A noiva_do_inverno

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A noiva_do_inverno

  1. 1. A Noiva do Inverno Lynne Graham A noiva do inverno (coleção sabrina noivas 71) (The winter bride) Lynne Graham Este Livro faz parte do Projeto_Romances, sem fins lucrativos e de fãs para fãs. A comercialização deste produto é estritamente proibida. Todos os sonhos poderiam ser realizados... Durante dois anos, Angie mantivera em segredo o resultado de sua noite de paixão com Leo Demétrios. Mas, agora, seria impossível não contar a verdade: afinal, em breve estaria frente a frente com o homem a quem tanto amava... E não podia negar a ele o direito de conhecer o filho. Leo tinha certeza de que Angie escondia alguma coisa. Se não, por que relutara tanto em encontrá-lo? Ele sabia que teria uma árdua batalha pela frente. Porém, não desistiria... Mesmo porque, seu coração insistia em bater descompassado toda vez que a via! 1
  2. 2. A Noiva do Inverno Lynne Graham CAPÍTULO I — Será que ouvi bem? Você está querendo aumento? — Cláudia fitou a jovem, chocada. — Creio que já temos sido bastante generosos. Além de um bom salário, você tem um teto para morar, e não se esqueça de que estamos mantendo você e seu filho! Ângela Brown não cedeu, embora a resposta que ouviu a embaraçasse. — Sei disso, mas na maioria das vezes trabalho sete dias por semana e à noite ainda sirvo de babá para as crianças... Sua insistência fez a elegante morena corar. — Não consigo acreditar que estejamos tendo esse tipo de conversa. Você cuida da casa e olha os meninos para mim. Decerto não espera receber algum dinheiro extra por aquilo que de qualquer modo teria de fazer. Não precisa cuidar de Jake? Vocês dois são tratados como se fossem da família. Não entendo como pode ser tão ingrata. — Está ficando muito difícil, para mim, viver com tão pouco — disse Ângela, humilhada. — Bem, não sei o que faz com o que ganha já que não tem despesa alguma. George não gostará de saber dessa sua exigência. — Não é uma exigência. É um pedido. — Ângela estava muito tensa. — Um pedido recusado, então. — Cláudia dirigiu-se à porta. — Não tem do que se queixar do trabalho que faz aqui, Angie. Quem me dera ter alguém que me pagasse apenas para ficar em casa e encher a lavadora de louças. Além disso, a aceitamos, apesar de grávida. Saiba que nossos amigos nem sequer considerariam manter uma moça em suas condições, e solteira, na casa deles! Ângela nada disse. Não havia mais o que argumentar. Nenhuma “moça em suas condições” trabalharia tantas horas seguidas. Aceitara trabalhar na residência dos Dickson aceitando o equivalente a alguns trocados no lugar do salário. Na época, ficara tão grata por ter um teto sobre a cabeça que não fizera nenhuma objeção. Porém, aos poucos, o expediente foi se esticando, até se ver atarefada o dia inteiro como criada e por tempo integral como babá de três crianças. Mas ela era muito ingênua na época, e, grávida e sozinha, via o emprego na residência dos Dickson apenas como temporário. Imaginava que seria capaz de conseguir algo mais bem remunerado assim que o bebê nascesse, e então iniciaria nova vida. No entanto, aos poucos aquela confiança foi fenecendo, à medida que se dava conta do quanto lhe custaria criar uma criança sozinha. Isso, além do preço dos aluguéis numa cidade cara como Londres. — Vamos esquecer toda essa bobagem — sugeriu Cláudia, com graça, aproximando-se da saída, ao notar que o silêncio da criada significava que vencera a parada. — Não quer tratar do banho dos meninos? Já passa das seis, e eles ficam com um humor terrível quando estão cansados. Já passava das oito quando Ângela colocou as crianças para dormir. George e Cláudia haviam saído para jantar. Sophia, de seis anos, e os gêmeos, Benedict e Oscar, de quatro, eram crianças adoráveis. Possuíam tudo o que desejavam, porém eram carentes da atenção dos pais. George era juiz e estava sempre longe de casa. Cláudia era uma poderosa mulher de negócios, e raramente deixava o escritório antes das sete da noite. A casa era espaçosa e bem mobiliada, e o casal vivia bem, porém, Cláudia era tão mesquinha que chegara a mandar instalar um registro no aquecedor de gás do quarto de Ângela, situado ao lado da garagem, para controlar o gasto. O cômodo não tinha aquecimento central, pois fora construído para ser um depósito, e no inverno se tornava uma geladeira. Enquanto Ângela certificava-se de que a única parte do corpo de Jake, seu filho, exposta ao ar frio era a cabeça, a campainha tocou. Antes que tornasse a tocar e despertasse Sophia, que acordava com o menor ruído, ela cobriu depressa o menino e saiu correndo para o corredor. Prendeu os cabelos loiros platinados, que esvoaçavam em torno das faces ansiosas, e pressionou o botão do interfone. — Quem é? — perguntou, quase sem fôlego. — Angie? De imediato reconheceu a voz profunda e o leve sotaque, e, chocada, por pouco não deixou cair o aparelho. Dois anos e meio haviam se passado desde a última vez em que ela a ouvira, e encheu-se de pânico ao reconhecê-la. A campainha tornou a tocar, impaciente. — Por favor, pare com isso... Assim acabará acordando as crianças! — Sou eu, Angie... Pode abrir a porta? — pediu Leo Demétrios. 2
  3. 3. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Não posso! Estou proibida de receber quem quer que seja à noite quando estou sozinha. Não sei o que deseja de mim, ou como me encontrou, e não me interessa saber. Vá embora! Em resposta, Leo tornou a tocar. Com um gemido frustrado, Ângela saiu para o hall de entrada e, com relutância, abriu a porta. — Obrigado — disse Leo, frio. Ângela o fitou, a pulsação acelerada. — Lamento, mas não posso permitir que entre. As sobrancelhas escuras arquearam-se, indagadoras. — Não seja ridícula. Ângela fitou aqueles olhos tão escuros como uma noite tempestuosa, e um arrepio a percorreu. Leo Demétrios em carne e osso. Um metro e oitenta de sofisticação e intimidante masculinidade. Os ombros largos preenchiam de maneira sedutora o paletó do traje formal que usava. A iluminação do hall delineava suas feições perfeitas e refletia-se nos cabelos escuros e brilhantes. Ainda assim, Ângela não acreditava que Leo estivesse ali, diante dela. — Ridícula ou não, não posso deixá-lo entrar. —Passou as palmas das mãos úmidas nos lados da calça jeans. Naquele momento, ouviu um choramingo vindo da escada, voltou-se e deu com Sophia. — Quero água, Angie. Estou com sede... — pediu a garotinha. — Volte para a cama. Já vou levar para você. Leo aproveitou sua distração para entrar. Ângela lançou-lhe um olhar suplicante, preferindo não falar para não alertar a sonolenta Sophia da presença do visitante inesperado. Mordeu o lábio, frustrada, e, deixando-o ali, dirigiu-se à cozinha. Logo depois, subiu a escada levando o que a garota pedira. Os donos, àquela hora, poderiam estar a caminho de casa. Não iriam gostar de encontrá-la entretendo um estranho, dentro da residência deles. Ângela tinha os pensamentos tumultuados ao tentar adivinhar o motivo que levara Leo a vir à sua procura e como ele descobrira seu paradeiro. Deu a água a Sophia, acomodou-a de volta no leito e tornou a descer. Leo se encontrava ainda no hall. Não ficaria surpresa se o encontrasse instalado em uma das poltronas de couro da sala de estar. Estava acostumado a ser recebido com tapetes vermelhos quando honrava alguém com sua presença. Jamais fora deixado à soleira de alguém. Leo Demétrios possuía uma imensa fortuna, poder e influência no mundo dos negócios, tudo isso devido às suas bem-sucedidas empresas. Seu ramo era a eletrônica. Surpreendida com o olhar ardente percorrendo-lhe o corpo esguio, Ângela quase tropeçou no último degrau da escada. Os espetaculares olhos castanho-escuros pareciam em chamas ao deslizarem dos seios fartos para o rosto dela. Confusa e ciente de que outra vez corava, encarou-o, desconcertando-se com o divertimento que havia em sua expressão. Como era possível que tivesse se deixado abalar tanto pela presença dele? — Serei breve, Angie. — É bom que seja. Estou arriscando meu emprego recebendo-o. — Ângela sussurrava, Lutando para recuperar a momentânea perda de concentração. De repente, como se algo lhe ocorresse, arregalou os brilhantes olhos azuis. — Você veio por causa de meu pai? Ele está doente? Leo franziu o cenho. — Pelo que sei, Brown está esbanjando saúde. Ângela corou, mortificada. Entendia agora o breve olhar intrigado de Leo. Sem dúvida nenhuma, seria mais fácil o Saara congelar do que Leo Demétrios ter vindo até ali bancando o mensageiro de um dos serviçais de seu avô. E, em uma revolta súbita contra as rígidas regras de disciplina de Cláudia, abriu a porta da pequena sala de televisão.— Entre. Poderemos conversar aqui — convidou, tensa, tentando soar natural. Era uma ironia pensar em Jake dormindo lá em cima e Leo agindo como um estranho, educado e distante. Talvez ele julgasse que, mostrando-se amigável, correria o risco de ser assediado por ela, concluiu Ângela, horrorizada. Durante mais tempo do que gostaria de lembrar ela fora obcecada por aquele homem. Foram anos de desvario. Ângela não fora uma adolescente sonhadora que ficava sentada à espera de que algum milagre acontecesse. Aos dezenove anos, teria feito qualquer coisa por uma chance com Leo, e quebrara todas as normas para ter sua atenção, esquecendo-se de quem era e a quem perseguia. E... no final, obtivera o que procurara. 3
  4. 4. A Noiva do Inverno Lynne Graham Ângela ergueu a cabeça. Leo a observava. Sentiu a pulsação acelerar e a pele tinir. Correu a mão trêmula pelos cabelos curtos, O olhar de Leo acompanhou o movimento, e, em seguida, os cílios espessos velaram seus olhos. A boca, muito bem talhada, tornou a endurecer. — Como foi que soube de meu paradeiro, Leo? Por que veio me procurar? — Meu avô pediu para localizá-la. — Wallace? — indagou, referindo-se ao senhor inglês cuja filha se casara com o pai de Leo, um magnata grego. — Vim para lhe transmitir um convite. Wallace quer que passe o Natal em Deveraux Court. — O Natal? — Ele deseja conhecer o bisneto, A notícia a fez fitá-lo, muda e com ar chocado. Sentiu os joelhos fraquejarem e sentou-se na poltrona mais próxima. Leo soubera da gravidez? Sabia que tinham um bebê? Jamais lhe ocorrera que Wallace Neville pudesse ser capaz de partilhar aquele segredo com o neto. E agora ele queria conhecer Jake, após quase tê-la obrigado a interromper a gravidez. A notícia de que a filha do mordomo engravidara de um de seus netos o deixou furioso. Era um esnobe com horror a escândalo, e com êxito providenciou a partida de Ângela de Deveraux Court naquele mesmo dia. — Vovô começa a se convencer de que não é imortal. E, para ser franco, morre de curiosidade quanto ao bisneto. Em face de sua generosidade, será de seu interesse demonstrar gratidão. — Gratidão? Como assim? — repetiu Ângela, perplexa. A expressão de Leo tornou-se sombria. — Estou ciente do acordo que fez com ele, Ângela. Sei de toda a história. Ângela arregalou os olhos, espantada. — Mas sobre o que está falando? — Sabe muito bem. Refiro-me ao roubo. Wallace a surpreendeu no ato, e você confessou. Ângela sentiu-se congelar por dentro. Era capaz de escutar o pulsar do próprio coração. Desejou morrer. — Seu avô prometeu que jamais revelaria o que se passou a ninguém! Wallace jurara que nunca comentaria a respeito, muito menos com Leo. E Ângela não pôde suportar saber que ele considerava uma ladra, responsável pelo desaparecimento de valiosos objetos de arte de Deveraux Court, onde seu pai trabalhava e vivia. — Muitas coisas haviam desaparecido, Angie, e, após a sua partida, Wallace teve pouca chance de manter a identidade do culpado em segredo. — Então meu pai também deve saber... Leo deu de ombros. — Jamais discuti o assunto com Brown. Ângela nunca fora tão humilhada. Olhou para os sapatos de couro italiano de Leo e o odiou pôr acreditar, por aceitar a idéia de que ela fosse capaz de roubar, e mais ainda por ter atirado aquela convicção em seu rosto. Seria por esse motivo que ele se referira a Jake como se nada tivesse a ver com o garoto? Sua suposta desonestidade seria tão ofensiva a ponto de Leo não ser capaz de aceitar que Ângela poderia ser mãe do filho dele?, perguntou-se, perplexa. E de uma hora para outra, Wallace desejava conhecer o bebê. Nada daquilo fazia sentido. — Quero que vá embora, Leo. Não lhe pedi que viesse. — Não está sendo racional. Angie. Sugiro que pense melhor no convite. Vovô teria mandado prendê-la, caso não tivesse confessado que estava grávida. Teve muita sorte em escapar da prisão. Aqueles roubos já vinham acontecendo, portanto, não foram resultado de alguém sucumbindo a uma súbita tentação. Ângela fechou os olhos, arrependida do acordo que fizera com Wallace Neville. No calor do momento, acabara admitindo algo que não fizera, levada pela crença de estar protegendo alguém a quem amava. De qualquer modo, nada teria a perder. Afinal, já havia perdido Leo, e também se convencera de que precisava deixar Deveraux Court, antes que sua condição se tornasse óbvia. Estava por demais devastada pela rejeição de Leo para confrontá-lo com a conseqüência do fim de semana de paixão que haviam partilhado. — Pelo bem da criança, Wallace está preparado para esquecer o passado, Angie. — “A criança” tem um nome, e é Jake. Como se fosse possível, as feições perfeitas de Leo tornaram-se ainda mais duras. — Na sua posição, seria uma grande tolice não aceitar o que ele tem a propor. Acredito que esteja disposto a oferecer-lhe algum tipo de ajuda financeira. 4
