Trecho do livro Jogo de Mãos – Nora Roberts
“Roxanne divertiu-se bastante. Um piquenique no campo, o aroma das
flores silvestres, um artista francês que lhe deu poesia à sombra de um
castanheiro.
Ela gostara do interlúdio, dos beijos suaves e arrebatadores, das
carícias sussurradas na língua mais romântica do mundo. Entrou no seu quarto
meio a sonhar, com um sorriso secreto nos lábios e estrelas nos olhos.
— O que raio andaste a fazer?
Ela abafou um grito, recuou e olhou para Luke. Ele estava sentado na
cadeira ao pé da janela, com uma cerveja na mão, a ponta de um charuto no
cinzeiro ao lado e assassínio no olhar.
— Bolas, Callahan, pregaste-me um susto de morte! O que é que estás
a fazer no meu quarto?
— À espera que decidisses voltar.
Quando o seu coração começou a bater de novo, Roxanne desviou o
cabelo dos ombros. Estava todo desgrenhado por causa do vento e fazia-o
lembrar uma mulher acabada de sair da cama depois de um interlúdio de sexo
louco e quente. Era mais um motivo para assassínio.
— Não sei do que estás a falar. Ainda tenho uma hora antes de termos
de ir para o teatro.
Ela deixara o filho de puta beijá-la. Oh, ele tinha a certeza. Ela tinha
aquele olhar, aqueles lábios macios e inchados. A camisola estava amarrotada.
Ela deixara-o deitá-la na relva e...
Não suportava a ideia.
Já era suficientemente mau quando estavam em casa e ela saía com
americanos. Mas franceses!
Todo o homem tinha o seu limite!
— Gostava de saber o que aconteceu ao teu cérebro. O que é que
achaste que estavas a fazer quando saíste com um sacana francês chamado
Alastair?
— Fui a um piquenique — respondeu ela. — E ele não é nenhum
sacana. É um homem carinhoso e sensível. Um artista — atirou ela como se
fosse uma provocação. — E, para tua informação, o nome dele é Alain.
— Estou-me perfeitamente nas tintas1
para o nome dele. — Luke
levantou-se lentamente. Ainda acreditava que estava controlado. — Não voltas
a sair com ele.
Por um instante ela ficou demasiado estupefata para falar. Mas apenas
por um instante. — Quem é que pensas que és? — Avançou para ele e
espetou-lhe um dedo no peito. — Eu posso sair com quem eu quiser!
Ele agarrou-lhe no pulso e puxou-a com força. — Querias!
1
Estar-se nas tintas: Não se importar, não ligar
Ela espetou o queixo e lançou-lhe um olhar fulminante. — Quem é que
achas que me vai impedir? Tu? Não tens nada a ver com o que eu faço,
Callahan. Nem agora, nem nunca!
— Estás errada — disse ele por entre dentes. A sua mão mergulhara
nos cabelos dela e agarrara-os. Parecia que não conseguia parar. Sentia o
cheiro dela, da relva, do sol. Flores silvestres. Provocara-lhe uma raiva de
morte pensar que mais alguém estivera assim tão próximo. Suficientemente
próximo para tocar. Para provar o gosto. — Deixaste-o pôr as mãos em cima
de ti. Se fizeres isso outra vez, eu mato-o!
Ela poderia ter rido da ameaça. Ou gritado. Mas viu a verdade pura nos
olhos dele. A única forma de combater o medo que surgia na sua garganta foi
com fúria: — Estás louco. Se ele pôs as mãos em cima de mim, foi porque eu
quis! Porque gosto! — Ela sabia que era a coisa errada de dizer, mas foi
incapaz de o parar de acirrar assim como Luke não fora capaz de os impedir de
começar. — E quero as tuas fora! Agora!
— Queres? — A voz dele era suave, macia como seda. Isso ainda a
assustava mais, muito mais do que as ameaças sarcásticas. - Por que não
chamamos a isto uma lição grátis? — E amaldiçoou-se no momento em que
cobriu a boca dela com a sua.
Ela não lutou, não protestou. Não tinha a certeza de que ainda respirava.
Como podia, quando o calor irrompia tão rapidamente e com tal intensidade
que incinerava tudo? Até o pensamento. Aquilo não era nada, nada como os
beijos meigos e suaves do artista. Nada como os abraços estranhos ou
arrogantes dos rapazes com quem saíra. Aquilo era selvagem, primitivo,
assustador. Roxanne interrogou-se se existiria alguma mulher no mundo que
quisesse ser beijada de outra forma.
A boca dele encaixava perfeitamente na sua. A aspereza da pele que ele
não barbeara só a ajudou a ter consciência de que estava, finalmente, nos
braços de um homem. Simples agressão, paixão frustrada, raiva pura,
irrompiam dele, para dentro dela, criando um beijo diferente de tudo o que ela
já experimentara. Aquele momento único era tudo o que ela sempre sonhara.
Com a mão ainda fechada nos cabelos dela, Luke puxou-lhe a cabeça
para trás. Se ia para o Inferno, pelo menos teria a satisfação de saber que
valeria a pena. Não pensou, não se atreveu a pensar, e mergulhou a língua
entre os lábios entreabertos de Roxanne, preenchendo-a.
