A aventura dos museus
Maria de Lurdes Parreiras Horta
A coordenação regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional promoveu, em 1995, o I Encontro de Museus do Mercosul, em São
Miguel das Missões. Nesse encontro, a palestra da professora Maria de Lurdes
Parreiras Horta - doutora em Museologia e diretora do Museu Imperial chamou a atenção da platéia, pelas reflexões que propunha, em torno da
função social e histórica dos museus modernos e, mais, sobre o papel dos
textos, relatos e documentos, na construção da identidade americana.
Estamos aqui reunidos, neste primeiro Encontro de Museus do Mercosul,
promovido pelo IPHAN, através de sua 12a.Coordenação Regional e do
Museu Imperial de Petrópolis RJ, e com o apoio do Comitê Brasileiro do
ICOM, para discutir, refletir e propor idéias sobre o papel e a missão dos
museus nas diversas regiões e países envolvidos nas diretrizes e propostas do
tratado que criou o Mercosul. A integração destes países para a formação de
um mercado comum, de acordo com a tendência mundial de formação de
grandes blocos político-econômicos, pressupõe a abertura das fronteiras
comerciais entre estes países , e a livre circulação de bens e produtos, a
parceria nos processos de produção e o intercâmbio de tecnologias.
Não é preciso ser economista, político ou sociólogo para perceber a
importância e a profundidade das transformações que afetarão o cone sul, e
por reflexo, a todo o continente latino-americano no decorrer desse processo.
Não basta ser economista, político ou sociólogo, entretanto, para se poder
prever o rumo e a natureza dessas transformações, ou para determinar as
conseqüências dessa integração na história e na cultura de nossos povos. A
abertura das fronteiras econômicas não ficará restrita à construção de mais
uma dezena de "pontes da amizade", por onde deverá escorrer o fluxo das
mercadorias nas malas dos turistas felizes ou nos caminhões de carga. Os
futurólogos já não têm mais credibilidade nos dias de hoje, e já não há como
recorrer a mecanismos de previsões estatísticas, como aqueles que costumam
anunciar, com algumas semanas de antecedência, quem vai ganhar as
eleições... De uma coisa, entretanto, podemos estar certos - a integração
econômica provocará a abertura de outras fronteiras, além das alfandegárias, e
levará sem dúvida à abertura das fronteiras sociais e culturais. Do mercado de
bens de consumo passaremos ao mercado das trocas simbólicas, que tão
precisamente analisou Pierre Bourdieu. Os meios de comunicação, as redes
eletrônicas e cibernéticas, os contatos pessoais e institucionais, o intercâmbio
de técnicos e especialistas nas mais diversas áreas da produção e do
conhecimento se encarregarão de acelerar esse processo.
Num percurso natural e inevitável, os grandes rios que sempre foram
caminhos de circulação de bens e produtos, de riquezas e de almas, na grande
bacia do Prata, transbordarão de suas margens físicas para ampliar suas
margens culturais. Os terrenos banhados por essas novas águas não ficarão
imunes à inundação inevitável, com maior força e volume de elementos e
informações, de detritos e sedimentos das culturas de toda a região afetada.
Uma inundação que pode ser fertilizadora, como as cheias do Nilo, mas que
também pode levar de roldão os espécimens mais frágeis das sociedades e
povos que, desavisadamente, em sua solidão pacífica e inocente, não se
preparem para enfrentar a correnteza. O grande mercado do sul não se limitará
portanto à troca de toneladas de soja, de carros, de geladeiras ou de maionese,
mas implicará, sem dúvida, um imenso mercado de almas!
Não é preciso dizer para historiadores, arqueólogos, museólogos, arquitetos,
técnicos do patrimônio, cientistas sociais e educadores aqui presentes que a
cultura material, do passado ou do presente, nem sempre é o reflexo direto do
comportamento humano, em suas relações com a realidade. Como propõe Ian
Hodder, o arqueólogo britânico que formula novas abordagens para a
interpretação do passado, os objetos e testemunhos da cultura material
refletem, antes, as transformações do comportamento humano, em face das
mudanças que ocorrem na realidade. Entre as pessoas e as coisas estão as
idéias, as crenças, os significados, o modo como nos relacionamos com os
fenômenos e com as mudanças na vida social. O modo como o enterramento
reflete uma determinada sociedade vai depender do modo como ela se
relaciona com a morte.
Durante muito tempo acreditou-se que a similaridade estilística entre objetos
de diferentes culturas aumentava à medida em que a integração entre os povos
era maior. Hodder (1986) observou, em seus estudos, que em alguns casos de
fronteiras étnicas, quanto mais integração entre os povos, menos similaridade
estilística ocorria. É possível assim generalizar-se, como propôs Hodder
(1979), uma lei já incorporada à Nova Arqueologia, de que a distinção na
cultura material é correlata ao grau de reciprocidade negativa entre os grupos.
