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CAPÍTULO 1
Março de 1988
Oônibus encostou no box da rodoviária de Porto Alegre antes
do meio-dia. Ainda sentado na minha poltrona, enquanto
aguardava as pessoas abrirem espaço no corredor, avistei Ana
Clara a uns quinze metros de distância, de braços cruzados e
visivelmente aborrecida por ter que estar ali me esperando.
Eu estava chegando na capital gaúcha para iniciar a
faculdade de direito, após ter passado no vestibular da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ou simplesmente
UFRGS, meu maior feito até então, algo que eu considerava como
sendo o número “Um” da minha lista de Grandes Feitos.
Essa lista, por sinal, era algo que eu havia começado aos
quinze anos, depois que eu e uma colega da escola (que usava
aparelho fixo nos dentes) demos nosso primeiro beijo atrás do
bebedor, depois da aula. Eu fiquei dias sem dormir direito, só
pensando no quão incrível havia sido aquela experiência. Então
decidi registrar em um caderno todas as coisas igualmente
“incríveis” que acontecessem comigo. Seria uma forma resumida
de enxergar a minha vida e perceber o quanto eu evoluiria rumo
aos meus sonhos. É claro que, para isso, eu precisava primeiro
decidir quais seriam estes “sonhos” e objetivos futuros. Então
comecei a pensar mais nisso e a planejar o que eu faria e o que eu
seria. E assim surgiu a minha lista de Grandes Feitos, que até
aquele momento, não contava com nada “tão” surpreendente, além
de uma aprovação no vestibular da UFRGS.
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Ah, passei a usar esse caderno para também escrever textos,
ideias, pensamentos, poesias e letras de música (apenas palavras e
rimas, sem nenhuma melodia).
Inclusive, enquanto o ônibus estava na estrada, seguindo
pela BR386, acabei escrevendo algo para passar o tempo:
Eu não tenho mais respostas
Pras perguntas que eu faço à mim
Não vou mais dobrar a aposta
À procura de uma história sem um fim
Sei lá, já não tenho tempo
Nem paciência pra mostrar o que eu sou
Nem argumentos, nem consciência
Pra falar aonde eu vou
Qual é... me deixe sozinho
Pra pensar se um outro passo é melhor
Silêncio é meu grande amigo
Que não sabe, assim, dizer o pior
Então, os copos e garrafas, cigarro no cinzero
Paredes rabiscadas com poemas sinceros sobre mim
Que não calam o que vai mudar
Que não falam onde é o meu lugar
E assim eu penso
Sobre tudo, sobre ninguém
Que nada vale a aposta
Que tudo é uma amostra
De um tempo tão vulgar
E eu chego a conclusão que eu nunca vou mudar
Depois de ler o que eu havia escrito, concluí que aqueles
versos funcionariam muito bem em uma música. O problema era
criar a melodia certa, algo que realmente funcionasse. Isso ainda
era uma grande dificuldade para mim, e eu apenas escrevia. Era
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curioso o quanto eu escrevia sobre coisas que eu jamais havia
vivido. Talvez fosse algum tipo de premonição (e eu esperava
sinceramente que fosse isso) onde meu subconsciente captava
sinais à minha volta do que eu ainda encontraria pelo caminho.
Enfim...
Ana estava ali, me aguardando, a pedido da minha mãe,
proprietária do apartamento onde ela morava. Aliás, nossas mães
eram amigas de longa data e, apesar daquela proximidade toda, eu
e Ana nunca trocamos mais do que meia dúzia de palavras. Uma
porque eu era cinco anos mais novo do que ela, e outra porque
Ana era linda demais para notar se quer a minha existência bizarra
que os óculos fundo de garrafa davam à minha cara magricela e
espinhenta.
Sabe, simplesmente não era fácil ser eu e viver naquele
corpo de E.T. que mais parecia o de um faquir. Eu bem que
tentava ganhar alguns músculos e acelerar, um pouco que fosse,
aquele maldito processo evolutivo de passagem da adolescência
para a vida adulta, mas meus esforços se mostravam infrutíferos,
sempre que eu me observava de cuecas diante do espelho.
Deus do céu, será que eu nunca vou me tornar um homem
adulto???, era este o meu pensamento constante, apesar de já tê-lo
conquistado no papel um mês antes, quando completei dezoito
anos.
A fila dentro do ônibus andou e eu pude me movimentar.
Peguei a mochila no bagageiro acima da minha cabeça e pulei para
fora. O motorista estava retirando as bagagens do bagageiro
inferior e quando vi minha mala (uma coisa velha de couro todo
descascado), entreguei o canhoto a ele e a peguei com as duas
mãos, depois de jogar a mochila nas costas.
Ana Clara olhava na minha direção à procura de alguém que
parecia não ser eu, pois ainda que eu me aproximasse ela
continuava olhando para o ônibus. Literalmente, ela não me via.
_ Oi Ana _ disse eu pra lá de inseguro quando me aproximei.
_ Ah, aí está você... Oi _ respondeu ela dando meia volta.
Acelerei o passo para alcançá-la e perguntei:
_ Está me esperando há muito tempo?
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_ A séculos _ respondeu ela entediada _ vamos logo.
O dia estava quente e Ana usava uma blusa branca, de
alcinhas, que deixavam seus ombros à mostra, combinando
perfeitamente com a calça jeans surrada e os tênis All Star azul.
Perfeita. Linda de qualquer jeito. Não havia nada mais belo no
mundo do que as curvas daquele corpo delineado pela calça
incrivelmente justa. Ana andava na minha frente e eu tentava, em
vão, não olhar muito para a bunda dela.
Só espero não tropeçar e cair aqui, no meio de toda essa
gente.
A rodoviária estava movimentada para um domingo, uma
constatação que concluí não ter qualquer parâmetro, já que eu
nunca havia estado ali em um domingo, ou qualquer outro dia da
semana. Era a minha primeira vez na rodoviária da capital e a
primeira vez que eu viajava sozinho, outro item da minha incrível
lista. Pelo que eu me lembrava, eu não havia estado em Porto
Alegre muitas vezes até então, ainda que tivéssemos o tal
apartamento, uma herança de família que havia passado para a
minha mãe depois que minha avó faleceu. Eu era pequeno nessa
época. Meu pai chegou a questionar várias vezes porque ela não se
desfazia daquele imóvel, afinal o dinheiro seria bem-vindo, mas
minha mãe argumentava que um dia eu iria para a faculdade e
então o apartamento seria muito útil. De fato, ela tinha razão e
aqui estava eu. Eu não lembrava ao certo quantas vezes eu havia
estado no “nosso” apartamento de POA, acho que não muitas, e a
última vez tinha sido nos dias do vestibular, no alto do verão. Na
ocasião, meus pais vieram de carro e aproveitaram o período em
que Ana estava fora, de férias, para ficarmos ali até eu terminar as
provas.
_ Vamos atravessar _ Avisou ela à passos largos.
Ana andava com uma pressa que me deixava na dúvida se
aquilo seria uma tentativa de me despistar ou se corríamos algum
risco de assalto, afinal toda cidade grande guardava certos perigos.
De qualquer maneira eu não esperava maiores gentilezas por parte
dela, que quase nada sabia a meu respeito, além de ser filho da tia
Solange, como ela costumava chamar.
6
Eu estava ao lado da minha mãe quando ela ligou para Ana e
explicou que eu havia passado no vestibular e que iria morar em
Porto Alegre no apartamento da família. Eu não ouvia o que Ana
dizia do outro lado da linha, mas em alguns momentos minha mãe
me olhava com uma cara que indicava problema, o que agravava
muito o frio na barriga que eu sentia ao me imaginar morando no
mesmo teto que Ana, pois para mim, Ana Clara era a mulher mais
linda que eu já havia visto assim tão de perto. É claro que além da
beleza, Ana tinha atitude e coragem, o que para mim era algo
incrível e admirável. Quando fiquei sabendo que ela iria morar
sozinha em Porto Alegre, cinco anos antes, ao completar a
maioridade, eu pensei “essa garota é mesmo de outro mundo”. De
alguma forma, a informação de que nosso apartamento estava
fechado chegou até ela, que propôs à minha mãe alugá-lo e mantê-
lo limpo e em dia. Elas acertaram um valor e Ana logo arrumou
um emprego, assim que chegou na capital. Jamais houve qualquer
atraso no pagamento do aluguel e isso, segundo minha mãe,
demonstrava independência e maturidade. Certa vez ouvi Dona
Márcia, mãe de Ana, comentar que sua filha não voltaria nem
amarrada a morar no interior. Acho que ela estava certa. E agora,
finalmente, era chegada a minha hora e cá estava eu.
Atrapalhado com a mala pesada, dei mais alguns passos na
tentativa inútil de alcançar Ana, e então lembrei também que
minha mãe, ao telefone com ela, falou qualquer coisa sobre
reduzir o valor do aluguel pela metade, já que eu ficaria em um
quarto e ela seguiria no outro, o que acabou por resolver a questão.
Não era minha intenção ser um estorvo, mas minha mãe me
garantiu que nós nos daríamos muito bem. Inclusive Dna. Márcia,
que me fez recomendações para eu ficar de olho e ver se Ana não
andava aprontando alguma. Eu mesmo não entendi o que ela quis
dizer com aquilo, mas concordei e disse “claro, pode deixar, Dna
Márcia”.
Finalmente chegamos até o carro que estava estacionado no
outro lado da avenida. Era um Gol GTS vermelho, rebaixado, com
as rodas cromadas e um pneu preto reluzente praticamente
encostando na lataria.
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Meu irmão mais velho, Bento, sempre foi muito ligado em
carros, apesar de andar a pé, e o GTS era o seu preferido. Segundo
ele, a frente era 5 cm mais baixa do que a versão anterior, os para-
choques ficaram envolventes e lanternas traseiras maiores. Os
faróis passaram a ser mais largos e eram os mesmos utilizados no
Voyage e na Parati. Por fora, uma decoração exclusiva incluía
refletores auxiliares (de neblina e longo alcance), molduras laterais
pretas, novas rodas (apelidadas de “pingo d’água”) e aerofólio.
Eu mesmo achava aquele carro chamativo demais. Que coisa
mais estranha.
Ela entrou e destrancou a porta do carona.
_ Entra aí _ Ordenou ela ao abrir.
Eu obedeci e joguei a mala no banco de trás, antes de pular
para dentro.
Ela baixou o vidro e eu fiz o mesmo, afinal estava quente e
pelo visto aquele carro não tinha ar-condicionado.
Larguei a mochila nos pés e me virei para procurar o cinto-
de-segurança. Ana enfiou uma fita K7 no som do carro e me olhou
com cara de indiferença, ao me ver devidamente preso ao cinto.
_ Quer um capacete também? _ perguntou ela.
Eu apenas não respondi.
Antes que ela ligasse o motor um som de bateria tomou
conta dos meus ouvidos e então uma música, que bateu em cheio
no meu cérebro, fez ela balançar como se estivesse em uma festa.
_ Essa é a minha música _ gritou ela mais alto que o som _
Ana Banana, do TNT... eu amo essa banda.
TNT??? Nunca ouvi falar... Mas é muito bom... Gostei da
batida... gostei mesmo...
Finalmente eu arrisquei em perguntar:
_ Isso é rock, né?
Ela então me olhou como se algum bicho peçonhento tivesse
pousado em minha testa.
_ É claro que isso é rock... é rock n’roll do sul... Rock
gaúcho.
_ Ah... legal...
Eu já havia tido alguma experiência com a música, fato este
que fazia parte daquela minha lista. Como todo garoto que não
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tem qualquer talento para os esportes eu pedi insistentemente ao
meu pai que me desse uma guitarra. Isso foi entre os quatorze e
quinze anos. Acho que era uma Tonante, ou algo assim. Meus
pais, apesar de religiosos, sempre foram fãs de Beatles e eu
cheguei a me dedicar de verdade por um tempo, para tentar tirar
algum som que não fosse um triste farfalhar de cordas desafinadas.
Tempos depois eu até já conseguia fazer alguns acordes, mas o
som nunca se parecia com que John Lennon e George Harrison
faziam em suas guitarras. Acabei desistindo da minha, que agora
repousava em baixo da minha antiga cama.
Ana arrancou o Gol e minha cabeça pendeu para trás.
Instintivamente me agarrei no banco e no puxador da porta,
concluindo que fora uma ótima ideia ter colocado o cinto-de-
segurança. Ela fazia as marchas com muita habilidade e isso me
deixou bem impressionado. Eu não via muitas garotas dirigindo
por aí e acho que nunca havia estado em um carro guiado por uma.
Ela ultrapassou uma dúzia de outros carros e meu coração parecia
acompanhar o velocímetro.
Uma chuva fina de verão começou a cair sobre a cidade e
tivemos que fechar os vidros do carro. Ela então acionou um botão
no painel e o ar frio começou a soprar.
Ah, legal, então tem ar-condicionado?!?! Não entendi
porque ela abriu a janela.
Ana então meteu a mão no bolso da blusa e tirou algo que
não identifiquei, levando até a boca onde prendeu entre os dentes.
_ Tem fogo aí? _ Perguntou ela para mim.
_ O quê? _ Disse eu sem conseguir me mexer achando
aquela velocidade muito inapropriada.
Ela olhou para mim e riu com o canto da boca, sem deixar
cair aquela coisa que parecia um cigarro feito à mão.
_ É claro que não tem... _ resmungou.
Algo me dizia que aquilo ali poderia ser o que Dona Márcia
se referia com “estar aprontando”.
Ana apontou para o porta-luvas e ordenou:
_ Vê se tem aí uma caixa de fósforos ou um isqueiro.
Com alguma dificuldade, soltei a porta do carro onde me
segurava e fiz o que Ana pediu. O porta-luvas estava apinhado de
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fitas K7, preservativos, um saco plástico com o que parecia uma
espécie de chá e papéis (que eu concluí serem os mesmos que o
que foi usado para fazer o tal cigarro esquisito que permanecia
entre os lábios dela).
_ Achei um isqueiro _ anunciei.
_ Ótimo... me dá aqui.
Ela acendeu a coisa e uma fumaça branca com um aroma
diferente tomou conta do carro.
Ana tragou profundamente fazendo uma brasa se acender na
ponta, gerando pequenos estalidos.
_ Quer um pega? _ perguntou ela segurando a fumaça no
pulmão.
_ Não, obrigado... eu não fumo.
_ É claro que não fuma _ desdenhou ela pensando alto.
O carro fez uma curva e então vimos um quebra-molas se
aproximando a uma velocidade acima do permitido. O Gol deu um
salto e faíscas riscaram o asfalto dando um estouro quando
aterrissamos do outro lado.
_ Merda _ ela gritou _ se o Fernando visse isso me mataria...
_ Quem?
_ O Fernando, meu namorado... esse carro é dele.
_ Ahh _ disse eu tentando esconder a frustração por ela ter
um namorado (como se isso fizesse alguma diferença).
_ Achou que o carro fosse meu?
_ Achei _ Respondi, voltando a segurar o puxador da porta.
_ Garanto que pensou que essas camisinhas todas no porta-
luvas fossem minhas, né?
Bem, para falar a verdade eu nem tinha pensado nada, pois
era difícil me concentrar em outra coisa que não fosse a certeza de
que capotaríamos a qualquer momento.
Mas me ative a responder apenas o necessário.
_ Não. Não pensei.
Ela riu e deu outra tragada tão longa que eu achei que aquele
cigarro “caseiro” acabaria de uma só vez. Era difícil acreditar que
ainda haveria alguma coisa quando ela soltasse a fumaça.
Novamente ela demorou uns quantos segundos até esvaziar os
pulmões e eu achei aquilo muito estranho. Meu pai fumava e eu
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sempre detestei o cheiro que ficava dentro de casa e nas roupas.
Sem contar o mal que aquilo fazia para a saúde. Mas pelo que eu
lembrava, meu pai não segurava a fumaça daquele jeito. Melhor
deixar isso para lá.
A névoa dentro do Gol à jato estava densa demais para eu
ver alguma coisa e meus óculos embasados só pioravam a
situação. Minha garganta coçou e eu tossi algumas vezes. Ana deu
uma gargalhada e eu não entendi onde estava a graça.
Finalmente chegamos e Ana estacionou o carro em frente ao
prédio do nosso apartamento.
Antes que eu abrisse a porta do carro ela se virou e disse:
_ O negócio é o seguinte... já que vamos morar juntos
teremos que combinar algumas regras...
_ Regras?
_ Sim, regras... Do tipo “coisas que você não pode fazer”.
_ Ok _ concordei _ e que regras são essas?
Ela usou o dedo indicador da mão esquerda para apontar o
dedo indicador da mão direita e disse:
_ Número um: O que acontece em Vegas, fica em Vegas...
Diante da minha total falta de reação ela me olhou em
desaprovação e questionou:
_ Você entendeu?
_ Não sei se posso dizer que entendi _ respondi sem
convicção.
_ Então não entendeu... ah, que saco... significa que tudo que
você ver e ouvir aqui, deve ficar aqui, ou seja, nada de contar para
a mamãe e o papai... principalmente para a minha mãe, ok?
Entendeu agora???
_ Ah, sim... claro _ fechei um zíper imaginário na minha
boca e completei _ Bico calado.
Ela agora usou o dedo indicador da mão esquerda para
apontar o dedo médio da mão direita e disse:
_ Número dois: Nada de me espiar tomando banho ou
qualquer coisa do gênero... Você não vai me ver sem roupa,
portanto nem tente... E se acha que vai perder a virgindade
comigo, pode tirar esse seu “cavalinho” pequeno da chuva.
Com essa eu simplesmente fiquei mudo.
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Como diabos ela sabia que eu ainda era virgem? Será que
isso estava tão estampado assim na minha cara tomada de acne?
Pensando bem, essa era uma constatação que não requeria
um QI de três dígitos para se chegar. Relacionei mentalmente as
evidências, como por exemplo: meus amigos; minha escola; meus
pais; minha cara; meu corpo; Bingo! Ok, definitivamente, estava
na minha cara a pouca, para não dizer nenhuma, experiência
sexual. Isso me deixou um tanto constrangido.
Apenas balancei a cabeça sinalizando que, por mim, tudo
bem.
Por fim, ela usou o dedo indicador da mão esquerda para
apontar o dedo anelar da mão direita e disse:
_ Meu namorado é grande, ciumento e muito bravo... não se
meta com ele. Não quero ter que dar explicações para a tia
Solange se um dia você aparecer em casa com um olho roxo.
_ Está certo...
_ Ok, tudo entendido... então vamos descer.
Peguei minha mochila e a mala e saí do carro, ainda atônito
com aquelas regras que eu teria que observar dali em diante.
Minhas mãos estavam suando e eu já não sabia mais se era devido
a corrida em que acabávamos de marcar o melhor tempo, ou se era
pelo claro risco de vida que eu correria daqui para frente. Tive a
impressão de que aquela fumaça toda dentro do carro havia me
deixado zonzo e resolvi perguntar:
_ O que é aquilo que você fumou?
Ela sorriu maliciosamente e respondeu:
_ Um baseado.
_ Baseado? _ Eu repeti sem saber o que era.
_ Sim, um bagulho.
_ Bagulho? _ Pior ainda.
_ É, garoto... Maconha...
_ O que??? Maconha???
_ É... maconha!!! _ exclamou ela mostrando o dedo
indicador _ Regra número um, lembra?
_ Ah, sim, claro... bico calado.
_ Bom garoto...
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Eu não conhecia maconha pessoalmente. Apenas ouvia falar.
Meus amigos mais próximos, um bando de nerd’s virgens e sem
graça do colégio Marista onde eu estudei, jamais haviam tido
qualquer contato com drogas. E eu agora estava, provavelmente,
tecnicamente chapado por tabela.
Acho que isso merece ir para a minha lista.
A propósito, eu me chamo Vinícius Porto, mas todos me
conhecem por Vini.
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CAPÍTULO 2
O apartamento estava uma bagunça. Roupas por todo o lado,
louça acumulada na pia, móveis fora do lugar, era difícil notar
alguma coisa que estivesse ok.
_ Uau _ disse eu olhando pela janela _ as águas chegaram
até aqui em cima?
_ Mas do que você está falando _ Perguntou Ana irritada.
_ O tsunami que passou pelo nosso prédio... isso que
estamos no 4º andar, hein?
Ela fechou a cara de vez e me fuzilou com os olhos, antes de
vocalizar:
_ Rá... Rá... Rá... _ depois fez uma careta de nojo e
completou _ O Louva Deus cegueta é engraçadinho, é?
Mas que apelido mais “carinhoso”...
Antigamente, quando morávamos no interior e
acidentalmente nos encontrávamos, ela me chamava de
“Estranho”. Acho que eu prefiro esse...
O mau-humor em pessoa. Melhor não mexer com ela.
_ Só fiz uma brincadeira, ok? _ tentei explicar _ mas que
isso está uma bagunça, isso é fato...
Ana se abancou no sofá e sentou sobre as pernas, sem tirar
os tênis.
_ Você gosta de organização? _ perguntou ela com um tom
desafiador.
_ Sim, gosto _ respondi ainda olhando para os tênis em cima
do sofá.
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_ Ótimo, então arrume.
_ Eu não...
Ela levantou o braço com a mão aberta num claro sinal de
“cale a boca” e falou:
_ O quarto é aquele ali, agora saia... já fiz o bastante em ter
ido te buscar na rodoviária.
_ Tudo bem _ respondi e sumi.
Joguei a mochila nas costas e peguei minha mala, tratando
de me esconder em meu novo quarto, que ficava exatamente em
frente ao dela. Porta com porta. Felizmente tínhamos um
banheiro entre os dois cômodos, nos separando por um metro e
meio, o que, em parte, me tranquilizou, afinal eu não estava nem
um pouco afim de ficar escutando ela e seu namorado fazendo
“sei lá o que” lá dentro.
Os móveis eram antigos e de quarta ou quinta mão. O
guarda-roupas não tinha portas e a cômoda contava com 4
gavetas que pelo visto não fechavam completamente. A cama, ao
menos, parecia boa, e ao lado havia um bidê semidevorado por
cupins. O colchão era de molas e assim que eu sentei uma
sinfonia de rangidos acusou a pressão que meus cinquenta quilos
causavam sobre a superfície aveludada. Deus do céu. Espero que
o colchão da Ana Banana não seja de molas também ou será
impossível eu dormir.
Abri a mala, que pesava tanto quanto eu, e observei o
encaixe perfeito entre as roupas e os livros que eu trazia. Como
um bom filho de professora de literatura, decidi começar pelos
livros. Um a um fui retirando da mala e os colocando sobre a
cômoda. O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, Baú de
Espantos de Mário Quintana, O Diário de Um Mago de Paulo
Coelho, Dom Casmurro de Machado de Assis e O Tempo e o
Vento de Érico Veríssimo, além de Confúcio, Dalai Lama,
Aristóteles, Nietzsche, Platão, Descartes, Voltaire, Sócrates e
Tolstói, eram meus preferidos. Mas eu ainda contava com Como
julgar, como defender, como acusar de Roberto Lyra, Ensaio
sobre a liberdade de Stuart Mill e Dos delitos e das penas de
Cesare Beccaria.
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Com os livros devidamente seguros, comecei a tirar minhas
roupas semi-abarrotadas da mala, tentando, inutilmente,
desamassá-las. Fiz o melhor que pude quanto a intenção de
dobrar as cinco camisas de gola, as dez camisetas, as três calças
jeans e as duas bermudas, mas definitivamente aquilo não era o
meu forte. Desanimado com o resultado pífio dos meus dotes
domésticos, joguei tudo dentro do guarda-roupas, tirei os tênis e
me atirei na cama.
Nhec, nhec, nhec... Jesus Cristo!!!
Decidi tirar um cochilo.
Acordei com a campainha tocando lá na cozinha e concluí
que deveria ser o tal Fernando, “ô namorado”. Fiquei imóvel e
em modo “morto-vivo”. Se ela me chamar, finjo que estou
dormindo.
As vozes surgiram altas e animadas e pude perceber uma
voz grave e uma estridente. Eu não entendia exatamente o que
falavam, mas algumas palavras chegavam até mim, tipo “fumar
um”, “dar uma volta”, “trepar”... Me imaginei escrevendo um
dossiê para Dona Márcia intitulado Coisas Que Ana Apronta em
Porto Alegre, mas só pensei. É claro que eu não faria isso, pois
aceitei as regras de convivência e essa era a número um. O que
acontece em Vegas, fica em Vegas. Sabe, eu levo muito a sério
esse negócio de Palavra e de Acordos. Se eu não tivesse aceito
aquelas condições eu não me preocuparia em entregar Ana para a
mãe dela, mas eu aceitei e então eu seria um túmulo. Ainda
assim, me imaginar elaborando um dossiê comprometedor me
fez rir mais alto do que eu gostaria e instintivamente tapei minha
boca com a mão. Droga!
Não sei se eles me escutaram, mas Ana gritou atrás da porta:
_ Ô Vinícius, vou sair com o Fernando... tem uma cópia da
chave em cima da mesa, se precisar...
Eu segui imóvel como estava e em total silêncio.
A voz grave falou:
_ Deve ter dormido...
A estridente concordou.
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_ É, deve ter ferrado no sono... acho que ficou chapado só
com a fumaça...
_ Tu fumou meu bauro?
_ Era só uma ponta... mas deu uma fumaceira do caramba...
eu ia deixar os vidros abertos, mas começou a chover, então tive
que fechar... acho que ele ficou doidão pela primeira vez...
Eles riram e depois escutei a porta batendo.
Fiquei na dúvida quanto ao que ela se referiu como “ponta”,
pois aquilo que eu vi na boca dela era maior do que um dedo. Ah,
ela devia estar falando do que sobrou... de fato, apenas uma
ponta.
De repente me dei por conta que estava faminto como nunca
estive antes. Meu estômago roncava e eu tive certeza de que
comeria um boi pela perna. Minhas opções eram poucas, afinal
eu não sabia cozinhar e ainda não havia passado no mercado.
Comer algo que fosse da Ana estava fora de questão, pois a
julgar pelos primeiros quarenta minutos em que estivemos
juntos, era morte na certa. Melhor não provocar a onça com vara
curta. Esse ditado, aliás, me lembrou meu pai, que volta e meia
se referia à Dona Solange como “a onça”.
