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NOTAS IBÉRICAS

O cavalo peninsular
FUNDAMENTOS DA IDENTIDADE CULTURAL
DO CAVALO PORTUGUÊS… ANTIGO
Para nascer pouca terra; para morrer toda a terra.
Para nascer Portugal; para morrer todo o mundo
Padre António Vieira

Eng.º Rodrigo Almeida

Antes de iniciar o artigo é de toda a conveniência e sentido de oportunidade, uma vez que a voz do seu
mentor é uma constante no artigo, enaltecer a genialidade do Eng. Manuel Tavares Veiga, enquanto
edificador de um monumento com identidade à imagem e cultura do Homem português. O cavalo Veiga
tem sido zelosamente preservado por gerações de herdeiros, que tão bem o têm mantido e elevado.
O meu despertar para os cavalos
ocorreu num dos antigos e célebres
leilões de Rio Frio, onde o Eng.º José
Lupi, por graça, soltou o Zaire MV
(Nilo MV x Laranja MV por Bailador
MV) para o recinto do leilão. Nesse
tempo nem sequer sabia o que era
um cavalo Veiga, mas, o fascínio surgiu

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sem contexto e explicação aparente,
apenas por transmissão de sensações.
Não sendo em si um cavalo de grande
nota funcional, o Zaire MV imprimiu
aos seus filhos uma funcionalidade
toreira constantemente enaltecida pela
família Lupi, e tão bem evidenciada
nas praças de toros de todo o mundo.

S ETEMBRO /O UTUBRO 2011

Neste artigo procuraremos de forma
fidedigna, apenas com alguma actualização de português, apresentar, não
na íntegra, pois o mesmo é extenso,
mas através de uma selecção de extractos, o conteúdo de um livro que
eu considero de referência – “O cavalo
Portuguêz”, escrito em 1922 pelo

Eng.º Manuel Tavares Veiga – provocando com esta selecção, o entendimento para algumas nuances do efectivo cavalar do presente. Até hoje
nunca me cansei de o reler, pois ao
fazê-lo descubro sempre um pormenor
de intenção que me havia escapado.
É espantoso descobrir neste texto
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NOTAS IBÉRICAS

pormenores de actualidade verdadeiramente arrepiantes!!!
Deixo-vos assim em 1922, com
o Eng.º Manuel Tavares Veiga, em
discurso directo do:
Lamentava Ramalho Ortigão que o
português viajasse tão pouco. Aos seus
hábitos sedentários atribuía ele o nosso
atrazo, em relação aos outros países
da Europa. O grande crítico, cuja bagagem intelectual era mais completa
do que a que cuidadosamente arrumava
nas suas malas de dandy impecável,
apesar do mal que disse dos seus conterrâneos, nunca supus que, postos a
correr mundo, eles seriam, ao regressar,
os maiores inimigos da sua pátria.
Faltava a muitos a preparação intelectual
e, o que é pior ainda, o orgulho de ser
português do que resulta a tineta para
achar bom e belo o que é dos outros e
mau, ridículo mesmo, tantas coisas
que, por serem caracteristicamente
nossas, devíamos olhar com desvanecimento e conservar com amor.
Com que saudade nos recordamos de
alguns exemplares de puras raças peninsulares que ainda vimos há muitos
anos! Nervosos, cheios de garbo, duma
obediência que parecia feita do desejo
de adivinhar a vontade do cavaleiro, a
cabeça erguida, longas crinas ao vento,
movimentos altos e duma rapidez fulminante, afrontando com indómita coragem
todos os perigos, sem desdouro podiam
ostentar, na testeira da cabeçada, a
divisa de Rolando: sem medo e
sem mácula.
Não seria possível restaurar
as velhas raças peninsulares
porque a vizinha Espanha caiu
nos mesmos erros, (de que já
começa a penitenciar-se) mesclando, sem critério, o sangue
dos seus nobres corcéis de
fama mundial, com o de reprodutores de várias proveniências e raças?
Resumidamente vamos expor
o que pensamos sobre o assunto,
resumidamente porque não cabe
nas nossas posses nem na índole
deste trabalho, fazê-lo com desenvolvimento. O nosso fim é
principalmente chamar a atenção
dos criadores portugueses para
um assunto que não interessa
só os amadores de cavalos, os
homens de sport, pois nesse
caso ele devia ser relegado aos
clubes elegantes, mas que interessa grandemente a sagrada defesa da Pátria.
Porque não se organiza uma asso-

Esbelto, reprodutor da raça Alter Real pertencente à Casa de Bragança (in Guia Pratica do Creador e Amador de Cavallos)

ciação de todos os criadores portugueses?
Seria a forma de nos podermos orientar
num determinado sentido e uniformizar
o tipo do cavalo português em harmonia
com as exigências do país, entre as
quais a todas sobreleva a remonta do
nosso exército.
Depois de Silvestre Bernardo Lima
ainda não tivemos outro zootecnista.
E como podemos ter homens especializados em qualquer ramo científico,
se em regra os estudiosos são alheios
à politica e desamparados portanto
de protecções que outros, com artimanhas demasiado conhecidas de to-

dos, sabem conquistar?
Todos nós conhecemos, por experiência de todos os dias, a superioridade
do cavalo peninsular como cavalo de
campo, de trabalho e de passeio. Dócil,
sóbrio, duma rusticidade e resistência
que lhe permite lidar dias seguidos, nas
lezírias do Ribatejo, na condução ou
apartamento do gado bravo e, ao anoitecer, coberto de suor, o campino tiralhe o albardão, acena-lhe com a vara e
ele lá vai espoliar-se na terra para se
enxugar e comer a erva espontânea,
na primavera ou os magros restolhos
da estação calmosa.

