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como criança é justamente o que me outorga e me permite reconhecer o meu lugar,o lugar de filho.        Um dia talvez, mas...
o vidro aberto: - a garganta do bebê de poucos meses, na sua cadeirinha ao lado damãe. A minha reação indignada explode co...
Talvez o paraíso das crianças testemunhe um cuidado do colonizador, triste edecepcionado: o gozo que ele veio procurar e q...
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Criancas contardo caligaris

  1. 1. CRIANCAS O Brasil me aparece como o paraíso das crianças. Estranha-me o sorriso do garçom de um restaurante luxuoso tragicamenteatrapalhado no serviço por uma turma de meninos correndo entre as mesas. Etambém que nenhum cliente pareça se incomodar com o barulho do qual não davapara suspeitar que estivesse incluído no preço. Surpreende-me, durante uma festa em casa, a chegada de mais um casalconvidado, com crianças pequenas implicitamente não convidadas. Aqui é umagraça. Na Europa, salvo laços de amizade férreos, seria uma imperdoável grosseria. Num hotel cinco estrelas é exigido que exista uma sala de jogos eletrônicospara as crianças e que sejam previstas atividades infantis. Assusta-me a insistência- pedagogicamente justificada com um requinte de rousseauísmo - sobre anecessidade do lúdico na aprendizagem. Em algumas das melhores escolasprivadas decorar é considerado tortura. Assombra-me a importância que assume oprograma das crianças na vida cotidiana: os pedidos alimentares de pratos ebebidas especiais, as saídas, as vindas dos amigos ... O adulto brasileiro parececonstantemente preocupado com o prazer das suas crianças. Brevemente: a criança é rei. Curioso, tanto mais num país cuja reputação no estrangeiro estácomprometida com legiões de crianças abandonadas na rua. Evidentemente toda educação - como Freud já apontou - é reacionária, poiscada um não educa como foi educado, cada um pretende educar como os seus paisimaginavam que os pais deles teriam pretendido educar. E, o mesmo valendo paraos avós, se entende que a educação seja sempre fundamentalmente restaurativa deuma ordem passada, que por sinal nunca existiu. Esta constatação, porém, não é uma crítica, pois parece - ou pelo menos meparece - que a restauração tentada desta ordem passada que nunca existiu éjustamente o que permite ao último chegado de encontrar, nesta ordem, um lugar.Explico-me: foi-me contado que na infância de meu pai, as crianças, quandoexcepcionalmente tomassem as suas refeições na mesa com os adultos,precisavam ficar em pé, não lhes sendo permitido sentar. Pouco importa que estahistória seja verdadeira ou falsa, de fato presumo hoje que já fosse, para o meupróprio pai, uma lenda do seu pai criança. Pouco importa também que ela possaparecer a testemunha de um costume bárbaro. Pouco importa, pois, separando acriança do adulto, esta lenda e outras similares constituem a mitologia possível deuma ordem de filiação necessária para a criança. Por exemplo, o que mais pesou naminha infância, ou seja, a subordinação de qualquer aspiração minha à paixãoincondicional do meu pai para as obras de arte (subordinação que transformou osdomingos e as férias da minha infância em passeatas artísticas e culturais quandosonhava com piscinas, Beatles, beisebol e quadrinhos), tudo isso não acredito quetenha sido trauma nenhum. Poderia alegar que devo a um tal aparente abuso deautoridade paterna o meu gosto ela arte. Mas, bem além disso, acredito que o efeitoe um tal aparente abuso seja a sólida inserção num registro de filiação. O importantenão é tanto poder não nadar, escutar música e jogar beisebol, o importante é disporde um lugar a partir do qual poder pelo menos querer nadar etc., quer se possa ounão. De fato, parece que o preço de um tal lugar - necessário à vida - sejajustamente uma interdição. O que me é proibido, os limites que me são impostos -
  2. 2. como criança é justamente o que me outorga e me permite reconhecer o meu lugar,o lugar de filho. Um dia talvez, mas pode ser que já seja o caso, se concorde em dizer quequem derrotou os Estados Unidos no Vietnã foi o Dr. Spock. Ou seja, que adesistência da juventude americana relativamente à guerra no fim dos anos 60 nãofoi o efeito de uma propaganda comunista sonhada por um novo McCarthy e aliásestrangeira aos ideais norte-americanos da época, mas muito mais o efeito de umaorientação pedagógica permissiva que corroeu as condições da idealidade, jogandouma ou mais gerações fora da linha de filiação. Tanto melhor para o Vietnã, dir-se-á naturalmente e ainda que o Vietnã do Sulnão seja apenas o Vietcong. E, sobretudo, embora se possa pensar que a guerrateria sido outra se os combatentes norte-americanos não fossem eles mesmos, pelafalta de idealidade que, acredito, parou a guerra, convertidos em sádicosautorizados. Tudo isso para defender a ideia segundo a qual o que há de necessariamentereacionário numa educação é mesmo o que permite que ela tenha o seu efeitoessencial: constituir uma filiação simbólica. Agora, que o Brasil seja o paraíso das crianças não implica necessariamenteque a educação seja um fracasso. Poderia imaginar que milagrosamente aqui seconsiga reconhecer à criança uma cidadania precoce, que frequentemente lhe énegada na Europa. E que, também milagrosamente, o preço em interditos destacidadania, deste lugar reconhecido consiga aqui ser menor. Assisto com emoçãocrianças de seis, sete anos encomendar o prato de sua