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Retalhos vivos
      Chamava-se Imelda. Conhecemo-nos nos tempos do liceu e
ficámos amigas. Mocidade irreverente. louca da vida, pujante da
saúde e alegria. Dias maravilhosos em que éramos alegres como
pássaros e camaradas como cerejas! Mas... O tempo foge e não
perdoa. Crescemos. Separámo-nos e a meio da jornada seguimos
rumos diferentes. Ontem, encontrei-a e falámos. Ah! Como está
diferente esta Imelda, que eu vi, dessa outra Imelda dos bancos do
liceu, um tanto fútil e enfeitada, menina rica, vestida sempre de
sedas e veludo! Uma Imelda que zombava dos mestres, cábula e
travessa, sonhando com o curso fácil que durasse até à eternidade!
Uma Imelda que dizia poemas em voz alta e sabia de cor todos os
nomes das estrelas de cinema...
        Nos meus dezasseis anos inexperientes, perguntava a mim
mesma, nessa época, se a vida se chamava Imelda. E sofria um tanto
por não poder chamar-me assim... Pois, se tudo que era belo, rico,
bom, alegre e inteligente, tinha o nome de Imelda! Nós, as outras,
enfim... Só Imelda existia!
         Mas, ontem, encontrei outra Imelda. Conversámos. E
depois das recordações, choveram as novidades. A Imelda,
professora primária!... A coisa chocou-me. Ela notou e não pôde
guardar:
        - Eu sei que tu estás... eu sei no que tu estás a pensar... Estás
admirada e... Fiz bem... Olha, a certa altura, a Faculdade desiludiu-
me. Desisti. Estive um ano em casa. Assim, sem nada... Era demais.
Alguém me sugeriu o Magistério. Mas fui de alma vazia. Fui para
fazer alguma coisa, para não ficar ao canto da sala a pontear
peúgas...e, hoje, tu não supões a riqueza que encontrei no curso que
escolhi! Transformei-me. Um ano, aqui, outro ali, mais outro...
Vive-se.
        - Ó Imelda, e os teus sonhos de menina rica?
        - Olha, sinceramente esqueci-me de tudo. Somos tão tontas
aos dezasseis anos! Só quando me puseram diante de uma classe de
38 alunos, numa terra de pescadores, quase miserável, de crianças
de olhos rasgados a pedirem mais pão do que sabedoria, é que me
encontrei com a Vida...
        A Imelda falou, contou, desabafou. Estivemos horas
seguidas no meio do passeio, indiferentes à vida da cidade que
saltitava ao redor de nós.. Na despedida, Imelda tornou-me:
-... E olha: gostava de escrever lá para o teu jornal alguma
coisa de bom, como tu me pedes, mas não sei... Desculpa (e sorria
mexendo e remexendo na carteira espaçosa...).
         Depois...
         - Só se for isto...
        Num ápice, tirou da carteira uma pasta de papel feita livro e
abriu à sorte. Na capa li; «Diário de uma Professora de Aldeia» - e
reconheci na frase a mesma letra escangalhada da Imelda do liceu.
Perante o meu espanto, sacou do livro um punhado de folhas
numeradas e disse:
        - Leva a lê.
        - Mas...
        - Não têm segredos. São retalhos vivos da minha escola.
Podes publicá-los no teu jornal. Talvez sirvam... (Ah, que, nesta
generosidade espontânea, era bem a mesma Imelda do liceu!...)
         Despedimo-nos. Refugiei-me no café mais próximo e
comecei a ler:
         «8 de Maio de 1966.
        A Fátima é de todas as minhas alunas da 2ª classe a mais
irrequieta, a mais ligeira, a mais «andorinha». Andorinha... Isso
mesmo. Não é que o termo seja humano, mas a Fátima é um
pedacito da primavera irreverente dentro das quatro paredes
enfeitadas de bonecos desta sala de aula um tanto velha.
        Pequena, quase magrita, olhos de amêndoa, nariz arrebitado
e toco à mulher, no alto da cabeça, a Fátima, se eu a deixasse, seria
capaz de se atrever a intitular-se professora da minha classe... É
bonita e arrapazada.
