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11separação entre o bebê e o corpo materno, a ameaça de desmoronamento do eu, ou amortificação narcísica decorrente da aus...
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13       O que se pode depreender deste tema até o momento é que a resistência emoferecer ao perverso/abusador outras vias...
14Cena sexual e o expectador anônimo. In: Em defesa de uma certa anormalidade: Teoriae clínica psicanalítica. Porto Alegre...
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Sedução e fantasia na perversão

  1. 1. Sedução e fantasia na perversão Larissa Bacelete1Introdução O trabalho realizado na clínica do Projeto CAVAS2 nos motivou a buscar maioresesclarecimentos em relação às organizações perversas. As dúvidas que surgiam durante oacompanhamento destes casos versavam sobre as possibilidades de repetição dos atos deviolência sexual e/ou física por quem a sofreu em períodos muito precoces da vida,perpetuando um ciclo de abuso que assistíamos com frequência no seio da mesmafamília. Ouvindo os relatos de pais e avós que alegavam ter passado por experiênciasmuito parecidas com as que vitimizavam agora suas crianças, passamos a nos interrogarsobre esta reprise que parecia aprisionar algumas gerações em reedições sombrias domesmo drama. Encontramos muitas pesquisas que evidenciam as reverberações traumáticas doabuso sexual, apontando, por exemplo, que mulheres que sofreram este tipo de violênciana infância, ao se tornaram mães, tendem a escolher parceiros que são abusadores empotencial, ou a exporem seus filhos justamente à proximidade com o homem que foi seupróprio agressor (Fuks, 2005, apud Bacelete, França & Roman). Também nosinteressamos pelo conceito da compulsão à repetição, tentando relacionar estes fatos como que Freud (1920) afirmou estar para além do princípio do prazer. No entanto, algumas inquietações não se dissiparam apenas com a aproximaçãoentre a pulsão de morte e o abuso sexual transgeracional. Fomos percebendo que odiscurso dos pais sobre a violência perpetrada aos filhos era atravessado por certos“espelhamentos”, tão obscuros quanto impossíveis de serem ignorados. Diante destasituação, não tínhamos dúvidas de que estes nódulos que uniam silenciosamente pais efilhos contribuíam, por exemplo, para a eclosão de comportamentos sexuais agressivosnestes últimos, tornando-os algozes de crianças menores, na escola ou em casa.1 Psicóloga (UFMG), pesquisadora do Projeto CAVAS/ UFMG, mestranda em Estudos Psicanalíticos noDepartamento de Psicologia da UFMG.2 O Projeto CAVAS é um projeto de pesquisa e extensão realizado na UFMG desde 2005, voltado para oatendimento psicológico a crianças e adolescentes que sofreram abuso sexual, além de ser um pólo deinvestigação e disseminação de conhecimentos sobre a problemática da violência sexual infantojuvenil esuas repercussões no psiquismo das vítimas.
  2. 2. 2Apareciam também na estranha postura de extrema passividade que algumas criançasadotavam, imitando o agressor e introjetando o sentimento de culpa por seus atos, sendoincapazes de se defenderem ou reagirem aos maus tratos sofridos (França & Mendes,2010). Ou ainda, tal “ruído” da fala dos pais, para usar a expressão de Laplanche, podiaser ouvido nas palavras, gestos e comportamentos do infante nas poucas sessões nasquais o tema da violência sexual podia ser tratado. De onde vinha este barulho, senão dasfantasias parentais sobre a sexualidade? Como penetravam o psiquismo infantil, a pontode encontrarem na criança de hoje um palco onde eram encenados traumas de outrageração? Estas observações encontraram respaldo teórico nas contribuições de JoyceMcDougall sobre a sexualidade perversa, especialmente em sua hipótese da criaçãosexual como maneira de sobreviver às ameaças advindas do excesso que caracteriza asrelações entre infante e figura materna nestes casos. A teoria laplancheana, destacando a primazia da alteridade na constituiçãopsíquica da criança, nos permitiu ver nas declarações dos pais fragmentos dos fantasmasque rondam as relações familiares. Este ponto nos pareceu de suma importância em nossaabordagem do tema da perversão, já que constatávamos na clínica a participação destesconteúdos parentais nas expressões da sexualidade infantil. A grande incidência da repetição nos casos de abuso sexual infantil demonstra arelevância da investigação do psiquismo perverso e de seus trilhamentos pulsionais. Ocaráter compulsório deste, a prevalência da atuação em relação à fantasia e à elaboraçãodemandam certa urgência, não só na criação de modos de compreender o funcionamentodeste arranjo psíquico, como também na abertura de possibilidades de intervenção nestescomportamentos, interrompendo os ciclos de violência que atingem mais e mais vítimas. Apesar de o abuso sexual ser um tema de extrema importância no cenário social,pensamos que o estudo sobre as perversões engloba uma dimensão que ultrapassa aexperiência deste tipo de violência, tocando em questões tão básicas e complexas comoas primeiras relações entre criança e cuidador. Faremos então um breve percurso pelavisão laplancheana deste vínculo primário, para em seguida demonstrar, com o a ajuda deGerard Bonnet como as fantasias do adulto podem transformar uma sedução de vida, emsedução mortífera, regida pela lógica da vingança. As contribuições de McDougall serãoanalisadas a partir da sedução da figura materna.
