corpo corruptível e a alma incorruptível; o corpo material e a alma imaterial), então o que esperaríamos seria justamente uma antítese, isto é, um contraste nítido entre ambos que expressaria tal discrepância. Contudo, o que vemos na Bíblia é que corpo e alma são usados intercambiavelmente como paralelismo, porque não são dois opostos e nem duas “pessoas” dentro de um único ser, mas sim duas características da mesma pessoa, pois os dois estão intimamente relacionados; o corpo é a forma exterior da alma e a alma é a vida interior do corpo humano. Por isso, eles não são opostos (como ensinavam os gregos dualistas), mas intercambiáveis (como apregoa o holismo bíblico). Tal definição fere gritantemente o conceito platônico da “alma imortal”. A sede dos pensamentos – Alguma parte dos defensores da imortalidade da alma sustentam que o fato dela ser utilizada biblicamente como fonte dos pensamentos humanos significa que ela é um segmento imortal. Sustentam a diferença entre a parte mortal (que não pensa) e a imaterial implantada por Deus (que comanda os sentimentos humanos). Essa conclusão, contudo, carece inteiramente de respaldo teológico. Isso porque o coração também é utilizado biblicamente como sede dos pensamentos, ainda mais do que a própria alma. Por exemplo, é nos dito que o coração é sede de alegria (cf. Pv.27:11), coragem (cf. Sm.17:10), tristeza (cf. Ne.2:2), desânimo (cf. Nm.32:7), perturbação (cf. 2Rs.6:11), tenção (cf. Is.35:4), ódio (cf. Lv.19:17), amor (cf. Dt.13:3), confiança (cf. Pv.31;11), generosidade (cf. 2Cr.29:31), inveja (cf. Pv.23:17). O coração estremece (cf. 1Sm.28:5), excita-se (cf. Sl.38:10), desmaia (cf. Gn.45:26), adoece (cf. Pv.13:13), desfalece (cf. Gn.42:28), agita-se (cf. Pv.13:12). Em outras ocasiões, o coração é claramente indicado como sendo a fonte dos pensamentos e sentimentos do ser humano: “Pois do coração procedem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (cf. Mt.15:39). Por isso mesmo, “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (cf. Pv.4:23). E quando Davi diz a Salomão: "E você, meu filho Salomão, reconheça o Deus de seu pai, e sirva-o de todo o coração e espontaneamente, pois o Senhor sonda todos os corações e conhece a motivação dos pensamentos” (cf. 1Cr.28:9). Portanto, se a alma é imortal porque em determinadas ocasiões é utilizada como fonte de sentimentos e emoções, então o coração certamente não pode deixar de ser também. O próprio fato de organismos materiais que perecem com a morte do corpo serem utilizados como sede dos pensamentos juntamente com a alma, nos mostra que ambos não são duas 67 Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Paralelismo_sint%C3%A1tico>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 75 partes distintas (uma pensante e outra matéria irracional), mas sim duas manifestações do mesmo ser mortal. Não existe um aspecto espiritual em contraposição ao físico, nem o ser “interior” em oposição ao “exterior”, mas sim o ser como criatura viva, consciente e pessoal. O paralelismo bíblico entre alma e coração como sede dos pensamentos nos mostra que eles não são duas entidades distintas, mas consistem em duas maneiras de se referir a si próprio. Os escritores bíblicos se utilizavam de paralelismo entre coração e espírito como sede dos sentimentos: “O coração alegre é bom remédio, mas o espírito abatido faz secar os ossos” (cf. Pv.17:22). E também de paralelismo entre coração e alma: “O Senhor, o seu Deus, está pondo vocês à prova para ver se o amam de todo o coração e de toda a alma” (cf. Dt.13:3). Tal paralelismo entre coração e alma nos mostra que ambos são tão somente agentes materiais utilizados intercambiavelmente ao tratar-se dos pensamentos e sentimentos humanos. O coração e a alma não são dois opostos (um material e outro imaterial; um mortal e outro imortal), mas dois agentes que estão intimamente ligados entre si, sendo duas características da mesma pessoa, e não entidades opostas. Isso nos permite perfeitamente acentuarmos o parelelismo entre alma e coração e colocarmos ambos como sede dos pensamentos, o que infelizmente não é possível no modelo dualista tradicional. A verdade bíblica é a de que o sopro de Deus que nos traz fôlego de vida é visivelmente presente na forma da respiração, e a alma é visivelmente presente na forma do corpo. Por isso, corpo, alma, espírito e coração não são opostos e nem distintos, mas características da mesma pessoa, o ser integral holista do ser humano. A Bíblia Sagrada, em sua totalidade, contradiz gritantemente os conceitos platônicos da “alma imortal”. IV–A morte da alma No Antigo Testamento – A Bíblia relata a morte da alma tantas inúmeras vezes que eu tive que resumir citações condensadas aqui ao invés de passar uma a uma. O arsenal bíblico da morte da alma é tão significativo ao ponto de nenhum exegeta sério poder contestar que este é um fato. Ela não sobrevive a parte do corpo, mas, pelo contrário, morre com ele, pelo que não existe “alma vivente” sem o corpo com o fôlego de vida. Quando o fôlego de vida [espírito] é retirado, nós que somos almas viventes nos tornamos almas mortas. É por isso que a Bíblia fala tão frequentemente na morte da alma também. No Antigo Testamento, os escritores bíblicos quase cansaram de falar que a alma morre. No texto original hebraico, a alma morria, era transpassada, podia ser morta, morria para esta vida e morria para a próxima, a alma morria a toda hora. Josué conseguiu o “feito” de exterminar muitas almas... (ver Josué 10:28 no original hebraico: “Ve'eth-maqqêdhâh lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy-cherebh ve'eth-malkâh hecherim 'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr sâriydh vayya`as lemelekh maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho”). A tradução literal ficaria assim: “Naquele dia tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o rei a espada e exterminou toda a alma que nela vivia, sem deixar sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó”. E não foi só essa vez que Josué
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 76 conseguiu o feito extraordinário de matar não só o corpo, mas a alma também: em Josué 10:30, 31, 34, 36 e 38, a alma costumava morrer sempre. No original hebraico, Josué “matou a espada todas as almas” (cf. Js.10:30), e “exterminou toda a alma” (cf. Js.10:28). Definitivamente, se existia uma imortalidade da alma, então Josué deveria ganhar uma medalha de honra ao mérito por tais feitos. Se alguém “matava uma alma acidentalmente”, podia fugir para uma cidade de refúgio (cf. Js.20:3). Era possível aniquilar uma alma sem intenção (cf. Js.20:9). A alma morria tantas vezes, que uma referência completa a todas as passagens nos faria superar os limites de escopo deste livro. É claro que a maioria das versões bíblicas a nossa disposição simplesmente não traduzem a palavra “alma” como colocada no original hebraico [nephesh] pelo simples fato de que isso seria uma afronta à teoria imortalista de que é só o corpo que morre e a alma não. Os personagens bíblicos não acreditavam que seria apenas o corpo que morreria, pois eles categoricamente afirmam: “Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10). Veja que ele não diz: “que meu corpo morra a morte dos justos”, o que presumivelmente seria a única coisa que os defensores da imortalidade da alma afirmariam. A própria alma não escaparia da morte, e essa era a tão forte convicção de toda a Bíblia. A esperança deles não era que as suas almas fossem imortais, mas sim que elas morressem as mortes dignas dos justos, isto é, com honra. Este seria o fim deles, e não um início de uma nova existência! Tal convicção de que a alma também não escapa da morte pode ser encontrada mais inúmeras vezes: “Dai-me um sinal seguro de que salvareis meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs e todos os que lhe pertencem e livrareis as nossas vidas da morte” (cf. Js.2:13). Caso os israelitas atacassem Jericó, as “vidas” da família de Raabe seriam mortas. Poucos sabem, contudo, que o original hebraico verte novamente a morte da alma- nephesh ao invés de “vida” como é traduzido por muitas versões. A Versão King James é uma das versões que traduzem nesta passagem corretamente a morte da alma, como sendo o próprio término da vida, a cessação da existência. Em Deuteronômio 19:11, a tradução em português assim reza: “Mas, se alguém odiar o seu próximo, ficar à espreita dele, atacá-lo e matá-lo, e fugir para uma dessas cidades...”. Contudo, o original hebraico traz novamente a morte da alma: “Vekhiy-yihyeh 'iysh sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv vehikkâhu nephesh vâmêth venâs'el-'achath he`âriym hâ'êl”. “Matá-lo” aqui é a tradução do original hebraico que traz nephesh: matar a alma! Em Jó 27:8, quando lemos que Deus eliminaria os ímpios, tirando a sua vida, o original traduz por “tira a alma” [nephesh]: “Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a alma [nephesh]”? O fato bíblico é que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4; Ez.18:21). Se Deus tivesse feito a alma imortal, teria dito a Ezequiel que “a alma que pecar viverá eternamente em estado desencarnado”; ou, então, diria que “a alma que pecar nunca morrerá”! Contudo, vemos que nem mesmo a alma está isenta da morte. Os autores bíblicos usavam e abusavam da morte da alma. Outro fato interessante encontra-se no Salmo 49:8,9, que diz: “Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 77 a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição” (cf. Sl.49:8,9). Se a alma fosse algo à parte do corpo que se desliga deste por ocasião da morte, então ela jamais poderia em circunstância alguma sofrer decomposição. O que deveria sofrer decomposição seria o corpo, somente, e não a alma. Contudo, o verso 8 faz menção a nephesh - alma! A verdade é que no original hebraico a alma é explicitamente morta: “Para que nelas se acolha aquele que matar alguém [nephesh] involuntariamente” (cf. Nm.35:15). Evidentemente o hebraico nephesh [alma] nunca é traduzido na maior parte das versões pelo simples fato de que isso iria suscitar o questionamento de que a alma claramente morre com a morte do corpo. Por isso, traduzem até o “matar alguém”... e daí pulam imediatamente para o: “...involuntariamente”. Não traduzem por “matar alguma alma”, pois desta forma é muito mais fácil enganar os leitores que não tem como descobrir usando apenas a linguagem disponível no texto em português se o verso verte a morte apenas do corpo ou também da alma. O que bem podemos observar, ao longo de toda a Bíblia, é que a alma morre tanto quanto o corpo (ou até mais), mas isso é escondido dos leitores pela maioria das traduções. Tais casos semelhantes ocorrem inúmeras vezes nas Escrituras. Alguns, na tentativa de provar que a alma é imortal, argumentam usando o texto de 1ª Reis 17:21-22, que assim diz: “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-Te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele. E o Senhor atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu” (cf. 1Rs.17:20-22). Mas, na realidade, tudo o que este texto nos mostra é que a alma do menino, que estava morta, voltou a ter vida – ele tornou-se novamente um ser vivente, uma alma vivente. Corrobora com isso a variante linguística do texto, como observa o Dr. Samuelle Bacchiocchi: “Esta leitura, que se acha à margem da versão AV, apresenta uma construção linguística diferente. O que retorna às partes interiores é a respiração. A alma como tal nunca se liga a algum órgão ‘interior’ do corpo. O retorno da respiração às partes interiores resulta no reavivamento do corpo, ou, poderíamos dizer, faz com que se torne uma vez mais uma alma vivente”68 Concorda com isso também o significado secundário de alma como sendo "vida". Cristo disse que aquele que queria segui-lo teria que odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar a "si mesmo"69 ou a um elemento imortal que o próprio Deus tenha implantado no homem, como creem os imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das traduções bíblicas tem vertido a passagem por "vida"70. Isso é o mesmo que ocorre em 1ª Reis 17:22, onde alma aparece no sentido de vida. A "vida" voltou ao menino, como diz a NVI: "O Senhor ouviu o clamor de Elias, e a vida voltou ao menino, e ele viveu" (cf. 1Rs.17:22), e desta forma ele passou a ser uma alma vivente novamente, não mais uma alma morta71. Sobre isso, Bacchiocchi acrescenta: 68 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007. 69 Cristo disse para amar o próximo como a si mesmo (cf. Mt.22:39), e não para odiar a si mesmo, o que seria uma contradição. 70 Tal como fazem a Almeida Revisada e Imprensa Bíblica, a Nova Versão Internacional e a Sociedade Bíblica Britânica, além das versões católicas Ave Maria, a Bíblia de Jerusalém e versão da CNBB. 71 Algum imortalista poderia aproveitar essa ocasião para objetar dizendo que "alma" também deveria ser
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 78 “Até mesmo o Interpreter’s Dictionary of the Bible [Dicionário bíblico do intérprete], de concepção liberal, em seu verbete sobre a morte declara explicitamente: ‘A partida do nephesh [alma] deve ser vista como uma figura de linguagem, pois não continua a existir independentemente do corpo, mas morre com ele (Núm. 31:19; Juí. 16:30; Eze. 13:19). Nenhum texto bíblico autoriza a declaração de que a ‘alma’ é separada do corpo no momento da morte. O ruach, ‘espírito’, que faz do homem um ser vivente (cf. Gên. 2:7), e que ele perde por ocasião da morte, não é, falando-se apropriadamente, uma realidade antropológica, mas um dom de Deus que retorna a Ele ao tempo da morte. (Ecl. 12:7)’”72 Além disso, aquele que matasse alguma alma deveria ficar sete dias fora do arraial: “Acampai-vos por sete dias fora do arraial; todos vós, tanto o que tiver matado alguma alma [nephesh], como o que tiver tocado algum morto” (cf. Nm.31:9). Se tais “exterminadores de alma” vivessem no século presente e vissem o que o conceito de “alma” se tornou após a adoção universal do conceito platônico para este termo, iriam ficar realmente assombrados em descobrir que mataram almas imortais! A morte do corpo está sempre ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da alma. Nós não temos uma alma presa dentro de nós que é liberta por ocasião da morte; nós somos essa “pessoa” que morre e que revive por ocasião da ressurreição (cf. Ap.20:4)! É por isso que, quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão, a Bíblia nos diz repetidas vezes que “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (cf. Js.10:28, 30, 31, 34, 36, 38). Definitivamente não haviam avisado Josué que no máximo o que ele matou foi somente um corpo! Em Deuteronômio 11:9, lemos que “havendo alguém que aborrece o seu próximo, e lhe arma ciladas, e se levanta contra ele, e o fere de golpe mortal, e se acolhe a uma destas cidades...”. A frase “o fere de golpe mortal” é uma infeliz tradução do original hebraico que diz “fere a alma-nephesh mortalmente”. Jamais poderíamos imaginar que um cidadão iria com a sua espada transpassar tanto um indivíduo num combate ao ponto de matar até a alma “imortal” e imaterial que essa pessoa possui dentro dela! É nítido que a alma não era crido como sendo algo imaterial com imortalidade preso dentro de nós, o que também fica claro em Jeremias: “Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste grandemente a este povo e a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe até à alma” (cf. Jr.4:10). Se a alma fosse algo imaterial, não poderia ser atingida por objeto algum material e nem ser penetrada! Uma entidade imortal e imaterial não pode ser ferida com espada ou algum outro instrumento; contudo, lemos que “vos estejam à mão cidades que vos sirvam de cidades de refúgio, para que ali se acolha o homicida que ferir a alguma alma [nephesh] por engano” (cf. Nm.35:11). Aqui o “ferir” é propriamente a morte, porque o que a atinge é um homicida. Obviamente a morte do corpo é a morte da alma, pelo fato de que a alma não é um segmento imaterial traduzida por "vida" nas mais de 58 citações explícitas onde ela morre, como se resolvesse o problema da morte da alma. Contudo, "matar a vida" não faz qualquer sentido, mostrando que nessas ocasiões alma aparece em seu significado primário, de um ser vivo, e eliminando aqui a possibilidade de se tratar de um elemento imortal que sobrevive à parte do corpo após a morte, que é o significado principal de alma na visão imortalista. 72 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 79 que não pode ser atingido e nem destruído. Nenhum autor bíblico acreditava que existia uma alma imortal e imaterial presa dentro do nosso corpo, pois, se assim fosse, então a alma jamais e em circunstância alguma poderia ser morta e nem destruída em hipótese nenhuma! Isaías fala a respeito de Jesus nessas palavras: “Por isso lhe darei a sua parte com os grandes, e com os fortes ele partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos transgressores” (cf. Is.53:12). Comentando essa passagem, o Dr. Samuelle Bacchiocchi afirma: “’Ele derramou’ é versão do hebraico arah que significa ‘esvazia, desnudar, ou deixar a descoberto’. Isso significa que o Servo Sofredor esvaziou-Se de toda a vitalidade e força da alma. Na morte, a alma não mais funciona como o princípio animador da vida, mas descansa na sepultura”73 De qualquer forma, eles não insistiriam tanto na morte da alma, com os tradutores bíblicos na grande maioria dos casos traduzindo por “pessoa” ao invés de “alma-nephesh”, como deve ser traduzido, presumivelmente por causa de crerem que a alma é imortal e não pode ser morta, contrariando a Bíblia toda (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3, 9; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14, 15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4; Ez.18:21). Em Números 31:19, lemos que a morte do corpo é a morte da alma: “Acampai-vos sete dias fora do arraial; qualquer de vós que tiver matado alguma pessoa [nephesh] e qualquer que tiver tocado em algum morto, ao terceiro dia e ao sétimo dia, vos purificareis, tanto vós como os vossos cativos” (cf. Nm.31:19). O original novamente traz a morte da alma: “Ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol horêgh nephesh vekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem”. Qualquer erudito familiarizado com as Escrituras também irá se deparar repetidamente com a forte convicção bíblica de que, caso as pessoas morressem, as suas almas não escapariam da morte. Isso explica o porquê que, em tantos casos, vemos os salmistas agradecendo a Deus por ter livrado a alma deles da morte, prolongando os dias de vida deles, ou, então, dizendo que a sua alma morreria a morte dos justos: “Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda” (cf. Sl.116:8). “Para lhes livrar as almas da morte, e para os conservar vivos na fome” (cf. Sl.39:19) “Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes?” (cf. Sl.56:13) “Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10) “E a sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida aos que trazem a morte” (cf. Jó 33:22) 73 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 80 “Portanto guardareis o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar certamente morrerá; porque qualquer que nele fizer alguma obra, aquela alma será eliminada do meio do seu povo” (cf. Êx.31:14) “Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50) “E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte” (cf. Jz.16:16) “Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas viúvas no meio dela” (cf. Ez.22:25) “E naquele mesmo dia tomou Josué a Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei, a eles, e a toda a alma que nela havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó” (cf. Js.10:28) “Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza” (cf. Ez.22:27) Estes são alguns exemplos de passagens nas quais não precisamos ir até o original hebraico para revelarmos que o original traz a palavra “alma”, pois as próprias versões em português (ou a maioria delas) já traduzem por “alma” nestes versos, traduzindo nephesh por alma como realmente deve ser, em um contexto onde ela é morta, ou destruída, ou eliminada, ou devorada! Vale lembrar sempre que existe uma outra grande maioria de passagens bíblicas relatando a morte e extermínio da alma, em que nephesh não foi traduzido por “alma” como corretamente deveria ser, mas o que restou a nós já é mais do que o suficiente para imputarmos a doutrina de que a alma não morre como algo completamente antibíblico. Os escritores bíblicos jamais disseram que a alma é um elemento imaterial e imortal, mas sim algo bem material e que morre. Por tudo isso, não existe alma imortal; o fato de a alma morrer tanto provém de que uma “alma vivente” não significa uma “alma imortal”, mas simplesmente um “ser vivo”, sujeito a morte: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). O Dr. Bacchiocchi ainda acrescenta: “As pessoas tinham grande temor por suas almas [nephesh] (Jos. 9:24) quando outros estavam buscando suas almas [nephesh] (Êxo. 4:19; 1 Sam. 23:15). Eles tiveram que fugir por suas almas [nephesh] (2 Reis 7:7) ou defender suas almas [nephesh] (Est. 8:11); se não o fizessem, suas almas [nephesh] seriam totalmente destruídas (Jos. 10:28, 30, 32, 35, 37, 39). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4, 20). Raabe pediu aos dois espias israelitas que salvassem sua família falando em termos de “livrareis as nossas vidas [almas- VKJ] da morte” (Jos. 2:13)”74 74 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 81 Sumariando, vemos que, biblicamente, a alma morre (cf. Ez.18:4), perece (cf. Mt.10:28), é destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da morte (cf. Sl.78:50), é completamente eliminada (cf. Êx.31:14), desce à cova na morte (cf. Jó 33:22), revive na ressurreição [porque estava morta antes disso] (cf. Ap.20:4), é totalmente destruída (cf. Js.10:28), é derramada na morte (Is.53:12), é penetrada pelo fio da espada (cf. Jr.4:10), é passível de sofrer decompisição [na sepultura] (cf. Sl.49:8,9), “repousa” na morte (cf. Sl.25:13), é sufocada (cf. Jó 31:39,40), é devorada (cf. Ez.22:25), pode ser assassinada (cf. Nm.35:11) e exterminada (cf. At.3:23). Que a alma não é e nem nunca foi imortal, isso também fica evidente pelo fato de que, em mais de 1600 citações em que aparece “alma” na Bíblia, em nenhuma delas é seguida do termo “eterno” [aionios] ou “imortal” [athanatos], o que obviamente seria feito caso a alma fosse eterna ou imortal. Porém, isso nunca ocorre nas Escrituras, que preferem insistir constantemente em dizer que a alma morre, é destruída, exterminada e aniquilada (cf. Nm.31:19; 35:15,30; 23:10; Js.20:3,9; Js.20:3,28; Gn.37:21; Dt.19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; 16:30; Ez.18:4,21; 22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20, etc). A Bíblia usa e abusa de todos os termos genéricos para a morte da alma. Junte isso ao fato que vimos acima, de que nunca algum escritor bíblico fez qualquer questão de dizer que a alma seria ‘eterna’ ou ‘imortal’ (em mais de 1600 citações), porque eles sabiam bem que a alma morre com a morte do corpo. Ou seja: temos centenas de centenas de citações mostrando explicitamente e expressamente a morte da alma, mas nenhuma que de forma direta afirme que a alma é “imortal” (athanatos) ou “eterna” (aionios)! Isso vai frontalmente contra o dualismo grego que divulgava a imortalidade da alma amplamente e nunca ousava dizer que a morria podia ser morta, o que seria uma completa afronta para os gregos dualistas, um verdadeiro escândalo para eles. Se a alma de fato fosse imortal, o que deveríamos esperar seria uma “enchente” de citações bíblicas falando sobre a “alma eterna”, a “alma imortal”, a “imortalidade da alma”, etc. O próprio fato de a Bíblia insistir tanto na morte da alma ao invés de promover a imortalidade desta é suficientemente incontestável a fim de desqualificarmos inteiramente esta doutrina por não possuir um mínimo de respaldo teológico sério. Crer que a alma é imortal é estar com os olhos “vendados” (cf. 2Co.4:4) a luz de todas as evidências. No Novo Testamento – O Novo Testamento confirma, mantém e amplia a crença bíblica de que a alma morre. Jesus nos contou sobre aquele que pode destruir o corpo e a alma (cf. Mt.10:28), Tiago nos diz que a alma está sujeita à morte (cf. Tg.5:20) e Pedro declara que ela pode ser exterminada: “E acontecerá que toda a alma que não escutar esse profeta será exterminada dentre o povo” (cf. Atos 3:23) Neste texto a palavra usada para o extermínio da alma é exolothreuo, que, de acordo com o léxico de Strong, significa “derrubar do seu lugar, destruir completamente, extirpar”75. Não tem qualquer relação com um prosseguimento eterno e ininterrupto de vida consciente, mas diz respeito a um extermínio, uma completa cessação de existência. A palavra grega exolothreuo denota o completo extermínio da alma. Embora os escritores bíblicos tivessem a completa decisão de escolha entre respaldar a morte do “corpo” ou da “pessoa”, duas 75 Léxico da Concordância de Strong, 1842.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 82 palavras disponíveis tanto no grego como no hebraico, eles insistem na morte e extermínio da alma [nephesh/hebraico – psuchê/grego]. Paulo também afirma, no auge da tempestade de Atos 27, que “nenhuma vida se perderá” (cf. At.27:22). O “perder-se” aqui referido é claramente relacionado com a cessação de vida, a morte na qual passaria aquelas pessoas em caso que o navio se afundasse. Poucas pessoas sabem, contudo, que o original grego traz “alma-psiquê” novamente: “kai abs=ta abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê gar psuchês oudemia estai ex umôn plên tou ploiou”. Em outras palavras, eles teriam as suas próprias almas mortas. O apóstolo Paulo usou a palavra para alma-psiquê apenas treze vezes em seus escritos (de 1600 em que aparece na Bíblia). A razão mais razoável para isso é que ele não queria dar entender aos seus leitores um sentido equívoco daquilo que seria a “alma”, em direto contraste com o pensamento platônico que a divulgava amplamente. Por isso mesmo, ele jamais se utilizou do termo “alma-psichê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Pelo contrário, relata que “é semeado um corpo natural [psychikon] e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural [psychikon], há também corpo espiritual” (cf. 1Co.15:44). Aqui ele se utiliza de um derivado de alma-psyche a fim de denotar a natureza do corpo natural que está sujeito à morte [e consequente ressurreição], e não a algum elemento imaterial ou imortal. “Corpo natural” aqui é a tradução do grego que diz: “soma psuchikos”, que literalmente significa: “corpo psíquico” (psiquê significa alma). Alma-psiquê, portanto, está relacionada a um corpo natural que morre e que ressuscita, e não a um elemento imaterial, intangível e imortal desassociado do corpo natural e mortal. Os manuscritos originais da Bíblia (AT/hebraico; NT/grego) sempre insistem que a alma não é uma parte divisível do corpo ou algum potencial imaterial presente na natureza humana trazendo consigo imortalidade, mas sim a própria pessoa como um ser vivo, como uma alma vivente. Paulo e Barnabé eram “homens que têm arriscado a vida [psiquê] pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. At.15:26), porque a alma-psiquê também morre. Por isso, ela também é colocada em risco de acordo com os perigos em determinada localidade. Eles colocaram a própria alma em risco por amor a Cristo, porque a alma também pode ser morta. Se assim não fosse, eles estariam arriscando apenas o corpo mortal, e não a alma, pois esta supostamente seria imortal e inatingível a qualquer perigo de vida. Em Mateus 2:20, é nos dito que já morreram os que buscavam a alma-psiquê do menino Jesus: “Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram os que buscavam a alma da criancinha” (cf. Mateus 2:20) No grego: “legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou kai poreuou eis gên israêl tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou” O termo “buscar a alma”, diante do contexto, tem clara ligação com buscar a morte daquela criança, que era o objetivo de Herodes: matar o menino Jesus. Ocorre que o evangelista Mateus, ao invés de dizer que eles matariam apenas o corpo, emprega novamente o termo “alma-psiquê”, pois a morte seria total: corpo e alma. Jesus disse em
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 83 Mateus 16:25 que “todo aquele que quiser salvar a sua alma [psiquê], perdê-la-á; mas todo aquele que perder a sua alma [psiquê] por minha causa, achá-la-á”. O termo “perder a alma” aqui diz respeito ao martírio que todos os discípulos de Cristo passaram. Eles “perderam a alma”, isto é, tiveram um fim nesta vida pelas mãos de homens cruéis, visando “ganhá-la” num momento futuro, na ressurreição dos mortos. Mais uma vez, a morte não está relacionada ao corpo de modo estrito, mas também à psiquê: alma! Outra clara referência neotestamentária sobre a morte da alma está em Marcos 3:4, quando Cristo diz: “A seguir, disse-lhes: ‘É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma má ação, salvar ou matar uma alma?” (cf. Marcos 3:4) No grego: “kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai ê kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn” De acordo com a Concordância de Strong, a palavra grega apokteino significa: 615 αποκτεινω apokteino de 575 e kteino (matar); v 1) matar o que seja de toda e qualquer maneira. 1a) destruir, deixar perecer. Portanto, apokteino psiquê denota a morte completa da alma, e não uma “imortalidade natural” dela. Pedro, ao dizer que morreria por Cristo, chegou a dizer: “Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a minha alma em benefício de ti!” (cf. João 13:37) No grego: “legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi akolouthêsai arti tên psuchên mou uper sou thêsô” Pedro estava simplesmente dizendo que estava disposto a morrer por Cristo, e para isso diz que entregaria a sua psiquê por amor do Mestre, isto é, estaria disposto a entregar a sua própria alma à morte em benefício de Cristo. Ele não cria que no máximo entregaria um corpo para morrer, mas a alma. Ele não via a alma como um elemento imaterial e imortal, mas como algo tão fadado à morte quanto o próprio corpo. E o mesmo pode ser dito com relação ao Filho do homem, que daria a sua alma-psiquê como resgate em troca de muitos: “Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse, mas para ministrar e dar a sua alma como resgate em troca de muitos” (cf. Mateus 20:28) No grego: “ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai dounai tên psuchên autou lutron anti pollôn”
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 84 “Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das ovelhas” (cf. João 10:11) No grego: “egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper tôn probatôn” “Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua alma a favor de seus amigos” (cf. João 15:13) No grego: “meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn philôn autou” “Dar a sua alma” nada mais é do que entregar a sua própria vida à morte, em favor da humanidade. Psiquê mais uma vez não é vista como algo imortal, mas algo sujeito à morte, como o corpo. Finalmente, em Apocalipse 20:4 é nos dito que as almas dos que foram degolados por causa do testemunho de Jesus reviveram. Se elas “reviveram”, é porque estavam mortas antes disso: “E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos” (cf. Apocalipse 20:4) Neste contexto em que as almas revivem, não aparece corpo-soma na passagem, mas apenas a referência às almas-psiquê que João viu em sua visão ganharem vida novamente no ato da ressurreição. Dizer que aquilo que reviveu foi somente o corpo é entrar em gritante contradição com o texto bíblico, que em momento nenhum fala de corpos. O texto não diz: “as almas daqueles corpos que foram degolados”, mas sim “as almas daqueles que foram degolados”. Foram “as almas daqueles que foram degolados” que reviveram, e não “os corpos daqueles que foram degolados”. Dizer que o “daqueles” está associado ao corpo (que nem sequer aparece no texto) e não ao referencial direto (“almas”) é no mínimo querer ferir a exegese e amputar as regras de interpretação textual. “Daqueles” é uma referência clara ao referencial mais direto, ou seja, “as almas”. Um exemplo prático para elucidar a questão: se eu dissesse que “a gasolina daqueles carros que pararam de funcionar foi recolocada”, o que é que foi recolocado? A gasolina ou os carros? Óbvio: a gasolina. É a gasolina daqueles carros, e não os próprios carros. Em Apocalipse 20:4 é exatamente a mesma estrutura textual que aparece. Vemos que as almas daqueles mártires reviveram. O que reviveu? A resposta também é óbvia: as almas daqueles que foram degolados! Além disso, o original grego traz o artigo definido, que no grego é "των" (ho), e que é traduzido na maioria das versões por “daqueles”: “kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tôn pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 85 prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai ouk” De acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa: 3588 ο ho que inclui o feminino η he, e o neutro το to em todos as suas inflexões, o artigo definido; artigo 1) este, aquela, estes, etc. Exceto “o” ou “a”, apenas casos especiais são levados em consideração. Este artigo inclui o feminino e também o neutro, o que mostra que está apenas reiterando que o sujeito é mesmo as almas, e não algum outro. “Corpo-soma” é masculino, e não feminino; ademais, nunca que o artigo definido ho toma o lugar de sujeito da frase, ele apenas é um artigo definido que confirma o sujeito da frase, não é utilizado para fazer uma distinção das “almas”, mas é um prosseguimento do relato delas, ainda com elas (as almas) sendo o sujeito único da frase. Portanto, em momento nenhum a referência e o sujeito da frase deixa de ser “as almas”, o que nos mostra que: • Almas são decapitadas (morrem) • Almas revivem na ressurreição Por tudo isso, vemos que o Catecismo Católico que afirma que “a alma não perece com a morte do corpo”76 mostra uma total carência de conhecimento e discernimento bíblico. Isso explica o porquê do “problema da Bíblia” como já foi aqui exposto; e, de fato, até hoje a grande maioria das traduções continuam omitindo dos seus leitores a morte da alma com a morte do corpo. Mas, fazer o que: essa é a única maneira de “salvar” a doutrina de que a alma não morre e está viva em algum lugar, escondendo e omitindo dos seus leitores a verdade bíblica da morte da alma, o que exterminaria com um império de cegueira espiritual que tenta monopolizar a opinião escondendo a verdade dos olhos do povo, perpetuando estes enganos através das tradições humanas. Citações explícitas da morte da alma nos originais – Como foi dito, as versões vernáculas à nossa disposição na grande maioria das vezes omitem as menções à morte da alma quando ela aparece, e para que isso seja verificável de forma mais clara e próxima dos leitores segue abaixo uma lista completa com 58 citações explícitas da morte da alma, afora aquelas onde a morte da alma vem implicitamente no texto e outras várias menções ao longo de toda a Escritura. No Pentateuco: (Gênesis 19:19-20) - Ora, por favor, teu servo achou favor aos teus olhos, de modo que estás magnificando a tua benevolência de que usas para comigo, para preservar viva a minha alma, mas eu — eu não posso escapar para a região montanhosa, para que não se apegue a mim a calamidade e eu certamente morra. Ora, por favor, esta cidade está perto para se fugir para lá... e minha alma viverá. (No Hebraico) - hinnêh-nâ' mâtsâ' `abhdekha chên be`êyneykha vattaghdêlchasdekha 'asher `âsiythâ `immâdhiy lehachayoth 'eth-naphshiy ve'ânokhiy lo''ukhal lehimmâlêth 76 §366 do Catecismo Católico.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 86 hâhârâh pen-tidhbâqaniy hârâ`âh vâmattiy hinnêh-nâ' hâ`iyr hazzo'th qerobhâh lânus shâmmâh vehiy' mits`âr'immâlthâh nâ' shâmmâh halo' mits`âr hiv' uthechiy naphshiy. (Gênesis 37:21) - Ouvindo isso Rubem, tentou livrá-lo da mão deles. De modo que disse: Não golpeemos fatalmente a sua alma. (No Hebraico) - vayya`as gam-hu' math`ammiym vayyâbhê' le'âbhiyvvayyo'mer le'âbhiyv yâqum 'âbhiy veyo'khal mitsêydh benoba`abhurtebhârakhanniy naphshekha. (Êxodo 31:14) - E tendes de guardar o sábado, pois é algo santo para vós. O profanador dele será positivamente morto. Caso haja alguém fazendo nele alguma obra, então essa alma tem de ser decepada do meio do seu povo. (No Hebraico) - ushemartem 'eth-hashabbâthkiy qodhesh hiv' lâkhem mechaleleyhâ moth yumâth kiy kol-hâ`osehbhâh melâ'khâh venikhrethâh hannephesh hahiv' miqqerebh `ammeyhâ. (Levítico 19:28) - E não vos deveis fazer cortes na carne em prol duma alma falecida e não deveis fazer tatuagem em vós. (No Hebraico) - vesereth lânephesh lo' thittenu bibhsarkhem ukhethobheth qa`aqa`lo' thittenu bâkhem 'aniy Adonay. (Levítico 21:1, 11) - Ninguém se pode aviltar entre o seu povo por uma alma falecida. E não se deve chegar a uma alma morta. Não se pode aviltar por seu pai e por sua mãe. (No Hebraico) - vayyo'mer Adonay 'el-mosheh 'emor 'el-hakkohaniym benêy 'aharon ve'âmartâ 'alêhemlenephesh lo'-yithammâ' be`ammâyv ve`al kol-naphshoth mêth lo' yâbho'le'âbhiyv ule'immo lo' yithammâ'. (Levítico 23:30) - Quanto a qualquer alma que fizer qualquer sorte de obra neste mesmo dia, terei de destruir esta alma dentre o seu povo. (No Hebraico) - vekhol-hannephesh 'asher ta`aseh kol-melâ'khâh be`etsem hayyom hazzeh veha'abhadhtiy 'eth-hannepheshhahiv' miqqerebh `ammâh. (Levítico 24:17) - E caso um homem golpeie fatalmente qualquer alma do gênero humano, sem falta deve ser morto. (No Hebraico) - ve'iysh kiy yakkeh kol-nephesh 'âdhâm moth yumâth. (Números 19:13) - Todo aquele que tocar num cadáver, a alma de qualquer homem que tenha morrido, e não se purificar, profanou o tabernáculo de Jeová, e essa alma terá de ser decepada de Israel. (No Hebraico) - kol-hannoghêa` bemêth benephesh hâ'âdhâm 'asher-yâmuth velo'yithchathâ' 'eth-mishkan Adonay thimmê' venikhrethâh hannephesh hahiv'miyyisrâ'êl kiy mêy niddâh lo'-zoraq `âlâyv thâmê' yihyeh `odhthum'âtho bho.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 87 (Números 23:10) - Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu. (No Hebraico) - miy mânâh `apharya`aqobh umispâr 'eth-robha` yisrâ'êl tâmoth naphshiy moth yeshâriymuthehiy 'achariythiy kâmohu. (Números 31:19) - Quanto a vós mesmos, acampai sete dias fora do acampamento. Todo aquele que tiver matado uma alma e todo aquele que tiver tocado em alguém que foi morto — deveis purificar-vos no terceiro dia e no sétimo dia. (No Hebraico) - ve'attem chanu michutslammachaneh shibh`ath yâmiym kol horêgh nephesh vekhol noghêa` bechâlâltithchathe'u bayyom hasheliyshiy ubhayyom hashebhiy`iy 'attem ushebhiykhem. (Números 35:11) - E tendes de escolher cidades convenientes para vós. Servirão para vós de cidades de refúgio, e para lá terá de fugir o homicida que sem querer golpear fatalmente uma alma. (No Hebraico) - vehiqriythem lâkhem `âriym `ârêy miqlâthtihyeynâh lâkhem venâs shâmmâh rotsêach makkêh-nephesh bishghâghâh. (Números 35:30) - Todo aquele que golpear fatalmente uma alma deve ser morto como assassino, pela boca de testemunhas, e uma só testemunha não pode testificar contra uma alma para ela morrer. (No Hebraico) - kol-makkêh-nephesh lephiy `êdhiym yirtsach 'eth-hârotsêach ve`êdh 'echâdhlo'-ya`aneh bhenephesh lâmuth. (Deuteronômio 19:11) - Porém, caso haja um homem que odeie seu próximo, e ele se tenha posto de emboscada contra este e se tenha levantado contra ele e golpeado fatalmente a sua alma, e ele tenha morrido, e o homem tenha fugido para uma destas cidades. (No Hebraico) - vekhiy-yihyeh 'iysh sonê'lerê`êhu ve'ârabh lo veqâm `âlâyv vehikkâhu nepheshvâmêth venâs'el-'achath he`âriym hâ'êl. (Deuteronômio 22:26) - E não deves fazer nada à moça. A moça não tem pecado que mereça a morte, pois, assim como um homem se levanta contra seu próximo e deveras o assassina, sim, uma alma, assim é neste caso. (No Hebraico) - velanna`ar [v][la][na`arâh] lo'-tha`aseh dhâbhâr 'êynlanna`ar [la][na`arâh] chêthe' mâveth kiy ka'asher yâqum 'iysh `al-rê`êhuuretsâcho nephesh kên haddâbhâr hazzeh. Nos Históricos: (Josué 2:13-14) - E tereis de preservar vivos meu pai e minha mãe, e meus irmãos, e minhas irmãs, e todos os que lhes pertencem, e tereis de livrar as nossas almas da morte. A isto lhe disseram os homens: “Nossas almas hão de morrer em vosso lugar”!
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 88 (No Hebraico) - vehachayithem 'eth-'âbhiy ve'eth-'immiy ve'eth-'achayve'eth-'achothay ['achyothay] ve'êth kol-'asher lâhem vehitsaltem 'eth-naphshothêynu mimmâveth vayyo'mru lâh hâ'anâshiym naphshênuthachtêykhem lâmuth 'im lo' thaggiydhu 'eth- debhârênu zeh vehâyâh bethêth-Adonay lânu 'eth-hâ'ârets ve`âsiynu `immâkh chesedh ve'emeth. (Josué 10:28, 35) - E naquele dia Josué capturou Maquedá e passou a golpeá-la com o fio da espada. Quanto ao seu rei,devotou à destruição tanto a ele como a toda alma que havia nela. Não deixou restar sobrevivente. E foram capturá-la naquele dia e começaram a golpeá-la com o fio da espada, e naquele dia devotaram à destruição toda alma que nela vivia, segundo tudo o que tinham feito a Laquis. (No Hebraico) - ve'eth-maqqêdhâh lâkhadh yehoshua` bayyom hahu' vayyakkehâlephiy- cherebh ve'eth-malkâh hecherim 'othâm ve'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lo' hish'iyr sâriydh vayya`as lemelekh maqqêdhâh ka'asher `âsâhlemelekh yeriycho vayyilkedhuhâ bayyom hahu' vayyakkuhâ.lephiy-cherebh ve'êth kol-hannephesh 'asher-bâh bayyom hahu' hecheriymkekhol 'asher-`âsâh lelâkhiysh ph. (Josué 11:10-11) - E foram golpear toda alma que havia nela com o fio da espada, devotando-as à destruição. Não sobrou absolutamente nada que respirasse, e ele queimou Hazor com fogo. (No Hebraico) - vayyâshâbhyehoshua` bâ`êth hahiy' vayyilkodh 'eth-châtsor ve'eth- malkâh hikkâhbhechârebh kiy-châtsor lephâniym hiy' ro'sh kol-hammamlâkhoth hâ'êlleh vayyakku 'eth-kâl-hannephesh 'asher-bâh lephiy-cherebh hacharêm lo'nothar kol- neshâmâh ve'eth-châtsor sâraph bâ'êsh. (Juízes 16:16) - E sucedeu que, importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a sua alma se angustiou até a morte. (No Hebraico) - vayhiy kiy-hêtsiyqâh lo bhidhbhâreyhâ kol-hayyâmiymvatte'alatsêhu vattiqtsar naphsho lâmuth. (Juízes 16:30) - E Sansão passou a dizer: “Morra a minha alma com os filisteus” Então se encurvou com poder e a casa foi cair sobre os senhores do eixo e sobre todo o povo que havia nela, de modo que os mortos, que entregou à morte ao ele mesmo morrer, vieram a ser mais do que os que entregara à morte durante a sua vida. (No Hebraico) - vayyo'mer shimshon tâmoth naphshiy `im-pelishtiym vayyêthbekhoach vayyippol habbayith `al-hasserâniym ve`al-kâl-hâ`âm 'asher-bo vayyihyu hammêthiym 'asher hêmiyth bemotho rabbiym mê'asherhêmiyth bechayyâyv. (1 Reis 19:4) - E ele mesmo entrou no ermo, sentou-se debaixo de certo zimbro. E começou a pedir que a sua alma morresse a dizer: “Já basta, Senhor, agora tira a minha alma, pois não sou melhor que os meus pais”. (No Hebraico) - vehu'-hâlakh bammidhbâr derekh yom vayyâbho' vayyêshebh tachath rothem'echâth ['echâdh] vayyish'al 'eth-naphsho lâmuth vayyo'mer rabh `attâhAdonay qach naphshiy kiy-lo'-thobh 'ânokhiy mê'abhothây.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 89 Nos Poéticos: (Jó 7:15) - De modo que a minha alma escolhe a sufocação, a morte em vez de meus ossos. (No Hebraico) - vattibhchar machanâq naphshiy mâvethmê`atsmothây. (Jó 11:20) - E falharão os próprios olhos dos iníquos; e perecerá deles o lugar de refúgio, e sua esperança será a expiração da alma. (No Hebraico) - ve`êynêy reshâ`iym tikhleynâhumânos 'âbhadh minhem vethiqvâthâm mappach-nâphesh ph. (Jó 27:8) - Pois, qual é a esperança do ímpio, quando é eliminado, quando Deus lhe tira a alma? (No Hebraico) - kiy mah-tiqvath chânêph kiy yibhtsâ` kiyyêshel 'eloah naphsho. (Jó 33:22) - E sua alma se chega à cova, e sua vida aos que infligem a morte. (No Hebraico) - vattiqrabh lashachath naphsho vechayyâtho lamemithiym. (Jó 36:14) - Sua alma morrerá na própria infância, e sua vida entre os homens que se prostituem no serviço dum templo. (No Hebraico) - tâmoth banno`ar naphshâm vechayyâthâm baqqedhêshiym. (Salmos 22:29) - Todos os gordos da terra comerão e se curvarão; diante dele se dobrarão todos os que descem ao pó, e ninguém jamais preservará viva a sua própria alma. (No Hebraico) – dashen erets akal shachah yarad aphar kara paniym chayah nephesh. (Salmos 49:8,9) - Pois o resgate da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre, para que viva para sempre e não sofra decomposição. (No Hebraico) – âch lo'-phâdhoh yiphdeh 'iyshlo'-yittên lê'lohiym kophro veyêqar pidhyon naphshâmvechâdhalle`olâm. (Salmos 56:13) - Pois tu livraste a minha alma da morte; não livrarás os meus pés da queda, para andar diante de Deus na luz dos viventes? (No Hebraico) – natsal nephesh maveth regel dchiy halak paniym elohiym owr chay. (Salmos 78:50) - Ele passou a preparar uma senda para a sua ira. Não refreou a alma deles da própria morte; e entregou a vida deles à própria pestilência.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 90 (No Hebraico) - yephallês nâthiybh le'appo lo'-châsakhmimmâveth naphshâm vechayyâthâm laddebher hisgiyr. (Salmos 116:8) - Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda. (No Hebraico) - kiy chillatstâ naphshiy mimmâveth'eth-`êyniy min-dim`âh 'eth-raghliy middechiy. Nos Profetas: (Isaías 53:12) - Por isso lhe darei a sua parte com os grandes, e com os fortes ele partilhará os despojos; porque derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores. Contudo levou sobre si os pecados de muitos, e intercedeu pelos transgressores. (No Hebraico) - lâkhên 'achalleq-lo bhârabbiym ve'eth-`atsumiym yechallêq shâlâl tachath'asher he`erâh lammâveth naphsho ve'eth-poshe`iym nimnâh vehu' chêthe'- rabbiym nâsâ' velapposhe`iym yaphgiya` s. (Jeremias 2:34) - Também, nas tuas saias foram achadas as manchas de sangue das almas dos pobres inocentes. Não as encontrei no ato de arrombamento, mas [estão] em todas estas. (No Hebraico) - gambikhnâphayikh nimtse'u dam naphshoth 'ebhyoniym neqiyyiym lo'- bhammachtereth metsâ'thiym kiy `al-kâl-'êlleh. (Jeremias 4:10) - Então disse eu: “Ah, Senhor Deus! Verdadeiramente enganaste grandemente a este povo e a Jerusalém, dizendo: Tereis paz; pois a espada penetra-lhe até à alma”. (No Hebraico) - vâ'omar 'ahâh 'adhonây Adonay.'âkhên hashê' hishê'thâ lâ`âm hazzeh veliyrushâlaim lê'mor shâlomyihyeh lâkhem venâghe`âh cherebh `adh-hannâphesh. (Jeremias 40:14) - E passaram a dizer-lhe: “Acaso não sabes que o próprio Baalis, rei dos filhos de Amom, enviou Ismael, filho de Netanias, para golpear-te a alma?” Mas Gedalias, filho de Aicão, não lhes deu crédito. (No Hebraico) - vayyo'mru 'êlâyv hayâdhoa` têdha` kiy ba`aliysmelekh benêy-`ammon shâlach 'eth-yishmâ`ê'l ben-nethanyâh lehakkothekhanâphesh velo'-he'emiyn lâhem gedhalyâhu ben-'achiyqâm. (Ezequiel 13:19) - E porventura me profanareis para com o meu povo em troca de punhados de cevada e por pedacinhos de pão, para entregardes à morte as almas que não deviam morrer e para preservardes vivas as almas que não deviam viver, pela vossa mentira ao meu povo, os que ouvem a mentira?
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 91 (No Hebraico) - vattechallelnâh 'othiy 'el-`ammiy besha`alêy se`oriymubhiphthothêy lechem lehâmiythnephâshoth 'asher lo'-themuthenâh ulechayyoth nephâshoth 'asher lo'- thichyeynâh bekhazzebhkhem le`ammiy shome`êy khâzâbhs. (Ezequiel 17:17) - E Faraó não o fará eficiente na guerra por meio duma grande força militar e por meio duma congregação numerosa, levantando um aterro de sítio e construindo um muro de sítio, a fim de decepar muitas almas. (No Hebraico) - velo' bhechayil gâdhol ubheqâhâl robh ya`aseh'otho phar`oh bammilchâmâh bishpokh solelâh ubhibhnoth dâyêq lehakhriyth nephâshoth rabboth. (Ezequiel 18:4) - Eis que todas as almas — a mim me pertencem. Como a alma do pai, assim também a alma do filho — a mim me pertencem. A alma que pecar — ela é que morrerá. (No Hebraico) - hên kol-hannephâshoth liy hênnâh kenephesh hâ'âbhukhenephesh habbên liy-hênnâh hannephesh hachothê'th hiy' thâmuth s. (Ezequiel 22:25) - Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas viúvas no meio dela. (No Hebraico) - qesher nebhiy'eyhâ bethokhâh ka'ariy sho'êghthorêph thâreph nephesh 'âkhâlu chosen viyqâr yiqqâchu 'almenotheyhâ hirbubhethokhâh. (Ezequiel 22:27) - Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa, para derramarem sangue, para destruírem as almas, para seguirem a avareza. (No Hebraico) - sâreyhâbheqirbâh kiz'êbhiym thorephêy thâreph lishpâkh-dâm le'abbêdh nephâshothlema`an betsoa` bâtsa. (Ezequiel 33:6) - E no que se refere ao vigia, se ele vir a espada chegar e realmente não tocar a buzina e a espada vier e lhes tirar a alma, terá de ser tirada pelo seu próprio erro, mas o seu sangue exigirei de volta da mão do próprio vigia (No Hebraico) - vehatsopheh kiy-yir'eh 'eth-hacherebh bâ'âh velo'-thâqa`bashophâr vehâ`âm lo'-nizhâr vattâbho' cherebh vattiqqach mêhem nâpheshhu' ba`avono nilqâch vedhâmo miyyadh-hatsopheh 'edhrosh s. Jesus Nos Evangelhos: (Mateus 2:19-20) - E disse: “Levanta-te, toma a criancinha e sua mãe, e vai para a terra de Israel, porque já morreram os que buscavam a alma da criancinha” (No Grego) - teleutêsantos de tou êrôdou idou aggelos kuriou a=phainetai kat onar tsb=phainetai tô iôsêph en aiguptô legôn egertheis paralabe to paidion kai tên mêtera autou kai poreuou eis gên israêl tethnêkasin gar oi zêtountes tên psuchên tou paidiou.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 92 (Mateus 20:28) - Assim como o Filho do homem não veio para que se lhe ministrasse, mas para ministrar e dar a sua alma como resgate em troca de muitos. (No Grego) - ôsper o uios tou anthrôpou ouk êlthen diakonêthênai alla diakonêsai kai dounai tên psuchên autou lutron anti pollôn. (Marcos 3:4) - A seguir, disse-lhes: “É lícito, no sábado, fazer uma boa ação ou fazer uma má ação, salvar ou matar uma alma?” (No Grego) - kai legei autois exestin tois sabbasin a=agathon a=poiêsai tsb=agathopoiêsai ê kakopoiêsai psuchên sôsai ê apokteinai oi de esiôpôn. (Lucas 6:9) - Jesus disse-lhes então: Eu vos pergunto: é lícito, no sábado, fazer o bem ou causar dano, salvar ou destruir uma alma? (No Grego) - eipen a=de tsb=oun o iêsous pros autous a=eperôtô tsb=eperôtêsô umas a=ei tsb=ti exestin a=tô tsb=tois a=sabbatô tsb=sabbasin agathopoiêsai ê kakopoiêsai psuchên sôsai ê b=apokteinai ats=apolesai. (Lucas 17:33) - Todo aquele que buscar manter a sua alma a salvo para si mesmo, perdê- la-á, mas todo aquele que a perder, preservá-la-á viva. (No Grego) - os ean zêtêsê tên psuchên autou a=peripoiêsasthai tsb=sôsai apolesei autên tsb=kai os a=d a=an tsb=ean apolesê tsb=autên zôogonêsei autên. (João 10:11) - Eu sou o pastor excelente; o pastor excelente entrega a sua alma em benefício das ovelhas. (No Grego) - egô eimi o poimên o kalos o poimên o kalos tên psuchên autou tithêsin uper tôn probatôn. (João 12:25) - Quem estiver afeiçoado à sua alma, destruí-la-á, mas quem odiar a sua alma neste mundo, protegê-la-á para a vida eterna. (No Grego) - o philôn tên psuchên autou a=apolluei tsb=apolesei autên kai o misôn tên psuchên autou en tô kosmô toutô eis zôên aiônion phulaxei autên. (João 13:37) - Senhor, por que é que não te posso seguir atualmente? Entregarei a minha alma em benefício de ti! (No Grego) - legei autô ats=o petros kurie ab=dia ab=ti ts=diati ou dunamai soi akolouthêsai arti tên psuchên mou uper sou thêsô. (João 15:13) - Ninguém tem maior amor do que este, que alguém entregue a sua alma a favor de seus amigos. (No Grego) - meizona tautês agapên oudeis echei ina tis tên psuchên autou thê uper tôn philôn autou.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 93 Discípulos e Apóstolos Cristãos no Resto do Novo Testamento: (Atos 3:23) - Deveras, toda alma que não escutar esse Profeta será completamente exterminada dentre o povo. (No Grego) - estai de pasa psuchê êtis ab=ean ts=an mê akousê tou prophêtou ekeinou a=exolethreuthêsetai tsb=exolothreuthêsetai ek tou laou. (Atos 15:25,26) - Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns homens e enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, homens que arriscaram as suas almas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. (No Grego) - edoxen êmin genomenois omothumadon a=eklexamenois tsb=eklexamenous andras pempsai pros umas sun tois agapêtois êmôn barnaba kai paulô anthrôpois a=paradedôkosi tsb=paradedôkosin tas psuchas autôn uper tou onomatos tou kuriou êmôn iêsou christou. (Atos 27:20-22) - E, não aparecendo, havia já muitos dias, nem sol nem estrelas, e caindo sobre nós uma não pequena tempestade, fugiu-nos toda a esperança de nos salvarmos. E, havendo já muito que não se comia, então Paulo, pondo-se em pé no meio deles, disse: Fora, na verdade, razoável, ó senhores, ter-me ouvido a mim e não partir de Creta, e assim evitariam este incômodo e esta perda. Mas agora vos admoesto a que tenhais bom ânimo, porque não se perderá a alma de nenhum de vós, mas somente o navio. (No Grego) - kai abs=ta abs=nun t=tanun parainô umas euthumein apobolê gar psuchês oudemia estai ex umôn plên tou ploiou. (Romanos 11:3) - Mataram os teus profetas, só eu sobrei, e eles estão procurando a minha alma. (No Grego) - kurie tous prophêtas sou apekteinan tsb=kai ta thusiastêria sou kateskapsan kagô upeleiphthên monos kai zêtousin tên psuchên mou. (Hebreus 10:38-39) - Ora, nós não somos dos que retrocedem para a destruição, mas dos que têm fé para preservar viva a alma. (No Grego) - o de dikaios a=mou ek pisteôs zêsetai kai ean uposteilêtai ouk eudokei ê psuchê mou en autô êmeis de ouk esmen upostolês eis apôleian alla pisteôs eis peripoiêsin psuchês. (Tiago 5:20) - Sabei que aquele que fizer um pecador voltar do erro do seu caminho salvará a sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados. (No Grego) - ginôsketô oti o epistrepsas amartôlon ek planês odou autou sôsei psuchên a=autou ek thanatou kai kalupsei plêthos amartiôn. (Apocalipse 12:11) - E eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do seu testemunho, e não amaram as suas almas, nem mesmo ao encararem a morte.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 94 (No Grego) - kai autoi enikêsan auton dia to aima tou arniou kai dia ton logon tês marturias autôn kai ouk êgapêsan tên psuchên autôn achri thanatou. (Apocalipse 16:3) - E o segundo derramou a sua tigela no mar. E este se tornou em sangue como de um morto, e morreu toda alma vivente, [sim,] as coisas no mar. (No Grego) - kai o deuteros tsb=aggelos b=exechee ats=execheen tên phialên autou eis tên thalassan kai egeneto aima ôs nekrou kaipasa psuchê a=zôês tsb=zôsa apethanen a=ta en tê thalassê. (Apocalipse 16:3) - E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e reviveram, e reinaram com Cristo durante mil anos. (No Grego) - kai eidon thronous kai ekathisan ep autous kai krima edothê autois kai tas psuchas tôn pepelekismenôn dia tên marturian iêsou kai dia ton logon tou theou kai oitines ou prosekunêsan a=to tsb=tô a=thêrion tsb=thêriô a=oude tsb=oute tên eikona autou kai ouk. É impressionante a quantidade esmagadora de evidências bíblicas claras e diretas que atestam a mortalidade da alma. Essa doutrina é biblicamente muitíssimo mais óbvia e evidente do que praticamente todas as doutrinas que cremos, incluindo Trindade, divindade de Cristo, forma de batismo, discussões escatológicas, livre arbítrio, soteriologia ou outras discussões semelhantes, em que, na maioria dos casos, temos uma dúzia de versículos bíblicos que são usados para fundamentar determinado ponto de vista da fé cristã, mas quando tratamos da mortalidade da alma existem literalmente centenas e centenas de citações explícitas de que a alma morre, não deixando qualquer sombra de dúvida sobre o tema aos leigos. Infelizmente, embora as evidências sejam esmagadoras e em um mundo normal nenhuma pessoa com a mente aberta negaria a clareza da mortalidade bíblica, isso é muito diferente quando tratamos deste tema com aqueles que já estão pré- condicionados a crerem diferente. V–Conclusão A vista de tudo isso, podemos certamente concluir que, no conc eito bíblico, e não no conceito kardecista, platônico ou pagão que infelizmente acabaram influenciando a nossa cultura, a designação de “corpo”, “alma” e “espírito”, de acordo com as Escrituras, são: CORPO ESPÍRITO ALMA Matéria, pó. O corpo é a alma visível. É sopro de Deus que ele soprou em nós concedendo animação ao corpo formado do pó. É a própria vida presente tanto em homens como nos animais. A pessoa integral como o resultado do pó da terra com o fôlego da vida, isto é, o próprio ser vivo.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 95 O Dr. Samuelle Bacchiocchi definiu bem os princípios bíblicos acerca de corpo, alma e espírito na visão bíblica holista, dizendo que “o corpo, o fôlego de vida, e a alma estão presentes na criação do homem, não como entidades separadas, mas como características da mesma pessoa. O corpo é o homem como um ser concreto; a alma é o homem como um indivíduo vivo; o fôlego de vida ou espírito é o homem tendo sua fonte em Deus”77. Nós não somos uma pessoa com outra pessoa dentro de nós; antes, “corpo, alma e espírito” são três características da mesma pessoa. Entender os conceitos bíblicos acerca de corpo, alma e espírito é de fundamental importância para rejeitarmos a doutrina errônea de “imortalidade da alma”. VI–Sobre os significados secundários para a alma Certamente existem vários sentidos secundários de alma ou espírito, mas, uma vez que o homem “tornou-se” uma alma (e não “obteve” uma), sendo assim alma, e não possuindo uma, e uma vez que o espírito não é a própria alma, não é o nosso próprio “eu”, não é algo com personalidade e consciência, volta o espírito de todos para Deus por ocasião da morte, entre muitos outros fatores que vimos anteriormente, fica claro que o sentido de “alma” como uma entidade imortal/imaterial presa dentro do nosso corpo e libert a por ocasião da morte é perder completamente o sentido primário e legítimo de definições de alma e espírito, por tudo aquilo que vimos acima, para seguir os padrões gregos dualistas de corpo e alma. Os sentidos secundários de alma e espírito jamais podem corromper os seus sentidos primários, pois se assim fosse criaria um dilema teológico de primeira ordem e acarretaria em uma série de contradições bíblicas pelo o que vimos até aqui. Uma vez que o homem não obteve alma nenhuma (mas tornou-se uma) e que a alma morre, qualquer interpretação que defina o corpo como a prisão de uma alma imaterial e imortal levando consigo consciência e personalidade seria falsa. O corpo nunca foi uma prisão da alma. Tais conceitos foram completamente deturpados, primariamente com o dualismo platônico de corpo e alma difundido na Grécia Antiga, e chega aos dias de hoje com ainda mais força despertado pelo espiritismo kardecista com suas concepções dualísticas da natureza humana, conceitos esses que batem de frente com a Palavra de Deus, que nada nos diz sobre Ele ter formado dentro do homem uma alma imortal. Os imortalistas pregam os conceitos espíritas de corpo, alma e espírito, e assim tentam misturar com a Bíblia: o resultado é uma completa e total confusão. Seguem-se treze pontos no quadro a seguir que resumem bem isso: NA TEOLOGIA IMORTALISTA MOTIVO NA BÍBLIA SAGRADA (1) Apenas o espírito dos justos sobe para Deus após a morte Sendo que o espírito seria uma entidade consciente, então o dos justos deveria subir para Deus (cf. O espírito de todas as pessoas – justas ou ímpias – retorna para Deus na morte (cf. Ec.12:7) 77 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 96 Lc.23:46), e o dos ímpios deveria ter um destino diferente descendo para o Hades, que fica nas regiões inferiores desta terra (cf. Mt.11:23; Ef.4:9; Mt.12:40). Contudo... (2) Ao entregar o espírito na morte, Jesus foi para o Pai Sendo que o espírito é a própria pessoa inteligente, então quando Cristo entregou o seu espírito para o Pai (cf. Lc.23:46), seria lógico que Cristo já tivesse subido para o Pai depois da morte. Contudo... Depois de três dias morto, Jesus ainda não havia subido ao Pai (cf. Jo.20:17) (3) Ao entregar o espírito para Deus, Jesus foi para o Paraíso Se Deus está no Paraíso, e Cristo ao morrer entregou o seu espírito ao Pai, então a sua alma lá deveria ter passado os três dias em que esteve morto. Contudo... A alma de Cristo passou os três dias e três noites no coração da terra, no Sheol, nas regiões inferiores da terra, e não no Paraíso (cf. At.2:27; Mt.12:40) (4) O homem obteve uma alma Essa é a base da doutrina imortalista, de que Deus supostamente teria implantado uma alma nos seres humanos. Contudo... O homem tornou-se uma alma (cf. Gn.2:7) (5) Apenas os seres humanos possuem espírito Se o espírito fosse realmente uma entidade consciente e dotada de personalidade em nós implantada, então somente os humanos a possuiriam. Contudo... Os homens e os animais possuem espírito-ruach (cf. Gn.6:17; Gn.7:21,22; Ec.3:19,20; Gn.7:15; Sl.104:29) (6) Existe vida sem sangue Nosso espírito sobrevive em um “estado intermediário” antes da ressurreição quando ganharemos novamente um corpo. Contudo... Não há vida sem sangue; a alma da carne está no sangue (cf. Lv.17:11; Gn.9:4,5) (7) Nós já possuímos a imortalidade Se o nosso “verdadeiro eu”, a nossa alma, fosse eterna, então nós já seríamos detentores da imortalidade, supostamente na forma Nós temos que buscar a imortalidade (cf. Rm.2:7)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 97 de um elemento eterno implantado em nosso ser. Contudo... (8) A alma vai para o Céu ou para o inferno na morte Essa é a base da doutrina imortalista. Contudo... A alma retorna para a cova na morte (cf. Jó 33:18; Is.38:17; Jó 33:22; Sl.94:17; Jó 33:28; Sl.49:8,9; Jó 33:30) (9) A alma é eterna e imortal Apesar de nunca na Bíblia inteira tais termos precederem a palavra “alma”, é assim que os imortalistas acreditam. Contudo... A alma morre (cf. Nm.31:19; Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20; At.3:23; Tg.5:20) (10) O homem já foi criado com a imortalidade Um elemento eterno já teria sido implantado em nós logo na criação do ser humano, concedendo-lhe imortalidade. Contudo... Se o homem comesse da árvore da vida seria imortal (cf. Gn.3:22) (11) Nós já somos revestidos de imortalidade Mediante uma alma eterna em nós implantada, nós já somos revestidos de imortalidade, para desfrutar dela em um “estado intermediário” pré-ressurreição. Contudo... Só alcançaremos a imortalidade quando seremos revestidos dela a partir da ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:51-54) (12) A alma é algo imaterial A base da teologia que divide a natureza humana entre o corpo material e uma “alma imaterial” que possuiríamos presa dentro do corpo. Contudo... A alma é visivelmente presente na forma do corpo, e até mesmo em cadáveres (cf. Lv.19:28; 21:1, 11; 22:4; Nm.5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ag.2:13), pois o corpo é a forma exterior da alma (13) Corpo e alma são dois opostos Sendo o corpo mortal e a alma imortal; o corpo corruptível e a alma incorruptível; o corpo material e a alma imaterial; corpo e alma são antagônicos entre si – dois opostos. Contudo... Corpo e alma são usados intercambiavelmente como paralelismo bíblico (cf. Sl.63:1) Em resumo, os sentidos secundários de espírito e alma devem necessariamente seguir a mesma linha a partir de seu sentido principal e primário, ou, senão, a própria Bíblia seria contraditória e confusa consigo mesma. Além disso, poderíamos sempre dar a
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 98 qualquer palavra bíblica o significado que bem quiséssemos ao nosso bel prazer. A exegese seria inútil, a hermenêutica ficaria amputada. Quem se importaria com o que alma significa primariamente ou sem seu devido contexto, se cada um pode dar a ela o sentido que bem quiser na passagem que bem entender? Alma, como vimos, possui o significado primário de um ser vivo, o “todo” do ser humano, cujas características são: • Corruptível (emagrece, sente sede, chora, desce à cova da corrupção na morte) • Mortal (a morte do corpo é a morte da alma) • Material (visível na forma do corpo) • Algo que somos (e não algo que detemos) Diante dos sentidos primários para alma presentes na própria narração da natureza humana em Gênesis 2:7 e também ao longo de toda a Escritura, os sentidos secundários jamais podem contrariar os sentidos primários, como se pudesse significar ao mesmo tempo: • Incorruptível • Imortal • Imaterial • Algo que obtemos Isso seria o mesmo que dizer que os significados secundários de uma palavra corrompem, substituem ou contradizem seus significados primários, o que evidentemente nada mais é senão aleijar a exegese. Podemos dar a palavra significados secundários de acordo com cada situação? Sim, podemos. Mas este significado é dado ao nosso bel prazer? Não. Pode entrar em contradição com seus significados primários? Nunca! Muito pelo contrário: são exatamente os significados primários de um determinado termo bíblico que dão significados secundários a esta mesma palavra. Por exemplo, sabemos que alma é, primariamente, o ser integral, o ser vivo. Por isso, não seria errado dizer que a alma é a própria vida, uma vez sendo que pela junção do corpo com o espírito a própria vida se formou, teve início, como consequência da junção daqueles dois elementos. Por isso, nesse sentido, “alma” significa “vida”. Note que este sentido está correto e plausível diante do significado primário da palavra e da descrição bíblica segundo Gênesis 2:7. Não é um significado arbitrário, não contradiz em primeira mão o fato de que o homem não obteve uma alma mas se tornou uma, não entra em contradição com nenhum dos fatos apresentados neste estudo. Por isso, o imortalista que alega que em Gênesis 2:7 o homem realmente é uma alma mas que em outras situações o homem não mais é uma alma mas possui uma, está entrando em sérias contradições com a Escritura. É o mesmo que afirmar que o significado secundário da palavra é o mais correto e que toma o lugar do significado primário, que um significado secundário pode entrar em contradição com o significado primário e que o homem ao mesmo tempo é uma alma e possui uma alma, o que é totalmente contraditório. Uma coisa é compreender que biblicamente o homem é uma alma e a partir deste conceito primário ir descobrindo sentidos secundários que tem como base este sentido primário real, outra coisa inteiramente distinta é concordar com isso mas ao mesmo tempo formular sentidos secundários que em nada tem a ver com o sentido primário e que ainda o contradiz!
