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Negrinha (contos)                                Org. Prof. Manoel
Monteiro Lobato
Monteiro Lobato, natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras
brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e
homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos
"Urupês", em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção
de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural
brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — "Onda Verde", "Idéias de Jeca Tatu", "Cidades
Mortas", "Negrinha", "Fábulas", "O Choque", etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas
volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e
acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e
dezenas de livros, especialmente de Kipling. Uma vida cheia. E uma grande obra, que lhe preservará o nome glorioso.
Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para
crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil
exemplares de seus livros.
         Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras
infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor,
diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948.
Monteiro Lobato foi tão importante pelo que foi e o que fez quanto pelo que escreveu.
         O que foi e fez: Foi empresário, editor e estimulou definitivamente a leitura no Brasil;
Foi uma das mais importantes e críticas mentes do início do século XX;
Defendeu bravamente as pesquisas em busca de poços de petróleo no Brasil, sendo ele próprio responsável pela
perfuração de um;
Atacou duramente a condição de atraso em que se encontrava o interior do estado de São Paulo, especialmente o
Vale do Paraíba;
Foi iconoclasta e envolveu-se na célebre polêmica com a pintora Anita Malfatti, fato que desencadeou as ações dos
modernistas para a realização da Semana de Arte Moderna;
O que escreveu:
Sua literatura adulta apresenta de forma crítica os problemas do Brasil, em especial o atraso econômico e o descaso
dos governantes com as classes menos favorecidas;
Criou a figura imortal do Jeca Tatu, o caipira preguiçoso, que colhe todos os frutos da lei do menor esforço, que
sintetiza o modo de ser do brasileiro rural;
No universo infantil, Lobato criou o mágico mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo, revitalizando e revolucionando a
literatura infanto-juvenil no Brasil.
Em Negrinha, Lobato nos apresenta seu talento como contador de causos, histórias da gente da roça, dos mais
poderosos e dos mais simples, criando obras-primas do conto brasileiro, em especial O Colocador de Pronomes,
grandiosa crítica à retrógrada gramática do português.




RESUMO DOS CONTOS

NEGRINHA

"Negrinha" é uma narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte. Sem dúvida alguma é
conto invejável: "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e
olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da
cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças."
D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da
mãe, a mulher gritava: "Quem é a peste que está chorando aí?" A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e
afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe belicões desesperados. O choro não era sem razão: era fome,
era frio: "Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por
ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação
ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar,
mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora
punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. - Sentadinha aí e bico, hein?" Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu
único     divertimento     era     ver     o     cuco       sair    do      relógio,      de      hora   em      hora.
Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim... Nunca tivera uma palavra sequer
de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa,
pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por
causa da peste que grassava... "O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os
dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e belicões a mesma
atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se
descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta..."

D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se
com "uma boa roda de cocres bem fincados!..." Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a
menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou
providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse
isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz... O padre chegava naquele instante e D.
Inácia         fala        com          ele       sobre       o        quanto         cansa         ser      caridosa...
Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, reconchudas, louras,
"criadas em ninho de plumas." E negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir
quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça.
Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele serzinho
angelical : "E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados
relanços d'olhos para a porta. Fora de si, literalmente..." Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da
surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz, permitiu
que                   ela                   brincasse                também                    no                 jardim.
Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia. Mas se foram
as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha sido a vida, a alma
desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota,
abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio
rodeou-a         de      bonecas,         todas      louras,     de      olhos       azuis.      E      de      anjos..."
No final da narrativa, o narrador nos alerta: "E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica,
na memória das meninas ricas. - "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?" Outra de saudade, no
nó dos dedos de dona Inácia: - "Como era boa
para                                                       um                                                  cocre!..."
É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio
para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado
é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu
esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a
graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a
Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca
aparece, sua vida muda. É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das
quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo
ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança.


AS FITAS DA VIDA

        Um velho, ex-soldado da Guerra do Paraguai, sozinho e cego, acaba por engano sendo levado ao prédio da
imigração em São Paulo. Velho e cego, ele declara que gostaria de reencontrar seu antigo capitão, ao qual serviu
durante a guerra. Ele acredita que o bom homem seria capaz de cura-lo até mesmo da cegueira. Coincidentemente, o
seu antigo capitão, objeto de sua grande estima, fora promovido a chefe do departamento de imigração, pois era
médico. Ao encontrar o antigo soldado, o médico-capitão o encaminhou para uma cirurgia de catarata, devolvendo-lhe
de fato a visão.

O DRAMA DA GEADA

        Um rico fazendeiro do café enlouquece, depois de ver todo seu cafezal queimado pela geada. Durante a noite
ele desaparece e, depois de muito procura-lo, seus parentes o encontram pintando de verde as folhas amareladas pela
geada.
O BUGIO MOQUEADO

        O narrador nos fala de sua experiência assustadora depois de ter visitado um bruto fazendeiro no Mato
Grosso. Ele jantou com o homem e viu que uma estranha carne fora servida à esposa do fazendeiro. Ela comeu a
contra-gosto o esquisito prato. Mais tarde, conversando com um amigo negro, descobrira que esse tal fazendeiro teria
assassinado e moqueado (preparado a carne) um negro de sua fazenda por suspeitar que ele tivesse tido um caso
com a sua esposa, o que se supunha pura maledicência.