Ela era tudo o que ele imaginara e ainda mais. Suave, forte, sexy. O
gemido surgiu na sua resposta imediata e tórrida. A forma como o corpo dela
se contorcia e estremecia contra o dele, a forma como a boca dela respondia à
exigência ardente e violenta do beijo. Os lábios dela colaram-se aos dele,
formando o seu nome. Ele engoliu os gemidos dela como um homem
esfomeado engole um pedaço de pão.
Queria desesperadamente atirá-la para cima da cama. Arrancar-lhe a
roupa e possuí-la. Senti-la arquear quando se fechasse ao seu redor. Nem
conseguia respirar de tanto desejo.
Era como estar fechado numa caixa. Encurralado. A ficar sem ar. O
coração e os pulmões estavam em esforço. Ele não conseguia controlá-los.
Não conseguia controlar nada.
Afastou-se de repente, tentando respirar e pôr as ideias em ordem. Ela
ainda estava abraçada a ele, os olhos escuros e pesados, os lábios macios,
abertos e ávidos por mais. Ondas de vergonha e desejo inundaram-no, fazendo
com que ele a empurrasse violentamente.
— Luke...
— Não digas nada. — Ele estava rijo como ferro e inquieto como um
garanhão. Se ela lhe tocasse naquele momento, se lhe tocasse apenas, ele
possuí-la-ia como um animal. Para a proteger disso, encobriu-se com toda a
fúria que sentia pelo que quase fizera e atacou-a diretamente: — Lição grátis
— repetiu ele, fingindo não ver a boca dela abrir em choque nem os olhos
cintilarem de dor. — É este o tipo de tratamento que vais ter se sais com
homens que não conheces.
Ela tinha orgulho e era suficientemente atriz para o utilizar para disfarçar
devastação: — Estranho, não é? Tu foste o único que me tratou desta maneira.
E eu conheço-te. Ou achava que conhecia. — Virou-lhe as costas e olhou pela
janela. Não ia chorar, prometeu a si mesma. E se chorasse, ele não veria. —
Sai do meu quarto, Callahan. Se me voltas a tocar desta maneira, vais pagá-
las.
Já estava a pagar, pensou Luke. Cerrou a mão num punho antes de
poder ceder ao desejo de lhe afagar os cabelos. De suplicar. Em vez disso,
dirigiu-se à porta. — Eu estava a falar a sério, Roxanne.
Ela lançou-lhe um olhar provocante sobre o ombro. — Também eu.”

01 Aquele Beijo - Jogo de Mãos

  • 1.
    Trecho do livroJogo de Mãos – Nora Roberts “Roxanne divertiu-se bastante. Um piquenique no campo, o aroma das flores silvestres, um artista francês que lhe deu poesia à sombra de um castanheiro. Ela gostara do interlúdio, dos beijos suaves e arrebatadores, das carícias sussurradas na língua mais romântica do mundo. Entrou no seu quarto meio a sonhar, com um sorriso secreto nos lábios e estrelas nos olhos. — O que raio andaste a fazer? Ela abafou um grito, recuou e olhou para Luke. Ele estava sentado na cadeira ao pé da janela, com uma cerveja na mão, a ponta de um charuto no cinzeiro ao lado e assassínio no olhar. — Bolas, Callahan, pregaste-me um susto de morte! O que é que estás a fazer no meu quarto? — À espera que decidisses voltar. Quando o seu coração começou a bater de novo, Roxanne desviou o cabelo dos ombros. Estava todo desgrenhado por causa do vento e fazia-o lembrar uma mulher acabada de sair da cama depois de um interlúdio de sexo louco e quente. Era mais um motivo para assassínio. — Não sei do que estás a falar. Ainda tenho uma hora antes de termos de ir para o teatro. Ela deixara o filho de puta beijá-la. Oh, ele tinha a certeza. Ela tinha aquele olhar, aqueles lábios macios e inchados. A camisola estava amarrotada. Ela deixara-o deitá-la na relva e... Não suportava a ideia. Já era suficientemente mau quando estavam em casa e ela saía com americanos. Mas franceses! Todo o homem tinha o seu limite! — Gostava de saber o que aconteceu ao teu cérebro. O que é que achaste que estavas a fazer quando saíste com um sacana francês chamado Alastair? — Fui a um piquenique — respondeu ela. — E ele não é nenhum sacana. É um homem carinhoso e sensível. Um artista — atirou ela como se fosse uma provocação. — E, para tua informação, o nome dele é Alain. — Estou-me perfeitamente nas tintas1 para o nome dele. — Luke levantou-se lentamente. Ainda acreditava que estava controlado. — Não voltas a sair com ele. Por um instante ela ficou demasiado estupefata para falar. Mas apenas por um instante. — Quem é que pensas que és? — Avançou para ele e espetou-lhe um dedo no peito. — Eu posso sair com quem eu quiser! Ele agarrou-lhe no pulso e puxou-a com força. — Querias! 1 Estar-se nas tintas: Não se importar, não ligar
  • 2.