  3. 3. 3Sedução necessária Pois não se trata mais exatamente de pura realidade fatual, mas de efetividade, categoria que nos leva além da contingência e da peripécia: trata-se de uma sedução necessária (musste, verbo que marca o caráter obrigatório da ação materna) inscrita na própria sedução. (Laplanche, 1988: 116) Para Laplanche, é preciso pensar na existência de uma passividade radical noinício da vida, quando o bebê, ainda desprovido de uma instância egóica bem delimitada,é exposto a um adulto, portador de fantasias inconscientes. Ao retomar a teoria freudianada sedução3, o autor afirma que as solicitudes maternas na convivência com a criançaveiculam conteúdos sexuais que agem silenciosamente, erotizando-a nos momentos desatisfação de suas necessidades básicas. Estes cuidados dispensados ao corpo da criançafuncionam, juntamente com o investimento afetivo do bebê pelo adulto, como uma formade sedução, que ocorre à revelia do próprio cuidador, já que se passa no nívelinconsciente. Podemos entender a sedução protagonizada pelo adulto neste primeiro tempopensando em seu duplo aspecto: se por um lado a instauração da pulsão promove odesejo, suscitando investimentos objetais como forma de efetuar ligações neste circuitode energia psíquica, por outro lado, é também a ação do sexual que acarreta angústia edesprazer, quando não pode ser balizada pelas ferramentas simbólicas das quais a criançadispõe. A Teoria da Sedução Generalizada, permite que retornemos ao conceito de apoiotão trabalhado em Freud4, substituindo seu viés auto-conservativo, sobre o qual asexualidade estaria assentada, pela idéia de um trauma externo, oriundo da ação doadulto, cujo elemento de efração é essencial, e provoca uma excitação intensa, matriz dapulsão que circulará no psiquismo incipiente da criança. Deste modo, compreendemos opensamento do autor ao dizer que “a verdade do apoio é a sedução” (cf. Vida e morte empsicanálise, 1985), pois se desejamos aproveitar a metáfora freudiana, é preciso tomá-lacomo a forma com que a manutenção dos cuidados básicos engendra a pulsão neste3 No artigo “Da teoria da sedução restrita à Teoria da Sedução Generalizada” (1988), Laplanche retoma aTeoria da Sedução de Freud, bem como acompanha os processos de recalcamento da importância danoção de sedução ao longo da obra freudiana. Apesar de ser um ponto de extrema relevância, a análisedeste artigo ultrapassa os limites deste trabalho.4 Desde, por exemplo, seus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905).