O JARDINEIRO TIMÓTEO

O casarão da fazenda era ao jeito das velhas moradias coloniais: frente com varanda, uma ala e pátio interno. Neste
ficava o jardim, também à moda antiga, cheio de plantas antigas cujas flores punham no ar um saudoso perfume
d’antanho. Quarenta anos havia que lhe zelava dos canteiros o bom Timóteo, um preto branco por dentro. Timóteo o
plantou quando a fazenda se abria e a casa inda cheirava a reboco fresco e tintas d’óleo recentes, e desd’aí – lá se
iam quarenta anos – ninguém mais teve licença de pôr a mão em “seu jardim”.
Verdadeiro poeta, o bom Timóteo.
Não desses que fazem versos, mas dos que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um
maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que só ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da
primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os látegos do frio. O jardim tornara-se a memória viva
da casa. Tudo nele correspondia a uma significação familiar de suave encanto, e assim foi desd’o começo, ao
riscarem-se os canteiros na terra virgem ainda recendente a escavação. O canteiro principal consagrava-o Timóteo ao
“Sinhô velho”, tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta d’alforria muito antes da Lei Áurea. Nasceu
faceiro e bonito, cercado de tijolos novos vindos do forno para ali ainda quentes e embutidos no chão como rude
cíngulo de coral; hoje, semi-desfeitos pela usura do tempo e tão tenros que a unha os penetra, esses tijolos
esverdecem nos musgos da velhice.
(...)
Ninguém, a não ser Timóteo, colhia flores naquele jardim. Sinhazinha o tolerava desde o dia em que ele explicou:
– Não sabem, Sinhazinha! Vão lá e atrapalham tudo. Ninguém sabe apanhar flor...
Era verdade. Só Timóteo sabia escolhê-las com intenção e sempre de acordo com o destino. Se as queriam para florir
a mesa em dia de anos da moça, Timóteo combinava os buquês como estrofes vivas. Colhia-as resmungando.
– Perpétua? Não. Você não vai pra mesa hoje. É festa alegre. Nem você, dona violetinha! ... Rosa maxixe? Ah! Ah!
Tinha graça a Cesária em festa de branco!...
(...)
Vendeu-se a fazenda. E certa manhã viu Timóteo arrumarem-se no trole os antigos patrões, as mucamas, tudo o que
constituía alma do velho patrimônio.
– Adeus, Timóteo! – disseram alegremente os senhores-moços, acomodando-se no veículo.
– Adeus! Adeus!...
E lá partiu o trole, a galope... Dobrou a curva da estrada... Sumiu-se para sempre...
Pela primeira vez na vida Timóteo esqueceu de regar o jardim. Quedou-se plantado a um canto, a esmoer o dia inteiro
o mesmo pensamento doloroso:
– Branco não tem coração...
Os novos proprietários eram gente da moda, amigos do luxo e das novidades. Entraram na casa com franzimentos de
nariz para tudo.
– Velharias, velharias...
E tudo reformaram. Em vez da austera mobília de cabiúna, adotaram móveis pechisbeques, com veludinhos e frisos.
Determinaram o empapelamento das salas, abertura de um hall, mil coisas esquisitas... Diante do jardim, abriram-se
em gargalhadas.
– É incrível! Um jardim destes, cheirando a Tomé de Souza, em pleno século das crisandálias!
E correram-no todo, a rir, como perfeitos malucos.
– Ó tição, vem cá!
Timóteo aproximou-se, com ar apatetado.
– Olha, ficas encarregado de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me
isto bem arrasadinho, entendes?
Timóteo, trêmulo, mal pôde engrolar uma palavra:
– Eu?
– Sim, tu! Por que não?
O velho jardineiro, atarantado e fora de si, repetiu a pergunta:
– Eu? Eu, arrasar o jardim?
O fazendeiro encarou-o, espantado da sua audácia, sem nada compreender daquela resistência.
– Eu? Pois me acha com cara de criminoso?
E não podendo mais conter-se explodiu num assomo estupendo de cólera – o primeiro e o único de sua vida.
- Eu vou mas é embora daqui, morrer lá na porteira como um cachorro fiel. Mas olhe, moço, que hei de rogar tanta
praga que isto há de virar uma tapera de lacraias! A geada há de torrar o café. A peste há de levar até as vacas de
leite! Não há de ficar aqui nem uma galinha, nem um pé de vassoura! E a família amaldiçoada, coberta de lepra, há de
comer na gamela com os cachorros lazarentos!... Deixa estar, gente amaldiçoada! Não se assassina assim uma coisa
que dinheiro nenhum paga. Não se mata assim um pobre negro velho que tem dentro do peito uma coisa que lá na
cidade ninguém sabe o que é. Deixa estar, branco de má casta! Deixa estar, caninana!        Deixa estar! ...
E fazendo com a mão espalmada o gesto fatídico, saiu às arrecuas, repetindo cem vezes a mesma ameaça: “Deixa
estar! Deixa estar!...”.
E longe, na porteira, ainda espalmava a mão para a fazenda, num gesto mudo:
– Deixa estar...
Anoitecia. Os curiangos andavam a espacejar silenciosos vôos de sombra pelas estradas desertas. O céu era todo um
recamo fulgurante de estrelas. Os sapos coaxavam nos brejos e vaga-lumes silenciosos piscavam piques de luz no
sombrio das capoeiras.
Tudo adormecera na terra, em breve pausa de vida para o ressurgir do dia seguinte.
Só não ressurgirá Timóteo. Lá agoniza ao pé da porteira. Lá morre. E lá o encontrará a manhã, enrijecido pelo relento,
de borco na grama orvalhada, com a mão estendida para a fazenda num derradeiro gesto de ameaça:
– Deixa estar!...

O FISCO

        Um menino, filho de imigrantes italianos, tenta ajudar a família se tornando engraxate. Mas assim que se dirige
à praça, é abordado por um fiscal da prefeitura que exige dele a licença municipal. Sem o dinheiro para a licença, o
menino é levado até sua casa, sua mãe tem de gastar as últimas economias do mês e o menino bem-intencionado
acaba por levar uma surra do pai, enquanto o fiscal se dirige ao bar da esquina para tomar uma cerveja com o dinheiro
que “arrecadara”.

OS NEGROS

        O narrador e seu amigo Jonas param no meio de uma viagem a cavalo pelo interior, na casa de Adão, um
negro ex-escravo, que lhes oferece pouso. Sem espaço em seu barraco, todos vão dormir na casa grande da fazenda,
abandonada e amaldiçoada. Durante a noite, Jonas é possuído pelo espírito do jovem Fernão, um português pobre,
funcionário da fazenda no tempo da escravidão, e que teve um namoro escondido com a filha do patrão, o temível
Capitão Aleixo. Isabel, a filha do capitão, acabou mandada para a corte e enlouqueceu, longe de seu amado. A
escrava Liduína, que ajudou o casal, foi morta a relho. O jovem Fernão foi emparedado vivo. Depois do transe, Jonas
de nada se lembrava, de modo que ficou só na memória do narrador a história da tragédia dos jovens amantes.

BARBA AZUL

        Um amigo do narrador conta-lhe a história de um tal Pânfilo Novais, um facínora que descobriu um terrível
meio de enriquecer: casava-se com mulheres feias, magras e pequenas, inaptas para o parto;fazia-lhes seguro de vida
e , assim que engravidavam, morriam no parto, deixando-o com o dinheiro do seguro.