A chuva havia parado e, para alegria dos porto-alegrenses, o
sol resolveu dar as caras. Fui até a sacada do apartamento e
observei a beleza da nossa rua, chamada Fernandes Vieira. Na
minha opinião, Bom Fim era o melhor bairro de Porto Alegre.
Arborizado, tranquilo, perto da universidade e a poucos minutos
da rodoviária. Isso significava agilidade e mobilidade, o que para
mim, que andaria a pé e de ônibus, pelos próximos cinco anos,
era bem importante.
Dias antes eu havia lido a história do bairro e achei muito
interessante o fato de, antigamente, tudo ali ser um imenso
campo verde, onde o gado que abastecia a cidade andava solto
pelo pasto. Popularmente o lugar era conhecido como Campo da
Várzea, mas mais tarde, em função da construção da Capela
Nosso Senhor Jesus do Bom Fim, iniciada em 1867 e concluída
em 1872, o campo da Várzea passou a ser chamado de Campos
do Bom Fim. Tempos depois, por ocasião de uma alforria
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coletiva promovida pelo Centro Abolicionista, para comemorar o
fim da escravidão, o nome foi alterado para "Campos da
Redempção". Já por volta do final da década de 1920, os
primeiros membros da comunidade judaica começaram a fixar
moradia ao longo da Avenida Bom Fim, onde algumas
residências, pequenas lojas e oficinas, deram início ao processo
de povoamento efetivo do bairro. A diversificação desse
pequeno comércio acompanhou o crescimento natural da cidade,
vindo o Bom Fim a constituir-se como bairro residencial e
comercial. Apesar da atual diversidade de moradores, o Bom Fim
permanece como símbolo da colonização judaica em Porto
Alegre, onde localizam-se algumas sinagogas, o Museu Nacional
das Migrações Judaicas e o Centro Israelita Porto-Alegrense.
Certamente eu iria conhecer tudo, cada metro quadrado, pois
sempre fui fascinado pelas histórias que rondavam os lugares.
Podia-se dizer que durante a semana, o Bom Fim era é um
bairro nervoso e rápido em sua larga e extensa Avenida Osvaldo
Aranha. Porém, aos sábados e domingos o bairro se transformava
em um lugar bucólico, com ares de interior. Lembrei que haviam
em seu entorno inúmeros estabelecimentos interessantes, como
cafés, livrarias, escolas, espaços culturais, além do famoso Bar
Ocidente, tradicional casa noturna que promovia intensa agenda
de shows, festas, peças teatrais e saraus literários. Esse, aliás,
seria a minha primeira opção assim que eu me aventurasse na
noite porto-alegrense.
Preciso urgentemente comer alguma coisa. Deus do céu,
que fome é essa???
Finalmente peguei a minha cópia da chave sobre a mesa e
desci para dar uma caminhada pela Osvaldo. Não sei porque, mas
algo me dizia que eu ainda faria esse programa muitas e muitas
vezes dali para frente.
Duas quadras depois eu já estava no Parque da Redenção,
que fervia de jovens, crianças, pais, mães, velhos, músicos,
hippies, cachorros e uma ou outra viatura da polícia. Andei sem
pressa com as mãos no bolso e passei por alguns artesanatos ao
ar-livre, desenhistas de caricatura e, finalmente, uma carrocinha
de cachorro-quente, onde, claro, eu parei.
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Li na placa atrás do atendente que eu poderia escolher
completo com duas salsichas e foi exatamente o que eu fiz.
_ Um completo com duas salsichas, por favor.
Um som de violão me chamou a atenção e vi um pouco mais
para frente uma roda animada, formada por umas vinte pessoas e
três violões. Fiquei observando o comportamento do grupo e o
quanto estavam todos felizes com aquela cantoria. Mais à frente
ainda avistei outro grupo, porém menor, também formado por
algumas pessoas que rodeavam um violão.
Respirei fundo e me senti maravilhosamente bem, ali,
naquele lugar, naquela cidade, naquele bairro, que transpirava
cultura, lazer e amizade. Em qualquer direção que eu olhasse eu
não via o menor sinal de violência, brigas, tumultos, nada.
Apenas o simples ato de curtir um bom sol de final de tarde.
_ Aqui está, rapaz _ disse o moço me entregando o cachorro
quente.
_ Obrigado _ Disse eu lhe passando o Cinquenta Cruzados.
Sem mais delongas, afundei meus dentes naquele combinado
de pão, molho, salsicha, queijo-ralado, mostarda, ketchup e
temperinho verde. Sem palavras.
Olha, sem querer exagerar, aquele era sem sombra de
dúvidas o melhor cachorro quente que eu já havia comido em
toda minha vida.
Segui andando, passo por passo, enquanto devorava meu
lanche e fui me aproximando da primeira roda de violão. O som
que aqueles caras tiravam me impressionou e eu fiquei por ali,
comendo e ouvindo uma boa música. Infelizmente eu não
conhecia nada que eles tocavam, mas a melodia me agradava
muito, assim como as letras. Percebi que algumas eram em
inglês, mas como nunca fui muito bom com a língua britânica,
não consegui julgar se eles cantavam mesmo ou se estavam
apenas no “embromation”.
Ao terminar minha refeição, procurei uma lixeira para jogar
o papel fora. Ajeitei os óculos que insistiam em parar na ponta do
nariz e limpei as mãos nas laterais da minha calça. Ao me virar
para voltar ao apartamento escutei uma voz feminina e estridente
atrás de mim.
19
_ Ô Estranho, está perdido?
Ana Banana e seu homem da voz grossa me observavam
com cara de quem achavam graça de alguma coisa.
_ Não _ respondi educadamente _ estou bem... Só desci para
comer... estava com muita fome.
Eles se entreolharam e ela diagnosticou:
_ Larica... _ E caíram na gargalhada.
_ Lari... o quê? _ perguntei sem entender bulhufas.
_ Deixa pra lá _ disse ela se controlando _ Esse aqui é o
Fernando, meu namorado.
Ele deu um passo na minha direção e mudou a feição para o
modo “namorado brabo”, antes de me estender a mão e apertar a
minha. Realmente, o cara era grande.
_ E aí... _ disse ele enquanto esmagava minha pobre mão
ossuda e frágil.
Juro que eu pensei ter escutado alguns estalos de ossos
quebrando, mas apesar da dor insuportável e da lágrima do olho
direito que chegou a se formar eu respirei fundo e respondi:
_ E aí... _ sem deixar a porra da lágrima cair do meu olho.
Que cara mais idiota???
Ele então soltou o que um dia foi minha mão e procurei não
olhar o estrago e nem mexê-la por alguns segundos. Apenas a
enfiei no bolso discretamente para não transparecer a provável
avaria causada por aquele cumprimento desproporcional.
Ana virou para mim e deu novas ordens.
_ Olha, eu vou chegar tarde... não deixe a chave na porta
pelo lado de dentro, viu? _ ela falava como se eu fosse um
retardado fazendo mímica com as mãos e continuou _ Se não
outra chave não entra pelo lado de fora, entendeu?
_ Está certo... Entendi.
_ É, vamos chegar muuuito tarde _ disse o troglodita à
tiracolo, pegando na bunda dela.
Desnecessário, pensei.
Não fazendo a menor questão de continuar “desfrutando” da
companhia do “agradável” casal, peguei meu rumo.
_ Então tchau _ disse eu.
_ Tchau, magrelo _ disse ela.
20
Ainda prefiro “Estranho”.
Dei alguns passos, me afastando deles, e notei que alguém
veio até mim. Era um cara hiponga, vestido de branco, de cabelos
castanhos compridos e óculos redondos. Numa primeira olhada
eu o achei parecido com alguém famoso, mas não consegui me
lembrar quem.
_ Hei maluco _ gritou ele _ seguinte... posso te falar umas
coisas?
Ele chegou mais perto e eu continuava tentando descobrir
com quem o cara se parecia. Putz, estava na ponta da língua.
Finalmente respondi:
_ Sim, claro... o quê?
_ Tu não é daqui, né?
_ Não, cheguei hoje... sou do interior do estado.
_ Bá, eu saquei na hora... aquele otário lá atrás ‘tava só te
tirando pra bobo.
Como se eu já não soubesse.
_ É eu sei...
_ E aquela gata que ‘tava com ele, crééédo, que mulherão,
velho...!?!?!
_ Sério? Eu nem acho ela tudo isso... (menti)
_ Bem capaz... _ duvidou o hiponga _ eu vi na tua lata que
tu ‘tá tri afim dela.
_ Eu??? _ exclamei boquiaberto.
Daí já é um exagero... eu acho.
Ele colocou o braço sobre meu ombro e falou:
_ Ó... seguinte, velho... não me leva a mal o que eu vou te
dizer, mas caras como tu, assim... tipo... é... sabe, né... meio
assim...
_ Feio? _ Disse eu para ajudar o maluco.
_ Feio não... feio sou eu... tu é pra lá de feio, velho... quase
um anticristo... um espanta bebê... manja o Chuky?
_ ‘Tá, eu entendi... entendi... sou muito feio... e daí?
_ Caras como nós, feios de doer, só se dão bem se tiver uma
banda... Tu tem banda? Sabe tocar alguma coisa?
21
Como eu iria ter uma banda, se eu acabei de chegar em
Porto Alegre?
_ Não, nunca tive uma banda e nunca pensei em ter...
_ Mas tu toca alguma coisa?
_ Mais ou menos... um pouco de guitarra, eu acho...
_ Já ‘tá valendo, maluco... Olha meus bro ali?
_ Teus o quê?
_ Meus bro... _ Ele sinalizou uma faixa transversal
imaginária sobre o peito e continuou _ meus faixa... meus
irmãos... meus Brothers... estão sempre cheios de mulher na
volta, porque tocam um violão, sacou? Uma gaitinha de boca,
sacou?
_ Sa... quei, claro...
_ O negócio é simples, maluco, se tu não toca nada, não
come ninguém _ explicou ele abrindo um grande sorriso amarelo
tabaco.
Bom, até que fazia sentido. Observei rapidamente os caras
debruçados no violão e nenhum me pareceu com pinta de galã ou
do bio-tipo troglodita como o Mister Universo da Ana Banana.
Um deles, inclusive, usava óculos como eu. Pelo sim, pelo não,
acho que valia a pena pensar no assunto.
_ Legal... obrigado pela dica _ agradeci ao maluco.
_ Que isso, velho... não precisa agradecer... é que eu não
consigo ver esses playba’ se prevalecendo em cima dos mais
fracos... me sobe o sangue na cabeça, sacou?
_ Sim, saquei... legal...
Ele me estendeu a mão e eu dei um semi-pulo para trás.
_ Cara, minha mão está meio esmagada...
Então eu dei a mão esquerda e ele apertou de leve.
_ Sem grilo, meu velho... sem grilo...
_ Cara, como é mesmo teu nome? _ perguntei, pois afinal
ainda não sabia com quem eu estava falando.
_ Aqui todos me chamam de John Lennon.
Putz... Claro. O maluco era a cara do John Lennon.
_ Valeu, John Lennon... Obrigado.
_ Vai em paz, irmão _ disse ele enquanto eu me afastava.
22
Empurrei meus óculos de volta para cima do nariz e voltei
caminhando até o apartamento, enquanto pensava no que aquele
Beatle do Bonfa havia me mostrado. Acho que eu realmente teria
que fazer alguma coisa para me tornar mais interessante. E, de
preferência, mudar meu visual. Caso contrário, os próximos anos
seriam realmente complicados.
Eu odeio esses óculos.
23
CAPÍTULO 3
Meus olhos já estavam abertos meia-hora antes do despertador
avisar que era hora de fazer algo útil. Deus ajuda quem cedo
madruga, dizia minha mãe. Encontrei meus óculos ao lado da
cama e me livrei do lençol que me cobria. Escolhi uma roupa que
julguei adequada para a ocasião e caprichei no desodorante,
afinal, o fim do verão ainda reservava dias quentes e abafados e
eu não poderia correr o risco de chegar no primeiro dia de aula
cheirando mal. Pé-por-pé, fui até o banheiro me lavar e notei que
a porta do quarto de Ana estava fechada.
Lembrei do troglodita do namorado dela e dos prováveis
danos que ele havia provocado em minha mão, ainda dolorida.
Palhaço... odeio aquele cara...
Comecei a escovar os dentes mas parei de repente ao me
olhar no espelho e enxergar meus cabelos desgrenhados. Corri
até o quarto onde achei um pente na minha mala e voltei para o
espelho (ainda com a escova de dentes na boca) na tentativa de
fazer algo a respeito daquele emaranhado que eu carregava na
minha cabeça. Fiz o possível e o impossível, até que larguei o
pente em cima da pia e segui escovando os dentes. Fiquei me
perguntando porque eu fazia isso com tanta frequência, de
começar a escovar os dentes e parar no meio para pentear meus
cabelos, e então lembrei da resposta que eu sempre dava a mim
mesmo, que era “eu odeio esse cabelo e não consigo encará-lo
por mais de cinco segundos”.
24
Sequei o rosto e senti que alguma coisa doeu dentro do meu
nariz. Bá, uma espinha interna... que saco... E isso doía demais.
Num olhar mais atento verifiquei que minhas bochechas estavam
cravejadas de pontos avermelhados e marcas de acnes removidas.
A ponta do meu nariz era uma galáxia de cravos e por mais que
eu espremesse tudo que aparecia de novo, eu não dava conta, e
mais cravos e espinhas surgiam das profundezas da minha pele,
como num passe de mágica. Peguei minha mochila e saí
estressado com os efeitos tardios que a puberdade ainda
provocava em mim.
O primeiro dia de faculdade estava uma loucura. Gente para
todos os lados, no geral muitos jovens, todas pessoas animadas,
arrumadas e perfumadas. Acho que não sou o único que se
preocupa com o próprio cheiro, pensei. Comecei a observar
melhor as garotas que passavam por mim e tive a impressão de
estar em um desfile de modas, com todas aquelas modelos
maravilhosas percorrendo as passarelas disfarçadas de calçadas.
Concluí que eu jamais havia visto tantas mulheres bonitas
reunidas em um único lugar, o que me deixava ainda mais
nervoso do que eu já estava. Assim que eu pisei no prédio do
Direito, senti meu estômago dar um nó. Tudo era novo para mim
e eu ainda procurava pela sala onde teríamos uma aula inaugural.
Pense em uma pessoa perdida, pois essa pessoa era eu. Depois de
algum sobe e desce, entre os andares do prédio, cheguei ao meu
destino; suado e esbaforido.
Parei diante da sala e conferi novamente no folheto de
instruções.
_ Direito diurno? _ alguém perguntou ao meu lado.
Me virei e vi um rapaz franzino, cabelo preto lambido para
trás, de terno e gravata. Tinha mais ou menos a minha altura, um
metro e setenta, talvez, e não mais do que dezoito ou dezenove
anos.
_ Sim _ Respondi _ mas estou conferindo se é mesmo aqui,
pois já desci e subi umas três vezes.
Ele riu e me tranquilizou:
25
_ Pode entrar. É aqui mesmo _ ele me estendeu a mão e se
apresentou _ muito prazer... eu sou o Rubens, mas pode me
chamar de Rubinho.
Após verificar rapidamente o porte físico inofensivo do
colega engomadinho, arrisquei a lhe alcançar minha mão ainda
dolorida.
_ O prazer é meu... eu sou o Vinícius, mas pode me chamar
de Vini.
Apresentações feitas, entramos e sentamos na 2º fila.
Puxei a grade curricular e conferi novamente as cadeiras que
eu cursaria naquele primeiro semestre:
Criminologia I, Economia Política, História do Direito,
Introdução à Ciência do Direito I, Introdução à Filosofia do
Direito – A, Introdução às Ciências Sociais e, finalmente,
Política e Teoria do Estado I.
Lembrei do quanto eu tinha sonhado com esse dia, quantos
filmes sobre advogados eu havia assistido, quantos livros de
direito eu havia lido, quantas audiências públicas eu já havia
acompanhado, tudo para me preparar para esse momento, quando
eu finalmente, começaria a me tornar um grande advogado. O
trabalho de paralegal que eu havia tido no último inverno, no
escritório do Sr. Bartolomeu, um criminalista pré-histórico que
atuava em minha cidade natal, fora sem dúvida de muita
importância para a minha visão e senso crítico acerca do dia-a-
dia de um jurista.
Ainda assim, pelos próximos cinco anos, eu viveria com
aquela sensação incômoda de que todos à minha volta eram mais
inteligentes do que eu, o que para mim era ainda um mistério, se
isso serviria mais como um estímulo ou como uma baixa
autoestima típica dos nerd’s.
Rubinho olhou com o canto do olho e me indagou:
_ Você vai fazer todas as disciplinas?
_ Sim, vou _ respondi, afinal eu estava ali para estudar.
E por falar nisso, a conclusão era bastante óbvia – Melhor
esquecer essa ideia de formar uma banda...
Um senhor grisalho e impecavelmente trajado, com terno e
gravata, entrou na sala e cumprimentou a todos. Comecei a temer
26
que aquele fosse a vestimenta padrão do curso, pois notei que
mais alguns calouros ao lado também usavam gravata. Se isso
fosse uma regra eu teria problemas, pois não tinha dinheiro para
investir numa beca daquelas. Por fim, para meu alívio, após dar
uma olhada geral em 360 graus, constatei que apenas o professor
e uma meia-dúzia de calouros, incluindo meu novo amigo,
apresentavam-se tão formais. O traje mais comum entre a
maioria dos presentes era mesmo calça jeans, camiseta e tênis.
Ufa, pensei eu ajeitando os óculos.
O professor acionou um projetor no quadro negro e nossa
grade curricular surgiu na lousa. Seu nome era Rômulo Veiga,
professor e doutor em Criminalística. Ele daria a disciplina de
Criminologia I, mas antes bateria um papo com os calouros
recém-chegados. Durante mais de uma hora, o professor falou
sobre o profissional formado em Direito, e todas as
possibilidades que se abririam em sua carreira como advogado,
seja em escritórios individuais ou em grupos nas mais diversas
áreas de especialização, ou ainda, atuando como perito criminal e
civil, escrivão, em assessorias jurídicas de empresas, ou mesmo
seguindo carreira através de concursos para o Ministério Público,
Magistratura, procuradorias estatais, delegado de polícia e
magistério superior, entre outras opções. O curso visaria
compreender os conflitos da sociedade de classe em que
vivemos, bem como analisar o lugar do direito, seus limites e
possibilidades. Sua função básica seria formar profissionais que,
da perspectiva do direito, refletissem e interagissem com os
conflitos nas mais variadas áreas da vida social. Paralelamente às
atividades docentes clássicas, ao longo do curso, os estudantes
participariam de uma série de atividades de pesquisa e de
extensão, dentre as quais se destacaria o SAJU - Serviço de
Assistência Jurídica Universitária, um dos mais antigos do País,
assim como de congressos, seminários e outras formas de
divulgação do conhecimento científico.
Confesso que aquilo tudo que o professor acabava de
apresentar era como uma injeção de ânimo em meu cérebro. Eu
estava ali para aprender e aprenderia tudo que me fosse ensinado.
27
Não conhecia ainda os demais professores, mas já arriscava a
prever que o Doutor Rômulo Veiga seria o meu favorito.
Ao término da exposição, todos se levantaram para um
rápido intervalo.
_ Está afim de um café? _ perguntou Rubinho.
_ Claro, vamos.
A lancheria estava disputada e acabamos ficando mais para
trás, aguardando nossa vez de sermos atendidos.
_ Você deve estar com calor com essa roupa _ comentei, não
escondendo a curiosidade.
Ele riu e concordou.
_ Pior é que está mais quente do que eu pensava...
_ Precisa mesmo usar terno e gravata?
Rubinho afrouxou um pouco o nó da gravata e esclareceu a
questão.
_ É que eu trabalho no escritório do meu pai todas as tardes.
Então, depois da aula, tenho que ir direto para lá... E “lá”, só se
trabalha de terno.
_ Ah, ‘tá.
A fila andou um pouco e demos um passo para frente.
_ Teu pai é advogado? _ perguntei.
_ Sim, criminalista... Juarez Bastos Neto.
_ Ah, legal.
_ E o teu pai? Faz o quê?
Sem qualquer receio de falar a verdade, respondi:
_ Meu pai é mestre de obras. Trabalha em uma construtora
no interior.
_ Humm _ respondeu ele com cara de quem não sabia bem o
que um mestre fazia numa obra.
Sempre tive orgulho do meu coroa, que deu duro a vida toda
nos canteiros de obras por onde passou. Desde quando eu era
pequeno, vejo ele chegar em casa, todos os dias, sujo, suado, mas
feliz, porque tinha um emprego que permitia sustentar a família,
ter uma casa própria e dar estudo para os filhos. Meu irmão mais
velho não aproveitou muito a chance dele e apenas terminou o
segundo grau. Já eu, aproveitaria todas as oportunidades que a
vida, e os meus pais, colocassem diante de mim.
28
Chegou a nossa vez na fila e o atendente do bar perguntou o
que queríamos. Rubinho me olhou e disse:
_ Cara, acho que vou pedir um refrigerante... está muito
quente para tomarmos café.
Eu concordei plenamente.
_ Bá, verdade...
_ Uma coca, por favor... com limão e gelo _ pediu Rubinho.
_ Para mim um suco de laranja sem açúcar.
O moço fez sinal de que não tinha laranjas e sugeriu que eu
escolhesse outra fruta.
_ Temos mamão e manga...
_ Então faz um suco de mamão com manga... e muito gelo.
Rubinho me olhou com uma cara do tipo “vai mesmo beber
isso???”, mas não disse nada.
Quando o suco chegou no balcão, pegamos nossas bebidas e
sentamos em uma mesa onde haviam duas cadeiras vagas.
Rapidamente desenvolvemos uma boa afinidade, ao
descobrirmos pontos em comum em nossas manias, interesses de
lazer, foco profissional e gosto musical.
_ Cara, eu gosto muito de Beatles e outras bandas de rock
inglês _ Revelou Rubinho.
_ Eu também gosto, pois cresci com meus pais escutando
Beatles, Rolling Stones, e outros nomes que eu já nem me
lembro mais... isso tocava o dia todo no três-em-um lá de casa...
uma vez minha mãe e uma amiga dela chegaram na minha casa e
me pegaram dançando em meio ao som do primeiro disco dos
Beatles, enquanto eu imitava o George Harrison com sua
guitarra...
Nós dois rimos e achamos divertido imaginar eu dançando
beat music (o Rock Inglês dos anos 60) ao som de Twist And
Shout.
_ Não me diga que você usava jaqueta de couro e colocava
gel no cabelo...?
_ Porque? _ questionei ironicamente apontando para sua
cabeça _ por um acaso você tem alguma coisa contra o uso do
gel?
29
_ Cara, o gel é um item de sobrevivência para quem presa
um visual elegante... acho que tu deveria pensar seriamente em
usar também...
Caí na risada com aquela.
_ Mas que conversa de maluco...
Mas no fim reconheci.
_ Acho que isso não combinaria muito comigo, mas se eu
pudesse mudar algo em mim eu gostaria de ter um cabelo
diferente, algo no estilo James Dean... ah, e um pouco mais de
corpo para usar uma jaqueta de couro tipo Elvis, sacou...?
Rubinho riu da gíria “sacou” que saiu da minha boca quase
sem querer.
_ Isso é que não combina contigo _ disse ele.
Verdade... Lembrei do Maluco... O John Lennon do Bonfa.
Terminamos nossas bebidas e voltamos para a sala.
O segundo período seria de História do Direito e eu estava
ansioso por saber mais sobre a minha futura profissão.
O professor de História do Direito era Bressan Neves, um
catedrático renomado no meio acadêmico e ganhador de várias
honrarias. Ele gastou uma hora e meia discorrendo sobre os
primórdios da matéria, defendendo a tese de que o ser humano é
um ser essencialmente histórico, e, nesse contexto, o direito pode
representar o modo como uma sociedade se organiza para manter
a ordem social. Assim, a História do Direito era o ramo da
história social que se ocupava da análise, da crítica e da
desmistificação dos institutos, normas, pensamentos e saberes
jurídicos do passado.
Na segunda parte da aula nosso professor reuniu os alunos
de dois em dois e propôs um trabalho em aula, onde teríamos que
fazer um paralelo entre a prática do Direito na sua origem e os
atuais anos 80. Eu e Rubinho nos debruçamos sobre o tema e
cada um contribuiu ao máximo com argumentos, dados, fatos e
estatísticas. Nossas opiniões até que não divergiam muito e ao
final do período estava mais do que claro que formávamos uma
ótima dupla. Percebi apenas que Rubinho não tinha muita
paciência para deixar nosso trabalho bem apresentável. Até
30
porque, a letra dele era terrível. Um hieróglifo, digno de um
médico. Eu então passei todo o texto à limpo e reforcei minha
mania de organização. Bagunça e relaxamento era algo que me
incomodava profundamente. Isso me lembrava que eu ainda
precisava arrumar minhas roupas, atiradas no guarda-roupas.
Seria um desafio e tanto.
Na saída do Prédio do Direito, um grupo de estudantes
entregava panfletos sobre a nova constituição brasileira que
estava sendo amplamente debatida em todo o país. A previsão
era de que houvesse uma Assembleia Nacional Constituinte em
setembro, um movimento político que mudaria profundamente o
Brasil pós-ditadura militar. Independentemente das
controvérsias de cunho político, a nova Constituição Federal
asseguraria diversas garantias constitucionais, com o objetivo de
dar maior efetividade aos direitos fundamentais, permitindo
assim a participação do Poder Judiciário sempre que houvesse
ameaça ou lesão a direitos. Para demonstrar a mudança que
estava havendo no sistema governamental brasileiro, que saía de
um regime autoritário recentemente, a constituição de 1988
qualificaria como crimes inafiançáveis a tortura e as ações
armadas contra o estado democrático e a ordem constitucional,
criando assim dispositivos constitucionais que bloqueariam
golpes de qualquer natureza. Mas a maior mudança a que todos
aclamavam era a garantia de eleições diretas para os cargos de
Presidente da República, Governador do Estado e do Distrito
Federal, Prefeito, Deputado Federal, Estadual e Distrital, Senador
e Vereador. Com isso o direito maior de um cidadão que vive em
uma democracia representativa estaria conquistado.
