INFORMALIDADE NO PROJETO FORMAL DE HABITAÇÃOTrabalho Final de GraduaçãoAriel Macena
Informalidade no Projeto formal de Habitação        Orientador        Sílvio Soares Macedo        Banca Examinadora       ...
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Informalidade no projeto formal de habitação            necessidade de projetos padronizados e de baixo custo             ...
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  1. 1. INFORMALIDADE NO PROJETO FORMAL DE HABITAÇÃOTrabalho Final de GraduaçãoAriel Macena
  2. 2. Informalidade no Projeto formal de Habitação Orientador Sílvio Soares Macedo Banca Examinadora Luís Mauro Freire Luiz Girardi Raquel Rolnik Trabalho Final de Graduação FAUUSP, 2012 MACENA, Ariel. Informalidade no projeto formal de ha-TFG bitação. Trabalho final de graduação entregue à FAUUSP para obtenção do título de bacharel em arquitetura e ur- banismo. São Paulo, 2012.
  3. 3. 07_agradecimentos 09_guia de uso 11_introdução 17_espaço e habitação 35_a questão da cidade 47_vila prudente 57_intervenção 91_pós-projeto 95_bibliografiasumário
  4. 4. 6
  5. 5. Gostaria, primeiramente, de agradecer à FAUUSP por ter proporcionado diversas oportunidades de ensino e vi- vências, indispensáveis para a construção, às vezes literal- mente, de quem sou hoje. Ao meu professor, orientador e amigo Sílvio Macedo, pelo aprendizado, broncas, correções em todos estes meus cinco anos e meio de fau. Muito obrigado, mesmo. A todos os meus amigos, sem exceção, que de alguma maneira torceram - e sofreram - comigo na produção des- te trabalho, Guto, Andressa, Thi, Li, Má Frota, Fê Sophia, Alex, Thaís, Gardelin, Lang, Lu, Fezão, Lincoln, Rick, Piu, Guaris, Gil, Ju, Grotti, e todos os outros pela pre- sença sempre constante quando mais precisava! A todos, meu muito obrigado, vocês são demais! Por fim, não menos importante, à minha família, pelo suporte, presença, perto ou longe, sempre comigo. E aos meus pais, exemplo e guia, por apoiarem minha trajetó- ria, ainda que às vezes tortuosa, por mais um ciclo findo. E é a eles a quem dedico este livro. Muito obrigado, por tudo.agradecimentos 7
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  8. 8. A ideia de intervir na Bacia do Ribeirão do Oratório, na Vila Prudente, em São Paulo, deu-se justamente pelo fato de, nos últimos 2 anos, eu ter trabalhado dentro da Supe- rintendência de Habitação Popular da Regional Sudeste de SP - HabiSP-Sudeste, com o trabalho de pré-urbaniza- ção e pós-ocupação em favelas que receberiam interven- ção pública para a construção de moradias de interesse so- cial. O conhecimento visto “de dentro” dos processos que regem a produção de habitação de interesse social no inte- rior do município de São Paulo acabou por despertar em mim certa “resistência” a tais métodos. E digo resistência, pois achava incompatível tal processo de habitação ser su- marizado a tal simplicidade diante de um organismo tão complexo que é a favela. Ainda que tivesse ciência de que a necessidade de infraestrutura e a aplicação de projetos de acessibilidade, áreas livres, resoluções ambientais, en- tre outras superposições projetuais que podem ser coloca- das sobre um determinado território, levam a processos de remoção, parcial ou total, não estava confiante de que as soluções espaciais assim alcançadas correspondiam às melhores possibilidades. A ideia de propor alternativas de projeto, e não a alternativa de criar um projeto definitivo de urbanização é o escopo e meta deste Trabalho Final de Graduação. Se por um lado a experiência no interior do poder público incutiu o processo de trabalho do projeto de ha- bitação social, por outro lado trabalhar por 2 anos como coordenador de Novas Comunidades da Organização Nãointrodução Governamental Um Teto para Meu País - Brasil me deu dimensão do que é a vida em comunidade. Ao conhecer - de muito perto - o trabalho e o cotidiano de diversas famí- lias que moram em favelas em situação de extrema pobre- za, saber o nome delas e ver como a vida em comunidade 11
  9. 9. é muito mais complexa do que se tem vista a um primeiro blicas e possui diversos problemas de cunho urbanístico,olhar, esse outro ponto de vista - o do morador da favela - vem associado à ideia das habitações precárias que os sol-foi foco de atenção de minha parte e desenvolvimento de dados erigiam em Canudos para fazer o cerco à cidade, napesquisas em planejamento participativo e organização base de uma árvore, a Favela (Cnidoscolus quercifolius).comunitária. Esse trabalho, tão próximo de uma realida- O termo foi posteriormente expandido às habitações quede que parece estar tão distante da qual me insiro, torna surgiam no Rio de Janeiro, no Morro da Providência, deo profissional que participa de seu trabalho, no mínimo, maneira precária e irregular. Note que já na própria defi-diferente (e eu diria que, o arquiteto urbanista em si é nição, já colocamos alguns pontos sobre o que se esperaum destes profissionais que sem dúvidas sofrem grandes de uma favela:mudanças com um trabalho como este). - é um assentamento precário, de construções feitas à Neste sentido, a soma destas duas experiências - aliada revelia de uma legislação;a outras que tive também com favelas e habitação social- me inseriu numa dinâmica de trabalho e num método -o local define já certa segregação com relação à cidadede projeto que não é muito comum. Acredito que o fato produzida, já que se constrói à revelia do regular;de aliar duas dinâmicas tão opostas - por um lado o traba-lho com o poder público; por outro lado, o trabalho com - está associado a precariedade e à baixa renda - nãoo líder comunitário (e o tráfico, em algumas instâncias) tem possibilidade de se inserir no mercado imobiliáriocria o questionamento acerca do que seria o espaço urba- formal.no. Mais do que isso, cria um conf lito interno com o serarquiteto urbanista, faz repensar a ideia de intervenção. Efaz repensar sobre qual bandeira devemos propor o proje- A favela surge como uma necessidade. A exclusão doto de cidade. Sobre a ótica da melhoria, o arquiteto como mercado imobiliário rentista, na impossibilidade de pagardetentor da solução, o poder do desenho? Sobre a ótica os aluguéis, somado à necessidade de se trabalhar aca-do partidarismo político de muitos líderes comunitários ba criando, numa explicação superficial, a produção deque na verdade insistem em se beneficiar do projeto em habitações precárias nas regiões próximas aos centros dedetrimento de seus “colegiados” moradores? E o que seria trabalho, sejam fábricas, as regiões centrais, ou quaisquerurbanizar, seria remover pessoas que tem uma conexão outros pontos de emprego. Pela maneira de sua constru-com o local? Seria minimizar os impactos decorrentes ção, ela não possui ruas; a estrutura viária interna à favelade um projeto de infraestrutura? Seria dar uma moradia é feita de becos, vielas, trilhas até. Além disso, não possuidigna aos residentes? Como ficam as relações sociais pós- nenhum tipo de infraestrutura definida ou lote própriointervenção? Afinal, como intervir em uma favela? Como de cada morador. Porém, a sua situação de alta densidadeintervir em pessoas? Como criar urbanidade? construtiva e demográfica cria situações urbanisticamen- te ruins, como falta de insolação, excesso de umidade e ventilação, levando a graves consequências para a saúde. A palavra favela no Brasil, utilizada para determinar Em função da situação socioeconômica de seus habitan-um assentamento precário irregular que ocupa áreas pú- tes, problemas como desnutrição, desemprego também12
  10. 10. são características comuns, sem contar a baixa escolarida- público e o privado. Tecnicamente, podem ser largas oude. Boa parte de seus moradores são imigrantes, nordes- estreitas, com áreas verdes e de recreação, com calçadastinos (no caso paulista), negros, em grande parte, porém amplas, com amplo tráfego de veículos, ou vazias. Porémisso não é fator homogêneo. A situação em que se encon- sua caracterização se dá em acordo com a apropriação quetram vem de encontro à pergunta “o que é cidade”. É urba- se faz dela pelas pessoas, por seus usos e sua diversidade.no? É viável, é ideal? Pensar em cidade aqui pode parecer A rua só existe enquanto cidade, enquanto espaço urbano.irreal, mas não está a favela inserida no urbano? A proble-mática que aqui se finda é que ela não está efetivamente No caso da favela, onde estão as ruas? Em seu entorno,conectada. Ela está na cidade contemporânea, mas não se ruas que delimitam seu espaço, mas e internamente? Asconecta com o tecido urbano do entorno. Temos um pro- questões do loteamento e da construção à revelia levamblema de inserção urbana. a uma urbanização sem ruas, o que normalmente gera deficiências no que tange a problema como incêndios e O espaço urbano produzido tradicionalmente compõe remoção de pessoas em caso de acidentes. Porém, traçan-a cidade de ruas, avenidas, parques, quadras, bairros. O do um paralelo com as ruas, temos as vielas. Elas exercemviário define, em princípio, a cidade. A casa e o lote defi- exatamente a mesma função que as ruas, porém não sãonem a quadra. E a superposição destes espaços ao espaço capazes do trânsito de veículos. A vida acontece ali, nosda vivência, da convivência - o espaço do existir e intervir, pequenos espaços de 2,5 m de largura. São conexões, taisda ação humana - gera o que chamamos de espaço urba- como as ruas, porém não possuem as mesmas funciona-no. E neste sentido, os padrões de urbanização - que nada lidades que a rua.mais são dos que as diversas maneiras de se criar o espaçoconstruído - definem o que chamamos de tecido urbano. A meu ver, isso não é uma cidade plena, é um frag-Neste sentido, o bairro cosolidado, a favela, os conjuntoshabitacionais constituem diferentes tipos de tecidos queagregados formam a cidade. O que os conecta, sua carac-terística essencial, é a rua. Entender a rua é entender um pouco sobre o que é oespaço e como as pessoas o criam - e mais efetivamente, orecriam. Na cidade, rua é local de encontro, de produçãosocial, é nele que a vida acontece. Paralelamente a isso, arua também é a base da cidade, da conexão do tecido, espa-ço que une e separa ao mesmo tempo, e define o domínio favela na zona sul de são paulo. sem autoria 13