O COLOCADOR DE PRONOMES

Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática.
Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro.
Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dado à luz no “Itaoquense”, com bastante
sucesso.
Vivia em paz com as suas certidões quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais moça do
coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da
família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada.
Triburtino não era homem de brincadeiras. Esgoelara um vereador oposicionista em plena sessão da Câmara e desde
aí, se transformou no tutu da terra. Toda a gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que é mais forte que a morte,
não receia sobrecenhos enfarruscados, nem tufos de cabelos no nariz.
bilhetinho perfumado.
Aqui se estrepou…
Escrevera nesse bilhetinho, entretanto, apenas quatro palavras, afora pontos exclamativos e reticências:
Anjo adorado!
Amo-lhe!…
Para abrir o jogo, bastava esse movimento de peão.
Ora, aconteceu que o pai do anjo apanhou o bilhetinho celestial e, depois de três dias de sobrecenho carregado,
mandou chamá-lo à sua presença, com disfarce de pretexto — para umas certidõezinhas, explicou.
Apesar disso o moço veio um tanto ressabiado, com a pulga atrás da orelha. Não lhe erravam os pressentimentos. Mal
o pilhou portas aquém, o coronel trancou o escritório, fechou a carranca e disse:
— A família Triburtino de Mendonça é a mais honrada desta terra, e eu, seu chefe natural, não permitirei nunca-nunca,
ouviu? que contra ela se cometa o menor deslize. Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor de rosa,
desdobrou-o.
— É sua esta peça de flagrante delito?
O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirmação
— Muito bem! continuou o coronel em tom mais sereno. Ama, então, minha filha e tem a audácia de o declarar… Pois
agora…
O escrevente, por instinto, ergueu o braço para defender a cabeça e relanceou os olhos para a rua, sondando uma
retirada estratégica.
— …é casar! concluiu de improviso o vingativo pai.
O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca, num pasmo. Depois, tornando a si, comoveu-se e, com lágrimas
nos olhos, disse, gaguejante:
— Beijo-lhe as mãos, coronel! Nunca imaginei tanta generosidade em peito humano! Agora vejo com que injustiça o
julgam aí fora!…
Velhacamente o velho cortou-lhe o fio das expansões.
— Nada de frases moço, vamos ao que serve: declaro-o solenemente noivo de minha filha!
E voltando-se para dentro, gritou:
— Do Carmo! Venha abraçar o teu noivo!
O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro.
— Laurinha quer o coronel dizer…
— Sei onde trago o nariz, moço. Vassuncê mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-”lhe”. Se amasse a ela
deveria dizer amo-”te”. Dizendo “amo-lhe” declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria
do Carmo. Salvo se declara amor à minha mulher!…
— Oh, coronel…
— …ou à preta Luzia, cozinheira. Escolha!
— Os pronomes, como sabe, são três: da primeira pessoa— quem fala, e neste caso vassuncê; da segunda pessoa-a
quem se fala, e neste caso Laurinha; da terceira pessoa — de quem se fala, e neste caso Maria do Carmo, minha
mulher ou a preta. Escolha!
Não havia fuga possível.
(...)
E Aldrovando empreendeu a realização de um vastíssimo programa de estudos filológicos. Encabeçaria a série um
tratado sobre a colocação dos pronomes, ponto onde mais claudicava a gente de Gomorra.
Fê-lo, e foi feliz nesse período de vida em que, alheio ao mundo, todo se entregou, dia e noite, à obra magnífica. Saiu
trabuco volumoso, que daria três tomos de 500 páginas cada um, corpo miúdo. Que proventos não adviriam dali para a
lusitanidade! Todos os casos resolvidos para sempre, todos os homens de boa vontade salvos da gafaria! O ponto
fraco do brasileiro falar resolvido de vez! Maravilhosa coisa…
Pronto o primeiro tomo — Do pronome Se — anunciou a obra pelos jornais, ficando à espera da chusma de editores
que viriam disputá-la à sua porta. E por uns dias o apóstolo sonhou as delícias da estrondosa vitória literária, acrescida
de gordos proventos pecuniários.
Calculava em oitenta contos o valor dos direitos autorais, que, generoso que era, cederia por cinqüenta. E cinqüenta
contos para um velho celibatário como ele, sem família nem vícios, tinha a significação duma grande fortuna.
Empatados em empréstimos hipotecários, sempre eram seus quinhentos mil réis por mês de renda, a pingarem pelo
resto da vida, na gavetinha onde, até então, nunca entrara pelega maior de duzentos. Servia, servia!… E Aldrovando,
contente, esfregava as mãos, de ouvido alerta, preparando frases para receber o editor que vinha vindo…
Que vinha vindo mas não veio, ai!… As semanas se passaram sem que nenhum representante dessa miserável fauna
de judeus surgisse a chatinar o maravilhoso livro.
(...)
Dedicou-o a Fr. Luís de Sousa:
À memória daquele que me sabe as dores — O autor.
Mas não quis o destino que o já trêmulo Aldrovando colhesse os frutos de sua obra. Filho dum pronome impróprio, a
má colocação de outro pronome lhe cortaria o fio da vida.
Muito corretamente havia escrito na dedicatória :…daquele que me sabe… e nem poderia escrever de outro modo um
tão conspícuo colocador de pronomes. Maus fados intervieram, porém — até os fados conspiram contra a língua! — e,
por artimanha do diabo que os rege, empastelou-se na oficina esta frase. Vai o tipógrafo e recompõe-na a seu modo…
daquele que sabe-me as dores… E assim saiu nos milheiros de cópias da avultada edição.
Mas não antecipemos.
Pronta a obra e paga, ia Aldrovando recebê-la, enfim. Que glória! Construíra, finalmente, o pedestal da sua própria
imortalidade, ao lado direito dos sumos cultores da língua.
(...)
Aldrovando abancou-se à velha mesinha de trabalho e deu começo à tarefa de lançar dedicatórias num certo número
de exemplares destinados à crítica. Abriu o primeiro, e estava já a escrever o nome de Rui Barbosa, quando seus
olhos deram com a horrenda cinca: “daquele QUE SABE-ME as dores“.
— Deus do céu! Será possível?
Era possível. Era fato. Naquele, como em todos os exemplares da edição, lá estava, no hediondo relevo da dedicatória
a Fr. Luís de Sousa, o horripilantíssimo — QUE SABE-ME…
Aldrovando não murmurou palavra. De olhos muito abertos, no rosto uma estranha marca de dor — dor gramatical inda
não descrita nos livros de patologia - permaneceu imóvel uns momentos.
Depois, empalideceu. Levou as mãos ao abdômen e estorceu-se nas garras de repentina e violentíssima ânsia.
Ergueu os olhos para Frei Luís de Sousa e murmurou.
— Luís! Luís! Lamma Sabachtani!

E morreu.
De quê, não sabemos — nem importa ao caso. O que importa é proclamarmos aos quatro ventos que com Aldrovando
morreu o primeiro santo da gramática, o mártir número um da Colocação dos Pronomes.
Paz à sua alma.

Nota: ”Do espólio de Aldrovando Cantagalo faziam parte numerosos originais de obras inéditas, entre os
quais citaremos: O acento cincunflexo-3 volumes; A vírgula no hebraico-5 volumes; Psicologia do til-2
volumes e a A Crase-10 volumes. Pesavam todos, por conjunto, 4 arrobas, que renderam, vendidos a 3
tostões o quilo, 18 mil réis”.

UMA HISTÓRIA DE MIL ANOS

        Vidinha é uma bela jovem, um anjo de candura, vive com a família nos confins do interior, sem sonhos, ilusões
ou paixões. Um dia, um forasteiro desperta em seu coração o amor, beija-lhe e desaparece. Na solidão, agora
percebida depois de conhecer o amor, Vidinha definha, entristece e acaba morrendo.”Não vive na terra o que não é da
terra”.

OS PEQUENINOS

       Enquanto espera o navio que trará um amigo de Londres, o narrador ouve histórias dos marinheiros. Uma
delas narra um episódio em que um gaviãozinho ataca uma ema, cravando-lhe sob as asas as suas garrinhas e
bicando-lhe sem piedade a carne viva e macia. Sem defesa, a grande ema é vítima do gaviãozinho. A outra história é
de um português, Manuel, que é acusado de roubar um saco de arroz e depois descobre que quem o roubou foram as
formigas, tão pequeninas. Enfim o narrador recebe o amigo, tuberculoso, vítima do pequenino bacilo de Koch.

A FACADA IMORTAL

         Trata-se de um célebre golpe que Indalício Ararigbóia deu em seu amigo Raul. Chamava-se na época
FACADA o empréstimo que se fazia sem a intenção de pagar. O golpista era conhecido por faquista.
Indalício consegue arrancar um empréstimo do pão-duro amigo Raul ao mexer com a vaidade do amigo. Após o golpe,
Indalício sente-se vitorioso e Raul sente-se derrotado.