  5. 5. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Nada quero de vocês. — Muito corada e mortificada pela plena certeza dele, Ângela levantou-se. — Mas gostaria de saber por que Wallace sente-se na obrigação de me oferecer dinheiro. — Porque seu outro neto, Drew, falhou no cumprimento do dever de sustentar vocês dois. Ângela sentiu-se confusa. Por que Leo achava que Drew tinha o dever de sustentá-la e a Jake? Então, enfim, entendeu: por acreditar que seu primo era o pai do garoto. Mas por que Leo pensaria assim? Ângela mal conteve a fúria. Naquele instante, não importava saber como alguém poderia pensar em tal absurdo. Estava por demais furiosa com a opinião de Leo a respeito de sua moral para pensar em qualquer outra coisa. Para ele, ela não passava de uma leviana, além de ladra. Afinal, só uma promíscua se tornaria amante de ambos os netos de Wallace, e isso, no intervalo de um mês. Porém, o que mais a machucava era que Leo parecia feliz por crer que Ângela havia dormido com seu primo após ter estado com ele. Sem dúvida, aquilo o satisfazia. Afinal, podia, sem remorsos, jogar a responsabilidade da criança ilegítima nos ombros de Drew. — Não vim aqui para discutir com você, Angie, e tampouco para me envolver com seus assuntos pessoais, que nada têm a ver com a minha pessoa. Vim apenas transmitir-lhe o convite de meu avô. Tenho um encontro, e já estou atrasado. Então, o triste viúvo já voltara a circular? E, pelo visto, os sórdidos problemas pessoais de Ângela não eram dignos de sua atenção. De fato, conhecendo Leo como conhecia, tão inteligente, na certa devia se congratular por ter escapado de grandes embaraços, com Ângela sendo expulsa de Deveraux Court por ter roubado. — Angie? Voltou-se, pálida, a amargura crescendo dentro dela, assaltada pela mais forte tentação que já experimentara, um impulso irresistível de acabar com o sangue-frio de Leo, de puni-lo por ter se distanciado dela, de magoá-lo como ele a magoara com a humilhante pretensão de que eles não foram outra coisa além de meros conhecidos. Leo tinha uma expressão impaciente no rosto. — Wallace a espera na quinta-feira. Suponho que posso assegurar-lhe que irá. Envolta em conflitantes emoções, Ângela desviou o olhar das sombras e fitou Leo, tão magnífico e ao mesmo tempo tão distante. O ódio por ele diminuiu. — Você deve estar brincando — disse, com um sorriso brilhante. — Não tenho a menor intenção de passar o Natal com seu avô. — Julguei que fosse ficar tentada a aceitar, pelo menos, diante da possibilidade de uma reconciliação com sua família. Ângela riu, sem nenhum humor. Leo não sabia o que estava falando. Ângela sempre tivera um relacionamento difícil com o pai. Após se tornar mãe solteira e ser rotulada de mau-caráter, de que forma Leo esperava que fosse ser recebida pelos parentes? — Quando deixei Deveraux Court foi para sempre, Leo. Lamentei muito ter sido obrigada a partir, mas não pretendo voltar, nem como visita. Aquela fase de minha vida ficou para trás. Leo observou o tenso perfil de seu rosto. — Suponho que tenha sido uma tremenda falta de tato eu ter mencionado a história do roubo. Ângela tentou conter as lágrimas que ameaçavam escorrer, determinada a não chorar diante dele. — Jamais esperaria consideração de sua parte, e não preciso disso. Deve estar louco se julga que eu seria capaz de ir até seu avô com o chapéu na mão. Estou me saindo bem sem o auxílio de qualquer um de vocês. — Mas trabalha aqui como criada... quando sempre jurou que jamais faria isso. Ângela estremeceu. Afastou-se antes que cedesse à tentação de esbofeteá-lo pelo lembrete nada diplomático. — Pense bem, Angie. Só o mais tolo orgulhoso recusaria um convite dessa natureza. Wallace poderá fazer muito por você e por seu filho. Pense na criança. Por que ela precisaria sofrer por seus erros? É seu dever de mãe pensar em seu futuro. Ângela voltou-se, os olhos azuis brilhando feito duas safiras. — E quanto aos deveres do pai dele? A boca larga e sensual torceu-se num sorriso irônico. — Quando decidiu ir para a cama com alguém tão irresponsável como Drew, devia saber que teria de se virar sozinha, em caso de acidente. 5
  6. 6. A Noiva do Inverno Lynne Graham Leo estava zangado, Ângela notou, muito surpresa. A tensão transparecia em suas feições, e a condenação era clara. Reconhecendo aquele olhar, ela se deu conta de que Leo não era tão indiferente à própria convicção de que ela fora para a cama com Drew logo após ter sucumbido a ele. Um triunfo amargo a tomou diante da descoberta. — Acredite ou não, Leo, cheguei a pensar que o pai de Jake tivesse algo de bom. Na época, estava muito apaixonada e acreditava que seria o último homem que me abandonaria quando eu mais precisasse dele. — Você tinha apenas dezenove anos... O que poderia saber sobre um homem e seus motivos? — A resposta de Leo foi desagradável, como se ele desejasse colocar um ponto final no assunto. Fitou com impaciência o relógio de ouro que trazia no pulso. — Preciso ir. A inesperada resolução dele pegou-a desprevenida. Ângela apressou-se, mas Leo já alcançava a saída. Quando abria a porta, ela sentiu-o fitando-a, e naquele instante ela se viu de volta ao passado, assaltada por lembranças perturbadoras. Leo respondendo com esmagadora paixão às suas carícias loucas, prendendo-a com o corpo contra o relvado às margens do lago e esmagando seus lábios sob os dele num beijo explosivo, deixando-a louca de desejo. A simples lembrança do corpo dele contra o seu bastava para lançar suas emoções num verdadeiro caos. Havia obscuridade no rosto de Leo e uma ternura inacreditável quando ergueu a mão e, com os dedos, traçou o contorno trêmulo dos lábios macios de Ângela, fazendo-a estremecer. — Que pena, Angie... Você está se acabando no papel de doméstica. E em seguida, antes que ela pudesse recuperar o fôlego, girou nos calcanhares e saiu para a noite lá fora. Então, voltou-se. — Pense no que eu disse, Angie. Wallace está ansioso para conhecer Jake. Ligarei amanhã para saber o que resolveu. — Não é necessário. Já está resolvido. De qualquer modo, não posso tirar um só dia de folga. Os Dickson estão com a agenda social lotada para os próximos dias, e a casa estará cheia no Natal. — Será mesmo verdade que tenha mudado tanto. Eu poderia jurar que não hesitaria em sair daqui sem olhar para trás, como fez quando deixou a residência do meu avô. Ângela enrubesceu. Era óbvio que Leo estivera esperando que a perspectiva da ajuda financeira oferecida por Wallace faria com que ela aceitasse aquele convite sem pestanejar. Mas calculara mal. Jamais diria a ele que Jake era seu filho, apesar de quase ter confessado isso, levada pela fúria. Mas se calara. No íntimo, sabia por que guardara segredo. Sua mente ocultava a triste lembrança daquilo que dissera a Leo naquele fim de semana: que seria seguro fazerem amor... e mentira, sabendo muito bem o risco que corria. Da porta, se pôs a observá-lo encaminhar-se para a reluzente Ferrari preta que deixara estacionada no pátio. Nesse momento, luzes dos faróis de um outro veículo iluminaram o jardim ao entrar na propriedade. Arrancada de sua introspecção, Ângela gemeu ao reconhecer o Range Rover de George. Cláudia saltou para fora do veículo. — Mas o que está acontecendo aqui?! — gritou ela, lançando a Leo, que permanecia ao lado da Ferrari, um olhar altivo e indagador. Em seguida dirigiu sua ira contra Ângela ao caminhar em sua direção. — Vim para trazer um recado a Angie — informou Leo, frio. — Então, permitiu que um estranho entrasse em minha casa enquanto meus filhos dormem lá em cima? Mas que audácia! — O Sr. Demétrios não é um estranho, Cláudia — disse George. — Eu o conheço há anos... Meu pai trabalha para a família dele — Ângela tentou explicar. Cláudia parou e olhou, indecisa, para o marido, que naquele instante, apertava a mão de Leo. Ciente de ter feito papel de tola, encarou Ângela com fúria assassina. — Conversaremos mais tarde, em particular. — Se não se importa, eu vou dormir — disse Ângela, com calma e dignidade. — Lamento muito, mas fui obrigada a recebê-lo. Tive receio de que a campainha acordasse as crianças. Subiu a escada, sabendo que não escaparia da preleção de Cláudia, mas estava por demais perturbada com a visita inesperada de Leo para se importar. Afinal de contas, Cláudia deveria saber que podia confiar nela, pois Ângela jamais convidaria um ladrão armado ou um molestador de menores para entrar. Não era mais uma adolescente desmiolada. Tinha quase vinte e dois anos. No entanto, Leo a fizera sentir-se como uma menininha outra vez, admitiu, consternada, embaraçada com as recordações que ele trouxera à tona, das quais nenhuma mulher com um pingo de orgulho gostaria de lembrar. 6
