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aLÔ, PROFESSOR                                    Tipos que caracterizam a miscigenação no Rio de Janeiro. Carlos Julião, ...
EducaçãO Em diáLOgO                           Escravos, forros E sEus dEscENdENtEs          O mundo do trabalho e o acesso...
EducaçãO Em diáLOgOdos quase encolhidos”.2 No outro                                                               em legad...
ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa No vENtrE dE MassaNgaNa                                                  alFredo boSiQ       ua...
ENcONTROS cOm a LiTERaTuRae o nosso Alencar. Na recordação do en-genho o sentimento fundamental é o deuma harmonia cósmica...
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ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa       Ele soube, contudo, valorizarcomo nenhum outro essas histórias eas que se repetiam nos sa...
LEiTuRa, LEiTuRaS      clara dos anjos não vai          ao teatro lírico                                          nelson r...
LEiTuRa, LEiTuRaS      Feitas as libações rituais, encaminhava-se            vai observando o que se passa por detrás do q...
LEiTuRa, LEiTuRaS                                                                                Teatro Lírico, Augusto Ma...
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ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa Ébrios e cegos (fragmentos) (...)      Ninguém sabia, certos, Quantos os desesperos mais agudos...
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ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa                            Mãe Preta                mãe preta me conta uma história.           ...
ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa       a república de Palmares       nos versos de gayl Jones                                   ...
ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa       imaginação, já que nunca estive lá) ajudou a              gueses. A limitação e a controv...
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  1. 1. Secretaria de eStado de educação do rio de Janeiro Ano IV n.º 12 Da costa africana à costa brasileira Congada: festa de N. Sr.ª do Rosário, padroeira dos negros. Johann Moritz Rugendas. Publicada por Engelmann, Paris, 1835 No ventre de Massangana v História de escravos A República de Palmares nos versos de Gayl Jones v Um sincretismo estratégicoA presença africana na música popular brasileira v Heitor dos Prazeres, e de muitos! André Rebouças e a construção do Brasil v Capoeira no Rio Colonial ABRIL - JUNHO/2010
  2. 2. ReVIstA eLetRôNIcA ANO IV, N.º 12 GOVeRNAdOR Sergio Cabral Sumário VIce-GOVeRNAdOR 03 Palavra da Secretária luiz Fernando Souza secRetáRIA de estAdO de edUcAçãO 04 Editorial Tereza PorTo 05 Escravos, forros e seus descendentes: o mundo do trabalho cHefe de GABINete e o acesso à cultura escrita JoSé riCardo SarTini 07 No ventre de massangana sUBsecRetáRIO execUtIVO Julio CeSar Miranda da Hora 09 História de escravos sUBsecRetáRIO de GestãO e RecURsOs de INfRAestRUtURA 11 Clara dos Anjos não vai ao Teatro Lírico Sérgio MendeS 14 Cruz e Sousa sUBsecRetáRIA de GestãO dA edUcAçãO TereSa PonTual 17 urucungo sUBsecRetáRIA de cOmUNIcAçãO e PROJetOs 19 A república de Palmares nos versos de Gayl Jones delania CavalCanTi 23 Da costa africana à costa brasileira edItORes ResPONsáVeIs JoHn WeSley Freire e HeleniCe valiaS 25 Arte religiosa africana ILUstRAdORes 26 um sincretismo estratégico anTonio Silvério CardinoT de Souza e raFael Carneiro MonTeiro 28 A identidade da beleza cONseLHO edItORIAL 30 Herança de línguas africanas no português do Brasil anTonio olinTo - in memoriam CarloS leSSa 32 A presença africana na música popular brasileira CarloS neJar 36 André rebouças e a construção do Brasil CeCilia CoSTa Junqueira eliana rezende FurTado de Mendonça 38 Paula Brito, editor e livreiro eliSa MaçãS evanildo beCHara 40 José do Patrocínio, o tribuno da Abolição Haroldo CoSTa laura Sandroni 42 Heitor dos Prazeres, e de muitos! nelSon rodrigueS FilHo 44 100 anos da revolta da Chibata roberTo Corrêa doS SanToS AGRAdecImeNtOs 46 milton Santos: um brasileiro com “B” maiúsculo Aos acadêmicos da ABL, Alberto da Costa e Silva, AlfredoBosi, e Evanildo Bechara; a Alexei Bueno, Carlos Lessa, Cássio 48 o Brasil segundo Al-BaghdádiLoredano, Christianni Cardoso morais, Denis Bernardes, FranciscoCosta, Francisco ramalho, Gabriel Chalita, Haroldo Costa, Júlio 51 Alma da áfricaDuque, Laura Sandroni, Leonardo Dantas Silva, marco morel,m.ª Alice rezende de Carvalho, muniz Sodré, Nei Lopes, Nelson 52 A enxada e a lança / A verdade seduzidarodrigues Filho, Nireu Cavalcanti, Paulo Daniel Farah, raul Lody,rodrigo Ferrari, Stelamaris Coser, uelinton Farias Alves e Vera 53 meus contos africanos / ABC do continente africanoLúcia Acioli, pela cessão graciosa de textos e/ou imagens. E aAntonio olinto, Carybé, Nássara e raul Bopp, in memoriam. 54 Lendas africanas dos orixás / As gueledés – a festa das À inestimável contribuição da ABL; do instituto Cultural máscarasAntonio olinto; da Fundação Biblioteca Nacional; do ProjetoPortinari – seu diretor, João Candido Portinari e Suely Avellar, 55 Ensino da História e cultura afro-brasileira e indígenacoordenadora. Às editoras Bertrand Brasil, Companhia dasLetras, Corrupio, DP&A, José olympio, martins Fontes, Nova 56 Capoeira no rio ColonialFronteira, Pallas, revan, Sm, autores e editores. A Alice Gianotti, Ana Laura Berner, Andea Sampaio, 59 o rosário da negritude e o devocionário católico afro-André Saman, Arlete Andrade Soares, Beth Almeida, Denise brasileiroAlbuquerque, Fatima ribeiro, Luiz Antonio de Souza, Luizmarchesini, marcelo Pacheco, maria Amélia mello, mariaCristina F. reis, mariana mendes, manoel mattos Filho, 60 Danças e festas no Brasil do século XiX segundo rugendas,marina Pastore, Neide motta, Neide oliveira, roberta de Farias Koster e DebretAraujo, rosana martins, Sérgio Bopp, Vilbia Caetano, Vivianeda Hora Julio, pela colaboração à feitura deste número. 62 maracatus do recife A Angela Duque, por seu projeto gráfico, tratamento deimagens e arte-final da revista. Aos colegas da SEEDuC pelas 63 Fala, leitorexpressivas ilustrações, Antonio Silvério Cardinot de Souza e os conceitos emitidos representam unicamente as posições de seus autores.rafael Carneiro monteiro; a Ailce malfetano mattos, Beatriz Permitida a transcrição, desde que sem fins comerciais e citada a fonte.Pelosi martins, Cristina Deslandes, Denise Desidério, Elaine revista registrada na Biblioteca Nacional N.os 491.096 a 491.101Batalha, Gisela Cersósimo, Lívia Diniz, maria de Lourdesmachado, mariana Garcia, e a todos os que anonimamente Edições digitais: educacao.rj.gov.br/educacaoemlinhanos ajudaram a viabilizar esta edição. Contato com os editores: educacaoemlinha@educacao.rj.gov.br Tiragem da edição impressa: 5 mil exemplares
  3. 3. aLÔ, PROFESSOR PALAVrA DA SECrETáriA Tereza PorToC om o resultado da Copa do mundo de Futebol de 2010 indefinido, ao encerrarmos esta edição, elo- giemos seu país-sede – a república da áfrica doSul, por algo mais significativo do que a realização des-te evento: o magnífico exemplo de progresso humano anônimos que participaram do processo de construção dessa que já é uma das maiores nações: a brasileira. Ao publicar artigos de respeitáveis colaboradores, a revista evita erros decorrentes da adoção de conceitos de fontes secundárias, da história oficial ou do politi-conseguido, superando o que era tido como impossível camente correto. Neste sentido, ela respeita o espíritoocorrer: eliminar o apartheid (separação, em africân- das leis e, no presente número, a que trata do Ensino dader), repugnante prática de segregar pessoas e infundir- História e cultura afro-brasileira e indígena, fugindo alhes o desamor pelo simples fato de terem nascido bran- estereótipos tendenciosos bastante difundidos.cos, negros, amarelos ou mestiços. Nelson mandela, Artigos e resenhas – difícil destacá-los – todoscomo mahatma Ghandi e Luther King, liderou, à custa nos despertaram atenção pela harmonia dessa espéciede ingentes sacrifícios pessoais, optando por trilhar ca- de coral de mais de vinte e cinco vozes, que cantou nãominho diverso do primarismo do ódio, da desconfiança, como o poeta em Vozes da África, os horrores da escra-do confronto, do divisionismo, lamentavelmente tão co- vidão. Buscou, sim, revelar a riqueza dos muitos povosmuns. Eles propuseram e concretizaram novos paradig- africanos, aqui miscigenados, que produziram figurasmas. Foram, portanto, professores, ou melhor: mestres emblemáticas em todos os campos da atividade huma-da convivência pacífica – buscaram a paz aos homens na. Cabe, assim, agradecer aos colaboradores deste nú-de boa vontade –, este o significado maior da Educação! mero da revista a cessão de seus magníficos textos e Preocupou aos editores reafirmar a contribuição ilustrações que a tornam ainda mais rica e atraente.dos negros à nossa cultura desde tempos em que eram Por fim, uma sugestão-pedido aos educadores: pro-considerados pouco além de animais, nos séc. XVi a movam a convivência pacífica entre seus alunos, não per-XiX, ou mesmo cidadãos de segunda categoria, neces- mitam que a escola seja centro de difusão de preconceitossitando apoio paternalista e compensações, por serem e intransigências. Embora teorias do passado consideras-tidos como incapazes de se imporem pela própria capa- sem negativamente a miscigenação, a frutífera convivên-cidade. Nos textos desta edição negros e mestiços, por cia com o outro e a cooperação entre todos plasmaram-suas biografias, desmentem o epíteto de coitadinhos: nos a história e a cultura. o Brasil é, e sempre será, ummachado de Assis, André rebouças, Lima Barreto, Cruz país de maioria mestiça, na cor e no pensamento.e Sousa, Paula Brito, Heitor dos Prazeres, José do Pa-trocínio, João Cândido, milton Santos, nossos atletas, Tereza PorToartistas, artesãos, professores e inúmeros outros irmãos secretária de estado de educação 3
