Contos curtos

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Contos curtos

  1. 1. Roberto AxeCONTOSCURTOS1
  2. 2. ÍNDICEPág. 3 .................................................O QUADROPág. 6.......................................................O PINGOPág. 9.........................................................O POTEPág 12..........................................O MORIBUNDOPág 15.................................................O ESPELHOPág.17......................................................A PORTAPág.19.....................................................A GOSMAPág 21 ..............................................A SENTENÇAPág 24..............................................O PORTADORPág 29..................................A RAINHA DA RUA!Pág 32...............................O EDITOR BONZINHOPág 36...........................OS OLHOS DA SOMBRAPág 41 ...................NADA INTERESSA A ELES...Pág 44......O QUASE MORTO E O QUASE VIVOPág 47....................................................DOSADORPág 50......................................MEDICALIZAÇÃOPág 54.......................DR GOUVEIA FE MERDA...Pág 59...................................................O INIMIGO2
  3. 3. O QUADROA velha tinha saudade de quando era velha... agorajulgava-se muito velha. Passava os dias ali,sentada na cadeira junto à janela de sua pequenacasa. Era uma observadora silenciosa da vida quebrotava, incessante e indomável, através dosruidosos risos das crianças que brincavam alheiaspela rua. Ela ali, sentada, só olhava para fora... aseu lado o baú imaginário em que guardara suasinfinitas lembranças, e que agora acomodava,zelosa, os instantes estéreis e sem cor de seu dia a3
  4. 4. dia. Acondicionava os segundos com carinho nestebaú invisível e inseparável, pois haveria de ser ele ocompanheiro em sua última e definitiva viagem. Ounão. Ficara íntima da morte, até conversava comela; certa vez se flagrou servindo chá para dois,quando se deu conta, riu. Foi a última vez que riu.Não encontrava mais motivo para risos, já nãoconversava com ninguém, dizer o que? Apenasolhava pela janela. As pessoas passavamindiferentes pela rua, nem notavam seu semblantecansado, seu olhar perdido nas banalidades lá defora. Era só um rosto velho na velha janela da velhacasinha, nada mais. Um belo dia, foi comprar frutasem uma feira ali perto, não muitas, pois não podiacarregar peso. Quando voltou para casa, parou seuspassos arrastados bem em frente à sua moradia.Olhou para a janela vazia, aberta, e imaginou-se ali,sentada. Visualizou seu rosto triste naquela janela econcluiu que aquilo mais parecia um quadro, sim,um quadro melancólico que tinha como adequadamoldura o velho marco e a descascada guarnição dajanela; a escuridão dentro da casa - quase nãoacendia as luzes, pois recolhia-se cedo - emprestavaas tintas lúgubres com que era pintado o fundodaquela tela na parede caiada. Sorriu. Entrou,humilde, em sua residência, largou as frutas nacozinha e foi ao quarto. Revirou em uma gaveta atéachar um velho batom, em seguida postou-se emfrente ao espelho e com sua mão trêmula, pintou,ou melhor, borrou os lábios de vermelho. Retirouos grampos e penteou os cabelos brancos e finos.Terminada a tarefa, dirigiu-se à sua cadeira na4
  5. 5. janela, sentou-se e abriu um imenso sorriso deacrílico. Agora, a velha inclinava a cabeça numareverência respeitosa aos transeuntes da rua epresenteava-os com seu melhor sorriso. Eracorrespondida. Ficou feliz... se era paraprotagonizar uma obra de arte, mesmo que numquadro que tenha como moldura o marco e aacabada guarnição de sua janela, que estivessealegre. Quem sabe assim contrariasse, zombeteira,o artista... este artista que com a destreza dosmestres, tão bem soube usar o martelo e o cinzelpara esculpir-lhes os sulcos no rosto; este artistaque tão bem soube misturar tintas até encontrar otom de cinza com que lhe pintou o olhar e a alma.Quem sabe seu sorriso representasse um pequenodeboche, uma pilhéria, uma provocação, qualquercoisa... a este impertinente, hábil e irreversívelartista chamado Tempo...5
  6. 6. O PINGOEra na hora das refeições que a tensão se abatiasobre aquela família. Na comprida mesa, todos sereuniam para comer sob o olhar severo dopatriarca. Um homem duro, que não gostava deconversas durante as refeições, e era obedecido.Todos comiam em silêncio, cabeça baixa, e sómesmo o ruído dos talheres nos pratos erapercebido. Na cabeceira da mesa o pai, ao lado amãe, do outro lado a filha mais velha e depois asduas meninas menores. Desde pequenas eramalertadas para os momentos cruciais do dia. - Namesa, educação e silêncio - que nunca esquecessemdisto. Havia ainda um problema maior: a toalha demesa. Não era raro ver o patriarca com o olhar6
  7. 7. congelado na direção de algum garfo, durante otemeroso trajeto do prato para a boca. Não admitianenhuma mácula na toalha de mesa, um farelo depão, nada. Então chegou um dia em que apreocupação atingiu seu ponto máximo: o novonamorado da filha mais velha iria, finalmente,almoçar com a família naquela mesa tão cheia derecomendações. A coisa piorava por conta de serdomingo, dia de usar a toalha de linho branca combelos brocados dourados. A moça fez todas asrecomendações ao rapaz, pois todo o cuidado erapouco. Chegada a hora, todos sentaram sob o olharautoritário do pai, a tensão era imensa, e o silênciode sempre permeava os gestos calculados com queos guardanapos eram colocados nos colos. Tão logocomeçaram a comer, silentes, o rapaz percebeu noolhar do homem na cabeceira um aviso mudo, quetivesse muito cuidado então. Procurou no sorriso desua amada à sua frente o alívio para aquela situaçãoconstrangedora, mas, aos poucos viu o semblantealegre da namorada ir minguando; ao olhar para asoutras pessoas na mesa percebeu que sua mão eraalvo de olhares apavorados; caprichosamente, umpingo de molho começava a formar-se embaixo deseu garfo, refém do abraço inexorável da Lei daGravidade. Ficou imóvel, se tentasse deslocar otalher até o solo seguro do prato, o pingo poderiacair, qualquer gesto poderia fazer o pingo cair, suarespiração poderia fazer o pingo cair... O patriarcatinha os olhos fixos naquela catástrofe iminente, eos demais deslocavam seus olhos com vagar do paipara o pingo... do pingo para o pai... mas o desastre7
  8. 8. era irreversível, já não havia volta... E o pingopingou. Tal qual um tiro assassino que deixasse suamarca de sangue em uma camisa muito branca.Agora todos olhavam para o pingo na toalha. Umpequeno ponto vermelho redondo e ruidoso, comoque a desafiar a autoridade imaculada daquelabrancura inelutável e infinita. Lentamente, todosforam virando seus rostos a um só tempo, como seaquilo fosse ensaiado, em direção ao pai. O homemestava vermelho e sua veia jugular palpitava umatempestade com conseqüências incalculáveis. Orapaz tremia. O silêncio que revestia aquelessegundos dava um ar de eternidade ao tempo. Tudoagora estava suspenso, inclusive as respirações. Foiquando o patriarca tirou os olhos do pingo e osperdeu no nada. Ficou parado, extático. Sua bocafoi abrindo lentamente e para surpresa de todos umsorriso se achegou manso ao semblante semprefechado daquele homem, em seguida riu, e logodepois explodiu em uma imensa gargalhada!Gargalhava, gargalhava, e todos, aliviadoscomeçaram a rir também, no começo risos meiotímidos, mas depois gargalhavam a valer também.O homem só dava rápidas paradas em seu risofrenético para olhar e apontar para o pingo ali natoalha, e logo seguia com as ruidosas gargalhadas.Dizem as boas línguas que nesse dia dava paraescutar as risadas lá do outro lado da rua. Dizemmais, dizem também que depois daquele pingoaquela família nunca mais foi a mesma.8