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 99 Em outras palavras, se o homem é holista (como aqui ficou provado que é), então dentro desta linha holista devemos procurar os sentidos secundários, pois o homem não pode ser holista e dualista ao mesmo tempo; ou seja, a alma não pode ser mortal em um lugar e imortal em outro. Ou a alma é mortal ou é imortal. Como vimos, há um arsenal bíblico insuperável de citações Escriturísticas que revelam expressamente que a alma morre; portanto, não há lugar para o dualismo na Bíblia, nem mesmo em sentidos secundários. O fato da natureza humana ser holista elimina qualquer sentido secundário dualista para a alma. Quando você vê uma pessoa, você está vendo uma alma, que morre. Uma alma vivente é simplesmente um ser vivo, mortal, que só atinge o patamar de imortalidade a partir da realidade da ressurreição (cf. 1Co.15:51-54), somente no último dia. O corpo é a alma visível. Por isso, é errado dizer que “você é um espírito que possui uma alma”. É o espírito chamado de homem por si mesmo? Não, mas é chamado de “espírito do homem”. Sendo assim, você não é um espírito que possui uma alma, mas é um ser vivo (alma vivente) que é constituído de um organismo físico (corpo) com todas as suas funções, junto à força vital (fôlego de vida) que dá vida ao corpo durante a sua jornada terrestre. Não existe nenhum segmento imaterial, ou imortal, que leve consigo consciência e personalidade, que Deus tenha implantado no ser humano. É digno de nota que sempre a Bíblia afirma que é o espírito [princípio animador da vida] que volta para Deus por ocasião da morte (cf. At.7:59; Lc.23:46; Ec.12:7), tanto de just os como de ímpios (cf. Ec.12:7), sendo que nunca é nos dito que a alma volta para Deus ou desce para o inferno. Salomão nos escreve que o espírito volta para Deus (cf. Ec.12:7); Estêvão entregou o espírito para Deus na morte (cf. At.7:59), do mesmo modo Jesus entregou o espírito na morte (Lc.23:46). Por que nunca em parte alguma da Bíblia há sequer qualquer menção da alma voltando para Deus ou sendo entregue nas suas mãos após a morte? A razão para isso é simples: o que retorna a Deus não é uma alma imortal, mas simplesmente o princípio animador da vida concedido por Deus tanto aos seres humanos quanto aos animais pela duração de sua existência terrena. O fôlego de vida [espírito] é nos concedido como “empréstimo” a fim de animar um ser inanimado (pó). Quando, porém, esse espírito deixa de dar animação ao corpo (que volta a ser pó), Deus recebe de volta para ele aquilo que já era dele mesmo. Por isso, o espírito de toda a carne volta para Deus, que é quem o deu (cf. Ec.12:7). O ser racional simplesmente deixa de existir – volta a ser pó: morre. Como disse o Dr. Bacchiocchi: “Enquanto permanecer o ‘sopro de vida’ [espírito], os seres humanos são ‘almas viventes’. Quando, porém, o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia frequentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lev. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ageu 2:13)”78 Na ressurreição, Deus sopra novamente em nossas narinas o fôlego de vida que retorna a Ele, o nosso corpo é ressuscitado glorificado, e nos tornamos novamente em almas viventes. Quanto ao fator ressurreição, veremos mais sobre isso nos próximos capítulos. A pergunta, no entanto, que quisemos responder neste ponto é: onde no relato da criação 78 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 100 Deus aparece implantando uma alma imortal no homem? Exatamente... em lugar nenhum. Quando analisamos a criação da natureza humana, vemos como fica absurdamente claro que nós não fomos dotados de uma alma imortal cativa dentro de nós. Assim como Deus soprou o fôlego de vida em nossas narinas (cf. Gn.2:7), ele soprou nos animais também (cf. Ec.3:21; Gn.7:15). E exatamente a mesma expressão “alma vivente” empregada aos seres humanos também foi empregada aos animais. Em Gênesis 2:19, Adão foi convidado para o nome de cada “alma [nephesh] vivente”. O que aconteceu no relato da criação dos seres humanos foi exatamente o mesmo que aconteceu com os animais. A nossa diferença é que fomos criados a imagem e semelhança de Deus, sem, contudo, sermos compostos da mesma substância, como Deus. Deus é espírito, Deus é imortal; Ele possui auto-inerência à vida eterna. O homem, por outro lado, foi formado a partir dos elementos da terra como um material inerte, o cadáver físico de matéria orgânica no chão - até que Deus soprou nele o fôlego da vida. Ao ponto que o homem passou a ser alma vivente. O argumento mais inútil já utilizado pelos defensores da tese de que o homem é matéria e possui em si mesmo uma substância imaterial é dizer que pelo fato do homem ser formado a imagem e semelhança de Deus lhe dá o direito de ser como Deus, imortal. Isso é um completo disparate. Por essa mesma linha de raciocínio, poderíamos presumivelmente pressupor que o homem deveria também ser onisciente, onipresente e onipotente – porque Deus é! É óbvio que nem onipresença, nem onisciência, nem tampouco onipotência ou imortalidade é possuído por outro a não ser o próprio Deus vivo, que é “o único que possui a imortalidade” (cf. 1Tm.6:16). Dizer que o homem é eterno não é o colocar no mesmo patamar de Deus, mas também fazer dele próprio deus. Ele contaria com um poder divino inerente dentro dele mesmo e possuiria aquilo que somente Deus possui (cf. 1Tm.6:16). Tal visão é ferrenhamente contrária ao que a Bíblia nos mostra, afinal, “que é o homem mortal para que te lembres dele?” (cf. Sl.8:4). Nada além de substância materiais que perecem na morte, sendo milagrosamente recriado pelo fator ressurreição. O ser humano é um ser distinto de Deus: Deus é eterno, o homem é finito; Deus é imortal, o homem é mortal; Deus não tem começo e nem fim, o homem naturalmente tem um começo e um fim temporal. Mas Deus, pela Sua infinita graça e misericórdia, trouxe-nos “a ressurreição e a vida” (cf. Jo.11:25) por meio de Jesus Cristo, pelo que nós poderemos desfrutar da imortalidade condicional a partir deste prorrogamento de vida que é a ressurreição dentre os mortos na segunda vinda de Cristo. Bacchiocchi ainda acrescenta: “Nada na Escritura sugere que o homem transmite a imagem de Deus por possuir atributos divinos, como a imortalidade. Não existem razões válidas para isolar a imortalidade como o único atributo divino que se tenciona expressar pela frase ‘imagem de Deus’”79 A “alma” é algo que somos, não é algo que nós temos. Na ressurreição, seremos dotados de imortalidade e incorruptibilidade (cf. 1Co.15:54,55). Enquanto isso, os seres humanos são 79 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 101 criaturas de pó: “Defendes o órfão e o oprimido, a fim de que o homem, que é pó, já não cause terror” (cf. Sl.10:18); “Com o suor do teu rosto comerás pão, até que voltes a terra, porque dela foste tirado; pois és pó e ao pó tornarás" (cf. Gn.3:19). Abraão respondeu e disse: "Eis que agora eu me comprometi a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (cf. Gn 18:27). A nossa estrutura é puramente o pó: “Pois ele conhece a nossa estrutura, ele lembra que somos pó” (cf. Sl.103:14). É interessante notar que, enquanto o dualismo e tricotomismo afirmam que nós somos espírito (que por definição seria algo imortal e imaterial), a Bíblia declara que nós somos pó (que por definição não é nada senão algo corruptível e fadado à inexistência). Infelizmente, muitas pessoas hoje em dia preferem seguir doutrinas de homens famosos que guiam ao erro do que se apegar ao que é simples e claro através da Escritura Sagrada. O Salmo 104 retrata muito bem o processo que ocorre com o ser humano. Não é algo complexo, pelo contrário, completamente simples. Na criação: “Quando sopras o teu fôlego, eles são criados” (v.30); e na morte: “Quando escondes o teu rosto, entram em pânico; quando lhe retiras o fôlego, morrem e voltam ao pó” (v.29). Deus não formou o homem a partir de alguma substância espiritual divina, mas sim exatamente do pó da terra (cf. Gn.2:7). Concluindo, nós não temos uma alma imortal em nosso ser, o nosso “verdadeiro eu” não tem destinos diferentes após a morte, senão ao pó. Nós não temos alma, somos "almas viventes" [nephesh] (cf. Gn.2:7), assim como os animais. Claro, não demorou muito para que Satanás aparecesse em cena contrariando o aviso de Deus sobre o pecado e suas consequências mortais. Tentando Eva com o fruto proibido, ele disse: "você certamente não morrerá...” (cf. Gn.3:4). Em certo sentido, os conceitos modernos de alma imortal e reencarnação visam transmitir a mesma ideia, de que o homem é inerentemente imortal, que ele realmente não vai morrer. Ezequiel disse exatamente o oposto: "... A alma que pecar, essa morrerá" (cf. Ez.18:4,20). Como bem colocou o teólogo luterano Oscar Cullmann: “A doutrina grega da imortalidade e a esperança cristã na ressurreição diferem tão radicalmente porque o pensamento grego tem uma interpretação completamente diferente da criação. A interpretação judaica e cristã da criação exclui todo o dualismo grego de corpo e alma”80 A natureza holista do ser humano é tão evidente que todas as tentativas de negar o simplismo bíblico na criação do homem caem em inúmeras contradições e erros de primeira ordem, porque a narração do Gênesis é gritantemente contrária a uma suposta “alma imortal/imaterial” implantada no ser humano. Moisés (autor do Gênesis) não tinha sequer a mínima ideia de dualismo; e, se tal fosse o caso, decerto teria relatado a criação como sendo da seguinte forma: “...Deus formou o homem do pó da terra e incluiu nele um espírito eterno e o homem obteve uma alma imortal” 80 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 102 Apesar de isso parecer ser uma piada diante do que realmente está na Bíblia (e uma piada de mau gosto), incrivelmente é deste modo que os imortalistas imaginam, e empreendem todos os seus malabarismos “exegéticos” para tentar forçar o texto ao máximo a fim de passar tal ideia falsa e completamente distorcida do que o texto bíblico diz. Provavelmente seria assim que Moisés teria escrito caso imaginasse que o homem possui uma alma imortal diferentemente dos animais. É óbvio que isso não aparece em lugar nenhum da Bíblia, porque o simplismo bíblico exclui qualquer tentativa de dualismo entre corpo e alma. Deus soprou o fôlego para dar animação ao corpo formado do pó, e assim o homem tornou-se uma alma vivente. Não existe nada, absolutamente nada mesmo, nem sequer alguma pista, de alguma alma imortal implantada nos seres humanos. Os dualistas tentam achar a tal da “alma imortal” onde não existe, e isso acaba acarretando em uma série de contradições sérias como vimos acima. Não é a toa que o Dicionário e Enciclopédia Bíblica Online, a mais completa enciclopédia bíblica em Língua Portuguesa, que por vezes apresenta tendências dualistas, mesmo assim declara no tema de imortalidade da alma: “Nos autores não cristãos, Heródoto, historiador grego que viveu alguns séculos antes de Cristo, diz-nos que os egípcios foram os primeiros que ensinaram a imortalidade da alma humana. Logo depois Platão ensinou ao mundo grego a mesma verdade, dizendo ter aprendido essa doutrina de outro filósofo, chamado Pitágoras. Platão baseou uma boa porção dos seus ensinamentos morais nesta grandiosa crença, o ser bom ou o ser mau é que determina o futuro da alma, sendo pitorescamente descritos os tormentos dos maus, e a felicidade dos bons. Na Sagrada Escritura, ‘E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente.’ (Gn 2.7). A alma é a combinação do corpo e do fôlego de vida, quer dizer, sem corpo não há alma e sem fôlego de vida também não há alma. O fôlego de vida é a mesma coisa que espírito (Jó 27:3). Quanto à vida futura, a Escritura claramente nos ensina que o corpo volta a ser pó e o espírito, ou fôlego de vida, volta para Deus. 'Eis que todas as almas são minhas; como o é a alma do pai, assim também a alma do filho é minha: a alma que pecar, essa morrerá.' Ezequiel 18:4. Nós aspiramos possuir a imortalidade. A Bíblia usa a palavra alma 1600 vezes, mas nunca usa a expressão: 'alma imortal'. Receberemos a imort alidade quando Jesus voltar (1Tim 6:16 e Rom 2:7)"81 81 Disponível em: <http://dicionariobiblico.elosdejesus.com.br/imortalidade-da-alma/2520>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 103 CAPÍTULO 4 – A CRENÇA DA IMORTALIDADE DA ALMA NO ANTIGO TESTAMENTO I –Introdução ao Capítulo Da primeira a última página da Bíblia, a doutrina da imortalidade da alma não resiste a um exame apurado das Escrituras. Já começando com o Antigo Testamento. Um exame das páginas do AT nos faz perceber que os escritores inspirados não tinham a mínima noção de uma existência consciente imediatamente após a morte. As evidências são tão fortes que as explicações dos imortalistas quanto ao AT muitas vezes chegam a negar que os escritores sabiam mesmo do que estavam falando: “eles não tinham tanto conhecimento” – dizem eles. Outros apelam com explicações que deixam a desejar e muito, e, ainda outros, simplesmente deixam sem explicação mesmo – o que vale na verdade é só o Novo Testamento! Sim, o NT certamente que vale também como regra de fé e doutrina, mas o AT jamais pode ser esquecido, porque “toda a Escritura é divinamente inspirada” (cf. 2Tm.3:16), e as Escrituras que os apóstolos tinham disponíveis a seu tempo eram exatamente os escritos do AT que negavam a vida após a morte em um estado intermediário. Toda Escritura é divinamente inspirada. O Espírito Santo que inspirou as páginas do Antigo Testamento é o mesmo Espírito que dirigiu as páginas do Novo. Ou os dois testamentos pregam a vida pós-morte antes da ressurreição do último dia, ou nenhum dos dois pregam! A fortíssima luz das evidências nos deixa claramente a segunda opção como a única via. Na verdade, ambos não se contradizem – um confirma o outro. O fato é que ambos derrubam a imortalidade da alma, tanto o Novo como o Velho. Começaremos com as definições de ambos os grupos e em seguida passaremos a ver os ensinamentos veterotestamentários com relação à vida após a morte. Nos próximos capítulos, o foco será centralizado no estado entre a morte e a ressurreição que os seres humanos passam, para, no fim, passarmos aos acontecimentos finais. Holismo – Na visão bíblica holista da natureza humana, o homem na morte está inconsciente, lit. morto (i.e, sem vida). Não existe nenhuma forma de vida incorpórea e consciente entre a morte e a ressurreição, pois a morte implica na cessação total de vida para qualquer ser humano. Este estado entre a morte e a ressurreição é o que a Bíblia caracteriza como um estado de “sono” (cf. Sl.13:3; Jo.11:11), uma metáfora adequada para o estado inconsciente do ser racional na morte. O despertar da ressurreição na volta de Cristo traz novamente a vida aos que nEle dormiram, revivendo e sendo julgados para a vida ou para a condenação. Tal ensinamento é amplamente fundamentado pela Escritura Sagrada, como veremos ao longo de todo este estudo. A ressurreição dos mortos implica em dar a vida a alguém que está sem vida, e não em um processo de religação de corpo com alma, pois tal suposição é estranha à luz das Escrituras. A morte do corpo implica na morte da alma, uma vez que o corpo é a alma visível.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 104 Dualismo – Para os defensores da doutrina da imortalidade da alma, o corpo é uma prisão da alma, que é liberta por ocasião da morte, indo direto ao Céu ou ao inferno (algumas vertentes pregam também o purgatório, limbo, e outros “compartimentos”), e lá esperam até a ressurreição dos mortos, quando as suas almas imortais se religam novamente ao corpo. Defendem esta tese baseando-se em algumas passagens bíblicas isoladas entre si, as quais analisaremos amplamente ao longo deste estudo. Para eles, existe existência de vida entre a morte e a ressurreição em um estado incorpóreo, e a maior parte dos defensores desta doutrina acredita que os mortos já foram julgados, baseando este ensinamento em Hebreus 9:27, mas tem grande dificuldade em explicar outros textos que refutam absolutamente isso (ex: At.17:41; 1Pe.4:5; 2Tm.4:1). As amplas referências bíblicas ao “sono” para os mortos se referem em sua totalidade somente ao corpo, e não à alma. A alma, imaterial e imortal por natureza, jamais pode morrer. II–Moisés, Jó e a Imortalidade da Alma Segundo reza a tradição, o autor de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio teria sido Moisés, o que também é confirmado biblicamente (cf. Lc .24:44; 2Cr.25:4). Estes livros são muito importantes, pois relatam fatos como a criação do homem, bem como a sua natureza humana. Em termos simples, se existisse uma alma imortal, aí estaria uma ótima oportunidade de mencionar tal fato tão importante no t ocante a natureza do homem. Mas nada de imortalidade é mencionado nos cinco livros de Moisés. No relato acerca da criação do ser humano bem como a sua natureza, ela é apresentada de maneira holista, e não dualista (cf. Gênesis 2:7 – ver Capítulo 3). Vimos neste estudo que o mesmo processo que sucede aos homens sucede também aos animais. Afinal, “o que sucede aos filhos dos homens é mesmo que sucede aos animais, lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo fôlego [espírito - ruach], e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Ec.3:19,20). É comum a Bíblia igualar absolutamente os homens com os animais, pelo simples fato de que não existe vantagem nenhuma de um em relação a outro. Ambos são feitos do pó e o único lugar para o qual voltam é para o pó. Disso resulta toda uma infinidade de passagens bíblicas em que o homem é igualado aos animais pelo fato de não possuir nenhuma vantagem sobre eles: “O homem, mesmo que muito importante, não vive para sempre, é como os animais, que perecem” (cf. Sl.49:12). Tais comparações não fariam sentido em caso que nós (ao contrário deles) fôssemos dotados de uma alma imortal que nos diferenciasse deles no quesito pós-morte. Isso seria uma clara vantagem nossa. Deus soprou o fôlego que garante vida aos animais do mesmo modo que soprou aos seres humanos (cf. Ec.3:19,20), ambos possuem “espírito” [ruach] – cf. Gênesis 7:15; Eclesiastes 3:19,20; Salmo 104:29 -, que é o que garante a vida; ambos expiram o ruach na morte (cf. Sl.104:29; Ec.12:7), e a ambos é referido o termo alma- nephesh (cf. Gn.2:7; Gn.1:20). Não foi dado aos seres humanos nenhuma vantagem sobre os animais quando o assunto é o destino pós-morte, e por isso que Salomão os iguala absolutamente quando trata disso (cf. Ec.3:19,20).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 105 O mesmo que sucedeu aos homens sucedeu aos animais, os humanos não têm a vantagem de possuírem uma “alma imortal”! Deus não colocou uma alma no homem. Moisés é bem claro no relato da criação em negar qualquer vestígio de um elemento transcendental que garanta imortalidade incondicional, intrínseca, com consciência e personalidade na morte. No aspecto prático, é óbvio que nos cinco livros de Moisés não existe qualquer menção de vida dentre os mortos em um “estado intermediário”. Pelo contrário, quando Caim mata Abel, o Senhor Deus diz: “O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando” (cf. Gn.4:10). O Abel como pessoa não poderia clamar nada depois da morte porque ele estava passando por aquilo que a Bíblia caracteriza por “inconsciência” (cf. Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17) e por “sono” (cf. Sl.13:3; Sl.25:13; Jó 14:11-12; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15). Por isso, o que clamava não era o próprio Abel, mas sim o sangue dele. Evidentemente é uma personificação e não uma realidade, pois o sangue não tem vida e personalidade em si mesmo. É comum a Bíblia personificar personagens inanimados (ex: Juízes 9:8-15; 2 Reis 14:9; Habacuque 2:11; Lucas 10:40; Mateus 3:9; ver Jó 12:7 e 8; Gênesis 4:10; Apocalipse 10:3). Se Abel estivesse vivo em um “estado intermediário”, Deus teria dito que ele próprio [Abel] que estava clamando. Mas como ele não está, então Deus teve que personificar algo sem vida [o sangue] para exercer a linguagem do “clamor”. Ainda mais importante do que isso é o que relata outro escritor bíblico tão antigo quanto Moisés: Jó. Este homem teve a sua história narrada aproximadamente no ano 2000 a.C. Se no caso de Moisés a natureza dualista do homem é totalmente omitida e rejeitada, no caso de Jó os seus diálogos com seus companheiros (Bildade, Zofar, Eliú e Elifaz) é extremamente produtivo em termos práticos. Nele, Jó comenta: “Porque eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, contudo ainda em minha carne verei a Deus, por mim mesmo, e os meus olhos, e não outros o contemplarão; e por isso os meus rins se consomem no meu interior” (cf. Jó 19:25-27). Até mesmo Jó, há dois mil anos a.C, já sabia que só iria ver a Deus quando por fim o Redentor (figura de Cristo) se levantasse sobre a terra, e não antes disso! Jó também é o mesmo que diz: “Mas, morto o homem, e, consumido; sim rendendo o homem o espírito, então onde está? Como as águas se evaporam de um lago, e o rio se esgota e seca; até que não haja mais céus, não acordará nem despertará de seu sono” (cf. Jó 14:10-12). Jó sequer imaginava que ao morrer estaria na presença imediata de Deus, por isso revela que teria que esperar até que “não houvesse mais céus”, pois só neste momento veria a Deus (cf. Jó 19:25-27), sendo despertado de seu estado caracterizado de “sono” (cf. Jó 14:12). Para Jó, a morte não seria um passaporte para estar imediatamente com Deus, porque ele fala claramente de esperar até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11) e até ser “substituído” (cf. Jó 14:14). A esperança de Jó, assim como a de todos os cristãos, é na ressurreição do último dia, e não na partida da alma na morte! E, como se isso não fosse suficientemente claro, Jó continua a dizer: “Morrendo o homem tornará a viver? Todos os dias da minha vida esperaria, até que viesse a minha mudança. Chamar-me-ias, e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 106 eu te responderia...” (cf. Jó 14:14, 15). Jó sabia muito bem que, “morrendo... morreria” (cf. Gn.2:7). Mas ele tinha a esperança de ver a Deus no tempo do fim, e somente no tempo do fim, quando o seu Redentor se levantaria sobre a terra. Este é o momento da ressurreição do último dia (cf. Jo.6:39,40), que o Novo Testamento relaciona à segunda vinda de Cristo (ver 1Co.15:22,23). É só neste momento que veremos a Deus. Jó definitivamente não cria numa natureza dualista do ser humano. Isso explica o porquê de ele dizer que “o único lar pelo qual espero é a sepultura” (cf. Jó 17:13), porque ele não cria que o ser humano fosse um ser dividido em corpo e alma, cada qual com destinos diferentes após a morte. Se assim fosse, a sepultura não seria o seu único destino, mas o destino apenas do corpo, uma vez sendo que o ser racional dele (que seria a alma) já estaria assegurada entre os salvos em alguma espécie de Paraíso, o que é claramente rejeitado por ele que cria que o seu único destino era o túmulo. Jó também sabia que, caso morresse (cf. Jó 3:11), não iria imediatamente para junto de Deus, mas estaria permanecendo em “repouso” (cf. Jó 3:13,17; 14:10-12), no mesmo lugar onde encontra-se os justos com os ímpios (cf. Jó 3:17-19), sendo que já não se ouvem mais gritos (cf. Jó 3:18) e todos estão em sossego (cf. Jó 3:18), algo impossível para alguém que está em um lugar ouvindo os gritos de espíritos que estão em meio às chamas: “Ali os ímpios já não se agitam, e ali os cansados permanecem em repouso; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos. Os simples e os poderosos ali estão, e o escravo está livre de seu senhor” (cf. Jó 3:17-19) Jó não tinha a menor visão de vida após a morte onde justos e ímpios teriam destinos distintos no pós-vida, mas sim de um lugar onde estão “os simples e os poderosos” (v.19), os cansados, os prisioneiros e os homens livres (vs.18-19). A linguagem sobre permanecer em repouso (v.17) mostra claramente que ele não tinha a menor noção dos ímpios sofrendo horrivelmente gritando entre as chamas de um fogo eterno aterrorizante, pois cria que “os ímpios já não se agitam” (v.17), denotando um estado de inatividade. Já “não se ouvem mais gritos” (v.18), o que seria difícil de se esperar caso a descrição fosse das chamas de um fogo infernal. Não há qualquer citação sobre a presença de Deus naquele lugar, nem de anjos, nem de demônios, nem de suplícios, nem de regozijos. Tão somente o simplismo do sono da morte. Tudo isso nos mostra que o local de repouso, inatividade, sem gritos e sem distinção entre justos e ímpios que Jó tinha em mente após a morte não era outro senão a sepultura. Não havia qualquer visão sensacionalista sobre a vida pós-morte e muito menos uma imaginação aflorada como um “inferno de Dante”. Em meio a tantas evidências claras de que Jó não acreditava na existência de uma suposta “alma imortal” que lhe garantisse sobrevivência após a morte, os dualistas conseguem encontrar uma “brecha” em Jó 26:5, que supostamente “provaria” a sobrevivência da alma em um estado intermediário. Algumas traduções em língua portuguesa vertem da seguinte maneira o verso: “A alma dos mortos treme debaixo das águas com seus habitantes”. Essa tradução, contudo, não é fiel aos manuscritos originais. A palavra usada nos manuscritos originais do hebraico é Há Rephaim, que significa literalmente “os gigantes”, e não “almas”! Tal tradução de “a alma dos mortos” não corresponde ao que o texto original do hebraico diz, pois a referência é aos Rephains e não a “almas”-nephesh. Várias das melhores traduções do mundo vertem o texto da maneira como ele verdadeiramente o é, como a Young’s Literal Translation (que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 107 mantém uma tradução fiel aos manuscritos originais), e traduz: “Os refains são formados debaixo das águas com seus habitantes”. Os Rephains foram gigantes que habitaram na Palestina e outros lugares, mas foram destruídos por outros povos e por fim acabaram por desaparecer. Com o tempo, a expressão passou a significar qualquer ser gigantesco, como as baleias, por exemplo. Jó 26:5 deveria ser melhor traduzido por “os gigantes tremem debaixo das águas com seus habitantes” – uma clara alusão aos grandes animais marinhos, como as baleias. Tal tradução de “as almas dos mortos” nem corresponde aos textos originais e nem faz qualquer tipo de lógica, pois as almas dos mortos não ficam “debaixo da água tremendo”... Vale também ressaltar que para Jó os ímpios não estavam sendo atormentados no dado momento. Se fosse este o caso, então seria imprescindível que isso tivesse sido mencionado em algum lugar no diálogo ou filosofias com os seus amigos, uma vez que eles abordavam bastante o aspecto da outra vida e a vantagem entre justos e ímpios. Contudo, o que lemos é que os maus não estão no inferno, mas estão “reservados”, no túmulo, para o dia do Juízo: “Pois dizeis: Onde está a casa do príncipe, e onde a tenda em que morava o ímpio? Porventura não perguntastes aos viandantes? e não aceitais o seu testemunho, de que o mau é preservado no dia da destruição, e poupado no dia do furor? Quem acusará diante dele o seu caminho? e quem lhe dará o pago do que fez? Ele é levado para a sepultura, e vigiam-lhe o túmulo” (cf. Jó 21:28-32). Também em Jeremias 12:3, lemos que os ímpios estão “reservados... para o dia da matança” (cf. Jr.12:3). A punição não é algo já vigente, mas um acontecimento futuro. Em momento nenhum é dito no livro de Jó que a morte seria um prêmio ou um passaporte para um Paraíso. Pelo contrário, a morte é caracterizada como um inimigo. A situação de Jó era tão decadente que até a morte seria melhor alternativa para ele. Isso porque a morte dos justos era absolutamente igualada a dos ímpios (cf. Jó 21:23-26). Não existia “vantagem” dos bons em detrimento dos maus no sentido de que a alma de todos desceria para a cova com a morte (cf. Jó 33:18,22,28,30). Quando é retirado o espírito do homem, para onde este vai? Para junto de Deus? Para Jó, não exatamente. Retirado o espírito, o homem não vai para junto de Deus, mas volta para o pó da terra (cf. Jó 34:14,15). Não só ele, mas o salmista também declara a mesma realidade: “Quando escondes o rosto, entram em pânico; quando lhes retira o fôlego, morrem e voltam para o pó” (cf. Sl.104:29). E em outra parte: “Quando o espírito deles se vai, eles voltam ao pó, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4). Os hebreus, ao contrário dos gregos, acreditavam em uma natureza humana holista, e não dualista. É mais do que evidente que Jó não acreditava em imortalidade da alma nenhuma. Até por isso, ele afirma: “Porém os olhos dos ímpios desfalecerão, e perecerá o seu refúgio; e a sua esperança será o expirar da alma” (Jó 11:20). Ora, já vimos que o extirpar da alma significa a própria morte desta (cf. Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.22:25,27), com destino à cova (cf. Jó 33:18,22,28,30; Is.38:17; Sl.94:17), sendo que a vida humana sobe para Deus (cf. Ec.12:7). Ora, a coisa mais ridícula que algum defensor da imortalidade da alma ousaria dizer era que a esperança dos ímpios seria o extirpar da alma, pois isso remeteria a um imediato
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 108 lançamento da alma em um lago de fogo eterno completamente atormentador. De jeito nenhum que essa seria a “esperança” deles! O “extirpar da alma” seria o seu maior medo, e não sua esperança. É óbvio que para Jó não existia qualquer existência de vida antes da ressurreição dos mortos, concluindo-se então que logicamente a situação destes ímpios seria aqui na terra ruim ao ponto da morte ser um “alívio”, pois eles deixariam absolutamente de existir, ainda que durante algum tempo, até a ressurreição. É evidente que na própria visão veterotestamentária haverá um dia que Deus determinou para julgar todo o mundo (cf. Ec.11:9), mas este castigo seria proporcional ao que lhes é merecido e não seria antes da ressurreição, pois, se tal se sucedesse, então o extirpar da alma seria a consequência mais agonizante e aterrorizadora que algum ímpio já poderia passar! Isso estaria longe, muito longe de ser uma “esperança”! É muito claro que para Jó não existia tormento para os ímpios logo após a morte, e nem vida antes da ressurreição. Para Jó, o homem é mortal e não imortal (cf. Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2) – “Como pode o mortal ser justo diante de Deus?” (9:2) -, declaração, aliás, que permeia a Bíblia toda com respeito à natureza humana (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12; Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4; Rm.1:23). Existem biblicamente (AT e NT) dezenas de dezenas de menções com relação à natureza humana definindo-a como “mortal”, como o próprio Deus diz em Isaías: “Eu, eu sou aquele que vos consola; quem, pois, és tu, para que temas o homem, que é mortal, ou o filho do homem, que não passa de erva?” (cf. Is.51:12). O homem é um mero ser mortal, não passa de uma simples erva, não possui em si mesmo um segmento transcendental que lhe dê imortalidade. Por isso mesmo, ele não deve ser temido (v.12), pois “não passa de erva” (v.12). Tal analogia feita por Deus seria nula e sem sentido em caso que, ao contrário da simples erva, o “verdadeiro eu” do ser humano fosse imortal, e não mortal como diz o próprio verso. Aqui a comparação do homem com a erva é claramente relacionada ao fato de ele ser mortal. Se o homem tivesse uma alma imortal, então a erva também deveria ter, pois, doutra forma, tal analogia seria oca e sem sentido. Os dois são mortais; nenhum dos dois tem um elemento imortal – por isso, neste sentido o homem não tem nenhuma vantagem sobre a “erva” (cf. Is.51:12), como o próprio Deus afirmou. Ademais, se o “verdadeiro eu” do ser humano fosse imortal, seria bem presumível que também houvessem dezenas de menções a essa parte imortal do homem; contudo, em absolutamente todas as ocasiões em que a natureza humana é colocada em jogo, ela sempre aparece como “mortal”, e nunca como “imortal” (cf. Sl.9:17; Sl.56:4; Is.51:12; Dn.2:10; 1Co.15:54; 2Co.5:4; Rm.1:23; Jó 4:17; Jó 10:5; Jó 9:2). Tal quadro que nos é apresentado mostra-nos claramente que o ser humano não é um ser dualista (parte mortal e parte imortal), mas plenamente mortal. Jó também sabia que, morrendo, já não existiria mais: “Por que não perdoas as minhas ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás, mas eu já não existirei” (cf. Jó.7:21). Se Jó morresse e sua alma imortal fosse levada para junto de Deus, então este “acharia” Jó! De maneira nenhuma que Deus não encontraria Jó após a sua morte como é claramente relatado em 7:21, caso este estivesse com o próprio Deus logo após a morte. Mas a razão pela qual o Deus onipresente não encontraria Jó é que este, morrendo, já não existiria. A mesma verdade é relatada no Salmo 39:13. Não é possível “encontrar” algo que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 109 não mais existe. Nem Moisés com a criação do ser humano, nem Jó na conversa com seus amigos, acreditavam em qualquer imortalidade da alma. Um nega uma natureza dualista do homem, o outro nega um estado intermediário das almas. O fato em comum é que ambos levantam a bandeira contra a imortalidade da alma. III–Os Livros Poéticos São chamados de “Livros Poéticos” aqueles livros que se destacam dos demais do Antigo Testamento pelo gênero devocional de seu conteúdo. São cinco ao todo: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares. Já vimos a evidência de Jó. Veremos agora o testemunho de Eclesiastes. O Testemunho de Eclesiastes - O livro de Eclesiastes certamente que desperta uma grande curiosidade por parte dos leitores. As filosofias do “sábio”, filho de Davi (cf. Ec.1:1), sobre a vida pós-morte, apresenta uma grande recusa da possibilidade de existir vida em um estado intermediário antes da ressurreição. Do início ao fim de Eclesiastes, vemos que Salomão segue um princípio e segue essa linha em seus pensamentos. A lógica presente no livro é que não existe vida após a morte. A partir disso, é comum vermos o autor igualar a morte dos homens com a dos animais, por exemplo: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar; todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó” (cf. Eclesiastes 3:19,20) A razão pela qual os homens não terem vantagem nenhuma sobre os animais é que o destino dos dois é o mesmo após a morte. Nisso fica claro que Salomão não cria em uma natureza dualista do ser humano, com uma alma imortal que o diferenciasse dos animais. Isso implicaria em uma evidente vantagem dos homens sobre os animais! Aliás, já vimos que até aos animais foi designado o mesmo termo “nephesh hayyah” que foi designado aos seres humanos (cf. Gn.2:7; Gn.1:20). Como vimos no capítulo 3 deste estudo, no original hebraico a palavra aqui utilizada por Salomão (cf. 3:19) é ruach-espírito. Os seres humanos possuem o mesmo espírito-ruach dos animais e, por isso, não possuem nenhuma vantagem sobre eles. Isso nos mostra claramente que o nosso espírito-ruach não é uma “alma imortal” ou algo que garanta imortalidade levando consigo consciência e personalidade após a morte, pois, se assim fosse, o espírito-ruach dos humanos seria gritantemente diferenciado do espírito-ruach dos animais, e Salomão não os igualaria. É evidente que em vários aspectos temos vantagens sobre eles; quando, porém, a questão é a natureza e destinos pós-morte, ambos são absolutamente igualados (cf. Ec.3:19): ESPÍRITO DO HOMEM E DOS ANIMAIS DESTINO DO HOMEM E DOS ANIMAIS MATERIAL DO QUAL FORAM FEITOS CONCLUSÃO O mesmo (cf. 3:19) O pó da terra (cf. 3:20) Feitos do pó (cf. 3:20) A vantagem de homens sobre
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 110 animais no quesito de natureza e destinos pós-morte não é nenhuma (cf. 3:19) Seguindo essa linha de raciocínio, Salomão diz também que o destino pós-morte dos tolos é o mesmo do sábios (cf. Ec.2:15), que o sábio morre do mesmo jeito que o tolo (cf. Ec.2:16), que o destino dos justos é o mesmo destino dos ímpios (cf. Ec.2:14), que o destino dos homens é o mesmo dos animais (cf. Ec.3:19), e que todos vão para o mesmo lugar após a morte (cf. Ec.3:20): “E, ainda que vivesse duas vezes mil anos e não gozasse o bem, não vão todos para um mesmo lugar?“ (cf. Ec.6:6); “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento” (cf. Ec.9:2). Salomão não diferenciava o destino dos justos e dos ímpios, tampouco com o dos animais , porque não cria em uma alma imortal deixando o corpo na morte. Ele não acreditava em uma alma imortal que era julgada no momento da morte com destinos diferentes, não existia uma recompensa logo após a morte: o destino de ambos era o mesmo. “Assim que também isto é um grave mal que, justamente como veio, assim há de ir; e que proveito lhe vem de trabalhar para o vento... Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção” (cf. Eclesiastes 5:16,18). Com a realidade da ressurreição dentre os mortos, é comum vermos os escritores do Novo Testamento proferirem que a recompensa será dada a cada um no momento da segunda vinda de Cristo (cf. Mt.16:27; Ap.22:14; 1Pe.5:4; 5; Lc.14:14; 2Tm.4:1), que é quando os mortos serão ressuscitados (cf. 1Co.15:22,23; 1Ts.4:15), para aí entrarem no gozo do Paraíso (cf. Jo.14:2-4; 1Ts.4:15). Salomão não acreditava na vida imediatamente após a morte e não tinha o foco centrado na ressurreição como os escritores do Novo Testamento tinham, razão pela qual, ao invés de escrever focado no momento da ressurreição (como faziam os escritores neotestamentários), escrevia focado naquele estágio imediatamente após a morte, antes da ressurreição, que é um estado sem vida. Mais significativo ainda do que isso são as comparações que Salomão faz: “Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, e os dias dos seus anos forem muitos, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele” (cf. Ec.6:3). Qualquer leitor honesto concluirá que, para Salomão, uma criança abortada é sinal de alguém que perdeu totalmente o dom da vida. Se ela tivesse automaticamente uma vida no Paraíso ou em algum lugar garantida entre os salvos, não valeria tal comparação que Salomão faz neste verso. E ele continua: “Porquanto debalde veio, e em trevas se vai, e de trevas se cobre o seu nome. E ainda que nunca viu o sol, nem conheceu nada, mais descanso tem este do que aquele” (cf. Ec.6:5). A vantagem de um aborto sobre os vivos não baseava-se em possuir automaticamente uma vida eterna com Deus, mas sim decorrente do fato de que “nunca veria o sol”. Salomão realmente acreditava que “os mortos não sabem de nada” (cf.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 111 Ec.9:5)! Entender o pensamento de Salomão é de fundamental importância para compreendermos a revelação no livro de Daniel: “E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2) Outra comparação que Salomão faz é relatada em Eclesiastes 9:4, que diz que um cão vivo vale mais do que um leão morto: “Quem está entre os vivos tem esperança; até um cachorro vivo é melhor do que um leão morto!” (cf. Ec.9:4). É claro que se os mortos estivessem vivos gozando de bem-aventuranças então um leão morto valeria muito mais do que um cão vivo! Como Salomão não acreditava em vida após a morte, então mesmo um “leão”, se estivesse morto, valeria menos até mesmo em relação a um “cão” vivo! Vale ressaltar também que, para Salomão, nós [os que estamos “debaixo do sol”] somos os únicos vivos. Não existem vivos em algum outro lugar. Quem está entre os vivos somos nós, que ainda temos esperança. O verso seguinte também elucida o anterior mostrando o porquê do cão vivo valer mais do que um leão morto: porque os mortos não estão cônscios de coisa alguma: “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento. Também o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol” (cf. Eclesiastes 9:5,6) Aqui Salomão apenas reitera aquela linha de raciocínio que ele já mantém desde o início de seu livro, desta vez de forma ainda mais direta: os mortos não sabem de coisa nenhuma (cf. Ec.9:5), tem a memória entregue ao esquecimento (cf. Ec.9:5), e sentimentos de amor, ódio e inveja já pereceram (cf. Ec.9:6). Como os imortalistas respondem a evidência de Eclesiastes? A maioria afirma que tudo isso se limita ao que acontece “debaixo do sol”. A expressão “debaixo do sol” se refere realmente ao nosso mundo; porém, Salomão a usou porque na mente dele não há a mínima ideia de que os mortos cheguem a outro lugar! Os hebreus não pensavam como os gregos. De fato, Salomão fala muito das coisas que acontecem “debaixo do sol”, como em Eclesiastes 9:6: “Amor, ódio e inveja já pereceram, e já não têm parte alguma para sempre, em coisa alguma do que se faz debaixo do sol” (v.6) Aqui ele diz que as coisas que acontecem debaixo do sol (tais como amor, ódio e inveja) já não são possíveis para os mortos, que não sabem de “coisa nenhuma” (v.5). Ele não está dizendo que os mortos não desfrutam de amor, ódio e inveja debaixo do sol, mas sim que os sentimentos de amor, ódio e inveja não são possíveis aos que já morreram, mas apenas aos que estão debaixo do sol, isto é, aos vivos. As interpretações tendenciosas dos imortalistas em suas tentativas de negarem o óbvio do texto bíblico se mostram completamente fracassadas quando se deparam com uma interpretação de texto simples e ao mesmo tempo precisa. Se, portanto, o sentimento de amor só está presente entre os vivos, ou seja, entre aqueles que estão debaixo do sol, então só nos restam duas alternativas: ou os mortos estão realmente inconscientes, isto é, sem vida; ou, então, eles estão vivos em algum lugar e não
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 112 tem amor por ninguém! Qual é o mais provável? Que o sentimento de amor já não exista entre os mortos ou que ele não exista exatamente porque são os próprios mortos que não estão com vida? Além disso, é extremamente impreciso dizer que Salomão só se preocupava com os vivos, pois ele fala também com relação à vida no além, ele fala do estado dos mortos: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Eclesiastes 9:10) Fica claro que também no além, na “habitação dos mortos”, não existe qualquer atividade ou sabedoria. O original hebraico traz neste verso a palavra “Sheol”, transliterado para Hades no grego do NT. Para os defensores da imortalidade, este lugar é referência a “habitação consciente dos espíritos”. Salomão liquida com isso usando as palavras hebraicas ma`aseh', cheshbown e chokmah, que de acordo com a Concordância de Strong, tais palavras transliteradas demonstram que os mortos: (1) Não tem nenhum conhecimento, obras ou atividade [ma`aseh]82 (2) Não tem inteligência e nem dispositivo de razão [cheshbown]83 (3) Não tem sabedoria, habilidade e nem inteligência [chokmah]84 Evidentemente um estado de completa inconsciência. O Espírito Santo não “inspirou errado” o livro de Eclesiastes, e tentar negar todas as evidências deste livro como prova contra a imortalidade da alma é no mínimo estar com a mente totalmente fechada para o conteúdo geral do livro, é negar todo um raciocínio que o autor mantém desde o princípio de seu livro. Fica claro, diante de todas as evidências, passagens bíblicas, bem como a linha de raciocínio que Salomão segue desde o seu início, que ele não cria de maneira nenhuma em qualquer “alma imortal” que sai do corpo no instante da morte. A visão de Salomão não é única, mas reflete uma regra do AT: não existe a imortalidade da alma. Outro argumento bastante utilizado por alguma parte dos defensores da imortalidade intrínseca com relação ao livro de Eclesiastes é que ele não acreditava que pudesse existir vida em qualquer era futura. Sendo assim, o argumento deles é que, se nos basearmos no livro de Eclesiastes como evidente prova contra o estado intermediário, teríamos que negar também qualquer vida futura – até mesmo por meio de uma ressurreição – porque (segundo eles) Salomão não acreditava em nenhum tipo de vida para nenhuma era. Esse argumento falha em dois pontos principais. Em primeiro lugar, porque seria o mesmo que negar que o Espírito Santo dirigia Salomão em seus ensinamentos. Se o Espírito Santo dirigia os ensinamentos dele e ele conta um “engano”, seria o mesmo que afirmássemos que o Espírito Santo “inspirou errado” e escreveu mentiras e enganações na Bíblia Sagrada, o que é um ultraje contra a divindade. Se, contudo, tomarmos o outro ponto (de que Salomão não estava inspirado), então deveríamos também negar a Bíblia como regra de fé, pois ela não seria considerada “segura” em seus ensinamentos. 82 Léxico da Concordância de Strong, 4639. 83 Léxico da Concordância de Strong, 2808. 84 Léxico da Concordância de Strong, 2451.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 113 Afinal, se Salomão pôde escrever bobagens e ensinar doutrinas erradas e antibíblicas aos seus leitores – e está na Bíblia – quem pode nos garantir que não existam outros vários erros doutrinários presentes nos demais livros que também fazem parte do cânon bíblico? A única maneira de salvaguardar a inspiração das Esc rituras e a infalibilidade (segurança) doutrinária dela é admitindo também a inspiração de Eclesiastes no mesmo nível dos demais livros. Ademais, se Salomão errou ao escrever isso, deveríamos também negar que toda a Escritura (incluindo Eclesiastes, é claro) seja divinamente inspirada, e deste modo estaríamos chamando o apostolo Paulo de mentiroso, pois ele afirmou que “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (cf. 2Tm.3:16), e não apenas parte dela. Aqui vemos que a Escritura é útil não somente para aperfeiçoar o caráter das pessoas (como alguns pensam), mas também como “ensino”, isto é, em questões doutrinárias. Em segundo lugar, é um completo equívoco dizer que Salomão desacreditava completamente que os mortos ressuscitariam um dia. Tão certo como ele desacreditava completamente em que os atuais mortos já estivessem vivos em sua época em algum tipo de “estado intermediário” (cf. Ec.9:5,6; 9:10), também é certo que ele sabia muito bem que Deus haveria de julgar a cada um pelo que fez e lhes conceder uma vida eterna (aos justos). De fato, Salomão fala da "eternidade" no coração humano (cf. Ec.3:11) e de imortalidade quando ele declara que o homem um dia irá "à casa eterna" (cf. 12:5). Ele enfatiza também que devemos temer ao Senhor porque num certo dia "de todas estas coisas Deus nos pedirá contas" (cf. 11:9). A realidade do dia do juízo quando estaremos diante de Deus é reiterada por ele no capítulo seguinte, quando ele conclui o livro dizendo que “Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal” (cf. Ec.12:14). Isso é claramente uma menção ao juízo que acontece na segunda vinda de Cristo. Portanto, a partir de Eclesiastes, podemos perceber o que é abaixo relatado: VIDA TERRENA ESTADO INTERMEDIÁRIO RESSURREIÇÃO (JUÍZO) PARA A VIDA ETERNA A breve vida em que passamos “debaixo do sol” Um estado em que os mortos se encontram atualmente e que Salomão define como “sem inteligência, razão, conhecimento ou sabedoria” (cf. 9:10), e que “os mortos não estão cônscios de coisa alguma” (cf. 9:5), sendo que os sentimentos como “amor, ódio e inveja já pereceram” (cf. 9:6) Um estado de vida em que Salomão acentua que estaremos em “moradas eternas” (cf. 12:5) e que certamente passaremos pelo juízo de Deus que nos julgará por tudo o que fizermos (cf. 11:9; 12:14) Outra prova clara de que o livro de Eclesiastes não contradiz o restante dos ensinamentos bíblicos neotestamentários é o fato de que ele próprio escrevia sabendo que o espírito
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 114 retornava para Deus por ocasião da morte: “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volta a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7). Este ensino não é contrário ao do NT, pelo contrário, corresponde exatamente ao ensino neotestamentário: “Pai ao Senhor entrego o meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46). Note que o que Salomão declara em Eclesiastes é exatamente aquilo que é confirmado pelo NT. Salomão, que sabia muito bem que o espírito subia para Deus, afirmava também categoricamente, neste mesmo livro, que os mortos não estão conscientes de coisa alguma (cf. Ec.9:4,5; 9:10) e que o homem possui o mesmo espírito-ruach dos animais, tendo o mesmo destino que eles tem ao morrerem (cf. Ec.3:19). A palavra usada no original hebraico de Eclesiastes 9:10 é “Sheol”, que para os imortalistas é a morada dos espíritos, que se localiza nas regiões inferiores desta terra (cf. Ef.4:9; Mt.12:40; Mt.11:23). Tanto isso não é verdade que Salomão afirma que o espírito [de todos] sobe para Deus (cf. Ec.12:7), e sabia que neste local não existia nenhum tipo de sabedoria ou conhecimento (cf. Ec.9:10), que os mortos não sabiam de nada (cf. Ec.9:5), e iam todos [justos ou ímpios] para o mesmo lugar após a morte (cf. Ec.3:20). Em outras palavras, Salomão sabia que o espírito subia para Deus, mas também sabia que não tinha parte alguma com alguma “entidade viva e consciente” que nós levamos conosco após a morte. Vemos claramente que Salomão não contraria os ensinos neotestamentários, ao contrário, concorda com eles: ECLESIASTES NOVO TESTAMENTO “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volta a Deus, que o deu” (cf. Ec.12:7) “Pai ao Senhor entrego o meu espírito. E com estas palavras morreu” (cf. Lc.23:46) RESULTADO RESULTADO Mesmo assim os mortos não sabem de nada (cf. 9:5) e não tem amor, ódio ou inveja que já não existem para eles (cf. 9:6), que não tem inteligência, razão, conhecimento ou sabedoria (cf. 9:10) Mesmo assim Jesus não havia subido ao Pai mesmo três dias depois de ter sido ressuscitado (cf. Jo.20:17) Sendo assim, Eclesiastes não representa nenhuma contradição com o restante da Bíblia e podemos chegar à fácil conclusão de que o Espírito Santo não inspirou errado nenhum escritor bíblico. Tal testemunho de Eclesiastes reflete todo o pensamento do Antigo e do Novo Testamento, como veremos mais adiante. Tudo o que Salomão fez, e que comprovamos até aqui, é negar absolutamente qualquer imortalidade da alma em um estado intermediário, pois ele não havia sido influenciado pela filosofia grega de dualismo que viria mais tarde. Embora seja verdade que ele ressaltasse muito mais o período sem vida entre a morte e a ressurreição, também é fato que ele cria que um dia viria o juízo (cf. Ec. 11:9; 12:14) e uma vida eterna (cf. Ec.12:5). Portanto, ele pode ser usado como prova de alguém que cria em vida futura após o juízo, mas não cria na imortalidade da alma, pois não aceitava um estado já consciente dos mortos atuais em algum estado intermediário entre a morte e a ressurreição.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 115 O “espírito” que subia para Deus (cf. Ec.12:7), como já vimos no capítulo 3 deste livro, não era uma alma imortal, mas a própria vida humana de todos os homens, justos ou pecadores. Por isso, alegar em cima desta passagem a “imortalidade da alma” significa negar todo o restante do livro de Eclesiastes que explicitamente nega isso, e também inferir que os ímpios assim como os justos estarão com Deus após a morte, quando apenas os justos deveriam estar com Ele. Afinal, segundo Salomão é o espírito de todos os homens que volta a Deus após a morte, e não apenas o dos justos ou daqueles que merecem o Céu (cf. Ec.12:7). Sendo assim, é correto afirmar que Salomão não via o espírito como sendo uma alma imortal ou alguma entidade incorpórea e consciente que leve consigo personalidade e racionalidade após a morte, motivo pelo qual ele declara que os animais possuem exatamente o mesmo espírito-ruach possuído pelos seres humanos (cf. Ec.3:19) e, por conta do fato de que o espírito presente em ambos serem o mesmo, o destino de ambos após a morte também seria o mesmo: o pó da terra (cf. Ec.3:20). O que nos distingue dos animais no que tange à vida após a morte, tanto para Salomão como também para os demais escritores bíblicos, não é que nós sejamos possuidores de uma alma-nephesh e os animais não, ou que nós sejamos detentores de espírito-ruach e os animais não, mas sim que nós ressuscitaremos do pó, e os animais não. Por isso ele diz em Eclesiastes 3:21 que o nosso espírito volta para Deus (que soprará novamente em nós pela ressurreição, tornando-nos novamente “almas viventes”), mas o dos animais volta à terra (de onde não tem mais volta). O Livro dos Salmos - Outro livro de valor histórico de grande consideração para analisarmos o pensamento do povo do Antigo Testamento na questão relativa à vida pós-morte, é a coletânea de hinos, salmos e corinhos, também entre os Livros Poéticos aos quais denominamos de “Salmos”. Nele, vemos inúmeras considerações import antes que nos fazem confirmar aquele pensamento de Salomão em Eclesiastes, como vimos acima. Dos cento e cinquenta salmos, não vemos nenhuma menção explícita ou mesmo implícita de um estado intermediário ou de uma imortalidade da alma. Ao contrário, vemos constantemente menções bem explícitas de que não existe vida entre a morte e a ressurreição. Uma prova óbvia disso é o fato dos mortos não poderem mais se lembrar de Deus: “Na morte não há lembrança de ti. E no Sheol, quem te louvará?” (cf. Salmos 6:5). A razão pela qual os mortos não se lembrarem de Deus é porque perderam completamente a consciência, porque o processo de pensamento cessa quando o corpo morre. Mesmo no inferno ou em qualquer outro lugar, entre os mortos justos ou ímpios, se houvesse consciência após a morte poderiam recordar-se de quem é Deus. Na verdade, a primeira pessoa na qual eles se lembrariam seria de Deus! É impossível concluirmos que os mortos estão conscientes sem poderem nem ao menos recordar-se de Deus, uma vez que é Deus quem nos julga, é Deus quem manda para o Céu ou para o inferno, é Deus quem tem o domínio sobre o passado, o presente e o futuro das pessoas. Se existisse vida inteligente entre a morte e a ressurreição, então onde fosse que os mortos estivessem (seja no Céu, no inferno, ou em qualquer outro lugar), seriam capazes de se lembrar de Deus! É evidente que os mortos não se lembram mais de Deus porque não tem mais consciência alguma. Veja que o salmista não expressa uma dúvida se os mortos
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 116 lembram ou se não lembram de alguma coisa; pelo contrário, afirma de forma categórica a sua convicção que não é possível haver lembrança na morte. Ou seja, se a alma é mesmo “imortal”, neste caso ela sofre de um grave problema de amnésia. O Salmo 115 também garante de forma clara que os mortos não louvam a Deus (cf. Sl.115:17), e no verso seguinte reitera que quem louva a Deus são os vivos (cf. Sl.115:18). Essa verdade é confirmada em Isaías 38:19, que diz que “os vivos, e somente os vivos, que te louvam, como eu te louvo agora”. Na morte não existe mais nenhum louvor a Deus (cf. Sl.6:5; Sl.115:17). Nenhum salmista ou qualquer escritor fez distinção entre os mortos justos ou ímpios – somente os vivos é que louvam a Deus! Ponderamos: caso os salmistas soubessem que a alma dos mortos está consciente, insistiriam tanto em dizer que na morte não é possível louvar a Deus? É evidente que não, pois quem já estivesse no Paraíso, em um lugar de alegria, ou em algum lugar assegurado entre os salvos, poderia perfeitamente louvar a Deus. Afinal, “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus o Pai” (cf. Fp.2:10,11). É evidente que os mortos não louvam a Deus e quem louva é somente os vivos em decorrência da inconsciência pós-morte que determina a impossibilidade de se louvar a Deus entre os que morreram (cf. Sl.6:5). Isso porque eles não estariam vivos em algum lugar, mas sem vida, no pó da terra: “Que proveito obterás no meu sangue, quando baixo à cova? Louvar-te-á, porventura, o pó? Declarará ele a tua verdade?” (cf. Sl.30:9). Aqui novamente o salmista reitera a sua posição de negação à existência de vida entre os mortos. Se ele morresse, nada mais poderia dar de proveito para Deus. A razão disso? Viraria pó: “Louvar-te-á, porventura, o pó”? Claramente o salmista diz que o lugar para onde todas as pessoas vão após a morte não é o Céu ou o inferno com as suas almas imortais, mas o pó da terra. Ao comparar a morte com o pó, o salmista claramente mostra que não há consciência na morte, porque o pó não pode pensar. Por isso mesmo, não seria de proveito nenhum para Deus, e nem ao menos poderia louvá-lo depois da morte (cf. Sl.30:9). Como se isso não fosse suficientemente claro, o Salmo 146 confirma novamente a crença na inconsciência pós-morte, ao afirmar que os mortos não pensam: “Quando eles morrem, voltam para o pó da terra, e naquele dia perecem os seus pensamentos” (cf. Sl.146:4). Sendo que na morte os pensamentos perecem, é evidente que não há alma consciente que sobreviva a parte do corpo em um estado desencarnado. Se o processo de pensamento que os próprios imortalistas atribuem como função da alma sobrevivesse à morte do corpo, então os pensamentos dos que morressem continuaria, e não pereceria! No momento da morte os pensamentos perecem porque a pessoa simplesmente deixa de existir e passa à inconsciência que a Bíblia caracteriza de “sono” relativo ao estado dos mortos (cf. Sl.13:3). Os mortos não mais pensam. Alegar que essa passagem diz respeito somente ao corpo é se mostrar extremamente arbitrário e desonesto consigo mesmo, visto que os próprios imortalistas atribuem o processo de pensamento como função da alma, e, portanto, na morte os pensamentos não “pereceriam”, mas continuariam existindo à parte do corpo, a não ser que a alma realmente morra, como já constatamos aqui. Portanto, a não ser que os imortalistas refaçam toda a sua teologia e digam que a sede dos pensamentos não é mais atribuição da alma mas somente do corpo e a alma não tem qualquer ligação com isso, eles terão que admitir a morte da alma com o fim dos
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 117 pensamentos. Se você quiser testar a honestidade intelectual de determinado defensor da imortalidade da alma, basta mostrar esse verso bíblico a ele. O tempo todo eles dizem que a sede dos pensamentos é associada à alma, mas quando chegamos a uma passagem bíblica que explicitamente diz que estes pensamentos perecem após a morte, aí não é mais a alma não, é o corpo somente! Ademais, vemos biblicamente que os que já morreram estão numa “terra de silêncio”, e não de gritarias características do inferno ou de algum lugar de tormento, ou de altos louvores e regozijos característicos do Paraíso: “Os mortos, que descem a terra do silêncio, não louvam a Deus, o Senhor” (cf. Sl.115:17). Que nítido contraste com a visão popular “barulhenta” da vida após a morte, na qual os salvos louvam a Deus no Paraíso e os não- salvos gritam desesperadamente no inferno! É evidente que a terra de silêncio na qual não é possível mais louvar-se a Deus diz respeito à sepultura e não a alguma “habitação dos espíritos”. A tentativa imortalista em afirmar que essa passagem também diz respeito somente ao corpo e não à alma também é um completo fracasso, visto que o mesmo salmista afirma taxativamente que é a alma que habitaria neste local de silêncio: “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar de silêncio” (cf. Salmos 94:17) É a alma que vai para o lugar de silêncio, não meramente um corpo morto. O local de silêncio não é o Céu ou o inferno, mas puramente sepultura para onde a alma, o ser integral do salmista, partira na morte. Mais uma vez vemos que as interpretações tendenciosas que os imortalistas são forçados a adotarem para salvarem a crença deles numa “alma imortal”, dizendo que as referências dizem respeito apenas ao corpo e não à alma, fracassam miseravelmente por uma exegese simples e por passagens bíblicas onde os próprios escritores inspirados deixavam nítido e evidente que essa inconsciência se trata da alma, e não apenas do corpo. Os salmistas sabiam que os mortos não veem mais a luz: “Irá para a geração de seus pais; eles nunca verão a luz” (cf. Sl.49:19). Se os mortos estivessem vivos no Céu, no inferno, no Sheol, ou onde quer que fosse, eles poderiam ver a luz como resultado e consequência da visão. Contudo, não mais veem a luz porque eles já não estão cônscios de coisa alguma. O salmista esperava ver Deus, mas não quando ele morresse e a sua alma imortal partisse para o Céu, mas sim quando ele “despertasse”, na ressurreição: “Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar, ficarei satisfeito em ver a tua semelhança” (cf. Salmos 17:15) O salmista só esperava ver a face de Deus quando “despertasse”, e não quando morresse. O “despertar” diz respeito à ressurreição dos mortos do último dia, quando “muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Dn.12:2). Sendo que é só nesse “despertar” que o salmista veria a Deus, então é óbvio que ele não o estaria vendo antes disso. Ele expressa nitidamente a sua convicção de que o momento de ver a Deus seria somente na ressurreição. Onde ele estaria agora, então? Dormindo o sono da morte: “Ilumina-me os olhos, para que eu não durma o sono da morte” (cf. Sl.13:3). É digno de nota que o salmista esperava ver a Deus quando ele “despertasse” (uma clara figura da ressurreição – cf. Dn.12:2), ele não tinha a mínima ideia de que estaria
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 118 imediatamente com Deus depois da morte por meio de uma alma imortal, por isso relata que o momento em que veria a face de Deus é na ressurreição – quando despertasse! É mais do que claro que nenhum dos salmistas acreditava na vida consciente após a morte em um estado intermediário dos mortos. Isso fica ainda mais evidente ao vermos que o salmista usou neste verso a palavra hebraica “quwts”, que significa exatamente: “ser arrancado do sono; despertar; surgir”. É uma claríssima referência à ressurreição, e prova disso é que exatamente esta mesma palavra é utilizada por Daniel para falar do dia em que os mortos hão de ressurgir: “E muitos dos que dormem no pó da terra despertarão [quwts], uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2) Também em Isaías 26:19 essa mesma palavra é usada como clara referência à ressurreição dos mortos: “Que os vossos mortos revivam! Que seus cadáveres ressuscitem [quwts]!” (cf. Isaías 26:19) Agora voltando para o Salmo 17:15 – “Mas eu, confiado na vossa justiça, contemplarei a vossa face; ao despertar [quwts], saciar-me-ei com a visão de vosso ser”. Não poderia haver linguagem mais clara e lúcida do que essa a fim de denotar que só veremos a Deus na ressurreição, e não antes disso. É no despertar-quwts da ressurreição que veremos a Deus, e não na morte-moth/tâmuth., em algum estado intermediário pré-ressurreição. O Salmo 88:12 diz: “Acaso, nas trevas se manifestam as tuas maravilhas? E a tua justiça, na terra do esquecimento?” (cf. Sl.88:12). O local é descrito como terra do “esquecimento”, pois não mais pode lembrar-se de coisa alguma, nem mesmo de Deus (cf. Sl.6:5). Note que os mortos não estão numa terra de consciência ou de atividade, mas sim de esquecimento, uma clara linguagem de inconsciência, e não de consciência. Os que já morreram não mais veem manifestadas as maravilhas de Deus (cf. Sl.88:12). Davi também faz a pergunta retórica: “Será que fareis milagres pelos mortos? Ressurgirão eles para vos louvar?” (cf. Sl.88:10). Alguém que já morreu não mais pode louvar a Deus; por isso, seria necessário que eles “ressurgirem” para louvá-Lo. O estado em que eles estão agora os impede de louvar ao Senhor, pelo que Davi aponta à ressurreição como sendo o único modo pelo qual os que já morreram possam voltar a louvar o Senhor. Se os que já morreram já pudessem louvar a Deus, então não faria sentido eles terem que “ressurgirem” para poderem louvá-Lo! Ainda mais se considerarmos que a palavra hebraica “koom” – subir; levantar; ressurgir – está no sentido de ressurreição (como vemos que a Bíblia usa – cf. Dn.12:2; Dn.12:13; Jo.3:14; Jo.12:32; Jo.12:34), vemos que o salmista expressa a sua convicção de que apenas por meio da ressurreição é que os que já morreram poderão louvar a Deus. A frase “ressurgirão eles para vos louvar” só faz sentido se, realmente, eles não estão louvando a Deus no presente momento, sendo, portanto, necessário eles ressurgirem (ressuscitarem) para isso. É uma enfática declaração de que só poderemos voltar a louvar o Senhor após a morte no momento da ressurreição, e não antes disso, em algum estado intermediário através de uma alma imortal que já estivesse no Céu antes da ressurreição do último dia.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 119 Uma tentativa dos imortalistas de fugirem de algumas dessas claras evidências contrárias a eles reside em tentar provar que logo após a morte os salmistas pensavam que seriam imediatamente levados para junto de Deus, usando textos como o Salmo 49:15 – “Mas Deus remirá a minha alma do poder do Sheol, pois me receberá”. Como pode isso se a Bíblia diz claramente que a alma vai para o lugar de silêncio (cf. Sl.94:17), e não para o lugar de louvores no Paraíso? É uma contradição bíblica? Logicamente que não. O Salmo apenas fala que Deus remirá a alma do poder do Sheol, que a luz da Bíblia Sagrada é a sepultura (cf. Sl.115:17; Sl.88:11; Sl.94:17; Gn.37:35), que Deus não a esqueceria naquele local de escuridão, pelo contrário, iria recebê-lo com Ele, através de uma ressurreição dentre os mortos. Remir a alma do poder do Sheol não significa não ir ao Sheol, pois a crença do AT era unânime em acreditar que todos iam para lá após a morte (cf. Sl.18:5; Gn.37:35; 44:31; Jó 17:13), mas diz respeito a ser resgatado da morte, remido daquele local de escuridão, através da ressurreição. Prova disso é que em Atos 2:27 essa mesma passagem é relacionada à ressurreição e não ao momento da morte. Em Oséias 13:14, também lemos sobre Deus remir a alma do poder do Sheol, na seguintes palavras: “Eu os redimirei do poder do Sheol; eu os resgatarei da morte. Onde estão, ó morte, as suas pragas? Onde está, ó sepultura, a sua destruição?” (cf. Oséias 13:14) Ocorre que o apóstolo Paulo relaciona este momento ao da ressurreição do último dia: “Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade. Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (cf. 1ª Coríntios 15:51-55) Vamos ligar os pontos: 1º O salmista diz que teria a sua alma remida do poder do Sheol. 2º Em Oséias 13:14 Deus diz o mesmo. 3º E o apóstolo Paulo relaciona o texto de Oséias ao momento da ressurreição. Portanto, fica claro que remir a alma do Sheol (sepultura) não significa não ser conduzido até lá, mas ser resgatado por meio da ressurreição, quando seremos transformados em seres incorruptíveis e imortais. O único meio de voltar a vida é através de uma ressurreição dentre os mortos. E essa verdade também é exposta no Novo Testamento, mais especificamente com a ressurreição por ocasião da volta de Cristo, quando a pessoa que está presa ao poder do Sheol ressuscitará para entrar na Jerusalém Celestial, e é só neste momento que a morte é vencida (cf. 1Co.15:54-55). Que todas as pessoas partiam para o Sheol após a morte, tanto justos como ímpios, isso é mais do que evidente para qualquer leitor honesto da Bíblia, fato comprovado em inúmeras
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 120 passagens, das quais segue-se uma pequena lista: Gên.37:35; Jó 10:21,22; Sal.94:17; Gên.42:38; Gên.42:29,31; Isa.38:10,17; Sal.16:10; Sal.49:9,15; Sal.88:3-6,11; Jó 17:16. Cada uma dessas passagens reflete o fato de que tanto justos como ímpios desciam ao Sheol (sepultura) após a morte, não tinham destinos diferentes. O filho de Jacó, José, partiria para o Sheol caso morresse (cf. Gn.37:35), e ele era considerado um homem justo. Prova ainda mais forte é que até mesmo a alma de Cristo esteve no Sheol enquanto esteve morto (cf. At.2:27), colocando um “ponto final” em qualquer discussão do tipo. Tanto justos como ímpios jazem no Sheol após a morte. O testemunho dos salmistas, que reflete todo o pensamento dos escritores divinamente inspirados do Antigo Testamento, é que os mortos não louvam a Deus (cf. Isaías 38:19; Salmos 6:5), não sabem de nada (cf. Eclesiastes 9:5), valem menos do que um cachorro vivo (cf. Eclesiastes 9:4), sua memória jaz no esquecimento (cf. Eclesiastes 9:5), não tem lembrança de Deus (cf. Salmos 6:5), estão num lugar de esquecimento (cf. Salmos 88:12), não confiam na fidelidade de Deus (cf. Isaías 38:18), não falam da sua fidelidade (cf. Salmos 88:12), estão numa terra de silêncio - e não de gritaria do inferno ou de altos louvores do Céu (cf. Salmos 115:17; 94:17), não podem ser alvos de confiança (cf. Salmos 146:3), tem que ressurgir para poder louvar a Deus (cf. Salmos 88:10), somente O verão após a ressurreição (cf. Salmos 17:15) e não pensam (cf. Salmos 146:4). Definitivamente um estado de plena e total inconsciência entre aqueles que dormem em suas sepulturas aguardando a ressurreição dentre os mortos. IV–A posição dos Livros Proféticos Ezequiel - Os Livros Proféticos se destacam dos demais por serem as palavras de Deus liberadas pelos profetas. Concentrem-se muito mais no que Deus falou do que nos eventos históricos em que falaram da parte do Senhor. No livro de Ezequiel, por exemplo, vemos o Senhor Deus dizendo através daquele profeta: “A alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ezequiel 18:4) Essa passagem pode ser um susto para muitas pessoas – sim, a alma [nephesh] – morre. Isso porque, como vimos no capítulo 3 deste estudo, nós temos uma natureza holista, e não dualista. Nós somos nephesh, e não “temos” nephesh. A alma [pessoa] que pecar, morrerá! A consequência do pecado foi mortal para toda a natureza humana, atingindo não apenas o corpo, mas também a alma. Deus não disse que apenas “o corpo que pecar... morrerá”; ao contrário, tanto o corpo como a alma foram sujeitos aos efeitos destrutivos resultantes do pecado. Por isso mesmo, a alma também pode ser devorada: “Conspiração dos seus profetas há no meio dela, como um leão que ruge, que arrebata a presa; eles devoram as almas; tomam tesouros e coisas preciosas, multiplicam as suas viúvas no meio dela” (cf. Ezequiel 22:25) O orginal hebraico traz neste verso a palavra “aw-kal'”, que significa literalmente: “consumir; devorar”. A alma [nephesh] não é isenta do consumir e devorar do corpo. O mesmo autor também afirma que as almas [nephesh] também são destruídas (cf. Ez.22:27). Como no caso de Ezequiel 18, a grande maioria destes relatos não expressa
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 121 apenas um “pensamento do profeta” que poderia estar “ultrapassado” para os dias de hoje, porque é o próprio Deus vivo que falava por meio do profeta. Por exemplo: “Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). Aqui é evidentemente o próprio Deus que estava falando (o profeta apenas passou por escrito aquilo que lhe havia sido dito), porque as “todas as almas são minhas”, isto é, de Deus (em primeira pessoa), e essas almas também morrem. Se as almas não estivessem sujeitas à morte, então não seria apenas a Bíblia que estaria equivocada, mas o próprio Deus estaria mentindo para o profeta. Isaías - O livro de Isaías relata o momento crucial em que o rei Ezequias encontrava-se à beira da morte. O profeta Isaías é enviado a este rei para lhe dizer que ele iria adoecer de uma enfermidade mortal que sofria (cf. Is.38:1). Qual foi a reação de Ezequias? Ficou feliz pois sabia que iria estar imediatamente com Deus ou em algum paraíso? Não. Na verdade, ele orou sob lágrimas clamando pela manutenção de sua vida. No capítulo inteiro é mencionado como ele se alegrou ao ver que Deus lhe havia acrescentado quinze anos à sua vida. Ora, se Ezequias pensasse que a sua alma imortal iria partir de imediato a um lugar de conforto e bem-aventurança, então iria desejar a morte acima de todas as coisas! A morte, porém, é tratada como um inimigo na Bíblia, o último inimigo a ser vencido (cf. 1Co.15:26). Não existe vida ou bem-aventuranças na morte. Ezequias queria fugir deste inimigo, e conseguiu, ao menos temporariamente. Em toda a sua declaração de louvor a Deus por este ter-lhe concedido a manutenção de sua vida, ele revela o que realmente aconteceria caso ele tivesse morrido. É nos dito que ele não veria mais os moradores do mundo: “jamais verei homem algum entre os moradores do mundo” (cf. Is.38:11), e também declara que “não tornarei mais a ver o Senhor, o Senhor, na terra dos viventes; não olharei mais para a humanidade” (cf. Isaías 38:11). Isso prova claramente que os que já morreram não estão de forma alguma conscientes do que aqui acontece (como pregam algumas religiões), pois Ezequias demonstra nitidamente a sua convicção que não mais veria ou olharia para qualquer cidadão deste mundo. Isso é consequente do fato de que ele próprio sabia que não estaria consciente depois que morresse. Afirma, alguns versos em seguida, o destino para o qual partiria sua alma na morte: “Foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados” (cf. Isaías 38:17) Ou seja, a cova, o local de corrupção, para o qual a sua alma não escaparia. Ele não diz que se morresse a sua alma iria ao Céu ou ao inferno, mas à cova, isto é, à sepultura. E diz que seria a sua alma (nephesh) quem partiria para a cova após a morte, e não apenas o corpo! Em seguida, ele afirma também qual seria o estado dos mortos naquele momento em que ele passaria também a ficar em caso que a sua vida lhe fosse retirada: “Pois não pode louvar-te o Sheol, nem a morte cantar-te os louvores; os que descem para a cova não podem esperar na tua fidelidade. Os vivos, somente os vivos, esses
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 122 te louvam como hoje eu o faço; o pai fará notória aos filhos a tua fidelidade” (cf. Isaías 38:18,19) É evidente que do início ao fim Ezequias apresenta a sua convicção e linha de raciocínio de que não existe vida na morte. Diante do que é aqui exposto, percebemos que: (1) Caso ele morresse, não estaria mais ciente das coisas que acontecem neste mundo (cf. Is.38:11) (2) A sua alma iria para a cova com a morte (cf. Is.38:17) (3) Na morte não há louvor a Deus (cf. Is.38:18) (4) Os mortos não podem louvar a Deus e nem cantar louvores (cf. Is.38:18) (5) Eles não esperam a fidelidade de Deus (cf. Is.38:18) (6) Somente os que estão na terra dos viventes é que o louva (cf. Is.38:19) Definitivamente Ezequias não acreditava em uma existência consciente com Deus logo após a morte. Do início ao fim ele mostra a sua visão holista da natureza humana corrente nas Escrituras, sabendo que a morte era a total cessação de vida. Ele não esperava partir rumo a lugar algum de bem-aventurança, nem mesmo estaria com vida, pois se fosse assim poderia louvar a Deus, entoar-lhe cânticos e esperaria pela Sua fidelidade! É evidente que alguém que volta ao pó da terra, estando inconsciente, deixando de existir o ser racional, realmente não pode realizar tais coisas. Note também que Ezequias não somente relata que os mortos não louvam a Deus, como também denota a sua impossibilidade. Os mortos “não podem”, isto é, “não tem como”, “não é possível”, não existe meio nenhum de algum morto cantar louvores ao Deus Altíssimo. É claro que tal impossibilidade só poderia ser fruto de uma inconsciência pós-morte, e por isso ele diz em seguida que os mortos não esperam pela fidelidade de Deus, fato este que seria uma inverdade profunda caso eles já estivessem na presença de Deus ou em lugar entre os salvos. Os mortos não esperam mais na fidelidade de Deus, não por já estarem na presença dEle, mas porque na morte simplesmente deixam de existir – “o que é dele?” (cf. Jó 14:10); nada, não mais existe (cf. Jó 14:10,12; Jó 7:21). Por fim, em Isaías lemos que os patriarcas não tinham a mínima ideia do que acontece entre os vivos: “Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó Senhor, és nosso Pai; nosso Redentor desde a antiguidade é o teu nome” (cf. Isaías 63:16) Para algumas religiões, os patriarcas como Abraão e Jacó não apenas conhecem os que estão vivos hoje, mas também rezam e intercedem por nós. Já para a Bíblia, Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece. Daniel - O livro profético de Daniel é um que diz da forma mais clara e explícita a ressurreição dos mortos. É nele que lemos que “muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Dn.12:2). Nele, lemos que os mortos que ressuscitassem estariam “no pó da terra” (cf. Dn.12:2), e não no “Céu” ou no “inferno” para reincorporarem em seus corpos mortos; e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 123 logo no versículo seguinte tal confirmação de que a entrada na herança só viria no fim, com a ressurreição: “Tu, porém, vai até ao fim; porque descansarás, e te levantarás na tua herança, no fim dos dias” (cf. Daniel 12:13) Como podemos ver Daniel só se levantará no “tempo do fim”, no fim dos dias, e só depois disso entrará na sua herança. A Young’s Literal Translation verte por “ficará na tua sorte no fim dos dias”. A versão King James with Strongs também traduz semelhantemente: “tu ficarás em tua sorte no fim dos dias”. Fica muito evidente que é só no final dos tempos, depois da ressurreição, que entraremos em nossas moradas celestiais. Isso está de total conformidade com o Novo Testamento que afirma de forma clara que só entraremos em nossas moradas quando Cristo voltar (cf. Jo.14:2,3; Mt.25:31-34), que é o momento da ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). Deus, de forma mais do que clara, deixa evidente para o próprio Daniel que a sua entrada no Paraíso não seria algo iminente, pelo contrário, seria algo que só aconteceria no fim dos dias. O “descansar” aqui é a indicação do estado no qual Daniel estaria na morte, o que a Bíblia relativiza com um estado de “sono” (ver Sl.13:3; 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15; 1Co.11:30; 1Co.15:6; 1Co.15:18); o “levantar” é claramente relacionado com a ressurreição dentre os mortos (ver João 3:14; João 12:32; João 12:34); o “fim dos dias” é o momento em que ele [Daniel] seria “levantado” [ressuscitado], o que a Bíblia caracteriza como sendo “no último dia” (ver João 6:39; João 6:40), e é somente neste momento em que Daniel entraria em sua herança, no fim dos dias. Ele não entra na herança logo após a morte com a sua “alma imortal”, mas somente quando fosse ressuscitado no último dia. Isso por si só é prova mais do que suficiente para desmontar completamente a falsa doutrina da imortalidade da alma, pois não reflete um “pensamento ultrapassado do Antigo Testamento”, mas é o próprio Deus falando para o profeta, de que este não estaria com Ele imediatamente na morte como um acontecimento iminente, mas deixando claro que tal fato concretizar-se-ia apenas no final dos dias, e através de uma ressurreição! V–Saul conversou com Samuel depois de morto? A passagem mais usada pelos imortalistas para mostrar a crença na vida pós-morte no Antigo Testamento é – pasme – uma sessão espírita. O relato da suposta conversa com o “espírito” de Samuel se encontra em 1ª Samuel 28. Isso só pode ser mesmo fruto de uma teologia fraca que na carência de evidências sólidas ou factuais precisa apelar para coisas do tipo. Nem mesmo os imortalistas mais sérios creem que foi mesmo Samuel quem apareceu a Saul, há muitos imortalistas honestos que admitem que se trata de um espírito maligno se fingindo de Samuel. Temos várias razões para desacreditar que, de fato, o espírito de Samuel tenha conversado com Saul (além do fato de que, como vimos, não existe uma alma imortal no homem). Em primeiro lugar, Deus havia cortado todo o tipo de comunicação dEle com Samuel. Esse fato é extremamente importante: “E perguntou Saul ao Senhor, porém o Senhor não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas” (cf. 1Sm.28:6). Deus
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 124 realmente não estava disposto a dar nenhum tipo de mensagem dEle a Saul. Isso aconteceu porque este havia desobedecido às ordens do Senhor. Havia se tornado repugnante a Ele, e por isso Deus não lhe mandava uma resposta, nem por sonhos, nem por visões, nem por profetas e nem mesmo pelo Urim. Em outras palavras, Deus definitivamente havia cortado todo e qualquer laço com o rei Saul. Logo, não foi Samuel quem apareceu a Saul. Se Deus não havia dado resposta a Saul, então Ele não mandaria Samuel falar com ele. Dizer que foi de fato Samuel quem apareceu a Saul significa dizer que Deus mudou de opinião tão rapidamente com relação a dar uma mensagem a Saul, se arrependendo de não ter dado a mensagem antes. Ora, por que razão Deus não mandaria a resposta a Saul por meio de meios legais e lícitos para o povo israelita, como o Urim, os profetas, ou por sonhos ou por visões, mas ao invés disso foi dar a resposta a Saul justamente por meio de uma prática condenada pelo próprio Deus? Em outras palavras: se Deus não havia dado resposta a Saul pelos meios “lícitos”, por que iria dar a resposta por um meio ilícito e contrário àquilo que Ele mesmo tinha ordenado? Sabendo que o nosso Deus “não muda” (cf. Ml.3:6) e que nEle “não há mudança nem sombra de variação alguma” (cf. Tg.1:17), é incoerente crer que Ele primeiro não quis responder Saul, mas depois mudou de ideia e quis respondê-lo; que primeiro não quis dar uma resposta nem mesmo por meios lícitos que convém, mas depois decidiu responder-lhe justamente através de uma prática pagã condenada pelo próprio Deus! Em segundo lugar, a própria passagem diz claramente, no verso 6, que Deus não queria mandar uma resposta para Saul por meio de nenhum profeta. Sabemos que Samuel era um profeta. Se fosse da vontade de Deus ter enviado uma resposta através de Samuel, que era profeta, Ele certamente já o teria feito antes, quando Saul havia consultado os próprios profetas. Mas vemos o texto bíblico dizendo claramente que Deus não queria usar profetas para falar com Saul (v.6). Portanto, sendo Samuel um profeta e sabendo que Deus não queria usar profetas, não é correta a afirmação de que Samuel apareceu a Saul em En-Dor. Em terceiro lugar, devemos lembrar que consultar os mortos era uma prática pagã totalmente repudiada pelas Escrituras e abominada por Deus (cf. Ex.22:18; 1Sm.28:3). Deus não enviaria o seu servo Samuel a falar com o rei Saul se Ele próprio havia proibido esse tipo de comunicação! A razão pela qual a comunicação com os mortos era proibida é porque quem aparece de fato é um demônio, e não “espíritos”, já que, como vimos, “espírito” na Bíblia não tem parte nenhuma com uma entidade imaterial presa dentro do nosso corpo com personalidade e consciência. Em quarto lugar, Deus ordenou que Saul devia morrer exatamente em decorrência desta atividade de buscar estabelecer esse tipo de comunicação proibida pelo próprio Deus (cf. 1Cr.10:13). Ora, se Deus decidiu se comunicar com o rei Saul por aquele meio (“permitindo” a aparição de Samuel a ele), então Ele terminou traindo ao rei! Como podemos imaginar um Deus traiçoeiro assim? Pois além de ser volúvel por determinar algo e logo em seguida mudar de ideia (passando a ideia de alguém que passa por cima de Suas próprias regras), ainda castiga com morte o rei justamente porque foi em busca de uma comunicação proibida, mas que, na verdade, teria sido propiciada pelo próprio Deus! Em quinto lugar, porque Samuel, como profeta de Deus, não iria tomar a iniciativa de atender ao chamado de uma feiticeira, o que contrariaria diretamente a ordem divina de
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 125 que os vivos não busquem comunicar-se com os mortos. Além disso, não se submeteria às regras de necromancia, que não iriam jamais interferir em alguém que realmente estivesse na presença de Deus. As Escrituras afirmam que quem buscasse a prática de necromancia seria contaminados por ela (cf. Lv.19:31; Ap.22:15). Se Samuel atendesse ao chamado da feiticeira estaria contribuindo para uma prática condenada por Deus, e, além disso, estaria se contaminando em decorrência disso, e se assim sucedesse nem mesmo poderia mais voltar à companhia divina, pois na presença de Deus não entra quem se contamine (cf. Ap.21:27). Então, de duas possibilidades, temos apenas as seguintes propostas: (1) Ou Deus ordenou que Samuel se apresentasse a Saul, o que é improvável e antilógico, tendo em vista que Ele não quis comunicar-se com Saul pelos meios legais e lícitos (v.6), seguindo-se que muito menos iria se comunicar com ele justamente mediante uma prática condenada por Ele próprio (cf. Lv.24:7) e, pior que isso, depois puni-lo com a morte justamente por esta prática propiciada pelo próprio Deus! (2) Ou foi Samuel quem quis se apresentar ao chamado da feiticeira por conta própria, algo que é ainda mais absurdo, tendo em vista que ele estaria se contaminando com esta prática e estaria indo contra as permissões do próprio Deus. Se a premissa 1 estiver errada, então Deus não quis se comunicar com Saul por tal meio, e, se Samuel mesmo assim se apresentou a Saul, então ele só poderia ter “passado por cima” das ordens de Deus ao se apresentar à feiticeira. De qualquer modo, a encruzilhada é notável: ou Deus ordenou que Samuel se apresentasse (o que já vimos que é ilógico e de todo incoerente), ou então Samuel passou por cima do próprio Deus (muito, muito mais ilógico e incoerente!). A única conclusão lógica que podemos chegar é que não foi Samuel quem se apresentou a Saul em En-Dor. Em sexto lugar, se foi de fato Samuel quem se apresentou para Saul, então teríamos que dar crédito para todas as sessões espíritas abrindo uma clara possibilidade de eles estarem realmente se comunicando com os “espíritos”. Afinal, se Samuel pôde tranquilamente se apresentar diante daquela feiticeira mesmo sendo contra a vontade e a Palavra de Deus, quem é que garante que o mesmo não pode se repetir nos dias de hoje, e os “espíritos” (de santos, inclusive) apareçam com “mensagens” às pessoas vivas da terra? Em sétimo lugar, o que a feiticeira diz ter visto foi um ser sobrenatural, ou seres sobrenaturais — “um deus-elohim”. Este termo é utilizado com grande frequência quando com relação a falsos deuses (cf. Gn.35:2; Êx.12:12; Êx.20:3), e Paulo nos diz que o agente que atua por detrás dos “deuses” são os demônios (cf. 1Co.10:20). Portanto, nada mais aconteceu senão “o próprio Satanás se transfigurando em anjo de luz” (cf. 2Co.11:14). Vale ressaltar que em momento nenhum da Bíblia o profeta Samuel é descrito como sendo um “deus” (elohim), mas o diabo, sim, este é descrito como sendo o “deus deste século” (cf. 2Co.4:4). Portanto, é muito mais lógico e coerente que quem tenha se apresentado tenham sido demônios, e não o próprio profeta. Em oitavo lugar, porque o referido ser que a feiticeira viu “subia de dentro da terra” (v.13). Ora, os seres “divinos” não vem de “dentro da terra” (tal citação é estranha à Bíblia), mas sim do alto (cf. Gn.22:11,15; 2Rs.2:11; Is.6:1,2; Is.32:15; Lc.2:13,14; Mt.3:16,17; Ap.14:6). Os próprios imortalistas entram em séria contradição com a sua
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 126 própria teologia aqui neste ponto, pois eles afirmam que o espírito que possuímos é uma “alma imortal” com consciência e personalidade que sobrevive à parte do corpo após a morte, e Salomão, ainda nos tempos do Antigo Testamento, afirma que o espírito sobe para Deus após a morte (cf. Ec.12:7). Portanto, se o espírito é a tal “alma imortal”, então os espíritos ou almas imortais deveriam estar no Céu na época do Antigo Testamento, e não debaixo da terra. Consequentemente, Samuel estaria lá em cima, com Deus, entre os salvos, e não “debaixo da terra”, de onde a feiticeira o viu. Ela disse claramente que “vejo deuses que sobem da terra” (v.13), e não que descem do Céu. Então, visto que o espírito sobe para Deus e não “desce” para debaixo da terra, se fosse o Samuel verdadeiro ele não estaria sendo visto “subindo da terra”, a não ser que o espírito dele tenha subido para Deus, depois descido de novo para debaixo da terra, depois subido de novo para atender à necromancia da feiticeira... enfim... diante de tamanha c ontradição lógica só nos resta desacreditar na implausível interpretação que alguns imortalistas fazem desta passagem, dizendo que era mesmo Samuel quem apareceu e caindo em uma série de contradições insuperáveis pela frente, que inteiramente refutam tal t eoria mirabolante. Em nono lugar, porque a “predição” do suposto Samuel de que “amanhã tu e teus filhos estareis comigo” (v.19) significaria então que os profetas de Deus e reis apóstatas compartilham a mesma habitação após a morte? Não, isso é um absurdo e antibíblico. Mesmo se Samuel estivesse vivo em algum lugar, Saul (um rei ímpio de acordo com a Bíblia) não estaria na mesma habitação de Samuel! Se o espírito de Samuel estava no Paraíso com Deus, então de modo algum que Saul, um rei ímpio, estaria com o próprio Samuel após a morte. O pseudo-Samuel cria que justos e ímpios partilhariam conscientemente o mesmo lugar após a morte, estaria um junto do outro, o que é negado pela própria teologia imortalista! Como crer em um “Samuel” que cai em tantas contradições ao ponto de contradizer a própria teologia imortalista com as suas declarações? E como podem os imortalistas fazerem uso dessa passagem como suposta “prova” da imortalidade da alma, se ela quando analisada em seu todo refuta as próprias crendices populares sobre Céu e inferno e destinos diferentes entre justos e ímpios após a morte e antes da ressurreição? De acordo com a própria teologia popular que segue a tendência imortalista, os ímpios já estão no inferno e os justos já estão no Céu e, portanto, Saul não estaria “comigo” (junto com Samuel) mas sim queimando em uma outra dimensão enquanto Samuel desfrutava das bênçãos paradisíacas (enquanto atendia o chamado de feiticeiras...). Veja que é a própria doutrina imortalista entrando novamente em contradição com ela mesma. Em décimo lugar, segundo boas traduções (como a versão inglesa King James e a espanhola Reina Valera), a feiticeira disse que avistava “deuses”, no plural (v.13). Será que Samuel veio acompanhado de um comitê de santos que subiam da terra para atender ao chamado da feiticeira? Não, tudo indica que tratavam-se de espíritos malignos. Em décimo primeiro lugar, porque Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (v.19), como dizia a profecia do pseudo-Samuel. A profecia indicava que Saul viria a ser morto pelas mãos dos filisteus. Mas o fato é que Saul se suicidou (cf. 1Sm.31:4), e veio parar nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (cf. 1Sm.31:11-13), e não dos filisteus (nem Saul e nem os
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 127 moradores de Jabes-Gileade eram filisteus). Saul apenas passou pelas mãos dos filisteus, mas não foi entregue aos filisteus. Ele foi entregue aos cidadãos de Jabes-Gileade, após cometer suicídio. Claro que o pseudo-Samuel não podia prever esse detalhe. Em décimo segundo lugar, porque a profecia de “Samuel” era que no dia seguinte “tu e teus filhos estarão comigo” (v.19). Isto indica que todos os filhos de Saul estariam com ele, pois não foram feitas exceções na mensagem de Samuel. Na melhor das hipóteses, a maioria dos filhos [em geral] estariam mortos com ele. Contudo, metade dos filhos não morreram. Saul tinha seis filhos e três deles sobreviveram. Morreram na batalha Jônatas, Abinadabe e Malquisua (cf. 2Sm.31:8-10; 21:8). Alguns imortalistas contestam este fato alegando que a profecia poderia ser considerada verdadeira se somente um filho morresse. Isso, porém, não é verdade. Ela não diz “alguns dos teus filhos”, mas diz claramente “os teus filhos”. Se isso não implica em totalidade, pelo menos implica em maioria geral. Mas nem em um caso nem em outro a profecia obteria êxito, visto que a metade dos filhos de Saul permaneceram vivos após a batalha! Esses fatos contrastantes tornam essas profecias de “Samuel” uma flagrante contradição com o testemunho da parte de Deus a respeito do verdadeiro Samuel, que “nenhuma das suas palavras deixou cair em terra" (cf. 1Sm.3:19). Por mais que Satanás quisesse colocar os filhos (a profecia não traz exceção a ninguém e ainda generaliza) na morte, apenas conseguiu isso com a metade deles. Como o diabo não é onisciente como Deus é, ele não pôde fazer profecias exatas, mas apenas generalizações, em estilo sibilino, e ainda por cima erradas, quando muito apenas parcialmente corretas. Em décimo terceiro lugar, e provavelmente o maior de todos os vários erros da “profecia” do pseudo-Samuel, vemos ele afirmando que “amanhã você e seus filhos estarão comigo (mortos)” (v.19). Entretanto, isso só ocorreu dias depois, e não no dia seguinte (cf. 1Sm.30:1; 31:1-6). Alguns imortalistas tentam contornar tamanha contradição tão evidente entre o relato do pseudo-Samuel e este fato bíblico dizendo que a palavra “amanhã” refere- se a um tempo indefinido, o que implica que Saul e seus filhos não precisariam morrer no dia seguinte. Contudo, a palavra utilizada no original hebraico para “amanhã” neste texto é mahar, que significa realmente dia seguinte, e não um tempo indefinido, como em Êxodo 9:5:1, 1ª Samuel 20:5, Provérbios 3:28, Isaías 22:13 e em outros textos. A palavra utilizada para “amanhã”, portanto, tem o sentido de dia seguinte, e não de tempo indeterminado. Se o pseudo-Samuel cresse que a morte de Saul e de seus filhos não fosse no dia seguinte mas em algum tempo mais tarde, teria empregado o plural (“daqui alguns dias”), ou expressões mais gerais de um tempo indeterminado ainda que iminente, como “em breve”, ou simplesmente não mostraria nenhuma expressão temporal, muito menos empregaria mahar, que significa dia seguinte, se soubesse que seria em qualquer outro dia menos no dia seguinte! Na verdade, as contra-argumentações imortalistas, que carecem inteiramente de fundamento bíblico, servem apenas para tentar contornar o fato óbvio de que o pseudo- Samuel que se apresentou em En-Dor errou, errou e errou em suas predições. Em qualquer outro lugar da Bíblia onde mahar é apresentado eles nem sequer contestam o fato de que se trata realmente do dia seguinte, mas, como aqui vai contra a teologia deles, então eles precisam apelar e dizer que aqui, e somente aqui, essa palavra tem um “sentido