  4. 4. aLÔ, PROFESSOR Tipos que caracterizam a miscigenação no Rio de Janeiro. Carlos Julião, 1779 EditorialN esta edição, Educação em linha revisita as raízes africanas de nossa cultura. Nela apresentamos negros que, sem voz ou voto, escravizados, lu-taram por seus ideais, conquistaram espaços e legaramsignificativa contribuição à cultura brasileira. Dentre negros notáveis do séc. XX, destacamos João Cândido, figura emblemática que o jornalista marco morel, na trilha do avô Edmar morel, ressalta com 100 anos da Revolta da Chibata. E Milton Santos: um brasilei- ro com “B” maiúsculo, que Carlos Lessa exalta, “fazendo Partindo Da costa Africana à costa brasileira, do lugar o espaço geográfico por excelência”. Haroldo Cos-raul Lody afiança: embora o Atlântico separe África e ta mostra os múltiplos talentos “que nos enriqueceram deBrasil, vive-se cá profunda emoção de lá... Com emoção maneira marcante”, em Heitor dos Prazeres, e de muitos!descortinamos essa polifônica temática, pela contribui- Sobre A presença africana na música popular brasileira,ção de pesquisadores, poetas, escritores e viajantes que, Nei Lopes teme que a mPB, de raízes tão africanas, sejano passado ou no presente, deixaram suas impressões atualmente “vítima de um processo de desafricanização”.em narrativas e iconografias. muniz Sodré, em Um sincretismo estratégico, esclare- Prestigiam-nos membros da ABL: Alfredo Bosi re- ce que era “uma estratégia (política), destinada a proteger comlata, No ventre de Massangana, como um fato da infân- as aparências institucionais da religião dominante a liturgiacia de Joaquim Nabuco o confronta com a cruenta reali- do escravo e seus descendentes”. Vera Lúcia Acioli, n’ A identi-dade da escravidão e influi em sua persona de escritor e dade da beleza, divulga minucioso levantamento de artesãoshomem público. Alberto da Costa e Silva em História de anônimos que enriqueceram a arte religiosa brasileira. Fran-escravos, destaca na poesia de Castro Alves versos que cisco ramalho em O Rosário da negritude e o devocionáriocantaram a vindita negra. Evanildo Bechara, em Heran- católico afro-brasileiro relaciona o rosário cristão e o masbahaça de línguas africanas no português do Brasil, revela a islâmico. Paulo Daniel Farah relata a admiração de um imãcontribuição negro-africana à nossa riqueza vernacular. persa no séc. XiX, n’ O Brasil segundo Al-Baghdádi. Do mesmoCom Arte religiosa africana, Antonio olinto (in memo- século, Danças e festas no Brasil, por Rugendas, Koster e De-riam) relembra o escultor Simplice Ajayi do reino de Kêto bret e, de Leonardo Dantas, Os Maracatus do Recife, que têmque, ao esculpir a madeira, “simplesmente criava Deus” origem na instituição dos reis Negros. Capoeira no Rio Colo-e “ao criar Deus, Deus o criava”. nial, de Nireu Cavalcanti, completa as contribuições, traçando Na seleta de poemas do Urucungo, de raul Bopp, interessante trajetória desta arte-luta.chega-nos pela voz dos escravizados a nostalgia da áfri- A despeito de a Lei n.º 11.645, de 10/03/2008, incluirca, os navios negreiros, a vida no eito. Alexei Bueno mos- no currículo da rede de ensino a obrigatoriedade da temáti-tra a força do lirismo de Cruz e Sousa, em que “a miséria ca “História e Cultura Afro-Brasileira e indígena”, em plenoda nacionalidade, miséria orgânica, física, moral (…) é 2010 a Câmara Federal recebe e arquiva pedido de indeniza-proclamada pela primeira vez entre nós”. Nelson rodri- ção para herdeiros de proprietários de escravos libertos pelagues Filho, em Clara dos Anjos não vai ao Teatro Lírico, Lei áurea! os escravocratas, mais sensíveis ao lucro do queparaleliza machado de Assis e Lima Barreto, marcando- à vida humana, sofismam: se hoje o gado das fazendas fosselhes a identidade e a diferença. E Stelamaris Coser busca libertado seus donos não seriam indenizados?nos versos da norte-americana Gayl Jones a república Assim, a crescente violência em nosso país nosde Palmares, em “versão especial e única que interliga leva a propor que lutemos para que os brasileiros não segênero, raça, nação e continente”. discriminem por diferença de cor da pele, crenças, visões Christianni Cardoso morais nos surpreende com de mundo... Ao invés de nos considerarmos indo, euro ouo letramento de Escravos, forros e seus descendentes. afro descendentes, sejamos brasileiros – simplesmenteJosé do Patrocínio, o tribuno da Abolição, nos é apresen- brasileiros, mestiços sem prefixos que nos afastem! in-tado por uelinton Farias Alves. maria Alice rezende de corporemos o ideal de Luther King: “Eu tenho um sonhoCarvalho, com André Rebouças e a construção do Brasil, de que meus quatro filhinhos (…) não serão julgadosanalisa sua trajetória entre “urgências transformadoras” pela cor de sua pele e sim pelo conteúdo de seu caráter”.e “acomodação à letargia brasileira”. rodrigo Ferrari ho-menageia Paula Brito, editor e livreiro que acolheu os HeleniCe valiaS e JoHn WeSley Freireprimeiros textos de machado de Assis. editores4
  5. 5. EducaçãO Em diáLOgO Escravos, forros E sEus dEscENdENtEs O mundo do trabalho e o acesso à cultura escrita Uma dama brasileira em seu lar. Debret, Voyage Pittoresque, 1835 Uma senhora branca com a filha lendo uma carta de ABc. Ao redor das duas, vários escravos. esta poderia ser uma das maneiras de os escravos terem algum acesso à cultura escrita, na medida em que a criança que aprendia a ler soletrava em voz alta o que estava escrito na carta e, possivelmente, em outros textos. A leitura em voz alta era comum nos séculos xVIII e xIx, mas desta prática não se encontra facilmente documentação. Christianni Cardoso MoraisN a década de 1870, os intelectuais brasileiros consideravam a grande quantidade de negros no Brasil e a mestiçagem racial de nosso povocomo responsáveis por nossa inferioridade perante ou-tras nações. pesquisar como eram as relações dos escravos ou libertos e seus descendentes com a cultura escrita. Para preencher essa lacuna, buscamos fontes que permitiram analisar as relações estabelecidas entre escravos e forros com o escri- to em suas variadas formas, em um período no qual não A partir de 1980, os historiadores brasileiros têm se pretendia constituir projetos estatais para a escolariza-buscado rever muitos estereótipos. Hoje sabemos que, ção desses sujeitos (1750-1850).apesar de poucas etnias africanas terem desenvolvido No Brasil, somente após 1860 a escolarizaçãouma cultura escrita própria, essa não era inexistente. Sa- começou a ser vista como questão fundamental para abemos, ainda, que os escravos eram considerados, legal- adaptação dos ex-escravos à nova sociedade que prin-mente, como propriedade de seus senhores. Apesar disso, cipiava a ser esboçada no Brasil, com base no trabalhoacreditamos que as relações sociais são extremamente livre. A escolarização dos filhos de escravos constituiucomplexas e que os africanos possuíam identidade e cul- uma atribuição legal em 1871, com a Lei do Ventretura próprias, eram capazes de reelaborar essas identida- Livre. As iniciativas de escolarização da populaçãodes ao serem trazidos para cá e possuíam sua própria vi- descendente dos escravos no período pós-1871 foi umsão da escravidão, mesmo que limitada pelas imposições tema muito bem explorado por marcus Vinícius Fonse-de seus proprietários. ca, em seu livro Educação dos negros1. Atualmente há pesquisadores que se ocupam de No século XiX, quando os escravos fugiam, eraestudar a maneira como se constituíam as famílias es- comum a publicação, nos jornais brasileiros, de anún-cravas, outros que lidam com os modos como os africa- cios das fugas. Em 1828, no jornal O Astro de Minas,nos criavam uma identidade social ou mantinham suas publicado em São João del-rei, há dois interessantestradições culturais no Brasil e ainda há os que buscam anúncios. o primeiro dizia que “o escravo pardo de nomeentender como se davam as negociações entre escravos Vicente, official de alfaiate, sabe ler, e escrever, tem a core senhores, as fugas etc. mas poucos têm se dedicado a clara, os cabellos pretos, o braço esquerdo seco e os de- 5