Temporal, pertencente à Sra. Marqueza de Tancos (in Ano Hípico Português 1956/57)

Não serão a resistência, a sobriedade
e a docilidade que fazem do homem
da Beira o melhor soldado português,
as qualidades que devem caracterizar
o melhor cavalo de guerra?
Não é com o fim de melhorar as
raças equinas que as corridas de cavalos
estão tão em voga em Inglaterra. Foi,
sem dúvida, essa a ideia que presidiu à
sua organização naquele país mas,
então, em vez de 1800m o percurso
era de muitos quilómetros. A selecção
era feita com o critério de resistência,
do fundo, e não da velocidade como
actualmente.
Darley Arabian, Eclipse, Godolphim
Arabian e outros campeões célebres desses tempos, eram, ao
contrário dos seu ridículos descendentes, dum ridículo a entestar com a teratologia (estudo
das anomalias e das malformações ligadas a uma perturbação do desenvolvimento): fortes, largo peito, amplo perímetro
torácico, garupa larga pois os
extensos e duros percursos, que
eles tinham de vencer, estavam,
ainda, semeados de obstáculos.
No livro “The Points of the
Horse” diz ainda Horace Hayes:
Para fazer do puro-sangue um
cavalo de caça, de trabalho ou
de remonta é preciso acabar
com as corridas de potros de
dois anos de idade, diligenciar
aumentar-lhes a corpulência e
tornar mais extensos os percursos, excluindo todos os cavalos que cheguem à meta ofegantes. “Adaptando esta orientação, o puro-sangue não só adquiriria
força e resistência como conservaria a

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NOTAS IBÉRICAS

saúde e o vigor durante um período
mais largo… etc.”
Utilizam ainda em Inglaterra e no
norte da Europa, o puro-sangue, no
cruzamento com as raças de grande
corpulência e temperamento linfático,
como o Cleveland, o normando, etc..
Os produtos industrias destes cruzamentos, dos quais o mais notável de
todos é o hunter irlandez, não possuem,
em elevado grau, nem o volume e o linfatismos das citadas raças, nem o nervosismo, dureza de boca e as reacções
violentas do puro-sangue. São estes os
cavalos de guerra, de caça e de tiro; os
puro-sangue só os jockeys montam.
Quando aparece, o que é raro, um
cavalo desta raça com as necessárias
condições para cavalo de sela, diz
o Conde de Lagondie, paga-se a
peso de ouro.
Como elemento de correcção,
o puro-sangue, muito prejudicou
as raças peninsulares porque
as nossas éguas não têm a corpulência, o temperamento e
morosidade de andamentos que
caracterizam as raças pesadas
dos climas húmidos e pascigosos
do Norte.
Das outras raças estrangeiras
que aqui vieram fazer das suas,
só, muito brevemente, nos referiremos à raça hackney. O
hackney não é ainda uma raça.
Produto do cruzamento do Cleveland com o puro-sangue, os
seus caracteres não estão ainda
fixados. É tão vulgar ver um
hackney de tipo convexo (ramo
Cleveland) como do tipo subconvexo ou concavo (ramo purosangue). Isto bastava, se outro
motivo não houvesse, para o
condenar como reprodutor porque o melhor garanhão é sempre
aquele cujos caracteres estão perfeitamente fixados por uma longa hereditariedade.
Na opinião de Silvestre fomos nós
“um dos primeiros, senão o primeiro
país da Europa, talvez, que encarnou o
sangue oriental nos seus cavalos”. Diffloth,
no seu tratado de zootécnia, afirma
também que, de entre todos os cavalos
da Europa, é o peninsular que acusa
mais sangue árabe. Assim deve ser
pelas razões históricas de todos conhecidas.
Na opulenta corte de Granada, sem
dúvida, existiram autênticos exemplares
de raça Árabe e dizemos autênticos
porque não queremos cair no erro vulgar
de confundir o cavalo Àrabe de cabeça

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quadrada, frontal plano e chanfro rectilineo, com o barbo, de perfil ligeiramente
convexo – sub-convexo na classificação
de Baron. Foi talvez esta pequena convexidade, que em grande número de
barbos não atinge o chanfro, que deu
lugar a que se não distinguissem estes
dois tipos: o árabe e o barbo.
O mesmo erro também muito vulgarmente se comete, confundindo o
cavalo da Mesotopania e região limítrofes,
de perfil concavo, com o árabe. O
próprio zootecnista Magne ao descrever,
este cavalo disse: tem o chanfro recto
ou levemente reentrante. Não; o cavalo
árabe tem o perfil recto e as características cefálicas são as mais persistentes,

cendentes de genuínos cavalos árabes
cujos caracteres o atavismo fielmente
reproduzia (a um destes cavalos – o
Derza – que pertenceu a Carlos Relvas,
se refere Silvestre Bernardo Lima nos
seus escritos sobre os equinos, publicado
no Ministério do Fomento de 1913.
Classifica-o, o grande mestre, de árabe
e assim o devia classificar quem não
conhecesse a sua história, tal era a fidelidade com que o atavismo reproduzia
os caracteres daquela raça. O outro,
mais novo, e do mesmo ferro, como
dissemos, foi durante anos o reprodutor
da Coudelaria da Quinta da Brôa).
O bom senso que tantas vezes substitui com vantagem a inteligência e o

