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Conto introdutório (incompleto) de Acephali, minha nova crônica online by Facebook

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  1. 1. Acephali
  2. 2. Tudo o que esperávamos naquele fatídico trinta e um de dezembro de mil novecentos e nove, ou melhor, nosso maior temor era o que chamávamos de “bug do milênio”. Somente alguns de nós esperavam algo semelhante ao que se seguiu. E quando digo nós, estou me referindo aos humanos.
  3. 3. Parece-me que Nostradamus havia dito uma frase: “De mil passarás, a dois mil não chegarás”. Bem, para ser completamente sincero, zombávamos de quem levava a sério tais previsões apocalípticas. E então, o Apocalipse aconteceu...
  4. 4. Ano 2000, do ponto de vista humano #sqn 2013.08.16_23.05_Jack Brian Finalmente o velho bastardo resolveu falar. Custou-me uma pequena fortuna em whisky e putas, mas quando ele abriu a boca quase fez valer a pena. — Tem certeza de que não quer participar da brincadeira? — ele provocou, puxando a messalina pelos cabelos, enfiando seu mastro tão brutalmente em sua garganta que eu não sei como ela conseguia segurar o vômito. A cada estocada, um breve e incontido gemido escapulia de sua garganta. A língua dançando em sua boca como se fosse um corpo estranho.
  5. 5. “Possuído pelo demônio”, me asseguraria o padre Blaise, se estivesse ali. E eu me pegava pensando pela trigésima vez naquela noite, que talvez o clérigo não estivesse de todo errado, a despeito de minha firme convicção ateísta. Brian, meu entrevistado, devia achar isso sexy. Devia pensar que aquela cena bizarra me deixava molhadinha e com vontade de cair de boca no seu tosco tacape neandertal. E, como se a visão do estupro oral daquele porco contra uma meretriz decrépita não bastasse, o fedor de perfume vencido com charuto de segunda flertava com o insuportável. — Não me enrola, Jack. Já tem metade do seu pagamento aí — eu repetia, apontando para a puta — então começa a falar. Ele pegou a garrafa de whisky, já pela metade e tomou um gole generoso. Por um instante eu vi algo em seu olhar que não era o chauvinismo sempre
  6. 6. presente. Era medo. Todos ficamos temerosos em falar sobre o Ano 2000, mas Jack Brian estava em Nova Iorque quando tudo aconteceu. E isso só tornava as coisas piores. — Está brincando com fogo, Gillian — ele balbuciou, em um tom quase paternal. Sua ereção murchou e sua linguagem corporal agora parecia a de um garotinho assustado. Eu esperei. Durante boa parte da noite eu havia lutado contra aquele babaca machista na esperança de ver exatamente aquilo: o covarde que se escondia detrás da sua fachada de macho alfa. Era aquele bebê chorão que me daria respostas. Agarrado em seu crucifixo, ele parecia ter perdido a noção de onde estava e do que fazia.
  7. 7. — Oh, Deus! — ele choramingou — Oh Deus abençoado... me perdoa... Com um gesto, dispensei a puta. Por mais que eu desejasse fotografar aquele porco com sua vara reduzida a uma tripinha, com as calças arriadas e agarrado naquele crucifixo, chorando de soluçar. Ainda assim, a informação que eu viera buscar era mais importante do que humilhação pública de um babaca. Engolindo meu orgulho, eu o abracei. — Shhhh... bebê, vai ficar tudo bem — eu disse. E o mantive ali, mesmo quando as lágrimas, o catarro e um resto de esperma mancharam meu terninho. Agarrado em mim, como se fosse um filho, o porco contou sua história.
  8. 8. Cinco anos atrás, quando as portas do inferno se abriram em Nova Iorque Jack estava bem ali no olho do furacão. Seu relato foi pontuado de rezas e pedidos de perdão, mas um pouco mais inteligível do que o da maioria dos sobreviventes. O mesmo relato. A mesma história de monstros emergindo das galerias do esgoto, surgindo no meio das sombras, tomando de assalto as ruas. As diferentes versões desse relato único se espalham pela undernet e nosso governo tenta desesperadamente negar ou, ao menos, racionalizar na surface web. O Estado de Exceção foi declarado na maioria dos países democráticos e perdurou até o começo de 2013. Desde a restauração do Estado de Direito, eu tenho corrido atrás de todas as minhas fontes para revelar ao público exatamente o que aconteceu na primeira década do século vinte e um.
  9. 9. SOBRE OS ANÁTEMAS Anátema é um nome dado pela Igreja às criaturas que se revelaram entre o final de 1999 e o começo do Ano 2000, especialmente após a Submersão de Manhattan. A explicação oficial da O.N.U. a respeito dos anátemas é vaga, na melhor das hipóteses. Algum organismo mutante que se abrigou nos esgotos e que alguém cutucou e a coisa contaminou progressivamente várias outras criaturas gerando alterações corpóreas em meses. Em suma, a explicação é que existiam crocodilos albinos em nossos esgotos que ninguém nunca viu e, como em um filme de terror barato, simplesmente emergiram para devorar a Humanidade.
  10. 10. A postura da Igreja, especialmente das religiões abraâmicas é bem mais simples e previsível. Os anátemas são manifestações demoníacas, frutos de uma era onde o Homem voltou suas costas para Deus e passou a idolatrar a Ciência. Na undernet, a versão mais divertida que eu achei foi de uma tal de SchreckNET. Eles alegam que pertencem a um clan de anátemas chamado nosferatu. Abro aqui um parêntese para explicar que Nosferatu foi um filme de 1922, dirigido por Friedrich Wilhelm Murnau e cujo protagonista, o horrendo Conde Orloff foi interpretado por Maximilian Schreck, uma inspiração óbvia tanto para o nome desse clan de MMORPG quanto para a tal SchreckNET. Continuando, eles apregoam que os anátema são, na verdade, vampiros descendentes do Caim bíblico. Vasculhando os logs, para meu próprio divertimento, descobri que esses freaks falavam da Máscara Quebrada, da
  11. 11. Ascensão do Pai Sombrio e do Surgimento da Última Filha de Eva. Isso até 2005, quando eles aparentemente se cansaram da brincadeira e pararam de atualizar a SchreckNET.

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