  4. 4. 4organismo. Tais conteúdos, mensagens enigmáticas a serem traduzidas pelo psiquismoinfantil em formação, funcionarão como inscrições sobre as quais as fantasias serãoconstruídas, exigindo novas representações. O excesso da mensagem adulta, tanto consciente quanto inconsciente, e seuencontro com o psiquismo infantil provocam neste sensações desprazerosas, de invasão,fratura, e excitação. Entretanto, esta exposição total da criança será escamoteada aolongo da constituição psíquica, pois o recalcamento incidirá exatamente sobre taisconteúdos angustiantes: ter o corpo penetrado, fragmentado pela ação do outro. Enfrentaresta passividade infantil é o desafio ao qual o ego do sujeito será lançado, através dosesforços de simbolização. Aquilo que resta como impossível nesta operação tradutiva, orecalcado, fonte da pulsão sexual, agirá produzindo um ataque interno ao organismo,colocando o indivíduo sempre em uma posição de sujeição, análoga à deste tempoprimitivo. Portanto, esta dor, primeiramente de origem externa, torna-se o núcleo dasfantasias sexuais do sujeito, à medida em que ele consegue efetuar o recalcamento daposição primária, através dos movimentos identificatórios e de constituição egóica. Aestrangeiridade da mensagem, agora introjetada, permanece, agindo daí em diante comocorpo estranho dentro do próprio sujeito, de onde emanam os desejos mais disruptivos eegodistônicos. Parece-nos extremamente clara a importância atribuída por Laplanche ao papel dooutro, e especialmente, da fantasia que este outro produz na sexualidade infantil. Epodemos chegar a afirmar que, de acordo com a Teoria da Sedução Generalizada, aorigem da sexualidade é sempre perversa, masoquista, pois se vincula a estedescentramento do sujeito, que se encontra totalmente submetido ao adulto. Outro pontoimportante a considerar é o prazer que atravessa esta submissão, por mais angústia quepossa acarretar para a instância egóica. Prazer por se relacionar aos primórdios, não aotempo “auto-erótico”, conforme apontava Freud5, mas a esta etapa de implantação dalibido no sujeito através dos cuidados externos. Lembramos aqui, da contribuição deStoller (apud Ribeiro, 2007:27), sobre a feminilidade passivamente recebida pela criançaatravés da imposição do corpo excessivamente terno da mãe, ou seja, de um poderexterior muito gratificante, ao qual o infante não se opõe, e nem desejaria fazê-lo. A ação do cuidador participa ativamente da formação das fantasias infantisinconscientes, e não somente pela posição assimétrica entre o adulto, portador de um5 Também nos Três Ensaios.
  5. 5. 5inconsciente, e a criança, cujo psiquismo é ainda precário e desorganizado, mas tambémpela forma pela qual este outro exercerá a sedução. Laplanche afirma: As noções de zona erógena, de fonte somática da pulsão, de pulsão parcial anal, oral ou fálica, não podem ser liberadas dos impasses aos quais nos convida uma fisiologia temerária, se não lembrarmos que estas zonas, lugares de trânsito e de trocas, são antes de tudo e primordialmente os pontos de focalização dos cuidados maternais. Cuidados de higiene, motivados conscientemente pela solicitude maternal, mas onde as fantasias de desejo inconsciente funcionam plenamente. Enfim, é a partir do solo da sedução originária, e da sedução precoce, que é possível atribuir toda a sua importância aos fatos da sedução infantil, para fazê- los sair, enfim, da espécie de gueto teórico onde estão confinados há anos. (Laplanche, 1988: 119-120)Tal ressalva quanto à visão biologicista da pulsão, muitas vezes encontrada no próprioFreud, ilustra a idéia de Laplanche acerca da efetividade da sedução generalizada, aindaque o autor não esteja falando sobre a realidade desta sedução, no sentido de umasedução perversa, ou seja, de uma relação de pedofilia. Já no artigo “Implantation, intromission”, a sedução originária é debatida deacordo com a maneira pela qual o adulto introduz as mensagens enigmáticas nopsiquismo da criança. Segundo Laplanche (1992), a implantação do sexual é um processocotidiano, mais próximo da neurose, que possibilita ao sujeito que o sofreu uma repriseativa, ou seja, alguma tradução. Sua vertente mais violenta, a intromissão, provoca