Cavalo berbere da tribo dos Flitas, departamento de Orão (Argélia)
(in Boletim da Estação Zootécnica Nacional 1937)

as que mais resistência oferecem a
todas as acções modificadoras e, portanto, aquelas a que temos sempre de
atribuir maior importância.
Conhecemos, há muitos anos, dois
cavalos da Coudelaria Parladé de Jerez,
salvo erro, que tão bem fixámos na
memória que nitidamente os estamos
vendo ainda. Fronte perfeitamente plana,
garupa horizontal, membros de um
aprumo irrepreensível, grandes olhos a
revelarem energia e inteligência, abrindo
desmesuradamente as ventas logo que
o cavaleiro os montava. Estes dois formosos animais eram sem dúvida, des-

S ETEMBRO /O UTUBRO 2011

saber, unanimemente protesta contra
a desordem que veio trazer às nossas
coudelarias a introdução de garanhões
estrangeiros.
E o bom cavalo peninsular – que
José Relvas nos perdoe – é o Stradivarius
dos grandes mestres de equitação.
Sempre alerta, sempre atento ao cavaleiro, obedecendo às mais leves ajudas,
sem a rigidez de alavancas que transformou o cavalo inglês numa máquina
de correr ou saltar, o cavalo peninsular
é comodo em todos os andamentos e
elástico como as molas de um bom
maple.

Da já citada obra de Horace Hayes,
na parte em que se refere aos cavalos
peninsulares, transcrevemos o seguinte:
“Lemos nos tratados de Simonoff e
Moeder “Races Chevalines”: Quando
os Sarracenos conquistaram Espanha
no século VIII, trouxeram de África
muitos cavalos de sela de tipo oriental
que depois foram cruzados com raças
indígenas espanholas muito corpulentas.
Deste cruzamento derivam os afamados
cavalos espanhóis do século XVI e XVII””.
A que é devida pois a decadência do
cavalo peninsular? A nosso ver pelos
seguintes motivos: 1) Os cruzamentos
desordenados, sem orientação científica;
2) Não sabemos selecionar; 3) Alimentamos mal.
E, ainda por uma falsa compreensão de economia, abusase, com exagero mercedor de
maior censura, da consanguinidade. Lavradores há que
constantemente utilizam cavalos, com o seu ferro, como
garanhões. Não se julgue que
fantasiamos ou muito pior que
caluniamos. Muito prazer teríamos em dizer o contrário:
que a escolha de reprodutores
se fazia com o mais severo
critério.
Selecionem pois os lavradores
as suas éguas com rigoroso
critério, embora isso importe
a redução das manadas; comprem o reprodutor a algum
criador que também tivesse
sabido resistir às enganadoras
tentações da moda, para assim
evitarem os inconvenientes da
consanguinidade muito estreita;
alimentem fartamente; não
submetam os potros e éguas
à dura pena de trabalhos forçados e, seguros estamos de
que, em poucos anos, levantarão
o nível das suas coudelarias. E mais
tarde, quando lhes for possível adquirir
um bom reprodutor que tanto pode ser
um árabe de verdade como um legitimo
andaluz, em cujas veias corre ainda o
generoso sangue do cavalo do deserto,
que excelentes éguas encontrarão esses
anciados restauradores do antigo cavalo
português.
Já dissemos o que pensávamos a
respeito do cavalo árabe e do andaluz,
inquestionavelmente os antepassados
dos cavalos portugueses. A introdução
destes dois cavalos, nas coudelarias nacionais, nunca para nós representará
portanto, um cruzamento. A propósito
do andaluz acrescentaremos que não
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NOTAS IBÉRICAS

consideramos um puro representante
da raça, aquele, cuja cabeça, for acentuadamente convexa. Estes cavalos só
começaram a aparecer em Espanha
depois da importação dos cavalos dinamarqueses de tipo ultra-convexo,
que um rei de França pôs em moda.
Aos estudiosos e a todos aqueles
que reconhecem as vantagens e diremos
mesmo a necessidade de se ilustrarem
neste tão interessante ramo da ciência,
que é a zootécnia, aconselhamos, em
primeiro lugar, a leitura dos escritos de
Silvestre Bernardo Lima, publicados em
volume, pelo Ministério do Fomento em
1913. A nenhum criador de cavalos é
lícito desconhecer tão interessante obra.
Brilhantemente escrita e cheia de
preciosos ensinamentos, pois Silvestre Bernardo Lima, possuía
uma vasta ilustração, ela é a
única, sobre a especialidade,
escrita em português, que com
orgulho podemos arrumar nas
nossas estantes.
Tenho de introduzir uma
explicação retirada dos textos
de Silvestre Bernardo Lima
(1824 – 1893), onde o autor
justifica que “não há no fundo
cruzamento senão antes castiçamento, quando se reproduzem entre si cavalos árabes
e lusitanos, porque não são
de raça diversa (e só em raças
diversas há cruzamento) mas
sim da mesma raça ou casta
(Bernardo Lima, Estudos hyppicos, in A agricultura Portugueza – 1890). Prossegue ainda referindo que ambos pertencem ao E. caballus asiaticus.
Sans..
Obviamente que ao terminar esta selecção de transcrições do Eng.º Manuel Tavares
Veiga, não posso deixar de recomendar a leitura na integra deste livro
genial, que facilmente pode ser encontrado no interior do livro "Cavalos
Veiga - Tradição e Actualidade", de
Alberto Tavares Barreto. Aproveito
para lançar três perguntas: quantos
criadores portugueses conhecem a
obra de Silvestre Bernardo Lima?
Quantos leram com atenção o livro
“Alrededor del Caballo Espanol” –
1954 – escrito pelo Dr. Ruy D’Andrade? Quantos leram o “O cavalo
Portuguez” do Eng.º Manuel Tavares
Veiga?
Girando a agulha do Peninsular
Veiga para o Peninsular Andrade, poderemos encontrar escrito pelo Dr.

