A morte Guarani
                                                      REPORTAGEM mARCELLE SOUzA
Foto: Christina Rufatto


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Ele foi encontrado em um caminho de terra batida, limitado pela mata, que conduzia à sua casa. A árvore era pequena,      ...
tempo de cortar a corda e salvar a vida do neto. Dessa vez,   combater esse mal. “É como o fogo”, ele compara.
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Matéria Rumos Itaú Cultural

  1. 1. A morte Guarani REPORTAGEM mARCELLE SOUzA Foto: Christina Rufatto Sem identidade cultural, guaranis-kaiowás têm no suicídio uma opção a uma vida de quase-nada.
  2. 2. Ele foi encontrado em um caminho de terra batida, limitado pela mata, que conduzia à sua casa. A árvore era pequena, eram tão comuns quanto hoje e ocorriam de forma mais Além dos suicídios, a morte de crianças por desnutrição quase do seu tamanho, e os pés não chegaram a ficar suspensos. Quase sentado na terra, seu corpo já não tinha vida. esporádica. Mesmo sendo uma prática antiga, o suicídio é e as brigas e os assassinatos entre os próprios índios são O cadáver pendia de uma corda, a ferramenta que encontrou para emudecer o desespero. Calou-se, era o silêncio de encarado, hoje, como uma reação autodestrutiva. A mor- sintomas de que algo está errado com a etnia. Nesse ce- mais uma alma. te voluntária surge em meio ao conflito entre a cultura nário adverso, a cultura guarani-kaiowá se deteriora. Em não-índia e a tradição de sua etnia. É o resultado da perda algumas aldeias, as crianças já não falam guarani e nem Esse era Daniel Romero, índio da etnia guarani-kaiowá que se suicidou, há dois anos, na aldeia Jaguapiré, no sul de Mato de um de seus bens mais preciosos: a terra. sequer conhecem as danças tradicionais. Sem as antigas Grosso do Sul. Uma semana antes de seu suicídio, Romero chorava a morte de um de seus melhores amigos. O velório foi referências, os conflitos se tornam cada vez mais frequen- triste, e as lágrimas que caíam eram não só pelo colega, mas por ele mesmo. A perda do teoká tes. As aldeias, hoje, estão cheias de jovens perdidos, que aspiram ao modo de vida dos brancos e não se reconhe- Tudo parecia confuso: ideias e sentimentos de dor, mágoa e tristeza se misturavam à perda de um grande amigo. O com- Teoká (teko = modo de ser; e ha = lugar onde) é a pa- cem mais como kaiowás. panheiro havia se enforcado, o motivo ninguém sabia ao certo. Esse também seria o destino de Romero. lavra que representa o local em que vivem os kaiowás. Terra que é muito mais do que um espaço, significando A adolescência guarani A esposa deixara Romero para viver com outro. Ele voltou a morar com a mãe, Lurdes Ortiz, que já não sabia mais lidar com uma fusão entre território, relações sociais, subsistên- suas bebedeiras. Naquela manhã, chegou de uma longa noite de baile com amigos. Estava triste e bêbado. Logo depois, cia e manifestações religiosas. Além da perda do teoká, Quando lhe perguntam o que é ser uma índia, a adoles- dirigiu-se à casa da família do amigo morto para a cerimônia de sétimo dia. Romero carregou a cruz até o cemitério, cho- esses índios estão sujeitos ao “aculturamento” imposto cente de 15 anos Aviane Arévalo abaixa a cabeça e res- rou mais um pouco e voltou para casa. A mãe conta que ele parecia atordoado e faminto. Apressou-se para preparar uma pela população não-índia. Os danos se manifestam no ponde: “Não sei”. Abandonada muito cedo pelos pais, ela comida. Quando o reencontrou, Romero atirava roupas e objetos para o alto e gritava: “Eu não sei o que está acontecendo!”. rompimento dos laços familiares e no esquecimento frequenta hoje uma igreja evangélica e já não conhece Inquieta, Lurdes saiu para colher mandioca. Ao voltar, o filho já não estava lá. Nervosa, sua primeira atitude foi procurar a de rezas e danças. as rezas e as danças de sua cultura. Aviane foi criada por corda, que não encontrou mais em cima do armário. parentes com quem, aparentemente, não tem muita in- timidade. Diante da repórter, permanece distante, sem Romero caminhou alguns metros e resolveu que aquela era a hora. Com a frieza de quem realmente sabe o que quer, es- colheu uma árvore, amarrou a corda e colocou-a ao redor do pescoço. O galho baixo abria espaço para a desistência. Mas Cordão de short, palavras ou movimentos expressivos. As características