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 128 diferente e mais amplo”, que não significa aquilo que sempre significa em todo o Antigo Testamento, e que “Samuel” preferiu a utilizar mesmo correndo o risco de ser “mal interpretado” quando poderia ter empregado inúmeras expressões diferentes que poderiam se encaixar corretamente no tempo da morte de Saul e seus filhos! De fato, fica difícil ver quem erra mais: se foi Saul com as suas predições ou se são os imortalistas em suas inúteis tentativas de tentar negar a todo o custo o óbvio da Bíblia Sagrada a fim de defender uma profecia nitidamente falsa. Finalmente, em décimo quarto lugar, a Bíblia diz que Saul entendeu que era Samuel (cf. 1Sm.28:14). Partindo do pressuposto de que o rei Saul havia entendido (na percepção dele) que tratava-se de Samuel, o texto continua relatando como era na visão deste. Foi Saul que “deduziu” que o vulto que subia da terra, ao qual ele não via, era o profeta Samuel. Não foi Deus que disse que era Samuel, foi o rei Saul que entendeu que supostamente tratar-se-ia de Samuel. Com efeito, a alegação imortalista de que o texto bíblico fala de “Samuel” e não de “demônio” fracassa exatamente em não admitir o óbvio do texto bíblico, de que este tratava o caso do ponto de vista do próprio Saul e de acordo com o entendimento deste. Saul realmente achava que era Samuel, por isso o texto diz que “Saul entendeu que era Samuel” (v.14) e continua o relato de acordo com a opinião de Saul, isto é, que se tratava de Samuel e não de um espírito maligno. Ignorar que o texto está retratando claramente a percepção de Saul e não dando um “veredicto” sobre se era ou não Samuel é simplesmente ignorar a exegese correta do texto em seu todo. Exemplos similares a este ocorrem aos montões no Antigo Testamento. Por exemplo, sabemos que o sol não “parou” de fato, mas a Bíblia afirma que o sol parou (cf. Js.10:13). Por que a Bíblia disse isso? Ela mentiu? Não, ela apenas relatou aquele acontecimento do ponto de vista de Josué, que com o conhecimento limitado da época achou que o sol havia “parado”. Ou seja, embora a Bíblia diga que “o sol parou”, o que ela quer dizer com isso é que Josué entendeu que o sol havia parado. Da mesma forma, o texto de 1ª Samuel 28 retrata o acontecimento do ponto de vista de Saul, como também o verso 14 deixa bem claro. Embora esteja escrito que “era Samuel”, o que ela quer dizer com isso é que Saul entendeu que era Samuel, que com o seu conhecimento limitado das coisas espirituais achou que era o profeta “subindo de dentro da terra”. Sendo assim, é errado tentar tirar alguma noção de “argumento” em cima do fato de que o texto bíblico traz “Samuel” e não “demônio”, a não ser que o entendimento de Saul estivesse correto, o que provamos aqui que não estava, por todas as razões apresentadas acima. Concluímos, pois, que não foi Samuel quem se manifestou em En-Dor. Tudo não passou de uma fraude e artimanha de um espírito maligno. Satanás é experiente, perito em contrafazer as coisas de Deus, e até mesmo em imitar falsamente os mortos. Nem com sessão espírita a imortalidade da alma consegue se sustentar. O fato é que os escritores bíblicos, inspirados pelo Espírito Santo, jamais falaram em imortalidade da alma, mas sempre respaldaram frequentemente que os mortos passam inconscientes o sono da morte (cf. Sl.13:3; Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.115:17; Sl. 13:3; Jó 14:11,12; Sl.30:9; Is.38:18; Is.28:19; Sl.94:17). E, contra fatos, não há argumentos – nem mesmo sessão espírita.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 129 VI–A alma no lugar de silêncio “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf. Salmo 94:17) Essa informação, presente no Salmo 94, é também de extrema importância para compreendermos o pensamento dos escritores do Antigo Testamento, também guiados pelo Espírito Santo assim como os do Novo. Já provamos aqui neste estudo, por tudo o que analisamos até aqui, que a doutrina do Antigo Testamento é fortemente contrária à posição de imortalidade da alma e a qualquer tipo de vida inteligente entre a morte e a ressurreição, e refutamos as interpretações errôneas que os imortalistas fazem em cima de algumas passagens veterotestamentárias usadas como suposta “evidência” de vida após a morte em um estado desencarnado. O nosso próximo passo, agora, é refutarmos os argumentos que são usados por boa parte deles a fim de negar tão tamanha evidência bíblica acerc a do pensamento dos escritores bíblicos do Antigo Testamento relacionado ao estado dos mortos. Para muitos teólogos da imortalidade da alma, todas as posições sobre os mortos tratam-se apenas e tão somente do corpo. Isso é errado por vários motivos. Em primeiro lugar, porque, como vimos no capítulo 3, a natureza humana é holista, e não dualista. Em outras palavras, quando nós morremos, é a pessoa integral que morre. Isso é muito claro nas Escrituras Sagradas que o conceito de “alma” e “espírito” na Bíblia não remete a uma alma imortal com personalidade própria ou a um segmento preso dentro de nós que é liberto por ocasião da morte. Em segundo lugar, porque seria completamente ilógico os escritores do Antigo Testamento escreverem tanto sobre a vida após a morte e fazerem sempre referencias a “perecem os pensamentos” (cf. Sl.146:4), “não sabem de nada” (cf. Ec.9:5), “sua memória jaz no esquecimento” (cf. Ec.9:5); “não tem lembrança de Deus” (cf. Sl.6:5), “não louvam ao Senhor” (cf. Is.38:19), “já não existe” (cf. Jó 7:21), dentre tantas inúmeras citações que poderíamos aqui citar, e estarem sempre falando só do corpo, nunca da alma! É totalmente inimaginável que tais pessoas estivessem tão excessivamente preocupadas em narrar tanto o estado de um simples corpo morto ao invés de falar sobre a vida pós-morte espiritual! Esperaríamos justamente o contrário: que eles constantemente fizessem amplas descrições daquilo que realmente importa, do destino da alma e do ser racional após a morte, e não de uma simples “carcaça” que nada mais vale. Será que os autores bíblicos iriam desperdiçar o tempo deles fazendo descrições de um mero corpo morto que já virou pó, quando poderiam ter a oportunidade de descrever o que seria muito mais importante, que seria o lado consciente e racional que os imortalistas atribuem à alma? Lógico que não! Portanto, alegar que os autores bíblicos estavam sempre narrando o estado corporal depois da morte e não o estado da alma (i.e, do ser racional ativo e pensante) é incorrer em uma grande incoerência lógica. Além disso, fato é que os próprios imortalistas associam o “verdadeiro eu” (i.e, o lado racional, a consciência humana) à alma ou ao espírito. Eles dizem que você é um espírito, possui uma alma e habita em um corpo. Em outras palavras, este seu corpo é um mero revestimento, pois a sua consciência, racionalidade, fonte dos pensamentos, é tudo relacionado à alma, e não ao corpo. O interessante é que o salmista disse explicitamente que na morte “os pensamentos perecem” (cf. Sl.6:5). Se a racionalidade é atribuída à alma
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 130 e não ao corpo, é lógico que a citação bíblica diz respeito à alma. Não esperaríamos que o salmista dissesse que depois da morte não há mais pensamentos se estes continuassem no pós-vida através do mesmo “processador” que os mantinha ativos aqui na terra: a alma. Em terceiro lugar, a descrição é com relação ao estado dos mortos. Quanto a isso não resta dúvidas de que eles sabiam muito bem que era um estado de plena inconsciência, caracterizado como um “sono” (cf. Jó 14:11-12; cf. Sl.76:5; 90:5), e nisso vemos unanimiidade entre todos os salmistas e escritores do Antigo Testamento. Se o estado dos mortos fosse de consciência e de atividade, então a figura usada não seria uma que indica que os mortos estão dormindo, mas uma que indicasse que eles estão acordados. O fato do “sono” ser utilizado como metáfora para o estado dos mortos prova que os escritores bíblicos acreditavam que os mortos não estavam conscientes, pois se assim o fosse escolheriam uma metáfora de “acordado”, e não de “dormindo”. Em quarto lugar, as referências tratam-se de indivíduos, e não de meros corpos. É a pessoa integral que morre, é a pessoa integral que perecem os pensamentos. Deus não disse: “no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma sobreviverá num estado desincorporado”. Antes, declarou: “Vós”, ou seja, a pessoa inteira, “morrereis”. Deus não disse que “a alma que pecar, essa viverá eternamente em um estado desencarnado”; ao contrário, disse que “a alma que pecar, essa morrerá” (cf. Ez.18:4). No livro de Daniel, o próprio Deus chega a ele e diz: “Tu, porém, vai até ao fim; porque descansarás, e te levantarás na tua herança, no fim dos dias” (cf. Dn.12:13). Deus estava falando com indivíduo Daniel ou só com o corpo dele? “Tu, porém” é uma referência ao próprio Daniel como pessoa, e não somente ao corpo dele! “...porque descansarás”... quem descansarás? O indivíduo Daniel ou só o corpo dele? Não seria melhor então Deus corrigir a sua frase para não confundir ou enganar Daniel e dizer: “porque o teu corpo descansarás”... como induzem os imortalistas? Não, Deus não disse para Daniel: “teu corpo dormirá, mas você ficará comigo”! É ao próprio Daniel, a pessoa integral, que são referidas todas essas coisas. Deus estava falando com o ser racional de Daniel, e é o seu ser racional que “descansaria” com a morte e só “despertaria” no final dos dias. É extremamente confuso e incoerente crer que Deus estava falando apenas com o corpo de Daniel, mas não com o ser racional pensante (alma) dele! Ele não estava falando apenas com a “carcaça”, Ele estava falando com o ser pensante, racional, o verdadeiro “eu”, que na visão dos imortalistas é a alma. Portanto, a passagem se aplica à alma. Mas quando eles veem que essa mesma passagem fala em descansar e se levantar (i.e, morrer e ressuscitar) para somente no final dos tempos entrar na sua herança celestial, aí a conversa muda, não é mais a alma não, é só o corpo mesmo! Então, a regra “exegética” dos imortalistas baseia-se no seguinte raciocínio: o “verdadeiro eu” do ser humano é a alma, e, portanto, as citações diretas ao “eu” se referem à alma, ao indivíduo como ser racional. Mas se algum texto bíblico fala do “eu” dormindo, ressuscitando ou em estado inconsciente, aí não é mais a alma, é só o corpo mesmo! Essa teologia confusa só pode ser fruto do desespero em precisar negar a obviedade dos textos bíblicos que clarissimamente negam um estado consciente do ser racional na morte. As suas crenças baseadas numa tradição que diz que a alma é imortal é tão forte que eles são forçados, estando ou não de acordo com as regras básicas da exegese e da hermenêutica, a negarem a priori qualquer texto bíblico que fale do “eu” em estado
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 131 inconsciente, ou de morte, ou de ressurreição, conquanto que em todas as outras ocasiões na Bíblia este “eu” se refira à alma. Isso tudo somente para salvar uma crença confusa, antibíblica e cheia de engano, que necessita de verdadeiros “malabarismos teológicos” para sustentá-la. Por mais incrível que possa parecer, os imortalistas conseguem o extraordinário feito de “interpretarem” Daniel 12:13 da seguinte maneira: “Tu – isto é, o teu corpo, mas não a tua alma – vai até o fim; porque o teu corpo descansarás, e somente ele se levantará na sua herança, no fim dos dias, enquanto você já estará comigo no Céu muito antes disso” Vejam só até onde eles precisam chegar para salvar a tese da alma imortal! De fato, a interpretação simples, correta e objetiva dessa passagem mostra exatamente o inverso disso: “Tu [i.e, o indivíduo como pessoa, o ser racional, corpo e alma], porém, vai até ao fim; porque [tu – corpo e alma, ser integral] descansarás, e [tu – corpo e alma, ser integral] levantarás na tua herança, no fim dos dias” O sujeito (“tu”), como vimos, se aplica ao próprio Daniel como pessoa, e a pessoa não se resume ao seu corpo somente, mas a corpo e alma. E este mesmo sujeito é repetido no mesmo contexto sequencialmente em se tratando de morte e ressurreição, e de entrar na herança celestial somente no fim dos tempos. Definitivamente, uma exegese honesta e sincera desfaz completamente as “interpretações” dos imortalistas, porque um exame bíblico sincero e honesto desmente completamente o engano da imortalidade da alma. Em quinto lugar, os escritores falavam da vida do além: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Ec.9:10 - ARA). E é no “além” que não há obra, projeto, conhecimento ou sabedoria! No “além” [Sheol] não existe inteligência ou razão [khesh-bone'], logo, não há consciência. A palavra aqui utilizada no original hebraico é “Sheol”, que, segundo os imortalistas, é a morada consciente dos espíritos, enquanto que a sepultura seria o destino unicamente do corpo. Ocorre que Salomão diz que no Sheol, isto é, neste local que os imortalistas dizem estar a alma à parte do corpo e vivendo conscientemente, não há obra, nem projetos, nem conhecimento e nem sabedoria alguma. Como poderiam eles estarem fazendo referência apenas ao corpo, se o autor bíblico fala do “além” [Sheol], que os próprios imortalistas admitem ser o destino da alma e não do corpo, e dizem que neste local para onde a alma vai não existe qualquer c onhecimento, sabedoria ou obra? Se fosse mesmo da opinião dos escritores bíblicos de que é apenas o corpo que fica inconsciente após a morte, eles não teriam retratado o Sheol (onde ficaria a alma) como um local onde não existe consciência, no máximo falariam da sepultura (onde ficaria o corpo) desta maneira. Portanto, as citações dizem respeito ao corpo e à alma, ao todo do ser humano, ao ser vivo como pessoa, corpo e alma, e não apenas a uma parte dele. Em sexto lugar, os escritores do Antigo Testamento não acreditavam que a alma permanecia viva, mas que ela morria: “Preparou caminho à sua ira; não poupou as suas almas da morte, mas entregou à pestilência as suas vidas” (cf. Sl.78:50); “Quem contará o pó de Jacó e o número da quarta parte de Israel? Que a minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (cf. Nm.23:10); “E naquele mesmo dia tomou Josué a
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 132 Maquedá, feriu-a a fio de espada, e destruiu o seu rei, a eles, e a toda a alma que nela havia; nada deixou de resto: e fez ao rei de Maquedá como fizera ao rei de Jericó” (cf. Js.10:28). Se a alma morre, então ela não é imortal. E, se os escritores bíblicos não hesitavam em mencionar a morte da alma, então as diversas menções explícitas à inexistência no pós-vida não tem relação somente ao destino do corpo. Em sétimo lugar, a Bíblia também declara que o local da alma seria a cova (não era apenas o destino corporal): “Eis que foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados” (cf. Is.38:17); “Ele resgatou a minha alma, impedindo-a de descer para a cova, e viverei para desfrutar a luz” (cf. Jó 33:28). Embora os escritores bíblicos pudessem perfeitamente colocar em pauta a sua visão “dualista” de que era apenas o corpo morto que partiria para a sepultura, enquanto a alma supostamente tomasse um rumo diferente, eles fazem questão de mencionar que o destino do corpo é o mesmo destino da alma – a cova (cf. Sl. 94:17; Is. 38:17; Jó 33:28; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:30). Se eles retratavam a alma na cova, então não era crença deles de que fosse apenas um corpo morto que já descesse na morte. O que vemos em todo o Antigo Testamento é, portanto, a confirmação daquilo que nós vimos historicamente: que a doutrina da imortalidade da alma era completamente estranha para os hebreus, só se tornando realidade para os helenistas a partir da diáspora judaica. É mais do que claro que, para os escritores do Antigo Testamento, a alma ia para apenas um lugar após a morte, que por sinal era o mesmo de justos e ímpios: a sepultura (Sheol). Este é o lugar de silêncio do qual o salmista fala, este é o local onde perecem os pensamentos (cf. Sl.146:4), onde é impossível louvar a Deus (cf. Sl.6:5), onde os mortos não sabem de coisa nenhuma (cf. Ec.9:5), onde a memória dos mortos jaz no esquecimento e perecem sentimentos de amor, ódio e inveja (cf. Ec.9:5,6), o local onde não há mais sabedoria alguma e nem planejamento (cf. Ec.9:5), o local onde a pessoa já não existe (cf. Jó 7:21) e para a alma [a própria pessoa] vai após a morte (cf. Sl.94:7; Is.38:17). Não é no Céu ou no inferno. É no pó da terra (cf. Gn.3:19; Sl.22:15; Is.26:19; Jó 7:21; Dn.12:2). Haverá, porém, o dia em que “muitos dos que dormem no pó da terra despertarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Dn.12:2). Essa é a verdade bíblica, presente não só na teologia do Antigo Testamento, mas também a mesma do Novo, como veremos no próximo capítulo. VII–Conclusão Pelos escritos do Antigo Testamento, podemos afirmar categoricamente a crença deles de que: Numeração Declarações relativas ao estado dos mortos Base bíblica veterotestamentária 1 Os mortos não estão cônscios de coisa nenhuma Eclesiastes 9:5 2 Um cachorro vivo vale mais do que um leão morto Eclesiastes 9:4 3 No “além” [Sheol] não há sabedoria Eclesiastes 9:10
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 133 [khok-maw'] 4 No “além” [Sheol] não há conhecimento [dah'-ath] Eclesiastes 9:10 5 No “além” [Sheol] não há inteligência [khok-maw'] Eclesiastes 9:10 6 No “além” [Sheol] não há dispositivo de razão [khesh-bone'] Eclesiastes 9:10 7 Apenas os vivos [os que estão “debaixo do sol”] estão com vida Eclesiastes 4:2 8 A vantagem dos homens sobre os animais é nenhuma Eclesiastes 3:19 9 O destino de bons e de ímpios é o mesmo depois da morte Eclesiastes 2:14,15 10 O destino dos homens e dos animais é o mesmo depois da morte Eclesiastes 3:20 11 Fôlego de vida é a mesma coisa que espírito Gênesis 2:7; Jó 33:4; 32:8; Isaías 42:5 12 O fôlego de vida dos homens é o mesmo dos animais e não há diferença entre eles Eclesiastes 3:19 13 O espírito de toda a carne [justos e ímpios] volta para Deus por ocasião da morte Eclesiastes 12:7 14 A memória dos mortos jaz no esquecimento Eclesiastes 9:5 15 Sentimentos como amor, ódio e inveja já pereceram para os mortos Eclesiastes 9:4 16 Na morte não há lembrança de Deus Salmos 6:5 17 Os mortos não louvam ao Senhor Isaías 38:19 18 Na morte os homens não têm proveito nenhum para Deus Salmos 30:9 19 Os mortos não pensam Salmos 146:4 20 Os mortos estão numa terra de silêncio Salmos 115:17 21 A alma vai para um lugar de silêncio Salmos 94:17 22 A alma vai para a cova Jó 33:18,22,28 23 Nós só veremos a Deus no tempo do fim Jó 19:25-27 24 Nós só veremos a Deus após a ressurreição Salmos 17:15 25 Nós só entramos em nossa herança celestial na ressurreição do final dos dias Daniel 12:13 26 Os mortos não olham mais para a humanidade Isaías 38:11 27 Os mortos estão numa terra de esquecimento Salmos 88:12 28 O único destino do homem após a morte é a sepultura Jó 17:13
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 134 29 O homem é como os animais que perecem Salmos 49:12 30 As referências ao “dormir” tratam-se de indivíduos, do ser racional, e não de meros corpos Daniel 12:13 31 Até não haver mais céus, o homem não despertará e nem levantará de seu sono Jó 14:10-12 32 O homem na morte já não existe e Deus não pode encontrá-lo Jó 7:21 33 O homem na morte torna-se como um lago ou rio cujas águas se secaram Jó 14:11-12 34 O homem não levanta de seu estado de inatividade até “não existirem mais céus” Jó 14:12 35 Os ímpios não possuirão uma eternidade, mas serão devorados, consumidos, eliminados, não existirão e serão exterminados Salmos 21:9; 37:22; 37:9; 37:10; Provérbios 10:25 36 Os ímpios deixarão de existir e apenas os justos viverão para sempre Salmos 104:35; 49:8,9; Provérbios 2:22; 19:16; 11:19 37 No dia do Juízo, o Senhor não deixará nem raiz e nem ramo dos ímpios Malaquias 4:1 38 Neste mesmo dia, os ímpios se farão em cinzas debaixo dos pés dos justos Malaquias 4:3 39 A alma repousa após a morte Salmos 23:13 40 A alma também pode sofrer decomposição; contudo, é passível de ser resgatada [na ressurreição] para viver para sempre e não sofrer decomposição [na sepultura] Salmos 49:8,9 41 Os mortos não mais confiam na fidelidade de Deus Isaías 38:18 42 Os mortos não falam da fidelidade de Deus Salmos 88:12 43 Não existem gritos no “além” (Sheol) Jó 3:18 44 Sheol não é uma “morada de espíritos”, mas uma figura da sepultura Gênesis 37:35; Salmos 141:7 45 O “além” (Sheol) é um lugar de repouso Jó 3:11,13,17; 3:18 46 O Sheol é um lugar de silêncio Salmos 115:17; 94:17 47 O Sheol é um lugar de escuridão (e não de “fogo”, o que remeteria a luminosidade) Jó 10:20,21; Salmos 88:10-12 48 São os ossos (e não “espíritos”) que descem ao Sheol na morte Salmos 141:7
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 135 49 Os mortos não veem mais a luz Salmos 49:19 50 Todos descem para o Sheol na morte Jó 3:11-19 51 O Sheol é o pó da terra Jó 17:16 52 O local de habitação na morte é no pó da terra Isaías 26:19 53 A consciência dos mortos é comparada com o pó da terra – ou seja, não há nenhuma Salmos 30:9 54 Até as ovelhas vão para o Sheol na morte Salmos 49:14 55 O mau não está no inferno. Está “reservado” no túmulo até o dia do juízo Jó 21:28-32 56 O homem tornou-se (não “obteve”) uma alma Gênesis 2:7 57 Não existe alma sem sangue Levítico 17:11; Gênesis: 9:4,5 58 O corpo é a alma visível Levítico 19:28; 21:1,11; 22:4; Números 5:2; 6:6,11; 9:6,7,10; 19:11,13 59 A estrutura dos homens é puramente o pó Salmos 103:14; Gênesis 18:27 60 Apenas os vivos possuem o “espírito de vida” Gênesis 7:15 61 A alma [nephesh] pode ser totalmente destruída Josué 10:28, 30, 32, 35, 37, 39 62 O processo que ocorre aos homens é o mesmo processo que sucede aos animais na morte Salmos 104:29; Eclesiastes 3:19,20 63 Espírito significa “vida” e não um ser inteligente que sai do corpo na hora da morte Salmos 104:29; Jó 12:10 64 Tanto homens como animais expiram o espírito-ruach na morte Salmos 104:29; Eclesiastes 12:7 65 A alma morre Ezequiel 18:4,10 66 A alma é exterminada Josué 10:28 67 A morte do corpo é a morte da alma Números 31:19; 35:15,30; Josué 20:3,9; Gênesis 37:21; 68 A alma-nephesh pode ser transpassada mortalmente Deuteronômio 11:9 69 Se você matar uma alma, poderá fugir para uma cidade de refúgio Josué 20:3 70 A alma emagrece Salmos 106:15 71 A alma sente sede Isaías 29:8 72 A própria vida vai para a sepultura após a morte Salmos 88:3 73 A alma vai para a cova da corrupção [sepultura] Isaías 38:17
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 136 74 Até o sangue desce ao Sheol na morte 1 Reis 2:9 75 O homem é um ser mortal e não imortal Jó 9:2; 10:15; 4:17; Salmos 56:4; 9:17; Isaías 51:12 76 O Antigo Testamento nunca usa os termos para “eterno” ou “imortal” para a alma Nunca usa mesmo 77 O homem retorna para o pó na morte Salmos 103:14; Gênesis 3:19; 18:27 78 Os animais também são denominados de “almas viventes” Gênesis 1:20,21,24,30; 2:19; 9:10,12,15,16 79 O homem não comeu da árvore da vida para ser imortal vivendo eternamente Gênesis 3:24 80 A presença da “árvore da vida” no jardim do Éden indica que a imortalidade era condicional à participação do fruto de tal árvore Gênesis 2:9 81 O conhecimento do bem e do mal foi adquirido ao comerem da árvore da ciência do bem e do mal; mas a imortalidade não foi adquirida pois o homem não comeu da árvore da vida Gênesis 2:22,23 82 No relato da Criação de Gênesis 1 e 2 nada é dito de Deus ter formado dentro do homem uma “alma” ou “espírito” imortal Nada mesmo 83 Os animais também possuem espírito-ruach Gn.6:17; Gn.7:21,22; Gn.7:15; Sl.104:29 84 O homem certamente morreria (Heb.: Morrendo, morrerás) Gênesis 2:7 85 A mentira da serpente [Satanás] é a base da doutrina imortalista: “Certamente que não morrerás” Gênesis 3:4 Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e honestidade constata com facilidade que definitivamente os escritores do Antigo Testamento não acreditavam absolutamente em nenhuma vida logo após a morte. Eles tinham a consciência de que só voltariam de seu estado de inatividade com o despertar da manhã da ressurreição. Esse pensamento não é contrário ao do Novo, pelo contrário, o ensinamento neotestamentário confirma o Antigo. VIII–Estavam enganados os escritores do Antigo Testamento? “Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa” (cf. Números 23:19) Até este ponto já vimos inúmeras evidências claras de que nenhum escritor do Antigo Testamento acreditava em uma vida logo após a morte ou em um estado intermediário das
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 137 almas. Também já refutamos os argumentos usados pelos imortalistas numa tentativa de anular as esmagadoras evidências do Antigo Testamento. À luz de tudo isso, devemos perguntar: “estariam certos os escritores do Antigo Testamento em pregar a inconsciência após a morte, ou eles estariam enganados em suas teologias por terem pouco conhecimento”? Por mais estranho que possa parecer, sim, existem imortalistas mais honestos, que admitem que os escritores do Antigo Testamento negavam a vida após a morte, mas tentam contornar este fato dizendo apenas que “eles tinham um conhecimento limitado” e que o Novo Testamento “corrigiu o Antigo” e começou a pregar a imortalidade da alma. Porém, não restam dúvidas que os escritores do Antigo Testamento não estavam sendo enganados. Na verdade, se os escritores veterotestamentários estavam sendo enganados, então quem os estava enganando era o Espírito Santo, pois é Ele quem inspirou as Sagradas Letras: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (cf. 2ª Timóteo 3:16) Notem que toda a Escritura é declarada como sendo inspirada, o Antigo Testamento não era uma exceção à regra. Se, portanto, eles erraram, então erraram inspirados pelo Espírito Santo! Ou pior: o próprio Espírito Santo, que inspirou as Escrituras, levou os escritores do Antigo Testamento a errarem! Eles estavam escrevendo enganos inspirados! De fato, a única diferença entre os escritores do Antigo e do Novo Testamento é que no Novo o foco é maior na ressurreição dos mortos para a vida eterna, enquanto que no Antigo o foco é maior no estado imediato pós-morte, uma vez que eles não conheciam Jesus para saberem que são ressuscitados com a Sua Volta, embora soubessem que no final seriam ressuscitados e recompensados para herdarem a vida eterna (cf. Dn.12:2; Jó 19:25-27; Sl.58:9-11; Sl.37:22; Sl.37:9). Ou seja: ambos refutam a imortalidade da alma, mas cada um da sua maneira. Os autores do Antigo Testamento não estavam inspiradamente errados e nem enganando o povo do século XXI, a única coisa que mudava era o foco, concentrado no estado dos mortos imediatamente após a morte: de inconsciência. No Novo Testamento, a ressurreição de Cristo assegura a nossa própria ressurreição (cf. 1ª Coríntios 15), como primícia daqueles que dormem para um dia entrarem na vida eterna. Por isso, enquanto o foco veterotestamentário é no estado atual dos mortos de inconsciência, o foco neotestamentário é totalmente na ressurreição dos mortos para a vida eterna, como veremos mais adiante neste estudo ao analisarmos o Novo Testamento e a sua posição com relação à vida pós-morte. É fato que eles sabiam que, no tempo do fim, voltariam a ver a Deus (cf. Jó 19:25-27), quando até não mais “existirem os céus” (cf. Jó 14:11). O salmista também escreve que Deus não esqueceria a sua alma no Sheol, mas lhe receberia com Ele (cf. Sl.49:15), o que o Novo Testamento atribui à ressurreição dentre os mortos (cf. At.2:27). O Antigo Testamento nos mostra a realidade da ressurreição “para a vida eterna ou para o desprezo eterno” (cf. Dn.12:2), e que eles entrariam na herança quando se “levantassem” (cf. Dn.12:13), uma figura da ressurreição. Davi deixa implícito que um dia os mortos ressurgiriam para louvar a Deus (cf. Sl.88:10), e em outra passagem deixa claro que veria
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 138 a Deus “quando despertasse” (cf. Sl.17:15), novamente um indicador da ressurreição dos mortos. Jesus Cristo também aplica o texto de Êxodo 3:6 {Sou o Deus de Isaque, Abraão e Jacó} como prova da ressurreição dos mortos (cf. Lc.20:37). Em Atos 13:34,35, vemos Paulo aplicando o texto de Isaías 55:3 como prova da ressurreição. Neste mesmo livro, há a menção explícita de que “os vossos mortos revivam; que seus cadáveres ressuscitem!” (cf. Is.26:19). Ezequiel nos diz que a alma pode sofrer a morte final ou viver (cf. Ez.18:4,20), e o salmista afirma que “a herança deles [dos salvos] será eterna” (cf. Sl.37:18) e que terão uma vida eterna (cf. Sl.37:27). Quanto à realidade do juízo vindouro, eles também tinham esse conhecimento, pois afirmavam que “o Senhor não o abandonará em suas mãos e, quando for julgado, não o condenará” (cf. Sl.37:33). Eles sabiam que seriam julgados, mas esperavam não sofrer a condenação. Da mesma, Salomão também inclui o fato de que os mortos seriam julgados um dia, quando Deus um dia "de todas estas coisas nos pedirá contas" (cf. Ec.11:9). O próprio “livro da vida” era realidade não apenas ao período neotestamentário, mas no próprio Antigo Testamento (cf. Sl.69:28; Sl.139:16; Êx.32:33). Por tudo isso (e muito mais) torna-se inútil a tentativa frustrada por parte dos imortalistas em dizer que os escritores do Antigo Testamento não tinham o devido conhecimento por suas “limitações da época” ou que não acreditavam na ressurreição para a vida eterna ou no juízo vindouro. É claro que eles acreditavam nestas coisas, só não aceitavam na doutrina herética da imortalidade da alma e, por isso, não faziam menção nenhuma a ela. Ademais, existem certas passagens do Antigo Testamento que não podem ser um “engano” dos escritores por “falta de conhecimento”, simplesmente porque é o próprio Deus vivo (imutável, que não pode mentir) que disse tal coisa. Por exemplo, em Ezequiel 18:4,20 (ao falar da morte da alma) é o próprio Deus falando ao profeta, e não apenas um pensamento deles. Também em Daniel 12:13 é o próprio Deus dizendo ao profeta que este só entraria na sua herança prometida no final dos tempos , através da ressurreição dos mortos (ser “levantado” – cf. Dn.12:13 com Jo.3:14; 12:32, 34, que é uma figura da ressurreição) para só neste momento entrar na sua herança, no final dos tempos, e não imediatamente em seguida por meio de uma “alma imortal”. Isso não era apenas um “pensamento do profeta”, mas era o próprio Deus falando para ele, e Deus não pode mentir. Inúmeros exemplos poderiam ser citados aqui. E, mesmo quando é apenas o escritor bíblico fazendo as suas ponderações, temos que lembrar que ele estava sendo dirigido e inspirado pelo Espírito Santo (cf. 2Tm.3:16). Embora tenham sido homens aqueles que escreveram as mensagens, "nunca, jamais, qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo" (cf. 2Pe.1:21). O Espírito Santo é imutável. Isso significa que ele não poderia ter inspirado um autor a escrever uma coisa sobre os mortos e depois inspirado outro a escrever uma coisa totalmente diferente. A Bíblia não é contraditória em seus ensinamentos. Os escritores do Antigo Testamento sabiam que iam levantar do estado de inatividade (cf. Dn.12:13; Dn.12:2; Jó 19:25-27; Sl.49:15; Sl.73:21-24). Essa não é uma posição contraditória à do Novo Testamento, muito pelo contrário, é a mesma do Novo (cf. 1Co.15:18; 1Co.15:22,23; Jo.14:3; 2Tm.4:6-8). Jamais poderíamos imaginar que os escritores do Novo Testamento fossem contradizer o
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 139 Velho! Ainda mais quando vemos noções de que a única fonte de fé deles era a Escritura, e não a tradição judaica, sabiam também que toda Escritura era divinamente inspirada (cf. 2Tm.3:16), e citavam inúmeras vezes partes da Escritura para basear os seus ensinos, principalmente tratando-se das epístolas apostólicas. Fica muito claro que todos os apóstolos liam as Escrituras e as compreendiam, colocavam- nas como a fonte de fé divinamente inspirada e baseavam os seus escritos fundamentando- se também naquilo que tinham de Escritura na sua época - o Antigo Testamento. Os cristãos de Bereia foram desafiados a consultarem nas Escrituras para verem se aquilo que Paulo dizia era mesmo verdade (cf. Atos 17:11), e eles foram elogiados por isso. Temos que lembrar que, naquele tempo, a única “Escritura” que eles possuíam era precisamente o Antigo Testamento. É completamente impossível pensarmos que os apóstolos estavam pregando um evangelho diferente daqueles que eles tinham como referência no Antigo Testamento. Se Paulo pregasse a imortalidade da alma contraditoriamente ao ensinamento claro do Antigo Testamento, os cristãos de Bereia teriam “desmascarado” ele, pois estes “eram mais nobres do que os tessalonicenses, pois receberam a mensagem com grande interesse, examinando todos os dias as Escrituras [AT], para ver se tudo era assim mesmo” (cf. At.17:11). Até mesmo Jesus desafiava a procurarem na Escritura, o Antigo Testamento (cf. Mt.21:42). Jesus citava repetidamente o Antigo Testamento, que era a Escritura vigente em Seu tempo. Reconhecia sua autoridade como livro histórico, como um manual de instrução da vida prática, e também como fonte de doutrina religiosa. O apóstolo João também diz para examinar as Escrituras (cf. Jo.5:39), a exemplo de Paulo que incentivava Timóteo a examinar a Escritura (cf. 2Tm.3:15) e a dedicar-se à leitura pública dela (cf. 1Tm.4:13). Devemos sempre lembrar que a única Escritura que eles tinham disponível naquela época era exatamente os escritos do Antigo Testamento. Jesus Cristo repetidamente citava as Escrituras e mantinha a sua firme posição de que o Antigo Testamento era a Palavra de Deus escrita, afirmando inúmeras vezes que "está escrito ... está escrito ... está escrito ..." (cf. Mt.4:4,7,10). Esta frase aparece mais de noventa vezes no Novo Testamento, o que nos mostra que não apenas Jesus, mas todos os apóstolos criam ser o Antigo Testamento regra confiável de fé e doutrina que não poderia ser anulada, confirmando a suprema autoridade divina da Palavra de Deus escrita. Ao contrário do que pensam alguns, o Antigo Testamento não é apenas um bom livro de regras morais, mas é também regra de doutrina religiosa, de fonte de ensino (cf. 2Tm.3:16). Afinal, “tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito” (cf. Rm.15:4)! Ademais, as Escrituras declaram enfaticamente que “é impossível que Deus minta" (cf. Hb.6:18). O apóstolo Paulo confirma o fato declarando que "Deus que não pode mentir" (cf. Tt.1:2), pois Ele é “o mesmo ontem, hoje e eternamente” (cf. Hb.13:8), Ele é o Senhor e não muda (cf. Ml.3:6), é o Deus onisciente, “que não muda como sombras inconstantes” (cf. Tg.1:17) e, portanto, não poderia colocar doutrinas falsas em Sua Palavra e depois ter mudado de opinião no Novo Testamento, especialmente em doutrina religiosa com relação à vida após a morte.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 140 Ele é a Verdade (cf. Jo.14:6), e Jesus declarou ao Pai que “a tua Palavra é a verdade” (cf. Jo.17:17). Não há como imaginarmos que poderia haver alguma mentira incluída nas Escrituras sobre o estado dos mortos, pois isso faria de Deus um mentiroso, mas “as tuas palavras são em tudo verdade” (cf. Sl.119:160). Em tudo, inclusive no Antigo Testamento! O Antigo Testamento é Palavra de Deus tanto quanto o Novo e, por isso, não pode mentir e nem mudar de opinião como parte dos imortalistas pensam que mudou. Jesus referiu-se ao Antigo Testamento como sendo a "Palavra de Deus", que "não pode falhar" (cf. Jo.10:35). Ela veio “da boca de Deus” (cf. Mt.4:4) e, por isso, não contém falsos ensinamentos. Jesus confirmou várias vezes que o Antigo Testamento era Palavra de Deus ao afirmar aos fariseus que eles estavam "invalidando a palavra de Deus" pela sua própria tradição (cf. Mc 7:13). Paulo declara a mesma posição ao referir-se às Escrituras como sendo "a palavra de Deus" (cf. Rm.9:6). Enquanto Paulo lhes expunha as Escrituras (AT), a Bíblia afirma que ele expunha a “palavra de Deus” (cf. At.13:44; At.18:11). Os cristãos que foram dispersos anunciavam a “palavra de Deus” (cf. At.13:5), tendo como única fonte de fé exatamente o Antigo Testamento. Igualmente, o autor de Hebreus afirma que eles presisavam serem ensinados “novamente sobre os princípios elementares da palavra de Deus” (cf. Hb.5:12). O único lugar onde os hebreus eram ensinados era nas Escrituras; o autor de Hebreus, portanto, a coloca como a sendo a “palavra de Deus”. Isso tudo nos mostra que o Antigo Testamento era considerado como “Palavra de Deus”, e Deus não pode mentir, enganar, mudar de ideia depois ou ter falta de conhecimento sobre determinado tema. É bem notório que “aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus” (cf. Mt.5;19). Jesus afirmou categoricamente que "até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra" (cf. Mt 5:18). Os defensores da imortalidade da alma não apenas tiram vários “is” ou “tios” de Eclesiastes, dos Salmos, de Daniel, Jó, de Isaías, Ezequiel, etc, como também adicionam nela o que eles jamais mencionaram: a falsa doutrina da imortalidade da alma. Não, os apóstolos não eram contrários àquilo que a Palavra lhes ensinava. Ensinamentos morais de regra de doutrina e de fé, jamais poderiam ter sido alterados! Isso nada mais é do que uma artimanha maligna para desqualificar as doutrinas bíblicas, negar a infalibilidade doutrinária das Escrituras e negar que um mesmo Espírito inspirou e dirigiu ambos os Testamentos que não podem ser contraditórios entre si. Um confirma o outro, e não o anula ou o altera como “totalmente ultrapassado”! O que Satanás mais quer é anular a Escritura, que “jamais pode ser anulada” (cf. Jo.10:35), passando a ideia de que os ensinamentos veterotestamentários estão ultrapassados e fora de tempo e que o Novo Testamento contradiz o Antigo Testamento e a Bíblia choca-se consigo mesma em questão de doutrina. Essa artimanha maligna tem enganado milhões de pessoas no mundo todo que acabam mesmo que impropositalmente renegando o Antigo Testamento que é a Palavra do Deus vivo, desacreditando nela e, pior ainda, se opondo às Escrituras! A conclusão que vemos, que ficará ainda mais clara após analisarmos o conteúdo do Novo Testamento, é que eles não contrariavam o Velho, pelo contrário, o confirmavam. O Novo Testamento não anula o Velho, mas o confirma, porque os dois fazem parte da Palavra de Deus escrita, que não engana ninguém.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 141 Para refutar tais indivíduos, não basta simplesmente dizer que o Antigo Testamento está na Bíblia tanto quanto o Novo Testamento. Eles vão dizer que a circuncisão, a guarda do sábado e outros ritos cerimoniais, festas judaicas, lei mosaica, foi tudo abolido na Nova Aliança. E pra eles a mortalidade da alma foi junto e a alma se tornou imortal, ou melhor, “descobriram” isso! Ocorre aqui que o que foi abolido na Antiga Aliança não tem nada a ver com assuntos sobre vida após a morte, mas sim com a lei cerimonial, isto é com o lado cerimonial da lei que impunha uma série de obrigações ao povo judaico, a maioria da qual foi abolida por Cristo na Nova Aliança, chegando ao fim desde que Jesus ressuscitou. Desde que Jesus ressuscitou não precisamos mais nos circuncidar no oitavo dia, não precisamos mais celebrar um ano do Jubileu, não precisamos de mais cidades de refúgio, não precisamos festejar a festa do Purim, fazer ofertas diversas que estavam prescritas na Lei, observar dias de festa, sacrificar um cordeiro todos os dias, etc. Porque essas coisas chegaram fazem parte da lei cerimonial judaica, e foi substituída por alguma outra coisa no Novo Testamento. Por exemplo, a circuncisão foi substituída pelo batismo (cf. Cl.2:11-12), o sacrifício de cordeiros foi substituído pelo sacrifício do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo (cf. Hb.9:13-14), o sábado cerimonial era uma representação descanso celestial eterno (cf. Hb.4:4-11), e assim por diante. Mas a imortalidade ou mortalidade da alma não é uma obrigação cerimonial da lei judaica! Ou seja: não tem nada a ver! Impossível que a alma fosse mortal até Jesus morrer na cruz e imortal depois que Ele ressuscitou! Isso não tem qualquer ligação com as cerimônias judaicas que foram abolidas no Novo Concerto! Prova disso é que os próprios pregadores da imortalidade da alma (sejam católicos ou protestantes) pregam muitas coisas provenientes do Antigo Testamento. Para ser mais sincero, a maioria das pregações atuais baseiam-se muito mais no Antigo Testamento do que no Novo. Pregam sobre os patriarcas, sobre os reis de Israel, sobre os Dez Mandamentos, sobre o dízimo, sobre não fazer imagens de escultura baseando-se em Êxodo 20:4 (que desde que me lembro se encontra no AT), sobre não falar o nome de Deus em vão (apenas alusões sobre juramentos são feitas no NT, mas sobre não falar o nome de Deus em vão em qualquer situação é mandamento apenas do AT, não sendo repetido no NT, e mesmo assim todos consideram verdadeiro), sobre não praticar incesto (que por incrível que pareça só se encontra no AT e não no NT, e mesmo assim todos concordam que incesto é errado), enfim, pregam inúmeras coisas (doutrinas e práticas) baseando-se no Antigo Testamento. Isso significa que eles próprios creem na validade doutrinal do Antigo Testamento para os nossos dias (embora nem sempre confessem isso abertamente). Se eles creem também no Antigo Testamento, isso significa que nem tudo do Antigo Testamento foi abolido. Temos, assim, que usar de critério para sabermos o que foi abolido e o que não foi. Não é simplesmente fazer como os imortalistas fazem à moda do “bem me quer, mal me quer” dizendo simplesmente: “essa doutrina eu gosto, ela fica, mas essa eu não gosto, então ela foi abolida”. Não! Como em tudo na vida, não é o gosto pessoal que determina o que foi abolido e o que não foi. O que determina é aquilo que Paulo disse aos Colossenses: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 142 nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (cf. Colossenses 2:14-17) Aqui Paulo fala sobre o que que Cristo aboliu (riscou) com a entrada da Nova Aliança. Ele afirma que Cristo riscou uma cédula de ordenanças, cravando-a na cruz. Ou seja: há coisas que Cristo deu um fim nelas depois que morreu. Então, para que a questão não ficasse por demais “vaga”, em aberto, ele afirma expressamente o que é isso que Cristo aboliu: os ritos e leis cerimoniais da lei judaica relacionados à comida e bebida, aos dias de festa e sábados. Em outras palavras, ele diz que o que foi abolido diz respeito às práticas e ritos cerimoniais da lei judaica, como já foi explanado. É isso o que vai embora, e não assuntos como a vida após a morte, como alguns creem! É evidente que a vida após a morte não era um cerimonial ou rito da lei judaica. Portanto, as questões relacionadas aos ritos e cerimônias judaicas que estão prescritos na lei deles chegaram ao fim, mas os outros assuntos que não tem relação com a lei cerimonial (que não foram ordenanças dadas somente aos judeus de acordo com a cultura deles) continuam valendo, evidentemente. É por isso que incesto é proibido, que usar o nome de Deus em vão é pecado, que a imortalidade da alma é uma falsa doutrina. Porque o Antigo Testamento condena expressamente essas coisas, e elas não têm qualquer relação com “leis cerimoniais”! Sendo assim, a pretensão daqueles que querem por um “fim” ao Antigo Testamento naquilo que tange ao estado pós-morte fracassa absolutamente. Não, Deus não deixou o povo em “trevas” no Antigo Testamento sem saber nada sobre a vida após a morte e os enganando fazendo-os pensar que não existia vida após a morte quando existia. Deus desde sempre deixou claro que a vida eterna é somente após a ressurreição, e isso desde os tempos do Antigo Testamento! Os que dizem que não, geralmente argumentam que o povo do Antigo Testamento não tinha conhecimento sobre os assuntos relacionados à vida após a morte, o que incluiria a ressurreição, evidentemente. Mas isso é puramente uma clara distorção da verdade. O Antigo Testamento ensina clara e explicitamente a ressurreição, tanto quanto nega clara e explicitamente a imortalidade da alma. É por isso que Daniel fala em ressurreição: “E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão [quwts], uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno” (cf. Daniel 12:2) É por isso que Isaías também explicitamente fala em ressurreição: “Os teus mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão [quwts]; despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho será como o orvalho das ervas, e a terra lançará de si os mortos” (cf. Isaías 26:19) E é por isso que o salmista também usa exatamente a mesma palavra no hebraico utilizada por Daniel e por Isaías para descrever a ressurreição, em um contexto em que ele deixa claro que ele só veria a Deus depois que “despertasse” [quwts – ressuscitar], e não antes disso:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 143 “Quanto a mim, feita a justiça, verei a tua face; quando despertar [quwts], ficarei satisfeito em ver a tua semelhança” (cf. Salmos 17:15) A ressurreição aparece outras incontáveis vezes no Antigo Testamento de forma indireta, mas só de mostrar que Davi, Isaías e Daniel escreveram explicitamente sobre a ressurreição (e ainda dizendo que só obteriam vida eterna e veriam a Deus depois dessa ressurreição ter se consumado) já nos deixa claro e lúcido que os autores do Antigo Testamento tinham sim uma visão concreta sobre o que aconteceria após a morte. Assim como acontece dezenas de vezes no Novo Testamento, os escritores do Antigo Testamento também falavam sobre ressurreição, também diziam que obteriam vida somente após ela ter se consumado e também criam que o estado pós-morte era um “sono”: “Ilumina- me os olhos, para que eu não durma o sono da morte” (cf. Salmos 13:3) Além disso, eles também tinham uma visão sobre o “livro da vida”, que seria um livro onde estariam anotados os nomes dos salvos que herdariam a vida eterna: “Sejam eles tirados do livro da vida e não sejam incluídos no rol dos justos” (cf. Salmos 69:28) “Os teus olhos viram o meu embrião; todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro antes de qualquer deles existir” (cf. Salmos 139:16) “Respondeu o Senhor a Moisés: Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim” (cf. Êxodo 32:33) Eles também tinham uma visão bem concreta de que existiria uma vida eterna: “Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna” (cf. Daniel 12:2) “Ele vos pediu a vida, vós lha concedestes, uma vida cujos dias serão eternos” (cf. Salmos 21:4) “O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna” (cf. Salmos 37:18) “É como o orvalho do Hermon, que desce pela colina de Sião; pois ali derrama o Senhor a vida e uma bênção eterna” (cf. Salmos 133:3) E eles também tinham uma visão bem concreta no que tange ao pós-morte na questão do juízo. Criam que Deus um dia julgaria todos os homens: “E saía um rio de fogo, de diante dele. Milhares de milhares o serviam; milhões e milhões estavam diante dele. O tribunal iniciou o julgamento, e os livros foram abertos” (cf. Daniel 7:10) “Por isso os ímpios não resistirão no julgamento, nem os pecadores na comunidade dos justos” (cf. Salmos 1:5) “O Senhor reina para sempre; estabeleceu o seu trono para julgar” (cf. Salmos 9:7)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 144 “Trarei vocês para o deserto das nações e ali, face a face, os julgarei” (cf. Ezequiel 20:35) “Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mal” (cf. Eclesiastes 12:14) “Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude! Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento” (cf. Eclesiastes 11:9) Portanto, tendo em vista tudo isso, dizer que as provas bíblicas abundantes que negam explicitamente a imortalidade da alma com uma objetividade incontestável “não valem” somente porque estão no Antigo Testamento, alegando que os escritores bíblicos daquela época não tinham conhecimento sobre a vida após a morte, é totalmente errado porque: 1º O Antigo Testamento é Palavra de Deus tão inspirada e inerrante em matéria de fé quanto o Novo (cf. 2Tm.3:16), é fonte de ensino doutrinário (cf. Rm.15:4), é “peneira” contra falsos ensinos (cf. At.17:11), e, como Deus não pode mentir (Tt.1:2), nem mudar (cf. Ml.3:6), nem a Sua Palavra falhar (cf. Sl.33:4), jamais teria inspirado errado qualquer escritor bíblico do Antigo Testamento, nem tampouco permitido que em Sua Palavra houvessem enganos como fruto de um suposto “conhecimento limitado” em termos de matéria de fé. Jesus disse que “a Escritura não pode ser anulada” (cf. Jo.10:35). Sendo que na sua época toda “Escritura” que eles possuíam era o Antigo Testamento, é lógico que Cristo estava proibindo que anulassem alguma matéria de fé por algum outro ensinamento (a lei cerimonial não era matéria de fé e doutrina, mas costumes, cerimoniais e rituais prescritos aos judeus, e isso que chegou ao fim na Nova Aliança). 2º Os próprios imortalistas creem em muitas coisas que estão no Antigo Testamento (mesmo naquelas que não são explicitamente repetidas no Novo Testamento, tal como não fazer imagens de escultura, não usar o nome de Deus em vão e não praticar incesto). 3º O que chegou ao fim na Nova Aliança diz respeito à lei cerimonial judaica relacionada aos ritos e ordenanças prescritos ao povo judeu na época da Antiga Aliança (cf. Cl.2:14-17). Não tem absolutamente nada a ver com a crença ou descrença na mortalidade ou imortalidade da alma e no estado dos mortos! 4º Os escritores do Antigo Testamento tinham sim uma visão concreta sobre o que aconteceria depois da morte. Eles escreviam explicitamente sobre o sono da morte (cf. Sl.13:3), sobre ressurreição dos mortos (cf. Dn.12:2), sobre a existência do livro da vida (cf. Sl.69:28) e sobre a realidade do dia do juízo (cf. Ec.12:14), assim como os escritores do Novo Testamento, que não mudaram nada daquilo que os autores do Antigo acreditaram e escreveram sobre isso; pelo contrário, reiteraram a realidade de que a morte é um sono e que a vida eterna é depois da ressurreição e do juízo para condenação final. Ou seja: os escritores do Antigo Testamento tanto tinham uma visão concreta sobre o destino pós- morte que os seus ensinos sobre isso serviram como base de tudo aquilo que foi exaustivamente repetido no Novo Testamento sobre este tema! O Novo Testamento não mudou nem acrescentou nada ao Antigo, apenas confirmou e reiterou amplamente as verdades já contidas no tempo veterotestamentário. 5º Portanto, é de todo incoerente dizer que o Antigo Testamento “não vale”. Se Deus havia revelado a eles a ressurreição dos mortos, por que iria “esconder” a imortalidade da alma deles? O que Ele ganharia com isso? Tudo o que iria fazer seria deixá-los confusos, crendo
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 145 em uma mentira, e pior ainda: escrevendo na Bíblia, a Palavra de Deus inspirada, infalível e inerrante, que a alma morre (cf. Js.10:28), é destruída (cf. Ez.22:27), não é poupada da morte (cf. Sl.78:50), é eliminada (cf. Êx.31;14), é totalmente destruída (cf. Nm.31:19), é devorada (cf. Ez.22:25), é assassinada (cf. Nm.35:11), é exterminada (cf. At.3:23) e desce à cova na morte (cf. Jó 33:22). E, além disso, que... 1. Os mortos não podem louvar a Deus, mas somente os vivos – Sl.6:5; Is.38:19. 2. No Sheol (“morada dos mortos”) não há lembrança de Deus – Sl.6:5. 3. No Sheol Deus não é louvado e nem lembrado – Sl.6:5; Is.38:18,19. 4. Os que estão no Sheol não confiam na fidelidade de Deus – Is.38:18. 5. O Sheol é um local de escuridão – Sl.88:12. 6. O Sheol é uma terra de esquecimento, e não de memória – Sl.88:12. 7. Deus está “escondido” daqueles que estão no Sheol – Sl.143:7. 8. Ao morrer, os pensamentos perecem – Sl.146:4. 9. Um cachorro vivo vale mais do que um leão morto – Ec.9:4. 10. Os mortos não sabem de coisa nenhuma – Ec.9:5. 11. A memória dos mortos jaz no esquecimento – Ec.9:5. 12. Sentimentos como o amor já desapareceram para eles – Ec.9:5. 13. No além não há obra, nem projeto, nem conhecimento e nem sabedoria alguma – Ec.9:10. E contra isso não há lei.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 146 CAPÍTULO 5 – A CRENÇA NA IMORTALIDADE DA ALMA NO NOVO TESTAMENTO I–Introdução ao Capítulo Já vimos até aqui que a noção da natureza humana na concepção hebraica bíblica é de uma natureza holista e não dualista do ser humano, confirmado pela descrição da criação humana de Gênesis 1 e 2 e pelos escritos veterotestamentários que negam em completo a doutrina de que o corpo é a prisão de uma alma imortal. A visão bíblica do Antigo Testamento era de que o homem é uma alma, e não de que ele possui uma, por isso é tão constante a linguagem denotativa de inconsciência no pós- morte e da própria morte da alma. A noção de dualidade só veio a se tornar realidade para os judeus helenistas a partir do período intertestamentário, depois da conclusão do Antigo Testamento, quando o povo judeu esteve exposto na diáspora judaica à filosofias e culturas helenistas (gregas), que mantinham forte influência nos povos dispersos, incluindo a concepção do dualismo impregnado por Platão na Grécia Antiga. Nosso próximo passo, a partir de agora, será estabelecer se o Novo Testamento altera a Palavra de Deus escrita no Antigo Testamento ou se a apoia, no tocante à natureza humana e seu destino. Uma absurda falácia que é constantemente utilizada pelos imortalistas como uma tática de pressão é a de que os mortalistas tem que apelar para as passagens do Antigo Testamento, porque o Novo não traria vantagem nenhuma à crença na mortalidade da alma. Isso, na verdade, é um conceito completamente deturpado do Novo Testamento. Em primeiro lugar, a Bíblia é uma coisa só. O Antigo Testamento deve ser utilizado como regra de fé e doutrina tanto quanto o Novo e é tão inspirado quanto o Novo. Em segundo, pessoalmente, se tivesse que escolher entre o Antigo ou o Novo Testamento para anular a imortalidade da alma, eu ficaria mil vezes com o Novo. O Novo Testamento não só confirma o Antigo, como também possui inúmeras provas contra a imortalidade da alma muito mais do que o Antigo Testamento possui, como veremos ao longo de todo o resto deste estudo. Prossiga a leitura, e você verá que, de fato, um mesmo Espírito dirigia ambos os Testamentos, divinamente inspirados, que não se contradizem naquilo que afirmam e que não entram em choque entre si. A visão do Novo Testamento confirma a visão do Antigo porque o que os apóstolos tinham como fonte de fé e base de doutrina em sua época (as Escrituras) eram exatamente os escritos veterotestamentários que negam a visão dualista de imortalidade da alma. Começaremos com aquilo que foi diretamente dito por Jesus, e depois passaremos às epístolas apostólicas. Muitas refutações de teses imortalistas serão feitas nesta parte, cada uma por sua ordem. Serão passados a partir de agora não somente as provas neotestamentárias da mortalidade da alma, como também um longo estudo sobre todas as passagens que são utilizadas pelos imortalistas, como supostas provas do dualismo platônico na Bíblia, refutando todas as defeituosas interpretações que são feitas em cima delas, e, como veremos, a maioria delas são provas contra (e não a favor) da visão dualista, sendo descaradamente tiradas de seu devido contexto ou que não respeitam a regra gramatical dos manuscritos originais do Novo Testamento, escritos em grego.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 147 CAPÍTULO 5.1 – JESUS PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA? “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. João 14:2,3) Nós não entraremos em nossas moradas celestiais depois que morrermos, mas quando Ele voltar. Isso entra em total acordo com o ensinamento bíblico acerca de quando seremos ressuscitados dentre os mortos e vivificados, que será exatamente nesta segunda vinda: “Pois da mesma forma como em Adão todos morreram, em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem” (cf. 1Co.15:22,23). Se Cristo tivesse a intenção de lhes pregar a imortalidade da alma indubitavelmente diria que os lugares estariam disponíveis aos salvos conforme fossem morrendo e as suas almas se achegassem no Céu para assumi-las. Mas, se Cristo não ensinou a imortalidade da alma, como entender determinadas passagens bíblicas que tem sido constantemente vistas pela ótica dualista? A primeira delas que veremos, e que talvez seja a mais explorada pelos imortalistas, é a parábola do rico e do Lázaro. Para tanto, muitas questões terão que ser abordadas aqui. Questões históricas e bíblicas, que poucas pessoas levam em consideração, mas que são de extrema importância para chegarmos a uma conclusão satisfatória. II–A Parábola do rico e do Lázaro Um argumento bastante usado pelos dualistas é de que não se trata de uma parábola, pois ela possui nomes. Ora, isso é totalmente compreensível pelo fato de que os judeus colocavam Abraão acima de Jesus: “Nosso pai é Abraão ... És maior do que o nosso pai Abraão?” (cf. Jo.8:39,53; Mt.3:9). O que simplesmente Jesus faz é pôr na boca Abraão exatamente as palavras que ele teria dito em pessoa: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (cf. Lc.16:31). Para isso é evidente que teria que citar nomes. Além disso, não há absolutamente nenhuma regra que obrigue que uma parábola não tenha nomes. Jesus contou parábolas sem precisar dizer para as pessoas: “Atenção, isso é uma parábola...”! A parábola do rico e do Lázaro fica entre parábolas, como podemos ver a seguir: CAP.14 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA GRANDE FESTA CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA MOEDA PERDIDA CAP.15 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO CAP.16 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR DESONESTO CAP. 16 DE LUCAS – A ******** DO RICO E LÁZARO CAP.17 DE LUCAS – A PARÁBOLA DO EMPREGADO CAP.18 DE LUCAS – A PARÁBOLA DA VIÚVA E DO JUIZ Nisso fica claro que a história tratava-se realmente de uma parábola. A parábola diz que "havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 148 daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caiam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber as úlceras" (cf. Lc.16:20,21). Igualmente, vemos que o homem rico da parábola não era apenas rico, mas vaidoso e se vestia do melhor daquilo que podia usufruir: "púrpura e linho finíssimo" (cf. Lc.16:19). Ele “todos os dias se regalava esplendidamente” (cf. Lc.16:19), ou seja, era de absolutamente alta classe. Ponderamos: onde é que você já viu um banquete de alta classe de um rico que permitisse que um mendigo cheio de chagas ficasse sentado à sua porta, e que, além disso, ainda deixava que comesse das migalhas de sua mesa? Se isso já é uma possibilidade altissimamente improvável nos nossos dias, isso era completamente impossível de acontecer naquela sociedade judaica. O rico de jeito nenhum iria permitir que os seus visitantes (também ricos tais como ele) passassem pela porta com um mendigo, que, além disso, ainda estava coberto de chagas, em uma doença contaminosa, possivelmente a própria lepra, comum naqueles dias. Isso não faz a personalidade de um judeu rico daquela época (muito menos um que teria sido mandado para o inferno em seguida). Como se esse cenário não fosse suficientemente improvável, ainda vemos também cachorros que lambiam as suas chagas! Quando vemos tal cenário, vemos que isso era impossível! Tratava-se somente de uma história que Jesus criou do mesmo modo que ele criou outras histórias (parábolas) com uma lição moral a ser dela retirada. E, de fato, Cristo tinha um ponto muito importante para chamar a atenção de seus ouvintes, como veremos mais adiante. Para isso ele usava uma parábola, como é a do rico e do Lázaro. Cristo não precisava dizer: “Olha, gente, isso é uma outra parábola”; pelo simples fato de que ele “nada lhes dizia sem usar alguma parábola” (cf. Mt.13:34). Em Lucas 12:41 os seus discípulos interpretaram um ensinamento de Cristo como sendo uma parábola, mas em lugar nenhum vemos Cristo dizendo que aquilo era uma parábola (ver Lucas 12:35-41). Os seus discípulos sabiam que ele lhes falava por meio de parábolas ao contar histórias, e não precisavam questioná-lo quanto a isso, muito menos quando tal história localiza-se exatamente no meio de outras histórias parabólicas! O mesmo quadro ocorre em Mateus 7:17, quando os seus discípulos interpretam os seus ensinos como sendo uma parábola (cf. Mt.7:15-17), embora em lugar nenhum Cristo tenha feito qualquer questão de mencionar que aquilo tratava-se realmente de uma parábola. Em outra ocasião, em Mateus 15:14, Pedro identifica um ensinamento de Cristo como sendo uma parábola, embora em lugar nenhum Jesus tenha feito questão de ressaltar que aquilo era mesmo uma parábola, e em Lucas 6:39 o evangelista conta o mesmo ensinamento mas omite que aquilo tratava-se de uma parábola. Se Lucas conta o mesmo relato encontrado em Mateus e não diz que se tratava de uma parábola (sendo que em Mateus está bem claro que era), então vemos que Lucas citava parábolas de Cristo sem necessariamente afirmar estar se tratando de uma parábola. Mas se toda vez que Cristo contasse parábolas tivesse que haver a menção de que aquilo é uma parábola, então Mateus entraria em contradição com Lucas, pois ambos contam a mesma história, mas um diz que é uma parábola e o outro não diz nada! Do mesmo modo, em Lucas 5:36 o autor diz que Cristo dizia uma parábola aos seus seguidores, mas em Marcos 2:21 a mesma história aparece sem qualquer menção de estar ligada a uma parábola. Tudo isso nos faz ter a certeza de que, realmente, Jesus
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 149 ensinava aos seus discípulos por meio de parábolas, que não tem qualquer necessidade de serem mencionadas como tal. Se até mesmo nestes contextos os seus discípulos sabiam que aquilo era parábola, mesmo sem ninguém ter dito expressamente que era uma, quanto mais quando vemos que tal história parabólica de Lucas 16 está exatamente entre várias outras parábolas que Jesus estava contando! Se você está contando várias piadas numa roda de amigos, não precisa repetir o tempo todo que ao término de uma você estará iniciando outra piada. Todos já saberão disso. Da mesma forma, se Cristo estava contando várias parábolas uma em seguida da outra, era completamente desnecessário dar um aviso de alerta avisando que aquilo era parábola e não um relato real. Isso já era simplesmente óbvio. Os únicos que não conseguem entender isso são os imortalistas, que por não compreenderem nem o contexto nem o significado de uma parábola precisam ignorar tudo isso e fazerem de conta de que não é parábola, é realidade, e de que, se não fosse uma história real, Jesus precisaria ter parado a conversa, avisado que era outra parábola, e só assim eles ficariam satisfeitos! Ademais, vários detalhes na parábola nos mostram que aquilo não era um relato real, mas uma ficção. Por exemplo, veremos que o rico possui um corpo físico com língua e todos os outros membros do corpo, que ele sentia sede, que precisava beber água, que conseguia conversar com quem estava no Céu mesmo enquanto queimava em meio às chamas de fogo, dentre outros tantos fatos que nos mostram claramente que tudo aquilo não passava de mera parábola assim como todas as outras, cuja significância estava baseada no ensinamento moral por trás dela, e não no relato em si como sendo algo literal. Veremos que uma parábola nunca, jamais e em circunstância alguma pode ser fundamentada como regra de doutrina pelos seus meios parabólicos. Parábolas não tem meios literais - É mais especificamente neste ponto que colocamos um fim na superstição de que existe um estado intermediário das almas porque os meios de uma parábola tem que ser literais. É aí que muita gente se engana: parábolas não necessitam de meios literais, ao contrário, apresentam uma lição moral valiosa por detrás de meios não necessariamente literais. Uma prova muito forte disso é o simples fato de que Jesus contou muitas parábolas, e se fôssemos tomar literalmente todos os meios que ele usa, iríamos encontrar inúmeros “absurdos”. Por exemplo: neste mesmo contexto da parábola do rico e Lázaro há a parábola do administrador desonesto (cf. Lc.16:1-12). Veja o que o verso 8 diz: “O senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu astutamente. Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz” (cf. Lc.16:8). Analisando a parábola literalmente, poderíamos chegar à infeliz conclusão de que Cristo aprovava a administração desonesta. Contudo, ele não estava incentivando a prática de administração desonesta, até mesmo porque em parte alguma a Bíblia aprova tal prática, mas a lição moral da parábola não é sobre administrar desonestamente (cf. Lc.16:9). Os meios da parábola não são reais e não influenciam sua lição moral! Do mesmo modo, Jesus contou uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca desfalecer (cf. Lc.18:1-8). Nela, o juiz (que representa Deus, aquele que atende as nossas orações) é tratado como “um homem mau que nem ao homem respeitava” (cf. Lc.18:2). É óbvio que o que Cristo queria realmente ensinar não era que Deus é um homem mau, mas sim que se até um homem mau atende aos nossos pedidos, quanto mais o nosso Pai que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 150 está no Céu nos atenderá (que não é mau coisa nenhuma, mas poderíamos chegar a essa conclusão caso tomássemos os meios dessa parábola como reais). Novamente, vemos uma lição moral (de orar sempre e nunca desfalecer) sendo ensinada através de meios não reais/literais. A mesma coisa veremos que sucede também na parábola do rico e Lázaro. Uma lição moral (de advertência à incredulidade dos fariseus e às tradições da época) sendo ensinada através de meios não reais/literais. Essa é uma regra comum em todas as parábolas, que os imortalistas só não admitem que possa valer também para Lucas 16:19-31, porque implicaria em abrir mão de uma das únicas passagens bíblicas que supostamente favoreceriam a doutrina grega da imortalidade da alma. Em outra parábola, Deus é retratado como “um homem severo que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste” (cf. Mt.25:24). Diante do contexto, este “homem” é Aquele que distribui os dons (talentos) aos homens e a quem nós devemos prestar contas um dia. Quem ele é? Óbvio: Deus. Mas será que Deus é “um homem severo que ceifa onde não semeou e ajunta onde não espalhou”? Claro que não. Tomemos os meios de uma parábola como reais e mudamos totalmente a visão de um Deus de amor e justiça que a Escritura nos revela do início ao fim! Vejam que curioso: se tomarmos os meios dessa parábola como reais, todo o conceito de Deus apresentado em toda a Escritura muda. Da mesma forma, se tomarmos a parábola do rico e Lázaro como literal, todo o conceito sobre a natureza humana e seu destino pós-morte apresentado em toda a Escritura muda. Mas no primeiro caso os imortalistas aceitam facilmente que se trata de meros meios não-literais e irreais característicos de uma parábola, enquanto que no segundo caso não aceitam de jeito nenhum, pois estão presos em seus sofismas sobre a existência de uma alma imortal e precisam se apegar a todo e qualquer custo a passagens claramente parabólicas como a de Lucas 16 para fundamentar as suas teses! Tome também, por exemplo, outro meio de parábola contada por Cristo: “Então o senhor disse ao servo: Vá pelos caminhos e valados e obrigue-os a entrar, para que a minha casa fique cheia” (cf. Lc.14:23). Será que as pessoas são forçadas a entrar no Céu, sendo obrigadas a isso, contra a vontade delas? É claro que não, pois Deus nos concedeu o livre arbítrio. Ninguém é obrigado ou forçado por Deus a ser salvo, pois a salvação é algo que implica em perseverança (nossa) até o fim (cf. Mt.24:13), ninguém vai pro Céu contra a sua própria vontade. Mas se as parábolas são reais em seu todo e seus meios são apresentados literalmente, então somos obrigados a entrar no Reino de Deus, não há escapatória, seremos salvos querendo ou não! O que é mais razoável de se aceitar? Que Deus nos obriga a entrar em Sua casa, ou que as parábolas não possuem meios reais, mas apenas uma verdade moral por detrás de um ensinamento com meios simbólicos? Evidentemente que as parábolas não tem meios literais, jamais podemos fundamentar uma doutrina bíblica sustentada por meios de parábolas. Se dissermos que a parábola de Lucas 16 (do Rico e do Lázaro) obrigatoriamente tem que ter meios reais e literais, consequentemente as demais parábolas de Cristo também devem ter meios reais e literais. Por que a parábola do rico e Lázaro teria que ser exatamente a única exceção à regra? Será
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 151 que é porque somente deste jeito que os imortalistas conseguem sustentar a doutrina da imortalidade da alma baseando-se em tal parábola? Ora, se fôssemos literalizar a parábola, encontraríamos, como vimos, uma série de problemas e contradições de primeira ordem à frente. As parábolas não podem jamais serem tomadas literalmente pelos seus meios, pois se fosse assim deveríamos chegar à infeliz conclusão de que Deus é um juiz mau e que não respeita ao homem, que é um homem severo que planta aonde não semeou, que aprova a prática de administração desonesta e que obriga as pessoas a entrarem no Céu! É óbvio que Deus não é nenhuma dessas coisas porque as parábolas nunca podem ser tomadas literalmente – em circunstância nenhuma – mas devemos retirar delas a sua lição moral. O mesmo deve ser dito também com relação à parábola do rico e do Lázaro. Qual é a sua lição moral? Ela se encontra no verso 31: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (cf. Lucas 16:31) Vemos, portanto, que a lição moral da parábola contada por Cristo em Lucas 16:19-31 em nada tem a ver com a imortalidade da alma, mas, ao contrário, tem relação com a incredulidade dos fariseus em rejeitarem os ensinamentos de Cristo – nem sequer uma ressurreição os faria persuadir. Quando tratamos de descrições bíblicas claras e reais (não em textos parabólicos ou simbólicos), os meios são necessariamente reais e literais ao todo. Contudo, isso não acontece quando estamos tratando de uma parábola. Parábola não necessita de meios reais, mas sim de lições morais que levam o ouvinte à reflexão. O principal problema daqueles que pregam a existência da alma imortal é não saberem ao certo o que é uma parábola: PARÁBOLA Acepções ■substantivo feminino 1 narrativa alegórica que transmite uma mensagem indireta, por meio de comparação ou analogia 1.1 narrativa alegórica que encerra um preceito religioso ou moral, esp. as encontradas nos Evangelhos Ex.: a p. do filho pródigo Vejamos então o significado de alegoria: ALEGORIA Acepções ■substantivo feminino 1 modo de expressão ou interpretação us. no âmbito artístico e intelectual, que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada e em que cada elemento funciona como disfarce dos elementos da ideia representada. Como o próprio dicionário atesta, parábolas são estórias de ficção, que Jesus frequentemente empregava para ensinar alguma coisa aos seus ouvintes. Parábolas não são e nem nunca foram histórias contadas com a intenção de passar meios reais. Se fosse assim, não faria uso de uma parábola. Parábola é quando o autor utiliza-se de meios ou
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 152 cenários quaisquer, sem a obrigatoriedade de serem verdadeiros ou literais, para ensinar uma lição moral por finalidade, mediante a metaforização ou personificação de personagens inanimados, como é o caso da conversa entre árvores registrada em 2ª Reis 14:9. Isso nós podemos ver ao longo de várias parábolas contadas por Cristo, que claramente não são fatos reais – são parábolas. Por exemplo, é extremamente improvável que houvesse um homem que vendeu todos os seus bens para comprar uma pérola de grande valor (cf. Mt.13:46), pois isso não faria sentido. Também não houve um administrador infiel elogiado pelo seu senhor (cf. Lc.16:8). Da mesma forma, Cristo também afirmou sobre ter de arrancar os olhos ou cortar pernas e braços para entrar no Reino dos céus. Será que por isso no Reino haverá caolhos, manetas e pernetas – tudo isso literalmente? É claro que não. Tudo isso é obviamente uma linguagem altamente metafórica, tanto quanto a parábola do rico e do Lázaro. Mais ainda que isso, uma outra prova fatal que nos faz concluir que Cristo não estava como finalidade dado uma aula sobre o estado dos mortos, é o fato de que nem mesmo as palavras “alma-psiquê” ou “espírito-pneuma” aparecem nesta parábola. Pelo contrário, o rico possuía um corpo físico com dedo, língua e que sente calor e pede água para matar a sede (cf. Lc.16:24). A própria sede é uma característica do corpo, e não de um espírito “imaterial”, “fluídico”. Um espírito desprovido de corpo não tem nada disso, e a Bíblia diz que nós só teremos um corpo novamente após ressurgirmos dos mortos (cf. 1Co.15:42-44). Jesus disse claramente que um espírito não tem nem carne e nem ossos (cf. Lc.24:39). Será que Cristo se enganou dizendo que o rico possuía língua no Hades ou os corpos dos personagens foram parar no Hades por engano? Nenhuma das duas, era mera parábola: não exigia meios reais! Se o objetivo de Cristo ao contar esse parábola fosse exatamente anunciar a imortalidade da alma, então seria completamente indispensável a menção de “almas” ou de “espíritos” deixando o corpo e partindo para o “além”. Contudo, os personagens ali citados vão com os seus corpos para o Hades, tudo nos mostra que o que aconteceu foi a personificação de personagens inanimados e, por este motivo, não eram os “espíritos” que desciam ao Hades, mas sim os próprios corpos. Como bem assinalou o doutor Samuelle Bacchiocchi: “Os que interpretam a parábola como uma representação literal do estado dos salvos e perdidos após a morte defrontam problemas insuperáveis. Se a narrativa for uma descrição real do estado intermediário, então deve ser verdadeiro em fato e coerente em detalhe. Contudo, se a parábola for figurada, então somente a lição moral a ser transmitida deve nos preocupar. Uma interpretação literal da narrativa se despedaça sob o peso de seus próprios absurdos e contradições, como se torna evidente sob exame detido”85 A questão aqui é muito simples: se a intenção de Cristo em contar essa parábola fosse de alguma forma fazer uma descrição fiel do atual estado dos mortos, então é óbvio que os personagens estariam no Hades em forma de espíritos incorpóreos, e não com os próprios corpos físicos, como um exame da parábola nos indica claramente. O fato de eles estarem lá com seus próprios corpos prova inequivocadamente que o que ocorreu neste caso nada 85 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, p. 136.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 153 mais foi senão a personificação de personagens inanimados, o que é muito comum na Bíblia. Corpos já mortos foram personificados e ganharam vida dentro de um contexto parabólico, isto é, de uma estória alegórica para ensinar alguma lição moral como finalidade. O que ocorreu, portanto, não foi uma descrição do atual estado dos mortos como “espíritos incorpóreos” em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, mas sim a personificação de corpos mortos como se estivessem vivos, e do que aconteceria neste contexto parabólico. Tanto quanto a linguagem parabólica da conversa entre árvores em 2ª Reis 14:9 não significa que as árvores realmente conversam entre si, a parábola do rico e Lázaro não prova que espíritos incorpóreos mantém consciência no pós-morte, mas apresenta a mesma personificação de personagens inanimados que ocorre tanto em 2ª Reis 14:9 como em diversas outras ocorrências bíblicas num mesmo contexto alegórico ou parabólico. Isso também é constatado pelo fato de que o rico pede que joguem um pingo água para molhar a sua língua, enquanto ele queimava em meio às chamas! Além da sede literal (por água) ser uma característica corporal (e não de um “espírito”, como anjos ou demônios, por exemplo), de que serviria um “dedo” molhado “em água” para aliviar tamanhos rigores extremos de um fogo devorador e literalmente verdadeiro que o rico estaria passando naquele exato momento e também por toda a eternidade? Ademais, a própria parábola diz que havia um abismo muito grande entre ambas as partes, motivo pelo qual o rico não podia ser molhado com água. Contudo, ele conversava com Abraão como se estivesse face-a-face com ele! Ora, se ele conversava tão perfeitamente com Abraão, então ele também poderia perfeitamente ser molhado com água, pois a distância assim o permitiria. E será possível compreender absolutamente o que cada pessoa da cena diz sendo que neste mesmo cenário havia um barulho horrivelmente aterrorizante de fogo em atividade e milhões ou bilhões de pessoas queimando e gritando aos prantos naquele mesmo momento? Quem iria compreender o que alguma pessoa fala em tal cenário? Como se tudo isso não fosse suficientemente claro, será que no Reino poderemos conversar c om os não- salvos enquanto eles queimam em meios às chamas? Pois, pela parábola, tal comunicação entre os salvos e os não-salvos seria perfeitamente plausível. Poderíamos, caso tomássemos os meios da parábola como literais, ver e conversar com os nossos parentes não-salvos enquanto eles queimam no inferno! Certamente bater papo com alguém nestas condições e neste cenário, é uma terrível falta de bom senso. Os que não forem salvos jamais poderão se unir novamente com os que forem salvos (por meio de uma conversa, por exemplo), pois a morte significa a separação total entre ambos os grupos. É isso o que também é ilustrado nesta parábola. Não, meus amigos, definitivamente não foi o estado dos mortos que foi ilustrado nesta parábola, não houve nenhuma descrição de “estado intermediário” algum, mas apenas e tão somente a personificação de personagens inanimados ganhando vida (típico de parábola), em um cenário corrente na época, como veremos mais a seguir. Com toda a clareza, os imortalistas que insistirem em admitir a parábola do rico e Lázaro como sendo “prova” do dualismo platônico na Bíblia, encontrarão tamanhos dilemas insuperáveis pela frente a tal ponto de terem que reformular toda a sua teologia acerca de como é o pós-morte.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 154 Sobre o Hades – Outro fato que ajuda ainda mais a derrubarmos a má interpretação dos dualistas é o lugar para onde teria ido o rico: “E, no Hades, viu Abraão e Lázaro, em seu seio” (cf. Lucas 16:23) A clareza da linguagem é evidente: o rico estava no Hades. E é a partir desta parábola que surge a idéia de que todos os “espíritos” desencarnados vão para o Hades após a morte, com divisão para justos e ímpios. Ora, qual doutrina básica da fé cristã que tem por base uma parábola? Nenhuma. Mas a parábola do rico e Lázaro (como única suposta “descrição” do “estado intermediário” encontrada na Bíblia) obrigatoriamente tem que ser literalizada e fundamentada como doutrina bíblica (para eles). Afinal, a maior base da doutrina imortalista é justamente os meios de uma parábola, em que os corpos descem junto para o “estado intermediário” conversar com os que já morreram enquanto se queimam entre as chamas. Pasme! Mas, mesmo que este fosse o caso, a História nos mostra que o Hades, como um local de tormento em que o rico estava, é de origem totalmente pagã, e não bíblica. Veremos a seguir onde nasceu o Hades e como entrou de braços abertos na doutrina imortalista. III–A Origem pagã do Hades A origem pagã do Hades - Na literatura hebraica, o Sheol (transliterado para “Hades” no grego), não era um local de habitação de espíritos vivos e conscientes em estado desencarnado. Já vimos que os autores do Antigo Testamento não tinham a mínima ideia de vida consciente antes da ressurreição, muito menos de almas imortais ou espíritos em um estado intermediário. A vida pós-morte na visão do Antigo Testamento era que os mortos não louvam a Deus (cf. Is.38:19; Sl.6:5), não sabem de nada (cf. Ec.9:5), valem menos do que um cachorro vivo (cf. Ec.9:4), sua memória jaz no esquecimento (cf. Ec.9:5), não tem lembrança de Deus (cf. Sl.6:5), não confiam na fidelidade de Deus (cf. Is.38:18), não falam da Sua fidelidade (cf. Sl.88:12), estão numa terra de silêncio, e não de gritaria do inferno ou de altos louvores do Céu (cf. Sl.115:17), não podem ser alvos de confiança (cf. Sl.146:3), não pensam (cf. Sl.146:4), não tem proveito nenhum para Deus depois de morto (cf. Sl.30:9), são comparados com o pó (cf. Sl.30:9), etc. Mesmo assim, eles falavam constantemente em Sheol (Hades), como o local para onde vão os mortos. Algumas referências são: Jó 7:9, Salmos 18:5, Salmos 86:3, Salmos 139:8, Provérbios 30:16, Gênesis 37:35, Eclesiastes 9:10, entre outros. Ora, como podem os escritores do Antigo Testamento desacreditarem completamente no estado intermediário mas falarem tanto no Sheol? É evidente que, para eles, Sheol estava longe de ser um local de habitação consciente de espíritos incorpóreos, mas era meramente uma figura para a sepultura. Na passagem de Malaquias (último livro do AT) para Mateus (o primeiro do NT) há um período de quatrocentos anos (conhecido como “período intertestamentário”). Neste período é que os hebreus estiveram dispersos para as nações influenciadas pelo dualismo grego que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 155 estabelecia nelas uma forte ligação ética, cultural, social e filosófica, por meio da doutrina helenista. Tais filosofias correntes na Grécia Antiga (especialmente a amplamente difundida doutrina da “imortalidade da alma”) acabaram entrando no judaísmo helenista. Tal impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, incluindo na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas (inclusive vários “livros apócrifos”) produzidas nessa época. De acordo com os professores Stephen L. Harris e James Tabor, Sheol é um lugar de “vazio” que tem suas origens na Bíblia Hebraica e no Talmud: "Seres humanos, como os animais do campo, são feitos de ‘pó da terra’ e na morte eles retornam ao pó (Gênesis 2:7; 3:19). A palavra hebraica Alma (Nephesh, Psyche), tradicionalmente traduzida por ‘alma viva’, mas mais adequadamente compreendida como ‘criatura vivente’ é a mesma para todas as criaturas viventes e não se refere a nada imortal... Todos os mortos descem ao Sheol, e lá eles jazem no sono juntos. Seja bom ou mau, rico ou pobre, escravo ou liberto (Jó 3:11-19). Ele é descrito como uma região ‘escura e profunda’, ‘a cova’, e ‘a terra do esquecimento’, interrupção da vida (Salmos 6:5; 88:3- 12). Se se encara situações extremas de sofrimento no mundo dos vivos acima, como aconteceu com Jó, o Sheol pode ser visto como um alívio bem-vindo à dor - basta ver o terceiro capítulo de Jó. Mas, basicamente, ele é um tipo de ‘nada’ (Salmo 88:10)”86 Harris partilha observações similares em seu “Compreendendo a Bíblia”, e acentua o fato de que houve uma associação com as religiões pagãs no período helenista que modificou o real significado de “Sheol” bíblico: “Quando os escribas judeus helenistas traduziram a Bíblia para o grego, eles usaram o termo ‘Hades’ para traduzir Sheol, trazendo uma associação mitológica completamente nova à ideia de existência póstuma. Nos mitos da Grécia Antiga, o Hades, nomeado a partir da deidade sombria que o reinava, era originalmente similar ao Sheol hebraico, um submundo escuro no qual todos os mortos, a despeito do mérito individual, eram indiscriminadamente colocados"87 Sobre seu significado original, a Enciclopédia Britância afirma: “O Sheol estava localizado em alguma parte ‘debaixo’ da terra. A condição dos mortos não era de dor nem de prazer. Nem a recompensa para os justos nem o castigo para os iníquos estavam relacionados com o Sheol. Tanto os bons como os maus, tiranos e santos, reis e órfãos, israelitas e gentios – todos dormiam juntos sem estarem cônscios uns dos outros”88 A própria Enciclopédia Católica reconhece isso ao dizer: “Na Bíblia, [Sheol] designa o lugar de completa inércia ao qual se desce quando se morre, quer alguém seja justo quer ímpio, rico ou pobre”89 86 TABOR, James. What the Bible says about Death, Afterlife, and the Future. Disponível em: <http://clas-pages.uncc.edu/james-tabor/>. Acesso em: 15/08/2013. 87 HARRIS, Stephen L. Understanding the Bible: the 6th Edition (McGraw Hill 2002) p. 436. 88 Enciclopédia Britânica, 1971, Vol. 11, p. 276. 89 Nova Enciclopédia Católica, Vol. 13, p. 170.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 156 Esta é uma verdade indiscutível: o Sheol estava longe de ser uma habitação consciente de espíritos. Contudo, houve uma associação mitológica com as filosofias gregas (de imortalidade da alma). Em outras palavras, o sentido bíblico de Sheol foi totalmente deturpado pelo sincretismo com a mitologia pagã. Na mitologia grega o mundo dos mortos, chamado apenas de Hades, era o local no subterrâneo para onde iam as almas das pessoas mortas (sejam elas boas ou más), guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, para lá tornarem-se sombras. É um local de tristeza. No fim da luta dos deuses olímpicos contra os Titãs (a Titanomaquia), os deuses olímpicos saíram vitoriosos. Então, Zeus, Posídon e Hades partilharam entre si o universo: Zeus ficou com os céus e as terras, Posídon ficou com os oceanos e Hades ficou com o mundo dos mortos. Os titãs pediram socorro a Érebo do mundo inferior; Zeus, então, lançou Érebo para lá também, assim tornou-se a noite eterna do Hades (Érebo também é outra designação do mundo inferior). Das Idades do Homem e suas raças, a raça de bronze, raça dos heróis, e a raça de ferro vão para o Hades após a morte. Este sincretismo com as religiões pagãs que resultou em uma aplicação totalmente diferente de Sheol/Hades: a de um local no subterrâneo para onde vão as almas das pessoas mortas (sejam elas boas ou más), no “Mundo dos Mortos”, denominado Hades. Querendo ou não, gostado ou não, é uma clara deturpação imortalista do que realmente é o Sheol. Tirando os maiores absurdos, que jamais seriam assumidos pelos cristãos (como, por exemplo, o fato de serem guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, ou dos Titãs pedirem a ajuda de Érebo), a essência pagã de Hades, como um local de habitação de espíritos, foi absorvida da mitologia pagã direto para a teologia bíblica dos imortalistas. IV–O que é o Sheol? O que é o Sheol? - Como já vimos acima, antes da mitologia pagã se infiltrar dentro dos moldes do Cristianismo, Sheol era puramente sepultura. É claro que a sua aplicação varia de passagem a passagem, mas nunca no sentido mitológico de “habitação de espíritos”. O Sheol bíblico é um local de silêncio, e não de gritaria do inferno: “Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus, o Senhor” (cf. Salmos 115:17) “Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio” (cf. Salmos 94:17) Mais claro ainda é o Salmo 94:17, que diz de forma enfática que o que habita no silêncio é a própria alma, derrubando a toda e qualquer tentativa de vulgarizar o termo como se fosse “silêncio somente para o corpo”. O salmista sabia muito bem que o local para onde iria após a morte seria de silêncio, e não de louvores entre os salvos ou de gritaria do inferno. Convenhamos: qual é o lugar do “silêncio” que o salmista fala? Claramente a sepultura. O local para onde a alma vai após a morte (cf. Sl.94:17), em estado de total inconsciência (cf. Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.30:9; Sl.88:12). Outra prova clara de que os hebreus do Antigo Testamento sabiam muito bem que Sheol não era inferno, mas sim sepultura, é Jacó enterrando o seu filho José:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 157 “E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado, e disse: Na verdade, com choro hei de descer para meu filho até o Sheol. Assim o chorou seu pai” (cf. Gênesis 37:35) Jacó evidentemente ainda não sabia que na mitologia pagã grega (de imortalidade da alma) o Hades ficava no centro da Terra. Jacó foi cavando até o inferno para enterrar o seu filho José? Não, Jacó sabia muito bem que Sheol era puramente sepultura. Ele sabia disso porque essa era a crença da época, o sentido puro de Sheol. Ademais, Jacó foi enterrar o corpo morto de José e não uma alma ou espírito incorpóreo. Sheol não é um local de espíritos sem corpo, mas sim de corpos mortos. Sheol é claramente identificado como sendo sepultura, o pó da terra. Outras inúmeras passagens nos trazem um sentido completo de que Sheol não era habitação consciente de espíritos desencarnados. Alguns exemplos, por exemplo, podem ser encontrados em Jó e em Salmos: “Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento. Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte” (cf. Jó 10:20,21) “Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam? Será que no Sheol ainda se fala do teu amor? Será que naquele lugar de destruição se fala da tua fidelidade? Será que naquela escuridão são vistos os teus milagres? Será que na terra do esquecimento se pode ver a tua fidelidade?” (cf. Salmos 88:10-12). Como podemos ver, a terra era claramente descrita como uma “escuridão”. Ora, se o Hades é um local de tormento, com fogo e tudo, então o fogo remeteria à luminosidade. O local não seria nem lugar de “escuridão” e muito menos lugar de “densas trevas”. Onde há fogo, há luz. Essa descrição do Sheol bíblico anula a concepção pagã em um Hades cheio de fogo e espíritos vivos ali queimando. O Salmo 49:14 também deixa claro que até as ovelhas vão para o Sheol na morte: “Como ovelhas são postas na sepultura [Sheol, no original hebraico]...” (cf. Salmos 49:14) É óbvio que o Sheol é apenas o pó da terra, o destino de todas as criaturas viventes. Jó também nos esclarece que o Sheol bíblico está longe de ser morada de espíritos queimando em meio às chamas, ao dizer que naquele lugar ele “já agora repousaria tranquilo; dormiria, e, então, haveria para mim descanso... Ali, os maus cessam de perturbar, e, ali, repousam os cansados; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos” (cf. Jó 3:13,17,18). Já não se ouve mais gritos, algo inconcebível caso Jó tivesse a ideia de que aquele local era um lugar de tormento ou de gritos de espíritos em meio às chamas. No livro de Eclesiastes também lemos: “Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no além [Sheol], para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Eclesiastes 9:10)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 158 A palavra usada em Eclesiastes 9:10 com relação ao Sheol é que não há chokmah [inteligência, razão]. Morre o homem e o ser racional se vai. Não há inteligência, não há consciência. Biblicamente, Sheol não é, e nunca foi, uma morada de espíritos vivos e conscientes em alegria ou em tormento com fogo. Como se não fosse suficientemente claro o fato de que no Sheol não há obra, nem projeto, nem conhecimento, e nem sabedoria, o salmista afirma que “quem morreu não se lembra de ti; e no Sheol quem te louvará?” (cf. Sl.6:5). É evidente que no Sheol não se pode louvar a Deus. Fica a pergunta: que tipo de “espírito” que é salvo e vai para este lugar sem poder louvar a Deus? O único argumento utilizado pelos imortalistas na tentativa de contradizer o fato bíblico de que o Sheol é o equivalente à sepultura é que os hebreus tinham palavra específica para “sepultura”, que é qéver, então Sheol deve significar algo diferente disso. Isso, por si só, não significa nada, pois no hebraico e no grego há diversas palavras sinônimas, que possuem a mesma aplicação prática. Na própria língua portuguesa, aplicamos exterminar e aniquilar com o mesmo sentido, bem como adversário e antagonista, oposição e antítese, enfermo e doente, desagradar e descontentar, futuro e porvir, enorme e imenso, imparcial e neutro, dentre tantas outras palavras sinônimas. Diante disso, por que Sheol e sepultura não podem ser palavras sinônimas, assim como sepultura e túmulo? Em segundo lugar, existe uma diferença básica entre Sheol e qéver. Hades ou Sheol não se refere a um único sepulcro (gr.: tá‧fos), nem a um único túmulo (gr.: mné‧ma), nem a um único túmulo memorial (gr.: mne‧meí‧on), mas à sepultura comum da humanidade, onde os mortos e enterrados não são vistos. Assim, vemos que Sheol é aplicado quando a referência é à sepultura comum da humanidade (em um sentido coletivo), enquanto qéver se refere ao um único sepulcro (em um sentido individual). Sheol é o sentido mais amplo da sepultura, tendo a mesma aplicação prática desta, pois quem está na sepultura está no Sheol, da mesma forma que quem está em São Paulo está no Brasil. Sheol é o “mundo dos mortos”, não como um local de habitação de espíritos conscientes, mas de almas mortas (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3,9; Gn.37:21; Dt.19:6,11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10), em local de total silêncio (cf. Sl.115:17; Sl.94:17), e em estado de total inconsciência (cf. Sl.146:4; Sl.6:5; Ec.9:5,6; Ec.9:10). No caso da revolta de Coré, por exemplo, relatada em Números 16, a terra “abriu a sua boca” e os seus seguidores “desceram vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30; Nm.16:33). Seria extremamente inimaginável pensarmos que a terra abriu a boca para eles caírem até o centro da terra onde ficaria o Sheol, sendo que no meio dessa queda os seus corpos foram transformando-se automaticamente em espíritos desencarnados. A evidência aqui é tão forte que os próprios imortalistas admitem que Sheol aqui significa o pó da terra, corpos físicos sendo esmagados pela força da natureza através da ação divina (embora eles afirmem que este caso é uma “exceção”, o que vemos que não – é a regra!). Obviamente que o que aconteceu realmente é que a terra abriu a boca e os tragou enquanto ainda estavam vivos, descendo para a “cova” (ou “pó”), o que mostra a total correspondência entre estes dois termos. Mais forte ainda do que isso é o paralelismo evidente que constatamos em Jó: “Descerá ela às portas do Sheol? Desceremos juntos ao pó?” (cf. Jó 17:16). Aqui vemos Jó fazendo o uso de um paralelismo entre o “Sheol” e o “pó”. Paralelismo é a sucessão de partes do discurso que tem entre si uma relação de similaridade de conteúdo; um encadeamento de funções sintáticas idênticas de valores iguais. Jó identifica o Sheol como sendo a mesma coisa que o pó da terra, ao relacionar