  6. 6. EducaçãO Em diáLOgOdos quase encolhidos”.2 No outro em legado a Antonioanúncio afirmava-se que “hum filho natural de Joanna Ban- guella a quantia de seiscentospardo escuro de idade de 15 an- mil reis. Deixo a Leonor filhanos, boa estatura, feição miuda, natural de Laureana cabra, aos dedos dos pes abertos, tem quantia de seiscentos mil reis.falta de unha em hum dos dedos Declaro, que ambos estes le-dos pes, bem feito, bons dentes, gatarios forão meus escravos,sabe ler.3 e eu os libertei, e porque ainda Além das informações so- saõ de menor idade ordeno ao meu testamenteiro, que acei-bre a capacidade de lidar com a tar que naõ lhes de os legados,cultura escrita destes dois es- senaõ quando tiverem livre, ecravos fugidos, o mesmo jornal suficiente capacidade para ze-publicara uma carta, em 1827, larem os seos direitos dando-na qual se afirmava que muitos lhes somente, o que for neces-estudantes de São João del-rei, sario para se alimentarem, e“de família abastados, mas ainda os indigentes [...] hoje vistirem, e aprender a ler o referido Antonio.6aprendem com Guilherme José da Costa, homem pardo Dessa maneira, podemos pensar que, em grandecasado, de boa vida, e costumes, e [...] Antonio Dias parte, as práticas educativas com relação aos descen-Pereira, homem creoulo casado, e de igual procedimen- dentes de africanos eram exercidas no âmbito privado,to, em cujas Aulas se contao mais de cem discípulos”.4 sejam por estratégias familiares ou por decisão de seusHavia, em São João del-rei, dois professores particula- senhores. o que liga todos os casos citados é o fato deres, ambos mestiços, muito procurados pelos pais de haver uma estreita relação entre determinados ofícios e afamília. E ambos possuíam excelente reputação. Diante inserção dos sujeitos pesquisados na cultura escrita. Dede tais evidências, cabe perguntar como estes homens, 1750 a 1850, dentre os escravos ou seus descendentesescravos ou livres, todos descendentes de africanos, se com maior possibilidade de se tornarem letrados, esta-apoderaram das capacidades de ler e/ou escrever no pe- vam os que exerciam trabalhos especializados – alfaiates,ríodo em que viviam? boticários, carpinteiros etc. Por possuírem profissões es- um interessante caso publicado por Luiz Carlos pecializadas, certamente lidavam com as letras e os nú-Villalta no livro As Minas setecentistas pode nos ajudar a meros. No Novo mundo, a esfera do trabalho tornara-seresponder a questão. Em 1760, isabel da Silva de Abreu, um espaço possível de mediação entre os descendentesmulher parda, viúva, desejava educar seus filhos. mas de africanos (escravos ou ex-escravos) e a cultura escrita.o juiz de órfãos, que deveria administrar os gastos fei- No Brasil, antes da Lei do Ventre Livre, nadatos com a herança dos menores, não concordou com as se fez para que a população negra e mestiça fosse in-opções da mulher parda. Sugeriu que colocasse os filhos serida no mundo das letras, pois naquele período de-para servir. Todavia, segundo Villalta, a viúva insistiu sejava-se manter a hierarquia social e o sistema escra-em educar seus filhos: “o mais velho aprendia o ofício vista. Todavia, a despeito das restrições, houve casosde boticário, com alguém que lhe ensinava em troca de excepcionais de sujeitos que conseguiam burlá-las e sepagamento; e um outro aprendia a ler e escrever, sendo tornaram letrados. Ao retomar esta história, considera-expectativa de sua mãe que ele fosse instruído para exer- mos necessário que algo seja feito para que estas des-cer algum ofício”.5 vantagens culturais dos negros e de seus descenden- outras fontes podem revelar indícios importan- tes, construídas ao longo do tempo, sejam repensadas.tes, dentre as quais os testamentos, documentos cen- Referênciastrais utilizados em nossa pesquisa. Como exemplo, há 1 FONSECA, Marcus Vinícius. A educação dos negros: uma novao testamento feito em 1803 por Caetana rosa Santos, face do processo de abolição da escravidão no Brasil. Bragançaque declarava ter deixado Paulista: EDUSF, 2002. 2 O Astro de Minas, n. 144, 18/10/1828, p. 4. (grifos nossos) 3 Idem, n. 292, 01/10/1829, p. 4. Não há referência ao nome do escravo. (grifos nossos) 4 Ibidem, n. 14, 20/12/1827, p. 2-3 (grifos nossos) 5 Arquivo da Casa Setecentista de Mariana: Inventário de Ma- noel Pimenta, 1.º ofício, código 21, auto 571, 1760. Citado por VILLALTA, Luiz Carlos. “Educação, nascimento, haveres e gêne- ros”, In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLALTA, Luiz Car- los (orgs.). As Minas Setecentistas. BH: Autêntica, Companhia do Tempo, 2007. p. 255-256 (grifos nossos) 6 Arquivo Histórico e Escritório Técnico II/IPHAN/SJDR: testa- mento de Caetana Rosa Santos (1810, cx 119). CHriSTianni CardoSo MoraiS doutora em História/ UfmG Professora do departamento de educação/ Universidade federal de são João del-Rei tiannimmorais@hotmail.com6
  7. 7. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa No vENtrE dE MassaNgaNa alFredo boSiQ uando Joaquim Nabuco, escreveu Minha for- mação, pouco antes de entrar na quadra dos 50 anos de idade, permaneciam em sua me-mória tanto um episódio dramático da sua infância Sabemos que esses tempos remotos se fizeram não só presentes por força da memória como alimen- taram com a seiva da compaixão a obra do futuro abolicionista.como algumas figuras de intelectuais e políticos do Para reviver o espírito das reminiscências deSegundo reinado, que deixaram marcas indeléveis massangana, será preciso escolher entre dois cami-na construção da sua persona de escritor e homem nhos: ou partir da evocação da paisagem natural epúblico. social do engenho e só depois deparar a cena do jo- “massangana” é o título de um dos derradeiros vem escravo fugido que tão doridamente feriu a sen-capítulos do livro. Não me parece aleatória a sua posi- sibilidade do menino Joaquim Nabuco; ou, em sentidoção no corpo da obra: fica entre os capítulos “Eleição contrário, trazer ao primeiro plano a memória daque-de deputado” e “Abolição”, ou seja, entre memórias le encontro do menino de engenho com a realidadede 78 e 88; decênio que é o tempo forte da campanha absurda do cativeiro pra em seguida ir espraiando opela libertação imediata dos escravos. olhar pelos verdes canaviais “cortados pela alame- Para narrar as horas decisivas de ação do mili- da tortuosa de antigos ingás carregados de musgos etante, o memorialista precisou descer ao poço das re- cipós sombreando de lado a lado o pequeno rio ipo-cordações e de lá fazer emergir à tona da consciência juca”. E contemplar no centro a casa grande erigidauma imagem submersa pelo tempo. Não imagens sol- entre a senzala e a capela consagrada a São mateus.tas, mas uma só, luminosa, coerente, pregnante. Nem Escolhi a primeira perspectiva, que fica rentediz outra coisa o parágrafo de abertura do capítulo: à composição do texto. A descrição precede aqui a“o traço de toda uma vida é para muitos um desenho narração, mas não de modo linear; a cena irromperáde criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele no quadro, abrupta, desconcertante.terá sempre que se cingir sem o saber.” A paisagem evocada é imóvel e silente. Nes- Nessas palavras que o reconhecimento de ge- se pequeno domínio perdido na zona do Cabo, que orações de leitores tem guardado como se fosse uma memorialista descreve como “inteiramente fechadorelíquia de família, estão juntas metáforas que nos são a qualquer ingerência de fora, como todos os outroscaras: o traço todo da vida é a própria imagem do iti- feudos da escravidão”, até a natureza parece recolhidanerário que a obra percorre tão fielmente. o desenho em si mesma. Sob a sombra impenetrável de árvoresde criança esquecido pelo homem diz a forma primeira solitárias abrigavam-se grupos de gado sonolento. E ade uma vivência que o adulto relegou para fora do coti- água do ipojuca, que já sabemos exíguo, é “quase dor-diano dos cuidados do aqui e agora. mas é desenho ao mente sobre os seus longos bancos de areia”. Por essequal ele terá sempre que se cingir sem o saber, porque, riacho, lembra Nabuco, se embarcava o açúcar, para omesmo ocultado na sombra do inconsciente, servirá de recife. Veja-se como o movimento em direção à socie-bússola na hora das gran- dade, que tem tanto a verdes decisões. com a economia do Nor- “Os primeiros oito deste no Segundo reina- anos de minha vida do, deflui de uma água foram assim, em certo quase parada. o que está sentido, os de minha dentro só pouco e lenta- formação instintiva ou mente se comunica com moral definitiva. Pas- sei esse período ini- o que vai lá fora. cial tão remoto, po- Está esboçado qua- rém mais presente do dro, ilha e oásis, em uma que qualquer outro, linguagem que lembra os em um engenho de grandes paisagistas ro- Pernambuco, minha província natal”. mânticos, Chateaubriand 7