         Quando a mãe no ano passado a veio matricular trouxe-me
este recado: «-Olhe, minha Senhora, a Senhora não faça cerimónia.
Dê-lhe bem e sem dó, que Deus não me deu uma rapariga para eu
criar; deu-me um bom mafarrico... O irmão dela ao pé dela é um
maricas. A Senhora desculpe a palavra, mas é o que eu acho. Tem
demo esta rapariga».
         Ora... eu fiz cerimónia e não lhe dei. Não lhe dei, porque
adoro a Fátima (a Fátima em si, não, porque tenho para adorar 42
Fátimas mais ou menos e a todas por igual...), sim, adoro na Fátima
essa irreverência, essa à vontade, essa ternura tonta e espontânea
que lhe sai a todo o momento, mesmo a seguir a um castigo
merecido e esperado.
Tem coisas interessantes a Fátima: zero erros... contas
certas... simpatia transbordante... humorismo natural perante
desastres inesperados. E a Fátima, a Fátima imita-me: Há dias vim
dar com ela em cima do estrado de ponteiro na mão gesticulando...
Não vou dizer o que ela dizia. (Em que triste figura é capaz de pôr a
falta de paciência a um mestre escola!) Entrei, fiz vista grossa e
deixei-a. A Fátima mirou-me de lado, com aqueles olhos saltitantes
e foi sentar-se de mansinho no lugar, perante o meu riso sufocado a
tempo e o espanto geral das colegas. É que elas sabem tão bem
como eu o que significa erguer-se do lugar e fazer teatro na ausência
momentânea do mestre.
         A Fátima tem um senão: a caligrafia. Que letra, Deus meu!
Mas, compreende-se... Quem se mexe e remexe na carteira como ela
não pode escrever bem. Um dia envergonhei-a. O caderno era um
rodilho. Ao outro dia, fez-me a cópia na letra mais limpa da escola.
Louvei-a. A Fátima, quando a louvo, fica parecidinha com um
peruzinho novo, inchado e rosadinho. Olha-me por cima do caderno
e beija-me com os olhos. No fim da aula, vem ter comigo:
         - A Senhora de qual gosta mais, da cópia de ontem ou da de
hoje?
         - Da de hoje, sem dúvida. Se fizeres sempre assim, não
haverá problemas entre nós. Anda cá, dá-me um beijo e vai brincar.
         No recreio, a Fátima, logo a seguir, brincava só e
cantarolava atirando uma tangerina ao ar... (e canta bem!)
         - Fui ao jardim das flores, giró flé, flé, flá...
         E que foste lá fazer, giró, flé, flé, flá...
         Fui buscar esta laranjinha, giró flé, flé, flá...
         Pra quem é a laranjinha, giró flé, flé, flá...
         É prá minha professora, giró flé, flé, flá...
         Ela vai agradecer... ... ... ... ...
         As outras, de longe, sorriram à minha aproximação. A
Fátima não me viu e voltou de novo à cantilena. Retirei-me para a
sala. E não sei porquê, tinha os olhos húmidos...
         É que a Fátima é isto. Ternura e irreverência. Depois, em
cima da secretária, estava a tangerina que havia dançado nas suas
mãos pequeninas e sujas de tinta.
         Quando as minhas alunas «palavreiam» na sala, muitas
vezes, pergunto pausadamente: «- Ó meninas, a como é a
sardinha?» Elas já entendem.
         Há dias aconteceu isso. Uma levantou-se e disse:
- Minha Senhora, a Fátima escreveu um pecado na cópia!...
         A Fátima teve de trazer o caderno à revista. Ao cimo, à
margem, ela havia escrito com letras garrafais: «A três à coroa».