Ruy D’Andrade: Alguns dos meus
cavalos têm visível introdução de sangue
árabe. Atribuo esse facto, como já
disse, ao “Guerrillero”, de Aranjuez, da
genealogia Guerrero; ou a algum ascendente do “Nice”, de Alter; ou ainda
a alguns dos ascendentes árabes do
“Neapolitano”, de Lippiza. É o que
pode haver de estranho; mas, conforme
as notas genealógicas, tudo isto tão
distante e diluído, que pode ser desprezado. E qual será hoje o cavalo andaluz absolutamente puro na sua ascendência? Quando não foram cavalos
nórdicos, foram seguramente berberes
e árabes de tempo a tempo introduzidos.
(livro Font’alva 1895-1941); Eis os mo-

Andaluz de Perfil Convexo – 1941).
Num entendimento que não é apenas meu, adapto as palavras de Silvestre
Bernardo Lima (Silvestre Bernardo
Lima – Equinos – Coimbra imprensa
da universidade - 1913), à consideração
de que o cavalo Peninsular português
de finais do séc. XIX, início do séc.
XX, “reflecte em si a qualidade e o
carácter do homem que o produz e
é a expressão das necessidades da
época em que se vive”
A realidade do cavalo sempre teve
por suporte factores económicos,
geográficos, e sociais. Com base nesta
percepção, será fácil antever que o
cavalo português do passado acom-

Pastorcito, cavalo andaluz da casta Zapata, pertencente à antiga coudelaria de D. Vicente Romero y Garcia, de Jerez de la Frontera - A semelhança entre estes dois cavalos denota o estreito parentesco do berbere com o andaluz (in Boletim da Estação Zootécnica Nacional 1937)

tivos por que optei pela raça andaluza,
na qual escolhi uma única família para
obter animais de parentesco bastante
próximo, dando preferência aos reprodutores ruços da família Zapata por
serem os que oferecem probabilidades
de mais facilmente manter o tipo berbere, que é o mais forte e resistente
dentro da raça (O cavalo andaluz –
1937 - Ruy D’Andrade). De acordo
com o Dr. Ruy D’Andrade aos cavalos
africanos da orla mediterrânica, aplica-se geralmente o nome de raça
berbere. (Ruy D’Andrade - O cavalo

panhou de uma forma fiel a história
do Homem Português. A história de
Portugal fala-nos de um Homem que
nunca teve pruridos com a mistura,
quer entre si, quer entre os animais
que produzia. Este facto é inquestionável, e reflecte talvez, reminiscências
da visão de um povo de descobridores,
que cruzaram e integraram as culturas
do mundo de então, “dando novos
mundos ao mundo”. Cada qual à sua
maneira, também as famílias Andrade
e Veiga, de uma forma frontal, transparente, e documentada, afirmaram-

se pelo pragmatismo de uma obra,
onde sobressaiu o império de uma
visão pessoal e genial, dando ao mundo
hípico português de então, um valioso
contributo para o enriquecimento do
património genético do cavalo Peninsular ou Ibérico.
Fazendo um aparte importante relativo ao termo puro sangue, como
nos salienta Andrés Cabrera (El Caballo
Moruno – Madrid – 1921), aplicado
ao Puro Sangue Inglês, diz-nos que o
mesmo reflecte uma enorme inexactidão por parte dos hipólogos que
atribuíram esse nome a uma raça,
cuja formação adveio da intervenção
de pelo menos três raças orientais, e
uma quarta, a Inglesa, que era já
então uma mistura de outras.
A macro visão que advém
da criatividade funcional associada à cultura de um povo,
enquanto factor de diferenciação genuinamente português (com produtos impossíveis de copiar, tais como a
cortiça, o azeite, e outros
tais) pode-nos engrandecer
e distanciar do micro marketing do pensamento pré-embalado, quer do corrente mito
do purismo Lusitano acentuadamente ariano (que se
deve restringir em exclusivo
à imagem de marca – exactamente como no puro sangue inglês – e nunca procurar
inexistentes fundamentos de
pureza), quer da condicionante do tradicionalismo dogmático e inquestionável da
“estória sem história… apenas
porque sim”, tão querida a
alguns, pois projecta uma comodidade que dispensa a reflecção e a pesquisa. Esta postura, acéfala por falta de coerência
cultural e sentido de progresso funcional, acaba por encerrar o actual
Puro Sangue Lusitano numa gaiola de
tradição dourada, que nos conduz à
já célebre frase do Francisco Cancella
de Abreu: “QUANTO MAIS TRADIÇÃO MENOS EVOLUÇÃO”.
Fiquem-nos os exemplos da frontalidade e clareza sustentada, de três
referências na importância do cavalo
português: Prof. Dr. Silvestre Bernardo
Lima (1824 – 1893); Eng.º Manuel
Tavares Veiga (1863-1950); Dr. Ruy
D’Andrade (1880-1967). Um bemhaja aos três que escreveram, pesquisaram, fundamentaram, e deixaram
obra portuguesa de referência! n