  7. 7. A Noiva do Inverno Lynne Graham Determinada a esquecer o episódio constrangedor, Ângela foi deitar-se, no quarto que dividia com Jake, travando uma verdadeira batalha contra uma necessidade urgente de abraçá-lo. Tolerava bem o mau humor de Cláudia, sabendo que, apesar de todos os defeitos da patroa, ali Jake podia se alimentar bem, viver com conforto e brincar em um espaçoso jardim e com muitos brinquedos. A bem da verdade, Jake nada possuía que pudesse chamar de seu, e até suas roupas haviam sido herdadas dos gêmeos. Mas ainda era muito pequeno para mostrar-se reconhecido, embora, naquele ano, Ângela estivesse decidida a proporcionar-lhe um Natal adequado. Foi por isso que se arriscara, pedindo a Cláudia um pequeno aumento. Ângela suspirou e moveu-se, inquieta, sob os lençóis. Era quase impossível acreditar que Wallace Neville estivesse disposto a receber a filha do mordomo em Deveraux Court. Convidara-a para partilhar com ele o Natal, ou esperava empurrá-la de volta ao pequeno, úmido e desolado apartamento no porão, onde seu pai morava com a esposa? E Ângela? Teria firmeza suficiente para recusar a ajuda financeira do avô de Leo? De qualquer modo, aquilo estava fora de questão. Cláudia teria um ataque se Ângela exigisse folga durante as festas. E, até que Jake tivesse idade suficiente para freqüentar uma escola, procuraria não contrariar os Dickson, que eram sua segurança. Ângela permaneceu acordada, olhando para o teto, lembrando-se da primeira vez em que vira Leo. Tinha treze anos então. Ele costumava passar todas as férias de verão e todos os feriados com o avô em Deveraux Court, inclusive o Natal. Embora seu inglês fosse perfeito, Leo permanecia essencialmente grego. Exótico, fascinante e muitíssimo bonito, tornou-se o foco da sua atenção. Claro que, sendo oito anos mais velho, ele nem sequer sabia de sua existência. Foi então que, um dia, Leo chegou a Deveraux Court trazendo uma namorada a tiracolo. A moça era bonita, no entanto, tinha uma risada antipática e irritante. E toda a vez que ela ria, Leo fazia uma careta de desgosto. Ângela deleitava-se ao vê-lo fazer isso. Nas férias seguintes, Petrina Phillipides, filha de amigos da família Demétrios, veio visitá-los, uma perfeita boneca de porcelana, rica herdeira, de longos e brilhantes cabelos pretos, que chegou acompanhada de uma tia idosa. Ângela desesperou-se ao ver Leo aos poucos se apaixonar por ela. Será que não via como Petrina era mimada, presunçosa, com suas roupas de seda e seu penteado ridículo? No ano seguinte, Petrina tinha todos os motivos para ficar cheia de si. Usava no dedo o anel de noivado que Leo lhe dera. Ângela ficou inconformada, porém não perdeu as esperanças. Afinal, muitos noivados terminavam antes de o altar ser alcançado, confortava-se. No entanto, o milagre que esperava não aconteceu. Ângela viu todas as suas esperanças irem por água abaixo quando Wallace viajou para a Grécia para assistir ao casamento do neto. Ficou inconsolável. Tinha então dezessete anos, e revoltou-se consigo mesma por ter se permitido sofrer por um homem que nunca estivera a seu alcance, e que agora era marido de outra mulher. Foi então que começou a sair com rapazes. Com um metro e setenta de altura, corpo perfeito, esguia como uma modelo, com feições simétricas e cabelos loiros platinados, Ângela jamais ficava sozinha. Petrina logo engravidou, e no Natal seguinte tornou-se mãe de uma linda garotinha. Leo adorava a filha, a pequena Jenny, e o coração de Ângela se apertava toda vez que o via olhar com adoração para o bebê. Petrina, no entanto, não parecia muito empolgada com a maternidade. Era indiferente, e ressentia-se pelo fato da filha, e não ela, ter se tornado o centro de todas as atenções. “Oh, Leo, Leo... por que não esperou que eu crescesse?” lamentava-se Ângela, pelos cantos da casa. Logo, uma tragédia desabou sobre a família. Petrina e a filha morreram em um acidente aéreo. Naquele ano, o Natal não seria comemorado em Deveraux Court. Wallace não teria condições para isso, e Leo permaneceu na Grécia. Meses depois, no entanto, Leo retornou, sozinho e abatido, e instalou-se na cabana perto do lago, recusando qualquer companhia. Quanto a Ângela, em sua total imaturidade, havia decidido que enfim teria sua chance com ele, e precisaria arriscar-se, antes que ele retornasse à Grécia e lá se apaixonasse por uma outra mulher inadequada. O resultado fora Jake. Pela manhã, Cláudia aproximou-se de Ângela, transpirando simpatia. — Agora que sei quem é Leo Demétrios, posso entender que você não poderia manter um homem de sua importância do lado de fora da porta. Mas foi uma exceção, Angie. Não abra a porta para mais ninguém quando não estivermos aqui. 7
  8. 8. A Noiva do Inverno Lynne Graham O dinheiro falava mais alto, admitiu Ângela, irônica. Cláudia já havia ligado para todas as amigas, contando a novidade:— Você não pode adivinhar quem esteve aqui em casa na noite passada. O homem mais charmoso de toda a Inglaterra, e também um dos mais ricos, Sim, o pai da nossa empregada é mordomo dele... E acredite, Angie nem sequer lhe ofereceu uma xícara de café! “Inacreditável!” Ângela ligou a máquina de lavar, ouvindo o êxtase verbal da patroa. O homem mais charmoso de toda a Inglaterra... Suspirou, a memória insistindo na noite de loucuras que passara nos braços de Leo. Naquela mesma madrugada, Leo acordara para a terrível realidade de se ver partilhando a cama com a filha do mordomo, Quando ele pulara do leito, Ângela acordara, assustada, Sem uma só palavra, Leo a deixara sozinha e não retomara ao chalé antes de ela ter ido embora, Não estava preparada para a forma brusca como a breve intimidade deles terminara, privando-a de qualquer esperança... e do amor-próprio. O som da campainha tocando a fez voltar à realidade, Ângela abandonou o que fazia e foi atender. Parou no hall de entrada, atônita. Através da janela aberta, avistava-se a longa e impressionante capota de uma limusine dirigida por um chofer. Abriu a porta, e viu-se diante da presença gloriosa e ao mesmo tempo atemorizante de Leo. Ele usava um elegante terno cinzento, camisa de seda branca e gravata azul. — Eu não esperava vê-lo de volta tão cedo, Leo. Os olhos dele focalizaram Ângela por um momento, antes de ele sorrir para alguém atrás dela. — Sra. Dickson? — Cláudia, por favor... Leo cruzou a soleira e passou por Ângela como se ela fosse invisível. Em seguida, apertou a mão que Cláudia estendia.— Leo... — murmurou Ângela, confusa. — Vim falar com a sua patroa, Angie. Pode nos dar licença? — Venha comigo, Leo. Conversaremos melhor na sala de estar. — Cláudia sorriu, cheia de charme, para o recém-chegado. — Angie, por favor... Traga-nos café. Cada vez mais confusa, Ângela foi para cozinha e ligou a cafeteira. Curiosa, retornou ao hall. — Lamento muito, mas não poderei dispensá-la. Receberemos alguns hóspedes no Natal... — dizia Cláudia. Ângela permaneceu distante, sem ser percebida, furiosa por ter sido excluída de uma discussão relacionada à sua pessoa. Como Leo se atrevia a passar por cima dela, como se fosse uma criança indefesa? — Quando foi a última vez que Angie teve folga? —Leo indagou, parado perto da lareira de mármore, — Bem, ela... — Na verdade, Angie não tem um só dia de folga. Acertei, Sra. Dickson? — Mas de onde foi que tirou essa idéia?! — Leo... — Ângela interveio. — Suas condições de trabalho são motivo de comentários em toda a vizinhança — informou Leo, contrariado. — Na verdade, “escravidão” seria uma descrição mais exata. — Como disse?! — Cláudia gritou, como se estivesse a beira de um ataque de nervos. — Por favor, Leo! — Ângela gaguejava, horrorizada. Leo, porém, não se dignou a lançar um único olhar que fosse em sua direção. — E pior do que isso: tiraram vantagem de uma adolescente grávida fazendo-a trabalhar feito louca em troca de um salário vergonhoso. Os patrões têm deveres para com seus empregados, mas vocês desprezaram esse fato, e não há nenhuma atenuante que possa desculpar uma atitude tão inescrupulosa. — Como se atreve a dirigir-se a mim nesse tom?! Saia já desta casa! — gritou Cláudia, furiosa. — Arrume suas coisas, Angie! Você vem comigo! —ordenou Leo, sem exaltar-se. — Espero-a no carro. — Não irei a lugar algum... — Então, nossa vida doméstica virou motivo de comentários na vizinhança, não é? — Cláudia lançou um olhar ultrajado a Ângela. — Quando penso em tudo o que fiz por você sua... — Você nada fez além de usá-la com propósitos egoístas — interrompeu Leo, firme. — Quero-a fora daqui, sua mal-agradecida! Agora! Você e aquele seu filho bastardo! CAPÍTULO II 8
  9. 9. A Noiva do Inverno Lynne Graham Pálida e desgostosa, Ângela saiu da residência com uma pequena mala na mão, com Cláudia ainda esbravejando contra ela. O motorista, um homem uniformizado e com ar eficiente, os aguardava junto à limusine em silenciosa prontidão. Ângela ouviu a porta da residência bater com força e levou a mão à fronte latejante. Olhou em torno antes de encaminhar-se para o jardim cercado, onde Jake permanecera durante os minutos angustiantes em que estivera recolhendo seus pertences do quarto ao lado da garagem, com Cláudia vigiando-a. A dona da casa recusara-se a permitir que ela levasse qualquer uma das peças de roupa que Jake usava, alegando que eram dos gêmeos e que apenas foram emprestadas ao garoto, não doadas. Cláudia manteve a mesma linha quanto aos brinquedos, mesmo estando ciente de que seus filhos haviam passado da idade de brincar com eles. A visão assustadora de Cláudia arrancando as roupas de Jake e deixando-o quase nu, exposto ao vento gelado. fez Ângela terminar logo com o que fazia e correr em direção ao tanque de areia onde o garoto brincava e arrancá-lo de lá. Jake fitou a mãe com os olhos escuros arregalados. — Oh, Jake! — Abraçou-o quase soluçando e enterrou o rosto nos cabelos encaracolados. — Eu devia matar Leo! Ele não podia ter feito isso conosco. O motorista abriu a porta da limusine quando Ângela se aproximou com Jake no colo. Notando que Cláudia saía da residência, Ângela preferiu não arriscar: entrou no veículo antes que o bebê fosse cruelmente despojado do casaco de lã e do macacão, para não mencionar os sapatos. Tentando recuperar o fôlego, perdido na corrida para proteger Jake da maldade de Cláudia, Ângela ergueu os olhos. Leo fitava a criança aconchegada em seu colo com uma expressão intrigada no rosto. — Engraçado como ele é moreno... Ângela dissimulou o medo que sentiu, tirando o garoto do colo e colocando-o no assento, e prendeu-o ali com o cinto de segurança. — Eu imaginava que fosse loiro como você... — continuou Leo, observando com atenção o menininho. Como se atraído, Jake ergueu a cabecinha, o tom natural da sua pele morena ressaltado pela camiseta branca que usava. Ângela procurou pensar rápido, sentindo que entrava em pânico. — Ele se parece com minha mãe... Ela era morena, devido à ascendência celta — informou Ângela, corando. — Eu não a conheci. Ângela ficou grata por isso, porque, na verdade, sua mãe era tão clara e loira quanto ela. Mas vivera pouco em Deveraux Court, apenas quatro meses antes de resolver partir, embora grávida de Ângela, mas preferindo ter a criança sozinha a conviver com um homem a quem aprendera a desprezar devido a sua total falta de ambição. Ângela respirou fundo, mas isso não serviu para acalmá-la. Concentrou-se em Jake e prometeu a si mesma não levantar a voz, para não assustá-lo. — Você já pensou nas conseqüências do que fez a mim e a meu filho, Leo? Despojou-nos do único teto que tínhamos para morar — queixou-se, fazendo força para controlar os nervos em frangalhos. — Estou começando a pensar. Não poderei levá-la para Deveraux Court, pelo menos até quinta-feira. Wallace está com hóspedes, e não seria apropriado que você fosse para lá agora. Ainda assim, devia me agradecer. Ângela o fitou, os olhos azuis soltando faíscas iradas. — Acha mesmo, Sr. Demétrios?! — Como pode pensar em continuar naquela casa, sendo escravizada por aquela harpia? Como pôde suportar essa situação durante tanto tempo? — Pelo bem de meu filho! Lá eu tinha a chance de ficar o dia inteiro a seu lado... e era onde Jake desfrutava de vantagens que jamais conseguiria lhe proporcionar. — Aquela mulher é uma megera, Angie. Fui até aquela casa munido das melhores intenções. E no início fui gentil com ela, admita. — Você interferiu em algo que não lhe dizia respeito e deu a Cláudia dois minutos antes de começar a insultá-la, isso apesar de eu ter avisado que seria impossível para mim tirar folga no Natal... e que nada no mundo me faria voltar a Deveraux Court! Mas não me ouviu, e agora não tenho emprego, nem onde morar. Estou no meio da rua! Leo a fitou com ar de reprovação. — Não seja dramática, Angie. Claro que assumirei a responsabilidade por vocês dois, pelo menos até Wallace me desobrigar da necessidade. Ângela estava prestes a explodir. Não confiando em si mesma para falar, optou por nada dizer. 9