Olho-a no rosto. Vou castigá-la? Não. Toda a sala está suspensa,
silenciosa, a mendigar com os olhos o perdão para a mais azougada
das minhas alunas. E eu? Perdoo, os olhos húmidos e a garganta
seca. Estas pequenas vencem-me. Sei que vou levá-las comigo, vida
fora, numa recordação perene, cheia de saudade e fome de um
regresso. E vai ser belo recordar estas coisas...      Hei de vê-las
mulheres, de fartas ancas, saias compridas, lenços atados no alto da
cabeça, rodeadas de filhos e canseiras um tanto rudes, duras como
seixos, corajosas como soldados, vergadas ao peso dos cestos a
caminho das feiras, lutando na terra por uma vida melhor. Mas,
para mim, serão sempre estas meninas pequenas de olhos abertos e
pasmados, a comer-me as palavras, de mãos sujas de tinta, de batas
brancas (às vezes, bem sujinhas já à quarta-feira...) e pés enormes
(por causa das chancas). Estas meninas que me recebem aos montes
junto à porta da escola, regateando o primeiro cumprimento, um
tanto doces e tímidas, a sorrir, a mirar-me por debaixo dos cílios, a
ver se levo vestida a mesma saia do dia anterior... Estas meninas
que me vêm colocar em cima da secretária um pedaço de pão de
milho de côdea grossa, untado de sardinha frita, um rebuçado sem
papel, um santinho duma Missa Nova, uma recordação de S.
Torcato, uma maçã, uma noz, uma laranja, com gestos simples, sem
uma palavra, apenas com um sorriso de amor. Estas meninas que
me escrevem cartas e vêm pô-las, durante o recreio, em cima da
secretária.
        «Minha saudosa professora:
         Louvado seija nosso senhor Jesus Cristo. Estimo que esta
carta a vá incontrar de saúde. Eu gosto muito da nossa senhora. Ela
gosta muito de nós. Ela tem coisas tão lindas que assim só ela e
nosso senhor Jesus cristo. Ela insina bem e vou-le ouferecê-le uma
prenda».
         As cartas, às vezes, não trazem nome. Mas eu reconheço as
autoras pela caligrafia e pelo «santinho» que vem a acompanhar. É
que são quase os «santinhos» que marcam a lição do dia. E vão ao
quadro corrigir os erros que a carta traz...
         Estas meninas que me dão tostões...
         -A Senhora faz favor vende-me um caderno.
         - Tu és a... O dinheiro?
- O troco fica para a Senhora....
         - Para mim, não. Fica para a Caixa.
         - Eu antes queria que ficasse prà Senhora...
         Estas meninas, algumas delas tão andrajosas e pobres, mas
tão ricas de ternura e pureza... Estas meninas que aprendem bem,
apenas na medida em que eu ensinar; que me impacientam; que me
fazem zangar; que me ocupam a alma o ano todo, são para mim, são
minhas. Ninguém me pode roubar esse direito. Elas levam
marcadas na alma os traços que vou desenhando na vida de todos os
dias. Estas meninas calmas, que, no fim de uma visita de inspeção
escolar, me dizem com ar galhofeiro, quase em coro: «-E nós
julgávamos que era o pai da Senhora!...» E rimos todas. Elas e eu.
Eu e elas.
        Estas meninas que choram, que riem, que vivem, ora
serenas, ora alegres, ora pacientes, ora rebeldes...
        Abençoado o dia de hoje!
        Não sei se amanhã...»
        Quando acabei, o café esfriava em cima da mesa. O criado
de pé, olhava-me um tanto confuso, pelas duas lágrimas que me
haviam caído dos olhos e formavam duas rosetas escuras no decote
do meu vestido vermelho. Quase envergonhada bebi o café já frio,
paguei e saí. Na esquina da rua próxima passou por mim um rancho
de crianças de bata azul. Rapazes. Barulhentos, questionadores,
alegres, de olhos brilhantes e faces trigueiras. Pararam na montra
da livraria e começaram a ler, em surdina, os títulos das obras
expostas. Parei também e, não sei como, vieram-me à lembrança
uns versos lindos não sei onde e escritos por não sei quem:
        «Também de asas precisa a criancinha
        E quem lhas souber dar bendito seja!»
        Pensei na Imelda... e nas pequenas dela. Mãe e filhas. Sorri e
aconcheguei no bolso aquelas folhas de papel, retalhos vivos do
«Diário duma professora».