  8. 8. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRae o nosso Alencar. Na recordação do en-genho o sentimento fundamental é o deuma harmonia cósmica que tudo per-meia e envolve. “Durante o dia, pelos grandes calores dormia-se a sesta, respiran- do o aroma espalhado por toda a parte, das grandes tachas em que cozia o mel. O declinar do sol era deslumbrante pedaços inteiros da planície transformavam-se em uma poeira de oura: a boca da noite, hora das boninas e dos bacuraus, era agradável e balsâmlca, depois o silêncio dos céus estrelados ma- jestoso e profundo. De todas essas impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores senti- rão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruído da vaga. Eu por vezes acredito pisar Engenho de cana-de-açúcar. Johann Moritz Rugendas, séc. XIX a espessa camada de canas caídas da moenda e escuto o rangido lon- refugiar-se no aconchego materno de massangana gínquo dos grandes carros de bois...” sem defrontar-se, mais cedo ou mais tarde, com a sua Se o autor dessa página se tivesse detido na re- cruenta realidade.constituição da paisagem, teríamos um Joaquim Nabu- Lendo os diários de Nabuco, escrupulosamenteco evocador encantado da vida nos pequenos engenhos anotados por Evaldo Cabral de melo, ficamos saben-do Cabo, poeta de um mundo cuja dissolução seria a do que o nome antigo do engenho era massangano,matéria narrativa de um José Lins do rego e a fonte topônimo de origem angolana (quem diz Angola, dizantropológica de um Gilberto Freyre. mas a memória do escravo), mas que Nabuco preferiu, com o tempo, aquadro cede, a certa altura, à irrupção da cena. desinência feminina, massangana. o historiador atri- “Eu estava uma tarde sentado no pata- buiu à argúcia de Lélia Coelho Frota, organizadora mar da escada exterior da casa, quando vejo da edição dos diários, uma interpretação psicanalí- precipitar-se para mim um jovem negro des- tica para a mudança de gênero: o engenho era o re- conhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se gaço materno, e o menino, como os escravos fiéis, abraça a meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madri- não tinha pai, só mãe, ou melhor, mãe-madrinha. É nha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, testemunho de Nabuco: “minha primeira mãe, mãe- procurando mudar de senhor, porque o dele, madrinha, Dona Ana rosa Falcão de Carvalho, de dizia-me, o castigava e ele tinha fugido com massangano, a quem até a idade de 8 anos dei aquele risco de vida...” nome, não conhecendo minha mãe”. Sabe-se que os A História entra, de repente, naquele pequeno pais do recém-nascido Joaquim se mudaram de Per-mundo antigo que havia pouco o memorialista nos nambuco para o rio de Janeiro, quando Nabuco demostrara encerrado em si mesmo, fazendo um só cor- Araújo foi eleito deputado às Cortes, deixando-o compo com a paisagem em ritmo de eterno retorno do a madrinha durante quase toda a sua infância. masmesmo. Não: a escravidão feria de todos os lados do o massangano africano, talvez recalcado, repontariacerne mesmo da vida humana, e não seria possível na figura do escravo fugido que procura abrigo no ventre de massangana. Voltando à narração, importa ouvir o comentá- rio reflexivo do memorialista: “Foi este o traço ines- perado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava”. alFredo boSi Professor emérito da UsP, ensaísta membro da Academia Brasileira de Letras Autor, entre outros, de História concisa da literatura brasileira, Dialética da colonização, Engenho Massangana Literatura e resistência8
  9. 9. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa Porão de navio negreiro (detalhe). Johann Moritz Rugendas Histórias dE Escravos* alberto da Costa e silvaN ão necessitava Castro Alves de recorrer a Hei- homem bom, um médico preocupado com a higiene ne para descrever uma ou mais cenas passa- e a saúde pública. De sua ama Leopoldina e de si- das num navio negreiro. Bastava-lhe ganhar nhá Janinha, ouviu histórias de senzala, mas não asa confiança de um escravo africano e pedir-lhe que deve ter colhido ele próprio, pois a intimidade daslhe contasse suas experiências durante a travessia do moradas dos negros estava quase sempre fechada aoAtlântico. mas aquele Castro Alves que nos fez este branco. Soube, por exemplo – e isto nos contou em “Aconvite, em, “Tragédia no lar” – canção do africano” –, o que cabia num olhar rápido: Leitor, se não tens desprezo que os casais viviam em cubatas separadas, e que De vir descer às senzalas, nelas havia, à maneira de Angola, sempre aceso um Trocar tapetes e salas, fogo ou um braseiro. Por um alcouce cruel, Na infância, Antônio deve ter tido escravos como Vem comigo, mas... cuidado... companheiros de folguedos, mas esses, também meni- Que o teu vestido bordado nos, pouco teriam para contar-lhe. Adulto, não há na sua Não fique no chão manchado, No chão do imundo bordel. –, poesia indícios de que tenha algum dia se demorado a conversar com um escravo africano, nem mesmo com umao visitar, já rapaz, os aposentos dos escravos, deles crioulo, isto é, um negro nascido e criado no Brasil, sobresaiu com pressa, revoltado, a trocar apenas as pala- a sua história e a sua condição. os exemplos que figuramvras essenciais com os seus moradores. menino, en- em seus versos, de maus-tratos, humilhações e perversi-trou algumas vezes nas senzalas de Cabaceiras e da dades sofridos pelos escravos, e de ternura, devotamentoBoa Vista, mas essas seriam provavelmente melho- familiar, heroísmo e revolta da parte deles, pertencem to-res, mais limpas e mais arejadas que as das outras dos ao repertório de histórias que alimentam a pregaçãofazendas e chácaras, pois o Dr. Alves era, além de abolicionista. 9
  10. 10. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa Ele soube, contudo, valorizarcomo nenhum outro essas histórias eas que se repetiam nos salões e cor-riam, com o sinal contrário, nas cozi-nhas e senzalas, sobre suicídio de es-cravos, infanticídios, fugas de cativos,rebeliões, assassinatos de feitores e se-nhores, bandidos negros que atacavamas fazendas e vingavam-se das cruel-dades que eles e os seus tinham pade-cido – sobre a guerra aberta, portanto,e também sobre outra, velada, que osescravos promoviam contra aquelesque se diziam seus donos. Castro Alvescantou essa violência, que consideravabendita, e louvou como justo o uso daforça pelo oprimido. Celebrou tambémPalmares, talvez a recordar-se do que Trema o vale, o rochedo escarpado,sobre a vida nos quilombos lhe contaram, na infân- Trema o céu de trovões carregado,cia, Leopoldina e sinhá Janinha. Ao passar da rajada de heróis, Que nas éguas fatais desgrenhadas Versos como estes, de “Bandido negro”, considera- Vão brandindo essas brancas espadas,dos como incitação ao crime, porque louvavam os grupos Que se amolam nas campas de avós.de africanos e crioulos que, armas nas mãos, atacavam Cai, orvalho de sangue do escravo,as fazendas, deviam enfurecer os escravocratas: Cai, orvalho, na face do algoz. Cresce, cresce, seara vermelha, Trema a terra de susto aterrada... Cresce, cresce, vingança feroz. Minha égua veloz, desgrenhada, Negra, escura nas lapas voou. Era preciso muita coragem para dizer e escrever Trema o céu... ó ruína! ó desgraça! o que dizia e escrevia Castro Alves, numa sociedade Porque o negro bandido é quem passa, Porque o negro bandido bradou: que tinha por base a exploração do escravo e, por isso mesmo, o temia. Ainda havia muitos que, em Salva- Cai, orvalho de sangue do escravo, dor, guardavam lembranças da rebelião dos malês em Cai, orvalho, na face do algoz. 1835, e sobre todos pairava a ameaça de que se repe- Cresce, cresce, seara vermelha, Cresce, cresce, vingança feroz. tisse, no Brasil, o Haiti. Ainda continuavam bem vivos o espanto e o terror que tornaram, em toda a América, [...] havia cerca de meio século, os senhores de escravos, E o senhor que na festa descanta diante das notícias da revolução levada a cabo na ilha Pare o braço que a taça alevanta, caribenha, a partir de 22 de agosto de 1791, pelos es- Coroada de flores azuis. cravos, ex-escravos e negros livres, durante a qual fo- E murmure, julgando-se em sonhos: “Que demônios são estes medonhos, ram mortos todos os brancos que não lograram fugir. Que lá passam, famintos e nus? Apesar disso, ou por causa disso, Castro Alves [...] não hesitava em fazer a apologia da desforra do es- cravo. Em poemas como “Bandido negro”, desafiava Somos nós, meu senhor, mas não tremas, os seus contemporâneos, cujos valores subvertia, ao Nós quebramos as nossas algemas P’ra pedir-te as esposas ou mães. mostrar como herói o escravo vingador. Este é o filho do ancião que mataste. o espantoso é que o poeta nunca foi objeto de Este – irmão da mulher que manchaste... agressão por parte daqueles de quem era, com dureza, Oh! não tremas, senhor, são teus cães. mais que adverso, e a quem indicava como alvos legíti- [...] mos da vindita dos escravos. Em nenhum São teus cães, que têm frio e têm fome, momento os seus versos foram censura- Que há dez sec’los a sede consome... dos, nem foi ele impedido de recitá-los. Ja- Quero um vasto banquete feroz... mais o importunou a polícia. No reinado Venha o manto que os ombros nos cubra. de d. Pedro ii, os abolicionistas e os re- Para vós fez-se a púrpura rubra. Fez-se o manto de sangue p’ra nós. publicanos faziam, sem qualquer impedi- mento, propaganda aberta de suas idéias. [...] Havia ampla liberdade de expressão e só Meus leões africanos, alerta! se reprimiam as agitações de rua. Vela a noite... a campina é deserta. Quando a lua esconder seu clarão Seja o bramo da vida arrancado alberTo da CoSTa e Silva embaixador, poeta, historiador, ensaísta No banquete da morte lançado membro da Academia Brasileira de Letras Junto ao corvo, seu lúgubre irmão. * In Castro Alves: um poeta sempre jovem. [...] companhia das Letras. p.112-11610