A POLICITEMIA DE DONA LINDOCA

        Desgostosa do descaso e das traições do marido, dona Lindoca queixa-se de um mal-estar, procura o doutor
Lorena,um médico charlatão, e descobre-se vítima de uma policitemia. O médico recomenda-lhe descanso e carinho
da parte do marido. A vida está uma maravilha, até que o médico é descoberto e foge da cidade. O marido volta ao
descaso e dona Lindoca sente saudades da policitemia.
DUAS CAVALGADURAS

       O narrador conta que havia lido um conto de Ribeiro Couto, em que um estudante mata um judeu, dono de um
sebo, depois que este lhe explora num negócio de livros. O narrador suspeita que a história se refere a um judeu, dono
de um sebo que ele conhece. Ele vai até o sebo, lá vê um coelhinho de lã que imagina ter sido comprado pelo judeu de
uma pobre criança faminta. Depois de interrogar o judeu acerca do coelhinho, o narrador descobre que se tratava de
uma lembrança que o judeu guardava de um seu filho adotivo que morrera ainda jovem. A imagem de judeu
ganancioso de desfaz e o narrador escreve ao amigo Ribeiro Couto dizendo-lhe:”Somos duas cavalgaduras”

O BOM MARIDO

        Teofrasto Pereira da Silva Bermudes é um explorador. Casou-se com Isabel, que teve de sustentar o folgado
trabalhando como professora enquanto ele discutia política na farmácia. Mas ele era carinhoso e tratava a esposa
sempre com dengos, fazendo-se de injustiçado pelo destino. A pobre Isabel adorava o marido, mas morreu de tanto
trabalhar para sustentar os filhos e o marido. Ele, então, casou-se com a dona da quitanda, que tinha ouvido falar do
quanto era bom o tal de Teofrasto.




MARABÁ

         O narrador dá ao leitor uma receita de romance romântico. Ele propõe uma recriação do universo romântico a
partir de ícones consagrados: A índia Iná liberta um prisioneiro branco da tribo, foge com ele e gera uma filha, Marabá.
O índio Ipojuca se apaixona por Marabá e, depois de perseguidos pela tribo, acabam acolhidos pelo exército
português. Ipojuca está ferido, um capitão reconhece Marabá como sendo sua filha e a abraça. Sem entender a cena,
Ipojuca flecha e mata a sua jovem esposa, morrendo também de um ferimento.

FATIA DE VIDA

         Numa conversa com um cônego, o “esquisitão” Bonifácio observa que a caridade nem sempre é boa. Ilustra
sua tese com a história de sua lavadeira Isaura, que perdeu dois filhos e uma neta por culpa da caridade de uma
vizinha. Eles estavam com gripe e foram levados ao hospital. Lá pegaram infecções mais graves e vieram a falecer. O
cônego não soube o que responder.


O CAMICEGO

Camicego é um monstro imaginário criado por um menino de 4 anos, Edgard. Um dia, ao ver um morcego morto,
Edgard o identificou como sendo o famigerado Camicego. Estava aí desfeito o medo diante do misterioso monstro.

QUERO AJUDAR O BRASIL

Um negro, funcionário da Sorocabana, procura pelos incorporadores da empresa que luta pela exploração do petróleo
(seria de Lobato?) e deseja comprar 30 ações da empresa no total de 3 contos, toda a economia de uma vida inteira de
trabalho duro. Ele declara que não se importa com os riscos que corre, pois tudo o que quer é ajudar o
Brasil.”Abençoado negro!... Os teus três contos foram mágicos. ... Trancaram com pregos a porta da deserção.”


SORTE GRANDE

Maricota é filha de dona Teodora. Moram numa pequena cidade, Santa Rita, com mais seis irmãos. Vivem na pobreza
e, para piorar, Maricota desenvolve uma doença rara que lhe faz crescer o nariz. Do tamanho de uma beterraba, o
nariz agora é notório e vexatório. A família junta um dinheiro para uma consulta com um especialista de uma cidade
grande, mas no caminho, num barco, Maricota conhece um jovem médico, Dr. Cadaval, que se interessa pelo seu caso
e a convida para uma tratamebto no Rio de Janeiro. Maricota aceita se mudar para o Rio desde que o dr. lhe consiga
alguns favores, emprego para os irmãos e até casamento para as irmãs. Afinal ele, como pesquisador irá colher os
louros da vitória pela descoberta do Rinofima, nome do tumor de Maricota. Ela acaba operada e seu nariz volta ao
normal, a família se ajeita e o médico ganha fama. O que fora considerado uma vergonha, agora passou a ser
chamado de sorte grande pelo povo de Santa Rita.
DONA EXPEDITA

        Dona Expedita é uma senhora de 60 anos que ainda diz a todos que tem 36. Ela procura um emprego de
criada para serviços leves, mas a situação está difícil. O narrador então nos conta dois episódios engraçados vividos
por ela na sua bysca por um emprego ideal. Um dia ela viu no jornal uma oferta de emprego leve de acompanhante
para o qual se pagaria 400 mil réis por mês, mas ao chegar ao local descobriu que se tratava de um erro no anúncio, o
salário seria de 40 mil réis. O segundo episódio foi quando uma imigrante alemã a procurou falando de um serviço
excelente, de uma boa patroa e um bom salário. Dona Expedita achou que ela era a patroa interessada em contratá-la,
mas descobriu desconsolada que a alemã também procurava por um emprego assim.

HERDEIRO DE SI MESMO

Lupércio Moura, aos 36 anos, começa a ser acompanhado por uma maré de boa sorte. Tudo conspira para seu
enriquecimento. Por acaso, embriagado, acaba comprando o casco de um velho navio, uma sucata, por 45 contos de
réis, tudo o que possuía. Um ano depois, o preço do ferro sobe em função da guerra e ele vende a sucata por mais de
400 contos. No fim da vida está rico, uma fortuna de 60 mil contos, sem ter um herdeiro. Então, procura o médium, dr.
Dunga e pede-lhe que se informe com os espíritos sobre quem será sua mãe na sua próxima encarnação, para fazê-la
depositária da fortuna dele no seu testamento, queria ser herdeiro de si mesmo.