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 159 ambos na mesma sentença expondo tal paralelismo. Após afirmar que ele desceria ao Sheol, afirma categoricamente que este lugar é o pó (cf. Jó 17:16). Ainda que os escritores do Antigo Testamento falassem constantemente em Sheol, desacreditavam completamente em qualquer estado intermediário. Talvez seja por isso que o apóstolo Paulo, em suas epístolas, não tenha mencionado absolutamente nenhuma vez a palavra “Hades” – o termo já estava paganizado. Aliás, nem Paulo, nem Tiago, nem Pedro, nem Judas, e nem o desconhecido autor de Hebreus: todos pareciam desconhecer tal palavra, não sendo mencionada em parte nenhuma de suas epístolas. Só há uma única razão mais provável para isso, que é exatamente não querer confundir os leitores dualistas com o sentido pagão de Hades, já em vigor em sua época. O Sheol também é caracterizado como “a terra das trevas e da sombra da morte” (cf. Jó 10:21,22), onde os mortos nunca mais vêem a luz (cf. Sl.49:20; 88:13). É também, como vimos, a “região do silêncio”, e não de gritaria do inferno ou de louvores do Paraíso (cf. Sl. 94:17; 115:17), para onde caminha a alma rumo ao local do silêncio (cf. Sl.94:17). A ideia de descanso ou sono no Sheol fica evidente no livro de Jó que clama em meio a seus tormentos físicos: “Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? [...] Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria, e então haveria para mim descanso [...] Ali os maus cessam de perturbar, e ali repousam os cansados” (cf. Jó 3:11,13,17). No Salmo 141:7 também fica mais do que evidente que Sheol é claramente identificado como sepultura: “Ainda que sejam espalhados os meus ossos à boca da sepultura [Sheol] quando se lavra e sulca a terra”. Até os ossos desciam para o Sheol! Se Sheol fosse um local de morada de “espíritos”, o salmista certamente mencionaria isso, mas além negar tal fato ele acentua que são os ossos que descem ao Sheol, o que nos revela que é um local não de “espíritos”, mas de corpos mortos, que jazem na sepultura. Um dos textos mais claros de que o Sheol é uma referência à sepultura é o de Isaías 14:11, que diz: “Sua soberba foi lançada na sepultura [Sheol], junto com o som das suas liras; sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes”. O detalhe é que o texto se refere a ele estar sendo comido de larvas e coberto de vermes, o que nos mostra a total correspondência entre o Sheol e o túmulo, abaixo da terra, e de quem estar lá ser um corpo morto, um cadáver, e não alguma alma ou espírito incorpóreo. De igual modo, Davi adverte seu filho Salomão com relação a Simei: “Mas, agora, não o considere inocente. Você é um homem sábio e saberá o que fazer com ele; apesar de ele já ser idoso, faça-o descer ensangüentado à sepultura [Sheol]” (cf. 1Rs.2:9). Novamente, o original hebraico verte a palavra “Sheol”, e não “sepultura” como a maioria dos tradutores preferiram traduzir. Aqui vemos que alguma pessoa pode descer ensanguetada ao Sheol, o que nos mostra claramente que o Sheol não é uma morada de espíritos incorpóreos, mas sim a própria sepultura, para o qual é o destino dos corpos que morreram (espírito não sangra!). Por isso, até mesmo o sangue das pessoas descem ao Sheol [sepultura]. Isso explica o porquê que em absolutamente nenhuma parte das Escrituras é mencionado espírito- ruach/pneuma no Sheol/Hades. Este nunca foi algum tipo de “morada de espíritos”! Fica mais do que claro que nenhum escritor bíblico pensava em Sheol como uma morada consciente de espíritos desencarnados, como um local de tormento ou suplício. Se fosse esse o sentido primário de Sheol, então veríamos uma infinidade de passagens bíblicas que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 160 relatam tal fato, o que não é verdade. Aliás, nem sequer o elemento “fogo” aparece relacionado em qualquer descrição bíblica do Sheol. Que maneira “estranha” de descrever o inferno! Portanto, vemos que o Sheol bíblico não é um lugar onde Caim está queimando há seis mil anos até hoje, mas sim uma figura da sepultura, o lugar para onde parte a alma após a morte (cf. Is.38:17; Sl.94:17; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:28; Jó 33:30). Sheol é sepulcro, pó, profundezas da terra, morte, vazio, túmulo. Jamais foi morada de espíritos em plena atividade e consciência, em regozijo ou em tormento. Nunca é mencionado tormento no Sheol. Na parábola do rico e do Lázaro, o que ocorreu foi uma metaforização e personificação dos personagens (Abraão, Lázaro, o rico) bem como do próprio cenário onde se passava a parábola (Sheol), que não exige meios literais. Prova forte disso é que a própria parábola retrata o rico indo para a sepultura (v.22), e depois mostra ele no Hades (v.23) sem fazer menção de “almas” ou “espíritos”, mas com o seu próprio corpo natural (v.24), o que nos mostra a correspondência entre a sepultura e o Hades, e que nos revela que o que de fato ocorreu foi uma metaforização e personificação própria dos meios de uma parábola, como é no caso de 2ª Reis 14:9 em que as árvores falam. Entender o significado bíblico e puro de Sheol é profundamente necessário para compreendermos que o que ocorreu em Lucas 16 nada mais foi senão a personificação não apenas dos personagens ali presentes, como também do próprio cenário em que aquilo tudo se passava. Como já vimos, eram corpos físicos que desceram ao Hades na parábola, e conferimos também que o Hades (Sheol) bíblico é a sepultura, que nada mais é senão o local de corpos físicos. A única coisa que muda é a personificação de tais personagens, ganhando vida neste lugar, como um fundo parabólico onde se passa aquilo que realmente Jesus queria ensinar como a lição moral da parábola. V–O Significado da Parábola Voltando à parábola - Já vimos que a parábola não pode ser analisada literalmente. Vários fatores corroboram para isso, incluindo o fato de que os personagens possuem corpos reais, com língua, dedo, sentimento de sede, o local onde a parábola se passava e outras parábolas que claramente também não necessitam de meios reais. Observe esta outra parábola bíblica: “Porém Jeoás, rei de Israel, enviou a Amazias, rei de Judá, dizendo: O cardo que está no Líbano enviou ao cedro que está no Líbano, dizendo: Dá tua filha por mulher ao meu filho; mas os animais do campo que estavam no Líbano, passaram e pisaram o cardo” (cf. 2ª Reis 14:9). Analisando literalmente (assim como fazem com a parábola do Lázaro), cardo e cedro (que são árvores) falam. Creio que a maioria das pessoas concorde comigo que as árvores não falem. São parábolas, e parábolas são metáforas, alegoria, estória, ficção, que não podem ser classificadas literalmente. Se pretendêssemos usar as parábolas literalmente, deveríamos – usando a mesma lógica que os imortalistas fazem com a parábola do Lázaro – dizer que as árvores também falam e fundamentarmos isso como doutrina. Felizmente, parábolas não são relatos literais, e sim metáforas com uma lição moral.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 161 Sendo assim, podemos ficar tranquilos sabendo que as árvores realmente não falam, pois parábolas não apresentam meios reais, mas apenas lições morais por detrás de um cenário fictício. É evidente que cada elemento na parábola acima de 2ª Reis tinha o seu devido significado e a sua devida lição moral. Nada mais que dois reis: o de Judá (Amazias), e o de Israel (Jeoás) são personificados pelas árvores. Jeoás compôs a parábola para Amazias. Este não a atendeu (cf. 2ª Reis 14:11), e por isso, o povo do “cardo” (Amazias) foi ferido pelos “animais do campo” (exército do “cedro” – Jeoás). A lição da parábola não era que as árvores falam, mas sim uma mensagem aos que lessem a metáfora a partir da personificação de personagens inanimados. A mesma linguagem vemos em várias outras partes da Bíblia: “Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós. Mas a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim prezam, para ir balouçar sobre as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e reina sobre nós. Mas a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, para ir balouçar sobre as árvores? Disseram então as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós. Mas a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, para ir balouçar sobre as árvores? Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. O espinheiro, porém, respondeu às árvores: Se de boa fé me ungis por vosso rei, vinde refugiar-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro, e devore os cedros do Líbano” (cf. Juízes 9:8-15) Novamente, a lição não era que as árvores ou os espinheiros falem ou dialoguem entre si. Tudo não passava de mera parábola em que as oliveiras, a figueira e a videira representavam aqueles que não quiseram reinar sobre as “árvores” (povo de Siquém). As mais valiosas árvores do Oriente Médio aqui simbolizam os homens principais de Siquém, e o espinheiro era um arbusto farpado comum nas colinas da Palestina e representava apropriadamente Abimeleque, que nada produzia de valor. Os meios eram puro simbolismo e representação comum na Bíblia Sagrada, não eram verdades literais porque nem árvores, nem cedros, nem cardos, nem oliveiras, nem figueiras, nem videiras e nem espinheiros falam! É óbvio que a única coisa que devemos tirar como verdade literal é a sua lição moral, e não os seus meios. O mesmo deve ser dito com relação à parábola do Lázaro, em que houve uma personificação, vivificação dos personagens ali apresentados (Lázaro, o rico e Abraão) bem como uma metaforização do cenário (Hades) que, como vimos, é puramente sepultura. É comum a Bíblia personificar personagens inanimados. A PERSONIFICAÇÃO BÍBLICA DE PERSONAGENS INANIMADOS 1 “Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós” (cf. Juízes 9:8-15) 2 “O cardo ... mandou dizer ao cedro ... Dá tua filha por mulher a meu filho” (cf. 2ª Reis 14:9) 3 “Disseram então as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós” (cf. Juízes 9:12) 4 “Porque a pedra clamará da parede, e a trave lhe responderá do madeiramento” (cf. Habacuque 2:11) 5 “Se eles se calarem, as próprias pedras clamarão” (cf. Lucas 10:40; Mateus 3:9) 6 “O ouro e a prata de vocês enferrujaram, e a ferrugem deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne” (cf. Tiago 5:3)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 162 7 “A voz do sangue do teu irmão clama da terra a mim” (cf. Gênesis 4:10) 8 “Quando ele bradou, os sete trovões falaram” (cf. Apocalipse 10:3) 9 “Ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf. Hebreus 12:24) 10 “E ouvi o altar responder: Sim, Senhor Deus todo-poderoso, verdadeiros e justos são os teus juízos” (cf. Apocalipse 16:7) 11 “Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra vocês” (cf. Tiago 5:4) 12 “Então jubilarão as árvores dos bosques perante o Senhor, porquanto vem julgar a terra” (cf. 1 Crônicas 16:33) 13 “Pois com alegria saireis, e em paz sereis guiados; os montes e os outeiros romperão em cânticos diante de vós, e todas as árvores de campo baterão palmas” (cf. Isaías 55:12) 14 “Mas, pergunta agora às alimárias, e elas te ensinarão; e às aves do céu, e elas te farão saber; ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes o mar to declararão” (cf. Jó 12:7,8) 15 “Ressoe o mar, e tudo o que nele existe; exultem os campos, e tudo o que neles há!” (cf. 1 Crônicas 16:32) 16 “Os rios batam as palmas; regozijem-se também as montanhas” (cf. Salmos 98:8) Tudo isso acima tem um nome: alegoria. Tudo tem uma lição moral para aprendermos por detrás de um cenário com personagens inanimados, sem vida, que ganham vida na parábola ou na alegoria que está sendo dita, com a finalidade de ensinar alguma coisa aos ouvintes. Obviamente, essa “alguma coisa” que se quer ensinar aos ouvintes não é o próprio cenário em si ou seus meios (que árvores, rios, altares, trovões, sangue, pedra, ouro ou pessoas após a morte falem), mas sim aquilo que moralmente podemos depreender por meio destas alegorias. Nada indica que o salmista esteja querendo passar a ideia de que rios batem palmas e as montanhas se regozijam (cf. Sl.98:9), nada indica que Jó queria passar a ideia de que a terra e os peixes falam (cf. Jó 12:7,8), nada indica que João cria que altares e trovões falam (cf. Ap.10:3; 16:7), nada indica Moisés cria que o sangue tem voz (cf. Gn.4:10), nada indica que o escritor bíblico cria que as árvores conversam entre si (cf. Jz.9:8-15; 2Rs.14:9), nada indica que Cristo pensava que as pedras falavam (cf. Lc.10:40), e da mesma forma nada indica que esse mesmo Jesus cria que corpos mortos que desciam ao Hades ganhavam vida literalmente (cf. Lc.16:19-31). As pessoas se esquecem que é comum a Bíblia personificar personagens inanimados, ainda mais em um contexto parabólico ou simbólico! Biblicamente, as árvores, sangue e trovões falam mais do que os mortos, que, quando falam, é em um contexto claramente metafórico, inserido em um contexto alegórico que dá margens a isso. Os meios de uma parábola nunca podem ser considerados literais e, por isso, o nosso próximo passo a partir de agora é descobrirmos o que representa cada elemento personificado na parábola do Lázaro. Entendendo a parábola - A Bíblia não diz que o rico era um rico ímpio. Diz apenas que era “um homem ímpio e... morreu” (cf. Lc.16:22). E isso nunca, jamais, em circunstância nenhuma, pode ser considerado um “pecado” digno de lançar uma alma no fogo do inferno. Se fosse assim, então muitos homens por serem ricos deveriam partilhar do inferno também, incluindo Abraão, Isaque, Jacó, Jó, José de Arimateia, etc. Lembre-se que estamos
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 163 analisando a parábola literalmente, como os imortalistas o querem que façamos para fundamentar uma doutrina bíblica. A parábola diz apenas que era um homem rico. Em momento nenhum diz que era um homem mau ou profano. E quanto a Lázaro? A situação piora ainda mais para o lado dos imortalistas, pois a parábola diz apenas que ele “era um homem pobre e... morreu”. Ora, jamais poderíamos pressupor que ser pobre ou mendigo é passaporte para a salvação. Não. A Bíblia não ensina, em nenhum lugar, que por ser pobre ou ter sofrido muitas dores, alguém tem a garantia celestial. Isso não é bíblico! E a parábola nada diz de ser Lázaro um mendigo do “bem”, diz apenas ser um mendigo. Pense: se o rico fosse uma representação de todos os justos e Lázaro representasse todos os ímpios (como querem os imortalistas), então não seria estranho que em momento nenhum Jesus dissesse que o rico era ímpio ou que o pobre Lázaro era justo? Afinal, isso seria da maior fundamental importância caso fosse este o caso que Cristo quisesse ilustrar. Se fosse este o caso, então nos seria dito claramente que o rico era ímpio e o mendigo era justo. Mas isso não nos é relatado, porque, como veremos, não era isso o que Jesus ilustrar. Ademais, se a parábola deve ser analisada literalmente, então deveríamos colocar todos os pobres no Céu e todos os ricos no inferno. Irmão, são parábolas, e parábolas não tem meios reais, jamais podem entendidas literalmente. Além disso, a parábola nos indica que Lázaro era do pior tipo de gente, com o corpo todo carcomido e cheio de chagas por uma doença terrível, presumivelmente a lepra. A obrigação, por Lei, de qualquer leproso (ou nestas condições do Lázaro da parábola) era de passar longe das demais pessoas e ainda gritar: “Imundo! Imundo!” (cf. Lv.13:44-46). Isto quando não eram apedrejados. Pobres criaturas! Agora continue imaginando o cenário: um rico, de alta classe, de repente se depara com esse pobre “farrapo” de gente, com cães lambendo as feridas em carne viva, devorada pela lepra. Qual seria sua reação? Deixaria ele comer da comida ou o expulsaria dali? Lembrem- se, pessoas como o pobre Lázaro nem mesmo podiam chegar perto de alguma pessoa da sociedade! Quanto mais comer das migalhas de algum homem rico! Qual seria sua atitude ao encontrar, na porta de sua casa um leproso, em tamanho avançado grau de enfermidade? Sua reação é uma incógnita, mas a do Rico da parábola, não. Não só o permitiu comer das migalhas, como também não o expulsou dali (o que estaria de acordo com a própria Lei dos judeus) e, além disso, pelo relato percebemos que tal fato deve ter durado dias de benevolência! Portanto, esse Rico da parábola não era um homem mau, mas bom, de coração e inclinado a fazer tal “caridade”. Ora, se Lázaro por ser mendigo foi para o Seio de Abraão, por que o rico também não foi, uma vez que não é nenhum “pecado” ser rico, e esse da parábola demonstrou alguma humanidade? Por que o rico também não foi salvo, se a parábola deve ser analisada literalmente ou se a intenção de Cristo era representar os homens ímpios que vão para o inferno a partir dessa parábola? Se essa fosse a intenção de Cristo, deveríamos esperar que ele narrasse um homem rico completamente desumano, ímpio, ladrão, que merecesse verdadeiramente um inferno para si. Esperaríamos realmente a descrição de alguém que nem ao menos deixa o pobre comer das migalhas e que ainda o chutaria para fora, ou que consegue a sua riqueza por meios
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 164 desonestos. Contudo, isso está muito longe de ser o caso! Ademais, se os salvos personificados pelo mendigo conversam com os ímpios no inferno, personificados pelo Rico, imaginemos, por exemplo, que você esteja no Céu, gozando a bem-aventurança, quando, de repente, você ouve gritos, e estes aumentam gradativamente. Você então contempla seu parente ou amigo no inferno, com o fogo o consumindo por completo, sob gritos e torturas horríveis. Medite: como você se sentiria, vendo-o do lado de lá, um amigo ou parente nesta condição terrível? Afinal, se a parábola deve ser analisada literalmente, então o Céu e o inferno são separados por uma “parede-de-meia”, certo? Ora, é impossível acreditarmos numa coisa dessas, mas tal cenário insuportável é o que deveríamos admitir em caso de aceitar que os meios da parábola são literais. Selecionei uma lista com apenas vinte de todos os absurdos a que chegaríamos caso fundamentássemos a parábola como uma doutrina bíblica: ERROS E CONSTATAÇÕES DA ANÁLISE LITERAL DA PARÁBOLA PELOS SEUS MEIOS 1 Os mortos partem para o outro mundo não como “espíritos”, mas com o seu próprio corpo com dedos, línguas, etc. 2 Os “espíritos” sentem sede (v.24). 3 Ser rico é motivo de ser mandado ao inferno, apesar de ter demonstrado tão grande benevolência para com o pobre Lázaro e a própria parábola nada dizer de que o Rico era um homem mau! 4 Ser mendigo é passaporte para o Céu, uma vez que a parábola em nada indica que o mendigo era um homem justo ou que cria no Senhor. 5 O Céu e o inferno ficam um bem do lado do outro (veríamos os nossos amigos ou parentes queimando lá do outro lado!). 6 Apesar de haver um “abismo intransponível” entre ambas as partes, os salvos podem ficar conversando a vontade com os ímpios que estão queimando no inferno (vs. 25 e 26). A comunicação entre os justos do Céu e os ímpios do inferno é perfeitamente possível (poderíamos ficar conversando com os nossos amigos ou parentes enquanto estes estão entre as chamas de um fogo eterno e devorador). 7 É possível falar perfeitamente como em uma conversa normal enquanto queima-se entre as chamas de um fogo verdadeiro (vs. 23-31). 8 O mediador não é Jesus, mas Abraão, para atender o chamado do rico (ver 1ª Timóteo 2:5; João 14:6; Efésios 2:18, etc). 9 Usando a mesma lógica que os imortalistas usam com a análise literal dos meios de uma parábola, concluímos que as árvores falam (cf. 2ª Reis 14:11). 10 O rico pedia que Lázaro molhasse apenas a língua dele enquanto queimava entre as chamas, ao invés de lhe dar um verdadeiro “banho de água”! 11 Se os mortos justos partem para o “Seio de Abraão” na morte, para onde partiu Abraão quando morreu? 12 Para onde iam os que morriam antes de Abraão? 13 Caim inaugurou o tormento do Hades e está queimando há seis mil anos até hoje. 14 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz conclusão de que Deus é um juiz mau que nem ao homem respeita (meios da parábola de Lucas 18:1-8). 15 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz conclusão de que a Bíblia aprova a prática de administração desonesta (meios da parábola de Lucas 16:1-12).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 165 16 Os meios de uma parábola são reais e, portanto, deveríamos chegar à infeliz conclusão de que e Deus é um homem severo que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste (meios da parábola de Mateus 25:24) 17 Imediatamente após a morte vem o juízo (cf. Hb.9:27). Mas na parábola o rico e Lázaro foram conduzidos aos seus respectivos lugares sem sequer passarem por algum julgamento antes, que sequer é mencionado ao longo de toda a parábola. Sendo assim, ou o autor de Hebreus se engana ao dizer que o que sucede a morte é o juízo e não a condenação ao inferno ou o gozo do Paraíso, ou a parábola não deve traduzir acontecimentos reais. 18 Se o Hades/Sheol é alguma “morada de espíritos”, então Davi estava enganando- se a si mesmos e aos outros ao escrever que são os ossos que descem ao Sheol (cf. Sl.141:7 – “Sheol”, no original hebraico) 19 Como explicar que na própria lição moral da parábola (ou seja, o que realmente devemos retirar dela como fonte de doutrina teológica), o personagem Abraão fala em “ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (vs. 30 e 31), confirmando que só a ressurreição é o caminho do retorno de quem morreu à existência? 20 O rico reconhece Abraão (v.23), o que demonstra que tinha familiaridade com ele, mas na própria parábola Abraão cita Moisés (v.29), que é de séculos posteriores. Se essa parábola for considerada real, corroboraria com a tese de que os mortos sabem o que acontece no mundo dos vivos, o que é negado pelos protestantes. É evidente, portanto, que se trata de mera parábola e como as outras devemos tirar dela a sua lição moral e não analisá-la literalmente e muito menos podemos sair por aí fundamentando importantes doutrinas bíblicas edificando-as sobre meios de parábolas! Assim como na parábola de 2ª Reis a lição não era que as árvores falam, mas cada elemento tem o seu devido significado, assim também o é na parábola do rico e Lázaro. O nosso próximo passo, então, será desvendarmos o que cada um representava na parábola. Antes, porém, um pequeno adendo para a refutação de outros argumentos imortalistas comumente enfrentados. As contradições imortalistas – Os imortalistas, ao sustentarem essa parábola como sendo real e literal quando querem refutar os mortalistas, incorrem em uma série de contradições bíblicas com a doutrina deles mesmos. Um dos exemplos mais claros que podemos citar é a interpretação deles sobre o “espírito” que volta a Deus após a morte. À luz da Bíblia, esse espírito nada mais é senão o sopro de vida que volta a Deus após a morte porque provém dEle, mas os imortalistas precisam sustentar que esse espírito que volta para Deus é a própria alma imortal, um ser consciente com personalidade que vai para o Céu imediatamente após a morte. Sendo assim, a interpretação deles de textos como Eclesiastes 12:7 é de que logo ao morrermos nossa alma deixa o corpo e vai para a presença de Deus. Mas, sabendo que Deus está no Céu, como é que nesta parábola Abraão e Lázaro estavam no Hades, que fica nas profundezas da terra e não no Céu, como o próprio Senhor Jesus deixou claro em Mateus 11:23? Pois ele disse: “E tu, Cafarnaum, será elevada até ao Céu? Não, você descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados tivessem sido realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje” (cf. Mt.11:23). Se o Hades não é o Céu, mas fica em oposição a este (um está “acima” de nós e outro “abaixo”) e o espírito volta a Deus após a morte (cf. Ec.12:7), como é que Abraão, Lázaro e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 166 o rico estavam no Hades na parábola, e não no Céu ou em alguma dimensão celestial? Isso fica claro na própria parábola, que diz: “No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado” (cf. Lucas 16:23) Como vemos, o rico estava no Hades, e não com Deus nas regiões celestiais. E Abraão, por sua vez, também não poderia estar no Céu, porque estava tão próximo do rico que podia vê-lo e conversar com ele! Se tudo isso se passava no Hades, que para os imortalistas é um local embaixo da terra onde espíritos sobrevivem conscientemente à parte do corpo, como conciliar isso com o texto de Eclesiastes 12:7, que diz que o espírito volta para Deus na morte, e não que desce ao Hades? Na teologia bíblica mortalista é fácil responder a esta pergunta, pois o Hades é uma figura da sepultura para onde vamos ao morrer, e o espírito não é uma “alma imortal” ou um ser consciente e racional à parte do corpo, mas apenas o sopro de vida de Deus. Mas como os imortalistas interpretam que a alma é imortal e o espírito é uma entidade consciente, teriam que explicar como é que o espírito sobe para Deus, como disse Salomão (cf. Ec.12:7), Jesus (cf. Lc.23:46) e Estêvão (cf. At.7:59), e a alma vai parar no Hades, que é onde estavam Abraão e Lázaro nesta parábola. Ou eles interpretam a parábola alegoricamente (como deveriam fazer) ou é a própria teologia deles próprios que vai por água abaixo. Outra passagem que refuta a interpretação imortalista de Lucas 16 é a de Hebreus 9:27, que diz que imediatamente após a morte segue-se o juízo, e não o Céu ou o inferno. Ou seja: a próxima experiência consciente que alguém desfrutará após a morte será o imediato encontro com o tribunal de Cristo (para os justos) ou o grande trono branco (para os ímpios). Mas nessa parábola contada por Cristo não há qualquer menção ao juízo seguindo-se à morte. Não é nos dito que o rico morreu, foi julgado e depois condenado a sofrer no Hades, mas que ele foi direto para o Hades. Sendo assim, ou o autor de Hebreus errou ao dizer que logo após a morte vem o juízo, ou a parábola não é uma história real contada por Jesus, mas uma alegoria. Ora, sabemos que este juízo só ocorrerá na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1) e que os ímpios só serão julgados após o término do milênio (cf. Ap.20:11-15), seguindo-se, portanto, que o rico não foi literalmente enviado ao Hades conscientemente para ser atormentado, mas espera o dia do juízo, que é de fato a próxima experiência que alguém tem depois de morrer. Portanto, as verdades literais da Bíblia anulam qualquer possibilidade de essa parábola ser um acontecimento real ou retratar algo que de fato ocorra com alguém após a morte, e de quebra põe a própria teologia imortalista em confusão consigo mesma. Refutando contra-argumentos – A contra-argumentação mais famosa utilizada pelos imortalistas é que, mesmo que Lucas 16 seja uma parábola e não necessariamente precise relatar meios literais, a imortalidade da alma deve mesmo assim ser considerada através desta passagem porque Jesus não iria “confundir” os seus ouvintes judeus incrédulos, que poderiam pensar que realmente aquele estado intermediário existia. Para eles, se aquela descrição da parábola fosse fictícia, isso causaria enorme confusão na mente daquelas pessoas e muitos poderiam tomar aquilo como sendo um retrato da verdade. A vista deste argumento, temos que fazer as seguintes considerações:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 167 1º Em primeiro lugar, o povo daquela época, diferentemente do atual, já estava habituado com o uso de parábolas e sabiam que elas não poderiam ser levadas ao pé da letra. Jesus só lhes falava por meio de parábolas (cf. Mt.13:34), e, se eles fossem literalizar cada uma delas, poderiam ter depreendido vários erros teológicos dos quais já constatamos aqui, como, por exemplo, a alegação de que Deus é um juiz ímpio (cf. Lc.18:2), que colhe onde não semeou (cf. Mt.25:24), que obriga as pessoas a irem para o Céu (cf. Lc.14:23), ou que aprova a prática da administração desonesta (cf. Lc.16:8). Mas nunca vemos alguém acusando Jesus por insinuar que ele aprovava a administração desonesta, que colocava um caráter ímpio em Deus ou que não respeitava a nossa própria liberdade. Portanto, podemos perceber claramente que o próprio povo da época entendia que as parábolas não podiam ser interpretadas literalmente. Se eles não faziam isso com as outras parábolas, também não iriam aplicar este princípio na do rico e Lázaro para serem “confundidos”! 2º Em segundo lugar, se Jesus não poderia fazer uso dessa parábola em função da “confusão” que causaria em seus ouvintes, então ele não obteve tanto sucesso, visto que o Hades que ele mencionou era totalmente diferente daquele que é crido hoje pelos imortalistas. Por exemplo, na parábola Céu e inferno ficam lado a lado, já na teologia imortalista ficam em dimensões diferentes. Na parábola, os salvos e os perdidos conversam numa boa, já na teologia imortalista não há contato entre os salvos e perdidos que se foram. Na parábola, o rico tinha um corpo físico com língua, dedos, e sentia sede. Já na teologia imortalista, é apenas um espírito incorpóreo que desce ao Hades. Sendo assim, se este argumento imortalista realmente procede, certamente se volta contra eles mesmos quando analisado mais de perto. 3º Em terceiro lugar, temos que ressaltar que Jesus não estava contando essa parábola aos incrédulos (multidão), mas aos seus próprios discípulos. Isso por si só já fulmina com esse argumento imortalista, pois, se Cristo contou essa parábola aos seus próprios discípulos (e estes já estavam muito bem doutrinados por Cristo), não haveria possibilidades de “confundir a multidão” que vivia em trevas. Podemos perceber que Jesus falava em particular com os seus discípulos e não com toda a multidão através da leitura do verso seguinte, que deixa claro que Jesus estava falando “aos discípulos” – Lucas 17:1. Temos que lembrar que o original da Bíblia não continha a divisão por capítulos e versículos, e, portanto, Lucas 17:1 era simplesmente a continuação direta e imediata do relato descrito até o verso 31 em Lucas 16, que deixa evidente que a conversa era entre Jesus e seus discípulos, e não entre Jesus e a multidão. 4º E, em quarto lugar, devemos lembrar que seus discípulos, evidentemente, já eram muito bem doutrinados por Cristo, e portanto não teriam qualquer problema com essa parábola. O pastor adventista Valdeci Junior costuma contar aos seus ouvintes uma história semelhante a que Jesus contou em Lucas 16:19-31, dizendo90: «Certa vez, morreram, na mesma hora, em lugares diferentes mas não muito distante um do outro, dois homens. O primeiro era um senhor simples, sem estudos, motorista de ônibus na pequena região onde morava. Era conhecido de todos, principalmente pela má execução de sua tarefa profissional. Era muito, mas muito barbeiro. Foi assim a vida toda, até que morreu em acidente de transito. O segundo homem era o pastor da cidadela. 90 Disponível em: <http://www.nasaladopastor.com/2011/03/parabola-do-rico-e-do-lazaro-vai-pro.html>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 168 Pois bem, chegaram na porta do céu praticamente juntos. São Pedro atendeu primeiro o motorista. No questionário de admissão para entrar no céu, quando São Pedro queria saber quem ele era, aquele homem começou a explicar: eu sou aquele conhecido motorista de ônibus, da empresa tal, de tal cidade, e tal e tal... Ah, ta! Disse São Pedro. Você é o motorista barbeiro! “Justamente”, respondeu o homem! Pois bem! Disse São Pedro. Entre! O Céu é todo seu! O pastor, que estava assistindo a entrevista enquanto esperava para ser também atendido, pensava: “Se este homenzinho foi admitido ao Céu, imagine eu, o pregador”. São Pedro se virou para o pastor: “Você é o próximo?” “Sim”, respondeu o pastor, todo empolgado: “Sou o pastor, da mesma cidade deste barbeiro que acabou de entrar...” São Pedro cortou: “Olha, eu sei quem você é. Infelizmente, você não tem entrada livre ao Céu. Não poderá ficar aqui”. “Mas como?”, contestou o pastor. “Este homenzinho ignorante, iletrado, que fazia seu trabalho mal feito, que não pregava, que vivia dando prejuízo pra empresa, que sempre deixava todos os seus passageiros tensos e temerosos, vai entrar no Céu, e eu, o pregador, que vivia na igreja, que falava da palavra de Deus, que procurava deixar todos em paz, não poderei entrar?” “É justamente nesta diferença que está a razão da rejeição de sua entrada em face da admissão do motorista”, respondeu São Pedro. “Não entendi”, disse o pregador. O apóstolo porteiro do Céu explicou: “É que enquanto você estava na igreja, com seus sermões sem vida, colocando todos os seus fiéis para dormir, o motorista estava colocando todos os seus passageiros para rezar”» Depois que ele conta a história, ainda antes de revelar ao auditório qual será o assunto do dia, começa a perguntar às pessoas quais são as lições que elas tiraram desta história. É interessante notar alguns pontos da reação do auditório. Assim que termina a história, os ouvintes sorriem e vão fazendo a lista das lições aprendidas: “Nem todo o que me diz Senhor, Senhor entrará no reino dos céus” “Os simples também têm entrada no Céu” “É melhor a devoção do que o formalismo” “Ser pastor não garante a salvação” “O pregador deve fazer bons sermões” “O Céu não admite só pela aparência” “As aparências enganam” “Devemos vigiar e orar” E por aí vai... Interessante é que absolutamente ninguém até hoje diz que viu nesta história lições como:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 169 “São Pedro está lá na porta do Céu esperando por nós” “Antes de entrarmos no Céu teremos que passar por uma entrevista” “Assim que morremos chegamos ao Céu” “Pode ser que cheguemos à porta do Céu e não sejamos admitidos” “A alma é imortal” Ninguém se escandaliza por isso ou ridiculariza a história. Esperam então que ele introduza o assunto da palestra baseado em alguma das lições que conseguiram tirar dela. Começam a imaginar qual será o tema da noite. Jamais pensam que ele iria falar da parábola do rico e do Lázaro. Ele se aproveitou de uma crendice popular apenas como um cenário onde se passava uma historia inventada, a fim de ensinar algumas lições. Por que? 1º O auditório sabe que esta não é uma historia verdadeira. 2º Eles conhecem a crendice popular de que quem morre vai pro Céu, e na entrada encontra São Pedro. 3º Eles não creem nesta crendice como doutrina. Sabem que isto não é verdade (ele já conhece o auditório e sabe que eles creem como ele crê, sobre o destino do homem após a morte). 4º O auditório vai conseguir captar as lições que ele quer ensinar com mais facilidade, pois, através de uma metáfora, está figurando o ensino. Isto é didática. A primeira vez que ele ouviu esta historia, ela foi contada por um palestrante que não cria na imortalidade da alma, para um publico que também não cria. Na ocasião, todos entenderam a mensagem. A questão de mortalidade ou imortalidade nem foi cogitada por ninguém. Não era este o assunto. Isto foi o que Jesus fez. Ele se utilizou de um cenário popular como um fundo fictício onde se passava a parábola do rico e Lázaro, na qual ele ensinou aos seus discípulos as lições morais que iremos analisar a partir de agora. Isso obviamente não confundiria os discípulos nem a ninguém que entendesse um pouco de Bíblia para saber que a natureza humana é holista, que a morte é a cessação da existência e a ressurreição é o antídoto para a vida eterna, tanto quanto a palestra do pastor Valdeci Junior, que vimos acima, não levou ninguém a tirar a conclusão de que aquela história ensina a imortalidade da alma, nem tampouco chegou a “confundir” alguém. O significado dos elementos da parábola - O homem rico representava a nação judaica, que se orgulhava de se auto-considerar “os filhos de Abraão” (cf. Jo.8:33). Eram o povo escolhido de Deus, a nação eleita, sacerdócio real, tinham a Lei de Deus, os Mandamentos, eram os filhos legítimos de Abraão. Deus lhes computou todas as responsabilidades do Reino como os Seus filhos, como a Sua nação eleita. Contudo, rejeitaram o Messias, rejeitaram o Filho de Deus encarnado, preferiram seguir os seus caminhos e as suas tradições, fundamentando-as na segurança de serem os filhos de Abraão, a nação de Jeová e, portanto, os filhos legítimos do Reino. Em contraste, como eles consideravam os gentios? Os consideravam como os coitados, considerados como cães,
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 170 imundos e indignos do favor do Céu, pelos judeus. Não foram os “escolhidos de Deus”, eram, portanto, os “Lázaros espirituais”. Enquanto os judeus receberam tudo de bom nesta vida, recebendo o favor de Deus como a nação eleita e sacerdócio real, para lhes ser computada como justiça, os gentios (representados pelo mendigo Lázaro) eram os “pobres” do Reino. Ficavam para trás, o máximo que faziam era “comer as migalhas” daqueles que faziam parte do Reino, os judeus, representados pelo Rico. Como o rico, os judeus não estendiam a mão para auxiliar os gentios em suas necessidades espirituais. Permitia apenas comer das migalhas. Cheios de orgulho, consideravam-se o povo escolhido e favorecido de Deus; contudo, não serviam nem adoravam a Deus. Depositavam confiança na circunstância de serem filhos de Abraão, dizendo: “Somos descendência de Abraão” (cf. Jo.8:33), e diziam isso orgulhosamente. Assim, foram os judeus comparados ao homem Rico da parábola, pelo fato de que possuíam as riquezas do evangelho, mas, no entanto, não cumpriram a vontade de Deus a respeito deles, que era de ser a luz dos gentios. No campo religioso, os pobres gentios pegavam mesmo apenas as migalhas. Uma cena que exemplifica bem esse quadro encontra-se no evangelho de Mateus: “E, partindo Jesus dali, foi para as bandas de Tiro e Sidom. E eis que uma mulher cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou dizendo: Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoniada. Mas Ele não lhe respondeu palavra. E os discípulos, chegando ao pé dEle, rogaram-lhe dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E Ele respondendo disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. Então chegou ela e adorou-O dizendo: Senhor, socorre-me. Ele porém, respondendo disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé: Seja isto feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã” (cf. Mateus 15:21-28). Aquela mulher cananéia (gentios) também queria compartilhar das “migalhas” da mesa, assim como o mendigo Lázaro. Uma descrição perfeita daquele cenário. O que Jesus fez? Elogiou a sua fé. Apesar de ele ter sido chamado para a “casa de Israel”, ficou impressionado com a fé dos gentios, pois “nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé”. Aquela gentia contentava-se em comer das migalhas da mesa, como é o caso de Lázaro na parábola. Outro exemplo disso encontra-se em Mateus 8:5-13. Nesta experiência, o centurião expressou exatamente o que os judeus pensavam dos gentios: “Não sou digno de que entreis em minha casa” (v.8). No entanto, o centurião demonstrou grande fé quando disse: “Diga somente uma palavra e meu criado sarará” (v.8). Jesus curou o servo daquele gentio e publicamente elogiou sua fé com estas palavras: “Nem mesmo em Israel encontrei tanta fé” (v.10), e, por fim, assegurou que muitos gentios irão se assentar na mesa com Abraão (cf. Gl.3:27-29; Rm.10:12). Apesar de serem considerados “a descendência de Abraão”, os gentios demonstravam uma fé muito superior do que a dos próprios israelitas! Embora estes fossem “os ricos do Reino”,
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 171 devendo ser a luz das nações e os reis da terra deveriam caminhar vendo a glória de Deus que paira sobre eles (cf. Is.60:3), não aproveitaram essa sua riqueza. Os gentios, contudo, mesmo sendo os “Lázaros espirituais”, desprezados pelos judeus por não serem os “filhos de Abraão”, demonstraram uma fé muito superior a dos próprios judeus. No pátio do Templo de Jerusalém havia uma linha demarcatória que, no caso de ali algum gentio passar, morria imediatamente (cf. At.21:29), isso porque eram considerados indignos pelos judeus de cultuar a Deus no Seu Templo. Portanto, Cristo quis ensinar nesta parábola que os judeus (Rico) banqueteavam-se na mesa da verdade, enquanto os gentios (Lázaro), eram como os cachorrinhos que procuravam a todo custo apanhar ao menos das migalhas do evangelho. E, de fato, eles passaram a fazer parte da mesa de Deus, unidos em “um só povo” (cf. Jo.11:52). Isso serviu de lição moral ao grupo dos fariseus, que eram exatamente aqueles a quem Cristo condenava nesta parábola (v.14,15). A maior prova de que o Rico (nação judaica) recebeu “seus bens em sua vida”, como nos informa a parábola, foi o fato de ter sido chamada para ser o sacerdócio real de Deus na Terra, nação santa, peculiar. Sobre ela o Senhor dispensou, por séculos, bênçãos sem limites, além de dar-lhes uma terra onde mana leite e mel e, finalmente, deu-lhes o próprio Messias, o Salvador. A reação do rico (judeus), contudo, foi esta: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (cf. Jo.1:11). Os judeus, portanto, rejeitaram o Messias (o Rico morre). Assim sendo, perderam a soberania divina sobre as demais nações. O evangelho haveria de ser então anunciado em seu poder aos gentios (Lázaro), a fim de que também eles participassem da mesa do Reino. Não comeriam mais migalhas da mesa do Senhor, mas fariam parte do banquete do Reino (cf. Lc.13:29). O que Jesus faz? Ele tira do próprio Abraão, sobre o qual aquela nação judaica se orgulhava em sua chamada “superioridade”, as palavras que este haveria de ter dito em pessoa: “Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (cf. Lc.16:31). Essa é a lição moral da parábola. Nada, nem mesmo uma ressurreição, poderia converter aquela nação novamente. Tornaram-se cegos espirituais, cavaram-se a si mesmo um abismo intransponível entre eles e Deus, entre eles e a salvação (cf. Lc.16:26). A parábola, portanto, não deve ser interpretada literalmente pelos seus meios fundamentando-a como doutrina, pelo contrário, tem cada elemento o seu devido significado ao exemplo das outras parábolas que também não apresentam meios literais, mas uma verdade moral por detrás de um cenário fictício. Ele contou a parábola do Rico e do Lázaro, em que o homem rico representava o próprio povo judeu que teve todas as oportunidades nesta vida, mas a desperdiçou, enquanto, em contraste, os gentios (representados por Lázaro na parábola) eram os “Lázaros espirituais”, desprezados pelos judeus, mas que desfrutariam de muito maior bem-aventurança do que a própria nação judaica que se autoproclamava os “filhos de Abraão”. O quadro todo representava aquela nação judaica que se orgulhava por serem os filhos de Abraão escolhidos de Deus (representados pelo Rico), quando, na verdade, os que são da fé é que são os verdadeiros filhos de Abraão (representados pelo pobre Lázaro), como disse o apóstolo Paulo: “Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão” (cf. Gl.3:7).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 172 Por fim, a lição moral da parábola é que, “se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite” (cf. Lc.16:31). Os fariseus desprezavam Jesus, não acreditavam nele, o perseguiam, apesar de todos os feitos milagrosos de Cristo, incluindo o de ressuscitar os mortos. Jesus havia ressuscitado exatamente um homem chamado Lázaro (cf. Jo.11:43,44), que havia voltado à vida após quatro dias em que esteve morto, mas nem mesmo assim os fariseus acreditaram nele, e ainda continuavam a o perseguir! Os que não escutam Moisés e os profetas também não vão acreditar em Cristo, nem mesmo se os mortos ressuscitarem. De fato, essa verdade foi ainda mais ressaltada pela reação dos dirigentes dos judeus quando Jesus ressuscitou Lázaro, no relato de João 11. Ao invés de eles passarem a acreditar em Cristo, começaram a persegui-lo ainda mais do que antes: “Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: Que faremos? Porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação (...) Ora, os principais dos fariseus tinham dado ordem para que, se alguém soubesse onde ele [Jesus] estava, o denunciassem, para o prenderem” (cf. João 11:47-48,57) “E os principais dos sacerdotes tomaram a deliberação para matar também a Lázaro; porque muitos dos judeus, por causa dele, iam e criam em Jesus” (cf. João 12:10-11) Então, Cristo ensina que para aqueles que se proclamavam os “filhos de Abraão”, nenhuma prova – nem mesmo sequer uma ressurreição, como foi a de Lázaro – os fariam mudar de opinião e converter-se. O próprio Abraão que os condenava! Jesus não estava dizendo que literalmente algum morto teria que voltar a vida para contar sobre os tormentos do Hades, convertendo assim aquela nação judaica, pois a Bíblia traz um relatório de sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (cf. 1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11), mas absolutamente nenhuma delas teve uma experiência de pós-morte para compartilhar. Lázaro, que foi trazido à vida após quatro dias morto não teve nenhuma experiência fora do corpo, e muito menos alguma “mensagem” para trazer a família nenhuma. O que Jesus estava fazendo era uma exortação à comunidade: ouvirem a Moisés e aos profetas (i.e, a Escritura da época), antes que seja tarde demais. Isso porque as tradições humanas daquele povo já estavam se sobrepondo a “Moisés e os profetas”, já estavam tomando o lugar da Sagrada Escritura (cf. Mc.7:13). Se considerando filhos de Abraão (Rico) que são beneficiados no banquete do Reino de Deus, desprezavam os gentios (Lázaro), que tinham que comer das migalhas que caíam de suas mesas. Mas este quadro estava se revertendo. A partir do período da Graça, eram os gentios que desfrutariam das bem-aventuranças do Reino, ao passo que aqueles que se apoiavam na descendência natural de Abraão seriam condenados pelo próprio Abraão. Conclusão – A parábola apresenta através de meios não-literais (fictícios) diversos princípios morais que estavam sendo rejeitados pelos judeus da época de Cristo, em especial o repúdio aos gentios, que haveriam de desfrutar muito maior bem-aventurança que os próprios judeus. Eles “virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 173 assentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (cf. Lc.13:29), junto a Abraão e os patriarcas (cf. Lc.13:28), enquanto os incrédulos ficarão de fora: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora. E virão do oriente, e do ocidente, e do norte, e do sul, e assentar-se-ão à mesa no reino de Deus” (cf. Lucas 13:28-29) O quadro descrito em Lucas 13:28-29 é tipificado na parábola do Rico e Lázaro. Na parábola, o pobre, representando a multidão de gentios convertidos, está ao lado de Abraão (cf. Lc.16:22), exatamente como em Lucas 13:28, ao passo que os incrédulos estão de fora do Reino, o que também é tipificado na parábola (cf. Lc.16:23). Assim como em Lucas 13:28-29, na parábola os gentios convertidos representados por Lázaro desfrutam das bem- aventuranças do Reino como em um verdadeiro banquete, após terem desfrutado apenas das “migalhas” enquanto estiveram aqui na terra (cf. Lc.16:21). Sendo assim, podemos dizer que a parábola do Rico e Lázaro é uma tipificação do ensino de Cristo descrito em Lucas 13:28-29, mas com maior riqueza de ensinos morais a serem obtidos dela, como vimos acima. Note que o verbo em Lucas 13:28-29 está em todo o momento no tempo futuro. Cristo diz que “haverá” choro e ranger de dentes (v.28), e não que está havendo choro e ranger de dentes. Da mesma forma, diz que muitos virão do oriente e do ocidente para fazerem parte do Reino, e não que já estejam lá (v.29). Eles se assentar-se-ão à mesa de Deus, como em um acontecimento futuro (v.29). Portanto, aquilo que acontecerá futuramente foi tipificado na parábola do Rico e Lázaro, não de forma literal, mas com a personificação dos personagens ali citados e transmitindo um ensinamento moral aos seus discípulos. A parábola em si não é a descrição de como será o pós-vida, mas uma tipificação desta. Na parábola é tipificado aquilo que virá a ser, isto é, gentios de todas as nações fazendo parte do Reino junto a Abraão, incrédulos de fora, reforço ao apego às Escrituras (“Moisés e os profetas” – cf. Lc.16:31) e a rejeição à incredulidade dos líderes dos judeus. De fato, à exemplo da lista de lições aprendidas na história do pastor Valdeci Junior, podemos listar também aquilo que aprendemos com a parábola do Rico e Lázaro: 1º Que, diferentemente dos fariseus que pensavam que as riquezas eram um sinal da aprovação divina (e estes eram extremamente apegados ao dinheiro - cf. Lc.16:14), haverão homens ricos (v.19) que estarão de fora do Reino (vs.22-23). 2º Que, diferentemente da crendice popular de que a pobreza e a doença eram coisas do diabo, haverão homens extremamente pobres e doentes que serão salvos (vs.20-21). 3º Que os gentios que na época comiam apenas das migalhas passarão a desfrutar da mesa do Reino de Deus ao lado de Abraão (v.21). 4º Que o simples fato de se apoiar na descendência natural de Abraão em nada significa que é realmente filho de Deus (v.24). 5º Que os que desprezam a Cristo estão cavando para si mesmos um “abismo intransponível” entre eles e Deus (v.26).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 174 6º Que nem todo aquele que reivindica para si mesmo o direito de ser chamado filho de Abraão ou de Deus é realmente um convertido (vs.24-25). 7º Que a ressurreição é o único caminho para quem morreu voltar à existência (v.31). 8º Que até mesmo um grande sinal miraculoso como ressuscitar os mortos não é suficiente para fazer que os descrentes creiam em Cristo Jesus (vs.30-31). 9º Que a oportunidade de salvação se limita ao “hoje”, e não depois da morte, quando nada mais pode ser feito (v.s.24-31). 10º Que a Sagrada Escritura (“Moisés e os profetas” – v.31) é o único meio através do qual um incrédulo pode se se arrepender e se converter de seus maus caminhos. Na parábola do Rico e Lázaro, Cristo mostra que é nesta vida os homens decidem seu destino eterno, porque, depois, será apenas por meio da ressurreição que voltaremos à existência (cf. Lc.16:31) e seremos ressurretos para a vida eterna ou para a condenação (cf. Jo.5:28-29), de acordo com os atos praticados em vida (cf. 2Co.5:10), sem segunda chance após a morte (cf. Hb.9:27). Durante o presente momento, essa salvação é oferecida por Deus a toda criatura, sem distinção entre ricos e pobres, judeus ou não-judeus. Mas, se os homens desperdiçam as oportunidades se apoiando em tradições humanas antes que nas Escrituras, acabam por si mesmos cavando entre eles e Deus um abismo intransponível. VI–Deus de vivos, não de mortos – Argumento contra ou a favor da imortalidade da alma? Outra passagem que tem sido olhada pela ótica dualista é o que Jesus diz em Lucas 20:38,39 – “Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para ele todos vivem”. Infelizmente, bastaria que as pessoas lessem o versículo anterior para entender o que Jesus queria provar com aquilo: “E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o indicou no trecho referente à sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos; porque para ele todos vivem. Então disseram alguns dos escribas: Mestre, respondeste bem. Dai por diante não ousaram mais interrogá-lo” (cf. Lc.20:37-40). Do início ao fim Jesus estava usando tal passagem para provar a ressurreição dos mortos, e não uma imortalidade da alma. O fato é que, pelo contexto, Cristo estava debatendo com uma seita da época, chamada de “saduceus”. Estes saduceus não acreditavam na ressurreição dos mortos: “Então se aproximaram dele alguns dos saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram...” (cf. Marcos 12:18) Então, Jesus, para provar que os mortos hão de ressuscitar, citou o trecho que diz que Deus é o Deus de Isaque, Abraão e Jacó, provando assim que eles ainda seriam ressuscitados; eles não estavam mortos para todo o sempre como acreditavam esses saduceus (que não criam na ressurreição para trazer de novo alguém a vida), porque se fosse assim Deus iria dizer que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 175 O intuito de Cristo, portanto, era mostrar para aquele grupo de religiosos, que não acreditavam na ressurreição, que essa era um fato que iria acontecer, pois Deus não é um Deus de mortos. Logo, todos os mortos – incluindo Isaque, Abraão e Jacó – seriam ressuscitados, ao contrário do que acreditavam os saduceus, e viveriam com Deus. Do início ao fim a passagem é para provar a ressurreição dos mortos: “E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o indicou no trecho referente à sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (cf. Lucas 20:37,38) Fica muito mais do que claro que Jesus usou essa passagem para desacreditar aquilo que os saduceus acreditavam, isto é, que os mortos não vão ressuscitar nunca. Se a ressurreição não acontecesse, Deus seria Deus de mortos. O evangelho de Marcos também é revelador para descobrirmos o que Jesus estava querendo dizer com esta passagem: “Pois, quando os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do Céu, e ninguém casará” (cf. Marcos 12:25) “Quando os mortos ressuscitarem”, e não quando a nossa alma imortal deixa o corpo por ocasião da morte! Jesus disse claramente, no contexto, que é “quando os mortos ressuscitarem”, é isso o que Jesus queria provar. Se a intenção de Cristo fosse provar a imortalidade da alma (algo estranho, pois a pergunta não foi sobre isso, mas sobre a ressurreição), então decerto teria dito: “Quando vocês morrerem... serão como anjos no Céu”, se a alma fosse direto para o Paraíso. Contudo, Cristo é claro em dizer: “Quando os mortos ressuscitarem serão como anjos no Céu”. Na verdade, quando os defensores da imortalidade da alma usam esta passagem como suposta “prova” do estado intermediário, eles mal sabem que tudo não passa de um famoso “tiro no pé”. Além de demonstrar uma lastimável interpretação de texto (sem observar o contexto histórico e a contextualização textual que desmontam por completo com a interpretação deles), a passagem ainda sustém uma grande prova contra o estado intermediário. Por quê? Simplesmente porque Cristo afirma categoricamente que “quando os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do Céu” (cf. Mc.12:25). Se o espírito dos salvos partisse para o Paraíso logo no momento da morte em um “estado intermediário”, então certamente Cristo teria dito que “quando morrerem... serão como anjos no Céu”. Contudo, é somente na ressurreição que tal fato se concretiza, o que fulmina com a existência de um suposto estado intermediário. Ademais, os próprios saduceus (que não acreditavam em nada após a morte e nem em ressurreição) sabiam que o Mestre não acreditava em um “estado intermediário”, por isso perguntam a ele focando no momento da ressurreição, pois é somente neste momento em que os mortos voltam à vida: “Na ressurreição, de qual deles será ela esposa, pois os sete por esposa a tiveram?” (cf. Marcos 12:23) Se Jesus cresse na imortalidade da alma, os saduceus o teriam indagado sobre essa possibilidade de a alma ser imortal, e não sobre a possibilidade de a ressurreição acontecer. Eles questionaram direto a ressurreição sem cogitar qualquer estado intermediário ou imortalidade da alma (que eles também não criam) porque sabiam que Jesus cria na
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 176 ressurreição, e não na imortalidade da alma. Por isso, o foco da discussão em todo o momento não foi sobre se a alma é ou não é imortal, mas sim se a ressurreição vai ou não vai ocorrer. Aparentemente, a questão relativa a um estado intermediário não era um ponto de discussão. Nem Jesus nem os saduceus que o questionavam criam nela, e por isso o único que foi debatido foi a ressurreição, que Cristo ensinava e os saduceus não. Além disso, devemos ressaltar o fato de que, neste mesmo contexto, Cristo relata que “não podem mais morrer, pois são como os anjos. São filhos de Deus, visto que são filhos da ressurreição” (cf. Lc.20:36). Aqui vemos que os que partem deste mundo tornam-se imortais (“não podem mais morrer”) e tornam-se como os anjos (“são como os anjos”) a partir da ressurreição dentre os mortos, como é claramente indicado pelo contexto (vs. 33 e 34) e pelo próprio fim do verso que torna tal afirmação muito evidente ao relatar explicitamente que são “filhos da... ressurreição” (v.36). Não desfrutaremos de imortalidade em um estado intermediário, mas somente quando Jesus voltar e nos ressuscitar para entrarmos na vida eterna (cf. Jo.5:28,29). Vemos, portanto, que esta passagem, em lugar de favorecer a doutrina grega da imortalidade da alma, constitui-se exatamente em uma forte confirmação de que a vida eterna e a era vindoura se dará pela ressurreição dos mortos! Finalmente, como se tudo isso não fosse suficientemente claro para vermos como os imortalistas deturpam essa passagem bíblica tirando-a do seu contexto, devemos ressaltar também que a lógica de Cristo nesta passagem só faria sentido em caso que os mortos estivessem literalmente mortos mesmo (i.e, sem vida) e só ganharão vida a partir da ressurreição. Como podemos provar este ponto de vista? Em primeiro lugar, porque se Cristo tivesse provado que os mortos estão atualmente vivos (como os imortalistas interpretam erroneamente o verso 38), então isso, por si só, em absolutamente nada provaria que os mortos irão ressuscitar, pois Cristo usou aquilo para provar a ressurreição que os saduceus desacreditavam (cf. Lc.20:37; Lc.20:33), e tal argumento dele no verso 38 (supostamente de que os mortos já estivessem vivos) não seria nenhuma “prova incontestável” da ressurreição, uma vez que os mortos poderiam viver eternamente em um estado desencarnado (como criam os gregos de sua época) na forma de uma alma imortal, sem passar pela ressurreição. Sendo assim, Jesus teria tentado provar a ressurreição por meio de um argumento que não prova a ressurreição! Afinal, que os mortos estão vivos não é prova de que eles irão ressuscitar. Os próprios gregos de sua época criam nisso e não criam na ressurreição. Se, contudo, ponderamos que os mortos estão sem vida, vemos que tal afirmação de Cristo (de que Deus não é Deus de mortos) prova totalmente a ressurreição, uma vez que, sem ela, Deus seria Deus de mortos, e que o próprio fato de Ele ser Deus de vivos prova que eles sairão deste estado de morte (i.e, sem vida), para necessariamente passarem por uma ressurreição, ganhando vida, pois senão Deus seria um Deus de mortos e diria que era o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Então torna-se lógico que tal argumento de Cristo só seria validado caso os mortos estivessem literalmente mortos (i.e, sem vida) para ganharem vida somente a partir da ressurreição, pois somente desta maneira o objetivo de Cristo em provar a ressurreição se concretizaria. Se os mortos já estivessem vivos, tal passagem não provaria a ressurreição, e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 177 o argumento seria inútil. Mas se os mortos estão realmente sem vida, então o fato de que eles viverão um dia prova totalmente que uma ressurreição deve ocorrer. Vemos, portanto, que tal pretensão imortalista falha em inúmeros aspectos, como vimos: 1º O argumento de Cristo para provar a ressurreição somente a provaria efetivamente em caso que os mortos estivessem literalmente mortos (sem vida) como de fato eles estão. 2º Se os que morreram já estivessem com vida em uma forma incorpórea, Jesus teria usado um argumento para provar a ressurreição que simplesmente não prova a ressurreição! 3º Cristo não quis de maneira nenhuma provar que os mortos já estão vivos, pois o verso 37 diz claramente que ele usou tal argumento para provar “que os mortos hão de ressuscitar”, e não de que eles já estão vivos em algum lugar. 4º Os que morrem são filhos “da ressurreição” (v.36), e não da alma imortal, do estado intermediário ou da imortalidade da alma. Eles são considerados “filhos da ressurreição” porque é somente a partir dela que eles ganham vida. 5º Nós nos tornaremos semelhantes aos anjos (não no aspecto físico, mas no sentido de que não possa mais se dar em casamento – v.35) quando “os mortos ressuscitarem” (cf. Mc.12:25), e não quando a alma supostamente parte do corpo rumo a um “estado intermediário” imaginário. 6º O saduceus sabiam que Jesus não acreditava no estado intermediário, por isso perguntaram direto se “na ressurreição, de qual delas será ela esposa...” (cf. Mc.12:23). A imortalidade da alma ou existência de um estado intermediário nem ao menos era um ponto de discussão entre eles, pois tanto Cristo como os saduceus não criam nisso, e por essa razão o debate entre os dois foi sobre a ressurreição, que era crida por Jesus e rejeitada pelos saduceus. Vemos, portanto, que quando analisamos o devido contexto, tal passagem não apresenta absolutamente nenhuma, mas nenhuma mesmo, prova da “imortalidade da alma”, mas constitui-se em uma fortíssima prova contra ela. Como em todas as outras passagens que são utilizadas por eles, basta analisarmos o próprio contexto e deixarmos o texto fluir normalmente que toda e qualquer pretensão imortalista cai por terra e volta-se contra os seus próprios proponentes. VII–Mateus 10:28 e a destruição da alma A passagem de Mateus 10:28, em que Jesus diz: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo”, tem sido vista pelas lentes dualistas como um apoio para a doutrina da imortalidade da alma, possivelmente como a única passagem bíblica dentre mais de 1600 em que a “alma” é mencionada com possibilidade de ser imortal. Tal interpretação, contudo, carece inteiramente de fundamento.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 178 Se o que Jesus queria provar em Mateus 10:28 era a doutrina da imortalidade da alma, por que então a continuação deste mesmo diz que a alma-psiquê é destruída junto com o corpo? Afinal, como disse Cullmann, “se a alma é destruída, então ela não é imortal”91. E, se Cristo queria provar que a alma nunca é destruída, então certamente não teria dito que ela pode perecer. Um elemento imaterial não poderia jamais sofrer a destruição que afeta o corpo e nem ser destruído. Se o que está em jogo em Mateus 10:28 é a alma como um elemento, como creem os imortalistas, isso refutaria a própria tese da imortalidade da alma, pois a continuação lógica de um texto que diz que os homens podem apenas matar o corpo mas não podem matar a alma é que Deus destruirá tanto um como o outro. Não há a menor lógica em dizer que os homens podem matar o corpo e não a alma e Deus também só mata o corpo e não a alma, ou pior: que os homens possam matar o corpo e não a alma e Deus não mata nem um nem outro! É óbvio que a mensagem de Jesus sobre temer a Deus acima de todas as coisas só faria sentido se, de fato, os homens matassem o corpo e Deus matasse o corpo e a alma, isto é, que ele matasse mais do que os homens são capazes de fazer. Isso implica necessariamente em uma destruição-apollumi no sentido de cessação de vida, de morte no mesmo sentido de não-vida que o verso trata. Se o “destruir” aqui é uma mera referência a “fazer perder” ou “lançar” (como vertem algumas traduções) mas não a matar literalmente (fazer com que deixe de existir) o texto estaria dizendo que os homens matam apenas o corpo e não a alma e Deus também mata apenas o corpo e não a alma. Isso obviamente anula toda a mensagem de não temer quem pode dar um fim apenas ao corpo, se Deus da mesma forma também só desse um fim ao corpo! Evidentemente, não estamos dizendo que em outras ocasiões apollumi não possa significar meramente “perdição” e não “destruição” (pois ambos são significados da palavra), mas sim que neste contexto específico de Mateus 10:28 seria um absurdo interpretar apollumi em outro sentido que não seja o de aniquilamento, pois faria com que o texto estivesse dizendo que não é para temer aqueles que só podem matar o corpo, mas era para temer aquele que também só mata o corpo! Em outras palavras, se “alma” aparece aqui no sentido de elemento da natureza humana, como creem os imortalistas, essa seria uma prova indiscutível e irrefutável do aniquilacionismo da alma dos ímpios, que Deus aniquila no geena tanto o corpo quanto a alma dos ímpios, o que implica na inexistência do tormento eterno do inferno que creem os dualistas. Isso os faria renegar suas próprias convicções teológicas a respeito do inferno, para salvar a crença da sobrevivência da alma em um estado intermediário. Sendo assim, alma no sentido de elemento em Mateus 10:28 é um golpe de morte na própria doutrina da imortalidade da alma, pois provaria que esse elemento chamado “alma” é aniquilado no geena juntamente com o corpo. Os imortalistas não teriam qualquer vantagem sobre os mortalistas em usarem Mateus 10:28 com alma no sentido de elemento, pois estariam refutando a si mesmos. Uma análise meticulosa da passagem, no entanto, nos mostrará que Cristo não usou alma no sentido de elemento da natureza humana em Mateus 10:28. Para entendermos o que Jesus realmente quis dizer nesta passagem, teremos que regressar rapidamente para os conceitos básicos sobre corpo e alma, e depois analisarmos o contexto em que Cristo aplicava a palavra “alma” em seus ensinos. Voltando a Gênesis 2:7, que fala sobre a criação do homem, vemos que Deus “formou o homem do pó da terra [corpo], e soprou em suas narinas o fôlego de vida [espírito], e o homem tornou-se uma alma vivente [alma]” (cf. Gn.2:7 – grifo meu). Este é o sentido primário de alma. Sendo que o homem “tornou-se” alma, e não “obteve” uma, é fato que qualquer interpretação que induzisse que temos em nós uma alma imortal presa dentro do nosso corpo estaria errada. Primeiramente, temos que lembrar que existem 91 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 179 sentidos secundários de alma-psiquê. Uma vez que corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa, então é excluído de imediato a possibilidade de que a nossa natureza seja dualista. Se o homem é alma, ele não pode ter/possuir alma, pois isso altera o sentido primário do que é alma. Isso, contudo, não exclui a possibilidade de haver sentidos secundários em que a palavra alma-psiquê é empregada, em um sentido que não altere o seu significado primário. Um bom exemplo disso é psiquê no sentido de “vida”. Jesus conhecia muito bem as Escrituras, e sabia perfeitamente que em nenhuma vez a alma-nephesh/psiquê é apresentada na Bíblia como sendo “eterna” ou “imortal”; ao contrário, a Bíblia afirma categoricamente que a alma perece com a morte do corpo (cf. Nm.31:19; Nm.35:15,30; Js.20:3,9; Jo.20:3,28; Gn.37:21; Dt. 19:6, 11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10; Ez.18:4,20; Jz.16:30; Nm.23:10; Mt.10:28; Ez.22:25,27; Jó 11:20; At.3:23). Para entendermos, portanto, a aplicação que Ele fez nessa passagem, temos que entender que, de acordo com a criação da natureza humana em Gênesis 2:7, a vida surge a partir da implantação do fôlego de vida: CORPO [PÓ] + FÔLEGO [ESPÍRITO] = VIDA Assim, “alma vivente” ou “ser vivo” tem a mesma aplicação. Ambos significam a vida humana que resulta de um corpo animado pelo fôlego da vida. Constantemente a Bíblia emprega o termo psiquê no sentido de “vida”, principalmente no Novo Testamento. O sentido neotestamentário de “alma” passou também a abranger a vida eterna àqueles que aceitam a Cristo e seguem ao evangelho (cf. 1Co.15:51-54 com Mt.19:29). Inúmeros exemplos podem ser citados como provas de tal fato, como podemos verificar em Mateus 16:25,26: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida [psiquê] perdê-la-á; e quem perder a vida [psiquê] por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma [psiquê]? Ou que dará o homem em troca da sua alma [psiquê]?” Os tradutores da maioria das versões preferiram verter psiquê por “vida” do que propriamente por “alma”, presumivelmente por crerem que ela é imortal e que não pode ser “perdida”. No v.26, “perder a psiquê” significa perdê-la no fogo do juízo que há de devorar os rebeldes (cf. Hb.10:26,27; Ap.20:9). Mas, no v.25, Cristo diz que é possível um homem “perder a psiquê” por Sua causa! Isso evidentemente criaria um dilema teológico de primeira ordem, razão pela qual os tradutores resolveram o dilema e traduziram psiquê como “vida” no v.25 e como “alma” no v.26, variando a tradução de psiquê de acordo com a sua própria ótica do que acreditam ser a melhor correspondência do termo. Como vimos no capítulo 3, Cristo também disse que aquele que queria segui-lo teria que odiar a sua alma-psiquê (cf. Jo.12:25). Odiar a "si mesmo" ou a um elemento transcendental que o próprio Deus tenha implantado no homem, como creem os imortalistas, não faz qualquer sentido, razão pela qual a maioria das traduções bíblicas tem vertido a passagem por "vida”. Quando voltamos a Mateus 10:28 e fazemos o mesmo, interpretando “alma” não como um elemento mas como uma representação da vida póstuma que adquirimos na ressurreição, vemos que qualquer favorecimento à doutrina da imortalidade da alma desaparece. O Dr. Samuelle Bacchiocchi também faz importantes observações sobre o sentido de psiquê como vida eterna:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 180 “Cristo ampliou o sentido veterotestamentário de nephesh-alma como vida física tornando-a inclusiva da vida eterna recebida por aqueles desejosos de sacrificar a vida presente (alma) por Sua causa. Encontramos confirmação para o sentido ampliado de alma na redação de João da mesma declaração de Cristo: ‘Quem ama a sua vida [psychê], perde-a; mas aquele que odeia a sua vida [psychê] neste mundo, preserva-la-á para a vida eterna’ (João 12:25). A correlação entre ‘este mundo’ e ‘vida eterna’ indica que alma-psychê é empregada para referir-se tanto à vida terrena quanto à vida eterna”92 O Dr. Edward Schweizer também faz uma importante observação a este respeito: “Na versão joanina da declaração de Cristo é evidente que a alma não é imortal, porque doutro modo não devíamos ser instados a detestá-la. Psychê é a vida dada ao homem por Deus e que mediante a atitude do homem para com Deus recebe o seu caráter como mortal ou eterno... Daí nunca lermos da psychê aionios ou athanatos (alma eterna ou imortal), somente da psychê (alma) que é dada por Deus e mantida por Ele para zoe aionios [vida eterna]”93 Bacchiocchi ainda acrescenta: “O significado de alma como vida eterna aparece também em Lucas 21:19, onde Cristo declara: ‘É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas’. O contexto indica que Cristo não está falando da preservação da vida terrena, porque Ele prediz que alguns de seus seguidores serão traídos e postos à morte (v. 16). Aqui a alma-psychê é claramente entendida como vida eterna conseguida por aqueles dispostos a fazerem um compromisso total, sacrifical com Cristo. Este é o sentido ampliado que Cristo atribui à alma; um sentido que nega a noção da alma como uma entidade imaterial, imortal que coexiste com o corpo. O erro mais tolo que qualquer um pode cometer é ‘ganhar o mundo todo e perder a sua alma [psychê]’ (Mar. 8:36)”94 Vemos, portanto, que o termo alma-psiquê no NT chegou a incluir o dom da vida eterna que é recebido por aqueles sacrificam a sua vida terrena por amor a Cristo. Tal imortalidade a Bíblia nos deixa claro que obteremos a partir da ressurreição dentre os mortos (cf. 1Co.15:51-54), e é neste sentido ampliado de alma-psychê que devemos entender a declaração de Cristo em Mateus 10:28. Matar o corpo mas não matar a alma significa matar apenas para esta vida [primeira morte], mas não ter o poder para destruir na morte eterna [segunda morte]. Deus, contudo, tem o poder para eliminar ambos: tanto para a primeira morte como para a segunda, no lago de fogo (cf. Ap.20:14), privando o pecador da vida eterna obtida pelos salvos que comem da árvore da vida (cf. Ap.22:2). Matar o corpo significa a eliminação desta vida presente, mas isso não mata a alma [vida eterna] que é recebida por ocasião da ressurreição àqueles que se sujeitaram ao senhorio de Cristo. Os homens podem, no máximo, pôr alguma pessoa a dormir (morrer), mas nunca destruí-la em definitivo até a segunda morte, como Deus faz. O corpo está representando essa presente vida terrena, ao passo que a alma está no sentido da vida póstuma, adquirida 92 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007. 93 SCHWEIZER Edward, “Psyche,” Theological Dictionary of the New Testament, ed., Gerhard Friedrich, (Grand Rapids, 1974), Vol. 9, p. 640. 94 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 181 após a ressurreição. Em outras palavras, levando em consideração o sentido ampliado de “alma” em seus ensinos, o que Cristo estava dizendo era: “Não temais aqueles que podem pôr um fim à sua existência terrena, mas não podem fazer nada quanto à vida póstuma, temei antes aquele que pode dar um fim tanto à sua vida terrena quanto à vida futura” Outra prova definitiva de que era este o sentido da frase de Jesus é o fato de que esta mesma passagem encontra eco no evangelho de Lucas, mas este omite a palavra “alma - psiquê”, presumivelmente para não confundir os leitores com o conceito dualista da época, explicando o sentido da declaração de Cristo que foi transmitida em termos literais por Mateus: “E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei” (cf. Lucas 12:4,5) E é exatamente este o sentido da frase de Cristo. O que Lucas faz é clarear aos seus leitores aquilo que Jesus estava querendo dizer: não temer aquele que pode matar apenas o corpo [primeira morte], temei antes aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno [segunda morte]. Por qual motivo Lucas iria deixar de escrever exatamente as palavras que Cristo de fato disse, para ao invés disso omitir a palavra “alma-psiquê” e ir direto para o significado e aplicação da frase? A única razão lógica para isso é que ele não queria confundir os leitores dualistas da época. Mais ainda que isso, a passagem no versão de Lucas 12:4-5 (no mesmo texto de Mateus 10:28) nos revela que a alma não vai direto para o “inferno” depois da morte do corpo. Alguns imortalistas poderiam objetar levantando a questão que Cristo afirmou que “temei antes aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno”. Para os imortalistas, a palavra aqui traduzida por “inferno” (que não existe nos manuscritos originais, mas é uma palavra de origem latina acrescentada depois de muitos séculos), deveria presumivelmente se tratar do suposto “estado intermediário” em que a alma estaria passando após a morte do corpo. Este local, para eles, é o Hades (transliterado grego de “Sheol”). Não iremos voltar novamente aos conceitos básicos já mostrados sobre Sheol/Hades, até porque já fizemos isso aqui neste estudo. O que eu quero provar aqui é que Cristo nega que a alma parta de imediato a um “estado intermediário” após a morte do corpo. Isso nós descobrimos ao lermos os manuscritos originais do grego: “upodeixô de umin tina phobêthête phobêthête ton meta to apokteinai tsb=exousian echonta a=exousian embalein eis tên geennan nai legô umin touton phobêthête” (cf. Lucas 12:5) Percebam na palavra grifada no texto acima do original grego, que o local para onde Cristo disse que a alma partiria após a morte do corpo é ao geena. Tal local, contudo, ainda está para ser inaugurado, após o término do milênio. Em outras palavras, Hades seria onde os mortos se encontram atualmente sem vida [primeira morte] e geena é o local onde os ímpios que ressuscitarão serão lançados.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 182 Ao dizer que “temei antes aquele que depois de matar o corpo tem poder para lançar no inferno [geena]”, Cristo nega em absoluto que exista alguma vida consciente em forma de espírito incorpóreo no Hades (estado intermediário), porque se fosse assim o que sucederia a morte do corpo seria o lançamento da alma no Hades. Contudo, após a morte do corpo lemos que o que sucede é o lançamento no “inferno” [geena], a morte final, ou seja, não existe um estado intermediário! O quadro abaixo ilustra o que acima foi dito: VIDA TERRENA ESTADO INTERMEDIÁRIO [PRIMEIRA MORTE] ESTADO FINAL [SEGUNDA MORTE] Morte do corpo (=morte para essa vida) ??????? A alma é lançada no inferno- geena (=morte eterna) O quadro acima apenas ajuda a ilustrar o que é aqui exposto. Após a morte do corpo, a alma é lançada no geena, que ainda não foi inaugurado! Nisso fica nitido a inexistência de um “estado intermediário” com consciência, pois, se tal sucedesse, então a alma partiria a um estado intermediário na morte, e não ao estado final pós-ressurreição. Depois da morte corporal (primeira morte) o que vem direto é o lançamento da alma ao geena [segunda morte], que é inaugurado depois da ressurreição dos mortos, sem qualquer menção a um estado intermediário entre a morte e a ressurreição. As palavras de Cristo em Lucas 14:5 foram exatas e ajudam absolutamente a confirmar a interpretação correta de Mateus 10:28 em detrimento da posição dos defensores da imortalidade da alma. Assim, fica ainda mais claro o sentido de alma em Mateus 10:28, como vemos no quadro abaixo: VIDA TERRENA ESTADO FINAL “Não temais aqueles que podem pôr um fim à sua existência terrena, mas não podem fazer nada quanto à vida póstuma” “Temei antes aquele que pode dar um fim tanto à sua vida terrena quanto à vida futura” Vemos, portanto, que tal passagem de Mateus 10:28 é, mais uma vez, uma arma contrária à imortalidade da alma. Ela prova a inexistência de um “estado intermediário”, e de fato nos revela que haverá um dia em que Deus eliminará para sempre os pecadores, em uma segunda morte final e irreversível. E, se isso não é aniquilamento final, então não sabemos como isso poderia ser traduzido em palavras. VIII–Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso? A última das falsas interpretações dos verdadeiros ensinos de Cristo por parte dos defensores da doutrina da imortalidade da alma é também uma das últimas mensagens que Cristo trouxe enquanto ainda estava em vida. Segundo os dualistas, o que Jesus disse ao ladrão ao seu lado na cruz foi que estaria naquele mesmo dia com ele no Paraíso: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (cf. Lc.23:43).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 183 O que poucas pessoas sabem, contudo, é que temos muitas evidências de que o ladrão, realmente, não esteve no Paraíso naquele dia. Mas como não? A Bíblia não diz claramente isso? Na verdade, não. O fato é que o original grego não tinha vírgulas, e o texto original assim reza: “Kai eipen autw amhn soi legw shmeron met emou esh en tw paradeisw” (cf. Lc.23,43). Em primeiro lugar, é bom mencionarmos logo que a adição presente em muitas Bíblias, da palavra “QUE”, não existe nos originais. O que Jesus realmente disse ao ladrão da cruz foi: “Em verdade te digo hoje estarás comigo no Paraíso”. Como o texto original não possui vírgulas e o texto deixa em aberto a questão, poderíamos colocá-la em dois lugares diferentes, entretanto é algo que mudaria completamente o significado da frase. Esta poderia ser: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (dando a entender que estaria naquele dia no Paraíso com o ladrão da cruz) ou então: “Em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso” (ele garantia “hoje” que o ladrão estaria no Paraíso). É algo parecido com uma rebelião em determinada cidade, em que o governante comunicou a revolta ao seu superior, dizendo: “Devo fazer fogo ou poupar a cidade?” A resposta do superior foi: “Fogo não, poupe a cidade”. Infelizmente, o funcionário do correio trocou a vírgula e escreveu o seguinte na resposta do telegrama: “Fogo, não poupe a cidade”. E assim cidade foi totalmente destruída. Mas como podemos saber que Jesus realmente não disse: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso”? Temos muitos motivos para desacreditar que o ladrão esteve naquele mesmo dia com Cristo no Paraíso. Algumas das principais razões são: Após três dias, Jesus ainda não havia subido ao Pai – Uma verdade que nos é reveladora para concluirmos que Cristo não esteve com o ladrão da cruz naquele mesmo dia no Paraíso é o fato de que, após três dias morto, Jesus ainda não havia subido ao Pai, e declarou a Maria Madalena: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai” (cf. Jo.20:17). Ora, se Jesus ainda não havia subido ao Pai após três dias, então não poderia ter estado naquele mesmo dia com o ladrão da cruz no Paraíso! Alguns imortalistas rejeitam essa evidência pela alegação de que Jesus esteve no Paraíso "em espírito" nesses dias, mas não corporalmente. Se isso fosse verdade, porém, Cristo teria mentido a Maria Madalena, já que o texto em questão não faz menção ao corpo de Nosso Senhor, mas sim ao ser racional dele. O texto não diz que ele não subiu “apenas corporalmente”, o texto fala da pessoa de Cristo, do ser racional, que o próprio Cristo não passou pelo Paraíso nos dias em que esteve morto. Admitindo-se que o ser racional seja a "alma" ou o "espírito", como alegam os imortalistas, seria incoerente crer que Jesus estivesse apenas se referindo ao corpo. Essa interpretação também fere as regras da lógica e do bom senso, como observa o prof. Azenilto Brito: “Para os imortalistas, quando Jesus declarou que não subiu para o Pai em João 20:17 Ele quis dizer — minha alma é que subiu; agora é que vou completo, corpo e alma... Conclusão absurda, para dizer o mínimo”95 95 BRITO, Azenilto Guimarães. "Deixar o corpo e habitar com o Senhor". Disponível em: <http://www.iasdemfoco.net/defesaPag.asp?Id=114>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 184 É evidente que, caso Cristo tivesse subido ao Paraíso, então ele relataria isso a Maria Madalena ou, no mínimo, omitiria tal declaração tão categórica de que ele não esteve no Paraíso, optando por dizer algo como “já subi e subirei de novo”. Infelizmente para os imortalistas, a única coisa que Cristo disse é que ainda não havia subido ao Pai, algo que não seria verdade caso o “verdadeiro eu” de Cristo já tivesse subido. Alguns imortalistas, em uma outra tentativa em demonstrar alguma objeção ao argumento baseado em João 20:17, dizem que o fato de Jesus ter subido ao Pai não implica que ele tenha ido ao Paraíso, como se o Paraíso ficasse em um lugar e Deus em outro! Esse “Paraíso sem Deus” que eles creem certamente não é o Paraíso bíblico, mas um que eles inventaram no desespero em oferecerem alguma refutação decente ao texto de João 20:17, que por si mesmo é óbvio e refuta as teses imortalistas. Eles creem que Paulo foi “arrebatado ao Paraíso” (cf. 2Co.12:4) e não viu nem Deus por lá (seria o mesmo que eu o convidasse a estar na minha casa e eu mesmo não estivesse lá), e inacreditavelmente interpretam que a “árvore da vida, que está no Paraíso de Deus” (cf. Ap.2:7), está em um lugar onde nem Deus está! Ou seja: que o Paraíso é chamado de “Paraíso de Deus” mas não é onde Deus está! É a mesma coisa de a minha casa se chamar de “casa do Lucas” mas o Lucas não mora lá. Eles pensam que Deus estava de “férias” naqueles três dias, longe do Paraíso dele mesmo! Além disso, notemos que Jesus entregou o seu espírito ao Pai ao morrer (cf. Lc.23:46), e para os imortalistas esse espírito é a alma imortal que deixa o corpo com consciência e personalidade após a morte. Sendo assim, é imprescindível que Jesus estivesse com o Pai naquele mesmo dia, ou senão eles teriam que reformular toda a teologia deles acerca daquilo que é o “espírito”. Portanto, a declaração categórica de que Jesus não subiu ao Pai (cf. Jo.20:17) entra em choque com a crença deles de que o espírito é um ser consciente e racional, visto que por essa lógica Cristo deveria ter subido ao Pai imediatamente na morte já que havia entregado o seu espírito a Ele. Ou esse espírito não é um ser consciente e racional como os imortalistas creem, ou Jesus fez uma encenação ao entregar o seu espírito ao Pai na morte para depois dizer que ainda não havia subido ao Pai. Jesus desceu, não subiu – Outro fator de clareza fundamental para concluirmos que Cristo realmente não subiu ao Pai no dia em que morreu é o fato de que, nos três dias em que ele esteve morto, ele esteve no Sheol, e não no Paraíso. Tal fato é relatado no livro de Atos, quando Pedro falava a respeito da ressurreição de Jesus: “Porque não deixarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (cf. At.2:27). Pedro na realidade usou a passagem do livro dos Salmos em que Davi citava tal passagem, que diz: “Pois não abandonarás a minha alma no Sheol, nem permitirás que o teu santo veja a corrupção” (cf. Sl.16:10). De acordo com o léxico da Concordância de Strong, a palavra traduzida por "deixar" vem do grego "egkataleipo", que tem o sentido de abandonar: 1459 εγκαταλειπω egkataleipo de 1722 e 2641; v 1) abandonar, desertar. 1a) deixar em grandes dificuldades, deixar abandonado. 1b) totalmente abandonado, completamente desamparado.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 185 2) deixar para trás, desistir de sobreviver, falecer. Como vemos, a alma de Jesus foi retirada do Sheol ao ser ressuscitado, e não do Paraíso. Ele não viu a corrupção pois não foi deixado abandonado no Sheol, onde esteve enquanto morto, mas foi retirado de lá apenas três dias depois. Aqui vemos mais uma vez que Sheol significa sepultura, a "cova da corrupção" (cf. Is.38:17), e o detalhe é que Pedro e o salmista declaram que foi o local para onde a alma de Cristo — e não apenas o corpo — esteve na morte. No grego de Atos 2:27: "oti ouk egkataleipseis tên psuchên mou eis a=adên tsb=adou oude dôseis ton osion sou idein diaphthoran" - Atos 2:27 No hebraico do Salmo 16:10: "iy lo'-tha`azobh naphshiy lish'ol lo'-thittênchasiydhkha lir'oth shâchath" - Salmos 16:10 O próprio Cristo afirmou que esse Sheol (transliterado ao grego como "Hades") fica nas regiões inferiores da terra, em oposição ao Paraíso: “E tu, Cafarnaum, será elevada até ao céu? Não, você descerá até o Hades! Se os milagres que em você foram realizados tivessem sido realizados em Sodoma, ela teria permanecido até hoje” (cf. Mt.11:23; ver também: Ef.4:9; Mt.12:40). Portanto, vemos que a alma de Cristo passou os três dias em que esteve morto no Sheol, que não é o Paraíso, muito pelo contrário, está em um local em oposição a ele (cf. Mt.11:23). O Filho do homem estaria “três dias e três noites no coração da terra” (cf. Mt.12:40), não apenas de forma corporal, mas como alma, conforme diz a profecia do salmista (cf. Sl.16:10) e a confirmação do apóstolo Pedro (cf. At.2:27), e não no Paraíso. Tendo isso em mente, até aqui podemos perceber que: • O ser racional de Cristo não passou pelo Paraíso nos três dias em que esteve morto (cf. João 20:17). • A alma de Cristo não esteve no Paraíso nos dias em que este esteve morto, mas no Sheol (cf. At.2:27; Sl.16:10), que fica nas regiões inferiores da terra (cf. Ef.4:9; Mt.12:40), em oposição ao Paraíso (cf. Mt.11:23), e não no próprio Paraíso. Tudo isso já nos mostra que Jesus não pode ter dito que o ladrão estaria com Ele naquele mesmo dia no Paraíso, se nem o próprio Cristo esteve no Paraíso nos dias de sua morte. A interpretação correta de Lucas 23:43 deve estar de acordo com as regras da hermenêutica, que afirma que a Bíblia explica a própria Bíblia. Sendo que é tão nítido biblicamente que Cristo não esteve no Paraíso quando morreu, a interpretação correta de Lucas 23:43 é contrária à oferecida pelos imortalistas. Numa tentativa desesperada em negarem o óbvio e tentarem conciliar suas teses com aquilo que a Bíblia declara taxativamente sobre para onde Cristo foi após a morte, alguns imortalistas afirmam que Jesus esteve no Sheol mas ao mesmo tempo esteve com o ladrão da cruz no Paraíso, fazendo uso de sua onipresença. T ais malabarismos exegéticos só são feitos para negar a clareza da linguagem bíblica sobre a mortalidade da alma, pois em
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 186 outras circunstâncias nenhum deles diz que Jesus, enquanto esteve entre nós, vivia em dois lugares ao mesmo tempo. Ninguém afirma que Jesus viva em Nazaré mas simultaneamente estava no Egito, na América, no Paraíso e no Hades. Enquanto Jesus esteve limitado a um corpo, ele jamais fez uso do atributo da onipresença. Ele era um homem, e, assim como nós, se estava em um lugar, não estava em outro. Jesus não nasceu em todos os lugares do mundo por ser onipresente, ele nasceu em Belém. Jesus não cresceu em todos os lugares do mundo por ser onipresente, ele cresceu em Nazaré. Jesus não pregava em todos os lugares do mundo por ser onipresente, ele pregava no Templo. Jesus não morreu em todos os lugares do mundo por ser onipresente, ele morreu no Gólgota. Da mesma forma, após a morte Jesus não estava no Sheol e ao mesmo tempo no Paraís o por ser onipresente, a Bíblia diz que ele passou os três dias e três noites no Sheol. Jesus esvaziou-se a si mesmo ao se fazer humano (cf. Fp.2:6,7), ele só voltou a fazer uso de seus atributos divinos na glorificação. Nasceu, cresceu, viveu e morreu como homem. E, como homem, não esteve em dois lugares ao mesmo tempo, seja na vida ou na morte. Isso por si só já é mais que o suficiente para liquidar com a antibíblica tese de que o ladrão esteve com Cristo naquele mesmo dia no Paraíso, mas prosseguiremos c om mais provas em diante para enriquecermos ainda mais as evidências deste estudo sobre Lucas 23:43. O contexto – O que foi dito pelo ladrão da cruz no verso anterior a esta resposta de Cristo (no verso 42), no original grego foi: μνήσθητί = Lembra-te μου = de mim ὅταν = quando ἔλθῃς = vier εἰς = em τὴν = o βασιλείαν = Reino σου = de ti. Ou seja, “Lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”. Tal é o texto original no grego e confirmado pelas melhores versões a nossa disposição, tais como a versão Trinitariana, a Versão Italiana de G. Deodatti, a Francesa L. Segond, a Inglesa de King James, Almeida Revisada e Atualizada, entre outras. Cristo buscava assegurar ao ladrão da cruz que não precisava pensar em termos de tempo tão remoto para ser lembrado por Ele. “Hoje lhe garanto que estarás comigo no Paraíso”, é o sentido lógico diante de tal contexto. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro quando Ele viesse no Seu Reino visível (v.42), mas Jesus respondeu o lembrando imediatamente - “hoje” - assegurando que estaria com Ele no Paraíso. “Em verdade te digo hoje”, isto é, eu lembro agora mesmo, não precisa pensar em um tempo tão distante, hoje mesmo eu te digo que você estará comigo no Paraíso. Esse é o sentido lógico pelo contexto. Note que o próprio ladrão sabia que não iria ao Céu imediatamente após a morte, já que pediu para Cristo se lembrar dele “quando viesse em seu Reino”, ou seja, na segunda vinda de Cristo. O ladrão não morria naquele mesmo dia – Um condenado a morte de cruz geralmente demorava dias para morrer na cruz. Lemos em João 19:31-33 um costume antigo realizado pelos judeus: “Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a Preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que lhes quebrassem as pernas, e que fossem tirados. Foram, pois, os soldados e, na verdade, quebraram as pernas do primeiro, e ao outro que com ele fora crucificado; mas vindo a Jesus, e vendo-O já morto, não lhe quebraram as pernas” (cf. Jo.19:31-33).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 187 Qual seria a razão pela qual devia-se quebrar as pernas dos crucificados? Porque o crucificado não morria no mesmo dia. Cristo foi exceção ao caso porque expirou antes (cf. Lc.23:46), ele não morreu como resultado da hemorragia. Os outros, contudo, ainda ficavam vivos agonizando durante dias – não poderiam estar com Cristo naquele mesmo dia em questão. Isso é o que a História e a Bíblia Sagrada nos mostram. Diz o comentário de J. B. Howell: “O crucificado permanecia pendurado na cruz até que, exausto pela dor, pelo enfraquecimento, pela fome e a sede, sobreviesse a morte. Duravam os padecimentos geralmente três dias, e às vezes, sete"96 Arnaldo B. Christianini segue na mesma linha e afirma: “Depois do sábado haver passado, sem dúvida esses dois corpos foram outra vez amarrados na cruz, e lá ficaram diversos dias, até morrerem (...) Se era necessário quebrar as pernas aos dois malfeitores, antes do pôr do sol, é porque não haviam morrido ainda. Na pior das hipóteses viveram ainda, pelo menos, um dia a mais do que o Mestre. Como podia, um deles, estar no mesmo dia junto de Jesus?”97 Vemos, portanto, que historicamente os ladrões que morriam na cruz não faleciam no mesmo dia da crucificação. E a Bíblia confirma isso? Sim, confirma. Na passagem anteriormente citada, vemos que “os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto que era véspera do sábado, pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados” (cf. Jo.19:31). Por que as pernas dos c rucificados foram quebradas? Para matá-los logo? Se alguém quisesse matá-los, bastaria uma lancetada no coração ou no fígado deles (como foi feita com Cristo porque viram que já estava morto). A finalidade em quebrar as pernas deles não era para matá-los, mas porque havia uma tradição entre os judeus que não permitia que o condenado ficasse dependurado na cruz no dia de sábado. Por isso, lhes quebravam as pernas e era descido do madeiro e assim permanecia até o fim do sábado. Prova ainda mais forte de que tal procedimento não resultava em morte imediata dos crucificados é a grande surpresa de Pilatos (experiente em crucificações) em ver que Jesus já havia morrido: “E Pilatos se admirou de que {Cristo} já estivesse morto” (cf. Marcos 15:44) Pilatos ficou pasmo em ver que Jesus já estivesse morto. Certamente deveria ter dito algo como: “Já morreu?!” Por que Pilatos “se admirou”? Por certo, Pilatos, veterano em mandar pessoas para cruz, já familiarizado com as crucificações, admirou-se diante de um fato inusitado: era algo incomum alguém morrer no mesmo dia da crucificação! O léxico de Strong define a palavra aqui traduzida por "admirou-se" como sendo: 2296 θαυμαζω thaumazo de 2295; TDNT - 3:27,316; v 1) admirar-se, supreender-se, maravilhar-se. 2) estar surpreendido, ser tido em admiração. 96 Comentário de S. Mateus, p. 500. 97 CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª edição. São Paulo: 1965, p. 222.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 188 Assim vemos que o fato de alguém morrer naquele mesmo dia da crucificação era algo extraordinário, bem fora do normal, um fato que causa espanto, surpresa, admiração. Foi assim com Jesus, mas nada indica que tenha assim sido também com os ladrões ao seu lado na cruz. Ao contrário, a evidência indica que eles permaneceram vivos depois da morte de Cristo, pois este foi o único a ter o lado furado por uma lança por já ter morrido naquele mesmo dia (cf. Jo.19:33-34), os demais permaneceram vivos dependurados do madeiro até o fim do sábado para depois serem outra vez amarrados à cruz. Não era intenção dos romanos matá-los, mas deixá-los sofrendo (cf.Jo.19:32). Concluímos, pois, que historicamente e biblicamente o ladrão não morria naquele mesmo dia, e isso, unido às razões já apresentadas, nos mostra claramente que o ladrão não poderia estar naquele mesmo dia com Cristo no Paraíso – que, por sinal, também não subiu por lá enquanto esteve morto (cf. Jo.20:17; At.2:27). Evidências Históricas – Como já foi demonstrado, no original grego (Koiné) em que a Bíblia foi escrita não existia vírgulas, o que dá margens para os tradutores as colocarem de acordo com as suas tradições religiosas. Mas, posteriormente, o grego passou a ter vírgula, e como era costume dos Pais da Igreja citarem constantemente as Escrituras em seus próprios escritos, eles transcreveram o texto de Lucas 23:43 da forma mais coerente que vimos acima: “Em verdade te digo hoje: estarás comigo no Paraíso”. Por exemplo, Hesíquio de Jerusalém, que foi um cristão presbítero e exegeta do quinto século d.C, transcreveu essa passagem de Lucas 23:43 da seguinte maneira: “Verdadeiramente eu lhe falo hoje”98 Teofilacto declarou o mesmo ao escrever Lucas 23:43 do seguinte modo: “Verdadeiramente eu lhe falo hoje”99 Como vemos, os próprios Pais da Igreja de épocas posteriores (onde já existia a vírgula) reconheciam que Jesus lhe falava “hoje” que o ladrão estaria com Ele no Paraíso, e não que o ladrão estaria no Paraíso naquele mesmo dia. Vale ressaltar um detalhe importante: a maioria dos Pais da Igreja, especialmente a partir do terceiro século d.C, começaram a adotar a tese da imortalidade da alma, contrariando a visão de dois séculos de Cristianismo (conforme já conferimos no capítulo 2 deste livro). Isso significa que estes Pais da Igreja, mesmo sendo imortalistas, reconheciam que a forma gramatical do grego apontava que a vírgula deveria ser colocada depois do “hoje”. O mesmo acontece nos dias de hoje: vários imortalistas já abandonaram este “argumento de Lucas 23:43”, uma vez que perceberam que a passagem pode perfeitamente ser entendida e interpretada dentro do prisma mortalista, sem qualquer problema. A interpretação de que Lucas 23:43 é uma “prova” da imortalidade da alma só começou a surgir vários séculos depois, quando começaram a pedir provas bíblicas que fundamentassem essa doutrina, e, sem encontrar quase nenhuma, tiveram que apelar para passagens como essa, que nem mesmo os primeiros imortalistas lançaram mão dela, entendendo que a pontuação realmente era contra, e não a favor da tese deles neste texto. 98 Hesichius de Jerusalem, em Patrologia Grega, Volume Noventa e Três, 1433. 99 Teofilacto em Patrologia Grega, em Patrologia Grega, Volume Cento e Vinte e Três, 1104.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 189 Vale também ressaltar que não foram apenas os Pais da Igreja que entenderam que a vírgula em Lucas 23:43 deve ser colocada antes do “hoje”, pois muitos outros manuscritos antigos atestam o mesmo. Os Manuscritos Bc e Sy-C, Antigo Siríaco, que são grandemente respeitados na comunidade acadêmica e apologética e que datam do terceiro século AD, sendo um dos manuscritos do NT mais importantes que temos até hoje, verte o texto de Lucas 23:43 colocando a vírgula depois do “hoje”: "Eu digo a você hoje, que Comigo tu deve estar no Jardim de Éden"100 Por fim, o próprio Vaticanus 1209, um dos melhores manuscritos gregos do Novo Testamento, que data do século IV d.C e que é uma das fontes pelas quais os estudiosos mais trabalham na identificação do original do NT, traz o seguinte em Lucas 23:43: Note que no texto grego há um ponto depois da palavra “semeron” (dia), e não antes dela. Este Condex Vaticanus foi considerado por Westcott e Hort como o melhor manuscrito grego do NT, e é também um dos manuscritos mais antigos da Bíblia, sendo inclusive mais antigo do que o Codex Sinaiticus. É interessante também os comentários do erudito Earle Ellis em sua obra “The Gospel of Luke”, no comentário da Bíblia New Century: “Alguns manuscritos produzidos razoavelmente cedo colocam a vírgula depois de ‘hoje’ e assim, continuam com a referência a parousia do verso 42”101 Isto, sem dúvida, mostra que este erudito sabe a respeito da pontuação no Ms Vaticanus em Lucas 23:43, bem como em outros respeitados manuscritos antigos. A gramática – Ainda que o texto original não possua vírgulas, a forma linguística em que ele é escrito nos ajuda a desvendarmos qual é o seu real sentido na passagem em pauta. No português, quando traduzimos a frase podemos colocá-la em antes ou depois do advérbio “hoje” (como vimos acima), e ambas as traduções aparentemente podem dar sentido real à frase. Contudo, quando pegamos os manuscritos originais no grego e ponderamos em onde colocar a vírgula, tal não faz sentido se ela for colocada antes do “hoje”, como querem os imortalistas. Por quê? Simplesmente porque isso criaria um dilema de primeira ordem por falta de lógica no próprio texto. Grande parte dos tradutores simplesmente ignoram a palavra ἐμοῦ = de mim. Sem considerar esta palavra o sentido original do foi dito se perde. Vejamos a tradução do verso palavra por palavra: 100 Manuscritos Bc e Sy-C - Antigo Siríaco. 101 Publicado por Wm.B.Eerdmans Publishing Co. Grand Rapids Michigan, reprint of 1983.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 190 καὶ = E εἶπεν = disse αὐτῷ = a ele Ἀμήν = amém σοι = a ti λέγω = digo σήμερον = hoje μετ᾿ = depois ἐμοῦ = de mim ἔσῃ = serás ἐν = em τῷ = o παραδείσῳ = paraíso. A palavra μετ᾿ significa “comigo”, como também significa “depois”, se você considerar que μετ᾿ está no sentido de “comigo”. Necessariamente, temos que ignorar a palavra ἐμοῦ = de mim. Comigo de mim, não faz sentido algum. A vírgula não pode ficar antes de “hoje”. A vírgula deve ser colocada após o “hoje” e também após o “depois”. Considerando todas as palavras como elas são literalmente e traduzindo corretamente, o sentido original do foi dito fica muito claro: “E disse a ele; Amém a ti digo hoje, depois, de mim serás em o paraíso”. Depois de todas as coisas concluídas, o ladrão com certeza absoluta será do nosso Salvador. Jesus entregou ao ladrão da cruz a promessa de que este estaria no Paraíso. ‘Hoje’ é o momento em que esta promessa lhe foi dita. Naquele momento Cristo assegurou a ele tal promessa. Mas em resposta a que foi feita a promessa? Verso 42... μνήσθητί = Lembra-te μου = de mim ὅταν = quando ἔλθῃς = vier εἰς = em τὴν = o βασιλείαν = Reino σου = de ti. “Lembra-te de mim quando vier em o reino de ti”. O ladrão tinha dúvida se aquilo poderia ser possível e, por isso, seu pedido a Jesus foi que este se lembrasse dele, não quando morresse, mas quando Ele viesse em seu poder visível. Então, naquele momento, o hoje, Cristo lhe deu esta certeza. Ele lhe garantiu: “depois, de mim serás em o paraíso”. A preposição μετὰ indica um tempo – depois; após; além de. Depois que todas as coisas forem concluídas, quando Cristo vier na Sua Glória, o ladrão estará na glória com o Senhor Jesus. Naquele momento, o ‘hoje’ do verso, o ladrão recebeu a certeza de que, no futuro, estaria com Cristo no Paraíso. ἐμοῦ ou μου é um pronome na primeira pessoa do singular, que não pode ser ignorado. No grego a pontuação não é absolutamente necessária para a compreensão textual, mas no português se você não organizar as palavras da maneira correta e usando a pontuação, o texto fica sem nenhum sentido, e ainda dá margens para más interpretações. Refutando objeções – A principal objeção sustentada pelos defensores da imortalidade da alma neste texto é que seria inteiramente desnecessário a adição do "hoje", pois se Jesus dizia aquilo naquele momento (o "hoje") não seria preciso adicionar que estava dizendo aquilo hoje. Em resposta a essa objeção, devemos ressaltar, em primeiro lugar, que é muito comum na Bíblia a utilização do "hoje" em construções de frases em muito semelhantes à de Lucas 23:43. Por dezenas de vezes vemos declarações semelhantes que são precedidas pelo "hoje", como, por exemplo: (Jeremias 42:21) - E vo-lo tenho declarado hoje; mas não destes ouvidos à voz do Senhor vosso Deus, em coisa alguma pela qual ele me enviou a vós. (Deuteronômio 6:6) - E estas palavras, que te ordeno hoje, estarão no teu coração.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 191 (Deuteronômio 11:8) - Guardai, pois, todos os mandamentos que eu vos ordeno hoje, para que sejais fortes, e entreis, e ocupeis a terra que passais a possuir. (Deuteronômio 30:18) - Então eu vos declaro hoje que, certamente, perecereis; não prolongareis os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a possuas. (Deuteronômio 4:40) - E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que te ordeno hoje para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os dias na terra que o Senhor teu Deus te dá para todo o sempre. (Atos 20:26) - Portanto, eu lhes declaro hoje que estou inocente do sangue de todos. As passagens acima são apenas alguns exemplos do emprego do "hoje" na mesma construção de frase que observamos em Lucas 23:43. Constatamos facilmente que expressões semelhantes a essa são utilizadas aos montões na Bíblia: "...te ordeno hoje" (cf. Dt.6:6; 11:8; 4:40; 30:11; 27:10; 15:5; 30:8; 27:1; 10:13; 11:13; 15:5; 8:11; 28:14; 27:4; 13:18; 19:9; 8:1; 1:28; 28:1; 28:13) "...declaro hoje" (cf. Je.42:21; Dt.30:18; At.20:26) "...testifico hoje" (cf. Dt.8:19; 32:46) "...ponho hoje" (cf. Dt.4:8) "...proponho hoje" (cf. Dt.30:15; 11:32) "...vos mando hoje" (cf. Dt.11:27) "...vos anuncio hoje" (cf. Zc.9:12) Lucas 23:43 não faz parte de uma exceção, faz parte de uma regra. De fato, o Dr. Rodrigo Silva, em sua tese de doutorado na Pontífica Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, intitulada "Análise Linguística do Sémeron em Lucas 23:43", provou com base em uma minuciosa investigação das ocorrências do advérbio sémeron nos textos gregos do Antigo Testamento (tradução da Septuaginta) e do Novo Testamento que “na maioria absoluta dos casos” em que existe uma ambiguidade semelhante à de Lucas 23:43, “a ligação de sémeron com o primeiro verbo demonstrou-se a mais natural”. A expressão "hoje" ligada ao verbo não é redundante, é enfática, e ocorre aos montões na Bíblia. Mesmo se fosse uma exceção, isso de modo nenhum invalidaria o argumento, visto que exceções também existem na Bíblia em grande quantidade. Além disso, alegam também que Jesus se expressou diversas vezes dizendo "em verdade te digo" além de em Lucas 23:43, mas que em nenhuma delas ele adicionou o "hoje", à exceção de Marcos 14:30. Sendo assim, se Jesus não teve uma boa razão para mudar sua forma habitual de dizer o "em verdade te digo", ele deve ter se expressado conforme os imortalistas creem. O que eles não são capazes de imaginar, porém, é que existe uma boa razão pela qual Jesus adicionou o 'hoje'. E isso está totalmente relacionado ao verso anterior, em que o ladrão diz: “και ελεγεν τω ιησου μνησθητι μου κυριε οταν ελθης εν τη
