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2006 caregnato, mutti - pesquisa qualitativa

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2006 caregnato, mutti - pesquisa qualitativa

  1. 1. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo - 679 - PESQUISA QUALITATIVA: ANÁLISE DE DISCURSO VERSUS ANÁLISE DE CONTEÚDO1 QUALITATIVE RESEARCH: DISCOURSE ANALYSIS VERSUS CONTENT ANALYSIS INVESTIGACIÓN CUALITATIVA: ANÁLISIS DEL DISCURSO VERSUS ANÁLISIS DEL CONTENIDO Rita Catalina Aquino Caregnato2, Regina Mutti31 Artigo produzido como trabalho de conclusão da disciplina “Práticas de Análise de Discurso na Pesquisa em Educação”, do 1º semestre de 2005, ministrada pela Professora Regina Mutti, do Programa de Pós-Graduação em Educação (FACED) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).2 Enfermeira. Doutoranda em Educação pela UFRGS. Mestre em Enfermagem pela UFRGS. Professora da Graduação e Pós- Graduação em Enfermagem da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA). Professora de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário do Vale do Taquari (Centro Universitário UNIVATES).3 Mestre e Doutora em Letras. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRGS, na disciplina “Práticas de Análise de Discurso na Pesquisa em Educação”. Orientadora deste artigo.PALAVRAS-CHAVE: Enfer- RESUMO: Considerando o crescente interesse nas pesquisas qualitativas na área de Enfermagem, acredita-magem. Pesquisa qualitativa. se ser importante o conhecimento de diferentes formas de análise existentes. Este artigo tem como objetivoAnálise qualitativa. fazer uma reflexão sobre dois tipos de análise utilizada freqüentemente na pesquisa qualitativa, algumas vezes confundidas. Apresenta-se uma fundamentação teórica da Análise de Discurso e da Análise de Conteúdo e se expõe as diferenças entre estas duas formas de análise. A principal diferença é que a Análise de Discurso trabalha com o sentido do discurso e a Análise de Conteúdo com o conteúdo do texto. A opção teórica da Análise de Discurso abordada neste estudo recai sobre a linha francesa, que tem como seu precursor Michel Pêcheux e na Análise de Conteúdo enfoca-se Laurence Bardin.K E Y WO R D S : N u r s i n g . ABSTRACT: Considering the increasing interest in qualitative research in Nursing, we consider itQualitative research. Quali- relevant to know the different approaches to this analysis. This article has the objective to discuss thetative analysis. two kinds of approach often used in qualitative research, which is sometimes confused. A theoretical foundation is presented, in which Discourse Analysis and Content Analysis show the differences between the two forms of analysis. The main difference is that discourse analysis works with the meaning of the discourse, and content analysis works with the content of the text This study’s theoretical option for Content Analysis follows the French approach, which has Pêcheux as its precursor and the content analysis is based on Laurence Bardin.PALABRAS CLAVE: Enfer- RESUMEN: Considerando el creciente interés en las investigaciones cualitativas en el área de la Enfer-mería. Investigación cualita- mería, se cree que es importante el conocimiento de las diferentes formas de análisis que existem. Estetiva. Análisis cualitativo. artículo tiene como objetivo hacer una reflexión sobre los dos tipos de análisis utilizados frecuentemente en la investigación cualitativa, algunas veces confusas. Se presenta un fundamento teórico del Análisis del Discurso y el Análisis del Contenido e se expone las diferencias entre las dos formas de análisis. La principal diferencia es que el Análisis del Discurso trabaja con el sentido del discurso y el Análisis del Contenido con el contenido del texto. La opción teórica del Análisis del Discurso tratada en éste estudio sobrecae em la linea francesa, que tiene como su precursor a Michel Pêcheux y el Análisis del Contenido enfoca a Laurence Bardin.Endereço: Rita Catalina Aquino Caregnato Artigo original: Reflexão teóricaR. Dr. Rodrigues Alves, 273, Ap. 203 Recebido em: 24 de abril de 2006.91.330-240 - Chácara das Pedras, Porto Alegre, RS. Aprovação final: 13 de outubro de 2006.E-mail: carezuca@terra.com.brTexto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 679-84.