  9. 9. O POTE- Nunca mexa neste pote - dizia o pai com o pote namão - mas se um dia o fizer, arque com asconseqüências! - escutou várias vezes esta frasequando era garoto. O pai fazia a recomendaçãocom tal seriedade, que com o passar do tempo, nemperto do pote ele passava. Não foram poucas asvezes que olhava para aquele pote com raiva; porque não podia pegá-lo? Que implicância era essa deseu pai em relação a ele e aquele objeto? Um potecomum, de louça branca, que não tinha nada demais? Restou disso tudo uma espécie de trauma,bem como, uma curiosidade infinita: o que lheaconteceria, afinal, se o desobedecesse e pegasseem suas mãos a misteriosa peça? Lembrava da vozdo progenitor basicamente por causa darecomendação do pote; não era de falar muito,o9
  10. 10. velho, era, até mesmo, um homem solitário.Lembrava do pai sentado na sala, só, fumando seucachimbo. Ficava horas absorto, observando afumaça azulada; no que estaria pensando? O tempopassou, casou, teve filhos, o velho pai se foi... e elenunca tocou naquele pote. O pote estava agora emsua casa, jazendo no fundo de um armário,embrulhado em papel. Sua esposa embrulhou apeça rapidamente, pois ele não queria saberdaquilo, afinal, não era para ficar longe? Semprefora obediente ao velho pai, e embora não soubesseo por que, respeitava seu pedido, ou ordem, nemsabia direito. A verdade é que aquilo sempre lheincomodou, não era possível depois desse tempotodo ainda remoer esse assunto, mas ele remoia.Um dia, no trabalho, pensava no pote quando algolhe ocorreu: seu pai dizia - Nunca mexa nesse pote,mas se um dia o fizer, arque com as conseqüências.- Ora, já não era um menino! Seu pai há muitotempo já não estava neste mundo! Sim, arcaria comas conseqüências! Estava decidido, tão logochegasse em casa, pegaria o pote e, mais que isto, ocolocaria no centro da mesa de jantar como umaespécie de troféu pela sua ousadia. Quando chegouem casa estava nervoso, cumprimentourapidamente a mulher, os filhos e foi ao seu quarto,trancando-se à chave para ficar mais à vontade comseus fantasmas. Abriu o armário e esticou seu braçoaté pegar o pote embrulhado atrás de algumasblusas de lã dobradas. Tremia. Sentou-se na camacom o maior mistério de sua infância nas mãos,procurou não pensar no velho, abriu o embrulho e10
  11. 11. quando retirou a tampa do pote viu um papelzinhodobrado, amarelado pelo tempo... Seus olhosficaram paralisados por um momento. Então, comcalma ele abriu o bilhete, ali se lia: VOCÊ ESTÁLIVRE! Reconheceu a caligrafia do pai, e naquelemomento sentiu que se livrava do imenso peso quesempre o acompanhara em sua existência.Faziam,ambos, pai e filho, uma reconciliação muda, atravésjustamente da transgressão, mesmo tardia, daordem dada. Aquelas três palavras naquele sucintobilhete eram a chave para todo o seu passado, e...para seu futuro. - Então... - pensou ele - meu paiera um brincalhão? dado a enigmas? Um homemmisterioso e com um lado lúdico que nuncaconheci? Ou, ainda, quem sabe, um sábio? Droga,por que não abri este pote antes! - se emocionou.Sim, arcaria com as conseqüências de serlivre,segundo aquela zelosa recomendação, e com aresponsabilidade que a verdadeira liberdade traz. Apartir desta descoberta sua vida mudou. Estavamais alegre, tranqüilo... e desenvolveu o hábito deao deitar, pensar em sua infância, norelacionamento distante com o pai; lembrar deconversas, procurar outros indícios, metáforas,qualquer coisa... enfim, garimpar outras pequenaspistas que o velho tenha deixado, tal qual pequenasmigalhas de pão em uma floresta, para que o filho,talvez um dia, encontrasse o caminho até seu duro,solitário, misterioso, mas nunca fechado coração...11
  12. 12. O MORIBUNDOSeu amigo estava morrendo. Entrou no quarto dohospital e o encontrou ali,deitado, abatido, magro,nas últimas. Achou melhor não falar nada. Deixouas flores que levara em uma mesa de canto, sóestavam os dois. Olhou novamente para aquelehomem de olhar longínquo, tão débil, e não podedeixar de lembrar de todos aqueles anos passados.Foram muito amigos, embora ultimamente a vidaos tenha colocado em caminhos muito diferentes. Omoribundo ali, atirado para morrer, que ironia,sempre fora um homem de espírito positivo, umotimista inveterado, um sonhador até. Já ele não.Era tido como pessimista, havia até quem dissesseque era agourento. - É o que dá... ter os pés nochão, não fugir da fria e inexorável realidade, deque valeu todo seu espírito otimista? - pensou.Aquela visita era quase uma vitória. - Nosso time12
  13. 13. joga na quinta. - disse, quebrando o gelo, mas logose deu conta da gafe: era domingo, talvez omoribundo não estivesse neste mundo na quinta. Ohomem na cama não falava nada, apenasacompanhava, através de seus olhos afundados emolheiras, os movimentos do amigo pelo quarto. Nãoencontrando nada para dizer, o visitante parou emfrente à janela e perdeu o olhar no movimentoruidoso da vida lá fora. Era um homem dehábitos.Imaginava que teria de quebrar sua preciosarotina para ir a um velório, detestava velórios.Bem, se o moribundo morresse durante o dia,estaria trabalhando, era uma bela desculpa. Se fosseà noite, aí nem pensar, via sua novela e depoisrecolhia-se ao leito; e de madrugada em hipótesealguma saía de casa. Estava decidido, inventariauma desculpa, mas não arredaria pé de suatranqüila rotina. Resolveu que já não tinha maisnada a fazer ali; caminhou silencioso até a cama doamigo e inclinou-se lentamente, até seus olhos friosencontrarem o olhar embaçado e patético dodoente, aproximou bem o rosto, para que ootimista constatasse o brilho duro daquele olhar.Por alguns segundos mantiveram olhos nos olhos euma lágrima desceu solitária pela face domoribundo, enquanto a ponta de um sorriso se feznotar nos lábios do visitante. Sentiu uma agradávelsensação de vitória, já podia ir embora para oabraço morno de sua rotina. Saiu do quarto, desceuno elevador, atravessou o saguão, sempre pensandose o que fizera era o correto. Sim, sim, era o certo,não podia fraquejar agora. Já estava na rua,13
  14. 14. distraído por estes pensamentos, quando aoatravessá-la foi colhido por um automóvel. Morreuna hora. No dia seguinte, em seu velório, o caixãojazia solitário na capela mortuária quando omoribundo apareceu em uma cadeira de rodas,conduzido por dois enfermeiros. Um deles, só paracarregar o soro. Estacionou, consternado, em frenteao caixão. Fez um sinal com sua mão trêmula e ooutro enfermeiro inclinou-se, quase encostando suaorelha na boca do paciente, este então sussurroucom sua voz nas últimas: - Ele esteve lá no hospitalontem. Que tragédia. Sabe, eu pressenti algo ruim.Sim, quando nos despedimos, sei lá... meu coraçãoapertou, me emocionei. Naquele momento eu tivecerteza que aquela era a última vez... - traído pelaemoção, começou a chorar. Encontrou forças aindapara dizer suas últimas palavras: - Sentireisaudades...14