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 192 βασιλεια σου”, corretamente traduzido por: “Lembra-te de mim quanto vieres no teu Reino”. A palavra grega aqui traduzida por "vir" (e que algumas versões traduzem por "entrar") é erchomai, que, de acordo com o NAS New Testament Lexicon grego, significa: "vir de um lugar para outro". Ainda segundo o léxico do grego, na grande maioria das vezes em que essa palavra aparece no Novo Testamento significa vir: Vieram: 225 vezes. Vêm: 222 vezes. Vem: 64 vezes. Chegando: 87 vezes. Foi: 18 vezes. Vai: uma vez. Chegou: uma vez; Entrou: duas vezes. Esse verbo aparece mais de quinhentas vezes ligado a "vir" e apenas duas vezes ligado a "entrar", e mesmo assim muitas traduções preferiram traduzir por "quando entrar no teu Reino", para dar algum sentido à declaração posterior de Cristo de que estaria naquele mesmo dia com Ele no Paraíso. O Thayer's Greek Lexicon afirma que essa palavra tem relação com: (a) a volta invisível de Cristo do Céu; (b) equivalente a vir para fora, mostrar- se. De acordo com Buttmann, "quando é usado com substantivos de tempo, expressa um sentido futuro, virá" (Buttmannm 204; Winer Gramática § 40, 2). Alguns exemplos de quando esse verbo ocorre na Bíblia são: (Mateus 3:7) - Mas, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham [erchomenous] para o batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira vindoura'? (Mateus 3:11) - Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem [erchomenos] depois de mim é maior do que eu e eu não sou digno nem mesmo de lavar as suas sandálias. (Mateus 3:14) - João, porém, tentou impedi-lo, dizendo: 'Eu preciso ser batizado por você, e você vem [erche] a mim? (Mateus 3:16) - Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento os céus se abriram, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo [erchomenon] sobre ele. (Mateus 5:17) - Não pensem que vim [elthon] para abolir a lei ou os profetas; não vim [elthon] para abolir, mas para cumprir. (Mateus 6:10) - Venha [eltheto] o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra com no Céu. A nota de rodapé da Nova Versão Internacional também faz uma importante observação em Lucas 23:42:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 193 "Muitos manuscritos dizem: 'quando vieres no teu poder real'" (NVI) Os judeus criam que a vinda do Messias acarretaria na vinda imediata do Reino em sua forma visível, com um Cristo político e libertador. Contudo, a vinda de Jesus trouxe o Reino em sua forma espiritual, dando-nos vitória sobre as forças das trevas. Quando o ladrão pede para ser lembrado por Cristo “quando vieres [erchomai] no teu Reino”, ou "quando vieres no teu poder real", conforme muitos manuscritos antigos trazem, ele revela a sua convicção de que ele só voltaria à vida novamente quando a vinda visível do Reino de Cristo for consumada, pois é somente neste momento (da segunda vinda de Cristo, a Sua Volta Gloriosa), que os mortos serão ressuscitados. O ladrão sabia que ele iria morrer e pede para ser lembrado por Cristo naquele dia tão esperado em que Ele viesse em Seu reino em sua forma visível, destruindo o poder da morte e dando vida aos mortos. É neste momento que o ladrão queria ser lembrado por ele, porque é somente neste momento em que os mortos ressuscitam para estar com Cristo. Jesus, então, declara ao ladrão que não precisava pensar em tempos tão remotos para ser lembrado por ele, mas que hoje mesmo lhe garantia que com Ele estaria no Paraíso. Ele não precisaria ficar na ansiedade da volta de Jesus para ser lembrado somente dois mil anos depois para saber de seu destino final, pois naquele mesmo momento, o "hoje" em questão, Cristo lhe assegurava a salvação. O verso 42, portanto, deixa claro que o próprio ladrão sabia que não entraria no Paraíso naquele mesmo dia, por isso pediu para ser lembrado por Cristo somente quando na Sua Segunda Vinda. Cristo, então, lhe assegurou naquele mesmo dia que o ladrão estaria com ele no Paraíso. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro quando Ele viesse em seu poder visível, mas Jesus respondeu lembrando a ele imediatamente, o “hoje” do verso, e garantindo que com Ele seria no Paraíso. Sendo assim, o emprego do "hoje" no verso 43 não é desnecessário e nem redundante. Ele não apenas serve para enfatizar como ocorre em outras dezenas de vezes na Bíblia, mas também para antecipar a garantia da salvação ao crucificado. Como observa Bacchiocchi: “A razão para esta ligação excepcional do advérbio ‘hoje’ à frase ‘verdadeiramente, te digo’ poderia muito bem ser o contexto imediato. O ladrão pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro quando estabelecesse o Seu reino messiânico. Mas Jesus respondeu lembrando ao penitente ladrão imediatamente, ‘hoje’, e por reassegurar-lhe que ele com Ele estaria no Paraíso”102 Mas e as traduções bíblicas? – É alegado também pelos imortalistas que, se a vírgula deve ser colocada depois do "hoje", e não antes dele, como foi provado aqui tendo em vista todo o contexto textual, a gramática do texto em grego, a hermenêutica, os documentos antigos e as evidências históricas, então praticamente todas as versões que existem hoje estão todas adulterando a Bíblia, e que a única versão correta das Escrituras seria a "Tradução Novo Mundo", das Testemunhas de Jeová, que traduz o verso desta maneira. Isso simplesmente não é verdade. É fato que as traduções que optaram por colocar a vírgula depois do "hoje" erraram, mas elas não erraram por desonestidade (o que seria adulteração na Bíblia), pois o verso realmente deixa em abert o as duas traduções no grego 102 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 194 em primeira instância, mas por seus próprios pressupostos teológicos, pois todas elas defendem a tese de imortalidade da alma. Igor Miguel, um erudito do grego bíblico, esclareceu sobre a questão das traduções bíblicas nas seguintes palavras: "Sabe-se que toda tradução é naturalmente interpretativa e hermenêutica. Ou seja, está sempre submetida aos conceitos e ponto de vista do tradutor. Há os que sustentam uma 'imparcialidade' ou 'neutralidade' em traduções. Porém, cientificamente, sabe-se que a 'neutralidade' é um mito. O tradutor pode tender à 'imparcialidade', porém sempre há algo de sua individualidade e subjetividade que estarão presentes em sua produção textual. Nesta mesma linha, há o mito da 'tradução fiel', que é trat ar a tradução como uma reprodução literal e precisa da fonte primária. Em outras palavras, uma tradução da Bíblia em português (ou qualquer outra língua) que se diga 100% fiel às fontes originais. O ideal de uma 'tradução fiel' é uma impossibilidade técnic a, não há como fazer uma tradução que reproduza fielmente, em todos os aspectos, o que o autor quis dizer. Pois é óbvio, que o sentido de um texto só pode ser entendido em todas suas dimensões de significado, quando inserido em sua língua e contexto originais. Ao passar este significado ou sentido para uma outra língua, há perdas, limitações naturais que ocorrem pelo simples fato de ser uma tradução"103 E ele conclui dizendo: "Por isto, não existem traduções perfeitas, ou uma que possa ser considerada a melhor. Existem boas traduções da Bíblia publicadas por editoras Evangélicas, Católicas e Judaicas, porém, estão todas suscetíveis às críticas e às mesmas vulnerabilidades textuais que já foram mencionadas... toda tradução tem seu valor, o que não anula obviamente, suas limitações"104 Essas colocações são decididamente importantes porque nos ajudam a compreender a razão pela qual a grande maioria dos tradutores optaram por colocarem a vírgula antes do "hoje": porque estão tendenciados a isso em vista de seus próprios conceitos teológicos. Isso é muito diferente de dizer que eles "adulteraram" a Bíblia. Significa apenas que, quando chega a um ponto de disputa teológica, sempre optam por seguir a linha teológica que a determinada sociedade bíblica adota - na maioria dos casos, a de imortalidade da alma. Por isso, é evidente que as traduções de imortalistas (como as Almeidas ou as católicas) vão optar por colocar a vírgula antes do "hoje", ao passo que as traduções de mortalistas (como TJS ou adventistas) vão optar por colocar a vírgula depois do "hoje". Isso não representa nada em questão de exegese, porque a obrigação do tradutor não é de ser um exegeta, mas meramente de traduzir. Quem terá o trabalho de reunir todas as evidências bíblicas na busca da compreensão correta do texto são os eruditos bíblicos, os críticos textuais, não os tradutores. Por isso, a grande quantidade de versões bíblicas com a vírgula colocada antes do hoje apenas reflete que a grande maioria dos tradutores são imortalistas, nada a mais do que isso. Se a maioria fosse mortalista (o que algum dia pode chegar a ser), a maioria colocaria a vírgula depois do "hoje". Isso obviamente não implica que as versões que se equivocaram colocando a vírgula antes do "hoje" estejam erradas em seu todo, nem muito menos implica que as traduções que 103 MIGUEL, Igor. Problemas da Bíblia Hebraica em Português. Disponível em: <http://www.welingtoncorp.xpg.com.br/biblia_hebraica_portugues.pdf>. Acesso em: 15/08/2013. 104 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 195 optaram pela vírgula depois do "hoje" estejam certas em todo o resto. Todas as traduções bíblicas erram em alguns pontos e acertam em outras, e todas as traduções bíblicas tendem pelo lado teológico aceito por eles quando há uma passagem de tradução livre e fruto de interpretação bíblica. Além disso, não é verdade que a Tradução Novo Mundo seja a única que coloca a vírgula depois do "hoje". Outras versões, como a Tradução Trinitariana, em português, editada em 1883 pela “Trinitarian Bible Society” de Londres, diz: “Na verdade te digo hoje, que serás comigo no Paraíso” Da mesma forma, o Emphasized New Testament, de Joseph B. Rotherham, impresso em Londres, em 1903, assim traduz Lucas 23:43: “Jesus! Lembra-te de mim na ocasião em que vieres no Teu reino. E Ele disse-lhe: Na verdade, digo-te neste dia: Comigo estarás no Paraíso” O The New Testament, de George M. Lamsa, diz: “Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso” A chamada Concordant Version, em inglês, assim traduz: “E Jesus lhe disse: ‘Na verdade a ti estou dizendo hoje, comigo estarás no Paraíso'” O famoso Manuscrito Curetoniano da Versão Siríaca, que está hoje no Museu Britânico, assim diz: “Jesus lhe disse: Na verdade te digo hoje, que comigo estarás no Jardim do Éden” O comentário da Oxford Companion Bible ainda diz: “’Hoje’ concorda com ‘te digo’ para dar ênfase à solenidade da ocasião; não concorda com ‘estarás’”, No Apêndice n°. 173, a famosa Oxford Companion Bible acrescenta: “A interpretação deste versículo depende inteiramente da pontuação, a qual se baseia toda na autoridade humana, pois os manuscritos gregos não tinham pontuação alguma até o nono século, e mesmo nessa época somente um ponto no meio das linhas, separando cada palavra... A oração do malfeitor referia-se também àquela vinda e àquele Reino, e não a alguma coisa que acontecesse no dia em que aquelas palavras foram ditas". E concluem dizendo: “E Jesus lhe disse: ‘Na verdade te digo hoje’ ou neste dia quando, prestes a morrerem, este homem manifestou tão grande fé no Reino vindouro do Messias, no qual só será Rei quando ocorrer a ressurreição – agora, sob tão solenes circunstâncias, te digo: serás comigo no Paraíso”.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 196 Por fim, a versão impressa da Nueva Reina Valera de 2000 assim traduz: "Então Jesus lhe respondeu: ‘Eu te asseguro hoje, estarás comigo no paraíso’" Portanto, é simplesmente falsa a afirmação de que a única versão da Bíblia que traduz Lucas 23:43 da maneira correta é a Tradução Novo Mundo das Testemunhas de Jeová. De fato, Lucas 23:43 é uma mensagem em que Cristo diz ao ladrão da cruz: "Em verdade te digo hoje, estarás comigo no Paraíso", mas que os tradutores bíblicos imortalistas preferiram por suas próprias convicções teológicas traduzirem por: "Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso". E assim exegese foi totalmente destruída. IX–Um espírito não tem carne e ossos Depois que Jesus ressuscitou, ele apareceu aos discípulos, que se assustaram, pensando estar vendo um espírito, ao que ele responde dizendo que um espírito não tem carne e ossos como ele tinha: "E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse -lhes: Paz seja convosco. E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito. E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho" (cf. Lucas 24:36-39) Para os imortalistas, se Jesus cresse na mortalidade da alma teria dito que não existia espírito, e não que um espírito não tem carne e osso. A resposta para essa alegação imortalista é muito simples: Jesus não poderia ter dito que não existem espíritos pela simples razão de que os anjos (bem como os demônios) são espíritos (cf. Hb.1:14), assim como o próprio Deus (cf. Jo.4:24). Portanto, se Jesus simplesmente dissesse que "não existem espíritos" ele estaria negando a existência de Deus, dos anjos e dos demônios. Tudo aquilo foi fruto do desespero momentâneo dos discípulos de Cristo ao ver alguém misteriosamente entrando "do nada" no meio da casa, que estava "com as portas fechadas" (cf. Jo.20:26), sem chances de algum desconhecido "aparecer" no meio deles. Então, no pânico, eles pensaram "estar vendo um espírito", que poderia ser um anjo do bem ou do mal, ou até mesmo um fantasma, como ocorreu em outra ocasião, em que os discípulos pensaram estar vendo um fantasma na hora do pânico, ao ver o mesmo Jesus andando por sobre as águas: "E, vendo que se fastigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante. Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, acharam que era um fantasma, e deram grandes gritos" (cf. Marcos 6:48,49) Qualquer um sabe que fantasmas não existem de verdade. E eu tenho certeza que na teologia dos apóstolos também não havia lugar para tal crendice popular. Mas, na hora do
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 197 desespero, eles gritaram apavorados, confundindo Jesus com um "fantasma", ainda que fantasmas não existam. Da mesma forma, quando Jesus apareceu "do nada" dentro da casa onde eles estavam reunidos a portas fechadas, o pânico tomou conta dos discípulos de tal forma que eles, a exemplo da ocasião anterior em que pensavam estar vendo um "fantasma", acharam que era um "espírito". Nada indica se esse "espírito" que eles achavam que Jesus era fosse um espírito humano incorpóreo, como creem os imortalistas, pois anjos e demônios também são espíritos, e na hora do desespero até fantasmas (que são popularmente conhecidos como sendo espíritos) eram cridos pelos discípulos, o que não implica na existência real deles. Esse "ser" que eles achavam estar vendo podia ser, na imaginação deles, qualquer coisa, visto que por várias ocasiões as pessoas não reconheceram Jesus, como no alto mar (cf. Mc.6:48,49), na travessia de Emaús (cf. Lc.24:16), ou na pescaria que também ocorreu depois da ressurreição (cf. Jo.21:4): "E, sendo já manhã, Jesus se apresentou na praia, mas os discípulos não reconheceram que era Jesus" (cf. João 21:4) "Mas os olhos deles estavam como que fechados, para que não o reconhecessem" (cf. Lucas 24:16) "E, vendo que se fastigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante. Mas, quando eles o viram andar sobre o mar, acharam que era um fantasma, e deram grandes gritos" (cf. Marcos 6:48,49) Portanto, podemos ver que: • Os discípulos estavam apavorados, como quando pensavam estar vendo um fantasma, pois não é normal que uma pessoa entre "do nada" no meio de uma casa que estava às portas fechadas, com medo dos romanos. • Os discípulos, como em outras ocasiões, não estavam reconhecendo Jesus. • No desespero e sem reconhecer quem era, pensaram que era um "espírito", semelhantemente a quando creram que estavam vendo um "fantasma" na outra ocasião. • Não é possível precisar ao certo que tipo de espírito eles acreditavam que era no momento do pânico, visto que anjos e demônios também são espíritos, e que crendices populares como fantasmas também são considerados como sendo espíritos. • Jesus, por sua vez, não poderia responder dizendo que "espíritos não existem", pois estaria negando a existência de espíritos que realmente existem, como anjos, demônios e o próprio Deus, que é espírito. Não é porque existem determinadas crendices populares falsas (como a crença em fantasmas e em espíritos humanos desencarnados, como no espiritismo) que não existe nenhum tipo de espírito. • Ao dizer que um espírito não tem carne nem ossos, Jesus acalmou os ânimos dos discípulos, para que não mais pensassem estar vendo algum ser misterioso, como um fantasma ou algum espírito do mal. É muito pouco provável que os discípulos acreditassem
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 198 que se tratasse do próprio Senhor Jesus em forma incorpórea, pois se os discípulos tivessem identificado Jesus ali, ainda que em forma incorpórea, teriam ficado felizes, jubilosos, exultantes ao reverem o Mestre. Se eles ficaram com medo e pensaram estar vendo "um espírito", é porque eles não reconheceram Jesus, a não ser que tivessem medo de Jesus! Evidentemente, o medo deles não era se Jesus estava em estado corpóreo ou incorpóreo, mas sim se aquilo que eles viam fosse alguma coisa digna de medo, como quando eles achavam estar vendo um fantasma e se amedrontaram, porque não sabiam que era Cristo. Concluindo, não há absolutamente nada conclusivo em Lucas 24:39 que ao menos indique que a alma humana é imortal. Todo o texto pode ser perfeitamente entendido e plenamente assimilado tendo em vista a ótica mortalista e bíblica, sem a necessidade de implicar na existência de um elemento eterno e que sobreviva com consciência à parte do corpo após a morte. Os imortalistas tem que, a todo custo, forçar a interpretação da passagem para que favoreça a interpretação deles. O espírito não pode ser outra coisa senão um espírito humano, os discípulos não poderiam estar enganados pelo pânico como quando achavam estar vendo um fantasma, e Jesus tinha que ter dito que espíritos não existem, mesmo que isso fosse impossível já que anjos, demônios e o próprio Deus são espíritos. Tudo isso fruto da misteriosa forma de formular argumentos, inventada pelos imortalistas.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 199 CAPÍTULO 5.2 – O QUE JESUS REALMENTE ENSINOU? Tivemos que mostrar muitas refutações a diversas interpretações defeituosas de passagens que são usadas constantemente pelos imortalistas, para a partir disso apresentarmos quais foram os verdadeiros ensinos de Cristo, pois de fato muitas palavras de Jesus foram mal interpretadas, tiradas de seu devido contexto, sem ser fiel e verdadeiro para com a gramática dos manuscritos em grego ou vistas com a ótica dualista de imortalidade da alma. Como vimos, nenhuma delas apresenta qualquer prova que chegue perto de abalar os fortes fundamentos da doutrina da imortalidade condicional a partir da ressurreição, como é relatado do início ao fim da Bíblia. Na realidade, grande parte delas não somente mostram o quanto a interpretação “pró-imortalidade” está equivocada, como também, em muitas ocasiões, constituem-se em fortes provas contrárias a ela. Vemos isso quando respeitamos as regras da exegese e colocamos cada passagem no devido contexto em que ela se insere. Dadas as devidas refutações, passaremos agora a mostrar aquilo que Jesus Cristo realmente afirmou com relação à natureza humana e a vida pós-morte. Como veremos, todos os ensinamentos de Cristo são coerentes em negar veementemente qualquer pretensão de dividir a natureza humana entre o aspecto material e o aspecto imortal/imaterial. Ao contrário, veremos que a entrada no Reino é somente por ocasião da ressurreição, bem como a entrada na condenação que os ímpios sofrerão, e todos os outros fatores corroborando para isso nos ensinamentos de Jesus Cristo acerca da vida pós-morte. X–Sobre a entrada no Reino ou na condenação A Parábola do Joio e do Trigo – Ironicamente, comecemos com isso mesmo – uma parábola! Mas essa, por sua vez, possui a explicação do próprio Cristo sobre o significado de sua própria parábola, sobre o que significa cada elemento e sobre os tempos em que tais coisas se dariam. Nessa parábola vemos Cristo ensinando sobre o estado dos mortos e sobre os destinos finais. Veremos o que ele conta: “Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio? E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro” (cf. Mateus 13:24-30) Em seguida, os discípulos pedem que Cristo explique essa parábola, e a explicação do Mestre vem na sequência: “Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 200 lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (cf. Mateus 13:36-43) Essa parábola de Cristo simplesmente concorda com tudo aquilo que já vimos aqui: que os justos não entram no Paraíso com as suas “almas imortais” logo após a morte, mas somente no fim do mundo, momento em que os mortos serão vivificados (cf. 1Co.15:22,23), para a partir daí entrarem no Paraíso (cf. Jo.14:2,3; Jo.5:28,29). Do mesmo modo, os ímpios não são condenados a ficarem queimando antes da ressurreição no fim do mundo. A parábola do semeador nos ilustra bem esse quadro: “E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro” (cf. Mateus 13:28-30) Vemos, portanto, que o trigo (filhos do Reino) e o joio (filhos do maligno) são deixados juntos, isto é, no mesmo lugar, até a ocasião da ceifa. Um não está separado do outro, como um no Céu e outro no inferno, muito pelo contrário, são mantidos juntos até a ceifa e é só neste momento em que o joio (ímpios) irá queimar, e o trigo (justos) irá ser ajuntado no “celeiro” (Reino dos céus). Conforme a explicação que Cristo dá em seguida com relação à parábola, vemos claramente que a ceifa é somente no fim do mundo: “O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos” (cf. Mt.13:39). Em outras palavras, o trigo (justos) só será ajuntado no celeiro (Reino) no fim do mundo! Até lá, ambos estão no mesmo lugar (cf. Mt.13:30). É só por ocasião da ceifa, que acontece “no fim do mundo”, que os justos se separarão dos ímpios para aí sim entrarem no “celeiro”. Isso é um golpe fatal na teoria de que entramos no Céu imediatamente após a morte ao mesmo passo que os ímpios vão para o inferno também imediatamente após a morte, e na ressurreição do último dia ambos são ressuscitados para continuarem no mesmo lugar em que já estavam antes. Igualmente notório é o fato de que os ímpios só serão queimados no fogo na consumação deste mundo: “Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo” (cf. Mateus 13:40) Isso prova que eles não estão queimando ainda, pelo contrário, só serão queimados no fogo “na consumação deste mundo” (v.40). É na “consumação do mundo” – no final dos tempos, na última era, no fim do mundo – que os ímpios serão queimados no fogo. Não é algo que já esteja em atividade! O ensinamento de Cristo nega absolutamente que os ímpios já possam estar queimando atualmente em algum lugar, porque tal fato só se tornará realidade para eles no final dos tempos, na consumação deste mundo quando a Bíblia diz
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 201 que haverá a separação entre os justos e os ímpios (cf. Mt.13:30), por ocasião da ceifa (cf. Mt.13:29,30), que acontece somente no fim do mundo (Mt.13:39). Também é notório que é somente neste momento que os justos herdam o Reino do Pai: “Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Aquele que tem ouvidos, ouça” (cf. Mateus 13:43) Note que é somente neste momento que os justos entram no Reino. O original grego traz a palavra “tote”, que, de acordo com o Léxico da Concordância de St rong, significa: “quando; o momento em que; naquele tempo; então”105. Ou seja, é somente naquele tempo, quando daquele momento, que os justos brilharão como o sol no Reino de Deus. Pelo contexto de Mateus 13, este momento é claríssimamente definido como sendo na consumação deste mundo, no fim das eras: “O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (cf. Mateus 13:39-43) O que Cristo ensina é bem claro: os justos só serão ajuntados para o celeiro no fim do mundo (cf. Mt.13:30), e os ímpios só serão queimados no fogo na consumação deste mundo (cf. Mt.13:40). Para um bom entendedor, meia-palavra basta. Mas Cristo foi bem mais preciso que isso! Separação entre justos e ímpios apenas no fim do mundo – Mais uma vez, em uma parábola próxima à anterior, Cristo assegurou que a separação entre os bons e os maus só se dará na consumação dos séculos: “Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora. Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes” (cf. Mt.13:47-50). Aqui vemos novamente em cena a segurança de Cristo em afirmar que a separação entre justos e ímpios só ocorrerá na consumação dos séculos, sendo que antes disso eles estão no mesmo lugar, e não em lugares ou dimensões diferent es! Ademais, Cristo também deixou mais do que claro aqui que os maus só serão lançados na fornalha de fogo para terem prantos e ranger de dentes na consumação dos séculos. Não é algo que já esteja em atividade com os ímpios sofrendo tormento. Antes da “consumação dos séculos”, eles estão no mesmo lugar, ou seja, se os ímpios já estão queimando com fogo, então os justos também estão! É óbvio que todos os grupos não se encontram senão no pó da terra (cf. Is.26:19; Gn.3:19; Sl.22:15; Jó 7:21; Dn.12:2), o que explica o porquê que Cristo só os diferenciou por ocasião da consumação dos tempos. 105 Léxico da Concordância de Strong, 5119.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 202 Tudo isso nos mostra que, realmente, Cristo queimará [futuro] a palha no fogo (cf. Lc.3:17), eles não estão queimando [presente]. O joio, os cestos ruins e a palha serão queimados na consumação dos séculos, na consumação das eras. Não é algo que já esteja em atividade em algum lugar. A entrada no Reino é somente na segunda vinda de Cristo - “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial. Todas as nações serão reunidas diante dele, e ele separará umas das outras como o pastor separa as ovelhas dos bodes. E colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (cf. Mateus 25:31-34) Aqui fica mais do que claro que a entrada no Reino se dará por ocasião da revelação gloriosa de Cristo, quando o Filho do Homem vier na sua glória para separar os bons dos maus. Se os justos já estivessem desfrutando das bem-aventuranças do Reino, então Cristo diria para eles “continuarem no Reino”. Contudo, a clareza da linguagem textual não deixa margem para duplas interpretações: os justos não estavam no Reino, mas entrariam no Reino a partir da revelação gloriosa do Filho do Homem, ou seja, na segunda vinda de Cristo. Ele não disse “continuem no Reino”, mas sim: “entrem no Reino” – “o recebam”! Ninguém entra em algum lugar se já estava lá. Ninguém diz: "entre na casa" para um convidado que já está hospedado em sua casa há muito tempo. Vale ressaltar que o que está em jogo aqui não é apenas a recompensa, como alegam alguns imortalistas, mas é o próprio Reino, o próprio Paraíso celestial. Impossível conciliar isso com a tese de que tais pessoas já estavam há séculos no Reino como espíritos incorpóreos para "receberem" o Reino que já tinham e "entrarem" no Paraíso em que já estavam. A palavra grega kleronomeo, usada aqui em Mateus, implica em "tornar-se participante de; obter"106, e não pode ser ignorada. Ademais, também é digno de nota que é somente nesta vinda gloriosa do Filho do homem com todos os anjos que as ovelhas serão separadas dos bodes – elas não estão separadas ainda. Do mesmo modo, um pouco mais à frente é dito ao grupo da direita para entrarem no inferno (v.41), também a partir daquele momento. Se eles já estivessem no inferno isso não faria sentido, pois eles já estariam queimando como “espíritos”, para ressuscitarem, serem julgados, e continuarem queimando do mesmo jeito! É muito claro a partir destes textos que a separação entre os justos e os ímpios não vem senão por ocasião da consumação do mundo, e é neste momento que os justos recebem o Reino prometido e nesta ocasião é que os ímpios são queimados. Não é no momento da morte com as suas “almas imortais”. Os justos viriam receber o Reino que lhes fora prometido desde a criação do mundo, lhes sendo concedido naquele momento. Lembro-me de certa vez, há muito tempo atrás, quando debatia em uma rede social com um defensor da doutrina da imortalidade que, ao se deparar com tal passagem e todas as suas implicações que destacamos aqui, simplesmente teve que dizer: “Não tem como refutar”, e para disfarçar a falta de contra-argumentação ainda completou dizendo: “você 106 Léxico da Concordância de Strong, 2816.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 203 tinha que estar certo em alguma coisa”! De fato, tal passagem é tão expressamente clara que não abre espaços nem para refutações e nem para duplas interpretações. É inimaginável que Cristo tenha que separar os dois grupos caso eles já estivessem bem separados (uns no Céu e outros no inferno), e não tem como se conceber que Cristo diria “venham receber o Reino” a pessoas que já estivessem desincorporadas no Reino há milênios, ou até mais! Realmente, não existe como refutar a clareza e objetividade da linguagem de Cristo em dizer de maneira explícita qual é o tempo em que os justos receberiam o Reino e em que finalmente seriam separados dos ímpios. Tudo isso ocorre, contudo, não quando as suas almas partem para o Céu c om a morte, mas sim por ocasião da revelação gloriosa de Cristo, “curiosamente” o mesmo momento em que se dá a ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). O Reino, que lhes estava “preparado” desde a fundação do mundo (v.34), finalmente lhes seria concedido. E quando isso acontecerá? A resposta se encontra no verso 31: “Quando o Filho do homem vier em sua glória, com todos os anjos”. Trata-se da volta gloriosa de Jesus Cristo, e é só neste momento em que os da direita, os justos, entram no Reino (v.34). Voltarei e tomar-vos-ei comigo – Outro argumento conclusivo contra a teoria de que ao morrermos somos imediatamente conduzidos ao Paraíso antes da ressurreição dos mortos é o fato de que Jesus não deixou margem de dúvidas quanto à data em que os seus discípulos seriam levados ao Paraíso: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. Jo.14:2,3). A clareza da linguagem é tão evidente que não abre espaços para duplas interpretações. A entrada no Paraíso se dá por ocasião da volta de Cristo, e não por uma alma imortal que deixa o corpo por ocasião da morte. A clareza da linguagem é tão clara que já foram feitas inúmeras tentativas frustradas para negar tamanha evidência, mas todas elas fraquejam em suas tentativas. A primeira objeção diz que Jesus, ao dizer que voltaria para tomá-los consigo, referia-se ao tempo apocalíptico quando ele arrebataria os salvos que ainda estivessem vivos aqui na terra. Contudo, o contexto deixa bem claro que ele estava dizendo aquilo para os seus discípulos (cf. Jo.13:36), e não para qualquer um em alguma era apocalíptica. Na verdade, Jesus estava respondendo a uma pergunta de Simão Pedro (v.36), dizendo em seguida para os discípulos: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (cf. João 14:2,3) Será que algum apóstolo está vivo até os dias de hoje para ser arrebatado nesta promessa? É claro que não! Fica mais do que claro que Jesus, falando aos seus discípulos, indicava claramente que eles só ocupariam as suas moradas no Paraíso por ocasião da Sua Volta gloriosa. A segunda objeção imortalista contra a evidência deste texto é que Jesus estaria falando da morte deles para ocuparem os seus lugares no Paraíso. Contudo, isso é ferir o
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 204 contexto bíblico que afirma de forma categórica de que tal fato se dará não pela morte dos apóstolos, mas sim por ocasião da volta de Cristo. “Voltarei e tomar-vos-ei comigo” é uma clara referência a volta de Jesus. Em outras circunstâncias, tal fato não seria alvo de objeção alguma, mas tendo em vista que comprometeria a doutrina imortalista, tentam negar o evidente. Ademais, Cristo não disse: “Quando vocês morrerem vão ocupar as moradas”, mas sim: “Quando eu voltar tomar-vos- ei comigo”... para só então ocuparem as moradas. E, por fim, o contexto deixa evidente que Cristo irá “preparar um lugar” (v.3), para depois voltar (uma vez) para buscar aqueles que lhe pertencem. Se essa objeção estivesse correta, então Cristo voltaria sucessivas vezes ininterruptas para buscar crente após a morte. Porém, Cristo falava de um evento específico, de uma vinda em especial, para tomar todo o corpo apostólico e não sobre vindas diferentes e variadas para cada um individualmente e em tempos distintos. A terceira objeção por parte dos imortalistas é que Cristo pudesse estar se referindo à sua ressurreição dentre os mortos. Contudo, essa teoria falha no mesmo ponto da anterior: “voltarei e tomar-vos-ei comigo” é uma clara referência à segunda vinda de Cristo, nunca indicando que tratasse da ressurreição do Senhor. Se a referência fosse à ressurreição de Cristo, isso faria de Jesus um mentiroso ao dizer que prepararia as moradas no Paraíso, uma vez que tal fato não seria possível já que enquanto ele esteve morto antes de sua ressurreição não esteve no Céu para “preparar” morada alguma, pelo c ontrário, ele não subiu ao Céu (cf. Jo.20:17), e ficou três dias e três noites no Sheol (cf. At.2:27; Mt.12:40), e não no Paraíso “preparando moradas”. Finalmente, essa teoria falha ainda mais porque negaria que Jesus tomaria os seus discípulos consigo. Se fosse uma referência à ressurreição de próprio Cristo, então teríamos um grande problema uma vez que Jesus não “tomou consigo” em suas moradas discípulo nenhum por ocasião da sua ressurreição! Isso seria um disparate e uma promessa não cumprida se Cristo estivesse mesmo falando da ressurreição dele mesmo! Por fim, devemos ressaltar que, para onde Cristo iria, nem sequer os seus próprios discípulos poderiam segui-lo (cf. Jo.13:36). Por isso, faz-se necessário que Ele volte para nos levar onde ele está [segunda vinda de Cristo], para estarmos com Ele onde ele estiver (cf. Jo.14:3). Todas as objeções à clareza da linguagem de João 14:2,3 são refutações fracas, quase sempre interpretações forçadas do texto bíblico numa tentativa desesperada em negarem o óbvio daquilo que diz as Escrituras. Jesus não disse que os lugares estariam disponíveis aos salvos conforme fossem morrendo e suas almas chegassem no Céu para assumi-las. Seria impossível Cristo voltar para levar os seus discípulos ao Céu caso eles já estivessem lá, pois Jesus não teria que voltar para buscar novamente aqueles que já estivessem no Paraíso. É óbvio que eles só entram na segunda vinda, quando Cristo voltar para nos levar onde ele está, e não quando a suposta “alma imortal” deixa o corpo após a morte, em algum estado intermediário dos mortos. Se a alma fosse imortal, o texto estaria dizendo que, "quando eu for e vos preparar lugar, vocês virão a mim quando morrerem, para que, onde eu estou, estejais vós também". Porém, a linguagem bíblica expressa é clara ao ponto de nos fazer
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 205 entender que apenas pela ressurreição, quando Jesus vier nos buscar, é que entraremos em nossas moradas celestiais. E não restam objeções a tal fato. Para onde Cristo vai, só iremos na ressurreição – “Disse, pois, Jesus: Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis, e não me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir” (cf. Jo.7:33,34). Quando Jesus afirma em João 7:34 que “onde eu vou, vós não podeis ir”, os imortalistas são rápidos em responder que Cristo estava falando com os fariseus e, portanto, eles vão queimar para sempre e não podem ir onde Cristo vai. O problema, contudo, é que essa mesma verdade é afirmada não apenas aos fariseus incrédulos, mas aos próprios discípulos dele! Isso fica claro em João 13:33 em que ele afirma: “Meus filhinhos, vou estar com vocês apenas por mais um pouco. Vocês procurarão por mim e, como eu disse aos judeus, agora lhes digo: Para onde eu vou, vós não podeis ir” (cf. Jo.13:33). Não apenas os judeus hipócritas de João 7:34, mas também os seu próprios seguidores em João 13:33 não poderiam ir para onde Jesus partiria. Quando que eles poderiam, então, juntar-se a ele? O próprio Mestre responde alguns poucos versos à frente: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (cf. Jo.14:2,3). Ou seja, quando Ele [Cristo] voltar em Sua segunda Vinda. Não, essa não é apenas uma repetição do argumento passado acima, mas é um complemento muito importante, pois Cristo afirma categoricamente que os próprios apóstolos não poderiam estar com Cristo e nem sequer o achar quando ele partisse para a outra vida, mesmo Simão Pedro afirmando que daria a própria vida para seguir a Jesus: “Pedro perguntou: Senhor, por que não posso seguir- te agora? Darei a minha vida por ti” (cf. Jo.13:37). Em outras palavras, não adiantava procurar entre o “povo espalhado pelos gregos” (cf. Jo.7:35), não adiantava nem mesmo morrer (cf. Jo.13:37), pois para onde Cristo iria, absolutamente ninguém poderia ir até ele. Por isso, faz-se necessário ele voltar e nos levar com ele, para só aí estarmos onde ele está – aquele local onde ninguém poderia segui-lo (nem mesmo morrendo para isso) – o Paraíso. Se a morte introduzisse a alma de Pedro imediatamente no Céu com o próprio Jesus, então ele logicamente poderia segui-lo ao dar a vida por ele. Contudo, Cristo é enfático em relatar que nem mesmo a morte os traria para onde ele iria (cf. Jo.13:37; 13:33), o que nos revela que, realmente, é apenas com uma segunda vinda do próprio Cristo em que os apóstolos estariam de fato com ele (cf. Jo.14:2,3), através da ressurreição dos mortos. A justa recompensa na ressurreição – "E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos" (Lc.14:14). Jesus aqui afirma que a recompensa será dada na ressurreição. Ir ao estado intermediário já não é uma forma de recompensa? Claro que sim, afinal no estado intermediário já haverá a distinção de pessoas salvas e perdidas e as perdidas estariam em um fogo atormentador e os salvos curtindo as delicias da vida eterna (pelo menos é assim que os imortalistas ensinam).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 206 Se existe um estado intermediário junto a Deus, com todos os outros santos, desfrutando das bênçãos paradisíacas e da profunda felicidade que é estar com o Pai em contraste com esta vida terrena, então isso seria uma forma de recompensa – e bota “recompensa” nisso! Contudo, a declaração de Cristo é categórica ao afirmar que a recompensa pelas dada aos justos não vem no momento da morte, mas sim na ressurreição dos mortos! Ao tentar conciliar a existência do estado intermediário com a recompensa que só é dada no momento da ressurreição, os imortalistas caem em uma séria contradição, pois, se tal estado intermediário no Céu com Deus realmente existisse, então os que morressem já estariam desfrutando das bênçãos paradisíacas, sendo recompensados. Contudo, Jesus nega isso ao afirmar claramente que a recompensa dada aos que se esforçam nessa vida é na ressurreição dos mortos, o que contraria o ensino do “estado intermediário”. Na verdade, não há sequer “pista” alguma que indique que os justos seriam nem mesmo recompensados gradativamente ao longo de tal “estado intermediário”, afinal, se a recompensa é a ressurreição, então estar com Deus desfrutando das delícias celestiais em um estado intermediário não é uma recompensa. Pelo menos seria essa desastrosa conclusão que deveríamos pressupor em caso que, de fato, existisse esse “estado intermediário”. Isso contraria também o ensino expresso no Concílio de Trento, considerado infalível para os católicos, que de forma explícita declara que a recompensa vem imediatamente após a morte, e não na ressurreição dos mortos, como disse Jesus: “Quando morremos, experimentamos o que se chama o juízo individual. A Escritura diz que 'aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois o juízo' (Heb. 9:27). Somos julgados imediatamente e recebemos a nossa recompensa, para bem ou mal. Sabemos ao mesmo tempo qual será o nosso destino final. No fim dos tempos, quando Jesus voltar, virá o juízo geral ao qual a Bíblia se refere, por exemplo, em Mateus 25:31-32: 'Quando o filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. Diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos.' Neste juízo geral todos os nossos pecados serão revelados publicamente (Lucas 12:2-5)”107 Distorcendo o significado do texto de Hebreus 9:27 (que veremos mais adiante), a Igreja Católica Romana mantém a ideia de que existem dois juízos, conquanto que a Bíblia afirme tão claramente que existe apenas un único juízo (cf. Rm.2:16; At.17:31; 1Co.3:13; Dn.12:13; 2Tm.4:1,8), e que a recompensa vem imediatamente após a morte e antes da ressurreição, ainda que Cristo tenha sido tão direto em afirmar que os justos só serão recompensados na ressurreição dos mortos (cf. Lc.14:14). Tudo isso nos mostra mais uma vez o contraste entre a teologia da imortalidade da alma e o ensino bíblico: eles precisam multiplicar a existência de juízos e antecipar o momento da recompensa, de outro modo não haveria como pregar a doutrina dualista de uma forma que passasse um mínimo de coerência. A condenação é somente no último dia – "Há um juiz para quem me rejeita e não aceita as minhas palavras; a própria palavra que proferi o condenará no último dia” (cf. Jo.12:48). As palavras de Cristo são tão lúcidas que não necessitam nem um pouco de maiores elucidações. Qual é o momento em que os ímpios serão condenados? Logo depois da morte quando são lançados no inferno ou somente no último dia? Jesus nos responde a esta 107 Concílio de Trento, Decreto sobre o Purgatório, Denzinger # 983.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 207 questão dizendo claramente e sem rodeios que serão condenados “no último dia” e – que grande "coincidência" – este é o momento da ressurreição: “E a vontade do que me enviou é esta: Que eu não perca nenhum de todos aqueles que me deu, mas que eu o ressuscite no último dia” (cf. João 6:39) Vemos, portanto, que a condenação dos ímpios não é logo depois da morte em um “estado intermediário” e muito menos que eles já estejam sofrendo suas condenações em algum lugar, pois a sua condenação é somente no último dia, o dia da ressurreição dos mortos . Considerar que os ímpios já estejam atualmente queimando em um lugar de fogo denominado de “inferno” ou “Hades” significa crer que eles já sofreram a condenação antes mesmo do momento em que Cristo disse que eles seriam condenados! É óbvio que se o momento da condenação dos ímpios é no último dia, segue-se logicamente que eles não estão na condenação, como pensam os imortalistas. Infelizmente, os defensores da alma imortal nunca poderão admitir tal verdade declarada por Cristo, pois isso invalidaria a tese pagã de que milhões de pessoas supostamente já estão sofrendo a condenação de um inferno de fogo em atividade e fulminaria com a lenda da imortalidade da alma. A entrada no Reino ou na condenação é por ocasião da volta de Cristo – Confirmando as claras palavras de Cristo aos seus discípulos assegurando-lhes que o momento em que eles teriam parte em suas moradas celestiais seria na Sua Volta (cf. Jo.14:2,3), porque é este o momento da ressurreição (cf. 1Co.15:22,23), o próprio Jesus lhes conta uma parábola em que confirma tal ensino de que a entrada no Reino ou na condenação ocorre por ocasião da Sua Volta, e não de alguma “alma” ou “espírito” que parta desencarnado antes disso. Vejamos o que ele ensina: “Depois de muito tempo o senhor daqueles servos voltou e acertou contas com eles. O que tinha recebido cinco talentos trouxe os outros cinco e disse: ‘O senhor me confiou cinco talentos; veja, eu ganhei mais cinco’. O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’” (cf. Mateus 25:19-21) Qual é o momento em que o servo bom e fiel tomou parte na alegria do Senhor? Antes ou depois da volta do seu senhor? Não foi antes, mas depois! É muito claro aqui que o “senhor” da parábola é uma representação do próprio Cristo que há de voltar para então recompensar a cada um, e os servos fieis só entram no gozo do Senhor quando o dono da vinha [representação de Cristo] voltar, “depois de muito tempo” (v.19)! Ele não poderia ser mais claro e exato do que isso ao afirmar os tempos e datas em que se daria tal acontecimento. Também vemos neste mesmo contexto que é somente quando o Senhor volta que os seus servos têm que prestar contas a ele (vs. 20, 22). É no momento da volta de Cristo, e não antes dela, que teremos que prestar contas perante Ele por tudo o que fizemos! E, finalmente, também é este o momento em que o servo mau é lançado na trevas (v.30). Portanto, a partir de tal parábola de Cristo percebemos que: (1) entraremos na alegria do Senhor por ocasião da Sua Volta; (2) seremos recompensados por ele nessa ocasião; (3) é
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 208 também nessa ocasião em que teremos que prestar contas a ele; e (4) é também na volta de Cristo que os servos infieis são lançados nas trevas. Todas essas conclusões negam em absoluto a imortalidade da alma, pois tal doutrina, estranha à Bíblia, prega exatamente o inverso disso: de que já entramos na alegria do Senhor em um estado intermediário muitíssimo antes da Volta de Cristo (alguns dois mil anos antes de sua volta), de que somos recompensados entrando no Céu logo depois da morte, de que prestaremos contas a ele antes da sua vinda e de que os servos infieis já estão queimando atualmente e estão esperando entre as chamas a volta de Cristo para prestarem contas e voltarem a queimar novamente depois disso. A vergonha dos ímpios é na segunda vinda – “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (cf. Mc.8:38). O momento em que o Filho do homem irá se envergonhar dos pecadores é quando ele vier na glória de seu Pai com todos os santos anjos, algo que vai de frente à doutrina da imortalidade da alma, uma vez que os ímpios já estariam queimando no inferno muito antes disso e, portanto, já sendo envergonhados. O próprio Cristo, contudo, afirma que aquela geração iria passar vergonha na Sua Vinda, e não antes disso. O próprio fato de Cristo ter feito uma referência àquela geração judaica de sua época (“nesta geração” – v.38), prova que eles não podem estar queimando atualmente, uma vez que deste modo aquela geração já estaria sendo envergonhada, mas Cristo afirma categoricamente que tal fato concretizar-se-á na Sua vinda, na ressurreição dos mortos para a vida ou para a vergonha da condenação. É bem nítido que aquela geração que pereceu não está já na condenação do inferno, pois desta forma eles já estariam condenados e envergonhados antes da volta de Cristo! XI–Sobre Imortalidade e Vida Eterna Cristo e a Vida Eterna – É fator bem importante, primeiro, considerar que nem todos alcançam uma vida eterna, que não existe uma vida eterna no inferno, que a vida eterna é a partir da ressurreição e que a imortalidade é um dom de Deus para ser buscada. Nos aprofundaremos mais neste ponto principalmente quando passarmos aos ensinos de Paulo, por hora limitemo-nos acerca dos ensinamentos de Jesus Cristo, que disse: “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (cf. João 10:28) Se Cristo me dá a vida eterna, isso quer dizer que não temos uma natureza imortal, e sim que essa imortalidade é totalmente dependente de Cristo se somos salvos. Essa verdade é tão fundamental que é pregada por várias outras vezes por Crist o. A vida eterna está reservada apenas e tão somente aos filhos de Deus: “Para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (cf. Jo.3:15). Note que Cristo fez a promessa de dar a vida eterna somente àqueles que nEle crerem. E ainda acentua: “E esta é a promessa que ele mesmo nos fez, a vida eterna” (cf. 1Jo.2:25). Mas, por que razão que Jesus iria dar uma vida eterna a alguém que já possuísse em si mesmo uma alma imortal? Essa é uma questão que imortalistas tem uma grande dificuldade de explicar.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 209 “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (cf. João 6:27) “De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (cf. João 6:40) Além disso, é importante considerarmos que a vida eterna é uma herança: “Certo homem de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (cf. Lc.18:18). Se a vida eterna já fosse garantia de todos por terem uma “alma imortal”, então este homem não teria que perguntar para Cristo o que ele devia fazer para herdá-la, pois ele já a teria de qualquer jeito! Mas apenas os justos herdam vida eterna. Em João 6:51, Cristo faz a seguinte afirmação: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (cf. João 6:51) Logo, quem não come do pão da vida não viverá eternamente. O ensinamento é claro em desfazer a imortalidade incondicional por meio de uma alma eterna, pois a conjunção “se” expressa uma condição: apenas aqueles que comem do pão poderão viver eternamente. Isso nos mostra que não existe uma alma imortal implantada nos seres humanos, pois é apenas por meio de Cristo (e não mediante uma alma imortal) que os justos viverão eternamente no futuro, e os ímpios (que não comem do pão vivo) não viverão eternamente em algum lugar. Isso é confirmado novamente por Cristo: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá” (cf. Jo.6:57). Novamente aqui é acentuado o fato de que a vida é somente em Cristo. Apenas por meio dEle é que podemos viver eternamente. O que vai além disso deve fazer parte da mentira de Satanás (cf. Gn.3:4). Os apóstolos contrariavam a Cristo? – Os apóstolos não contrariam a Cristo, muito pelo contrário, seguem na mesma linha. O apóstolo Paulo afirma que a imortalidade é por meio do evangelho (cf. 2Tm.1:10). Ora, se a imortalidade é por meio do evangelho então aqueles que desprezam o evangelho não possuem a imortalidade. O apóstolo João vai além e declara que o assassino não tem a vida eterna permanente em si (cf. 1Jo.3:15), e assegura que a vida é somente em Cristo (cf. 1Jo.5:12). Os ímpios, ao contrário, não verão a vida (cf. Jo.3:36). Importante ressaltar também que a vida eterna e a imortalidade é a partir da ressurreição dentre os mortos. Apenas Deus tem uma “vida eterna” permanente em si no sentido completo da palavra, não tendo nem princípio nem fim de dias, sendo eterno literalmente. Aos justos é concedida uma vida eterna e imortalidade, não como Deus possui (i.e, imortalidade inerente, sem início e nem fim), mas sim uma imortalidade condicional (de seguir o evangelho e de aceitar a Cristo – cf. 2Tm.1:10; Jo.6:51; Jo.6:57). Essa imortalidade é a partir da ressurreiç ão dentre os mortos. É por isso que a imortalidade tem que ser buscada (cf. Rm.2:7), e revestida (cf. 1Co.15:53), na ressurreição (cf. 1Co.15:51-54). Ora, ninguém busca aquilo que já se possui. Essa realidade, da vida eterna
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 210 a partir da ressurreição, é ainda mais acentuada pelo próprio Cristo, que declara: “Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem da ressurreição para a vida; e os que fizeram o mau da ressurreição para a condenação” (cf. Jo.5:28,29). Eles não estão na vida, mas sairão para a vida a partir da ressurreição. A vida está relacionada à ressurreição porque ela está condicionada a ela. Ademais, todos ressuscitarão vindos do túmulo (e não do Céu, do inferno ou do purgatório) a fim de comparecer no tribunal divino. A Bíblia afirma que só Deus possui a imortalidade c omo uma possessão presente: “O único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais viu nem pode ver. Para ele, honra e poder para sempre. Amém” (cf. 1Tm.6:16). Para a humanidade, a imortalidade é ainda um prêmio a ser buscada: “... para aqueles que pela paciência em fazer bem, procuram glória, honra e imortalidade, ele dará a vida eterna” (cf. Rm.2:7). Definitivamente, Jesus e os apóstolos jamais ensinaram a doutrina da imortalidade da alma. XII–Sobre o Estado Final dos ímpios Mais ensinamentos de Cristo – Os ensinamentos de Cristo acerca do estado final dos ímpios é bem claro, e do início ao fim nega toda e qualquer “imortalidade” que seja concedida também a eles. Um bom exemplo disso é o que o Mestre narra em Marcos 12:1-9: “Certo homem plantou uma vinha, colocou uma cerca ao redor dela, cavou um tanque para prensar as uvas e construiu uma torre. Depois arrendou a vinha a alguns lavradores e foi fazer uma viagem. Na época da colheita, enviou um servo aos lavradores, para rece ber deles parte do fruto da vinha. Mas eles o agarraram, o espancaram e o mandaram embora de mãos vazias. Então enviou-lhes outro servo; e lhe bateram na cabeça e o humilharam. E enviou ainda outro, o qual mataram. Enviou muitos outros; em alguns bateram, a outros mataram. Faltava-lhe ainda um para enviar: seu filho amado. Por fim o enviou, dizendo: A meu filho respeitarão. Mas os lavradores disseram uns aos outros: Este é o herdeiro. Venham, vamos matá-lo, e a herança será nossa. Assim eles o agarraram, o mataram e o lançaram para fora da vinha. O que fará então o dono da vinha? Virá e exterminará aqueles lavradores e dará a vinha a outros” (cf. Marcos 12:1-9) O que Cristo ensina nessa parábola acerca do fim dos ímpios é bem claro. Se ele quisesse induzir que seriam dotados de imortalidade igual aos justos e ficando para sempre no lago de fogo (conscientemente), então provavelmente teria dito que eles seriam “castigados eternamente”, ou que “torturaria aqueles homens para sempre”. Mas claramente não é isso o que Jesus ensina sobre o destino final dos pecadores. O Nosso Senhor compara a destruição dos ímpios com joio reunido em molhos para ser queimado (cf. Mt.13:30). Ora, acaso o joio que é queimado (que representa os ímpios) possui um material imortal e indestrutível? É claro que não. Assim também os ímpios, representados pelo joio, não são indestrutíveis. A Bíblia diz claramente que os ímpios não terão corpos incorruptíveis, que é exclusividade apenas dos justos (cf. Fp.3:20,21; 1Co.15:35-55). Paulo também afirma isso categoricamente: “Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 211 corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna” (cf. Gl.6:8). Em oposição a uma “vida eterna”, os ímpios possuirão corpos corruptíveis. Se fossem queimar eternamente seriam exatamente o contrário, isto é, incorruptíveis. A comparação de Cristo com o joio que é queimado é exata, pois, assim como o joio, os ímpios não ficam queimando para sempre: são corruptíveis como o joio, e não incorruptíveis como os justos. Ademais, como apontou o Dr. Samuelle Bacchiocchi em "Imortalidade ou Ressurreição?", Jesus fez a devida analogia do destino dos não-salvos com ervas reunidas nos molhos para serem queimadas (cf. Mt.13:30,40), os maus peixes que lançados fora (cf. Mt.13:48), as plantas ruins que foram arrancadas (cf. Mt.15:13), a árvore que não dá frutos que é cortada (cf. Lc.13:7), os galhos secos que foram queimados (cf. Jo.15:6), os servos infieis exterminados (cf. Lc.20:16), o mau servo que foi despedaçado (cf. Mt.24:51), os galileus que pereceram (cf. Lc.13:2,3), as dezoito pessoas que foram esmagadas pela torre de Siloé (cf. Lc.13:4,5), os antediluvianos que foram destruídos pelo dilúvio (cf. Lc.17:27), as pessoas de Sodoma e Gomorra que foram consumidas pelo fogo (cf. Lc.17:29) e os servos maus que foram executados (cf. Lc.19:14,27). Nenhuma dessas comparações do fim dos ímpios induz a uma existência eterna, muito pelo contrário, remete a uma destruição completa, a um fim de existência. XIII–A Ressurreição de Lázaro A Ressurreição de Lázaro – Outro fato de fundamental importância que revela que Cristo jamais ensinou a doutrina da imortalidade da alma é a ressurreição de Lázaro, o que fica mais evidente quando analisamos cuidadosamente o contexto: “Chegando, pois, Jesus, encontrou-o já com quatro dias de sepultura. Ora, Betânia distava de Jerusalém cerca de quinze estádios. E muitos dos judeus tinham vindo visitar Marta e Maria, para as consolar acerca de seu irmão. Marta, pois, ao saber que Jesus chegava, saiu- lhe ao encontro; Maria, porém, ficou sentada em casa. Disse, pois, Marta a Jesus: Senhor, se (estivesses aqui) meu irmão não teria morrido. E mesmo agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá. Respondeu-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir. Disse-lhe Marta: Sei que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia. Declarou- lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto? Respondeu-lhe Marta: Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” (cf. João 11:17-27) Muitas coisas podemos considerar a partir deste relato. Em primeiro lugar, quando Jesus consolava as irmãs de Lázaro (já morto), em nada indicou que este estivesse na “glória” ou contemplando a face de Deus, mas apenas lhes dá a esperança da ressurreição (cf. Jo.11:17-27). Ele aponta a ressurreição “no último dia” como única fonte de consolação. Se Lázaro já estivesse na “glória”, então Jesus iria aproveitar tal oportunidade a fim de ressaltar que era sem sentido o pranto por ele, uma vez que já estaria em um lugar muitíssimo melhor, e seria muito mais desvantajoso para ele (Lázaro) ter que voltar para esta presente terra cheia de perdição. Em outras palavras, seria melhor para Lázaro tê -lo deixado onde ele estava! Mas Cristo não somente o ressuscita como também usa como fonte de consolação a base na ressurreição do último dia.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 212 Em momento nenhum ele chega a induzir que Lázaro já estivesse desfrutando de alguma bem-aventurança paradisíaca, e se tal fato fosse verdade então ele mencionaria às irmãs dele sem a menor hesitação, uma vez que estavam não só elas, mas todos os outros, aflitos de espírito e chorando pela sua morte. Contudo, não somente Cristo usa como a única base de consolação a esperança da ressurreição, como também Marta reage às palavras dEle nessa mesma base, confirmando sua esperança na ressurreição. De acordo com o texto, Jesus consolou a irmã de Lázaro dizendo que este iria “ressurgir”. Marta sabia disso, mas sabia também que ele só iria ressurgir na ressurreição do último dia. Este fato é muito importante, pois mostra que Marta acreditava que Lázaro só voltasse à vida através da realidade da ressurreição, que se dá somente no último dia, o dia da volta de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). Marta certamente que não estava falando apenas de um simples corpo morto que voltaria a vida, pelo contrário, referia-se ao próprio Lázaro como pessoa, como ser racional. Marta acreditava realmente que seu irmão estava literalmente morto, e chorava, pois acreditava que só ressurgiria na ressurreição do último dia. Um pouco mais de raciocínio e saberíamos o porquê que a esperança de Marta era na ressurreiç ão do último dia: porque era somente neste momento em que ela (Marta) voltaria a encontrá-lo (Lázaro). O momento em que ambos seriam reapresentados e poderiam exultar-se de alegria e satisfação não seria quando Marta também morresse e a sua alma se encontrasse com Lázaro; pelo contrário, tal reencontro só se daria na ressurreição do último dia, pois é somente neste momento em que Lázaro voltaria à vida e Marta (que certamente também passaria pela morte) também, e ambos seriam apresentados. Isso explica a esperança de Marta em voltar a vê-lo na ressurreição do último dia, o que também foi a única fonte de consolação dada a ela. Cristo não contradiz essa concepção de Marta, muito pelo contrário, concorda com ela, e por fim diz: “...quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (v.25). Cristo não disse “...ainda que morra, vive...”, pelo contrário, afirmou: “ainda que esteja morto, viverá”. Do princípio ao fim, Jesus nega qualquer existência de um estado intermediário consciente em que Lázaro estivesse vivo, pois se este fosse o caso então Ele teria dito que “ainda que esteja morto... vive”, o que indicaria o estado consciente (de vida) do ser racional na morte. O Mestre, contudo, nega este estado, pois afirma que tal vida não é algo presente, mas sim um acontecimento futuro: “ainda que morra... viverá” – verbo no futuro, indicando a esperança da ressurreição no último dia como único meio de alguma pessoa voltar à existência. O ensinamento é que quem nele crer “viverá eternamente” (cf. Jo.6:58), e não “vive... eternamente”. A posse da eternidade é um acontecimento futuro, e não algo já presente – ainda que morra, viverá! Alguns ainda objetam dizendo que no verso seguinte ele diz que nós não morremos nunca, como algumas versões erroneamente traduzem: “todo aquele que vive, e crê em mim, jamais morrerá. Crês nisto?” (v.26). Contudo, esta tradução segue novamente as tendências dualistas dos tradutores, e não o original grego. O texto original traz: “ou mh apoqanh eiV ton aiwna" – não morrerá eternamente. Como vemos, no verso 25 Jesus falava do estado atual dos mortos negando que estes estivessem com vida e indicando que a posse da vida aos mortos é um acontecimento
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 213 futuro, e no verso seguinte (v.26) ele falava da morte eterna [segunda morte] na qual os justos não passarão, mas somente aqueles que não forem encontrados no livro da vida no dia do Juízo, na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). Algumas versões traduzem este texto corretamente de acordo com o original grego, como é o caso da NVI e da ARA. Tal passagem é, portanto, um golpe de morte na doutrina do estado intermediário consciente dos mortos. Todos passaremos pelo estado de morte (i.e, sem vida) entre a morte e a ressurreição, mas apenas os ímpios sofrerão também a morte eterna [segunda morte] em contraste com os justos que terão a vida eterna. É exatamente isso que Cristo descreve nos versos de João 11:25,26, sem fazer nenhuma indicação de estado consciente dos mortos, mas, ao contrário, dizendo que apenas no futuro os que já morreram desfrutarão de vida. Além de tudo isso, devemos lembrar também que o texto absolutamente não fala de lugar nenhum em que Lázaro tivesse passado pelos quatro dias em que esteve morto. Cristo não disse: “Lázaro, sobe”, ou então: “Lázaro, desce”; pelo contrário, disse simplesmente: “Lázaro, sai para fora” (cf. Jo.11:43). O ser racional de Lázaro estava na sepultura, e não no alto (Céu) ou embaixo (inferno). Como os próprios imortalistas atestam que o processo de pensamento é ligado a alma e como função desta, sendo o próprio ser racional de Lázaro, é imprescindível que Jesus se dirigisse a este ser racional (alma) com o grito de “Lázaro, desce!” – se estivesse no Sheol ou no inferno – ou então: “Lázaro, sobe!” – se estivesse com Deus no Céu. Contudo, vemos que o ser racional não estava em outro lugar senão na própria sepultura. Se Lázaro tivesse alguma “experiência sobrenatural” nos quatro dias em que esteve morto, João certamente iria narrar tal fato sem hesitação alguma. Afinal, seria tema importantíssimo e de maior interesse. Contudo, Lázaro nenhuma informação trouxe da sua suposta passagem pela glória celestial; aliás, nem ele e nem qualquer das outras sete pessoas que foram levantadas dentre os mortos (cf. 1Rs.17:7-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11- 15; 8:41-56; At.9:36-41; 20:9-11) tiveram qualquer experiência entre a morte e a ressurreição para compartilhar conosco. Isso seria de importância fundamental para calar alguns grupos daquela sociedade judaica, como os saduceus, que não acreditavam em nada após a morte nem em ressurreição. Contudo, nem eles tiveram história nenhuma para contar, nem qualquer escritor bíblico fez questão relatar tal suposição. Isso não é meramente um “argumento do silêncio” como argumentam alguns. Mas, mesmo que assim fosse, o bom senso nos leva a acreditar que qualquer experiência fora do corpo entre a morte e a ressurreição seria narrada por quem tivesse passado por tal fato. Uma prova muito forte disso são as várias pessoas que entraram em estado de “quase - morte”, e o cérebro criou imagens de “paraísos” ou do “inferno”, sem, contudo, as pessoas haverem falecido de fato. Todas elas narram tais acontecimentos sem a menor hesitação, e não somente isso, mas tal fato é o primeiro a ser mencionado por elas. Na Bíblia Sagrada, contudo, absolutamente nada disso acontece. As pessoas que literalmente morreram (não ficaram apenas em estado de “quase-morte”) não tiveram nada e história nenhuma para relatar.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 214 A razão pela qual Lázaro e as outras sete pessoas levantadas dentre os mortos não tiveram nada para contar é que elas passaram pelo “sono da morte”, assim como todas as pessoas passam, até Cristo Jesus nos trazer de volta a vida, como ele prometeu: “Eis que virá a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os justos sairão para a ressurreição da vida; e os maus para a ressurreição da condenação” (cf. Jo.5:28,29). Os que pregam a teoria do “estado intermediário” com as nossas “almas imortais” encaram uma grande confusão: ou Cristo retirou Lázaro do conforto no Paraíso (no “Seio de Abraão”), para trazer de volta a este mundo que jaz no maligno - cometendo assim uma maldade para com Lázaro -, ou então teria retirado Lázaro do inferno (algo muito improvável, pois era um seguidor do Mestre que Lhe amava), mas teria sido assim antibíblico, concedendo-lhe uma segunda oportunidade de salvação. Não, Jesus não tirou Lázaro do Paraíso à força para trazer de volta para este mundo (o que, aliás, faria Lázaro ter ficado revoltadíssimo!). O que os imortalistas imaginam Deus dizendo, jamais aconteceu: “’Lázaro, você já está aqui há quatro dias, mas agora você vai ter que voltar, porque o meu Filho está te ressuscitando!’ ‘Mas Deus, eu quero ficar aqui’! ‘Vai nada, Lázaro, você vai embora...!’” É óbvio que esse absurdo jamais aconteceu, o que realmente aconteceu é o que Jesus disse em João 11:11 – “Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do seu sono”. Como acertadamente apontou o professor Gilson Medeiros, seria um absurdo olhar o relato da ressurreição de Lázaro segundo a ótica dualista de imortalidade da alma: “Se já recebemos a recompensa logo por ocasião da morte, como querem os infernistas, como será que Lázaro, irmão de Marta e Maria, deve ter se sentido depois que Jesus o ressuscitou? Segundo a heresia pregada nas igrejas cristãs, ele foi chamado de volta para este mundo de pecado e sujeiras depois de ter experimentado 4 dias de ‘glória’ no Céu. Perceberam o absurdo de se crer no paganismo grego?! Prefiro ficar com a Bíblia!”108 Conclusão – Concluímos, pois, que Jesus em momento algum pregou a doutrina da imortalidade da alma. Pelo contrário, muitas passagens foram distorcidas por parte dos dualistas, mas todas elas não passam por um teste de fogo bíblico, em poucas linhas são facilmente refutadas. Uma doutrina que apresenta como principal fundamento os meios de uma parábola não pode ser alvo de muita confiança. Na verdade, não merece nem um mínimo de confiança. Nosso Senhor assegurou aos apóstolos que para onde ele iria, eles não poderiam ir (cf. Jo.13;33). Contudo, apresenta- lhes a esperança de que chegaria o dia em que ele voltaria para lhes tomar consigo, para que onde ele estaria, lá estivessem eles também (cf. Jo.14:2,3). A necessidade da ressurreição traduz-se em dar a vida a quem está sem vida, e não a um simples fato de um espírito sem corpo ganhar um e continuar no Céu do mesmo jeito. Tal fato é assegurado pelas palavras de Cristo de que entrariam na vida a partir a ressurreição (cf. Jo.5:28,29), que a alma não vai diretamente para a vida eterna mas é preservada até este momento em que entraria na vida [através da ressurreição] (cf. 108 MEDEIROS, Gilson. Jesus falou mais sobre o inferno do que sobre o Céu. Será? Disponível em: <http://prgilsonmedeiros.blogspot.com.br/2009/07/cuidado-com-o-fogo-do-inferno.html>. Acesso em: 22/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 215 Jo.12:25), que a condição de ter vida é de segui-Lo (cf. 2Tm.1:10; Jo.6:51; Jo.6:57), da realidade de que só a partir dessa ressurreição é que os justos se separarão dos ímpios (cf. Mt.25:31,32), para só aí entrarem no celeiro, fato que se dará no fim do mundo (cf. Mt.13:39), e de igual modo os ímpios só serão queimados na consumação deste mundo (cf. Mt.13:40), na consumação dos séculos (cf. Mt.13:47-50). Os justos entrarão no Reino não quando eles morressem e as suas almas imortais partissem para o Céu, mas sim quando o “Filho do homem vier na sua glória e todos os anjos com ele” (cf. Mt.25:31-34), pois é somente neste momento em que os justos recebem o Reino que lhes fora prometido desde a fundação do mundo (cf. Mt.25:34). Tudo isso prova que não há separação de corpo e alma por ocasião da morte c om destinos diferentes a justos e ímpios, estabelecidos definitivamente em seus destinos finais por toda eternidade logo após o momento da morte, através de uma alma imortal sendo liberta da prisão do corpo. Corpo e alma não são opostos. A esperança do cristão é a de que “ainda que morra, viverá” (cf. Jo.11:25), e não a de que “ainda que morra, vive”! Seria excelente se todas as pessoas viessem a refletir sinceramente sobre o tema, e deixassem de crer na mentira de Satanás (cf. Gn.3:4), para crerem que “virá a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz, e os justos sairão para a ressurreição da vida; e os maus para a ressurreição da condenação” (Jesus Cristo, em João 5:28,29).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 216 CAPÍTULO 5.3 – OS APÓSTOLOS PREGAVAM A IMORTALIDADE DA ALMA? XIV–Atos dos Apóstolos “Ao contrário, tinham alguns pontos de divergência com ele acerca de sua própria religião e de um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (cf. Atos 25:19) Para descobrirmos se a Igreja primitiva adotava a doutrina da imortalidade da alma, temos o testemunho ocular de uma pessoa que conviveu com os primeiros apóstolos, um médico que contou a história dos primeiros anos do Evangelho: Lucas. Quando o sincronismo com as religiões pagãs ainda não havia penetrado nos moldes do Cristianismo e a doutrina que era pregada vinha diretamente daqueles que eram testemunhas oculares do Messias, que conviveram com ele e estavam com ele, sendo deixados aqui com a missão de pregar o evangelho a toda criatura (cf. Mc.16:15), a doutrina da imortalidade era deixada das portas para fora da Igreja. Como iremos ver ao longo da evidência de Atos, a pregação era totalmente voltada para a ressurreição dentre os mortos, não só de Cristo, mas de todos os cristãos por ocasião da Sua Volta. A pregação era o Cristo que, mesmo morto, ainda vive, e vive para todo o sempre. E aos demais estaria valendo essa mesma lógica? Certamente que não. A primeira evidência que veremos é a de Davi. Davi morto, Jesus vivo – A primeira forte evidência que veremos é a que Pedro se refere a Davi, fazendo um contraste com Jesus Cristo. O que Pedro nos revela em Atos 2:34 certamente que não é aquilo que a maioria dos imortalistas imaginam: “Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita” (cf. Atos 2:34) A clareza da linguagem é indiscutível: Pedro estava dizendo que Davi não havia subido aos céus. Os imortalistas geralmente objetam a essa passagem alegando que o corpo de Davi não havia subido ao Céu, mas a alma dele havia subido. Isso, contudo, carece de confirmação bíblica. Em primeiro lugar, Pedro jamais poderia ter dito que Davi não havia subido ao Céu corporalmente, mas já havia subido em espírito, porque isso levaria a confundir uma enormidade de pessoas que estavam acompanhando o discurso. Devemos lembrar que o apóstolo estava pregando para nada a mais nada a menos que três mil pessoas, que, além disso, eram descrentes ouvindo a pregação do Evangelho. A maioria poderia ser pessoas humildes, que não teriam a tamanha “habilidade” que os imortalistas têm de discernir que a alma subiu, mas o corpo não. Certamente que eles iriam pensar como o texto parece indicar claramente: que Davi (a pessoa de Davi, e não "uma parte" dele) não havia passado pelo Céu. E isso já seria o suficiente para negarem o evangelho com o pretexto de heresia por não terem entendido direito o que Pedro estava tentando dizer nesta passagem. As pessoas que ouviam viva-voz a pregação de Pedro iriam pensar realmente que Davi não havia subido aos céus, e não fazer malabarismos mentais para negarem este fato.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 217 Em segundo lugar, o próprio Pedro jamais iria querer confundir a multidão. Se Davi estivesse já no Céu ele não diria que ele não estava e ainda omitiria explicações! O apóstolo na iria “confundir” a multidão de tal maneira a induzir que apenas um corpo morto não havia subido, mas que a “alma imortal” já estivesse lá. Se tal caso procedesse, certamente que Pedro faria uma distinção, explicando que Davi não havia subido apenas corporalmente, e explicando que a alma já havia subido para não confundir o pessoal. Em terceiro lugar, isso é ferir o texto bíblico, que omite completamente que Davi tenha subido em forma incorpórea. O texto só diz que ele não subiu. Dizer que Davi subiu sem um corpo é colocar na boca de Pedro aquilo que ele jamais afirmou e ir absolutamente “além daquilo que está escrito” (cf. 1Co.4:6). Em quarto lugar, se a passagem deve ser interpretada conforme essa opinião, então deveríamos entender que o escritor de Atos (Lucas) deixou entender errado. O jeito certo seria: “Porque Davi não subiu corporalmente aos céus...”. Tal declaração seria a mais lógica e se Lucas tivesse a intenção de dar a frase tal sentido ele teria essa opção pronta, a mão, que poderia ser perfeitamente utilizada. Mas é óbvio que o texto não diz isso, o que o texto realmente diz é: “Porque Davi não subiu aos céus, mas ele próprio declara...”. Lucas era um escritor bem inteligente para deixar passar batido tão tremenda confusão aos seus leitores. Qualquer imortalista daria uma ênfase ao fato de que Davi não subiu aos céus corporalmente apenas, se esse fosse o caso. Mas em nada o texto nos indica isso. O ser racional de Davi (geralmente associado à alma ou ao ser pensante) não havia subido aos céus. Em quinto lugar, conforme veremos mais adiante, o contexto da passagem não confirma tal ideia. O contexto faz uma antítese com Cristo, que está vivo e já subiu ao Céu. Se Davi também tivesse subido ao Céu, essa analogia seria nula e sem sentido. E, em sexto, a referência faz alusão a pessoa de Davi, ao Davi como indivíduo. Não como um Davi separado, “cortado pela metade”, mas ao Davi integral, como pessoa. Quando falamos de indivíduos, tratamos da pessoa integral que não subiu aos céus. Davi não teve um corpo que morreu e uma alma que subiu ao Céu. Davi, como pessoa, não havia subido aos céus. Outra “explicação” que já fora levantada para essa passagem é que os mortos estariam no “Paraíso” e não no “Céu”, e, por isso, Davi não subiu para o Céu (sim, eu já ouvi essa “explicação”!). Essa última objeção é a mais absurda de todas por dois principais motivos. O primeiro, segundo e terceiro Céu incluem todas as dimensões existentes de vida humana ou espiritual. Pedro não disse que Davi não subiu somente ao “primeiro ou segundo céu”, pelo contrário, relata que Davi não subiu aos Céus, no plural, ou seja, Davi não subiu para lugar nenhum! O Paraíso, portanto, localiza-se no “terceiro Céu”, que inclui todas as dimensões espirituais, no qual Davi também não subiu. Logo, tal objeção é inválida e não ajuda em nada para “melhorar” as coisas. Em segundo lugar, para confirmar o fato de que o Paraíso é o terceiro Céu, o apóstolo Paulo escreve: “Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu [...] foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é permitido falar” (cf. 2Co.12:2,4). Aqui vemos claramente o paralelismo de Paulo em afirmar primeiramente que foi arrebatado ao terceiro Céu e, em seguida, confirmar que este local é o Paraíso. E Davi não subiu a nenhum dos Céus (nem ao terceiro). Portanto, não restam
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 218 objeções contra o fato de que verdadeiramente Davi não subiu para lugar nenhum – nem para o primeiro, nem para o segundo e nem para o terceiro céu, que é o Paraíso. O Contexto Este mesmo texto de Atos que diz que Davi não subiu aos céus faz um paralelo entre Davi e Cristo, dizendo que este último não está morto que nem Davi, mas vivo, e já subiu aos céus (cf. At.1:3; At.2:33), como podemos observar claramente inclusive no verso anterior, com respeito a Cristo: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo rec ebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis” (cf. At.2:33). Enquanto Davi, em contraste, o texto diz que: “Irmãos, seja-me permitido dizer-vos claramente a respeito do patriarca Davi, que ele morreu e foi sepultado e o seu túmulo permanece entre nós até hoje” (At.2:29). Mas por que o autor iria fazer uma declaração tão óbvia como essa? Certamente que ele estava acentuando uma antítese: Davi está morto, mas Jesus está vivo. O seguinte quadro ajuda a elucidar o contraste feito por Pedro: CONTRASTE ENTRE JESUS E DAVI JESUS CRISTO DAVI Já subiu aos Céus – At.2:33 Não subiu aos Céus – At.2:34 Está com Deus (Pai) – At.2:33 Está na sepultura – At.2:29 Está vivo – At.1:3; ; 2:31; 2:33 Está morto e o seu túmulo se encontra entre nós até hoje – At.2:29 O contraste entre Cristo e Davi é evidente no discurso de Pedro e qualquer bom analisador bíblico consegue discernir a devida antítese entre um e outro em seu discurso. O bom senso, a lógica, o contexto e a antítese clara são fortes evidências de que não existe a imortalidade da alma, e não somente isso, mas elimina a possibilidade de haver um “estado intermediário” nos Céus, pois nem sequer Davi (homem que era segundo o coração de Deus – ver Atos 13:22) poderia ser achado por lá. O Original Grego Além de tudo isso que já vimos até aqui provando que, de fato, Davi não subiu de forma alguma para os céus, outro fato de importância fundamental a ser mencionado é que, no original grego, a palavra utilizada para “não subiu aos céus” é “ou”, que, de acordo com a Concordância de Strong109, é um negativo absoluto, geralmente usado em perguntas diretas que se esperam uma resposta afirmativa. Ela difere da palavra grega geralmente utilizada para "não", que é "mê", porque passa claramente a ideia de uma negação absoluta, como um "nunca", e não de uma negação parcial. Por essa mesma razão a tradução de Knox verteu o texto por: "Davi nunca subiu aos céus...". A utilização do "ou" em contraste com o "não" comum (mê) refuta duas teses imortalistas quanto a este texto. A primeira, que já vimos, é a de que uma parte de Davi subiu (a alma), e outra não subiu (o corpo). A negação absoluta abrange o todo de Davi e não apenas uma parte dele. É como se o texto estivesse dizendo: "absolutamente Davi não subiu aos céus", ou seja, em termos absolutos. 109 Léxico da Concordância de Strong, 3756.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 219 E a segunda é a tese de que Davi não havia subido naquele momento em que ele escrevia o verso, mas que já estivesse no Paraíso quando Pedro discursava, o que também é refutado pelo sentido da frase, de que Davi nunca subiu aos céus. O texto não diz que Davi "não havia (no passado) subido aos céus", passando a ideia de que ele poderia ter subido depois, mas expressa uma negativa absoluta, que não abrange apenas o tempo passado com possibilidade de alteração no presente, mas algo que nunca aconteceu, um "não" em termos absolutos, no sentido completo da palavra. Desta forma, o texto inegavelmente põe a imortalidade da alma das portas para fora da Igreja primitiva, e isso diante de uma multidão de mais de três mil pessoas. A insistência de Paulo: Jesus está vivo! – Uma prova muito forte de que todos os que morreram estão literalmente mortos, e não “vivos em outro mundo”, é a insistência de Paulo na presença do rei Agripa em provar que Jesus Cristo, mesmo morto, está vivo. É dito para esse rei: “Ao contrário, tinham alguns pontos de divergência com ele acerca de sua própria religião e de um certo Jesus, já morto, o qual Paulo insiste que está vivo” (cf. At.25:19). Ponderamos: qual seria a razão da insistência de Paulo em provar que Jesus, mesmo morto, ainda vive? Simplesmente pelo fato de que os outros que morreram não estão vivos. É por isso que Paulo tanto insistia para provar que Jesus, mesmo morto, ainda vive. Se todas as pessoas ao morrerem fossem diretamente ao Céu ou ao inferno, vivas em algum lugar, será que Paulo precisaria insistir com eles para provar que Jesus está vivo? Absolutamente que não! Não seria nem necessário provar, já que todos os mortos já est ariam vivos em algum lugar! Sendo que todos os mortos estariam, na teologia imortalista, vivos em algum lugar (e não somente Jesus) seria inútil Paulo ter que insistir que alguém que já morreu está vivo. Ou se a única coisa que Paulo queria provar era que Jesus ressuscitou, então Lucas (escritor de Atos) indiscutivelmente deveria ter relatado que foi a ressurreição que Paulo queria provar – e não que Cristo estava (naquele momento) vivo, em detrimento dos demais. Note que o texto não diz que o espanto do rei Agripa foi apenas por Jesus ter ressuscitado, mas por alguém que já morreu estar com vida. Ele não diz simplesmente: "o qual Paulo insiste que ressuscitou", mas sim: "o qual Paulo insiste que está vivo". Se a imortalidade da alma fosse a crença dos primeiros apóstolos na Igreja primitiva, então Paulo definitivamente não teria que reiterar a sua posição de que Jesus está vivo, até porque todos os mortos já estariam vivos! E, se é somente por meio da ressurreição que alguém que já morreu ganha vida, então a imortalidade da alma é ainda mais claramente negada. Se Paulo teve que insistir com eles para provar que Jesus está vivo, então evidentemente é porque os outros em geral estão realmente mortos – não estão vivos em estado “desencarnado”. Essa passagem não faz lógica nenhuma na teologia dos imortalistas: todos os mortos estariam vivos mesmo! O motivo pelo qual Paulo tinha que insistir com eles para provar que Jesus, mesmo morto, está vivo, vem pelo fato evidente de que os outros em geral estão, realmente, mortos. Novamente o contraste: Cristo, mesmo morto, ainda vive, ao contrário dos demais mortos. Imagine, por exemplo, na trágica queda do World Trade Center, em 11 de Setembro de 2001, se eu dissesse a você que houve um sobrevivente que caiu de um dos últimos
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 220 andares, mas estava vivo. Certamente que poucas pessoas acreditariam logo de cara: eu teria que insistir com você para provar que realmente houve um sobrevivente, que se salvou em meio à tragédia. Agora, imagine que no dia 11 de Setembro não houve atentado algum. Os prédios não foram atingidos por nenhum avião, não houve explosões e ele permaneceu intacto, perfeito, sem nenhum arranhão. Eu teria que insistir com você para que acreditasse que existia alguma pessoa viva naquele prédio? É claro não! Isso seria óbvio, pois logicamente todas as pessoas estariam vivas! Qualquer pessoa que faça uso de um raciocínio lógico percebe o motivo óbvio e evidente pelo qual Paulo dizia que Jesus, mesmo morto, ainda vive: porque os outros que morreram realmente não estavam vivos. A verdade é que Paulo teve que insistir que Jesus ainda vive porque os outros mortos em geral estão, realmente, mortos – sem vida. Poderíamos resumir o argumento da seguinte maneira: (1) Paulo precisou afirmar na presença do rei Agripa a sua convicção de que Cristo mesmo morto está vivo. (2) Se todos os mortos estivessem vivos, então não seria preciso insistir para provar que algum morto está vivo, pois isso seria algo óbvio e qualquer que já morresse estaria vivo em algum lugar de qualquer jeito, através de uma alma imortal que sobrevive à morte. (3) Logo, o bom senso nos diz que os que já morreram estão literalmente mortos (i.e, sem vida), o que explica o porquê de Paulo ter que insistir em provar que Cristo está vivo. Paulo contra os imortalistas – “Quando ouviram sobre a ressurreição dos mortos, alguns deles zombaram, e outros disseram: 'A esse respeito nós o ouviremos uma outra vez'” (cf. At.17:32). Paulo foi a Atenas, pregar o Evangelho no coração da crença da imortalidade da alma. O contexto mostra que Paulo estava ensinando sobre o Deus vivo, o “Deus desconhecido” dos gregos (v.23). Até este momento, eles o ouviam atentamente. Isso, contudo, durou apenas até o devido instante em que Paulo declarou uma verdade cristã, mas contrária aos ensinamentos pagãos, dizendo uma coisa que fez com que os atenienses zombassem dele e parassem de escutá-lo: A Ressurreição dos Mortos. O que acontece, e mais chama a atenção, é o motivo pelo qual eles rejeitaram a doutrina de Paulo: porque eles acreditavam na imortalidade da alma. Aí está a chave de todos os problemas. Paulo pregava a ressurreição, os atenienses pregavam a imortalidade. Enquanto a esperança cristã primitiva era de alcançar superior ressurreição no último dia, a esperança dos gregos era de ver a “alma imortal” deixando o corpo depois da morte. Obviamente eles não puderam aceitar o ensinamento de Paulo, e zombaram dele. O evangelho que Paulo pregava era totalmente diferente daquilo que os gregos acreditavam sobre a vida pós-morte, a ideia de imortalidade incondicional e inerente, também enraizada no catolicismo e em muitas igrejas protestantes. Foi, aliás, da filosofia grega secular que o conceito antibíblico de imortalidade da alma entrou nas raízes do Cristianismo. Imortalidade da alma e ressurreição dos mortos são dois opostos. Nesse caso, Paulo sofreu o maior embate de ideias que persiste até os dias de hoje: Imortalidade da Alma x Ressurreição dos Mortos.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 221 A Ressurreição dos Mortos: O Foco da Igreja – Contando apenas o livro de Atos dos Apóstolos (sem levar em conta as epístolas pastorais), são feitas mais de 25 exposições da palavra “ressurreição” e seus derivados. Por que a Igreja primitiva focava tanto na ressurreição dentre os mortos? Veja, por exemplo, o que o apóstolo Paulo disse em Atos 26:6-8: “Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossa doze tribos esperam que se cumpra, cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa dessa esperança, ó rei, que estou sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” (cf. Atos 26:6-8) É exatamente isso. A esperança de Paulo era focada no dia em que todas as pessoas hão de ressuscitar dentre os mortos. “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” Se existisse uma “imortalidade da alma”, um elemento que está preso dentro do nosso corpo, liberto por ocasião da morte, todos os mortos justos já estariam no Céu (como é pregado pelos imortalistas) e o foco na esperança da ressurreição de um simples corpo morto seria totalmente sem sentido, a esperança seria em uma “alma imortal” que se libertaria do corpo rumo ao Paraíso. Uma vez que todos já estivessem no Céu naquele momento, não haveria um motivo lógico para acharem impossível que Deus ressuscite os mortos, e o foco da esperança não seria de uma ressurreição de um simples corpo morto que já virou pó, mas sim de uma alma imortal que deixa o corpo por ocasião da morte. Não seria estranho que, no livro da História da Igreja, houvesse dezenas e dezenas de menções da “ressurreição dos mortos”, mas nenhuma (absolutamente nenhuma mesmo) falando de “imortalidade da alma”, ou de “estado intermediário”? Afinal, se essa doutrina de “imortalidade da alma” fosse realmente uma realidade entre os primeiros cristãos, seria completamente imprescindível que os apóstolos fizessem várias menções a ela, ainda mais quando vemos eles fazendo dezenas de menções claras sobre a ressurreição dos mortos no último dia. Adicione então a isso todas as cartas apostólicas que também não mencionam nada de “alma imortal”, mas continuam falando em outras centenas de vezes sobre a ressurreição, e você verá o resultado. A pregação dos primeiros apóstolos e da Igreja primitiva era sempre focada na esperança da ressurreição dentre os mortos. Essa doutrina, como já vimos anteriormente, não combina em absolutamente nada com a imortalidade da alma. Isso porque não faz sentido nenhum focar na ressurreição dos mortos se todos ao morrerem vão direto para o Céu ou para o inferno e o fato da ressurreição é quase insignificante já que eles já estariam lá! É por isso que nas nossas igrejas de hoje pregações sobre a ressurreição dos mortos praticamente inexistem. Pregações sobre a “ressurreição dos mortos” praticamente não existem porque a doutrina pagã de imortalidade da alma sobrepõe grandemente a realidade da ressurreição. A ressurreição dentre os mortos virou apenas uma ressurreição de um corpo morto, que na maioria dos casos já virou pó. A única coisa que muda é que os “espíritos desincorporados” acabam “ganhando novamente um corpo”.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 222 Por este motivo, torna-se ilógica pregações sobre a simples ressurreição de um mero corpo morto: a realidade dentro da maioria das igrejas cristãs é de imortalidade da alma, e não de ressurreição dos mortos! Pregações sobre os que “estão na glória” são mais do que comuns, mesmo não se importando com o fato dos apóstolos jamais falarem tal coisa. A ressurreição perdeu o seu sentido. Ficou “fora de moda”. Isso é bem diferente daquela esperança, que os primeiros cristãos sustentavam dentro de si mesmos com todas as forças: A Esperança da Ressurreição dentre os Mortos. Uma vez que os mortos em geral estão literalmente mortos, só ressuscitando no último dia, t orna-se comum pregações focadas sobre a esperança de ressurgir dentre os mortos no último dia e torna-se lógica frases como: “Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” Respondendo a pergunta do início, por que os apóstolos focavam tanto na ressurreição dentre os mortos sem dar nenhuma pista de “imortalidade”? Porque pessoas morriam, e pessoas eram vivificadas. Eis a raiz da questão: a ressurreição é para a pessoa integral, e não para um simples corpo morto que já virou pó que se une à sua “alma imortal” que lhe espera lá em cima. Aí vermos tanto foco da Igreja primitiva e dos primeiros apóstolos na ressurreição e nada de “imortalidade”, em contraste com as igrejas dos dias de hoje, em que as pregações sobre a ressurreição desapareceram pelo simples fato de que perderam o sentido diante da imortalidade da alma. Voltemos ao evangelho puro e sincero. Voltemos ao foco da ressurreição dentre os mortos. A verdade é que imortalidade da alma e ressurreição são dois opostos, e a primeira anula a segunda e torna a ressurreição algo completamente desnecessário. Para que “ressurreição” se sem ela nós ficaríamos no Céu eternamente do mesmo jeito? De modo nenhum que a esperança viva dos primeiros apóstolos seria totalmente voltada à ressurreição. A doutrina da imortalidade da alma diminui completamente o sentido e o valor do que a ressurreição representa no Cristianismo. É de se espantar o fato de os apóstolos darem tanta importância à ressurreição, ao ponto de dizerem que era essa a única esperança deles (cf. At.23:6; 24:5; 26:6-8), se ela se resume simplesmente a isso: na prática... nada. Já estaríamos no Céu. Já estaríamos na presença de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Então, pra que serve, na prática, uma ressurreição? Seria um mero "religar entre o corpo e a alma", como dizem os imortalistas? Não, em toda a Bíblia não há qualquer citação de um “religar” entre corpo e alma na ressurreição. Você irá folhear a Bíblia inteira e nunca verá alguém colocando a sua esperança no fato da alma ser imortal. Mas, em lugar disso, irá olhar mais à frente, até contemplar aquela mesma esperança tão admiravelmente crida e desejada pelos apóstolos: “Não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. Pois nessa esperança fomos salvos” (cf. Romanos 8:23-24)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 223 “Agora, estou sendo julgado por causa da minha esperança no que Deus prometeu aos nossos antepassados. Esta é a promessa que as nossas doze tribos esperam que se cumpra, cultuando a Deus com fervor, dia e noite. É por causa desta esperança, ó rei, que estou sendo acusado pelos judeus. Por que os senhores acham impossível que Deus ressuscite os mortos?” (cf. Atos 26:6-8) "E tenho em Deus a mesma esperança desses homens: de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos" (cf. Atos 24:15) “Irmãos, sou fariseu, filho de fariseu. Estou sendo julgado por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos!” (cf. Atos 23:6) A palavra “esperança” aparece nove vezes no livro de Atos. Em seis delas é para se referir a esperança de ressuscitar dentre os mortos (2/3 das ocasiões). Como seria bom ver a Igreja voltar ao foco primitivo, onde a esperança não estava numa imortalidade da alma, mas em estar com Cristo através da ressurreição dentre os mortos, a nossa esperança. Não existe vida antes da ressurreição – Finalmente, devemos ver a afirmação que Paulo faz em Atos: “O fato de que Deus o ressuscitou dos mortos, para que nunca entrasse em decomposição, é declarado nestas palavras: ‘Eu lhes dou as santas e fieis bênçãos prometidas a Davi’. Assim ele diz noutra passagem: ‘Não permitirás que o teu Santo sofra decomposição’” (cf. At.13:34,35). Vamos por partes. O verso 35 nos faz explicitamente pensarmos na ressurreição, pois ele não sofreria decomposição no túmulo. Mas e o verso 34? Será que Paulo citou um verso do AT de maneira errada? O que ele tem a ver com a ressurreição? Vejamos novamente o verso 34: “O fato de que Deus o ressuscitou dos mortos, para que nunca entrasse em decomposição, é declarado nestas palavras: ‘Eu lhes dou as santas e fiéis bênçãos prometidas a Davi’” (v.34) Quais são as santas e fieis bênçãos que foram prometidas a Davi, e que se cumpriram em Cristo? A de exercer um reinado perpétuo (cf. 1Rs.9:5). Cristo não poderia exercer tal reinado perpétuo enquanto morto, pois, como vimos, não existe vida consciente entre a morte e a ressurreição. Por isso, para tomar posse dessa promessa feita a Davi ele deveria passar por uma ressurreição. Quando assumimos a posição de imortalidade da alma, esse verso não faz sentido nenhum a fim de provar irrefutavelmente a ressurreição, mas quando assumimos a posição mortalista tudo começa a fazer sentido. A lógica é bem simples: Se ele receberia as bênçãos prometidas a Davi de exercer um reinado perpétuo, então ele necessariamente deveria passar por uma ressurreição, pois não existe glória e benção antes da ressurreição, enquanto morto. A morte é um estado sem vida (i.e, sem existência consciente), em que o ser racional deixa de existir. Mas, se lhe eram prometidas as santas e fieis bênçãos, então ele deveria sair deste estado de inatividade para ser abençoado. Nisso fica nítido que ele necessariamente deveria ser ressuscitado, e vemos que o apóstolo Paulo citou um versículo certo e que realmente prova a ressurreição. Este verso só provaria de fato a ressurreição se antes dela não existisse vida (consequentemente não existiria as bênçãos prometidas no verso), pois doutra forma ele