  10. 10. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Você irá para Deveraux Court na quinta-feira, goste ou não — informou Leo com intimidante convicção. — Fiz-lhe um grande favor, Angie. — Acha, é? Neste momento, meu filho tem apenas as roupas do corpo e nenhum brinquedo com que se distrair. — Waff... — falou Jake pela primeira vez. — Quero Waff... Ângela sorriu para o garotinho. — Waff ficou em casa, meu bem. Não pôde vir conosco — disse ela. Jake cerrou o cenho e tornou-se uma chocante versão em miniatura de seu pai. Por um instante, Ângela não acreditou que Leo ainda não suspeitara da verdade. — Quero Waff... Ele também gosta de passear de carro... Ângela engoliu em seco. Olhou para Leo com ar de censura. — Talvez possa explicar a Jake por que ele não poderá mais contar com o brinquedo com o qual dorme abraçado todas as noites. — Do que é que você está falando? Ah... que na pressa da partida acabou deixando-o para trás? — Nada disso. Todas as suas roupas e quase todos os brinquedos eram dos filhos de Cláudia, e ela não permitiu que os trouxesse. Mas não foi nenhuma surpresa, após a forma como a insultou. Como não podia tomar nenhuma atitude contra você, dirigiu sua fúria contra mim! As feições morenas de Leo endureceram. — Não se preocupe, providenciarei tudo o que for necessário para vocês dois, inclusive esse brinquedo... Waff. — Lamento dizer que Waff não poderá ser comprado, nem por todo o dinheiro do mundo. É uma pequena girafa cor-de-rosa, feita pela mãe de Cláudia para dar de presente a Sophia. — Então comprarei uma girafa de verdade. — Leo olhou para fora. — Não conseguirá enganá-lo, Leo. — Ângela balançou a cabeça dolorida. — Para onde planeja nos levar? — Para minha casa na cidade. Aonde mais? — Nunca! — Waff.. Quero ir para casa... — queixou-se Jake. — Parece que ele é de fato obcecado por esse Waff. — Jake é apenas um bebê — Ângela defendeu-o. —Como pôde fazer o que fez, Leo? — Fiz apenas o que era direito.. — Direito? — Queira ou não, seu filho é um Neville, e faz parte do meu círculo familiar. Ele não deve pagar pelo erro dos pais. Ângela laçou-lhe um olhar amargurado. — Não fique me acusando, não tolerarei isso, Leo. — Sugiro que deixemos esse tipo de conversa para quando estivermos a sós. — Não irei para a sua casa — insistiu Ângela, entre os dentes. — Irá, sim! Não me arriscarei a deixá-la em um hotel. Pode tornar a desaparecer, e já perdi tempo demais tentando localizá-la. — Julguei ter sido Wallace quem esteve a minha procura. — Meu avô está com mais de oitenta anos e me encarregou de contratar alguém para achá-la. E não foi fácil. — Eu não queria ser encontrada. O silêncio então aflorou. Durante um minuto ou dois, ela olhou para a rua sem nada ver. Em seguida, devagar, voltou-se para Leo, que parecia bastante relaxado. Sua atitude diminuiu a tensão de Ângela. De repente, ele voltou-se. Os brilhantes olhos escuros percorram o rosto de Ângela, que corou. Sentia a garganta seca e gotas de suor na testa. Leo se manifestou: — O que eu mais temia é que você pudesse estar nas ruas. Acreditava que acabasse sendo forçada a contar com sua boa aparência para sobreviver. Os olhos de Ângela arregalaram-se, ultrajados. — Relaxe, Angie! Foi um temor natural. — Está enganado. — Ângela sentia-se cada vez mais frustrada. Apertou as mãos, num gesto de impotência. — Sobrevivi até agora sem ser preciso contar com... isso. 10
  11. 11. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Só espero que a experiência tenha servido como lição. Drew estava fascinado por você, mas seu plano sempre foi casar-se por dinheiro. Só uma rica herdeira poderá proporcionar a meu primo o estilo de vida que ele acredita merecer — Leo observou, com visível desprezo. — Prefiro não falar a esse respeito, se não se importa... — A fúria crescia dentro dela. — Nesse momento, estou tentando chegar a um bom termo com o que você fez com as nossas vidas. Leo esboçou um sorriso astuto. — Em breve você estará me agradecendo. — Nunca, Leo! Você não pode brincar com as vidas alheias como fez! Estava sem dinheiro, sem ter onde morar e sem trabalho. Leo os despojara de tudo o que possuíam. Era imperdoável colocá-la na posição degradante de precisar depender de sua generosidade. Aquilo devastava seu orgulho e era difícil de engolir. No entanto, com uma criança pequena para considerar, Ângela não podia sequer pensar em fugir dele. Para onde iria? A limusine entrou em uma rua arborizada e parou diante de um elegante casarão em estilo vitoriano. Ângela saiu do veículo e voltou-se para pegar Jake, mas ele soltou-se sozinho, evitando suas mãos. Sua independência a alertava para o fato de que aos poucos deixava de ser um bebê. Uma mulher de meia-idade abriu a porta da casa antes de terem alcançado o primeiro degrau da entrada. Inclinou a cabeça, num gesto respeitoso, e em seguida se pôs a observar Jake. — Esta é Epifânia, minha governanta. Ela cuidará do garoto — Leo informou a Ângela. — Pode deixar que eu mesma cuido. — Epifânia já trabalhou como babá, Angie. Asseguro que cuidará bem do garoto. Epifânia desviou os olhos de Jake, pousou-os em Ângela e tomou a desviá-los para o patrão, atenta às suas instruções. Ângela suspeitou que ela fora babá de Leo. Aquele não era o seu dia, reconheceu. A mulher, pelo visto também grega, na certa notaria a semelhança, sobretudo se conheceu Leo naquela mesma idade. Mas ela não se arriscaria a fazer nenhum comentário sobre o assunto e ofender o dono da casa. Por enquanto, seu segredo estava seguro, tranqüilizou-se Ângela. Jamais revelaria a Leo a verdade sobre Jake. Isso significaria expor a própria mentira e o fato de ter tirado vantagem da situação, já que se arriscara a engravidar. Era difícil não se lembrar desse fato sem se constranger. Na verdade, quando fez amor com Leo, desejava dar um filho a ele para que substituísse a filha amada que perdera. E, naquele momento louco, Ângela não parara para pensar. Ou teria pensado? Bem no fundo do coração, acreditara que Leo não seria tão insensível a ponto de afastar-se da mãe de seu filho. Amava-o com loucura, e só no momento em que fora rejeitada se deu conta do quanto tinha sido tola. Leo jamais entenderia, jamais perdoaria seu gesto. Na certa, assumiria que ela mentira para enredá-lo, por causa de seu dinheiro e sua posição social. Com uma confissão de roubo pairando sobre sua cabeça, o que mais ele poderia pensar? Leo não atribuiria um motivo mais nobre para a tão desejada gravidez. Após ter dado algumas instruções a Epifânia, que já tomara Jake no colo, Leo dirigiu-se a Ângela. — Agora nós podemos conversar... — murmurou, com suavidade. No entanto, as palavras soaram como uma ameaça. Ângela o precedeu, entrando na biblioteca, um aposento decorado com extremo bom gosto. Mobília sóbria, cortinas discretas, tapetes persas e vasos com flores frescas e viçosas. Olhou em torno do aposento e estremeceu ao se ver diante da própria imagem refletida no espelho da parede. Tinha os cabelos em desalinho e o rosto lavado, já que os cosméticos estavam entre os vários itens que para ela eram considerados supérfluos. Usava um suéter preto, calça jeans e uma jaqueta surrada, tudo adquirido de segunda mão em um bazar de caridade. Sua aparência pobre e desgastada contrastava sobremaneira com a elegância sóbria do aposento. Ângela enfiou as mãos nos bolsos e olhou para Leo, indecisa. Recostado à mesa de mogno, ele a fitava. Era como se seus olhos a tocassem. Ângela ficou tensa. Leo em seguida endireitou o corpo e caminhou em sua direção, como um predador. Confusa e ciente de que outra vez corava, ela o fitou, desconcertada. — Enfim, a sós. — Leo esboçava um sorriso misterioso, que suavizou os ângulos de seu rosto. — E então? Não vai me dizer, Angie? — continuou ele, naquele tom hipnotizante que a fazia arrepiar-se. — Dizer o quê? 11
  12. 12. A Noiva do Inverno Lynne Graham Leo prendeu entre os dedos uma mecha loira. Leo chegou ainda mais perto, encurralando-a contra a estante. — Estou pedindo uma resposta honesta para uma pergunta muito simples. Você me usou como isca para causar ciúme em Drew? Ou... acabou na cama dele com a pretensão me ferir? — Nenhum dos dois! — Certeza? Tem de ser uma dessas opções, a não ser que fosse uma mulher sem moral, mas eu relutaria em pensar isso de uma garota de apenas dezenove anos. Talvez sentisse algo por um de nós! — Você não tem o direito de perguntar isso! — Dois homens e uma linda mulher, a receita perfeita procurou para um desastre, ainda mais quando essa linda mulher além de rebelde, é impulsiva e passional. — Não sei por que está dizendo essas coisas... Não estou gostando. Leo deu de ombros. — Goste ou não, preciso saber. Drew sempre a desejou, mas nunca a desejou mais do que quando julgou que você fosse minha. Ângela deu-lhe as costas, constrangida com a insistência. Leo não dissera nada que ela não soubesse. Por ironia, jamais se sentira atraída por Drew. Comparado a Leo, ele era como uma jóia falsa ao lado do ouro, sempre à sombra do primo. Mas, após ter sido rejeitada por Leo, a atenção que Drew lhe dispensara fora como um bálsamo para seu ego ferido. Durante alguns dias, Ângela passeou com Drew e os amigos dele, comparecendo a festas, clubes e danceterias, para desespero do Sr. Brown. Será que fora desse modo que surgira a crença de que Drew era o pai de Jake? Ou em sua aflição, quando Wallace a encontrara com a miniatura na mão, ela se tornara tão incoerente que o confundira? Leo prendeu entre os dedos uma mecha loira. — Angie... Ela arrepiou-se quando deparou com seu olhar intenso. Um divertimento cruel brilhava nos olhos dele. — Pare com isso, Leo. — Com o que? Você jogou o quanto quis comigo naquele verão. A cor desapareceu do rosto de Ângela, deixando-a pálida como papel. — Tal como Diana, a deusa da caça, você me perseguiu e me atacou. Eu precisaria ser bem mais forte do que sou para resistir à tentação. Ângela desejou desaparecer. Incapaz de defender-se, procurou por um jeito de escapar. — É melhor eu ir ver Jake. Comum movimento rápido, Leo a segurou antes que se afastasse. — Mas, primeiro, terá de responder a minha pergunta. Ângela teve a sensação de ser o rato pego pelo gato. Ergueu o queixo, para se tornar mais firme. — Bem, talvez exista uma outra possibilidade que não lhe ocorreu. — E qual seria? — Talvez, se for paciente, até o final do dia, eu lhe diga qual é a diferença entre você e seu primo — desafiou-o, com o único intuito de insultá-lo. — Então é isso. Deixe-me então mostrar-lhe a diferença. — Leo puxou-a, tentando alcançar-lhe a boca cor seus lábios ávidos. Ângela balançava a cabeça de um lado para o outro para escapar. — Largue-me! Que tipo de mulher pensa que sou? — Muito sensual, que sente a necessidade feroz de ter um homem, e esse homem serei eu! Ângela debatia-se, presa por emoções conflitantes. Não esperava, porém, o tremor que a percorreu, surpreendendo-a, fazendo-a entreabrir entregar-se num suspiro. Leo não perdeu tempo. Tomou-os de assalto. E aprofundou o beijo com ousadia. Ângela recuou, com uma exclamação abafada. — A diferença entre mim e meu primo Angie, é que eu fiquei transtornado depois do que houve entre nós dois, e ele continuou o mesmo safado! — Você? Transtornado? — E como mais deveria ter ficado? O que esperava? Minha esposa havia morrido fazia apenas sete meses... e você tinha só dezenove anos! Julga que me senti orgulhoso da conquista que fiz? A filha adolescente de nosso mais fiel empregado, e o pior: virgem?! 12
