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Largou a esferográfica, voltou ao teclado do seu computador e experimentounovamente     o   Aleascript.   "BAR",     "SOLT...
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Rodolfo não pôde deixar de sorrir com a conversa da amiga. Fora sempre assim, asua relação de amizade, com Teresa a pôr ág...
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Capítulo 2 aleascript

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2º capítulo do Aleascript

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Capítulo 2 aleascript

  1. 1. CAPÍTULO 2 “O segredo da criatividade é saber como esconder as fontes." (Albert Einstein) Rodolfo sentou-se à frente do seu portátil. Parecia impossível ser sexta-feira eestar em casa, a esta hora da noite, em vez de se estar a divertir com um programazinhoque já era praticamente um ritual. O jantar era, quase invariavelmente, no Oui, chezmois, propriedade do seu grande amigo Filipe que estivera emigrado em França dozeanos. Entre outras iguarias, Filipe, ou melhor, o seu chef, Diniz, confeccionava unsbifinhos de javali com castanhas, acompanhados ainda de um arroz de frutos secos, quefaziam com que Rodolfo, a meio da tarde, começasse a salivar por antecipação. Nofinal, Filipe arranjava sempre tempo para tomar um digestivo com ele. Um e outro eramgrandes apreciadores de aguardente velha, bebida que acompanhava dois dedos deconversa, quase sempre sobre o assunto preferido dos homens. Depois, seguia-se umasessão de cinema no Centro Comercial Lux. Não era particular adepto da moda dasmicro-salas de projecção, mas a falta, nas redondezas, de uma sala maior, aliada àvariedade cinéfila de oferta destas, fazia com que acabasse por ser esta a sua opção.Estes programas de sexta à noite eram quase sempre passados em boa companhia.Quase a fazer quarenta anos, Rodolfo mantinha um ar jovial, alicerçado, porventura, noseu hábito diário de prática de exercício físico. Como não tinha paciência para ginásios,era em cima da sua bicicleta de ciclismo que queimava calorias, que exercitava os seusmúsculos e que mantinha a bomba oleada. Quando trabalhava no jornal, tinha sido ele oprimeiro a utilizar bicicleta para ir para a redacção. O seu hábito teve seguidores, de talforma que ir de bicicleta para o trabalho passou a ser uma imagem de marca daquelediário. Agora que já não tinha de se deslocar para trabalhar, encontrava sempre forma dededicar umas duas horas diárias à sua amiga de duas rodas. Tinha a felicidade de morarnuma zona relativamente calma e de ter dois vizinhos que quase sempre lhe faziamcompanhia nestas deambulações diárias. Em excelente forma física e quase sempre debom humor, encontrar companhia agradável não constituía dificuldade para Rodolfo.No final da sessão, quase sempre optava por um bar tranquilo onde pudesse, sem ter queberrar, manter uma conversa perceptível com os companheiros e, naturalmente,companheiras. Não raramente, Rodolfo terminava estas noites de sexta-feira em bonslençóis. Depois de quase cinco anos de relação mais séria, acabada abruptamente porvontade (ou falta dela) da sua companheira, optou por desinvestir no sexo oposto. Não