Assim, quanto mais competição entre grupos, mais marcadas as fronteiras de
sua cultura material.
Aplicada ao contexto e à realidade que se anunciam hoje para nós, no cone
sul, essa lei, se válida, pode nos ajudar a antecipar o que ocorrerá no processo
de produção cultural, como conseqüência das transformações e da integração
previstas. Nesse caso é possível imaginar que o risco da homogeneização e da
pasteurização, como hipótese, está afastado.
Caberá entretanto aos nossos sucessores, no próximo milênio, realizar a leitura
dos vestígios do nosso presente, para interpretar os resíduos que deixamos de
nossa cultura de hoje, não como reflexo direto de nossas relações e
intervenções na realidade, mas como reflexo indireto de nossas atitudes em
relação às transformações ocorridas em nosso contexto social, econômico e
cultural, decorrentes de um tratado diplomático e político assinado pelos
governos de nossos países. Os arqueólogos, os museólogos, os etnólogos e os
antropólogos do futuro só terão como referência aquilo que lhes deixarmos
como patrimônio, em nossas cidades e campos, em nossos museus, arquivos e
bibliotecas, em nosso subsolo e em nosso meio- ambiente. Talvez possamos,
entretanto, ajudá-los nessa tarefa, que podemos começar hoje, com este
Encontro, deixando-lhes algumas anotações sobre como imaginamos poder
nos comportar, em relação a essas mudanças e aos fenômenos e processos
delas decorrentes; como as transformações culturais poderão nos afetar ou já
estão nos afetando, e como pretendemos nos comportar em relação aos
produtos, materiais e imateriais, de nossas culturas, nos museus e fora deles.
Poderíamos assim começar por analisar como nos relacionamos hoje, uns com
os outros, e como abrir as fronteiras que ainda nos separam, com que atitudes,
com que propostas, com que intenções, com que objetivos, com que
estratégias e ações. Aprofundando a questão, poderíamos enfocar, no âmbito
desse Encontro de Museus, como nossas instituições estão se relacionando em
seu entorno; que fronteiras, reais ou artificiais, existem em sua relação com as
comunidades; que tipo de comportamentos e atitudes demostramos em nosso
relacionamento com os diferentes grupos sociais e culturais em que nos
inserimos. Num terceiro nível de abordagem e investigação, podemos ainda
questionar nossa relação, ou nossa visão do fenômeno museológico, o
conceito e o significado que atribuímos a essas instituições, e como nos
situamos no processo acelerado de transformação por que passam os museus
em nosso continente e em todo o mundo. É possível analisar nosso
comportamento, nesse processo inexorável de mudança, e o que estamos
fazendo para contribuir com ele ou para retardá-lo, para o bem ou para o mal.
De que modo estamos abrindo as fronteiras da nossa ortodoxia e da nossa
mente, em relação ao papel, à função e à missão dos museus em nossos
contextos sociais, econômicos e políticos? De que modo estaremos nos
comportando em relação às atitudes que os outros, fora dos museus, possam
ter em relação a eles e a nós mesmos? Que tipo de idéias, crenças e conceitos
temos sobre a natureza de nosso trabalho e de nossos objetos e coleções?
Já vai longe o possível relatório que poderemos deixar aos que nos sucederão,
para alimentar suas elucubrações e discussões sobre quem e como éramos nós,
e sobre o significado, passado e futuro, de um Tratado das Missões, assinado
pelos profissionais de todas as áreas então presentes a este célebre Encontro.
É possível que o diário, ou as cartas que escreveremos durante esta semana,
sejam encontrados pelo navegante imaginado por Umberto Eco, o único ser
humano que naufragou num navio deserto. Quem já leu esse enigmático livro
do último grande semiólogo da nossa era poderá concordar com a idéia de que
o personagem que procura desvendar os mistérios de um navio à deriva, cheio
de objetos e de bichos empalhados, pode ser a imagem do último museólogo
que sobreviveu ao naufrágio das velhas instituições, e que por ter
desaprendido a nadar e a olhar para a luz do dia, foi condenado a viver na
obscuridade e a nunca chegar à ilha do dia anterior.
Jamais conseguirá chegar, assim, ao momento em que estamos hoje, em terra
firme, a tentar definir o roteiro de uma longa viagem para o futuro. Tratemos
pois de explorar a nossa ilha, e se necessário, alguns séculos anteriores ao
nosso, para entender onde chegamos.
Fragmento de "A aventura dos museus". In: Revista Porto/Vírgula nº25, Secretaria
Municipal da Cultura - Porto Alegre.