  13. 13. A Noiva do Inverno Lynne Graham CAPÍTULO III Ângela ficou estática, a palidez nas feições perfeitas pronunciada, porém, dissimulando o turbilhão interior, a habilidade que desenvolvera trabalhando para Cláudia. Naquela casa, aprendera a manter o rosto desprovido de expressão, fosse qual fosse a situação. No entanto, no íntimo, sentia-se muito triste. As palavras dele soavam desagradáveis a seus ouvidos. Na verdade, cada uma delas enfatizava a humilhante desigualdade que sempre a separara de Leo. Mortificada, ela saiu da sala para o corredor, sem fazer idéia de onde procurar refúgio. Encontrou um lavabo e ali se abrigou. Não, Ângela jamais teria acesso ao mundo exclusivo de Leo. Tudo os separava: idade, condição social e experiência. Para Leo, Ângela sempre seria a filha do mordomo. Jamais outra coisa. Por que então a beijara? Por ter se julgado insultado? O insulto teria despertado aquela resposta nele? Leo não era um contido cavalheiro inglês. Ao contrário, era bastante impetuoso e passional. Um arrepio a percorreu diante das lembranças das horas passadas em seus braços. Era verdade que ele ainda a atraía, mas agora era mera atração física, nada tinha a ver com suas emoções, tentou se convencer. Alguém bateu de leve na porta, mas Ângela ignorou. — Abra, Angie. Não terminei de falar... Ângela pegou a toalha para enxugar o rosto que molhara com água fria. Em seguida obedeceu. — Onde está Jake, Leo? — Com Epifânia. Como se para confirmar isso, naquele instante ouviu-se a risada deleitada do garoto. — Não quero falar sobre o passado, Leo. — É um assunto inacabado e que muito me incomoda. Ângela ergueu a cabeça, o rosto cansado. — Para mim, o passado encontra-se morto e enterrado. Você foi bastante claro na época: “Lamento muito, mas eu estava bêbado e precisando muito de conforto...” — Ângela repetiu as palavras que ouvira dele, sem esconder a amargura. — Não foi bem assim, eu... — Foi o que deu a entender! — Magoada e achando a proximidade dele insuportável, Ângela abraçou-se, procurando se proteger. — E não se atreva a tornar a me tocar! Ângela acreditava que Leo perdera o poder de magoá-la. Havia enterrado fundo a adolescente tola que fora, e julgara ter amadurecido. Mas estivera se enganando. Ele pousou a mão sobre seu ombro tenso, e ela estremeceu. — Você está tremendo, Angie... — Jamais o perdoarei por ter me trazido para esta casa! Onde espera que eu viva? Não pense que rastejarei de volta a Deveraux Court para ser humilhada. Jamais farei isso, ouviu? Leo estudou com frieza seu rosto amargurado. — Isso nós veremos... Por enquanto, relaxe e aproveite minha hospitalidade. — Virou-se para deixá-la. — Não, Leo, nada quero de você. Leo parou, e disse por sobre o ombro: — Mais cinco dias e seguiremos para Deveraux Court. Se for inteligente, tudo acabará bem. Mas daí em diante será assunto seu e de Wallace, não meu. Quando Leo se afastou, Ângela sentiu-se só e assustada. A sensação de insegurança era intensa. O último lugar no mundo onde desejaria estar era em Deveraux Court, mas o pior seria ficar na residência de Leo. Enfim, decidiu ir ao encontro da criada, que a conduziu a um quarto confortável e espaçoso, que se comunicava com um outro, ainda maior, onde Epifânia mantinha Jake ocupado. Epifânia nada deixou escapar quanto ao fato de Jake merecer mais atenção do que o filho de qualquer outro hóspede, e tornou-se óbvio que ela adorava crianças. Ângela censurou-se pela consciência culpada, que a tornava tão imaginativa. Claro que Epifânia não havia notado semelhança alguma entre Leo e Jake. Quarenta minutos depois, Ângela e Jake desceram para o jantar. Um prato solitário encontrava-se sobre a mesa da imponente sala decorada em tons de azul e dourado. À esquerda, encontrava-se o cadeirão para Jake. Pelo visto, Leo não se juntaria a eles. Talvez não costumasse comer tão cedo. 13
  14. 14. A Noiva do Inverno Lynne Graham Após a refeição, Ângela levou Jake de volta ao dormitório, onde vários brinquedos e bichinhos de pelúcia o aguardavam. Uma enorme girafa destacava-se. Sobre a cama encontravam-se, vários pacotes. Enquanto Jake dava pulos de alegria, Ângela permanecia à soleira, paralisada pela surpresa. — Viu como é fácil distrair a atenção de uma criança? — indagou Leo, logo atrás dela. Ângela voltou-se, surpresa. Não o ouvira aproximar-se. — Como foi que conseguiu providenciar tudo isso tão rápido, Leo? — Contei com a ajuda de uma amiga. Nos pacotes, você encontrará as roupas de que precisam. Ângela sentiu-se constrangida. — E quanto foi que lhe custou toda essa generosidade? Leo deu de ombros. — Isso é irrelevante. — Não para mim. Ele fez um gesto impaciente com a mão. — Tente ser você mesma, Angie. Detesto hipocrisia. Todo esse espalhafato por causa de algumas coisinhas... A quem pretende impressionar? Com as emoções em profundo tumulto, Ângela entrou no quarto e fechou a porta, deixando-o do lado de fora. Desejou tornar a abri-la e agarrá-lo pelo pescoço, proclamando a própria inocência: “Não sou uma ladra!”. Mas devia ter feito isso dois anos atrás, e agora, apenas confessando a verdade conseguiria limpar o próprio nome. No entanto, essa atitude causaria danos irreparáveis. Quando seu mundo desmoronou, soube que Leo não permitiria que permanecesse na casa de seu avô nem mesmo se se mostrasse regenerada e arrependida. Chamaria a polícia sem hesitar. Leo não era nada liberal no que dizia respeito à desonestidade. Ângela despiu Jake para o banho, absorta. Leo acreditava que ela havia pago barato por seu pecado, e ainda a desprezava por sua aparente ambição. Fazia minutos, seu desprezo por Ângela se tornara claro como a luz do sol. Nos pacotes, encontrou pijamas, dois suéteres, camisetas e calças para Jake, tudo com a etiqueta de uma famosa rede de magazines que oferecia preços bastante razoáveis. Após banhar o bebê, colocou-o na cama confortável. Bastante cansado, o garoto aconchegou-se entre os macios bichinhos de pelúcia, mas não deixou de fazer a pergunta que ela tanto temia: — Onde está Waff, mamãe? — Não veio conosco, meu bem. Ficou na casa de Cláudia. Os lábios de Jake tremeram, e seus olhos se encheram de lágrimas. — Eu quero Waff... Quinze minutos de lamentações, e Epifânia juntou-se a Ângela no esforço de consolar e distrair o pequeno, mas seus soluços convulsivos continuaram a ecoar pela casa. Leo entrou no quarto usando traje de noite, a caminho de alguma festa. Olhou para Jake, deitado, em total desconsolo. — Seu filho sabe como obter o que deseja. — Não seja injusto! — murmurou Ângela. Leo suspirou e aproximou-se do leito. Com gentileza, acariciou os cabelos do garotinho. — Durma, Jake. Trarei seu Waff. — Não faça promessas impossíveis — admoestou-o Ângela, mas já era tarde, pois Jake erguera a cabeça do travesseiro e fitava Leo, com ar esperançoso. — Não creio que George Dickson vá querer ser processado por causa de uma simples girafa cor-de-rosa. Juro que se ele não entregar Waff, eu o processarei. — Esqueça, Leo... Darei um jeito de entretê-lo. — Dê-me uma hora. George me pareceu uma pessoa bastante sensata. Ângela observou-o deixar o aposento, atônita. Era inacreditável. Leo planejava ir até a residência dos Dickson para exigir a custódia de Waff! Jake sentou-se, esfregando os olhos sonolentos. — Ele vai trazer Waff, mamãe? — indagou, mais animado. — Não sei. Vamos esperar, querido. 14
  15. 15. A Noiva do Inverno Lynne Graham Pouco depois, Leo estava de volta. Entrou no quarto com Waff na mão e estendeu-o a Jake como se fosse uma pequena e importante oferta de paz. O garoto deu um salto, aproximou-se dele, pegou a girafa e abraçou-a. — Como foi que conseguiu? — indagou Ângela, pondo Jake de volta no leito. Leo se aproximava da porta para deixá-los. — Dickson estava tão constrangido, que para ele foi um alívio me agradar um pouco. Envia suas desculpas pelo que considera ser um terrível mal-entendido. Ângela o seguiu pelo corredor. —Verdade?! O que mais ele disse? — Lamento, mas tenho pressa. Conversaremos amanhã. Estou atrasado. Só então Ângela entendeu o significado de seu traje social. — Desculpe-me, Leo. Os olhos escuros brilharam ao observá-la. — Pela manhã estarei partindo para Bruxelas. Até quinta-feira a casa estará a sua inteira disposição. Ângela retornou ao quarto, ouvindo o som de seus passos desaparecerem à distância. Olhou para Jake, que adormecera abraçado a Waff. Não pôde evitar de tentar adivinhar quem seria a mulher na vida de Leo. Ângela ainda permanecia na cama, incapaz de dormir. Leo não voltara, e pelo jeito não voltaria. Sem notar, Ângela estivera atenta a seu retorno. Mas, afinal, Leo era um homem solteiro e não ficaria sentado sozinha diante da lareira numa noite de sábado, ainda mais sendo rico, bonito e brilhante. Sem dúvida, estaria envolvido em um relacionamento íntimo com alguma linda mulher também rica e encantadora. Acendeu a luz do abajur e verificou o relógio. Duas horas. Silêncio absoluto ao redor. E ela, sem sono e sem nada para ler, de repente ansiou por encontrar um bom livro. Levantou-se e estendeu a mão para o robe, mas percebeu que, na pressa de sair da casa de Cláudia, esquecera-o na lavanderia, assim como várias peças de roupa. Vestindo apenas a camisola, desceu a escada e dirigiu-se à biblioteca. Surpreendeu-se ao encontrar os livros todos em grego. Avistou uma pilha de revistas sobre mesinha e aproximou-se. De repente, a porta abriu-se fazendo-a dar um pulo, assustada. — O que faz aqui? — perguntou Leo, intrigado. Recobrando-se do susto, Ângela passou a mão nas mechas revoltas. — Não consigo dormir e vim procurar algo para ler. — Na minha escrivaninha? — Não. Estava para pegar uma das revistas sobre a mesa. — Desde quando se interessa por eletrônica? Ângela o fitou. Leo tinha os cabelos escuros em desalinho. Estava sem a gravata e com a camisa parcialmente desabotoada, revelando o perturbador triângulo de pele morena e o inicio da trilha de pêlos que ela sabia espalhava-se por todo o tórax. Embaraçada com a lembrança, fechou os olhos. Ainda assim continuou enxergando-o, a linha das mandíbulas pela barba despontando, a mesma que uma vez Ângela sentiu áspera e sensual contra a cútis. Estremeceu diante dos pensamentos traiçoeiros, que despertavam-lhe sensações que preferia não lembrar, sobretudo quando era óbvio o fato de Leo ter acabado de sair da cama de alguma outra mulher. Quando aquela convicção assaltou-a, um estranho ressentimento a tomou. — Está precisando de dinheiro, Angie? Seus olhos azuis, aturdidos, arregalaram-se. — Pelo amor de Deus, Leo! Devia saber que eu não seria capaz de roubá-lo! — Nem precisaria. Estou disposto a lhe dar tudo o que precisar. Ângela cobriu o rosto angustiado com as mãos. — Como você é maldoso! Já disse que vim aqui à procura de algo para ler! Apenas isso! — Eu preferia que você fosse cleptomaníaca, Angie. Eu seria capaz de lidar com isso. Mas as tristes vítimas desse mal em particular não vendem o que roubam por qualquer ninharia, como você fez. Ângela voltou-se, os punhos cerrados, ameaçadores. — Não quero falar sobre isso... — Você deixou um gosto amargo em minha boca ao roubar a casa de meu avô no mesmo dia em que partilhou da minha cama — acusou Leo, os olhos observando-lhe as faces desesperadas. — Falei que não quero falar sobre isso! — gritou, furiosa. 15