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Equitacao92 cavalo peninsular

  • 1. Equitacao92_Equitacao_novo 20-09-2011 16:20 Página 66 NOTAS IBÉRICAS O cavalo peninsular FUNDAMENTOS DA IDENTIDADE CULTURAL DO CAVALO PORTUGUÊS… ANTIGO Para nascer pouca terra; para morrer toda a terra. Para nascer Portugal; para morrer todo o mundo Padre António Vieira Eng.º Rodrigo Almeida Antes de iniciar o artigo é de toda a conveniência e sentido de oportunidade, uma vez que a voz do seu mentor é uma constante no artigo, enaltecer a genialidade do Eng. Manuel Tavares Veiga, enquanto edificador de um monumento com identidade à imagem e cultura do Homem português. O cavalo Veiga tem sido zelosamente preservado por gerações de herdeiros, que tão bem o têm mantido e elevado. O meu despertar para os cavalos ocorreu num dos antigos e célebres leilões de Rio Frio, onde o Eng.º José Lupi, por graça, soltou o Zaire MV (Nilo MV x Laranja MV por Bailador MV) para o recinto do leilão. Nesse tempo nem sequer sabia o que era um cavalo Veiga, mas, o fascínio surgiu 66 R EVISTA E QUITAÇÃO G N.º 92 G sem contexto e explicação aparente, apenas por transmissão de sensações. Não sendo em si um cavalo de grande nota funcional, o Zaire MV imprimiu aos seus filhos uma funcionalidade toreira constantemente enaltecida pela família Lupi, e tão bem evidenciada nas praças de toros de todo o mundo. S ETEMBRO /O UTUBRO 2011 Neste artigo procuraremos de forma fidedigna, apenas com alguma actualização de português, apresentar, não na íntegra, pois o mesmo é extenso, mas através de uma selecção de extractos, o conteúdo de um livro que eu considero de referência – “O cavalo Portuguêz”, escrito em 1922 pelo Eng.º Manuel Tavares Veiga – provocando com esta selecção, o entendimento para algumas nuances do efectivo cavalar do presente. Até hoje nunca me cansei de o reler, pois ao fazê-lo descubro sempre um pormenor de intenção que me havia escapado. É espantoso descobrir neste texto
  • 2. Equitacao92_Equitacao_novo 20-09-2011 16:20 Página 67 NOTAS IBÉRICAS pormenores de actualidade verdadeiramente arrepiantes!!! Deixo-vos assim em 1922, com o Eng.º Manuel Tavares Veiga, em discurso directo do: Lamentava Ramalho Ortigão que o português viajasse tão pouco. Aos seus hábitos sedentários atribuía ele o nosso atrazo, em relação aos outros países da Europa. O grande crítico, cuja bagagem intelectual era mais completa do que a que cuidadosamente arrumava nas suas malas de dandy impecável, apesar do mal que disse dos seus conterrâneos, nunca supus que, postos a correr mundo, eles seriam, ao regressar, os maiores inimigos da sua pátria. Faltava a muitos a preparação intelectual e, o que é pior ainda, o orgulho de ser português do que resulta a tineta para achar bom e belo o que é dos outros e mau, ridículo mesmo, tantas coisas que, por serem caracteristicamente nossas, devíamos olhar com desvanecimento e conservar com amor. Com que saudade nos recordamos de alguns exemplares de puras raças peninsulares que ainda vimos há muitos anos! Nervosos, cheios de garbo, duma obediência que parecia feita do desejo de adivinhar a vontade do cavaleiro, a cabeça erguida, longas crinas ao vento, movimentos altos e duma rapidez fulminante, afrontando com indómita coragem todos os perigos, sem desdouro podiam ostentar, na testeira da cabeçada, a divisa de Rolando: sem medo e sem mácula. Não seria possível restaurar as velhas raças peninsulares porque a vizinha Espanha caiu nos mesmos erros, (de que já começa a penitenciar-se) mesclando, sem critério, o sangue dos seus nobres corcéis de fama mundial, com o de reprodutores de várias proveniências e raças? Resumidamente vamos expor o que pensamos sobre o assunto, resumidamente porque não cabe nas nossas posses nem na índole deste trabalho, fazê-lo com desenvolvimento. O nosso fim é principalmente chamar a atenção dos criadores portugueses para um assunto que não interessa só os amadores de cavalos, os homens de sport, pois nesse caso ele devia ser relegado aos clubes elegantes, mas que interessa grandemente a sagrada defesa da Pátria. Porque não se organiza uma asso- Esbelto, reprodutor da raça Alter Real pertencente à Casa de Bragança (in Guia Pratica do Creador e Amador de Cavallos) ciação de todos os criadores portugueses? Seria a forma de nos podermos orientar num determinado sentido e uniformizar o tipo do cavalo português em harmonia com as exigências do país, entre as quais a todas sobreleva a remonta do nosso exército. Depois de Silvestre Bernardo Lima ainda não tivemos outro zootecnista. E como podemos ter homens especializados em qualquer ramo científico, se em regra os estudiosos são alheios à politica e desamparados portanto de protecções que outros, com artimanhas demasiado conhecidas de to- dos, sabem conquistar? Todos nós conhecemos, por experiência de todos os dias, a superioridade do cavalo peninsular como cavalo de campo, de trabalho e de passeio. Dócil, sóbrio, duma rusticidade e resistência que lhe permite lidar dias seguidos, nas lezírias