  11. 11. mento. É pouco digno viver em espaços apertados e sem São muitas perguntas que não nesariamente possueminsolação. Existe vida ali, claro. Mas, como arquiteto, a respostas imediatas. E muitas sequer tenho insumos parapermissão a tal situação é mostrar conivência com uma começar a resolver; mas a ideia do projeto é fundamentalrealidade bastante precária. Como é possível aceitar que para entender que é possível pensar em algo melhor, reverse more em beiras de córregos, em locais de risco, em os critérios e definir prioridades, ou métodos de trabalhocasas de alvenaria sem estrutura e barracos de madeira? para problemas específicos, como por exemplo, habitação x APP urbana. Neste sentido, o que é urbanizar? É possível transfor-mar uma favela num bairro? É possível construir cidade O arquiteto não irá resolver os problemas do mundo, ee cidadania? Os questionamentos identidade do local x isso é fundamental entender. Mas o importante é não seprojeto; infraestrutura x desapropriação; habitação x áreas acomodar com esta situação, saber que a crítica deve serde risco são os principais pontos que a discussão mostra. sempre reavivada como maneira de administrar melho-Se formos levar essa discussão até o próprio projeto de rias e pequenas mudanças. E construir, da melhor manei-habitação social e à apropriação pelos moradores, a temá- ra que é possível, o projeto de cidade. Essa é minha óticatica aqui seria infinita. Dentro destas questões, muitas de trabalho. Ou, talvez, minha ética para o dia a dia dovezes urbanizar um local desse - consolidar uma favela arquiteto urbanista.- não é a melhor das opções. Mas remover completamentetambém não é! A análise caso a caso corresponde à única Neste sentido, o presente trabalho pretende abordarresposta possível para esse problema. O ensino de projeto os aspectos que permearam a produção do espaço urba-permeia uma crítica à especificidade do local, então por- no paulistano, identificando em qual contexto tem sidoque fazemos projetos de urbanização repetitivos? Porque trabalhadas questões como a urbanização de favelas e ao público alvo não necessariamente se insere no mercado produção de conjuntos habitacionais, questões bastanteimobiliário direto? Por isso, urbanizar é projetar. E aqui, recorrentes em São Paulo quando analisamos os proces-não apenas compreendendo a ideia da intervenção da fa- sos de produção do tecido urbano. Para tanto, busca-sevela, mas a ideia essencial de que é preciso construir e identificar, no contexto atual, o que é a cidade que produ-propor cidade. É preciso ser urbano! É entender o local em zimos, efetivamente, seja informalmente, seja pelo podertodas as suas especificidades e avaliar qual a melhor solu- público. O estudo de caso será o PAI - Perímetro de Açãoção. E é um projeto de extrema complexidade que envolve Integrada Oratório 1, localizado em Sapopemba, no distri-diretamente a melhoria de milhares de pessoas, direta ou to de Vila Prudente. Neste sentido,indiretamente. Quando o direito à moradia deve vir sobreo direito ao meio ambiente? Quando foi que Habitação O capítulo 1 traz uma abordagem sobre a formação ur-se restringiu apenas à moradia, e não ao livre acesso aos bana de São Paulo e as políticas públicas voltadas para aequipamentos públicos e à cidade? Quando o morar virou produção habitacional que permearam o desenvolvimentorepetição de prédios e enclaves desconectados da cidade, e da cidade. A falta de um planejamento para o desenvol-quando a política habitacional será uma política de cunho vimento urbano somado à velocidade de crescimento dasocial e não apenas uma política financeira? urbe no século XX gerou uma cidade com graves defi-14
  12. 12. ciências de infraestrutura, como é o caso da política de informações gerais sobre o sistema de favelas e outras in-Transportes, e com ocupação de áreas impróprias (como tervenções podem ser encontradas ali.as Áreas de Preservação Permanente – APP, por exemplo).Neste caso, o capítulo pretende esclarecer quais as estra- O capítulo 4 corresponde aos preceitos sobre o qualtégias de ocupação e produção do espaço, seja ele formal, a proposta de projeto foi estruturada. a crítica estrutura-como a produção definida pelo BNH, ou informal, como da neste capítulo pretende fazer uma análise sobre quaisas favelas, e levantar quais as principais características de os parâmetros que, na teoria, cada projeto se estrutura, ecada uma destas estratégias como maneira de produzir como eles se relacionam entre si e com o meio ambienteuma crítica sobre a produção do espaço urbano paulista- (urbano, no caso). Como intervir em diferentes tipos deno. tecidos urbanos, e o mais importante, como intervir em um determinado tipo de tecido, o da favela? O capítulo 2 irá trazer uma abordagem sobre a ques-tão da cidade e da intervenção urbana. Como se realiza O capítulo 5 corresponde a uma série de consideraçõesa produção do espaço no âmbito do morador do bairro, pós projeto, com descrição dos resultados finais alcança-questões de identidade de vizinhança e pluralidade serão dos, desvios teóricos e projetuais na organização do espa-discutidas dentro de um âmbito da cidade como organis- co da proposta, e um breve comentário sobre a ideia demo social e como direito de todos. projetar o ambiente urbano em si. O capítulo 3 propõe uma primeira aproximação com aárea de intervenção, localizada na Região sudeste de SãoPaulo - O Perímetro de Ação Integrada Oratório I. Dados, 15
  13. 13. 16
  14. 14. Formação urbana de São Paulo XIX-1930 / Habitação como política pública? A São Paulo do Século XIX em nada espelhava a me- trópole que viria a ser poucas décadas depois, ao menos não ref letia, com efeito, suas maiores características. A cidade de São Paulo era tipicamente da elite: era uma ci- dade de ricos cafeicultores, vivendo no final do período escravocrata. Os tipos de casas predominantes eram casa- rões assobradados, pequenos palacetes inspirados numa sociedade que se buscava europeia. Todavia, pela própria maneira de retratar a historia - da elite da época, e não da cidade em si, datam-se pequenos acervos, fotos, quadros, que retratam parcialmente a população. O núcleo urbano se desenvolvia em torno do triângu- lo central. As três Igrejas - São Bento, São Francisco e a Paróquia do Carmo delimitavam, indiretamente, o perí- metro da cidade. Tudo se desenvolvia ali, de comércio a habitação. O que se retratava até então eram as elites. E essa maneira parcial ref lete no pouco conhecimento que temos das habitações da época. A cidade de São Paulo também era de trabalhadores, ainda que suas habitações não fossem retratadas. Tratava-se de pequenos casebres, de parco acabamento, e pelos artistas da época, não dig- nas de nota, ou sendo seus moradores não capazes de pa- gar por um recurso desse tipo. Assim sendo, não se pode falar em favelas em Sãoespaço e habitação Paulo no Século XIX. Nesta época, meados de 1890-1910, apenas o Rio de Janeiro já possuía esse tipo de aglomera- ção urbana, em decorrência da Reforma Passos (Ferrei- ra, 2009). Em São Paulo, o que existiam eram habitações 17
  15. 15. precárias, mal construídas, em baixas condições de salu- Nesse momento, em função do aumento significativo dobridade, porém vinculadas ao tecido urbano, no interior mercado de trabalho na cidade, e visto a fixação de algunsde bairros; tratavam-se apenas de casas mais simples. imigrantes na capital, o incremento habitacional era ne- cessário, ainda que ocorresse de forma precária. Porém, Contudo, elas passaram a ser um real problema para o adensamento habitacional leva a problemas de outraso governo quando do aumento da imigração em São Pau- ordem na cidade, como a falta de infraestrutura básicalo, associado à indústria cafeeira, que promoveu diversas (água, esgoto e coleta de lixo).modificações nas atividades urbanas por conta do altocontingente de superávits gerados pelos seus produtores. Neste sentido ainda não estamos falando em assenta-De 1880 a 1900, São Paulo recebeu centenas de milhares mentos precários, porém em habitações insalubres, con-de imigrantes que vinham para trabalhar na capital (Mor- dicionadas por uma necessidade de habitar junto ao cen-se, 1970; Santos, 2007), amparados pela Lei Provincial tro. Nesta época, todas as habitações ainda eram junto aode 28 de outubro de 1885, que estabelecia o contrato de primeiro triângulo central. Se formos avaliar, apesar dareembolso de passagem para o imigrante e sua família. É proximidade física, o que se revela é uma grande segrega-certo que a grande maioria dos vindos não fixaram resi- ção social. A diferença se faz presente, por exemplo, nestedência na capital, muitos foram trabalhar no interior, em relato:lavouras; ainda assim, com esse estímulo, São Paulo sofreum grande desenvolvimento em função da expansão das “A [cidade de] São Paulo do último quartel do Século XIXatividades, do aumento da cafeicultura, recebe também (...) é comentada por diversos autores e viajantes, que tratamas primeiras linhas de transporte elétrico e as ferrovias. dos mais variados aspectos (...). Em contrapartida, um véu18