  16. 16. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Deve ter sido uma operação brilhante. Como bem me lembro, você passou a maior parte daquela manhã cavalgando para que pudesse “por acidente” esbarrar comigo na propriedade — Leo continuou, com uma nota de divertimento. — Por favor, Leo... — Depois, ficou perambulando em torno do lago, colhendo flores e colocando-as em uma cesta... tudo muito pitoresco. Quase matou de cansaço o velho cachorro de Wallace fazendo-o caminhar pelos arredores até cair de exaustão. Na verdade, a caçada exigiu muitas horas. — Seu rosto fechado de repente abriu-se com um sorriso carismático. — Ora, Angie... Quando a vi lutando para carregar aquele enorme cão de volta para casa, me dobrei de tanto rir! Ângela até ali ouvira aquela descrição de seu comportamento passado com um olhar desafiante, porém, a insistência de Leo em definir a extensão de seu desejo desesperado de ser notada despertou sua fúria. Arrependia-se demais por ter agido como agiu. — Fico feliz em saber que pelo menos a minha atitude serviu para diverti-lo! Leo segurou-a pelo braço, o riso desaparecendo nas feições perfeitas. — Você me fez dar boas risadas... e, na época, fiquei muito grato. — Deixe-me ir, Leo! — Pretendia perguntar como ainda encontrou tempo para fazer o que fez. No entanto, isso deixa de ter importância ao tê-la seminua em meus braços. Ângela arregalou os olhos e os baixou para a camisola azul que usava, de gola, mangas compridas e alcançando-lhe os joelhos. Nada havia que fosse provocante nela, nem de longe. No entanto, enrubesceu e olhou para ele. — Não estou seminua! Leo não a ouvia. — Saiba que a maioria dos gregos não precisa desse tipo de encorajamento quando está diante de uma mulher tão sensual. — Leo deslizou os braços em torno dela. — O que está fazendo? — indagou Ângela, esforçando-se para respirar, o coração em disparada, enquanto ele, a puxava em direção ao peito musculoso. Seu calor penetrava através da malha. — Leo... — Você estremece quando a toco... Duvido que seja indiferente ao efeito que causa em mim. Ângela tremia, e tinha o rosto em brasa quando Leo passou a acariciar seus quadris, impelindo-a em direta colisão com a inconfundível rigidez de sua masculinidade. Sentiu as pernas fraquejarem, os mamilos enrijecerem quando um desejo imenso assaltou-a. Lutou com todas as forças para não sucumbir. — Solte-me! Você me enoja! Leo baixou a cabeça, o hálito suave atingindo-lhe as têmporas, os olhos escuros e ardentes prendendo os dela. — Será? Estou sentindo a mesma volúpia de antes em você — disse ele, com satisfação. — Senti também na noite passada. Juro que seria capaz de tudo para tê-la pelo menos uma vez... Venha para minha cama, Angie. A palavra “cama” soou como um convite sensual ao paraíso, e Ângela condenou-se pela própria insensatez. Faltavam-lhe forças para afastar-se do fascínio sedutor de Leo. — Se eu tornar a fazer amor com você, aí então merecerei ser presa e condenada, Leo. Não consigo imaginar o que o levou a pensar que eu ainda o queria... Porque não quero, está ouvindo?! — Não? Por que acha que assegurei-me de que você estaria comigo esta noite? Apesar de sentir-se incapaz de ordenar os próprios pensamentos, Ângela entendeu o significado da surpreendente revelação. — Como poderia ‘‘assegurar-se” de que eu estaria aqui? A boca de Leo curvou-se num sorriso debochado. — Sua ex-patroa ajudou, respondendo a minhas provocações e reagindo como eu esperava. Ângela estava tão desconcertada que apenas o fitou, alarmada. — Não tinha intenção de sair daquela casa sem você, Angie. Por que acha que levei a limusine? Só um completo idiota tentaria transportar uma mulher, uma criança e todos os seus pertences em uma Ferrari. — Então, tirou-me dali... deliberadamente... — Angie estava horrorizada pela total falta de escrúpulos de Leo. — Deus do céu, como pode ser tão egoísta? — Agi assim porque achei ser do seu interesse. Ângela afastou-se, contrariada. 16
  17. 17. A Noiva do Inverno Lynne Graham — O que você fez foi imperdoável, Leo, mas duvido que entenda isso. Por que alguém como você compreenderia o que é ficar infeliz, sem emprego e sem ter um teto sobre a cabeça, ainda mais quando existe um bebê a considerar? A expressão de Leo ficou sombria, e seus olhos brilharam como se fossem de aço. — Seja o que for que aconteça entre você e Wallace, garantirei que sua situação e a de seu filho seja muito mais compensadora do que era na casa dos Dickson. É uma promessa. — Quanta generosidade! Mas tenho certeza de que a ajuda que está oferecendo terá um preço a ser pago. Fazer algo de graça não é de seu estilo. Leo tornou a acercar-se dela. — Como assim? — E pensar que há apenas poucas horas você foi tão condescendente, tão superior... E quanto àquela conversa a respeito de eu precisar aprender a lição, que chegou a temer que resolvesse contar com minha boa aparência para sobreviver? Não é o que está me oferecendo, Sr. Demétrios? — Ofereço apenas aquilo que ambos sabemos que deseja, Angie. Ângela estremeceu. — Uma noite de amor ardente com um homem que acaba de deixar a cama de outra mulher? — ela indagou, mordaz, desdenhando-o, do mesmo modo como desprezava a si mesma por esquecer-se daquela probabilidade quando Leo a abraçara. Ele riu e passou a mão por entre os sedosos cabelos escuros, rebeldes, brilhantes e com forte tendência a enrolar. A semelhança com os de Jake era tanta que Ângela emocionou-se. — Uma noite de amor ardente... — Leo repetiu, refletindo. — É uma perspectiva bastante sedutora. Mas, para sua informação, saiba que não acabo de sair do lado de outra jovem. Ângela cruzou os braços diante do peito, pretendendo sair o quanto antes da biblioteca, porém tendo a sensação de que os pés tinham se colado no carpete. — Não acredito, Leo. — Não que eu não tenha tido o desejo de preencher suas expectativas. No entanto, a partir do minuto em que a vi na noite passada, foi a você que desejei, e ainda não desci tanto a ponto de tentar satisfazer esse mesmo desejo em outra companhia. — Odeio você, Leo Demétrios! — Não, não me odeia. Na verdade, um pouco de ódio entre nós dois até que viria a calhar. — Após dizer isso, afastou-se, o clássico perfil mostrando contrariedade. — Não pedi essa atração, mas ela ainda existe entre nós dois... — É essa a desculpa que arrumou para atirar-se sobre mim como um animal no cio? — Ângela sussurrou, e Leo voltou-se, nos olhos escuros uma expressão ultrajada, enquanto resmungava algo em grego. Mas Ângela não se impressionou. Apertou os lábios com força. Leo era insuportável. Como um homem podia ser tão insensível, tão duro? — Porque esperava que eu fosse fácil, julgou que tudo o que precisaria fazer era estender a mão e dizer: “Vamos para a cama, Angie”, e eu, é claro, correria para lá. Afinal, você é rico, soberbo e muito habilidoso! O que mais uma pobre-coitada que limpa, lava e passa para as outras pessoas poderia fazer? Um arroubo de cólera espalhou-se no rosto de Leo. Estendeu ambas as mãos, os punhos cerrados, como se desejasse atingi-la. — Você tem o poder de me enfurecer... Como se atreve a me ofender dessa forma?! — Aquela adolescente idiota que julgava ser querida morreu há dois anos e meio, Leo. Nada fui para você, apenas alguém a quem usou. Leo aproximou-se e pousou as mãos poderosas nos frágeis ombros de Ângela. Estava tão enraivecido que ela deu um pulo para trás, assustada. Diante daquela reação, ele soltou-a e afastou-se. — Consegue torcer os fatos passados de um modo que não os reconheço quando fala a respeito, Angie. Não se atreva a agir como se eu fosse agredi-la! — Também é minha culpa que não goste da minha maneira franca de falar, uma arte na qual você é tão hábil? — Com presteza, Ângela recuperou o terreno que perdera. — Agora sei o que há de errado, Angie. Não tolera o fato de eu querer manter viva essa chama. — Não insista! Não sinto nada por você! — Não? — Leo lançou-lhe um olhar ardente, seguro do próprio poder de sedução. 17
  18. 18. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Fique longe de mim. Prefiro-o furioso comigo, como estava agora há pouco. — Homem algum ficaria bravo com uma mulher com sua aparência... — Leo passou o braço em torno da cintura estreita e riu ao ver sua expressão desconcertada. — Venha comigo para Bruxelas amanhã. Dê-me algo que eu passe a esperar com prazer todas as noites. Cuidarei de você de todas as maneias que possa pensar... e em muitas que nem consegue imaginar. Ângela lutava para reagir àquela tão súbita mudança de humor. A exaustão de repente abateu-a. — Continue sonhando. Leo. — Para que lutar contra mim? Para que fingir? Não estou sugerindo uma ou duas noites roubadas. Fique comigo até isso apagar-se dentro de nós dois. Aquele dia, à beira do lago, Leo, farto de ser acossado, enfim cedera à tentação. Quando abraçou Ângela, para ela, tudo o mais deixara de existir, exceto a doçura do primeiro beijo que recebia dele, nada além da sensação de estar em seus braços, sentir seu calor. A paixão que despertara em seu íntimo excedera em muito às suas ingênuas expectativas, ultrapassando, infalível e implacável, as fronteiras que ela, tola, acreditava poder reter. Nada o detinha quando desejava alguma coisa. E, sob aquela sofisticada e fria superfície, Leo era tirânico, primitivo em seus apetites sexuais, como um pirata do século XVI vagando pelos sete mares em busca do que saquear. — Jamais, e não espere que eu agradeça pela oferta. — Ângela se esforçava para não demonstrar o quanto a proposta dele a abalara. — O que mais eu poderia lhe oferecer, Angie? Ângela não pôde evitar o riso. Maravilhava-se por não ter sucumbido à paixão que sentia por Leo. — Se eu estivesse interessada, Leo, o que não acontece, aconselharia-o a começar como os homens comuns fazem: convidando-me para sair com você. — Ergueu as sobrancelhas. — Se me trouxesse flores, me oferecesse champanhe... quem sabe conseguiria me convencer. Em seguida, Ângela deu-lhe as costas e saiu, antes que desse vazão às emoções conflitantes que a atormentavam. Leo deixara claro que com ela desejava apenas sexo e a oportunidade de livrar-se da ânsia que sentia pelo corpo dela, que não era mais bem-vindo agora do que fora no passado. Mas, no fundo, aquele fim de semana devia ter ficado na sua memória dele como algo especial. Na época, Ângela não tivera ninguém para comparar, nem tinha agora, e de repente aquela realidade a enfureceu. Porém, apesar de tudo, sabia que ainda o queria, com a mesma intensidade com que o odiava por não ter oferecido mais do que apenas migalhas. Aonde aquilo a levaria? Um toque determinado em seu ombro fez Ângela acordar. Sonolenta, tentou focalizar o rosto masculino diante dela. — Vá embora, Leo — gemeu, ao reconhecê-lo, tornando a fechar os olhos. As cobertas foram afastadas, e Leo ergueu-a nos braços e arrancou-a da cama antes que ela pudesse registrar o que acontecia. — Mas o que é isso?! O que pretende fazer comigo? — Levá-la para tomar o desjejum, Angie. — Mas não há o que comer nesta casa. Após uma pausa, o tórax largo e musculoso, contra o qual ele a mantinha apoiada, estremeceu quando ele riu. — Engraçadinha... — Que horas são? — Seis. — Seis?! — Ângela quase gritou, enquanto Leo a carregava escada abaixo. — Então dormi apenas duas horas?! — Estarei partindo às sete para o aeroporto. — Já vai tarde. E ponha-me no chão! Leo a obedeceu e, com os dedos, afastou-lhe os fios revoltos de sobre o rosto, corado pela fúria, com uma familiaridade impressionante. No entanto, passado o choque, Ângela admitiu que Leo sempre fora habilidoso no trato com o sexo oposto. Aprendera que era um homem de temperamento determinado e muito passional. Aquele aparente autocontrole que fazia questão de mostrar ao mundo não indicava seu verdadeiro caráter. E aquela revelação, a chocante descoberta de um fogo que ardia com mais intensidade do que o dela, fizera Ângela alcançar alturas. — Por que faz tanta questão de minha presença à mesa do café, Leo? 18