  15. 15. O ESPELHOO espelho era a primeira coisa que avistava cominteresse, tão logo levantava pela manhã. Ao sairdo quarto, ainda zonzo pelo sono, ia direto aobanheiro, lá olhava através do espelho para sua caradesarrumada. Foi numa manhã dessas, quando faziaa barba,que foi acometido por um estranhoraciocínio: aquele pedaço quadrado de vidro à suafrente era onde havia pousado seus olhos aindaconfusos, todas as manhãs, nos últimos quarentaanos. Quarenta anos!Desde que começou a acordarcedo para ir trabalhar. Ficou extático olhando-senos olhos com o aparelho de barba suspenso aolado do rosto lambuzado pela espuma. Quarentaanos! Aquele espelho ali à sua frente, tão próximo eíntimo, viu tudo! Seu rosto envelheceu aos poucos,15
  16. 16. mas aquele espelho, amigo fiel, não deixou quepercebesse. Mas agora percebia. Afoito, Removeuo creme com a toalha, enxaguou o rosto e olhou-secom atenção. Envelhecera. Mas, por que só agorase dava conta? Um sorriso, então, se achegoumanso emprestando sua luz serena àquele rosto jásulcado e começando a mostrar sinais de cansaço.Reparou nas pequenas rugas ao redor dos olhos,reparou também em alguns sinais que não tinha,presente indigesto com o qual o tempo lhe brindara.Por que? - pensou - só agora percebia tudo isto?Envelheceu e não viu. Sorriu novamente, umsorriso meio amargo é verdade, mas um singeloreconhecimento a este, que agora reconhecia,sempre fora seu melhor amigo. Não, não podiaculpar o espelho pelo tempo que passou e deixousuas marcas ao redor de seus olhos. Na verdade,ingrato era ele, que ao passar do tempo nunca olhoupara seu amigo fiel. Egoísta, sempre viu a simesmo através do espelho, nunca vira o espelho, sóa sua imagem refletida nele. Agora reparava comcalma, quase carinhosamente naquele vidro tãopróximo, tão comum... tão corriqueiro... tão banal...que nunca foi merecedor de sua atenção. Ficouenvergonhado. Sim, envelheceu, mas seu amigo, oespelho, na sua frieza neutra e caprichosa, nuncadeixou que percebesse...16
  17. 17. A PORTAOdiava portas. Tudo que fecha e têm dois ladoslhe preocupava, mais que isto, lhe tirava o sono. Oque havia por detrás da porta? Quem poderia saber!Dormia de porta aberta, pois se a fechasse,imaginava o que estaria se passando do outro lado,e vice-versa; também não podia ver quartosfechados sem que sua imaginação se pusesse atrabalhar freneticamente. Afinal, o que há do outrolado da porta? Até que ponto, o que não via podiaassustá-lo tanto?Quando deitava demorava adormir, pois mesmo com a porta do quarto aberta,como sempre, perdia o sono por conta do exíguoespaço entre a porta e a parede, sim, mesmo aquelapequena sombra que restava deveria portar seusmistérios. Não gostava de mistério.Gostava dascoisas às claras, bem iluminadas pelo Sol; coisasque podia ver. - por que inventaram as portas? oque tanto precisam esconder? Que intimidadesbizarras precisam ser varridas para trás de umaporta? - certa vez experimentou um alívio17
  18. 18. filosófico: de tanto pensar no assunto descobriu quepelo menos sabia o que se encontrava atrás de umlado da porta: ele mesmo!já era um começo. Masquando concluiu que metade do mistério estavaresolvido, algo lhe ocorreu; havia sobrado 50% doproblema!As coisas pioraram. Já não conseguiadormir. Numa de suas vigílias teve um estalo!OProblema não é o outro lado e sim, a porta!Levantou, estourou champanha, dançou defelicidade! Finalmente a partir de agora haveria dedormir! Não perdeu tempo: retirou as portas de suacasa e teve prazer maior quando o fez em seuquarto. Embriagado pela alegria, naquela noite semportas, dormiu como um anjo... ou talvez, como umdemônio...18
  19. 19. A GOSMAA Gosma gruda tão logo acordamos. Ninguém vê aGosma, não a ouve, bem, pelo menos não com suaprópria voz. A Gosma fala pela voz dos outros, nosvê através dos olhos alheios, nos atinge morna emansa através de seus agentes, ingênuos agentesque ela usa e abusa, tão inocentes que são;carregam a Gosma mas não percebem. A Gosmaestá em tudo. Está na voz do apresentador de TV,nanotícia do jornal, no olhar da vizinha, no riso docara da banca, na bondade da professora, na mãoesticada do novo amigo,na saudação do velho quepassa, no pedido da empregada, na mensagem doPresidente, a Gosma é nojenta, gruda. Não hábanho que a remova. Ela vem pelo rádio, TV,revistas, Internet, e... livros, mas... aí há umproblema para a Gosma; não são todos os livrosque se dispõem a serem melados pelo seu gosto19
  20. 20. sem gosto, seu cheiro sem aroma, até porque aGosma fala mas não diz, ouve mas não escuta! AGosma é amorfa e inodora. Bem, os livros... aí asalvação! É da Arte que se serviram e se servem osque se negaram ao conforto morno da Gosma...ufa! Sim,uma saída! A Gosma odeia tudo que nãofala da Gosma.A Gosma não gosta de nada queanda, ela é estagnada, mansa, pegajosa. Seusagentes nos cercam com seus olhares piedosos enos pedem, silentes, que nos lambuzemos com aGosma, mas agora já é tarde, já passamos muitotempo atendendo pedidos gosmentos. É a nossavez, corremos então em direção ao mar, nada ficaráem nosso corpo, é um banho purificador! Sabemosque a Gosma detesta o mar!Detesta a Noite!Odeia oque não vê! Mergulhamos finalmente alegres naimensidão; um mergulho na liberdade da Arte, ummergulho satânico!20
  21. 21. A SENTENÇADe volta ao lar, finalmente! Mas... que lar? Poderia chamar a casada filha de ‘lar’? Podia sim, concluiu. Afinal, quem comprara a casafora ele, em seus bons tempos, e aquela imensa biblioteca dentro daqual agora jazia, quieto, em sua cadeira de rodas, fora toda montadaàs suas expensas financeiras e intelectuais. Velho e combalido,olhava com carinho paternal para aquelas estantes abarrotadas delivros e poeira. Quanta saudade! Havia meses que sonhava comaquele encontro; sua biblioteca, sua paixão, sua vida! Enfim, ali,sentia-se em casa, ali, afinal, era sua casa! E não aquele asilohorrível em que passara os últimos meses. Achava que não mereciaisso. Achava que sua filha e seu genro, aquele aproveitador, nãoteriam coragem de livrar-se dele feito um traste velho que já nãoservisse para nada; mas percebera que, agora trancado por dentro,indefeso, afásico e semimorto, tornara-se uma presa fácil paradecisões alheias... Quem diria! Logo sua filha, aquela menina quecansava de encontrar, criança e ranhenta em suas recorrentesmemórias; memórias estas que eram revisitadas a todo instante,pois não havia mais nada a fazer... nada, só lembrar, lembrar e21
  22. 22. lembrar. Tentava amenizar suas recordações tentando recomporcoisas novas, como aquele garotinho que agora brincava ali aosseus pés, Paulinho, o neto. Paulinho de tanto em tanto estacionavaseu carrinho ao pé de uma cadeira e olhava para o avô. Este entãoesboçava um sorriso na tentativa de capturar a atenção do menino,mas Paulinho logo retomava seu brinquedo e seguia alheio aovelho. O idoso então desviou seu olhar para a janela aberta eimaginou quando a Morte entraria, suave, vestida de cortinasvermelhas, as mesmas que agora esvoaçavam, para finalmentebrindá-lo com seu beijo frio e balsâmico, pondo fim a tantaslembranças recorrentes que agora lhe doíam. Sua companheira dejornada havia falecido há anos, ao que ele atribuía o derrame quesofrera, pondo-o prostrado e inútil em uma maldita cadeira derodas. Amava sua mulher profundamente, e ante a sua partidarepentina, realmente, não havia nada que o consolasse. – Mas algosaiu errado – pensava ele – pois eu deveria ter partido por inteiro enão pela metade! Pois o que de mim sobrou na Terra, agora sei, nãoé bem-vindo, infelizmente, infelizmente...Era um velho juiz. Sua profissão também não lhe saía da cabeça;teria sido justo em suas sentenças? Tinha agora todo o tempo domundo para ruminar pensamentos, investigar, esmiuçar... Teria sidotraído em suas convicções aplicando sentenças injustas? Quantoódio teria suscitado em pessoas que lhe veriam em sua atualsituação de miséria existencial com a alma em júbilo? Pessoas queexclamariam exaltadas que o velho juiz teve, finalmente, o quemerecia!Não, não, não... cuidara com especial zelo para não cometerinjustiças. E aqueles livros à sua volta em muito lhe ajudaram nasua imparcialidade. Era um manancial de sabedoria jurídica,jurisprudências, etc. lia e relia sobre Direito Romano, enfim, se por22