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  • 1. Negrinha (contos) Org. Prof. Manoel Monteiro Lobato Monteiro Lobato, natural de Taubaté (SP), nasceu em 18/04/1882. É uma das figuras excepcionais das letras brasileiras. Jornalista, contista, criador de deliciosas histórias para crianças, suscitador de problemas, ensaísta e homem de ação, encheu com seu nome um largo período da vida nacional. Com a publicação do livro de contos "Urupês", em julho de 1918, quando já contava com 36 anos de idade, chama para o seu talento de escritor a atenção de todo o país. Cita-o Ruy Barbosa, em discurso, encontrando no seu Jeca Tatu um símbolo da realidade rural brasileira. Lança-se à indústria editorial, publica livros e mais livros — "Onda Verde", "Idéias de Jeca Tatu", "Cidades Mortas", "Negrinha", "Fábulas", "O Choque", etc. Fracassa como editor, ao lançar a firma Monteiro Lobato & Cia., mas volta com a Companhia Editora Nacional, ao lado de Octales Marcondes, e triunfa. Tenta a exploração de petróleo, e acaba na cadeia, perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas. Não só escreve, como traduz sem pausa, dezenas e dezenas de livros, especialmente de Kipling. Uma vida cheia. E uma grande obra, que lhe preservará o nome glorioso. Foi um grande homem, um grande brasileiro e um dos maiores escritores — em todo o mundo — de histórias para crianças. Basta dizer que, no período de 1925 a 1950 foram vendidos aproximadamente um milhão e quinhentos mil exemplares de seus livros. Era, de fato, um ser plural: escritor precursor do realismo fantástico, escritor de cartas, escritor de obras infantis, ensaísta, crítico de arte e literatura, pintor, jornalista, empresário, fazendeiro, advogado, sociólogo, tradutor, diplomata, etc. Faleceu na cidade de São Paulo (SP), no dia 04 de julho de 1948. Monteiro Lobato foi tão importante pelo que foi e o que fez quanto pelo que escreveu. O que foi e fez: Foi empresário, editor e estimulou definitivamente a leitura no Brasil; Foi uma das mais importantes e críticas mentes do início do século XX; Defendeu bravamente as pesquisas em busca de poços de petróleo no Brasil, sendo ele próprio responsável pela perfuração de um; Atacou duramente a condição de atraso em que se encontrava o interior do estado de São Paulo, especialmente o Vale do Paraíba; Foi iconoclasta e envolveu-se na célebre polêmica com a pintora Anita Malfatti, fato que desencadeou as ações dos modernistas para a realização da Semana de Arte Moderna; O que escreveu: Sua literatura adulta apresenta de forma crítica os problemas do Brasil, em especial o atraso econômico e o descaso dos governantes com as classes menos favorecidas; Criou a figura imortal do Jeca Tatu, o caipira preguiçoso, que colhe todos os frutos da lei do menor esforço, que sintetiza o modo de ser do brasileiro rural; No universo infantil, Lobato criou o mágico mundo do Sítio do Pica-pau Amarelo, revitalizando e revolucionando a literatura infanto-juvenil no Brasil. Em Negrinha, Lobato nos apresenta seu talento como contador de causos, histórias da gente da roça, dos mais poderosos e dos mais simples, criando obras-primas do conto brasileiro, em especial O Colocador de Pronomes, grandiosa crítica à retrógrada gramática do português. RESUMO DOS CONTOS NEGRINHA "Negrinha" é uma narrativa em terceira pessoa, impregnada de uma carga emocional muito forte. Sem dúvida alguma é conto invejável: "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados. Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças." D. Inácia era viúva sem filhos e não suportava choro de crianças. Se Negrinha, bebezinho, chorava nos braços da mãe, a mulher gritava: "Quem é a peste que está chorando aí?" A mãe, desesperada, abafava o choro do bebê, e afastando-se com ela para os fundos da casa, torcia-lhe belicões desesperados. O choro não era sem razão: era fome, era frio: "Assim cresceu Negrinha magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra, provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretexto de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora
  • 2. punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta. - Sentadinha aí e bico, hein?" Ela ficava imóvel, a coitadinha. Seu único divertimento era ver o cuco sair do relógio, de hora em hora. Ensinaram Negrinha a fazer crochê e lá ficava ela espichando trancinhas sem fim... Nunca tivera uma palavra sequer de carinho e os apelidos que lhe davam eram os mais diversos: pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo. Foi chamada bubônica, por causa da peste que grassava... "O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e belicões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta..." D. Inácia era má demais e apesar da Abolição já ter sido proclamada, conservava em casa Negrinha para aliviar-se com "uma boa roda de cocres bem fincados!..." Uma criada furtou um pedaço de carne ao prato de Negrinha e a menina xingou-a com os mesmos nomes com os quais a xingavam todos os dias. Sabendo do caso, D. Inácia tomou providências: mandou cozinhar um ovo e, tirando-o da água fervente, colocou-o na boca da menina. Não bastasse isso, amordaçou-a com as mãos, o urro abafado da menina saindo pelo nariz... O padre chegava naquele instante e D. Inácia fala com ele sobre o quanto cansa ser caridosa... Em um certo dezembro, vieram passar as férias na fazenda duas sobrinhas de D. Inácia: lindas, reconchudas, louras, "criadas em ninho de plumas." E negrinha viu-as irromperem pela sala, saltitantes e felizes, viu também Inácia sorrir quando as via brincar. Negrinha arregalava os olhos: havia um cavalinho de pau, uma boneca loura, de louça. Interrogada se nunca havia visto uma boneca, a menina disse que não... e pôde, então, pegar aquele serzinho angelical : "E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços d'olhos para a porta. Fora de si, literalmente..." Teve medo quando viu a patroa, mas D. Inácia, diante da surpresa das meninas que mal acreditavam que Negrinha nunca tivesse visto uma boneca, deixou-a em paz, permitiu que ela brincasse também no jardim. Negrinha tomou consciência do mundo e da alegria, deixara de ser uma coisa humana, vibrava e sentia. Mas se foram as meninas, a boneca também se foi e a casa caiu na mesmice de sempre. Sabedora do que tinha sido a vida, a alma desabrochada, Negrinha caiu em tristeza profunda e morreu, assim, de repente: "Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos..." No final da narrativa, o narrador nos alerta: "E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas. - "Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?" Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia: - "Como era boa para um cocre!..." É interessante considerar aqui algumas coisas: em primeiro lugar o tema da caridade azeda e má, que cria infortúnio para os dela protegidos, um dos temas recorrentes de Monteiro Lobato; o segundo aspecto que poderia ser observado é o fenômeno da epifania, a revelação que, inesperadamente, atinge os seres, mostrando-lhes o mundo e seu esplendor. A partir daí, tais criaturas sucumbem, tal qual Negrinha o fez. Ter estado anos a fio a desconhecer o riso e a graça da existência, sentada ao pé da patroa má, das criaturas perversas, nos cantos da cozinha ou da sala, deram a Negrinha a condição de bicho-gente que suportava beliscões e palavrórios, mas a partir do instante em que a boneca aparece, sua vida muda. É a epifania que se realiza, mostrando-lhe o mundo do riso e das brincadeiras infantis das quais Negrinha poderia fazer parte, se não houvesse a perversidade das criaturas. É aí que adoece e morre, preferindo ausentar-se do mundo a continuar seus dias sem esperança. AS FITAS DA VIDA Um velho, ex-soldado da Guerra do Paraguai, sozinho e cego, acaba por engano sendo levado ao prédio da imigração em São Paulo. Velho e cego, ele declara que gostaria de reencontrar seu antigo capitão, ao qual serviu durante a guerra. Ele acredita que o bom homem seria capaz de cura-lo até mesmo da cegueira. Coincidentemente, o seu antigo capitão, objeto de sua grande estima, fora promovido a chefe do departamento de imigração, pois era médico. Ao encontrar o antigo soldado, o médico-capitão o encaminhou para uma cirurgia de catarata, devolvendo-lhe de fato a visão. O DRAMA DA GEADA Um rico fazendeiro do café enlouquece, depois de ver todo seu cafezal queimado pela geada. Durante a noite ele desaparece e, depois de muito procura-lo, seus parentes o encontram pintando de verde as folhas amareladas pela geada.