Peguei meu panfleto e Rubinho fez o mesmo. Um cabeludo
de barba por fazer abriu os braços e veio em nossa direção.
_ E aí meu chapa _ gritou ele sorridente para o meu colega.
Rubinho deixou transparecer um lado mais descontraído e
cumprimentou:
_ E aí Jorginho... tudo na boa?
_ Tudo na paz, bicho...
Rubinho me apontou com a cabeça e anunciou:
_ Esse é o Vini, meu colega...
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_ E aí, Vini _ me saudou o cabeludo.
_ E aí _ respondi.
Esse, aliás, era um cumprimento que eu sempre achei
curioso, pois apesar de curto, “e aí” dava margem para a outra
pessoa começar a falar sem parar, já que para mim soava como
“e aí... como andam as coisas?” ou “e aí... como você tem
passado?”. Eu mesmo não tinha muita paciência para escutar os
outros reclamando da vida e por isso, sempre que eu
cumprimentava alguém com “e aí” eu logo mudava de assunto e
fazia outra pergunta bem específica.
Instantaneamente emendei:
_ De onde saiu toda essa gente?
O cabeludo segurou um crachá, que eu nem havia notado, e
salientou:
_ Somos do Grêmio Estudantil e estamos organizando ações
em vários pontos da cidade para esclarecimento e
conscientização sobre a Constituição Brasileira.
_ Ah, legal.
Ele então se virou para Rubinho e fez um convite:
_ Sábado vai ter show de uns camaradas meus no Bar
Ocidente. Está afim de ir? Eu tenho uns ingressos cortesia.
_ Hum, não sei... não ando muito afim de sair... quem vai
tocar?
_ O nome da banda é Os Cascavelletes... os caras são meus
amigos e estão estourados na rádio.
Me inseri na conversa e tratei de confirmar aquela
informação.
_ Essa banda é de Rock, né?
_ Sim, os caras são muito loucos... fazem um baita som _
confirmou o cabeludo _ Vamos lá, Rubinho... a Bel, a Cris e
Gabi vão também.
_ Vou pensar no assunto _ Respondeu ele antes de apontar
novamente para mim _ Meu colega aqui pode ir? Ele é de fora e
não conhece nada ainda... vai gostar do Ocidente.
Jorginho não viu problema algum naquele pedido.
_ Claro, velho, eu tenho várias cortesias... ‘tá na mão.
32
Ele me estendeu um ingresso e eu pensei “Legal... se a Ana
não fosse tão insuportável e não tivesse um namorado tão
babaca, eu pediria um para ela também”.
Nos despedimos e cada um foi para o seu lado.
Uau, que dia. Acho que minha adaptação em Porto Alegre
será mesmo divertida.
Na volta para casa, tudo ia bem enquanto eu caminhava
tranquilo pela Osvaldo Aranha, mas, nas proximidades do
Cinema Baltimore, algo de estranho começou a acontecer dentro
de mim e senti minha barriga se remexendo como se houvesse
um alien lá dentro. Reduzi as passadas e respirei fundo duas
vezes, imagiando que isso ajudaria, mas subitamente uma cólica
intestinal cravou uma agulha imaginária nas minhas entranhas e
eu cheguei a me curvar para frente.
Minha Nossa... o que é isso???
Aumentei o ritmo da caminhada até onde deu e tentei pensar
em outra coisa. Impossível.
Só podia ter sido algo que eu comi, como... o cachorro
quente de ontem... o sanduíche de mortadela de hoje cedo... ou o
suco de mamão com manga há algumas horas atrás...
...putz, o suco!!!
Droga!!!
Quando dobrei finalmente na Fernandes Vieira, precisei
aliviar um pouco da imensa pressão interna que eu sentia e deixei
“escapar” apenas um pouco daquele gás todo que provavelmente
me faria flutuar a qualquer momento. Eu sabia que seria uma
manobra arriscada, mas precisava tentar, antes que “tudo” viesse
à baixo, literalmente. Parei de caminhar e olhei para os lados, me
certificando de que não haveriam testemunhas, caso algo desse
errado. Após alguns segundos de suspense, suando frio e bastante
trêmulo, procedi com a ação que... infelizmente, não foi bem-
sucedida.
Merda!!! Não pode ser...
Deixando de lado qualquer cautela e a pouca dignidade que
me restava, sai correndo como um louco até entrar em meu
prédio e subir ao apartamento 401. Abri a porta e passei pela sala
33
como um raio. Ana estava sentada no sofá, lendo um livro.
Assim que eu passei ela disse “oi” e eu apenas respondi com a
cabeça, sumindo para dentro do banheiro. Passados os minutos
de extrema angústia, eu havia expulsado de mim mais do que eu
poderia crer. Após duas puxadas de descarga eu me livrei de toda
a roupa e entrei no chuveiro.
Ahhh, isso era revigorante... Que sufoco, meu Deus.
Depois do susto, juntei minhas coisas no banheiro, abri a
porta e fui até a área de serviço lavar minha roupa, mas, para
minha total incredulidade, escutei Ana aos berros fazendo um
escândalo lá na sala, para onde eu corri de volta. Ao chegar, o
quadro com que me deparei era Ana em cima do sofá,
descontrolada, e minha cueca caída bem no meio da sala, com a
prova do crime virado para cima.
_ Tira isso daqui _ gritava ela apontando para a coisa como
se fosse um gambá ou algo na mesma proporção.
_ Que nojo _ ela repetia _ que nojo... que nojo...
Sabe, isso não deveria acontecer com um sujeito como eu,
pois isso acabou com meu dia, que até então estava perfeito.
Depois de juntar minha roupa íntima avariada e lavá-la no
tanque, tratei de juntar meus cacos e me trancar no quarto, de
onde eu não sairia por um ou dois anos.
Se eu tivesse uma lista de Grandes Feitos Negativos, com
toda certeza, essa teria sido a TOP 10.
34
CAPÍTULO 4
No dia seguinte, cheguei na sala cabisbaixo, com receio de
olhar para quem quer que fosse. Rubinho acenou para mim de
longe e apontou um lugar para eu sentar. Assim que eu me atirei
na cadeira ele perguntou:
_ Cara, o que houve? Tu ‘tá com uma cara horrível...
Eu então contei toda a minha saga do dia anterior e ele teve
um acesso de riso que chamou a atenção das outras pessoas na
volta, que logo começaram a perguntar qual era a graça.
_ Qual é, meu?!?! _ disse eu incomodado.
_ Bá, me desculpa, cara... não foi por mal... Mas essa
história dava até uma cena de comédia...
_ É... _ Resmunguei brabo _ muito engraçado...
O professor entrou na sala e, graças a Deus, a aula começou.
Passamos a primeira metade da manhã envolvidos com
Introdução às Ciências Sociais e a segunda metade com
Introdução à Ciência do Direito I. Apesar dos temas serem
pesados e com muita informação, a manhã passou rápida.
O sinal tocou e fomos liberados para deixarmos a sala.
_ Vai almoçar por onde _ perguntei.
_ Sei lá, na esquina da Osvaldo talvez?
Eu balancei a cabeça e ponderei:
_ Pois é, preciso achar uma opção barata.
Rubinho:
_ Cara, tem o R.U...
E eu:
35
_ E o que é isso?
Rubinho:
_ Restaurante Universitário... ouvi falar que é barato lá... é
apenas para estudantes da UFRGS.
Então eu:
_ Acho que eu vou nesse R.U., pois tenho que economizar o
pouco dinheiro que eu tenho.
Para ter certeza de que não esbanjaria em algo
desnecessário, eu havia guardado em meu quarto boa parte do
dinheiro que minha mãe tinha me dado para começar aquela nova
fase na Capital.
O Restaurante Universitário, ou R.U., como era conhecido,
era uma opção bem mais em conta para os estudantes da
Universidade e Rubinho concordou que seria sim uma boa
alternativa.
_ Tem razão, Vini, poupar é importante... além disso, dizem
que a comida lá é muito boa.
_ Ótimo, porque estou faminto...
E ele (debochando):
_ Também, depois de ontem...
Eu o olhei com reprovação e ele segurou o riso.
O R.U. estava cheio, mas não lotado. O buffet superou
minhas expectativas e minha fome só aumentou, o que era ótimo,
pois eu precisava muito ganhar algum peso.
O cardápio era composto por: chicória, macarrão com
cenoura e tempero verde, arroz branco, arroz integral, feijão
preto, legumes salteados (batata, cenoura, vagem), bife bovino
empanado, laranja, hambúrguer de grão de bico e molho rosê.
Nos servimos no “bandejão” e encontramos um lugar na
mesa coletiva. Achei o ambiente limpo e muito acolhedor.
Depois de algumas garfadas Rubinho fez sua avaliação.
_ Cara, não era exagero, hein? Essa comida é muito boa...
_ Também achei... _ respondi concordando _ que bom...
tenho que racionar meus gastos, pois não sei como vou me virar
sem dinheiro.
Rubinho pensou um momento e me especulou:
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_ Tu ‘tá trabalhando em algum lugar?
_ Ainda não... cheguei domingo em Porto Alegre e não
conheço ninguém... mas vou precisar fazer alguma coisa, pois
meus pais não tem muito dinheiro, sabe?
Ele assentiu com a cabeça e corroborou:
_ É eu sei como é...
Sabe? Não me pareceu que ele tivesse qualquer restrição
financeira, a julgar pela aparência e pelo pai, advogado
criminalista, que, apesar de eu nunca ter ouvido falar, deveria ser
alguém importante. Mas compreendi que ele apenas quis ser
gentil.
Rubinho levantou as sobrancelhas pretas e fez uma cara de
quem teve uma grande ideia.
_ Olha só... lembrei que alguns dias atrás ouvi meu pai
dizendo que precisava de alguém para organizar a papelada
toda... por um acaso tu toparia trabalhar como paralegal no
escritório dele? É uma espécia de auxiliar, sabe?
_ Sim! Claro! Eu já trabalhei como paralegal... Isso seria
ótimo _ respondi eufórico diante de tanta sorte. Chegar na capital
gaúcha e dois dias depois já conseguir um emprego, não era para
qualquer um. Mas eu ainda tinha que ser contratado. Melhor não
contar com o ovo no... da galinha.
Eu então quis saber mais sobre aquela oportunidade incrível.
_ Mas como eu faço? Vou lá para fazer uma entrevista?
_ Sim, primeiro almoçamos e depois vamos juntos até lá. Eu
te apresento para o meu pai e vocês conversam.
_ Por mim está fechado.
_ Então ‘tá tri.
O escritório do Dr. Juarez Bastos Neto ficava no Centro
Histórico de Porto Alegre, não muito distante da Universidade.
O hall de entrada era amplo, com paredes revestidas em
granito verde imperial. Já tinha visto meu pai assentando esse
tipo de pedra em um consultório médico e, segundo ele, custava
uma fortuna.
37
A recepcionista abriu um sorriso ao nos ver passando pela
porta.
_ Oi, Rubinho, como foi a faculdade hoje?
_ Tudo certo _ ele respondeu _ Esse aqui é o Vinícius, um
colega meu... Vini, essa é a Dóris _ ele baixou o volume da voz e
disse meio que cochichando perto do meu ouvido _ é ela quem
sabe tudo aqui dentro...
Dóris riu e deu a mão para me cumprimentar:
_ Olá, muito prazer.
Eu:
_ Igualmente.
Entramos até a sala do Dr. Bastos, que ficava no fundo do
escritório. Era um ambiente cercado por estantes de livros e
obras de arte. Tudo muito clássico, como manda o figurino para
um escritório de advocacia.
O Dr. Juarez Bastos era um senhor gordo, pele rosada e
praticamente sem cabelos, não fosse pelos poucos fios colados
com gel no couro cabeludo. Hum, então é daí que o Rubinho
tirou a ideia do gel...
_ Oi filho.
_ Oi pai.
Parei ao lado do Rubinho e aguardei ele me apresentar.
_ Esse é o Vinícius, um colega da aula... ele precisa trabalhar
e ficou interessado naquela vaga de paralegal, sabe... para
arrumar a papelada do nosso arquivo.
_ Muito prazer, Sr. Bastos _ disse eu estendendo a mão.
_ O prazer é meu, Vinícius _ disse ele mostrando as
poltronas de couro _ vamos nos sentar.
Antes ele levantou o fone do gancho e pediu:
_ Traga um café para nós, por gentileza.
Nos sentamos nas poltronas e Rubinho tratou de vender meu
peixe.
_ O Vini é bem esperto, pai... acho que ele vai ajeitar tudo
como o senhor quer... pois pelo que eu vi, ele é bem maniático
com organização.
_ Ótimo... isso é bom. Preciso de alguém assim.
Eu fiquei radiante, mas mantive a compostura.
38
_ Obrigado, Sr. Bastos, farei o possível para realizar um bom
trabalho.
Ao invés de dizer algo como “fechado” ou “está contratado”
o pai de Rubinho se adiantou:
_ Não sei se você concordará com a remuneração, pois não
posso pagar muito.
Eu queria dizer que qualquer que fosse esse “não muito” já
estaria bom para mim. Afinal, para quem não tem nada, um
pouco que seja já é alguma coisa.
Mas me limitei em dizer:
_ Meus custos não são muitos, senhor... acho que posso me
adaptar.
Eu queria ainda perguntar, mas afinal, quanto é o salário?
Mas achei que seria uma grosseria. Esperei ele então dizer
quanto pretendia pagar.
_ Bem... eu posso pagar mil cruzados por mês.
_ Ok, mil cruzados está bom para mim.
_ Além disso, você pode tirar aqui toda xerox que precisar
para estudar.
Isso seria algo bem importante, pois todos me diziam que se
gastava muito em xerox durante o semestre, uma prática muito
comum onde os professores deixavam parte das aulas nestes
locais para que os alunos fizessem suas cópias.
Eu novamente confirmei que aceitava a proposta.
_ Por mim, está acertado, Sr. Bastos.
_ Muito bem... vamos começar?
Lembrei do que o Rubinho havia dito sobre o traje padrão do
escritório, onde todos usavam terno e gravatas, e achei prudente
confirmar:
_ Sr. Bastos, eu terei que usar terno e gravata?
_ Se isso for possível para você, sim, eu gostaria, mas agora
de início ainda não será necessário.
Rubinho corroborou:
_ É pai, ele não tem esse tipo de roupa e verei se acho algo
que não me sirva mais para emprestar a ele.
_ Faça isso, filho... de qualquer forma, seu colega passará o
tempo todo dentro do arquivo, organizando os processos. Isso
39
levará um bom tempo e lá dentro não é tão necessário o traje
formal.
Todos concordamos e decidimos que eu já iniciaria.
Rubinho me levou até o arquivo que era uma sala de uns
vinte metros quadrados com estantes em todos os lados. Havia
uma mesa de reuniões no centro da sala e uma TV, ligada a um
videocassete. Havia também um toca fitas e um projetor.
Ao lado da mesa, uma dúzia de caixas de papelão se
acumulavam, cheias de documentos, fotos, fitas K7 e notas
fiscais de despesas. Cada caixa era um processo diferente.
_ Meu pai quer que você liste tudo que há nessas caixas e
passe para estas planilhas _ disse Rubinho me entregando uma
prancheta com um bloco de formulários.
_ Ok, vamos nessa _ falei pegando a primeira caixa.
A tarde passou voando e minhas tarefas me encheram de
orgulho. A cada documento encontrado eu registrava na planilha
a data, o remetente, a origem, o assunto e o conteúdo tratado. Eu
tinha que ler cada página na íntegra e avaliar do que se tratava,
para poder fazer a devida anotação. Haviam nessa primeira caixa
algumas fitas K7 onde estavam gravados depoimentos que
deveriam ser escutados e transcritos para uma segunda folha.
Num segundo momento eu teria que datilografar tudo e arquivar
nas pastas de cada cliente. Pelo que eu havia feito naquela
primeira tarde eu calculei que levaria uns dois meses, ou mais,
para organizar todas as doze caixas. Nada como um trabalho
honesto e bem feito para recuperar a moral de um homem.
Cheguei no apartamento depois das 19:00hs e percebi que
Ana estava no banho. Ainda bem. Foi a minha chance de entrar
no meu quarto sem ser visto, para só sair depois que ela estivesse
fora de circulação, pois eu ainda não tinha coragem de encará-la.
Mais tarde, quando ela bateu a porta do seu quarto, peguei
minhas coisas e tomei um banho rápido e silencioso. Já tinha
devorado um sanduíche antes de chegar em casa e, portanto, não
tinha fome. Graças a Deus, foi um dia sem vê-la cara à cara.
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Senti uma súbita vontade de escrever algo em meu caderno e
sem muita dificuldade eu praticamente psicografei algumas
novas palavras:
Se o acaso, por um acaso
Fosse um lapso do meu tempo
Que servisse de argumento
Para um dia te encontrar
Eu veria que é verdade
Uma possibilidade
De tentar um dia desses
Pela rua em ti esbarrar
Nossos olhos cruzariam
Nossa pele grudaria
Nossas mentes saberiam
Que era hora de parar
Mas verdade seja dita
Nessa febre tão maldita
Nunca atraso e nem descuido
E tudo segue em seu lugar......sem graça.
Na manhã seguinte acordei mais cedo e sai de casa antes das
seis e meia, horário em que o despertador da Ana tocava. O calor
havia dado uma trégua e a temperatura estava agradável. Desci
do prédio e segui pela Fernandes Vieira até a esquina, onde
dobrei a direita. A Osvaldo já pulsava em meio aos carros,
ônibus, lotações, táxis e pessoas por todos os lados. Uma
verdadeira artéria aorta da cidade. Andei pela calçada
calmamente, já que estava um pouco adiantado para a aula, e ao
passar em frente a Lancheria do Parque, um aroma irresistível de
café preto e pão assado me fez praticamente levitar até uma
mesa. Eu ainda não tinha feito mercado e como não havia nada o
que comer em casa, decidi entrar e não pular o café-da-manhã.
Além disso, eu estava empregado desde ontem e merecia me dar
aquele luxo.
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Um rapaz uniformizado veio até a mesa e eu fiz meu pedido.
_ Um café com leite, sem açúcar, e um sanduíche com
queijo e mortadela, por favor.
Num primeiro reconhecimento do local notei que algumas
pessoas olhavam para a TV, onde passava um programa matinal
de notícias. Já outros liam seus jornais e alguns poucos
conversavam entre si. Peguei o jornal que estava sobre a mesa e
comecei a folhear despretensiosamente, sem nenhum interesse
específico, pois isso nem era um costume meu. Folheei até
chegar nas páginas policiais, onde uma notícia no canto superior
esquerdo me chamou a atenção.
A manchete dizia:
“Jovem Preso Por Tráfico Alega Inocência, Juiz Nega
Habeas Corpus e o Mantém Preso Após Seis Meses”.
Na verdade, não fora exatamente a manchete que havia me
chamado a atenção, e sim as duas fotos que vinham logo abaixo:
uma do jovem preso por tráfico de drogas e outra do seu
advogado de defesa, o Sr. Juarez Bastos Neto.
O Pai do Rubinho.
A reportagem falava sobre o dia em que o jovem,
identificado por Diego Dantas, havia sido preso com uma grande
quantidade de entorpecentes. Explicava também que se tratava de
um estudante da PUC, e que a apreensão se deu em meio a uma
blitz na Cidade Baixa. Ele estava preso no Presídio Central e em
breve seria julgado.
A foto do rapaz mostrava um jovem de vinte e poucos anos,
abatido, magro e assustado. Seus olhos eram tristes e clamavam
por ajuda. Eu não tinha nenhuma experiência ou técnica para
detectar mentiras ou mentirosos, mas definitivamente aquela não
era uma foto de alguém com culpa no cartório. Senti muita pena
do rapaz, pois era inevitável imaginar que, se de fato tivesse
havido um equívoco, poderia ter acontecido com qualquer um,
até mesmo comigo.
Meu pedido chegou e eu tomei meu café da manhã sem
conseguir parar de pensar no horror de se estar em um presídio.
Acho que eu não suportaria um só dia lá dentro. Mas essa é a
vida. Nossas escolhas e decisões nos fazem seguir por caminhos
42
onde muitas vezes não temos como voltar. Meus pais sempre me
alertaram sobre os riscos de se cometer erros inconsequentes,
principalmente quando se é novo, diante de uma fase em que
ainda não somos bons em ler nas entrelinhas e prever o que de
pior pode acontecer.
Ao avistar o relógio na parede da lancheria, dei um pulo da
cadeira. Acabei perdendo a noção do tempo, enquanto divagava
sobre o que teria levado um jovem como aquele para o mundo do
crime, o que não fazia sentido algum. Peguei a conta e segui
apressado para a aula de Economia Política.
Por sorte, cheguei em cima da hora, instantes antes do
professor entrar. A sala estava cheia e quase não haviam cadeiras
disponíveis. Não vi o Rubinho e fiquei em dúvida se ele havia se
matriculado naquela disciplina. Procurei algum canto para me
acomodar, mas só restavam lugares ao lado de outras pessoas já
sentadas. Não que isso fosse um problema para mim, pois meu
senso de sociabilidade era perfeitamente normal. Porém, se eu
pudesse escolher entre sentar sozinho (sem ninguém por perto) e
sentar ao lado de alguém, eu sempre escolheria a primeira opção.
Não me pergunte porque, pois não sei explicar. Preguiça, talvez,
de ter que puxar assunto ou responder a alguma pergunta idiota.
Ou ter que ser simpático e fingir que estou interessado no papo
de sei lá quem. Coisa minha, sabe? O fato é que eu avistei dois
lugares vagos bem à minha frente. Um era ao lado de uma garota
de cabelos vermelhos longos, pele branca e brinquinho no nariz e
outro ao lado de um alemão gorducho com bochechas rosadas.
Não que eu me importasse de ser gentil com um possível novo
amigo de descendência germânica acima do peso, mas decidi
arriscar uma eventual interação com a Rita Lee dos tempos de
Mutantes. Ah, essa era outra artista que minha mãe gostava
muito, pois tinha todos os seus discos.
Sentei discretamente e coloquei minha mochila sobre a
mesa. Tirei de dentro um caderno, uma caneta e larguei a
mochila nos meus pés. Me pus em posição de começar a escrever
qualquer coisa, com a caneta na mão e olhos no professor, que
43
ainda lidava com seus pertences acadêmicos sobre sua mesa. Ele
parecia procurar alguma dentro da pasta, porém, sem sucesso.
_ Deve ter esquecido os óculos _ disse uma voz rouca e
feminina ao meu lado.
Bem, esse é um momento em que, dependendo do que você
diz, se pode permitir que o outro construa uma primeira
impressão a seu respeito. Não sei porque tive esse raciocínio
relâmpago antes de responder, mas a verdade é que pensei
cuidadosamente antes de abrir a boca.
_ Ou talvez ele tenha esquecido o resumo da aula com os
tópicos a serem abordados...
Foi uma resposta inteligente, eu tinha que admitir, pois fazer
uma piadinha nessas horas era um tanto perigoso e o tiro quase
sempre sai pela culatra.
Ela então se virou e rebateu:
_ Ele está franzindo o rosto, veja... não está enxergando
direito.
Eu ajeitei meus óculos para ajustar o foco e disse:
_ É, isso é verdade... mas também poderia ser porque ele
esteja estranhando o resumo da aula não estar na pasta... tipo,
“tenho certeza que coloquei aqui...”.
O professor piscou e levou os dedos até os olhos, ainda
remexendo a pasta.
_ Viu? Ele esfregou os olhos... que devem estar ardendo,
sem os óculos...
Eu ri e segui na minha linha de constatação.
_ Ainda acho que ele esqueceu o resumo... _ pensei por um
segundo e continuei _ ...pois... preparou a aula até tarde da noite
e agora está meio sonolento, o que causa uma certa ardência nos
olhos.
Ela sorriu para mim e vi duas covinhas em suas bochechas,
além de uma constelação de pequenas sardas avermelhadas. Os
dentes eram incrivelmente brancos e seus lábios incrivelmente
vermelhos. Uma franjinha na testa, dava àquele cabelo de fogo
um toque de adolescência marota que lhe colocaria em vantagem
sempre que precisasse negociar algo com alguém. Pois ela era
uma graça. Principalmente com o toque final que um brinquinho
44
de pedra brilhante dava ao seu nariz pequeno e perfeito. De fato,
ela era linda.
Finalmente ela disse:
_ Você é bom nisso... mas acho que eu ganhei.
O professor levantou a cabeça e se dirigiu à turma:
_ Pessoal, bom dia. Infelizmente esqueci meus óculos na
sala dos professores... vou lá buscar e volto em um minuto...
enquanto isso, porque não se apresentam ao colega ao lado e
digam de onde vocês são e o que esperam do curso de Direito?
E assim nosso professor saiu com urgência atrás dos
famigerados óculos.
Aproveitando a deixa, olhei para ela e disse:
_ Oi, eu sou o Vinícius, mas pode me chamar de Vini.
E ela:
_ Oi, eu sou a Rita, e pode me chamar de Rita mesmo.
_ Rita? _ fiz cara de surpresa _ Sério?
_ Porque? Algum problema com meu nome?
_ Não, capaz... _ dei um risinho _ é que assim que eu te vi,
te achei parecida com a Rita Lee.
_ Ah, claro _ Respondeu ela parecendo não se importar com
a comparação.
Eu então comentei:
_ Minha mãe é muito fã da Rita Lee.
E ela:
_ Eu também sou... Dá pra notar?
Cuidado com a resposta.
_ Bom, de certa forma, lembra bastante.
Ela riu de novo e eu perguntei:
_ A tua mãe te deu esse nome por causa da Rita Lee?
_ Não, ela não se liga muito em música. Acho que nem sabe
quem é a Rita Lee. Ela me deu esse nome por que fez uma
promessa a Santa Rita de Cássia, quando estava grávida de
mim... era uma gravidez de risco, mas.. enfim, aqui estou eu.
_ Hum _ respondi _ que bom.
Que bom? Mas que resposta foi essa? Ela vai achar que
estou dando em cima dela... Imbecil.
_ Digo... que bom que deu tudo certo e você nasceu, né?
45
_ Sim, verdade...
Rimos.
Ufa!
