SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 2
Baixar para ler offline
550
Araujo AQ
Valva ou válvula?
Arq Bras Cardiol
2002; 79: 550-1.
Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Espírito Santo
Correspondência: Aloir Queiroz de Araujo - Rua Alfeu Alves Pereira, 60 - 29050-190
Vitória, ES - E-mail: aloirqueiroz@cardiol.br
Recebido para publicação em 19/11/01
Aceito em 29/11/01
Aloir Queiroz de Araujo
Vitória, ES
Valva ou Válvula?
Ponto de Vista
“...você é portador de valva aórtica bicúspide. Em
vez de conter três válvulas a sua valva só contém duas vál-
vulas...”
Verifica-se,naliteraturacardiológicabrasileiradosúl-
timos anos, um nítido predomínio da utilização do termo
valva, assim como palavras derivadas (valvopatia, valvo-
plastia,valvar,etc),emdetrimentodeválvula,parasedesig-
nar as quatro estruturas cardíacas e tudo que se refere às
mesmas. Nos dois últimos anos, nos Arquivos Brasileiros
de Cardiologia, constata-se a presença de valva em 16 títu-
los de artigos publicados, enquanto que válvula simples-
mente não aparece. Numa busca eletrônica, no mesmo pe-
riódico,de1996a2001,valvaaparece157vezes,para48uti-
lizaçõesdeválvula.Lendo-seoProgramaFinaldo18ºCon-
gressodeCardiologiadaSociedadedeCardiologiadoEsta-
do do Rio de Janeiro (julho de 2001), encontra-se que a
SOCERJpossuioseuDepartamentodeValvulopatias,mas
na programação científica poucas apresentações são
“valvulares”.NoDicionáriodoCoração,disponívelnapági-
na da SBC na internet (www.cardiol.br), verifica-se que o
coração possui quatro válvulas (com seus respectivos no-
mes) as quais são constituídas por valvas.
Devemos conviver com as duas terminologias? Não
parece adequado pois são estruturas que sofrem uma gran-
de variedade de processos patológicos, presentes no coti-
dianodocardiologista,eédesejávelumauniformizaçãoda
linguagem. A seguir, serão apresentados argumentos que
fortalecemaminoria“valvular”.
Emdicionáriosdalínguaportuguesa1
,valvaéestrutu-
rabotânicaezoológica(conchas),nãoconstandocomosu-
bstantivo anatômico humano. Já o substantivo válvula,
além de significar pequena valva, é usado para estruturas
biológicas e mecânicas, indicando, em medicina, pregas
membranosas que existem no coração e em certos vasos
sangüíneos para obstar ao refluxo do sangue.
Na língua inglesa, o substantivo valve 2
é utilizado
paraasestruturasmecânicas,anatômicas,zoológicasebo-
tânicasreferidasacima.Entretanto,empublicaçõesmédicas
que se referem ao coração há o adjetivo valvular (valvular
heart disease, valvular stenosis). Pesquisando-se na
MEDLINE(NationalLibraryofMedicine-USA),há2.195
ocorrências de valvuloplasty para apenas 117 de valvo-
plasty.Nestas,agrandemaioriaédeartigosdeforadosEs-
tados Unidos, incluindo algumas importantes publicações
debrasileirosquepodemnãoestarsendocitadasemoutros
trabalhos devido a uma indexação inadequada. Em outra
busca, no conceituado The New England Journal of Medi-
cine, desde 1975, valvoplasty nunca foi citado, enquanto
valvuloplasty aparece em 41 oportunidades.
EmPortugal,comopodeserverificadonaRevistaPor-
tuguesadeCardiologia,oscolegaslusitanosusamregular-
menteostermosválvula,valvularevalvulopatia.
Em países cujos idiomas, como o nosso, carregam in-
fluênciadolatim,tambémnãoháduplaterminologia.Asaber:
França – Archives de Maladies du Coeur et des Vais-
seaux: valve – valvulaire – valvulopathies.
Itália – Giornale Italiano di Cardiologia: valvola –
valvolare – valvolopaties.
Espanha–RevistaEspañoladeCardiología:válvula–
valvular – valvulopatías.
É na interpretação do latim 3
que se origina a duplici-
dade, em que valva significa, tanto as estruturas botânicas
e zoológicas, quanto as cardiovasculares, e valvula é o seu
diminutivo.Aterminologiaanatômicaatualésistematizada
pela Federação Internacional das Associações de Anato-
mistas,quesereuniupelaúltimaveznacidadedeSãoPaulo,
em agosto de 1997. A FIAA publica a Nomina Anatomica
(nomenclatura anatômica), onde todas as estruturas ma-