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 224 poderia perfeitamente estar desfrutando da bênção com ou sem a ressurreição (supostamente na forma de um espírito incorpóreo no Céu). Paulo segue a linha de raciocínio de que entre a morte e a ressurreição não existe vida e, por isso, se lhe era predito as bênçãos do reinado perpétuo, então ele deveria necessariamente ressuscitar para desfrutá-las, pois elas não são possíveis antes da ressurreição em decorrência do fato de eles estarem sem vida. Ele segue a seguinte lógica que contraria a posição dos imortalistas de que existe “glória” antes da ressurreição: (1) Era predito profeticamente a respeito de Cristo que este iria receber as bênçãos de Davi. (2) Como não existe existência consciente entre a morte e a ressurreição, segue-se que antes da ressurreição ele não poderia desfrutar daquilo que foi descrito no verso. (3) Logo, ele necessariamente teria que ser ressuscitado. Qual nada, este versículo passado por Paulo só provaria de fato a ressurreição se na morte não fosse possível se cumprir em Cristo aquilo que fora prometido a Davi. Conclusão – Quando lemos todos os vinte e oito capítulos que nos mostram o pensamento da Igreja primitiva, vemos que eles não tinham qualquer relação com a doutrina dualista de imortalidade da alma. Para os imortalistas, Davi já subiu aos céus; já para Pedro, Davi nunca subiu aos céus (cf. At.2:34), e o contexto nos mostra que ele só entra quando “[Cristo] ponha todos os teus inimigos como estrado dos teus pés” (v.35), uma referência ao que Jesus fará por ocasião da ressurreição (cf. 1Co.15:25). A verdade é que Davi está morto, no túmulo (cf. At.2:29), pois, “tendo Davi servido ao propósito de Deus em sua geração, adormeceu” (cf. At.13:36). Cristo, em contrapartida, está vivo (cf. At.2:33; 19:25). A declaração de Pedro no pentecoste com relação ao estado de Davi jamais seria proferida por um defensor da imortalidade da alma, e isso explica o porquê que a esperança dos primeiros apóstolos era total e completamente voltada ao dia da ressurreição (cf. At.23:6; 17:18; 17:32; 26:6-8; 24:15), porque é somente este o momento em que “os mortos viverão” (cf. Is.26:19). O próprio fato de Paulo ter a necessidade de provar que Cristo, mesmo morto, ainda vive (cf. At.19:25), prova que os que morreram não desfrutam de vida ainda, senão na ressurreição dos mortos do último dia. Como Cristo ressuscitou primeiro, já desfruta de vida (cf. At.2:27,28). Não é a toa que Paulo teve tão grande contenda com os gregos dualistas quando o tema era a ressurreição dos mortos (cf. At.17:32), porque a doutrina da imortalidade da alma anula o sentido e valor que a ressurreição tem dentro do Cristianismo. Enquanto a doutrina era pura e sincera, o foco era completamente voltado na ressurreição; quando, porém, o dualismo grego entrou também na teologia cristã, a ressurreição foi praticamente abandonada dos púlpitos, dando lugar àquilo que jamais foi mencionado por apóstolo algum: A Lenda da Imortalidade da Alma.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 225 CAPÍTULO 5.4 – PAULO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA? “Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (cf. 1 Coríntios 15:32) O apóstolo Paulo é outra peça fundamental para compreendermos se a Bíblia é contra ou a favor da imortalidade da alma. Dois terços dos livros do Novo Testamento são de autoria do apóstolo. Ele, além de ver a Cristo na estrada de Damasco, teve o apostolado marcado por revelação direta por parte de Jesus Cristo (cf. Gl.1:11,12), tendo sido inclusive arrebatado ao terceiro céu (cf. 2Co.12:2-4). Sem dúvida, se tem alguém instruído na verdadeira doutrina, esse alguém é Paulo. O evangelho paulino tampouco podia ser mudado (cf. Gl.1:8,9). Já vimos anteriormente que Paulo inclusive foi censurado em Atenas exatamente por pregar a doutrina da ressurreição, em contraste direto com a “imortalidade da alma” pregada pelos atenienses (cf. At.17:32). Mas, para vermos se Paulo pregava ou não a doutrina da imortalidade da alma, iremos começar pelo fim: quando é que Paulo “estaria com Cristo”? XV–Ausente do corpo e presente com Cristo Ausente do corpo e presente com Cristo. Quando? – Começaremos o nosso estudo sobre o pensamento de Paulo em relação à vida após a morte analisando de forma aprofundada as passagens que mais são constantemente utilizadas pelos imortalistas na tentativa de ensinar que Paulo era adepto da doutrina imortalista. Eles citam principalmente duas passagens nas quais o apóstolo expressa o mesmo pensamento, de que queria "partir e estar com Cristo", ou que desejava estar "ausente do corpo e presente com Cristo". Examinaremos tais passagens dentro de seu devido contexto, analisando-as exegeticamente, a fim de vermos se os argumentos imortalistas são ou não coerentes: “Porquanto, para mim, o viver é cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (cf. Filipenses 1:21-23) Para entendermos o que Paulo fala em Filipenses 1:21-23 é de extrema importância analisarmos o que ele diz em 2ª Coríntios 5:1-8, pois ele reafirma exatamente o que ele disse aos filipenses (sobre partir e estar com Cristo), mas de forma mais extensa e aprofundada, explicando dentro do contexto o que ele entendia como sendo esse partir e estar com Cristo: "Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu; Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (porque andamos por fé, e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 226 não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (cf. 2ª Coríntios 5:1-8) Os imortalistas tem o costume de jogarem o verso 8 de 2ª Coríntios 5 de forma isolada, retirando-o de seu devido contexto, como já é de costume, sempre isolando um verso de seu contexto. A razão pela qual eles nunc a falam do contexto que envolve esses textos é porque sabem que a análise meticulosa deles refuta as suas próprias teses de imortalidade da alma. Paulo inicia o verso 1 de 2ª Coríntios 5 dizendo: "Se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus" (v.1) Quando Paulo fala que a nossa casa terrestre vai se desfazer, ele não está se referindo à nossa casa literal onde moramos, construída a base de tijolos, mas sim do nosso corpo mortal, fazendo a mesma analogia que fez o escritor de Hebreus a este respeito, quando disse: "... mas Cristo é fiel como Filho sobre a casa de Deus; e esta casa somos nós, se é que nos apegamos firmemente à confiança e à esperança da qual nos gloriamos" (cf. Hebreus 3:6) Quando “a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer” não é uma referência à uma casa literal feita à base de madeira ou tijolos onde Paulo morava, ele não estava preocupado com o destino de uma moradia terrena porque ele disse claramente que “até agora não temos tido residência certa” (cf. 1Co.4:11). Se ele nem moradia fixa tinha e frequentemente escrevia em prisões, é evidente que a referência é ao seu próprio corpo terreno. Portanto, dentro da analogia que faz o apóstolo Paulo, ao dizer que essa casa terrestre deste tabernáculo se desfará ele estava se referindo à sua própria morte corporal, ou seja, a este presente corpo mortal que passará pela morte física. Mas Paulo continua nessa mesma analogia, dizendo que, quando essa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer (i.e, quando este corpo mortal perecer) temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. A que ele se refere aqui? Logicamente, se a casa deste tabernáculo se refere ao nosso presente corpo mortal e corruptível, o edifício eterno a que Paulo se refere diz respeito ao nosso corpo imortal e incorruptível da ressurreição. Da mesma forma que o apóstolo não estava falando de casas literais de tijolos na primeira parte do verso, mas de um corpo mortal e corruptível que temos hoje, igualmente na continuação do verso ele complementa essa mesma analogia, não se referindo a uma casa literal nos céus (como uma "mansão celestial", como pensam alguns), mas sim a um corpo imortal e incorruptível, em contraste a este presente corpo mortal e corruptível que possuímos hoje. Somente desta forma a analogia de Paulo faria sentido. Ele afirma que iria morrer fisicamente (casa terrestre deste tabernáculo se desfazendo), para obter um edifício superior e eterno (corpo imortal da ressurreição). Mais claro ainda é a afirmação subsequente, onde ele diz: “...temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos humanas” (v.1)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 227 Essa “casa não feita por mãos humanas”, como já vimos na analogia traçada pelo apóstolo, não se refere a uma morada celestial, mas ao corpo ressurreto, pois não está em contraste a uma morada terrena, mas ao corpo físico atual. A linguagem expressa por Paulo, acerca de ser “uma casa não feita por mãos”, fortalece ainda mais este fato, pois essa foi também exatamente a mesma linguagem utilizada por Jesus quando se referiu ao seu corpo ressurreto: “Nós ouvimos-lhe dizer: Eu derrubarei este templo, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens” (cf. Marcos 14:58) Este edifício “não feito por mãos de homens” que Cristo disse que edificaria em três dias não é o próprio templo de Jerusalém em si, que até hoje está em ruínas, nem uma morada celestial, mas sim o seu próprio corpo ressurreto, pois de fato ele ressuscitou três dias depois, em um corpo glorificado. Por isso, João ressalta que “ele falava do templo do seu próprio corpo” (cf. Jo.2:21). Assim, vemos que esse edifício que Paulo se refere, que estava em contraste a um corpo físico terreno e que não foi feito por mãos humanas, não é uma morada celestial, mas um corpo ressurreto. Só pela análise desse verso 1 já podemos compreender perfeitamente que a visão de Paulo não era de se desfazer deste corpo mortal para habitar no Céu sem um corpo antes da ressurreição, mas era de se desfazer deste corpo mortal para obter um corpo imortal que teremos na ressurreição dos mortos. Se o apóstolo traça um paralelo entre a casa e o edifício, e essa casa não é uma casa literal mas sim o corpo terreno, então é evidente que o edifício que Paulo se referia também não é um edifício literal que está no Céu, mas sim um corpo ressurreto celestial. Com efeito, Paulo nada falava sobre estar com Cristo em um estado intermediário entre a morte e a ressurreição, onde estaremos despidos (sem um corpo), mas sim sobre a própria ressurreição, quando estaremos revestidos de nosso "edifício" eterno nos céus (i.e, de um corpo imortal da ressurreição). Essa ideia fica ainda mais clara quando prosseguimos na leitura com o verso 2, onde o apóstolo diz: "E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu" (v.2) Paulo complementa no verso 2 a ideia do verso 1, de que morreria com o desejo de ser revestido. Mas revestido do que? Da espada do Zorro? Não, mas revestido de um corpo imortal e incorruptível. No original grego, a palavra utilizada por Paulo aqui é ependuomai, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: "colocar sobre, vestir-se"110. Ela vem da palavra enduo, que tem o mesmo significado: 1746 ενδυοω enduo de 1722 e 1416 (no sentido de entrar em uma veste) TDNT - 2:319,192; v 1) entrar numa (roupa), vestir, vestir-se. Essa é exatamente a mesma palavra que Paulo usa quando se refere ao revestimento que os crentes irão passar na ressurreição: 110 Léxico da Concordância de Strong, 1902.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 228 "E, quando isto que é corruptível se revestir [enduo] da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir [enduo] da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória" (cf. 1ª Coríntios 15:54) Portanto, Paulo estava dizendo que iria morrer para ser revestido de um corpo glorioso ressurreto. Ele não estava neste verso dizendo que iria para o Céu, mas que seria revestido de algo que é do Céu. Ele não disse: "desejando ir para a nossa habitação no Céu"; mas sim: "desejando ser revestido da nossa habitação, que é do Céu". Com efeito, a ideia que é passada aqui não é de morrer e ir para o Céu sem um corpo, mas sim, como vimos pelo contexto, de ser revestido de um corpo ressurreto, que é "do Céu", isso é, celestial, glorioso, em contraste a este presente corpo mortal, corruptível. A nota de rodapé da NVI (Nova Versão Internacional) parece concordar com tal interpretação lógica do texto bíblico, com "habitação terrestre" sendo uma referência ao corpo terreno e que "gememos" esperando o revestimento de um corpo glorioso ressurreto: "Temporária habitação terrena em que vivemos. Nosso corpo (v. 2Pe 1.13). Como uma tenda, temporária e pouco durável, nosso corpo é frágil, vulnerável e se desgasta (4.10- 12,16)"111 "Gememos. Porque ansiamos pela perfeição que será nossa ao nos vestirmos do glorioso corpo espiritual (cf. 1Co 15.42-49)"112 Portanto, podemos ver que o desejo de Paulo, pelo qual ele "gemia" (v.2), não era de habitar no Céu como um espírito incorpóreo antes da ressurreição dos mortos em algum estado intermediário, mas sim de alcançar a ressurreição dos mortos. A tradução da CNBB verte o verso 2 de forma ainda mais direta: "por isso, suspiramos neste estado, desejosos de revestir o nosso corpo celeste". E isso fica ainda mais nítido quando vemos o verso seguinte, que diz: "Se, todavia, estando vestidos, não formos achados nus" (v.3) É de consenso até mesmo entre os imortalistas que o "nus" no verso 3 se refira a um estado não-corporal, isto é, destituído de corpo, ao passo que o "vestidos" se refira ao revestimento do corpo ressurreto ao qual Paulo se refere em todo o contexto. A nota de rodapé da NVI também concorda com isso e afirma: "Nus. Sem a roupagem de um corpo, estado daqueles cuja habitação terrena, temporária, foi desmantelada pela morte"113 Portanto, "vestido" seria o revestimento de um corpo ressurreto e "despido" (ou "nu") seria ficar sem um corpo, ou seja, ficar morto. Para os imortalistas, esse "nu" seria o estado consciente dos espíritos incorpóreos que aguardam a ressurreição dos mortos no Céu, distinguindo da visão mortalista que interpreta o "nus" como sendo o estado sem vida entre a morte e a ressurreição, em que os mortos não estão no Paraíso, mas em suas sepulturas. 111 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:1, p. 1991. 112 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:2, p. 1992. 113 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 2Co.5:3, p. 1992.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 229 A visão imortalista deste verso fica bem clara na análise que o Pr. Airton Evangelista da Costa faz deste texto: "2 Co 5.4: '...não queremos ser despidos, mas vestidos de novo, para que o mortal seja recolhido pela vida'. O estado do crente de ser despido não se refere ao corpo no sepulcro, mas ao espírito que aguarda o 'corpo da glória' na ressurreição"114 Porém, o próprio Paulo refuta tal tese de que seja possível viver no Paraíso sem um corpo, na forma de um espírito incorpóreo no Céu antes da ressurreição, pois deixa claro que no Céu não seria achado despido, mas vestido. Outras traduções deixam isso ainda mais claro, ao verterem o verso 3 da seguinte maneira: "Contanto que sejamos achados vestidos e não despidos" (versão Ave Maria) "E isso será possível se formos encontrados vestidos, e não nus" (versão da CNBB) "O que será possível se formos encontrados vestidos, e não nus" (Bíblia de Jerusalém) O professor Azenilto Brito também destacou isso ao dizer: "Se vestido significa estar num corpo, estar nu é ficar sem um corpo. Observe que Paulo deixa muito claro que a vida futura é uma condição de vestido e não de nu! Ele dá não dá absolutamente qualquer apoio ao ensino de vida sem um corpo"115 Com efeito, Paulo refuta a tese de que o "despido" se refira a uma condição consciente no Céu como um espírito incorpóreo antes da ressurreição, pois afirma que tal coisa só seria possível se fosse encontrado vestido (com corpo), e não nu (sem corpo). Prova disso é o verso seguinte, onde ele reitera essa pensamento com ainda mais força: "Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida" (v.4) Paulo diz claramente que não queria ser despido, mas revestido. Ora, se a condição de "despido", conforme os imortalistas dizem, se refere a uma condição consciente no Céu onde já estamos com Cristo em forma de espírito incorpóreo, Paulo iria desejar isso mais do que tudo, pois o maior desejo do cristão é estar com Cristo, independentemente se isso vai acontecer com ou sem um corpo. Seria muito estranho que o “despido” se relacionasse a um espírito com consciência e personalidade que vai para o Paraíso esperando a ressurreição, pois se fosse assim Paulo não acentuaria tanto que não desejava estar neste estado (vs. 3-4). O fato de Paulo ter declarado tão enfaticamente que não queria ser despido põe por terra a teoria imortalista de que esse "despido" se refira a uma condição consciente no Céu em um estado intermediário. Seria o mesmo que Paulo estar dizendo: "Eu não quero estar no Céu 114 COSTA, Airton Evangelista. Reflexões sobre a imortalidade da alma. Disponível em: <http://solascriptura-tt.org/AntropologiaEHamartologia/ReflexoesImortalidadeAlma-AECosta.htm>. Acesso em: 16/08/2013. 115 BRITO, Azenilto Guimarães. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c- 224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 230 com Cristo como espírito em um estado intermediário, mas sim ser revestido". Isso faz sentido? É claro que não. Para Paulo, não existia uma condição consciente no Céu sem o revestimento de um corpo. Quando ele fala sobre estar "despido" ou se encontrar "nu", não se refere a um estado consciente em um estado intermediário, como sonham os imortalistas, mas sim à verdadeira condição em que os mortos passam entre a morte e a ressurreição, onde estão inconscientes e literalmente mortos (i.e, sem vida), destituídos de corpo (porque esperam a ressurreição). É este o estado entre a morte e a ressurreição que Paulo tinha em mente, e por isso ele afirmou que não queria ser despido, mas revestido; ou seja, que para ele não interessava nem era de nenhum valor esse estado entre a morte e a ressurreição em que não estamos com vida, mas o que ele queria mesmo era ser revestido (ressuscitar). Joe Crews também observa isso nas seguintes palavras: "Ele não está ansioso para o sono da morte (sendo 'despidos') quando ele não estaria com o Senhor, mas ele está esperando pela redenção do corpo quando ele ia ser revestido com a 'casa eterna nos céus'. Nesta vida ele estaria vestido com um corpo mortal, e depois a mortalidade seria 'absorvida pela vida', e ele teria um celestial corpo imortal. Mas tanto no tabernáculo terreno quanto no celestial ele continua a ter um corpo. Paulo não faz referência à uma alma separada do corpo. Ou ele possui um corpo neste planeta e está ausente do Senhor, ou ele possui um corpo redimido no céu, e está presente com o Senhor"116 Isso mostra, mais uma vez, que Paulo não tinha em mente a visão que os imortalistas tem sobre a vida após a morte, em que estamos com Cristo enquanto despidos (sem corpo, e supostamente como espíritos incorpóreos ou almas desencarnadas) esperando a ressurreição em um estado intermediário, mas sim de que não existe vida na condição de despido, e por isso o desejo dele era de ser logo "revestido", que, como já vimos, significa ressuscitar, ser revestido de um corpo glorioso, ressurreto. Paulo não iria rejeitar entrar no Céu como um espírito incorpóreo. O que ele estava dizendo é que seu desejo, pelo qual ele "gemia" (v.3), não era o de morrer para entrar no estado sem vida entre a morte e a ressurreição, em que estaremos despidos, inconscientes, sem vida, mas sim para alcançar a ressurreição dos mortos, isto é, para ser revestido novamente (v.4), de um corpo glorioso. O desejo de Paulo, pelo qual ele gemia carregado, era na esperança de ser revestido para que o mortal fosse absorvido pela vida (v.4). A pergunta final que nos fica é: quando é que se dá este momento tão desejado por Paulo, quando o mortal será absorvido pela vida? Para os coríntios, isso não era uma dúvida, nem uma incógnita, pois o próprio Paulo já lhes havia escrito sobre isso poucos anos antes, em sua primeira epístola a eles: “Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que isso que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isso que é mortal se revista da imortalidade. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista 116 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em: <http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>. Acesso em: 19/08/2013
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 231 de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (cf. 1ª Coríntios 15:51-54) A resposta é clara: a morte só será absorvida pela vida ao soar da última trombeta, por ocasião da ressurreição dos mortos. É somente na ressurreição que o mortal se reveste da vida, que a morte é tragada pela vitória. Seria impossível que o mortal fosse absorvido pela vida logo após a morte em algum estado intermediário em forma de espírito incorpóreo, pois, na teologia imortalista, nosso corpo morre e nossa alma já é imortal. Assim, nada que hoje é mortal ("para que o mortal") seria "absorvido pela vida" após a morte. Obviamente Paulo estava se referindo não a um estado intermediário antes da ressurreição, mas precisamente à ressurreição, quando nossa natureza mortal será transformada em uma natureza imortal (cf. 1Co.15:51-54), com a morte sendo tragada (cf. 1Co.15:54), com o mortal sendo absorvido pela vida. Portanto, quando Paulo diz que não queria ser despido, mas revestido, para que o mortal fosse absorvido pela vida, ele não estava dizendo que queria morrer para estar com Cristo em um estado intermediário como um espírito incorpóreo, mas sim que não queria passar pelo estado entre a morte e a ressurreição no qual estaria "despido" (i.e, sem um corpo, porque estaria morto, sem vida), desejando logo chegar a ressurreição, quando seria "revestido" e quando o mortal seria absorvido pela vida. Impossível conciliar isso com a teologia imortalista, segundo a qual Paulo desejava estar com Cristo logo em um estado intermediário e antes da ressurreição. Como bem observou Joe Crews: "O que se entende pelo termo 'despido'? Repare que Paulo especificamente declara que ele não tinha vontade de estar nu ou despido. Podemos estar certos, então, que o estado despido não envolvia estar com o Senhor, uma vez que Paulo não deseja estar despido [e ele desejava estar com o Senhor]. De fato, o apóstolo fez referência a estar vestido em apenas duas casas, a terrena e a celeste. No estado despido, ele não estava nem vestido com o corpo terreno e nem com o celeste. Isso deixa apenas uma explicação possível. Estar 'despido' ou 'nú' é a condição de morte que é o intervalo entre a dissolução da casa terrena e a entrada na celestial"117 Os imortalistas não tem saída, pois se veem obrigados a acreditarem que Paulo estava desejando estar com Cristo e ao mesmo tempo estava desejando não estar com Cristo, pois para eles este encontro de Paulo com Cristo se dá em um estado intermediário como espírito incorpóreo, mas o próprio Paulo diz claramente que não queria estar despido (cf. 2Co.5:4). Se esse encontro de Paulo com Cristo se dá enquanto o apóstolo está “despido”, então por que ele diz que não queria estar despido? Seria o mesmo que afirmar que não queria estar com Cristo! Além disso, a profunda semelhança entre o que Paulo diz aqui em 2ª Coríntios 5:1-5 e o que ele declara em Romanos 8:22,23 (“mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”) faz um paralelo tão impressionante que demonstra que ele tinha a mesma ideia em mente nas duas ocasiões: AOS CORÍNTIOS (2Co.5:1-5) AOS ROMANOS (Rm.8:22-23) 117 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 232 "Neste tabernáculo nós gememos" (v.4) "Também gememos em nós mesmos" (v.23) "O qual nos deu como penhor o Espírito" (v.5) "Temos as primícias do Espírito" (v.23) "Desejando ser revestido da nossa habitação, que é do Céu" (v.2) "Aguardando a nossa adoção, a saber, a redenção do nosso corpo" (v.23) A analogia e a comparação dos versos nos deixa muito claro que o momento em que seremos "revestidos da nossa habitação que é do Céu" (cf. 2Co.5:2) é quando teremos a "redenção do nosso corpo" (cf. Rm.8:23), isto é, na ressurreição dos mortos. Joe Crews também discorre sobre isso acentuando tal fato: "A comparação revela que este revestimento para o Céu tem lugar na 'redenção do corpo'... em outras palavras, mesmo que a morte deva dissolver esse corpo mortal, Paulo torna muito claro que não seremos revestidos da nossa habitação que é do Céu (imortalidade) até a vinda de Jesus e a redenção do corpo. Isto também é estabelecido por repetidas referências ao estado 'nu' ou 'despido'"118 E Paulo segue com sua analogia no verso 6, dizendo: "Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor. Porque andamos por fé, não por vista" (vs. 6-7) A Bíblia de Jerusalém traduz estes mesmos versos da seguinte maneira: "Por conseguinte, estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão" (vs. 6-7) Diante de todo o contexto, como já observamos, Paulo realmente queria estar ausente do corpo, mas não para habitar com o Senhor em estado incorpóreo (despido), mas revestido (ressurreto). Como diz Azenilto, "Paulo não está antecipando uma condição de um corpo desvestido, e sim um corpo revestido (...) Paulo não está descrevendo uma condição de algo imaterial ou o 'despido'. Ele se refere ao momento em que vai receber o corpo imortal. O corpo do qual, então, estará ausente é o seu atual corpo terreno, mas ele não ficará desmaterializado (nu), nesse momento"119. Enquanto habitamos neste corpo (habitação terrena) estamos longe do Senhor e da nossa "mansão" (corpo ressurreto), e por isso desejamos estar ausentes deste corpo mortal para estarmos perto do Senhor, como o apóstolo afirma no verso seguinte: "Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor" (v.8) E aqui chegamos, finalmente, ao verso 8, aquele tão usado pelos imortalistas, com a diferença de que nós mostramos o contexto e fazemos amplo uso da exegese e da hermenêutica bíblica, e eles simplesmente fingem que esse verso 8 caiu do Céu sem 118 ibid. 119 BRITO, Azenilto Guimarães. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c- 224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 233 contexto e nem nada, e de forma isolada deturpam vergonhosamente esse verso bíblico como se indicasse que Paulo estava dizendo que queria estar com Cristo num estado intermediário como espírito incorpóreo, quando diante de todo o contexto o que vemos é exatamente o contrário disso, e que Paulo só estaria com Cristo quando ressurreto, dotado de um corpo glorioso da ressurreição, não despido, mas revestido, não incorpóreo, mas corpóreo, e não antes do mortal ser absorvido pela vida, da morte ser tragada pela vitória. Paulo desejava realmente estar ausente deste corpo terreno e estar presente com Cristo, mas não despido, senão revestido do corpo glorioso da ressurreição. Como bem disse Azenilto, ele estava "contemplando o além-túmulo, para além da ressurreição, àquele glorioso momento em que iria saudar a Jesus face a face e viver com Ele para sempre"120. Ou seja: o desejo de Paulo em estar com Cristo não se concretiza em um estado intermediário despido de corpo, mas na própria ressurreição dos mortos. Satanás é astuto e sabe tirar um texto de seu contexto para fundamentar uma heresia, e este texto de 2ª Coríntios 5:8 é o maior exemplo disso, a mais vergonhosa adulteração bíblica que já existiu, pois quando posta diante de seu contexto é na verdade um golpe de morte na própria lenda da imortalidade da alma, e revela que Paulo tinha exatamente a mesma mentalidade de um cristão holista. Partir e estar com Cristo – O texto de Filipenses 1:21-23 expressa exatamente a mesma coisa do texto de 2ª Coríntios 5:8, e, portanto, deve ser interpretado da mesma forma. Paulo queria "partir e estar com Cristo", da mesma forma que alguém pode querer partir para Washington e estar com Barack Obama. Sim, ambos vão deixar algo, um a vida e outro o Brasil. E ambos vão encontrar alguém, um Cristo e o outro Obama. Mas tais frases de maneira nenhuma indicam que isso se dará imediatamente no Chronos seguinte. Para os hebreus, o tempo para de contar para quem morre. Quem morresse estaria inconscientemente morto (cf. Sl.13:3; 30:9; 94:17; 146:4; 6:5; 115:17; Ec.9:5,6,10; Jó 14:11,12; Is.38:18; 28:19), de forma que o intervalo entre a morte e a ressurreição não passaria de um piscar de olhos para o ressuscitado, mesmo que se passassem alguns milênios entre a morte e a ressurreição. Por isso, a passagem de Paulo em Filipenses aborda a vida após a morte neste aspecto atemporal da existência depois da morte. Algo semelhante ocorre quando o autor de Hebreus escreve que após a morte vem em seguida o juízo (cf. Hb.9:27), mas sabemos que o juízo só ocorre na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). Novamente vemos o autor ressaltando o aspecto atemporal entre a morte e a ressurreição. Embora depois da morte venha em seguida o juízo, este juízo só acontece na volta de Jesus, ainda que se passem milênios entre a morte de alguém e a volta de Cristo. Pela não existência de um estado intermediário, quem morre e volta ao pó não está mais condicionado a tempo e a espaço. A ressurreição vem como em um piscar de olhos, de modo que partimos e estamos com Cristo imediatamente depois, ainda que isso em um aspecto temporal leve anos ou milênios para se concretizar. O pastor Hermes Fernandes, bispo consagrado pela International Christian Communion (comunhão que reúne os bispos de tradição anglicana/episcopal dos cinco continentes) mantém o mesmo ponto de vista e, depois de passar por uma longa reflexão sobre o tema à luz da Bíblia, afirmou: 120 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 234 "A morte é sucedida imediatamente pelo juízo (Hb.9.27). Não há hiato entre os dois eventos. Ao deixarmos essa vida, somos transportados ao Tribunal de Cristo, e à Sua presença imediata. Deixamos o tempo, e entramos em uma esfera atemporal, chamada também de eternidade. Não há estado intermediário entre a morte e a ressurreição, ou entre a morte e o juízo. Foi a doutrina do estado intermediário que proveu um terreno fértil para o surgimento de doutrinas como a do purgatório e da intercessão dos santos, que não possuem qualquer respaldo bíblico consistente. Não devemos esperar que ao morrermos sejamos levados ao Seio de Abraão, para ali esperarmos o momento da ressurreição"121 Pouco depois, faz uso exatamente do mesmo contexto incontestável de 2ª Coríntios 5:1-8 para fundamentar essa posição: "Alguns creem que, ao deixarmos nossos corpos, experimentamos um estágio intermediário, em que seremos tão-somente espíritos desencarnados. Isso é um absurdo. Nosso espírito não deseja viver, senão em um corpo através do qual possa glorificar a Deus. Daí a importância da ressurreição corporal. Paulo chega a afirmar que nós 'gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do Céu, porque estando vestidos, não seremos achados nus. Pois também nós, os que estamos neste tabernáculo (o corpo físico atual), gememos angustiados, não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida' (2 Co.5:2-4). O crente em Jesus jamais deve desejar ser despido, isto é, viver sem um corpo, através do qual possa servir e louvar ao Seu Deus"122 Por fim, ele declara: "Para quem está vivo no mundo hoje, pode parecer que esse dia esteja num futuro remoto. Mas para quem deixa o mundo hoje, é como se esse dia chegasse imediatamente. Não há intervalo. É como se entrássemos numa máquina do tempo, e fôssemos arremessados em um futuro distante. Lá chegando, não apenas nos encontraremos com o Senhor nos ares, vindo em direção a Terra para julgar os vivos e os mortos, como também encontraremos todos os eleitos de Deus, de todas as eras. Dentre os que morreram em Cristo, ninguém vai chegar primeiro... Por isso Jesus disse que os amigos que granjearmos aqui na terra, serão os mesmos que nos receberão 'nos tabernáculos eternos' (Lc.16.). Na verdade, nos recepcionaremos uns aos outros, pois chegaremos todos juntos. Há ordem de partida, mas não há ordem de chegada. Por vivermos confinados ao tempo e ao espaço, assistimos à partida de cada pessoa que deixa essa vida. Mas na eternidade não haverá ordem de chegada. Todos compareceremos diante do Trono de Deus concomitantemente"123 O Dr. Samuelle Bacchiocchi acrescenta: “Sua [dos crentes que morrem] relação para com Cristo é de algo imediato, porque não têm consciência da passagem do tempo entre sua morte e ressurreição. Experimentam o que 121 FERNANDES, Hermes Carvalho. Afinal, para onde vamos ao morrer? Parte 1. Disponível em: <http://www.hermesfernandes.com/2009/12/afinal-pra-onde-vamos-ao-morrer-parte-1.html>. Acesso em: 16/08/2013. 122 ibid. 123 FERNANDES, Hermes Carvalho. Afinal, para onde vamos ao morrer? Parte 2. Disponível em: <http://www.hermesfernandes.com/2009/12/pra-onde-vamos-ao-morrer-parte-2.html>. Acesso em: 16/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 235 pode ser chamado ‘tempo eterno’. Mas para os que prosseguem vivendo sob o limite de tempo ligado à Terra há um intervalo entre a morte e a ressurreição”124 Essa visão bíblica da morte é compartilhada também pelo apologista cristão batista Joe Haynes, que afirmou: "A Bíblia ensina claramente que quando um crente morre, não há razão para acreditar em qualquer estado intermediário, mas podemos supor que a sua próxima experiência vai ser o momento da ressurreição, quando ele é unido com Cristo sobre a Terra"125 O próprio Lutero compartilhou essa visão sobre o estado entre a morte e a ressurreição ao dizer: "Repentinamente ressuscitaremos no último dia, sem conseguir compreender como morremos e como passamos pela morte"126 Como disse Wolfhart, "a continuidade de nossa vida presente com a vida futura da ressurreição dos mortos não deve ser buscada na seqüência linear do tempo; ela reside no caráter oculto do Deus eterno, cujo futuro já está presente em nossas vidas"127. Aqueles que pensam que aquilo que Paulo expressou em Filipenses 1:21-23 sobre "partir e estar com Cristo" por ser algo "incomparavelmente melhor" é algo que vai contra os princípios do mortalismo bíblico defendido pelo próprio Paulo o fazem por pura ignorância, confundindo a crença da mortalidade da alma com a psicopaniquia, popularmente conhecida como "sono da alma", segundo a qual as almas não morreriam, mas estariam dormindo literalmente em um estado intermediário, aguardando a ressurreição dos mortos. Embora essa outra visão ensine que os mortos só entram no Céu por ocasião da segunda vinda de Cristo, ela falha exatamente em crer que existe um elemento imortal no homem e que sobrevive à parte do corpo, ainda que inconscientemente. Tal não é a visão bíblica sobre a morte. Quando falamos que os mortos dormem, não estamos a dizer que eles estão literalmente dormindo, mas fazendo uso de uma figura de linguagem para um estado sem consciência entre a morte e a ressurreição. É lógico que faz sentido o que Paulo disse em Filipenses 1:21-23, e qualquer mortalista diria o mesmo, porque não existe "vida" ou "tempo" entre a morte e a ressurreição. Portanto, é realmente um "partir e estar com Cristo", ainda que isso somente se concretize na ressurreição dos mortos. Para Paulo, seria infinitamente melhor a morte, pois desta forma ele seria imediatamente conduzido a Cristo, pela não existência de passagem de tempo entre a morte e a ressurreição, e não por possuir alguma "alma imortal" que sobreviva à morte física e siga a um estado intermediário em condição incorpórea, o que o próprio apóstolo fez questão de negar quando escreveu a mesma coisa aos coríntios (cf. 2Co.5:8), dizendo que queria morrer não para ser despido (sem corpo), mas revestido (com corpo ressurreto), que não estaria no Céu em condição incorpórea, mas "vestido" (cf. 2Co.5:2-3), e que tal coisa se daria quando o mortal fosse absorvido pela vida (cf. 2Co.5:4), na ressurreição. 124 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, pg. 170. 125 HAYNES, Joe. Por que não creio em um "estado intermediário" entre a morte e a ressurreição? Disponível em: <www.revistacrista.org>. Acesso em: 16/08/2013. 126 WOLF, Manfred. p. 92. 127 PANNENBERG, Wolfhart. Systematische Theologie –Vol. 3, p. 574.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 236 Desta forma, os textos de 2ª Coríntios 5:8 e de Filipenses 1:21-23 realmente ensinam a iminência em estar com Cristo logo após a morte, mas isso não se dá em função de uma "alma imortal" em nós presente, mas sim pela inexistência de tempo entre a morte e a ressurreição. É deste mesmo modo que o pastor presbiteriano José Luiz Martins Carvalho se posicionou, dizendo: "A Escritura nos adverte: 'E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo' (Hb 9.27). O juízo segue-se à morte, pois passa-se do chrónos ao kairós, muda-se o parâmetro temporal. Do tempo linear para a eternindade. Logo, para o cristianismo bíblico não há imortalidade nem sono da alma [psicopaniquia], mas apenas a mudança de estado do tempo para a eternidade. Na Parousia, tempo e eternidade se encontrarão. É isto que, hoje, ansiosamente aguardamos!"128 Francis D. Nichol ainda faz importantes observações que nos mostram pela Bíblia que é comum dois acontecimentos estarem ligados ainda que divididos por um longo período de tempo entre eles em um aspecto temporal: “Não é incomum um escritor bíblico reunir eventos que est ão separados por um longo espaço de tempo. Geralmente, a Bíblia não entra em detalhes, mas apresenta os pontos realmente importantes do trato de Deus com a humanidade no transcorrer dos séculos. Por exemplo, Isaías 61:1 e 2 contém uma profecia da obra que Cristo faria em Seu primeiro advento. Em Lucas 4:17-19 está o relato de Cristo lendo essa profecia para o povo e informando: ‘Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.’ (v.21). Mas um exame cuidadoso revelará que Cristo não leu toda a profecia de Isaías, embora evidentemente ela seja uma declaração conectada. Ele terminou com a frase: ‘Apregoar o ano aceitável do Senhor’. Mas a frase seguinte da sentença é: ‘E o dia da vingança do nosso Deus’. Ele não leu essa parte porque ela não devia se cumprir logo. A passagem de Isaías nem mesmo sugere que um período de tempo se interpõe entre esta frase e as precedentes. Mas outras passagens bíblicas indicam claramente tal fato, e é pelo exame de todas as outras passagens que entendemos uma profecia breve e condensada como essa de Isaías”129 E ele continua destacando agora o período de mil anos que se interpõe entre a vinda de Cristo e a destruição desta terra, que é ligado por Pedro como se não houvesse período de tempo significativo entre eles: “Ou considere a profecia do segundo advento conforme apresentada em II Pedro 3:3-13. Se nenhuma outra passagem bíblica fosse comparada com essa, poderíamos facilmente chegar à conclusão de que o segundo advento de Cristo resulta imediatamente na destruição do mundo pelo fogo. Todavia, quando comparamos II Pedro 3 com Apocalipse 20, aprendemos que um período de mil anos se interpõe entre o segundo advento e a destruição do mundo pelo fogo. Pedro estava apenas dando um breve sumário dos extraordinários eventos iminentes. Ele passou imediatamente do grande fato do segundo advento para o próximo grande ato no drama do trato de Deus com este planeta: sua destruição pelo fogo. No caso 128 CARVALHO, José Luiz Martins. Imortalidade da Alma ou Ressurreição da Vida? Disponível em: <http://teologiahoje.blog.com/2010/07/01/imortalidade-da-alma-ou-ressurreicao-da-vida/>. Acesso em: 16/08/2013. 129 NICHOL, Francis David. Respostas a Objeções. Tatuí: Casa, 2004.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 237 da profecia de Pedro, assim como no da profecia de Isaías, não há necessidade de confusão se seguirmos o plano de comparar passagem com passagem para preencher os detalhes”130 Vemos, portanto, que em absolutamente nada o "partir e estar com Cristo" implica em uma alma incorpórea vivendo conscientemente em algum estado intermediário antes da ressurreição, o que não é dito em parte nenhuma da teologia paulina e é negado pelo próprio apóstolo quando trata dessa mesma questão com mais amplitude, como vimos na exegese de 2ª Coríntios 5:1-8. Os imortalistas que formulam argumentos como esse demonstram não conhecerem a doutrina mortalista, confundindo-a com a psicopaniquia, crendo que achamos que existe passagem de tempo entre a morte e a ressurreição e anulando a iminência da mensagem de Paulo sobre estar com Cristo. Se pelo menos entendessem aquilo que tanto criticam, poderiam talvez formular argumentos mais sólidos. XVI–A realidade da ressurreição em contraste com a alma imortal Uma das maiores declarações bíblicas que contrariam a ilusão da imortalidade da alma é o que o apóstolo Paulo escreve em 1ª Coríntios, no capítulo 15. Como veremos a seguir, o capítulo inteiro é uma refutação à doutrina de que a alma imortal se religa ao corpo por ocasião da ressurreição. Ele mostra que a ressurreição, longe de ser apenas uma religação entre corpo e alma, é o único meio pelo qual podemos viver em alguma existência futura, numa vida póstuma. Para os imortalistas, se nenhuma ressurreição existisse nós já estaríamos assegurados no Céu de qualquer jeito com as nossas almas imortais, e a existência da ressurreição apenas implicaria em almas voltando do Paraíso e se religando ao nosso corpo morto, para depois retornarem novamente ao Céu "completos". Tal conceito é totalmente estranho à Bíblia e inconsistente com a teologia paulina. Na visão dualista, se a ressurreição não existisse nós ficaríamos como espíritos desencarnados durante toda a eternidade. Já para a Bíblia, que não atesta para a existência de um “estado intermediário das almas”, se a ressurreição do último dia não existisse então estaríamos todos perdidos, mortos no pó da terra sem mais nenhuma esperança. A pergunta que fica é: qual seria a posição do apóstolo Paulo sobre o assunto? Seria ele favorável a uma religação do corpo com a alma, sendo a ressurreição um mero detalhe desnecessário, ou seria ele favorável ao fato de que não existe vida entre a morte e a ressurreição? Paulo nos responde a esta questão em um longo capítulo de sua primeira epístola aos Coríntios. E é exatamente isso o que analisaremos a partir de agora. 1 Coríntios 15 12 Ora, se é corrente pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmam alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos? 13 E, se não há ressurreição de mortos, então Cristo não ressuscitou. 14 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã, a vossa fé; 15 e somos tidos por falsas testemunhas de Deus, porque temos asseverado contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, ao qual ele não ressuscitou, se é certo que os mortos não ressuscitam. 16 Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. 17 E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. 130 ibid.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 238 18 E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. 19 Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. 20 Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. 21 Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. 22 Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. 23 Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. 24 Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. 25 Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. 26 Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. 27 Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas. 28 E, quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos. 29 Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos? 30 Por que estamos nós também a toda a hora em perigo? 31 Eu protesto que cada dia morro, gloriando-me em vós, irmãos, por Cristo Jesus nosso Senhor. 32 Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, que me aproveita isso? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos. Fiz questão de passar todo o contexto para analisarmos as várias implicações para o que é dito acima pelo apóstolo Paulo. Vemos que alguns cristãos da igreja de Corinto estavam dizendo que a ressurreição não iria acontecer. Paulo, então, primeiramente mostra as consequências disso, depois mostra o que aconteceria caso a ressurreição não existisse, em seguida confirma que, de fato, a ressurreição irá acontecer como algo futuro, mostra os tempos em que ela se cumprirá e termina o capítulo mostrando o que ele faria caso não ocorresse a ressurreição dos mortos. O capítulo inteiro, que vai até o verso 58, é uma verdadeira aula sobre a ressurreição dos mortos. Se houve um ótimo momento para Paulo afirmar a sua doutrina da imortalidade da alma, com a menção das nossas almas imortais no Céu ou de religação de corpo e alma por ocasião dessa ressurreição, aí estava uma ótima oportunidade! Contudo, vemos que as implicações do que é acima exposto é muito, mas muito diferente daquilo que imaginam os imortalistas. Em primeiro lugar, se existisse uma imortalidade da alma, os que “dormem” estariam como almas incorpóreas no Céu. Contudo, Paulo diz que, se não há a ressurreição, então os mortos já teriam perecido (eles não ficariam “desincorporados pela eternidade”, pelo contrário, estariam todos mortos!). O original grego traz a palavra apôlonto neste verso 18, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: "perecer, estar perdido, arruinado, destruído"131. Todos esses significados dão a mesma dimensão de implicação: para Paulo, 131 Léxico da Concordância de Strong, 622.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 239 os mortos estariam agora perdidos, ou totalmente destruídos, arruinados, se não fosse pela ressurreição dos mortos. O problema para os imortalistas reside precisamente no fato de que, na teologia deles, os que morreram em Cristo estariam neste momento no Céu, e continuariam lá da mesma forma se não ocorresse a ressurreição, com o único detalhe de que viveriam para sempre em forma incorpórea. Então, como é que eles poderiam estar perdios, arruinados ou destruídos se não fosse pela ressurreição? Simplesmente não faz sentido. Estar no Céu, ainda que em estado incorpóreo pré-ressurreto, deveria ser motivo de regozijo, alegria e exultação, e não de estar "perdido" ou de já ter "perecido". Esses versos, de fato, só tem sentido se Paulo cresse que não existe vida entre a morte e a ressurreição, e que é a ressurreição que traz uma pessoa de volta à existência . Desta forma, dizer que se não fosse por essa ressurreição os que morreram em Cristo já pereceram ou estão perdidos faz todo o sentido, uma vez sendo que não haveria ressurreição para herdarem uma vida eterna póstuma. Esta é uma das consequências fatais em caso de a alegação infundamentada dos Coríntios de que a ressurreição não existe fosse verdadeira. Aqueles que aguardam a ressurreição dentre os mortos a fim de ganhar vida nesta ocasião não ganhariam vida nenhuma – estariam destruídos – sem vida, para sempre, sem esperança (v.18,19,30,32). Não estariam desfrutando as bênçãos paradisíacas no Céu por toda a eternidade desprovidos de corpos. O que Paulo estava dizendo era que, se a ressurreição não existe, então os mortos já pereceram. Em outras palavras, se não fosse pelo “fator ressurreição”, coitados – estariam perdidos! De jeito nenhum que estariam com as suas “almas imortais” desencarnados para todo o sempre! Além disso, no verso 19 o apóstolo continua batendo firme nessa mesma linha, afirmando que se não há a ressurreição [de um simples corpo morto(?)], então a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, razão dele escrever no verso seguinte, seguindo a mesma lógica: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (cf. 1Co.15:19). Ora, mas as nossas almas já não estariam lá no Céu, incorpóreas porém conscientes, na outra vida? A ressurreição de um simples corpo morto não seria um mero detalhe? Por que a nossa esperança se limitaria apenas para esta presente vida se nós ficaríamos a eternidade inteira lá no Céu do mesmo jeito, só que sem corpo? É evidente que, para o apóstolo Paulo, a vida é somente a partir da ressurreição, e, portanto, já teriam perecido os que dormiram em Cristo caso ela não fosse uma realidade, e não existiria uma vida póstuma nem como “almas” nem como “espíritos”. A nossa esperança limitar-se-ia apenas e tão- somente a esta presente vida. Uma “saída” encontrada por alguma parte dos defensores do estado intermediário é que Paulo referia-se somente ao versículo anterior: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (v.17). Contudo, se contextualizarmos a passagem, veremos que o apóstolo está relatando uma série de conseqüências em caso que a ressurreição não existisse, das quais uma delas é a de que nem o próprio Cristo teria se levantado do túmulo, outra delas é que a nossa fé seria vã, outra delas é que os apóstolos seriam tidos como falsas testemunhas de Cristo, outra delas seria que os que dormiram em
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 240 Cristo já teriam perecido, outra delas é que a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, e assim por diante, como podemos constatar por todo o contexto: a) Alguns corintos estavam dizendo que a ressurreição não existia. b) Paulo diz que, se a ressurreição não existe, então Jesus também não ressuscitou, e nós continuamos mortos em nossos pecados. c) “E ainda mais” (ou seja, ele estava enumerando um outro ponto), se a ressurreição não existe, estão os que dormiram em Cristo já pereceram. d) Se a ressurreição não existe, então conforme o verso 19 a nossa esperança seria apenas para esta vida (em outras palavras, não existiria uma “vida póstuma”!) e) Mas, de fato, Cristo ressuscitou como primícia daqueles que dormem, e por isso vivificará todos os mortos na sua segunda vinda (v.23) f) O último inimigo a ser vencido é a morte. g) Se não há ressurreição, então Paulo lutou com feras em Éfeso à toa. h) Se não há ressurreição, então seria melhor “comer, beber, e depois morrer”. Como vemos, alguns de Corinto estavam duvidando da existência da ressurreição, e Paulo lhes apresenta uma série de conclusões que naturalmente se extrairiam desta falsa alegação. Se os mortos não ressuscitam, logo (1) nem sequer Cristo ressuscitou (v.13); (2) é vazia a nossa pregação (v.14); (3) é vã a nossa fé (v.14); (4) somos falsas testemunhas de que Cristo foi ressuscitado (v.15); (5) ainda estamos nos nossos pecados (v.17); (6) ainda estamos na condenação do pecado (v.17); (7) também os que dormiram em Cristo já pereceram (v.18); (8) a nossa esperança seria somente para esta vida (v.19); (9) somos os mais dignos de compaixão (v.19); (10) sofremos adversidades à toa (v.30); (11) o melhor a fazer seria viver a vida hedonisticamente (v.32). Principalmente as conclusões de Paulo de número 7 a 11 nos mostram claramente que, sem a ressurreição, nem existiria mais nenhuma vida póstuma. Perceba ainda que em nenhum dos argumentos Paulo fala de que “os que morreram não estariam com Cristo agora mesmo”; ou que eles “não estariam na glória”; tampouco fala ele sobre “religação de corpo com alma”. Se Paulo fosse imortalista, não diria que sem ressurreição os que morreram em Cristo já teriam perecido e que a nossa esperança se limitaria apenas a esta vida, teria dito que neste caso os que morreram em Cristo não estão no Céu e que continuariam como espíritos incorpóreos para sempre. Isso nos mostra que, na visão paulina, não existia nenhuma forma de vida racional entre a morte e a ressurreição. Por isso, se não existisse ressurreição, seria o fim de tudo (cf. 1Co.15:18,19; 15:30,32). Vale a pena lembrar também que, se existisse uma alma imortal em nós, então o fato de Cristo ter ou não ressuscitado nos garantiria de qualquer jeito uma vida póstuma por meio dela, ainda mais quando de acordo com a teologia imortalista os que morreram antes de Cristo já estariam com vida em algum lugar e, portanto, não poderiam ter “perecido” como mostra o verso 18, e já obteriam uma vida póstuma contrariando o que indica o verso 19.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 241 Para os imortalistas, os justos que morreram antes da ressurreição de Cristo já tinham suas almas conduzidas ao Céu ou ao Seio de Abraão, a um lugar de paz e descanso, e, portanto, o fato de Cristo ter ressuscitado ou não seria elementar, pois vida póstuma antes da ressurreição aconteceria de qualquer jeito. Neste caso, Paulo também não teria dito que os mortos sem a ressurreição de Cristo já teriam perecido ou estariam perdidos, mas teria dito que ficariam para sempre no Céu ou no Sheol (o que não deixaria de ser um prêmio, ao invés de uma perdição, como ele diz claramente no verso 18). Ainda, seria errôneo afirmar que nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida (v.19), já que, com ou sem a existência da nossa ressurreição ou da ressurreição de Cristo, os mortos teriam sim uma vida póstuma, quando a suposta alma imortal se desligaria do corpo após a morte, o que, segundo eles, já estava acontecendo desde o início da humanidade, antes mesmo da ressurreição de Jesus ou da ressurreição geral dos demais mortos. Portanto, não existem escapatórias à luz da clareza da linguagem de Paulo neste capítulo sobre a ressurreição, que todo ele é uma negativa enfática à possibilidade de vida consciente antes da ressurreição dos mortos. Ele nega inteiramente que qualquer crente em qualquer era já pudesse estar com vida antes da ressurreição. Os versos mostrados deixam bem claro que, na visão de Paulo, a vida era somente a partir da ressurreição, e não antes da ressurreição em um estado intermediário, como dizem os imortalistas. Evidentemente as únicas exceções a isso são os que não passaram pela morte, como é o caso de Elias e Enoque e, portanto, não necessitam de uma ressurreição, pois foram transladados vivos. Mais algumas observações podem ser feitas à luz de todo o capítulo de 1ª Coríntios 15. O último inimigo a ser vencido é a morte, que diante do contexto será vencida em função da ressurreição, e não de uma alma imortal que vence a morte sendo liberta do corpo por ocasião do falecimento. A morte não é tratada na Bíblia como sendo uma amiga, mas como uma inimiga, como o último inimigo a ser vencido, que será destruído somente pela ressurreição. Como bem destacou Oscar Cullmann: "Somente aquele que discerne com os primitivos cristãos o horror da morte, que leva a morte a sério como ela é, pode compreender a exultação da celebração da comunidade cristã primitiva e entender que o pensamento de todo o Novo Testamento é governado pela crença na ressurreição. A crença na imortalidade da alma não é a crença num evento revolucionário. Imortalidade é, na verdade, só uma afirmação negativa: a alma não morre, mas simplesmente continua viva. Ressurreição é uma afirmação positiva: todo homem, que morreu de fato, é chamado de volta à vida por um novo ato criativo de Deus. Algo aconteceu - um milagre de criação! Pois algo também tinha ocorrido anteriormente, algo temível: a vida criada por Deus havia sido destruída"132 Se após a morte física nossa alma sobrevivesse e fosse direto à presença divina, a morte teria sido vencida pela imortalidade da alma, e não somente pela ressurreição, no final de todas as coisas, como nos diz João, no Apocalipse (cf. Ap.20:14). E, por fim, Paulo diz que, se não há ressurreição, então ele lutou com feras em Éfeso à toa (v.32). Mas como seria “à toa” caso ele fosse para o Paraíso do mesmo jeito só que desincorporado? Por que ele diz 132 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 13/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 242 que não se aproveitaria nada disso, “se os mortos não ressuscitam”? Não valeria a pena caso estivéssemos com nossa alma durante toda a eternidade no Paraíso do mesmo jeito? Como vemos, para Paulo o Cristianismo só valeria a pena de ser vivido caso existisse a ressurreição, pois sem ela a nossa luta diária seria inútil, seria em vão. É óbvio que Paulo não imaginava que se pudesse estar no Céu como espírito incorpóreo antes da ressurreição. E isso fica ainda mais nítido com o verso seguinte, onde ele diz: “Se os mortos não ressuscitam, então comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (v.32) Segundo o apóstolo, a melhor opção seria aproveitar hedonisticamente esta vida, “comendo e bebendo e depois morrendo”. Qual a razão para Paulo falar deste jeito? Simplesmente porque se a ressurreição não existe então também não existiria nenhuma vida póstuma. Seria o “morrer e acabou”. Para sempre. A melhor opção, então, seria “comer e beber, e depois morrer”! Clarissimamente o que se segue à morte não é um “estado intermediário das almas”, mas sim a ressurreição na volta de Cristo (v.22,23). Sem a realidade da ressurreição, não há nenhuma esperança de vida eterna. Também é importante analisarmos o verso 30: “E por que também nós nos expomos a perigos a toda hora? Dia após dia morro!” (v.30). Para Paulo, não fosse a ressurreição dos mortos, nem valia a pena viver, porque a morte seria o fim de tudo. Por isso, o melhor a fazer seria viver hedonisticamente esta vida (v.32), pois não existiria uma vida póstuma (v.19), e ele estaria exposto a perigos sem razão lógica nenhuma (v.30)! Citando de exemplo uma prática existente entre os pagãos, Paulo diz: “Se não há ressurreição, que farão aqueles que se batizam pelos mortos? Se absolutamente os mortos não ressuscitam, por que se batizam por eles?” (1ª Coríntios 15:29) Paulo usa o exemplo “deles” (os pagãos), que tinham o costume de batizar em favor dos mortos, por causa da esperança deles na ressurreição. Mas, se os mortos não ressuscitam, então este batismo que era feito em favor deles seria simplesmente inútil, uma perda de tempo. Difícil imaginar isso no caso de que as almas já estivessem em algum lugar após a morte, pois, neste caso, tal batismo pelos mortos teria efeito com ou sem a ressurreição acontecer! Mas, na teologia bíblica, este verso faz total sentido. Afinal, se não há ressurreição, não há vida póstuma, já que a vida póstuma se inicia na ressurreição. E, se não há vida póstuma, não há razão de se batizar pelos mortos. Aqueles que batizavam pelos mortos não faziam isso por crer na imortalidade da alma, mas por crer na ressurreição. Eles tinham a esperança de que aqueles que já morreram iriam um dia retornar à vida por meio de uma ressurreição dentre os mortos, e, com essa esperança, batizavam em favor deles. Mas, se não há ressurreição, não há retorno à vida, não há retorno à existência – por isso a inutilidade de tal batismo! Portanto, até mesmo quando Paulo faz uso do exemplo do convívio dos pagãos, mesmo assim há a clara menção de que é só por meio da ressurreição, e não antes dela, que alcançamos a vida. Claramente Paulo não imaginava de jeito nenhum que sem a ressurreição os que já morreram viveriam eternamente do mesmo jeito por meio de uma alma imortal. O contexto todo faz com que qualquer pessoa com um mínimo de bom senso abandone completamente
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 243 na mesma hora a heresia de que “morremos e vamos com as nossas almas imortais para o Céu, e a ressurreição é de um simples corpo morto que se religa às nossas almas no Paraíso por ocasião da ressurreição que acontece na segunda vinda de Cristo”. A coisa mais absurda que algum imortalista diria é que sem a ressurreição o melhor que temos a fazer é viver hedonisticamente sem mais nenhuma esperança, porque para eles a vida seria eterna do mesmo jeito por meio de uma alma imortal em nós implantada. A ressurreição, sendo ou não sendo uma realidade, não impediria a vida após a morte. Seria um mero detalhe sem muita importância, pois nós viveríamos eternamente, seríamos julgados e todas as demais coisas seriam feitas sem corpo. Isso é claramente negado pelas palavras do apóstolo Paulo. A verdade é que a própria esperança de vida eterna ou imortalidade teria perecido em caso que a ressurreição na volta de Cristo não existisse (cf. 1Co.15:18,19,30,32), o que nos mostra claramente que a esperança cristã não é a de eternidade por meio de uma alma imortal implantada em nós por ocasião do nascimento, mas sim de uma imortalidade mediante a ressurreição dos mortos, o foco de todo o capítulo (cf. 1Cor.15); aliás, de todo o Novo Testamento. É apenas pela ressurreição, por meio da ressurreição e na ressurreição que obteremos a imortalidade. Paulo nega em absoluto a existência de vida póstuma senão por ocasião da ressurreição dentre os mortos, a nossa esperança. Do início ao fim, o apóstolo segue a linha de pensamento holista. Sendo que não existe uma “alma imortal”, então não existe uma vida “com almas” antes da ressurreição. Por isso, se essa ressurreição não existe, então os que dormem em Cristo já teriam perecido. Por isso, a nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida. Por isso, Paulo teria lutado com feras em Éfeso totalmente à toa, pois não existiria uma vida póstuma. Então, o melhor a fazer caso os mortos não ressuscitassem seria “comer, beber e depois morrer”. Seria o fim. Não fosse pelo fator ressurreição, a morte que cada indivíduo passa seria o fim definitivo de sua existência. É óbvio que Paulo não tinha a mínima noção de que a ressurreição se limitava a um simples corpo mortal que se religaria ao nosso “verdadeiro eu”, as nossas almas imortais que já estariam no Paraíso em uma existência contínua. Qual nada, se não fosse pela ressurreição, já teriam perecido. Mas, de fato, Paulo traz uma esperança. Essa é a mesma esperança que os apóstolos alimentavam tanto: a esperança da ressurreição dentre os mortos, no último dia. Paulo dá um motivo de esperança e de alegria aos coríntios, que não se baseava na ilusão pagã de que as nossas almas imortais já estariam no Céu, mas sim no dia em que todos os que estão literalmente mortos seriam vivificados. E essa esperança é apresentada nos versos 22 e 23 de maneira mais clara: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda”. Em Adão todos morremos, literalmente, pois Adão desobedeceu as ordens de Deus, tornando-se mortal, sendo enganado pela mentira de Satanás de que certamente não morreria (cf. Gn.3:4). Porém, a esperança é de que, em Cristo Jesus, todos serão vivificados. De acordo com o dicionário, “vivificar” significa exatamente “Dar vida a; fazer existir”. Os mortos voltarão à vida na ressurreição do último dia, na gloriosa volta do Nosso Senhor Jesus Cristo.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 244 Curioso é notar que, enquanto por todo o capítulo o apóstolo lista uma série de fatos trágicos que seriam realidade na hipótese de não existir ressurreição, ele por fim cita as boas-novas, falando sobre o meio pelo qual podemos ganhar vida novamente no futuro, onde em momento nenhum é mencionado que seja através de uma alma imortal imediatamente após a morte, mas sim por meio da ressurreição dos mortos, quando seremos vivificados na segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). Não é a toa que Paulo passou algumas epístolas falando capítulos inteiros sobre a ressurreição, como em 1ª Coríntios 15, o único capítulo na Bíblia completamente elaborado à ressurreição dos mortos, mas não há referência nenhuma à religação dos corpos ressurretos a almas deixando o Céu, o inferno ou o purgatório. Como Paulo poderia ter se esquecido do ponto mais fundamental da doutrina da ressurreição, no ponto de vista dualista? Certamente os teólogos imortalistas do século XXI com as suas doutrinas dualistas iriam dar uma “aula teológica” para o apóstolo Paulo aprender a falar de algo tão importante na doutrina da ressurreição! Não seria estranho que Paulo deixasse de mencionar isso inteiramente em sua discussão acerca daquilo que acontece na ressurreição? Afinal, tal conceito é de fundamental importância a fim de compreendermos o que se dá em tal ocasião. Se Paulo fosse imortalista, certamente não hesitaria em mencionar um “fato” tão importância dentre os acontecimentos que sobrevêm na ressurreição! E olha que Paulo não poupou palavras sobre o tema. Disse sobre as consequências da ressurreição (v.19,20), disse sobre as testemunhas da ressurreição (v.4,5), disse sobre o seu próprio testemunho (v.8), disse sobre a ressurreição de Cristo (v.13), disse sobre quando seremos vivificados (v.22,23), disse sobre o inimigo da ressurreição (v.26), disse com que tipo de corpos virão (v.36-39), disse sobre os corpos celestes e os corpos terrestres (v.40), disse sobre o corpo semeado e o corpo ressurreto (v.v.42-44), disse sobre a imagem do homem terreno e celestial (v.47,48), disse sobre quando seremos imortais (v.53), disse sobre quando seremos incorruptíveis (v.51-54), disse sobre quando a morte é tragada (v.54,55). .. mas sobre a religação de corpos ressurretos com almas incorpóreas, um dos principais pontos e focos da doutrina da imortalidade da alma no contexto da ressurreição... nada! Mais do que isso, ele acentua o momento em que realmente atingiremos a imortalidade: “Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: A morte foi destruída pela vitória” (cf. 1Co.15:51-54) Como vemos, a imortalidade não é algo que nós já possuímos (supostamente na forma de uma alma imortal dentro de nosso ser), mas sim algo pelo qual nos revestiremos, no futuro. E quando? Na ressurreição dos mortos.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 245 Poderíamos resumir os argumentos levantados em torno de 1ª Coríntios 15 com um quadro que resume o contraste entre a teologia paulina com a teologia imortalista: O QUE ACONTECERIA CASO A RESSURREIÇÃO NÃO EXISTISSE PARA OS IMORTALISTAS PARA O APÓSTOLO PAULO Os mortos ficariam desencarnados para sempre Os que dormiram em Cristo já pereceram – cf. 1Co.15:18 Existiria uma vida póstuma em forma de “espírito incorpóreo” A nossa esperança se limitaria apenas a esta presente vida – cf. 1Co.15:19 Deveríamos dar o máximo pela nossa salvação pois as nossas almas ficariam para sempre no Céu do mesmo jeito, embora sem um corpo físico O melhor a fazer seria viver a vida hedonisticamente, “comamos e bebamos, para que amanhã morramos” – cf. 1Co.15:32 Valeria a pena ficar em perigo pois as nossas almas ficariam para sempre no Céu do mesmo jeito Estaríamos correndo perigo totalmente à toa – cf. 1Co.15:30 Na ressurreição a alma imortal se religa ao corpo morto Pessoas são mortas, pessoas são vivificadas na volta de Cristo – cf. 1Co.15:22,23 A morte é vencida quando a alma imortal vence a morte sendo liberta da prisão do corpo A morte só é vencida por ocasião da ressurreição dos mortos – cf. 1Co.15:55 Nós já detemos a imortalidade na forma de uma alma imortal implantada em nosso ser A imortalidade é uma possessão futura, a qual só alcançaremos com a ressurreição dos mortos – cf. 1Co.15:51-54 Com tudo isso, podemos constatar que, na visão de Paulo, a imortalidade está ligada unicamente à ressurreição dos mortos, como podemos ver em todo o capítulo de 1ª Coríntios 15. E Paulo termina o capítulo da seguinte maneira: “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho no Senhor não é em vão” (cf. 1Co.15:58). No capítulo inteiro toda a esperança da recompensa pelo trabalho dos cristãos não é relativa a uma alma imortal que lhes garante a imortalidade, mas unicamente ligada à ressurreição na volta de Cristo. Se todos os crentes tivessem uma alma imortal implantada dentro deles, Paulo certamente lhes lembraria disso como garantia certa de imortalidade e de recompensa pelo trabalho no Senhor. Contudo, vemos em todo o capítulo que a ressurreição é o único fundamento e penhor da esperança do crente a fim de atingir uma vida eterna e imortalidade na volta de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. XVII–A consolação do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses “Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras” (cf. 1ª Tessalonicenses 4:18) Paulo responde a várias perguntas dos tessalonicenses que foram feitas a ele sobre a vida pós-morte, e lhes dá uma palavra de conforto, a qual ele diz para consolar-vos uns aos outros com essas palavras. Mas qual foi essa consolação? A consolação de que os que morreram já estão todos no Céu e desfrutando da glória ou a esperança de que um dia todos os mortos iriam ressuscitar? O contexto todo aponta para a segunda alternativa:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 246 “Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará, em sua companhia, os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto: nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que dormem” (cf. 1ª Tessalonicenses 4:13-15) O contexto é totalmente voltado para a esperança da ressurreição dentre os mortos. A pergunta que incomoda os imortalistas é: por que razão Paulo não consolou os tessalonicenses dizendo que os mortos já estavam no Céu, mas em momento nenhum disse isso e trouxe como única esperança de consolo a ressurreição dentre os mortos? Por que razão Paulo iria ocultar uma verdade tão fundamental e importante que é tão insistentemente ensinada pelos imortalistas quando eles falam "com respeito aos que dormem"? Por que quando um imortalista fala sobre os que já morreram nunca hesita em mencionar que os tais já estão salvos no Céu, mas Paulo, ao contrário, omite isso e cita apenas a ressurreição como fonte de consolo? Se os mortos já estão com Cristo, o que custava ele ter consolado os tessalonicenses com essa palavra, e não frisar apenas na ressurreição? Por acaso um imortalista comum costuma consolar alguém que tem um ente querido morto destacando apenas e tão somente a ressurreição, sem fazer qualquer alusão de que tal pessoa já esteja no Céu? Como bem destacou o Dr. Samuelle Bacchiocchi: “Se Paulo realmente cresse que ‘os mortos em Cristo’ não estavam de fato mortos nas sepulturas, mas vivos no céu como almas desincorporadas, teria se aproveitado de sua bendita condição no céu para explicar aos tessalonicenses que a lamentação deles era sem sentido. Por que lamentar por seus amados, se estavam já desfrutando as bênçãos celestiais? A razão de Paulo não lhes dar tal encorajamento é, obviamente, o fato de que sabia que os santos adormecidos não estavam no céu, mas em suas sepulturas”133 Paulo foca-se inteiramente na esperança da ressurreição ao consolar os tessalonicenses sobre os seus parentes já falecidos. Quanta diferença para os dias de hoje, em que a consolação é sempre voltada ao “fato” de que a pessoa supostamente “já está na glória”, e a ressurreição (que é tomada como sendo apenas a adição de um corpo) virou um simples e mero detalhe! Para Paulo, contudo, a única esperança para o cristão que hoje descansa é a ressurreição (cf. 1Ts.4:18). Dito em termos simples, Paulo consolou os tessalonicenses dizendo: "Não se entristeçam como os demais que não tem esperança, pois nós temos uma esperança: de que os mortos irão ressuscitar quando Jesus voltar"! Um imortalista, no lugar de Paulo, teria dito: "Não se entristeçam como os demais que não tem esperança, pois os que morreram já estão desfrutando das bênçãos paradisíacas do Céu". A diferença entre ambas é gritante, pois uma tem seu foco na ressurreição, enquanto outra sobrepõe a ressurreição com um ensino estranho às Escrituras, que deixa sem sentido a esperança de ressuscitar, já que os que morreram já estariam com Cristo. 133 BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007, p. 136.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 247 E assim estaremos com o Senhor – “Porque o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, à voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos seremos arrebatados juntamente com eles, nas nuvens, ao encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor” (cf. 1ª Tessalonicenses 4:16,17). Paulo deixa claro o modo pelo qual um crente pode "estar com o Senhor", expressando essa ideia ao longo de todo o contexto. Para os vivos, esse meio é o arrebatamento ou transladação dos crentes por ocasião da vinda de Cristo; para os mortos, esse meio é a ressurreição dos mortos. Paulo simplesmente não deixa qualquer outra alternativa aqui. Sobre este texto, Joe Crews fez essa importante observação: "Observe o significado da palavra 'ASSIM'. Significa 'desta forma', 'deste modo', 'por esse meio'. 'ASSIM', desta maneira, por este meio, 'nós estaremos com a Senhor'. Ao detalhar, sem qualquer limitação, a forma e os meios pelos quais nós vamos estar com o Se nhor, Paulo exclui todos os outros meios. Se existe outra maneira de conseguir estar com o Senhor, depois de vermos a clara linguagem de Paulo, é uma estupenda falsidade. Se nós vamos estar com o Senhor através do nosso espírito imortal quando morrermos, então não vamos estar com Ele por meio da vinda visível de Jesus, a ressurreição dos mortos, e a transformação para a vida. As palavras de Paulo, então não seriam verdade. Não existe uma forma possível de evitar tal conclusão, salvo afirmando que a descida do Senhor do céu, o poderoso brado, a trombeta, a ressurreição dos mortos e a transformação para a vida, todos ocorreriam quando a pessoa morre – uma posição demasiado absurda para ser considerada"134 Azenilto Brito complementa: "Observem novamente que, em 1 Tessalonicenses 4:16, 17, Paulo espera estar presente com o Senhor. Ele descreve a vinda gloriosa de Cristo, a ressurreição dos mortos e a trasladação dos santos vivos . Então diz que 'assim estaremos sempre com o Senhor'. Essa palavra 'assim' significa, portanto, desta forma, ou por esse meio. Ele está dizendo: Isto é como vamos chegar a estar com o Senhor. Se, portanto, é através da vinda de Cristo e da ressurreição que chegaremos a estar com o Senhor, então é óbvio que não vamos estar com o Senhor antes desse tempo"135 Desta forma, podemos ver que Paulo exclui a ideia de estar com o Senhor através de uma alma imortal que sobrevive à parte do corpo após a morte, pois coloca como únicos meios para se estar com Cristo a ressurreição (para os mortos) e o arrebatamento (para os vivos). Nada de uma outra opção alternativa para aqueles que já morreram! “Não sejamos ignorantes” – “Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança. Cremos que Jesus morreu e ressurgiu, assim também cremos que aos que 134 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em: <http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>. Acesso em: 19/08/2013. 135 BRITO, Azenilto Guimarães. O que é estar ausente do corpo. Disponível em: <http://www.c- 224.com/Ausente.html>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 248 dormem em Jesus, Deus os trará com Ele” (cf. 1Ts.4:13,14). Não podemos enfrentar a morte como aqueles que já perderam a esperança. Sabemos que os que já dormiram em Cristo serão ressuscitados para a vida eterna. Essa é a grande esperança pela qual vive o cristão (cf. 1Cor.15). Paulo inicia o verso 15 dizendo que não queria que os seus leitores fossem ignorantes sobre aqueles que dormem, ou seja, os mortos ("não quero que sejais ignorantes acerca dos que já dormem"), o que significa que ele não queria que os tessalonicenses não tivessem em conta o estado dos mortos, mas que eles tivessem conhecimento, para que não fossem ignorantes (i.e, não instruídos, sem conhecimento). Estranho o apóstolo não querer que eles ficassem sem conhecimento sobre os que dormem, e mesmo assim não dizer absolutamente nada sobre eles estarem no Céu! Desse modo, eles continuariam na ignorância sobre os que dormem! Se Paulo não queria que eles fossem ignorantes sobre os mortos ele certamente teria dito aquilo que é a base de toda a doutrina imortalista: que os que morreram já estão no Céu, assegurados entre os salvos. Isso sim, além de tirar os tessalonicenses da ignorância, ainda serviria como uma boa base de consolo a eles, que era o objetivo do apóstolo (cf. 1Ts.4:18). Contudo, nada é nos dito sobre eles já estarem salvos no Céu, mas tudo aquilo que eles precisavam saber sobre os que dormem a fim de serem consolados é que eles um dia irão ressuscitar, e que haverá o reencontro entre eles e nós nos ares. Uma concepção totalmente holista da natureza humana, onde somente nos reencontramos com nossos entes queridos na volta de Cristo, onde os mortos somente voltam à vida na ressurreição, e onde a única esperança e fonte de consolo é a expectativa pela da ressurreição da vida. Seria um absurdo que Paulo, que não queria que seus leitores fossem ignorantes acerca dos que dormem, não dissesse nada sobre eles já estarem no Paraíso, caso eles lá estivessem. Não ser “ignorante” significa exatamente a falta de conhecimento, sabedoria e instrução sobre determinado tema. Então, após insistir que os tessalonicenses não tivessem falta de conhecimento ou instrução sobre os seus parentes falecidos, ele esclarece a situação deles sem dizer nada que os mortos já estivessem no Céu. Ora, se os mortos já estivessem no Céu então Paulo teria deixado os tessalonicenses continuarem na ignorância, que era exatamente aquilo que Paulo estava lutando contra! Em termos simples, ele estaria dizendo para que “não fossem ignorantes” e depois tê-los deixado continuarem na ignorância! O mesmo apóstolo Paulo escreveu aos coríntios que “acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes” (cf. 1Co.12:1). A mesma coisa que Paulo disse aos tessalonicenses sobre os mortos ele disse aos coríntios sobre os dons espirituais: que não queria que eles ficassem na ignorância. Então, o que ele faz em seguida? Ele realmente não queria que eles tivessem falta de conhecimento a respeito de nada sobre os dons espirituais, e lhes fala tudo: fala sobre os dom de línguas (cf. 12:10), sobre o dom de sabedoria (cf. 12:8), sobre a palavra de conhecimento (cf. 12:8), sobre o dom de cura (cf. 12:9), sobre o dom da fé (cf. 12:9), sobre o dom de operação de milagres (cf. 12:10), sobre o dom de discernimento de espíritos (cf. 12:10), sobre o dom de variedades e de interpretação de línguas (cf. 12:10), sobre a diversidade de dons (cf. 12:4), sobre a diversidade de ministérios (cf. 12:5), sobre a diversidade de operações (cf. 12:6), sobre as
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 249 manifestações do Espírito (cf. 12:7), sobre que nem todos tem os determinados dons (cf. 12:28-30), fala mais um capítulo inteiro sobre o dom de línguas (cap.14), fala quais são os dons de edificação coletiva (da Igreja) e quais são os dons de edificação pessoal (cf. 14:4), sobre quais são os dons maiores e quais são os dons menores (cf. 12:1,39), fala que o espírito dos profetas está sujeito aos profetas (cf. 12:32); enfim, fala sobre TUDO! Paulo realmente não queria que eles continuassem na ignorância! Igualmente, ele fala que “não quero que sejais ignorantes acerca dos que dormem” (cf. 1Ts.4:13), ou seja, sobre aqueles que já morreram, mas não fala nada sobre eles já estarem no Céu, não fala nada sobre a imortalidade da alma, não fala nada sobre religação de corpo com alma na ressurreição, não fala nada sobre “almas” ou “espíritos” subsistindo à parte do corpo, não faz descrição nenhuma e nem qualquer menção do “estado intermediário”, e a sua única fonte de consolação a eles é voltada inteiramente e unicamente na ressurreição dos mortos, sem mencionar absolutamente nada daquilo que os imortalistas pregam! Parece até que ele queria que os tessalonicenses continuassem na ignorância! E o mesmo apóstolo ainda diz: “... para que não vos entristeçais como os demais, que não tem esperança” (v.13). Por que Paulo diz isso? Porque, para algumas pessoas, a morte era o fim total da vida e nunca mais eles voltariam a viver um dia. Essas pessoas não tinham mais esperança nenhuma. Inscrições em túmulos e referências na literatura demonstram que os pagãos daquela região encaravam com pavor a morte, considerando-a o fim de tudo, para sempre. Paulo, contudo, não queria que os tessalonicenses fossem como essas pessoas. Consolou-lhes dizendo que não deviam ser como tais que não tinham mais esperança nenhuma. Para o verdadeiro cristão, a morte não é o fim para sempre. A Bíblia nos traz a realidade da ressurreição no último dia, quando os mortos serão vivificados (cf. Jo.6:39,40; 5:28,29; 1Co.15:22,23). E é exatamente isso que Paulo escreve aos tessalonicenses: a morte não é o fim completo, existe ressurreição! Da mesma forma que Cristo ressurgiu, os mortos também ressurgirão um dia. Os outros não tinham mais esperança nenhuma por acreditarem que os mortos nunca mais viveriam, mas Paulo faz a ressalva de que ainda existe a esperança de alcançarem a ressurreição na vinda de Cristo. Os outros não tinham mais esperança, mas Paulo lhes trazia uma esperança: a esperança de ressurgir dentre os mortos no último dia. Paulo não queria que os tessalonicenses se entristecessem, não porque os que “dormem” já estivessem no Céu, mas porque existia a esperança da ressurreição na volta de Cristo. É evidente que ele realmente não os deixou na ignorância, assim como na carta aos Coríntios em que ele não queria que fossem ignorantes nos dons espirituais e não os deixa na ignorância disso, pelo contrário, passa a expor-lhes detalhadamente a questão. Da mesma forma, com os tessalonicenses ele disse absolutamente tudo aquilo que eles precisavam saber com respeito aos que já dormiram para que eles não continuassem na ignorância; ou seja, que eles iriam ressuscitar, passando a expor-lhes em detalhes como se dariam os eventos finais da ressurreição, pois isso é tudo o que é necessário para o cristão saber. O evangelho bíblico é algo realmente muito simples: você morre e só volta ao estado de vida na ressurreição, essa é a consolação do cristão, e tudo o que o crente precisa saber sobre os mortos é que eles voltarão à vida quando Cristo voltar e nos tomar com Ele.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 250 XVIII–“Buscando” aquilo que nós já temos? “E vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade” (cf. Romanos 2:7) A Vida Eterna e a Imortalidade – Ter uma vida eterna é exclusividade apenas daqueles que “perseveram em fazer o bem”, e a “imortalidade” não é algo que todos possuam dentro de si, visto que tem que ser buscada. Ora, quem já viu alguém buscar uma coisa que todo mundo já tem independente de ser bom ou mal, justo ou ímpio? Ninguém busca aquilo que já se possui. Buscamos aquilo que não temos, mas almejamos ter. Também não é todos os que conseguem alcançar, visto que se fosse assim não seria necessário “perseverar em fazer o bem”. De acordo com o apóstolo Paulo, então, podemos assegurar que: (1) A imortalidade não é uma possessão natural, visto que tem que ser buscada. (2) Nem todas as pessoas a alcançam, mas apenas aqueles que “perseveram em fazer o bem”. Essas duas conclusões concordam afirmativamente com tudo aquilo que já vimos até aqui. Se existisse uma ama imortal presa dentro do nosso corpo, mas liberta por ocasião da morte, então a imortalidade não teria que ser buscada. Visto que deve ser buscada, então nós não a temos. Ninguém diz: “vamos buscar a imortalidade” se todo mundo já tem uma alma imortal que garante imortalidade a todos. Se temos que buscar é porque não a possuímos agora, e porque nem todos a alcançam. No texto original grego, a palavra usada foi aphtharsia, que, de acordo com a Concordância de Strong, significa: 861 αφθαρσια aphtharsia de 862; TDNT - 9:93,1259; n f 1) incorrupção, perpetuidade, eternidade. Paulo empregou essa palavra porque ambos os sentidos fazem a lógica de pensamento dele. A vida eterna é dada a todos aqueles que buscam a “glória [...] honra [...] imortalidade [...] incorruptibilidade”. Se Paulo achasse que a imortalidade não tem que ser buscada assim como a glória, a honra e a incorruptibilidade, então de modo algum teria utilizado uma palavra que tem ambos os significados. O fato aqui é que o apóstolo considerava tanto a imortalidade como a incorruptibilidade como dons que devem ser buscados, de outra maneira não teria empregado a palavra aphtharsia. Empregando tal palavra, Paulo deixa claro que tanto a imortalidade como a incorruptibilidade tem que ser buscadas, porque a palavra aqui empregada significa ambas e Paulo não iria querer passar tão tremenda confusão aos seus leitores. Se somos imortais, por que devemos ainda buscar a imortalidade e a incorruptibilidade? Se devemos buscar, é porque não a temos. Não se procura por algo que já se possui, supostamente na forma de um elemento eterno que se carregaria no íntimo do ser. A imortalidade não é algo que já somos possuidores mediante uma alma imortal, mas algo que tem que ser buscado e que só a alcança aqueles que perseveram em fazer o bem. Obter futura imortalidade não é algo simplíssimo pela implantação de uma
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 251 alma imortal em nosso interior, mas sim um prêmio que implica em perseverança e busca, e que é alcançado por aqueles que fazem por merecer. Ademais, se temos que buscar a imortalidade, então é certo também que nem todos a alcançam (de outra forma não deveríamos buscá-la!). O próprio fato de a imortalidade ter de ser buscada prova que não é algo que todos conseguem obter; é como uma corrida, em que somente os melhores alcançam a coroa da vida e aquilo que Paulo chama de “imortalidade”. O contexto todo também faz desmoronar diante de nossos olhos qualquer teoria de que os ímpios também são imortais. Em primeiro lugar, porque a imortalidade é dada a todos aqueles que buscam alcançar a “glória... a honra... e a imortalidade”. É evidente que nem todos alcançam a glória e é evidente também que nem todos alcançam a honra – glória e honra apenas os justos alcançam. Visto que a imortalidade também é imediatamente ligada a elas, é uma presunção lógica que apenas os justos alcançam a imortalidade, que tem que ser buscada tanto quanto a glória e a honra! DEVE SER BUSCADA MOTIVO Glória (cf. Rm.2:7) Nem todos a alcançam Honra (cf. Rm.2:7) Nem todos a alcançam Imortalidade (cf. Rm.2:7) Nem todos a alcançam Se existisse em nós algum elemento eterno, imortal, imaterial, supostamente implantado em nós desde o nascimento, então todos “alcançariam” a imortalidade, até porque todos já possuiriam a imortalidade. Dizer que a glória e honra só são alcançadas por alguns mas a imortalidade todos possuem é negar a clareza textual bem como o próprio contexto em pauta. Em segundo lugar, a imortalidade é dada àqueles que “perseveram em fazer o bem” (v.7), ou seja, se você não persevera em fazer o bem você não alcança a imortalidade! Tendo em vista tudo isso, fica muito claro que a imortalidade não é uma possessão natural que todos possuem mediante a posse de uma alma imortal, mas é um dom de Deus que Ele concede pela Sua Graça a todos aqueles que a buscam, e que a desfrutarão por ocasião da ressurreição da vida. Outra passagem em que Paulo reafirma a sua crença de que a imortalidade não é uma possessão natural do ser humano e é apenas para os justos, aqueles mesmos que “perseveram em fazer o bem”, se encontra em sua segunda epístola a Timóteo: “E que agora se manifestou pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual destruiu a morte, e trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho” (cf. 2ª Timóteo 1:10) A Nova Versão Internacional traduz por: “imortalidade por meio do evangelho”. A ARA traz “imortalidade mediante o evangelho”. Isso indica que a imortalidade não é algo que todas as pessoas têm ou possuam, mas algo que é alcançado somente mediante o evangelho. Isso explica o porquê que Paulo afirma categoricamente que só a obtêm aqueles que a “buscam”, e “perseveram em fazer o bem”! Se a imortalidade é por meio do evangelho então aqueles que desprezam o evangelho não alcançam a imortalidade. E se só a obtém os que a alcançam por meio do evangelho, então
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 252 não existe uma alma imortal implantada dentro de nós, pois se assim o fosse a imort alidade seria para todos, dentro ou fora do evangelho. Ademais, se Paulo cresse que a imortalidade é para todos, não diria que ela é mediante o evangelho, se até mesmo um ímpio ou pagão que nem conhece a Jesus ou o despreza a obtém através de uma alma imortal. A imortalidade, então, não seria "por meio do evangelho", mas seria por meio de uma alma imortal que qualquer ímpio possui. Por que razão Paulo faz questão de acentuar que a imortalidade é por meio do evangelho? Porque aqueles que não seguem o evangelho não alcançam a imortalidade, que é um dom concedido por Deus (cf. Rm.6:23), após a ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:51-54; Jo.5:28,29). Nisso fica mais do que evidente que não existe uma alma imortal implantada nos seres humanos. Mais algumas considerações importantes nos escritos de Paulo nos revela que a imortalidade (obter uma vida eterna) é um dom concedido por Deus: “Que fruto vocês colheram então das coisas as quais agora vocês se envergonham? O fim delas é a morte! Mas agora que vocês foram libertos do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna. Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (cf. Romanos 6:23) O salário (i.e, o fim) do pecado não é uma existência eterna, mas a morte. O pecado tem por finalidade a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, destinada apenas àqueles que creem. Definir “morte” com outro significado aqui além de “cessação de vida” é rejeitar o fato de que se trata dos destinos finais e está sendo usado em contraste com “vida”, sendo que Paulo apresenta a nós os dois caminhos finais: a morte ou a vida. O texto não diz que o ímpio viverá eternamente em tormento, aqui se contrastam a vida e a morte. Quanto ao destino final dos ímpios, este tema será mais abordado mais adiante. Por enquanto, o que eu quero colocar em evidência é o fato de que ter uma vida eterna é um dom, dom este concedido por Deus. Não é qualquer um que tem o dom de alcançar uma imortalidade. Stephen H. Travis definiu acertadamente o que é a imortalidade da seguinte maneira: “A imortalidade da alma é uma doutrina não-bíblica derivada da filosofia grega. No ensino bíblico o homem é ‘condicionalmente imortal’--isto é, ele tem a possibilidade de tornar-se imortal se receber a ressurreição e imortalidade como um dom de Deus. Isso deixaria implícito que Deus concede a imortalidade na ressurreição àqueles que O amam, mas os que a Ele resistem perdem a existência”136 Ter uma vida eterna (ou imortalidade) não é uma garantia por meio de uma alma eterna em nós implantada, mas sim uma esperança para aqueles que tem fé em Jesus, uma promessa futurística, e não algo já presente na forma de um elemento imortal presente no nosso ser: “Fé e conhecimento que se fundamentam na esperança da vida eterna, a qual o Deus que não mente prometeu antes dos tempos eternos” (cf. Tt.1:2). O que nos garante ter no futuro uma vida eterna não é uma alma que já esteja implantada em nós, mas a nossa fé e esperança em confiar que Deus é fiel para cumprir a sua promessa “que Ele o fez a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos seus 136 TRAVIS, Stephen H. Eu Creio na Segunda Vinda de Jesus. Grand Rapids, 1982, p. 198.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 253 herdeiros, tendo a esperança da vida eterna” (cf. Tt.3:7). Se já possuíssemos uma alma eterna que não perece na morte, então a imortalidade não seria uma “esperança”, mas algo já certo e concretizado na forma deste elemento eterno, imortal, que seria a alma. Contudo, vemos que a vida eterna é uma esperança porque não temos em nós mesmos algo que nos garanta tal imortalidade, mas cremos (pela fé) que o mesmo Deus que ressuscitou ao Senhor Jesus nos ressuscitará também, e essa é a esperança do verdadeiro cristão. A imortalidade não é uma possessão natural do ser humano decaído, pois o pecado atingiu tanto o corpo como a alma; a morte entrou no mundo não apenas para o corpo, mas para o ser integral que foi desobediente e rebelde a Deus. O mesmo apóstolo Paulo escreve para que “purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (cf. 2Co.7:1), porque o espírito não está isento da contaminação do pecado que atingiu o corpo. Mas os justos, que são lavados e purificados no sangue do Cordeiro, tem a esperança de herdarem, por meio do evangelho, a imortalidade. Atualmente, falar em “imortalidade” já transformou-se em algo tão comum, banal e ordinário que poucas pessoas sabem realmente que a natureza humana, como um todo, é mortal, mas Deus, em Sua infinita misericórdia, concede uma vida eterna àqueles que lhes buscam. Essa é a verdade do evangelho puro e sincero. É por isso que um homem perguntou ao Filho do homem: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (cf. Lc.18:18). A vida eterna é um dom de Deus, e não uma realidade já presente em qualquer um na forma da alma. Deus não distribui dons assim para qualquer um, e não é sádico para fazer com que algumas pessoas tenham que buscar a imortalidade se todos já a possuem de qualquer maneira. XIX–Deus, o único que possui a imortalidade Deus, o único que possui a imortalidade – “Aquele que possui, ele só, a imortalidade, e habita em luz inacessível; a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver; ao qual seja honra e poder para sempre. Amém” (cf. 1Tm.6:16). Essa declaração conclusiva que faz o apóstolo Paulo confirme tudo aquilo que já vimos até aqui: Deus é o único que possui a imortalidade. Ponderamos: se todos nós tivéssemos presos dentro de nós uma “alma imortal”, Paulo iria dizer que apenas Deus que possui tal imortalidade? Absolutamente não. Nisso fica claro que nós, seres humanos, não possuímos a imortalidade, supostamente na forma de um elemento imortal implantado em nosso ser. Deus é o único. Ele só possui a imortalidade. Se nós possuíssemos uma alma imortal, nós não morreríamos nunca, viveríamos eternamente e inerentemente, através dessa alma. Aliás, essa é a base da doutrina imortalista, refutada pelo apóstolo Paulo. Tal passagem é tão irrefutável que os apologistas Norman Geisler e Thomas Howe (ambos defensores da imortalidade da alma) tentaram oferecer a melhor explicação a ela dentro do prisma imortalista, mas que, como veremos, só complica ainda mais a situação deles. Eles argumentaram da seguinte maneira: ”Deus é o único que possui a imortalidade intrinsecamente, em virtude de sua própria natureza. Todos os crentes a recebem como uma dádiva de Deus, mas ela não é inerente à