Fiz uma pausa para não parecer uma matraca que não parava
de falar. Depois especulei:
_ Você é de onde?
_ De São Borja _ ela respondeu.
_ Nossa, isso é longe, né?
_ Pra caramba...
Uma nova pausa.
_ E você _ perguntou ela _ É de onde?
_ De Vera Cruz _ respondi.
_ E onde fica Vera Cruz?
_ Fica ao lado de Santa Cruz do Sul... Terra da Oktoberfest,
sabe?
_ Ah, aquela festa alemã?
_ Sim, isso mesmo...
Ela mudou de posição na cadeira e perguntou:
_ E como é Vera Cruz?
Eu me inclinei um pouco mais na direção dela e então senti
o perfume maravilhoso dos seus cabelos. Enchi novamente meus
pulmões com aquele aroma inebriante e respondi:
_ Pequena... com uma igreja no centro, uma praça, prefeitura
e poucas casas... O de sempre... E como é São Borja? _ perguntei
respirando fundo outra vez.
_ Um pouco maior, acho... também com uma igreja no
centro, praça, prefeitura, casas e muitas fazendas.
Eu:
_ Legal...
E ela:
_ É, legal...
Silêncio entre nós e burburinho na sala.
O professor reapareceu, agora de óculos, e ela então riu e
baixou a cabeça, antes de falar:
_ Tenho que confessar uma coisa.
_ O quê? _ eu quis saber.
_ Não joguei limpo com você...
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_ Como assim?
_ Eu sabia que o professor usava óculos... já vi ele
procurando os óculos na pasta outras vezes e não achando...
_ Mas que... _ eu ri _ ...espertinha...
Ela empinou o nariz para cima e falou:
_ Vou aceitar isso como um elogio.
Balancei a cabeça afirmativamente.
_ Achei que você fosse caloura...
_ Não, é meu segundo ano... Mas eu ainda não tinha me
matriculado em Economia Política. E o professor Norberto
também dá a disciplina de Política e Teoria do Estado I, que eu já
fiz no semestre passado.
_ Ah, legal... Eu tenho essa cadeira na sexta. Estou fazendo
todas do primeiro semestre.
Ela arregalou os olhos azuis profundos e disse:
_ Bem puxado, hein? Pelo visto sua namorada vai ficar em
segundo plano...
Bem, esse era outro daqueles momentos em que a resposta
pode dizer muito sobre você. Novamente em fração de segundos
eu refleti à cerca dos prós e contras da resposta que eu daria e
então foi:
_ Ela entende... sabe que eu preciso estudar... pois quero
garantir meu futuro, sacou?
Putz, “sacou”??? Eu disse mesmo isso??? “SACOU”???
Eu estava dando praticamente um show e eu tinha que estragar
tudo com “sacou”...
Por fim, ela gentilmente sorriu e respondeu:
_ Claro, saquei sim... legal isso entre vocês...
Eu concordei, suando um pouco mais do que o normal, por
ter mentido descaradamente.
O professor Norberto Binz iniciou a aula e nos envolveu nas
profundezas da Economia Política. Durante duas horas, fomos
levados ao submundo da Noção e Objeto da Economia Política,
Economia Positiva e Economia Normativa, Metodologia,
Microeconomia e Macroeconomia, O Pensamento Econômico
em Perspectiva Histórica, e etc. Tudo à título de introdução, pois
47
ainda nos aprofundaríamos mais em cada um daqueles temas ao
longo do semestre.
No final da aula eu estava zonzo de tanta informação, mas
com a alma leve depois de mais de duas horas sentindo o
perfume daqueles ruivos cabelos lisos e sedosos.
Saímos juntos da sala e descemos até o bar, onde ela deu um
tchauzinho e foi embora. Ainda era cedo para afirmar isso, mas
eu poderia apostar que contaria os dias para a próxima aula de
Economia Política.
48
CAPÍTULO 5
Cheguei no escritório do Sr. Juarez Bastos pontualmente às
13:30hs e fui direto para o meu novo posto de trabalho. Segui na
caixa de papelão que eu havia iniciado no dia anterior. O caso era
de um acidente de trânsito, em que o motorista havia cruzado o
sinal vermelho e provocado uma tragédia; um homem havia
morrido. A cliente do Sr. Bastos era a viúva, que buscava uma
indenização e a responsabilização do tal motorista pelo acidente.
Eu já havia listado os laudos periciais e depoimentos de
testemunhas e agora precisava relacionar as fotos. Uma por uma,
identifiquei e listei cada uma das terríveis fotos que mostravam
os carros completamente destruídos e o corpo do homem ainda
dentro do veículo.
Definitivamente, alta velocidade é um risco de vida
constante. Além de não ser muito ligado em carros e nunca gostei
de alta-velocidade. Minhas mãos suam e eu fico sem raciocinar
direito. Prefiro andar a pé mesmo.
Finalizado aquela primeira caixa resolvi olhar as demais que
haviam para serem destrinchadas. Em cima de cada caixa havia o
nome do cliente, o número do protocolo, a data de abertura do
mesmo e uma classificação pelo tipo de processo. Uma a uma eu
fui conferindo, para ver o que eu teria pela frente. Numa rápida
avaliação observei que haviam três caixas que tratavam de
assassinato, duas de acidente de trânsito, duas sobre roubo, três
sobre estelionato e uma sobre tráfico de drogas.
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Nesta última, que apontava tratar de tráfico, o nome do
cliente era Diego Dantas. Imediatamente lembrei da reportagem
que eu havia lido no jornal. Abri a caixa e de cara vi uma foto do
jovem Diego, com os mesmos olhos tristes e assustados. Levei a
caixa para a mesa e derrubei tudo que havia dentro. Depois
separei tudo em pilhas. Documentos, fotos, fitas k7 e uma fita de
vídeo. Liguei a TV e o vídeo cassete e enfiei a fita para dentro.
Depois do play uma imagem em preto-e-branco surgiu na tela,
onde um jovem falava com alguém que não aparecia na
filmagem. Reconheci o som da voz do Dr. Bastos, advogado de
defesa do rapaz.
Levantei o volume um pouco mais e ouvi atentamente:
_ Diego, por favor, nos relate o que aconteceu na noite de 19
de setembro de 1987?
Ele pigarreou, esfregou o rosto e respondeu:
_ Eu estava saindo da casa da minha namorada, que ficava a
poucas quadras dali... quando fui parado por um policial... que
me pediu os documentos e minha carteira de motorista e eu
entreguei tudo a ele... então ele pediu para eu abrir o porta-
malas... desci do carro fui até a parte de trás... e quando eu abri
havia uma mala de couro marrom lá dentro que eu nunca tinha
visto na minha vida... aquilo não era meu...
_ E o que havia nessa mala? _ perguntou o advogado.
_ Sei lá... drogas... uma arma, parece... não sei direito... eu
nunca cheguei perto de qualquer tipo de drogas e muito menos de
armas... não sei nada sobre isso... alguém colocou aquilo no meu
carro...
Ele baixou a cabeça e o Dr. Bastos indagou:
_ O carro era seu ou do seus pais?
_ Era meu _ ele respondeu erguendo a cabeça _ eu trabalho
desde os dezessete anos e guardei dinheiro por quatro anos para
comprar meu primeiro carro... meus pais pagam apenas minha
faculdade... no mais, eu me sustento.
_ Me fale sobre sua namorada.
_ Ela não tem nada a ver com isso _ rebateu o jovem.
O Dr. Bastos insistiu:
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_ Se quiser que eu lhe ajude, terá que responder a todas as
perguntas que eu fizer, está bem? Eu fui chamado para lhe
defender e preciso saber tudo sobre você, seus amigos e sua
namorada, entendeu?
Relutante, ele balançou a cabeça concordando.
O advogado repetiu:
_ Me fale sobre... _ sons de papeis sendo manuseados _ ...a
Jéssica, sua namorada.
_ O que quer saber? _ retrucou o jovem cada vez mais
abalado.
_ Tudo _ disse o Dr. Bastos _ costumes, amigos, lugares que
frequentava, se era calma ou ciumenta, se morava com os pais, se
tinha um ex-namorad... absolutamente, tudo...
_ Ela mora sozinha, num apartamento na Travessa do
Carmo... e os pais dela moram na zona sul... ela também tem um
irmão, chamado Leonel... ela está fazendo cursinho pré-
vestibular e quer cursar medicina... tem muitas amigas e é uma
pessoa alegre... nós nunca brigamos...
_ Algum ex-namorado?
_ Sim, tem... mas é coisa antiga... o que isso tem a ver com o
que aconteceu?
_ É o que eu pretendo descobrir _ respondeu o advogado.
_ Eu não consigo entender... porque alguém faria isso
comigo...
A voz dele ficou embargada e o Dr. Bastos esperou ele se
recompor. Depois sua voz retornou no fundo.
_ Olha, Diego, eu acredito em você... acredito mesmo... acho
que alguém tentou incriminá-lo... e conseguiu... preciso que você
puxe pela memória e tente lembrar se nos últimos meses ou anos
teve alguma desavença com alguém... algum desentendimento...
algo assim... Se lembrar de alguma coisa, me avise, ok?
Ele fez que sim com a cabeça sem dizer mais uma palavra e
a filmagem foi interrompida.
Nossa... que coisa... ele é inocente e está no Presídio
Central a seis meses...
51
A porta foi aberta de repente e Rubinho apareceu. Eu ainda
estava atônito com aquele vídeo e precisei chacoalhar a cabeça
para organizar meus pensamentos.
_ E aí, tchê _ disse ele empolgado.
_ E aí _ disse eu sem qualquer emoção.
_ Ué? O que houve?
_ Nada... só esse caso aqui do Diego Dantas... cara, eu estou
chocado... o cara é inocente e está preso...
Rubinho sentou na minha frente e cruzou as pernas, antes de
palestrar sobre a vida dentro daquele escritório:
_ Vini, deixa eu te dizer uma coisa... muito cuidado para não
se deixar envolver com os casos e as histórias que as pessoas
contam... todo mundo é inocente, até que se prove o contrário...
se você se abalar com cada cliente, com cada relato, com cada
tragédia alheia, você vai pirar aqui dentro...
_ Eu sei, eu sei... _ parei e olhei para o teto uns cinco
segundos _ sabe, acho que é por isso que eu decidi fazer direito...
para fazer justiça... e para impedir injustiças como essa.
Rubinho levantou a mão e rebateu:
_ Calma lá, meu amigo, ainda não temos provas da
inocência do Diego... meu pai está trabalhando nisso, mas ele
tem que cooperar e anos ajudar a acharmos uma linha de
raciocínio...
Eu fiquei em silêncio e Rubinho completou:
_ Além disso, não seria muita loucura supor que esse cara
esteja apenas se fazendo de coitadinho, depois de ter caído numa
blitz e seu negócio, altamente lucrativo, ter ido por água abaixo.
_ Mas você viu esse vídeo? _ disse eu levantando da cadeira.
_ É claro que eu vi.
_ E mesmo assim você acha que ele pode estar mentindo?
_ Exatamente... como qualquer um que tenha sido pego em
um delito e tenta argumentar que não fez nada... que é inocente.
_ Não sei, Rubinho... ele realmente parece dizer à verdade...
_ Então mais cedo ou mais tarde a verdade vai aparecer...
Eu não respondi.
Ele colocou a mão no meu ombro e falou:
52
_ Cara, relaxa... você está a recém na segunda caixa... haverá
momentos assim outras vezes... pode acreditar... com o tempo,
você fica mais cético com as pessoas... isso vai mudar... _
Rubinho deu um tapinha nas minhas costas e convidou __ vamos
tomar um café?
_ Se eu bebesse, acho que agora seria um daqueles
momentos em que eu preferiria um trago...
_ Ainda é cedo pra isso, mas mais tarde poderemos resolver
essa questão.
_ Não é necessário, pois eu não bebo.
_ Meu amigo, acho que isso também vai mudar...
Cheguei em casa pouco antes das dezenove horas, carregado
de sacolas, depois de passar em um mercado e comprar pão,
frios, leite, iogurte, macarrão instantâneo, produtos de higiene e
limpeza. Abri a porta com dificuldade e andei até a cozinha onde
larguei tudo sobre a mesa. Ana não estava e isso para mim era
mais um dia a ser contabilizado positivamente. Guardei meus
mantimentos, arrumei o que estava fora do lugar, varri o chão do
apartamento e tirei o pó dos móveis da sala.
Lembrei das minhas roupas jogadas naquele cômodo sem
portas e decidi fazer uma nova tentativa de organizá-las. Mas
antes coloquei uma água para ferver para fazer um delicioso
macarrão instantâneo, sabor galinha caipira. De volta ao meu
quarto, juntei todas minhas roupas e as separei por tipo e cor.
Defini uma dobradura simples que se resumia em colocar a peça
com as costas para cima, dobrar as mangas por sobre o corpo e
depois fazer uma divisão imaginária no centro dobrando
novamente uma metade sobre a outra. Fiz a primeira vez e achei
que poderia melhorar na segunda. E assim minha evolução foi
contínua até que havia dobrado toda a minha roupa. Com
cuidado, as coloquei de volta no guarda-roupa separadas por tipo
e por cor, produzindo um visual bem interessante ao meu quarto
depois de tudo pronto.
Então um aroma de galinha caipira me fez lembrar, droga,
meu macarrão!!!
53
Um minuto depois eu estava jantando um delicioso macarrão
empapado e gosmento, sabor galinha caipira. Como eu estava
com muita fome, não me importei com o visual e nem com a
consistência. Paciência. Amanhã eu acerto. Após o “jantar”,
aproveitei e lavei toda a louça acumulada que havia na cozinha.
Deixei as panelas brilhando e depois sequei tudo e guardei.
Nossa, nem parecia a mesma cozinha de quando eu cheguei.
Entrei no banho sem pressa e sem me preocupar com a
presença da minha conterrânea rabugenta. Era bom ter o
apartamento somente para mim.
Imagina se eu pudesse morar sozinho aqui?
Seria um alívio depois do que havia acontecido, mas eu
sabia que o dinheiro que Ana pagava ajudava minha mãe a me
manter em Porto Alegre e eu ainda não poderia me dar ao luxo
de dispensar tal auxílio.
Sai do banho, vesti uma camiseta e um calção e me atirei na
minha cama macia e fiasquenta. Nhec, nhec, nhec...
Senti falta de ler um pouco e arrematei Paulo Coelho sobre a
cômoda, lembrando que no escritório do Dr. Bastos haviam
milhares de livros técnicos interessantes para se explorar.
Amanhã eu procuraria alguma coisa para renovar meu arsenal de
leitura noturna, um ritual que eu procurava manter quase sempre
na hora de dormir. Acho que peguei no sono antes de largar os
óculos sobre o bidê e terminar de fazer os planos do dia seguinte.
Um perfume adocicado me encheu as narinas e eu senti algo
cobrindo meu corpo até o peito. Era madrugada, pois estava
escuro lá fora. O cansaço ainda me dominava e eu mal consegui
abrir meus olhos. Pude apenas reconhecer uma silhueta feminina
andando pelo meu quarto. A temperatura havia caído
repentinamente e eu já começava a sentir frio, antes de ser
tapado. Então um toque suave em meu rosto me fez despertar de
sobressalto e antes que eu pudesse entender o que estava
acontecendo eu vi Ana a um palmo de distância. Eu não disse
uma só palavra e apenas à puxei para os meus braços e a beijei
com virilidade.
54
Uma batida na porta tentou interromper aquele momento,
mas eu não recuei, e nem tão pouco ela, que respirava ofegante
de olhos fechados. A batida na porta tornou a importunar e eu
tive vontade de gritar para a pessoa do outro lado dar o fora, pois
nada me faria parar.
O estrondo da porta sendo arrombada foi seguido pelo vento
frio e pingos de chuva que voaram pelo quarto, antes de
Fernando afastar Ana com um empurrão e se voltar contra mim.
Meu instinto foi de protegê-la e eu quis reagir e pular no
pescoço do troglodita, mas ele agora apontava uma arma para a
minha cabeça e ria com olhos macabros.
_ Eu vou te matar, seu desgraçado...
_ O quê? Mas porquê? O que eu fiz? _ protestei com as
mãos para cima.
_ E tu ainda pergunta? Vou acabar com essa tua cara-de-
pau...
_ Não, por favor... eu... olha, vamos conversar...
_ Não tem conversa _ anunciou ele _ Adeus, otário!
_ Nããããoooo _ gritou uma voz feminina, que quando eu
olhei, não era mais a Ana, e sim a Rita, com as lágrimas correndo
pelo seu rosto delicado.
Soltei um grito e dei um pulo na cama onde eu ainda dormia.
Fora os rangidos descontrolados das molas do meu colchão, o
quarto estava silencioso e infelizmente, ou felizmente, não havia
ninguém ali.
Meu Deus, que pesadelo...
Apesar das tentativas, não consegui mais pregar o olho pelo
resto da noite e às 06:00hs desisti de tentar. Coloquei meus
óculos, abri a janela apenas uma fresta, para sentir a temperatura
e notei que estava friozinho. Engraçado, mas no meu sonho, ou
pesadelo, sei lá, estava frio.
A cabeça da gente é mesmo um mistério.
Vesti a mesma calça jeans da semana toda, uma camisa
social de manga comprida e um sapato de cadarço que meu pai
me deu no último natal. Fui para a cozinha sem fazer barulho,
pois a porta do quarto da Ana estava fechada, diferentemente de
55
quando eu fui deitar. Concluí que ela estivesse em casa. Quando
entrei na cozinha vi um bilhete na porta da geladeira preso por
um imã.
Dizia: “Valeu pela geral no AP e pela louça, Estranho. Bom
dia. Ass. Ana”.
Dobrei o bilhete e guardei no bolso. Depois fiz um
sanduíche e esquentei um leite para o meu café da manhã.
Talvez, com o tempo, eu e ela começássemos a nos dar melhor,
mas ainda era muito cedo para contar com isso. Melhor deixar
para lá.
Antes das sete horas eu já estava a caminho da faculdade e
enquanto caminhava desejei fervorosamente que o tempo voasse
até a próxima quarta, pois já sentia saudades de uma certa
ruivinha.
Eu fui o primeiro a entrar na sala e sentei na primeira fila.
Seria bom garantir o melhor lugar possível, já que aquela manhã
seria destinada à Introdução à Filosofia do Direito e à Introdução
às Ciências Sociais, ou seja, teoria e mais teoria. Abri o caderno
na última folha e comecei a rabiscar umas palavras que me
vieram a mente. Depois fiz algumas figuras geométricas e então
um desenho de uma paisagem. A imagem de Rita sorrindo não
saía da minha cabeça e senti uma vontade indescritível de vê-la
naquele momento. Decidi então desenhá-la. Meu devaneio
artístico seguiu por vários minutos e quanto mais eu rabiscava
mais Rita aparecia em meu caderno. Eu sempre tive um grande
talento para o desenho, mas nunca fiz disso algo a ser valorizado
ou apresentado aos outros. Mais uma das minhas piras de achar
que eu não era bom o bastante para nada. Enfim, o movimento
das pessoas chegando na sala foi aumentando, mas nada me
tirava da minha concentração. Rita estava prestes a se fazer
presente bem à minha frente, com contornos azuis da caneta
esferográfica. Finalmente, voilà. Ali estava ela.
_ Uau, quem é a garota? _ Perguntou Rubinho sentando ao
meu lado.
Eu disfarcei o susto e cobri o desenho, tentando não
valorizar o resultado final da minha arte.
56
_ Nada... ninguém... só um desenho mesmo.
_ Pô, meu, mas tu desenha bem pacas, hein?
_ Mais ou menos...
Rubinho deu uma risada e me chamou a atenção.
_ Cara, tu tem que parar de se menosprezar... e valorizar
aquilo que tu faz bem... isso aí é trabalho de artista, meu velho.
_ Ok, ok _ concordei meio sem jeito.
O professor entrou no horário e após as apresentações
iniciou o conteúdo. Apesar de estar sentado na primeira fila,
minha mente fugia vez que outra daquela sala e transitava pelo
mundo lá fora. As coisas estavam acontecendo muito rápido e eu
mal processava tanta mudança. Num rápido exercício mental
concluí que em menos de uma semana eu já havia ficado
chapado, arrumado um emprego, conhecido uma garota linda,
feito alguns novos amigos e faxinado meu apartamento. Sem
contar o fato de que no sábado eu iria no show dos Cascavelletes,
no Bar Ocidente. Mas o que mais me incomodava era o caso do
jovem Diego Dantas. Volta e meia eu lembrava daquele vídeo e
me perguntava se alguém aqui fora estava mesmo fazendo algo
por ele.
Rubinho me cutucou e cochichou:
_ Cara, volta pra terra... o professor já te olhou duas vezes...
_ Sério? _ perguntei eu desconcertado.
O professor andou lentamente na nossa direção e eu fiquei
paralisado com a possibilidade de ele me fazer alguma pergunta
sobre o que estava falando, mas para meu alívio, ele desviou o
olhar para o fundo da classe e continuou falando.
Rubinho perguntou com o canto da boca:
_ O que tu tem?
Dei de ombros e respondi:
_ Nada...
_ Qual é cara, me fala _ insistiu Rubinho.
Esperei o professor dar alguns passos para o outro lado e
disse:
_ Não consigo parar de pensar no caso do Diego Dantas...
Rubinho balançou a cabeça e me repreendeu:
57
_ Ainda essa conversa? Cara, desencana... meu pai está
cuidando da defesa dele... como eu disse... se ele for inocente, vai
sair dessa, mas se não for, vai ter que pagar.
_ Mas tu já parou para pensar se o que o Dr. Bastos está
fazendo é mesmo o bastante? E se ele precisar de mais do que
isso? E se o caso precisar de mais envolvimento? De mais
dedicação?
_ Mas do que tu ‘tá falando?
_ Eu estou falando de ir atrás de evidências que provem a
inocência dele... de ajudar nas investigações... de ajudar o teu pai
a livrar o cara da cadeia...
Rubinho pareceu não gostar da minha intromissão e me
advertiu:
_ Vini, pode parar por aí... não confunda as coisas... eu te
levei para o escritório do meu pai para você trabalhar como
auxiliar e arrumar o arquivo... apenas isso... você não é
advogado, ainda.... e não é investigador, nem tão pouco policial...
portanto, não pira e esquece esse assunto, ouviu bem?
Eu queria discordar e dizer que não deixaria aquele assunto
de lado, ainda que ele estivesse me ordenando, mas concluí que
seria melhor encerrar ali aquela discussão.
_ Tudo bem, Rubinho... acho que você está certo... vamos
esquecer isso.
_ Até que enfim _ comemorou ele.
Porém, internamente, eu sabia que não iria parar e muito
menos desistir de descobrir o que realmente havia acontecido e
como aquele jovem estudante havia parado atrás das grades do
Presídio Central.
58
CAPÍTULO 6
A secretária do Dr. Bastos estava atualizando a agenda,
quando eu parei ao lado de sua mesa e falei:
_ Bom dia Dóris, tudo bem com você?
_ Bom dia, meu jovem, tudo ótimo...
_ Sabe, eu... estou começando a montar um caso imaginário
para um trabalho da faculdade _ menti _ e gostaria de saber mais
sobre alguns procedimentos... você me ajudaria?
_ Mas é claro, meu querido _ anunciou ela pegando papel e
caneta e me entregando _ O que você quer saber?
_ Ok, bom... _ pensei um instante e continuei _ digamos que
o meu cliente esteja preso, mas ainda não foi julgado... eu estou
reunindo as provas para montar sua defesa, mas sinto que preciso
de mais elementos para a minha tese... por onde você acha que eu
deveria começar?
_ Bom, vejamos... você já foi até seu cliente preso e ouviu
dele tudo que precisava saber?
_ A princípio sim, mas... e se eu ainda tiver dúvidas?
_ Vá lá vê-lo novamente...
Fiz uma anotação.
_ Mas eu posso ir sempre que eu precisar? _ perguntei.
_ Falar com seu cliente? É claro que pode.
Fiz uma careta de dúvida e indaguei:
_ Mesmo se ele estiver no... Presídio, por exemplo?
59
_ É claro, basta você ligar antes para agendar uma visita com
antecedência, informando o nome do apenado com quem deseja
falar e se identificar como seu advogado ou auxiliar do mesmo.
_ Mas para essa visita, eu preciso ser seu procurador?
_ Não necessariamente _ disse ela.
Outra anotação.
_ E quanto ao inquérito policial... como eu esclareço
questões que não ficaram claras na investigação?
_ Simples, vá até o delegado que cuidou do caso e faça as
perguntas que achar pertinente.
Tudo anotado. Já saberia por onde começar.
_ Obrigado Dóris _ disse eu lhe entregando sua caneta.
Fui para a minha sala, o depósito de arquivos, e fiquei
ponderando, quais deveriam ser meus próximos passos. A tarde
passou em um piscar de olhos e eu me mantive afundado nos
documentos à cerca do caso de Diego Dantas. A apreensão havia
se dado durante uma blitz, na Cidade Baixa, depois de uma
denúncia de que traficantes circulavam naquela região.
A cópia do inquérito policial relatava que o que mais havia
surpreendido os policiais era a quantidade e variedade dos
entorpecentes, algo que até mesmo o experiente delegado Ramón
Teles descrevia como inusitado. A tal mala de couro marrom,
surrada (havia uma foto anexa ao relatório), com um zíper
reforçado e um cadeado, que fora encontrada no carro, trazia 10
kg de maconha, 5 kg de cocaína, uma grande quantidade de LSD
em cápsulas e tabletes de papel, além de um saco plástico cheio
de pequenas pedras de um novo tipo de droga, comum nos EUA
e ainda desconhecida por aqui, que diziam ser tão letal quanto a
heroína. Tratava-se do Crack. O caso se agravava ainda mais
diante do fato dos policiais terem encontrado, além das drogas,
duas pistolas e munição. Ele alegava ser inocente e que jamais
havia chegado perto de qualquer tipo de drogas ou de armas. Ele
não tinha antecedentes criminais e era um jovem estudante de
arquitetura da PUC. A família era do interior e todos estavam
muito abalados. O jovem estava no presídio central desde o dia
do flagrante, seis meses antes.