  23. 23. ventura errara em alguma decisão, com certeza não teria sido pordesleixo em seus estudos. Um livro em especial recebia agora seuolhar combalido: De Legibus de Marcus Tullius Cícero. – Cícero...Cícero... – pensava com seus botões – quanta eloqüência... asCatilinárias! as Catilinárias! Quo usque tandem abutere, Catilina,patietia nostra?- finalmente o velho esboçou um sorriso, sem tiraros olhos do livro na estante. De Legibus... Sim, por que não? Queriaagora aquele livro em seu colo. Sentia-se como que renascendo;uma alegria estranha se apossou de seus instintos há muitomortificados – Cícero! Cícero! – queria ler Cícero, pronto, estavadecidido! Iria mostrar a todos que não estava morto, não, o velhojuiz ressurgia das cinzas tal qual uma Fênix! Mas agora uma outratarefa se fazia necessária, falar. Há algum tempo não conseguiadizer palavra, como poderia pedir o livro? Ora, estava sob o efeitode uma verve tão intensa que, alegre, reuniu finalmente as forçasque transitavam por seu espírito naquele momento e ergueu o braçocom dificuldade; apontou seu dedo trêmulo para frente e, vitorioso,balbuciou:- Cícero...Paulinho, surpreso, parou sua brincadeira com o carrinho e encarouespantado o avô, que sorria emocionado.- Mamãe! Mamãe! O vovô me chamou de Cícero! – gritou.Sem demora a mulher entrou na biblioteca e, carinhosa, passou amão na cabeça do velho.- Coitado – disse a filha – está cada vez pior...Na manhã seguinte o idoso estava novamente no asilo.23
  24. 24. O PORTADORE olhe que escolhi esta cabana por ficar bem longe!De madeira crua, rústica, acanhada... só uma porta... e a solidãoda montanha...Foi assim que eu quis. Ficar longe de tudo, de todos, sómesmo a imensa floresta à minha volta. Faço passeios pelamata à hora que me dá na telha, aliás, faço tudo que me der natelha, aqui, isolado em minha solidão. Na cabana não há luzartificial... não, não, luz aqui só a do fogo de minha pequenalareira. Fogo que faz dançar imagens negras e estranhas nasparedes de pau. Quando noite, lá fora a escuridão é total e osruídos são muitos, oriundos de meus amigos animais24
  25. 25. silvestres, que livres, fazem a algazarra de sempre para saudaro manto negro e misterioso que se estende, calmo, fazendobrotar estrelas no céu.Não existe acesso à minha casa, não quis nenhuma picada,estrada, nada. Só o mato virgem em volta, nada mais. Quandopreciso comprar minhas coisas, saio por entre as árvores edesço a montanha até o vilarejo. Quando volto, certifico-me deque não estou sendo seguido, pois não quero intrusos em meupequeno mundo. Pois é... Eu voltava de uma dessas incursõesao pé do morro quando, surpreso, vi que a porta do barracoestava aberta. Já era noite e as estrelas no céu claro sorriam suasluzes em direção à minha casa. Sim, dava para ver bem, a portaestava aberta! Dentro, escuridão total. De minha parte nuncaprecisei de lanterna ou algo parecido, pois conheço a anatomiade meu chão como conheço a palma de minha mão.Entrei.Livrei-me das compras colocando-as em umas prateleiras emum canto e nessa pantomima no escuro, já aproveitei e pegueiminha afiada adaga. Aos poucos comecei a escutar umarespiração pesada e descompassada. Sem dúvidas o invasorestava na casa, e mais, conseguia percebê-lo sentado em minhapoltrona – que impertinência! – agora eu estava com raiva, umaraiva mortal, dessas que acomete a gente quando somosinvadidos por imbecis em nossa privacidade. A cara de pau dointruso fez borbulhar meu sangue, normalmente tão calmo.Resolvi então que se ele era calmo e frio, eu deveria lhe dar otroco. Comecei a acender a lareira como se não o tivessepercebido, embora lhe desse às costas, temerariamente. Quandoo fogo estabilizou voltei-me calmamente para encará-lo.25
  26. 26. Mirabolava coisas em minha cabeça, truques e mais truques,para não ficar, definitivamente, refém do medo, pois istoestragaria tudo.Encarei o Homem.Era algo grotesco. Vestia andrajos negros e escondia suasfeições sob um imenso capuz, com exceção – uma exceçãosinistra – de um olho... um olho... um olho vermelho earregalado, que conseguiu gelar meus nervos de imediato.Nunca mais esqueci aquele olho. O sujeito então levantoucalmamente uma de suas mãos e me apontou o dedo para emseguida pronunciar o meu nome. Era uma voz terrosa que saíadaquele capuz.- Sim sou eu – respondi com uma voz meio sumida, eemendei em seguida – E você, afinal, quem é?- Meu nome é Portador... meu nome completo é Portador deTeus Medos. Demorei a encontrá-lo, mas finalmente estou aqui.- Mas não por muito tempo. Gostaria que se fosse! Agora! –esbravejei.O homem levantou-se calmamente e partiu silencioso. Tranqueia porta. Mas aquele olho vermelho ficou encravado em minhamente.Algum tempo se passou e uma noite ao retornar à casa depoisde um passeio pelo mato, vi a porta aberta e a lareira acesa.Quando entrei ele estava lá, o desgraçado do Portador! O filhoda puta aquecia-se junto ao fogo. Quando recebi o olharinjetado daquele olho horrendo, tremi. Mas agora já era abuso,como assim? Aquecendo-se junto à minha lareira? Omonstrengo impertinente julgava mesmo que poderia vir à26
  27. 27. qualquer hora e instalar-se tranqüilamente nas minhas coisas!Era só o que faltava!- Vá embora agora! - ordenei com raiva – e lhe garanto, sevoltar vai se dar mal! Minha paciência acabou!O Portador, resignado, retirou-se. Tinha o andar lento e andavaencurvado, além de não cheirar bem. Era uma figura nojenta eassustadora.Depois da última visita, funesta, do Portador, cheguei a pensarem cercar a casa, mas justamente havia escolhido aquele localpara me livrar das cercas! Não, não... haveria de encontrar outrasolução, pois uma coisa era certa, o desgraçado sabia o caminhopara minha cabana. Eu tentava também não ficar com a imagemdaquele olho em minha lembrança, aquele olho arrepiante eescroto! Se cercasse a casa ou ficasse com a imagem daqueleolho perturbando minha mente, saberia que o asqueroso teriavencido. Bem, se não voltasse já seria uma grande coisa, mastinha o forte pressentimento de que voltaria... e voltou!A porta aberta, a lareira acesa e... o nojento dormindo em minhacama! Dessa vez não agüentei! Acometido por uma raivavisceral, peguei minha adaga e me acheguei a ele.- Hei, acorde!O imenso olho então brotou da escuridão do capuz, sonolento evermelho. Saltei sobre o invasor com minha faca e a enfiei comódio naquele olho! Diversas vezes! O monstro gritava,esperneava, mas em vão. Só parei quando me certifiquei de queestava cego! Depois disso peguei aquela praga pelo braço edesci a montanha, pouco me lixando para suas gritarias efaniquitos. Deixei o Portador, que agora era portador de umaséria deficiência física, bem longe de minha montanha. Quevagasse a esmo e me esquecesse!27