croscópicasdocorpohumanosãodenominadasemlatime
inglês 4
, sendo posteriormente traduzida para os diversos
idiomas,deacordocomcadaassociaçãonacional.Aprópria
Nomina não resistiu ao ímpeto reformista e passou a ser
chamada de terminologia anatômica. Ficou estabelecido
que o termo latinovalva deve ser restrito às quatro estrutu-
ras cardíacas, enquanto que valvula denomina as demais
Arq Bras Cardiol, volume 79 (nº 5), 550-1, 2002
Arq Bras Cardiol
2002; 79: 550-1.
Araujo AQ
Valva ou válvula?
551
estruturasvascularesevisceraisetambémoscomponentes
davalva.Assim,deacordocomaconvençãodosanatomis-
tas, em latim, a valva possui valvulas. Num passado próxi-
mo,atraduçãoparaoportuguês5
recomendavaocontrário.
Recentemente,aSociedadeBrasileiradeAnatomialan-
çou a edição atualizada da terminologia anatômica 6
. Obra
louvávelpelocuidadodescritivosistemático,fazumaverda-
deira dissecção humana. Contudo, caso venha a ser ofi-
cialmenteadotadaporcardiologistas,deixarámuitagentecom
nostalgia.Amitral,porexemplo,nãoémaiscitada,substituída
quefoiporvalvaatrioventricularesquerda,entreoutrasalte-
raçõesdifíceisdeseremassimiladasnaprática.
Está bem estabelecido em nossas comunidades, cien-
tíficaeleiga,quequalquerestruturaquepermiteapassagem
deumfluidonumsentidoeimpedeoseuretornoéumavál-
vula, seja num motor, numa câmara de ar, ou no coração. A
tricúspide, quando lesada, tem prejudicada a sua função
valvular gerando uma doença que deve ser descrita como
valvulopatia. Para aqueles que defendem uma linguagem
médica diretamente ligada à Nomina Anatomica, há um
ponto importante a ser frisado: os termos ali presentes são
anatômicos,semreferênciaaopatológico.Nãoéadequado
chamar uma prótese de valva pois é uma estrutura estranha
àanatomiaeirádesempenharfunçãovalvularapósseuim-
plante, da mesma forma que um tubo não é valvado e sim
valvulado.Comodenominarasválvulasúnicasdedetermi-
nadas cardiopatias congênitas? a doença reumática provo-
cavalvuliteouvalvite?
Inúmerosexemplospodemserapresentadosdainade-
quacidade dos neologismos advindos do uso do termo
valva. Porém, há de se reconhecer que estão enraizados e a
tendência dos neologismos aceitos pela maioria é de que
sejamoficializados.Efoioqueaconteceu.Naúltimaedição
doAurélio7
,todosostermosmédicosqueutilizamaestrutu-
ra-valvul-sãoconsideradosimprópriosouobsoletos.Res-
ta saber se quem orientou os editores do famoso dicionário
atentouparaospontosdevistahistórico,físico,anatômico,
fisiológicoepatológico,queindicamserocoraçãohumano
possuidor de quatro válvulas. Publicado em 2001, o exce-
lente dicionário Houaiss 8
é pragmático. Admite a orienta-
ção dos anatomistas mas preserva os tradicionais valvulo-
tomia,valvuloplastia,etc.
Como a maioria dos cardiologistas demonstra prefe-
rênciaporvalva,ficaasugestãoparaqueaSociedadeBrasi-
leiradeCardiologia,quetemgeradovaliosasdiretrizescien-
tíficas,crieumacomissãoparasistematizaraterminologia
cardiológica que tem estado um pouco confusa, principal-
mente pela chegada volumosa de novos termos estrangei-
ros, cujas traduções ou adaptações vão do correto ao ina-
dequado, passando por expressões de gosto duvidoso.
1. GrandeDicionárioUniversaldaLínguaPortuguesa.Cacém:TextoEditora,1997.
2. Webster’s Dictionary. Ohio: Landoll, 1993: 325.
3. Merrian Webster Medical Dictionary. Ohio: Merrian Webster Inc., 1997.
4. Federative Committee on Anatomical Terminology: Terminologia Anatomica.
Stutgart: Georg Verlag, 1998.
5. Comissão Luso-Brasileira de Nomenclatura Morfológica: Nomenclatura
anatômica. Rio de Janeiro: G. Koogan, 1977: 79.
Referências
6. Sociedade Brasileira de Anatomia: Terminologia Anatômica. São Paulo:
Manole, 2001.
7. Novo Aurélio Século XXI: O Dicionário da Língua Portuguesa, 3ª ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
8. Antonio Houaiss, Mauro de Salles Villar: Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Atlas básico de anatomia
Atlas básico de anatomiaAtlas básico de anatomia
Atlas básico de anatomiaprojetacursosba
 
