Autobiografia

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Autobiografia

  1. 1. Autobiografia: construindo temas para Pesquisa E ducacionalpor Rildo FerreiraPublicado no blog rildoferreira.blogspot.com em 4 de dezembro de 2008.[Trabalho realizado para a segunda avaliação da disciplina Prática e Pesquisa da Educação III daFaculdade de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá, campi Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.]ResumoO texto trata de resgatar a trajetória de vida escolar fazendo uma ponte com a realidadeatual como um exercício buscando encontrar fatos que podem vir a servir de tema parapesquisa educacional. Ele começa se reportando a outro texto, se reporta a chegada doautor ao Rio de Janeiro e sua introdução na vida escolar. Procura detalhar os fatos queforam marcantes e ignora aqueles cuja memória não permitiu uma reconstituição comfidelidade. Ao final apresenta cinco temas identificados no texto, e dos cinco, destaca doisque considera importante para uma pesquisa mais amiúde.I – IntroduçãoO texto que apresento a seguir é uma reconstituição da minha trajetória de vida escolar.Procurei relembrar dos passos que me trouxeram à universidade e de toda a problemáticavivida por mim em cada etapa educacional. Não foi fácil reconstituir o período escolar daminha infância. Esta eu queria definitivamente esquecer, tamanho foi o sofrimento vivido,e parte dessa trajetória a memória já havia bloqueado.Vou dividir o texto em algumas partes. A primeira delas me leva até o momento em queabandonei a escola na segunda metade da década de 1970. Neste primeiro momento eudestaco que aprendi mais fora da escola que dentro dela. A segunda parte resgata o períodoque fiquei fora da escola e competindo no mercado de trabalho, competição que me viadesfavorecido sem uma escolaridade que me garantisse permanência no emprego. Então eucomeço uma terceira parte que é a que me leva de volta à escola. Por fim, uma quarta parteque relembra um longo período fora da sala de aula o que me distanciava do ensinosuperior, mas graças a um programa social do governo federal, volto à estudar, agora naacademia de Pedagogia.Em cada etapa abordo temas como tecnologias, bullying, evasão escolar, saberesconstituídos na prática comunitária, o exercício do poder na sala de aula entre outros queservem de temas para pesquisa educacional. Ao fim, apresento cinco distintos temas edestaco dois como de importância pessoal para uma pesquisa educacional mais acurada.Vamos ao texto.
  2. 2. II – A chegada no Rio de Janeiro e a primeira escolaQuero começar esse texto relembrando outro que já foi postado no meu blog e que tem otítulo de “Infâncias de Ontem e de Hoje: diferenças determinantes”. Nesse texto eu tenteimostrar que os novos recursos tecnológicos tiraram da criança a oportunidade deexperimentar viajar num mundo inteiramente imaginário, longe dos personagenscibernéticos criados e impostos como opção para uma aventura infantil. A nova geraçãonasce em berço multimedia, com portas para um mundo virtual onde o pensar não fazparte do programa. Com os novos recursos da chamada terceira revolução, o pensar não sedistancia muito de “devo ou não apertar o botão ‘power?’” e a partir dele entrar numaaventura pré-definida, programada, mas inteiramente legitimada pela nova geração.No texto Infâncias de Infâncias de Ontem e de Hoje: diferenças determinantes resgato o tempoda minha meninice e o que era preciso fazer para brincar. Naquele tempo, os pobrestinham que criar suas próprias brincadeiras; ouvir histórias dos mais velhos e inventaroutras; criar um mundo imaginário, com personagens igualmente imaginários ou, quandomuito, personagens dos programas de TV. Poucas eram as crianças que dispunham debrinquedos industrializados. Nossos carrinhos eram feitos de pedaços de madeira e latasvazias de sardinhas; nossos bonecos eram feitos com trapos de panos; nossas bolas feitascom meias velhas ou de jornal velho. Apesar da precariedade e da pobreza nossasbrincadeiras eram riquíssimas em criatividade e imaginação. Éramos capazes de criarhistórias cheias de sinistros para serem contadas nos dias de lua-cheia. Bem, mas essa era aparte boa da história; no texto Infâncias de Ontem e de Hoje: diferenças determinantes eu nãotratei do meu período escolar, por exemplo, e que não me trazem boas recordações.Para que eu possa dissertar sobre esse período na escola preciso relembrar como chegamosao Rio de Janeiro. Não me lembro de onde vínhamos, sei, entretanto, que ao chegar aAustin, na Baixada Fluminense, o sol castigava a todos os descobertos. Miúdos eesfarrapados, cansados da viagem e famintos, caminhamos por cerca de dois quilômetrospara chegar à casa de um primo de meu pai. Meu pai, aliás, não sabia que estávamos noRio. Minha mãe nos trouxe de surpresa, fugindo de uma miséria incomensurável das terrasmineiras. Poucos meses depois da nossa chegada nos foi permitido frequentar uma escolaprivada por benevolência da proprietária. Esta foi minha primeira experiência escolar noRio de