  • 3. O BUGIO MOQUEADO O narrador nos fala de sua experiência assustadora depois de ter visitado um bruto fazendeiro no Mato Grosso. Ele jantou com o homem e viu que uma estranha carne fora servida à esposa do fazendeiro. Ela comeu a contra-gosto o esquisito prato. Mais tarde, conversando com um amigo negro, descobrira que esse tal fazendeiro teria assassinado e moqueado (preparado a carne) um negro de sua fazenda por suspeitar que ele tivesse tido um caso com a sua esposa, o que se supunha pura maledicência. O JARDINEIRO TIMÓTEO O casarão da fazenda era ao jeito das velhas moradias coloniais: frente com varanda, uma ala e pátio interno. Neste ficava o jardim, também à moda antiga, cheio de plantas antigas cujas flores punham no ar um saudoso perfume d’antanho. Quarenta anos havia que lhe zelava dos canteiros o bom Timóteo, um preto branco por dentro. Timóteo o plantou quando a fazenda se abria e a casa inda cheirava a reboco fresco e tintas d’óleo recentes, e desd’aí – lá se iam quarenta anos – ninguém mais teve licença de pôr a mão em “seu jardim”. Verdadeiro poeta, o bom Timóteo. Não desses que fazem versos, mas dos que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que só ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os látegos do frio. O jardim tornara-se a memória viva da casa. Tudo nele correspondia a uma significação familiar de suave encanto, e assim foi desd’o começo, ao riscarem-se os canteiros na terra virgem ainda recendente a escavação. O canteiro principal consagrava-o Timóteo ao “Sinhô velho”, tronco da estirpe e generoso amigo que lhe dera carta d’alforria muito antes da Lei Áurea. Nasceu faceiro e bonito, cercado de tijolos novos vindos do forno para ali ainda quentes e embutidos no chão como rude cíngulo de coral; hoje, semi-desfeitos pela usura do tempo e tão tenros que a unha os penetra, esses tijolos esverdecem nos musgos da velhice. (...) Ninguém, a não ser Timóteo, colhia flores naquele jardim. Sinhazinha o tolerava desde o dia em que ele explicou: – Não sabem, Sinhazinha! Vão lá e atrapalham tudo. Ninguém sabe apanhar flor... Era verdade. Só Timóteo sabia escolhê-las com intenção e sempre de acordo com o destino. Se as queriam para florir a mesa em dia de anos da moça, Timóteo combinava os buquês como estrofes vivas. Colhia-as resmungando. – Perpétua? Não. Você não vai pra mesa hoje. É festa alegre. Nem você, dona violetinha! ... Rosa maxixe? Ah! Ah! Tinha graça a Cesária em festa de branco!... (...) Vendeu-se a fazenda. E certa manhã viu Timóteo arrumarem-se no trole os antigos patrões, as mucamas, tudo o que constituía alma do velho patrimônio. – Adeus, Timóteo! – disseram alegremente os senhores-moços, acomodando-se no veículo. – Adeus! Adeus!... E lá partiu o trole, a galope... Dobrou a curva da estrada... Sumiu-se para sempre... Pela primeira vez na vida Timóteo esqueceu de regar o jardim. Quedou-se plantado a um canto, a esmoer o dia inteiro o mesmo pensamento doloroso: – Branco não tem coração... Os novos proprietários eram gente da moda, amigos do luxo e das novidades. Entraram na casa com franzimentos de nariz para tudo. – Velharias, velharias... E tudo reformaram. Em vez da austera mobília de cabiúna, adotaram móveis pechisbeques, com veludinhos e frisos. Determinaram o empapelamento das salas, abertura de um hall, mil coisas esquisitas... Diante do jardim, abriram-se em gargalhadas. – É incrível! Um jardim destes, cheirando a Tomé de Souza, em pleno século das crisandálias! E correram-no todo, a rir, como perfeitos malucos. – Ó tição, vem cá! Timóteo aproximou-se, com ar apatetado. – Olha, ficas encarregado de limpar este mato e deixar a terra nuazinha. Quero fazer aqui um lindo jardim. Arrasa-me isto bem arrasadinho, entendes? Timóteo, trêmulo, mal pôde engrolar uma palavra: – Eu? – Sim, tu! Por que não? O velho jardineiro, atarantado e fora de si, repetiu a pergunta: – Eu? Eu, arrasar o jardim? O fazendeiro encarou-o, espantado da sua audácia, sem nada compreender daquela resistência. – Eu? Pois me acha com cara de criminoso?
  • 4. E não podendo mais conter-se explodiu num assomo estupendo de cólera – o primeiro e o único de sua vida. - Eu vou mas é embora daqui, morrer lá na porteira como um cachorro fiel. Mas olhe, moço, que hei de rogar tanta praga que isto há de virar uma tapera de lacraias! A geada há de torrar o café. A peste há de levar até as vacas de leite! Não há de ficar aqui nem uma galinha, nem um pé de vassoura! E a família amaldiçoada, coberta de lepra, há de comer na gamela com os cachorros lazarentos!... Deixa estar, gente amaldiçoada! Não se assassina assim uma coisa que dinheiro nenhum paga. Não se mata assim um pobre negro velho que tem dentro do peito uma coisa que lá na cidade ninguém sabe o que é. Deixa estar, branco de má casta! Deixa estar, caninana! Deixa estar! ... E fazendo com a mão espalmada o gesto fatídico, saiu às arrecuas, repetindo cem vezes a mesma ameaça: “Deixa estar! Deixa estar!...”. E longe, na porteira, ainda espalmava a mão para a fazenda, num gesto mudo: – Deixa estar... Anoitecia. Os curiangos andavam a espacejar silenciosos vôos de sombra pelas estradas desertas. O céu era todo um recamo fulgurante de estrelas. Os sapos coaxavam nos brejos e vaga-lumes silenciosos piscavam piques de luz no sombrio das capoeiras. Tudo adormecera na terra, em breve pausa de vida para o ressurgir do dia seguinte. Só não ressurgirá Timóteo. Lá agoniza ao pé da porteira. Lá morre. E lá o encontrará a manhã, enrijecido pelo relento, de borco na grama orvalhada, com a mão estendida para a fazenda num derradeiro gesto de ameaça: – Deixa estar!... O FISCO Um menino, filho de imigrantes italianos, tenta ajudar a família se tornando engraxate. Mas assim que se dirige à praça, é abordado por um fiscal da prefeitura que exige dele a licença municipal. Sem o dinheiro para a licença, o menino é levado até sua casa, sua mãe tem de gastar as últimas economias do mês e o menino bem-intencionado acaba por levar uma surra do pai, enquanto o fiscal se dirige ao bar da esquina para tomar uma cerveja com o dinheiro que “arrecadara”. OS NEGROS O narrador e seu amigo Jonas param no meio de uma viagem a cavalo pelo interior, na casa de Adão, um negro ex-escravo, que lhes oferece pouso. Sem espaço em seu barraco, todos vão dormir na casa grande da fazenda, abandonada e amaldiçoada. Durante a noite, Jonas é possuído pelo espírito do jovem Fernão, um português