umcurto-circuito nas instâncias psíquicas que estão se formando, instalando no interior dacriança um elemento resistente a qualquer metábole. Embora os dois processos tenhamligações com o envelope corporal e seus orifícios, o autor salienta a proximidade daimplantação com a superfície, o conjunto do corpo e sua periferia perceptiva, enquanto aintromissão se refere às pulsões orais e anais. A partir daí, poderíamos entender as práticas orais e anais em suas formas maissádicas, tão comuns nas perversões, como um reflexo desta invasão arrebatadora do outroao corpo e psiquismo infantil? Belo (2010) sugere que o bebê visto como orifício pelospais tem mais probabilidade de desenvolver uma psicose ou perversão, e emcontrapartida, o bebê “inteiro”, cuja libidinização do adulto é distribuída na totalidade docorpo, encontra-se mais perto da neurose. Deste modo, nos perguntamos se asuperexcitação das zonas oral e anal revelam a incidência pungente da alteridade noaparato físico do infante. A inauguração duplamente traumática da sexualidade doperverso, não apenas no sentido amplo do trauma, fundador do inconsciente, mastambém em sua versão dissociativa e compulsória, imprime sua marca na subjetividade e
  6. 6. 6no modo de expressão sexual do indivíduo, cujas possibilidades de satisfação giram emtorno do gozo desta posição de ser invadido, ou ainda, como sustenta Belo, de situar-seem apenas um dos lados desta díade penetrante-penetrado. Como é possível notar, a sedução originária tem um papel fundamental nafundação do psiquismo do bebê, inaugurando as instâncias psíquicas a partir do traumaque ocasiona o recalque primário. Além disso, a sedução instaura no psiquismo infantilsignificantes dos quais emergirão as pulsões, fornecendo, portanto, material para aexpressão da sexualidade perversa e polimorfa.Sedução mortífera Gerard Bonnet (2008), psicanalista francês que dedicou muitos de seus trabalhosao estudo das perversões, salienta o papel fundamental da sedução nos comportamentossexuais desviantes. O autor complexifica a discussão sobre a pedofilia sustentando que,de acordo com as estatísticas6, apenas trinta por cento dos agressores sexuais declaramter sido vítimas de abusos na infância. Isso invalidaria a idéia bastante simples, mascomumente aceita, de que o perverso atuaria com sua vítima de maneira semelhante àqual foi submetido outrora. Mas, se nem todo perverso/pedófilo passou por experiênciasde agressão sexual nos primórdios da vida, a que devemos atribuir tal vicissitude dapulsão? Bonnet argumenta que todos nós tendemos a acreditar nesta falsa explicaçãoporque de algum modo sentimos que fomos, de uma forma ou de outra, seduzidos eagredidos um dia. Para o autor, é como se nos identificássemos com este romance,pensando: “Eu também já fui seduzido (a), sei o que é isso. No caso dele [perverso], aexperiência foi mais grave, é normal ter reagido desta maneira”(Bonnet, 2008: 31)7.Portanto, o agressor sexual tem certa razão quando se defende dizendo ter sido seduzido,na medida em que todos nós o fomos. Entretanto, este fato não implica que talexperiência seja por todos replicada, de modo tão brutal, tomando como objeto outrascrianças. Na verdade, segundo Bonnet, a maioria das vítimas de abuso sexual e deagressões físicas severas durante a infância desenvolveria neuroses, apresentando6 B. Cordier (1999), Sexualité agie entre enfants et parents, Ed. Frison-Roche (apud Bonnet, 2008).7 Tradução nossa.
  7. 7. 7quadros de depressão, o que dificultaria que exibissem qualquer reação mais ativa emrelação ao trauma sofrido. O que diferenciaria então estes sujeitos dos agressores sexuais, que são dotadosda capacidade de agir em decorrência de um sofrimento psíquico (pois não acreditamosna falácia de que na perversão não existe sofrimento ou mesmo afeto em jogo)? Deacordo com o autor, mais do que o trauma da sedução ou do abuso sexual, o que édesorganizador para os futuros desviantes é a ruptura de um laço libidinal de formaabrupta. Baseado em outros pesquisadores que já teorizaram sobre o tema, como Searlers(1956), Tomassini (1992), Lecraire (1975) e Rosolato (1987), Bonnet sugere que operverso foi uma criança seduzida, excitada