  11. 11. LEiTuRa, LEiTuRaS clara dos anjos não vai ao teatro lírico nelson rodrigues FilhoM achado de Assis, pensador do império. Lima pai foi trabalhar como almoxarife da Colônia de Alie- Barreto, pensador da 1.ª república. Aí, pro- nados, depois da proclamação da república. Com a vavelmente, a identidade e a diferença entre demência do pai, muda-se, com ele e os irmãos, paraos dois. o primeiro, com a pena da galhofa e a tinta da a estação de Todos os Santos. Lá se fixa, primeiro mo-melancolia, encenou a vida social, existencial e políti- rando na rua Boa Vista, 76 (atual Elisa Albuquerque),ca do rio imperial, nos salões elegantes, desvelando o onde escreveu os seus primeiros romances, depois naque fazia e pensava a urbe. o segundo registrou costu- rua major mascarenhas, 42 (desde 1913) e, finalmen-mes e hábitos do arrabalde, a sub-urbe, meio cidade, te, no n.º 26 da mesma rua, de onde sairia seu fére-meio campo, isolada do centro. Ambos encontram-se tro. É provável que não frequentasse a Colombo ou aem Balzac, para quem “é necessário rebuscar toda a Garnier. mais certo seria encontrá-lo bebericando comvida social para ser um verdadeiro romancista, visto Catulo da Paixão Cearense e outros, no desaparecidoque o romance é a história privada das nações” (Peti- Bar Sul-Americano, na rua Arquias Cordeiro (meier),tes misères de la vie conjugale). Cumprem os dois os então conhecido como a “Colombo suburbana”, pordesígnios do ato ficcionnal: expor a verdade, fingindo ser local de encontro da intelectualidade da região.dizê-la, sem as exigências de objetividade, explicabili-dade, argumentalidade, documentalidade do discurso “Aposentado como oficial da Secretaria dehistórico. Ficção é fingimento (fingere, fictionem), o Guerra, continuou Lima Barreto a habitar em Todos os Santos, seu pouso, meio citadino,campo do desejo, a tensão dialética entre a ideologia meio campestre, há mais de quinze anos. Cria-(o reflexo do real vivido pelo sujeito como realidade) e ra raízes ali. Saía de casa muito cedo, depois dea utopia (o que poderia ter sido ou que pode vir a ser, remexer nos vários livros de sua estante, livroscom a arma da destruição de simulacros). imaginar o que não tinha a coragem de negociar nem mes-particular, privado, íntimo do que é geral, conceitual mo nos dias de extrema miséria. Descia a la- deira da rua, bela ruae específico no discurso de casas ajardinadas,histórico. Tarefa do dis- encantadora rua nacurso ficcional. qual, ao cair da noite, A ironia e o pes- as crianças cantavamsimismo melancólico de em roda, compondo es- sas sonoras guirlandasmachado e a ironia e sáti- de vidas em botão quera de Lima conduzem, por o romancista celebrouum lado, à compreensão numa de suas melho-do segundo reinado em res páginas do folcloredeclínio e, por outro, da suburbano. Descida a ladeira, encaminhava-1.ª república emergente. se Lima Barreto para seu club. Seu club (o es-mULAtO, ALcOóLAtRA, critor pronunciava, es-sUBURBANO crupulosamente, “clâ- be”) era um botequim Nascido na rua em que se reuniam,ipiranga, em Laranjeiras, esvaziando botelhas,filho de tipógrafo bem re- os modelos preferidoslacionado no império, o do nosso retratista demulato Lima Barreto mo- caracteres: carreiros, carvoeiros, verdureirosrou algum tempo na ilha e mascates em trânsitodo Governador, quando o No traço de Nássara, Lima Barreto e Machado de Assis por aquelas paragens. 11
  12. 12. LEiTuRa, LEiTuRaS Feitas as libações rituais, encaminhava-se vai observando o que se passa por detrás do que se pu- Lima Barreto para a estação da estrada de blica: a incompetência, o desconhecimento do mérito, ferro, metia-se num carro de segunda do pri- meiro subúrbio que passasse, e lá vinha, rumo o jogo político e a prática da chantagem e do favoreci- ao centro, observando os companheiros de mento, a ausência de consciência moral do poder e da viagem, com aqueles olhos entrefechados, de imprensa. o princípio que norteia o fazer literário de gato recém-nascido, mas, na realidade, vendo Lima é o da “literatura militante”, influência de Brune- tudo, graças à segunda vista dos intuitivos, e tière, para quem a tarefa do homem de letras seria al- armazenando mentalmente as suas observa- ções, qual se as gravasse, num canhenho, num cançar a solidariedade humana por meio da forma. Em caderno de notas.” artigo com o mesmo título, em Impressões de leitura, Lima explica: “Em vez de estarmos aí a cantar cavalhei-fLâNeRIe e mILItâNcIA ros e damas de uma aristocracia de armazém por ata- o retrato que faz Agripino Grieco – outro subur- cado, porque mora em Botafogo e Laranjeiras, devemosbano ilustre – mostra exemplarmente o mais marcante mostrar nas nossas obras que um negro, um índio, umdos traços de Lima Barreto. o flâneur (do francês, flâ- português ou um italiano se podem amar no interessener, vadiar, vaguear, perambular). o vadio que, incógni- comum de todos nós.”. Explicação muito próxima dato, dirige o seu olhar anônimo aos outros, e em quem autodefinição de seu alter ego Gonzaga de Sá.Baudelaire encontra “o observador /.../ um príncipe que, LIteRAtURA e sUBúRBIOpor toda parte, faz uso de seu incógnito”. romancista,contista e cronista, o escritor carioca vai ocupar-se da o subúrbio está presente no ambiente físico,Cidade do rio de Janeiro, na linha de manuel Antonio nos hábitos, costumes e crenças de uma populaçãode Almeida, autor de Memórias de um Sargento de Mi- bem definida. Povoam o romance homens, mulheres elícias. Este registrou hábitos e costumes, de olho, es- crianças da pobreza e da baixa classe média, o cartei-pecialmente, nos que viviam à sombra de D. João Vi, ro, o amanuense, o servidor da prefeitura, o serventedesenvolvendo a sátira de uma sociedade ainda por se da biblioteca, o guarda municipal, mas também o car-formar. o outro tem em vista, especialmente, o subúr- reiro, o tropeiro, o verdureiro. Nestas comunidades, obio, a partir do qual desenvolverá a crítica do comporta- destaque de alguns se limita ao espaço do subúrbio,mento social e político da 1.ª república. Seu olhar per- desaparecendo – como diz o próprio Lima Barreto –corre atentamente a vida da capital, que registra com quando o destacado chega ao centro, onde se tornaa tinta da militância e a pena da sátira. o personagem um anônimo, em posição servil ao chefe, mas tendo oGonzaga de Sá (Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá), que contar a vizinhos e amigos. Neste particular, Tris-por exemplo, de quem o narrador te fim de Policarpo QuaresmaAugusto machado empreende fa- é exemplar. É a estória de umzer a biografia, é um velho soltei- amanuense do Arsenal de Guer-rão, solitário, culto, nostálgico, ra. Espécie de D. Quixote, tãoanticlerical, que anda no meio nacionalista, que dirige ao Le-do povo, visita bairros popula- gislativo proposta de adoção dores, despreza títulos e honrarias tupi-guarani como língua na-e é veemente crítico do Barão do cional. Defende a exclusividaderio Branco. Autodefine-se: “Eu das plantas nacionais, da culi-sou Sá, sou o rio de Janeiro, com nária estritamente nacional,seus tamoios, seus negros, seus torna-se pesquisador do folclo-mulatos, seus cafusos e seus re, para recuperar as tradições‘galegos’ também”. Denuncia o nacional-populares já extintas.isolamento dos bairros e a falta Além de agir no plano cultural,de reciprocidade (mútua) entre Policarpo experimenta o fracas-pobres e ricos. Essa é, aliás, a so no plano econômico. investegrande questão da literatura de na agricultura, numa fazen-Lima Barreto, que fará de sua da-modelo chamada Curuzuescritura o lugar de encontro do (nome que remete à Guerraestético com o ético, numa visão do Paraguai), por acreditar nade flâneur, perfil que é flagrante fertilidade da terra brasileira.em As recordações do escrivão Acaba falido e testemunhandoIsaias Caminha. o protagonista, a miséria do campo e a falta doculto e inteligente, respeitado na apoio oficial na luta contra acidade de origem, vem para o saúva. No plano político, comorio, onde consegue emprego su- veterano oficial da Guarda Na-balterno num jornal. À margem, Lima Barreto, em 1909 cional, apresenta-se fardado a12