  16. 16. negro encobre os alojamentos dos trabalhadores: ninguém os pouco mais de 30 anos. Em termos absolutos, a popula-via, ninguém os descrevia”. (Bonduki, 1998) ção imigrante que chega a São Paulo ultrapassou em 200 000 pessoas, sendo que parte se fixa na cidade, uma par- Esse problema foi visto, na verdade, como uma oportu- te pequena, e outra irá trabalhar no interior do estado,nidade bastante rentável de produção habitacional. A so- nas fazendas. A população, que era tipicamente compostalução engendrada - e aqui não estamos falando da solução por uma elite local, de comerciantes e cafeicultores, sofreestatal, uma vez que o estado à época constituía-se liberal uma mudança significativa. Bonduki (1998) aponta que ae não intervia diretamente nas ações, mas estimulava a segregação social nesta época torna-se visível, porém nãoação privada - foi utilizar o incremento monetário gerado em termos espaciais ainda; a segregação via espacializa-pela cafeicultura com forma de investimento em habita- ção torna-se mais evidente com o padrão periférico de ur-ção. Ou seja, como a cafeicultura passava por momentos banização. A tolerância era ligeiramente maior, uma vezde oscilação, ora com grande alta, ora com grande baixa, o que as casas de todos localizavam-se nos mesmos bairros,que surge é a construção de moradias para aluguel como no Centro, em Santa Cecília, no Bexiga, na Barra Funda.forma de manter um rendimento extra. Tais habitaçõeseram construídas por profissionais liberais, por funcioná- Assim sendo, constroem-se diversos pátios-cortiços,rios públicos, ou mesmo por latifundiários que posterior- hotéis, pensões, cortiços, casa de cômodos, e as “casi-mente viram na cidade uma possibilidade a mais de lucro nhas”, que eram uma das principais tipologias de habita-e renda. Chama-se isso de política rentista (Zílio, 2011). ção. Eram casas simples, “sem reboco”, pequenas, porém que às vistas da sociedade da época, eram consideradas Porém, com a grande quantidade de imigrantes, torna- atrocidades. Todo este incremento habitacional, porém,se impossível a manutenção da infraestrutura mínima. E, não foi acompanhado por um aumento de infraestrutu-além disso, ra. São Paulo crescia a ritmos vertiginosos para a época, só que como não havia intervenção do estado, água ainda “O investimento nesses alojamentos era altamente ren- continuava sendo buscada em fontes espalhas pela cida-tável em virtude do intenso aproveitamento do terreno e da de, esgoto era jogado em qualquer lugar. Se for analisareconomia de material possibilitada pela sua organização es- a situação habitacional das novas unidades construídas,pacial, da péssima qualidade da edificação e da inexistência localizavam-se em locais péssimos, várzeas, áreas inun-de custos de manutenção” (Bonduki, 1998). dáveis, por conseguinte charcos e lodaçais, tipicamente insalubres. E isso era necessário pois não se previa alta investimento inicial para tais casas, ou o locatário não te- Para apontar um dado, estima-se em aproximadamen- ria possibilidade de arcar com o aluguel da casa. A situa-te 1000% o incremento populacional em São Paulo em ção se torna insustentável com o surto de cólera em 1893, 1 - rua capitão salomão, 1900. fonte: biblioteca mário de andrade 2 - os triângulos históricos de são paulo 19
  17. 17. 320
  18. 18. quando o poder público é forçado a tomar uma atitudecom relação à situação. Em termos de poder público, o estado liberalista defins do Século XIX não intervém diretamente, mas tomaatitudes para que a iniciativa privada seja responsável pelodesenvolvimento, por assim dizer. Essa é a base da políticadita rentista. Contudo, com a deterioração das condiçõessanitárias das habitações construídas pelos investidorese pela constante adensamento da cidade, estes motivosforçaram uma intervenção estatal de porte regulador. Po-demos dizer que isso ainda está inserido dentro da polí-tica liberal, na mesma medida em que Londres e Paristambém desenvolveram políticas semelhantes. A políticaera pautada no código de posturas, na definição de umalegislação urbanística e na promoção de infraestruturavia água e saneamento básico. Por conta do brusco au- (ainda que, à época, essa diferenciação seja quase impos-mento daquelas cidades em função da criação do parque sível, dada que São Paulo era uma cidade elitizada), emindustrial urbano da Inglaterra e da França, nas regiões especial no bairro de Santa Efigênia. Ao mesmo tempo, ada Grande Londres e Grande Paris, respectivamente, e municipalidade atuava através da Companhia Cantareirapelo aumento do êxodo rural em favor da mecanização da na produção de infraestrutura básica. O espaço produzidoagricultura, houve graves problemas de saúde pública em em São Paulo até meados de 1930 era constituído, portan-função da contaminação das águas e da falta de infraes- to, de um conf lito intrínseco, dualizado pela relação ca-trutura básica. feicultores na produção habitacional x política higienista. É considerada uma relação dual, pois a elite que produzia Contudo a política brasileira começou a tratar tais ca- as habitações para a crescente população era a mesma quesos muito antes das aglomerações de 1.000.000 de habi- visava a existência de uma cidade “europeia”, que deter-tantes, como foi o caso das cidades europeias de Londres e minava as bases de uma política higienista. Neste sentido,Paris. A intervenção higienista trabalhou diretamente na modernizar era exterminar; retirar cortiços seria a práticaformulação de padrões mínimos de habitabilidade. Muitos mais rápida na construção de uma cidade que se buscavacortiços foram fechados, outros interditados, em especial avançada. Isso é fácil verificar, em especial, na próximana área mais central, próximo aos bairros ditos de elite década, quando o impacto causado pelas decisões políti- 3 - mapa da cidade de são paulo, 1905 4 - cortiço na rua oscar freire, hoje uma das mais valorizadas da cidade 21
  19. 19. 5 6cas na Era Vargas afetam a produção habitacional rentista. o cargo de potência hegemônica mundial, dando o poder de condução da política econômica mundial, por um lado. É dessa época que data o fortalecimento da expressão “American way of life”, que será amplamente utilizada no Era Vargas e a questão da habitação período da Guerra Fria para representar as diferenças de valores entre os blocos capitalista e soviético. O mundo na época sofria com uma crise internacio-nal. Durante todo o pequeno período anterior os Estados Contudo, com a retomada do desenvolvimento dos pa-Unidos foram o maior exportador de insumos para os pa- íses europeus, estes passaram a diminuir crescentementeíses da Europa, que estava destruída pelos fatos da guer- a importação de insumos americanos, o que levou a umara. Sendo responsável pelo abastecimento com insumos severa crise de superprodução nos EUA - consequente-básicos de seu mercado interno e dos mercados europeus, mente a um desmonte dos moldes da economia da época.através das exportações, a indústria americana sofre um Podemos dizer que o topo da crise corresponde ao Newexcepcional crescimento durante mais de uma década, re- Deal, de 1933, implantado por Theodore Roosevelt, sob osdundando em altos superávits em sua balança comercial. moldes da política keynesiana, dando entrada ao que viriaEsse clima estável, após uma grande guerra, dá aos EUA ser o Welfare State. Por outro lado, ao mesmo tempo, o 5 - vista do bairro do brás, 1938. acervo da biblioteca mário de andrade. nos bairros próximos ao centro, o tecido urbano era regular, com habitações de 1 a 2 andares 6 - vista da sé e bela vista, 1918. acervo da biblioteca mário de andrade. Já se nota a incipiente veticalização que irá aumentar significativamente após 194022
  20. 20. estado socialista surge com força após a o final da Primei- franca expansão, a necessidade de mão de obra se tornara Guerra Mundial, em especial na Rússia. Os sovietes premente. E assim as próprias indústrias estimulam ano poder levam a modificações estruturais na concepção produção de habitações, caso das vilas fabris, que aluga-de governo, e isso reverberará, em especial, nas políticas vam diretamente aos seus empregados.sociais - leis trabalhistas, produção de habitação pelo esta-do; é a introdução do socialismo e a formação dos países Contudo, na Era Vargas, surge a ideia de que a habita-comunistas. ção deveria ser promovida pelo poder público, seja pelos custos, pelo tipo de intervenção realizada, ou pela impor- No Brasil, a crise de 1929 culminou na crise cafeeira. tância que havia para a época. A associação ideológica doO país possuía 60% das exportações mundiais de café, estado brasileiro ao socialismo europeu tem inf luênciasendo o maior produtor mundial à época (GIRAUD, onli- fundamental na compreensão desse processo. A políticane). Contudo, com a crise das importações, a saca do café, de aluguéis estava funcionando perfeitamente, porém,à época, 200 mil réis, caiu para pouco mais de 21 mil para os novos migrantes - e os já existentes, a tentativaréis, levando a uma crise generalizada da economia ca- de alugar uma casa estava quase fora de cogitação, umafeeira. Num movimento de contenção, O estado compra vez que a especulação sobre o valor estava extremamentecafé como forma de reestabilizar os preços, e evitar que elevada. Pretendia-se marginalizar o setor rentista, queuma maior ruptura na economia. No contexto paulistano, se apropriava da não regulação do setor imobiliário (Bon-a incipiente industrialização iniciada na época da Primei- duki, 1998).ra Guerra Mundial sofre um aumento significativo, com oincentivo à indústria nacional, através da política de subs- “Não é possível aguardarmos, por tempo indeterminado,tituição de importações. A necessidade de insumos e a que o padrão geral médio de vida se eleve, por toda parte, ainviabilidade de continuar importando levam ao fomento um tal grau que dentro do regime econômico vigente e sob aindustrial em São Paulo, processo ocorrido de modo se- ação da oferta e procura de capitais, possa a iniciativa pri-melhante em outros países não industrializados, como a vada proporcionar casas confortáveis para todos os que delasArgentina. Esse período foi muito frutífero para o desen- precisam (...) O problema das moradias das grandes massasvolvimento do Brasil e está vinculado ao desenvolvimento nas cidades populosas passa a ser de urbanismo. Para sua in-também das primeiras políticas de cunho trabalhista. tegral solução torna-se indispensável a ação decisiva do Esta- do.” (Discurso de Roberto Simonsen, presidente da Fiesp, na A industrialização acelerou ainda mais o processo de abertura das Jornadas de Habitação Econômica, IN: Bon-migração, desta vez interna, êxodo rural, levando a um duki, 1998).crescimento maior ainda das cidades e a uma acentua-ção da crise habitacional já existente. Com a indústria em Era necessária uma mudança no padrão habitacional. 7 - comparação entre as áreas urbanizadas em são paulo 1930-1949 e 1950-1962-. fonte: prefeitura de são paulo 23