pobre, funcionário da fazenda no tempo da escravidão, e que teve um namoro escondido com a filha do patrão, o temível Capitão Aleixo. Isabel, a filha do capitão, acabou mandada para a corte e enlouqueceu, longe de seu amado. A escrava Liduína, que ajudou o casal, foi morta a relho. O jovem Fernão foi emparedado vivo. Depois do transe, Jonas de nada se lembrava, de modo que ficou só na memória do narrador a história da tragédia dos jovens amantes. BARBA AZUL Um amigo do narrador conta-lhe a história de um tal Pânfilo Novais, um facínora que descobriu um terrível meio de enriquecer: casava-se com mulheres feias, magras e pequenas, inaptas para o parto;fazia-lhes seguro de vida e , assim que engravidavam, morriam no parto, deixando-o com o dinheiro do seguro. O COLOCADOR DE PRONOMES Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gramática. Havia em Itaoca um pobre moço que definhava de tédio no fundo de um cartório. Escrevente. Vinte e três anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimogêneos e pai duns acrósticos dado à luz no “Itaoquense”, com bastante sucesso. Vivia em paz com as suas certidões quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais moça do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, então nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da família, vesga, madurota, histérica, manca da perna esquerda e um tanto aluada. Triburtino não era homem de brincadeiras. Esgoelara um vereador oposicionista em plena sessão da Câmara e desde aí, se transformou no tutu da terra. Toda a gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que é mais forte que a morte, não receia sobrecenhos enfarruscados, nem tufos de cabelos no nariz. bilhetinho perfumado. Aqui se estrepou… Escrevera nesse bilhetinho, entretanto, apenas quatro palavras, afora pontos exclamativos e reticências: Anjo adorado!
  • 5. Amo-lhe!… Para abrir o jogo, bastava esse movimento de peão. Ora, aconteceu que o pai do anjo apanhou o bilhetinho celestial e, depois de três dias de sobrecenho carregado, mandou chamá-lo à sua presença, com disfarce de pretexto — para umas certidõezinhas, explicou. Apesar disso o moço veio um tanto ressabiado, com a pulga atrás da orelha. Não lhe erravam os pressentimentos. Mal o pilhou portas aquém, o coronel trancou o escritório, fechou a carranca e disse: — A família Triburtino de Mendonça é a mais honrada desta terra, e eu, seu chefe natural, não permitirei nunca-nunca, ouviu? que contra ela se cometa o menor deslize. Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor de rosa, desdobrou-o. — É sua esta peça de flagrante delito? O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirmação — Muito bem! continuou o coronel em tom mais sereno. Ama, então, minha filha e tem a audácia de o declarar… Pois agora… O escrevente, por instinto, ergueu o braço para defender a cabeça e relanceou os olhos para a rua, sondando uma retirada estratégica. — …é casar! concluiu de improviso o vingativo pai. O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca, num pasmo. Depois, tornando a si, comoveu-se e, com lágrimas nos olhos, disse, gaguejante: — Beijo-lhe as mãos, coronel! Nunca imaginei tanta generosidade em peito humano! Agora vejo com que injustiça o julgam aí fora!… Velhacamente o velho cortou-lhe o fio das expansões. — Nada de frases moço, vamos ao que serve: declaro-o solenemente noivo de minha filha! E voltando-se para dentro, gritou: — Do Carmo! Venha abraçar o teu noivo! O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro. — Laurinha quer o coronel dizer… — Sei onde trago o nariz, moço. Vassuncê mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-”lhe”. Se amasse a ela deveria dizer amo-”te”. Dizendo “amo-lhe” declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo. Salvo se declara amor à minha mulher!… — Oh, coronel… — …ou à preta Luzia, cozinheira. Escolha! — Os pronomes, como sabe, são três: da primeira pessoa— quem fala, e neste caso vassuncê; da segunda pessoa-a quem se fala, e neste caso Laurinha; da terceira pessoa — de quem se fala, e neste caso Maria do Carmo, minha mulher ou a preta. Escolha! Não havia fuga possível. (...) E Aldrovando empreendeu a realização de um vastíssimo programa de estudos filológicos. Encabeçaria a série um tratado sobre a colocação dos pronomes, ponto onde mais claudicava a gente de Gomorra. Fê-lo, e foi feliz nesse período de vida em que, alheio ao mundo, todo se entregou, dia e noite, à obra magnífica. Saiu trabuco volumoso, que daria três tomos de 500 páginas cada um, corpo miúdo. Que proventos não adviriam dali para a lusitanidade! Todos os casos resolvidos para sempre, todos os homens de boa vontade salvos da gafaria! O ponto fraco do brasileiro falar resolvido de vez! Maravilhosa coisa… Pronto o primeiro tomo — Do pronome Se — anunciou a obra pelos jornais, ficando à espera da chusma de editores que viriam disputá-la à sua porta. E por uns dias o apóstolo sonhou as delícias da estrondosa vitória literária, acrescida de gordos proventos pecuniários. Calculava em oitenta contos o valor dos direitos autorais, que, generoso que era, cederia por cinqüenta. E cinqüenta contos para um velho celibatário como ele, sem família nem vícios, tinha a significação duma grande fortuna. Empatados em empréstimos hipotecários, sempre eram seus quinhentos mil réis por mês de renda, a pingarem pelo resto da vida, na gavetinha onde, até então, nunca entrara pelega maior de duzentos. Servia, servia!… E Aldrovando, contente, esfregava as mãos, de ouvido alerta, preparando frases para receber o editor que vinha vindo… Que vinha vindo mas não veio, ai!… As semanas se passaram sem que nenhum representante dessa miserável fauna de judeus surgisse a chatinar o maravilhoso livro. (...) Dedicou-o a Fr. Luís de Sousa: À memória daquele que me sabe as dores — O autor. Mas não quis o destino que o já trêmulo Aldrovando colhesse os frutos de sua obra. Filho dum pronome impróprio, a má colocação de outro pronome lhe cortaria o fio da vida. Muito corretamente havia escrito na dedicatória :…daquele que me sabe… e nem poderia escrever de outro modo um tão conspícuo colocador de pronomes. Maus fados intervieram, porém — até os fados conspiram contra a língua! — e,
  • 6. por artimanha do diabo que os rege, empastelou-se na oficina esta frase. Vai o tipógrafo e recompõe-na a seu modo… daquele que sabe-me as dores… E assim saiu nos milheiros de cópias da avultada edição. Mas não antecipemos. Pronta a obra e paga, ia Aldrovando recebê-la, enfim. Que glória! Construíra, finalmente, o pedestal da sua própria imortalidade, ao lado direito dos sumos cultores da língua. (...) Aldrovando abancou-se à velha mesinha de trabalho e deu começo à tarefa de lançar dedicatórias num certo número de exemplares destinados à crítica. Abriu o primeiro, e estava já a escrever o nome de Rui Barbosa, quando seus olhos deram com a horrenda cinca: “daquele QUE SABE-ME as dores“. — Deus do céu! Será possível? Era possível. Era fato. Naquele, como em todos os exemplares da edição, lá estava, no hediondo relevo da dedicatória a Fr. Luís de Sousa, o horripilantíssimo — QUE SABE-ME… Aldrovando não murmurou palavra. De olhos muito abertos, no rosto uma estranha marca de dor — dor gramatical inda não descrita nos livros de patologia - permaneceu imóvel uns momentos. Depois, empalideceu. Levou as mãos ao abdômen e estorceu-se nas garras de repentina e violentíssima ânsia. Ergueu os olhos para Frei Luís de Sousa e