  19. 19. A Noiva do Inverno Lynne Graham — Preciso conversar com você antes de partir. — Não me diga! Leo abriu a porta da sala de jantar. — Faremos isso saboreando nosso café da manhã. — Não como nada antes de lavar o rosto, de escovar os dentes e de pentear os cabelos. — Saiba que está muitíssimo sensual desse jeito... Gostei de vê-la assim. Irritada com a calorosa afirmação e com o sorriso sensual que surgiu em seguida, Ângela correu escada acima ouvindo sua risada e fechou a porta do quarto. Leo avançava em sua direção como um exército invasor. No passado, enquanto Ângela o perseguia, ele se mostrara esquivo. Mas agora, quando ela tentava se distanciar e correr em outra direção, era Leo quem não a deixava em paz. Mas a responsável por isso devia ser sua natureza de caçador. Leo jamais seria a caça... e na certa esse fora o motivo de ter custado tanto a virar a mesa havia anos. Ângela levou exatos cinco minutos para lavar o rosto, escovar os dentes, pentear os cabelos e vestir-se. Jake ainda dormia. Retornou à sala de jantar e sentou-se o mais distante possível de Leo. Enquanto Epifânia servia o desjejum em fina porcelana, Leo se mantinha recostado no espaldar da cadeira, uma elegância impecável no terno azul-marinho e na gravata de seda estampada. Possuía toda a magnificência de um príncipe da Renascença. A pulsação de Ângela acelerou. Aterradamente consciente do exame minucioso à sua pessoa, Ângela recusou a porção de ovos mexidos oferecidos por Epifânia e estendeu a mão para pegar uma torrada. O silêncio prolongou-se até a porta ser fechada após a passagem da governanta. — Quero que me prometa que estará aqui quando eu voltar, Angie. — Para quê? Para em seguida entregar minha cabeça a Wallace em uma bandeja de prata? Só pode estar brincando! Leo a fitou, e a intensidade de seu olhar a fez tremer. — Precisa entender que Wallace nasceu e foi criado era um mundo muito diferente do nosso, Angie. Quando enxergar isso, achará mais fácil entendê-lo. No seu lugar, eu respeitaria seu desejo de conhecer o único bisneto. Ângela ficou mais tensa ainda. — Sinto muito, mas não voltarei a Deveraux Court. — É uma pena. Não poderei sequer contar com Drew para oferecer como isca. — Leo esboçou um sorriso irônico. Ângela o fitou, perplexa. — Como disse? — Drew não virá para o Natal. Aliás, nunca vem. Logo após sua partida, Wallace e ele tiveram uma séria discussão a respeito de gastos, que não são poucos, e o em seguida meu primo partiu. Vive em Nova York. Ângela assentiu, nem um pouco surpresa com a notícia. Drew Nevile perdera os pais quando tinha dez anos, e Wallace o criara com todos os mimos e procurando satisfazer todos os seus desejos. Wallace esperava que Drew fosse assumir a propriedade, apesar de seu neto sempre demonstrado uma profunda aversão pelo trabalho. Em Deveraux Court, por várias vezes Ângela presenciara verdadeiras batalhas travadas entre neto e avô, por causa da displicente rebeldia de Drew. Mais de uma vez ouvira-o gabar-se da sorte que tivera de ter nascido do primogênito velho Wallace, e não de sua insignificante filha, como Leo. Devido a isso, um dia herdaria Deveraux Court, assim mo tudo o que existia dentro dela. — Nada a dizer, Angie? Ângela olhou para Leo e por fim entendeu por que ele observava tanto. Decerto esperava presenciar uma forte ação à notícia de que Drew, o suposto pai de seu filho, mudara-se para o outro lado do Atlântico. Baixou a cabeça e olhou para a xícara de café, condenando-se por não ter entendido antes que Drew precisava ser afastado da família. Se ele tivesse permanecido em Deveraux Court para se defender, logo proclamaria o fato que não existia a mais remota chance de ele ter algo a ver com a gravidez de Ângela! De súbito, sentiu-se aliviada pelo fato de Drew estar à milhas distante dali. Caso contrário, Ângela não seria capaz de conservar o orgulho de tirar vantagem da firme convicção de Leo de que Jake era filho do seu primo. — Após todo esse tempo, não me importa saber que fim Drew levou, se mora aqui ou no Pólo Norte, e isso nada tem a ver com minha determinação de não voltar Deveraux Court. — Mas, de qualquer modo, você voltará — insistiu Leo, calmo. O modo como ele disse aquilo a encheu de apreensão. Forçou um sorriso. — Pretende me levar à força, amarrada no porta-malas de seu carro? 19
  20. 20. A Noiva do Inverno Lynne Graham Leo suspirou. — Não me obrigue a pressioná-la, Angie. Se me forçar, eu a farei em mil pedacinhos, e garanto que achará um grande desafio tornar a reuni-los. O sangue fugiu do rosto de Ângela. A ameaça feita em tom suave teve mais efeito do que se Leo tivesse gritado. E a frieza com que a fitou a seguir a fez tremer. — Você não conseguirá me intimidar, Leo. — Creio que não será necessário. Você deve a Wallace uma visita. — Acha mesmo? E como isso se enquadraria na proposta que me fez na noite passada? — Não se enquadraria. Nós dois somos uma coisa, meu avô, outra. E, na idade em que está, Wallace tem prioridade, concorda comigo? CAPÍTULO IV Na manhã em que Leo retornou de Bruxelas, Ângela sentara-se no jardim dos fundos e observava Jake brincar com o cascalho do pátio, juntando as pedrinhas e fazendo pequenos montes com elas. Procurou aquecer as mãos frias dentro das mangas da jaqueta azul-escuro que formava um conjunto com a saia, a única roupa apresentável que possuía, mais apropriada para o verão do que para o inverno. A temperatura baixara bastante, e, embora o sol brilhasse, a sensação que tinha era de que, em breve, congelaria. A cabeça lhe doía, assim como a garganta, e sua única expectativa era retornar a Deveraux Court, pensou, tremendo de frio. Wallace conheceria o bisneto apenas porque Ângela estava estafada e sem coragem para enfrentar a nebulosa ameaça de Leo. Deixara-se rotular como ladra, e por causa disso ainda corria o risco de ser processada. Leo, sem dúvida, não a deixaria esquecer-se dessa sombra que pairava sobre sua cabeça. Não poderia ter deixado mais claro. Leo havia telefonado duas vezes de Bruxelas, mas Ângela se recusara a atendê-lo. Como não podia deixar de ser, Epifânia ficou horrorizada. Leo era seu ídolo, e os ídolos mereciam toda a devoção e consideração. O rosto tenso de Leo se iluminou ao ver Ângela sentada no banco do jardim, os lindos cabelos loiros brilhando, o perfeito perfil, os ombros frágeis e tensos, as pernas longas e bem torneadas cruzadas. No entanto, foi Jake quem primeiro o viu chegar. Levantou-se e saiu correndo em sua direção. Ao alcançá-lo, o garotinho abraçou seus joelhos. — Leo! — gritou, excitado. Era difícil dizer qual dos dois surpreendeu-se mais com a inesperada saudação. Ângela gelou, porém, Leo ainda mais, e seu corpo enrijeceu. Muito observadora, Ângela percebeu o que acontecia com ele. Leo era um homem que adorava crianças, no entanto, nada queria com o filho dela, concluiu, amarga. Leo, de repente, baixou-se para erguer Jake, que, incapaz de diferenciar o fingir da sinceridade, passou os bracinhos em torno dele e enlaçou-o fortemente. — Solte-o, Leo. Ângela não suportou o peso da própria mentira. Sentiu-se cheia de culpa vendo pai e filho assim tão próximos um do outro e tão afastados, ignorando os verdadeiros laços que os unia. — Toda vez que olho para Jake não consigo evitar de pensar em você e Drew — admitiu Leo, soturno, ao colocar o garoto no chão. Drew outra vez... refletiu Ângela. Leo não tinha a menor dúvida de que seu primo era o pai de Jake. Ângela pigarreou, incapaz de conter a curiosidade. Precisava saber como e de que maneira Leo tomara conhecimento de sua gravidez. — Diga uma coisa, Leo... Quando foi que Wallace lhe disse que eu esperava um bebê? — Ele não falou... pelo menos até eu tocar no assunto. Ângela ficou confusa. — Então, como foi que soube? — Por Drew, na primeira oportunidade. Meu adorável primo mal podia esperar para fazer isso. — Então foi Drew?! — Ângela ficou atônita. Leo absorveu o violento corar em seu rosto, porém interpretou-o mal. — Com certeza, ele sentiu-se seguro para fazer isso. Na época, você já havia partido fazia semanas. Drew disse que lhe dera dinheiro para o aborto. Sem dúvida, acreditava que com isso colocaria um ponto final no assunto. 20
  21. 21. A Noiva do Inverno Lynne Graham Ângela ficou muda de espanto, ultrajada. Não precisaria mais tentar adivinhar por que Leo não tinha dúvidas quanto a Jake ser filho de seu primo. A confissão cruel, a mentira de Drew, tudo muito bem expresso em termos ofensivos, assegurara a convicção dele. Era inacreditável Drew ter assumido a responsabilidade da gravidez e ainda afirmar tê-la induzido ao aborto. Que homem normal, racional como Leo, duvidaria da paternidade de uma criança ainda nem nascida? — Se lhe servir de consolo, saiba que eu o esmurrei, cansado de ouvi-lo vangloriar-se de ter estado com você, Angie. — Você bateu nele? — Ângela sentia-se revoltada, traída por alguém que considerava amigo, e incapaz de entender por que Drew fizera uma coisa tão asquerosa. — Se Drew continua vivo, então não o esmurrou como ele merecia! Leo arregalou os olhos e riu. Estranhando a atitude dele, Ângela ergueu a cabeça e viu Leo como o vira naquele longínquo fim de semana, livre de qualquer reserva e muitíssimo atraente. O sorriso carismático que suavizou-lhe as feições sombrias fez disparar o coração dela. Leo, então, olhou para o relógio de pulso, impaciente ao registrar as horas. — Partiremos para Deveraux Court assim que estiver pronta, Angie. Arrastada de volta à realidade, Ângela levantou-se, constrangida por ter se deixado levar pelas emoções. — Saiba que jamais o perdoarei por me forçar a voltar àquele maldito lugar, Leo. — Relaxe, Angie, você logo estará me agradecendo. Faço isso para o seu bem e de Jake. Ângela já não o ouvia, imaginando o horror e a humilhação que a esperavam. Wallace conheceria o bisneto, mesmo que a paternidade dele não fosse a que se julgava ser. E quanto a seu pai, Ângela podia jurar que devia estar rezando para que ela não se atrevesse a se mostrar outra vez para embaraçá-lo. A ilegitimidade de Jake era a insígnia da vergonha aos olhos de Samuel Brown, assim como aos olhos de seu velho patrão. — Angie? Ela respirou fundo. — Sabe que me deve um favor, Leo. Quero sua promessa de que, logo que essa visita terminar, arrumará trabalho para mim, em qualquer lugar. — Você não precisará trabalhar. Seu futuro está garantido. Ou eu ou Wallace a manteremos. — Nem pense numa coisa dessas. — Saiba que minha oferta estará de pé, a qualquer hora que resolva aceitá-la. Ângela balançou a cabeça em sinal de puro desânimo. — Você é irritante, insistente! Leo a fitou, e em seguida entendeu a mão e entrelaçou os dedos em seus cabelos loiros, puxando-a de encontro ao peito, um desejo bruto brilhando nas pupilas escuras. Assim tão próximos, Ângela sentia um calor gostoso percorrê-la, suas narinas impregnaram-se da suave fragrância que exalava do corpo másculo, tão característica dele, e que para ela era tão perigosa como a droga. Aquela antiga paixão ardente espalhou-se em cada fibra de seu ser, sem que tomasse consciência disso. Não podia mais continuar negando o poder que Leo Demétrios exercia sobre ela, porque seria o mesmo que negar a própria necessidade de respirar. Sabia que aquela fraqueza física a destroçaria se não se cuidasse. Enterrou as unhas na palma da mão, tentando se defender, porque desejava tocá-lo, e aquilo seria a sua perdição. Leo estava ainda mais atraente naquele terno escuro que delineava seu porte viril. Estivera fora apenas quatro dias e meio, mas a Ângela pareceu uma eternidade. A vontade de atender àqueles telefonemas, para apenas ouvir sua voz profunda, fora imperiosa e a enchera de vergonha. Naquele instante, Leo ergueu-lhe o queixo com as pontas dos dedos e encarou-a. — Parece tão revoltada, tão sofrida, Angie... Qualquer um julgaria que a ofendi. No entanto, tudo o que fiz foi expressar o desejo que sinto por você, com toda a honestidade. Não farei falsas promessas, mas a deixarei em segurança, e a seu filho também. Quer rosas e champanhe, então terá isso. Quanto a mim, tudo o que quero é tê-la na minha cama. Ângela desviou a cabeça dolorida. — Afaste-se de mim, Leo. — Não sei como poderei fazer isso. Não tenho conseguido dormir desde que deixei Londres, embora estivesse furioso com você! Podíamos ter viajado juntos para Bruxelas. — Claro... Umas poucas vezes bastaria para satisfazê-lo, como bem me recordo... 21