Janeiro; traumática, haja vista que íamos descalço para a escola e, mormente, éramosvítimas de bullying; chacota para os meninos da sala de aula que teimavam em zombar danossa miséria.Um ano depois, já com ajuda de meu pai, mudamos para um endereço próprio. A partir daía experiência escolar era traumática já na matrícula, pois para se conseguir uma vaga naescola pública, era necessário dormir vários dias numa fila enorme e sofrer, além da fome eda zombaria, do frio que a noite trazia. Não me recordo muito bem da alfabetização, salvodo caderninho de caligrafia que me parecia castigo ao fazer o exercício, dada a quantidadede vezes que se repetia letras e símbolos. Aliás, nos dias atuais, ainda é possível ver castigosdessa natureza onde o aluno é levado a copiar dezenas, centenas de vezes uma oração deimpacto tipo, não devo fazer isso... Não devo fazer aquilo... O que me vem à memória commais frequência foi do período de 5ª. a 8ª. séries. Me lembro no dia em que minha irmã
  3. 3. mais velha, substituindo minha mãe, foi à escola para ouvir uma reclamação da professorade inglês porque eu insistia em ficar desenhando quando ela estava a me “ensinar” o dever.Ora, na ocasião nada me ocorria senão um desejo muito grande de desenhar. Nestaocasião, e por conta dos nossos jogos de futebol num campinho do bairro, criei um jornalmanuscrito para produzir notícias dos nossos jogos e eu ilustrava o jornal com meusdesenhos, como se fossem as fotografias de um jornal impresso.Parece incrível, mas ninguém se atreveu a me dar a atenção que eu desejava. Aquelareclamação serviria para ofuscar um desejo meu que em nada atrapalhava o meuaprendizado. Pelo contrário, até ajudaria se fosse trabalhado de maneira a aproveitar aqueleinteresse para então enriquecer o meu aprendizado. No jornal manuscrito, poderiam meajudar na produção de texto, na correção gramatical, na introdução de novas palavras paramelhorar o vocabulário etc., mas, ali, o professor não tinha o interesse no meuaprendizado, pelo menos naquilo que me interessava. Para ele (o professor), interessava umconteúdo previamente determinado por aquilo a que chamam de livro didático e que lhesforam impostos por um sistema que procurava perpetuar o status quo, de modo quedeixava claro que o poder estava circunscrito a uns poucos, enquanto que para a maiorialhes bastava alfabetização de conteúdos longe de suas necessidades. E assim, cominteresses diferentes, professor e aluno se distanciavam e eu fui aprendendo a produzirtextos muito mais pela prática ao longo dos dias que por intermediação do educador. Agramática, tão imperativamente defendida pelos gramáticos como ensino obrigatório, eraum enigma e algo visto por mim como inalcançável. Minhas condições históricas não mepermitiam um envolver no aprender da maneira como era ‘transmitido’ tal conhecimento.Também neste tempo a manifestação do poder condigno (Galbraight, 1979) era claro entrea escola, aqui entendida como diretores, professores e funcionários, e os alunos. Muitasvezes fui levado à secretaria e lá deixado de castigo. Não se mensurava qual o prejuízomoral era causado ao aluno castigado. Estes eram simplesmente retirados da sala de aula edeixados na secretaria até que a diretora resolvesse lhe tomar satisfação e determinar apunição que reforçaria o poder condigno. É importante salientar que estamos falando deum período cujo regime autoritário sob o comando dos militares era o vigente, e osprofessores adotavam a régua escalonada como palmatória para o castigo já na sala de aula.Nós alunos éramos brutalmente violentados em nossos direitos mais elementares e caíasobre nós um pavor brutal do corpo docente, inclusive dos funcionários comomerendeiras, faxineiros e vigias. Os inspetores de disciplina saíam às ruas em busca dosgazeteiros. Uma vez encontrados, eram levados ao castigo. A escola aqui representava oEstado autoritário e seu corpo docente reproduzia os mecanismos de coerção, deintimidação, no singular exercício do poder condigno, como disse Galbraith no seutrabalho sobre a Anatomia do Poder: Por estar associado tanto à propriedade quanto à personalidade e por ter acesso a todos os instrumentos de coerção, o governo é uma instituição peculiarmente forte, de poder excepcional. Por isso seu poder é inevitavelmente encarado com temor, muitas vezes com pavor, e em todas as sociedades civilizadas concorda-se em que deve haver limites ao seu exercício. Pensa-se, em especial, que deve haver limites ao uso do poder condigno (Galbraith, 1999: p. 72)