  21. 21. 724
  22. 22. Para baratear o custo da habitação, havia duas possibili-dades, que seriam a localização delas em áreas afastadase a autoconstrução pelos futuros proprietários. Era ne-cessário mostrar ao encortiçado que a solução ideal era ahabitação fora da “cidade”. A forma de combater o déficit,então, seria regular a normativa e afastar a população daproximidade com seu trabalho, solução essa indo na con-tramão do que até o momento se realizava, se for verificar,por exemplo, o adensamento acontecendo à mesma épo-ca no Rio de Janeiro, ou no próprio centro de São Paulocom a construção dos prédios residenciais. Porém, comos baixos salários dessa população, era inviável morar nocentro. As discussões sobre habitação operária levaram a algu- 8mas medidas significativas, como a criação do Institutode Aposentadoria e Pensões, que mais tarde seria, juntocom a Fundação Casa Popular, a base da incipiente políti-ca habitacional (se é que se pode chamar assim) que serialevada a cabo até a criação do BNH - Banco Nacional daHabitação, em 1964; e a Lei do Inquilinato, processo quefundamenta a entrada do estado na política habitacionalcomo interventor. Com a promulgação da Lei do Inquilinato em 1942entra em cena uma modificação na política rentista, quepassava a não ser mais altamente rentável, como fora até omomento, introduzindo o congelamento de aluguéis emfunção das altas variações monetárias que estavam ocor-rendo à época. Essa atitude pode estar ligada à própriaafirmação de Vargas como populista no pais, como políti-co, com uma das camadas referendando seu governo, no 9 8 - Bonde e ônibus, lado a lado, símbolos de sp. sem autoria 9 - centro de sp, 1945. sem autoria 25
  23. 23. caso, a dos trabalhadores, que recentemente se incluía A ideia era então estimular o lote próprio à populaçãono rol das que recebiam algum tipo de apoio político. A que morava em cortiços. Esse era um primeiro passo paralei efetivamente ajudava os trabalhadores. Porém, ao con- modificar o sistema de produção de habitação até entãogelar os aluguéis, deixava de incentivar a iniciativa pri- em voga. Somado ao estímulo ao embelezamento de Sãovada a produzir habitação. Muitas habitações, até então Paulo, a erradicação dos cortiços, a Haussmanização, autilizadas como cortiços, foram vendidas sumariamente, ideia de levar a classe trabalhadora a outras localidadesdiminuindo a oferta de habitação. Além disso, a modifi- colaborava pra construir a ideia de uma nova São Paulo.cação de contratos levou a muitos trabalhadores a perda Além disso, o lote próprio e a autoconstrução - que apesardo aluguel. E, apesar de iniciativas do governo, como a de datar desde o começo do século XX - eram possibili-Fundação Casa Popular e os Institutos de Aposentadoria dades de afirmar politicamente o governo central e ga-e Pensões, os IAPs (que atuavam mais diretamente a uma nhar o favor das camadas mais populares. Neste sentido,classe média com a entrada de financiamentos do que às o Decreto-Lei nº 58, que regulamentava a venda de lotesclasses trabalhadoras), não foi possível evitar o grande dé- urbanos a prestações, e a Fundação Casa Popular, que deficit habitacional subsequente. certa maneira, iniciou a produção estatal de moradias, tem papel fundamental para a construção do padrão periféri- Em São Paulo, a resposta a esse processo foi o padrão co. Contudo, a compra do lote em área urbana, por assimperiférico de urbanização, que alcançaria o ápice por volta dizer, era demasiado caro para o salário do trabalhador,de 1970. A ideia da casa própria, difundida durante o perí- o que inviabilizava sua proximidade com o trabalho. Aodo Vargas, foi fundamental para instaurar o processo do ocupação assim realizada seria nas bordas da cidade, emlote na periferia. Até então, com a produção rentista sendo áreas ditas rurais, ou em várzeas, em locais longe da ci-a base habitacional, morar perto do emprego era a opção dade, onde o custo do terreno seria viável ao proprietário.procurada, pois isso diminuía sensivelmente o custo. A Porém, se morasse longe, não teria acesso ao seu trabalho,expansão permitida pelo bonde (cabe aqui referendar que ou demoraria demais para chegar nele, o que mais umaainda se fala do bonde, e não do ônibus) permitiu que vez inviabilizava o custo. O bonde não era resposta, poisas habitações construídas pela iniciativa privada tives- demandava um alto investimento inicial; somado ao su-sem seu eixo descolado apenas dos bairros próximos ao cateamento da frota, ao abandono dos investimentos pelatriângulo - é o caso de bairros como a Vila Romana, por Light e pela CMTC, a solução encontrada era estimularexemplo, loteamento da Cia City - Companhia City de De- o já existente ônibus. Como demanda um baixo investi-senvolvimento. Assim, o desenvolvimento de tais bairros mento inicial, além de não depender da construção de umera fomentado, indiretamente, pela política rentista - e da caminho (tal qual trens e bondes), sua f lexibilidade eramesma maneira, da habitação por aluguel. Ainda que a fundamental para viabilizar o loteamento periférico.fiscalização na produção dos cortiços e outras formas dehabitação estivessem vinculadas aos preceitos higienistas, Se por um lado o estímulo à compra do lote fomen-a construção de tais habitações era relativamente liberada, tou a formação de bairros como muitos da Zona Leste –e rápida, já que muitos proprietários dispunham de di- e a chegada até o povoamento da Penha e de São Miguel,nheiro em mãos para sua produção. também criou as primeiras favelas. Os loteamentos eram26
  24. 24. 10 27
  25. 25. regularizados anualmente, por diversos decretos, e as fa- Essa visão cultivada por Simonsen se difunde am-velas, que explodiram principalmente por volta da década plamente entre os meios empresariais e políticos, o quede 1970 (TASCHNER, 2011), tornaram-se um caso claro fundamenta a intervenção habitacional como políticado problema habitacional em São Paulo. estatal, que a livre intervenção da iniciativa privada não poderia conter. Porém, o que ocorre efetivamente não é A formulação da Habitação como Política Social e o a formulação de uma política organizada, porém umaBNH série de programas vinculados a diversos órgãos diferen- tes, uma “colcha de retalhos de intervenções” (Bonduki, O período compreendido entre o final da era Vargas e 1998). Contudo, apesar da desarticulação, se trata de vera criação do BNH - Banco Nacional da Habitação pode ser a questão habitacional como política de cunho social. En-interpretado como fundamental para a política habitacio- tram nesse processo a Fundação Casa Popular e os IAPsnal. É fato que não dá para se falar no surgimento de uma - Institutos de Aposentadoria e Pensões. O estado entrapolítica habitacional ad hoc, porém é possível afirmar que efetivamente para cobrir a lacuna deixada pela produçãoo governo central já estava colocando a questão habitacio- privada; mais do que isso, a produção de moradias visavanal na ordem do dia. Isso fica claro, por exemplo, no dis- fomentar a indústria da construção civil. Isso acaba fican-curso de Roberto Simonsen, presidente da Federação das do claro quando se nota que as medidas tomadas para aIndústrias do Estado de São Paulo - FIESP, dizendo: produção habitacional tendem a ser vinculadas a secreta- rias de ação direta na economia, com atitudes que mos- tram a financeirização da política de habitação. Podemos “(...) problema de solução difícil por simples iniciativa pri- caracterizar o período como da estruturação interna dovada, porque num país onde o capital é escasso e caro e onde o país, com forte desenvolvimento à indústria nacional (po-poder aquisitivo médio é tão baixo não podemos esperar que a lítica de substituição de importações, em especial no pe-iniciativa privada venha em escala suficiente ao encontro das ríodo JK), fortalecimento do mercado interno e o grandenecessidades da grande massa, proporcionando-lhe habita- crescimento urbano.ções econômicas (...). O problema das moradias das grandescidades populares passa a ser questão de urbanismo, subor-dinada às necessidades de ordem individual, social, técnica, Mudança significativa ocorre com a entrada de o Go-demográfica e econômica. Para sua integral solução, torna-se verno Militar, com o golpe em 1964. A relativa descen-indispensável a intervenção decisiva do Estado.” tralização até então utilizada pelos sistemas de adminis- tração pública passam a trabalhar de maneira fortemente centralizada, característica típica do governo militar. O (Simonsen, 1942, IN: Bonduki, 1998) setor público tem um aumento significativo em termos de cargos e despesa. Diversas autarquias foram criadas nesta 10 - conjuntos produzidos na gestão do bnh, em cidade tiradentes, zona leste de sp. sem autoria 11 - trecho de favela em sp, vista aérea. sem autoria28