  2. 2. - 680 - Caregnato RCA, Mutti RINTRODUÇÃO francesa etc, se pensamos nessa disciplina sendo Atuando como professora universitária na desenvolvida em diferentes regiões do mundo comgraduação da Enfermagem há mais de uma década, suas diferentes tradições de estudos e pesquisase como orientadora de monografias tanto da gra- sobre o discurso”.3:1 É reforçada a idéia de que oduação como na Pós-Graduação, tenho observado conhecimento produz relações de força e de poder;alunos, e até mesmo colegas, utilizando como sinô- por isso, ao se dizer “Escola” de análise de discurso,nimos a Análise de Discurso e a Análise de Conte- francesa ou anglófona, está se atribuindo um poderúdo. Esta freqüente confusão ocorreu até mesmo privilegiando certos lugares.3 Importante lembrarcomigo, quando iniciei minha trajetória acadêmica, que “a ciência se produz em diferentes lugares comexpressando algumas vezes a nomenclatura destas a força e a especificidade de sua tradição”.3:2duas formas de análise como se fossem similares. Por A AD não é uma metodologia, é uma dis-ocasião da minha dissertação tive a oportunidade de ciplina de interpretação fundada pela intersecçãoconhecer, aprofundar e colocar em prática a Análise de epistemologias distintas, pertencentes a áreasde Conteúdo de Bardin, a qual foi por mim utilizada da lingüística, do materialismo histórico e da psi-para interpretar os dados da minha pesquisa.1 Ao canálise.3-4 Essa contribuição ocorreu da seguinteingressar na Faculdade de Educação, para cursar forma: da lingüística deslocou-se a noção de faladoutorado, minha curiosidade científica recaiu na para discurso; do materialismo histórico emergiu aAnálise de Discurso (AD), fazendo com que buscasse teoria da ideologia; e finalmente da psicanálise veiodisciplinas no intuito de conhecer este tipo de análise a noção de inconsciente que a AD trabalha com oe posteriormente utilizá-la na minha tese. de-centramento do sujeito.3 Este artigo tem como objetivo fazer uma refle- O processo de análise discursiva tem a pre-xão sobre a Análise de discurso e a Análise de Conte- tensão de interrogar os sentidos estabelecidos emúdo freqüentemente utilizadas na pesquisa qualitativa diversas formas de produção, que podem ser verbais ee por vezes confundidas. Tenho percebido que a não verbais, bastando que sua materialidade produzapesquisa qualitativa vem conquistando um espaço sentidos para interpretação; podem ser entrecruzadascrescente na área de Enfermagem; conseqüentemente, com séries textuais (orais ou escritas)4 ou imagensacredito ser de extrema relevância ter clareza sobre as (fotografias) ou linguagem corporal (dança).5diferenças entre essas duas formas de análise. Um dos fundadores dos estudos sobre o discurso foi Michel Pêcheux, estabelecendo aAPRESENTANDO A ANÁLISE DE DIS- relação existente no discurso entre língua/sujei- to/história ou língua/ideologia; portanto, quemCURSO (AD) DA LINHA FRANCESA segue este princípio pode afirmar uma filiação Não existe apenas uma linha de Análise de com a AD da linha francesa.3Discurso; existem muitos estilos diferentes “pro- O suporte teórico que embasa este textovavelmente ao menos 57 variedades de análise de refere-se à AD da linha francesa, que “articuladiscurso”,2:246 com enfoques variados, a partir de o lingüístico com o social e o histórico”,6:192 nadiversas tradições teóricas, porém todas reivindican- qual a linguagem é estudada não apenas enquantodo o mesmo nome. O que esses diferentes estilos forma lingüística como também enquanto formaparecem ter em comum, ao tomar como objeto o material da ideologia.6 Além de que é “no contatodiscurso, é que partilham de “uma rejeição da no- do histórico com o lingüístico, que [se] constitui ação realista de que a linguagem é simplesmente um materialidade específica do discurso”.7:8meio neutro de refletir, ou descrever o mundo, e A AD trabalha com o sentido e não com ouma convicção da importância central do discurso conteúdo do texto, um sentido que não é traduzido,na construção da vida social”.2:244 mas produzido; pode-se afirmar que o corpus da AD Existe uma reserva em dizer “Escola” de é constituído pela seguinte formulação: ideologia +Análise de Discurso francesa, porque se questio- história + linguagem. A ideologia é entendida comona o sentido que pode tomar a palavra “Escola”.3 o posicionamento do sujeito quando se filia a umComo a AD considera a língua, história e sujeito, discurso, sendo o processo de constituição do ima-e cada país tem sua própria língua e história, ginário que está no inconsciente, ou seja, o sistemaentão poderíamos “falar em análise de discurso de idéias que constitui a representação; a históriagermânica, americana, inglesa, italiana, brasileira, Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 679-84.