  22. 22. A Noiva do Inverno Lynne Graham Com um gemido, Leo estreitou-a num forte abraço. Ângela viu-o baixar a cabeça devagar, e seu coração disparou. Não conseguiu desviar os olhos dos lábios dele, macios e sensuais. — Se existem feiticeiras de cabelos loiros, você deve ser uma delas — disse ele, com voz rouca, acariciando-lhe as mechas antes de se apossar de sua boca. O beijo espalhou a volúpia pelo corpo de Ângela, como labaredas ardentes. Perdida no prazer do beijo, com os olhos fechados, ela sentia-se cada vez mais dominada pela excitação. Contudo, muito amedrontada, reuniu toda a força de vontade que tinha para recompor-se. Suspirou e afastou-se dele. — Nunca mais faça isso! — pediu Ângela, não confiando em si mesma o suficiente para fitá-lo, pois ainda tremia. — Quero que fique longe de mim. — Impossível. Eu te quero Angie, e enlouquecerei se não a tiver. — Não pode ser! — Lute contra mim, quanto desejar... mas conseguirá prosseguir lutando contra si mesma? — A pergunta causou um efeito devastador nela. Pálida, Ângela aproximou-se de Jake, que brincava perto dali. Pegou-o no colo e entrou na casa. Ângela olhou-se no espelho do quarto, analisando os lábios intumescidos e o brilho nos olhos. Você tornou a se deixar levar por ele, Angie, e merece toda a dor, todo o sofrimento por que passou, a imagem parecia lhe dizer. No entanto, a força da paixão de Leo a excitava, encoraja-lhe os pensamentos a voarem em uma perigosa direção. Seria possível que Leo se arrependesse por tê-la rejeitado dois anos e meio atrás? Seis semanas após seu idílio, Leo retornou a Deveraux Court para uma rápida visita. Ângela lembrava-se muitíssimo bem, como se tivesse acontecido na véspera. Leo, então, descera da limusine, observando-a tentar caminhar pelo pátio usando saltos altíssimos e um vestido de seda. A mão que Ângela apenas apoiara no braço de Drew, para equilibrar-se, agarrou-o, possessiva. Como se não bastasse, atirara a cabeça para trás e sorrira. — Olá, Leo! — saudara-o, passando por perto como se ele fosse um qualquer, e não o homem que despedaçara seu coração, deixando-a mais morta do que viva. Porém, quando Ângela voltara para casa após a meia-noite, a fachada descontraída a abandonara. Leo surgira do nada, vindo do terraço, e bloqueara-lhe a passagem. — Você está jogando sua vida no lixo, Angie. Ele falara igual ao pai dela, e Ângela respondera com um sorriso desdenhoso. — Estou apenas me divertindo. Alguma coisa contra? — É isso o que chama de divertimento? Deve ser muito engraçado bancar o motorista noturno de um bêbado. — Drew não está bêbado! — protestara, defendendo aquele em quem confiava como sendo seu único e verdadeiro amigo. — Ele me leva a festas e ao clube, e, graças a sua gentileza, tenho conhecido pessoas muito interessantes. Na verdade, tenho sido tratada como gente pela primeira vez na vida! Mas o que há com você? O que deseja de mim? Os olhos de Leo brilharam como diamantes ao luar. — Nada. O que eu poderia desejar que já não tive? — ironizara. — Lamento não poder dizer que gostei do seu “novo visual”, Angie, pois seu vestido é muito cafona. Ângela permanecera no mesmo lugar até muito tempo após Leo ter se retirado, com lágrimas amargas borrando-lhe a pintura dos olhos, o batom manchado, as alças da roupa provocante caindo-lhe dos ombros. E foi então que decidira jamais contar a ele sobre o bebê. Não importando o quanto estivesse assustada, o quanto se sentisse desesperada, nunca lhe daria a chance de tornar a olhá-la como se olhasse um objeto desprezível que acabava de pisar. — Você o deixou furioso — dissera Drew, surgindo atrás dela em uma das raras ocasiões em que se encontrara sóbrio o suficiente para dizer algo racional. — Tentei avisá-la, não foi? Desde adolescente, Leo tem sido perseguido pelas mulheres mais belas do mundo, onde quer que esteja. Elas são capazes de tudo para chamar-lhe a atenção... Você é uma criatura adorável, Angie, mas lá fora existe uma multidão de jovens ainda mais incríveis. Perca a esperança, porque jamais o conquistará. Drew fora brutalmente honesto com ela na época. Falara a verdade. Leo era destinado a se casar com uma moça rica e mimada, uma dessas que desperdiça a metade do dia lamentando uma unha quebrada. Outra Petrina, enfim, egoísta e obcecada por si mesma. — Posso levar sua bagagem, Srta. Brown? 22
  23. 23. A Noiva do Inverno Lynne Graham Ângela foi arrancada dos devaneios e voltou ao presente em um piscar de olhos. Fitou o motorista de Leo imaginando que aquele último pensamento estava gravado em seu rosto em letras garrafais. Assentiu e aproximou-se de Jake para pegá-lo no colo. Pensou outra vez em Drew, e por fim concluiu que fora tolice ter confiado nele como sendo seu confidente. Drew cresceu sendo a menina dos olhos do avô, mas isso não evitou que estivesse sujeito a constantes comparações com Leo. Como resultado disso, Drew aprendeu a odiar o primo. E, percebendo a atração que Leo sentia pela filha do mordomo, mentiu, afirmando ter tido com ela um relacionamento íntimo, apenas pela necessidade vingativa de competir com Leo. Ângela estava consternada com a atitude de Drew, a quem confiara o segredo de sua gravidez, e que a traíra no minuto em que ela virara as costas. E quanto a ele ter afirmado haver lhe dado dinheiro para o aborto, isso fora uma atitude suja. Ângela jamais havia considerado tal possibilidade, já que a concepção de Jake não fora acidental. Mas talvez não devesse ficar tão chocada com a revelação de Leo. Devia ter se lembrado de que, embora nada houvesse além de uma amizade unilateral entre ela e Drew, apesar de ter sido franca em relação ao que sentia por seu primo, ele a deixara falando sozinha, furioso, após Ângela ter cometido o erro de revelar que esperava um filho de Leo. Leo franziu a testa ao vê-la descer a escada com Jake no colo. — Por Deus, Angie, estamos no meio do inverno, e lá fora está gelado! Não acha melhor vestir algo mais adequado? Na certa irá virar uma pedra de gelo com essas roupas. — Não tenho mais nada. É isto ou jeans. — Faremos uma parada no caminho para comprar um casaco para você, Angie. — Não será necessário. Sei o que acontece quando se recebe um presente de grego. — Agora está me insultando com esse trocadilho! — Não é estranho ser tão suscetível quando é totalmente insensível quanto a meus sentimentos? — queixou-se Ângela, irônica. Leo abriu a porta da frente. Sem se importar com a reverência dos criados diante de Leo, Ângela desceu os degraus e entrou na limusine. Acomodou Jake no assento próprio para crianças preso ao banco do veículo, que fora comprado para seu filho usar. Quando Leo entrou, Ângela nada comentou. Na verdade, voltou à cabeça para o lado oposto e mirou a rua, sem nada enxergar. Ângela se deu conta de estar acordando no colo de Leo, com o rosto apoiado contra uma coxa, a mão pousada na outra. Corou ao notar que aquele peso quente em seus ombros era o braço dele. Ergueu-se num átimo e afastou os cabelos do rosto. Viu que Jake dormia, preso ao cinto de segurança. — Ele me fez companhia até vinte minutos atrás — disse Leo, nos olhos um quê de divertimento ao observar-lhe os fios em desalinho. — Que horas são? — Ângela olhou para o relógio de pulso e notou que dormira durante duas horas. Encontravam-se nas cercanias de Deveraux Court. — Por que não me acordou, Leo? — Porque você dormia feito um anjo, e não quis acordá-la. Ângela observou a estrada lá fora. As árvores ladeando o caminho sombreavam a magnífica tarde ensolarada. A garganta lhe doía demais, e Ângela espirrou. Procurou na bolsa por um lencinho, sabendo que não o encontraria. Um impecável lenço de linho foi colocado sobre seu colo. — Obrigada... — Outro espirro. — Desculpe-me. Parece que peguei um resfriado. — É melhor ir direto para a cama assim que chegarmos. Ângela desviou o olhar para a janela e, à medida que reconhecia os trechos por onde passavam, a tensão a invadia. Minutos depois, o automóvel atravessava os portões da propriedade. — Fique tranqüila, Angie. Você está de volta ao lar. Lar? Era doloroso e ao mesmo tempo irônico pensar que um dia amara aquele lugar mais do que qualquer outro no mundo. Ali estava a bela paisagem, acres e mais acres de terra adornados por vegetação exuberante. 23
  24. 24. A Noiva do Inverno Lynne Graham O motorista contornou a última curva, e a casa surgiu diante de seus olhos, um triunfo arquitetônico em estilo elisabetano. Em seguida, entrou no pátio e parou, mas Ângela só tinha olhos para a imponente porta de entrada. Jake acordou e, deliciado, logo começou a soltar gritinhos, enquanto Leo o soltava do cinto de segurança e o pegava no colo. Ângela nem sequer deu-se conta disso. Parecia em transe ao deixar o veículo e caminhar devagar em direção à residência. Avistou seu pai à espera, um homem bastante conservado para seus sessenta anos de idade, como sempre usando um impecável terno escuro. — Papai? — murmurou, ao se aproximar. — Boa tarde, senhora... senhor... — Samuel Brown murmurou sem nenhuma emoção. — Espero que tenham feito boa viagem. Que tarde agradável, não acham? Ângela deprimiu-se diante da fria recepção. Até Leo pareceu abalado. Leo afastou a mão de Jake, que agarrava seu ombro, e pousou-a nas costas tensas de Ângela. — Brown... — O Sr. Neville está à espera, senhor. — O mordomo continuou, preciso. — Deseja que eu mostre os aposentos aos hóspedes? — Pode deixar, mais tarde eu o farei. Mas primeiro iremos ver meu avô. Não é necessário anunciar-nos. — Como queira, senhor. — Em seguida, Samuel voltou-se e os deixou. CAPÍTULO V Ângela observou o pai afastar-se, frustrada. Leo colocou Jake no chão. — Vamos? Wallace deve estar nos esperando na sala de estar. — Não finja que nada aconteceu, Leo. Você e Wallace deviam ter pensando na reação de meu pai — queixou-se, com lágrimas nos olhos. — Lamento muito. Samuel não precisava chegar a esse extremo para mostrar seu desagrado. Mas não o leve a sério. Aquela cena toda foi puro disfarce. — Precisamos entendê-lo. Papai jamais me viu entrar pela porta da frente. Na verdade, não deseja me ver em lugar algum sob este teto. Mas, de quem é a culpa? — De Drew... E em grande parte, sua. O relacionamento entre você e Samuel já estava estremecido, mesmo antes de tudo acontecer. — Sempre esteve. Tente conviver com um pai que é um total estranho e veja como se sai. — Brown aceitará a situação, pois não tem outra escolha. — Vou lhe pedir um favor, Leo. Não toque nesse assunto com ele... Não se atreva a humilhá-lo! O modo como papai me trata, como se eu fosse invisível, já não me afeta mais. Posso conviver com isso. Leo sondou seu rosto e maravilhou-se. — Você é muito ligada a ele, não é? Tendo aprendido a agarrar-se nos joelhos de Leo quando precisava de atenção, Jake ergueu os bracinhos e lamentou-se: — Colo, Leo. Ângela esqueceu-se da própria preocupação e puxou-o para si, porém Jake não a queria. — Quero Leo — teimou o garoto. Ângela sorriu. — Jake não está acostumado a conviver com homens. George Dickson quase nunca estava em casa o suficiente para mimar os próprios filhos. Desculpe-me. — Por que acha que precisa desculpar-se? Eu e Jake nos entendemos. Tornamo-nos grandes amigos enquanto você dormia. — Não quero que meu filho o aborreça. — Jake não me aborrece. Gosto de crianças. E não me orgulho de minha atitude inicial para com ele. Outra vez Jake ergueu os braços, agitando as mãozinhas como se estivesse irritado, uma imitação perfeita da expressiva linguagem corporal de Leo. A visão a deixou tensa. Wallace Neville era um homem bastante observador. “Suponha que venha a notar a semelhança entre os dois e resolva divulgar a mentira, que sabe-se lá como surgiu, para a qual fechei os olhos? Ou pior: e se o Sr. Neville perceber a tez morena de Jake e proclame, alto e bom tom, não acreditar que seu neto Drew, loiro e de olhos azuis, tenha tido um filho de pele morena e com cabelos e olhos escuros?” 24

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