  26. 26. época, que inf luenciariam significativamente. A questão lhoramentos salvo casos muito específicos; normalmentehabitacional, subjugada até então, passa a ser prioritária favela era sinônimo de remoção e reassentamento. Porpara o governo. Nesse contexto, a criação do SERFHAU - outro lado, até então, o já crescente déficit habitacionalServiço Federal de Habitação e Urbanismo, e o BNH tem aumenta significativamente na década de 1960, com opapel fundamental. O SERFHAU pode ser tido como a milagre brasileiro e o desenvolvimento acelerado da cida-“nova” FCP, pois ele incorporou todo o pessoal da institui- de. A urbanização se acentua drasticamente; São Paulo,ção, e não apenas isso, como boa parte de sua maneira de em específico, é foco de uma nova leva de migrantes, emtrabalhar, no que diz respeito à formulação de estatísticas, especial fomentados pelo êxodo rural em favor da meca-de planos; à política de auxílio municipal, dentre outras nização agrícola e do desenvolvimento industrial no eixoatribuições da FCP. do ABC, e como a produção habitacional é insuficiente, o crescimento de favelas em especial próximo a áreas in- Já o BNH constituía-se num banco de segunda or- dustriais e periferias é enorme. Datam de épocas comodem, isto é, não atende diretamente o público, porém age essa o incentivo de prefeitos à ocupação pelos migrantesatravés de fundos e financiamentos para a iniciativa em de áreas extremas de são Paulo, como é o caso de São Ma-habitação; financiava a produção habitacional das mais teus - e a formulação dos primeiros cadastros habitacio-variadas formas, desde conjuntos habitacionais em larga nais em regiões de favela, para verificação do número deescala, tais como muitos da Zona Leste de São Paulo (caso habitantes. Esse desenvolvimento, apesar de ter inseridodo conjunto Cidade Tiradentes), até habitações unifami- o Brasil dentro da perspectiva econômica mundial, eraliares através da Caixa Econômica Federal. Com a entrada baseado numa superexploração da mão de obra. Assimdo FGTS como um dos fundos vinculados, o problema de sendo, ainda que o emprego estivesse em alta, o desenvol-financiamento se esvai, e o BNH se torna o maior ban- vimento só era alcançado através do alto lucro obtido queco de financiamento habitacional do mundo. Contudo, o se revertia em investimento na própria indústria e renta-BNH passa também a viabilizar, mais do que a habitação, bilizava o capital do empresário. Por outro lado, a intensao desenvolvimento urbano. Além disso, gradualmente, participação do estado na economia fomentava a indústriapassa a produzir menos para as menores faixas salariais. da construção civil, em especial na área de infraestruturaComo banco, o BNH não poderia deixar de movimentar urbana. O problema é que, no contexto da exploração pri-seus recursos, então passa a estimular também outras fai- vada do capital, para maximizar os lucros, apostava-se emxas salariais e outras linhas de atuação, o que garantiria, baixos salários e na manutenção da mão de obra. Se forde certa maneira, retorno no seu investimento. A meta do avaliar, a alta disponibilidade de mão de obra viabilizavaBNH era, portanto, não necessariamente apenas ser um que os salários fossem baixos, pois quaisquer imprevistosórgão gestor dos diversos fundos que surgiram na época, que pudessem ocorrer, era possível ocasionar a demissãovoltados à produção habitacional, mas gerir e “fazer girar” do empregado e contratar um novo. Isso evitava manifes-os recursos, investir pra garantir o desenvolvimento. tações de qualquer porte por parte dos funcionários. Até esta época, podemos colocar em pauta que as fave- Desta maneira, o BNH como produtor habitacionallas não recebiam qualquer tipo de intervenção para me- para as camadas mais baixas racionalizou ao extremo as atividades de produção. A repetição de padrões e formas 29
  27. 27. 1130
  28. 28. levou a uma situação inadequada em relação ao seu sítio, pode negar que, apesar da política que o BNH produziajá que as edificações construídas muitas vezes não pos- estava muito mais relacionado à uma política de finan-suíam uma implantação adequada ao seu terreno; além ciamentos e estímulo à construção civil por construtorasdisso, a própria localização de tais terrenos, em periferias do que efetivamente uma política de habitação de cunho- onde era possível arcar com os custos da urbanização social. Contudo, não se pode negar a importância do BNH- acabou levando à modificação do BNH como produtor com primeira tentativa - e acertada - de formulação deexclusivo de moradias, quando começa a trabalhar com uma política habitacional.projetos de infraestrutura, por exemplo. Porém, muitosnão podiam pagar as prestações do BNH, o que no lon- Redemocratização e urbanizaçãogo prazo começa a gerar déficits no interior do banco. Aomesmo tempo, a falta de uma política pública consistente A orfandade relegada aos municípios pela extinção dono combate ao déficit habitacional sugere que as favelas BNH - e consequentemente dos recursos oriundos delemantiveram seu crescimento exponencial, acentuando as aos municípios levou a uma mudança na concepção dacaracterísticas de segregação socioespacial. O déficit em habitação. A baixa de recursos leva a uma inovação nas2011 já supera os 12 milhões de habitações, no Brasil. propostas, com possibilidades de consolidar as favelas nos seus assentamentos. Isso era possível pois as favelas O BNH é extinto em 1996, por diversos motivos, que da época eram de baixa densidade em sua maioria e asvão desde o déficit crescente de seus lucros, até mesmo o melhorias eram em sua maioria para instalação de in-seu próprio monopólio sobre alguns fundos de aplicação, fraestrutura. A regulamentação do Direito à Cidade e àque começa a ser questionado pelos banqueiros. Não se Moradia Digna colocado na Constituição de 1988 através12 31
  29. 29. do artigo 6 também é fator que fundamenta uma modifi- Neste momento, a ideia de urbanizar surge, associadacação na produção de habitação. a outras políticas sociais - tais como o trabalho do mé- dico da família, as iniciativas em alfabetização - a ideia Com o crescimento das favelas a partir de 1970, esse de inclusão social é difundida. Da mesma maneira, a in-tipo de iniciativa se torna mais recorrente, porém ao mes- disponibilidade de recursos leva a produções projetuaismo tempo, com a entrada da agenda ambiental, a questão que fugiam do tipo “H”, levando a algumas experiênciasda sustentabilidade urbana e o direito à moradia tendo novas nas franjas urbanas (ZÍLIO, 2011). Da mesma ma-maior repercussão do que no último quarto de século aca- neira, há a ideia de que habitação é mais do que moradia;ba por levar a novas propostas em projeto de urbanização constrói-se a ideia de que habitação é cidade, é inclusão ee de habitação de interesse social. A inf luência que os mo- participação, é ter acesso a equipamentos públicos. Assimvimentos de moradia tiveram, associados a novas manei- sendo, alternativas se constroem à produção tipicamenteras de pensar o problema favela resultaram numa série de por construtora, como as iniciativas de mutirões autoge-políticas que resolveram enfrentar o problema de frente, ridos.por assim dizer. Ainda que o problema “habitação” nãoestivesse resolvido, a criação do Ministério da Cidades e a Um outro ponto colocado é a questão cidade e ambien-formulação de uma incipiente política urbana podem ser te. A favela é considerada solução, mas não é efetivamenteconsiderados fundamentais para conceber um novo trata- urbana (PMH, 2009), ela está encerrada em característi-mento ao assunto. Somado a isso, a aprovação do Estatu- cas que a colocam em uma situação urbanisticamente nãoto da Cidade (Lei 10.257/2001, anterior ao surgimento do confortável - a deficiência em infraestrutura, por exem-Ministério) deram os insumos para que o acesso à terra plo, é apenas um dos casos. Esse ponto acaba se tornandourbana fosse possível. importante no que tange à formação das favelas. Como verificado, as favelas tiveram um aumento exponencial a A questão favela e loteamento passam a ser tratadas partir de 1970, em função da política de uso e ocupaçãosob outra ótica. Ela começa a preocupar severamente o do solo e a restrição severa a ocupação de diversas áreas.poder público no final dos anos 1970, quando da forma- A inserção de áreas de preservação ambiental - APA, deção de uma política de uso e ocupação do solo se torna áreas de preservação permanente - APP, conf luíram forte-mais vigente, e assim sendo, construir em qualquer lugar mente para transformar muitos locais em inapropriadosse torna proibido. O assentamento, até então visto como para uso. O CONAMA - Conselho Nacional do Meio Am-expansão da cidade, e mais do que isso, como viável, aca- biente, foi parte fundamental nisso, com as resoluções. Aba sendo motivo para remoções de amplo espectro. No introdução de conceitos de lotes mínimos, recuos e outrasperíodo da Nova República, atos ditos “urbanizatórios” exigências das taxas urbanísticas contribuíram para quetendem a ser severamente condenados pelos moradores os locais mais restritivos fossem -esquecidos- pelo merca-de favelas. Reintegração de posse e formação de pequenas do imobiliário. Assim sendo, indiretamente, a restrição àmilícias para combate a polícia contribuem para o desen- cidade, pode-se dizer isso, contribuiu para o povoamentovolvimento midiático do que se diz favela, hoje em dia, de áreas frágeis ambientalmente, tais como as áreas decomo local de terror e de “bandido”. rios, córregos, e das bacias de represas como a Billings e32
  30. 30. a Guarapiranga. A pouca fiscalização do poder público eo rápido crescimento do processo de favelização levarama uma ocupação em massa de áreas consideradas inapro-priadas. Fato é que a legislação, por demasiado genérica,estimula uma ocupação pouco eficiente, mesmo pelasvias legais - o que autoriza, indiretamente, ocupaçõesilegais, pela própria ineficiência do sistema. Em outrostempos, a resolução comum para tais situações seria aremoção e reassentamento de famílias. Contudo, gastosnesse sentido já não mais eram permitidos. A proposi-ção fundamental foi entender como é a relação favela emeio ambiente e como seria tratar a questão no bojo deuma nova política onde a cidade é levada em consideraçãocomo aspecto projetual. 33