  4. 4. E era assim mesmo. A escola esforçava-se para semear o medo independente dos efeitosque provocaria no aprendizado dos alunos e o corpo docente fazia isso de modo muitonatural. Era o governo exercendo o poder condicionado sobre uma massa acrítica, que jáfora ‘treinada’ para reproduzir a sociedade tal como ela se encontrava, como disseAlthusser (1985), que bastava assegurar à força de trabalho as condições materiais de suareprodução para que se reproduza como força de trabalho, e que na escola podia-seaprender a ler e a escrever, mas aprendia-se, sobretudo, as ‘regras’ de bom comportamentoe funcionava como um Aparelho Ideológico de Estado através da ideologia e da repressão,seja ela atenuada, dissimulada ou mesmo simbólica (Althusser, 1985: p. 70). Althusser dissemais: A escola é o pior dos Aparelhos Ideológicos de Estado. E porquê? Ele responde: Ela se encarrega das crianças de todas as classes sociais desde o Maternal, e desde o Maternal ela lhes inculca, durante anos, precisamente durante aqueles em que a criança é mais “vulnerável”, espremida entre o aparelho de Estado familiar e o aparelho de Estado escolar, os saberes contidos na ideologia dominante (...), ou simplesmente a ideologia dominante (...), ou simplesmente a ideologia dominante em estado puro (...). Por volta do 16º ano, uma enorme massa de crianças entra “na produção” (p. 79)...O medo de ser vitimado pelas agressões e repressões na escola, um conteúdo que era difícilde ser assimilado me afundava ainda mais na ignorância. Não demorou muito, vendo todaa dificuldade de me relacionar e de aprender, abandonei os estudos na segunda metade doano quando cursava a sexta série.III – O abandono escolarFiquei alguns anos sem ir à escola. Minha vida agora era dada ao trabalho para ajudar nosustento familiar. Como não era fácil conseguir emprego formal restou-me a opção deembrenhar-me no trabalho informal. Fui ser feirante. Vendia laranjas e tangerinas e, nãoraramente, vendia doces e balas nos vagões de um trem ferroviário. Esse foi um período degrande aprendizagem. Foi exercendo esta atividade que desenvolvi certa habilidade para oscálculos e conversando com um e com outro, adquiri um vocabulário mais apropriado parao tempo presente. Neste tempo eu tinha 12 anos. Mesmo sendo ainda muito menino meuspais não se importavam com esse meu destino. Para eles, desde que eu levasse dinheiropara casa e que não fosse de modo desonesto, se trabalhava ou estudava, ou se trabalhava eestudava, eu mesmo devia conduzir o meu destino. Não consigo medir qual a importânciadisso na minha vida; minha reclamação é com a falta de afetividade, de solidariedade, defamília mesmo, tanto que eu me relacionava melhor com outras famílias que não a minha.É aqui que entra um personagem muito importante na minha vida e que, me reportando aele neste texto, espero reconhecer justamente sua significação para mim. Talvez eu nuncatenha dado o justo reconhecimento do significado deste outro em minha vida, inclusive nomeu aprendizado, e quero fazê-lo agora.Dois anos depois de deixar de estudar eu consegui meu primeiro emprego com assinaturaem carteira e foi Jorge Gonçalves, também menino como eu, era apenas um ano mais velhoe trabalhava numa loja especializada que vendia roupas para ‘gordinhas’, quem meconduziu ao meu primeiro emprego formal com assinatura em carteira numa loja decortinas e tapetes. Ali eu fazia a limpeza da loja e as entregas em domicílio. Mas não foi isto
  5. 5. o que mais importante aconteceu nesta relação de amizade. O mais importante aconteciaquando nada tínhamos para fazer nos dias de folga. Foi com ele e a partir dele que ensaieimeus primeiros poemas, ouvi e aprendi a admirar músicas brasileiras cuja letra fazia algumsentido e ‘inocentemente’ filosofávamos sobre os astros e algumas coisas terrenas. A partirdaquelas curiosas observações, construíamos alguns saberes e outros que só vieram a serratificado ou retificado quando retornei à escola para concluir o meu primeiro grau.As nossas observações sobre o sol, a lua e as estrelas eram de fato muito inocentes. Masnada que hoje, sob o ângulo de uma Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, devesse sedesperdiçar. Ora, se o que falávamos sobre os astros era algo verdadeiramente falso, nãoseria a partir desse não saber sobre os astros, mas reconhecendo nas duas crianças umacuriosidade ingênua, que Paulo Freire (2005) começaria a orientação na construção de umconhecimento mais amiúde, mais científico? O querer saber por que a lua adquiria umaforma visível da terra parecida como uma ‘foice’, ou um C invertido, como chamávamos,tomava-nos boa parte da noite. A procura por estrelas cadentes e algumas observaçõessobre o motivo delas estarem se movendo de um lugar para o outro de maneira tão velozfazia-nos imaginar coisas muito curiosas. Estas e outras observações permaneceram naingenuidade por muito tempo por falta de um educador que nos levasse a um saber maisapropriado. Quanto às músicas até ali eu não tinha nenhuma afinidade com ela. Mas apartir daquele menino que cantava as canções da moda naquele tempo eu conseguiaprender alguns acordes de violão. E a partir de então, comecei a comprar revistas às quaischamávamos de ‘modinhas’, que traziam as letras de músicas cifradas, ou seja, com ossímbolos dos acordes necessários para tocá-las. O contexto desse movimento me levou aconhecer novas palavras e conhecendo-as, passei a escrever mais e mais, não somentecomo poemas para serem recitados, mas como músicas para serem cantadas. Eu afirmocategoricamente que aprendi muito mais no convívio com aquele