pela ação do cuidador, mas rapidamenteabandonada à própria sorte, de modo que a tarefa de mediação simbólica, de criação demeios mais psíquicos e menos sintomáticos para lidar com as pulsões não foi exercidapelo adulto. Neste estágio tão precoce do desenvolvimento, deixada a sós com estasmensagens nela enxertadas, mensagens excitantes cujas traduções não são possíveisnaquele momento, a criança irá privilegiar um modo de expressão pulsional para tentar selivrar deste excesso, e, ao mesmo tempo, tentar restabelecer o contato com o outro. Se a fratura na relação entre o infante e o adulto ocorrer no momento em que aspulsões sádicas estiverem sendo investidas, o sujeito será levado a se fixar sobre esteponto, buscando, através da erotização, inverter tal abandono. O desejo de vingança vem,portanto, mascarar a angústia de separação arcaica e profunda. O agressor reconstitui, deforma brutal e muito mais grave, a sedução à qual foi submetido, petrificada neste tempoda ausência do outro, pelo menos do outro na função do que poderíamos chamar de “egoauxiliar”. Deste modo, uma grande decepção se encontra por trás da lógica da vingança.Segundo Bonnet, o perverso é “possuído” pelos objetos maus internos, pelos restosintraduzíveis da sedução que o habita, e impõe a um novo objeto a caricatura destasedução que o frustrou. Assim, transforma uma sedução de vida, em sedução mortífera. O cenário da atuação perversa geralmente é cuidadosamente arranjado,apresentando algumas características comuns, eleitas pelo sujeito para compor a cena quedeseja criar. Esta montagem não serve apenas para siderar a vítima, para arrebatá-lanesta atmosfera, mas também para transmitir uma mensagem. Nas palavras do autor: Isso [a cena montada pelo perverso] não é apenas uma repetição do passado, mas é também, ao mesmo tempo, uma repetição do presente inconsciente, uma
  8. 8. 8 repetição teimosa, insistente, para colocar em cena certos significantes que estes sujeitos não podem exprimir ou formular de outra maneira. (Bonnet, 2008: 40) 8Esta constatação abre uma via para a discussão acerca do trabalho analítico que pode serrealizado com estes sujeitos, pois se é verdade que o espaço onde se passa a atuaçãocompulsiva perversa conserva um potencial de interpretação, na medida em que contémsignificantes como mensagens destinadas ao outro, a tarefa do analista seria a dedirecionar o olhar para este ato e toda sua ambientação, voltando ainda sua escuta para oolhar do sujeito em relação a tal cena. Nós percebemos que, se ele [perverso] apresenta seu ato como uma resposta à sedução do adulto, como uma forma caricatural de mostrar a sedução excessiva ou de devolvê-la, de maneira pior, isso é, de fato, uma invenção desesperada para exercer a sedução à sua maneira, e reviver intensamente aquilo que foi interrompido, tentando uma passagem à força em direção aos outros. É na medida em que se facilita essa passagem ao nível dos significantes que ela não mais se produzirá no nível dos atos. (Bonnet, 2008: 41) 9O analista que trabalha neste campo se vê, então, diante de duas vertentes: a da explosãopulsional cega e vingativa, sob a égide dos objetos primários, que o sujeito não podecontrolar; e a dos elementos significantes em jogo no ato, através dos quais devem serexploradas tentativas de comunicação, única maneira de realizar um deslocamento dalógica da vingança para a das mensagens.Sedução materna A psicanalista Joyce McDougall (1997) denunciou o sentido pejorativo da palavraperversão, e propôs que em seu lugar se utilizasse o termo neo-sexualidade. Este indicauma das principais idéias da autora, a de que o perverso não é apenas um sujeitodesprovido da capacidade de empatia, infrator da Lei paterna que insiste em recusardesde os tempos do conflito edípico. A autora aponta para uma interessante faceta daperversão: a criação. Se a autora insistia em falar sobre a invenção no cenário sexual destes sujeitos,não era apenas com o intuito de obter uma perspectiva mais positiva da questão daperversão, mas também por acreditar que a construção da identidade sexual é a pedraangular sobre a qual repousa toda a subjetividade do perverso. Em outras palavras, a8 Tradução nossa.9 Idem.