do Ribatejo, na condução ou apartamento do gado bravo e, ao anoitecer, coberto de suor, o campino tiralhe o albardão, acena-lhe com a vara e ele lá vai espoliar-se na terra para se enxugar e comer a erva espontânea, na primavera ou os magros restolhos da estação calmosa. Temporal, pertencente à Sra. Marqueza de Tancos (in Ano Hípico Português 1956/57) Não serão a resistência, a sobriedade e a docilidade que fazem do homem da Beira o melhor soldado português, as qualidades que devem caracterizar o melhor cavalo de guerra? Não é com o fim de melhorar as raças equinas que as corridas de cavalos estão tão em voga em Inglaterra. Foi, sem dúvida, essa a ideia que presidiu à sua organização naquele país mas, então, em vez de 1800m o percurso era de muitos quilómetros. A selecção era feita com o critério de resistência, do fundo, e não da velocidade como actualmente. Darley Arabian, Eclipse, Godolphim Arabian e outros campeões célebres desses tempos, eram, ao contrário dos seu ridículos descendentes, dum ridículo a entestar com a teratologia (estudo das anomalias e das malformações ligadas a uma perturbação do desenvolvimento): fortes, largo peito, amplo perímetro torácico, garupa larga pois os extensos e duros percursos, que eles tinham de vencer, estavam, ainda, semeados de obstáculos. No livro “The Points of the Horse” diz ainda Horace Hayes: Para fazer do puro-sangue um cavalo de caça, de trabalho ou de remonta é preciso acabar com as corridas de potros de dois anos de idade, diligenciar aumentar-lhes a corpulência e tornar mais extensos os percursos, excluindo todos os cavalos que cheguem à meta ofegantes. “Adaptando esta orientação, o puro-sangue não só adquiriria força e resistência como conservaria a R EVISTA E QUITAÇÃO G N.º 92 G S ETEMBRO /O UTUBRO 2011 66
  • 3. Equitacao92_Equitacao_novo 20-09-2011 16:20 Página 68 NOTAS IBÉRICAS saúde e o vigor durante um período mais largo… etc.” Utilizam ainda em Inglaterra e no norte da Europa, o puro-sangue, no cruzamento com as raças de grande corpulência e temperamento linfático, como o Cleveland, o normando, etc.. Os produtos industrias destes cruzamentos, dos quais o mais notável de todos é o hunter irlandez, não possuem, em elevado grau, nem o volume e o linfatismos das citadas raças, nem o nervosismo, dureza de boca e as reacções violentas do puro-sangue. São estes os cavalos de guerra, de caça e de tiro; os puro-sangue só os jockeys montam. Quando aparece, o que é raro, um cavalo desta raça com as necessárias condições para cavalo de sela, diz o Conde de Lagondie, paga-se a peso de ouro. Como elemento de correcção, o puro-sangue, muito prejudicou as raças peninsulares porque as nossas éguas não têm a corpulência, o temperamento e morosidade de andamentos que caracterizam as raças pesadas dos climas húmidos e pascigosos do Norte. Das outras raças estrangeiras que aqui vieram fazer das suas, só, muito brevemente, nos referiremos à raça hackney. O hackney não é ainda uma raça. Produto do cruzamento do Cleveland com o puro-sangue, os seus caracteres não estão ainda fixados. É tão vulgar ver um hackney de tipo convexo (ramo Cleveland) como do tipo subconvexo ou concavo (ramo purosangue). Isto bastava, se outro motivo não houvesse, para o condenar como reprodutor porque o melhor garanhão é sempre aquele cujos caracteres estão perfeitamente fixados por uma longa hereditariedade. Na opinião de Silvestre fomos nós “um dos primeiros, senão o primeiro país da Europa, talvez, que encarnou o sangue oriental nos seus cavalos”. Diffloth, no seu tratado de zootécnia, afirma também que, de entre todos os cavalos da Europa, é o peninsular que acusa mais sangue árabe. Assim deve ser pelas razões históricas de todos conhecidas. Na opulenta corte de Granada, sem dúvida, existiram autênticos exemplares de raça Árabe e dizemos autênticos porque não queremos cair no erro vulgar de confundir o cavalo Àrabe de cabeça 68 R EVISTA E QUITAÇÃO G N.º 92 G quadrada, frontal plano e chanfro rectilineo, com o barbo, de perfil ligeiramente convexo – sub-convexo na classificação de Baron. Foi talvez esta pequena convexidade, que em grande número de barbos não atinge o chanfro, que deu lugar a que se não distinguissem estes dois tipos: o árabe e o barbo. O mesmo erro também muito vulgarmente se comete, confundindo o cavalo da Mesotopania e região limítrofes, de perfil concavo, com o árabe. O próprio zootecnista Magne ao descrever, este cavalo disse: tem o chanfro recto ou levemente reentrante. Não; o cavalo árabe tem o perfil recto e as características cefálicas são as mais persistentes, cendentes de genuínos cavalos árabes cujos caracteres o atavismo fielmente reproduzia (a um destes cavalos – o Derza – que pertenceu a Carlos Relvas, se refere Silvestre Bernardo Lima nos seus escritos sobre os equinos, publicado no Ministério do Fomento de 1913. Classifica-o, o grande mestre, de árabe e assim o devia classificar quem não conhecesse a sua história, tal era a fidelidade com que o atavismo reproduzia os caracteres daquela raça. O