                                                           Maria Helena Amaro
                                                         In, «Maria Mãe», 1973.
                   Data da conclusão da edição no blogue – 03 de março de 2012
                                       http://mariahelenaamaro.blogspot.com/

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Retalhos vivos de uma professora em uma aldeia

  • 1. Retalhos vivos Chamava-se Imelda. Conhecemo-nos nos tempos do liceu e ficámos amigas. Mocidade irreverente. louca da vida, pujante da saúde e alegria. Dias maravilhosos em que éramos alegres como pássaros e camaradas como cerejas! Mas... O tempo foge e não perdoa. Crescemos. Separámo-nos e a meio da jornada seguimos rumos diferentes. Ontem, encontrei-a e falámos. Ah! Como está diferente esta Imelda, que eu vi, dessa outra Imelda dos bancos do liceu, um tanto fútil e enfeitada, menina rica, vestida sempre de sedas e veludo! Uma Imelda que zombava dos mestres, cábula e travessa, sonhando com o curso fácil que durasse até à eternidade! Uma Imelda que dizia poemas em voz alta e sabia de cor todos os nomes das estrelas de cinema... Nos meus dezasseis anos inexperientes, perguntava a mim mesma, nessa época, se a vida se chamava Imelda. E sofria um tanto por não poder chamar-me assim... Pois, se tudo que era belo, rico, bom, alegre e inteligente, tinha o nome de Imelda! Nós, as outras, enfim... Só Imelda existia! Mas, ontem, encontrei outra Imelda. Conversámos. E depois das recordações, choveram as novidades. A Imelda, professora primária!... A coisa chocou-me. Ela notou e não pôde guardar: - Eu sei que tu estás... eu sei no que tu estás a pensar... Estás admirada e... Fiz bem... Olha, a certa altura, a Faculdade desiludiu- me. Desisti. Estive um ano em casa. Assim, sem nada... Era demais. Alguém me sugeriu o Magistério. Mas fui de alma vazia. Fui para fazer alguma coisa, para não ficar ao canto da sala a pontear peúgas...e, hoje, tu não supões a riqueza que encontrei no curso que escolhi! Transformei-me. Um ano, aqui, outro ali, mais outro... Vive-se. - Ó Imelda, e os teus sonhos de menina rica? - Olha, sinceramente esqueci-me de tudo. Somos tão tontas aos dezasseis anos! Só quando me puseram diante de uma classe de 38 alunos, numa terra de pescadores, quase miserável, de crianças de olhos rasgados a pedirem mais pão do que sabedoria, é que me encontrei com a Vida... A Imelda falou, contou, desabafou. Estivemos horas seguidas no meio do passeio, indiferentes à vida da cidade que saltitava ao redor de nós.. Na despedida, Imelda tornou-me:
  • 2. -... E olha: gostava de escrever lá para o teu jornal alguma coisa de bom, como tu me pedes, mas não sei... Desculpa (e sorria mexendo e remexendo na carteira espaçosa...). Depois... - Só se for isto... Num ápice, tirou da carteira uma pasta de papel feita livro e abriu à sorte. Na capa li; «Diário de uma Professora de Aldeia» - e reconheci na frase a mesma letra escangalhada da Imelda do liceu. Perante o meu espanto, sacou do livro um punhado de folhas numeradas e disse: - Leva a lê. - Mas... - Não têm segredos. São retalhos vivos da minha escola. Podes publicá-los no teu jornal. Talvez sirvam... (Ah, que, nesta generosidade espontânea, era bem a mesma Imelda do liceu!...) Despedimo-nos. Refugiei-me no café mais próximo e comecei a ler: «8 de Maio de 1966. A Fátima é de todas as minhas alunas da 2ª classe a mais irrequieta, a mais ligeira, a mais «andorinha». Andorinha... Isso mesmo. Não é que o termo seja humano, mas a Fátima é um pedacito da primavera irreverente dentro das quatro paredes enfeitadas de bonecos desta sala de aula um tanto velha. Pequena, quase magrita, olhos de amêndoa, nariz arrebitado e toco à mulher, no alto da cabeça, a Fátima, se eu a deixasse, seria capaz de se atrever a intitular-se professora da minha classe... É bonita e arrapazada. Quando a mãe no ano passado a veio matricular trouxe-me este recado: «-Olhe, minha Senhora, a Senhora não faça cerimónia. Dê-lhe bem e sem dó, que Deus não me deu uma rapariga para eu criar; deu-me um bom mafarrico... O irmão dela ao pé dela é um maricas. A Senhora desculpe a palavra, mas é o que eu acho. Tem demo esta rapariga». Ora... eu fiz cerimónia e não lhe dei. Não lhe dei, porque adoro a Fátima (a Fátima em si, não, porque tenho para adorar 42 Fátimas mais ou menos e a todas por igual...), sim, adoro na Fátima essa irreverência, essa à vontade, essa ternura tonta e espontânea que lhe sai a todo o momento, mesmo a seguir a um castigo merecido e esperado.