  9. 9. 9invenção da neo-sexualidade vem combater o sentimento de vazio interior e de derrocadado ego, quando os traços de representação do objeto materno não puderam serintrojetados, gerando falhas na simbolização e na delimitação das fronteiras corporais. Em sua experiência clínica, a análise de pacientes neo-sexuais rendeu aMcDougall (1983) a constatação de certo padrão familiar, que consistia na presençainvasiva de uma mãe dominadora, e ausência de uma figura paterna capaz de barrar ocontrole desmedido desta em relação à criança. A idealização da figura maternaonipotente, percebida pela autora nestes casos, tem um importante papel na economiapsíquica perversa. Ela preserva recalcados o ódio e o temor do infante a esta mãe quedeseja devorar, dominar, esvaziar o bebê de seus conteúdos, transformando-o em umaespécie de marionete que ela possa regular a seu bel-prazer. O ingresso de um terceironesta relação é bastante dificultado pela desqualificação do pai ou de qualquer outropersonagem que faça as vias de agente da separação entre mãe e criança, ficando estaentregue aos ditames da figura materna. A autora aponta como consequência destaperturbação inicial, uma grande falha na erotização do corpo do infante, indicando que avivência erótica parece ser sentida como algo proibido devido à atitude castradora damãe. Para melhor compreender as teorizações de McDougall acerca da perversão, épreciso que nos debrucemos sobre um conceito winnicottiano que fora essencial para odesenvolvimento destas idéias. Estamos falando dos fenômenos transicionais, queWinnicott define como um terceiro espaço de experimentação, um lugar que “representaa transição do bebê de um estado em que este está fundido com a mãe para um estadoem que está em relação com ela como algo externo e separado” (Winnicott, 1975: 30).Os fenômenos transicionais ocorrem no primeiro semestre de vida da criança, por voltado quarto mês, e consistem numa tentativa de reconhecer o objeto como não-eu, emboraainda de forma precária. Trata-se do intervalo entre a pura subjetividade do infante e oreconhecimento da realidade externa. Este progresso começa pela manipulação auto-erótica, com a criação de brincadeiras que permitam ao infante explorar as fronteirascorporais, e posteriormente se amplia para o uso de brinquedos ou objetos que adquiramo estatuto de defesa contra a ansiedade, principalmente em relação à separação do corpomaterno. O objeto transicional, escolhido pela criança para simbolizar esta intersecção eu-outro é afetuosamente investido, e deve permanecer disponível, sempre da mesmaforma, até que seja gradativamente destituído de importância, quando perder sua função
  10. 10. 10ao longo do desenvolvimento da criança. Segundo Winnicott (1983), o papel da mãenesta operação é o de proporcionar ao bebê uma experiência ilusória de que o seio lhepertence, ou de que a realidade está sob o controle mágico e onipotente do filho. Poucoa pouco, um movimento contrário, de desilusão, começa a ocorrer, na medida em que obebê desenvolve confiança no ambiente externo e pode experimentar as primeirasfrustrações que conduzirão ao desmame. No caso da perversão, a atitude invasiva da mãe, seja motivada por suasinseguranças e carências internas, ou pelo desejo de dominar a criança, entrava oprocesso de introjeção dos objetos bons e apaziguadores, visto que o intervalonecessário para a construção do espaço transicional encontra-se violado pela presençamaciça do objeto real. Desta maneira, a criança buscará compulsivamente um objetoexterno capaz de suprir o vazio em seu mundo interno. Este objeto de transição,diferente do objeto transicional, representa o fracasso da função do terceiro espaçocaracterizado por Winnicott, já que é sua presença física que é incessantementeprocurada pelo sujeito, em oposição a seu uso simbólico. A vivência compulsória dasexualidade perversa encontra aí suas raízes: a cena primária inventada pelo desviantetem de ser repetida a fim de resguardar os contornos egóicos e corporais, fragilizadosdiante do laço angustiante com o objeto primário. Nas palavras da autora: A eterna busca do pai, escudo defensivo contra a mãe onipotente, contribui para dar à perversão um caráter compulsivo, e fornece à estrutura psíquica perversa um amparo contra a psicose, ao mesmo tempo em que atesta a sua fragilidade intrínseca. Aquilo que se faz ausente no mundo interno é procurado num objeto ou situação exteriores, pois uma falha da capacidade de simbolização provocou um vazio na estrutura edipiana. Este fracasso diz respeito ao papel do pênis paterno e à significação da cena primitiva. A dissolução de certos elos associativos tende a enfraquecer, ao menos neste terreno, a relação do sujeito com a realidade, e conduz a um desfecho “psicótico” do conflito edipiano e da angústia de castração. Esta “solução” é, por sua vez, erotizada, e o sujeito encontra simultaneamente uma resposta para o problema da descarga instintiva. (McDougall, 1983: 37-38) A incapacidade materna de propiciar a construção deste local fronteiriço, quemarca a passagem entre a extrema dependência do bebê, e seus gradativos ganhos emdireção à autonomia, compromete a simbolização de certos limites, colocando em xequea capacidade do sujeito de se sentir vivo e real quando o objeto não se encontra presente. O pensamento de McDougall parece consoante ao de alguns autoressupracitados, como Searlres e Bonnet, pois para ela a criação sexual perversarepresenta uma tentativa de contornar as angústias castrativas mais arcaicas, como a