  31. 31. 34
  32. 32. Cidade e sociabilidade Este capítulo destina-se a questionar o que é cidade, e suas relações. Assim, vamos elaboorar algumas formula- ções sobre o que conceituo sobre cidade e sociabilidade. Ao primeiro momento, pode parecer estranho a inclu- são da discussão da sociabilidade dentro do contexto de projeto. Entendido, porém, no contexto amplo, sociabili- dade pode se referir também à urbanidade, mas não se restringe a ela. O espaço da interação social, este da so- ciabilidade, define em grande medida o espaço urbano, e as próprias maneiras de identificar, pensar, e projetar (di- reta ou indiretamente) o construído. Neste sentido, a re- lação social é fator urbano. E é, portanto, fator de projeto. Quando analisamos uma situação projetual, nos é en- sinado uma série de passos para que consigamos realizar o projeto. Efetivamente, porém não necessariamente efi- cazmente. A caixinha de saber onde colocamos o projeto deve ser expandida um pouco além da simples análise técnica, e é neste momento que a questão da interação social se faz mais presente. Esse fator se faz fundamental na cidade, pois, como a interação define, junto a outras conjunturas, o tecido urbano da cidade, ele define o espa- ço construído. E construído no sentido do que se constrói, efetivamente, e não apenas no sentido de edificar; define o tipo de habitação, o tipo de uso, ou seja, ele espacializa a relação que o habitante possui com o local para o espaçoa questão da cidade social. Transferindo para o campo da prática a afirmação an- terior, é fácil verificar ela através do espaço construído. É 35
  33. 33. uma casa? É residencial? É um conjunto habitacional ver- como fator de análise. O tempo modifica o espaço. Quandoticalizado de 4 torres com 8 apartamentos por andar? É esse tópico é analisado, é válido perguntar - como eu projetonesse sentido que a interação produz espaço, pois ela pode algo fixo e mutável?ser um ref lexo direto da produção pública, como no casoda produção de habitação social produzida em conjuntos As questões da casa e do bairro recaem sobre essa per-habitacionais; podem ser as ruas de um loteamento ir- gunta. O projeto no tempo não é uma questão comum noregular de casas autoconstruídas à mercê de políticas de âmbito do desenvolvimento projetual. Em primeira instân-infraestrutura; ou pode ser uma favela, com suas vielas. cia, porque não é possível predizer o amanhã, não direta- mente ao menos. Mas se levarmos em consideração qual foi A questão é que a cidade é composta por diversas redes o comportamento do bairro ao longo dos anos, é possíveldiferentes de interação social; agregadas, produzem espa- verificar se houve um padrão de desenvolvimento do local.ços diferentes. Sua composição, somada a outros níveis de Por exemplo, a produção de novas habitações na Zona Lesterelação social, redundam na produção do que se chama em áreas periféricas esteve vinculada a processos de com-cidade. Assim sendo, quando o projeto pretendido admite pra de lote e autoconstrução por seus próprios moradores. Oapenas uma ou outra ordem de tecido urbano como prin- aspecto permanente de construção inacabada é uma carac-cipal, pode estar levando a uma desestruturação de toda terística desses locais, pois o principal aspecto que defineuma rede local. O projeto deve levar em consideração que essa produção era a questão de possuir uma casa própria,a cidade é mista, é plural; portanto, porque o projeto é ainda que em local sem infraestrutura, e do pensar na ex-único? Quando analisamos as propostas que consideram pansão da família. Assim, toda laje que se faz já cria a pos-os trabalhos de intervenção urbana, um aspecto parece sibilidade de um futuro desenvolvimento da casa, uma ex-ser desconsiderado, que é a multiplicidade da cidade. A pansão vertical realizada sem qualquer auxílio técnico, masdesconsideração pela diversidade, pelo uso cotidiano, pelo por outro lado, viável de ocorrer. A ideia de manter a casacomum, pode-se dizer assim, é uma das questões que di- para a família que expande, ou a possibilidade de criar umficultam a produção e apropriação do projeto. Simplifica- novo cômodo, acima ou abaixo, e tornar-se um locatário,mos muito uma realidade extremamente complexa. aumentando sua renda, é uma oportunidade viável. Con- tudo, pelo fato de estar sempre em processo de construção, É mister entender que não necessariamente o projeto o acabamento é relegado a segundo plano. Esteticamente,irá resolver todos os problemas, porque não irá. A reso- as casas autoconstruídas são desta maneira. Composiçõeslução de problemas de cunho urbanístico esbarra em di- voltadas à própria família ou que fomentem a produção deversas outras áreas do conhecimento humano, as quais o um “mercado imobiliário interno”, externo ao formal, po-arquiteto não tem controle sobre, nem conhecimento para rém tão ferrenho quanto o outro. O aluguel em locais desseintervir. O espaço produzido pelo projeto deve ser múlti- tipo pode chegar facilmente a R$ 500,00 para aluguel deplo como o da cidade; não apenas isso, mas o espaço deve um cômodo de 4m2.ser f lexível como o tempo permite. As pessoas evoluem; ejunto com elas suas ideias de moradia, espaço público, de Internamente, porém a situação muda significativamen-cidade. O projeto precisa incorporar a dimensão temporal te. O relativo desapego com relação á aparência externa da36
  34. 34. habitação não se ref lete em seu interior. Em locais como construir apenas o núcleo necessário de tais habitações eesse - loteamentos irregulares - a necessidade de se mos- prever, já em projeto, como ficaria a evolução da casa aotrar diferente com relação ao “pessoal da favela” fica evi- longo do tempo - a autoconstrução, de modo a garantir odente. A associação com a sujeira e com a desorganiza- mínimo de habitabilidade conforme a família evolui.ção das favelas é uma das principais características quemobiliza pessoas de loteamentos irregulares a cuidar de Esse modo de análise não é comumente empregado nasuas moradias. Isso seria uma maneira clara de diferen- resolução dos projetos, até porque demanda uma análiseciação, dentro daquele âmbito onde tudo é irregular. Todo que normalmente a grande área de arquitetura e urbanis-o dinheiro que tende a não ser gasto em áreas externas mo não abrange com clareza. A utilização deste método,tende a ser utilizado no desenvolvimento dos ambientes se bem empregado, poderia ser utilizado em qualquer ou-internos. tro local, como um parâmetro a mais na hora de definir a intervenção, já que ele leva em consideração um aspecto Essas características da casa se ref letem diretamente muito importante, a relação do morador com o ambientena rua e no bairro que a circunda. E essa é apenas uma construído. Se tal diretriz fosse colocada efetivamente empossibilidade estudada, a de um tecido urbano produzi- prática, os projetos de intervenção urbana mediados pelodo à margem da formalidade, em autoconstrução. A casa poder púbico teriam um impacto mais significativo notende a ser ref lexo do morador, e no amplo espectro, cada que tange ao aspecto da relação com o bairro e com o en-casa é um pedaço do bairro; se uma delas realiza algu- torno próximo.ma modificação, se pintasse externamente, por exemplo,essa melhoria seria adaptada às demais casas ao longo do Contudo, a realização de tais projetos tende a ser se-tempo, pois a necessidade de pertencer ao bairro a faz se veramente descolada de uma dinâmica urbana coerenteinserir dentro de seus padrões. Um exemplo clássico é com o espaço que se insere, criando ilhas residenciais noa pintura de casas que ocorreu no bairro de Heliópolis interior de bairros já existentes e contribuindo para umaem 2004, quando de uma parceria da UNAS - União de ruptura na rede de relações identitárias do bairro (IBAM,Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de He- 1985). Neste sentido, o projeto acaba por criar enclavesliópolis e São João Clímaco com a Suvinil. O resultado urbanos; mais do que isso, se formos colocar em questãoda pintura foi, no longo prazo, a difusão da melhoria do o projeto de urbanização de favelas, por exemplo, acarretaacabamento externo para outras áreas do bairro. para a desconstrução do bairro como articulador urbano, prejudicando áreas que já são fragilizadas socialmente. Partindo dessa premissa, sobre bairro e identidade, épossível afirmar que a construção da história do bairro Dentro deste processo, a resposta a tal crítica sobre apode resultar numa identificação dos padrões de apro- não urbanidade em decorrência da criação destes projetospriação e construção do espaço. Assim sendo, intervir de edificação, vinda do poder público, em geral reside nonum local como este poderia significar pensar em tipo- fato dos custos de projeto e na fragilidade das licitaçõeslogias que evoluíssem junto com seus moradores, ao lon- e consórcios vencedores que não tem os instrumentosgo do tempo, talvez a criação de “casas embrião”, ou seja, necessários para a realização completa dos projetos, nem 37