Maria de Lurdes Parreiras Horta é doutora em Museologia e diretora do Museu
Imperial - Petrópolis.

A Aventura dos Museus

  • 1.
    A aventura dosmuseus Maria de Lurdes Parreiras Horta A coordenação regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional promoveu, em 1995, o I Encontro de Museus do Mercosul, em São Miguel das Missões. Nesse encontro, a palestra da professora Maria de Lurdes Parreiras Horta - doutora em Museologia e diretora do Museu Imperial chamou a atenção da platéia, pelas reflexões que propunha, em torno da função social e histórica dos museus modernos e, mais, sobre o papel dos textos, relatos e documentos, na construção da identidade americana. Estamos aqui reunidos, neste primeiro Encontro de Museus do Mercosul, promovido pelo IPHAN, através de sua 12a.Coordenação Regional e do Museu Imperial de Petrópolis RJ, e com o apoio do Comitê Brasileiro do ICOM, para discutir, refletir e propor idéias sobre o papel e a missão dos museus nas diversas regiões e países envolvidos nas diretrizes e propostas do tratado que criou o Mercosul. A integração destes países para a formação de um mercado comum, de acordo com a tendência mundial de formação de grandes blocos político-econômicos, pressupõe a abertura das fronteiras comerciais entre estes países , e a livre circulação de bens e produtos, a parceria nos processos de produção e o intercâmbio de tecnologias. Não é preciso ser economista, político ou sociólogo para perceber a importância e a profundidade das transformações que afetarão o cone sul, e por reflexo, a todo o continente latino-americano no decorrer desse processo. Não basta ser economista, político ou sociólogo, entretanto, para se poder prever o rumo e a natureza dessas transformações, ou para determinar as conseqüências dessa integração na história e na cultura de nossos povos. A abertura das fronteiras econômicas não ficará restrita à construção de mais uma dezena de "pontes da amizade", por onde deverá escorrer o fluxo das mercadorias nas malas dos turistas felizes ou nos caminhões de carga. Os futurólogos já não têm mais credibilidade nos dias de hoje, e já não há como recorrer a mecanismos de previsões estatísticas, como aqueles que costumam anunciar, com algumas semanas de antecedência, quem vai ganhar as eleições... De uma coisa, entretanto, podemos estar certos - a integração econômica provocará a abertura de outras fronteiras, além das alfandegárias, e levará sem dúvida à abertura das fronteiras sociais e culturais. Do mercado de bens de consumo passaremos ao mercado das trocas simbólicas, que tão precisamente analisou Pierre Bourdieu. Os meios de comunicação, as redes eletrônicas e cibernéticas, os contatos pessoais e institucionais, o intercâmbio de técnicos e especialistas nas mais diversas áreas da produção e do conhecimento se encarregarão de acelerar esse processo.
  • 2.
    Num percurso naturale inevitável, os grandes rios que sempre foram caminhos de circulação de bens e produtos, de riquezas e de almas, na grande bacia do Prata, transbordarão de suas margens físicas para ampliar suas margens culturais. Os terrenos banhados por essas novas águas não ficarão imunes à inundação inevitável, com maior força e volume de elementos e informações, de detritos e sedimentos das culturas de toda a região afetada. Uma inundação que pode ser fertilizadora, como as cheias do Nilo, mas que também pode levar de roldão os espécimens mais frágeis das sociedades e povos que, desavisadamente, em sua solidão pacífica e inocente, não se preparem para enfrentar a correnteza. O grande mercado do sul não se limitará portanto à troca de toneladas de soja, de carros, de geladeiras ou de maionese, mas implicará, sem dúvida, um imenso mercado de almas! Não é preciso dizer para historiadores, arqueólogos, museólogos, arquitetos, técnicos do patrimônio, cientistas sociais e educadores aqui presentes que a cultura material, do passado ou do presente, nem sempre é o reflexo direto do comportamento humano, em suas relações com a realidade. Como propõe Ian Hodder, o arqueólogo britânico que formula novas abordagens para a interpretação do passado, os objetos e testemunhos da cultura material refletem, antes, as transformações do comportamento humano, em face das mudanças que ocorrem na realidade. Entre as pessoas e as coisas estão as idéias, as crenças, os significados, o modo como nos relacionamos com os fenômenos e com as mudanças na vida social. O modo como o enterramento reflete uma determinada sociedade vai depender do modo como ela se relaciona com a morte. Durante muito tempo acreditou-se que a similaridade estilística entre objetos de diferentes culturas aumentava à medida em que a integração entre os povos era maior. Hodder (1986) observou, em seus estudos, que em alguns casos de fronteiras étnicas, quanto mais integração entre os povos, menos similaridade estilística ocorria. É possível assim generalizar-se, como propôs Hodder (1979), uma lei já incorporada à Nova Arqueologia, de que a distinção na cultura material é correlata ao grau de reciprocidade negativa entre os grupos. Assim, quanto mais competição entre grupos, mais marcadas as fronteiras de sua cultura material. Aplicada ao contexto e à realidade que se anunciam hoje para nós, no cone sul, essa lei, se válida, pode nos ajudar a antecipar o que ocorrerá no processo de produção cultural, como conseqüência das transformações e da integração previstas. Nesse caso é possível imaginar que o risco da homogeneização e da pasteurização, como hipótese, está afastado. Caberá entretanto aos nossos sucessores, no próximo milênio, realizar a leitura dos vestígios do nosso presente, para interpretar os resíduos que deixamos de nossa cultura de hoje, não como reflexo direto de nossas relações e
  • 3.