menino, que ainda hojenão tem o segundo grau, que com os professores e professoras em sala de aula dos meustempos de escola até os 12 anos. Jorge Gonçalves reside em Miguel Couto, bairro da cidadeNova Iguaçu, é hoje motorista de ônibus, evangélico, tem cinco filhos sendo um homem equantro lindas meninas, todos me chamam de tio e exijo que meus filhos, se não desejamtratá-lo como um parente, que o respeite como merece.Depois do serviço militar fiquei um bom tempo desempregado. Esse períododesempregado foi importante para eu reconhecer que precisava voltar à escola. Sobre essasdesgraças que caem sobre nós, mas que parecem agir como uma fênix, ou seja, nos ofereceuma oportunidade de recomeço, há um artigo de Steve Jobs, criador da Apple, demitido daempresa que criou pelos acionistas, que mostra que uma dificuldade não pode ser o fim,mas o começo de uma nova etapa. Disse Jobs: Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeX T, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do
  6. 6. mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeX T, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple (Jobs, SD.).Jobs foi demitido da empresa que criou o que poderia deprimi-lo a ponto de colocá-lonuma situação de ostracismo, mas não foi assim o que aconteceu, ele viu na desgraçaacontecida uma oportunidade para recomeçar e avançar ainda mais. Quanto a mim, estardesempregado foi motivo de muita reflexão e questionamentos: como conseguir um bomemprego se não tenho profissão? Se não tenho profissão qualificada, como conseguir um bomemprego se não tenho escolaridade? Quando questionei sobre minha formação decidi queprecisava voltar à escola. Antes de voltar à escola passei por um núcleo do SENAI paraaprendizagem sobre eletricista de manutenção e instalação. Era uma tentativa de meprofissionalizar para conseguir um emprego que me proporcionasse autonomia com maisdignidade, já que o alimento, embora garantido pelos pais, era muito ‘pobre’. Para se teruma ideia do que isto significa, meu pai comprava carne que lhe serviria para a ‘marmita’,aos que ficavam em casa, arroz e feijão e só. Nada de carne, nada de legumes. Algumasverduras raramente. Deste investimento (no SENAI) fui convidado a fazer a instalaçãoelétrica do salão paroquial da Igreja de São Sebastião em Austin, distrito de Nova Iguaçu.Ao concluir o trabalho fui então convidado para atuar como voluntário na campanhacontra a Dengue e eu aceitei. Para meu espanto e – boa surpresa! – esse voluntariadoreceberia uma bolsa de salário mínimo e meio e duraria por seis meses. Este período, já nasegunda metade dos anos 1980, reforçou-me reconhecer a necessidade de uma escolaridademaior. Não que eu me mostrasse incompetente, ao contrário, sempre era chamado parauma determinada função, nisso eu via méritos em mim, mas esbarrava na baixaescolaridade. Indiferente a isso, no ano seguinte eu e outras 249 pessoas foram contratadaspela extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública – SUCAM ondepermanecemos até os dias atuais, não mais como SUCAM, mas como Fundação Nacionalde Saúde – FUNASA.IV – De volta à escolaO novo contrato me deu a segurança que eu precisava para voltar à escola. Para concluir oprimeiro grau voltei para o ensino supletivo numa escola pública, este sistema que acelera aformação dos que já superaram a idade escolar. Mais experimentado, já conseguiadeterminada sintonia com o ensino aplicado, embora percebesse ali que o processo deaceleramento deixava muitas coisas importantes escapulirem a construção do saber.Concluída a primeira etapa, ou seja, a 8ª série do primeiro grau (hoje, Ensino Fundamental),matriculei-me imediatamente no segundo grau (hoje, Ensino Médio) também numainstituição pública. Não queria perder aquilo que me estimulava a continuar. Foram trêsanos para uma formação geral, mas com muitas falhas. Faltavam professores de biologia,física, sociologia e literatura. Algumas disciplinas eram aplicadas por professores sem omenor compromisso com a formação daqueles alunos, entre os quais eu me incluía. Noprimeiro ano tivemos aulas de filosofia. Particularmente me identifiquei com a disciplina eprocurava participar das aulas de modo bem interativo, sentimento que não eracompartilhado pelos meus colegas de turma. Sobre a turma, aliás, muito me preocupava odesinteresse deles pela aprendizagem, e talvez por isso eu não tenha conseguido articular