murmurou. — Luís! Luís! Lamma Sabachtani! E morreu. De quê, não sabemos — nem importa ao caso. O que importa é proclamarmos aos quatro ventos que com Aldrovando morreu o primeiro santo da gramática, o mártir número um da Colocação dos Pronomes. Paz à sua alma. Nota: ”Do espólio de Aldrovando Cantagalo faziam parte numerosos originais de obras inéditas, entre os quais citaremos: O acento cincunflexo-3 volumes; A vírgula no hebraico-5 volumes; Psicologia do til-2 volumes e a A Crase-10 volumes. Pesavam todos, por conjunto, 4 arrobas, que renderam, vendidos a 3 tostões o quilo, 18 mil réis”. UMA HISTÓRIA DE MIL ANOS Vidinha é uma bela jovem, um anjo de candura, vive com a família nos confins do interior, sem sonhos, ilusões ou paixões. Um dia, um forasteiro desperta em seu coração o amor, beija-lhe e desaparece. Na solidão, agora percebida depois de conhecer o amor, Vidinha definha, entristece e acaba morrendo.”Não vive na terra o que não é da terra”. OS PEQUENINOS Enquanto espera o navio que trará um amigo de Londres, o narrador ouve histórias dos marinheiros. Uma delas narra um episódio em que um gaviãozinho ataca uma ema, cravando-lhe sob as asas as suas garrinhas e bicando-lhe sem piedade a carne viva e macia. Sem defesa, a grande ema é vítima do gaviãozinho. A outra história é de um português, Manuel, que é acusado de roubar um saco de arroz e depois descobre que quem o roubou foram as formigas, tão pequeninas. Enfim o narrador recebe o amigo, tuberculoso, vítima do pequenino bacilo de Koch. A FACADA IMORTAL Trata-se de um célebre golpe que Indalício Ararigbóia deu em seu amigo Raul. Chamava-se na época FACADA o empréstimo que se fazia sem a intenção de pagar. O golpista era conhecido por faquista. Indalício consegue arrancar um empréstimo do pão-duro amigo Raul ao mexer com a vaidade do amigo. Após o golpe, Indalício sente-se vitorioso e Raul sente-se derrotado. A POLICITEMIA DE DONA LINDOCA Desgostosa do descaso e das traições do marido, dona Lindoca queixa-se de um mal-estar, procura o doutor Lorena,um médico charlatão, e descobre-se vítima de uma policitemia. O médico recomenda-lhe descanso e carinho da parte do marido. A vida está uma maravilha, até que o médico é descoberto e foge da cidade. O marido volta ao descaso e dona Lindoca sente saudades da policitemia.
  • 7. DUAS CAVALGADURAS O narrador conta que havia lido um conto de Ribeiro Couto, em que um estudante mata um judeu, dono de um sebo, depois que este lhe explora num negócio de livros. O narrador suspeita que a história se refere a um judeu, dono de um sebo que ele conhece. Ele vai até o sebo, lá vê um coelhinho de lã que imagina ter sido comprado pelo judeu de uma pobre criança faminta. Depois de interrogar o judeu acerca do coelhinho, o narrador descobre que se tratava de uma lembrança que o judeu guardava de um seu filho adotivo que morrera ainda jovem. A imagem de judeu ganancioso de desfaz e o narrador escreve ao amigo Ribeiro Couto dizendo-lhe:”Somos duas cavalgaduras” O BOM MARIDO Teofrasto Pereira da Silva Bermudes é um explorador. Casou-se com Isabel, que teve de sustentar o folgado trabalhando como professora enquanto ele discutia política na farmácia. Mas ele era carinhoso e tratava a esposa sempre com dengos, fazendo-se de injustiçado pelo destino. A pobre Isabel adorava o marido, mas morreu de tanto trabalhar para sustentar os filhos e o marido. Ele, então, casou-se com a dona da quitanda, que tinha ouvido falar do quanto era bom o tal de Teofrasto. MARABÁ O narrador dá ao leitor uma receita de romance romântico. Ele propõe uma recriação do universo romântico a partir de ícones consagrados: A índia Iná liberta um prisioneiro branco da tribo, foge com ele e gera uma filha, Marabá. O índio Ipojuca se apaixona por Marabá e, depois de perseguidos pela tribo, acabam acolhidos pelo exército português. Ipojuca está ferido, um capitão reconhece Marabá como sendo sua filha e a abraça. Sem entender a cena, Ipojuca flecha e mata a sua jovem esposa, morrendo também de um ferimento. FATIA DE VIDA Numa conversa com um cônego, o “esquisitão” Bonifácio observa que a caridade nem sempre é boa. Ilustra sua tese com a história de sua lavadeira Isaura, que perdeu dois filhos e uma neta por culpa da caridade de uma vizinha. Eles estavam com gripe e foram levados ao hospital. Lá pegaram infecções mais graves e vieram a falecer. O cônego não soube o que responder. O CAMICEGO Camicego é um monstro imaginário criado por um menino de 4 anos, Edgard. Um dia, ao ver um morcego morto, Edgard o identificou como sendo o famigerado Camicego. Estava aí desfeito o medo diante do misterioso monstro. QUERO AJUDAR O BRASIL Um negro, funcionário da Sorocabana, procura pelos incorporadores da empresa que luta pela exploração do petróleo (seria de Lobato?) e deseja comprar 30 ações da empresa no total de 3 contos, toda a economia de uma vida inteira de trabalho duro. Ele declara que não se importa com os riscos que corre, pois tudo o que quer é ajudar o Brasil.”Abençoado negro!... Os teus três contos foram mágicos. ... Trancaram com pregos a porta da deserção.” SORTE GRANDE Maricota é filha de dona Teodora. Moram numa pequena cidade, Santa Rita, com mais seis irmãos. Vivem na pobreza e, para piorar, Maricota desenvolve uma doença rara que lhe faz crescer o nariz. Do tamanho de uma beterraba, o nariz agora é notório e vexatório. A família junta um dinheiro para uma consulta com um especialista de uma cidade grande, mas no caminho, num barco, Maricota conhece um jovem médico, Dr. Cadaval, que se interessa pelo seu caso e a convida para uma tratamebto no Rio de Janeiro. Maricota aceita se mudar para o Rio desde que o dr. lhe consiga alguns favores, emprego para os irmãos e até casamento para as irmãs. Afinal ele, como pesquisador irá colher os louros da vitória pela descoberta do Rinofima, nome do tumor de Maricota. Ela acaba operada e seu nariz volta ao normal, a família se ajeita e o médico ganha fama. O que fora considerado uma vergonha, agora passou a ser chamado de sorte grande pelo povo de Santa Rita.
  • 8. DONA EXPEDITA Dona Expedita é uma senhora de 60 anos que ainda diz a todos que tem 36. Ela procura um emprego de criada para serviços leves, mas a situação está difícil. O narrador então nos conta dois episódios engraçados vividos por ela na sua bysca por um emprego ideal. Um dia ela viu no jornal uma oferta de emprego leve de acompanhante para o qual se pagaria 400 mil réis por mês, mas ao chegar ao local descobriu que se tratava de um erro no anúncio, o salário seria de 40 mil réis. O segundo episódio foi quando uma imigrante alemã a procurou falando de um serviço excelente, de uma boa patroa e um bom salário. Dona Expedita achou que ela era a patroa interessada em contratá-la, mas descobriu desconsolada que a alemã também procurava por um emprego assim. HERDEIRO DE SI MESMO Lupércio Moura, aos 36 anos, começa a ser acompanhado por uma maré de boa sorte. Tudo conspira para seu enriquecimento. Por acaso, embriagado, acaba comprando o casco de um velho navio, uma sucata, por 45 contos de réis, tudo o que possuía. Um ano depois, o preço do ferro sobe em função da guerra e ele vende a sucata por mais de 400 contos. No fim da vida está rico, uma fortuna de 60 mil contos, sem ter um herdeiro. Então, procura o médium, dr. Dunga e pede-lhe que se informe com os espíritos sobre quem será sua mãe na sua próxima encarnação, para fazê-la depositária da fortuna dele no seu testamento, queria ser herdeiro de si mesmo.