Anatomia vascularização arterial encefálica e avc
Anatomia vascularização arterial encefálica e avcAnatomia vascularização arterial encefálica e avc
Anatomia vascularização arterial encefálica e avcluzienne moraes
 
Seminário sobre Ossificação
Seminário sobre Ossificação Seminário sobre Ossificação
Seminário sobre Ossificação Noara Thomaz
 
Mecânica dos fluidos, circulação e respiração
Mecânica dos fluidos, circulação e respiraçãoMecânica dos fluidos, circulação e respiração
Mecânica dos fluidos, circulação e respiraçãoCaio Maximino
 
Exame físico do coração
Exame físico do coraçãoExame físico do coração
Exame físico do coraçãogisa_legal
 
Tronco encefálico - SNC
Tronco encefálico - SNCTronco encefálico - SNC
Tronco encefálico - SNCAdriana Mércia
 
Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem,
Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem, Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem,
Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem, Wendesor Oliveira
 
TC de tórax janela de mediastino
TC de tórax  janela de mediastinoTC de tórax  janela de mediastino
TC de tórax janela de mediastinoFlávia Salame
 
alavanca e sistemas osteo
alavanca e sistemas osteoalavanca e sistemas osteo
alavanca e sistemas osteoBruno Mendes
 
Sinais do Raio X de Tórax
Sinais do Raio X de TóraxSinais do Raio X de Tórax
Sinais do Raio X de TóraxBrenda Lahlou
 
Aula 06 radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...
Aula 06   radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...Aula 06   radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...
Aula 06 radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...Hamilton Nobrega
 
Anatomia dos membros superior e inferior 2016
Anatomia dos  membros superior e inferior 2016Anatomia dos  membros superior e inferior 2016
Anatomia dos membros superior e inferior 2016CURSO TÉCNICO CEPRAMED
 

Mais procurados (20)

Atlas básico de anatomia
Atlas básico de anatomiaAtlas básico de anatomia
Atlas básico de anatomia
 
Anatomia vascularização arterial encefálica e avc
Anatomia vascularização arterial encefálica e avcAnatomia vascularização arterial encefálica e avc
Anatomia vascularização arterial encefálica e avc
 
Seminário sobre Ossificação
Seminário sobre Ossificação Seminário sobre Ossificação
Seminário sobre Ossificação
 
Mecânica dos fluidos, circulação e respiração
Mecânica dos fluidos, circulação e respiraçãoMecânica dos fluidos, circulação e respiração
Mecânica dos fluidos, circulação e respiração
 
Exame físico do coração
Exame físico do coraçãoExame físico do coração
Exame físico do coração
 