escolha, comprarmercadorias em lojas, quando sei que o simples ingresso de uma criança, mesmoacompanhada, numa loja em Paris poderia ser considerado como uma ameaça, ouentão que na mesma loja uma criança sozinha veria negligenciar a sua vez na fila.Mas a emoção cessa quando ouço uma criança de seis, sete anos convocarimperiosamente o garçom: "Mooooooço!!" Algo me incomoda, e não sei bem o quê.Certo, a licença sobre o corpo de uma adulto lembra um passado escravagista, ondea diferença adulto/criança só podia valer no campo dos homens livres, o escravosendo escravo tanto para a criança quanto para o adulto. Mas há algo a mais naimperiosidade do pedido infantil e na dedicação tanto parental quanto educacional egeralmente social em responder a este pedido. Curiosamente, acredito que aquiloque me incomoda deve ter algum laço com o exército de crianças ditasabandonadas na rua. Pois é estranho, depois de tudo, que a criança seja rei e aomesmo tempo dejeto. Não acredito ou mesmo descuido e desconfio, neste caso, dasexplicações sociológicas: se a criança dispusesse de um estatuto simbólicoparticular, se fosse um sujeito precocemente reconhecido, isso valeria para qualquercriança. E me interrogo sobre uma majestade cuja alternância com a dejeçãoassinala que talvez ela não esteja fundada em uma excelência simbólica. Confrontado com uma criminalidade de menores e de menores muito jovensinédita para mim, acabei estranhando a impunidade que o código reserva ao crimedo menor. Mas estranhei, sobretudo de estranhar, pois não há nisso nada deespecial e não conheço código que preveja uma responsabilidade penal para osmenores. Também me parece insuficiente considerar que se trate de uma reação"normal", à vista da violência da criminalidade infantil. Por exemplo: escuto um dia um relato triste e espantoso que envolve umaconhecida. Algumas criança de sete, oito anos, numa esquina paulistana, talvez porter-lhes sido recusado o troco que pediram, - cortam com uma gilete - aproveitando
  3. 3. o vidro aberto: - a garganta do bebê de poucos meses, na sua cadeirinha ao lado damãe. A minha reação indignada explode contra a impunidade, mas ao mesmo tempomeu horror do crime, por grande que seja, não me parece justificar uma tal posição. Se cuidadoso como sempre sou da sociedade de direito, surpreendo-meprotestando para que a punição seja exemplar e sem atenuantes relativos à idade éque a impunidade dos menores talvez seja aqui no Brasil outra coisa do que umprincípio de direito. A Febem, por exemplo, aparece, pelo menos na lenda popular,mas também na página de crônica dos cotidianos, como o porto de mar de onde seentra e sai seguindo os ventos. Tudo acontece como se a sociedade não soubesse,mais por uma impossibilidade de estrutura do que por uma impotência, reprimir osmenores, as crianças. E quem não sabe reprimir, também não consegue reconhecerum lugar e uma dignidade simbólicos. Confirma-se, dessa forma, a dúvida que o lugar de majestade que a criançaparece ocupar não seja uma excelência simbólica, mas algum tipo de incondicionalexaltação fantasmática da criança. O que aliás explicaria como, quando estaexaltação fantasmática não a sustenta, a criança seja um simples dejeto. É como se, faltando um reconhecimento simbólico, frente à sua impotência agarantir para cada criança o paraíso, a sociedade deva escolher deixar impunes astentativas criminais (de ter acesso ao paraíso) das crianças as quais os pais nãopoderiam garantí-Io. Mas a questão se desloca: o que é, de onde surge esta aparenteimpossibilidade de reprimir, que parece testemunhar um verdadeiro fantasmarelativo à infância?Clinicando no Brasil, encontrei, é certo, uma quantidade impressionante deexemplos de promiscuidade doméstica. O acesso das crianças à cama parental éfrequente, até épocas tardias, assim como a extrema tolerância de fobias e enuresesnoturnas. A psicologização ajuda por sinal a desaconselhar uma sonora interdição,que seria salutar. É curioso também como, na gestão do lazer da criança, o gozoprima: é raro que, quando uma criança descobre que, por exemplo, aprender piano,inglês, balé, tênis, hipismo, xadrez etc. não cai do céu, ela encontre a injunçãonecessária para considerar com interesse o gozo limitado e trabalhoso de umaaprendizagem. A alternativa parece ser aceita pelo adulto assim como criança acoloca: ou dá para gozar na hora ou então -: vale a pena. Le gout de leffort", literalmente "o gosto pelo esforço", "o prazer dadificuldade": não parece haver expressão consagrada que possa traduzir esta peçachave da pedagogia européia, onde o que se trata transmitir é uma espécie deespírito olímpico permanente; importa participar, não ganhar. Qual o interesse do"gout de leffort"? Ele vale como princípio pedagógico num quadro simbólicoclaramente organizado ao redor de um impossível interditado: o do corpo materno éimpossível e o gozo que te é permitido é relativo ao exercício dos teus esforços(vãos) para atingí-Io. E a excelência de uma vida é relativa, à nobreza dos esforços:ser alguém, ou seja, um filho digno, é se distinguir no esforço, não é alcançar. Porisso, aliás, na Europa a manifestação aparente do gozo - signos externos deriqueza, como os define o Estado que os penaliza fiscalmente - ainda não enobreceo sujeito. Mas se o colonizador veio para gozar, não para exceler no exercício da línguapaterna, mas para tentar com ela o acesso a um corpo não interditado, o "goút deleffort" aqui não tem valor. Só vale gozar.