60
Rubinho não apareceu naquela tarde em meu reduto e depois
do expediente fui direto para casa. Minha cabeça estava latejando
e eu já não tinha certeza se deveria me envolver naquilo tudo ou
não. Acho que fiz o caminho de volta completamente em transe,
pois só me dei por conta de que não lembrava do caminho que eu
acabava de fazer quando me aproximei do meu prédio. Resolvi
dar um pulo no mercado, que ficava à uma quadra dali, para
comprar alguma coisa diferente para o jantar.
E quem sabe, uma cerveja?
Não sabia o que estava acontecendo comigo, pois nos
últimos dias comecei a sentir uma necessidade indescritível de
me embebedar, ainda que eu jamais tivesse feito tal coisa.
Estranho.
Sim, eu sou mesmo estranho. Não é à toa que Ana não me
chamava de outra coisa. Mas enfim, entrei no mercado e fui para
o corredor dos balcões de congelados. A novidade do momento
eram pratos pré-prontos congelados. Hum... acho que uma carne
de frango ou um filé de peixe seria uma boa pedida, pensei.
Enquanto eu decidia afinal, o que eu iria jantar, notei a presença
de um senhor que me pareceu familiar, aparentemente com o
mesmo dilema que eu – escolher o que levar. Olhei novamente
para o distinto ancião e então o reconheci. Era o meu professor
de Criminologia I, Dr. Rômulo Veiga.
Me aproximei dele e falei:
_ Boa noite, professor... dúvidas em relação ao jantar?
_ Ô, meu rapaz, sim estou, de certa forma, sem saber o que
comprar...
_ Eu estou com esse problema também, mas acho que vou
arriscar esse filé de peixe _ disse eu apontando o produto no
balcão.
_ É uma boa opção _ respondeu ele sorridente.
Imediatamente meu cérebro trabalhou frente às suas
prioridades e não pude me conter.
_ Professor, posso lhe fazer uma pergunta técnica?
_ Sim, claro, meu jovem... pode perguntar.
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  • 2. 2 CAPÍTULO 1 Março de 1988 Oônibus encostou no box da rodoviária de Porto Alegre antes do meio-dia. Ainda sentado na minha poltrona, enquanto aguardava as pessoas abrirem espaço no corredor, avistei Ana Clara a uns quinze metros de distância, de braços cruzados e visivelmente aborrecida por ter que estar ali me esperando. Eu estava chegando na capital gaúcha para iniciar a faculdade de direito, após ter passado no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ou simplesmente UFRGS, meu maior feito até então, algo que eu considerava como sendo o número “Um” da minha lista de Grandes Feitos. Essa lista, por sinal, era algo que eu havia começado aos quinze anos, depois que eu e uma colega da escola (que usava aparelho fixo nos dentes) demos nosso primeiro beijo atrás do bebedor, depois da aula. Eu fiquei dias sem dormir direito, só pensando no quão incrível havia sido aquela experiência. Então decidi registrar em um caderno todas as coisas igualmente “incríveis” que acontecessem comigo. Seria uma forma resumida de enxergar a minha vida e perceber o quanto eu evoluiria rumo aos meus sonhos. É claro que, para isso, eu precisava primeiro decidir quais seriam estes “sonhos” e objetivos futuros. Então comecei a pensar mais nisso e a planejar o que eu faria e o que eu seria. E assim surgiu a minha lista de Grandes Feitos, que até aquele momento, não contava com nada “tão” surpreendente, além de uma aprovação no vestibular da UFRGS.
  • 3. 3 Ah, passei a usar esse caderno para também escrever textos, ideias, pensamentos, poesias e letras de música (apenas palavras e rimas, sem nenhuma melodia). Inclusive, enquanto o ônibus estava na estrada, seguindo pela BR386, acabei escrevendo algo para passar o tempo: Eu não tenho mais respostas Pras perguntas que eu faço à mim Não vou mais dobrar a aposta À procura de uma história sem um fim Sei lá, já não tenho tempo Nem paciência pra mostrar o que eu sou Nem argumentos, nem consciência Pra falar aonde eu vou Qual é... me deixe sozinho Pra pensar se um outro passo é melhor Silêncio é meu grande amigo Que não sabe, assim, dizer o pior Então, os copos e garrafas, cigarro no cinzero Paredes rabiscadas com poemas sinceros sobre mim Que não calam o que vai mudar Que não falam onde é o meu lugar E assim eu penso Sobre tudo, sobre ninguém Que nada vale a aposta Que tudo é uma amostra De um tempo tão vulgar E eu chego a conclusão que eu nunca vou mudar Depois de ler o que eu havia escrito, concluí que aqueles versos funcionariam muito bem em uma música. O problema era criar a melodia certa, algo que realmente funcionasse. Isso ainda era uma grande dificuldade para mim, e eu apenas escrevia. Era
  • 4. 4 curioso o quanto eu escrevia sobre coisas que eu jamais havia vivido. Talvez fosse algum tipo de premonição (e eu esperava sinceramente que fosse isso) onde meu subconsciente captava sinais à minha volta do que eu ainda encontraria pelo caminho. Enfim... Ana estava ali, me aguardando, a pedido da minha mãe, proprietária do apartamento onde ela morava. Aliás, nossas mães eram amigas de longa data e, apesar daquela proximidade toda, eu e Ana nunca trocamos mais do que meia dúzia de palavras. Uma porque eu era cinco anos mais novo do que ela, e outra porque Ana era linda demais para notar se quer a minha existência bizarra que os óculos fundo de garrafa davam à minha cara magricela e espinhenta. Sabe, simplesmente não era fácil ser eu e viver naquele corpo de E.T. que mais parecia o de um faquir. Eu bem que tentava ganhar alguns músculos e acelerar, um pouco que fosse, aquele maldito processo evolutivo de passagem da adolescência para a vida adulta, mas meus esforços se mostravam infrutíferos, sempre que eu me observava de cuecas diante do espelho. Deus do céu, será que eu nunca vou me tornar um homem adulto???, era este o meu pensamento constante, apesar de já tê-lo conquistado no papel um mês antes, quando completei dezoito anos. A fila dentro do ônibus andou e eu pude me movimentar. Peguei a mochila no bagageiro acima da minha cabeça e pulei para fora. O motorista estava retirando as bagagens do bagageiro inferior e quando vi minha mala (uma coisa velha de couro todo descascado), entreguei o canhoto a ele e a peguei com as duas mãos, depois de jogar a mochila nas costas. Ana Clara olhava na minha direção à procura de alguém que parecia não ser eu, pois ainda que eu me aproximasse ela continuava olhando para o ônibus. Literalmente, ela não me via. _ Oi Ana _ disse eu pra lá de inseguro quando me aproximei. _ Ah, aí está você... Oi _ respondeu ela dando meia volta. Acelerei o passo para alcançá-la e perguntei: _ Está me esperando há muito tempo?
  • 5. 5 _ A séculos _ respondeu ela entediada _ vamos logo. O dia estava quente e Ana usava uma blusa branca, de alcinhas, que deixavam seus ombros à mostra, combinando perfeitamente com a calça jeans surrada e os tênis All Star azul. Perfeita. Linda de qualquer jeito. Não havia nada mais belo no mundo do que as curvas daquele corpo delineado pela calça incrivelmente justa. Ana andava na minha frente e eu tentava, em vão, não olhar muito para a bunda dela. Só espero não tropeçar e cair aqui, no meio de toda essa gente. A rodoviária estava movimentada para um domingo, uma constatação que concluí não ter qualquer parâmetro, já que eu nunca havia estado ali em um domingo, ou qualquer outro dia da semana. Era a minha primeira vez na rodoviária da capital e a primeira vez que eu viajava sozinho, outro item da minha incrível lista. Pelo que eu me lembrava, eu não havia estado em Porto Alegre muitas vezes até então, ainda que tivéssemos o tal apartamento, uma herança de família que havia passado para a minha mãe depois que minha avó faleceu. Eu era pequeno nessa época. Meu pai chegou a questionar várias vezes porque ela não se desfazia daquele imóvel, afinal o dinheiro seria bem-vindo, mas minha mãe argumentava que um dia eu iria para a faculdade e então o apartamento seria muito útil. De fato, ela tinha razão e aqui estava eu. Eu não lembrava ao certo quantas vezes eu havia estado no “nosso” apartamento de POA, acho que não muitas, e a última vez tinha sido nos dias do vestibular, no alto do verão. Na ocasião, meus pais vieram de carro e aproveitaram o período em que Ana estava fora, de férias, para ficarmos ali até eu terminar as provas. _ Vamos atravessar _ Avisou ela à passos largos. Ana andava com uma pressa que me deixava na dúvida se aquilo seria uma tentativa de me despistar ou se corríamos algum risco de assalto, afinal toda cidade grande guardava certos perigos. De qualquer maneira eu não esperava maiores gentilezas por parte dela, que quase nada sabia a meu respeito, além de ser filho da tia Solange, como ela costumava chamar.
  • 6. 6 Eu estava ao lado da minha mãe quando ela ligou para Ana e explicou que eu havia passado no vestibular e que iria morar em Porto Alegre no apartamento da família. Eu não ouvia o que Ana dizia do outro lado da linha, mas em alguns momentos minha mãe me olhava com uma cara que indicava problema, o que agravava muito o frio na barriga que eu sentia ao me imaginar morando no mesmo teto que Ana, pois para mim, Ana Clara era a mulher mais linda que eu já havia visto assim tão de perto. É claro que além da beleza, Ana tinha atitude e coragem, o que para mim era algo incrível e admirável. Quando fiquei sabendo que ela iria morar sozinha em Porto Alegre, cinco anos antes, ao completar a maioridade, eu pensei “essa garota é mesmo de outro mundo”. De alguma forma, a informação de que nosso apartamento estava fechado chegou até ela, que propôs à minha mãe alugá-lo e mantê- lo limpo e em dia. Elas acertaram um valor e Ana logo arrumou um emprego, assim que chegou na capital. Jamais houve qualquer atraso no pagamento do aluguel e isso, segundo minha mãe, demonstrava independência e maturidade. Certa vez ouvi Dona Márcia, mãe de Ana, comentar que sua filha não voltaria nem amarrada a morar no interior. Acho que ela estava certa. E agora, finalmente, era chegada a minha hora e cá estava eu. Atrapalhado com a mala pesada, dei mais alguns passos na tentativa inútil de alcançar Ana, e então lembrei também que minha mãe, ao telefone com ela, falou qualquer coisa sobre reduzir o valor do aluguel pela metade, já que eu ficaria em um quarto e ela seguiria no outro, o que acabou por resolver a questão. Não era minha intenção ser um estorvo, mas minha mãe me garantiu que nós nos daríamos muito bem. Inclusive Dna. Márcia, que me fez recomendações para eu ficar de olho e ver se Ana não andava aprontando alguma. Eu mesmo não entendi o que ela quis dizer com aquilo, mas concordei e disse “claro, pode deixar, Dna Márcia”. Finalmente chegamos até o carro que estava estacionado no outro lado da avenida. Era um Gol GTS vermelho, rebaixado, com as rodas cromadas e um pneu preto reluzente praticamente encostando na lataria.
  • 7. 7 Meu irmão mais velho, Bento, sempre foi muito ligado em carros, apesar de andar a pé, e o GTS era o seu preferido. Segundo ele, a frente era 5 cm mais baixa do que a versão anterior, os para- choques ficaram envolventes e lanternas traseiras maiores. Os faróis passaram a ser mais largos e eram os mesmos utilizados no Voyage e na Parati. Por fora, uma decoração exclusiva incluía refletores auxiliares (de neblina e longo alcance), molduras laterais pretas, novas rodas (apelidadas de “pingo d’água”) e aerofólio. Eu mesmo achava aquele carro chamativo demais. Que coisa mais estranha. Ela entrou e destrancou a porta do carona. _ Entra aí _ Ordenou ela ao abrir. Eu obedeci e joguei a mala no banco de trás, antes de pular para dentro. Ela baixou o vidro e eu fiz o mesmo, afinal estava quente e pelo visto aquele carro não tinha ar-condicionado. Larguei a mochila nos pés e me virei para procurar o cinto- de-segurança. Ana enfiou uma fita K7 no som do carro e me olhou com cara de indiferença, ao me ver devidamente preso ao cinto. _ Quer um capacete também? _ perguntou ela. Eu apenas não respondi. Antes que ela ligasse o motor um som de bateria tomou conta dos meus ouvidos e então uma música, que bateu em cheio no meu cérebro, fez ela balançar como se estivesse em uma festa. _ Essa é a minha música _ gritou ela mais alto que o som _ Ana Banana, do TNT... eu amo essa banda. TNT??? Nunca ouvi falar... Mas é muito bom... Gostei da batida... gostei mesmo... Finalmente eu arrisquei em perguntar: _ Isso é rock, né? Ela então me olhou como se algum bicho peçonhento tivesse pousado em minha testa. _ É claro que isso é rock... é rock n’roll do sul... Rock gaúcho. _ Ah... legal... Eu já havia tido alguma experiência com a música, fato este que fazia parte daquela minha lista. Como todo garoto que não
  • 8. 8 tem qualquer talento para os esportes eu pedi insistentemente ao meu pai que me desse uma guitarra. Isso foi entre os quatorze e quinze anos. Acho que era uma Tonante, ou algo assim. Meus pais, apesar de religiosos, sempre foram fãs de Beatles e eu cheguei a me dedicar de verdade por um tempo, para tentar tirar algum som que não fosse um triste farfalhar de cordas desafinadas. Tempos depois eu até já conseguia fazer alguns acordes, mas o som nunca se parecia com que John Lennon e George Harrison faziam em suas guitarras. Acabei desistindo da minha, que agora repousava em baixo da minha antiga cama. Ana arrancou o Gol e minha cabeça pendeu para trás. Instintivamente me agarrei no banco e no puxador da porta, concluindo que fora uma ótima ideia ter colocado o cinto-de- segurança. Ela fazia as marchas com muita habilidade e isso me deixou bem impressionado. Eu não via muitas garotas dirigindo por aí e acho que nunca havia estado em um carro guiado por uma. Ela ultrapassou uma dúzia de outros carros e meu coração parecia acompanhar o velocímetro. Uma chuva fina de verão começou a cair sobre a cidade e tivemos que fechar os vidros do carro. Ela então acionou um botão no painel e o ar frio começou a soprar. Ah, legal, então tem ar-condicionado?!?! Não entendi porque ela abriu a janela. Ana então meteu a mão no bolso da blusa e tirou algo que não identifiquei, levando até a boca onde prendeu entre os dentes. _ Tem fogo aí? _ Perguntou ela para mim. _ O quê? _ Disse eu sem conseguir me mexer achando aquela velocidade muito inapropriada. Ela olhou para mim e riu com o canto da boca, sem deixar cair aquela coisa que parecia um cigarro feito à mão. _ É claro que não tem... _ resmungou. Algo me dizia que aquilo ali poderia ser o que Dona Márcia se referia com “estar aprontando”. Ana apontou para o porta-luvas e ordenou: _ Vê se tem aí uma caixa de fósforos ou um isqueiro. Com alguma dificuldade, soltei a porta do carro onde me segurava e fiz o que Ana pediu. O porta-luvas estava apinhado de
  • 9. 9 fitas K7, preservativos, um saco plástico com o que parecia uma espécie de chá e papéis (que eu concluí serem os mesmos que o que foi usado para fazer o tal cigarro esquisito que permanecia entre os lábios dela). _ Achei um isqueiro _ anunciei. _ Ótimo... me dá aqui. Ela acendeu a coisa e uma fumaça branca com um aroma diferente tomou conta do carro. Ana tragou profundamente fazendo uma brasa se acender na ponta, gerando pequenos estalidos. _ Quer um pega? _ perguntou ela segurando a fumaça no pulmão. _ Não, obrigado... eu não fumo. _ É claro que não fuma _ desdenhou ela pensando alto. O carro fez uma curva e então vimos um quebra-molas se aproximando a uma velocidade acima do permitido. O Gol deu um salto e faíscas riscaram o asfalto dando um estouro quando aterrissamos do outro lado. _ Merda _ ela gritou _ se o Fernando visse isso me mataria... _ Quem? _ O Fernando, meu namorado... esse carro é dele. _ Ahh _ disse eu tentando esconder a frustração por ela ter um namorado (como se isso fizesse alguma diferença). _ Achou que o carro fosse meu? _ Achei _ Respondi, voltando a segurar o puxador da porta. _ Garanto que pensou que essas camisinhas todas no porta- luvas fossem minhas, né? Bem, para falar a verdade eu nem tinha pensado nada, pois era difícil me concentrar em outra coisa que não fosse a certeza de que capotaríamos a qualquer momento. Mas me ative a responder apenas o necessário. _ Não. Não pensei. Ela riu e deu outra tragada tão longa que eu achei que aquele cigarro “caseiro” acabaria de uma só vez. Era difícil acreditar que ainda haveria alguma coisa quando ela soltasse a fumaça. Novamente ela demorou uns quantos segundos até esvaziar os pulmões e eu achei aquilo muito estranho. Meu pai fumava e eu
  • 10. 10 sempre detestei o cheiro que ficava dentro de casa e nas roupas. Sem contar o mal que aquilo fazia para a saúde. Mas pelo que eu lembrava, meu pai não segurava a fumaça daquele jeito. Melhor deixar isso para lá. A névoa dentro do Gol à jato estava densa demais para eu ver alguma coisa e meus óculos embasados só pioravam a situação. Minha garganta coçou e eu tossi algumas vezes. Ana deu uma gargalhada e eu não entendi onde estava a graça. Finalmente chegamos e Ana estacionou o carro em frente ao prédio do nosso apartamento. Antes que eu abrisse a porta do carro ela se virou e disse: _ O negócio é o seguinte... já que vamos morar juntos teremos que combinar algumas regras... _ Regras? _ Sim, regras... Do tipo “coisas que você não pode fazer”. _ Ok _ concordei _ e que regras são essas? Ela usou o dedo indicador da mão esquerda para apontar o dedo indicador da mão direita e disse: _ Número um: O que acontece em Vegas, fica em Vegas... Diante da minha total falta de reação ela me olhou em desaprovação e questionou: _ Você entendeu? _ Não sei se posso dizer que entendi _ respondi sem convicção. _ Então não entendeu... ah, que saco... significa que tudo que você ver e ouvir aqui, deve ficar aqui, ou seja, nada de contar para a mamãe e o papai... principalmente para a minha mãe, ok? Entendeu agora??? _ Ah, sim... claro _ fechei um zíper imaginário na minha boca e completei _ Bico calado. Ela agora usou o dedo indicador da mão esquerda para apontar o dedo médio da mão direita e disse: _ Número dois: Nada de me espiar tomando banho ou qualquer coisa do gênero... Você não vai me ver sem roupa, portanto nem tente... E se acha que vai perder a virgindade comigo, pode tirar esse seu “cavalinho” pequeno da chuva. Com essa eu simplesmente fiquei mudo.
  • 11. 11 Como diabos ela sabia que eu ainda era virgem? Será que isso estava tão estampado assim na minha cara tomada de acne? Pensando bem, essa era uma constatação que não requeria um QI de três dígitos para se chegar. Relacionei mentalmente as evidências, como por exemplo: meus amigos; minha escola; meus pais; minha cara; meu corpo; Bingo! Ok, definitivamente, estava na minha cara a pouca, para não dizer nenhuma, experiência sexual. Isso me deixou um tanto constrangido. Apenas balancei a cabeça sinalizando que, por mim, tudo bem. Por fim, ela usou o dedo indicador da mão esquerda para apontar o dedo anelar da mão direita e disse: _ Meu namorado é grande, ciumento e muito bravo... não se meta com ele. Não quero ter que dar explicações para a tia Solange se um dia você aparecer em casa com um olho roxo. _ Está certo... _ Ok, tudo entendido... então vamos descer. Peguei minha mochila e a mala e saí do carro, ainda atônito com aquelas regras que eu teria que observar dali em diante. Minhas mãos estavam suando e eu já não sabia mais se era devido a corrida em que acabávamos de marcar o melhor tempo, ou se era pelo claro risco de vida que eu correria daqui para frente. Tive a impressão de que aquela fumaça toda dentro do carro havia me deixado zonzo e resolvi perguntar: _ O que é aquilo que você fumou? Ela sorriu maliciosamente e respondeu: _ Um baseado. _ Baseado? _ Eu repeti sem saber o que era. _ Sim, um bagulho. _ Bagulho? _ Pior ainda. _ É, garoto... Maconha... _ O que??? Maconha??? _ É... maconha!!! _ exclamou ela mostrando o dedo indicador _ Regra número um, lembra? _ Ah, sim, claro... bico calado. _ Bom garoto...
  • 12. 12 Eu não conhecia maconha pessoalmente. Apenas ouvia falar. Meus amigos mais próximos, um bando de nerd’s virgens e sem graça do colégio Marista onde eu estudei, jamais haviam tido qualquer contato com drogas. E eu agora estava, provavelmente, tecnicamente chapado por tabela. Acho que isso merece ir para a minha lista. A propósito, eu me chamo Vinícius Porto, mas todos me conhecem por Vini.
  • 13. 13 CAPÍTULO 2 O apartamento estava uma bagunça. Roupas por todo o lado, louça acumulada na pia, móveis fora do lugar, era difícil notar alguma coisa que estivesse ok. _ Uau _ disse eu olhando pela janela _ as águas chegaram até aqui em cima? _ Mas do que você está falando _ Perguntou Ana irritada. _ O tsunami que passou pelo nosso prédio... isso que estamos no 4º andar, hein? Ela fechou a cara de vez e me fuzilou com os olhos, antes de vocalizar: _ Rá... Rá... Rá... _ depois fez uma careta de nojo e completou _ O Louva Deus cegueta é engraçadinho, é? Mas que apelido mais “carinhoso”... Antigamente, quando morávamos no interior e acidentalmente nos encontrávamos, ela me chamava de “Estranho”. Acho que eu prefiro esse... O mau-humor em pessoa. Melhor não mexer com ela. _ Só fiz uma brincadeira, ok? _ tentei explicar _ mas que isso está uma bagunça, isso é fato... Ana se abancou no sofá e sentou sobre as pernas, sem tirar os tênis. _ Você gosta de organização? _ perguntou ela com um tom desafiador. _ Sim, gosto _ respondi ainda olhando para os tênis em cima do sofá.
  • 14. 14 _ Ótimo, então arrume. _ Eu não... Ela levantou o braço com a mão aberta num claro sinal de “cale a boca” e falou: _ O quarto é aquele ali, agora saia... já fiz o bastante em ter ido te buscar na rodoviária. _ Tudo bem _ respondi e sumi. Joguei a mochila nas costas e peguei minha mala, tratando de me esconder em meu novo quarto, que ficava exatamente em frente ao dela. Porta com porta. Felizmente tínhamos um banheiro entre os dois cômodos, nos separando por um metro e meio, o que, em parte, me tranquilizou, afinal eu não estava nem um pouco afim de ficar escutando ela e seu namorado fazendo “sei lá o que” lá dentro. Os móveis eram antigos e de quarta ou quinta mão. O guarda-roupas não tinha portas e a cômoda contava com 4 gavetas que pelo visto não fechavam completamente. A cama, ao menos, parecia boa, e ao lado havia um bidê semidevorado por cupins. O colchão era de molas e assim que eu sentei uma sinfonia de rangidos acusou a pressão que meus cinquenta quilos causavam sobre a superfície aveludada. Deus do céu. Espero que o colchão da Ana Banana não seja de molas também ou será impossível eu dormir. Abri a mala, que pesava tanto quanto eu, e observei o encaixe perfeito entre as roupas e os livros que eu trazia. Como um bom filho de professora de literatura, decidi começar pelos livros. Um a um fui retirando da mala e os colocando sobre a cômoda. O Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, Baú de Espantos de Mário Quintana, O Diário de Um Mago de Paulo Coelho, Dom Casmurro de Machado de Assis e O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo, além de Confúcio, Dalai Lama, Aristóteles, Nietzsche, Platão, Descartes, Voltaire, Sócrates e Tolstói, eram meus preferidos. Mas eu ainda contava com Como julgar, como defender, como acusar de Roberto Lyra, Ensaio sobre a liberdade de Stuart Mill e Dos delitos e das penas de Cesare Beccaria.
  • 15. 15 Com os livros devidamente seguros, comecei a tirar minhas roupas semi-abarrotadas da mala, tentando, inutilmente, desamassá-las. Fiz o melhor que pude quanto a intenção de dobrar as cinco camisas de gola, as dez camisetas, as três calças jeans e as duas bermudas, mas definitivamente aquilo não era o meu forte. Desanimado com o resultado pífio dos meus dotes domésticos, joguei tudo dentro do guarda-roupas, tirei os tênis e me atirei na cama. Nhec, nhec, nhec... Jesus Cristo!!! Decidi tirar um cochilo. Acordei com a campainha tocando lá na cozinha e concluí que deveria ser o tal Fernando, “ô namorado”. Fiquei imóvel e em modo “morto-vivo”. Se ela me chamar, finjo que estou dormindo. As vozes surgiram altas e animadas e pude perceber uma voz grave e uma estridente. Eu não entendia exatamente o que falavam, mas algumas palavras chegavam até mim, tipo “fumar um”, “dar uma volta”, “trepar”... Me imaginei escrevendo um dossiê para Dona Márcia intitulado Coisas Que Ana Apronta em Porto Alegre, mas só pensei. É claro que eu não faria isso, pois aceitei as regras de convivência e essa era a número um. O que acontece em Vegas, fica em Vegas. Sabe, eu levo muito a sério esse negócio de Palavra e de Acordos. Se eu não tivesse aceito aquelas condições eu não me preocuparia em entregar Ana para a mãe dela, mas eu aceitei e então eu seria um túmulo. Ainda assim, me imaginar elaborando um dossiê comprometedor me fez rir mais alto do que eu gostaria e instintivamente tapei minha boca com a mão. Droga! Não sei se eles me escutaram, mas Ana gritou atrás da porta: _ Ô Vinícius, vou sair com o Fernando... tem uma cópia da chave em cima da mesa, se precisar... Eu segui imóvel como estava e em total silêncio. A voz grave falou: _ Deve ter dormido... A estridente concordou.