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 254 natureza humana, como criaturas que são. Coloquemos isso de outro modo: somente Deus é imortal - os seres humanos simplesmente possuem imortalidade”137 A explicação deles, muito repetida no meio imortalista, acaba falhando exatamente no ponto em que ela mais tenta se sustentar: de que nós não somos imortais, mas apenas possuímos a imortalidade (por causa da alma imortal que em nós reside). O texto original do grego, contudo, deita por terra essa tentativa de refutação, visto que Paulo fez questão de usar o termo grego para possessão-echôn nessa passagem, como podemos constatar: “o monos echôn athanasian phôs oikôn aprositon on eiden oudeis anthrôpôn oude idein dunatai ô timê kai kratos aiônion amên” (cf. 1ª Timóteo 6:16) De acordo com o léxico da Concordância de Strong, echôn significa: 2192 εχω echo verbo primário; TDNT - 2:816,286; v 1) ter, i.e. segurar. 1a) ter (segurar) na mão, no sentido de utilizar; ter (controlar) possessão da mente (refere-se a alarme, agitação, emoção, etc.); segurar com firmeza; ter ou incluir ou envolver; considerar ou manter como. 2) ter, i.e., possuir. Como vemos, tal verbo denota possessão, como quando alguém "segura" algo, quando têm em seu controle, ou possui em sua natureza. É esse o verbo que sempre aparece quando o assunto é ter ou possuir algo. Em Mateus 11:15, é nos dito que "quem tem [echôn] ouvidos para ouvir, ouça". O jovem rico "retirou-se triste, porque possuía [echôn] muitas propriedades" (cf. Mt.19:22). Os saduceus perguntaram a Cristo se alguém, "não tendo [echôn] filhos, casará o seu irmão com a mulher dele" (cf. Mt.22:24). Os judeus, ao ouvirem Jesus pregando, "maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como tendo [echôn] autoridade" (cf. Mc.1:22). Na sinagoga "estava ali um homem que tinha [echôn] uma das mãos atrofiada" (cf. Mc.3:1). Paulo disse que "é preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher, e tenha [echôn] filhos crentes..." (cf. Tt.1:6). Como podemos ver ao longo de todo o Novo Testamento, o verbo echôn nunca está relacionado a "ser", mas a "possuir". Paulo sabia muito bem disso, e por essa mesma razão não disse apenas que Deus "é o único imortal", mas que é o único que "possui [echôn] a imortalidade". Desta forma, embora seja louvável a tentativa de refutação pelos imortalistas, ela não é sincera quando analisamos o original grego138. Ele nos mostra que Deus não apenas é o único que é imortal, mas também que é o único a possuir a imortalidade, refutando a objeção de Geisler e Howe. 137 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999. 138 Além do original grego, muitas versões vernáculas também traduzem corretamente esse verso por "ter" ou "possuir", tais como a Almeida Revisada e Atualizada, a Almeida Corrigida e Revisada Fiel, a Almeida Revisada Imprensa Bíblica, a Sociedade Bíblica Britânica, e até mesmo as versões católicas, como a versão Ave Maria ou da CNBB, mostrando que os tradutores bíblicos sabiam do significado do echôn e deitando por terra a tese imortalista de que Deus é o único que é imortal, mas que nós também possuímos a imortalidade, por meio da alma imortal implantada em nosso ser.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 255 Tais apologistas, defensores da tese da alma imortal, sabiam muito bem que, se Deus é o único a possuir a imortalidade, então nós não possuímos uma alma imortal, e por essa razão tentaram objetar com tal distinção entre "ser" e "possuir", ainda que no grego esteja "possuir" e não "ser"! O texto em pauta fala acerca de possessão, de posse presente. Paulo afirma que Deus é o único a possuir a imortalidade. Nós, seres humanos, não possuímos a imortalidade, mas almejamos obtê-la, é por isso ela tem que ser buscada (cf. Rm.2:7). Deus é o único que tem a imortalidade como possessão presente (cf. 1Tm.6:16), ao passo que os justos terão a sua natureza mortal transformada um uma natureza imortal por ocasião da ressurreição (cf. 1Co.15:53,54). Nós não somos um corpo mortal que possui um elemento imortal, porque o único a possuir tal imortalidade é o Deus Todo-Poderoso (cf. 1Tm.6:16). E isso obviamente exclui todo o dualismo grego entre corpo e alma. Outros imortalistas, na tentativa de oferecerem alguma outra interpretação que lhes pareça mais plausível que a anterior, que é facilmente refutada, argumentam que Deus é o único que é a fonte da imortalidade, ao passo que os seres humanos apenas obtém imortalidade derivada de Deus. Isso, contudo, novamente fere o texto bíblico, que em momento nenhum fala sobre fonte de imortalidade, mas sobre possessão de imortalidade. Paulo não disse que "Deus é o único que é a fonte da imortalidade", mas sim que Ele é "o único que possui a imortalidade". É praxe dos imortalistas terem que distorcer ou até mesmo manipular um texto bíblico, reinterpretando-o ao ponto de reescrevê-lo, para poderem encaixar as suas teses na Bíblia. A razão para isso é simples: porque aquilo que o texto diz de verdade simplesmente não os agrada. Precisam mudar o texto bíblico, alterar a Palavra de Deus. Onde diz "o único que possui a imortalidade", mudam para "o único que é a fonte da imortalidade". O texto, porém, nada discorre sobre "ser uma fonte de imortalidade", passando a ideia de que outros seres também a possuem; ao contrário, rejeita a tese de que outros seres a possam possuir por possessão natural. Além disso, uma objeção semelhante é feita por imortalistas que, em lugar de "imortalidade", mudam para "eternidade", como fez o Pr. Airton Evangelista da Costa: "A imortalidade de que trata 1 Timóteo 6.16, refere-se a um atributo intrínseco da Divindade; uma imortalidade que pode ser traduzida por eternidade, isto é, Deus não teve começo nem terá fim"139 Qual a necessidade de se alterar o que o texto bíblic o diz, de "imortalidade" para "eternidade"? É evidente que os próprios imortalistas reconhecem as dificuldades de se encarar um texto bíblico de acordo com aquilo que o texto diz categoricamente, daí a necessidade de se trocar palavras, como se o próprio Paulo tivesse escolhido as palavras erradas, obrigando os imortalistas de séculos posteriores a corrigirem Paulo e, em lugar de "imortalidade", traduzirem por "eternidade", que seria uma escolha mais correta, na opinião deles. 139 COSTA, Airton Evangelista. Reflexões sobre a imortalidade da alma. Disponível em: <http://solascriptura-tt.org/AntropologiaEHamartologia/ReflexoesImortalidadeAlma-AECosta.htm>. Acesso em: 15/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 256 Contudo, se o próprio Paulo quisesse apenas dizer que Deus é o único que "possui a eternidade" (o que em si mesmo não teria sentido, visto que Deus não "possui" a eternidade, mas "é" eterno, tornando inócuo e sem sentido o emprego do echôn, como vimos anteriormente) ele teria pronto, a mão, e perfeitamente disponível a palavra aionios, que é a palavra sempre utilizada quando se refere à eternidade, ou a algo que é eterno. Por exemplo, Deus fará conhecido o "eterno [aionios] propósito que fez em Cristo Jesus" (cf. Ef.3:11), nos fará entrar no "reino eterno [aionios] de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (cf. 2Pe.1:11), o evangelho é chamado de "evangelho eterno [aionios]" (cf. Ap.14:6), o Espírito Santo é chamado de "Espírito eterno [aionios]" (cf. Hb.9:14), e quando o próprio Paulo quis dizer que Deus é eterno ele empregou aionios: "Mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé" (cf. Romanos 16:26) No grego: "phanerôthentos de nun dia te graphôn prophêtikôn kat epitagên tou aiôniou theou eis upakoên pisteôs eis panta ta ethnê gnôristhentos" Portanto, quando Paulo queria passar a ideia de que Deus era eterno, ele nunca hesitava em usar outra palavra senão a própria em questão que significa eterno, que é aionios. Se ele decidiu mudar em 1ª Timóteo 6:16 e empregar a palavra para imortalidade, que é athanasia, é porque ele não queria dizer "eterno", mas "imortal"! Paulo não se enganou na palavra escolhida e nem disse uma coisa "querendo dizer outra", como a alegação imortalista que mais parece querer concertar um erro do apóstolo Paulo no desespero em oferecer alguma interpretação para a palavra "imortalidade" que não seja "imortalidade"! Pois imortal não é aquilo que é eterno, isto é, que não tem começo e nem fim. Só Deus é eterno, isso ninguém contesta. Mas imortal (athanasia), diferenciando-se de eterno (aionios), diz respeito simplesmente a algo que não pode morrer. Nem os seres humanos nem os anjos possuem a imortalidade em seu ser, que seria algo que lhes impedisse de morrer e que lhes garantiria uma existência eterna. Se os anjos possuíssem a imortalidade, os que caíram não estariam fadados à morte no lago de fogo, como veremos mais adiante no capítulo sobre o inferno. Os anjos bons, por sua vez, tem sua imortalidade condicionada à sua obediência a Deus, assim como os humanos, que não possuem nenhum elemento imortal que lhes garanta uma existência sem fim, mas que podem viver eternamente se forem fieis a Cristo e obedientes a Deus, herdando uma vida eterna na ressurreição. Desta forma, podemos ver que todos os argumentos imortalistas que tentam contradizer aquilo que o texto bíblico diz claramente falham miseravelmente quando postos à prova pela própria Bíblia, pois não parecem interessados em fazer exegese, mas meramente em demonstrar indignação com o que realmente está escrito, tentando reescrever a Bíblia ou nos tentar convencer que Paulo disse uma coisa mas queria dizer outra, ou que usou uma palavra quando o correto mesmo era outra que estava perfeitamente disponível, mas não foi usada por ele. Isso não é interpretar um texto, mas forçá-lo de tal forma que o contraste entre ele e a imortalidade da alma se torne mais sutil. XX–Levou cativo o cativeiro
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 257 Paulo pregou a entrada no Céu por ocasião da ressurreição de Cristo? – Outro conceito que tem sido sistematicamente deturpado dentro da teologia imortalista é a tese não-bíblica mas amplamente divulgada entre os dualistas, que consiste no ensino de que, por ocasião da ressurreição de Cristo, os mortos justos que esperavam conscientemente no Sheol (que, como vimos, não é uma morada de espíritos desencarnados, mas puramente sepultura), partiram dali para o Paraíso, onde estão até hoje. Para isso, eles se apoiam em um único versículo bíblico, que é analisado de forma isolada e tão mal interpretado por alguns a tal ponto que foi necessário que os próprios imortalistas revissem essa tese e a refutassem em seus livros. O verso em questão trata-se de Efésios 4:8-9, onde Paulo diz: “Por isso, diz: Quando ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens. Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra?” (cf. Efésios 4:8,9) E pronto! Os imortalistas, de alguma forma, acharam neste versículo o subsídio necessário para a crença corrente por muitos neste meio, de que, por ocasião da ressurreição de Cristo, todos os mortos que estavam no Hades foram transferidos para o Paraíso. Segundo eles, Cristo desceu – pasme - até o inferno (v.9), entendem eles “inferno” por “regiões inferiores da terra”. Não é preciso dizer nada, pois o texto fala por mim: não há absolutamente nada disso no texto! Se realmente houvesse havido esta transferência de lugar dos mortos, Paulo iria acentuar isso em qualquer uma de suas epístolas ou então o próprio Jesus iria pregar tal coisa. Este “ensinamento” seria amplamente encontrado nas Escrituras. Mas isso não aparece em lugar nenhum, senão na teologia de alguns que distorcem completamente essa passagem como forma isolada de conciliar os meios “literais” da parábola do Lázaro com a consciência pós-morte no Céu. Interpretar que “levar cativo o cativeiro” significa exatamente transportar espíritos desencarnados justos do Hades para o Céu é forçar a passagem completamente – o texto não diz isso e poderíamos forçá-la do jeito que quisermos para fundamentar qualquer doutrina! Se essa transferência realmente tivesse ocorrido, então certamente isso estaria sendo mencionado de maneira clara nas Escrituras. Mas isso não ocorre em parte nenhuma. Vejamos, por exemplo, no comentário do mesmo apologista imortalista anteriormente citado, o que ele tem a nos dizer sobre Efésios 4:8-9: “Finalmente, quando Cristo ‘levou cativo o cativeiro’, não estava levando amigos para o céu. É uma referência à sua vitória sobre as forças do inimigo. Os cristãos não são ‘cativos’ no céu. Não somos forçados a ir para lá contra a nossa própria e livre esc olha (veja Mt 23:37; 2 Pe 3:9)"140 Sobre o “descer às regiões inferiores da terra”, ele comenta: “A expressão ‘até as regiões inferiores da terra’ não é uma referência ao inferno, mas ao túmulo. Até mesmo o ventre de uma mulher é descrito como sendo ‘profundezas da terra’ 140 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 258 (Sl 139:15). Essa expressão significa simplesmente covas, túmulos, lugares fechados na terra, em oposição a partes altas, como montanhas"141 O comentário dos tradutores na nota de rodapé da Nova Versão Internacional, que por sinal também adota a crença na imortalidade da alma, também faz questão de refutar esse mito no que diz respeito a Efésios 4:9: "Embora Paulo cite o salmo para introduzir a ideia de 'dons aos homens', aproveita a oportunidade para relembrar ao leitor a vinda de Cristo à terra (sua encarnação) e a subsequente ressurreição e ascenção. É provável que o texto não signifique (como pensam alguns e como querem algumas traduções) que Cristo desceu ao inferno"142 Até mesmo o pastor norte-americano John Piper se posicionou contra a tese de que Jesus tenha descido ao inferno entre a sua morte e ressurreição, e disse: "Em Efésios 4:9, é dito que Cristo desceu às partes mais baixas da terra. Isso provavelmente significa que ele desceu à terra, que é as partes mais baixas. O “da” ali não significa que ele estava afundando na terra. Assim, não penso que o texto garanta a interpretação que ele desceu ao inferno (...) Minha conclusão é que não existe nenhuma base textual para crer que Cristo desceu ao inferno"143 Vemos, portanto, que são os próprios imortalistas que refutam esse mito amplamente crido por muitos deles, de que "levar cativo o cativeiro" significa ter tirado pessoas do Hades e as transferido para o Paraíso. Levar cativo o cativeiro é uma linguagem que expressa a vitória de Cristo sobre as trevas e sobre os inimigos espirituais de Cristo. Não significa que ele desceu até o inferno e nem que ele tenha levado amigos cativos para o Céu. Se assim fosse, os próprios imortalistas teriam que rever sua própria teologia, pois ensinam que o Sheol (Hades) era um local de paz para os justos, e não um "cativeiro". Além disso, teriam que rever seus conceitos sobre alma e espírito, uma vez que se baseiam em um texto de Eclesiastes que fala da retirada do espírito na morte para Deus (cf. Ec.12:7), e não para o Sheol. Se tal interpretação fosse correta e o espírito fosse mesmo uma "alma imortal", o espírito deveria descer ao Hades e só subir ao Paraíso após a ressurreição de Cristo. É evidente que os imortalistas não conseguem conciliar suas teses com elas mesmas, pois todas são contraditórias umas às outras. Mas ainda há um texto bíblico por eles utilizado, e este é ainda mais completamente descontextualizado: “’E também: Nele porei a minha confiança’. Novamente ele diz: ‘Aqui estou eu com os filhos que Deus me deu’” (cf. Hb.2:13). Para eles, estes “filhos que Deus me deu” significa exatamente os espíritos desencarnados que Cristo transportou para o Céu na sua morte. Tal interpretação, contudo, é claramente negada pelo verso seguinte que especifica tudo: “Portanto, visto que os filhos são pessoas de carne e sangue, ele também participou dessa condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o diabo” (v.14). 141 ibid. 142 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em Efésios 4:9, p. 2023. 143 PIPER, John Stephen. Cristo desceu ao inferno? Disponível em: <http://www.revistacrista.org/Morte%20e%20Eternidade_Cristo%20Desceu%20ao%20Inferno.htm#.UhJ9 LZIqaO1>. Acesso em: 16/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 259 Aqui vemos que os “filhos” do verso 13 não são espíritos sem corpo levados para o Céu a fim de serem apresentados para Deus, mas sim pessoas "de carne e de sangue" (v.14), e o texto diz respeito à encarnação de Cristo, quando Jesus “participou desta condição humana” (v.14), e esteve com pessoas “de carne e sangue”. Aqui temos mais um exemplo de como é fácil tirar um texto de seu contexto para fundamentar mitos, que sempre tem o poder de enganar aqueles que não buscam se aprofundar no contexto e procurar a verdade. Por tudo isso, vemos que não existe base bíblica nenhuma para a teoria amplamente mirabolante divulgada entre os imortalistas, de que, por ocasião da morte e ressurreição de Cristo, ele desceu até ao inferno e transportou os justos direto do Hades para o Céu. O que a Bíblia realmente ensina, como vimos, é exatamente o contrário de tal ensino. Os justos não estão no Céu ainda, mas entrarão por ocasião da segunda vinda de Cristo, momento em que os vivos justos serão arrebatados a fim de entrarem no Paraíso ao mesmo passo dos justos que já morreram. Qualquer doutrina que vai além disso é não-bíblica, e as próprias Escrituras advertem a "não se deixar levar pelos diversos ensinos estranhos" (cf. Hb.13:9). Todo joelho se dobrará nos infernus? – Outra passagem usada a fim de pregar que os ímpios já estão atualmente queimando no inferno se encontra em Filipenses 2:10, que assim reza: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra”. Algumas versões católicas trazem a palavra “infernus” nesta passagem144, passando novamente aquela ideia de que Jesus desceu literalmente até o "inferno" (na concepção popular do termo). Contudo, essa não passa de mais uma adulteração do texto bíblico original. O texto original grego verte: “epigeiôn kai katachthoniôn” – debaixo da terra. A palavra “infernus” simplesmente não existe nos manuscritos originais, mas é de origem latina. A tradução correta por “debaixo da terra” é aplicada em praticamente todas as outras traduções, principalmente as mais respeitadas. O original não a traduz por “inferno” e, como vimos, até mesmo o ventre de uma mulher é descrito como sendo "profundezas da terra" (cf. Sl.139:15), o que não significa que o ventre de uma mulher seja o inferno! Como constatamos anteriormente, essa expressão significa simplesmente covas, túmulos, lugares fechados na terra, em oposição a partes altas, como montanhas. A expressão “que todo joelho se dobre no Céu, na terra e debaixo da terra” não prega de jeito nenhum que dentro do nosso planeta existam pessoas queimando no inferno dobrando os seus joelhos. A própria NVI mais uma vez faz questão de corrigir mais este engano popular em sua nota de rodapé, no comentário sobre Apocalipse 5:3: “céu [...] terra [...] debaixo da terra. Expressão convencional usada para expressar a universalidade da proclamação. Não pretendia ensinar uma divisão tríplice do universo” Tão é verdade isso que neste texto de Apocalipse 5:13 lemos: “Depois ouvi todas as criaturas existentes no céu, na terra , debaixo da terra, e no mar, e tudo o que neles há, diziam: Àquele que está assentado no trono e ao Cordeiro sejam o louvor, a honra, a glória e o poder, para todo o sempre” (cf. Ap.5:13). Analisando literalmente, devemos supor 144 Tal como faz a versão Ave Maria, conquanto que outras versões católicas corrijam esse erro e traduzam corretamente o texto por "debaixo da terra", como faz a CNBB.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 260 então que os animais marinhos (ou talvez os mergulhadores) declaravam isso no fundo do mar? Evidente que não, era apenas uma expressão convencional usada para expressar a universalidade da proclamação. A Bíblia, do início ao fim, nega que os ímpios já estejam queimando agora. Ela ensina que “o Senhor sabe entregar o devoto fora das tentações, e reservar os injustos para o dia do juízo para ser punido” (cf. 2Pe.2:9). Se eles estão sendo mantidos “reservados” para o dia em que serão punidos, é porque eles não estão sendo punidos ainda (no presente momento). Pois, como vimos, os ímpios só serão queimados no fogo na consumação deste mundo: “Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo” (cf. Mt.13:40). XXI–A Bíblia e as Experiências Fora do Corpo Experiências fora do corpo – Alguns imortalistas citam a experiência de Paulo revelada aos coríntios para tentarem provar de alguma maneira que existe uma alma imortal presa dentro do nosso corpo. Veremos tal citação: “É necessário que eu continue a gloriar-me com isso. Ainda que eu não ganhe nada com isso, passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu. Se foi no corpo ou fora do corpo, não sei; Deus o sabe” (cf. 2Co.12:1,2). Para eles, a alma de Paulo se desligou temporariamente do corpo rumando ao Céu a fim de ter as revelações. Tal interpretação, contudo, carece de respaldo teológico sério. Em primeiro lugar, porque a experiência que Paulo teve se deu enquanto este estava em vida, e não depois de morto. A doutrina da mortalidade da alma prega que não existe vida entre a morte e a ressurreição, sendo, portanto, a morte a cessação total de existência consciente. Como a experiência de Paulo se deu enquanto este ainda estava com vida, segue -se que não contraria os princípios teológicos da doutrina mortalista. Em segundo lugar, não é nos dito que Paulo foi na forma de uma “alma imortal” para o Paraíso. Ele afirma que foi “no corpo ou fora dele”; e não “no corpo ou na alma”. Em toda a citação deste acontecimento não há qualquer citação de alma-psiquê ou de espírito- pneuma, mas apenas de corpo-soma. Paulo não queria confundir os seus leitores e, por isso, nem sequer faz qualquer menção de “alma” ou “espírito” em tal experiência. Estar fora do corpo não significa, na visão holista paulina, estar na forma de um espírito descorpóreo (se fosse assim então ele faria menção da possibilidade de partida da alma na experiência, o que não é nos dito). Significa apenas que ele poderia estar fisicamente no Paraíso (“no corpo”), ou tendo um quadro mental do Paraíso (“fora” do corpo). Isso explica o porquê de Paulo falar claramente em “visões e revelações” no verso 1, porque ele sabia da possibilidade daquilo ter se tratado apenas de uma visão, o que não é algo real em si mesmo (cf. At.12:9). Neste caso, não seria o seu próprio corpo que lá estaria, pois ele [Paulo] estaria na terra e tendo uma visão [arrebatamento de sentidos] do Paraíso. O apóstolo Pedro nos afirma que uma visão não é necessariamente algo que esteja acontecendo de fato no devido momento como um acontecimento físico: “Pedro, saindo, seguia-o, e não sabia que era real o que se fazia por meio do anjo, mas julgava que era uma visão” (cf. At.12:9).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 261 Vemos, portanto, que a dúvida de Paulo não se baseava na suposição de estar no Céu como alma ou como corpo, mas sim de estar literalmente no Céu (corporavelmente) ou de estar tendo uma visão como se lá estivesse (v.1), o que seria considerado “fora do corpo”, porque o corpo estaria na terra enquanto passava-se a visão e as revelações, e não porque a alma teria partido. Concorda também com isso todo o ensinamento bíblico acerca de arrebatamentos, pois a Bíblia nunca nos mostra qualquer caso de qualquer profeta do AT ou de qualquer pessoa que tenha visto a partida da alma para ter a experiência. Essa nunca é a linguagem bíblica empregada por eles, porque eles não acreditavam na visão dualista da natureza humana. Por isso, em absolutamente nunca a alma-psyque/nephesh é referida em qualquer experiência de qualquer pessoa, mas tão somente fazem eles questão de mencionar uma visão (revelação), em um arrebatamento de sentidos em que eles se viam em determinado lugar. Vemos, por exemplo, a narração da experiência de Ezequiel: “Enquanto ele falava, o Espírito entrou em mim e me pôs de pé, e ouvi aquele que me falava” (cf. Ez.2:2). Não é nos dito que foi o espírito do próprio profeta que deixou o corpo na experiência, mas sim o Espírito de Deus que temporariamente entrou nele a fim de lhe capacitar a receber de Deus aquilo que Ele lhe havia dado. A mesma linguagem é expressa várias vezes pelo profeta: “No quinto dia do sexto mês do sexto ano do exílio, eu e as autoridades de Judá estávamos sentados em minha casa quando a mão do Soberano Senhor veio ali sobre mim” (cf. Ezequias 8:1) “Então o Espírito me ergueu e me levou para a porta do templo do Senhor, que dá para o oriente. Ali, à entrada da porta, havia vinte e cinco homens, e vi entre eles Jazanias, filho de Azur, e Pelatias, filho de Benaia, líderes do povo” (cf. Ezequias 11:1) “Então o Espírito de Deus ergueu-me e levou-me aos que estavam exilados na Babilônia, na visão dada pelo Espírito de Deus” (cf. Ezequias 11:24) Veja que não é o espírito do profeta que deixa o corpo, mas sim o Espírito de Deus que espiritualmente lhe erga a fim de ele ter uma visão de determinado local. É exatamente isso também o que aconteceu com João no Apocalipse: “Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém” (cf. Ap.4:2), e é essa também a ideia expressa pelo apóstolo Paulo em 1Cor.12:1,2. Sumariando, quando Paulo menciona que foi “arrebatado” nesta experiência, ele está falando de visões proféticas, como diz de modo claro o verso 1. Os profetas tinham a sensação de estarem em outros lugares quando estavam tendo as visões (cf. Ez.11:24; Ap.1:10); mas essa de Paulo, em especial, ele não sabia se estava de fato naquele lugar (se fosse assim necessariamente estaria no corpo), ou se estava lá em uma visão, tendo um arrebatamento de sentidos em que se viu no Paraíso. Algo semelhante aconteceu com Pedro: “Estando eu orando na cidade de Jope, tive, num arrebatamento dos sentidos, uma visão; via um vaso, como um grande lençol que descia do céu e vinha até junto de mim” (cf. Atos 11:5)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 262 O que acontece é um arrebatamento de sentidos – que é considerado como sendo uma “visão” – e não uma “alma imortal” deixando temporariamente o corpo ou um "espírito" se desligando da prisão do corpo e habitando em outro lugar, ao maior estilo kardecista de ensino. Tal linguagem é extremamente estranha à luz da Bíblia, simplesmente porque o dualismo grego não se encaixa nas Escrituras. Todos os apóstolos e profetas sabiam muito bem que o que lhes sucedia não era um espírito deixando o corpo e muito menos uma alma imortal que se desligava da matéria, mas sim um arrebatamento de sentidos em que se viam em determinado lugar. A razão pela qual eles jamais afirmaram que as suas “almas” deixaram o corpo provém do fato evidente de que eles não acreditavam no dualismo entre corpo e alma pregado entre os gregos. XXII–A Entrada no Reino é somente na Ressurreição Paulo e Onesíforo – O companheiro de Paulo, Onesíforo, morre, e Paulo fala a respeito dele em sua segunda epístola a Timóteo: “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes ele me reanimou e não se envergonhou por eu estar preso; ao contrário, quando chegou a Roma, procurou-me diligentemente até me encontrar. Conceda-lhe o Senhor que, naquele dia, encontre misericórdia da parte do Senhor! Você sabe muito bem quantos serviços ele me prestou em Éfeso” (cf. 2ª Tm.1:16-18). Este desejo de Paulo reforça ainda mais aquilo que já vimos até aqui: os mortos permanecem sem vida até a ressurreição dos mortos, quando serão despertados, sendo julgados para entrarem no Céu ou no inferno. Sabendo que Onesíforo, já morto, se encontrava nesse estado, Paulo deseja que ele encontre misericórdia da parte do Senhor “naquele dia” , indicado como um acontecimento futuro, o dia do juízo na segunda vinda de Cristo. Para os imortalistas isso não faz qualquer sentido já que Onesíforo já teria encontrado a misericórdia da parte de Deus, pois já teria supostamente entrado no Paraíso com todos os outros santos. A misericórdia a Onesíforo já seria encontrada, ele já estaria no Céu e já teria sido julgado (cf. Hb.9:27), já estaria desfrutando das bênçãos paradisíacas. Contudo, Paulo nada diz de Onesíforo já ter partido para a glória celestial, e ainda consola a família baseando-se na esperança de alcançar a misericórdia da parte do Senhor “naquele dia”, obviamente porque ele não teria encontrado tal misericórdia ainda. Isso não faz senso algum caso Onesíforo já estivesse no Paraíso, pois Paulo (assim como qualquer imortalista) teria escrito que Onesíforo já teria alcançado a misericórdia de Deus e que ele já estava na “glória”. Mas o fato é que Onesíforo ainda não alcançou a misericórdia de Deus, e somente a alcançará “naquele dia”, o dia do juízo. Paulo deseja que ele alcance a misericórdia de Deus no dia do juízo, uma vez que Onesíforo não havia sido julgado ainda para encontrar a misericórdia da parte de Deus e entrar no Céu. Tal declaração de Paulo é fatal à doutrina da imortalidade por dois motivos principais: (1) A consolação de Paulo não é que Onesíforo já esteja confortado no Céu, mas sim de obter a misericórdia no dia de um juízo futuro.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 263 (2) Se Onesíforo já estivesse no Céu então já teria alcançado a misericórdia de Deus e, portanto, Paulo teria que ter empregado o verbo no passado: “encontrou”, e não “encontre naquele dia”, a misericórdia da parte do Senhor. A linguagem de Paulo difere absurdamente dos defensores da alma imortal, porque ele não diz que “ele encontrou misericórdia da parte de Deus”; mas sim que ele só encontrará a misericórdia de Deus em um acontecimento futuro que se dará “naquele dia”. Evidentemente, tal linguagem de Paulo expressa a sua convicção de que os que já morreram só ganham vida em um acontecimento futuro – “naquele dia” – e, portanto, torna-se lógico o desejo do apóstolo em ver Onesíforo encontrar a misericórdia de Deus em um futuro distante, e não em consolar alguém com a ilusão de que este já estaria “na glória”, já tendo passado pelo juízo e alcançado a misericórdia de Deus. A salvação do espírito é no Dia do Senhor – “Entreguem esse homem a Satanás, para que o seu corpo seja destruído, e o seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (cf. 1Co.5:5). Essa é uma refutação de peso para a doutrina de que o espírito é salvo logo no momento da morte. O apóstolo Paulo ressalta que o homem que seria excomungado da Igreja (“entregue a Satanás”) de alguma forma poderia se voltar a Cristo e buscar a salvação para ser salvo. A pergunta que fica é: quando é que o espírito deste homem seria salvo? Quando ele morresse? Não, mas “no dia do Senhor”, que é claramente relacionado com a segunda vinda de Cristo. Inúmeros versículos nos mostram que o “dia do Senhor” trata-se da Sua segunda vinda: “O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor” (cf. At.2:20). Outras passagens que relacionam claramente o “dia do Senhor” que ainda está por vir com a segunda vinda de Cristo encontram-se nas epístolas de Paulo aos tessalonicenses: “Pois vós mesmos estais inteirados com precisão que o dia do Senhor vem como o ladrão de noite” (cf. 1Ts.5:2). E novamente ele afirma que o dia do Senhor é o momento da Sua segunda vinda: “A que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o dia do Senhor” (cf. 2Ts.2:2). O “dia do Senhor” não chegou ainda porque ele só acontece na segunda vinda de Cristo. Paulo, em todas as suas epístolas, compartilhava sua crença de que o dia do Senhor é relacionado à volta de Cristo. Pedro também compartilhava da mesma ideia ao escrever: “Virá, entretanto, como o ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas” (cf. 2Pe.3:10). Vemos, portanto, que o “dia do Senhor” é uma clara referência à segunda vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, a Sua Volta gloriosa, e não ao momento da morte do homem a quem Paulo se refere. É no momento da segunda vinda de Cristo que o espírito será salvo, e não no momento da morte! Vale ressaltar sempre que é exatamente nesta segunda vinda que ocorre a ressurreição (cf. 1Co.15:22,23). Se Paulo cresse que uma alma imortal deixasse imediatamente o corpo com a morte, levando consigo consciência e personalidade, então diria que o espírito seria salvo no momento da morte. Contudo, é claro o sentido do texto – o espírito é salvo “no dia do
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 264 Senhor”, e não no dia de sua morte, o que nos revela ainda mais claramente a crença de Paulo de que a vida era somente a partir da ressurreição. Sendo que é nos dito de modo claro que “o corpo seja destruído” [iria morrer corporalmente], o que esperaríamos na sequência, se existisse a imortalidade da alma, seria que o espírito seria salvo logo neste mesmo momento da morte, partindo imediatamente para junto de Deus. Contudo, Paulo faz questão de ressaltar que o espírito será salvo é “no dia do Senhor”, e não no dia da morte ou no mesmo momento exato da destruição corporal, porque é somente no dia do Senhor que ocorre a ressurreição para a vida. Os filhos não foram revelados na glória ainda – “A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados” (cf. Rm.8:19). Se os filhos de Deus já estivessem na glória, então a natureza não estaria esperando nada, pois já estariam todos sendo sucessivamente revelados nas mortes de cada um! Veja que o verbo está no futuro: “sejam revelados”; e não: “estão sendo revelados” ou “foram revelados”! O que o apóstolo Paulo escreve vai frontalmente contra a doutrina de que “morremos e vamos para a glória celestial”, porque os filhos de Deus ainda nem sequer foram revelados. A natureza está aguardando, isto é, ela está com “grande expec tativa”, sabendo que os filhos de Deus não foram revelados, mas haverá um dia em que eles, finalmente, serão revelados. Essa é a expectativa que todo verdadeiro cristão deveria ter, centrado no glorioso dia da ressurreição dentre os mortos no qual os filhos de Deus serão finalmente revelados para a glória diante de Deus. Alguém ainda poderia argumentar como é que podemos ter a completa certeza de que se trata realmente da ressurreição dos mortos. A resposta a isso está na própria continuação da passagem no seu contexto, que deixa tal interpretação ainda mais clara: Romanos 8 19 A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. 20 Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança 21 de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 22 Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. 23 E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros frutos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. 24 Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo? 25 Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. Paulo afirma que ele esperava com ansiedade o momento em que seremos adotados como filhos, e indica este momento na sequência: a redenção do nosso corpo! Uma clara referência à ressurreição dos mortos, quando este corpo corruptível se transformará em incorruptível e a nossa natureza mortal se revestirá de imortalidade. O que Paulo afirma é muito importante, pois a partir disso vemos que a expectativa de Paulo não era que sua
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 265 alma deixasse o seu corpo rumando a um estado intermediário, mas estava totalmente centrada na ressurreição dos mortos. Tal era a esperança dele, na qual ele diz que esperava ansiosamente (v.23). Quanta diferença para os dias de hoje em que a doutrina da imortalidade da alma fez com que a ressurreição se tornasse um mero detalhe desnecessário! É óbvio que esta é a esperança de Paulo porque é neste momento em que ele se veria na glória. Tal conclusão fica ainda mais forte quando vemos que é neste momento em que seremos adotados como filhos (v.23). Não é logo após a morte em um estado desencarnado, mas sim na “redenção do nosso corpo”, na ressurreição dos mortos. Paulo nem imaginava que poderia ficar milênios no Paraíso em um “estado intermediário” sem ter sido adotado como filho ainda para só depois disso Deus finalmente adotá-lo como filho e só depois disso ele ser revelado. O foco todo é na ressurreição dos mortos, porque é somente neste momento que vem a adoção como filho na glória (v.23). Paulo segue uma lógica incontestável: os filhos de Deus ainda não estão revelados (v.19), a espera ansiosa era pela redenção do corpo (ressurreição - v.23), e a nossa adoção como filho é também somente na ressurreição (v.23)! E Paulo ainda conclui: “é nessa esperança que fomos salvos” (v.24)! Qual é o contexto? Qual é a ênfase? Qual é o sentido lógico lendo-se todo o conjunto? É óbvio que Paulo sabia que o momento em que estaria na glória seria na ressurreição, quando finalmente seremos adotados como filhos. E era nessa esperança - da ressurreição - que ele vivia, e não na ilusão de uma vida em estado incorpóreo, antes de chegar qualquer "redenção do nosso corpo" e antes da nossa "adoção como filhos". A recompensa ou a condenação ocorre somente por ocasião do juízo - “Se alguém constrói sobre esse alicerce, usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa. Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo. Vocês não sabem que são santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; pois o santuário de Deus, que são vocês, é sagrado” (cf. 1ª Coríntios 3:12-17) A partir de tal relato de Paulo, podemos ver que a recompensa ou prejuízo se daria por ocasião do dia do juízo quando seremos julgados (v.13). Esse dia, como tantas vezes insistiu o apóstolo, ocorre por ocasião da segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1), e é neste momento que os que morreram receberão a recompensa (v.14), ou sofrerão o prejuízo (v.15), ou serão destruídos {condenados} (v.17). De acordo com a teologia imortalista, contudo, os mortos já estariam sendo recompensados no Céu e os ímpios já estariam condenados sofrendo a destruição. Paulo nega tal interpretação porque, para ele, tais fatos se concretizarão apenas naquele Dia, o dia do juízo, na segunda vinda de Cristo, quando os mortos serão ressuscitados. Também é interessante notar que, para o apóstolo, os que já morreram ainda não foram feitos justos (justificados perante Deus), porque tal acontecimento é retratado como algo futuro, e não como algo que já tenha acontecido:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 266 “Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (cf. Romanos 5:19) Note que o verbo está no futuro: “serão feitos”, o que no mínimo indica que tais justos ainda não foram justificados. Muitos já foram feitos pecadores por causa de um homem (Adão), mas muitos serão feitos justos por meio de um homem (Cristo), na Sua Vinda. A mesma linguagem é expressa por ele no verso 17: ”Se pela transgressão de um só a morte reinou por meio dele, muito mais aqueles que recebem de Deus a imensa provisão da graça e a dádiva da justiça reinarão em vida por meio de um único homem, Jesus Cristo” (cf. Rm.5:17). Paulo de modo algum indica que eles já estão reinando, ou que “reinam”; pelo contrário, indica novamente como um acontecimento lançado para um futro: reinarão – por meio de Cristo – na Sua Vinda. A entrada no Reino sucede a ressurreição – Existem, biblicamente, muitas verdades espirituais que são também verdades materiais. Por exemplo, Deus nos “resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (cf. Cl.1:13). Essa é uma verdade espiritual; embora nós materialmente continuarmos nesta terra no mesmo lugar antes e depois de recebermos a Cristo em nossos corações, nós espiritualmente estávamos no Reino das Trevas, no poderio de Satanás, coberto pelos nossos pecados, sem o sangue de Cristo, sem Jesus nas nossas vidas. O material destino dos ímpios e pecadores é onde eles espiritualmente já estão agora, neste exato momento. Da mesma forma, nós (os que já recebemos a Cristo) espiritualmente chegamos “ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo [...] aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus [...] a Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de uma nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf. Hb.12:22-24). O que materialmente só alcançaremos no juízo daquele Dia, nós espiritualmente já alcançamos agora. Há muitas outras verdades materiais que são espiritualizadas na Bíblia. Uma delas não poderia deixar de mencionar a ressurreição e a entrada na glória: “Deus nos ressuscitou com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” (cf. Ef.2:6). Evidentemente, trata-se de mais uma verdade espiritual, nós materialmente seremos ressuscitados na volta de Cristo para depois estarmos com Ele. O que é verdade no campo espiritual também é verdade no campo material: a participação nos lugares celestiais sucede a ressurreição. Paulo coloca em primeiro lugar a ressurreição, para depois mencionar a tomada nos lugares celestiais. O que nós espiritualmente já tomamos posse hoje (no campo espiritual), nós materilamente tomaremos de fato tais lugares após a ressurreição, como é claramente mencionado acima pelo apóstolo, que coloca primeiro a ressurreição, para depois a tomada nos lugares celestiais. Verdade espiritual, verdade material! “Deus nos ressuscitou [1] com Cristo e com ele nos fez assentar nos lugares celestiais [2] em Cristo Jesus” (cf. Efésios 2:6)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 267 Os imortalistas invertem essa lógica, pois, para eles, nós já estaremos nos lugares celestiais muito antes da ressurreição, e, portanto, a ressurreição sucederia (ao invés de preceder) a entrada na glória. O orgulho de Paulo seria no dia do Senhor – “...Assim, no dia de Cristo eu me orgulharei de não ter corrido nem me esforçado inutilmente” (cf. Fp.2:16). O orgulho de Paulo em ver que não correu inutilmente é relacionado ao dia de Cristo (momento da ressurreição – cf. 1Co.15:23). Seria presumível que se Paulo acreditasse que iria para o Céu muito antes da ressurreição (e os filipenses também), então nesse momento ele já se orgulharia de seu trabalho em favor deles, em não ter corrido em vão. Contudo, tal satisfação de Paulo concretizar-se-á no “dia do Senhor”, a Sua volta, relacionado à ressurreição dos mortos. Paulo coloca a ênfase de sua satisfação nessa ocasião porque é na ressurreição que eles se veriam novamente, e ele, Paulo, se orgulharia de seu trabalho, vendo que conseguiu a salvação deles. O mesmo também pode ser dito quanto aos tessalonicenses: “Pois quem é a nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença de nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós?” (cf. 1Ts.2:19). O momento em que Paulo irá orgulhar- se e regozijar-se de seu trabalho é na segunda vinda de Cristo, porque é neste momento que os mortos serão ressuscitados. Os que morreram ainda não foram manifestados na glória – “Quando Cristo, vossa vida, for manifestado, então também vós sereis manifestados com ele na glória” (cf. Cl.3:4). Como vemos, o momento em que seremos manifestados na glória é quando ele, Cristo, se manifestar. Não é quando morrermos e a nossa alma imortal deixa o corpo, mas sim quando Cristo, o Supremo Pastor, voltar em Seu Reino. O próprio fato de Paulo manifestar a sua convicção de que ele e os demais seriam manifestados na glória na sua segunda de Cristo indica que eles não estão manifestados ainda, mas que tal momento se dará pela ocasião da ressurreição dos mortos, na volta de Cristo. Joe Crews também discorreu sobre isso nas seguintes palavras: "Quando Paulo esperava a transformação da mortalidade para a imortalidade? Ele responde: 'Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória'. Colossenses 3:4. Quando é então? Na Sua segunda vinda. Os salvos têm aparecido com Ele na glória já? Não. Isso só acontecerá então, quando Ele aparecer"145 A lógica é realmente muito simples: nós seremos manifestados na glória quando Cristo for manifestado. E, se isso não é prova que os mortos não estão manifestados ainda, então não sabemos como os imortalistas poderiam ser convencidos disso. Somente na ressurreição Paulo veria a Deus – É também por ocasião da manifestação de Cristo que Paulo veria a Deus: “Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido” (cf. 1Co.13:12). A 145 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em: <http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 268 palavra “então” denota um tempo: naquele momento, naquele instante, a partir daquilo; é somente na manifestação de Cristo em que conheceremos plenamente a Deus e o veremos face a face, porque o contexto deixa claro que isso se dará por ocasião da segunda vinda de Cristo, quando chegar o que é perfeito (cf. 1Co.13:10). Nós seremos manifestados em glória quando ele (Cristo) se manifestar, e também é somente nesta ocasião que Paulo e os leitores de sua carta veriam a Deus plenamente, face a face. Já para os imortalistas, Paulo e os demais santos já conheceriam a Deus e o veriam face a face muito antes da ressurreição, enquanto almas incorpóreas em um estado intermediário, ainda que Paulo tenha sido enfático de que ele e os demais só veriam a Deus "quando viesse o que é perfeito", ou seja, quando Cristo voltar146. A nossa cidadania celestial na ressurreição – “A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Pelo poder que o capacita a colocar todas as coisas debaixo do seu domínio, ele transformará os nossos corpos humilhados, para serem semelhantes ao seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas” (cf. Filipenses 3:20,21). Paulo aqui fala, no verso 20, que nós temos uma cidadania nos céus, e, no verso seguinte (v.21), mostra quando é que tomaremos posse desta cidade: quando Cristo transformar os nossos corpos humilhados para serem semelhantes ao seu corpo glorioso! É evidente que trata-se de mais uma menção à ressurreição, quando “isto que é mortal se revestirá de imortalidade e isto que é corruptível se revestirá de incorruptibilidade” (cf. 1Co.15:53). Se Paulo cresse no estado intermediário e na imortalidade da alma, seria presumível que ele falasse que "nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos um Salvador, Jesus Cristo, a quem iremos encontrar tão logo morramos". Contudo, o desejo de Paulo em tomar posse da cidadania celestial concretiza-se na ressurreição dos mortos, na transformação de nossos humilhados a um glorioso à imagem de Cristo. Paulo acentua mais uma vez sua expectativa da “cidade celestial” que herdaria quando no Seu retorno Cristo “subordinar a Si todas as coisas”, e sabemos que tal fato se dará na consumação deste mundo, na volta de Cristo, com a ressurreição dos mortos. Os que já morreram não estão no Céu – Mais uma evidência de que os que morreram, em geral, ainda não estão no Céu, é de que em nenhuma de suas epístolas Paulo se refere a alguém que já morreu como já estando no Paraíso com Deus, e ainda “se esquece” de mencioná-los até mesmo quando faz uma referência a quem lá está! Isso é demonstrado quando analisamos a primeira carta de Paulo a Timóteo: “Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” (cf. 1ª Timóteo 5:21) 146 Não pode se referir a outro momento senão à segunda vinda de Cristo. Primeiro, porque quando chegasse o que é perfeito as profecias, o conhecimento e os dons espirituais cessariam (v.10), mas eles continuam existindo. Segundo, porque dificilmente "já chegou o que é perfeito" se a Igreja ainda está longe de cumprir toda a missão que a ela lhe foi incumbida na terra; e, terceiro, porque o mal, as tragédias e o pecado que há no mundo atestam que o imperfeito continua atuando. Sendo assim, embora o texto não diga de forma explícita que se trate da segunda vinda de Cristo (ressurreição), isso é facilmente deduzido a partir dele.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 269 É evidente que ele está fazendo uma menção àqueles que estão hoje na glória, como testemunhas daquilo que ele dizia a Timóteo. E ele menciona, a saber, Deus Pai, o Senhor Jesus e os anjos eleitos. Se existisse uma “multidão de almas” no Paraíso junto a Deus e aos os anjos eleitos seria imprescindível que ele fizesse menção a elas também! É óbvio que ele, contudo, não faz menção nenhuma, porque sabia que os que já morreram não estão lá ainda. Ele faz uma distinção entre os anjos, fazendo questão de mencionar os anjos “eleitos”, uma vez que existem também anjos “caídos”, que perderam as suas posições no Céu e por essa razão não estão mais lá. Por isso Paulo faz questão de mencionar os anjos eleitos, pois estes ainda continuam no Céu; mas, com respeito a “almas” naquele lugar... nada! Paulo não faz nenhuma questão de mencionar a multidão de espíritos humanos que supostamente estariam no Céu! “Conjuro-te diante de Deus [1], e do Senhor Jesus Cristo [2], e dos anjos eleitos [3], que sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” (cf. 1ª Timóteo 5:21) Se Paulo fosse imortalista e cresse que os que morreram já estão salvos no Céu, provavelmente teria dito: "Conjuro-te diante de Deus [1], e do Senhor Jesus Cristo [2], e dos anjos eleitos [3], e dos santos [4], que sem prevenção guarde essas estas coisas, nada fazendo por parcialidade" O reencontro é somente na ressurreição – “E espero que, assim como vocês nos entenderam em parte, venham a entender plenamente que podem orgulhar-se de nós, assim como nos orgulharemos de vocês no dia do Senhor Jesus” (cf. 2Co.1:14). Aqui fica claro que o momento em que Paulo se orgulharia de que seu trabalho pelos corintos não foi em vão não é no momento da morte de cada um deles se apresentando a Paulo e aos demais santos no Céu, mas sim “no dia do Senhor Jesus”, o glorioso dia da Sua Vinda quando os mortos serão ressuscitados. Por que? Porque é somente neste momento em que ambos (Paulo e os coríntios) se veriam novamente. Tal fato é ainda mais acentuado por aquilo que Paulo escreve na mesma carta: “Porque sabemos que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus dentre os mortos, também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará com vocês” (cf. 2ª Coríntios 4:14). Novamente vem à tona a ênfase de Paulo reafirmando que o momento no qual ele voltaria a ver os coríntios e que ambos seriam apresentados novamente seria na ressurreição dos mortos, no “dia do Senhor Jesus” (cf. 2Co.1:14; 2Co.4:14), e não no momento das mortes de cada um com as suas almas imortais se encontrando lá no Céu. Paulo afirma que gostaria de ser apresentado com aqueles a quem ele havia ganho para a fé cristã, queria encontrá-los todos. Por que ele não disse que esperava que isso ocorresse quando morresse e a sua alma fosse para o Céu? A ênfase dele está na ressurreição, porque é na ressurreição que Paulo e os coríntios se veriam novamente, como é claramente declarado por ele: “nos ressuscitará... para nos apresentar com vocês” (v.14). Fica patente que, para o apóstolo Paulo, o momento em que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 270 ele se veria de novo com os coríntios seria na ressurreição, quando Deus ressuscitará ambos e nós seremos mutuamente apresentados. A aprovação de Deus é somente na ressurreição – “Portanto, não julguem nada antes da hora devida; esperem até que o Senhor venha. Ele trará à luz o que está oculto nas trevas e manifestará as intenções dos corações. Nessa ocasião, cada um receberá de Deus a sua aprovação” (cf. 1Co.4:5). Paulo declara que o momento em que o que está oculto será revelado não é no momento da morte de cada um, mas quando o Senhor vier. Se os ímpios já estivessem no inferno, já teria sido revelada as suas más obras e intenções do coração. Contudo, tal fato concretiza-se apenas na vinda do Senhor Jesus. Além disso, o apóstolo escreve que “nessa ocasião” (quando o Senhor vier) cada um receberá de Deus a sua aprovação. A aprovação dos justos não vem no momento da morte de cada um, mas sim na volta do Senhor que é quando os mortos serão ressuscitados. Se os mortos já estivessem no Céu ou em algum lugar de gozo e alegria, eles já teriam obtido a aprovação de Deus. Por que nós só obteremos a aprovação de Deus no momento em que ocorre a ressurreição? Porque é neste momento em que entramos no Paraíso, não antes disso. A coroa da justiça – "Eu já estou sendo derramado como uma oferta de bebida. Está próximo o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda" (cf. 2 Timóteo 4:6-8). Paulo, já próximo da morte, declara que ele só receberá a coroa da justiça “naquele dia”. Esse dia é o da segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:23), confirmado também no final da própria passagem: “mas também a todos os que amarem a sua vinda”. Até aquele dia, a coroa dele está “guardada” (v.8). Ele não vai para o Céu antes da ressurreição. É só neste momento receberemos a coroa da justiça, a justa premiação por todos os esforços empreendidos pelos santos, consumando com a entrada no Paraíso, coroa a qual Deus nos guarda até aquele dia (o dia da segunda vinda de Cristo). A linguagem de Paulo próximo da morte não é: “a minha merecida coroa da justiça receberei tão logo ao morrer”, mas sim de ter corrido uma corrida da fé, cuja retribuição por seus frutos ele veria “naquele dia” da segunda vinda de Cristo (v.8), quando ganhará a sua merecida coroa da justiça. Não era algo que aconteceria iminentemente após a morte antes da ressurreição, mas é um prêmio guardado, reservado, para se tomar posse em um acontecimento futuro através da ressurreição dentre os mortos na segunda vinda de Cristo. Receberão a devida paga no futuro - “Se de fato é justo para com Deus que Ele dê em paga tribulação aos que vos atribulam, e a vós outros que sois atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do Seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do Seu poder. Isso acontecerá no dia em que ele vier para ser glorificado em seus santos e admirado em todos os
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 271 que creram, inclusive vocês que creram em nosso testemunho” (cf. 2ª Tessalonicenses 1:7-10) Mais essa vez, Paulo deixa claro que: (1) Os cristãos que estavam sofrendo perseguição receberão alívio “quando do Céu se manifestar o Senhor Jesus” (segunda vinda de Cristo). Note que o alívio das tribulações dos santos se daria não quando eles morressem e as suas almas fossem para o Céu, mas quando se manifestasse o Senhor Jesus, na Sua volta em glória. Se nas mortes de cada um as suas almas partissem para o Céu antes da ressurreição, então eles já seriam aliviados muito antes da segunda vinda de Cristo! (2) Os ímpios só serão castigados, quando “o Senhor tomar vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus”. É dito claramente que no verso 7 que isso só acontecerá “quando do Céu se manifestar o Senhor Jesus”, ou seja, um acontecimento lançado para o futuro. No verso 9 Paulo completa dizendo que eles sofrerão a pena da destruição eterna, o que significa que eles não estão sofrendo ainda. O verbo está no futuro, indicando que a punição dos ímpios é algo que está para acontecer “naquele dia”, e não algo que já esteja em atividade. Se já existisse um inferno de fogo em atividade, Paulo teria se enganado em conjurar o verbo no futuro: “sofrerão”, ao invés de colocar o verbo no presente: “sofrem”, ou “sofrendo”! (3) Complementando o ponto anterior, Paulo relata no verso 10 quando é o momento em que aqueles que atribulam os cristãos serão castigados. Ao invés de dizer que seria quando eles morressem e as suas almas fossem para o inferno (o que já seria um grande castigo), ele escreve categoricamente que “isso acontecerá no dia em que ele vier para ser glorificado em seus santos”, ou seja, na segunda vinda de Cristo, que é o momento da ressurreição. Paulo se revela contrário ao pensamento grego de que a punição e o castigo viria no momento das mortes de cada um. Para os cristãos, o momento de toda a esperança em ver os atos de justiça de Deus serem consumados é na conclusão de todas as coisas (cf. Ap.15:4; Ap.21:4,5), com a consequente retribuição aos justos com salvação e aos ímpios com o castigo. Do início ao fim, Paulo segue a lógica de que os ímpios não estão sendo castigados atualmente, mas que esse castigo se dará em uma ocasião futura, claramente indicada na revelação do Senhor Jesus Cristo, do mesmo modo que o alívio dos santos é na revelação de Cristo, o momento da ressurreição, e não quando eles morressem partindo para um estado intermediário de bem-aventuranças; afinal, tal solenidade já seria um alívio para o povo de Deus. Paulo, contudo, enfaticamente traduz a sua convicção de que tais fatos apenas se concretizarão a partir da segunda vinda de Cristo e não antes dela. XXIII–Últimas considerações dos ensinos de Paulo contra a imortalidade da alma Paulo contra a imortalidade da alma em Atenas – Podemos perceber o contraste entre a doutrina de Paulo e a imortalidade da alma a partir do texto de Atos 17, em que Paulo foi a Atenas a fim de pregar o evangelho. Já vimos neste estudo que foi do dualismo grego que a mentira da serpente de que “certamente não morrerás” entrou no judaísmo por ocasião da
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 272 diáspora judaica, sendo os gregos, portanto, ferrenhos defensores da doutrina da imortalidade da alma. Em outras palavras, se Paulo pregava esta mesma doutrina, ele estaria se sentindo praticamente em casa! O que nós vemos, contudo, é que Paulo de jeito nenhum ensinava a imortalidade da alma: “Ora, alguns filósofos epicureus e estóicos disputavam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece ser pregador de deuses estranhos; pois anunciava a boa nova de Jesus e a ressurreição” (cf. Atos 17:18) Aqui vemos duas coisas que Paulo pregava. Uma delas praticamente todas as religiões cristãs pregam: Jesus. A segunda coisa praticamente nenhuma igreja cristã que crê no dualismo prega: a ressurreição dos mortos. Satanás conseguiu praticamente silenciar as boas novas acerca da ressurreição porque conseguiu trazer o dualismo grego direto para a teologia dos imortalistas. Vemos, por enquanto, que Paulo pregava: (1) Jesus (2) Ressurreição Prova ainda mais forte de que Paulo não pregava a doutrina da imortalidade da alma é o versículo seguinte, que diz: “E, tomando-o, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos nós saber que nova doutrina é essa de que falas?” (cf. Atos 17:18) A doutrina da imortalidade da alma era bem conhecida pelos gregos, mas, ainda assim, vemos a afirmação deles de que o que Paulo pregava era uma “nova doutrina”, mais um sinal de que o apóstolo não compactava com a velha e conhecida teologia da imortalidade da alma, que não era nem um pouco "nova" para os gregos. Para os gregos, a primeira coisa que Deus teria implantado no ser humano foi uma “alma imortal”. Paulo, contudo, não faz qualquer questão de mencioná-la: “Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas” (cf. Atos 17:25) Paulo apenas faz menção do “fôlego” (aquilo que dá animação ao corpo formado do pó da terra) que resulta na vida, em um ser vivo. Nada de “alma imortal” é mencionada por ele, pelo simples fato de que Deus não colocou uma alma no homem. O que para os gregos dualistas era de todas as coisas a mais primária e importante, para Paulo é desprezada – ele nem faz questão de mencionar junto ao “fôlego” e a “vida”! Disso já podemos perceber o contraste entre a teologia paulina e a dualista com relação à natureza humana. Um pouco mais à frente e o vemos desmoronando ainda mais os pilares da doutrina da imortalidade da alma pregada por eles: “Porquanto determinou um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do varão que para isso ordenou; e disso tem dado certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (cf. Atos 17:31) Para os gregos, os mortos já haviam sido julgados para serem condenados num estado intermediário ou desfrutarem as delícias de um Paraíso. Afinal, a alma é julgada logo depois que sai do corpo! Para Paulo, contudo, Deus não julgou o mundo ainda (cf. At.17:31). A
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 273 razão para isso é muito simples: nós só ganharemos vida novamente na ressurreição e, por isso, é na volta de Cristo em que seremos julgados para a vida ou para a condenação (cf. 2Tm.4:1). Novamente vemos o contraste entre o ensino de que a alma é imortal e o ensino de Paulo. Mais interessante ainda é a segunda parte de seu argumento: “...e disso tem dado certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (cf. At.17:31). Aqui vemos que a segurança e a esperança de Paulo em uma vida eterna não se baseava em uma alma imortal que garantiria isso a todos, mas sim na ressurreição de Jesus Cristo, que garante a nossa própria ressurreição! A única esperança para o cristão ser julgado e obter vida é baseado e fundamentado na esperança da ressurreição dentre os mortos, da qual Cristo foi a nossa primícia. Os gregos depositavam toda a confiança deles na esperança de uma alma eterna ter sido implantada neles – e essa alma imortal é segurança de vida eterna, de juízo e, evidentemente, de imortalidade. Quanta diferença para o evangelho bíblico pregado por Paulo! Isso tudo explica o porquê de os gregos o terem deixado falar sozinho em seguida: “Mas quando ouviram falar em ressurreição de mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos ainda outra vez” (cf. Atos 17:32) Ressurreição dos mortos e imortalidade da alma realmente não tem nada em comum. Ambos são dois opostos e são também mutuamente excludentes, não se pode admitir a existência de uma alma imortal com a ressurreição, pois a primeira faz com que a segunda seja algo desnecessário e inútil, praticamente sem proveito uma vez que a nossa esperança não seria baseada na ressurreição, mas sim em uma “alma imortal” indo para o Céu e lá ficando eternamente.... independente de ressurreição ou não! É claro que tal ideia grega não condiz com o Cristianismo puro, não bate com aquilo que Paulo ensinava em Atenas, não combina com aquilo que o apóstolo ensinava em lugar nenhum, pois ele nunca, em circunstância nenhuma, fez qualquer menção de imortalidade da alma ou de estado intermediário em seus esc ritos, porque sabia que tal doutrina é uma lenda à luz da Bíblia Sagrada, a nossa verdadeira fonte de fé e ensino. Por essa razão Cullmann concluiu: "Em suas viagens missionárias, Paulo certamente encontrou pessoas que eram incapazes de crer em sua pregação da ressurreição exatamente em razão de acreditarem na imortalidade da alma. Assim, em Atenas só houve zombaria no momento em que Paulo falou da ressurreição (...) Com efeito, para os gregos, que acreditavam na imortalidade da alma, pode ter sido mais difícil aceitar a pregação cristã da ressurreição do que foi para os outros. Por volta dos anos 150, Justino (em seu Diálogo, 80) escreve sobre as pessoas, 'que dizem que não há ressurreição dos mortos, e sim que imediatamente após a morte a alma deles ascende ao céu'. Aqui se percebe claramente o contraste"147 A transformação da natureza humana é somente na ressurreição – A Bíblia não abre margens para a interpretação de que a nossa natureza já possui a imortalidade mediante a posse de uma alma eterna. Uma prova muito forte disso é que a imortalidade é algo em que 147 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 16/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 274 nós seremos revestidos, não é algo que nós já possuímos. Paulo escreve abertamente sobre isso em sua primeira epístola aos Coríntios, no capítulo 15, o qual já abordamos em parte, que é o mesmo capítulo em que Paulo trata acerca do caráter da ressurreição dos mortos, e ele não poderia concluir o capítulo sem lhes revelar quando é o momento em que nós seremos dotados de imortalidade: “Eis que lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao soar da última trombeta. Pois a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Pois é necessário que aquilo que é corruptível se revista de incorruptibilidade, e aquilo que é mortal, se revista de imortalidade. Quando, porém, o que é corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal, de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: ‘Tragada foi a morte pela vitória!’” (cf. 1ª Coríntios 15:51-54) Diante do que é aqui exposto, percebemos que antes da ressurreição (que só acontece na segunda vinda de Cristo), nós estaremos: (1) Mortais (2) Corruptíveis Aqui vemos que a imortalidade não é uma possessão natural que levamos desde o nascimento, mas algo que nós seremos revestidos a partir da ressurreição. Antes disso, nós somos corruptíveis e mortais, só atingindo o patamar de imortalidade quando os mortos ressuscitarem e a nossa natureza corruptível e mortal transformar-se revestindo-se de incorruptibilidade e imortalidade. Se os mortos já estivessem em um “estado intermediário das almas”, eles já estariam desfrutando da imortalidade e esta não deveria ser revestida (i.e, ganha, adquirida) na ressurreição. Isso é somente lógica. Se dentro da nossa natureza já existisse um elemento imaterial concedendo imortalidade, então a imortalidade não deveria ser “revestida” por nós na ressurreição, pois nós supostamente já seríamos detentores dela. Ora, só se reveste de algo que não se possui. Se a imortalidade é revestida em nós na ressurreição – e não implantada logo no nascimento – então nós não temos algum elemento eterno em nosso ser. O fato de que nós só atingiremos a imortalidade na ressurreição dos mortos e da morte só ser tragada neste momento é prova mais do que suficiente de que nós não a possuímos no presente momento, mas só a adquirimos no instante da ressurreição, em “um abrir e fechar de olhos” (v.51). O texto é bem claro em dizer que a imortalidade só é alcançada após a segunda vinda de Cristo! Nós não somos imortais mediante uma alma eterna, mas seremos transformados em imortais a partir da ressurreição dos mortos, na segunda vinda do nosso Senhor. Como os imortalistas fazem para escapar de tamanha evidência deste texto bíblico tão claro? Geralmente, adulterando a Bíblia. Muitos tradutores preferiram tomar a liberdade de traduzirem a passagem por "este corpo mortal" ou "este corpo corruptível", nos versos 53 e 54, por não conseguirem conceber a ideia de que é a natureza humana como um todo, e não apenas um corpo, que é revestido de imortalidade na ressurreição. Contudo, essa adição simplesmente não existe nos manuscritos originais. Paulo jamais colocou a palavra "corpo" na passagem. O original é traduzido simplesmente diz:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 275 “dei gar to fqarton touto endusasqai afqarsian kai to qnhton touto endusasqai aqanasian otan de to fqarton touto endushtai afqarsian kai to qnhton touto endushtai aqanasian tote genhsetai o logoV o gegrammenoV katepoqh o qanatoV eiV nikoV” A tradução correta é a passada acima neste texto. Paulo jamais induziu que era apenas e tão-somente um corpo que é revestido de imortalidade, pois a palavra no original grego para corpo (swma) nem sequer é mencionada em nenhuma parte do texto! Paulo estava retratando o momento em que a nossa natureza mortal se revestiria de imortalidade: somente na ressurreição dos mortos. Antes dessa ressurreição, o que nós somos? Mortais e corruptíveis! Só alcançaremos a imortalidade com a ressurreição dos mortos por ocasião da segunda vinda de Cristo. Diante dos ensinamentos do apóstolo Paulo, percebemos que a imortalidade muito longe de ser uma possessão natural do ser humano por meio da posse de uma alma imortal que supostamente teria sido “implantada” nos seres humanos. Pelo contrário: (1) A imortalidade deve ser buscada (cf. Romanos 2:7) (2) A imortalidade é por meio do evangelho (cf. 2ª Timóteo 1:10) (3) Só seremos dotados de imortalidade e de incorruptibilidade com a ressurreição dos mortos (cf. 1ª Coríntios 15:52,53) Isso explica o porquê que, caso ela não existisse, os mortos já teriam perecido (cf. 1Co.15:18) e a nossa esperança seria somente para esta vida (cf. 1Co.15:19; 1Co.15:30,32), pois nós não temos uma alma imortal. Conclusão – Os ensinamentos do apóstolo Paulo foram desmoralizantes para a doutrina da imortalidade da alma. Além de jamais ter afirmado que os que estão mortos já se encontram atualmente com Cristo, ou que já estão no Paraíso, mas insistindo sempre que eles “dormiam” (cf. 1Co.15:6; 1Co.15:20; 1Co.15:51; 1Ts.4:13; 1Ts.4:14; 1Ts.4:15; 1Co.11:30; 1Co.15:18; Ef.5:14), ele também afirma categoricamente que, se não fosse pela ressurreição dos mortos, que acontece na volta de Cristo, todos os mortos já teriam perecido (cf. 1Co.15:18), a nossa esperança então seria apenas para esta vida (cf. 1Co.15:19), e seria bem melhor “comer, beber e depois morrer” (cf. 1Co.15:32), porque a luta de Paulo teria sido à toa (cf. 1Co.15:32). É evidente que Paulo acreditava que não existia vida antes da ressurreição. Para nós, não existiria nenhuma vida póstuma sem a ressurreição (cf. 1Co.15:19,32), e, para os que já morreram, já teriam perecido-apollumi (v.18) se ela não existe. Não estariam eternamente no Céu, em estado incorpóreo. Paulo também deixa claro que estaremos no Paraíso vestidos, e não achados nus (cf. 2Co.5:3,4). Afirma ainda que, após a sua morte, a coroa da justiça estaria guardada para ele receber somente “naquele dia”, o dia da volta de Cristo (cf. 2Tm.4:6-8). Na consolação aos tessalonicenses, falando sobre os seus parentes já falecidos, o apóstolo jamais indica que eles já estão na glória do Paraíso, muito pelo contrário, os consola unicamente com a esperançada da ressurreição dos mortos (cf. 1Ts.4:18), o que não faria sentido nenhum se fosse apenas para um corpo morto que já virou pó se as almas imortais já estivessem com Deus no Céu. A consolação de Paulo, voltada totalmente para a
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 276 ressurreição, além de omitir que os seus amigos e parentes já estivessem na glória, afirma ainda de modo categórico que “de modo algum precederemos os que dormem” (cf. 1Ts.4:15), indicando que mortos e vivos entrarão no Paraíso no mesmo momento. As pouquíssimas passagens usadas pelos imortalistas dentre as treze epístolas paulinas assinadas são puramente constituídas de versos completamente descontextualizados ou de passagens com interpretações inteiramente forçadas. O motivo para não acharem nada nos escritos de Paulo que favoreça a imortalidade da alma em suas treze epístolas provém de que, de fato, Paulo desacreditava completamente que Deus tivesse implantado nos homens uma “alma imortal”. Se Paulo acreditasse que nós possuímos uma alma imortal, teria dito que o espírito seria salvo no momento da morte, e não no “dia do Senhor” (cf. 1Co.5:5). Também teria dito que o reencontro dele com os santos seria no momento das mortes de cada um, e não na ressurreição (no “dia do Senhor Jesus” – 2Co.1:14; 4:14). Paulo não acreditava que o ser humano era dividido dualisticamente. Por isso, a imortalidade deve ser buscada (cf. Rm.2:7), e só Deus a possui como uma possessão presente (cf. 1Tm.6:16). A imortalidade subsistirá com a ressurreição dos mortos, quando aos justos será lhes dado corpos incorruptíveis (imortais), ao contrário dos ímpios (cf. Gl.6:8), sendo a imortalidade apenas “por meio do evangelho” (cf. 2Tm.1:10). A morte é vencida não em função de uma alma imortal que deixa o corpo após a morte sendo liberta da prisão da matéria, mas pela ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:54). Também é importante ressaltar que é apenas por ocasião da ressurreição que seremos dotados de imortalidade (cf. 1Co.15:51), que seremos adotados por Deus como filhos (cf. Rm.8:19-25) e que tomaremos posse de nossa cidade celestial (cf. Fp.3:20,21). Por enquanto, não existe nenhuma “multidão de almas” no Paraíso (cf. 1Tm.5:21), porque é somente pela manifestação de Cristo que seremos manifestados na glória (cf. Cl.3:4). Por essa mesma razão, os que morreram, como Onesíforo, ainda não encontraram a misericórdia de Deus entrando no Céu, mas acharão misericórdia "naquele dia", o dia do juízo (2Tm.1:16-18), na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1). Paulo deixa uma esperança, esperança essa tão pregada pela Igreja primitiva e pelos primeiros apóstolos, esperança essa que consiste no fato de que, “assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda” (cf. 1Co.15:22,23). A esperança de que seremos dotados do dom da imortalidade e da incorruptibilidade por ocasião dessa ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:53,54), quando, finalmente, poderemos dizer que “tragada foi a morte pela vitória” (cf. 1Co.14:54).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 277 CAPÍTULO 5.5 – AFINAL, ALGUM APÓSTOLO PREGOU A IMORTALIDADE DA ALMA? XXIV–O autor desconhecido de Hebreus também desconhecia a Imortalidade da Alma “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (cf. Hebreus 11:39,40) A carta aos Hebreus, por não ser assinada, causa a especulação de muitos sobre quem teria sido o seu autor. Alguns arriscam tratar-se do próprio apóstolo Paulo. Mas sendo Paulo, ou sendo outro, o fato é que o autor da epístola aos Hebreus mantém a mesma linha de pensamento holista, contrária à imortalidade da alma. A imortalidade condicional, a partir da ressurreição (dia do juízo), era unanimidade entre todos os apóstolos. Começaremos com a questão relativa ao juízo, bem colocada pelo autor de Hebreus: A Questão do Juízo – “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo” (cf. Hb.9:27). Uma das provas que eu considero mais fortes da inconsciência pós-morte é a questão relativa ao juízo. O autor de Hebreus é bem enfático ao dizer que logo em seguida da morte vem o juízo. Não vem o Céu e nem o inferno. A pessoa só é levada ao Céu ou ao inferno depois de ser julgada. Contudo, lemos que este julgamento só irá acontecer ao soar da última trombeta (cf. Ap.11:18), e após toda a tribulação apocalíptica, no final dos tempos (cf. Ap.20:12), na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1). O julgamento só acontecerá “quando vier o Filho do Homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então, se assentará no trono da sua glória” (cf. Mt.25:31). Sendo assim, a doutrina de que vamos diretamente para o Céu ou para o inferno antes da volta de Cristo (quando os mortos serão ressuscitados – cf. 1Co.15:22,23) entra em um total choque de lógica. Se as pessoas vão direto para o Céu ou para o inferno antes da volta de Cristo quando serão julgadas (cf. Mt.25:31), isso conflitaria com Hebreus 9:27, que diz enfaticamente que o juízo é logo após a morte. Se o juízo é só na volta de Cristo (cf. Mt.25:41; 2Tm.4;1), mas os mortos já estão no Céu ou no inferno muito antes disso, então eles estariam lá sem serem julgados ou, então, haveria dois julgamentos, mas Hebreus 9:27 traz o juízo no singular. Cada pessoa é julgada apenas uma única vez. Ninguém é levado ao Céu ou ao inferno antes do juízo, e este só acontecerá na volta de Cristo. Por conseguinte, os mortos antes disso não podem estar no Céu ou no inferno. Estão literalmente mortos, na sepultura, e só serão ressuscitados na volta de Cristo quando serão julgados. Um só julgamento, logo após serem ressuscitados, e só depois de serem julgados irão para o Céu ou para o inferno. Uma lógica simples e coerente, mas do lado dos imortalistas é preciso muita imaginação para sustentar a doutrina da imortalidade da alma à luz da doutrina do juízo. Para deixar um pouco mais claro, vamos enumerar as premissas:
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 278 (1) Existe um só juízo. (2) Esse juízo é somente na volta de Cristo. (3) Ninguém é lançado no Céu ou no inferno sem antes ser julgado. (4) Por conseguinte, concluímos que não existe vida antes da ressurreição dentre os mortos quando todos serão julgados. Vamos fortalecer um pouco mais os dois primeiros pontos e mostrar à luz da Bíblia Sagrada a questão relativa ao Juízo: 1. Existe um só juízo. Esse é um fato evidente que a Bíblia deixa mais do que claro. Em primeiro lugar, nunca na Bíblia inteira é mencionada qualquer pessoa passando por dois juízos. O juízo é apenas um porque não pode ser revogado. Além disso, Hebreus 9:27 traz “juízo” no singular. Existe um único juízo. Também em Mateus 10:25, em Mateus 11:22, em Mateus 11:24, em Mateus 12:36, em Mateus 12:41, em Mateus 12:42, em Lucas 10:14, em Lucas 11:31, em Lucas 11:32, em João 5:29, em João 9:39, em João 12:8, em João 12:11, em Atos 24:25, em Hebreus 6:2, em Hebreus 9:27, em Tiago 2:23, em 2ª Pedro 2:4, em 2ª Pedro 2:9, em 2ª Pedro 3:7, em 1ª João 14:17, em todas essas passagens o juízo vem no singular. Apenas um péssimo leitor da Bíblia seria capaz de negar o fato inteiramente claro e óbvio de que existe um único juízo para cada pessoa. Juízo este que não pode ser revogado e nem alterado, por isso mesmo é chamado de “juízo eterno”. Que os mortos não foram julgados fica ainda mais claro à luz de Atos 7:31, que diz: “Porquanto tem determinado um dia em que com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dentre os mortos”. Esse dia não chegou ainda. Note que o verbo está no futuro: “há de julgar” – ou seja, o juízo ainda não se concretizou e, portanto, os mortos não foram julgados para entrarem no Céu ou no inferno. Tal juízo ocorre é na segunda vinda de Cristo, como veremos a seguir. 2. Esse juízo é somente na volta de Cristo. Esse juízo a Bíblia afirma que acontece exatamente no momento da segunda vinda de Cristo. Em Mateus 25, a partir do verso 31, o Senhor Jesus fala sobre esse juízo, e diz quando ele será efetuado: “Quando o Filho do Homem vier em sua glória, com todos os anjos, assentar-se-á em seu trono na glória celestial” (cf. Mt.25:31). Trata-se a uma referência clara à volta gloriosa de Cristo. Também no contexto lemos: “Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo” (cf. Mt.25:32). Veja que os justos só entram na herança depois deste juízo, que acontece na revelação gloriosa de Cristo. Na epístola à Timóteo, Paulo afirma tal fato categoricamente: “Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos pela sua vinda e por seu Reino” (cf. 2Tm.4:1). Clareza maior do que essa é impossível: “há de julgar... pela sua vinda”! "Há de julgar" denota que o juízo não aconteceu ainda, mas é um evento futuro, ao passo que "na sua vinda" mostra quando é que esse juízo acontecerá. Importante também é ressaltar que é só depois deste julgamento que os santos serão recebidos no Reino (cf. Mt.25:32). Se ao morrerem as suas almas imortais já tivessem partido para o Paraíso (sem serem julgadas e nem nada, contrariando inclusive Hebreus 9:27), então os santos já teriam sido recebidos no Reino. O fato é que este julgamento só
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 279 acontece na segunda vinda de Cristo. Isso explica o porquê que Paulo esperava que Onesíforo encontrasse a misericórdia da parte do Senhor “naquele dia” (cf. 2Tm.1:16-18). Se os mortos já estivessem sido julgados estando no Céu ou no inferno como pregam os imortalistas, então Onesíforo já teria encontrado a misericórdia da parte do Senhor. No próprio livro de Apocalipse lemos que o juízo só vem após o término de todos os acontecimentos finais, após a segunda vinda de Cristo e a ressurreição: “Vi também os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono, e livros foram abertos. Outro livro foi aberto, o livro da vida. Os mortos foram julgados de acordo com o que tinham feito, segundo o que estava registrado nos livros” (cf. Ap.20:12). 3. Ninguém é lançado no Céu ou no inferno sem antes ser julgado. Já vimos nos dois últimos pontos que existe um único juízo para cada pessoa, e este juízo começa apenas na segunda vinda de Cristo. Obviamente, ninguém seria condenado sem ser julgado primeiro. Se os ímpios já estivessem queimando no inferno, seria totalmente desnecessário um juízo na volta de Cristo já que eles já estão lá, não podem sair de lá, e vão continuar lá do mesmo jeito. Isso prova que eles não estão queimando ainda. O castigo não está ainda ocorrendo, não havendo esse fogo devorador senão por ocasião da revelação de Cristo “naquele dia”, o dia da segunda vinda de Cristo (cf. 2Ts.2:7-10). O fato é que existe um só juízo (cf. Mt.10:25; Mt.11:22; Mt.11:24; Mt.12:36; Mt.12:41; Mt.12:42; Lc.10:14Lc.11:31; Lc.11:32; Jo.5:29; Jo.9:39; Jo.12:8Jo.12:11; At.24:25; Hb.6:2; Hb.9:27, Tg.2:23; 2Pe.2:4; 2Pe.2:9; 2Pe.3:7; 1Jo.14:17), esse juízo após a morte (cf. Hebreus 9:27), sendo na volta de Cristo (cf. Mt.25:31; Ap.20:12; 2Tm.4;1; At.7:31), só depois deste juízo que os mortos receberão a merecida recompensa (cf. Mt.16:27; Ap.22:12; Dn.12:13), e se os ímpios já estivessem queimando no inferno, seria totalmente desnecessário um juízo na volta de Cristo já que eles já estão lá, não podem sair de lá, e vão continuar lá do mesmo jeito. Ninguém é lançado no Céu ou no inferno sem ser julgado primeiro! - Por conseguinte, concluímos que não existe vida antes da ressurreição dentre os mortos quando justos e ímpios serão julgados, para entrarem no Paraíso ou para serem punidos. Os ímpios não vão estar sendo castigados no inferno sem nem ao menos serem julgados primeiro, para depois sair e ir para o julgamento e voltar a queimar novamente. Tal doutrina (de estado intermediário) não se harmoniza com a doutrina do juízo. Poderíamos sustentar as premissas de várias maneiras provando que a doutrina do juízo não se harmoniza com a imortalidade em um estado intermediário. Alguns meios que são legítimos pelo que vimos até aqui: (1) Depois da morte vem em seguida o juízo, e não o Céu ou o inferno (cf. Hb.9:27). (2) Este juízo é único e ocorre somente na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1). (3) Logo, os mortos não estão atualmente no Céu ou no inferno. As duas primeiras premissas são fatos que nós já vimos até aqui, amplamente declarados na Bíblia, e a terceira é a conclusão lógica das premissas. É muito claro que os apóstolos tinham a convicção de que o estado entre a morte e a ressurreição era um estado realmente de morte (sem vida) e, por isso, um estado atemporal. Não existe lapso de tempo entre a morte e a ressurreição.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 280 É por isso que o escritor de Hebreus afirma que para quem morreu vem em seguida o juízo (cf. Hb.9:27), apesar deste juízo ser somente na segunda vinda do Senhor (cf. 1Tm.4:1). Se o estado intermediário fosse um estado temporal, então existiriam milhares de anos no Céu ou no inferno antes da ocasião do juízo; em outras palavras, depois da morte não haveria o juízo! É óbvio que este estado é, como vimos, atemporal, não-existente. Morreu e vem o juízo, apesar de ser somente na volta de Jesus. Sendo que em um estado atemporal não existe tempo, segue-se que, morrendo, vem em seguida o juízo, que no estado temporal é claramente relacionado à segunda vinda do Senhor, o Cristo. Para quem está literalmente morto (i.e, sem vida) não existe tempo e espaço, e a passagem da vida terrena para a ressurreição é, realmente, como em um abrir e fechar de olhos, quando seremos ressuscitados e julgados para estar com Cristo. Isso é muito evidente quando comparamos a declaração de Hebreus 9:27 em relação à doutrina do juízo registrada na Bíblia Sagrada. Outra maneira simples de desclassificarmos a doutrina da imortalidade da alma em frente à doutrina do juízo: (1) Existe um só juízo para cada pessoa. (2) Se alguém é lançado no fogo do inferno, pressupõe que tenha sido julgado para isso. (3) Contudo, o juízo somente vem a ocorrer na segunda vinda de Cristo. (4) Logo, os mortos estão literalmente mortos (i.e, sem vida) esperando serem ressuscitados para aí sim serem julgados para então entrarem na vida ou na condenação. Novamente todas as premissas são confirmadas biblicamente, como já vimos acima. A premissa número dois apresenta uma lógica incontestável de que para alguém ir para o fogo do inferno é bem presumível que, realmente, deva ter passado por um juízo para isso. Afinal, o nosso Deus é um Deus justo, que não iria de forma alguma condenar alguém sem ter sido julgado para isso! Deus julga, e depois condena. A salvação ou perdição não precedem o juízo porque na própria continuação da passagem o autor de Hebreus evidencia que a salvação sucede (e não “antecede”) o juízo: “Da mesma forma, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (cf. Hb.9:27,28). Portanto, fica claro que não existe um “estado intermediário das almas”, pois o juízo para a separação entre justos e injustos só ocorre na segunda vinda de Cristo e a salvação não precede o juízo. Se as pessoas já estivessem no Céu neste “estado intermediário” (ou em algum outro lugar entre os salvos) então ela já estaria salva e, portanto, a salvação precederia o juízo, o que é claramente negado pelo autor de Hebreus (cf. Hb.9:28)! Os que “o aguardam” não estavam já entre os salvos, pois se fosse assim Cristo não teria que “trazer salvação” a eles! A lógica desmente completamente a lenda da imortalidade da alma. Também João afirma que “nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos também nós neste mundo" (cf. 1Jo.4:17). Por que ele acentua essa confiança “no dia do juízo” e não no dia da morte, quando a suposta “alma imortal” iria partir para o Céu? Ou o salvo morrendo já teria a sua sorte
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 281 definida entre os salvos, ali permanecendo esperando o dia do dia do juízo para saber se serão salvos ou não, embora já certos de que sim! Ora, o crente que morre só ganha (efetivamente) a salvação para desfrutá-la na segunda vinda de Cristo (cf. Hb.9:27,28), e não em um “estado intermediário”, e a expectativa sendo lançada para o Dia do Juízo seria inútil em caso que a alma já fosse salva ou condenada logo no momento da morte. Esperaríamos justamente o inverso, isto é, que a expectativa para saber se seremos ou não salvos fosse logo na morte e não no juízo que só vem a acontecer na volta de Jesus (cf. 2Tm.4:1; At.7:31). Quando assumimos a posição de mortalidade fazemos como João – colocamos o Dia do Juízo sendo o “clímax” da história; quando, porém, a “imortalidade da alma” entra no Cristianismo, esse Dia deixa de ser o centro do palco. Poderíamos também argumentar de outra maneira, se preferíssemos: (1) Se os ímpios já estivessem no inferno e os justos no Céu, não precisariam ser julgados para permanecerem no mesmo lugar do mesmo jeito, já que a ida ao Céu ou ao inferno é algo definitivo e irreversível. (2) O juízo é somente na segunda vinda de Cristo. (3) Pressupõe-se logicamente, portanto, que os mortos não estão na vida ou na condenação antes do momento do juízo. Nestas últimas premissas, o ponto-chave está fundamentado sobre a lógica da primeira premissa, de que é algo que vai frontalmente contra a lógica ter que sair do Céu ou do inferno para ser julgado e depois permanecer no Céu ou no inferno do mesmo jeito que antes. Isso, além de não fazer lógica nem ter qualquer sentido, faz do Dia do Julgamento algo presumível e sem razão de ser. Esperaríamos justamente o contrário, isto é, que os mortos fossem julgados e, depois, encaminhados ou para a vida ou para a condenação, em seus destinos finais de acordo com o que as suas obras fizeram por merecer. Essa é uma lógica muito simples, que nos faz desacreditar na doutrina imortalista, uma vez que apresentaria um choque de lógica irreversível. É impossível que a sabedoria divina apresentar-se-ia de maneira tão confusa, de fazer um juízo depois de todos já serem condenados ou terem ido para a vida, e depois do juízo voltar para o inferno ou voltar para o Céu do mesmo jeito que estava antes. Como já foi colocado aqui, os ímpios não vão estar sendo castigados no inferno sem nem ao menos serem julgados primeiro, para depois saírem e irem para o julgamento para em seguida voltarem a queimar novamente; e, se os ímpios já estivessem queimando no inferno, seria totalmente desnecessário um juízo na volta de Cristo já que eles já estão lá, não podem sair de lá, e vão continuar lá do mesmo jeito. Mais importante ainda do que os fatos expostos acima que desqualificam a doutrina da imortalidade em frente à doutrina do juízo é o que o autor da carta aos Hebreus escreve logo em seguida do verso em que aqui colocamos: “Da mesma forma, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e depois disso enfrentar o juízo, assim também Cristo foi oferecido em sacrifício uma única vez, para tirar os pecados de muitos; e aparecerá
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 282 segunda vez, não para tirar o pecado, mas para trazer salvação aos que o aguardam” (cf. Hebreus 9:27,28) Assim como na ordem natural o homem morre uma só vez (v.27 – em consequência do pecado – cf. Rm.5:12), também Cristo morreu uma só vez como sacrifício pelo pecado (v.28). E assim como, depois da morte, o homem enfrenta o juízo, também Cristo aparecerá de novo, trazendo a salvação para os que o aguardam. Aqui mora mais uma chave para compreendermos o teor da negação à doutrina imortalista em frente à carta aos Hebreus e à doutrina do juízo: os que lhe aguardam (v.28), que morreram vindo em seguida o juízo (v.27) [que ocorre na segunda vinda de Cristo – cf. 2Tm.4:1], não estão já salvos atualmente desfrutando das bênçãos paradisíacas, mas, ao contrário, aguardam a segunda vinda do Senhor para aí sim serem salvos. Se os mortos já estivessem no Céu então eles já teriam encontrado a salvação. Deus não teria a necessidade de “trazer a salvação” para alguém que já está entre os salvos. Do início ao fim, a doutrina do juízo nega de forma mais do que clara e precisa a doutrina da sobrevivência da alma em um estado intermediário dos mortos antes da ressurreição geral. Eles estão esperando por nós – “Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé não obtiveram, contudo, a concretização da promessa, por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados” (cf. Hb.11:39,40). Os heróis da fé ainda não obtiveram a concretização da promessa, pois Deus não quer que sem nós eles sejam aperfeiçoados. Qual é essa promessa, de acordo com o contexto? O contexto deixa claro que a “concretização da promessa” é a entrada no Paraíso, na cidade celestial (cf. Hb.11:10; Hb.11:16; Hb.11:26), como também é dito claramente no verso 16: “Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial. Por essa razão Deus não se envergonha de ser chamado o Deus deles, e lhes preparou uma cidade” (cf. Hebreus 11:16) E todos esses “heróis da fé”, dos quais o autor de Hebreus trata no capítulo 11, não obtiveram ainda a promessa. Eles esperam superior ressurreição, como é dito no verso 35: “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição”. O verso 39 deixa claro que eles não obtiveram a concretização da promessa (de entrar no Paraíso – cf. 11:16), e o verso seguinte explica o porquê de eles não terem ainda entrado nos Céus, “por haver Deus provido coisa superior a nossa respeito”, e “para que eles, sem nós, não sejam aperfeiçoados”. Eles [os mortos] só entrarão na Jerusalém celestial quando nós [os vivos] formos junto com eles, eles não entram antes de nós! Pelo contrário, eles “esperam superior ressurreição”, como é dito claramente no verso 35, e entram na pátria celestial ao mesmo passo nosso, pois eles sem nós não são aperfeiçoados nem obtêm a concretização da promessa. Os que morreram não obtêm a concretização da promessa após a morte, por Deus haver provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados! Note que Paulo, em 1ª Tessalonicenses 4:15, usa o mesmo pronome na primeira pessoa do
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 283 plural quando se refere aos vivos que seriam arrebatados por ocasião da volta de [“nós, os vivos”]; com os heróis da fé não é diferente, eles não obtêm a concretização da promessa senão quando "nós", ou seja, os vivos da época da volta de Cristo, formos ajuntados para entrar na Cidade Celestial ao mesmo tempo daqueles que já morreram. Pois é apenas desta forma que os heróis da fé que já morreram alcançam a promessa: quando todos forem ajuntados ao mesmo tempo, sem distinção, sem prioridade entre mortos e vivos por ocasião da volta de Cristo. A segunda vinda do Senhor não é um bem apenas aos vivos para entrar no Céu, mas também aos próprios mortos, pois da mesma maneira que os vivos só entram no Céu na Sua Vinda, o mesmo se dá para os que já morreram (cf. 1Ts.4:15; Hb.11:39,40). Isso é o que significa colocar a volta de Cristo totalmente no centro do palco! Os que pregam que o autor da epístola aos Hebreus, contraditoriamente, ensinava a doutrina da imortalidade da alma, apregoam o texto de Hebreus 12:23, que diz: “à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados”. Contudo, basta analisarmos o contexto para vermos o quão equivocada está a interpretação dualista e deixarmos o texto fluir livremente, a partir dos versos anteriores e seguintes: “Mas vocês [hebreus] chegaram ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo. Chegaram aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus. Vocês chegaram a Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de uma nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel” (cf. Hebreus 12:22-24) O autor começa falando de uma santificação sem a qual ninguém verá a Deus (v.14), alerta para seus leitores não serem como Esaú que vendeu a benção de Deus, e de como o povo pecou no pé do Sinai. Então a partir do v.22 começa a elogiar os hebreus a quem ele escrevia, e nessa seção de elogio consta que eles já haviam chegado à Jerusalém celestial (espiritualmente), chegaram também ao acesso dos anjos, faziam parte da mesma igreja dos primogênitos, que assim como eles estão inscritos no céus (livro da vida), alcançaram a Deus, alcançaram a Jesus, estão no mesmo patamar daqueles que tiveram seus espíritos aperfeiçoados (estatura de varão perfeito), dos quais ele menciona em todo o capítulo 11, aqueles ao qual o autor se referia estavam no mesmo nível dos justos patriarcas. O autor não poderia estar falando que os justos que morreram já estão aperfeiçoados no Céu, pelo simples fato de que, como vimos, ele declara taxativamente o contrário alguns versos antes: "Por haver Deus provido coisa superior a nosso respeito, para que eles [os patriarcas mortos do cap.11], sem nós [os vivos], não fossem aperfeiçoados" (cf. Hb.11:40) Ou seja, os heróis da fé ainda aguardam o aperfeiçoamento total de suas vidas. O texto deixa claro que esse aperfeiçoamento será em conjunto com os outros santos (nós), e ocorrerá somente como Jesus predisse (cf. Jo.6:44), num abrir e fechar de olhos (cf. 1Co.15:52), no último dia, o da Sua volta e não antes disso. O que o autor de Hebreus estava colocando era uma verdade espiritual e não um fato material. Os hebreus não haviam chegado literalmente aos milhares de anjos, por exemplo.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 284 É como quando Paulo escreve que Deus nos “resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado” (cf. Cl.1:13). Essa é uma grande verdade espiritual; embora nós materialmente continuamos nesta terra no mesmo lugar antes e depois de recebermos a Cristo em nossos corações, nós espiritualmente estávamos no Reino das Trevas antes de conhecer a Cristo. Materialmente falando, a nossa união com eles se dará por ocasião da ressurreição (cf. 1Ts.4:15), como o próprio autor de Hebreus escreve que eles ainda não foram aperfeiçoados (cf. Hb.11:39,40). É só neste momento que eles entram no Céu sendo aperfeiçoados, pois “eles sem nós não alcançam a promessa”. Ademais, não nos é dito que os primogênitos estão nos céus, mas sim que os seus nomes estão nos céus. Isso é muito significativo, porque nós temos os nossos nomes inscritos no Céu em vida e não depois que morremos: “E peço-te também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os outros cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida” (cf. Filipenses 4:3) Veja que eles já estavam com os seus nomes inscritos no Céu, no livro da vida. Paulo não escreve “estará” {no futuro}, mas sim “estão” {no presente momento}. Cristo também diz que nós temos os nossos nomes escritos nos céus no presente momento (cf. Lc.10:20). Portanto, a menção de Hebreus 12:23 diz respeito a pessoas vivas, e não a mortos! Finalmente, se o autor de Hebreus quisesse realmente passar a informação de que as próprias pessoas estão nos Céus, então ele diria que eles “estão nos céus”; contudo, ele diz que “cujos nomes... estão nos céus”! Isso é muito importante, pois os nomes são escritos enquanto as pessoas estão vivas e, por isso, não são as próprias pessoas, mas sim os seus nomes que estão nos céus. Se o autor de Hebreus fosse imortalista, certamente teria dito que eram os próprios primogênitos que estavam no Céu. Outra passagem igualmente utilizada na tentativa de se provar a vida após a morte na epístola aos Hebreus encontra-se no verso 4 de Hebreus 11, que diz: “Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício superior ao de Caim. Pela fé ele foi reconhecido como justo, quando Deus aprovou as suas ofertas. Embora esteja morto, por meio da fé ainda fala” (cf. Hebreus 11:4) Mas vemos que eles falham aqui exatamente no mesmo ponto do anterior: não é a “alma” de Abel que ainda fala, mas sim a sua fé! É o seu exemplo e dedicação de fé que nos serve de exemplo e ensino até os dias de hoje. Seu ato ainda fala! O ato de Abel foi um ato de adoração a Deus: pela fé ele apresentou a Deus um culto mais aceitável e excelente em relação a Caim. É evidente que se fosse o próprio Abel que falasse, então bastaria que o autor de Hebreus registrasse que “ele [Abel], mesmo morto, ainda fala” – e “fim de papo”! Mas, uma vez que ele de fato não acreditava que Abel já estivesse vivo em algum lugar, então teve que dizer que foi o seu ato de fé que fala a nós. Não é o próprio Abel, e muito menos a “alma” dele que fala! O mesmo autor escreve na mesma epístola que o sangue de Abel fala (cf. Hb.12:24). Não é “estranho” que sempre seja “a fé”, “o sangue” ou os "nomes”, e não a própria “alma” ou “espírito" que estejam vivos ou falem?
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 285 Morreram, e mesmo assim não alcançaram a promessa – Neste mesmo contexto vemos o autor de Hebreus colocando algo semelhante ao que ele relata nos versos 39 e 40: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra” (Hb.11:13). Aqui vemos que, mesmo morrendo, eles ainda não alcançaram a promessa! A versão católica da CNBB assim reza: “Todos estes morreram firmes na fé. Não chegaram a desfrutar a realização da promessa, mas puderam vê-la e saudá-la de longe e se declararam estrangeiros e peregrinos na terra que habitavam” (cf. Hb.11:13). Temos sempre que lembrar que a “promessa” que o autor de Hebreus se refere é exatamente a cidade celestial junto a Deus (cf. Hb.11:10; Hb.11:16; Hb.11:26). Mesmo depois de morrerem {estando na fé}, eles não alcançaram a promessa! Ora, se a morte introduzisse as suas almas direto na presença de Deus, então eles já teriam alcançado a promessa na morte, que seria a própria estadia celestial. O que vemos, contudo, é exatamente o inverso disso, eles morreram e não alcançaram a promessa, eles a viram (“saudaram”) pelos olhos da fé, vendo-a de longe, mas sem a alcançar! É impossível que as promessas ali relatadas tratem-se apenas de seus objetivos terrenos, porque com relação a promessas terrenas eles já haviam alcançado as promessas (cf. Hb.11:13). É inequívoco, então, que realmente tratam-se das promessas espirituais, da “cidade que tem fundamentos” (cf. Hb.11:10), como é ressaltado por todo o contexto (cf. Hb.11:10; Hb.11:16; Hb.11:26). Vemos, portanto, que a morte não foi o passaporte direto para a presença de Deus no Céu (como erroneamente pensam os defensores da alma imortal). O autor nunca diz em parte nenhuma de sua carta que “eles já receberam a promessa”; pelo contrário, diz exatamente o inverso disso: “morreram sem receber as promessas”; “não chegaram a desfrutar da realização das promessas"; “não obtiveram a realização da promessa”; “eles sem nós não são aperfeiçoados”, etc (cf. Hb.11:39; Hb.11:40; Hb.11:13). Se os pais da fé já tivessem no Céu na época em que o escritor de Hebreus relatava tais fatos, então seria imprescindível que ele narrasse este fato tão importante na teologia da imortalidade da alma. Isso seria de fundamental importância pelo contexto, deixando claro que depois de todos os seus esforços e lutas aqui na terra eles finalmente alcançaram a promessa da cidade celestial. Contudo, tal colocação não é levantada em parte nenhuma , pelo simples fato de que eles, realmente, ainda não alcançaram a cidade que tem fundamentos, mas esperam a concretização da promessa. Eles não estão na pátria celestial – Um outro ponto importante com relação aos heróis da fé é que é nos dito ainda mais enfaticamente que eles, de fato, ainda não estão na cidade celestial, como podemos ver ao longo de todo o contexto: Hebreus 11 13 Foi na fé que todos {nossos pais} morreram. Embora sem atingir o que lhes tinha sido prometido, viram-no e o saudaram de longe, confessando que eram só estrangeiros e peregrinos sobre a terra. 14 Porque, os que isto dizem, claramente mostram que buscam uma pátria. 15 E se se referissem àquela donde saíram, ocasião teriam de tornar a ela...