  3. 3. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo - 681 -representa o contexto sócio histórico e a linguagem porta-voz de tal ou tal grupo que representa tal oué a materialidade do texto gerando “pistas” do sen- tal interesse [...]. Isto supõe que é impossível anali-tido que o sujeito pretende dar. Portanto, na AD sar um discurso como um texto, isto é, como umaa linguagem vai além do texto, trazendo sentidos seqüência lingüística fechada sobre si mesma, maspré-construídos que são ecos da memória do dizer. que é necessário referí-lo ao conjunto de discursosEntende-se como memória do dizer o interdiscurso, possíveis a partir de um estado definido das condi-ou seja, a memória coletiva constituída socialmente; ções de produção [...]”.8:77-9o sujeito tem a ilusão de ser dono do seu discurso e Portanto, como se verifica nas colocações dede ter controle sobre ele, porém não percebe estar Pêcheux, a AD entende que “todo dizer é ideolo-dentro de um contínuo, porque todo o discurso já gicamente marcado”. 9:38 Neste contexto o sujeitofoi dito antes. Exemplificando, com o olhar da AD não é individual, é assujeitado ao coletivo, ou seja,o enunciado “é dando que se recebe” permite uma esse assujeitamento ocorre no nível inconsciente,multiplicidade de sentidos. Este pode ser pronun- quando o sujeito se filia-se ou interioriza o conhe-ciado tanto por um padre franciscano, quanto por cimento da construção coletiva, sendo porta-vozum político ou por uma prostituta, com sentidos daquele discurso e representante daquele sentido.diferentes para cada sujeito. A fonte originária deste Entende-se como assujeitamento em AD o “[...]enunciado foi o discurso religioso, permanecendo movimento de interpelação dos indivíduos porno contexto sócio histórico e ficando na memória uma ideologia, condição necessária para que odo dizer, ou memória discursiva, e voltando em um indivíduo torne-se sujeito do seu discurso ao, li-novo contexto, de outro momento histórico, com vremente, submeter-se às condições de produçãonovas significações, perdendo o sentido religioso e impostas pela ordem superior estabelecida, emborapopularizando-se no sentido político e vulgar. tenha ilusão de autonomia”.10:12 A língua é considerada opaca e heterogê- Partindo do princípio que a AD trabalha comnea, conseqüentemente, ela não é transparente e o sentido, sendo o discurso heterogêneo marcadohomogênea como muitas vezes aparenta ser; isto pela história e ideologia, a AD entende que não iráfaz com que ela seja “capaz de equívoco, de falha, descobrir nada novo, apenas fará uma nova inter-de deslizes”.6:192 O equívoco é contra a idéia do pretação ou uma re-leitura; outro aspecto a ressaltarsentido único do enunciado; este permite leituras é que a AD mostra como o discurso funciona nãomúltiplas. O sentido não está “colado” na palavra, é tendo a pretensão de dizer o que é certo, porqueum elemento simbólico, não é fechado nem exato, isso não está em julgamento.portanto sempre incompleto; por isso o sentido A formação discursiva constitui-se na relaçãopode escapar. O enunciado não diz tudo, devendo com o interdiscurso e o intradiscurso.11 O interdis-o analista buscar os efeitos dos sentidos e, para isso, curso significa os saberes