  13. 13. LEiTuRa, LEiTuRaS Teatro Lírico, Augusto Malta, s.d.Floriano Peixoto, para lutar na guerra civil e durante sonho de todo suburbano: dois quartos, um dandoa revolta da Chibata. A reação contra condenações e para a sala de visitas e o outro para a sala de jantar;mortes políticas lhe rende condenação e morte (o triste nos fundos, “um puxadito que era a cozinha”; fora dofim). Com feição tragicômica, o livro condena as prá- corpo da casa, um barracão para banheiro e tanque;ticas da 1.ª república, por via da sátira. E critica o o quintal, superfície razoável, onde cresciam goiabei-ufanismo, parodiando a obra Por que me ufano de meu ras maltratadas e um grande tamarindeiro copado, e oPaís, do Conde Afonso Celso, filho, aliás, do Visconde anfitrião recebia os amigos (o carteiro, o amanuense,de ouro Preto, padrinho do autor e protetor de seu pai. o guarda municipal), para jogar bisca, beber cachaça,As outras personagens são tipos da classe média de cantar (e dançar) a polca/o samba. Ali se recebia, semsubúrbio: o general que gaba as batalhas da Guerra preconceito, o compositor de modinha, com seu vio-do Paraguai, por ouvir dizer, porque delas não partici- lão. A garantia do futuro dos homens estava no em-pou; o contra-almirante, que vive lamentando não ser prego público; a das mulheres, no casamento, sonholembrado para condecoração, embora nunca tenha co- da personagem. objeto da autoconsciência de Clara,mandado um navio; a moça de família, à espera do ca- em estilo indireto livre: “Ela, porém, precisava casar-samento; o prestigiado noivo, formado em medicina, se. Não havia de ser toda a vida assim como um cãomas burocrata, sempre adiando o casamento, à espera sem dono. os pais viriam a morrer e ela não podia ficarde promoção; o compositor e cantador de modinha, to- desamparada.” Projeto que se frustra com a sedução ecador de violão, Sancho Pança de Policarpo, mal visto o preconceito, que a levam a concluir: “mamãe, eu nãopela vizinhança. sou nada nesta vida”. A ingênua Clara dos Anjos não frequenta o Teatro Lírico, mas os cinemas do Enge-cLARA dOs ANJOs NãO VAI AO teAtRO LíRIcO nho de Dentro e do meier, a que vai com as amigas. o Teatro Lírico, na rua da Guarda (atual Treze Na construção do subúrbio, o espaço do quintal (dode maio), era o mais importante do rio, até a constru- anônimo) substitui o espaço do salão; os cinemasção do municipal. Lá comparecia a platéia mais so- do meier e do Engenho de Dentro, ao Teatro Lírico;fisticada, para assistir a famosos artistas nacionais e a periferia, ao centro do poder; a vida simples, aosinternacionais. Lá Toscanini estreou como maestro. Lá hábitos europeus; o emprego público subalterno, aoa cultuada Sarah Bernhardt sofreu, por descuido de poder político; o sincretismo religioso ao catolicis-alguém, sério acidente, com trágica consequência. Na mo. A pedir uma nova forma que substituísse a quecrônica “uma noite no Lírico”, o flâneur Lima Barreto já havia cumprido o seu papel, agora dominada peloassiste, das galerias, ao transitar da elite, criticando beletrismo. o que, em certo momento, foi considera-o artificialismo e a falsidade das relações e referindo- do estilo desleixado por alguns, era, na verdade, ase à cortesã elegante que as damas desprezam mas exigência da literatura militante que se propunha, jáinvejam. Clara dos Anjos, personagem emblemática de apontando para o horizonte do modernismo.Lima Barreto, é protagonista do romance homônimoque, antes de ser publicado, mereceu mais de uma ver- nelSon rodrigueS FilHosão e um conto, este tratado aqui. A mulata é filha mestre e doutor em Letras pela UfRJde um carteiro que consegue adquirir casa própria, nelrofi@uol.com.br/www.nelrofi.blog.uol.com.br 13
  14. 14. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa cruZ E sousac ruz e Sousa encarna, mais curiosos da história da para a poesia moderna poesia entre nós. brasileira, a metáfora do Broquéis tinha por epí-Evangelho: a pedra que os cons- grafe a muito célebre frase detrutores rejeitaram tornou-se a Baudelaire, que traduzimos:pedra angular. Poesia moderna, “Senhor, concedei-menão modernista, ressaltamos, a graça de produzir algunspara não reforçar lamentáveis e belos versos que provem adisseminadas simplificações da mim mesmo que não souhistoriografia literária. Primeiro o último dos homens, que não sou inferior àquelespoeta de sua época a abrir os que desprezo!”olhos para a miséria nacional,sua poesia sempre foi difícil, A qual, no caso de Cruzaristocrática, e nisso, além de e Sousa, vinha a significarnão haver qualquer paradoxo, algo de quase programáti-ele e os outros simbolistas de co. Sabendo-se e sentindo-secerto modo voltam a indicar-nos agredido por uma sociedadeo caminho. A literatura, de fato, que havia apenas cinco anosviveu o apogeu de sua impor- extinguira a escravidão, tra-tância social entre a descober- zendo em si a explosiva uniãota da imprensa, conjuntamen- de uma pobreza completa,te com a elevação do nível de Cruz e Sousa (1861-1898) com o fato de ser um negroalfabetização no ocidente, e o puro – os mulatos claros, porsurgimento da civilização de motivos óbvios, sempre forammassa tecnológica, ou seja, alexei bueno poupados de maiores precon-um momento raro em que ceitos no Brasil – e, além demuita gente sabia ler, podia tudo, poeta, e poeta de umacomprar livros e não era bombardeada pela pletora escola com sensibilidade reconhecidamente aristo-de diversão e informações em que vivemos. crática, já desde esse livro, com sua epígrafe e com Sem dúvida, o século XiX foi o momento desse seu título, Broquéis, ou seja, escudos, ele assumia aapogeu, que durou do fim do século XVi até a segun- posição de guerreiro da arte, posição que ao fim dosda metade do século XX. Durante toda a Antiguidade cinco anos que lhe restavam de vida seria tragicamen-e a idade média a literatura foi perfeitamente aristo- te trocada pela de mártir.crática, e está voltando a sê-lo. Composto sobretudo de sonetos, e de al- Cruz e Sousa estreia de fato, após um início guns poemas maiores, todo o livro seguia quasebastante canhestro, em, 1893, com Missal, livro de ortodoxamente o programa da nova sensibilidadepoemas em prosa, ao qual se seguiria, seis meses de- que aparecia entre nós, e isso de maneira autênti-pois, Broquéis, de versos. Na esteira do Gaspard de la ca, jamais por uma adesão procurada, fingida, donuit, de Aloysius Bretrand, e do Spleen de Paris, de poeta. De fato, logo após abandonar seus iníciosBaudelaire, as prosas de Missal, em que pese certo como epígono condoreiro, já nos versos ainda he-verbalismo excessivo de que a prosa do autor só se sitantes de Julieta dos Santos, sente-se claramentelivrou nos maiores momentos de Evocações, já propu- uma tendência ao vago, à embriaguez verbal, aonha à literatura brasileira várias das características verso conduzido por associações sonoras que re-marcantes daquilo que o Simbolismo buscava, pela encontramos em Broquéis, às vezes de forma ex-musicalidade sugestiva, pela magia encantatória do cessiva ou prejudicial em determinados poemas,verbo, pela presença do inconsciente na gênese da tendência que desapareceria em Faróis e sobretu-arte, a muita distância da fábrica pensada, calculada do nos Últimos sonetos, assim como em algumase fria dos parnasianos menos inspirados que deter- obras-primas da última fase, recolhida por Nestorminavam o estilo de época do momento. mas é nos Vítor no Livro derradeiro. Cruz e Sousa, sem dúvidaversos de Broquéis, e sobretudo nos dois livros de alguma, foi o poeta que mais evoluiu na história dapoemas que se seguirão, que a escola inicia o seu poesia brasileira, partindo de um estado muito inci-triunfo estético no Brasil, o qual virá acompanhado piente até atingir, numa linha reta, as alturas maispela mais perfeita derrota social, num dos episódios rarefeitas. Formalmente, os versos de Broquéis são14
