Pode se confiar-nos_cientistas

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Pode se confiar-nos_cientistas

  1. 1. Pode-se confiar nos cientistas?Os cientistas criam modelos do mundo cada vez mais sofisticados, masmuitas das teorias que anunciam se revelam falsas. No entanto, seriaerrado renegar a ciência.por Paul DaviesPretendem achar a verdade, mas as verdades que se anunciam muitas vezesse revelam falsas. Criam modelos do mundo real, mas não explicam o sentidoda vida. Mesmo assim, seria um erro fatal renegar a ciência.Vivemos na era da ciência. Mas os cientistas não são os únicos a atrair aatenção das pessoas. Religiões e correntes filosóficas competem com aciência, afirmando que podem oferecer uma imagem melhor e mais completado mundo. Na concorrência com outros sistemas de idéias, a reivindicação daciência tem grande importância, porque ela se ocupa da verdade e uma teoriacientífica só se mantém quando demonstrada experimentalmente. Mas essaimagem da ciência é uma idealização. Só em teoria os resultados científicospodem ser reflexo exato e objetivo do mundo real. Na prática, já faz muitotempo que a natureza da verdade científica não é tão unívoca. Sempretopamos com um “sim, mas...”A base do método científico é a gestação de uma teoria. Por sua próprianatureza, as teorias científicas são modelos do mundo real e grande parte doléxico e do vocabulário científico está relacionada com tais modelos, não com arealidade. Por exemplo, os cientistas utilizam com frequência a palavradescoberta, quando querem dizer apenas que um teórico aperfeiçoou ummodelo. Assim, muitas vezes se ouve a afirmação de que o famoso físicobritânico Stephen Hawking havia descoberto que os buracos negros não sãorealmente negros porque nada pode sair deles; emitiriam radiações de calor e,portanto, seriam buracos brancos. Semelhante afirmação deriva de umaconstrução matemática que nada tem a ver com a realidade. Até hoje ninguémviu um buraco negro, o que significa que ninguém tampouco pôde descobrirque dali saem radiações caloríficas.Mas como saber se um modelo científico é apenas um suporte para cálculo ouse efetivamente descreve uma realidade? Quando os primeiros astrônomosseguiam os movimentos das estrelas no céu e tentavam compreendê-los,desenvolveram o seguinte modelo: a Terra se encontra no centro, rodeadapelas órbitas circulares do Sol, da Lua, das estrelas e dos planetas. Logo severificou que esse modelo devia ser incorreto: quanto mais e com maiorprecisão se observava o céu, mais órbitas circulares era necessárioacrescentar às já encontradas. O sistema foi se complicando. Assim, quandofinalmente Copérnico colocou o Sol no centro, o modelo se simplificouHoje ninguém duvida que o sol se encontra no centro do nosso sistema solar eque a terra orbita a seu redor. Mas de onde tiramos essa certeza? Será que elase deve unicamente ao fato de ser o modelo heliocêntrico? Quem nos garanteque essa descrição seja a correta? Não obstante, enquanto os modelos
  2. 2. científicos estiverem estreitamente ligados com a experiência direta, nossentimos seguros de poder distinguir entre o modelo e a realidade. Em outroscampos da Física, em compensação, não é tão simples assim. O conceito deenergia, por exemplo, que hoje soa tão familiar, foi introduzido originalmentecomo um conceito teórico. É claro que ninguém pode ver e muito menos tocara energia. E, no entanto, hoje aceitamos que ela existe, porque faz muitotempo que manejamos este conceito.A situação se agrava com a denominada Nova Física, que se ocupa das coisasmenores e das maiores, do interior dos átomos e do Universo. Nela, a fronteiraentre o modelo teórico e a realidade fica de tal modo borrada que não se podeconhecê-la. Vejamos um enigma não resolvido até agora da Física dasPartículas: por que as partículas subatômicas possuem precisamente asmesmas massas que têm e não outras? A massa do próton, por exemplo, é1836 vezes maior que a de um elétron. Por que precisamente 1836 vezesmaior? Ninguém sabe. Suponhamos agora que alguém construísse uminstrumento musical que emitisse sons cujas vibrações equivalessemexatamente aos números da massa das partículas. Seria um modelo excelente.Mas poder-se-ia dizer que as partículas fazem o papel de notas em algumabstrato evento musical? Pareceria ridículo.Em todo o caso, atenção: hoje em dia os físicos estão absolutamentefascinados pela teoria das supercordas, que afirma que as partículassubatômicas não existem; que aquilo que nos parece partículas sãounicamente vibrações de fios diminutos. Certamente, tampouco podemosobservar na realidade essas cordas, pois os fios são demasiado pequenos.Cabe portanto a pergunta: devemos acreditar que existam realmente ouapenas no mundo teórico? A natureza tem o desagradável costume de enganarrepetidamente o homem, fazendo-o confundir o que existe de fato com osprodutos de sua imaginação. O campo da Biologia tem proporcionado muitosexemplos disso. Os organismos biológicos têm propriedades tão atraentes queé tentador imaginar que neles se encontra uma substância especial, uma forçavital que mova os fios da existência. O cientista alemão Hans Driesch (1867 –1941) denominou essa força enteléquia (do grego em, para, e telós, objetivo).A teoria do vitalismo desfrutou de grande aceitação no princípio do século. Naatualidade está totalmente desmentida. Os progressos no campo da Biologiamolecular, com a descoberta do ácido desoxirribonucléico (DNA) comoportador da informação genética e o deciframento do código genético,demonstraram com clareza que a vida se baseia em processos químicos quenão se diferenciam de forma substancial dos processos químicos do mundoinanimado. A história da teoria da evolução está cheia de tais erros. Pense-seapenas quão plausível parecia de início a teoria do investigador francês JeanLamarck (1744 – 1829) de que os seres vivos podiam herdar aptidõesadquiridas pelos genitores: os leões tentam correr mais rápido; as girafasestendem seus pescoços para alcançar folhas mais altas e assimsucessivamente. Para Lamarck isso se refletiria na geração seguinte. Mas essateoria está equivocada. As aptidões adquiridas não se transmitem aosdescendentes.