Tronco encefálico - SNC
Tronco encefálico - SNCTronco encefálico - SNC
Tronco encefálico - SNC
 
Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem,
Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem, Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem,
Anatomia do ombro, posicionamento, achados na imagem,
 
Anatomia crânio
Anatomia crânioAnatomia crânio
Anatomia crânio
 
TC de tórax janela de mediastino
TC de tórax  janela de mediastinoTC de tórax  janela de mediastino
TC de tórax janela de mediastino
 
Anatomia do pé
Anatomia do péAnatomia do pé
Anatomia do pé
 
alavanca e sistemas osteo
alavanca e sistemas osteoalavanca e sistemas osteo
alavanca e sistemas osteo
 
Sinais do Raio X de Tórax
Sinais do Raio X de TóraxSinais do Raio X de Tórax
Sinais do Raio X de Tórax
 
Embriologia CabeçA E PescoçO
Embriologia CabeçA E PescoçOEmbriologia CabeçA E PescoçO
Embriologia CabeçA E PescoçO
 
Esvaziamentos cervicais
Esvaziamentos cervicaisEsvaziamentos cervicais
Esvaziamentos cervicais
 
Aula 06 radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...
Aula 06   radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...Aula 06   radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...
Aula 06 radiologia - anatomia do esqueleto apendicular - tarso, metatarsos ...
 
Gasometria Arterial
Gasometria ArterialGasometria Arterial
Gasometria Arterial
 
HIV Aids Caso Clinico
HIV Aids Caso ClinicoHIV Aids Caso Clinico
HIV Aids Caso Clinico
 
Princípios da Ventilação Invasiva
Princípios da Ventilação InvasivaPrincípios da Ventilação Invasiva
Princípios da Ventilação Invasiva
 
Anatomia dos membros superior e inferior 2016
Anatomia dos  membros superior e inferior 2016Anatomia dos  membros superior e inferior 2016
Anatomia dos membros superior e inferior 2016
 
Figado
FigadoFigado
Figado
 

Destaque

Aula 01 anatomia e fisiologia
Aula 01   anatomia e fisiologiaAula 01   anatomia e fisiologia
Aula 01 anatomia e fisiologiaRennan Mourão
 
Anatomia introdução
Anatomia introduçãoAnatomia introdução
Anatomia introduçãomontreal3525
 
Musculos Generalidades
Musculos GeneralidadesMusculos Generalidades
Musculos GeneralidadesTiago Domingos
 
01 atlas do corpo humano 01_15
01 atlas do corpo humano 01_1501 atlas do corpo humano 01_15
01 atlas do corpo humano 01_15Thaís Lopes
 
Aula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIA
Aula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIAAula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIA
Aula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIALeonardo Delgado
 
Anatomia humana slides
Anatomia humana slidesAnatomia humana slides
Anatomia humana slidesCed Amanhecer
 

Destaque (7)

Aula 01 anatomia e fisiologia
Aula 01   anatomia e fisiologiaAula 01   anatomia e fisiologia
Aula 01 anatomia e fisiologia
 
Anatomia introdução
Anatomia introduçãoAnatomia introdução
Anatomia introdução
 
Musculos Generalidades
Musculos GeneralidadesMusculos Generalidades
Musculos Generalidades
 
Anatomia humana 1ª aula 10 mar 2014
Anatomia  humana 1ª aula 10 mar 2014Anatomia  humana 1ª aula 10 mar 2014
Anatomia humana 1ª aula 10 mar 2014
 
01 atlas do corpo humano 01_15
01 atlas do corpo humano 01_1501 atlas do corpo humano 01_15
01 atlas do corpo humano 01_15
 
Aula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIA
Aula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIAAula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIA
Aula01:INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE ANATOMIA
 
Anatomia humana slides
Anatomia humana slidesAnatomia humana slides
Anatomia humana slides
 

Semelhante a Valva ou válvula? Uma análise da terminologia correta para as estruturas cardíacas

Semelhante a Valva ou válvula? Uma análise da terminologia correta para as estruturas cardíacas (6)