  35. 35. há projetos coerentes com o local, resultando geralmente - a relação com os moradores e a identidade do bair-na repetição aleatória de tipos habitacionais sem qualquer ro - o projeto urbano, ao desconsiderar questões como aprocesso criativo maior de inserção urbana. Pela falta de da cidade, da sociabilidade, da identidade do bairro, doum método claro de trabalho e por uma legislação de zo- morar, e o fator temporal pode levar a resposta projetuaisneamento que apenas traz parâmetros de ocupação e uso incoerentes com a realidade, ou com seu objetivo propos-do solo, mas não desenha a cidade, efetivamente, surgem to. Entrevistar os moradores, conhecer o bairro, entenderprojetos desestruturados que não são capazes de atender as o local é fundamental para também desenvolver o projeto.necessidades do local, sejam elas técnicas, como a acessi- O desenvolvimento sem estar vinculado a um conheci-bilidade e a conexão o tecido do bairro, sejam elas sociais, mento do local pode resultar na destruição da noção docomo a demanda por áreas de lazer e de recreação e outros bairro como é entendido por quem ali habita. Diz Petrellaespaços de uso coletivo. (2009) sobre o assunto: Por outro lado, do ponto de vista da dinâmica da favela, “(...) Mas, por outro lado, o cotidiano é um método denão há parâmetros muito claros quanto a como realizar em pesquisa. Através de sua crítica pode-se ir além do momentoseu território uma intervenção. O que é urbanizar uma fa- estrito de produção, reduzido criticamente às estruturas dovela? Qual a linha guia de projeto? Qual a metodologia para economicismo, para deste modo ir além das coerências ma-que isso se realize? Como intervir em locais com alta decli- teriais imediatas, consideradas ‘absolutas’, subsumidas pelosvidade? Como intervir em áreas de preservação permanen- discursos e pelas imagens que dizem realizar uma unidadetes? Algumas destas perguntas são simplesmente descon- social.”sideradas em se tratar de projetos de Urbanização. Assimsendo, apontam-se algumas incoerências: - o programa - qual o programa adequado para a im- plementação de um projeto? Quais as necessidades? Re- - a ideia de projeto de habitação de interesse social des- sidencial completo ou uso misto? Quadras e áreas de la-colado do lugar - neste sentido, a principal crítica está na zer? Espaços culturais? Ou todos os anteriores citados?produção do projeto em si como agente modificador do es- A construção do programa não pode se basear apenas napaço. A criação do projeto é pautada na análise de diversas análise estatística do que “se tem ou se falta”, numa visãovariáveis - geográficas, econômicas, sociais, espaciais, urba- construtivista, por assim dizer. Não basta apenas identi-nas. Ao se estudar as produções habitacionais de empresas ficar uma área como lazer; a apropriação do espaço peloscomo a COHAB e a CDHU, mesmo as produções de outras usuários é que irá definir isso. A dimensão do programaempresas, verifica-se que tais projetos são isolados de seu deve estar atenta para estes usos que surgem, e não erambairro e não tem nenhum tipo de inserção coerente com o previstos.local a que se destinam. 14 - rua de bairro em periferia de sp 15 - ruas do bairro de heliópolis, com a intervenção do arquiteto rui ohtake38
  36. 36. Informalidade no projeto formal de habitação necessidade de projetos padronizados e de baixo custo agregado era necessária para retomar o estado de habita- Para ter início, efetivamente, o projeto, foi realizada ção anterior.toda uma discussão sobre a questão da cidade e do teci-do urbano produzido, bem como a relação do morador A solução exportada para cá como resposta é ampla-na produção de seu bairro. Contudo, na hora de projetar, mente utilizada. E apesar de seus padrões terem sido ini-todas as questões levadas a cabo e consideradas no argu- ciamente previstos para uma determinada situação, ain-mento teórico deste TFG acabam por ser refutadas se o da assim, este tipo de projeto é a primeira solução criadaprojeto realizado é o padrão. Por projeto padrão entenda para resoluções de projeto de habitação copo um todo, emque corresponde à imagem de projeto criada e vinculada diversas situações, é o lugar comum. E sem grandes parâ-à habitação social aqui em São Paulo, correspondente ao metros do que seria um bom projeto de habitação - temostipo de intervenção praticada pelo BNH nos anos 1970, alguns conceitos enraizados de acordo com nossas vivên-com prédios de baixo gabarito isolados no lote. Esse modo cias e atitudes, somados à “doutrinação” que sofremosde projetar esteve direamente vinculado a um padrão ado- quando estudamos arquitetura, relativa ao tipo de ensinotado desde os anos 1940 na Europa, amplamente difun- que nos é passado e à maneira de projetar que nos é in-dido em revistas e manuais de arquitetura, e visto como cutido, acabamos ficando desamparados no que tange aosolução de projeto para diversos casos, onde em geral suas seu desenvolvimento. A arquitetura então, que não é co-edificações não possuíam nenhum tratamento de sua im- mum, se torna experimental. Ou, ainda, se torna apenasplantação e sem qualquer tipo de trabalho mais apurado mais um discurso vazio, para se unir ao existente.de seus espaços intersticiais. Se formos levar em consi-deração que a Europa pós guerra havia sido destruída, a Neste sentido, refuta-se essa ideia de projeto como14 15 39
  37. 37. trabalho a ser desenvolvido neste TFG. E não pelo fato Essas questões são aplicáveis a todos os projetos; con-de ser uma maneira incorreta de projetar o espaço, mas tudo, o foco deste trabalho reside, sumariamente, emporque talvez ela não esteja verificando todas as variáveis como intervir em áreas de um tecido urbano específicoque julgo serem pertinentes no projeto. O ato de criar o – o da favela em área urbana. Apesar de altamente especí-espaço tende a considerar diversos aspectos, que foram fico, não é pequena a variedade de trabalhos que se apro-incorporados ao longo do tempo à visão do arquiteto; con- fundam sobre a temática da favela e o “como” intervir.forto ambiental, entorno urbano, circulações e usos, cada Como fenômeno urbano, sua imagem causa estranhezaum corresponde a um critério projetual. Porém, há algu- à primeira vista. Por outro lado, a favela surge como solu-mas variáveis que, ainda que no ato de projetar se tenha ção urbana a um problema crônico habitacional de umaciência de sua existência, tendem a ser desconsideradas, população de baixa e baixíssima renda, apropriando deinconscientemente, seja pelo fato de realmente não terem áreas desocupadas, intersticiais, encostas, áreas alagáveis,importância, no momento da concepção, para o partido e outras áreas de baixo interesse pelo mercado imobiliárioinicial, seja por realmente não ter uma experiência ou (até determinado momento), ou que possuam uma difícilconhecimento prévio sobre como trabalhar tais variáveis. ocupação ou até mesmo uma baixa normalização pelasComo entender a questão da densidade - urbana, cons- regras urbanísticas - uso e ocupação do lote, zoneamento,truída, habitacional, e tantos outros tipos - como fator de entre outros.projeto? O que manter e o que preservar, e como integraristo ao novo conceito? Como entender a cidade existente e A princípio, a explicação dada é simplista, porém con-projetar parte dela, e não um sistema isolado? segue generalizar, sob amplo espectro, uma grande quan- tidade de ocupações informais que ocorrem dentro do mu-1640
  38. 38. nicípio de São Paulo. Sua estrutura tende a ser resultante, mo em vielas, tendem a ser recorrentes, o que aumentaainda que precariamente, de uma adaptação ao relevo do o risco da transmissão de doenças, ainda mais quandolocal somado à consolidação de f luxos como maneira de associado à inexistência de água potável;integrar os diversos locais edificados - ela é basicamenteuma estrutura de circulação de pedestres, em sua maio- - Precária rede de energia elétrica, que é facilmenteria, com acessos específicos para veículos automotores. identificada pela presença dos “gatos”, fios mal conecta- dos e dispostos sem a menor segurança ligados de ma- Do ponto de vista habitacional, ela agrega, ainda que neira clandestina à rede de energia principal. É um riscoinadequadamente, uma alta população, através da sobre- iminente de grandes acidentes, especialmente incêndios,posição constante de andares e criação de novos blocos ainda mais quando o local dispõe de habitações compos-habitacionais, resultando num crescente construído que tas em madeirite e outros materiais inf lamáveis.resulta em altas densidades tanto construtiva quanto po-pulacional. Isso tudo, com um custo ambiental e social Como tecido urbano, ao primeiro momento ele podemuito alto. parecer dotado de uma lógica incoerente, porém ao passo que se analisa com maior afinco sua estrutura, há uma - A infraestrutura é baixa, muitas vezes inexistente; que se destaca espacialmente, sua circulação. Esta se de- senvolve muito em função de fatores como o relevo e a - Os encanamentos de água em geral correm no meio facilidade de deslocamento entre pontos extremos.das vielas e ramificam-se para as casas, normalmente re-alizados através de conexões clandestinas das redes cen- Inevitavelmente, nas favelas onde o “tráfico” possuitrais de água, gerando problemas como a facilidade de inf luência (o que não é situação incomum), o próprio sis-quebras das conexões, que ficam muitas vezes expostas tema de circulação funciona também como uma maneiraou a baixa profundidade; de bloquear batidas policiais ou evitar sua entrada e inva- são. É um sistema de vigilância constante e eficiente, res- - Há escassez de água em períodos determinados, guardando aqui a opinião sobre isso ser um bom ou ruim,em função da incapacidade de abastecimento do sistema mas caracterizando um fato recorrente de sua estruturacomo um todo; “formal”. Neste sentido, é comum verificar por parte dos moradores o pedido por abrir mais os espaços das favelas, - Dificuldade em possuir água potável; como forma de garantir uma segurança maior pela força policial. - Fossas e dejetos a céu aberto em córregos, ou mes- 17 - projeto na favela cidade de deus, fortaleza, ce. sem autoria 41
  39. 39. 1742