  • 16. 16 _ É, deve ter ferrado no sono... acho que ficou chapado só com a fumaça... _ Tu fumou meu bauro? _ Era só uma ponta... mas deu uma fumaceira do caramba... eu ia deixar os vidros abertos, mas começou a chover, então tive que fechar... acho que ele ficou doidão pela primeira vez... Eles riram e depois escutei a porta batendo. Fiquei na dúvida quanto ao que ela se referiu como “ponta”, pois aquilo que eu vi na boca dela era maior do que um dedo. Ah, ela devia estar falando do que sobrou... de fato, apenas uma ponta. De repente me dei por conta que estava faminto como nunca estive antes. Meu estômago roncava e eu tive certeza de que comeria um boi pela perna. Minhas opções eram poucas, afinal eu não sabia cozinhar e ainda não havia passado no mercado. Comer algo que fosse da Ana estava fora de questão, pois a julgar pelos primeiros quarenta minutos em que estivemos juntos, era morte na certa. Melhor não provocar a onça com vara curta. Esse ditado, aliás, me lembrou meu pai, que volta e meia se referia à Dona Solange como “a onça”. A chuva havia parado e, para alegria dos porto-alegrenses, o sol resolveu dar as caras. Fui até a sacada do apartamento e observei a beleza da nossa rua, chamada Fernandes Vieira. Na minha opinião, Bom Fim era o melhor bairro de Porto Alegre. Arborizado, tranquilo, perto da universidade e a poucos minutos da rodoviária. Isso significava agilidade e mobilidade, o que para mim, que andaria a pé e de ônibus, pelos próximos cinco anos, era bem importante. Dias antes eu havia lido a história do bairro e achei muito interessante o fato de, antigamente, tudo ali ser um imenso campo verde, onde o gado que abastecia a cidade andava solto pelo pasto. Popularmente o lugar era conhecido como Campo da Várzea, mas mais tarde, em função da construção da Capela Nosso Senhor Jesus do Bom Fim, iniciada em 1867 e concluída em 1872, o campo da Várzea passou a ser chamado de Campos do Bom Fim. Tempos depois, por ocasião de uma alforria
  • 17. 17 coletiva promovida pelo Centro Abolicionista, para comemorar o fim da escravidão, o nome foi alterado para "Campos da Redempção". Já por volta do final da década de 1920, os primeiros membros da comunidade judaica começaram a fixar moradia ao longo da Avenida Bom Fim, onde algumas residências, pequenas lojas e oficinas, deram início ao processo de povoamento efetivo do bairro. A diversificação desse pequeno comércio acompanhou o crescimento natural da cidade, vindo o Bom Fim a constituir-se como bairro residencial e comercial. Apesar da atual diversidade de moradores, o Bom Fim permanece como símbolo da colonização judaica em Porto Alegre, onde localizam-se algumas sinagogas, o Museu Nacional das Migrações Judaicas e o Centro Israelita Porto-Alegrense. Certamente eu iria conhecer tudo, cada metro quadrado, pois sempre fui fascinado pelas histórias que rondavam os lugares. Podia-se dizer que durante a semana, o Bom Fim era é um bairro nervoso e rápido em sua larga e extensa Avenida Osvaldo Aranha. Porém, aos sábados e domingos o bairro se transformava em um lugar bucólico, com ares de interior. Lembrei que haviam em seu entorno inúmeros estabelecimentos interessantes, como cafés, livrarias, escolas, espaços culturais, além do famoso Bar Ocidente, tradicional casa noturna que promovia intensa agenda de shows, festas, peças teatrais e saraus literários. Esse, aliás, seria a minha primeira opção assim que eu me aventurasse na noite porto-alegrense. Preciso urgentemente comer alguma coisa. Deus do céu, que fome é essa??? Finalmente peguei a minha cópia da chave sobre a mesa e desci para dar uma caminhada pela Osvaldo. Não sei porque, mas algo me dizia que eu ainda faria esse programa muitas e muitas vezes dali para frente. Duas quadras depois eu já estava no Parque da Redenção, que fervia de jovens, crianças, pais, mães, velhos, músicos, hippies, cachorros e uma ou outra viatura da polícia. Andei sem pressa com as mãos no bolso e passei por alguns artesanatos ao ar-livre, desenhistas de caricatura e, finalmente, uma carrocinha de cachorro-quente, onde, claro, eu parei.
  • 18. 18 Li na placa atrás do atendente que eu poderia escolher completo com duas salsichas e foi exatamente o que eu fiz. _ Um completo com duas salsichas, por favor. Um som de violão me chamou a atenção e vi um pouco mais para frente uma roda animada, formada por umas vinte pessoas e três violões. Fiquei observando o comportamento do grupo e o quanto estavam todos felizes com aquela cantoria. Mais à frente ainda avistei outro grupo, porém menor, também formado por algumas pessoas que rodeavam um violão. Respirei fundo e me senti maravilhosamente bem, ali, naquele lugar, naquela cidade, naquele bairro, que transpirava cultura, lazer e amizade. Em qualquer direção que eu olhasse eu não via o menor sinal de violência, brigas, tumultos, nada. Apenas o simples ato de curtir um bom sol de final de tarde. _ Aqui está, rapaz _ disse o moço me entregando o cachorro quente. _ Obrigado _ Disse eu lhe passando o Cinquenta Cruzados. Sem mais delongas, afundei meus dentes naquele combinado de pão, molho, salsicha, queijo-ralado, mostarda, ketchup e temperinho verde. Sem palavras. Olha, sem querer exagerar, aquele era sem sombra de dúvidas o melhor cachorro quente que eu já havia comido em toda minha vida. Segui andando, passo por passo, enquanto devorava meu lanche e fui me aproximando da primeira roda de violão. O som que aqueles caras tiravam me impressionou e eu fiquei por ali, comendo e ouvindo uma boa música. Infelizmente eu não conhecia nada que eles tocavam, mas a melodia me agradava muito, assim como as letras. Percebi que algumas eram em inglês, mas como nunca fui muito bom com a língua britânica, não consegui julgar se eles cantavam mesmo ou se estavam apenas no “embromation”. Ao terminar minha refeição, procurei uma lixeira para jogar o papel fora. Ajeitei os óculos que insistiam em parar na ponta do nariz e limpei as mãos nas laterais da minha calça. Ao me virar para voltar ao apartamento escutei uma voz feminina e estridente atrás de mim.
  • 19. 19 _ Ô Estranho, está perdido? Ana Banana e seu homem da voz grossa me observavam com cara de quem achavam graça de alguma coisa. _ Não _ respondi educadamente _ estou bem... Só desci para comer... estava com muita fome. Eles se entreolharam e ela diagnosticou: _ Larica... _ E caíram na gargalhada. _ Lari... o quê? _ perguntei sem entender bulhufas. _ Deixa pra lá _ disse ela se controlando _ Esse aqui é o Fernando, meu namorado. Ele deu um passo na minha direção e mudou a feição para o modo “namorado brabo”, antes de me estender a mão e apertar a minha. Realmente, o cara era grande. _ E aí... _ disse ele enquanto esmagava minha pobre mão ossuda e frágil. Juro que eu pensei ter escutado alguns estalos de ossos quebrando, mas apesar da dor insuportável e da lágrima do olho direito que chegou a se formar eu respirei fundo e respondi: _ E aí... _ sem deixar a porra da lágrima cair do meu olho. Que cara mais idiota??? Ele então soltou o que um dia foi minha mão e procurei não olhar o estrago e nem mexê-la por alguns segundos. Apenas a enfiei no bolso discretamente para não transparecer a provável avaria causada por aquele cumprimento desproporcional. Ana virou para mim e deu novas ordens. _ Olha, eu vou chegar tarde... não deixe a chave na porta pelo lado de dentro, viu? _ ela falava como se eu fosse um retardado fazendo mímica com as mãos e continuou _ Se não outra chave não entra pelo lado de fora, entendeu? _ Está certo... Entendi. _ É, vamos chegar muuuito tarde _ disse o troglodita à tiracolo, pegando na bunda dela. Desnecessário, pensei. Não fazendo a menor questão de continuar “desfrutando” da companhia do “agradável” casal, peguei meu rumo. _ Então tchau _ disse eu. _ Tchau, magrelo _ disse ela.
  • 20. 20 Ainda prefiro “Estranho”. Dei alguns passos, me afastando deles, e notei que alguém veio até mim. Era um cara hiponga, vestido de branco, de cabelos castanhos compridos e óculos redondos. Numa primeira olhada eu o achei parecido com alguém famoso, mas não consegui me lembrar quem. _ Hei maluco _ gritou ele _ seguinte... posso te falar umas coisas? Ele chegou mais perto e eu continuava tentando descobrir com quem o cara se parecia. Putz, estava na ponta da língua. Finalmente respondi: _ Sim, claro... o quê? _ Tu não é daqui, né? _ Não, cheguei hoje... sou do interior do estado. _ Bá, eu saquei na hora... aquele otário lá atrás ‘tava só te tirando pra bobo. Como se eu já não soubesse. _ É eu sei... _ E aquela gata que ‘tava com ele, crééédo, que mulherão, velho...!?!?! _ Sério? Eu nem acho ela tudo isso... (menti) _ Bem capaz... _ duvidou o hiponga _ eu vi na tua lata que tu ‘tá tri afim dela. _ Eu??? _ exclamei boquiaberto. Daí já é um exagero... eu acho. Ele colocou o braço sobre meu ombro e falou: _ Ó... seguinte, velho... não me leva a mal o que eu vou te dizer, mas caras como tu, assim... tipo... é... sabe, né... meio assim... _ Feio? _ Disse eu para ajudar o maluco. _ Feio não... feio sou eu... tu é pra lá de feio, velho... quase um anticristo... um espanta bebê... manja o Chuky? _ ‘Tá, eu entendi... entendi... sou muito feio... e daí? _ Caras como nós, feios de doer, só se dão bem se tiver uma banda... Tu tem banda? Sabe tocar alguma coisa?
  • 21. 21 Como eu iria ter uma banda, se eu acabei de chegar em Porto Alegre? _ Não, nunca tive uma banda e nunca pensei em ter... _ Mas tu toca alguma coisa? _ Mais ou menos... um pouco de guitarra, eu acho... _ Já ‘tá valendo, maluco... Olha meus bro ali? _ Teus o quê? _ Meus bro... _ Ele sinalizou uma faixa transversal imaginária sobre o peito e continuou _ meus faixa... meus irmãos... meus Brothers... estão sempre cheios de mulher na volta, porque tocam um violão, sacou? Uma gaitinha de boca, sacou? _ Sa... quei, claro... _ O negócio é simples, maluco, se tu não toca nada, não come ninguém _ explicou ele abrindo um grande sorriso amarelo tabaco. Bom, até que fazia sentido. Observei rapidamente os caras debruçados no violão e nenhum me pareceu com pinta de galã ou do bio-tipo troglodita como o Mister Universo da Ana Banana. Um deles, inclusive, usava óculos como eu. Pelo sim, pelo não, acho que valia a pena pensar no assunto. _ Legal... obrigado pela dica _ agradeci ao maluco. _ Que isso, velho... não precisa agradecer... é que eu não consigo ver esses playba’ se prevalecendo em cima dos mais fracos... me sobe o sangue na cabeça, sacou? _ Sim, saquei... legal... Ele me estendeu a mão e eu dei um semi-pulo para trás. _ Cara, minha mão está meio esmagada... Então eu dei a mão esquerda e ele apertou de leve. _ Sem grilo, meu velho... sem grilo... _ Cara, como é mesmo teu nome? _ perguntei, pois afinal ainda não sabia com quem eu estava falando. _ Aqui todos me chamam de John Lennon. Putz... Claro. O maluco era a cara do John Lennon. _ Valeu, John Lennon... Obrigado. _ Vai em paz, irmão _ disse ele enquanto eu me afastava.
  • 22. 22 Empurrei meus óculos de volta para cima do nariz e voltei caminhando até o apartamento, enquanto pensava no que aquele Beatle do Bonfa havia me mostrado. Acho que eu realmente teria que fazer alguma coisa para me tornar mais interessante. E, de preferência, mudar meu visual. Caso contrário, os próximos anos seriam realmente complicados. Eu odeio esses óculos.
  • 23. 23 CAPÍTULO 3 Meus olhos já estavam abertos meia-hora antes do despertador avisar que era hora de fazer algo útil. Deus ajuda quem cedo madruga, dizia minha mãe. Encontrei meus óculos ao lado da cama e me livrei do lençol que me cobria. Escolhi uma roupa que julguei adequada para a ocasião e caprichei no desodorante, afinal, o fim do verão ainda reservava dias quentes e abafados e eu não poderia correr o risco de chegar no primeiro dia de aula cheirando mal. Pé-por-pé, fui até o banheiro me lavar e notei que a porta do quarto de Ana estava fechada. Lembrei do troglodita do namorado dela e dos prováveis danos que ele havia provocado em minha mão, ainda dolorida. Palhaço... odeio aquele cara... Comecei a escovar os dentes mas parei de repente ao me olhar no espelho e enxergar meus cabelos desgrenhados. Corri até o quarto onde achei um pente na minha mala e voltei para o espelho (ainda com a escova de dentes na boca) na tentativa de fazer algo a respeito daquele emaranhado que eu carregava na minha cabeça. Fiz o possível e o impossível, até que larguei o pente em cima da pia e segui escovando os dentes. Fiquei me perguntando porque eu fazia isso com tanta frequência, de começar a escovar os dentes e parar no meio para pentear meus cabelos, e então lembrei da resposta que eu sempre dava a mim mesmo, que era “eu odeio esse cabelo e não consigo encará-lo por mais de cinco segundos”.
  • 24. 24 Sequei o rosto e senti que alguma coisa doeu dentro do meu nariz. Bá, uma espinha interna... que saco... E isso doía demais. Num olhar mais atento verifiquei que minhas bochechas estavam cravejadas de pontos avermelhados e marcas de acnes removidas. A ponta do meu nariz era uma galáxia de cravos e por mais que eu espremesse tudo que aparecia de novo, eu não dava conta, e mais cravos e espinhas surgiam das profundezas da minha pele, como num passe de mágica. Peguei minha mochila e saí estressado com os efeitos tardios que a puberdade ainda provocava em mim. O primeiro dia de faculdade estava uma loucura. Gente para todos os lados, no geral muitos jovens, todas pessoas animadas, arrumadas e perfumadas. Acho que não sou o único que se preocupa com o próprio cheiro, pensei. Comecei a observar melhor as garotas que passavam por mim e tive a impressão de estar em um desfile de modas, com todas aquelas modelos maravilhosas percorrendo as passarelas disfarçadas de calçadas. Concluí que eu jamais havia visto tantas mulheres bonitas reunidas em um único lugar, o que me deixava ainda mais nervoso do que eu já estava. Assim que eu pisei no prédio do Direito, senti meu estômago dar um nó. Tudo era novo para mim e eu ainda procurava pela sala onde teríamos uma aula inaugural. Pense em uma pessoa perdida, pois essa pessoa era eu. Depois de algum sobe e desce, entre os andares do prédio, cheguei ao meu destino; suado e esbaforido. Parei diante da sala e conferi novamente no folheto de instruções. _ Direito diurno? _ alguém perguntou ao meu lado. Me virei e vi um rapaz franzino, cabelo preto lambido para trás, de terno e gravata. Tinha mais ou menos a minha altura, um metro e setenta, talvez, e não mais do que dezoito ou dezenove anos. _ Sim _ Respondi _ mas estou conferindo se é mesmo aqui, pois já desci e subi umas três vezes. Ele riu e me tranquilizou:
  • 25. 25 _ Pode entrar. É aqui mesmo _ ele me estendeu a mão e se apresentou _ muito prazer... eu sou o Rubens, mas pode me chamar de Rubinho. Após verificar rapidamente o porte físico inofensivo do colega engomadinho, arrisquei a lhe alcançar minha mão ainda dolorida. _ O prazer é meu... eu sou o Vinícius, mas pode me chamar de Vini. Apresentações feitas, entramos e sentamos na 2º fila. Puxei a grade curricular e conferi novamente as cadeiras que eu cursaria naquele primeiro semestre: Criminologia I, Economia Política, História do Direito, Introdução à Ciência do Direito I, Introdução à Filosofia do Direito – A, Introdução às Ciências Sociais e, finalmente, Política e Teoria do Estado I. Lembrei do quanto eu tinha sonhado com esse dia, quantos filmes sobre advogados eu havia assistido, quantos livros de direito eu havia lido, quantas audiências públicas eu já havia acompanhado, tudo para me preparar para esse momento, quando eu finalmente, começaria a me tornar um grande advogado. O trabalho de paralegal que eu havia tido no último inverno, no escritório do Sr. Bartolomeu, um criminalista pré-histórico que atuava em minha cidade natal, fora sem dúvida de muita importância para a minha visão e senso crítico acerca do dia-a- dia de um jurista. Ainda assim, pelos próximos cinco anos, eu viveria com aquela sensação incômoda de que todos à minha volta eram mais inteligentes do que eu, o que para mim era ainda um mistério, se isso serviria mais como um estímulo ou como uma baixa autoestima típica dos nerd’s. Rubinho olhou com o canto do olho e me indagou: _ Você vai fazer todas as disciplinas? _ Sim, vou _ respondi, afinal eu estava ali para estudar. E por falar nisso, a conclusão era bastante óbvia – Melhor esquecer essa ideia de formar uma banda... Um senhor grisalho e impecavelmente trajado, com terno e gravata, entrou na sala e cumprimentou a todos. Comecei a temer
  • 26. 26 que aquele fosse a vestimenta padrão do curso, pois notei que mais alguns calouros ao lado também usavam gravata. Se isso fosse uma regra eu teria problemas, pois não tinha dinheiro para investir numa beca daquelas. Por fim, para meu alívio, após dar uma olhada geral em 360 graus, constatei que apenas o professor e uma meia-dúzia de calouros, incluindo meu novo amigo, apresentavam-se tão formais. O traje mais comum entre a maioria dos presentes era mesmo calça jeans, camiseta e tênis. Ufa, pensei eu ajeitando os óculos. O professor acionou um projetor no quadro negro e nossa grade curricular surgiu na lousa. Seu nome era Rômulo Veiga, professor e doutor em Criminalística. Ele daria a disciplina de Criminologia I, mas antes bateria um papo com os calouros recém-chegados. Durante mais de uma hora, o professor falou sobre o profissional formado em Direito, e todas as possibilidades que se abririam em sua carreira como advogado, seja em escritórios individuais ou em grupos nas mais diversas áreas de especialização, ou ainda, atuando como perito criminal e civil, escrivão, em assessorias jurídicas de empresas, ou mesmo seguindo carreira através de concursos para o Ministério Público, Magistratura, procuradorias estatais, delegado de polícia e magistério superior, entre outras opções. O curso visaria compreender os conflitos da sociedade de classe em que vivemos, bem como analisar o lugar do direito, seus limites e possibilidades. Sua função básica seria formar profissionais que, da perspectiva do direito, refletissem e interagissem com os conflitos nas mais variadas áreas da vida social. Paralelamente às atividades docentes clássicas, ao longo do curso, os estudantes participariam de uma série de atividades de pesquisa e de extensão, dentre as quais se destacaria o SAJU - Serviço de Assistência Jurídica Universitária, um dos mais antigos do País, assim como de congressos, seminários e outras formas de divulgação do conhecimento científico. Confesso que aquilo tudo que o professor acabava de apresentar era como uma injeção de ânimo em meu cérebro. Eu estava ali para aprender e aprenderia tudo que me fosse ensinado.
  • 27. 27 Não conhecia ainda os demais professores, mas já arriscava a prever que o Doutor Rômulo Veiga seria o meu favorito. Ao término da exposição, todos se levantaram para um rápido intervalo. _ Está afim de um café? _ perguntou Rubinho. _ Claro, vamos. A lancheria estava disputada e acabamos ficando mais para trás, aguardando nossa vez de sermos atendidos. _ Você deve estar com calor com essa roupa _ comentei, não escondendo a curiosidade. Ele riu e concordou. _ Pior é que está mais quente do que eu pensava... _ Precisa mesmo usar terno e gravata? Rubinho afrouxou um pouco o nó da gravata e esclareceu a questão. _ É que eu trabalho no escritório do meu pai todas as tardes. Então, depois da aula, tenho que ir direto para lá... E “lá”, só se trabalha de terno. _ Ah, ‘tá. A fila andou um pouco e demos um passo para frente. _ Teu pai é advogado? _ perguntei. _ Sim, criminalista... Juarez Bastos Neto. _ Ah, legal. _ E o teu pai? Faz o quê? Sem qualquer receio de falar a verdade, respondi: _ Meu pai é mestre de obras. Trabalha em uma construtora no interior. _ Humm _ respondeu ele com cara de quem não sabia bem o que um mestre fazia numa obra. Sempre tive orgulho do meu coroa, que deu duro a vida toda nos canteiros de obras por onde passou. Desde quando eu era pequeno, vejo ele chegar em casa, todos os dias, sujo, suado, mas feliz, porque tinha um emprego que permitia sustentar a família, ter uma casa própria e dar estudo para os filhos. Meu irmão mais velho não aproveitou muito a chance dele e apenas terminou o segundo grau. Já eu, aproveitaria todas as oportunidades que a vida, e os meus pais, colocassem diante de mim.
  • 28. 28 Chegou a nossa vez na fila e o atendente do bar perguntou o que queríamos. Rubinho me olhou e disse: _ Cara, acho que vou pedir um refrigerante... está muito quente para tomarmos café. Eu concordei plenamente. _ Bá, verdade... _ Uma coca, por favor... com limão e gelo _ pediu Rubinho. _ Para mim um suco de laranja sem açúcar. O moço fez sinal de que não tinha laranjas e sugeriu que eu escolhesse outra fruta. _ Temos mamão e manga... _ Então faz um suco de mamão com manga... e muito gelo. Rubinho me olhou com uma cara do tipo “vai mesmo beber isso???”, mas não disse nada. Quando o suco chegou no balcão, pegamos nossas bebidas e sentamos em uma mesa onde haviam duas cadeiras vagas. Rapidamente desenvolvemos uma boa afinidade, ao descobrirmos pontos em comum em nossas manias, interesses de lazer, foco profissional e gosto musical. _ Cara, eu gosto muito de Beatles e outras bandas de rock inglês _ Revelou Rubinho. _ Eu também gosto, pois cresci com meus pais escutando Beatles, Rolling Stones, e outros nomes que eu já nem me lembro mais... isso tocava o dia todo no três-em-um lá de casa... uma vez minha mãe e uma amiga dela chegaram na minha casa e me pegaram dançando em meio ao som do primeiro disco dos Beatles, enquanto eu imitava o George Harrison com sua guitarra... Nós dois rimos e achamos divertido imaginar eu dançando beat music (o Rock Inglês dos anos 60) ao som de Twist And Shout. _ Não me diga que você usava jaqueta de couro e colocava gel no cabelo...? _ Porque? _ questionei ironicamente apontando para sua cabeça _ por um acaso você tem alguma coisa contra o uso do gel?
  • 29. 29 _ Cara, o gel é um item de sobrevivência para quem presa um visual elegante... acho que tu deveria pensar seriamente em usar também... Caí na risada com aquela. _ Mas que conversa de maluco... Mas no fim reconheci. _ Acho que isso não combinaria muito comigo, mas se eu pudesse mudar algo em mim eu gostaria de ter um cabelo diferente, algo no estilo James Dean... ah, e um pouco mais de corpo para usar uma jaqueta de couro tipo Elvis, sacou...? Rubinho riu da gíria “sacou” que saiu da minha boca quase sem querer. _ Isso é que não combina contigo _ disse ele. Verdade... Lembrei do Maluco... O John Lennon do Bonfa. Terminamos nossas bebidas e voltamos para a sala. O segundo período seria de História do Direito e eu estava ansioso por saber mais sobre a minha futura profissão. O professor de História do Direito era Bressan Neves, um catedrático renomado no meio acadêmico e ganhador de várias honrarias. Ele gastou uma hora e meia discorrendo sobre os primórdios da matéria, defendendo a tese de que o ser humano é um ser essencialmente histórico, e, nesse contexto, o direito pode representar o modo como uma sociedade se organiza para manter a ordem social. Assim, a História do Direito era o ramo da história social que se ocupava da análise, da crítica e da desmistificação dos institutos, normas, pensamentos e saberes jurídicos do passado. Na segunda parte da aula nosso professor reuniu os alunos de dois em dois e propôs um trabalho em aula, onde teríamos que fazer um paralelo entre a prática do Direito na sua origem e os atuais anos 80. Eu e Rubinho nos debruçamos sobre o tema e cada um contribuiu ao máximo com argumentos, dados, fatos e estatísticas. Nossas opiniões até que não divergiam muito e ao final do período estava mais do que claro que formávamos uma ótima dupla. Percebi apenas que Rubinho não tinha muita paciência para deixar nosso trabalho bem apresentável. Até
  • 30. 30 porque, a letra dele era terrível. Um hieróglifo, digno de um médico. Eu então passei todo o texto à limpo e reforcei minha mania de organização. Bagunça e relaxamento era algo que me incomodava profundamente. Isso me lembrava que eu ainda precisava arrumar minhas roupas, atiradas no guarda-roupas. Seria um desafio e tanto. Na saída do Prédio do Direito, um grupo de estudantes entregava panfletos sobre a nova constituição brasileira que estava sendo amplamente debatida em todo o país. A previsão era de que houvesse uma Assembleia Nacional Constituinte em setembro, um movimento político que mudaria profundamente o Brasil pós-ditadura militar. Independentemente das controvérsias de cunho político, a nova Constituição Federal asseguraria diversas garantias constitucionais, com o objetivo de dar maior efetividade aos direitos fundamentais, permitindo assim a participação do Poder Judiciário sempre que houvesse ameaça ou lesão a direitos. Para demonstrar a mudança que estava havendo no sistema governamental brasileiro, que saía de um regime autoritário recentemente, a constituição de 1988 qualificaria como crimes inafiançáveis a tortura e as ações armadas contra o estado democrático e a ordem constitucional, criando assim dispositivos constitucionais que bloqueariam golpes de qualquer natureza. Mas a maior mudança a que todos aclamavam era a garantia de eleições diretas para os cargos de Presidente da República, Governador do Estado e do Distrito Federal, Prefeito, Deputado Federal, Estadual e Distrital, Senador e Vereador. Com isso o direito maior de um cidadão que vive em uma democracia representativa estaria conquistado. Peguei meu panfleto e Rubinho fez o mesmo. Um cabeludo de barba por fazer abriu os braços e veio em nossa direção. _ E aí meu chapa _ gritou ele sorridente para o meu colega. Rubinho deixou transparecer um lado mais descontraído e cumprimentou: _ E aí Jorginho... tudo na boa? _ Tudo na paz, bicho... Rubinho me apontou com a cabeça e anunciou: _ Esse é o Vini, meu colega...