  28. 28. Finalmente à paz voltou ao meu pequeno reino. O únicoinconveniente é aquela mancha de sangue do lado de minhacama. Não houve jeito de removê-la... tentei de tudo, mas nãodeu. Logo ao lado da cama, palco do crime, como a me lembrarque aquele homem, mesmo sem o terrível olho, ainda existe eme procura. Nesses momentos olho para minha adaga, esta sim,de lâmina brilhante e limpa, e fico tranqüilo. Não me arrependode nada. Faria de novo e de novo, faço qualquer coisa para acasa continuar assim, sem cerca em volta e freqüentada, à noite,apenas pelos sorrisos das estrelas...28
  29. 29. A RAINHA DA RUA!Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha Cadela!Pobre puta Cinderela. Condenada a vagar pelo vilarejo, agoravelha e enrugada vestida apenas por andrajos sujos, e mal-tratada. Louca, não ligava à mínima para isso. O que irritavaCinderela era aqueles meninos na sua cola! Eram muitosgarotos a lhe seguir pelas ruelas, a não lhe deixar em paz.Sempre zombavam, cuspiam, jogavam alguma coisa... erahumilhante para a puta velha este tratamento que julgava nãomerecer. Agora era ‘a louca’ – Pois sim, louca, então, -pensava ela – louca é? Mas quando jovem me achavam ‘bemnormal’, aliás, mais normal que as ‘mulheres certinhas’,quando vinham comprar meus favores e realizar fantasias quesó julgam possível com putas. Aí eu prestava!Pobre Cinderela.O apelido ‘Cinderela’ era justamente oriundo da formosura daprostituta, em seus anos vicejantes. Que ironia! Agora era sóuma velha louca esquecida por tudo e por todos, menos peloTempo, este carrasco inexorável, e pelos garotos maldosos,29
  30. 30. claro. Nos seus tempos, tinha cabelos louros e finos queesvoaçavam feito trigo no campo, e suas formas generosasatraiam a simpatia e prontidão de todos, desde o figurão até opobretão, que muitas vezes ela atendia por pura compaixão.Gente que chegava ao cabaré se esgueirando pelas ruas,afinal, tinham reputações a zelar. Eram ‘homens de bem’.Tudo isso ela compreendia. Facilitava as coisas, ajudava, eaté oferecia o ombro para que marmanjos desmamadoschorassem suas desventuras burguesas e desinteressantes.Tinha uma santa paciência, a puta Cinderela.Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!Agora isso... recebia como prêmio, como uma espécie deaposentadoria desabonadora, aquele coro em seus ouvidos.Condenada a vagar pelas ruazinhas de pedra com aquelesgarotos horríveis às suas costas feito o rabo de um crocodilo.Como se já não bastasse ter de viver com ajutórios e esmolas.Revirava lixo atrás de restos de comida e às vezes parava epensava que já fora linda, desejada, e então aquecia um poucoseu coração ferido com essas migalhas de lembranças... seuspensamentos sempre embalados pelo fundo musical dodeboche...Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!Seus cabelos brancos, agora grudentos. Seus restos de dentespodres. Suas roupas rasgadas. Seu futuro... que agora tinha onome de Morte. Seu corpo agora cansado e velho, queproporcionou, há muito, muito tempo, as delícias lascivasdaqueles homens tão respeitados. Pois, agora todos lhesviraram as costas. Quem sabe não seria ela um cisco no olho30
  31. 31. do respeitado vilarejo... um cisco a ser varridopermanentemente pra lá e pra cá, até chagar o dia fatal emque seu corpo – há muito imprestável -fosse encontrado entrealgumas latas de lixo - Ufa! – todos respirariam aliviados – Jáfoi tarde a puta louca! Puta Cinderela! – Mas o problemamaior para a velha era realmente aqueles garotos e aquelaestrofe repetida e repetida infinitamente. Era muita maldadecom a louca! Louca, louca! Ma aí a velha teve um estalo! -Louca! Louca! Este é o problema! E se eu ficar ‘normal’como eles! E se eu agir, como os normais, só uma vez? E seeu agir como os respeitáveis, só uma vez? Não falaria,finalmente, a sua linguagem? Não me faria entender? Sim,porque não? Se eles são normais só entenderão se eu falarcomo eles... acho que poderei livrar-me desses garotos!Cinderela, Cinderela, rainha da rua! Rainha cadela!A puta velha então parou e ficou em silêncio. Os garotos pararamtambém, um pegou uma pedra. A mulher sorriu com seus cacos dedentes e perguntou a um deles se era neto do doutor Angenor. –Sim – respondeu o menino surpreso. – Pois então pergunte à suaavó se ele ainda tem aquele cancro horrível no saco! – em seguida amulher virou-se para outro – E você, menino. Não é neto do ex-delegado Valdir? – o garoto assentiu com a cabeça, meio sem jeito– Então pergunte para sua avó se ele continua gostando do‘dedinho’ – e assim foi... com um por um. Até todos saírem,intrigados, a procurarem suas avós. A partir daquele dia, Cinderelapode ser louca à vontade, sem o coro desabonador atrás de si.Deixaram-na definitivamente em paz. Revirando lixo. Louca!Louca! Cinderela... a Rainha Cadela...31
  32. 32. O EDITOR BONZINHO- Oh, sim, meu caro escritor, adorei seu livro! Puxa, deonde tirou essa estória? Que imaginação, hein? Sabe, vocêtem talento. Acredite, eu conheço um gênio de longe, sim,meu garoto, de longe! E você é bom, aliás, diria... muito bom!Quantos anos você tem? É quase um menino, acredito.... é aprimeira vez que submete manuscritos?- Sim. – respondeu o rapaz, sentado do outro lado da imensamesa; mal podia disfarçar a alegria provocada pelas palavrasdo editor. Um riso meio tolo e impertinente lhe invadia osemblante amiúde, teimando em deixar transparecer umafelicidade pura e ruidosa. Era seu primeiro trabalho, e haviacolocado ‘sua alma’ naquele livro.- Veja, querido – prosseguiu o editor – não é da minhaíndole ficar massageando ego de escritor, que já é bemdilatado, hehe... mas no seu caso... bem, estou32
  33. 33. impressionado. Seu livro é profundo, bem articulado,inteligente, instigante... bem, resumindo, não vou publicá-lo!O rapaz sentiu um soco no estômago! Como assim? Depoisde tudo que foi dito? Seu mundo desmoronou em um segundo– malditas palavras aquelas do editor: ‘não vou publicá-lo’ –não encontrou palavras para rebater a impertinência.Manteve, então, sua decepção em silêncio, em venenososilêncio...- É que... entenda, meu jovem – continuou o carrasco – issonão vende! Pois é, fazer o quê? É o mercado, compreende?Sei que você deve estar me odiando, mas diga-me, o queposso fazer? Sou um empresário, sobrevivo das vendas deminhas publicações e... digo isto com um aperto no coração:seu livro é muito bom, logo, não vende... Ninguém quer terde ficar quebrando a cabeça para decifrar códigosexistenciais, querem sim é decifrar códigos Da Vinci,percebe? Olhe, nem tudo está perdido, quero lhe fazer umconvite, quero convidá-lo a escrever para mim! Quero o seutalento, meu rapaz! Tenho cá comigo uma idéia que vocêpoderá desenvolver com sua impressionante criatividade; éuma idéia para um livro que vende, percebe? A estória é aseguinte: uma vampira se apaixona por um fantasma, ou ummorto-vivo, você escolhe, bem, o problema é que a vampiraquer sugar o sangue do amado para torná-lo imortal como ela,porém, isso é impossível uma vez que ele é morto!Não temsangue! Caramba! Isso vende! Entendeu?O rapaz baixou a cabeça, estava morto por dentro.33