Sling da AP
Sling da APSling da AP
Sling da AP
 
DTP 07 21
DTP 07 21DTP 07 21
DTP 07 21
 
11ª aula quase afogamento correta Silvio
11ª aula   quase afogamento correta Silvio11ª aula   quase afogamento correta Silvio
11ª aula quase afogamento correta Silvio
 
11ª aula quase afogamento correta
11ª aula   quase afogamento correta11ª aula   quase afogamento correta
11ª aula quase afogamento correta
 
Dtp9 sp
Dtp9 spDtp9 sp
Dtp9 sp
 
Curso 42 ii
Curso 42 iiCurso 42 ii
Curso 42 ii
 

Mais de Letícia Spina Tapia

Manual de orientação nutricional enteral em domicilio - Nestle
Manual de orientação nutricional enteral em domicilio - NestleManual de orientação nutricional enteral em domicilio - Nestle
Manual de orientação nutricional enteral em domicilio - NestleLetícia Spina Tapia
 
Manual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliar
Manual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliarManual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliar
Manual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliarLetícia Spina Tapia
 
Manual Nutrição Enteral Domiciliar - Unicamp
Manual Nutrição Enteral Domiciliar - UnicampManual Nutrição Enteral Domiciliar - Unicamp
Manual Nutrição Enteral Domiciliar - UnicampLetícia Spina Tapia
 
Protocolo clinico de proteção da criança
Protocolo clinico de proteção da criançaProtocolo clinico de proteção da criança
Protocolo clinico de proteção da criançaLetícia Spina Tapia
 
Caderno Ministério da Saúde - Saúde da Criança 2012
Caderno Ministério da  Saúde - Saúde da Criança 2012Caderno Ministério da  Saúde - Saúde da Criança 2012
Caderno Ministério da Saúde - Saúde da Criança 2012Letícia Spina Tapia
 
Livro de receitas - Vencendo a Desnutrição na Criança
Livro de receitas - Vencendo a Desnutrição na CriançaLivro de receitas - Vencendo a Desnutrição na Criança
Livro de receitas - Vencendo a Desnutrição na CriançaLetícia Spina Tapia
 
Dicas para facilitar seu trabalho de parto
Dicas para facilitar seu trabalho de partoDicas para facilitar seu trabalho de parto
Dicas para facilitar seu trabalho de partoLetícia Spina Tapia
 
Caderneta de saúde do adolescente
Caderneta de saúde do adolescenteCaderneta de saúde do adolescente
Caderneta de saúde do adolescenteLetícia Spina Tapia
 
Cadernenta de saúde da criança - menina
Cadernenta de saúde da criança - meninaCadernenta de saúde da criança - menina
Cadernenta de saúde da criança - meninaLetícia Spina Tapia
 
Além da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao parto
Além da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao partoAlém da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao parto
Além da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao partoLetícia Spina Tapia
 
CaderNenta de saúde da criança - menino
CaderNenta de saúde da criança - meninoCaderNenta de saúde da criança - menino
CaderNenta de saúde da criança - meninoLetícia Spina Tapia
 
Atenção integrada às doenças prevalentes na infância
Atenção integrada às doenças prevalentes na infânciaAtenção integrada às doenças prevalentes na infância
Atenção integrada às doenças prevalentes na infânciaLetícia Spina Tapia
 
Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...
Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...
Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...Letícia Spina Tapia
 
Programa de Formação de Professores em Educação Infantil
Programa de Formação de Professores em Educação InfantilPrograma de Formação de Professores em Educação Infantil
Programa de Formação de Professores em Educação InfantilLetícia Spina Tapia
 
Manual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas Escolas
Manual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas EscolasManual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas Escolas
Manual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas EscolasLetícia Spina Tapia
 
ORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
ORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTILORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
ORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTILLetícia Spina Tapia
 

Mais de Letícia Spina Tapia (20)

Manual de orientação nutricional enteral em domicilio - Nestle
Manual de orientação nutricional enteral em domicilio - NestleManual de orientação nutricional enteral em domicilio - Nestle
Manual de orientação nutricional enteral em domicilio - Nestle
 