  • 3. Tem coisas interessantes a Fátima: zero erros... contas certas... simpatia transbordante... humorismo natural perante desastres inesperados. E a Fátima, a Fátima imita-me: Há dias vim dar com ela em cima do estrado de ponteiro na mão gesticulando... Não vou dizer o que ela dizia. (Em que triste figura é capaz de pôr a falta de paciência a um mestre escola!) Entrei, fiz vista grossa e deixei-a. A Fátima mirou-me de lado, com aqueles olhos saltitantes e foi sentar-se de mansinho no lugar, perante o meu riso sufocado a tempo e o espanto geral das colegas. É que elas sabem tão bem como eu o que significa erguer-se do lugar e fazer teatro na ausência momentânea do mestre. A Fátima tem um senão: a caligrafia. Que letra, Deus meu! Mas, compreende-se... Quem se mexe e remexe na carteira como ela não pode escrever bem. Um dia envergonhei-a. O caderno era um rodilho. Ao outro dia, fez-me a cópia na letra mais limpa da escola. Louvei-a. A Fátima, quando a louvo, fica parecidinha com um peruzinho novo, inchado e rosadinho. Olha-me por cima do caderno e beija-me com os olhos. No fim da aula, vem ter comigo: - A Senhora de qual gosta mais, da cópia de ontem ou da de hoje? - Da de hoje, sem dúvida. Se fizeres sempre assim, não haverá problemas entre nós. Anda cá, dá-me um beijo e vai brincar. No recreio, a Fátima, logo a seguir, brincava só e cantarolava atirando uma tangerina ao ar... (e canta bem!) - Fui ao jardim das flores, giró flé, flé, flá... E que foste lá fazer, giró, flé, flé, flá... Fui buscar esta laranjinha, giró flé, flé, flá... Pra quem é a laranjinha, giró flé, flé, flá... É prá minha professora, giró flé, flé, flá... Ela vai agradecer... ... ... ... ... As outras, de longe, sorriram à minha aproximação. A Fátima não me viu e voltou de novo à cantilena. Retirei-me para a sala. E não sei porquê, tinha os olhos húmidos... É que a Fátima é isto. Ternura e irreverência. Depois, em cima da secretária, estava a tangerina que havia dançado nas suas mãos pequeninas e sujas de tinta. Quando as minhas alunas «palavreiam» na sala, muitas vezes, pergunto pausadamente: «- Ó meninas, a como é a sardinha?» Elas já entendem. Há dias aconteceu isso. Uma levantou-se e disse:
  • 4. - Minha Senhora, a Fátima escreveu um pecado na cópia!... A Fátima teve de trazer o caderno à revista. Ao cimo, à margem, ela havia escrito com letras garrafais: «A três à coroa». Olho-a no rosto. Vou castigá-la? Não. Toda a sala está suspensa, silenciosa, a mendigar com os olhos o perdão para a mais azougada das minhas alunas. E eu? Perdoo, os olhos húmidos e a garganta seca. Estas pequenas vencem-me. Sei que vou levá-las comigo, vida fora, numa recordação perene, cheia de saudade e fome de um regresso. E vai ser belo recordar estas coisas... Hei de vê-las mulheres, de fartas ancas, saias compridas, lenços atados no alto da cabeça, rodeadas de filhos e canseiras um tanto rudes, duras como seixos, corajosas como soldados, vergadas ao peso dos cestos a caminho das feiras, lutando na terra por uma vida melhor. Mas, para mim, serão sempre estas meninas pequenas de olhos abertos e pasmados, a comer-me as palavras, de mãos sujas de tinta, de batas brancas (às