  7. 7. um movimento para a melhoria das condições da escola. As carteiras eram muito ruins,algumas ficavam no canto da sala por completa inutilidade. Não raramente alguns colegascostumavam jogar as carteiras umas sobre as outras, a quebrar o ventilador de teto, e pormais que eu lhes chamasse a atenção sobre o prejuízo que estavam nos causando, elesignoravam. O quadro negro também tinha problemas. Em parte dele já não era maispossível escrever. A iluminação também deixava a desejar. Tudo isso influenciava noprocesso ensino-aprendizagem. Os professores não se importavam com o desinteresse dosalunos e estes, por sua vez, aproveitavam-se da ‘ausência’ do professor para escapulir dealgumas aulas e todos atribuíam ao governo as péssimas condições da escola.Muito me preocupava o fato dos professores reproduzirem aquilo que estava pré-estabelecido no livro didático. Eu queria debater, saber a razão ou as propriedades de cadaassunto que era colocado em pauta e, normalmente, os colegas me pediam para deixar oprofessor dar a aula dele, e o professor, por sua vez, reproduzia insistentemente o conteúdodo livro. Hoje eu consigo olhar para aquele tempo e ver que os professores, em grandenúmero, nada sabiam para ensinar, apenas se orientavam pelo livro do professor paragarantir a ‘transmissão de conteúdo’. Para mostrar que em toda regra há exceção, e nestecaso eu quero dizer que a regra é a exceção, e a exceção torna-se regra, para explicarmelhor, a regra era transmitir o conteúdo e não se importar com a formação dos alunoscom uma práxis educativa básica, sem aprofundamento; enquanto a exceção era aprofundaras questões, debater e chamar a atenção de um e de outro para a importância do que estavasendo levado à sala de aula; então tive um professor de física que era esta exceção.Deficiente físico, provocado por uma paralisia parcial dos membros, o professor Emanuelera o mais eficiente deles. Ele não só aplicava o conteúdo como procurava mostrarempiricamente aquilo que ele estava dizendo. A meu ver ele sabia o que ensinar. Tivemossó o primeiro ano com ele e tudo o que sei sobre física devo a ele. Outro professor, o deInglês, era diametralmente oposto ao de física. Era o legítimo representante da ‘regra’.Como na turma havia um rapaz que cantava algumas canções em inglês, eles eram bempróximos, e com este professor Cléber, fui vítima da sua inaptidão para o exercício dapráxis educativa. Quando tentava me aproximar para um aprendizado melhor, tentandobalbuciar algumas palavras em inglês, o meu colega de turma e o professor Cléber riamzombeteiramente do modo como eu me colocava. Para não passar por ridículo acabeideixando de lado o falar inglês me limitando a apenas reproduzir aquilo que os exercíciospediam.V – Universidade é um desejo, não produto de primeira necessidadeMesmo com todas as dificuldades concluí o segundo grau. Se me perguntarem se estavapronto para ingressar na universidade passando pelo vestibular, minha resposta será umrotundo NÃO. Então fiquei por muitos anos apenas com o ensino básico. Estavaconformado com o que já tinha conquistado em termos de estudos, afinal, já no serviçopúblico federal, recebendo um salário acima da média dos salários praticados no Brasil,poderia me considerar um afortunado pela sorte. Mas na medida em que o tempo passava,e na medida em que fui percebendo o mundo em que vivemos e fazendo uma leitura maispolitizada, percebendo que a capacidade ainda não é tudo, e que escolarização ainda pesamuito na escolha das melhores funções, a necessidade de avançar ainda mais na minha
  8. 8. formação reapareceu. Daí um dilema: como enfrentar um vestibular, depois de 10 anosfora da sala de aula, competindo com os jovens que estão saindo da escola de segundo grauou dos cursinhos de vestibulares? Sobre esse dilema eu escrevi um artigo que já forapublicado no meu blog para debater sobre cotas nas universidades. Neste artigo (SobreCotas na Universidade) escrevi: Aqui precisamos discutir uma outra questão. Pobre, sendo branco ou negro, tem que trabalhar. Então, quando no nível básico ou médio, só lhes restam a Escola Pública. Esta sim, a serviço dos ricos sempre foi de baixa qualidade. Então o pobre, branco ou negro, sai da Escola Pública e vai procurar trabalho. O ensino superior é um desejo, não um produto de primeira necessidade. O trabalho vem antes da formação educacional por uma questão de sobrevivência, não de opção. Já o filho do rico estuda na escola privada, que garante bons salários e, portanto, atrai os melhores educadores. Quando terminam o ensino médio ingressam quase imediatamente num desses cursinhos pré-vestibulares intensivos. Parece até que os vestibulares das instituições superiores foram elaborados pelos donos dos cursinhos pré- vestibulares. Daí que o pobre, aquele que saiu da Escola Pública fica em enorme desvantagem em relação ao filho do rico. Então, quem ocupa as vagas nas instituições públicas de ensino superior? Os filhos dos ricos. E por isso nestas Universidades sempre tiveram os melhores profissionais. A qualidade sempre foi emblemática. E por quê? Porque ali só estudavam os filhos dos ricos. Pobres? Um ou outro talvez. Então a Universidade Pública era um espaço inacessível para pobres, negros e negras (Santos, 2008)Quero aqui resgatar uma discussão sobre a escola, a estatal – a que chamamos de pública –e a privada, tema que já foi abordado por autores como Saviani (1986), Davis (et. Al. 2002),Neves (1994) entre outros, e que trata de uma escola dual, ou seja, uma escola para ospobres e outra para os ricos, e mesmo esta destinada aos pobres foram criadas para a égideda classe hegemônica para a qual o Estado atuou brilhantemente a favor. Assim, a classe jáfavorecida