Manual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliar
Manual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliarManual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliar
Manual do paciente em terapia nutricional enteral domiciliar
 
Manual Nutrição Enteral Domiciliar - Unicamp
Manual Nutrição Enteral Domiciliar - UnicampManual Nutrição Enteral Domiciliar - Unicamp
Manual Nutrição Enteral Domiciliar - Unicamp
 
Saberes e Práticas da Inclusão
Saberes e Práticas da InclusãoSaberes e Práticas da Inclusão
Saberes e Práticas da Inclusão
 
Protocolo clinico de proteção da criança
Protocolo clinico de proteção da criançaProtocolo clinico de proteção da criança
Protocolo clinico de proteção da criança
 
Caderno Ministério da Saúde - Saúde da Criança 2012
Caderno Ministério da  Saúde - Saúde da Criança 2012Caderno Ministério da  Saúde - Saúde da Criança 2012
Caderno Ministério da Saúde - Saúde da Criança 2012
 
Livro de receitas - Vencendo a Desnutrição na Criança
Livro de receitas - Vencendo a Desnutrição na CriançaLivro de receitas - Vencendo a Desnutrição na Criança
Livro de receitas - Vencendo a Desnutrição na Criança
 
Posições do parto
Posições do partoPosições do parto
Posições do parto
 
Posições do parto
Posições do partoPosições do parto
Posições do parto
 
Gravidez parto e nascimento
Gravidez parto e nascimentoGravidez parto e nascimento
Gravidez parto e nascimento
 
Dicas para facilitar seu trabalho de parto
Dicas para facilitar seu trabalho de partoDicas para facilitar seu trabalho de parto
Dicas para facilitar seu trabalho de parto
 
Caderneta de saúde do adolescente
Caderneta de saúde do adolescenteCaderneta de saúde do adolescente
Caderneta de saúde do adolescente
 
Cadernenta de saúde da criança - menina
Cadernenta de saúde da criança - meninaCadernenta de saúde da criança - menina
Cadernenta de saúde da criança - menina
 
Além da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao parto
Além da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao partoAlém da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao parto
Além da sobrevivencia - praticas integradas de atenção ao parto
 
CaderNenta de saúde da criança - menino
CaderNenta de saúde da criança - meninoCaderNenta de saúde da criança - menino
CaderNenta de saúde da criança - menino
 
Atenção integrada às doenças prevalentes na infância
Atenção integrada às doenças prevalentes na infânciaAtenção integrada às doenças prevalentes na infância
Atenção integrada às doenças prevalentes na infância
 
Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...
Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...
Dez passos para uma alimentação saudável para crianças brasileiras menores de...
 
Programa de Formação de Professores em Educação Infantil
Programa de Formação de Professores em Educação InfantilPrograma de Formação de Professores em Educação Infantil
Programa de Formação de Professores em Educação Infantil
 
Manual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas Escolas
Manual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas EscolasManual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas Escolas
Manual de Prevenção de Acidentes e Primeiros Socorros nas Escolas
 
ORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
ORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTILORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
ORIENTAÇÕES DA VIGILÂNCIA SANITÁRIA PARA INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
 

Valva ou válvula? Uma análise da terminologia correta para as estruturas cardíacas