constituídos na memóriaprecisa sair do enunciado e chegar ao enunciável do dizer; sentidos do que é dizível e circula naatravés da interpretação. sociedade; saberes que existem antes do sujeito; sa- A AD não abre mão da língua, embora não te- beres pré-construídos constituídos pela construçãonha o mesmo enfoque abordado por Saussure. Para coletiva. O intradiscurso é a materialidade (fala),Pêcheux a língua é a forma de materialização da ou seja, a formulação do texto; o fio do discurso; afala, contando com os planos material e simbólico; linearização do discurso.o discurso produzido pela fala sempre terá relação A interpretação do discurso “é um ‘gesto’,com o contexto sócio histórico. Exemplificando ou seja, é um ato no nível simbólico . [...] A inter-com o discurso de um político, que parte de uma pretação é o vestígio do possível. É o lugar próprioideologia política, Pêcheux diz: “em outras pala- da ideologia e é ‘materializada’ pela história. [...]vras, um discurso é sempre pronunciado a partir Ela sempre se dá de algum lugar da história e dade condições de produção dadas: por exemplo, o sociedade [...]”.11:18-9 O gesto de interpretação é as-deputado pertence a um partido político que par- sumido, sendo um gesto simbólico que dá sentidoticipa do governo ou a um partido da oposição; é* Mutti RMV. Fundamentos e Procedimentos em Análise de Discurso [aula expositiva da disciplina]. Porto Alegre (RS): UFRGS/ PPGFACED; 2004, 2º semestre.Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 679-84.
  4. 4. - 682 - Caregnato RCA, Mutti Rfazendo a significação. “Não há sentido sem inter- trazendo sentidos pré-construídos que figuram napretação”,3:11,11:21 portanto deverá sempre existir uma memória do dizer da sociedade.interpretação para dar visibilidade ao sentido que o A interpretação deverá ser feita sempre entresujeito pretendeu transmitir no seu discurso. o interdiscurso e o intradiscurso chegando às posi- Na interpretação é importante lembrar que o ções representadas pelos sujeitos através das marcasanalista é um intérprete, que faz uma leitura também lingüísticas. A AD não vai trabalhar com a forma ediscursiva influenciada pelo seu afeto, sua posição, o conteúdo, mas irá buscar os efeitos de sentido quesuas crenças, suas experiências e vivências; portanto, se pode apreender mediante interpretação. Nunca es-a interpretação nunca será absoluta e única, pois quecer que a interpretação sempre é passível de equí-também produzirá seu sentido. voco, pois embora a interpretação pareça ser clara, Vamos supor, por exemplo, que o analista na realidade existem muitas e diferentes definições,disponha-se ao enfoque da posição de professor, sendo que os sentidos não são tão evidentes comono discurso pedagógico de uma disciplina do curso parecem ser.11 Pêcheux reforça a AD “sob o prismade Enfermagem. Para constituir o corpus para aná- de uma leitura interpretativa”.7,10:94 Embora a ADlise, representativo desse discurso, decide ouvir os “seja mais relevante para as ciências da linguagem, elaprofessores em entrevistas fazendo a transcrição está presente no exercício das ciências humanas”;11:9da gravação feita; não há um caminho pronto para portanto, a interpretação caberá tanto ao “analistaefetivar a análise, mas após várias leituras poderão da linguagem quanto à do cientista em geral”.11:9ser identificados eixos temáticos, que emergem nummovimento em que o enunciado leva ao enunciável CONSIDERAÇÕES SOBRE A ANÁLISE DEe vice-versa, explorando-se marcas lingüísticas cujo CONTEÚDOfuncionamento discursivo irá trabalhar, fazendo osrecortes das formulações nas quais aparece tal ênfa- A Análise de Conteúdo (AC) surgiu no iníciose. Cabe informar o enfoque analítico que é dado do século XX nos Estados Unidos para analisar oà pesquisa. Qualquer elemento pode ser estudado material jornalístico, ocorrendo um impulso entreenquanto marca lingüística, ou “marca de discurso”, 1940 e 1950, quando os cientistas começaram a sepodendo ser selecionadas poucas marcas lingüísticas interessar pelos símbolos políticos, tendo este fatopara interpretação; na AD não é necessário analisar contribuído para seu desenvolvimento; entre 1950 etudo que aparece na entrevista, pois se trata de uma 1960 a AC estendeu-se para várias áreas.12 Portanto,análise vertical e não horizontal. O importante é esta técnica “existe há mais de meio século em diver-captar a marca lingüística e relacioná-la ao contex- sos setores das ciências humanas”, sendo anterior ato sócio-histórico. Deste modo, várias leituras do Análise de Discurso.12:54texto farão com que o analista do discurso estranhe A definição da AC em 1943 era como sendoaquela(s) palavra(s) ou formas sintáticas, pode ser, que “a semântica estatística do discurso político”.13:192 Amarca(m) o discurso e se repete(m), visualizando as- AC pode ser quantitativa e qualitativa. Existe umasim as marcas lingüísticas no material linguageiro. diferença entre essas duas abordagens: na abordagem Também é interessante explicar o motivo quantitativa se traça uma freqüência das caracte-que induziu a escolha do recorte sócio-histórico, rísticas que se repetem no conteúdo do texto.1 Napois este faz parte das “condições” de produção do abordagem qualitativa se “considera a presença oudiscurso, representadas no corpus em análise, bem a ausência de uma dada característica de conteúdocomo a necessidade de ilustrar as condições da ou conjunto de características num determinadoconstituição do corpus.8 Após ter delimitado o eixo fragmento da mensagem”.12:54temático o analista irá trabalhar com este, o que A maioria dos autores refere-se à AC comosupõe o estabelecimento de “recortes discursivos”, sendo uma técnica de pesquisa que trabalha comonde se representam linguagem e situação. O recorte a palavra, permitindo de forma prática e objetivaresulta da teoria e é uma construção do analista; no produzir inferências do conteúdo da comunicaçãoestudo do recorte se busca caracterizar as regulari- de um texto replicáveis ao seu contexto social.13 Nadades na “formação discursiva”, no confronto com AC o texto é um meio de expressão do sujeito, ondesentidos heterogêneos.11 As regularidades das marcas o analista busca categorizar as unidades de textolingüísticas que aparecem no discurso fazem parte (palavras ou frases) que se repetem, inferindo umada identidade do discurso acessado pelo sujeito, expressão que as representem. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 679-84.