físicas e a timidez são traços reconhecidamente guaranis. pano, cadarço, ele não iria ceder. Decidido, soltou as pernas e morreu sentado. Aviane permanece, quase imóvel, sentada em uma pe- dra no quintal. Olha para o lago e tem uma árvore como Quando percebeu sua ausência, Lurdes pegou um dos netos e saiu em busca do filho. Encontrou o corpo e arrancou a moldura. É uma adolescente dividida entre o mundo do corda do pescoço. Romero preferiu o silêncio. Escolheu se enforcar ao invés de perder de vez o que tinha de mais precioso diante de sua cultura: a alma. alça de sacola branco e a cultura indígena. e camiseta são Em intenso conflito interior vivia, também, o jovem O silêncio do jejuvy Cláudio Fernandes. Aos 15 anos, ele parou de estudar por falta de dinheiro. Acabara de se casar com uma me- O método que usou é o mesmo adotado pela maioria dos índios kaoiwá: o enforcamento, conhecido entre eles como jejuvy, palavra que pode ser traduzida como ”aperto na garganta, sufocação”. Cordão do short, pedaço de instrumentos nina de apenas 12 anos e, diante da falta de perspectivas, encontrou na bebida alcoólica o alívio de que precisava. usados pelos pano, cadarço, alça de sacola de nylon e camiseta são alguns dos chocantes instrumentos usados pelos indíge- Depois, na morte, o silêncio que tanto queria. nas para cometer suicídio. Em uma tarde, a mãe de Cláudio, Sunciona Fernandes, la- “O jejuvy é um ato complexo, um ato individual, individualizante, mas que obedece a uma forte motivação cultural”, explica o antropólogo Miguel Vicente Foti. Ele destaca que o suicídio assume uma postura silenciosa, já que poucos anunciam o indígenas para vava roupas em um açude próximo de casa, enquanto o filho dormia. Parecia um dia normal. Até que, sem chamar cometer suicídio ato antes de morrer. Trata-se de uma afirmação da própria individualidade por meio da negação extrema do individual. a atenção da família, o rapaz se levantou da cama e, sem dar explicações a ninguém, caminhou em direção à mata Aspectos culturais estão na base de tantos suicídios entre os guaranis-kaiowás. Isso acontece porque os guaranis são vizinha. Durante dez dias, a família o procurou inutilmen- conhecidos pela alma-palavra, o ayvu – isto é, pessoa cuja morada é a garganta. Falar e manter-se ereto são as duas princi- te. No décimo dia, a avó Avelina Hara percebeu uma es- pais características de seu povo. São elas que os índios matam quando, num ato de desespero, se enforcam. O jejuvy seria As aldeias ficam, geralmente, na periferia das cidades. tranha movimentação de urubus em uma área um pouco então uma forma de calar, ou sufocar, a alma. O suicídio é uma maneira de responder culturalmente à situação em que Sem transporte, saneamento básico ou recolhimento de distante da aldeia. Mostrou ao marido, que foi investigar. vivem. A morte de Daniel Romero é um número a mais na assustadora estatística de suicídios entre os guaranis-kaiowás lixo, os índios sobrevivem do subemprego e do auxílio Ele logo reconheceu o corpo do neto, caído em uma vala em Mato Grosso do Sul. Segundo levantamento do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), em 2007 ocorreram 19 casos do governo. A chegada de drogas e álcool e a prolifera- por onde escorria um pequeno riacho. A camiseta que de suicídio, em uma população de aproximadamente 20 mil índios. Em 2006 foi ainda pior: 56 casos, número muito acima ção das igrejas neopentecostais desfiguram as aldeias. A Cláudio usara para se enforcar, muito frágil, se rompera. da média brasileira. utilização dos índios como mão-de-obra nas usinas de cana agrava, ainda mais, o problema. São fatores que se Não foi a primeira vez que Cláudio planejou se matar. Pelo É verdade que há muito tempo os kaiowás praticam o jejuvy. “Antes, índio não tinha roupa nem corda, então se enforcava somam, aumentando o número de suicídios, resposta si- menos em três outras vezes, diz a mãe, o adolescente já com o cipó”, afirma dona Emília Romero, a mulher mais velha da aldeia Jaguapiré. Contudo, ela acrescenta, os casos não lenciosa a uma situação muito complexa. tentara acabar com a vida. Em todas elas, o avô chegou a