  15. 15. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRao que há de mais per-feito, característica quemanterá em toda a suapoesia por vir, e aspec-to sob o qual, ao menoseste, não lhe poderiamlançar um único se-não. Para além de umasensualidade marcada,carnal, que se sentequase fisicamente nosversos, apesar do im-ponderável, do misti-cismo e da presençaconstante da ideia damorte, havia certa for-ça cáustica e sarcásticaem Cruz e Sousa, comosentimos neste sonetoque se tornou célebre: Vista de Desterro, atual Florianópolis, terra natal do poeta. Joseph Brüggemann, 1867, Museu de Arte de São Paulo Sorriso Interior O ser que é ser e que jamais vacila Nas guerras imortais entra sem susto, A consciência de sua fragilidade social – fi- Leva consigo esse brasão augusto nanceira, para não usarmos eufemismos – sua e de Do grande amor, da nobre fé tranquila. sua família, não abandona, no entanto, o poeta, mes- Os abismos carnais da triste argila mo nesses momentos em que alcança alturas meta- Ele os vence sem ânsias e sem custo... físicas inéditas na poesia brasileira. o nascimento Fica sereno, num sorriso justo, Enquanto tudo em derredor oscila. de um filho lhe dá ensejo ao magnífico poema em quadras de decassílabos intitulado justamente, “um Ondas interiores de grandeza filho”, resultado do choque entre o seu natural trans- Dão-lhe essa glória em frente à Natureza, Esse esplendor, todo esse largo eflúvio. bordamento afetivo por esse advento e a preocupa- ção amarga, e na verdade profética, pelo seu futuro. O ser que é ser transforma tudo em flores... Com suas ressonâncias shakespearianas, é o maior E para ironizar as próprias dores Canta por entre as águas do Dilúvio! poema que o Brasil produziu sobre tal tema, depois de “o cântico do Calvário” de Fagundes Varela. As fu- os poemas de sua fase seguinte, publicados nestas previsões deste poema, todas tragicamente seà época na imprensa, só seriam reunidos em livro cumpriram, desde a ausência do poeta, já morto, parapostumamente, em Faróis, de 1900, um dos livros acompanhar o futuro do filho, até a miséria que en-mais decisivos da poesia brasileira. Composto pri- carniçadamente lhe seguiu a descendência. Funcio-mordialmente de poemas longos, entre eles se con- nário subalterno da Estrada de Ferro Central do Bra-tam alguns dos mais impressionantes da nossa li- sil, após o fracasso de sua atividade no jornalismo,teratura, ascendentes, em tom muito diverso dos perseguido na repartição por um chefe boçal, Cruzpoemas longos de Augusto dos Anjos. A sensação e Sousa se casara, entretanto, com uma bela negrada fragilidade da vida, a da pobreza como gêmea chamada Gavita, que conhecera um dia no Cemitérioda loucura, a busca discretamente desesperada do Catumbi, no rio de Janeiro. o consórcio gerariade uma salvação, algo de duradouro na imperma- quatro filhos, que inexoravelmente morreriam todosnência geral, dominam os poemas de Faróis. Em tuberculosos, como o pai e a mãe, união provável dasentido oposto à força dantesca, ao verbo barroco má nutrição com o contágio doméstico, além de, tal-dos poemas longos, os sonetos do livro se revelam vez, alguma predisposição particular.mais plácidos, mais clássicos, diríamos, que os de Faróis se encerra com um dos poemas miliáriosBroquéis, abrindo caminho à rematada arte dos da história do nosso lirismo, “Ébrios e cegos”, peçaÚltimos sonetos. Tema recorrente, a salvação pela expressionista avant la lettre, quase pré-surrealista,arte, já simbolizada pela epígrafe de Baudelaire na onde a miséria da nacionalidade, miséria orgânica,abertura do livro anterior, encontra uma de suas física, moral, como depois a mostrariam Euclides damelhores expressões em algumas quadras de “Es- Cunha e Augusto dos Anjos, é proclamada pela pri-quecimento”, outra obra-prima. meira vez entre nós. A descrição terrível de dois cegos 15
  16. 16. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa Ébrios e cegos (fragmentos) (...) Ninguém sabia, certos, Quantos os desesperos mais agudos Dos mendigos desertos, Ébrios e cegos, caminhando mudos. (...) Que medonho mar largo, Sem lei, sem rumo, sem visão, sem norte, Que absurdo tédio amargo De almas que apostam duelar com a morte! (…) A Parábola dos Cegos, 1568. Pieter Brueghel, “O Velho”. Museu Picasso, Paristotalmente embriagados, amparando-se mutuamen- rício Jobim, Tibúrcio de Freitas, Saturnino meireles,te, digna de um Brueghel, de um Bosch ou de um Carlos Dias Fernandes, Virgílio Várzea, união daque-Goya, representa praticamente o ato de nascença da les poucos que em vida conseguiram compreender apoesia moderna no Brasil. sua grandeza. morria assim, naquele 19 de março de A imediata sequência de Faróis encontra-se 1898, o maior poeta vivo do Brasil, em situação denão nos Últimos sonetos, livro final do poeta, mas penúria que ficará sempre como uma vergonha na-em alguns poemas extraordinários postumamente cional no campo das artes. um ano antes, de fato,recolhidos no Livro derradeiro, em tudo da mesma fundara-se a Academia Brasileira de Letras, e emfamília estilística, como “Crianças negras”, “Velho meio aos quarenta fundadores – onde, entre grandesvento”, “Sapo humano”, entre outros. De fato, depois homens e algumas mediocridades existia mesmo umdo período dos grandes poemas indagadores e arre- sem qualquer obra publicada, Graça Aranha – não sebatados daquele livro, a insuperável série de sonetos encontrou lugar para nenhum simbolista, muito me-publicados por Nestor Vítor em 1905 representa o nos para o paupérrimo Poeta Negro, como passaria atestamento de Cruz e Sousa, o poeta em sua máscara ser cognominado. Seu corpo foi trazido até o rio definal, a de poeta-mártir, morto e salvo pela poesia, Janeiro em um vagão de cavalos, por favor da mesmapapel que ele próprio previra para si e que com es- rede Ferroviária de que era funcionário. Concretiza-pantoso estoicismo cumpriu. Qualquer tentativa de va-se, sem eufemismos, a maldição do puro africanoantologiar os Últimos sonetos se revela extremamen- tomado por absurdos ideais de artista, genialmentete complexa, tal a unidade essencial e qualitativa sintetizada na prosa de “Emparedado”, o ponto maisdo conjunto. São os grandes sonetos do Simbolismo alto de Evocações. No seu túmulo, que seria luxuosa-brasileiro, ao lado dos de Alphonsus de Guimaraens, mente reerguido, quatro décadas depois de sua morte,verdadeiras sacralizações do papel do poeta como pelo governo de Santa Catarina, no Cemitério de Sãomedianeiro de uma arte divinizada. obra de alta espi- Francisco Xavier, no rio de Janeiro – e de onde, infe-ritualidade, quase um tratado sapiencial em versos, lizmente, foi ele há pouco exumado – foram inscritosÚltimos sonetos representa a cristalização do triunfo em bronze os dois versos finais do soneto “Triunfoanímico do poeta, engastado no contraste violento Supremo” que lhe resume a vida com perfeição: “E en-de sua derrota biográfica. Três dias antes de morrer, tre raios, pedradas e metralhas/Ficou gemendo, masaos trinta e seis anos de idade, na cidade mineira de ficou sonhando!”Sítio, atual Antônio Carlos, na mais perfeita miséria,escreveu Cruz e Sousa o seu último poema, “Sorriso Bibliografiainterior” de placidez quase milagrosa, exemplo sem cRUZ e sOUsA, João da. Obra completa. Org. Andradeigual, nas nossas letras, de superação espiritual de murici. Atualização e acréscimos, Alexei Bueno. Rio deuma situação concreta, apesar disso categoricamente Janeiro: editora Nova Aguilar, 1995.mencionada na metáfora bíblica do dilúvio. BUeNO, Alexei. Uma história da poesia brasileira. Rio de Janeiro: G. ermakoff casa editorial, 2007. A morte de Cruz e Sousa repercutiu como umterrível golpe no pequeno círculo de seus fiéis admi-radores, quase uma igreja, minúscula seita estéti- alexei buenoca capitaneada pelo dedicadíssimo Nestor Vítor – a Poeta, editor e tradutor membro do PeN clube do Brasilquem ele dedicara o tríptico “Pacto de Almas”, que fe- de sua obra poética, As escadas da torre, Poemas gregos,cha os Últimos sonetos –, da qual faziam parte mau- A via estreita, A juventude dos deuses, As desaparições16
  17. 17. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa O velho orfeu africano (oricongo). Debret, 1826. Museus Castro Maya, Rio de Janeiro Urucungo raul boppurucungo Capa da 1.ª edição, 1932Pai-João, de tarde, no mocambo, fumae as sombras afundam-se no seu olhar.Preto velho afoga no cachimbo as lembranças dos anos de trabalhoque lhe gastaram os músculos.Perto dali, no largo pátio da fazenda,umbigando e corpeando em redor da fogueira,começa a dança nostálgica dos negros,num soturno bate-bate de atabaque de batuque.erguem-se das solidões da memóriacoisas que ficaram no outro lado do mar. ÁfricaPreto velho nunca mais teve alegria.Às vezes pega no urucungo A floresta inchou.e põe no longo tom das cordas vozes que ele escutou nas florestas africanas. Uma árvore disse: – eu quero ser elefante.dói-lhe ainda no sangue as bofetadas de nhô-branco. e saiu caminhando no meio do silêncio.O feitor dava-lhe às vezes uma ração de sal para secar as feridas.Perto dali, enchendo a tarde lúgubre e selvagem, Aratabá-becúma toada dos negros continua: Aratabá-becúmMamá CumandáEh Bumba. Aquela noite foi muito comprida. Por isso é que os homens saíram pretos.Acubabá CuebéEh Bumba. Aratabá-becúm 17