  4. 4. Talvez o paraíso das crianças testemunhe um cuidado do colonizador, triste edecepcionado: o gozo que ele veio procurar e que necessariamente não encontrou,sonha para seus filhos. Na transmissão desta esperança de gozo, o colonizadordesiste como pai. Se ser pai é sustentar um interdito sobre o corpo materno, que derepente permita à criança se situar e ser reconhecida como filha ou filho, a coisaparece difícil desde que à criança é delegado nada menos que o fantasma paternode um gozo sem limites. O projeto de um paraíso para as crianças pode assim virar um inferno, onde -sem interdito - a criança receberia uma injunção nada irrisória: goza tu, meu filho,pelo menos tu, é isso que eu quero. Responder ao mandamento paterno seria então paradoxalmente burlar a lei,qualquer lei, numa inevitável desintegração do tecido social. E para quem, porcriança que fosse, as portas do paraíso estivessem fechadas, restaria ser dejeto. Aimpunidade, neste quadro, corresponde à única legitimidade reconhecida: respondera um mandamento de gozo. Se considerarmos que um significante nacional poderia se transmitir e valercomo qualquer significante paterno, ou seja, como um traço ideal inspirador, queabre um campo de possíveis a partir dos limites que coloca, é curioso notar que,para a criança do colonizador, ser brasileiro significaria ter que realizar o sonhopaterno ou ancestral de um gozo sem limites. E o gozo sem limites é um projeto queimplica o desrespeito de qualquer significante paterno ... Mas concluir apressadamente aqui que faltaria no Brasil função paterna seriauma besteira, pois seria esquecer a esperança do colono que veio para encontrarum pai e cujo discurso é o contraponto do discurso do colonizador. O mesmo Brasil paraíso das crianças, sonho de impunidade do menorcriminoso, é também um lugar onde a maior esperança parece estar depositada nainstância pedagógica. Como já mencionei, a pedagogia dominante é vagamenterousseauísta e parece desconfiar de uma transmissão do "gout de leffort". Mas, dequalquer forma, dos progressos da escola todo mundo espera o milagrososurgimento de um cidadão novo. Jules Ferry e todos os artífices da escolaobrigatória européia no começo do século seriam aqui bem-vindos, pois se respirauma verdadeira fé nos efeitos possíveis do ensino. É o colono certamente quemespera que o ensino constitua magicamente para seus filhos o nome que ele nãoencontrou nesta etapa Brasil da sua viagem. Deste ponto de vista, aliás, para ambos, colonizador e colono, a criança éportadora de um fantasma de esperança. Que as decepções dos dois sejamdiferentes e, portanto, que os fantasmas delegados à criança também sejam, poucoimporta. Não deixa de ser preocupante um ingresso na filiação nacional no qualpareça decisivo responder, ou melhor, ser encarregado de responder a umafrustração ancestral, seja aqueIa do colonizador ou aquela do colono. Os psicanalistas sabem que quanto mais um sujeito cuida das suasfrustrações (que são também aquelas que lhe foram transmitidas), tanto menos eleconsegue propriamente exercer o seu desejo. Normalmente, a palavra paterna que -interditando - outorga um lugar, ajuda a desejar. Mas o que acontece quando apalavra paterna transmite privilegiadamente a tarefa de realizar gozando o sonhopaterno? Acontece, no mínimo, que ela se abstém de interditar por medo de frustrara criança, ou seja, sobretudo de frustrar o próprio sonho do pai.

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