  • 1. 550 Araujo AQ Valva ou válvula? Arq Bras Cardiol 2002; 79: 550-1. Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Espírito Santo Correspondência: Aloir Queiroz de Araujo - Rua Alfeu Alves Pereira, 60 - 29050-190 Vitória, ES - E-mail: aloirqueiroz@cardiol.br Recebido para publicação em 19/11/01 Aceito em 29/11/01 Aloir Queiroz de Araujo Vitória, ES Valva ou Válvula? Ponto de Vista “...você é portador de valva aórtica bicúspide. Em vez de conter três válvulas a sua valva só contém duas vál- vulas...” Verifica-se,naliteraturacardiológicabrasileiradosúl- timos anos, um nítido predomínio da utilização do termo valva, assim como palavras derivadas (valvopatia, valvo- plastia,valvar,etc),emdetrimentodeválvula,parasedesig- nar as quatro estruturas cardíacas e tudo que se refere às mesmas. Nos dois últimos anos, nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, constata-se a presença de valva em 16 títu- los de artigos publicados, enquanto que válvula simples- mente não aparece. Numa busca eletrônica, no mesmo pe- riódico,de1996a2001,valvaaparece157vezes,para48uti- lizaçõesdeválvula.Lendo-seoProgramaFinaldo18ºCon- gressodeCardiologiadaSociedadedeCardiologiadoEsta- do do Rio de Janeiro (julho de 2001), encontra-se que a SOCERJpossuioseuDepartamentodeValvulopatias,mas na programação científica poucas apresentações são “valvulares”.NoDicionáriodoCoração,disponívelnapági- na da SBC na internet (www.cardiol.br), verifica-se que o coração possui quatro válvulas (com seus respectivos no- mes) as quais são constituídas por valvas. Devemos conviver com as duas terminologias? Não parece adequado pois são estruturas que sofrem uma gran- de variedade de processos patológicos, presentes no coti- dianodocardiologista,eédesejávelumauniformizaçãoda linguagem. A seguir, serão apresentados argumentos que fortalecemaminoria“valvular”. Emdicionáriosdalínguaportuguesa1 ,valvaéestrutu- rabotânicaezoológica(conchas),nãoconstandocomosu- bstantivo anatômico humano. Já o substantivo válvula, além de significar pequena valva, é usado para estruturas biológicas e mecânicas, indicando, em medicina, pregas membranosas que existem no coração e em certos vasos sangüíneos para obstar ao refluxo do sangue. Na língua inglesa, o substantivo valve 2 é utilizado paraasestruturasmecânicas,anatômicas,zoológicasebo- tânicasreferidasacima.Entretanto,empublicaçõesmédicas que se referem ao coração há o adjetivo valvular (valvular heart disease, valvular stenosis). Pesquisando-se na MEDLINE(NationalLibraryofMedicine-USA),há2.195 ocorrências de valvuloplasty para apenas 117 de valvo- plasty.Nestas,agrandemaioriaédeartigosdeforadosEs- tados Unidos, incluindo algumas importantes publicações debrasileirosquepodemnãoestarsendocitadasemoutros trabalhos devido a uma indexação inadequada. Em outra busca, no conceituado The New England Journal of Medi- cine, desde 1975, valvoplasty nunca foi citado, enquanto valvuloplasty aparece em 41 oportunidades. EmPortugal,comopodeserverificadonaRevistaPor- tuguesadeCardiologia,oscolegaslusitanosusamregular- menteostermosválvula,valvularevalvulopatia. Em países cujos idiomas, como o nosso, carregam in- fluênciadolatim,tambémnãoháduplaterminologia.Asaber: França – Archives de Maladies du Coeur et des Vais- seaux: valve – valvulaire – valvulopathies. Itália – Giornale Italiano di Cardiologia: valvola – valvolare – valvolopaties. Espanha–RevistaEspañoladeCardiología:válvula– valvular – valvulopatías. É na interpretação do latim 3 que se origina a duplici- dade, em que valva significa, tanto as estruturas botânicas e zoológicas, quanto as cardiovasculares, e valvula é o seu diminutivo.Aterminologiaanatômicaatualésistematizada pela Federação Internacional das Associações de Anato- mistas,quesereuniupelaúltimaveznacidadedeSãoPaulo, em agosto de 1997. A FIAA publica a Nomina Anatomica (nomenclatura anatômica), onde todas as estruturas ma- croscópicasdocorpohumanosãodenominadasemlatime inglês 4 , sendo posteriormente traduzida para os diversos idiomas,deacordocomcadaassociaçãonacional.Aprópria Nomina não resistiu ao ímpeto reformista e passou a ser chamada de terminologia anatômica. Ficou estabelecido que o termo latinovalva deve ser restrito às quatro estrutu- ras cardíacas, enquanto que valvula denomina as demais Arq Bras Cardiol, volume 79 (nº 5), 550-1, 2002