  3. 3. Como observou acertadamente Darwin, a herança genética varia ao acaso deuma geração a outra e a seleção natural se encarrega da constante adaptaçãodas espécies ao meio assim como do lento processo de evolução. Por que taisconfusões ocorrem com tanta frequência? O filósofo americano Thomas Kuhncrê que os cientistas desenvolvem determinadas convicções, a que se aferram,até se tornar evidente que se trata de absurdos. Esses modelos ou paradigmastêm grande influência sobre o método científico e, portanto, sobre asconclusões que se tiram dos experimentos. Às vezes ocorre que váriosespecialistas realizam de forma independente a mesma medição e chegam aomesmo resultado – equivocado, mas que todos estavam esperando. Em 1877o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835 – 1910) informou que haviadescoberto uma misteriosa rede de linhas na superfície de Marte. A seguir,muitos outros astrônomos a confirmaram. Alguns até apresentaram desenhosdetalhados. Mas, quando a sonda espacial americana Mariner IV sobrevooupela primeira vez o planeta vermelho em 1965 e fotografou a sua superfície,não se encontrou o mais remoto vestígio daqueles canais.A história da teoria do flogisto também é interessante. No século XVII, umnaturalista alemão chamado Georg Ernst Stahl (1660 – 1734) anunciou que oscorpos em combustão eliminam uma substância misteriosa denominadaflogisto. A idéia de Stahl pareceu convincente, pois os objetos queimando ouassando na grelha dão a impressão de emitir algo no ar. Na realidade ocorreexatamente o contrário. A combustão e o assado consistem precisamente emque as substâncias participantes de tais processos retiram algo do ar, oxigênio,com o qual se combinam. Mais uma prova de que não se pode confiar nasaparências.Quando uma tendência nas idéias científicas é substituída por outra, ou seja,quando ocorre alguma troca de paradigma, desencadeiam-se acaloradasdiscussões. Um exemplo típico é o do éter, mediante o qual, aparentemente, aluz se desloca de um ponto a outro. Quando o físico escocês James ClerkMaxwell (1831 – 1879) demonstrou que a luz é uma onde eletromagnética,soou totalmente lógico que ela precisaria de um meio através do qual pudessese propagar, assim como a onda sonora depende do ar para a sua difusão.Como a luz chegar até nós através do espaço desde o Sol, os cientistasdecidiram que o espaço vazio deveria estar inundado de uma substância muitoconcreta, a que chamaram de éter.Tão seguros estavam os físicos de sua teoria, que quiseram medir a velocidadeque a terra se move através do éter. E ficou demonstrado que o éter não podeexistir. Atualmente se sabe que as ondas de luz são perturbações de umcampo eletromagnético que existe independente de outros fenômenos. Mas,para um físico do século XIX, o éter era uma realidade. E ainda existem hojepessoas que não estão dispostas a renunciar a essa idéia, porque, assim comoo éter é invisível, também é o campo eletromagnético que ocupou o seu lugar eque, em princípio, é igualmente um conceito abstrato.Há pessoas obstinadas em entender a realidade apenas com sua inteligência esenso comum. Por isso combatem até as idéias geralmente aceitas da NovaFísica. A Teoria da Relatividade de Einstein, por exemplo, atrai especial
  4. 4. aversão. Passados oitenta anos de sua publicação, as redações de revistascientíficas transbordam de textos cujos autores tentam demonstrar algum tipode erro em Einstein, a fim de poderem regressar ao antigo mundo, tão seguro,de espaço e tempo absolutos. Por trás desses ataques se esconde osentimento de que o mundo não pode ser como Einstein disse. Porque todateoria que queira ser aceita tem de ser também simples e compreensível.Está comprovado que as teorias científicas, incluindo aquelas extremamenteabstratas, abarcam pelo menos uma parte da realidade. Mas será que se podedescobrir toda a verdade com a ajuda da ciência? Para muitos cientistas, suaspossibilidades são limitadas quando se trata do amor, da moral ou do sentidoda vida. Porque, embora elas sejam parte da realidade, não são objeto daciência pura. Pode ser que essa circunstância seja a culpada pela correnteanticientífica