  34. 34. - Não fique assim meu geniozinho.... vamos ganhardinheiro juntos! Pare com idealismos bobos,mercado é mercado, filhote, fazer o quê! Isso quevocê está sentindo passa logo, é coisa de iniciante,é coisa de sangue novo, é ingenuidade. O negócioé grana, irmão. Grana! Entendeu? Olhe, vou lhedar um pequeno adiantamento – ato contínuo, oeditor puxou seu talão de cheques e rapidamenteescreveu uma quantia, assinou e entregou o papelao escritor; este pegou o cheque, examinou e sentiuo azedume de seu espírito esvaecer um pouco - Umprofissional, hein? – prosseguiu o, agora, patrão -Como se sente? É bom, né? Pois é, isso é ser umautor. De que adianta todo seu romantismo se vocênão tiver grana? É grana que conta, irmão. Taí,trabalhe para mim, conceda-me seu talento eganharemos muito dinheiro, você agora é umautor! – em seguida levantou-se de sua confortávelcadeira, no que foi seguido pelo escritor, e dirigiu-se à porta do escritório. Cumprimentou mais umavez o novato e abriu a porta – Uma vampira e umfantasma. Ou morto-vivo, não esqueça.... voltequando tiver alguma coisa. – deu um tapinha nascostas do moço, que saiu silencioso e em seguidaescutou a porta bater atrás de si. Caminhou pelocomprido corredor do prédio em direção à rua,estava mais tranqüilo, quem sabe não era apenasum romântico irrecuperável? Ora, estava na horade encarar a Realidade... ‘é o mercado’ disse oeditor. Sim, estava certo ele... Começou então asentir uma sensação de bem-estar, pegou o chequeno bolso e conferiu mais uma vez, sorriu e34
  35. 35. prosseguiu caminhando rumo a porta da saída –Vampiros? Zumbis? Ora, por que não? -apaziguado, resignado, um pouco feliz até, saiu doprédio e misturou-se aos transeuntes na calçada...nem reparou nas duas profundas marcas de dentescaninos bem finos que ostentava, alheio, em seupescoço...35
  36. 36. OS OLHOS DA SOMBRALembro bem da primeira vez que o vi. Eu tinha chegadoem casa cansado, os ossos doíam, havia sido um dia durode trabalho. Tomei banho, desci para o patamar inferior, -minha casa tem dois pisos - comi alguma coisa e fui leralgo, não lembro o quê, acho mesmo que era algumacoisa de Poe... Bem, sabia que o sono logo viria, estavamorto. Recostei-me em minha cadeira de leitura, pusmeus óculos e deslizei prazerosamente para as letras.Pronto. Casa escura, só a luz para a leitura jorrandoamarelada em meu livro. Clima. Agora nada poderia medeter...Nada? Que nada! Um barulho estranho veio do36
  37. 37. outro cômodo, parecia um ronco ou algo parecido. Numprimeiro momento, mesmo um pouco apreensivo, não deibola, afinal, são muitos os barulhos contidos em uma casaescura; parece mesmo, que quando apagamos as luzes,seres de outros mundos vêm nos pregar peças, caçoar denossos medos. Continuei lendo. O ronco repetiu-se, agoranão havia dúvidas, tinha algo ameaçador no outrocômodo. Quando pensei nisso já era tarde demais... senti apresença ameaçadora em minhas costas... Num primeiromomento fiquei paralisado, a cabeça vazia, a mão fria dopavor tocou minha espinha e senti o sangue gelar. Nãohavia sombra de dúvidas, aliás, se havia alguma sombra,esta continha algo sinistro em seu ventre e que respirava;sim, respirava... senti o bafo quente que vinha por trás dacadeira. Lembro-me bem de que precisei de algum tempopara ajuntar algumas migalhas de coragem. Mesmo parafechar calmamente o livro foi preciso muita força, que eubuscava não sei de onde. Era um hálito enjoativo aquele,comecei a ficar nauseado. Reuni então o que podia parareforçar meus nervos e comecei a me levantar lentamente,obviamente, sem cometer a audácia de olhar para trás.Recordo que tive a impressão de ter demorado umas duashoras – incrível como perdemos a noção de tempo emmomentos de pânico – até ficar totalmente em pé, ereto.Pronto, eu agora era um poste plantado em minha própriasala e o observador sombrio continuava lá, a respiraçãolenta e forte. O que faria agora? Atacaria-me pelas costas?Mas não. Nada aconteceu e iniciei então a operação maisdifícil e apavorante da minha vida; iria virar-me comcuidado, e finalmente encarar o invasor. É verdade quepensei em correr em direção à porta, mas temi seralcançado com facilidade pela aterrorizante iminência37
  38. 38. parda. Voltei-me lentamente e aos poucos os pelos domeu corpo começaram a eriçar, meus olhos vítreoscomeçaram a divisar algo negro, baixo, disforme e logoestacaram em outros olhos... nunca esquecerei aquelesolhos... eram imensos, vermelhos, e a agudeza das pupilasenormes me trespassaram feito uma faca! Não sabia o queera aquilo e senti que minha mente perdera a condição deavaliar, pois era refém do pavor. O monstro moveu-selentamente e num sorriso ameaçador deixou à mostra suaspresas afiadas, como a me dizer que as possuía e não teriaa menor cerimônia em usá-las. Era algo monstruoso quese movia nas sombras, lenta e pesadamente; seus olhossinistros não desgrudavam da frieza cadavérica dos meus.Chegou mais perto então, como que a me farejar. Hojenão tenho vergonha de dizer que urinei nas calças e seaquele bicho tivesse algum senso de humor, teria dadogargalhadas regozijando-se pela sua vitória. Depois de merodear com suas quatro patas com garras imensas, voltoupara as sombras desaparecendo lentamente na escuridão.Eu ainda fiquei por muito tempo parado, extático, frio.Incrível, mas foi só quando amanheceu que conseguimover-me. O Sol agora iluminava a casa e então, movidopela segurança da claridade e uma espécie de ódio – ousei lá o quê - pela criatura noturna, corri ao meu quarto,peguei meu revólver e vasculhei a casa. Mas era tudobobagem, aquela era uma criatura das sombras, eraimpossível encontrá-la de dia, sob o abraço quente eprotetor do Sol. Fui trabalhar, teria de pegá-lo à noitequando surgisse da infinita escuridão, seu lar, sem dúvida.Mas... bem, para resumir a história... foi tudo em vão,pois quando o monstro aparecia eu não conseguia pegar aarma, mesmo ao meu lado, petrificado que ficava com a38
  39. 39. sua presença. Mas o mais estranho em tudo isso é que fuime acostumando com a aparição do bicho, passei até aobservá-lo; ele sempre lento, ameaçador, inoportuno, equase, diria, íntimo. Algum tempo se passou e resolvibotar um ponto final naquilo, afinal, a casa é minha! Ora,se não mandar em minha casa, o que me sobra? E temmais! Se a casa é minha, as sombras da casa também sãosó minhas! Resolvi que se ele era o rei das sombras, entãoeu deveria ser mais que isso... deveria mostrar ao monstroque aquela escuridão tinha dono, e este não era ele! Foientão que decidi, antes da noite esticar seu véu preto emisterioso, que deveria alojar-me naquele cômodo, que éo mais escuro da casa, e ali aguardar que tudo ficasse emsombras. Ele então surgiria, mas desta vez os papéis seinverteriam e o intruso saberia, finalmente, quemmandava. E assim foi. Deixei acesa a luz do abajur deleitura para atraí-lo e fiquei em meu canto no escuro.Quando a noite já ia alta ele surgiu, sempre calmo,seguro, arrogante. Ao não me ver na cadeira voltou-se desupetão, mas seu olhar, sempre tão amedrontador, deucom o meu. Meus olhos eram sanguíneos, bem abertos,donos de si... Desarmado pela surpresa, o monstrengo deusinais de medo, isso mesmo, medo. Movi-me lentamenteem sua direção, tinha em meus olhos o brilho sinistro doassassino, do matador... um grande e assustadorexterminador vindo das sombras, das suas sombras, sósuas, de mais ninguém! O intrujão, então, amedrontadopela presença inusitada, procurou abrigo junto à tímidaluz do abajur, em seguida deitando-se no chão e ficandode barriga para cima. Agora se refestelava e grunhia feitoum pequeno bichano a pedir carinho. Senti pena. Acabeidesarmado em meus instintos e quando dei por mim39