  40. 40. Conhecer estas formas de tecido e entender (e ver, tar localizados dentro da própria estrutura organizacionaldevo acrescentar) de perto seu nível de precariedade traz da área em que se insere:ao arquiteto a urgência em produzir uma melhoria. Comosituação imprópria para viver, intervir - nem sempre - Se for uma favela, o que a caracteriza? Ela pode sercomo uma tabula rasa - torna-se necessário. Contudo, o densamente ocupada, pode ser verticalizada ou compor-desconhecimento de sua real dinâmica leva a deficiências se dehabitações térreas, pode ser composta de vielas deprojetuais que irão se arrastar pela vida dos usuários. Não pequena largura, ou ser semelhante a um bairro, comentender o sistema de circulações, a maneira de produ- ruas bem definidas. A identificação só pode ser consegui-ção habitacional através da autoconstrução ou as relações da através de análise específica.identitárias dos moradores com a região normalmente le-vam a disfunções projetuais. Não apenas em projetos de - Qual seu processo de estruturação espacial? Ou qualhabitação social, porém em qualquer projeto. sua estrutura de espaços livres? O resultado, e justamente por isso a crítica, são nor- - É uma intervenção pontual? É uma operação urbana?malmente projetos que agregam um baixo conhecimento É uma mudança ra dical ou isso está em concomitânciaadquirido sobre o local e uma ampla gama de achismos com o processo natural de desenvolvimento do bairro?de toda sorte sobre as relações sociais. Prédios deslocados Assim sendo, o conjunto das diretrizes para o local, emno lote, alinhados com pouco ou nenhum tratamento das termos de taxas urbanísticas e desenho urbano, tambémáreas intersticiais, unidades habitacionais indiferencia- são fatores fundamentais.das. Todos são pontos bastante comuns em projetos de ha-bitação social. Ainda que no passado recente tenha havidouma melhora projetual significativa - se comparado com - No que tange à identidade de grupo, como é a relaçãoo que era produzido há mais de 30 anos - ainda não se foi do morador atual com o local? Como isso ref letiu na pro-capaz de romper com uma tradição que ainda mantém os dução do bairro?Como é o uso do local durante o dia, eprojetos com o mesmo padrão de organização. quem se apropria dele? O que é adequado a um projeto de habitação social, Levando em consideração tais questões, é possível pon-portanto? A pergunta é complexa, e tendo em vista que derar algumas diretrizes para a criação do projeto dentroo projeto tende a ser parcialmente subjetivo, além de in- de uma área de favela:f luenciados por aspectos de nossa própria vivência e cul-tura, o resultado final certamente varia. Aqui, portanto, - identificação da estrutura do projeto vinculado à atu-o conceito apresentado também é resultado de uma ideia al situação do sítio e relação com o entorno. A questão daparcial, e não deve ser considerado como único ou final. forma urbana aqui é a mais pertinente, pois a maneira como for realizada a implantação do projeto pode criar Idealmente, considero que os aspectos fundamentais algo conectado com o tecido, que se integre de maneiraque deveriam nortear o projeto da habitação tendem a es- completa com o bairro; ou pode criar uma ilha de isola- mento, fechada entre grades e muros. Relevo e gabaritos 43
  41. 41. das construções existentes próximas devem ser aspectos - Possibilidade de expansão da casa. A autoconstruçãolevados em consideração. é uma característica fundamental do objeto de estudo. Como conciliar a evolução familiar com o projeto de ha- - identificação do projeto dentro do plano urbano da bitação?área - características e diretrizes de intervenção. Os pla-nos diretores e planos regionais estratégicos possuem ca- - Diversos tipos habitacionais. As famílias podem serracterísticas específicas sobre cada uma das áreas e quais apenas casais, ou possuírem 4 filhos. A ideia é projetardevem ser os projetos e intervenções que a área receberá através de uma modulação que seja viável produzir diver-dentro de um determinado prazo. Em casos mais espe- sos tipos de habitação em função dos diversos tipos decíficos, há de se levar em consideração as modificações famílias existentes, entendendo as necessidades de cadapropostas pela por uma Operação Urbana. um. - Utilização das lajes como espaços de lazer e circula- - Mistura de usos. Em situações normais, a favela pos-ção. Uma das características mais facilmente observadas é sui naturalmente residências, comércio e pequenos ser-a utilização das lajes das habitações autoconstruídas para viços, que estimulam um pequeno mercado interno. Adiversos usos, sejam festas, pendurar roupas num varal, criação de projetos de habitação de interesse social temou mesmo deixar pronta a base para uma nova verticali- levado em consideração nos últimos tempos a diversida-zação da moradia. Esta característica é muito marcante de, porém ainda são bastante incipientes seus resultados.dentro da favela, e poderia ser considerada como um novo Espera-se que o projeto possa abarcar essa necessidade daespaço a ser apropriado dentro do novo projeto. população. - Gabaritos diversos nas edificações. A autoconstrução Este proposta, portanto, não pretende criar um proces-aqui é o principal fator por essa característica. A variação so de urbanização de baixo impacto - remoção pontual dede renda entre as diversas famílias leva a diferentes tipos famílias, inserção de infraestrutura mínima, pouca oue tamanhos de casa, resultando numa “skyline” bastante nenhuma construção nova -, nem sequer trabalhar comcaracterística. a questão do custo mínimo da habitação ou a regulariza- ção fundiária, ainda que, por efeito do tema, estes tópicos - Alta permeabilidade por entre as edificações. A es- possam ser abordados. Apesar de saber que tais partestrutura de circulação peatonal nas favelas á predominante são fundamentais no processo de produção de habitaçãona ideia de lugar. É a contraposição direta do construído, social e de urbanização, aqui, por sua complexidade dejá que se verifica em grande medida ausência de espaços análise, e pelo tempo escasso, não serão fatores levadoslivres no interior de tais tecidos. A necessidade é morar. em consideração. Assim sendo, objetiva-se que a partirContudo, o alto custo que essa opção coloca é perder em da análise conceitual construída seja proposta uma novagrande medida qualidades ambientais, tais como ilumi- maneira de se produzir habitação social, o projeto em si,nação e ventilação. A ideia é buscar um equilíbrio adequa- e suas relações internas e externas com o existente. Trata-do entre construído e permeável. se de um exercício de projeto.Estas características corres-44
  42. 42. pondem a uma ideia, um conceito. Mais do que um proje- uma destas abordagens pode se tornar realmente parteto, busca-se desenvolver uma superestrutura que consiga contundente do projeto final. Todas elas efetivamente seagregar todos estes conceitos. encaixam como prática e diretrizes de projeto, ou algumas ficarão apenas no arcabouço teórico do discurso “vazio” A lógica da favela é muito complexa, e a maneira como de arquitetura? Para continuar a discussão, é necessário,tratamos o projeto de habitação tende a simplificar para portanto, se voltar para o objeto de estudo e verificar comoo nível da moradia o que antes eram relações sociais de cada um dos conceitos se encaixa quando realizamos umadiversas ordens espacializadas dentro de um local. Con- intervenção.tudo, a reprodução de tal ambiente é quase impossível,uma vez que a inf luência do tempo é fundamental paraque as relações se desenvolvam, para que a apropriação doespaço aconteça; sua reprodução não é sequer ideal, já quehá diversos aspectos que não contribuem para um desen-volvimento humano adequado. A ideia aqui é “informalizar” o projeto de habitação.Desfavelizar, talvez? Projetar uma favela? Todas as alter-nativas anteriores podem estar corretas. O conceito aqui criado reside na utilização das carac-terísticas “orgânicas” de uma favela como base para umprojeto formal de habitação, inerentes ao seu processo dedesenvolvimento e, partindo destas características, trans-formar isso num projeto de habitação. Assim sendo, pretende-se racionalizar o conceito deagregação de habitações e autoconstrução como modo deproduzir um projeto que seja capaz de relacionar-se como ambiente anteriormente existente, produzindo uma me-lhor apropriação do espaço e uma maior identificação dousuário com o local. Porém, é preciso projetar e verificar até que ponto cada 45
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  44. 44. Contextualização A escolha da região da Vila Prudente como local de intervenção está vinculada ao fato de eu ter trabalhado, junto à Secretaria de Habitação de São Paulo, na regio- nal Sudeste da Superintendência de Habitação Popular. Assim sendo, pela existência de uma proximidade com o local, bem como pelo conhecimento - ainda que precário - sobre como se comporta o tecido urbano da região, não pude deixar de acreditar que seria um bom local para se realizar um estudo. A Vila Prudente é uma subprefeitura da Zona Sudeste de São Paulo. Aqui, utilizar-se-á Zona Sudeste, ao invés de Zona Leste, pois de acordo com a separação da pró- pria prefeitura de São Paulo, a Macrozona Leste divide-se em três partes, Sendo Zona Leste I, Zona Leste II e Zona Sudeste. Esta última zona constitui na região de maior desenvolvimento da Macrozona Leste, com intensa ver- ticalização, processos de renovação urbana e uma forte especulação imobiliária. Além disso, é a área mais bem servida de infraestrutura, contando ainda com diversos projetos em construção, como a Linha Branca de Metrô Leve, a expansão da Linha 2 - Verde, o Expresso Tiraden- tes, entre outros. Dentro deste panorama, ocupa local de destaque, pois apesar de sua proximidade com o Centro, a Vila ainda guarda características da antiga ocupação do bairro, que completou no ano passado 120 anos de existência. Contu-vila prudente do, com o desenvolvimento imobiliário seguindo em dire- ção a novas regiões dentro do município de São Paulo, a Vila Prudente tem sofrido diversas modificações em seu tecido urbano - tem surgido diversos conjuntos residen- ciais verticalizados, quadras inteiras estão sendo demoli- 47

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