  5. 5. Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo - 683 - A crescente utilização da Análise de Conteúdo A técnica de AC, se compõe de três grandesna área da Enfermagem é evidenciada em muitos etapas: 1) a pré-análise; 2) a exploração do material;trabalhos publicados, em várias revistas de circulação 3) o tratamento dos resultados e interpretação.1nacional e internacional, que utiliza-se da Análise de A mencionada autora descreve a primeira etapaConteúdo na sua pesquisa em gerontologia para inter- como a fase de organização, que pode utilizar vá-pretar os dados coletados no período de 1975-1996.14 rios procedimentos, tais como: leitura flutuante, Para Laurence Bardin, escolhida neste artigo hipóteses, objetivos e elaboração de indicadorescomo referencial devido à ampla utilização desta que fundamentem a interpretação. Na segundaautora nas pesquisas de Enfermagem, a AC é “um etapa os dados são codificados a partir das unidadesconjunto de técnicas de análise das comunicações de registro. Na última etapa se faz a categoriza-visando obter, por procedimentos, sistemáticos e ção, que consiste na classificação dos elementosobjetivos de descrição do conteúdo das mensagens, segundo suas semelhanças e por diferenciação,indicadores (quantitativos ou não) que permitam a com posterior reagrupamento, em função de ca-inferência de conhecimentos relativos às condições racterísticas comuns. Portanto, a codificação e ade produção/recepção [...] destas mensagens”.1:42 categorização fazem parte da AC. No texto em que marca a diferença teóricaentre conteúdo e sentido, a AC costuma ser feita DIFERENÇAS ENTRE ANÁLISE DO DIS-através do método de dedução freqüencial ou análise CURSO E ANÁLISE DE CONTEÚDOpor categorias temáticas. 8 A dedução freqüencial Sobre a análise de conteúdo e a teoria doconsiste em enumerar a ocorrência de um mesmo discurso, referindo-se a análise de conteúdo como si-signo lingüístico (palavra) que se repete com freqü- nônimo da análise de texto percebe-se “que antes deência, visando constatar “a pura existência de tal tudo a diferença entre a AD e a AC é o modo deou tal material lingüístico”,8:64 não preocupando-se acesso ao objeto”.8:68com o “sentido contido no texto, nem à diferença desentido entre um texto e outro”,8:65 culminando em A interpretação da AC poderá ser tanto quan-descrições numéricas e no tratamento estatístico.13 titativa quanto qualitativa, enquanto que na AD aA análise por categorias temáticas tenta encontrar interpretação será somente qualitativa.“uma série de significações que o codificador detecta “A AC trabalha tradicionalmente com ma-por meio de indicadores que lhe estão ligados; [...] teriais textuais escritos”.13:195 Existem dois tiposcodificar ou caracterizar um segmento é colocá-lo de textos que podem ser trabalhados pela AC:em uma das classes de equivalências definidas, a os textos produzidos em pesquisa, através daspartir das significações, [...] em função do julga- transcrições de entrevista e dos protocolos de ob-mento do codificador [...] o que exige qualidades servação, e os textos já existentes, produzidos parapsicológicas complementares como a fineza, a sen- outros fins, como textos de jornais.13 Na AD existesibilidade, a flexibilidade, por parte do codificador o corpus de arquivo e empírico. Quando se analisapara apreender o que importa”.8:65 em AD material já existente como documentos, A análise categorial é o tipo de análise mais legislação, pronunciamentos em jornal, livros eantiga e na prática a mais utilizada. “Funciona por outros, refere-se ao corpus de arquivo; se o materialoperações de desmembramento do texto em unida- é construído especialmente para a pesquisa, comodes, em categorias segundo reagrupamento analó- por exemplo, através de entrevista, refere-se aogicos”.1:153 A análise categorial poderá ser temática, corpus empírico, experimental.construindo as categorias conforme os temas que A maior diferença entre as duas formas deemergem do texto.1 Para classificar os elementos em análises é que a AD trabalha com o sentido e nãocategorias é preciso identificar o que eles têm em com o conteúdo; já a AC trabalha com o conteú-comum, permitindo seu agrupamento.1 Este tipo de do, ou seja, com a materialidade lingüística atravésclassificação é chamado de análise categorial.1 das condições empíricas do texto, estabelecendo Itálico usado por Pêcheux no texto Análise automática do discurso (1969). In: Gadet F, Hak T (organizadores). Por uma análise automá- tica do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. 2a ed. Campinas (SP): Editora da Unicamp; 1993, p 63.Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 679-84.