  11. 11. 11separação entre o bebê e o corpo materno, a ameaça de desmoronamento do eu, ou amortificação narcísica decorrente da ausência do objeto primário. Tais sensações sãoevitadas através da construção neo-sexual, que pode ser entendida como uma espécie degarantia que o sujeito tem de sua existência a despeito do outro todo-poderoso dasprimeiras relações objetais. Assim verifica-se a existência de um duplo papel da cenaprimária representada na atuação do perverso. Por um lado, ela é uma formaçãoidentitária que visa refrear a dominação da figura materna, elegendo na realidadeexterna um substituto fálico para a função paterna malograda. Sendo assim, o exercícioda atividade sexual desviante é a única forma que o sujeito encontra de impedir quetodos os seus conteúdos internos sejam apropriados pelo outro, guardando suadescoberta erótica como um segredo tão importante quanto sua sobrevivência psíquica.O fetiche, o sadismo, o masoquismo, a pedofilia, e outras formas de arranjo sexualentram na organização desviante com este propósito. Por outro lado, a encenaçãoperversa guarda alguns vestígios desta sujeição ao outro das origens, representandotambém a relação incestuosa com este objeto. Toda esta problemática na esfera das fronteiras faz com que o infante introjeteuma imagem frágil e mutilada de si mesmo. A invasão devastadora do outro deixa umlegado de dependência extrema e de angústias que assolam o sujeito nos momentos emque a compulsão sexual parece falhar em sua função de sustentáculo narcísico.Sedução perversa Contrapondo as idéias de Laplanche e Bonnet às de McDougall, percebemospontos que as aproximam e outros que as fazem divergir. Quanto às semelhanças, énítido que, mesmo não explorando o tema da sedução propriamente dita, McDougallatribui grande importância à função da figura materna na construção de uma sexualidadeperversa. É a invasão desta que povoará o universo pulsional da criança de angústiasesmagadoras, de temores de destruição de seu corpo e psiquismo. Portanto, as fantasiasque governam a criação da neo-sexualidade e a atuação perversa são resultado destesmedos arcaicos oriundos das relações com o objeto primário. Além disso, a angústia deseparação do corpo materno também parece aceita, tanto por McDougall, quanto porBonnet.
  12. 12. 12 As dissonâncias entre a autora e a corrente laplancheana se fazem notar, entreoutros, pela ênfase nos processos de introjeção (e posteriormente identificação) dosobjetos bons. A idéia de que a criança apresentaria dificuldades para introjetar estasrepresentações, devido ao fracasso dos espaços de transição e da entrada do terceiro,demonstra que o vetor dos movimentos psíquicos parte da criança, e segue em direção aoadulto. Na visão de Laplanche, e por consequência, de Bonnet, é a atuação sedutora - epor que não dizer, perversa - do adulto, intrometendo a sexualidade polimorfa de suasfantasias inconscientes no infante que o priva da possibilidade de traduzir tais conteúdosde maneira minimamente satisfatória, gerando uma espécie de curto-circuito em seupsiquismo. A dificuldade de introjeção não pode ser atribuída à criança, primeiramenteporque não cabe a ela a tarefa de capturar o outro neste momento. A alteridade lhe éimposta, o adulto “se intromete” em seu aparelho psíquico antes que qualquer ação possaser efetuada pelo infante. Se concordarmos com esta premissa, é inevitável que tenhamos que reverter ofoco de nossa pergunta, interrogando sobre a forma pela qual o outro apreende, introjeta,identifica esta criança... Trata-se de uma falha neste processo de designação do sujeitopelo adulto? Não estaria esta dificuldade de identificação do lado dos pais, especialmenteda figura materna? O uso indiscriminado do corpo da criança como território próprio nãoseria uma demonstração da incapacidade de reconhecer ali um sujeito, uma pessoa comnecessidades e desejos que ultrapassam a função de objeto obturante das fendasnarcísicas parentais? Deste modo, pensamos que na perversão a criança é identificada, pelo adulto,com o que há de mais desorganizador na sexualidade deste, com as fantasias de seduçãonão simbolizadas, restos não traduzidos das experiências originárias de descentramento. Quanto ao abuso sexual: as hipóteses de Bonnet acerca da fragilidade doargumento da vitimização dos agressores no passado parecem-nos pertinentes. Após estepercurso teórico, acreditamos que a manifestação da sexualidade perversa não deve sertomada como mera reprise de uma vivência real. A fantasia oriunda do tipo de sedução, olaço afetivo com o objeto primário, bem como a suspensão desta ligação, também sãoimportantes para a determinação – ou não – de uma sexualidade perversa. Neste pontoMcDougall também estaria de acordo, já que sempre procurou destacar o trabalho decriação contido na sexualidade desviante. A interação de todos estes elementos iráconcorrer para a eleição, pelo sujeito, de um modo fixo e compulsório de viver asexualidade, ou de saídas mais comprometidas com a palavra e com a simbolização.