  • 31. 31 _ E aí, Vini _ me saudou o cabeludo. _ E aí _ respondi. Esse, aliás, era um cumprimento que eu sempre achei curioso, pois apesar de curto, “e aí” dava margem para a outra pessoa começar a falar sem parar, já que para mim soava como “e aí... como andam as coisas?” ou “e aí... como você tem passado?”. Eu mesmo não tinha muita paciência para escutar os outros reclamando da vida e por isso, sempre que eu cumprimentava alguém com “e aí” eu logo mudava de assunto e fazia outra pergunta bem específica. Instantaneamente emendei: _ De onde saiu toda essa gente? O cabeludo segurou um crachá, que eu nem havia notado, e salientou: _ Somos do Grêmio Estudantil e estamos organizando ações em vários pontos da cidade para esclarecimento e conscientização sobre a Constituição Brasileira. _ Ah, legal. Ele então se virou para Rubinho e fez um convite: _ Sábado vai ter show de uns camaradas meus no Bar Ocidente. Está afim de ir? Eu tenho uns ingressos cortesia. _ Hum, não sei... não ando muito afim de sair... quem vai tocar? _ O nome da banda é Os Cascavelletes... os caras são meus amigos e estão estourados na rádio. Me inseri na conversa e tratei de confirmar aquela informação. _ Essa banda é de Rock, né? _ Sim, os caras são muito loucos... fazem um baita som _ confirmou o cabeludo _ Vamos lá, Rubinho... a Bel, a Cris e Gabi vão também. _ Vou pensar no assunto _ Respondeu ele antes de apontar novamente para mim _ Meu colega aqui pode ir? Ele é de fora e não conhece nada ainda... vai gostar do Ocidente. Jorginho não viu problema algum naquele pedido. _ Claro, velho, eu tenho várias cortesias... ‘tá na mão.
  • 32. 32 Ele me estendeu um ingresso e eu pensei “Legal... se a Ana não fosse tão insuportável e não tivesse um namorado tão babaca, eu pediria um para ela também”. Nos despedimos e cada um foi para o seu lado. Uau, que dia. Acho que minha adaptação em Porto Alegre será mesmo divertida. Na volta para casa, tudo ia bem enquanto eu caminhava tranquilo pela Osvaldo Aranha, mas, nas proximidades do Cinema Baltimore, algo de estranho começou a acontecer dentro de mim e senti minha barriga se remexendo como se houvesse um alien lá dentro. Reduzi as passadas e respirei fundo duas vezes, imagiando que isso ajudaria, mas subitamente uma cólica intestinal cravou uma agulha imaginária nas minhas entranhas e eu cheguei a me curvar para frente. Minha Nossa... o que é isso??? Aumentei o ritmo da caminhada até onde deu e tentei pensar em outra coisa. Impossível. Só podia ter sido algo que eu comi, como... o cachorro quente de ontem... o sanduíche de mortadela de hoje cedo... ou o suco de mamão com manga há algumas horas atrás... ...putz, o suco!!! Droga!!! Quando dobrei finalmente na Fernandes Vieira, precisei aliviar um pouco da imensa pressão interna que eu sentia e deixei “escapar” apenas um pouco daquele gás todo que provavelmente me faria flutuar a qualquer momento. Eu sabia que seria uma manobra arriscada, mas precisava tentar, antes que “tudo” viesse à baixo, literalmente. Parei de caminhar e olhei para os lados, me certificando de que não haveriam testemunhas, caso algo desse errado. Após alguns segundos de suspense, suando frio e bastante trêmulo, procedi com a ação que... infelizmente, não foi bem- sucedida. Merda!!! Não pode ser... Deixando de lado qualquer cautela e a pouca dignidade que me restava, sai correndo como um louco até entrar em meu prédio e subir ao apartamento 401. Abri a porta e passei pela sala
  • 33. 33 como um raio. Ana estava sentada no sofá, lendo um livro. Assim que eu passei ela disse “oi” e eu apenas respondi com a cabeça, sumindo para dentro do banheiro. Passados os minutos de extrema angústia, eu havia expulsado de mim mais do que eu poderia crer. Após duas puxadas de descarga eu me livrei de toda a roupa e entrei no chuveiro. Ahhh, isso era revigorante... Que sufoco, meu Deus. Depois do susto, juntei minhas coisas no banheiro, abri a porta e fui até a área de serviço lavar minha roupa, mas, para minha total incredulidade, escutei Ana aos berros fazendo um escândalo lá na sala, para onde eu corri de volta. Ao chegar, o quadro com que me deparei era Ana em cima do sofá, descontrolada, e minha cueca caída bem no meio da sala, com a prova do crime virado para cima. _ Tira isso daqui _ gritava ela apontando para a coisa como se fosse um gambá ou algo na mesma proporção. _ Que nojo _ ela repetia _ que nojo... que nojo... Sabe, isso não deveria acontecer com um sujeito como eu, pois isso acabou com meu dia, que até então estava perfeito. Depois de juntar minha roupa íntima avariada e lavá-la no tanque, tratei de juntar meus cacos e me trancar no quarto, de onde eu não sairia por um ou dois anos. Se eu tivesse uma lista de Grandes Feitos Negativos, com toda certeza, essa teria sido a TOP 10.
  • 34. 34 CAPÍTULO 4 No dia seguinte, cheguei na sala cabisbaixo, com receio de olhar para quem quer que fosse. Rubinho acenou para mim de longe e apontou um lugar para eu sentar. Assim que eu me atirei na cadeira ele perguntou: _ Cara, o que houve? Tu ‘tá com uma cara horrível... Eu então contei toda a minha saga do dia anterior e ele teve um acesso de riso que chamou a atenção das outras pessoas na volta, que logo começaram a perguntar qual era a graça. _ Qual é, meu?!?! _ disse eu incomodado. _ Bá, me desculpa, cara... não foi por mal... Mas essa história dava até uma cena de comédia... _ É... _ Resmunguei brabo _ muito engraçado... O professor entrou na sala e, graças a Deus, a aula começou. Passamos a primeira metade da manhã envolvidos com Introdução às Ciências Sociais e a segunda metade com Introdução à Ciência do Direito I. Apesar dos temas serem pesados e com muita informação, a manhã passou rápida. O sinal tocou e fomos liberados para deixarmos a sala. _ Vai almoçar por onde _ perguntei. _ Sei lá, na esquina da Osvaldo talvez? Eu balancei a cabeça e ponderei: _ Pois é, preciso achar uma opção barata. Rubinho: _ Cara, tem o R.U... E eu:
  • 35. 35 _ E o que é isso? Rubinho: _ Restaurante Universitário... ouvi falar que é barato lá... é apenas para estudantes da UFRGS. Então eu: _ Acho que eu vou nesse R.U., pois tenho que economizar o pouco dinheiro que eu tenho. Para ter certeza de que não esbanjaria em algo desnecessário, eu havia guardado em meu quarto boa parte do dinheiro que minha mãe tinha me dado para começar aquela nova fase na Capital. O Restaurante Universitário, ou R.U., como era conhecido, era uma opção bem mais em conta para os estudantes da Universidade e Rubinho concordou que seria sim uma boa alternativa. _ Tem razão, Vini, poupar é importante... além disso, dizem que a comida lá é muito boa. _ Ótimo, porque estou faminto... E ele (debochando): _ Também, depois de ontem... Eu o olhei com reprovação e ele segurou o riso. O R.U. estava cheio, mas não lotado. O buffet superou minhas expectativas e minha fome só aumentou, o que era ótimo, pois eu precisava muito ganhar algum peso. O cardápio era composto por: chicória, macarrão com cenoura e tempero verde, arroz branco, arroz integral, feijão preto, legumes salteados (batata, cenoura, vagem), bife bovino empanado, laranja, hambúrguer de grão de bico e molho rosê. Nos servimos no “bandejão” e encontramos um lugar na mesa coletiva. Achei o ambiente limpo e muito acolhedor. Depois de algumas garfadas Rubinho fez sua avaliação. _ Cara, não era exagero, hein? Essa comida é muito boa... _ Também achei... _ respondi concordando _ que bom... tenho que racionar meus gastos, pois não sei como vou me virar sem dinheiro. Rubinho pensou um momento e me especulou:
  • 36. 36 _ Tu ‘tá trabalhando em algum lugar? _ Ainda não... cheguei domingo em Porto Alegre e não conheço ninguém... mas vou precisar fazer alguma coisa, pois meus pais não tem muito dinheiro, sabe? Ele assentiu com a cabeça e corroborou: _ É eu sei como é... Sabe? Não me pareceu que ele tivesse qualquer restrição financeira, a julgar pela aparência e pelo pai, advogado criminalista, que, apesar de eu nunca ter ouvido falar, deveria ser alguém importante. Mas compreendi que ele apenas quis ser gentil. Rubinho levantou as sobrancelhas pretas e fez uma cara de quem teve uma grande ideia. _ Olha só... lembrei que alguns dias atrás ouvi meu pai dizendo que precisava de alguém para organizar a papelada toda... por um acaso tu toparia trabalhar como paralegal no escritório dele? É uma espécia de auxiliar, sabe? _ Sim! Claro! Eu já trabalhei como paralegal... Isso seria ótimo _ respondi eufórico diante de tanta sorte. Chegar na capital gaúcha e dois dias depois já conseguir um emprego, não era para qualquer um. Mas eu ainda tinha que ser contratado. Melhor não contar com o ovo no... da galinha. Eu então quis saber mais sobre aquela oportunidade incrível. _ Mas como eu faço? Vou lá para fazer uma entrevista? _ Sim, primeiro almoçamos e depois vamos juntos até lá. Eu te apresento para o meu pai e vocês conversam. _ Por mim está fechado. _ Então ‘tá tri. O escritório do Dr. Juarez Bastos Neto ficava no Centro Histórico de Porto Alegre, não muito distante da Universidade. O hall de entrada era amplo, com paredes revestidas em granito verde imperial. Já tinha visto meu pai assentando esse tipo de pedra em um consultório médico e, segundo ele, custava uma fortuna.
  • 37. 37 A recepcionista abriu um sorriso ao nos ver passando pela porta. _ Oi, Rubinho, como foi a faculdade hoje? _ Tudo certo _ ele respondeu _ Esse aqui é o Vinícius, um colega meu... Vini, essa é a Dóris _ ele baixou o volume da voz e disse meio que cochichando perto do meu ouvido _ é ela quem sabe tudo aqui dentro... Dóris riu e deu a mão para me cumprimentar: _ Olá, muito prazer. Eu: _ Igualmente. Entramos até a sala do Dr. Bastos, que ficava no fundo do escritório. Era um ambiente cercado por estantes de livros e obras de arte. Tudo muito clássico, como manda o figurino para um escritório de advocacia. O Dr. Juarez Bastos era um senhor gordo, pele rosada e praticamente sem cabelos, não fosse pelos poucos fios colados com gel no couro cabeludo. Hum, então é daí que o Rubinho tirou a ideia do gel... _ Oi filho. _ Oi pai. Parei ao lado do Rubinho e aguardei ele me apresentar. _ Esse é o Vinícius, um colega da aula... ele precisa trabalhar e ficou interessado naquela vaga de paralegal, sabe... para arrumar a papelada do nosso arquivo. _ Muito prazer, Sr. Bastos _ disse eu estendendo a mão. _ O prazer é meu, Vinícius _ disse ele mostrando as poltronas de couro _ vamos nos sentar. Antes ele levantou o fone do gancho e pediu: _ Traga um café para nós, por gentileza. Nos sentamos nas poltronas e Rubinho tratou de vender meu peixe. _ O Vini é bem esperto, pai... acho que ele vai ajeitar tudo como o senhor quer... pois pelo que eu vi, ele é bem maniático com organização. _ Ótimo... isso é bom. Preciso de alguém assim. Eu fiquei radiante, mas mantive a compostura.
  • 38. 38 _ Obrigado, Sr. Bastos, farei o possível para realizar um bom trabalho. Ao invés de dizer algo como “fechado” ou “está contratado” o pai de Rubinho se adiantou: _ Não sei se você concordará com a remuneração, pois não posso pagar muito. Eu queria dizer que qualquer que fosse esse “não muito” já estaria bom para mim. Afinal, para quem não tem nada, um pouco que seja já é alguma coisa. Mas me limitei em dizer: _ Meus custos não são muitos, senhor... acho que posso me adaptar. Eu queria ainda perguntar, mas afinal, quanto é o salário? Mas achei que seria uma grosseria. Esperei ele então dizer quanto pretendia pagar. _ Bem... eu posso pagar mil cruzados por mês. _ Ok, mil cruzados está bom para mim. _ Além disso, você pode tirar aqui toda xerox que precisar para estudar. Isso seria algo bem importante, pois todos me diziam que se gastava muito em xerox durante o semestre, uma prática muito comum onde os professores deixavam parte das aulas nestes locais para que os alunos fizessem suas cópias. Eu novamente confirmei que aceitava a proposta. _ Por mim, está acertado, Sr. Bastos. _ Muito bem... vamos começar? Lembrei do que o Rubinho havia dito sobre o traje padrão do escritório, onde todos usavam terno e gravatas, e achei prudente confirmar: _ Sr. Bastos, eu terei que usar terno e gravata? _ Se isso for possível para você, sim, eu gostaria, mas agora de início ainda não será necessário. Rubinho corroborou: _ É pai, ele não tem esse tipo de roupa e verei se acho algo que não me sirva mais para emprestar a ele. _ Faça isso, filho... de qualquer forma, seu colega passará o tempo todo dentro do arquivo, organizando os processos. Isso
  • 39. 39 levará um bom tempo e lá dentro não é tão necessário o traje formal. Todos concordamos e decidimos que eu já iniciaria. Rubinho me levou até o arquivo que era uma sala de uns vinte metros quadrados com estantes em todos os lados. Havia uma mesa de reuniões no centro da sala e uma TV, ligada a um videocassete. Havia também um toca fitas e um projetor. Ao lado da mesa, uma dúzia de caixas de papelão se acumulavam, cheias de documentos, fotos, fitas K7 e notas fiscais de despesas. Cada caixa era um processo diferente. _ Meu pai quer que você liste tudo que há nessas caixas e passe para estas planilhas _ disse Rubinho me entregando uma prancheta com um bloco de formulários. _ Ok, vamos nessa _ falei pegando a primeira caixa. A tarde passou voando e minhas tarefas me encheram de orgulho. A cada documento encontrado eu registrava na planilha a data, o remetente, a origem, o assunto e o conteúdo tratado. Eu tinha que ler cada página na íntegra e avaliar do que se tratava, para poder fazer a devida anotação. Haviam nessa primeira caixa algumas fitas K7 onde estavam gravados depoimentos que deveriam ser escutados e transcritos para uma segunda folha. Num segundo momento eu teria que datilografar tudo e arquivar nas pastas de cada cliente. Pelo que eu havia feito naquela primeira tarde eu calculei que levaria uns dois meses, ou mais, para organizar todas as doze caixas. Nada como um trabalho honesto e bem feito para recuperar a moral de um homem. Cheguei no apartamento depois das 19:00hs e percebi que Ana estava no banho. Ainda bem. Foi a minha chance de entrar no meu quarto sem ser visto, para só sair depois que ela estivesse fora de circulação, pois eu ainda não tinha coragem de encará-la. Mais tarde, quando ela bateu a porta do seu quarto, peguei minhas coisas e tomei um banho rápido e silencioso. Já tinha devorado um sanduíche antes de chegar em casa e, portanto, não tinha fome. Graças a Deus, foi um dia sem vê-la cara à cara.
  • 40. 40 Senti uma súbita vontade de escrever algo em meu caderno e sem muita dificuldade eu praticamente psicografei algumas novas palavras: Se o acaso, por um acaso Fosse um lapso do meu tempo Que servisse de argumento Para um dia te encontrar Eu veria que é verdade Uma possibilidade De tentar um dia desses Pela rua em ti esbarrar Nossos olhos cruzariam Nossa pele grudaria Nossas mentes saberiam Que era hora de parar Mas verdade seja dita Nessa febre tão maldita Nunca atraso e nem descuido E tudo segue em seu lugar......sem graça. Na manhã seguinte acordei mais cedo e sai de casa antes das seis e meia, horário em que o despertador da Ana tocava. O calor havia dado uma trégua e a temperatura estava agradável. Desci do prédio e segui pela Fernandes Vieira até a esquina, onde dobrei a direita. A Osvaldo já pulsava em meio aos carros, ônibus, lotações, táxis e pessoas por todos os lados. Uma verdadeira artéria aorta da cidade. Andei pela calçada calmamente, já que estava um pouco adiantado para a aula, e ao passar em frente a Lancheria do Parque, um aroma irresistível de café preto e pão assado me fez praticamente levitar até uma mesa. Eu ainda não tinha feito mercado e como não havia nada o que comer em casa, decidi entrar e não pular o café-da-manhã. Além disso, eu estava empregado desde ontem e merecia me dar aquele luxo.
  • 41. 41 Um rapaz uniformizado veio até a mesa e eu fiz meu pedido. _ Um café com leite, sem açúcar, e um sanduíche com queijo e mortadela, por favor. Num primeiro reconhecimento do local notei que algumas pessoas olhavam para a TV, onde passava um programa matinal de notícias. Já outros liam seus jornais e alguns poucos conversavam entre si. Peguei o jornal que estava sobre a mesa e comecei a folhear despretensiosamente, sem nenhum interesse específico, pois isso nem era um costume meu. Folheei até chegar nas páginas policiais, onde uma notícia no canto superior esquerdo me chamou a atenção. A manchete dizia: “Jovem Preso Por Tráfico Alega Inocência, Juiz Nega Habeas Corpus e o Mantém Preso Após Seis Meses”. Na verdade, não fora exatamente a manchete que havia me chamado a atenção, e sim as duas fotos que vinham logo abaixo: uma do jovem preso por tráfico de drogas e outra do seu advogado de defesa, o Sr. Juarez Bastos Neto. O Pai do Rubinho. A reportagem falava sobre o dia em que o jovem, identificado por Diego Dantas, havia sido preso com uma grande quantidade de entorpecentes. Explicava também que se tratava de um estudante da PUC, e que a apreensão se deu em meio a uma blitz na Cidade Baixa. Ele estava preso no Presídio Central e em breve seria julgado. A foto do rapaz mostrava um jovem de vinte e poucos anos, abatido, magro e assustado. Seus olhos eram tristes e clamavam por ajuda. Eu não tinha nenhuma experiência ou técnica para detectar mentiras ou mentirosos, mas definitivamente aquela não era uma foto de alguém com culpa no cartório. Senti muita pena do rapaz, pois era inevitável imaginar que, se de fato tivesse havido um equívoco, poderia ter acontecido com qualquer um, até mesmo comigo. Meu pedido chegou e eu tomei meu café da manhã sem conseguir parar de pensar no horror de se estar em um presídio. Acho que eu não suportaria um só dia lá dentro. Mas essa é a vida. Nossas escolhas e decisões nos fazem seguir por caminhos
  • 42. 42 onde muitas vezes não temos como voltar. Meus pais sempre me alertaram sobre os riscos de se cometer erros inconsequentes, principalmente quando se é novo, diante de uma fase em que ainda não somos bons em ler nas entrelinhas e prever o que de pior pode acontecer. Ao avistar o relógio na parede da lancheria, dei um pulo da cadeira. Acabei perdendo a noção do tempo, enquanto divagava sobre o que teria levado um jovem como aquele para o mundo do crime, o que não fazia sentido algum. Peguei a conta e segui apressado para a aula de Economia Política. Por sorte, cheguei em cima da hora, instantes antes do professor entrar. A sala estava cheia e quase não haviam cadeiras disponíveis. Não vi o Rubinho e fiquei em dúvida se ele havia se matriculado naquela disciplina. Procurei algum canto para me acomodar, mas só restavam lugares ao lado de outras pessoas já sentadas. Não que isso fosse um problema para mim, pois meu senso de sociabilidade era perfeitamente normal. Porém, se eu pudesse escolher entre sentar sozinho (sem ninguém por perto) e sentar ao lado de alguém, eu sempre escolheria a primeira opção. Não me pergunte porque, pois não sei explicar. Preguiça, talvez, de ter que puxar assunto ou responder a alguma pergunta idiota. Ou ter que ser simpático e fingir que estou interessado no papo de sei lá quem. Coisa minha, sabe? O fato é que eu avistei dois lugares vagos bem à minha frente. Um era ao lado de uma garota de cabelos vermelhos longos, pele branca e brinquinho no nariz e outro ao lado de um alemão gorducho com bochechas rosadas. Não que eu me importasse de ser gentil com um possível novo amigo de descendência germânica acima do peso, mas decidi arriscar uma eventual interação com a Rita Lee dos tempos de Mutantes. Ah, essa era outra artista que minha mãe gostava muito, pois tinha todos os seus discos. Sentei discretamente e coloquei minha mochila sobre a mesa. Tirei de dentro um caderno, uma caneta e larguei a mochila nos meus pés. Me pus em posição de começar a escrever qualquer coisa, com a caneta na mão e olhos no professor, que
  • 43. 43 ainda lidava com seus pertences acadêmicos sobre sua mesa. Ele parecia procurar alguma dentro da pasta, porém, sem sucesso. _ Deve ter esquecido os óculos _ disse uma voz rouca e feminina ao meu lado. Bem, esse é um momento em que, dependendo do que você diz, se pode permitir que o outro construa uma primeira impressão a seu respeito. Não sei porque tive esse raciocínio relâmpago antes de responder, mas a verdade é que pensei cuidadosamente antes de abrir a boca. _ Ou talvez ele tenha esquecido o resumo da aula com os tópicos a serem abordados... Foi uma resposta inteligente, eu tinha que admitir, pois fazer uma piadinha nessas horas era um tanto perigoso e o tiro quase sempre sai pela culatra. Ela então se virou e rebateu: _ Ele está franzindo o rosto, veja... não está enxergando direito. Eu ajeitei meus óculos para ajustar o foco e disse: _ É, isso é verdade... mas também poderia ser porque ele esteja estranhando o resumo da aula não estar na pasta... tipo, “tenho certeza que coloquei aqui...”. O professor piscou e levou os dedos até os olhos, ainda remexendo a pasta. _ Viu? Ele esfregou os olhos... que devem estar ardendo, sem os óculos... Eu ri e segui na minha linha de constatação. _ Ainda acho que ele esqueceu o resumo... _ pensei por um segundo e continuei _ ...pois... preparou a aula até tarde da noite e agora está meio sonolento, o que causa uma certa ardência nos olhos. Ela sorriu para mim e vi duas covinhas em suas bochechas, além de uma constelação de pequenas sardas avermelhadas. Os dentes eram incrivelmente brancos e seus lábios incrivelmente vermelhos. Uma franjinha na testa, dava àquele cabelo de fogo um toque de adolescência marota que lhe colocaria em vantagem sempre que precisasse negociar algo com alguém. Pois ela era uma graça. Principalmente com o toque final que um brinquinho
  • 44. 44 de pedra brilhante dava ao seu nariz pequeno e perfeito. De fato, ela era linda. Finalmente ela disse: _ Você é bom nisso... mas acho que eu ganhei. O professor levantou a cabeça e se dirigiu à turma: _ Pessoal, bom dia. Infelizmente esqueci meus óculos na sala dos professores... vou lá buscar e volto em um minuto... enquanto isso, porque não se apresentam ao colega ao lado e digam de onde vocês são e o que esperam do curso de Direito? E assim nosso professor saiu com urgência atrás dos famigerados óculos. Aproveitando a deixa, olhei para ela e disse: _ Oi, eu sou o Vinícius, mas pode me chamar de Vini. E ela: _ Oi, eu sou a Rita, e pode me chamar de Rita mesmo. _ Rita? _ fiz cara de surpresa _ Sério? _ Porque? Algum problema com meu nome? _ Não, capaz... _ dei um risinho _ é que assim que eu te vi, te achei parecida com a Rita Lee. _ Ah, claro _ Respondeu ela parecendo não se importar com a comparação. Eu então comentei: _ Minha mãe é muito fã da Rita Lee. E ela: _ Eu também sou... Dá pra notar? Cuidado com a resposta. _ Bom, de certa forma, lembra bastante. Ela riu de novo e eu perguntei: _ A tua mãe te deu esse nome por causa da Rita Lee? _ Não, ela não se liga muito em música. Acho que nem sabe quem é a Rita Lee. Ela me deu esse nome por que fez uma promessa a Santa Rita de Cássia, quando estava grávida de mim... era uma gravidez de risco, mas.. enfim, aqui estou eu. _ Hum _ respondi _ que bom. Que bom? Mas que resposta foi essa? Ela vai achar que estou dando em cima dela... Imbecil. _ Digo... que bom que deu tudo certo e você nasceu, né?
  • 45. 45 _ Sim, verdade... Rimos. Ufa! Fiz uma pausa para não parecer uma matraca que não parava de falar. Depois especulei: _ Você é de onde? _ De São Borja _ ela respondeu. _ Nossa, isso é longe, né? _ Pra caramba... Uma nova pausa. _ E você _ perguntou ela _ É de onde? _ De Vera Cruz _ respondi. _ E onde fica Vera Cruz? _ Fica ao lado de Santa Cruz do Sul... Terra da Oktoberfest, sabe? _ Ah, aquela festa alemã? _ Sim, isso mesmo... Ela mudou de posição na cadeira e perguntou: _ E como é Vera Cruz? Eu me inclinei um pouco mais na direção dela e então senti o perfume maravilhoso dos seus cabelos. Enchi novamente meus pulmões com aquele aroma inebriante e respondi: _ Pequena... com uma igreja no centro, uma praça, prefeitura e poucas casas... O de sempre... E como é São Borja? _ perguntei respirando fundo outra vez. _ Um pouco maior, acho... também com uma igreja no centro, praça, prefeitura, casas e muitas fazendas. Eu: _ Legal... E ela: _ É, legal... Silêncio entre nós e burburinho na sala. O professor reapareceu, agora de óculos, e ela então riu e baixou a cabeça, antes de falar: _ Tenho que confessar uma coisa. _ O quê? _ eu quis saber. _ Não joguei limpo com você...