vezes, bem sujinhas já à quarta-feira...) e pés enormes (por causa das chancas). Estas meninas que me recebem aos montes junto à porta da escola, regateando o primeiro cumprimento, um tanto doces e tímidas, a sorrir, a mirar-me por debaixo dos cílios, a ver se levo vestida a mesma saia do dia anterior... Estas meninas que me vêm colocar em cima da secretária um pedaço de pão de milho de côdea grossa, untado de sardinha frita, um rebuçado sem papel, um santinho duma Missa Nova, uma recordação de S. Torcato, uma maçã, uma noz, uma laranja, com gestos simples, sem uma palavra, apenas com um sorriso de amor. Estas meninas que me escrevem cartas e vêm pô-las, durante o recreio, em cima da secretária. «Minha saudosa professora: Louvado seija nosso senhor Jesus Cristo. Estimo que esta carta a vá incontrar de saúde. Eu gosto muito da nossa senhora. Ela gosta muito de nós. Ela tem coisas tão lindas que assim só ela e nosso senhor Jesus cristo. Ela insina bem e vou-le ouferecê-le uma prenda». As cartas, às vezes, não trazem nome. Mas eu reconheço as autoras pela caligrafia e pelo «santinho» que vem a acompanhar. É que são quase os «santinhos» que marcam a lição do dia. E vão ao quadro corrigir os erros que a carta traz... Estas meninas que me dão tostões... -A Senhora faz favor vende-me um caderno. - Tu és a... O dinheiro?
  • 5. - O troco fica para a Senhora.... - Para mim, não. Fica para a Caixa. - Eu antes queria que ficasse prà Senhora... Estas meninas, algumas delas tão andrajosas e pobres, mas tão ricas de ternura e pureza... Estas meninas que aprendem bem, apenas na medida em que eu ensinar; que me impacientam; que me fazem zangar; que me ocupam a alma o ano todo, são para mim, são minhas. Ninguém me pode roubar esse direito. Elas levam marcadas na alma os traços que vou desenhando na vida de todos os dias. Estas meninas calmas, que, no fim de uma visita de inspeção escolar, me dizem com ar galhofeiro, quase em coro: «-E nós julgávamos que era o pai da Senhora!...» E rimos todas. Elas e eu. Eu e elas. Estas meninas que choram, que riem, que vivem, ora serenas, ora alegres, ora pacientes, ora rebeldes... Abençoado o dia de hoje! Não sei se amanhã...» Quando acabei, o café esfriava em cima da mesa. O criado de pé, olhava-me um tanto confuso, pelas duas lágrimas que me haviam caído dos olhos e formavam duas rosetas escuras no decote do meu vestido vermelho. Quase envergonhada bebi o café já frio, paguei e saí. Na esquina da rua próxima passou por mim um rancho de crianças de bata azul. Rapazes. Barulhentos, questionadores, alegres, de olhos brilhantes e faces trigueiras. Pararam na montra da livraria e começaram a ler, em surdina, os títulos das obras expostas. Parei também e, não sei como, vieram-me à lembrança uns versos lindos não sei onde e escritos por não sei quem: «Também de asas precisa a criancinha E quem lhas souber dar bendito seja!» Pensei na Imelda... e nas pequenas dela. Mãe e filhas. Sorri e aconcheguei no bolso aquelas folhas de papel, retalhos vivos do «Diário duma professora». Maria Helena Amaro In, «Maria Mãe», 1973. Data da conclusão da edição no blogue – 03 de março de 2012 http://mariahelenaamaro.blogspot.com/