  40. 40. coçava-lhe a barriga, sorrindo. Mais adiante mesurpreendi jogando, amiúde, uma pequena bola amarelapara o escuro e o bicho a correr para a escuridão e voltarcom ela entre os dentes. Acariciava-lhe a cabeça e o dócilanimalzinho deixava a bola cair livre pelo chão, solta desuas presas afiadas. É incrível como um bichinho dessespode nos fazer felizes! Hoje em dia continuo com minharotina, casa/trabalho-trabalho/casa, porém, devoreconhecer que é uma delícia chegar ao conforto do lar,tomar um banho, descer para o andar no solo e ler umbom livro só com a velha e boa luz do abajur acesa. Aoredor, a silenciosa e mansa escuridão da casa sempreembala meu sossego, e aos meus pés meu animalzinhodorme enroscado e satisfeito. De tanto em tanto nosolhamos, pois temos uma cumplicidade muito íntima, esorrimos. Sabemos que só assim, livre do medo, a casasegue tranqüila...40
  41. 41. NADA INTERESSA A ELES...Nada interessa a eles...Se não for manipulávelSe não for comprávelSe não for tributávelSe não for corruptívelSe não for arrecadávelSe não for usurpávelSe não for delineávelSe não der pra sugarSe não render jurosSe não der lucroSe não der voto41
  42. 42. Nada interessa a eles...Se não for alinhadoSe não for alienadoSe não for endividadoSe não for marcadoSe não for bem-mandadoSe não for gadoNada interessa a eles...Se não for lugar-comumSe não for medíocreSe não for baixoSe não for capachoSe não der pra manipularSe não der pra tirarSe não der pra enganarSe não der pra ludibriarSe não der pra abraçarSe não der pra se roçarSe não der pra morderSe não se deixar doerSe não se deixar roerSe não se deixar morrerSe não crerNada interessa a eles...Se não for indecenteSe não for complacente42
  43. 43. Se não for doenteSe não for meramenteSe não for condescendenteSe não for indolenteSe não for pequenoSe for em frenteSe tiver em menteSe tiver um pingo de dignidadeSe não tiver interesse na amizadeSe tiver uma sobra de hombridadeSe tiver, ainda, alguma honradezSe não quiser trapacearSe tiver firmezaSe não se deixar corromperNada interessa a eles...Se tiver aquilo... que eles não têm43
  44. 44. O QUASE MORTO E O QUASE VIVOO homem quase-morto recebeu seu amigo quase-vivo.O homem quase-morto estava quase morto.Estava em uma cama de hospital, nas últimas.O homem quase-vivo estava aflito:44
  45. 45. – Aquela mulher acabou comigo! – disse com um pouco deraiva – Desgraçada! Se ela pensa que darei o braço a torcerestá muito enganada! Caramba o que eu faço? Sou louco porela! me ajude, diga alguma coisa! Você nunca me deu umconselho na vida! Um, que seja... que amigo você é, hein? Sóme lembro daquela baboseira que me disse certa vez de quenão deveríamos ser carregados no colo quando andamos emnossa própria estrada, sei lá, ou coisa parecida.... Vocêsempre foi meio enigmático...O homem quase-morto sorriu.- Bem, estou para iniciar um novo negócio, o que vocêacha? Sim, eu sei, são tempos difíceis coisa e tal... mas quemnão arrisca... né? Sei lá... o que você acha? Diz alguma coisa,porra! Qualquer coisa! Nem que seja da minha camisa, pagueiduzentos paus nela! Bonita? Diz aí! Bonita?O homem quase-morto sorriu.- Você está me irritando, meu! Esse silêncio está meirritando... Diga-me o que achou do meu bronzeado? – ohomem quase-vivo abriu a alguns botões de sua camisa novade duzentos paus deixando o peito à mostra – Veja, quebronzeado, hein? É que estive na praia no fim de semana,cara, que mulherada! Pensei em você... sim, eu penso emvocê, seu ingrato! Gostaria que estivesse comigo, ah... quemar! Azul, azul, você precisava ver. Sim, o lugar ideal parame divertir e esquecer aquela cadela! Você não acha? O queme diz?45
  46. 46. O homem quase-morto sorriu, depois riu e depois tossiu.O homem quase-vivo foi até a janela e olhando para foracomentou:- Ah, que dia! A noite vai ser boa! Vou encher os cornoshoje à noite, tomar todas, eu mereço né compadre, é ou não é?Mereço ou não mereço? Claro que mereço, porra! Com tudoisso que ando passando por causa daquela vagabunda! Aquelavagabunda! Mas até que é gostosa, né? Hehehehe... eu soufoda, meu! Você sabe, não preciso repetir. Olha, enchi o saco!Você aí, não me diz nada, não me dá um bom conselho,daqueles que só os bons amigos dão... nem isso você faz!Sinto que estou é perdendo meu tempo aqui, fui!O homem quase-vivo saiu do quarto e o homem quase-mortoficou por muito, muito tempo fitando a parede branca.Os minutos foram passando, depois as horas...O homem quase-morto, quieto, imóvel, enfim morreu.Mais vivo do que nunca...46
  47. 47. DOSADORBebendo sóem um bar chalaçahá de se mediro tom da cachaçaA primeira doseabre a menteassim, de mansinho,num crescenteA segunda dosejá alegra a alma47
  48. 48. que já pensa numa terceiracom alegria e calmaA terceira traz bate-papocom a mesa do lado‘valeu gente fina,falou ta falado!’A quarta é a dos abraçosdo riso alto, da alegriaque venha mais uma!Coisa boa a euforia!A quinta é dos infernos!Êta que tá boa!Fala bastanteconversa à toaA sexta já vem um pouco azedaté parece discussãotodo mundo falaninguém tem razãoA sétima tem gosto de sanguede tapa, safanãode gente valentecabe uma oitava, como não?A oitava...A oitava...Tem a forma de fio de facaque bêbado tem cu na estaca!48
  49. 49. Turma do deixa disso...‘qualé a tua babaca!’‘Quer tomar mais uma?Procura outro bar!’Avisa o bodegueirocom o dedo no arEu voltoe vou matar todo mundo!que eu sou trabalhadornão sou vagabundo!E caminha na ruade pé trocadoe pensa vingança‘foi dado o recado!’Minha faca, minha faca!Minha faca, minha faca!Cai duro em um cantoo resto é ressaca...49
  50. 50. MEDICALIZAÇÃO- Doutor, estou apavorado!- Calma, calma...- Ontem... ontem... não sei como dizer... tive... tiveímpetos criativos!- Putz! Isso não é bom! mas fique tranqüilo já existeremédio. Continue.50
  51. 51. - Pois é... eu estava assistindo televisão, comosempre, quando determinada notícia me tocouprofundamente...- Calma lá! Como assim, “profundamente”?- Não sei explicar. Tocou, tocou, fazer o que?Tocou. Senti alguma coisa em minha cabeça,parecia que se mexia... era uma espécie devolúpia, algo que precisava sair. Reconheço, comvergonha, que senti prazer naquilo, sei lá... pareciaque tinha algo realmente se movimentando.- Droga! Provavelmente um pensamento, continue.- Então me levantei da poltrona, coisa que nuncafaço, peguei um pedaço de papel e verti minhaindignação na forma, na forma... não sei comodizer isso... na forma de um poema! Pronto falei!- Caramba, isso não é bom, mas espero, pelomenos, que dentro de preceitos alexandrinos!- Sei lá o que é isso, doutor! Só me expressei, e,diga-se de passagem, preenchi cinco páginas. Eucriei, doutor, criei, vê se pode! Tem cura?- Já tem remédio, fique tranqüilo.51