  • 46. 46 _ Como assim? _ Eu sabia que o professor usava óculos... já vi ele procurando os óculos na pasta outras vezes e não achando... _ Mas que... _ eu ri _ ...espertinha... Ela empinou o nariz para cima e falou: _ Vou aceitar isso como um elogio. Balancei a cabeça afirmativamente. _ Achei que você fosse caloura... _ Não, é meu segundo ano... Mas eu ainda não tinha me matriculado em Economia Política. E o professor Norberto também dá a disciplina de Política e Teoria do Estado I, que eu já fiz no semestre passado. _ Ah, legal... Eu tenho essa cadeira na sexta. Estou fazendo todas do primeiro semestre. Ela arregalou os olhos azuis profundos e disse: _ Bem puxado, hein? Pelo visto sua namorada vai ficar em segundo plano... Bem, esse era outro daqueles momentos em que a resposta pode dizer muito sobre você. Novamente em fração de segundos eu refleti à cerca dos prós e contras da resposta que eu daria e então foi: _ Ela entende... sabe que eu preciso estudar... pois quero garantir meu futuro, sacou? Putz, “sacou”??? Eu disse mesmo isso??? “SACOU”??? Eu estava dando praticamente um show e eu tinha que estragar tudo com “sacou”... Por fim, ela gentilmente sorriu e respondeu: _ Claro, saquei sim... legal isso entre vocês... Eu concordei, suando um pouco mais do que o normal, por ter mentido descaradamente. O professor Norberto Binz iniciou a aula e nos envolveu nas profundezas da Economia Política. Durante duas horas, fomos levados ao submundo da Noção e Objeto da Economia Política, Economia Positiva e Economia Normativa, Metodologia, Microeconomia e Macroeconomia, O Pensamento Econômico em Perspectiva Histórica, e etc. Tudo à título de introdução, pois
  • 47. 47 ainda nos aprofundaríamos mais em cada um daqueles temas ao longo do semestre. No final da aula eu estava zonzo de tanta informação, mas com a alma leve depois de mais de duas horas sentindo o perfume daqueles ruivos cabelos lisos e sedosos. Saímos juntos da sala e descemos até o bar, onde ela deu um tchauzinho e foi embora. Ainda era cedo para afirmar isso, mas eu poderia apostar que contaria os dias para a próxima aula de Economia Política.
  • 48. 48 CAPÍTULO 5 Cheguei no escritório do Sr. Juarez Bastos pontualmente às 13:30hs e fui direto para o meu novo posto de trabalho. Segui na caixa de papelão que eu havia iniciado no dia anterior. O caso era de um acidente de trânsito, em que o motorista havia cruzado o sinal vermelho e provocado uma tragédia; um homem havia morrido. A cliente do Sr. Bastos era a viúva, que buscava uma indenização e a responsabilização do tal motorista pelo acidente. Eu já havia listado os laudos periciais e depoimentos de testemunhas e agora precisava relacionar as fotos. Uma por uma, identifiquei e listei cada uma das terríveis fotos que mostravam os carros completamente destruídos e o corpo do homem ainda dentro do veículo. Definitivamente, alta velocidade é um risco de vida constante. Além de não ser muito ligado em carros e nunca gostei de alta-velocidade. Minhas mãos suam e eu fico sem raciocinar direito. Prefiro andar a pé mesmo. Finalizado aquela primeira caixa resolvi olhar as demais que haviam para serem destrinchadas. Em cima de cada caixa havia o nome do cliente, o número do protocolo, a data de abertura do mesmo e uma classificação pelo tipo de processo. Uma a uma eu fui conferindo, para ver o que eu teria pela frente. Numa rápida avaliação observei que haviam três caixas que tratavam de assassinato, duas de acidente de trânsito, duas sobre roubo, três sobre estelionato e uma sobre tráfico de drogas.
  • 49. 49 Nesta última, que apontava tratar de tráfico, o nome do cliente era Diego Dantas. Imediatamente lembrei da reportagem que eu havia lido no jornal. Abri a caixa e de cara vi uma foto do jovem Diego, com os mesmos olhos tristes e assustados. Levei a caixa para a mesa e derrubei tudo que havia dentro. Depois separei tudo em pilhas. Documentos, fotos, fitas k7 e uma fita de vídeo. Liguei a TV e o vídeo cassete e enfiei a fita para dentro. Depois do play uma imagem em preto-e-branco surgiu na tela, onde um jovem falava com alguém que não aparecia na filmagem. Reconheci o som da voz do Dr. Bastos, advogado de defesa do rapaz. Levantei o volume um pouco mais e ouvi atentamente: _ Diego, por favor, nos relate o que aconteceu na noite de 19 de setembro de 1987? Ele pigarreou, esfregou o rosto e respondeu: _ Eu estava saindo da casa da minha namorada, que ficava a poucas quadras dali... quando fui parado por um policial... que me pediu os documentos e minha carteira de motorista e eu entreguei tudo a ele... então ele pediu para eu abrir o porta- malas... desci do carro fui até a parte de trás... e quando eu abri havia uma mala de couro marrom lá dentro que eu nunca tinha visto na minha vida... aquilo não era meu... _ E o que havia nessa mala? _ perguntou o advogado. _ Sei lá... drogas... uma arma, parece... não sei direito... eu nunca cheguei perto de qualquer tipo de drogas e muito menos de armas... não sei nada sobre isso... alguém colocou aquilo no meu carro... Ele baixou a cabeça e o Dr. Bastos indagou: _ O carro era seu ou do seus pais? _ Era meu _ ele respondeu erguendo a cabeça _ eu trabalho desde os dezessete anos e guardei dinheiro por quatro anos para comprar meu primeiro carro... meus pais pagam apenas minha faculdade... no mais, eu me sustento. _ Me fale sobre sua namorada. _ Ela não tem nada a ver com isso _ rebateu o jovem. O Dr. Bastos insistiu:
  • 50. 50 _ Se quiser que eu lhe ajude, terá que responder a todas as perguntas que eu fizer, está bem? Eu fui chamado para lhe defender e preciso saber tudo sobre você, seus amigos e sua namorada, entendeu? Relutante, ele balançou a cabeça concordando. O advogado repetiu: _ Me fale sobre... _ sons de papeis sendo manuseados _ ...a Jéssica, sua namorada. _ O que quer saber? _ retrucou o jovem cada vez mais abalado. _ Tudo _ disse o Dr. Bastos _ costumes, amigos, lugares que frequentava, se era calma ou ciumenta, se morava com os pais, se tinha um ex-namorad... absolutamente, tudo... _ Ela mora sozinha, num apartamento na Travessa do Carmo... e os pais dela moram na zona sul... ela também tem um irmão, chamado Leonel... ela está fazendo cursinho pré- vestibular e quer cursar medicina... tem muitas amigas e é uma pessoa alegre... nós nunca brigamos... _ Algum ex-namorado? _ Sim, tem... mas é coisa antiga... o que isso tem a ver com o que aconteceu? _ É o que eu pretendo descobrir _ respondeu o advogado. _ Eu não consigo entender... porque alguém faria isso comigo... A voz dele ficou embargada e o Dr. Bastos esperou ele se recompor. Depois sua voz retornou no fundo. _ Olha, Diego, eu acredito em você... acredito mesmo... acho que alguém tentou incriminá-lo... e conseguiu... preciso que você puxe pela memória e tente lembrar se nos últimos meses ou anos teve alguma desavença com alguém... algum desentendimento... algo assim... Se lembrar de alguma coisa, me avise, ok? Ele fez que sim com a cabeça sem dizer mais uma palavra e a filmagem foi interrompida. Nossa... que coisa... ele é inocente e está no Presídio Central a seis meses...
  • 51. 51 A porta foi aberta de repente e Rubinho apareceu. Eu ainda estava atônito com aquele vídeo e precisei chacoalhar a cabeça para organizar meus pensamentos. _ E aí, tchê _ disse ele empolgado. _ E aí _ disse eu sem qualquer emoção. _ Ué? O que houve? _ Nada... só esse caso aqui do Diego Dantas... cara, eu estou chocado... o cara é inocente e está preso... Rubinho sentou na minha frente e cruzou as pernas, antes de palestrar sobre a vida dentro daquele escritório: _ Vini, deixa eu te dizer uma coisa... muito cuidado para não se deixar envolver com os casos e as histórias que as pessoas contam... todo mundo é inocente, até que se prove o contrário... se você se abalar com cada cliente, com cada relato, com cada tragédia alheia, você vai pirar aqui dentro... _ Eu sei, eu sei... _ parei e olhei para o teto uns cinco segundos _ sabe, acho que é por isso que eu decidi fazer direito... para fazer justiça... e para impedir injustiças como essa. Rubinho levantou a mão e rebateu: _ Calma lá, meu amigo, ainda não temos provas da inocência do Diego... meu pai está trabalhando nisso, mas ele tem que cooperar e anos ajudar a acharmos uma linha de raciocínio... Eu fiquei em silêncio e Rubinho completou: _ Além disso, não seria muita loucura supor que esse cara esteja apenas se fazendo de coitadinho, depois de ter caído numa blitz e seu negócio, altamente lucrativo, ter ido por água abaixo. _ Mas você viu esse vídeo? _ disse eu levantando da cadeira. _ É claro que eu vi. _ E mesmo assim você acha que ele pode estar mentindo? _ Exatamente... como qualquer um que tenha sido pego em um delito e tenta argumentar que não fez nada... que é inocente. _ Não sei, Rubinho... ele realmente parece dizer à verdade... _ Então mais cedo ou mais tarde a verdade vai aparecer... Eu não respondi. Ele colocou a mão no meu ombro e falou:
  • 52. 52 _ Cara, relaxa... você está a recém na segunda caixa... haverá momentos assim outras vezes... pode acreditar... com o tempo, você fica mais cético com as pessoas... isso vai mudar... _ Rubinho deu um tapinha nas minhas costas e convidou __ vamos tomar um café? _ Se eu bebesse, acho que agora seria um daqueles momentos em que eu preferiria um trago... _ Ainda é cedo pra isso, mas mais tarde poderemos resolver essa questão. _ Não é necessário, pois eu não bebo. _ Meu amigo, acho que isso também vai mudar... Cheguei em casa pouco antes das dezenove horas, carregado de sacolas, depois de passar em um mercado e comprar pão, frios, leite, iogurte, macarrão instantâneo, produtos de higiene e limpeza. Abri a porta com dificuldade e andei até a cozinha onde larguei tudo sobre a mesa. Ana não estava e isso para mim era mais um dia a ser contabilizado positivamente. Guardei meus mantimentos, arrumei o que estava fora do lugar, varri o chão do apartamento e tirei o pó dos móveis da sala. Lembrei das minhas roupas jogadas naquele cômodo sem portas e decidi fazer uma nova tentativa de organizá-las. Mas antes coloquei uma água para ferver para fazer um delicioso macarrão instantâneo, sabor galinha caipira. De volta ao meu quarto, juntei todas minhas roupas e as separei por tipo e cor. Defini uma dobradura simples que se resumia em colocar a peça com as costas para cima, dobrar as mangas por sobre o corpo e depois fazer uma divisão imaginária no centro dobrando novamente uma metade sobre a outra. Fiz a primeira vez e achei que poderia melhorar na segunda. E assim minha evolução foi contínua até que havia dobrado toda a minha roupa. Com cuidado, as coloquei de volta no guarda-roupa separadas por tipo e por cor, produzindo um visual bem interessante ao meu quarto depois de tudo pronto. Então um aroma de galinha caipira me fez lembrar, droga, meu macarrão!!!
  • 53. 53 Um minuto depois eu estava jantando um delicioso macarrão empapado e gosmento, sabor galinha caipira. Como eu estava com muita fome, não me importei com o visual e nem com a consistência. Paciência. Amanhã eu acerto. Após o “jantar”, aproveitei e lavei toda a louça acumulada que havia na cozinha. Deixei as panelas brilhando e depois sequei tudo e guardei. Nossa, nem parecia a mesma cozinha de quando eu cheguei. Entrei no banho sem pressa e sem me preocupar com a presença da minha conterrânea rabugenta. Era bom ter o apartamento somente para mim. Imagina se eu pudesse morar sozinho aqui? Seria um alívio depois do que havia acontecido, mas eu sabia que o dinheiro que Ana pagava ajudava minha mãe a me manter em Porto Alegre e eu ainda não poderia me dar ao luxo de dispensar tal auxílio. Sai do banho, vesti uma camiseta e um calção e me atirei na minha cama macia e fiasquenta. Nhec, nhec, nhec... Senti falta de ler um pouco e arrematei Paulo Coelho sobre a cômoda, lembrando que no escritório do Dr. Bastos haviam milhares de livros técnicos interessantes para se explorar. Amanhã eu procuraria alguma coisa para renovar meu arsenal de leitura noturna, um ritual que eu procurava manter quase sempre na hora de dormir. Acho que peguei no sono antes de largar os óculos sobre o bidê e terminar de fazer os planos do dia seguinte. Um perfume adocicado me encheu as narinas e eu senti algo cobrindo meu corpo até o peito. Era madrugada, pois estava escuro lá fora. O cansaço ainda me dominava e eu mal consegui abrir meus olhos. Pude apenas reconhecer uma silhueta feminina andando pelo meu quarto. A temperatura havia caído repentinamente e eu já começava a sentir frio, antes de ser tapado. Então um toque suave em meu rosto me fez despertar de sobressalto e antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo eu vi Ana a um palmo de distância. Eu não disse uma só palavra e apenas à puxei para os meus braços e a beijei com virilidade.
  • 54. 54 Uma batida na porta tentou interromper aquele momento, mas eu não recuei, e nem tão pouco ela, que respirava ofegante de olhos fechados. A batida na porta tornou a importunar e eu tive vontade de gritar para a pessoa do outro lado dar o fora, pois nada me faria parar. O estrondo da porta sendo arrombada foi seguido pelo vento frio e pingos de chuva que voaram pelo quarto, antes de Fernando afastar Ana com um empurrão e se voltar contra mim. Meu instinto foi de protegê-la e eu quis reagir e pular no pescoço do troglodita, mas ele agora apontava uma arma para a minha cabeça e ria com olhos macabros. _ Eu vou te matar, seu desgraçado... _ O quê? Mas porquê? O que eu fiz? _ protestei com as mãos para cima. _ E tu ainda pergunta? Vou acabar com essa tua cara-de- pau... _ Não, por favor... eu... olha, vamos conversar... _ Não tem conversa _ anunciou ele _ Adeus, otário! _ Nããããoooo _ gritou uma voz feminina, que quando eu olhei, não era mais a Ana, e sim a Rita, com as lágrimas correndo pelo seu rosto delicado. Soltei um grito e dei um pulo na cama onde eu ainda dormia. Fora os rangidos descontrolados das molas do meu colchão, o quarto estava silencioso e infelizmente, ou felizmente, não havia ninguém ali. Meu Deus, que pesadelo... Apesar das tentativas, não consegui mais pregar o olho pelo resto da noite e às 06:00hs desisti de tentar. Coloquei meus óculos, abri a janela apenas uma fresta, para sentir a temperatura e notei que estava friozinho. Engraçado, mas no meu sonho, ou pesadelo, sei lá, estava frio. A cabeça da gente é mesmo um mistério. Vesti a mesma calça jeans da semana toda, uma camisa social de manga comprida e um sapato de cadarço que meu pai me deu no último natal. Fui para a cozinha sem fazer barulho, pois a porta do quarto da Ana estava fechada, diferentemente de
  • 55. 55 quando eu fui deitar. Concluí que ela estivesse em casa. Quando entrei na cozinha vi um bilhete na porta da geladeira preso por um imã. Dizia: “Valeu pela geral no AP e pela louça, Estranho. Bom dia. Ass. Ana”. Dobrei o bilhete e guardei no bolso. Depois fiz um sanduíche e esquentei um leite para o meu café da manhã. Talvez, com o tempo, eu e ela começássemos a nos dar melhor, mas ainda era muito cedo para contar com isso. Melhor deixar para lá. Antes das sete horas eu já estava a caminho da faculdade e enquanto caminhava desejei fervorosamente que o tempo voasse até a próxima quarta, pois já sentia saudades de uma certa ruivinha. Eu fui o primeiro a entrar na sala e sentei na primeira fila. Seria bom garantir o melhor lugar possível, já que aquela manhã seria destinada à Introdução à Filosofia do Direito e à Introdução às Ciências Sociais, ou seja, teoria e mais teoria. Abri o caderno na última folha e comecei a rabiscar umas palavras que me vieram a mente. Depois fiz algumas figuras geométricas e então um desenho de uma paisagem. A imagem de Rita sorrindo não saía da minha cabeça e senti uma vontade indescritível de vê-la naquele momento. Decidi então desenhá-la. Meu devaneio artístico seguiu por vários minutos e quanto mais eu rabiscava mais Rita aparecia em meu caderno. Eu sempre tive um grande talento para o desenho, mas nunca fiz disso algo a ser valorizado ou apresentado aos outros. Mais uma das minhas piras de achar que eu não era bom o bastante para nada. Enfim, o movimento das pessoas chegando na sala foi aumentando, mas nada me tirava da minha concentração. Rita estava prestes a se fazer presente bem à minha frente, com contornos azuis da caneta esferográfica. Finalmente, voilà. Ali estava ela. _ Uau, quem é a garota? _ Perguntou Rubinho sentando ao meu lado. Eu disfarcei o susto e cobri o desenho, tentando não valorizar o resultado final da minha arte.
  • 56. 56 _ Nada... ninguém... só um desenho mesmo. _ Pô, meu, mas tu desenha bem pacas, hein? _ Mais ou menos... Rubinho deu uma risada e me chamou a atenção. _ Cara, tu tem que parar de se menosprezar... e valorizar aquilo que tu faz bem... isso aí é trabalho de artista, meu velho. _ Ok, ok _ concordei meio sem jeito. O professor entrou no horário e após as apresentações iniciou o conteúdo. Apesar de estar sentado na primeira fila, minha mente fugia vez que outra daquela sala e transitava pelo mundo lá fora. As coisas estavam acontecendo muito rápido e eu mal processava tanta mudança. Num rápido exercício mental concluí que em menos de uma semana eu já havia ficado chapado, arrumado um emprego, conhecido uma garota linda, feito alguns novos amigos e faxinado meu apartamento. Sem contar o fato de que no sábado eu iria no show dos Cascavelletes, no Bar Ocidente. Mas o que mais me incomodava era o caso do jovem Diego Dantas. Volta e meia eu lembrava daquele vídeo e me perguntava se alguém aqui fora estava mesmo fazendo algo por ele. Rubinho me cutucou e cochichou: _ Cara, volta pra terra... o professor já te olhou duas vezes... _ Sério? _ perguntei eu desconcertado. O professor andou lentamente na nossa direção e eu fiquei paralisado com a possibilidade de ele me fazer alguma pergunta sobre o que estava falando, mas para meu alívio, ele desviou o olhar para o fundo da classe e continuou falando. Rubinho perguntou com o canto da boca: _ O que tu tem? Dei de ombros e respondi: _ Nada... _ Qual é cara, me fala _ insistiu Rubinho. Esperei o professor dar alguns passos para o outro lado e disse: _ Não consigo parar de pensar no caso do Diego Dantas... Rubinho balançou a cabeça e me repreendeu:
  • 57. 57 _ Ainda essa conversa? Cara, desencana... meu pai está cuidando da defesa dele... como eu disse... se ele for inocente, vai sair dessa, mas se não for, vai ter que pagar. _ Mas tu já parou para pensar se o que o Dr. Bastos está fazendo é mesmo o bastante? E se ele precisar de mais do que isso? E se o caso precisar de mais envolvimento? De mais dedicação? _ Mas do que tu ‘tá falando? _ Eu estou falando de ir atrás de evidências que provem a inocência dele... de ajudar nas investigações... de ajudar o teu pai a livrar o cara da cadeia... Rubinho pareceu não gostar da minha intromissão e me advertiu: _ Vini, pode parar por aí... não confunda as coisas... eu te levei para o escritório do meu pai para você trabalhar como auxiliar e arrumar o arquivo... apenas isso... você não é advogado, ainda.... e não é investigador, nem tão pouco policial... portanto, não pira e esquece esse assunto, ouviu bem? Eu queria discordar e dizer que não deixaria aquele assunto de lado, ainda que ele estivesse me ordenando, mas concluí que seria melhor encerrar ali aquela discussão. _ Tudo bem, Rubinho... acho que você está certo... vamos esquecer isso. _ Até que enfim _ comemorou ele. Porém, internamente, eu sabia que não iria parar e muito menos desistir de descobrir o que realmente havia acontecido e como aquele jovem estudante havia parado atrás das grades do Presídio Central.
  • 58. 58 CAPÍTULO 6 A secretária do Dr. Bastos estava atualizando a agenda, quando eu parei ao lado de sua mesa e falei: _ Bom dia Dóris, tudo bem com você? _ Bom dia, meu jovem, tudo ótimo... _ Sabe, eu... estou começando a montar um caso imaginário para um trabalho da faculdade _ menti _ e gostaria de saber mais sobre alguns procedimentos... você me ajudaria? _ Mas é claro, meu querido _ anunciou ela pegando papel e caneta e me entregando _ O que você quer saber? _ Ok, bom... _ pensei um instante e continuei _ digamos que o meu cliente esteja preso, mas ainda não foi julgado... eu estou reunindo as provas para montar sua defesa, mas sinto que preciso de mais elementos para a minha tese... por onde você acha que eu deveria começar? _ Bom, vejamos... você já foi até seu cliente preso e ouviu dele tudo que precisava saber? _ A princípio sim, mas... e se eu ainda tiver dúvidas? _ Vá lá vê-lo novamente... Fiz uma anotação. _ Mas eu posso ir sempre que eu precisar? _ perguntei. _ Falar com seu cliente? É claro que pode. Fiz uma careta de dúvida e indaguei: _ Mesmo se ele estiver no... Presídio, por exemplo?
  • 59. 59 _ É claro, basta você ligar antes para agendar uma visita com antecedência, informando o nome do apenado com quem deseja falar e se identificar como seu advogado ou auxiliar do mesmo. _ Mas para essa visita, eu preciso ser seu procurador? _ Não necessariamente _ disse ela. Outra anotação. _ E quanto ao inquérito policial... como eu esclareço questões que não ficaram claras na investigação? _ Simples, vá até o delegado que cuidou do caso e faça as perguntas que achar pertinente. Tudo anotado. Já saberia por onde começar. _ Obrigado Dóris _ disse eu lhe entregando sua caneta. Fui para a minha sala, o depósito de arquivos, e fiquei ponderando, quais deveriam ser meus próximos passos. A tarde passou em um piscar de olhos e eu me mantive afundado nos documentos à cerca do caso de Diego Dantas. A apreensão havia se dado durante uma blitz, na Cidade Baixa, depois de uma denúncia de que traficantes circulavam naquela região. A cópia do inquérito policial relatava que o que mais havia surpreendido os policiais era a quantidade e variedade dos entorpecentes, algo que até mesmo o experiente delegado Ramón Teles descrevia como inusitado. A tal mala de couro marrom, surrada (havia uma foto anexa ao relatório), com um zíper reforçado e um cadeado, que fora encontrada no carro, trazia 10 kg de maconha, 5 kg de cocaína, uma grande quantidade de LSD em cápsulas e tabletes de papel, além de um saco plástico cheio de pequenas pedras de um novo tipo de droga, comum nos EUA e ainda desconhecida por aqui, que diziam ser tão letal quanto a heroína. Tratava-se do Crack. O caso se agravava ainda mais diante do fato dos policiais terem encontrado, além das drogas, duas pistolas e munição. Ele alegava ser inocente e que jamais havia chegado perto de qualquer tipo de drogas ou de armas. Ele não tinha antecedentes criminais e era um jovem estudante de arquitetura da PUC. A família era do interior e todos estavam muito abalados. O jovem estava no presídio central desde o dia do flagrante, seis meses antes.
  • 60. 60 Rubinho não apareceu naquela tarde em meu reduto e depois do expediente fui direto para casa. Minha cabeça estava latejando e eu já não tinha certeza se deveria me envolver naquilo tudo ou não. Acho que fiz o caminho de volta completamente em transe, pois só me dei por conta de que não lembrava do caminho que eu acabava de fazer quando me aproximei do meu prédio. Resolvi dar um pulo no mercado, que ficava à uma quadra dali, para comprar alguma coisa diferente para o jantar. E quem sabe, uma cerveja? Não sabia o que estava acontecendo comigo, pois nos últimos dias comecei a sentir uma necessidade indescritível de me embebedar, ainda que eu jamais tivesse feito tal coisa. Estranho. Sim, eu sou mesmo estranho. Não é à toa que Ana não me chamava de outra coisa. Mas enfim, entrei no mercado e fui para o corredor dos balcões de congelados. A novidade do momento eram pratos pré-prontos congelados. Hum... acho que uma carne de frango ou um filé de peixe seria uma boa pedida, pensei. Enquanto eu decidia afinal, o que eu iria jantar, notei a presença de um senhor que me pareceu familiar, aparentemente com o mesmo dilema que eu – escolher o que levar. Olhei novamente para o distinto ancião e então o reconheci. Era o meu professor de Criminologia I, Dr. Rômulo Veiga. Me aproximei dele e falei: _ Boa noite, professor... dúvidas em relação ao jantar? _ Ô, meu rapaz, sim estou, de certa forma, sem saber o que comprar... _ Eu estou com esse problema também, mas acho que vou arriscar esse filé de peixe _ disse eu apontando o produto no balcão. _ É uma boa opção _ respondeu ele sorridente. Imediatamente meu cérebro trabalhou frente às suas prioridades e não pude me conter. _ Professor, posso lhe fazer uma pergunta técnica? _ Sim, claro, meu jovem... pode perguntar.