  6. 6. - 684 - Caregnato RCA, Mutti Rcategorias para sua interpretação. Enquanto a AD 2 Gill R. Análise de Discurso. In: Bauer MW, Gaskellbusca os efeitos de sentido relacionados ao discur- G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som:so, a AC fixa-se apenas no conteúdo do texto, sem um manual prático. 3a ed. Petrópolis (RJ): Vozes;fazer relações além deste. A AD preocupa-se em 2002. p.244-70.compreender os sentidos que o sujeito manifesta 3 Orlandi EP. A Análise de discurso em suas diferentesatravés do seu discurso; já a AC espera compreen- tradições intelectuais: o Brasil. In: Anais do 10 Semi- nário de Estudos em Análise de Discurso; 2003 Novder o pensamento do sujeito através do conteúdo 10-13; Porto Alegre, Brasil [CD-ROM]. Porto Alegreexpresso no texto, numa concepção transparente de (RS): UFRGS; 2003.linguagem. Na AD, a linguagem não é transparente, 4 Mutti R. O primado do outro sobre o mesmo... .mas opaca, por isso, o analista de discurso se põe In: Anais do 10 Seminário de Estudos em Análise dediante da opacidade da linguagem. Discurso; 2003 Nov 10-13; Porto Alegre, Brasil [CD- O analista ao utilizar a AD fará uma leitura do ROM]. Porto Alegre (RS): UFRGS; 2003.texto enfocando a posição discursiva do sujeito, legi- 5 Orlandi EP, organizadora. Cidade atravessada: ostimada socialmente pela união do social, da história sentidos públicos no espaço urbano. Campinas (SP):e da ideologia, produzindo sentidos. Na utilização Pontes; 2001.da AC “o que é visada no texto é justamente uma 6 Melo EAS. Gestos de autoria: construção do sujeito dasérie de significações que o codificador detecta por meio escrita na alfabetização. In: Baronas RL, organizador.dos indicadores que lhe estão ligados”.8:65 Identidade cultura e linguagem. Campinas (SP): Pontes Editores; 2005. p.191-205. 7 Pêcheux M. O Discurso: estrutura ou acontecimento.CONCLUSÕES 3a ed. Campinas (SP): Pontes; 2002. Na reflexão realizada, conforme funda- 8 Pêcheux M. Análise automática do discurso (AAD-69).mentação teórica apresentada, destaca-se como In: Gadet F, Hak T, organizadores. Por uma análiseprincipal diferença entre as duas formas de análise automática do discurso: uma introdução à obra deabordadas que a Análise de Discurso trabalha com Michel Pêcheux. 2a ed. Campinas (SP): Ed Unicamp;o sentido do discurso e a Análise de Conteúdo com 1993. p.61-105.o conteúdo do texto. 9 Orlandi EP. Análise de Discurso: princípios e proce- “A grande maioria das pesquisas sociais se dimentos. Campinas (SP): Pontes; 1999.baseia na entrevista”,13:189 encontrar uma forma ideal 10 Ferreira MCL. Apresentação. In: Glossário de termospara interpretar esses dados é utópico. Acredita-se que do discurso. Ferreira MCL, coordenadora. Porto Alegre (RS): UFRGS; 2001. p.5-7.não exista uma análise melhor ou pior, o importan-te é que o pesquisador conheça as várias formas de 11 Orlandi E. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do tra-análise existentes na pesquisa qualitativa e sabendo balho simbólico. 4a ed. Campinas (SP): Pontes; 2004.suas diferenças, permitirá uma escolha consciente do 12 Lima MADS. Análise de conteúdo:estudo e aplicação.referencial teórico-analítico, decorrente do tipo de Rev Logos 1993; (1): 53-8.análise que irá empregar na sua pesquisa, fazendo sua 13 Bauer MW. Análise de conteúdo clássica: uma revi-opção com responsabilidade e conhecimento. são. In: Bauer MW, Gaskell G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 3a ed. Petrópolis (RJ): Vozes; 2002. p.189-217.REFERÊNCIAS 14 Neri AL. A pesquisa em gerontologia no Brasil: análise1 Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições de conteúdos de amostra de pesquisa em psicologia no 70; 1977. período de 1975-1996. Texto Contexto Enferm.1997 Maio-Ago; 6 (2): 69-105. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2006 Out-Dez; 15(4): 679-84.

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