  52. 52. - Ufa! Que alívio....- Sobre o que escreveu?- Bem eu questionei o ...- Você o quê?- Questionei o ...- Já chega, para mim está bom. Olhe, começa assim,questiona ali, questiona aqui e daqui um poucovocê corre o risco de adquirir ‘pensamentocrítico’, e lhe garanto, taí uma moléstia difícil desanar. Bem, você está com sintomas de tendênciacriativa, está no começo dá para curar. Vou lhereceitar alguns remédios que você sempreencontrará em qualquer farmácia, mas lembre-se:a loucura começa assim, hein? E mais, nunca, emhipótese alguma leia Foucault, entendido?- Ler quem?- Nada, nada, deixa pra lá.- Mas não é tudo, doutor.52
  53. 53. - Não acredito, tem mais?- Sim, é que...bem, como o senhor pode ver, sou umhomem já em idade avançada, pois é... pasmedoutor... eu... eu... eu... eu nunca broxei! e pior,minha libido tá sempre a mil! Estou muitopreocupado, doutor, muito preocupado, não énormal isso na minha idade...- Não é normal, mas não se envergonhe, já temremédio, fique tranqüilo... já tem remédio...53
  54. 54. DR. GOUVEIA FEZ MERDA...Dr. Gouveia fez merda.E agora?E agora Dr.Gouveia, que é muito importante,precisa limpar o que fez.Como?54
  55. 55. Ora, Dr, Gouveia é esperto, há de arrumar um bodeexpiatório, alguém com costas sujas nas quais maismerda ou menos merda dê na mesma merda...Os funcionários de confiança do Dr. Gouveia jásabiam em quem botar a culpa. Ah, os funcionáriosde confiança do Dr. Gouveia, respeitável Dr.Gouveia... Ele tinha muitos amigos, mas poucos deconfiança, daqueles que varrem para debaixo dotapete as merdas do Dr. Gouveia.Esses amigos tiveram uma idéia. Conheciam umvagabundo, drogado, bêbado, desqualificado,imoral [Dr. Gouveia amava esta palavra: Moral],pária, porco... enfim, alguém cujas costas cabiamtodos os piores adjetivos que se pudesse imaginar[embora Dr. Gouveia não fosse muitoimaginativo] .Era um tal de Zé da Cola. Cara criado em beco;fumador, bebedor, cheirador, ladrão, maconheirosem-vergonha. Era só oferecer uma graninha e o Zétoparia abraçar a culpa pelo crime cometido peloimpoluto Dr. Gouveia. Não tinha erro.E então Zé? Topa ou não topa?Topo não senhor. Isso aí dá cana grossa... eu, bem,eu rolo por aí... fumo, bebo, cheiro, às vezes batoem alguma puta, já bati carteira, rolei em beco, fuipreso por vadiagem, sou escória, sacou. Sou casca55
  56. 56. grossa, mas isso aí eu topo não, isso é coisagrande... é muita cadeia, é cadeia demais da conta.Ora, Zé, você é um merda mesmo, o que tem aperder?Tenho a perder minha fumada, minha cheirada,minhas putas, meus becos, minhas bebedeiras,minha vadiagem.Então você não perde nada.Perco tudo.Mas Zé, perder é da vida... você, mais queninguém, já devia saber disso.Caramba, e como sei! Mas, e o tal doutor esse,você já disse pra ele que perder é da vida?O doutor é um homem sério, não sabe perder. Nãogosta de perder... mas você Zé, é um fodido! Pegueessa grana e assuma o crime!Assumo não. Esta vida errada é tudo que eu tenho.Cacete! É muita maconha, crack, cocaína, cachaça,cola, puta... é muita coisa preu largar...Você não vale nada mesmo!Vai lá gente fina, diz pro tal doutor que sejahomem uma vez na vida!56
  57. 57. E o respeito rapaz! Você sabe de quem estáfalando? É o Doutor Gouveia!Esse mesmo, diz pra ele que eu tenho tudo a perder,pois quem me vê já sabe quem sou, o que sou, sejalá que porcaria for... minha identidade: umdesqualificado! Que seja... já o tal doutor quem vênão enxerga o assassino, só enxerga o homemimportante, é bom assim né?Seu insolente! Não custa nada! O corpo... o corpoestá aqui no porta-malas e...Olha meu, diga o que quiser, mas agora vou enrolarunzinho, dar um, dois, e sair pra vida, é issoirmão...O doutor vai ficar furioso!Não é problema meu, certo?Dias depois, Dr. Gouveia, que também era político,fez passar uma lei para limpar os becos imundos dacidade. Perseguiu, prendeu, bateu, deu sumisso emtodos os vagabundos da área. Foi saudado pelapopulação como o salvador da pátria. Dr. Gouveiaaproveitou a boa maré e se candidatou a prefeito.Aos funcionários de confiança, confidenciou quede um limão fez uma limonada e que não era à toaque seu apelido agora era ‘paladino da lei’. Quantoao defunto, dera outro encaminhamento, ninguém57
  58. 58. nunca soube de nada. Mas dizem – os funcionáriosde confiança - que a frustração do Dr. Gouveia pelovagabundo desqualificado não ceder aos seusdinheiros o incomodou por muito tempo “era só oque faltava” confidenciava o doutor “era só o quefaltava... não encontrar ninguém para levar a culpa,é o fim do mundo... definitivamente não dá paraconfiar nessa gentalha!” esbravejava comgrandiloqüência, já treinando seu discurso paraprefeito.58
  59. 59. O INIMIGOO INIMIGO VAI VOLTAR!Esta frase grifada em vermelho na parede enegrecida darepartição às vezes instigava a imaginação de Júlio. Emmeio ao bate-bate das máquinas de escrever, que nãoparavam nunca, Júlio às vezes raciocinava... “O Inimigovai voltar...” O inimigo vai voltar? Mas... o inimigo jáandou entre nós? Como assim vai voltar? Afinal, quem éo inimigo? Esses devaneios lhe causavam vergonha, poissempre os interrompia quando percebia que o som sempre59
  60. 60. sério das máquinas havia parado, e seus colegas, sentadosàs suas mesas, o fitavam de maneira estranha.Olhos mortos.A repartição era escura, quase não tinha cor [seja lá o queisso – cor - quisesse dizer], Júlio não conhecia essascoisas, apenas batia relatórios em sua velha máquina... tactac tac tac tac tac e então uma sensação de segurança lheacalentava a alma, era um tac tac tac tac tac tac tac emconsonância com os demais, era algo harmônico , todosjuntos tac tac tac...O Inimigo vai voltar...“Como assim? Quem é ele? Quem é ele?” Seu olharperdido no nada... “Quem é ele?”Pronto. Máquinas paradas. Mais uma vez o peso dosolhares sobre si.Olhos mortos.Desconforto total.Um colega se pôs em pé, perfiladofeito um militar, e em seguida retirou-se da sala. Semdemora já estava de volta acompanhado do chefe; estebotou a mão no ombro de Júlio e fez um sinal com acabeça. Saíram. As máquinas retomaram seus ritmosmonocórdios... tac tac tac tac tac tac...Já na sala do chefe, este o inquiriu. “Afinal? O que estavahavendo com ele, Júlio, sempre funcionário tão bom? Não60
  61. 61. era admissível desviar os olhos das tarefas, ou seja, dosrelatórios, e perder-se em pensamentos, com o olhar soltono nada, como assim? E as tarefas? E as tarefas? Quetomasse jeito então, afinal, isso não parecia bom exemplopara os demais.“Já pode ir”Tac tac tac tac tac tac...Mas aquela frase na parede não lhe saía da cabeça.Cabeça?Cabeça?Cabeça,cabeça, cabeça, cabeça tac tac tac tac... Por que uminimigo? Quem poderia ser inimigo daqueles inócuosrelatórios? Daquelas pessoas cabisbaixas tão ciosas deseus afazeres. Afinal, às dezoito horas – sempre, sempre -tocava a sirene e todos rumavam ordeiros para suas casas,jantavam e deitavam suas cabeças em seus travesseiros...suas cabeças? cabeças? cabeças, cabeças, tac tac tac...Dezoito horas. Sirene.Naquele dia Júlio não foi para casa.Bebeu vinhoperambuloupensouriuriu mais61
  62. 62. bebeu mais vinhocaminhoucorreupulousonhoudormiu de ressaca...Oito da manhã. Sirene.Tac tac tac tac tac tac...Júlio sentiu a mão do chefe em seu ombro; levantou-se eacompanhado daquele homem taciturno e mal-encarado,desapareceu pela porta. Minutos depois a senhora dalimpeza entrou na repartição com balde, esfregão, eindiferença; então esfregou, esfregou, até desaparecer osdizeres da parede. Ninguém desviou os olhos dosrelatórios.Tac tac tac tac tac tac...Júlio nunca mais foi visto.62

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