  2. 2. significa isto que tenha passado a ter, em alternativa, um olhar especial para os seusconspécimes masculinos. Apenas passou a fugir de compromissos como o Diabo dacruz. Os únicos a que ainda não tinha sido capaz de escapar eram aqueles que o seueditor lhe impunha. A pensar nisso, colocou a pen, seleccionou o Aleascript e iniciou asua instalação. Concluída esta operação, a qual durou breves minutos, abriu o programae fez o seu primeiro clique na tecla "enter", depois outro e ainda mais outro. Tal comocombinado com o seu amigo Paulo, ao fim de cinco cliques completar-se-ia uma sériede palavras com que ele deveria trabalhar. As palavras iam-se sucedendo: "SORTE","HISTÓRIA", "SAÍDA", "IDEIA", "MÁQUINA". Roberto decidiu tentar escrever algoa partir destas 5 palavras. — “Aquele era o seu dia de sorte; finalmente, uma ideia brilhante iria permitir-lheescrever a mais extraordinária história alguma vez escrita! Teria mesmo de resultar,pois era a única saída para acalmar o ansioso editor: uma máquina de escrita!” Olhou silenciosamente para o que tinha escrito. Não estava mal, não senhor. Noentanto, não deixava de ser surpreendente a coincidência com os acontecimentosrecentes. Aquela era a história dos seus últimos dias! Não quis dar muita importânciaàquele acaso, pois não passaria, naturalmente, disso. Aliás, estava convencido de queteriam sido os acontecimentos recentes a fazê-lo olhar para aqueles vocábulos daquelaforma. Se quisesse, não seria difícil compor a história de forma completamente diversa.Experimentou, quanto mais não fosse para provar a si próprio que tinha razão. — “A gasolina estava mesmo no fim; por sorte, a menos de 500 metros esperava-o uma saída, com direito a posto de gasolina e tudo! Saiu, atestou o depósito e,enquanto esperava pela sua vez de pagar, entreteve-se a folhear alguns jornais expostosno escaparate. Uma história especialmente escabrosa chamou-lhe a atenção, pela ideiamacabra do autor. Um jovem pegara numa máquina de roçar mato e entretivera-se adestruir todas as árvores que lhe apareceram pelo caminho..." Olhou para o que escrevera e sorriu. Como pensara, era tudo uma questão deorientação do pensamento. Finalmente, as ideias começavam a brotar e o seu editor, embreve, deixaria de lhe massacrar a cabeça!
  3. 3. Largou a esferográfica, voltou ao teclado do seu computador e experimentounovamente o Aleascript. "BAR", "SOLTEIRO", "PAPAGAIO", "AVIÃO","CANETA". — “O bar "O Solteiro" estava apinhado. Furou por entre aquela mole de genteque esfumaçava e conseguiu chegar ao balcão. Um papagaio colorido entretinha algunsclientes, apostados em fazê-lo falar. Um deles, visivelmente sob o efeito dos mais decinco uísques já emborcados, fazia esvoaçar uma caneta como se de um avião setratasse. “ Já vira muita coisa bem mais mal escrita. Poderia dar origem a uma históriainteressante. Decidiu experimentar outra combinação. “Solteiro há mais de 30 anos,tantos quantos os que tinha, Roberto entrou naquele bar, disposto a fazer mais uma dasconquistas amorosas, ou melhor, sexuais a que dedicava grande parte dos seus temposlivres, que, convenhamos, eram todos. Impossível, de imediato, ignorar um autênticoavião que, sem qualquer constrangimento, falava com duas amigas com voz bemaudível. Monopolizava de tal forma a conversa que mais parecia um papagaio, mascom imenso charme. Pegou num papel enrugado que trazia no bolso e numa caneta erabiscou umas palavras meigas, pedindo a um empregado para entregar aquelamissiva na mesa daquela mulher encantadora. Em pouco mais de duas horas já seencontravam a caminho do aeroporto, com destino a Las Vegas, para um típicocasamento relâmpago.” Desta vez, Rodolfo empalideceu. Quando as coincidências são muitas, o escritordesconfia. Há um ano, aquela fora a sua história! Numa noite de copos, conhecera umamulher num bar e, num impulso, voara para se casar na Capital do Jogo. Durara pouco,como quase sempre nestas circunstâncias, mas tivera a sua piada! Esta novacoincidência é que não era lá muito hilariante. Estaria a entrar em paranóia? — Não há duas sem três — pensou. — Experimentemos outra vez. — Com algumreceio, lá recomeçou a clicagem. "JORNAL", "ÁFRICA", "MASSACRE"... Parou de clicar. Seria possível? Há cerca de 5 anos, tivera a sua primeira (e última)coroa de glória desde que abraçara a carreira jornalística, mas com que consequências!Numa viagem ao continente africano, enviado pelo jornal onde trabalhava há mais de 10anos, descobrira, quase por acaso, uma conspiração governamental para matar todos oshabitantes de uma dada etnia. Rodolfo tirara algumas fotos comprometedoras que lhevaleram o assassinato do colega que o acompanhou. Rodolfo escapou, mas a catanada