  18. 18. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa Mãe Preta mãe preta me conta uma história. então fecha os olhos, filhinho: “Longe,longe era uma vez o congo. despois…” Os olhos da preta velha pararam. Ouviu barulho de mato no fundo do sangue. Um dia Os coqueiros debruçados naquela praia vazia. depois o mar que não acaba mais. despois… Ué, mãezinha, por que você não acaba o resto da história? Monjolo Chorado do Bate-Pilão fazenda velha. Noite e dia Bate-pilão. Negro passa a vida ouvindo Bate-pilão. Relógio triste o da fazenda. Bate-pilão. Negro deita. Negro acorda. Bate-pilão. Mãe Preta. Candido Portinari, 1940. Col. Particular Acervo do Projeto Portinari Quebra-se a tarde. Ave-maria. Bate-pilão. URUCUNGO chega a noite. toda a noite O poeta Raul Bopp (1898-1984), autor publicado Bate-pilão. pela editora José Olympio, é figura eminente do chama- do modernismo. Participou do verde-amarelismo, uma das correntes surgidas após a semana de Arte moderna Quando há velório de negro (1922), na qual se destacaram, especialmente, cassia- Bate-pilão. no Ricardo (Martim Cererê) e menotti del Picchia (Juca Mulato). mas sua presença ficou marcada na corrente Negro levado pra cova oposta, liderada por Oswald de Andrade, na qual co- Bate-pilão. laborará com a Revista de Antropofagia e da qual pro- duzirá a obra poética mais significativa, Cobra Norato, apropriação poética do mito amazônico da cobra Gran- de, sonoro e criativo exemplar expressionista, que de- veria constar, junto com obras como Macunaíma, Sam- Negro baqui, entre outras, da idealizada, mas não realizada, “Bibliotequinha Antropofágica”. Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens. dois anos depois da publicação de Cobra Nora- As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história. to, surge – dentro do projeto poético do autor – Urucun-A tua primeira inscrição em baixo-relevo foi uma chicotada no lombo. go (1932), cujo título, (= berimbau, instrumento de ori- gem africana) é a condensação (metáfora) da intenção, do sentido e da forma dos poemas, no intento de trans- Um dia atiraram-te no bojo de um navio negreiro formar em produto estético os temas e a linguagem doe durante noites longas e longas vieste ouvindo o barulho do mar negro, semelhantemente ao que fizera com o indígena como um soluço dentro do porão soturno. em Cobra Norato. A obra não vai ser objeto do mesmo reconheci- O mar era um irmão da tua raça. mento da outra, o que prova o fato de ter ficado na 1.ª edição. Alguns dos poemas foram incluídos em edições Um dia de madrugada, uma nesga de praia e um porto, posteriores de Cobra Norato, que incorporaram uma parte referida como “e outros poemas”. Armazéns com depósitos de escravos Observa-se, como desejamos mostrar na repro- e o gemido dos teus irmãos amarrados numa coleira de ferro. dução, interessante expressividade rítmica, com forte poder imitativo, que orquestra o universo temático, no Principiou-se aí a tua história. tratamento que confere à cultura, à contribuição e à si- O resto, o congo longínquo, as palmeiras e o mar, tuação do negro, onde não faltam, na exata medida, o ficou se queixando no bojo do urucungo. lírico e o dramático. (NRf) 18
  19. 19. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa a república de Palmares nos versos de gayl Jones STelaMariS CoSer Esta terra é minha história, Anninho, esta terra inteira. em tom de blues, de forma intimista, a partir do Nós construímos nossas casas sobre o chão da história. ponto de vista imaginário de uma mulher negra do Gayl Jones século XVii. o interesse específico pela história colonialN ascida em 1949 no estado de Kentucky, em e pela cultura do Brasil transparece na obra dessa meio à segregação racial dos Estados unidos, escritora desde seu primeiro romance, Corregidora a poeta e romancista Gayl Jones interfere na (1975), e continua em diversos textos de poesia erepresentação da história colonial brasileira através ficção. o desejo de escrever sobre a diáspora africanado poema narrativo Song for Anninho (1981), ou no continente americano motivou sua pesquisa sobreCanção para Anninho, ainda inédito em língua a história, sociedade e folclore do Brasil. Trechos deportuguesa. Afastando-se do relato habitual feito uma entrevista concedida em 1982 à revista Callaloopor homens e centrado nos heróis masculinos, mostram que o contato com a experiência brasileira,Jones privilegia o feminino: com uma mulher, a embora indireto, permitiu-lhe enriquecer seu trabalhoprotagonista Almeyda, narrando em primeira pessoa, e ter um novo olhar sobre a história do próprio país.abandona tanto o relato impessoal, supostamente Diz Gayl Jones:neutro, quanto o foco habitual em comandos, O uso da história e da paisagem brasileirasestratégias e batalhas. Em texto às vezes ambíguo ajudaram minha imaginação e minha escrita.e delirante, imagina o cotidiano – amores, disputas, Fiz a pesquisa necessária sobre fatos históricos e sociais para escrever, mas os personagenstraumas, sonhos e contradições das pessoas comuns e relacionamentos são de minha invenção/que integravam o quilombo. reescreve assim a saga imaginação. [...] Na verdade, a experiênciade luta e resistência palmarista como uma canção brasileira (puramente baseada em livros e na 19
  20. 20. ENcONTROS cOm a LiTERaTuRa imaginação, já que nunca estive lá) ajudou a gueses. A limitação e a controvérsia sobre os dados colocar a experiência americana [dos Estados já foram apontadas por diversos historiadores, como, Unidos] em nova perspectiva.1 por exemplo, Décio Freitas, richard Price e Sílvia Ao tentar costurar fato, poesia e ficção, Gayl Jones Hunold Lara. “A república Negra será sempre vistanão está sozinha: pertence a uma geração de escritoras de longe”, disse Freitas (1982), e podemos só muitoque, como ela, problematizam a ‘história’ e contam ‘histó- rapidamente tentar vislumbrar seu interior. Em seurias’ como forma de recuperar a memória, abordando fa- poema, Gayl Jones aborda pontos cruciais do pensa-tos com subjetividade e paixão. Por outro lado, o interesse mento contemporâneo, tais como o aspecto ‘construí-em pesquisar e escrever sobre a experiência feminina na do’ de documentos, a importância do relato oral paraescravidão e na diáspora africana a coloca na companhia o conhecimento de vivências e identidades à margemde historiadores de todo o continente americano que, a da história oficial, a consciência da linguagem compartir dos anos 1980, vêm-se dedicando a um tema ra- suas seleções e exclusões.ramente estudado até então. Para Linda Hutcheon (em No âmbito da história do Brasil e das Améri-Poética do pós-modernismo, 1991), obras produzidas por cas, Canção para Anninho (Song for Anninho) é parti-umberto Eco, Salman rushdie, Carlos Fuentes e Toni mor- cularmente importante pelo seu movimento de inter-rison, entre outros, seriam exemplos de “metaficção histo- pretação da diáspora africana e pelo cruzamento deriográfica”. Negando a separação tradicional entre fato e experiências e olhares que o texto promove. Assim,ficção, esse gênero híbrido “recusa a visão de que apenas uma escritora negra contemporânea de Kentucky, nosa história tem uma pretensão à verdade”, considerando Estados unidos, com uma experiência vivida e herda-que “tanto a história como a ficção são discursos, constru- da de sofrimento específico de seu tempo e lugar, re-tos humanos, sistemas de significação, e é a partir dessa pensa e registra o embate áfrica-Portugal-Palmares-identidade que as duas obtêm sua principal pretensão à Brasil e cruza tempos e espaços. Hoje, o texto convidaverdade”. Ao assinalar “a natureza discursiva de todas as ao estudo das questões da mulher e da diáspora ne-referências”, essa ficção “não nega que o passado ‘real’ te- gra em nosso país e no continente americano, obser-nha existido; apenas condiciona nossa forma de conhecer vando as conexões históricas e sua reverberação nosesse passado. Só podemos conhecê-lo por meio de seus tempos atuais.vestígios, de suas relíquias”. Através da narrativa literá- GAyL JONes: HIBRIdIsmO e AmBIGUIdAderia, pode-se repensar-se o passado, reescrever a históriae reinventar utopias perdidas. A noção de ‘pós-moderni- Desde os anos 70, Gayl Jones publica nos Es-dade’ vem sendo reavaliada, politizada e apropriada pelo tados unidos um tipo inovador de literatura, quedebate crítico no sentido de possibilitar intervir na cultura, contraria as expectativas de uma narrativa realistanum jogo intertextual potencialmente subversivo que abre unificada em torno da liderança (masculina) negrafissuras e insere marcas de gênero, raça e classe nas nar- ou centrada em personagens femininas folclorizadasrativas dominantes. e idealizadas. Jones desrespeita também fronteiras estabelecidas de raça e nação, expõe rupturas den-PALmARes escRItO em INGLês tro da comunidade negra e busca inspiração também Além do viés feminino/negro, o texto de Jones fora de seu país e de seu grupo racial. Exemplo dissoadquire especial relevância ao focalizar um episódio é Canção para Anninho (1981), um texto híbrido situ-e um tempo cujo lugar histórico foi circunscrito pela ado entre a lírica e a épica, a literatura e a história, alinguagem e interesses dos arquivos oficiais portu- revolta e o sonho, o Hemisfério Norte e o Sul. Descre-20

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