outro, mais novo, e do mesmo ferro, como dissemos, foi durante anos o reprodutor da Coudelaria da Quinta da Brôa). O bom senso que tantas vezes substitui com vantagem a inteligência e o Cavalo berbere da tribo dos Flitas, departamento de Orão (Argélia) (in Boletim da Estação Zootécnica Nacional 1937) as que mais resistência oferecem a todas as acções modificadoras e, portanto, aquelas a que temos sempre de atribuir maior importância. Conhecemos, há muitos anos, dois cavalos da Coudelaria Parladé de Jerez, salvo erro, que tão bem fixámos na memória que nitidamente os estamos vendo ainda. Fronte perfeitamente plana, garupa horizontal, membros de um aprumo irrepreensível, grandes olhos a revelarem energia e inteligência, abrindo desmesuradamente as ventas logo que o cavaleiro os montava. Estes dois formosos animais eram sem dúvida, des- S ETEMBRO /O UTUBRO 2011 saber, unanimemente protesta contra a desordem que veio trazer às nossas coudelarias a introdução de garanhões estrangeiros. E o bom cavalo peninsular – que José Relvas nos perdoe – é o Stradivarius dos grandes mestres de equitação. Sempre alerta, sempre atento ao cavaleiro, obedecendo às mais leves ajudas, sem a rigidez de alavancas que transformou o cavalo inglês numa máquina de correr ou saltar, o cavalo peninsular é comodo em todos os andamentos e elástico como as molas de um bom maple. Da já citada obra de Horace Hayes, na parte em que se refere aos cavalos peninsulares, transcrevemos o seguinte: “Lemos nos tratados de Simonoff e Moeder “Races Chevalines”: Quando os Sarracenos conquistaram Espanha no século VIII, trouxeram de África muitos cavalos de sela de tipo oriental que depois foram cruzados com raças indígenas espanholas muito corpulentas. Deste cruzamento derivam os afamados cavalos espanhóis do século XVI e XVII””. A que é devida pois a decadência do cavalo peninsular? A nosso ver pelos seguintes motivos: 1) Os cruzamentos desordenados, sem orientação científica; 2) Não sabemos selecionar; 3) Alimentamos mal. E, ainda por uma falsa compreensão de economia, abusase, com exagero mercedor de maior censura, da consanguinidade. Lavradores há que constantemente utilizam cavalos, com o seu ferro, como garanhões. Não se julgue que fantasiamos ou muito pior que caluniamos. Muito prazer teríamos em dizer o contrário: que a escolha de reprodutores se fazia com o mais severo critério. Selecionem pois os lavradores as suas éguas com rigoroso critério, embora isso importe a redução das manadas; comprem o reprodutor a algum criador que também tivesse sabido resistir às enganadoras tentações da moda, para assim evitarem os inconvenientes da consanguinidade muito estreita; alimentem fartamente; não submetam os potros e éguas à dura pena de trabalhos forçados e, seguros estamos de que, em poucos anos, levantarão o nível das suas coudelarias. E mais tarde, quando lhes for possível adquirir um bom reprodutor que tanto pode ser um árabe de verdade como um legitimo andaluz, em cujas veias corre ainda o generoso sangue do cavalo do deserto, que excelentes éguas encontrarão esses anciados restauradores do antigo cavalo português. Já dissemos o que pensávamos a respeito do cavalo árabe e do andaluz, inquestionavelmente os antepassados dos cavalos portugueses. A introdução destes dois cavalos, nas coudelarias nacionais, nunca para nós representará portanto, um cruzamento. A propósito do andaluz acrescentaremos que não
  • 4. Equitacao92_Equitacao_novo 20-09-2011 16:20 Página 69 NOTAS IBÉRICAS consideramos um puro representante da raça, aquele, cuja cabeça, for acentuadamente convexa. Estes cavalos só começaram a aparecer em Espanha depois da importação dos cavalos dinamarqueses de tipo ultra-convexo, que um rei de França pôs em moda. Aos estudiosos e a todos aqueles que reconhecem as vantagens e diremos mesmo a necessidade de se ilustrarem neste tão interessante ramo da ciência, que é a zootécnia, aconselhamos, em primeiro lugar, a leitura dos escritos de Silvestre Bernardo Lima, publicados em volume, pelo Ministério do Fomento em 1913. A nenhum criador de cavalos é lícito desconhecer tão interessante obra. Brilhantemente escrita e cheia de preciosos ensinamentos, pois Silvestre Bernardo Lima, possuía uma vasta ilustração, ela é a única, sobre a especialidade, escrita em português, que com orgulho podemos arrumar nas nossas estantes. Tenho de introduzir uma explicação retirada dos textos de Silvestre Bernardo Lima (1824 – 1893), onde o autor justifica que “não há no fundo cruzamento senão antes castiçamento, quando se reproduzem entre si cavalos árabes e lusitanos, porque não são de raça diversa (e só em raças diversas há cruzamento) mas sim da mesma raça ou casta (Bernardo Lima, Estudos hyppicos, in A agricultura Portugueza – 1890). Prossegue ainda referindo que ambos pertencem ao E. caballus asiaticus. Sans.. Obviamente que ao terminar esta selecção de transcrições do Eng.