  4. 4. que levou deixou-lhe uma recordação amarga, traduzida numa cicatriz com cerca detrinta centímetros na parte anterior da coxa direita. Como sempre, no meio de muitoazar há sempre maneira de se ver uma ponta de sorte. Salvou-se o abono de família, maspor pouco. Por pressão internacional, o governo absolutista e déspota resignou, tendo,mais tarde, sido conseguida a condenação do presidente e dos seus correligionários.Rodolfo foi condecorado por bravura e bons serviços à humanidade mas nunca mais seaventurou em andanças deste tipo. Abandonou o jornalismo três anos depois mas não ogosto pelas letras. Dedicou-se à escrita ficcional, o que, convenhamos, não difere muitode grande parte da escrita jornalística. Clique, clique. “MEDALHA”, “EXONERAÇÃO”. Pois. Cá estava,definitivamente, a terceira. Duas com três. Pegou no telefone. A coisa estava a tornar-se demasiado séria e assustadora para aencarar sozinho. Como sempre acontecia nestas ocasiões, não teve dúvidas a quem ligarpara desabafar e procurar algum apoio. — Estou? — perguntou uma feminina voz doce, embora nitidamente ensonada. — Teresa? Sou eu, o Rodolfo. Desculpa estar a ligar-te a esta hora, masaconteceu-me uma coisa que não consigo explicar e… — Espero que seja suficientemente importante para me ligares às quatro damanhã, Rodolfo! Ou é mais um dos teus estados de alma por não resistires aos encantosde um qualquer rabo de saia? — perguntou-lhe, interrompendo-o, Teresa, mais do quehabituada às confidências amorosas do amigo. — Não, Teresa, desta vez não tem nada a ver com mulheres. Ou melhor, acho quenão tem, mas como me parece um caso de bruxaria, até talvez tenha, quem sabe! — Bruxaria? Tens a certeza de que não bebeste uns shots a mais? Estás em casa? — Sim, sim. Não bebi nada e estou em casa. Podes dar um salto aqui? É muitoimportante e estou certo de que te vai interessar bastante! — Eu, interessada em bruxas? Duvido! Olha, se elas não te estão a bater com avassoura nem te estão a obrigar a provar uma qualquer poção para te transformar numratinho, será que podias esperar até de manhã para me contares tudo com calma? Seestás muito assustado, então proponho--te que venhas cá dormir o resto da noite. Nosofá, claro! Sabes onde está a chave, entra, deita-te e ao pequeno-almoço, que vais fazerpara me compensares por me teres acordado a esta hora, falas-me dessas danadas que tequerem encher de feitiços, vale?
  5. 5. Rodolfo não pôde deixar de sorrir com a conversa da amiga. Fora sempre assim, asua relação de amizade, com Teresa a pôr água na fervura de Rodrigo. Os seus amigosnão conseguiam compreender como era possível um homem ter uma mulher comoamiga, especialmente quando ambos eram descomprometidos e a mulher era aquela.Talvez fosse porque Teresa punha mesmo muita água na fervura… — Tens razão, Teresa. Estou mesmo com os nervos em franja com o que se está apassar, mas não me parece que corra o risco de acordar moído de pancada vassoural oucom um intrigante gosto exclusivo por queijo. No entanto, a tua proposta para passar aío resto da noite é irrecusável. Mesmo no sofá. Em trinta minutos estou aí. Beijo.

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