  3. 3. tempo de cortar a corda e salvar a vida do neto. Dessa vez, combater esse mal. “É como o fogo”, ele compara. porém, chegara tarde demais. “Uns dias antes, ele falou “Eu não tenho força para lutar contra ele.” Muitas que ia morrer e que ninguém ia achar seu corpo”, conta a vezes, o suicídio é atribuído a um feitiço, como se mãe, com uma objetividade assustadora, como se falasse esses índios fossem “levados para a corda”. “Às ve- do suicídio de um estranho. zes, um homem quer namorar uma menina, daí faz um feitiço para ficar com ela. Isso dá certo mesmo, A morte anunciada enfim se cumpriu. Ela calou não mas pode ser que ela não consiga ficar com ele, só a alma, mas também as esperanças do jovem de então se enforca”, explica Edivaldo Benites, que es- 15 anos. Sem manifestar muita tristeza, mãe e avó re- tuda o fenômeno em sua etnia. lembram detalhes da morte do menino. Os kaiowás preferem não comentar os suicídios, mas, quando “A gente fica com a cabeça confusa, os pensamen- enfim o rememoram, se esforçam para afastar a dor. tos embaralhados, e pensa em se enforcar”, expli- Sunciona se limita a dizer que sente saudades do fi- ca a jovem Delmira Velário Borvão, indígena de 24 lho. “Ele era um menino moreninho, bem bonito, você anos que já pensou em suicídio. “Eu acho que foi precisava ver”, lembra. feitiço que alguém fez para mim”, continua ela, re- ferindo-se à tristeza que sentia após sua separação Um mal contagioso do marido. Delmira acredita que só não se matou por causa dos três filhos, gerados em um casa- Falar sobre o assunto não é fácil: as famílias prefe- mento que durou sete anos. Já Sunciona, a mãe de rem ficar quietas, e mesmo os rezadores e os líderes Cláudio, acredita que só a reza poderia ter salvado indígenas optam pelo silêncio. Para eles, falar sobre seu filho. Ela lamenta não tê-lo levado a tempo a o suicídio é atrair esse ”mal” para sua comunidade. um rezador, que poderia ter combatido o mal que O enforcamento é encarado como algo contagioso. o encaminhou para a morte. Quanto mais é lamentado, mais pode se alastrar. O rezador explica que a demora no enterro do morto Os mais velhos acreditam, em geral, que as rezas pode estimular outros índios ao suicídio. A amea- são a melhor arma de combate aos suicídios. “No ça vem das almas desencarnadas. “Ali não tem só ano passado, tivemos três enforcamentos em 15 a alma do morto, mas tem também outras almas dias. Reunimos todas as pessoas da aldeia para dois de gente que morreu do mesmo jeito. Então, que- dias de reza. Chamamos, principalmente, os jovens. rem pegar o corpo das outras pessoas”, conta Luiz E nunca mais tivemos esse problema aqui”, conta, Borvão, rezador kaiowá. satisfeito, o rezador Luiz Borvão. A seu ver, o proble- ma maior está no afastamento da cultura guarani. Para Borvão, foi a influência do amigo suicida que “Jovem carregou muito pensamento do branco. Vai levou Daniel Romero a se enforcar. “Ele já foi para estudar, daí não quer mais falar guarani. Não sabe lá com a alma fraca. Daí, as almas pegaram o corpo mais as danças do kaiowá. Perde cultura dele, mas dele e quiseram que fizesse o mesmo”, explica o re- não pode ser assim”, diz. E arremata com ênfase: zador. De acordo com a tradição kaiowá, o suicida “Riqueza de branco é papel. Então índio quer papel não pode ser velado e a família não deve chorar sua também. Mas a lei do índio está no mato”. morte. Antigamente, o corpo deveria ser enterra- do, o mais rápido possível, em um buraco cavado Em Mato Grosso do Sul, com rezas e conselhos, no lugar em que o índio se enforcara. Ainda hoje, os guaranis tentam – infelizmente sem muito su- as crianças são proibidas de ver o morto para que, cesso – combater o mal que invade suas aldeias. É mais tarde, não o imitem. uma população que responde silenciosamente aos eventos da história. À perda da terra, da língua e Foto: Christina Rufatto Os kaiowás acreditam que as almas dos suicidas das próprias tradições, ela dá uma resposta de mor- não encontram o mesmo caminho seguido pelas te e de autodestruição. O confinamento gera o si- outras. “O suicida é um espírito perdido”, diz Borvão. lêncio. O impacto é mais forte entre os jovens, que Ele afirma que alguns rezadores e pajés conhecem se dividem entre a cultura não-índia e a kaiowá. São rezas específicas para ajudá-los. Mas se exalta ao almas que não se salvam, mas que preferem morrer Para o rezador Borvão, jovem carregou muito do pensamento do branco tentar explicar por que ele mesmo não consegue a ter de viver uma vida que não é a sua. 6

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