que hoje se observa na sociedade ocidental: “Se a ciência nãopode responder essas questões profundas, para que serve então?”Semelhante atitude contém o perigo de que a sociedade se afaste da ciência ese incline para outros sistemas de pensamento, que se apóiam no dogma.Ainda pior é a crescente tendência a continuar utilizando a ciência comoprocedimento, mas distorcendo-a e manipulando-a até acomodá-la aconvicções preconcebidas. Em muitos países o criacionismo ou ciência dacriação (que consiste na aceitação literal dos textos bíblicos) se encontra noauge. Também ganham importância a denominada “ciência islâmica” e a“ciência feminista”. Por isso, é necessário afirmar com clareza que só existe “a”ciência e que esta se ocupa da verdade, mesmo limitada, não dos dogmas.Poderá um dia a ciência descrever toda a realidade? Infelizmente, não, postoque a ciência contém sem si mesma uma descrição de sua próprias limitações.Nos anos 30, os físicos se deixaram influenciar por um movimento filosóficonascido no século XIX denominado positivismo. Para os positivistas a realidadesó pode ter raízes naquilo que efetivamente é sujeito à observação. Todavia,os fundadores da mecânica Quântica, entre eles Niels Bohr e WernerHeisenberg, asseguraram que de forma alguma podemos imaginar os átomosou elétrons como pequenas coisas que existem por sua própria força,independente do mundo restante. A mecânica quântica não tem a ver comcoisas, algo que se possa apalpar ou modelar. Apenas permite aos cientistasrelacionar diferentes observações dos átomos entre si ou em matérias aindamenores, como procedimento para harmonizar suas observações.Assim, quando se utiliza o termo átomo, não se fala de uma coisa, mas de umavaliosa ajuda para expressar em palavras um conceito abstrato. Isso nãosignifica que o átomo exista realmente, que possua um determinado lugar noespaço e se move a uma velocidade determinada. As próprias palavras deHeisenberg explicam do que se trata: “Ocupamo-nos de coisas, fatos oufenômenos tão reais como qualquer acontecimento da vida diária. Nãoobstante, os átomos e as partículas elementares não são reais no mesmosentido. Formam o mundo das potencialidades, não o das realidadestangíveis”. E Bohr disse: “A Física não se ocupa de como é o mundoefetivamente, mas do que podemos dizer sobre o mundo”. Ou seja, o próprioátomo se converteu numa simples chave de um código para um modelo
  5. 5. matemático, não em parte realidade. Nem todos os físicos aceitam esse pontode vista. Para Einstein , por exemplo, o micromundo quântico é feito de objetostão reais como uma mesa ou uma cadeira. Existe um profundo abismo nacomunidade científica sobre a natureza da realidade. Se assim é, que frágil é apretensão de que a ciência se ocupe de toda a verdade e que só por meio delase possa encontrá-la. A mecânica Quântica parece mostrar-nos uma fronteiraintransponível, além da qual a ciência nada mais pode nos dizer. A mesmaMecânica Quântica faz com que coisas que parecem existir realmente seconvertam em simples modelos fantasmas.Mesmo assim, persiste a ânsia irresistível de saber o que há realmente nomundo. Existirão de verdade os átomos com sua gang de partículassubatômicas? A resposta parece ser talvez; mas a ciência não poderá dizernunca. Em vista desse limite, pode ser que os homens reneguem opensamento científico e se voltem para a religião ou para alguma dessasmodernas e delirantes ideologias, como a cientologia, o criacionismo ou asidéias de Erich Von Daniken (autor de Eram os deuses astronautas?). Issoseria um erro imperdoável. É melhor aceitar um sistema que contenha semprealgumas dúvidas, que só possa descrever parcialmente a realidade, do quedeixar-se cair na aceitação acrítica de um dogma. Naturalmente, isto não querdizer que não haja um lugar para a religião. Ela tem seu papel, desde que selimite àquelas questões que se encontram fora do horizonte da ciência.Paul Davies é professor e Física Teórica na Universidade de Newcastle uponTyne, Inglaterra e autor de numerosas obras de divulgação científicaRETIRADO DE: SUPERINTERESSANTE Edição 032 maio/1990

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