historicamente frequentava a escola privada até a formação do segundo grau.Esta escola contratava os melhores profissionais em educação e investia (investe até os diasatuais) maciçamente em recursos tecnológicos avançados para atender às necessidades dasua clientela. Em favor disso, o Estado contrata professores sem exigir qualificaçãoapropriada para o exercício da práxis educativa e cria uma escola onde não há investimentoque assegure recursos apropriados para uma educação de qualidade e é a escola para ondesão levados aqueles que não podem frequentar a escola privada por falta de recursos, ouseja, os pobres. A inversão das prioridades ocorre quando, tanto os pobres quanto os ricos,terminam a escolarização média. Como as Universidades Públicas historicamente sedestinam à classe hegemônica, já que funciona em turnos diurnos, exigindo do egressotempo disponível, passam a ser frequentadas pelos ricos já que os pobres precisam buscar omercado de trabalho para a sobrevivência. Sem poder frequentar as Universidades Públicasdiuturnamente, os pobres são levados às Universidades Privadas que funcionamprecariamente no período noturno. Davis (et. al. 2002) diz que “Nos primeiros séculos denossa história, a educação era restrita a poucos, privilégio de minorias econômicas”. Nevesaprofunda a discussão. Ela diz:
  9. 9. Reconhecer na escola contemporânea o papel de formadora dos intelectuais orgânicos da burguesia e do proletariado não implica o desconhecimento do fato de que historicamente os sistemas educacionais capitalistas vêm desenvolvendo mecanismos de filtragem social para garantir o acesso diferenciado aos diversos graus e ramos de ensino que terminam por privilegiar o acesso e permanência no sistema escolar dos representantes da classe dominante e de seus aliados (Neves, 1994: p.24).Então a escola que frequentei tinha essa característica dual. Ali onde estudei estavam os quedeveriam ficar naquela formação e não mais ascender para servir de mão-de-obradesqualificada e barata para perpetuação do status quo dessa classe hegemônica. Comodisse Saviani (1986) era uma escola para reproduzir a sociedade tal como ela se apresentava,e analisando a teoria de Baudelot e Establet diz que é pior ainda: essa escola deveria não só“reforçar e legitimar a marginalidade que é produzida socialmente... [mas também tem pormissão] impedir o desenvolvimento da ideologia do proletariado e a luta revolucionária” (p.27).Finalmente o novo século me trouxe novas esperanças. Um programa do governo federalque garante bolsas de estudos para quem estudou o ensino médio em escola pública ou foibolsista em escola privada, denominado Universidade para Todos – ProUni me garantiuretomar meus estudos. Quero deixar claro que sem este programa dificilmente teria umaformação universitária. Para mim, a universidade pública, com seu sistema seletivo eexcludente de ingresso, era uma realidade inalcançável, dado o longo período fora da salade aula. A universidade privada se tornaria alternativa se não fosse tão cara. Daí que oprograma foi providencial. Fiz exame do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio efiquei com uma nota bastante razoável, muito acima da média nacional. Com este resultadome inscrevi no ProUni e fui agraciado com uma bolsa integral para fazer POR OPÇÃO ocurso de Pedagogia. Agora já no quarto período, posso relatar que nos três primeiros e nodecurso deste quarto período fui vitima de preconceito e bullying. Me espanta que nestenível de ensino vejo acadêmicos que frequentam a sala de aula para assinar a pauta ouresponder a chamada. Pouco se importam com o conteúdo que está sendo discutido.Quando procuro me manifestar, participando da construção do conhecimento, me pedem‘calar a boca’. É estranho perceber que não estão entendendo e ainda assim estão maispreocupados em responder a frequência. Certa ocasião, em sala de aula, o professor dePrática e Pesquisa da Educação III pediu que duas colegas de turma deixassem a sala, poiscom a conversação paralela, sem nenhuma vinculação com o assunto em pauta,atrapalhavam o entendimento da questão. Outra professora já teceu comentários sobreoutras colegas que entram em sala, respondem a frequência e saem, como se o conteúdoem pauta não lhes dissessem nada a respeito.Naturalmente ainda faltam alguns períodos para a conclusão do curso. Não me decepcioneicom a escolha, mas com a qualidade daquilo que está sendo ofertado. Não à toa, Saviani(1999) teceu comentários a respeito da Mcdonaldização da educação. A UniversidadeEstácio de Sá leva isto ao ‘pé da letra’ como diz o ditado popular. Algumas das suasunidades estão instaladas em shoppings, dividindo espaço com lojas de roupas, calçados,lanchonetes e chopperias. O argumento é que o espaço é apropriado para a convivência.Ora, não é a Universidade, por si só, um espaço apropriado para a convivência? E este