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 286 16 Mas não. Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, à celestial. Por isso, Deus não se dedigna de ser chamado o seu Deus; de fato, ele lhes preparou uma cidade. Aqui vemos a confirmação de que os heróis da fé, de fato, não estão na pátria. Isso porque eles “buscam uma pátria” (v.14). Ora, se eles buscam uma pátria, então eles não estão nesta pátria! Tal lógica simples desmente em absoluto que eles já estejam no Céu, porque o mesmo contexto nos mostra que tal “pátria” refere-se exatamente a cidade celestial (v.16). Se você busca por algo é porque você não possui tal coisa, mas ainda deseja alcançá-la. É exatamente esta a situação dos heróis da fé: eles não alcançaram ainda tal pátria, não estão nela, mas anseiam e desejam tomar posse dela. Por isso, eles buscam uma pátria, e não estão em alguma pátria! O verso 13 traduz praticamente tudo o que nós estamos dizendo aqui: “Embora sem atingir o que lhes tinha sido prometido...”; ou seja, eles não atingiram tal pátria, e a analogia nos mostra a tipificação com a pátria celestial (v.16), na qual eles não estão ainda. Deus lhes “preparou” esta cidade (v.16). A cidade está preparada para eles entrarem; eles não entraram ainda, mas aguardam tal concretização da promessa para que “conosco eles sejam aperfeiçoados” (v.40). Tal união entre os heróis da fé e os outros salvos concretiza- se exatamente neste momento tão esperado, tão desejado, momento este que se dá na volta do Senhor deles e nosso, o Salvador, o Cristo, na superior ressurreição dentre os mortos. O autor de Hebreus faz questão de relatar que eles não então na pátria celestial (doutro modo teria dito abertamente isso), mas sim que esta cidade lhes está “preparada” para o dia em que irão entrar. A cidade está preparada não apenas para nós, mas também para eles, para que juntamente atinjamos o que nos foi prometido, a promessa de uma pátria suprema, isto é, a celestial. Focando-se na esperança da ressurreição – “Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição” (cf. Hb.11:35). A passagem é bem clara em dizer que o motivo pelo qual eles suportaram a tortura e a perseguição foi a esperança de obterem uma superior ressurreição, e não da alma partindo imediatamente para o Céu por ocasião da morte. Isso seria muito estranho caso existisse a imortalidade da alma. Esperar-se-ia o contrário, isto é, que eles morressem esperando que as suas almas já partissem para o Céu para receber sua herança. Contudo, eles morreram foi “para obterem superior ressurreição”. Foi pela ressurreição dos mortos que eles aceitaram a tortura e a perseguição, pelo simples fato de que é na ressurreição em que finalmente entraremos no Reino prometido do Pai. Se existisse a imortalidade da alma, eles morreriam esperando que as suas almas imortais partissem imediatamente para o Céu, o que seria o mais importante, e a ressurreição se limitaria apenas a obter novamente um corpo para continuar no Céu do mesmo jeito. Obviamente, essa visão estava longe de se comparar àquela que os mártires tinham próximos da morte. Contraste entre Cristo e os homens mortais – “No primeiro caso, os que recebem os dízimos são homens mortais; lá, porém, se trata de alguém do qual se declara que vive” (cf.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 287 Hb.7:8). Aqui contrasta-se “homens mortais” com aquele vive [atualmente] – Cristo. Este versículo simplesmente não faz lógica para os imortalistas. Em primeiro lugar, porque os que recebem o dízimo “no primeiro caso” (pelo contexto, os levitas – cf. Hb.7:5,6) também deveriam estar vivos assim como Cristo, pois seriam imortais através de uma alma eterna que lhes teria sido supostamente implantada. Em segundo lugar, o contraste que faz o autor de Hebreus é muito claro: Jesus é aquele “que se declara que vive”, ao contrário dos demais homens! Ora, se existisse a imortalidade da alma então aqueles homens também estariam vivos e, portanto, o contraste ali apresentado seria nulo e sem sentido. Novamente vemos a distinção entre Cristo e os outros que já morreram, assim como a antítese entre Cristo e Davi (cf. At.2:34), e entre Cristo e os demais (cf. At.19:25), vemos também aqui o fato de que os homens são mortais, mas Cristo vive! O texto original do grego traz: “apothnesko anthropos” – homens mortais – e, em seguida, aplica os termos gregos: “ekei de” – lá, porém. Veja que o autor faz questão de ressaltar o caráter de um contraste. A última palavra deixa claro uma condição: “mas; porém; contudo”. Ele ressalta um nítido contraste, uma antítese, entre um grupo (levitas) e o outro (Cristo). Após ressaltar que estava elaborando um contraste entre um e outro grupo, ele declara que a respeito de Cristo: “marturoumenos oti zê" – testemunha que vive. Em outras palavras, dado o devido contraste, Cristo continua vivo e os outros não; à Cristo se declara que vive, aos outros homens se declara que são mortais; é muito claro a partir deste versículo que Cristo está atualmente vivo, ao contrário dos demais homens. Aqui são homens que estão mortos; lá, porém, trata-se de alguém que está vivo. Embora na teologia imortalista todos os que morreram já estão vivos em algum lugar (até mesmo junto com o próprio Cristo), o autor de Hebreus faz o contraste e distinção entre ambos – lá estão mortos, aqui está vivo! Isso provém do fato de que Jesus já ressuscitou antes (cf. 1Co.15:22,23) e, por isso, vive. Os outros, contudo, esperam a ressurreição (sem vida), o que explica o nítido contraste feito pelo escritor de Hebreus, entre o Cristo vivo e os demais mortos. Se tanto Cristo quanto os outros homens que morreram estivessem todos vivos, então a antítese perderia completamente o seu sentido. Só entende esta passagem quem realmente crê que não existe vida entre a morte e a ressurreição, sendo a morte o fim da existência. A passagem é uma prova incontestável de que Cristo está vivo e os outros do “primeiro caso” estão, realmente, mortos - sem vida. Antítese entre os que morrem e o que permanece eternamente – “E, na verdade, aqueles foram feitos sacerdotes em grande número, porque pela morte foram impedidos de permanecer. Mas este, visto que vive para sempre, Jesus tem um sacerdócio permanente. Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, pois vive para sempre para interceder por eles” (cf. Hb.7:23-25). Aqui vemos que o motivo pelo qual Cristo tem um sacerdócio perpétuo provém do fato de que ele permanece [vivo] para sempre! Ora, se os homens subsistissem fora do corpo em estado desencarnado por meio de uma alma imortal, segue-se então que eles também permaneceriam para sempre. Novamente,
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 288 vemos como é confusa a doutrina imortalista, porque de novo faz com que o contraste feito pelo escritor seja fútil, sem sentido, pois ambos permaneceriam para sempre. Se Cristo permanecesse vivo para sempre e os outros também, isso não seria antítese coisa nenhuma. Isso ignora completamente o contexto bíblico e o fato de ele aplicar a partícula grega “de” – mas; contudo; entretanto. É muito claro que se trata de uma antítese, de um contraste entre o Cristo que está vivo e os demais que estão mortos. Se seguimos a lógica incontestável de que os que já morreram realmente estão sem vida (pois não existe forma de vida consciente entre a morte e a ressurreição), então tudo começa a fazer sentido. A morte os impede de permanecer (v.23); mas Cristo vive para sempre (v.25), porque tem um sacerdócio perpétuo proviniente do fato de que permence vivo eternamente (v.24)! Novamente, vemos que toda a antítese aqui feita revela-nos que a doutrina da alma imortal não bate com o que é nos dito. Afinal, os dois grupos viveriam para sempre e os dois grupos permaneceriam eternamente vivos. Isso significa contrariar o pensamento do autor, que segue uma lógica incontestável: Cristo está vivo; os demais, mortos. Conclusão – Seguindo a linha de raciocínio bíblico holista, o autor da epístola aos Hebreus refuta vigorosamente a tese de imortalidade da alma em um estado intermediário. Afinal, se isso fosse uma realidade, então os heróis da fé do passado já haveriam alcançado a promessa, algo que não somente ele não diz em parte nenhuma da epístola, como também faz questão de ressaltar o fato de que eles não alcançaram a promessa (cf. Hb.11:39,40). Nem mesmo com a morte eles alcançaram a promessa (cf. Hb.11:13), o que nos mostra que a morte não implica na libertação da alma direto à presença de Deus. Se tal fosse o caso, eles já teriam alcançado a promessa e a morte introduziria eles direto ao Céu, algo que o autor de Hebreus nega (cf. Hb.11:13; 11:39,40). Ademais, o fato de o juízo suceder o momento da morte (cf. Hb.9:27) e este juízo só ser na segunda vinda de Cristo (cf. 2Tm.4:1) nos mostra que os mortos não podem já estar no Céu ou no inferno, uma vez que não é isso o que sucede a morte (mas sim o juízo na volta do Senhor) e que presumivelmente para alguma pessoa ser lançada no fogo deve ter passado primeiramente por uma condenação, algo que também é negado biblicamente que já tenha acontecido (cf. At.17:41; 1Pe.4:5; Jo.5:28,29). Em todo o livro de Hebreus, vemos que toda a “confiança que nós temos” (cf. Hb.10:35) e que “será ricamente recompensada” (v.35) se dará não quando nós morrermos e as nossas almas partirem para o Céu, mas sim quando “em breve, muito em breve, Aquele que vem virá, e não demorará” (v.37), e aí sim receberemos o que Ele nos prometeu (v.36), porque é somente neste momento em que os mortos serão ressuscitados (cf. 1Co.15;22,23). Em Hebreus 11:35, vemos que o motivo pelo qual alguns deles aceitaram a tortura foi visando uma superior ressurreição, e não a “esperança” de suas almas estarem de imediato no Céu em um “estado intermediário”. A ressurreição deveria ser a única esperança para o cristão obter vida novamente e imortalidade, algo que também é muito ressaltado por Paulo ao longo de todo capítulo de 1ª Coríntios 15. Ademais, é nos feito um contraste entre Cristo – que vive – e os homens mortais (cf. Hb.7:8).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 289 Uma vez que o autor de Hebreus está claramente intitulando uma antítese, segue-se que não há como os “homens mortais” estarem vivos (pois se fosse assim não seria um contraste!). Pouco mais a frente e lemos também que “ele [Cristo] pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, porquanto vive sempre para interceder por eles” (cf. Hb.7:25). Novamente vemos o contraste aqui acentuado, entre aqueles que perecem pela morte (v.23) e aquele que permanece para sempre (v.24), Cristo! Por tudo isso, diante de tudo o que já constatamos até aqui pelos Pais da Igreja, pelo Antigo Testamento, pelos ensinamentos de Jesus, de Paulo e agora também pelo autor de Hebreus, a tese pagã da imortalidade da alma permanece sendo uma grande lenda quando tratamos de Cristianismo bíblico. XXV–Pedro pregou a Imortalidade da Alma? Jesus foi ao inferno pregar aos antediluvianos? – Uma passagem bastante utilizada para colocar Jesus no inferno (sim, vale tudo para defender a imortalidade da alma...) se encontra na primeira epístola de Pedro. O texto bíblico assim narra: “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no Espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água” (cf. 1Pe.3:18-21). Por isso, grande parte dos imortalistas pregam que entre a morte e a ressurreição Jesus foi para o inferno, selecionou os espíritos dos antediluvianos dos dias de Noé, e lhes fez uma pregação. Há muitos problemas com essa interpretação. Em primeiro lugar, o ensino bíblico em sua totalidade nega qualquer oportunidade de salvação para os mortos, pois ela é restrita apenas a esta vida (cf. 2Co.6:1,2; Hb.3:13; Hb.9:27, etc.). Logo, Cristo não poderia ter pregado para pessoas mortas, pois elas não podem mais se arrepender e sair do lugar de condenação para o lugar de conforto. Dizer que Cristo literalmente desceu para o inferno, a fim de fazer uma pregação para pessoas já mortas e condenadas é, além de colocar o Senhor Jesus em um lugar que ele não merece, ferir a Bíblia que afirma categoricamente que os mortos não tem uma segunda oportunidade de salvação, tornando assim vã qualquer pregação. Em segundo lugar, uma vez que os mortos não poderiam mais sair daquele lugar de tormento, então qualquer pregação de Cristo, independente de qual fosse o teor, seria inútil, uma vez que aqueles perdidos não poderiam sair de lá jamais. Se os mortos que se encontravam no inferno, ou no Hades, não poderiam sair de lá mesmo, não importa qual fosse a pregação, então podemos até especular sobre como devia ter sido a tal da “pregação”: “Eis que vos trago ‘boas novas’ de grande desespero: estão sendo atormentados por seus pecados? Não viram nada ainda! Muito mais torturas enfrentarão depois da ressurreição, quando as suas ‘almas imortais’ deixarão este lugar para se religarem aos seus corpos mortos, passarem pelo julgamento e depois voltarem de novo para o inferno para continuarem queimando como antes para todo o sempre...!” Será que isso faz o estilo de Jesus Cristo? Não me parece nem um pouco!
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 290 Em terceiro lugar, tendo descido ao Hades ou inferno, Jesus teria selecionado apenas e tão-somente os espíritos daqueles da época de Noé, escolhendo a dedo só a alguns e, enquanto eles queimavam, Cristo foi fazendo a tal “pregação” para eles. Os outros, contudo, presumivelmente deviam estar com os ouvidos tampados para não ouvirem nada da pregação. E, por fim, após terminarem de ouvir a tal da pregação (enquanto queimavam entre as chamas de um fogo real e inapagável), eles continuaram queimando do mesmo jeito que antes! Isso realmente deve fazer lógica para os imortalistas, além de basearem-se em um Deus arbitrário, que escolhe a dedo alguns poucos “privilegiados” para ouvirem a pregação enquanto queimam no fogo do inferno, do purgatório, ou do Hades, e os outros nem sequer podem ouvir a tal pregação! Em quarto lugar, o texto nada diz sobre Jesus ter passado pelo inferno (ou Hades). Se Cristo não subiu para o Céu entre a sua morte e ressurreição (cf. Jo.20:17), tampouco teria morrido e ido para o inferno, lugar no qual ele, sem pecado algum, de modo algum teria merecido! Se Cristo tivesse ido para o inferno fazer essa pregação, então bastaria que Pedro tivesse mencionado isso no verso 19, no qual ele menciona que a pregação teria sido realizada aos espíritos em prisão. Se Cristo tivesse descido ao inferno ou ao Hades, Pedro poderia ter perfeitamente mencionado este local, como qualquer um assinaria “espíritos no inferno” ou “espíritos no Hades”. O fato de Pedro não mencionar nenhum destes dois lugares provém do fato de que essa prisão corresponde à prisão do pecado, como veremos mais adiante. E, em quinto lugar, mandar Jesus para o inferno é o bom senso que nos diz que um homem santo como este não seria mandado para tal lugar entre a sua morte e ressurreição! O inferno foi feito “para o diabo e seus anjos” (cf. Mt.25:41), e não para Jesus, nem mesmo de forma temporária! Portanto, tendo em vista as razões lógicas expostas acima, é ilógico interpretar a passagem da maneira como querem os dualistas. Veremos a seguir mais algumas provas de que tal interpretação deles está equivocada e, em seguida, explicar e elucidar tal passagem à luz do contexto. Alguns versículos que lançam bastante luz – Além dos fatos já expostos acima, há mais razões pelas quais a Bíblia desaprova absolutamente que Cristo tenha pregado no inferno para pessoas que já estavam mortas. Acima foi exposto como que o bom senso liquida com tal “interpretação”, e agora veremos alguns textos bíblicos que também derrubam com qualquer possibilidade dos mortos ouvirem o evangelho. “Como cooperadores de Deus, insistimos com vocês para não receberem em vão a graça de Deus. Pois ele diz: No tempo aceitável te escutei e no dia da salvação te socorri; eis aqui agora o tempo aceitável, eis aqui agora o dia da salvação!” (cf. 2ª Coríntios 6:1,2) Aqui fica claro que a pregação para a salvação não é depois da morte, mas é “aqui agora”, neste momento, no tempo chamado “hoje”. Depois da morte não existe qualquer chance de ouvir a pregação a fim de ser salvo, porque é hoje – agora – o tempo aceitável, o dia da salvação.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 291 A mesma linguagem é empregada pelo autor de Hebreus: “Pelo contrário, encorajem-se uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama ‘hoje’, de modo que nenhum de vocês seja endurecido pelo engano do pecado” (cf. Hb.3:13). O tempo que nós temos de encorajar uns aos outros é hoje, nesta presente vida, porque depois não teremos mais qualquer possibilidade de ouvir o evangelho. Por isso, é durante o tempo que se chama “hoje” que ainda existe tal possibilidade. O evangelho não é e nem pode ser pregado para mortos, mas apenas aqueles que estão debaixo do Céu: “Desde que continuem alicerçados e firmes na fé, sem se afastarem da esperança do evangelho, que vocês ouviram e que tem sido proclamado a todos os que estão debaixo do céu. Esse é o evangelho do qual eu, Paulo, me tornei ministro” (cf. Colocenses 1:23) Se os mortos tivessem ouvido alguma pregação de Cristo entre a sua morte e ressurreição, então segue-se logicamente que o evangelho também teria sido proclamado não apenas àqueles que estão debaixo do céu, mas também àqueles que estão “no além”, ou no inferno. Tal suposição, contudo, é negada pelas claras palavras do apóstolo Paulo em relatar que até aquele momento o evangelho havia sido pregado era para aqueles que estão “debaixo do céu” (ou seja, a nós, os vivos), e não a pessoas já mortas em algum lugar! Por fim, de acordo com o texto de Hebreus 9:27, que diz que “depois da morte vem o juízo” (cf. Hb.9:27), segue-se a ideia de que os mortos já estariam julgados e qualquer pregação de Cristo seria vã, pois o juízo é “eterno” (cf. Hb.6:2), ou seja, irreversível! Portanto, biblicamente não existe qualquer chance de salvação depois da morte, bem como não existe qualquer possibilidade de ouvir a pregação do evangelho depois de já haver morrido - muito menos estando no inferno! Por tudo isso, os eruditos bíblicos mais sérios têm rejeitado a interpretação absurda de que Jesus tivesse ido para o inferno pregar para pessoas mortas que não poderiam se salvar. Tal suposição, além de contradizer completamente as regras da lógica e do bom senso e de ir frontalmente contra a Palavra de Deus, ainda tem como finalidade colocar Jesus no inferno. É uma suposição tão satânica quanto a própria lenda da imortalidade da alma. O nosso próximo passo, a partir de agora, será analisarmos o devido contexto a fim de interpretarmos corretamente o texto de 1ª Pedro 3:19 à luz do contexto e das verdades apresentadas nas Escrituras. Como entender os “espíritos em prisão”? - Para vermos o que Pedro estava dizendo nessa passagem, temos que contextualizá-la ao invés de isolarmos o verso 19 para fundamentarmos uma doutrina antibíblica. O verso anterior (v.18), explica o seguinte (v.19), declarando: “Pois também Cristo sofreu pelos pecados uma vez por todas, o justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. Ele foi morto no corpo, mas vivificado pelo Espírito”. Aqui o termo “espírito” é o próprio Espírito Santo, conforme também mencionam muitas boas traduções como a Versão inglesa King James (considerada por muitos a melhor versão do mundo), a versão francesa Louís Segond, a versão italiana Giovanni Diodati Bible, a
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 292 versão alemã Luther, a versão católica da CNBB, a NVI (Nova Versão Internacional), a nova versão Vulgata Latina, entre outras. Jesus não foi vivificado pelo espírito dele mesmo, foi o Espírito Santo quem vivificou a Cristo. O original grego não possui diferenciação alguma entre as letras maiúsculas e minúsculas, de modo que é pelo contexto que analisamos se “espírito” trata-se da pessoa do Espírito Santo ou não. A prova mais forte de que é o Espírito Santo quem vivificou a Cristo está na própria Bíblia Sagrada: “E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês” (cf. Romanos 8:11) O Espírito (Santo) que ressuscitou a Cristo é o mesmo que nos ressuscitará. Nisso fica claro que o “espírito” no verso 18 é uma referência ao Espírito Santo, e não ao próprio espírito de Cristo. Portanto, o verso 18 afirma que Jesus foi vivificado pelo Espírito Santo. A palavra grega “en” (empregada no início do verso 19) refere-se ao termo anterior “Espírito”, e o verso 19 significa que Cristo pregou aos antediluvianos, não pessoalmente, mas pelo Espírito Santo nos dias de Noé. Parafraseando Leandro Quadros, levando-se em conta o contexto bíblico o texto diz o seguinte: “Nos dias de Noé, por meio do Espírito Santo Cristo pregou aos antediluvianos que estavam presos pelas cadeias do pecado”148. Quais eram essas “cadeias”? O próprio Cristo responde: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor. E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele. Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos” (cf. Lucas 4:18-21) Vemos que Jesus compreendia que a sua obra terrena implicava principalmente em dar “abertura da prisão aos presos”. Ora, de qual “prisão” Jesus estava falando? Da prisão espiritual. Achavam-se ligados em pecado, e Cristo devia fazer essa obra, porquanto sobre Ele estava “o espírito do Senhor”. Tanto Cristo quanto as pessoas a quem Ele pregava estavam vivos. Inúmeras menções a “prisão” como sendo uma referência espiritual (e não física ou literal) com respeito ao pecado é encontrada nas Sagradas Escrituras. No Salmo 142:7 Davi suplicou que Deus tirasse a sua alma da prisão: “Tira a minha alma da prisão, para que louve o teu nome; os justos me rodearão, pois me fizeste bem” (cf. Sl.142:7). Provérbios 5:22 nos afirma que a prisão que traz a alma prisioneira é a prisão do pecado: “Quanto ao ímpio, as suas iniqüidades o prenderão, e com as cordas do seu pecado será detido” (cf. Pv.5:22). E que os antediluvianos estiveram bem presos na prisão do pecado é dedutível a partir da leitura bíblica de Gênesis 6:5: “E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (cf. Gênesis 6:5) 148 QUADROS, Leandro. Cristo realmente pregou aos “espíritos em prisão”? 1 Pedro 3:19. Disponível em: <http://novotempo.com/namiradaverdade/cristo-realmente-pregou-aos- %E2%80%9Cespiritos-em-prisao%E2%80%9D-1-pedro-319/>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 293 Portanto, o Espírito Santo pregou a pessoas vivas, e não a pessoas mortas que estavam queimando em algum lugar e não podiam mais se salvar! A “prisão” ali mencionada é uma referência, não ao inferno-geena, e nem ao Hades ou Tártarus, mas sim à prisão espiritual na qual estão presos aqueles que vivem no pecado. Ademais, o termo “espírito” não remete a pessoas mortas desencarnadas. Biblicamente, os vivos são considerados como espíritos, porque corpo, alma e espírito são características da mesma pessoa. Na sua primeira epístola aos Coríntios (cf. 16:18), Paulo aplica o termo com respeito as pessoas vivas – “porque trouxeram refrigério ao meu espírito” -, isto é, a mim mesmo, à minha pessoa. Também em Gálatas 6:18, ele afirma: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja irmãos, com o vosso espírito”. Vosso espírito quer dizer convosco, com a vossa pessoa. Gênesis 7:15 afirma que: “de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois em dois para junto de Noé na arca” (cf. Gn.7:15). Em Hebreus 12:23, vemos o termo “espírito” ser utilizado como menção para a igreja militante. Portanto, o termo “espírito”, quando se refere a seres humanos, remete a pessoas vivas, e não mortas. E a última questão a ser resolvida é: quando é que se deu tal pregação? No verso 21 há a expressão “noutro tempo”, que claramente se identifica com o tempo em que “a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé”. O tempo era os dias de Noé, o tempo durante o qual Deus procurou libertá-los da prisão do pecado. Portanto, a passagem bíblia, dentro de seu devido contexto, nega qualquer possibilidade de salvação após a morte ou de pregação para pessoas mortas e que não poderiam mais sair do lugar onde se encontravam. A Bíblia é bem clara em mencionar que a oportunidade de receber a pregação oferecida por Cristo é somente nesta vida (cf. 2Co.6:1,2; Hb.3:13; Hb.9:27; Cl.1:23). O professor Apolinário faz uma boa observação em sua conclusão sobre tal passagem: “Ao ler com atenção 1 Pedro 3:18, verificamos que o Espírito Santo que ressuscitou dos mortos a Cristo, foi o meio usado por Cristo para advertir o povo do tempo de Noé, de que estava iminente o dilúvio e se preparassem para entrar na arca. Não obstante, eles rejeitaram a mensagem, e somente Noé e sua família foram salvos. Não há, pois, nestes passos, insinuação alguma de que enquanto esteve na sepultura, Cristo haja pregado. Essa doutrina é ensinada pela Igreja Católica, sem apoio nas Escrituras”149 O mesmo Pedro afirma que Noé era um “arauto de justiça” (cf. 2Pe.2:5). A pregação ocorreu não quando Cristo teria descido ao “inferno” (o que é antibíblico), mas sim pelo Espírito Santo (v.18), durante os dias de Noé. O que podemos tirar de 1ª Pedro 3:18-21 é simplesmente que nos dias de Noé, por meio do Espírito Santo, Cristo pregou aos antediluvianos que estavam presos pelas cadeias do pecado. Não há apoio nenhum à doutrina da imortalidade da alma e não apresenta contradição alguma com o restante total das Escrituras Sagradas que negam em completo tal doutrina que divide a natureza humana. Os únicos que querem colocar Jesus no inferno são os satanistas, e não os verdadeiros cristãos. Vejamos, então, o resumo de alguns pontos que confirmam essa correta interpretação acima, em detrimento da interpretação isolada dos imortalistas no verso 19. 149 APOLINÁRIO, Pedro. Explicação de Textos Difíceis da Bíblia. 4ª Edição Corrigida, p. 227-234.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 294 1 Não coloca Jesus no inferno. 2 Não contradiz o resto da Bíblia toda que desmente completamente a imortalidade da alma. 3 A pregação não foi de Jesus pessoalmente, mas sim pelo Espírito Santo, como indica o contexto (v.18). 4 A “prisão” não é o inferno ou o Hades (se fosse, poderia perfeitamente ser utilizado estas palavras), mas trata-se da prisão espiritual na qual se encontravam aqueles antediluvianos. 5 Não indica uma segunda oportunidade de salvação após a morte. 6 Não faz com que o evangelho tenha sido pregado para pessoas mortas em condenação, o que é antibíblico e inútil, já que eles não poderiam sair de lá mesmo. O evangelho foi pregado aos que hoje estão mortos (mas estavam vivos na época em que a pregação foi feita). 7 Não induz um Deus arbitrário que escolhe alguns privilegiados da época de Noé para ouvir a pregação (em meio à condenação) enquanto os outros que não foram selecionados ficaram sem ouvir nada. 8 Faz uma correspondência correta com o tempo em que tal pregação foi feita através do Espírito Santo (v.21). 9 Não contradiz o próprio Pedro que afirma em outra oportunidade que os ímpios só serão punidos no dia do Juízo (cf. 2Pe.2:9) e que serão reduzidos as cinzas (cf. 2Pe.2:6), desmentindo assim qualquer imortalidade incondicional aos condenados. 10 Por fim, o fato que Pedro narrou em 1Pe.18-21 não é uma “revelação extrabíblica” que ele recebeu diretamente de Cristo depois que ele ressuscitou, mas sim um fato bíblico, como os autores das epístolas do NT constantemente costumavam fazer menções a fatos Escriturísticos. Que o Espírito Santo pregou por meio de Noé e de sua família àqueles antediluvianos, que não aceitaram a pregação, isso é um fato bíblico. Em outras palavras, Pedro citou um fato escriturístico, sendo que ele mesmo afirmou ser Noé um instrumento de Deus para a justiça na terra de sua época (cf. 2Pe.2.5). Pedro não foi “além do que está escrito” (cf. 1Co.4:6), pelo contrário, narrou algo que a Bíblia conta. Finalmente, seria interessante destacarmos que os próprios imortalistas mais sóbrios e respeitados refutam essa teoria de que Jesus tenha pregado a pessoas mortas em 1ª Pedro 3:19. O famoso pastor protestante John Piper, por exemplo, escreveu: “O outro texto é 1 Pedro 3:18-20, onde é dito que Cristo foi pregar aos espíritos que agora estão em prisão. Isto é, eles tinham morrido – tendo vivido nos dias de Noé – e estão agora em prisão; e Cristo foi pregar a eles. Alguns tomam isso como significando que entre a Sexta Feira da Paixão e o Domingo da Ressurreição, Cristo desceu ao inferno e pregou o evangelho ali. Mas tampouco penso que esse seja o significado desse texto. Acredito que ele significa que, quando essas pessoas estavam vivas nos dias de Noé, o Espírito de Cristo pregou a eles através da pregação de Noé”150 A própria nota de rodapé na Nova Versão Internacional desdenha tal interpretação imortalista de que Cristo tenha pregado a mortos, visto que os “mortos” seria uma 150 PIPER, John Stephen. Cristo desceu ao inferno? Disponível em: <http://www.revistacrista.org/Morte%20e%20Eternidade_Cristo%20Desceu%20ao%20Inferno.htm#.UhJ9 LZIqaO1>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 295 referência a pessoas mortas na época em que Pedro escreveu o texto, mas vivas na época em que a pregação foi feita: “Essa pregação foi um acontecimento passado, a pessoas que então viviam, mas já estavam mortas nos dias do autor da carta. Não haverá oportunidade para as pessoas serem salvas após a morte; v. Hb 9.27”151 Como diz Norman Geisler, “é possível que ela se refira àqueles que agora estão mortos, e que ouviram o Evangelho no tempo em que estavam vivos. Em apoio a isso é citado o fato de que o Evangelho ‘foi pregado’ (no passado) àqueles que estão ‘mortos’ (situação presente)”152. Como vemos, a insistência tola de alguns imortalistas em colocarem Jesus no inferno em prol da lenda da imortalidade da alma se vê inútil quando colocada de frente aos próprios imortalistas mais sóbrios. O castigo é no dia do Juízo – Pedro não poupou clareza em se tratando de negar completamente a imortalidade da alma. Em 2ª Pedro 2:9 lemos que: “O Senhor sabe entregar o devoto fora das tentações, e reservar os injustos para o dia do juízo para ser punido” (cf. 2Pe.2:9). Os ímpios não estão já sendo punidos, eles estão “reservados” para o dia do juízo em que, aí sim, serão punidos. Se eles estão reservados para o dia em que serão punidos é porque não estão sendo punidos ainda. Se eles já estivessem queimando em algum lugar, já estariam sendo punidos. À luz deste texto bíblico tão ferrenhamente contra a punição atual dos ímpios, algumas traduções como a Almeida Atualizada tomaram a liberdade de traduzi-lo da seguinte maneira: “Também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estão sendo castigados” (cf. 2ª Pedro 2:9) Contudo, esta tradução não corresponde com o original grego, mas sim com as pretensões dos defensores da imortalidade da alma em salvarem sua doutrina antibíblica de que os ímpios já estão sendo castigados agora. O original grego traz: “krisewV kolazomenouV threin” – reservados para condenação – e as palavras gregas “hmeran krisewV" empregadas no verso mostram quando é que se dará essa punição: “hmneran krisewV” – dia do juízo [julgamento, condenação]. É impossível que algum tradutor bíblico tenha falhado na tradução deste verso de forma não-intencional ou acidental, sendo que ele é de tão fácil tradução e assim é feito pelas melhores versões do mundo, como a versão inglesa King James, conhecida mundialmente pela sua tradução fiel aos originais da Bíblia, traduzindo este verso da seguinte maneira: “The Lord knoweth how to deliver the godly out of temptations, and to reserve the unjust unto the day of judgment to be punished” “O Senhor sabe como livrar os piedosos da tentação, e reservar os injustos para o dia do julgamento, para serem punidos” Essa tradução correta também é a mesma tradução das melhores versões do mundo, como a tradução de Reina Valera (Espanha), que assim traduz: 151 Nota de rodapé da Nova Versão Internacional em 1Pe.4:6, p. 2134. 152 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 296 “Sabe el Señor librar de tentación á los píos, y reservar á los injustos para ser atormentados en el día del juicio” “O Senhor sabe livrar da tentação os justos, e reservar os injustos para serem atormentados no dia do juízo” Mais traduções que trazem que os injustos só serão punidos no dia do juízo, além do próprio texto original no grego de acordo com a Concordância de Strong, é a Young’s Literal Translation, a Luther (1912), a Giovanni Diodati Bible (1649), a Louis Segond (1910), entre outras. Por incrível que pareça, nesse quesito até mesmo as traduções católicas superaram as protestantes em língua portuguesa, pois tanto a Ave Maria como a CNBB traduziram por “reservar os ímpios para serem castigados no dia do juízo”153 e por “reserva os ímpios para o castigo no dia do julgamento”154. Uma das versões protestantes da Bíblia em português que se salva é a Almeida Corrigida e Revisada Fiel, que verteu por “reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados”, corrigindo o equívoco das traduções anteriores. A clareza da linguagem é indiscutível: os ímpios não estão sendo punidos ainda, mas estão reservados para o dia do juízo, quando aí sim serão punidos. Para o apóstolo Pedro, os ímpios não estavam sendo castigados no presente momento, mas o momento em que serão castigados era no dia do juízo. A lógica é indiscutível: (1) Os ímpios estão “reservados” para serem castigados “no dia do juízo” (cf. 2Pe.2:9). (2) Este juízo é um um acontecimento futuro na volta de Cristo (cf. 2Tm.4:1; At.7:31; 1Pe.4:5). (3) Logo, os ímpios não estão sendo castigados atualmente. Essa lógica de Pedro é como um golpe de morte na visão tradicional e comum que se tem do inferno, onde todos os não-salvos já estariam entre as chamas de um fogo devorador neste exato momento, sofrendo pelos seus pecados ao passo que os justos já estariam na glória. Pedro neste verso especificamente não fala nada sobre a condição atual dos salvos, mas nos dá uma pista importantíssima que nos ajuda a refutar a tese da imortalidade da alma: que os ímpios não estão sendo castigados ainda. Tal castigo é futuro, não é algo que já esteja em andamento. Os ímpios estão “reservados” (em suas sepulturas) para o dia do juízo (na segunda vinda de Cristo, quando ocorre a ressurreição) em que serão castigados. A doutrina pagã da imortalidade da alma t enta a todo custo reverter este raciocínio, tentando nos convencer que o castigo dos ímpios já é atual e que depois do juízo apenas haverá uma continuação deste tormento já existente. Nada que esteja mais longe da teologia de Pedro, onde vemos que a punição e o castigo é algo lançado no futuro, e que os ímpios estão “reservados” a sofrer, e não que já estejam sofrendo neste momento. A punição dos ímpios é um acontecimento futuro – Em 2ª Pedro 2:6 o apóstolo Pedro reafirma sua crença com relação ao destino final dos ímpios: “Também condenou as cidades 153 Tradução da versão Ave Maria. 154 Tradução da versão da CNBB.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 297 de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios” (cf. 2Pe.2:6). “Reduzindo-os a cinzas”! Que péssima figura de linguagem para alguém que terá uma vida eterna no inferno!155 Por meio deste texto percebemos que, além da redução às cinzas por parte dos ímpios (o que de modo algum se relaciona a uma “imortalidade”, como ensinam os dualistas), o apóstolo Pedro é claro em referir-se a punição dos ímpios como algo futuro. Novamente, a confirmação de que os ímpios não estão queimando ainda. Se os ímpios já estivessem sendo castigados e sofrendo no presente momento, Pedro escreveria que “está acontecendo aos ímpios”, e não “daquilo que acontecerá aos ímpios”. O apóstolo deixa mais do que claro que o tempo dos ímpios serem castigados é no futuro, do que “acontecerá” com os ímpios, e não daquilo que já está acontecendo com eles. Não resta sombra de dúvida nenhuma que, na visão de Pedro, a punição/castigo e destruição dos ímpios sempre foi considerado um acontecimento futuro, que lhes está reservado a acontecer no dia do juízo, que corresponde a ressurreição dos mortos/segunda vinda de Cristo (cf. 1Co.15:22,23). Isso se confirma nas palavras de Pedro na sua segunda epístola: “Estes são fontes sem água, névoas levadas por uma tempestade, para os quais está reservado o negrume das trevas” (cf. 2ª Pedro 2:12-17) Os pecadores estão “reservados” para o castigo final, intitulado “negrume das trevas”, para o dia do juízo, ou seja, não estão queimando ainda. Ele jamais faz menção a um “inferno de fogo em atividade”, pelo contrário, intitula os ímpios como “reservados para serem castigados no dia do Juízo” (cf. 2Pe.2:9), para o que “acontecerá aos ímpios” (cf. 2Pe.2:6), aos quais está “reservado o negrume das trevas” (cf. 2Pe.2:17). Nada disso condiz com um fogo eterno em andamento, mas com um acontecimento futuro que ainda não lhes sobreveio. Exultação e Regozijo somente na volta de Cristo – “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo. Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (cf. 1ª Pedro 4:12,13). É também de grande importância o que é dito aqui por Pedro. De acordo com ele, a exultação se dá por ocasião da revelação da glória de Cristo (segunda vinda). Ora, se fossem com suas almas para o Céu, seguindo-se à morte, não iriam ali exultar e alegrar-se? Para ele, contudo, somente por ocasião da “revelação da Sua glória” é que se concretiza tal sentimento de exultação, porque é neste momento em que os mortos são ”vivificados” (cf. 1Co.15:22,23). A imarcescível coroa da glória – “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (cf. 1Pe.5:4). De acordo com Pedro, a imarcescível coroa da 155 Sobre essa parte do argumento, me reservarei a discorrer mais extensivamente sobre o destino final dos ímpios no capítulo 8, que trata especificamente sobre a doutrina do inferno e dos acontecimentos finais.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 298 glória só estará disponível aos crentes por ocasião do segundo advento de Cristo. Se já não fosse o suficiente a “coroa da justiça” de Paulo estar guardada para “naquele dia” (cf. 2Tm.4:6-8), a coroa da glória também só estará disponível aos santos na segunda vinda de Cristo, que “coincidentemente” é no mesmo momento da ressurreição dos mortos. Seria muito estranho que os santos ficassem milênios no Céu sem terem recebido ainda a tão esperada coroa da justiça e a coroa da glória! A volta de Cristo no centro do palco - É digno de nota também que, em toda a epístola, o que ele reflete não é a “esperança viva de morrer e a alma regozijar-se no Céu”, mas sim da hora da volta de Cristo, pelo fato de que é neste momento em que os vivos são arrebatados e os mortos ressuscitados, para todos juntos entrarmos juntamente no Reino de Deus. Tal foco é apresentado ao longo de toda a epístola, a começar pelo primeiro capítulo: “Que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo” (cf. 1Pe.1:5). A herança e a salvação só são recebidas na revelação de Cristo no último tempo. Isso fere a doutrina da imortalidade da alma porque, para eles, os santos que fossem morrendo já estariam salvos em um “estado intermediário” muito antes do “último tempo” na “revelação de Jesus Cristo”! Pedro nega que possamos tomar parte efetivamente na salvação (Reino) antes da revelação de Jesus Cristo que há de se consumar no último tempo. Um pouco mais à frente lemos: “Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos oferece na revelação de Jesus Cristo” (cf. 1ª Pedro 1:13) A graça e a esperança são dadas no momento da ressurreição/segunda vinda de Cristo, e não no momento das mortes de cada crente para habitar com Deus no Céu. Sumariando, a esperança de Pedro sempre esteve ligada ao aparecimento de Jesus Cristo, porque é neste momento que seremos salvos (cf. 1Pe.1:5) e é neste momento em que a graça nos é concedida (cf. 1Pe.1:13). Essa graça relaciona-se a nossa própria união com Cristo, ao que Pedro indica como se concretizando no dia da Sua Volta, e não nas mortes de cada crente e suas almas subindo ao Céu. Tal doutrina é estranha à Bíblia, e não condiz nem um pouco com a “esperança viva” de Pedro: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada nos céus para vós, que pelo poder de Deus sois guardados, mediante a fé, para a salvação que está preparada para se revelar no último tempo; na qual exultais, ainda que agora por um pouco de tempo, sendo necessário, estejais contristados por várias provações, para que a prova da vossa fé, mais preciosa do que o ouro que perece, embora provado pelo fogo, redunde para louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” (cf. 1ª Pedro 1:3-7). Essa era a esperança dos cristãos: de receberam a sua herança garantida nos céus, não por ocasião da morte, mas sim “no último tempo... na revelação de Jesus Cristo”. Note que o apóstolo confirma a ideia bíblica de que os santos entrarão na herança “no último tempo” e, confirmando tal fato, ele ainda assinala: “na revelação de Jesus Cristo”! Há linguagem mais clara do que isso para mostrar quando é que os salvos entrarão na herança e
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 299 receberão o Reino? Toda a ênfase está na vinda futura de Cristo no último tempo, porque é exatamente neste momento em que os mortos levantam e ganham vida e que há a reunião no Céu entre os arrebatados e os ressuscitados. O foco cristão verdadeiro sempre foi voltado à segunda vinda de Cristo, a sua volta gloriosa, que foi deixada de lado para dar lugar à ideia grega de que, morrendo, as nossas almas partem já para o Céu – e tudo isso antes da volta de Cristo! Negar a falsa doutrina pagã de “imortalidade da alma” significa colocar a esperança da segunda vinda e do Reino de Deus em perspectiva: no centro do palco, como sempre faziam os primeiros crist ãos. Alguns imortalistas poderiam tentar objetar alegando que Pedro esperava estar vivo quando Jesus voltasse, e que por essa razão todas essas passagens acerca de receber a coroa da glória quando Jesus voltar, de receber sua herança na volta de Cristo, de se alegrar exultando na segunda vinda do Senhor e de tantas outras citações que mostram que a entrada no Reino seria a volta de Cristo (ressurreição), e não em um estado intermediário, se relacionam apenas com os vivos que serão arrebatados na volta de Jesus, e não com os mortos. Tal alegação, porém, é facilmente refutada pela leitura da epístola do próprio Pedro, onde ele afirma que sabia que em breve iria “deixar esse tabernáculo”, isto é, sabia que morreria em breve, e não que ficaria vivo até ver a volta de Jesus: “Porque sei que em breve deixarei este tabernáculo, como o nosso Senhor Jesus já me revelou” (cf. 2ª Pedro 1:14) Portanto, todas as passagens e argumentos que vimos acima onde o próprio Pedro coloca toda a sua esperança voltada ao momento da segunda vinda e ressurreição se relaciona não apenas com os vivos, mas aos mortos, pois o próprio Pedro sabia que iria morrer em breve e que não permaneceria vivo até a vinda de Cristo, pois o próprio Senhor Jesus lhe havia revelado isso, de que ele iria morrer (cf. 2Pe.1:14). Desta forma, todas as alegações que tentam anular tais evidências nas epístolas de Pedro como se ele estivesse apenas preocupado em mostrar o momento em que os vivos estarão com o Senhor e não com os mortos caem por terra, assim como com Paulo, que também sabia que iria morrer em breve (cf. 2Tm.4:7,7), e mesmo assim fez todas aquelas declarações que vimos anteriormente. Os que morreram ainda não passaram pelo julgamento – Outra evidência muito forte de que os ímpios não estão atualmente no inferno é o fato dos que morreram ainda não terem passado por um julgamento. Já vimos diversas passagens que dão respaldo a tal fato, e agora examinaremos o texto do próprio Pedro, que disse: “Contudo, eles terão que prestar contas àquele que está pronto para julgar os vivos e os mortos” (cf. 1ª Pedro 4:5) Ora, não há como admitir que existam pessoas sofrendo horriveis tormentos sob a tortura de demônios cruéis e torturadores em um inferno fogo durante milênios desde um passado remoto até aqui e tudo isso sem ter passado por um julgamento! Até mesmo no Direito Romano era proibido condenar algum cidadão sem ter passado por um juízo antes disso. Era ilegal açoitar um cidadão romano (cf. At.16:38), ainda mais no caso de não haver processo. Essas são regras de ética que regem o mundo até os dias de hoje.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 300 Se nós, “sendo maus” (cf. Mt.7:11), sabemos condenar um cidadão eticamente a partir de um juízo para isso, quanto mais Deus, o Juíz que está nos céus, que é muitíssimo mais justo do que o mais honesto dos homens, não irá atormentar alguma pessoa sem antes ter passado por julgamento! Deus é ético, e, pela sua ética, só irá condenar alguém depois dele passar por um juízo, a fim de ter a completa ciência do mal que praticou e ter o direito de se defender ou não. Dizer que Deus lança a alma de alguma pessoa em um tormento durante séculos sem direito a julgamento é ferir a ética e a natureza divina. O próprio fato de Paulo e Pedro insistirem tanto no fato de dizer que Deus não julgou ainda, mas “há de julgar”, e por ocasião da Sua Vinda, já mostra que eles não acreditavam que a alma de qualquer pessoa já pudesse estar sendo castigada ou condenada. Afinal, onde é que já se viu uma pessoa estar na condenação sem nem ao menos ser... condenada?! Ora, isso é inadimisível, completamente contra as leis da lógica e do bom senso! Os que morrerem só irão para a condenação na ressurreição (cf. Jo.5:28,29) e só serão julgados na volta de Cristo (cf. 2Tm.4:1), seguindo-se logicamente, então, o fato de que eles não estão condenados e nem sofrendo castigo antes de tal momento. XXVI–João pregou a Imortalidade da Alma? A vida é somente em Cristo – Algo que o apóstolo João costumava acentuar bastante era o ensino de que a vida era somente em Cristo, mediante Cristo e por meio de Cristo apenas. Não existe vida senão em Cristo. Com isso, ele acentua ainda mais que nós não temos uma alma imortal como posse presente a todos indistintamente, com uma imortalidade incondicional. Pelo contrário, assim como Paulo, João acentua o fato de que a vida é unicamente em Cristo, que os que não seguem a Cristo não terão a vida e de que esta tem que ser buscada, resultante do fato de que não temos em nós um elemento que nos garanta a imortalidade. No seu evangelho, vemos João dar bastante ênfase aos ensinamentos de Cristo acerca do tema da imortalidade. De acordo com o dicionário, “vida eterna” e “imortalidade” são sinônimos: Imortalidade: é o termo utilizado para designar uma vida ou existência indestrutível, que se auto sustém. Vida eterna: é o termo utilizado para designar uma vida ou existência indestrutível, que se auto sustém. Também de acordo com o dicionário da Língua Portuguesa (DPLP), “imortalidade” significa: 1. Qualidade, estado daquilo que é imortal. 2. Duração perpétua. “Vida” significa “o período de tempo que decorre desde o nascimento até a morte dos seres”156. Aplicando os significados de ambos os termos, o dicionário conclui que “Vida 156 Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 301 Eterna” significa: “Vida futura, a outra vida, a vida espiritual”. Biblicamente falando, teremos uma vida eterna (i.e, que não tem fim) quando formos ressuscitados dentre os mortos para a ressurreição da vida (cf. Jo.5:28,29; Jo.12:25; 1Tm.6:16; Rm.2:7; 1Co.15:51-54). Portanto, vemos que “vida eterna” tem a mesma aplicação prática de “imortalidade”. Porém, perante a Bíblia, teremos uma vida eterna (i.e, imortalidade, viver eternamente) apenas por meio de Cristo. A vida eterna (imortalidade) é exclusividade dos salvos. Se alguém já tivesse imortalidade, Jesus não prec isaria lhe prometer vida eterna. Para que dar vida eterna a alguém que já é imortal? Não seria o mesmo que “chover no molhado”? “E esta é a promessa que ele mesmo nos fez, a vida eterna” (cf. 1ª João 2:25) “Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (cf. João 5:40) Obter vida não é algo natural implantado em nós desde o dia do nascimento, mas algo que está presente em Cristo (cf. Cl.3:4; Rm.6:23), que é concedido àqueles que nEle creem (cf.Jo.17:3), a fim de entrarem no Paraíso quando obterem imortalidade, na ressurreição (cf. 1Co.15:51-54). A doutrina da imortalidade natural da alma não bate com os ensinamentos bíblicos acerca do que é a “vida” e de como a adquirimos. Apenas perseverando que obteremos a vida: “É perseverando que vocês obterão a vida” (cf. Lc.21:19). Apesar de já possuirmos a vida por estarmos ligados a Cristo (cf. Jo.6:47), porque “a vida eterna consiste em que conheçam a ti, um só Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste” (cf. Jo.17:3), nós só tomaremos posse da vida (eterna) por ocasião da ressurreição (cf. Jo.5:28,29; 1Co.15:51-54). Algo semelhante ocorre quando Paulo afirma que Cristo “destruiu a morte” (cf. 2Tm.1:10), mas mesmo assim as pessoas continuam morrendo (cf. Hb.9:27; Rm.5:12). O que acontece é que Cristo destruiu a morte legalmente (por meio de sua ressurreição), entretanto a morte só será destruída literalmente (efetivamente) por ocasião da ressurreição (cf. 1Co.15:54), quando “se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória” (cf. 1Co.15:54). De igual modo, nós legalmente já somos possuidores da vida (cf. Jo.6:47; 6:40), porque já conhecemos ao Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, e é nisto que consiste a vida eterna (cf. Jo.17:3). Contudo, nós só obteremos literalmente a vida por ocasião da ressurreição, quando “isto que é mortal se revestir de imortalidade” (cf. 1Co.15:53), e entraremos efetivamente na vida eterna, de fato, quando os justos “sairão para a vida” (cf. Jo.5:29) e os ímpios “sairão para a condenação” (cf. Jo.5:29), o que se dá por ocasião da ressurreição. Fazendo uma analogia, é como se agora os que creem em Cristo já tem o “passaporte” da vida eterna, ou seja, a garantia pela fé de que entraremos nela futuramente, ocasião em que vamos efetivamente entrar na ressurreição. É este aspecto que Jesus aborda em Lucas 21:19 – “obterão a vida”: “É perseverando que vocês obterão a vida” (cf. Lucas 21:19) A vida é efetivamente um acontecimento futuro (“obterão”, e não “possui”!). A vida não é algo que já somos efetivamente possuidores por meio de uma alma imortal, mas algo que
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 302 implica em perseverança (cf. Lc.21:19), e que os santos “obterão”, no futuro. Obter vida não é algo simplíssimo em decorrência de uma alma eterna em nós implantada, pelo contrário, é algo que se obtém por meio da perseverança! Cristo também afirma no evangelho de João: “Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o Filho também dá vida a quem ele quer dá-la” (cf. João 5:21) Esta passagem não faz sentido para os imortalistas, uma vez que os mortos já estariam vivos em algum lugar e, portanto, não iriam “obter” vida na ressurreição, mas tão-somente “continuar” vivos, como já estariam antes, supostamente em um estado desencarnado entre a morte e a ressurreição. Sendo que o processo de pensamento é geralmente associado à alma, segue-se que o ser racional estava realmente morto, e não vivo157. Quando ele se manifestar – "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos" (cf. 1Jo.2:2). João afirma que o momento em que veremos a Deus como Ele é não é na morte, em um estado intermediário antes da ressurreição, mas quando Cristo se manifestar, que é precisamente o momento quando ocorre a ressurreição dos mortos (cf. 1Co.15:22,23). Somente na ressurreição dos mortos o "veremos como ele é" e somente nesta ocasião é que "seremos semelhantes a ele" – nada que ocorresse antes da segunda vinda de Cristo! Como disse Joe Crew: "João não poderia ter acreditado que os justos mortos já estavam na presença do Senhor. Se fosse assim, eles seriam capazes de vê-lo 'como ele é' e naquele momento eles já teriam sido transformados para serem 'semelhantes' a Cristo. No entanto, ele refuta a ideia de que qualquer um já O tenha visto e declara inequivocamente que tudo vai acontecer 'quando ele se manifestar'"158 Vida eterna no futuro – Além disso, a Bíblia deixa claro quem é que herdará uma vida eterna: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe [ou mulher], ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna” (cf. Mt.19:29). Duas coisas ficam claras aqui. A primeira é que a vida eterna não é algo que todos já possuem, mas que alguns possuirão, no futuro, a saber: os salvos na ressurreição. Este mesmo relato em Marcos vem desta forma: “Que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século futuro a vida eterna” (cf. Mc.10:30). A vida eterna é algo relacionado ao século futuro, que vem do grego aion erchomai. A primeira palavra, como já vimos, significa: “para sempre, uma idade ininterrupta, tempo 157 O texto diz que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, e não que ressuscita corpos e lhes dá vida. O texto fala da pessoa, e não apenas de uma parte da pessoa (como se estivesse limitado somente ao corpo). 158 CREWS, Joe. O que a Bíblia diz sobre estar ausente do corpo. Disponível em: <http://setimodia.wordpress.com/2008/12/16/livreto-o-que-a-biblia-diz-sobre-estar-ausente-do-corpo/>. Acesso em: 19/08/2013.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 303 perpétuo, eternidade”159. A segunda, por sua vez, significa “vir”160. Se juntarmos as duas palavras, teríamos algo como “quando vier o eterno”, o que algumas traduções verteram por “século futuro”161, “mundo vindouro”162, “mundo por vir”163, “século vindouro”164 ou “mundo futuro”165. Por mais que os tradutores tenham tomado a liberdade de traduzirem de várias formas diferentes, todos são unânimes em demonstrar que a vida eterna não é algo que nós já possuímos, supostamente na forma de uma alma imortal, mas sim algo que possuiremos no futuro, e destinado apenas aos salvos, aqueles que decidiram seguir a Cristo, como diz o verso (cf. Mc.10:30; Mt.19:29). Se nós fôssemos possuidores de uma alma imortal, essa imortalidade seria uma possessão presente, e destinada não apenas aos justos que seguem a Cristo, mas até mesmo aos ímpios, que na teologia imortalista vivem para sempre. Além disso, vemos que a posse da vida eterna não é em um estado intermediário imediatamente após a morte e antes da ressurreição, mas no aion erchomai, no século futuro, na consumação deste mundo, no mundo vindouro, quando “o eterno vier”, quando Jesus voltar, quando os mortos ressuscitarem. Jesus não disse em momento algum que eles iriam herdar a vida eterna logo após a morte em um estado intermediário, mas sim no “mundo vindouro” (cf. Mc.10:30; Mt.19:29), na Jerusalém celestial que descerá dos céus à Nova Terra prometida somente após a ressurreição se consumar (cf. Ap.21:2). O apóstolo João, tanto em seu evangelho como também em suas epístolas, também acentua o fato de que a imortalidade é apenas em Cristo Jesus. Em seu evangelho vemos Cristo dizendo o seguinte: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente” (cf. João 6:51) Logo, quem não come do pão da vida não viverá eternamente. Vocês se lembram do apóstolo Paulo, que escreveu que a imortalidade é apenas por meio do evangelho (cf. 2Tm.1:10)? Da mesma maneira, João acentua tal fato: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá” (cf. Jo.6:57). Havia uma plena concordância entre os apóstolos de Jesus de que a vida não vem por meio de uma alma implantada no nascimento, mas essa vida é somente em Cristo, sem Cristo não há vida. É por isso que João escreve: “Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida” (cf. 1Jo.5:12). Quem não tem Cristo não tem vida. Somente em Cristo temos a vida. Quem não tem Cristo nem sequer poderá ver a vida: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (cf. Jo.3:36). Os ímpios nem ao menos verão a vida, pois essa é somente para quem crê no Filho de Deus, e a tem em seu nome: “Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (cf. Jo.20:31). 159 Léxico da Concordância de Strong, 165. 160 Léxico da Concordância de Strong, 2064. 161 Almeida Corrigida e Revisada Fiel. 162 Almeida Revisada Imprensa Bíblica e Almeida Atualizada. 163 Almeida Revista e Atualizada. 164 Reina Valera e Ave Maria. 165 Bíblia de Jerusalém e CNBB.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 304 Em João 5:40, Cristo afirma: “Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (cf. Jo.5:40). Aqui são colocados dois caminhos finais: ter uma vida eterna ou ter a cessação de vida, que significa não ter vida nenhuma. De outro modo, não seria estritamente necessário vir a Cristo para ter vida, pois qualquer um teria vida em algum lugar de qualquer jeito! Sim, as palavras de Simão Pedro acertaram o alvo: “Senhor, para onde iremos? Tu tens as palavras de vida eterna” (cf. Jo.6:68). Não existe vida em outro lugar senão em Cristo. Ter a vida não é algo natural pela posse de uma alma imortal, mas é algo que obtém aquele que vem a Cristo, porque só os que vencerem obterão a vida: “Contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida” (cf. Jo.5:40). Vejam o que diz o apóstolo João: “Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não t em a vida” (cf. 1ª João 5:12) A conclusão inequívoca a partir de tudo isso que o apóstolo João nos revela em suas epístolas e em seu evangelho é que ter uma vida eterna e consequente imortalidade herdando a vida não é uma possessão natural de todos os seres humanos por meio de uma alma imortal presa dentro do corpo. Pelo contrário, é mediante Jesus Cristo para aqueles que O seguem por meio do evangelho, negando-se a si mesmos e tomando a sua cruz, este terá o dom da vida e da imortalidade, obtido com a ressurreição dos mortos: “Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados” (cf. João 5:28,29) Por fim, no evangelho de João vemos Jesus dizendo: “Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente” (cf. João 6:58) Será que os ímpios também comem do pão da vida? Em suma, através dos ensinamentos de João podemos compreender que: 1º A posse da vida eterna (imortalidade) não é algo natural já infundido em nossa natureza através de uma alma imortal, mas é algo futuro. 2º Não se obtém uma vida eterna através de uma alma eterna, mas por se crer em Cristo Jesus, através da ressurreição dos mortos. 3º Os ímpios não possuem a imortalidade, pois essa é exclusividade daqueles que “comem do pão da vida” (creem no Filho de Deus). 4º A posse da vida eterna está diretamente relacionada ao “século futuro”, ou “mundo vindouro”, conforme Marcos 10:30 e Mateus 19:29, algo que só se consuma na ressurreição dos mortos e segunda vinda de Cristo, com a chegada de novos céus e nova terra inaugurando o “mundo vindouro” que Jesus se referia, e não imediatamente em um estado intermediário antes da consumação deste mundo e da ressurreição. XXVII–Mais pilares do imortalismo sendo derrubados
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 305 Uma passagem que tem sido usada com certa frequencia pelos imortalistas é a cena que ocorreu no monte da transfiguração, acontecimento este registrado em Mateus 17:1-8, em Marcos 9:2-8 e em Lucas 9:28-36, onde Elias e Moisés aparecem vivos a Pedro, Tiago e João, e conversam com o Senhor Jesus no monte. Mas como isso pôde ter ocorrido de fato, se, como vimos, os mortos só voltam à vida através da ressurreição? Isso levou alguns imortalistas a conjecturarem que foram almas incorpóreas que desceram do além e se apresentaram a Cristo e aos três discípulos naquela ocasião, e que isso seria “prova” da sobrevivência da alma após a morte. Seria isso verdade? É isso o que vamos descobrir agora. Elias – Que Elias apareceu no monte, isso não apresenta problema nem contradição alguma, uma vez que Elias não passou pela morte, não necessitando assim de uma ressurreição. Elias foi transladado vivo: “E, indo eles caminhando e conversando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho” (cf. 2Rs.2:11). Moisés – Quanto a Moisés, a Bíblia relata a morte dele (cf. Dt.34:5), como também relata a vivificação dele. À luz dos fatos bíblicos que nos norteiam, vemos que Moisés estava corporalmente no monte da transfiguração, e não como um espírito incorpóreo. Isso fica nítido a partir da leitura do próprio relato dos textos bíblicos que os imortalistas fingem conhecer quando formulam este argumento. Pedro, por exemplo, sugeriu a construção de três tendas, incluindo uma para Moisés: “Pedro tomou então a palavra e disse-lhe: Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (cf. Mateus 17:4) A palavra aqui traduzida por “tenda” é o grego skene, que, de acordo com o léxico da Concordância de Strong, significa: 4633 σκηνη skene aparentemente semelhante a 4632 e 4639; TDNT - 7:368,1040; n f 1) tenda, tabernáculo, (feito de ramos verdes, ou peles de animais, ou outros materiais). 2) do bem conhecido templo móvel de Deus, a partir do modelo do qual o templo em Jerusalém foi construído. Essa palavra denota, portanto, um objeto físico, e não algo imaterial. Ora, é inadmissível construir tenda para um espírito, que seriam seres imponderáveis, fluídicos, abstratos e não-físicos, conforme a crença popular imortalista. Isso por si só já define a questão e nos permite chegar a conclusão de que o Moisés que apareceu no monte não foi um espírito incorpóreo que aguardava em algum estado intermediário, mas alguém com corpo físico, assim como estavam Elias e Jesus, doutra forma Pedro teria sugerido construir duas tendas, e não três. Se Pedro estivesse contemplando algum “espírito” ou cresse que a aparição de Moisés só poderia se dar em forma de alma descorpórea – como pensam os imortalistas – não teria dito para construir uma tenda para Moisés. Além disso, a construção de tendas leva a crer que Pedro pensava que eles iriam passar um bom tempo ali, ao ponto de “acamparem” no local, de passarem a noite ali. Se ele pensasse que fosse apenas uma aparição rápida, durante apenas alguns minutos, não haveria a necessidade de tendas. Isso aponta que Pedro pensava que os três (Jesus, Elias e Moisés)
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 306 iriam passar a noite ali, e por isso se fazia necessário a construção de uma tenda para cada um. Neste ponto a crença de que Moisés estava no monte em espírito também é colocada em xeque, pois um espírito não dorme, e o apóstolo não iria pensar que um espírito incorpóreo precisasse de uma tenda para passar a noite e dormir. Se ele sugeriu a construção de três tendas, incluindo uma para Moisés, significa que ele sabia que Moisés estava fisicamente presente, e que por isso precisaria de uma tenda para passar a noite e descansar. A teoria de que Pedro não conseguiu identificar se Moisés estava ou não encarnado é facilmente refutada pelo fato de que ele, assim como os demais discípulos que ali estavam, falavam face a face com Jesus, que estava ao lado de Elias e Moisés. Se eles estavam tão próximos uns dos outros, ao ponto de saber quem era quem e de poder conversar com quem ali estava, é óbvio que ele também teria a percepção de Moisés estar corporalmente ali ou se estava apenas em espírito. E Pedro claramente identificou como estando corporalmente. Os imortalistas aqui pretendem ser melhores que Pedro. Eles não estavam no monte e estão convencidos de que Moisés estava em forma de espírito incorpóreo, e acham que Pedro, que estava no monte, estava errado! Será que devemos acreditar no apóstolo Pedro, que estava no monte e presenciou tudo aquilo, demonstrando que Moisés estava com corpo físico, ou deveríamos acreditar nos imortalistas, que não estavam no monte e mesmo assim querem nos convencer de que Pedro estava enganado e que quem está certo são eles ? Devemos confiar numa testemunha ocular dos fatos ou em apologistas desesperados em formular um argumento confuso e contraditório? Eu prefiro ficar com a Bíblia! A Bíblia dá pistas da vivificação de Moisés? – Já vimos que Pedro estava fisicamente no monte, e não como um espírito incorpóreo. Isso por si só já é o suficiente para demonstrar que a alegação imortalista não tem fundamento, pois toda ela se baseia na suposição de que Moisés esteve como um espírito sem corpo. Portanto, que Moisés deve ter passado por uma vivificação para ter aparecido no monte isso é um fato, e não uma hipótese. Se o restante da Bíblia também apoia essa tese, é o que veremos agora. Um texto-chave para a compreensão da vivificação de Moisés é o de Judas 9, que diz: “Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda” (cf. Judas 9) Aqui é relatada a cena em que Miguel briga com Satanás pelo corpo de Moisés. Mas para quê o diabo iria querer um cadáver? O que é que o diabo iria ganhar com um simples corpo morto? Evidentemente Satanás queria mantê-lo preso à sepultura, porque cada ressurreição que acontece é um desafio ao seu “império de morte” (cf. Hb.2:14). Sobre isso Cullmann faz excelentes observações: “A morte como tal é o inimigo de Deus. Pois Deus é a Vida e o Criador da vida. Não é pela vontade de Deus que existe a degradação e a decadência, a mortalidade e a doença, os subprodutos da morte agindo em nossa vida. Todas estas coisas, segundo o entendimento cristão e judaico, decorrem do pecado humano. Portanto, toda a cura que Jesus realizava não envolve apenas trazer de volta da morte, mas também a invasão do domínio do pecado, e foi por isso que, em todas as ocasiões, Jesus disse: ‘Seus pecados estão perdoados’. Não é que exista um pecado correspondente para cada doença específica, mas,
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 307 em vez disso, assim como a presença da morte, o fato de a doença acometer a todos é uma consequencia da condição pecaminosa de toda a humanidade. Toda cura é uma ressurreição parcial, uma vitória parcial da vida sobre a morte. Este é o ponto de vista cristão”166 A morte é considerada o império de Satanás (cf. Hb.2:14), e o maior inimigo de Deus (cf. 1Co.15:26). O ato da ressurreição é o que há de mais ameaçador ao império da morte, exatamente porque traz de volta uma pessoa à vida, porque tira uma pessoa de seu domínio. Morte e ressurreição são dois opostos, dois inimigos. Isso explica o porquê que o diabo estava lutando pelo corpo de Moisés: para retê-lo em seu domínio, para impedir uma ressurreição, que é o que se contrapõe à morte. Não há sentido em lutar por um simples cadáver se a alma “imortal” já está no Céu. Satanás estava lutando pela permanência de Moisés na morte, em um estado sem vida. O arcanjo Miguel, contudo, lutou contra o diabo pela posse do corpo de Moisés, para que este fosse retirado do domínio da morte e conduzido ao reino de vida da ressurreição. Deste modo podemos compreender perfeitamente tal relato de Judas 9. O que fortalece ainda mais tal ponto de vista lógico é de onde Judas tirou tal fato: de um livro apócrifo chamado de Assunção de Moisés. Norman Geisler discorre sobre isso nas seguintes palavras: “Este episódio não é encontrado no AT e acontece de ser encontrado num livro apócrifo intitulado A ascensão de Moisés”167 A nota de rodapé da Nova Versão Internacional também diz: “Segundo vários mestres da igreja primitiva, esse versículo baseia-se numa obra apócrifa chamada Assunção de Moisés”168 Como vemos, Judas não tirou esse acontecimento “do nada”, não lhe veio à mente de uma hora pra outra ou por uma revelação divina repentina, mas foi tirado de um livro que contextualiza todo este acontecimento que envolveu a briga de Miguel e Satanás pelo corpo de Moisés. Como o próprio título sugere, seria incoerente que a Assunção de Moisés não narrasse uma assunção de Moisés! Este é o tema central do livro, que existia na época de Judas mas se perdeu com o tempo, subsistindo hoje apenas através da tradição oral judaica. Como vemos, o diabo não brigou pelo corpo de Moisés por nada, mas para tentar impedir a vivificação dele, para tentar mantê-lo na morte. Evidentemente cremos que Miguel venceu a disputa com Satanás e que Moisés foi vivificado. E foi precisamente isso o que possibilitou que ele aparecesse corporalmente no monte da transfiguração: a sua vivificação dos mortos. Os judeus acreditavam na assunção de Moisés, o diabo tentou mantê-lo preso à sepultura, mas Miguel prevaleceu e Moisés voltou à vida, e apareceu no monte da transfiguração ao lado de Cristo e Elias. Isso certamente não significa que todo o livro da assunção de Moisés é inspirado, significa apenas que aquele fato – da ressurreição de Moisés – é uma verdade. Verdade é verdade em qualquer lugar. Os hebreus de sua época acreditavam plenamente em tal fato, e Judas também acreditava 166 CULLMANN, Oscar. Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? Disponível em: <http://www.mentesbereanas.org/download/imort-ressur_folheto.pdf>. Acesso em: 20/28/2013. 167 GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e 'contradições' da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999. 168 Nota de rodapé na Nova Versão Internacional em Jd.9, p. 2164.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 308 nisso, tanto que ele transcreveu para a Bíblia Sagrada a passagem do livro judaico sobre tal acontecimento. A Bíblia nos apresenta apenas duas únicas alternativas para deixamos de estar no estado de morte (i.e, sem vida). São essas: (1) Passar pela ressurreição (ser vivificado – 1Co.15:22,23) (2) Não passar pela morte (ser transladado vivo como nos casos de Elias e Enoque) Sem passar pela ressurreição não há vida (cf. 1Co.15:18,19; 1Co.15:32), e é evidente que nós seremos ressuscitados na volta de Cristo (cf. 1Ts.4:16; 1Co.15:22,23). A cena da transfiguração do monte não era uma sessão espírita e muito menos uma contradição bíblica. Pelo contrário, das duas únicas pessoas que apareceram com Cristo no monte, uma não passou pela morte e a outra passou pela ressurreição. Contraditório seria se víssemos um “espírito” baixando no monte, vindo do “além”. O erudito bíblico Adam Clarke colocou perfeitamente em suas palavras aquilo que aconteceu no monte da transfiguração, sem fazer absolutamente nenhuma acepção às teses dualistas neste contexto: "Elias veio do Céu no mesmo corpo com que deixou a Terra, pois fora trasladado, e não viu a morte. (II Reis 2:11). E o corpo de Moisés fora provavelmente ressuscitado, como sinal ou penhor da ressurreição; e como Cristo está para vir a julgar os vivos e os mortos--porque nem todos morreremos, mas todos seremos transformados (I Coríntios 15: 51)--Ele certamente deu plena representação deste fato na pessoa de Moisés, que morrera e então fora trazido à vida (ou aparecera naquele momento como aparecerá ressurreto no dia final), e na pessoa de Elias, que nunca provou a morte”169 Por que Elias e Moisés? – Essa pergunta pode não fazer tanto sentido para alguns, mas muitos se indagam do porquê que Cristo escolheu Elias e Moisés para aparecerem no monte, e não algum outro que não tivesse passado pela morte (como Enoque) ou algum outro que fosse temporariamente vivificado, no lugar de Moisés. Porém, a escolha específica de Elias e Moisés não veio ao acaso. Moisés estava representando a Lei, é por isso que a lei é chamada até hoje de “lei de Moisés” (Jo.1:17). Elias, por sua vez, estava ali representando os profetas. Ele é até hoje reconhecido pelo povo judeu como sendo o principal dos profetas que já existiu. E Cristo, por sua vez, representava o Evangelho, a Nova Aliança em que vivemos hoje, da qual ele obviamente é o principal. Sendo assim, a Lei, os Profetas e o Evangelho estavam sendo representadas nas pessoas de Moisés, Elias e Jesus. Outra representação importante que estava sendo feita naquela ocasião é o meio pelo qual podemos chegar a Cristo. Estava ali Elias, que não passou pela morte, mas foi vivificado em vida. Elias representa ali aqueles que estarão vivos por ocasião do arrebatamento e que não passarão pela morte por ocasião da segunda vinda de Cristo. Do outro lado estava Moisés, que representava o outro grupo, o daqueles que de fato morreram, mas que serão ressuscitados para estarem com Cristo no último dia, que ali na transfiguração estava entre Elias e Moisés, porque estará junto a ambos os grupos na Sua segunda vinda (cf. 1Ts.4:16,17). Assim, tanto Elias como Moisés estavam no monte não por acaso, nem por sorte, mas com toda uma representação importante que ali estava sendo figurada. 169 CLARKE, Adam, apud CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª edição. São Paulo: 1965.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 309 Seria uma sessão espírita? – Ademais de tudo isso, se Moisés e Elias estivessem no monte como espíritos incorpóreos, conversando com outros seres em vida, quem deveria estar fazendo a festa neste momento são os espíritas, que creem exatamente nisso. A cena do monte da transfiguração deveria ser considerada como a primeira sessão espírita que já existiu – ou a segunda, se contarmos a interpretação deles de 1ª Samuel 28. Seria impensável, e até mesmo herético, pensar numa coisa dessas. Ainda, se Moisés e Elias (ou um dos dois) eram “espíritos”, como foi que Pedro e os demais discípulos os viram? Pois, de acordo com a concepção popular (espírita e imortalista), espíritos são seres incorpóreos, imateriais, e não físicos. Se espíritos humanos incorpóreos existissem e pudessem ser vistos, então todos nós veríamos os espíritos de nossos parentes deixando o corpo na morte e subindo ao Céu. Além disso, como eles falaram com eles? Pois o texto nos mostra uma conversa normal de Jesus com Elias e Moisés, antes de serem interrompidos por Pedro: “Naquele mesmo momento apareceram diante deles Moisés e Elias, conversando com Jesus” (cf. Mateus 17:3) Alguns tentar cobrir isso alegando que aquilo ali era uma visão do Reino de Deus, como se eles estivessem tendo uma visão dos céus. Sustentam isso com a afirmação de Cristo, que disse que “alguns dos que aqui se acham não experimentarão a morte antes de verem o Filho do homem vindo em seu Reino” (cf. Mt.16:28). Contudo, notem que Jesus não disse que alguns dos que ali estavam veriam o Reino, mas sim que veriam o Filho do homem vindo em Seu Reino, o que é bem diferente e aduz à volta de Jesus, à segunda vinda de Cristo, quando Ele vier em Seu Reino. Não se tratava apenas de uma visão comum do Céu, mas de Jesus vindo em Seu Reino. Isso não se cumpriu no monte da transfiguração, mas sim com o apóstolo João, que viu Jesus voltar em Seu Reino nas visões que teve no Apocalipse. Além disso, se naquele momento houvesse ocorrido uma visão celestial do Reino de Deus, como alguns alegam, isso teria ficado muito claro aos discípulos e ao próprio Pedro, que obviamente não iria pedir para construir uma “tenda” se estivessem vendo espíritos no Céu! É óbvio que Pedro os via de forma natural, no monte, não estava tendo uma visão do Paraíso celestial, e por isso propôs a construção de tendas, uma para cada um, para passarem a noite ali. Tudo aquilo se passou de forma natural, não eram espíritos, não era uma visão celestial, mas era algo real e natural que acontecia no próprio monte. Finalmente, há também aqueles que alegam (como é o caso das testemunhas de Jeová) que tudo aquilo não passou de uma visão espiritual comum, e não de uma visão do Céu ou do Reino de Deus. Sendo assim, Moisés estaria de fato morto, na sepultura, mas apareceu no monte através de uma visão não-literal que não era um acontecimento real (o mesmo teria acontecido com Elias). Embora essa visão não ensine a imortalidade da alma, pois sendo meramente uma visão não-literal não indicaria nada se Moisés estaria factualmente morto ou vivo na realidade, ela está longe de ser a mais provável diante dos acontecimentos que nos norteiam, pois todo o contexto parece indicar uma realidade literal, e a própria palavra “visão” aplicada por
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 310 Mateus em 17:9 é explicada por Lucas como se referindo às “coisas que tinham visto” (cf. Lc.9:36; ver também Mc.9:9), o que passa a ideia de que Jesus usou a palavra “visão” não para se referir a algum tipo de visão extática ou arrebatamento de sentidos, mas com relação às “coisas que [os discípulos] tinham visto” (cf. Lc.9:36). Além disso, dificilmente Jesus estaria literalmente conversando com Moisés e Elias (cf. Mt.7:13) se aquilo tudo fosse apenas uma visão extática ou um arrebatamento de sentidos. Uma comunicação real exige necessariamente uma presença real de Moisés e Elias naquele monte. Corrobora com isso o fato de o texto bíblico apresentar o relato de forma bem natural, “enquanto ele (Jesus) orava [literalmente], a aparência do seu rosto se transfigurou [literalmente] e suas vestes resplandeceram de brancura [literalmente], e eis que estavam falando [literalmente] com ele dois homens, Moisés e Elias” (cf. Lc.9:28,29). Se o contexto todo é natural e é apresentado de maneira natural, dificilmente a aparição de Elias e Moisés seria irreal. Não estamos num contexto de uma parábola aqui, ou de uma simbologia apocalíptica (que é um livro repleto de alegorias), mas de uma descrição natural rodeada de alusões literais. Sendo assim, ainda que se tudo aquilo tivesse sido apenas uma “visão” isso não afetaria em nada a doutrina da mortalidade da alma, essa não é a melhor explicação para a aparição de Moisés no monte. Cremos que todo o contexto, à luz de todos os fatos, nos deixa claro que Moisés e Elias apareceram corporalmente aos discípulos diante de Jesus, e que isso foi um acontecimento real que exige, portanto, a ressurreição de Moisés em forma corpórea170. Refutando objeções – Mesmo com todos estes fatos que deixam claro que tudo aquilo que se passou no monte não serve absolutamente nunca de prova de imortalidade da alma, alguns imortalistas ainda insistem com perguntas que são feitas na tentativa de contrariar este fato. Analisaremos cada uma delas e veremos se realmente refutam algo que foi exposto aqui. • Jesus é a primícia e primogênito dos mortos. É alegado aqui que Jesus, como a primícia dos que dormem (cf. 1Co.15:22) e o primogênito dos mortos (cf. Ap.1:5), deve ter sido o primeiro a passar pela ressurreição gloriosa adentrando os céus. Mas quem é que nega isso? Nada na Bíblia indica que Moisés tenha tomado o lugar de Cristo ressuscitando gloriosamente ou adentrando os céus. A ressurreição de Moisés que vimos se assemelha muito mais aos vários casos de ressurreição na Bíblia que aconteceram antes da ressurreição de Cristo, como diversos relatos de pessoas ressurretas no AT e no NT (cf. 1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; Jo.11:11; At.9:36-41; 20:9-11). A diferença entre essas pessoas e Jesus, que faz com que Cristo seja o primeiro mesmo em vista desses casos, é que tais pessoas morreram de novo, ao passo que Jesus foi o primeiro a adentrar os céus gloriosamente. Moisés foi de fato vivificado para aparecer no monte da transfiguração, mas não adentrou os céus em glória como Jesus, foi uma vivificação temporária, uma tipologia e representação da ressurreição geral dos mortos no último dia, ele “aparecera naquele 170 Não estamos dizendo que Moisés ressuscitou em corpo glorificado, apenas que ele ressuscitou fisicamente pelo poder divino. A glorificação de Moisés ocorrerá em conjunto com os demais santos na ressurreição do último dia.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 311 momento como aparecerá ressurreto no dia final”171, e não uma ressurreição direto para a vida eterna no Céu. A vivificação de Moisés não contraria nenhum princípio da Palavra de Deus sobre Jesus ter sido o primeiro a ressuscitar gloriosamente para o Céu sem passar novamente pela morte, porque não dizemos que Moisés ressuscitou gloriosamente para o Céu sem passar novamente pela morte. Uma coisa é bem diferente da outra e elas não se misturam para que uma anule a outra. • Moisés viu a corrupção. Outra coisa que jamais foi negada por mim, visto que não sabemos precisamente quando que Moisés foi ressuscitado por Miguel (a Bíblia relata este fato de modo que podemos ter a convicção de que ocorreu, conquanto não saibamos exatamente quando ocorreu). Moisés não ter visto a corrupção de modo algum é alguma premissa necessária para o fato de que Moisés foi vivificado temporariamente e apareceu com Cristo e Elias corporalmente no monte da transfiguração. Muitos dos que Cristo ressuscitará no último dia terão visto a corrupção em seus túmulos, e obviamente não deixarão de ressurgir por causa disso. • A ressurreição de Moisés não se encontra nos atos dos heróis da fé. Esse argumento é de todos o mais pobre, na prática se baseia em dizer que, se a ressurreição de Moisés tivesse ocorrido, isso teria sido mencionado pelo autor de Hebreus na descrição dos heróis da fé em Hebreus 11, mas já que não foi então ela não ocorreu! Pasme que ainda formulem argumentos assim, mas em resposta a isso temos que considerar que: (a) Existem uma infinidade de fatos sobre os heróis da fé que também não aparecem na lista. José, por exemplo, é até hoje lembrado por ter se tornado o governador do Egito, e o segundo maior de toda a terra da época, atrás apenas do Faraó, e isso depois de ter sido desprezado pelos seus irmãos, vendido aos egípcios, se tornado escravo, ser preso e passar por toda uma reviravolta que o tornou aquilo que ele passou a ser. Mas nada disso é dito em Hebreus 11, apenas que “pela fé José, no fim da vida, fez menção do êxodo dos israelitas do Egito e deu instruções acerca dos seus próprios ossos” (cf. Hb.11:22), sem mencionar nenhum dos acontecimentos grandiosos mencionados acima. Em outras palavras, se um acontecimento importante na vida de um personagem bíblico devesse necessariamente passar pela confirmação da descrição do autor de Hebreus, teríamos que rejeitar todos esses grandes acontecimentos na vida de José e ficarmos apenas com a instrução dos ossos! Ora, se muitas coisas importantes sobre José não foram ditas, bem como muitas coisas sobre outros vários personagens bíblicos, por que com Moisés deveria ter sido dito tudo? Quer dizer que nenhum fato bíblico importante realmente aconteceu a não ser que tenha sido mencionado pelo autor de Hebreus? Não me parece um método exegético confiável. (b) Elias, que foi arrebatado ao Céu em vida e se encontra lá até hoje (sendo, portanto, algo ainda mais significativo do que a vivificação temporária de Moisés) também não se encontra na lista; aliás, este grande profeta nem sequer figura na lista dos heróis da fé! (c) Daniel, um dos maiores nomes de todo o AT da Bíblia, sobre quem Deus faz diversas vezes menção de Sua aprovação, e acerca de quem Ele se refere muitas vezes como o “muito amado” (cf. Dn.9:23; 10:11; 10:19), também não aparece na lista. 171 CLARKE, Adam, apud CHRISTIANINI, Arnaldo. Sutilezas do Erro. Casa Publicadora Brasileira, 1ª edição. São Paulo: 1965.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 312 (d) Sendo assim, a conclusão óbvia a que se chega é que o autor de Hebreus não tinha a finalidade de listar todos os grandes nomes do AT nem mesmo todos os grandes acontecimentos que marcaram aquele período, mas selecionou alguns pela sua própria vontade e deixou outros de fora pela mesma razão, e é infantil considerarmos verdadeiros apenas os fatos que o autor de Hebreus “deixou na lista”. Este é um argumento do silêncio que não prova nada, ou senão teríamos que reformular toda a Bíblia e só ficarmos com aquilo que está escrito em Hebreus 11! (e) É importante ressaltar que a Bíblia não diz que Moisés ressuscitou em corpo glorificado, pois o primeiro que ressuscitou com corpo glorificado (i.e, para nunc a mais morrer) foi Jesus Cristo. A ressurreição de Moisés se equipara aos vários casos de ressurreição temporária na Bíblia, onde as pessoas ressuscitam para viver por algum tempo e depois voltam a morrer. Moisés ressuscitou com o objetivo específico de aparecer no monte da transfiguração, por causa de toda a importante representação que destacamos anteriormente. Com efeito, é incoerente crer que o autor de Hebreus faria questão de destacar a ressurreição temporária de Moisés, se ele não fez questão de fazer isso em nenhum dos outros vários casos de ressurreição temporária descritas na Bíblia (cf. 1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25-37; Lc.7:11-15; 8:41-56; Jo.11:11; At.9:36-41; 20:9-11). Por que Moisés teria que ser a exceção? (f) Finalmente, devemos considerar que o autor de Hebreus não estava registrando todos os feitos importantes, mas vários daqueles que foram obtidos através da fé. É por isso que no começo de cada menção a cada personagem bíblico é antec edido pelo “pela fé”, porque ele estava ressaltando os feitos grandiosos que tais personagens obtiveram através de sua fé, e não por algum outro meio. Ora, Moisés não ressuscitou por sua própria fé, pois os mortos não tem “fé”. Moisés não foi ressurreto por ter exercido fé nisso, até porque estava morto, mas porque Deus o ressuscitou dos mortos – não foi pela fé do próprio Moisés. Consequentemente, o autor de Hebreus não poderia ter dito que “pela fé Moisés ressuscitou para aparecer no monte”, pela simples razão de que não foi a fé do próprio Moisés que o reviveu. Para exercer fé é preciso estar em vida, os mortos não tem fé – e esse ponto é de consenso até mesmo entre os imortalistas mais sensatos. • Miguel não poderia ressuscitar Moisés porque é Deus quem ressuscita os mortos. Ora, se Deus usou pessoas como Elias, Eliseu, Pedro, Paulo e tantos outros seres humanos para ressuscitar mortos, por que razão não poderia ter usado Miguel, um arcanjo (que, portanto, está em posição acima dos próprios homens – cf. Hb.2:7) para isso? Ninguém diz que Miguel ressuscitou Moisés, mas que Deus usou Miguel para ressuscitá-lo, da mesma forma que Ele usou seres humanos em tantas outras ocasiões (cf. 1Rs.17:17-24; 2Rs.4:25- 37; Lc.7:11-15; 8:41-56; Jo.11:11; At.9:36-41; 20:9-11), e nem por isso significa que a obra de ressurreição deixou de ser de Deus. Em conclusão, considerando: (a) o próprio relato do monte da transfiguração que prova que Moisés estava fisicamente presente, e não como um espírito incorpóreo; (b) o fato de Miguel brigar com o diabo pelo corpo de Moisés; (c) o fato de Judas ter retirado isso do livro da Assunção de Moisés que narra tal fato naquele mesmo contexto; (d) o fato de judeus como Judas estarem familiarizados com a realidade da assunção de Moisés; (e) toda a representação que envolvia a escolha direta de Moisés e Elias para estarem no monte; e: (f) a pobreza do nível das contra-argumentações imortalistas; podemos considerar que crer na vivificação de Moisés não apenas é o mais razoável diante dos fatos, mas é a única coisa que explica os fatos.
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 313 As almas do Apocalipse: Literal ou Simbólico? – Por fim, o último dos argumentos imortalistas a ser refutado se encontra em Apocalipse 6:9-11, que os defensores da doutrina da imortalidade da alma gostam de usá-lo como um acontecimento literal daqueles que estavam no Céu pedindo a vingança dos seus inimigos. Eles se esquecem, porém, que João não escreveu um livro literário e sim um livro simbólico. Todas as ações místicas tem um exato sentido literal para ser identificado. Quando João escreve que o Sol se escureceu refere-se às cidades pegando fogo com fumaça para todos os lados – veja se você vai conseguir ver o Sol! Quando fala do mar virando sangue, jogue corpos e mais corpos no mar e você vai ver no que vira. Ninguém pensará que no Céu há cavalos brancos, bermejos, negros ou pálidos, montados por ginetes belicosos; ninguém pensará que Jesus está no Céu na forma de um cordeiro com uma ensanguentada ferida de faca, ou que está em forma de um leão (leão da tribo de Judá). Os quatro seres viventes não representam criaturas aladas reais com características de animais. Também não há ali "almas" que jazem na base de um altar. Toda a cena foi uma representação gráfica e simbólica, de que aqueles que foram martirizados seriam vingados por Deus, no dia do juízo final. Toda a simbologia apocalíptica tem um sentido a ser identificado. Algumas passagens que são claramente simbólicas, dentre muitas outras que podemos destacar são: (1) Cristo no Céu em forma de cordeiro ensanguentado (cf. Ap.5:6). (2) Criaturas dentro do mar falando e louvando a Deus (cf. Ap.5:13). (3) Várias estrelas caindo sobre a terra (cf. Ap.6:13). Sabe-se que o tamanho das estrelas é maior do que o do nosso planeta e se caíssem estrelas sobre a Terra esta acabaria no mesmo instante e o Apocalipse teria fim. (4) Cavalos com cabeças de leão (cf. Ap.9:17). (5) Cavalos que soltavam de sua boca fogo e enxofre (cf. Ap.9:17). (6) Gafanhotos com coroa de ouro e rosto humano, cabelos como de mulher e dentes como de leão (cf. Ap.9:7,8). (7) Um dragão perseguindo uma mulher grávida no deserto (cf. Ap.12:13). (8) A mulher grávida no deserto tem asas e voa (cf. Ap.12:14). (9) A terra abre a boca engolindo um rio que um dragão soltou com a sua boca (cf. Ap.12:15,16). (10) Os trovões falam (cf. Ap.10:3). (11) O altar fala (cf. Ap.16:7).
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    A Lenda daImortalidade da Alma Página 314 (12) Jesus tem sete chifres e sete olhos (cf. Ap.5:6). (13) Duas oliveiras e dois candelabros soltam fogo devorador de suas bocas (cf. Ap.11:4,5). Diante de tudo isso, por que não crer que almas agonizando debaixo do altar em pleno Paraíso clamando por vingança contra os seus inimigos seja uma cena simbólica? Tal como não existia uma mulher grávida sendo perseguida por um dragão no deserto durante mil duzentos e sessenta dias, mas esta mulher representa a Igreja e o dragão representa Satanás perseguindo a Igreja, igualmente não existe alguém no Paraíso agonizando e gritando por vingança, mas é de fato uma representação de que aqueles que foram martirizados seriam vingados por Deus, no dia do juízo final. Pressupor que existem literalmente almas no Céu agonizando, gritando “em alta voz” (cf. Ap.6:10) em seus clamores por vingança contra os seus inimigos é ferir a todos quanto pensam racionalmente e entendem as linguagens simbólicas do Apocalipse. Se até o trov ão fala no Apocalipse (cf. Ap.10:3), e isso é claramente uma linguagem simbólica, por que as “almas” gritando vingança no Céu tem que ser necessariamente literal? Afinal, João escreveu um livro altamente simbólico: “Quando ele bradou, os sete trovões falaram. Logo que os sete trovões falaram, eu estava prestes a escrever, mas ouvi uma voz do céu, que disse: Sele o que disseram os sete trovões, e não o escreva” (cf. Ap.10:3,4). Dois pesos... duas medidas! O Paraíso não é um local onde as pessoas ficam agonizadas e atormentadas ao ponto de clamarem em alta voz a vingança contra os inimigos, muito pelo contrário, é exatamente o inverso: é o momento em que as pessoas recebem a sua merecida recompensa e entram no conforto do Pai, no lugar no qual “Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (cf. Ap.21:4). Se não há mais dor, nem luto e nem lágrima na presença de Deus, então é totalmente inconcebível que haja literalmente almas clamando por vingança contra os seus inimigos, aos gritos! O Céu é ex