  • 2. Arq Bras Cardiol 2002; 79: 550-1. Araujo AQ Valva ou válvula? 551 estruturasvascularesevisceraisetambémoscomponentes davalva.Assim,deacordocomaconvençãodosanatomis- tas, em latim, a valva possui valvulas. Num passado próxi- mo,atraduçãoparaoportuguês5 recomendavaocontrário. Recentemente,aSociedadeBrasileiradeAnatomialan- çou a edição atualizada da terminologia anatômica 6 . Obra louvávelpelocuidadodescritivosistemático,fazumaverda- deira dissecção humana. Contudo, caso venha a ser ofi- cialmenteadotadaporcardiologistas,deixarámuitagentecom nostalgia.Amitral,porexemplo,nãoémaiscitada,substituída quefoiporvalvaatrioventricularesquerda,entreoutrasalte- raçõesdifíceisdeseremassimiladasnaprática. Está bem estabelecido em nossas comunidades, cien- tíficaeleiga,quequalquerestruturaquepermiteapassagem deumfluidonumsentidoeimpedeoseuretornoéumavál- vula, seja num motor, numa câmara de ar, ou no coração. A tricúspide, quando lesada, tem prejudicada a sua função valvular gerando uma doença que deve ser descrita como valvulopatia. Para aqueles que defendem uma linguagem médica diretamente ligada à Nomina Anatomica, há um ponto importante a ser frisado: os termos ali presentes são anatômicos,semreferênciaaopatológico.Nãoéadequado chamar uma prótese de valva pois é uma estrutura estranha àanatomiaeirádesempenharfunçãovalvularapósseuim- plante, da mesma forma que um tubo não é valvado e sim valvulado.Comodenominarasválvulasúnicasdedetermi- nadas cardiopatias congênitas? a doença reumática provo- cavalvuliteouvalvite? Inúmerosexemplospodemserapresentadosdainade- quacidade dos neologismos advindos do uso do termo valva. Porém, há de se reconhecer que estão enraizados e a tendência dos neologismos aceitos pela maioria é de que sejamoficializados.Efoioqueaconteceu.Naúltimaedição doAurélio7 ,todosostermosmédicosqueutilizamaestrutu- ra-valvul-sãoconsideradosimprópriosouobsoletos.Res- ta saber se quem orientou os editores do famoso dicionário atentouparaospontosdevistahistórico,físico,anatômico, fisiológicoepatológico,queindicamserocoraçãohumano possuidor de quatro válvulas. Publicado em 2001, o exce- lente dicionário Houaiss 8 é pragmático. Admite a orienta- ção dos anatomistas mas preserva os tradicionais valvulo- tomia,valvuloplastia,etc. Como a maioria dos cardiologistas demonstra prefe- rênciaporvalva,ficaasugestãoparaqueaSociedadeBrasi- leiradeCardiologia,quetemgeradovaliosasdiretrizescien- tíficas,crieumacomissãoparasistematizaraterminologia cardiológica que tem estado um pouco confusa, principal- mente pela chegada volumosa de novos termos estrangei- ros, cujas traduções ou adaptações vão do correto ao ina- dequado, passando por expressões de gosto duvidoso. 1. GrandeDicionárioUniversaldaLínguaPortuguesa.Cacém:TextoEditora,1997. 2. Webster’s Dictionary. Ohio: Landoll, 1993: 325. 3. Merrian Webster Medical Dictionary. Ohio: Merrian Webster Inc., 1997. 4. Federative Committee on Anatomical Terminology: Terminologia Anatomica. Stutgart: Georg Verlag, 1998. 5. Comissão Luso-Brasileira de Nomenclatura Morfológica: Nomenclatura anatômica. Rio de Janeiro: G. Koogan, 1977: 79. Referências 6. Sociedade Brasileira de Anatomia: Terminologia Anatômica. São Paulo: Manole, 2001. 7. Novo Aurélio Século XXI: O Dicionário da Língua Portuguesa, 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 8. Antonio Houaiss, Mauro de Salles Villar: Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.