º Manuel Tavares Veiga, não posso deixar de recomendar a leitura na integra deste livro genial, que facilmente pode ser encontrado no interior do livro "Cavalos Veiga - Tradição e Actualidade", de Alberto Tavares Barreto. Aproveito para lançar três perguntas: quantos criadores portugueses conhecem a obra de Silvestre Bernardo Lima? Quantos leram com atenção o livro “Alrededor del Caballo Espanol” – 1954 – escrito pelo Dr. Ruy D’Andrade? Quantos leram o “O cavalo Portuguez” do Eng.º Manuel Tavares Veiga? Girando a agulha do Peninsular Veiga para o Peninsular Andrade, poderemos encontrar escrito pelo Dr. Ruy D’Andrade: Alguns dos meus cavalos têm visível introdução de sangue árabe. Atribuo esse facto, como já disse, ao “Guerrillero”, de Aranjuez, da genealogia Guerrero; ou a algum ascendente do “Nice”, de Alter; ou ainda a alguns dos ascendentes árabes do “Neapolitano”, de Lippiza. É o que pode haver de estranho; mas, conforme as notas genealógicas, tudo isto tão distante e diluído, que pode ser desprezado. E qual será hoje o cavalo andaluz absolutamente puro na sua ascendência? Quando não foram cavalos nórdicos, foram seguramente berberes e árabes de tempo a tempo introduzidos. (livro Font’alva 1895-1941); Eis os mo- Andaluz de Perfil Convexo – 1941). Num entendimento que não é apenas meu, adapto as palavras de Silvestre Bernardo Lima (Silvestre Bernardo Lima – Equinos – Coimbra imprensa da universidade - 1913), à consideração de que o cavalo Peninsular português de finais do séc. XIX, início do séc. XX, “reflecte em si a qualidade e o carácter do homem que o produz e é a expressão das necessidades da época em que se vive” A realidade do cavalo sempre teve por suporte factores económicos, geográficos, e sociais. Com base nesta percepção, será fácil antever que o cavalo português do passado acom- Pastorcito, cavalo andaluz da casta Zapata, pertencente à antiga coudelaria de D. Vicente Romero y Garcia, de Jerez de la Frontera - A semelhança entre estes dois cavalos denota o estreito parentesco do berbere com o andaluz (in Boletim da Estação Zootécnica Nacional 1937) tivos por que optei pela raça andaluza, na qual escolhi uma única família para obter animais de parentesco bastante próximo, dando preferência aos reprodutores ruços da família Zapata por serem os que oferecem probabilidades de mais facilmente manter o tipo berbere, que é o mais forte e resistente dentro da raça (O cavalo andaluz – 1937 - Ruy D’Andrade). De acordo com o Dr. Ruy D’Andrade aos cavalos africanos da orla mediterrânica, aplica-se geralmente o nome de raça berbere. (Ruy D’Andrade - O cavalo panhou de uma forma fiel a história do Homem Português. A história de Portugal fala-nos de um Homem que nunca teve pruridos com a mistura, quer entre si, quer entre os animais que produzia. Este facto é inquestionável, e reflecte talvez, reminiscências da visão de um povo de descobridores, que cruzaram e integraram as culturas do mundo de então, “dando novos mundos ao mundo”. Cada qual à sua maneira, também as famílias Andrade e Veiga, de uma forma frontal, transparente, e documentada, afirmaram- se pelo pragmatismo de uma obra, onde sobressaiu o império de uma visão pessoal e genial, dando ao mundo hípico português de então, um valioso contributo para o enriquecimento do património genético do cavalo Peninsular ou Ibérico. Fazendo um aparte importante relativo ao termo puro sangue, como nos salienta Andrés Cabrera (El Caballo Moruno – Madrid – 1921), aplicado ao Puro Sangue Inglês, diz-nos que o mesmo reflecte uma enorme inexactidão por parte dos hipólogos que atribuíram esse nome a uma raça, cuja formação adveio da intervenção de pelo menos três raças orientais, e uma quarta, a Inglesa, que era já então uma mistura de outras. A macro visão que advém da criatividade funcional associada à cultura de um povo, enquanto factor de diferenciação genuinamente português (com produtos impossíveis de copiar, tais como a cortiça, o azeite, e outros tais) pode-nos engrandecer e distanciar do micro marketing do pensamento pré-embalado, quer do corrente mito do purismo Lusitano acentuadamente ariano (que se deve restringir em exclusivo à imagem de marca – exactamente como no puro sangue inglês – e nunca procurar inexistentes fundamentos de pureza), quer da condicionante do tradicionalismo dogmático e inquestionável da “estória sem história… apenas porque sim”, tão querida a alguns, pois projecta uma comodidade que dispensa a reflecção e a pesquisa. Esta postura, acéfala por falta de coerência cultural e sentido de progresso funcional, acaba por encerrar o actual Puro Sangue Lusitano numa gaiola de tradição dourada, que nos conduz à já célebre frase do Francisco Cancella de Abreu: “QUANTO MAIS TRADIÇÃO MENOS EVOLUÇÃO”. Fiquem-nos os exemplos da frontalidade e clareza sustentada, de três referências na importância do cavalo português: Prof. Dr. Silvestre Bernardo Lima (1824 – 1893); Eng.º Manuel Tavares Veiga (1863-1950); Dr. Ruy D’Andrade (1880-1967). Um bemhaja aos três que escreveram, pesquisaram, fundamentaram, e deixaram obra portuguesa de referência! n R EVISTA E QUITAÇÃO G N.º 92 G S ETEMBRO /O UTUBRO 2011 68