    intervenções na realidade,mas como reflexo indireto de nossas atitudes em relação às transformações ocorridas em nosso contexto social, econômico e cultural, decorrentes de um tratado diplomático e político assinado pelos governos de nossos países. Os arqueólogos, os museólogos, os etnólogos e os antropólogos do futuro só terão como referência aquilo que lhes deixarmos como patrimônio, em nossas cidades e campos, em nossos museus, arquivos e bibliotecas, em nosso subsolo e em nosso meio- ambiente. Talvez possamos, entretanto, ajudá-los nessa tarefa, que podemos começar hoje, com este Encontro, deixando-lhes algumas anotações sobre como imaginamos poder nos comportar, em relação a essas mudanças e aos fenômenos e processos delas decorrentes; como as transformações culturais poderão nos afetar ou já estão nos afetando, e como pretendemos nos comportar em relação aos produtos, materiais e imateriais, de nossas culturas, nos museus e fora deles. Poderíamos assim começar por analisar como nos relacionamos hoje, uns com os outros, e como abrir as fronteiras que ainda nos separam, com que atitudes, com que propostas, com que intenções, com que objetivos, com que estratégias e ações. Aprofundando a questão, poderíamos enfocar, no âmbito desse Encontro de Museus, como nossas instituições estão se relacionando em seu entorno; que fronteiras, reais ou artificiais, existem em sua relação com as comunidades; que tipo de comportamentos e atitudes demostramos em nosso relacionamento com os diferentes grupos sociais e culturais em que nos inserimos. Num terceiro nível de abordagem e investigação, podemos ainda questionar nossa relação, ou nossa visão do fenômeno museológico, o conceito e o significado que atribuímos a essas instituições, e como nos situamos no processo acelerado de transformação por que passam os museus em nosso continente e em todo o mundo. É possível analisar nosso comportamento, nesse processo inexorável de mudança, e o que estamos fazendo para contribuir com ele ou para retardá-lo, para o bem ou para o mal. De que modo estamos abrindo as fronteiras da nossa ortodoxia e da nossa mente, em relação ao papel, à função e à missão dos museus em nossos contextos sociais, econômicos e políticos? De que modo estaremos nos comportando em relação às atitudes que os outros, fora dos museus, possam ter em relação a eles e a nós mesmos? Que tipo de idéias, crenças e conceitos temos sobre a natureza de nosso trabalho e de nossos objetos e coleções? Já vai longe o possível relatório que poderemos deixar aos que nos sucederão, para alimentar suas elucubrações e discussões sobre quem e como éramos nós, e sobre o significado, passado e futuro, de um Tratado das Missões, assinado pelos profissionais de todas as áreas então presentes a este célebre Encontro. É possível que o diário, ou as cartas que escreveremos durante esta semana, sejam encontrados pelo navegante imaginado por Umberto Eco, o único ser humano que naufragou num navio deserto. Quem já leu esse enigmático livro do último grande semiólogo da nossa era poderá concordar com a idéia de que
  • 4.
    o personagem queprocura desvendar os mistérios de um navio à deriva, cheio de objetos e de bichos empalhados, pode ser a imagem do último museólogo que sobreviveu ao naufrágio das velhas instituições, e que por ter desaprendido a nadar e a olhar para a luz do dia, foi condenado a viver na obscuridade e a nunca chegar à ilha do dia anterior. Jamais conseguirá chegar, assim, ao momento em que estamos hoje, em terra firme, a tentar definir o roteiro de uma longa viagem para o futuro. Tratemos pois de explorar a nossa ilha, e se necessário, alguns séculos anteriores ao nosso, para entender onde chegamos. Fragmento de "A aventura dos museus". In: Revista Porto/Vírgula nº25, Secretaria Municipal da Cultura - Porto Alegre. Maria de Lurdes Parreiras Horta é doutora em Museologia e diretora do Museu Imperial - Petrópolis.