    Ela espetou oqueixo e lançou-lhe um olhar fulminante. — Quem é que achas que me vai impedir? Tu? Não tens nada a ver com o que eu faço, Callahan. Nem agora, nem nunca! — Estás errada — disse ele por entre dentes. A sua mão mergulhara nos cabelos dela e agarrara-os. Parecia que não conseguia parar. Sentia o cheiro dela, da relva, do sol. Flores silvestres. Provocara-lhe uma raiva de morte pensar que mais alguém estivera assim tão próximo. Suficientemente próximo para tocar. Para provar o gosto. — Deixaste-o pôr as mãos em cima de ti. Se fizeres isso outra vez, eu mato-o! Ela poderia ter rido da ameaça. Ou gritado. Mas viu a verdade pura nos olhos dele. A única forma de combater o medo que surgia na sua garganta foi com fúria: — Estás louco. Se ele pôs as mãos em cima de mim, foi porque eu quis! Porque gosto! — Ela sabia que era a coisa errada de dizer, mas foi incapaz de o parar de acirrar assim como Luke não fora capaz de os impedir de começar. — E quero as tuas fora! Agora! — Queres? — A voz dele era suave, macia como seda. Isso ainda a assustava mais, muito mais do que as ameaças sarcásticas. - Por que não chamamos a isto uma lição grátis? — E amaldiçoou-se no momento em que cobriu a boca dela com a sua. Ela não lutou, não protestou. Não tinha a certeza de que ainda respirava. Como podia, quando o calor irrompia tão rapidamente e com tal intensidade que incinerava tudo? Até o pensamento. Aquilo não era nada, nada como os beijos meigos e suaves do artista. Nada como os abraços estranhos ou arrogantes dos rapazes com quem saíra. Aquilo era selvagem, primitivo, assustador. Roxanne interrogou-se se existiria alguma mulher no mundo que quisesse ser beijada de outra forma. A boca dele encaixava perfeitamente na sua. A aspereza da pele que ele não barbeara só a ajudou a ter consciência de que estava, finalmente, nos braços de um homem. Simples agressão, paixão frustrada, raiva pura, irrompiam dele, para dentro dela, criando um beijo diferente de tudo o que ela já experimentara. Aquele momento único era tudo o que ela sempre sonhara. Com a mão ainda fechada nos cabelos dela, Luke puxou-lhe a cabeça para trás. Se ia para o Inferno, pelo menos teria a satisfação de saber que valeria a pena. Não pensou, não se atreveu a pensar, e mergulhou a língua entre os lábios entreabertos de Roxanne, preenchendo-a. Ela era tudo o que ele imaginara e ainda mais. Suave, forte, sexy. O gemido surgiu na sua resposta imediata e tórrida. A forma como o corpo dela se contorcia e estremecia contra o dele, a forma como a boca dela respondia à exigência ardente e violenta do beijo. Os lábios dela colaram-se aos dele, formando o seu nome. Ele engoliu os gemidos dela como um homem esfomeado engole um pedaço de pão. Queria desesperadamente atirá-la para cima da cama. Arrancar-lhe a roupa e possuí-la. Senti-la arquear quando se fechasse ao seu redor. Nem conseguia respirar de tanto desejo. Era como estar fechado numa caixa. Encurralado. A ficar sem ar. O coração e os pulmões estavam em esforço. Ele não conseguia controlá-los. Não conseguia controlar nada. Afastou-se de repente, tentando respirar e pôr as ideias em ordem. Ela ainda estava abraçada a ele, os olhos escuros e pesados, os lábios macios,
  • 3.
    abertos e ávidospor mais. Ondas de vergonha e desejo inundaram-no, fazendo com que ele a empurrasse violentamente. — Luke... — Não digas nada. — Ele estava rijo como ferro e inquieto como um garanhão. Se ela lhe tocasse naquele momento, se lhe tocasse apenas, ele possuí-la-ia como um animal. Para a proteger disso, encobriu-se com toda a fúria que sentia pelo que quase fizera e atacou-a diretamente: — Lição grátis — repetiu ele, fingindo não ver a boca dela abrir em choque nem os olhos cintilarem de dor. — É este o tipo de tratamento que vais ter se sais com homens que não conheces. Ela tinha orgulho e era suficientemente atriz para o utilizar para disfarçar devastação: — Estranho, não é? Tu foste o único que me tratou desta maneira. E eu conheço-te. Ou achava que conhecia. — Virou-lhe as costas e olhou pela janela. Não ia chorar, prometeu a si mesma. E se chorasse, ele não veria. — Sai do meu quarto, Callahan. Se me voltas a tocar desta maneira, vais pagá- las. Já estava a pagar, pensou Luke. Cerrou a mão num punho antes de poder ceder ao desejo de lhe afagar os cabelos. De suplicar. Em vez disso, dirigiu-se à porta. — Eu estava a falar a sério, Roxanne. Ela lançou-lhe um olhar provocante sobre o ombro. — Também eu.”