  10. 10. espaço de convivência não acaba por desviar os alunos de seus objetivos? Bem, isso é umassunto a ser pesquisado por essa geração que está se formando nos dias atuais, mas queexige uma resposta para melhor entendimento dos destinos da educação brasileira.VI – Temas para pesquisa educacionalDepois de discorrer sobre minha vida na escola, destacando apenas aquilo que a memórianão me traiu, quero apresentar cinco temas implícitos no texto e que serviriamperfeitamente como tema de pesquisa educacional. O primeiro deles eu o apresento noprimeiro parágrafo. Trata-se dos novos recursos tecnológicos e a influência deles noaprendizado dessa nova geração multimedia. Que influência esses recursos têm sobre osalunos e como os professores atuam diante da necessidade de lidar com essesinstrumentos? De que maneira esses recursos podem contribuir na construção doconhecimento?Em seguida, eu falo sobre o bullying, pois fui vitimado por este fenômeno. “O termobullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas queocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro (s),causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder (ConstruirNotícias, 2008 : p.5)”. Esse desvio de comportamento dentro da escola, quando não háintervenção para a superação do problema, pode ocasionar um sinistro mais grave, como oocorrido na cidade de Taiúva, no interior de São Paulo, no início de 2003 quando um oumais alunos foram armados para a escola e atiravam em quem estivesse à sua frente. Aviolência neste caso é o instrumento de superação do poder que os subjugava (idem). E nosdias atuais, como são vistos os casos de bullying? Como os educadores se colocam diantede um caso de bullying na sala de aula?Um terceiro tema que considero importante, embora pouca literatura se encontra a respeitoe pouco se debate sobre este tema, é a relação de poder exercida na sala de aula. Alunos deuma escola em Austin, e que já foi motivo de uma investida minha para fazer um trabalhopara a disciplina de Políticas Públicas, mostravam certo temor na sala de aula. O medo doprofessor e da direção da escola atua de modo negativo sobre os alunos o que colaborapara um desempenho pífio na construção do saber.O quarto tema é algo que considero bastante discutido, mas que exige uma permanentediscussão com o objetivo de superar esta questão. Trata-se do abandono da escola. A meuver é importante conhecer a fase mais aguda na criança, aquela que o leva a pensar emdeixar a escola e procurar entender o motivo desestimulante para o estudo. Aqui eu destacoa importância da subjetividade, tratando ser a pesquisa qualitativa a mais apropriada para ofim desejado, pois não se trata de conhecer números de meninos ou meninas queabandonam a escola, mas de conhecer em que período na vida de uma criança isso ocorre,bem como os motivos pessoais.Por fim, quero destacar um tema muito pertinente. Aqui quero resgatar o que disse PauloFreire (2005) sobre estética. No terceiro período da faculdade de Pedagogia, escrevi umartigo sobre a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire e destaquei a importância de uma
  11. 11. escola decente para que os alunos sintam desejo de voltar no dia seguinte. Neste artigoescrevi que “ensinar exige ‘estética e ética. Decência e boniteza de mãos dadas (Freire, 2005)’. A escola precisa ser um espaço onde o educando sinta o desejo de voltar logo quando vai para casa. Deve ser um espaço de comparações, de intervenções, escolhas, de decisão. Isso é o exercício da ética, do respeito ao outro. Lugar onde correr riscos, aceitar criticamente o novo e rejeitar toda e qualquer manifestação de discriminação, reconhecendo e conhecendo as diversas identidades culturais (Santos, 2008)”.Então, um tema que considero interessante a ser tratado é sobre as condições dasinstituições escolares, ou seja, como estas se apresentam para os alunos.Dos temas que apresentei destaco dois que mais me inquietam: os novos recursostecnológicos e sua utilização na construção do conhecimento. Este tema consideroimportante porque há que se considerar que estamos vivendo uma era onde oconhecimento é a principal commodity para um mundo globalizado, para uma sociedadeplanetária. As transformações sociais ocorridas concomitantes com o desenvolvimentotecnológico exigem uma atualização da práxis educativa, por uma questão de sobrevivência.O mundo não é mais o mesmo; O mundo que hoje surge constitui ao mesmo tempo um desafio ao mundo da educação, e uma oportunidade. É um desafio, porque o universo de conhecimentos está sendo revolucionado tão profundamente, que ninguém vai sequer perguntar à educação se ela quer se atualizar. A mudança é hoje uma questão de sobrevivência, e a contestação não virá de “autoridades”, e sim do crescente e insustentável “saco cheio” dos alunos, que diariamente comparam os excelentes filmes e reportagens científicos que surgem na televisão e nos jornais, com as mofadas apostilas e repetitivas lições da escola (Dowbor, 2001).Ora, se o mundo está em constante mudanças a prática pedagógica não pode ser a mesmados tempos em que educação se resumia à sala de aula. Novas práticas precisam seradotadas no sentido de responder as expectativas de todos e todas e de cada um