Carlos Heitor Cony
Pisei de mau jeito numdesses caminhos da vida e    peguei uma dor notornozelo que não passava    com os recursos da    med...
Ele e suas agulhas. Tada espetou-as não exatamente no local avariado mas em quase todo o corpo. Identificou  problemas no ...
Tada não sabe nem quersaber por que sobreviveu – nem perde tempo em     pensar nisso.   Todos os anos, emagosto, faz silên...
Seu vocabulário em   português é pobre, na realidade, é paupérrimo.   Não usa verbos, usa   apenas substantivos. Descreve ...
Para ele, política não é apenas companheira da tragédia                       e da tristeza.        Mais do que um sinônim...
Diz ele que a sua pele  ainda tem vestígios    daquela manhã.Suas agulhas também.De maneira que me sinto,    de certa form...
Passei a entender por que  não gosto de política.   E a confundo com   tragédia e tristeza. Carlos Heitor Cony
Imagens recebidas por email      Música: “Memories”– Andre Rieu             Formatação: Christina Meirelles Neves
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Carlos heitor cony agulhas de hiroshima

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Carlos heitor cony agulhas de hiroshima

  1. 1. Carlos Heitor Cony
  2. 2. Pisei de mau jeito numdesses caminhos da vida e peguei uma dor notornozelo que não passava com os recursos da medicina ocidental. Aconselharam-me aalternativa que sempre se busca nessas horas: oscomplicados macetes da medicina oriental.Daí que adentrou em minhasala um japonês simpático,com o simpaticíssimo nome de Tada.
  3. 3. Ele e suas agulhas. Tada espetou-as não exatamente no local avariado mas em quase todo o corpo. Identificou problemas no baço – e eu nem sabia que tinha baço dentro de mim. Para amenizar o agulheiro em que me transformei, falou de sua vida e de sua quase morte. Morava em Hiroshima, tinha 6 anos quando viu um sol nascer do chão e matar todo mundo em volta.
  4. 4. Tada não sabe nem quersaber por que sobreviveu – nem perde tempo em pensar nisso. Todos os anos, emagosto, faz silêncio de umminuto para lembrar o que viu e não entendeu – e não entende até hoje.
  5. 5. Seu vocabulário em português é pobre, na realidade, é paupérrimo. Não usa verbos, usa apenas substantivos. Descreve aquela manhã de agosto de 1945 misturandoalguns desses substantivos:tragédia – tristeza – política.
  6. 6. Para ele, política não é apenas companheira da tragédia e da tristeza. Mais do que um sinônimo, é uma causa. Esqueci de dizer que rosna algumas interjeições, como “ai”, “ui”, “oooh” e uma variante dessa última, que é “iiih”. O resultado é que o meu diálogo com ele corre naturalmente, pois insisto também nas mesmas interjeições, sobretudo na primeira.
  7. 7. Diz ele que a sua pele ainda tem vestígios daquela manhã.Suas agulhas também.De maneira que me sinto, de certa forma, um sobrevivente de Hiroshima.
  8. 8. Passei a entender por que não gosto de política. E a confundo com tragédia e tristeza. Carlos Heitor Cony
  9. 9. Imagens recebidas por email Música: “Memories”– Andre Rieu Formatação: Christina Meirelles Neves

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