  13. 13. 13 O que se pode depreender deste tema até o momento é que a resistência emoferecer ao perverso/abusador outras vias de comunicação que não a do ato, aprisionaeste sujeito no funcionamento ancorado na vingança, na reedição da frustraçãovivenciada precocemente. Acreditar que uma escuta pode deslocar tal comportamento,como o propõe Bonnet, revela-se uma esperança de que na clínica não nos deparemosmais com tanta frequência com a devastação que a violência sexual causa no psiquismoincipiente da criança.Referências Bibliográficas:Bacelete, L., França, C., e Roman, I. (2010). Eu não sabia... In: França, C. (org.)Perversão: as engrenagens da violência sexual infantojuvenil. Rio de Janeiro: Imago.Belo, F. (2010) A perversão sob a ótica da Teoria da Sedução Generalizada. Recuperadoem 04 de julho, 2011, de www.fabiobelo.com.brBonnet, G. (2008). La perversion: se venger pour survivre.Paris: Presses Universitairesde FranceFrança, C., e Mendes, A.P. (2010) Adolescência, violência sexual e identificação com oagressor. In: França, C. (org.) Perversão: as engrenagens da violência sexualinfantojuvenil. Rio de Janeiro: Imago.Freud, S. (1905) Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edição Standard Brasileiradas obras completas de Sigmund Freud, vol. VII . Rio de Janeiro: Imago, 1996.Fuks, L. (2005) Conseqüências do abuso sexual infantil, In: França, C. (org) Perversão:variações clínicas em torno de uma nota só. São Paulo: Casa do Psicólogo.Laplanche, J.(1988) Da teoria da sedução restrita à Teoria da Sedução Generalizada. In:Teoria da Sedução Generalizada e outros ensaios. Porto Alegre: Artes Médicas.__________(1992) Implantation, intromission. In: La révolution copernicienneinachevée. Paris: Aubier.__________(2003) Le genre, le sexe, le sexual. In.: Chabert (org.) Sur la théorie de lasedution. Paris: In Press.McDougall, J. (1983) Criação e desvio sexual. In: Em defesa de uma certaanormalidade: Teoria e clínica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas.____________(1983) Cena primitiva e argumento perverso. In: Em defesa de uma certaanormalidade: Teoria e clínica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas.
  14. 14. 14Cena sexual e o expectador anônimo. In: Em defesa de uma certa anormalidade: Teoriae clínica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas.____________(1992) A neo-sexualidade em cena. In: Teatros do Eu. Rio de Janeiro:Editora Alves.____________(1997) As soluções neo-sexuais. In: As múltiplas faces de Eros: umaexploração psicoanalítica da sexualidade humana. São Paulo: Martins Fontes.____________(1997) Desvio sexual e sobrevivência psíquica. In: As múltiplas faces deEros: uma exploração psicoanalítica da sexualidade humana. São Paulo: MartinsFontes.Ribeiro, P. C. (2007) Identification passive, genre et sedution originaire. In: PsychiatrieFrançaise nº 4 , pp. 21 a 48.Winnicott, D. W. (1975) Os fenômenos transicionais. In: O brincar e a realidadepsíquica. Rio de Janeiro: Imago.______________(1983) A capacidade para estar só. In: O ambiente e os processos dematuração: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Sulina.
  15. 15. �����������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������������

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