emparticular. Quando realizei uma palestra na Escola Estadual São Cristóvão, emQueimados/RJ, fiquei escandalizado ao ver que seis computadores estavam empacotadosna sala da direção sem utilidade alguma. O professor que me levou à escola ficouentusiasmado com os recursos que utilizei para ministrar a palestra sobre Síndrome deAsperger. Ali percebi o quanto esses professores precisam de atualização, pois estãodistantes da realidade dos alunos. E o que é pior. Os recursos estavam lá, mas não eramutilizados. Além disso, é preciso dar uma resposta sobre o quanto estes recursosinfluenciam no aprendizado dos alunos e alunas, daí que considero este tema importantepara uma pesquisa mais amiúde.O segundo tema que destaco se refere às condições do ambiente escolar, ou seja, como asinstituições se apresentam para os alunos e o quanto isso interfere, para o bem ou para omau, no aprendizado dos alunos e alunas. Esta inquietação me ocorreu quando realizei umapalestra no CIEP Gilson Amado, em Engenheiro Pedreira, na cidade de Japeri/RJ. A
  12. 12. escola realizava um evento de Culminância de Geografia e fui convidado a fazer umapalestra sobre a cidade de Japeri. Durante a palestra, mostrei em imagens duas cidadesrepresentadas por dois bairros específicos. A cidade de Japeri, através do bairro EngenheiroPedreira e a Cidade de Curitiba, representada pelo Centro de Curitiba. Quandointerrogados sobre qual cidade eles gostariam de viver, a totalidade apontou Curitiba. Duasoutras imagens foram mostradas. De uma escola pública da Zona Norte e outra da ZonaOeste, ambas no Rio de Janeiro. Quando interrogados sobre qual delas gostariam deestudar, a totalidade dos alunos apontou para a escola que se mostrava melhor cuidada.Instigados a dizer o motivo, falaram da auto-estima, de orgulho e prazer de estar lá. Desdeentão me ocorre esta inquietação: será que as condições escolares não desestimulam oalunado voltar para a escola?VII - ConclusãoNeste texto eu comecei resgatando outro anteriormente escrito por mim para mostrar queesta ‘garotada’ nova que ingressa na escola nos dias atuais nasceu em ‘berço multimedia’.Essa cultura que emerge das novas tecnologias são levadas para a escola, por isso destaqueisendo este um tema de relevância para uma pesquisa educacional. Em seguida começo adissertar sobre minha trajetória escolar. Muitas coisas ficaram sem ser citadas, pois amemória não me permitiu um resgate com fidelidade da ocorrência dos fatos. Mas algumascoisas no histórico de vida de cada um de nós marcam tão profundamente que jamais sãoesquecidas. Foi o caso de ter que freqüentar a escola com os pés descalços e das zombariasque tive que suportar. Foi também o caso da professora que me castigava porque eu nãofazia as lições, mas ficava desenhando ao invés de fazer o dever, bem como as corridas parafugir dos inspetores de disciplina que saiam em busca dos ‘gazeteiros’.Mostrei neste texto que fora da escola também se aprende. Assim, a escola não pode fingirque os alunos e alunas não trazem consigo algum saber que são constituídos na práticacomunitária. Saberes que Paulo Freire disse ser necessário aproveitá-los em benefício daconstrução do conhecimento. Mostrei também que se (estes saberes) forem ignorados pelaescola pode ocasionar desestímulo levando o aluno/a a abandonar os estudos. Relato que anecessidade de me colocar devidamente no mercado de trabalho me fez retomar os estudose que, felizmente, e por conta de um programa social do governo federal, chego àuniversidade para fazer um curso de Pedagogia, repito, por opção. Em cada etapa escolarprocuro resgatar alguns fatos que marcaram essa etapa de minha vida e concluo destacandoaquilo que considero importante como tema de pesquisa educacional.VIII – BibliografiaAlthusser, Louis: Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos deEstado (AIE). Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro: Riode Janeiro : Edições Graal, 1985, 2ª edição.Construir Notícias. O Fenômeno Bullying nas Relações Interpessoais. Revista ConstruirNotícias, n° 40, ano 07, maio/junho de 2008.
  13. 13. Dowbor, Ladislau. Tecnologias do conhecimento: os desafios da educação. Disponível emhttp://br.monografias.com/trabalhos903/tecnologias-conhecimento-educacao/tecnologias-conhecimento-educacao.shtmlGalbraith, John Kenneth. Anatomia do Poder. 4ª ed. (Coleção novos umbrais) Tradução deHilário Torloni. São Paulo: Pioneira, 1999FREIRE. Paulo. Pedagogia da Autonomia [saberes necessários à prática do educando] Riode Janeiro. DP&A, 2005.Jobs, Steve. Você tem que encontrar o que você ama. Disponível emhttp://vocesa.abril.com.br/evolucao/aberto/ar_80039.shtml acessado em 27 de agosto2008: 11:00h.Neves, Lúcia Maria Wanderley. Educação e Política no Brasil de Hoje. São Paulo : Cortez,1994 (Coleção questões da nossa época v. 36)Penin, Sonia T. Souza; Vieira, Sofia Lerche. In Davis, Claudia (et. al.). Gestão da Escola:desafios a enfrentar. Vieira, Sofia Lerche (org.) Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

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